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LUTA OPERÁRIA

n°262 • 2ª Quinzena de Julho/2013

10 ANOS DE GOVERNO DA FRENTE POPULAR

As jornadas de junho mostraram que o ciclo estatal do PT está esgotado?

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oje um debate cruza o meio político, da extrema-esquerda à direita todas as análises lançam o “enigma”, as multitudinárias jornadas de junho revelaram o esgotamento do ciclo petista na gerência do Estado capitalista? Candidato a responder esta questão, o decano Tucano José Serra em conferência nacional realizada ontem (24/07) assevera o seguinte: “Me lembra os últimos seis meses do governo Jango e os últimos dias do governo Collor”, para depois concluir: “O ciclo do lulismo acabou, e o pior é que o governo não está apresentando uma alternativa para a superação desse modelo”. Caracterização semelhante a esta é compartilhada pelo conjunto da esquerda revisionista argentina (e seus respectivos apêndices brasileiros). Para este segmento político é correto afirmar que o: “Gigante acordou” (o mesmo mote da reação tupiniquim!) e que em: “Junho: um novo país surgiu das maiores mobilizações” (Site da LER, afiliada ao PTS argentino). Já para o Partido Obrero (PO) e seu consultor “brargentino” Osvaldo Coggiola, a crise mundial teria finalmente chegado ao Brasil e encerrado o “milagre Lulista” ancorado na China. Mas, será mesmo que o móvel das mobilizações populares que cortaram o país teria sido uma conjuntura econômica de “caos”, como tentam demonstrar a oposição burguesa conservadora e seus “colegas” da esquerda revisionista? Que “novo” país teria surgido após junho, estaríamos enfim vivendo os últimos estertores do governo da Frente Popular? Em primeiro lugar, para dissipar a “ignorância” dos charlatães de “esquerda” é necessário dizer que o país continua exatamente o mesmo, o Estado burguês mantém absolutamente intacta suas instituições de dominação e regime político (governo e parlamento), sequer foi abalado pelos massivos protestos nacionais. Estivemos bem distantes de atravessar qualquer crise revolucionária de poder, e somente na mente ficcional de revisionistas como Valério Arcary (PSTU) a burguesia perdeu suas noites de sono com medo dos protestos, vejamos até onde pode chegar o delírio do dirigente Morenista: “Ontem, toda a ordem econômica, social e política que preserva o Brasil como um dos países mais injustos do mundo tremeu. Eles não podiam ir dormir.” (Blog da Convergência18/06). Nesta “versão” messiânica da realidade estivemos na borda de impor o socialismo, “derruban-

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do” a ordem social capitalista com as jornadas de junho. Só o completo desconhecimento da teoria marxista da luta de classes é capaz de produzir “pérolas” do prognóstico catastrofista como estas da LER, PSTU, PO etc... Como nos ensinou Lenin, a configuração de uma crise revolucionária requer a dualidade de poderes, entre “os de cima e os de baixo”. Exatamente neste confronto do embrião de poder das massas e o poder decadente da burguesia emerge uma situação revolucionária. Mas, deixando um pouco de lado os disparates lançados por uma “esquerda” que perdeu completamente a referência nos conceitos do Leninismo, é importantíssimo definir duas questões sobre junho, a saber o móvel político das mobilizações e a capacidade de sobrevivência estatal do projeto da Frente Popular em um quadro político de continua perda de apoio popular. A primeira pergunta a ser respondida é, porque milhões de pessoas foram às ruas protestar, sem que houvesse um eixo centralizado de reivindicações. Estamos nos referindo logicamente ao momento posterior às passeatas do Passe Livre, que conquistaram o congelamento parcial das tarifas dos transportes urbanos. A ausência de um centro unificado de demandas nas mobilizações é consequência direta do momento econômico relativamente estável que atravessa o país, ou seja, não existe um pico de desemprego, nem tampouco a inflação da cesta básica está fora de controle (como falsamente tenta provar o PIG), o consumo e a poupança interna batem recordes e, por último, a renda salarial média apresenta pela primeira vez um pequeno ganho real nos curso de dez anos. Em resumo, se não estamos vivendo no “paraíso”, a economia capitalista brasileira está longe de apresentar sinais de “default” como ocorre em alguns países periféricos da Europa. Neste marco, o descontentamento da juventude e dos setores populares que se mobilizaram (estamos aí excluindo os milhares de “protestantes” reacionários da classe média alta) tem razões sociais mais profundas do que a de uma crise política conjuntural ou mesmo uma falência precoce do governo da Frente Popular. A entrada organizada do movimento operário nas mobilizações poderia alterar o panorama político do país, mas as paralisações do dia 11/07 ficaram limitadas a setores parciais da produção e serviços essenciais, em função da orientação ultraburocrática das centrais sindicais governistas. A nova convocatória para um dia de “luta” no final de agosto deve seguir o

mesmo “script”, servindo de fato como uma alavanca para o início das campanhas salariais de setembro. A ausência de uma direção proletária e genuinamente de esquerda nas mobilizações contribuíram em muito para “diluir” a construção nacional de uma pauta progressista, livre da influência dos segmentos direitistas que introduziram bandeiras reacionárias nos protestos. Como se tratou de um movimento de massas difuso e sem direção programática, o timbre histórico das jornadas de junho deve ser creditado não ao sentimento de oposição direcionada ao governo do PT, como foi o das “Diretas já” em relação ao regime militar ou o “Fora Collor”, mas a sensação generalizada de descontentamento da maioria população com um modo de produção capitalista baseado em valores exclusivamente do mercado de consumo. No regime do capital financeiro tudo se transforma em mercadoria, saúde a educação e cultura (não confundir com entretenimento) são acessíveis apenas mediante pagamento a vista ou crédito. Neste universo de produção mercantilizada, as gerências estatais (sejam neoliberais ou nacionalistas) apenas administram a crise da civilização com doses homeopáticas, algumas muito amargas como os Tucanos ou mais “suaves” como o PT.A experiência concentrada do quadro Lula soube redirecionar( com o apoio da burguesia nacional) o mercado exportador brasileiro para novas fronteiras, descolando o país do "naufrágio" econômico norte-americano, e nisto consiste o "milagre" petista que ainda está em plena vigência. O modelo de gestão da colaboração de classes da Frente popular sai profundamente arranhado desta conjuntura, não por razões de um colapso político e econômico prematuro galvanizado pela ira popular, mas porque repousa em um “vulcão” capitalista de imensas contradições sociais que apenas estão “amortecidas” por medidas superficiais, de aparente mobilidade econômica das camadas mais pauperizadas da população. Como gestor deste modo de produção baseado na acumulação privada, que exclui milhões de pessoas dos serviços mais elementares de uma sociedade “moderna”, o governo do PT sabe das limitações em que opera na arena social e política e não se propõe a transformá-la. Os artifícios da “bolha de crédito” e “gordura” monetária do caixa estatal não podem eliminar a incapacidade estrutural do capitalismo em contemplar as aspirações básicas dos trabalhadores. Mais além de um esgotamento cíclico dos governos do PT, que apesar do “sufoco” (leia-se Marina Silva) deve ser reconduzido para mais uma gestão estatal pelas classes dominantes, estamos diante da falência histórica do capital, incapaz de desenvolver as forças produtivas da humanidade! 25 de Julho/2013

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APOSTA POLÍTICA DE OBAMA

Capital financeiro e imperialismo ianque escolhem seu candidato para bater o PT: Marina Silva!

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m um período de decantação política dos protestos multitudinais que varreram o país, parece mesmo que as forças da reação interna já iniciaram seu processo de reacomodação eleitoral com as atenções voltadas para 2014. É o que vem revelando o resultado das últimas pesquisas de opinião pública, em particular a divulgada pelo IBOPE ontem (18/07), que coloca no patamar de empate técnico para o segundo turno as candidaturas de Dilma Rousseff e Marina Silva. Pela primeira vez em pesquisas eleitorais a presidente Dilma vê ameaçada a sua condição de renovar tranquilamente por mais quatro anos o posto de “gerente geral” de negócios do regime capitalista. Com o impacto das mobilizações populares ocorridas em junho se desfizeram as aspirações presidenciais das alternativas políticas mais tradicionais da burguesia financeira e do imperialismo para derrotar o PT em 2014, de uma só tacada foram praticamente descartadas como “viáveis” as candidaturas de Serra, Eduardo Campos e do novo líder Tucano Aécio Neves. Também não conseguiu “decolar” a campanha orquestrada pelo PIG do “Fora Dilma”, apesar do grande esforço da malta ultrarreacionária do “Face” e que desgraçadamente contou com o apoio da esquerda revisionista. Apesar do intenso desgaste de gerenciar o aparelho de Estado capitalista, incapaz de atender as necessidades mais elementares da população, a Frente Popular ainda conta com um sólido apoio social no movimento de massas, somada à política do governo de fomentar crédito para uma parcela significativa dos trabalhadores. Neste cenário complexo e difuso a aposta política dos rentistas, “sequestradores” de fato das finanças públicas do Estado burguês, vai na direção da eco-imperialista Marina Silva. A ex-senadora é a única candidatura ao Planalto que reúne neste momento condições mínimas de levar a disputa para um segundo turno, fazendo ascender a esperança da reação tupiniquim de colocar o Brasil novamente na rota de um pleno alinhamento econômico com o grande amo do norte. A mitificação em torno da figura de Marina Silva vem sendo construída pela mídia burguesa ao longo de sua passagem pelo PT, primeiro foi falsamente apresentada como a “herdeira” de Chico Mendes, depois ao assumir o Ministério do Meio Ambiente estabeleceu vínculos com as ONGs norte-americanas diretamente interessadas no controle de nossas reservas naturais. Ao sair do PT Marina sinalizou ao imperialismo que já estava preparada para iniciar a construção

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de uma nova alternativa de poder no país, sob o manto da defesa da ecologia e de um crescimento capitalista “sustentável”. Quando se lançou à presidência da República em 2010 pelo PV, muitos analistas políticos de esquerda afirmaram que se tratava de uma mera jogada eleitoral dos Tucanos para subtrair votos do PT, mas na verdade tirou votos de Serra e quase foi para a disputa do segundo turno com Dilma. Nós da LBI caracterizamos o “fenômeno” Marina, antes mesmo da abertura das urnas em outubro de 2010, como a gestação de polo neoliberal ainda mais alinhado com o imperialismo ianque do que os privatistas do PSDB. Às vésperas do primeiro turno já afirmávamos o seguinte: “Na realidade, a movimentação midiática em torno do fortalecimento do PV é pensada pela burguesia para muito além das eleições presidenciais, tendo por objetivo formatar uma nova oposição ao governo da frente popular mais adequada à atual realidade de estabilidade do regime político e de um implícito pacto social em plena vigência.” (JLO nº 201 10/2010). Ao romper com o PV que lhe deu abrigo em 2010, Marina pensou “grande” ao demonstrar que seu projeto político deveria ser “puro” e homogêneo, livre das influências oligárquicas regionais voltadas a um fisiologismo que não agrada aos grandes investidores internacionais. O lançamento do REDE, seu novo partido, contou desde o início com forte apoio financeiro dos banqueiros, em particular com a família Setúbal dona do ITAÚ. Rapidamente Marina galvanizou para o REDE recursos da burguesia bem mais “consistentes” do que reuniu em 2010, quando teve o apoio da empresa NATURA através do seu vice Guilherme Leal, agora tem à sua disposição o jato particular mais moderno do pais, custando para a “humilde” ex-seringueira a bagatela de 60 milhões de Reais. O REDE já montou sua equipe econômica com “notáveis” ex-tucanos como André Lara Resende e Giannetti, operadores da privataria no governo FHC e defensores da abertura total de mercado aos EUA. Marina agora defende a autonomia do BC e o corte de verbas sociais para o pagamento dos juros da dívida interna (aumento do superávit primário), além do

desmonte da PETROBRAS para beneficiar as transnacionais de energia e gás do “Tio Sam”, qualquer semelhança com o programa da Casa Branca para o Brasil não é uma mera coincidência... Mas grande debilidade do REDE se concentra na impossibilidade de estabelecer um largo arco de alianças partidárias para 2014, com o fracasso do MD Marina só deve contar com o apoio formal do PSOL (a ex-senadora Heloisa Helena é a “ponte”) e seus parceiros de “esquerda”. Para compensar esta fragilidade eleitoral a burguesia tenta convencer a todo custo que o presidente do STF, Joaquim Barbosa, criatura do PIG exatamente para este fim, integre como vice a chapa de Marina. O REDE já conta com a simpatia da maioria da classe média urbana, extremamente reacionária, e na possível composição com o “herói” JB seria um adversário muito forte para as pretensões de um segundo mandato para Dilma. Para a ex-militante do ateu PRC, que transformou-se em evangélica para agradar a “cultura” protestante norte-americana, ter o vestal e moralista JB ao seu lado no Planalto seria o principal “sonho de consumo” da ofensiva imperialista no Brasil. O PT sabe do risco que hoje oferece Marina, principal beneficiada eleitoralmente com as jornadas de protestos, mas está vergonhosamente “amarrado” com a “caneta” do Planalto. Lula conseguiria bater facilmente Marina ou Aécio sem precisar sequer de um segundo turno, mas não pode se confrontar com Dilma sob a ameaça do processo ainda em curso do chamado “Mensalão”. A anturragem Dilmista conseguiu inclusive excluir da chapa do próximo diretório nacional, nomes de petistas históricos como o de José Dirceu, foi sem duvida alguma uma demonstração de força e um aviso para o movimento “volta Lula”. Mesmo sob o risco da derrota diante da candidatura ascendente de Marina, o PT seguirá inexoravelmente com Dilma e na tentativa inútil de agradar o “mercado” o governo da Frente Popular aprofundará ainda mais seu curso neoliberal, promovendo ataques as conquistas da classe operária. 19 de Julho/2013

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DIREITA TENTA SE RECOMPOR

“Ejaculação precoce” do PIG vaticina derrota antecipada de Dilma, mas os já derrotados são na verdade Serra e Campos

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s mobilizações populares de junho tiveram como centro inicial a luta contra a prefeitura petista de São Paulo, que em uníssono com o governo Alckmin elevou as tarifas do transporte público. Após a brutal repressão da PM paulista ao movimento do “Passe Livre” as massas ganharam as ruas de todo país, centralizando a insatisfação da população com a crise deste regime burguês gerenciado de forma medíocre pelo PT. Logo o PT e seus governos federal e municipal foram sem dúvida alguma o foco do descontentamento de um segmento de massas, ainda que estas tenham enfrentado a bárbara repressão policial dos governos estaduais do PSDB, PMDB, PSB etc... Embora “arranhados” com a crise, Alckmin e Cabral não sofreram o desgaste central na mesma dimensão política que atingiu o governo Dilma, portanto, nesta nova conjuntura um alvo “frágil” para o PIG. Não demorou muito para a GLOBO “patrocinar” os protestos nacionais, tentando impor uma pauta programática reacionária e uma direção fascista nas mobilizações. Neste cenário aberto não seria difícil para o PIG “prever” um fim antecipado do governo da Frente Popular, impulsionando o Impeachment da presidenta Dilma ou fabricando artificialmente (a la fraude Collor) uma candidatura imbatível em 2014. Às pressas o “imparcial” DATAFOLHA realizou sua pesquisa, no fulcro dos “rasga bandeiras”, apontando uma queda abismal do governo Dilma. Mas, contrariando a obsessão dos barões da mídia “murdochiana” com o refluxo do movimento, Dilma não naufragou, apesar das tentativas, tampouco surgiu o “super herói”, e de quebra, quem acabou apresentando falência foi o natimorto MD, uma jogada eleitoral frustrada de Serra, Freire e Campos. A imprensa capitalista não deu muito destaque à notícia da desistência do PMN em fundir-se com o PPS do arrivista Roberto Freire, levando para o buraco a tentativa de fundar um novo partido, o MD, na verdade uma “janela” para adesão de parlamentares do PSDB, PSD, PTB, PMDB etc... em apoio à possível aliança eleitoral entre Serra e Eduardo Campos. Com a decretação da “morte antecipada” de Dilma, nada mais natural do que supor que vingaria com êxito o projeto político do MD, certo? Errado! A cúpula dos Tucanos não liberou o “quinhão” de Serra no caixa do PSDB (produto das comissões na Liga Bolchevique Internacionalista

privataria), deixando o PMN sem “estímulo” para a fusão. Agora, se pretender sair do PSDB, para apoiar Campos ou tentar um voo solo ao planalto, Serra agirá solitário, o que é pouco provável. O MD seria um peça imprescindível no tabuleiro do xadrez eleitoral de 2014, já que o PSB não conseguiu granjear nenhum partido (da base ou da oposição) para a coligação de suporte na empreitada Campista. Acontece que apesar da inegável corrosão sofrida no “casco” petista, os massivos protestos não conseguiram produzir um eixo centralizado de combate, nem pela esquerda nem pela direita, deixando sem muita expectativa de vitória em 2014 as candidaturas do bloco conservador oposicionista. A ausência de uma direção classista no curso das mobilizações “vaporizou” o movimento em demandas pontuais, ora corretas ora reacionárias, permitindo que a forte base social de apoio da Frente Popular saísse das “cordas” e até encenasse a convocação de uma greve geral no dia 11/07, apelidada pela vanguarda mais combativa de “ato oficial”. Qualquer outro governo burguês tradicional não teria suportado a enorme pressão das ruas e da mídia canalha, mas quando se trata de uma gestão de colaboração de classes como a do PT, as coisas seguem um rumo diferente... como Lula já demonstrou em 2006. O PIG, com a valorosa ajuda das oposições de “esquerda” e “direita”, tentou vender a imagem do esgotamento precoce do modelo de gerência petista, anunciaram a volta da hiperinflação e a chegada da recessão econômica. Mas, no mundo real o compasso era bem diferente, o desemprego atingia seus menores índices dos últimos trinta anos e o acúmulo da poupança interna bateu seu maior recorde de captação financeira, tudo isso somado ao fato da bolha de crédito oferecida a população continuar a inflar o consumo apesar da alta na taxa de juros. Neste quadro nacional onde o governo tenta desviar a latente revolta popular, ainda longe de configurar uma “rebelião de massas” (preconizada pelos oportunistas), com manobras institucionais, como a da “reforma política”, as alternativas burguesas mais tradicionais não conseguiram decolar na preferência do eleitorado, deixando ainda mais distante o “sonho presidencial” de Aécio, Campos ou mesmo Serra. Se no âmbito do Congresso Nacional Dilma vem acumulando uma sequência de pequenas derrotas em

função da composição fisiológica e direitista de sua base de apoio parlamentar, no campo do “povão” recuperou terreno como demonstrou a última pesquisa encomendada pela CNT (Confederação Nacional do Transporte), velho instrumento de aferição eleitoral da burguesia nacional. Na sondagem da CNT, Dilma teria como única candidatura adversária competitiva Marina Silva, sendo que Aécio e Campos nem chegariam a um segundo turno. Uma leitura minimamente séria desta amostragem revela que Dilma absorveu razoavelmente bem o impacto dos protestos, apesar de não atender uma única demanda popular, não precisando sequer o PT recorrer à liderança de Lula em 2014 para manter-se por mais uma gestão no governo central. O embate frontal em 2014 será mesmo entre os projetos políticos do tímido nacionalismo burguês representado bastardamente pelo PT e a marionete direta do imperialismo ianque, Marina Silva com sua “REDE”. Desta forma, inexoravelmente, o Brasil seguirá a dinâmica mundial dos conflitos contemporâneos, sejam militares, políticos ou eleitorais: de um lado a ofensiva neoliberal do imperialismo e na outra trincheira as forças do mitigado campo anti-imperialista. Neste último campo encontram-se tendências políticas múltiplas, desde os remanescentes do velho nacionalismo burguês até os neomonetaristas de “esquerda” como o PT e PCdoB. Ainda é cedo para uma conclusão definitiva sobre o arco de alianças eleitorais do REDE, já que necessitaria de mais tempo de propaganda gratuita do que os “30” segundos garantidos pelo TSE aos partidos debutantes. Também não se sabe a disposição do presidente do STF, Joaquim Barbosa, em aceitar compor como vice a chapa de Marina. O certo mesmo é o PIG e os redutos da reação nacional jogarão todas as fichas para viabilizarem uma coligação partidária viável para levar Marina ao segundo turno em 2014. Os revisionistas do PSOL e PSTU já se sentem bastante atraídos politicamente pelo discurso pró-imperialista do REDE, incluindo a campanha internacional em apoio à invasão da Síria pela OTAN. Vamos aguardar por pouco tempo até que as “máscaras” do revisionismo caiam completamente e anunciem que ingressarão “criticamente” na coligação encabeçada pelo REDE. 16 de Julho/2013

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~ DA VIDA MERCANTILIZAÇÃO

O médico “mauricinho” da novela global e os protestos da elite de branco

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atual novela das 21h da Rede Globo, “Amor à Vida”, tem veiculado a personagem de um jovem médico “mauricinho” habituado a desmarcar as consultas dos seus pacientes para receber no consultório, já devidamente “pelado”, sua namorada. Em outras cenas, o personagem promove escândalos bestiais com direito a quebra-quebra nos bares em cenas de ciúmes. Muitos podem estar se perguntando: mas o que isso tem a ver com os protestos da área da saúde contra o programa “Mais Médicos” do governo Dilma? Parafraseando a própria Globo, tem “tudo a ver”! Embora de forma caricatural, o personagem do estúpido folhetim da emissora da “famiglia” Marinho expressa muito bem o estereótipo dos jovens de classe média que vislumbram a profissão como símbolo de status, ascensão social e poder sem qualquer vestígio de preocupação social com a prática da medicina na coletividade, ávidos por encher seus bolsos em consultas privadas em consultórios de luxo ou pela via de convênios nos escorchantes planos de saúde. Também não é desprezível o fato de que uma parcela considerável da categoria médica no Brasil utilize a profissão para fins políticos eleitorais (aproveitando-se da extrema miséria de uma parte da população), sendo que atualmente pelo menos um quarto do Congresso Nacional e Assembleias Estaduais está sendo ocupada por deputados “doutores”. O programa “Mais Médicos”, criado por uma Medida Provisória e apresentado pelo Palácio do Planalto como uma

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“solução” para a moribunda saúde pública, mas na verdade não passa de mais um arremedo para tapar buracos sobre a questão, está sendo alvo de uma sabotagem organizada pelas direções das entidades (direitistas) da classe medi(c)a justamente porque, apesar de todos os seus limites, colocou em debate a questão do caráter mercantil e mercenário da profissão médica na sociedade capitalista. Dentre as medidas anunciadas estão a contração de médicos brasileiros e estrangeiros para atuar no Sistema Único de Saúde (SUS) em municípios do interior do país, percebendo uma bolsa de R$10 mil/mês; a alteração da carga acadêmica de seis para oito anos nos cursos de medicina, sendo dois anos de residência prestados na rede pública de saúde e a criação de 11 mil vagas nos cursos de medicina em universidades públicas e privadas até 2017. Apesar de não representar uma efetiva solução para o caótico sistema da saúde pública do país, o programa está sendo atacado notadamente por um viés reacionário e de direita. A adesão quase imediata de mais de onze mil médicos mostrou que houve uma “sabotagem” organizada ao programa, ou seja, a esmagadora maioria fez a inscrição no programa para ocupar as vagas e posteriormente realizar uma desistência em massa, inviabilizando o início do “Mais Médicos”. Esta conduta não se restringe à defesa de interesses corporativos, mas representa uma reação política insuflada pelos setores mais reacionários da burguesia e o PIG para tornar esse tema

uma fonte de desgaste do governo da frente popular. As recentes mobilizações dos médicos contra este programa do Ministério da Saúde, guardadas as devidas proporções, acentuam o curso direitista das manifestações espontâneas que sacudiram o país em junho, apoiadas e pautadas pela Rede Globo que levaram Dilma às cordas, acendendo as esperanças eleitorais dos representantes da direita conservadora em 2014. Não por acaso, as entidades médicas se retiram dos conselhos de saúde do governo federal e se manifestaram contra os vetos de Dilma a lei do chamado “Ato Médico”, legislação que retirava a possibilidade de outras categorias, como os enfermeiros (de corte mais proletário) de atuarem na área clínica, apesar de terem formação para esta finalidade. Vale destacar que a característica sociológica da categoria médica dentro de um Estado burguês semicolonial a exemplo do Brasil, via de regra, é se constituir como um setor profissional de elite, uma casta-símbolo da pequena-burguesia reacionária sem qualquer identidade ou vínculo com a população carente, ao contrário, que explora junto com os grandes hospitais e clínicas a saúde como se fosse uma mercadoria de luxo, de acesso a poucos. Os médicos que exercem o trabalho no sistema público, em grande maioria, fazem plantões para engordar a renda de suas famílias de classe média com pouco compromisso com os pacientes proletários e de baixa renda. Neste contexto, o programa “Mais Médicos” entra em choque com os seus interesses materiais de explorar Liga Bolchevique Internacionalista


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o mais rápido possível a medicina enquanto proprietários de consultórios e clínicas. Isso também ocorre no que tange à ameaça da sua relação de poder, a partir da elevação do numero de médicos oriundos de outros países, particularmente de Cuba. Não por acaso, o foco de críticas das entidades medicas é a contratação de médicos estrangeiros por representar uma ameaça à reserva de mercado do lucrativo setor da saúde, onde a lei da oferta e da procura regula a atividade médica, tornando-a uma das mais mercenárias dentre todas as categorias laborais, composta nos últimos anos em sua esmagadora maioria por “maurichinhos” e “patricinhas” como se pode ver na novela global que tem o emblemático nome de “Amor à Vida”, uma trama que se passa em meio às podres relações humanas e profissionais que tem como pano de fundo um hospital privado. Longe do romântico juramento de Hipócrates, no capitalismo o exercício da medicina adquire pela sua importância vital um alto valor de mercado, sendo uma grande fonte de acumulação capitalista explorada pela burguesia e pela classe média abastada. Quanto maior a carência de atendimento médico e menor a oferta deste serviço, como ocorre nas periferias dos grandes centros urbanos e, sobretudo, nas áreas rurais, mais a figura do médico ganha destaque como elemento de barganha política e como representantes do poder das oligarquias regionais. Isso explica o enorme contingente de médicos eleitos, na quase totalidade por partidos burgueses de direita, a prefeitos, vereadores

e deputados nos municípios do interior do país. A oposição à contratação de médicos estrangeiros é inda mais reacionária por estar centralizada contra vinda de médicos cubanos. Para além da conduta de xenofobia, próprio da extrema-direita que hoje ganha espaço na Europa, a virulenta campanha de rejeição à atuação dos profissionais do Estado operário cubano representa um ódio de classe das frações mais conservadoras da burguesia em defesa dos interesses capitalistas, posição reacionária que é vergonhosamente apoiada pelo PSTU. Apesar de todas as dificuldades materiais, decorrentes do bloqueio econômico imposto pelo imperialismo ianque, Cuba conseguiu um grande desenvolvimento na área da saúde, sendo inclusive referência para o tratamento de várias doenças, adotando um modelo de medicina baseado na prevenção e o acompanhamento médico humanizado à população em programas como o conhecido “Médico do Quarteirão”. Esse padrão de medicina é diametralmente oposto ao praticado nos países capitalistas fundado no modelo que visa não evitar, mas “curar” (ou mesmo prolongar) doenças a partir de utilização medicamentos, beneficiando assim a poderosíssima transnacional indústria dos laboratórios farmacêuticos. A expansão da rede de saúde privada, em função de sua alta lucratividade e status social, faz “pipocar” novos consultórios e clínicas de luxo em todo o país. Esta é a realidade que move os interesses reacioná-

Continuação da página 8

disposição de luta dos trabalhadores, apesar de todos os obstáculos, teve a cobertura ostensiva da grande mídia, particularmente da Rede Globo, que desde a manhã até a noite ressaltou que o “dia nacional de luta” apesar de ser promovido em grande medida pelas centrais ligadas ao governo Dilma, demonstrava que o país continuava “agitado” por protestos populares. A “generosa” cobertura global visa claramente dar visibilidade ao descontentamento popular contra o governo do PT tentando desgastá-lo o máximo possível para ampliar as possibilidades eleitorais da oposição demo-tucana, de Marina Silva e possivelmente Joaquim Barbosa em 2014. O fato é que o governo da frente popular atravessa o seu mais difícil momento desde que o PT assumiu o Planalto, com os setores mais reacionários salivando pela derrota eleitoral do governo Dilma. Denunciando o caráter extremamente limitado deste “dia nacional de luta”, a Tendência Revolucionária Sindical (TRS) interveio ativamente no protesto em defesa de um programa de ação direta para o movimento de massas. Alertamos através de milhares de panfletos e na intervenção viva dos militantes e das oposições filiadas a TRS que a tarefa política da vanguarda classista consiste em permanecer mobilizando as massas pela esquerda, sem nenhuma trégua, imprimindo um conteúdo programático socialista em transição com as demandas mais elementares do proletariado. Aproveitamos este dia 11 Liga Bolchevique Internacionalista

rios dos médicos da elite de branco e não a criação de uma carreira atrativa para atuar no SUS como tentam justificar suas entidades representativas ao rejeitar o programa “Mais Médicos”. Outra tergiversação é a critica sobre a má utilização dos recursos públicos pela União na contratação de médicos estrangeiros e de até facilitar a corrupção nas prefeituras, um discurso ético em defesa da moralização do regime burguês que não cabe a estes senhores, já que não defendem a estatização do sistema de saúde e seu controle pelos trabalhadores e usuários. O programa “Mais Médicos” do governo Dilma é paliativo, portanto, inócuo enquanto solução mesmo que parcial, por que além preservar o atual modelo, mantém toda a estrutura do sistema de saúde voltada para favorecer o setor privado em todas as suas cadeias. Porém, não está sendo atacado por suas limitações, mas por aquilo que tem de minimamente progressista! Somente com o fim da saúde privada, dos planos de saúde pagos e com a completa estatização de todo o setor (clínicas, laboratórios, hospitais e indústria farmacêutica) sob o controle dos organismos de poder dos trabalhadores, associada a uma nova concepção de medicina preventiva e humanizada pode atender as demandas da população explorada, contribuindo por uma vida com bem-estar físico e mental, condições impossíveis de serem alcançados pelo capitalismo doente e senil que arrasta a humanidade para a barbárie. 22 de Julho/2013

para reafirmar que continua na ordem do dia a necessidade da preparação de uma greve geral “pra valer”, organizada pela base em cada local de trabalho e paralisando a produção do país inicialmente por 48 horas. Apesar do “dia de luta” controlado pela burocracia sindical ter sido marcado por um “lobby de massas” midiático e carente de uma perspectiva classista e de combate direto aos patrões e ao governo burguês do PT, assim como dos gestores estaduais, ele demonstrou que os trabalhadores tem disposição de luta, sendo esse elemento fundamental para definir os rumos da conjuntura no próximo período, onde o PIG e a direita tentam encurralar o governo do PT. A tarefa da organização de uma verdadeira greve geral de massas se mantém totalmente vigente, ainda mais agora depois do dia 11. Passado o “dia de luta” distracionista da CUT, CTB e Conlutas deve ser proposto nas assembleias das campanhas salariais que se iniciam a preparação de uma paralisação de verdade das categorias mais importantes do país. Ao sair à luta, os trabalhadores e particularmente sua vanguarda classista precisam tirar as lições programáticas da polarizada conjuntura política por que atravessamos, tendo como objetivo de construir uma alternativa socialista, operária e popular, tarefa que não passa pelo circo eleitoral de 2014, já que ele está voltado justamente a dar um fôlego ao apodrecido regime político burguês e suas instituições senis, hoje questionadas pelos protestos populares! 12 de Julho/2013

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LUTA OPERÁRIA

BALANÇO DO DIA 11/07

Apesar da disposição de luta dos trabalhadores, a burocracia sindical não organizou a paralisação da produção e serviços essenciais

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s manifestações que “pipocaram” pelo país neste 11 de julho provaram que há disposição dos trabalhadores em se mobilizar para defender diretos sociais e sair às ruas pelo atendimento de suas reivindicações mais imediatas. Apesar da burocracia sindical de “direita” e “esquerda” não ter organizado efetivamente a paralisação da produção nas grandes fábricas com concentrações operárias e em categorias estratégicas como rodoviários, metroviários e bancários, o que de fato colocaria a burguesia em alerta e poderia alterar os rumos da conjuntura nacional hoje em curso claramente à direita, o Brasil foi cruzado por importantes protestos populares com o fechamento de rodovias e greves parciais de algumas categorias em várias capitais e grandes cidades do país. Onde os trabalhadores foram convocados a cruzar os braços, eles pararam suas atividades, o que demonstra que as “jornadas de junho” abriram a possibilidade da classe operária entrar em cena e questionar o conjunto do fatigado regime político burguês, “oportunidade” que desgraçadamente foi e vem sendo sabotada pelas centrais “chapa branca” (CUT, CTB, FS) e a Conlutas! As centrais sindicais de conjunto não convocaram assembleias de base nos dias que antecederam o 11 de julho e sequer fizeram ampla agitação popular em torno do “dia nacional de luta”. A CUT, por exemplo, que controla os principais sindicatos de bancários do país e os metalúrgicos do ABC paulista não organizou efetivas paralisações em suas bases. As grandes fábricas do país e montadoras do ABC não pararam durante todo o dia, algumas o fizeram apenas de forma “simbólica”. Já a CONTRAF-CUT não organizou absolutamente nenhum protesto de caráter nacional, nem sequer nos bancos públicos como BB e CEF. Apesar disso, pela própria agitação política em torno do arremedo de “greve geral”, os poucos piquetes feitos nas agências bancárias no centro do Rio e na Avenida Paulista, ocorridos justamente devido a estes locais serem “cartões pos-

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Antônio Sombra, da Oposição de Luta dos Professores-TRS, intervém na passeata do dia 11 em Fortaleza

tais” da mobilização nacional, conseguiram rapidamente ter adesão dos bancários, que logo paralisaram suas atividades. A Avenida Paulista, palco do protesto em São Paulo, foi fechada por um período em seus dois trechos no ato unificado das centrais, reunindo cerca de 10 mil pessoas, o que provocou grande destaque na mídia, como desejava a burocracia sindical, que recorreu também a “militantes” fardados para “engordá-lo”, muitos dos quais contratados. No Rio, as ruas do centro foram palco de uma passeata com cerca de 15 mil pessoas e houve confrontos localizados com a PM, com a prisão de 50 pessoas, no protesto em frente ao Palácio da Guanabara. Entretanto, categorias estratégicas como rodoviários e metroviários, não paralisaram nem no Rio e muito menos em São Paulo. A Conlutas, que dirige o Sindicato dos Metroviários de São Paulo, literalmente “roeu a corda” neste 11 de julho e não parou o Metrô sequer por uma hora! Em Fortaleza, onde o PSTU controla o Sindicato dos Rodoviários ocorreu o mesmo, o que demonstra que esta central que se proclama de “oposição de esquerda” ao governo Dilma atuou disciplina-

damente em conluio com as centrais “chapa branca” para fazer manifestações “ordeiras e pacíficas”, de cunho midiático, que não se enfrentassem diretamente e de forma radicalizada com a burguesia e seus governos! Houve 80 bloqueios de estradas pelo MST e o MTST, com barricadas de pneus em fogo na Dutra, Baixada Santista, Via Anchieta e em alguns estados do nordeste. No porto de Santos, aconteceu a ocupação de navios e do terminal de cargas. Em Porto Alegre e Vitória os rodoviários paralisaram, assim como o Metrô de Belo Horizonte. Em Brasília, onde ocorreram radicalizadas manifestações em junho, neste dia 11/07 pequenas passeatas tomaram conta da Esplanada dos Ministérios. No Paraná, algumas fábricas e montadoras como a GM paralisaram por algumas horas. Em Fortaleza, os servidores municipais fizeram greve de 24 horas. No norte do país, Belém contou com a manifestação de maior concentração. Este quadro desigual das manifestações que tomaram conta do país de norte a sul e demonstrou Continua na página 7

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n°262 • 2ª Quinzena de Julho/2013

DEBANDADA NA CST

A lógica de ferro da cooptação do Estado burguês tritura os revisionistas no interior do PSOL

Randolfe, Dorinaldo (ex-CST) e o prefeito de Macapá, Clécio

Em uma lacônica “Nota sobre Amapá” a direção nacional da CST “lamentou” que Dorinaldo Malafaia, até então o principal dirigente da corrente no estado e presidente do SINDSAÚDE-AP tenha se “afastado” do seu posto sindical e da militância morenista para assumir uma secretaria na prefeitura de Macapá, comandada por Clécio Luis Veira, eleito prefeito pelo PSOL em 2012 por meio de uma escandalosa aliança com partidos burgueses (PRTB, PMN, PTC e PV), arco que incluiu no segundo turno até mesmo o apoio do DEM, PSDB e PTB! O mais hilário é que até pouco tempo atrás Dorinaldo e a CST foram alvos de denúncia da APS, corrente que então abrigava o Senador Randolfe Rodrigues, sob a acusação de que ambos estavam aliados à oligarquia dos Capiberibe (PSB) e faziam um discurso “radical” para desgastar Clécio, justamente para atender aos interesses eleitorais do atual governador Camilo Capiberibe! Como se observa, a corrompida CST e seu ex-dirigente no Amapá, agora secretário de Clécio e serviçal de Randolfe (Ver Foto), há tempos vinham vendendo seus serviços à burguesia, mudando de lado conforme o famoso “quem dá mais”, onde a lógica de ferro da cooptação do Estado burguês tritura até mesmo os revisionistas do PSOL! Segundo a CST “A decisão de Dorinaldo Malafaia, de sair da CST/PSOL, se Liga Bolchevique Internacionalista

afastou do mandato de presidente do SINDSAÚDE-AP, para ocupar uma secretária na prefeitura de Macapá é uma decisão político pessoal do qual lamentamos. A opção de Dorinaldo de compor a atual administração da prefeitura de Macapá, deixa órfã a categoria dos trabalhadores da saúde em sua luta por serviços públicos de qualidade” (site CST, julho/2013). E só! A semimudez da CST tem seus motivos: a ultra-oportunista corrente morenista apoiou a candidatura de Clécio para prefeito nos dois turnos, apesar de ele representar abertamente um sólido bloco burguês que disputava com o PDT de Roberto Góes e o PSB dos Capiberibre o controle do botim estatal. Para recordar a política de colaboração de classes da CST, reproduzimos parte da “Declaração da CST-Amapá frente ao segundo turno em Macapá” (21 de Outubro/2012) em que mesmo considerando “Que a aliança com o DEM, PSDB e PTB, oriundos do bloco político denominado ‘Harmonia’, significa uma ruptura da fronteira de classe, uma agressão e uma afronta ao projeto do PSOL” resolve “Votar criticamente em Clécio, para derrotar Roberto Góes e o PDT”. Dorinaldo, ao assumir o cargo de secretário do prefeito que antes tanto criticava, não faz mais que levar até as últimas consequências a política da CST de vender seus serviços aos

políticos burgueses locais, mudando de lado dependendo de quem paga melhor, sempre recorrendo a um linguajar de “esquerda” para encobrir suas negociatas! Não por acaso, ao assumir o posto na Secretaria-adjunta de Gestão da Saúde de Macapá, como um “bom” morenista ele ressalta: “Eu e o companheiro Clécio já tivemos vários embates, não é segredo pra ninguém. Mas, há algo que está acima de diferenças pontuais, que é a necessidade da população. Não é incompatível essa decisão de travar a luta pela saúde e pelo trabalhador do lado de cá, agora, da gestão. Meu partido tem suas diretrizes fundadas na luta dos trabalhadores. Temos a oportunidade de ter uma prefeitura que consiga dialogar com a população, e que não seja o contraponto da luta dos trabalhadores, mas atue para reconhecer e implantar seus direitos. Esse momento de reflexão profunda me fez decidir pela possibilidade de fazer com que as coisas deem certo. Para que a prefeitura trabalhe junto com os trabalhadores e não seja uma barreira de contenção as suas lutas. Muita gente vai falar que eu fui cooptado, que me vendi e que o sindicato virou chapa branca. Mas, vamos deixar claro que o movimento sindical manterá sua autonomia e independência. E que eu estarei na gestão para ajudar. O sentido da virada é amar essa cidade e fazer com que as coisas mudem de forma positiva. Sempre fui um caboco muito decidido, e quando eu mergulho vou fundo pra resolver as coisas. Hoje a minha revolução é salvar vidas e melhorar a saúde da população” (Jornal Gazeta do Amapá, 19 de julho 2013). Dorinaldo agora se juntará ao staff de Clécio, quem em 2012, ao discursar no ato de adesão do DEM/PTB/ PSDB à sua candidatura a prefeito, lançou Lucas Barreto (PTB) ao governo estadual em 2014, tendo a seu lado o articulador da aliança, o senador Randolfe, eleito em 2010 pelo PSOL sob as bênçãos de Sarney!!! Lembremos que em meio à disputa das camarilhas mafiosas do PSOL do Amapá a então APS, ligada a Randolfe, plantou denúncias na imprensa daquele estado sobre a conduta venal de Dorinaldo e da CST acusando-os de aproximação com a oligarquia Capiberibe (PSB). Segundo informações divulgadas em vários blogs e sites “A Corrente Socialista dos Trabalhadores, entidade que pertence ao PSOL, vem amadurecendo um

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~ DE UM POVO A DECULTURAÇÃO

A morte de Dominguinhos e a lenta agonia da cultura nordestina

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epois de uma sofrida internação de mais de seis meses, José Domingos de Morais, conhecido por todos como “Dominguinhos” faleceu no último dia 23 de julho aos 72 anos, vitimado por um câncer no pulmão e das complicações derivadas desta enfermidade. Considerado o maior sanfoneiro da atualidade foi não apenas caudatário e continuador artístico do grande mestre Luiz Gonzaga, mas ascendeu sua veia musical com aura própria e inovadora, flertando inclusive com a Bossa Nova, Jovem Guarda, Tropicália e Jazz contemporâneo. Com 50 anos de carreira, começou bastante cedo na estrada da arte, quando tinha oito anos de idade foi descoberto pelo “mestre Gonzagão”, impressionado com aquele garotinho franzino que tocava triangulo e sanfona de oito baixos com desenvoltura no trio “Os três pinguins”, formado por seus outros dois irmãos em Garanhuns no agreste de Pernambuco. O “mestre” esperou que seu pupilo amadurecesse um pouco e em 1954 o convidou a morar no Rio de Janeiro, centro da vanguarda artístico-cultural do país. Dominguinhos viveu a música já na família, onde o pai (“Mestre Chicão”) era um exímio sanfoneiro que não só consertava e afinava os instrumentos como os tocava soberbamente. Não teve dúvidas, colocou o filho na boleia de um “pau de arara” e partiu para o Rio de Janeiro. No centro Liga Bolchevique Internacionalista

político do país, “Gonzagão” não demorou a consagrar Dominguinhos como seu herdeiro em shows e entrevistas à imprensa, incorporando-o em seu grupo como segundo sanfoneiro e partindo para turnês pelo interior fluminense. O aprendiz formou paralelamente o “Trio Nordestino” com Miudinho e Borborema. Assim, do agreste semisselvagem foi aos poucos construindo uma carreira carregada de brilhos que o colocou não apenas ao conhecimento do Brasil como também do mundo, com parcerias realizadas junto a Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Toquinho, Anastácia, Nando Cordel, Yamandu Costa e tantos outros gigantes da música popular brasileira. Como prova esta larga trajetória, foi-se embora mais um grande e talentoso ícone da música nordestina e brasileira, hoje gradativamente sendo destruída pelas empresas das “bundas de forró” e da “axé music”, ambas imbuídas de um caráter extremamente bestializante-predatório da legítima cultura das raízes do nordeste que nada tem a ver com o forró pé-de-serra, o baião, o xote, xaxado, coco... Dominguinhos, por suas posições políticas e vínculos com as oligarquias dominantes locais, apesar da excelência de sua arte, não criticara ou levara algum combate mais consequente ao retrocesso que representa a transformação da música nordestina em uma mercadoria descartável e alienante.

Como resultado da etapa de profundo retrocesso ideológico-cultural das massas e reflexo da ofensiva do imperialismo em todos os terrenos da vida humana, a cultura nordestina vem sendo gradativamente destruída. São criadas as “bundas” de forró, verdadeiros lixos do tipo “Garota Safada”, “Aviões do Forró”, as patricinhas “Coleguinhas”, voltadas para a alienação dos jovens que, na verdade, quando ouvem uma música autêntica do forró tradicional já não tem qualquer identidade, porque a consideram “música de velho”, algo ultrapassado, “de museu”. Para a indústria cultural o que vale é consumir seu lixo de mercado, enaltecendo a imagem aeróbica dos corpos sarados dos dançarinos “forrozeiros”. Chama a atenção que mesmo perante a aniquilação da cultura de raízes, Dominguinhos (e muitos outros artistas nordestinos de renome como Elba Ramalho, Fagner, Waldonys etc.) jamais contestou a invasão desta “música” (barulho na verdade), destituída de qualquer qualidade estética e que nada tem a ver com a genuína cultura nordestina (e muito menos com o que é o forró, baião, xaxado, xote etc.). Trata-se de uma imposição da indústria cultural de massas idiotizante dos dias atuais através dos “jabás” em rádios e TVs. O mal-chamado “forró eletrônico” é uma grotesca aberração e uma denominação completamente errada, porque não tem a menor similitude com o autêntico forró nordestino (a formação básica de triângulo, sanfona e zabumba), mas sim com o “pop-rock” eminentemente urbano cujas bandas são compostas por sax, baixo, guitarras, metais, bateria e teclado onde os “vocalistas” atuam com uma voz aguda, estridente, linear e em ritmo acelerado. Trata-se de um modismo de mercado que esmaga o singelo “forró pé-de-serra” (o próprio Luiz Gonzaga começou a chamar assim o tipo de música que ele e alguns de seus seguidores faziam em Exu, que fica no pé da serra do Araripe, em Pernambuco). Para entendermos Dominguinhos neste processo é necessário “separar” a arte do artista. Não é segredo algum, vinculou-se política e ideologicamente às oligarquias nordestinas, já que são estas que em sua maioria estimulam e financiam as terríveis “bundas de forró”, muitas das quais utilizadas como meio de propaganda nos seus “currais” eleitorais. O continuador de “Gonzagão” ficou

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n°262 • 2ª Quinzena de Julho/2013

LUTA OPERÁRIA conhecido não apenas por sua excelência artística, mas também por gravar “jingles” políticos para as campanhas presidenciais do PSDB de FHC, Serra e Alckmin. Antes já havia se convertido em “cabo eleitoral” na década de 90 do “coronel” Tasso Jereissati no Ceará. Dominguinhos também deve ser compreendido como produto desta época de reação ideológica, já que no início dos anos 80 simpatizava e foi favorável à criação do PT, mas a ofensiva ideológica neoliberal do imperialismo em todo o planeta fez com que rompesse com suas insipientes referências ao socialismo dentro do cenário político nacional, a exemplo do que aconteceu com a classe média no país, bandeando-se para o outro campo. Assim, se indispor com os empresários das famigeradas “bundas de forró” implicaria bater de frente neste poderoso setor da classe dominante com a qual está comprometido politicamente. Neste caso, a política do “consenso” e da acomodação material fala mais alto... Apesar da sua formação multifacetária em termos de sonoridades e “sotaques”, nunca abandonou o baião do “Mestre Lua” - o responsável por popularizar este ritmo por todo o território nacional - uma vez que ao criar sua música rompe o limite do regional que lhe dá a origem para transformá-la através da sensibilidade, emoção e talento em uma obra de arte universal inundada por arranjos e harmonias incomparáveis. Certa vez, afirmou que sem paixão não se faz nada, nem arte: “Tocar, eu toco de tudo mesmo. Depois que você tem experiência, não é difícil tocar com o Gil, com Gal, com quem quer que seja, porque eles começam uma música e você já sabe pra onde vai, já

sabe tudo. Agora, é só quando eu toco toada, baião e forró é que eu sinto aquela coisa flamejante aqui no peito” (Som13, 24/7). O baião é um dos mais tradicionais ritmos do nordeste, uma derivação do “lundu” tocado entre os escravos que foi difundido por violeiros populares e depois “reinventado” por Luiz Gonzaga e continuado por Dominguinhos, expondo em versos e música os anseios e as dores do povo nordestino. Sem dúvidas, que com silenciar da sanfona de Dominguinhos e apesar de todas as suas contradições, o grande universo da música popular brasileira e nordestina infelizmente será cada dia mais ocupado (tomado) pela música pasteurizada urbana de fácil absorção pelo grande público tremendamente alienado pela mídia “murdochiana”. Hoje, o talento não mais interessa aos grandes empresários da indústria cultural, pois eles “criam” seus “artistas” que melhor expressem seus intentos de encher os bolsos com uma “música” descartável que não sobrevive ao menor sinal dos tempos. Dominguinhos, por exemplo, era puro talento, apesar de nunca ter estudado música formalmente, mas possuía uma habilidade e uma força de vontade fora do comum em aprender o manejo da sanfona. Quer dizer, um “novo Dominguinhos” na atual fase de retrocesso cultural, embora certamente exista, estaria descartado pelas “necessidades” e “exigências” do moderno “mercado” musical que destrói qualquer referência de resistência ainda existente para alimentar “novos” padrões de consumo rápido, o descartável e o superficial. As irritantes “bundas de forró” não são um fenômeno isolado dentro do decadente sistema capitalista, já que a genuína cultura

Continuação da página 13

de manter a nossa capacidade defensiva para preservar a soberania nacional”. O comunicado cubano disse ainda que as armas haviam sido fabricadas em meados do século 20. Elas passariam por uma manutenção na Coreia do Norte e seriam levadas de volta ao país. Apesar de todas as explicações de Cuba e da Coreia do Norte, o navio continua detido à espera da chegada de peritos das ONU para inspecionar material da era soviética transportado no meio de uma carga de açúcar! A Coreia do Norte pediu ao Panamá para deixar partir “sem demora” seu cargueiro: “A carga nada tem para além de armas obsoletas que devem ser reenviadas para Cuba depois de serem modernizadas [na Coreia do Norte], nos termos de um contrato legal”, declarou o ministério norte-coreano dos Negócios Estrangeiros, citado pela agência oficial KCNA (BBC, 18/07). Já a Coreia do Sul declarou em tom de ameaça “Se se confirmar que a carga viola as resoluções da ONU, esperamos que o comitê de sanções do Conselho de Segurança tome medidas rapidamente”. Shin In-Kyun, presidente do Korea Defence Network, um centro privado pró-imperialista de estudos sul-coreano, disse à AFP, que a Coreia do Norte tem capacidade para prestar serviços de reparação de mísseis ao estrangeiro. “Mas não podemos

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de raízes populares vem sendo lamentavelmente destruída pela mídia global permeada apenas pelo consumo fácil de mercado, a mentalidade do descartável, da superficialidade das relações, pela imagem do “espetáculo”, a péssima qualidade musical e estimulando belicosidade e o vazio das novas gerações. A mercantilização da cultura transforma um gênero tipicamente rural e camponês, o forró de raiz e os ritmos nordestinos, em uma estilização completamente distinta, urbana e artificial como já o fez com a chamada música “sertaneja”. Para o marxismo revolucionário é necessário uma ferrenha luta programática para forjar a consciência de resistência do proletariado e do povo explorado às investidas do grande capital no país, ao qual responde o mercado fonográfico que ao difundir o fútil e o descartável pretende minar estrategicamente as forças da classe operária no enfrentamento político, ideológico e cultural ao imperialismo. O grande depositário da cultura de resistência deve ser o proletariado, organizado desde seus locais de moradia, estudo e trabalho de forma que possa enfrentar com sua ação direta os ditames da burguesia, a política do “consenso”. Para os estrategistas da classe dominante, um povo, um país sem cultura, com uma mentalidade pasteurizada e sem história, é muito mais fácil de ser dominado e colonizado. Daí, apesar de todas as odes que a mídia “murdochiana” faz a Dominginhos no momento de sua morte, ela de fato é a coveira mordaz de toda a rica tradição que este mestre da sanfona representava para a música popular nordestina! 30 de Julho/2013

excluir a possibilidade da Coreia do Norte importar peças para os seus próprios mísseis da era soviética” (Idem). Frente ao impasse, defendemos a imediata liberação do cargueiro norte-coreano e direito integral de comércio e da cooperação militar entre os dois Estados operários! Apesar dos genuínos revolucionários defenderem a necessidade da revolução política para colocar à frente dos Estados operários cubano e norte-coreano o proletariado revolucionário, jamais nos somamos à sórdida e criminosa campanha da Casa Branca contra estes regimes burocratizados. Como herdeiros das lições deixadas por Trotsky, nos opomos frontalmente à frente política contrarrevolucionária comandada por Obama para estrangular os Estados operários burocratizados ainda existentes. A melhor forma de defender as massas cubanas e norte-coreanas e suas conquistas, preparando as bases da revolução política, é estabelecer uma frente única militar com os Estados operários ameaçados, chamando o proletariado a se mobilizar em todo o mundo contra o bloqueio e as sanções orquestradas por Obama e a ONU, assim como pelo legítimo direito de defesa de Cuba e da Coreia do Norte, inclusive utilizando o arsenal bélico nuclear norte-coreano para se opor as provocações imperialistas em curso. 18 de Julho/2013

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´ SEQUESTRO DO CARGUEIRO CHONG CHON GANG NO PANAMÁ

Pelo direito de comércio e cooperação militar entre os Estados Operários de Cuba e da Coreia do Norte!

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imperialismo ianque, através do governo títere do Panamá, acaba de desferir mais uma provocação contra os Estados Operário de Cuba e da Coreia do Norte. Foi sequestrado no porto de Colón, pouco antes de entrar no Canal do Panamá, o navio cargueiro norte-coreano Chong Chon Gang que vinha de Cuba. A embarcação, além de 10 mil toneladas de sacas de açúcar também transportava material bélico cubano para ser reparado na Coreia do Norte, conforme prevê acordo comercial-militar entre ambos os países. Tão logo os mísseis e radares foram descobertos, a ONU foi acionada e o navio detido a espera de “inspetores” das Nações Unidas, já que o governo do Panamá acusa Cuba de fazer comércio ilegal de armas com o Estado operário norte-coreano. Como se vê, trata-se de uma aberta provocação contra os dois Estados Operários, já que ambos são contrários às sanções diplomáticas, econômicas e militares que a ONU impôs à Coreia do Norte em busca de acabar com seu programa nuclear. As restrições se intensificaram logo depois que Pyongyang realizou seu terceiro teste nuclear em fevereiro, quando os EUA passaram inspecionar navios norte-coreanos "suspeitos". Nos últimos anos, diversos barcos norte-coreanos foram confiscados sob o regime de sanções da ONU. Com a apreensão do navio e de sua carga, a ONU também deve sancionar Cuba e aprofundar o bloqueio econômico que o imperialismo ianque impõe há mais de 50 anos à Ilha operária. Neste momento faz-se necessário que todas as forças políticas que se reivindicam anti-imperialistas e governos que se proclamam solidários a Cuba se pronunciem publicamente em defesa de Cuba e da Coreia do Norte, pelo livre direito de comércio entre os dois países, assim como da cooperação militar para se defender das sanhas belicistas do Pentágono! Segundo o governo capacho do Panamá, cujo canal é de fato controlado e monitorado pelos EUA, trata-se de um carregamento militar não declarado descoberto no navio Chong Chon Gang, procedente de Cuba, detido quando se aproximava do país caribenho, vistoriado por denúncia de contrabando de drogas feito por órgão de inteligência ianLiga Bolchevique Internacionalista

que. O Ministro da Segurança do Panamá, José Raúl Mulino, deixou claro o caráter da provocação: “Estamos fazendo contatos com governos amigos que tem a capacidade tecnológica para poder examinar isso” (BBC, 18/07). Mas, desde já, ele declarou que “a embarcação contrabandeava um equipamento sofisticado de mísseis através do canal” e afirmou também que consultará a ONU para determinar a que organismo terá que entregar os prisioneiros, caso se confirme o contrabando de armas de guerra. Por sua vez, o presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, homem de confiança da Casa Branca, fez o anúncio da detenção do barco em sua conta no Twitter. Disse que as armas “vinham escondidas em contêineres debaixo de um carregamento de açúcar”. O embaixador da Grã-Bretanha na ONU, Mark Grant, fazendo coro com as ameaças, declarou: "Graças ao bom trabalho feito pelo Panamá, o Comitê de Snações da ONU examinará o que parece ser um carregamento ilegal de armas cubanas para a RDPC (Coreia do Norte)" (Terra Notícias, 18/7).. Sanções da ONU patrocinadas pelo EUA impedem que a Coreia do Norte exporte e importe armas. No caso das importações, apenas armamentos leves são permitidos quando previamente comunicados às Nações Unidas. A tripulação do navio, que resistiu ao sequestro e invasão do navio, encontra-se presa em uma antiga base aeronaval norte-americana Sherman, que agora está sob a direção do Serviço Aeronaval do Panamá e foi também transformada em “escritório de cooperação” entre os dois países. Os armamentos, na verdade, são radares de controle de disparos RSN-75 “Fan Song”, parte de baterias de mísseis terra-ar SA2 e mísseis fabricados pela URSS na época da Guerra do Vietnã, ou seja, material bélico já ultrapassado que iria para conserto e modernização na Coreia do Norte, já que os EUA através do embargo a Cuba impede que qualquer país que tenha relações comerciais com os Estados

Unidos ajude na manutenção do sistema militar cubano. O navio-cargueiro norte-coreano foi retido também em 2010 na Ucrânia. Desde esse ano é monitorado pelas agências de espionagem dos EUA em razão de uma parada que fez em Tartus, o porto sírio onde a Rússia tem uma base naval. Como se vê, trata-se de uma verdadeira caçada e perseguição que o Pentágono vem fazendo a embarcação do Estado Operário norte-coreano. Segundo a mídia “murdochiana”, há a possibilidade de Cuba ter enviado o sistema de mísseis à Coreia do Norte para sua modernização. Nesse caso, seria provável que o sistema de mísseis estivesse sendo devolvido a Cuba e o carregamento de açúcar poderia ser parte de um pagamento pelos serviços prestados. Outra opção seria que os equipamentos poderiam ter sido enviados à Coreia do Norte para incrementar os sistemas de defesa aéreos de Pyongyang. Independente de que relação comercial-militar esteja envolvido o carregamento, defendemos incondicionalmente o direito dos dois países colaborarem para se defender das investidas do imperialismo ianque! Na noite dessa terça-feira, o ministro de Relações Exteriores de Cuba disse em comunicado que o navio levava armas obsoletas cubanas para serem consertadas na Coreia do Norte. A nota diz que Cuba reafirma seu compromisso com “a paz, o desarmamento, incluindo o desarmamento nuclear, e o respeito pelas leis internacionais” em uma clara tentativa da burocracia castrista de buscar um acordo imediato com os EUA frente à apreensão do navio. Cuba afirmou que o navio carregava 240 toneladas de “armamento de defesa obsoleto ─ dois complexos de mísseis antiaéreos, nove mísseis divididos em partes menores, dois aviões de caça MiG 21-Bis e 15 motores de MiG” e declarou ainda que “Os acordos subscritos por Cuba neste campo assentam na necessidade Continua na página 12

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TRAYVON MARTIN

Mais uma vítima do Estado policial montado contra o povo pobre e negro nos EUA!

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assassino do jovem negro Trayvon Martin foi absolvido por unanimidade no julgamento ocorrido no último dia 13, na Flórida, um dos estados mais reacionários dos EUA. Os jurados consideraram que o algoz de Martin, George Zimmerman, um branco de origem hispânica que atuava como “vigilante voluntário” (na verdade é membro de um grupo de extermínio) agiu em legítima defesa quando em fevereiro de 2012 atirou “preventivamente” com uma pistola semiautomática no peito de Trayvon Martin simplesmente por achar que o jovem estava em “atitude suspeita”, apesar do adolescente de 17 anos não portar qualquer arma. O caso revela em toda plenitude o estado de terror policial fomentado nos EUA contra o povo pobre e negro, em um ataque racista e institucionalizado aos elementares direitos civis dos setores mais explorados da população trabalhadora. A lei conhecida como “Defenda sua posição” (Stand Your Ground) em vigor na Flórida e mais em 29 estados norte-americanos permite o uso de armas letais fora de casa quando se percebe uma “ameaça”, autorizando o assassinato do suspeito. Sob este argumento, Zimmerman ganhou a liberdade. Este é o exemplo da “democracia” que o imperialismo ianque deseja exportar para o mundo afora com suas guerras de ocupação, com as atrocidades que impõe na Líbia, Iraque e Afeganistão! A ação de Zimmerman se apoia na conduta racista do Estado capitalista ianque, expressão de uma sociedade doente onde a burguesia e setores de classe média reacionários patrocinam a perseguição às chamadas “minorias”, atuando em escala doméstica como age o imperialismo ianque no resto do mundo. No seu intento, a classe dominante branca recorre até mesmo da mão de obra barata de imigrantes “naturalizados” que cobram pouco por serviço de segurança privada “vonluntária”. Tanto que o “vigilante”, que integra uma espécie de grupo de extermínio patrocinado pelos comerciantes da cidade de Sanford (Flórida), estava em seu carro fazendo uma “ronda” quando “notou” Martin saindo de uma loja, começando uma

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perseguição que levou a morte do jovem negro. Ele ligou para a polícia para relatar que o adolescente estava vestindo um capuz e parecia “suspeito”, avisando que iria segui-lo, no que recebeu sinal verde da rádio-patrulla. O jovem estudante do ensino secundário foi morto na saída de uma cafeteira, justamente quando já se dirigia para casa do pai, transportando consigo chá e alguns doces. Zimmerman o abordou, houve uma discussão e ele matou o jovem negro. Depois de assassinar Trayvon Martin, Zimmerman telefonou novamente para a polícia, que não prendeu de imediato já que estava atuando amparado na lei “Defenda sua posição”. Seis semanas depois do ocorrido, somente depois de diversas marchas e manifestações na Flórida e pelo país afora, além de uma petição com dois milhões de assinaturas, é que a “justiça” determinou que o assassino ficasse em liberdade condicional a espera de julgamento, sendo agora inocentado! Toda a demora no julgamento levou a população negra a denunciar o processo e levantar casos anteriores, como a execução de Troy Davis ou a condenação de Mumia Abu Jamal, acusados de matar policiais brancos ou mesmo o espancamento de Rodney king em Los Angels em 1992. No Estado da Florida, a lei reconhece o uso letal de arma de fogo em caso de perigo de vida ou ofensa à integridade física, cujos alvos são em geral negros e pobres. Como denunciaram vários jovens amigos de Trayvon Martin o resultado concreto é o assassinato em massa de adolescentes nas periferias dos grandes centros urbanos e quando estes circulam nas chamadas “zonas nobres” privativas a classe média alta e a burguesia: “Vamos ser claros. É devido a essa lei que qualquer pessoa que está caminhando, sem cometer qualquer crime, pode ser seguida ou abordada por outro civil, que pode usar força letal e dizer que foi em legítima defesa” (G1, 17/07). O assassino do jovem negro Trayvon Martin é parte de uma política de estado nos EUA, herdeira da legislação racista que foi “reformulada” depois da luta pelos direitos civis nos anos 50 e 60. Tanto que o programa

“Vigilância na Vizinhança” de que Zimmerman é membro é supervisionado pela polícia justamente para a formação de milícias paramilitares de cunho fascista, orientadas a perseguir e matar “suspeitos” que podem ser negros, muçulmanos ou “esquerdistas”. A mídia ianque apoia plenamente a legislação racista justamente para reprimir os setores descontentes com a crise econômica. Um relatório feito pelo instituto Pew Center, em 2011, revelou dados estarrecedores sobre o caráter racista do verdadeiro “estado policial” que reina no coração do monstro imperialista, que é responsável por nada menos do que 5% da população carcerária mundial (e 25% do continente americano). Apesar de corresponderem 12% da população estadunidense, negros estão no topo de todas as estatísticas policiais. Nas prisões, existe um branco para cada 11 negros. Pesquisas indicam que quatro de cada cinco jovens negros serão aprisionados em algum momento de suas vidas. E o destino traçado pelo sistema pode ser ainda mais trágico: cerca de 40% dos que estão nos corredores da morte são negros, proporção que chega a 60% em estados como a conservadora Pensilvânia (onde a população negra não chega a 10%). Em “resposta” as mobilizações contra a absolvição de George Zimmerman, que já ocorrem na Flórida e podem se espalhar pelo resto do país, a Polícia de Los Angeles prometeu “mão firme” nos protestos raciais. Los Angeles é particularmente sensível ao tema racial desde os protestos na cidade, em abril de 1992, quando um júri absolveu quatro policiais brancos que haviam agredido o jovem negro Rodney King. Mais de 20 anos depois, a absolvição de Zimmerman reacende a luta contra o racismo e o fascismo nos EUA! O chefe da polícia, Charlie Bech, disse que não permitirá que episódios como os de segunda à noite se repitam: “Não podemos permitir que um pequeno grupo de indivíduos não apenas danifique (...) e semeie o medo na comunidade, como também destrua a mensagem que muitos nessa comunidade querem transmitir”. Na noite de segunda, expressando seu justo ódio contra o ocorrido, manifestantes destruíram automóveis e atacaram o comércio local, cujos donos patrocinam o programa fascista de “Vigilância na Vizinhança”. Pelo menos 14 pessoas foram detidas. No domingo, oito pessoas foram presas em um protesto na frente do prédio da CNN, em Hollywood, quando protestaram contra a manipulação das inLiga Bolchevique Internacionalista


LUTA OPERÁRIA

n°262 • 2ª Quinzena de Julho/2013

formações. Em protesto, o músico Stevie Wonder prometeu não se apresentar onde a lei vigore: “Decidi que até que a lei 'Defenda sua posição' seja abolida na Flórida, não vou cantar no estado. Na verdade, não vou cantar em qualquer estado ou região do mundo onde exista uma lei como essa” (Idem). Diante do risco de revolta popular da população negra, Obama declarou cinicamente que a morte do jovem era uma “tragédia” tanto para a família da vítima como para o país, mas disse que os Estados Unidos “são uma nação de leis e o júri pronunciou-se”. O lobo em pele de cordeiro só não disse que as “leis” estão a serviço da burguesia e seu estado policial... A execução de Martin e a impunidade de Zimmerman faz lembrar um caso recente, mas que tomou rumo totalmente contrário. O jovem negro Troy Davis foi executado com a pena capital após ser acusado de ter matado um policial branco com testemunhas falsas. Num caso, um jovem negro é executado no meio da rua e ao assassino confesso são concedidas todas as possibilidades de defesa, além de benesses judiciais para que não fosse nem mesmo indiciado pelo crime, sendo ao final inocenta-

do. Noutro caso, num episódio até os dias de hoje pouco esclarecido, a justiça penal não teve muitas dúvidas do que ocorreu e executou Troy Davis em setembro de 2011. Outro exemplo é o de Mumia Abu Jamal até os dias de hoje preso por acusação falsa de ter morto um policial. Neste episódio em particular, Obama voltou mais uma vez voltou suas costas para a população negra e escolheu estar ao lado, por exemplo, pelos milicianos que apoiam a lei conhecida como Stand Your Ground (Defenda sua posição), que permite o uso de armas por parte de quem se sentir ameaçado de morte. O “falcão negro” não deseja desagradar seus anos capitalistas brancos e já prepara a transição para um governo de corte abertamente fascista em 2016, possivelmente sob o comando do Tea Party ou algo afim. Os ataques de claro conteúdo fascista e racistas estão em consonância com a época de ofensividade bélica e de reação ideológica preconizada pelo imperialismo ianque que Obama é porta-voz. Como não há um contraponto revolucionário a degradação de uma sociedade doente que recorre a um estado policial contra seu próprio povo, a hu-

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tipo de mobilização que só serve à contrarrevolução. Diante disso, se impõe a necessidade de que as organizações populares, que derrubaram Morsi, tenham planos e organismos de autodefensa para impor a vontade das massas contra a reacionária Irmandade Muçulmana, de tal forma que não dependam do Exército e da polícia para impor sua vontade.” (Idem). Como podemos obsevar trata-se de um programa em defesa da frente única política e militar com as FFAA! Apesar de setores da “esquerda” terem apresentado o golpe militar como uma “vitória das mobilizações populares”, o que se observou foi a deposição pelas FFAA do governo eleito da Irmandade Muçulmana (relativamente frágil e sem a confiança integral do Pentágono, apesar de todos os esforços do presidente deposto), impondo um gabinete golpista escolhido “a dedo” pelo imperialismo ianque, com oficiais e civis que estão totalmente entregues ao FMI e à OTAN. O quadro atual representa que as massas estão em uma situação pior quando sob o governo da Irmandade Muçulmana, porque antes tinham a capacidade de enfrentar um governo civil frágil (neoliberal e islâmico) e agora ficaram totalmente refém da alta-cúpula militar, como na época de Mubarak, cuja queda foi apresentada por esta mesma esquerda como uma “revolução democrática triunfante”. Até poucos dias atrás esses filisteus diziam que o fato da Junta Militar alinhada com o Pentágono depor um governo burguês islâmico eleito, porém fragilizado e dar um golpe de estado era uma revolução! Ao contrário desses calhordas, não nos cansamos de afirmar: a estranha aliança entre militares e um setor das “massas” em apoio ao golpe militar demonstra que na ausência de um partido comunista e de um programa revolucionário o movimento de massas pode girar à direita. Tanto que na própria sexta-feira, 26, centenas de milhares de pessoas voltaram às ruas do Cairo e de outras cidades, em particular do norte do país, em apoio ao chamado do ministro de Defesa Abdel Fattah el-Sissi para reprimir o que qualificou de “violência e embrião de terrorismo” em alusão aos protestos da Irmandade Muçulmana. Todos esses elementos demonstram que a ação das FFAA em 3 de julho não se tratou de um “golpe militar preventivo” para barrar o avanço da “revolução” como defende o PCO, justamente porque Liga Bolchevique Internacionalista

manidade tende a caminhar para a barbárie imposta pelo império decadente. Desgraçadamente, se não houver uma direção política que aponte uma saída comunista para os trabalhadores de todo o planeta, assassinatos racistas, carnificinas neonazistas e guerras genocidas acontecerão como norma de sobrevivência do regime capitalista senil. Sem a intervenção do proletariado nesta conjuntura fascistizante em defesa da liquidação deste estado policial e pela liberdade imediata dos negros e trabalhadores encarcerados, o capitalismo não se extinguirá, nem cairá de podre, ao contrário, arrastará a humanidade para a barbárie. Estamos vendo a volta com força do fascismo ianque em escala interna e planetária. Para que não se repitam novas cenas sanguinárias como o assassino do jovem negro Trayvon Martin dentro e fora dos EUA, somente a ação revolucionária do proletariado mundial poderá reverter estas tendências nefastas, se valendo da luta pela liquidação do modo de produção capitalista e tendo como estratégia a imposição de seu próprio projeto de poder socialista. 17 de Julho/2013

nunca houve uma revolução em curso no Egito, mas um processo de transição operado pela Casa Branca no curso da chamada “Primavera Árabe” que conseguiu com sucesso manipular o movimento de massas para tirar de cena um gerente senil (Mubarak) e colocar em seu lugar alternativas minimamente confiáveis a seus interesses, primeiro a Irmandade Muçulmana (que se mostrou frágil), agora com um gabinete composto por El Baradei e outros homens de sua inteira confiança, sustentado diretamente pela FFAA. Agora que a repressão do exército de abate com toda força sobre os apoiadores de Mursi, ficou clara a colaboração das FFAA com Israel e a perseguição aos palestinos por parte do “governo de transição” fica insustentável a posição da “esquerda” que foi fiadora do golpe, inclusive daqueles setores reformistas e stalinistas que chegaram a dizer, como o próprio PC do Egito, que com a ascensão dos militares ao governo se romperia o eixo que o atual governo de Morsi formou com a Turquia e as petromonarquias do Golfo, como Arábia Saudita e Qatar, contra a Síria e o Irã. Esta tese é completamente falsa, já que o alto-comando militar encastelado no poder desde Sadat e Mubarak sempre esteve alinhado com os objetivos estratégicos do imperialismo ianque, tendo em vista que é diretamente financiado e orientado pelo Pentágono. O exército egípcio é cúmplice histórico dos massacres ao povo palestino perpetrado por Israel, tanto que o país é um dos poucos no Oriente Médio que tem relações diplomáticas com o enclave sionista desde os acordos de Camp David. Na verdade, ao Conselho Supremo das FFAA ter perpetrado o golpe militar se aprofundou ainda com maior força o alinhamento político e militar do Egito contra a Síria e o Irã, já que colaboram diretamente com os planos da OTAN! Os fatos atuais só comprovam o que afirmamos! Neste momento é necessário chamar a derrubada do “novo governo” golpista pela via da ação direta das massas, convocando atos e manifestações em frente única com a Irmandade Muçulmana e os setores populares que se opõem ao golpe, construindo comitês de autodefesa contra a repressão estatal. Ao contrário dos canalhas da LIT e seus irmãos da família revisionistas, os genuínos trotskistas estão nas tricheiras dos que combatem os golpistas, serviçais da Casa Branca! 28 de Julho/2013

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