Grifo 26

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CELSO AMORIM

Nº 26 01-31 AGO 2022

JORNAL DOS CARTUNISTAS DA GRAFAR

O futuro brasileiro interessa ao mundo PÁGINAS 3 A 6

A decisão de nossas vidas A eleição que pode resgatar o Brasil


Ou varremos isso daí, ou nos enterramos de vez

O

próximo trimestre transformará as vidas de milhões de brasileiros e hispano-americanos. Para o bem e para o mal. Resultados eleitorais, que deveriam ser marcos de trégua e ser marcos de esperança, têm se mostrado trampolim do ódio da direita antidemocrática. Estrangeiros vêem a eleição brasileira de outubro como a possibilidade de reinserção do país no continente, no mundo e na razão. Entretanto, um grupo de empresários de relativo destaque estão sendo buscados pela Polícia Federal, a mando da Justiça, por pregarem

O GRIFO do Mate

um golpe de Estado se Lula vencer. Na "entrevista" de Bolsonaro ao Jornal Nacional, da TV Globo, ele afirmou e reafirmou que aceitará o resultado das urnas "desde que a eleição seja limpa" (que ele vença). No Chile, a elite não quer aprovar o texto da Constituição progressista que inclui direitos dos excluídos - recém escrita, ineditamente, por representação proporcional do povo. Estes são dias em que calar significa permitir que a vontade e os direitos coletivos sejam aplastados por reducionistas armados. O Grifo não cala.

O Grifo - jornal de humor Desde outubro de 2020. Eletrônico, quinzenal e gratuito. Publicação de cartunistas da Grafar (Grafistas Associados do RS) Editores: Celso Augusto Schröder e Paulo de Tarso Riccordi. Editor gráfico: Caco Bisol Mídias sociais: Lu Vieira Participam desta edição: Brasília: Kleber Sales Ceará: Cival Einstein Espírito Santo: Vaccari Minas Gerais: Janete Chargista, Quinho Paraná: Beto Cartuns Pernambuco: Thiago Lucas Rio de Janeiro: André Dahmer, Aroeira, +Billy Blanco, Carol Cospe Fogo, Miguel Paiva, Nando Motta, Ronaldo Barcellos, Serginho Madureira Rio Grande do Sul: Alisson Affonso, Bier, Carlos Roberto Winckler, Dóro, Edgar Vasques, Edu Oliveira, Ernani Ssó, Eugênio Neves, Gabriel Renner, Juska, Lu Vieira, +Maria Lídia Magliani, Moisés Mendes, Óscar Fuchs, Santiago, Schröder, Simch, Tabajara Ruas, Tarso, TunicoK, Uberti Santa Catarina: Celso Vicenzi São Paulo: Bira Dantas, Caco Bisol, Carlos Castelo, Céllus, Celso Amorim, Gilmar Machado, Jorge o Mau, Jota Camelo, Ladislau Dowbor, Laerte, Luiz Hespanha, Luiz Lanzetta, Marigoni, Mouzar Benedito, Zepa Ferrer E mais: Argentina: Adão Iturrusgarai, MateMatias Tejeda, Miguel Angel Escobar China: Fan Lintao Colômbia: Elena Ospina Cuba: Michel Moro Gomez Egito: Ahmed ManSour Espanha: Nani - Adriana Mosquera Estados Unidos: +Saul Steimberg Irã: Marzieh Khanizadeh Itália: Marghe Allegri Turquia: Musa Gümüş, Oguz Gurel

Expediente

| 2 | editorial

grafar.hq@gmail.com

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| 3 | civilização&barbárie | celso amorim

Eleição no Brasil interessa ao mundo

fan litao, china

Este texto é transcrição de parte da palestra do diplomata Celso Amorim para o Instituto Conhecimento Liberta, realizada em 07/08/22. Amorim foi ministro das Relações Exteriores nos governos de Itamar Franco e de Lula, representou o Brasil na ONU no governo de Fernando Henrique Cardoso e foi ministro da Defesa no governo Dilma Rousseff. É reconhecido como uma das grandes cabeças da diplomacia mundial. É o principal interlocutor do ex-presidente Lula em política externa e relações internacionais.

Celso Amorim

N

ós estamos vivendo um mundo novo. É um momento de grandes mudanças. O que se vê na América Latina é que há um avanço muito grande das forças progressistas. E, claro, nós vamos ter daqui a poucos dias a oportunidade de ver como serão as coisas no Brasil. Daqui a menos de dois meses nós teremos eleição no Brasil. Não é uma eleição entre esquerda e direita, é uma encolha entre o humanismo racional e a total destruição de tudo o que existe no país, como tem ocorrido. Isso tem uma importância enorme para nós, brasileiros, mas tem

uma importância enorme também para a América Latina e para o mundo. Por isso tem chamado atenção de tanta gente e por isso tem tanta gente interessada na eleição brasileira, para o bem e para o mal. O próprio Steve Bannon, o principal teórico da direita internacional disse que é a segunda eleição mais importante do mundo. Eu ouço embaixadores e governantes dizerem que a eleição brasileira é importante para a geopolítica mundial. O Brasil é o quinto país em território, o sexto em população. Chegamos a sexta maior economia do mundo e mesmo em tempos normais estávamos entre as dez economias do mundo, um dos dez maiores PIB do mundo. É o peso


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do país. Nós somos metade, até um pouco mais, da América do Sul. É uma eleição fundamental e que o mundo está acompanhando com todo interesse. Presidentes, primeiros-ministros, ministros das relações exteriores estão preocupados com que o processo eleitoral seja respeitado, porque a afirmação do Brasil é importante inclusive para a afirmação das democracias no mundo. Nas últimas décadas, com exceção dos últimos anos, o Brasil contribuiu decisivamente para a integração latino americana e caribenha, em níveis diferentes, fortalecendo o Mercosul, criando a Unasul e fundando a Celac, espaços com amplos reflexos políticos, econômicos e culturais. Ampliamos a cooperação sul-sul, com destaque especial para a África, que para o Brasil é muito importante, e também outros países em desenvolvimento. Dobramos o número de embaixadas no continente africano e o comércio se multiplicou por cinco.

Sem golpe

Eu tenho a convicção de que não haverá uma ação militar golpista [contra a eleição de outubro]. O que temos que nos preocupar agora é que haja eleição, mobilizar ao máximo, tanto interna quanto externamente, para que a eleição corra bem. Pode haver alguma turbulenciazinha aqui ou ali, mas não haverá impedimento, não haverá atrevimento nesse sentido. Nunca houve uma prevalência dos militares que não tivesse o apoio externo ou a conivência muito grande da mídia, do poder econômico e de certas potências internacionais.

América Latina progressista

Há mudanças positivas na América Latina. A posse do Gustavo Petro e da Francia Márquez na presidência da Colômbia é uma revolução na América Latina, por muitos motivos. É a primeira vez que se tem um governo de esquerda, um governo pro-

miguel paiva

gressista na Colômbia. Eu não tenho lembrança de nenhum negro naqueles palácios de Bogotá, que não fosse para servir cafezinho. Nem aqui. Francia é negra, mulher, do litoral, foi empregada doméstica, foi garimpeira. É a vice-presidente da República. Isso é um fato importante. Em seu discurso de posse, Gustavo Petro fez um discurso dizendo que quer mudar completamente a política de combate às drogas, colocando ênfase numa política de paz. A Colômbia está há 60 anos nessa guerra, que envolvia a guerrilha e o narcotráfico e que ainda não terminou de todo. Ainda não sabemos quais serão os desdobramentos que isso terá, porque a Colômbia é um país imbricado com o aparato de segurança dos Estados Unidos. Imbricado! Não é uma coisa “mais ou menos”. Isso é uma mudança sensacional na América Latina! O governo do Chile tem ministério com maior número de mulheres do que homens. Na Bolívia, o Lucho Arce foi eleito depois de um golpe de Estado. O neoliberalismo aqui, especialmente no Chile e na Colômbia, onde isso se deu de maneira mais

óbvia, a crítica ao neoliberalismo não foi em debates acadêmicos, foi nas ruas. Chegou a haver 2 milhões de pessoas em Santiago. Proporcionalmente, é como ter 20 milhões de pessoas nas ruas em São Paulo. E isso levou à Comissão Constituinte e à eleição do [presidente Gabriel] Boric. E na Colômbia agora acontece isso, e na Bolívia. Nós estamos tendo mudanças importantes.

O risco de destruição do planeta é real

O mundo está em transe. O mundo sempre está em transe, físico e social. Como a História está sempre em movimento. Mas há momentos em que isso ocorre de maneira muito acelerada, como agora. Com algumas tendências negativas, como a guerra na Ucrânia, em tudo o que isso implica, como a visita de Nancy Pelosi [presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos] a Taiwan, causando enorme tensão na Ásia. Dois conflitos latentes, aos quais Biden se referiu como "a rivalidade dos EUA com as grandes autocracias". Você tem aí um transe. Você tem tendências assustadoras.


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Eu critico a posição russa de ter invadido a Ucrânia, porque isso contraria o princípio-base das Nações Unidas, que é a renúncia ao uso da força, além do princípio da integridade territorial dos Estados. A tradição da diplomacia brasileira de ser contra sanções não é de hoje, não é de ontem. É coisa que está profundamente arraigada em nossa visão de mundo. Um dos grandes problemas da guerra são as sanções contra a Rússia, que acabam gerando um problema pra todo o mundo. A verdade é que estamos vivendo a guerra na Ucrânia que não se sabe quando vai terminar, independentemente de como começou – e a Rússia tem suas razões. Desde a II Guerra Mundial não havia um conflito dessa natureza no centro geopolítico do mundo. O perigo é muito grande. Você tem de um lado, apoiando o governo da Ucrânia, a mais poderosa aliança militar do mundo, que é a Otan, e do outro lado, a Rússia, que tem, provavelmente, o maior arsenal nuclear do mundo.

Estamos vendo tendências contrárias. Você tem a guerra Rússia-Ucrânia e sanções. Isso faz com que haja uma crise energética, faz com que haja uma crise alimentar. Uma coisa que eu sinto e lamento muito é a falta de urgência em torno da paz. Mas como não tem ameaça direta ao coração da Otan, que está em Washington, está havendo uma certa tolerância e fornecimento de armas. O nosso problema não é saber se é possível cooperar num tempo de guerra. O nosso problema é acabar com a guerra. Enquanto houver guerra, os outros problemas vão continuar existindo, não só as pessoas que morrem no local, mas o risco de escalada, o risco de se tornar uma guerra nuclear, faltar gás no inverno, o preço do trigo vai aumentar, o preço do combustível vai aumentar, o preço do arroz... É um momento de grande drama no mundo. Um momento E aparecem, cada vez com muito importante. maior frequência, artigos apontanChina, a nova do a possibilidade do uso de armas hegemonia mundial nucleares. Desde a Crise dos Mísseis, em 1962, não houve nada paEntender porque está aconterecido. Nenhuma crise que nos deicendo é complexo. Você tem causas xasse tão próximos do uso de uma específicas, mas você tem algo mais arma nuclear. O que acontece agora e torna geral dentro do sistema internacioeste momento especialmente peri- nal, que é um deslocamento como goso é a transferência dos conflitos se fosse de placas tectônicas: é o fato da periferia do sistema político – de se ter um país, uma economia, Vietnã, Iraque, Líbia, Iugoslávia ultrapassando a economia líder do – para o centro do sistema políti- mundo. A China, de acordo com certos co internacional, para o risco de uma guerra global. Obviamente, critérios, já é a maior economia do que um conflito no centro é uma mundo. E nesta década vai passar também em termos de mercado, ameaça muito mais grave. É perigosa a probabilidade preços de mercado, taxa de câmde prolongar a guerra, é perigosa bio. A economia chinesa será maior a tentativa de debilitar a Rússia. que a economia americana. A maior Quanto mais tentar, pior será. Os economia do mundo passará a ser a efeitos negativos já estão sendo sen- China e isso vai se refletir em muitidos pelos países centrais, inclusi- tos aspectos, independentemente ve nos Estados Unidos. Eu já sinto da governança global que se queira uma mudança, como se houvesse criar. Já em 2008 era impossível igum certo cansaço da Casa Branca norar os países em desenvolvimento, especialmente a China. com o Zelensky.


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Isso não é um fato banal. Isso era coisa que acontecia a cada 100 anos. E agora com um complicador adicional complexo: essa ultrapassagem se dava entre economias mais ou menos semelhantes na forma de organizar. Essa mudança geopolítica gera conflito, gera atrito. Mas não teve a mesma dimensão de agora, em que a ultrapassagem envolve duas economias que seguem modelos diferentes. São fatores de grande atrito e conflito. Não se pode subestimar o grau de imprevisibilidade. Não sei de haverá alguma liderança americana que irá procurar acomodação com a China. Mas, certamente, a guerra contribuiu muito para o afastamento do dólar. A força da economia americana é muito grande e não vai desaparecer. Mas a China vai superá-la. Essa mudança já estava acontecendo. A guerra só acelerou. Mas o dólar não desaparecerá como moeda de referência. Só não será exclusivo. O mundo vive três crises que ameaçam a humanidade: o aquecimento global, as pandemias e a desigualdade – que é mãe de muitas outras crises e conflitos. A essas veio se somar um conflito de dimensões que ainda não havíamos visto. Essas grandes crises demandam cooperação. E essa mudança geopolítica gera conflito. As relações internacionais sempre foram de uma certa dialética entre cooperação e conflito. Mesmo entre países muito rivais. Se deixar de cooperar por outros motivos, o risco para a humanidade é enorme. Nós temos que descobrir uma forma de fazer com que a cooperação prevaleça sobre o conflito, porque o risco de destruição do planeta e da espécie humana é real. E se não chegarmos a esse extremo, o risco de gravíssimas consequências tanto ecológicas, sociais, migratórias, refugiados, outras guerras, é também muito grande. Então, temos que

descobrir uma nova maneira de governar o mundo. Há muito tempo se fala de uma “nova guerra fria”, Estados Unidos e China. Mas eu vejo hoje uma coisa mais complexa e até mais perigosa. Como causa da guerra da Ucrânia nós estamos vendo, de um lado, uma super Otan, com os países ricos capitalistas, e o resto do mundo, do outro. Estes países, que antigamente chamavam de Terceiro Mundo, não têm interesse na guerra, porque serão os que

mais vão sofrer. Estamos vendo uma espécie de bipolaridade entre um Noroeste rico e um Sudeste pobre. Nós queremos que, ao contrário, haja multipolaridade. A busca é sobreviver. Desejamos um mundo mais multipolar. O ideal para o mundo, para que haja paz, é que os países não só sejam democráticos, como que haja um certo equilíbrio no conjunto dos países, porque isso desestimula o conflito. Torna o custo do conflito muito grande.


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| 7 | varejeirasemcrise| schröder

A áusea tem nome

os tempos asquerosos em que vivemos. Algo nojento com nojo de algo mais nojento ainda. Com todo o respeito aos insetos que devem Varejeiras com repulsa da merda que sobrevoam ter uma função na existência, como se me pareceu uma metáfora gráfica apropriada para pergunta às vezes minha neta Morgana.

O inominável reclama do cargo: "é um saco, tem que trabalhar". Caco Bisol


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| 8 | bolsomilicianos

Planos sinistros e infalíveis a propagação vibracional das orações de Michele, que são capazes de motivar até quem não acredita no Senhor e na Sra. Bolsonaro, é crime hediondo enquadrado na Lei de Segurança Motivacional.

Luiz Hespanha

A

possibilidade de um auto-atentado no 7 de setembro, planejado pelo EMF/Estado Maior da Familícia para incriminar o PT e a esquerda, é possível. As bombas no Riocentro, OAB e as colocadas em bancas de jornais são exemplos do que os fãs de Brilhante Ustra e Freddie Perdigão são capazes. O desespero leva humanos, milicianos e bolsominianos a crimes inimagináveis. Fakeadas à parte, o EMF pode estimular/teleguiar novos Adélios, Wilsons e Rosários à prática de atentados para levar Bolsonaro ao segundo turno. Podem tentar matar o Lula, atingir militares e quartéis ou provocar carnificinas em atos públicos em Brasília ou Copacabana. Toda precaução é pouca. Considerando o grau de inteligência do EMF, de zebus e nelores do cercadinho, me permito sugerir quatro planos sinistros e infalíveis para a estupidez bozo-miliciana virar o jogo. É uma contribuição modesta, que não me qualifica como um Osama Bean Lámen dos trópicos. Isto é impossível diante dos crimes que Bolsonaro&Familícia cometem diariamente contra a democracia, saúde, educação, cultura, ciência, meio ambiente, mulheres, índios, LGBTQIA+, quilombolas, contra a história e a língua portuguesa.

dido com um tacape de isopor por um indigenista-leninista-gayzista de uma tribo bolivarianista da aldeia de Rio das Pedras? E se um esquerdista-caviar-ipanemista invadir o armário do general Heleno e jogar tinta vermelho-comunista em seus pijamas?

Tacape no Índio e tinta nos pijamas O primeiro seria transformar Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, sobrinho de Bolsonaro e amigo querido do Carluxo, em vítima. Já imaginou se o assessor (segundo o UOL, sumido, pois não aparece para trabalhar no Senado) for agre-

Impedir a irradiação do Milagre de Michelle Imagine uma concentração de “afros-trans’ascendentes” movida a batuque, charuto e cachaça em plena madrugada nas cercanias do Alvorada? Pense no efeito que esse atentado à fé causaria nas hostes pentecostais e até nas hóstias cristãs? Impedir

Covers-Zumbis da Pablo, Anitta, Glória Groove e da Von Hunty Taí um plano capaz de revoltar a família papai e mamãe e até a família dita “anormal” pela moral bolsominiana. Imagine uma Parada Andrógina (essa palavra merece ser resgatada numa maca de neon) com covers da Anitta, da Glória, Pablo e Rita na Paulista? Todxs seminus, pintados com sangue cenográfico-comunista recitando poemas de Bocage e Glauco Matoso, simulando surubas com bíblias, vídeos do Felipe Neto, ostensórios e crucifixos? Mas, sem golden shower, talkei? Bombas de João Gilberto, Daniela Mercury e Chico Buarque Bombas de alto teor “barulhitivo” explodiriam em shows e lives do Gustavo Lima, Bruno&Marrone, Amado Batista, Latino, Zezé Di Camargo, Netinho, Roger e Sérgio Reis. Falo da explosão de artefatos montados com capas de cds e dvds piratas de João Gilberto, Chico Buarque e Daniela Mercury. O jogo viraria com a mobilização gigantesca do “curral’tural sertanojo-gospel-neandertal” provocada pelos discursos irados do Mário Frias e da Regina Duarte, os mais “shakes’piradianos” dos atores bolsonaristas. Sinistros e infalíveis.

O véi da van vai tentar venderminiaturas da estauta da liberdade nas calçadas em maiami. Caco Bisol


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| 9 | crimeemcadeia

Crimes políticos Celso Vicenzi

O

crime em Foz do Iguaçu, teve evidente motivação política – assim como a conclusão apressada da polícia civil do Paraná. Mas apertar o gatilho, para este e outros crimes, com ou sem armas, é o último gesto de uma construção social que gera um cotidiano de muitas mortes, mas que nasce muito antes. Começa na subversão programada da democracia; na eleição de políticos que deveriam estar na cadeia; na adesão aos valores do nazismo e do fascismo; na exaltação às ditaduras; na celebração de torturadores; na estruturação de uma economia concentradora de renda e excludente; nos desvios de fins (não importam os meios); na desordem orquestrada do Estado para aumentar o roubo; na corrupção de todos os (podres) poderes; na adulteração de provas nos tribunais; na inversão de conclusões que acabam por condenar as vítimas; na hipocrisia de uma moral cheia de vícios; na desobediência à Constituição; na construção de jurisprudências aos interesses de classe; na falsificação de informações espalhadas nas redes sociais; na deformação dos valores éticos; nas agitações enganadoras nas ruas, a partir de 20 centavos; nas ameaças constantes de militares às instituições; na massificação da desinformação nos veículos de comunicação; na omissão de socorro aos mais necessitados; no destroçamento dos direitos trabalhistas; na perseguição a praticantes de religiões – sobretudo de matriz africana; na rejeição constante ao Estado laico; na louvação de uma cultura machista; na invasão às terras e ataques à soberania dos povos indígenas; na reiteração cotidiana do racismo estrutural; no achincalhamento e depreciação dos valores LGBTQIA|+; na intolerância à diversidade de valores e costumes; no menosprezo, opressão e agressão contra as mulheres; no projeto de uma educação ruim e alienante; na expansão de casos de racismo e misoginia; no desprezo aos direitos humanos; na indiferença às injustiças sociais; na insensibilidade das diante da dor alheia; no desinteresse para votar e aprovar as pautas mais humanistas; no desmonte da saúde pública; na audácia cada vez maior dos crimes de colarinho branco; na insensatez de destruir o planeta; na devastação da fauna e flora; na edificação de uma sociedade desigual; na aniquilação (inclusive física) dos adversários; na aposta perigosa em retrocessos. Tchutchuca do Centrão. Presidente inominável parte pra cima de influenciador do inominável. Caco Bisol


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| 10 | eleições

Crise de identidade. "Fui tratado como um criminoso", reclama véi da van. Caco Bisol


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| 11 | eleições

Voyerismo ou estupro da democracia? Militares querem filmar eleitores votando. Caco Bisol


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| 12 | fez-senews | moisés mendes

A fuga para Itaqui

O

golpe havia falhado. O gabinete ministerial estava reunido para decidir para onde Bolsonaro deveria fugir. Bolsonaro queria ir para Moscou, porque se acha amigo de Putin, mas Carluxo e a maioria insistiam que ele fugisse para o Paraguai. – No Paraguai, qualquer um vai me achar, imbecil – disse Bolsonaro, olhando para Carluxo. – E na Rússia os comunistas te entregam para o Lula – rebateu Carluxo. – Comunistas? – murmurou Augusto Heleno. Bolsonaro andava em círculos no gabinete, cercado de generais que haviam voltado pouco antes das ruas. Os tanques tinham sido cercados e dominados por 30 ciclistas do iFood. – Nós sabemos blefar sobre o golpe, mas não sabemos como aplicar um golpe – disse Flavio. E começou uma discussão sobre quem havia tido a terrível ideia de

transformar o blefe em golpe, mesmo sabendo que os ciclistas dominariam os tanques com facilidade. – Eles são mais organizados – disse Michel Jaburu Temer, chamado às pressas para escrever a carta da renúncia, que seria endereçada de novo a Alexandre de Moraes. Foi quando entrou na sala um ajudante de ordens com o disfarce que Bolsonaro deveria usar na fuga. Uma fantasia de tucano, dessas de espuma. Bolsonaro se negava a entrar na fantasia, que era uma ideia de Paulo Guedes. Sairia do Planalto vestido de tucano e entraria num helicóptero que o levaria para algum lugar seguro. – Tucanos não incomodam ninguém. Vão pensar que é o Aécio – disse Paulo Guedes, que deu uma gargalhada e foi fulminado por olhares de censura dos generais. Enfiaram Bolsonaro à força na fantasia esponjosa, com um rasgão na bunda, e continuaram o debate sobre a fuga.

– Com essa fantasia, você pode ir para a Disney – disse Guedes, às gargalhadas. Não aguentaram e retiraram Guedes da sala. Bolsonaro estava com o jeitão de caminhar do José Serra. Alguém sugeriu que o sujeito poderia ir para a Arábia Saudita, onde só tem bandido e Eduardo é amigo dos príncipes. – Mas eu não viveria nunca com uma burca na cara – disse Bolsonaro. Os generais se entreolharam, um deles disse para com isso, e no fim chegaram a um consenso. Bolsonaro deveria fugir para Itaqui, onde tem uma franquia da Gangue do Relho de Bagé. Mas quando estavam se preparando para sair em direção ao helicóptero, o Planalto foi invadido pelo povo. Bolsonaro correu para a porta dos fundos, como se fosse um desses bonecos mascotes do futebol, batendo as asas do tucano, e a gangue palaciana correu atrás. Corriam em direção ao helicóptero, com Bolsonaro à frente. Bolsonaro conseguiu subir no helicóptero. Sentou-se ao lado do piloto e ordenou: – Toca para Itaqui. O piloto era Nelson Piquet, com um capacete verde-amarelo, tentando imitar Ayrton Senna. Piquet olhou para o caroneiro e disse: – Te agarra no puta-merda, que lá vamos nóis. Foi quando Temer dependurou-se na porta, conseguiu entrar e sentou-se no colo de Bolsonaro. Lá do alto, os dois viram os tanques cercados pelas bicicletas dos entregadores do iFood na Praça dos Três Poderes.

Passaporte: o pardo Mourão se declara branco pra concorrer ao Senado no RS. Caco Bisol


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| 13 | mamatas

maringoni eugênio neves

General Paulo Sérgio Nogueira pede o código fonte das urnas pra ver se pode decidir quem vai vencer as eleições. Caco Bisol


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miguel paiva

| 14 | civilização&barbárie


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| 15 | nósotros

Marchas e contramarchas na AL

miguel paiva

Carlos Roberto Winckler

D

esde 2019 foram realizadas 11 eleições na América Latina. As eleições na Argentina, Bolívia, Equador, Peru, Chile, Colômbia tem aspectos que remetem à realidade política brasileira, que somada à reprimarização, financeirização, desindustrialização, pobreza, crise ecológica e desordem urbana nos aproximam, em contraste com o esforço popular e de governos progressistas na criação de modelos alternativos de desenvolvimento e cidadania. Um pesadelo assombra as noites de Bolsonaro no Palácio da Alvorada e de cúmplices nos desmandos ao longo do governo: a condenação à prisão de dez anos da autoproclamada presidente da Bolívia, Jeanine Añez, acusada de golpe contra Evo Morales com apoio de militares e de policiais. O ex comandante do Exército e o ex chefe da Polícia também foram condenados. Escapuliram. Outros foram condenados a penas menores. Restam pendentes crimes envolvendo

massacres de camponeses. Com a eleição de Arce do MAS, em primeiro turno, a Bolívia refaz a trilha de desenvolvimento soberano em um Estado Plurinacional. A eleição de Alberto Fernandes na Argentina, em primeiro turno, retomou de forma moderada o kirchnerismo, após os anos desastrosos de neoliberalismo macrista. Em que pese ter enfrentado com dignidade a pandemia, as dificuldades macroeconômicas legadas, a taxa de pobreza de 40% e as divisões internas no peronismo abrem perspectivas de retorno da direita em 2023 e talvez de maior presença da extrema direita que cresceu na cidade de Buenos Aires. No Equador, o candidato da “Revolução Cidadã”, Andrés Arauz, foi derrotado por Guilherme Lasso da direita neoliberal. Além da catástrofe sanitária, o desastre social. Crescem os protestos populares. A eleição de Pedro Castillo, no Peru, pelo Pátria Livre com um projeto reformista, em equilibrio parlamentar com as forças de direita, incluído o extremismo fujimorista, desencadeou, desde sua posse, ações de bloqueio com mudanças

sucessivas de ministérios e tentativas de derrubá-lo segundo as normas da Constituição de 1993 da ditadura de Fujimori. Hoje é um governo que recua em seu programa, o que levou ao rompimento do Pátria Livre com Castillo. No Chile, Gabriel Boric, da coalizão de esquerda Apruebo Dignidad venceu, por escassa margem em segundo turno, José Kast da Frente Social Cristã , de extrema direita, que elegeu representantes para a Câmara. Tanto no Senado quanto na Câmara há equilíbrio de forças, mostra da capacidade de sobrevivência de forças políticas, que foram superadas na Convenção Constitucional pela lógica de renovação impulsionada pelos movimentos calejeros de 2019-2020. A nova Carta Constitucional, com ecos das constituições do Equador e Bolívia, será submetida à aprovação popular em setembro e enfrenta forte resistência de setores do sistema partidário tradicional que fazem campanha pelo Não. Pretendem dar continuidade à reformas da Constituição neoliberal de 1980. O avanço da reforma da saúde, da previdência, do sistema tributário depende da aprovação da nova carta. Por enquanto o governo age nas margens com forte desgaste popular. Na Colômbia Gustavo Petro, do Pacto Histórico, derrotou o candidato outsider de direita Rodolfo Hernández. Apesar da fragmentação partidária Gustavo Petros terá maioria de centro esquerda no Congresso, o que facilitará a aprovação de reformas distributivas, efetivação de politicas ambientas e de energias alternativas. A resistência virá da extrema direita e de grupos paramilitares envolvidos com o narcotráfico. Relações com a Venezuela e Cuba serão retomadas. Tempos de incerteza.

"Atiro para matar". Frase de quem não tem coragem sequer de atirar de raspão no próprio dedo mindinho. L. Hespanha


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| 16 | inflação

jorge o mau

cival einstein


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| 17 | inflação

nani, espanha

ahmed mansour, egito

escobar, argentina


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| 18 | querquedesenhe? | schröder

O golpe é a palavra golpe

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ai ter golpe? Já está tendo. Se vai dar certo ainda não sabemos, mas está em andamento o golpe do miliciano, em continuidade ao golpe do Jucá e do Temer. Enquanto o golpe de 2016 foi um golpe clássico dos novos tempos, sem quartelada ou tanques na rua, este em andamento ameaça recorrer às ferramentas terroristas de 1964. O golpe de 2016, contra Dilma Roussef, estava dentro do modelo da guerra híbrida que havia promovido as “primaveras” árabes e dos Balcãs, assim como as do Paraguai e Honduras, onde a articulação golpista se deu pela mídia, com os poderes parlamentar e judicial. O golpe miliciano se parece mais com os movimentos de Trump onde a violência fica à mão, caso se deseje usar. O golpe em andamento usa como principal ingrediente o medo do próprio golpe, aposta na inércia sonâmbula da sociedade, assim como repousa numa assustadora

crise de racionalidade. As novas tecnologias, que prometeram, e alguns acreditaram, a democracia da informação e a universalização da cultura, entregaram, na verdade, o fundamentalismo religioso e o negacionismo científico. A crise terminal do capitalismo produziu a sua negação, não como o esperado socialismo humanista, mas como um retrocesso histórico a um neo-feudalismo racista, homofóbico e misógino onde o acúmulo da riqueza volta a uma minoria aristocrática com direitos divinos. Timidamente e talvez tardiamente a sociedade, para além da esquerda e seus partidos, reage. O Manifesto Pela Democracia e Pelo Estado de Direito foi uma potente ação reativa que não sabemos ainda o seu resultado. Não sabemos se a FIESP embutida na carta será o suficiente para frear a sanha golpista que já entusiasma militares de pijama ou com compulsão patológica por leite condensado.

Pixs Bolsonaro e Michele podem ter flertado com o perigo ao almoçarem com Guilherme de Pádua. Vá que surjam ideias durante o repasto. Chamar Putin de mentiroso por não avisar da invasão da Ucrânia é o mesmo que achar que Eisenhower e Montgomery são mentirosos por sugerirem que a invasão da Normandia seria por Calais. O rapidíssimo 5G levará 2 anos, no mínimo, para chegar às capitais brasileiras. Caberá ao jornalista decidir se o jornalismo é relevante ou não e se sua profissão deverá desaparecer ou não. As empresas já decidiram que não é relevante e que dispensam os jornalistas. O resultado? Buenas, o bolsonarismo é o mais visível. Finalmente um repórter da Globo News alerta que a redução pontual da inflação não é deflação como insistiram dezenas de jornalistas que reproduziram os releases bolsonaristas. A inflação anual, disse o repórter, está em 7%. Uma das coisas que aprendi com o cinema estadunidense é que se um sujeito falar com a manga dele, ele é agente secreto. Clubes de tiro poderão ser as células terroristas da milícia..


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| 19 | cartum | saul steinberg

Saul Steinberg (1914-1999), foi um dos grandes nomes das artes gráficas. Romeno-norte-americano, era a grande estrela da importante revista The New Yorker, por onde passaram os maiores escritores do século 20. Seus cartuns e as espetaculares capas para revista influenciaram dezenas de artistas ao redor do mundo. No Pasquim, Millôr Fernandes, Jaguar, Fortuna eram seus notórios seguidores.


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| 20 | sócartum

marghe allegri, itália

oguz gurel

elena ospina, colômbia


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| 21 | sócartum

marziehkhanizadeh

musa gümüş.

oguz gurel, turquia

ahmed nansour, egito


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| 22 | cultura

Sirmar Antunes (1955-2022)

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o dia 6 de agosto morreu o ator gaúcho Sirmar Antunes. Aplicado trabalhador do cinema, atuou em mais de 40 filmes, entre curtas e longas metragens. Aqui, foi dirigido por Henrique Feitas Lima (em Lua de outubro), Jorge Furtado e José Pedro Goulart (O dia em que Lourival encarou a guarda), Paulo Nascimento (Valsa para Bruno Stein), Tabajara Ruas (Netto perde sua alma, Netto e o domador de cavalos, Os senhores da guerra e A cabeça de Gumercindo Saraiva). No ano passado, foi premiado no Festival de Cinema de Gramado. No dia 10 de dezembro do ano passado, após uma inesperada cirurgia, Sirmar deixou um recado tranquilizador num restrito grupo de whats envolvido com a exposição Pretos na Tela - fotos de Dulce Helfer clicando atores negros nos filmes do escritor e cineasta Tabajara Ruas: "agora estou no time dos caras que andam no passo certo" brincou, fazendo analogia a um marcapasso. "Coloquei um desfibrilador, para controlar a arritmia. Estou bem e pronto pra outra". Estava otimista. Não deu tempo, porém, para usufruir, no dia 9 passado, da homenagem prestada em Porto Alegre ao cineasta. Sirmar fez com ele quatro longas, ganhou vários prêmios, entre os quais o de melhor ator em "Neto perde sua alma", no festival de cinema de Brasília, em 2001. Sirmar morreu três dias antes, no dia 6. Ao receber a notícia da norte do colega e amigo, que participou em todos seus filmes, o diretor Tabajara Ruas escreveu: "Sirmar, meu velho, quando nos encontramos naquele meio dia, na Praça da Alfândega, eu não sabia direito nem teu nome. Tu explicou que me contatou porque ia fazer um curta baseado num texto meu,

e que os meninos que iam dirigir o filme eram bons moços, talentosos e tal, mas ele queria trabalhar o personagem através da visão de uma pessoa mais madura e tal e coisa. Desde esse tempo eu já era um veterano, e isso faz muito tempo. Bueno, depois eu também comecei a fazer filmes e nos encontramos muitas vezes, no set ou longe dele. Agora há pouco fiz 80 anos e tu, agora há pouco, bateu as botas. Eu também vou bater as minhas daqui

a pouco. Quem sabe eu alcanço vocês dois, tu e o Léo Machado, descendo aquela coxilha e também desapareça naquela nuvem. Mas isto está virando literatura sentimental. Não é nosso estilo. Nem do Léo. Sabe o que, mano véio? Vamos em silêncio, a trote, descendo a coxilha, até desaparecer. E o resto que se foda." Tabajara Ruas

[NR: Léo é o também ator gaúcho Leonardo Machado, falecido há quatro anos, com quem Sirmar contracenou em A cabeça de Gumercindo Saraiva]


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| 23 | gafieira

Era só pra relaxar

(Ronaldo Barcellos da Silva e Serginho Madureira)

Era só pra relaxar Mas ele se embriagou Não era de vacilar Mas vacilou Chegou no samba empolgado Cheio de amor pra dar Feito um príncipe encantado Tirou todas pra dançar Meteu a mão no pandeiro Alegrou meu pagode lá no Irajá Até ai tudo certo, ninguém tinha nada dele pra falar Até misturar cerveja, whisky e batida de maracujá Era só pra relaxar Mas ele se embriagou Não era de vacilar Mas vacilou (laraiá) No auge da festa o cara já tinha bebido adoidado Bem descontrolado Mexeu com a mulher do doutor delegado Garrafa quebrando, cadeira voando E ele saindo algemado Chegou na cadeia e logo de cara ele foi bulinado Dormindo em pé Com um medo danado de ser molestado Quem não sabe beber tem que aprender Pra não ver o sol nascer quadrado.

Estatutos da gafieira (Billy Blanco)

Moço Olha o vexame O ambiente exige respeito Pelos estatutos Da nossa gafieira Dance a noite inteira Mas dance direito Aliás Pelo artigo 120 O distinto que fizer o seguinte: Subir na parede Dançar de pé pro ar Debruçar-se na bebida sem querer pagar Abusar da umbigada De maneira folgazã Prejudicando hoje O bom crioulo de amanhã Será distintamente censurado Se balançar o corpo Vai pra mão do delegado


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PALAVRAS DA SALVAÇÃO O problema de ter uma saúde de ferro é que, algum dia, ela enferruja... O inverno gaúcho saiu do armário e se revelou uma bichíssima primavera. Bah, ontem foi o Dia do Orgasmo e eu perdi. Agora, só no ano que vem... O bar do Renato não serve café, porque misturar bebidas faz mal. Tá piorando na casa grande. Até quem pode comer carne em churrascaria rejeita o Bozolento. Vamos ajudar a CEEE Equatorial a encontrar o Caminho da Luz. Governo pagou auxílio emergencial a 135 mil mortos. Que gente viva, hein? Preso 1 - Hoje é dia da mulher. Preso 2 - 8 de março? Preso 1 – Não. Dia de visita íntima! Vovó comeu 12 bananas e subiu no coqueiro do quintal. O médico acha que é varíola. - Vamos jogar general? - Vamos. Onde? - Pela janela.

| 24 | diaborosa | bier

CHIMIA MUNDI

BAR DO NEREU

Cro-magnon, Erectus, Habilis, E pelo mais que se Sapiens O Neanderthal pegou uma guria

epois de pagar a conta, o Moah avisou que ia procurar uma carona. Nisso, lembrei dum causo antigo. Foi no verão de 1983, tarde da noite. Eu viajava de carona com um cara que ia pra Torres. Paramos numa birosca pra comer. Tinha uma oferta de inúmeras pingas de brinde pra quem fosse jantar. Era mistura com butiá, mestruço, jabuticaba, coquinho, funcho, laranja, cidreira, o diabo. Entramos, sentamos e o cara me diz o seguinte:

Romano, fenício, turcomano, Japonês, afegão, castelhano, Vem de longe tamanha alquimia Alemão, português, jordaniano, Cossaco, javanês, australiano, Um sudanês comeu minha tia Argelino, francês com italiano, Dinamaquês com moçambicano Todos cruzando e fazendo cria A verdade é que o ser humano Nas misturas vai-se encontrando E viramos uma enorme chimia Não se impaciente. A posteridade só chega no dia do velório. Você já viu algum político baixar hospital durante uma crise de cleptomania?

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- Olha só que véia feia, desdentada, rindo pra nós. Bebemos de tudo, comemos e eu fui dormir no carro. O parceiro ficou na mesa, disse que ia ver televisão. Acordei sozinho. Quando entrei no bolicho pra pedir um café, tava lá o companheiro tomando o seu. Perguntei se tava tudo bem. Ele falou que não. E completou: Acordei do lado da véia.


| Carlos Castelo e Bier

Laerte

MORGANA, A BRUXINHA Celso Schröder

RANGO Edgar Vasques

| 25 | tiras


| BLAU Bier

BIOMA PAMPA Celso Schröder

André Dahmer

Lu Vieira

| 26 |

tiras


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| 27 | entrevero

O Brasil começou com um roubo aos indígenas. E, pelo jeito, vai acabar com um assalto aos cofres públicos. Carlos Castelo

Fakeada: golpe falso para ficar com a faca e o queijo nas mãos. Carlos Castelo Querem promover o caos para intervirem militarmente. Mais caos? Carlos Castelo Resumo do Brasil: tudo que é bom tá menos, tudo que é ruim tá mais. Celso Vicenzi O problema não é o que o tosco presidente faz. Mas o que as instituições que deveriam puni-lo por seus crimes e tirá-lo de lá, por tudo que já fez e desfez, não fazem. Celso Vicenzi

O que fazem um general e um coronel para ganhar tanto? E você aí, sargento, cabo? Ganha quanto? Luiz Hespanha

O general, turista e candidato acidental conseguiu inovar na área do racismo abjeto: criou o índio de alma branca. Luiz Lanzetta

Roberto Jefferson, em prisão O desemprego é tão grande que não domiciliar, quer disputar a presidência se emprega mais o termo emprego do Brasil. Por acaso, o anúncio foi em Carlos Castelo cadeia? Celso Vicenzi Um ontem está valendo dois hoje. Carlos Castelo

Estamos num mundo em que nem os pobres merecem a Os genocidas sua pobreza, nem os ricos a armamentistas só contam sua riqueza. (...) mentiras de grosso calibre. Os ricos não só causam Carlos Castelo e aprofundam a pobreza, Campanha eleitoral como ensinam os pobres a Algo me diz que a Micheque saiu na lamentar as causas. Ladislau Dowbor

Os comícios de Bolsonaro terão uma participação muito especial: a faca gravou um depoimento emocionante que será exibido até o final da campanha. Luiz Hespanha Ciro Gomes perdeu meu voto para vereador em Chantilly nos arredores de Paris. Uma amiga falou que há vaga de síndico profissional no prédio em que ela mora por lá, mas adiantou que Ciro não tem a menor chance. Luiz Hespanha

Miliciamos no poder

chuva pra se queimar. Tarso

Queiroz candidato a deputado no RJ. Bandido bom é bandido candidato. Celso Vicenzi

Exposição Quem tem telhado de vidro não deve andar nú/nua pela casa. Tarso EUA, Otan e União Europeia, imbuídos de valores cristãos, estão dispostos a enviar à Ucrânia a bomba da paz. Celso Vicenzi TSE espero que seja a sigla de Tribunal Sem Exército, mas com a pressão cada vez maior dos militares pode se transformar em mais um Tribunal Sem Esperança. Celso Vicenzi Se um dia Marte for habitado, nos livraremos de todos os capitalistas e bolsominions. Afinal, o planeta deles jamais será vermelho. Celso Vicenzi Com as pesquisas, o Ciro ficou igual ao menino com o dedo no buraco da represa para ela não romper. Luiz Lanzetta


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| 28 | entrevero

É um governo que, em vez de projetos, tem projéteis. Carlos Castelo

DICIONARIO

CASTELO

Depois que se mata uma floresta não é possível desmatá-la. Carlos Castelo

DA LÍNGUA PORTUGUESA

Comer boi deixou de ser carne de vaca. Carlos Castelo

BÍBLIA Porção de parábolas cercada de provérbios por todos os lados. BRASIL A Idade Média na Idade Mídia. CASAMENTO Período posterior ao noivado e anterior ao divórcio. CELULAR A ferradura do homem contemporâneo. DELE-GADO Funcionário bolsonarista que chefia a atividade policial em determinada localidade. DODECAFONISMO Música clássica brega. V. Richard Clayderman. DOSSIECRACIA Sistema de governo no qual se faz a gestão de um país ameaçando adversários com dossiês comprometedores. ELON MUSK Comorbidade do capitalismo. EMPRESÁRIO BRASILEIRO Alguém que acredita muito no país, mas manda o filho estudar em Boston. ESTRUMENTISTA Músico de merda. ÍNDIO Pessoa em situação de floresta. INTERMEDIÁRIO O que não é parte da solução, nem parte do problema. POLÍTICO Ser com duas pernas e seis mãos. PSICANALISTA Intermediário entre o inconsciente e a conta bancária do analisado.400+1 VIDA Período em que se sente medo da morte.

Um pensamento que valeu em 2018, que não há de valer este ano: nem só peido é prenúncio de uma cagada. Eleição também pode ser. Mouzar Benedito

Se a voz do povo é a voz de Deus... o demônio voltará pra seu lugar brevemente. Mouzar Benedito

Morreu de uma queda. De padrão de vida. Carlos Castelo É tanto desemprego que as mulheres não conseguem nem entrar em trabalho de parto. Carlos Castelo Caráter passou a ser facultativo no Brasil. Carlos Castelo Se o mundo continuar com toda essa insensatez nem vamos precisar de meteoro. Celso Vicenzi Empreendedorismo Se eu vir um general catando palitos de fósforo na calçada, irei imitá-lo. O general Walter Braga Netto, candidato a vice presidente com Bolsonaro, em dois meses conseguiu juntar R$ 926 mil em salários e férias. O também ministro e general Luiz Eduardo Ramos, entre julho e setembro de 2020, encontrou R$ 732 mil. Já o almirante Bento Albuquerque, achou mais de R$ 1 milhão em dois meses. O salário de general, bruto, é de R$ 31 mil. O teto do funcionalismo público é R$ 39.293,32. Devo estar catando no lugar errado. Tarso

Por Carlos Castelo

manhã ortiz

A carne tá tão cara que vão acabar dizendo que camarão é comida de pobre. Celso Vicenzi 7 de setembro. Mais uma armação das Forças Armadas. Carlos Castelo Brasil 2022. Escassez de pão, excesso de circo. Carlos Castelo

Isso não é governo, é um atentado ao pudor. Carlos Castelo

Pra dar certo essa aliança do Lula, só com muita alckmia! Celso Vicenzi


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| 29 | entrevero

Vargas Llosa prefere a ostentação e a opulência ao combate à desigualdade, prefere a proximidade limpinha do fascismo à Democracia. Llosa tem lado: o das escolas, bibliotecas, educação e cultura para poucos. Luiz Hespanha

Função do Exército É defender a nação? Nada! É melar eleição. Oh Bozo, que o povo detestais! Em especial no STF e no TSE Tem um careca que odeias mais.

Eleitor de Bolsonaro em São Paulo que vestiu verde amarelo e foi à Paulista lutar em defesa da família e contra a corrupção já sabe: vai votar no Eduardo Cunha, talkey? Luiz Hespanha

Volta e meia Ele esperneia: Medo da cadeia!

Com as pesquisas, o Ciro ficou igual ao menino com o dedo no buraco da represa para ela não romper. Luiz Lanzetta

A Fiesp! Até ela! Nunca pensei que estaríamos do mesmo lado.

Freud explica. Quando dá pau no computador geralmente é problema com a placa-mãe! Celso Vicenzi

Se me virem abraçado com uma bolsonarista, separem; é briga! Mouzar Benedito

Se vivesse no 1º Reinado, o exministro do STF, Marco Aurélio Mello, apoiaria D. João VI e não D. Pedro. Na Proclamação da República, somaria com D. Pedro II e não com Deodoro. Marco Aurélio é um eterno dissidente radical de fraque, cartola e bengala. Luiz Hespanha Lembra do filme "Que horas ela volta?". Ano que vem estreia "Que horas ele vai preso?" Luiz Hespanha Nunca tantos golpistas empedernidos viraram em tão pouco tempo democratas j uramentados. Dilma Roussef sozinha lotaria de dignidade mais de 70% do Salão Nobre da Faculdade de Direito da USP. Luiz Hespanha Eu que já estava arrasado, à beira de me jogar do penhasco da inutilidade, com a briga entre Simone e Simária, sou surpreendido com esse MMA entre Carla Zambelli e Janaína Paschoal. É muito sofrimento, gente. Luiz Hespanha

Mouzar Benedito

Senador vitalício? Prisão vitalícia, Papuda vitalícia e Bangu vitalício soam bem melhor. Luiz Hespanha Queiroz é candidato no RJ. O lema, pelo menos, é coerente: "lealdade de verdade". E diz que vai combater a corrupção. O Brasil não é para amadores... Celso Vicenzi Se o submundo do crime é essa degradação, imagina o sobremundo. Carlos Castelo

Bolsonaro não aplaudiu o discurso de Alexandre de Morais porque pensou que já estava algemado. José Simão

No Brasil, ricos e poderosos costumam escapar das "malhas da lei". Tá na hora de trocar o fornecedor das malhas. Celso Vicenzi Sai pesquisa, entra pesquisa e Ciro Gomes e Simone Tebet permanecem no modo estátua com pombos sobrevoando. Luiz Hespanha

Bispo Macedo, que cara-de-pau! Diz aos crentes que Deus quer Que deem seus bens à Universal! Fanática teatral e hilária Me remete à peça teatral Bonitinha mas ordinária. Cuscuz, boa comida! Mas tem aqueles Que pensam com eles... Fingindo-se devoto O falso messias Tem medo do voto Brasil, que já foi fecundo, Espero que saia logo Da situação de moribundo. Esperança, meu bem, De um carnaval No mês que vem!

Mouzar Benedito


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| 30 | borracheiro&exorcista | ernani ssó

Magliani contra a mula sem cabeça

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omo E. S. gosta de aventuras eletrizantes, tempos atrás foi à Fundação Iberê Camargo ver a exposição da Magliani. Saiu meio zonzo, pensando em pintores de folhinha e na Mula Sem Cabeça, em toalhas de praia e na Beth Hart. Na rua, o trânsito e um Guaíba límpido de prata, como se não fosse podre, atrapalharam a lembrança de uma tarde de 1975. Mais uma vez, logo na primeira sala, E. S. comprovou com uma alegria sardônica que o realismo é uma superstição braba, tipo a Mula Sem Cabeça. Se houvesse mais quadros como os da Magliani, talvez algumas pessoas perdessem o medo da Mula Sem Cabeça. Trata-se de um remédio amargo, sim. Mas está provado que água com açúcar faz mal e que os pintores de folhinha, desde a invenção da fotografia a cores, perderam o emprego. No último verão, depois de dois anos trancado em casa, E. S. foi ver o mar, ansioso como quando foi pedir a primeira menina em namoro. Foi problemático, digo, o verão – muito nordestão e Beth Hart. Mas, numa manhã especialmente luminosa, viu uma moça bonita com uma tolha que tinha uma estampa que lembrava um quadro do Mondrian. Quem se bronzearia sobre um desenho da Magliani? Talvez o desenho se imprimisse no corpo, numa tatuagem invisível. Talvez a pessoa até passasse um creminho nela, nos dias em que arde, chama acesa por fósforos obscuros. Ao lembrar da Beth Hart, E. S. lembrou da Amy Winehouse. O Ivan Lessa disse, sobre a Amy, que conhecia aquela voz, que já tinha visto aquele filme e que ele não acabava bem. Sim, não acabou. Beth Hart andou perto de não acabar bem. To-

magliani

mara que continue sobrevivendo. E. S. pensa nessas coisas porque o que essas vozes despertam nele são coisas muito parecidas com as despertadas pelos traços e cores da Magliani. O olhar da Magliani raspa o invólucro plástico da, que remédio, realidade e bota em foco sombras confusas se contorcendo. O preço que a Magliani pagou por essa lucidez terrível não foi pequeno, certamente. Mas o que a gente paga, diante da obra da Magliani, é muito menor.

E. S. conheceu a Magliani, na redação da Folha da Manhã, em 1975. Sempre muito loquaz, disse galantemente pra ela: oi. Isso foi tudo, mas o ar ficou prenhe de possibilidades. A Magliani tinha ilustrado um conto dele. O conto, o monólogo de um gato de solteirona, era coisa de adolescente metido a esperto e saiu com um recorde de erros de revisão – por isso E. S. não guardou um recorte. O idiota não lembrou da ilustração.


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| 31 | artesdrásticas | edgar vasques


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