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DESENHISMO


DESENHISMO

Para Uma Filosofia do Desenho Industrial Luiz Vidal Negreiros Gomes

Porto Alegre, RS, 2013


sCHDs = sCientiae, Humanitus, Designatus conhecimento desenhado de acordo com a natureza humana

Direitos de Autor © (2012)

Luiz Vidal de Negreiros Gomes

Revisão do Texto: Luiz V. N. Gomes / Ligia M. S. Medeiros

Projeto e Desenho Gráfico: Luiz V. N. Gomes Marcos Brod Junior

Direitos de Publicação reservados a: sCHDs Editora Ltda ISBN 88961 Rua Silva Jardim, 157, Sala 503 Bairro Auxiliadora, CEP 90450-070 Porto Alegre, RS, Brasil CNPJ: 04.849.324/0001-50; Insc.Estadual: 229-412.2-3 Fone/Fax: (51) 99337069 / (51) 33320879 schdseditora@gmail.com / vidalgom@terra.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G633c

Gomes, Luiz Antônio Vidal de Negreiros Desenhismo : Para Uma Filosofia do Desenho Industrial / Luiz Vidal Negreiros Gomes. — Porto Alegre : sCHDs, 2013. xvi, 220 p. : il. ; 16 cm.

Título anterior: Desenhismo. ISBN: 85-88961-06-7 1. Desenho industrial 2. Design – Educação 3. Desenho – Filosofia 4. Design – Linguagem 5. Terminologia. I. Título. CDU 7.05 Ficha catalográfica elaborada por Bianca B. de Oliveira, CRB-10/1675


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Para Uma Filosofia do Desenho Industrial


Ó meça, Desenho, o que fizeram contigo? Ganhaste o risco tosco em ofício — inutilidade. Perdeste o traço rústico no trabalho — inoperância. Tiraram-te a linha fina da labuta — incompreensão. Resta-te o esquisito Quixote da ilusão gráfico-virtual. Sobra-te o pobre Princípe de invenção tupi-tropical. Abundate-te o Hércules de inovação cal... sem pelo. Ó mecê, Desenhador, acorda, estou a falar consigo! Granxeiro, 2011

Oh! gosh, Design, what they have done to you? You won craggy scribbles in a craft — inutility. You loose the rough dashes of the work — inoperability. The thin lines of labour crude erased — inconceivable. Remains the graphic-virtual ilusion of a freak Quixote. Overbound the tropical-tupy invention of a poor Prince. Abundant whitewash of innovation from a bald Hercules. Hey! hip, Designer, wake up, I’m talking to you! Granxeiro, 2008

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Desenhismo: Para Uma Filsofia do Desenho Industrial

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Sumário Apresentação Desenho e Marcas Identificatórias Dr Robson Pereria Gonçalves .................... vii Prólogo Primeira Edição Das Terras de Gontinhães Francisco Sampaio .................................... xii Prólogo Segunda Edição Para um Pensar do Desenho ou Desenhismo Dr. Edson Dias Ferreira............................... xxi Introdução Aspectos de Desenhos ................................. 29 Capítulo 1 Brincando desenhisticamente ................... 81 Capítulo 2 Denotando desenho .................................. 105 Capítulo 3 Conotando Desenho .................................. 199 Capítulo 4 Trabalhando para o desenhismo ............... 215 Conclusão Treinando falar desenho ........................... 215 Bibliografia ............................................... 212 Lista de figuras ......................................... 232

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Lista de Figuras Ilustração da folha das guardas e folhas de rosto do livro: Patrícia Coser Aspar. 1996. Ilustração central do livro: Bibi. Nomes populares: Bibi-do-brejo, bibi, bibi-dobanhado, batatinha, cebolinha. Nome científico: Cypella coelestis (Lehm.) Diels. Família: Iridaceae Tipo: Nativa, endemismo desconhecido. Descrição: Planta herbácea parecida com o lírio, de flores roxas, com três pétalas, que produz no subsolo um bolbo muito adocicado, semelhante a uma pequena cebola, do tamanho de uma avelã, denominado também bibi, o qual se come cru ou cozido, tendo excelente paladar principalmente quando misturado com leite. Existe também no Uruguai, com o mesmo nome. http://jornalmovimentocultural.blogspot.com/2009_04_01_archive.html. Característica: Floração / frutificação Janeiro; Dispersão

EGGERS, L. 2010. Cypella in Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. (http://floradobrasil.jbrj.gov.br/2010/ FB057878). KINUPP, V. F. Plantas Alimentícias NãoConvencionais da Região Metropolitana de Porto Alegre. Tese de Mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2007. 590p. il. Disponível em: <http://www. lume.ufrgs.br/handle/10183/12870>.

Fotografia Luiz Vidal. Figura 1. Prefácio Primeira Edição. Lagarteira, Vila Praia de Âncora, Minho, Portugal, 1989. Fotografia: Luiz Vidal. (p. xv). Figura 2. Prefácio Primeira Edição. Cais de Vila Praia de Âncora, Minho Portugal, 1989. Fotografia: Luiz Vidal. (p. xvii). Figura 3. Prextuais. Foto do Autor em abril de 2011. Fotografia: Luís Antonio de Medeiros e Gomes.

Hábitat: Mata Atlântica Distribuição geográfica: Sul – Santa Catarina e Rio Grande de Sul. Fitoeconomia: Espécie nativa com grande potencial ornamental ainda pouco explorado. Normalmente é encontrada nas margens de corpos de água ou banhados. Os bulbos são tidos como comestíveis, mas ainda carecem de estudos bioquímicos. Bibliografia: Catálogo de Plantas e Fungos do Brasil, volume 2 / [organização Rafaela Campostrini Forzza... et al.]. Rio de Janeiro : Andrea Jakobsson Estúdio : Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2010. 2.v. 830 p. il. Disponível em: <http://www.jbrj.gov. br/publica/livros_pdf/plantas_fungos_vol2. pdf>.

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Figura 9. IPod Nano da Apple: fatores projetuais equacionados para servir de base ao desenho industrial da forma, função, informação que protegem a marca. (p. 44). Figura 10. Sistema de Cognição de Situações, de Transformação de Informações e de Geração de Conhecimento em Desenho industrial (Baseado em MUNARI, 1987, p. 21). (p. 70). Figura 11. Nove características criativas de alunos de Cursos de Design. (p. 79). Figura 12. Lápis e caderno: ainda os mais ba-

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ratos e úteis instrumentos à projetação (p. 82). Figura 13. Diferentes tipos de linhas úteis à expressão gráfica na projetação. (p. 85). Figura 14. Etapas, fases, estágios dos processos: criativo, projetual, gráfico-visual. (p. 103). Figura 15. Jogos de auxílio à definição e compreensão dos processos criativos e projetuais em Desenho. (p. 117). Figura 16. Movimentos de motivação simples para o desenvolvimento do trabalho em Desenho: linear; ziguezaguear; circular. (p. 119). Figura 17. Movimentos de motivação complexos para o desenvolvimento do trabalho em Desenho: realimentativo; peristáltico; espiralado. (p. 119). Figura 18. Conjunto de ações e questões em definição das situações de projeto. (p. 125). Figura 19. Taxonomia dupla sequencial: categorias de produtos industriais. (p. 130). Figura 20. Taxonomia dupla sequencial: hierarquia de fatores projetuais. (p. 131). Figura 21. A falta de metodologia pode levar a subestimar, superestimar (Cf. Maldonado, 1977) ou, pior, a congestionar o processo projetual em Desenho. (p. 136). Figura 22. Fragmentos de páginas importantes de livros de Dreyfuss e de Archer. (p. 141). Figura 23. Conjunto de logogramas para técnicas saussurianas, respectivamente, da esquerda para a direita: dia-sincrônica; paradigsintagmática; deno-conotativa. (p. 143). Figura 24. Diacronia das conotações do Desenho ao longo de 12 Séculos. (p. 147). Figura 25. Coleção de imagens referentes de produtos à fundamentação do Desenho. (p. 149).

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Figura 26. Gráfico hipotético das motivações numa disciplina de projeto de produto. (p. 155). Figura 27. Aquecimento psicomotor para o início de trabalho em Desenho. (p. 159). Figura 28. Sistemas possíveis de relacionamento e de hierarquia entre os três domínios de aprendizagem: o cognitivo; o afetivo e o psicomotor. (p. 164). Figura 29. Sistema de relacionamento e de hierarquia ideal para cursos de Desenho, entre os três domínios de aprendizagem: psicomotor; cognitivo; afetivo. (p. 166). Figura 30. Diferentes tipos de registros gráficos auxiliares ao projeto em Desenho. (p. 177). Figura 31. Conjunto de representações gráficas com distintas funções dentro do desenvolvimento do projeto para desenho de produto industrial. (p. 180). Figura 32. Conjunto de representações gráficas com distintas funções dentro do desenvolvimento do projeto para desenho de produto industrial. (p. 181). Figuras 33. Colagem de imagens com grandes referências de Elaboração. (p. 187). Figuras 34. Criatividade: motivação; ilusão; invenção; inovação. (p. 197). Figura 35. Exercício de Biônica: seleção de sistema biológico. (p. 209). Figuras 36. Representações gráficas para observação e compreensão de ser vivo. (p. 210). Figura 37. Passagem de formas orgânicas para formas geométricas. (p. 211). Figura 38. Fotografias de modelos para compreensão do produto desenhado a partir do uso da técnica Biônica. Autor: Glielson Montenegro, CDI/UFPE, 1984. (p. 212).

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Nota do Autor: Este livro foi originalmente escrito para a Coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense com o título “O que é Desenho”. O texto corresponde a grande parte da teoria de fundamento apresentada no segundo capítulo da tese de doutorado do autor. O objetivo original foi o de oferecer informações básicas àqueles que estavam envolvidos com a educação criativa projetual e o ensino de Desenho industrial. Procurava-se também elaborar um documento que servisse aos professores de cursos de Design que quisessem compreender questões do Desenho industrial. Devido ao inesperado falecimento do Sr. Caio Graco Prado, então diretor da Brasiliense, em 1992,“O que é Desenho” tomou um outro título: “Para uma Filosofia do Desenho ou Desenhismo”. Assim intitulado o livro foi lançado em 1993, pela Editora da UFPE e em 1996 pela Editora da UFSM, RS. Esgotado há mais de 10 anos, “Desenhismo” foi revisto e atualizado para atender a demanda de informações básicas sobre a evolução das denotações e conotações do sujeito (desenhador), do verbo (desenhar) e do substantivo (desenho) para os avanços do ensino de Desenho industrial nos países de língua portguesa.

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Agradecimentos Por me oferecerem condições, entre 27 de setembro de 1987 e 18 de março de 1991, para desenvolver meus estudos a fim de obter o título de Philosophy Doctor, PhD, gostaria de agradecer a todos os membros do Departamento de Desenho da Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, aos consultores ad hoc da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, CAPES, e aos funcinários e professores do Department of Art and Design, Institute of Education, University of London — IEUL — em especial: Dr Maria Figueiredo-Cowen; Mr Lindsay Witttome, Dr Anthony Dyson, e, ao meu orientador Mr David Close (MA/RCA). Na correção do texto da tese, a amizade e a atenção de Mr Rod Leslie, ajudaram-me a compreender aspectos da cultura britânica e, mais, a perceber certas idiosincrasias do meu próprio idioma, e, por isso, Rod merece um agradecimento especial. O apoio recebido pelos funcionários da University of London Senate House Library, Biblioteca Nacional de Lisboa e da Biblioteca Nacional o Rio de Janeiro tornou este trabalho possível de ser finalizado. Ainda com relação aos agradecimentos formais, reconheço a atenção e a generosidade de Amilton Arruda, Solange Coutinho, Guilherme e Edna Cunha Lima, Paulo Vaz, Carlos Borromeu; Valéria Munk London; Gustavo Amarante Bomfim, Pedro Luiz de Souza; João Lutz; Joaquim Redig e todos demais que me concederam entrevistas com fundamentais informações. A amizade de Manuel e Olívia Araújo, no Minho; de Moreno Martinez e Laida Verde Pereira, na Galiza; e Miriam Chaves e família, no Rio de Janeiro, para sempre será lembrada quando qualquer trecho de meu trabalho de tese for desenvolvido em forma de livro. A leitura de Amanda Rios, minha colega de trabalho e professora atenta às questões do pensar Desenho. A todos meu muito obrigado!

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Este trabalho é dedicado àqueles professores e estudantes de Desenho industrial têm sofrido abuso criativo e intelectual, justo por não concordarem com a: (i) ausência na adoção de comportamentos genuínos ao progresso da educação projetual; (ii) omissão sobre o papel propedêutico do Desenho industrial no ensino de Design; (iii) carência de sistemas de comunicação originais para tratar de temas relacionados à criatividade e aos criadores nas sociedades industriais. This work is dedicated to those Brazilian teachers and students who have suffered intellectual and creative abuse because they don’t agree with the: (i) absence of genuine and useful behaviors towards the progress of the Design Education; (ii) omission of the industrial design propaedeutic role in the Design teaching; (iii) lack of an original communication to treat subjects related to the criativity and the creators in an industrial societies.

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Apresentação O DESENHO E AS MARCAS IDENTIFICATÓRIAS Dr Robson Pereira Gonçalves, Professor da UFSM, RS, Brasil Este ensaio, sobre o Desenhismo, de autoria de Luiz Vidal Negreiros Gomes, carrega em seu âmago algumas premissas fundamentais para o saber acadêmico e, principalmente, para os profissionais que atuam na área: solidez na argumentação e na pesquisa histórica, clareza nos objetivos técnicos e teóricos e, mais ainda, um senso arguto, numa avaliação pedagógica, de expor a riqueza daqueles traços que compõem um sintoma da língua portuguesa. A discussão empreendida neste livro parte do pressuposto de que a língua portuguesa, por si só, é vasta e extremamente rica na apreensão de conceitos, teses e, claro, poeticamente elevada na apreensão dos matizes, das entrelinhas que formalizam a inventio humana. O desenho, como é defendido no texto, se apresenta para a cultura humana, como um dos fundamentos da arte, da língua e da invenção. Nessa medida, o desenhador, é visto, aqui, com uma função poética, ou seja, aquele que anuncia os tempos de mudança. Tanto quanto o poeta o desenhador molda sua arte na fecundidade daqueles traços que formalizam seu trabalho — a língua/ linguagem é o ponto de partida e o objeto princeps que organizará os materiais e a visão de mundo que se apresentam nos artefatos. Luiz Vidal é um autor privilegiado, porquanto não insinua os seus pressupostos, mas o faz de uma forma consistente e clara nos revelando, em análises concisas, as evoluções das Artes do Desenho.

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Antes de uma discussão estéril e apressada sobre os fundamentos da identidade, o texto nos parece formulador de uma outra tese, mais apropriada, que explicita aquilo que estamos chamando de marcas identificatórias. Não se trata de expor uma crítica ao mazombismo (sobrevalorização do estrangeiro) como cerne de nossa cultura histórica, mas de afirmar pela língua todo um trabalho e invenção passível de tornarse categórica. Em outras palavras, uma identidade não se revela pelo unitário mas pelos seus múltiplos, porém também não se revela pelas marcas, pelos sintomas que não meus. Por isso tudo, o que se tem são marcas identificatórias de uma cultura, de um saber, de um conhecimento. É nesse reconhecimento que se poderia empreender uma pedagogia que privilegiasse não só a invenção como a dispositio (disposição de saberes, de conhecimentos, de marcas), com o intuito de prover a sociedade com aquilo que de melhor o conhecimento nos dá: a reinvenção do mundo. Muito mais do que uma tese que atravessa o texto, o ensaio de Luiz Vidal demonstra solidez nos argumentos de uma história da arte, do desenho industrial e, claro, como isso se apresenta no Brasil. A par uma intenção didática, o livro carrega o sintoma de querer ser lido. E isso é conseguido. A defesa do desenho é aqui consistente por que se revela dialógica numa demonstração de que é entre os humanos que se podem estabelecer os vínculos da natureza. Nessa ordenação, muito mais do que criar o sentido, o que podemos esperar da arte é a invenção do sentido. Nessa medida, a fecundidade da criação repousa na vontade, na meditação de reordenar nossos vínculos, nossas certezas, no afã do grande descobrimento de uma identidade. Santa Maria, RS, 21 fevereiro de 1996

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Prólogo I DAS TERRAS DE GONTINHÃES Dr. Francisco Sampaio, Professor da ESTG, Viana do Castelo, Portugal Conheci o Dr. Luiz Vidal em casa de Manuel e Olívia, amigos de peito de longa data, compadres de Luiz e Lígia aqui nesta terra de Homens do Mar, de pescadores do candeio, cantada por trovadores e jograis que se chamou de Gontinhães (...) “a paisagem do campo tendo por fundo o anil indistinto da montanha, dum lado; a paisagem do mar, tendo por linha a curva doirada dos areais e o azul casto das ondas, por outro”. Assim era Gontinhães... assim era a Lagarteira (Figura 1) com a sua deliciosa praia, acima de Viana, junto às Terras de Caminha e da Galiza envolta em lenda e narrativas

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de antanho que ficaram escritas no granito da serra por dolmens, castros, cruzeiros e alminhas; no trabalho e no rezar de monjes e noviças que ergueram capelas e mosteiros e tornaram abençoada a mítica Serra D’Arga onde todos bebemos a história e o segredo das coisas nas manhãs frias de Outono, entre rebanhos e garranos, cantigas ao desafio, penedos casamenteiros, virgens de amar ávidas das orvalhadas noites de São João; no repuxo de águas mil que encaneiradas pelos córregos da serra, adormecem gulosas no vale e trouxeram até à “marinha” e às praias do Atlântico, as finisterras dos Caminhos de Santiago, os clamores e os ais da que se chama hoje, a cosmopolita Vila Praia de Âncora. Contei-lhe em noites de lua cheia, ouvindo o rum-rum das motoras a navegar, a história de Urraca a Rainha Cristã que se apaixonou por Alboazar, o Emir de Gaia, o Senhor Mouro. E a história de Ramiro de Leão que vingando-se do ultraje de sua mulher raptou a irmã de Alboazar — Zahara — cantando-lhe trovas de amor. Citei-lhe o Conde D.Pedro e o seu “nobiliário” e li-lhe o documento (Séc.XI), em que é tradição que o rio Âncora e, posteriormente, as localidades vizinhas devem este nome ao facto de a Rainha D.Urraca em castigo de adultério ter sido afogada neste rio, por ordem de El-Rei D.Ramiro II e seus filhos, com uma âncora presa ao pescoço. (...) “e entraram entom nas gales e chegarom à foz do Ancora, e amarrarão as galès para folgarem, porque havia muyto trabalhado aquelles dias; ali forom dizer el-Rey q a Rainha feia chorando, e el-Rei dixe: vamola ver. Foy là e pregutoulhe por que chorava? e ella refpondeu, porque matafte aquelle Mouro que era melhor que ti; e o Infante dixe contra feu padre: iftço he demonio; que quereis della? que pode ser que vos fugirà; e el Rey mãdoua amarrar a hua mó, e lançala no mar; e desaquelle tempo lhe chamaron foz de Ancora”.

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Por isso Luiz Vidal se apaixonou por Vila Praia de Âncora. Por isso bebeu todas estas memórias e calcorreou todos estes caminhos, caminhos de mar, caminhos de monte, caminhos de promessas, caminhos de sonho e de vida, caminhos de Portugal. E ofereceu-me seus primeiros ensaios “O menino que pensava que não sabia desenhar”1 e “Princípios para a prática do debuxo”2, ambos de 1994. Gostei mais do primeiro, menos técnico que o “Debuxo”. Também minhas filhas o disseram. Tocou-nos. Sabia Almada Negreiros3, a flores e a crianças, “astronautas, foguete, peixe e tantas outras coisas mais” a música, a desenho, a papéis e lápis do Del. “Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passando algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas.

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A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!” E falou-nos do seu doutoramento4, da sua estada em Londres, onde também frequentes vezes me deslocava para contactos com o British Council e Universidade de Bournemouth, com vista à organização de programas e mobilidade de professores e alunos (Programa Erasmus) do Curso de Turismo da Escola Superior de Tecnologia e Gestão, na qualidade de vogal da Comissão Instaladora e Coordenador. Já então toda a problemática do “desenho” e/ou do “desenhismo”5 lhe era familiar. O seu entusiasmo por tudo que era “linguagem” do desenho e como tal pugnando por uma gramática, ortografia e caligrafias “próprias” levava-nos, até largas horas da noite, em amena cavaqueira tão rapidamente da “arte rupestre” em que o Alto Minho é tão fértil (a começar pelos petroglífos do Dolmen da Barrosa, em Vila Praia de Âncora), até às escritas ideográficas de que são exemplos os hieróglifos e a escrita, ainda hoje, usada na China. E se através do desenho artístico chegávamos às amplas liberdades de figuração e de subjectividades na representação, tudo dependendo da emotividade e da personalidade do artista e do artesão, já no desenho técnico as “regras gramaticais” que imprimem o rigor da “linguagem” eram diferentes, mas sempre na portuguesíssima língua! dizia-me o Luiz. Também aqui, a porfiada conversa em casa de Manuel e da Olívia levou-nos até Leonardo e seu primeiro estudo de teoria do desenho e da pintura. E daí partimos para a primeira e segunda revolução industrial, que faz do “desenho

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técnico” a sua principal “ferramenta” com a consequente internacionalização. É este o tema deste novo seu livro. Um estudo profundo e esquemático sobre o “desenho”, suas conotações e denotações. De inquietação e angústia: “um dos factores que mais colaboram e colaboraram para esse tipo de indiferença e até preconceito com a linguagem do desenho é o pouco ou restritivo entendimento que se tem (incrivelmente até entre os próprios pesquisadores e professores), sobre o termo português desenho”. Depois, numa reflexão sistemática e madura, consultadas as melhores obras da especialidade, o Dr. Luiz Vidal carrila para o seu livro toda uma informação documental “denotações de desenho” de alguns dicionários de língua portuguesa desde o padre Rafael Bluteau (1638–1743), ao Dicionário de Morais (1945), completados com o Novo Dicionário de Língua Portuguesa, mais conhecido no Brasil como o “Aurélio”(1986). A origem da palavra “desenho” e as suas versões nas línguas neolatinas e anglosaxónicas, o sentido etimológico do termo, as suas derivações (o que leva já ao autor a pensar a escrever novo livro que dará o título de “A escrever signos ou desenhando”6, as semelhanças morfológicas do português, galego, castelhano e catalão, leva-o a seguinte conclusão: Destarte, podemos construir uma tabela para mostrar os seis termos portugueses — desenhar, desenho, desenhador; debuxar, debuxo, debuxante — aqui denotados, com relação aos termos correspondentes nas três línguas românicas faladas na Espanha e com os carismáticos termos ingleses e perceber de uma vez por todas que o idioma português está perfeitamente munido para tratar e com muitas nuances as questões não só relativas ao desenho projectual de produtos industriais, mas também abordar aspectos políticos e filosóficos da grande área do conhecimento, Desenho”. Fico a pensar. E preocupo-me! Bem gostaria que este livro visse o prelo rapidamente e que fosse lido e relido também por muitos professores do meu País responsáveis pela educação do desenho; por muitos profissionais que usam e abusam de estran-

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geirismos descaracterizando a língua portuguesa. Para que lessem e meditassem no que diz Vidal, com base nos estudos da professora Nelly Carvalho: Em primeiro lugar, como desenhadores industriais assegurar a “defesa e manutenção da língua materna” — com a preocupação da pureza dos padrões do idioma que não, podem ser confundidos com ‘purismo xenófobo’. E em segundo “permitir a normalização terminológica — com uma sistematização das denominações/noções em Língua Portuguesa, exigida para a criação de um banco de termos (resultado de pesquisa e criação); evitando-se assim termos que se tornam insubstituíveis em língua estrangeira”(CARVALHO, 1991, p.41) como por exemplo: hardware, software, paper, workshop; balance; release, marketing, designer e design, só para citar alguns dos mais famosos e usuais termos usados por desenhadores. Ao Luiz Vidal o meu agradecimento, por este livro, por este seu amor à língua portuguesa; por toda esta inquietação de consciência da necessidade de uma actuação estratégica; por este tão saudável desejo: fundamentar, em português, a filosofia do desenho ou Desenhismo. Termino com dois poemas, síntese de tudo quanto me honrou ao pedir-me para fazer a apresentação do seu livro, afinal, como sugere, unir dois extremos da língua portuguesa — um bem ao norte de Portugal e outro bem sul do Brasil. Que terá este Portugal para assim me atrair? Que terá esta terra, por fora risonha e terna por dentro atormentada e trágica? Não sei; mas quanto mais o visito, mais desejo voltar. Miguel de Unamuno

Floresça, fale, cante, ouça-se e viva A portuguesa língua, e já, onde for, Senhora vá de si, soberba e altiva António Ferreira Vila Praia de Âncora, 23 de dezembro de 1995

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Prólogo II PARA UM PENSAR DESENHO OU DESENHISMO Dr. Edson Dias Ferreira, Professor da UEFS, Bahia, Brasil Para uma Filosofia do Desenho ou Desenhismo, assim se chamava o livro em 1992 ou, quando o conheci, 1994, cujos exemplares foram encontrados pelo professor Robérico Celso Gomes dos Santos, jogado no chão em um dos cantos da livraria de uma Editora universitária. Interessamo-nos de pronto pelo título, havia algo nele que nos soava peculiar — familiar mesmo —, estávamos, àquela época, dirigindo nossos estudos para o Desenho, buscando fugir do que já se havia feito até o momento no tocante à dicotomia entre arte ou técnica. Tais perspectivas sempre privilegiaram as aplicações específicas fosse ao tocante à produção expressiva do desenho ou produção técnica do mesmo. Ao abrir o exemplar vimos que seu autor não só dava indícios de comungar com nossas preocupações acerca do desenho como fazia uso daquele espaço para tornálas públicas. Voltamos para Salvador, capital da Bahia, cidade onde moramos com, pelo menos, seis exemplares da referida publicação. Ao passar pelo Recife, tempos depois, adquirimos os exemplares que haviam restado. Era a oportunidade de disseminar no seio do nosso grupo as ideias que nos inquietava acerca do Desenho e que estavam ali, no livro, impressas. Desenhismo entrou no nosso vocabulário e desenhador passou a indicar o título do agente do Desenho, aquele que possui a capacidade de desenhar.

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Anos mais tarde, foram quatro para ser mais exato, tomamos conhecimento via Programa Interinstitucional para Divulgação do Livro (PIDL) da existência de uma nova edição, desta feita sob a responsabilidade da Editora da UFSM. Desenhismo ganhara um melhor acabamento e esta nova edição também possibilitou o contato efetivo com o autor: Luiz Antonio Vidal de Negreiros Gomes. Havia a intenção de conhecêlo e, claro, não apenas ao trabalho. Estabelecemos contato e criamos, em 1997, um evento para uma primeira aproximação. Entre dúvidas e esclarecimentos o trouxemos para o seminário de Lançamento do GRAPHICA 98, Congresso que realizaríamos dali a um ano. Próximos, portanto, tínhamos uma certeza, seu nome seria lembrado na hora de montarmos a programação do congresso. Neste sentido, coube ao Professor Luiz Vidal proferir a Conferência de abertura do GRAPHICA 98. Quanto ao livro atual — DESENHISMO: Para Uma Filosfia do Desenho Industrial —, no seu conteúdo, traz uma abordagem muito peculiar acerca do Desenho. No geral, discute-se discute várias facetas do desenho como auxilaires ao pensar quando se prertende resolver questões que estão postas sobre o seu entendimento, seja do ponto de vista etimológico ou da sua epistemologia, ambos dando conta do conhecimento, considerando tempos, espaços e circunstâncias dentro das quais o Desenho opera e tem foro. Fixa-se quase sempre no desgastado conteúdo expressivo ou aplicado quase sempre tratado de maneira árida. Luiz Vidal inova na sua abordagem. Inicialmente, ele parece tratar de desenho de modo a sequenciar a história “evolutiva’’ do mesmo, mas logo fica claro que, na verdade, ele oferece muito mais ao leitor. Há uma preocupação em elucidar questões que mesmo muito tocadas ainda se encontram pouco resolvidas. Este é o ponto forte do trabalho — construir um estado da arte acerca do desenho, como área de conhecimento própria, não sibsidiária a outros camoos profissionais. Lastreado por uma ampla bibliografia, o autor demarca com clareza, nas quatro partes que compõem o trabalho mais introdução e conclusão, temas cujo tratamen-

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to traz à tona — descortinam — o sentido, o emprego das dimensões conotativa e denotativa que a terminologia abarca. Traz ainda uma proposta de classificação por categorias que, embora refiram-se mais propriamente ao ramo aplicado do Desenho, abrem possibilidades para estendê-las a outros campos ensejados pelo conhecimento. O autor conclui seu trabalho fazendo um chamamento à consciência acerca do real entendimento do sentido dado ao designativo DESENHO, no campo próprio da língua em que o mesmo opera. Não obstante esse fato, seu texto nos leva a pensar sobre a importância da clareza e profundidade na aplicação dos conceitos de referencia deste campo, visto que a fragilidade com que, muitas vezes, pesquisadores e professores se reportam a eles no cotidiano de suas praticas profissionais tem levado a um prejuízo sistemático às gerações de alunos em processo de formação. Para concluir, gostaria de mencionar que o estudo produzido por Luiz Vidal conquistou um espaço no contexto do nosso grupo de pesquisa e se insere como bibliografia básica nos cursos de graduação e de pós-graduação da UEFS-, Feira de Santana, BA. Quanto ao autor de Desenhismo, tornou-se um dos meus grandes amigos, cuja aproximação se deu a partir das inquietações provocadas pelo envolvimento com os campos e muitas especialidades da área de conhecimento Desenhos.

Feira de Santana, 9 de outubro de 2010.

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Luiz Vidal Gomes (1955-), professor de Desenho industrial abril de 2011

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