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mirada miração mirar miragem miraginal mirabolante admiração admirar mirante miradouro mirabile visu [Do lat. mirare, por mirari, 'admirar'.] V. t. d. 1. Cravar a vista em; fitar os olhos em; fitar, encarar: & 2. Voltar-se (os olhos) para fitar: & 3. Divisar, avistar, enxergar: 2 4. Observar, espreitar. 5. Olhar, visando; tomar como alvo; apontar para; pôr o fito em: 2 6. Aspirar a; pretender; desejar; apetecer. V. t. i. 7. Tomar por alvo do tiro; dirigir a pontaria; apontar: 2 8. Ter em vista; visar: 2 V. t. c. 9. Estar voltado; dizer; olhar: 2 V. t. d. e i. 10. Fig. Ver, contemplar: & V. p. 11. Mirar (10) a si mesmo: & & 12. Refletir-se, espelhar-se, reproduzir-se: 2 13. Fitar mutuamente os olhos; olhar-se: &

Visando construir um espaço de comunicação , em Feira de Santana, entre o MAC – Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira e a comunidade artística, o Núcleo de Artes Plásticas e Literatura lança o primeiro número da revista

mira. Trata-se de uma publicação dedicada à produção da arte contemporânea em geral, dando ênfase à literatura e às artes visuais, buscando o diálogo entre os diversos segmentos artísticos. Nosso alvo é promover o debate em torno da arte e estimular a criação, as ideias e os novos talentos.

mirabile visu mirante arte contemporânea/ a irrealidade da arte contemporânea Almandrade 3 mirada (arte concreto en la calle) Nora Dobarro 7 códigos urbanos nas lentes de Nora Dobarro Juraci Dórea 10

miragens (poemas) 13 namira (entrevista) Roberval Pereyr 14 admirar Anne Cerqueira 19

Edições MAC agosto/2010

corpo-mídia Victor Venas 20 para quem não ouviu Luiz Gonzalez Ederval Fernandes 23 a situação dos caretas Araylton Públio 24 existem quadrinhos em Feira de Santana? Marcelo Lima e Marcos Franco 27 o lixo 30 Erotildes, o trovador nordestino Araylton Públio 32 o abc do amor Erotildes Miranda dos Santos 33 conta corrente: versos de quem repugna a poesia Maria Dolores Rodriguez 36 rescisório Fábio Porto 38 miração Devarnier Hembadoom / Márcio Junqueira 40

Editor: Edson Machado Conselho Editorial: Edson Machado, Telma Siqueira, Araylton Públio Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira - Rua Geminiano Costa, 255 / Feira de Santana-Ba. CEP: 44075505

Contato: macfeira@gmail.com


ARTE CONTEMPORÂNEA

mirante Quando se fala em “arte contemporânea” não é para designar tudo o que é produzido no momento, e sim aquilo que nos propõe um pensamento sobre a própria arte ou uma análise crítica da prática visual. Como dispositivo de pensamento, a arte interroga e atribui novos significados ao se apropriar de imagens, não só as que fazem parte da história da arte, mas também as que habitam o cotidiano. O belo contemporâneo não busca mais o novo, nem o espanto, como as vanguardas da primeira metade deste século: propõe o estranhamento ou o questionamento da linguagem e sua leitura. Geralmente, o artista de vanguarda tinha a necessidade de experimentar técnicas e metodologias, com o objetivo de criar novidades e se colocar à frente do progresso tecnológico. Hoje, fala-se até em ausência do "novo", num retorno à tradição. O artista contemporâneo tem outra mentalidade, a marca de sua arte não é mais a novidade moderna, mesmo a experimentação de técnicas e instrumentos novos visa a produção de outros significados. Diante da importância da imagem no mundo em que vivemos, tornou-se necessário, para a contemporaneidade, insinuar uma crítica da imagem. O artista reprocessa linguagens aprofundando a sua pesquisa e sua poética. Ele tem a sua disposição como instrumental de trabalho, um conjunto de imagens. A arte passou a ocupar o espaço da invenção e da crítica de si mesmo.

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As novas tecnologias para a arte contemporânea não significam o fim, mas um meio à disposição da liberdade do artista, que se somam às técnicas e aos suportes tradicionais, para questionar o próprio visível, alterar a percepção, propor um enigma e não mais uma visão pronta do mundo. O trabalho do artista passa a exigir também do espectador uma determinada atenção, um olhar que pensa. Um vídeo, uma performance ou uma instalação não é mais contemporâneo do que uma litogravura ou uma pintura. A atualidade da arte é colocada em outra perspectiva. O pintor contemporâneo sabe que ele pinta mais sobre uma tela virgem, e é indispensável saber ver o que está atrás do branco: uma história. O que vai determinar a contemporaneidade é a qualidade da linguagem, o uso preciso do meio para expressar uma idéia, onde pesa experiência e informação. Não é simplesmente o manuseio do pincel ou do computador que vai qualificar a atualidade de uma obra de arte.

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Nem sempre as linguagens coerentes com o conhecimento de nosso tempo são as realizadas com as tecnologias mais avançadas. Acontece, muitas vezes, que os significados da arte atual se manifestam nas técnicas aparentemente “acadêmicas”. Diante da tecnologia, a arte reconhece os novos instrumentos de experimentar a linguagem, mas os instrumentos e suportes tradicionais estão sempre nos surpreendendo, quando inventam imagens que atraem o pensamento e o sentimento. Mas em que consiste, essencialmente, a arte contemporânea? Ou melhor: qual o segredo da arte na atualidade? Pode parecer um problema de literatura ou de filosofia. É muito mais uma questão de ética do que de estilo, para se inventar, com a arte, uma reflexão. Não existem estilos ou movimentos como as vanguardas que fizeram a modernidade. O que há é uma pluralidade de estilos, de linguagens, contraditórios e independentes, convivendo em paralelo, porque a arte contemporânea não é o lugar da afirmação de verdades absolutas.

Desenho (nanquim s/ papel) Almandrade / 1977


A IRREALIDADE DA ARTE CONTEMPORÂNEA Almandrade

A crise não afeta apenas a arte contemporânea, a produção de novas obras de arte: se a arte não continuar, tudo aquilo que resta da arte do passado e que constitui ainda hoje uma parte notável do ambiente material da vida, perderá todo o valor e acabará por ser abandonado e destruído. Giulio Carlo Argan

Todo trabalho cultural requer um mínimo de compromisso com uma determinada forma ou sistema de saber. O objeto artístico é resultado de uma pesquisa especializada para interrogar a própria natureza da arte. É inútil o trabalho do olhar debruçado na incerteza de uma definição de arte, perdido na impossibilidade de uma verdade definitiva. Estranha, a obra de arte é aquilo que é reconhecido como manifestação de um saber. Uma aventura imprevisível, um jogo sem fim, com regras sendo inventadas a todo momento, sem ganhador nem perdedor. A arte está sempre nos propondo mais problemas que soluções. Uma relação de tensão e desconfiança passou a reger a arte contemporânea, pela sua condição de ser provocativa e recusar a contemplação passiva. Com a modernidade e suas vanguardas, principalmente Marcel Duchamp, a arte passou a ser qualquer coisa deslocada para o circuito da arte. Um objeto/lugar de um pensamento ou de uma idéia, independente do verniz textual e da autorização de um curador. O artista era um pensador, tinha uma atitude crítica. A produção do belo era a transformação de uma matéria prima em produto simbólico, segundo a razão e a sensibilidade de um artista que dominava um saber, porque a arte não era um acidente diante da razão. Nos anos 70, no império da arte conceitual, fazer qualquer coisa arte era dominar uma teoria, se posicionar de forma consciente no universo da arte, da sociedade e da cultura de uma maneira geral. O processo de inventar o objeto estético deteriorou-se com a facilidade e a rotina de um fazer mecânico que se repete sem o hábito da reflexão. Duchamp, quando inventou o ready-made tinha consciência da armadilha da facilidade: “Logo percebi o perigo de repetir indiscriminadamente esta forma de expressão e decidi limitar a produção de ready-mades a uns poucos por ano.” O tempo da arte parece condenado com o descrédito dos paradigmas que norteiam a arte contemporânea. O artista precisa conhecer o seu ofício, é indispensável ter referências, na arte acadêmica o artista dominava um conhecimento que era o artesanato, a técnica, o saber das mãos. As chamadas novas linguagens e os novos suportes utilizados sem a precisão do raciocínio, são inovações duvidosas, muitas vezes, aquém dos suportes tradicionais. Num cômodo deslize, um estilo fácil dominou a contemporaneidade, como se a arte fosse um clichê, uma moda, ou um evento para o entretenimento de um público.

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A obra de arte passou a ser secundária. E quem decide é o curador, o marchand, o cronista social ou o produtor cultural. A hegemonia do mercado foi acompanhada do aparecimento do curador em lugar do crítico, do produtor cultural e depois as leis de incentivo a cultura. O objeto deslocado do contexto de origem, por determinação de um artista, é sustentado pela “teoria” imaginária de um curador. Dessa forma a arte como produto de um conhecimento específico deixa de existir. Por outro lado, esse suporte teórico é incapaz de fazer uma leitura crítica desse sucateado trabalho de arte e situá-lo no seu devido lugar cultural. Um fluxo descontrolado de produtos artísticos deixa de ser uma surpresa. A imagem da arte não é um fragmento do mundo sensível destinado a ornamentar uma experiência mundana; mas um esquema de ordenamento do espaço plástico, a partir de um modelo abstrato de pensamento. Essa qualquer coisa chamada arte, que se utiliza de fáceis e limitados procedimentos, faz da arte contemporânea um estilo simulador de complexidades, cada vez mais incentivada pelos salões, pelo mercado e pela crítica inventada pela indústria cultural. A arte contemporânea, recalcada nos anos 70, ficou na moda, faz parte do cotidiano dos atuais salões de arte. O belo é, para os novos especialistas da arte, a negação do pensamento, uma brincadeira da sociedade do espetáculo. A arte foi confinada a um campo restrito de experimentação, que tem como referência a tradição da facilidade. Os salões estão de cara nova, mas continuam com o mesmo modelo de seleção e premiação, o mesmo processo burocrático de outros tempos, que reforça a idéia de cultura como uma superstição, e não algo real. No momento em que a diluição e a facilidade são as regras do fazer artístico, a reflexão cessa, a arte deixa de ser saber e passa a ser acessório de um lazer cultural. A ausência de estilo converteu-se num estilo inculto e inseriu o contemporâneo na periferia da cultura, protegida pela publicidade do olhar do espetáculo.

Escultura (madeira pintada) Almandrade / 1977

Almandrade é artista plástico, poeta e arquiteto.


mirada ARTE CRONCRETO EN LA CALLE Nora Dobarro

Nora Dobarro participou ativamente de “los años 80”, sendo selecionada em Salões nacionais e municipais, recebendo prêmios importantes. Integrou prestigiosas exposições individuais em Buenos Aires e no exterior, representando a Argentina na França, no Brasil e em Bienais do Chile e Cuba. Além disso, participou de mostras coletivas na Colômbia, Costa Rica, EEUU, Finlândia, Itália, México, Uruguai e Venezuela.

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Pode parecer pradojal transferir asĂ­ la subjetividad hacia conjuntos materiales, por eso hablaremos aquĂ­ de subjetividad parcial; la ciudad, la calle, el inmueble, la puerta, el corredor... crean, cada uno por su lado y en composiciones globales, focos de subjetividad. Felix Guattari

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CÓDIGOS URBANOS NAS LENTES DE NORA DOBARRO Juraci Dórea

Feira de Santana é, na atualidade, uma das mais importantes cidades da Bahia, estado da região Nordeste do Brasil. Com população de mais de 500 mil habitantes e localizada estrategicamente num grande entroncamento rodoviário, por onde passam as principais rodovias do país, ela chama a atenção pelo vigor do seu comércio e pela diversidade de suas manifestações culturais. Recentemente, a cena urbana de Feira de Santana começou a ser tomada por numerosos gradis e portões, confeccionados com elementos metálicos (principalmente tubos e barras com secções variadas) e complementados com detalhes de madeira, placas de amianto, telas, chapas diversas e, até, vidro. Em alguns casos, os gradis e portões surgiram em sintonia com as fachadas das edificações. Em outros, como peças autônomas, dissociadas mesmo do padrão da construção, mas sempre com o objetivo explícito de valorizar e realçar a estética dos imóveis. Visitando Feira de Santana, em 2003, a artista plástica e fotógrafa argentina Nora Dobarro se sentiu atraída por esta faceta da paisagem urbana local. Gostou, particularmente, dos portões. Já naquela oportunidade, fotografou alguns deles, mas o interesse pelo assunto foi tanto que ela decidiu voltar outras vezes à cidade. O resultado dessas visitas foi o trabalho que integra a exposição intitulada Arte Concreto em la Calle, que agora será apresentada na Galería Internacional de Arte Contemporáneo Ruth Benzacar e no Centro Cultural Recoleta, ambos em Buenos Aires Convém observar que até as três últimas décadas do século XX, Feira de Santana preservou boa parte da paisagem urbana e dos valores identitários que marcaram suas origens. A partir de então, começou a viver uma série de transformações, fruto do acelerado processo de urbanização que, naquele período, também alcançou a maioria das cidades brasileiras. De repente, grandes contingentes populacionais deixaram o campo, dirigindo-se para os centros urbanos, em busca de melhores condições de vida. As conseqüências mais imediatas dessa mudança, em quase todo o país, foram a desorganização urbana e o aumento dos índices de violência, aspectos que criaram nas pessoas uma crescente sensação de insegurança e repercutiram na arquitetura.


As edificações residenciais de Feira de Santana, por exemplo, que costumavam exibir muretas e pequenos gradis, com a finalidade mais de demarcar os limites do que de proteger as propriedades, passaram a exigir novas soluções de arquitetos e construtores. Os muros da maioria das habitações logo ganharam altura. Algumas fachadas, inclusive, desapareceram quase que completamente, encobertas por monótonos paredões. Gradis e portões também se modificaram para atender à nova condição urbana. Mas, ao invés de seguirem a filosofia asséptica dos muros, assumiram curiosos e inventivos desenhos, contribuindo para acrescentar novos referenciais à visualidade local. Como, na maioria dos casos, eles eram vazados, ainda tinham a vantagem de deixar à mostra as fachadas, que em certos casos constituíam motivo de orgulho para os moradores da cidade. O primeiro estudo que registrou a presença desses novos componentes estéticos na arquitetura feirense foi desenvolvido pelos alunos do curso de Engenharia da Universidade Estadual de Feira de Santana, liderados pela professora Lysie dos Reis Oliveira. O resultado da pesquisa está nos Anais do Graphica 98 (II Congresso Internacional de Engenharia Gráfica nas Artes e no Desenho, realizado em 1998, em Feira de Santana) e foi publicado com o título de A tendência dos desenhos dos gradis na cidade de Feira de Santana. Tentando estabelecer as origens do citado fenômeno na arquitetura de Feira de Santana, diz o estudo: “Alguns arquitetos, como Juraci Dórea, Everaldo Cerqueira e Inês Cerqueira, fizeram os trabalhos mais ousados da década de noventa. A partir daí, os mais diversos segmentos da população local começaram a criar variações nos desenhos e logo a idéia tornou-se uma prática comum. Os tubulares, por serem mais fáceis de manusear, proporcionam formas geométricas diferentes, já sendo possível notar que a tendência é que o ferro aumente de espessura e que as seções ocas recebam formas quadradas ou triangulares.” (Anais do Graphica 98, UEFS, 1998, p. 563). De fato, a partir dos trabalhos dos arquitetos (outros nomes poderiam ser incluídos na lista acima, a exemplo de Raymundo Pires, Antonio Edson de Oliveira Freitas e Luiz Humberto Carvalho) as edificações locais incorporaram, de maneira extremamente inventiva, a estética, os materiais e os detalhes construtivos dos referidos elementos de proteção. No novo contexto, que praticamente alcançou todos os bairros da cidade, deve-se destacar também a contribuição dos serralheiros. Eles participam do processo como figuras essenciais, quer realizando com competência os desenhos concebidos pelos arquitetos, quer exercitando sua própria imaginação nas muitas releituras que passaram a fazer dos citados desenhos. Capitaneando um amplo fenômeno de apropriação popular e interpretando as expectativas dos moradores da cidade, esses anônimos personagens terminaram se transformando nos grandes responsáveis pela disseminação do uso de gradis e portões nas residências feirenses.

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Nora Dobarro, em suas andanças pelas ruas e bairros de Feira de Santana, conseguiu fotografar uma quantidade surpreendente de portões, em que registra situações de inegável plasticidade. A maioria das fotos é apresentada sem grandes intervenções. A artista, com olhar rigoroso, apenas recorta as imagens capturadas, retirando de cena o que não lhe parece essencial. Com isso, enfatiza o aspecto documental de seu projeto e revela, sem artifícios, a inventividade da população feirense. Além do mais, reúne um conjunto de imagens que impressionam pelos conteúdos e pelas estratégias formais. Trata-se de composições de linguagem predominantemente geométrica que remetem às experiências do Neoplasticismo ou, se se quiser algo mais próximo, da Arte Concreta, movimento surgido na Europa que, nos anos 50, como observa Ferreira Gullar, chegou também à “América Latina, primeiro para a Argentina, e depois para o Brasil” (Gullar. Etapas da arte contemporânea. São Paulo: Nobel, 1985, p. 210). Deve-se ter em mente, contudo, que o projeto de Nora Dobarro não se limita à reencenação, pelo viés da fotografia, de referências artísticas do passado, mas procura flagrar, na paisagem urbana de Feira de Santana, novos códigos culturais. Eis, provavelmente, a maior importância e a atualidade de sua proposta. Ou seja, mais do que uma exposição de fotos, o trabalho de Nora Dobarro é uma viagem ao imaginário dos moradores de Feira de Santana. Do ponto de vista dos processos formais, o tema investigado revela ilimitadas possibilidades. Há cores, materiais e texturas variadas. A diversidade dos desenhos registrados também é evidente. Neles predominam composições com linhas retas, que se multiplicam em elementos verticais, horizontais e angulares. As curvas existem, embora mais raras. Todo esse vasto conjunto de formas e cores resulta em artefatos sofisticados e geométricos, que, inclusive, como já se disse, mostram afinidades com movimentos artísticos nacionais e internacionais. A artista argentina documenta, indistintamente, portões desenhados por arquitetos e serralheiros, resgatando imagens que na maioria dos casos se perdem no cotidiano da cidade. São imagens que, afastadas do contexto original, sem dúvida, alcançam novas ressonâncias estéticas. Umas cativam o observador pela irreverência da geometria. Outras legitimam o engenho e a fantasia criadora da população feirense. Enfim, abraçando uma poética que desliza entre códigos plásticos e sócio-culturais, Nora Dobarro deixa entrever, em sua prática artística, campos simbólicos que operam em muitas direções. Entre elas, em primeiro plano, a perspectiva documental e a magia da arte. E mais: sua obra traz à tona aquele viés da cena plástica contemporânea em que o paradigma erudito, intencionalmente, não se descola dos estímulos populares.

Juraci Dórea é arquiteto e artista plástico


miragens

RASCUNHO PARA UMA FILOSOFIA Tito Pereira

Jorge Galeano

Viver em terra de homens requer ilusão e verdade.

SONETO Roberval Pereyr

Bom mesmo, vos digo, é o vinho que o pensamento decanta da uva que o homem planta nos latifúndios do imo. Servi-lo é doce — e eleva quando em banquete de amigos (os mais caros, mais antigos) a quem se serve a reserva mais guardada e especial. Pois que assim seja mil vezes durante os dias e os meses que os deuses nos conceder... Pois digo: é desse saber que a vida ilude o real.

MANHÃ

Enquanto os galos passam o café, minha avó e os pardais tiram de si uma melodia de horas e luzes. Ela, ao trazer o pão que brotou deles: a aparição da manhã.

DESEJO Juraciara Lima

Feito uma cigarra habitar todas as casas com um leve som de asas depois instalar a noite na secura das fontes e no horizonte longe espalhar meus restos mortais.

MENOS-VALIA Luis Pimentel

Araylton Públio

Repito: preciso socorro para me salvar só tenho comigo o amor por achar

como é caduca a vontade de resumir esta vida em ilusão e verdade.

Ederval Fernandes

SEGUNDO AVISO

Aviso: recorro ao perigo para me safar não tenho abrigo hoje é sempre já

Um dia, nos virá de súbito a conclusão:

POEMA INDEISCENTE Gleide Gavim

a morte é um indefinido indevidamente determinada. definitivamente incorruptível, cedo ou tarde ela enlaça: estação-reencontro do profundo ou da farsa.

Levarei duzentos anos para completar-me. E, quando enfim inteiro me sentir, hei de ver, mais uma vez, que mais incompleto estou: sem saber do tempo, sem saber de mim. E duzentos anos mais velho.

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namira ROBERVAL PEREYR

Valtério

... a poesia é potencialmente desarticuladora do sistema. Você acaba de lançar o livro Acordes, fale desse novo trabalho. Uma primeira coisa que eu poderia falar é que Acordes aponta para uma relação com a música, que é algo fundamental na poesia. Poesia sem musicalidade, sem ritmo, sem forma, sem a música das palavras, não é poesia. Minha poesia, por exemplo, tem uma densidade filosófica muito grande, mas isso não teria valor nenhum se não tivesse uma riqueza formal, uma musicalidade; as duas coisas estão indissociavelmente relacionadas. Mas Acordes é para ressaltar o aspecto fundamental da poesia que é a musicalidade, o ritmo, a forma, enfim. Esse título também tem a ver com outros títulos meus, como Cantos de Sagitário e Concerto de Ilhas. Outra coisa é que Acordes, no plural, pode também indicar poemas que estão dizendo em tons diferentes ou se situando em âmbitos diferentes, vamos dizer assim, né? Então, os acordes apontam para variações formais e também para variações no tom da linguagem e no tipo de interlocução. E sua relação com a música? Como compositor você foi premiado, fale dessa outra expressão do seu talento. Veja bem, a minha experiência com a música é uma coisa interessante. Se eu tiver três ou quatro composições que eu fiz sozinho, já é muito. Com a música eu tenho uma experiência diferente porque a criação poética, de um modo geral, é muito solitária. O verdadeiro artista é aquele que encontra uma maneira própria de dizer que é tão própria que se universaliza; portanto, é um processo muito solitário, e a minha experiência com a música é uma experiência de parceria. Com a música descobri uma coisa que me realiza muito também: o processo de criação coletivo com Carol, com Márcio, com Tito, que são meus três parceiros. Do ponto de vista da repercussão, esse trabalho tem sido gratificante. Todos os festivais em que a gente se inscreveu, nossos trabalhos foram classificados e reconhecidos. Esse reconhecimento não veio do fato de a gente ter um nome ou ser conhecido, não, veio de uma outra área que até desconhece a gente. Tudo isso é muito gratificante. Ter um poema nosso musicalizado ou musicalizar um poema já pronto e publicado em parceria com Márcio Pazin ou com Carol, por exemplo, ou com Tito, ou então fazer a letra e a música ao mesmo tempo, é uma experiência muito interessante em que a gente percebe que a criação é uma coisa muito solitária, mas ao mesmo tempo também pode ser em parceria e apresentar resultados interessantes, como a gente tem visto fartamente na música popular brasileira, por exemplo.


Não. Há uma diferença aí, há uma diferença inclusive teórica. A relação entre poesia e música é a relação entre duas linguagens artísticas: a linguagem musical, propriamente dita, e a linguagem do poema. O poema é feito só com palavras, ele tem uma musicalidade que extrai das palavras, tem uma autonomia musical que fica no âmbito só das palavras, o que obviamente não acontece com a música: ela pode prescindir das palavras. Mas existe uma relação muito estreita entre essas duas linguagens diferentes com pontos de contato e pontos específicos. Na relação entre poesia e poema, você pode dizer que a poesia não está só nos poemas e que nem todo poema é propriamente poético. O poema para ser poético tem que ter essa coisa misteriosa chamada poesia, que na linguagem pode ser identificada pelo ritmo, pela musicalidade, pela força da imagem, pela articulação dessas imagens, pela arquitetura da composição do poema, quer dizer, conteúdo e forma se confundem numa mesma coisa. A poesia é essa coisa misteriosa que propicia esse salto de percepção, que faz a gente se perceber na clareira do Ser, como diz Heidegger; isso é a poesia. Então, o poeta é aquele que, movido por uma inspiração ou algo equivalente, transfigura, traz esse lirismo, esse algo mais, essa coisa que rompe com o cotidiano da vida e faz você dar esse salto diferente de percepção. O poema é uma composição com palavras que pode ter carga poética relevante ou não. A poesia, como eu disse, pode ser encontrada fora do poema e até fora da linguagem. Você pode vê-la numa paisagem, no andar de uma pessoa, num acidente, em qualquer coisa. A poesia, neste sentido, depende muito de quem olha. Agora, para entender o poético, em termos de linguagem, é preciso discutir uma série de fatores, mas sabendo que num poema há aspectos que se explicam e outros que não. O que é explicável a gente tenta, de alguma maneira, expressar nos ensaios, nos próprios poemas que falam da poesia e assim por diante. Agora, o que é inexprimível tem que ser vivenciado.

Ilustração: Roberval Pereyr

E a relação entre poesia e música seria a mesma que entre poesia e poema?

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A sociedade contemporânea é marcada pela superficialidade, banalização e mecanização de tudo. Qual o papel do poeta nesse contexto? Depende do ponto de vista. Esse mundo materialista, capitalista, estúpido e suicida que está aí não dá nenhum valor explícito aos poetas. Agora, é claro que a poesia, quanto mais é jogada fora do espaço do mundo, mais se torna necessária porque, mais uma vez, como diz Heidegger, só é possível existir poeticamente. Contrariamente a isso, nós estamos vivendo num mundo coisificado. Eudoro de Sousa, um filósofo brasileiro que eu acho muito aparentado com Heidegger, sob certos aspectos, chama de diabólico um mundo em que as coisas perdem a ligação com a sua dimensão sagrada, ficando isoladas, perdidas e esvaziadas em si mesmas. Deste ponto de vista, vivemos num mundo completamente diabolizado onde você não tem, por exemplo, órgãos de defesa do ser humano, você tem órgãos de defesa do consumidor, pois as pessoas hoje são universalmente tratadas como consumidoras, e o que é mais chocante: todo mundo aceita isso pacificamente. Eu me recuso a ser chamado de consumidor, eu não sou uma boca simbólica para

devorar o sistema, nem estou aqui pra ser devorado por ele. O Homem perdeu a dimensão do sagrado e tudo ficou estupidamente materializado, inclusive o corpo, que é uma coisa tão fundamental, tão importante e tão acima de uma simples coisa. O Homem está em seu estado diabólico. O estado simbólico é aquele em que o homem se religa e cada coisa está misteriosamente ligada a sua dimensão sagrada. Estamos vivendo num mundo dessacralizado que faz com que, tanto o homem como as coisas, caiam nesse plano diabólico. Numa situação como esta, eu acho que a poesia, que Octavio Paz já disse que é a religião leiga do nosso tempo, tem um papel fundamental. Embora esteja sendo escanteada, ela é muito necessária e as pessoas têm muita necessidade de poesia no mundo inteiro. Não só da poesia dos poemas, não, da poesia da vida. No fundo, no fundo, quando uma pessoa coisificada vai ao shopping, achando que, ao ver as vitrines e comprar vai se realizar, na verdade sai de lá estupidamente vazia, mais vazia do que quando entrou; não só vazia de dinheiro, mas vazia como ser humano. Ela vai também atrás desse sagrado, só que ela está indo para o lugar errado, lá ela não encontra nada. O sagrado, ele não se esgota, ele é uma coisa gritante. O Homem não pode

eliminar da vida nem o mito, nem a hierarquia, nem o sagrado, pois são inerentes, constitutivos da existência humana. Quando o Homem joga para fora de sua vida aquilo que é fundamental é porque tem alguma coisa de muito errada acontecendo com esse Homem. Nunca houve época boa para a humanidade, nunca a humanidade foi pacífica, mas o Homem hoje está destruindo o planeta: os tais sonhos de consumo estão ligados ao desejo exageradamente estimulado e são, portanto, insaciáveis. Vi numa notícia que, só para satisfazer o desejo de consumo do povo chinês, seria preciso recursos naturais de seis planetas Terra; uma estatística diz que somente dez por cento da população do mundo é responsável pelo consumo e pela poluição do mundo todo (só dez por cento!). Então, consumir é uma coisa errada por definição. O Homem não tem que ser um consumista, isto tem que ser desacelerado. Consumir automóvel, por exemplo, está destruindo o planeta e tornando as cidades inviáveis. É a maior aberração do final do século XX e início do XXI. Neste contexto, a poesia é altamente necessária porque aponta para o anticonsumismo, o anti-utilitarismo. Ela é gratuita, desinteressada. Enquanto o mercado diz consuma, consuma, consuma, a poesia diz: pare, contemple, medite, fique em êxtase. Veja só a revolução que ocorreria, se todas as pessoas da Terra ficassem em meditação algumas horas por dia. O sistema iria à falência. Então, a poesia é potencialmente desarticuladora do sistema.


O que o motiva a ser também editor, além de professor de literatura e compositor? É porque eu tenho tanta alegria em ver um livro meu publicado quanto em ver publicado um livro de um menino que acabou de escrever seu ensaio, seus contos, seus poemas. É porque eu gosto de ver as coisas nascerem, eu gosto de ver as coisas ficarem prontas. Mas não é o ver compulsivo não, é uma atitude também criativa. Eu não me considero criador só quando faço poemas; também me considero criador editando, como editor alternativo, que muitas vezes meteu a mão no bolso, publicou o livro de um menino que está iniciando e não tirou o dinheiro de volta, e ficou por isso mesmo. Como professor eu me considero criador, como editor me considero editor criador. Tudo eu olho com olhos de criador e é isso que me move. Eu poderia estar só cuidando das minhas coisas – se tivesse vontade de fazer isso, não acho que seria ilegítimo, não – mas cada vez mais sinto vontade é de ver gente publicando, de ver gente povoando o espaço, isso pra mim é uma alegria muito grande. Como você analisa o panorama cultural da Bahia atualmente e especialmente em Feira de Santana? Do ponto de vista da literatura, por exemplo, eu acho que talvez a Bahia, na sua história, em termos de quantidade, em termos de artistas de peso, está num dos seus melhores momentos. Eu acho que não é fácil, por exemplo, você encontrar, no terreno da poesia, tantos poetas bons e vivos ao mesmo tempo, importantes mesmo, como Antonio Brasileiro, Ruy Espinheira Filho, Myriam Fraga, só para falar dos mais conhecidos. Eu tenho a impressão de que a poesia mais importante que é feita no Brasil hoje está no Nordeste, inclusive alguns autores e pessoas lá no Sudeste falam isso, e eu, particularmente, acho que no Nordeste a Bahia tem um destaque especial. Então, pelo menos na poesia, eu acho que estamos vivendo um momento privilegiado, e devo dizer o seguinte: Feira de Santana tem um destaque especial dentro da Bahia em torno da Revista Hera, um movimento que certamente inscreverá um capítulo na história da literatura brasileira na segunda metade do século XX e início do século XXI. E o número de autores que nós da Revista Hera revelamos aqui em Feira e dos que se consolidaram na Bahia com uma poesia de primeiríssimo nível é muito grande. Um exemplo é Juraci Dórea, um dos líderes de Hera, muito conhecido como artista plástico, mas também um poeta de excelente qualidade; você tem um Iderval Miranda, que é um poeta de excelente nível. Inclusive, nós (eu e Trazíbulo Henrique Pardo Casas) estamos agora organizando uma antologia em homenagem aos sessenta anos dele. Além disso, há ainda uma série de nomes que têm uma produção poética de alto nível; então o que aconteceu aqui foi realmente um prodígio, mas não um prodígio que nasceu do nada: nasceu dessa paixão de descobrir poetas jovens e publicá-los. A seu ver, está surgindo uma nova geração de bons escritores na literatura baiana? Eu acho que sim, não é que esteja surgindo de agora, tem surgido autores importantes ao longo do tempo. Eu estava falando só da poesia, mas há contistas importantes na Bahia na contemporaneidade, além dos já consagrados nacionalmente, como é o caso de Hélio Pólvora, que mora na Bahia. Agora, nós temos autores mais recentes, embora estejam no caminho há algum tempo e já sejam reconhecidos, como é o caso por exemplo de Mayrant Gallo, Aleilton Fonseca, Adelice Souza e Elieser Cesar. Poetas estão surgindo a toda hora, romancistas, por exemplo, você tem um Carlos Barbosa com o romance A dama do velho Chico. São autores que certamente representam uma nova geração importante de escritores na Bahia. Existe muita gente criando, não citei o nome de todos os poetas, contistas e romancistas que vivem aqui na Bahia. Esses que eu citei é para que representem todos que estão produzindo. Mas, é claro, o tempo é que se encarregará de selecionar definitivamente apenas alguns.

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Eu não sei, eu sei que eu tenho um poema que começa assim: “a esperança é uma velha cega / que mapeou meu destino”, ou seja, a esperança não é grande coisa, mas mesmo não sendo uma grande coisa, e muitas vezes mesmo sendo uma armadilha pra você se perder do aqui e agora. Então, eu não sou movido propriamente pela esperança, mas reconheço que o homem não pode se desvencilhar da sua condição: ele é o único ser que espera e desespera. Esse pessimismo talvez exista na minha poesia, mas alguém perguntou a Saramago por que ele era tão pessimista e ele disse: eu sou pessimista exatamente porque eu tenho esperança. A minha esperança é uma denúncia do presente. Não creio muito que a humanidade possa melhorar rapidamente. Pode ser que mude, se ela sobreviver mais alguns milhões de anos e tomar caminhos diferentes. Ela pode até se modificar, mas a humanidade nunca prestou. Nunca prestou, não, a humanidade sempre foi isso que está aí. Tem uma frase, se não me engano do narrador ou de um personagem de Borges, que diz assim: “Coube-lhe, como a todos, maus tempos para viver”. Então, a humanidade sempre foi essa coisa crítica, essa coisa meio decepcionante, mas com pontos luminosos, tanto pontos coletivos como individuais, e os artistas estão aí para retratar a humanidade além do bem e do mal, embora sem perder a dimensão do bem e do mal, para retratar a humanidade na medida do possível. Eu mesmo mostro na minha poesia um certo pessimismo, mas pessoalmente não sou nem esperançoso e nem desesperado. Vivo as coisas do meu tempo. Sou muito cético em relação à humanidade, porque ela está visivelmente se auto-destruindo e ao planeta, e de forma galopante, de forma arrasadora. O sistema é uma coisa parecida com o que Ortega, o grande filósofo espanhol, disse a respeito do Estado: é uma máquina enferrujada que suga todos os seus cidadãos. Outro filósofo disse que o sistema capitalista é uma máquina desgovernada que não está indo pra lugar nenhum, que ninguém sabe pra onde está indo, está indo pro desastre. É isso que a gente está vendo acontecer, então não há como você respirar esperança; é preciso negar esse mundo para que algum outro horizonte apareça; então, eu não sou movido pela esperança nem pela desesperança: eu retrato esse mundo e procuro ver que, como nunca houve bons tempos para viver, é preciso ter uma filosofia para viver, mesmo sofrendo os impactos terríveis desse mundo, como o Homem sofreu e sofre. Eu imagino que, de todos os tempos, este seja um daqueles períodos mais críticos em que a crise é mais densa, e espero ir vivendo a cada dia, ou seja, estar acordado a cada dia. A esperança que prego é a esperança do despertar, e despertar é esperança no aqui e agora, ou seja, não é uma esperança, é estar desperto, estar em estado de atenção, estar aberto, é estar na clareira do Ser, ou seja, é estar em estado poético. É por isso que o tempo da poesia é o presente; agora, é aquele presente com P maiúsculo que inclui o passado, o futuro e o presente com p minúsculo. É por isso que o dono do botequim tem razão quando diz: “fiado só amanhã”. Ele sabe que só existe o aqui e o agora. Ele nunca vai vender fiado. Só amanhã.

Tito Pereira

Na sua poética é recorrente a presença de bruxos, mendigos, bêbados, demônios, deuses, loucos, o que talvez sugira ao leitor um certo pessimismo. Seria correto interpretar tal fato como sinalização de desesperança e abandono ao qual o ser estaria fadado?


admirar ANNE CERQUEIRA A ÁGUA IMPLÍCITA OS PASSOS DA MOURA TORTA

Dispo a memória dos dias sem rendição, e a casa se curva à penumbra do sono indevassável

Quebrado o cântaro andaria pelas ruas como se não custasse mais do que passos. Ou mais do que dentes, a força sobre as coisas. E, sobre o poço, nenhum reflexo onde a face fosse mais do que água. Ou mais do que sombra sua sede farta de sombras.

Resta a chuva, nos emudecendo devagar Estamos sob o dilúvio ( sabes bem) e brasa alguma fustiga nossos pés

RAMO DE NÉVOA SOBRE A FACE Retirar dos varais a roupa dos mortos e deixar ao vento que murmura: eternidade.

O HOMEM, AS GAVETAS E O SILÊNCIO

Estás só. Sem fantasmas, sem colinas e sequer retiras a roupa dos mortos dos varais. No último incêndio, estavas só. Também na tempestade. No naufrágio, estavas só. E do grito na amurada, o eco

Tâmara Lyra

Mas o vento não vem nem desarruma as flores que nenhum fantasma colheu na última colina.

O realejo está quebrado e morto, o velho cego que o manejava sem pressa. Tudo é mudez e sono. A porcelana em pedaços e o irremediavelmente derramado...

II

solidão também era. E redobrada.

Desconheço se o mundo absorve a fúria do que passa...

In.: A água implícita. Edições MAC\Feira, 2000

Sim, ainda me debruço sobre o poço, mas não digo água. Digo pedra. Porcelana quebrada.

Anne Cerqueira é poeta, natural de Feira de Santana. Formada em Letras pela UEFS, atua na área de jornalismo. Autora premiada, tem trabalhos publicados em vários livros e revistas. Foi incluída na antologia A poesia baiana no século XX, organizada pelo escritor Assis Brasil.

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CORPO - MÍDIA Victor Venas

Muitas pesquisas têm se voltado para questões referentes ao corpo inserido na era tecnológica. Em meio a tantas informações, este corpo interage e responde à presença das diversas mensagens produzidas pelas mídias, estas, ao seu turno, se constituem num dos principais meios de difusão e capitalização de tendências de comportamento (Santaela, 2004, p.127). A finalidade da mensagem é alcançar os corpos e instaurar informações; a tecnologia proporciona o encontro ou reencontro desses corpos. Qualquer que seja a dinâmica estabelecida, movimento ou paralisação, haverá sempre uma mensagem a ser lida por um elemento vivo diante daquele que se posiciona ou mesmo interage no fluxo informativo decodificado. Na maioria das vezes tais mensagens estão condicionadas a um ciclo de narrativas repetitivas, nas quais os corpos, ao receberem tais informações, também acabam por condicionar suas respostas a esses estímulos; sendo assim, formas de pensar, agir, reagir, podem ser influenciadas pelas mais diversas mensagens produzidas através dos meios, determinando direta ou indiretamente o comportamento humano e suas respectivas consequências históricas. Adquirir uma postura crítica diante das mídias pressupõe desenvolver no sujeito a capacidade de reconhecer o seu próprio corpo como um sistema de entrada e saída de informações, uma tecnologia de ponta que Harry Pross (1972) conceituou como sendo “mídia primária”; neste sentido, é preciso despertar uma espécie de consciência ampliada do sistema corpóreo humano, produzindo um corpo em constante ampliação de suas potências.


Dentre as linguagens que compõem as manifestações artísticas na contemporaneidade, a performance se configura como aquela em que o corpo está no centro da experiência estética, como parte constitutiva da obra (Melim, 2008, p.07) de onde provém informações que interagem com outros corpos presentes no ato performático e/ou impressões deixadas por este. A década de 60 marca o início mais intenso dos trabalhos envolvendo performance. Um dos artistas que se destacou nessa época foi Joseph Beuys (1921-1986) que construiu toda a sua obra a partir do sentido político, social. Para Beuys, a arte deveria participar das várias dimensões da vida coletiva e assumir um forte cunho interventivo, a exemplo do trabalho Eu gosto da América e a América gosta de mim (1974), onde ele realizou uma performance na qual ficou enclausurado com um coiote durante alguns dias numa galeria de arte. Neste caso Beuys submeteu o seu corpo a uma experiêncialimite para expressar o processo de dizimação dos índios norteamericanos. Os corpos do artista e do animal estavam no centro da experiência para causar uma reflexão crítica, elevando a mensagem muito além do panfletário, indo de encontro à mídia institucionalizada. O poder mobilizador desse trabalho reverbera até hoje, pois foi impossível para a mídia oficial dar as costas ao ato performático de Bueys realizado por sua mídia-corpo.

Eu gosto da América e a América gosta de mim, Performance, Joseph Bueys, 1974

A performance permanece hoje, junto a procedimentos de indivíduos e coletivos artísticos agregando outras linguagens artísticas e recursos digitais, se configurando como um território híbrido, ampliando as possibilidades de produção e apresentação do conhecimento humano, principalmente quando relacionadas com os temas transversais presentes na sociedade

REFERÊNCIAS

MELIM, Regina. Performance nas artes visuais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. PROSS, Harry. Medienforschung. Darmstadt, Munique: Carl Habel, 1971. SANTAELA, Lucia. Corpo e Comunicação. São Paulo: Paulus, 2004.

Genilson Conceição da Silva assina artisticamente como Victor Venas. É especialista em Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas pela UnB e mestrando em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes (UFBA).

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PRA QUEM NÃO OUVIU JOSÉ GONZÁLEZ Ederval Fernandes

Tenho uma mania de tentar desvendar em cada artista novo que me chega as fontes donde irrompe sua arte. Sabemos todos que nada surge do nada, e por isso o exercício que faço não significa desnudar o artista ao me colocar como um déspota, afirmando que ele copiou essa ou aquela experiência estética. Pelo contrário. Essa minha prática nada mais é do que uma vontade irresistível de achar sentido em tudo. E até mais do que isso: associar esta nova arte que me chega ao rol de realizações onde já me sinto familiarizado e tentar num imbricado jogo de correspondências estéticas, deixar que certas sensibilidades, dentro de mim, se procurem e se reconheçam. Fiz todo esse prelúdio para introduzir José González, artista jovem de quem tive uma ótima impressão logo quando ouvi. José González é um jovem sueco de 29 anos, filho de pais argentinos, cantor e compositor. Com frequência seu trabalho é classificado como folk-pop, mas sua cosmogonia e seu universo artístico possuem outras nuanças que não permitem precipitadamente associá-lo apenas a esse estilo ou a nomes como Nick Drake. Cito Drake porque não é raro este nome aparecer como principal influência nas resenhas e artigos sobre o jovem González, em especial sobre seu último disco (In Our Nature, 2007). Identificaria entre as primordiais influências de González o colorido-acústico do cubano Silvio Rodriguez (de quem ele declaradamente é fã), por onde se vê a predileção por dedilhados percussivos e insinuantes — característica que o distancia da bonita frigidez inglesa de Nick Drake. A plasticidade das peças para violão de Villa-Lobos — e demais compositores clássicos que se dedicaram ao violão — tem lugar na híbrida musicalidade de González, mesmo porque este fez seminário de música. Há também o violão popular brasileiro, tão influente e elogiado no mundo. João Gilberto, claro, a referência maior. Desse último, aliás, faz eco certo intimismo nas canções de González, que muitos associam a uma incontornável timidez do jovem compositor. Acho, porém, mais adequado nos ater a proposições estéticas, e compreendê-lo pelo conceito minimalista. Que não sublima, paradoxalmente, certo traço roqueiro, embora secundário, mas facilmente identificável por determinado sotaque no canto e por uma sonoridade áspera e concentrada no violão.


Em In Our Nature, de 2007, González abandona a temática amorosa preponderante do primeiro registro (Veener, 2005) para escrever, ainda preso a um desconforto léxico com o idioma inglês (lembremos, ele é sueco), sobre questões voltadas ao “primitivismo da natureza humana”, seja lá o que isso queira dizer. O livro Deus, uma ilusão, do biólogo inglês Richard Dawkins, é constantemente citado por González como maior influência para as suas novas canções. Para quem não ouviu falar do livro, trata-se de uma obra feroz sobre a desnecessária existência de Deus (na realidade, da religião) e de como ele (ou ela) é um entrave para a humanidade chegar à clareza da verdade sobre sua condição. Tem-se escrito que desde Nietzsche ninguém brande tão vorazmente contra Deus. A ironia é que In Our Nature carrega uma espiritualidade à luz dos olhos. Chega a ser intrigante como uma leitura científica provocou na musicalidade gonzaliana um deslocamento sutil para algo mais orientalizado, mais “mântrico”. A canção “Cycling Trivialities” que fecha o álbum, é um bom exemplo. Ouçam.

Ederval Fernandes, 25, está em sua segunda graduação (incompleta). É um dos editores da Transa Revista (UEFS/NUEG) e publicou pelas Edições-MAC, em maio de 2010, Conta corrente (poesia), livro integrante da coleção Nova Letra, da qual é o coordenador.

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A SITUAÇÃO DOS CARETAS

2o CARETA

Você está louco? Claro que ninguém vai saber. Se alguém sabe, o bloco todo se junta pra dar uma surra em nós dois. Parece que você não entende a gravidade do que estamos fazendo.

Araylton Públio

1o CARETA

CENA I Final dos anos 70, durante o período de Micareta. Esquina da Av. Sr. dos Passos com a Av. Sampaio. Dois homens fantasiados de Caretas aguardam, impacientes, a chegada de alguém, em frente ao muro de um terreno baldio. Apesar de fantasiados, ambos estão sem as máscaras da vestimenta de Careta. O primeiro fuma compulsivamente, enquanto o segundo não pára de olhar para o relógio.

É claro que eu entendo! Só perguntei pra confirmar. 'Tô com uma agonia danada de ficar aqui parado neste canto de muro. Já deu cinco? 2o CARETA

Já. o

1 CARETA

Ela não vem mais. 2o CARETA

Vem.

PRIMEIRO CARETA o

Você acha que ela ainda vem?

1 CARETA

Não vem.

SEGUNDO CARETA

Vem! Ela não lhe disse que vinha? Só está um pouco atrasada.

2o CARETA

Vem! Pode apostar. Vamos dar pra ela, pelo menos, mais quinze minutos, por favor!

1o CARETA

Um pouco? Que horas são?

1o CARETA

É capaz de a gente acabar perdendo a saída. E aí, pra encontrar os outros, vai ser um inferno.

2o CARETA

Dez pras cinco. o

2o CARETA

1 CARETA

Pois é. Marcamos às quatro! Ela desistiu. Não vem mais.

Bebe. (Oferece uma miniatura de uísque.) 1o CARETA

O quê? De onde saiu esta garrafinha, meu camarada?

2o CARETA

Se ela disse que vinha, é porque ela vem. Ela disse, não disse?

2o CARETA

Do céu é que não veio. Do meu bolso, “Pedro Bó”. Vamos entrar no clima. Estamos ansiosos demais. Temos que dar uma relaxada.

1o CARETA

Bom... dizer, dizer, não disse. Mas também não desdisse. Quem cala consente. Eu dei o horário, ela balançou a cabeça e pediu licença porque tinha que voltar pro trabalho.

1o CARETA

Quem disse que eu não 'tô relaxado? Ôche, 'tô pronto pra festa. Só 'tô um pouquinho preocupado. Essa demora dela 'tá estranha.

2o CARETA

Ela trabalhou ontem? o

2o CARETA

1 CARETA

Foi. Até as duas. Sabe como é banco, não é? Suga o funcionário até onde não pode mais. Coitada! Uma pobre explorada, como nós. 2o CARETA

Daqui a meia hora, a festa começa. E ainda temos que encontrar os outros, antes de a bandinha chegar. 1o CARETA

Só que ninguém vai saber, não é isso?

Então você ainda acredita que ela vem. 1o CARETA

Não sei. Bebe. Ainda tem mais aí? o

2 CARETA

Pelo menos, uma vez na vida, não é? Saí recheado de casa. (Retira outra garrafa do bolso.) 1o CARETA

Já sei. Você queria era dar um porre nela...


2o CARETA

2o CARETA

Não pensei que ela fosse fazer isso comigo. Dar o bolo, assim, sem mais nem menos. Quem ela pensa que é?

Queria, não: ainda quero. E ela vem, com fé em Deus. o

1 CARETA

'Tô começando a ter sérias dúvidas. Puxa, ia ser uma enganação daquelas, não ia?

1o CARETA

Que é que a gente vai fazer agora?

2o CARETA

Vai ser. Acredite. Depois, vou dar risada da cara de muita gente.

o

2 CARETA

Só nos resta correr pra tentar alcançar o bloco, não é? Ponha sua máscara.

1o CARETA

Mas ninguém vai saber. Nunca. Nós combinamos.

1o CARETA

Espera aí. Tem alguém vindo lá pela Marechal. Olha lá. Não é que é um Careta? Será que é ela?

2o CARETA

Nunca é uma palavra muito forte. Nós combinamos não dizer nada agora. Mas, daqui a um tempo, quem sabe? Ia ser engraçado ver a cara deles.

2o CARETA

Se não for, é mais um que perdeu a folia da saída. o

o

1 CARETA

1 CARETA

E nunca mais a gente ia sair num bloco de Caretas, não é? Porque no dia que eles souberem disso, a gente 'tá perdido! Pra falar a verdade, tomara mesmo que ela não venha. Vai ser até melhor. 2o CARETA

Você parece criança. Só quero ver como nossa amiguinha vai ficar depois de alta. Daquele mato algum coelho vai ter que sair. 1o CARETA

Isso se ela vier.

Vamos esperar. Eu 'tô achando que é ela. Será? 2o CARETA

Parou pra nos observar... (Pausa) Está vindo na nossa direção... Eu não lhe disse que ela vinha? Vamos recebê-la e sair logo daqui. 1o CARETA

Espere! E se não for ela? Com que cara a gente vai ficar se for um homem e a gente chamar João de Joana? 2o CARETA

o

2 CARETA

Ela vem. Digo com certeza. Pode apostar. Tome, beba mais... CENA II

Bom, então, até ter certeza de que é nossa amiga mesmo, vamos agir como se ela fosse homem. Certo? Sem nervosismo. 1o CARETA

Fechado! (Acende um cigarro.) Os dois amigos, depois de consumir quase todo o estoque de garrafinhas, adormeceram, sentados na calçada e recostados ao muro. 1o CARETA (Despertando)

Caramba! Pegamos no sono! Camaradinha, acorde!

(O terceiro Careta aproxima-se dos outros dois. Diferente deles, o recém-chegado está mascarado. Entra em cena com ar misterioso, dirigindo-se aos dois com a mão estendida, sem dizer palavra. Cumprimentam-se, apertando as mãos com virilidade, e depois caem num silêncio inquietante.)

2o CARETA

O quê? Que foi? Que horas são? 1o CARETA

1o CARETA (Rompendo o silêncio, como se desengasgasse a fala.)

Até que enfim. O “senhor” está bem atrasado, sabia?

Você é quem diz.

(O terceiro Careta assente com a cabeça.)

o

2 CARETA

Pela madrugada! Já passam das seis... 1o CARETA

Não disse? Ela perdeu a coragem. E nós perdemos a saída do bloco. 'Tá ouvindo, lá longe, a bandinha tocando?

2o CARETA

Pensávamos que não vinha mais. Como é? Está dispost... disposto a sair conosco? (O terceiro Careta torna a assentir com a cabeça.)

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1o CARETA

Bom... É... Não quer tomar um trago antes? Acho que não deu pra secar todas as garrafinhas não. 2o CARETA

De forma nenhuma. Ainda tenho mais aqui. (Retira outra garrafinha do bolso.) Tome! (O terceiro Careta recusa a bebida, gesticulando com as mãos.) 1o CARETA

Bom, se é assim, então vamos, não é? 2o CARETA

É, vamos. Ainda podemos recuperar o tempo perdido. Não concordam?

2o CARETA

O quê? Você está querendo dizer que é... mudo? (O terceiro Careta repete o mesmo gesto anterior.) 2o CARETA

Você é mudo!? Então... você não é ela?! (O terceiro Careta dá um pulo para trás, espantado.) 1o CARETA

Meu amigo quis dizer que você não é ela, a “pessoa” que a gente 'tava esperando. Entendeu? (O terceiro Careta gesticula “mais ou menos” com as mãos.)

o

1 CARETA

Claro! (Vira-se para o terceiro Careta, esperando por uma resposta, mas este faz apenas o sinal de positivo com o polegar.) 2o CARETA (Conversa à parte com o colega.)

Que situação! Não há palavra que saia daquela boca. 1o CARETA

Vai ver que é ela mesma, e não 'tá querendo levantar suspeita. 2o CARETA

Mas levantar suspeita de quem? Quase não tem mais ninguém passando por aqui, a essa hora. Foi todo mundo pra festa. 1o CARETA

Vai ver, então, que ela 'tá querendo levar a sério o papel de Careta. E o jeito que não quis saber da bebida, isso parece coisa dela. (O terceiro Careta interrompe o cochicho dos dois, sugerindo, através de mímica, que eles vistam as máscaras.) 2o CARETA

É, vamos. Já passou da hora. Ponha sua máscara também, camarada. o

1 CARETA

OK! Vou pôr... (Os três agora estão mascarados e olhando um para o outro, criando uma perturbadora atmosfera silenciosa. A tensão torna-se crescente, gerando um grande desconforto entre os três Caretas.) 1o CARETA (Voltando a romper o silêncio, desta vez de

maneira irritada.) Escuta aqui! Você vai ou não vai falar com a gente? 'Tá parecendo até que é mudo.

2o CARETA

Sendo assim, acho melhor cada um tomar seu rumo. Eu já 'tô desistindo de ir atrás do bloco. 1o CARETA

É, eu também. (O terceiro Careta faz o sinal de positivo.) 1o CARETA

Você também?! (O terceiro Careta sinaliza que gostaria de seguir com a dupla de amigos.) 2o CARETA

Bom, se você quiser vir conosco, meu chapa, então vai ter que fazer uma coisa. (Retira a própria máscara.) Tire sua máscara. Agora! (O terceiro Careta recusa-se a aceitar a ordem, com veemência.) 1o CARETA

Por que não? Veja, 'tô tirando a minha. Tire a sua também, camaradinha... (O terceiro Careta foge dos dois amigos, estranhamente aterrorizado, andando de costas até sair de cena.) 2o CARETA

Veja só que situação! 1o CARETA

Pois é... Que situação... FIM

(O terceiro Careta assente com a cabeça, demonstrando resignação.)

© Araylton Públio, 2003.


Existem quadrinistas em Feira de Santana? Marcelo Lima e Marcos Franco

De antemão a resposta é 'sim'. Embora as HQs não sejam uma arte tão popular no Brasil como são a música e o cinema, há inúmeros criadores de quadrinhos brasileiros, dos quais uma parte significativa trabalha para editoras europeias e norte-americanas. Na Bahia, que atualmente é um dos estados menos representativos da nona arte brasileira, temos artistas importantes que fazem sucesso de público e crítica, como Antonio Cedraz, Flavio Luiz e Luís Augusto. De modo geral, esses artistas têm seu trabalho reconhecido fora da Bahia, mas possuem pouco conhecimento no próprio estado, devido à falta de um mercado consumidor baiano. Quando se fala em Feira de Santana, há poucas referências que ligam a cidade à tradição quadrinística. Podem ser apontadas a iniciativa do Estúdio Made in Bahia, nos anos 90, e a presença de artistas como Borega, Hélcio Rogério e Marcos Franco. A importância das HQs nacionais, que estiveram em baixa durante os anos 90, vem se acentuando nesta primeira década de século XXI com a transformação da revista em quadrinhos em livro em quadrinhos – material com melhor acabamento, vendido em livrarias e, geralmente, direcionado ao público adulto – e a adoção dos gibis em escolas, como material pedagógico de primeira importância. Acompanhando essas tendências, quadrinistas feirenses estão organizando exposições, oficinas e álbuns para o segundo semestre de 2010, na expectativa de difundir o «quadrim» como forma de expressão artística e mesmo profissional. Conheça essas iniciativas:

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Lucas da Vila de Sant'Anna da Feira Lucas da Vila de Sant'Anna da Feira resgata a história do escravo rebelde Lucas da Feira. Alguns dizem que ele foi ladrão, outros contam que não era um verdadeiro criminoso, pois roubava dos ricos para dar aos pobres. Outros só conhecem o seu nome. E há aqueles que nem mesmo possuem informação alguma sobre sua existência. A obra é fruto de anos de pesquisa do roteirista Marcos Franco e de entrevistas realizadas em conjunto com o também roteirista Marcelo Lima, com pesquisadores e líderes de associações de bairros feirenses. Baseada em fontes oficiais, literatura de cordel e registros orais, a trama se situa no meio-termo que tem alimentado as discussões sobre Lucas da Feira, em torno da pergunta: ele era um herói ou um bandido? Desenhada por Hélcio Rogério, a HQ está em processo de diagramação e será lançada em setembro de 2010, no Centro Universitário de Cultura e Arte, em data a ser definida. Além do lançamento do álbum, o projeto, que é custeado pelo Edital de Apoio a Microprojetos Culturais do MinC/BNB, realizará ações educativas em escolas e exposição de originais no Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira. Para saber mais, acesse: http://roteirizandohq.wordpress.com, ou envie e-mail para marcelocaterpillar@gmail.com.


Maria Quitéria – A injustiçada Publicada de forma independente, essa HQ conta a história de Maria Quitéria, a partir do conto homônimo escrito pelo atual presidente da Academia Feirense de Letras, Eduardo Kruschewsky. A obra foi adaptada pelo Studio Fúria, grupo que vem se fazendo notar na cidade de Feira de Santana por adotar o estilo mangá (quadrinho japonês), prestar serviço de criação de cartilhas e quadrinhos e já possuir um catálogo de publicações. O Studio Fúria também desenvolve trabalhos na área de animação. Mais informações podem ser vistas no site: http://www.studiofuria.xpg.com.br/ Revista Área 71 Editada pelo grupo de quadrinistas Área 71 – nome que faz analogia com a Área 51 e o DDD de Salvador, cidade em que acontecem as reuniões do coletivo –, a Revista Área 71 é uma coletânea de histórias curtas de dezenove artistas baianos, dentre eles três representantes de Feira de Santana. Beneficiado pelo Calendário de Apoio a Projetos da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), o grupo fará lançamento da publicação no Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira (Feira de Santana), no dia 24/09/10. No mesmo dia, serão realizadas oficinas de roteiro e desenho de histórias em quadrinhos e exposição de obras. Contatos: fatarq.campos@gmail.com

Kuei e a Senhora de Sárvar O mangá da personagem Kuei é um vampiro historiador vindo da dimensão fantástica de Arcádia para a Terra, de alguma época depois do século XXII, quando mal existem vampiros por aqui. Ele vem para estudar a cultura vampiresca desenvolvida pelas lendas, mitos, games, literatura e 'causos'. É uma homenagem a diversas histórias de vampiro e à estética associada a essas criações. HQ, de autoria de Marcelo Lima e Joel Santos, conta com o financiamento do Procultura de Feira de Santana e da Funceb. O lançamento está previsto para 19 de setembro de 2010, durante o evento Feiranime. Contatos: marcelocaterpillar@gmail.com

Marcelo Lima é estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia, roteirista de histórias em quadrinhos e pesquisador do Instituto de Letras da UFBa. Marcos Franco é estudante de Museologia da Universidade Federal do Recôncavo Baiano e veterano roteirista e editor de histórias em quadrinhos.

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O LIXO Revista de contos curtos editada pelas Edições Cordel, entre 1980 e 1985, sob a direção, em seus dois primeiros números, de Paio Soares e Rubens Alves Pereira, e depois, até o número seis, de Wilson Pereira de Jesus e Marcos Porto. Publicaram n´O LIXO: Luís Pimentel, Wilson Pereira de Jesus, Juraci Dórea, Rubens Alves Pereira, Antonio Brasileiro, Marcos Porto, Roberval Pereyr, Adelmo Ferreira, Fernando Hora, Outran Borges, Rita Olivieri, Cremildo Souza, Assis Freitas Filho, Iderval Miranda, Raymundo Luiz Lopes, Antonio Luiz Santos, Hélio Porto e Trazíbulo Henrique Pardo Casas, entre outros. O nome da revista surgiu em sinal de protesto contra a sujeira que marcou a cidade em boa parte daquele período. Os contos aqui apresentados foram extraídos dos números 02, 03, 04, 05 e 06 da revista.

TRÊS CRIANÇAS Wilson Pereira de Jesus

Luciana: – Dormiu bem, meu bem? Sara: – Dormi. Luciana: – Sonhou? Sara: – Sonhei. Luciana: – Sonhou o quê? Sara: – Na casa do menino esmolé. Luciana: – Qual esmolé? Sara: – Aquele que vem aqui todo dia. Luciana: – E como era a casa dele? Sara: – A gente estava na mesa, tinha comida... Luciana: – Êh, esmolé não tem comida na casa! Sara: – Mas foi sonho!

A CADEIRA Antônio Brasileiro

Um homem muito rico mandou construir para si uma cadeira de trinta metros de altura. Uma vez pronta e transladada sobre plataforma rolante até o grande jardim de sua casa, fez-se içar através de um guindaste até o gigantesco assento do móvel e, lá, naturalmente na borda, sentou-se. Parecia um rei.

FUNERAL Marcos Porto

Acabáramos de enterrar uma pessoa muito querida, como o fazem os humanos em todas as épocas. De alguma forma, o ambiente transmitia vida: se alguém atentasse para a cova, veria que o nosso morto engravidara a terra. Em marcha lenta, aos poucos, fomos deixando aquela cidade de suntuosos castelos e poucas diversões. Mais adiante, os curiosos observavam uma família, solenemente de pé, em volta a outra sepultura: aguardavam que uma negrinha terminasse de escovar a tampa do sepulcro. O mais curioso e estranho é que a menina o fazia, com tal zelo e cuidado, como se o morto fosse o parente mais próximo; e suas mãos, instrumento cósmico de separação dos mundos.


A VIDA DE TATOS OBSCUROS Juraci Dórea

A FILA Roberval Pereyr

No primeiro dia apenas o muro – muito alto e diante dele uma pequena fila indiana com cerca de quatro pessoas. Nos dias seguintes, outras pessoas foram-se acrescentando à fila, que já estava enorme e contava ainda com todas as pessoas dos dias anteriores, inclusive as do primeiro dia. Doze meses depois a situação era de todo a mesma, exceto no tamanho da fila que media dezenas de quilômetros de comprimento. E nela ainda se encontravam as pessoas de todos os dias anteriores, inclusive as dos primeiros dias.

Certa vez existiu um homem chamado Tatos Obscuros. Sua vida foi marcada por fatos surpreendentes e importantes. Eu, no entanto, não me recordo de nenhum.

Quarenta anos se passaram – a fila imensurável se estendia por estradas, caminhos, estreitos corredores de quase todo o mundo e lá, diante do muro velho e muito alto, ainda se encontravam várias pessoas dos primeiros anos, muitas dos primeiros meses, algumas dos primeiros dias. Só não estavam mais as que envelheceram, secaram ou adoeceram com o passar do tempo e foram pisadas e massacradas pelos que vinham atrás, na direção do muro. Centúrias e milênios se passaram, e a Humanidade inteira entrou na fila. Hoje, não há mais nem sombras dos primeiros séculos; alguma difusa memória talvez haja dos primeiros milênios; muitas humanidades quedaram e foram pisadas pelas que vinham atrás, em fila indiana, na direção do muro. Que, impassível, é, ainda hoje, o mesmo do primeiro dia.

ERÓTICO Iderval Miranda

bem, vem; e ele foi.

A HISTÓRIA DE UM HOMEM E DO OUTRO Trazíbulo Henrique Pardo Casas

Os dois homens já estavam cansados. E os movimentos eram de uma sinfonia para instrumentos desafinados. Nos últimos sábados, encontraram-se na Praça da Certeza. Queriam saber qual o mais sábio. Mas, todas as tarefas (ilógicas, mitológicas, comuns e pequenas) terminavam empatadas. No trigésimo nono sábado, um dos homens fez um poema. Dedicou-o a Sagitário. Recitou-o: «abic tomeco honin suminanero candureba» O outro homem abraçou o poeta, cuspiu no seu rosto e engoliu o poema. Foi coroado rei.

O ASSOMBRO DA PORTA

Um súbito clarão ilumina-lhe o rosto. A cidade adormecida: um céu de estrelas sobre a cabeça e um parapeito de janela recostado. O mar espreita a lua num vai-e-vem constante. Mais um trago no cigarro inacabado. A mulher repousa no quarto. Resta apagar o que foi feito... ou não? Ela dorme morta envolta em um passeio. Um homem vai surgir e desenhar no quadro que se fecha uma navalha e uma lágrima. Todos estão satisfeitos. Eu estou sozinho. Amanhã virão felizes reencontrar a esperança nos quadros que pinto. Eu esperarei.

Juraci Dórea

Assis Freitas Filho

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EROTILDES, O TROVADOR NORDESTINO Araylton Públio

Erotildes Miranda dos Santos, feirense da Rua Nova. Intitulava-se Trovador Nordestino, e às vezes O Trovador Nordestino, e algumas poucas vezes Trovador Baiano. Falecido há cerca de cinco ou seis anos, eis aqui um poeta popular dos mais genuínos. Poeta de bancada, como diriam seus pares, pois não há registro de que cantasse seus versos ou os de outros. Pelo visto, era dedicado somente a desenvolver a literatura de folhetos de cordel, escrevinhando histórias de valentia ou fazendo a crônica de uma época, a seu ver, excessivamente liberal. Principalmente com relação à propagada liberação sexual dos anos 60 e o papel protagonista das mulheres. Exemplos marcantes desse gênero do folheto-crônica, de caráter documental, por ele muito explorado, são A marcha do desmantelo, O namoro moderno e A palestra das três donzelas. Dono de um estilo bem particular e ao mesmo tempo completamente integrado à produção cordelista do período, que podemos situar entre a segunda metade dos anos 60 e o fim da década de 70. Só assim conseguiremos deduzir a data de suas obras principais, já que dificilmente os folhetos originais apresentam qualquer registro cronológico. Mas, como naquele período os poetas praticavam muito o estilo documental, de alguns podemos depreender o ano da composição. Como, por exemplo, do folheto Um pedaço do Nordeste, feito para marcar a inauguração da Estação Rodoviária de Feira de Santana e descrever o painel de Lênio Braga ali instalado, com uma série de citações iconográficas à cultura nordestina, em 1967. É claro que ainda há muito a se pesquisar sobre esse poeta, e a publicação de alguns dos seus folhetos pelas Edições MAC serve como um marco inaugural para estudos mais profundos, que possam reconhecer Erotildes como um dos mais talentosos trovadores populares nordestinos do seu tempo. Pois já é tempo de levar ao conhecimento geral a obra poética desse afrobaiano que, como muitos de seus pares, trazia em si sentimentos contraditórios com relação à própria identidade cultural, sem por isso jamais deixar de exibir grande traquejo na construção de versos originais.

Araylton Públio é ator, autor e diretor teatral, além de poeta com três livros publicados. Pesquisador da poesia popular nordestina.


O ABC DO AMOR

Erotildes Miranda dos Santos TROVADOR NORDESTINO

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A

mada amante, eu vivo Somente pra te amar Muitas vezes delirando Sinto você me beijar Teu encanto me seduz Estes versos eu compus Para de ti me lembrar. Beijando a tua boca Me sinto fortificado Teu beijo me alimenta Parece vitaminado O teu olhar feiticeiro Já me fez prisioneiro Do teu amor sublimado. Contigo vivo sonhando Mesmo estando acordado Teu corpo fora de série Me deixa descontrolado Teus carinhos são demais Roubaram a minha paz Não vivo mais sossegado. Devemos casarmos logo Pra nossa felicidade Unirmos as nossas almas Até a eternidade Venha para mim, querida Oh, vida de minha vida Não me mate de saudade.

É verdade que te quero Com toda sinceridade O teu amor, queridinha Só me deu tranquilidade Eu amo você, querida És tudo na minha vida És meu amor de verdade. Falando só de amor Amando pra ser amado Querendo pra ser querido Beijando pra ser beijado Sem o teu beijo querida Não tenho prazer na vida Sou um desaventurado. Gosto tanto de você Que chego a imaginar Se um dia te perder Como é que vou ficar Se isto acontecer Prefiro antes morrer Do que nosso amor findar. Hoje vivo sorridente Tendo você ao meu lado Se amanhã te perder Serei um alucinado O meu fim está previsto Morrerei igual a Cristo Numa cruz crucificado.

Isto nunca vai se dar Porque você não consente Vamos viver bem juntinhos Nos amando eternamente Nosso amor é bem florido E não vai ser destruído Por maldade desta gente. Já está chegando perto De consumar nosso intento Já marquei até a data Deste acontecimento Vai ser um dia feliz Na igreja da Matriz Será nosso casamento. Linda você vai ficar No seu porte de donzela Toda vestida de noiva De palma, véu e capela E muitos laços de fita Se você já é bonita Vai ficar muito mais bela. Mas enquanto esperamos Este dia fascinante Vamos gozar esta vida Que é muito importante E pra mim tem mais sabor Eu sentindo o calor Do teu corpinho elegante. Na passagem desta vida Muitas rosas eu amei Mas só a você querida Todo amor eu consagrei Tua beleza é tanta Que parece uma santa A quem sempre adorarei. Oh, estrela matutina Que brilha de madrugada Te peço que ilumine A mente da minha amada Pra viver só para mim Como vive o jasmim Numa manhã orvalhada. Preciso de ti, meu bem Como a noite do luar Os peixes do oceano Também vivem a precisar Abelha vive da flor Preciso do teu amor Para viver e sonhar. Quantas vezes te beijei Entre as flores do jardim E tu morta nos meus braços Dizia baixinho a mim: — Meu filho, me beije mais Porque eu só tenho paz Quando tu me beija assim.


Recebi tua cartinha Estou bastante contente Por sinal, muito bem feita Fiquei de tudo ciente Me mandaste muitos beijos Pra matar os meus desejos Vou querer pessoalmente. Sou feliz porque te amo E tu me amas também Meu amor é todo teu Só teu e de mais ninguém Já te dei alma e vida E assim, minha querida Vamos viver muito bem. Tua boca delicada Tem o perfume da rosa Os teus olhos têm o brilho Duma manhã radiosa Os teus seios palpitantes São os sinais triunfantes De toda mulher formosa. Uma vez cada minuto Eu queria te abraçar De segundo em segundo Desejava te beijar Se eu morrer te beijando Não sinto a morte chegando Para me desencarnar. Vamos ver se o meu sonho Pode ser realizado Se tu nasceu para mim Tudo é concretizado Disto tenho esperança Quem espera sempre alcança Conforme diz o ditado. Xadrez é palavra triste Significa prisão É morada dos errados Que tiveram punição Vivo presão diferente Numa prisão diferente Que é o teu coração. Zulmira quis me amar Gracinha também queria Guiomar já ciumava De mim com Rosa Maria Porém a mais virtuosa É você, Maria Rosa Com quem casarei um dia Terminou o alfabeto Mas ainda vou falar Nos assuntos amorosos De quem vive para amar Quem ama é sofredor O ABC do Amor Aqui vai continuar.

O amor distanciado Deixa a pessoa doente Quer saber se é verdade? Queira bem e viva ausente É um mal quase sem cura Quando dá na criatura Vai matando lentamente. São vários tipos de amor Que tem por aí afora Um deles é o fingido Que se acha toda hora Mas o amor verdadeiro Não se compra com dinheiro Se suplica, se implora. O amor de dez minutos É o tal do leviano Passa a vida enrolando Toda hora faz um plano A donzela que pegar Um deste vai se atolar Só fica no desengano. Tem o amor de malandro Que também é passageiro Para moça vigarista Dá certo só no tempero Ele é vivo demais E ela não fica atrás Segue no mesmo roteiro. Agora, caros leitores Me prestem toda atenção Que vou falar no amor De maior veneração É o de mãe tão querida Que por nós arrisca a vida Em qualquer ocasião. O de pai também é bom Eu descrevo com respeito O pai sendo amoroso Merece todo conceito Os meus pais são meu abrigo Trago todos dois comigo Trancados dentro do peito. Já descrevi os detalhes Com relação ao amor Algum erro que tiver Que me perdoe o leitor Porque eu não sou formado Sou apenas esforçado Na vida de trovador. Aqui vou finalizar Este livro que tracei Dedicado a quem ama Se agrada, eu não sei No tempo que eu amava Um deste me agradava Porém nunca mais amei.

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CONTA CORRENTE: VERSOS DE QUEM REPUGNA A POESIA Maria Dolores Rodriguez Quero em Feira/ cantar o meu poema/ e ser ridículo!

Em tempos de bombas atômicas e vuvuzelas, meus caros, é difícil fazer-se o silêncio. Eis que num dia desses, meu amigo e colega da Transa Revista, Ederval Fernandes, me aparece com um poema em mãos: “quero muito/desvendar/por que não vôo,/ por que não presta o meu poema...”.. Estes eram alguns dos versos do primeiro poema que eu li deste rapaz, e foram eles que me permitiram ver Ederval como um poeta, sendo amigo ele já era visto como poema há algum tempo. É um hábito comum fazerem as coisas pesarem menos escrevendo poesia, acho que sempre foi assim com grande parte destas pessoas que, injustamente ou não, recebem o título de “jovens”. Mas Ederval se destaca, se afasta desta grande massa de escritores fajutos e escreve com uma qualidade de “gente grande”. No dia do lançamento da Transa Revista número I, o livro de Ederval Fernandes também foi lançado: Conta corrente. O título pode ser justificado pelo fato do autor possuir estes poemas como formadores da sua riqueza. Sua epígrafe: “Fabrico um elefante/de meus poucos recursos.”, Carlos Drummond de Andrade. Fabrica um elefante, algumas borboletas, fabrica, antes de qualquer coisa, Feira de Santana. Seus versos (silenciosos) são significativos por expressarem o seu mundo individual, mas ressonarem em tantos outros mundos, meus, seus, algures. Feira de Santana é o pano de fundo, é onde tudo acontece em Conta corrente e acredito que há um movimento que, talvez ainda não se veja como tal, mas que se configura como um movimento: os insurgentes feirenses. Gente que por alguma razão está junta e produzindo arte, tanto na literatura, como na música e artes plásticas. Gente de Feira ou que se sente feirense e que quer falar de alguma maneira, mesmo que seja falando de si mesmo, desta terra formosa e bendita. A importância dos poemas de Ederval neste quadro atual é que eu, leitora de poetas feirenses, nunca havia visto nenhum outro que demarcasse o seu lugar da maneira vigorosa como Ederval faz. (“Quero em Feira/ andar por suas ruas,/ sentir incerto/ como um coração/ dentro do tórax/ da cidade, a beleza/ desta arquitetura/ oculta aos olhos,/ aberta às almas.”). É perceptível a sua vontade de se mostrar feirense e de entrar pelas veias desta cidade cansada, mostrando que aqui além de pessoas também cansadas e das obras de Juraci Dórea que pululam o espaço urbano sem pedir licença (graças a Deus!), existe também todo um emaranhado de vidas, de pessoas simples e que por isso mesmo acarretam nesta simplicidade todo o teor problemático e caótico que uma existência comporta (Ás seis e meia/ da noite/ quando o ônibus/ Cidade Nova/Cis/ cruza a praça do Tomba,/ vejo três enigmas em pé conversando entre si/e muitos outros sentados). O cotidiano de Feira nunca foi tão bonito. Uma vida que vai se revelando, a vida de uma pessoa daqui e que por ser daqui é uma pessoa do mundo, emociona. Os medos e as angústias deste poeta feirense não são menores ou muito diferentes dos de um nova-iorquino na Quinta Avenida (e se penso/ em morrer, / é ridículo?).


a Lyr ara Tâm

Demonstrando seu amor pela sutileza, Ederval faz uso de momentos que corriqueiramente passam pelos nossos olhos e transforma, por exemplo, a nossa manhã em “Manhã”, poema que dedica a “Vó Tintinha”: “Equanto/ os galos/ passam/o café,/ minha/ avó/e os pardais/ tiram de si/ uma melodia/ de horas e luzes.” Sem deixar escapar uma das suas maiores paixões, há ainda o poema intitulado “Futebol”; nele o autor faz viagens pela história de vida de alguém que tem na arte do drible, do lance, das jogadas ansiosas por gol, uma maneira de contar a sua própria história. (lem-/brança/ azul e /branca,/ tarde vadia na Aderbal Miranda (...) sempre/alija/ o último gol/minha/mãe/chamando/pro/café.). É disso que eu falo, Ederval não escapa do sentimento de um certo determinismo geográfico, sentimento este que assola Vinicius de Moraes quando fala de sua tarde em Itapoã, Gilberto Gil quando fala da menina do Barbalho que ele conheceu, e Manuel Bandeira, quando fala da Rua da União do Recife. Mais que determinismos estas são apenas maneiras de se entender e de se sentir pertencente a algum lugar. Uns são de Salvador, outros do Rio de Janeiro, outros do Recife, nós somos de Feira de Santana. Por que não falarmos dela? Cantar Feira de Santana, como faz Pisa, como faz Ederval Fernandes. É certo que me emocionei com a leveza de Eder e com os silêncios que Conta corrente fez ecoar em mim – tudo isso tem uma razão de ser, não nego. E não sei como explicá-la. Não faz diferença. O que sei é que ao fim da leitura de seus poemas um pensamento como “Meu deus, era justamente isso” me inunda, me alvoroça. Conta corrente faz parte da nova coleção das Edições-MAC, chamada Coleção Nova Letra. A edição ainda conta com uma bela ilustração de Tâmara Lyra (outro grande talento feirense); a visão dela nos impele a fazer uma associação entre o que ali está ilustrado e Ederval Fernandes – poeta que, não sei se pássaro ou se ninho, lança pelos ares uma boa nova desta Feira de Santana.

Maria Dolores Rodrigues é fotógrafa, faz parte do Conselho Editorial da Transa Revista (FSA). Cursa Letras com Espanhol na UEFS.

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RESCISÓRIO Fabio Porto Voejavam em seu bolso descontentes as duas araras vermelhas, imensamente constrangidas. Viera o acaso permutar sua liberdade com aquela infame arapuca. E os dedos ásperos, nas dobras calosas, que as vinham retorcendo relutantes, por pensativas, em atirarem-nas naquele funesto abismo. Mal sabiam, desconfiadas entrementes, que, em breve, estariam livres, ora fosse Benjamin honesto, fosse Benjamin humilde. E as araras certamente dormiriam aquela noite em gaiolas mais confortáveis. É que a Benjamin, nunca lhe fora dado o azo de ser apegado a nada, talvez estivesse acima dele esta facilidade arbitrária. Era um pobre o Benjamin. Não um produto feliz, por assim dizer, de um scanner, não, era antes um borrão indefinido de fax do fax, um um. Culpa era de sua infância irresponsável; quem mandou destratar as coitadas das borboletas, amassando-as entre as páginas do livro; descoloriam-se quase, também o livro quase. Mas não se pode refutar a vida dele em virtude somente das borboletas, que Benjamin houve sua época de print screen, nítido — assemelha-se a isso a definição cruel e incisiva dos vazios ignorados, quer dizer, desses esgares também fortuitos que pulam no rosto por puro expediente comum. Há como uma alavanca no peito, decerto é isso, que lança à cara essa fisionomia grotesca, ah!, hiato cru da inocência... voltemos às borboletas: as borboletas planavam, ou seja, não batiam as asas, brincavam no solavanco, por lacunas, esquecimento da natureza mais simples, flic-flac, flic-flac... Um sorriso... Depois! Benjamin, embebido no próprio suor da testa traduzido em brutalidade, os olhos belidados na hialina pressão salgada da água, passa as costas da mão sobre a testa, atira ao chão as metades das gotas, pelo que o resto pelo rosto escorre; não são as araras para as quais ele fixa o olhar, ele fita o suor, e o suor é o amuo. A rigidez das sobrancelhas garante o seu sossego, que avaliza a celeridade em contra-partida do que faz; mas quem entende disso? As araras? O homem, cujo nome ele desconhece, mas o sabe pelos trinta anos que o sujeito atrabiliário lhe exorta, empilha de cima da carroceria os cinqüenta sacos de arroz sobre sua cabeça. A rodilha, feita da camisa despossuída do corpo, vai-lhe alva como a cal, pois perigoso como a cal é o pó branco do arroz tipo 1, ou todos os tipos afinal... enfim, que o tipo 1 que o amofina, com o tipo 1 ele se preocupa. É nada! Ele não liga, talvez não se importe (o que é mais pressuroso), Benjamin está pouco se lixando para o tipo 1, quanto para a voz que lhe vem de cima da cabeça enrodilhada pela cascavel branca, mais dez, mais dez, mais dez. Dez é muito; ora, o ultimato único, esse acicate triunfal lançado de cima, blasfemo e a um só tempo cordial, que os dentes, por falta dos molares, arreganham-se. De que sorri?» Não, eu não sorri, não, senhor!» E não sorri. Não veem os outros olhos os olhos de Benjamin, que são como de papel carbono, que se sorrissem, de imediato, trariam o donaire luminoso do sulfite. Porém, na realidade, é que lhe faltavam muitos pixels, milhares, desconsiderando ainda a ínfima gradação do contraste. Quase opaco que se diga, a ponto de não sabê-lo branco quando branco, preto quando preto; cinzento, extraia-se, cin-zen-to. Um por dentro do outro. Culpa da infância de Benjamin, mas disso não se lembra obviamente, quando fazia gorar os ovos no telhado de zinco do barracão-sua-casa. Antes sacudia os ovos, por duas horas, veja bem, e mesclava a gema à clara. Não correria o risco de espatifar a gema num canto e a clara noutro. Um cubista, quando não um pontilhista. A infância é que despreocupa o viver. No entanto, o muito do vento que lhe soprou as faces levou de há muito essas recordações, fugindo como araras, que sorria ante o esquecimento. Pois que é comum se sorrir pelo não lembrado, a ausência tem dessas: é, de fato, cômica. Não como um telegrama, como um e-mail talvez. Às araras, vamos às araras...


Fora uma armadilha de arguta engenharia. A princípio, bastante bisonha, pretender que dez sacos a mais possa fazer alguma diferença era algo sem dúvida diletante, mas não é que teve sua rara utilidade! Foram duas, crepitantes, que lhe caíram nas palmas da mão em recompensa. Feliz, feliz, não estava Benjamin. Era algo aquém da recompensa, porque não era um caso de contas. Não saberia fazê-las: se as fizesse... carregamento de duas toneladas: dezessete viagens subindo escada, descendo escada, apenas sessenta sacas ao invés de vinte viagens, juntou no bolso uns quinze minutos, correndo em cinco minutos por descarrego. Nada mal. Num mês, perfizera trezentos e trinta minutos, quase seis horas, quase um dia. É, um dia, nada mal! Mas feliz, feliz mesmo, Benjamin não se sentia. Então, abriu o calabouço e deixou escapar as duas ararinhas vermelhas como o fogo, coitadas, depenadas na apertura do bolso. É que havia mais, aquém. Este é do dia, basta, diziam. Foi o que perguntaram. O que diabos fizera ele com a merda das ararinhas de fogo, sem essa delicadeza escancarada. Ele andando torto demais para poder responder, porque as palavras iam caindo de lado, desequilibradas, por consequência evidente da fuga. E sentir o tapa não sentiu, e mesmo que o sentisse ele sorriria. Sentia-se bem por fim. Ah, e daí? A despeito disso, a culpa era do calo, da corcova: as costas, as mãos, da couraça cinzenta dos artelhos e juntas, da carapaça da cabeça, do estômago – rinoceronte, ou antes uma tartaruga, ou antes um caramujo... fossilizado. E o cetim daquela mão feminina percorria seu corpo, como houvera perscrutado seus bolsos em desistência, em desesperança contínua. Neste estado, Benjamin, ele discernia. E o corpo atraiçoado, hostilizado, por aquela mão pequenina; ele sabia encolher-se por isso e pelo constrangimento que se ia erguendo aos poucos, qual um boxer grogue, mas valente; mas também era em decorrência do que ia perdendo de álcool nas veias, sentia as penas de fogo se extinguindo. Era algo agora mais pastoso, o diesel a correr nelas; conforme ia entupindo os vasos, o frio medonho da seguinte humilhação perfazia-se. Voaram, meu bem, voaram, meu bem, flic-flac, flic-flac. E Benjamin flanava com os dedos abaitolados sem sorrir, sem querer realmente ser engraçado, pelo contrário. E o corpo, aquele calo como corcova íntegra, sem ser digna, dissipava-se no eflúvio temporão do sangue, aproximando-se à pele como pele deveras, largando um seco sabor de cola nos lábios. Talvez não cola, ora como um sebo, um ranço de asas de borboleta que apodreceram nas páginas amarelas de um livro qualquer. O pior é que não contara tudo, que não trouxera as araras somente porque voaram, mas o motivo da arapuca. Não fizera as sessenta sacas, não pôde, eram pesadas demais. Tentou, mas não pôde. Aquém. Decerto ela que não distinguira o que vinha escrito no fax do fax borrado. Por diversas vezes, sorrir bastava para entreter a realidade, senão de monstrá-la como deveria. Por isso: Esc, Esc, Esc... e no fundo Alt+F4, Alt+F4, Alt+F4. Agora, agora era um vagar. Havia culpa demais em tudo que fazia Benjamin, além de si mesmo inclusive. Se ao menos fosse ele como os outros, se envergasse aquela viril estrutura de aço, de alumínio, de concreto, de vergalhões sobre vergalhões, de diamante. Mas era de água, de água simplesmente. Apertá-la na palma da mão e ela escoa. Tab-Tab-Tab... Enter-Enter-Enter... a passar de repente como um flagrante. Porque havia culpa demais nos parágrafos em branco formados, como rescisórios, havia lacunas demais para se seguir adiante. Quando o correto seria parar por fim, estancar por fim. As borboletas voam ainda, liberta as bichinhas, os ovos lá estão goros sobre o barracão... Ah, estão goros. É, nada mal... nada mal, Benjamin, ele discernia, descalçando as sandálias.

Fábio Porto, nascido em Feira de Santana, Bahia. Licenciado em Letras pela UEFS. Publicou pelas Edições MAC vários opúsculos e as coletâneas de contos O Moço e Desnorte.

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Márcio Junqueira

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Devarnier Hembadoom Sessão simultânea de compra e satisfação

Devarnier Hembadoom é soteropolitano e atualmente é aluno do Mestrado em Artes Visuais da UFBA – EBA, onde desenvolve pesquisa baseada no conceito de Arte Sincrética que associa artes plásticas, música, moda e teorias estéticas.


mira, agosto de 2010  

A revista MIRA é uma publicação do Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana. Dedicada à produção da arte contemporânea em geral, com...

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