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Produção Ulisses Zinhoni, Ernane Reis Luiz Felipe Panozzo


À

primeira vista é fácil identificar: O Brasil foi varrido. Devastado por uma onda que, furiosa, arrastou tudo por onde passou. Quisera a mamãe Fifa que a tal onda tivesse passado longe daqui. Mas essa onda, assim como se diz de muitas bolas no mundo do futebol, tinha endereço. Vinha sendo formada há tempos, depois do chute colocado que o presidente Lula havia dado há longos sete anos atrás lá em Zurique. A euforia pela conquista do direito de sediar pela segunda a copa do mundo de futebol, torneio de tiro curto que tantas vezes fez brilhar os olhos do torcedor brasileiro pela televisão deixava claro que em junho de 2014 o Brasil seria varrido por essa onda.


Se alguém metesse o bedelho à altura e dissesse que o mar, em tempos de festa estaria de ressaca, seria o inimigo número um da nação. “Derrotista”, bradariam uns, “vira-lata”, gritariam outros, lembrando o eterno Nelson Rodrigues. Seria achincalhado de Norte a Sul do país, e se fosse procurar refúgio fora dele, seria bom ficar longe de Miami, onde boa parte dele se reúne para esbaldar um pouco de seu sonho americano. Eis que, horas antes da abertura oficial do evento o país para. Preto e branco, crente e macumbeiro, grevista e patrão, João, Maria, e até a bruxa dos doces. E se o gringo ainda vier pra cá a ordem é uma só. STOP! Até o vermelho e o azul entraram nessa dança. Veja bem, o vermelho e o azul. No Brasil. E o país consegue se entender: coisa que o governo local, no centro de sua aura monárquica não haveria feito nem em sete nem em setenta anos. Longe do militantismo vermelho desbotado, o povo já não aguenta mais ser deixado de lado, vendo os gigantes estádios padrão-fifa serem erguidos, em detrimento de sua saúde, educação, transporte e lazer outrora renascentistamente perfeitos. Ao final dessa onda tão multiforme, graças ao serviço desse povo tão salva-vidas brasileiro, notam-se apenas duas vítimas. Papai PT e mamãe FIFA. Os filhos já sabem se criar sozinhos. Os pais, não deixam saudades.

Revista Semioticando  
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