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Equinócio A Primavera Lu Piras

23:09

A

s nuvens se dissipam e a Lua Cheia volta a reinar em meio às súditas estrelas que cintilam em seu redor. Estou sentada na posição de Lótus. De olhos fechados, permaneço apenas um minuto até me dar conta do papel

ridículo que estou fazendo. O que Buda tem a ver com essa história? Só falta agora achar que devo entoar mantras! Procuro uma posição confortável que me permita relaxar. Ajeito o travesseiro de modo a deixá-lo mais alto e deito a cabeça. Tento esvaziar meus pensamentos. Então, repito alto e em bom som: ― Nath-Aniel! Nath-Aniel! Nath-Aniel! Abro os olhos depressa. Ele não está aqui. Posso estar pronunciando o nome de modo errado. Será que minha fé não é forte o suficiente? Concentro-me mais uma vez. ― Nath-Aniel! Nath-Aniel! Nath-Aniel! Depois de mais algumas tentativas já penso que talvez eu devesse mesmo entoar um mantra. Só que eu não conheço nenhum. De pé, debruçada na janela, repito o nome dele numa última tentativa, desta vez com toda a minha vontade. E estou tão concentrada, que não me preocupo em acordar toda a vizinhança com o meu chamado. Viro-me novamente para o quarto e, de costas para a Lua Cheia, vejo uma sombra na cama. ― É ele!

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Meu coração começa a pulsar acelerado, meu corpo estremece. Fico encarando a sombra, estática. Passo a mão pelo cabelo para ajeitá-lo. É quando me dou conta de que é a minha própria sombra. Anjos não têm sombra, ora. O relógio marca 23:08 e meus olhos começam a arder de cansaço. Viro de lado para a mesinha de cabeceira onde o terço está pousado. Estico o braço para pegá-lo e, com ele nas mãos, adormeço instantaneamente. *** Está escuro. ― Depressa! Falta um minuto! ― uma voz melodiosa exclama com ansiedade. Não vejo minhas pernas, nem meus braços, nem nada a minha volta. Só sei que estou correndo e que não estou sozinha. ― Um minuto para o quê? ― arfo, assustada. ― O espetáculo do equinócio vernal. A brisa fresca traz cheiro de maresia. Está úmido. Abro meus olhos. Estou no alto de um penhasco. Giro meu corpo devagar. Eu conheço este lugar: é o Arpoador! Há poucas luzes acesas nos bairros que se estendem à beira-mar. Aquela voz eu reconheço. Mas onde ele está? Uma chuva luminosa cruza o céu. Feixes brilhantes cortam a escuridão como lâminas de prata. São centenas de meteoros que penetram na atmosfera terrestre.

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― Faz um pedido. Eu já fiz o meu. Como que envolvidos numa espécie de campo magnético, uma força incontrolável nos atrai para os braços um do outro. Quando a chuva de estrelas termina, continuamos abraçados. Ele me afasta um pouco para ver minhas lágrimas. Reparo em seus olhos esmeralda, um brilho incandescente muito superior ao brilho da chuva que acabou de acontecer. É impossível desviar-me deste fenômeno. Ele vai saber de tudo o que estou sentindo; vai saber que não estou emocionada por causa das estrelas cadentes, mas por causa dele. Enquanto me preocupo em disfarçar meus sentimentos, ele pega em minha mão. ― Não queria que você perdesse um dos acontecimentos mais lindos do Universo. Tinha que partilhar este momento com você. ― diz ele tocando suavemente o meu rosto e apagando minhas lágrimas com os dedos. ― A probabilidade de estarmos no lugar certo e na hora certa para ver este espetáculo é ínfima. E como coincidências não existem... Minha feição se espreme. ― Então, você sabia? ― pergunto. ― Costumo calcular os ângulos horários siderais e seguir os rastros dos cometas... é um dos meus entretenimentos nas horas vagas. Minha reação surpresa diante da revelação o constrange. Para a minha sorte, ele não perde a desmotivação, pois com um leve rubor na face, prossegue entusiasmado.

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― Por alguma razão, hoje, no horário exato do equinócio, o cálculo entre o Ângulo Horário de Greenwich e o ângulo de declinação do astro resultou numa coordenada coincidente com a posição do Ponto Vernal e a sua localização meridional exata apontou para o Rio de Janeiro! ― o fulgor em seus olhos é inédito. ― Isso é... bizarro, Nate. ― para não dizer que é totalmente grego para mim ― deixa ver se eu entendi: você calculou os ângulos longitudinais e meridionais das estrelas e... depois o ponto vernal... coincidiu com... equinócio... ai... eu não entendo nada disso! Ele prende um sorriso quase infantil no canto do lábio. ― Clara, não importa. Aconteceu! Talvez sejam só os meus sentidos embaralhados pela atmosfera sideral, mas ele continua falando e eu procurando admirá-lo e ouvi-lo ao mesmo tempo. ― Em toda a minha existência só houve uma vez em que isso aconteceu. Eu estava no lugar certo, mas era o momento errado. ― sua expressão enublece por um breve instante, mas os olhos ainda brilham. Ele continua: ― Acabamos de presenciar o exato instante em que o Sol cruzou o equador celeste e a Terra atravessava uma nuvem de fragmentos cósmicos. Tudo no Universo está em sintonia, em equilíbrio. ― Inclusive eu e você. ― acrescento baixinho. Como se ele precisasse ouvir. ― Hoje a luz e a escuridão têm a mesma duração aqui na Terra. ― sua atenção se retém no horizonte.

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― Não haveria luz, se não fosse a escuridão... ― reflito lembrando a melodia musical ― Uma coisa define e completa a outra. ― Tudo é um ciclo, Clara. ― conclui ele. Silêncio entre nós e espuma nas rochas. Só se ouve o som do mar e as batidas do meu coração, pulsando acelerado. ― Disse que esta foi a segunda vez que acontece a conjugação desses fenômenos. Quando foi a primeira? ― pergunto, curiosa. Ele demorou a responder, deu um suspiro praticamente imperceptível. ― Foi em 1492. ― Nossa... haja memória... ― Desta vez foi mais importante. Seu rosto está a poucos centímetros do meu. A névoa parece dispersar-se em seu olhar. Esta é a minha oportunidade: ele me abriu uma janela no escuro. Esse é um caminho desconhecido, mas estou decidida: quero seguir em frente. Ele está diante de mim e é como se fosse real. Posso tocar a textura de algodão do seu blaser. Posso sentir o hálito de sua respiração forte e o calor que emana de seu corpo. Não é uma visão; ele não é intocável e não está aqui porque o chamei. Nate provocou o meu sonho para encontrar-se aqui comigo. ― Por que foi mais importante desta vez? ― pergunto ansiosa, quase atropelando as palavras.

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Ele aconchega minhas mãos entre as dele. ― Porque tenho você comigo. Meu coração bate descompassado no peito, fico ofegante e não consigo dizer nada. Ele me abraça pela cintura e de repente já não tenho os pés no chão. Avisto do alto a pedra do Arpoador, enquanto flutuo em seus braços, como uma pena bailando ao sabor do vento. Nossos corações se pacificam. Quando nossos pés tocam de novo o solo, sobre nós faz-se escuridão. Não a escuridão da noite lá fora. Uma noite aqui dentro, debaixo das asas dele. Foi às 23:09. Quando o Sol cruzou a linha do equador celeste.

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Capítulo 23:09