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CONTOS DE BRAGCITY 2010

BEBENDO O MORTO.

O Bar do Lelo era assim, quem vinha do Lavapés em direção ao centro via sua placa reluzindo na poça d’água, néon e óleo diesel: “elog oriemirp”, o que não tem muito sentido a não ser para o finado padre Karras, ou seu amigo, o exorcista Merrin, que facilmente identificariam a mensagem, um tanto quanto “sublinear”: “primeiro gole”. O boteco não fechava nunca, nem no dia do enterro de seu mestre idealizador, o bom e velho Lelo. Pode até parecer

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bizarro, mas essa estória precisa ser contada; bom... ,o Lelo morreu, seu coração parou na quarta-feira de cinzas, como um atabaque que não quer mais samba. E tudo se deu justo num dia em que as coisas estavam todas no lugar, íamos fazer churrasco, ouvir na rádio a apuração do carnaval, tínhamos carne e cerveja, mas o cara estava morto, precisava ser enterrado, isto é um detalhe que não deve ser deixado para trás. Os pinguços começavam a chegar, lágrimas nos olhos, sede na garganta. Bebiam e choravam como se da família fossem, indiscriminadamente o estoque do boteco foi abaixo, desceram tudo que era cachaça, conhaque e todo litro peso

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pesado, quando a coisa começou a ficar feia escolheram um Judas, precisavam de alguém para apedrejar. _Por que, meu Deus? (Gritavam uns). _Acontece. (retrucavam outros). Até que alguém bradou: _Foi aquele merda do filho. Morreu de desgosto. O Lelo tinha dois filhos, uns safados filhos da puta, bem, a mulher do Lelo não era puta nem nada, mas os filhos, sim, eram um bom exemplo de filhos da puta, um bom punhado de feijão perdido, faziam netos para o Lelo criar, dívidas para ele pagar, comiam e bebiam, como bebiam, é claro que na conta do morto, aliás não eram só esses filhos da puta que bebiam as

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custas do morto, salvo engano, até eu tenho alguma coisa pendurada com o defunto, mas seu caderno de anotações os pinguços já tinham botado fogo numa providência quase que divina. Não me lembro bem o nome desses Judas, chamarei de Chitãozinho e Xororó porque um deles, não sei bem qual tinha uma filha, dezenove aninhos a guria, com a cara da Sandy e talento prum boquete que... , Meu Deus! uma bela bizerrinha mamando, dizem que puxou a mãe, esta nunca me chupou, agora nem quero, cobra dez no Lavapés, por quinze dá até o cu, prefiro a filha que é mais nova, bonita e higienicamente mais viável.

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O pai da Sandy os pinguços perdoaram, deve ter sido por ela ou pela mãe, quem sabe? Mais o outro, tomou um cacete que Deus me livre: fivelada na cara, chute na bunda, tapa no pé da orelha, foi bonito demais de ver. Depois da sova deram-lhe um banho de esguicho e todos foram abraçados ao velório. Uma Kombi levou a família do defunto, sua mulher, filhos, netos e netas, a Sandy foi com eles, um caminhão C60, Perkins com um motor de 1113 adaptado levou os pinguços, e uma pampa sem a tampa traseira me levou mais a carne e a cerveja. Chegamos ao férito umas dez da manhã. Além do Lelo só mais um corpo estava nas vias de fato de seu julgamento final, este mais acostumado a julgamentos, era o

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Fabão patrão mor do morro do Cruzeiro, com uma bala na cabeça, tinha, depois de quase dez anos, deixado seu posto de Charles (anjo 45), a rapaziada estava virada,

cocaína era

despejada sobre o caixão lacrado do anjo, falavam em vingança, guerra, em mutilação de gambé, mas ninguém sabia ao certo o que tinha pegado com Fabão, só que ele já era, foi dormir acordou morto com uma bala de quarenta e cinco bem no meio das idéias. A coisa quase pegou fogo quando a rapaziada percebeu os pinguços todos com copo na mão dentro do velório._Que falta de respeito é essa. Pensaram os caras do morro, mas logo levaram uma invertida cinematográfica, é que os pinguços são

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mais loucos que o chupa cabra e vendo o Fabão e seus soldados, todos pensaram a mesma coisa, num raciocínio que pula o mataburro da própria sinapse, chegaram à seguinte conclusão: o Lelo morreu... , o culpado foi o Chitãozinho (ou Xororó)... , ele é culpado porque dava trabalho demais ao pai... , dava trabalho demais porque era um drogado... , era um drogado porque o Fabão lhe fornecia droga... ,logo... ,o Fabão é o verdadeiro culpado... , o Fabão matou o Lelo. Desta maneira os pinguços como se fossem, Wyatt Earp, Doc Holiday, Texas Jack, Terkey Johnson, Sherman Mcmasters, e os outros Earps, Morgam e Virgil, em Tombstone contra o bando dos caubóis, cuspiram no caixão do anjo 45 e a coisa só

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não explodiu de vez porque eu, nem tanto o céu nem tanto a terra, com o discurso do deixa disso (pelo menos por hora) acabei lembrando, os pinguços e a rapaziada, que estávamos do mesmo lado, éramos Lavapés na disputa do carnaval, a apuração estava começando. _ vamos torcer juntos contra a Vila, a Nove o caralho a quatro. Depois de uns goles e umas 5 gramas para relaxar, a coisa foi ficando mais amena, o velório ficou com jeito de casamento, os pinguços e a rapaziada estavam mais para noivos e os defuntos e seus trajes de gala (pelo menos assim imagino porque o caixão do Fabão estava lacrado) levavam um jeito alfaiate para padrinhos.

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Na apuração, o Lavapés e a Vila estavam lado a lado, nota a nota de cada jurado, tudo empatado: comissão de frente, alegoria, samba enredo, mestre-sala e porta-bandeira quase tudo dez, quando um cambaleava daqui, o outro escorregava também de lá. Não sei quem teve a excelente idéia, mas o padre parece ter aceitado numa boa, já estava mesmo parecendo casório e resolveram despachar as duas almas com uma ladainha só, o único problema é que o carnaval ainda não tinha sido decidido e faltava justamente o quesito bateria, ai é foda, ainda mais com os pinguços e a rapaziada do lado, coladinhos com os ouvidos na cobertura da rádio, loucos pra riscar a faca, eu vi a merda

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pronta. Tudo porque, caso o Lavapés perdesse, justamente na bateria, os pinguços culpariam a rapaziada que de tão mordidos teriam quem sabe errado o ritmo e a rapaziada não deixando pra lá, responsabilizaria os pinguços por serem tão bêbados que tocaram outro samba, talvez o de 86, “Harley, um cometa na avenida”, (falo isso porque bêbado que é bêbado do Lavapés conhece essa estória na ponta da língua, de trás pra frente, salteado e com a prova dos nove no final). _ Em nome do pai, do filho, do espírito santo... .Estamos aqui hoje para rezar pela alma de Fábio Firmino Queiroz e pela alma de Leandro Lona.

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_ O Senhor é meu pastor, nada me faltará. (_Unidos do Lavápés...Dez). _ Do Senhor é a terra e tudo que ela contém.(_ Acadêmicos da Vila Aparecida... Dez). _ Ainda que eu atravesse o vale escuro da morte, nada temerei, pois estais comigo. Todos._ O senhor é meu pastor, nada me faltará._ Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo.(_ Unidos do Lavapés... Dez)._ O Senhor é meu pastor nada me faltará.(_Acadêmicos da Vila Aparecida... Dez). _ Preparai para mim a mesa a vista de meus inimigos._ O Senhor é meu pastor nada me faltará.(_ Último jurado..._ O Senhor é meu pastor nada me faltará)._ O Senhor é meu pastor

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nada me faltará._ O Senhor é meu pastor nada me faltará.(_ Unidos do Lavapés... Dez)._ A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias de minha vida.(_ Acadêmicos da Vila Aparecida... Nove). _É-C-A-M-P-E-Ã-O-F-I-L-H-A-D-A-P-U-T-A-V-Á-T-OM-A-N-O-C-U-M-O-R-F-É-T-I-C-O-É-C-A-M-P-E-Ã-O. _ Levanta Lelo nós ganhamos, o Lavapés é campeão. ... É-C-A-M-P-E-Ã-O-F-I-L-H-A-D-A-P-U-T-A-V-Á-T-O-M-AN-O-C-U-M-O-R-F-É-T-I-C-O-É-C-A-M-P-E-Ã-O- C-A-M-PE-Ã-O- C-A-M-P-E-Ã-O-C-A-M-P-E-Ã-O. _ Fabão, morre, mas morre campeão... (anjo 45). ... É-CA-M-P-E-Ã-O-F-I-L-H-A-D-A-P-U-T-A-V-Á-T-O-M-A-N-O-

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C-U-M-O-R-F-É-T-I-C-O-É-C-A-M-P-E-Ã-O- C-A-M-P-E-ÃO- C-A-M-P-E-Ã-O-C-A-M-P-E-Ã-O. Com a vitória todos se dissiparam rapidamente, os ataúdes precisavam ser levados as suas respectivas fossas, sobrou apenas o padre, a esposa de Lelo, a Sandy e eu. Éramos seis, dois mortos. Corri até a rua chamá-los de volta, mas o C60, esfumaçando perdeu-se na primeira esquerda, _porra; além da rapaziada e dos pinguços, os filhos e netos de Lelo também evaporaram na nuvem de fumaça diesel. Parei uma viatura de polícia, e pedi, imaginando que ali se encontravam bons cristãos, uma mãozinha para levar os

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caixões aos seus pedaços de terra. Os soldados aceitaram de pronto, não por serem cristãos ou coisa parecida mas sim por estarem ajudando no encaminhamento do cão Fabão pros quinto dos infernos. Fomos todos de uma só vez, eu e o padre ficamos no meio tendo que ficar com uma mão em cada caixão, isso porque os soldados ajudavam mas em uma só viajem ou como eles mesmo disseram: _Vamos encaminhar os dois presuntos num fretinho só. Era uma boa caminhada, talvez uns trezentos passos. Passeávamos pelo jardim de túmulos entre os Buzzatos, os Lisas, os Benitez, os Magrinis, os Alvarez, os Sanchez ... todos

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me olhavam como um jure popular do apocalipse. Abaixei minha cabeça, sem dúvida alguma eu era culpado, que me condenassem ao fogo eterno, a empáfia desses mortos corria em meu sangue, o que eu tinha feito a eles para que me olhassem assim? Chegamos logo, os coveiros já tinham aberto os buracos, os meganhas receberam um chamado e deixaram os caixões no chão mesmo, a coisa toda estava uma verdadeira palhaçada. Enquanto os coveiros começaram a descer os paletós de madeira, primeiro do Fabão depois do Lelo, a Sandy começou a se afastar, e eu é claro, como um verdadeiro gentlemen fui emprestar meu ombro para ela descansar sua cabeça.

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Estávamos atrás do túmulo de uma família nobre, ou nobre ou rica, digo isto pois tinham um mausoléu todo de mármore, não sei o nome a família, como já disse estávamos atrás e os nomes com as fotos e o epitáfio ficam na frente. Ali ninguém nos via. Sandy me chupou o pescoço e quando a coisa começou a ficar dolorida, cravou os dentes com uma enorme força, não gritei de vergonha, o padre começou a rezar o pai nosso. _ Pai nosso que estais no céu (Sandy ajoelhada abriu minha braguilha) santificado seja o vosso nome (com a braguilha aberta tirou meu pau pra fora) venha nós o vosso reino (sugando vagarosamente, cabeça e tronco ficaram dentro

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de sua boca) seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu (... ... ... ...) o pão nosso de cada dia nos daí hoje (ela abaixou minhas calças até o joelho) perdoai as nossas ofensas (com meu pinto em sua boca, deixou as mãos livres para me massagear a bunda) assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (eu estava quase gozando) e não os deixei cair em tentação (G O Z E I) mas livrai-nos do mal (ela enfiou o dedo no meu rabo) amém (eu a nocauteei com um murro na fronte). A Sandy era uma menina forte, eu mal levantara minhas calças ela já tinha se recomposto, arrumou o cabelo e me deu um grande beijo, no final cuspiu em minha boca, eu tinha me apaixonado, senti meu gosto pelo seu catarro, acho que minha

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porra veio junto. O Padre me pegou com as calças na mão e saiu blasfemando alguma coisa, tenho certeza que esta cena acompanhará os sonhos deste antigo coroinha, levantei as calças, as pessoas me olhavam e eu envergonhado e com dor no cu parecia uma verdadeira bicha. Voltamos ao Bar do Lelo, a Kombi levou eu e o resto da família, a Sandy ia ao meu lado, chegamos ao boteco que agora, do centro à periferia, trazia na placa a inscrição: “último gole”.

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CONTO DE ANTENOR INCLUSO NO LIVRO BRAGCITY

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