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ABRIL PLURAL

POR R$ 100,00


Dade Amorim habitare

"Há muito tempo estão conosco os móveis livros e tantas coisas roçando nossas vidas sob o desgaste do teto que reflete a luz da manhã no jardim. Há quanto tempo nos protegemos de sol e chuva e dos ventos do estio por trás das mesmas janelas de cortinas claras que nos defendem da rua a resguardar a sala cor de sépia. Há tanto contornamos a curva das escadas sabendo cores e penumbras e paisagens do quarto mais acima e conversamos sobre coisas sem lugar ou utilidade que vez ou outra esquecemos como corpos mortos numa prateleira até que se tornem de novo uma pequena surpresa e toquem nossos lábios com uma espécie branda de sorriso. E o que são os anos para nós que a cada dia lemos os jornais na rede da varanda e ainda reconhecemos os lugares das coisas que há muito se extinguiram?"


Teatro de Sombras


CARTA AO LEITOR | Tamiris Sakamoto

ÍMPAR. SOBRE 14 E NOVO

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* não estava nos planos escrever uma despedida para 14 e Novo, nem meus achismos sobre Dois Mil e CRISE... Daí li "KADOSH" (Hilda Hilst) e mudei de ideia.

Este texto, rascunho sobre um ano implacável, não estava programado para existir. Haja vista que consigo facilmente descrevê-lo com poucas e certeiras palavras desconexas, como bem lhe cabe o adjetivo, sem questionamentos quanto a sua plenitude. Sendo assim, não vi o porquê de relatar algo apaticamente intenso. Não existem razões que expliquem os meus não abraços, não beijos, não sorrisos. Muito menos que descrevam a fragrância de um ano que teve cheiro de café e solidão. Subjetivo. Estático. Todavia, é inquietude que precisa se expressar. Meu desconforto talvez venha por eu ainda estar perdida de mim mesma. Ou, pelo meu próprio desconforto com a existência. A pergunta que paira e acolhe todas as palavras escritas durante 2014, porventura, seja: e o que foi a vida? Pois bem, não me arrisco a responder, já que mesmo embriagada, tenha sido lúcida demais. Às vezes, claustrofóbica.

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Poderia desenhar o ano que passou com as mesmas palavras que fiz Dois Mil e Doce, e este rascunho ainda seria amargo. Acre. Agridoce. Digo isso pois disputaram-me acirradamente. Intensidade. Contudo, apenas. Dois Mil e Doce é o quebra-cabeça que demorou 365 dias para se completar. Todas as peças fizeram sentido. Os tons deixados foram arte, ainda que contrastados. Em contrapartida, 14 e Novo caso juntado, não assume forma. Sem coesão e coerência. No limite, diria que se por um lado conseguiu fechar alguns jogos em aberto, por outro deu-me quebracabeças novos que, talvez, necessitem mais do que dias para serem montados. Minha recusa em escrever isto quiçá seja reflexo da incapacidade que o incompleto me coloca. Ainda que, amiúde, escreva sobre o inacabado. 14 e Novo abre portas para Dois Mil e Crise. O que foi par, terminou ímpar e consolidou um gosto forte de tarja preta nas bocas, na minha própria.

Tamiris Sakamoto. 21. Ex-estudante de Química que quer saber Computação. Feminista. Socialista. Nas horas vagas se faz escritora. Às vezes, delirante; outras tantas, mantem os dois pés no chão. Ah, ela é essa garota bem ao meu lado. Lunática!

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ADONIS [PERSONAGEM]


Personagem | Adonis

A

poesia de Adonis — nome escolhido pelo poeta sírio Ali Ahamed Said Esber — chegou às minhas mãos através de uma amiga, que me presenteou com o livro, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Michel Sleiman... Adonis, na mitologia grega, era um jovem de grande beleza, que nasceu das relações incestuosas que o rei Cíniras de Chipre manteve com a sua filha Mirra e conquistou o amor de duas deusas, Afrodite e Perséfone fazendo surgir o mito do ciclo anual da vegetação... combinação perfeita para o homem-poeto-sirio que parece, tal qual o mito grego, renascer após tenebroso inverno.

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Eu não tenho por hábito folhear um livro de poesias — de uma só vez — como faço com romances... leio como quem degusta uma chávena de chá. Bem lentamente e, em pequenos goles. Por isso, levei meses para "consumir" a poesia desse homem, que tem, em si, uma história bastante peculiar. No entanto, eu o li, muito antes de sabê-la... levandome para dentro seus versos — "me amam o caminho, a casa | e na casa uma jarra vermelha | amada pela água" — com o prazer de ler a poesia e a realidade que a escrita inventa ao fino toque do lápis... Dias depois — com a leitura finalizada — vim saber que o poeta Adonis, foi se exilar na França, após se exilar no Líbano, pois, sua poesia incomodou o nacionalismo árabe pós-Segunda Guerra Mundial... ao levantar-se enquanto voz-estridente, contra a islamização da literatura árabe. Infelizmente, o livro [poemas] de Adonis chegou aos meus olhos através de uma tradução e, como não falo árabe, não dispunha de outra opção. Como existem diferenças em todas as línguas, tenho consciência de que não li exatamente a poesia de Adonis, que é apontado como sendo o melhor poeta contemporâneo da língua árabe. Discordei — naturalmente — de alguns versos, ao retrucar com as paredes de meu quarto, que talvez, o sentido fosse outro... e o significado final — consequentemente — também.

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Personagem | Adonis Encontrei, contudo, algum alento na internet, ao pesquisá-lo e, me deparar com versos em francês. Em seguida, encontrei uma excelente crítica, escrita por Luís Dolhnikoff, que ralhava ferozmente contra o prefácio do livro, escrito por Hatoum — premiado escritor brasileiro — o qual não tinha lido até então. Dolhikoff também vociferou contra o estilo do poeta Adonis, comparando-o de maneira rude a outros poetas, como Ginsberg e, o meu favorito Eliot, que escreveu "the waste land". Eu não comparo poesias, nem seus tempos e espaços... para mim, o poema é faca afiada a cortar enquanto há carne. Aprecio essa metáfora que uso para dizer "gostei ou não da poesia" que chegou aos meus olhos. Outro dia, disse a um poeta, ‘sua poesia não me fez sangrar — reescreva!’ E foi como insultá-lo. Eliot, Borges, Ginsberg, Mário, Dickinson fazem isso comigo e Adonis, mesmo não tendo o “melhor corte”, riscou minha pele. Lembrando, sobretudo, que Adonis vem de uma realidade limitada pela religião e pelos excessos de uma cultura que não avança. Um mundo onde liberdade depende de um deus-profeta-homem contra o qual ninguém ousa levantar a voz. Eis, então, que um poeta ousa questionar tal realidade e leva isso para a sua poesia. Ousa ser moderno, contrário, homem, artista... ousa ser, existir, num lugar onde não se curvar ao sol é ser sentenciado à pena de morte… e que se cumpra o enforcamento em nome de uma divindade opaca, para qual todos se curvam às seis da tarde... por que somos frágeis demais para recusar os rituais por nós mesmos inventados.

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"Nasci e nasceu comigo o deus do amor — que fará o amor quando eu me for?"

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Personagem | Adonis

“Você já viu a mulher como carrega o corpo do outono? Primeiro ela mistura o rosto e a calçada depois tece um vestido com os fios da chuva as pessoas na cinza da rua são brasa apagada”

Adonis trad. Michel Sleiman

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Despertarei ruas e noite e juntos passaremos pelas árvores. Os ramos serão malas verdes e o sonho, travesseiro no intervalo das viagens. A manhã persiste e estranha imprime seu rosto em meu segredo. (...)

O espaço é fornalha e os ventos, velha a tecer contos, e os sacres, cortejo a abrir o céu. Como um amante, audacioso, juvenil, de paixão audaz, ergue o Alandalus profundo ergue-o para o Mundo — esse novo santuário. Todo espaço em seu nome é livro. Todo vento em seu nome é hino.

Adonis trad. Michel Sleiman

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Drops | Por Ana Farrah A HORA DA ESCRITA Porque sempre me disseram que pra ser uma pessoa produtiva é necessário ter disciplina. "Disciplina", dis-cipli-na — palavra horrível, claustrofóbica, mal me cabe na boca só em dizê-la, engasga, dá falta de ar. Gosto de rotina, de ter uma motivação pra levantar da cama, mas crio a minha própria, desprendida da numeralidade do tempo, das luas e das coisas 'cotidanadas', o hábito internalizado com cara de ritual, a mecanização triste dos gestos repetidos; compreendo o dia com a noção de tarde e cedo , escuro e claro, não planejo as linhas pra amanhã, mas acredito no sol e no caminho dele, trajeto natural que orienta a ordem cronológica da humanidade. Não formei família no tempo dito propício, continuo existindo pra sacudir os espaços onde entro, praticar a sociabilidade, a interação humanóide, que sem querer acaba sendo quase sempre um acontecimento de mudar vida. Minha realização nessa Terra é escrever, isso me basta pra ser feliz. mas há que se criar o tempo, otimizar os dias pra poder criar. Não consigo achar normal um mecanismo movido por engrenagens regendo a inventada contagem da existência majoritária da humanidade, a sequência padronizada, lógica, controladora. Funciona, claro. Tem toda sua utilidade funcional, tão presente na vida das pessoas que, quase imperceptível, torna-se um verdadeiro opressor silencioso, a comandar vidas com os avisos de: — já é tarde. — não vai dar tempo; tic tac tic tac — causador de ansiedades, marcador inexorável.

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Entendo a necessidade de medir a vivência dos dias, da semana, do bolo de 30 dias que é o mês, da duração de um ano, pra dar-se conta que passou a década, e outra, e outras mais... Se não fossem as delimitações de tempo e espaço não haveriam sonhos utópicos de liberdade. Vai que o povo todo resolve aderir à prática do 'nadismo'... seria lindo e caótico, apesar da ideia parecer super setentista e woodstokiana, uma vida sem a percepção consciente de início e fim do passar dos dias provavelmente tornaria impossível organizar-se para dedicar um 'pedaço' desse não-tempo para o "momento de escrever". Acredito na escrita em momentos, em surtos de inspiração, aquele insight que brilha sem hora marcada no relógio, sem precedentes, aquela ideia genial na madrugada, no pulo da queda de um sonho maluco. Levanto e anoto. Depois de acordar é café e rememorar o que estivar anotado. O segredo é ter o bloco de notas aberto. Porque pra escrever há que se ter os instrumentos — mais que o tempo em si — à mão, sempre. Caneta é arma, é ferramenta. A ideia nunca espera. Não confie na memória... Já perdi centenas de ideias geniais pra um poema por puro esquecimento. Tem que registrar. Dedicar tempo é fundamental. Se você tiver as ideias concatenadas, mesmo que rabiscadas num rascunho, isso será o esboço pro teu trabalho funcionar. Então serás um escritor (ou aí que se começa a considerar que tens um trabalho à fazer). Há que se organizar essa miscelânea de ideias, em determinado momento, que, aí sim, deve ter horário marcado na agenda, pra virar compromisso. E que esse compromisso seja teu próprio chefe, teu empregador, seja você mesmo a comandar essa empresa fabricante de ideias transfrindo isso como expressão artística na escrita. isso é trabalho. E a melhor hora é você quem faz. Faça sua hora. Escreva, leia, crie, pire. Depois pára, respira e espere digerir. Então tu senta e vai, deixa fluir. Saberás que AQUELA será a tua melhor hora pra escrever. E funciona, acredite.

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Drops | Por Aden

Leonardo

A UTILIDADE DA BAGUNÇA Perdi a chave de casa. Entro pelos fundos revirando minha bolsa. Minha mão passeia por objetos que tocados parecem desconhecidos. Penso se estivesse naqueles programas em que vendam os olhos e deveria adivinhar o que é, com o tato. Carrego aos ombros e não sei o que tenho, o que possuo realmente? Passei rápido pela cozinha, subi as escadas. Não, não encontro minha chave. Em teatral atitude despejo todo conteúdo na cama. Claro isso é um buraco negro que se esqueceu de desativar ao meu toque. Todas as coisas inúteis durante o dia vão para este lugar. Ser algo, ser engolido, brincam de existir. Penso em mim e você. Sou isso também. Uma chave perdida num universo curvilíneo e inexplicável. Enquanto ninguém vê, sou algo de voar sem gravidade. Quando existo realmente desconecto a magia e nada sou. Sou uma chave perdida. Meus cacarecos esparramaram na colcha. Fizeram barulhos de trecos. Um brinco apenas. Uma caneta, papéis que nunca precisei verificar. Recibos que nem lembro que gastei. Olhe! Ontem! Foi ontem que te encontrei. Há algo de simultâneo ao caos no efeito do tempo. Não pode ter sido ontem. Uma poeira colorida, pontas de lápis de cor. Sim, ontem entreguei um poema e colori com flores, depois nos beijamos. Na pressa nem percebi, o grafite verde quebrou logo no fundo. Riscou o pano de cetim. Ter você deixa muitas marcas.

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Como vou poder entrar em casa agora? Sempre pelos fundos? Como ter segurança se não possuo o segredo de afastar o mal com duas ou uma volta? O infortúnio? Onde encontro possível cópia? Se descrevê-la faz-se um molde? _ Era uma chave, moço. Acompanhava algo de superação - foi quando escalei uma montanha enorme. A segunda mais alta do país, comprei de lembrança, veja que não funciona - Tem corcovas que entram delicadamente e destranca a porta. Logo em seguida tranca. Preciso dessa chave. Preciso organizar-me. Bem sei. Pensamentos. Vida. Grito dentro da minha blusa com dezesseis anos. Me confundo o que sou. E se não for nada disso? E essa pressão no peito perturbadora? E esse líquido azul que escorre? Em toda bagunça concentra bactérias. O que vocês estão fazendo comigo, vermes? Ei, me solte! Alguém faça alguma coisa! Agarro-me à mala vermelha, que está no chão com as roupas da última viagem. Estou morta. A falta de gravidade não me deixa cair no chão para fazer meu show. Não compreendo: a gravidade zero não permite chorar? Minha voz não sai. Com o vácuo som não existe, meus gritos voltam para dentro, ah, este líquido azul já escorre da minha boca, é o meu vômito de última vida... Malditos! Sempre confundiram minha cabeça! Existiam em mim, eu apenas manifestava vocês. Eu não deixei tudo no chão com tanta gravidade, nem incomodava tanto assim, eram obviedades, entendem? Minha voz errou, pensei ser o som um líquido mágico, azul, lindo, brilhante, tudo. Não, não coloquei meus gritos na mala não, na mala iam as roupas... em infinitos vexames viscerais. Ou será que guardei todos os gritos, onde mesmo? Será que eu os colocava na mala? Meu Deus... Era isso, enrolava minhas roupas nos gritos e quando vesti de gente fiquei desesperada... Sim perdi minha chave. Definitivamente. Preciso cópias de mim.

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Drops | Por

Joakim Antonio

APRENDA A DEIXAR PARA DEPOIS Abro a gaveta e retiro uma folha de sulfite amarrotada, com uma escrita corrida, repleta de erros futuros. Dentro desta mesma gaveta, mora uma árvore de letras, regada por textos escritos à mão e frutificando prosa, ou poesia, a cada novo olhar. Penso se um dia irei parar com esse hábito, pois há muito escrevo como a maioria, deixando os textos numa nuvem digital, um éter obscuro e efêmero, de onde as letras, por diversos motivos, podem nunca mais retornar. Mesmo assim, independente do local escolhido, os textos ficam maturando e esperando novos desfechos, uma troca de palavras entre o novo e o antigo eu, descartando palavras escritas com ira e mágoa desmedida, mas nunca as de alegria, pois o amor contido neles, nunca se dissolverá. Além do que, qualquer texto pode macular a folha branca, mas só os perfeitos conseguem tirar seu véu de invisibilidade e tornar-se algo mais. Confesso que andei questionando esse processo e qual a real validade de deixar textos para depois, afinal tudo é tão fast-food, gerando uma pressão invisível para escrever, uma urgência, não por bem querer às letras, mas devido à tão apregoada falta de tempo e ante o ilusório apocalipse da inteligência, que muitos dizem já ter começado. Então talvez não devesse guardar nada e sair por aí, destilando o que me vaza pelos dedos, preenchendo tudo que vier a tocar.

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Mas ao olhar novamente para a folha em minhas mãos, me vejo perdido no texto de outro, revendo vírgulas, procurando sinônimos e questionando ideias, passando a trabalhar com uma terceira pessoa e somando ao texto, situações vividas num tempo verbal post-scriptum, no qual me perco no emaranhado de letras, não como da primeira vez, num arroubo quase mediúnico, mas analisando cada passagem, deixando um invisível fio de Ariadne, que me guiará até o processo final. De repente entro num processo caótico, me jogando num abismo paradoxal, onde enquanto acho que revejo, crio e, quando certo de criar, apenas reinsiro palavras, dentre elas, algumas que jurei para sempre apagar. Num desses momentos paro e questiono minha sanidade, pois vejo claramente o texto esperando, como se fosse um filho, orientações do caminho que deve trilhar. Então me acalmo e com um bom pai, o ajudo a se reordenar e crescer, sempre com a esperança de que eu tenha feito o meu melhor. Nesse momento, alguns textos mais se agitam querendo se desfolhar, uns precisando de voo solo e outros de somarse, quiçá num livro, havendo também aqueles necessitando serem exorcizados, estes sim, sem novas vírgulas que lhe parem, para dar chance ao novo vingar. Mas todos eles, mesmo que por um breve momento, ganharam bem mais, encorpando-se, por poder descansar e maturar. No final, pego uma xícara de café quente, me sento confortavelmente, para novamente me questionar se vale a pena deixar textos para outro momento. Então olho para a folha e a tela do computador, vendo um filho nascido e seu desenvolvimento, aceitando a escolha feita, entre deixar estar e evoluir para algo mais. E chego conclusão de que, como tudo na vida, cada texto pede um novo olhar e o tempo certo, para poder desabrochar.

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Drops | Por Tatian Kielberman

A FRATURA EXPOSTA A MINHA SOMBRA

Outro dia, pensando acerca do que motiva a escrita de cada um de nós, algumas lembranças me guiaram até os tempos do curso de psicologia, quando o professor de ‘teorias da personalidade’ buscava explicar como o ser humano busca diferentes maneiras de lidar com cada uma de suas vivências. Segundo ele — embasado à época em teorias psicanalíticas — certos fatos marcantes do cotidiano necessitam ser experenciados em suas profundezas, de modo que se esgotem e o indivíduo possa, a partir de então, elaborálos com maior facilidade. Assim, uma vez passado o impacto traumático dos acontecimentos, provavelmente se tornaria, também, mais fácil pensar e falar sobre eles. Recordei também um diálogo que tive há dias com uma amiga escritora-psicanalista — conhecedora da teoria e da prática em sua imensidão —, em que falávamos sobre os simbolismos que os fatores do ambiente agregam às nossas vidas. Ela me fez lembrar de que a teoria psicanalítica tende a tratar os dramas e os infortúnios do homem como algo externo, indireto... é mais ou menos como ser atingido por um raio.

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E, nesse sentido, para ela, a escrita inserida no contexto psicanalítico é tratada como sendo um objeto de segurança, uma vez que o indivíduo se aconchega em algo familiar que o leva a escrever, sentindo-se confortável para expor-se. Não é à toa que observamos tantos escritores solitários e que, nesse meio, a depressão seja um objeto tão comum. Voltando ao ponto inicial de minha reflexão — as motivações da escrita —, penso que necessitamos, sim, lidar com certos conflitos ao longo da vida, seja conforme o olhar das teorias psicanalíticas ou de suas variações. Porém, quando se trata de expor sentimentos e falar do que vai no coração, alguns escritores o fazem ainda melhor quando sua fratura pessoal ainda está exposta... porque, na verdade, ela nunca será elaborada por completo. Finalizo com outro afago dessa mesma amiga escritora-psicanalista, que — sem sombra de dúvidas — permitiu o entrelace de diversos conceitos anteriormente soltos em meu pensamento... ...“eu, particularmente, acredito que a escrita é experimentar velhos sabores, os da infância, que são insubstituíveis, tanto quanto inesquecíveis. A realidade não nos permite superar tais aromas, mas o imaginário não apenas transcreve, como nos permite, aliado à criatividade, reviver milhares de vezes, como se tivesse acontecido há pouco, porque escrever e ler são atribuições de símbolos, como beber uma xícara de café. Sempre nos leva para dentro, para o conforto da primeira vez.”

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Drops | Por Thais Barbeiro

A ARTE DE FICCIONAR A REALIDADE “Esta é a minha vida. Este jogo conjunto. Subimos todos juntos, Em um navio que parte, para longe, bem longe, Para descobrir uma terra, legendária e intacta... Eu queria viver isso todos os dias, até a minha morte.” Ariane Mnouchkine

Senhoras e senhores — eu os convido a conhecer o meu palco, onde deixo o meu grito e exponho a minha necessidade. Sou uma artista e minhas veias pulsam emoções muitas, de outros, de ninguém. Minhas, suas... como saber? Eu alcanço o meu público sempre que as cortinas se abrem… através da palavra, do gesto, do olhar. Um único movimento meu, basta para transmutar a realidade, fazendo catapultar um novo estado de consciência. É a minha maneira de abandonar a realidade dos homens… e te levar comigo para um estado de conforto, tão gostoso como um abraço. Uma viagem para além das coisa reais como as sabemos-conhecemos.

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Quando eu piso no palco, sou outro eu… o eu artista! O eu personagem. Por alguns segundos, mergulho nesse universo novo, onde tudo acontece através do meu imaginário, que é essa aranha a urdir sua fina teia, que fisga fortemente todo aquele, que se deixa tocar por essa nova realidade, que começa a acontecer muito tempo antes desse encontro entre platéia e palco acontecer Primeiro o ator se dedica as experimentações, encontrando em seu corpo os muitos sintomas das emoções, que nem sempre são suas: leituras-pesquisas-movimentosnovos-pausas-reflexões-respirações… e a cada novo ensaio, o ator a tudo experimenta, provando de uma nova maturidade. O ator-pessoa se deixa pelo caminho e vai se transformando em outra coisa,tão naturalmente, que é inegável que, em alguns casos, uma nova substancia nasce. E o que o público colhe é justamente essa espécie de reinvenção de si mesmo. Teatro é transe. Ritmo. Um corpo que baila virtuosamente no ar. Tudo gira. Tudo acontece. O ator e o palco são uma mesma coisa. Vitrine… e a melhor parte? É nos dar conta de que não somos nada-ninguém porque dependemos do nosso público, que chega sendo uma coisa e vai embora sendo outra… mas, para a satisfação do artista, leva consigo esse eco mundano-profano-vestido-esculpido-trabalhado que não deixa nada no lugar — tudo muda — inclusive a essência! E quando os aplausos surgem no ar, é como um despertador a nos devolver o próprio corpo. A realidade e a ficção se tornam unas e a magia está completa. Obrigada pela visita. Voltem sempre!

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Drops | Por Marcelo Moro

A MORTE NOSSA DE CADA DIA

E se morre hoje, por isso não pode morrer amanhã, veja o perigo da frase motivo-moralista “não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje” . Tantos morrem de morte morrida, e tantos outros de morte matada, mas absolutamente ninguém de morte planejada. Explico: uma vez planejada a morte considerese desde hoje morto. A morte que mais me doeu, sem dúvida, até o momento foi a morte inesperada do meu pai, de repente, como se diz por aqui, caiu da vida para eternidade, eterno em cada programa esportivo que ouço, em cada gol do Rio Branco EC, em cada volta do jabuti no quintal, em cada marchinha sacana de carnaval quase sempre com a letra adulterada por ele mesmo. Também acho que não há morte que não doa, sempre alguém vai sentir mais ou menos que outros mas o vazio vem é como faltasse aquela peça perdida do quebracabeças de 5000 peças, que vai se tornar mais importante que as outras 4999 que já estão encaixadas no fabuloso desenho.

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Engraçada então é nossa contagem de tempo, sempre dizemos: um dia a mais — um dia mais para que carapálida, é sempre um dia a menos, pois a vida por mais divertida que seja é morte a prestação, abatida dia após dia. É fato em todas as civilizações que a morte é invencível, e não enganável , é um ente, uma potestade eterna e antiga, não mais velha que os seres porque para existir era importante que existisse vida, mas é temida, e celebrada, esperada e quase sempre desesperadamente indesejável. Existem aqueles que a tiram para dançar, desafiam para jogos e ela soberana e justa, honrada e um cálice de lealdade não vence os desafios se não for sua hora exata de vencer, nem um segundo a mais e nem um menos, não se morre de véspera assim como não se morre atrasado. Mas o dia a dia está aí, desafios, riscos, abusos por prazer, sejam todos bem vindos a morte nossa de cada dia .

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Drops | Por

Lunna Guedes

VOCÊ É SEU PRÓPRIO AUTOR

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ma das coisas mais difíceis na vida de um escritor... é saber pontuar suas histórias, atribuindo ritmo a sua narrativa. Não é mesmo fácil e talvez seja uma das mais ingratas tarefas, sendo apenas superada pelo desafio da folha em branco... quando é preciso escolher a melhor das frases para lançar o leitor no abismo, colocando-o em queda permanente. Uma história começa a existir — primeiro — dentro dessa caverna, que são os escritores. É tudo muito secreto, silencioso. A trama vai sendo — lentamente — urdida em malabarismos particulares. Nesse momento, o silêncio se acaba e começam os barulhos — alguns insuportáveis. Mas até se sentar diante da tela para escrever, o escritor irá organizar milhares de pensamentos, traçar centenas de anotações e pesquisar milhares de informações. E na hora em que finalmente os dedos se mostram prontos para dedilhar o teclado nessa construção insana, cada um tem seu próprio ritual — estranhos, esquisitos, surpreendentes e até mesmo inacreditáveis... Mas o ato de se sentar para escrever, não significa que o autor alcançou seu objetivo maior. Geralmente, o primeiro escrito, é apenas uma promessa-que-não-secumpre. Alguns autores preferem abandonar o texto primeiro... optando por voltar a ele num tempo futuro, quando a maturidade de seus pensamentos, talvez, venha lhe permitir outro olhar.

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Que uma história precisa ter começo, meio e fim, todos nós estamos cansados de saber, mas a estrutura literária vai muito além disso... é preciso pontuar os objetivos, determinar as pausas e arquitetar cuidadosamente esse roteiro onde absolutamente nada escape. Eu tenho alguma preferência — confesso — por histórias divididas em capítulos... justamente por facilitar as interrupções da leitura em determinado momento. Como leio em coletivos, ao descer em determinado ponto, posso caminhar por todo o universo para o qual fui tragada. Alguns de meus livros favoritos, contudo, não dispunham desse artifício, e eu sempre me perguntei: "por que razão o infeliz do autor não dividiu a trama em capítulos?" Mal sabia eu o quão difícil é organizar uma história em pequenas divisões precisas, desenvolvendo argumentos que sirvam fios condutores para o leitor, sem que esse se sinta diante de uma rua sem saída. Cada capítulo, deve ser para o leitor, uma espécie de cruzamento, de onde observa os caminhos sem saber para qual direção ir, mas avista na figura de um transeunte qualquer, alguém a quem pedir orientações e ao indagá-lo, a única resposta possível para a pergunta feita pelo leitor — sabe onde fica a rua desse capítulo? — deve ser inevitavelmente: no capítulo seguinte. O fim de um capítulo tem essa responsabilidade, afinal, se trata do caminho que conduzirá o leitor ao que ele tanto deseja: o final... da trama! Mas antes de chegar a esse ponto, ele tem que ser, cuidadosamente, conduzido... É mais ou menos como em um jogo de xadrez, antes de derrubar o rei, dizemos Xeque e todo o resto — sabemos — se orienta naturalmente...

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Drops | Por

Dália Èster

A PELE QUE EU VISTO É A FOLHA E PAPEL ONDE ESCREVO

Encomendaram-me um gozo. E eu, o tipo que não sabe nem interpretar o gozo espontâneo, aceitei. Por revolta. Era prostituição dos meus líquidos internos, esses que encharcam as palavras quando escrevo, uma a uma, e de repente, toda hora me vejo grávida de alguma imundície pessoal. Não vai ser nenhum texto bonito sobre como eu me coloco na escrita. Nenhum texto bonito pode ser a meu respeito, onde tudo é uma carne estraçalhada, pedaços expostos e pendurados e eu andando como se nada estivesse acontecendo. E o leitor... de tudo, o que eu mais odeio. Combinação satânica de que se cada um tem sua própria pele rasgada e pendurada, andaremos então todos brincando de ciranda, e o diabo coordenando, todos nus e psicotizados, mascarados no entanto pela música infantil, um ninar macabro, ao fundo, nossos rostos marcados pela dor, pelo choro, os olhos inchados. Então cada um enfia a mão no outro, por dentro. Todos abutres poetizados. A mão apertando o escrito, a primeira vez do toque, a exposição diabólica cifrada, os dedos entrando um a um em mim, desconhecidos a espremerem meu feto, e eu gritando: tirem a mão de mim, monstros. Na verdade era tudo muito excitante. E eu nunca podia ser tocada a menos que uma mão se enfiasse sem convite em mim, porque

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eu estupidamente me abria no escrito, desejava ser violada, tudo aqui dentro era uma paz assustadora, uma paz de quem está distante de tudo, vivendo uma realidade metafórica demais para que caísse em cima do corpo e fizesse sentir que eu estava viva. Todos os rostos eram iguais aos meus. O inferno era um quarto cheio de espelhos. Olhando-os todos descobri que não podia ser uma vagabunda: gozava na hora errada, sempre. Não podia fingir orgasmos porque quando eram fingidos, eu me enchia de tesão, me sentia tão mais mulher e tão mais ardida por estar nessa bolha de queimadura gigante, acabava sempre achando todo o fingimento excitante, estranhamente, ele se tornava o meu gozo mais sincero e intenso. Sendo que no cotidiano de minha vida não poética me faltava sempre um passo a mais para o derretimento, eu endurecia como uma vela que não era mais necessária, cuja cera escorreu, mas não o bastante para ser consumida. Deus sabe o quanto eu queria ser consumida, se tivesse que vender minha pele a algum incendiário, eu o faria. A luz do mundo sempre me irritou. Ela era a razão da inutilidade do meu fogo. Por isso sempre retorno à ciranda. Coloco fogo em cada papel, transformo-o em mim mesma, e jogo nos outros, esperando que desfigurem a cara. É em vão. Eles me olham, a pele enrugada, o olhar seco, um coração em chamas, e dizem: bonito seu escrito. Nessa hora, sei que são monstros. Que sou a única humana. Que no inferno ninguém vai preso por omissão de socorro. Ao contrário, são dementes aplaudindo cada vez que me suicido, meu dna no sangue dos poemas, e eu sempre penso que pelo menos eles têm braços, enfiam a mão descaradamente em mim, enquanto a cabeça olha o diabo e concorda que não está acontecendo nada aqui, apenas poesia.

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Drops | Por

Emerson Braga

CARTA A CECÍLIA MEIRELES 08 de novembro de 1964 Hospital dos Servidores do Estado Rio de Janeiro – RJ

Caríssima cosedora de incertezas; Não, não percas teu valioso tempo à procura do nome ou endereço do remetente desse escrito. Trata-se de uma carta anônima, depositada sobre os lençóis enquanto descansavas de teus ais. Revelar-te minha identidade feriria o propósito primeiro do documento. A correspondência, enfim, chegou às mãos de sua célebre destinatária. Por hora, é o que importa. Nunca concluí de maneira satisfatória se deveria referir-me a ti por poetisa ou poeta. Questiono-me com alguma frequência ― apesar de não obter êxito algum em minhas divagações ― se, como ente universal, o criador de poesia deveria transcender questões de gênero e chamar-se simplesmente poeta. A feminilidade é característica tão viva em teu trabalho que não te enxergo simplesmente poeta, mas poetisa. Todavia, como alguns mausoléus parnasianos ainda associam o feminino da palavra poeta à criação literária desprovida de excelência, prefiro dirigir-me a ti com alguma intimidade, haja vista que ignoro a denominação que melhor definiria tua verve artística. Posso chamar-te Cecília? Afinal, somos companheiras de uma vida inteira, apesar de jamais termos sido formalmente apresentadas. Ainda não.

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Cecília, cometeste um terrível pecado. Magoaste a vaidade dos deuses e estes planeiam uma vingança contra ti. Invadiste domínios herméticos, desbravaste segredos que não poderiam ser desvelados diante do leviano olhar humano. O que retendias com tamanho atrevimento? Prometeu roubou o fogo dos deuses e entregou-o aos homens. Vê o que, por toda a eternidade, foi feito dele! Ainda não atinas para meu intento, pois bem? Refiro-me aos poemas inominados, presentes em tua obra Solombra. Sabes por que não conseguiste batizar cada bloco de estrofes? Porque aqueles versos alexandrinos não são desse mundo, meu bem. Tua ousadia maculou a cortina de luz e sombra que divide as realidades das quais somos cativas. Lançaste teu olhar muito além de zonas fronteiriças. Ignoraste que o futuro sempre é adiado porque aos homens compete apenas viver o presente ou relembrar o passado. O que pretendias com tua determinação em adquirir conhecimentos vedados aos mortais? O eterno só diz respeito ao eterno, curiosa mulher. Ao idear sobre o fugaz e o que não tem fim, transformaste tua angústia em trapaça. Não é natural a clarividência humana acerca do que, por todo o sempre, deveria permanecer invisível. Há perguntas que somente existem a fim de que teus semelhantes possam deslocar-se através do tempo, e não para que sejam respondidas. Ao homem cabe só o instante, é isso. Mentes limitadas inflamariam facilmente mesmo que diante do mais breve vislumbre da eternidade. E delas, não restaria sequer o pó do qual germinaram. Aproximaste-te do fogo que forjou a humanidade. Todavia, és tu feita de outro metal, leve e magnético. Talvez por isso tua natureza atraia tudo que existe unicamente no nada e que deveria permanecer ininteligível. Estranha-me que tenhas mantido a sanidade, mesmo após descrever em uma única e ligeira palavra o que há de efêmero e perpétuo na história do tempo.

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Drops | Por

Emerson Braga

Disseste na epígrafe de teu livro que o termo solombra surgira-te de um choque violento entre as luzes do Céu e as trevas da Terra. O ruído que advém de tal embate não deveria ser percebido por tua sensibilidade, Cecília. Tal som foi concebido para regalo daqueles que não têm ouvidos, olhos ou boca. Por que, desde antes, não ocultaste sob a pedra fundamental de tua acuidade esse desejo tolo de ter ciência do que é intangível? Ao invés de ignorá-la, transformaste a palavra que deveria ter permanecido incógnita em um cancioneiro. Pior! Ofereceste-a para apreciação desses pobres vasos de barro, que nada sabem das mãos do oleiro. Os poemas presentes em tua obra balizam um caminho que não pode ser percorrido em vida por nenhum homem, mulher! Obsequiaste indivíduos ordinários com um mapa para as mais virentes estrelas de nosso obscuro universo. O que procuras na face de Eros, Psiquê? Por que insistes em desbravar o mistério que deveria amansar-te a inquietude? Caminham por entre trevas aqueles que leem teus reveladores versos e, quanto mais adentram a escuridão dos misticismos e enigmas, mais se aproximam da vedada claridão que não lhes pertence. Cecília, caso teus leitores teimem em voltar-se para dentro, enxergarão o que na verdade há fora, e isso não pode ser, jamais! O que será da noite se as crianças perderem o ingênito medo do escuro, senhora? É necessário que o interior desses mamulengos permaneça ambíguo, desconhecido. Por que não povoaste teus versos apenas de sombras? Qual o propósito daqueles ― mesmo que raros ― lampejos de luminosidade?

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Temo por ti, pelo que te aguarda após teu passamento. Esquece-te das tantas vezes que foste ferida pelos homens, Cecília. Nada se compara à fúria de deuses molestados em sua fatuidade, desejosos de permanecer um mistério. Não há meios humanos ou etéreos para desfazer tal engodo. Em teus versos, luz e sombra tornaram-se tais quais irmãs siamesas, inseparáveis, intrinsicamente dependentes uma da outra. Teu ardil foi de uma sabedoria astuciosa: Escreveste poemas na escuridão e, quando os deuses perceberam que Solombra projetava sobre a Terra a mesma luz que se encandeia nas mais altas esferas, tua pertinácia já havia tornado-se irremediável farol. Pelo resto do dia, procura pensar em tua defesa, Cecília. Em breve serás julgada por teu profano ato. Descansa, pois o definitivo clarão aproxima-se na mesma andadura que as trevas avançam sobre tua teimosa constância. Amanhã ao entardecer, sob o lusco-fusco, entre trevas e luzes, virei buscar-te. Perceberás de imediato minha presença, apesar de eu não ter rosto. Diferente daqueles com quem dividiste tua passagem por esse mundo, eu não sou. Chegou aquela que não é, talvez digas tu em um último sussurro carregado de revelação. Deixa que essas criaturas vulgares permaneçam na contemporaneidade dos fatos, que sigam desmaiadas sob coisas cotidianas, Cecília. Para que haveriam de saber aquilo que pertence ao para sempre e ao nunca mais? Não temas. Permite que o futuro alimente-se de todas as instâncias, que ele torne-se presente e, depois, passado. Amanhã caminharemos pela atemporalidade dos seres e das coisas e então te contarei minha história, antes que, invejosos ― feito o abutre de Prometeu ―, devorem os deuses carne e ossos de tua faminta existência. Pequena Lágrima Atenta

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Drops | Por Ana Claudia Marques

A ARTE DE FICCIONAR A REALIDADE

O que é realidade? — Eis a pergunta que tomou conta de mim desde que comecei a delinear este artigo porque nós, escritores, temos o péssimo hábito de inventar realidades; mas de onde vem essa estranha necessidade? Penso eu e hão de concordar, este é um hábito ancestral. Deve ser uma inveja do poder criador que atribuímos aos deuses — “se eles podem, eu também posso” — deve ter pensado o primeiro inventor de histórias — “e vou fazer melhor do que o original!” Antes de Guttemberg ou dos papiros, já haviam histórias sendo passadas adiante oralmente, de geração em geração. O ser humano não entendia a sua própria realidade, e para explicá-la, tentar decifrá-la e aplacar seus próprios medos, inventou outras. Assim nasceram lendas sobre a criação deste mundo; sobre moradas de deuses no Olimpo, em Asgard, ou os Vedas, com todo seu panteão de deuses, e suas histórias; o Xintoísmo, para os japoneses. Obviamente todas as outras religiões: do antigo Egito, a Judaica, e depois a Cristã, a Islâmica — falavam e falam de outras realidades que eu só posso considerar como sendo “ficcionais”. Gerações e mais gerações se pautaram — e se deixam pautar — por “realidades” inventadas, tentando alcançá-las, e serem dignos de a elas pertencerem!

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Sinceramente, é invejável não só a capacidade destes primeiros contadores de histórias, que tem um público cativo até hoje; tanto quanto o é a capacidade do ser humano de transportar-se e acreditar em algo que não vê, não toca e não cheira! Nós, humanos do século XXI, não somos tão diferentes de nossos ancestrais. Me arrisco a dizer que nosso cérebro continua no mesmo estado de evolução, precisando sempre de uma realidade paralela para poder suportar a vida nua e crua. Ainda há aqueles que matam em nome de suas realidades — vide todas as brigas religiosas, ideológicas ou partidárias que presenciamos diariamente, com espanto e horror. Quer um caso de amor mais longo com a ficção do que a destas pessoas? Podemos nos achar mais evoluídos, mas temos fãs clube para Harry Potters, Sociedades do Anel, Nárnias, Heróis Marvel, príncipes e princesas, vampiros etc, e nos rendemos a estas realidades convincentes, sonhando e vivendo com elas. O bom ficcionista nos encanta com uma realidade absurdamente verossímil, pois cria leis que a regem, convencendo nosso cérebro de uma realidade que pode ser absurda ou próxima ou distante, somos para lá transportados através das páginas de um livro, das cenas de um filme, novela ou através das palavras de um bom contador de histórias. Somos convencidos através da emoção que preservamos dentro de nós, a salvo! Vemos com os olhos da imaginação e nos deixamos conduzir, com os olhos da realidade bem fechados. A arte de ficcionar a realidade, portanto, passa pelos cinco sentidos. A nossa realidade só existe baseada neles. Portanto, ao escrevermos, contarmos uma história, não podemos esquecer de temperá-la com sentido e sentimentos. Não há Terra Média que sobreviva à falta de romance entre elfos e reis, ou ideais a serem alcançados por heróis improváveis ou previamente designados porque é exatamente isso que buscamos em nossa realidade comum.

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INTERFERENCIA ...frágil, bastante frágil, penso eu, o argumento das pessoas que defendem o uso da palavra poetisa simplesmente porque existe na língua portuguesa, como se a língua fosse uma lei sagrada ou irrevogável e não o movimento das dinâmicas sociaisculturais-políticas-econômicas-sexuais-( ...). Mas, mais quebradiço ainda é o argumento de que o uso de poeta masculiniza a poeta. Ora ora ora ora ora ora ora ora ora ora essas mesmas pessoas não importam nem um pepino em masculinizar a mulher usando o corretíssimo (gramaticalmente) termo Homem; as mães usando o corretíssimo (gramaticalmente) Pais e todos os intragáveis genêricos masculinos neutros universais que invisibilizam o feminino…

Carla Carbatti

em uma folha EM BRANCO


Capa | Solombra

[...] Tenho pena de ver uma palavra que morre. Me dá logo vontade de pô-la viva de novo. Solombra, meu novo livro, é uma palavra que encontrei por acaso e que é o nome antigo de sombra. Era o título que eu buscava e a palavra viveu de novo. Cecília Meireles

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Capa | Solombra

N

o espaço-mundo do homem, a linguagem é, sem dúvida alguma, o seu diferencial, pois é através dela que se pode pontuar, objetivar, esclarecer, notificar — acredita-se que, sem nenhum traço de ambiguidade. O diálogo é a forma mais coerente de expressão e, quando impresso, trata-se de um combinado de frases perfeitas, com palavras escolhidas com imenso cuidado.

O homem fala... se expressa. O homem se faz entender. Contudo, nesse mesmo espaço-mundo, existe o silêncio, no qual a palavra não pode penetrar. E, as expressões — todas — esbarram na quietude dos olhos, esses mesmos que às vezes se fecham... sendo, em alguns casos, por todo o sempre.

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A linguagem finda... pois o silêncio é seu limite determinante. Estranhamente, algum autor maquiavélico escolheu denominar essa façanha da Natureza com a mais cruel palavra do dicionário dos humanos: morte. Em busca de elementos de sobrevivência, o homem elegeu o inimigo do silêncio para salvar-se: a palavra. Surgia, assim, a literatura, sobre a qual Blanchot nos orienta em seus estudos, quase como quem oferece uma tábua salva-vidas: “a linguagem literária não é acabada, nem inacabada: ela é” — levando-nos a uma inevitável conclusão: somos — falíveis.

Diante da morte, o homem sucumbe… É uma luta inglória. Não há como sobreviver, mesmo tendo, em seu íntimo, o grito encardido da existência. O último sopro. A última tentativa. A última palavra. Adeus. Morrer significa pontuar de vez a sua existência. Morrer significa não mais existir. Ser esquecido. Abandonado. Tantas interpretações possíveis, mas apenas uma sincera e verdadeira — definitiva… a morte não é uma questão para os que se vão e sim para os que aqui ficam, porque o homem determinou a morte como sendo uma foice a ceifar sua existência. Dando um derradeiro fim à luz de seus olhos, à chama que arde em seu peito. Mas a morte, para os homens da arte, é mera semântica… o escuro é o lugar úmido e aquecido, no qual se encontra alento para o sofrimento da carne e espaço para os delírios da alma. É na luz onde tudo se dissipa e a morte, para eles, é uma vírgula cravada em seus passos firmes.

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Capa | Solombra

Existir é qualquer coisa breve, momentânea. Vive-se apenas enquanto se cria e a existência finda quando a premissa se esgota. Um livro. Uma tela. A vida é expirar… apropriar-se. A vida é o instante em que tudo se orienta dentro e, do lado de fora… é morte, fim. Nunca mais.

Morre-se milhares de vezes… Durante a noite, quando o sono atinge os sonhos e esses se esparramam pelos cantos de seu corpo, em estado de repouso pleno. Volta-se à vida, essa falsa luz anunciada pelas letras que o homem compõe como sendo verdades... sendo, de todas, sua maior mentira. Como saber se o sol é de fato luz, e não trevas, ou como assegurar que a vida é de fato sopro, começo, e não fim… morte?

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Quero uma solidão, quero um silêncio, Numa noite de abismo e a alma inconsútil, para esquecer que vivo — liberta-me das paredes, de tudo que aprisiona; atravessar demoras, vencer tempos pululantes de enredos e tropeços, quebrar limites, extinguir murmúrios, deixar cair as frívolas colunas de alegorias vagamente erguidas. Ser tua sombra, tua sombra, apenas e estar vendo e sonhando à tua sombra a existência do amor ressuscitada. Falar contigo pelo deserto. — Cecília Meireles in; Solombra —

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Frente e Verso, sobre poesia e poética

Carlos Felipe Moisés O contato com a poesia implica operações extremamente complexas, que me põem em relação com um número surpreendente de graus e níveis de realidade. Ler um poema (com as devidas adaptações, valerá também para escrever um poema) significa acionar mecanismos de percepção que, de forma mais ou menos elaborada, captam os vários estratos do texto — o visual, o sonoro, o semântico, o sintático —, os quais adere, por associação ou analogia, uma quantidade de referências de ordem psicoafetiva, biográfica, histórica, geográfica etc., que todo poema, por elementar que seja, contém.

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origamis Akira Yamasaki

quando sinos cobram em alto e claro som pelo troco da desdita do pássaro indagante

quando o peso infame das dores indignas dobra o corpo e o mar do pássaro incitante

quando baixam marés e os choros regressam do muro da garganta do pássaro intrigante

quando bolha de sabão o entendimento degenera e se dissolve nos olhos do pássaro instigante

origamis de grous azuis na maca de emergência adormecem nas mãos do pássaro inquietante

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— FIM — Zélia Guardiano

Não há ponte Entre vida e morte De sorte que Se salta no infinito: Frêmito esquisito

Pulo macabro Do alto do telhado Da cumeeira Da existência Em que se queda Para sempre Num abismo: Vertigem Vórtice voraz Que começa aqui E vai acabar No nunca mais

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a cantiga da morte Karin k. carteri

a canção que a Morte entoa é blasfema, inconcebível fala do prazer da dor e da extrema agonia de morrer nos braços da Negra Dama

ela nos abraça no escuro ela nos embala sem pressa Nos mostra o silêncio Nos engana— e conforta

Dama Negra— mentirosa, ardilosa e vil. sempre pontual canta sua canção de notas cruéis e anuncia nossa hora próxima — nossa hora vizinha!

ela nos acaricia no berço nos observa na praça nos acompanha no carro e nos espera— sedenta

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a canção que a Morte canta é Infinita fala de ganhos e perdas tem estrofes repetidas em um interminável refrão!

ela nos sorri na estrada nos beija na testa nos espera— faminta Nos engana e conforta

a canção que a Morte sussurra será a última em nossos ouvidos!

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Escuto Jeanne Callegari

nada se ouve. o telefone não toca, as chaves não tilintam na porta que não se abre. ninguém pisa duro no chão para desgosto da senhora que mora embaixo.

ela deve estar contente, agora.

das caixas de som não sai ruído ou balada hip hop ou lamento tantos discos garimpados compositores raros nenhum toca, agora. naquela manhã, o telefone tocou pela primeira vez – o alt-country que sempre me acordava mas era de manhã, e eu sonolenta, resmunguei deixei que tocasse

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quando o telefone tocou pela segunda vez, estava no banho. não quis molhar o tapete, o chão e se escorregasse?

o telefone tocou pela terceira vez. eu me precipitava pelas escadas atrasada, como de regra. aonde ia, tão apressada?

não voltei para atender.

o telefone vibrou na bolsa. dessa vez respondi. é como dizem: certas notícias correm rápido. da janela, disseram. vigésimo andar.

desde então as gentes me olham, enternecidas. recebo muitos abraços. dizem que você faria de toda maneira

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se não naquele dia, em outro em breve. dizem que já estava decidido.

e eu me pergunto: o que o teria movido naqueles últimos instants

uma despedida? odiava bilhetes. não deixou nenhum dramáticas, você dizia – das pessoas que deixavam bilhetes. você sempre disse que gostaria de ir em silêncio sem alvoroço que não houvesse choros ou censuras que a morte era de cada um para escolher o momento. eu cobria os ouvidos.

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só depois — agora — quietude. como você queria. escuto: nada toca você não entra com estrépito pela porta não assovia desafinado ou dança catira para incomodar a vizinha

silêncio. de ruído apenas o som dos telefonemas daqueles três telefonemas que soaram ressoaram

e eu não atendi.

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A morte é uma puta Bah Bee Paiva

Esses sonhos em linha reta Embaralhados pelos meus passos tortos Me fazem enxergar um futuro Na palma da mão, Na borda do copo, No fundo do seu olho

Esse discurso engasgado Enquanto me arrasto Por essas ruas, com seus discos embaixo do braço Parece estar sempre prestes a me matar

Saltar de pontes, Jogar-me na frente de carros, Flertar com a morte, Cobiçar seu riso sacana, Eu nunca me tornarei Alguém diferente disso.

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Soneto Póstumo Luiz Gonzaga Leite Fonseca

Morri, digo-lhes: estou feliz Aqui de cima nestes vastos céus azuis, Vejo meu túmulo e meu nome sobre a cruz, Provisoriamente escrito a giz.

Em meu caixão solitária flor-de-lis, Adorna o meu cadáver em osso e pus, E meu espírito envolto em áurea luz, estável, abre a boca e assim diz:

Desculpem-me, mas perdi o entusiasmo, Foi o desencanto, a rotina, este marasmo, A falta de amor que me mataram,

Mas no mundo é viver e morrer, não tem dilema, Mas deixo-me aqui, em forma de um poema, Aos póstumos que me amarão e aos poucos que me amaram.

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Primeira hora Thereza Christina Rocque da Motta

Verás como verter palavras. Escolherás as horas e beberás toda vez a morte em pequenos goles. Não, não terás dúvidas. Mais uma vez estarás só, tu e tua estatura, como quem aprende a altura para saltá-la. O verso de tuas mãos te dói, o alentado peso de tuas cicatrizes. És quem soubeste ser. Procura teu longo espelho. Nada restará de ti, então, começa agora a descartar teu peso.

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A HORA QUE PASSA

Trecho do monólogo “Florbela Espanca — a hora passa”

Ame doidamente alguém, mas nunca abdique nem uma só das suas graças, nem uma só das suas ideias que lhe fazem vincar a fronte às vezes com uma pequenina ruga de capricho e insolência, que fica tão bem às mulheres bonitas; não ajoelhe nunca, porque está nisso o nosso grande mal, o nosso profundíssimo erro; nós invertemos muitas vezes os papéis, e em proveito deles, e depois as consequências são muitas vezes as paixões que devastam uma vida inteira por criaturas que se dignam dar, por último, como humilde mortalha, um olhar de compaixão! Muitas vezes as nossas mais delicadas atenções, as nossas maiores provas de amor, os nossos cuidados, são como aquelas pérolas que um dia alguém atirou a uns porcos...

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Entrevista | Lorenna Mesquita

A HORA QUE

PASSA

...cheguei à Livraria da Vila — no Shopping Higienópolis — pouco depois das seis, às portas do monólogo "Florbela Espanca — a hora que passa"... ainda em tempo de orientar-me em uma pequena fila que me levaria ao anfiteatro, um lugar que acontece entre livros... O primeiro contato com a atriz Lorenna Mesquita/ Florbela se deu durante a caminhada até o assento... com olhar ameno, vestimentas comuns, negras... uma mulheratriz-poeta acontecia no canto do palco, sentada em uma cadeira, colocada ali propositalmente para que público e personagem se encontrem e se inventem... meu olhar — confesso — pensou imediatamente em um verso qualquer de Florbela e sua intensidade... uma das poucas poetas que parece viver a escrita e nos deixa na condição de leitor, imerso na condição desconfortável de ler e não a saber, apenas imaginar uma realidade. Um punhado de perguntas se orientam em nós de maneira natural... uma vez que a escrita de Florbela traça aos nossos olhos, uma mulher insatisfeita com a vida rural da década de vinte e que cometeu suicídio aos trinta e seis anos, no ano de 1930.

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Fotografia. Adriana Elias

"Se passar do dia dos meus anos, morrerei de velha". O monólogo, escrito por Loreena — é resultado de um processo de pesquisa desenvolvida ao longo de três anos... além de estudar com afinco a escrita de Florbela Espanca, a atriz visitou às principais cidades portuguesas em que a poeta viveu — Vila Viçosa, Évora, Lisboa, Porto e Matosinhos — visitando as casas, a biblioteca, o túmulo em destaque no cemitério. O resultado foi um vídeo-diário de bordo e mais de três horas de espetáculo.

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Entrevista | Loreena Mesquita

PLURAL — É fato que o ator leva algum tempo para se vestir da personagem no dia da apresentação. Como é o seu processo de desconstrução da Lorenna e reconstrução de Florbela? Lorenna Mesquita — Florbela já está entranhada na minha pele. Normalmente saio de casa com o figurino da peça e vou ficando introspectiva. Quando entro em cena já sou ela, com a respiração diferente e me aproprio de toda sua vida. Todos os seus conflitos, suas angústias, sua força e feminilidade naquela hora são meus. O mais difícil é sair da personagem. A cena final do espetáculo é muito forte emocionalmente e me suga todas as energias. Depois de cada sessão, promovemos um bate-papo com público e muitas vezes a minha voz ainda está embargada. Numa das apresentações, senti uma angústia tão intensa que tive dores no peito por uma semana. Fernando Pessoa diz que todo poeta é um grande fingidor. E isso vale para os artistas. Mas eu me permito sentir em cena os sentimentos daquele personagem. E no caso de Florbela, procuro estar viva no palco e passar toda a verdade daquela mulher. Naquela hora eu não a represento, eu sou ela.

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PLURAL — de todas as poesias de Florbela, qual delas ecoa em sua anatomia de mulher-atriz-escritora? Lorenna Mesquita — sou apaixonada pelas poesias de Florbela. Impossível eleger apenas uma. Posso escolher uma por dia, de acordo com o meu estado de espírito. Inclusive é assim que muitas vezes seleciono as poesias que serão publicadas na fanpage que mantenho no Facebook (Florbela Espanca — Poeta), a única página em que ela publica (e responde) em primeira pessoa. Mas se for para escolher algum pensamento que me defina como pessoa e como artista, não seria um poema e sim uma frase, um questionamento:

"Por que eu não nasci igual aos outros, sem dúvidas, sem desejos de impossível? E é isso que me traz sempre desvairada, incompatível com a vida que toda gente tem". PLURAL — você visitou (tocou) com os olhos, os pés e também a alma os mesmos pousos da poeta Florbela ao visitar uma Portugal moderna-antiga-contemporânea. Como essa viagem maculou seus pensamentos, sentimentos? Que tipo de simbiose ocorreu na pessoa-atriz-mulher Lorenna? Lorenna Mesquita — quando fui a Portugal, em 2013, já estudava Florbela há dois anos. E eu precisava conhecer a terra em que ela nasceu, respirar o mesmo ar, andar pelas mesmas ruas e imaginar como aquelas cidades eram na época em que ela viveu. Conheci lugares em que ela passou e tentava projetar de que forma ela era influenciada por aqueles ambientes.

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Entrevista | Lorenna Mesquita E se ela tivesse vivido em outros lugares, como teria sido sua vida? Quem ela seria? Florbela mesma dizia que, uma pessoa é formada pela influência de um conjunto de fatores: hereditariedade, educação, ambiente e destino. Durante a viagem, descobri que eu não estava apenas em busca de Florbela Espanca. Eu estava em busca de mim mesma. Essa viagem foi início de uma mudança imensa na minha vida pessoal e profissional. PLURAL — você vem de outra cidade, esteve em Portugal e outros tantos lugares e hoje, é certo dizer que vive em São Paulo, certo? A maioria dos artistas carregam na amálgama um pouco dos lugares onde estiveram. Conta pra gente o que é saudade em sua pele hoje? Lorenna Mesquita — me preencho dos lugares onde vou. Absorvo sotaques, expressões, cheiros, paladares, cultura. Sou parte de cada lugar que visito e deixo um pouquinho de mim também. Desde que fui embora de casa, há dez anos, do que eu sinto mais saudade é da minha família. Estou longe de todos e queria muito estar por perto, vivendo a rotina: tomar café da manhã, passear, conversar ou só ficar do lado em silêncio. É essa saudade que me habita.

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PLURAL — como vê esse impulso à exposição da intimidade, que fica explicita nas redes sociais, programas de televisão, nos deixando com a sensação de que estamos o tempo todo diante dos olhares de uma velha senhora em sua janela, figura folclórica das pequenas cidades? Lorenna Mesquita — as pessoas estão muito carentes de atenção. E a carência é resultado da insegurança. Elas querem chamar atenção o tempo todo, pedindo aprovação dos amigos em forma de "curtidas" nesse mundo virtual. Um mundo em que elas vivem mais do que sua própria vida. Já cansamos de ver as pessoas com o celular na mão atravessando as ruas, esperando um ônibus, dirigindo ou mesmo num bar com os amigos. Todos estão conectados virtualmente e desconectados de suas vidas reais. E chegam ao ponto de perder a noção, contando em praça pública — como costumo chamar as redes sociais — coisas que mal falariam para os mais íntimos. PLURAL — a internet escancarou radicalmente o nosso pior lado. O preconceito e julgamentos estão a mil nas "vozes" — geralmente — sem rostos que vociferam ofensas, atirando pedras para todos os lados. Qual o rótulo que mais te incomoda? Lorenna Mesquita — Me incomodo com qualquer rótulo que venha repleto de intolerância. Na verdade, só de ser um rótulo já não é coisa boa. Porque significa que você definiu aquilo ou alguém e não está aberto a olhar de outra maneira. E na internet é ainda pior. Estar atrás da tela do computador ou do celular dá uma falsa noção de poder. Tem gente que acha que pode falar o que quiser, julgar, colocar uma pessoa na fogueira porque não concorda com a ideia dela. Não há mais diálogo. Cada um só quer defender o seu ponto de vista e não escuta o outro. Há muita intolerância na internet, que também é resultado da postura que a pessoa adota para a sua vida. A internet só potencializa quem a pessoa é e faz cair a máscara.

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Entrevista | Lorenna Mesquita PLURAL — Está na moda falar de uma infância onde muito se brincava e aprendia com brincadeiras de ruas, viagens de trens... nos conte como foi a sua. Será que você tem alguma travessura para nos contar? Lorenna Mesquita — tive uma infância muito feliz. Eu fui uma verdadeira moleca. Gostava de brincar de bola, de boneca, de carrinho, esconde-esconde, andar de patins, pular elástico. Sempre estava rodeada de amigos e gostava de ser a palhaça da turma. Na escola brincava de chorar e de ter filho (fingia as dores do parto no intervalo das aulas). Mas nunca fui de muitas travessuras. Minhas brincadeiras sempre foram muito saudáveis. Sempre fui muito responsável, talvez por conta da minha rotina. Meu dia era preenchido com muita atividade. Após o colégio, eu me dividia entre as aulas de inglês e de piano (entrei para o conservatório de música aos 4 anos de idade e só saí aos 15, já formada). E em casa estudava as lições com a minha avó, que adorava fazer sabatina de matemática e português. E pra mim, isso também era uma grande brincadeira.

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Ensaio | Beliza Parente A COSMOLOUCURA DA NATUREZA HUMANA Estou suspensa. O abstrato das nuvens e traços de Badida, nenhuma tela, nem mesmo um caco vitral. O rosto que era face evaporou em sons multicoloridos. Sou uma pata loura brincante, um ganso querendo afogar-se, cágado querendo tomate, liberdade com asas, olhos do mistério e da simplicidade. Agora há uma interrogação estilística rasgada na cara, no que era chita e seda. Fui dispensada de viver como os homens; agora os observo de cima. A saudade por vezes invade. Vivências e amores passados surgem com uma nostalgia absurda. O que foi… O que não foi… O que será? A esperança tem olhos puxados e olhar misterioso. Enxertos de cobras em peles de gado, uma multidão de livros em estantes ambulantes, tambores sincopados, negrinhos cantando e dançando. Cavalos galopando, cabras em jardins. Nuvens. Nuvens. Nuvens. Valentia em chutes, tocos e panos esganados. Quanta gente polida, sem vida. Coloco sal no angú, atiço pra ver no que dá. As pessoas são realmente estranhas. Uma pupila dilatada na calada da noite é um lobisomem, um bicho do mato, uma onça pintada. Calma minha senhora, as pessoas são estranhas, é preciso aprender a amar o tempo. O vento forte bate na porta, os astros arrastam, esquenta o coração, palpita. Não há ilusão. Observo e questiono anéis em cordões. Uma meota, um amor vão? Como é ruim sair daqui, não quero outro mundo, quero o profundo.

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Conto | Francisco Ohana

Bloomsbury — Isso é um bar brasileiro? — Sim. — respondeu também em inglês a mulher de jaqueta de couro que fumava na penumbra, do lado de fora do Guanabara. Eu devo ter aquiescido com um leve aceno de cabeça, dado um meio sorriso e retomado minha caminhada de volta ao Astor, onde estava hospedado, quando ela perguntou: — Por quê? — Sou do Brasil. — disse me reaproximando. — Eu falo português. — ela completa migrando para o idioma luso com destreza notável para uma inglesa. — Amanhã vou dançar neste bar. Se quiser vir... — Claro. Venho, sim. Curiosa, a forma novidadeira como nos comportamos em viagens. Eu desejaria sinceramente ser animado na vida ordinária por uma fração mínima do interesse pelo mundo que manifesto fora de meu país natal. Naquela tarde, eu me empolgara com o sistema de aluguel de bikes do Hyde Park e estendera a pedalada até os jardins de Kensington, vizinhos ao bairro de mesmo nome. O trânsito de bicicletas de Londres já seria razão suficiente para me fascinar, mas, como se não bastasse, passei rapidamente a dominar as principais linhas dos lendários ônibus vermelhos de dois andares. Neles eu perambulara de East London a Notting Hill. Aguardava um desses, que seguisse no sentido centro, quando fui abordado por uma garota cujo sotaque só não tornava seu inglês mais macarrônico que o meu. Tratava-se de

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Bloomsbury uma francesa recém-chegada à Inglaterra, que pedia informações sobre que condução pegar para ir à parte norte da cidade. E foi isso — precisamente isso — que dei a ela, informações sobre que condução pegar para ir à parte norte da cidade, a despeito de sua mochila nas costas e de seu estilo hipster, que a metros de distância já haviam despertado meus sentidos. Nos despedimos e, à medida que a via partir, eu insistia inutilmente em me convencer de que preferia voltar ao hostel. Saltei inconformado de ira e autopiedade em algum ponto de Covent Garden, onde comi uma porcaria qualquer no McDonald’s ou Burger King. Rendido pelo cansaço, eu andava a esmo de volta ao Astor e me distraía com os detalhes pitorescos do trajeto quando me encontrei nos arredores da Gordon Square. Era noite, mas a pouca luminosidade não me impediu de enxergar uma placa identificando a casa em que havia morado o economista John Maynard Keynes. Reconheço que não há nada de muito interessante até aí. Mais adiante, no entanto, outra placa distinguia o número em que vivera Virginia Woolf. Tomei um susto de quem pressente estar em um lugar interessante e estranhamente familiar. Eu girava sobre meus calcanhares, olhando para todos os lados sob a impressão de ser aos poucos insuflado pelas sugestões do carrossel sexual do Bloomsbury Group. Se, por um lado, eu me via à sombra de decisões cruciais no ambiente de incerteza e pressão de um universo com probabilidades subaditivas, que rodeavam, por exemplo, a francesa de Kensington, por outro, eu tinha ganas de gritar — de dar o delicado grito de liberdade de uma Mrs. Dalloway. Esses impulsos dominavam meus pensamentos quando vi o Guanabara, na Parker Street, umas duas ruas abaixo do British Museum. Estava disposto a fazer da noite seguinte a redenção de alguém que não fora a Camdem e sequer havia se inte-

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Conto | Francisco Ohana ressado por entrar num pub. Com os brios postos à prova e mordido, eu iria atrás da mulher da noite anterior. Ao som de hits amazônicos dos anos noventa, peguei uma cerveja e sentei num canto para esperar a apresentação de samba e dar uma prospectada no ambiente. Eu observava de longe uma garota de meias de renda escuras, vestido preto de mangas e cabelos loiros acima dos ombros. O tédio já se apoderava de todas as minhas sinapses quando começou o espetáculo circense de horrores. A inglesa da véspera, uma asiática e dois capoeiristas começaram então a desenvolver uma série de coreografias esdrúxulas, que contribuíam inequivocamente para a consolidação do estereótipo da República de Bananas. Após o fim do circo de pulgas, a inglesa sumiu com seu penacho nos bastidores. Restava buscar a garota das meias escuras, de quem todos se aproximavam depois do espetáculo de dança, quando a festa esquentou. Eu já tirava conclusões precipitadas sobre minha personalidade e meu reduzido prazer de viver quando começa a tocar uma canção brasileira de qualidade duvidosa, para dizer o mínimo. A fim de tirar algum proveito daquela merda, concluo que é minha deixa, minha grande chance de triunfar. Convidei-a para dançar. — Esse não é meu tipo de música. — ela disse. — Nem o meu. — Quer sair para um cigarro? Eu fumaria todos os maços do mundo naquele momento a fim de ver meu esforço finalmente recompensado. Sentia os ventos a meu favor, mas tive certeza de que Deus era brasileiro ao descobrir que Justine era francesa. Não por nada; é uma questão de charme. Descemos

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Bloomsbury ao mesmo lugar em que encontrara a passista de Sua Majestade, onde os fumantes inveterados se entretinham em nuvens de risadas. Conversamos longamente. Ela elogiou meu francês, disse que eu usava construções gramaticalmente muito sofisticadas. Disse também que, apesar de morar em Paris, adorava retornar ao sul da França, onde nascera e praticava caça com seus cachorros. Enquanto ela falava, eu imaginava aquele chuchu perseguindo perdizes na relva com catorze beagles em coleiras e um faisão domesticado no braço esquerdo. Ela ensaiou comigo o passo básico da valsa, e ainda posso me lembrar da sensação de abraçar sua cintura, colocando minha perna direita entre as dela. Trocamos contatos e ficamos de nos encontrar no dia seguinte para um café. Tentei encontrá-la em Londres, sem sucesso. Mas sou um jogador! Ainda teria quinze dias de viagem, além de uma última passagem por Paris, antes de retornar ao Brasil. Tentei encontrá-la, sem sucesso. Sei que pode soar melancólico, mas, a cada cigarro que uma mulher acendia em Saint Germain-des-Prés, eu pensava vê-la, perdendo-me entre falsos sinais de fumaça. — Um falafel de frango com verdura, por favor. — pedi em bom francês numa rua do Marais, enquanto acendia um cigarro imaginário na boca de Justine.

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Conto | De Marcus Di Bello

Não estamos preparados para o nada que somos

A sensação de enjoo continua. Tento vomitar na privada. Não consigo. Volto pelo corredor do AP mandando fumaça pra dentro e tentando lembrar aquele solo do Barão Vermelho. Porque aqui é assim que se vive. Você ainda não aprendeu? Tem que se apegar em algo. Esta cidade está condenada. Esta cidade enlouqueceu. Ela não sabe mais o que quer. Ora Sol forte queimando a cabeça, ora céu fechado escuro ranzinza. Desde a morte daquele candidato a presidência da república que o céu não ficava desse jeito, tão fechado escuro ranzinza. Semana difícil. Semana bem difícil. Mas a vida seguiu, o sofrimento não acabou, continuamos no zero a zero e o juiz é um grande filho da puta. Da janela do AP vejo o formigueiro de gente lá embaixo. Desço as escadas do prédio, passo imperceptível pelo porteiro e sou levado pelo vento até a rua. Não estamos preparados. Essa é a real. Jogaram algo tão valioso em nossas mãos que não sabemos nem como começar direito. Não estamos preparados para a vida. Não estamos preparados para o nada que somos. Estou numa esquina movimentada e ninguém se olha. Tenho vontade de gritar no meio da calçada. Sei que alguém

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vai me olhar. Alguém precisa olhar. Não é possível que todos estejam ligados no automático. Muitos olham para o chão. Poucos olham na horizontal. Raros são os que olham para o céu. Triste. Não estamos preparados. "Acorda pra vida!" O passante nem parou. Seguiu o seu caminho. Olho para o céu. Crio uma zona de contemplação. Não sei quanto tempo fico assim. Talvez bastante, talvez alguns segundos. Começo a pedir dinheiro na rua. Numa cidade pequena seria um forasteiro. Nesta cidade sou apenas mais um cara pedindo dinheiro na rua. Consigo uns trocados e peço uma garrafa de cerveja num conhecido bar de esquina. "Deseja mais alguma coisa?" "Desejo. Aquela árvore ali." "Não tenho como trazer." "Então é isso por enquanto." Por enquanto é isso. Tudo como tem que ser. Estou bebendo e pensando na vida. Outros pilotam aeronaves. Outros se masturbam. Outros gerenciam empresas. Outros jogam conversa fora. Eu estou bebendo e pensando na vida. O enjoo passou. Ainda bem. Finjo um sorriso e olho para o céu. Está tudo bem. Ainda bem.

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Conto | Mariana Gouveia

Porque era neste azul que eu me queria todos os dias

Ela me deu de presente uma cor. Azul, azulzinho! Não era esses tons que se misturam entre tantos e se transforma em azul bebê, azul cobalto, azul celeste e por aí vai. Não! Quando ela me deu o presente me disse: — Tome a cor azul! É tua! E desse então, eu passei a conviver com a cor. O céu, quando eu jogava meus olhos para lá, estava ele em sua cor mais linda que há e nos olhos do bebê da vizinha e nas canções que eu ouvia. No amor que ela me trazia todas as manhãs. As cortinas que balançam com o vento — que era azul, um dia eu vi — as florezinhas miúdas que nasciam no meu quintal, tinham a cor que era minha e embora elas abrissem só pela manhã, no resto da tarde, chovesse ou fizesse sol, havia lá no miolo o resquício da cor. Fazendo presença no meu lugar. Mas, um dia, ela se foi. Não sei se com medo da guerra que meu amor travava em nós, ou se pela insegurança que a paz do meu abraço causava na alegria dela. Ela se foi e com ela levou a cor, que eu guardava nas coisas dela para manter sempre em segurança, com medo de alguém roubar.

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Se foi e deixou apenas o silêncio e o papel de presente amassado junto com as coisas que iriam pro lixo e no lugar do azul, o gris invadiu meu quarto, o chão, o céu e meu lugar. Não havia lugar que eu olhasse que o cinza e seus variados tons fazia questão de se apresentar. Mas, onde ele mais se mostrava inquilino, desses que não sai de jeito nenhum, era no interno de mim. Dentro, onde antes o azul predominava, o cinza tornouse uma cor invasora e teimava em acinzentar tudo que eu sentia. Foi aí que descobri que a saudade tem cor e aos poucos vai desbotando seu coração e sufocando toda palavra com o nome, o pensamento, o cheiro dela e a falta. De vez em quando, as ruas pareciam começar a azular, nas esquinas, entre um riso iluminado quando eu a via passar. Mas, era apenas um borrado que você erra e esquece de apagar e que com o tempo, desbota. Percebi que eu deveria cobrar meu presente, já que ela havia me dado, e fui, com o papel do presente amassado, ainda com o cheiro dela, reclamar do que seria meu por direito. Mas, o que vi, foi alguém com a minha cor no sorriso que trocava com ela, e vi que o azul continuava tão bonito ali, entre a semelhança de tudo que vi que minha alma se tingiu de outra cor. Hoje sou vermelha! E ruborizo tudo que toco, mas é naquele azul que eu me queria todos os dias.

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Conto | Roseli Pedroso

Terminal Rodoviário, a caminho de casa

— Maria, tô vexada! — disse a mulher na segunda fila do ônibus, numa conversa afiada com a amiga, enquanto todos os demais estavam entretidos com seus telefones celulares —, cridita que peguei o cachorro filo dumégua na minha cama com minha melhor amiga? Cão da peste! Affê! Qui tô putcha da minha vida! — Severina, mulé de Deus! Diga isso não! Tô passada cuma notiça dessa! Quandio foi o sucedido? — Sexta passada! Depois de trabalar um dia inteiro fazendo faxina em casa de bacana, chego em casa arriada de cansaço e o que encontro? O sem vergonha, filo d’ um tinhoso com a rapariga desdentada no maió desfruti em minha cama! Safados!!!!! Logo na minha cama novinha que nem terminei de pagar ainda! Fiz o crediário em 24 meses! O cochão é do bão cumadi! E o filo dum’égua me leva a outra pro desfruti na minha cama novinha! — Qui ce fez? — Fiz o maió escandalo que toda a vizinhança saiu pra ver. Vuô pena de galinha véia pra tudo que foi lado. Peguei as coisa daquele safado e joguei na rua! Joguei tumén aquela traidora. Aquela que não saia di casa, tomando meu cafezinho, aquela faladora miserave, qui mi apunhalô nas costas. Aquela que um dia dei guarida quando chego cuma mão na frente e outra atrás, lá do norte faminta, esquelética, mofada e suja! Disgrama de muíé, ajudei a consegui o primeiro emprego, dei ropa minha, sapato meu, até calcinha emprestei mó de que a disinfeliz nem isso tinha. E agora abocanha meu home? Tá certo que é um tranquera, mas era meu! Não

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valia o que comia, mas era meu! — E Severina, e agora? Tá suzinha, tá? O desgramento foi de vez ou já vortô? — Quero sabe mais desse traste não! Qui sô muié de uma palavra só! Ele apareceu, joguei água nele, telefonô querendo voltá e desliguei na cara dele! — Eita qui eu quiria se ansim! Mas me diga uma coisa: jogo fora aquele cochão? Sim porque eu num deitaria nele mais é nunca! — Tá maluca muié! Tô pagano ainda o crediaro e vô jogar fora um cochão tão bão? O que fiz foi lava as ropa de cama bem lavadim, despois quarei no sol, passei bem e tá novo! A cama é boa, o cochão é bão e já tá prontinho para o próximo e que o fioti seje mió! — Tá me dizeno o quê? Ainda qué tê outro? Affê?!... — Maria qui prigunta muié! Tô viva e tenho um fogo qui valamedeus! Demorô! Qui venha o próximo e depressa, viu? Oie, que chegou o nosso onbus.

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Ensaio | Loreena Mesquita

O PODER DA PALAVRA

Acabo de ver o filme O Menino do Pijama Listrado, inspirado no Best-seller de John Boyne sobre um garoto de oito anos que se torna amigo de um menino judeu, da mesma idade, preso num campo de concentração nazista. As duas crianças conseguem conversar e brincar através do arame farpado que as deveria separar e nos mostram a pureza das relações humanas, mesmo no meio da cegueira, da ganância, das mentiras, como diz Florbela Espanca de “toda essa comédia humana que me suja e a quem eu não perdôo sujar-me”. Falar de nazismo não é um assunto que me agrade. Além de todo sofrimento do povo judeu, questiono como as pessoas se deixaram manipular daquela maneira? Como os nazistas conseguiram destilar e propagar tanto ódio? Mas ainda bem que esse horror passou. Passou mesmo? Infelizmente ainda há muita manipulação nas igrejas, na política, nos grupos e redes sociais. As pessoas são muito manipuláveis. Pior, gostam de ser manipuladas. Querem que um líder as diga como agir e não questionam. Desde criança escuto que o dom da palavra é a arma mais poderosa que alguém pode possuir. E ela pode ser usada para o bem ou para o mal.

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Desde cedo também aprendi que o Ser Humano se distingue dos outros animais justamente pela sua capacidade de raciocínio. Quando pequenos, somos muito questionadores, temos o olhar apurado e o coração aberto para aceitar o novo e o que é diferente de nós. Mas quando adultos, alguns perdem a capacidade de questionar e aceitam o que lhes apresentam como verdade. Pessoas “bem instruídas” clamam pela volta da ditadura. Líderes religiosos propagam a homofobia. Político afirma que as mulheres têm sim que receber menor salário que os homens, porque elas engravidam. O machismo não é exclusivo da sociedade brasileira ou de países do terceiro mundo. Ele também está presente nos países “desenvolvidos”, na maior potência econômica mundial. A vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, Patricia Arquette, em seu discurso pediu pela igualdade salarial entre homens e mulheres nos Estados Unidos. Sabia que seria ouvida por milhões de pessoas e aproveitou a oportunidade de chamar atenção para o assunto. A questão salarial é um dos menores problemas. Também por causa do machismo impregnado, mulheres são violentadas sexualmente e moralmente dentro e fora de casa, inclusive nas universidades. Por causa da intolerância, homossexuais apanham nas ruas e precisam lutar a cada dia por direitos civis básicos. Por causa do racismo velado, negros sofrem preconceitos por onde andam, até em salas de aula, desde criança. Há quem ache isso tudo normal e ainda aceite ter sua opinião guiada e inflamada por “falsos profetas”. A palavra é a arma usada para deixá-la na ignorância.

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Ensaio | Loreena Mesquita Mas também é a palavra a melhor arma para fazê-la acordar. E foi com o poder da palavra que a modelo Waris Dirie ganhou as páginas de jornais internacionais ao denunciar a mutilação genital feminina e após relatar ter sido vítima dessa prática abominável que ainda é comum em 28 países da África e em mais outras dezenas de países de fora do continente que receberam imigrantes. Mais de 150 milhões de mulheres já tiveram o clitóris extirpado (com caco de vidro e lâminas caseiras, sem anestesia), porque a cultura e a religião local pregam que mulher não deve sentir prazer. Outras palavras que ganharam o mundo foram as da menina paquistanesa Malala que recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Ela lutou pelo direito à educação feminina e, por isso, foi baleada na cabeça num atentado praticado pelo Talibã, quando saía da escola. Felizmente sobreviveu. O mais irônico nos relatos da sua autobiografia, é que o machismo, a corrupção e a manipulação presentes na sociedade paquistanesa não são muito diferentes do que vivemos no mundo ocidental. Em algumas passagens da leitura, parece uma narração feita por uma criança brasileira, tamanha similaridade. Ainda bem que existem mais pessoas questionadoras como Arquette, Waris e Malala. O questionamento leva à ação e à mudança. Para mudar é preciso estar vazio, livre de qualquer amarra ou pensamento pré-concebido. Olhar o outro com os olhos daquelas duas crianças do filme que, mesmo com a adversidade do arame farpado, conseguiram construir uma relação baseada no respeito. E respeito é sinônimo de liberdade.

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Ensaio | Hugo Ribas

SOMBRA DE MIM

Não sou metido a escritor, talvez minha arte seja ou outra... Mas deposito em você, caro papel, parte de mim. A mais escura, talvez. E escolho essa parte porque dela nasce o que há de mais autêntico dentro desse coração cujo solo árido já não pode mais de puras águas beber. Sei que dessas linhas nada de muito agradável pode surgir... Aliás, não sou o tipo agradável, e gosto de ser assim. Admiro a antipatia e me esforço em desagradar. A amargura faz parte da minha essência, por isso tenho preferência por cortinas fechadas, decoração sóbria em demasia e da quietude. Faço o que muitos não tem coragem. Ultrapasso a fronteiro do bom senso, sem medo. Vou me despindo, aos poucos, de toda luz e de toda cor. Sobra apenas isso. Minhas mágoas e infelicidades. Rancores encarcerados. Raivas disfarçadas.

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O breu de uma alma puramente lúgubre. Sinto orgulho do que tantos outros sentiriam vergonha.E faço de lodo, argila. Arranco do solo seco, poeiras em ventania, feito melodia. Da sombra se faz sol. Chego até a me enganar… Utopias de artista que de arte nada tem. Não, não posso me envergonhar. Queixo erguido, estou a me olhar. Espelho de mim. Sombra de mim. Fonte inesgotável de inspiração, e agora compreendo o porque de tantos caminhos, bifurcações e indecisões. Encontro no amargor da irrealização sombria, uma razão. Uma razão apenas. Escrevo. E descrevo em ti, amigo papel, o que há de mais puro em mim: os porões da minha alma. Chego ao fim e vejo que isso é bom. Cada frase, cada palavra, cada sílaba. Carregadas e verdade. Isso é bom. É bom e belo. Ainda que sombrio,efeito luz.Uma luz negra, a resplandecer e trazer a tona um motivo para ser feliz, ainda que padeça na penumbra da infelicidade.

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