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ENGANEI A WEHRMACHT, A SS E A GESTAPO NAZISTAS Tony Vicklester


1943. O mundo estava sendo castigado por um conflito sangrento: verdadeiro duelo mortal entre dois exércitos poderosos: de um lado, as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e, do outro, as de mais de 30 países: os Aliados. 25 de julho. Ensolarada manhã de um domingo de verão. Em Frabosa Soprana – um tranqüilo vilarejo, situado em verdejante colina dos Alpes Marítimos italianos, a poucos quilômetros de Cúneo -, eu e mais três colegas de Seminário gozávamos merecidas férias do Instituto de Filosofia, sediado em Turim, capital da província do Piemonte. Éramos hóspedes da Casa de Noviciado da Congregação. Depois da missa solene na capela, fomos passar o tempo jogando baralho, à sombra duma frondosa oliveira. Apesar de entretidos no carteado, ouvíamos música clássica numa emissora de rádio. De repente, o programa é interrompido e um locutor, com a voz embargada, anuncia um furo de reportagem: “Senhores e senhoras! Benito Mussolini, por imposição do Grande Conselho do Partido Fascista, foi deposto da chefia do governo. Ontem, às dezessete horas e trinta minutos, após se despedir do rei Vitor Emanuel, o Duce deixou o Palácio e foi conduzido preso para o quartel dos Carabineiros. Assumiu o governo o General Pietro Badoglio. De madrugada, Mussolini foi levado para o presídio da ilha de Ponsa”. Cinco minutos depois, o locutor entra de novo no ar, com mais um furo: “Extra! Extra! Hitler, ao ser informado da deposição e encarceramento do aliado italiano, ordenou ao General Jodl que desencadeasse a Operação Talarico. Em poucas horas, seis divisões da Wehrmacht ocuparam toda a região norte de nosso país.” Se para a nação e para o mundo, as notícias sobre a queda do Duce e da ocupação nazista eram realmente uma “bomba”, para nós quatro turistas, longe do Seminário, tornaram-se um pesadelo. Especialmente para mim, cidadão brasileiro. No dia seguinte, apressadamente, o diretor do Noviciado nos levou de carro até Cúneo e nos embarcou de volta para a sede de Turim, aonde chegamos à tarde. * Eu nasci na terra de Araribóia: Niterói/RJ. Aos 13 anos, perdi meu pai, vítima de colapso cardíaco. Minha mãe, não dispondo de recursos para sobreviver, conseguiu me matricular num colégio de padres italianos e minha irmã, num convento de freiras francesas,


Quando terminei o ginásio e o colegial, com notas máximas em todas as matérias, o Reitor decidiu me enviar para Turim (Itália) a fim de continuar os estudos na Faculdade de Filosofia, dado que a congregação não dispunha, então, de cursos superiores no Brasil. Cheguei ao porto de Gênova exatamente no dia em que as tropas alemãs invadiam a Polônia, acendendo o estopim que provocou a segunda guerra mundial: 01 de setembro de 1939.... Minha chegada ao Instituto, em Turim, virou a novidade do dia: eu era branco, falava uma língua esquisita e tinha um sobrenome por demais exótico, para um oriundo! Notem: eu, por ter pele clara e um nome comum na Itália, Antonio, só podia ser descendente de emigrantes italianos... O que atrapalhava a descendência era o sobrenome... Sempre tive enorme facilidade para me adaptar a situações imprevistas e, até mesmo, às mais adversas. Em poucas semanas, eu já estava familiarizado com os novos mestres e colegas e por eles “batizado” com o carinhoso apelido de Brasile. Os três anos de estudos filosóficos e de rotina comunitária transcorreram-se sem novidade, apesar do conflito ter se espalhado pelo mundo todo. * Tão logo as tropas alemãs ocuparam o norte italiano, os superiores do colégio de Turim se preocuparam com a minha presença. À boca pequena, ficaram sabendo que as forças de segurança nazistas, as famosas SS e Gestapo, haviam entrado em ação e vasculhavam as cidades e periferias, à cata de judeus e... cidadãos americanos... E, no Instituto, havia um brasiliano! Por isso, nem bem cheguei de Frabosa Soprana, o Reitor entrou em contato com o Comandante dos Carabinieri (do qual era amigo de infância), explicou-lhe a minha situação e pediu ajuda. Três dias depois, o oficial lhe entregou uma cédula de identidade falsa, sob sigilo absoluto, e recomendou para que eu partisse imediatamente para Roma, que estava ainda sob a tutela do governo italiano e onde se achava a sede da Congregação, à qual eu pertencia. Eu estava mesmo destinado a ir para a Cidade Eterna, a fim de cursar a Faculdade de Teologia da Ordem, pois havia me licenciado na de Filosofia, em Turim. O Reitor me entregou a nova “identidade” e uma sua declaração, com o logotipo do Instituto, testemunhando ser seu membro e estar viajando para a Capital em missão pastoral. Deu-me, também, uma série de instruções e um livrinho de orações encadernado (parecido com Breviário de padre), ensinou-me algumas frases em alemão e... desejou-me... boa sorte! Na quarta-feira, 29 de julho, de manhãzinha, embarquei no Espresso TorinoRoma, confiando chegar à Capital, mais ou menos, à tardinha. Ledo engano! Assim que o trem chegou à estação de Asti (a 55 km de Turim) foi interceptado por soldados alemães, fortemente armados. Adentraram nos vagões e começaram a exigir dos passageiros os respectivos documentos pessoais e ferroviário. Imediatamente, abri o meu Breviário e comecei a ler uma oração, como se estivesse rezando. Quando um dos militares se aproximou de mim, fechei o livrinho, esbocei um sorriso, entreguei a ele minha cédula de identidade, o atestado do Reitor, a passagem de trem e exclamei, com convicção:


- Ich sein Priester!* - Carrlo Derrasmo, nato a Grrrumo Apúlla, prrovincia di Bari, nel venti e cinque aprrile... leu em voz alta o “simpático” tedesco, com hilariante pronúncia italiana. Auf Wiedersehen! (Até logo!), disse ao me devolver os documentos. E seguiu à procura de judeus e americanos... * Eu sou padre!

....

Depois de quase 4 horas parado em Asti, o Espresso prosseguiu viagem. Após ter percorrido uns 45 quilômetros, nova parada na cidade de Alessandria. Outra revista geral e meticulosa pelos vagões. Só que agora a verificação de identidade estava sendo feita por agentes da SS* e da Gestapo**, todos com a cruz suástica nazista na braçadeira. De novo, abri meu “Breviário” e comecei a “rezá-lo”. Quando um agente da SS me abordou, imediatamente lhe entreguei a cédula de identidade, os outros dois documentos e repeti: - Ich sein Priester! O oficial conferiu a papelada, sorriu (expressão raríssima em funcionários daquelas duas divisões paramilitares do Partido Nazista) e, ao me devolvê-la, sussurrou: - Alles gut... Danke schön! (Tudo em ordem... Obrigado!) O trem ficou parado naquela estação por mais de 3 horas. Em surdina, comentava-se que a Gestapo havia descoberto num vagão vinte judeus, com documentação falsa. Foram presos e jogados num comboio de carga, que seguia para Milão... rumo a Dachau***... Quando o Espresso começou a se movimentar, eu fiquei calculando: “Até Roma, vamos passar por seis grandes cidades. Se, em cada uma delas, os nazistas levarem três ou mais horas para liberar o prosseguimento da viagem... vou chegar à Estação Termini... amanhã, de madrugada...De Alessandria até Roma são pouco mais de seiscentos quilômetros”. Felizmente, o trem só foi interceptado, por pouco tempo, em 4 cidades e eu não fui mais obrigado a me identificar como Priester. Na verdade, eu era ainda clérigo, futuro estudante de Teologia, não falava alemão, não era italiano e apenas temia ser descoberto pelos agentes nazistas. O Espresso (!!!), de fato, chegou à capital italiana, às 4 da manhã seguinte. Avisados por telefone, dois padres da Casa Mãe foram me apanhar na estação. Após efusivos abraços fraternos e dando mil graças a Deus por eu ter chegado “incólume”, fui levado para o Instituto, um enorme prédio, localizado no bairro romano de Garbatella. Depois de um farto breakfast, na cozinha, fui dispensado da rotina da comunidade+ até à hora do almoço. E assim, com meu novo nome, consegui ludibriar perigosamente a Wehrmacht, a famigerada SS e a implacável Gestapo. * Mas, não foi só dessa vez que enganei os temidos soldados e agentes tedescos. No meu novo recanto da Capital italiana, fiz rápida camaradagem com os professores e colegas da Faculdade. Eu era apenas o D´Erasmo, nascido numa cidadezinha da Província de Bari, em meados de 1919. No dia 8 de setembro de 1943, a Wehrmacht ocupou Roma e a declarou Cidade Aberta. Todavia, os pontos estratégicos da Urbe foram bloqueados pelos soldados alemães, sob o comando do General Kesselring e mantidos em estado de alerta máximo. ______________________________________________________________________


* SS: sigla da palavra Schutzstaffel, ou seja: Escudo de proteção; ** Gestapo: sigla de Geheime Staatspolizei, ou seja: Polícia secreta do Estado; *** Cidade, situada no norte de Munique/Alemanha, onde os nazistas , em 1933, construíram um campo de concentração, aproveitando as instalações de antiga fábrica de pólvora. Esse campo chegou a abrigar mais de duzentos mil prisioneiros de mais de trinta países, que integravam as forças aliadas.

Certa manhã, na hora do recreio, um colega quartanista de Teologia, diácono Fantim, me abordou, pedindo uns minutos de atenção: - D´Erasmo, ontem fiquei sabendo pelo nosso Reitor que você é brasileiro e seu nome não é esse. É verdade? - É... esta minha identidade é falsa, para evitar que os tedescos me achem e me convidem a passar uma temporada em Dachau... - Sabe, D´Erasmo, eu faço parte de uma célula de partigiani e, nas minhas andanças e “visitas pastorais” pelo bairro de Tre Fontane, travei amizade com uns soldados alemães, aquartelados naquela área. Consegui um salvo-conduto para entrar e sair livremente do quartel, graças à benevolência do Comandante, austríaco e católico fervoroso. Ele é de Viena e fala italiano. Pelo jeito de trocarmos idéias, ele me confessou que não tem fé alguma na vitória de Hitler... Gozando dessa intimidade com herr Commandant, eu circulo pela fortaleza e consigo recolher importantes informações sobre a movimentação das tropas de Kesselring no polígono da Capital. Em seguida, passo-as para os partigiani, cifradas em um código latino que inventei e cuja chave para decodificação eles a repassaram para o Serviço de Inteligência dos exércitos Aliados, desembarcados em Netuno. Você gostaria de colaborar com a gente, traduzindo meus informes em código de seu idioma? - Com o maior prazer, Fantim... Aliás, será a segunda vez que tentarei passar a perna nesses tedescos... Após demorados encontros, nas horas de lazer e no gabinete do Reitor, Fantim e eu criamos um código luso-tupiniquim sui generis para transmissão dos informes estratégicos, cuja chave os guerrilheiros passaram para os Aliados. E assim, de setembro de 1943 a maio de 1944, passei a enganar a Wehrmacht, a SS e a Gestapo, pela segunda vez. Eu até me sentia um pouco partigiano. * Finalmente, numa ensolarada terça-feira de junho, dia 6, os Aliados entraram vitoriosos em Roma, sob os aplausos vibrantes de uma frenética população. Minha missão terminava. , O perigo de eu ser descoberto pelos nazistas e despachado para Dachau se transformou em reminiscência de juventude. Carlo D´Erasmo, nato a Grumo Appulla, il 25 aprile 1919, desaparecia do cenário e o meu nome verdadeiro ressuscitava incólume do conflito mundial. Só nesse dia é que os professores e colegas da Faculdade de Teologia ficaram sabendo quem eu era realmente. E meu carinhoso apelido - Brasile - voltou, quando participei da primeira disputa de futebol entre nossa equipe e a de seminaristas palotinos. Modéstia à parte, nesse jogo, marquei 4 gols... sendo dois de placa.


A guerra, entretanto, em território peninsular continuou ferrenha. Os Aliados passaram a contar com o esforço maciço e eficiente dos pracinhas da FEB e da FAB. Derrotada em toda a Europa, a Wehrmacht acabou se rendendo, no dia 8 de maio de 1945. Sem apoio do exército, toda a estrutura paramilitar, que protegia o III Reich e o próprio Führer, desabou fragorosamente. *

Desde quando voltei para o Brasil, continuei mantendo contato postal com o padre Fantim e alguns ex-colegas do seminário romano. E, todos os anos, quando vejo na mídia noticiário e reportagens sobre as celebrações comemorativas mundiais do dia 8 de maio, eu me ufano de ter, não só ludibriado, por duas vezes a SS e a Gestapo, mas de alguma forma contribuído também para a derrota da Wehrmacht e da súcia nazi-fascista. Este conto foi publicado na ANTOLOGIA TABA 2010, com a rubrica Menção Honrosa (pgs.52/58)

Em preparação: AJUDEI A DESTRONAR O REI DA ITÁLIA


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