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2018/2

ENTREVISTA

GISLENE SILVA COMO CRITICAM OS QUE CRITICAM?

A MÍDIA CRITICA A TODOS, MAS

QUEM CRITICA A MÍDIA?


Mais que consumir informação, é preciso entendê-la O telefone tocou nos últimos dias de ja- los meios de comunicação e não a verneiro de 2018. Quem ligava era Del Mou- dade”. Então, cabe a observação ao que ra, meu professor durante a faculdade, produzem os meios de comunicação agora coordenador da graduação em e como eles orientam nosso cotidiano. Jornalismo da Uniplac. “Conhece Gestão Especialmente em momentos como esem Metajornalismo?”, perguntou. “Tal- tes, a realidade cada vez mais inacreditávez”, respondi, surpreso. E então veio o vel desafia nosso entendimento. No Braconvite: pela primeira vez, eu daria au- sil, ainda mais, vivemos tempos instáveis. las – para a sétima fase, em intensivo E, se a imprensa é como um fio que nos dali a alguns dias. A proposta de anali- conecta ao mundo, o caos do qual ela se sar as produções da mídia, em especial alimenta é um termômetro de como vedo jornalismo de um ponto de vista crí- mos a democracia e nosso lugar em sotico, sobretudo, foi um desafio. Como foi ciedade. Assim, as fronteiras entre o que o que propus aos meus colegas de sala é insustentável e a informação confiável logo na apresentação são borradas, entre da disciplina: Como outros valores. 2018 foi O Metajornalismo se trabalho final, criaríaano da perda de uma manifesta quando a mídia mos um suplemento referência: Alberto Dique desse espaço às discute, de maneira reflexiva, nes, um dos pioneiros produções deles, com o próprio fazer jornalístico da crítica de mídia no textos críticos à mídia, Brasil, tanto na coluna já que seria interes“O jornal dos jornais” sante atravessar as paredes da escola de quanto no Observatório da Imprensa, jornalismo. De discussões assim, surgiu destinado a monitorar as condutas de o Paralelo. Para criticar os que criticam. profissionais e promover o debate da Um suplemento que, em conceito, de- atuação do jornalista na sociedade. Espeveria ser um caderno adicional ao ma- cialmente em um contexto onde a refleterial jornalístico principal, aqui se apre- xão e o pensamento crítico têm sido consenta de outra forma. Suplementa a denados, e onde o ensino universitário realidade, simultaneamente, a partir da de qualidade vêm sendo posto à prova confrontação, da comparação e da aná- pelo obscurantismo e pela arbitrariedalise, ainda que em um esboço, em um de que rondam nosso país, pensar a atuesforço mais primário. É válida uma re- ação do jornalista e seus reflexos no cotiflexão atribuída ao jornalista polonês diano já é um ato revolucionário. Talvez Ryszard Kapuscinski, que aponta: “es- por isso, o jornalismo que duvide, que critamos vivendo duas histórias distintas: tique, que saia do mar de certezas, mena de verdade e a criada pelos meios de tiras e manipulações em que o ambiente comunicação. O paradoxo, o drama e o informativo se transformou, seja ainda perigo estão no fato de que conhece- mais necessário. Pela via do esclarecimos cada vez mais a história criada pe- mento. Da credibilidade. Da informação.


Boa Leitura!

PARALELO

EXPEDIENTE

Na edição de estreia do Paralelo, com conteúdos desenvolvidos no ao longo dos dois semestres de 2018, apresentamos dez textos, dois para cada um dos autores-estudantes. Falamos sobre metamídia. Também comentamos as linhas editoriais ocultas de meios de comunicação composições escancaradas, além de tratar do jornalismo dos sonhos e das tão discutidas fake news. Também presentes aqui, as reflexões sobre o jornalismo esportivo que cede ao entretenimento; a alternativa dos blogs, que abrem as portas a novas formas de comunicar; além de uma crítica ao modo com que a imprensa trata a relação entre jogos virtuais e violência. Ressalte-se: pautas divididas meio a meio – entre assuntos abordados em aula e outros escolhidos pelos produtores deste material. Ainda há espaço para trazermos o olhar de Ryszard Kapuściński a partir de uma leitura da pesquisadora Christa Berger, e as diferentes formas de crítica musical, a partir do álbum “Tranquility Base Hotel & Casino”, da banda inglesa Arctic Monkeys. Aproveitamos para agradecer aos ilustradores que se dispuseram a participar do projeto, contribuindo com seus traços e cores. Destacamos a entrevista do #1, com uma convidada especial: a professora e pesquisadora do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Gislene Silva. Na conversa, falamos sobre crítica de mídia, checagem de fatos, o papel da imprensa, e as formas com as quais cada um pode refletir sobre a informação que consome, além da função da universidade neste processo. Seguimos em frente. Aproveite.

Editor-chefe Prof. Luiz Henrique Zart Capa Giselle Zart Textos Diógenes de Barros Dionathan Sousa Francisco Ramos Gabriela Sassi Gisele Urnau Entrevista Luiz Henrique Zart Ilustrações Bruno Masselai Giselle Zart Mariah Wolf Mayara Heidrich Diagramação Dionathan Sousa Professor responsável Luiz Henrique Zart Coordenador Jornalismo Luiz Augusto Del Moura da silva

Prof. Luiz Henrique Zart Editor-Chefe

Graduação em Jornalismo

Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac)


PARA LELO


Índice

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Metajornalismo: a consciência crítica de mídia

O Jornalismo dos sonhos

Gabriela Sassi

Gisele Urnau

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Você já foi influenciado hoje?

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Veja e Carta Capital: Linha editorial oculta, polarização escancarada

Diógenes de Barros

Fake News e o Jornalismo de roupa nova

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GISLENE SILVA: COMO CRITICAM OS QUE CRITICAM?

Francisco Ramos

Dionathan Sousa

Luiz Henrique Zart

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A crítica especializada multifacetada em Tranquility Base Hotel & Casino

Jogos e violência: como o sensacionalismo os une?

Diógenes de Barros

Francisco Ramos

37

Christa Berger e o jornalismo de Kapuscinski

Gisele Urnau

A transformação do Jornalismo Esportivo em entretenimento

39

Gabriela Sassi

Blog: O jornalismo de portas abertas

Dionathan Sousa


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Metajornalismo: a consciência crítica de mídia Gabriela Sassi Para se fazer Jornalismo é exigido dos informação consultadas, as motivações profissionais o compromisso de atender de determinado veículo, a cobertura sob os interesses do público, checando, apu- determinado aspecto abrindo mão de rando e verificando os fatos que envol- outra abordagem, até as notícias: como vem a notícia. É, sobretudo, uma ativida- são construídas, seus efeitos e causas. de complexa, que envolve uma série de Observa a forma e o conteúdo publicavariáveis, onde entram em pauta condu- dos, procurando compreender quais retas e práticas comuns à imprensa. É par- flexos, de fato, a imprensa pode causar te do senso comum, por exemplo, que o na vida das pessoas. próprio público relacione o trabalho dos jornalistas à fiscalização do poder, base- Sendo assim, é importante que a própria ando-se em ideias como as da objetivi- mídia “fiscalize” e critique como são readade e da imparcialidade diante do co- lizados os trabalhos da profissão. Fazentidiano. Mas, além do com que os profisda percepção dessionais entendam qual tes padrões – muiNeste caso, a profissão e os é a real função deles, e tas vezes quesque entendam a projornalistas tornam-se tionáveis e fruto de sujeitos do discurso que criam fissão também é uma discussão dentro e forma de construção fora das redações –, social. é preciso se questionar: quem fiscaliza as formas de atuação da imprensa, seus É importante ter a própria compreensão vícios, erros e, enfim, suas produções, de do papel social existente na imprensa. A maneira crítica? grande pergunta é: em que momento esta crítica é feita, e de que forma? Além Pois bem. Esta é a função do metajor- da academia, os jornais estão preparanalismo, que também pode ser tratado dos para olhar para si mesmos e recocomo crítica de mídia. Falando da ori- nhecer seus erros? O caminho parece gem da palavra, o prefixo meta indica a apontar que não. “reflexão sobre si mesmo”, sobre o objeto em análise. Ou seja, o Metajornalismo Mudanças, ética e um novo espaço da se manifesta quando a mídia discute, de mídia maneira reflexiva, o próprio fazer jornalístico. Neste caso, a profissão e os jor- Por isso mesmo, o público tem função nalistas tornam-se sujeitos do discurso importante na análise da informação que criam. que consome. Que mudou bastante, e isso não é de agora. No artigo “Jornais Portanto, ao metajornalismo cabe anali- sem jornalismo, jornalismo sem jornais”, sar, fiscalizar e discutir as práticas jorna- publicado pelo Observatório da Imprenlísticas. Entram em questão neste pon- sa, que, por meio de um site e um pro to todos os elementos que compõem grama de rádio e TV se dedica à análise a rotina jornalística: desde as fontes de da atuação dos meios de comunicação


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Giselle Zart

na contemporaneidade desde 1998, o jornalista e professor Francisco Rolfsen Belda discorre sobre o estudo realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), em parceria com o Volt Data Lab - uma agência independente de Jornalismo de dados, investigações e reportagem -, que juntos mapearam, até outubro de 2017, uma rede de 5.354 veículos de informação distribuídos no Brasil. No entanto, o texto questiona: será que esses veículos realmente e respeitam padrões éticos da profissão? Segundo Belda, o Jornalismo entra em um novo

ecossistema onde existem jornais sem Jornalismo, e jornalistas sem jornais. Ressalta que, muitas publicações se identificam como jornais, e inclusive se parecem com eles, usando linguagem, forma e outras características semelhantes. Porém, desconsiderando a ética e o método jornalístico. Da mesma forma, o artigo explana a situação das redações enxutas, dos jornais com menos páginas e, consequentemente, menos conteúdo. Avaliando e refletindo sobre a falta de conteúdo jornalístico nas publicações brasileiras. Institutos como os ‘Obser-


7 vatórios da imprensa’, cartas do leitor, a figura do Ombudsman – que, no jornalismo, é o termo utilizado para denominar o representante dos leitores dentro de um jornal, criticando o veículo “de dentro” - até a internet, em dimensões diferentes, são canais pelos quais são discutidos assuntos da mídia. São eles os responsáveis por parte do esclarecimento acerca dos assuntos tratados pelos meios de comunicação, e também uma importante ponte entre quem produz e consome informação – afinal, quase todos que tem acesso às ferramentas. Assim, cada vez em um espaço mais aberto ao debate, os meios de comunicação precisam – e ainda não sabem ao certo – lidar com um público que por muitas vezes traz questões importantes à discussão, e em outras também demonstra que a falta de reflexão e crítica é justamente um reflexo da atuação da imprensa. Mas, enquanto público, o que é possível fazer?

cisa e incisiva, devido ao número pequeno de caracteres para cada mensagem. Um assunto polêmico que surge na TV, por exemplo, rapidamente chega ao Twitter. O tema velozmente se torna o mais comentado da rede, cercado de observações e pontos de vista variados, criando assim uma extensão do conteúdo. O que era inerente apenas dos meios de comunicação tradicionais, agora ganha outra dimensão e alcance com estes recursos. Muitas vezes o espaço é usado para análises sem conteúdo reflexivo e simples achismos, entretanto, o canal também abre discussões pertinentes em relação à mídia. Precisando compreender as novas formas de comunicação, cada vez mais “vias de mão dupla”, agora, a imprensa tradicional é questionada, tendo que lidar com essa maneira diferenciada de encarar o trabalho jornalístico – objeto de mais ressalvas, precisando colocar-se, cada vez mais, em debate.

Internet e redes sociais enquanto A consciência de crítica de mídia, mescanais de crítica: o público no processo mo que adquirida pelos indivíduos sem intenção, fomenta análises que perA relação entre jornalistas e sua audiên- meiam as redes sociais, até que chegam cia tomou outra proporção com a che- ao “mundo real”. É preciso perceber que gada da internet e, principalmente, das o advento da internet potencializou os redes sociais. O trabalho do jornalista questionamentos sobre a postura da deixou de ser unilateral. Agora, ele con- imprensa, que saiu do seu pedestal, ta os olhares atentos e comentários dos onde ficava intocável, uma vez que os internautas, e não apenas. As conversas assuntos tratados geram discussões e iniciadas no mundo virtual logo tomam formam opiniões. Elas não vêm somenproporções maiores no dia a dia das te da imprensa: agora, as pessoas escopessoas, naturalmente. Elas fiscalizam lhem em quem acreditar ou não – ou, informações, discordam dos posiciona- ainda, quais pontos de vista serão conmentos e questionamentos apontados siderados ao construir a própria análise. pelos jornalistas. Porque observar a imprensa, notar seus erros e posicionar-se sobre eles é parte Uma prova dessa nova função assu- de uma sociedade que se comunica de mida pelas redes sociais é o Twitter. O um jeito mais transparente e conscienmicroblog é conhecido por ser origem te. P de crítica (direta e indireta), avaliando o teor das publicações, de maneira con-


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O jornalismo dos Sonhos Gisele Urnau Por que fazer jornalismo? Há os que responderão convictos que a razão dessa escolha é o gosto ou a vontade de “contar histórias”. Há inúmeras formas de se fazer isso. E é neste sentido que está envolvida uma série de variáveis que determinam a forma com a qual uma história é contada. Inclusive na construção da percepção do que, realmente, significa este relato na cabeça do público. Destacam-se, aqui, a imagem estabelecida pelos meios de comunicação e a maneira como os próprios jornalistas trabalham neste processo.

mais destaque e uso de recursos, maior a relevância das informações. Sobre a página, observa-se o planejamento das posições de fotografias e das matérias dispostas na página. Desta forma, o leitor também dá destaque àquela informação como algo importante.

As variantes não se restringem apenas à linha editorial. Toda e qualquer experiência vivida pelo profissional de comunicação constrói pensamentos e opiniões, em uma bagagem cultural que influencia a sua atuação no meio jornalístico. O profissional, então, deposita uma carga A questão é como todos esses sujei- particular na representação dos acontetos participam da estrutura básica en- cimentos.

“Mas que ele pode alterar

o sentido disso dando ouvido às pessoas que tem histórias a contar tre transmissor, mensagem e receptor. Dentro deste ciclo, a linha de produção jornalística atribui papéis que desde a elaboração da pauta podem direcionar a um determinado viés que interesse às partes envolvidas. Um ponto inicial já é estabelecido pela própria linha editorial de um veículo de comunicação. Ela diz muito sobre o conteúdo que será produzido, por exemplo, fazendo com que as mensagens sigam os ideais de quem as veicula. Esta prática é visível quando alguns acontecimentos têm maior notoriedade e mais espaço na mídia. Ainda, quando o jornalista define uma determinada sequência dos fatos em um texto, considerando que quanto mais ao topo, quanto

São pontos que entram em discussão ao considerar alguns dos dogmas do jornalismo, como a linha da objetividade e imparcialidade, que, de senso comum, deveria nortear a prática jornalística. Sabe-se, assim, que contar histórias exige escolhas. Com elas, caem por terra os argumentos que sustentam estes dogmas. Então coloca-se em vista que o jornalista deve “olhar para o seu próprio umbigo”, o que determina que reconheça que é a partir de sua perspectiva que a informação ganha forma. Que mesmo retratando o “outro lado”, um ponto de vista sempre ganhará maior peso e maior validade. Mas que ele pode alterar o sentido disso dando ouvido às pessoas que tem histórias a contar.


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Mayara Heidrich

Sobre olhar para o próprio umbigo Olhar para o próprio umbigo, portanto, indica a percepção de que a mídia é incapaz de enxergar a si mesma e analisar criticamente suas produções. O jornalismo tem passado por inúmeras mudanças decorrentes da evolução em meio à era tecnológica, e tudo indica que continue assim. Uma dessas mudanças foi a internet, que fez com que os meios de comunicação se adequassem às pla-

taformas onde a informação se espalha e não tem mais ponto final. É comentada, compartilhada, ganha outros sentidos. Mas de que maneira esta condição interfere no papel do jornalista? É válido considerar que, com o advento da internet, a preferência e o desespero pelo factual são predominantes nos meios de comunicação. Isto se percebe quando se


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nota o espaço cada das pessoas, e, nada vez mais curto de temmais correto de que Um jornalismo do povo po em que essas mapartam do desejo e para o povo. Feito de térias são produzidas. desses sujeitos de pessoas, por pessoas Falta um tratamento transmitirem a próe para pessoas mais cuidadoso, que pria experiência. Isso remeta, afinal, aos constrói uma espévalores essenciais da cie de empatia entre imprensa, em que importa contar histó- jornalista e cidadão. O profissional deve rias. Falta o apreço na apuração, na che- se colocar no lugar dos protagonistas cagem, no detalhe, do espaço ao con- do fato, conhecer a sua realidade e, por traditório e à reflexão. fim, deixar que esse fato seja contado espontaneamente por eles, enquanto o Na contramão desta lógica, e aprovei- jornalista atua apenas como mediador tando essas qualidades, tem-se as gran- e não construtor da história. des reportagens: nelas, o jornalista com maior disponibilidade para produção Como exemplo desse profissional, vale do seu material, tem um resultado fi- destacar Eliane Brum e sua obra “A vida nal mais interessante. E, desta forma, que ninguém vê”. No livro, ela seleciona além de produzir conteúdo relevante, uma série de reportagens sobre históleva mais conhecimento e informação rias de pessoas comuns, aquelas que ao seu público, independente do meio. “ninguém vê”, mas que possuem algo Mas qual a ligação dos pontos aqui le- grande para contar. Histórias que sem vantados com o tema até então aborda- um olhar carregado de sensibilidade do, a conduta do jornalista na produção das pessoas e do próprio jornalista, pasde seu material? Assim, espera-se que sariam despercebidas, pela pressa que com o maior período de tempo para a dita a sociedade. Histórias que devem elaboração, as reportagens ganhem ser vistas e debatidas. Histórias estas, menor direcionamento, sejam me- que se tornam invisíveis pela própria nos tendenciosas, considerando toda a sociedade. Histórias que Eliane Brum construção, desde o tema pensado até identificou e as fez enormes apenas as a última edição. retratando. Esse direcionamento aos interesses ou influências do veículo, ou mesmo do jornalista, por vezes não corresponde às condutas destinadas a essa profissão. Como porta-voz da sociedade, o jornalista deve construir a confiança do público, com o entrevistado, e a quem o seu trabalho desperta interesse. Como construtor de uma função social no meio em que vive, novas possibilidades devem ser levantadas e postas em prática. A história não é o jornalista quem faz, ele apenas a reproduz. A história vem

Um modelo de jornalismo que faz jus ao seu papel na sociedade, um jornalismo real, e não construído por uma ótica distorcida e tendenciosa, com apelos a determinadas pessoas ou formas de ver o mundo; um jornalismo sensível e não sensacionalista para atrair público superficialmente; um jornalismo do povo e para o povo. Feito de pessoas, por pessoas e para pessoas. P


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Veja e Carta Capital:

Linha editorial oculta, polarização escancarada Diógenes de Barros A relação da população com a política atual, há muito tempo na realidade, é a do “Nós” versus “Eles’. A consolidação deste conflito desconsidera a ideia de que o ato político é, primeiro, uma construção que vem desde a formação de uma identidade social, seguindo até o agrupamento de normas e leis definidas por um grupo específico de pessoas. Sendo assim, o senso comum identifica tal ato como uma luta, que distingue posicionamentos em espectros ideológicos. De um lado a esquerda, do outro a direita. Um certo, o outro errado. Como se cada um fosse o seu próprio Rocky Balboa, enfrentando o amedrontador Apollo Creed. No Brasil, a dualidade é representada na mídia impressa, principalmente, pela revista Veja – à direita – e a Carta Capital – à esquerda. Mesmo considerando alcances distintos – a primeira possui mais de 1 milhão de exemplares em circulação, muito mais que os 65 mil da segunda, segundo dados divulgados pelas próprias revistas. Ambos os periódicos simbolizam e destacam questões pertinentes ao próprio viés ideológico e ao seu público leitor. Qual o problema nessa situação? Nenhuma

Bruno Masselai

das duas deixa isso claro – contexto não observado em países como Espanha, Inglaterra e EUA, onde o ambiente comunicacional é mais esclarecido e lúcido. No Brasil, é comum que os meios de comunicação não expliquem qual vertente política seguem ao seu público. Dessa forma, as revistas – Veja e Carta Capital – apresentam conteúdo utilizando a ideia da imparcialidade, conside-

rando que até mesmo a escolha dos fatos reportados passa por um filtro – no jornalismo, conhecido por meio da teoria do Gatekeeper, ou o “guardião do portão” da informação. Esta corrente indica que o conteúdo terá validade a partir do momento em que atravessar este crivo. Assim, além da decisão sobre o que escrever, a forma escolhida para seguir a narrativa, e como noticiar os acontecimentos,


12 cumpre um papel relevante na atividade jornalística. Dessa forma, cabe questionar: como Veja e Carta Capital escrevem e reagem a questões polêmicas e de interesse do público? Será que caso ambas deixem claro o “lado” – aspas não faltam nessa expressão – em que estão, os leitores teriam melhor noção da realidade e do que estão consumindo?

Round 1: Veja x Carta Capital – Caso Lula

quisa é apresentado de formas diferentes, em um “Lula segue liderando”, no outro “Lula cai, mas ainda lidera”. Outra observação se refere aos números expostos no decorrer dos textos. A Veja expõe os 18,8% das intenções de voto espontâneo recebidos por Lula, segundo a apuração. Já a Carta Capital escolhe por abordar os 33,4%, de pesquisa estimulada. Nenhum dos dados está incorreto, porém, a fato de ambos escolherem enfoques diferentes escancara uma necessidade de melhorar ou piorar a situação eleitoral do ex-presidente. Não são, portanto, um fato, mas uma versão do fato.

Um forte indício das abordagens diferenciadas ocorre em relação a uma figura polêmica e que representa sentimentos distintos nas pessoas. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É um dos objetos de análise preferidos de Por fim, um último aspecto é a escolha – ambos os periódicos, independente do ou falta dela – de falar sobre as opiniões viés apresentado acerca da condenação em seus discursos. de Lula. O periódico de

“No Brasil, é comum que os

direita escolhe por deUma situação re- meios de comunicação não dicar uma matéria incente sustenta este expliquem qual vertente polí- teira ao acontecimenargumento: pesqui- tica seguem ao seu público to, “Mais da metade sa encomendada dos brasileiros apoia pela Confederação condenação de Lula”. Nacional do Transporte (CNT) ao Institu- Todavia, o veículo de esquerda opta pela to MDA Pesquisa, indica as intenções de não abordagem da questão. voto das eleições presidenciais de 2018, além das opiniões acerca da condena- Observa-se aqui como as escolhas inção de Lula. Nela, participaram 2.002 fluenciam na narrativa dos fatos. Não pessoas, em 137 municípios de 25 uni- existem duas visões independentes de dades federativas das cinco regiões do opiniões políticas. O que ocorre é uma País, entre 28 de fevereiro e 3 de março. opção do formato da narração dos fatos, Ao observar as manchetes relacionadas à pesquisa, é possível notar que, em ambas as revistas, já se percebem consideráveis diferenças. Enquanto Carta Capital abre a matéria com a manchete “Lula segue liderando, diz CNT/MDA. Sem ele, Bolsonaro é o primeiro”, Veja destaca: “CNT/MDA: Lula cai, mas ainda lidera, e Bolsonaro cresce”. Sendo assim, o enfoque no fato constatado pela pes-

o que faz muita diferença na construção de realidade do público leitor. Apesar disso, como veículos de outros países conseguem atingir seu público e deixar explícita sua posição?


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Round 2: The New Yorker x National Review – Caso Trump Nos EUA, diferentemente do Brasil, os meios de comunicação não têm problema em destacar suas visões políticas. Nas eleições de 2016 da terra do Tio Sam, o maior jornal do mundo, The New York Times, dedicou um editorial inteiro para apontar as opiniões – contrárias – acerca da candidatura e campanha do candidato republicano Donald Trump.

fessores com armas”. A partir disso, percebe-se uma tendência na primeira de questionar as ações de Trump, enquanto a segunda opta por relativizar o caso, apresentando argumentos menos críticos e mais analíticos. O tratamento da NY no decorrer do texto aponta um tom muito mais opinativo, utilizando adjetivos – como “louca” - apesar desse fato depender muito da escrita do autor. A NR não fica para trás, destacando termos e acontecimentos muitas vezes levados em conta apenas em sua editoria, como, por exemplo, em muitos locais nos EUA, a cultura de carregar uma arma ser totalmente comum, fato que auxilia o pensamento de professores com armas não ser uma “loucura” completa.

Um grande veículo midiático se posicionar de forma tão veemente pode parecer incomum para o público brasileiro. Nos EUA, no entanto, é algo tão costumeiro que outras publicações se identificam logo de cara como “conservadoras” – direita – ou “liberais” – esquerda. É o caso da Porém, a NY não apreThe New Yorker (NY), senta um texto cheio Quem leva os golpes uma das maiores e de juízos de valor sem somos nós mais tradicionais reoferecer um pano vistas da imprensa de fundo concreto e mundial, e da National Review (NR), peri- complexo do contexto político americaódico criado em 1955 e um dos preferidos no. A revista também destaca tecnicados cidadãos que se declaram republica- lidades aprovadas pelos democratas – a nos. esquerda estadunidense – assim como o veículo conservador. Em ambos os casos As duas revistas analisaram o discurso o enfoque das informações – e das opinide Trump, no qual ele sugere que alguns ões, obviamente – é diferente. Entretanto, professores carreguem armas para com- os periódicos escolhem não deixar os leibater os recorrentes tiroteios em escolas, tores no escuro. “Somos liberais”, branda após mais um caso ocorrido no início de a The New Yorker. “Somos conservadofevereiro, em Parkland, na Flórida, onde res”, exclama a National Review. 17 jovens foram assassinados e outros 14 saíram feridos por um colega do mesmo Mas quem vence a luta? colégio. Considerando as disputas das revistas, As observações iniciam, como nos casos observa-se que a seleção das informaque confrontam Veja e Carta Capital, no ções, assim como a forma com que se título dos artigos. A New Yorker observa, dão as narrativas, dependem imensaem um texto opinativo, a ideia do presi- mente da escolha editorial dos veículos dente como “louca, mas esclarecedora”, de comunicação. enquanto a National Review destaca, também em produção de opinião, “Vamos ter algum senso comum sobre pro-


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A Veja visa os fatos negativos acometidos ao presidente Lula, ao passo que a Carta faz o contrário. A New Yorker busca formas de contrapor as considerações de Trump, enquanto a National Review relativiza tais pontos e oferece uma ótica concordante com seu público-alvo. Todos os periódicos realizam suas próprias formas de jornalismo. Entretanto, é fundamental observar que, relacionada aos parâmetros editoriais, está a ética jornalística. Eles participam ativamente de todo o processo de produção de notícias. Nesses veículos, coberturas importantíssimas foram realizadas, além de reportagens históricas e ímpares, em determinados momentos da história do jornalismo. A crítica em questão não tem como intenção defender que as revistas parem de escrever levando em conta a posição política com a qual se identificam. Entretanto, quando tais mídias optam por não esclarecer suas linhas editoriais, todos perdem. O leitor mais desavisado vai crer em tudo que lê e não apreciar – ou ao menos reconhecer – o ponto de vista contrário, pois ele encontra na revista algo que confirma sua própria ideia de veracidade. Perdem os jornalistas e todo o grupo editorial dos veículos que se veem impedidos de esclarecerem suas opiniões, não apenas as descrevendo veladamente. Mas quem mais perde é o Brasil, porque, caso essa questão não mude, o país estará sempre assistindo a disputa de dois lutadores cegos por suas ideologias. Quem leva os golpes somos nós. P


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Você já foi influenciado hoje? Francisco Ramos No momento em que vivemos, as informações surgem de todos os lugares, com o avanço das comunicações e da criação da internet, os meios de comunicação passaram a produzir cada vez mais conteúdo e transmiti-lo com uma velocidade ainda maior. Nos nossos smartphones, quando navegamos na internet, parados no trânsito, assistindo a televisão ou lendo um jornal. Independente de qual seja a rotina de cada pessoa, em algum momento do dia, irá ler, ouvir ou assistir alguma notícia que a interesse (ou não). Isso demonstra que a necessidade de informação está cada vez maior na sociedade atual, que constantemente está conectada em suas

tem seus próprios valores-notícia, seus próprios anunciantes e posição política. O valor-notícia é um sistema em que os fatos relacionados (morte, notoriedade, proximidade, relevância, novidade, tempo, notabilidade, inesperado, conflito e infração/escândalo) a cada notícia determinam o “peso” que aquela informação terá, e, assim, a chance que ela terá de ser publicada.

Os anunciantes “sustentam” os jornais, pois o dinheiro que investem compõe grande parte da receita. Devido a esse fato muitos jornais evitam publicar notícias que ferem a imagem de seus anunciantes. A posição política de um jornal é decidida quando ele ainda está na fase de projeto (via de regra segue a mesma Por isso é necessário cada posição política do grupo de comunicaleitor buscar formular sua ção que o controla). Assim, e por mais opinião sobre o fato, a partir que se diga o contrário, decide-se a tendência à qual ele se posiciona: se ele será de uma série de pontos de de esquerda, de direita ou de centro, vista diferentes seguindo essa diretriz durante todas as redes. Essas informações, que tomam edições. Ou seja, um jornal de determiconta do cotidiano, baseiam a constru- nado espectro político dará mais espação de realidade do indivíduo. ço e publicará constantemente os erros dos governos que não o representam. Os jornalistas são construtores de opiniões pelo papel que exercem na so- Sendo assim cada um vai interpretar a ciedade. Assim a crença de realidade é notícia de uma maneira diferente, danconstruída em grande parte pelas no- do o enfoque e importância variados. tícias que os meios de comunicação Por isso é necessário cada leitor buspublicam, e também pelo que deixam car formular sua opinião sobre o fato, a de publicar. Dessa maneira, tudo que partir de uma série de pontos de vista lemos, ouvimos ou assistimos deve ser diferentes. Desta forma, terá um panocontestado, e não tomado como verda- rama do assunto, podendo ponderar as de absoluta, afinal, cada meio de comu- situações de maneira mais sensata, sem nicação conta com um posicionamento ser facilmente manipulado pela visão de diante dos fatos, o que acaba por con- algum meio de comunicação. dicionar seus relatos e retratos da re- alidade. Cada veículo (ou seus donos)


Mayara Heidrich


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Valor x Notícia ou Valor-notícia

bre as pessoas? Como saber o que é verdadeiro e o que é falso? Como distinguir as intenções de uma notícia? Bom, não existe uma fórmula certa de dizer, “faça isso, que você não será influenciado, sempre saberá a verdade ou o que esta notícia significa”. Primeiro que tudo que vivemos e consumimos de informação (notícias que lemos, matérias que assistimos, ou boletins que ouvimos) molda nossa maneira de ser, mesmo que inconscientemente. Segundo que: não existe um lado certo na notícia, afinal o que é certo para um, pode ser errado para outro. Ou seja, a notícia sempre influenciará de alguma maneira os consumidores, assim como explica a Teoria.

Além de um meio que transmite informação (jornal, revista, televisão ou portal de web), existe uma empresa. Dentro deste contexto, por mais imparcial que o jornalista possa (tentar) ser, a matéria sempre terá a visão de quem a produziu, e vai passar por mais profissionais que farão a edição desse material para seguir as diretrizes da empresa. Assim, vale pontuar, existem formas de manipulação necessárias à produção jornalística – como a edição ou a escolha, por relevância, do que será noticiado – bem como a manipulação que cede a outras intenções, como a omissão, a distorção e a descaracterização dos acontecimenUsemos como exemComo saber o que é verda- plo o caso recente do tos. Desta maneira, o consumo de infor- deiro e o que é falso? Como assassinato da Veremação segue a lógi- distinguir as intenções de adora do Rio de Jaca produtiva corrente neiro Marielle Franco, uma notícia? das empresas de coexecutada a tiros no municação. Pelo fato centro do Rio de Jade ser uma empresa, tem que vender neiro. A notícia foi amplamente divulgaseu produto (notícias) e anúncios. Isso da por toda a imprensa nacional, e todos faz com que veículos de comunicação os tipos de mídia. Houve a publicação da definam o que e como será publicado. notícia (estímulo) de veículos diferentes com enfoques diferentes, assim geranO sensacionalismo é outro aspecto que do algumas reações (resposta) distintas, tem uma vendabilidade muito grande. como pessoas defendendo a memória Muitas pessoas passam horas em frente da vereadora, que era conhecida pela a televisores vendo os policiais que per- luta contra a desigualdade de gênero, seguem bandidos em fugas enquanto representante do movimento negro e um apresentador, com muita “emo- contra os vários tipos de discriminação; ção”, “revolta” e alguns gritos, narra toda e pessoas que declararam que aquilo a ação. Usando essa “tática”, os jornais não tem importância, fazendo declarasensacionalistas influenciam seus es- ções nas redes sociais, ligando ela a trapectadores, para que sigam a mesma ficantes dos Rio de Janeiro – informação diretriz de pensamento. que, inclusive, confirmou-se falsa. Podemos ver assim como a mídia constrói a Educação para as Mídias realidade, diferentes notícias causaram diferentes reações. Mas como evitar que essa influência so-


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“O aprendizado desde cedo é importante também para saber como se informar com qualidade

Não podemos fugir dessa construção de realidade ou influência que a mídia causa, mas devemos ficar mais bem informados para que tomemos nossas próprias opiniões sobre o que se é publicado. Ler notícias sobre o mesmo assunto em alguns veículos diferentes ajuda a construir nossa opinião. Busque saber mais sobre a credibilidade do veículo em que busca se informar, veja se as notícias que publicam têm fontes confiáveis, se são notícias tendenciosas, qual a linha editorial do jornal, como se posiciona politicamente (por exemplo, não busque notícias sobre o PT somente na VEJA). Tudo isso ajuda a saber mais sobre nossas fontes de informação, fazendo com que não sejamos influenciados por qualquer notícia, ou mesmo por fake News. O aprendizado desde cedo é importante também para saber como se informar com qualidade. Pois quanto antes se entende que os veículos de comunicação não são imparciais e que tudo que é noticiado passa pelo crivo de quem tem poder, fica mais evidente a busca por mais meios de comunicação. Isso evita que os consumidores de notícia fiquem reféns de um único ponto de vista, e que uma sociedade não seja moldada por interesses das grandes corporações de mídia. P


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Fake News e o Jornalismo de roupa nova Dionathan Sousa Há 2500 anos, o dramaturgo grego Ésquilo de Elêusis já alertava que “na guerra, a primeira vítima é a verdade”. Na contemporaneidade, qualquer situação de conflito, crise ou tensão, pode ser associada à frase do pensador. Nos últimos meses, nada foi mais citado em especiais de TV, capas de revistas e, claro, em redes sociais, quanto as chamadas fake news (notícias falsas).

democrático. De outro, o monitoramento e a censura de notícias alternativas a grande mídia, protagonizado pelo poder público e empresas corporativas.

Não é surpresa para ninguém que as notícias falsas têm desempenhado um papel de desinformação na sociedade, principalmente com as novas tecnologias e redes sociais, que facilitam o rápido compartilhamento de conteúdo Segundo a BBC Brasil, somente em 2017, – texto, imagens e vídeos – em larga esas menções sobre o tema aumentaram cala. Porém, o que entra em questão é 365%, e a reverberação máxima para tal que o direito deve prevalecer mediante fenômeno parece ser a retórica eleição a possibilidade de censura. e posse de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos Assim, um dos maioem 20 de janeiro de Há 2500 anos, o dramatur- res desafios referen2017. Nesse período, go grego Ésquilo de Elêusis tes às fake news é as notícias falsas cria- já alertava que “na guerra, a assegurar que qualdas por apoiadores quer medida que vise primeira vítima é a verdade” do então candidato, o controle desse feforam compartilhanômeno, não afete o das 30 milhões de vedireito individual da zes. De acordo com o site especializado liberdade de expressão. em tecnologia “Mashable”, em apenas seis meses, em sua rede social preferida, Em 2017, a Alemanha adotou uma lei o Twitter, dos 9.146 tweets do presidente, que determina medidas rígidas contra 836 foram afirmações enganosas, o equi- redes sociais para combater a propagavalente a uma média de 4,6 mentiras por ção de discursos de ódio e notícias faldia. Isso aponta que as últimas eleições sas divulgadas por usuários nas platapresidenciais americanas parecem ser o formas. A NetzDG, – Lei de Aplicação na melhor exemplo para avaliar o efeito das Rede, em tradução livre - força qualquer notícias falsas na sociedade. Entretan- plataforma de internet com mais de to, o caso é apenas a ponta do iceberg. dois milhões de usuários a implementar formas mais eficientes e efetivas de O debate insuficiente promovido pela denunciar e excluir conteúdo potencialimprensa esconde a real problemática mente ilegal, com sanções financeiras das notícias falsas. De um lado, a con- que podem chegar a 50 milhões de eucepção da liberdade de expressão, infor- ros às redes sociais. mação e de imprensa, que deve ser preservada para a garantia de um princípio No Brasil, o combate às fake news é uma


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“a indústria da notícia veste

uma nova roupa para obter receita para seu negócio das principais preocupações da Justiça Eleitoral. Para impedir que o pleito de 2018 seja influenciado por informações mentirosas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) formou um conselho consultivo que inclui o governo e órgãos de inteligência. Um dos objetivos é elaborar a sugestão de uma lei sobre o assunto que visa identificar as notícias falsas durante a campanha. Um levantamento realizado pela agência de checagem Pública mostra que até o momento já são ao todo 20 PLs, com penalidades que variam de multas a partir de R$1.500 a até oito anos de reclusão para quem divulgar fake news. Entre elas está a proposta do deputado Francisco Floriano (DEM-RJ), o PL 9533/2018, que insere a participação na produção e divulgação de notícias falsas à Lei nº 7.170/1983, que define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social. Propostas como esta recebem críticas de estudiosos que consideram que simples mudanças legislativas podem ser contrárias à liberdade de expressão. Uma das principais dificuldades seria encontrar formas de identificar quais conteúdos podem ser classificados como fake news. Nesse contexto, qualquer intervenção estatal sem uma real problematização dos efeitos pode dar margem a um controle das manifestações discursivas da sociedade. O que aconteceu na Alemanha é um exemplo. Por meio de uma regulação estatal, plataformas são responsabilizadas pelos conteúdos publicados por seus usuários. Um estudo

desenvolvido por cientistas da Universidade de Columbia e do French National Institute constatou que 59% dos usuários da internet compartilham links nas redes sociais sem ler seus conteúdos. Com relação ao Twitter, um estudo publicado pela conceituada Revista norte-americana Science, intitulado “The spread of true and false news online” – a disseminação de notícias verdadeiras e falsas online –, averiguou que, diferentemente do que é divulgado, o problema das fake news não são os bots, mas sim as pessoas. Enquanto os robôs aceleram a propagação de notícias verdadeiras e falsas na mesma taxa, os humanos são mais propensos a espalhar as inverdades. Outro ponto observado pelos autores diz respeito às categorias: as notícias políticas falsas têm uma propensão maior de serem compartilhadas do que as de desastre natural, terrorismo, ciência, lendas urbanas ou informações financeiras. Segundo o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para Acesso a Informação – Gpopai, da Universidade de São Paulo (USP), em pesquisa realizada em setembro de 2017, cerca de 12 milhões de pessoas difundem notícias falsas sobre política no Brasil. Um reflexo do clima de ódio e polarização presente no país. No emaranhado dos discursos de crise política, eleições e corrupção, as fake news se estendem para outra ótica: a crise de credibilidade do jornalismo.

Um novo valor para a notícia Em “O segredo da pirâmide”, Adelmo Genro Filho ampara-se numa sólida formação marxista para abordar questões teóricas e práticas presentes no jornalismo. Segundo o pesquisador, “o jornalismo surgiu com o desenvolvimento das relações capitalistas, no bojo da cultura de massa, e expressa, hegemonicamente, uma ideolo-


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gia que visa ao controle e à eterna reprodução da sociedade burguesa”. Dessa forma, se a notícia é um produto à venda, logo, seu ciclo perpassa pela industrialização e, nessa dinâmica cujo principal interesse é a substituição do modo de produção para maximização dos lucros, o jornalismo de grandes empresas e tradicionais veículos noticiosos se depara com o valor do produto notícia cada vez mais ameaçado pela variedade de fontes e publicações. A luta pela sobrevivência na era da informação demonstra como o jornalismo está aproveitando esse momento para reforçar suas qualidades de critério e credibilidade. Por dentro da tendência corporativa, empresas criam ferramentas para detectar essas ameaças, com as chamadas agências de “fact-checking”. Nesse sentido, a indústria da notícia veste uma nova roupa para obter receita para seu negócio. Especializadas em apuração, essas agências geralmente utilizam plataformas internacionais de fact-checking, porém desenvolvem metodologias próprias de checagem. Rigor na apuração, verificação de versões e técnicas para qualificarem suas notícias, já são características da prática jornalística, entretanto, devido o imediatismo da notícia, o sucateamento dos serviços e o acúmulo de funções, atribuições que seriam de um jornalista, acabam por ser divulgadas como grandes novidades para um nicho de mercado. Empresas tradicionais como O Globo, e Folha de São Paulo, um dos maiores conglomerados de mídia do país, tanto em audiência quanto em receita com publicidade, já aderiram aos serviços de checagem de fatos, o grande hype do

Giselle Zart

momento. Nos últimos meses pudemos observar um crescimento exponencial no número de surgimento das agências de “fact-checking”. Segundo a Duke Reporters Lab (Duke University, EUA, projeto que se dedica a monitorar novas formas de jornalismo no mundo), países que tiveram eleições e foram sacudidos por escândalos políticos têm mais chance de ver a proliferação das agências. O projeto mapeou 149 empreendimentos de checagem de dados no planeta. Mais de 70% deles estão na América do Norte e na Europa, e só os Estados Unidos contam com 47 projetos do tipo. O Brasil é o segundo país no mundo com mais checadores: 8 iniciativas entre as 15 detectadas na América do Sul. O projeto First Draft, do Centro Shorenstein da Harvard Kennedy School, luta contra a desinformação por meio de trabalho de campo, pesquisa e educação. Segundo a Diretora Claire Wardle, o termo fake news expressa certa complexidade, que se resume aos diferentes tipos de desorientação e desinformação. A análise para a definição de uma tipo- logia partiu também do período de eleição no EUA. A conclusão levaria a sete tipos de conteúdo que estão dentro de um ecossistema de informação, ou melhor, de desinformação: a sátira ou paró- dia, falsa conexão, conteúdo enganoso,


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“Talvez essa seja a grande ,

oportunidade da classe de rever as próprias práticas mediante a crise de identidade profissional

falso contexto, conteúdo impostor, conteúdo manipulado e conteúdo fabricado. Assim, diante da era da informação e o surgimento das mídias alternativas - blogs, portais e perfis em redes sociais -, questiona-se: seriam as agências de checagem um mecanismo do jornalismo tradicional para regulamentar o valor da notícia? Diante da crise que perpassa o jornalismo, nos deparamos com o processo que resulta na precarização das redações, enxugamento do número de jornalistas e flexibilização das relações trabalhistas pela crise econômica e concorrência de mercado. Mesmo em tempo de transformações, a essência do jornalismo continua. Aos poucos, valores, rotinas e modelos de negócios, ou seja, novas formas de exercer a atividade, cada vez mais ganham adeptos, em um contexto onde deve se reforçar a necessidade cada vez maior da atuação dos jornalistas na garantia de informações confiáveis e na defesa do interesse público. Sobretudo, é um desafio. Há, no meio desse balaio todo, quem tenha uma perspectiva mais otimista, e que acredita que a disseminação de notícias falsas pode influenciar positivamente na postura dos jornalistas. Talvez essa seja a grande oportunidade da classe de rever as próprias práticas mediante a crise de identidade profissional. P


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GISLENE SILVA: COMO CRITICAM OS QUE CRITICAM? Luiz Henrique Zart Abril de 2018 já havia começado quando surgiu a ideia de convidar Gislene Silva para uma entrevista. De Florianópolis, SC, por chamada de vídeo, a professora e pesquisadora do Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) conversou com o Paralelo. Crítica de mídia, crítica de jornalismo, atuação da imprensa e fake news estiveram na pauta, entre outros assuntos. A seguir, entenda um pouco mais sobre como criticam os que criticam. O que é crítica de mídia e como fazê-la? Quando pensamos em crítica de mídia, a gente se pergunta: onde ela se encontra? Quem são as pessoas que praticam a crítica de mídia? Quais as perspectivas teóricas que orientam a crítica de mídia? Como são muitas as possibilidades, a gente pode pensar em estudar a crítica de mídia em diferentes instâncias, ou diferentes modalidades. Podemos pensar uma que seria: como é que a gente faz para criticar? Para saber como fazer para criticar, a gente pode olhar, justamente, como é que o crítico faz. Para descobrir parâmetros de crítica. Esse é um jeito de estudar. Um outro seria estudarmos as críticas que circulam por aí, porque há críticas nas redes sociais, nas cartas de leitores. Temos ainda a crítica do especialista, de um crítico de tv ou de um ombusdsman. Outro ainda seria fazer exercícios variados de crítica de mídia, de cobertura jornalística. Depois, há um jeito de estudar que é

César Cavalcanti

assim: como é que a gente escreve um texto de crítica. Pensar a crítica como gênero de escrita, porque quando se faz a crítica da cobertura jornalística, por exemplo, este texto é um artigo acadêmico? Pode não ser. Ele é uma matéria jornalística? Não é. Então, há aí outro gênero de escrita. Mesmo produtos midiáticos como o “Profissão Repórter”, da TV Globo, que é um programa de jornalismo, consegue, dentro dele, fazer eventualmente uma crítica do jornalismo. O “Tá no ar: a TV na TV”, também da Globo, tem algo de crítica. Seriam práticas midiáticas que se criticam ou se autocriticam. Além, é claro, da própria crítica acadêmica – dissertações, teses que criticam a forma como o jornalismo trabalha, fazendo isso de modo mais criterioso. Então, a crítica de mídia está em muitos lugares. Pode-se pensar em muitas modalidades e até mesmo que teoria de crítica orienta tais críticas? Qual é a perspectiva teórica que se tem aí? Com que olhar a gente está fazendo a crítica?


24 Porque há teorias mais críticas, teorias qualquer momento. Sem falar nas limimais conservadoras. tações da própria função. Dá para dizer que a coluna do ombudsman é um tipo E, por fim, pode-se pensar a crítica de de autocrítica, mas ela se volta apenas mídia como uma maneira de ensinar para o próprio jornal, não critica os oujornalismo. Analisando o que é de boa tros. James Carey disse, faz tempo, que qualidade e o que não é. Em uma disci- o jornalismo tem a função de criticar a plina de crítica de jornalismo, de mídia sociedade, porém tem grande resistênnoticiosa, costumo fazer experimentos cia em ser criticado. Atualmente se fala com os alunos. Existe a crítica que pode mais em crítica de mídia, em crítica de ser feita de uma maneira mais ampla, jornalismo. E a universidade é um ótida totalidade, como explica a pesquisa- mo lugar para se fazer isso. dora Vera França. Mas você pode fazer a crítica de uma unidade, analisar uma A que motivos você credita isso? Por cobertura jornalística específica – sobre que a mídia é tão irredutível assim em o prédio que caiu em São Paulo, por se autocriticar? Primeiramente, porexemplo. Trabalho com unidade, por que o jornalismo ocupa esse lugar de isso estou preocupada também com a denunciar e criticar os problemas da forma de escrever. Penso dá para criar sociedade. Ele está aqui para vigiar os um conjunto de critérios que ajudam a poderes, para mostrar problemas socriticar uma cobertura específica. Tais ciais – ou pelo menos deveria estar para como aspectos da apuração, a própria isso. O lugar dele é esse. Ele deve fazer seleção das fontes. Porque às vezes a a crítica e se apagar um pouco. Porque apuração está muito mal feita, está fal- quando se fala de cobertura, de jornatando algo. Em outra situação, não está lismo informativo, se entende que o jorfaltando nada, mas está mal escrito, nalista não tem que aparecer, nem dar editado. Pode-se ver a angulação das muita opinião – embora saibamos que matérias. Há muitos critérios. Não exis- na prática não é bem assim. Para além te um padrão para se fazer a crítica de do gênero claramente opinativo (editojornalismo, obviamente. ria, artigo, coluna), textos informativos expressam opinião; um título, um subsA crítica de mídia é um ato de rebel- tantivo forte estão cheios de opinião. A dia? Eu diria que é uma necessidade seleção das páginas, a maneira como se e uma obrigação. Principalmente den- edita, se põe foto, se não põe, tudo isso tro das universidades, onde se ensina envolve uma maneira de ver os aconjornalismo. Seja na graduação, seja na tecimentos e tem uma perspectiva, pós-graduação, temos que fazer a crí- uma angulação que é opinativa. Mas, tica do jornalismo. Que é uma maneira por princípio, no jornalismo informativo de refletir sobre o que o jornalista está – que é o principal, o que ocupa mais fazendo. Mais do que um ato de rebel- espaço –, ali o jornalista deve se apadia, é uma obrigação. Uma tarefa aca- gar. A imprensa não dá espaço para a dêmica que cabe a quem está na uni- crítica dela mesma. O máximo que um versidade fazer. veículo vai fazer, quando erra, é dar um “erramos” muito mal feito, medíocre, só A própria imprensa faz autocrítica? de coisas banais. Com as redes sociais Quase nunca. Hoje, no Brasil, apenas é que nós vamos ter mais espaço para dois jornais que têm ombudsman, fazer a crítica de mídia porque o jornacujos cargos podem deixar de existir a lismo dá espaço à crítica de cinema, li-


25 ratura, moda, gastronomia e futebol, não para criticar a si mesmo. No máximo, a coluna do ombudsman, que é um avanço. De que forma cada um pode refletir, analisar, questionar e criticar a produção de notícia? Como disseminar essa cultura? Temos de trabalhar a educação para a mídia. Há muitas escolas que fazem trabalho com jovens, crianças, ensinam a fazer um jornalzinho na escola, e a partir dali criam leitores mais críticos. Uma das formas de disseminar isso é justamente formar leitores críticos. Para isso, é preciso fazer algumas experiências. Quando a escola trabalha com produção de jornal, com crítica de materiais noticiosos, aí os jovens vão vendo como aquilo é feito. Adolescentes de 12, 13 anos vão ser capazes de olhar para um jornal e começar a pensar e compreender o que se passa. Quando deve começar a formação de uma percepção crítica? Desde criança. Desde quando começa a formação em termos de cidadania, a qualquer hora. Em relação à crítica de mídia para jornalismo, qual a validade das ideias de isenção e objetividade jornalística? Jay Rosen no livro Jornalismo Cívico, organizado por Nelson Traquina, tem um capítulo intitulado “Para além da objetividade”, no qual diz que o jornalismo é o último reduto da defesa da objetividade. Desde a física quântica já sabemos que o observador interfere no observado. No entanto, se insiste na validade da objetividade porque o jornalismo precisa desse fundamento para marcar seu lugar, o lugar da instituição jornalismo na sociedade. Não se joga isso fora totalmente ainda para se defender o argumento de que jornalista não está fazendo ficção. Não se abre mão desses princípios básicos, como a verdade, a

objetividade, a neutralidade ou imparcialidade, mesmo sabendo que não são alcançáveis como se pretende. Quando se lança mão deles é para demarcar que “eu não faço propaganda, publicidade, não faço ficção, telenovela”. Queremos chegar perto da verdade, perto do que aconteceu, e temos a obrigação de querer. É um paradoxo, que precisa ser discutido com os alunos. O fato de saber que a objetividade absoluta não existe, não diminui a minha responsabilidade de jornalista. Pelo contrário, a aumenTemos de trabalhar a eduta. Porque, cação para a mídia. [...] Uma quando o das formas de disseminar prof issioisso é justamente formar leinal tem tores críticos consciência de que a sua subjetividade interfere no que se está fazendo, de que trabalha com a dúvida, ele está mais preparado para chegar perto da verdade, está mais vigilante e atento do que aquele que diz com muita certeza “estou aqui para relatar os fatos”. Esse é ingênuo, não tem consciência (se não estiver agindo por má fé), e está mais sujeito a cometer erros do que aquele que tem a consciência de que a objetividade e a verdade não são totalmente apreensíveis. Se você fica achando que “a objetividade existe, estou aqui só para relatar os fatos” você não tem consciência do que está acontecendo. Vai ser enganado ou se autoenganar.

Somos realmente influenciados pela mídia? Existe alguma maneira de evitar ser influenciado pelas notícias? Somos. Se retomarmos a teoria do agendamento, é isso mesmo. Ao que o telejornal de maior audiência de hoje der mais destaque, sobre isso estaremos falando no ônibus, rua e trabalho. Sobre isso e do mesmo modo, em geral.


26 O noticiário agenda nossos assuntos. jornalismo vem sendo feito muito com Por um lado, constrói a realidade, por base em declarações. Está ouvindo só outro a reproduz, porque muito do que opinião, declaração de um e de outro. E o jornalismo faz de ruim está, de certa os fatos? Cadê os documentos, o arquiforma, reproduzindo o que a sociedade vo, uma outra testemunha? Um espeé. A imprensa traz ideias, concepções, cialista que seja chamado apenas para estereótipos, preconceitos das fontes ilustrar? Uma fonte para se contrapor entrevistadas e do próprio jornalista. O e não apenas para desdizer. É bacana jornalista não está assistindo à socieda- essa valorização da checagem? É, porde, faz parte dela. Então, ele também que a cobertura anda muito ruim. Mas tem ou não religião, ao mesmo tempo é também é de direitriste a gente preciA checagem é uma das ta, de esquerda, é tarefas principais no ofício sar disso, com esse mais ou menos condestaque todo, porde ser jornalista. Se você não servador. Esses proque é uma coisa que checa, que jornalismo é esse fissionais estão na deveria estar sendo sociedade, não estão que você está fazendo? feita rotineiramente olhando de fora, espor todos os jornatão atuando. A mídia noticiosa, portan- listas. O perigo dessa necessidade de to, reproduz e ao mesmo tempo produz “checagem especial” é que muitas des– e até consegue produzir boas coisas, sas empresas de fact-checking estão novos entendimentos, valores. Ela in- fazendo coisas erradas. Até parece que fluencia sim, mas existem várias formas elas são neutras e que a verdade está de não sermos influenciados. Quanto ali. Não é bem assim. É melhor cada um mais informação você tem sobre de- fazer o seu, checar o seu. É disso que terminado assunto, menos influencia- o jornalismo precisa: fazer sua própria do você é. Quanto mais se sabe sobre checagem. Não podemos confiar nesuma questão menos se sofre influência, sas empresas da maneira como que esporque se tem outras informações para tão fazendo essa checagem. Há interesserem contrapostas ao que está sendo ses aí. dito. Tem várias maneiras. Pela vivência, pela leitura, por meio de mais conheci- Mas essa checagem feita pelos jormento. nalistas, hoje com as redes sociais e a quantidade de informações que é Nos últimos meses pudemos observar produzida, não vem sendo, de certa o surgimento ou o crescimento das forma, soterrada ou atrapalhada por chamadas agências de fact-checking. isso? É porque muitas vezes o jornaSeriam as agências de checagem lista não está produzindo ele mesmo uma forma de regulação do merca- a apuração. Está seguindo denúncias do de notícias por parte da imprensa ou investigações alheias, as da Polícia corporativa? Qual a validade destas Federal, do Ministério Público, de que agências hoje? A checagem é uma alguém postou no Facebook. Ele mesdas tarefas principais no ofício de ser mo não está correndo atrás do que está jornalista. Se você não checa, que jor- acontecendo. Então, o repórter fica dinalismo é esse que você está fazendo? zendo o que os outros disseram. Parece que descobriram a checagem ontem. Checagem ou verificação entra na ordem do dia porque atualmente o


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As redes sociais deram voz a todos que podem ter acesso à internet. Com isso, nos deparamos com análises e críticas, muitas vezes em forma de artigos ou vídeos, de pessoas que, apesar de consumirem produtos jornalísticos, não são jornalistas. Como analisar este fenômeno? Críticas todo mundo tem direito de fazer. Faz parte da democracia. Eu não preciso de um crítico para respaldar isso. Todo mundo tem o direito de expressar sua crítica. Eu gostaria de saber onde é possível jornalistas fazerem críticas ao jornalismo. Alguns blogs fazem. Pouco, pois tem muitos blogs de jornalistas que são críticos em relação aos próprios acontecimentos jornalísticos. Mas precisaríamos ter mais jornalistas especializados em crítica de jornalismo. Eu acho que com as redes sociais a potência da crítica aumenta. Vem aumentando tanto por quem não é especialista, tanto quanto por estudiosos. Seja em página do Facebook, seja em site de um grupo de pesquisa, seja por alguém que fez uma tese ou dissertação e publica alguns resultados de sua tese; publica em periódicos científicos e também nas redes sociais. Quais as contribuições do debate sobre crítica noticiosa e de mídia em sala de aula com os futuros jornalistas? A universidade é um lugar privilegiado para essa proposta? É o lugar privilegiado primeiramente para se trabalhar a formação. Por dois motivos: ao se trabalhar crítica de mídia na graduação se está ensinando jornalismo de melhor qualidade. Dizendo como fazer. Essa contribuição é maravilhosa. Porque é uma das formas de formar o novo profissional. E digo mais: um dos problemas que temos nos cursos de jornalismo é que se produz vários programas, jornal laboratório etc., tem muita prática, mas não se tem a crítica da prática.

Até que ponto a universidade nos faz refém desta ausência de crítica de mídia? A universidade faz a gente de refém porque ela está virando refém do mercado. Discutir empregabilidade ou pensar em preparar o profissional para dar conta de trabalhar num novo ambiente é justo, necessário e relevante. Agora, não investir em disciplinas teóricas? Não questionar o que se está produzindo nos cursos? Deveríamos, além de praticar, dizer: “Esta semana nós não vamos produzir nada. Nós vamos olhar e analisar o que fizemos”. Agora, sobre as fake news: aonde esse fenômeno está levando a gente? Ele pode causar reflexos reais, que podem ser notados na nossa sociedade? Notícia falsa sempre existiu. Notícia mal feita, mal apurada, que não é verdadeira, é falsa. Mas tem algo de novo no fenômeno – por isso entendo que fake news acabe virando um conceito, já que notícia falsa não dá conta, em português, da apreensão do fenômeno, que é uma notícia falsa feita com um propósito muito específico (mais que boatos maliciosos e mal intencionados) e em condições tecnológicas muito propícias. Estão ligadas à questão dos algoritmos, dentro do ambiente da internet, com grande potencial de compartilhamento, de se espalhar. Algumas dessas notícias são totalmente falsas, mas pode acontecer de terem uma parte verdadeira. O nó na questão das fake news é a intenção claramente malévola. Porque o jornalismo quando faz sensacionalismo, por exemplo, tem algo de falso. Jornalismo sensacionalista superdimensiona e falsifica. A questão da verdade no jornalismo é um desafio, porque lidar com a verdade e com a não-verdade é uma questão que acompanha o jornalismo desde sempre. O que esse fenômeno novo traz é a preocupação do uso político do ato de noticiar via um recurso


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tecnológico potente. E, por outro lado, a acusação que as empresas da mídia corporativa fazem às fake news também não é algo sem propósito, apenas em nome do bom jornalismo. Há interesses em jogo aí também.

produzido neste momento tem uma qualidade tão discutível, é tão equivocado que a distinção entre o falso e o verdadeiro fica comprometida. Qualquer um de nós pode acreditar.

Se tornou uma coisa tão banal que acaba perdendo o sentido do termo? Exatamente. Me parece que não é um fenômeno que veio para ficar. Desconfio que ele não vai demorar tanto a passar. O importante é ver quem produz, quem faz notícias falsas, é chegar no ponto de origem delas, de onde saem, quais são essas empresas que ganham dinheiro com isso. A raiz do problema é que o jornalismo sempre ganhou dinheiro vendendo verdades. Agora você tem esse outro tipo de negócio noticioso, o que vende mentiras. E que ganha dinheiro. Muito se perguntam: por que as pessoas acreditam em fake news? Porque, em geral, estão de acordo com o que elas pensam ou querem acreditar. Aquela informação lhes serve. Em parte, porque se acredita mesmo. Em parte, se sabe que é falso, e se passa adiante porque se está de acordo. O pesquisador Wilson Gomes, em sua página no Facebook, em maio último, disse algo muito interessante para responder a essa pergunta. Na sua hipótese, a perda da capacidade de distinguir a notícia falsa da verdadeira tem a ver com a percepção pública de que ao dar tons factuais a qualquer narrativa se pode vender uma pela outra. Acho que seria algo assim, as pessoas acreditam em fake news também porque muitas das notícias que a grande imprensa de referência faz circular todos os dias são tão absurdas, tão mal anguladas, mal intencionadas, que nos acostumamos a esses absurdos vestidos com as técnicas do jornalismo. Ou seja, acreditamos e elas não nos não parecem tão diferentes das falsas. Isso é grave. O jornalismo

E aí o jornalismo vira refém do declaratório? Jornalismo declaratório é preguiça. É falta de interesse, de preocupação em fazer um jornalismo mais sério, que dê conta de sua responsabilidade social. P

Sobre Gislene Silva: É jornalista com doutorado em Ciências Sociais – Antropologia. Graduada em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com mestrado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2000), pós-doutorado na Universidade de São Paulo e na Universidad Complutense de Madrid. Como jornalista trabalhou na Editora Abril, área de saúde e rural, e por mais de 10 anos na reportagem da revista Globo Rural. Na UFSC desde 2003, vem atuando nas disciplinas Metodologia de Pesquisa em Comunicação/Jornalismo e Teoria do Jornalismo. Como pesquisadora, estuda crítica de mídia/crítica de cobertura jornalística, relações entre jornalismo e imaginário, noticiabilidade, acontecimento jornalístico. Publicou em 2009 o livro O sonho da casa no campo: jornalismo e imaginário de leitores urbanos.


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A crítica especializada multifacetada em Tranquility Base Hotel & Casino Diógenes de Barros Desde seu surgimento, no século XIX, a crítica especializada passou por tantos processos de transição quanto as obras de arte que se propõe a discutir. Sempre acompanhando movimentos culturais, as resenhas críticas se caracterizaram pelas várias maneiras de escrita e reflexão sobre produtos culturais. Seja num ensaio pessoal, sociológico, ou puramente técnico, a crítica apresenta várias facetas na construção de um comentário. Charles Baudelaire, autor e crítico francês, dizia que a arte e o pensamento sobre ela deveriam ser “parciais, apaixonados e políticos”. Já o brasileiro Jean-Claude Bernardet, ao abordar o Cinema Novo, afirmava que o crítico tinha como função “esclarecer as relações existentes entre o filme e a sociedade”. Além disso, o escopo técnico e profissional também é considerável no meio. As análises podem conter simplesmente um estudo dos aspectos técnicos típicos da mídia abordada, não dando tanta ênfase a pontos teóricos/sociológicos. Obras que dividem opiniões muitas vezes refletem ainda mais a gama de formas interpretativas de textos reflexivos. É o caso de “Tranquility Base Hotel & Casino”, sexto álbum da banda britânica Arctic Monkeys. Lançado no começo de maio de 2018, o disco apresentou uma sonoridade distinta de composições anteriores do grupo, e causou opiniões diversas entre fãs e até mesmo na imprensa.

Divulgação

é base de críticas gerais, que refletem todos os aspectos apresentados anteriormente, como na resenha do site Omelete, que destaca o álbum como “enigmático, difícil e decididamente revolucionário”. Outra faceta é apresentada em “Arctic Monkeys: Por que Alex Turner mudou em novo disco?”, do portal Escuta Essa Review, com enfoque nas escolhas pessoais do vocalista da banda, Alex Turner. Por último, o escopo técnico é a base do vídeo “Arctic Monkeys mandou bem em ‘Tranquility Base Hotel & Casino’? ”, do canal Tá na Capa, da plataforma YouTube. Hotel e Cassino no Omelete

É de praxe começar uma crítica considerando as últimas reflexões de um artista, ainda mais no contexto atual da banda inglesa. “Eu ficaria preocupado se nada tivesse mudado, principalmente porque faz cinco anos desde o último álbum”. A escolha apresenta o contexto do disco resenhado, como ele enfrenta a antipatia do público e a estranheza Bem avaliado ou não, o LP dos ingleses por partir de efeitos não antes explora-


30 os. Além disso, “surpresa” e “dificuldade” são usados como adjetivos, o que direciona a possível experiência de quem ouvirá a produção. Depois, a crítica, escrita por Julia Sabbaga, escolhe seguir na área técnica, e observa a troca de instrumentos, harmonia e técnicas vocais. Porém, estes elementos não são o que o texto oferece de principal. Nos parágrafos seguintes, se percebe a preferência pelo tratamento do contexto cultural e social que o CD aborda em sua extensão. Assim, opta-se por deixar de lado outras questões e explorar a música em seu meio social, além do pessoal, refletindo as experiências dos Arctic Monkeys. “Todas as letras do novo álbum trazem uma nova maneira de encarar o presente com uma atmosfera pós-apocalíptica”. Dessa forma, a autora exercita a análise das letras e como o disco reflete o momento em que está inserido, sendo um produto de seu meio, concordando com a máxima de Bernardet, exposta acima: o crítico deve “esclarecer as relações existentes entre o filme (nesse caso, a música) e a sociedade”.

em si, na produção de Lucas Scaliza, do Escuta Essa Review, o foco é uma influência para os Arctic Monkeys: Nick Cave. O ato é perigoso. O leitor pode não conhecer a tal referência e entrar numa narrativa, que já era desconhecida, com mais um elemento inexplorado. O autor mantém a ideia, citando outras influências para a criação do disco. “Stanley Kubrick, o diretor de cinema, e o brasileiro Lô Borges estão entre as influências confessas de Alex Turner para o novo disco. Nick Cave não”. Todo esse material escrito tem um porquê: o texto vai explorar a criação e construção de “Tranquility Base Hotel & Casino”, ao mesmo tempo em que prioriza as influências de Alex Turner. Com isso, a crítica cria a pessoalidade e a intenção de entender os motivos por trás das canções, citando mesmo influências não oficializadas, como Nick Cave.

O que a crítica faz, da forma mais imparcial que uma crítica especializada possa ser, é observar as mudanças e como elas fluíram organicamente na composição do disco. O autor destaca as experiências de Turner no piano, o que ele ouviu e assistiu, dessa forma, colocando o leitor no lugar do resenhado. Assim, somos levados à ideia de Baudelaire: a arte, como sua análise, deve ser “parcial, apaixonada e política”. Claro que Scaliza não leva isso ao pé da letra, mas o texto, desde o título, põe o leitor na pele do principal compositor do grupo, em vez de apenas analisar a musicalidade em termos técnicos. A tecnicalidade em Tranquility Base

Trocando o texto escrito pelo falado e as letras pelas imagens, a resenha de Júlio Victor, do canal Tá Na Capa, explora outra forma de crítica especializada: a técnica. Todos Prova da tentativa de criar os textos anteriores tocaaproximação entre artista ram nessa temática, mas e público é quando Sca- nenhum com a especifiliza expõe as atitudes do cidade apresentada por compositor. “O vocalista Victor. e guitarrista trocou a jaqueta de motoqueiro que Com um texto menos ostentara no passado por formal e mais despojado, uma roupinha vintage da utilizando de adjetivos e grife Dior. [...] A obsessão gírias, o autor até comencom que Alex Turner tra- ta os contextos culturais A odisseia espacial de tou os temas de seu novo ou sociológicos que a Alex Turner trabalho e até a constru- música dos Arctic Monkeção da maquete do hotel ys destaca, “vai falar sobre Se no primeiro texto a aná- que vemos na capa não esses problemas fúteis lise começa com a banda são exclusividade dele”. modernos, decorrentes


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da tecnologia. Vai falar sobre a TV, sobre a distração em feeds na internet”, observa. Porém, o foco de Victor é a construção da música. Nos arranjos, nos graves e agudos; nos solos e técnicas vocais. Nada de anormal. Uma crítica musical contém esses elementos e muitas vezes, dependendo do autor, são a principal razão para se aprovar ou não um produto musical. Após uma breve introdução ao aspecto cultural, Victor apresenta os conceitos musicais que constituem a carreira dos britânicos e analisa a presença do sexto disco, destacando como de certa forma é parecido com a produção anterior, mas com enfoque diferente. “Então nesse novo [álbum] eles pegam uma faceta pop, leve, mas só que ao invés de fazer algo moderno, igual ao disco passado, eles bebem de fontes muito antigas. Então é meio que um contraponto em cima do mesmo conceito que eles fizeram do disco passado”. Em seguida, o autor destaca os instrumentos, os arranjos que os Arctic Monkeys usaram na composição do CD, citando

instrumentos e elementos sonoros. “É um disco mais complexo, com menos loops, refrões (sic) simples que te pegam ali; e mais passagens, mais harmonias, mais acordes, arranjos, convenções”.

primeiro observa-se uma tentativa de adequação do disco como produto de seu meio, no segundo existe uma tentativa de aproximação do compositor com seu público. Crítica serve para as duas coisas e depende apenas O papo técnico poderia da opção do autor. muito bem afugentar o espectador mais leigo Porém, para que ela seja e desavisado, pois nem completa, deve obedecer todos sabem o que tais a critérios técnicos, afitermos significam. Po- nal está sendo feita uma rém, Victor apresenta análise que define a quaexemplos para esses ele- lidade ou não de um promentos e ilustra como duto. Não apresentar tais o argumento se aplica à aspectos deixaria o texto temática do vídeo. “É um incompleto e não traria disco menos rock, porque todas as informações neele se desprende dos riffs cessárias para aprovar, ou e dos arranjos de guitar- não, o objeto resenhado. ra e de pessoas fazendo sempre coisas juntas, ao No caso de “Tranquility mesmo tempo”. Além Base Hotel & Casino”, o disso, ele usa o vocabulá- que se observou com os rio a seu favor. Victor en- textos – e vídeo – expostende que o público que tos anteriormente foram atinge fazendo um vídeo as habilidades em expor, é diferente dos autores de formas diferentes, as anteriores; ele aproveita opiniões sobre o sexto álsua plataforma e a utiliza bum da banda. Com tais da melhor forma possível. críticas, espera-se que a compreensão da mensaAs diferentes formas de gem do disco seja mais crítica palatável ao grande público, tornando, assim, o Num contexto geral, não “Hotel & Casino” um ponexiste uma crítica certa to de retorno na discograou errada. O que muda fia dos ingleses. P – principalmente nos exemplos anteriores – é o enfoque que os autores dão aos textos. Se no


Jogos e violência: como o sensacionalismo os une? Francisco Ramos Qual de nós nunca jogou um jogo ele- cos, jornalistas e não-jornalistas cobrintrônico? Mario, Sonic, Pitfall, Pac-Man, do eventos, lançamentos e produzindo Asteroids, Grand Theft Auto ou Call Of conteúdos exclusivos sobre games. AsDuty, todos marcados no imaginário de sim, esse segmento, em constante cresgerações de crianças, jovens e, mesmo, cimento, tem cada vez mais visibilidade. adultos, com sucesso em seus anos no Com o desenvolvimento e o aumento mercado. Cada vez mais presentes em do interesse pelo assunto, as críticas todos os lugares e dispositivos desde aumentam também. Críticas naturais, sua criação em 1972 com o Magnavox que ocorrem porque jogadores ficam Odyssey, os jogos representam muito muitas horas jogando, sem comer e se mais que uma simples distração. De lá cuidar. A cobertura da imprensa, quanpara cá, os jogos evoluíram. Além da do o tema é videogame, ainda é um popularidade, com o desenvolvimen- território a ser mais analisado, principalto tecnológico, também contam com mente quando se trata de estereótipos. mudanças e melhoras na jogabilidade Como no caso da violência. Muitas das e gráficos cada vez mais realistas, fazen- notícias veiculadas por jornais seguem do com que os ena ideia de associação: tusiastas dos jogos afirmar que jogos vioA cobertura da imprensa, consumam cada vez quando o tema é videogame, lentos tornam as pesmais esses produtos. ainda é um território a ser soas violentas, assim como os de raciocínio mais analisado, principalNo entanto, com o desenvolvem essa camente quando se trata de aumento de populapacidade e deixam os estereótipos ridade, vieram tampraticantes mais intebém as polêmicas ligentes. Essas notíligadas aos jogos de videogame. Assim cias baseiam-se em estudos publicados como todo produto comercializado, os por universidades, mas que muitas vegames têm um faixa etária indicada. zes são distorcidos antes da publicação, Por isso os jogos que são para maiores para seguir a linha editorial do portal de idade muitas vezes são os mais cri- que noticia. ticados, por apresentarem, por vezes, violência, uso de drogas e outros deli- Isso fica claro quando se observa que tos. Isso faz com que sejam geralmen- portais como Super Interessante e Tete colocados como “influenciadores” de chTudo publicam notícias falando que muitos crimes reais. E, em grande par- “jogos violentos não têm relação com te, quem coloca os jogos como “influen- agressividade de crianças”, e outros ciadores” é a mídia tradicional. mais tradicionais, como Globo.com e R7 publicam que “jogos aumentam a Jornalismo x Jogos x Crimes agressividade” e “jogar videogame causa o mesmo efeito que cocaína” resExistem vários canais e sites na internet pectivamente. No entanto, é aí que os dedicados somente a jogos eletrôni-

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Bruno Masselai

meios de comunicação distorcem os estudos em que essas notícias se embasam, e colocam autores de crimes como pessoas influenciadas por jogos. Sem dúvida um comportamento tendencioso. Dois casos mos-

tram bem essa situação: o primeiro é do menino Marcelo Pesseghini, de 13 anos, suspeito de ter assassinado seus pais – dois policiais militares, avó e tia antes de cometer suicídio em São Paulo, em 2013. Cinco anos depois e

a polícia ainda não sabe se o menino é o autor dos crimes. E o segundo caso é o atentado de Realengo, onde Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, entrou na Escola Municipal


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aventura, esportes ou qualquer outro têm a intenção de ser aquilo que os joTalvez essas ligações feitas gos representam? Isso quer dizer que pela mídia sejam realmente os atentados terroristas com homens tendenciosas, uma maneira bomba são praticados por pessoas que de chamar a atenção dos jogaram muito Bomberman? Não. Isso leitores, receber mais cliques não é uma regra, afinal de contas as em suas publicações pessoas não saem pulando em tartarugas ou entrando em canos por terem joTasso da Silveira, no Rio de Janeiro, e gado Super Mario. atirou em crianças que frequentavam a instituição, deixando 11 mortos e 13 fe- Talvez essas ligações feitas pela mídia ridos e se suicidando no final. A polícia sejam realmente tendenciosas, uma suspeita que o crime tem motivação em maneira de chamar a atenção dos leitosituações de bullying que o rapaz sofreu res, receber mais cliques em suas publina escola. cações, fazer com que os espectadores não saiam de frente da TV. O que deve Além de crimes sem a real motivação ser levado em conta por todos é que os claramente revelada, ambos os casos jogos são uma maneira de entretenitiveram uma coisa em comum: após os mento, com seus prós (ajudam no racrimes ocorrerem, alguns meios de cociocínio, tomada de decisões e etc.) e municação vincularam os suspeitos aos contras (quando jogado em excesso é seus jogos preferidos, mais especificaprejudicial à saúde). É um mercado que mente Assassin’s Creed (game da catecresce a cada dia, um campo que é cada goria aventura, onde o jogador controla vez mais explorado pelo jornalismo e é o membro de uma sociedade secreta assim que dever feito: a mídia especialichamada os assassinos, que buscam a zada em jogos continuar crescendo e a paz contra outra sociedade secreta, a mídia tradicional seguir mostrando que dos templários) e FPS´s (jogos FPS, first os jogos têm o lado ruim – das pessoas person shotter, tiro em primeira pessoa, que se viciam e afundam em dívidas por onde o jogador controla muitas vezes causa deles –, como também tem o lado um soldado em meio a uma guerra. Um bom do entretenimento, dos jogos que dos mais famosos é o Call of Duty, jogo são levados para asilos e hospitais como que conta com algumas polêmicas, ferramentas de apoio a idosos e outros como retratar estupro, morte de líderes pacientes. Afinal como mostram as pespolíticos e por fazer o jogador controlar quisas na área, os jogos têm muito mais um terrorista que deve matar civis). Asefeitos positivos que negativos para os sim, informações publicadas geralmenusuários. P te ligavam a intenção dos suspeitos aos jogos. Além desses, existem tantos outros casos em que os jogos aparecem como culpados de crimes. Grand Theft Auto, Legend of Mir, Lineage e até Farmville tem crimes atrelados a seus títulos. Então todos que jogam games de tiro,


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A transformação do Jornalismo Esportivo em entretenimento Gabriela Sassi Nos últimos anos o jornalismo esportivo tem passado por algumas modificações. Surgiram espaços para outros assuntos – que não apenas o futebol, dentro das quatro linhas. Programas televisivos, como as mesas redondas, usadas para discutir partidas e falar sobre a “bola rolando”, agora ganharam um novo foco, disseminado por parte das emissoras brasileiras, seguindo o que se apelidou de ‘leifertização’ do jornalismo esportivo.

tador Tiago Leifert surgiu comandando programas esportivos da Rede Globo, fazendo graça e fazendo uso questionável de seu papel, desconsiderando o lado sério da comunicação jornalística. A justificativa para essa “nova era” do jornalismo esportivo é que o esporte – o futebol, falando mais restritamente – precisava ser mais irreverente. No entanto, essa mudança na característica original, até então intrínseca à profissão, é criticada por muitos jornalistas, mas, ao mesmo tempo, agrada boa parte do público. Um exemplo de profissional que “reprova” a “leifertzação” é Juca Kfouri. Ele diz que o jornalista pode ser engraçado, mas não pode esquecer seu papel na sociedade. “A programação esportiva da TV aberta se apalhaçou e quase não tem, rigorosamente, nada de importante.”. Ou seja, parte da credibilidade jornalística vai embora, porque, agora, o foco saiu do apenas reportar e passar informações relevantes, agora o público quer ver o que rola fora das quatro linhas. O entretenimento passou a ser vendido como jornalismo. Mas, será que a fofoca, realmente, ganhou espaço? Parece que sim. A “nova era” do Jornalismo Esportivo no Brasil

Mariah Wolf

Em linhas gerais, a tal ‘leifertização’, tão discutida entre os profissionais da área, é quando o entretenimento ganha o espaço do chamado jornalismo sério. O termo foi dado depois que o apresen-

É possível notar que essa nova era do jornalismo esportivo ora agrada torcedores, ora é repreendida por jornalistas e, até mesmo, por quem trabalha dentro do campo.


36 Um caso que explicita bem o acontecimento é a “cena” do, na época treinador do Palmeiras, Eduardo Baptista. Em abril do ano passado, depois do jogo do Palmeiras contra o Peñarol, no Uruguai, pela Taça Libertadores, Baptista foi para a tradicional coletiva pós-jogo, que, naquela noite, seria pouco tradicional. Além da tensão da vitória por 3 a 2, de virada e da briga generalizada que havia acontecido no gramado, o treinador se revoltou, gritou e bateu na mesa. O alvo? A imprensa.

time antes do primeiro jogo contra o Peñarol. Nela, o jornalista também disse que as informações vinham de uma fonte que não queria ser divulgada. O erro da reclamação de Baptista está aí – até mais que generalizar os fatos –, ele queria saber quem era a fonte. Mas, será que Eduardo Baptista tinha razão de pedir “perguntas só sobre futebol aos jornalistas”? Será que ele tinha razão ao pedir mais análise sobre os jogos e menos debates clichês e pautas cheias de humor na imprensa? Indo fundo na questão ele até tem razão. A tal “leifertização” dos programas tem invertido os papéis, e as mesas-redondas tem tirado o foco das análises.

Naquela noite o técnico esbravejou, gritou, falou palavrões. Baptista falava “imprensa” de modo geral, generalizando tudo e todos, que, para ele, deveriam dizer quais eram suas fontes. Os ânimos do treinador estavam Entretanto, o que não exaltados, e até certo dá para esquecer é Em linhas gerais, a tal ‘leimomento, o que ele fertização’, tão discutida enque, muitas vezes, o indagava era discu- tre os profissionais da área, fator extracampo intível. Na visão dele o é quando o entretenimento fluencia, sim, princifutebol virou fofoca e ganha o espaço do chamado palmente se tratando começou a voltar os de futebol brasileiro. jornalismo sério olhares para coisas O que o atleta faz ou sem relevância. Podiz fora do campo rém, Baptista mirou em ‘A’ e acertou em pode refletir na partida, pois o que ele ‘B’. A indagação dele teria relevância se fizer vai virar notícia. Ela acaba paranele tivesse focado na questão dos deba- do no vestiário, nas mãos do treinador, tes esportivos que ganharam novas dis- e, dependendo do grau de influência cussões, muitas vezes sem importância, que o futebolista fez no âmbito que não ao invés de tentar provocar um debate é do clube em que joga, isso vai refletir, sobre a qualidade do periodismo es- sim, no jogo, e pode até chegar à torciportivo feito no Brasil, o treinador focou da. Sendo assim, é possível dizer que a suas críticas em outro, exigindo que o fofoca ganha relevância como notícia, jornalista falasse sua fonte, coisa que mas que o jornalismo não pode ser “só jornalista tem o direito de não revelar. isso”. Além desses temas, as mesas-reA bronca de Baptista era direcionada a dondas e programas precisam discutir, uma nota do jornalista Juca Kfouri em também, assuntos pertinentes ao jorseu blog no UOL. nalismo. O entretenimento não pode tomar lugar do jornalismo esportivo, A notícia em questão, publicada por não na sua totalidade, pois existe espaKfouri, dizia que o treinador tinha se de- ço para ambos. Mas também não pode sentendido com um jogador do elenco ser vendido ao público como jornalismo e que, por isso, o jogador foi sacado do esportivo. P


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Christa Berger e o jornalismo de Kapuscinski Gisele Urnau No texto “o jornalismo dos sonhos”, presente nesta edição, falamos do jornalismo real. Do jornalismo do povo e para o povo. E, mais ainda, da necessidade desse jornalismo hoje em dia. Vemos superficialidade no factual e informação tendenciosa vinda de interesses particulares. E sonhamos com o quarto poder exercendo a função de porta-voz da sociedade. Mas isso tem acontecido raramente.

sensível para perceber os detalhes de um fato e transformá-lo em ponto indispensável do texto. Que encanta com as palavras.

Ela constrói o artigo por meio de citações do autor que retratam o seu modo de pensar e de fazer jornalismo. É visível desde a leitura do título do artigo certa tristeza na referência à morte de Kapuscinski logo no primeiro parágrafo. Neste momento, ela faz menção à última obra Vimos como exemplo a grande reporta- do polonês, publicada pouco antes de gem e a jornalista Eliane Brum. Mais um sua morte e, ironicamente, na qual ele pouco desse jornalismo está presente na conta como foi o “começo de tudo”. obra de Ryszard Kapuscinski. Os relatos do jornalista polonês No início do texto, se nasciam a partir do narram os aconteciAlém de ouvir uma boa que vivia como cormentos vividos pelo história, presenciamos um respondente. Como autor durante a promodelo de jornalismo que repórter, procurava dução de sua última supre as falhas dos diários estar dentro do aconobra – Minhas viade notícias tecimento, narrando gens com Heródoto. o que presenciava. Seguindo a mesma Das pessoas sobre as quais escrevia, li- linha, quando comenta a carreira do mitava-se àqueles de situação precária autor, aponta a sua conduta perante a de vida. Por isso o chamavam de “voz classe baixa. Posicionamento afirmado dos sem voz”. com convicção: “O tema da minha vida são os pobres. É isto que eu entendo por O jornalismo de Kapuscinski é aborda- terceiro mundo” (KAPUSCINSKI, 2003 do no artigo de Christa Berger, “A ver- apud BERGER, 2007 p. 180). dade histórica, poética e transcendente do jornalismo de Kapuscinski”. Nele, a De acordo com a análise, a escrita do professora destaca as principais obras autor se baseava em razões éticas e na do autor, e, como foco principal, desta- defesa dos pobres, porque, segundo ele, ca o modelo de jornalismo adotado, que estes sofrem em silêncio. Então, usa da transforma notícia em narrativa infor- própria escrita para ressaltar o papel mativa com traços de literatura. A autora do jornalismo, “importante e vital para fala desse jornalismo como ideal, aquele a vida em sociedade, pois nele a palaque é adepto da “capacidade de obser- vra tem poder elucidador, esclarecevação e o talento para a escuta”. Que é dor e transformador” (Ibidem, loc. cit.).


Mayara Heidrich Berger entende que esse papel, tão pouco praticado, era exercido por ele. Alguém que criticava já o factualismo e a superficialidade da informação com suas produções sensíveis ao mesmo conteúdo da mídia.

lavras para demonstrar o apreço pelo jornalismo do autor polonês. Para encerrar o artigo, ela faz uma chamada para que lêssemos essas obras e finaliza que “seus livros lembram do prazer que é ouvir uma boa história”.

mos um modelo de jornalismo que supre as falhas dos diários de notícias; que nos faz questionar as próprias produções, olhar para o próprio umbigo, criticar o próprio trabalho para então saber se estamos seguindo, de fato, os ideais da prática jornalístiAdmiradora da obra, a Mas além de ouvir uma ca. P professora não mede pa- boa história, presenciaReferências BERGER, Christa. A verdade histórica, poética e transcendente do jornalismo de Kapuscinski. Estudos em Jornalismo e Mídia, v. IV, n. 1 – 1º semestre de 2007, p. 178-185. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ jornalismo/article/viewFile/2194/2052>. Acesso em 09 jun. 2018.


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Blog: O jornalismo de portas abertas Dionathan Sousa Com o surgimento e consolidação da sociedade da informação e do conhecimento, o acesso às mídias tornou-se muito mais fácil. Hoje, graças ao avanço tecnológico, qualquer indivíduo pode criar suas próprias páginas para compartilhar informações sobre o que julga relevante. Desde sua primeira aparição em 1994, quando o estudante norte-americano Justin Hall criou um dos primeiros sites com o formato, o blog tornou-se uma importante ferramenta de publicação em diferentes segmentos.

No Brasil, a relação entre os blogs e o jornalismo se deu a partir do momento em que esta nova plataforma passou a ser utilizada pelos profissionais das redações. Uma relação que de início se mostrou despretensiosa, mas que aos poucos passou a fazer parte da imprensa hegemônica.

Em 2017, um levantamento realizado pela Big Data Corp constatou que os blogs representam cerca de 55% dos 10 milhões de sites ativos no país. Dentro dessa lista se encontram os blogs corpoSua popularização deu-se a partir de rativos, educativos, literários etc., e ainda 1999, mas foi somente após o ataque os blogs jornalísticos oficiais e indepenàs torres gêmeas do dentes. World Trade Center, Hoje, graças ao avanço em 11 de setembro tecnológico, qualquer indiví- Segundo a empresa de 2001, que os blode pesquisa ComSduo pode criar suas próprias gs dispararam como core, os brasileiros páginas para compartilhar estão em segundo espaço informativo. informações Nesse período, esses lugar em visitações veículos tiveram um mensais, ou seja, um papel significativo para a dissemina- quarto da população brasileira visita no ção das informações sobre o atentado e mínimo um blog por mês, o equivalente suas consequências. a 77,3% da população online.

Devido à sua praticidade e facilidade de publicação, rapidamente, ganharam espaço dentro da rotina dos jornalistas, e também dos não-jornalistas. Isso porque o formato rompe com um padrão tradicional de disposição de conteúdo adotado pelos meios noticiosos, como o do jornal impresso, por exemplo. Nesse sentido, o blog atua como um mecanismo de formação de opinião eficiente em que o autor expõe seu ponto de vista sobre determinado assunto.

Das redações para a blogosfera Com a migração do jornalismo tradicional para a rede, muitos jornalistas tornaram-se blogueiros, e vice-versa. A atuação desses profissionais, de modo geral, se depara com diversos paradigmas. De um lado, os blogueiros encontram-se no cerne da democracia, executando o direito à opinião, e muitas vezes desestabilizam, mesmo que minimamente, o monopólio da informação.


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“Apesar das críticas, a mídia

eletrônica herda características essencialmente positivas para um avanço democrático De outro, por não estarem atrelados a nenhum veículo, postura ou regras, os blogueiros não se atêm a questões de ética, credibilidade e veracidade de informações, critérios fundamentais no jornalismo profissional. Apesar das críticas, a mídia eletrônica herda características essencialmente positivas para um avanço democrático. É nesse espaço que qualquer indivíduo tem a possibilidade de difundir ideias e pensamentos, mesmo não possuindo conhecimento técnico. Através da interatividade, dinamismo e diversidade de discursos, esses veículos tendem a promover o debate, a contestação e a divergência, juntamente com a participação do leitor e internauta. Outro ponto a destacar é a significante influência que exercem sobre a opinião pública acerca de assuntos, temas, personalidades e fatos sociais. Muitas pessoas acham que o formador de opinião pode exercer a função de jornalista, entretanto, essa interação social, a qual inclui o público, resulta na construção de uma percepção social sobre valores e crenças. Dessa forma, reafirma-se o importante papel social atribuído à mídia e a responsabilidade social desses profissionais. Diante da grande lacuna de regulamentação da profissão, hoje, para blogueiros há apenas a responsabilização judicial de qualquer informação

Mayara Heidrich

ofensiva que chegue a ferir a dignidade de pessoas. De fato, os blogs tornaram-se indispensáveis para o jornalismo online, mas obviamente, nem todas as plataformas precisam desse teor jornalístico. Essa, é mais uma das novas formas de se produzir conteúdo existente na rede. Falar sobre blogs, ou mesmo sobre o seu papel na contemporaneidade, parece um tema um tanto que exaustivo, visto que muito já se discutiu sobre a temática. Porém, em tempos de fake news, discutir credibilidade e apuração das notícias ganha cada vez mais destaque no debate popular. P


PARA LELO

Profile for Luiz Henrique Zart

Paralelo  

Um suplemento que, em conceito, deveria ser um caderno adicional ao material jornalístico principal, aqui se apresenta de outra forma. Suple...

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