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Acompanhe nossas publicações em: www.scenariumplural.wordpress.com Edição Lunna Guedes lunnaguedes@globo.com Arte na Capa. Maria Cininha Distribuição Scenarium Plural Participe enviando seu material, sugestões ou criticas para scenariumplural@globo.com Volume 06 — Ano 02 Revista Plural — São Paulo, 2014 Todos os textos aqui publicados são de responsabilidade de seus respectivos autores. Para adquirir a Revista Plural Artesanal entre em contato por e-mail scenariumplural@globo.com. Tiragem Limitada com volume numerado Valor de venda R$ 30,00 (revista + despesas de correio) Próxima Edição — Plural RED Agosto | 2015


Mário de Andrade Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, As sensações renascem de si mesmas sem repouso, Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras! Se um deus morrer, irei ao Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras, E os suspiros que dou são violinos alheios; Eu piso a terra como quem descobre a furto Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, Mas um dia afinal toparei comigo… Tenhamos paciência, andorinhas curtas, Só o esquecimento é que condensa, E então minha alma servirá de abrigo.

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Teatro Urbano

Foto. Obulio Nu単es Ortega


Sobre AS MEMÓRIAS Memória é onde se guardam as coisas do passado. Há dois tipos de memória: memórias sem vida própria e memórias com vida própria. As memórias sem vida própria são inertes. Não têm vontade. Sua existência é semelhante à das ferramentas guardadas numa caixa. Não se mexem. Ficam imóveis nos seus lugares, à espera. À espera de que? À espera de que as chamemos. Ao chegar a um hotel a recepcionista nos entrega uma ficha para ser preenchida. Lá estão os espaços em branco onde deverei escrever meu nome, endereço, número da carteira de identidade, do CPF, número do telefone, e-mail. Abro a minha caixa de memórias sem vida própria e encontro as informações pedidas. Se desejo ir do meu apartamento à casa de um amigo eu pergunto: que ruas tomar para chegar lá? Abro a caixa de ferramentas e lá encontro um mapa do itinerário que devo seguir. É da caixa das memórias sem vida própria que se valem os alunos para responder às questões propostas pelo professor numa prova. Se a memória não estiver lá ele receberá uma nota má… São essas as memórias que os neurologistas testam para ver se uma pessoa está sofrendo do mal de Alzheimer. O médico, como quem não quer nada, vai discretamente fazendo perguntas sobre a cidade onde se nasceu, o nome dos pais, onde moram os filhos. Se a pessoa não souber responder é porque sua caixa de memórias está vazia. Essas memórias são muito importantes. Sem elas não poderíamos nos virar na vida. Estaríamos sempre perdidos.

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AO LEITOR | Rubem Alves As memórias com vida própria, ao contrário, não ficam quietas dentro de uma caixa. São como pássaros em vôo. Vão para onde querem. E podemos chamá-las que elas não vêm. Só vêm quando querem. Moram em nós mas não nos pertencem. O seu aparecimento é sempre uma surpresa. É que nem suspeitávamos que estivessem vivas! A gente vai calmamente andando pela rua e, de repente, um cheiro de pão. E nos lembramos da mãe assando pães na cozinha… Viajando, olhando a paisagem com pensamento perdido, vemos um rio. E a alma começa a recitar “O Tejo é mais belo que o rio da minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio da minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio da minha aldeia.” E nos lembramos então do riachinho em que brincávamos quando crianças. Uma leitora enviou-me um e-mail em inglês. Desculpouse. É egípcia. Vive no Brasil, entende bem o português mas tem dificuldades em se expressar. Disse-me que gostava das coisas que escrevo. Escreveu-me para dizer que uma palavra, uma única palavra que eu havia escrito a apunhalara. Numa crônica que eu escrevera para minhas netas, contando como era a vida na roça, disse que não havia eletricidade. Portanto não havia geladeiras. As comidas eram guardadas num armário de tela chamado “guarda-comida”. Essa foi a palavra que a apunhalou. Como é que uma palavra tão banal pode apunhalar? Não foi a palavra. Foi a lembrança. Ela já havia se esquecido de que essa palavra existia. Aí, quando ela a leu, um passado longínquo retornou. Ela se viu menina na cozinha de sua casa no Cairo. Lá havia um guarda-comida… “Alma” é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso

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sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora… Para que servem elas? Para nada. Não são ferramentas. Não podem ser usadas. São inúteis. Elas aparecem por causa da saudade. A alma é movida à saudade. A alma não tem o menor interesse no futuro. A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam. Minha amiga querida Maria Antônia de Oliveira escreveu: “a vida se retrata no tempo formando um vitral, de desenho sempre incompleto, de cores variadas, brilhantes, quando passa o sol. Pedradas ao acaso acontece de partir pedaços ficando buracos, irreversíveis. Os cacos se perdem por aí. Às vezes eu encontro cacos de vida que foram meus, que foram vivos. Examino-os atentamente tentando lembrar de que resto faziam parte. Já achei caco pequeno e amarelinho que ressuscitou de mentira, um velho amigo. Achei outro pontudo e azul, que trouxe em nuvens um beijo antigo. Houve um caco vermelho que muito me fez chorar, sem que eu lembrasse de onde me pertencera.” (Ceriguela, p.14) É com esses cacos de memória, pedaços de nós mesmos, que se escrevem romances, estórias infantis, poesia, lendas, mitos religiosos, utopias. Nietzsche dizia que só amava os livros escritos com essas memórias, escritos com sangue. E Guimarães Rosa dizia a seus leitores que, para se ser escritor é preciso conhecer a alquimia do sangue do coração humano. Ler um livro escrito com sangue é participar de um ritual antropofágico. É uma celebração eucarística.Quando eu contava uma estória para minha filha pequena ela me perguntava: “papai, essa estória aconteceu mesmo?” Traduzindo em linguagem de adulto: essas

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AO LEITOR | Rubem Alves memórias são memórias de coisas que aconteceram ou são invenções? Eu ficava quieto, sem saber o que dizer. A explicação seria: “não aconteceu nunca para que aconteça sempre…” O corpo se alimenta do que não existe. Temos saudade do que nunca aconteceu. É muito fácil contar o passado usando as memórias sem vida própria. É só coletar os fatos e organizá-los numa ordem temporal e espacial. É assim que se escreve a “história”. Mas é muito difícil contar as memórias com vida própria. Mia Couto, escritor angolano, sabe disso. Eis o que escreveu: “O que dona Luarmina me solicita são exactas memórias. E isso é o que eu menos quero. Não é que me faltem lembranças. Estão é espalhadas em toda a minha substância. Meu corpo foi-se tornando um cemitério de tempo, parece um desses bosques sagrados onde enterramos nossos mortos.” As coisas se complicam quando é um velho contando estórias da sua infância. A saudade mistura tudo. A saudade não conhece o tempo. Não sabe o que é antes e nem depois. Tudo é presente. “A lembrança pura não tem data. Tem uma estação. Que sol ou que vento fazia nesse dia memorável? O devaneio não conta histórias…” ( Bachelard ) Aí vem a confusão. O escritor duvida de suas lembranças e pergunta como a Adélia Prado: “Houve esta vida ou inventei?” Se a Adélia dirigisse a mim a sua pergunta acerca das coisas que eu conto eu responderia. “Se essa vida não houve, quando a escrevo fica havendo… ”

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Mário de Andrade... Por Aden Leonardo

Foi visto de madrugada numa roda de samba. Num nada literário cantava quero uma tora de queijo. Foi visto aos beijos com um Mulato... nem ousou esconder. Seus biógrafos inventaram um ser sonso atrás do nome Macunaíma. Nunca combinou... seu assunto era malandragem.


Drops | Por Aden Leonardo

A HORA DA ESCRITA

A vida deu um prazo de organização. Emitiu certos juízos por aí, doses de vontades espantadas. Ter vivido implicou ter lembranças. Quantas vezes não foi feliz? Nas lembranças, houve certa felicidade sim, talvez algum alívio, momentos tristes inevitáveis de tudo que passa, tudo feito para virar passado. Só com ela foi feliz. As lembranças são inventadas? Não sabe... Seus chinelos arrastaram pela cozinha, naquele som único de uma casa acordando. Abriu a janela quadriculada com madeira branca, algumas pimentas caseiras em potes azuis pediam colheita... As crianças do bairro esperando quem as leve. Cachorros latem num matutino ritual de repetição como se fosse o último dia na Terra. Ela se foi não tem um ano. Segurou suas mãos que guardou todos os seus segredos, da cama, do quarto, da conta, das senhas. Lembrou do apito do trem de sua cidade, quando falavam-se ao telefone. Quando ainda eram amantes secretas. Apitava primeiro com uma, logo em seguida na casa da outra. Uma lágrima escorreu pela sobrevivência do amor.

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A busca da felicidade incluiu todas as matérias existentes. “Foi difícil te esperar, meu amor”. Encontravam-se de madrugada e cada segundo era um último sofrimento. Lembra agora do seu corpo, enquanto mede o café... Nesse momento esqueceu que já vive só. Fez para as duas. Onde está mesmo a xícara? Já não sabe motivos de organizar uma mesa, se só existem lembranças. A água ainda não ferve. Contrário de seus corpos que bastava um fechar de porta. Uma virada de chave, no número de quarto, quatorze, o quinze e o dezenove eram os mais frequentados, escolhidos apenas no critério da mais fácil entrada. A pressa consumia todo minuto que mais tarde esparramava em doçura languidamente no decorrer do dia... Quando já soltas de si, cada uma em sua vida. Hoje vida não mais usada para ser. Mediu o açúcar. Escreve. Crônica s— leva seus poemas nos bolsos para jogar na praça — desenhos. Perdeu todos os encontros. Achou-se só com objetos de padarias. A tristeza de ausência completa o casual, claro, vida inventada agora e provocada de casual. Todos os dias meticulosamente determinados em acontecer com pensamento nela. Tenta ir todos os dias com um sorriso menina, com um papel dobrado em quatro na palma da mão. Transportado num ato escondido, tenta... Sobreviver esses últimos anos. O café cheira pela casa. Um sorriso mexe seus lábios. A idade pesa, mas só no corpo. Pensa na sua lentidão, causaria risos. Ela estaria com seu cigarro entre a porta lá de fora e a cozinha, seu olhar acompanhando os gestos do dia a dia. O barulho das vasilhas na pia. Buscou o bloquinho de anotações. Fechou a garrafa. Desenhou os emaranhados das duas. Uma alta, outra

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Drops | Por Aden Leonardo baixa. A caneta era preta. O café ficou forte. Fez a torre, inventou um penhasco. Colocou nuvens. O café na xícara. Tomou dois goles bem quentes. No desenho um silêncio. Gelado. Estão de costas, de mãos dadas. Já não se veem mais, nessa vida. Sonha toda noite com sua voz. Seus olhares se perderam. Perderam para o tempo. Sobraram essas lembranças solitárias. As cenas do amor vivido. Será que ela pensa? Lembra? Será que a espera com a mesma lembrança? Existe mesmo vida? O café ficou bom. Destacou o desenho, dobrou em quatro. Deixou num canto, perto da chave de casa. Vai novamente levar pra ela e convencer-se que a vida em comum voltará. Chorou dois minutos, lavou tudo do café. Seus chinelos arrastaram vagarosamente para o quarto, pode ver ainda como se fosse ontem o lençol amassado do lado em que se deitava. Tocou com suas mãos senis cada dobra deixada. Que durante a noite acarinhou de saudade. Porque lembrar é isso. Uma agonia cuidadosamente inventada. Ela sabe. Todo velho (e vou usar “velho” mesmo) não esquece, porque tem em si a juventude do amor vivido. Sabe que seu silencio é respeito a todos que ainda não perceberam... Que esperar pela morte é viver. Toda lembrança é do que viveu. Enquanto se veste, reza, suplica: venha meu amor. Não demore! Já fiz o café...

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Drops | Por Dália Estes MINHA PRESILHA ENVENENADA Quando a cidade se calava eu fazia sutis movimentos pelo quarto, meu silêncio era o medo de acordar deus, e eu não podia aceitar nenhuma companhia que não fosse a própria noite, que não fosse a escuridão: algo que sempre muito me acalmou, mesmo na dor, algo que era gentil comigo mesmo quando abria caminhos que me tiravam de um lugar para não me colocar em lugar algum. Eu sentia da noite quase que a solidão falando comigo e dizendo: estou sempre aqui, me aceite, eu gosto de ti. A imagem refletida do meu rosto no espelho era de alguém que também dizia: me aceite, não é por maldade que não lhe cuido. A mágoa era tanta que eu sequer conseguia olhá-la sem que um silêncio bruto me engordasse na boca. Abria a gaveta da penteadeira, tirava minha presilha de cabelo: no centro do grampo, um escorpião em metal cinza: no centro do meu coração: um escorpião em metal cinza. Penteava meus cabelos inúmeras vezes, queria estar bonita para recebê-lo na cabeça. Nada naquele quarto chegava tão perto de mim quanto esse minúsculo animal selvagem cheio de veneno. Por isso, eu aprendi a amá-lo. Assim que puxava os cabelos da têmpora direita para trás, e encaixa o grampo entre os fios, esse animalzinho se contorcia e começava a andar sobre trilhas capilares, buscando tão desesperadamente meu couro cabeludo, um lugar de cor humana, um lugar de calor, um lugar de sangue: veja como ele tinha fome de mim. Veja como ele não desistia de me envenenar. Quando ele finalmente me picava, a garota no espelho me repreendia com um olhar irritado. O veneno invadia meu sangue. O sangue invadia o espelho. A morte invadia meu reflexo. E então, nada mais me invadia.

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Drops | Lunna Guedes

A ARTE DE ENGOLIR SAPOS

...quando tinha seis ou sete anos, costumava viver os momentos de silêncio profundo, seguidos de suspiros longos e demorados. Engolia sapos... porque, a cada erro cometido, desciam broncas imensas dos adultos que se preocupavam com o meu futuro. Uma das pessoas de quem não consigo me esquecer foi minha professora de matemática. Uma senhora rabugenta que colecionava réguas: de madeira-plástico-acrílico-alumínio... Eu não suportava sua aula... nem tanto por ela, muito mais pelos colegas, que não conseguiam entender a disciplina e, por isso, repetiam centenas de vezes a mesmíssima questão. Eu enlouquecia... fechava os olhos e bufava feito boi bravo. O sermão vinha sempre ao final da aula... ouvia quieta-calada-muda-e-imóvel o argumento de que cada um tem o seu tempo de aprendizado e, se para mim era mais fácil, para os outros era mais difícil.

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Escutei o mesmo discurso várias vezes... dada a repetição das palavras, cheguei a antecipá-las mentalmente. Nunca a afrontei... sou do tempo em que se levantava toda vez que o professor entrava em sala de aula. Do tempo em que criança só falava quando alguém lhe fazia uma pergunta ou se o adulto concedia a vez, após sua interminável fala... aprendi, contudo, a não ouvir... um aprendizado que me acompanha até hoje. Não escuto, como se dentro tocasse um bom e velho Blues, com o potente som de um sax vibrando suas notas... as pessoas gostam de esbravejar desaforos, mas eu não sou obrigada a ouvi-los... Não gosto de discussões infundadas, conselhos, tampouco... sermões, menos ainda. Sou aberta ao diálogo, contanto que haja respeito às posições firmadas. Ninguém é obrigado a baixar a cabeça e concordar, mas é sensato lembrar que todos nós temos voz.

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Drops | Por Joaquim Antônio

PÉ CALÇADO — PÉ DESCALÇO Pé ante pé, revejo meu destino. Em passos largos, para um ancião que acordou e extremamente lentos, para uma criança que nem pensa no porvir. Assim, no hoje, tento ser sucinto na minha caminhada, talvez por timidez, quem sabe por entender e oxalá um dia, por sabedoria. Se me vissem nesse momento, calçando minhas sandálias do tempo, diriam ser exagero, pois minha aparência não lembra em nada um velho senhor e nem eu poderia explicar. Como saber de onde me vem essas lembranças de voos livres, guiados pelo beija flor que me ensinou voar. O gosto de plânctons em água salgada, não só no meio, mas do fundo do mar. Algumas lembranças se explicam facilmente, diante os dias descalços de criança, onde podia ser tudo que houvesse no sonho, de um modo, para alguns, esquisito, onde me via como pequeno índio, onde a divisão entre o céu e terra, era sequer possível de se pensar. Mesmo assim, o gosto já era sentido pelo menino, que sempre descalço, era perseguido por seus instintos, em forma de grande lobo, que o fazia correr para salvar sua vida, sem nunca entender o porquê de persegui-lo, até o dia que o lobo o alcançou e em vez de machucálo, lhe ensinou a perder o medo de ser feliz. Até o dia que precisou se deixar crescer. Sim, se deixar, pois

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não havia nenhuma lógica na mágica que deixava as pessoas grandes, ao contrário havia a perda do amigo invisível que ele sabia, por instinto, podia nunca mais retornar. Olho para meus pés, sapatos lustrados a ponto de poder se espelhar. Mas os sapatos estão apertados, coisa que sempre acontece, quando a criança quer novamente caminhar. Antigamente os retiraria correndo, do mesmo modo que o fazia ao descer o barranco próximo da escola e voltar para casa sorrindo, mas repleto de terra vermelha até nas roupas de baixo. Ou quando passava pelo horto e os mergulhava na água gelada que ainda brotava por ali. Engraçado que não sinto tanto a pressa da criança, pois hoje em dia, a pressa dos adultos me toma tempo demais. Tenho necessidade de encontrar alguma lógica, entre os pés nus da criança e os protegidos, do velho senhor que agora estou. Senhor este, que nada tem haver com o tempo atual, pois tanto o senhor quanto o menino, aparecem quando mais necessito de orientações. Um, sempre trazendo vislumbres de um futuro esperado, já o outro, ecos de lições do passado. E no meio de tudo isso, o nosso presente, em formas de linhas escritas e revistas, onde realmente consigo mostrar, o melhor cada um. Portanto se um dia me encontrarem por aí, não estranhem estar apenas com um pé de sapatos, pois às vezes o menino e o velho, teimam em se encontrar.

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Drops | Por Thais Barbeiro

PALAVRAS PARA DESATAR NÓS Sonhei com a imagem de um caderno e suas linhas brancas... estava sobre a mesa, e parecia esperar por mim, como se me convidasse a escrever minha vida em suas páginas, derramando ali a minha essência. Me senti transbordar em frases prontas e perfeitas como se minha mente tivesse aceitado o convite feito por ele... imediatamente. A atriz que vive em mim, assistia — atenta — o movimento da caneta sobre o papel, como se fosse um personagem tomando conta da mulher que sou... Eu gosto de escrever a olhar pela janela... percebendo formas inusitadas, figuras insossas. Os dias de sol e sua luz dourada resvalando em tudo, inclusive em minha pele... me inspiram. Sou toda alegria. Também gosto de estar na companhia de meus três gatos, porque há algo de mágico em suas presenças. Eles me observam dentro do meu silêncio, devidamente compartilhado... como se as minhas primeiras notas fossem tomando forma dentro de seus olhos agudos e calmos. Uma espécie de diálogo que culmina numa explosão de sentimentalidades várias... Às vezes, fecho os meus olhos... respiro fundo e tudo se liquefaz em palavras que chovem junto a folha de papel. Uma a uma, vão surgindo. Não sei dizer se escrevo por amar escrever... sei que o faço porquê de tão cheia, preciso esvaziar-me.

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Convite


Drops | Tatiana Kielberman

MORANGOS A BEIRA DO ABISMO Conheci Rubem Alves nos tempos de adolescência... em trechos lidos em cartas, diários e, também, em livros... suas palavras simples e fáceis me alcançaram de tal maneira que era como se ele fosse capaz de exprimir tudo aquilo que minha alma tinha o desejo de dizer ao mundo... Anos mais tarde, esbarrei — por sugestão de uma amiga escritora — nos livros do autor... e me deparei com uma singeleza que, dificilmente, eu encontraria em outra ocasião-pessoa-lugar... Juntas, partilhamos impressões sobre a amplitude de pensamento, o estilo de escrita e os temas escolhidos por Rubem Alves... em uma espécie de viagem mágica, na qual optei por embarcar apenas com passagem de ida! Desfiz 75 anos me apresentou a um compilado de crônicas do autor, que usou o livro para celebrar seus 75 anos de existência... geralmente nos referimos a fazer anos, e não a desfazê-los... mas o mestre nos explica: à medida que o tempo passa e a morte se aproxima, seria inegável — para ele — admitir que cada aniversário se torna um ensaio de despedida, uma espécie de adeus...

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A gente vira a página e aprende... com suas citações, com os títulos escolhidos e, principalmente, com tudo o que escreve. Em “Morangos à beira do abismo”, Rubem Alves traz a história acerca de um rapaz que fazia uma caminhada pela floresta quando, repentinamente, escutou o barulho de um leão. O homem teve grande pavor e se pôs a correr, mas a floresta era fechada, o que fez com que ele caísse em um precipício. Em estado de desespero, agarrou-se a uma raiz de árvore, que saía da terra, permanecendo pendurado sobre o abismo. Ao olhar para frente, na parede do precipício, parecia crescer um pé de morangos, no qual havia um moranguinho, gordo e vermelho, ao alcance das suas mãos. O rapaz se sentiu encantado e, então, colheu o morango, esquecendo-se — por um instante — de todo o resto. Degustou o fruto... delicioso, e sorriu, sentindo-se grato de que existissem, na vida, morangos à beira do abismo… Essa pequena história me trouxe uma certeza epistolar... de que, a cada manhã, viver torna-se verbo infinitivo no instante em que o sol nasce em minha janela. Estou o tempo todo à beira do abismo (quem não está?), mas existe sempre um morango para saborear que, no momento, atende pelo nome de: "o amor que acende a lua"...

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Drops | Por Marcelo Moro

FURTEI RUBEM ALVES (meu primeiro roubo)

No Japão furtam calcinhas de varais Nos cemitérios, dentes de ouro, enfeites de bronze Nas Igrejas, furtam livre arbítrio, esmolas Tive um amigo que furtava espirais Sim essas molas vagabundas dos cadernos Um rabino furtava gravatas Mas planejava ir além, ternos Conheci um patrão que furtava direitos E um cara esquisito que furtava defeitos Isso, exatamente isso, roubava para si os defeitos dos outros Uma menina que roubava livros E lia tudo que era proibido E tinha um álibi, ...sua mãe roubava rosas e chaves

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Prenderam uma mulher furtando chá E o dono do supermercado furtava, furta e furtará E tudo começou sei lá, quando furtaram a maçã Ou antes quando o oleiro furtava o barro E o gigante roubou o fogo Eu mesmo furtei e não devolvi Uma primeira vez e nada de sensação esquisita Não me arrependi Ninguém se arrepende afinal O ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão E furtemos, o fortuito, o gratuito e o proibido Furtam de tudo, rim, fígados e coração Furtam o fruto do quintal do vizinho Apenas pelo prazer de furtar

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CRÔNICA | Nostalgia, aventura (e cervejas)

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eja bem, não me entenda mal. Não sou reacionário, passadista, há tempos que me esforço para deixar de ser nostálgico. Porque cada vez mais acho a nostalgia o fascismo da memória. Sim: lembrar é importante, a memória é o que nos faz humanos, mas nostalgia é outro negócio. Nostalgia é política daninha, nostalgia é marketing ruim, é uma engenhoca mental que pode nos aprisionar em desvãos pouco recomendáveis. A nostalgia está para memória assim como a aventura está para o turismo. É outra coisa. Talvez um rebaixamento da experiência, um universo edulcorado, frequentemente falso, uma impostura esperneando sua pretensa verdade. Tenho lutado contra a nostalgia. É difícil, todavia. Esses dias meu boteco predileto atravessou a rua em Santa Cecília, aqui em São Paulo, e foi para um logradouro a princípio melhor, mais novo, mais ajeitado, moderno e cômodo. (O imóvel antes era ocupado por uma videolocadora, e é lícito dizer então que o streaming ajudou o boteco, tão real, a desbancar um negócio que sobreviveu mais do que deveria graças à nostalgia.) Ainda não o conheci — faltou tempo, e também coragem. Receio desgostar de cara, temo não aprovar a mudança e me enredar (novamente) na teia horrorosa da nostalgia. Porém, se na chamada “vida real” a nostalgia pode ser corrosiva e paralisante, nas artes da imaginação ela me parece essencial. Como combustível, a nostalgia é parte constituinte da própria criação literária.

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| Por Leandro Sarmatz

A literatura ocidental, que começou sob o signo da aventura homérica, iria se nutrir da nostalgia desde o princípio. Pois ela é a fonte primordial da aventura. Exércitos empreendem uma guerra para reaver o status perdido; busca-se a amada para recriar um éden de paixão original; sujeito embarca num navio para reencontrar as paragens da infância. Sempre que há ação, a nostalgia está lá, explícita ou bem disfarçada. É mesmo paradoxal. Porque realmente, na vida cotidiana, a nostalgia é uma botinada na memória, é uma violência e uma prisão. O que diferencia, digamos, um sujeito que fica com muxoxos diante da mudança de seu bar predileto e aquele que, num poema, romance ou filme evoca um passado? Antes que você diga, claro, o talento, acho que tem alguma coisa além disso. Talvez o filtro da linguagem seja a grande questão. Porque quando você reconstrói uma cena antiga — numa crônica, digamos —, é necessário um esforço organizador entre a memória e os limites (reais, possíveis) do próprio meio de expressão. É aí, então, que começa a aventura: a nostalgia deixa de ser um objeto em si (um telefone de baquelite anunciando uma ligação perdida) e passa a ser algo significativo não apenas para uma pessoa. Ela vai falar algo para quem lembra e para quem lê (ou escuta) essa memória alheia. Pensando bem, acho que vou fazer um poema pelo meu querido e velho bar Ugue’s.

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CRÔNICA | O Mário que não é de Andrade

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ntes de rascunhar o texto do livro O Mário que não é de Andrade, como sempre, preparei o terreno: espalhei, sobre a mesa, os livros do Mário, sobre a semana de 22, suas cartas, tudo. Na parede, fiz um mural com fotos do escritor com a família, com os amigos, na praia, no meio do povo, em sua casa, entre os livros, sempre rindo. Aquele riso aberto, franco, aquela simpatia já me contagiava. Conhecia a obra do escritor homenageado da FLIP 2015 como artista e intelectual, mentor da Semana de Arte Moderna, autor de Macunaíma, pesquisador da cultura popular, a atuação no Departamento de Cultura de São Paulo. Era fã de carteirinha, desde a adolescência. Mas e a pessoa? Precisava ter uma certa intimidade para inventar o meu personagem. Queria conhecer o Mário do dia a dia, como filho, irmão e amigo. Fui então, reler suas cartas — Mário escreveu milhares de cartas para os amigos; dizia que sofria de “gigantismo epistolar”. São cartas íntimas, bem à vontade, sem salamaleques, “cartas de pijama”, como ele dizia. Em, Mário de Andrade — Cartas a Manuel Bandeira, ele escreve sobre uma festa futurista:

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| Por Luciana Sandroni

“…em vez de voltar do baile à uma hora, voltei às seis e trinta, pleno dia. Esteve estupendo. (…) O Segall pedira 3 contos pra decorar três salas. As outras decoradas por não sei quem, muito idiota, sem alegria, sem beleza, porcaria. Em compensação a sala do Segall era maravilha. Um espírito, um colorido, uma leveza, uma alegria estupenda. Em vez de flores, vegetais comestíveis! Uma pândega.” Aquela descoberta me espantou: então o célebre escritor ia às festas e voltava de manhã! Mário de Andrade, o papa do Modernismo se divertia a valer… Em A lição do amigo, cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade, o artista comenta sobre a mesma festa e dá um “puxão de orelha” no poeta, que devia ser bem sério: “Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma boa tocata de Bach… (…)”

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CRÔNICA | O Mário que não é de Andrade As fotos do meu mural refletiam bem aquela alegria de viver. Com a leitura dessas cartas, Mário foi se tornado mais próximo, mais real. Mas, e o Mário como filho e irmão? O Mário em família? Lendo o livro A imagem de Mário, organizado por Telê Ancona Lopes, descobri que seus contos são baseados na própria infância e na adolescência. Numa entrevista, ele comentou: “Aliás não tenho nenhum personagem nos meu livros que seja inventado por mim. Todos eles existem ou existiram”. Mário era de uma família de classe média de São Paulo. Cresceu com os pais, irmãos, primos e tias. Vi esse cotidiano no conto Peru de Natal, que fala sobre o primeiro Natal depois da morte do pai: “ (…) Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas ‘loucuras’. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável tia; e principalmente desde as lições

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| Por Luciana Sandroni que dei ou recebi, não sei, duma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de ‘louco’. ‘É doido, coitado!’ falavam. (…)” Depois da leitura desses contos, já me sentia bem íntima do Mário e percebi que até nas conferências ele era autobiográfico. Na famosa palestra “O Movimento Modernista”, ele comenta como teve a ideia de escrever seu primeiro livro de poesias modernistas, Pauliceia desvairada. Ele havia comprado uma escultura de Brecheret, uma “Cabeça de Cristo” e, quando a levou para casa, a “parentada” correu para ver: “(…) E pra brigar. Berravam, berravam. Aquilo era até pecado mortal! Estrilava a senhora minha tia velha, matriarca da família. Onde já se viu Cristo de trancinha! (…) Fiquei alucinado, palavra de honra. Minha vontade era de bater. (…) Fui até a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o título que jamais pensara, ‘Pauliceia desvairada’.” Através dos seus poemas, contos, romances e cartas fui chegando perto, me aproximando de um Mário menos “monumento” e mais amigo. E, a partir daí, construí o meu Mário personagem. E, claro, sempre contando com aquele riso aberto, franco, das fotos do meu mural.

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Crônica: Casa Secreta | Por Juliana Ferreira Barbosa

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asas são descobertas. Imagina o mistério da uma favela, dos bairros suburbanos com tantas casas. São morros cobertos, as árvores tornaram-se casas, os frutos as pessoas-histórias. O amanhecer é feito de casas frescas amornando-se, luzes ainda acessas, pessoas quase não se vê, dormem ou saem quase que invisíveis para o trabalho, sentem sono. Pessoas escondidas, histórias vivas e o movimento eterno. As casas falam, mas falam pouco, só palavras soltas, sussurradas. Que vidas existe em uma só construção humana dura? Abre-se a porta, alguém à abre. Porta aberta é convite. Venha, viva! Profundidade de amor que também contém desamor, tristeza. As paredes imóveis e rígidas estão mergulhadas em vida. Será que por isso logo cedo as casas não se contém e sussurram? Casa secreta de Irajá, a mais falante e desconhecida. Conta altos sussurros sobre seus viventes. Ela é estranhamente linda. Plantas na sua varanda, varanda ilimitada. As plantas e avaranda gritam uma ou outra palavra e logo falam um tanto de coisas baixinho, baixinho… Não entendo. Ao redor dela há outras casas, são todas amigas, tenho certeza. Contato e histórias perpassam. Estão todas entrelaçadas.

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Cada vez que passo por essa casa sinto um pouco, bem pouco de uma misteriosidade… Imagino: Casa secreta de Irajá anoitecida, segredos tamanhos de quase dor doce. De longe sobre altos e enormes morros as casassecretas formam um só ser brilhante. O nome dele: Favela. A ele importa pouco o nome dado por seres que não o são. Atende por Favela saborosamente indiferente. O ser brilhante é, é vidas muitas e inexplicáveis. Se convidado, chegue, entre. Uma casa, um ser de casas tem a surpresa viva.

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Carta a Rubem Alves | Por

Emerson Braga

Rio de Janeiro, 19 de julho de 2014

Prezado doutor Rubem; Foi com tristeza e certo alívio que eu soube de sua morte. A angústia, para nós dois, acabou. Não irei mais amolá-lo com minhas feminices, com essas coisinhas de mulher que me abrem feridas por onde escorrem pensamentos e desejos que eu não queria. Façamos desta carta nossa última sessão. Quem sabe, ao direcionar meu pensamento à sua memória, eu consiga alcançar sozinha aquilo que ignoro, e que me devora. Doutor, estou cansada de tentar relembrar quem sou. O senhor recorda da primeira vez em que nos encontramos? Marquei uma consulta por telefone e, antes de ser anunciada, raivosa, invadi sua sala tendo em minhas mãos como refém seu livro O Medo da Sementinha. Perguntei por que o senhor contava aquelas mentiras às crianças, por que dizia que o mundo aqui fora é mais gostoso, lembra? Desde então desenvolvemos uma estranha relação, em que eu subvertia minha condição de paciente e tentava analisá-lo, a fim de aproximar-me um pouco da maneira fresca com a qual o senhor conduzia a própria vida. Poucas vezes conversei com o psicanalista Rubem Alves. O teólogo e o contador de histórias trabalhavam muito mais que o doutor. Mas foi o cozinheiro quem me deu um importante conselho, antes que o senhor se aposentasse. Obrigado por responder todas as cartas que enviei depois que fui viver no Rio.

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O senhor não precisava ter-se dado ao trabalho... Talvez nem sequer devesse. Doutor, por que estas coisas, que nunca me aconteceram, me acontecem sempre? O senhor dizia que no mais profundo do inconsciente mora a beleza... Pois em que recôndito veio cerebral esconde-se a minha? Por que as noites que vivo não têm mistérios?! Sabe, eu queria tanto um dia, satisfeita, lamber das pontas de meus dedos o caldo de uma realização verdadeiramente minha! Por causa de nossos encontros, comecei a cozinhar. O senhor ― que de psicanalista tem apenas a disposição para ouvir ―, indicou-me a culinária como terapia. Disse que a cozinha talvez provocasse movimentos em minha alma capazes de me fazer encontrar o objeto de minha fome. No começo, dava-me até certa satisfação assistir a meu esposo e filhos degustarem com prazer minhas ousadias gastronômicas. Mas, depois, acabei tomada por um terrível tédio, uma necessidade de devorar, de ser devorada, mas a fome não vinha. Nunca vem. As coisas perdem o sabor mesmo antes de entrarem-me pela boca. O senhor sabe. Sempre fui muito boa em adivinhar coisas óbvias e em tratar minhas pequenas descobertas como indício incontestável de meus dotes premonitórios. Por exemplo, jamais permiti que o leite fervesse a ponto de transbordar sobre meu polido fogão. Acredito que realmente eu consiga sentir quando as coisas estão prestes a fugir do controle. Diligente, diminuo a chama e deito anônima ao lado do estranho que há quinze anos tomei por marido. Hoje, ele não irá me tocar, penso e logo em seguida adormeço satisfeita por meu talento em prever aquilo que, por quase toda minha vida, se mantivera imutável. Meus filhos me odeiam, meus vizinhos riem de mim, meu pai

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Carta a Rubem Alves | Por

Emerson Braga

morrerá hoje, digo para mim mesma todas as manhãs, como se a masturbação psicológica da qual me tornei dependente fosse uma voz interior, uma intuição que nunca falha, ou quase nunca. Papai não morreu. Amanhã, quem sabe. Ontem fui à feira. Em uma das barracas, depareime com uma suculenta cebola cortada, de interior tão viscoso quanto a parte mole das ostras. Cebolas, não. Há cebolas demais, todas cortadas. Este peixe está excessivamente fresco, chega a ser repugnante seu viço, não me serve. O jenipapo é quase um pecado, acidulado e de aroma forte; de tão doce, nos envenena o esquecimento. Deixarei os jenipapos. Levarei limões. Com minha felicidade insossa, doutor, percorri os diversos quiosques da feira. Sem pressa, fingi-me exigente e atenta à putrefação dos orgânicos, enquanto aspirava o cheiro dos feirantes, dos homens corpulentos que carregavam caixotes sobre as costas bubalinas. Ah, seus peitos peludos e suados à mostra, seus pés descalços e unhas encravadas, brutos, sujos, deliciosos e fornicáveis brutamontes de merda. Por que sinto tanto apetite pelos homens e, ao mesmo tempo, tanto entojo? O corpo ― não só o meu, o deles também ― exala abundâncias e penúrias, linguagens e silêncios, pureza e depravação. As muitas sensações me causam náuseas e fazem com que eu, repetidamente, vomite aquilo que me recuso a comer. Tenho nojo de homem, doutor Rubem. Nojo. Inclusive do senhor, que tem orgulho em exibir sua opulência de sabedoria e graça, enquanto a maioria das pessoas, tísicas, famintas de discernimento, convive frugalmente com a própria estupidez e ignorância. Nojo! Nojo de

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todos os homens, doutor! E acho que os abomino por desejá-los tanto, tanto! Desculpe-me. A feira. Falemos da feira. Quando completei minha lista mental de paliativos culinários, emurcheci. Eu não queria ir embora, ainda sonhava com mais alguns esbarrões em corpos suados, com outras tantas esfregadas que transformam a feira em meu lugar no mundo, onde amenas sacanagens são permitidas. Minha transgressão de dona-decasa, meu voluptuoso e solitário puteiro. Criada dos horários, cronogramas e rotinas, tive de deixar os homens e hortaliças viçosos para trás, pois ainda precisava passar na costureira e verificar se o arremate do vestido da cerimônia de primeira comunhão de minha filha havia ficado como o da revista de moda. Minha caçula vestida de branco, recebendo o corpo e o sangue de Cristo, comungando com Deus, enquanto eu troco jenipapos por limões. Minha filha será uma mulher melhor que eu, fará compras no eBay, não na feira-livre. Antes que eu chegasse à casa da costureira, doutor, encontrei uma gravata. Sim. Uma gravata. Repentinamente, minhas sensações premonitórias tomaram-me de assalto e alimentaram de uma fome selvagem meu espírito manso e domesticado. Busquei infinitas razões para aquela peça de indumentária masculina estar ali, entre o peixe fresco e a hóstia consagrada. Olhei para um lado e para o outro com a astúcia de um gatuno, recolhi a gravata do chão e enfiei-a de um único golpe na sacola abarrotada de carnes, frutas e leguminosas. Sou uma vadia, sou uma ladra, sorri satisfeita de meu pobre delito, o qual julguei inominável.

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Carta a Rubem Alves | Por

Emerson Braga

Eu não queria macular ― com minhas mãos sujas de alface, frango e, ai, aquela gravata! ― a brancura virginal do tecido que vestiria minha filha para o tão esperado ritual cristão. Uma gravata vermelha. De seda. Não, não havia sido uma coincidência, só mesmo o destino, ai, o destino. Antes de segurar o embrulho que guardava o vestido, lavei-me cuidadosamente em uma torneira de jardim. Ninguém faria melhor, igualzinho ao da revista, vai parecer uma santa. Paguei à mulher pelo serviço e dela despedi-me com um quebradiço sorriso. Entrei afogueada no carro. Displicente, atirei a sacola de compras e o pacote da costureira no banco de trás. Antes de dar partida na fálica Frontier de meu esposo, espiei pelo espelho retrovisor e admirei-me de minha conquista: Deus e o Diabo sentados lado a lado, feito dois irmãos. Ai, como fui tola, deveria ter trazido os jenipapos. Nunca senti tanta vontade de chegar a algum lugar, doutor. Decidi que eu deitaria nua e suada sobre a cama que meu marido parece incapaz de manter aquecida e me enroscaria naquela gravata. Eva e a Serpente a debocharem de um Adão combalido. Sementes de jenipapo perfumarão minha vulva que cheira a peixe fresco. Pisei fundo e cheguei a casa antes de adivinhar aquilo que logo aconteceria. Ignorei completamente a imprevisibilidade das coisas e mal percebi que, muito em breve, eu seria traída. Minha filha ficou linda dentro do vestido de primeira comunhão, girou pela sala feito uma princesa casta, deixou-me tonta, envergonhada. Menti que precisava

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de um copo d’água e fugi para a cozinha. Primeiro o coentro, depois as bananas, as beterrabas, as cenouras. Tirei tudo cuidadosamente da sacola. Pimentões, berinjelas, castanhas e caquis. Enfim, recolhi o sensual tecido sedoso, vermelho, e levei-o ao quarto como quem orienta os passos de um amante. Minha filha girando e girando e girando na sala de casa. Ao abrir a porta, para minha infeliz e pérfida surpresa, encontrei meu esposo ainda ali, pela primeira vez em anos, atrasado para o trabalho. Não acho minhas gravatas, onde estão minhas gravatas, esbravejava ele enquanto revirava gavetas e armários. Desisti de meu libidinoso sonho. Eu não poderia concretizar meu intento em cometer adultério, tudo estava perdido. Ergui o braço como quem se rende e se suicida, incólume. Toma, comprei pra ti. Ele agarrou a peça com frieza e traçou o nó ordinário ao redor de seu pescoço pouco venoso, sequer sentiu o cheiro de feira impregnado no delicado tecido. Depois segurou sua maleta repleta de assuntos mais importantes que eu e abandonou nosso quarto. Escrevo esta carta, doutor, deitada sobre a cama que poucas vezes me deu prazer. As malditas colchas sempre arrumadas, os lençóis limpos. Por que eu sempre trago da feira limões, ao invés de jenipapos? Ainda há pouco, eu havia posto minhas duas mãos, em gesto de oração, entre minhas pernas insatisfeitas, juntas ao sexo frustrado, e lembrei de minha filha vestida de branco. Desisti de lutar contra aquilo que minha psique intuía. Pensei: Procurarei doutor Rubem Alves. Mas doutor Rubem está morto. Como contornarei as dores de minha boa esperança? Por que minha história é contada em um cenário do

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Carta a Rubem Alves | Por

Emerson Braga

qual sou apenas objeto, e não sujeito? O senhor dizia que eu precisava relembrar de quando era viva, deveria ter me ensinado o mais analgésico e tranquilo dos esquecimentos. Falava para que eu aprendesse a ter fé. Mas, de que me sevem, em um mundo exibicionista e prático, os mistérios da fé? Sinto tanta fome, doutor Rubem. Tanta. O senhor não tinha o direito de voltar a ser menino antes de me ensinar a brincar sozinha, no vazio.

Vera Limbus

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Mário de Andrade... Por Obdulio Nuñes Ortega

"Mário, o via calado — fotos não falam! Se bem que, através de suas linhas, o imagino Macunaíma, desesperado para viver e ser mais e além! Um ser visceral, que recriaria o homem, de manso para imenso! Que queria um dia ver o seu corpo espalhado pelos cantos de São Paulo, quando, então, se tornaria um com esta cidade - asfalto e concreto e homem e mulher!"

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Para quem voa, é permitido o infinito Por Mariana Gouveia "Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar

mágico. Mas são poucos os que têm coragem de tentar." Rubem Alves Ouço a melodia das asas no meu quintal e transporto-me para a dimensão das lembranças. Vou te contar como aconteceu esse amor alado e talvez só depois, entenderá que sou feita de asas. O dia, era qualquer coisa entre 30 de um friorento junho e o dia primeiro de julho. A água no fogão de lenha sempre aquecida na espera de um nascimento rompante. Todos a postos na cozinha, na sala e o pai, entre a agonia de ouvir o choro ou o grito da Dona Fulô, dizendo nasceu — foi assim com todos os três primeiros filhos. Lá fora, uma garoa fina os mantinham ali, próximos do fogão a lenha e na atividade de picar a galinha para o caldo. O olhar da parteira era preocupado. Levava muito tempo entre dores, contrações e quietude. A cidade ficava um pouco longe. E foi ali, entre a espera e a busca de ervas para um banho ‘apressador’ de nascimento que ela viu as asas. Um movimento frenético de quem se afogava e tentava sair da poça. Invocou os santos todos que conhecia e salvou a borboleta que debatia desesperada para voar. Um voo meio desequilibrado e sem jeito e um pouso forçado na dobradiça da janela. E ali, entre o espiar da borboleta colorida, depois de uma manhã inteira de esforços, eu nasci. As mãos de Dona Fulô me trouxe ao mundo e como era

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costume presentear quem nascia com uma evocação ao universo, me foi oferecido o poder alado — como ela dizia — e que o espaço me recebesse com o dom divino de comandar as asas. “Que ela tenha o poder sobre o que voa, sempre em favor do bem e do acolhimento. Que ela seja acolhida pelo que voa, entre o pouso e a dimensão do vento. Que sobre ela venha a atitude de emanar coragem. Rogo a todos os deuses, declaro, oro e ofereço à ela a escolha de querer ou não quando assim tiver o discernimento para escolher, se prefere a asa ou o chão. E assim será! Oxalá!” Ouvi essas palavras minha infância toda e com o tempo fui me acostumando a ser a menina borboleta, porque incrivelmente onde quer que estivesse, surgia uma. Entre voos mirabolantes e crisálidas perfeitas. Eu amava o movimento das asas. E um dia, quando pude escolher, já nem precisava mais. O nome já era ativo entre meus irmãos. E fizesse sol, ou chovesse, havia qualquer coisa de asa onde eu passasse. Primeiro as borboletas e suas espécies mil. Depois, vieram os pássaros e suas variantes. Depois, o sonho de voar com as palavras. Muitos achavam estranho. Outros, admiravam. E eu cresci, entre a magia de uma fada que me deu poder de voar e um lugar que tinha um portal para a imaginação. De repente, elas vieram para minha mão. Entre a confiança da espera e o encanto que me proporcionava e assim, mesmo depois de anos, continuei a ser a menina borboleta, onde as palavras voam em direção ao universo. Relembrando tudo isso com meu pai, ele diz, entre um saudosismo quase infantil, na doce instância dos seus 81 anos que meus pés são fictícios, que na verdade, tenho asas. E para quem voa, é permitido o infinito.

E você, se permite voar?

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Nem sempre a lápis | Bianca Velloso — a casa — a casa que em mim habita tem um quintal cheio de primos tem cheiro de churrasco e barulho de máquina de costura

a casa que em mim habita tem joelho ralado de traquinagem e as broncas de um avô duro e doce a casa que em mim habita tem tatu bola e maria-sem-vergonha e é confeitada com pedaços de memória

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POESIA

a casa que em mim habita tem samambaias e risadas tem esconde-esconde e pega-pega e os mistérios do quarto de uma bisa bugra


Nem sempre a lápis | Ivana Arruda

POESIA

A vida hoje dói-me barbaridade. A paixão esfacela-me a face e cava em meus dentes buracos imensos que me levam à loucura quando provo doce (há tempos não ponho nada de mel na boca…) As raras alegrias me consomem o fígado. Quando estou alegre bebo o excesso. Algumas amizades me estimulam a miopia tal o esforço que faço pra vê-las, tão longe se avistam. Certos carinhos me dão bronquite e os homens quando querem ser gentis sempre me fazem menstruar. De gordura me fartam certos amores que só servem para estragar o delírio. O sexo visto de perto é tão curto que sempre amolece o pinto que trago no gozo imaginário. A vida real talvez só seja legal no disco da Betânia. Pra mim ela não passa de um caminhão se arrastando numa roda só. Tão cruel como os filmes do Buñuel.

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Nem sempre a lápis O QUE VOCÊ FARIA O que você faria se não pudessem te ver? Brincaria de casinha aos 35 anos. Seria a dona das mansões da Barbie. Faria Cooper na grama, escalaria o monte Everest. Teria uma fortuna em sorvete. Daria um longo abraço no cristo redentor.

Seria culpado por colar na sopa de letrinhas. Mergulharia de cabeça na palavra SIM. Confessaria os seus pecados ao amigo imaginário. Surtaria se não pudesse ouvir musica brega. Usaria rosa e dançaria lambada. Sentaria nas escadarias das lembranças e soltaria o riso. Se não pudessem te ver, o que você faria? Comeria uma pizza inteira sem culpa. Acordaria bem cedo, só, para voltar a dormir. Acamparia no quintal. Eternizaria as palmas das mãos na calçada do vizinho. Limparia as vidraças da alma para espiar melhor. Se não pudessem te ver, o que você faria?

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POESIA

Se não pudessem te ver, o que você faria?


POESIA

|

Vinicius Eduardo Carvalho

Brincaria de esconder com a sua mãe de 65 anos. Confundiria o medo, seria por inteiro. Faria parte do mar fazendo ondas com os pés. Pintaria o céu com as cores que a imaginação quiser. Assaria um bolo no sol, docinhos de estrelas, pudim de lamber os dedos. Ah o que você faria se não pudessem te ver? Romperia as barreiras do som cantando no chuveiro. Chegaria de surpresa na sua festa de aniversário. Compraria flores e mandaria entregar aos seus braços. O que você faria?

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Nem sempre a lápis | Nil Kremer

— Sobre a saudade —

O jogador imaginado ficou no encantamento do futebol Assim como a magrela preta companheira de mil aventuras o taco jogado na rua em que passarinhos voavam em bando bem te vis sem visto O choro bonito ficou Pra o amor puro da casa laranja Anja do frio na barriga

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POESIA

O campinho do menino ficou onde o ar tem cheiro de infância o lugar sensação de abraço pessoas semblante de família


POESIA

A rua, casa, família, amigos paisagens ficaram na lembrança que paira longe onde o tempo soprou as cartas O menino seguiu o som sonho que melhor apeteceu Arriscou outra paragem novos percursos outras urgências passos largos na inclemência do possível, que é quase Segue a idade da distância que ficou nomeada por saudade

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Nem sempre a lápis | Adriana Anelli

Chegadas e Partidas Quem conhece felicidade esgota o medo na boca molhada roupa amassada cabelo embaraçado

Nos olhos de quem fica esta saudade que parte.

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POESIA

Coração emburrece na espera e se aquece esquece tenta de novo


POESIA

Nem sempre a lápis | Marcelo Moro

Ainda na Pele A eletricidade O tom cálido. Duas gotas equilibristas ...de libido e suor que Sabem de cor o caminho do arrepio. E deslizam pelos contornos — sem desvios (apenas) pinceladas de mestre: ...óleo sobre tela!

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Nem sempre a lápis | Nil Kremer Já não te mostrarei meu pôr do sol Minha lótus não perfumará teu travesseiro Você não saberá dos meus acréscimos e débitos Não rolará mais a pipoca doce ou salgada Tudo estará melado meu bem . Melado com gosto amargo de vazios Fios em curto Circuito rompido Filhos não plantados Plantas omitidas Bobagens represadas . Tua estrada não cruzará minha encruzilhada E nem bobinha nem chata te aquecerá com pés frios . Porque meu amor mudará de endereço Não pagará o preço De ser metade . Meu amor Vai morar em mim Fim

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POESIA

Perdeu playboy


Enquanto a chuva não vem...

Nem sempre a lápis

Amor e dor, amor e perda, amor e alegria, amor e chegada, amor e partida. São essas as combinações poéticas que dão o tom do livro 'Poemas para dias de chuva', de Franck Santos. O livro será lançado em breve em São Luís, foi publicado pela Editora Patuá, SP, com 120 páginas e está dividido em três partes: Relâmpagos. Trovões. Tempestade. O livro apresenta poemas para serem lidos não apenas num dia de chuva, como remete o título; mas em dias de sol, noites de luar e na penumbra do quarto. A maioria são poemas curtos, alguns lembram a milenar forma de haikais, mas há essa coisa suave ou amarga de colocar nas letras o que a alma, o coração e o corpo sentem. Esse traduzir-se. Franck Santos escreve constantemente, mas seus escritos estiveram guardados até o advento dos blogs, quando veio à necessidade de mostrar o que escrevia, assim como trocar ideias e experiências com outros escritores e pessoas afins. Em 2011 publicou de forma independente 'Fogo Fátuo' e em 2014 'Quando o azul não desbotava' (Penalux), ambos de prosa poética e fecha com esse seu 'Poemas para dias de chuva' a trilogia sobre os elementos fogo, ar e água.

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Nem sempre a lápis | Franck Santos Eis três poemas que fazem parte do livro: No umbigo da noite, levo-te vinho. Seda. Penumbra. Meu corpo. Na boca mil vezes 'eu te amo'. E o azul-lilás do olho do furacão.

Noite de frio sua boca como uma luva.

Às vezes minha solidão queima para acalmá-la invento geleiras. Às vezes para tentar afogá-la invento fogueiras.

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Sou poeta só de crise | Por

Simone Teodoro

Morro de medo de clichê. Por isso escrevo pouco. Escrever poesia é foda: posso cair na baranguice do pieguismo, fácil, fácil. Tendo a isso, confesso. Ou então enveredar por uma poesia pseudo-hermética, daquelas cerebrais ao extremo, carregadas de termos filosóficos e neologismos metidos a besta e que não dizem nada. Tanto de palavra oca. Não repetir o ramerrão do clichê e conseguir, ao mesmo tempo, não se deixar levar pela afetação linguística é um desafio. E o pior é que, para além da escrita literária em si, os clichês e a afetação estão na maioria dos discursos que a tangenciam: leitura, educação, política, etc. Quando me chamam para falar de poesia em algum lugar também morro de medo de descambar na falação de sempre. Isso é uma agonia, porque, por mais que nossas experiências sejam individuais, sempre há a experiência comunicável e é ela que preciso transformar em linguagem e é ela que , muitas vezes, se transforma em senso comum ao alcançar os discursos. Tenho que me fazer entender quando falo de poesia mas não quero ser "baranga" , piegas e previsível, então, como faço? Como faço pra escrever poesia, com alguma criatividade e com alguma originalidade, mas dialogando com a tradição, sem repetir o lenga-lenga letrado? Tem gente que pira por causa disso. Tem gente que se mata, vide Sylvia, leia A Redoma. Eu tendo a silêncios, por isso me calo e fico olhando. Na TPM, quando as portas da percepção estiverem escancaradas, libero um verso. Sou poeta só de crise.

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Quando eu gosto, eu digo | Por

Rubem Alves

Acho que já contei essa história. Não tenho certeza. Minha memória me trai. De qualquer forma, as repetições são bem-vindas. Todo compositor repete os seus temas. Tudo o que comove deve ser repetido. Foi assim. Passava diariamente à frente da minha casa uma moça. Teria seus vinte anos. Ela tinha um defeito na sua perna, o que a fazia mancar. Da janela da minha casa, protegido pelas cortinas, eu a observava. Seu rosto era bonito. E me dava uma vontade imensa de atravessa a rua, ir até ela e lhe dizer: “acho você muito bonita”... E, sem esperar resposta, voltar depressa para minha casa. Nunca o fiz, por medo. Medo de que ela não me entendesse. Fico a pensar: “por que temos medo de dizer a uma pessoa que gostamos dela?”. Minha mãe, imagino que ela gostasse de mim. Mas ela nunca me disse. Nem o meu pai. Teria sido bom se ela me abraçasse e dissesse: “meu filho, como eu gosto de você!”. Dirão que não é preciso. Discordo. É preciso. Escrevi uma carta para meu irmão mais velho que começava assim: “meu querido irmão Ismael”... Ele me respondeu espantado: “é a primeira vez na minha vida que alguém me chama de querido”. E ele já estava nos seus 75 anos de idade! Resolvi que não vou ficar mais atrás da cortina, espiando. Quando gosto, eu digo.

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Rubem Alves personagem

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Personagem | Rubem Alves

P

edagogo, poeta e filósofo de todas as horas, cronista do cotidiano, contador de estórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, autor de livros para crianças, psicanalista, Rubem Alves é um dos intelectuais mais famosos e respeitados do Brasil. Nascido no dia 15 de setembro de 1933 em Dores da Boa Esperança, uma pequena cidade do sul do estado de Minas Gerais, Rubem Alves, educado no seio de uma família protestante, muito cedo teve de se confrontar com a sua diferença. O destino inscrito na sua diferença leva-o, depois do Ginásio, a estudar teologia no seminário Presbiteriano do Sul, um dos mais conhecidos seminários evangélicos da América Latina.

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"Meu pai era rico, quebrou, ficou pobre. Tivemos de nos mudar. Dos tempos de pobreza só tenho memórias de felicidade. Conheci o sofrimento quando melhoramos de vida e nos mudamos para o Rio de Janeiro. Meu pai, com boas intenções, me matriculou num dos colégios mais famosos do Rio. Foi então que me descobri caipira. Meus colegas cariocas não perdoaram meu sotaque mineiro e me fizeram motivo de chacota. Grande solidão, sem amigos. Encontrei acolhimento na religião. Religião é um bom refúgio para os marginalizados." Concluído o seminário, torna-se pastor de uma comunidade presbiteriana no interior de Minas e casa com Lídia Nopper, com quem teve três filhos, Sérgio, Marcos e Raquel. Depressa, porém, o pastor tomou consciência de que a sua ousadia evangélica o levava para terrenos difíceis. Em 1963, viaja para Nova York para fazer uma pós-graduação. É aí que o Golpe Militar de 31 de março de 1964 o surpreende, nas vésperas de conclusão do mestrado. Defendida a tese "A theological interpretation of the meaning of the Revolution in Brazil", regressa à sua paróquia, em Lavras, onde deixara mulher e filhos. Neste período viveu sob o medo intenso da Ditadura Militar. Acusado de ser subversivo, foi listado injustamente entre pastores procurados pelos militares. Era o preço de pensar de forma não ortodoxa. Viveu o cansaço da tensão.

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Personagem | Rubem Alves "Foi então que a United Presbyterian Church — EUA (Igreja Presbiteriana Unida dos Estados Unidos da América do Norte), em combinação com o presidente do seminário teológico de Princeton, me convidaram a fazer um doutoramento. Não me esqueço nunca do momento preciso quando o avião decolou. Respirei fundo e sorri, descontraído, na deliciosa euforia da liberdade. Ainda hoje, quando um avião decola, sinto de novo aquele momento." O exílio durou até 1968. Doutorado, volta ao Brasil para se despedir da Igreja Presbiteriana e experimentar o desemprego. Em 1969, uma Faculdade do interior (a Faculdade de Filosofia de Rio Claro) acolhe-o. Aí permaneceu até 1974, ano em que finalmente ingressa no Instituto de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde fez a maior parte da sua carreira acadêmica até se aposentar nos primórdios da década de 1990. Autor de uma vastíssima obra — a sua bibliografia conta já mais de 120 títulos — Rubem Alves é um dos escritores mais célebres da língua portuguesa. "Golpes duros na vida me fizeram descobrir a literatura e a poesia. Ciência dá saberes à cabeça e poderes para o corpo. Literatura e poesia dão pão para corpo e alegria para a alma. Ciência é fogo e panela: coisas indispensáveis na cozinha. Mas poesia é o frango com quiabo, deleite para quem gosta... busco escrever simplesmente o que me dá na cabeça e no coração, embora ainda me sinta amarrado por antigas mortalhas acadêmicas”...

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Com a literatura e a poesia começou a realizar o seu sonho fracassado de ser músico: começou a fazer música com palavras. Em 1984 iniciou o curso para formação em Psicanálise. Teve sua clínica até 2004. Seu contato com os pacientes incrementou seu conteúdo que, transformados em palavras, compuseram diversas de suas crônicas sobre o cotidiano. "Sou psicanalista, embora heterodoxo. Minha heterodoxia está no fato de que acredito que no mais profundo do inconsciente mora a beleza. Com o que concordam Sócrates, Nietzsche e Fernando Pessoa. Exerço a arte com prazer. Minhas conversas com meus pacientes são a maior fonte de inspiração que tenho para minhas crônicas." Residindo há várias décadas em Campinas, Rubem Alves é um apaixonado pela vida, um compulsivo fruidor da vida. Afirma que ainda não escreveu todos os textos e todos os livros que traz no pensamento, ainda não sentiu, amou, brincou e riu o bastante, ainda não respondeu a todas as cartas e mensagens dos amigos, ainda não provou de todas as ausências e de todas as saudades, ainda não espreitou todos os mistérios do mundo e dele próprio... "Eu não tenho medo de morrer... só tenho pena. A vida é tão boa..."

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Intersecção | Por Lourival Antonio Cristofoletti

O

bom texto não pede para somente ser lido: ele quer ser percorrido, palmilhado, vivenciado, cabendo ao leitor, a um simples toque do coração, impregnar-se de sua mensagem e se transportar para aquele desafiador mundo. Sentindo-se tocado pela ajuda que brota à frente tem humildade para vestir as carapuças, certo de que aquele escrito foi feito de encomenda para ele — e como chegou em boa hora! Nem sempre vale a intenção de quem escreve, pois esta acaba se diluindo no mundo da subjetividade: o que importa é o sentido que quem lê consegue dar ao escrito, tocado que foi, de forma especial, ao vivenciar sua apreensão da mensagem. Fica nele a doce sensação que aquele era o momento certo para ler o recado que falou tão alto ao seu coração, como se, cúmplice na sua elaboração, apenas tivesse se esquecido de verbalizá-lo. A oscilação é contínua: um resgate de eventos marcantes e que poderia ter tido um desenrolar diferente se houvesse no passado essa mesma clareza de propósitos de agora. Um programa de voo temperado, de forma que as turbulências sejam, de agora em diante, bem administradas, face o discernimento que, com tanta clareza, ora se instala em seu ser. E o que é lido, como quem recorre a preces, desencadeia viagens pelo mundo das relações, certo de que esse movimento pendular tempera os sentimentos e oferece bálsamos para quem busca mais oferendas e magia em tudo vê, toca e sente.

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Mário de Andrade... Por Marcelo Moro

“Quando o vi, esses dias atrás, em risca de giz impecável poeta, estava saudando cortesmente as moças ali no Paisandú, era uma tarde triste dessas que junto com ocaso traz os anos, descemos a ladeira da São João e ele dizia : poeta nossa São Paulo cresceu em torno do mesquinho coração quatrocentista das mesmas pessoas. Mário não é um poeta, nem negro, nem branco, nem hétero, Mário é uma filosofia, é o campo das ideias.”

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Conto | Garota de Programa Ricardo se sentou, pedindo duas cervejas ao garçom... e, sem muitos rodeios, disse a Carlos, olhando diretamente nos olhos do amigo: — A sua namorada é uma garota de programa! Carlos, sustentando o olhar, após alguns instantes, respondeu: — Você quer dizer — uma “senhora” garota de programa, não é mesmo? Ricardo, agora surpreso, retorquiu: — Você já sabia? — Quando a conheci... ela foi franca comigo. Me contou que aquele era um trabalho como outro qualquer e eu aceitei o fato normalmente. — Cara, que surpresa! Não sei mais o que dizer! — Não diga nada. Alguém mais da nossa turma sabe disso? — Não, que eu saiba... eu lhe conheço há tanto tempo e não esperava que você fosse capaz de tal desprendimento. Parabéns! Na verdade, Ricardo não queria demonstrar a sua decepção diante da postura de Carlos... ele julgava que o querido amigo não soubesse da atividade de Patrícia. Desde que aquela namorada aparecera na vida de Ricardo, se sentia meio que jogado para escanteio. Ficou ressabiado com o fato de ela parecer tão perfeita, com a sua postura de “Lady”, seu corpo de sereia, seu perfil de modelo... Uma mistura de inveja e ciúme lhe assomara de tal forma que buscou saber tudo sobre Patrícia. Começou a segui-la, sempre que possível, e

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Obdulio Nuñes Ortega essa perseguição terminava no momento em que ela adentrava o hospital, onde dizia prestar plantão médico. Certo dia, porém, Ricardo decidiu esperar até que a residente fosse embora. Qual não foi o seu assombro quando, meia hora depois que entrou, observou Patrícia sair do prédio? Tomado por certa comoção, ele a seguiu até vê-la entrar em uma das mais badaladas casas de prostituição de São Paulo, bem perto do hospital. Quase radiante, gritou dentro do carro: “eu sabia!”. No momento da revelação, Carlos se sentiu como que apunhalado pelas costas, tanto por Patrícia, como por Ricardo, que evidentemente havia demonstrado contentamento em lhe dar aquela notícia. Não pediu provas ao amigo. Intimamente, intuía alguma coisa. No entanto, formalmente, não sabia de nada. Já a havia deixado algumas vezes no hospital, onde disse que prestava residência, mas estranhava o fato dela estar escalada para fazer plantão quase toda noite. Ao mesmo tempo, se sentia tão abençoado por ter visto surgir aquela deusa em sua existência! Patrícia não era apenas linda, mas igualmente bem-humorada, carinhosa e elegante... física e mentalmente. Por isso, mesmo depois de começar a suspeitar sobre as peculiaridades da situação, não pretendeu ir fundo em suas dúvidas. Quando perguntava a si mesmo como teria se dado um encontro tão especial entre os dois, jogava fora todas as aparentes contradições para viver a felicidade de estar com Patrícia. Ao responder a Ricardo daquela forma, não quis dar o braço a torcer ao amigo, que sempre insinuava que uma moça como aquela não poderia

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Conto | Garota de Programa existir assim, sem nenhum defeito... Depois da conversa entre ambos, assim que pôde, se despediu de Ricardo e ligou para Patrícia, marcando um encontro para logo mais à tarde. Segundo ela, à noite, faria plantão. — Por que você não me disse que era garota de programa? Patrícia abriu os seus grandes olhos verdes, ainda mais, e sentiu as pernas bambearem. Finalmente, Carlos descobrira o seu segredo. Sempre temera que isso se desse, mais cedo ou mais tarde. Nunca pretendeu enganá-lo, mas tudo acontecera de maneira tão urgente e imprevista — o encontro, a paixão, o romance — que não conseguiu revelar ao namorado o que fazia para ganhar a vida. Com Carlos, vira surgir o amor de uma forma inesperada. Ele não era um rapaz que se destacasse entre outros, fisicamente. Porém, seu sorriso e sua postura desprendida haviam chamado a atenção de Patrícia aos poucos, em encontros fortuitos, aqui e ali, na padaria ou no supermercado do bairro em que ambos residiam. Foi dela a iniciativa de passarem da troca de olhares para a troca de palavras. Carlos demonstrou ser inteligente e bem-humorado. Rapidamente percebera, nele, o cara que queria para si, como marido. Concomitantemente, não desgostava da vida que levava, das amigas que colecionara naquela profissão, de saber dos poderosos homens que a adoravam. E, agora... isso! Genuinamente emocionada, deixou escapar uma grossa lágrima sobre a pele delicada e não conseguiu dizer absolutamente nada.

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Obdulio Nuñes Ortega Carlos estacionou o carro junto ao meio fio, próximo à discreta entrada do edifício. Os seguranças sorriram quando viram que se tratava do carro do marido de Patrícia. Os dois eram muito bem quistos naquela casa. A moça era uma funcionária exemplar e o cara, muito simpático. Patrícia beijou amorosamente o seu parceiro e recomendou que ele colocasse as crianças para dormir assim que chegasse em casa. Ele disse que teria uma reunião importante no dia seguinte e que iria dormir logo que possível, pois sairia bem cedo. Talvez, antes que ela chegasse. Voltando para casa, notou o quanto se sentia aventurado por ter uma família perfeita — uma linda mulher e um casal de crianças saudáveis. Agradeceu a si mesmo pelo fato de ter passado por cima de preconceitos e sentimentos menores, para dar-se a chance de ser feliz com a pessoa que amava. Carlos lembrava-se constantemente do momento em que tomou a resolução de ficar com Patrícia, se ela assim desejasse. Com a alegre aceitação da namorada, tudo ficou mais fácil. Patrícia havia revelado que não poderia deixar a sua ocupação imediatamente e ele especulou sobre essa situação francamente, perguntando sobre ganhos e condições de trabalho. Lembrou-se de como ficara verdadeiramente impressionado com o que Patrícia auferia. Era, praticamente, o salário de um alto executivo. Percebera, ainda, que ela gostava do que fazia, e que aquilo não interferia no amor que sentia por ele, genuíno e vigoroso. Por acordo, decidiram que ela continuaria naquele trabalho até o momento que achasse conveniente. Lembrou-se da oposição de amigos e familiares com aquela relação, pois Ricardo divulgou a novidade para quem interessar pudesse.

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Conto | Garota de Programa Carlos acreditou que, quem gostasse verdadeiramente dele, o compreenderia. Com o afastamento de alguns dos velhos amigos, juntou-se a novos, ligados ao mundo de Patrícia, muito mais divertidos. Após o casamento, com a ajuda financeira dela, montara uma pequena empresa de informática, que logo crescera com seu talento demonstrado para os negócios. Muitos ajudaram, também, certos conhecimentos de pessoas influentes da esposa. Com o tempo e a chegada dos gêmeos, os pais voltaram ao seu convívio e de sua mulher, pela qual, semelhantemente, se apaixonaram. Sim, era um homem afortunado! Naquela noite, o carro que o conduzia parecia flutuar acima do asfalto sujo da cidade.

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Conto | Traço Inacabado Já nasci saudosa... essa é minha marca maior além do coração sem fundo, olhar curioso de eterna infante e uma vontade infinda de ser feliz... é claro que nem sempre isso é possível e aprendi, no decorrer de minha existência, a aceitar a vida como ela se apresenta. Da mesma forma, busco olhar meu próximo com lentes e filtros da tolerância. Não sou religiosa... já fui, e muito, no entanto, afasteime por questionar tudo e tornar-me figura “non grata” diante da gleba hipócrita. Guardo em minhas gavetas da memória, momentos que gravei para a eternidade. Lembranças da infância, são muitas, são felizes, são puras. Época em que não sabia contabilizar muito menos separar o certo do errado, o bonito do feio, simplesmente vivenciava cada dia sem me questionar sobre nada. Deixava-me levar pela vida... e era feliz! Não me importava em ter apenas um sapatinho verlon, "uma meia rota", um vestido que já havia passado por diversas crianças até chegar a mim. Brinquedos? Somente o que minha avó Maria confeccionava. Havia as almofadinhas das Cinco Marias recheadas de arroz. As bonecas feitas de papel machê e retalhos de tecido. Não tive muitos brinquedos, mas brinquei exaustivamente! Sou de uma geração em que se ia para as ruas... formava-se turmas e brincávamos o dia inteiro. Era pique, pega-pega, passa anel, estátua, queimada... Tantas eram as brincadeiras na rua, que ali era território das crianças e não dos automóveis. Ao final da tarde, minha avó e outras mães chamavam as crianças para o banho e depois era a vez do lanche que sempre tinha bolos, biscoitos, broas de milho,

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Conto | Traço Inacabado geleias acompanhadas do tradicional café com leite ou chá preto. Como era bom! Anos mais tarde conheci o pão de queijo que uma prima de minha mãe aprendeu a fazer... e vez ou outra, fazia de baciada e chamava a criançada para saborear. Sim, isso era felicidade! Comilanças alimentando o “bucho” (termo de minha avó) e muita conversa alimentando a alma. Tive uma infância pobre, contudo, nunca faltou alimento em minha casa. Podíamos não ter uma mesa farta em supérfluos, que hoje compramos no supermercado, mas sempre tivemos o pão, o leite, a manteiga, o café e o feijão com arroz. A carne para acompanhar, recebíamos de uma prima minha que era casada com um português dono de churrascaria. A sobra, ele trazia para sua casa e dividia com as famílias menos favorecidas. Graças a Deus estávamos na lista dos favorecidos e jamais faltou um naco de carne e linguiça em nossos pratos. Assim como também nunca faltou as frutas e uns doces que recebíamos de uma tia, irmã caçula de minha mãe que aparecia uma vez ao mês, e nos brindava com Dan top. Um para cada criança. Comia devagarinho para prolongar o prazer de comer chocolate... adorava me lambuzar toda e, depois lamber os dedos, a mão, a embalagem. Sou canceriana nascida em pleno dia 24 de junho, dia de São João. Por conta dessa data, muitos aniversários foram celebrados de frente a uma fogueira comendo batata doce assada, pé de moleque, pipoca, bolo de

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Roseli Pedroso milho e quentão — no caso só para os adultos. Para a criançada, ki-Suco de uva. Tomava como se fosse iguaria dos Deuses! E havia também a paçoca de roça da vó Maria. Ah... Que festa se fazia cada vez que vó Maria convocava a família toda para socar o amendoim e o açúcar no pilão centenário até se transformar em paçoca. Era uma farra só. Fazíamos fila indiana para socar o pilão e a cantoria corria solta acompanhada de muitas risadas. O brilho de prazer nos olhares ficou registrado na minha memória. Coisa gostosa lembrar a barriga da minha avó balançando de cima pra baixo enquanto cantava, assoviava e ria. Tudo ao mesmo tempo e dizendo: Soca direito canaiada! Soca com gosto, pra valer!— e dizendo isso caía na risada banguela que me encantava. Sua lembrança é tão nítida em minha mente: baixinha, gordinha, sempre de vestido florido e avental. E jamais se separava de seu lenço na cabeça feito camponesa que foi de fato. Mesmo morando na cidade, não abriu mão de seus hábitos. Cozinhava assobiando canções de Cascatinha e Inhana: “Índia seus cabelos nos ombros caídos Negros como a noite que não tem luar Seus lábios de rosa para mim sorrindo E a doce meiguice desse seu olhar Índia da pele morena Sua boca pequena eu quero beijar” E o que dizer do vô Dito, índio de nascença, criado por família branca, músico nato que tocava um bandolim como poucos. Cozinheiro exímio, desenhista talentoso,

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Conto | Traço Inacabado que instigou e deu-me a mão nos primeiros passos de meus riscados. Adorava me desafiar e assim, de linhas em linhas, fui aprendendo e aperfeiçoando meu traço. Como ele, virei retratista e passei a andar sempre com um bloco de papel e lápis olhando, observando e desenhando todos que me chamavam a atenção. Sua morte, atropelado numa avenida movimentada, serviu de divisor de águas em minha vida — até então, inocente e longe de qualquer fantasma. Sofri muito. Sentia sua falta e cheguei a ficar doente. Anos mais tarde, já adulta, soube pela minha mãe que minha professora chegou a avisá-la de ter me visto várias vezes no local de sua morte olhando para o solo de piche. Confesso que até hoje não me lembro desses dias. Segui os outros anos até chegar a adolescência desenhando cada vez mais e melhor. Cheguei a ganhar uma maleta com várias bisnagas de tinta a óleo e pincéis de todos os tipos e tamanhos além de telas. Ganhei esse precioso presente de um pintor Naif, hoje conhecido mundialmente por Madalena. Foi uma alegria tão grande que passei a pintar sem parar. Até que a vida me chamou para a dura realidade e passei a trabalhar longe de casa para ganhar um salário melhor. Não tive mais tempo para desenhos, pinturas e sonhos. A vida me embruteceu. Por mais de trinta anos, nunca mais peguei num grafite muito menos em pincéis. Houve um bloqueio no desenho, ocorreu uma atrofia no músculo principal — meu coração, transformando-me num autômato. Passei anos a fio somente executando tarefas materiais e necessárias. A rotina me engoliu

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Roseli Pedroso fazendo-me refém da acidez. Deixei de enxergar beleza, leveza. Tornei-me rude comigo mesma e com as pessoas. No entanto, essa tal vida que tanto falei até agora, essa mesma aprontou comigo no sentido de trazer-me à razão. Ela, a vida, é ladina, safada, malandra e deu uma rasteira para que eu num voo solo pudesse enxergar novamente quem eu era de fato. Não esse estereótipo que abracei e finjo diariamente que sou. Sou uma junção de sangue, carne, nervos e sentimentos que percorrem toda a carcaça física e transcende a matéria se expandindo para todo o universo. Sou dotada de pura emoção e represando tanto tempo isso, é claro que não iria fazer bem. A rasteira que a danada da vida me deu não vem ao caso mas a reação que ocorreu em mim, ah isso sim, vale a pena comentar. Ela me deu um looping dos bons me fazendo da noite pro dia, uma atleta de seu time. Era isso ou minguava. Preferi viver e retornar à minha antiga e sempre presente pessoa que fui e ainda sou. Só me encontrava anestesiada pela rotina. Hoje, voltei a valorizar o belo, a poesia, a música e até voltei a traçar. Não é que continuo com meu traçado firme? Compreendi que meu traço não tem fim, assim como a vida, é inacabado e digo isso porque tenho a certeza que nada termina por aqui. Caso contrário, seria muita sacanagem dela, a vida. E ela, de tão boa ainda me ensinou outros traçados como esses, que acabo de escrever.

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Conto | Memória do Espanto Cena 1

O ambiente exalava aroma de anis e outros condimentos e no fundo bem no fundo um cheiro fraco mas perceptível de gás, música árabe, véus, pouca luz, sempre colorida, muita ação e nenhuma câmera. O velho Buk, que sempre estava ali no mesmíssimo lugar, tomava seu Arak puro naquela noite como em todas as outras desde que deixou o Islã e passou a ter toda a casa decorada com fotos em preto em branco das nove esposas, perguntou entre uma tragada e outra no Narguilé que dividia com um turco de Siracusa — Tá sentindo cheiro de gás? — Porra, alho, ópio, perfume de puta tudo misturado, deve estar cheirando gás também, mas é incerto afirmar a essas horas tal precisão... e continuou o turco discursando sem que importasse mais ao velho. — Tá cheirando gás sim — afirmava entre uma canção e outra que embalavam a dança das filhas do deserto. No final de um Arak e o início de outro, terceiro ou quarto, desceu ao salão, toda vestida de preto, Mercedita, linda como um oásis, cheirava a tâmara fresca e rodava os véus como se tivesse um vento próprio , seu, os alaúdes pareciam falar seu nome e os derbaks e pandeiros liam seus pés descalços. Mercedita era o próprio ou impróprio pecado do velho Buk, por ela, certa vez com um golpe de punhal afiado ele teria deixado caolho um marroquino, rezava a lenda que um dos dois enfartes sofridos teria sido com ela na cama. Nada mais que lendas supunham.

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Marcelo Moro O fato é que ela destilava perfume e veneno em iguais proporções, e exibia uma serpente dourada com olhos de rubi no pescoço, um presente que o costume local atribua ao velho Buk, nada mais que lendas.

Cena 2

— Velho calhorda — vociferava a velha Agnes de dentro da cozinha ao avistar o velho Buk sentado como sempre no mesmo lugar. — Fala isso porque queria ser uma das esposas dele – provocava a ajudante de cozinha e prima da nona esposa do velho. — Ahhh cala a boca infeliz , pela lã do carneiro mais peludo de Maomé, como odeio esse velho babão — dizia já com o rosto em brasa a cozinheira. Ninguém sabia o verdadeiro ódio que Agnes nutria pelo velho Buk, mas haviam várias lendas que corriam os sete mercados, bom, apenas lendas. — Tá sentindo cheiro de gás? — perguntou a moça — Deve ser o gás do rabo daquele velho flatulento — respondeu gargalhando Agnes — Apresse o carneiro já vai entrar Mercedita e depois da aparição da meretriz do deserto a fome vai corroer essa legião de diabosvelhos que vão roer até os ossos do assado pensando sentir aquela boceta. A correria tomou conta da cozinha por onde passavam também os figurantes do final do show de Mercedita, os cuspidores e engolidores de fogo.

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Conto | Memória do Espanto Cena 3 Soou o último acorde da música de Mercedita, o último movimento da sua dança e irromperam as palmas e assovios e o velho Buk com uma baita vontade de mijar saiu rápido dividindo a porta da cozinha com os figurantes do show, tropeçando e rogando pragas nos anões e de passagem pelo botijão de gás bateu a ponta metálica do seu cinto fazendo o som agudo de um badalar de sino. Fez — se nesse momento uma luz imensamente azul e tocava outro sino mais grave e o velho Buk viu passando por um portão dourado Mercedita, o Marroquino Caolho, o Turco de Siracusa, a ajudante de cozinha e Agnes a alcoviteira, continuo a essa procissão o portou de ouro se fechou. Ali parado entre oliveiras tortas e flores secas o velho Buk, que gostava de filosofar, pensava — acho que tomei no cú — algum degenerado daquele show ou aqueles malditos anões explodiram o gás com aquelas chamas, de certo morreu todo mundo, esse é o céu de Allah! Existia e eu agora tô fodido aqui fora sozinho. De repente soa o sino, dessa vez do mercado central e o velho Buk se vê no meio de milhares de pessoas com uma baita vontade de mijar. Falam demais essas pessoas sobre a lenda do Velho que voltou do inferno sem nunca ter ido.

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Conto | Penha

Estava cedo ainda e eu me aninhava sonolento embaixo das cobertas, apesar de sentir a cama molhada.Meio adormecido, ouvi vozes estranhas vindas da cozinha que ficava junto ao meu dormitório, que, na verdade, era um canto da casa com uma janela lateral que dava para a garagem. Logo depois, lembrome de ver-me carregado, junto a minha cama, para fora da casa por meu pai e por seus companheiros de trabalho na fábrica de peças automotivas do meu tio. Mais uma vez, urinara na cama e ele, inconformado com a minha desfaçatez, decidira pôr-me, com cama e tudo, para fora. Fui jazer no quintal à luz do sol matutino. Exposto ali, como se fora culpado de um crime, fingi dormir por mais algum tempo, até que o calor ficasse insuportável ou os olhos dos torneiros mecânicos se afastassem, não me lembro bem. Talvez tivesse seis anos de idade. Essa é a lembrança mais antiga que tenho do meu pai. A fábrica do meu tio, casado com uma das irmãs da minha mãe, ficava em um grande salão embaixo da grande casa dele. Nós morávamos no que chamávamos de porão. Para mim, era um lar que não apresentava o peso da palavra “porão”, que depois aprendi mais tarde, na escola, conter o peso da escravidão. Na minha adolescência, passou a corresponder ao sumiço temporário do meu pai. Quando nos mudamos para lá, chegamos a ocupar outra parte do porão, menor, que naquela época do episódio da cama, era alugado por outro irmão da minha mãe, o mais novo. O meu tio empregava quase toda a família da Dona Maria.

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Conto | Penha

Apesar daquela lembrança um tanto nebulosa, gostava daquele ambiente e muitas boas reminiscências advêm daquele período. Como menino na Penha, aprendi a andar de bicicleta, a empinar pipas, a subir em árvores, a atirar de estilingue e a encarar gansos com as suas posturas ameaçadoras. Com os gansos, vivenciei a segunda fase das minhas provas de coragem de menino. As primeiras provas ocorreram nos corredores do prédio de apartamentos no Largo do Arouche, no qual vivi até os cinco anos de idade. Eu me lembro de ter um jipe com uma estrela no capô, como as do Exército Americano, com pedais que operava com habilidade. O lugar onde podia experimentar uma maior velocidade não era no pequeno apartamento em que vivíamos, mas no longo corredor onde se perfilavam as portas dos outros apartamentos do andar. No entanto, todas as vezes que saia para aquela senda, sabia que tinha que conviver com olhos invisíveis a me observar. A sensação que tinha era a de fossem de fantasmas tão tristes... Na Penha, para além do quintal, havia um terreno grande com algumas árvores frutíferas — uma bela jabuticabeira e dois grandes pés de ameixas, além de pés de limas e limões, talvez um ou dois abacateiros e várias bananeiras. Os meus tios criavam, além dos gansos, também galinhas e porcos e os seus abates constituíram o meu primeiro contato com o sacrifício de seres vivos. Na execução das galinhas, cortava-se o cimo da cabeça e deixava escorrer o sangue para uma tigela ou bacia, até que elas parassem de se mover.

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Obdulio Nuñes Ortega

Uma forma mais rápida consistia torce-lhes o pescoço. No caso dos porcos, alguns homens agarravam as criaturas, que desde o início, começavam a gritar de uma forma quase humana. Logo após, erguiam as suas patas esquerdas e um homem enfiava uma faca longa e afiada junto ao pescoço, momento em que os gritos adquiriam a entoação mais impressionante e que repercutem em meus ouvidos até hoje...

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Mário de Andrade... Por Lunna Guedes

Mário... de Andrade, homem (?) ... modernista. Senhor das aldeias de sua alma. Escolheu ser trezentos... paulistano. Mundano. Insano... escolheu não ser. Mas era poeta, escritor, autor... ou será que nós é que impomos à sua pele... rótulos que ele nunca quis vestir? Era silencioso num mundo onde as pessoas medem nossos gestos em afirmativas e negativas. Era Mário... o resto é poesia!


Conto | Meu encontro com Rubem Alves

Foi em um congresso do Instituto Ayrton Senna, que conheci Rubem Alves pessoalmente... eu vivia dias de encantamento com o mundo do conhecimento, do qual tinha me ausentado por algum tempo... e depois de ter lido pilhas de livros de sua autoria, sentia enorme vontade de estar perto daquele ser, que tinha me apresentado o personagem Zorba, do livro: “Zorba o Grego”. Me enchi de coragem... e fui até lá com a determinação de conhecê-lo. Levava em minha bolsa um presente, que eu mesma tinha feito. No saguão do hotel Transamérica, em S. Paulo, cruzei com ele, em meio a uma pequena multidão de admiradores. Fiquei olhando de longe... e quando finalmente o vi sozinho, indo em direção ao elevador, o alcancei e perguntei: "professor, será que poderia falar com o senhor?"... ele me olhou sorrindo e me pegando pelo braço, me conduziu até um sofá, no lobby do hotel. Apresentei-me... já sem a tal coragem com a qual tinha me preenchido para estar ali. Para minha surpresa, ele novamente sorriu e disse: ..."uma fada!"

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Timidamente contei a ele porque estava ali e passei para suas mãos a bolsa que levava junto comigo. Ele olhou o conteúdo e não sei se surpreso ou envaidecido, deu uma enorme gargalhada e me abraçou! Era um boneco feito de cola e jornal, inspirado em uma das suas crônicas, onde ele conta que ao completar 60 anos, ganhou um blazer vermelho de uma amiga oriental, e que na terra dela... o blazer vermelho era símbolo de conquista da liberdade e do desfrute da vida... Jamais esquecerei aquele dia; a sua ternura, atenção e gentileza... Dias depois recebi um e-mail... era ele, me dando notícias do boneco de papel e cola, com uma fotografia de seu canto de escrita e leitura. (...) Quando Zorba velho e doente, ao ver que a morte já estava dentro do seu quarto, levantou-se da cama, foi até a janela, e por longos minutos contemplou com sorriso e silêncio os cenários que se abriam à sua frente: o mundo maravilhoso, ao fundo as montanhas. De repente, pôs-se a relinchar como um cavalo, agarrou-se à janela e disse: “um homem como eu deveria viver mil anos!”. Ditas essas palavras ele caiu morto… Assim como Zorba você também morreu criança... Vou sentir saudade! Maria Cininha

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Em Agosto...

Comemore com a gente!

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Plural Rubem  

O sabor das lembranças, o prazer da memória... escritores contemporâneos tomam para si os títulos de Rubem Alves nessa aventura em linhas....

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