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O banco de n茫o sentar Ant贸nio Machado Abril 2009


(Fica marcado com este mail o Equinócio (edição nº ?? da Primavera 2010) em Braga, dia 27 de Março de 2010, sábado, pelas 21h no restaurante “O Maia” no Sameiro.) (Não tem prés nem prós.) (Tem discurso nenhum pois é para comer e falar, trocar repetidos quem quiser leva ninguém.) (É só connosco.) (Nós mesmos perante as evidências.) (Nesse dia ofereço-vos o meu novo livrinho de poesia.) (Uma morte, uma faca.) (Um corpo e uma memória.) (Água.) (É e será um equinócio facilitista. De quem não quer nada e tudo.) E tudo. (Um abraço.)

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O banco de nĂŁo sentar

Numa tarde abafada Deitei-me naquele banco seco E coube nele Inteiro Abri os braços e agarrei a sombra Com as geadas descobri O que minha mãe me dissera: aquele banco era de matar o porco

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a matança

por vezes um dia antes íamos à feira buscar o porco que parecia nunca querer vir numa qualquer manhã fria o guincho rompia e dava início e eu sem olhar segurava na corda com tanta força que tremia de frio

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a faca

a ponta chega ao coração e rasga-o depois, o sangue jorra por ali fora até ao alguidar o nevoeiro instalado é cortado pela faca que lavada em água fria é embrulhada em papel de jornal para a próxima

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sarrabulho

o sangue ferve na ĂĄgua com sal e turva o olhar como esponja depois, espremido, na mĂŁo cerrada, come-se.

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alguidar

a vida sangrava ali toda para aquele alguidar com alho cortadinho e, mexia-se eternamente todo o sangue jorrava e ali ficava quente a arrefecer

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palha

o fogo queima lentamente os pêlos sobre a pele e uma faca raspa-os até à nudez o fogo da palha liberta fagulhas que até nos fazem chorar num gesto rápido limpamos com as mãos que enfeitamos com as unhas do porco a servir de dedais.

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púcaro

o fio de água escorre pelo púcaro a ferver e cai no courato que rapidamente é raspado com fúria como quem se barbeia e não gosta do que vê

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lâmina

pela manhã o frio era lâmina esfregávamos as mãos com o vapor do respirar havia uma faca para cada cortar aquelas mãos firmes e hábeis sabiam cortar as partes daquele porco ali lavadinho

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abertura

a faca corta a carne como รกgua e o corpo abre-se aos poucos puxa-se pelo sebo e chega-se ao interior e tudo aparece alinhado

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o vinho

o vinho atira-se para dentro do corpo lava as entranhas purificando-as dรก a cor da carne ao corpo

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pendurado

o corpo fica pendurado de cabeça para baixo preso pelos presuntos corpo aberto a escorrer para a pequena tigela corpo rijo a rodopiar na corda grossa e no gancho preso ao soalho com os gatos à volta da tigela

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a desmancha

o banco era lavadinho o corpo solto da corda fica disposto para ser desfeito em pequenos pedaรงos com ordem cada pedaรงo tinha o seu destino mas o todo nunca ficava desmanchado

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chapa

roubo uma febra na desmancha e coloco-a na chapa quente debaixo de um fogo em brasa corto-a ainda mais e mais e mastigo cada pedacinho um por um como se percebesse tudo devagar

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ossos os ossos eram esvaziados da carne e cozidos depois servidos com batatas o vazio do osso era rio de pesca

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o grande jantar

o matador encabeçava a mesa depois vinham as travessas a fumegar os rojþes, o fígado, os rins, algumas febras e o sarrabulho o cheiro da felicidade espalhava-se pela casa e naquela mesa cabíamos todos

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Índice

O banco de não sentar............................................................................ O banco de não sentar.................................3 a matança.......................................................4 a faca ..............................................................5 sangue ............................................................6 alguidar ...........................................................7 palha ...............................................................8 púcaro .............................................................9 lâmina ...........................................................10 abertura ........................................................11 o vinho ..........................................................12 pendurado ....................................................13 a desmancha ...............................................14 chapa ............................................................15 ossos.............................................................16 o grande jantar ............................................17

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O banco de não sentar