Grifo 21

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Nº 21 01-15 ABRIL 2022

JORNAL DOS CARTUNISTAS DA GRAFAR

Arquivo pessoal

ENTREVISTA COM JULIANA DAL PIVA

A repórter que revelou as falcatruas dos Bolsonaros PÁGINA 27

TÁ MOLE?

Nos excitamos com o Viagra dos milicos PÁGINA 8

ESTELIONATO

Indígenas bloqueiam invasão da Amazônia PÁGINA 9

CENTRÃO

Todo mundo de PÁGINA 3


Baile das cobras

A

traição é a matéria prima do caldo politico no qual estamos entornados. A Lava Jato que produziu o golpe de 2016 e a prisão de Lula têm o mesmo DNA da perfídia e da deslealdade. A intriga foi o fermento que produziu Moro, derrubou Dilma, prendeu Lula e pariu Bolsonaro. Por isso a mídia, que sovou a massa deste indigesto prato, não se surpreende como deveria com a traição presente nas movimentações partidárias, ou quase isto, que antecedem as eleições deste ano. Eduardo Leite, o bom moço do PSDB, encarna este judas fashion, que, para chegar ao seu objetivo, trai seu partido, passa por cima de seu companheiro de agremiação e consolida a deslealdade como método num país que precisa urgentemente da franqueza. O baile de cobras patrocinado por Leite e Doria são apenas a expressão desta moralidade miliciana que tomou conta do país a partir da determinação da elite econômica de varrer a esquerda do cenário político nacional. Mas, em baile de cobras é preciso usar perneira de couro e é assim que Grifo se apresenta: com perneira de cartuns e textos que enfrentem as cobras e assumamos a dança. A farra dos generais, embora engraçada, se insere nesta grande traição que os poderosos imprimem aos brasileiros desde a chegada dos europeus e a enorme violência impressa aos povos originários e suas florestas. De tudo que nos acomete, a broxura dos generais é a mais alentadora e pode significar a retomada da potência social. Por isso torçamos para que o Viagra, as próteses, o botox, o gel e o tônico capilar não rejuvenesça está tropa geriátrica de tal maneira a não conseguirem erguer sequer pensamentos de exercício de poder. A broxada dos milicos, além de engraçada, é uma boa notícia.

O GRIFO de Francesca Zamborlini (Itália)

O Grifo - jornal de humor Desde outubro de 2020. Eletrônico, quinzenal e gratuito. Publicação de cartunistas da Grafar (Grafistas Associados do RS) Editores: Celso Augusto Schröder e Paulo de Tarso Riccordi. Editor gráfico: Caco Bisol Mídias sociais: Lu Vieira Participam desta edição: Acre: Hireki Munduru (Joana Barbosa) Bahia: Hector Cartunista Minas Gerais: Janete Chargista Paraná: René Rushel Pernambuco: Thiago Lucas Rio de Janeiro: Carol Cospe Fogo, Eduardo Scaletsky, Miguel Paiva, Nando Motta, Roberto Neto Rio Grande do Sul: Bier, Bierhals, Carlos Roberto Winckler, Edgar Vasques, Edu Oliveira, Ernani Ssó, Gabriel Renner, + Getúlio Vargas, Gilmar Eitelwein, Graça Craidy, Kayser, Lu Vieira, Miriam Tolpolar, +Mário Quintana, Marco Villalobos, Moisés Mendes, Óscar Fuchs, Rekern, Rodrigo Schuster, Santiago, Schröder, Tarso, Uberti, TunikoK, Zorávia Bettiol Santa Catarina: Celso Vicenzi, Frank Maia, Zé Dassilva São Paulo: Bira Dantas, Caco Bisol, Carlos Castelo, Céllus, Jota Camelo, Laerte, Luiz Hespanha, Mouzar Benedito E MAIS: Argentina: Adão Iturrusgarai, Mate-Matias Tejeda Colômbia: Elena Ospina Estados Unidos: Daryl Cagle Cuba: Michel Moro Gomez Itália: Francesca Zamborlini México: Angel Boligán Turquia: Musa Gümüş

Expediente

editorial

grafar.hq@gmail.com

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bailedascobras

Rasteiras, escárnios e ladainhas

Luiz Hespanha

D

ória disse que seria, depois disse que não seria e acabou dizendo que continua sendo. Sérgio Moro também disse que seria, depois desistiu de ser sem saber direito o que pretende ser. O mesmo pode ser dito da novidade mais antiga da política brasileira, o Dândi Eduardo Leite, candidato a qualquer coisa, desde que seja à presidência ou a vice. O trio tem dado sucessivas aulas magnas sobre a política rasteira. Depois da recusa do senador Rodrigo Pacheco e do flerte político com Dândi Leite, que preferiu ficar no PSDB para infernizar o Dória, Gilberto Kassab insiste numa candidatura própria (quiçá a própria) do PSD à Presidência. Sempre à direita, Kassab se apresenta como um taliban de centro, um connoisseur do soprar dos ventos sobre os muros, um guru do “New-Centrão” com pedigree e verniz. A paixão pela morte, tortura e sofrimento de quem não concorda com suas opiniões e métodos, é característica-mór do Zero Zero e de-

mais zeros que o seguem. Não há novidade nessa morbidez. Para essa gente o semelhante não existe. Existem apenas aqueles que têm direito, segundo eles divino, de ser estúpido, imbecil e criminoso. O episódio em que um dos Zeros de Bolsonaro zombou da tortura sofrida por Miriam Leitão é a reafirmação do desejo dessa gente em oficializar a tortura como política de Estado, como nos tempos de Médici e Geisel, e transformar o Brasil num Império do Pau de Arara, num Condomínio da Cadeira do Dragão e da Maquininha de Choque. Coisa de Rambos e Nascimentos que morrem de pavor de um debate na TV. Da mesma forma que é impossível não reagir ao crime que é defender e zombar da tortura, também é impossível esquecer quem passou pano para Bolsonaro e familícia, afinal a política econômica antinacional made in Paulo Guedes atende aos interesses dos barões da mídia que, coincidentemente, concordam com as opiniões de seus colunistas. A cada 31 de março o 1º de abril verde oliva retoma a ladainha: ‘Não saia da coleira, tá? A democracia possível por’raqui é a que Washington determina, não a que o povo constrói”. A máxima da cartilha fascista civil-militar é “Povo tem que esquecer que é povo, lembrar que é gado e que gado pode ser feliz. Os matadouros comprovam isso". Para a mídia golpista toda hora é hora de atacar Lula e tudo e todos que o cercam. A linha editorial continua a mesma: se não existe a gente inventa e cria o caldo. Não interessa se ao final Bolsonaro seja de novo o saldo. São Paulo já foi chamado de a locomotiva do país. Um olhar rápido sobre os vagões políticos que SP deu ao país e a si nas últimas eleições exemplos como Tiririca, Dudu Bolsonaro, Joyce, Zambelli, Mamãe Falei, Kim Kataguiri, Janaína Pascoal e Feliciano pululam -, além das prováveis candidaturas do Conje, da Conja e do Datena faz o eleitor atento perguntar: existe amor “por si próprio” em SP? A era Bolsonaro não criou, mas projetou parlamentares que se orgulham de serem assassinos ou candidatos a assassinos, todos merecedores do Prêmio Fleury ou do Troféu Hildebrando, o deputado Motosserra.

Tiririca, Dudu Bolsonaro, Joyce, Zambelli, Kim Kataguiri, Janaína Pascoal, Feliciano, Mamãe Socorro! ((Luca)


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Aprendiz de feiticeiro René Ruschel

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rofessora de Arte e Teatro, Clarissa Meroni de Souza ficou decepcionada com seu ex-aluno Dudu. Em fins de 2019, publicou um texto em sua página no Facebook onde afirmava que “o lindo menino loirinho” a deixou “paralisada (...) pela crueldade que fazia com minha profissão, com minha dignidade, com minha vida”. Insistiu que, à época, além do calote nos holerites, Dudu, então governador do Rio Grande do Sul, liquidava com o magistério gaúcho ao enviar à Assembleia Legislativa “uma proposta de reforma descabida que afeta sem dó nem piedade a vida dos professores”. Sentiu-se traída por acreditar nas promessas de campanha. “Não existem palavras para expressar a dor que sinto e que tento compartilhar com vocês amigos, neste post” sentenciou a mestra. Dudu sempre foi ambicioso, frio e calculista, conta o ex-vereador pelotense, Ivan Duarte. Recorda de uma visita que ele, ainda adolescente, fez ao seu gabinete na companhia do pai. “Após escutar nossa conversa disse que ‘um dia, também seria vereador’”. Em 2008, chegou lá. Quatro anos depois foi candidato a prefeito de Pelotas pelo PSDB com o apoio do grupo político do então prefeito Fetter Jr, PP. Eleito, repetiu a fábula do escorpião que pediu ao sapo para ajuda-lo atravessar o rio. Quando chegou à outra margem não resistiu e cravou a ferroada mortal no anfíbio. “Desculpe, mas é da minha natureza”. Assim que assumiu, tratou de abandonar a turma para pavimentar seu próprio caminho. O jovem político já dava mostras de seu pragmatismo. Embora se tratasse de uma eleição

municipal, Dudu recebeu doações financeiras de grandes grupos econômicos, inclusive do banco Itaú Unibanco, no valor de R$ 30 mil. “Os principais projetos realizados em sua gestão foram deixados prontos por Fetter Jr” afirmou o ex-vereador Duarte. Dudu jamais reconheceu os feitos de seu antecessor. Desde então estão politicamente rompidos. Em 2018, Dudu desembarcou no Palácio Piratini. Durante a campanha eleitoral prometeu não privatizar nenhuma empresa pública rio-grandense. Mais uma vez, não cumpriu o compromisso. A primeira medida foi alterar a constituição do estado e subtrair um dos parágrafos que previa a necessidade de plebiscito popular para aprovar a venda de qualquer estatal. Com apoio da Assembleia Legislativa conseguiu a façanha e vendeu a Companha Estadual de Energia Elétrica por R$ 100 mil e a Sulgás foi entregue sem concorrência pelo valor mínimo. Agora quer porque quer chegar à presidência da República. Sua obsessão é subir a rampa do Palácio do Planalto para receber a faixa presidencial. No ano passado topou disputar as prévias de seu partido, o PSDB, para a escolha do candidato. Acabou derrotado pelo governador de São Paulo, João Dória Jr. Tal qual um menino mimado que só aceita ser titular do time ou então põe a bola embaixo do braço e leva para casa, não admitiu o insucesso. Renunciou ao mandato de governador para percorrer o Brasil fazendo conchavos e acertos políticos. Sob o manto do deputado federal Aécio Neves, quer agora invalidar a convenção tucana para ser o protagonista da chamada terceira via. Sua campanha, que aposta na privatização radical do estado, é uma espécie de vale tudo. Depois de apunhalar Dória, Dudu se encontrou com o ex-juiz Sérgio Moro e agora flerta com a senadora Simone Tebet, ambos do União Brasil. Ao lado de Ciro Gomes, PDT, o quarteto participou recentemente de um evento realizado em Boston, EUA, Brazil Conference, para discutir as eleições aqui em Pindorama. Questionado sobre sua candidatura pela jornalista Eliane Catanhêde, de O Estado de S. Paulo, Dudu foi objetivo. “Estou na pista para negócios”. Catanhêde só não perguntou que tipo de negócios.

De acerto em acerto Leite ainda vai sair como vice do Cabo Daciolo e o Moro futuro candidato a vereador em Maringá. (Schröder)


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Leite esconde o Aécio ou Leite esconde o leite? (Luca)


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Quá presidência??? Quá, quá, quá... (Luca)


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támoleouquermais?

Caco Bisol

Viagra superfaturado 143% aumenta a ereção em quanto? Viagra e remédio pra calvície tem a ver com criar cabelos na palma da mão?

Celso Vicenzi

Corrupção nas Forças Armadas? Em "hiprótese" alguma! Novo ditado nos quartéis: “mais vale uma prótese na mão do que duas ereções meia-boca”.

Ernani Ssó

A compra de Viagra. Pela cara do Heleno, não funcionou. Agora, é preciso saber quantas bonecas infláveis as Forças Armadas compraram.

Leandro Bierhals

As forças armadas serão investigadas por enrijecimento ilícito.

Paulo de Tarso Riccordi

Não entendi esse Edital do milicos: não deveria ser Viagra OU prótese peniana? Já pago a picanha deles, o leite condensado, a pensão das filhas. Agora, Viagra e implante peniano. Tô vendo chegar a hora em que vão querer me comer! Talvez amanhã descubramos lotes de vibradores. Para defesa pessoal. (Schröder)


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támoleouquermais?

Farra do viagra. Tá todo mundo duro ô-õooo. (Luca)


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Indígenas bloqueiam destruição da Amazônia Hireki Munduruku

fontes, matando matas ciliares e novas vidas ao poluir com mercúrio a colonização dos água dos rios. Também povos originários os demais PLs, com a sempre foi objegarimpagem e explorativo das elites políticas. ção de gás e petróleo, são Nem a homologação da instrumentos de destruiConstituição federal de ção irreversível. 1988, a chamada “ConsNesse contexto, fica tituição cidadã”, mudou visível o papel dos povos o quadro. Atualmente, indígenas, pois sempre por meio do Governo foram considerados os Federal, políticos ruralisguardiões de lugares/retas e outros promovem servas. O que muda da a destruição legalizada colonização imposta por do maior patrimônio do Portugal e a atual? ApeBrasil: o meio ambiente; nas o método. Os neono “pacote”, extinguem colonizadores brasileiros os povos originários. fomentam o ódio, forOs “atos de legalitalecem o preconceito e zação” são marcas dessa “mostram a cara” como colonização; também o é canta Gal Costa. a legislação brasileira de O Brasil assumiu o 1988, utilizando os projetos de lei. A aprovação Parem de destruir a Amazônia, Zoravia Bettiol, acrílica sobre tela 2022 compromisso de cumprir a OIT da Convenção do PL490/2007, no formato guarda-chuva, com seus 20 Projetos de Lei, tiraria dos grupos sociais e 169 da ONU, mas vem despontanétnicos direitos já conquistados e garantidos na Constituição. Felizmente, do como um dos maiores promovea mobilização dos povos originários contrários à invenção do Marco Tem- dores de desmatamento e genocídio poral, uma pedra ainda não removida, e a indignação internacional, im- das etnias originarias no Planeta. O pediram o êxito de ruralistas e multinacionais que queriam aprová-la. Re- governo e seus aliados negociam lovidaram, porém, com projetos de lei mais específicos e já previstos no PL tes na Amazônia, madeira, promo490/2007 impactando diretamente a sobrevivência dos povos indígenas. vem consórcios favorecendo mineraÉ o caso do PL 2633/20 do deputado Zé Silva (Solidariedade/MG), que doras estrangeiras e a construções de altera normas relacionadas à ocupação de terras públicas federais, legaliza hidrelétricas em territórios dos povos ocupações irregulares e facilita a grilagem: cada vez que o posseiro arruma originários, mesmo conscientes de a cerca ou faz a roça, invade terras das comunidades tradicionais e originá- patrocinar um apocalipse ambiental rias. Aquelas que ainda não tiveram as terras homologados ficam à mercê e de populações. A Amazônia e os dos invasores que, após um período de uso, as vendem aos fazendeiros, povos originários resistirão até que a abrindo caminho para ocupar milhões de hectares ilegalmente. O PL da última árvore seja cortada e o último Grilagem facilita a fraude em documentos e os fraudadores são beneficia- guerreiro caia vencido. dos com indenizações irregulares e/ou com documentos falsos, expulsando *Hireki Munduruku, Joana Euda Barbosa, é das terras os verdadeiros proprietários. indígena mundurucu e Mestra em Direito) técnica da área de Patrimônio Já o PL 191/202 traz consigo a morte, ao regulamentar a exploração assessora Cultural e Memória da Federação do Povo econômica de recursos minerais em terras indígenas, contaminando rios e Huni Kui do Estado do Acre.

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umíndiodescerá


12 Carlos Castelo/Bier

COLARINHO, PÃO E VINHO João Bosco

BIOMA PAMPA Celso Schröder

Lu Vieira

tiras


13 BLAU Bier

ROBALO Kayser

MORGANA, A BRUXINHA Celso Schröder

RANGO Edgar Vasques

tiras


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querquedesenhe?

schröder

O verme antropofágico

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poço parece não ter fundo. Esgotaram-se nossos adjetivos, nossa capacidade de espanto e junto com ela a possibilidade da indignação. Acho que esta foi a tática: empilhar absurdos cotidianos de tal maneira a não conseguirmos mais distinguirmos estes absurdos e, pior, parte da sociedade, também querer compartilhar do prazer da mentira e da irrealidade resultante. Se éramos um país de ingênuos e inocentes Macunaímas, agora somos um país de perigosos Goebels que mentem com método, objetivo e intensidade. Como aconteceu isto, quando nós parimos estes monstros?

Como se formaram estes gargantuas e pantagrueis irracionais e mal humorados? Buenas, certamente este será o tema da sociologia e da psicologia social séria das próximas de décadas. Mas, enquanto isso, o que fazemos além de rir das bobagens e cuidar das feridas? Tentar entender para poder reagir me parece ser a tarefa necessária para hoje e para os próximos tempos. Os monstros que assolam o Brasil não são extraterrestres que desceram de uma nave invasora. Foram gestados, ao contrário, no cerne da sociedade. São frutos da desinformação, da legitimação do crime, do individualismo doentio, da falência da justiça e da política.

querqueescreva?

São filhos legítimos, enfim, do capitalismo brocha brasileiro. Seus pais são muitos. Alguns pais biológicos, outros de adoção e muitos simplesmente por interesse. A mídia certamente tem seus genes garantidos nestes macabros rebentos. Foi ela quem incubou os óvulos dos monstros ao adotá-los com carinho maternal. Garantida a chocadeira, a política foi mimando e alimentando o carnegão com sua própria carne. O individualismo foi a mamadeira cotidiana e a irracionalidade, o tempero que alimentou o furúnculo durante décadas. Bolsonaro é apenas o verme na porta da ferida, embora saibamos, todos os interioranos, que bicheiras são populosas.


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mundo

E De Gaulle tinha razão...

Daryl Cagle (Estados Unidos) Eduardo Scaletsky

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utin tem alertado que as sanções impostas à Rússia durante a guerra na Ucrânia irão abalar seriamente o papel do dólar como a principal moeda internacional. E ele pergunta: Os Estados Unidos estão dispostos a perder este “enorme privilégio”? Mutatis mutandis, repetiu o gesto do presidente francês Charles De Gaulle, mais de cinquenta anos atrás. No dia quatro de fevereiro de 1965, o então presidente da França Charles De Gaulle ingressou no auditório do Palácio do Eliseu, para um encontro com a imprensa. Suas declarações defendendo o fim do padrão dólar-ouro encheram as páginas dos jornais no mundo. Ele revelava o fim da base do sistema monetário internacional em vigor desde a Guerra Mundial. Dias depois, mandou a Marinha francesa buscar nos Estados Unidos 25.900 barras de ouro, pesando mais de 350 toneladas, pelos quais a França pagaria em dólares de suas reservas.

Afinal, em Breton Woods, os Estados Unidos se comprometeram a pagar US$ 35,00 por onça troy de ouro. Os países atrelaram suas taxas de câmbio ao dólar, na certeza de poder convertê-lo em ouro a uma taxa fixa. Havia percepção que os EUA, único país emissor de dólar, recorria a desvalorização monetária para financiar seu endividamento. A dívida para os americanos custava pouco, disse De Gaulle. Coube à Grã Bretanha sepultar definitivamente o sistema, quando anunciou sua intenção de receber três bilhões de dólares de suas reservas em ouro pela paridade original de US$ 35. No mercado, a relação já estava em US$ 48 por onça. Quatro dias, e Nixon foi à televisão anunciar ao mundo o rompimento dos acordos: nada de ouro por dólar. Os americanos ficaram com 18 dólares por cada onça de ouro. Precisava ter muito exército para fazer o que fez. Seguiu-se uma desorganização de todo sistema monetário de Bretton Woods. Mesmo declinante, 59% das reservas internacionais no ano passado ainda estavam em dólar e desvalorizações do dólar são pagas pelo mundo. Este poder econômico continua sendo usado, e o exemplo mais recente são as agressivas sanções impostas à Rússia, como sua exclusão do sistema SWIFT, onde o dólar é o senhor. Analistas olham a atitude como mais uma punhalada no combalido sistema financeiro internacional. A China entendeu que era hora de acelerar seus planos de construir um sistema financeiro concorrente, o Cips (Cross-Border Interbank Payment System), baseado no renminbi, moeda chinesa já reconhecida pelo FMI como divisa internacional. Combinado a esta ação, existem muitos acertos entre países asiáticos e a Rússia, para implementar o comércio em moedas diferentes do dólar. Dar concretude a um sistema financeiro internacional concorrente é um exercício necessário, mas ainda pertence à dimensão das incertezas acerca do futuro. Mas países fora do eixo da OTAN estão com pulgas nas orelhas, percebendo que estão atrasados nas reações. O dólar (ainda) é o Senhor? (Luca)


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mundo

O progressismo e bloqueios à emancipação na América Latina Carlos Roberto Winckler

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m aspecto pouco considerado quando se analisa o retorno do progressismo à América Latina é a presença de 76 bases militares estadunidenses na região, a maior parte concentrada na América Central e Caribe, mas há tendência a expandí-las na América do Sul. A influência também diz respeito a treinamento, transferência de equipamentos e cyberguerra. Todo um complexo integrado às formas de guerra híbrida praticada desde o início dos anos 2000 mundo afora. As forças armadas locais tendem a funcionar como uma extensão do Comando Sul dos EUA. O cerco efetuado à Venezuela é o exemplo mais recente, algo vivido por Cuba há seis décadas. O fim do unilateralismo, a passagem a um novo multilateralismo (o conflito na Ucrânia é sintoma dessa passagem), os acordos Rússia-China, a emergência do bloco eurasiano, a presença da China na América Latina, jogarão o continente no centro das questões internacionais em futuro próximo. A Comandante Laura Richardson, do Comando Sul dos EUA, denuncia “a marcha implacável da China para influir na AL e no Caribe”, além de lançar alertas à presença russa na região. O aviso é para todos. A Colômbia é considerada central nesse processo, dada a sua localização estratégica. País de longeva democracia oligárquica, sociedade bloqueada com tradição de violência - que remonta à Guerra dos Mil Dias no alvorecer do século 20 e à

reação às oligarquias em La Violência, entre 1946 e 1957, que forçou o surgimento de guerrilhas. A imposição do neoliberalismo nos anos 90, o acordo de livre comércio com os EUA, a instalação de bases militares em 2009, minaram sua soberania. A miséria agravou-se, o narcotráfico floresceu com cumplicidades da oligarquia, do aparato repressivo e de paramilitares. Grupos guerrilheiros cobravam taxas de narcotraficantes. Setores da guerrilha já nos anos 80 depuseram as armas em acordos que, ao final, não foram respeitados. Novo acordo foi assinado em 2016 e, após quatro anos, mais de mil líderes sociais e centenas de ex-guerrilheiros tinham sido assassinados. A eleição de Ivan Duque em 2018, aliado de Uribe, líder da extrema direita neoliberal, desencadeou manifestações, violentamente reprimidas, por todo país em 2021, em meio à pandemia. As eleições desse ano mostram a reorganização da maioria da esquerda em torno de Gustavo Petro, do Pacto Histórico, com chance de vitória com certa folga no primeiro turno, a realizar-se no final de maio, conforme pesquisas recentes. O quadro complica-se no segundo turno, quando Petro venceria com diferença de 3% o candidato Federic Gutiérrez, da direitista coalizão Equipo Colômbia. Os resultados nas recentes eleições legislativas mostraram crescimento da esquerda no Senado e na Câmara, insuficiente em que pese ter alcançado seu melhor resultado histórico: em torno de 20%. O retorno do progressismo mostra sua fragilidade. Chega ao Executivo, mas arrisca-se a sofrer bloqueios no Legislativo, como bem transparece no caso peruano. Mesmo em processos mais exitosos, como no Chile, a direita mostra fôlego capaz de impedir a aprovação em referendo da nova Constituição. Como se não bastasse o monitoramento de uma potência em declínio a impedir esforços coletivos de emancipação continental.


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fez-senews

moisés mendes

A invasão dos russos Moisés Mendes

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olsonaro conversava e comia açaí na tigela com uma turma do núcleo duro do governo, quando o ajudante de ordens abriu a porta e avisou: – Os russos estão chegando. Entraram quatro russos, todos com cara de russo, jeito de russo e fardamento militar russo. Um deles disse que era casado com uma argentina e que falava português. Foi o encarregado de dizer o que queriam. – Nosotros querrremos ajuda militar. Bolsonaro olhou para Augusto Heleno, que fez sinal de positivo com a cabeça, e disse: – Temos um jipe, um soldado e um cabo. O russo que fala portunhol olhou para os outros russos, que não diziam nada, e comentou: – É preciso mucho más. Querrremos milicianos. Bolsonaro vacilou para responder, e o russo voltou ao ataque: – Querrremos seus garotos na linha de frente. Carluxo era o único filho na sala. Olhou para o pai e para os ministros que permaneciam em silêncio e se encolheu no sofá. – Querrremos aquele garoto do jipe, que disse que iria invadir o Supremo, e esse que esteve em Moscou. O do rachadinha não querrremos. Bolsonaro reagiu: – Meu filho foi a Moscou apenas para tirar foto ao meu lado. – Mas é este que queremos e o mais o do jipe – insistiu o russo, apontando com o dedo na direção de Carluxo. O clima ficou tenso no gabinete. Ciro Nogueira tentou socorrer os garotos. – Eles não sabem nem dar tiro. O russo que falava português olhou para os colegas russos e insistiu: – Não importa. Não precisa dar tiro. É só aparecer em fotos com fuzis russos. Bolsonaro achou estranho, arregalou os olhos, viu que os outros também estavam com os olhos arregalados e disse:

– Mando tanques, mas não mando meus filhos para a guerra. O russo fez cara de brabo: – Usted foi a Moscou dizer a Putin que estava com ele. – Foi um blefe – disse Bolsonaro. Os russos franziram o cenho e um deles ergueu a voz: – davaige qvoz mem maqika pasmem. O russo que falava português traduziu: Vamos pegar o rapaz. O mesmo russo completou: Seus filhos são famosos em fotos segurando fuzis AK-47. Bolsonaro disse que era apenas cena, que ele mesmo certa vez perdeu a arma num assalto. Foi quando abriram a porta e Eduardo entrou no gabinete. O russo gritou: É este que querrremos. O do jipe. Eduardo deu meia volta e, quando estava tentando fugir, um dos russos, o mais ágil de todos, saltou nas pernas do garoto. Eduardo caiu sobre Ricardo Barros, que desabou sobre Onyx, que tropeçou na perna de um russo e caiu em cima de um vaso com orquídeas de plástico. Quando Carluxo tentou fugir pela porta dos fundos, outro russo o perseguiu e o conteve com uma chave de braço russa. Os Bolsonaros estavam sob o controle de quatro russos, um deles mais parecido com um argentino do que com um russo. Bolsonaro dizia que iria reclamar para a ONU, porque nenhum país pode obrigar o outro a brigar numa guerra, muito menos recrutando seus filhos. O russo falante rebateu, apontando para Heleno: Aquele seu tio se meteu na guerra do Haiti. Foi quando Queiroz entrou na sala com um AR-15 de cano curto, gritou ‘entreguem-se’, mas foi desarmado pelos russos. Queiroz caiu sobre a mesa e derramou a tigela de açaí de Bolsonaro no colo de Heleno, que comia mingau de maizena com bolacha Maria.

– davaige qvoz mem maqika pasmem. (Os russos)


18 Netto (José da Rocha Neto), chargista, cartunista do Rio, se integra agora ao Grifo. Nos anos 80 levou o primeiro lugar em um concurso de humor promovido pelo Pasquim. Isso lhe abriu portas de trabalho n’A Tribuna da Imprensa, O Dia e passagens n’O Globo e Jornal do Brasil e revistas Ele & Ela, Playboy, Raça Brasil.

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Elena Ospina é ilustradora e cartunista colombiana, com mais de 60 prêmios internacionais. Integra o grupo Cartunistas pela Paz e El Cartel del Humor. Iniciou no jornal El Espectador. Hoje ilustra publicações na Europa e Américas. Tem presença constante em exposições e campanhas pela a igualdade de direitos, igualdade de gênero, liberdade de expressão e ecologia.

elena ospina


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cultura

Enquanto isso em 1990...

Adão Iturrusgarai

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onheci pessoalmente o Angeli no comecinho da década de 90, antes de embarcar para Paris. Lembro como se fosse ontem e foi mais ou menos assim: Tomei um expresso no Fran’s Café do Sumarezinho e a garçonete me ensinou como chegar na rua Paris, onde ficava o estúdio dele. Caminhei pela tranquila rua e no começo de uma descida avistei do lado esquerdo um agradável sobrado com uma luminária de luz branca de prancheta no segundo andar. Paula me atendeu no térreo e pediu para eu esperar no sofá. – O Angeli está terminando a tira. Aceita um café? – Aceito. Obrigado. Passaram uns dez minutos, Paula sobe. Ouço umas vozes. Em seguida ela desce: – O Angeli falou pra você subir. Aí eu subi. Senti que aqueles eram os lances de escada mais importantes da minha vida. Foi um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para o Adão. A escada terminou e eu entrei no estúdio. Angeli estava sentado atrás da prancheta iluminado pela luz branca. Ele estava todo de preto. Camiseta, calça e botas pretas. A única coisa branca nele era o Marlboro na boca. Ele se levantou e veio me cumprimentar. O filho da puta era um galã como nas fotos. – Então você é o famoso Adão – ele disse, fazendo graça. De canto de olho avistei um original de tira em cima da prancheta. Era a primeira vez que eu via um original dele. Sentei no sofá em frente da sua prancheta e conversamos. Ele parecia bem calmo. Era paciente e detalhista. Conversamos sobre quadrinhos, putaria, humor e São Paulo. Ele pediu mais café para a gente. Pedi um Marlboro a ele. Conversamos mais. Ele me falou um pouco do Laerte e do Glauco. Contou que se reuniam ali às quintas-feiras para fazer a tira de “Los 3 Amigos”, que era publicada no caderno Folhateen da Folha de São Paulo na segunda seguinte. Lamentei que não fosse uma quinta-feira para poder conhecer os três de uma tacada. Em seguida saímos pra almoçar. De tão emocionado que eu estava por estar acompanhado do Angeli, as quatro quadras até o restaurante pareceram quatrocentas. O restaurante se chamava “Pé pra Fora”. Todos o conheciam no lugar. Angeli me disse que o “Pé pra Fora” era um QG de gente interessante: Mário Prata, Nick Cave, Laerte, Glauco, Toninho Mendes, Mathew Shirts e outros. Almoçamos e conversamos mais um pouco. Depois me convidou para tomar um derradeiro expresso no Fran’s Café. Ele pagou a conta e nos despedimos. Ele ia para a rua Paris. E eu ia para Paris. Apertamos as mãos e ele me disse:

– Adão: você será um superstar do quadrinho francês. CORTA PARA 20 DE ABRIL DE 2022 Após 50 anos no jornal Folha de São Paulo, Angeli anunciou que encerra sua colaboração com o jornal. Ele foi diagnosticado com afasia, uma doença neurodegenerativa e de agora em diante passará a produzir mais tranquilamente. Essa notícia me impactou um montão, já que fomos bastante próximos entre 1993 e 1999, até eu mudar para o Rio de Janeiro. Na correria, escrevi este textinho em homenagem a ele. Tive que me conter senão dava para preencher um livro inteiro: Obrigado, Angeli. Obrigado pela amizade de todos esses anos. Obrigado pelos cafés no Fran’s, pelas baladinhas leves na Vila Madalena, Matrix, Superbacana, The Jungle, Empanadas. Obrigado pelos almoços no Urca, no Pé pra Fora e no Frevinho, as idas à Indie Records, às livrarias, os shows que vimos juntos, do Bob Dylan e do Rolling Stones. Lembro que a gente assistia a MTV e fazia comentários como se fôssemos Beavis and Butt-Head. Bons tempos. Obrigado pela companhia nas viagens, as visitas surpresas de madrugada, os conselhos, as conversas jogadas fora e tudo o mais. Obrigado por tudo, Angeli. Pelo amigo que é e, às vezes, até pai. Te amo, cara.


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diaborosa

bier

PALAVRAS DA SALVAÇÃO Se a Quarta Guerra for com paus e pedras, tô pronto: pau nas cuecas e pedra nos rins.

- A senhora tem um andador pra me emprestar? - Tinha. Mas fugiu de casa.

A pandemia só nos vai tornar melhores se morrer todo mundo.

Tiradentes vai ser muito homenageado neste ano. Tá todo mundo com a corda no pescoço.

Drogadição, mesmo, é depender da indústria farmacêutica. Os preços da banana prata já são de banana ouro.

Entendo a fúria das bozolentas. Como é que aqueles analfabetos vão achar o Ponto G?

Por que o partido Novo tá infestado de Australopithecus de sapatênis?

Unha de fome não se corta em manicure...

Levei um susto quando, depois do passe, a benzedeira me mandou tomar Rivotril.

Joe Biden disse que o exército chinês amarelou. Mas que cor ele imaginava?

Banqueiro honesto no Brasil? Só se for o do jogo do bicho.

Que país! Quando não é 1º de abril, é sexta-feira 13 ou Finados...

POEMINHA DO REMADOR Ronca o rio no sovaco Da correnteza Tem mais água no barco Do que no leito Avemariapuríssima! Donde que tá o remanso? Cada pedra com seu naufrágio Cada peixe com seu relâmpago Cada galho com seu sortilégio Cada margem com seu desatino Na curva do lajedo Pra melhor bater a roupa A lavadeira fica pelada Cada rio com sua sereia


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paulo de tarso riccordi

Antônio Sabino & Fernando Maria A imprensa do Rio de Janeiro em meados do século 20 atraiu os melhores cronistas do Brasil. Os pernambucanos Antônio Maria e Nelson Rodrigues, o carioca Sérgio Porto, os mineiros Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes de Campos tinham status de estrelas da cultura, convidados a tudo quanto era festa e convescote da high society, incensados nos bares, que lhes reservavam mesa cativa (“a da diretoria”). A grande época da crônica na imprensa. Numa dessas, chegou ao bar o brilhante Antônio Maria e foi sentar-se ao lado do Sabino. - Fernando, tenho uma ótima pra te contar. Fui a um jantar de “800 talheres”, ontem à noite. - Foi? - Estava eu lá nos birinaites e uma socialaite botou sorriso em mim. - E aí? - Aí, quando passamos pra mesa, ela se adiantou pra sentar ao meu lado. - Bonita? - Lindíssima! E muito boa! A essa altura, a turma já havia silenciado, atenta ao caso. - Começou a contar que é minha fã, que abre o jornal direto na página de minhas crônicas, que não perde uma, que sou genial... - E aí? - Aí que já estávamos no intróito quando eu percebi que ela estava me confundindo contigo, Sabino. - Comigo?! - Contigo. Fã de babar. - E aí, contaste que tu não és eu? - Eu não! Não iria interromper a felicidade da linda por conhecer seu ídolo, o grande Fernando Sabino. - Pô! - Aí ela botou a mãozinha no meu braço e deitou sobre mim aquele olhar alongado. - E aí?

- Aí ela encostou a coxa na minha. - E aí? - Aí ela me convidou pra partirmos pra casa dela; um andar inteiro de frente pro mar. - E aí? - Aí não deu tempo nem pra esvaziar a champanha. Me arrastou pro quarto, arrancando minha roupa pelo caminho. - E aí? - Uma fogueira, aquela mulher! Me jogou na cama e pulou em cima de mim. - E aí, e aí?! - Aí, Sabino, aí você não imagina a brochada que você deu!


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causídico

marco villalobos

O deserto próximo a Porto Alegre

M

ais previsível que azia depois de beber vodca em garrafa de plástico, só aquele show que o Roberto Carlos, o “Rei da Juventude”, grava há 243 anos na TV Globo no final do ano. Em uma de suas tantas fases, ele apresentava daquela vez sua faceta, ou careta, ecológica para ostentar também, o título de “Rei dos Animais”. Certo dia toca o telefone na redação e vem o pedido da produção do show. Roberto queria uma reportagem sobre o deserto que aumentava na Fronteira Oeste do Estado, “logo ali” no Alegrete, a mais de 500 quilômetros de Porto Alegre. Na verdade, 1.000 porque tinha que voltar, né? Pior. A Globo, na época, tinha uma espécie de ranking para avaliar a produção das diversas TVs que faziam parte da rede e este tipo de matéria nem entrava nas contas. O repórter sabendo disso, estava “com toda vontade do mundo” de cumprir tão importante pauta. É preciso explicar também que isto era assunto gasto, e que só eu já havia editado umas cinco matérias quase iguais e tinha até réptil de estimação. Era uma imagem de um lagarto que estava ficando tão gasta, que na primeira ele era verdinho, sua cor natural, mas de tanto sair do arquivo de fitas já estava amarelo. Na negociação pedimos um táxi aéreo, o que foi negado pela direção, deixando o repórter

com “um entusiasmo contagiante” de dar a volta ao mundo de Kombi, para aquela matéria que já estava mais do que manjada. E aí veio a ideia, a partir de uma teoria fílmica-geográfica. Nada pode ser mais parecido a um deserto no Rio Grande do Sul do que a beira da praia, particularmente de Cidreira, que além de ser uma das mais próximas da Capital, ainda por cima tinha uns cômoros imensos. Na passagem, que é quando o repórter aparece na matéria, o cara parecia ter saído do filme Lawrence da Arábia. Para compor o quadro melancólico de um deserto, foi comprado em um açougue o osso inteiro da cabeça de um boi, o que dava um ar ainda mais desalentador ao “deserto do Alegrete”. Mesmo não sendo aqui o espaço para discussão, nestes tempos de fake news, eu diria que nada foi inventado, afinal a paisagem da Fronteira Oeste era a mesma e tenho certeza que pelo menos uma vez um boi que seja morreu por lá, nem que tenha sido de velho. O que houve foi uma adaptação, que entre outros cuidados, teve o do cinegrafista, sempre muito preocupado para que no momento em que o repórter caminhava sobre as dunas não houvesse a possibilidade, mesmo que remota, de aparecer um imenso oceano ao fundo. Já pensou o mar chegando ao Alegrete? Nem em tsunami de filme catástrofe de quinta categoria. Conclusão da história. O Brasil viu que um deserto, tão comum no Oriente Médio, é mesmo um monte de areia. A equipe percorreu de Kombi, os 240 quilômetros de ida e volta a Cidreira, contra os mil de ida e volta a Alegrete. Uma economia quilométrica! O Rei continuou fazendo sucesso e o lagarto, que mais uma vez entrou em cena, de tão usado e gasto como imagem de arquivo, foi ao ar praticamente incolor.

Descobrimos a causa da estagnação do Rio Grande do Sul, a cocaína esta adulterada. O Parcão está indignado. (Schröder)


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entrevero

História de las fronteras Angel Boligán

É tanto sigilo decretado que só daqui 100 anos saberemos se esse (des)governo existiu de fato. Luca

Depois dos últimos aumentos de tarifas, não há mais luz no fim do túnel. Celso Vicenzi

STF e TSE, como vira-latas, latem muito, mas não mordem. Celso Vicenzi

Graça Craidy

Pergunta que não para de andar de busão: o Conje e a Conja sabem onde fica Sapopemba? Luiz Hespanha

Na Páscoa, todo mundo sai da toca. Caco Bisol O ruim do influenciador digital é ele vir botando aquele dedo na cara da gente. Carlos Castelo

Alpinista social: aquele que sobe na vida escalando gente. Carlos Castelo Bebi todas. Tanto, que até vi um Saci de duas pernas. Ayrton Kanitz O povo fica maldando, mas os lubrificantes íntimos são pros canhões fumegantes daquele inesquecível 7 de setembro. Lembram? Tléc, guinch, tlec, guinch, tléc, tlec, guinch... Caco Bisol O tal “domicílio eleitoral” sempre me impressionou. O candidato muda de estado e automaticamente passa a conhecer tudo sobre o local para onde se mudou, até os vizinhos. Luiz Hespanha O Brasil parece uma suruba. Somos manipulados por cima, por baixo, pela esquerda e pela direita. Adão Iturrusgaray A política vive da traição. Mas destrói os traidores. Getúlio Vargas

 A pior parte de transar é a dificuldade para tuitar. Carlos Castelo

Quando duas pessoas fazem amor, não estão apenas fazendo amor. Estão dando corda ao relógio do mundo. Mário Quintana

Deu na web Vaciloscopia positiva Gente (animais tb) hoje (mas pode ter sido outro dia) eu vi (sem querer desmerecer quem não consegue ver) um filme (mas nada contra teatro ou outras formas de expressão artística) e ri bastante (porém tenho empatia com quem está passando por momentos tristes e não consegue sorrir).... @mirimemiri

Se promessa fosse dívida, todos os políticos estariam no negativo. Adão Iturrusgaray Vou registrar o nome Terceira Via. É o nome ideal para uma empresa exploradora de pedágios sociais entre Noronha, Pipa, Faria Lima e Angra dos Hucks. Luiz Hespanha Queria dividir esse momento raro com vocês. Hoje eu falei pessoalmente com alguém! Carlos Castelo Tolice achar que brasileiro não entende de mercado. Entende até mais, de supermercado. Celso Vicenzi Bolsonaro disse saber que não é tao inteligente assim. É o que podemos chamar de modéstia cavalar. Luiz Hespanha ”Eu não posso usar o meu Viagra, pô?”. Sério, Mourão?, vai lá e compra. Mas não com nosso dinheiro. Caco Bisol Salário do Mourão é de 100 mil reais. Dá pra comprar muuuuito Viagra. Caco Bisol


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entrevero

Não seria nada mal se alguns políticos saíssem da vida pública e entrassem na privada. Desde que puxassem a descarga, é claro! Celso Vicenzi

Não ser especialista em nada permite que você seja especialista em tudo. Carlos Castelo

Pra além das dicas de ”autoajuda” ensinando gastar menos em comida e energia não seria mais produtivo ir pra rua pra exigir nossos direitos? Caco Bisol

Assim como Dória, Eduardo Leite e Datena, Simone Tebet nunca apoiou Bolsonaro. É pura intriga da oposição, da situação, da ebulição e da embromação. Luiz Hespanha

Uma das expressões mais falaciosas da linguagem é ”envelhecer bem.” Carlos Castelo

Para os ecologistas, o pior cego é o que não quer ver... de! Celso Vicenzi

Já tem gente rezando assim: ”o pão nosso de cada dia sim, dia não...” Celso Vicenzi

Meu gosto é simples. Gosto do que eu não posso ter. Adão Iturrusgaray Anotem: vão acabar culpando os mordomos pelas mordomias. Celso Vicenzi Onde é que andam os Bispos dirigentes das Igrejas Pentecostais que não entronizam Deltan Dallagnoll como Profeta do Crowdfounding? Luiz Hespanha Silêncio no templo: o inominável decreta sigilo das tretas com pastores. Caco Bisol Certas pessoas deviam passar o dia inteiro no modo avião. Carlos Castelo Com o país em crise, a única coisa que continua baixando são os santos. Celso Vicenzi Lembra da Campanha ”O Brasil que queremos?”. Virou ”O Brasil que destruímos”. Luiz Hespanha

Depois da barriga negativa em 90 dias, academias prometem cérebro negativo em uma semana. Carlos Castelo No dia que descobrirem a cura da hipocondria, milhões de hipocondríacos vão adoecer. Carlos Castelo O futuro é um lugar com mais fábricas automatizadas, automóveis e fumaça que hoje. Carlos Castelo Tá mole ser membro desse governo. Caco Bisol Depressão é o desgosto gourmet. Carlos Castelo Visite a Amazônia antes que cobrem ingresso. Carlos Castelo Corretor ortográfico é maravilhoso: quantas palavras novas que a gente nem conhecia!... Caco Bisol Segundo a ministra Teresa Cristina, Bolsonaro trabalha muito. Gente, onde a ministra comprou esse microscópio? Luiz Hespanha

Barbarella é um belo filme, mas sexo presencial continua sendo melhor que a ficção, me desculpem Roger Vadim e Jane Fonda, maravilhosa. Caco Bisol Será que antes do Juízo Final a humanidade terá alguns dias de juízo, afinal? Celso Vicenzi De tanto enganar o estômago, nunca houve tanto brasileiro desenganado. Carlos Castelo Acordei na madruga, abri a janela, olhei pro céu e me perguntei: o que Elifas Andreato anda pintando pelas veredas do universo? Luiz Hespanha Não adianta alimentar a esperança. A realidade é pura fome. Celso Vicenzi E assim vamos: as FFAA às voltas entre disfunção erétil e cabelos na palma da mão, e o intragável fingindo que é imbrochável. Caco Bisol Nem emoji explica o Brasil. Carlos Castelo


Mouzar Benedito

Sonetos que cometo

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Pastoreando Oh, que ofício mais rendoso E que pouco esforço exige: Só entender que mal aflige Alguém e se fingir bondoso.

Viciado em São Paulo

”Dá o que tem, seja generoso”, Assim ao crente ele se dirige. Em rapinar nunca transige, E sabe se passar por milagroso.

São Paulo, um vício em forma de cidade, Maltrata quem gosta dela, mas a gente aguenta. Sofre, reclama, estrupia, quase se arrebenta Mas quando nos ausentamos sentimos saudade.

Do pobre cuja vida é desdouro Tira tudo que tem, sem pudor. Isso mesmo, arranca-lhe o couro.

Quando a vontade de fugir a alma invade, E nova qualidade de vida a gente experimenta, Passa a falar mal da tranquilidade sonolenta, E quer de volta tudo quanto é adversidade.

Nas tetas do Estado mama com vigor, Propina agora pede em barra de ouro... Como evoluiu a profissão de pastor!

Em Sampa, de cinemas e teatro queria distância, E no refúgio xinga por não ter nada disso, Como se à vida cultural antes desse importância. Cadê exposições de arte? Pergunta o culto postiço. No lugar sossegado se enche de petulância, E volta ao desvario paulistano cheio de feitiço.

Lembrando Gregório de Matos Guerra O que falta nesta cidade? Verdade! Algo mais que se lhe ponha? Vergonha! Boca do Inferno, poeta cheio de peçonha, Disse isso que minha mente invade. Na sua crítica feroz à soteropolitana sociedade, Ah, que visão futurista e previsão medonha: Parecia falar de um país sem-vergonha, Governado com ódio, mentiras e falsidade. Falava de Salvador há mais de trezentos anos Mas parecia se referir ao que é hoje o Brasil, País que se tornou valhacouto de insanos. Eles preferem, em vez de feijão, comprar fuzil, Fingindo louvar a Deus, louvam o autoengano... Ora, ora! Vão todos pra puta que os pariu!

Justiça britânica emite ordem de sumiço de Assange. (Luca)


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juliana dal piva

Arquivo pessoal

Quem sabe da vida do Bolsonaro é a Juliana

Juliana Dal Piva é uma repórter de 36 anos, já com uma respeitável carreira jornalística. Para seu trabalho de conclusão na faculdade de jornalismo da UFSC ela se embrenhou, por conta própria, na Bolívia, para investigar o trabalho escravo indígena praticado principalmente por fazendeiros brasileiros. Ousou e apresentou sua dissertação na forma de livro - "Em luta pela terra sem mal: a saga guarani contra a escravidão na Bolívia”. A partir daí, trabalhou nos principais veículos nacionais - O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, IstoÉ, portal Terra, revista Época, ajudou a fundar a agência Lupa e agora está no UOL. Enquanto isso, fez Mestrado em História Contemporânea do Brasil na Fundação Getúlio Vargas. Hoje, dedica-se a jogar luz nos cantos escuros da vida e fortuna de Jair Bolsonaro. No ano passado, em seu podcast no portal UOL, Juliana fez uma série de matérias, "A Vida Secreta de Jair", sobre o envolvimento de Jair Bolsonaro no esquema ilegal de cobrança de dinheiro de assessores quando era deputado federal, que lhe valeram uma nada sutil ameaça de morte do advogado da família. Participaram desta entrevista Caco Bisol, Lu Vieira, Gilmar Eitelwein, Moisés Mendes e Paulo de Tarso Riccordi


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juliana dal piva

O trabalho do repórter é fazer o primeiro rascunho da História. Tarso - Ao imergires na Bolívia por conta própria, ainda estudante, indicavas o instinto mais puro de repórter. Isso vem de sempre ou te despertou na faculdade? Juliana - Essa experiência veio, sim, de uma trajetória dentro da faculdade. O Brasil vivia um período de curiosidade e alguma proximidade com a AL. Durante o governo Lula, o Brasil se abriu pra fazer negócios, fortaleceu o Mercosul, também foi um período de governos que de certa forma se aproximavam. A Cristina Kirchner, o próprio Evo Morales, era o período do Hugo Chávez, todos eram um pouco mais próximos ao Brasil. Uma coisa que contribuiu muito pra minha experiência latinoamericana, decisiva pra minha carreira, foi o período que eu fui fazer o intercâmbio na Universidade de Buenos Aires, no segundo semestre de 2008. Um ano antes dessa experiência na Bolívia eu ganhei uma bolsa pra passar seis meses na universidade de Buenos Aires e optei por cursar História Social Latinoamericana, optei por mergulhar nas semelhanças e diferenças que a gente tem. E mais a questão das ditaduras, entender que lá não se fala “vítima da ditadura”, se fala “vítima do terrorismo de Estado”, que eu acho que é um conceito bastante importante pra se referir a esse período. T - Em que data foi a tua imersão na Bolívia? J - Um ano depois, 2009. Eu comecei a pesquisar essa história dos índios Guarani ainda lá na Argentina.

T - Esse trabalho de conclusão gerou o teu primeiro livro. J - Ele já tava muito prontinho assim, sabe? Eu apresentei pra Banca de conclusão do curso já como um livro impresso. Nós publicamos em 2012. T - E este livro foi a tua porta de entrada na grande imprensa? J - As pessoas achavam interessante o trabalho, elogiavam, mas tava todo mundo tão longe de cobrir aqueles temas que parecia que falar de escravidão na Bolívia era como falar de Marte. Foi uma boa entrada, mas eu te confesso que eu trabalhei nesses lugares todos que eu te falei muito porque o nosso mercado agora está em uma frenética revolução de cortes de postos de trabalho, sobretudo na reportagem. No começo eu tive dificuldade de me adaptar a essa lógica da Redação que quer a próxima manchete, não necessariamente estar atrás dos temas que mais importam pro país ou mesmo em se aprofundar dentro das histórias que estão sendo contadas todos os dias. Eu nunca quis ser uma grande produtora de manchetes, eu não consigo pensar assim. Depois trabalhei na eleição de 2010, com o Portal Terra, então surgiu uma vaga na IstoÉ e vim pro Rio. Era uma decisão pessoal também, foi quando eu casei, o meu marido tinha sido transferido pra cá. São quase 11 anos que estou morando aqui. T - Tu te tornaste mais visível quando participaste das investigações das rachadinhas na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro… J - Durante muitos anos eu estudei a área de direitos humanos no período da ditadura militar no Brasil. Quando eu voltei da Bolívia, depois do livro, e comecei a trabalhar, a única coisa que eu conseguia ir dando sequência entre um emprego e outro era a cobertura do tema das vítimas da ditadura. Começou o período da Comissão da Verdade. Eu estava trabalhando no Globo nessa época, já 2012, e a equipe do Globo se dedicou muito a isso. Fiz uma entrevista com aquele coronel do Exército que participou do Centro de Informações do Exército, da cúpula do regime, o tenente-coronel Paulo Malhães [NR: ex-agente do Centro de Informações do Exército, torturador e assassino confesso de dissidentes políticos]. Ele deu entrevistas históricas, se tornou um personagem muito importante pra descobrir algumas coisas sobre isso. O coronel omitia muita coisa, mas a gente fazia as perguntas (trabalhei com um colega do Globo, o Chico Otávio) nessas entrevistas e várias vezes ele não queria responder, deixava no ar. A gente checava muito o que ele falava, corroborava com outras entrevistas, não é ouvir o que ele está falando e acreditar, é investigar o que ele está falando. Muitas peças encaixavam. Evidentemente, nem todas e parece que ele fazia também algum trabalho de contra-informação. Mas ele de fato deu informações muito importantes e esse é o trabalho mais importante que eu acho que a gente pode fazer como repórter: ajudar a fazer esse primeiro rascunho da História. Essas matérias que a gente faz, que transcendem esse papel do jornal, esse papel do dia a dia. Elas ficam pra conhecimento histórico. Essa é a minha motivação. Naquela


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época, uma das coisas mais difíceis de se fazer era entrevistar militares. É muito complicado entrevistar torturador. A gente precisa entender o nosso papel como jornalista, não como juiz, não como promotor, não como delegado, se colocar no papel de sentar e ouvir uma pessoa que tem esse grau de atrocidades pra contar, se colocar nesse papel de diálogo, porque se não fizer esse diálogo ele morre com as informações dele. Então, é necessário. E, fazendo isso, conhecemos muitas pessoas que conheciam o Bolsonaro. Eu conheci muito o entorno do Bolsonaro naquela época, 2013, 2014. Os anos passaram, mas a gente cultiva essas relações com fontes de informação. T - Aqui, morreu impune o delegado Pedro Seelig, que foi um dos três da santíssima trindade da tortura no Brasil, com o Sérgio Fleury [delegado chefe do Dops de São Paulo] e o Ulstra [coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, ex-chefe do DOI-Codi do II Exército, em São Paulo]. Esse cara se aposentou, viveu tranquilo. Conta como foi esse movimento em direção aos torturadores e conseguir que eles falassem. J - Eu era muito jovem, tinha 25 anos quando comecei a fazer isso. Eu acho que eu tinha alguma consciência, mas essa consciência sobre a gravidade... é muito confuso quando você está fazendo. A Juliana – a mulher, não a jornalista – ficava horrorizada de tudo aquilo, de ouvir ele. Então esse conflito existia na minha cabeça. O trabalho mais importante, que foi o trabalho da “casa da morte de Petrópolis” [no início dos anos 70, o Centro de Informações do Exército montou um aparelho clandestino de tortura, assassinato e desaparecimento de militantes de esquerda numa casa na cidade de Petrópolis-RJ, cedida por um empresário apoiador da ditadura]; a gente começou a fazer no primeiro semestre de 2012. Ficamos uns três meses em cima de uma lista da Secretaria dos Direitos Humanos de pessoas que tinham trabalhado naquele lugar. O Chico tinha feito uma matéria antes com outro colega sobre esse tema e queria avançar. Então ele me chamou pra trabalharmos juntos. No início eu fui movida pela curiosidade. Pra mim é muito mais fácil entrevistar pessoas que pensam muito diferente de mim, a minha observação fica mais aguçada. Uma coisa que eu fiz e foi muito importante é tentar saber tudo, fazer uma ampla pesquisa. Eu geralmente faço todo um esquema de escrever, fazer a linha do tempo, então eu me preparo bastante. E eu comecei a notar que as entrevistas funcionavam e, sobretudo, com o Malhães, que fazia um jogo na entrevista. Ele não queria entregar tudo de bandeja. Ele fazia um jogo psicológico, pra saber o que a gente sabia, pra ele somente confirmar o que já sabíamos. Evidentemente, a minha posição como mulher, jovem, a minha aparência estavam colocadas, então eu ficava tentando marcar a minha posição ali pela minha inteligência. Quando ele não queria falar e dava uma volta, eu mencionava datas, lugares, o que fulano de tal disse, “e agora o senhor está contando outra história”. Ele dava uma risadinha e falava, ah, tá bom, aí ia contando as coisas. T - O teu mestrado foi durante esse período de entrevistas com os torturadores? J - Eu comecei a fazer o mestrado em 2014. Eu estava envolvida em uma investigação sobre a morte do Rubens Paiva [engenheiro e deputado cassado pela ditadura, sequestrado por militares da Aeronáutica em sua casa, no Rio, em 20/01/1971, torturado no Centro de Informações da Aeronáutica e depois entregue ao quartel da Polícia do Exército, na Tijuca, e dali ao DOI/Codi, onde foi

Naquela época, ” uma das coisas mais difíceis de se fazer era entrevistar militares. É muito complicado entrevistar torturador. novamente torturado e morto. Depois de dois anos, seu corpo foi desenterrado de uma cova clandestina e jogado ao mar por militares]. Decidi fazer a minha dissertação sobre a história do desaparecimento dele, por ter me dado conta do quanto não se investigou. O caso do Rubens foge muito à regra dos desaparecidos, porque ele foi preso em casa na frente da família. Ele não integrava uma organização de luta armada. Então eles precisaram forjar muita coisa pra poder dar conta de ter matado e desaparecido com ele. Foi forjada uma documentação em 1971. A família brigou na justiça durante muito tempo. Foi uma dupla de grandes repórteres do Jornal do Brasil que em 1979 trouxe à tona as mentiras sobre a fuga do Rubens Paiva da prisão, que nunca aconteceu. E então eu percebi algumas coisas: o quanto o avançar do caso do Rubens mostrava as políticas públicas desse período ou a inexistência delas, as famílias que ficaram muitos anos sem nenhum documento básico, como a certidão de óbito. Quem teve familiar desaparecido na ditadura não tinha isso até 1995, com a Lei dos Desaparecidos. Nunca teve uma investigação sobre desaparecidos durante a ditadura. As pessoas eram sequestradas e as famílias não tinham nem como ir na Delegacia reclamar, ir registrar uma ocorrência de desaparecimento na Polícia Civil, que também estava catando as pessoas pra matar. Então o caso do Rubens Paiva ilustrava


30 Os meus primeiros ” prêmios de jornalismo importantes foram esses trabalhos de entrevistas com o Malhães, descobrir as circunstâncias da morte do Rubens Paiva e o da Casa da Morte.

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muita coisa e também foi o primeiro caso de homicídio que foi aceito na Polícia Federal pra ser processado criminalmente. Os cinco que foram acusados do assassinato e ocultação do cadáver do Rubens, eu presenciei o dia em que eles tiveram que sentar no banco dos réus. Eu me emocionei em ver uma pessoa que foi presa junto com o Rubens depor depois de quase cinquenta anos daquilo.

Moisés - O José Luís Costa, nosso colega aqui da ZH, foi o cara que descobriu a prova da prisão do Rubens Paiva. J - O arquivo do coronel... M - ...do coronel que foi assassinado aqui em Porto Alegre [o coronel Júlio Miguel Molinas Dias foi assassinado a tiros em Porto Alegre, em 01/11/2012, por policiais militares que eram também assaltantes comuns. Ele foi comandante do DOI/Codi do Rio quando do fracassado atentado a bomba planejado por militares de ultra direita num show no Riocentro promovido por sindicatos de trabalhadores em 30/04/1981]. O José Luís acaba descobrindo o papel da entrada do Rubens Paiva no DOI/Codi. J - O coronel que morreu aí tinha sido chefe do DOI/Codi do Rio, e tinha levado muitos documentos pra casa. Esse era um dos motivos pelos quais tentávamos entrevistar militares, pra tentar saber se tinham arquivos em casa. M - Uma das coisas que é desse período e até no período posterior, na democracia, é a arapongagem [espionagem ilegal]. Tu pega agora na Argentina, onde estão investigando arapongagem a partir de delação. O Centro de Investigación Periodística, do Chile, chegou a documentos que provam arapongagem dos carabineiros. Tu tens intercâmbio com o Ciper? J - Eu fui convidada pra participar de um projeto que se chama El Clip. É o Centro de Periodismo de Investigación Latinoamericano, fundado por jornalistas colombianos. Se uniram a jornalistas de outros países. Nesse projeto que a gente está desenvolvendo agora existe uma equipe do Chile, mas não é do Ciper, é uma outra mídia independente. Tem gente do México, da Colômbia, do Peru, da Bolívia, da Costa Rica, Nicarágua, Guatemala, Argentina. M - Tu acha que vai ser possível descobrir mais coisas que ainda não sabemos? Não só do período da ditadura, mas de arapongagem mesmo, do submundo do poder que deveria ter um mínimo de transparência e não tem. Ou só vamos descobrir por acaso, como os documentos desse coronel? J - Os meus primeiros prêmios de jornalismo importantes foram esses trabalhos de entrevistas com o Malhães, descobrir as circunstâncias da morte do Rubens Paiva e o da Casa da Morte. Eu tenho muito orgulho de fazer parte dessa geração de jornalistas que se dedicaram a cobrir esse tema, tentar ajudar a desvendar esses crimes, trazer verdade, justiça e paz pra essas famílias.

O Brasil nunca fez justiça. Agora, eu diria que sempre é possível achar alguma coisa no próprio andar da carruagem. Do que a gente conseguiu avançar nesse tempo, de 2011 até 2015, teve acesso a uma documentação do SNI que nunca foi consultada, outros documentos surgiram a partir disso, apareceram algumas testemunhas. Neste momento, o problema maior que a gente encontra é que dos militares dessa época muitos estão morrendo sem responder pelos crimes e sem ajudar a esclarecer, sem que as histórias sejam minimamente reveladas. Isso é muito grave, muito triste. Mas eu não jogo a toalha não, eu acho que é possível continuar. Isso que aconteceu com esse coronel aí no Rio Grande do Sul, de guardar coisa em casa, boa parte deles guardava. Eu não duvido que amanhã ou depois apareça algum herdeiro com documentos dessa época da ditadura, ou mesmo que conte alguma história que ouviu do pai ou do avô. Tem muita gente que tem consciência pesada do que alguém da família fez naquela época. Algumas das matérias que eu fiz sobre a ditadura foi para O Dia, de 2013 a 2015. O Dia foi uma escola. Foi aí que eu comecei a trabalhar no O Estado de São Paulo. Eu fiquei somente quatro meses no Estadão e recebi um convite pra ir pra Lupa, pra ajudar a fundar a primeira agência de checagem de dados do Brasil, pra começar esse trabalho de combate à desinformação. Tinha um trabalho na Argentina muito bom que se chama Tiqueada, estávamos muito inspirados na época. Uma amiga minha que trabalhava no Globo estava com esse projeto. A Lupa é uma empresa que é dela e ela me chamou pra ajudar a fundar, abrir a sala, ligar o telefone, escolher o nome, fundar o site, logotipo. Isso foi uma experiência bem importante eu acho que se hoje falam de (eu detesto o termo)


31 fake news, se falam de combate à desinformação, se está aí o TSE fazendo todo um esforço pra que as plataformas de redes sociais se preocupem com isso é por causa desse trabalho que começou a ser feito em 2015, quando a gente já via o movimento que estava acontecendo lá fora, nos EUA. A gente fez algumas coisas que envolviam as delações (da Lava Jato): “tem corroboração? O cidadão tá falando isso ou aquilo, o que bate, o que não bate?” Esse foi um período muito difícil da imprensa. Cobrimos a eleição de 2016 e já deu pra ver aquela ascensão do Flávio Bolsonaro, que foi candidato a prefeito. E quando estava chegando o fim de 2017, eu senti a falta de fazer reportagem de investigação, de fazer reportagem de fôlego, então eu decidi sair. A Daniela Pinheiro, que era repórter da revista Piauí, estava montando uma remodelação da revista Época e me chamou pra fazer parte do projeto dela. Eu já tinha uma admiração muito grande pelo trabalho da Daniela, é uma das minhas inspirações como profissional. E aí eu voltei. Eu comecei tudo isso tentando entender quem é Jair Bolsonaro; eu comecei investigando Jair Bolsonaro.

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rente. Ele não estava ali contratando um grande marqueteiro. E eu tinha o conhecimento do entorno do Bolsonaro, sobre como é que funcionava. Então foi meio que natural retomar aqueles contatos, com um pouco mais de afinco. Eu já tinha essa inserção no meio dos militares, então pra eu transitar no meio deles era mais fácil. Eu tinha uma curiosidade e ele é uma pessoa problemática, nenhuma dúvida sobre isso, mas ele é um personagem extremamente interessante, não tenho como negar. M - Tu falaste que o jornalismo faz o seu trabalho, mas não tem uma complementação de investigação da polícia ou do Ministério Público… J - Se trocar o governo, se houver uma mudança, ah, eu acho que muita coisa vai acabar vindo à tona. Esse saneamento das instituições, sobretudo as instituições de investigação, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal, a Abin, eu acho que vai acabar acontecendo. Agora, é muito difícil, porque se a gente publicar tudo o que a gente escuta, fica em uma situação bastante delicada. Você é acusado de estar fazendo isso por uma questão política, então é sempre importante que se tenha elementos pra mostrar aquilo que as fontes estão contando, ou mesmo pra denunciar uma situação.

M - Às vezes o jornalista não tem, tu sabes. J - Eu sei. Eu mesma, já me mostraram um documento que eu tive que anotar tudo porque não me deram cópia e nem podiam. O meu critério nesse tipo de situação é esse: é fonte direta, ou me mostra o documento pra eu ver, ou me mostra a mensagem, o áudio. Se eu puder checar em primeira mão o que estão me falando, eu vou publicar, mesmo se eu não puder mostrar [a prova]; eu vou bancar. Se eu recebo por fonte indireta, então eu vou ficar tentando conferir na fonte direta. Porque também faz parte do nosso trabalho estar seguro do que vai publicar. Às vezes você quer dar sequência nos temas, mas não dá por não se ter elementos. E você continua tentando. Esses áudios que vocês ouviram no podcast [“A Vida Secreta de Jair”] eu fiquei dois anos tentando convencer a fonte ceder pra publicar. Então, quando se fala “ah, a Folha sabia…”, tem um monte de coisa que eu sei, como os cheques do Queiroz pra Michelle Bolsonaro. “Tinha mais cheques”, eu também tinha ouvido falar, mas eu não consegui acessar os cheques e um belo dia, pela competência T - E porque escolheste ele? Ele de um colega chamado Fábio Serapião, os cheques vieram à tona e vieram ainda era um deputado de terceira outras coisas à tona. linha. J - Ele era deputado, mas era a Lu - Tu diretamente já sentiste a Me mandou uma novidade da eleição. A gente tinha o tua segurança ameaçada em alguma Lula, que era candidato pela enési- situação? mensagem falando ma vez, e tinha todo o rol da coisa J - O episódio do ano passado foi que meu corpo ia da Lava Jato, prestes a ser preso. E bem ruim, eu fui ameaçada, no dia aparecer boiando se eu aí nisso já tinha muita gente, muitos da publicação do último episódio do repórteres especializados. Pra você podcast [“A Vida Secreta de Jair”]. Eu fizesse, por exemplo, entrar ali e se diferenciar era muito já tinha uma relação bem difícil com na China igual o que difícil. Mas eu confesso que tinha esse advogado [NR: Frederick Wassef, curiosidade de ver aquele homem amigo e advogado da família Bolsonafaço no Brasil, que eu que era novidade, sabe? E que era ro e de Fabrício Queiroz, o operador era inimiga da pátria, um desafio pra gente também, nin- das rachadinhas de seus gabinetes], jusessas coisas… guém estava muito atento ao Bolso- tamente pela quantidade de matérias naro e tudo no Bolsonaro era dife- que eu fiz sobre o caso, sobre o Flávio


32 Bolsonaro, sobre o Jair Bolsonaro. Ele queria me intimidar. Ele simplesmente, numa sexta-feira, final do dia, me mandou uma mensagem falando que meu corpo ia aparecer boiando se eu fizesse, por exemplo, na China igual o que faço no Brasil, que eu era inimiga da pátria, essas coisas… Eu, que já tinha pessoalmente ouvido ele defender o [ex-capitão da PM do Rio] Adriano Nóbrega, que é um miliciano conhecidíssimo aqui no Rio de Janeiro, como vou dizer que não passam pela minha cabeça essas relações? Claro que passam. Isso também tem uma dimensão pra minha família. Porque essas coisas acontecem e não é só sobre você, nossos familiares também acabam passando essas coisas junto contigo. Eu saí do Rio, fiquei três semanas no Sul até pra sair desse ambiente. Passei umas semanas compartilhando a minha localização na rua com meu marido para poder trabalhar. Tenho algumas preocupações sobre circular no meio dos bolsonaristas, porque... não sei, né? Nesse período de pandemia me senti até meio que protegida, utilizando máscara e prendendo o cabelo, sumindo no meio do povo, ninguém te conhece (risos). Agora, de cara limpa não tem muito como fugir, não. Voltei a circular um pouco agora. Recentemente estive no lançamento do partido do Bolsonaro, foi tranquilo, mas, também!, eles botaram a imprensa lá cercada num chiqueirinho de que não dava pra sair. Acho que a gente tem que estar atento, sabe? T - Juliana, isso tudo aconteceu porque você começou a investigar o personagem, lá por fevereiro, março de 2018. Onde você estava trabalhando? J - Eu já estava trabalhando na revista Época, na redação integrada junto com O Globo, quando apareceram as primeiras pesquisas eleito-

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rais destacando a força emergente Agora estão atrás do Bolsonaro. Ao longo de 2018 desse Gabriel Monteiro, eu fiz algumas matérias denunciando aquele Tercio Arnaud, que ficou o vereador, porque super famoso por causa do gabinete ele é uma pessoa sem do ódio, e que agora vai ser candiexpressão, que não dato se não me engano na Paraíba. Mostramos que ele tinha páginas de tem nada a ver com ódio e era um funcionário fantasma. ninguém deles. Ele vivia viajando pelo Brasil com o Bolsonaro e tinha um cargo no gabinete do Carlos Bolsonaro na Câmara do Rio. O que o Facebook fez quando a gente contou sobre as páginas de ódio? Nada! O Tercio virou o Tenente do Gabinete do Ódio, foi para o gabinete presidencial quando Bolsonaro assumiu. Eu tentei levantar a vida de várias funcionárias do gabinete, tipo a Val do Açaí. Elas tinham o mesmo perfil: ou eram mulheres muito humildes, que não tinham nenhuma experiência como assessor parlamentar, não eram lideranças políticas, sindicais, ou, então, eram viúvas de militares, tinha muitas caras que eram funcionárias fantasmas. Só que eu não tinha todos os elementos, não consegui. Em seguida, teve o episódio da facada, veio o primeiro turno, era um volume enorme de informações, vocês não têm noção da quantidade de coisas que acontecem num mesmo dia e a mesma equipe tem que trabalhar para cobrir! Em dezembro, Bolsonaro já eleito, vem à tona o relatório do Coaf, que fazia sentido com as apurações que eu já tinha [o Conselho de Controle de Atividades Financeiras abriu investigação sobre o esquema de rachadinhas no gabinete do senador Flávio Bolsonaro]. A Natália, filha do Queiroz, eu já andava atrás dela antes. A partir dali comecei e nunca mais parei. Devo ter ido umas 30 vezes nas casas dos assessores para achar essas pessoas, um dia após o outro, finais de semana. E nada dava certo. Daí eu voltei dez passos e pensei: vamos tentar entender os personagens. Comecei a fazer um perfil do Queiroz quando as coisas acalmaram um pouco. Aí começaram a aparecer outras fontes. Depois que publiquei o perfil dele, foi em maio de 2019, se não me engano, várias pessoas que eu tinha procurado antes começaram a se abrir um pouco mais pra contar coisas. Sobretudo algumas fontes que não queriam falar na época da eleição começaram a citar nomes, episódios, documentos. Eram inúmeros, centenas de funcionários fantasmas. É um grande esquemão e envolve todo mundo. Fiz várias matérias. Teve a primeira, sobre um grupo de funcionários parentes da segunda mulher do Bolsonaro, a Ana Cristina Valle. Depois a gente aprofundou pro período que ela atuou como chefe do gabinete do Carlos Bolsonaro, que não era investigado nem nada. Daí a gente descobriu toda uma parentada dela e a estrutura desde o início, desde o primeiro mandato do Carlos, em 2001 e como isso vinha se perpetuando ao longo de todo o mandato dele, até agora. Depois apareceu outro funcionário numa situação muito parecida, tinha ficado dez anos no gabinete do Carlos Bolsonaro, morando em Juiz de Fora... Fomos avançando e fizemos aquela grande especial sobre todos os funcionários, uma coisa que envolveu até leituras do Diário Oficial na biblioteca da Câmara, eu e mais dois colegas, dos últimos 18 anos! E é tudo feito sob muita tensão, muita pressão, muito assédio virtual, um ambiente muito agressivo. Muitas vezes não se sabe pra onde ir, chega em


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um determinado ponto em que não tem pra onde avançar. Eu acredito que as únicas investigações que você vai efetivamente ver avançar até o final do ano, serão as da imprensa. Olha o inquérito sobre a interferência [política de Bolsonaro] na Polícia Federal. A cúpula da PF, que já mudou duas ou três vezes desde o episódio da acusação, concluiu que não teve interferência na PF (risos). No primeiro inquérito, que foi arquivado ano passado – eu tenho muita coisa dele, li muito sobre ele –, ali você vê que tinha uma delegada que estava a fim de investigar, o Alexandre de Morais atendia os pedidos dela. O que fizeram? Afastaram a delegada. Na ponta, o ministro pode ficar lá apertando, mas o que faz a PF? Eu sinceramente acho que só tem chance dessas coisas andarem se trocarem o governo. Tudo que depende da PF e do MPF hoje em dia, e até do Ministério Público do RJ, que mudou a cúpula e faz um ano que não tem investigação nenhuma. Agora estão atrás desse Gabriel Monteiro, o vereador. Estão atrás dele porque ele é uma pessoa sem expressão, que não tem nada a ver com ninguém deles, nada nem ninguém depende dele. Em vários outros escândalos que envolvem o Bolsonaro, em qualquer outro governo, em qualquer outra circunstância, já teria motivado processos muito graves, muito sérios. Essa história do Flávio mesmo, faz um ano da decisão que anulou a quebra de sigilo. Conversei com vários juristas, é difícil defender. Tecnicamente, ele tinha que explicar melhor porque estavam quebrando o sigilo. Aí tem dois parágrafos explicando. O juiz tinha que saber melhor. O que eles deviam fazer? Pedir nova quebra de sigilo, mas faz um ano que o MP tá com ele parado e não faz isso, não sei porquê. M - Todo o MP foi desestruturado. Mas tenho esperança de que as circunstâncias vão ser alteradas e alguma coisa vai ter que acontecer. J - Eu diria que até o fim do ano teremos muita emoção até o fim da eleição! T - Juliana, em agosto sai um novo livro teu, que tem o Bolsonaro como personagem central, sua história e suas fontes de financiamento. Desde quando vem esta investigação? J - Especificamente sobre o Bolsonaro, é de 2018 pra cá. No livro, eu amplio o que conto no podcast, explicando melhor alguns episódios, trazendo novidades, claro, mas sobretudo é sobre esses bastidores, como essas pessoas se articularam pra derrubar determinadas coisas ou pra fazer outras, algumas entrevistas exclusivas que ajudam a remontar melhor alguns episódios. Mas para além do Bolsonaro em si, que é o grande protagonista desta história, também tem muita história sobre o Judiciário, sobre as pessoas que estiveram envolvidas com o caso e com a vida dele também. Meio que contar um pouco da vida pública dele e como este caso traz à tona toda uma vida que ele tentava esconder. Também não tem como não falar da Operação Desmonte, que tentaram fazer pra desviar todas as provas do caso Flávio. T - Tu estavas dizendo que foste investigar o Bolsonaro quando era candidato à presidência, suas fontes de financiamento, e chegaste às rachadinhas em seus gabinetes, o envolvimento de funcionários fantasmas, a grande rede das famílias envolvidas e os amigos e empregados das famílias. Se poderia dizer que os mandatos dos Bolsonaros foram montados como uma enorme fonte de desvio de dinheiro público? Onde entram as milícias nessa história?

J - Esta é uma pergunta em investigação. Entra o Adriano Nóbrega, que é a pessoa com quem o Frederick Wassef tinha relações e vivia defendendo publicamente. O Adriano era um capitão do Bope. Ele era um típico capitão conhecido por ser valentão, era tido como um agente muito “operacional”, o que significa dizer que é daqueles que matam muita gente em operações da polícia. Em determinado momento, descobrem o envolvimento dele com os bicheiros. Ele é um matador de bicheiros, especialmente de duas famílias de bicheiros daqui do Rio, e acaba expulso do Bope em 2014. Só que neste tempo que ele esteve na PM, ele foi preso por outros episódios. Num deles, foi preso em flagrante depois de matar um homem que trabalhava como guardador de carros e que tinha denunciado ele e um grupo de policiais que atuavam na região, por tortura. Esse rapaz tinha sido vítima de um sequestro relâmpago, levaram ele pra um lugar e o torturaram pra pegar em torno de R$ 2 mil. Isso, em 2003, era um dinheiro considerável. Este rapaz vai e denuncia. Tinha outras denúncias que falavam desse grupo tático de PMs que andava torturando gente na região de Olaria. Quando o Adriano fica sabendo que esse rapaz fez isso, ele vai lá na luz do dia, de uniforme da PM e tudo, e matam o cara na porta de casa. Só que são pegos em flagrante por outro grupo de poli-

Quando o Adriano fica ”sabendo que esse rapaz fez isso, ele vai lá, na luz do dia, de uniforme da PM e tudo, e mata o cara na porta de casa.


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ciais, algo meio inédito, e são presos. Ele e mais o grupo de matadores da PM com ele. É um caso que derruba é uma pessoa tão toda a cúpula da PM do Rio. Ele é religiosa quanto diz. processado e condenado em primeira instância. No meio disso tudo, A religiosa da família Flávio Bolsonaro o homenageia com a Medalha Tiradentes e vai na cadeia é a Michele. Os outros, levar a maior honraria do Estado do nem os filhos são Rio de Janeiro! Jair Bolsonaro faz aquele discurso famoso, que está no religiosos, nem ele é. YouTube, “coitado do capitão Adriano, o que a Câmara Municipal pode fazer pra ajudá-lo por essa injustiça? Não era um guardador de carros, era um traficante”. Não tem nada pra falar da pobre vítima que morreu, sem nenhuma acusação, mas é uma defesa genuína. Eles mantêm aí alguma relação, que é também pelo Queiroz, que era muito amigo desse Adriano, e é uma relação que continua, a ponto do Flávio Bolsonaro nomear no gabinete dele aquela que era, na época, a mulher dele, a Daniele. E, tempos depois, também a mãe do Adriano. Mas a Daniele ficou mais tempo, de 2008 a 2018. Então, ele tinha uma relação de proximidade com o Adriano. É inegável. O Flávio diz que aprendeu a atirar com o Adriano. E em função até das matérias da Folha de S. Paulo que trazem à tona os áudios das irmãs do Adriano e também da viúva, a gente viu eles defendendo o Adriano, dizendo “temos que investigar sua morte, queriam matar ele”, uma história super complexa. Não sei se ele foi assassinado ou não. Mas até hoje defendem essa coisa meio House of Cards, o presidente do país e os filhos dele defendendo um assassino, matador de aluguel, na cena pública, pra todo mundo ver... T - E essa relação estendida se tornou uma base, não acredito que por si só tenha efeitos eleitorais, mas muito mais intimidatórias, com as redes das polícias militares, as polícias metropolitanas. Isso se estabeleceu como uma rede sua de chantagem sobre a sociedade. É uma coisa que acontece a partir disso, dessas relações Queiroz-Adriano. J - Esta é a parte mais difícil de identificar. De fato só dá pra fazer campanha eleitoral nessas regiões se você tiver alguma proximidade, o que acontece também nas áreas dominadas pelo tráfico. Tem várias comunidades onde não há mais essa separação entre milicianos e traficantes. Os antigos milicianos também fazem tráfico de drogas. O fato é que são organizações criminosas, é tudo bandido. Tudo se misturou. Ainda tem um pouco a presença do policial na chefia, às vezes nem é um policial que está na chefia, mas o grupo começou assim e tem esses laços de aproximação com outros policiais que estão em postos de comando, até. É difícil, é um Estado paralelo mesmo, bastante perigoso. T - Um terceiro pé do Bolsonaro e sua família são os pentecostais. Nas tuas investigações, o que tu consegues afirmar? Que relação é esta, efetivamente? J - É uma relação de muitos interesses. Bolsonaro sequer é uma pessoa tão religiosa quanto diz. A religiosa da família é a Michele, claramente. Os

outros, nem os filhos são religiosos, nem ele é. Ele enxergou um eleitorado ali. Costura dentro disso um discurso e tenta se enquadrar. Esta é uma das áreas que eu trabalhei menos, é um pouco mais difícil pra eu detalhar isso, mas sei que existe muito conflito também entre os grupos de religiosos evangélicos. Tem muita disputa de poder. Agora nesse escândalo do MEC, a bancada evangélica não defendia o ministro. Até queria saber mais, porque quem tinha indicado ele era o André Mendonça, ministro do STF indicado por Bolsonaro. Sei que no ano passado queriam que o Bolsonaro defendesse publicamente a Igreja Universal dos escândalos que estavam acontecendo em Angola. E ele não queria fazer isso. O pessoal da igreja, do partido Republicanos, ficou bem zangado, se distanciaram bastante dele. Agora que tem um ensaio de alguma aproximação em alguns estados. O Bolsonaro, a gente sabe, não é muito fiel não, troca de partido como troca de camiseta. Ele tenta falar muito com este público, joga muito com a ideia do conservadorismo e essa pauta de, muitas aspas, “família”. Não sei se vai colar. Tenho a impressão que esse discurso não vai funcionar da mesma maneira que funcionou em 2018. T - E há circulação econômica a partir dessas relações? J - Acho que essa história do MEC traz à tona, deixa mais claro, essas negociações que envolvem ouro, verba do MEC. T - Aqui no RS consideramos que o jornalismo foi enterrado pelas duas grandes empresas de comunicação, RBS e Caldas Júnior – esta, um veículo da Igreja Universal. Conhecendo as empresas, as suas relações contraditórias e sua unificação no campo político que vai ser represen-


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tado pelo anti-Lula, tu acreditas que o jornalismo tem chance de prosperar livremente até novembro? J - Eu acho que sim. Hoje em dia, com a Internet, com o crescimento de veículos da mídia independente e as próprias redes sociais, elas têm duas faces. É muito difícil você guardar uma informação importante, como antigamente, que alguma matéria possa ser barrada. Se um veículo não der, outro vai dar e a informação vai como rastilho de pólvora. Ou através do Twitter, Facebook, etc. O maior problema que temos é o excesso de informação mentirosa. A configuração é complexa, a profissão vive um momento muito desafiador. É um momento de ameaça às instituições, de ameaça à democracia que vem do campo do Bolsonaro, e sobretudo dele que publicamente ameaça as instituições e a imprensa. Os episódios são recorrentes, as pessoas e jornalistas que acompanham o Bolsonaro em viagens são agredidos. Vimos essa cena até na Europa onde as equipes de jornalismo de diferentes empresas foram agredidos por seguranças numa cobertura do G20, em Roma. Jamil Chade tava lá e foi agredido, outros colegas também. Depois aconteceu aqui, em 12 de outubro, quando ele estava no santuário de Aparecida, um cinegrafista da Globo foi agredido por um apoiador que se achou no direito de ir lá e dar um soco no cinegrafista, por nada. Tempos depois, numa agenda no Nordeste uma repórter tomou um mata leão. É desafiador cobrir o Lula também depois de tudo que aconteceu. Não importa o que você fez no verão passado, ser da imprensa e andar ali também não é fácil, também é um pouco hostil. Não é igual à situação do Bolsonaro, mas é difícil. O que também não é bom. A gente precisa viver num ambiente democrático saudável pra todos, pra imprensa trabalhar. A gente fala muito sobre a eleição nacional e não fala muito sobre as estaduais, onde também tem muitos problemas e são maiores. M - Quem são os inimigos do Bolsonaro? J - Muitos, acho que ele tem vários. E tem fogo amigo. M - Mas eu não estou falando de inimigos em nível institucional, tô falando do submundo. Os Bolsonaros são ligados claramente a pessoas que têm vínculos e conexões com facções de milicianos. É o que tu disseste, e que todo mundo sabe... J - Eu não falei exatamente isso. Eu disse que ele tinha relação com o Adriano da Nóbrega, que é um miliciano...

J - Esse é um ponto importante. Não vou falar sobre uma coisa que eu não tenha informação. Não posso dizer que o Bolsonaro faz parte de um grupo miliciano. A informação que a gente tem, concreta, é que ele tinha conexão com o Adriano. Eu não sei te dizer concretamente se essa conexão sequer se estende a outros policiais que eram do grupo do Adriano. O que eu posso afirmar é que isso se restringia ao Adriano, que era o miliciano que liderava esse grupo. M - E com o Lessa, qual era a relação dele? J - Com o Lessa, a relação era de vizinhos, viveram dez anos ali na mesma rua, no condomínio. Recentemente o Lessa falou que foi se tratar [em 2009], ele sofreu um atentado a bomba, perdeu uma perna, e foi se tratar lá num lugar por indicação do Bolsonaro. Foi o próprio Lessa quem disse. De concreto é isso. Agora, de inimigos… Não dá pra avançar e dizer que ele tinha relação direta com o grupo, entender ele como parte dos grupos de milícia, não dá pra afirmar isso ainda. Eu investiguei muito esses bastidores do Bolsonaro e essas relações. Não é nem parecido com sua relação com o Lessa. É outra coisa. Mas estamos investigando. T - E nessa expectativa encerramos esta entrevista. Esta foi nossa forma de homenagearmos o jornalismo através de uma grande repórter, que prova em sua trajetória profissional os valores e a importância do jornalismo. Nosso agradecimento, Juliana.

M - ...foi executado na Bahia, isto agora está claro. Esse miliciano trabalhava sob encomenda e tinha ligação com a família Bolsonaro. E o [sargento da PM] Ronnie Lessa morava no mesmo condomínio. Esse submundo do Bolsonaro pra mim é uma coisa ainda que ninguém checou. Então, como o Bolsonaro, com todos esses vínculos que ele tem, com essa origem dele que é esse subterrâneo – Queiroz, esse Nóbrega, todo esse pessoal, acho que tem que aparecer mais gente, inclusive –, ele não tem temor a nada? Quais são as Ouça o podcast de Juliana Dal Piva ”A vida secreta de Jair”: outras facções que se contrapõem ao grupo do Bolsonaro? Ou ele domina todo mundo Episódio 1, 06/07/2021: https://tinyurl.com/44d7xmxv lá? Ou nós vamos descobrir que o Bolsonaro não tem esse tamanho como participante Episódio 2, 07/07/2021: https://tinyurl.com/bderrwym desse submundo? Episódio 3, 08/07/2021: https://tinyurl.com/22rdrttx


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Miriam Tolpolar é artista plástica, Mestre em Poéticas Visuais (UFRGS) e professora. Dedica-se à gravura e suas pesquisas estão vinculadas à memória, identidade e repetição. Desde 1983 participa de exposições, salões de arte e bienais de gravura no Brasil e exterior tendo recebido inúmeros prêmios.

Litografia. A Solidão do Homem-Gato, parte III