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“A METÁFORA DA ÁGUIA COM A SERPENTE EM ASSIM FALOU ZARATUSTRA: UM DESAFIO AO PENSAR E AO VIVER”. LUIZ CELSO PINHO

RESUMO Este artigo pretende mostrar que a imagem dos animais de Zaratustra nos remetem a dois problemas centrais na filosofia de Nietzsche. Em primeiro lugar, a superação do pensamento dicotômico, instaurado pela Metafísica. Em segundo lugar, o abandono de uma concepção linear de tempo, através da teoria do Retorno. Ambos os problemas representam grandes desafios à existência humana. PALAVRAS- CHAVE: superação das dicotomias, eterno retorno, vida humana. ABSTRACT In this paper I argue that the image of animals presented in Zarathustra is connected to two fundamental problems of Nietzsche’s philosophy. First, the overcoming of the dichotomous thought created by metaphysics. Second, the refusal of a linear conception of time as a consequence of the theory of Return. Both problems represent a great challenge for human existence. K EY - WORDS : dichotomous thought, eternal recurrence, human life.

I Logo no início do Prólogo, ao prestar homenagem ao aspecto luminoso do sol, Zaratustra nos fornece uma clara indicação de que não passou totalmente isolado sua reclusão voluntária no alto de uma montanha: “são dez anos que sobes à minha caverna; e já se te haveriam tornado enfadonhos a tua luz e este caminho, sem mim, a minha águia e a minha serpente”.1 Zaratustra elege uma ave e um ofídio como seus animais. Chegará inclusive a considerá-los “animais

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AFZ, “Prólogo”, # 1, p. 27.

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de honra”.2 Tais referências fornecem apenas um esboço geral do tipo de vínculo que mantém unido esse trio. Em outras passagens percebemos que a águia e a serpente dão conselhos a Zaratustra,3 cuidam dele após suas crises,4 lhe servem de guia,5 e, acima de tudo, atestam que ele está capacitado a afirmar o eterno retorno, naquele que será o momento culminante de seu percurso.6 Além disso, às vezes, o próprio Zaratustra recomenda àqueles que o procuram (no caso, os chamados “homens superiores”)7 que escutem com atenção o que seus animais têm a dizer.8 Não há como deixar passar desapercebido que nas situações mencionadas acima a águia e a serpente agem sempre em conjunto, como se compusessem uma unidade indissolúvel.9 Avaliando essa parceria do ponto de vista biológico, não há dúvida que se trata de um encontro totalmente insólito. No entanto, pretendemos assinalar justamente as implicações teóricas decorrentes da metáfora criada por

AFZ, IV, “O canto ébrio”, # 2, p. 319. Cf. AFZ, III, “O convalescente”, # 2, p. 223; IV, “O sacrifício do mel”, p. 241. A águia e a serpente também exortam Zaratustra a aprender a aprender a cantar (cf. AFZ, III, “O convalescente”, # 2, p. 226). 4 CF. AFZ, III, “O Convalescente”, # 1, p. 222 e # 2, p. 223). 5 “Encontrei mais perigos entre os homens do que entre os animais, perigosos são os caminhos de Zaratustra. Possam guiar-me meus animais” (AFZ, Prólogo, # 10, p. 41). Essa passagem é evocada de novo na Terceira Parte, em “O regresso”, p. 190. 6 “Pois bem sabem os teus animais, ó Zaratustra, quem és e quem deves tornarte: és o mestre do eterno retorno — este, agora, é o teu destino!” (AFZ, III, “O convalescente”, # 2, p. 226). Esse reconhecimento do que se passa consigo através do “outro” não é uma novidade: “Que me aconteceu, afinal, meus animais? — disse Zaratustra. — Acaso, não estou transformado? (AFZ, II, “O menino com o espelho”, p. 97). Aliás, a outra personagem que também corrobora que Zaratustra já incorporou os ensinamentos da teoria do Círculo é a Vida, como se pode entrever quando ela diz a respeito do que lhe é segredado no ouvido: “Tu sabes isto, Zaratustra? Ninguém sabe isto..” (AFZ, III, “O outro canto de dança”, # 2, p. 233). 7 Deleuze considera que “eles representam (...) o devir da cultura, ou o esforço para pôr o homem no lugar de Deus” (Deleuze, G. “Dicionário dos principais personagens de Nietzsche” in Nietzsche, p. 37). 8 Cf. AFZ, IV, “O feiticeiro”, # 2, p. 260; “O mendigo voluntário”, p. 273 e “O mais feio dos homens”, p. 269. 9 Haar ressalta que entre eles ocorre uma “simbiose maravilhosa” (Haar, M. “Les animaux de Zarathoustra”, p. 211). Quando a serpente aparece sem a companhia da águia representa algo negativo para a vida — o niilismo (cf. AFZ, III, “Da visão e do enigma”, # 2, p. 167-8). 2 3

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Nietzsche. O ponto de partida para tal análise encontra-se no final do Prólogo: “E eis que [Zaratustra] viu uma águia voando em amplos círculos no ar e dela pendia uma serpente, não como presa, mas como amiga, pois segurava-se enrolada em seu pescoço”.10 Tem-se aqui uma imagem que se presta a duas séries de reflexões: uma que se detém na combinação harmônica entre seres que se locomovem de formas distintas (o alado e o rastejante) e outra que privilegia a alusão reiterada à figura do círculo (no vôo da águia e na posição da serpente). Além de dialogarem com Zaratustra e de o acompanharem ao longo de sua jornada, esses animais estão relacionados com os desafios pelos quais ele irá se deparar. Em seu derradeiro discurso, curiosamente também realizado ao nascer do dia, Zaratustra dá-se conta de que ainda não encontrou aqueles capazes de trilhar o mesmo caminho dele — seus “homens certos” —; mas, enuncia, a respeito da águia e da serpente, o que a humanidade ainda não foi capaz de lhe proporcionar: “Sois os animais certos para mim”.11 Se se pode afirmar que esses dois animais são certos é porque apontam, através de metáforas, para aquilo que há de mais decisivo no aprendizado de Zaratustra. Por um lado, colocam a questão da oposição de valores ou, mais exatamente, do pensamento dicotômico, através da polaridade entre alto e baixo. Por outro lado, retratam uma concepção circular de tempo que vai de encontro aos processos finalistas, lineares ou totalizantes que culminam em alguma forma de aprimoramento. Em suma, a união dos animais sinaliza para Zaratustra a necessidade evitar tanto o modo de pensar metafísico, que caracterizase pelo estabelecimento de dualismos, quanto a crença — simultaneamente religiosa e platônica12 — de que o sentido da vida ou a verdade das coisas devem ser procurados num além-mundo de formas eternas e essenciais. Na imagem da águia com a serpente está presente não somente os obstáculos pelos quais Zaratustra terá de passar como também, pelo menos simbolicamente, a solução para cada um deles. Nos ocuparemos de cada uma dessas questões a partir da

AFZ, Prólogo, # 10, p. 40. Cabe salientar que mesmo no solo a serpente continua pendendo do pescoço da águia (cf. AFZ, IV, “A saudação”, p. 280). 11 AFZ, IV, “O sinal”, p. 326, os grifos são meus. 12 Em Além do bem e do mal, Nietzsche considera que “cristianismo é platonismo para o ‘povo’”, o que os torna expressão de uma mesma vontade (Op. cit., Prólogo, p. 8). 10

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narrativa poético-dramática de Assim falou Zaratustra para mostrar que ambas, além de serem indissociáveis, pois aquele que almeja atingir uma realidade sem as imperfeições desta já cindiu o mundo em duas instâncias heterogêneas, constituem aspectos basilares de projeto filosófico de Nietzsche. II A trajetória de Zaratustra está marcada por diversos extremos: meio-dia e meia-noite, terra firme e alto mar, cume e abismo, solidão e convívio com os outros, saúde e enfermidade etc. Percebemos, assim, que há um movimento oscilante entre lugares e situações que se excluem mutuamente. Essa dinâmica o afeta profundamente. Aliás, poder-se-ia mesmo dizer que escapar dela representa sua principal meta. De certo modo, Zaratustra torna-se uma versão nietzschiana do martírio imposto a Sísifo pelos deuses olímpicos. A diferença, como veremos mais adiante, é que existe uma solução para esse impasse causado por estados antagônicos. Independente do aspecto existencial dessa problemática, nosso interesse reside em analisar como a linguagem poética empregada por Nietzsche pode ser traduzida em termos filosóficos. Daí a importância da idéia de que “a crença fundamental dos metafísicos é a crença nas oposições de valores”,13 ou seja, de que o pensamento ocidental, desde o advento de Sócrates, faz-se a partir de uma matriz dicotômica. Através da alternativa entre mundo-aparente (da transitoriedade) e mundo-verdadeiro (das idéias imutáveis), os juízos passam a ter por base uma contraposição primeira, como verdadeiro e falso, belo e feio, certo e errado, racional e irracional, e daí por diante. Nietzsche questiona frontalmente tal preceito metafísico: “podese duvidar, primeiro, que existam absolutamente opostos; segundo, que as valorações e oposições de valor populares, nas quais os metafísicos imprimiram seu selo, sejam mais que avaliações-de-fachada, perspectivas provisórias, talvez inclusive vistas de um ângulo, de baixo para cima talvez, ‘perspectivas de rã’, para usar uma expressão familiar aos pintores”.14 Falar de uma oposição absoluta é um artifício da

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Nietzsche, F. Além do bem e do mal, # 2, p. 10. Ib., p. 10.

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linguagem: se levamos em consideração a existência de gradações, não há, por exemplo, o quente absoluto se contrapondo a um frio absoluto, mas sim uma multiplicidade de estados diferenciados entre si. Além dessa crítica à superficialidade do discurso metafísico, num aforismo paradigmático de Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche ataca o próprio ideal de o pensamento atingir a verdade. Para tanto, traça um histórico sucinto de seis etapas. Primeira: apenas o sábio virtuoso tem acesso a ela (platonismo). Segunda: ela se torna inacessível no mundo terreno (cristianismo). Terceira: na medida em que não pode ser demonstrada totalmente, faz-se necessário sempre estar em busca dela (criticismo kantiano). Quarta: se ela não pode ser conhecida, então também não deve ser levada em conta (positivismo). Quinta: torna-se “uma idéia que não é útil para nada” (inversão nietzschiana dos valores). Sexta: “com o mundo verdadeiro destruímos também o aparente” (superação das dicotomias: transvaloração).15 Postular a inoperância de um pensamento calcado em valores que se opõem de modo excludente não constitui, porém, o intuito principal de Nietzsche. Seu interesse reside, acima de tudo, em ressaltar que o problema do conhecimento não se restringe a uma discussão meramente epistemológica, pois a verdade germina a partir do solo da moral. Quando o filósofo for capaz de “substituir a pergunta kantiana, ‘como são possíveis juízos sintéticos a priori?’, por uma outra pergunta: ‘por que é necessária a crença em tais juízos?’”,16 então ele se dará conta de que “não passa de um preconceito moral que a verdade tenha mais valor do que a aparência; é inclusive a suposição mais mal demonstrada que já houve”.17 Consideramos que Zaratustra deparase, inicialmente, com essa discussão conceitual a partir de uma dimensão dramática, ou ainda, existencial. Mas, o intuito de Nietzsche consiste em solapar os alicerces da metafísica. Em Assim falou Zaratustra, isso será retratado através da imagem do par águia-serpente. Essa abordagem metafórica revelase bastante valiosa, pois o absurdo que a parceria entre exímios predadores — uma ave de rapina e um ofídio peçonhento — atesta o grau de impossibilidade envolvido na instauração de uma forma de

Nietzsche, F. Crepúsculo dos ídolos, “Como o ‘verdadeiro mundo’ acabou por se tornar fábula”, p. 35-6. 16 Nietzsche, F. Além do bem e do mal, # 11, p. 18. 17 Ib., # 34, p. 41. 15

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pensar desprovida de qualquer referencial dicotômico. A “esperança” nietzschiana no advento de “filósofos do futuro” ou de uma raça de “super-homens” esbarra, certamente, na dificuldade de emitir juízos que estejam desprovidos de valorações calcadas em oposições. Deste modo, a própria idéia de verdade requer uma total reformulação. Nietzsche supera esse empecilho prático através de um artifício poético. Num primeiro momento, a sabedoria de Zaratustra profere o seguinte em relação ao problema dos opostos: “Não existe alto nem baixo!”18 Tem-se assim a simples negação do que seria uma evidência metafísica. Porém, num segundo momento, Zaratustra proclama: “meu mundo acabou de atingir a perfeição, a meia-noite é também meio-dia. A dor é também prazer, a maldição é também benção, a noite é também um sol”.19 Como vimos, essa solução será estendida para a história da filosofia em Crepúsculo dos ídolos, sendo que Nietzsche caracterizará a si mesmo como a saída definitiva da prisão metafísica na qual nos encontramos. A simbiose entre uma espécie alada e outra rastejante tanto representa a constatação de que o pensamento se processa dentro de uma estruturação dicotômica quanto sinaliza o caminho que Zaratustra deverá tomar para escapar de suas angustiantes idas e vindas ou de suas sucessivas alternâncias de estado. O que ele denomina de “perfeição” — a superação das dicotomias — está diretamente vinculada ao modo como seus animais vivem. Neste sentido, a atitude que ele deve adotar para se desfazer dos impasses vivenciados ao longo de seu percurso corresponde à solução filosófica concebida por Nietzsche para que o dualismo metafísico seja superado. III A segunda imagem suscitada pelos animais diz respeito a uma figura geométrica — o Círculo. Através dele coloca-se o problema da afirmação do eterno retorno. Tem-se aqui, mais uma vez, um problema de cunho existencial, pois a tarefa de Zaratustra será a de lidar com a vida, ou

Nietzsche, F. Assim falou Zaratustra, III, “Os sete selos”, # 7, p. 237. AFZ, III, “O canto ébrio”, # 10, p. 323-4. No início da Terceira Parte, Zaratustra anseia pelo dia em que cume e abismo se tornem uma coisa (cf. “O viandante”, p. 161).

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melhor, com a temporalidade, sem considerá-la um processo orientado para um estado futuro de acabamento e realização. Essa compreensão do devir possui traços em comum com a sabedoria trágica dos antigos gregos. Contudo, em Assim falou Zaratustra, Nietzsche fará referência ao que ele poeticamente denomina de a “felicidade dos animais”.20 É ela que lhes confere a autoridade de explicitar, em primeiro lugar, inclusive, o que vem a ser a filosofia nietzschiana do Retorno: “Tudo vai, tudo volta; eternamente gira a roda do ser. Tudo morre, tudo refloresce, eternamente transcorre o ano do ser. Tudo se desfaz, tudo é refeito; eternamente constrói-se a mesma casa do ser. Tudo separa-se, tudo volta a encontrar-se; eternamente fiel a si mesmo permanece o anel do ser. Em cada instante começa o ser; em torno de todo o ‘aqui’ rola a bola acolá. O meio está em toda a parte. Curvo é o caminho da eternidade.”21 Deleuze minimiza a relevância do discurso proferido pelo par águia-serpente para o esclarecimento de algo tão fundamental para o homem como a teoria do Círculo, tendo em vista que a dupla a exprime “de maneira animal, como uma certeza imediata ou uma evidência natural. (A essência do eterno Retorno escapa-lhes, quer dizer, o seu caráter seletivo, tanto do ponto de vista do pensamento como do Ser.) Por isso, fazem do eterno Retorno uma ‘tagarelice’, uma ‘omissão’”.22 Essa postura sugere que a teoria do Retorno pode ser enunciada a partir de dois níveis: um biológico (instintivo) e outro ético (que envolve avaliações). A rigor, no entanto, também seria possível falar da perspectiva da Vida, que, em determinados momentos, corrobora o que Zaratustra lhe segreda sobre a sabedoria trágica.23 A censura a esse modo direto, e, talvez, simplificado, de entender a dinâmica trágica da existência não invalida completamente a experiência dos animais. O exemplo deles tem um valor pedagógico na medida em que eles “não sofrem pelo passado, nem receiam o futuro. Eles vivem num presente eterno”.24 Numa perspectiva nietzschiana, isso significa que a vida não tem um sentido: ela não obedece a um processo finalizado. Tudo o que acontece encontra-se regido pelo princípio do Caos. O que é pontuado indiretamente pelos animais aparece em inúmeros aforismos de Nietzsche. AFZ, IV, “O mendigo voluntário”, p. 273. AFZ, III, “O convalescente”, p. 224. 22 Deleuze, G. “Dicionário dos principais personagens de Nietzsche” in Nietzsche, p. 35, os grifos são meus. 23 Cf. AFZ, III, “O outro canto de dança”, # 2, p. 233. 24 Haar, M. “Les animaux de Zarathoustra”, p. 203. 20 21

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Destacamos dois. Um anterior a redação de Assim falou Zaratustra e outro posterior. O primeiro faz um alerta: “Guardemo-nos de atribuir a esse curso circular qualquer tendência, qualquer alvo: ou de avaliá-lo, segundo nossas necessidades, como enfadonho, estúpido, e assim por diante (...) Guardemonos de pensar a lei desse círculo como algo que veio a ser, segundo a falsa analogia dos movimentos circulares no interior do anel.”25 No segundo aforismo, Nietzsche define o mundo como “um monstro de força, sem começo nem fim, uma quantidade de força brônzea que não se torna nem maior nem menor, que não se consome, mas só se transforma (...)”.26 Zaratustra incorpora esses pressupostos filosóficos, pois está ciente de que não haverá uma vida melhorada, nem sequer uma nova vida. De acordo com ele, a existência “futura” será implacável e maravilhosamente a mesma. Daí rejubilar-se desse ciclo inevitável: “Retornarei com este sol, com esta terra, com esta águia, com esta serpente — não para uma nova vida ou uma vida melhor ou semelhante. Eternamente retornarei para esta mesma e idêntica vida, nas coisas maiores como nas menores, para que eu volte a ensinar o eterno retorno de todas as coisas.”27 Pensar a história humana a partir do modelo do Círculo é a segunda tarefa que os animais de Zaratustra lhe sinalizam alegoricamente. Esse tipo de teoria pode levar, sem dúvida, a uma atitude pessimista em relação à existência, pois se tudo volta, no fundo, “nada vale a pena”,28 como proclamam os deturpadores, e, estes sim, sem dúvida, simplificadores, da doutrina de Zaratustra. Se não há esperança em dias melhores, nem na volta a tempos dourados, o que importa é “querer a eternização do instante vivido”.29 Mas, para eternizar o presente faz-se necessário viver sem pretender almejar atingir um estado — terrestre ou celestial — mais verdadeiro. O “anel dos anéis”, que sela o matrimônio de Zaratustra com a Vida, implica a fórmula do amor fati: “Nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda a eternidade”.30 25 Nietzsche, F. “O eterno retorno” (textos de 1881), # 20, in Obras incompletas, p. 389. 26 Nietzsche, F. A vontade de potência, # 385, p. 289. 27 AFZ, III, “O convalescente”, # 2, p. 227. 28 Eis as fórmulas que caracterizam a versão pessimista do ensinamento de Zaratustra: “Tudo é vazio, tudo é igual, tudo foi!”, “Inútil foi todo o trabalho” (AFZ, II, “O adivinho”, p. 145); “Tudo é igual, nada vale a pena, o mundo não tem sentido, o saber nos sufoca” (AFZ, IV, “O grito de socorro”, p. 244), “inútil é a procura” (ib., p. 246). 29 Machado, R. Zaratustra, tragédia nietzschiana, p. 135. 30 Nietzsche, F. Ecce homo, “Por que sou tão inteligente”, § 10, p. 78.

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Seria possível, contudo, ressaltar uma contradição nos discursos de Zaratustra, tendo em vista que ele, em inúmeras ocasiões, notadamente na Primeira Parte do livro, anseia pela vinda do “super-homem” num tempo futuro para redimir a Terra. Deste modo, ele também compartilharia de um evolucionismo darwinista.31 Essa objeção deixa de ser pertinente se priorizamos o aspecto dramático da obra. Como assinala Roberto Machado, “o super-homem é apresentado numa perspectiva linear de tempo, numa perspectiva teleológica, de processo finalizado, como o movimento de realização do homem ou um projeto de redenção futura dos terrores e horrores da existência atual, que não é última palavra de Assim falou Zaratustra sobre o super-homem e, muito menos sobre o tempo”.32 Fink também aponta nessa direção, apesar de abordar outra questão, ao afirmar que “a teoria nietzschiana do eterno retorno começa no tempo linear e (...) avança depois para a supressão do tempo linear”.33 Desde A gaia ciência, Nietzsche considera que o sacerdote apregoa um mundo verdadeiro no além “para que tudo o que ocorre necessariamente e por si, sempre e sem nenhuma finalidade, apareça doravante como tendo sido feito para uma finalidade e seja plausível para o ser humano, enquanto razão e derradeiro mandamento”.34 Com isso, não apenas a divisão entre mundo terreno e mundo supra-sensível perece diante de uma filosofia do Retorno como também a vida passa a ser interpretada a partir de elementos imanentes. Mais do que se limitar ingenuamente ao sensível, Zaratustra é aquele que anuncia o “super-homem” como meio de resgatar o autêntico sentido da vida, tendo em vista que o Círculo representa a aliança entre o ser humano e o instante, entendido como a afirmação incondicional do passado e o total desprendimento em relação ao futuro. IV O que pretendemos apontar neste texto foi que Nietzsche utilizase da metáfora da águia com a serpente em Assim falou Zaratustra para retratar, por um lado, as dificuldades pelas quais seu personagem central 31 Nietzsche negará, posteriormente, que Zaratustra tenha qualquer afinidade com Darwin (cf. Nietzsche, F. Ecce homo, “Por que escrevo bons livros”, # 1, p. 82). 32 Machado, R. Zaratustra, tragédia nietzschiana, p. 50. 33 Fink, E. A filosofia de Nietzsche, p. 99. 34 Nietzsche, F. A gaia ciência, # 1 (“Os mestres da finalidade da existência”).

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passaria e, por outro lado, no intuito de apontar, de forma simbólica, o caminho que ele deveria trilhar para poder superá-las. A imagem de dois animais ocupando posições “antagônicas” — nas alturas e junto ao solo — representa uma crítica à oposição de valores e remete a uma dificuldade constitutiva, já que pretende superar algo que é inerente ao modo de ser do pensamento. Além disso, a dupla alusão à circularidade — no percurso da ave e na posição do ofídio — envolve um problema eminentemente existencial: viver sem esperar atingir um ponto de chegada mais verdadeiro, esteja ele num tempo futuro ou na eternidade. Os animais de Zaratustra o colocam diante de um desafio simultâneo ao pensar e ao viver. Estaria o ser humano habilitado a realizar essa tarefa? De acordo com os discursos de Zaratustra, trata-se de um acontecimento inevitável. No entanto, não podemos deixar de lado as dificuldades (de ordem teórica e prática) que perpassam tal empreendimento. Para os que nutrem algum tipo de esperança, seria oportuno lembrar a interpretação de Nietzsche do mito de Pandora. Ele explica que “Zeus quis que os homens, por mais torturados pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.”35 Não se pretende, com isso, sugerir que a existência não vale a pena, mas sim que o caminho de Zaratustra conjuga perigosamente luz e trevas. Como uma vela que quanto mais ilumina acaba extinguindo-se, ele está fadado a consumir a si mesmo... REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DELEUZE, G. Nietzsche. Tradução de Alberto Campos. Lisboa: Edições 70, [1985]. FINK, E. A filosofia de Nietzsche. 2ª ed. Tradução de Joaquim L. D. Peixoto. Lisboa: Presença, 1988. HAAR, M. “Les animaux de Zarathoustra. Forces fondamentales de la vie” in Par-delá le nihilisme, Paris, PUF, 1998, p. 199-217. NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano. um livro para espíritos livres. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2000

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__________. A gaia ciência. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2001. __________. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. 6ª ed. Tradução de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989. __________. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução, notas e posfácio de Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. __________. Ecce homo. como alguém se torna o que é. 2ª ed. Tradução e introdução de Paulo César Souza. São Paulo: Max Limonad, 1986. __________. A vontade de potência: ensaio de uma transmutação de todos os valores. Tradução, prefácio e notas de Mário D. Ferreira Santos. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d. __________. “O eterno retorno” (textos de 1881) in Obras incompletas. 3ª ed. Seleção de textos de Gérard Lebrun; tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho; posfácio de Antônio Cândido. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Coleção Os pensadores). MACHADO, R. Zaratustra, tragédia nietzschiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

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A metáfora da águia com a serpente em 'Assim falou Zaratustra' - um desafio ao pensar e ao viver.