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SABE – Sistema Aberto de Educação Av. Cel. José Alves, 256 - Vila Pinto Varginha - MG - 37010-540 Tele: (35) 3219-5204 - Fax - (35) 3219-5223

Instituição Credenciada pelo MEC – Portaria 4.385/05 Centro Universitário do Sul de Minas - UNIS/MG Unidade de Gestão da Educação a Distância – GEaD Mantida pela Fundação de Ensino e Pesquisa do Sul de Minas - FEPESMIG

Varginha/MG

1 Guia de Estudo – PRÁTICA DE FORMAÇÃO I


Todos os direitos desta edição reservados ao Sistema Aberto de Educação – SABE. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, ou parte do mesmo, sob qualquer meio, sem autorização expressa do SABE.

372.24 T234g TAVOLIERI FILHO, Renato. Guia de Estudo – Prática de Formação I. Renato Tavolieri Filho: GEaD-UNIS/MG, 2006. 56p. 1. Construção Social. 2. Autoconhecimento. 3. Autocrítica. I. Título. Revisado e Atualizado por FELIX, Nídia Miriam Rocha em Maio de 2008

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REITOR Prof. Ms. Stefano Barra Gazzola

GESTOR Prof. Ms. Tomás Dias Sant’ Ana

Supervisor Técnico Prof. Ms. Wanderson Gomes de Souza Coord. do Núcleo de Recursos Tecnológicos Profª. Simone de Paula Teodoro Moreira

Coord. do Núcleo de Desenvolvimento Pedagógico Profª. Vera Lúcia Oliveira Pereira Revisão ortográfica / gramatical Profª. Maria José Dias Lopes Grandchamp

Design/diagramação Prof. César dos Santos Pereira

Equipe de Tecnologia Educacional Profª. Carina Carvalho Tavares Profª. Débora Cristina Francisco Barbosa Prof. Lázaro Eduardo da Silva

Autor Prof. RenatoTavolieri Filho Professor universitário, pedagogo, licenciado em Língua Inglesa, Mestre na área de Engenharia do Conhecimento, com ênfase em EAD. Entre os anos de 2002-2005, atuou como Coordenador de Informação e Comunicação no Projeto Veredas – Formação Superior de Professores, no Centro Universitário do Sul de Minas – UNIS-MG/S.E.E.

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TABELA DE ÍCONES REALIZE. Determina a existência de atividade a ser realizada. Este ícone indica que há um exercício, uma tarefa ou uma prática para ser realizada. Fique atento a ele. PESQUISE. Indica a exigência de pesquisa a ser realizada na busca por mais informação. PENSE. Indica que você deve refletir sobre o assunto abordado para responder a um questionamento. CONCLUSÃO. Todas as conclusões, sejam de idéias, partes ou unidades do curso virão precedidas desse ícone. IMPORTANTE. Aponta uma observação significativa. Pode ser encarado como um sinal de alerta que o orienta para prestar atenção à informação indicada. HIPERLINK. Indica um link (ligação), seja ele para outra página do módulo impresso ou endereço de Internet. EXEMPLO. Esse ícone será usado sempre que houver necessidade de exemplificar um caso, uma situação ou conceito que está sendo descrito ou estudado. SUGESTÃO DE LEITURA. Indica textos de referência utilizados no curso e também faz sugestões para leitura complementar. APLICAÇÃO PROFISSIONAL. Indica uma aplicação prática de uso profissional ligada ao que está sendo estudado. CHECKLIST ou PROCEDIMENTO. Indica um conjunto de ações para fins de verificação de uma rotina ou um procedimento (passo a passo) para a realização de uma tarefa. SAIBA MAIS. Apresenta informações adicionais sobre o tema abordado de forma a possibilitar a obtenção de novas informações ao que já foi referenciado. REVENDO. Indica a necessidade de rever conceitos estudados anteriormente.

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SUMÁRIO

PRÁTICA DE FORMAÇÃO (Componente Curricular)............................................. 6 INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 6 A disciplina de Prática de Formação ......................................................................... 6 O roteiro de nossa viagem de prática de formação .................................................... 8 Participação no fórum e seu critério de avaliação ................................................... 10 UNIDADE I: O PRIMEIRO TRECHO DA VIAGEM .................................................. 12 PRÁTICA EDUCATIVA E SOCIEDADE ................................................................... 12 UNIDADE 2: O SEGUNDO TRECHO DA VIAGEM ................................................. 37 Corpo a corpo com a linguagem - (artigo publicado em 1999) .......................... 40 UNIDADE 3: O TERCEIRO TRECHO DA VIAGEM ................................................. 47 UM MUNDO EXCLUSIVO ........................................................................................ 48 CIDADANIA E CONSUMO SUSTENTÁVEL (TRECHO) .......................................... 53 A SOCIEDADE DE CONSUMO ................................................................................ 53 REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 56

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PRÁTICA DE FORMAÇÃO (Componente Curricular)

INTRODUÇÃO Caro amigo, cara amiga - você escolheu a educação como sua área de ação profissional. Essa opção implica uma aprofundada consciência em termos de responsabilidade social como agente histórico de transformação. Assumindo essa premissa como o nosso ponto de partida, lançamo-nos como nau deixando o cais rumo à aventura de descobertas que nos compete cumprir. Nós, como guias de sua viagem, ao mesmo tempo em que nos apresentamonos, abrimos oficialmente a nossa jornada conjunta, na certeza de que ela será rica, reveladora, instigante e intrigante; principalmente porque você contribuirá com suas sugestões, questionamentos e produções pessoais na elaboração vivencial do nosso roteiro, ou seja, nossa interação será o motor que dará sentido à nossa aventura. Bem-vindo, bem-vinda

A disciplina de Prática de Formação Temos, de imediato, um desafio - entender com clareza o que vem a ser a "Prática de Formação" e em que perspectiva nós a efetivaremos aqui em nosso curso a distância. Quando falamos em "Prática" pressupomos uma ação, um fazer. Porém, não é um fazer qualquer, ou melhor, um qualquer fazer, que configura uma "prática de formação". O fazer a que visamos se fundamenta e movimenta segundo bases teóricas sólidas, vivas, dinâmicas e refletidas, pensadas, abraçadas por identificação, como parte de nós mesmos. Uma teoria adotada é fruto de uma escolha por considerar que o que ela propõe responde às necessidades, aos anseios, ao contexto em que nos inserimos e no qual queremos atuar positivamente. Nesta perspectiva, a prática assume o caráter de teoria transposta a ação, o que quer dizer que o tudo que você estudar, aprender, ainda não faz de você um profissional preparado realmente. É preciso saber, com sensibilidade, segurança, dialogar com os vários saberes para deles fazer instrumentos de açãotransformação da realidade. Exatamente esta fundamental competência é que a Prática de Formação busca desenvolver. Vamos simplificar? Imagine um especialista em um campo da ciência; o fato de conhecer profundamente o universo teórico de sua especialidade não garante que ele venha a ser um bom transmissor, disseminador, professor daquilo que tão bem conhece. Mas o problema não fica aí - mesmo que ele seja um mestre-orientador competente, ainda permanece uma pergunta: será ele capaz de articular o corpo 6 Guia de Estudo – PRÁTICA DE FORMAÇÃO I


teórico com as questões do cotidiano, da vida, que borbulham dentro de nós e à nossa volta? Ele deve estar “antenado” com as vicissitudes de seu momento histórico, consciente de seu posicionamento frente a elas e com uma proposta, um ideal inspirador, guiando sua ação transformadora e emancipadora de alcance humano-social. Só assim poderá fazer do conhecimento um efetivo instrumento de construção de um ser humano e, conseqüentemente, de uma sociedade mais solidária, mais justa, mais sensível.

A prática de formação dá sentido, direção, consistência, vida, alma ao conhecimento pedagógico-educacional.

Agora precisamos deixar claro como nós vamos organizar nossa disciplina, não só para este período, mas, já com orientações para os próximos - afinal, estamos numa modalidade a distância, o que requer muita comunicação entre nós e domínio dos mecanismos de diálogo de que dispomos. Bem, pelo mencionado anteriormente, a Prática de Formação é o espaço em que você colocará todos os saberes assimilados nos demais componentes curriculares e os tecerá, conjuntamente, dentro das óticas que este nosso próprio componente vai apresentar, em produções pessoais escritas de observação, reflexão, análise, crítica e transformação perante a realidade humano-socialeducacional em que historicamente nos inserimos. Como isso será feito? Você terá um instrumento específico, exclusivo nosso, que é o MEMORIAL. Nele você periodicamente será chamado a fazer sínteses articuladoras de teoria e prática, de conhecimento e realidade, em vários aspectos e níveis de abordagem. Tudo que vivenciar durante seu curso a distância encontrará, no Memorial, o ponto de encontro a dar o sentido histórico formador do profissional que você crescentemente virá a se fazer. Em cada período, uma vez que a Prática de Formação o/a acompanhará durante todo o percurso, você terá momentos para a produção de suas visões reflexivo-articuladoras. Isso significa que, ao final de cada período, você deverá fazer um fechamento de suas percepções e avanços reflexivos no MEMORIAL, momento em que essas reflexões poderão convergir em aprendizado significativo. Agora, é importante que você saiba que tudo será explicado com calma a cada novo passo de nosso trajeto, com antecedência, para que você possa se programar e administrar seu tempo com segurança, pois este é o principal fator de sucesso em EAD.

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O roteiro de nossa viagem de prática de formação Uma das agradáveis funções de um guia turístico é apresentar o todo do percurso, evidenciando sua lógica, seus encantos, seu potencial, seu alcance, despertando o interesse e a adesão tão necessários na aventura de um caminhar conjunto. O Projeto Pedagógico do nosso curso propõe um eixo temático aglutinador para cada período. Esses eixos estão interligados e atendem a uma lógica seguida por todos os componentes curriculares, embora a Prática de Formação seja a instância (especificamente no Memorial) em que a interdisciplinaridade, a transdisciplinaridade, o entrosamento, o diálogo produtivo de todos os saberes se efetive - ou seja, o eixo temático dá o enfoque primordial a ser adotado, constituindo-se na lente que se escolhe para olhar a realidade, no ponto de vista, no ponto de observação, de abordagem a ser seguido, como referência durante o caminho, como a bússola do navegador aventureiro desbravador em alto mar. Vamos conhecer os eixos temáticos? Afinal, para nós eles são primordiais:

ETAPA 01 - ÓTICA RECEPTORA - Englobando os três primeiros períodos, dando ênfase aos efeitos, aos resultados, às conseqüências históricas observáveis do processo de educação; 1º Período: EDUCAÇÃO E CONSTRUÇÃO SOCIAL DO INDIVÍDUO; 2º Período: EDUCAÇÃO E CONSTRUÇÃO SOCIAL DO CIDADÃO; 3º Período: EDUCAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL. ETAPA 02 - ÓTICA PROMOTORA: compreendendo os três últimos períodos do curso, quando sua formação profissional se intensifica e o seu estágio curricular acontece, portanto se justificando a ênfase na educação que se promove, ou seja, a ênfase nas ações pedagógicas que escolhemos e efetivamos como professores visando à intervenção deliberada na realidade social que nos cerca e em que atuamos.  4º Período: - PRÁTICA PEDAGÓGICA CONSTRUTORA DO INDIVÍDUO  5º Período: PRÁTICA PEDAGÓGICA CONSTRUTORA DO CIDADÃO  6º Período: PRÁTICA PEDAGÓGICA CRÍTICO-SOCIALTRANSFORMADORA

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Na ótica receptora (etapa 01) constatamos e nos posicionamos frente aos efeitos da educação observáveis em nós e à nossa volta, ao passo que na ótica promotora (etapa 02), a partir do que já verificamos, erguemos nossas propostas de ação-atuação pedagógico-educacional que pretendemos implementar, justificandoas. Ambas as etapas estão divididas em três enfoques: ENFOQUE 01- construção do indivíduo, quando privilegiamos a educação formadora do EU, com suas peculiaridades, singularidades, crenças, valores, sentimentos, hábitos, visões de mundo; ENFOQUE 02- construção do cidadão, quando centralizamos a educação enquanto formadora da sensibilidade e da responsabilidade sociais; ENFOQUE 03- construção do agente crítico-sócio-transformador, quando enfocamos a educação enquanto processo de conscientização e promotor da função ativa superadora dos desajustes e problemas sociais.

Você precisa lembrar, no entanto, que essa divisão em etapas com enfoques visa a facilitar a nossa compreensão de cada um dos aspectos centralizados, uma vez que na realidade vivencial tudo se dá concomitantemente: somos educados ao mesmo tempo em que "educamos", reproduzindo o que absorvemos, como indivíduo e cidadão, crítico ou não, numa teia complexa de vivências e relações que nos definem em todas essas dimensões contextuais, históricas.

Nossos objetivos Nossa viagem já tem seu roteiro, em visão panorâmica, com partidas e chegadas previstas, escalas, excursões, expectativas. A ansiedade é natural - há todo um desconhecido a ser desbravado, mas, sem dúvida, nós temos nossas razões na escolha de nosso itinerário, com objetivos bem definidos. No primeiro período, em abertura, percorremos o trecho da educação como construção social do indivíduo e especificamente objetivaremos: 

OBJETIVO 01 - entender "educação" como o processo de construção humano-social do indivíduo;

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OBJETIVO 02 - incorporar o exercício da autocrítica paralelamente ao da crítica social pela compreensão de que a "lógica" da sociedade em que nos inserimos está em nossas mentes internalizada, reproduzida, condicionando nossas percepções, nossos julgamentos, nossos sentimentos, nossas ações, nossas relações;

OBJETIVO 03 - empreender ao resgate do caráter histórico do hoje para assumi-lo como possibilidade de emancipação-superação rumo a um amanhã individual e socialmente mais harmônico, mais sensível, justo, solidário e feliz.

Cada um dos três trechos-objetivos pressupõe: A) ATIVIDADES a serem cumpridas e registradas (Memorial) a partir de textos, filmes etc. B) Uma SÍNTESE reflexiva e individual final (Memorial) do percurso.

Participação no fórum e seu critério de avaliação o Orientações para a participação: O fórum (no ambiente virtual de aprendizagem) é o espaço permanente de expressão e interação do curso – lá você é chamado/a a dar sua opinião, colocar sua reflexão pessoal, sua contribuição sobre um tema proposto, bem como a ler e comentar as opiniões de colegas, posicionando-se e participando, assim, de uma construção conjunta. Ele, portanto, é um elo de pensamentos, uma conversa coletiva. É um hiperlink construído com várias mãos. No nosso caso, Prática de Formação, a cada novo trecho-objetivo haverá um tema diferente aberto no fórum, sempre relacionado com o eixo do período e com os textos de base que estão sendo tratados. A sua estrutura e formas de participação seguem as seguintes regras: devemos verificar as contribuições dos colegas para que a linha de discussão tome corpo, possa ser consistente e tenha uma lógica de diálogo; quando um participante faz uma publicação, se ela estiver de acordo com o que queríamos contribuir, devemos entrar na conversa, com questionamentos ou acréscimos de pensamentos. Devemos verificar que tipo de encaminhamento o orientador (professor, tutor, e/ou outro) apresentou como enfoque para a

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discussão, por exemplo, se há questões a serem respondidas a partir do que já foi publicado como orientação inicial. É bom lembrarmos, também, que todos temos algo a acrescentar, pois nossas experiências são únicas, e isso faz de nossas contribuições um diferencial para a formação da comunidade virtual de aprendizagem. No entanto, as opiniões devem ter fundamentação, devemos nos preocuparmos com a intenção das argumentações postadas, para que elas possibilitem o debate, evitando opiniões vazias e os famosos “chutes no escuro”, “achismos”, ou seja, as contribuições vazias de sentido. Enfim, não faça da sua participação nos fóruns um “participar por participar”, correto?

o b) Orientações sobre as avaliações dos fóruns:

Você deverá ir ao Ambiente Virtual de Aprendizagem, na ferramenta MIDIATECA, e observar a ficha que será utilizada para a avaliação de sua participação nos fóruns.

UFA! Quantas orientações a serem dadas, quantos esclarecimentos! Bem, esse é o nosso papel, como guia, explicando cada passo do caminho, justificandoo, oferecendo informações que você não pode sozinho/a descobrir. Como cada componente curricular dialoga com as normas gerais do curso, embora já as tenha recebido e, sem dúvida, lido. Nossa aventura requer de seus participantes uma grande integração, envolvimento, entusiasmo, o que só é possível com o conhecimento seguro e o uso correto das instruções de viagem.

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UNIDADE I: O PRIMEIRO TRECHO DA VIAGEM

OBJETIVO - entender "educação" como o processo de construção humanosocial do indivíduo. Em cada momento histórico, a educação é entendida de uma forma específica que traduz os anseios e os valores da sociedade de então. Mas nós precisamos de um ponto de partida, e, para tal, escolhemos um capítulo do livro de José Carlos Libâneo, "Didática", em que a educação é tecida em suas várias dimensões e implicações, mostrando que a vida em sociedade é toda um aprendizado constante de modos de ser, pensar, agir e sentir, que dinâmica e historicamente se estabelecem.

PRÁTICA EDUCATIVA E SOCIEDADE (José Carlos Libâneo) O trabalho docente é parte integrante do processo educativo mais global pelo qual os membros da sociedade são preparados para a participação na vida social. A educação – ou seja, a prática educativa – é um fenômeno social e universal, sendo uma atividade humana necessária à existência e funcionamento de todas as sociedades. Cada sociedade precisa cuidar da formação dos indivíduos, auxiliar no desenvolvimento de suas capacidades físicas e espirituais, prepará-los para a participação ativa e transformadora nas várias instâncias da vida social. Não há sociedade sem prática educativa nem prática educativa sem sociedade. A prática educativa não é apenas uma exigência da vida em sociedade, mas também o processo de prover os indivíduos dos conhecimentos e experiências culturais que os tornam aptos a atuar no meio social e a transformá-lo em função de necessidades econômicas, sociais e políticas da coletividade. Através da ação educativa o meio social exerce influências sobre os indivíduos e estes, ao assimilarem e recriarem essas influências, tornam-se capazes de estabelecer uma relação ativa e transformadora em relação ao meio social. Tais influências se manifestam através de conhecimentos, experiências, valores, crenças, modos de agir, técnicas e costumes acumulados por muitas gerações de indivíduos e grupos, transmitidos, assimilados e recriados pelas novas gerações. Em sentido amplo, a educação compreende os processos formativos que ocorrem no meio social, nos quais os indivíduos estão envolvidos de modo necessário e inevitável pelo simples fato de existirem socialmente; neste sentido, a prática educativa existe numa grande variedade de instituições e atividades sociais decorrente da organização econômica, política e legal de uma sociedade, da

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religião, dos costumes, das formas de convivência humana. Em sentido estrito, a educação ocorre em instituições específicas, escolares ou não, com finalidades explícitas de instrução e ensino mediante uma ação consciente, deliberada e planificada, embora sem separar-se daqueles processos formativos gerais. Os estudos que tratam das diversas modalidades de educação costumam caracterizar as influências educativas como não-intencionais e intencionais. A educação não-intencional refere-se às influências do contexto social e do meio ambiente sobre os indivíduos. Tais influências, também denominadas de educação informal, correspondem a processos de aquisição de conhecimentos, experiências, idéias, valores, práticas, que não estão ligados especificamente a uma instituição e nem são intencionais e conscientes. São situações e experiências, por assim dizer, casuais, espontâneas, não organizadas, embora influam na formação humana. É o caso, por exemplo, das formas econômicas e políticas de organização da sociedade, das relações humanas na família, no trabalho, na comunidade, dos grupos de convivência humana, do clima sócio-cultural da sociedade. A educação intencional refere-se à influência em que há intenções e objetivos definidos conscientemente, como é o caso da educação escolar e extra-escolar. Há uma intencionalidade, uma consciência por parte do educador quanto aos objetivos e tarefas que deve cumprir, seja ele o pai, o professor, ou os adultos em geral – estes, muitas vezes, invisíveis atrás de um canal de televisão, do rádio, do cartaz de propaganda, do computador etc. Há métodos, técnicas, lugares e condições específicas prévias criadas deliberadamente para suscitar idéias, conhecimentos, valores, atitudes, comportamentos. São muitas as formas de educação intencional e, conforme o objetivo pretendido, variam os meios. Podemos falar da educação nãoformal quando se trata de atividade educativa estruturada fora do sistema escolar convencional(como é o caso de movimentos sociais organizados, dos meios de comunicação de massa etc.) e da educação formal que se realiza nas escolas ou outras agências de instrução e educação ( igrejas, sindicatos, partidos, empresas) implicando ações de ensino com objetivos pedagógicos explícitos, sistematização, procedimentos didáticos. Cumpre acentuar, no entanto, que a educação propriamente escolar se destaca entre as demais formas de educação intencional por ser suporte e requisito delas. Com efeito, é a escolarização básica que possibilita aos indivíduos aproveitar e interpretar, consciente e criticamente, outras influências educativas. É impossível, na sociedade atual, com o progresso dos conhecimentos científicos e técnicos, e com o peso cada vez maior de outras influências educativas (mormente os meios de comunicação de massa), a participação efetiva dos indivíduos e grupos nas decisões que permeiam a sociedade sem a educação intencional e sistematizada provida pela educação escolar. As formas que a prática educativa assume, sejam não-intencionais ou intencionais, formais ou não-formais, escolares ou extra-escolares, se interpenetram. O processo educativo, onde quer que se dê, é sempre contextualizado social e politicamente; há uma subordinação à sociedade que lhe faz exigências, determina objetivos e lhe provê condições e meios de ação. Vejamos mais de perto como se estabelecem os vínculos entre sociedade e educação.

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Conforme dissemos, a educação é um fenômeno social. Isso significa que ela é parte integrante das relações sociais, econômicas, políticas e culturais de uma determinada sociedade. Na sociedade brasileira atual, a estrutura social se apresenta dividida em classes e grupos sociais com interesses distintos e antagônicos; esse fato repercute tanto na organização econômica e política quanto na prática educativa. Assim, as finalidades e meios da educação subordinam-se à estrutura e dinâmica das relações entre as classes sociais, ou seja, são socialmente determinados. Que significa a expressão ―a educação é socialmente determinada‖? Significa que a prática educativa, e especialmente os objetivos e conteúdos do ensino e o trabalho docente, estão determinados por fins e exigências sociais, políticas e ideológicas. Com efeito, a prática educativa que ocorre em várias instâncias da sociedade – assim como os acontecimentos da vida cotidiana, os fatos políticos e econômicos etc. – é determinada por valores, normas e particularidades da estrutura social a que está subordinada. A estrutura social e as formas sociais pelas quais a sociedade se organiza são uma decorrência do fato de que, desde o início da sua existência, os homens vivem em grupos; sua vida está na dependência da vida de outros membros do grupo social , ou seja, a história humana, a história da sua vida e a história da sociedade se constituem e se desenvolvem na dinâmica das relações sociais. Este fato é fundamental para se compreender que a organização da sociedade, a existência das classes sociais, o papel da educação estão implicados nas formas que as relações sociais vão assumindo pela ação prática concreta dos homens. Desde o início da história da humanidade, os indivíduos e grupos travam relações recíprocas diante da necessidade de trabalharem conjuntamente para garantir sua sobrevivência. Essas relações vão passando por transformações, criando novas necessidades, novas formas de organização do trabalho e, especificamente, uma divisão do trabalho conforme sexo, idade, ocupações, de modo a existir uma distribuição das atividades entre os envolvidos no processo de trabalho. Na história da sociedade, nem sempre houve uma distribuição por igual dos produtos do trabalho, tanto materiais quanto espirituais. Com isso, vai surgindo nas relações sociais a desigualdade econômica e de classes. Nas formas primitivas de relações sociais, os indivíduos têm igual usufruto do trabalho comum. Entretanto, nas etapas seguintes da história da sociedade, cada vez mais se acentua a distribuição desigual dos indivíduos em distintas atividades, bem como do produto dessas atividades. A divisão do trabalho vai fazendo com que os indivíduos passem a ocupar diferentes lugares na atividade produtiva. Na sociedade escravista os meios de trabalho e o próprio trabalhador (escravo) são propriedade dos donos de terras; na sociedade feudal, os trabalhadores (servos) são obrigados a trabalhar gratuitamente as terras do senhor feudal ou a pagar-lhe tributos. Séculos mais tarde, na sociedade capitalista, ocorreu uma divisão entre os proprietários privados dos meios de produção (empresas, máquinas, bancos, instrumentos de trabalho etc.) e os que vendem a sua força de trabalho para obter os meios da sua subsistência, os trabalhadores que vivem do salário. As relações sociais no capitalismo são, assim, fortemente marcadas pela divisão da sociedade em classes, onde capitalistas e trabalhadores ocupam lugares 14 Guia de Estudo – PRÁTICA DE FORMAÇÃO I


opostos e antagônicos no processo de produção. A classe social proprietária dos meios de produção retira seus lucros da exploração do trabalho da classe trabalhadora. Esta, à qual pertencem cerca de 70% da população brasileira, é obrigada a trocar sua capacidade de trabalho por um salário que não cobre as suas necessidades vitais e fica privada, também, da satisfação de suas necessidades espirituais e culturais. A alienação econômica dos meios e produtos do trabalho dos trabalhadores, que é ao mesmo tempo uma alienação espiritual, determina desigualdade social e conseqüências decisivas nas condições de vida da grande maioria da população trabalhadora. Este é o traço fundamental do sistema de organização das relações sociais em nossa sociedade. A desigualdade entre os homens, que na origem é uma desigualdade econômica no seio das relações entre as classes sociais, determina não apenas as condições materiais de vida e de trabalho dos indivíduos, mas também a diferenciação no acesso à cultura espiritual, à educação. Com efeito, a classe social dominante retém os meios de produção material como também os meios de produção cultural e da sua difusão, tendendo a colocá-la a serviço dos seus interesses. Assim, a educação que os trabalhadores recebem visa principalmente a prepará-los para trabalho físico, para atitudes conformistas, devendo contentar-se com uma escolarização deficiente. Além disso, a minoria dominante dispõe de meios de difundir a sua própria concepção de mundo (idéias, valores, práticas sobre a vida, o trabalho, as relações humanas etc.) para justificar, ao seu modo, o sistema de relações sociais que caracteriza a sociedade capitalista. Tais idéias, valores e práticas, apresentados pela minoria dominante como representativos dos interesses de todas as classes sociais, são o que se costuma denominar de ideologia. O sistema educativo, incluindo as escolas, as igrejas, as agências de formação profissional, os meios de comunicação de massa, é um meio privilegiado para o repasse da ideologia dominante. Consideremos algumas afirmações que são passadas nas conversas, nas aulas, nos livros didáticos: - "O Governo sempre faz o que é possível; as pessoas é que não colaboram"; - "Os professores não têm que se preocupar com política; o que devem fazer é cumprir sua obrigação na escola"; - "A educação é a mola do sucesso, para subir na vida"; - "Nossa sociedade é democrática porque dá oportunidades iguais a todos. Se a pessoa não tem bom emprego ou não consegue estudar é porque tem limitações individuais"; - "As crianças são indisciplinadas e relapsas porque seus pais não lhes dão educação conveniente em casa"; - "As crianças repetem de ano porque não se esforçam; tudo na vida depende de esforço pessoal"; - "Bom aluno é aquele que sabe obedecer". Essas e outras opiniões mostram idéias e valores que não condizem com a realidade social. Fica parecendo que o governo se põe acima dos conflitos entre as 15 Guia de Estudo – PRÁTICA DE FORMAÇÃO I


classes sociais e das desigualdades, fazendo recair os problemas na incompetência das pessoas, e que a escolarização pode reduzir as diferenças sociais, porque dá oportunidade a todos. Problemas que são decorrentes da estrutura social são tomados como problemas individuais. Entretanto, são meias-verdades, são concepções parciais da realidade que escondem os conflitos sociais e tentam passar uma idéia positiva das coisas. Pessoas desavisadas acabam assumindo essas crenças, valores e práticas, como se fizessem parte da normalidade da vida; acabam acreditando que a sociedade é boa, os indivíduos é que destoam. A prática educativa, portanto, é parte integrante da dinâmica das relações sociais, das formas da organização social. Suas finalidades e processos são determinados por interesses antagônicos das classes sociais. No trabalho docente, sendo manifestação da prática educativa, estão presentes interesses de toda ordem - sociais, políticos, econômicos, culturais - que precisam ser compreendidos pelos professores. Por outro lado, é preciso compreender, também, que as relações sociais existentes na nossa sociedade não são estáticas, imutáveis, estabelecidas para sempre. Elas são dinâmicas, uma vez que se constituem pela ação humana na vida social. Isso significa que as relações sociais podem ser transformadas pelos próprios indivíduos que a integram. Portanto, na sociedade de classes, não é apenas a minoria dominante que põe em prática os seus interesses. Também as classes trabalhadoras podem elaborar e organizar concretamente os seus interesses e formular objetivos e meios do processo educativo alinhados com as lutas pela transformação do sistema de relações sociais vigente. O que devemos ter em mente é que uma educação voltada para os interesses majoritários da sociedade efetivamente se defronta com limites impostos pelas relações de poder no seio da sociedade. Por isso mesmo, o reconhecimento do papel político do trabalho docente implica a luta pela modificação dessas relações de poder. Fizemos essas considerações para mostrar que a prática educativa, a vida cotidiana, as relações professor-alunos, os objetivos da educação, o trabalho docente, nossa percepção do aluno estão carregados de significados sociais que se constituem na dinâmica das relações entre classes, entre raças, entre grupos religiosos, entre homens e mulheres, jovens e adultos. São os seres humanos que, na diversidade das relações recíprocas que travam em vários contextos, dão significado às coisas, às pessoas, às idéias; é socialmente que se formam idéias, opiniões, ideologias. Este fato é fundamental para compreender como cada sociedade se produz e se desenvolve, como se organiza e como encaminha a prática educativa através dos seus conflitos e suas contradições. Para quem lida com a educação tendo em vista a formação humana dos indivíduos vivendo em contextos sociais determinados, é imprescindível que desenvolva a capacidade de descobrir as relações sociais reais implicadas em cada acontecimento, em cada situação real da sua vida e da sua profissão, em cada matéria que ensina também nos discursos, nos meios de comunicação de massa, nas relações cotidianas na família e no trabalho. O campo específico de atuação profissional e política do professor é a escola, à qual cabem tarefas de assegurar aos alunos um sólido domínio de conhecimentos e habilidades, o desenvolvimento de suas capacidades intelectuais, de pensamento independente, crítico e criativo. Tais tarefas representam uma significativa 16 Guia de Estudo – PRÁTICA DE FORMAÇÃO I


contribuição para a formação de cidadãos ativos, criativos e críticos, capazes de participar nas lutas pela transformação social. Podemos dizer que, quanto mais se diversificam as formas de educação extra-escolar e quanto mais a minoria dominante refina os meios de difusão da ideologia burguesa, tanto mais a educação escolar adquire importância, principalmente para as classes trabalhadoras. Vê-se que a responsabilidade social da escola e dos professores é muito grande, pois cabe-lhes escolher qual concepção de vida e de sociedade deve ser trazida à consideração dos alunos e quais conteúdos e métodos lhes propiciam o domínio dos conhecimentos e a capacidade de raciocínio necessários à compreensão da realidade social e à atividade prática na profissão, na política, nos movimentos sociais. Tal como a educação, também o ensino é determinado socialmente. Ao mesmo tempo em que cumpre objetivos e exigências da sociedade conforme interesses de grupos e classes sociais que a constituem, o ensino cria condições metodológicas e organizativas para o processo de transmissão e assimilação de conhecimentos e desenvolvimento das capacidades intelectuais e processos mentais dos alunos tendo em vista o entendimento crítico dos problemas sociais.

Sua formação como educador requer uma base sólida quanto aos autores mais significativos que constroem sua visão de mundo, os quais serão referência constante em suas fundamentações. Por esse motivo, enfatizamos a necessidade de você pesquisar ( a Internet é uma boa alternativa para este fim, se usada com critério) sobre os escritores, pensadores, por nós citados. Suas avaliações se enriquecerão muito se você as alimentar com essas informações colhidas como inspiração e guia. Hoje, o professor vem a se constituir num pesquisador e produtor de conhecimento em sua prática pedagógica consciente.

Nossa intenção, nestas primeiras leituras, não é que conceitos específicos sejam internalizados, mas, principalmente, que, através do que os autores colocam, você, nosso parceiro de aventura, se perceba como quem passou e passa por esse processo social educacional descrito, em várias instâncias, primeiramente na família e, posteriormente, na comunidade, na escola, na igreja, assim como no que assimila dos meios de comunicação (jornal, televisão, rádio, internet etc.).Importa rever-se criança, revisitar sua formação, o que mais o marcou, sua relação com seus pais, irmãos, parentes, vizinhos ... quais visões de mundo foram, então, internalizadas ... depois a escola, os vários anos de estudo, os colegas, os jogos, brincadeiras, os brinquedos, os professores e sua influência, o confronto com os valores paternos, os conflitos, a adolescência, o amadurecimento, as relações sociais, o mundo na TV, os filmes e as novelas, os exemplos, a iniciação afetivo-sexual, as perspectivas futuras, o fazer-se adulto, a condição econômica, a competição por um espaço

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profissional, os preconceitos e os sonhos de consumo e de afeto, os complexos e as auto-rejeições, as dores, as aceitações e as incompreensões ... tudo o que nos fez no ser que hoje somos está palpitando permanências e mudanças, certezas e incertezas, consciências e inconsciências. Concomitantemente, propomos também o sair de si próprio e buscar ver o mesmo processo nos demais, nos mais próximos, nos pais, no que estes trouxeram de uma educação vivencial do passado, o que eles legaram a seus irmãos, como estes reagiram, como se configuraram, os colegas, os amigos, os que vieram depois, o que mudou e o que não, no mundo, nas famílias, na escola, nas relações, nos sonhos, nos desejos, nas tristezas, no humano. Neste sentido mais total, Libâneo dá o impulso de partida, mas a compreensão de educação se expande e se amplia a toda a vida, que é relação, que é troca, que é interação, porquanto no outro é que nos fazemos e refazemos em descoberta de nossas potencialidades, de nossas sensibilidades. O que fez e faz cada um de nós? Somos o que escolhemos ser? Há o que internalizamos, quando pequenos, como verdade inquestionável, mas que hoje, mais amadurecidos e esclarecidos, podemos modificar, reavaliar, rejeitar? Até que ponto conseguimos devolver a nossos pais seus modelos do passado, o que é deles, mas não mais necessariamente nosso? A viagem do auto-conhecimento pela compreensão das injunções inerentes a todo processo educacional de formação do EU implica rupturas, despedidas, novas visões, mutações, e esse caminho não é fácil, entretanto imprescindível para aquele que escolhe ser educador, profissional construtor de sociedade, de amanhãs, com opções conscientes que influenciarão escolhas de outros, de vidas, de relações. ―Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu ―destino‖ não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo. Daí que insista tanto na problematização do futuro e recuse sua inexorabilidade. Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o determinado.‖ (PAULO FREIRE - Pedagogia da Autonomia)

Paulo Freire esclarece, então, que somos historicamente condicionados, mas não determinados, o que quer dizer que, ainda que com resistências, podemos nos fazer em um novo ser, em novas relações humanas, em uma toda nova sociedade.

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E essa crença tem uma dimensão política profunda, uma vez que é em nós mesmos que o novo mundo começa: mudar a si mesmo é mudar o mundo. E agora, aventuramo-nos a dizer em poesia aquilo que em prosa, no caso, menos valer-nos-ia ... às vezes a linguagem poética, com suas imagens, suas metáforas, em poucas palavras transmite tudo que sentimos fundo e com que nos identificamos em essência. A autoria assumida tem um sabor diferente, como um jeito de ser em se expressar para os outros. Bem, ao dizermos que você deverá produzir, ou melhor, refletir com ação por meio do MEMORIAL, é bom saber que, para esta primeira produção, você será convidado a repensar sobre: quem é você hoje? E, para isso, é importante relembrarmos que nossos antepassados em nós estão vivos, embora fadados a nosso julgamento no que escolhemos parcial ou totalmente assumir, reproduzir, no que negamos, rejeitamos, no que arrancamos de nós, no que não podemos negar ou arrancar, no que é herança vital a nos constituir. Correto, aguarde instruções no ambiente virtual de aprendizagem para a realização desta atividade. E, lembre-se também, que Nosso legado, nossa origem é nossa marca existencial – é nosso ponto de partida em nossa construção-ação-relação perante o mundo; negando-a ou afirmando-a é sempre dessa raiz que nos lançamos à vida. Uma coisa é certa – todo bom guia turístico sabe a hora de se retirar com seus comentários e intervenções para que os viajantes degustem diretamente, por si mesmos, dos novos espaços que eles estão conhecendo e conscientemente adentrando. Assim, o próximo trecho será percorrido por você, através da leitura da mente e do coração, unidos, abrindo-se a depoimentos vivos, de humanos como nós, que mais humanos se fazem ao exercerem sua humanidade que é palavra, que é fala ... serão poesias, letra de música, artigo, crônica enfocando a relação com a família. Deguste ativamente, com identificação, dialogando com o texto, revendo a si mesmo no que eles relatam, refazendo sua história, tomando consciência de você no hoje, em visões de mundo, em valores e crenças, em características, naquilo que ergueu sua personalidade, ardendo no prazer e, ao mesmo tempo, na necessária dor do conhecimento de si próprio/a. Boa excursão !

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Texto 1: Poesias de Álvaro de Campos

http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/473.html

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco. O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino, O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... A que distância!... (Nem o acho...) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), O que eu sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos, É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim... Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

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Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---, As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... Álvaro de Campos, 15-10-1929

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Texto 2: Infância

- Carlos Drummond de Andrade

http://www.acamiens.fr/etablissements/0601178e/rvluso/article.php3?id_article=914

http://certasmusicas.digi.com.br/audiomv/infancia.mp3

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: - Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito. E dava um suspiro... que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. ___________________________________________________________

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Texto 3: Como Dizia Meu Pai (trecho) Fernando Sabino

http://www.releituras.com/fsabino_meupai.asp

JÁ SE TORNOU HÁBITO MEU, em meio a uma conversa, preceder algum comentário por uma introdução: — Como dizia meu pai... Nem sempre me reporto a algo que ele realmente dizia, sendo apenas uma maneira coloquial de dar ênfase a alguma opinião. De uns tempos para cá, porém, comecei a perceber que a opinião, sem ser de caso pensado, parece de fato corresponder a alguma coisa que Seu Domingos costumava dizer. Isso significará talvez — Deus queira — insensivelmente vou me tornando com o correr dos anos cada vez mais parecido com ele. Ou, pelo menos, me identificando com a herança espiritual que dele recebi. Não raro me surpreendo, antes de agir, tentando descobrir como ele agiria em semelhantes circunstâncias, repetindo uma atitude sua, até mesmo esboçando um gesto seu. Ao formular uma idéia, percebo que estou concebendo, para nortear meu pensamento, um princípio que se não foi enunciado por ele, só pode ter sido inspirado por sua presença dentro de mim. — No fim tudo dá certo... Ainda ontem eu tranqüilizava um de meus filhos com esta frase, sem reparar que repetia literalmente o que ele costumava dizer, sempre concluindo com olhar travesso: — Se não deu certo, é porque ainda não chegou no fim. Gosto de evocar a figura mansa de Seu Domingos, a quem chamávamos paizinho, a subir pausadamente a escada da varanda de nossa casa, todos os dias, ao cair da tarde, egresso do escritório situado no porão. Ou depois do jantar, sentado com minha mãe no sofá de palhinha da varanda, como namorados, trocando notícias do dia. Os filhos guardavam zelosa distância, até que ela ia aos seus afazeres e ele se punha à disposição de cada um, para ouvir nossos problemas e ajudar a resolvê-los. Finda a última audiência, passava a mão no chapéu e na bengala e saía para uma

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volta, um encontro eventual com algum amigo. Regressava religiosamente uma hora depois, e tendo descido a pé até o centro, subia sempre de bonde. Se acaso ainda estávamos acordados, podíamos contar com o saquinho de balas que o paizinho nunca deixava de trazer.

(O trecho acima foi retirado do texto publicado originalmente no livro "A Volta por Cima" e extraído de "Fernando Sabino Obra Reunida, Vol. III", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1996, pág.611).

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Texto 4: QUANDO MEU PAI MUDOU O DESTINO - Nei Duclós

http://www.consciencia.org/neiduclos/index.php?name=News&file=article &sid=83

Ele sabia se vestir. Ou melhor, sabia que seu terno, seu cabelo bem puxado para trás, seu bigode fino, seu sapato de verniz, seu corpo magro e firme tinham aquela postura que agradava às mulheres. Recém saído da Brigada Militar, de onde se retirou depois de sofrer uma injustiça (não foi condecorado por bravura na guerra de 1932, quando prendeu um oficial inimigo), ele abraçou a carreira de inspetor sanitarista, naquela época em que havia investimentos nessa área no Brasil. Lá conheceu a moça magra e também elegante, de passo miúdo e sorriso sedutor, com olhinhos puxados de índia, cabelo preto e pele morena. Vinda de uma família de proprietários de terra que perderam as posses com a morte do pai, ela tinha formação: fora professora primária e além disso passara uma temporada de estudos na capital. Muito religiosa, entrou em acordo antes de casar com aquele moço bonito, ateu, charmoso e um apaixonado pela caça e a pesca. Poderia freqüentar a igreja e encaminhar os filhos para a religião, que ele não colocaria nenhum obstáculo. Ele seguiu à risca seu acordo, mas surpreendeu em outros itens. Decidiu, por exemplo, um belo dia, que não queria mais a carreira pública. Havia muito conflito por pouco dinheiro. Além disso, era uma rotina muito monótona. O que fazer, se já tinham três crianças em casa? Resolveu então juntar os cacarecos, colocar mulher e filhos na casa de um parente e partir para uma longa pescaria. BRILHO - Lá no meio do mato ele achava a si mesmo, o homem perdido na cidade. Sentia-se aliviado e tornava-se humano, fora da carcaça que precisou inventar para sobreviver. Pertenceu também a uma família órfã de pai. O velho, tenor de circo, daqueles que cantavam árias no final dos espetáculos mambembes das periferias, abandonou mulher com oito filhos e saiu pelo mundo para nunca mais voltar. Seu ímpeto, talvez, fosse fazer o mesmo, mas ele não repetiria o erro. Era um homem de palavra. Mas primeiro deixou-se levar, dias e dias pescando, vivendo do peixe, que ele fritava com a maior tranqüilidade na beira de um arroio farto e generoso, em terras pertencentes a um estancieiro amigo seu. Tivera uma infância pobre e lutou bravamente todos os dias. Com nove anos de idade, de pé no chão, vendia pastel . Um dia levou um relhaço de um carroceiro, que o atingiu por pura maldade. Não teve dúvida: jogou uma pedrada nas costas do agressor. Na escola, fizera tão bem o primeiro ano primário, que passou imediatamente para o terceiro. Espírito livre, caiu no erro de espreguiçar-se, uma vez só, em aula. Levou uma reguada da professora naquela época da palmatória. Levantou-se, pegou seu boné e não voltou mais. Tornou-se um devorador de livros, jornais e revistas. Lia tudo, até classificados. Queria que os filhos fossem longe, fizessem faculdade e doutorado, e tivessem a iniciativa de adiantar-se aos professores. Não poderia, portanto, voltar atrás. Levantou-se na beira do arroio, viu as bóias do seu espinhel, sentou-se no seu banco e decidiu: vou montar um negócio, sair dessa vida precária. Tinham já se

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passado 15 dias. Voltou sujo, barbudo, mas com um estranho brilho no olhar ardosiado. NEGÓCIOS - Montou então uma lenheira, depois um armazém, depois uma loja de brinquedos com uma barbearia ao fundo e prosperou. Tonou-se o único rico entre os irmãos. Um deles era pescador, dois aposentados, uma irmã viúva, numa sucessão de pessoas que costumavam passar o verão naquela esquina generosa, onde a todos acolhia com seu charme de anfitrião. Dizia-se feliz, pois um belo dia mudara o destino. Gostava de iniciativas, de pessoas se virando, de sucesso. Mas jamais fez amizade na elite, com algumas exceções, pessoas que o admiravam e aceitavam como era: um homem franco, independente e que às vezes poderia ser confundido com uma pessoa hostil. Era sócio de todos os clubes, os dos ricos e os da classe média. Não freqüentava nenhum. Por um tempo, gostou de jogar. Sentiase seguro, com sorte. Mas nem sempre teve sorte. Caiu, mas levantou-se. Montou numa garagem na saída da ponte internacional uma pequena casa de caça e pesca que se transformou num comércio de variedades, desde garrafa térmica até cadeira desmontável. Nessa casa estreei minha primeira ocupação profissional. EXEMPLO - Quinto filho daquele casal, eu vivia no mundo da lua. Nada sabia da história que os dois criavam ao redor de si. Sem enxergar, eu fazia parte daquele enredo. E dali saí para o mundo, equipado com o que tinha de melhor: o rompante do meu pai voluntarioso e livre, a concentração e a verve da minha mãe. Minha literatura tem essa origem: o pai que enfrentava a correnteza, a mãe que abençoava a partida. E a possibilidade, pelo exemplo, de um belo dia mudar o destino.

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Texto 5: UMA POSSÍVEL FORMA DE TAMBÉM NOS ERGUERMOS A PARTIR DAS IMAGENS DA FAMÍLIA. - Renato Tavolieri Filho Pai, eu tive, ou talvez não ... ausente, não hostil, mas indiferente, ao menos nos meus primeiros anos, anos em que tive alguma consciência de mim. Muito correu do rio do tempo até que nos resgatamos amigos, mais por minha busca do que por iniciativa dele, embora afável, brincalhão, do seu jeito, um jeito de ser omisso e irresponsável na vida, mas bom, de coração, bom... Mãe, por tantas razões que já me cansei de trabalhar em anos de terapia, foi vivência de rejeição de mim, quando pequeno... uma mulher forte, então distante, que com admirável capacidade de trabalho e destemor segurou a família no naufrágio financeiro que calou para sempre a ação, a presença, a voz de meu pai, que nunca se deu conta do que seria trazer pão para alimento de filho... Carente, encontrei no aconchego doce, calmo e sábio de uma avó, a imagem da mãe que me faltava, bem como na intervenção de um tio, a figura paterna que me ajudou um tanto no esculpir do lemeguia da tenacidade do lutar por mim e do gosto por leitura, por música, natureza, simplicidade... ________________________________________________________________________

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Texto 6: No Dia Em Que Eu Vim-me Embora - Caetano Veloso

http://letras.terra.com.br/letras/144569/

No dia em que eu vim-me embora Minha mãe chorava em ai Minha irmã chorava em ui E eu nem olhava pra trás No dia que eu vim-me embora Não teve nada de mais Mala de couro forrada com pano forte brim cáqui Minha vó já quase morta Minha mãe até a porta Minha irmã até a rua E até o porto meu pai O qual não disse palavra durante todo o caminho E quando eu me vi sozinho Vi que não entendia nada Nem de pro que eu ia indo Nem dos sonhos que eu sonhava Senti apenas que a mala de couro que eu carregava Embora estando forrada Fedia, cheirava mal Afora isto ia indo, atravessando, seguindo Nem chorando nem sorrindo Sozinho pra Capital Nem chorando nem sorrindo Sozinho pra Capital Sozinho pra Capital Sozinho pra Capital Sozinho pra Capital…

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Texto 7: Família e Escola: uma relação de ajuda - Prof. Ms. Joana Maria R. Di Santo** A família, durante muito tempo, nem foi objeto de estudos, no entanto é na instituição familiar que vivenciamos a primeira forma de amor com que se tem contato na vida. É nela que nos humanizamos. Se valorizarmos esse relacionamento e esse sentimento, vamos transmiti-los aos nossos filhos. No entanto, a instituição família tem recebido pouco investimento das pessoas, até pela falta de sentido que a reveste nos dias de hoje, em que o consumismo reina soberano e até as leis ajudam na sua fragmentação. A instituição social mais tem colaborado na extinção do que na promoção da família. Até os anos 1960, casar, criar filhos era um projeto de vida; agora, tal projeto ficou relegado a um plano secundário e, praticamente, perdeu o sentido, como perderam o sentido os valores a longo prazo. A humanidade como um todo está perdendo o sentido propriamente humano da afetividade e compromisso com o conjunto para a individualidade, o consumismo, a solidão. Numa breve retrospectiva histórica, vemos que, nos anos 1960, a política autoritária, não apenas do Brasil, mas de muitas partes do mundo, fez com que os jovens se revoltassem contra todo poder instituído, inclusive o patriarcal. Queriam quebrar barreiras e a família foi a primeira delas, a mais acessível naquele momento de amor livre, de ―revolução branca‖ contra as amarras institucionais. A família patriarcal, com o pai dando todas as ordens, já não é preponderante, inclusive porque nas favelas, principalmente, há falta de homens de 14 a 25 anos, que são mortos de maneira violenta (conforme pesquisas amplamente divulgadas), fazendo com que a mulher assuma as duas funções: paterna e materna. Nesse sentido, tratar as famílias de hoje da mesma forma que as de outrora, exigindo delas as mesmas responsabilidades e atribuições de então seria agir diacronicamente, sem sintonia com a realidade atual. ―A ausência da figura paterna é muito freqüente e está associada à falta de limites e ao desenvolvimento de padrões alterados de conduta. A função paterna será associada, muitas vezes, à figura de um delinqüente poderoso‖(Outeiral, 2005, p.29) Acrescenta-se a tal situação que, com a tecnologia altamente desenvolvida a que temos acesso nos dias de hoje, tudo fica bonito e veloz, mas, dentro de casa, onde estão os sentimentos? Onde está o espaço do diálogo entre os familiares? A grande chave do relacionamento familiar é poder amar de verdade e converter isso em ação. Para tanto há que se reservar um tempo específico. E, na atualidade, tudo indica que tal ação não esteja ocorrendo a contento. Nossa sociedade de tantas contradições está promovendo muito mais a aproximação e intercâmbio entre projetos e culturas diferentes do que entre os membros de uma mesma família e, também, do que entre as famílias e as equipes das escolas que seus filhos freqüentam. É certo que os papéis da família e da escola, antes prioritariamente repressores, modificaram-se ao longo das últimas décadas. Uma das principais diferenças referese à transmissão do conhecimento, pois antigamente, essa transmissão dava-se apenas na escola, a agência por excelência destinada à transmissão dos

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conhecimentos acumulados pela sociedade. Os comportamento eram ensinados e cultivados em casa.

valores

e

padrões

de

Atualmente, a família tem passado para a escola a responsabilidade de instruir e educar seus filhos e espera que os professores transmitam valores morais, princípios éticos e padrões de comportamento, desde boas maneiras até hábitos de higiene pessoal. Justificam alegando que trabalham cada vez mais, não dispondo de tempo para cuidar dos filhos. Além disso, acreditam que educar em sentido amplo é função da escola. E, contraditoriamente, as famílias, sobretudo as desprivilegiadas, não valorizam a escola e o estudo, que antigamente era visto como um meio de ascensão social. A escola, por sua vez, afirma que o êxito do processo educacional depende, e muito, da atuação e participação da família, que deve estar atenta a todos os aspectos do desenvolvimento do educando. Reclama bastante da responsabilidade pela formação ampla dos alunos que os pais transferiram para ela, e alega que isto a desviou da função precípua de transmitir os conteúdos curriculares, sobretudo de natureza cognitiva. Com isso, ao invés de ter as famílias como aliadas, acaba afastando-as ainda mais do ambiente escolar. E todos perdem! Há que se considerar, ainda, os casos de separação do casal, em que as crianças são colocadas diretamente no embate e sofrem muito mais que os pais, que deixam de ser marido e mulher, mas continuam pai e mãe das crianças. Quando já estava presente um relacionamento de confiança família-escola, e esta acolhe o aluno de maneira satisfatória, os sentimentos de abandono e medo do futuro diminuem. Em geral, tais pessoas conseguem comunicar-se melhor com as próprias oportunidades que o mundo oferece e geralmente tiveram o privilégio do estímulo familiar, impulsionando e apontando o compromisso com a dignidade, a possibilidade de conquistar os próprios sonhos, alicerçando condições para que as pessoas acreditem em si mesmas e ajam com vistas ao sucessoJá no caso das famílias que têm se envolvido com a educação dos filhos enquanto cobrança, principalmente da promoção de uma série para outra, e também de comportamento e interação, colocando em plano secundário a motivação, o prazer de freqüentar a escola e de aprender, os problemas se agravam. Como esperar alunos estimulados e envolvidos com o processo de ensino-aprendizagem se a cobrança de resultados é excessiva e o medo de não corresponder às expectativas imobiliza? Como as demais instituições sociais, a família e a escola, passam por mudanças que redefinem sua estrutura, seu significado e o seu papel na sociedade. É o que tem acontecido nos dias de hoje, em função de diversos fatores, sobretudo, a emancipação feminina. Com isso, os papéis da escola foram ampliados para dar conta das novas demandas da família e da sociedade. Esse é um fato que deve, necessariamente, ser levado em consideração quando se trabalha com a escola. Negá-lo é agir fora da realidade e não obter resultados satisfatórios. É certo que cada segmento apresenta reclamações e expectativas em relação ao outro; os professores acham que os pais devem estabelecer limites e ensinar a seus filhos os princípios básicos de respeito aos semelhantes, boas maneiras, hábitos de alimentação e higiene pessoal, etc. Por sua vez, os pais se recusam a comparecer à escola para ouvir sermões e serem instados a criar situações que possibilitem a

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aprendizagem de seus filhos, alegando que a função de ensinar conteúdos, criar situações de aprendizagem é da escola, dos professores. Se num primeiro momento os professores reclamaram e rejeitaram a função mais ampla de transmitir valores morais, princípios éticos e padrões de comportamento, desde boas maneiras até hábitos de higiene pessoal e alimentação, como falamos anteriormente, hoje já não estão tão arredios em participar de tais atividades e, também, atender a esses pais, ouvindo-os, dialogando com eles e, dessa forma, colaborando para a sua formação e de seus filhos. As escolas, por sua vez, estão abrindo espaços para a participação das famílias, a ponto de, hoje, família e escola serem co-autoras das decisões administrativas e pedagógicas, o que acaba favorecendo e facilitando a educação dos estudantes. As faculdades de Pedagogia e os cursos de licenciatura vêm debatendo a necessidade de ambas caminharem juntas, se responsabilizando mutuamente pela formação dos alunos. Estão discutindo entre seus pares que, para haver parceria e composição de tarefas, é preciso ter clareza do que cabe a cada uma das instituições. A escola deve compreender que a família mudou e é com essa família que deve trabalhar. A escola precisa ser o espaço de formação/preparação das novas gerações. Os professores precisam aproximar-se de seus alunos tendo o apoio constante da família. Valorizar a heterogeneidade em lugar da ambicionada homogeneidade perseguida pela escola tradicional, a universalização do ensino, evitando a discriminação e o abandono, o processo e não apenas o produto do conhecimento, o respeito à diferença, investindo na educação inclusiva, o papel do professor como mediador do processo, bem como a necessidade de constituir junto aos estudantes valores e conceitos para a vida harmoniosa e plena em cidadania, são tarefas relativamente recentes e bastante complexas a serem assumidas por todos os envolvidos no trabalho escolar. Finalmente, na relação família/educadores, um sujeito sempre espera algo do outro. E para que isto de fato ocorra é preciso que sejamos capazes de construir de modo coletivo uma relação de diálogo mútuo, onde cada parte envolvida tenha o seu momento de fala, onde exista uma efetiva troca de saberes. A construção dessa relação implica em uma capacidade de comunicação que exige a compreensão da mensagem que o outro quer transmitir, e para tanto, se faz necessário, a competência e o desejo de escutar o que está sendo expresso, bem como a flexibilidade para apreender idéias e valores que podem ser diferentes dos nossos. Por parte da escola: respeito pelos conhecimentos e valores que as famílias possuem, evitando qualquer tipo de preconceito e favorecendo a participação dos componentes da instituição familiar em diferentes oportunidades, estimulando o diálogo com os pais e possibilitando-lhes, também, obter um ganho enquanto sujeitos interessados em evoluir e se aperfeiçoar e como seres humanos e cidadãos compromissados com a transformação da realidade. ** Joana Maria R. Di Santo é Psicopedagoga experiente, com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, Supervisora aposentada do Município de São

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Paulo, mestre em Educação, Professora do Curso de Pedagogia da Uni'Santana, profere palestras e assessora diversas escolas.

E então, foi boa a experiência de se lançar sozinho/a num continente desconhecido? Pois é, somos os mais distantes da verdade de nós mesmos, e talvez seja essa a busca maior do homem, conforme já diziam nossos “pais” gregos – CONHECE-TE A TI MESMO... Porém, dizer a si mesmo/a sobre si mesmo/a só se concretiza de fato quando nos dizemos ao outro, aos outros – porquanto é na alteridade, na relação com o outro, que me revelo a mim, ao me revelar a ele. Somos seres de relação, que nos construímos na relação. Vamos praticar humanidade por “experienciarmos” a nós mesmos ao nos dizermos ao mundo?

ATIVIDADE !!! Esta será a primeira atividade de produção pessoal. Baseando-se em tudo lido, nas vivências dos relatos sobre a família, o lar, a infância, escreva sua versão dessa mesma expressão, ou seja, como dialoga com a imagem paterna e materna, seus legados, os irmãos, parentes, o lar, a vida em conjunto, seus avós, talvez tios, primos. O que marcou, o que ficou, como numa canção de Vinícius de Morais e Tom Jobim, falando de afeto, ou não, no que tinha e no que não tinha que ser.... frente ao que ainda permanece, o que palpita em você e que o faz ser como é. Para a realização da atividade, aquarde instruções mais detalhadas no Ambiente Virtual de Aprendizagem – SABE na ferramenta ATIVIDADES.

E já deixamos porto e história para trás, partindo para outro pedaço de caminhar conjunto – agora saímos de casa, abrimos os olhos para o mundo, com tantos outros seres, famílias, lares, a comunidade à nossa volta, nosso bairro, os vizinhos, a igreja talvez, mas, sem dúvida, a escola, um momento especial de nossa formação. E a vivência escolar se confunde com vida por tão internalizada, tão essencialmente marcada, na nossa abertura à sociedade, às relações sociais, às convenções, às normas, aos deveres e obrigações, às responsabilidades, à necessidade de aceitação, à competição por um lugar ou uma voz, a belezas e decepções no mundo que se revela em sua verdade no mais das vezes não tão feliz nem justa... Mas a magia, o encantamento ( e também o descontentamento, a

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frustração) da escola estão exatamente no que ela promove e descortina enquanto processo de conhecimento, internalização, aprendizado, assimilação da sociedade. A experiência escolar, no seu início, expande a dimensão familiar, sem obscurecêla, mesclando imagens, sentimentos, com projeções, choques, transferências, influências, que nos dividem ou somam, complexificando e assim enriquecendo a difícil tarefa de formação de nossa personalidade, de nosso eu, de nós como indivíduos. E é neste ponto especial de nossa aventura que você começa a perceber que, ao escolher ser educador, trouxe para si mesmo/a a tarefa maior de influenciar a formação de personalidades, com sua forma de ver a vida, seus valores, seu jeito de ser e se relacionar que estão impregnados de suas vivências passadas, de suas escolhas, de seus preconceitos, de suas grandezas e de suas pequenezas, porque somos seres históricos e, como professores, não podemos nos iludir que nos compete apenas ensinar conteúdos, saberes de caráter científico – mesmo não intencionalmente, informalmente, passamos e afirmamos em nossos alunos nossos encontros, desencontros, concepções, escolhas, paixões, idiossincrasias, paixões, raivas, que permeiam nosso suposto discurso neutro em sala de aula, neutralidade que não existe, nunca. Quanto mais a evitamos, mais a reforçamos no seu sentido mais perverso, que é a irresponsabilidade, a inconsciência. Desta forma, é preciso, mais que nunca, como educadores-professores, empreendermos à difícil tarefa do auto-conhecimento, constantemente nos buscando, analisando, para podermos ser, com convicção, o que somos, assumindo-nos perante nossos alunos, sabendo que o que somos os influenciará de alguma forma, e isso não é algo para se negligenciar. Por isso , em nossa Prática de Formação, começamos com este resgate de nós mesmos, para nos entendermos, para nos conhecermos, para nos fazermos conscientes de nós e, portanto, daquilo que estamos legando a nossos alunos que a nós vêm, ávidos por caminhos, por sugestões, por exemplos, por estímulos, por estradas já trilhadas que os guiem nas que eles começam a desbravar. Cremos que Georges Gusdorf já pode se apresentado a vocês, com a introdução de seu livro “Professores para quê?”, em que família e escola, pais e professores se encontram, peculiarmente, na formação do adulto que será. Leiam como alunos, tentando relembrar como a imagem de seus pais ou familiares dialogaram com a de seus primeiros e mais significativos professores.

INTRODUÇÃO (Georges Gusdorf) Dentre as recordações privilegiadas que todo homem conserva de sua própria vida – recordações de família, de amor, de guerra, de caça - as recordações escolares constituem uma categoria particularmente importante. Cada um de nós preserva imagens inesquecíveis do início da vida escolar e da lenta odisséia pedagógica a que se deve o desenvolvimento do nosso pensamento e, em grande parte, a formação de nossa personalidade. Mesmo que o conteúdo do ensino tenha se perdido, ou seja, que o homem tenha desaprendido o que a criança aprendeu, o

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clima de sua vida escolar continua presente nele: a aula e o recreio, os exercícios e os jogos, os colegas. Quase sempre as recordações dos exames são particularmente precisas: os ritos de passagem da civilização ―escolar e universitária‖ têm um valor emotivo elevado, pois consagram os primeiros confrontos da criança e do adolescente com o mundo adulto das obrigações e das sansões. Também sobrevivem em nós, aureoladas pela gratidão de uma memória reconhecida, as feições de mestres e professores, algumas vezes há muito tempo desaparecidos do mundo dos vivos. Esses rostos encontram um último refúgio na hospitalidade que a lembrança de seus antigos alunos lhes concede. A memória, aliás, parece, muitas vezes, servir de asilo de maneira indiscriminada: tanto conserva afirmações importantes e exemplos decisivos como atitudes ou fórmulas sem nenhuma importância aparente ou até pequenos ridículos. Um sorriso, uma palavra de censura ou de conselho, um elogio surgem, na intimidade da memória, como profecias do que mais tarde viria a suceder, coisas de que a vida depois nos traria a confirmação ou que, pelo contrário, viria a desmentir totalmente... Aos olhos da criança, os pais são como deuses tutelares, onipotentes e oniscientes, cuja benevolência é preciso saber captar por meios apropriados. Mas há um momento em que essa veneração cega dá lugar a uma atitude na qual a crítica e a perspicácia intervêm pouco a pouco, desacreditando os ídolos de outrora. Descobre-se que os pais não são infalíveis, que às vezes mentem ou não são leais em suas relações com os filhos. A criança cresce com essa diminuição capital que, aos poucos, também afeta todos os adultos; porém, ao mesmo tempo, sente-se desprotegida pela perda de prestígio de todos aqueles em quem depositava confiança e que eram os protetores naturais de seu espaço vital. Aprende assim o que é a solidão e a insegurança, e começa a descobrir que elas são características inalienáveis da condição humana. Antes, contudo, de se resignar a aceitar seu destino, a criança procurará outros fiadores de sua tranqüilidade. Se os pais não são infalíveis, se a autoridade deles só pode ser aceita sob reservas, deve haver, no mundo, seres excepcionais, dignos de uma confiança total. É assim que, freqüentemente, o professor primário intervém, no início da vida, substituindo o pai e a mãe na função principal de testemunho e indicador de Verdade, do Bem e do Belo. Cabe-lhe servir de refúgio a todas as esperanças traídas: sobre ele repousam a ordem do mundo e a ordem no homem. Digno ou indigno, queira ele ou não, o professor primário, no mais modesto escalão do ensino, desfruta de uma autoridade espiritual que nenhum dos que lhe sucederão no cumprimento da função educativa junto da criança ou do adolescente irá possuir. Todos os professores futuros, por maior que seja seu valor, não conseguirão ter o mesmo prestígio de que naturalmente se acha revestido o anjo da guarda do espaço escolar perante a criança que, pela primeira vez, transpõe com respeito, temor e tremor o limiar da escola. O professor é, pois, o herdeiro do pai. Surge como pai segundo o espírito, no momento em que o pai segundo a carne se revela para sempre incapaz de assumir as responsabilidades que a imaginação infantil lhe atribui. E, certamente, também o professor será incapaz de corresponder plenamente à expectativa de que é objeto, mas se beneficia da atmosfera de respeito de que o próprio desejo do aluno o rodeia. A devoção pelo professor exprime uma afirmação quase religiosa, dirige-se a

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um saber que é simultaneamente sabedoria e posse dos segredos da vida. Pelo fato de o ensino ter sido, durante muito tempo, associado ao sacerdócio, mesmo laicizado, conserva certas características de sacerdócio. O professor, servidor da vida do espírito, sabe-se e quer-se diferente de todos aqueles que, na cidade, visam somente a interesses financeiros ou vantagens pessoais. Seus concidadãos, aliás, atribuem-lhe voluntariamente as obrigações e as prerrogativas de uma espécie de clericato. Por isso, ao longo de toda a vida, o homem conservará fielmente a lembrança de seus primeiros professores. Mesmo que sua existência tenha se desenvolvido fora de qualquer preocupação de saber, não pode deixar de evocar, num reconhecimento retrospectivo, o rosto daqueles que foram para ele os primeiros sustentáculos da verdade, os guardiões de esperança humana. Essa função, que é, no nível mais simples, a do professor primário, continua idêntica nos diversos graus do ensino. Mas, aos poucos, a exigência do aluno torna-se mais crítica; menos facilmente satisfeita, detecta fraquezas, discrimina personalidades. O estudante tem cada vez mais professores nos quais aprecia diversamente a competência técnica. Mas o surgimento, em meio aos professores, de um mestre digno desse nome é raro. Essa palavra consagra, agora, uma qualificação especial, uma força superior de validade, de cuja presença e irradiação irão se beneficiar todos os que com ela contactam. Entendida desse modo, a palavra mestre é prerrogativa independente da atividade pedagógica propriamente dita. Muitos homens ensinam – uma disciplina intelectual ou manual, uma técnica, um ofício -, poucos desfrutam desse acréscimo de autoridade que lhes advém, não de seu saber ou capacidade, mas de seu valor como homem. Nesse sentido, um artista, um artífice, um homem de Estado, um chefe militar, um sacerdote podem ser tão bons ou melhores mestres para aqueles que os cercam do que certos professores. A vida de tais homens impõe-se, a todos ou a alguns, como uma lição de humanidade. A relação mestre-discípulo surge-nos, pois, como uma dimensão fundamental do mundo humano. Cada existência forma-se e afirma-se em contato com as existências que a cercam; ela constitui como que um nó no conjunto das relações humanas. Em meio a essas relações, algumas são privilegiadas: a dos filhos com os pais e irmãos, a relação de amizade ou de amor e, singularmente, a relação do discípulo com o mestre que lhe revelou o sentido da vida e o orientou, se não na sua atividade profissional, ao menos na descoberta das certezas fundamentais. Para além da reflexão sobre as vias e os meios do ensino especializado, abre-se-nos a possibilidade de uma outra meditação que, como uma pedagogia da pedagogia, se exerce sobre a investigação dos processos secretos através dos quais, fora de todo conteúdo particular, se cumpre a edificação de uma personalidade e se processa um destino. O papel do mestre é, aqui, como o do intercessor; é ele que dá a forma humana aos valores. A criança e o adolescente, todo aquele que está à procura de si mesmo, acham-se, assim, confrontados com uma encarnação das vontades que talvez estejam adormecidas neles. E esse reencontro com o melhor, esse confronto com a mais alta exigência, desmascarando uma identidade que a si mesmo ignorava, permite à personalidade passar ao ato e escolher-se a si mesma tal como sempre se desejou. 35 Guia de Estudo – PRÁTICA DE FORMAÇÃO I


E vamos a mais uma excursão com você se aventurando sozinho em exploração – no caso, exploração de si mesmo/a, um continente infinito de descobertas sempre renovadas – porque estamos vivos e somos seres de mudança, de história:

ATIVIDADE!!! – Desta vez você comporá uma retrospectiva sobre seus primeiros professores, os mais significativos, os que mais o/a influenciaram, dizendo o porquê - e como, crescentemente, as imagens deles se fundiram ou se chocaram com as de seus pais ou as de outros familiares. Como está hoje essa influência, com que clareza você a percebe, ela mudou?

Para a realização da atividade, aquarde instruções mais detalhadas no Ambiente Virtual de Aprendizagem – SABE na ferramenta ATIVIDADES. Bem, até este ponto de nossa caminhada, acreditamos que nosso primeiro objetivo tenha sido atingido – afinal, viajamos ao passado de nós mesmos ainda hoje presente no que nos legou. A educação, formal e informal, exerce seu papel de nos constituir em cidadãos de uma determinada sociedade num determinado momento histórico, com seus valores, normas, ideais, expectativas, condicionamentos, paradigmas vigentes. Muito nos é passado na escola, onde nossos primeiros fundamentos de ser social se expandem e se concretizam, fazendo-nos herdeiros dessa herança, herança porém a ser revisitada, conscientizada, para que possíveis reajustes e justiças se proclamem e se promovam no adulto, refazendo a criança no que ela assimilou sem criticidade, sem poder escolher, por não saber de todas as injunções, implicações, alternativas. Ser condicionado e não determinado nos permite, ainda que com dificuldade, transformação, mudança, auto-superação em momento de maior lucidez e maturidade, quando desvelamos para nós os elos escondidos e perdidos de nós próprios. Estamos, então, prontos para um avanço qualitativo em nosso roteiro – nau firme cruzando mares, que nosso próximo porto-objetivo se nos anuncia em chegada.

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UNIDADE 2: O SEGUNDO TRECHO DA VIAGEM

OBJETIVO - Incorporar o exercício da autocrítica paralelamente ao da crítica social pela compreensão de que a "lógica" da sociedade em que nos inserimos está em nossas mentes internalizada, reproduzida, condicionando nossas percepções, nossos julgamentos, nossos sentimentos, nossas ações, nossas relações. E nossa viagem adentra mares mais densos, de maior complexidade, que vão requerer, de nossa parte, maior habilidade no exercício de reflexão para atravessarmos esta etapa com sucesso. Você já reparou como nós somos “fantásticos críticos” de tudo à nossa volta? A sociedade vai mal, “as pessoas” são irresponsáveis, superficiais, preguiçosas, competitivas, materialistas, consumistas, preconceituosas, autoritárias, agressivas etc. Entretanto, quem são exatamente essas pessoas? “sociedade”?

O que define a tal

E eu, como fico nisso tudo? Afinal, sou fruto e parte do mesmo grupo social, de um sistema capitalista, que me moldou em valores, desejos, sentimentos e lógica, desde que nasci. O que garante que sou diferente, que estou imune? Será que estou sabendo olhar para mim mesmo com coragem e honestidade, percebendo em mim, acima de tudo, as características que tanto aprendi a condenar externamente, como fala vazia que nada acresce porque não me questiona nem faz de mim um ser humano que busca se reescrever a partir de novos parâmetros, de um novo paradigma, de uma nova visão que se tente aprofundar, conhecer, esclarecer, sentindo que tenho um compromisso primeiro, histórico, cidadão, de, a partir de mim, estabelecer melhores e mais dignas relações humanas? Acredito que a descoberta de nós mesmos seja um choque, uma surpresa, uma tarefa árdua a que poucos homens se aventuram. No entanto, como ser educador na inconsciência de si próprio? Como ajudar a construir um melhor amanhã junto a seus alunos, futuros cidadãos, sem ser consistente com seus ideais, sem ser um exemplo mais coerente, ao menos mais consciente, de suas visões e opções internas, aquelas que se formaram no tempo, condicionadas por toda vivência, desde a infância, com os meios de comunicação nos reforçando vontades, julgamentos, vaidades, desejos? Como afirmar nos jovens resistências a esses apelos, como abrir-lhes os olhos, desvelando a sutil ardilosa publicidade que nos faz reprodutores-consumidores do que nos apequena e domestica? Como enfrentar os

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possíveis complexos de inferioridade, o sentimento de não pertença, de rejeição dos que ainda em tenra idade sofrem por não corresponderem aos ideais estéticos ou aos padrões econômicos privilegiados em nosso momento histórico, ideais esses que nascem dos mecanismos de uma sociedade desigual, injusta, que se vale desses vieses ideológicos, falsos, mas que assimilamos como verdades, e que nos diminuem e nos fazem ser oprimidos dentro de nós mesmos? Nós, inconscientes opressores e oprimidos, nos valores que defendemos sem questionamento, desejando reproduzir a relação que nos doeu, querendo ter “poder, riqueza, status, privilégios e domínio” sobre outros, ou, não sendo isso possível, aceitando nossa condição “inferior”, por acreditarmos nessa lógica perversa que divide os seres e os coloca em confronto de luta por vantagens, num mundo sem solidariedade, sem irmanação, sem paz, sem cooperação... Uma coisa é certa – uma educação realmente preocupada com a emancipação social não pode se furtar ao confronto com os fundamentos, as premissas, as bases, as crenças do paradigma que sustenta o sistema capitalista. E esse não é um exercício teórico–intelectual exterior, mas sim um trabalho interno de autoquestionamento, de autocrítica, uma vez que a sociedade está toda em nós internalizada, em nossas estruturas mentais, e o pior é que isso nos fica inconsciente, quase sempre, a ponto de sermos, sem o saber, o que mais condenamos fora de nosso ser. O trabalho de autoconscientização precisa inapelavelmente acompanhar a análise crítica que fazemos do nosso espaço humano social, no que ele mais tem de negativo, mas que também nos atinge, naquilo que temos que lutar para erradicar de nós, em libertação, ao mesmo tempo em que abrindo caminhos de nova liberdade aos que nos seguem e conosco se identificam. Paulo Freire muito nos ajuda, aqui, com seu livro “Pedagogia do Oprimido”, que faz parte da Bibliografia de apoio de nossos três primeiros períodos. Se você não tiver acesso a ele, no seu original, nele lendo a justificativa lá contida, ao menos visite o site http://www.centrorefeducacional.com.br/paulo.html para ter uma pequena idéia de quem foi de fato esse excepcional educador e do que o seu referido livro - que aqui tanto nos importa – contém, para que você, como futuro educador, não seja agente de uma educação domesticadora, como prática de dominação, ainda que sem consciência ou intencionalidade. Sem o se buscar realmente nascer, para si mesmo, em liberdade, não há como espalhar as sementes de um caminho libertador para outros. E como você se fez no tempo? Já vimos o quanto a família, os parentes, as figuras influentes da infância nos passaram suas visões de mundo – portanto, no exercício de nossa auto-crítica escolhemos ou não perpetuar as confusões, os condicionamentos, os equívocos de visão herdados e que não pudemos perceber, avaliar, impedir, por tão pequenos, por não termos como reagir ou escolher. De

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certa forma, o que nos compete fazer é romper com o que do passado legado, em nós vivo, não mais queremos perpetuar, assim nos dando um novo parto, por nossas mãos, opção e consciência. Como disse Hermann Hesse em uma de suas obras, a ave para nascer tem que romper a casca do ovo, e o homem para nascer precisa destruir um mundo dentro de si, nascendo duas vezes, na segunda sendo o próprio parteiro do novo rebento em que escolhe se fazer. As dimensões da pessoa humana, do indivíduo em que me faço e a do educador que em mim aos poucos se ergue como agente de transformação social se mesclam numa única, sem haver separação e contradição entre o profissional e o cidadão comum que sou, entre o compromisso profissional e a vida privada, pessoal. Minhas emoções e paixões, pensamentos, minhas visões e valores me fazem ser o que sou e como sou em qualquer das instâncias. Minha consciência profissional me obriga a um auto-exame crítico profundo e a uma disposição sincera de mudança, de auto-superação. Um exemplo rico e original da síntese da pessoa e do profissional em uma composição autocrítica e historicamente marcada de questionamentos e reposicionamentos está no depoimento de Ferreira Gullar que parte da oposição à família com seus horizontes para se lançar na ação social profissional adulta em relação ao mundo, atingindo outros seres e os sensibilizando, despertando, tocando, influenciando, ao mesmo tempo em que fazendo e refazendo a si mesmo. Esse texto, que apresentamos a seguir, não é de fácil leitura e aborda aspectos de linguagem poética que não são exatamente nosso foco de atenção, embora você esteja trabalhando esse tema em outro componente curricular deste período – Linguagem e Discurso, o que o torna pertinente. Seja como for, tente apreender, de sua leitura, essa trama histórica tão original de construção de um EU humano social e profissional pelas palavras desse singular escritor e grande poeta maranhense, que é o que nos importa agora.

FERREIRA GULLAR POR ELE MESMO ENSAIO (TRECHO)

http://portalliteral.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/corpo_a_corpo _com_a_linguagem.shtml?porelemesmo

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Corpo a corpo com a linguagem - (artigo publicado em 1999) Sou um poeta do Nordeste brasileiro, um poeta do Maranhão, da cidade de São Luís do Maranhão. Sou um poeta da Rua do Coqueiro, da Rua dos Afocados, da Quinta dos Medeiros, do Caga-Osso, da Rua do Sol e da Praia do Caju. Um poeta da casa do quitandeiro Newton Ferreira, da casa de Dona Zizi, irmão de Dodô e de Adi, de Newton, de Nelson, de Alzirinha, de Concita, de Leda, de Norma, de Consuelo, amigo de Esmagado e de Espírito da Garagem da Bosta. Um foragido e um sobrevivente. Alguém que conseguiu escapar do anonimato, que vem do sofrimento menor, da tragédia cotidiana e obscura que se desenrola sob os tetos de minha pátria, abafada em soluços, a tragédia da vida-nada, da vida-ninguém. Se algum sentido tem o que escrevo, é dar voz a esse mundo sem voz. Mas não há nenhum mérito nisso. Primeiramente, fugi. Fugi da quitanda, fugi da família, da vida sufocante e pouca. Fugi pela poesia, inventei um mundo feérico e feroz. Um suicídio esplendente: ateei fogo ao verbo, minhas vestes mortais, como se fosse meu corpo. Não era. E sobrevivi, sobrevivi, sobrevivi. Abati a poesia, calquei-a sob os pés, mijei nela. Lavei as mãos, virei concretista, neoconcretista, enterrei o poema numa casa da Gávea. E sepultei com ele a metafísica. Não, não há nenhuma poética universal: universal é a poesia, a vida mesma. Universal é Bizuza, cuja voz se apagou com sua garganta desfeita há anos no fundo da terra. Universal é o quintal da casa, cheio de plantas, explodindo verde no dia maranhense, longe de Paris, de Londres, de Moscou. O frango que nasce e morre ali, entre as cercas de varas. O cheiro do galinheiro, a noite que passa arrastando bilhões de astros sobre nossa vida de pouca duração. Universal porque Bizuza, amassando pimenta-do-reino numa cozinha de São Luís, pertence à Vida-Láctea. E a história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbíos, nas casas de jogo, nos prostíbulos, nos colégios, nas ruínas, nos namoros de esquina. Disso quis eu fazer a minha poesia, dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não têm voz. II Meu pai era quitandeiro e na minha casa não havia livros. Conheci a poesia nas antologias escolares: alguns poemas e sonetos que vinham de Camões aos simbolistas e parnasianos, mas não passavam daí. Quando comecei a escrever por volta dos treze anos - pensava que todos os poetas haviam morrido, e mesmo assim entreguei-me entusiasticamente a esse ofício de defuntos. Ia para a Biblioteca Municipal e só lia poetas maranhenses. Todos os demais poetas, mesmo brasileiros, não me despertavam o menor interesse. Um dia, não sei bem quando, descobri a existência do resto do mundo - as grandes cidades distantes - e desde então passei a sentir-me vivendo à margem da História.

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São Luís do Maranhão, minha cidade, com seus dias luminosos e azuis, mantinha-me entre o deslumbramento e o desespero: a vida era bela e destituída de propósito. A literatura, que me prometia uma resposta para o enigma da vida, lembrava-me a morte, com seu mundo de letras pretas impressas em páginas amarelecidas. Compreendi que a poesia devia captar a força e a vibração da vida ou não teria sentido escrever. Nem viver. Mergulhei assim numa aventura cujas conseqüências eram imprevisíveis. Estávamos no fim dos anos 40, começo dos anos 50, e os poetas que entravam em cena tornar-se-iam herméticos e frios, mas eles eram os poetas da metrópole e isso lhes dava prestígio aos meus olhos. Não firmara ainda nenhum juízo a respeito deles e seguia o rumo de minhas indagações e perplexidades. Penso ter compreendido, mais tarde, que essa geração era produto, de um lado, do pós-guerra e, de outro, do nível a que Carlos Drummond, Murilo Mendes e Jorge de Lima haviam conduzido a experiência poética no Brasil. O fim da guerra foi o fim de um pesadelo que saturara o mundo de dramas e levara os poetas à participação, às efusões de revolta e solidariedade. Muitos deles agora desejavam recolher-se à sua intimidade, perscrutar o lado obscuro e silencioso da vida. Tanto mais que a guerra fria dividia os companheiros de ontem, acirrava os conflitos ideológicos e reiniciava a perseguição aos comunistas. Tudo aconselhava aos poetas afastarem-se dos acontecimentos. Retomou-se a busca da poesia pura, dessa poesia que não se alimenta do cotidiano, mas de palavras mágicas e da forma verbal caprichosa. Esse interesse pela forma já se manifestara no amadurecimento da linguagem poética que surgira espontânea e irreverente com os modernistas de 22. A tendência ao subjetivismo e ao formalismo manifestou-se, nesse período, em outros campos da atividade artística, como o romance e a pintura. Esta acolheu a influência do grupo de artistas concretos da Escola de Ulm, entregou-se a composições gestaltianas em que se inspiraria o grupo de poetas paulistas que lançou o movimento da poesia concreta (1956-57). Esse movimento levou a conseqüências extremas a tendência formalista da poesia brasileira de então. Meu encontro com o concretismo e minha participação no movimento foram frutos de uma convergência momentânea, em função da crise da linguagem poética que, no plano da minha geração, ajudei a agravar. Aquela necessidade minha de que a poesia captasse a complexa vibração da vida afastava-me do formalismo e me estimulava a descer a níveis em que a própria estrutura do discurso perigava. Por outro lado, essa mesma necessidade me levava a querer apreender a experiência descontaminada de passado e, para isso, era necessário repelir toda e qualquer maneira, todo estilo pronto, como se fosse possível recriar integralmente a linguagem a cada poema. Terminei por desintegrar o discurso e reduzir as palavras a obscuros aglomerados de fonemas e urros, na tentativa de encontrar uma linguagem menos abstrata, não-conceitual, não manipulada, e mais próxima possível da experiência sensorial do mundo. Senti que era impossível seguir adiante nesse caminho e dei por encerrada a minha aventura poética. Estávamos em 1953. A hipótese concretista parecia oferecer-me a possibilidade de recuar alguns passos e tentar outra vez. Aceitar integrar o movimento muito embora não aceitasse

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suas análises do fenômeno poético nem sua proposta teórica: para mim, a solução do problema não estava em forjar fórmulas e métodos para a produção do poema, como se este fosse um produto publicitário. Desenvolvi minha busca noutra direção, chegando ao livro-poema, aos poemas espaciais e ao poema enterrado, em que procurei incorporar à leitura, inicialmente, o gesto do leitor (ao passar a páginas) e, mais tarde, o seu próprio corpo penetrando inteiro no poema. Tais tentativas, que ritualizavam a relação poema-leitor, tornavam cada vez mais tênue o vínculo da expressão poética com o mundo concreto, de todos, de que eu não desejava afastar-me. Assim, tendo chegado outra vez ao impasse (1960/1961), quando o processo social e político brasileiro devolveu-me de golpe à realidade, abandonei as experiências de vanguarda e engajei-me na luta política, através do Centro Popular de Cultura. Essa virada radical era mais conseqüente do que podia parecer à primeira vista: minha busca de uma linguagem não-conceitual implicava a rejeição dos conteúdos ideológicos do universo cultural que me coubera como herança. Ao retomar, noutro nível, o contato com a realidade social, a partir de uma visão crítica de seus fundamentos, tornou-se-me necessário, como poeta, começar de novo. Voltei-me então para as formas poéticas rudimentares dos cantadores de feira e dos romances de cordel, que haviam fascinado a minha infância nordestina. O movimento de cultura popular, que pretendia elevar a consciência política das massas proletárias da cidade e do campo, estendeu-se por todo o país, durante os dois últimos anos do governo João Goulart. Se é certo que, por dar prioridade ao fator político, esse movimento se ressentiu de uma visão simplificadora do problema cultural e estético, abriu, não obstante, perspectivas renovadoras à arte brasileira: a poesia, o teatro, o cinema e a música popular foram amplamente fecundados por ele. O golpe militar de 1964 fechou os Centros Populares de Cultura e submeteu a processo policial-militar os seus principais integrantes. De fato, foi o movimento de cultura popular que me ofereceu a saída para o impasse estético da poesia. Como sempre, a solução desse problema não se encontra no progressivo refinamento dos elementos formais e sim no retorno à matéria suja e complexa da vida. III Após quarenta e cinco anos de corpo a corpo com a poesia, posso hoje ver com mais clareza como começou essa luta. Lembro-me muito bem do dia em que tomei conhecimento de que, para me tornar um poeta, teria que fazer da poesia o centro de minha vida. Com um volume dos contos de Hoffmann nas mãos - livro comprado no sebo, de páginas manchadas de fungo - me perguntei que sentido tinha fazer literatura. Os contos de Hoffmann não me diziam respeito, e suas palavras impressas naquelas páginas mofadas me davam a impressão de que a literatura estava mais perto da morte que da vida. Enquanto isso, lá fora, sobre o telhado de minha casa, zunia a tarde maranhense, iluminada, cantando na copa das árvores. Eu tinha vinte anos e devia escolher entre a literatura e a vida. Escolhi as duas, convencido de que a literatura tinha que ser vida também. De fato, as tardes e manhãs iluminadas já não me bastavam. Por isso me voltara para a literatura. Não para fugir da vida ou negá-la e sim para acrescentar42 Guia de Estudo – PRÁTICA DE FORMAÇÃO I


lhe o sentido que ela devia ter e não tinha. Noutras palavras: voltei-me para a literatura pensando resgatar a vida. Naquela tarde entendi que para a literatura ter sentido e emprestar sentido à vida, era necessário que me entregasse a ela integralmente, de corpo e alma. Está aí a origem de minha poética, se tenho o direito de me expressar assim. Surge de uma atitude que, de algum modo, põe em questão a própria literatura e, em termos imediatos, renega a linguagem parnasiana, rimada e metrificada, de que me assenhoreara a partir dos treze, quatorze anos. O abandono dessa poética me punha diante da realidade desarmado, sem meios para captá-la e expressá-la. Descobria, assim, uma nova realidade, uma vez que, na verdade, a poética anterior, como de resto ocorre com toda poética, condicionava o meu modo de perceber a realidade. Por isso mesmo, meu desafio era agora não me deixar condicionar pelas técnicas da expressão, pela habilidade e fórmulas poéticas. Os poemas que escrevi nesse período - de 1950 a 1953 e que irão constituir A Luta Corporal - são a tentativa de expressar a redescoberta da realidade e ao mesmo tempo impedir que artifícios formais e macetes poéticos comprometessem a pureza do poema ou, o que dá no mesmo, o frescor da experiência existencial que ela expressava. Tal exigência implicava de fato uma pretensão impossível de realizar-se: fazer um poema que nada devesse ao passado, moldado numa linguagem que também nascesse, com ele, aqui e agora. Era inevitável que esse caminho conduzisse, como conduziu, à desintegração da linguagem. Num poema intitulado Roçzeiral, datado de fevereiro de 1953, dá-se a implosão, que se estenderá por mais alguns poemas, concluindo-se a vertiginosa aventura. Segue-se um período de vácuo e perplexidade. Acreditava ter se encerrado definitivamente minha experiência de poeta. Voltei-me para a filosofia. Muitos meses depois uma voz em mim insistia em falar, ainda que sem meios, sem linguagem. A única possibilidade era começar de novo, do silêncio, do nada. Juntei folhas de papel, amarrei-as com barbante formando um caderno e, a mão, comecei a escrever alguma coisa que não tinha sentido, como um balbucio difícil e tenso, no vazio. Aos poucos, esse texto foi ganhando impulso e tomando um rumo: tornava-se a confusa história de um homem que criava sua amada tecendo-a com sua própria saliva. Hoje, percebo que era a metáfora do texto que eu estava inventando ali. Do primeiro caderno passei a um segundo, terceiro, quarto... Levei meses, anos, escrevendo esse texto. Mas antes de dá-lo por concluído, já havia recuperado minha capacidade de escrever poemas, valendo-me em parte do que ele me fizera descobrir. Na verdade, nos poemas finais de A Luta Corporal eu havia entrado em conflito com a construção sintática e tentara superá-la, ou seja: criar uma construção verbal capaz de expressar a simultaneidade das vozes e sentidos. Nessa época, não havia lido ainda Un Coup de Dés, de Mallarmé, mas percebi mais tarde certa afinidade entre esse poema e o Roseiral. Muito embora se situem em pólos opostos, a problemática de origem é a mesma - a superação da sintaxe linear. Mas enquanto Mallarmé a buscou nas probabilidades do acaso, eu a procurei no retorno a uma etapa anterior ao discurso. A afinidade se evidencia ainda mais quando, na etapa posterior, ao escrever o poema O Formigueiro, tento superar a linearidade do discurso pela criação de uma mecânica poética que envolve a própria estrutura do

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livro. Está aí a origem do livro poema, que eu criaria depois, nos quais a elaboração do poema determina a forma do livro e de suas páginas - como se eu trabalhasse materialmente o avesso da linguagem, o silêncio. O passo seguinte teria que ser os poemas espaciais (placas com cubos e pirâmides ocultando palavras) e finalmente o Poema Enterrado, que implicava a participação do próprio corpo do leitor no poema: uma sala de dois metros por dois, no subsolo a que se tinha acesso por uma escada. Quando, anos mais tarde, a Gallimard publicou os esboços de Le Livre, de Mallarmé, vi melhor quanta afinidade havia entre a atitude do grande poeta francês e as nossas tentativas do final dos anos 50. Não se trata, evidentemente, de estabelecer comparação qualitativa, mas de mostrar como, independentemente da qualidade literária, essas questões aparecem sempre que a poesia questiona sua própria razão de ser e mergulha de volta à sua origem. Minha ida para Brasília, em 1961, a fim de presidir a Fundação Cultural do Distrito Federal, e os acontecimentos que se seguiram à renúncia de Jânio Quadros (a tentativa de golpe militar, o governo João Goulart, a luta pela reforma agrária etc), somados ao impasse a que haviam chegado minhas experiências poéticas, determinaram meu engajamento no Centro Popular de Cultura (CPC) e uma mudança de rumo drástica em minha poesia. Passei a escrever poemas de cordel, no estilo dos poetas populares nordestinos, com o único objetivo de denunciar as mazelas sociais, na presunção de assim contribuir para a transformação revolucionária, da sociedade brasileira. Era a renúncia à arte literária, o abandono de um sofisticado domínio do universo poético, a negação do poeta em favor do homem comum, identificado com o povo inculto e pobre de seu país. Mas o golpe militar de 1964 iria me reconduzir à realidade, fazendo-me ver que, negando em mim o poeta, não conseguira salvar o povo humilde, nem tampouco fizera do poema veículo de uma verdade sociológica. Tratei de repensar minha atitude em face da literatura e da revolução, disso resultando uma retomada do discurso poético, ainda que noutros termos. O engajamento político servira para me reconduzir à condição de ―brasileiro‖ e à realidade cotidiana; a retomada do discurso implicava um reencontro com minha linguagem poética anterior ao Roçzeiral, enriquecida do vocabulário coloquial. Enfim, aos poucos fui me dando conta de que se abrira um novo caminho para minha poesia, que essencialmente consistia em operar a alquimia poética já não sobre material metafísico ou existencial, mas também sobre a matéria banal da linguagem comum. Os poemas do livro Dentro da Noite Veloz (1975) refletem o esforço para construir uma linguagem poética em que o elemento político participa da alquimia verbal. Mas é no Poema Sujo (1976) que essa junção do vulgar, do político e do poético, a meu juízo, atinge sua expressão mais plena. Contraditoriamente, esse poema, se consegue realizar o que está latente no livro anterior, quebra ao mesmo tempo com os limites que a exigência formal e a economia poética haviam imposto à minha poesia dessa fase. O Poema Sujo é assim uma outra explosão, semelhante à dos anos 50, ainda que sem o radicalismo daquela e essencialmente diferente dela: em vez de tentar implodir a linguagem usual, procura incorporá-la à linguagem poética, com toda a sua suja carga de vida. Devo esclarecer que, neste caso como nos anteriores, não tinha consciência plena do que estava buscando, e nada dessas questões teóricas estava presente 44 Guia de Estudo – PRÁTICA DE FORMAÇÃO I


durante a realização dos poemas. Aliás, um traço que me caracteriza é que, no momento de escrever o poema, fico por assim dizer limpo de conhecimentos, entregue à minha perplexidade, ao meu espanto, que é o fator precipitador do poema. Logo, tudo o que estou dizendo aqui acerca de meu trabalho poético é resultado de reflexão a posteriori sobre o que foi realizado, sem teoria. Para finalizar, vou expor de modo sintético minha concepção do que é o poema, concepção resultante de todos esses anos de trabalho e reflexão sobre a poesia. Cito trecho de meu ensaio Augusto dos Anjos, vida e morte nordestina: ―O poeta moderno, que devolveu a linguagem literária à sua condição prosaica, realiza a poesia pela transformação dessa linguagem em linguagem poética. Na concepção da nova poesia, o que há de fundamental e permanente é a linguagem mesma - a língua - que será, neste momento, poética e, naquele outro, prosaica. Essa alternância se dá no âmbito mesmo do poema, já que em nenhum poema todos os elementos da linguagem se transformam em ‗poesia‘, se consomem nela: a base da expressão são as relações conectivas, sintáticas, gramaticais, sem as quais não existe a linguagem verbal. Essas relações implicam um discurso, um tema. A poesia que aflora nesse discurso é produto de um processo complexo de que participam todos os elementos do poema. A falsa compreensão desse fenômeno é que gerou a superstição da poesia pura - de que o concretismo, que deveria se chamar de fato abstracionismo, foi o mais recente exemplo - que não é mais do que a tentativa de eliminar do poema os elementos ‗prosaicos‘, de construí-lo apenas com os elementos ‗poéticos‘. Ora, não existem elementos poéticos em si mesmos, como não existem palavras por si mesmas poéticas. Todos os elementos da língua são e não são poéticos, dependendo da função específica que exerçam dentro de determinado contexto verbal. Noutras palavras: é o processo de elaboração da linguagem pelo poeta que transfigura os elementos verbais e faz com que neles aflore a intensidade da expressão poética. Pretender realizar um poema constituído apenas de elementos poéticos implica eliminar o processo dialético que promove a transfiguração das palavras. [...] Como observou Chklovski, ‗a arte é um meio para se sentir a transformação do objeto; o que já está transformado não tem interesse para a arte‘. Por isso entendo que o poema é o lugar onde a transformação se dá‖. ___________________________________________________________ E chegamos a um ponto de amadurecimento que já justifica uma “excursão” sua, com você mesmo/a dirigindo o caminho, porquanto esta viagem é para fazêlo/a um guia orientador, também, como eu. Aos poucos você crescentemente se torna meu colega de profissão e de ideal humano social, fazendo, de sua produção, de sua reflexão, uma ação de intervenção no mundo, na sociedade, em outros, através de seus “roteiros de viagens”, como professor, com o educador. As atividades e as sínteses propostas são seu ensaio de construção pessoal significativa.

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UNIDADE 3: O TERCEIRO TRECHO DA VIAGEM

OBJETIVO - Empreender ao resgate do caráter histórico do hoje para assumilo como possibilidade de emancipação-superação rumo a um amanhã individual e socialmente mais harmônico, mais sensível, justo, solidário e feliz. Dizem que o mais difícil na relação do criador com a sua criação é declará-la terminada, com vida própria, cujo destino não mais nos pertence. Cumpre-nos, como fechamento, completar a obra com esmero, dando-lhe as dimensões finais que realmente selam o quadro, explicitando a sua mensagem que, então clara, salta à nossa percepção, internalizada numa mais ampla e profunda compreensão de nós, do outro, da sociedade, da vida. Partimos de nossas primeiras vivências, desde a infância, e nos revimos em nosso processo de construção de nossa personalidade, de nossa estrutura mental, de nós enquanto indivíduos. Cabe-nos, agora, estabelecer o vínculo explicativo entre a história e o que somos hoje. É muito difícil percebermos como a dinâmica histórica de nosso tempo nos invade ao escrever-se nos escrevendo. No mais das vezes, somos alienados desse processo em nós e assistimos aos fatos históricos que se desenrolam como a um programa de televisão, alheios a nós, indiferentes a nós. Mas não - a história que fora vemos é a mesma que dentro não alcançamos no desconhecimento de nós. Por isso, conhecer a história do homem, das sociedades, dos espaços de tempo que envolveram nossos antepassados (...bisavós, avós, pais, professores etc.), todos que nos influenciaram, é entendê-los entendendo a nós próprios no que deles herdamos em formação. Os fatos se interligam numa dinâmica e lógica que nos atingem em se fazendo na nossa dinâmica e na nossa lógica. Posso dizer que a história da sociedade é também a história dos condicionamentos que me constituem, ou seja, é a história de mim, anterior a mim, que eu perpetuo, que a mim explica. Preciso saber da dimensão histórica, de como a sociedade capitalista se fez e quais são os seus fundamentos e como eles marcam o mundo e os homens, marcando a mim. No ideal crítico-transformador, na busca de um humano mais belo, mais justo, mais digno, é imprescindível ter consciência das razões dentro e fora de mim, que são as mesmas. Por conseguinte, mudar a mim e à sociedade é a mesma e única proposição; intervir na realidade é sempre refazer a mim mesmo como fruto dessa realidade, seu representante. Os dois textos que você lerá a seguir descortinam, criticamente, os aspectos históricos que desvelam nossos impasses humano-sociais, ao mesmo tempo em que descortinam nossos "engasgos", equívocos, tropeços humano-pessoalindividuais. É este o motivo de ser a educação a via de auto-superação, porque é na 47 Guia de Estudo – PRÁTICA DE FORMAÇÃO I


compreensão que ela nos proporciona que repousa a semente possível da grande transformação rumo à felicidade humana que tanto almejamos. Leia os dois últimos textos com essa alma emocionada, deles bebendo os esclarecimentos que nos absolvem por sermos o que tínhamos que ser, mas que já podemos mudar, pelo compreender, pelo assim escolhermos. A razão que nos move é a busca da felicidade - entretanto o que isso vem a ser se apura no amadurecimento de nossa sensibilidade. Espero que esta viagem tenha contribuído nesse sentido.

UM MUNDO EXCLUSIVO O Mundo Quadrado e o Mundo Redondo (EXCERTO)

http://geocities.yahoo.com.br/janosbiro/um_mundo_exclusivo.htm

Paulo Roberto Neves Pereira paulop@copel.com Associação Arayara de Educação e Cultura Consultor voluntário

A série de crises com que nos defrontamos atualmente, tanto as pessoais, as ambientais, assim como as sociais e as organizacionais, apontam para uma necessidade urgente de se trabalhar a educação de adultos, partindo do pressuposto de que são estes os agentes responsáveis pela construção do processo social e pela preparação desta mesma sociedade para acolher as gerações futuras. A transformação social, almejada por muitos, em direção a uma sociedade mais harmoniosa, solidária e satisfatória, exige uma nova proposta educacional no sentido de ampliar a percepção da realidade e do desenvolvimento do ―ser humano total‖, resgatando o seu compromisso com a ética e sua responsabilidade com a vida. Uma nova pedagogia, visando à reeducação de adultos, faz-se necessária, tendo em vista a alienação generalizada que se instaurou na sociedade moderna, nas relações do homem com o trabalho, do homem com os outros homens e do homem consigo mesmo.

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O atual estado de alienação do homem em relação ao trabalho acentuou-se, no transcorrer da história ocidental, com a modificação do sistema de produção de bens que passou do artesanato para o sistema de manufaturas. Em meados do século XVIII, com uma série de inovações técnicas, sociais e econômicas, a ascensão da burguesia e o capitalismo são fortalecidos culminando na Revolução Industrial. No decorrer destas transformações o sistema produtivo passa a ser caracterizado em níveis crescentes pela divisão do trabalho, que se dá naturalmente pela expansão do mercado, o que fez com que o homem começasse a trocar o excedente do seu trabalho pelo excedente do trabalho de outros homens, acabando por desenvolver tarefas e habilidades específicas. Com o surgimento das grandes fábricas, faz-se a passagem do artesão para o operário; enquanto que o primeiro mantinha uma plena identificação com o seu trabalho, fazendo-o do início ao fim, o operário perde esta identificação; fazendo somente parte do trabalho submete-se aos desígnios do empregador. O detentor do capital, aliado à crescente utilização de tecnologia e máquinas, define as formas de organização do trabalho impondo uma heterogestão sobre o trabalhador que, com a divisão do trabalho, não percebe mais o alcance do mesmo. O trabalhador fica então alienado em relação ao seu trabalho, transferindo, basicamente, a sua motivação para a remuneração recebida, ficando alheio ao processo produtivo e às demais relações advindas do trabalho em si. O problema da alienação do homem em relação ao trabalho está inserido num contexto mais amplo, que leva a uma análise da alienação do homem em relação a si mesmo, com os outros e com o mundo como um todo. O início do movimento que nos traz este sentimento de alienação, dos dias de hoje, remonta aos primórdios da história das civilizações, a partir da distinção entre o plano das idéias e o mundo da experiência dos sentidos , na filosofia de Platão, e passando pelo cristianismo, que valorizou a alma em detrimento do corpo. Portanto, o entendimento que se estabelece é o da mente, entendida aqui como tudo aquilo que é imaterial, separado do corpo, ou seja, da matéria. A separação entre mente e matéria é reforçada incisivamente no início da Era Científica, em função do racionalismo da filosofia de René Descartes (1637), sintetizada pela máxima ―penso, logo existo‖. Esta separação entre mente e matéria leva Descartes a ver a natureza como uma máquina de relógio, composta de peças isoladas, que juntas determinam o funcionamento do todo. Por sua vez, esta concepção mecanicista do mundo serve de base para o desenvolvimento da física de Isaac Newton (1687) que, através de uma completa formulação matemática, fundamenta o pensamento científico, passando a influenciar todas as demais ciências que começam a surgir. O sistema de valores que se desenvolveu nos séculos XVII e XVIII, com as novas ciências, baseadas na física newtoniana, resulta no que se denominou de Iluminismo, tendo no filósofo John Locke (1690) um de seus maiores representantes. Fortemente influenciado por Descartes e Newton, Locke desenvolve estudo sobre a natureza do ser humano individual, utilizando-se da concepção atomicista, extrapolando-a para as relações sociais, com o que vem a

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influenciar a forma do pensamento ocidental através dos ideais de individualismo, direito de propriedade, mercados livres e governo representativo. A Revolução Científica e o Iluminismo levam a uma visão materialista e antropocêntrica do mundo que se contrapõe à visão espiritualista da Idade Média, fazendo com que a mente se concentre na matéria; aprisionada no corpo perde sua ligação com o divino. A mente passa a ser vista como totalmente voltada para a matéria e isolada no corpo. Juntamente com esta visão materialista desenvolvese a mentalidade capitalista moderna, baseada na propriedade privada e na acumulação de bens, de matéria. Como a mente só se reconhece na matéria, mas lhe é superior, resulta no domínio do ter - verbo representativo do capital -, sobre o fazer - verbo representativo do trabalho -, subjugando o ser – verbo representativo da ação do trabalhador. Sob estes pressupostos estabeleceu-se uma visão fragmentada da realidade determinando uma fragmentação do saber, assim a percepção humana passou a ser a das partes, todas isoladas umas das outras, refletindo na alienação do homem em relação a si mesmo, à sociedade e ao meio ambiente. A fragmentação, o individualismo e a valorização da propriedade privada foram muito adequadas e úteis à revolução industrial e à ascensão do capitalismo. A propriedade privada passou a ser um direito do indivíduo ao invés de um bem de uso comum. Assim, o individualismo se tornou dominante na cultura ocidental, levando a uma busca incessante pela propriedade e pela acumulação de bens, de matéria, dando uma conotação imediatista ao conjunto da sociedade, na satisfação e atendimento aos direitos do indivíduo na sua busca obsessiva pelo crescimento econômico. Com a Revolução Industrial, na busca pelo crescimento econômico, desenvolveu-se a tecnologia que vem a reforçar o domínio do material sobre o humano. O homem passou a ser visto como uma máquina - devia estar bem ajustado ao sistema de produção industrial -, uma engrenagem a serviço do crescimento econômico e tecnológico, porém, pretensamente remunerado de forma que poderia almejar a acumulação de bens e a aquisição da casa própria, sendo levado a um consumismo exacerbado e perdulário, o que possibilitaria a manutenção do sistema produtivo. A tecnologia tornou-se alvo tanto para o indivíduo como para o sistema econômico e mais ainda, passou a ser vista como determinante do sucesso das organizações humanas e da felicidade das pessoas. Uma ética capitalista estabeleceu-se, colocando o individual acima do social, utilizando-se do ambiente público para fins privados. As cercas colocadas nas terras de propriedade privada geraram cercas mentais que isolaram o hemisfério esquerdo (lógico-racional) do cérebro humano do hemisfério direito (sensível-intuitivo), impedindo o livre trânsito da percepção lógica em comunhão com a percepção intuitiva. Isolado, o hemisfério esquerdo assenhoreou-se da verdade e impôs as suas regras ao convívio social, o que levou a cultura ocidental a erigir alguns mitos: a propriedade privada, o consumo e a acumulação de bens materiais; endeusando o dinheiro privilegiou o ter em relação

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ao ser, e fomentou o separatismo entre mente e corpo, entre o eu e o outro, que se encontram apenas, na maioria das vezes, através de uma relação eminentemente material, uma relação entre coisas. As relações de poder entre indivíduos, que se percebem isolados uns dos outros, foi baseada na percepção visual da ocorrência de fenômenos naturais – a chuva e o raio que vem de cima, o sol no alto, a maçã que cai, apontavam para o poder de algo em um plano superior sobre algo em um plano inferior -, e levou cada um a buscar ter poder sobre o outro, o que enfraquece a ambos, privilegiando uma relação de mercado em detrimento das relações humanas uma sociedade baseada em metas que nada têm a ver com a emancipação humana, metas e leis que se impõem sobre os desejos humanos. Foram, também, estabelecidas relações entre coisas, entre um, o sujeito, e o outro, o objeto. Assim a sociedade - o sujeito - trata o ambiente - o objeto -, do mesmo modo como trata o indivíduo, também como objeto, numa relação cíclica recorrente, ou seja, um ciclo de influências que se retroalimenta consecutivamente. O espaço que cerca ou envolve os seres vivos, no caso os seres humanos, implica num modo de agir e numa maneira de ser que acaba por desenvolver juízos de apreciação quanto à conduta humana, o que leva um conjunto de pessoas a seguirem normas comuns e unirem-se pelo sentimento de consciência do grupo. A sociedade formada atua no ambiente, transformando-o, o que por sua vez leva a alterações dos padrões éticos, os quais vêm a influenciar na estruturação da sociedade. Este desenvolvimento se dá em ambos os sentidos simultaneamente e traz consigo todos os movimentos anteriores, definindo as tendências a serem seguidas, porém incorpora possibilidades de descontinuidade, com saltos para novos patamares, caracterizando uma evolução como em espiral. Dizendo de outra maneira, na interação com o ambiente, o indivíduo se faz determinando o seu comportamento ético, retroagindo sobre o próprio ambiente e estabelecendo, simultaneamente, relações sociais, que por sua vez retroagem sobre os indivíduos e também simultaneamente transformam o ambiente. Uma ordem é estabelecida nestas interações, as quais produzem organização, mas também produzem desordem, sendo esta última caracterizada pelas diversas doenças dos nossos dias, tanto humanas, como sociais e ambientais. Não seriam as doenças humanas, como o elevado índice de stress do cotidiano, o crescente consumo de drogas, a grande ocorrência de suicídios inclusive entre crianças (como pode uma espécie levar ao suicídio seus próprios descendentes?), uma pressão para romper o ciclo no atual patamar, promovendo condições que possam levar a um salto na espiral, possibilitando uma autoreorganização das relações humanas? Também o elevado crescimento de doenças sociais, como o desemprego, a corrupção desenfreada, a criminalidade e a miséria apresentam-se como estados resultantes da entropia do sistema. Mas principalmente as doenças ambientais: elevação da temperatura média da terra pelo efeito estufa, materiais tóxicos descarregados no meio ambiente, buraco na camada de ozônio, poluição do ar e das águas, uso indiscriminado do solo, entre outros, que estão gerando uma grave deterioração do meio ambiente natural, poderão vir a ser o motivo para uma descontinuidade do atual ciclo.

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Todos estes fatores parecem estar predestinados a tornarem-se a gota d'água que levará à necessária tomada de consciência quanto à conduta predadora do homem; homem este que acabou por colocar todo o conhecimento adquirido nas mãos de entidades abstratas – o mercado e as tais sociedades anônimas -, delegando a sua autoridade às instituições, transferindo a sua responsabilidade para ninguém. O conhecimento e as relações humanas desenvolveram-se dentro dessa visão materialista separatista ocasionando uma total fragmentação do saber e um grande isolamento do viver.

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CIDADANIA E CONSUMO SUSTENTÁVEL (TRECHO) Profª Drª Fátima Portilho Universidade Federal Fluminense

http://www.hortaviva.com.br/link_midiateca/artigos/pgxx_polenizando_001 1.htm

A SOCIEDADE DE CONSUMO A abundância dos bens de consumo, continuamente produzidos pelo sistema industrial, é considerada, freqüentemente, um símbolo do sucesso das economias capitalistas modernas. No entanto, esta abundância passou a receber uma conotação negativa, sendo objeto de críticas que consideram o consumismo um dos principais problemas das sociedades industriais modernas. Os bens, em todas as culturas, funcionam como manifestação concreta dos valores e da posição social de seus usuários. Na atividade de consumo se desenvolvem as identidades sociais e sentimos que pertencemos a um grupo e que fazemos parte de redes sociais. O consumo envolve também coesão social, produção e reprodução de valores. Desta forma, não é uma atividade neutra, individual e despolitizada. Ao contrário, trata-se de uma atividade que envolve tomar decisões políticas e morais praticamente todos os dias, pois ao consumir e usar bens de consumo, são enviadas mensagens a respeito da forma como vemos o mundo. Existe uma conexão entre valores éticos, escolhas políticas, visões sobre a natureza e comportamentos com relação às atividades de consumo. Assim, quando uma pessoa "vai às compras", suas escolhas estão relacionadas a suas visões de mundo, a seu ideal de felicidade, a suas opções políticas, a sua percepção sobre a relação homem/natureza etc. No entanto, com a expansão da Sociedade de Consumo, amplamente influenciada pelos estilos de vida norte-americanos, o consumo se transformou em uma compulsão e um vício, estimulados pelas forças do mercado, da moda e da propaganda. A Sociedade de Consumo produz carências e desejos (materiais e simbólicos) incessantemente. Os indivíduos passam a ser reconhecidos, avaliados e julgados por aquilo que consomem, aquilo que vestem ou calçam, pelo carro e pelo celular que exibem em público. O próprio indivíduo passa a se auto-avaliar pelo que tem e pelo que consome. Mas é muito difícil estabelecer o limite entre consumo e consumismo, porque a definição de necessidades básicas e supérfluas está intimamente ligada às características culturais da sociedade e do grupo a que pertencemos. O que é básico para uns pode ser supérfluo para outros e vice-versa. A felicidade e a qualidade de vida têm sido cada vez mais associadas e reduzidas às conquistas materiais. Isto acaba levando a um ciclo vicioso, em que o indivíduo trabalha para manter e ostentar um nível de consumo, reduzindo o tempo dedicado

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ao lazer e a outras atividades e relações sociais. Até mesmo o "tempo-livre" e a "felicidade" se tornam mercadorias que alimentam este ciclo. Em suas atividades de consumo, os indivíduos acabam agindo centrados em si mesmos, sem se preocupar com as conseqüências de suas escolhas. O cidadão é reduzido ao papel de consumidor, sendo cobrado por uma espécie de "obrigação moral e cívica de consumir". Mas se nossas identidades se definem também pelo consumo, poderíamos vincular o exercício da cidadania e a participação política às atividades de consumo, já que é nestas atividades que sentimos que pertencemos e que fazemos parte de redes sociais. O consumo é o lugar onde os conflitos entre as classes, originados pela participação desigual na estrutura produtiva, ganham continuidade através da desigualdade na distribuição e apropriação dos bens. Assim, consumir é participar de um cenário de disputas pelo que a sociedade produz e pelos modos de usá-lo. Sob certas condições, o consumo pode se tornar uma transação politizada, na medida em que incorpora a consciência das relações de classe envolvidas nas relações de produção e promove ações coletivas na esfera pública

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Os dois últimos textos abrem a dimensão histórica e a relacionam com o homem real que somos e que se reflete no educador que seremos. Competição, individualismo, insensibilidade, preconceitos, indiferença, agressão à natureza, materialismo, consumismo, violência não são categorias perversas alheias e distantes de nós. De alguma forma, em algum nível, nós nelas nos encontramos e é a partir dessa constatação profunda que podemos nos erguer como força de transformação/auto-transformação, entendendo que se na história tudo assim se fez, na própria história poderá e deverá se desfazer num novo ser que brota para a alvorada humana que nos compete florescer. Você, que foi nosso/a companheiro/a de viagem, que se alegrou e se entristeceu com nossas descobertas, que se aventurou especialmente no encontro de si próprio/a, agora escreverá um relato intenso e vivo de tudo que este caminho revelou, o que dele absorveu, como, por que e no que ele o/a acresceu e/ou modificou, unindo a História à sua história pessoal em perspectiva futura.

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Esperamos que você possa ter compreendido o nosso objetivo para a sua formação... Ou seja, o resgate do ser que é você... Encontramo-nos no próximo período até lá, fortes abraços....

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REFERÊNCIAS

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plano de aula