GRIFO 24

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Nº 24 01-30 JUN 2022

ENTREVISTA

Gilmar Mauro, da coordenação do MST

JORNAL DOS CARTUNISTAS DA GRAFAR

PÁGINA 8

CAPITALISMO PREDADOR

BRUNO

D O M

MEGACORPORAÇÕES C H I C O M E N D E S

ASSASSINATOS D O R O T Y S T A N G

C O R R U P Ç Ã O |R O U B O 2074 VIDAS INDÍGENAS

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MARIELLE ANDERSON

C H A C I N A S POSSEIROS RIBEIRINHOS

F O M. E | D E S E M P R E G O SEM TERRA ASSENTADOS

G E N O C Í D I O Q U I L O M B O L A S

EvaldoRosadosSantosMoïseKabagambeGenivaldoSantosAmarildoDiasdeSouzaJoãoAlberto JoãoPedroMatosPintoGuilhermeGuedesIgorRochaRamosÁgathaVitóriaSalesFélixKatlenRomeu


Enterraram nosso coração na curva do rio

A

ssim como no genocídio de índios e extermínio de bisontes no Oeste estadunidense, o que está em andamento no Brasil é a radicalização de uma política de ampliação geográfica de fronteira agrícola e mineral com todo o resto de estupidez, contrabando, assassinato e ganância que vem junto. A ausência do estado e da lei não é uma contingência, ao contrário é a forma que o capitalismo predador encontrou para se instalar. Por isso matar Bruno e Dom não bastava, era necessário esquartejá-los, eviscerá-los e “escondê-los” num lugar que pudessem ser encontrados para que o ciclo do medo se completasse. Assassinos desimportantes que confessam seus atos numa simples conversa com a polícia é tão verossímil quanto notas de três reais. A polícia federal endossar a história da carochinha é um sintoma perigoso que exige imediata intervenção. A ameaça ao estado brasileiro não é velada, ela é gritada aos quatro ventos principalmente por quem deveria, constitucionalmente, proteger a nação. A Amazônia, equivalente a vários países da Europa está tomada por um exército criminoso de ocupação comandado a partir de Brasília e com as forças de segurança regulares como cúmplices. Precisamos que a memória de Bruno e Dom, a partir daquela curva do rio, resgatem o Brasil. O Grifo trata disto, principalmente, neste número 24. Com análises contidas na entrevista do líder sem-terra Gilmar Mauro e muitas charges e cartuns nosso jornal se junta ao grito nacional de dor e raiva. Por outro lado, olhamos para o futuro e para a tentativa da destruição do estado nacional brasileiro. Jeferson Miola, José Álvaro Cordeiro e Luiz Hespanha nos ajudam nesta prospecção esperançosa, mas ao mesmo tempo realista. Winckler e Eugenio Neves não descuidam do mundo onde vivemos e, com a lupa da complexidade, nos ajudam a decifrar esta terra que não é plana. Miguel Paiva, Ernani Ssó e Bier nos brindam com o humor necessário e sua história. E tem mais, muito mais. Desfrutem!

O GRIFO do Schröder

Grifo, jornal de humor Desde outubro de 2020. Eletrônico, mensal e gratuito. Editores: Celso Augusto Schröder e Paulo de Tarso Riccordi. Editor gráfico: Caco Bisol Mídias sociais: Lu Vieira Participam desta edição: Acre: +Chico Mendes Brasília: Kleber Ceará: Cival Einstein Minas Gerais: Duke Paraná: Benett Paraíba: Fred Ozanan, Vital Farias Pernambuco: Thiago Lucas Rio de Janeiro: Aroeira, Carol Cospe Fogo, Lafa, Latuff, Máximo, Miguel Paiva, Nando Motta, Nei Lima, Nett, Rio Grande do Sul: Alf, Alisson Affonso, Bier, Carlos Roberto Winckler, Edgar Vasques, Edu Oliveira, Ernani Ssó, Eugênio Neves, Gilmar Eitelwein, Graça Craidy, Jeferson Miola, Juska, Kayser, Rafael Corrêa, Rodrigo Schuster, Santiago, Schröder, Tarso, TunikoK, Uberti Santa Catarina: Andrea Honaiser, Celso Vicenzi, Eloar Guazzelli, +Frank Maia, José Álvaro Cardoso São Paulo: Bira Dantas, Caco Bisol, Carlos Castelo, Céllus, Dálcio Machado, Fabiane Langona, Gilmar Machado, Jota Camelo, Laerte, Luiz Hespanha, Mouzar Benedito, Pedro Rocha E MAIS: Argentina: Adão Iturrusgarai, Mate-Matias Tejeda Cuba: Brady Izquierdo, Michel Moro Gomez Itália: Laura Zuccheri, Lu Vieira México: Angel Boligán, Cintia Bolió Turquia: Engin Selçuk, Musa Gümüş, Oguz Gurel

Expediente

editorial

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CLIQUE AQUI E ENTRE NO GRUPO 1 CLIQUE AQUI E ENTRE NO GRUPO 2 CLIQUE AQUI E ENTRE NO GRUPO 3 Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta. Vital Farias.


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Destruição e morte na floresta

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ão há mais nenhum ser humano sensato que duvide da ameaça sobre a vida na Terra, diante da destruição da Amazônia. Nem nos EUA! – mas aí tem coisa... Em 1862, Abraham Lincoln, então presidente americano, assinou o chamado Homestead Act (Lei do Povoamento), promovendo a marcha para o oeste. Na época, difundia-se por lá a teoria do Destino Manifesto. Em síntese: eles teriam sido escolhidos por Deus (ninguém menos), para formar uma grande nação. Pronto: com Deus como capa preta, incentivo do governo e armas de fogo, deu-se uma invasão devastadora das terras indígenas (bem mais tarde, ganharam fortunas com westerns ricos em matanças de nativos). E aqui? Os

gringos de um lado, Bolsonaro de outro, o que será de nós? Para esta saga da amazônia, entrevistamos Gilmar Mauro, um dos dirigentes do MST, que propõe: fim do desmatamento já. Para o mesmo assunto, Grifo pediu a brilhantes profissionais nacionais e internacionais do desenho um olhar sobre a região. Nenhum deles gostou do que viu. ilustração de Guazzelli

No lugar que havia mata, hoje há perseguição. Grileiro mata posseiro, só pra lhe roubar seu chão. Vital Farias.


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Mata verde, céu azul, a mais imensa floresta. Vital Farias.


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Sorria o jurupari, uirapuru, seu porvir. Era fauna, flora, frutos e flores. Vital Farias.


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Dácio Machado

Veio caipora de fora para a mata definhar. Vital Farias.


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Altamira emite mais gases que a cidade de São Paulo

Os maiores emissores de gases de efeito estufa são municípios do Pará. Participaram desta entrevista Caco Bisol, Gilmar Eitelwein e TunicoK.


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Não poucas vezes, os mesmos que controlam o agronegócio são os mesmos que controlam os processos de mineração.

Em 1908, Euclides da Cunha anotava, sobre a obra Inferno Verde, de A. Rangel, que ...a Amazônia é a última página ainda a escrever-se, do Gênesis". Não é mais. O assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips trouxe à luz, da escuridão da floresta e de uma só vez, um rol de assassinatos cometidos ali rotineiramente, às claras – árvores, solos, bichos, gente – enquanto a boiada passa. Nesta entrevista exclusiva ao Grifo, Gilmar Mauro, da coordenação do MST, dá nome aos bois e sugere o caminho para o início do fim desta matança desenfreada.

Tunicok - Milhares de hectares de floresta arrasada para entrada de soja e gado, tráfico, mineração desenfreada, miséria, destruição de aldeias, assassinatos... a Amazônia estará em vias de extinção? Gilmar - Toda a lógica da produção de commodities faz uma pressão brutal sobre o uso do solo. Vou dar um exemplo simples: sabe quanto de fruta se utilizada num sorvete? 4%. Se fossem exigir que usassem 20% de fruta já imaginou a quantidade de fruta que daria pra produzir? Ou seja, essa lógica precisa ser mudada. Veja o arroz: tínhamos o plantio de 2,7 milhões de ha. Em 2021, 1,5 milhão; para 2030, a previsão do agronegócio é de 641 mil ha. Feijão: eram plantados 3,6 milhões de ha; em 2009, caiu para 2,7 milhões; a previsão para 2030 é de 1,5 milhão. Agora o soja: era 23,5 milhões de ha em 2009, subiu para 39,6 milhões em 2021 e eles preveem plantar 49 milhões em 2030! Isso é importante relatar porque este ano corremos o risco de ter que importar feijão. Há uma intensificação do uso do solo de forma brutalizada e a diminuição na produção de produtos internos. Isso resulta em fome. Até do ponto de vista macroeconômico: quem produz para o mercado interno não é livre de taxações e quem exporta é isento de qualquer tipo de taxa de exportação. No Brasil não está faltando apenas chips pra indústria automotiva, tá faltando minério de ferro, tá faltando aço pra produção de carros. Mas como falta aço no Brasil, que é um dos maiores exportadores mundiais do produto? Tá faltando borracha, tá faltando resina. Essa lógica de priorizar o mercado internacional, a venda em dólar e o fato de não precisar pagar impostos de exportação acaba provocando um desequilíbrio até macro econômico, porque os setores voltados ao mercado interno dificilmente conseguem competir com o mercado internacional de exportação. E o agronegócio é setor voltado para a exportação. Não poucas vezes, os mesmos que controlam o agronegócio são os mesmos que controlam os processos de mineração. Pega por exemplo o Pará: 52% do que é produzido lá é exportado. E o Pará não fica com nada. Por quê? Porque não tem imposto sobre exportação. Se for aprovado o projeto de lei da grilagem, 65 milhões de hectares de terras da Amazônia serão repassados para fazendeiros e grupos econômicos. Tunicok - Para mais derrubada de florestas, gado, efeito estufa... Gilmar - Têm cidades da região, como Altamira (PA), que emite mais gases que a cidade de São Paulo. Os maiores emissores de gases de efeito estufa não são São Paulo nem Rio de Janeiro. São municípios de lá. Tunicok - Mudando o foco: o caso de Dom Phillips e Bruno Pereira, com repercussão internacional, pode ter reflexo na política interna? Gilmar - A verdade é que cotidianamente morrem muitos indígenas e quilombolas naquela região. E destrói-se o bioma que é tão importante pro Brasil e o mundo. Mas nós estamos vivendo sob um governo que estimula isso. A própria fala do presidente sobre o tema é uma fala brutalizada; em função disso, está perdendo parte do eleitorado. As questões das mortes pela Covid-19 foram tratadas com desprezo, assim como o desaparecimento de

Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar. Vital Farias.


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A destruição da Amazônia não tem volta. Mesmo ” que a gente quisesse refazer aquela floresta dificilmente seria possível, inclusive por causa dos minerais existentes que impediriam a sua reconstituição. Dom e Bruno, culpando-os até por terem ido à região e dizendo que o desaparecimento lá é normal. Quer dizer, o Estado e o Exército brasileiro, responsáveis por aquela região, não dão nem segurança para os povos da floresta. Pelo contrário, abriram as portas para as queimadas e a extração de minérios. Caco - A política de destruição do presidente Bolsonaro parece muito clara. Gilmar - Basta ver os dados do INPE sobre os focos de incêndio a partir de 2019, que se intensificaram com uma enormidade nunca vista. E a tentativa é justamente esta: a destruição de parte da floresta para depois ser abocanhada para ser utilizada como parte da fronteira agrícola sob o ponto de vista de venda de commodities. Tunicok - O que deve fazer um novo governo que queira alterar essa situação? Gilmar - Penso que é possível alimentar toda a humanidade de forma agroecológica. Evidente que precisamos de novas tecnologias, voltadas a redução da penosidade do trabalho agrícola, principalmente na pequena agricultura. Mas é preciso também uma mudança nos padrões e na cultura alimentar. Hoje, quatro produtos conformam 60% da produção alimentar: soja, milho, trigo e arroz. Mesmo na idade média a população se alimentava com quase mil tipos de produtos diferentes. Mas à medida em que esses produtos são centralizados em grandes conglomerados econômicos, além de criar uma brutal concentração de renda e riqueza, geram fome, miséria e doenças como colesterol alto, obesidade, diabetes... Mais do que um programa de governo, este é um debate com a sociedade brasileira que precisamos fazer. Mas, pra alimentar todo o planeta de forma agroecológica, é preciso trabalhar a ideia de que a terra e a água são recursos naturais e serem transformados em patrimônio da humanidade. Achamos que a terra não deveria ser uma mercadoria a ser vendida. Estamos enfrentando isto neste governo, que quer titular a terra; nós defendemos a titulação, a cessão legal de uso, passar de pai pra filho, mas apenas aquilo que produziram e, não, a terra. A reforma agraria entraria neste contexto. Não é uma reforma agrária distributiva produtivista ao estilo clássico. Esse modelo ficou pra trás, não cabe mais. Ela deve repensar toda a estrutura da produção agropecuária de forma planetária. Tunicok - O aumento da produção não significa, necessariamente, o aumento da produtividade. Desmata-se a Amazônia pra aumentar a plantação de soja e a criação de gado? Gilmar - Sem dúvida nenhuma, principalmente a criação de gado. Se você pegar alguns municípios do Pará é só soja também; mas em toda a região que envolve Mato Grosso, Pará, Piauí, Bahia (norte) se expandiu enormemente a

produção de soja e de milho, principalmente soja. Mais ao norte, principalmente a região amazônica, é a criação de gado, porque a carne também é comercializada internacionalmente. Isto causa um impacto brutal porque temos não apenas a destruição da floresta; a produção bovina também é um grande emissor de gases de efeito estufa, principalmente o metano. Tem tudo a ver. A destruição da Amazônia não tem volta. Mesmo que a gente quisesse refazer aquela floresta dificilmente seria possível, inclusive por causa dos minerais existentes que impediriam a sua reconstituição. Uma árvore da Amazônia consegue colocar mais de 300 litros de água na atmosfera. Pra gente ter uma ideia, o rio Amazonas coloca no mar 17 bilhões de toneladas de água por dia. E a floresta amazônica coloca na atmosfera 20 bilhões de toneladas de umidade por dia, e os ditos rios aéreos também trazem correntes de umidade para a região. Na mesma latitude temos o deserto de Atacama, o deserto da Namíbia, e poderemos ter um deserto na Amazônia. Tunicok - Como se coloca um freio nisso? Gilmar - Eu acho que em um futuro governo popular tinha que se estabelecer um decreto-lei imediato de desmatamento zero da Amazônia. Zerar qualquer tipo de desmatamento e colocar o Exército brasileiro pra cuidar disso. Mais do que isto: tem que estabelecer uma legislação que trate, por exemplo, da quantidade de água que diminuiu em todo o Pantanal e Mato Grosso do Sul, que é algo brutal. Em São Paulo, onde restam apenas 17% das reservas nativas em pé, fundamentalmente na Serra da Mantiqueira e na Serra do Mar, a condição íngreme impediu

O que se corta em segundos gasta tempo pra vingar. Vital Farias.


10 O Estado e o ” Exército brasileiro não dão nem segurança para os povos da floresta. Pelo contrário, abriram as portas para as queimadas e a extração de minérios. que o agronegócio destruísse aquilo. Mas se tu pegar a região de Ribeirão Preto que é um berço do agronegócio, tem 10% só, e na região de Barretos tem 5%. Tunicok - E sobre a questão da mineração na Amazônia? Gilmar - Nós ajudamos a construir o movimento dos atingidos pela mineração, que hoje se expande e atua fortemente em várias regiões do Brasil. Lembram das veias abertas da América Latina e a extração de ouro, prata e outra riquezas? [NR: o livro As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano]. É a mesma coisa. É uma destruição brutal de municípios, que ficam com crateras enormes e empobrecidos. A Lei Kandir beneficia os exportadores e não sobra absolutamente nada. Pega o Vale do Javari: são 8,4 milhões de hectares que deveriam estar protegidos. A questão do peixe: a queda na produção, fruto da destruição inclusive das margens de rios de todo o Brasil, do uso do veneno, da construção de hidrelétricas. Veja: um dourado para pôr suas ovas precisa nadar 300 km, mas a cada 50 km tem uma usina hidrelétrica. Além de oscilar muito, uma hora a água sobe, outra hora desce, dependendo da necessidade de energia, e o peixe que precisa colocar suas ovas nas margens se perde...

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A mineração e a pesca predatória naquela região são parte de um processo ao qual se faz vistas grossas. O que os fazendeiros e o agronegócio fazem é botar fogo, estimular posseiros a fazer a queimada e depois eles compram a área já destruída para utilização no plantio de soja. Há uma lógica por trás desse processo: falta o Estado brasileiro. Agora vem o presidente na TV dizendo que não se deve ir pra lá, que é muito violento... Mas o que se está fazendo realmente pra controlar esta região e impedir que ela seja destruída? Tem narcotraficante, tem de tudo, mas os principais grupos que estão destruindo a Amazônia são esses que buscam ampliar a fronteira agrícola até onde se possa. Por isso acho que até o final deste ano vamos enfrentar um monte de problemas, mas espero que a partir de uma eleição venha uma decisão de desmatamento zero na Amazônia e nos demais biomas também. O que resta pra desmatar mais da Mata Atlântica e no Pantanal? Enfim, além de desmatamento zero é preciso reflorestar muitas áreas degradadas. A produção do agronegócio em São Paulo, da cana e da laranja, caiu enormemente, fruto do desequilíbrio climático e da utilização intensiva do solo até a exaustão. Tunicok - A exemplo de desmatamento zero, podemos afirmar também a necessidade de mineração zero? Gilmar - Eu acho que em muitas regiões, sim. Veja, eu preciso extrair cimento pra habitação popular, preciso de ferro pra construção civil e pra indústria naval. Agora, essa mineração destrutiva de biomas importantes como o caso da Amazônia, evidentemente precisa ser fechada. Caco - Tem uma proposta do Ciro Gomes de fazer extração em terras indígenas e dar um dinheirinho pra eles... Gilmar - Só podia vir do Ciro, mesmo. É dureza! É comprar os índios pra tirar o ouro deles. Lembra a troca por espelhinhos, né? Tunicok - A droga transita com enorme facilidade pela Amazônia, por terra, água e ar, e acaba por infestar até municípios de 10 ou 15 mil habitantes no resto do país. Que politicas poderiam ser adotadas em relação a isso? Gilmar - Não é só na Amazônia. Se você quer resolver o problema do narcotráfico em nível internacional é só rastrear onde estão as grandes aplicações financeiras, ir atrás dos paraísos fiscais, que você vai descobrir todos os agrupamentos internacionais que controlam o tráfico. Tunicok - O problema não está na Amazônia, mas no financiamento? Gilmar - É obvio, eles são financiados internacionalmente. Haja lavanderia pra utilizar todos os recursos! Muitos são aplicados em paraísos fiscais. Se os EUA quisessem efetivamente ter um combate ao narcotráfico, a primeira investigação a fazer é sobre os bancos. Uma segunda questão importante, a meu ver, fruto desse desequilíbrio ambiental, é que a segunda causa de morte entre os jovens, em todo o mundo, é o suicídio. Hoje se morre mais de suicídio do que de homicídio no planeta. O Estado brasileiro, o Congresso Nacional e a sociedade vão ter que discutir isso. E não adianta simplesmente coibir e criminalizar, é preciso fazer um debate político sobre o tema pra se entender as razões sociais do problema. E não estou falando só das drogas ilícitas, tem uma parte da droga que é lícita. O álcool, o fumo e assim por diante. Isso precisa ser discutido,

Corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá, tartaruga, pé ligeiro, corre, corre tribo dos Kamaiurá. Vital Farias.


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O que os fazendeiros e o agronegócio fazem é ” botar fogo, estimular posseiros a fazer a queimada e depois eles compram a área já destruída para utilização no plantio de soja. não dá pra fingir que estamos combatendo as causas invadindo favelas do Rio de Janeiro. Imagina, 33 milhões de pessoas passando fome, 12 milhões de desempregadas... Entre os 19 e 24 anos, o índice de desemprego é de 39%. Então, qual é a alternativa econômica e social pra essa juventude? A Greta [NR: Greta Thunberg, jovem ativista ambientalista sueca] fez um movimento interessante, dizendo: pra que eu vou estudar se estão acabando com o planeta? Tunicok - A Amazônia é um dos últimos tesouros do planeta? Gilmar - Sim, e não é apenas pela quantidade de ouro que tem debaixo do solo, é a riqueza da biodiversidade enquanto patrimônio da humanidade. Cientistas dizem que se subir dois graus na temperatura do planeta, em média, a região da América Central pra cá pode subir oito graus. Imagina se isto acontece. Acabou a vida, e não a vida humana, mas de um monte de micro espécies que seriam destruídas. Então, discutir a preservação da Amazônia é importante, mas ela será patrimônio da humanidade se nós discutirmos a preservação do planeta, e estamos caminhando pra destruição. Eitelwein - Vocês entendem que podemos superar o modelo predatório que temos no momento, se perceberem que o tráfico está envolvido com o grande capital e com a lavagem de dinheiro na compra de terras, por exemplo? Gilmar - Isso faz todo o sentido. Uma forma de lavagem do dinheiro do tráfico é a aquisição de metais preciosos, ouro principalmente. Há uma facilidade pra produção da droga ali, não há fiscalização ou controle do Estado, portanto há uma liberdade pra ação criminosa. Eu não acredito que haja uma mudança, porque o mercado consumidor dos produtos do narcotráfico são as grandes cidades. A produção nessas regiões é facilitada, há um descontrole completo, inclusive do espaço aéreo. É a estratégia do Salles: é preciso passar a boiada, e isso significa destruir os instrumentos de pesquisa e monitoramento, e de controle. Não interessa se há tráfico, mineração, etc. Eles vão lá e queimam campo e depois a frente do agronegócio se apropria daquilo pra plantar soja e não leva a pecha de produtor de droga e nem de destruidor do meio ambiente. Quanto à mudança do modelo econômico, é difícil. Ele extrai a matéria prima, produz mercadoria e devolve um monte de lixo pra natureza. Vou dar um exemplo que facilita a compreensão: se você colocar uma indústria, vai ter 13% de lucro, agora se tu engarrafar água vai ter 700% de lucro. É um lucro extraordinário o obtido através da mineração e engarrafamento de água, que é controlado pela Nestlé e pela Coca Cola. Mas eu acho que há uma transição: vamos eleger um novo governo, desmatamento zero, frear essas investidas do capital sobre os recursos naturais, reconstruir, replantar. É parte de um processo de construção de uma

consciência política. Eu acho que a toada dos alimentos nós estamos ganhando. Há um debate bom, se você pegar a grande maioria dos chefs de cozinha do país e mundo afora. eles hoje estão nessa toada. No Brasil, já são 15% da população que estão numa pegada vegana e vegetariana, e em ascensão. Principalmente na juventude. Este é um debate que está forte na sociedade e está atingindo boa parte da juventude. Se tiver apoio do governo, há uma tendência de reverter esse quadro num curto espaço de tempo. Eitelwein - Há neste governo uma visão clara de Estado que busca acabar com o controle, a fiscalização, a transparência, a própria democracia, da mesma forma que busca acabar com o conhecimento, a pesquisa e a ciência, o acesso a informação: tudo faz parte de uma política de destruição. Essa questão da visita do Elon Musk [SpaceX], com seu projeto de monitoramento da Amazônia via satélite, com o argumento de garantir internet às escolas das áreas mais afastadas, tudo às escondidas... O que você acha que está por trás disso? Gilmar - É uma questão bem interessante. O que podemos supor disso, quando você, ao invés de instrumentalizar o INPE com mais investimento e estrutura e ampliar sua própria participação em pesquisa e controle do território e do espaço aéreo brasileiro, e também da Amazônia, você entrega isso para a iniciativa privada? Imagina: é a pesquisa toda dos recursos naturais e minerais existentes na Amazônia. Só pode! Não tem outra explicação! Hoje temos tecnologia, ainda um pouco incipiente, mas que dá pra identificar a partir de satélites de baixo alcance sobre o que existe no subsolo, identificar os tipos de minerais, onde estão. Minerais

Zé de Nana tá de prova, naquele lugar tem cova. Gente enterrada no chão. Vital Farias.


12 A privatização da ” Eletrobras, não se trata da geradora de energia. É o domínio da água represada que passa agora para mãos privadas. que possivelmente estão sendo utilizados por ele mesmo, dentro de sua iniciativa de levar gente pro espaço. É um dos caras que está pensando na pesquisa da Lua também, ou seja, eles estão atrás de minerais e no domínio do planeta. Mas não são apenas minerais. Na região amazônica, a quantidade de coisas que a gente ainda conhece pouco e que poderiam servir pra toda a humanidade, seja na medicina ou outras áreas, naquela imensidão de recursos naturais, isso tudo está em jogo. A própria privatização da Eletrobras, não se trata da privatização da geradora de energia. É o domínio da água represada que passa agora para mãos privadas. Agora, imagina a região amazônica com esse tipo de comprometimento que o Bolsonaro fez. O cara veio atrás de interesses e negócios e é isso que eles estão tentando fazer. E vão fazer, se deixarmos. Eitelwein - Após o encontro com o presidente dos EUA, Bolsonaro chegou a dizer que não precisamos desmatar mais nenhum centímetro de floresta porque já temos terras suficientes para garantir o papel do Brasil no fornecimento de alimentos para o mundo. Sabemos também que existe muita terra no Brasil que não é bem utilizada. Como vocês estão levando esse debate junto ao ex-presidente Lula na possibilidade de um futuro governo dele?

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Gilmar - Já abordei anteriormente que é possível alimentar toda a população de forma agroecológica e com menos terras até, mudando padrões e cultura alimentar, por exemplo. Uma experiência de mudar o padrão temos aí no Rio Grande do Sul com o arroz orgânico. A Embrapa desenvolveu um tipo de trigo pra plantar no Centro Oeste brasileiro, o trigo que é do frio, mas foi adaptado para outra região, mais quente. Neste momento, a humanidade enfrenta inclusive falta de trigo no mercado em função da guerra na Ucrânia. É factível e fundamental que se desenvolva outro tipo de modelo de agricultura no Brasil. O agronegócio é altamente financeirizado, é brutal o tamanho de recursos públicos que são destinados ao setor. Além disso, é altamente subsidiado pela sociedade. Mais do que isso, eles agora estão pedindo isenção no pagamento de dívidas. Você vê na TV “o agro é pop, o agro é tech”, e eles estão devendo mais de R$ 200 bilhões para o governo. E querem anistia. De onde? Eles se utilizam inclusive de financiamento pra agricultura pra investir em outros cantos, e aproveita-se o subsidio disso, daquilo que a sociedade subsidia pra exportação. Ou seja, tem um setor da economia altamente subsidiado, que destrói o meio ambiente, que não gera emprego, que produz fome, produz miséria enquanto você tem um setor voltado pra economia doméstica que não tem as mesmas condições, que não tem financiamento e que é taxado absurdamente. Se mudar isto, já avançamos um monte. Caco - A questão do Estado forte, como você avalia e o que isso significa realmente? Gilmar - Essa coisa de Estado fraco é balela. Veja os EUA, por exemplo. Nunca foi um Estado fraco. Esse discurso é aqui, sempre foi pra fora. Agora, a retomada de um Estado forte se impõe nesse momento. E que não seja um Estado forte contra o povo, né? Inclusive revendo privatizações e projetos que foram aprovados no Congresso. E tem que rever logo. O tema da Eletrobras, da Petrobras, rever a legislação trabalhista, aquilo que puder temos que ir pra cima e fazer a revisão, sim. E vai ser um desafio grande porque não acredito em grandes mudanças nas bancadas federais. Por isso tem que casar mobilização e pressão popular com um governo que tenha sustentação. Agora, um país do tamanho do Brasil, com essa extensão territorial, você ter 33 milhões de pessoas passando fome, não tem como aceitar. E 127 milhões de pessoas em insegurança alimentar, gente que come um pouco hoje e não sabe se vai poder comer amanhã. Temos que construir uma correlação de forças que nos permita mudar isso. Uma teia de mobilização popular, casada com um governo popular, pode dar liga. Caco - Nesta questão da violência, temos o exemplo do Rio, onde as milícias estão assumindo o controle de diversos pequenos negócios, como fornecimento de gás, da luz elétrica, de redes de internet; onde a população, principalmente a negra, é morta no confronto entre traficantes, milícias e a polícia. É um confronto que vai ter que sair da esfera estadual. O governo federal deveria mexer nisso também? Não é possível, ninguém dá conta disso! Gilmar - Sem dúvida, inclusive o esquema da polícia, dos militares, é um tema que terá que ser revisto. Pra que servem os militares no Brasil, hoje? Qual é seu papel? Vai ter que ter reforma nisso, e tirar um monte de mili-

Pois mataram o índio que matou grileiro que matou posseiro... Vital Farias.


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tares dos cargos [civis] que ocupam hoje. Por outro lado, essa crise está nos ajudando em um monte de coisas também porque havia na esquerda uma certa idealização dos militares. O que estamos vendo não é aquele negócio todo não! Há um monte de problemas, escolas sucateadas, a formação deles completamente fora do tempo histórico. As milícias adotam essa postura no Rio e mesmo em partes da Amazônia, por quê? É preciso ter a anuência do Estado para esse tipo de política, e ela está completamente ultrapassada, não resolve mais. Mesma coisa com as religiões, um assunto sério, onde há a busca das pessoas por igrejas, a gente tem que considerar isso sob o ponto de vista humano. Não dá pra ver como um bando de alienados. Normalmente, é uma atitude de desespero, são as mulheres que buscam a igreja. Primeiro, porque, concomitante aos problemas sociais, tem um filho na droga, tem um marido que bebe e bate nela quando chega em casa, é uma desgraceira. É uma busca de sobrevivência. Se essa mulher que busca apoio numa igreja conseguir levar o marido junto e conseguir que ele pare de beber, ela já está alcançando uma parte do céu. Na igreja também acontece o fenômeno da alteridade, eu me vejo no outro, melhora a autoestima, a autoconfiança. Sabemos que há também picaretas nessas igrejas, mas temos que considerar que em cada bairro desse Pais você vai encontrar um bar, uma farmácia e uma igreja. E cadê a porta do sindicato, ou do movimento popular, do partido? Não adianta ficar xingando. Eitelwein - Vivemos um momento de grande violência e há a perspectiva de recrudescimento, em função das eleições, contra a esquerda, contra o Lula. Estamos vendo movimentos da extrema direita e do Bolsonaro de melar as eleições, de questionar as urnas eletrônicas. Há um esperneio do Bolsonaro de tentar arrumar justificativa para um golpe e um crescimento das tensões nas ruas, que desaguará no dia 7 de setembro, segundo estão anunciando... Gilmar - Acho que não há condições históricas, econômicas e mesmo do ponto de vista da correlação de forças internacionais, para uma aventura golpista estilo 1964. Acho que não contaria com o apoio da mídia, de grande parte pelo menos, nem dos EUA e assim por diante. Então, a jogada do Bolsonaro é a tentativa de estabelecer o medo e de falar para o público dele. É tentar evitar que o povo saia às ruas, que o povo chegue lá. Então é muito mais uma tentativa de desespero, de alguém que está sabendo que vai perder. Eu andei olhando algumas pesquisas muito restritas aqui em SP, de que havia um medo de perder em São Paulo, porque aqui desequilibra uma eleição. Você pode ganhar no Nordeste mas se perder feio aqui em São Paulo a coisa complica. E aqui está mais ou menos empatado, já com uma leve vantagem pro-Lula. Em setores tradicionais pro-Bolsonaro, como o povo evangélico, também já está equilibrado, porque esse discurso de ódio do Bolsonaro está batendo pesado no povo brasileiro, de alguma forma. Vai ser uma campanha atípica, vai ser uma guerra pra ganhar, uma guerra pra tomar posse e uma guerra pra fazer um governo popular. Pra isso também estamos numa toada de construção dos comitês populares não apenas pra eleição do Lula, mas pra garantir um processo de construção para além da eleição, e que perdure, inclusive na perspectiva de fazer um

Acho que não há ” condições históricas, econômicas e mesmo do ponto de vista da correlação de forças internacionais, para uma aventura golpista estilo 1964. governo popular. Se pegarmos hoje a perspectiva de fazer uma reforma agrária, não vai ter nada de orçamento pra isto. Vai ser um processo de enfrentamento mais ou menos permanente. Há também uma crise organizativa da esquerda que trará dificuldades enormes num primeiro momento para enfrentar a crise econômica, a crise ambiental, social e política. Se pegarmos organismos como a ONU, a recente Cúpula das Américas, é um fiasco. Então, esses instrumentos políticos estão desgastados, mas também estão desgastados a esquerda, os movimentos e partidos políticos, o movimento sindical, a classe trabalhadora. Pega o cara que hoje trabalha com aplicativo, amanhã ele vai ser segurança privada, depois vai carpir um lote, em qual sindicato mesmo ele vai se filiar, mesmo que a gente quisesse filiá-lo? As novas dinâmicas do mundo do trabalho também exigem novas dinâmicas organizativas. Então, os comitês populares vão nessa lógica, senão vai acontecer como no passado: se elege um presidente da República e a turma acha que está tudo certo, que ele vai resolver tudo de lá e vamos para casa esperar. Isso não é assim. O próprio Lula falou para os movimentos populares que é preciso fazer a luta, de cada setor, porque a disputa desse governo vai ser muito intensa.

...disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro roubou seu lugar. Vital Farias.


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Amanhã será outro ano Jeferson Miola

O

futuro governo Lula, a ser eleito em outubro próximo, será um governo de urgência nacional que dará início à reconstrução da democracia, da economia, da dignidade e da soberania do país e do povo brasileiro. O Brasil é palco da guerra de ocupação deflagrada por meio do impeachment fraudulento da presidente Dilma em 2016. Nesta guerra o Exército ocupante do nosso território, no entanto, não é nenhuma força estrangeira, mas as próprias Forças Armadas brasileiras que, partidarizadas por suas cúpulas conspirativas, foram convertidas em milícias fardadas. Esta guerra criou uma oportunidade extraordinária para os grandes capitais – nacionais e estrangeiros – realizarem o mais brutal processo de pilhagem e saqueio da riqueza do país. Um processo radical de espoliação e recolonização do Brasil. A privatização ruinosa da Eletrobras, realizada às pressas, mostra a coesão das classes dominantes em torno do programa bolsonarista ultraliberal. E revela, também, a corrida da escória dominante para agilizar a repartição do butim da guerra no fim de festa do governo militar. O legado desta guerra é a apropriação de bens públicos por piratas capitalistas, a devastação climática e ambiental, a invasão das terras indígenas com o extermínio dos povos originários, a destruição da economia nacional e a condenação de mais da metade da população à miséria, fome, desemprego e desamparo. Para o êxito desta guerra, foram decisivos o aparelhamento, a captura e o redirecionamento do Estado para moldá-lo à feição do projeto de destruição em curso. Os bárbaros assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Philips, por exemplo, são consequência lógica das políticas oficiais e de indução estatal ao avanço de formas capitalistas criminosas de exploração econômica. De igual maneira, a pilhagem da renda petroleira, que só em 2021 assegurou

a entrega de R$ 41 bilhões de lucros da Petrobras a grupos estrangeiros e outros R$ 22 bilhões a grupos privados nacionais, também é reflexo de políticas de Estado orientadas pelos interesses do grande capital em detrimento da sociedade brasileira. Para um governo como o do Lula, que terá a missão humanitária de retirar 33 milhões de brasileiras e brasileiros da fome e outros 92 milhões que vivem em situação de insegurança alimentar [Oxfam], será vital a recuperação e o fortalecimento do Estado noutra direção. Do mesmo modo, para enfrentar a recessão e a inflação, combater o desemprego de 12 milhões, o desalento de outros 4,6 milhões e a condição “uberizada” de trabalho de outros 46 milhões [IBGE], será fundamental a forte indução e regulação econômica pelo Estado atuante. O mesmo se pode dizer a respeito da atuação crucial do Estado na proteção dos biomas e do clima e na defesa e proteção, com direitos e dignidade, dos povos originários e seus territórios. Nunca antes como na atual conjuntura histórica estivemos diante da encruzilhada civilizatória que coloca nosso destino entre a democracia e a barbárie ultraliberal. Com a eleição do Lula, uma tarefa de primeira grandeza será a de reconstruir o Estado social e democratizá-lo por meio de dispositivos de controle e participação popular direta, para que o país possa deixar para trás as dores, os traumas, as injustiças, os sacrifícios e as desigualdades impostas à imensa maioria do povo brasileiro.

Pra defender o que ainda resta, sem rodeio, sem aresta. Era uma vez uma floresta na linha do Equador. Vital Farias.


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Reconstrução econômica do Brasil José Álvaro Cardoso*

É

impossível neste espaço descrever o estrago que o Golpe de 2016 provocou no Brasil e no seu povo. No entanto, a imperiosa reconstrução econômica do país torna algumas ações imprescindíveis: Retomar o crescimento da economia. Do golpe para cá, entre 2016 e 2021, a economia cresceu meros 0,23% ao ano. A retomada do crescimento é um pressuposto da geração de empregos formais, tarefa que também se faz urgente; Colocar em prática imediatamente um programa radical de combate à fome, integrado, aproveitando o processo para elevar estruturalmente a segurança alimentar do país; Disparar um grande programa de investimentos em infraestrutura urbana, na área de comunicações e produção de energia, abrindo novas empresas industriais e de serviços, que gerem empregos rapidamente; Recuperar o mercado consumidor interno, elevando o consumo de massa e retomando a política de aumentos reais do salário-mínimo; Revogar a lei que estabeleceu o Teto de Gastos e reformular o atual regime fiscal brasileiro; Combater drasticamente a inflação, principalmente a de alimentos, combustíveis e de eletricidade; Reduzir imediatamente os juros básicos e revogar a política de Banco Central independente; Adotar uma nova política de preços dos derivados do petróleo,

Andrea Honaiser

em lugar da PPI (Preço de Paridade de Importação), que não passa de um mecanismo de assalto à população brasileira; Mudar a política cambial, medida fundamental para enfrentar a inflação internacional e garantir a competitividade da indústria; Desencadear amplo programa de recuperação da indústria e inovação no país, que envolva empresas estatais, financiamento, compras públicas, investimentos em tecnologia, qualificação da força de trabalho, infraestrutura, etc.; Estruturar uma política pública de segurança hídrica para o país, que garanta à população o acesso regular à água potável barata, e suas inúmeras utilizações; Reverter as privatizações já ocorridas na Petrobrás e na Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA). Reestatizar as empresas entregues desde o golpe de 2016, incluindo a Eletrobras; Aumentar significativamente os investimentos em pesquisa e inovação, visando o aproveitamento do potencial natural do país e a geração massiva de empregos qualificados; Estruturar política de defesa intransigente da Amazônia, em relação à destruição que está sendo feita pelo governo atual. Desenvolver políticas de conservação e exploração sustentável de todos os demais biomas do Brasil. A implementação dessas medidas – e tantas outras essenciais – depende de alteração na correlação de forças, e não apenas de competência técnica. Ademais, o encaminhamento das medidas elencadas implica a retomada do papel que foi retirado do Estado brasileiro, principalmente a partir do golpe, de indutor do crescimento e do desenvolvimento nacional. Nada disso virá sem muita luta dos brasileiros. *Economista e supervisor técnico do Dieese


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Meritocracia e escravagismo pós.eterno

Luiz Hespanha

T

iago Leifert é um Meritocratus brasilis gigante. Raros chegaram tão longe pelos méritos pessoais, intelectuais e sazonais. Só filhos e netos das famílias Marinho, Aguiar, Setúbal, Safra, Abravanel, Moreira Salles, Ometto e iguais são tão guerreiros. Meninxs da Rocinha, Brasilândia e circun’semelhanças mirem-se no bad boy farialeifert, digo limer. Em 300 reencarnações todxs gozarão da democracia que garante a 1% da população o acesso de sobra a tudo. Acompanho a trajetória de políticos oriundos das classes populares. Mesmo discordando pontual ou integralmente de alguns percebo em muitos o orgulho e o compromisso com a origem. Sempre procuro saber se o parlamentar é instrumento dos movimentos sociais ou apenas departamento do lobismo patronal excludente. Observo a deputada Tabata Amaral (PSB/SP) e me pergunto: ela ainda lembra da Vila Missionária, extremo sul paulistano, de onde veio, ou só dos interesses de quem a catapultou de lá? Tabata é pautada pela inclusão ou apenas afilhada do megaempresário Jorge Lemann? Outrora lar de romancistas e poetas, a ABL virou silo de regressistas. Como diria o literato Odorico Paraguaçu, a casa de Machado de Assis abriga iluministas-liberalistas-globalizantistas, guardiões do empreendedorismo uberista-ifoodiano, o popular escravismo pós-eterno. Por isso acho que depois de tantos artigos tangenciais e sapienciais sobre si mesmo e sua ação transformadora nos corações, bolsos e mentes dos eleitos pela produção,

ninguém tira a próxima vaga de imortal do Luciano Huck. Isso se o ministro Luiz Roberto Barroso e Michel Temer não estiverem na disputa. Cursinhos preparatórios para ingresso nas polícias ensinam com fervor e humor a prática da tortura. Um deles até ganhou propaganda grátis de Bolsonaro, fã de Carlos Alberto Brilhante Ustra, o Major Tibiriçá, que comandou o Doi Codi paulista. Aula de tortura não é novidade por’raqui. Na ditadura elas eram ministradas para oficiais e recrutas. O cineasta Costa-Gavras recriou uma no espetacular “Estado de Sítio”. Na Era Bolsonaro ela ganhou visibilidade, aplausos e compartilhamentos. Sonho direto com heróis anônimos salvando pessoas e animais em tragédias; evangélicos que descobriram que Bolsonaro não rima com fé, mas com fezes; e até com tiozinhos do Zap que pararam de compartilhar fake news. Mas, um sonho me encafifou: sonhei com atos de coragem pessoal e institucional. Só não entendi o que o ministro Luiz Fux fazia gabola e pimpão nele. PH Amorim dizia que a única coisa que João Dória sabia fazer era apresentar empresários a políticos e vice-versa. Dória é considerado por ex-aliados um político que adotou a traição e o egocentrismo como métodos e práticas. Estes também o elevam, junto com Aécio Never, à condição de coveiro do PSDB, partido da direita cheirosa e limpinha brasileira. Depois de imaginar-se presidente, Dória, vítima dos próprios métodos e práticas, decidiu sair da política e retornar à função de hostess da elite empresarial. Certo mesmo é que, ao sair da política, Dória prestou um grande favor a esta e ao país.

O Brasil chegou ao fundo do Bozo. Adão Iturrusgarai


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Luke

Fred Ozanan Paraíba

Cival Einstein Ceará


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O 'pacifismo' de conveniência e a 'guerra maluca'

Eugênio Neves

A

crise na Ucrânia colocou nu e no centro do palco o “pacifismo” de um setor, quanto muito liberal, que vinha se proclamando como progressista. Por má fé ou por pura incapacidade de entender o que está por trás dos movimentos da história, esse liberalismo que nunca se posicionou com a contundência necessária em relação à maioria dos conflitos armados ocorridos no pós-guerra, “espontaneamente” se engaja no discurso contra a guerra na Ucrânia e que “coincidentemente” é colocado em pauta pela mesma mídia que preparou o cenário para essa guerra. Foi assim, por exemplo, em relação ao Afeganistão, onde vinte anos de massacres de civis caíram na rotina de uma das tantas guerras infindáveis dos EUA. E, ao precisar de uma cortina de fumaça para encobrir sua vergonhosa fuga daquele genocídio, essa mesma mídia prontamente veio em socorro com o bordão da “opressão das mulheres pelo regime do Talibã”e que foi imediatamente encampado pelos histéricos “pacifistas” de ocasião. Esse surto de indignação durou, quanto muito, dois meses. Foi o tempo suficiente para todos esquecerem que as mulheres afegãs já viviam num verdadeiro inferno sob a ocupação dos ianques e que agora foram

substituídos pelos terroristas deixados lá pelos EUA com a missão de dar continuidade ao conflito e minar a estabilidade da região. Como era de se esperar, os massacres na forma de atentados contra a população civil continuam. E para quem não sabe ou se faz de desentendido, as mulheres também são parte dessa população e continuam morrendo para provar o quanto a “doutrina do caos controlado” é uma ferramenta legítima que o império pode usar para manter uma “ordem mundial baseada em regras”, regras essas que os EUA estabelecem ao meio dia para descumpri-las antes da meia-noite. Assim, eu desafio qualquer leitor dessa publicação a me enviar um texto ou charge dos mesmos autores que se alinham aqui com esse “pacifismo” e que tratem da continuação desse genocídio no Afeganistão. Assim como desafio qualquer um a enviar qualquer citação aos oito anos de contínuos ataques dos fascistas ucranianos a população civil do Dombas e que causaram 14.000 mortes. No entanto, mais uma vez e “coincidentemente”, para a mídia ocidental e para esses “pacifistas”, a guerra na Ucrânia começou ontem e não depois do golpe de 2014. Começou exatamente quando os russos resolveram dar um basta num massacre que sempre contou com as bênçãos dos EUA e seus capangas da OTAN. Dados reais como concentração de forças e precisos informes da inteligência russa que garantiam a certeza de um ataque ucraniano foram descartados sumariamente. O que passou a dominar na narrativa da mídia e não por acaso na dos tais “pacifistas”, foi uma versão grosseira e persecutória onde Putin é apresentado como alguém que “enlouqueceu” ou um “líder” que “fornece plutônio para eliminar sujeitos impertinentes pelo mundo afora”. Claro, assim como Putin “certamente” forneceu as armas de destruição em massa que nunca existiram no Iraque só para que Colin Powell pudesse exibir na ONU aquela ampola com um pozinho branco. Também forneceu ao M 16 o Novichok para envenenar os Skripal e Navalny, aos nazistas ucranianos o míssil que derrubou o avião malaio MH17, as armas químicas a Obama para que ele pudesse fazer um ataque à Síria e depois lançar a culpa sobre Assad e mais alguma outra infâmia que eu possa ter esquecido mas que o leitor de boa memória pode acrescentar a esse rol. Nem a confirmação, AGORA, através de farta documentação obtida na Ucrânia, de uma denúncia que os russos já tinham feito anos atrás sobre laboratórios clandestinos dos EUA que produziam patógenos para guerra bacteriológica - nem isso!!! – arrefece o ânimo desses “pacifistas justiceiros” de plantão. O que importa mesmo é posar de “isentão” frente a essa “guerra maluca, com contendores facínoras de todos os lados”. Pois que diferença há entre quem infecta cédulas de dinheiro falso com patógenos que depois foram dadas a crianças em uma aldeia ucraniana e aqueles que lutam contra os que cometem tal crime, não é?

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Estou sugerindo esse enlace abaixo que leva ao mais recente texto que li sobre o cenário geopolítico e onde se situam de maneira praticamente didática todas as questões que levaram a crise na Ucrânia. É um texto longo e objetivo que também vai além dessa crise e especula sobre seu futuro desdobramento. Justamente por isso vale a leitura. https://sakerlatam.es/geopolitica/terceira-guerra-mundial-para-iniciantes/


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Colombia, abre-se novo ciclo Carlos Roberto Winckler

A

s eleições presidenciais na Colômbia apresentaram novi­ dades: a eleição do primeiro governo de esquerda de sua história e o fracasso das forças politicas tradicionais. Esperava-se no segundo turno, realizado 19 de junho, o embate entre Gustavo Petro, do Pacto Histórico, de orientação progressista, e “Fico” Gutierrez, da Coalición Equipo Colombia, coalizão de direita com partidos que dominaram por décadas a política colombiana, à qual se agregou o Centro Democrático, da extrema direita governista. Gutierrez foi ultrapassado por Rodolfo Hernandez, da Liga Anticorrupção dos Governantes, um outsider perfeito para a situação de desgaste do oficialismo uribista. Ex-prefeito de uma cidade média, apresentou-se como anti-sistema. Uma versão moderada de algo entre Bolsonaro e Kast, com promessas de filantropismo populista e continuidade do projeto neoliberal. Abusando no uso de redes sociais, o Rei do TikTok negou-se participar de qualquer debate. Petro venceu o segundo turno por escassa margem – 50,4% a 47,3% dos votos válidos -, num contexto de fortes ataques da mídia tradicional, dominada por oito grupo empresariais. A Colômbia já teve cinco candidadatos à presidência assassinados, em ambiente de extrema violência política. Nas últimas décadas, combinaram-se a dominação oligárquica com o projeto neoliberal, submissão aos interesses dos

EUA, guerrilhas, paramilitares e narcotráfico. O acordo de paz de 2016, no governo direitista de Manuel Santos – ainda que bloqueado -, e os protestos sociais de 2019 e 2021 abriram espaço à renovação política e à retomada de pautas de democratização social. O Pacto Histórico propõe um novo contrato social, fundado no reforço dos direitos das mulheres, direito ao trabalho, reparação às injustiças cometidas contra trabalhadores afrocolombianos, indígenas e minorias LGBTQIA+, garantia do ensino público e gratuito, meia pensão para idosos desamparados, salário mínimo para mulheres chefes de família, impulso à reforma agrária em áreas improdutivas, incentivos e juros baixos para pequenas e médias empresas, reestruturação da previdência, suspensão do uso de glifosatos e fracking, politicas de transição energética, imposto de renda progressivo, imposto sobre patrimônio, democratização dos meios de comunicação, participação paritária mulheres no governo, entre outras medidas. Propõe-se o serviço militar voluntário e revisão do papel dos chamados Batalhões de Segurança Energética, presentes em áreas de mineração e exploração de petróleo por empresas multinacionais, além da desmilitarização da Polícia Nacional, privilegiando-se o diálogo no trato de conflitos. Outro desafio é o equilibrio entre a integração com países latinoamericanos e o diálogo com os EUA, criando-se espaços de crescente autonomia. Malgrado o crescimento da esquerda no Congresso colombiano, em torno de 30% dos assentos, o peso dos partidos da direita tradicional ainda é expressivo. O avanço democrático dependerá da pressão callejera, fenômeno comum a toda América Latina, onde a esquerda, após 2019, ressurge sobre as desventuras neoliberais.


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querquedesenhe?

schröder

Pronto, escrevi!

O

nome desta coluna foi uma sugestão da minha filha Paula, no início da pandemia, para um programa/coluna, ou o que fosse que eu iria fazer para enfrentar vírus e não morrer de ansiedade. Ela nasceu com o Grifo e foi fruto de conversas que davam conta de coisas que vinha fazendo há tempos, desde dar aula a fazer um programa de crítica da mídia na TVE uma década atrás e analisar quase diariamente a mídia nas redes sociais. Sempre soube que era pretensiosa a decisão de seguir os passos de críticos que eu admirava mesmo antes de entrar no jornalismo, como Alberto Diners ou assumir em parte a tarefa que do grande Daniel Herz nos deixara. Por temperamento, mas também com treino e leitura fui, aos poucos, decifrando ou procurando decifrar a linguagem da comunicação, principalmente a jornalística. Misturando Habermas com Sérgio Cappareli, Hanna Aredent com Christa Berger e Milena Weber. Combinando Adelmo Genro e Daniel Herz com Gramsci e Bauman mais a ajuda de Pedro Luís Osório, James Goergen e Zé Miguel Quedi Martins e as centenas de lutadores pela democratização da comunicação que fui encontrando pelo caminho, articulando a militância sindical com a partidária e pela luta pela democratização da comunicação fui aos poucos me sentindo razoavelmente apto para análises rápidas e despretenciosa que ajudassem a decifrar esta esfinge voraz que é a comunicação. A partir da ajuda do Marco Antônio Schuster, lá no início, chego à 24ª coluna, testando, aprendendo, errando e arriscando. Por paradoxal que possa parecer, “Quer que desenhe” é uma expressão com qual não concordo em princípio, porque supõe que o desenho seja de mais fácil entendimento do que o texto. Embora seja principalmente desenhista, sempre defendi a escrita como a forma mais complexa e eficiente de tentar reproduzir o mundo. Desenhar antecede e é mais do que a escrita no esforço humano de abstração e reprodução do real. Desenhar para mim é um prazer, escrever é uma tarefa.

Bruno e Dom estão mortos, assassinados por um capitalismo tosco, imoral e inaceitável, só isto!

querqueescreva?

Pixs Não se surpreendam se Moro encontrar daqui a alguns dias a fechadura de casa trocada pela conja. Tá difícil a coisa. Globo descobriu que a fome voltou ao Brasil, só não diz como nem o porquê. DE VOLTA PARA O FUTURO Um novo ramo do jornalismo investigativo, com carimbo e tudo, está sendo consagrado pelo jornal Zero Hora: a cuidadosa investida na futurologia. Com convicção, o tal jornalismo investigativo afirma fatos futuros numa substituição vantajosa das ciganas de fim de ano. Não há provas de que as vozes esganiçadas de pelo menos um membro das duplas sertanejas seja consequência das calças apertadas. Embora o Doria seja um indício. O miliciano está prometendo debate com Lula. Acho que é bravata, mas se não for teremos divertimento garantido por um mês. A tomada pelos bancos das casas dos inadimplentes completa o sequestro da economia brasileira pelo sistema financeiro e criará uma horda de miseráveis sem casas, como assistimos nos EUA em 2008. É uma das decisões mais imorais que a elite brasileira assume nos últimos tempo. Será um desastre humanitário.


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cartum

frank maia

Frank Maia, o desenho de uma vida Celso Vicenzi

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rankamente, isso é coisa que se faça com os amigos, Frank? “Porra, não é justo!”, como ouvi algumas vezes você dizer, diante das injustiças e de tudo aquilo que não controlamos. O trocadilho é infame – você diria –, mas não resisto, para homenagear um dos grandes chargistas e humoristas do País. Sei que você sempre soube – e a isso se dedicou por um imperativo de quem é tocado por um talento e uma paixão irrefreáveis – que a vida é intraduzível e que é preciso saber rir de si, de fatos, das coisas boas e ruins, porque ao fim e ao cabo, tudo é um grande mistério, ocorrendo na borda de uma entre tantas galáxias. Creio que humoristas de texto e de traço, conscientes ou inconscientemente, sabem que se o mundo é esta viagem entre o nascer e o morrer, melhor rir e se alegrar um pouco ao longo do percurso. E ser testemunha de seu tempo. Não é o riso fácil e descompromissado. Pelo contrário: o riso que tem lado, que acolhe o fraco, o oprimido, o explorado, que fustiga os opressores e os “donos” do mundo, e sonha em pôr mais alegria no rosto dos mais humildes, dos trabalhadores e de todos os injustiçados, ajudando a construir um mundo melhor para todos. Como você fez, em desenhos, charges, ilustrações, na vida. Tudo o que você disse e criou, agora – mais do que nunca – falam por você. Pôrra, Frank, você vai fazer muita falta! PS: O jornalista e chargista Frank Maia, 55 anos, faleceu no dia 5 de junho de 2022, em Florianópolis (SC).


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sócartum Cintia Bolio nasceu na cidade do México, em 1969. Começou sua carreira publicando charges e cartuns em vários jornais e revistas, como, El Chamuco, La Jornada, Milenio, El Centro, etc. Feminista, Cintia Bolio é uma especialista em questões de gênero. Seus cartuns foram exibidos no mundo inteiro. Ela foi também uma dos 12 cartunistas partipantes do Simpósio "Desaprendendo a Intolerância" nas Nações Unidas, em outubro de 2006.

Engin Selçuk Turquia

Cintia Bolio México

Musa Gumus Turquia

Mate Argentina

Angel Boligán México


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sócartum

Brady Izquierdo Cuba


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sócartum Oguz Gurel (Turquia), Ovelha Negra. Obra vencedora do Grande Prêmio Troféu Zélio de Ouro e Prêmio Cartum do 48º Salão de Humor de Piracicaba

Brady Izquierdo


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PALAVRAS DA SALVAÇÃO Duvido esse pessoal que rouba do governo conseguir roubar da iniciativa privada! Bons tempos aqueles quando a vida era vitalícia... Não se pode viver sem oxigênio, mas que o ar tá irrespirável, isso ele tá.

diaborosa

POEMINHA DA BOCHECHA Se for um caso de óbito E quiserem me despachar Peço a Deu que conceda A graça de me sepultar Na covinha do teu rosto Quando o sorriso voltar POEMINHA DO NHAC!

O piá tinha a mão tão cabeluda, que lustrava os sapatos de toda a família.

Um dragão de Komodo Mordeu a minha síndica

Universal abre igreja na Ucrânia. Mas já não bastava o nazismo?

Que kômodo pra mim! Que inkômodo pra ela!

Até o Temer foi indicado pra terceira via. Isso tá virado numa Via Crucis! Quando é que vai entrar em vigor a cadeia por merecimento? Chegamos a um ponto em que sexo consentido é ação de mútuo socorro. Deslizamentos: quando já não basta enterrar apenas os mortos. O que seria da popularidade de Satanás sem a ajuda dos evangélicos pentecostais? Existe mercenário que não seja voluntário?

bier

Um alemão, um chopp. Dois alemães, um prosit. Três alemães, uma Oktoberfest. Que receita, hein? Quando a vó diz "bater bem os ovos", eu saio da cozinha. Shows sertanojo cancelados. O fiofó da Anitta merece um monumento redondinho! Se vivo fosse, o General Custer já teria sido condecorado pelos bolsopatas.

BAR DO NEREU ereu, com que idade o teu pai

N morreu?

Ele não sabia, muito menos a data da morte. A julgar pelo aspecto do filho, o velho tinha posto o bloco na rua quando Getúlio tomou o Palácio do Catete. Todos nos olhamos por alguns instantes. A Laurita - sobre o pai dela - saiu na frente: disse tudo direitinho, idade, dia, mês, ano e localidade. Depois vieram outras respostas, todas incompletas. A confusão era agravada pelos escafandristas de martelinho. Aí alguém sugeriu que cada um desse informações aproximadas que pudessem indicar a idade do respectivo pai. Uma pista, uma lembrança, um papel, um objeto, um episódio qualquer. Começaram por mim. Eu sabia, mas inventei. - Ele batia punheta pra Dercy Gonçalves. De pronto um negrão grisalho da mesa ao lado gritou: - Opa! Então nasceu ali por 1920!


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causídico

paulo de tarso riccordi O desaparecimento da Tribo dos Fanchões

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ouve uma época em que a escala superior do mundo masculino era ocupada pelos fanchões. Admirados, invejados, nada indicava que em menos de 40 anos essa etnia seria praticamente dizimada. Esse foi um dos casos mais notórios de extermínio cultural.

O dia em que o capitalismo balançou

O

inspirador desta página, Glênio Peres, foi um vereador, exemplar combatente pela democracia, um competente jornalista e um ótimo humorista. Frequentávamos o Bar Naval, um consagrado boteco no mercado público de Porto Alegre, lotadaço nos finais de tarde por sambistas, jornalistas, funcionários públicos da Prefeitura e da Câmara de Vereadores, que ficavam na calçada à frente. Numa dessas tardes, desembarquei lá e o Glênio já estava acomodado em sua mesa, com cara de riso.

- Tarsinho, te prepara pra assumir o poder. -? - Tá vendo aqueles dois caras perto da porta? O da esquerda é um tradicional agiota, dono do ponto aqui. O outro chegou hoje e está tentando entrar nesse "mercado" dos funcionários públicos. Desde cedo estou observando eles disputarem cada um que entra, oferecendo juros mais baixos que o outro. Até o fim da tarde estarão emprestando dinheiro a juro zero... Estamos assistindo ao fim da base do capitalismo! Acabou!

A maioria desse povo desapareceu sem tiros. A guerra contra seus hábitos culturais e a mudança forçada das regras de interação social menosprezaram essa tribo, estigmatizaram suas práticas ancestrais a ponto de forçá-la à descaracterização. Acabaram com seu lugar de fala e coibiram seu idioma (a Lábia). Estigmatizaram seus rituais de caça (o Xaveco). Suas armadilhas são visualizadas à distância e nenhuma das técnicas de caça funciona mais. Foram forçados, como os guaranis, a abandonarem a nudez, o amor livre e a poligamia. Levados a se dissolverem em outra sociedade, com normas muito diferentes das suas, a maioria descaracterizou-se. Os sobreviventes abandonaram seus hábitos, alguns adotaram a linguagem neutra e praticamente todos viraram avozinhos, confinados à Reserva do Baixo Facebook.

Uma tarde sem Lúcia Verissimo

E

dson Kosminski foi um jovem cartunista do boom gaúcho dos anos 70, muito precocemente falecido. Foi lançado ao mundo pelo Quadrão, o suplemento semanal de humor do jornal Folha da Manhã, de Porto Alegre, editado por Edgar Vasques e Guaraci Fraga.

Tímido, quase sempre calado, eventualmente sussurante, no início da vida Edson desenhou um leve sorriso no rosto e nunca mais o tirou. Uma vez bateu na porta do Luis Fernando Veríssimo pruma visita. Passaram a tarde inteira em silêncio na sala. Lúcia, que era a responsável por falar pela família, saíra. Quando os olhares eventualmente se encontravam, balançavam a cabeça e sorriam. Acho que foi nessa que o Lui pensou sua famosa frase: "o silêncio era tanto, que se ouvia o tapete desbotando."

No final do dia, sem novidades, Edson deu uma palmadinha no braço da poltrona: – Acho que vou indo. À porta, se despediram com mais sorrisos. - Foi bom, né? - Foi. - Então, até outra. - Até. Depois, aos amigos Edson confidenciou que sentia que ele e o Veríssimo se entendiam.


30 Fabiane Langona

BIOMA PAMPA Celso Schröder

DR. ROBALO Kayser

Lu Vieira

tiras


31 Carlos Castelo e Bier

Laerte

MORGANA, A BRUXINHA Celso Schröder

RANGO Edgar Vasques

tiras


32

entrevero

Temos que admitir: o governo é uma esculhambação, mas o crime é organizado. Celso Vicenzi

Quando os militares mandam no governo as mordomias passam a ser “generalizadas”. Celso Vicenzi A corrupção no Brasil não é endêmica, é fotogênica. A maioria dos nossos corruptos continua a sorrir para os fotógrafos. Celso Vicenzi Uma investigação sigilosa está em curso na ABL. Os imortais nem querem saber que chá o Merval Pereira toma. Eles têm certeza que não é igual ao consumido pelos demais. Luiz Hespanha Bolsonaro que se cuide. Daniel Silveira tem as costas mais largas que a dele: mais de 20 cm, dizem. Luiz Hespanha Não comemorem. Ciro Gomes não desistiu e não vai desistir da candidatura a vereador em Chantilly nos arredores de Paris. Luiz Hespanha O tempo passa, a vida passa, a uva passa, a banana passa... e o Bozo faz trapaça. Mouzar Benedito Tempos de Covid, Aids e Bolsonaro... Dá saudade até da febre amarela, da gonorreia e - quem diria - do Sarney. Mouzar Benedito

Ecologia sem luta de classes é jardinagem. Chico Mendes

Era uma vez uma floresta na linha do Equador. Vital Faria Saga da Amazônia, 1982

Leve o voto a sério. Os piores ladrões são os que entram pela porta de frente. Bier Exército usou helicóptero para levar Playboy pra general na selva, mas não atrás de Bruno e Dom. Por falar nisso, quem matou Marielle? Caco Bisol

Vem coisa boa aí. Quem viver verá, menos o cego... Mouzar Benedito

Quanto mais eu rezo, mais velas eu gasto. Tarso Leite candidato: e ainda dizem que raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Caco Bisol Tudo indica que vai faltar água no Palácio do Planalto. Gastaram muito pra molhar a mão dos parlamentares. Celso Vicenzi Lei: regra de direito ditada pela autoridade estatal tornada obrigatória para quem não tem muito dinheiro. Celso Vicenzi Alguém se lembra de algum exministro do STF ter ido a Paris assistir às finais da Champions League e de Roland Garros? E a um show do Gustavo Lima em Xiripopó do Noroeste? Luiz Hespanha O carisma pantaneiro de Simone “Amoedo” Tebet fez Dora Kramer dizer que Dilma não foi a primeira mulher candidata à presidência porque foi indicada por Lula. A afirmação deixou Vera Magalhães, Maria Beltrão, Miriam Leitão e Lady Cantanhede chocadas. Luiz Hespanha

É um alento que, no meio de tanta desgraça, o governo e seus aliados lidem com a corrupção com tanta serenidade. Bier Então, Darwin, evolução é isto? Macacos me mordam! Bier Assassinato como método de governo


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entrevero

ca co bis ol

Timtim Pasquim 53 anos!

DICIONARIO

CASTELO DA LÍNGUA PORTUGUESA Por Carlos Castelo

degustado por lu vieira e carlo ambrosini

A tentativa de culpar as vítimas pelo crime me faz lembrar uma notícia dos anos 1960, vinda do Mato Grosso: “O preso se suicidou com dois tiros de fuzil nas costas”. Mouzar Benedito Não sei na outra vida, mas nesta uma das melhores sensações deve ser a do corrupto acobertado pela mídia e não incomodado pelo Judiciário. Celso Vicenzi Em todos os escalões (o que inclui o núcleo familiar) do governo Bolsonaro a dissimulação é método; e o cinismo e a tagarelice são práticas corriqueiras. Mas nesses quesitos ninguém supera o Zero Zero e seu vice, tratado por muitos como o Menos Um. Luiz Hespanha No meio de tanta coisa negativa, eu esperava algo de positivo, e veio. Mas que azar: é o teste de Covid. Mouzar Benedito O inominável reafirma seu gosto por armas: vão 'caçar' o meu registro? Caco Bisol

Mourão entrou de gaiato no navio, entrou, entrou… Caco Bisol

Roberta Miranda chamou de machistas de merda os sertanojos que criticaram Anitta, seus posicionamentos e tatuagens. A mulher, compositora, cantora e cidadã Roberta está anos-luz à frente dos defensores da “Lei Goianet”. Luiz Hespanha

Deu na rede: Política é como torneira: fecha pra direita e abre pra esquerda. Pintaram numa parede em Porto Alegre: Jesus voltará. Alguém completou: Mas tá atrasado! Polícia Federal diz que não há mandantes no crime de Bruno e Dom. PF virou sigla de Ponto Final? Celso Vicenzi

A balança da justiça brasileira seria reprovada numa fiscalização do Inmetro. Celso Vicenzi

Abin Serviço público destinado a manter em segredo o que é para ser revelado. Assexuado O ateu da libido. Carnaval Um Natal em que o peru não é servido com farofa, mas com camisinha. Cínico Indivíduo que tem amigos reacionários e progressistas. Facebooker Neandertal com o vocabulário estendido. Família Calamidade privada. Filosofia Doença intelectualmente transmissível. Inverno Época em que a classe média se lembra que existem pobres. Miliciano Free lancer do crime. Mito Religião que não cobra dízimo Repartição pública Local onde reparte-se presentes, brindes e gorjetas. Resiliente Capaz de se adaptar a uma vida no Brasil. Romance Gênero literário que, depois do modernismo, não teve mais nada a ver com romance.

Dia sim, outro também, Sérgio Moro bate o próprio recorde e garante lugar cativo no menor rodapé da história. Merece uma nova biografia do Vladimir Netto. Luiz Hespanha

Supremacismo A crença de que seu grupo de idiotas é superior a outros. Tecnoconsumismo Gastança bate estaca. Quem mandou assassinar Dom e Bruno?


34 Se eu fosse Ciro Gomes retiraria a candidatura e diria uma frase que o eternizaria entre freudianos, junguianos, lacanianos e winnicottianos: “Saio da política para entrar na história...da Psicanálise”. Luiz Hespanha Alguém aí reparou que as manifestações espontâneas no cercadinho do Alvorada não acontecem mais? O que houve com aquele povo elegante, sincero e ruminante? Luiz Hespanha O Brasil tem mais de 200 milhões de cabeças de gado. Só uma dúvida: será que computaram aquelas pessoas que aceitam tudo bovinamente? Celso Vicenzi Ladrões, em filmes antigos, ameaçavam: “A bolsa ou a vida”. No Brasil de hoje, os do poder nem perguntam, vão logo levando a bolsa e a vida... Mouzar Benedito Em 2018 ficou provado: nem só o peido é prenúncio de uma cagada. Eleição pode ser também. Mouzar Benedito Essa turma que desenhou o golpe, pelo jeito também quer riscar o país do mapa. Celso Vicenzi Invadida por naturais daquele sertão existente entre Goiânia e Miami, entre Barretos e Nashville, a música caipira foi rebaixada para sertanoja que, por sua vez, involuiu para um novo ritmo: a sofrência mamateira. Luiz Hespanha Márcio França acredita em segundo turno com Haddad. Eu, no coelhinho da Páscoa. Caco Bisol Zé Neto e Gustavo Lima estão para a música sertanoja assim como João Dória e Aécio Never estão para o PSDB. Luiz Hespanha

entrevero Michel Moro Gomez, Cuba. Óleo sobre tela

Mouzar Benedito Terceira via, minha nossa! No meio de duas autoestradas, Uma pista para carroça! Bolsonaro, que colosso. Deem-lhe mais um mandato E terão saudade da sopa de osso.

Promessa de campanha Bolsonaro disse que botaria a cara no fogo, em garantia da honestidade do amigo Milton Ribeiro, o ex-ministro da deseducação, preso por mão grande no Ministério. Deu na rede:

Quando uma porta se fecha, outra se abre (tive um Chevette assim).

Hoje em dia desconfio, Se me oferecem emprego: Deve ser presente de grego. O pastor pastoreia E faz um pé-de-meia Tirando de quem bobeia. Alimento, só sopa. Diversão, só papo. Do governo, sopapo. Plano de ação: Pra famiglia tudo, Pro povo, servidão. O povo mau-mau Não comia bombom Nem bacalhau. Desabrigado: Inverno É inferno Covid desgraçada! Entrou em casa de novo. Sem ser convidada! Quem merece, não morre de Covid? Ah, me contaram: o diabo existe E protege os seus, não duvide.

"O Congresso Nacional ficará iluminado de laranja em apoio ao combate de abate de jumentos no Brasil". Câmara dos Deputados

Faz sentido. A maior parte do Congresso trabalha em causa própria. TunicoK

No Brasil atual, Criminoso pensa: O crime compensa. Na Amazônia Legal, Vale tudo Que é ilegal! Não quer achar os culpados? Pois aqui vai um conselho: Bozo, não olhe no espelho.

Quando saberemos quem mandou assassinar Marielle e Anderson? Em 2023?


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'pequenos'assassinatos

A juíza fora da lei

“V

ocê suportaria ficar [ser violentada] mais um pouquinho? Acha que o pai do bebê [o estuprador] permitiria adotar? Sua mãe explicou como se fica grávida [como se é estuprada]? O que pra você hoje é sofrimento [estupro e gravidez aos 10 anos], amanhã vai ser alegria de um casal!” Essas foram as questões que a juíza catarinense Joana Ribeiro Zimmer – uma loira misto de barbie com bárbara - teve a crueldade de impor a uma menina de 11 anos, pobre, assustada, traumatizada, ferida para sempre, grávida por estupro, tentando convencê-la a não abortar, embora a lei permita o aborto legal, sem limite de prazo. Zimmer também tirou a menina da mãe e a trancou num abrigo, para impedir o procedimento. Sentiu o cheiro de enxofre? É a escola de hipocrisia, estupidez e falso moralismo Damares fazendo escola. O aborto só foi consumado porque o Brasil inteiro pressionou. Viva a consciência cidadã manifestada. (Graça Craidy)

O ministro fora da lei

A

PF grampeou por corrupção o ex-"ministro da educação", Milton Ribeiro, indicado pela primeira dama, Micheque. Puxando a corda, a PF pode enforcar vários pastores. Se puxar o rabo do "ministro", pode vir pendurado o Cara Queimada. (Tarso) Este governo é conivente com a pedofilia. Liana Cirne Lins, jurista


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borracheiro&exorcista

ernani ssó

O sono da conja

05

:42. A conja não sabe se está dormindo ou acordada e tem vontade de fazer xixi. Puxa, que agonia: o travesseiro suado, a cabeça doendo, de repente essa fila interminável de homens-sanduíche. Sem saber como, a conja sabe que são candidatos a uma vaga de emprego, uma só para milhões. Os homens têm escrito nas placas: Vende-se a Petrobrás. Maior pechincha, sim, mas uma vaga só? Vamos socializar a maracutaia, porra. 05:45. Aquele não é o conje? O sapatênis, a seriedade, a boquinha de chupar ovo. Coisa mais querida, só pode ser ele. Tem de levar a vaga. Tem. Vou lá dar uma força, pensa ansiosa, mas as pernas mal se mexem com o peso dos sapatos Valentino Garavani Rockstud. Ou será uma tornozeleira eletrônica? 05:47. A conja quase acorda. Foi a saudade, uma saudade de deixar em carne viva. Onde foram os tempos da toga? Onde, meu Deus? Tantas esperanças, tantos sonhos, ser fotografada na Ilha de Caras, fazer um remake de Casal 20 (Conjes 20) na Globo, dar entrevista pra velhota aquela, como chama? Aquela do papagaio, tá na ponta da língua. Seria tão bom tomar o lugar dela, sem o papagaio, claro, coisa mais cafona. Podia botar um marreco no lugar do papagaio. Fazer brincadeiras íntimas com o querido. A conja suspira: o jardim das delícias perdido. 05:52. A conja está no cenário do programa da velhota? Só tem uma lâmpada acesa, muito fraca. A conja olha aflita ao redor. Não tem ninguém e faz um silêncio como aquele no tribunal, nos primeiros segundos depois que o juiz bate o martelo. A conja sente medo, procura na bolsa um lenço. A bolsa custou quase uma delação premiada, mas, hoje, a conja não se impressiona mais com isso. Tem outras duas. O conje já voltou pra casinha? Caco Bisol

Cadê o lenço? Imagina se entra no ar em lágrimas? Mas isto não é lenço, é o teste de QI do conje, uma relíquia, deve mandar emoldurar e pendurar na sala ao lado da foto da primeira comunhão. A conja alisa o papel com carinho. Cravou 60, o querido. Não por nada moro com ele até hoje, pensou e pôs o papel contra o peito. Depois procura mais no fundo da bolsa. Diacho, como veio parar aqui o teste de QI do Heleno? 64. Porra, que coincidência. Vai ver, é porque estudou em Agulhas Negras, a acupuntura do mal. A educação de elite dos milicos é legendária. Mas Maringá fica atrás? O orgulho automático da conja por Maringá é turvado por uma emoção agridoce. Pobre Maringá. Maringá ficou tão pequena e desenxabida depois de Washington. A conja olha Maringá como quem encontra uma amiga dos tempos de colégio que se agarra às velhas lembranças numa espécie de respiração boca a boca. Mas é inútil, está tudo morto e enterrado. Como nunca tinha visto que a fulana é daquelas que acha chique passar uns dias em Camburiú? A conja não lembra que achava chique passar uns dias em Camburiú não faz muito tempo. 05:59. O conje cutuca a conja. A conja quase senta na cama, assustada. – O que foi, conja? – Sonhei que o Lula tava me cutucando com um tridente. – Tridente, é? Deixe comigo. Vou falar com o Torquemada.


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pasquim53anos

A força da imprensa alternativa Miguel Paiva

É

surpreendente pensar que O Pasquim foi lançado seis meses depois do AI-5, no início do momento mais sombrio e de maior perseguição da ditadura militar. Se pensarmos na imprensa de hoje, incluindo o Grifo, podemos traçar uma semelhança em termos de imprensa alternativa. Um jornal que nada contra a corrente e que consegue uma aceitação fora dos padrões. Hoje temos uma imprensa online que a liberdade da internet acabou selando como alternativa. Mas alternativa a quê se não temos mais a grande imprensa? Alternativa talvez ao pensamento da classe dominante que acaba sendo o pensamento dessa imprensa oficial. Na época da ditadura éramos a imprensa nanica, aquela pequena força resultado da união de poucos e bravos jornalistas românticos e corajosos que viam num jornaleco semanal e de humor, a saída para o cerceamento das notícias e da informação em geral. Em plena época soturna da ditadura pós AI-5 um jornal se arriscava toda a semana nas bancas. Acabou sendo a voz que faltava para o público leitor ávido de comentários sobre a realidade. O humor, sábio como sempre, criava uma nova linguagem para transmitir essas notícias que a imprensa comum não conseguia. Uma maneira coloquial e descontraída de falar sobre assuntos sérios ou não. O humor, como sempre, aborda os fatos por um viés inesperado, procurando o avesso da realidade, aliado a uma irreverência que vinha muito da intuição. Isso marcou o Pasquim como o representante não só de Ipanema e sua fauna, como do Brasil inteiro que queria saber das coisas. O jornal acabou vendendo mais do que sua capacidade de administrar tamanho sucesso. Eram jornalistas e não empresários e os empresários que se associaram acabaram metendo os pés pelas mãos, de modo intencional ou não e o que era muito bom acabou virando um puta abacaxi nas mãos daqueles jornalistas românticos. Além dessa notória inaptidão para os negócios, a ditadura não deixava o jornaleco em paz. Além da censura, a redação sofreu uma “gripe” coletiva nas masmorras de Deodoro que só podia ser noticiada, para justificar a ausência no jornal, como uma doença que acometeu todos ao mesmo tempo. Ninguém entendia o que acontecia e nós, os que não fomos presos – e aí incluo Martha Alencar, Millôr Fernandes, Henfil e Chico Junior –, tentamos manter o jornal vivo para, inclusive, pagar os salários da turma nobre da redação.

Foram dois meses de esforço sobre-humano para continuar a fazer um jornal dinâmico e engraçado. Todos os jornalistas, artistas, figuras de destaque do Rio e do Brasil colaboraram, mas, assim mesmo, foi difícil vender como antes. O faturamento caiu, porém o jornal resistiu. Quando foram soltos, a redação estava de pé, as contas em dia (até quando?) e o país na mesma. Mas o jornal continuou. Eu continuei colaborando até ir embora para a Itália de onde mandei algumas reportagens e entrevistas como correspondente. Hoje me sinto honrado de ter feito parte dessa história e depois de ter passado por todos os jornais e revistas do Brasil voltei para a imprensa que tem a mesma cara do Pasquim daquela época. Somos um bando de jornalistas competentes, malucos e teimosos que acreditamos num Brasil mais justo e mais feliz. Através do Grifo, por exemplo, do Brasil 247 e outros faremos prosseguir nosso trabalho de informar, com textos ou charges que carregam toda a nossa força e indignação. O Pasquim de mais de 50 anos atrás renasce aqui e em toda a imprensa não oficial para que dure não só para fazer história, mas para mudar a História do nosso país.

Livre como um táxi. Um dos slogans do Pasca


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artesdrásticas

laura zuccheri

Laura Zuccheri nasceu em Budrio/Itália. É formada em desenho publicitário. Ilustradora, pintora e quadrinista, Já desenhou Ken Parker, Julia e Tex da Sergio Bonelli Editore, além de trabalhos para o mercado francês.