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Night Huntress. Vol 07 (ÚLTIMO LIVRO DA SAGA)

Up From the Grave (Saindo da Sepultura)

Jeaniene Frost SEMPRE HÁ MAIS UMA SEPULTURA PARA CAVAR. Ultimamente a vida tem sido estranhamente calma para os vampiros Cat Crawfield e seu marido, Bones. Eles deveriam ter pensado melhor antes de abaixar a guarda, por que uma revelação chocante os enviou de volta a ação para deter uma guerra geral… Um agente corrupto da CIA está envolvido em atividades secretas horríveis que ameaçam aumentar as tensões entre humanos e mortos-vivos à níveis perigosos. Agora Cat e Bones estão em uma corrida contra o tempo para salvar seus amigos de um destino pior do que a morte… porque quanto mais segredos eles desvendam, mais mortais são as consequências. E se eles falharem, suas vidas, e a de todos por quem eles se importam, estarão pairando à beira da sepultura.

Créditos:

Equipe Night Huntress de Tradução http://www.facebook.com/groups/nighhuntressoficial/ (sim, está escrito nigh e não night no link do grupo. Pequena falha técnica incorrigível no Facebook ;)


Prologo

C

runch.

O som era um alívio. Assim como a súbita frouxidão na forma abaixo dela. Acabou. Ela pulou para fora do corpo antes que ele começasse a vazar como todos eles faziam. Então ela ficou de prontidão, cuidando para não olhar diretamente para o homem velho que a assistia por trás de uma grossa camada de vidro. Ele não gostava quando ela olhava em seus olhos. O homem franziu os lábios enquanto considerava os resultados do seu último teste. Ela não moveu um músculo, mas, por dentro, sorria por causa da música que continuava tocando na mente dele. Seus outros instrutores raramente cantarolavam em seus pensamentos, mas ele fazia. Toda vez. Se isso não fosse deixá-lo bravo, ela diria a ele que gostava daquilo, mas seu instrutor não gostava de pessoas espreitando em sua mente. Ela ouviu aquilo brevemente após adquirir a habilidade, então ela nunca disse a ele sobre ela. — Sete segundos. — Ele disse finalmente, olhando para o cadáver. — Essas cobaias não representam mais um desafio para você. Ele parecia satisfeito, mas, ainda assim, ela não sorriu. Exibir emoções levava a muitas perguntas, e ela queria voltar às suas instruções. — Está na hora de seguir para a próxima fase. — Ele continuou. As palavras pareciam ser dirigidas a ela, mas, na verdade, ele estava falando com o homem por trás do espelho vinte metros acima dele. Como ela não deveria saber que ele estava lá, ela acenou. — Estou pronta. — Está? A forma como ele prolongou a palavra a avisou de que esse próximo teste não seria fácil, e foi por isso que ela não pôde se impedir de piscar em surpresa quando a rampa acima dela se abriu e outra cobaia caiu na arena. Ele parecia igual aos outros que ela neutralizou, mas quando ele levantou e a encarou, ela entendeu. Seu novo oponente não tinha batimento cardíaco.


— O que é isso? — Ela perguntou, seu coração começando a bater mais rápido. Seu oponente tinha uma pergunta, também. — Mas que porra é essa? — Neutralize isso. — Seu instrutor grisalho ordenou. Ela escondeu o desapontamento. Talvez, se terminasse rápido, ela seria recompensada com uma resposta. No mínimo, neutralizar essa… coisa, valeria a ela mais informação. Ela atacou sem outro momento de hesitação, varrendo as pernas daquilo debaixo dele antes de esmagar o cotovelo em sua garganta. Crunch. Seus ossos quebraram com o som comum, mas, ao invés de ficar mole, a coisa a jogou para longe e saltou para cima, dando ao velho um olhar de descrença. — O que você fez? Enquanto aquilo falava, seu pescoço estalou de volta ao lugar, consertando seu ângulo torto em menos tempo do que ela levou para piscar outra vez. Ela encarou, confusa. Que tipo de criatura podia se curar daquele jeito? — Você quer viver? — Seu instrutor respondeu friamente a coisa. — Você terá que matá-la. Aquelas mesmas palavras foram ditas para muitos oponentes antes desse, ainda assim, pela primeira vez, suas mãos ficaram úmidas. Com sua incrível habilidade de cura, era possível neutralizar essa coisa? Ela olhou para o velho, encontrando seu olhar por um segundo antes de desviar. Mesmo naquele breve momento, ela teve sua resposta. A coisa podia ser morta. Ela só tinha que descobrir como.


Capitulo Um

I

gnorar um fantasma é muito mais difícil do que você pensa. Para começar,

paredes não atrapalham sua espécie, então, apesar de eu fechar a porta na cara do espectro vadiando do lado de fora da minha casa, ele me seguia para dentro como se fosse convidado. Apertei a mandíbula irritada, mas comecei a descarregar os mantimentos como se eu não tivesse notado. Acabei muito rápido. Ser uma vampira, casada com outro vampiro, significava que minha lista de compras era bem pequena. — Isso é ridículo. Você não pode continuar me evitando para sempre, Cat, — o fantasma murmurou. Sim, fantasmas também podem falar. Isso os tornava ainda mais difíceis de ignorar. Claro, também não ajudava o fato de esse fantasma ser meu tio. Vivos, mortos, mortos-vivos… família tinha um jeito de entrar sob sua pele quer você queira ou não. Caso em questão: Apesar do meu voto de não falar com ele, não pude evitar responder. — Na verdade, já que nenhum de nós está ficando mais velho, eu posso fazer isso para sempre, — notei friamente. — Ou até que você fale tudo o que sabe sobre o idiota coordenando nossa antiga equipe. — É sobre isso que vim aqui falar com você, — ele disse. Surpresa e suspeita fizeram meus olhos se estreitarem. Por quase três meses, meu tio Don se recusou a divulgar qualquer coisa sobre meu novo inimigo, Jason Madigan. Don tinha uma história com Madigan, um importante ex CIA que tomou a unidade secreta do governo para a qual eu costumava trabalhar, mas ele continuava calado sobre os detalhes mesmo quando seu silêncio significava que Madigan quase tinha feito eu, meu marido e outras pessoas inocentes sermos mortos. Agora ele estava pronto para falar? Algo mais devia estar acontecendo. Don era tão patologicamente cheio de segredos que eu não tinha descoberto que éramos parentes até quatro anos depois de eu começar a trabalhar para ele. — O que aconteceu? — perguntei sem preâmbulos. Ele repuxou uma sobrancelha cinza, um hábito que ele não pôde perder


mesmo depois de perder seu corpo físico. Ele também vestia seu habitual terno e gravata apesar de morrer usando um traje de hospital. Eu acharia que eram minhas lembranças ditando como Don aparecia para mim exceto pelas centenas de outros fantasmas que conheci. Podia não existir shopping centers no pós vida, mas auto imagem residual era forte o suficiente para fazer os outros verem fantasmas do jeito que eles se viam. Em vida, Don foi o retrato de um perfeito burocrata de seus sessenta e poucos anos bem arrumado, então era como ele parecia em morte. Ele também não tinha perdido a tenacidade por trás daqueles olhos cor de chumbo, a única característica física que tínhamos em comum. Meu cabelo ruivo e pele pálida vieram do meu pai. — Estou preocupado com Tate, Juan, Dave e Cooper, — Don declarou. — Eles não estiveram em casa faz semanas e, como você sabe, não posso entrar no complexo para verificar se eles estão lá. Eu não salientei que era culpa de Don o Madigan saber como deixar o prédio a prova de fantasmas. Fortes combinações de erva, alho e sálvia queimando manteria todos, exceto os fantasmas mais fortes, afastados. Depois que um fantasma quase matou Madigan ano passado, ele equipou nossa antiga base com um fornecimento generoso dos três. — Quanto tempo faz, exatamente, desde que você os viu? — Três semanas e quatro dias, — ele respondeu. Ele pode ter falhas, mas Don era meticuloso. — Se apenas um deles estivesse afastado esse tempo todo, eu presumiria que ele estava em um trabalho disfarçado, mas todos eles? Sim, isso era estranho até mesmo para membros de uma divisão secreta da Segurança Interna que lidava com membros de mau comportamento da sociedade morta-viva. Quando eu era um membro do time, o trabalho disfarçado mais longo em que estive foram onze dias. Vampiros perigosos e ghouls tendem a frequentar os mesmos lugares se fossem tolos o suficiente para agir a ponto de chamarem a atenção do governo dos Estados Unidos. Porém, eu ainda não ia presumir o pior. Chamadas telefônicas estavam além das capacidades de Don como um fantasma, mas eu não tinha esse obstáculo. Tirei um celular da gaveta da minha cozinha, discando o número de Tate. Quando a secretária eletrônica atendeu, eu desliguei. Se algo tivesse acontecido e Madigan fosse responsável, ele estaria checando as mensagens de Tate. Não havia necessidade de lhe dar sinal de que eu estava bisbilhotando. — Nenhuma resposta, — eu disse a Don. Então deixei aquele telefone de


lado e peguei outro celular na gaveta, discando para Juan em seguida. Depois de alguns toques, uma voz melódica com sotaque espanhol me instruía a deixar uma mensagem. Não deixei, desligando e pegando outro telefone na gaveta. — Quantos desses você tem? — Don murmurou, flutuando sobre meu ombro. — O suficiente para dar a Madigan uma enxaqueca, — eu disse com satisfação. — Se ele estiver rastreando chamadas para os telefones deles, ele não vai descobrir minha localização em nenhum desses, por mais que ele adoraria saber onde estou. Don não me acusou de ser paranoica. Assim que ele assumiu o antigo emprego do meu tio, Madigan deixou claro que não gostava de mim. Eu não sabia o motivo. Naquela época eu já estava afastada do time e, até onde Madigan sabia, não havia mais nada especial a meu respeito. Ele não sabia que me transformar de meia vampira para vampira completa tinha vindo com efeitos colaterais inesperados. O telefone de Dave também foi direto para caixa postal. Assim como o de Cooper. Considerei tentar ligar para eles em seus escritórios, mas eles ficavam dentro do composto. Madigan podia ter escutas suficientes naquelas linhas para me localizar não importa o quanto eu tivesse arranjado para os sinais de celular serem redirecionados. — Ok, agora eu também estou preocupada, — eu disse finalmente. — Quando Bones chegar em casa, vamos descobrir um jeito de dar uma olhada mais de perto no complexo. Don me olhou sobriamente. — Se Madigan tiver feito alguma coisa a eles, ele vai esperar que você apareça. Mais uma vez comprimi o maxilar. Com certeza eu apareceria. Tate, Dave, Juan e Cooper não eram apenas soldados com quem lutei lado a lado por anos quando eu era parte do time. Eles também eram meus amigos. Se Madigan fosse responsável por algo ruim acontecendo com eles, logo ele iria se arrepender. — É, bem, Bones e eu tivemos alguns meses de relativa calma. Acho que é hora de animar as coisas novamente.


M

eu gato, Helsing, pulou do meu colo ao mesmo tempo em que o ar ficou

carregado com pequenas correntes invisíveis. Emoções rolavam sobre meu subconsciente. Não eram minhas, mas quase tão familiares para mim. Instantes depois, ouvi o som de pneus na neve. Quando a porta do carro se fechou, Helsing já estava na porta, sua longa cauda preta se contraindo em antecipação. Fiquei onde eu estava. Um gato esperando na porta era suficiente, obrigada. Com uma lufada de ar gelado, meu marido entrou. Um Bones revestido de neve, o fazendo parecer que tinha sido polvilhado com açúcar. Ele bateu os pés para retirar os flocos de neve de suas botas, fazendo Helsing pular com um sibilo. — Certamente ele acha que você deveria fazer carinho nele primeiro e lidar com a neve depois, — eu disse. Olhos tão escuros que eram quase negros encontraram os meus. Assim que eles se encontraram, meu divertimento se transformou em apreciação feminina primal. As bochechas de Bones estavam coradas e a cor acentuava sua pele impecável, feições esculpidas e boca sensualmente carnuda. Então ele tirou o casaco, revelando uma camisa azul escuro que se aderia aos seus músculos como se os revelasse. Jeans pretos estavam ajustados nos lugares certos, destacando um abdome liso, coxas fortes e uma bunda que podia ser uma obra de arte. Quando trouxe o olhar de volta para seu rosto, seu leve sorriso se transformou em um sorriso malicioso. Mais emoções envolveram meu subconsciente enquanto seu cheiro—uma rica mistura de especiarias, almíscar e açúcar queimado—enchia o ambiente. — Já sentindo minha falta, Kitten? Eu não sabia como ele conseguia fazer a pergunta soar indecente, mas ele fazia. Eu diria que o sotaque Inglês ajudava, mas seus melhores amigos eram Ingleses e suas vozes nunca transformavam meu interior em geleia. — Sim, — eu respondi, me levantando e indo até ele. Ele me observou, não se movendo enquanto eu deslizava lentamente minhas mãos para enlaçá-lo atrás do pescoço. Eu tinha que ficar na ponta dos pés para fazer isso, mas estava tudo bem. Isso nos deixou mais perto e sentir seu corpo firme era quase tão intoxicante quanto os redemoinhos de desejo que circulavam minhas emoções. Eu amava poder sentir suas emoções como se fossem minhas. Se eu soubesse que essa era uma das vantagens em ele me transformar em uma vampira completa, eu teria atualizado meu estado de


mestiça anos atrás. Então ele baixou a cabeça, mas antes que seus lábios roçassem os meus, eu me virei. — Não até você dizer que sentiu minha falta também, — eu provoquei. Em resposta, ele me pegou, seu aperto facilmente subjugando minha luta falsa. Couro macio encontrou minhas costas quando ele me colocou no sofá, seu corpo era uma barricada que eu não queria expulsar. Ele colocou as mãos ao redor do meu rosto, me segurando possessivamente enquanto o verde preenchia suas íris e as presas deslizavam de seus dentes. Minhas próprias presas cresceram em resposta, pressionando contra lábios que estavam entreabertos em antecipação. Ele inclinou a cabeça, mas ele apenas roçou sua boca sobre a minha com uma rápida carícia antes de rir. — Dois podem brincar de provocar, amor. Comecei a lutar a sério, o que o fez rir ainda mais. Meu alto número de mortes tinha me feito merecer o apelido de Red Reaper no mundo morto-vivo, mas mesmo antes dos novos e impressionantes poderes de Bones, eu não era capaz de vencê-lo. Tudo que meus movimentos fizeram foi esfregá-lo contra mim de forma mais erótica—que era o porquê de eu continuava fazendo. O zíper do meu blusão de moletom desceu todinho sem ele tirar as mãos da minha cabeça. Minhas roupas foram mais resultados da prática com sua nova telecinese. Em seguida, o fecho frontal do meu sutiã se abriu, desnudando a maior parte dos meus seios. Sua risada mudou para um rosnado que enviou um delicioso formigamento através de mim, endurecendo meus mamilos. Mas quando os botões de sua camisa azul se abriram, a cor me lembrou dos olhos de Tate—e a notícia que eu precisava contar a ele. — Tem algo acontecendo, — eu disse com um suspiro. Dentes brancos brilharam antes de Bones baixar a boca para meu peito. — Que cliché, mas, no entanto, verdade. A parte mais baixa de mim sussurrou que eu podia adiar essa conversa por uma hora ou mais, mas a preocupação com meus amigos afastou isso. Eu me dei uma sacudida mental e enchi a mão com os cachos castanhos escuros de Bones, puxando sua cabeça para cima. — Estou falando sério. Don apareceu e transmitiu uma informação potencialmente perturbadora. Pareceu levar um segundo para as palavras penetrarem, mas então ele ergueu as sobrancelhas. — Depois desse tempo todo, ele finalmente lhe disse


o que ele está escondendo sobre Madigan? — Não, ele não disse, — eu falei, balançando minha cabeça de verdade dessa vez. — Ele queria que eu soubesse que Tate e os outros não estiveram em casa por três semanas. Tentei ligar para seus celulares e só consegui caixa postal. Na verdade, isso me distraiu quanto a pressionar Don sobre o passado dele com Madigan. Bones bufou, o breve sopro de ar pousando no vale sensível entre meus seios. — Cara esperto, sabia que iria te distrair. Duvido que foi acidente o fato de ele lhe dar essa informação enquanto eu estava fora. Agora que a preocupação com meus amigos não era prioridade em minha mente, eu duvidava que isso fosse um acidente também. Don esteve em minha casa o suficiente para saber que Bones saia por algumas horas de vez em quando para se alimentar. Eu não ia com ele já que minhas necessidades nutricionais estavam em outro lugar. Interiormente eu xinguei. Descobrir se meus amigos estavam bem ainda era de extrema importância, assim como era descobrir o que Don sabia sobre Madigan. Devia ser monumental para meu tio manter em segredo mesmo quando não nos falamos por meses em resultado disso. Afinal de contas, eu não era apenas a única família que tinha restado para Don—como uma vampira, eu também era uma das poucas pessoas que podia vê-lo em seu novo estado de fantasma. — Vamos lidar com meu tio mais tarde, — eu disse, afastando Bones com um suspiro de arrependimento. — Agora, precisamos encontrar um jeito de entrar no meu antigo complexo que não envolva nós dois terminando em uma cela para vampiros.


Capitulo Dois

Q

uando eu trabalhava para o governo, projetei o sistema de segurança

que protegia a base da nossa equipe de operações. Não era suficiente que o edifício fosse um antigo abrigo antiaéreo da CIA com quatro, dos seus cinco níveis, abaixo do solo. Ele também tinha sensores monitorando a área em um quilômetro e meio em todas as direções, e eu quero dizer todas mesmo. Se um bando de ratos cavasse muito perto de um dos níveis subterrâneos, eles disparariam vários alarmes. E Madigan era ainda mais paranoico que eu. É por isso que Bones e eu estávamos a seis quilômetros e meio de distância, olhando para a base com binóculos do nosso poleiro no alto de uma árvore. Do lado de fora, parecia com um aeroporto privado comum que estava à beira de fechar. Lá dentro, ele continha uma das equipes táticas mais duras do país, para não mencionar toneladas de informação confidencial. As pessoas comuns não tinham ideia de que dividiam o planeta com mortos vivos, e era assim que nosso governo queria manter as coisas. Geralmente, eu concordava com a política de que a ignorância é uma bênção. Hoje, entretanto, isso tornava as coisas mais complicadas. — Vamos encarar, nós só temos uma escolha, — Eu disse, abaixando meus binóculos. — Don disse que Madigan não iria sair tão cedo, nós não podemos invadir o local sem matar pessoas inocentes e não há nenhuma maneira de nós entrarmos escondidos sem sermos pegos. Bones bufou. — Pensando em tocar a campainha, então? Eu o encarei. — Isso é exatamente o que eu pretendo fazer. Sobrancelhas escuras se ergueram por um instante, então ele deu de ombros. — Nos dá o elemento surpresa, pelo menos. Então ele largou seu binóculo e puxou o celular, digitando algo rápido demais para que eu pudesse ler. — O que é isso? — Segurança, — ele respondeu. — Se eu não mandar outra mensagem para Mencheres em seis horas, ele virá por nós.


Olhei de volta para o edifício com um tremor interno. E eu aqui me preocupando com transeuntes inocentes. Mencheres não era apenas a versão vampírica do avô de Bones e co-regente das duas enormes linhagens deles… Ele também é o vampiro mais poderoso que eu já conheci. Não sobraria nada de pé se ele viesse aqui nos buscar. — Vamos torcer para que Madigan esteja se sentindo cooperativo, — eu disse, tentando manter minha voz leve. Bones enfiou seu celular entre dois ramos e pulou, pousando em seus pés com mais graça que um jaguar. — Eu duvido, mas milagres acontecem.

E

la está aqui?

Era quase engraçado ouvir o tom chocado do outro lado da linha. Eu não podia ver o rosto do guarda através do seu visor escuro, mas sua voz também tinha uma distinta nota de surpresa. — Sim, senhor. Ela e o outro vampiro. Bones sorriu, imperturbável por todas as armas miradas em sua direção. Eu tinha tantas quantas miradas para mim. Pontos para os guardas por não serem sexistas. Houve um longo silêncio, então a voz de Madigan voltou à linha, soando concisa agora. — Deixe-os entrar. Bones e eu passamos pelos próximos cinco postos de controle sem incidentes antes de finalmente chegarmos ao edifício principal. Quando as espessas portas de metal da base fecharam atrás de nós, eu torci para que o som de trava fosse um novo recurso de segurança e não Madigan tentando nos prender. Isso não seria um bom sinal para o destino dos meus amigos, e muito menos para os empregados lá dentro. Mais guardas de capacetes nos escoltaram para o escritório de Madigan, não que isso fosse necessário. Eu poderia encontrar o caminho até mesmo vendada, visto que esse costumava ser o escritório do meu tio. Madigan não perdeu tempo em se instalar aqui uma vez que assumiu. O homem cujo passado era tão obscuro que meu tio se recusava a divulgar o que sabia sobre ele se levantou de seu assento quando entramos. Madigan


não estava sendo educado – aquilo era para reforçar o olhar afiado que ele lançava em nossa direção. — Você em uma coragem surpreendente. Eu dei de ombros. — Eu diria que nós estávamos pela vizinhança, mas… Eu deixei a frase suspensa. Bones assumiu imediatamente. — Você sabe que nós não suportamos você, então porque fingir que essa é uma visita social? Ou Madigan se lembrava de que franqueza era a marca registrada de Bones, ou ele não se importava com o insulto. Eu não poderia dizer, já que não podia ouvir seus pensamentos por trás de uma música de Barry Manilow que ele repetia em sua cabeça. Eu odiava Madigan, mas eu tinha que dar-lhe crédito pela defesa que ele tinha desenvolvido contra o controle de mente vampírico. Ninguém podia atravessar os mantras irritantes que ele escolhia. Então, com um brilho nos olhos que parecia muito satisfeito para meu gosto, ele acenou para as cadeiras em frente a sua mesa. — Eu disse que te prenderia se você voltasse, mas por acaso, temos alguns assuntos para discutir. Ele tinha assuntos comigo? A curiosidade me impediu de exigir saber onde Tate e os outros estavam. Eu veria o que Madigan tem na manga primeiro. Bones ficou onde estava, mas eu sentei e estiquei minhas pernas quase vagarosamente enquanto considerava o homem magro de óculos em minha frente. — Dispare. Um leve sorriso esticou a boca de Madigan, como se estivesse contemplando a outra possibilidade por trás daquela diretiva. — Da última vez que você esteve em meu escritório, você me disse para ler o seu arquivo pessoal. Eu segui seu conselho. Eu vagamente me lembrava de ter dito a ele para fazer isso, para que ele percebesse que meu tio também já foi tão desconfiado de vampiros quando Madigan era. Don superou seu preconceito, mas Madigan nunca mudaria sua visão hostil sobre a minha espécie, não que eu me importasse mais. — Aham, — eu disse com um grunhido evasivo. — Quando o fiz, encontrei algo interessante, — ele continuou, antes de tirar os óculos como se para procurar por fiapos nele.


— O quê? — Eu perguntei, não me importando em esconder o tédio em minha voz. Ele olhou para cima, e seu olhar azul brilhou. — Você partiu antes que seu termo de serviço acabar. Agora eu bufei em diversão. “Você deveria ter lido aqueles arquivos mais cuidadosamente. Don concordou em encurtar meus termos de serviço se Bones transformasse em vampiros os soldados que ele escolheu. Nós terminamos aqui quando Bones transformou Tate e Juan. Dave ser trazido de volta como um ghoul foi um bônus. — Esse foi o acordo que Don requisitou aos seus superiores, mas seu pedido foi negado. — Madigan me deu um breve sorriso de satisfação enquanto colocava seus óculos de volta. — De acordo com o governo dos EUA, você ainda tem cinco anos de serviço ativo para cumprir e, ao contrário do seu falecido tio, eu não vou falsificar registros para te deixar escapar disso. Eu estava muito chocada para responder, mas a risada do Bones quebrou o silêncio. — Você tem que estar zoando comigo. — Eu deveria saber o que isso significa? — Madigan perguntou friamente. Bones se inclinou para frente, todos os vestígios da risada haviam sumido. — Permita-me ser claro: se você pensa que vai forçar minha esposa a trabalhar para você, você não sabe com quem está fodendo. Se ele estava se referindo a ele ou a mim, eu não sabia, e finalmente encontrei minha voz. — Você ganhou pontos por contar a melhor piada que eu ouvi o ano todo, mas eu não estou com humor para jogar. Nós viemos para descobrir onde Tate, Dave, Juan e Cooper estão. Pelo que ouvi, eles não foram para casa em semanas. — Isso é porque eles estão mortos. Minha mente imediatamente rejeitou as palavras ditas sem rodeios, razão pela qual eu não saltei para frente e rasguei a garganta de Madigan ali mesmo. — Duas piadas. Você está com tudo, mas eu estou sem paciência. Onde eles estão? — Mortos. Madigan pronunciou a palavra com algo próximo à satisfação dessa vez. Eu


estava de pé, presas expostas para rasgar carne, quando Bones me puxou de volta com um aperto tão forte que eu não pude quebrar mesmo em minha fúria. — Como? — Bones perguntou calmamente. Madigan deu um olhar cauteloso para o aperto que Bones tinha em mim antes de responder. — Eles foram mortos enquanto tentavam derrubar um ninho de vampiros. — Deve ter sido um ninho e tanto. Madigan deu de ombros. — Como se viu, sim. — Eu quero os corpos deles. Madigan mostrou mais surpresa do que quando eu pulei nele. — O quê? — Os corpos deles, — Bones respondeu, sua voz endurecendo. — Agora. — Por quê? Você nem mesmo gosta do Tate. — Madigan resmungou. Minha fúria assassina abrandou. Ele estava protelando, o que significava que, com toda probabilidade, ele estava mentindo sobre as mortes deles. Eu bati de leve no braço do Bones. Ele me soltou, mas uma mão permaneceu na minha cintura. — Meus sentimentos são irrelevantes, — Bones respondeu, — Eu os criei, então eles são meus, e se estão mortos, então você não terá mais uso para eles. — E que possível uso você teria? — Madigan exigiu. Uma sobrancelha escura se ergueu. — Não é da sua conta. Estou esperando. — Então é bom que você não envelhece. — Madigan rosnou enquanto levantava. — Seus corpos foram cremados e suas cinzas jogadas fora, então não sobrou nada para dar a você. Se Madigan queria nos fazer crer que eles estão mortos, então eles devem estar em sérios problemas. Mesmo que Madigan não esteja por trás disso, ele claramente pretendia deixá-los para enfrentar seu destino. Eu não. Algo em meu olhar deve tê-lo alarmado, porque ele olhou para a esquerda e direita antes de balançar uma mão na direção de Bones. — Se você não pretende deixá-la completar seu termo de serviço, então os


dois podem sair. Antes que eu a prenda por abandono do dever, deserção e por tentar me atacar. Eu esperava que Bones o dissesse para onde ir, e foi por isso que eu fiquei tão chocada quando ele apenas acenou. — Até a próxima. — O quê? — Eu estourei. — Não vamos partir sem mais respostas! Sua mão apertou minha cintura. — Nós vamos, Kitten. Não há nada para nós aqui. Eu encarei Bones antes de voltar minha atenção para o homem velho e magro. O rosto de Madigan tinha ficado pálido, mas sob o pesado cheiro de colônia, ele não cheirava a medo. Ao invés disso, seu olhar azul estava desafiante. Quase… ousado. Mais uma vez, o aperto de Bones se intensificou. Algo mais estava acontecendo. Eu não sabia o quê, mas eu confiava em Bones o suficiente para não agarrar Madigan e começar a morder a verdade para fora dele como eu queria. Ao invés disso, eu sorri o suficiente para descobrir minhas presas. — Desculpe, mas eu não acho que você e eu teríamos uma relação de trabalho saudável, então terei que recusar a oferta de trabalho. Múltiplos passos soaram no corredor. Momentos depois, guardas de capacete, fortemente armados, apareceram na porta. Em algum momento Madigan deve ter apertado um alarme silencioso – um upgrade que ele deve ter instalado desde a minha visita anterior ao seu escritório. — Saiam. — Madigan repetiu. Eu não me incomodei em fazer qualquer ameaça, mas o único olhar que lancei a ele disse que isso não havia acabado.

N

ós fomos seguidos por todo o caminho da base até a árvore onde Bones

deixou seu celular. Assim que Bones o recuperou, nós nos lançamos no ar. Levou uma hora cruzando o céu antes que nós despistássemos o helicóptero. Bones poderia tê-lo destruído, mas eu não tinha nada contra o piloto além de suas habilidades de manobras. Assim que tivemos certeza de que tínhamos despistado nossos perseguidores, eu despenquei em um campo próximo, aterrissando com um baque e derrapando.


Bones caiu no chão ao meu lado sem nem mesmo dobrar os caules da grama para provar. Um dia eu dominarei aterrisagem graciosamente assim. Por enquanto, eu fui bem em não deixar uma pequena cratera em meu rastro. — Por que nós deixamos Madigan sair dessa tão fácil? — Foram minhas primeiras palavras. Bones limpou alguma sujeira que eu levantei com meu impacto. — Minha telecinese não é forte o suficiente para ter parado todas as armas. Minha risada foi mais descrente do que divertida. — Você pensou que os guardar seriam mais rápidos que você? — Eles não, — Bones disse firmemente, — As metralhadoras automáticas nas paredes em ambos os nossos lados. — O quê? — Eu arfei. Então eu me lembrei de como Madigan tinha olhado para a direita e esquerda quando eu estava prestes a agredi-lo. Eu pensei que ele estava olhando em volta em alarme. Obviamente não. Não é de se espantar que ele não estivesse cheirando a medo. — Como você soube? — Perguntei. — A sala cheirava a prata e pólvora, apesar de não haver nada à vista, além disso, a textura das paredes ao redor da mesa dele havia mudado. Ele olhando para elas quando se sentiu ameaçado só confirmou tudo. E eu aqui pensando que o alarme silencioso tinha sido a única adição de Madigan ao escritório. Nota para si: Preste mais atenção ao redor. — Por que ele não as usou? Ele sempre nos considerou uma ameaça, e agora que sabemos que ele está mentindo sobre os rapazes, ele está certo. A expressão de Bones estava friamente contemplativa. — Talvez ele não estivesse seguro de que aquelas armas seriam suficientes, mas mais revelador foi como ele tentou te obrigar a trabalhar para ele. Ele te quer para alguma coisa, Kitten, o que significa que ele precisa de você viva. As novas medidas de segurança eram apenas para se ele não tivesse outra escolha. Eu fiquei em silêncio enquanto digeria aquilo. Desde que nos conhecemos, vários meses arás, Madigan tinha exibido um interesse incomum em mim, e não era do tipo lisonjeiro. O que quer que ele queira, isso resultaria em minha morte, eu não tinha dúvidas disso. A única coisa que eu não tinha certeza era o


que ele esperava conseguir antes disso. Ele não teria a chance de descobrir. Assim que eu descobrir o que aconteceu com meus amigos, eu matarei Madigan. — E agora? — Eu perguntei, mentalmente me preparando para o caminho à frente. Bones me deu um olhar cuidadoso. — Agora nós rastreamos seu tio e o forçamos a dizer o segredo que ele está tentando tanto esconder.


Capitulo Três

E

ssa é a minha sorte… quando eu não quero falar com o Don, eu não

consigo fugir dele. Agora que eu preciso falar com ele, ele não está em lugar algum. Após dois dias esperando que ele aparecesse, minha paciência acabou. Em algum lugar lá fora, meus amigos estavam em perigo, e cada segundo que passava poderia estar levando-os mais perto da morte. Uma vez, eu fui capaz de invocar fantasmas a quilômetros de distância, eles querendo vir ou não, mas esse poder, como todos os outros que eu absorvi quando bebi sangue mortovivo, desapareceu. No seu estado incorpóreo, eu não podia ligar, mandar mensagem ou e-mail para meu tio para exigir que ele aparecesse, mas havia outra forma de contatá-lo, apesar de isso requerer uma viagem. Bones e eu chegamos ao shopping-center de Washington, D.C., quando o sol estava se pondo. As luzes ainda estavam acesas na Floricultura Helena de Tróia, iluminando os vários arranjos de flores que a loja vendia. Mais importante era o homem afro-americano que eu vislumbrei entre as flores, sua blusa vermelha apertada o suficiente para parecer pintada nele. — Bom, ele está aqui. — Eu disse. Nós não tínhamos ligado porque eu não estava certa se Tyler concordaria em nos ajudar. Da última vez, isso quase o matou. As pessoas tendem a guardar rancor desse tipo de coisa, mas um bom médium é difícil de encontrar. À medida que nos aproximávamos da loja, um cachorro começou a latir. Segundos depois, um rosto peludo e cheio de baba pressionou contra a parte inferior da porta de vidro, todo o seu traseiro tremendo pelo quão forte ele sacudia o rabo. — O que já com você, Dexter? — Tyller murmurou. Então ele se aproximou e viu Bones eu do outro lado do vidro. Oh, nem FODENDO, passou pela sua mente.


— Isso é jeito de receber antigos amigos? — Bones perguntou secamente. Tyler puxou os ombros para trás, esticando ainda mais o tecido da sua camisa. — Isso não é um cumprimento, docinho. É minha resposta para o que quer que vocês tenham vindo aqui me pedir para fazer. — Oi, Tyler, você está ótimo, — Eu disse, contendo um sorriso enquanto entrava em sua loja. — Amei a camisa. É uma Dolce? Ele se animou por um momento antes de se conter. — Robert Graham, e não tente essa fala doce comigo. Eu tive que pintar o cabelo para tirar o grisalho que vocês dois causaram da última vez que eu ajudei vocês! Eu ignorei aquilo, acariciando Dexter e brincando com ele. O grande bulldog inglês vibrou de alegria enquanto cobria minhas mãos de beijos molhados. — Traidor, —Tyler disse, exasperado. Bones deu tapinhas nas costas de Tayler. — Não precisa pirar, companheiro. Nós apenas queremos que você contate o tio dela para nós. — Don? — Tyler zombou. — Por que você precisa de mim para isso? Eu olhei para cima. — Por que não podemos gastar mais tempo esperando que ele apareça por conta própria. Madigan fez algo para os nossos amigos. Com a menção do nome, um dilúvio de insultos correu pela mente de Tyler. Madigan tendia a fazer mais inimigos do que amigos. Ainda assim, a suspeita fez os olhos cor de chocolate de Tyler se estreitarem. — Nada de construir armadilhas ou ter objetos de madeira enfiados em minha garganta por fantasmas assassinos, certo? Eu faço contato com Don, e nós acabamos? — Prometo, — Bones disse imediatamente. O olhar de Tyler correu sobre ele. — Você é muito bonito para que eu recuse, Bonesy. — Ele disse com um suspiro triste. Então ele piscou para mim. — Mas não bonito o suficiente para que eu faça isso de graça.


Eu bufei, acostumada com os flertes de Tyler, tanto quanto com sua ganância. — Fechado. Foi assim que dois vampiros, um médium e um cachorro vieram a se sentar ao redor de um tabuleiro Ouija, no quarto dos fundos de uma floricultura. Isso soava como o enredo de um filme de sábado a noite no canal SyFy, mas às vezes “estranho” era o ingrediente chave para conseguir as coisas. Quando em mãos de médiuns habilidosos, tabuleiros Ouija abrem portar para o outro lado. A urna com as cinzas de Don era a garantia de que nós não teríamos que procurar entre os espíritos antes de chegar a Don. Tyler e eu descansamos as pontas dos nossos dedos na peça de madeira após ele espalhar uma fina camada das cinzas de Don no tabuleiro. Então ele começou a recitar um chamado para meu tio aparecer. Depois de alguns minutos, a peça começou a se mover, e arrepios cresceram na base do meu pescoço. Dexter choramingou, o som ansioso e excitado. Animais podem sentir a presença de fantasmas melhor do que ninguém, inclusive vampiros. Então um redemoinho apareceu sobre o tabuleiro Ouija, como um mini tornado que não gerava qualquer vento. Tentáculos gelados deslizaram pela minha coluna em uma carícia lenta. Nós não éramos mais os únicos no quarto. — Ele está aqui? — Tyler perguntou, ainda incapaz de ver a o redemoinho de energia. Eu encarei para aquilo, assistindo crescer e se alongar até tomar a forma de um homem velho em um terno executivo, o tabuleiro Ouija saindo de sua barriga como se ele tivesse sido cortado com meio com aquilo. — Oi, Don, — Eu disse com satisfação. — Que bom que você conseguiu vir. Meu tio olhou ao redor, confuso. — Cat. Como…? — Como eu te arranquei de seja lá em qual canto da pós-vida você estava se escondendo? — Eu o interrompei. — Eu sou amiga de um médium, lembra? Don olhou para o tabuleiro saindo de seu estômago, sua boca curvando para baixo. — Quem diria que essas coisas realmente funcionam? — Faça amizade com outros da sua espécie, você aprenderá muitas coisas,


— Tyler disse, estreitando os olhos na direção do Don. Então sua testa alisou. — Oh, aí está você. — Não há tempo para brincadeiras, Don, — Bones disse. — Você precisa nos dizer tudo o que tem escondido sobre Madigan. A vida do meu pessoal depende disso. Don franziu. — Seu pessoal? — Tate, Juan, Dave e Cooper, — Eu esclareci. — Eles são considerados do Bones sob a lei vampírica. Mais importante, eles são nossos amigos. Você sabe que eles estão desaparecidos. Bem, Madigan afirma que eles foram mortos em um trabalho, mas ele está mentindo, o que significa que eles estão em sérios problemas. O ar não se moveu apesar do pesado suspiro de Don. — Eu queria que você investigasse o desaparecimento deles porque eu esperava que eles tivessem desertado seus postos e estivessem se escondendo de Madigan. Ou estavam profundamente disfarçados, ou até mesmo terem morrido em uma missão. Qualquer coisa menos isso, porque se Madigan os tem, então a essa altura, eles provavelmente estão mortos. Apenas a sua falta de forma sólida me impediu de sacudi-lo. — Ou eles estão vivos, presos em algum lugar, e esperando que nós façamos alguma coisa. O olhar que ele me deu estava tão cheio de tristeza que eu quase não percebi a outra emoção em seu rosto. Vergonha. — Quando Madigan assumiu meu antigo trabalho, eu temi que ele pudesse tentar isso, mas eu não esperava isso tão cedo. Eu sinto muito, Cat. Não há nada que você possa fazer. Nem eu. Sem dúvidas Madigan protegeu aquele edifício contra fantasmas, também. — Que edifício? As duas palavras ferveram com ameaça. Assim como o olhar que Bones lançou para Don. Ambos deveriam ter assustado meu tio o suficiente para responder com a verdade. Ao invés disso, ele suspirou novamente. — Se você se aproximar de Madigan novamente, mate-o. Você não pode


salvar Tate e os outros, mas você pode vingá-los e salvar outros como eles se as coisas não foram longe demais ainda. Antes que eu pudesse perguntar o que diabos ele queria dizer com aquilo, ele desapareceu. — Espere! — Eu gritei. Nada. Nem mesmo um ponto gelado permaneceu no ar. Bones xingou, mas eu joguei a peça de madeira para Tyler e joguei outra pitada das cinzas de Don no tabuleiro Ouija. — Traga-o de volta. Agora. — Cat, — Tyler começou. — Faça, — Bones disse. Tyler murmurou alguma coisa sobre como vampiros são irracionais, ainda assim, mais uma vez, ele invocou o espírito de Don para retornar. Ele voltou, mas após alguns segundos de silêncio absoluto, enquanto eu o xingava, meu tio desapareceu. Nós repetimos o mesmo processo uma e outra vez com o mesmo resultado. Era o equivalente sobrenatural a ligar e ter a ligação desligada na cara. — Você não pode fazer nada para fazê-lo ficar? — Eu perdi a paciência. Tyler me deu um olhar sarcástico. — Eu tentei te dizer que não posso, Senhor e Senhora Impaciência, mas vocês não escutaram. Só há uma forma de fazer um fantasma ficar se ele não quer, e você se lembra que pé no saco é. Além disso, você realmente quer trancar seu tio em uma armadilha? No momento, a ideia tinha absoluto apelo. Conhecendo Don, entretanto, ele permaneceria em um silêncio teimoso mesmo que nós o trancássemos em uma cela à prova de fuga para fantasmas. Além disso, fazer uma demoraria muito. Pelas poucas pistas sombrias que Don nos deu, Tate e os caras estavam em problemas letais. Nós tínhamos que agir agora, mas eu não sabia o que fazer. Tyler era nosso especialista, e ele estava sem ideias. — Isso não faz sentido, — Eu continuei a esbravejar. — Foi Don que nos avisou que Tate e os outros estavam desaparecidos, ainda assim, agora que


confirmamos que Madigan os tem, ele se recusa a nos ajudar! Eu não entendo isso. Bones tateou seu queixo, sua expressão furiosa e determinada. — Eu entendo. Significa que Don prefere ver pessoas por quem ele se importa morrer do que revelar o que ele sabe sobre Madigan, mas há uma pessoa que pode forçar o seu tio a falar — Quem? — Eu perguntei. Então a compreensão bateu. — Claro! Ninguém sabe mais sobre fantasmas do que Marie Leveau, e como todo aquele poder da sepultura nela, não há nada que ela não possa obrigar Don a fazer. Eu podia afirmar – eu já experimentei as habilidades de Marie após ela me forçar a beber seu sangue. A memória me fez tremer. Ter uma linha direta com o outro lado é mais poder do que qualquer um deveria ter. Bones me lançou um olhar rígido. — O que me preocupa é o que ela irá querer em troca. Marie não faz nada sem um preço. Aquilo me preocupava, também. A última vez que eu vi Marie não foi exatamente amigável, se você contar o fato de que nós duas ameaçamos assassinar uma a outra. — Espere um minuto. Tyler levantou, um enorme sorriso no rosto. — Vocês dois estão falando sobre Marie Leveau, a rainha voodoo de Nova Orleans que supostamente morreu há mais de um século? — Essa mesmo, — Eu disse, subitamente cansada. Tyler bateu palmas com a pura alegria de uma criança. — Isso vai ser tão divertido! Agora suspeita substituiu meu cansaço. — O quê? Ele me ignorou, pegando Dexter e gemendo com o peso do cachorro. — Não se preocupe, baby, papai não vai te deixar para trás. — Nenhum dos dois vai a lugar algum. — Bones disse categoricamente. Tyler olhou para ele como se pensasse que foi ele quem ficou louco.


— Namorado, deixe-me soletrar isso para você. Você me deve muito, e eu estou cobrando isso. Você tem alguma ideia do fenômeno que Marie é no mundo médium? É como descobrir que Papai Noel é real e ganhar uma passagem de primeira classe para a oficina dele! Eu tentei a lógica, embora soubesse que não iria funcionar. — Você não entende, Tyler. Ela é perigosa. Um rolar de olhos. — Eu não esperava que ela tivesse passado os últimos cem anos tricotando. Na verdade, Marie tricotava sim. Ela também pode invocar espectros chamados Remnants que rasgavam através dos vivos e mortos vivos com uma facilidade ridícula, além de trabalhar magia negra suficiente para explodir uma cidade. E então há os poderes dela sobre fantasmas. Yeah, Marie é certamente assustadora. Se eu não tivesse lutado e sangrado ao lado de Tate e dos outros por anos, eu reconsideraria pedir a ajuda de Marie. Se ela concordar, ela não irá querer ser recompensada com dinheiro. Não, ela irá querer algo muito mais valioso. Eu encontrei o olhar do Bones. O olhar em seus olhos castanhos escuros dizia que ele esperava que isso fosse tão perigoso quanto eu pensava, ainda assim, não havia hesitação em sua dura e definida expressão. — Eles são minhas pessoas, erguidos do meu sangue ou juraram por ele, e nenhum Mestre deixa suas pessoas para trás quando há uma chance de salválos. Eu não era Mestra de uma linhagem, mas eu concordava com cada palavra. Nenhum amigo de verdade deixaria seus amigos para trás para morrer, também. — Parece que vamos para Nova Orleans, — Eu disse baixinho. Tyler fez um ruído exasperado. — Podemos parar de falar sobre isso e fazer isso logo?


Capitulo Quatro

A

s luzes de Nova Orleans brilhavam como cristais contra as águas

escuras ao redor da longa ponte que nos deixou entrar na cidade. Finalmente, nós estávamos aqui. Foi mais de um dia dirigindo, considerando que nós tivemos que passar por nossa casa em Blue Ridge para pegar meu gato. Nós não podíamos voar para Nova Orleans por causa das bolsas de alho e maconha que nós trouxemos para o caso de Marie enviar seus espiões espectrais para nós. Quanto a alugar um trailer ao invés de pegar nosso carro, bem, essa não era a primeira vez que eu viajava com Dexter. Os gases do cachorro podiam ser considerados armas químicas, e o espaço extra me dava algum lugar para fugir. Nós tínhamos acabado de virar no French Quarter quando Tyler soltou um suspiro maravilhado. — Lá estão eles. Olhei para fora da janela. Fantasmas cobriam o French Quarter mais que colares de plástico durante o Mardi Gras. Eles flutuavam através de multidões de turistas, ficavam sobre telhados, bares e, é claro, passeando pelos famosos cemitérios da cidade. A coisa mais impressionante sobre eles é o quanto deles estavam conscientes. A maioria dos fantasmas costuma ser repetições de um momento no tempo. Incapazes de pensar, apenas infinitamente representando o mesmo incidente. Não surpreendentemente, muitos daqueles incidentes contavam as suas mortes. A morte é um evento importantíssimo para qualquer um. Mas os residentes etéreos da Cidade Crescente eram diferentes. A maioria deles era tão cheia de vida quanto as pessoas ignorantes sobre a presença deles. Alguns eram travessos. O jovem que tropeçou e caiu de cara no decote de uma menina bonita não tinha ideia de que tinha sido empurrado por um fantasma que gargalhou com o tapa que o garoto humilhado recebeu. Mais distante na calçada, uma dupla de fantasmas se divertia inclinando para cima os copos dos festeiros, assim, o esperado gole se transformava em um banho


no rosto. Tyler riu quando viu isso. — Eu espero não voltar depois de morrer, mas se eu voltar, vou me mudar para cá, onde a festa nunca termina. Bones lançou um olhar para ele antes de voltar sua atenção para as ruas estreitas. — Não recomendaria isso, companheiro. Nova Orleans não é a cidade mais assombrada do mundo por acaso. Tyler deu de ombro. — Então, um monte de pessoas são assassinadas aqui. Eu vou evitar os fantasmas mal-humorados. — Não é isso o que ele quis dizer. Eu sussurrei as palavras. Nós estávamos agora profundamente no território de Marie, e a rainha de Nova Orleans tinha espiões em todos os lugares. — O poder de Marie atraí fantasmas para ele, e uma vez que eles estão presos nisso, como insetos em uma teia de aranha, a maioria deles não é forte o suficiente para partir. Ao invés de aceitar aquilo como o aviso que eu pretendia, Tyler sorriu. — Você tem que me apresentar a ela. Isso vai fazer valer minha vida. Ou sua morte, eu pensei cinicamente, mas mantive aquilo para mim. Maria era seletiva sobre a quem ela concedia uma audiência. Ela poderia até mesmo não concordar em contar comigo e com Bones, então eu duvido de que ela vá arranjar um horário em sua agenda para bater papo com um fã desconhecido. — Inferno sangrento. As palavras rosnadas afastaram minha atenção de Tyler. Nós estávamos quase na casa geminada de Bones, apesar disso, ele estava encarando mais abaixo na rua com uma expressão resignada no rosto. Ele estava percebendo só agora que o trailer nunca caberia no espaço que levava até a garagem? Então eu vi o alto e forte homem afro-americano parado em frente à nossa casa geminada, nos encarando de volta como se ele estivesse esperando a noite toda por nossa chegada. — Merda, — Eu falei sob a respiração.


Bones me lançou um olhar como se concordasse totalmente comigo, embora ele não tenha falado nada enquanto estacionava próximo ao homem e abaixava a janela. — Jacques, — ele cumprimentou friamente o enorme ghoul. — Bones. Reaper, — ele respondeu, dirigindo-se a mim pelo meu apelido. —Vocês devem deixar o seu veículo comigo. Majestic está esperando por vocês. — Ooh, vocês têm um porteiro? — Tyler soou impressionado. — Eu não sei por que vocês vivem naquela cabana caipira em vez de aqui. — Ele não é um porteiro, — Eu disse, amaldiçoando internamente. — Ele é o braço direito de Marie. Tyler olhou para o ghoul com mais interesse. — Sério? Eu pensei que vocês não tivessem ligado para ela para avisar que vocês estavam vindo. — Você pensou certo, — Bones disse, saindo do carro. Nenhum de nós se incomodou em levar nossas armas. Todas elas eram inúteis contra Marie. Tyler olhou para Jacques novamente antes de encontrar meu olhar. Então vocês estão ferrados, não estão? Passou pela mente dele. Meu sorriso foi rígido. Marie sempre concedia passagem segura de e para uma reunião, mas assim que a reunião acabava, todas as apostas estavam fora. — É isso o que vamos descobrir. Bones deu as chaves do trailer para Jacques antes de dar um jogo diferente para Tyler. — Entre. Nós voltaremos mais tarde. Se ele tinha qualquer dúvida sobre o que aconteceria após o nosso encontro, ele não mostrou em seu tom de voz. Eu ajeitei meus ombros e adotei sua atitude confiante. Então os espiões de Marie descobriram que nós entramos em sua cidade. Pelo lado positivo, agora não teríamos que esperar para ver se ela concordaria em falar conosco. Pelo lado negativo, eu duvidava de que ela tenha enviado alguém para nos levar imediatamente por que ela sentia saudade de nós, mas só havia uma forma de descobrir o que ela queria. Eu forcei um tom descontraído enquanto


me virava para Tyler. — Não se divirta muito enquanto estamos fora. Ele deu um olhar incisivo para o forte ghoul antes de responder. — Eu vou guardar isso para quando vocês voltarem. — Então para Jacques ele disse; — Você não vai dirigir essa coisa para lugar algum até que eu pegue o meu cachorro e o gato dela.

C

omo regra, cemitérios não me incomodam. Eles eram cheios de pessoas

mortas, e como eu descobri desde que comecei a caçar vampiros, com dezesseis anos, pessoas verdadeiramente mortas não podem te machucar. É com os vivos e mortos vivos que você tem que se preocupar. Então não era o fato de caminhar entre os milhares de restos mortais no Cemitério Número Um de Saint Louis que fez um arrepio correr por minha coluna. Era o conhecimento sobre o que repousava sob a cripta da residente mais famosa do cemitério. A tumba de Marie Leveau seria fácil de encontrar se eu não soubesse sua localização. Com mais de um metro e oitenta de altura, ela tinha vários conjuntos de “X” negros, rabiscados nas suas laterais brancas. Ela também sempre tinha oferendas na frente dela apesar de coveiros limparem regularmente. Nesta noite, as contribuições consistiam em velas apagadas, flores, moedas, pérolas, balas, pedaços de papel e um par de fones de ouvido de IPod. Eu ignorei todos os tributos enquanto caminhava até a frente da cripta e batia em seu topo quadrado. — Estamos aqui, Majestic. O som de trituração começou imediatamente. Eu pulei para trás e observei enquanto o bloco de cimento onde eu estava se movia para revelar uma escuridão nebulosa. Todas as oferendas que estavam naquele lugar caíram com um abafado som molhado na escuridão abaixo. Nenhuma voz nos disse para entrar. Não era necessário. Esse era o mais perto de um convite que qualquer um conseguiria de Marie. Eu tinha que dar crédito para a rainha voodoo. Ela sabia como maximizar sua versão de “vantagem do time da casa”.


Eu estava prestes a pular no buraco quando Bones me impediu com uma mão no meu ombro. — Eu vou primeiro, Kitten. Eu não discuti. Isso não era uma bofetada para o meu feminismo – isso era boa estratégia de batalha. Bones pode não ter dominado totalmente sua telecinese, mas uma pequena habilidade para controlar objetos com sua mente era muito melhor do que nenhuma. Além disso, Marie não estava ciente do seu novo poder, então se as coisas tomassem um rumo inesperadamente letal, nós tínhamos o elemento surpresa. Bones pulou no poço, pousando com um pequeno splash cerca de seis metros abaixo. Nada subterrâneo em Nova Orleans podia ficar seco para sempre, mesmo com o impressionante sistema de bombeamento de água que Marie tinha sob o cemitério. Eu pulei em seguida, feliz por estar de botas, assim, o que quer que tenha feito splash sob meus pés não acabaria respingando em minha pele. O buraco sobre nós fechou imediatamente, mergulhando o túnel o mais próximo da escuridão completa que a visão vampírica permitia. Só havia um caminho para ir, então Bones caminhou para dentro do túnel, e eu segui. Nós tínhamos que andar em fila indiana para evitar tocarmos nas paredes, e eu queria evitá-las por mais razões do que suas camadas de mofo esponjoso. Madigan não era a única pessoa que amava armadilhas. Marie tinha longas facas alinhadas escondidas nessas paredes, e um leve toque as faria cortar em pedacinhos quem quer que fosse azarado o suficiente para estar no caminho delas. Após cerca de vinte e sete metros, nós chegamos a uma porta de metal com dobradiças que deveriam estar enferrujadas, mas que não fizeram nenhum ruído quando abrimos a porta. Ela abria para uma escadaria curta que levava ao quarto sem janelas que eu imaginava que estava dentro de uma das maiores criptas públicas. Não parecia haver saída além do caminho pelo qual viemos, mas, mais uma vez, as aparências enganam. Veja, por exemplo, a linda mulher afro-americana na cadeira reclinável na nossa frente. Manolo Blahniks* apareciam sob sua saia fúcsia, sua cor brilhante repetida corrente de pedras preciosas que pairavam sobre seu suéter preto. Ela cortou o cabelo desde a última vez que a vi, o comprimento escuro


agora terminava em seu queixo, ao invés de em seus ombros. A mudança emoldurava a cremosa feição cor de chocolate que não aparentava idade e, ainda assim, era levemente marcada. *Designer e sapatos. O mais perto que eu cheguei de identificar a idade de Marie quanto ela foi transformada em ghoul era quarenta ou cinquenta, mas não havia dúvidas dos anos em seu olhar. Aqueles olhos cor de avelã continham conhecimento que intimidaria o mais louvado dos sábios, e eu não deixava o seu sorriso suave me enganar. Ele era mais de advertência do que de boas vindas, embora seu batom cor de concha pudesse ser. — Majestic, — Bones disse, chamando-a pelo nome que ela prefere. Aquela boca exuberante se curvou ainda mais. — Reaper. Bones. O que os traz à minha cidade? Sua fala lenta era puro Creole do Sul, mais macia que manteiga e mais doce do que torta, mas como de costume, Marie nãos e incomodou com falsas gentilezas. Essa característica nós tínhamos em comum. Duas cadeiras desocupadas eram os únicos outros móveis na pequena sala, mas eu não me sentei. Isso não iria demorar. — Estamos aqui para pedir um favor, se você for capaz de fazê-lo. As sobrancelhas de Marie se ergueram com minha declaração desafiadora. Bones deu a ela um sorriso suave, mas seus escudos se abriram e eu senti sua aprovação penetrando minhas emoções. Agora, pelo menos, ela ouviria o que era o pedido, ao menos para provar que ela podia fazer. — O que é? — Precisamos interrogar um fantasma que continua fugindo de nós, — Eu disse. — Você pode fazer um ficar, se ele não quiser? Ela se inclinou e pegou um copo de vinho que eu não tinha notado. Deve ter estado escondido sob as dobras de sua saia. A visão daquele líquido vermelho trouxe de volta uma memória induzida por raiva da última vez que nós três estivemos nessa sala: Bones preso na parede com Remnants rasgando-o de dentro para fora e Marie se recusando a chamá-los de volta até que eu


concordasse em beber o sangue dela. Conhecendo Marie, ela escolheu trazer esse copo porque queria que nós nos lembrássemos. Como se eu pudesse esquecer. — Eu posso fazer isso facilmente, — ela respondeu enquanto bebericava seu vinho. — Embora você assuma um risco admitindo para mim que você não pode. Eu fiquei tensa, mas Bones riu como se ela não tivesse acabado de insinuar iniciar uma guerra entre vampiros e ghouls. — Vamos lá, Majestic, você não tem interesse em colocar nossas duas espécies uma contra a outra. Você também já sabe há algum tempo que Cat não manifesta mais suas habilidades, ou nós estamos fingindo que você não tem nos espionado no ano passado? Marie levantou o ombro em um tímido dar de ombros. — Apenas um tolo escolhe viver na ignorância quando o conhecimento é tão facilmente obtido. Há dias em que ela me lembra meu amigo, Vlad. Ele seria igualmente desavergonhado em ser pego espionando. — Agora que isso está claro, você irá nos ajudar? —Eu perguntei de uma vez. — Sim. Eu não soltei um suspiro de alívio. Eu sabia melhor. Assim como Bones. — Por que preço? O sorriso de Marie me lembrou uma cobra se desenrolando para atacar. — A localização do fantasma que vocês prenderam no último Halloween. Eu quero saber onde vocês prenderam Heinrich Kramer.


Capitulo Cinco

A

palavra “não” cresceu em mim, quase me queimando por dentro com a

urgência em ser dita. Outra ruptura em seus escudos mentais me deixou sentir a raiva que correu por Bones apesar do único sinal visível ser um músculo tenso em seu maxilar. — Por quê? O que você quer com o caçador de bruxas? — Ele perguntou com uma calma admirável. Os olhos dela pareciam brilhar com luzes internas. — Isso não é da sua conta. — É, quando o filho da puta me acertou com um carro, fez o cúmplice dele atirar na minha melhor amiga e, ah, é, colocou fogo em mim. — Eu disse com aspereza. Kramer fez mais, mas listar todas as suas maldades demoraria muito. Ele foi um idiota assassino em vida, e virar um fantasma não o impediu. Isso apenas o permitiu continuar seu reino de terror por séculos. Nós quase morremos prendendo Kramer, e agora Marie queria o endereço de sua cela? Se ela algum dia o soltar, Kramer virá direto para mim. Na melhor das hipóteses, um dia eu olharei para baixo para ver uma faca de prata enfiada em meu peito. Na pior… bem, eu prefiro a faca de prata. Pelo brilho no olhar de Marie, ela sabia disso tudo, embora seus fantasmas espiões não tenham encontrado a cela de Kramer, obviamente. — Seu preço é muito alto. — Bones disse em um tom firme. — Sua necessidade de respostas desse outro fantasma deve exceder o preço, ou vocês não teriam vindo. — Foi a resposta imediata de Marie. Memórias da última vez que eu vi Kramer me fizeram querer argumentar. Dar a um adversário letal a posse de outro era semelhante a ter para sempre uma arma carregada apontada para o seu coração. Ainda assim, o que os meus amigos estavam enfrentando agora mesmo


podia ser pior. — Fechado. Bones olhou para mim. Eu ergui uma mão. — Ela está certa. Nós precisamos do que Don sabe mais do que precisamos manter a localização de Kramer em segredo. — Don? — Um pequeno sorriso tocou os lábios de Marie. — Seu tio é o fantasma que fica fugindo de você? — Você sabe como é família. — Minha voz estava afiada. — Sempre uma dor no rabo. Bones encarou Marie. Sua expressão não revelando nada, e suas emoções estavam trancadas, então, a menos que eu ficasse na frente dele, eu não podia determinar o que ele estava silenciosamente dizendo a ela. Marie parecia saber, entretanto. Ela encarou de volta do mesmo jeito inabalável antes de inclinar a cabeça em um leve aceno. Então a troca silenciosa acabou. — A cela de Kramer está enterrada no túnel de esgoto subterrâneo sob a antiga junção da instalação inundada em Ottumwa, Iowa — Bones disse — Se for violada de qualquer maneira, Kramer será capaz de escapar. Uma expressão satisfeita cruzou as feições de Marie. Mais uma vez, eu me preocupei sobre o que ela queria com o fantasma. Com sorte, a rainha voodoo simplesmente queria possuir um dos mais infames caçadores de bruxas do mundo – uma ironia que eu podia apreciar, considerando o ódio de Kramer por tudo feminino e mágico. Então, novamente, quando foi a última vez que eu acreditei em algo tão simples quanto sorte? — Nós cumprimos nossa parte, Majestic. — Bones disse em um tom neutro. — Sua vez.

A

batida de Bones soou estrondosa na porta. Após um momento, o

“Quem está aí?” de Tyler pôde ser ouvido sobre o som dos latidos do Dexter. — O dono da maldita casa. A porta se abriu para revelar um Tyler risonho. — Sua casa realmente tem


estilo. E fica bem no coração do French Quarter! Diga-me novamente por que vocês vivem naquela cabana na floresta— Ele parou de falar quando viu que não estávamos sozinhos. Bones empurrou Tyler de lado o suficiente para permitir que Marie e eu entrássemos. Nós poderíamos ter feito isso lá no cemitério, mas eu não achava que Tyler me perdoaria se eu o fizesse perder sua chance de conhecer seu ídolo. Agora que estávamos de acordo com os termos, ele estaria seguro. — Majestic, esse é nosso amigo, Tyler. Tyler, conheça Madame Leveau. O olhar de Marie se virou para Tyler com um desinteresse educado. — Bonjour. Tyler a encarou, sua boca abrindo e fechando. Por alguns segundos, ele sequer respirou. A única vez que eu o vi tão embasbacado foi quando ele conheceu Ian. — Madame, — ele finalmente gaguejou. — é uma honra. A boca de Marie se curvou, e ela me lançou um olhar que, se ela fosse qualquer outra, eu juraria que era uma versão humorada de “Finalmente, alguém que me aprecia.” Então ela estendeu a mão. Tyler a agarrou, mas não balançou. Ele se curvou sobre ela com mais formalidade do que eu pensei que ele fosse capaz. Minha rainha, seus pensamentos disseram reverentemente. Minha bunda, eu não respondi em voz alta. Para minha surpresa, Marie balançou a mão de Tyler, sua expressão ficando pensativa. — Você tem poder, então você deve ser o médium sobre quem eu ouvi. O sorriso radiante de Tyler foi instantâneo. — Você ouviu sobre mim? Ela puxou a mão. — Eu me interesso em saber sobre qualquer um que pode invocar espíritos com sucesso. Nem se ele ganhasse na loteria eu acho que Tyler pareceria mais feliz. Bones, entretanto, foi direto aos negócios.


— Você precisa de algo antes de prosseguir, Majestic? Ela olhou em volta no salão, pausando na urna que Tyler colocou na mesa de café. — Isso contém as cinzas do seu tio? Com meu aceno, Marie riu levemente. — Então isso será simples. Ela foi em frente e se sentou no sofá perto da urna. Bones e eu continuamos onde estávamos, mas Tyler começou a abrir sua mala. — Aqui, Madame. — Ele disse, tirando seu tabuleiro Ouija. Ela deu um olhar desdenhoso para o tabuleiro antes de pegar a urna. — Isso não é necessário. Assim que seus dedos tocaram as cinzas, uma corrente fria cortou através da sala, abrupta e afiada como se nós tivéssemos sido jogados no centro de uma nevasca. Antes mesmo que eu tivesse a chance de tremer, meu tio estava de pé no centro da sala, materializado o suficiente para que eu visse que seu cabelo grisalho estava desgrenhado, como se ele tivesse sido arrancado com tanta força de onde quer que estivesse, que aquilo desarrumou o estilo que era sua marca registrada. — Que diabos? — Ele questionou Marie. Então ele viu a mim, Bones e Tyler. — Não isso outra vez. — Don murmurou, começando a desaparecer nas extremidades. Em um momento, Marie estava sentada no sofá com nada mais que seda em volta dela. No outro, ela estava envolta em sombras que soltavam uivos de tremer os ossos enquanto eles se juntavam sobre meu tio. Eu não a vi derramar o sangue que era o catalisador para invocar Remnants, mas esse é o motivo de ela ter uma agulha escondida em seu anel. Um pequeno furo é tudo o que ela precisa para empunhar sua arma mais mortal. O poder que os Remnants emanavam rasgava através da minha pele, fazendo-me dar um instintivo passo para trás. Eu mal ouvi o arfar de Tyler sobre os gritos do meu tio quando aquelas formas diáfanas começaram a cortar através dele como se fossem de aço, e ele fosse líquido. — Pronto. — A voz de Marie mudou, o sotaque do sul substituído por um


eco sombrio que soava como milhares de pessoas falando ao mesmo tempo. — Faça sua pergunta. Ele não vai a lugar algum com eles o segurando. Eu falei através do choque pelo que ela fez. — Chame-os de volta. Não é isso que nós queremos. A sobrancelha de Marie se ergueu. — De que outra forma você pensou que eu poderia segurar seu rio? Pedindo a ele gentilmente para ficar? — Nós não dissemos para você torturá-lo! — Eu explodi, culpa me golpeando com os novos gritos do meu tio. — Eu negociei garantir que esse fantasma respondesse as suas perguntas, e eu sempre mantenho minha palavra. Quanto mais você demorar para perguntar a ele, Reaper, mais seu tio sofrerá. Outros argumentos seriam inúteis. Agora a única pessoa que podia parar isso era Don. Eu dei ao meu tio um olhar suplicante enquanto me aproximava. — Diga-nos o que você sabe sobre Madigan. Por favor. Seu corpo arqueou e tremeu enquanto aquelas formas impiedosas continuavam a cortar através dele. Bones olhou para longe, sua boca apertada. Ele sabia muito bem pelo quê meu tio estava passando. — Como você pode fazer isso comigo, Cat? A acusação aflita rasgou meu coração. Eu não queria! era muito inútil para dizer. Além do mais, apesar de isso não ser o que eu queria, Don admitiu condenar Tate e os outros a morte certa. Se ele apenas nos dissesse a verdade, nada disso estaria acontecendo. — Isso não importa, — eu me forcei a dizer. — Responda a pergunta, ou os Remnants continuaram a rasgar você até não sobrar nada além de ectoplasma. Aquilo era mentira. Você não pode matar o que já está morto, o que eu frequentemente lamentava enquanto estava atrás do Kramer, mas Don não sabia disso. — Então eu morrerei, — ele ofegou, as palavras quebradas de dor. — Melhor… assim.


Nem mesmo agora ele derramaria os seus segredos? A frustração me fez morder meu lábio para me impedir de gritar com ele. Eu não senti minhas presas saindo, mas pelo instantâneo gosto de sangue, elas saíram. — Não seja tolo, — Bones disse de forma afiada — Remnants se alimentam de dor, então, à medida que seu sofrimento aumenta, assim aumenta a força deles para infligir mais. — Nãããão. Meu tio arrastou a palavra com tanto desespero que meu controle se partiu. Eu não podia suportar vê-lo assim, e eu não podia fazer parar, como a dura expressão de Marie me lembrou. — Diga-me que porra Madigan fez, Don! Agora mesmo! — Experiência genética! Meu queixo caiu com a resposta. O do Don também, antes que outro grito deformasse sua expressão e uma de agonia. Além da dor, algo mais passou por suas feições. Surpresa, como se ele não pudesse acreditar que me respondeu com a verdade. — Experiência genética de quê? Humanos? — Bones pressionou. Um gemido, seguido por uma enxurrada de maldições foi sua única resposta. Mais uma vez, eu me encontrei mordendo meu lábio com frustração. Maldita seja a teimosia do Don. — Responda-o. — Eu rosnei. — Não apenas humanos, — Don disse, antes que outra expressão de Que diabos? cruzar seu rosto. Marie começou a rir. — Ah, eu vejo. Eu não. A única vez em que eu fui capaz de forçar fantasmas a fazer o que eu queria foi quando eu tinha o poder da sepultura de Marie fluindo pelas minhas veias, mas aquilo acabou há muito tempo. — Se importa em informar o resto de nós? — Eu perguntei severamente. Seu olhar era tão impaciente quanto divertido. — Como pode tantos da


minha espécie temerem você quando você é tão ingênua? Antes que eu pudesse latir uma resposta, ela continuou. — Ele morreu enquanto você ainda possuía meus poderes, não foi? E você chorou enquanto o espírito dele deixava o corpo? Eu não apreciei o seu tom de isso não é óbvio? — Todo mundo não chora quando alguém amado morre? — Mambos não. — Ela disse, usando a palavra de que ela me chamou quando percebeu que eu absorvia poderes após beber sangue morto-vivo. — Não a menos que eles queiram que a pessoa fique. — Mas ele não ficou. — Eu disse, raiva pela dor de Don afiando minhas palavras. —Ele morreu. — E ainda assim, aqui está ele. — Marie respondeu, balançando os dedos para Don. — Um fantasma. Ou, mais precisamente, seu fantasma.


Capitulo Seis —

O

que você quer dizer com “fantasma dela”?

A mesma pergunta ressoou na minha mente, mas Tyler a perguntou primeiro. Talvez eu ainda estivesse muito chocada para responder. — É o sangue. — Marie respondeu, acenando para o meu lábio manchado de sangue. O eco sobrenatural havia deixado a voz dela, e ela falou com seu doce sotaque sulista normal. — Sangue abre os poderes da sepultura. Com ele, um Mambo pode levantar Remnants e transformar os recém-falecidos em fantasmas, se o Mambo derramar seu sangue quando a pessoa morrer. Eu quebrei a cabeça para lembrar os últimos momentos da morte de Don. Será que eu derramei um pouco de sangue sem querer, como fiz agora, mordendo meu lábio? Não, eu estava chorando tanto… O olhar de piedade de Bones coincidiu com um flash de entendimento. Os fluídos de um vampiro são cor de rosa devida à baixa proporção de água comparada a sangue em nossos corpos, mas quando Don estava morrendo, eu chorei tanto que minhas lágrimas ficaram vermelhas, manchando minha blusa e o chão perto da cama do Don onde eu me ajoelhei, não partindo sequer depois que seu coração tinha parado de bater… — Você pode transformar pessoas em fantasmas? — Tyler soou quase amedrontado. A culpa deixou minha voz rouca. — Não mais. Então eu encontrei o olhar do meu tio. Se eu viver para ter mil anos, ainda assim não esquecerei a angústia que vi ali… ou a raiva. Você fez isso comigo! sua expressão gritava, e ele não estava mais se referindo ao ataque impiedoso dos Remnants. Aquilo terminaria, mas sua permanência entre esse mundo e o próximo não iria. Ele não é um espírito que ficou porque tinha uma missão final para cumprir, como vínhamos desejando


que fosse durante os últimos meses. Não, ele era um dos poucos amaldiçoados que nunca poderiam fazer a passagem, e isso era minha culpa. O fato de que eu não sabia o que estava fazendo quando isso aconteceu era quase irrelevante, em comparação. — Eu sinto tanto. As palavras vibraram pela intensidade das minhas emoções. Bones pegou minha mão, seu aperto passando tanto força quanto conforto, mas eu não senti nenhum dos dois sob o peso esmagador da minha culpa. Nenhuma desculpa poderia consertar isso, e todo mundo aqui sabe disso. Foi por isso que minhas próximas palavras não foram para implorar perdão e o porquê de eu também segurar as minhas lágrimas. Considerando o que elas fizeram antes, elas seriam apenas sal na ferida agora. Ao invés disso, eu enterrei as presas no meu lábio inferior, contente pela dor que trouxe um instantâneo fio de sangue. — Você disse que não eram apenas humanos, Don, então em que mais Madigan fez suas experiências genéticas? O olhar de surpresa de Tyler coincidiu com seu pensamento Você é uma vadia INSENSÍVEL. Ele não percebia que tudo o que me restava era salvar meus amigos, e Don havia provado que ele não estava com vontade de dar informações. — O que mais? — O som que Don fez foi mais um grito agonizado que uma risada. — Qualquer coisa. Tudo. Eu sustentei o olhar do meu tio enquanto dizia as próximas palavras. — Eu te ordeno que não parta até que eu termine de fazer minhas perguntas. Entendido? Sua cabeça sacudiu de forma afirmativa. Meu próximo olhar foi direcionado à Marie. Ela ficou de pé e, um mover de seus dedos depois, os Remnants deixaram Don, para cercá-la como uma auréola serpenteante e etérea. — Por “tudo”, você quer dizer ghouls? — Ela perguntou ao meu tio com uma voz sedosa. Don não respondeu. Bones olhou para mim. Eu cerrei os dentes, mordi meu


lábio novamente e repeti a questão. — Provavelmente. — Como você pode não ter certeza? — Eu perguntei dessa vez. Don se inclinou para frente, se abraçando como se estivesse se protegendo dos Remnants que não estavam mais ali. — Quando trabalhávamos juntos, nós éramos capazes apenas de resgatar corpos, mas aquelas cascas secas eram inúteis para os propósitos de Madigan. Nenhum dos nossos funcionários era capaz de trazer de volta um espécime vivo… até Cat. Minha culpa foi para o banco de trás com aquela informação. A expressão do Bones se fechou e eu não precisava de um espelho para saber que meu próprio rosto devia ter endurecido em ângulos igualmente rígidos. — Você e Madigan ainda estavam trabalhando juntos quando você me colocou lá. — Uma afirmação, não uma pergunta. Don respondeu, de qualquer forma. — Nós não pensamos que você fosse ficar, então, enquanto a tínhamos, tentamos aprender tanto quanto pudéssemos sobre a sua dualidade de espécies… — Oh, eu me lembro. —Eu o cortei. — Você fez exames de sangue em mim toda semana, além disso, eu tive mais Ressonâncias Magnéticas, Raios-X, Tomografias, raspagem de células e biópsias do que eu podia contar. Don olhou para longe, seus contornos vacilando por um momento. — Hey. — Eu enfiei as presas no meu lábio, ensanguentando ele. — Não parta, eu estou tão longe de terminar. Diga-me mais sobre esses experimentos genéticos. Don olhou de volta para mim, seus lábios comprimidos. — Eles eram trabalho de Madigan. Assim que ele tinha vampiros e ghouls cativos para trabalhar, seu objetivo se ampliou, mas ele entrou em um beco sem saída tentando combinar os códigos genéticos. As células humanas suportavam a incorporação com uma espécie ou outra, mas não as duas… até você. Como mestiça, suas células eram as únicas compatíveis com o DNA


vampiro e ghoul. Madigan estava convencido de que mapiando e duplicando seu código genético poderia criar uma versão sintética e mais segura dos vírus vampiros e ghouls a fim de transformar soldados normais em superarmas. Eu não acreditei nele, mas então ele sintetizou o Brams… — Espere. Brams vem de sangue vampírico, não do meu. — Eu interrompi. Don não disse nada, mas com a vergonha tomando sua expressão, ele não precisou falar. — Seu babaca idiota e manipulativo, — Bones rosnou, indo na direção dele. — Se você fosse sólido, eu arrancaria a traição de você a mordidas, embora isso fosse requerer toda a minha considerável força. Don correu uma mão pelo seu cabelo grisalho, parecendo mais cansado do que eu alguma vez o vi. — Primeiro Madigan tentou fazer o Brams com sangue vampiro, então ghoul, mas falhou. A alteração completa de humano para morto-vivo mudava o código genético demais para que ele pudesse manipular. Apenas o sangue da Cat, com seu DNA humano e vampiro entrelaçados em nível celular, ainda assim não totalmente transformado, era adequado. Marie olhou para os Remnants ainda a emoldurando, e arqueou uma sobrancelha. Eu sacudi a cabeça uma vez, com raiva. Não, eu não mandaria aquelas criaturas de volta para o meu tio mesmo que ele tenha deixado um megalomaníaco usar o meu sangue para criar uma droga secreta que curava ossos quebrados e feridas sangrentas como mágica. Quando Don me contou sobre ela da primeira vez, ele disse que a droga vinha da filtragem de componentes do sangue morto-vivo, então nós a chamamos de Brams, em homenagem ao escritor de vampiros mais famoso do mundo. Parece que devíamos ter chamado de Cats, pela mestiça mais ingênua do mundo. Eu pensei que todas as extrações de sangue e testes eram porque Don era paranoico sobre eu “ficar má” por beber sangue de vampiro. Pouco eu sabia que Don era o que estava secretamente fazendo acordos com o diabo. — Por quanto tempo Madigan usou o sangue dela, células e tecidos para suas experiências imundas? — Bones perguntou em um tom duro. Eu não precisei morder meu lábio e repetir a pergunta. Don parecia ávido em


responder. — Eu o cortei assim que percebi que estava errado sobre Cat. Ela não era corrupta como meu irmão… — Ou você. — Bones acrescentou. — Ou eu. — Don concordou, cansado. — Então, quando Madigan se recusou a largar seus experimentos com ela, eu o fiz ser demitido do programa. Pelo menos, aqui estava a fonte da inimizade entre os dois homens. Não é de se espantar que Don queria levar isso para sua sepultura e o além. Se ele estivesse vivo enquanto contava isso, eu não acho que poderia impedir Bones de matá-lo, a julgar pela raiva emanando de sua aura. — Eu não acredito em você. — Bones rosnou. — Você não demitiu seu parceiro silencioso porque repentinamente se lembrou da sua consciência. Madigan deve ter desejado fazer algo verdadeiramente pavoroso para você finalmente agir. O olhar de Don saltou para mim, então ele olhou para longe. — Não. — Mentiroso. A acusação não veio de mim, embora eu tenha pensado isso um instante antes de Marie dizer. Os olhos cor de avelã da rainha voodoo apontavam para Don como lasers gêmeos. — Minta novamente, fantasma, e eu libertarei meus servos. Don olhou para os Remnants e tremeu. As bocas deles estavam abertas de forma obscena, e eles começaram a girar ao redor de Marie como se não pudesses esperar para rasgá-lo por dentro novamente. Dexter gemeu enquanto se agachava atrás das pernas de Tyler. Até o cachorro estava com medo deles. Meu tio abriu a boca… e nada saiu. Então, com um tremor final, ele ajeitou os ombros e abriu os braços. Deixe que venham, sua postura quase gritava. Mordi meu lábio tão forte que minhas presas o atravessaram. — O que mais


Madigan quis fazer, Don? Colher meus órgãos? Vivissecção? Aquelas eram as coisas mais horríveis que eu podia pensar, mas quando ele levantou a cabeça e sua expressão era uma mistura de vergonha desprezível e apelo por compreensão, eu soube que era pior. — Ele queria te forçar a procriar, para produzir mais espécimes de teste com seu DNA compatível com três espécies, mas assim que ele sugeriu isso, eu o joguei para fora… Eu senti a ruptura nos escudos de Bones logo antes de a urna voar através de Don e se esmagar na parede atrás dele. Embora ela tenha sido arremessada com força suficiente para produzir uma fina nuvem de cinzas entre os pedaços quebrados, aquilo não tocou nenhum de nós. Os olhos de Marie se abriram enquanto ela olhava ao redor. Então um lento sorriso esticou seus lábios. — Interessante, — ela disse, encarando Bones. — Mais como assustador quando ele faz isso. — Tyler murmurou para ninguém me particular. Bones não parecia se importar que ele tinha se entregado para Marie sobre suas habilidades telecinéticas. Seu olhar era todo para Don enquanto ele apontava um dedo na direção do meu tio. — Você merece permanecer um fantasma para sempre. — Eu, eu não— Don começou. — Corta isso, — Bones esbravejou. O chão realmente começou a tremer enquanto ele derrubava seus escudos e o peso total do seu poder abastecido pela fúria colidia com a sala. — Você permitiu que Madigan visse quão valiosa ela era para os planos de super soldados dele, então você estimulou o apetite dele ao recusar que ele se aproximasse dela por anos. Inferno sangrento, ela é uma vampira completa agora, e ainda assim ele ainda está obcecado com ela! Mas você sabia disso quando ele se apressou em assumir o seu trabalho após a sua morte, e ainda assim você se recusou a divulgar a verdade, então você não dirá nada em sua defesa agora.


Eu também não falei, ainda tonta pela bomba dele. Meu relacionamento com Don sempre foi complicado, verdade. Quando nos conhecemos, ele me chantageou para trabalhar com ele. Somente após eu descobrir que nós éramos parentes que fui descobri a razão pelo preconceito de Don contra vampiros. Max, meu pai, assassinou seus próprios pais após se tornar um vampiro. Por décadas, Don colocou a culpa das ações de seu irmão no vampirismo antes de finalmente admitir que Max foi um idiota pervertido quando humano, também. — Faça-o te dizer onde é, Kitten. A voz dura de Bones me arrancou de meus pensamentos. — Onde é o quê? — A instalação em que Madigan costumava trabalhar. Ele começou a circular meu tio, pausando apenas para triturar um pedaço da urna de Don sob suas botas. — Ele não estava trabalhando na sua antiga base. — Bones continuou. — Você conhecia cada centímetro daquele lugar, para não mencionar que eu teria lido isso dos pensamentos de um dos empregados. Então onde Madigan estava fazendo seus experimentos? Provavelmente é onde Tate e os outros estão agora. — Onde? — Eu perguntei a Don, rasgando meu lábio enquanto dizia a única palavra. — Charlottesville, Virginia, na antiga fábrica de tubulação em Garret Street, mas está vazio há anos. — Nós vamos checar de qualquer forma. — Bones disse. — Ele nunca abandonou seu projeto de estimação, como seu interesse em Cat e no meu pessoal prova. Marie se levantou, outro movimento de seus dedos fez os Remnants desaparecerem como se fossem sugados por um turbilhão invisível. Então ela se aproximou, o movimento de alguma forma mais ameaçador pelo quão relaxada ela aparentava estar. — Quando encontrar essa instalação, você precisa acabar com ela e eliminar qualquer um associado a esses experimentos.


— Oh, é o que eu pretendo. — Eu disse, ainda dividida entre culpa sobre o que eu fiz ao Don e raiva pelo que ele deixou Madigan fazer comigo. — Intenções não são boas o suficiente. Você tem sessenta dias. — O quê? — Eu estourei. — Nós nem mesmo temos certeza sobre onde essa instalação está. Além disso, Madigan trabalhou em operações secretas por décadas. Ele pode ter laboratórios secretos e bases instaladas em todas as nações! — Exatamente. — Marie disse. Então ela apontou para mim, e eu não acho que foi por acidente que ela apontou com o dedo com o anel Invocador-de-Remnant. — Eu não sou a única que não vai tolerar humanos tentando criar super soldados fundindo nossos códigos genéticos. — Marie continuou. — Se você não destruir essa operação inteira em sessenta dias, eu vou ajudar o Conselho dos Guardiões a eliminar a operação através de outros meios. — Vocês têm um conselho? —Tyler perguntou, parecendo intrigado. Eu não respondi. Estava muito ocupada traduzindo o que ela quis dizer. “Terra arrasada” seria uma descrição agradável do que restaria se Marie e o grupo governante de vampiros assumissem isso. Eles não parariam ao Matar Madigan e seus cientistas loucos – eles acabariam com todos, do último assistente de escritório até o zelador. Isso significa centenas de empregados, para não mencionar meus amigos, se eles ainda estiverem vivos. E um massacre desse tamanho faria os líderes mundiais pararem de fazer vista grossa sobre a existência de ghouls e vampiros. Marie sabia disso, mas ela e os Guardiões da Lei arriscariam isso para garantir que a fusão entre espécies nunca se torne realidade. Depois de tudo, vampiros e ghouls quase guerrearam duas vezes antes pela possibilidade de uma pessoa poder ser parte vampira e parte ghoul ao mesmo tempo. Da última vez, a pessoa fui eu, e apenas a minha transformação em vampira completa evitou tal guerra. Madigan, o tolo arrogante, não tinha ideia do ninho de vespas que ele estava provocando, e se tivéssemos muita sorte, ele morreria sem saber. Claro, nós precisaríamos de muito mais que sorte, como o olhar sombrio que


Bones me lançou me lembrou. Eu encarei Marie, não sabendo como impediríamos isso no tempo designado, apenas sabendo que nós tínhamos que fazer. — Acho que isso significa que eu verei você em sessenta dias. Seu sorriso foi pequeno. — Espero que sim, Reaper, pelo bem de todos nós.


Capitulo Sete

O

trailer cheirava a um restaurante italiano que foi invadido por

maconheiros. Não era necessário dizer que eu não queria falar com o meu tio no momento, então, se Don tivesse intenção de viajar para Charlottesville, ele faria isso por linhas de poder. Nós tínhamos alho e maconha suficientes para afastar um exército etéreo. Tyler inclusive não estava indo conosco investigar a antiga base de Madigan. O médium disse que ele e Dexter estavam pulando essa – uma sábia escolha. Isso também me deu uma pessoa de confiança para deixar Helsing. Meu gato provavelmente já gastou oito das suas nove vidas nas outras batalhas que participou. Eu não iria arrastá-lo para a que poderia acabar sendo a nossa mais perigosa de todas. Nós não fomos direto de Nova Orleans para Charlottesville, entretanto. Paramos em Savannnah, Georgia, primeiro. Conhecendo a pessoa que estávamos pegando, eu esperava que o endereço que ele nos deu acabasse em uma mansão ou em um clube de strip-tease, mas nós encostamos em uma modesta casa geminada perto do Parque Forsythe, ao invés. — O sistema de navegação deve ter feito a gente se perder. — Eu murmurei. Então a porta abriu, e um vampiro alto, de cabelos castanho-avermelhados saiu, satisfeito. Ele parou para soprar um beijo para uma loira descabelada que estava na entrada apesar de usar apenas uma toalha. — Fique com essa espátula pronta quando eu voltar. — Ian cantou para ela. — Eu nem mesmo quero saber o que isso significa. — foram minhas primeiras palavras quando ele subiu no trailer. Ian estalou a língua enquanto se sentava atrás de nós. — Não quer? Que vergonha, Crispin. Casado há tanto tempo, e ainda não espancou sua mulher com uma espátula de metal?


Eu estava acostumada com Ian presumindo que todo mundo era tão pervertido quanto ele, então entrei no jogo. — Nós preferimos batedores de batedeiras como nossos utensílios de cozinha pervertidos, — eu disse, com rosto sério. Bones escondeu o sorriso atrás da mão, mas Ian pareceu intrigado. — Eu ainda não tentei isso… oh, você está mentindo, não está? — Cê acha? — Eu perguntei, rindo. Ian deu um suspiro exagerado de paciência e olhou para Bones. — Ser parente dela através de você é uma verdadeira provação. Dessa vez, Bones não tentou escondeu o sorriso. — É por isso que você pode escolher seus amigos, mas não sua família, primo. Uma emoção cruzou o rosto de Ian antes que ele a cobrisse com seu usual sorrisinho de “eu sou uma dor no rabo e tenho orgulho disso”. Se fosse qualquer outro, eu juraria que era alegria infantil por ouvir Bones chamá-lo de “primo”. Eventos recentes revelaram a conexão humana há muito perdida entre eles, fazendo de Ian tanto o criador de Bones quanto seu único parente de sangue vivo. Isso significa que eu nunca iria me livrar dele. Então, novamente, considerando o que os meus parentes de sangue fizeram, Ian era quase um santo em comparação. — Você não disse muito quando me ligou, então, qual é a crise dessa vez? — Ian falou lentamente, soando entediado. Bones resumiu o plano de Madigan para criar supersoldados misturando DNA vampiro, ghoul e humano. Quando ele terminou, Ian não parecia mais estar lutando contra um bocejo. — Assim que eu ouvi que humanos estavam clonando ovelhas, eu esperei que esse dia chegasse. Típico você estar metida nisso, Reaper. — Nossa prioridade é eliminar o programa, enquanto também minimizamos os danos colaterais. — Eu disse, lutando contra um espasmo de dor quando acrescentei: — e resgatamos nossos amigos, se eles ainda estiverem vivos.


Ian grunhiu. — Isso não é tudo. Se Madigan foi bem sucedido, você também terá que destruir quaisquer frutos do trabalho dele. Fiquei contente por Bones estar dirigindo, porque aquilo fez cada músculo do meu corpo congelar. Eu estive tão preocupada sobre as consequências de uma potencial fusão entre espécies que não considerei o quão horrível o efeito colateral seria se isso já tivesse acontecido. Se vampiros ou ghouls descobrissem que seus atributos mais fortes podiam ser sintetizados, e então passados para qualquer membro da raça humana, as reações deles seriam brutais. Não seria a Terceira Guerra Mundial, seria a Guerra Mundial V e G*. *V e G de Vampiros e Ghouls. — Você tem razão. — Minha voz estava rouca. — Se ele já está fazendo soldados geneticamente mistos, eles terão que ser eliminados antes que as nações vampira e ghoul percebam que isso é possível. Ou outros governos tentem fazer isso eles mesmos. Eu não disse aquilo em voz alta, mas perdurou no ar mesmo assim. De repente, o prazo de sessenta dias de Marie parecia generoso. — Pode não chegar a isso, Kitten, — Bones disse, expandindo sua aura para envolver minhas emoções de forma reconfortante. — Provavelmente Madigan ainda está no estágio de rato de laboratório. — Espero que sim. — Eu murmurei. Se não, eu estaria indo executar pessoas pelo crime de serem geneticamente diferente – um fardo pelo qual eu fui culpada desde o dia em que nasci. Eu poderia realmente fazer isso? Eu me perguntei. A questão mais preocupante era, o que aconteceria se eu não pudesse fazer?

C

harlottesville, Virginia, me lembrava uma versão maior da cidade em que

Bones e eu vivíamos. Ela também era localizada nas Montanhas Blue Ridge, e a visão de seus picos revestidos de nuvens causou uma onda de saudade em mim. Eu cresci entre as colinas suaves da versão rural de Ohio, mas desde a


primeira vez que vi as montanhas, eu me senti em casa. Era lá que eu desejava estar agora. Em casa com Bones, cercada por montanhas que pareciam afastar o resto do mundo. Os últimos meses de relativa calma me apresentaram ao que a maioria das pessoas chama de uma vida normal, e, para minha grande surpresa, eu amei. Em casa, os únicos objetos afiados de metal com que eu lidava eram para o novo jardim que eu estava instalando, e os únicos gritos que eu ouvia era Helsing uivando se o gatinho sentisse que não estava recebendo atenção suficiente. Eu costumava ansiar por uma caçada, mas tanto quanto eu queria Madigan morto, se eu pudesse abrir mão de matá-lo eu mesma em troca de tudo isso terminar, eu trocaria. Em um segundo. Talvez seja isso que as pessoas chamam de amadurecer. Ou talvez, depois de tantos anos de “caçar, matar, reagrupar e repetir”, eu percebi que não tinha nada mais a provar, nem para mim, nem para ninguém mais. Ódio de vampiros – e de mim mesma – me colocou nesse caminho letal aos dezesseis anos. Graças ao Bones, todo esse ódio acabou há muito tempo, e existir foi substituído por realmente viver. Eu queria voltar para aquela vida, e apenas uma coisa estava no meu caminho. Madigan. Minha mandíbula ficou rígida. Graças a ele, eu ainda não havia acabado com o negócio de caçar e matar. Deixamos o trailer em uma área florestal e alugamos um sedan médio para o nosso reconhecimento de território. Então esperamos até após o anoitecer para circular Garret Street, dirigindo além da antiga fábrica de tubulações tão lentamente quando podíamos, sem parecermos suspeitos. Como Don previu, o edifício aparentava estar deserto. Sem carros no estacionamento, sem luzes lá dentro, e as câmeras de segurança não estavam funcionando. Isso, ou alguém devia ser demitido, já que as lentes de duas delas estavam rachadas ao ponto de serem inúteis para vigilância. — Parece que ninguém usa esse lugar por anos. — Ian disse. Assim como Don disse. O desapontamento me inundou. E agora? — Nós não temos tempo para esperar até Madigan eventualmente deixar sua antiga base. — Bones disse. — Por mais que eu fosse gostar de agarrá-lo e torturá-lo até arrancar a verdade dele, nós temos um prazo, e pode levar


semanas antes que ele deixe a segurança daquela instalação. — Mesmo se tivéssemos sorte e ele saísse amanhã, seria óbvio quem o sequestrou se Madigan “desaparecesse” logo após nós irmos vê-lo. — Eu acrescentei. Nós também não podíamos atacar minha antiga base para capturá-lo pelo mesmo motivo. Se fizéssemos, nós também estaríamos revelando nosso jogo para quem quer que seja que Madigan esteja envolvido, isso daria à pessoa a chance de mudar de lugar a base de operações deles. Ou aumentar a segurança dela. Não, o elemento surpresa era nossa única vantagem. Graças a Deus Madigan não sabia que Don tinha se transformado em fantasma. Por tudo que Madigan sabia, não havia forma alguma de sabermos sobre seus planos de fusão de espécies, dando a ele nenhuma razão para ser mais paranoico sobre proteger isso do que ele já ele já era. Até o dia em que eu aparecer para matá-lo, era assim que pretendíamos manter isso. — Podemos tentar algumas das outras bases que Don e eu usávamos como casas seguras. — Eu comecei, apenas para ter o súbito “Shh!” do Bones me silenciando. Olhei ao redor, agarrando uma faca de prata. Nada correu para nós, e meus sentidos não tinham captado nenhuma energia sobrenatural, então, o que era? Ian também olhou ao redor antes de dar de ombros como se dissesse Não faço ideia. Olhei de volta para Bones. Sua sobrancelha estava franzida, e sua cabeça estava inclinada para o lado. — Você ouviu isso? — Ele perguntou suavemente. Eu forcei meus sentidos. Ruídos do tráfego próximo competiam com sons dos restaurantes e outros negócios do outro lado da rua, mas nada disso soava ameaçador. — Eu não ouço nada fora do comum. — Ian murmurou. — Não você. — Bones disse com uma pitada de desculpas. — Você, Kitten. Eu? O que eu podia ouvir que Ian não podia… oh, claro. Eu afastei os sons


audíveis para me concentrar no baixo zumbido de pensamentos sob eles. Após um momento, pedaços de sentenças rastejaram para a minha mente. A maioria vinha das áreas povoadas do outro lado da rua, mas algumas pareciam ser transmitidas de algum outro lugar. Abaixo do edifício abandonado que estávamos examinando. Bones começou a sorrir. — Eles não fecharam a antiga instalação de Madigan. Eles a mudaram para baixo.


Capitulo Oito

M

eu amigo Vlad uma vez me disse que “à prova de som” não significa “à

prova de mente”, porque telepatia viaja até mesmo através das mais grossas paredes. Caso em questão: Quem quer que seja o oficial do governo que secretamente apoiou Madigan após Don demiti-lo foi cuidadoso. Mesmo com os sentidos sobrenaturalmente afiados de vampiros, nada visível ou audível dava uma dica de que o antigo laboratório ainda estava operando, embora quatro andares abaixo da sua localização original. Apenas as habilidades minha e do Bones de ler mentes nos deu a pista; apesar de que, se não fosse por ele, eu poderia ter deixado passar, de qualquer forma. Nós seguidos os pensamentos de um funcionário até a entrada da instalação, escondida dentro do elevador de um estacionamento, a duas quadras. Empurre um dos quatro botões disponíveis, e você tem o nível do estacionamento indicado, mas segure o primeiro e terceiro botão ao mesmo tempo, então digite um código, e você viaja para vários andares abaixo, para um túnel secreto conectando os dois lugares. Alguém que colocaria tanto esforço em ocultação não pouparia em vigilância, então não tentamos capturar o funcionário lá. Ao invés disso, Bones esperou do outro lado da rua antes de seguir o jovem loiro de óculos depois que ele entrou em seu veículo e foi embora. Ian e eu estávamos em pé, posicionados em lados opostos da rua. Não importa em que direção o homem virasse, ele passaria por um de nós. O sortudo passou por mim e eu tirei o melhor da situação ao quebrar meu salto e fingir tropeçar na rua. O carro do jovem guinchou em uma parada apenas a alguns centímetros de onde eu estava agachada. — Que diabos, senhoria? — Ele rosnou, abaixando a janela. Eu mantive a cabeça abaixada, para meu cabelo cobrir meu rosto. Quem sabia se Madigan tinha circulado minha foto para seus funcionários? — Meu tornozelo, — Eu disse com uma voz trêmula. — Eu… eu acho que


está quebrado. Uma buzina de carro soou atrás dele, e ele fez um som exasperado. — Quebrado ou não, você tem que sair da rua. Eu levantei, ainda mantendo o cabelo no meu rosto, e então me encolhi com um choro falso quando coloquei peso no tornozelo. — Eu não consigo. — Choraminguei. Algumas pessoas assistiam da calçada, mas nenhuma delas se ofereceu para me ajudar. Deus abençoe a indiferença da sociedade. Se eu não estivesse bloqueando a estrada, o funcionário de Madigan estaria igualmente indiferente, como seus pensamentos revelavam, mas eu era um obstáculo que precisava ser removido. Com um bufar de irritação, ele saiu do carro e veio na minha direção. — Me dê sua mão, eu vou… Isso foi tudo o que ele disse antes que eu o atingisse com o meu olhar, notando com alívio que seus olhos ficaram imediatamente vidrados. Eu estava com medo de que Madigan tivesse inoculado seus funcionários contra controle de mente dando-lhes sangue de vampiro. — Não fale. Entre no carro, do lado do passageiro. — Eu disse em uma voz baixa e ressonante enquanto subia no banco do motorista. O funcionário louro obedeceu, deslizando no banco ao lado do meu sem uma palavra. Alguns suspiros soaram do pessoal assistindo o rumo dos acontecimentos, mas então Ian se aproximou do grupo. — Meu, meu, meu, — ele disse enquanto coletava celulares dos espectadores, exibindo seu próprio olhar hipnotizante para silenciar os protestos instantâneos. Agora, pelo menos, não precisaríamos nos preocupar sobre um vídeo disso acabando online. Eu fugi sem esperar por Ian. Ele sabia para onde estávamos indo. Então eu dirigi tempo suficiente para largar o carro em uma área escura e deserta antes de agarrar o funcionário loiro e saltar para cima, noite adentro. Eu percebi meu erro tarde demais. Eu mandei o homem não falar; Eu não o mandei não ficar com medo. Quando estávamos a cerca de um quilômetro de


distância, algo morno ensopou meu jeans. Uma olhada para baixo confirmou minhas suspeitas. — Eww, você mijou em mim? Esguicho não me respondeu, claro. Eu o afastei tanto quanto pude sem largá-lo, tardiamente mandando ele não ter medo. Ele parou de hiperventilar, mas a mancha na frente da sua calça continuou crescendo. Aparentemente, uma vez que a torneira está aberta, ela vai continuar correndo até estar vazia. Para piorar a situação, não importava em que direção eu o virava, um lugar molhado continuava roçando em mim. Ian iria rir até se acabar quando visse isso. Eu cerrei os dentes e foquei em onde eu estava indo, contente pelo vento impedir que o cheiro me atingisse. Me orientar do alto era difícil já que os sinais de rua eram ilegíveis dessa altura, mas após alguns ajustes, eu pousei na grama perto do nosso trailer, arrancando apenas um pequeno monte de terra com o impacto. — Você está ficando melhor, Reaper. — Uma voz inglesa notou atrás de mim. — Embora tenha demorado. Maldição, Ian já estava aqui. Eu me preparei enquanto ele vinha de trás do trailer. Ele fungou, seu nariz enrugando. Então ele olhou para mim e para meu prisioneiro loiro, sorrindo. — Conseguiu extrair um banho dourado ao longo do caminho? Que lascivo. Estou impressionado. — Poupe-me. — Eu disse, libertando Esguicho após ordenar que ele não corresse. Desde que eu também o tinha ordenado a ficar em silêncio e não ter medo, ele ficou ali, seus pensamentos transmitindo apenas uma leve curiosidade por estar preso na floresta com duas criaturas de olhos brilhantes. Eu o dei o peso total do meu olhar hipnótico antes de falar novamente. — Quando eu te fizer uma pergunta, você responderá com nada exceto a verdade, você entendeu? Um aceno firme enquanto a palavra “sim” ecoava em sua mente. — Qual é o seu nome? — foi minha primeira pergunta. Eu não podia


continuar chamando-o de Esguicho, embora minhas calças fossem prova da exatidão do apelido. — James Franco. — Como o ator? — Eu não pude evitar perguntar. Sua expressão suavizou em um sorriso. — Sim, mas mais pobre e mais feio. Eu não queria achar James engraçado. Com seu trabalho, isso provavelmente não acabaria bem. — Não fale além de responder as minhas perguntas. — Eu disse com uma voz dura. — Você sabe o que nós somos? — Sim. Uma resposta inflexível dessa vez. Eu dei um breve aceno. — Bom, isso poupa tempo explicando. Agora, você sabe quem nós somos? — Não. Acho que eu não precisava esconder meu rosto mais cedo. — Já ouviu o nome Cat Crawfield? — Não. Ian e eu trocamos um olhar surpreso. Os pensamentos de James estavam macios sob o controle de mente que eu apliquei nele, mas eles concordavam com sua resposta, não que eu pensasse que ele estava fingindo estar hipnotizado. — O que você faz no seu trabalho? — É bem nossa sorte ter capturado um funcionário administrativo que não sabe de nada. James começou a detalhar uma complicada descrição de análises de DNA, combinação de genes e genética de interespécies. Eu não entendi metade do que ele falou, mas a essência estava clara: Ele estava bem no meio das experiências de Madigan. — Sua instalação tem pessoas como eu pressas? — Eu perguntei, exibindo minhas presas para dar ênfase.


— Não. — Por que diabos não? — Eu rosnei em frustração. Se Tate e Juan não estivessem ali, então Dave e Cooper também não estavam. Maldição, essa foi a nossa melhor pista! — Espécimes de teste são mantidos em outro lugar. — James respondeu minha pergunta retórica. — Onde? — Ian perguntou antes que eu pudesse. James piscou. — Eu não tenho autorização para essa informação. Bones caminhou para a clareira bem enquanto eu agarrava James pelos ombros e o erguia do chão, quase o sacudindo com minha súbita onda de esperança. — Quem tem? As duas palavras foram espaçadas pela minha veemência, mas elas simplesmente me renderam outra piscada lenta. Então James falou, e minhas breves esperanças foram esmagadas. — Apenas o velho. Diretor Madigan.

E

u abri com força a pequena porta do banheiro, então xinguei quando ela

caiu. No meu mau humor, esqueci de prestar atenção na minha força, um erro de novatos que eu não cometia em anos. Daqui a pouco eu mostraria as presas para um turista e diria a ele, em um sotaque Euro-lixo, que eu queria beber o sangue dele. — Não está tudo perdido, Kitten. Bones apareceu no minúsculo quarto do trailer. Me enrolei numa toalha enquanto lançava um olhar cínico para ele. — Você é famoso por sua honestidade, então as coisas devem realmente estar ruins se você está mentindo para me fazer sentir melhor. Um leve sorriso moveu seus lábios. — Não estou mentindo, amor. James


sabe mais do que ele acha. Caminhei até o estreito armário e escolhi outra roupa, olhando para trás para ter certeza de que Bones tinha fechado a porta antes de largar minha toalha. Ian espiaria um show gratuito desavergonhadamente, com ou sem laços familiares. — Além de fazer meu cérebro doer com detalhes de código genético e combinação de DNA, eu não vejo como o conhecimento dele nos ajudará a encontrar nossos amigos. Se Madigan já não os matou. Pelo olhar demorado que Bones deu a certas partes do meu corpo, ele também não deixaria passar um show gratuito, apesar da seriedade do tópico. — Enquanto você estava no banho, James revelou que novas amostras de sangue são enviadas ao edifício a cada duas semanas para teste. A última foi oito dias atrás, então em breve, uma nova remessa chegará. Esse transportador terá informação sobre de onde veio, e nós encontraremos a instalação de lá. — Você acha que Madigan é burro o suficiente para ter um endereço de remetente estampado em uma etiqueta de Sedex? Minha pergunta foi brusca para disfarçar a faísca que cintilou dentro de mim. Por favor, Deus, permita que isso funcione, nós não temos mais nada… Bones pegou as roupas que eu estava prestes a vestir e as jogou de lado. — Não, mas o entregador também estará vindo daquela instalação, ou ele nos dirá de quem recebeu o pacote. Isso irá nos levar até Tate e os outros, Kitten. Eu prometo. Então ele me puxou para ele, sua boca se inclinando contra a minha. Um por um, botões de camisa se abriram até que nada, exceto carne dura e suave esfregasse contra minha pele nua. Meu gemido virou um suspiro com a exigência de seu beijo, e quando seus escudos caíram e luxúria se derramou sobre minhas emoções como caramelo quente, eu tremi. — Ian. — Eu consegui dizer. Uma risada vibrou contra meus lábios. — Não pense sobre ele se juntar a nós, desculpe.


Eu empurrei contra seu peito, mas isso não o moveu. — Ele vai nos ouvir. — Eu falei antes que a voz de Bones roubasse minha voz. Então sua mão roubou minha razão quando ela deslizou entre minhas pernas, acariciando carne que inchou e lubrificou sob seu toque. Outra risada, essa claramente perversa. — Sim, então não seja mesquinha nos elogios. Eu pretentida discutir mais. Então suas mãos não eram as únicas coisas me acariciando. Poder varreu meu corpo em deliciosos arrepios, fazendo minha carne zumbir antes de se concentrar em minhas partes mais sensíveis com intenção sensual. Eu mal notei quando Bones me colocou na cama, seu corpo cobrindo o meu antes que minhas costas atingissem o colchão. Quando sua boca queimou um caminho pelo meu estômago e permaneceu entre minhas coxas, eu não me importava mais com o que Ian ouvisse. Tudo com que eu me importava era que Bones não parasse.


Capitulo Nove

A

mulher usava um uniforme do Serviço Unificado de Encomendas, mas

seu sedan simples e pensamentos revelavam que ela trabalhava para outro empregador. Ainda assim, se Bones e eu não estivéssemos lançando nossos sentidos em todos que entravam naquele estacionamento, ela teria passado despercebida. Para começar, ela estacionou na calçada, ao invés de dentro do estacionamento, mesmo que fosse para lá que ela estivesse indo. Além disso, tudo sobre ela parecia ter sido projetado para ser esquecível, do seu cabelo sem brilho e curto, à sua estatura mediana e feições agradáveis, mas simples. Vista-a em outro uniforme, e ela poderia servir suas panquecas na lanchonete local sem nunca despertar sua curiosidade, mas os pensamentos dela estavam completamente em contraste com sua aparência. Ela esquadrinhou seus arredores com uma precisão militar que eu dei duro para introduzir nos meus homens quando eu comandava minha antiga unidade. Ela nunca teria caído no truque do salto quebrado na estrada. Ela me atropelaria primeiro, e verificaria se eu era uma ameaça real depois. O que significava que nós precisávamos de um novo plano. — Precisamos mudar de tática. — Bones disse, ecoando minhas preocupações. Dei uma olhada frustrada para a luz do sol. Se ao menos ela fizesse sua entrega à noite! Com a cobertura da escuridão, nós poderíamos agarrá-la e voar com ela para longe, com mínimas chances de alguém notar. Mas revelar as nossas espécies para a humanidade com um sequestro sobrenatural espalhafatoso em plena luz do dia faria nossa atual situação difícil parecer bobagem em comparação. Há uma razão pela qual os vampiros permaneceram em seus caixões metafóricos por milênios. Qualquer um que ameace o segredo de nossa existência acaba morto de forma suja e dolorosa pelos Guardiões da Lei.


— Nós podemos segui-la até em casa, pegá-la lá. — Eu sugeri. — Ela não mora por aqui, — Uma voz grossa de sono disse do banco de trás. Ian. Eu quase esqueci que ele estava aqui, provavelmente porque ele esteve cochilando pelas últimas sete horas enquanto Bones e eu vigiávamos o estacionamento. Agora ele se sentou relaxado, deslizando sua máscara de sono de cetim negro até a linha do cabelo. — Ela deve morar perto do ponto de coleta, não do de entrega, — ele continuou, piscando pela brilhante luz solar preenchendo nosso carro. — Qual é ela? — A morena usando o uniforme do Serviço Unificado de Encomendas, — eu disse, apontando para ela enquanto ela caminhava rapidamente em direção ao elevador. Da nossa posição, estacionados no topo de uma colina do outro lado da rua, nós tínhamos uma boa visão da garagem multi-nível, que foi o motivo pelo qual escolhemos esse lugar. Ian encarou até ela desaparecer dentro do elevador. Então ele olhou de volta para mim. — Não se preocupe, boneca. Eu vou pegá-la. — Nós precisamos fazer isso discretamente. Se eu quisesse fazer uma cena colossal, eu apenas a arrastaria, chutando e gritando, agora. — Eu disse, não adicionando “imbecil” somente porque ele era da família. — Ela virá sem fazer um pio. — Ian disse com confiança. — Você não pode jogar olhos verdes nela no elevador, ele terá vídeo vigilância. Assim como o estacionamento. — eu repliquei. — Eu não preciso disso, — Ian disse, brilhando esmeralda em seus olhos turquesas por uma fração de segundo, — quando eu tenho isso. Com um golpe casual de sua mão, ele rasgou a camisa, fazendo botões voarem por todo lugar. Outro golpe arrancou sua máscara de dormir. Finalmente, ele penteou com os dedos seus cabelos na altura do ombro e sorriu para seu reflexo no espelho retrovisor.


— Eu sou, afinal de contas, irresistível. Não pude conter meu riso. — Eu resisti muito bem a você no dia em que nos conhecemos, ou você não se lembra de eu enfiando uma faca no seu peito? Ian sorriu com uma malícia preguiçosa. — Eu me lembro, mas você parece ter esquecido que você me beijou, primeiro. E gostou muito. Pega fora de guarda, eu corei. Hey, eu estive celibatária por mais de quatro anos naquela época – eu não estava pensando claramente! — Ian, — Bones disse lentamente, em tom de aviso. Ele acenou uma mão. — Pare de rosnar, Crispin. Eu superei minha antiga atração por sua esposa, mas o ponto continua sendo que eu sou deslumbrante. Com aquilo, ele saiu do carro e desfilou com sua camisa aberta ondulando atrás dele como minicapas gêmeas. — Volte aqui, — Eu sibilei, não gritando apenas porque nós ainda estávamos tentando ser anônimos. Ian soprou um beijo sobre seus ombros e continuou caminhando, descendo a colina em direção ao estacionamento. Bones segurou minha mão quando eu estava para abrir a porta do carro para ir atrás dele. — Deixe-o tentar, Kitten. Anzóis funcionam melhor quando estão com iscas. Era verdade, mas a entregadora parecia ser muito esperta para morder esse pedaço específico de isca. Eu só esperava que Ian não estragasse nosso disfarce depois que sua exibição de peito nú falhasse em fazê-la perder o equilíbrio. — Para constar, eu tentei impedir isso. — Eu disse, irritada. Então voltei minha atenção para Ian. O sol da tarde deu ao seu cabelo cor de cobre mechas douradas e ele se certificou de que as linhas duras de seu peito e abdômen estivessem totalmente visíveis enquanto seu passo manteve a camisa esvoaçante atrás dele. De má vontade, eu tive que admitir que várias cabeças viraram, e mais que alguns carros diminuíram enquanto motoristas mulheres davam a ele um segundo, terceiro e quarto olhar. Ian respondeu jogando um sorriso deslumbrante para elas, fazendo-o parecer quase angelical para qualquer um


que não soubesse que ele era uma vadia sem consciência. Enquanto atravessava a rua, um puxão em seu cinto fez o jeans descer ainda mais nos quadris. Mais alguns centímetros, e ele estaria exibindo o começo da virilha, e pelos olhares ávidos lançados em sua direção, aquilo poderia ser recebido com aplausos instantâneos. — Tenham alguma dignidade, senhoras. — Eu murmurei. Então Ian me surpreendeu ao agarrar o transeunte mais próximo que não o estava admirando e puxou o homem perto o bastante para beijar. Por um segundo, eu me perguntei o que diabos ele estava fazendo, mas Bones disse “Ela voltou,” e meu olhar voltou para o estacionamento. A morena saiu para o nível da rua e foi direto para a calçada onde tinha estacionado. Nenhuma surpresa em ver que a pasta com que ela chegou tinha sumido. Pelos seus pensamentos, ela estava menos alerta, já que a entrega tinha sido feita com sucesso, mas ela ainda deu uma inspeção completa em seus arredores enquanto caminhava em direção ao seu carro. O que significa que ela viu Ian no momento em que ele cambaleou na direção dela, o estranho que ele abordou agora o empurrando e puxando sua calça. Minhas sobrancelhas subiram, mas então o homem agarrou a carteira de Ian do bolso da frente e, com um empurrão final que o fez cair esparramado no chão, correu. — Maldito canalha, roubou minha carteira! — Ian gritou. A morena parou a cerca de quatro metros de distância. Eu estava focada em seus pensamentos, então soube o momento em que sua natural – e correta! – cautela foi vencida por outra coisa. Ela encarou Ian, que estava caído de costas, com suas pernas estendidas e cabeça curvada. Então ele jogou o cabelo para trás, revelando seu rosto enquanto se sentava tão lentamente, que era impossível evitar notar os músculos ondulando em seu peito e abdômen. Oh, sim, ele estava exagerando pra valer. — Você tem um móvel? — ele perguntou, seu sotaque britânico mais pronunciado. — Eu deveria ligar para a polícia. Acabei de ser roubado. — Móvel? Você quer dizer celular? —Ela perguntou enquanto Pare de


ENCARAR, Barbara! passava por sua mente. Barbara. Agora nós sabíamos seu nome real. Ninguém usava um pseudônimo para falar consigo. — Sim, — ele disse. Então ele olhou para baixo, para seu peito nu como se ele mesmo não tivesse rasgado a camisa. — Em que estado eu estou. — Ian continuou, realmente conseguindo soar miserável e chocado ao mesmo tempo. — O sujeito quase arrancou minhas roupas tentando pegar minha carteira. Drogas, eu suspeito. Cautela pediu a Barbara para deixar o lindo estranho sozinho, mas ela ignorou aquilo e se aproximou, de qualquer forma. Eu estava tão feliz quanto enojada. Bela forma de inflar o ego do Ian e prejudicar o feminismo ao mesmo tempo, Barb! Então um grupo de pessoas bloqueou a visão deles. Eu fiquei tensa, pronta para entrar em ação, mas em seguida, um coro feminino de “coitadinho!”, “você está bem?” e “deixe-me ajudar você!” soou. As outras admiradoras do Ian tinham entrado em cena. — Inacreditável. — Eu arfei. Por meramente descer a rua sem camisa, ele conseguiu reunir um hárem. — Senhoras, obrigado, mas eu estou bem cuidado,” Ian disse. Os pensamentos de Barbara se dividiram entre a lógica dizendo-a para partir e prazer sobre a confiança do homem bonito nela. Quando Ian continuou a recusar as outras mulheres por ela, sua indecisão acabou. — Vocês estão todas surdas? — Ela retrucou, com a voz autoritária se elevando sobre as outras. — Vão, antes que ele chame os policiais por assédio, também! Com alguns últimos resmungos, o suposto harém se dispersou, permitindome ver o olhar de gratidão misturado com promessa sensual que Ian deu a Barbara. Aquilo bastou. Ela se aproximou os últimos poucos metros entre eles sem hesitação, estendendo seu celular. Quando os dedos dele se fecharam sobre os dela enquanto ele pegava, “mãos frias” flutuou na mente dela antes que o


olhar dele prendesse o dela e se iluminasse com um verde brilhante e hipnótico. Oh, merda, foi seu último pensamento consciente. — Eu te disse que seria fácil, — Ian disse, e ele não estava falando com ela. Bones ligou o carro. Eu olhei para longe, não precisando ver Ian entrar no de Barbara para saber que eles logo estariam nos seguindo. — Vai ser impossível conviver com ele agora, — Eu disse sob a respiração. Bones riu. — Como sempre, Kitten.


Capitulo Dez

A

s boas notícias eram que, depois de horas questionando Barbara, nós

sabíamos a localização da instalação onde Tate, Juan, Dave e Cooper provavelmente estavam, já que era de lá que as amostras de sangue de vampiro vieram. Então, como o não ator James Franco, Barbara foi liberada com uma baixa contagem de glóbulos vermelhos e uma nova memória. Ian ia acrescentar um serviço bônus (“Eu sou muitas coisas, mas um provocador não é uma delas,” ele declarou), mas eu o impedi antes que ele pudesse cumprir sua antiga promessa silenciosa a Barbara. Nós não tínhamos tempo, além disso, a antiga atração dela não contava como consentimento em meu livro. As más notícias eram que eu não sabia como nós poderíamos invadir a instalação sem sermos pegos. A área McClintic Wildlife Management, em Mason County, West Virginia, era mais comumente conhecida como área “TNT”. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela foi um grande centro de produção e armazenamento de explosivos. Além das dezenas de bunkers de concreto acima do solo que abrigavam o TNT mencionado, assim como lixo radioativo, também havia uma rede de túneis e bunkers subterrâneos construídos para resistir a uma explosão nuclear. Após a guerra, as plantas da enorme instalação subterrânea convenientemente desapareceram, embora os bunkers acima do solo tenham sido selados e deixados para apodrecer. Hoje, algumas centenas dos mais de três mil acres de terra estavam fora dos limites para o público devido a preocupações com a segurança e questões ambientais. Até mesmo o espaço aéreo estava fechado sobre uma sessão após um dos bunkers misteriosamente explodir em 2010, mas enquanto o governo tem posse e monitora a área, alguém como Barbara poderia entrar e sair sem levantar suspeitas dos moradores locais. Além dos caçadores que frequentam a área McClintic Wildlife Management, lá também era o local original da aparição do Mothman*, portanto, atraí caçadores do sobrenatural


aos milhares. *Homem Mariposa. — Resumindo, — Eu disse ao Bones após passar várias horas infrutíferas vasculhando a internet por mais informações. — nós estamos ferrados. Barbara sempre pega a pasta na frente do armazém S4-A, mas isso não significa que ali seja a entrada da base subterrânea. Poderia ser em qualquer lugar dentro de três mil acres de pântano, floresta e mato, e não podemos ir lá nós mesmos para limitar a localização escutando pensamentos. Afinal, ela não era localizada em uma cidade, como o laboratório de Madigan em Charlottesville. Lá, não seria estranho vampiros frequentando as mediações. Caçadores e aspirantes a aberrações podem ser capazes de circular ao redor de McClintic Wildflife Management sem levantar suspeitas, mas nenhum vampiro de respeito atiraria em animais por esporte. E nenhum iria caçar criaturas sobrenaturais que não existem. — Se esse lugar tiver a segurança da base do Tennessee, — eu continuei, frustrada, — alarmes infravermelhos dispararão se qualquer um com temperatura corporal abaixo de 35º entrar na área isolada. E se esses alarmes provocarem uma explosão instantânea, bem… eles não chamam isso de área TNT por nada. Ninguém acharia isso estranho, apenas lastimável. Madigan tinha a cobertura perfeita com essa instalação. — Mande Fabian explorar. — Ian sugeriu, referindo-se ao meu amigo fantasma. Dei um olhar azedo para ele. — Vale uma tentativa, mas eu duvido que o lugar mais importante no esquema de Madigan criar supersoldados parcialmente mortos-vivos seja também o único que ele não deixou a prova de fantasmas. Bones bateu no queixo, seu silêncio confirmando que concordava. Então, com um sorriso torto, ele me jogou minha bolsa. — Você é amiga do único vampiro do mundo que pode enganar sensores infravermelhos, e, além disso, ele é a prova de explosão. Eu acho que ele murmurou “O que é uma pena” após falar, mas eu estava


muito excitada para repreendê-lo. Vlad! Com sua pirocinese, ele era mais quente que a maioria dos humanos, e a mesma habilidade o fazia a prova de fogo. Peguei meu telefone da bolsa e disquei o celular do Vlad. Daca nu este ceva important, nu lasati mesaj si nu sunati din nou, uma gravação em voz masculina respondeu, seguida pela tradução em inglês “Se não for importante, não deixe mensagem e não ligue novamente. Ninguém jamais acusou Vlad, o Impalador, de ser muito charmoso. Deixei uma mensagem urgente com os números de celular meu e do Bones antes de desligar. — Ok, está feito. Agora, vamos encontrar Fabian e mandá-lo checar a reserva McClintic Wildlife, só para garantir.

F

abian du Brac tinha quarenta e cinco quando morreu, e seu longo cabelo

marrom ainda estava amarrado para trás em um estilo que saiu de moda há mais de um século. Suas costeletas e roupas também o marcavam como de outra época, mas foram nos seus nebulosos olhos azuis que eu foquei agora. Antes mesmo que ele falasse, eles me disseram que ele não tinha boas notícias. — Realmente há uma grande instalação ativa nas profundezas de uma região na área McClintic Wildlife Management, mas eu não sei onde é a entrada. A instalação inteira é coberta por uma barreira que eu não posso penetrar e ninguém saiu no tempo todo em que eu estive lá. Eu cerrei os dentes. A equipe de Madigan vive no local, para que ninguém pudesse colher informações de suas idas e vindas. Ou sequestrar algum deles após sair, que era o meu outro plano para conseguir mais detalhes. Eu odeio o idiota burocrático, mas se eu estivesse projetando segurança para o lugar, teria feito a mesma coisa. Minha respiração saiu em um suspiro de resignação. — Então nós temos que esperar mais onze dias até a próxima coleta


agendada no laboratório. Alguém vai ter que sair daquela base para entregar a pasta para Barbara. Fabian acenou. — Elisabeth e eu não partiremos até descobrirmos a entrada. Ela está lá agora, no caso de alguém emergir enquanto eu não estou. Eu lhe dei um sorriso fraco. — Obrigada, e agradeça a sua namorada por nós, por favor. Determinação cintilou em seu rosto. — Você não me deve agradecimentos. Você me deu um lar quando ninguém me queria, e Elisabeth não seria minha amada agora se você não a tivesse ajudado em sua necessidade, também. Ele era, como sempre, muito gentil. Pela milésima vez, eu desejei poder abraçar Fabian, mas, ao invés, eu fiz a única coisa que podia: ergui minha mão e sorri quando seus dedos transparentes se curvavam perto – e através – dos meus. — Agora tudo o que você precisa é fazer um V com as mãos e dizer em uma voz trêmula que você foi, e sempre será, amiga dele. — Ian observou, cheiro de ironia. — Por que eu… — Eu comecei. Então a compreensão bateu. — Puta merda, você é um Trekkie* enrustido! *Fã de Star Trek. Eu teria me aprofundado nessa surpreendente revelação sobre Ian, mas meu celular tocou. Eu olhei o número antes de atender com alívio impaciente. Depois de deixar várias mensagens de voz por três dias, Vlad finalmente ligou de volta. — Onde você esteva? — Eu respondi, em vez de alô. — Ocupado, — foi sua resposta curta, seu sotaque mais pronunciado. — E não estamos todos? Escute, eu preciso do seu tipo particular de ajuda, é por isso que liguei… — Não conte comigo dessa vez, Cat. Eu estava muito chateada com sua resposta para fazer uma piada sobre o


verdadeiro drácula usando a palavra “conte*”. *No inglês, count, que também significa conde, de Conde Drácula. — É sério, — eu disse, no caso de ele estar pensando que eu estava procurando um companheiro para uma competição de lixar unhas. — O que quer que seja, eu não posso ajudar. Além disso, você precisa estar na Romênia hoje à noite. Eu conhecia bem a arrogância de Vlad, mas isso estava indo longe demais. — Você se recusa a me ajudar com um cenário de vida ou morte, mas quer que eu pule em um avião e parta imediatamente para a sua casa? — Ele perdeu o juízo. — Bones murmurou do quarto ao lado. Vlad respondeu com quatro palavras que brevemente limparam a minha mente de qualquer outro pensamento. Eu o pedi para repetir, para ter certeza de que entendi direito, e quando ele fez, eu comecei a sorrir. — Então acho que o verei essa noite. — Eu disse, e desliguei. Bones veio para a sala, suas feições marcadas por uma expressão de incredulidade. — Nós não podemos correr para a Romênia, Kitten. O que quer que Vlad pense que é tão importante, pode esperar… — Não, não pode. — Eu interrompi, ainda sorrindo. — Ele vai se casar essa noite.


Capitulo Onze.

P

egamos carona no avião do Mencheres, já que ele e Kira foram

convidados também. Na verdade, Mencheres era o padrinho de Vlad. Ian, porém, não veio, já que ele e Vlad não eram próximos. Inferno, Bones e Vlad também não eram. Se não fosse por mim, Bones nunca teria sido convidado, e se Bones não soubesse que Vlad fazia parte da minha pequena lista de verdadeiros amigos, ele preferiria capinar um quintal a assistir o casamento do Vlad. Ainda no avião, Bones e eu contamos a Mencheres e Kira o que descobrimos sobre Madigan. Além de ser a versão vampírica de avô, Mencheres também era co-regente das linhagens combinadas deles, então ele era confiável. Sua espora, Kira, pode estar em treinamento para ser uma Executora, que é a versão vampira de um policial, mas ela também manteria a boca fechada. Então eu passei o resto do nosso voo tentando pensar em uma maneira de descobrir a entrada da base que não envolvesse onze dias de espera até Barbara aparecer para pegar outra pasta. Nossa atual incapacidade de entrar na base me frustrava infinitamente, mas, nessas circunstâncias, paciência não era uma virtude. Era uma necessidade. Nós não podíamos ser mais espertos que o sistema de segurança, e com Vlad seriamente indisponível, porque estava se casando, eu ainda tinha que descobrir uma forma de contornar isso que não acabasse virando uma missão suicida. Parte de mim odiava voar milhares de quilômetros enquanto nossos amigos estavam em perigo, mas o resto resignadamente percebia que tanto aqui quanto lá, nós ainda estávamos presos no modo espera. A menos que… — Você poderia usar seus poderes telecinéticos para congelar a todos no subsolo enquanto nós procuramos pela entrada, — eu sugeri para Mencheres, apesar de aquilo soar ingênuo para os meus próprios ouvidos. Uma sobrancelha se ergueu. — E se essa instalação não for o centro de comando das operações de Madigan?


Eu suspirei. — Então estamos ferrados. Alguém importante no governo deve ter apoiado Madigan todos esses anos após Don demiti-lo. De que outra forma ele poderia ter pelo menos duas instalações subterrâneas clandestinas à sua disposição, para não mencionar o financiamento astronômico que toda a sua pesquisa experimental deve ter custado? Então a figura misteriosa – ou figuras – por trás de Madigan se esconderia profundamente assim que soubesse que nós tínhamos o poder de imobilizar uma base inteira. Não, nós tínhamos que poupar nossa melhor arma para a batalha final, quando pegarmos Madigan e as pessoas por trás dele, não desperdiçar a surpresa na luta antes disso. Era a única escolha lógica, mas isso não dava esperanças sobre resgatar meus amigos vivos. Eu tentei lembrar a última vez que falei com Tate. Nós brigamos? Possível. Nosso relacionamento tem sido tenso pelos últimos dois anos, mas as coisas tinham começado a voltar ao normal. Eu odiava que eu poderia nunca ter a chance de dizer a ele o que a amizade dele significava para mim, nos tempos bons e ruins. Mencheres deve ter sentido minha tristeza, porque disse — Nós retornaremos amanhã aos EUA com vocês, — em sua voz mais suave. — Estarei perto quando você precisar de mim, Cat. Dei um sorriso agradecido a ele. Antigamente, eu odiava o vampiro egípcio ancião. Agora, saber que ele estará por perto para o confronto final me enchia de profundo alívio. — Obrigada. Ele me presenteou com um de seus raros sorrisos. De nada. As palavras não foram ditas em voz alta. Ao invés disso, elas deslizaram diretamente nos meus pensamentos como um SMS telepático. Mencheres, com sua incrível idade e habilidades, era o único vampiro que eu conheci que podia se comunicar dessa forma, embora ele só tenha feito isso comigo uma vez antes. — Exibido, — eu murmurei. Seus lábios contraíram outra vez, mas então ele voltou a atenção para a janela e as luzes que ela revelava quando o avião inclinou bruscamente.


— Chegamos.

A

casa de Vladislav Basarab Dracul era exatamente o que você esperaria

do não coroado príncipe das trevas: uma mansão gigantesca que era tão linda quanto selvagem, com varandas esculpidas e pilares próximos a torres altas e baixas, adornadas por gárgulas. Também estava mais ocupada do que eu já vi. Membros de sua equipe esperavam do lado de fora da estrutura de quatro andares, apressando-se para estacionar carros à medida que os convidados chegavam. Aquela não era a única diferença desde a minha última visita. Ao invés de eletricidade, agora eram tochas que iluminavam o exterior. Elas estavam postas a quase quatro metros de altura ao redor da casa, enquanto tochas menores adornavam as muitas varandas da mansão. Eu teria dito que aquilo era um risco de incêndio, exceto pelas habilidades do Vlad. Nada queimava ao redor dele, a menos que ele quisesse. Fomos educadamente empurrados para dentro do grande corredor, onde mais atendentes levaram nossas malas depois de pedirem nossos nomes. Lá dentro, velas substituíam as luzes normais, e funcionários de smoking serviam taças de cristal cheias de algo vermelho e, ainda assim, borbulhante. Curiosa, peguei uma da bandeja mais próxima e provei. — Você tem que experimentar isso, — E disse a Bones, entregando a ele a taça. — É como o fruto do amor entre Cristal e O-. Bones aceitou, levantando uma sobrancelha apreciativa quando engoliu. Ele pode não ser o maior fã de Vlad – ok, geralmente os dois homens se odeiam – mas ele claramente aprovava o champanhe infundido com plasma do Drac. Ver sua garganta trabalhando enquanto ele tomava um segundo e longo gole me lembrou de que eu não tinha me alimentado a mais de um dia. O quão sexy Bones estava em seu smoking cor de ébano, com seus cachos castanhoescuros abraçando sua cabeça como um capacete suave apenas alimentava a fome crescendo em mim. Nós não tivemos tempo de fazer compras antes de Mencheres nos pegar, mas, felizmente, o antigo faraó tinha muitas roupas chiques. Mencheres e Bones eram semelhantes em tamanho, então seu smoking emprestado se ajustava a ele como se tivesse sido feito para ele. — Pegue outro, — Eu disse para Bones, oferecendo uma nova taça de


sangue infundido com champanhe após ele terminar a primeira. — Você vai precisar estar bem hidratado mais tarde. Sua boca se curvou quando ele aceitou outra taça. Então seus dedos prenderam os meus enquanto ele levantava a taça para beber. Os nós dos meus dedos escovaram seu queixo liso enquanto ele engolia, com aqueles olhos escuros nunca deixando os meus. Ele só me soltou após beber tudo e, quando soltou, eu não queria que ele fizesse. Na verdade, eu estava me perguntando onde era o nosso quarto de convidados e se nós tínhamos tempo para escapulir antes que o casamento começasse. Ele se inclinou, seu olhar agora tingido de verde enquanto ele colocava sua taça vazia na bandeja de um garçom que passava, nunca desviando o olhar. — Você me mata de desejo com o quão linda você é, Kitten. O vestido sem alças e formal que Kira me emprestou era um pouco apertado, mas pelo jeito que os olhos do Bones deslizaram sobre mim, ele aprovava como meus seios se destacavam um pouquinho demais sobre o decote e como o veludo negro me envolvia como se tivesse sido pintado em mim. Meu cabelo estava solto, já que parar para fazer um penteado estava fora de questão, mas sua profunda cor de carmesim combinava com meu anel de noivado. Era a única joia que eu usava, ainda assim, sua magnificência fez mais de uma convidada toda enfeitada parar para olhar. Diamantes vermelhos eram os mais raros no mundo, e o único outro perto desse tamanho estava em um museu em algum lugar. Coloquei meus braços ao redor dele, inspirando seu cheiro e me deleitando com a sensação dura do seu corpo quando ele me apertou contra ele. — Você vai morrer com algo mais assim que estivermos sozinhos. — Eu sussurrei. Seus braços se apertaram ao meu redor. — Assim como você. Aquele tom duro e baixo fez arrepios sensuais dançarem sobre mim, mas então, atrás de nós, alguém limpou a garganta. Desde que estávamos em uma casa cheia de vampiros, aquilo não era uma acidente. Kira sorria timidamente quando eu me virei. — Desculpe interromper, mas Mencheres saiu para ver Vlad, e eu não


conheço mais ninguém aqui. — Não seja boba, você não está interrompendo. — Eu disse, embora meu corpo protestasse quando eu me afastei de Bones. Então peguei uma nova taça de Cristal do funcionário atencioso. — Além do mais, você precisa provar o espumante. Está de matar.

A

cerimônia de casamento foi feita no salão de baile, que, além da região

ao redor das propriedades de Vlad, era o único lugar grande o suficiente para acomodar seus muitos convidados, desde que ocupava mais da metade do terceiro andar. Havia aproximadamente duas mil pessoas aqui, ainda assim, eu só precisaria das duas mãos para contar o número de humanos. A noiva, Leila, e o homem velho que eu supunha que fosse seu pai, estavam entre as raras exceções mortais. Ela ofegou quando entrou no salão, mas aquilo poderia não ter a ver com as milhares de pessoas que se levantaram quando ela entrou. Pode ter sido pelos pilares gigantes feitos de rosas brancas que delimitavam seu caminho até o altar, ou os antigos candelabros queimando com mais velas do que eu podia contar. Isso não era a melhor decoração de Vlad, embora. Quando Leila começou a descer o corredor, o arco de metal sob o qual Vlad estava explodiu em chamas que queimavam tanto que, quando ela o alcançou, parecia que ele estava sob por uma cobertura de ouro. — Wow, — eu sussurrei. — Exibido, — Bones murmurou em resposta. A cerimônia começou assim que Vlad pegou a mão de Leila. Acabou sendo surpreendentemente tradicional. Mencheres entregou as alianças quando chegou a hora, e uma morena que se parecia com Leila pegou seu buquê. Com exceção de Vlad respondendo tanto em inglês quanto em romeno, e do rugido que suas pessoas soltaram após ele declarar que amaria, honraria e protegeria Leila como sua esposa, foi um casamento padrão. E uma dose de normal era aparentemente o que eu precisava. Eu já sabia que sentia falta da nossa vida muito mais tranquila nas montanhas, mas eu não tinha percebido o quanto até agora. Algo fortemente apertado dentro de mim aliviou um pouco enquanto eu ouvia duas pessoas jurarem assumir todos os


desafios da vida juntos, em nome do amor. Em meus trinta anos nessa terra, eu já vi e fiz mais do que a maioria das pessoas na vida, mas eu não teria chegado tão longe se não fosse por amor. Isso foi o chão firme sob meus pés quando tudo mais ao meu redor colapsou, e apesar do perigo e incerteza do que estava por vir, eu sabia que seria novamente. Por uma fração de segundo, senti pena de Madigan. Ele só tinha ambição e crueldade sustentando-o. Quão grande sua queda seria de um pilar tão frágil e não confiável assim… Silenciosamente, deslizei minha mão na do Bones. Imediatamente, ele a levou aos lábios, roçando um sussurrante beijo suave nos nós dos meus dedos. Outro nó oculto dentro de mim relaxou, como se uma nuvem que ficou sobre mim por semanas de frustração fosse perfurada por raios de esperança. Nós passamos por tanta coisa juntos. Certamente não chegamos tão longe para falhar agora. Estimulada por aquele pensamento, aplaudi quando Vlad e Leila foram formalmente anunciados marido e mulher – de acordo com a lei humana, de qualquer forma – e prometi aproveitar ao máximo desse breve intervalo dos nossos problemas. Logo percebi que se a cerimônia teve uma natureza mais tradicional, a recepção tinha marcas do estilo exagerado de Vlad. Estava espalhada pelo terceiro andar inteiro da sua mansão e tinha comida e bebida suficientes para deixar até mesmo os vampiros empanzinados, e isso sem contar o bolo de casamento que era mais alto que eu, de salto alto. Eu nem mesmo tive chance de dizer olá ao Vlad em quase três horas de espera, quando chegou nossa vez na fila de recepção. O longo cabelo negro do Vlad estava penteado para trás o suficiente para exibir seu pico de viúva. O estilo rígido também enfatizava as maçãs do rosto altas, testa forte e os incomuns olhos verdes acobreados. Ele não era classicamente bonito como Bones, mas era impressionante de uma forma que não podia ser ignorada. Seu manto vermelho de pele e o terno ricamente trançado por baixo apenas somava à sua presença dominante, sem mencionar que ele poderia espancar alguém até a morte com o gigante pendente de ouro pendurado em seu pescoço. — Você vai começar o termo “medieval fabuloso” com essa roupa. — Eu


provoquei enquanto me inclinava para beijar seu rosto. Então murmurei — Estou tão feliz por você. — contra sua barba por fazer. Ele me abraçou, breve, mas acolhedor. — Estou contente que você veio, Cat. Seus lábios se curvaram para baixo quando ele olhou por cima do meu ombro, mas tudo o que ele disse foi “Bones”, em um tom evasivo. — Tepesh, — Bones o cumprimentou em uma voz igualmente vaga. Rolei meus olhos. Pelo menos eles não estavam ameaçando se matar. Isso era um progresso para o relacionamento deles. Então voltei minha atenção para Leila, envolvendo-a em um abraço antes de uma faísca de eletricidade me lembrar de que ela emitia voltagem devido a um acidente com uma linha de energia quando ela era adolescente. — Parabéns, — Eu disse para a adorável noiva de cabelos negros. Ela agradeceu, parecendo um pouco espantada, não que eu pudesse culpála. Na primeira vez em que eu estive em uma sala cheia de milhares de criaturas sobrenaturais, aquilo também me pirou, e eu era apenas metade humana na época. Leila era totalmente mortal, sendo ou não a nova Senhora Drácula. Se eu tivesse uma bebida forte comigo, teria dado a ela. Bones beijou sua mão enluvada, dando seus próprios parabéns. Antes que os deixássemos, dei uma olhada para Leila e, maliciosamente, disse — Ninguém pensou que o que você acabou de fazer pudesse ser feito, você sabe. Você vai ganhar o apelido de A Matadora de Dragão. Vlad me fuzilou com os olhos, mas Bones riu. Enquanto nos afastávamos, ele se inclinou até seus lábios tocarem minha orelha. — Me faz desejar que Denise estivesse aqui. — Bones sussurrou. — Ela mostraria a Tepesh um dragão que envergonharia o emblema da casa dele. Ela certamente poderia, se isso não fosse expô-la como uma das únicas metamorfas do mundo. Um demônio marcou Denise com sua essência, que virou permanente após a morte dele. Agora minha melhor amiga tem todos os poderes que o demônio tinha, incluindo sua imortalidade e a habilidade de mudar de forma para qualquer coisa que ela escolhesse. Ela escolheu um


dragão para assustar Heinrich Kramer quando o fantasma estava préstes a matar Bones. Embora eu tenha visto com meus próprios olhos, parte de mim ainda não podia acreditar que Denise tinha se transformado em uma criatura mítica de dois andares de altura tão facilmente quanto se ela estivesse trocando de roupa… Parei de andar tão abruptamente que apenas reflexos vampiros impediram o casal atrás de nós de bater em nossas costas. — O que há de errado, Kitten? — Bones perguntou, me afastando da multidão. Excitação fez minha voz vibrar, embora eu tenha tido o cuidado de falar apenas em um sussurro. — Eu sei como vamos nos infiltrar naquela instalação subterrânea em Point Pleasant. Eles vão nos deixar entrar.


Capitulo Doze.

T

ivemos turbulência no longo voo de volta aos EUA. Eu não me

incomodava, mas Bones, que odiava voar até mesmo em circunstâncias boas, estava em um humor péssimo quando finalmente pousamos em St. Louis. Foi azar dele que Spade e Denise não estavam em sua propriedade na Inglaterra. Teria sido uma viagem relativamente curta da Romênia até lá. Claro, seu mau humor pode ter sido porque ele odiava meu plano. Ainda assim, como eu disse a ele mais de uma vez no sacolejante voo de volta, se ele tivesse uma ideia melhor, eu estava aberta a ouvir. Seu silêncio sobre o assunto dizia muito, mas eu conhecia Bones. Ele ainda não tinha desistido de brigar. Então, novamente, nem eu tinha. Além disso, apesar de eu estar confiante da resposta de Denise, nós também tínhamos que convencer Spade a aceitar. Se ele não aceitasse, Bones não tinha nada para se preocupar. Quando chegamos na casa de Spade e Denise, o sol estava se pondo, embora o jet leg, e atravessar vários fusos horários nos últimos dois dias, me fizeram sentir como se fosse o raiar do dia. Spade já estava esperando na sua porta da frente, fazendo-me imaginar o que o tinha alertado da nossa chegada primeiro: sentir a presença de outros vampiros ou ouvir nosso carro estacionar. — Crispin, — Spade disse, referindo-se a Bones pelo seu nome real já que, como Ian, ele o conhecia na época em que eles eram todos humanos. —Cat. Bem-vindos. As palavras eram educadas, mas o tom de Spade estava mais cauteloso do que cordial. Eu dei ao vampiro alto, de cabelos negros, meu sorriso mais encantador, o que me rendeu uma carranca instantânea. — Agora eu sei que a visita de vocês traz problemas, como se vocês me dizendo para dispensar os funcionários antes que vocês chegassem não fosse aviso suficiente. — Você não está errado, Charles, — Bones disse, também usando o nome


de nascimento de Spade. Então ele deu batidas nas costas dele. — Mas você precisa ouvir isso, apesar de tudo. Eu os segui para dentro, feliz em ver um rosto mais amigável descendo o corredor. — Denise! Ela riu, dando-me um abraço quando me alcançou. Eu apertei de volta, não preocupada em machucá-la com minha força. De muitas formas, a essência demoníaca com a qual Denise foi marcada a fazia mais resistente que eu. Quando ela se afastou, no entanto, seu sorriso sumiu. — O que está acontecendo? Sua mãe está ok? — Ela está bem, — eu disse, fazendo uma nota mental para ligar para ela logo. — Estamos aqui por algo que meu tio começou há muito tempo atrás. Nós contamos tudo a eles enquanto tomávamos café em sua sala de estar. Os traços bonitos de Spade estavam congelados em linhas duras quando terminamos. — Ele vai causar uma guerra se tiver sucesso, — ele disse. Então ele deu um olhar especulativo para Bones. — A resposta é sim, Crispin. Eu vou lutar com você para impedir que a contaminação de uma interespécie jamais aconteça. Bones bufou. — Eu nunca duvidei disso, companheiro, mas não é por isso que estamos aqui. Com aquilo, eu limpei minha garganta. — Nós não podemos atacar a base onde achamos que Madigan está fazendo suas experiências – e mantendo nossos amigos – até sabermos quem é seu backup no governo. E não podemos descobrir isso sem entrar na base, então isso tem sido um beco sem saída até agora. Eu olhei para Denise antes de fixar minha atenção novamente em seu marido. — Apenas Madigan pode andar dentro daquela instalação e pegar a informação que precisamos sem levantar suspeitas. Ou alguém que se pareça exatamente como ele.


Eu sempre achei que os olhos de Spade lembravam os de um tigre. Nesse instante, vendo-os fixos em mim de uma forma que fez cada instinto de sobrevivência gritar “Alerta Vermelho!”, eu tive certeza disso. — Charles, — Bones disse. Embora aquela única palavra fosse suave, o impacto de poder que inundou instantaneamente a sala era qualquer coisa menos isso. Spade soltou um som, meio rosnado, meio sibilo. — Não me ameasse, Crispin. — Então não olhe para a minha esposa desse jeito. — Foi sua resposta instantânea. — Hey, — Denise se levantou, sacudindo a mão para quebrar a competição de encarar deles. — Lembra de mim, a pessoa de que se trata o assunto? Spade olhou para ela, sua expressão suavizando imediatamente. — Sim, querida, mas você não pode entrar sozinha naquela instalação. É muito perigoso. — Eu concordo. — Eu disse calmamente. Aquilo chocou Spade o suficiente para olhar para mim sem seu antigo olhar mortal. — O quê? — Eu concordo, — eu repeti. — Mesmo se Denise entrar, ela não terá a menor ideia de como acessar o computador de Madigan para pegar a informação que nós precisamos. Embora eu não seja tão boa quanto o grupo hacker Anonymous, eu sei o suficiente para recuperar o que precisamos. É por isso que eu irei com ela. Madigan está atrás de mim há anos, então seus cientistas me virão fingindo ser sua prisioneira e simplesmente presumirão que ele finalmente cumpriu seu objetivo de me prender para experiências completas. E assim que estivéssemos dentro da base, e eu tenha descoberto quem é o apoio de Madigan, além de o que aconteceu com Tate, Juan, Cooper e Dave… a luta de verdade vai começar. O olhar de Spade deslizou para Bones. — Você está disposto a deixá-la


fazer isso? Uma risada seca precedeu sua resposta. — Disposto? Não. Resignado, sim, mas ela também não vai sozinha. Eu vou com elas. — Bones, — eu disse com um suspiro. — nós conversamos sobre isso. Um vampiro refém, sua equipe vai acreditar, mas dois? É forçar a barra. — Normalmente, sim. — ele disse em um tom suave. — Mas qualquer um que me vir vai jurar que eu sou completamente inofensivo. Claro. Por que um vampiro Mestre musculoso, com 1,88 de altura, conhecido por ser um fodão com séculos de idade era a imagem da impotência. — Você teria que empregar hipnotismo em massa para convencer qualquer um disso, e os guardas dele usam visores para impedir de serem hipnotizados. O sorriso de Bones estava perigosamente luxuriante, como veneno oculto no vinho mais fino. — Veremos, mas antes de chegarmos a isso, precisamos encontrar uma forma de capturar Jason Madigan. Denise não pode conseguir representá-lo em West Virginia se todo mundo souber que ele ainda está no Tenessee.

F

abian despencou do teto da cozinha do nosso apartamento alugado,

suas feições translúcidas dizendo tudo antes mesmo de ele falar. — Ele ainda não saiu da base, saiu? — Eu perguntei, resignada. O fantasma sacudiu a cabeça. — Sinto muito, Cat. O rosto de Denise espelhou meu próprio desapontamento, mas Spade se virou antes que eu pudesse ver sua expressão. Provavelmente era um sorriso. Ele arriscaria sua vida facilmente, mas quando se tratava da segurança de sua esposa, ele conseguia fazer até mesmo Bones parecer pouco protetor. — Isso não está funcionando, — Denise disse, declarando a opinião a que eu cheguei dias atrás. — Madigan podia deixar a base a cada duas semanas antes, mas ele obviamente está enterrado nela como um carrapato agora. E se


levar meses para ele sair por conta própria? — A menor distância entre dois pontos é uma linha reta, — eu disse, ajeitando meus ombros. — Eu vou ligar para Madigan e dizer que quero me encontrar com ele. Agora nós sabemos o quanto ele quer me capturar, então isso vai fazê-lo sair da base. — Absolutamente não. — Bones rosnou. — Anzóis funcionam melhor quando eles têm iscas. — Eu respondi, jogando suas palavras do outro dia de volta para ele. — Eu sou o que Madigan quer. Ele vai sair se pensar que pode me pegar. — Sim, com o exército mais forte que ele puder reunir para capturar você, — Bones disse, suas emoções queimando através das minhas com a intensidade de relâmpagos. — Eu preciso te lembrar que da última vez em que você encontrou um adversário nos termos dele, você foi baleada e quase queimada até a morte? Por reflexo, corri uma mão pelo meu cabelo. Mesmo com as habilidades vampíricas de cura, ele ainda não tinha crescido até o comprimento que estava na noite em que Kramer colocou fogo em mim. — Mas quem está aqui e quem está preso em uma armadilha de fantasmas? — Eu rebati. — Se o fantasma mais poderoso da história não pôde me matar, então o maior imbecil da humanidade não tem nem chance. Spade se inclinou para trás, ficando mais confortável enquanto uma expressão satisfeita passava por seu rosto. Sem dúvida ele estava pensando que a vingança era uma vadia enquanto ouvia Bones e eu discutindo sobre riscos de segurança aceitáveis. Então a pessoa que eu menos esperava que ficasse do meu lado entrou na cozinha, usando nada além de um lençol ao redor do quadril. — Por que você se incomoda, Crispin? Você se casou com uma lutadora, então pare de tentar convencê-la de que ficar só observando é melhor para ela. — O dia em que você amar alguém além de si, é o dia em que eu aceitarei conselhos conjugais de você, Ian. — Bones respondeu em um tom gélido. — Então hoje é o dia, — Ian respondeu afiadamente, — por que eu te amo,


seu miserável, trombadinha cabeça de porco. Eu também amo esse almofadinha mimado arrogante, dando esse sorrisinho pra nós — um aceno indicou Spade, de quem o supracitado sorrisinho sumiu — assim como o emocionalmente danificado e mentalmente desequilibrado que me criou. E você, Crispin, ama uma diabinha sanguinária que provavelmente matou mais pessoas em seus trinta anos que eu em mais de dois séculos de vida, então, eu digo novamente, não se incomode em tentar convencê-la de que ela não é quem ela é. O queixo de Denise caiu, ou pela descrição menos que lisonjeira que Ian deu de nós, ou pela noção de que eu matei mais pessoas que ele. A expressão de Spade agora estava dura, mas um músculo se contraía no queixo de Bones – a única indicação dos seus sentimentos, já que ele cobriu sua aura sob uma nuvem impenetrável. Quanto a mim, eu não sabia se socava Ian por chamar Bones de trombadinha cabeça de porco, ou o agradecia por dizer o óbvio. Eu posso estar cansada de toda a luta e de me equilibrar constantemente na linha entre a vida e a morte, mas isso não significa que eu não era boa naquilo. Algumas pessoas nasciam para serem mães, pais, inventores, artistas, oradores, pastores… e então havia eu. — Ele está certo, — eu disse em um tom calmo. — Minha verdadeira habilidade é matar. Eu me destaquei nisso desde que tinha dezesseis, quando eu abati meu primeiro vampiro sem saber nada sobre eles. Então eu caminhei até Bones, emoldurando seu rosto em minhas mãos. — Foi você que me ensinou a julgar as pessoas pelas suas ações, ao invés de por suas espécies. Você me salvou de uma vida de sofrimento, arrependimento e recriminações merecidas. Agora é hora de me deixar fazer aquilo em que sou boa, Bones — Eu sorri com ironia — e confiar que você me ensinou a ser a melhor maldita assassina que eu poderia ser. Ele cobriu minhas mãos com as dele, sua carne vibrando com o poder que ele manteve tão firmemente sob controle. Então ele me beijou, gentilmente, embora cheio de paixão ardente. E foi por isso que, quando ele se afastou e falou, eu não pude acreditar no


que ele disse. — Você está certa, amor. Mas eu ainda me recuso a ser parte disso. Então eu realmente não acreditei quando ele saiu do apartamento.


Capitulo Treze.

N

ão era a primeira vez que Bones ficava puto o suficiente para se afastar

de mim. Quem disse que casamento é fácil? Não eu. — Ele só precisa de tempo para se acalmar, — eu disse a Denise, que pairava na porta, segurando uma garrafa de gin em uma mão e um litro de sorvete na outra. Eu tinha que dar crédito a minha melhor amiga: Ela sabe como cobrir suas bases. Apontei para o gin. Ela entrou, entregando-o. Então ela sentou perto de mim na cama e abriu a tampa do sorvete, atacando-o ela mesma. — Claro que ele vai voltar, — ela disse entre colheradas. — Mas você está, você sabe, bem, nesse meio tempo? Tomei um gole de gin antes de responder. — Já estive melhor. Quando Bones voltar, vamos ter uma conversinha sobre a forma que ele escolhe para expressar suas opiniões divergentes, mas o casamento é uma maratona. Não uma corrida. Denise ergueu sua colher em saudação. — Isso é verdade. Dei tapinhas em seu braço, tomando um último gole de gin antes de colocar a garrafa no criado mudo. Então peguei meu celular pré-pago descartável, discando um número que costumava me conectar com meu tio quando ele estava vivo. — Madigan, — uma voz brusca respondeu. — Aqui é Cat Russel, — eu disse. — Nós precisamos conversar. Passaram dois batimentos cardíacos antes de Madigan responder. — Não estamos fazendo isso agora? — De uma forma que soava mais cuidadosa do que sarcástica. Dei uma risada curta. — Humor nunca foi seu ponto forte, Jason. Quero dizer pessoalmente, e quanto antes, melhor.


— Venha aqui, então. Você sabe onde eu estou. — Foi sua resposta. — Para que eu possa ficar de pé no fogo cruzado das metralhadoras escondidas em suas paredes? — Meu escárnio foi leve. — Obrigada, mas não. Dessa vez, seu silêncio se estendeu por mais que dois batimentos cardíacos. Provavelmente tentando descobrir como eu sabia sobre as armas. — O que você tem em mente? — Ele perguntou finalmente. — Hoje, à meia noite, no Píer Rat Branch do Lago Watauga. É bem ao leste de Hampton, Tennesse. Vá sozinho, e eu farei o mesmo. Risadas flutuaram através da linha, ásperas como vidro triturado por rochas. — Você fará o mesmo? Nós dois sabemos que Bones está olhando sobre o seu ombro nesse instante, silenciosamente jurando acompanhar você. — Se ele estivesse aqui, estaria fazendo isso, — eu disse, e essa era a simples verdade. — Mas já tivemos essa briga, e ele se irritou e partiu. É por isso que nosso encontro tem que ser essa noite. Ele não vai demorar muito, e assim que voltar, ele vai insistir em ir junto. Outro silêncio prolongado. Ou Madigan estava pensando no que eu disse ou tentando rastrear a ligação, mas ele não chegaria a lugar algum com isso. Finalmente, depois de tempo suficiente para eu achar que tinha desligado, ele falou novamente. — Isso me intriga, Crawfield, mas eu não acho que te darei uma chance de me matar. Você quer conversar? Venha até mim, aqui. — É Russel, — eu disse imediatamente, — e veja se isso te intriga: Don fez arranjos para uma carta ser enviada a mim caso ele morresse. Eu me mudei bastante nos últimos meses, então só recebi ela agora. Nela, ele se desculpava pelas coisas horríveis que ele permitiu quando vocês dois trabalhavam juntos… — Que coisas? — Madigan interrompeu. Sorri. Agora eu tenho sua atenção, não é? — É isso que eu quero descobrir, mas não o bastante para te dar a vantagem de jogar em casa. Então é o píer no Lago Watauga essa noite, ou esqueça. Inferno, talvez seja mesmo melhor esquecer. Outra carta


provavelmente está a caminho com mais informação. Frustração praticamente fervilhava através do silêncio no outro lado da linha. Não apenas Madigan realmente queria me capturar; como todos os burocratas, ele era totalmente paranoico sobre manter seus segredos. A última coisa que ele queria era um grupo de vampiros cutucando seus experimentos ilícitos, e a ideia que seu antigo inimigo pode ter derramado os feijões depois da morte deve estar dando a ele uma úlcera. — Se eu achasse que você tem uma gota de honestidade, — ele finalmente disse, cerrando os dentes. — eu a faria jurar pela vida do Bones que você virá sem ele. Ou qualquer outra pessoa. — Eu juro, — eu disse calmamente. — E entre nós dois, eu não sou a maior mentirosa. O som que ele fez foi muito baixo para que eu pudesse determinar se era de desdém ou uma risada. — Acho que, à meia noite, nós vamos descobrir. — Nos vemos lá, — eu disse alegremente, e desliguei. Denise me encarava, seus olhos cor de avelã arregalados em alarme. — Você não está realmente pretendendo ir sozinha, está? — Claro que sim. — Meus lábios se esticaram em um sorriso frio e predatório. — Como eu disse, entre Madigan e eu, eu não sou a maior mentirosa.

O

píer Rat Branch, no Lago Watauga, era um lugar público, ainda assim,

mesmo que eu tivesse escolhido a tarde, ao invés de a meia noite para o nosso encontro, ainda seria muito isolado. Mais da metade dos quase vinte e seis quilômetros de margem do lago era cercado pela Floresta Nacional Cherokee, enquanto uma estrada serpenteada, oculta por um terreno íngreme e arborizado contornava o outro lado. Apenas a lua provia iluminação, já que o único poste de luz perto do píer estava quebrado. A chuva constante, além das incontáveis árvores farfalhando e da represa


próxima abafava os sons naturais dos habitantes da floresta. Ainda assim, aqui e ali eu pegava brilhos de olhos enquanto criaturas noturnas vagavam a procura de comida, companheiros, ou ambos. Esperei no final do píer, minhas roupas já ensopadas pela chuva de verão. Nuvens ocultavam a maior parte da luz que a lua lançava, mas, com minha visão aprimorada, não tive dificuldade para ver Madigan chegar em um Cadillac negro polido antes de estacionar perto do cais. Mesmo que subitamente eu ficasse cega, sua mente anunciaria sua chegada. Essa noite, ele escolheu cantar o refrão de “I Still Haven’t Found What I’m Looking For*”, do U2, repetidamente para me bloquear dos seus pensamentos. *Eu ainda não encontrei o que estou procurando. E eu aqui pensando que o idiota não tinha senso de humor… Madigan estacionou, mas ficou sentado no carro ao invés de sair. Era um pouco antes da meia noite; ele iria esperar até exatamente meia noite? Ou ele não me viu no final do píer? Então eu fiquei tensa quando ele começou a fuçar no banco da frente, mas tudo o que ele puxou foi um guarda-chuva. Fresco. Ele saiu do carro, segurando o guarda-chuva sobre ele com uma mão e carregando uma pequena, mas poderosa, lanterna na outra. Seus passos estavam firmes enquanto ele caminhava no píer, e quando ele virou a esquina em direção ao final, sua lanterna me cegou brevemente quando ele iluminou meu rosto. Acho que ele sabia onde eu estava esperando o tempo todo. — Noite… — Eu disse agradavelmente. — Mostre-me suas mãos, — ele respondeu de forma muito menos cordial. Eu as tirei do bolso do meu casaco, não me preocupando em esconder a ondulação em meus lábios enquanto eu balançava os dedos pra ele. — Você está sozinho no escuro com uma vampira e sua primeira preocupação é se eu estou carregando armas? — Sério? Meu tom implicava. Sua boca ficou tensa, enfatizando rugas causadas por carrancas ao invés de sorrisos. — Você deve saber que se eu não retornar desse encontro, eu deixei


instruções para fazerem um ataque com drones onde sua mãe está. Meu meio sorriso nunca desapareceu. — Se você soubesse onde ela está, eu acreditaria nisso. Seu olhar deslizou sobre mim, frio e calculista. — Você é cuidadosa. Ela não. Você pode acreditar que ela voltou para a sua casa de infância em Ohio, como se eu não tivesse colocado o lugar sob vigilância desde que você o visitou no outono passado? Sentimentalismo pode ser uma maldição, não é? Eu não sabia quem eu queria sufocar mais; Madigan por sua ameaça, ou minha mãe, por voltar a um lugar que ela sabia que tinha sido comprometido. Espere, não há dúvidas. Madigan, mas eu não podia. Não ainda. — Por que me dizer seu sistema de segurança? Se eu fosse te matar, agora eu sei que tenho que ligar para minha mãe mais tarde e dizer a ela para dar o fora de lá. O sorriso dele não alcançou os olhos. Nunca alcançava. — A rede de telefonia foi temporariamente desabilitada na área dela. Eu dei uma risada curta. — Você é esperto, eu admito, mas eu não tenho intenção de te matar essa noite. Então meus olhos arderam em verde, cortando através da escuridão mais intensamente que a lanterna dele. Quando falei novamente, minha voz ressoava com poder nosferatu. — No entanto, eu tenho algumas perguntas. Madigan olhou diretamente em meu olhar esmeralda. E riu. — Você realmente acha que vai ser tão fácil assim? Rápido como apertar um interruptor, desliguei as luzes dos meus olhos. Como eu suspeitava, ele se inoculou contra controle de mente bebendo sangue vampiro. — Não, não acho. — Então sorri torto para ele. — Ainda assim, tinha que tentar, certo? Ele sorriu de volta. — Meus exatos pensamentos.


Eu não tive a chance de perguntar o que ele queria dizer com aquilo, porque poder explodiu pelo ar. Eu só tive uma fração de segundo para reconhecer a fonte dele quando algo grande caiu do céu, pousando atrás de Madigan com uma pancada que sacudiu o píer. — Olá, companheiro, — Bones disse, puxando o homem mais velho contra ele. Madigan não lutou. Ele nem mesmo pareceu surpreso, embora você poderia ter me derrubado com uma pena pelo súbito aparecimento do meu marido. — Você mentiu para mim, Crawfield, — Madigan sibilou. — Russel, — Eu o corrigi automaticamente, ainda encarando Bones em descrença. Então ergui a cabeça quando barulhos dispararam através das árvores, céu e até mesmo da água ao redor do píer. Madigan conseguiu dar um sorriso, apesar do firme aperto que Bones tinha nele. — Tudo bem, eu menti também. Se ele disse algo mais, eu não ouvi. O som de tiros das metralhadoras era muito alto.


Capitulo Quatorze.

E

u saltei para o ar, me encolhendo enquanto balas me perfuravam mais

rápido do que eu podia voar para fora de alcance. Ser baleada várias vezes machuca, mas a dor desaparecia rapidamente, o que significa que as balas não eram de prata. Aquilo me surpreendeu, até eu me lembrar que Madigan me queria viva. Ele deve pensar que eu tenho algo realmente especial no meu DNA para arriscar usar força não letal para me capturar, mas quem estava rindo era eu. Eu estaria feliz em contar a ele a piada assim que o tivéssemos no apartamento, onde Denise se transformaria em seu gêmeo bom e nósEspere, por que o tiroteio continuava lá embaixo? O pessoal de Madigan não percebeu que já estávamos longe? Falando nisso, por que Bones ainda não tinha me alcançado? Ele era, de longe, o voador mais rápido. Eu parei e girei em um círculo para vasculhar o céu em todas as direções, mas tudo que eu vi foram nuvens de tempestade. Não havia nenhuma carga de energia no ar, também. Onde diabos ele estava? Então um novo bombardeio fez meu estômago se apertar. Ele não podia estar ainda no píer, podia? Eu mergulhei com tudo para baixo, como um falcão perseguindo uma presa. À medida que eu atravessava camada atrás de camada de nuvens opacas de tempestade, a cena abaixo finalmente se tornava visível. Soldados lotavam o píer, vindos da floresta, barcos no lago e carros que cantavam pneu até o cais. Todos com armas automáticas, que cuspiam balas no único vampiro de joelhos no final do píer. — Bones! — Eu gritei. — Voe, maldição! Mas ele não voou. Ao invés disso, ele caiu para frente, seu corpo desmoronando contra as ásperas tábuas de madeira. Então, o único movimento que eu via eram suas roupas rasgando enquanto balas


continuavam a metralhá-lo impiedosamente. Eu pousei ao lado dele com tanta força que metade do meu corpo atravessou o píer. Só me levou um segundo para levantar e me jogar em cima dele, feliz que as alfinetas geladas e quentes de dor significavam que as balas estavam perfurando a mim, ao invés dele. Então, sobre o som dos tiros, eu ouvi um grito. — Cessar fogo! A voz de Madigan, amplificada por algum dispositivo. Levantei a cabeça, um rosnado me escapando quando o vi com a cabeça para fora d’água há uns quatro metros de distância do píer. De alguma forma, ele escapou do Bones e pulou para lá. Tudo bem. Eu podia carregar os dois enquanto voavaUma onda de choque me jogou para longe de Bones e me jogou esparramada contra o outro lado do píer. Granada de concussão, eu diagnostiquei mentalmente. Uma carregada o suficiente para vampiros. Madigan realmente evoluiu seus brinquedos, mas antes que eu pudesse me arrastar de volta ao Bones, vi algo que me imobilizou. Uma linha apareceu em sua bochecha respingada de sangue. Negra como carvão e espiralando através de sua pele como uma rachadura em uma estátua. Então outra linha apareceu, e outra. E outra. Não. Esse era o único pensamento que minha mente era capaz de produzir enquanto linhas negras começavam a aparecer por toda a sua pele, ziguezagueando e se dividindo em novos e impiedosos caminhos. Eu vi a mesma coisa acontecer com incontáveis vampiros antes, normalmente depois de torcer uma faca de prata em seus corações, mas negação tornou impossível para eu acreditar que o mesmo estava acontecendo com Bones. Ele não podia estar lentamente murchando sob meus olhos, a morte verdadeira mudando sua jovem aparência em algo que lembrava cerâmica de barro cozida por muito tempo em um forno. Minha imobilidade sumiu, substituída por um terror tão grande quanto eu nunca senti. Eu me lancei através do píer, pegando Bones em meus braços enquanto minhas lágrimas se juntavam à chuva molhando seu rosto.


— NÃO! Enquanto o grito saía de mim, as mudanças nele pioravam. Sua estrutura muscular parecia estar esvaziando, as linhas duras do seu corpo ficando flácidas antes de começar a encolher. Eu o apertei mais, o choro forte tornando minhas lágrimas vermelhas, enquanto algo começava a martelar em meu peito. Era como se eu estivesse sendo socada por dentro com golpes fortes e sólidos. Meu batimento cardíaco, uma parte de mim registrou. Esteve em silêncio por quase um ano, mas agora, ele batia mais forte do que já bateu quando eu era humana. Outro grito rasgou seu caminho para fora de mim quando a pele de Bones rachou sob minhas mãos antes de cair em camadas nas tábuas. Frenética, eu tentei colocá-las de volta, mas mais pele começou a descamar, mais rápido do que eu podia segurar tudo junto. Músculo e osso apareciam sob aqueles amplos espaços, até seu rosto, pescoço e braços lembrarem uma fatia de carne exposta. Mas o que rasgou através de mim como um fogo que nunca pararia de queimar foram seus olhos. Aquelas esferas castanho-escuras que eu amava se afundaram em suas cavidades, virando uma gosma. Meu grito, agudo e agonizante, substituiu os sons de soldados se posicionando ao meu redor. Eu não tentei impedi-los. Eu sentei lá, agarrando com ambas as mãos o que agora parecia couro ressecado, até que tudo o que eu pude ver sob as roupas rasgadas por balas de Bones era uma casca pálida e encolhida. Vagamente ouvi Madigan gritar “Eu disse sem munição de prata! Quem diabos disparou aquela carga?” antes que tudo desaparecesse, exceto a dor irradiando através de mim. Ela fazia a agonia que eu senti quando quase queimei até a morte parecer uma memória feliz. Aquela apenas destruiu minha carne, mas essa rasgou através da minha alma, pegando cada emoção e triturando-as com um conhecimento que era muito horrível para suportar. Bones se foi. Ele morreu bem diante dos meus olhos porque eu insisti em pegar Madigan do meu jeito. Eu merecia tudo o que recebesse do burocrata distorcido por levar meu amado marido à morte. — Levem ela, — Madigan latiu. Mãos ásperas me agarraram, mas eu não me importei nem quando algo duro e pesado prendeu meu pescoço, ombros e tornozelos. Quando alguém


tentou arrancar Bones de mim, entretanto, minhas presas rasgaram o pescoço da pessoa sem que eu nem pensasse. Sangue quente jorrou em meu rosto e escorreu da minha boca enquanto dúzias de rifles se erguiam. — Não atirem, porra! A voz de Madigan novamente. Se houvesse algo mais importante do que o homem que eu aninhava, eu teria rasgado a garganta dele em seguida, mas eu não fiz nada exceto apertar meus braços em volta de Bones e abaixar a cabeça perto da dele. Partes ásperas de crânio esfregaram em mim onde deveria haver pele lisa e suave – outra bola de demolição em minhas emoções da qual eu nunca me recuperaria. Soluços me sacudiram tão forte que eu pensei que fosse me despedaçar. Eu não me importava. Eu queria ser rasgada em pedaços. Isso machucaria menos do que o conhecimento da morte do Bones. Foi por isso que eu não lutei quando Madigan disse “Deixe-a ficar com o corpo. Eu vou estudá-lo também.” e uma rede pesada foi lançada sobre mim. Pela forma como a pele queimava onde ela a tocava, ela era de prata, e pelos cortes que senti enquanto a apertavam, ela também tinha lâminas . Lutar me retalharia, não que eu tivesse alguma intenção de lutar. Eu sabia, sem dúvidas, que Madigan me mataria assim que terminasse comigo. Se eu escapasse, entretanto, meus amigos tentariam me impedir de me juntar ao Bones. Anos atrás, Bones me fez prometer seguir em frente se ele fosse morto. Eu prometi, entretanto agora eu estava voltando atrás com aquela promessa. A morte era a minha única chance de me reunir com ele. Eu não a perderia por nada. — Espere por mim, — Eu sussurrei, minha voz quebrando com outro soluço. — Estarei aí logo.

S

ubi na traseira de um caminhão enquanto meia dúzia de guardas

armados apontavam suas armas para mim. Por incrível que pareça, seus pensamentos estavam mudos por trás de um estático ruído de fundo que seus capacetes emitiam. Apesar da grossa blindagem, o veículo poderia ter se


passado por um caminhão de mudanças, de tão simples que era o interior. Ele também não tinha janelas, mas pela duração da viagem, nosso destino não era a base de Madigan no Tennesse. Eu não tinha certeza de onde estávamos indo, mas pelos pensamentos que captei, tínhamos um comboio armado nos escoltando por todo o caminho. A pequena parte de mim que não estava se contorcendo com o sofrimento se perguntava por que Madigan não nos levou ao nosso destino pelo ar. Talvez ele temesse que se eu quebrasse minhas amarras, uma luta a mais de nove mil metros de altura poderia derrubar o avião e matar todo mundo. Ele era sábio por temer isso. A única coisa mais apelativa para mim do que o pensamento da minha própria morte era levar Madigan e seus soldados comigo. De fato, agora que eu tive várias horas para processar tudo, eu estava me chutando por deixar Madigan me prender em tantas amarras, além de uma rede de prata completa com lâminas. Eu poderia ter morrido lá no píer mesmo, em uma chuva de balas após rasgar a garganta dele e dançar sobre seus restos mortais. Como dizem, as boas ideias só vêm depois. O caminhão começou a sacudir quando saímos da estrada principal e entramos em uma que parecia de terra, ao invés de cascalho. Ajeito o corpo de Bones no meu colo para que o duro balanço não arrancasse nada dele. Ele foi quase invencível em vida, mas na morte, seus restos eram frágeis, antigos agora que estavam plenamente em seus dois séculos e meio de idade. Se não fosse pelo conjunto triplo de algemas me restringindo, eu teria tirado meu casaco e o enrolado nele, mas as partes de cima dos meus braços estavam presas dos meus lados, prendendo minha jaqueta em mim. Após aproximadamente quinze minutos, o veículo parou e a traseira foi aberta, deixando entrar uma parede de luz. Pisquei até o brilho se transformar em uma paisagem de árvores cobertas de musgo. Então inalei, notando que o ar fresco estava carregado com umidade, mofo e o amargor de produtos químicos antigos. Ver que a deprimente paisagem bonita tinha uma pequena cúpula coberta de grama à distância era quase redundante. Madigan me levou para a área McClintic Wildlife Management, em Point Pleasant, West Virginia. Exatamente onde eu queria ir, exceto que em circunstâncias muito diferentes.


Eu considerei lutar quando os soldados puxaram a rede para me arrastar para fora, mas então mudei de ideia. Primeiro, isso iria dizimar os restos de Bones. Segundo, se Tate, Juan, Dave e Cooper estiverem aqui, então meu último ato será libertá-los. Eles são meus amigos. Além disso, Bones iria querer que eu libertasse seu povo. Como eu poderia desapontá-lo? Fora do caminhão, fui jogada sobre o que parecia um grande carrinho de bagagens. Quando finas linhas vermelhas entrecruzaram as hastes para delimitar o perímetro ao meu redor, entretanto, eu entendi. Raios laser. Deve ter sido assim que eles levaram Tate e os outros para a instalação sem um massacre. Tudo que cruzasse aqueles raios seria cortado, e embora membros de vampiros cresçam novamente, nossas cabeças não crescem. Eu estava sendo levada para um daqueles antigos iglus de munição quando uma voz masculina gritou meu nome. Ergui a cabeça. Através da rede e raios laser, vi Fabian voando em círculos frenéticos sobre o carrinho. — O que eu devo fazer? Para quem eu conto? — O fantasma se lamentava. Nenhum dos meus guardas olhou para cima. Eles não podiam ouvi-lo, então quando eu disse “Não faça nada. Vá para casa,” várias cabeças em capacetes se viraram em minha direção antes de olhar em volta cuidadosamente. Fabian voou para perto, até eu poder ver a determinação em seus olhos azuis pálidos. — Eu não vou te abandonar, — Ele disse em um tom firme. Eu desviei os olhos, novas lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas. — Você não tem escolha, meu amigo. Agora, por favor, vá. — Cat—! Sua voz foi cortada quando eu fui levada para dentro do iglu de concreto e uma porta escondida fechou a entrada. Meu carrinho de bagagem equipado com laser balançou enquanto algo metálico se prendia às suas rodas. Em seguida, quatro curtos postes em formato de T levantaram do chão de concreto. Os guardas seguraram neles quando o chão começou a vibrar, fazendo com que o lixo antigo preso a ele tremesse, antes de abruptamente cair abaixo de nós. Paredes cobertas de graffiti foram substituídas por aço liso à medida que


nós despencávamos a mais de vinte quilômetros por hora. Minha rede de prata ficou suspensa brevemente pela velocidade, apenas para bater de volta em mim quando paramos abruptamente alguns minutos depois. Então a porta se abriu, revelando uma grande sala com dúzias de estações de trabalho, gráficos de segurança 3-D dos arredores da área de vida selvagem, assim como desse complexo, e guardas de capacete rondando como Tropas de Assalto*. *Milícia paramilitar nazista. A sala de reunião subterrânea de Marie Laveau não tinha nada da instalação de testes ultrassecreta de Madigan. — Leve a Espécime A1 para a Cela Oito. — A voz odiosa de Madigan bradou. Eu olhei em volta, mas não o vi, e houve uma característica metálica em sua voz. Deve estar dando ordens via interfone. Mais uma vez, eu me chutei por não tê-lo matado quando tive chance, mas eu vou retificar isso na minha próxima oportunidade. Então eu fui levada para fora do que eu supunha que fosse o centro de comando e arrastada por um longo corredor. As botas da minha escolta armada faziam barulhos em ritmo estacado no chão de azulejo enquanto me guiavam por duas direitas e uma esquerda antes de me levar para a entrada do que parecia a ala hospitalar de uma prisão. — Pare para escanear. — Um guarda disse uma voz tediosa. Ele também usava um capacete completo com visor, mas o dele não emitia o barulho que embaralhava pensamentos que os dos meus captores emitiam. Para constar, nem os de nenhum guarda de capacete aqui. Deve ser uma tecnologia de elite que apenas as unidades táticas têm. Então os lasers ao redor do meu carrinho sumiram, e meu séquito obedientemente permaneceu parado enquanto linha azuis apareciam em forma de rede sobre nós. O guarda olhou para a tela do seu computador, e sua cabeça se ergueu. — Há algo no carro com ela. — Vampiro morto, — uma das minhas escoltas respondeu. A palavra machucou tanto que me levou um segundo para registrar a


resposta do outro guarda. — Não, algo com um batimento. Confusão penetrou minha dor. Meu batimento parou horas atrás— Com um grunhido, algo pequeno e peludo saltou entre os buracos da rede de prata. Dois dos meus guardas durões chagaram a pular para trás enquanto um terceiro tentava – e falhava – pisar na criatura, que o ultrapassou, e então desapareceu sob uma porta próxima. — Rato fodido, — o guarda murmurou. Então sua cabeça se virou para mim. — Por que você não matou aquilo? — Ele exigiu em um tom acusador. — Para que ele possa cagar na sua sopa. — Eu rebati. Ele pensou que eu fosse me desculpar por não ser uma boa exterminadora? Mesmo se eu não estivesse muito sobrecarregada com o luto para notar, por que eu me importaria se um roedor pegou carona na traseira do vão em que eu estava sendo sequestrada… Meus olhos se estreitaram, mas eu abaixei a cabeça antes que os guardas pudessem captar algo suspeito em minha expressão. Aquele rato não se esgueirou simplesmente no veículo errado. Ele esteve dentro da rede de prata, que só seria possível se ele estivesse se escondendo nas roupas de Bones durante o breve período entre a morte dele e nossa captura. E as chances de que um animal teria ficado por perto após um tiroteio tão intenso que matou um Mestre vampiro eram próximas a nada. — Prendam a vadia. — O guarda resmungou. Aqueles raios laser em zigue-zague surgiram ao redor do meu carrinho novamente. Eu não disse nada enquanto era empurrada através das portas da unidade, e nada quando o guarda murmurou sobre a Manutenção precisar levar ratoeiras para aquele andar. As ratoeiras não funcionariam porque esse não era um animal normal. Na verdade, o que se enfiou sob a porta momentos atrás não era um animal de forma alguma. Era Denise.


Capitulo Quinze.

A

s celas estavam dispostas em um semicírculo de frente para a área de

trabalho principal do andar, parecido com como os quartos de hospital ficam de frente para as estações de enfermagem em uma UTI. Uma grossa parede de vidro e uma camada extra de laser mantinham os ocupantes dentro, mas deixava suas ações visíveis para os funcionários. Minha cela era no final da curva, o que me deu visão total das outras enquanto eu era empurrada na frente delas. A primeira tinha uma garotinha de cabelos castanhoavermelhados, de todas as coisas, mas então eu passei por um rosto muito familiar. Desde a primeira vez que o vi, Tate manteve seu cabelo castanho em um corte militar, uma homenagem aos seus dias de sargento das Forças Especiais. Agora estava com centímetros de comprimento, e a metade inferior do seu rosto estava sombreada por uma barba grossa, enfatizando sua expressão assombrada. Na cela ao lado dele estava Juan, sua massa de cabelos negros agora passando dos ombros e sua pele parecendo pálida até mesmo para um vampiro. Dave estava na cela ao lado dele, parecendo igualmente desgrenhado e pálido, mas foi a mudança de Cooper, na penúltima cela, que me fez arfar. Ele perdeu pelo menos quinze quilos, transformando sua estrutura muscular em algo esquelético. Seu corte de cabelo normalmente curto agora lembrava um Black Power e sua pele café com leite agora tinha um doentio tom de azul. Levou-me um segundo para perceber que aquilo vinha de vastos hematomas, particularmente destacados em seus pulsos, mãos e nas dobras dos seus braços. Picadas de agulha, percebi com uma explosão de fúria. Só havia um motivo pelo qual Madigan se incomodaria em ficar fazendo extrações de sangue e injeções em um humano. Ele estava fazendo experimentos em Cooper. Minhas mãos se apertaram na jaqueta rasgada por balas do Bones. Espere por mim, repeti silenciosamente, sentindo minha raiva crescer. Há algo que eu


preciso fazer antes de te ver novamente. E com Denise aqui, agora eu tinha uma chance melhor de ter sucesso. Como nenhum dos meus amigos olhou para cima quando passei, eles não devem ser capazes de ver do lado de fora das suas celas de vidro. Minha suspeita se provou correta quando um dos meus guardas disse “Abram a Cela Oito” e então meu carrinho foi empurrado para dentro sem cerimônias. Quando as portas de vidro fecharam, tudo o que eu vi foi meu próprio reflexo sob uma pilha de rede de prata cheia de lâminas. — Vocês não esqueceram nada? — Eu gritei, sabendo que os funcionários monitoravam esses quartos por áudio também. Nenhuma resposta além dos lasers do meu carrinho desaparecerem. Suspirei e me encostei em um daqueles postes, novas lágrimas escorrendo quando olhei para baixo, para o corpo do meu marido. Dos ossos eu me levantei e Bones me tornei, ele disse quando me contou a história de como ele escolheu seu nome após acordar como vampiro em um cemitério. Isso era tudo o que ele era agora – ossos – e o conhecimento disso fez minhas lágrimas correrem rápidas e vermelhas. Então senti choque, seguido de dor, quando um clique soou no meu conjunto triplo de algemas e múltiplas lâminas me esfaqueavam ao mesmo tempo. Quando a dor começou a deslizaram através do meu corpo inteiro, queimando minhas terminações nervosas pelo caminho, percebi que não eram lâminas. Eram agulhas injetando prata líquida em mim. Eu não tinha que dar aos bastardos me monitorando a satisfação de me ouvir gritando, mas após alguns minutos, eu dei. Então eu realmente não queria dar a eles a satisfação de me ouvir implorando para aquilo parar, mas após várias horas agonizantes, sendo queimada de dentro para fora, eu os dei, também. Nenhuma misericórdia veio, entretanto. Apenas solidão que levou à escuridão.

A

cordei amarrada a uma mesa, em uma sala diferente. Luzes

halogênicas pontilhavam o teto com um brilho semelhante ao sol, e eu estava


tão firmemente presa que meus movimentos eram limitados a mexer meus dedos do pé, mas, para meu alívio, a dor horrível havia desaparecido. — Ah, você acordou, — uma voz agradável disse. — Sem dúvida se sentindo melhor, também. Nós tiramos a prata de você dissolvendo ela com ácido nítrico e então sugando-a. É o único método seguro quando penetra tão profundamente. Tentei erguer a cabeça, mas ela também estava presa. Então eu estendi minha mente. A maioria dos pensamentos veio de forma aleatória, como ouvir rádio enquanto se percorre os canais, mas o de uma pessoa veio claramente, e ela estava nessa sala. Então uma mulher na faixa dos quarenta apareceu em minha limitada linha de visão, quase todo seu cabelo, exceto alguns fios loiros e grisalhos, estavam escondidos por uma touca médica. Suas expressões estavam controladas em uma máscara educada, e seus pálidos olhos verdes tinham o distanciamento clínico que todos os doutores aperfeiçoavam. Não se incomode com controle de mente. Ela pensou para mim. Eu estou inoculada. Eu tentei mesmo assim. O que eu tinha a perder? — Liberte-me, — Eu disse, colocando todo o meu fraco poder em minha voz e olhar. Ela sequer piscou. — Você só aprende da forma difícil, não é? — Ela disse em voz alta. — Sempre, — Eu respondi. — Onde está meu marido? Um dar de ombros tímido que a colocou logo após Madigan em minha lista negra. — O vampiro morto? No freezer. — Com o resto deles, seus pensamentos terminaram. Eu fechei os olhos, uma onda de sofrimento me esmagando sob seu peso. Quando os abri, a médica havia desaparecido. Testei minhas amarras colocando pressão em um membro por vez. Nada. Então tentei puxá-las com toda a minha força ao mesmo tempo. Nada sequer se moveu. Madigan não poupou gastos construindo uma mesa de exames a prova de vampiro.


— Agora que você tirou isso do seu sistema, — a voz da médica disse secamente — quer um pouco de comida? Ela voltou para a minha linha de visão, segurando uma bolsa de sangue com um longo tubo sobre mim. Eu dei um olhar breve e calculado para os seus dedos. Muito longe para mordê-los. Claramente, eu não era a sua primeira prisioneira. Desde que eu me sentia mais fraca que um bebê vampiro no nascer do sol, peguei a ponta do tubo entre meus lábios e tomei um longo gole. Então fiz careta. — Marca errada. — Eu disse, cuspindo o canudo. Pela primeira vez, a loira mostrou um lampejo de emoção real. Surpresa. — Você foi drenada até quase secar para extrair a prata de você. Como você pode se recusar a comer baseada em mera preferência de tipo sanguíneo? Ela estava certa; eu estava tão faminta que doía, mas para mim, aquilo não era comida. — Não é o tipo, é a fonte. Eu não bebo sangue humano. Sua testa enrugou, aprofundado as linhas finas que já eram visíveis. — Mas você é uma vampira. — Eu vou apenas te chamar de Dr. Óbvia. — Murmurei. Com aquilo, sua expressão voltou a ser tranquilamente clínica. — Você não é a minha primeira criança problemática. Se você recusar o sangue oralmente, ele será injetado em você. Diretor Madigan ordenou um extensivo trabalho de laboratório assim que você estiver reidratada. Aposto que sim. — Estou certa de que Madigan te disse que eu era um caso especial, mas ele não sabe tanto quanto pensa. Como o fato de que eu bebo sangue vampiro, não humano. Eu consegui quebrar aquele exterior friamente agradável novamente. Seus olhos arregalaram, e ela separou os lábios como se fosse argumentar. Então ela os fechou, acenando a cabeça. — Vou informar o diretor. Se ele aprovar, mandaremos trazer sangue de


vampiro para você. — Ensacá-lo não vai funcionar, — eu disse, pensando rápido. — Tem que ser direto da veia de um vampiro da minha árvore genealógica morta-viva, ou eu vou morrer de fome, e Madigan não terá suas preciosas amostras. Felizmente para ele, ele tem dois vampiros que meu marido criou, bem aqui. Eu não sabia quando Denise agiria, mas se Tate ou Juan estiverem fora de suas celas quando ela fizer, muito melhor. Agora era ter esperanças de que Madigan acreditasse em minhas necessidades dietéticas incomuns. Dr. Óbvia me encarou por tempo suficiente para fazer alguém normal se contorcer ou abrir o bico em uma confissão. Eu não fiz nenhum dos dois. A pior coisa em minha vida já tinha acontecido, então, além de luto e ódio assassino, o resto de mim estava entorpecido. — Eu te aviso o que o diretor disser. — Ela finalmente respondeu. Então sumiu de vista. Fechei meus olhos contra o brilho das luzes acima. Eu não tinha nada a fazer exceto esperar, mas, logo, eu estaria pronta para matar. E assim que eu terminasse de fazer isso, estaria pronta para morrer. Cerca de uma hora depois, várias pessoas entraram na sala, a julgar pelo barulho e dilúvio de pensamentos. Tentei erguer a cabeça novamente, e tudo o que consegui foi cortar minha cabeça com a tira de metal, fundo o suficiente para tirar sangue. Eu não tive que esperar muito para descobrir quem eram meus visitantes, entretanto. Duas vozes se sobressaíram entre os outros sons, ambas familiares, mas apenas uma bem-vinda. — Cat. Um ofego aflito de Tate, seguido pelo “Se isso é um truque, você vai se arrepender, Crawfield.” de Madigan. — Pela última vez, é Russel, — Eu rosnei. Madigan se certificou de se inclinar sobre mim para que eu pudesse ver cada nuance da sua expressão convencida antes que ele falasse. — Não mais, mas isso é culpa sua. Você jurou pela vida do Bones que iria


sozinha, e não foi. Eu já ouvi a expressão “ver vermelho” relacionada a uma súbita onda de ódio, mas nunca tinha experimentado isso antes. Agora eu experimentei, porque levou vários segundos antes que eu olhasse para Madigan e visse qualquer coisa exceto a visão dele coberto de sangue e morrendo em extrema dor. Então aquilo sumiu, e eu respirei fundo para me acalmar, expirando lentamente. Você vai se libertar, e vai matá-lo. Eu jurei. Até lá, o fato de Madigan se sentir presunçosamente superior apenas ajudaria. Assim ele estaria mais propenso a cometer um erro. — Eu serei alimentada, ou você não liga se não descobrir todos os novos tesouros em meu sangue? — Perguntei em um tom calmo. Madigan se afastou, rosnando — Coloque o pulso dele contra a boca dela. — para o guarda que tinha Tate. — Posso ser colocada na vertical primeiro? Qual é, eu sei que você gastou uma nota por esse recurso nessa mesa de exame extra chique. Um ronco alto-satisfeito. — Certamente. Eu não preciso ser um vencedor chato. A mesa na qual eu estava presa lentamente mudou para uma posição vertical, dando-me a primeira visão total da sala. Eu olhei em volta, notando a localização das portas (duas), número de guardas (seis), e as armas que eles carregavam (fuzis M-4 totalmente automáticos em suas mãos, pistolas semiautomáticas de reserva em seus cintos), tudo em menos tempo que uma pessoa comum levava para piscar. Então meu olhar fixou em Tate. Ele tinha as mesmas amarradas de pescoço, ombros e braços com que Madigan me prendeu na noite passada, com um conjunto adicional em seus tornozelos que limitava seus passos a meros centímetros por vez. Elas provavelmente tinham as agulhas de prata líquida também, que eu tinha que admitir, era um maldito de um belo paralisante. Aquilo não apenas queimava como ter lança-chamas disparados dentro do seu corpo, mas também era uma das únicas coisas que, exceto a morte, podiam incapacitar um vampiro. Mas o mais preocupante em Tate era seu olhar. Se eu já não tivesse decidido libertar a ele e aos outros não importa o quê, ver aquele olhar atormentado teria me


influenciado. — Hey, — eu disse suavemente. Sua boca estava firme em uma linha fina, mas aqueles olhos azul-escuros começaram a encher com lágrimas coloridas. — Oh, Cat, eu preferia nunca te ver de novo a te ver aqui. Eu forcei um sorriso, porque não podia começar a chorar também. Se começasse, eu perderia o frágil controle sob meu pesar. — Tenho certeza de que não é tão ruim assim. Provavelmente é apenas um mal-entendido do Madigan. Tate bufou com uma risada cansada. — Você não sabe a metade do que ele fez. — Era pra você estar se alimentando, não conversando. — Madigan disse sumariamente. — Comece, ou ele vai embora. Eu inclinei a cabeça tanto quanto pude, indicando que concordava em começar. O guarda de Tate o puxou, e apenas seus reflexos de morto-vivo o impediu de cair pra frente com aquelas amarras no tornozelo. Então, com uma expressão dura, ele virou e sacudiu suas mãos para eles. — A menos que você a solte, ou subitamente eu fique um metro mais alto, ela terá que se alimentar do meu pescoço, não dos meus pulsos. O sorriso de Madigan poderia transformar água em gelo. — Ela fica presa, e você também, então, é o pescoço. Tate se inclinou e seu cheiro familiar abafou o cheiro de alvejante, desinfetante, sangue e medo a que a sala fedia. Quando seu pescoço roçou minha boca, a fome assumiu; poderosa, exigente e indiferente sobre como o pesar havia destruído a minha vontade de viver. Com vontade própria, minhas presas afundaram em sua garganta, libertando aquele delicioso líquido vermelho em minha boca. Enquanto eu engolia, os lábios de Tate roçaram minha orelha. Então ele falou tão baixo que nenhum dos humanos poderia ouvi-lo.


— Se você tiver chance, parta. Não volte por nós. Eu não respondi. Primeiro, minha boca estava cheia, segundo, eu não podia arriscar dizer a ele sobre Denise. A amarra em seu pescoço poderia ter um microfone, além dos outros dispositivos. Então ele sussurrou algo mais que fez minha garganta fechar apesar da exigência inconsciente da minha fome. — Bones realmente está morto? Eu não pude falar agora porque, se falasse, seria um choro de angústia. Ao invés disso, eu acenei e me obriguei a engolir. Parecia que o sangue dele me asfixiou por todo o caminho. O suspiro de Tate pareceu vir das profundezas dele. — Eu sinto muito. Eu continuei sem responder. Eu também não conseguia mais engolir, e as poucas bocadas que engoli pareciam prestes a voltar. Então, como se o espírito do Bones estivesse sussurrando do além, eu quase podia ouvi-lo falar, e ele soava irritado. Você quer matar os bastardos, Kitten? Você vai precisar da sua força, então pare de choramingar e beba. Ele estava certo. Ele quase sempre estava, e eu raramente ouvia. Eu ouviria agora, entretanto. Para provar minha decisão, mordi o pescoço do Tate novamente, mas eu encarava Madigan enquanto engolia. Você não venceu. Você só não sabe disso ainda.


Capitulo Dezesseis.

E

les levaram Tate embora após eu beber aproximadamente um litro dele,

mas então o trouxeram de volta após Madigan drenar aproximadamente a mesma quantidade de mim para a sua primeira rodada de exames. Pelos pensamentos da Dr. Óbvia, eles estavam muito excitados pelos resultados preliminares, porque meu sangue aparentemente era compatível com DNA ghoul. Eu me perguntava sobre isso. Quando eu era mestiça, todos sabiam que eu podia ser transformada em ghoul e, assim, manter habilidades das duas espécies. É por isso que as duas raças quase entraram em guerra por minha causa. Mesmo como uma vampira completa, meu coração ainda bate quando estou sob extrema pressão, e minha dieta era qualquer coisa, menos comum – dois fatos que nós mantemos em segredo para que a nação ghoul não me considere mais uma ameaça de interespécie. Se esses testes estiverem certos, talvez eu ainda seja. Falando em guerra, onde estava Denise? Já se passou quase um dia desde que ela correu para debaixo daquela porta. Ela precisava apressar seu traseiro peludo antes que Madigan começasse a transmitir os resultados do meu sangue para outras partes interessadas. O que ela está esperando? Outro pensamento sombrio me ocorreu. Ela pode não estar esperando por nada. Talvez o rato que eu vi tenha sido só isso… um rato que se escondeu nas roupas de Bones para escapar de um bombardeio e então correu na primeira chance que teve. Não minha melhor amiga transmorfa disfarçada. Se for assim, eu não estava simplesmente por conta própria. Eu estava nua, amarrada a uma mesa e incapaz de libertar a mim, que dirá Tate, Juan, Dave e Cooper. Ou fazer Madigan pagar pelo que ele fez. Inferno, eu não podia sequer impedir Dr. Óbvia de enfiar outra agulha na minha jugular, para extrair mais sangue. “Fodida” nem começava a descrever minha situação.


Desespero se infiltrou em minhas emoções, afundando-as profundamente em um poço de escuridão. Se ao menos isso fosse a pior coisa que aconteceu comigo, mas, além disso, Bones se foi. Mesmo se Denise aparecer magicamente, e nós conseguirmos matar todo mundo aqui, exceto meus amigos, ele ainda terá partido. Lágrimas começaram a escorrer dos meus olhos. Tudo o que me restava dele era o corpo no freezer e um pouquinho do seu sangue em mim que ainda não foi drenado… Sangue. Em meio à lama negra do desespero surgiu uma fresta de luz. Eu ainda tinha um pouco do sangue do Bones em mim, o que significa que eu absorvi suas habilidades como fiz com cada vampiro ou ghoul de quem bebi. Sua incrível força não foi capaz de mover as múltiplas amarras de titânio me prendendo a essa mesa, mas esse não era o truque mais impressionante do Bones. O seu mais recente é que era. Esperei até Dr. Óbvia terminar sua última extração e desaparecer no outro lado da sala antes de começar na menor amarra. A que prendia minha cabeça. Eu não movi um único músculo enquanto tentava abri-la, ao invés disso, foquei toda a minha concentração em imaginar a amarra se abrindo. Nada. Tudo bem, eu não consegui na primeira tentativa. Quando foi que algo importante foi fácil? Fechei os olhos e me concentrei outra vez, tentando forçar a amarra a se abrir com a força dos meus pensamentos. Mais um pouco, mais um pouco, ok, outra vez e deve dar certo… Ainda nada. Soltei um suspiro frustrado. A habilidade tinha que estar em mim. Minha habilidade de ler mentes veio do sangue de Bones, embora, certo, Bones dominou essa completamente, e ele ainda estava explorando sua recente telecinese. É por isso que presumimos que eu não tenha manifestado ela antes, mas ela ainda tem que estar lá, mesmo que não tenha aparecido espontaneamente ainda… A amarra de metal vibrou um pouco? Eu não tinha certeza, mas eu disse a mim que sim, ela vibrou. Então me concentrei mais, desejando que aquelas


vibrações aumentassem até quebrar a amarra. Elas não quebraram. Eu não senti nada quebrar, vibrar, não senti nada exceto o metal frio contra a minha testa e minha raiva aumentando pelo fato de Madigan poder ter ganhado, afinal. Maldição, eu posso não merecer derrotá-lo, mas ele merece perder! E Bones merece algo também. Ele estava naquele píer porque estava tentando me proteger, então a última coisa que ele iria querer seria eu presa nessa mesa como o último rato de laboratório do Madigan. Ele iria me querer de pé e soltando o inferno sobre todos que ajudaram a prender seu povo, que o mataram e que me enfiaram nesse laboratório subterrâneo distorcido – especialmente o imbecil que orquestrou tudo isso. Se Bones estivesse aqui, ele me mandaria parar de tentar abrir minha amarra e fazer a coisa voar pela maldita sala e chicotear a Dr. Óbvia bem entreClick. Com aquele único e glorioso som, a pressão na minha testa desapareceu. Dr. Óbvia não ouviu, entretanto. Quando girei minha cabeça livre para o lado, ela estava encarando seu computador, mentalmente comparando o percentual de similaridades em meus genomas versus o percentual em células humanas e vampiros comuns. Ela não teria a chance de terminar suas descobertas. Raiva sempre foi o catalisador para as minhas habilidades, mas em meu luto paralisante, eu esqueci isso. Que apropriado que a memória do Bones tenha me lembrado. Agora tudo o que eu tinha que fazer era deixar minha raiva fluir, e considerando tudo o que aconteceu, essa parte era fácil. Com um empurrão furioso da minha mente, as outras seis amarras abriram com múltiplos clicks. Isso chamou a atenção da Dr. Óbvia, mas antes que sua mão terminasse de voar para a sua boca, em descrença, eu estava do outro lado da sala, erguendo-a pelas lapelas do seu jaleco. — Nós nunca fomos devidamente apresentadas, — Eu disse com um rugido furioso. — Eu sou a Red Reaper, e você está morta.


Capitulo Dezessete.

D

epois de esmagar sua laringe, tirei o jaleco da finada Dr. Óbvia e o vesti.

Não porque eu achei que fosse enganar alguém fingindo trabalhar aqui, mas porque há algo de perturbador em andar por aí completamente nua em uma orgia assassina. Então vasculhei a sala em busca de armas, totalmente ciente de que eu só tinha alguns instantes. Como cada lugar nessa instalação, havia câmeras de segurança. Como previsto, logo o som de um alarme disparou. Eu só consegui encontrar duas pistolas semiautomáticas e dois pentes extras, o que não era muito, mas teria que servir. Então eu voei pelas portas logo antes de elas fecharem e barras grossas deslizarem do marco em algum tipo de confinamento automático. No corredor, eu corri em direção ao grupo de pensamentos se aproximando de mim, ao invés de para longe dele. Assim que os soldados dobraram a esquina, eu me joguei para frente, caindo de barriga no chão de azulejo com força suficiente para quebrar minhas costelas. A dor foi brutal e instantânea, mas os tiros deles passaram por cima da minha cabeça. Mantive meus braços esticados enquanto o impulso, e o chão liso, me faziam deslizar para frente enquanto eu atirava até as duas armas estarem descarregadas. Os guardas caíram com múltiplos baques. Eles estavam equipados com coletes Kevlar e colares de aço ao redor do pescoço, mas, embora seus visores escuros fossem à prova de controle de mente, eles não eram à prova de balas. Coloquei minhas pistolas nos bolsos, junto com os pentes extras. Então peguei tantos rifles quanto podia carregar. Agora, isso era melhor! Bem na hora. No corredor à frente, outra explosão de pegadas de botas soou. Olhei em volta, decidindo que ficar exposta era muito perigoso, mesmo com o meu novo arsenal, então me lançando para cima com força suficiente para atravessar o teto. Aquilo deixou minha cabeça zunindo com mais do que os sons de tiros quando os novos soldados encontraram seus colegas e


começaram a atirar no buraco que eu fiz, mas eu já estava longe a essa altura. A cobertura externa ao redor da instalação era muito reforçada para que eu estourasse meu caminho até a luz do dia, ainda assim, como a maioria dos hospitais e laboratórios, ela tinha espaços entre os andares. E esse, pelo menos, não era vigiado ou equipado com portas que fechavam automaticamente. Eu saltei sobre canos e outros equipamentos enquanto corria para o que eu supunha que fosse a área das celas de vampiros, baseada nos pensamentos dos funcionários, além do fato de que ali havia uma sólida parede de aço subindo por todo o caminho até o próximo andar. Entretanto, antes que eu pudesse fazer meu caminho até a base, eu tive que desviar de uma chuva de balas. Os soldados também encontraram seu caminho até o espaço entre os andares. — Estamos com a Espécime A1 encurralada sobre a Sessão 9! — Alguém gritou. Aquilo foi seguido por uma resposta que eu não escutei, quando tive que me esquivar de outra sessão de tiros. Eu me abriguei atrás de um suporte de aço, permanecendo abaixada enquanto atirava de volta. Com a distância, e fumaça de todo o tiroteio, eu não tive nem de longe a mesma taxa de sucesso. Apenas um terço dos guardas caiu com seus visores estilhaçados, e eu ouvi mais reforço chegando. Eu comecei a atirar nos soldados com uma mão, enquanto disparava no chão com a outra. Ficar olhando para o chão e para eles, enquanto precisava mudar de posição para não ser baleada, fez minha pontaria piorar ainda mais. A divisão em minha atenção também resultou em ser atingida por mais que algumas balas. Para minha surpresa, eram balas normais, não de prata. Ainda assim, se uma me atingisse entre os olhos, eu estaria indefesa enquanto meu cérebro curava o suficiente para que eu pudesse pensar. Então uma granada foi lançada na minha direção. Eu a chutei para longe uma fração de segundo antes que ela explodisse. Não era uma granada de concussão amplificada, como eles usaram no píer, mas ela tinha estilhaços de prata. Eles devem estar ficando impacientes. Gastei alguns minutos angustiantes atirando cegamente enquanto meus olhos se curavam, e quando minha visão estava restaurada, para meu desânimo, vi que a barreira de aço


sobre a cela dos meus amigos ainda estava intacta, apesar de eu ter esvaziado dois pentes inteiros no chão. Outra granada cheia de prata explodiu perto de mim, forçando eu me afastar da proteção do suporte resistente à bala. Eu não podia arriscar que uma detonasse perto do meu coração. A frustração me deixou quase indiferente à dor enquanto eu era baleada várias vezes, apesar de continuar abaixada no chão. As barreiras de aço sobre as celas dos vampiros eram muito grossas – eu não podia alcançar Tate e os outros por aqui. Logo, eu teria que me lançar através desse teto, ou arriscar ser explodida aqui, e isso se eu conseguir abater os soldados que já estavam à caminho do andar sobre mim. Pelos pensamentos que ouvi, para não mencionar a comunicação em seus equipamentos sem fio, Madigan ordenou que eles me atacassem do nível superior, também. Ele pode querer mais do meu sangue para exames, mas ele não arriscaria me deixar escapar. Madigan. Meus dedos apertaram o M-4 mesmo que ele tenha sido disparado o suficiente para deixar o metal causticante. Parece que eu não vou conseguir libertar meus amigos, mas ainda havia algo que eu poderia fazer. Gastei vários minutos perigosos tentando não ser atingida enquanto estendia meus sentidos para filtrar a miríade de pensamentos na base. Finalmente, encontrei os que eu estava procurando, e, pela primeira vez, ele não estava cantando algo para si. Madigan estava ativando procedimentos de segurança emergenciais que nunca foram necessários antes, enquanto se apressava para chegar a um lugar seguro na instalação. Foquei em seus pensamentos como se eles fossem um farol. Então usei as tiras para pendurar dois M-4 ao redor do meu pescoço antes de arrancar uma larga unidade de controle térmico. Segurando a máquina de metal na minha frente, voei para o canto oposto do espaço apertado, me encolhendo quando mais balas acertavam o alvo. Ainda assim, nenhuma delas foi perto do meu coração. Eu não podia atirar de volta enquanto segurava o aparelho enorme, mas ele era um efetivo, ainda que rude, escudo à prova de balas. Eu também o usei como reforço, colocando-o sobre a cabeça enquanto me impulsionava para cima. Escombros borraram minha visão, e a parte de baixo do meu corpo levou a pior dos tiros enquanto eu me lançava através de


concreto, madeira e aço até o próximo nível sobre mim. Demorou mais, já que essa sessão era muito mais reforçada do que a outra que eu atravessei. Então, em meio à nuvem de poeira e partículas de isolamento, eu procurei por Madigan. Ele não estava aqui, mas, pelos seus pensamentos, ele estava perto. Antes que eu pudesse partir para procurar por ele, outro conjunto de guardas veio correndo através da única porta. Sem hesitar, atirei a destruída máquina de resfriamento neles. Com a velocidade sobrenatural que eu usei, aquilo transformou em papa aqueles que atingiu, mas, infelizmente, havia apenas alguns deles. O resto veio através da porta, abrindo fogo. Tentei escapar me lançando através da parede mais próxima, mas acabei esmagada nela como um desenho animado. O quarto no qual forcei minha entrada tinha paredes de aço que deviam ter mais de meio metro de espessura e a única porta fechou com o som agourento de trancas pesadas. Quando tentei forçar meu caminho através do teto, em seguida, obtive os mesmos resultados desanimadores, com o dano adicional de quebrar meu crânio com força suficiente para me deixar tonta. Isso não era um escritório comum. Com sua falta de móveis ou utensílio, além de suas paredes e portas de aço incrivelmente grossas, isso só podia ser um quarto do pânico. A única saída era para baixo, e uma olhada no buraco que eu fiz me mostrou quase uma dúzia de guardas com armas apontadas diretamente para mim. Filho da puta, eu me prendi no quarto do pânico de Madigan antes que o bastardo chegasse aqui! — Troque para munição de prata, — um guarda de capacete gritou, seguido pelo som de múltiplos pentes de bala sendo colocados no lugar. Oh-oh. Tentei interferir em suas armas com minha habilidade telecinética emprestada, mas não funcionou, provavelmente porque minha cabeça ainda estava realmente machucada. Eu acho que todas as rachaduras no meu crânio ainda não haviam colado, e eu nem queria saber o que era a coisa úmida e grossa escorrendo pelo meu pescoço. — Não há saída, cabeça oca, — o mesmo guarda rosnou. — Fique abaixada.


Cabeça oca? Aquilo me fez rir, o que enviou alarmes para a parte de mim que ainda podia pensar. Faça o que ele diz, ou eles vão te matar, aquela parte mandou. Você não está em condições de lutar, e eles te encurralaram. Verdade. Mas quando eu falei, eu não disse “eu me rendo.” Ao invés disso, eu disse outras três palavras. — Vá se foder. A morte não me assustava. Ela era o meu caminho de volta ao Bones. Então fiquei tensa, pronta para atacar e levar comigo tantos deles quanto eu pudesse, quando uma voz frenética estourou pelo sistema deles. — Aqui é Falcon 1. Espécime A1 está à solta na Sessão 6! Espécime A1 não foi do que o outro guarda me chamou? Huh, igual ao molho de carne… sacudi a cabeça, irritada, para parar aquela linha inútil de pensamento. Cure rápido, cérebro! — Negativo, Falcon 1. Aqui é Falcon 7, e eu tenho a Espécime A1 presa na Sessão 13. — Falou o que me chamou de cabeça de ovo. — Falcon 7, eu estou olhando para a A1, — veio a resposta enfática. — É impossível, a vadia está aqui. — meu cara respondeu, soando irritado. Minha confusão diminuiu, ou porque minha cabeça finalmente terminou de se curar, ou porque eu era a única que sabia como duas pessoas podiam jurar que eu estava em lugares diferentes ao mesmo tempo. Quando eu ri novamente, não foi por confusão. Foi por alívio. Denise estava aqui, e pelos gritos que vieram do outro lado da transmissão, ele estava seriamente chutando traseiros. — Estou te falando que A1 está aqui, e nós também temos um hostil desconhecido destroçando a Sessão 11. Eles precisam de reforços, agora! Cabeças em capacetes começaram a olhar entre eu e o guarda que eu deduzia que fosse o líder dessa unidade. — Mas que diabos? — Alguém murmurou. Eu não sabia quem era esse outro “hostil”, mas eu conhecia uma boa


distração quando via uma. Eu me lancei para cima e colei no teto para maximizar a velocidade enquanto me lançava nos guardas. O impacto matou dois ali mesmo, mas os outros abriram fogo. Puxei um dos guardas mortos para cima de mim, usando-o como escudo enquanto eu me arremessava para o resto, quebrando tornozelos, e então pescoços, quando eles caíam. O quarto selado que antes me prendia, agora prendia a eles. Os guardas abaixo começaram a atirar através do buraco, mas eles atingiriam seus amigos mais do que a mim. Além disso, com o grande colete Kevlar que os guardas usavam, meu escudo de cadáver manteve as balas longe dos meus pontos vitais, embora meus braços e pernas queimavam por causa de toda a prata os perfurando. Ignorei a dor, concentrando-me em terminar minha tarefa. Por tudo o que eu sabia, um desses guardas pode ter disparado o tiro que matou Bones, então eu não tive piedade. Quebrar. Esmagar. Despedaçar. Eu repeti aquilo até que nada ao meu redor se movesse. Então joguei corpos no buraco para impedir que mais balas entrassem no quarto e ricocheteassem nas paredes de metal. Quando aquilo estava feito, eu soltei um uivo de vitória que terminou quando eu percebi que eu venci, mas eu ainda não podia sair do quarto a menos que alguém abrisse a porta. Talvez eu pudesse conseguir alguém para fazer isso. Dominada pela ideia, agarrei o guarda morto mais próximo e falei no seu sistema de comunicação. — Denise, — eu gritei. — Você tem que achar um jeito de abrir essa porta! — Quem diabos é você? — A voz do outro lado respondeu. Eu não me importei em responder. Eu ouvi barulho de fundo, o que significa que Denise deveria ser capaz de me ouvir, também, se ela ainda estivesse perto desse cara. Pelo violento som de luta, ela tinha que estar. Então uma voz diferente explodiu pelo dispositivo em outro corpo. — Todas as unidades para a Sessão 13! Situação crítica! Aff, inferno, Sessão 13 é onde eu estou. Os guardas abaixo devem ter pedido ajuda por eu ter destroçado os guardas no quarto do pânico. — Se apresse, Denise! — Eu gritei para o comunicador. Então comecei a


agarrar M-4s que ainda tinham a maior parte da munição sobrando antes de parar para tirar um colete Kevlar de um guarda morto. Muito mais confortável do que levar o corpo dele comigo. — Eu repito, situação crítica! — A voz em pânico gritou pelo comunicador. — Hostil avistado e… oh, Deus. O que é isso? O QUE É ISSO? Vesti o colete ensanguentado, me perguntando no que Denise tinha se transformado dessa vez. Pelo som do guarda, poderia ter sido um Tiranossauro Rex. Ela chegou rápido ao meu andar, também. Apenas alguns momentos atrás ela ainda estava na Sessão 6, onde quer que isso sejaAs grossas barras de titânio ao redor da porta voaram nas paredes mais rápido que quando baixaram para trancar a porta. E então ela não abriu… ela explodiu para dentro, achatando um corpo com força suficiente para fazer algo parecido com geleia de framboesa vazar pelos lados. Mas não foi isso o que me fez congelar, meu M-4 parado no ar. Foi a coisa do outro lado da porta. Cabelo branco emoldurava um rosto que mostrava mais crânio que pele, exceto por um conjunto de olhos que ardiam em esmeralda. Roupas esburacadas por balas se penduravam em um corpo que parecia couro velho e carne murcha envolvendo ossos. Quando aquilo mostrou os dentes em uma horrível versão de sorriso, eu recuei instintivamente. E então aquilo falou. — Olá… Kitten.


Capitulo Dezoito.

M

ais tarde, eu ficaria envergonhada por não correr para os braços dele

quando eu percebi quem era, mas, no momento, meu cérebro se recusava a comparar aquele cadáver meio podre com o homem que eu amava. Bones não teve a mesma hesitação que eu, ele também não tinha mais de sessenta por cento da sua carne, mas esse era o ponto. Ele agarrou meu braço e me arrancou do quarto do pânico, empurrando-me pelo corredor. Eu o deixei me conduzir, ainda tentando acreditar que ele estava aqui, sem falar no estado em que estava. Corpos de guardas lotavam o corredor, suas cabeças quase todas arrancadas e suas poças de sangue me fazendo escorregar uma ou duas vezes enquanto corríamos. Luzes vermelhas brilhavam e alarmes disparavam, mas nós não encontramos mais guardas. E se essa sessão tinha funcionários, eles haviam evadido há muito tempo. Então uma porta dupla grande bloqueou nosso caminho para a próxima sessão. Pela estação de segurança vazia, o guarda da entrada deve ter abandonado seu posto, e pela pequena tela de monitoramento, eu não vi nenhum na próxima sala, também. — Iniciando Protocolo de Dante para a Sessão 13 em quinze segundos, — uma voz computadorizada soou no sistema de comunicação. Eu estendi os meus sentidos, tentando descobrir o que aquilo significava, e os pensamentos que peguei foram agourentos. Eles não podem incinerar a Sessão 13! Pode haver sobreviventes! Oh, Deus, eu vou morrer… Isso mesmo, queime cada um daqueles filhos da puta! — Eles vão incinerar essa sessão, — eu disse a Bones, então o sacudi quando tudo o que ele fez foi fechar os olhos. — Bones! Nós temos que ir, ou vamos queimar.


Nem assim ele abriu os olhos. Será que ele não me ouviu? Talvez não, não parecia que havia sobrado muito das suas orelhas sob aquele chocante cabelo branco. Eu o agarrei e tentei voar, pretendendo nos lançar através do teto para uma sessão que não estivesse prestes a ser grelhada, mas ele plantou os pés e não se permitiu ser movido. Como ele conseguiu fazer aquilo, enquanto parecia um figurante de A Noite dos Mortos Vivos estava além da minha imaginação, ainda assim, eu poderia muito bem tentar levantar uma montanha, que daria no mesmo. — Não, — ele disse naquela voz gutural estranha. — Cinco segundos para o Protocolo de Dante na Sessão 13, — o sistema de alarme soou. Bones ainda não se moveu. Se eu voasse sem ele, eu poderia escapar, mas eu preferia morrer a fazer isso. Parecendo uma aberração ou não, esse era o Bones, e meu lugar era ao lado dele, na vida ou na morte. Joguei meus braços ao redor dele e fechei os olhos, esperando que o fogo fosse tão intenso que isso fosse ser rápidoExplosões detonaram, fazendo tudo tremer como se estivéssemos em um terremoto, mas não houve nenhum calor ou dor. Após alguns segundos, eu ousei abrir meus olhos. Nenhuma parede de fogo veio em nossa direção. Ou guardas, aliás, mas, pelos gritos frenéticos crescendo em meus pensamentos, pessoas estavam morrendo em algum lugar. Deu trabalho examinar o caos mental o suficiente para descobrir o que aconteceu, e quando descobri, eu estava chocada. — Você usou seu poder para sabotar a máquina incineradora deles antes que ela pudesse fritar esse andar, e ela explodiu no lugar em que está instalada. Fale sobre combater fogo com fogo. Ou com telecinese, nesse caso. Quando foi que Bones ficou tão poderoso assim? Uma pergunta melhor, como ele poderia estar tão poderoso, nas condições em que estava? Ele moveu a cabeça. — E… abri… portas. Falar estava claramente difícil para ele, mas suas habilidades estavam em


níveis chocantes, a julgar pelo que ele fez. — Que portas? — As que levavam a superfície, eu espero. — Todas… elas. Dizendo isso, as portas na nossa frente destrancaram e abriram. Com uma onda de novos gritos invadindo minha mente, eu entendi a magnitude do que ele disse. Ele não abriu apenas essas portas. Ele abriu todas as portas na instalação, incluindo aquelas que mantinham prisioneiros mortos-vivos em suas celas. Dessa vez, quando ouvi os gritos mentais, eu sorri. Pelos sons, Tate, Juan, Dave e Cooper estavam lidando bem com a situação deles, mas mais guardas podiam estar indo para eles. — Fique aqui, eu vou pegar os rapazes, — Eu disse ao Bones. Ele podia estar sem metade da pele do rosto, mas ele não teve problema algum em fazer uma expressão de “Você está de sacanagem comigo? — Pode haver uma luta, e você parece como se um olhar feio pudesse arrancar um membro seu, — eu disse, exasperada. Algo bateu nas minhas costas. Eu virei, já atirando, mas o que bateu em mim foi uma cabeça decepada – nojento, mas não perigoso. Então outra cabeça veio em minha direção, como se fosse uma bola de boliche, e minhas pernas fossem os pinos. Eu desviei, mas ela virou no ar e me acertou na bunda. — Pare com isso, você já fez seu ponto! Acho que eu devia ter adivinhado quem matou todos aqueles guardas, pra começo de conversa, embora, Bones parecia tão podre que a única ameaça que alguém temeria dele seria fazer a pessoa perder o apetite… Aquilo me atingiu, então. Tudo isso. Talvez fosse óbvio desde o momento em que ele quebrou a porta do quarto do pânico, mas o choque me impediu de ligar as peças. Agora eu sabia como ele ainda estava vivo, embora eu o tenha visto morrer, e o porquê de ele estar nessas condições.


E se não fosse arrancar um montão da sua carne, eu o teria socado direto no rosto. — Seu bastardo cruel, — eu ofeguei. Ele não piscou. A falta de pálpebras faz isso com a pessoa. — Depois, — ele respondeu naquela voz áspera. Oh, ele pode apostar nisso. — Cat! Eu virei, vendo uma imagem espelhada de mim, dobrando o corredor. Em algum momento desde a transformação dela de rato para minha sósia, Denise vestiu um conjunto cirúrgico. Por todos os buracos nele, ela também levou fogo pesado enquanto fingia ser eu. Minha felicidade ao vê-la dissolveu quando notei que ela não parecia nem um pouco surpresa em ver Bones vivo, ou nas condições em que ele estava. Eu era a única que não sabia o plano real por trás do meu encontro com Madigan no píer? — Vamos, a sessão de prisão dos vampiros é por aqui, — Denise disse antes de correr por nós e virar para a direita na bifurcação do corredor. Eu a segui, empurrando de volta meu turbilhão de emoções para estender meus sentidos. Não nos faria bem algum correr direto para uma armadilha. Após ouvir por alguns momentos, minha tensão diminuiu. Bones destruindo a máquina do Protocolo de Dante não simplesmente matou apenas algumas pessoas. Isso também machucou a maioria do que restava do pessoal, já que a maioria dos pensamentos que eu captava estava incoerente pela dor. Os pensamentos que ainda eram claros pareciam em pânico, enquanto os funcionários de Madigan percebiam que todas as portas interiores estavam abertas, mas o elevador para a superfície não estava funcionando. Bom. Estava na hora de eles saberem como é se sentir indefeso e preso nesse buraco dos infernos. Eu vasculhei os pensamentos o melhor que pude, mas o de Madigan não estava entre eles, o que significa que ou ele estava morto, ou inconsciente. Eu esperava que fosse o último, já que eu queria matá-lo pessoalmente. O mais


importante primeiro, entretanto. Denise correu através das portas de segurança abertas para a sessão em que as celas estavam. Então ela parou, seu nariz enrugando. As celas estavam vazias, mas corpos caíam sobre monitores de computador, cadeiras e no chão lavado de vermelho. Tate e os rapazes estiveram ocupados. Múltiplas pegadas ensanguentadas levavam a uma sala interior além das celas, embora outro conjunto de pegadas menores descesse o corredor na direção oposta a que nós viemos. — Só mais um pouco, amigo, — A voz baixa de Juan sussurrou do interior da sala. Então ela ficou suave e mais urgente — Se prepare. Alguém está vindo. Eu fui naquela direção, ao invés de descer o corredor. — É a Cat, — eu gritei, não querendo ser baleada outra vez. — ¿Querida? — Juan soltou uma risada esgotada. — Claro. Quem mais pode causar uma confusão dessas? Eu olhei para Bones e Denise antes de falar. — A maior parte disso não foi minha culpa dessa vez. Então eu passei por cima de outra forma caída enquanto entrava no que parecia um centro cirúrgico. Havia equipamentos médicos pendurados no teto em vários lugares, enquanto bisturis, cerras de osso e outros instrumentos afiados repousavam em uma mesa próxima a uma chapa de metal com amarras. A mesa estava vazia, mas a máquina tubular do outro lado da sala não estava. Tate estava nela, tubos saindo de toda parte dele, enquanto Juan e Cooper estavam de pé perto de um painel de controle. Dave saiu do canto, abaixando o fuzil M-4 ensanguentado. — Estou malditamente feliz em te ver, Cat, — ele me deu um abraço breve e feroz. Então segurou meu braço quando eu tentei alcançar os outros. — Espere. Eles estão tirando a prata líquida do Tate. Olhei em volta com um entendimento amargo. Eu não me lembrava de estar aqui, mas essa deve ser a máquina a que Dr. Óbvia se referia quando disse que a prata líquida tinha que ser dissolvida com ácido nítrico e então drenada. Isso significa que a mesa com amarras e os múltiplos instrumentos eram para


casos menores, quando a prata podia ser cortada, não que isso tornasse a coisa menos agonizante. — Como foi que Tate foi injetado com prata? Dave começou a responder, então olhou sobre meu ombro. Denise e Bones estavam atrás de mim, e eu não sabia dizer qual dos dois o chocou mais. — Denise pode mudar de forma, e Bones está se fingindo de morto, — eu resumi. — Ele vai se regenerar quando beber mais sangue. — Agora eu já vi de tudo, — Dave murmurou, sacudindo a cabeça. — Tate ainda estava com as algemas quando o colocaram de volta na cela dela depois de você beber dele. Quando as portas se abriram de repente, nós fomos pra cima dos guardas, mas um deles conseguiu apertar o botão que injetou a prata. Inundando o corpo de Tate com prata líquida. Eu tremi com a memória de como aquilo era excruciante. — Eles já vão terminar de tirar, não foi tão profundo. — Dave continuou. — Como eles sabem operar a máquina? Ele me deu um olhar sombrio. — Eles aprenderam após a muitas vezes que ela foi usada para tirar a prata deles. Tate resmungou algo que soava como o meu nome, mas sua voz mal estava audível sobre os barulhos que a máquina fazia. — Estou aqui, — eu gritei. — Não você, querida, — Juan disse, olhando em volta antes de apertar mais botões. — Katie. Ela correu quando as celas abriram. Você a viu? — Ela é uma funcionária? — Se é, eu odiava ter que dizer, mas ela provavelmente estava morta. — A garotinha, — Cooper disse, impaciente. Eu recuei. Que terrível se alguém trouxe a filha para o trabalho logo hoje… espere. — A criança na cela? — Eu perguntei, enquanto começava a me lembrar de


uma que vi de relance enquanto os guardas me levavam através das celas. Dave gemeu. — Yeah, aquela criança. Você a viu? — Pegadas, — uma voz gutural disse atrás de mim. Bones estava certo. Agora nós sabíamos de quem eram as pegadas menores se afastando dessa sessão. — Eu vou pegá-la. — Denise disse imediatamente. — Eu prefiro fazer isso do que o que vocês, pessoal, precisam fazer. — Que bom, obrigada. Denise odiava matar, e eu não podia deixar alguma pobre criança vagando, apesar de nós não podermos gastar tempo procurado por ela. Nós já gastamos muito tempo aqui. Dave agarrou Denise antes que ela pudesse sair. — Não tente forçá-la se ela não quiser ir com você. — Eu não vou assustá-la. — ela disse, rindo. — Não é isso— Madigan. A voz grossa do Bones cortou o que quer que Dave estivesse prestes a dizer. Todos nós viramos, exceto Denise, que partiu com velocidade sobrenatural. — O quê? Madigan o quê? — Eu exigi. Sua boca se esticou em um sorriso realmente aterrorizante. — Vivo. Eu agarrei os braços dele e falei uma palavra. — Onde?


Capitulo Dezenove.

B

ones redefiniu o termo “fast food*” enquanto corríamos através do

labirinto de corredores e túneis nessa instalação gigantesca. A cada trezentos metros, mais ou menos, ele agarrava um corpo, apertava com força, já que, como não havia pulso, não havia fluxo de sangue, e então o jogava fora para pegar outro. Ele tinha muitos para escolher, devido ao massacre impressionante com o qual ele se ocupou antes de chegar até mim. *Comida rápida. Mantive meus olhos atentos, já que ainda podia haver soldados nos corredores, esperando para nos emboscar; mas eu também não conseguia parar de observar o Bones. A cada cadáver que ele bebia, seu corpo aumentava, e pele nova crescia de volta para cobri-lo. Logo, todos os buracos horríveis foram cobertos e músculos se destacavam onde antes estavam murchos, por baixo das roupas. Era como observar um vampiro murchar ao inverso enquanto juventude e vitalidade sobrepunham todos os vestígios da sua aparência frágil. Se não fosse pelo seu abundante cabelo cacheado ainda estar branco, ele pareceria exatamente o mesmo de antes. Aquela não era a única mudança incrível. Enquanto seu corpo regenerava, sua aura também, até o ar ao redor dele ficar carregado com ondas pulsantes. Sentir sua conexão comigo novamente foi um alívio quase tão grande quanto ver seu corpo se restaurar. — Se você podia se regenerar tão rápido assim, por que não bebeu sangue mais cedo? — Não pude evitar perguntar. — Não tinha tempo. Era a voz dele novamente, aquele sotaque britânico tão suave quanto sempre, embora seu tom estivesse afiado com algo que eu não conseguia descobrir o que era. — Você drenou mais de uma dúzia de guardas sem quase diminuir o passo,


— Eu apontei. Ele olhou para mim, seu olhar castanho-escuro tão carinhoso quanto frustrado. — Eu estava em um estado de hibernação até Denise matar um sujeito e pingar o sangue dele na minha boca. Então eu drenei a ele e os próximos dois infelizes por quem passei, o que me deu força mental suficiente para ir atrás de você. Quanto ao porquê de eu não ter bebido mais pelo caminho, você estava sendo baleada. Qualquer tempo que eu gastasse me alimentando seria muito para gastar enquanto você corria perigo. Eu não sabia como responder àquilo. Eu ainda estava soltando fumaça por ele pregar a peça mais cruel possível, mas, por baixo daquilo, eu estava tão feliz por ele estar vivo que eu queria abraçá-lo e nunca mais soltar. Talvez a vontade de estrangulá-lo com uma mão enquanto o acaricio com a outra seja como eu fiz Bones se sentir por todos esses anos. Se fosse assim, então você podia dizer que eu mereci isso. De repente, Bones me agarrou, parando totalmente sem nem mesmo derrapar. A mudança abrupta de velocidade jogou minha cabeça para trás com força suficiente para quebrar meu pescoço, mas antes mesmo de registrar a dor, eu vi. Redes de lasers como teias de aranha na nossa frente, a mesma luz azul iluminava as paredes, tão perto que, se eu estendesse a mão, perderia meus dedos. — Filhodaputa, — eu arfei. Mais três passos, e Madigan teria que recolher nossos restos com uma pá. Então Bones me empurrou para o chão e se jogou em cima de mim. Agora eu tinha uma mandíbula e uma costela quebrada, também, mas quando uma chuva de balas passou por cima das nossas cabeças, ao invés de através delas, eu não me importei. — Sujeitos malditos, — eu o ouvi resmungar sobre o tiroteio. — Vamos ver o quanto eles gostam da sua própria armadilha. Eu não podia me mover, com um Mestre vampiro furioso me segurando, mas eu ainda podia ver quando os guardas que saíram do esconderijo para atirar em nós foram subitamente arrastados no ar e empurrados para a rede de laser. Eles gritaram, estridentes e em pânico enquanto tentavam lutar contra a


força invisível os puxando. Então seus gritos foram cortados, seguidos por sons nauseantes de coisas caindo ao redor e em cima de nós. Quando aquilo acabou, Bones me puxou de pé. — Está tudo bem, Kitten? Eu me certifiquei de não olhar em volta. Claro, eu estava acostumada com a feiura da morte. Hoje mesmo eu matei um monte de pessoas e ainda pretendia aumentar a contagem, mas isso era… grosseiro. — Tudo bem, — eu disse, mantenho meu olhar nele. — Você consegue desligar essa rede, ou precisamos encontrar uma forma de contorná-la? Bones fechou os olhos, as sobrancelhas se contraindo em concentração. Os lasers desapareceram momentos depois. Eu balancei a cabeça, dividida entre respeito e irritação. Ele não evoluiu para habilidades de Mega Mestre durante a noite, o que significava somente uma coisa: Ele vem escondendo de mim o aumento dos seus poderes. — Você tem muitas explicações para dar. — eu murmurei. Sua boca reivindicou a minha em um beijo rápido. — Eu sei, — ele disse, acariciando meu rosto enquanto se afastava. — Mas depois. Certo. Nós tínhamos alguém para encontrar, e pelos pensamentos que captei, ele estava perto. Continuamos a descer o corredor, os pensamentos de Madigan indicando o caminho. Dessa vez, no entanto, nós fomos devagar, mantendo nossas armas apontadas na nossa frente. Tivemos sorte antes, quando Bones viu a rede de lasers. Não havia necessidade de forçar a sorte correndo de forma imprudente agora. À medida que nos aproximávamos do núcleo do complexo subterrâneo, mais corpos lotavam os corredores. Esses não eram trabalho do Bones; as paredes estavam negras de fuligem, e os corpos estavam ou queimados ou atingidos por estilhaços. A máquina Dante devia estar bem próxima, para o dano ser tão grande assim. Então, no fim do corredor à nossa direita, eu vi o epicentro da instalação. Nós fomos em direção a ele. Em meio aos gemidos dos funcionários feridos,


e dos pensamentos nervosos daqueles tentando se esconder, captei um conjunto de barulhos de estática. No início, pensei que vinha dos sistemas elétricos danificados na base; então percebi que aquilo soava familiar. Onde eu ouvi aquilo antes…? Puxei Bones para trás antes que ele pudesse dar outro passo. Guardas, eu gesticulei, apontando para o teto, cerca de dez metros à frente. Seus lábios se curvaram. Então ele fechou as mãos em punhos e as abaixou. Guardas de capacete explodiram através do teto para se chocar no chão. Aqueles que sobreviveram ao impacto violento foram baleados quando o poder de Bones arrancou as armas das mãos deles e as girou para abrir fogo contra os visores deles. Tanto pelos dispositivos de bloqueio de pensamentos que Madigan instalou em seus capacetes… Saltamos sobre os corpos dos guardas e seguimos para o núcleo. A sala enorme, que pareceu tão impressionante quando eu fui empurrada através dela, agora parecia um call center abandonado. Nenhum guarda patrulhava o perímetro, e todas as estações de trabalho estavam vazias. Os computadores que monitoravam a área McClintic Wildlife e o interior da base mostravam estática, ao invés dos incríveis gráficos 3-D, e luzes vermelhas de emergência banhavam a área, que antes era tão brilhante, com um brilho assustador. — Morram, monstros! Eu me virei na direção do pensamento a tempo de sentir algo passar zunindo pelo meu rosto. Não foi necessário leitura de mente para descobrir o que era aquilo, e eu me abaixei antes do próximo tiro. Duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. A arma voou para fora da mão do funcionário, e seu pescoço quebrou com um crack audível. Ele tombou sem outro pensamento, mas minha mente estava longe de estar em silêncio. O atirador era a única pessoa visível, mas a sala não estava vazia. — A próxima pessoa que atirar na minha esposa terá a arma enfiada na bunda. — Bones rosnou. Então ele balançou a mão para um grande arquivo de metal próximo da parede. — Saiam.


Choros soaram quando o gabinete foi empurrado de lado, revelando um espaço oculto. Várias pessoas feridas estavam escoradas na parede, e meu coração ficou apertado quando vi uma mulher agachada protetoramente sobre um homem inconsciente e ensanguentado. A julgar por suas roupas casuais, eles eram funcionários, não guardas ou doutores, e seus pensamentos revelavam que todos eles estavam convictos que estavam prestes a morrer pelas mãos – e presas – de dois monstros impiedosos. Uma vez, não muito tempo atrás, eu me senti da mesma forma a respeito dos vampiros. Apesar do fato de que todos eles me matariam, se tivessem a chance, eu me inclinei para o Bones e toquei seu braço. — Não, — eu disse suavemente. Sua boca se curvou, não no sorriso cruel que ele mostrou quando abateu os guardas no teto, mas algo provocador. — Como se você precisasse dizer isso, Kitten. Então seu olhar brilhou em um verde intenso enquanto ele voltava sua atenção aos espectadores aterrorizados. — Diferente dos bastardos para quem vocês trabalham, eu não mato pessoas inocentes, então, se vocês não estão diretamente envolvidos em sequestrar ou fazer experimentos em meu povo, vocês não serão feridos. Até lá, não se movam ou falem. Kitten? Eu me inclinei para eles, feliz por ouvir seus batimentos voltarem a um ritmo normal enquanto o poder dele os convencia de que eles não seriam mortos ali mesmo. Então eu examinei os de pé e os feridos. O homem que nós procurávamos não estava entre eles, mas ele estava aqui. Eu podia ouvir seus pensamentos, para não mencionar sua respiração pesada. — Ali, — eu disse, apontando para a entrada fechada do elevador. Bones fechou os olhos. Momentos depois, as portas de aço abriram, revelando a plataforma circular manchada que, a mais ou menos um quilômetro acima, levava ao iglu de concreto e à liberdade. Graças ao poder do Bones, a plataforma não estava funcionando no momento. Nenhum humano podia escalar aquelas paredes lisas de metal, também, portanto, eu não fiquei surpresa em ver Madigan se pressionando tão


longe da porta quando podia, tentando se esconder, mas incapaz de escapar. O que eu não esperava era a pistola Desert Eagle que ele pressionava na têmpora. — Dê mais um passo, e eu atiro. — ele avisou. Pega de surpresa, eu ri. Eu o imaginei dizendo muitas coisas quando o encontrássemos, mas isso não estava em minha lista. — Era pra isso ser uma ameaça? Você perdeu a parte em que nós queremos você morto? Os lábios de Madigan se dividiram em algo muito feio para ser chamado de sorriso. — Sim, mas você quer informação muito mais. Deixe-me ir, e você terá a chance de consegui-la um dia. Mova-se outro centímetro, e eu irei espalhar tudo o que sei sobre essa parede, ao invés. Pra variar, ele não cantava nada em sua mente, então eu ouvi alto e claro quando ele pensou Provoque-me e veja, Crawfield. Ele nunca vai acertar meu sobrenome. Eu encarei seus olhos azuis brilhantes e soube que ele não estava blefando. Se nós sequer nos mexermos, ele puxará o gatilho, e o poder daquela pistola explodiria o seu crânio para o além. Ele sabia algo que eu não podia descobrir acessando os computadores daqui? Talvez, e talvez nós nem conseguíssemos acessar os computadores. — Ah, Bones, — eu disse docemente. Os olhos de Madigan arregalaram quando Bones disse — Já está feito, Kitten. Então Bones se aproximou dele com uma lentidão deliberada e provocadora. A mão do Madigan abaixou da cabeça dele mesmo que seus pensamentos gritassem em protesto. Sua frustração era música para os meus ouvidos quando ele percebeu que não tinha o controle do próprio corpo. Eu me aproximei também. Sorrindo. Sem um único pensamento para nos alertar, sua mandíbula rangeu. Bones disparou para ele, enterrando os dedos na boca do Madigan, mas era muito tarde. Espuma escorria pelos lábios de Madigan, e seus olhos rolaram para


trás. Então seu corpo todo começou a convulsionar. — Não! —Eu arfei, reconhecendo os sinais de um envenenamento por cianeto. Ver a cápsula meio dissolvida encaixada em um dente falso que Bones arrancou da boca dele era quase redundante. Deve ter contido uma dose massiva – a pulsação de Madigan foi às alturas e então parou abruptamente. — Não, você não vai, — Bones rosnou. Ele rasgou o pulso com uma presa e pressionou na boca de Madigan, mexendo a garganta do outro homem para forçá-lo a engolir. Então ele socou o peito de Madigan, tentando circular manualmente os poderes do seu sangue através dele. Não foi o suficiente. Bolhas vermelhas saíram dos lábios de Madigan, e seus olhos ficaram fixos e dilatados. Aconteceu tão rápido que ele nem teve tempo de um pensamento final. Se ele tivesse tido, provavelmente teria sido Foda-se. E ele, de fato, nos fodeu. Frustração, raiva e negação fervilharam em mim. Depois de tudo o que ele fez, Madigan conseguiu escapar mesmo que nós o tivéssemos preso e encurralado. Qualquer coisa sobre a pessoa que o ajuda e os resultados de seus experimentos sujos que não esteja salvo nos computadores daqui agora estão fora de alcance, para sempre. — Seu maldito, — eu disse em uma voz engasgada de fúria. Bones soltou Madigan e se inclinou para trás, dando ao homem morto um olhar friamente calculado. — Ele acha que escapou de nós, mas talvez não.


Capitulo Vinte.

D

epois de tirarem a prata líquida do Tate, ele, Juan e Cooper

vasculharam a instalação, para ter certeza de que não havia mais guardas escondidos por aí, esperando a chance de atacar. Denise ainda hão havia voltado com a criança desaparecida, mas eu não estava preocupada. Apenas osso de demônio fincado entre os olhos poderia matar Denise, e Madigan não tinha um. Quase nenhum morria. Osso de demônio era mais difícil de conseguir do que astato*. *Elemento químico raro. Dave, entretanto, estava com Bones e eu. Ele encarava o cadáver de Madigan, sua boca apertada em uma linha fina e firme. — Normalmente, eu adoraria dilacerar o peito do bastardo, mas, nesse momento, o pensamento não é atraente. Bones bateu na coxa com a larga faca que ele pegou de um dos centros cirúrgicos da base. — Não podemos nos dar ao luxo de esperar. A cada dia, o sangue perde poder. As sobrancelhas do Dave subiram. — Você me ergueu após eu estar no chão por mais de três meses. — Ela forçou um monte de sangue vampiro em você enquanto você morria, — Bones disse, com um olhar aprovador para mim. Então ele chutou o corpo de bruços do Madigan. — Esse sujeito mal tomou uma gota. Dave suspirou, resignado, antes de tirar a camisa e estendê-la para mim, com um sorriso cínico. — Você esteve lá para assistir esse coração ser colocado no meu peito. Acho que seja apropriado que você esteja aqui para assistir ele ser tirado, também.


— Ele foi do Rodney, e então seu, é um bom coração. — Eu respondi, preparando-me para o que estava por vir. — Ele não o merece. Dave rosnou. — E eu não quero isso, mas, ainda assim, aqui estamos. Dizendo isso, ele aceitou a faca do Bones e se ajoelhou próximo a Madigan. Ao invés de abrir os botões, ele cortou através da camisa de Madigan, expondo o peito pálido e cheio de cabelos grisalhos do velho. — Há algum truque para isso? — Dave perguntou, repousando a ponta afiada no peito de Madigan. Bones riu de leve. — Não, essa é a parte fácil. Colocá-lo de volta corretamente é onde você precisa de delicadeza e precisão. Dave correu a lâmina através do centro do peito de Madigan. Então ele arrancou uma parte da caixa torácica, expondo o coração do antigo diretor. Alguns cortes depois, e Dave estava segurando aquilo para cima como um troféu macabro. — Podia jurar que isso seria negro, — ele murmurou. Se maldade manchasse, ele seria, mas o coração de Madigan parecia com o de qualquer outra pessoa. Mas isso não significava que eu queria ter contato com aquilo, ainda assim, quando Dave o estendeu para mim, eu o peguei. Apesar de isso ser perturbador, não se comparava com o que estava por vir. Dave estendeu a faca ensanguentada para Bones e se preparou. Bones não hesitou. Ele enfiou a faca até o cabo sob a caixa torácica de Dave. Então, da mesma forma rápida e brutal, ele fez um corte largo o suficiente para sua mão e a enfiou ali. Sons ásperos escapavam dos lábios firmemente fechados de Dave, mas ele não gritou. Eu teria gritado, se fosse o meu coração sendo arrancado do peito. Repetidamente. Ainda assim, aqueles sons irregulares eram a única indicação que Dave deu do quanto aquilo doía, e do trauma mental de ver Bones retirar seu coração do peito. — Agora, Kitten, — Bones disse, em um tom prático. Eu entreguei a ele o coração do Madigan e peguei o do Dave, encaixando-o na cavidade aberta do peito de Madigan. Então limpei minhas mãos no jaleco emprestado, que agora estava mais vermelho do que branco. No pouco tempo


que levei para fazer isso, Bones terminou com Dave, que tremia enquanto se afastava. — Você precisa comer, — Bones disse a ele. — Há muita comida aqui, então pegue, e lembre-se: crua ela vai te curar mais rápido. Ele não estava se referindo à comida normal dos ghouls, que era pedaços crus de carne comum. Eu me repreendi por ter um instantâneo flash de náusea enquanto Dave saía para seguir aquelas instruções. Ele não podia evitar precisar daquilo para sobreviver e, como Bones apontou, havia muitos soldados mortos para escolher. Além disso, a parte de Dave nisso pode ter terminado, mas a nossa não. — Traga-me dois, — Bones disse. Ele se ajoelhou perto do corpo de Madigan, arrumando as partes por dentro com habilidade nascida da prática. Saí do poço do elevador e fui para a outra sala, onde os funcionários da base esperavam em um silêncio obediente. Então selecionei dois dos que pareciam mais saudáveis e os levei. Antes que eles vissem o interior do poço de elevador, eu os encarei nos olhos com meu olhar acesso. — Não tenham medo, — eu os disse em uma voz ressoante. — Vocês não serão feridos. Se eu não tivesse feito isso antes de os levar para o poço, eles teriam se mijado, de tão apavorados por ver um corpo com o peito aberto e um vampiro inclinado sobre ele, cortando sua própria garganta. Inferno, aquilo me deixava nervosa, e eu já vi aquilo, anos atrás, quando Bones levantou Dave como um ghoul. Transformar alguém em vampiro era muito mais bonito, em comparação. Após Bones derramar cerca de um litro do seu sangue na cavidade do peito de Madigan, ele se sentou. Levei rapidamente o homem e a mulher para ele. Ele bebeu de cada um e voltou para a horrível tarefa de forçar mais sangue dele para o peito escancarado do Madigan. Já que ele não precisava da minha ajuda para aquilo, levei os dois doadores de volta ao grupo deles. Eles estavam um pouco tontos, mas bem. Antes que eu pudesse voltar para a plataforma do elevador, eu trombei com Tate. — Nós temos um problema, — ele disse.


Olhei em volta, cuidadosamente. — Mais guardas? — Não, nós cuidados dos últimos, — ele disse em tom desdenhoso. Então seu tom endureceu. — Estou falando sobre software. Acontece que a máquina Dante não era o único mecanismo de alto-destruição. Eu suspire. — Você não quer dizer… — Que Madigan tinha um dispositivo de emergência que fritava cada cartão de memória e disco rígido aqui? — Tate sugeriu sombriamente. — Yeah, eu quero. Nem mesmo celulares e tablets escaparam. Tudo torrou. Tive vontade de bater minha cabeça na parede mais próxima. Não é de se espantar que o canalha convencido tenha dito que se ele se matasse, nós nunca descobriríamos seus segredos! Máquinas de incineração. Redes de laser. Software de destruição de dispositivos. Madigan foi paranoico a um grau fantástico ao instalar todas essas medidas de proteção na sua instalação. Quem, ou o quê, ele estava tentando ocultar? Pelo menos nós podemos ainda ser capazes de descobrir. — Pode ser que não esteja tudo perdido, — eu disse, acenando para a plataforma do elevador aberta atrás de Tate. Ele virou, observando enquanto Bones inundava o novo coração de Madigan com sangue vampiro, tentando trazê-lo de volta como ghoul. Se ele tivesse bebido mais antes de morrer, sua transformação seria inevitável após trocar seu coração com um ghoul e reativá-lo com sangue vampiro. Mas Madigan tinha bebido no máximo algumas gotas do sangue do Bones. Seria suficiente? Eu esperava que sim. Finalmente, após recolocar as costelas de Madigan sobre o coração e cobrir a área com mais sangue, Bones levantou, correndo uma mão exausta pelo seu cabelo branco como neve. — Quando saberemos se funcionou? — Perguntei. Ele deu de ombros. — Ele vai levantar em algumas horas, ou permanecer morto para sempre. De qualquer forma, nós precisamos ir. Um pedido de socorro pode ter sido enviado quando nosso ataque começou, nós já ficamos aqui muito tempo.


Verdade, e nós não precisávamos nos complicar mais ainda, lidando com reforços enquanto esperávamos para ver se Madigan retornava da sepultura. Mas antes de irmos para qualquer lugar… — Denise já encontrou a criança? — Eu perguntei ao Tate. Antes que ele pudesse responder, uma voz feminina o interrompeu. —Ela me encontrou, — Denise disse, soando machucada. Eu me virei, meus olhos se arregalando quando a vi. Ela mudou de volta para a sua própria aparência, e seu pescoço e cabelo cor de mogno estavam ensopados com sangue fresco. A vestimenta médica que ela usava estava ensanguentada, também, e tinha um novo buraco enorme bem em cima do coração. — Eu tentei te avisar, — Dave gritou atrás dela. — Você devia ter sido mais específico! — Ela gritou de volta, aborrecimento substituindo seu choque. Tate balançou a cabeça. — A culpa é minha. Algumas semanas atrás, eu disse a Katie que, se alguma vez ela tivesse a chance, ela devia fugir e matar qualquer um que tentasse impedi-la. — Matar? — Eu repeti, incrédula. — Ela é uma criança, Tate. Ele me olhou com simpatia. — Apenas em idade. Eu te disse que você não sabia de metade do que Madigan fez. Bem, ela é a outra metade. — Ela é mais do que metade, — Denise respondeu, rígida. — Aquela garotinha quebrou meu pescoço assim que me viu, então cortou minha garganta quando eu fui atrás dela, e então me empalou com um cano que ela arrancou da parede quando eu levantei de novo! Nem preciso dizer que, depois disso, eu fiquei no chão até que a Cachinhos Dourados Homicida fosse embora. Eu a encarei, minha mente se recusando a aceitar o que Denise disse, mesmo que eu soubesse que ela não mentiria. A criança de cabelo castanhoavermelhado que eu vi não devia ter mais que dez anos. Ela também parecia ter menos que metade do peso da Denise. Como ela podia ter a força para fazer tudo aquilo, que dirá a resolução de ser tão impiedosa assim?


— Inferno sangrento. — Bones suspirou. — Ela é, não é? — Ela é o quê? — Eu perguntei, tentando aceitar a ideia de que alguém do ensino fundamental tinha chutado o traseiro sobrenaturalmente “inchutável” da minha amiga de três formas letais diferentes. — O auge de todo o trabalho de Madigan, — Tate disse em uma voz de aço. — Katie é humana, mas ela também é parte vampira e parte ghoul, e Madigan a criou para ser uma máquina de matar.


Capitulo Vinte e Um.

K

atie não estava mais na instalação subterrânea. Tate seguiu seu cheiro

e descobriu um poço secreto entre as paredes que levava direto até a superfície. O grosso metal colocado em cima dele tinha sido chutado. Era estreito demais para um adulto caber, então devia ter sido um duto de ventilação, antigamente, quando essa instalação era um abrigo antibombas. Mas, para uma criança magra com uma dose dupla de genes inumanos, deve ter sido relativamente fácil escalar até a liberdade. Uma vez lá fora, as piscinas, lagos e pântanos em volta dissiparam o seu cheiro o suficiente para torná-lo impossível de rastrear. Então as poucas pegadas que Katie deixou terminavam em um canal raso, então não podíamos encontrá-la assim. Ainda era luz do dia, também, o que significava que nós não podíamos nos arriscar a fazer uma varredura aérea. Alguma coisa do tamanho de um humano voando sobre a área McClintic Wildlife alimentaria os rumores sobre o Homem Mariposa por décadas, e também não podíamos nos arriscar a ficar por aqui até anoitecer para fazer isso. Teríamos que voltar depois para procurá-la. Sobre-humana ou não, Katie ainda era apenas uma criança. Não deveria ser muito difícil encontrá-la. De volta à base, nós concluímos que os funcionários sobreviventes não estavam diretamente envolvidos nos planos de cruzar espécies de Madigan e substituímos suas memórias dos eventos do dia com uma nova versão. Então os deixamos lá fora, num iglu de concreto, com instruções para não partirem até o amanhecer. Se um pedido de socorro não foi enviado, nós queríamos o tempo extra para fugir. Então voltamos para o subsolo e queimamos o resto da instalação. Essas pessoas tinham meu DNA registrado, e eu não queria deixar mais dele como prova de que eu estive envolvida na destruição, mesmo que eu seja o primeiro, segundo e terceiro palpite do apoiador misterioso de Madigan. É por isso que eu irei ligar para a minha mãe assim que tiver um celular funcionando. Madigan pode ter blefado sobre ela estar na nossa antiga casa em Ohio, mas se ele não blefou, eu não queria testar seu ataque de drones. Se nós formos ridiculamente


sortudos, o backup de Madigan acreditará na história que implantamos nas mentes dos sobreviventes: um mal funcionamento interno ativou a explosão na máquina Dante, que incendiou outros gases na base e resultou numa explosão em cadeia. Era uma teoria plausível, a menos que alguém se incomodasse em fazer uma autópsia nos corpos. Madigan ainda não havia acordado. Já ouve atrasos assim, Bones me disse, mas não era uma boa previsão das chances dele acordar como ghoul. A maioria acordava em minutos, como Dave. Talvez Madigan tenha conseguido fugir de nós, afinal. Se conseguiu, eu só podia me consolar que ele não escaparia de Deus. Então, cobertos de sangue e exaustos, nós sete saímos do iglu que tinha a plataforma de elevador secreta. Spade esperava por perto, já que Fabian disse que ele podia entrar na reserva. O fantasma ficou radiante por ver que estávamos todos vivos e bem já que, como eu, ele não sabia que minha chegada com o cadáver do meu marido foi uma armação. Isso era algo que eu pretendia discutir assim que eu estivesse sozinha com Bones. Agora, nós tínhamos que dar o fora daqui sem sermos detidos por reforços, então tínhamos que procurar uma garotinha pequena, com múltiplas espécies, que podia ser a coisa mais mortal sobre duas pernas. O que nós não precisávamos era encontrar um grupo de jovens aspirantes à criptozoologistas, zanzando pela reserva trocando histórias sobre o Homem Mariposa. — Tô te falando, eu vi alguma coisa bem aqui. — Um garoto sardento, usando uma camiseta “Eu quero acreditar” estava dizendo, enquanto apontava para um iglu selado. Ele parou de falar quando nos viu. As três garotas e dois rapazes com quem ele estava primeiro encaram, então pensaram, nervosamente. O que aconteceu com eles? Isso é sangue? Passou pelos pensamentos deles. Eu estava prestes a começar a hipnotizar o grupo quando Denise falou. — Vocês precisam experimentar o larping* zumbi. — Ela disse a eles. — É a


única forma de viver de verdade jogos de interpretação. *Jogo derivado do RPG. — Ah. O garoto sardento acenou aprovando enquanto olhava meu jaleco ensanguentado, as roupas rasgadas por bala do Bones, a vestimenta cirúrgica também ensanguentada da Denise e as roupas igualmente salpicadas de vermelho dos rapazes. O fato de que Tate carregava o corpo de Madigan no ombro provavelmente aumentava a autenticidade. Então o garoto franziu quando viu a camisa branca imaculada do Spade e suas calças de alfaiate. — A fantasia dele é uma droga. — Ele é novato, — eu disse, encobrindo o som do rosnado de aviso do Spade. — Bem… divirtam-se. — A loira com rabo de cavalo falou. Nerds, ela pensou. Então Oh, ele é gostoso enquanto ela encarava os furos na calça do Bones quando passamos por eles. Se eu não tivesse tido um dia infernal, eu teria dito a ela para parar de olhar para a bunda do meu marido. Ao invés disso, eu peguei o braço do Bones e continuei andando. Se não estava tentando nos matar, não valia minha atenção no momento. Saímos da reserva sem incidentes, então subimos em um Suburban preto em que Ian esperava no volante. — Quem é o cadáver? — Foi seu único comentário enquanto partíamos. — O sujeito que estava atrás da Cat, — Bones respondeu. — Eu estou procurando uma garota pequena com cabelo castanhoavermelhado que pode ter passado por aqui uma hora atrás. Você a viu? — Tate perguntou ao Ian. Ele deu de ombros. — Pequena como baixa ou nova? — Muito nova. Por volta de dez anos. Com aquilo, as sobrancelhas do Ian subiram. — O cativeiro te deixou


pervertido, não? Tate socou a parte de trás do banco do Ian com tanta força que o encosto de cabeça quebrou e bateu na cabeça do Ian. — Ela era uma prisioneira, seu idiota! Ian pisou no frio e estacionou o carro. Bones se inclinou sobre mim e agarrou o braço do Ian quando ele estava prestes a abrir a porta. — Eu cuido disso, — ele disse em uma voz baixa e dura. Os olhos do Ian ardiam em verde enquanto ele encarava Tate pelo retrovisor. — Não se preocupe. Eu vou perdoar o ataque dele, por ele estar perturbado após sua experiência recente. — Muito obrigado, — Bones disse, ainda com a voz dura. Então ele se virou para encarar Tate. — Anos atrás, quando você me pediu para te transformar em vampiro, eu te disse que um dia, você teria terminado seu trabalho, mas ainda estaria preso às regras do meu mundo. Hoje é o dia, companheiro. — O que isso significa? — Tate perguntou com uma voz azeda. — Significa que, como minha criação, você atacar outro vampiro é o mesmo que eu atacar, — Bones respondeu, afiado. — É por isso que você nunca mais fará isso sem minha permissão. Está claro agora? Tate o encarou, as linhas em seu rosto ficando mais rígidas. — Eu tinha me esquecido do quanto eu não gosto de você. — Ele disse suavemente. Eu disse a mim mesma que não iria interferir, mas isso já era demais. — Oh, cale a boca, Tate. O lado bom em ser uma criação do Bones é que ele arrisca a vida dele para te tirar da prisão, então lide com a parte ruim. Como ele disse, foi para isso que você assinou quando se tornou um vampiro. Eu me virei para o Ian. — Um comentário pervertido sobre uma criança? Sério? — Eu pensei que ele estivesse sendo depravado, — Ian respondeu. — E o


chamei de pervertido por causa disso, é isso o que alguém que se interessa dessa forma por uma criança é. Ele até mesmo conseguiu soar ofendido. Bom saber que Ian tem algum senso de moral, mesmo que esteja coberto por pilhas de pornografia e violência. — Então isso foi um mal entendido que foi longe demais, — Eu resumi, pensando em quantas guerras devem ter começado assim. — Estamos todos bem, agora? A última parte foi direcionada ao Bones. Eu não sabia tudo sobre a hierarquia vampira, então não tinha certeza se Tate ainda teria que pagar por agredir o amigo dele, mesmo que Ian esteja disposto a esquecer. — Por enquanto. — Bones disse, encarando Tate. O vampiro mais jovem olhou para longe. Pelo jeito que Tate cruzou os braços sobre o peito, essa não seria a última briga intensa entre eles, mas seu silêncio confirmou que ele concordava. Então Bones voltou sua atenção para o Ian. — Você nunca disse se viu a garotinha. — Não, não vi. — Ian respondeu enquanto colocava o carro de volta na estrada. — Por que o seu cadáver causador de problemas iria se dar ao trabalho de aprisionar uma criança? Bones suspirou. — Isso, companheiro, você não vai acreditar.


Capitulo Vinte e Dois.

P

aro o caso de estarmos sendo seguidos, abandonamos o Suburban

assim que estávamos longe dos olhares curiosos das áreas populosas. Então, já que metade do nosso grupo não podia voar, cada um de nós agarrou uma pessoa e jogou a versão do Homem de Ferro de Barril de Macacos*. No ar, as únicas coisas com as quais precisávamos nos preocupar se estavam nos seguindo eram aviões, helicópteros ou drones, mas, felizmente, ainda não havíamos visto nenhum deles. *Aquele jogo em que um macaco se pendura no barril e a gente pendura outro na mão dele, e outro na mão do de baixo até acabarem os macacos. A versão Homem de Ferro é por que eles estavam voando. Nós não voamos por muito tempo. O céu estava muito claro para arriscar voar sobre as cidades, e Madigan podia acordar a qualquer momento. Além disso, agora que o perigo imediato havia passado, minha explosão de energia para sobreviver desapareceu, deixando-me perigosamente cansada. Voar carregando um homem grande não ajudava. Quando eu me peguei olhando um trecho de fazenda e fantasiando em cair ali para poder dormir, eu soube que tinha esgotado minhas forças. Felizmente, Ian e Spade começaram a descer, sinalizando que nós estávamos próximos do nosso destino. Acabou por ser um grupo de silos perto de uma linha de trem inutilizada. A área ao redor dos silos altos estava deserta, e eu não ouvi nenhuma atividade dentro deles, o que significa que eu não precisava me preocupar em ser discreta. Eu me choquei contra a terra macia atrás dos silos, pousando até mesmo com mais força do que o normal. Dave, meu passageiro sem sorte, soltou mais “oofs!” durante nosso pouso do que soltou quando Bones arrancou o coração dele. — Eu quero carona com qualquer um exceto ela para o próximo voo. — Ele disse quando nós finalmente paramos de rolar. Então um grito a cerca de um quilômetro acima chamou nossa atenção. Tate caía em nossa direção, os braços se debatendo como se ele estivesse


tentando impedir sua queda livre. Não funcionou, claro. Ele caiu com força suficiente para criar um esboço profundo no chão macio ao redor dele. — Ok, quero carona com qualquer um exceto ele, também. — Dave completou, enquanto Ian flutuava para pousar ao lado do buraco com o formato do Tate. Bones pousou em seguida, mas, ao contrário do Ian, ele segurou seu passageiro o tempo todo. — Imbe… cil. — Tate grunhiu enquanto se erguia, acompanhado pelo som de múltiplos ossos estalando de volta ao lugar. Bones olhou para o Tate, então para o Ian, que não se incomodou em esconder seu sorrisinho. — Bom saber que você se manteve fiel à sua palavra de deixar de lado a agressão dele, — Bones disse, exagerando no sarcasmo. Aquele sorrisinho virou um sorriso selvagem. — Mudei de ideia, Crispin. A chegada de Spade com Denise e Cooper cortou o que quer que Bones estivesse prestes a responder. — Ele está muito fraco, — Spade disse, ainda segurando Cooper, embora eles já estivessem em chão firme. — Eu dei sangue pra ele, mas o que quer que sejam esses experimentos que fizeram nele, isso está o matando. Eu fui em direção ao Cooper, notando o aroma enjoativo de doença que sobrepôs seu cheiro natural de cravo-da-índia e musgo de carvalho. Mesmo com os efeitos curativos do sangue vampiro, sua pele ainda tinha um tom cinzento, e seus olhos escuros estavam levemente desfocados. — Lembra quando eu costumava te chamar de aberração? — Ele perguntou, sua risada falhando um pouco. — O que eles fizeram comigo faz você parecer normal. Eu engoli de volta o nó que se formou na minha garganta. — Madigan tentou duplicar a natureza tri-espécie da Katie em você, não foi? Outra risada áspera. — Yep, mas não funcionou. Nem em mim, nem nos dois mil bastardos azarados antes de mim. Madigan continua esperando por outro golpe de sorte como Katie, mas acho que ele precisa de mais do que quer que ele tenha tirado de você anos atrás para fazer funcionar. Isso, ou


esperar até que Katie fique mais velha. Eu sabia o que a última parte significava… reprodução forçada. Madigan pretendia fazer o mesmo comigo, então, embora aquilo me deixasse doente, não me surpreendia. Mas o número que Cooper disse surpreendeu. — Madigan te disse quantas pessoas ele matou com as experiências dele? — O bastardo estava orgulhoso por ser o maior assassino em série da América? — Ele não precisou nos dizer. Nós pudemos contar. Tate falou, finalmente saindo do buraco que ele fez quando caiu. Cooper acenou sombriamente. — Eu era W98. Difícil tirar um apelido fofo disso. — Explique, — Bones disse, ecoando meu próprio pensamento. Tate parou para olhar feio para o Ian uma vez antes de falar. — Madigan classificava seus espécimes de teste alfabeticamente e então numericamente, até cem por letra. Quando ele nos trouxe aqui, ele nos marcou a partir do seu único sucesso, Espécime A80, para afiar as habilidades de luta dela. Pela sua classificação baixa, ele deve estar com ela há tanto tempo que deve tê-la pegado quando era um bebê, então ela não sabia o nome verdadeiro dela. Eu não pude aguentar me referir a ela com um número de espécime, como ele, então eu a chamei de Katie. Agora nem engolir ajudaria a dissipar o nó que se formou na minha garganta. Ao mesmo tempo, eu tremia de raiva. Um número de espécime também foi designado a mim. A1, de acordo com os guardas de Madigan, mas como ele pôde sequestrar e fazer experiências em um bebê? Katie nunca teve uma chance na vida por causa dele. Era sem sentido, mas, ainda assim, eu me virei e chutei o corpo de Madigan com tanta força que ele ricocheteou no silo mais próximo. — Acorde! — Eu gritei para ele. — Você não pode continuar morto, você tem muito pelo que pagar! — Kitten, pare.


Bones me agarrou quando eu estava prestes a chutar o corpo de Madigan no silo novamente. — Você pode deslocar o coração dele e o impedir de acordar. E parei, afundando nos braços fortes que me seguravam. — Quem nós estamos enganando? Já faz três horas. Ele não vai voltar. Bones olhou para a luz do sol desaparecendo, que coloria os silos em vários tons de laranja, rosa e lilás, antes de falar. — Talvez não, mas nós ficaremos com ele essa noite, para ter certeza. Tate. Ele levantou a cabeça, olhar azul índigo cheio de nojo mal contido. — O quê? — Você criou uma conexão com Katie? Ele deu de ombros. — Talvez. Com suas habilidades e olhos brilhantes, eu soube imediatamente o que ela era, mas Madigan não nos deixava socializar. O único tempo que nós tínhamos juntos era quando ela era instruída a me matar. No começo, ela foi impiedosa sobre isso. Então eu comecei a chamá-la de Katie e conversar com ela enquanto nós lutávamos. Ela nunca disse, mas ela gostava disso. — Como você pode ter certeza? Tate encontrou o olhar dele sem ressentimento dessa vez. — Porque nas últimas duas semanas, ela ficou boa o suficiente para arrancar minha cabeça, e, ainda assim, ela não fez. E ela escondeu isso de Madigan. Meus olhos queimaram por mais lágrimas não derramadas. A pobre garota esteve no cativeiro mais impiedoso desde que era um bebê. Tate deve ter sido a coisa mais próxima que ela já teve de um amigo. — Então se ela vir você, — Bones continuou, — pode ser que ela não corra. Ou tente te matar, como ela fez com Denise. Spade ficou tenso com aquilo. Denise olhou para longe, culpada. Acho que ela não contou para ele quem a sangrou tanto. O sorriso de Tate foi amargo. — Depende. Eu a disse para matar qualquer


um que fosse atrás dela. Isso pode incluir a mim, pelo quão metodicamente a mente dela funciona. — Você está disposto a correr esse risco? — Bones perguntou diretamente. Tate bufou. — Eu pareço um covarde para você? — Não, — Bones respondeu com o fantasma de um sorriso. — Você parece o mesmo sujeito teimoso, impulsivo e fiel que eu já quase matei centenas de vezes antes, e é por isso que você é perfeito para o trabalho. — E você é o mesmo idiota autoritário que sempre foi, — Tate respondeu, seus olhos brilhando verde. — Mas você está certo. Para isso, eu sou o seu cara. De alguma forma, depois daquele discurso insultuoso, eles trocaram um olhar de completo entendimento. Eu balancei a cabeça. Talvez eles nunca irão gostar um do outro, mas é possível que respeito mútuo ainda possa existir entre eles. — Então vá, — Bones disse. — Ian? Leve-o de volta à Point Pleasant. Fabian ficou para trás para ajudar. Talvez ele tenha boas notícias. Ian realmente não gostava do Tate, então eu esperava qualquer coisa exceto o seu excitado “Vamos nessa, então!” antes que ele agarrasse Tate e partisse como um foguete. Por que ele…? Ah, certo. — Pare-o! Ele está feliz sobre isso porque pretende matar o Tate! Bones me deu um olhar cínico. — Não é por isso, amor. Ian coleciona coisas raras e incomuns, e aquela criança é a pessoa mais rara e incomum no mundo agora. Ele vai vasculhar o planeta todo com Tate e Fabian procurando por ela. Aquela percepção era quase tão preocupante quanto a minha primeira. Então eu me consolei com o pensamento de que Ian era muitas coisas, mas ele não era um pedófilo. Ele pode querer “colecionar” Katie, mas ele não vai encostar um dedo nela. O mesmo não podia ser dito de outros que também poderiam estar procurando pelo experimento desaparecido de Madigan. — Já que todos os assuntos urgentes foram tratados, eu preciso de um momento a sós com a minha esposa. — Spade disse, interrompendo minha linha de pensamento.


Denise me lançou um olhar sofrido antes de se afastar com Spade. Eles desapareceram no silo mais distante de nós. Com o concreto grosso e paredes de metal de trezentos metros de altura, eu mal podia ouvi-los depois que entraram. Eu apertei a mandíbula. Eu tinha algumas coisas para discutir com meu esposo, também, mas, antes que eu pudesse, a condição de Cooper ainda precisava ser cuidada. — Depois do que Madigan fez com você, nós não podemos arriscar ter levar a um hospital, — eu disse, pensando. — Mas Bones conhece alguns médicos clandestinos… — Chega de médicos. Cooper tremeu quando falou, memórias de experimentos brutais passando por sua mente. Depois de tudo pelo que ele passou, eu entendia, mas Spade estava certo. Cooper estava morrendo bem diante dos nossos olhos. Eu nem tinha mais certeza se sangue vampiro poderia curar todos os danos celulares. Ele não precisava apenas de um médico. Ele precisava de vários. — Cooper, você vai morrer, — eu disse tão gentilmente quanto pude. Ele mostrou dentes brancos em um sorriso breve. — Esse é o meu plano, e eu prefiro que seja logo, já que dói por toda parte. Bones? — Você não precisa pedir, — meu marido respondeu. — Você tem sido um dos meus por anos. Está na hora de você receber todos os benefícios disso. Ah, ele quer dizer esse tipo de morte. Minha tensão sumiu. Madigan pode ser comida de verme, mas parece que vamos trazer alguém de volta da sepultura essa noite, afinal. — Kitten, peça a Charles para ligar para Mencheres e dizer a ele que nós precisamos de um veículo seguro para transportar um vampiro novo. — Bones disse, já que nenhum de nós estava com um celular. Então ele puxou Cooper, empurrando a cabeça dele para trás quase casualmente antes de enfiar as presas na garganta do outro homem. Parece que imediatamente.

Spade

precisa

fazer

essa

ligação

para

Mencheres


Fui informar Spade e Denise sobre o que estava acontecendo e esperei enquanto Spade fazia a ligação. Quando voltei, Bones já tinha terminado. Cooper estava deitado no chão, sua pulsação em silêncio, apenas uma pequena mancha vermelha em sua boca indicava a enormidade da mudança acontecendo nele. Em algum momento nas próximas horas, ele acordará como um vampiro, permanentemente livre de todos os danos que Madigan o infligiu e vulnerável apenas a decapitação e prata através do coração. Bem, e do nascer ao pôr do sol pelos próximos meses, mas o povo do Bones o protegerá durante essa fase. E já que nós finalmente não tínhamos nenhuma situação de vida ou morte para resolver, eu podia voltar minha atenção para outros assuntos importantes. — Bones. — Minha voz estava suave, mas dura. — Nós precisamos conversar.


Capitulo Vinte e Três.

O

interior do silo me lembrou do elevador do Madigan. Ambos eram

espaços circulares com paredes lisas de metal, impossíveis de escalar. A diferença principal era que a luz brilhava no topo do silo e seus trezentos metros de altura eram muito mais curtos que os quase dois quilômetros do elevador secreto de Madigan. O interior simples estava bem para mim. Bones e eu não tínhamos nada em que focar exceto um no outro, embora eu estivesse o mais longe possível dele quanto o espaço estreito permitia. Da parte dele, Bones trancou sua aura até eu não sentir nada dele exceto um leve poder no ar. Sua expressão estava igualmente impenetrável. Apenas manchas de sangue atrapalhavam suas feições perfeitas, a cor em um contraste vívido contra sua cremosa pele de cristal. — Sabotando a máquina Dante, arrancando portas, desabilitando sistemas de segurança inteiros e jogando soldados para o ar como bonecos de pano… seus poderes telecinéticos aumentaram tremendamente. — Eu comecei. — Você escondeu isso de mim. Por quê? Sua boca curvou como se ele tivesse engolido algo detestável. — Inicialmente, eu pensei em te surpreender com o quanto eles evoluíram. Então eu não disse nada porque eu temi que algum dia fosse precisar deles para te impedir de fazer algo imprudente. — Você estava planejando me aprisionar com eles? — Não pude evitar meu bufar de raiva. — Qual era o seu plano para quando você me libertasse? Correr como o inferno? — Não me importava com o que aconteceria depois, se eu algum dia tivesse que usar medidas tão drásticas. — ele respondeu. Então seu tom endureceu. — O inimigo mais perigoso que você já enfrentou é você mesma, Kitten. Eu sei disso, mesmo que você ainda não admita. Essa conversa não estava sendo nem um pouco como eu achei que ela


seria. Eu esperava que Bones pedisse perdão pela sua terrível farsa. Ao invés disso, parecia que ele estava julgando as minhas ações. — Eu sou um perigo a mim mesma? No píer, você usou um poder herdado que só funcionou uma vez antes, e por acidente. — eu rebati. Seu olhar castanho-escuro não vacilou. — Não, amor. Eu me certifiquei de que eu dominava o dom que herdei de Tenoch antes de usá-lo no píer. Ele. Esteve. Praticando. Por alguns segundos, eu fiquei tão aturdida que fiquei sem fala. Então falei as palavras que estavam queimando dentro de mim desde que eu percebi que sua degeneração até um cadáver foi um truque. — Você me deixou te ver morrer. Minha voz estava ferida, enquanto a memória de vê-lo murchar me cortava por dentro como se lâminas tivessem substituído minhas emoções. Eu desejei que nosso laço sobrenatural fosse de mão dupla, então eu poderia mandar aqueles sentimentos de volta para ele e assisti-lo desmoronar com o peso deles. — Você sabia que eu pensaria que era real, mas você fez isso mesmo assim! Ele agarrou meus ombros, mas eu bati as mãos dele para longe com um sibilo incoerente. Bones não tentou me tocar novamente. Apenas o seu olhar sustentou o meu enquanto ele falava. — Você mesma disse isso: que você é uma lutadora, e eu não posso esperar que você mude. Não importa as minhas objeções ou o perigo, você iria usar a si mesma como isca para pegar Madigan porque ele é um cretino maligno que precisava ser abatido. Essa é quem você é, Kitten. É quem você sempre foi. Então sua boca se curvou em um sorriso sem humor. — Mas você se esqueceu de quem eu sou; Um bastardo cruel que fará qualquer coisa para te manter segura. Então, sim, eu fingi que um dos soldados atirou balas de prata para que você, e qualquer um, acreditasse que eu morri. Era a única forma de te proteger quando Madigan te levasse para a base, e eu não tinha a menor dúvida de que ele iria te capturar se você fosse se encontrar com ele. Ele está esperando há muito tempo para não ir até você


com tudo o que ele tem, e se eu te dissesse o meu plano antes, sua reação não teria sido autêntica, e Madigan perceberia a armadilha. Ele tentou me alcançar novamente, mas meu olhar o deteve. O que ele fez machucou muito para que eu pudesse suportar sentir as mãos dele em mim. — Madigan nunca teria me capturado se você não tivesse feito aquele truque sujo, — Eu disse entre dentes cerrados. — Nós poderíamos tê-lo agarrado e partido. Eu consegui voar para longe muito bem quando a equipe dele chegou. Eu só voltei quando vi que você não estava comigo. — Ele tinha drones em prontidão e miras de lasers em você desde o momento em que você chegou, — Bones disse afiadamente. — Pergunte à Denise, ela viu. Nenhum de nós sairia dali, exceto sob custódia dele. Meu “truque sujo” garantiu que Madigan não puxasse aqueles gatilhos. Ele sabia, assim como eu, que você nunca me deixaria para trás. As novidades sobre os drones e miras de lasers me chocaram, mas a disposição do Madigan a se explodir junto conosco, se chegasse a isso, não. Ele definitivamente provou que preferia morrer do que ser nosso prisioneiro, como seu corpo lá fora provava. Parece que Bones pensou em tudo antes de fazer seu truque “Cavalo de Tróia” para fazer Madigan nos levar para dentro da sua instalação super secreta e ultra guardada. Bem, quase tudo. — Em todo o seu planejamento, acaso te ocorreu que eu não iria querer viver se eu pensasse que você estava morto? Você quase acordou para uma grande surpresa, porque eu pretendia pedir a conta assim que matasse Madigan. Horror cruzou suas feições, e ele me agarrou rápido demais para que eu pudesse impedir. — Você me prometeu que nunca faria isso, Kitten! — Para citar o Ian, “eu mudei de ideia, Crispin!” — Eu rosnei de volta. Então passei por baixo do braço dele, empurrando-o quando ele tentou me agarrar novamente. Ele ficou onde estava, mãos ainda estendidas, como se estivesse agarrando carne fantasma. Então ele as baixou e, dessa vez, seus escudos caíram com elas.


Emoções explodiram dentro de mim com tanta força que eu tropecei até a parede me deter. Então não havia para onde ir enquanto um jorro de angústia atormentada me inundava, afogando a minha raiva sob sua profundidade. Aquilo se transformou em uma geleira de determinação implacável, que congelou meu sentimento de traição até ele se partir. Finalmente, um inferno de amor varreu os cacos, queimando toda a minha mágoa com suas chamas causticantes e dolorosamente belas. Sem querer, eu escorreguei pela parede. Pensei que minhas emoções fariam Bones desabar se ele pudesse senti-las, mas eu é que fiquei muito abalada para suportar de pé o ataque das suas. Elas não negavam o que ele fez. Ao invés disso, elas afirmavam. O que nós sentíamos um pelo outro não podia ser compreendido, controlado ou domado, e com o redemoinho ainda girando dentro de mim, eu soube que Bones faria a mesma coisa novamente, apesar de isso ser um golpe terrível em nós dois. — Eu te amo, Kitten. Quão triviais essas palavras pareciam comparadas aos sentimentos bombardeando os meus, mas a voz dele vibrava quando ele as dizia. Então ele agachou ao meu lado. — Eu nunca te machucaria dessa forma, exceto por uma razão: para te manter segura. Eu posso viver com sua raiva, sua vingança… Inferno sangrento, me despreze se você precisar, mas não espere que eu aja como se você não fosse a coisa mais importante na minha vida. Você é, e eu não vou deixar ninguém, incluindo você, te machucar. Eu não disse para ele que isso era impossível. Ele sabe que nossas vidas são perigosas mesmo em um dia bom. Ele é Mestre de uma enorme linhagem de vampiros; a qualquer momento pode ser chamado para arriscar sua vida por alguém do seu povo. Algo pode acontecer com Tate ou Ian essa noite, e eu teria que arriscar a minha, também, mas agora eu sabia que não havia limites para o que Bones faria para evitar isso. Ele estava certo; é quem ele é, e eu não posso esperar que ele mude, quando eu também não posso mudar quem eu sou. Isso significa que nós teremos mais brigas e mágoas afrente, mas esse é o preço que eu pagarei para ficar com o homem que eu amo mais que a vida. Eu poderia ter dito isso a ele, mas nós dois já sabíamos. Além disso, nós


sempre fomos mais de ação do que de palavras. Então eu não disse nada quando puxei a cabeça dele, esmagando meus lábios nos dele e enfiando as mãos por baixo das suas roupas, subitamente desesperada para sentir sua pele sob meus dedos. Então senti seu peso quando o corpo dele esmagou o meu. Gemendo contra sua boca com seu beijo intenso o suficiente para machucar. Minha língua escovou a dele até o gosto sangue sumir, e não sobrar nada exceto seu sabor. Eu só o afastei para inalar até seu cheiro estar profundamente dentro de mim, e quando ele inclinou a boca de volta sobre a minha, eu bebi dele como se estivesse tentando me afogar. Um puxão forte tirou meu colete à prova de balas e abriu meu jaleco, revelando minha nudez. Suas roupas arruinadas foram fáceis de rasgar, e então não havia nada entre nós. Sentir o atrito do seu corpo duro e suave quase me levou ao orgasmo, e eu arqueei contra ele com um choro incoerente por mais. Ele me puxou contra ele, me tocando como se precisasse sentir cada centímetro de mim agora, ou nunca teria outra chance. Quando ele abaixou e segurou meus quadris, eu me ergui para ele em uma necessidade primitiva. Sua boca estava fria, camuflando o calor que disparava através de mim a cada golpe faminto da sua língua. Gemidos viraram gritos que ecoaram à nossa volta, unindo-se aos sons guturais que ele fazia enquanto colocava minhas coxas sobre seus ombros e mergulhava mais fundo em mim. Minhas mãos corriam sobre seus cabelos de forma febril, mas se eu estava tentando puxá-lo para cima ou empurrá-lo para mais perto, eu não sabia. Eu queria que ele parasse, para que eu pudesse sentir ele dentro de mim, e eu nunca queria que ele parasse, porque o prazer estava devastador. Ele tomou a decisão momentos depois, quando deslizou para cima, o comprimento do seu corpo friccionando o meu de forma atormentadora até seus quadris encaixarem entre minhas pernas. Então eu não conhecia nada exceto o êxtase entorpecedor da sua carne dura entrando em mim. Sua boca engoliu o meu choro, mãos grandes embalando minha cabeça enquanto ele se movia mais fundo, até encostar em meu clitóris, criando uma tempestade de sensações. Minhas terminações nervosas queimavam a cada nova investida, contorcendo e ficando tensas, fazendo-me ofegar e gemer com o êxtase crescente. Músculos ondulavam nas costas dele enquanto ele se movia mais


rápido, mais forte, e eu enterrei minhas unhas nele para me segurar. Seus movimentos eram poderosos ao ponto de serem brutos, mas as lágrimas escorrendo dos meus olhos não eram de dor. Eu precisava de mais disso, dele. Tudo. Seus braços eram como aço ao meu redor, investidas tão profundas que eu mal podia suportar, e ainda assim não era suficiente. Desesperada, enrolei minhas pernas ao redor da cintura dele e enfiei minhas presas em sua garganta. Um som bruto vibrou contra minha boca. Seu sangue, ainda morno pela alimentação recente, estava intenso e doce. Como caramelo salgado. Engoli, tremendo com a sacudida instantânea que ele causava em meu sistema. Cada sentido subitamente aumentou, cristalizando as sensações que fizeram eu me contorcer contra ele e afastar minha boca para gemer de uma forma que soava como gritos. Então tudo se apertou tão forte que quase doía antes que êxtase me inundasse, pulsando em ondas que eu senti duas vezes quando o clímax do Bones invadiu meu subconsciente com prazer feroz. Ele não me soltou após o último tremor fazer seus músculos se contraírem da forma mais deliciosa. Ao invés disso, ele nos rolou de lado, usando seu braço como um travesseiro para minha cabeça. Sua outra mão deslizou para baixo em meu corpo de uma forma que eu chamaria de preguiçosa, exceto pelo seu olhar. Nada lânguido se ocultava naquelas profundezas. Eles brilhavam com uma intensidade objetiva, me fazendo tremer. Por um segundo, eu soube o que uma presa sente logo antes de ser devorada. Se eu não estivesse queimando com um desejo igualmente urgente de ser consumida, eu poderia estar assustada. — Crispin. A única palavra reverberou pelo silo, fazendo do barulho de metal contra o exterior um aviso desnecessário. Bones não parou de me acariciar. — Vá embora, Charles, — ele gritou em uma voz que eu nunca o ouvi usar com seu melhor amigo. — Não posso, — veio a resposta igualmente concisa do Spade. — Sua nova prole acabou de acordar. A mão do Bones parou, e ele suspirou. — Desculpe, amor, não podemos arriscar ter um novo vampiro perto da Denise. Se Cooper beber um pouquinho


do sangue dela… — Cooper não, — Spade interrompeu com raiva. — Madigan está acordado.


Capitulo Vinte e Quatro.

E

u desejei nunca vestir aquilo de novo, mas, sem opção, coloquei o jaleco

encharcado de sangue. Pelo menos ele tinha um cinto, já que Bones arrancou os botões. Suas roupas, entretanto, já eram. Sendo um vampiro com séculos de idade, que passou seus anos humanos como um gigolô, ele não se importava. Ele saiu do silo vestido da forma como nasceu. Embora eu lamentasse sua falta de pudor, ainda tinha que admirar sua coragem. Se eu fosse um cara, eu não colocaria as minhas partes balançando perto de um ghoul maligno recém-nascido. Porque levei alguns momentos para me vestir, eu ainda estava dentro do silo quando ouvi alguém gritar em uma voz monótona. — Fome… Fome… Eu parei. Madigan? Tinha que ser, embora ele soasse quase infantil. Não berrando de ódio como eu esperava que ele estivesse quando acordasse e percebesse que ele não tinha escapado de nós, afinal. Saí do silo. Na frente do terceiro silo, Bones, Dave, Spade e Denise formavam um círculo ao redor do que tinha que ser Madigan. Enquanto me aproximava, notei, achando graça, que as bochechas da minha melhor amiga estavam coradas e ela olhava direto para frente e para nenhum outro lugar. —… não estou brincando com você. — Bones estava dizendo, em uma voz severa. — Quanto antes você perceber, menos doloroso isso será. — Fome! — foi a resposta petulante que ele recebeu. Eu forcei meu caminho através do grupo para ver Madigan. Quando vi, eu o encarei em descrença. Não foi sua aparência desgrenhada – a frase “nem morto” faz sentido porque ninguém acorda da sepultura parecendo fabuloso. Madigan até parecia melhor que a maioria, já que ele morreu de envenenamento, ao invés de algo mais bagunçado. Então não era seu peito manchado de vermelho, camisa aberta ou


roupa suja que me congelou no lugar. Foi o olhar dele. Eu estava acostumada a ver tantas coisas nos seus olhos azuis: desprezo, arrogância, crueldade, satisfação fria, ambição cega… Agora, tudo o que eu vi foi confusão e curiosidade, como se ele não soubesse quem nós éramos, mas estivesse levemente interessado em descobrir. — Fome, fome, fome, — ele resmungava enquanto sacudia a cabeça como se ouvisse uma trilha sonora interna. Esse era apenas o segundo renascimento ghoul que eu testemunhava, mas, pela expressão tensa no rosto do Bones e Spade, isso não era normal. O que havia de errado com ele? — Bones? — Eu perguntei calmamente. Ele acariciou meu braço, mas não respondeu. Para Madigan, ele disse. — Muito bem, companheiro. Muito esperto da sua parte fingir insanidade, mas eu faço isso há centenas de anos, então eu sei que você não está louco. Você está assustado pra cacete, e deveria estar, porque se você não parar de fingir, eu vou te machucar de formas que você não pode nem imaginar. Nenhuma centelha de entendimento acendeu no olhar de Madigan, mas seus lábios finos franziram. — Fooooooooooomeeeeee, — ele gritou, como se estivesse chateado por nós não termos entendido ele antes. Bones o socou tão forte que a cabeça do Madigan deixou uma mancha vermelha onde se chocou contra o silo. Então o homem grisalho ficou frouxo quando Bones o ergueu pela sua jaqueta esfarrapada. — Está gostando? — Bones rosnou. — Eu estou. Deixe-me mostrar o quanto. Com aquilo, ele começou a espancar Madigan como o inferno. Uma hora atrás, eu juraria que amaria assistir algo assim, mas à medida que os golpes aumentavam e ficavam mais pesados, e Madigan não parava de choramingar em uma confusão dolorosa, eu comecei a me sentir mal. Denise também. Ela se afastou, e não de uma forma que sugeria constrangimento por Bones dar a surra pelado. Ou Madigan era o melhor ator do mundo, ou ele não estava fingindo. Quanto mais eu observava, mais eu me convencia de que esse não


era o mesmo agente do governo frio que planejou por uma década um plano para unir três espécies distintas em uma arma invencível. Isso era um garotinho preso no corpo de um velho, e ele não tinha ideia de por que o homem mau não parava de machucá-lo. — Chega, — Eu disse finalmente, agarrando o braço do Bones quando ele estava prestes a soltar outro golpe quebra-mandíbula. Eu meio que esperava que ele fosse me afastar e continuar. Ao invés disso, ele abaixou o punho e soltou Madigan, que caiu em uma pilha perto do pé dele. — Dói, dói, dói, — ele chorou, magoado. — É malditamente suposto que doa, — Bones rosnou, dando um chute final nele que o fez se enrolar numa posição fetal. — Você tem sorte por eu estar cansado. Nós continuamos isso pela manhã, quando eu estiver descansado. Agora eu não sabia se ele estava fingindo, mas eu não disse nada. Bones presenciou centenas de renascimentos ghouls. Se eu estivesse sendo enganada por um ator brilhante, eu não queria mostrar mais do que já tinha que eu tinha caído na atuação dele. — Jogue ele no armazém, — Bones disse para o Spade, quem observou tudo com uma expressão dura. — Deve segurá-lo até Mencheres chegar. Então Bones se afastou. Eu fui atrás dele, assim como Dave. Atrás de nós, Madigan fez pequenos sons de lamúria. — Por favor, não machuque, — Ele implorou ao Spade. Meu estômago se apertou. Eu já ouvi crianças soando menos apavoradas e vulneráveis. Bones entrou no silo em que fizemos amor. Suas roupas ainda estavam em pedaços no chão, mas ele parecia indiferente a elas enquanto caminhava de um lado para o outro. Se sua nudez incomodava Dave, o outro homem não demonstrou quando nos seguiu para dentro e fechou a porta. — Algo não está certo, — Dave disse em um tom calmo. Bones olhou para cima, frustração estampada em suas feições.


— Não, não está. Eu suspirei. Então eu não estava simplesmente sendo uma otária. Então, em meio ao pavor de descobrir o que aquilo significava, eu me encontrei desejando que Mencheres tenha tido a perspicácia de trazer um conjunto extra de roupas. De preferência dois. Bones atrairia muita atenção nu, e eu estava de saco cheio de usar esse jaleco ensanguentado. — Algo assim já aconteceu antes? — Eu perguntei, dando-me uma sacudida mental. — E se sim, melhorou depois de um tempo? O olhar que Bones me deu foi desgostoso. — Já aconteceu, normalmente sob circunstâncias parecidas, quando a pessoa não recebeu sangue suficiente antes. Eles simplesmente voltam… errados. E não, isso não melhora. Eu assimilei aquilo. O fato de que aquilo não iniciou uma raiva ardente me mostrou o quão cansada eu devia estar. Nosso inimigo nos venceu, não deixando nenhuma migalha de pão para seguirmos, para minimizar os danos que ele deixou para trás. Essa era a realidade, ainda assim, tudo o que eu sentia era uma onda de rancor porque o Madigan que nós queríamos trazer de volta tinha partido para sempre. Claro, isso também levantava a questão, o que nós faríamos com o Madigan que tínhamos? Eu não queria ficar com o Madigan Maluco, mas também parecia cruel executá-lo por crimes que ele – estritamente falando – não cometeu. Bones correu uma mão pelos cabelos. Por um breve momento, seus escudos caíram, e uma névoa de exaustão passou pelas minhas emoções. Se eu ainda fosse humana, teria desmaiado, de tão forte que era. Qualquer que seja a reserva de energia que ele tinha, ele a esgotou dando aquela surra. — Você está cansado, — Eu disse, no que devia ser o eufemismo da semana. — Se Madigan, de alguma forma, está nos engando, nós logo descobriremos. Se ele não está, nada mudará se todos nós dormimos um pouco. Assim que falei, ouvi um helicóptero se aproximando da nossa localização. Minha primeira reação foi procurar uma arma, antes de me lembrar de que eu


não trouxe uma, e minha segunda foi um alívio profundo quando Bones disse “É o Mencheres.” Eu não podia sentir quem estava no helicóptero, mas eu confiava em Bones. Anos atrás, Mencheres dividiu seu poder surpreendente com ele, forjando um laço que ia mais fundo até do que a conexão entre um vampiro e seu criador. O legado de Caim, como é chamado, um presente de poder que remota até o primeiro vampiro: Caim, a quem Deus amaldiçoou a beber sangue para sempre como punição por derramar o do seu irmão, Abel. Na mesma noite em que Bones recebeu esse legado de poder, ele desenvolveu habilidades de leitura de mente. Mais tarde, ele manifestou a habilidade de se degenerar e mover coisas com a mente. Francamente, eu esperava que nada novo estivesse vindo por aí. Algumas coisas ninguém deveria ser capaz de fazer. Além disso, se algum dia Bones manifestar a habilidade de controlar o fogo, Vlad insistirá em um duelo de chamas entre eles. Ele é competitivo a esse nível. Nós três saímos do silo. Lá fora, vimos que Spade ainda não tinha levado Madigan. Quando o antigo agente da CIA viu Bones, ele agarrou as pernas de Spade como se fosse uma corda de salvamento. Spade tentou sacudi-lo, mas Madigan o agarrou como um macaco demente, pressionando o rosto entre as coxas do Spade para evitar olhar para o Bones. — Não, por favor, não, por favor, — Ele começou a entoar em uma voz estridente. Eu não precisava de mais tempo para me convencer da condição dele. O Madigan que eu conhecia preferiria ser esfolado vivo do que se humilhar dessa forma, especialmente com vampiros testemunhando. Não, ele morreu quando mastigou aquele comprimido de cianeto, e tudo o que nós acordarmos foi uma concha quebrada. Talvez o mais gentil seja matá-lo. Na sua condição, Madigan não pode sobreviver no mundo morto-vivo, e como ghoul, o mundo humano não poderá lidar com ele, também. Com sua nova fome sobrenatural, não vai demorar muito antes que ele tente comer a pessoa mais próxima. O helicóptero pousou, me distraindo daquela linha de pensamento


depressiva. Mencheres estava sentado na frente, com Kira nos controles. Ele deve ter ensinado a ela como pilotar seu novo e brilhante Eurocóptero. — Eu te falei que as roupas extras seriam úteis, — eu a ouvi dizer sobre o barulho dos rotores. Aquilo me fez sorrir. Kira era como eu; ainda humana no raciocínio, o suficiente para se preocupar com coisas como essa. Spade subiu primeiro, um pouco sem jeito já que Madigan ainda estava grudado na perna dele. Denise seguiu atrás dele, balançando a cabeça para a cena. Dave foi em seguida, se esticando para fora para me estender uma pilha de roupas dobradas. Grata, vesti uma calça sob meu jaleco, então o tirei e vesti uma camiseta grande. Mas eu não deixei o jaleco ensanguentado no chão. Tinha muita muito DNA como evidência. Assim como as roupas arruinadas do Bones, e foi por isso que eu voltei para o silo e as peguei. Então eu coloquei a pilha de roupas sujas no helicóptero, enfiando-as no canto mais afastado. Bones, carregando o corpo inerte de Cooper, foi o último a subir. Ele rolou os olhos para a calça que eu deixei deliberadamente pendurada na porta do helicóptero, mas colocou o Cooper no chão e a vestiu. — Onde Ian está? — Mencheres perguntou. — Procurando alguém com Tate. — Bones respondeu. Mencheres parecia prestes a questionar aquilo, mas assim que Bones sentou no Helicóptero, os resmungos de Madigan viraram choros. — Não, ele fica longe! — ele chorou, escalando as pernas de Spade e subindo no colo dele. — Sai de mim! — Spade rosnou. Madigan ignorou aquilo, agarrando-se a ele com toda a sua nova força. Denise foi para os assentos do outro lado, para evitar ser atingida quando Spade empurrou Madigan para trás, apenas para ter o ghoul grisalho voltando para o colo dele mais rápido que aderência estática. Spade deu um olhar frustrado ao redor do interior apertado, sem dúvida percebendo que se ele jogasse Madigan para longe com força suficiente para ser efetivo, ele danificaria a aeronave. Finalmente, seu olhar parou no Bones.


— Uma ajudinha? — Ele falou entre os dentes. Poder crepitou pelo ar, arrancando Madigan do Spade para sentá-lo no banco ao lado dele, com as mãos cruzadas recatadamente sobre o colo. Mas ele não veio do Bones. Veio do antigo faraó Egípcio. — Ele esgotou muito da sua força, — Mencheres disse, com um olhar preocupado para o Bones. — Usar mais pode ser perigoso. Pelo pouco que senti da exaustação do Bones, eu concordava. Felizmente, Mencheres era forte o suficiente para lidar com Madigan e Cooper, se ele acordasse durante o voo. Inferno, o motor podia parar, e Mencheres ainda seria capaz de voar com todos nós seguramente para onde quer que estejamos indo. Muito ainda estava por vir, mas, por hora, eu me permiti relaxar. Após Bones afivelar Cooper no banco oposto ao dele, eu encostei a cabeça no ombro dele. Seu braço me envolveu, e eu o senti afundar no seu banco. Quando o helicóptero deixou os silos para trás, ele já estava dormindo.


Capitulo Vinte e Cinco.

U

ma respiração quente soprou no meu rosto antes que minha bochecha

fosse coberta com uma língua cumprida e molhada. Aquilo me fez sentar, e foi quando eu percebi que (a) eu estava deitada em uma cama e (b) essa cama deve estar na casa do Mencheres. Só ele tinha um mastiff* de noventa quilos vagando como se fosse o dono do lugar. *Raça de cachorro. — Eu não quero outra lambida, — eu falei para o meu visitante de pelo castanho, fazendo carinho na sua cabeça enorme. Ele ignorou aquilo, abanando o rabo enquanto lambia minha mão em seguida. Eu olhei em volta, reconhecendo o quarto âmbar e creme da última vez em que Bones e eu ficamos aqui. Ele não estava lá, mas pela marca perto de onde eu estava deitada, ele não partiu há muito tempo. Como eu ainda estava ensanguentada e suja por baixo das minhas roupas emprestadas, minha primeira missão era tomar um banho. Se eu pudesse ficar sob o delicioso jato quente por horas, eu ficaria, mas depois de me limpar eu saí e fui procurar outra coisa para vestir. Mencheres sempre mantinha seus quartos de hóspedes abastecidos. Depois de me vestir, saí do quarto, surpresa em ver o luar atravessando uma das muitas janelas desse andar. Eu dormi mais do que percebi. — Aqui embaixo, Kitten. Segui a voz do Bones até o segundo andar. Ele estava em um estúdio/salão – seja qual for o nome que pessoas ricas davam para salas extras que eles raramente usavam – azul e coberto de painéis. Ele também tinha tomado banho e trocado de roupa. Sua cor estava melhor, indicando que ele se alimentou, mas eu estava mais aliviada pela aura dele. Não estava fraturada com exaustão como estava antes. Bones pode ainda não estar em sua força total, mas pelo menos ele não parecia prestes a desmaiar. Mencheres estava com ele, seu longo cabelo negro puxado para trás em uma única trança. Sem surpresa, outro mastiff estava enrolado em seus pés.


Obviamente, ninguém falou para ele que os Egípcios da era dele preferiam gatos. — Como o Cooper está? — Foi minha primeira pergunta. Por favor, que nada de errado tenha acontecido com a transformação dele… — Ele está bem, amor. Seguramente contido em um quarto abaixo. Uma coisa a menos para me preocupar. Eu me sentei perto dele no sofá, distraidamente notando que o couro era suave como manteiga. — Alguma novidade sobre Katie? — Ian ligou algumas horas atrás, disse que eles ainda não a encontraram. — Bones acariciou meu braço, pensativo. — Tate não estava surpreso. Disse que ela iria evitar as pessoas e se esconder até avaliar totalmente a situação dela. Ele soava como se estivesse citando Tate. Mais uma vez, fiquei furiosa enquanto pensava em tudo o que foi feito a ela. Katie não deveria estar sozinha e agindo com precaução militar. Na idade dela, suas maiores preocupações deveriam ser decidir entre brincar com bonecas ou bonecos de ação. Eu quase não queria perguntar, mas precisava. — Madigan? Com aquilo, as feições do Bones endureceram. — O mesmo. Segundo round. Eu respirei fundo, otimista. — Alguma sorte em tirar alguma informação dos discos rígidos que nós trouxemos? Mencheres respondeu essa. — Coloquei meu pessoal para trabalhar neles, mas, por enquanto, eles não foram capazes de recuperar nenhum arquivo. Terceiro round. Frustrada, soltei a respiração. — Então não estamos nem perto de descobrir quem esteve apoiando Madigan todos esses anos. E essa pessoa provavelmente está em alerta vermelho agora, após ouvir o que aconteceu na base McClintic. Resumindo, estávamos de volta à estaca zero. Talvez até mesmo alguns passos atrás, já que não tínhamos ideia se existiam mais Katies em outras instalações secretas. Alguns dias, não valia a pena sair da cama.


— Mencheres tem uma teoria sobre isso. Como se a dureza em sua voz não fosse pista suficiente, as carícias suaves no meu braço pararam. Claramente, Bones não era fã dessa ideia. — Qual? — Eu perguntei, encarando o insondável olhar negro do Mencheres. — Vampiros e ghouls nas condições do Madigan normalmente não se lembram de nada de suas vidas humanas. Alguns, entretanto, lembram-se de partes dos seus passados, se receberem o estímulo certo. — Bones o estimulou como o inferno com a surra que deu nele, — eu respondi sem rodeios. — Não funcionou. Ele deu de ombros, elegante. — Não esse tipo de estímulo. O com mais sucesso é interagir com uma pessoa que ele conhece há muito tempo. — Você quer dizer fazer Madigan encontrar um velho amigo? — Eu não pude conter minha risada. — Isso é impossível. Seu único amigo foi o seu trabalho doentio e pervertidoEu parei de falar enquanto compreendia. Agora eu sabia por que Bones odiava a ideia. — Don. Bones cuspiu o nome do meu tio como se tivesse um gosto ruim. — Embora eles não fossem amigos, Mencheres crê que a associação deles é longa o suficiente e notavelmente significante para talvez ativar memórias. Eu não sabia se ficaria furiosa com o meu tio para sempre, mas eu certamente não estava pronta para vê-lo tão cedo. Então, novamente, quando foi que “estar pronta” já decidiu alguma coisa? — Vale uma tentativa. — Eu disse, finalmente. Agora tínhamos que ver se Don concordaria em fazer isso.

M

encheres nos emprestou o seu helicóptero, já que demoraria muito para

dirigir até D.C. Tivemos que parar uma vez para abastecer e outra vez fora da


cidade porque era uma zona de identificação da defesa área. Nós não queríamos anunciar nossa chegada para nenhum oficial do governo interessado. Então, cinco horas depois, após decidirmos envolver meu tio, estacionamos perto da parte de trás do prédio de Tyler, na Avenida Macarthur. Estávamos no meio da noite, mas as luzes no apartamento dele estavam acesas. Dessa vez, nós ligamos primeiro. Tyler não estava empolgado em invocar fantasmas à essa hora, mas apresentá-lo para Marie Leveau parece ter levantado nossa moral com ele. Ele abriu a porta na primeira batida, mas não se incomodou em esconder seu bocejo. — Entrem. Quero acabar isso logo para poder voltar para a cama. Pela sua calça de pijama e robe, isso era óbvio. Dexter foi mais entusiasmado na saudação. Ele dançou ao redor do meu pé, fungando loucamente onde o mastiff do Mencheres se esfregou em mim. Eu fiz carinho nele, sentindo falta do meu gato outra vez. Um dos sócios do Bones estava com Helsing, já que meu gato não gostaria de viver perto do Dexter. Então nos sentamos no chão, diante de um tabuleiro Ouija montado na mesa de café dele. Como a maioria dos apartamentos da cidade, o de Tyler era feito em estilo estúdio, com a cozinha, quarto e sala todos ocupando o mesmo espaço pequeno. — Eu queria poder te ensinar a fazer isso sozinha, — Tyler disse, colocando os dedos na peça de madeira. — Que pena que você perdeu sua mandinga fantasma. Alguns dias, eu lamentava isso. Na maioria, não. — Tudo acaba, eventualmente. Então nós movemos a peça sobre o tabuleiro enquanto Tyler começava sua invocação. Já que eu não tinha nenhum objeto pessoal do meu tio dessa vez, nós precisamos procurar através de alguns espíritos aleatórios antes que Don se materializasse na sala. Quando ele percebeu quem o invocou, ficou surpreso. Então a culpa me perfurou quando sua próxima expressão foi medo, enquanto ele olhava em volta. — Não há Remnants, nem Marie, — eu disse firmemente. — Só nós, Don.


Sua forma oscilou, borrando nas extremidades. Agora que ele sabia que nós não podíamos detê-lo, ele estava partindo? Então sua nebulosidade clareou, revelando seu cabelo perfeitamente penteado e terno sofisticado, mas modesto. Um nó dentro de mim afrouxou. Por mais razões do que apenas precisar da ajuda dele, eu não queria que Don sumisse assim que nos visse. Eu ainda estava com raiva dele e não segura sobre onde as ações dele levaram nosso relacionamento, mas parece que isso não me impedia de sentir falta dele. — O que você quer, Cat? — Ele perguntou em um tom cauteloso. Don nem mesmo olhou para o Bones; o que era bom, já que o olhar dele era frio o bastante para congelar vapor. Tirei meus dedos da peça de madeira para tocar o tabuleiro Ouija. — Madigan queimou seus discos rígidos até ficarem inúteis e se matou quando invadimos sua instalação secreta. — Eu resumi bruscamente. — Bones o trouxe de volta como ghoul, mas algo deu errado. Sua mente virou sopa de legumes, e nós esperamos que você possa tirar alguma carne dali. O queixo do Tyler caiu após ouvir isso. Talvez ele tenha pensado que eu queria que ele invocasse meu tio apenas para que eu pudesse brigar com ele de novo. A expressão do Don não mudou, embora eu esboço tenha oscilado por um momento. — O quê? — Ele perguntou finalmente. — Você fechou a operação dele, como queria, e agora ele é seu prisioneiro. O que mais falta? — Deter quem quer que o esteja apoiando, — eu disse, deliberadamente não mencionando Katie. Eu não queria que Marie descobrisse sobre ela, e ela era uma das únicas pessoas no mundo que podiam interrogar um fantasma com sucesso. — Alguém desembolsou milhões e milhões para manter a operação de Madigan funcionando, para não mencionar o dinheiro que essa pessoa gastou para impedir que você descobrisse sobre isso. Eu estava cutucando o orgulho dele com o último comentário. Quando vivo, o nível de acesso do Don foi acima de Ultra Secreto, ainda assim, ele não soube que Madigan continuou seus experimentos com total bênção do Tio Sam. Enquanto isso, Madigan soube tudo sobre a operação de Don, e até


mesmo foi posto no comando após a morte dele. Isso tinha que doer. — Se não o pegarmos, essa pessoa vai encontrar alguém para substituir Madigan. — eu continuei. — Não podemos deixar isso acontecer. — E se o patrocinador dele estiver em um posto muito alto para ser detido? — Don perguntou. A voz do Bones tinha a ressonância baixa e ameaçadora de um trovão. — Para isso, ninguém está fora de alcance. Don virou, olhando uma vez para o Bones antes de seu olhar voltar para mim. — Esse nunca foi o país dele, mas é o seu, Cat. Você vai mesmo assassinar quem quer que esteja por trás disso, não importando quem seja? Mesmo morto, a lealdade do Don com sua nação era inabalável; uma qualidade admirável. Seria bom se ele mostrasse a mesma lealdade a sua família. — Você dirigiu uma operação secreta que protegia cidadãos americanos de perigos que eles não sabem que existem, — eu respondi, sustentando seu olhar cinzento. — Quem quer que esteja por trás de Madigan conscientemente financiou o sequestro, tortura e morte de milhares de americanos, tudo isso para fazer manipulação genética ilegal. Só isso já é repreensível o suficiente, mas o que é pior é a guerra que isso pode começar se uma palavra cair em ouvidos mortos vivos errados. Então eu levantei e caminhei até ele, quase o desafiando a partir enquanto falava a próxima parte. — Você ainda ama seu país, Don? Prove. Ele sorriu. Triste, cínico e tão cansado que culpa me atingiu novamente. Humanos, vampiros e ghouls podem encontrar um breve descanso no sono, mas fantasmas podem? Ou a experiência deles é um dia sem fim que se estendia impiedosamente até a eternidade? Mesmo que não fosse assim, enquanto eu olhava para Don, simpatia começou a sobrepujar minha raiva. Ele mentiu para mim, me manipulou e permitiu que um burocrata cruel usasse meu DNA em experimentos secretos,


mas havia mais nele do que isso. Don protegeu os soldados que trabalhavam para ele, não fez experimentos e os matou como Madigan. Depois que o Brams foi inventado, Don gastou milhões em patentes farmacêuticas porque ele se recusava a liberar a droga para o público. Quando Madigan veio com sua ideia de reprodução forçada, Don o demitiu e o manteve longe de mim. Anos depois, quando eu revelei que estava apaixonada por um vampiro, Don permitiu que Bones se juntasse a equipe. Então ele mentiu para os seus superiores sobre o meu acordo de tempo de serviço, então eu pude me demitir quando minha vida tomou uma direção diferente, para não mencionar em todas as vezes que ele usou sua influência quando conflitos com vampiros me colocou do lado errado da lei. Suas boas ações podem não superar as ruins, mas as piores coisas que Don fez ocorreram quando ele ainda estava sob a concepção errônea de que todos os vampiros são maus. Da minha adolescência até os vinte e poucos anos, eu também fiz coisas horríveis sob essa concepção. Nos anos seguintes, eu tentei compensar por isso, e, do jeito dele, Don também. Mesmo que não tivesse tentado, ele não merece esse destino. Um dia eu terei partido, mas ele ainda estará preso entre um mundo no qual nunca poderá entrar e outro para o qual nunca poderá retornar. Sem querer ou não, isso era por minha culpa – uma punição que superava e muito seus crimes. Acima de tudo isso, Don era família. Falho ao ponto de estar quebrado, mas ainda assim família. Eu posso não ser capaz de perdoá-lo hoje, mas, eventualmente, serei. Família é algo muito precioso para se jogar fora se há uma chance de reconciliação. Don provou aquilo quando finalmente deu sua resposta. — Não se incomode em apelar para o meu patriotismo, Cat. Meu país está perdido para mim agora, mas se isso te ajuda com algo que você está determinada a fazer de qualquer forma… bem, então leve-me até ele. Verei o que posso fazer.


Capitulo Vinte e Seis.

M

adigan reconheceu Don. Assim que o viu, ele soltou um grito animado

de “Donny!” Meu tio recuou, ou por simpatia pelo que seu inimigo se tornou ou por aversão ao apelido horroroso. Não importou. Donny ele era e Donny continuou, dia e noite enquanto Madigan balbuciava sobre coisas sem sentido, como sobre o quão triste ele estava porque o sorvete aqui era terrível (não era, acontece que o paladar do Madigan só amava carne crua, um fato que sua mente ainda não registrou) ou o quanto ele queria brincar no quintal (não iria acontecer, nós não queríamos que ele comesse os vizinhos do Mencheres). Após os primeiros dias de baboseiras insuportáveis, eu nem teria mais me incomodado em ouvir, exceto que, de vez em quando, como um raio de luz em um quarto escuro, algo lúcido surgia. — Eu estou muito descontente com o progresso deles, Donny, — Madigan disse outro dia. — Eles já deviam ser capazes de replicar o DNA dela a essa altura. — Você está falando do DNA da Crawfield? — Don respondeu em um tom cuidadosamente neutro. — O dela, também. — Madigan soava irritado. — Mas após sete anos, nada! Eu não posso deixar todos os meus ovos em uma única cesta… Hehe. Ovos. Tenho que esperar anos por mais deles… Apesar de Don tentar levá-lo de volta ao tópico, ele mudou de ovos para estar com fome novamente, e depois que isso acontecia, nada mais importava. Então, depois que ele acabava de comer, ele caía no sono. Por tudo o que eu sabia, ele agora podia dormia chupando o dedo. Eu não tinha certeza, porque nunca entrei em seu quarto. Eu o fazia se lembrar do Bones, em sua mente quebrada, e Bones o deixava em um terror inconsciente. Don, entretanto, parecia acalmar Madigan, algumas vezes fazendo-o se lembrar de antigas crueldades.


— Eu roubei o seu trabalho depois que você morreu, — Madigan disse ontem em um sussurro feliz. — Roubei seus soldados, também. Eles logo estarão mortos. Antes que Don pudesse responder aquilo, Madigan estava jogando Espião. O jogo não deveria durar muito, já que seu quarto era de concreto e sem janelas, mas Madigan o esticava por horas. Se Don fosse sólido, ele poderia ter batido a cabeça contra a parede só para bloquear a tagarelice infinita. Eu queria, mesmo estando ali só há vinte minutos. A verdade era que eu não tinha muito mais o que fazer. Tate, Ian e Fabian ainda não tinham encontrado Katie. Como uma criança sem dinheiro e sem experiência no mundo normal podia se esquivar de dois vampiros e um fantasma, eu não tinha ideia, mas ela conseguiu. O pessoal do Mencheres ainda não tinha conseguido nada dos discos rígidos queimados, então sem pistas para perseguir ali, também. Bones mal podia suportar estar sob o mesmo teto que Don, muito menos ouvir ele e Madigan falar sobre bobagens por horas, então eu não podia pedir a ele para pegar meu turno. Além do mais, as poucas coisas racionais que Madigan dissesse provavelmente fariam Bones espancá-lo novamente. Após seis dias não descobrindo nada além do que já sabíamos, eu estava de saco cheio. Madigan parecia ser inútil para colher informações sobre o seu patrocinador secreto, mas talvez houvesse algo mais que nós pudéssemos fazer para encontrar Katie. Eu conhecia alguém muito bom em rastrear atividades paranormais, e, como bônus, ele não era membro de nenhuma linhagem de mortos-vivos. Foi assim que Bones e eu acabamos na Comic Com de San Diego. Eu já vi um monte de coisas estranhas na vida, mas essa convenção de ficção científica e fantasia conseguiu me surpreender. Não era pra menos; cadáveres reanimados por mágica, transformados em pálidos assassinos invencíveis ombro a ombro com Wolverine, Xena, Chewbacca, Curinga, Mulher Maravilha e uma Princesa Léia de biquíni metálico – e isso só enquanto esperávamos na fila para pegar nossas credenciais. Dentro do grande complexo multinível, nós tivemos que abrir caminho entre mais centenas de pessoas vestidas como seus personagens favoritos em filmes, séries, games ou quadrinhos. Algumas fantasias eram simples, como


pintura corporal, e algumas eram tão elaboradas que tinham acessórios robôs que funcionavam. — Eu vou vampirar, — Eu disse ao Bones, o ruído de fundo trovejante me obrigando a gritar, apesar da audição dele. — Ninguém vai notar. — Provavelmente não, — eu acho que ele respondeu, mas não tinha certeza. O estande ao lado começou a exibir um trailer de filme exclusivo. Como se não fosse suficiente, as torcidas e aplausos instantâneos abafaram tudo mais. Eu posso não ter tido a dedicação de passar horas aplicando maquiagem e próteses para lembrar meu personagem fictício preferido, mas a ideia de deixar minhas preocupações para trás e me vestir como outra pessoa por uma tarde tinha certo apelo. Fazer isso em meio a cem mil pessoas simpatizantes deve ter contribuído para que a energia no lugar fosse quase palpável. Meus sentidos ficaram sobrecarregados pelo festival de visões, cheiros, sons e contato constante enquanto as pessoas esbarravam em nós em seus caminhos para os painéis, estandes, sessão de autógrafos ou exibições. Pelo zumbido em minha pele, eu quase podia jurar que esse lugar é um ponto ativo sobrenatural. Infelizmente, nós não estávamos aqui para ficarmos chapados com a energia frenética. Nós tínhamos que encontrar um repórter e, de acordo com a mensagem dele, ele estava na sessão dos games. Moleza, exceto que nós tínhamos o equivalente a oito campos de futebol cheiros de fãs e expositores entre nós. Ou nós nos revelávamos como vampiros voando sobre todo mundo, ou passávamos entre as pessoas o mais de vagar e educadamente possível. Escolhemos a última opção, embora, aqui, voar poderia ser considerado um artifício levemente divertido. Levou mais de meia hora para chegarmos à área de games, então tivemos que vasculhar entre a multidão de pessoas. Finalmente, contra a parede do fundo, eu vi um homem magro, de cabelo cor de areia, a barba em seu rosto acrescentando severidade à sua aparência normalmente juvenil. Graças a Deus ele não se fantasiou; não tinha como rastrear pessoas pelo cheiro nessa miscelânea de olfatos. — Timmie! — eu gritei.


Meu vizinho nos dias de faculdade não olhou para cima. Afinal, eu era apenas uma voz elevada entre milhares. Após alguns minutos de mais alguns empurrões educados, nós finalmente o alcançamos. — Mas por que inferno maldito você não nos encontrou lá fora? — Foram as primeiras palavras do Bones. Timmie se encolheu pelo tom duro dele. Então ele olhou para mim e ajeitou os ombros, como se se lembrasse de que eu nunca deixaria o Bones machucálo. — Eu estou trabalhando aqui. Além do mais, eu achei que vocês fossem gostar. Tem um painel de True Blood começando daqui a pouco. — Sério? — eu me animei. A sobrancelha erguida do Bones me fez acrescentar, relutantemente — Nós não estamos aqui para nos divertir. Viemos te pedir para nos ajudar a encontrar alguém. Um sorriso esticou os lábios do Timmie. — Não que eu não esteja feliz em te ver, Cathy, mas você podia ter me pedido isso por SMS. — Nós não vamos deixar nada disso registrado, — eu disse de forma sombria, mas divertida. — Ou tratar por telefone. — Ah, é relacionado ao paranormal. — Timmie tirou uma foto de alguém passando, então deixou a câmera pendurada pela correia ao redor do seu pescoço. — É seguro conversar em público? — Nesse lugar? Sim. Qualquer um que ouvisse não acreditaria em uma palavra. — Bones respondeu, indiferente. Verdade, além disso, até agora, eu só vi humanos aqui. Uma vergonha. Os mortos vivos estavam perdendo uma boa diversão. — Se eu te ajudar a encontrar essa pessoa, eu posso publicar algo sobre isso? — Timmie perguntou em uma voz esperançosa. — Não apenas não, como nem fodendo. — Eu disse, firme. Ele suspirou. — Você é uma chata*, Cathy.


*No original, you suck, que ao pé da letra significa você suga. — Você realmente disse isso? — Eu perguntei, sorrindo. Timmie sorriu de volta. — Desculpe. Às vezes eu esqueço que você é… você sabe. — Precisamos encontrar uma garota por volta dos dez anos, — Bones disse, indo direto ao assunto. — Comece com rumores sobre uma criança com olhos verdes brilhantes, ou corpos de pessoas com pescoços quebrados que foram vistos pela última vez com uma garotinha. O queixo de Timmie caiu. Então ele arregalou os olhos para nós. — Vocês perderam uma vampirinha? — Por que vocês precisaram da MINHA ajuda para encontrá-la? Passou pela mente dele. — Nós não podemos pedir para os nossos aliados porque não queremos que as pessoas no nosso mundo saibam sobre ela, — Eu agarrei o braço dele, meu sorriso desaparecendo. — Eu não posso explicar o porquê, mas eles a matariam, Timmie. Ou a usariam para fazer coisas realmente horríveis acontecerem. Pelos seus pensamentos, ele estava curioso, embora hesitante. Ele precisava encontrar outro trabalho de fotografia freelance para garantir o aluguel esse mês. Além disso, era meio que uma droga investigar algo que ele não podia contar para ninguém— Nós lhe daremos vinte e cinco mil dólares adiantados, — Bones disse, congelando os pensamentos do Timmie em um único coro de SIM! — E outros vinte e cinto se sua informação nos levar até a garotinha. — Quan-quando eu começo? — Timmie conseguiu dizer, gaguejando de tão atordoado. Bones quebrou a correia ao redor do pescoço do Timmie com um gesto casual, fazendo a câmera cair no chão. — Agora, portanto você não vai mais precisar disso.

N

ós sabíamos que Timmie era bom. Ele deu muita dor de cabeça ao Don,


e depois ao Tate, quando insistia em expor segredos paranormais ao público através do seu blog investigativo. Ele também era confiável, como provou há mais de um ano atrás quando solicitamos a ajuda dele para rastrear ghouls criminosos. Quando deixamos a Califórnia, eu tinha grandes esperanças de que ele podia farejar a trilha de Katie eventualmente. O que eu não esperava era o SMS apenas dois dias depois “Procure a sua encomenda na região leste de Detroit.” —Wow. Timmie acha que tem uma pista, e não é nenhum lugar próximo de onde Ian e Tate têm procurado. — Eu disse ao Bones. Ele olhou a mensagem. — O lado leste de Detroit é um dos lugares mais cheios de crime da América. Estranhamente, ele soava aprovador, e admiração penetrou minhas emoções. — Por que você está contente por uma garotinha estar sozinha nesse lugar? — Ela está mais segura lá, — Bones respondeu, levantando uma sobrancelha. — Ela pode escolher entre centenas de edifícios abandonados, em um lugar onde as pessoas não se metem nos assuntos umas das outras, e onde um cadáver ocasional de alguém que tentou mexer com ela não vai chamar a atenção pública. Uma análise lógica tão fria. Bones teve que ter centenas de anos lutando por sua vida para pensar dessa forma. Katie só tinha uma década de idade, ainda assim, ela estava demonstrando a mesma mentalidade se escolheu Detroit por aquelas razões ao invés de acabar lá por acidente. — Se foi proposital, isso também mostra autocontrole da parte dela, — Bones continuou, algo gelado roçando minhas emoções. — Isso é bom. Se ela for capaz de permanecer escondida, há menos chances de que ela tenha que ser morta. Por vários segundos, eu não pude falar, minha mente rejeitando que ele realmente disse algo assim. — Tenha que ser morta? — Eu finalmente respondi. — Você está louco? O olhar que ele me deu foi tão arrepiante, que me lembrou de que Bones foi


um assassino de aluguel por quase dois séculos antes de nos conhecermos. — O perigo de uma guerra não é reduzido por causa da idade dela. É por isso que eu estou disposto a deixar Katie viver, se ela nos permitir escondê-la pelo resto da vida dela. De outra forma, pela nossa mão ou de outra pessoa, ela terá que morrer. Minha expressão deve ter indicado minha recusa total, porque ele agarrou meus ombros e só faltou me sacudir. — Isso me deixa doente, mas você sabe que eu estou certo! Você se transformou em vampira por que a mera possibilidade de que você poderia adicionar características ghoul à sua natureza meio-vampira quase causou uma guerra. Katie é esse acréscimo, e se isso se tornar de conhecimento comum, ela vai começar a guerra que todos nós tememos. Ou ser morta para impedir isso. — Mas ela não tem que ficar escondida para sempre, — eu sussurrei, ainda me recuperando do futuro sombrio que Bones traçou para aquela criança. — Quando ela for velha o suficiente, ela pode escolher se transformar em uma espécie ou em outra. — É tarde demais, — Bones disse em um tom muito mais suave. — Katie já é uma combinação de vampiro e ghoul. Perder a humanidade dela não vai apagar isso, só vai aumentar. Eu não tinha palavras para refutar aquilo. Eu me lembrava muito bem das centenas que morreram quando ghouls começaram a matar vampiros sem mestres no início de uma leve agitação entre as espécies. E das outras centenas, em ambos os lados, que morreram colocando fim naquele conflito. Bones estava certo, somente minha transformação impediu que aquelas centenas virassem milhares, já que dez por cento da população mundial é de mortos vivos. Isso, e nossa incômoda trégua com a nova rainha ghoul, Marie Leveau, que já disse que se nós não acabássemos com essa nova ameaça, ela acabaria. Eu respirei fundo, mais pela familiaridade do ato do que qualquer esperança de que isso iria me tranquilizar. — Você está certo. — Maldito seja você, Madigan! — O melhor que Katie pode esperar disso é uma vida escondida. Talvez não seja tão horrível. Denise


também vive escondida, por seu sangue demoníacamente melhorado ser uma drogada para os vampiros. Bones me soltou, apenas seu olhar sustentando o meu enquanto ele falava. — Se ela acabar sendo impossível de esconder, nós não seremos capazes de protegê-la do que acontecerá depois. Soltei minha respiração em um suspiro amargo. — Não. Acho que não seremos. Katie era uma vida contra milhões. Múltiplos milhões, somando o fato de que humanos seriam efeito colateral se vampiros e ghouls estiverem envolvidos em uma guerra geral. Nós não estaríamos lutando apenas com nossos inimigos tentando mantê-la viva. Estaríamos lutando contra nossos aliados, também. Eu faria tudo em meu poder para impedir que uma garotinha fosse sacrificada pelo bem maior, mas, como a minha longa lista de arrependimentos passados provava, algumas vezes, o meu melhor não era bom o suficiente. Por favor, Deus, permita que seja bom o suficiente dessa vez. Mencheres escolheu aquele momento para entrar na sala. Com seus ouvidos de morcego, ele ouviu tudo o que dissemos, mas não disse nada, e isso era sinal de que ele concordava totalmente. — Nós recuperamos alguns arquivos, — ele disse. — Venham ver.


Capitulo Vinte e Sete.

Q

uando Mencheres disse que o seu “pessoal” estava trabalhando nos

HDs que trouxemos da base do Madigan, eu presumi que ele estivesse se referindo a vampiros. Quando o seguimos para a sala que ele transformou em um paraíso para os amantes de tecnologia, entretanto, o garoto de cabelo preto sorrindo para o computador era humano. E ele parecia ter cerca de dezessete anos. — Eu sou o máximo, — o adolescente disse, animado. Então ele se virou, sorrindo para o vampiro Egípcio de quase cinco mil anos de idade. — Quem é o seu cara, M? Longe de estar ofendido, Mencheres se aproximou e rapidamente executou um aperto de mão de rua, completo com estaladas de dedo, golpe de punhos e uma batida em cima e em baixo no final. — Você é o cara. — ele concordou solenemente. Eu não pude mais ficar em silêncio. — Você usou um adolescente para recuperar informações delicadas o suficiente para causar uma guerra mundial? Mencheres me deu um olhar tolerante. — A maioria dos vampiros é mais lenta para abraçar a tecnologia do que os cidadãos idosos normais. Tai é leal, e ele está escrevendo códigos desde antes de você aprender a mandar mensagens de texto. O garoto sorriu para mim. — Não se preocupe, docinho, eu sei ficar quieto. Além disso, M é um dos meus heróis. Bones ergueu uma sobrancelha com o comentário “docinho”, mas eu ignorei. — Ok, Tai, mostre-nos o que você tem. — Como se um interruptor tivesse


sido apertado, o adolescente ficou todo negócios. — Eu tive que remendar isso porque os HDs estavam tão queimados que os arquivos fragmentaram. Então eu filtrei entre o que M disse que você não precisava, como mapeamento de genomas e registros de experiências. Havia muito disso… — Intactos? — Eu interrompi. Eles podem não nos ajudar a encontrar o financiador do Madigan, mas podem ser úteis para compreender a Katie. Ele riu. — Agora estão. Enfim, vamos às coisas boas. Eles deviam ter câmeras por toda parte na sala em que ela lutava, porque esse arquivo — seus dedos voaram pelo teclado — tem as melhores imagens da sua pequena Godzilla em ação. A tela do computador encheu com uma imagem distorcida, como se tivessem passado o vídeo em um picador de papel, e então juntado tudo novamente. Ainda assim, Katie era fácil de localizar. Ela era a criança com o cabelo castanho-avermelhado na altura dos ombros, enfrentando um homem adulto que apontava uma arma para ela. —… ão… me …aça… — veio através dos sons ininteligíveis. — A qualidade do som está horrível, mas se você ler os lábios dele, ele está dizendo que não quer atirar nela. — Tai disse. Mais sons estranhos vieram do vídeo, e então houve um borrão de ação. Se eu não fosse uma vampira, teria precisado de câmera lenta para ver Katie se arremessando para frente, desviando da bala que o homem disparou antes de chutar as pernas dele e bater o cotovelo em sua garganta. — Essa é ela sendo orientada a neutralizá-lo, — Tai informou sombriamente. Eu sabia que ela matou pessoas, mas saber e ver eram duas coisas diferentes. Ela não hesitou sequer por um segundo, e nada mudou nas expressões da garotinha quando ela se levantou e ficou em posição de sentido, indiferente ao corpo agonizando aos pés dela. Que uma criança possa mostrar tanta indiferença enquanto destrói uma vida me gelou até a alma. Ela parecia não ter ideia do que fez.


Mas, como ela poderia ter? Tudo o que ela recebeu em resposta foram algumas poucas palavras curtas de elogio do Madigan pela sua velocidade. Ele também estava no vídeo, assistindo Katie por trás de uma parede de vidro. Eu tive que me controlar para não socar a tela quando a imagem ficou nítida o suficiente para ver sua expressão presunçosamente satisfeita. Será possível para Katie desaprender todo o comportamento violento e inconsciente que Madigan ensinou a ela? Mesmo que sim, é possível que ela seja tão fisicamente programada para usar suas habilidades, que não consiga reprimi-las o suficiente para fingir ser humana para sempre? Porque é isso que ela vai precisar fazer se formos mantê-la seguramente escondida. Afinal, a menos que ela seja trancada em uma cela a vida inteira, Katie teria que sair em público em algum momento. Uma exibição de velocidade ou força sobrehumana na frente da pessoa errada, e tudo iria para o inferno. Na tela, Madigan dispensava Katie. Uma porta oculta abriu, e a garotinha desapareceu através dela. Ela não deu mais que uma olhada para o corpo atrás dela, também. Eu estava tão preocupada com as chances de recondicionar Katie em uma garotinha normal, de certa forma, que levou alguns segundos para o comentário do Tai “Esse cara velho deve ser quem vocês estão procurando” penetrar. Mais alguém apareceu por trás da parede de vidro de onde Madigan observava Katie. A princípio, tudo o que eu podia distinguir era um homem cinquentão – acho que isso é velho para um adolescente – com cabelo grisalho e que tinha a mesma altura do Madigan, embora fossem mais fortes. Bones sibilou quando a imagem borrada clareou e o rosto dele ficou distinto. Eu arfei, também o reconhecendo. Tai sorriu. — Pensando bem. Eu já o vi na TV antes. Assim como a maioria da América. Richard Trove era o antigo chefe de gabinete da Casa Branca e atual conselheiro político. Você não podia passar pelos canais durante a última eleição presidencial sem topar com ele, mas eu só conseguia pensar em uma razão para ele estar na instalação subterrânea secreta assistindo a uma criança tri-espécie feita por engenharia genética executar algum coitado sob ordens. Ele era o backup misterioso do Madigan.


N

ós duvidávamos de que houvesse mais alguém acima do Trove, mas,

mesmo assim, só para garantir, Denise se transformou em uma réplica dele e entrou na cela do Madigan. Como com Don, Madigan o reconheceu de imediato e parecia encantado em falar com ele. Após várias horas de principalmente bobagens, nós colhemos migalhas de informação o suficiente para nos convencer de que a bola parava com Richard Trove. Ele estava no poder quando a operação do Don começou, e embora ele tenha deixado o governo desde então, ele era altamente considerado o poder por trás de vários senadores atuais e pelo menos um antigo presidente. Além disso, ele é rico o suficiente para financiar a operação do Madigan por conta própria, se ele não quisesse pagar as despesas através de um fantoche político. Após pesquisar um pouco, Tai descobriu que Trove estaria em New York nesse fim de semana para um jantar político de arrecadamento de fundos. Nós não sabíamos onde ele estaria após isso, o que significa que nós teríamos que escolher entre ir atrás dele ou da Katie. Trove venceu, já que nós já tínhamos dois vampiros e um fantasma rastreando Katie. Nós mandados para o Ian a informação que Timmie conseguiu sobre a possível localização dela, então contribuímos com uma quantidade astronômica de dinheiro para conseguirmos reservas para o jantar de levantamento de fundos. Finalmente, fomos fazer compras. A quinze mil dólares o prato, nós não podíamos aparecer de jeans e camiseta. Dois dias depois, nós fizemos o check in no Waldorf Astoria, na Park Avenue. As sete em ponto da noite seguinte, nós estávamos de pé na fila para entrar no Grand Ballroom. A segurança estava apertada já que mais do que algumas figuras políticas importantes eram esperadas. Não foi problema, Bones tinha vários aliados que foram cidadãos cumpridores da lei por décadas. Só foi preciso Tai invadir alguns bancos de dados para postar as fotos, então conseguir um falsificador confiável para imprimir os documentos, e pronto. — Senhor e senhora. Charles Tinsdale. — Bones disse para o agente do Serviço Secreto verificando os participantes do jantar. Então ele estendeu seu convite e carteira, com a nova carteira de motorista virada para cima. Após aquilo ser verificado, ele passou pelas portas de metal, a luz verde indicando


que ele não levava nenhuma arma. Eu fiquei surpresa por não ter que remover o lindo colar de diamantes e brincos que Kira me emprestou, ou meu anel de casamento, antes de passar pela máquina. Entretanto, outro agente do Serviço Secreto me fez esvaziar minha pequena bolsa carteira, revelando batom, pó compacto e meu celular. Eu sorri enquanto aceitava a bolsa de volta antes de unir meu braço ao do Bones. Claro, nós estávamos aqui para matar alguém, mas nós não seríamos óbvios sobre isso. Então nós fomos para o andar principal do Grand Ballroom. A extravagante sala branca e dourada de três andares estava banhada em um suave brilho azul que lentamente mudava para roxo, laranja e rosa enquanto caminhávamos entre as mesas ornamentadas. Havia suportes altos com velas e rosas entre elas, sua forma me lembrando as árvores Truffula, do conto do Dr. Seuss. As flores e candelabros refletiam os tons diferentes das luzes que continuavam mudando de cor, adicionando uma linda luminescência ao ambiente já elegante. Nós passamos por dois senadores e um congressista que eu reconheci da Teve Senado, mas além de um educado cumprimento e sorriso, eu não dei nenhuma atenção a eles. Eu também tentei bloquear seus pensamentos, já que o bem-estar dos seus contribuintes não era o que eles tinham em mente. O que passava pelas minhas barreiras eram variações do mesmo “quem é você e o que você pode fazer por mim?” Com algumas diferenças de ciúme, ódio e luxúria no meio. Então, até Trove chegar, eu escolhi focar no meu marido. O terno do Bones era cinza carvão, e seu cabelo cacheado curto estava de volta ao seu tom castanho profundo natural. Eu estava contente por ele acabar com aquele branco chocante; aquilo trazia muitas memórias ruins. Ao invés de estar totalmente barbeado, ele deixou uma fina camada de barba sombrear seu queijo e mandíbula, dando uma aparência mais severa as suas feições perfeitamente esculpidas. Ninguém sabia quem ele era, mas sua maior desvantagem era ser inesquecível uma vez que era visto. Como disfarce, eu também tingi o cabelo, escolhendo preto em homenagem as minhas intenções sombrinhas. Estava para cima em um coque complicado


que o estilista do hotel levou uma hora para fazer. Lentes de contato azuis cobriam meus olhos cinzentos como metal, e meu vestido era de um rosa suave, o forro e a renda sobreposta apenas alguns tons mais rosados que minha pele pálida. A cor discreta não combinava com o meu humor, mas eu estava tentando me misturar, e não me sobressair usando um vermelho “eu vou matar você”. Garçons serviam vinho, champanhe e aperitivos chiques. O jantar ainda levaria uma hora, e Trover ainda não tinha aparecido, então Bones e eu bebericamos champanhe enquanto batíamos papo com todos que se aproximavam de nós, contanto nossa história de sermos um casal rico recentemente transferidos de Londres. Ninguém perguntou por que Bones era o único com sotaque britânico. Na verdade, raramente falavam comigo exceto para elogiarem minha aparência. Meu feminismo estava ferido, embora minha praticidade agradecesse. Era difícil ver uma acompanhante ingênua como ameaça. Nosso plano foi nos misturarmos até chegarmos em Richard Trover quando ele chegar, levá-lo até um daqueles quartos privados, hipnotizá-lo para fazer ele nos contar se ele tinha alguma outra instalação secreta, e então Bones apertaria o coração dele usando a telecine até ele morrer. Simples e limpo, e uma autópsia mostraria apenas uma parada cardíaca. Acontece todo dia, nada para ver aqui, pessoal. O problema era que acabou se revelando mais coisas sobre Trove do que o vídeo mostrava. Com o salão cheio de centenas de convidados, perfumes, colônias e loções pós-barba se misturaram ao cheiro de comida, odores corporais, álcool e cigarro. O resultado foi uma profusão química que ficou tão forte que eu não notei o outro cheiro imediatamente. Bones notou. Seu corpo todo ficou tenso logo antes de sua aura se fechar com tanta força que me chutou para fora das suas emoções. — Qual é o problema? — eu sussurrei. Sua resposta foi baixa, ressonante e cheia de um ódio gélido. — Demônio.


Quando segui o olhar do Bones, meu pessimismo não ficou surpreso em descobrir que estava voltado para Richard Trove. Aquela familiar e nojenta onda de enxofre penetrou entre os outros cheiros enquanto o educado homem mais velho com a aparência de Jack Kennedy começou a vir em nossa direção. As pessoas ao redor de Trover não pareciam estar cientes do cheiro emanando dele, e ele deve ter escondido os pontos vermelhos em seus olhos com lentes de contato. Parte de mim achava muita graça que um demônio conseguiu enganar Madigan e fazê-lo acreditar que era humano esse tempo todo, mas o resto estava se perguntando o que diabos nós faríamos. Demônios não podem ser hipnotizados, e estava para nascer um que concordaria em cooperar calmamente. Trove notou meu corpo primeiro. Seus olhos se demorando nele como se meu vestido tivesse ficado subitamente transparente. Quando ele finalmente arrastou o olhar para o meu rosto e viu que o que ele estava fazendo não passou despercebido, ele sorriu de um jeito charmoso que dizia “você me pegou.” Então seu sorriso desapareceu enquanto ele me encarava. Seus olhos se estreitaram, e ele gesticulou uma palavra que eu não precisei ouvir para saber que ele me reconheceu. Crawfield. Tanto por fazer isso simples e limpo…


Capitulo Vinte e Oito.

M

ais rápido que o ataque de uma cobra, o poder do Bones explodiu,

envolvendo Trove. O político famoso parou, uma expressão estranha enrugando suas feições. Então Bones aumentou aquele aperto invisível ao redor dele com todo o ódio que ele tem por demônios. Considerando que um o possuiu ano passado e quase o forçou a me matar, era um ódio significante. Sob aquela pressão terrível em todo o corpo, Trove não deveria ser capaz nem de respirar, muito menos dar um passo. Ainda assim, ele fez ambos, e sua expressão estranha se transformou em uma de êxtase. — Isso faz cócegas em todos os lugares certos, — ele ronronou em seu sotaque de garoto do Texas. Meu queixo caiu. Pelo poder fervilhando dele, Bones não estava tendo problemas de desempenho. Como Trove podia ainda estar vindo em nossa direção? Bones devia estar se perguntando a mesma coisa. Ele duplicou a dose que enviava ao Trove. A subsequente explosão de energia foi como a detonação e uma bomba. Os humanos no lugar podem não ter sentido, mas aquilo me jogou para trás com força suficiente para me fazer bater no garçom atrás de mim. Nós caímos em uma pilha de champanhe e vidro quebrado e, ainda assim, Trove continuou vindo. Como ele está fazendo isso? Minha mente gritou. Bones usou menos poder quando levitou uma dúzia de guardas através de uma rede de laser! Trove estava apenas a alguns metros agora. Eu agarrei um pedaço grande de vidro em um instinto de alcançar qualquer arma disponível. Então soltei. Ele não tinha batimento cardíaco, então era um demônio corpóreo, não um espírito demoníaco possuindo um humano. Dessa forma, apenas uma coisa podia matá-lo: osso de demônio fincando entre os olhos. E nós não tínhamos nenhum. — Você parece ter levado um tombo feio, minha jovem, — Trove disse em


um tom de bate papo. — Deixe-me ajudar você. O demônio estendeu a mão, abaixando. Antes que a pele dele roçasse em mim, Bones o puxou para trás. Por alguma razão incompreensível, sua telecinese não parecia afetar Trove, mas seu aperto funcionava muito bem. — Não. Toque. Nela. Cada palavra foi sibilada com ódio cru. Pessoas ao nosso redor começaram a sussurrar por trás das mãos. Homens musculosos com fones nos ouvidos começaram a abrir caminho pela multidão. Agentes disfarçados do Serviço Secreto, sem dúvida. Trove sorriu para eles, levantando as mãos tanto quanto o aperto do Bones permitia. — Está tudo bem, amigos. Como eu costumava dizer quando era jovem, não é uma festa até que algo se quebre. Então ele falou mais baixo para o Bones: — Se você não quer que eu comece a matar espectadores inocentes, solte-me. Bones sorriu de volta, mas não soltou o braço do Trove. — Um salão cheio de políticos? Vá em frente. — Bones. Eu levantei, puxando o garçom comigo sem tirar os olhos dos dois. — Não. Além de que nem todo político merecia aquele destino, os familiares deles estavam aqui, também. Assim como funcionários do hotel e, além disso, repórteres. Se as coisas tomarem um rumo sobrenatural e letal, estaria em todos os noticiários antes que pudéssemos conter. — Eu acho que tomei muito champanhe. — Eu disse de forma envergonhada, colocando meu braço em volta do Bones. — Querido, leve-me para tomar um ar? Ele estava tão tenso que o corpo dele parecia aço sob meu toque. Eu tentei puxá-lo discretamente, mas ele não se moveu. Os agentes do Serviço Secreto, que começaram a se afastar com a declaração tranquilizante de Trove, viraram de volta. Pelos pensamentos deles, eles estavam prestes a agir.


— Aqui não, — eu sussurrei quando Bones ainda assim não se moveu. Então falei mais baixo para o Trove, — Você nos acompanharia? O demônio sorriu, exibindo dentes tão brancos que ele deve pagar para clareá-los. — Claro. Então ele olhou para o aperto que Bones ainda tinha no braço dele, levantando uma única sobrancelha grisalha. Por fim, Bones o soltou, mostrando os dentes muito brevemente para aquilo ser chamado de sorriso. — Depois de você, companheiro. Nós subimos as escadas para o segundo nível do Grand Ballroom, onde havia muito menos pessoas. Trove dispensou impacientemente uma escolta do Serviço Secreto que tentou acompanhá-lo, fazendo minha desconfiança aumentar. Claro, ele não tinha ideia de que nós sabíamos como despachar um demônio, mas por que ele parecia quase ansioso para ficar sozinho conosco? Eu só podia pensar em um motivo: Ele pretendia nos matar. Pretencioso da parte dele escolher um lugar público para fazer isso. Ele sabia o que nós somos, e vampiros só morrem de forma bagunçada, não que eu tenha alguma intenção de morrer essa noite. Assim que estávamos longe da maior parte dos olhos curiosos, a máscara de charme simpático do Trove escorreu, e eu peguei um vislumbre da pessoa verdadeira por baixo. Dizer que era como olhar nos olhos de uma besta era um insulto aos animais. — Você poderia me atingir com mais daquele poder delicioso? — Ele disse ao Bones. — É tão bom que eu quase gozei. — Que tipo de demônio é você? — Eu perguntei por cima do rosnado do Bones. — Um Ornias, — Trove respondeu, me surpreendendo. Eu não estava realmente esperando uma resposta. Bones bufou com raiva. — É por isso que meu poder não funciona em você. Sua espécie absorve energia e se alimenta disso.


Eu não sabia que demônios que absorvem poder existiam, mas eu só tive experiência com alguns. O primeiro marcou Denise, o segundo possuiu e quase matou Bones, e o terceiro tentou me fazer negociar minha alma em troca de informação. Dizer que eu não gostava da espécie deles era um eufemismo. Trove tremeu no que pareceu uma lembrança deliciosa. — Eu tenho que drenar a energia vital de mais de uma dúzia de humanos para absorver um décimo do que aquilo que você acabou de jogar em mim. Eu quero sentir isso de novo, que é uma das razões pelas quais você ainda está vivo. — Acha que pode me matar? — Um sorrisinho perigoso curvou a boca do Bones. — Você é bem-vindo a tentar. Abaixo de nós, os ricos e poderosos continuavam a se misturar, ignorantes sobre o quão perto da morte estavam. Se Trove largar sua atuação humana e for para cima do Bones, ninguém estará seguro na luta. Nós não tínhamos nenhum osso de demônio, e os poderes do Bones só faziam a criatura ficar mais forte, mas eu não o deixaria machucar meu marido. Pelas suas palavras e o ódio contido vazando dos escudos do Bones, ele também não estava prestes a acenar a bandeira branca. — Por que você ajudou Madigan em sua tentativa de criar super soldados tri-espécies? Normalmente, nossas espécies não se metem nos negócios um do outro. Minha voz estava brusca. Ou o demônio responderia, ou não, mas não me custava nada perguntar. Trove afastou seu olhar cor de âmbar do Bones por tempo suficiente para passá-lo por mim de uma forma que me fez pensar que surgiria um rastro de lodo onde ele pousava. — Você tem ideia do quanto eu odeio vampiros? — Ele perguntou em uma voz de bate papo. — A única coisa mais nojenta são os comedores de carne, e embora as raças de vocês tenham chegado perto uma ou duas vezes, vocês simplesmente não se adiantam e destroem uns ao outros. Eu tentei não mostrar meu choque quando finalmente entendi. Madigan não tinha ideia do que ele estava arriscando ao misturar DNA vampiro e ghoul em


um humano para criar uma nova subespécie. Trove, entretanto, sabia exatamente o que aconteceria. A guerra resultante foi a intenção dele o tempo todo. Bones riu, baixo e provocador. — E você pensou que achou um jeito de resolver nosso problema de paz? Desculpe desapontar. — Meu povo chegou aqui primeiro. A voz do Trove perdeu seu suave sotaque do Texas, revelando uma entonação gutural e um sotaque que eu nunca ouvi. — Então as suas espécies surgiram, — ele cuspiu. — Humanos eram fácies de dominar, mas não suas raças. E como vocês protegiam sua preciosa comida de nós! Vocês nos levaram à beira da extinção, forçando-nos a nos esconder por milênios, até que nenhum dos lados se lembrasse o quão perto meu povo chegou disso. A única razão de eu saber o que aconteceu é porque eu estive lá. Eu me perguntei por que ele estava nos contanto isso. Demônios não se importam se nós entendemos suas motivações. O que ele estava armando? — Finalmente, em 1400, ghouls e vampiros começaram a se levantar uns contra os outros. — Trove continuou. — Foi uma surpresa perceber que tudo o que foi preciso foi uma mestiça francesa e a ameaça de mudança que ela representava. Infelizmente Joana foi sacrificada muito rápido. Ela quase fez as raças de vocês se aniquilarem. — E mais de seiscentos anos depois, outra mestiça apareceu, — Eu resumi. — Você deve ter pensado que era natal no inferno. Trove sorriu de um jeito que parecia realmente divertido. — Com os avanços na ciência, eu pensei. Quando ouvi que Don descobriu outra mestiça, eu larguei tudo por você, Catherine Crawfield. Derramei dinheiro no departamento que o seu tio criou e me certifiquei de que Madigan continuasse fazendo experimentos com seu material genético após Don demitilo. De que outra forma eu garantiria meu sucesso se você, como Joana D’Arc, morresse antes de dar resultados? Suas revelações estavam começando a me lembrar dos clichês nos filmes antigos de vilãos: monólogos. Pela suspeita nas emoções do Bones, ele estava


preocupado com isso também. Trove tinha que ter uma razão oculta para isso. Ele estava protelando, esperando por reforços demoníacos chegarem? Foi quando eu percebi que Bones havia nos conduzido para perto de uma das janelas altas com vista para a cidade. Nossa rota de fuga, se precisássemos. Como se lesse meus pensamentos, Trove olhou para a janela, então acenou. — Fiquem à vontade, mas, como eu disse, eu não quero que você machuque. Vampira ou não, eu te quero viva, Catherine. De outra forma, teria te matado há muito tempo. Você tem ideia de quantas vezes alguém meu pessoal esteve ao lado do seu corpo inconsciente, após você voltar uma das missões do seu tio?

se eu do de

Quando estreitei os olhos, ele sorriu, exibindo aqueles dentes preparados para o horário nobre novamente. — O nome Brad Parker te lembra alguma coisa? Lembrava, mas eu não conseguia lembrar quem… espere! — O assistente de laboratório que trabalhava para o Don. — Bones disse com um rosnado. — Eu o matei anos atrás, após ele a trair para o pai dela. Agora eu lembrava quem Brad era. O dia em que Bones o matou também foi o dia em que ele conheceu Don e revelou para mim que meu chefe era, na verdade, meu tio. Após aquilo, a morte de um assistente de laboratório traidor era quase acidental. Trove deu de ombros. — A ambição de Parker levou a melhor sobre ele, mas isso é normal para gente como ele. Além do mais, ele já tinha servido ao seu propósito. — Transportar o sangue dela para Madigan após Don demiti-lo? — O tom do Bones pingava desdém. — Você falhou aí, companheiro. Apenas um dos experimentos dele funcionou, e você já pode considerá-la morta, assim que a encontrarmos. Eu me encolhi, mesmo que Bones não queira realmente matar Katie. Trove


não parecia acreditar nele também. Seu sorriso aumentou. — Você não vai matar aquela garotinha. Ela não vai te deixar matar. Ele estava jogando a carta mulherzinha? Eu ajeitei meus ombros, endurecendo minha expressão e voz. — Terminar uma vida para salvar milhões? Sem debate. A garota morre. Trove fez um “tsc,tsc,tsc” desaprovador enquanto vermelho brilhava através das lentes de contato cor de âmbar. — Onde o mundo vai parar quando alguém mataria sua própria filha? Na palavra “filha”, um rugido começou em meus ouvidos. Eu abafei aquilo, rindo como se ele tivesse contado uma piada. — Eu acho que não. Diferente dos homens, as mulheres meio que sabem quando têm filhos, com toda aquela coisa da gravidez e trabalho de parto. — Oh, você nunca esteve grávida, — Trove disse, dispensando aquilo enquanto seus olhos ficavam mais brilhantes. — Mas A80 é sua filha mesmo assim.


Capitulo Vinte e Nove.

B

ones o tinha pela garganta antes que eu pudesse reagir, sua mão pálida

apertando até o pescoço do demônio quebrar com um som audível. Tudo que Trove fez foi se encolher. —… ausando… uma… ena… — Ele balbuciou. Embora nós estivéssemos no canto mais afastado da parte mais deserta do segundo nível do salão, a qualquer segundo, ficaria claro que estava acontecendo mais do que um bate papo privado. E eu estava subitamente desesperada para ouvir o que o demônio tinha a dizer, mesmo enquanto me lembrava de que isso não podia ser possível. — Solte-o. — Eu ordenei ao Bones. — Ele está te atormentando para se divertir. — Bones rosnou. Eu puxei o braço dele. Com força. — Eu disse solte-o. Bones o soltou. Trove oscilou antes de estalar o pescoço com força para colocá-lo no lugar. — Toque-me novamente e eu farei isso, — ele sibilou. O demônio desapareceu durante alguns segundos, antes de reaparecer no mesmo lugar. A única evidência do seu feito impressionante foi um aumento do cheiro de enxofre. Eu não estava com humor para comentar seu truque de festa. — Como eu posso ser a mãe dessa garota se você admite que eu nunca estive grávida? Trove passou uma mão pelo seu cabelo espesso, colocando-o de volta no lugar após o tratamento duro do Bones bagunçá-lo.


— Como eu disse, avanços na ciência. Com toda a patologia que Don pediu quando você começou com ele, não foi nada difícil para Brad Parker infiltrar remédios de fertilidade. Foi mais difícil para ele extrair óvulos durante as vezes em que você voltou inconsciente de uma missão, mas quando ele conseguiu, você nunca notou as marcas de agulha depois. Com todos os seus outros ferimentos, por que notaria? No total, Parker extraiu para nós mais de cem óvulos. Todos foram fertilizados e implantados em barrigas de aluguel, mas apenas um sobreviveu. Então o demônio se aproximou, sorrindo. — Madigan ficou impaciente com a baixa taxa de sucesso da sua fertilização in vitro, então ele solicitou ao seu tio te fertilizar. Isso o fez ser demitido, e Don monitorou você mais de perto. Parker sabia que não podia arriscar mais extrações, então, após alguns anos, ele encontrou outra forma de ganhar dinheiro às suas custas, traindo você para o seu pai. — Você está mentindo. Eu forcei as palavras a saírem, embora o redemoinho de emoções tornasse difícil suportar isso, que dirá dizer. Então endireitei a coluna e falei novamente. — Você está mentindo. A garotinha que eu vi tem que ter pelo menos dez anos de idade. Eu comecei a trabalhar para o Don há menos de oito anos atrás. — A80 fez sete anos no mês passado, — Trove respondeu. — A mãe de aluguel levou apenas cinco meses para tê-la, e hormônios de crescimento cuidaram do resto. Madigan queria ver o que o seu novo brinquedo podia fazer, e assim que ele adicionou DNA ghoul na composição genética dela, minha nossa, A 80 se desenvolveu. Aquele tornado voltou para destruir meu equilíbrio. Cinco meses. Foi esse o tempo em que minha mãe me carregou no ventre, e eu estava totalmente desenvolvida no nascimento. Se tivessem me dado hormônios de crescimento e uma dose adicional de DNA morto-vivo, eu poderia ter parecido anos mais velha quando tinha sete anos, também. Bones segurou meus braços quando meus joelhos começaram a dobrar, apesar da minha resolução de não acreditar em nada disso. Demônios mentem, eu me lembrei. Mesmo que o que Trove diga seja cientificamente


possível, isso não fazia nada daquilo verdade. — A impaciência do Madigan também o tornou obcecado com você, — Trove continuou alegremente. — Ele não queria esperar A80 ficar madura o suficiente para produzir seus próprios óvulos, e suas tentativas de replicar sinteticamente a tripla natureza dela meramente resultou em milhares de objetos de teste mortos. Estou acostumado a esperar, então alguns anos a mais não significam nada para mim, mas então você tinha que atacar a base dele e dar à fedelha a chance de escapar. Ele parou para me dar um olhar tolerante. — É por isso que você está aqui, não é? Para ver se eu sei onde ela está? Eu não sei, mas não vou te impedir de procurá-la. Na verdade, eu quero que você a encontre. Assim que encontrar, por favor, faça testes para comprovar que cada palavra que eu disse é verdade. — Se é, por que você nos diria isso? — Eu sufoquei. O demônio apenas sorriu e, com claridade brutal, eu entendi. Agora que Katie está fora do seu alcance, ele precisava que eu soubesse que ela é minha filha. É a garantia dele de que eu arriscaria tudo para mantê-la viva, e perto de mim, Bones e nossos aliados. O demônio quer guerra, e ele não pode ter uma se ninguém está disposto a lutar. Bem, Trove acabou de me dar algo pelo que eu mataria e morreria, como queria. Ele provavelmente esperava que nós fôssemos aparecer essa noite, para que ele pudesse dar com a língua nos dentes. Se não tivéssemos, ele provavelmente nos procuraria, sem saber que nós tínhamos meios para matá-lo. É uma pena que não tenhamos trazido a faca de osso. Nesse momento, não havia nada que eu amaria mais do que enfiá-la entre os seus olhos por se vangloriar sobre a forma horrível que ele usou, e ainda pretendia usar, uma criança que pode ser minha. Bones estava tão perto, que eu senti seu celular vibrar no bolso. Ele ignorou, e alguns segundos depois, o meu tocou na minha bolsa. Trove olhou para baixo com um sorriso de entendimento. — Você pode querer atender. É importante.


Antes que eu pudesse responder, ele desapareceu.

Q

uão grave é? — Foram as primeiras palavras do Bones quando ele

entrou na casa do seu co-regente. Mencheres foi até a entrada, sua expressão amarga enquanto ele estendia um iPad. — Muito grave. —Ele disse simplesmente. Bones pegou o tablete. Uma olhada para a tela explicou a chamada urgente do Mencheres. Apesar do nosso choque com a revelação do Trove, nós voamos até estarmos exaustos, então roubamos carros para chegarmos até aqui. Agora nós sabíamos que Trove não estava meramente esperando que Bones e eu aparecêssemos na arrecadação de fundos. Ele estava preparado para isso. VAMPIROS ENTRE NÓS! Gritava a manchete da página de internet. Mais incriminadoras, enquanto Bones deslizava a tela, eram as páginas e mais páginas de relatórios dos experimentos do Madigan, completas com vídeos mostrando uma criança de olhos brilhantes assassinando vários oponentes adultos sob comando. Como os discos rígidos foram queimados, apenas uma pessoa teria essa informação, embora, é claro, o nome do antigo chefe de gabinete da Casa Branca não estivesse em nenhum lugar desses documentos. — Trove, — eu sibilei. — Enquanto ele estava tagarelando, nós não éramos os únicos sendo informados da dimensão total dos experimentos do Madigan. Qualquer um com olhos e uma conexão com a internet também estava! — Estão aparecendo mais sites com teorias da conspiração e criptozoologistas repassando a informação. — Mencheres disse, concordando sombriamente. — Tai está tentando derrubá-los para retardar o progresso da informação, mas… há muitos. Para ilustrar seu ponto, Mencheres minimizou a página e abriu outra. NÓS NÃO ESTAMOS SOZINHOS, MAS NÃO É QUEM VOCÊ ESTÁ


PENSANDO, a nova manchete anunciava, seguida de extensivos relatórios de patologia referentes à natureza tri-espécie da Katie – e o que tornou aquilo possível Eu estava muito devastada para sequer xingar enquanto Mencheres abria site atrás de site cheios com ainda mais informações direcionadas a inflamar o relacionamento entre ghouls e vampiros. Ele estava certo; era tarde demais para conter isso. Já havia se tornado viral, assim como Trove pretendia. Claro, a maioria das pessoas vendo esses documentos escaneados não saberiam quem Espécie A1 é, muito menos acreditar a que fertilização in vitro do óvulo de uma meio-vampira resultaria em uma criança um quarto vampira, que era capaz de absorver DNA ghoul em sua composição genética. Quero dizer, eu era Espécime A1, e ainda assim eu tinha dificuldades em acreditar. Considere o fato de que a maioria dos humanos não sabia que vampiros ou ghouls existem e a reação, a julgar pelos comentários, estava sendo de escárnio. Mas o problema não eram os humanos, que pensavam que tudo isso era um trote. Era todo mundo que sabia que não era. Por fim, Bones entregou o tablete mesmo que eu ainda estivesse lendo com uma crescente sensação de apocalipse. — Nós precisamos… — Ele começou, então parou abruptamente quando uma loira delgada com delicadeza de boneca de porcelana abriu a porta da frente sem bater. — Precisamos o quê? — Veritas perguntou friamente. Eu não gemi em voz alta, mas foi por pouco. Uma Guardiã da Lei se metendo? As coisas foram de horríveis para trágicas. — Veritas, — Mencheres disse, sua voz agora tão suave quanto manteiga congelada. — Bem-vinda. Ela deu a ele um olhar que dizia que ela sabia que era tão bem-vinda quanto um purulento caso de herpes, mas acenou com o cumprimento. A loira bonita pode parecer ter a mesma idade que Tai, mas ela é mais velha que Mencheres e quase tão poderosa quanto. Ela também tem todo o peso do conselho regente de vampiros por trás dela. Para ela aparecer sem aviso apenas


algumas horas após o vazamento significa que eles estavam pirando tanto quanto Trove esperava. Não importa o que aconteça, eu tenho que matar aquele demônio por tudo o que ele fez. Então o olhar da Guardiã da Lei repousou em mim. Por um segundo, eu pensei ver pena em seus olhos verdes. Antes que eu pudesse ter certeza, entretanto, aquilo sumiu, deixando nada exceto resolução de pedra. — Você sabe por que eu estou aqui, — ela disse. — O conselho já votou, e a decisão deles é final. Diga-me onde a criança está. Isso tem que ser destruído. — Isso é uma garotinha que não pediu por nada disso! — Eu explodi. Seu olhar firme não tremeu. — E nem você, de acordo com os documentos liberados, que é o motivo de você não estar sendo presa por traição. Eu avancei com tudo antes de a mão do Bones no meu braço me impedir. — Você está dizendo que o conselho teria considerado traição se eu intencionalmente tivesse tido uma criança quando era mestiça? Agora eu tinha certeza sobre a simpatia que passou pelo rosto de Veritas. — Pessoas como você e eu não escolhemos nosso destino. Uma nota melancólica tingiu a voz dela antes que isso, e suas feições, endurecessem mais uma vez. — Se você ainda não sabe disso, no devido tempo, você aprenderá. Agora, diga-me onde a criança está. Mesmo se ela não fosse minha filha, mesmo que tenham feito lavagemcerebral nela além de reparos e nós nunca tenhamos sucesso em escondê-la, eu não podia sentenciá-la a morte respondendo com a verdade. — Eu não sei. Katie merecia o que nunca foi dado a ela antes. Uma chance. Eu sabia o que estava arriscando fazendo isso, mas que escolha eu tinha? Talvez fosse a


fé que me fizesse acreditar que Deus não permitiria que nossas raças destruíssem uma à outra por não matar uma criança pelo crime de ser diferente. Então eu olhei para o Bones, notando o quanto ele tinha fechado sua aura e o quão rígidas suas expressões estavam. Ele não olhou para mim, também. Seu olhar era todo para a Guardiã da lei, cujo olhar ficou afiado. Parecia que minha alma tinha prendido a respiração, apavorada. Eu farei qualquer coisa para proteger você, ele jurou. Ele entregaria a localização da Katie para me impedir de tentar salvá-la? Isso podia custar a minha vida, e nós dois sabíamos. Não, eu pensei, desejando desesperadamente que ele ainda pudesse ler minha mente. Por favor, Bones. Não. — Se você está procurando pela criança, — ele disse em uma voz calma, seu poder congelando a minha boca quando eu comecei a interrompê-lo — comece com Richard Trove. Ele é o demônio que financiou a criação dela. Quanto a Madigan, leve-o com você quando partir. Nós não colhemos nada útil dele. Talvez você tenha mais sorte. Então ele virou as costas, efetivamente dispensando-a. Eu ainda não podia falar, já que ele ainda não tinha liberado sua mordaça telecinética, mas Veritas não sabia disso. Eu virei de costas com ele, segurando sua mão para transmitir o agradecimento que as palavras não seriam capazes, de qualquer forma. Bones apertou de volta, uma promessa silenciosa de que nós estávamos nisso juntos. Agora eu realmente sentia que tínhamos uma chance. Juntos, nós temos sido capazes de fazer coisas incríveis. Veritas soltou o que soava como um suspiro. — Você percebe o que acontecerá se o conselho descobrir que você está mentindo? Bones olhou sobre o ombro, dando de ombros. — Seremos sentenciados à morte? — Nada menos que isso, — ela disse. — Se você quer mudar sua resposta,


você pode fazer agora, sem repercussão. Como um pedaço de fita sendo arrancado, senti o poder do Bones libertar minha boca. Dando-me a chance de desmentir, se eu escolher. Por um momento, eu hesitei. A memória dele murchando em meus braços ainda estava fresca e inexpressivamente horrível. Eu nunca queria experimentar aquilo de novo, mas se nós formos atrás da Katie, isso pode resultar na morte do Bones. Ele pode ter lido o medo em meus olhos. Ou talvez fosse o meu cheiro que me traiu. Muito lentamente, ele levou minhas mãos aos lábios e as beijo. — Eu te amo, Kitten, — Ele respirou contra minha pele. Então ele as largou, virando para olhar duro para a Guardiã da Lei. — Nós demos nossas respostas, Veritas. Agora, se você não se importa, feche a porta atrás de você quando sair.


Capitulo Trinta.

V

eritas não levou Madigan com ela. Bones queria matá-lo, já que nós não

precisávamos mais dele para descobrir quem era o seu backup, mas eu tinha algumas perguntas para o meu antigo inimigo. Trove pode ter falsificado os arquivos que postou, ainda assim, em algum lugar na mente quebrada de Madigan, ele sabia a verdade sobre a mãe biológica de Katie. Levou horas para arrancar isso dele. Em adição aos buracos do tamanho do Grand Canyon nas memórias do Madigan, ele também tinha a atenção de um furão sob efeito de crack. Pela manhã, entretanto, ele conseguiu se lembrar de migalhas de informação o suficiente para confirmar as alegações de Trove sobre Katie ser minha filha. Se fantasmas pudessem desmaiar, Don teria apagado quando percebeu que era aí que o interrogatório que eu o fiz fazer ao Madigan levava. Eu mesma estava tentada a desmaiar, por subitamente me tornar algo que eu nunca pensei que seria: uma mãe. Esse era um desafio onde todas as minhas habilidades de luta eram totalmente inúteis. A minha infância não foi um exemplo de cartão postal para me inspirar, também. Por meu pai ter feito lavagem cerebral vampíricamente em minha mãe, eu fui criada acreditando que era metade maligna. Eu odiava ser diferente de todo mundo, e agora eu tinha uma criança com uma dose dupla dessa “diferença” nela. Claro, isso significa que eu sabia tudo o que não fazer. Por exemplo, eu nunca diria para a minha filha que ser diferente é algo para se envergonhar. Katie pode ter que se esconder para viver, mas mesmo que isso custe tudo de mim, ela saberá que sua natureza única não é o problema. O preconceito das pessoas é que é. E ela nunca, jamais terá que temer que um dia ela fará algo que a fará me perder. Eu não tive essa segurança enquanto crescia, e eu posso não saber muito sobre maternidade, mas eu sei o quanto dói quando parece que se você cometer um erro, perderá sua família. Se depender de mim, Katie nunca conhecerá esse sentimento. Mas primeiro, eu tinha que garantir que ninguém a matasse, antes ou depois de eu ter uma


chance de conhecê-la oficialmente. É por isso que Bones e eu não fomos para Detroit, apesar do meu desejo de ir direto para lá para encontrar minha filha. Ao invés disso, após dormir algumas horas para estarmos em nossa melhor condição para lutar, nós fomos para o Sul. Uma tempestade tropical agitava as águas no Lago Pontchartrain, sacudindo o barco que nós roubamos como se ele fosse um brinquedo em uma banheira. Não foi isso que fez meu estômago se apertar em nervosismo, entretanto. Comparado ao que eu estava prestes a fazer, se o barco virasse seria divertido. À distância, o litoral para onde seguíamos não estava tão iluminado como de costume. A tempestade deve ter derrubado a energia em vários lugares, mas a queda de energia nunca era a maior preocupação de Nova Orleans. Eram as represas. A Cidade Crescente estava recebendo um impacto direto, embora, felizmente, fosse uma tempestade tropical ao invés de um furacão forte o suficiente para romper as represas. Eu não sabia se o mau tempo nos ajudaria, ou prejudicaria minha missão, mas quando Bones disse “Agora, Kitten” eu pulei do barco sem hesitar. Os pesos que prendi em mim me mantiveram bem abaixo da superfície, entretanto, como pretendido, não eram suficientes para me levar até o fundo. A tempestade deixou a água turva. Mesmo com a máscara mantendo a água salgada longe dos meus olhos, minha visão foi limitada a apenas alguns metros à minha frente, desorientando-me. Pressionei um botão no relógio de mergulho no meu pulso. A luz verde que ele emitia combinava com o brilho dos meus olhos enquanto ele exibia um mapa digital. Então eu chutei algumas vezes, experimentando minhas novas nadadeiras de mergulho. Satisfeita com o quão facilmente elas me moviam pela água. Eu queria toda a ajuda que pudesse ter para conservar minha energia. Algumas horas depois, eu escalei o muro que contornava o Rio Mississippi, arrancando minha máscara, roupa de mergulho e nadadeiras assim que estava de volta à terra firme. Por baixo daquilo, eu vestia leggings e um tope de mangas cumpridas, ambos pretos como meus sapatos de mergulho e cabelo molhado.


Pode não ser a roupa ideal para uma noite úmida em Nova Orleans, mas minha pele teria me denunciado como vampira para aqueles que sabiam o que procurar, e eu não queria que ninguém soubesse que eu estava fazendo uma visita à residente mais famosa da cidade essa noite. Marie tinha espiões em cada aeroporto, estações de trem, docas e estradas em Nova Orleans, mas nem mesmo a rainha voodoo dos ghouls podia vigiar cada metro quadrado do rio, muito menos os canais que levavam do Lago Pontchartrain para o imenso Mississippi. É por isso que eu flutuei sob a cobertura das ondas, e agora caminhava com o que parecia uma lentidão agonizante pela autoestrada até a Rua Quatro, em direção ao Bairro Jardim. Eu não precisava mais do mapa no meu relógio. Eu visitei o Bairro Jardim em minha primeira visita aqui, anos atrás, com Bones. Como muitos outros, eu me maravilhava com as casas lindas e grandiosas, algumas construídas antes da Guerra Civil. A Rua Prytania era uma das minhas preferidas, e a casa bege e rosa de dois andares, cercada por um portão com arbustos espreitando pelas barras de ferro era uma que eu me lembrava bem. Don se lembrava dela, também. Só foi preciso uma olhada para a foto online para ele dizer “É essa,” apontando um dedo transparente para a tela. Ele foi atraído para a casa de Marie quando estava viajando por linhas de poder procurando por mim, na época em que eu tinha o poder da sepultura dela. Por essa razão, a maioria dos fantasmas sabia onde Marie vive. Outros vampiros e ghouls também sabiam, mas apenas alguém com um desejo de morte apareceria sem se anunciar. É por isso que Marie não tinha guardas de prontidão. Sua casa também era uma das poucas na cidade que não tinha fantasmas vagando ao redor. Don disse que ela parecida “protegida”, o que significa que Marie a estocou com sálvia queimando, maconha e alho. Até mesmo a rainha voodoo deve querer uma pausa do sobrenatural de vez em quando. Essa noite, ela não conseguiria. Eu saltei sobre a grade cercando sua propriedade e caminhei para a porta da frente. Ao invés de bater, eu a derrubei com um chute. Isso deveria ter atraído a atenção dela, mas no improvável caso de não atrair… — Marie, — eu gritei. — Nós precisamos conversar. Claro, minha entrada dramática seria desperdiçada se ela não estiver em


casa. — É você, Reaper? — uma voz familiar disse, dispensando aquela preocupação. — E se é, você perdeu a cabeça? Marie apareceu no topo da escada, vestido um robe branco de seda por cima de uma camisola cor de linho do mesmo tecido. Ou ela estava indo para a cama mais cedo, ou estava de divertindo de uma forma pessoal. Eu não me importava com o que interrompi. — Nunca estive pensando mais claramente, — eu respondi. — e tenho certeza de que você sabe por que eu estou aqui. Marie sorriu daquela forma graciosa que as mulheres do sul aperfeiçoaram, mas eu não deixei sua expressão agradável me enganar. Ela não era uma Magnólia de aço*. Ela era um tanque de ataque coberto por uma manta de rosas. *Mulheres do sul que são consideradas fortes, embora tenham aparência delicada. — Se você partir agora, Reaper, eu vou pensar sobre não matar você. Claro, ela não parecia nem um pouquinho assustada por eu invadir sua casa. Eu estava sozinha, e desarmada, como minha roupa justa revelava, e ela podia invocar Remnants o suficiente para me reduzir a uma mancha no carpete em minutos. Mesmo que Bones tivesse vindo comigo, poderia não equilibrar as chances. Ele pode ter dominado sua telecinese o suficiente para controlar humanos e máquinas, mas conseguir usar isso com sucesso contra um dos ghouls mais poderosos que já existiu? Dificilmente. Eu podia fazer ainda menos com a habilidade de telecinese que absorvi dele. Minha habilidade de mover brevemente objetos pequenos e inanimados era inútil contra uma oponente como Marie… a menos que a arma mais mortal dela se esconda em algo muito pequeno. Eu me concentrei no anel dela com o mesmo desespero movido pelo medo que me fez invadir a casa da rainha ghoul. Ele voou do dedo dela, quicando pela escada em minha direção. Marie ofegou e correu atrás dele. Eu me joguei para frente, pousando nas costas dela antes que ela chegasse no meio das escadas. Então eu girei até


não estar mais olhando para os pés dela. Aquilo deu a ela a chance de me dar um soco para trás que parecia ter feito meu cérebro se soltar. Ao invés de me defender do seu próximo golpe, eu enrolei um braço ao redor do pescoço dela e enfiei o outro na sua boca aberta. Ela mordeu com força o suficiente para quebrar o osso, mas mesmo assim eu o mantive enfiado entre os dentes dela com determinação sombria. Melhor ela derramar o meu sangue do que o dela. Então eu abaixei a cabeça e enfiei as presas no seu pescoço, sugando o sangue dela por tudo o que era importante para mim. Marie começou a se sacudir como se tivesse se transformado em um cavalo premiado. Eu segurei firme, selando minha boca nos furos e engolindo seu sangue com gosto de terra tão rápido quanto podia. Sua luta ficou mais frenética, e, ao invés de tentar me arrancar dela, ela nos esmagou na parede. Nós passamos direto, e embora eu tenha conseguido manter minha boca no pescoço dela, ela passou o braço na ponta de uma viga exposta antes que eu pudesse impedi-la. O pequeno corte que aquilo fez foi suficiente. Assim que seu sangue estava exposto, um uivo ensurdecedor soou, vindo de lugar nenhum e todos os lugares ao mesmo tempo. Então dor me atingiu em ondas agonizantes. Por alguns momentos, eu não podia pensar além da angústia enquanto dúzias de Remnants me dilaceravam com a ferocidade de tubarões em uma frenesia alimentar. Marie tomou vantagem, me empurrando para trás e soltando meu aperto em seu pescoço. Então eu me lembrei de como fazer aquilo parar. Marie deve ter percebido minhas intenções. Ela me agarrou, tentando enfiar suas mãos na minha boca como eu fiz com ela. Minha necessidade de fugir da dor me tornou mais forte, entretanto, e eu afastei a cabeça. — Para trás, — eu rosnei, rasgando meu pulso com as presas. Sangue pingou em um rastro vermelho pelo meu braço, mas os Remnants continuaram a me rasgar. Marie aproveitou a chance, enfiando o braço entre meus dentes para me impedir de derramar mais sangue. Eu o rasguei com a mesma violência que ela teve comigo, mas tudo o que ela fez foi nos arrastar para fora do buraco que ela fez na parede. Na escada, ela me empurrou nos degraus, pulando nas minhas costas para me segurar lá. Com sua força e o


ataque dos Remnants, eu não podia me libertar. — Eu te avisei, Reaper, — ela rosnou sobre os berros das suas criaturas. — Você devia ter partido quando teve a chance. Se eu tivesse qualquer dúvida de que ela pretendia me matar, aquilo a apagou. Desespero me atingiu enquanto o rosto do Bones aparecia em minha mente. Nós apostamos em que eu seria capaz de afastar os Remnants se eu bebesse o sangue da Marie, para absorver seu poder. Eu manifestei as habilidades dela imediatamente da última vez, mas se eu as tinha agora, o controle dela sobre eles era forte demais. Os Remnants aumentaram seu ataque, ficando mais fortes enquanto se alimentavam da minha dor. O rosto da Katie passou pela minha mente em seguida, suas feições nebulosas porque na única vez em que eu a vi face a face, eu não estava interessada o suficiente para memorizá-las. Uma nova onda de agonia passou por mim, mas não tinha nada a ver com os Remnants me dilacerando de dentro pra fora. Agora eu nunca seria capaz de dizer a ela o quanto eu sentia por ter perdido os primeiros sete anos da vida dela. Ou contar a ela que Madigan não podia mais machucá-la, e que havia mais – muito mais! – nesse mundo do que a feiura que mostraram a ela. Ou dizer a ela que embora ela esteja sozinha agora, ela não foi abandonada, e apesar de ela ser diferente de todo mundo, aos meus olhos, ela era perfeita em todos os sentidos… Aquela dor abrangente parou. Sua ausência clareando a minha mente o suficiente para ver vidro quebrado na base da escada. Por um segundo, eu fiquei confusa. Eu entrei pela porta, não pela janela… Bones. Eu senti a dor dele antes de vê-lo rolando no chão, coberto pelos mesmos Remnants que estiveram me rasgando. Rangendo os dentes, eu tentei arremessar Marie para longe, mas um novo grupo de Remnants apareceu, me derrubando com um novo ataque. — Não! — eu tentei gritar, embora, com o braço de Marie ainda enfiado em minha boca, só saiu um grunhido. De repente, os movimentos de Marie ficaram lentos, como se ela tivesse


sido envolta em cimento e estivesse tentando sair de lá. Compreensão floresceu e, com isso, esperança. Bones estava usando seu poder nela. Apesar da dor que ameaçava quebrar minha mente assim como meu corpo, eu aproveitei a oportunidade, me jogando para longe da rainha ghoul. O braço de Marie foi arrancado da minha boca, deixando pedaços entre minhas presas que eu cuspi. Antes que eu pudesse morder minha própria carne, entretanto, ela enfiou o outro braço entre meus dentes, se movendo tão rápido que ela deve ter se livrado do poder do Bones. — Mate-o, — ela rosnou, seu braço livre ainda sangrando pelas minhas presas. Os Remnants começaram a dilacerar o Bones com mais fervor, aumentando em números até eu não poder mais vê-lo. Eu também não podia ouvi-lo. Os uivos que eles faziam eram muito altos. Determinação surgiu de forma tão poderosa em mim, que ela me adormeceu para a dor. Eu não falharia com a minha filha, e eu não iria – não iria! – ver Bones morrer de novo. Eu não tentei afastar Marie dessa vez. Ao invés disso, eu agarrei o braço que ela enfiou entre meus dentes e o puxei com toda a minha força. Ele caiu, atingindo a escada com força o suficiente para revesti-la de vermelho. Eu não parei para saborear o grito dela, mas mordi meu lábio forte o bastante para rasgá-lo. — Para trás! — Eu rosnei entre o instantâneo jorro de sangue. Gelo disparou pelas minhas veias como se eu tivesse sido congelada. Ao mesmo tempo, um rugido sobrenatural encheu meus ouvidos, abafando os gritos dos Remnants e o uivo furioso de Marie. Ele aumentou como se estivesse tentando explodir minha mente com vozes muito numerosas para contar, mas, apesar disso, eu sorri. Eu sabia o que era isso. Quando falei novamente, minha voz ecoava com inúmeras outras que foram emprestadas da sepultura. — Para. Trás! Os Remnants se lançaram para longe como se Bones e eu tivéssemos nos


tornado venenosos. Então eles deslizaram pelas paredes como sombras prateadas sinuosas. Marie disparou, ou para me agarrar ou para correr, mas ela não conseguiu sair um centímetro do lugar antes de parar tão abruptamente quanto se tivesse atingido uma parede. Lentamente, dolorosamente, eu a afastei, então joguei seu braço decepado escada abaixo. Ele bateu no último degrau, caindo com uma pancada a alguns metros do Bones. — Como eu disse antes, Marie, — eu rosnei, — nós temos que conversar.


Capitulo Trinta e Um.

N

ossa conversa teve que esperar, porque os policiais apareceram. Um

dos vizinhos de Marie deve ter ligado para a polícia por causa dos barulhos. Sem surpresa, os oficiais que vieram investigar eram ghouls. Seu endereço sendo sinalizado por uma perturbação preocuparia mais do que as autoridades normais. Marie chutou seu braço decepado para baixo da cadeira mais próxima e escondeu o novo que crescia com uma colcha antes de atender a porta. Claro, Bones ameaçou matá-la a menos que ela cooperasse, mas eu acho que ela fez isso por outra razão. Pedir ajuda ou mostrar o quanto ela foi ferida seria o mesmo que admitir que dois vampiros tinham chutado o traseiro dela em sua própria casa – algo que a rainha ghoul nunca admitiria. Ainda assim, Bones manteve seu poder em volta do pescoço dela enquanto ela fava com os oficiais. Após alguns minutos, ela os dispensou, e então cobriu a entrada com a porta quebrada. — O que você quer comigo? — ela exigiu quando nos encarou de novo. Bones arqueou uma sobrancelha. — Antes que eu responda, há mais alguém aqui? O olhar que ela lançou para ele estava cheio de hostilidade. — Não. Quando estou em casa, eu aprecio minha privacidade. Nós não esperávamos que ela fosse uma boa perdedora, então eu não comentei o visual dela. Ou seu tom venenoso. — Nós queremos que você deixe a criança em paz, — eu disse, tremendo pela minha nova conexão com a sepultura. A morte é fria, e como os Remnants mostravam, está sempre faminta. — Isso significa não mandar fantasmas, ghouls ou capangas para procurar por ela. E, claro, sua promessa de nunca matá-la. O mesmo conosco. Marie começou a rir, um som baixo e zombeteiro que ainda conseguia ter


sombras de divertimento real. — Se essa é a sua exigência, você veio em vão. Eu já dei a ordem. Meu povo procura por ela enquanto falamos. — Vamos esclarecer uma coisa, Majestic. Bones caminhou até ela, sua aura crepitando com raiva mal controlada. — Quando você atiçou seus amiguinhos fantasmagóricos em mim na primeira vez, eu quis arrancar sua cabeça. Fazer isso outra vez essa noite me fez realmente querer, mas ser forçado a observar enquanto eles dilaceravam minha esposa? Ele se esticou, acariciando o pescoço dela com um toque enganosamente gentil. — Isso me fez querer tanto te matar, que eu dificilmente consigo pensar em outra coisa, — ele terminou em um sussurro letal. Então a mão dele se fechou ao redor da garganta dela, apertando até barulhos de coisas quebrando serem os únicos sons na sala. Os olhos cor de avelã de Marie começaram a encher de vermelho, e os Remnants ficaram agitados. — Bones, — eu disse severamente. — Não. Se nós queremos salvar Katie, precisamos de Marie. Se a matarmos, nós estaríamos apressando uma guerra que era só potencial com os ghouls, e embora nós talvez possamos conseguir despistar os Guardiões da Lei, com a rede de fantasmas de Marie, qualquer um que ela quiser encontrar, ela encontrará, e quanto antes, melhor. — Nós viemos te fazer uma oferta, — eu prossegui. — Uma que será mutualmente benéfica. Com o punho do Bones apertando tão forte que seus dedos estavam ficando brancos, ela não podia rir, mas a boca dela se esticou em um sorriso dolorido. — Ela não pode falar a menos que você a solte, — eu disse uma voz impaciente. Ele a soltou com óbvia relutância, apesar de seu poder continuar enrolado


no pescoço dela. Não apertado, frouxo, como uma cobra decidindo se estava ou não com fome. Marie esperou seu pescoço curar até a sua forma normal antes de falar. — Qual é a sua oferta? — Nós lhe daremos as pessoas responsáveis por criar uma criança interespécie: Richard Trove e Jason Madigan. Você pode executá-los para solidificar sua posição como rainha dos ghouls. Em troca, nós queremos que você jure por seu sangue que vai recolher seu pessoal e concordar com todas as nossas exigências anteriores sobre a garotinha e nós mesmos. Parte da hostilidade sumiu da expressão dela. — Eu sei que ela é sua filha, Reaper, mas você tem que entender que nada exceto a morte dela impedirá nossas raças de entrarem em guerra. As palavras não eram surpresa; as emoções nelas eram. Minhas presas, que tinham recuado, de repente saltaram para fora enquanto eu lutava com uma urgência de rasgar a garganta dela por ousar dizer tal coisa. — É por isso que você dirá a todo mundo que você já a matou, — eu respondi em uma voz muito mais calma do que eu me sentia. Descrença apareceu em sua suave pele café com leite. — Se a verdade for descoberta, meu povo irá me despedaçar! O sorriso do Bones foi uma mistura de gelo e aço. — Por isso você estará motivada a manter a sua palavra, se sua honra acabar sendo fraca. Marie o fuzilou com o olhar por um momento. Então ela soltou um suspiro profundo. — Mesmo que eu queira, o que você pede é impossível. O pescoço dela amassou quando o poder do Bones se flexionou em uma forca instantânea. — Se isso é verdade, então você não é útil para nós. Eu agarrei o braço dele, insistindo para ele não aumentar aquela pressão castigadora. Foi quando eu notei o quão quente ele estava. Ele deve ter se


alimentado logo antes de entrar pela janela dela. — Dê outra chance, — eu disse, tão baixo que ela não seria capaz de me ouvir. Então olhei para Marie. — Seu povo passou centenas de anos em cativeiros por causa da raça deles. Mesmo após todo esse tempo, essa memória deve queimar. A cabeça da Marie sacudiu quando Bones a liberou para responder. A conexão que nós compartilhávamos agora deixou-me sentir sua raiva como se aquilo pulsasse pelo ar. — Não. — ela rosnou. — Você não tem o direito, garota branca. — Eu não tenho, mas Katie tem. Até ela fugir, cativeiro foi tudo o que ela conheceu, também, e agora ela está sentenciada à morte por causa da raça dela. — Minha voz ficou rude. — Ou você acredita que isso é errado, ou não. Marie continuou a olhar feito para mim, mas não disse nada. De uma vez, parecia que a temperatura tinha caído quinze graus. Ao mesmo tempo, fome surgiu com uma agonia que me lembrava de acordar como uma nova vampira. Os Remnants começaram a balançar como se ouvissem uma música que mais ninguém podia ouvir. Eles estavam sendo reativados. — Pare com isso, — eu disse. — Se você tentar usá-los em nós novamente, Bones vai arrancar a sua cabeça. Marie me deu um olhar irritado. — Não sou eu que estou canalizando eles. É você. — Kitten. — A voz do Bones estava suave, mas urgente. — Olhe para mim. Ele segurou meus ombros e eu quase o afastei. Parecia que os dedos deles estavam escaldantes. Foi só quando seus dedos se apertaram, me segurando no lugar, que eu percebi que estava balançando como os Remnants. Marie estava certa. Embora eu não estivesse tendo a mesma reação louca que tive da primeira vez que bebi o sangue dela, eu estava sendo puxada para o abraço faminto e gélido da sepultura. Eu forcei aquilo para trás, tentando esquecer sobre o quão bom aquele frio estava começando a parecer. Então sacudi a cabeça para me livrar dos sussurros que não vinham dos


pensamentos dos vizinhos. Se eu me perdesse para isso, poderia levar dias para me recuperar, e nós não tínhamos esse tempo. Se recomponha! Eu me ordenei. Foque no Bones. É ele que é real, não esse poder faminto e gelado, e— — Por que você está aqui? — Eu deixei escapar de repente. — Nós concordamos que você só viria depois que eu ligasse e dissesse que estava tudo limpo. Por que dessa forma, se as coisas fossem para o buraco, você ainda estaria vivo para ajudar Katie. Um sorriso mordaz retorceu seus lábios. — Eu cheirei o seu medo quando Veritas perguntou se nós queríamos mudar nosso depoimento. Você nunca temeu por si, então eu sabia que era medo por mim. Então ele me puxou para perto, seus lábios escovando minha testa enquanto suas mãos percorriam minhas costas de uma forma que era tão suave quanto possessiva. — É por isso que eu não cumpri nosso acordo, Kitten. Se você não pudesse derrotar Marie para se salvar, eu sabia que você não me deixaria morrer. Que suposição mais irresponsável e arrogante, e que humilhante que ele esteja certo. O que ele não sabia era a outra razão pela qual eu tinha lutado mais forte do que eu achava que podia para poder viver. Katie. Eu não podia deixá-la morrer, também. Pensar nela, sozinha lá fora, deu-me a força para sufocar aquele canto de sereia da sepultura. Pronta ou não, agora eu era mãe, e minha filha precisa de mim. Eu não podia decepcioná-la. Muitas pessoas já fizeram isso. Eu não iria acrescentar meu nome à lista. Incentivada por aquele pensamento, eu segurei as mãos do Bones, feliz por elas não parecem mais estar me queimando. As vozes também se foram, e embora eu ainda estivesse faminta, o abismo sem fundo dentro de mim tinha diminuído. Satisfeita por não estar prestes a desmoronar, voltei minha atenção para Marie. — Se você não quer fazer isso pelas razões certas, faça pelas razões


egoístas. Nós precisamos que você se dedique nisso tanto quanto nós, então, ou você chama de volta o seu pessoal e diga para todos que você matou Katie, ou nós vamos te matar. Ela soltou um suspiro que parecia sustentar todo o cansaço do mundo, e quando seu olhar escuro encontrou o meu, ele estava resignado. — Eu me lembro do cativeiro do meu povo, Reaper, e é por isso que se fosse tão simples quanto dizer que a criança está morta, eu faria isso. Não apenas para salvar minha vida, mas porque eu sou melhor do que aqueles que uma vez escravizaram a minha raça. Então sua voz ficou quebradiça com rancor. — Mas a menos que haja uma execução pública, eles vão continuar caçando-a. Mesmo que eu jure que a matei, eles não ficarão satisfeitos, e nossas raças eventualmente entrarão em guerra. Eu não posso permitir isso, então faça o que você precisa. Com aquilo, eu achei que Bones fosse arrancar a cabeça dela. Uma grande parte de mim queria que ele fizesse. O que ela desenhou foi um futuro com nada exceto morte para Katie, e eu não podia aceitar isso. Pelo olhar sombrio no rosto de Marie, ela também achava que Bones a mataria. É por isso que nós duas ficamos chocadas quando tudo o que ele fez foi bater no queixo de forma pensativa. — Execução pública, hum? Se nós te prometermos isso, você concordará com o resto dos nossos termos? — Você perdeu a cabeça? — Eu perguntei, horrorizada. — Concordará ou não? —Ele pressionou, me ignorando. A suspeita fez as sobrancelhas de Marie se unirem em uma única linha negra. — Você veio aqui para negociar pela vida da criança. Agora você está disposto a executá-la? Bones mostrou os dentes em um sorriso feroz. — Publicamente. — O inferno que estamos! — eu rosnei, batendo nele forte o suficiente para


fazê-lo cambalear. Seu poder explodiu, prendendo-me no equivalente sobrenatural a uma camisa de força. — Kitten, — ele disse muito lentamente. — Confie em mim. Marie nos encarava com o mesmo grau de desconfiança, mas também havia curiosidade em seu olhar. — Concordo. — Ela disse. Então ela aceitou a faca que Bones estendeu, cortando a mão com um único movimento brusco. — Eu juro por meu sangue. O aperto invisível dele deixou o pescoço dela. — Então chame o seu pessoal de volta, — Bones disse, apertando minha mão suavemente. — Nós faremos o resto.


Capitulo Trinta e Dois.

E

ssa parte do lado oeste de Detroit me lembrava de fotos que eu vi da

Alemanha após a invasão Aliada. Edifícios abandonados como gigantes de concreto surrados pelas ruas que pareciam desertas, até surgirem movimentos de roupas ao redor delas. A maior parte das lâmpadas da rua estava apagada, o que explicava as latas de lixo queimando, já que a noite de verão não estava fria. De vez em quando, uma sirene distante irrompia entre os outros sons, mas embora brigas, vidros quebrando e um tiro ocasional serem comuns, eu não vi um único carro de polícia. Bom para nós. Mau para quem quer que chame esse lugar abandonado da América de lar. — Cat! Fabian flutuou até mim, seu rosto se iluminando com um sorriso lindo. Então um movimento no topo de um dos prédios mais baixos chamou minha atenção. Eu fiquei tensa até reconhecer o vampiro caminhando até a borda. — Bem-vinda. — Ian disse, soando qualquer coisa menos sociável. — Espero que goste do cheiro. Mais um pouco de esgoto a céu aberto, e aqui seria exatamente como o lugar em que eu cresci. Outra forma apareceu por trás dele. Em algum momento, desde a última vez em que eu vi Tate, ele barbeou o rosto e cortou o cabelo em seu usual corte militar. — O Senhor Fresco não para de reclamar desde que chegamos, — ele murmurou. Então Tate franziu, olhando mais para baixo na rua vazia. — Por que você tem um monte de fantasmas te seguindo? Eu me virei para ver cerca de uma dúzia de fantasmas seguindo há quinze metros atrás de nós. Bom. Nós esperávamos que o poder emprestado de Marie seduzisse os fantasmas como se eles fossem mariposas e eu uma chama brilhante. Detroit era uma cidade grande, e apesar de Ian e Tate sentirem o


cheiro dela em vários lugares, eles ainda não tinham conseguido pôr os olhos nela. Agora nós tínhamos reforços, e graças ao poder da sepultura correndo pelas minhas veias, os fantasmas seriam obrigados a obedecer meus comandos. — Onde você acha mais provável que a Katie esteja? — Eu perguntei, evitando a pergunta do Tate. Sua testa franzida disse que ele notou minha omissão, mas ele respondeu sem outro comentário. — Pelo que nós conseguimos, ela fica mudando de lugar, mas o cheiro dela tem sido mais forte em um antigo depósito de livros, a antiga fábrica de automóveis Packard, a antiga Estação Central e uma igreja velha na Avenida East Grand. — Obrigada. Então eu encarei os fantasmas, que flutuaram para mais perto quando acenei, chamando-os. — Preciso que vocês encontrem uma garotinha para mim, — eu disse a eles. — Ela tem cerca de um metro e vinte de altura, cabelo castanhoavermelhado, e os olhos dela podem brilhar. Ela provavelmente está escondida em um dos lugares que meu amigo mencionou. Se vocês a virem, só digam para mim ou esse fantasma aqui. — Eu falei, acenando para Fabian. Meu séquito se dispersou assim que eu terminei de falar. Fabian partiu com eles antes que eu pudesse especificar que ele não estava incluído naquela ordem. Tate balançou a cabeça, chocado, mas um olhar conhecedor passou pelo rosto do Ian. — Você está de volta ao molho da Marie. Bones voou para o teto. Eu o segui, pousando com apenas alguns passos extras para me equilibrar. — Sim. — eu disse. — Que molho? E quem é Marie? — Tate perguntou, lembrando-me que ele perdeu muita coisa enquanto trabalhava para o Don nos últimos anos.


— Não é importante agora, — Bones disse. — Essas notícias é que são. Eu não disse nada enquanto ele contava sobre Richard Trove ser um demônio e o porquê de ele ter ajudado Madigan por quase uma década. Eu continuei sem falar enquanto Bones revelava que Katie é minha filha biológica, e como isso é possível. Apenas após Ian perguntar “Se ela é a mãe, quem é o pai?” é que eu quebrei meu silêncio. — Os arquivos que Trove publicou nunca deram um nome. Desde que o doador de esperma era cem por cento humano, ele era considerado… sem importância. Então eu pausei. Eu estive em dúvida sobre revelar essa próxima parte, mas tanto foi escondido de mim que eu não podia fazer o mesmo com outra pessoa. Especialmente um amigo. — Eu perguntei ao Madigan, mas tudo o que conseguimos arrancar dele é que o pai é um dos soldados com quem eu trabalhava na época, — eu terminei. Tate bufou de nojo. — É por isso que eles continuavam pedindo amostras de todos os fluídos em nossos corpos. Don disse que era para garantir que nenhum de nós estivesse bebendo sangue vampiro escondido, então até mesmo ele poderia não saber para quê aquilo era… Sua voz sumiu enquanto ele ligava os pontos. Então ele caiu de joelhos como se estivesse se rendendo sob o peso do entendimento. Eu não estava tão afetada porque já tinha feito os cálculos. Cerca de duas dúzias de soldados estavam trabalhando comigo durante meu primeiro ano. Alguns morreram em missões, alguns se retiraram por causa do estresse, e alguns foram transferidos para outras divisões, mas apenas um ficou lá o tempo todo. — Meu Deus, — Tate arfou. — Não é definitivo, — eu disse suavemente. — Pode ter sido um dos outros caras, mas, Tate… mesmo que nós testemos vocês dois, não há como ter certeza. Como você virou um vampiro, cada célula no seu corpo mudou. As da Katie também, quando adicionaram DNA ghoul à composição genética dela. Tate ainda parecia traumatizado ante a possibilidade de que a garotinha que


ele esteve tentando encontrar possa ser sua filha biológica. Finalmente, ele correu uma mão pelo cabelo e olhou para mim. — Se testes são inúteis, ela nunca saberá quem é o pai dela. Bones deslizou a mão na minha, seu aperto forte e seguro. — Ela sempre saberá quem é o pai dela. Aquilo colocou Tate de pé em um segundo. Ian o puxou para trás quando ele avançou no Bones. — Você não vai… — Tate começou a falar, antes de sua boca congelar, junto com o resto do corpo dele. — Assim é melhor, — Bones disse com satisfação. Eu não apreciava seus métodos de acabar com o argumento do Tate, mas, realmente, nós estávamos sem tempo. Eu cortei a distância entre eles e toquei o punho fechado do Tate, que ficou congelado no meio de um golpe. — Você tem uma chance em vinte – ou algo assim – de ser o pai biológico dela, então, se você quiser ser parte da vida da Katie, é claro que você pode. Bones não vai ficar no seu caminho, mas ele também estará lá por ela. Assim como eu. Então eu me inclinei para que Tate não pudesse evitar meu olhar. — Mas, primeiro, nós temos que tirá-la daqui viva. Isso tem prioridade sobre qualquer outra coisa, não tem? Tate piscou, o que eu considerei um sim. Bones o soltou. Os dois homens se encararam enquanto Tate sacudia seus membros como se para se assegurar de que eles estavam novamente sob seu controle. Então ele fechou as mãos em punhos, e um olhar de pura determinação cruzou suas feições. De novo não, eu pensei, esperando que ele fosse se jogar no Bones outra vez. Alívio me inundou quando tudo o que Tate fez foi estender a mão. — Eu não gosto de você, e provavelmente nunca vou gostar, mas desse dia em diante, eu estou disposto a uma trégua pelo bem de Katie.


Bones apertou a mão dele com um sorriso breve e sarcástico. — Trégua aceita, e embora eu me sinta da mesma forma, assim como Justina, parece que agora eu nunca vou me livrar de você, também. Tate riu. — Eu esqueci que essa trégua inclui a mãe dela. Isso é algum tipo de carma ruim que nós dois conseguimos. Fabian voou para o teto, impedindo qualquer que fosse a resposta do Bones. — Eles a encontraram! — O fantasma disse. —isso foi malditamente rápido. — Ian murmurou. Foi, mas, novamente, ninguém pode se esconder dos mortos. Especialmente quando eles têm sua localização reduzida a uma área pequena. Foi por isso que nós lidamos com Marie primeiro, ao invés de correr para cá. Ela não sabia que Katie está em Detroit, mas em pouco tempo, ela a encontraria. Eu sorri para os quatro homens, sentindo a versão vampírica de adrenalina correndo por mim. — Certo, garotos. Vamos lá pegar nossa menina.

N

ós pousamos no teto de um edifício grande e quadrado com grafite

cobrindo cada centímetro do parapeito. Do outro lado da rua, um prédio muito mais alto bloqueava o luar, sua arquitetura linda em absoluto contraste com a podridão que eu podia cheirar lá dentro. — Onde nós estamos? — Eu sussurrei. — Depósito Roosevelt, — Bones disse, também mantendo a voz muito baixa. — Mais comumente conhecido como depósito de livros de Detroit. Túneis conectam esse lugar com a velha estação de trem do outro lado da rua. Talvez seja assim que Katie tem indo e vindo entre os dois. Fabian acenou, parecendo triste enquanto olhava ao redor. — Eu vim aqui, antes, quando era novo. Eu amo livros, mas, pra mim, ler é muito difícil. Eu tenho que flutuar atrás das pessoas enquanto elas viram as


páginas… — Fabian, onde o fantasma disse que viu Katie? — Eu interrompi. Ele saiu da lembrança. — Siga-me. Fabian passou através de uma das portas fortificadas na estrutura em cima do teto. Impaciência me fez querer abrir aquilo no chute, mas isso seria muito alto. Esperei enquanto Bones telecinéticamente retirava as madeiras e abria a porta tão silenciosamente quanto as dobradiças enferrujadas permitiam. Eu me encolhi com o barulho que aquilo fez, o rangido soando como duas panelas se chocando, de tão esgotados que os meus nervos estavam. Lá dentro, só foi preciso uma olhada para a escada de metal deteriorada para me fazer gesticular “nós vamos voar”. Bones agarrou Tate, segurando-o tão fácil que nem parecia que o outro vampiro era pesado. Em silêncio, nós descemos a escada, seguindo Fabian, que flutuava dentro e fora do espaço apartado, até desaparecer através de outra porta. Essa não estava fortificada. Ela estava arrebentada, deixando escapar um sopro pútrido do cheiro por trás dela. Eu me espremi para entrar nela, o mais silenciosamente possível, meus olhos se arregalando pela sala à frente. O cheiro de fumaça era quase superado pelo fedor de papel podre, urina, morte e desespero. Livros, revistas e manuscritos forravam o chão em pilhas de meio metro de altura em alguns lugares, a tinta quase ilegível pelo tempo e exposição à água. Pequenas criaturas haviam feito ninhos no entulho literário, algumas delas ainda lá, embora em diferentes estágios de decomposição. Pelo cheiro, eles não eram os únicos cadáveres nessa sala, mas, quando Fabian me chamou, eu não parei para verificar o sapato saindo de uma pilha de pergaminhos destruídos. Essa pessoa estava muito além da minha ajuda, de qualquer forma. O cheiro de fumaça fresca provocava meu nariz quanto mais perto eu chegava do final da sala. Fabian parou, pairando perto do teto e apontando para baixo. Luzes de vela lançavam um suave brilho dourado em meio à pilha de livros amontoados como um iglu pela metade. Do meu ângulo, eu não podia ver


sobre aquilo, então eu fui mais alto, tocando o teto em decomposição por causa do meu ímpeto. Eu peguei um vislumbre de uma garotinha curvada sobre um livro meio podre quando o gesso esfarelando por causa da minha proximidade a fez erguer a cabeça. Nosso olhar se prendeu, e, enquanto eu observava, o dela começou a brilhar em um verde intenso. Meu coração dormente começou a bater em um ritmo errático e estacado pela excitação. Ela estava viva, e – assim que a tirarmos daqui – segura. — Katie, — eu arfei, voando na direção dela. Sua mão balançou como se ela estivesse acenando para mim. Então algo queimou em meu peito. Bones soltou Tate e me agarrou, me girando. Aquilo fez a sensação de fogo piorar, mas eu ainda me estiquei para ver Katie antes de a intensidade da dor finalmente me fazer olhar para baixo. Uma faca sobressaia por entre meus seios. O cabo era alguma estranha combinação de papel e couro antigo, mas, pelo fogo que se alastrou pelo meu corpo, a lâmina era de prata.


Capitulo Trinta e Três.

E

u tinha esquecido o quanto dói ser esfaqueada no coração com prata. A

maioria dos vampiros só sentia isso uma vez; para minha sorte, essa era a minha terceira vez. Por mais que a dor fosse horrível, ela não me assustou tanto quanto a fraqueza que fez cada músculo amolecer em uma paralisia instantânea. Então vieram a visão borrada e o zumbido no ouvido que fez tudo parecer muito distante. Apenas a dor estava próxima, queimando o resto dos meus sentidos sob uma cascada de agonia impiedosa. Aquilo aumentou com uma ferocidade insuportável quando a faca no meu peito se moveu. Alguém gritou, um som agudo e angustiado. Eu teria corrido para qualquer direção para fugir daquela dor terrível, mas meus membros não funcionavam. Pior, um peso enorme e opressivo caiu sobre mim, me esmagando. Talvez o prédio tenha desmoronado, uma pequena parte ainda funcional da minha mente ponderou. Aquilo explicaria a sensação esmagadora e o sentimento de que a faca foi arrancada com um brutal movimento de tesoura. Se foi, eu deveria estar morta, então por que isso ainda doía tantoOutro grito me rasgou, e eu convulsionei enquanto terminações nervosas se agitavam com movimentos repentinos e espasmódicos. Então eu vi o brilho do luar e uma lâmina manchada de vermelho antes de ela amassar como se estivesse sendo esmagada por um punho invisível. — Kitten? A dor sumiu com a voz dele, deixando-me tonta de alívio. Entretanto, a fraqueza estava demorando a deixar meus membros, então eu precisei de duas tentativas para sentar. — Onde está a Katie? — Foram minhas primeiras palavras. Um músculo tremeu no maxilar do Bones. — Não sei. Ela correu depois de jogar a faca.


Eu me levantei em um pulo e prontamente comecei a cair, porque minhas pernas se recusavam a me sustentar. Bones me pegou antes que eu caísse na pilha de livros onde ele me deitou. — Por que você não a impediu? — Eu gemi. — Você podia ter congelado ela com seu poder! Seu aperto aumentou, a luz no olhar dele ficando mais intensa até banhar tudo ao nosso redor. — Aquela lâmina pousou diretamente no seu coração, — ele respondeu entre dentes cerrados. — Eu concentrei todo o meu poder para imobilizar a faca e os tecidos ao redor dela para que você não morresse bem diante de mim. Sua aura rachou enquanto ele falava, acertando minhas emoções com uma enxurrada de raiva, alívio e medo. Talvez tenha sido bom ele não usar seu poder na Katie. Se ele a tocasse com isso enquanto estava tão nervoso, ele poderia ter matado ela acidentalmente. Eu agarrei a jaqueta dele, para me equilibrar e puxá-lo para mais perto. — Ela não sabe o que está fazendo, Bones. É nosso papel ensinar a ela. — Não se ela continuar tentando matar você, — foi sua resposta instantânea. Nossa primeira briga de pais. Típico que isso seja sobre algo de vida ou morte, ao invés de até que horas ela podia ficar acordada vendo TV. — Eu devia ter pensado melhor ao invés de voar para ela, quando ela nem sabe quem eu sou ou se eu estava ali para machucá-la. Não vai acontecer de novo. Então eu encostei minha cabeça contra o peito dele, com um riso triste.. — Como se já não soubéssemos, isso prova que ela é minha filha. Eu costumava esfaquear vampiros primeiro e me apresentar depois, também. Ele fez um som sombrio, mas um pouco da raiva sumiu da sua aura. — Eu me lembro bem disso, Kitten.


Barulhos no andar de baixo me fizeram pular para fora dos braços dele. Eu só consegui me afastar alguns passos antes que parecesse que eu corri direto para uma prede invisível. — Você acabou de prometer ser mais cuidadosa, — Bones disse em uma voz exasperada. — Correr com um corte mal curado em seu coração é o oposto de cuidadoso, Kitten! Certo. Pode levar dias para eu estar de volta à minha força total, e Katie é mais rápida e hábil do que eu pensei. Se a parte lógica do meu cérebro não estivesse três passos atrás dos meus instintos maternos recentemente acordados, eu agiria com mais prudência. — Você vai primeiro. — Eu disse. Vê? Muito cuidadosa. Bones me deu um beijo rápido e feroz, então passou por mim, estalando os dedos como se em antecipação. — Lembre-se: sem punição pelo que ela fez. — Eu o avisei. — Ela é só uma garotinha. Seu sorriso predatório não aliviou minha preocupação. — Você só aprende do jeito difícil, amor. Se ela está demonstrando suas tendências, então só há um jeito de lidar com ela.

O

barulho veio do porão, onde uma das muitas escadas em espiral

quebradiças levavam para as entranhas úmidas do edifício. Eu segui o Bones e pulei, já que elas não pareciam capazes de suportar nem o peso da Katie, quanto mais o de um adulto. Essa parte do antigo depósito tinha mais lixo do que livros, e se a confusão mais à frente não indicasse o caminho, várias pegadas novas indicariam. — Ela está indo para os túneis! — Eu ouvi Fabian dizer. Eu me apressei, mas minhas pernas ainda estavam bambas. Malditos efeitos remanescentes do meu coração ser perfurado com prata. Eu não estive tão fraca assim nem quando meu corpo todo foi inundado com isso. — Você disse que esse edifício se conecta com a estação de trem abaixo da


rua? Bones acenou, diminuindo para envolver um braço ao redor de mim, suportando meu peso. Ele deve ter percebido minha leve oscilação. — A estação de trem tem ainda mais túneis. — Eu disse, ficando mais preocupada. — Nós não podemos perdê-la no labirinto subterrâneo, que deve ser para onde ela está correndo. Garota esperta! Eu pensei, e senti uma explosão de orgulho enquanto afastava o braço do Bones. — Você é mais rápido. Deixe-me e vá pegá-la. Estarei logo atrás e você. — Katie! — Tate gritou, sua voz ecoando. — Pare! Bones passou os olhos por mim, como se avaliasse minha capacidade, então se virou e voou, sumindo na escuridão à frente. Eu também tentei voar – e caí de cara no chão na mesma hora. — Ai, — Eu gemi antes de cuspir o que eu esperava que fosse sujeira. Então, com uma leve tontura, eu me levantei e comecei a correr na direção em que Bones desapareceu. — Se você ouvir a razão, boneca… A voz do Ian ecoou pelas paredes antes que eu ouvisse um forte som de pancada, e então um indignado: “Por que, sua pequena trombadinha?!” Sua voz tinha distintos tons de surpresa e dor. Apesar de me sentir acabada, eu sorri. Parece que eu não fui a única cujo traseiro Katie chutou. — Basta. A voz do Bones, acompanhada com uma explosão de poder que eu senti mesmo estando uns duzentos metros atrás dele. Corri mais rápido, quase tropeçando em lixo e escombros em minha pressa. Quando eu virei uma esquina que se abria em uma sala das caldeiras, eu congelei com a visão que me recebeu. A camisa do Ian tinha um rasgo enorme, revelando um corte vermelho em seu abdômen pálido que ainda estava curando. Em comparação, Tate tinha se dado muito melhor. Ele só tinha um corte vermelho em seu ombro e mais


sangue fresco cobrindo sua testa. Bones não tinha nem uma marca em sua roupa toda preta. Ele estava no canto da sala, sua mão estendida como se fosse chamar um táxi. Katie estava suspensa no ar, a uns cinco metros dele, suas pernas chutando nada, já que o chão estava longe dos seus pés. Eu me aproximei, saboreando minha primeira visão completa dela que não envolvia um vídeo granulado. Seu cabelo castanho-avermelhado agora estava quase preto de sujeira, fuligem, ou ambos. Ela o prendeu em um rabo de cavalo com uma tira de lã que ela deve ter tirado da bainha da sua camisa grande demais. Um par de calças igualmente grande estava enrolando para cima nos tornozelos e amarrado em seu corpo magro com mais lã. Seus sapatos também pareciam muitos números maiores que ela, mas ela tinha amarrado uma corda com força ao redor dos pés para impedi-los de cair. Se ela foi criativa com suas roupas emprestadas, aquilo não era nada comparado à faca que ela apertava naquelas pequenas mãos pálidas. A lâmina consistia em vidro quebrado afiado ao ponto da precisão, com couro de capa de livro e fita fazendo o cabo. Prata brilhava nas extremidades da lâmina, causando outra explosão de orgulho maternal distorcido. Ela quase me matou com uma de suas facas caseiras, mas que ela era habilidosa, era. Deve ter custado horas a ela para derreter prata suficiente para cobrir aquelas lâminas, e apesar de o equilíbrio delas ser prejudicado por causa dos cabos, ela ainda conseguiu jogar uma bem no meu ponto vital. Eu cheguei mais perto, desejando saber qual era a cor dos olhos dela. No momento, eles estavam acesos com o verde vampiro, seu brilho pousando no meu rosto enquanto eu me aproximava. Tantas emoções se agitaram enquanto eu olhava para ela. Superproteção e preocupação eu esperava; ela passou por tanta coisa em uma idade onde sua maior preocupação devia ser perder os dentes de leite. Medo e timidez eu imaginei; eu queria tanto que ela gostasse de mim, e, claro, eu não tinha ideia de como começar a construir nosso relacionamento. Oi, eu sou a sua mãe era demais, e muito cedo, e se eu tentasse abraçá-la, ela provavelmente me esfaquearia outra vez. O que eu não esperava era o amor que me atingiu bem no coração. Ela podia muito bem ter me atingido com a flecha do Cupido antes, de tão


repentino e forte que ele era. Eu, que há anos tenho problemas de confiança, e que me recusei a admitir que amava Bones por vários meses em nosso relacionamento, agora sabia, com absoluta certeza, que eu amava a pequena diabinha homicida me olhando. Com aquele conhecimento, um grande e estúpido sorriso se abriu no meu rosto. Nós estávamos juntas agora. Nós resolveríamos o resto depois. Precaução substituiu sua expressão estranhamente severa, lembrando-me de puxar o freio do meu entusiasmo recém-encontrado. Sorrir para ela enquanto ela está presa em uma rede telecinética me fazia parecer uma vilã maluca. — Oi, — eu disse no que esperava que fosse uma voz neutra. — Meu nome é Cat. Não se preocupe, ninguém vai te machucar. Ela olhou para o seu corpo suspenso, e então de volta para mim. Mentirosa, seu olhar dizia claramente. — Abaixe ela, — Eu ordenei ao Bones. Ele saiu do canto, e o coração dela acelerou. Com suas roupas pretas, casaco longo, cabelo negro e olhar de volta ao seu castanho natural, ele deve quase ter se fundido com as sombras para ela. — Eu sou o Bones, — ele disse em um tom rápido. — Foi o meu poder que te sustentou ali, e eu posso fazer muito pior se quiser. — Bones, — eu sibilei. — pare de assustá-la! — Eu não estou assustando ela, — ele respondeu calmamente. — Estou falando com ela em termos que ela entende. Seu olhar frio nunca se afastando de Katie enquanto ele lentamente a abaixava a cada passo que dava. — Eu sei um pouco sobre crescer sob circunstâncias difíceis, — ele falou com ela. — Faz você entender duas coisas imediatamente: quem tem o poder, e quem não tem. Eu tenho, você pode senti-lo e vê-lo, não pode? Ela acenou, sua expressão ainda não entregando nada. Eu vi pessoas séculos mais velhas que não tinham uma cara de poker tão boa. Que ela pudesse ocultar suas emoções em uma idade tão incrivelmente jovem era


outra prova da forma distorcida que ela foi criada. A maioria das crianças têm os sentimentos estampados no rosto, mas onde quer que Katie estivesse, ela os trancava por trás de uma máscara de indiferença. Foi quando eu notei que não conseguia ouvir os pensamentos dela. Talvez fosse porque eu ainda estava fraca pelo recente encontro com uma faca a que ela me forçou. Eu me concentrei mais, mas não consegui nada exceto uma sólida parede branca. Incrível. Exceto por seus olhos brilhantes, ela parecia totalmente humana. A pele dela estava suja demais para ver se tinha a mesma luminescência que a minha tinha quando eu era mestiça, mas sua respiração, batimento cardíaco e cheiro gritavam mortal. Não é de admirar que fosse tão fácil esquecer que ela não era. — Como eu tenho esse poder, — Bones continuou. — você pode confiar que nós não iremos te machucar, pela simples razão de que se nós quiséssemos você morta, você já estaria. — Bones! — Eu rosnei. — Belo jeito de ganhar o prêmio de padrasto do ano. — Tate murmurou. Katie, entretanto, franziu os lábios na primeira exibição de emoção que eu a vi dar: contemplação. Então o pé dela tocou o chão quando Bones terminou de abaixá-la. Assim que ela testou seu peso e percebeu que estava livre, seus olhos perderam o brilho sobrenatural e começaram a escurecer. Quando eles viraram um cinza metálico, eu quase solucei. Ela tinha os meus olhos. Meu nariz, também, e eu esperava que a proeminência em seu queixo fosse sujeira, ao invés de sinais da conhecida teimosia Crawfield. Sem perceber, eu me ajoelhei até estarmos no mesmo nível. E então ela falou. — Você se cura como eles, mas você não é uma deles, porque seu coração ainda bate às vezes. Por quê? Eu deixei a voz dela me inundar, guardando-a em partes que eu nem sabia que existiam, até agora. Seu vocabulário era anos à frente da sua idade, assim com o resto das suas características, mas sua voz tinha a entonação alta e


juvenil de uma criança. — Por que antigamente, — eu disse com a voz rouca, — eu era como você: parte humana e parte algo mais. Especial. — Katie. Tate agachou perto de mim, sorrindo para ela com um brilho nos olhos que ele não tentou esconder. — Eu sei que pareço diferente, já que me barbeei e cortei o cabelo, mas você se lembra de mim, não lembra? Você quebrou o meu pescoço cinco segundos depois de nós nos conhecermos. — Seis. — Ela corrigiu, com uma expressão séria. Ele riu. — Certo, seis. A única outra garota que chutou meu traseiro tão rápido assim foi a Cat. Ela me ensinou a lutar, sabe. Olhos cinzentos escuros encontraram os meus, fazendo-me sugar a respiração. Algum dia eu me acostumaria a ver meus próprios olhos me olhando de volta daquele rostinho? — Eu me lembro de você da base, — ela disse. — Você tentou me fazer ir com você. Você é muito difícil de neutralizar. Pelo seu tom, a última parte foi um elogio, embora eu não tivesse certeza de como responder. A pessoa que ela se lembrava de tentar “neutralizar” foi Denise, transformada para parecer comigo. Na verdade, Katie só tentou me matar uma vez, e ela quase conseguiu. — Obrigada, — eu disse, adicionado: — você é muito durona, também, mas você não tem mais que ser. Nós vamos cuidar de você. Então eu não pude evitar… eu peguei a mão dela. Ela se encolheu, seus dedos apertando a faca. Após um olhar para o Bones, ela aliviou a pressão. Eu a soltei. Se seu primeiro instinto ainda é me esfaquear, ainda é obviamente muito cedo para exibições físicas de afeto. O olhar do Tate seguiu o que aconteceu, também. Ele colocou o braço ao redor do meu ombro, dando-me um aperto firme.


— Cat é minha amiga, — ele disse. — Eu abraço os meus amigos às vezes, para mostrar que estou feliz por eles estarem ali. Ou eu pego as mãos deles, assim. Seus dedos envolveram os meus, e ele levantou as nossas mãos. Ela encarou como se ele tivesse magicamente puxado um coelho de uma cartola. Então eu entendi, e não pude conter as lágrimas. Katie nunca foi ensinada a tocar ninguém exceto em violência. Não é de admirar que ela tenha se encolhido quando eu peguei a mão dela. Ela pensou que eu estava prestes a machucá-la. — Pobrezinha, — eu sussurrei. — Está tudo bem agora, eu prometo. — Isso não é asquerosamente doce? O ronronar de zombaria não veio do Ian, embora, pela expressão dele, ele estava pensando algo similar. Tensão explodiu pelas minhas emoções enquanto o poder do Bones disparava em direção à voz, apenas para tê-lo dissipado como se ele tivesse sido jogado em um vácuo. — Ooh, faça isso de novo. — nosso intruso invisível exigiu. Eu o reconheci agora, e tudo em mim ficou rígido. Trove. Sorrindo, o demônio entrou na sala da caldeira, seu olhar tingido de vermelho correndo entre Katie e eu. Ele estava vestido de terno e gravata, seu cabelo grisalho perfeitamente penteado e as feições tipicamente bonitas em uma máscara agradável. Ele poderia estar entrando em outro evento de arrecadação de fundos, de tão arrumado e elegante, e como nós não o ouvimos se aproximar, ele deve ter usado seu truque de teletransporte para chegar aqui. Bones abaixou a mão. O demônio só ficaria mais forte com outro golpe telecinético. — Cat, — Trove disse com um ronronar satisfeito. — Você não vai me apresentar para a sua filha? Eu me levantei, ficando entre Katie e Trove sem a menor preocupação de que ela tinha duas facas de prata, e eu virei minhas costas para ela. Tate rosnou, me flanqueando. Ian puxou suas armas, sua boca se curvando em um


sorriso sujo. Se nós éramos a imagem da hostilidade, Bones estava totalmente relaxado. Ele praticamente passeou até o demônio, ambas as mãos nos bolsos como se não quisesse se incomodar em sustentar o peso delas ele mesmo. — O que te traz aqui, companheiro? — ele perguntou com uma tranquilidade impressionante. Trove riu. A visão daqueles dentes brancos chiques me fazendo fantasiar sobre chutá-los garganta abaixo até ele se asfixiar neles. — Um desejo de mutilação, claro. Eu não queria tirar meus olhos do nosso visitante indesejado. Então uma voz pequena e clara perguntou. — Você realmente é minha mãe? O velho disse que ela estava morta. Eu não pude evitar… olhei para trás. Imediatamente, eu desejei não ter feito. A esperança cuidadosa no olhar da Katie quase me fez cair de joelhos. Eu queria sufocá-la com garantias de que ela nunca, jamais estaria sozinha novamente, então eu queria abraçá-la até ela esquecer como é se sentir assustada. A única urgência mais forte era a minha necessidade de matar a criatura imunda que a aprisionou. Como eu tinha que fazer aquilo, primeiro, eu encontrei a força para me virar, encarando meu inimigo ao invés da minha filha. — O velho mentiu. Eu sou sua mãe, e não vou deixar você de novo. — eu disse, minha voz forte apesar de paredes emocionais caírem por todo lugar dentro de mim. Tate me acotovelou, olhando para o lado. Eu segui seu olhar, vendo uma porta pequena no canto mais afastado da sala. Trove bloqueava o caminho pelo qual entramos na sala das caldeiras, mas nós não estávamos presos. Ela deve levar aos túneis que Bones mencionou. Eu não acho que Bones entrou bem no caminho de Trove por acidente. Para o renomado político tentar nos parar, ele terá que passar por Bones primeiro. Mesmo que a telecinese do Bones seja ineficaz contra ele, ele ainda teria trabalho. Trove olhou para trás de nós, como se adivinhasse nossa intenção. E então


sorriu. Eu senti o movimento antes que aquele familiar cheiro de terra enchesse a sala. Katie soltou um pequeno suspiro. Quando eu me virei, mais de duas dúzias de ghouls bloqueavam a outra porta. Pelos seus níveis de poder, eles não eram caras aleatórios que Trove teletransportou de algum bar local de motos vivos. Eles eram lutadores treinados, e seus corpos musculosos apenas aumentavam seu ar de ameaça. — Eu esqueci de mencionar? — Trove perguntou com falsa inocência. — Eu decidi trazer alguns amigos comigo.


Capitulo Trinta e Quatro.

E

isso fica cada vez melhor, eu pensei, cansada. Nós não trouxemos

ninguém conosco porque não queríamos atrair a atenção dos Guardiões da Lei, e agora estávamos em uma grande desvantagem numérica. O líder do grupo, um afro-americano alto, com bíceps mais grossos que minha coxa, deu um passo à frente. — Dê-nos a criança, — ele ordenou. — Vá se foder, — voou pela minha boca antes que eu percebesse que, (a) e realmente precisava vigiar minha linguagem agora e, (b) diplomacia seria a melhor tática. Eu posso ser capaz de varrer o chão com eles se usar meus poderes emprestados, mas nós estávamos tentando impedir uma guerra, não começar uma. — Am, quero dizer, vá se catar, — eu corrigi rapidamente. — e você não precisa pegar a criança. Sua rainha concordou em chamar vocês de volta. Trove parecia estar mais chocado que os ghouls. — Ela o quê? Eu não pude resistir em dar um sorriso orgulhoso. — Oh, então você não estava nos seguindo quando nós fomos ver Marie? Nós chegamos a um acordo. Tudo o que nós temos que fazer é cumprir a nossa parte, e ela e os ghouls nos deixarão em paz. Nossa parte era liberar um vídeo de Katie supostamente sendo morta – Marie disse que somente uma execução pública bastaria, e a internet é pública – mas eu não diria isso ao Trove. Ou a outra surpresa que nós tínhamos guardada para ele. O ghoul musculoso puxou seu celular, discando. — Minha rainha, é Barnabus, — ele disse momentos depois. — Eu estou com os vampiros, e eles estão com a criança. Eles alegam que eles… — Pausa. — Sim, eu entendo… se essa é sua ordem, Majestic.


Ele desligou. Os outros ghouls olhavam para ele em expectativa. Trove quase saltava para cima e para baixo, impaciente. Minhas presas deslizaram, prontas para tirar sangue, se necessário. — Bem? — O demônio exigiu. Barnabus olhou para mim, frustração estampada por todo o seu rosto. — A Reaper fala a verdade, — ele disse, quase cuspindo as palavras. Eu não me movi, mas, por dentro, eu estava gritando de alegria e batendo os punhos no ar. Marie fez sua parte! Ela era conhecida por manter sua palavra, mas dizer que eu estava preocupada que ela fizesse uma exceção nesse caso era pouco. — Nós fomos ordenados a partir. — Barnabus continuou. “Isso!” passou pela minha mente, embora, novamente, eu fiquei perfeitamente quieta. Eu nem mesmo deu um sorriso. Ponto pra mim. Trove, entretanto, reagiu como se tivesse levado um monte de sal no rosto. — Você tem que estar brincando comigo! — O demônio gritou. — Após décadas de planejamento, a mesma coisa pela qual as suas espécies quase entraram em guerra está bem aqui, e vocês estão concordando em ir embora ao invés de lutar? Grunhidos dos ghouls concordavam com a declaração dele. Meu bom humor sumiu. Talvez, apesar de Marie manter sua palavra, isso ainda não tenha acabado, afinal. — Eu digo isso desde sempre… se você quer algo feito direito, você tem que fazer pessoalmente. — Trove continuou, enojado. Então ele se aproximou dos ghouls enquanto seu braço balançava na direção de Katie. — Mesmo que sua rainha seja muito cega para ver isso, essa criança é a destruição de vocês. Vampiros já têm mais habilidades que ghouls, mas vocês têm impedido que eles os dominem, porque vocês são difícil de matar. Ela muda isso completamente! Através dela, vampiros podem criar uma nova raça. Uma leal a eles, com toda a imunidade à prata de vocês e todos os truques legais deles. Quando isso acontecer, quando tempo vocês acham que vai levar até o povo de vocês estar em correntes? Um século? Dois?


— Besteira. A voz do Bones ecoou, cobrindo os murmúrios mais altos dos ghouls. — Esse sujeito não daria uma merda pela espécie de vocês. Ele quer que vocês acreditem que ele está ajudando, mas tudo o que ele quer é que nossas raças matem uma à outra, começando conosco, aqui. — Apollyon tentou avisar vocês, — Trove disse, sombriamente. — Ele disse que se permitissem que ela vivesse, os ghouls sofreriam. E o que aconteceu? O conselho vampiro o assassinou, mas aqui estão as provas de que ele estava certo! Contemplem a filha dela, a primeira de muitas em uma nova linhagem dos seus dominadores. Pela forma como as expressões deles endureceram, Trove estava atingindo um nervo. Apollyon pode estar morto, mas o estrago que ele causou ainda persistia. Típico que um político seria um especialista em usar retóricas distorcidas para se aproveitar, não importa quão falsas ou paranoicas elas sejam. — Marie disse a vocês para recuarem, — eu os lembrei. — Vocês querem desobedecer sua rainha? — Oh, sim, obedeçam, — Trove zombou imediatamente. — Mas a quem vocês estarão realmente obedecendo, se deixarem a criança com eles? Vocês acham que é uma coincidência que suas ordens tenham mudado após ela fazer uma visita à Majestic? Vocês não veem? Sua sujeição aos vampiros já começou! Oh, merda, eu pensei quando várias facas foram puxada com aquilo. Parece que Trove conseguiu fazê-los mudar de ideia. — E aqui vamos nós, — Ian murmurou. Três coisas aconteceram ao mesmo tempo: Eu virei, enfiando Katie nos braços do Tate com um apelo urgente de “Tire-a daqui!”; O poder do Bones explodiu sobre os ghouls, congelando-os no lugar. E Trove desapareceu, reaparecendo um instante depois atrás do Bones, para agarrá-lo em um abraço esmagador. Eu senti o poder ser drenado do Bones, tão subitamente quanto se ele tivesse sido esfaqueado com prata. Mas ele não foi. As mãos do Trove


estavam vazias, dedos estendidos como se escavassem o peito do Bones enquanto o demônio tremia com o que parecia êxtase. — Você não é uma refeição; é um banquete! — ele gemeu. Com um estalo, a rede invisível que Bones tinha jogado sobre os ghouls quebrou. Eles só ficaram presos por segundos, mas parece ter sido o suficiente para levá-los de determinação furiosa para ira assassina. — Matem os vampiros! — Barnabus uivou, levantando sua faca de prata. — Corra, — eu apressei o Tate, amaldiçoando mentalmente quando Katie se contorceu para fora do aperto dele. Pelo menos ela correu na direção oposta aos ghouls, Tate a seguindo de perto. Então eu puxei uma das minhas facas do casaco. Eu usei um sobretudo no calor do verão por uma razão. Ao invés de atacar os ghouls, como Ian, eu abri meu braço com um longo corte. — Venham! Meu chamado reverberou pela sala das caldeiras, ecoando de volta para mim com coro novo e assustador. Gelo disparou pelas minhas veias, seu efeito de tremer os ossos sendo bem-vindo, por causa do que aquilo representava. Bem no momento em que Ian trocava facadas com Barnabus, Remnants apareceram do chão e foram para cima dos ghouls. Os gritos deles se uniram aos uivos que enchiam minha mente, assim como meus ouvidos. Diferente de antes, eu não tive força suficiente para lutar contra ser engolida pelo poder envolvente. A parte de mim que ainda podia pensar, odiava o que estava acontecendo, porque Remnants são invencíveis. Eu estava ok em deter pessoas que queriam me matar, mas libertar Remnants era o mesmo que levar uma bomba nuclear para uma briga de facas. O resto de mim estava muito em sintonia com os Remnants para me importar com justiça. Com a porta para o outro lado agora escancarada, a fome deles me consumiu. Eles eram fragmentos das emoções mais primitivas que as pessoas deixavam para trás quando faziam a passagem, afiados pela passagem do tempo e frenéticos pela negação infinita. Enquanto eles atacavam os ghouls, lábios e dentes que viraram pó milênios atrás finalmente se alimentavam novamente, e por breves e brilhantes momentos, a necessidade excruciante deles era aliviada. Então, como viciados perseguindo a próxima viagem, os Remnants rasgavam através dos ghouls com mais


violência, em busca dos pedacinhos de alívio que a dor deles trazia. Ian não estava canalizando poder da sepultura, mas, ainda assim, ele mostrou menos preocupação do que eu pela injustiça da nossa vantagem. Enquanto os ghouls estavam focados nas sombras tempestuosas que cortavam através deles, ele arrancava cabeças por todos os lados. Eu queria dizer a ele para parar, que eu pretendia fazer os Remnants recuarem e dar aos ghouls outra chance de reconsiderar, mas eu não conseguia falar. Tudo o que saiu da minha boca foi um longo som de choro que ficava mais alto quanto mais forte os Remnants ficavam. Então, com a rapidez de uma porta se fechando, minha conexão com a sepultura foi cortada. O frio glorioso correndo por mim se transformou em cinzas frias, e as vozes ecoando em minha cabeça silenciaram. Um por um, os Remnants desapareceram. Com o ciclo infinito de fome dentro de mim desaparecendo, confusão surgiu. O que houve? — Solta ela! — Alguém rosnou. Foi quando eu percebi que estava presa em um abraço apertado por trás. Não por Bones, como uma olhada para baixo mostrou braços grossos e peludos ao redor da minha cintura ao invés de lisos e pálidos. Era por Richard Trove. O demônio estremeceu de um jeito nojento que lembrava um orgasmo. — Isso é, de longe, a melhor coisa que eu já senti. — Ele murmurou em meu ouvido. Nojo me livrou do resto do domínio da sepultura. Em algum momento, Trove me agarrou e começou a se alimentar do meu poder. A julgar pelo quão fraca eu me sentia e o último dos Remnants deslizando de volta para o chão, ele limpou o prato. Mais uma vez, três coisas pareceram acontecer ao mesmo tempo: Bones partiu para cima do Trove, seus movimentos lentos e desajeitados; Eu mordi o lábio para chamar os Remnants de volta, mas nada aconteceu exceto outro tremor de êxtase atrás de mim. E os ghouls que ainda tinham suas cabeças se levantaram, pegando suas facas de prata e vindo para nós.


— Fodeu, — Ian disse com profunda convicção.


Capitulo Trinta e Cinco.

T

rove se esquivou do Bones, colocando um pé para ele tropeçar enquanto

passava. Ao invés de se equilibrar com a graciosidade de sempre, Bones caiu em uma pilha perto dos ghouls que se aproximavam. Pela forma que sua aura estava fragmentada, Trove tinha sugado todo o poder dele com seu abraço esmagador. Bones mal tinha o suficiente para se mover, muito menos para se defender. Aquilo me assustou o suficiente para me fazer lutar com toda a força que eu ainda tinha, o que acabou sendo assustadoramente inútil. Quando mais força eu fazia para me libertar, mais Trove vibrava enquanto fazia barulhos felizes. O demônio era como um Remnant de energia, ficando mais forte enquanto eu enfraquecia sob o ataque impiedoso da sua fome. — Não! — Eu gritei quando um ghoul fortão facilmente prendeu Bones e levantou sua faca para um ataque mortal. Um borrão passou entre eles, agarrando Bones e o jogando para longe daquele golpe mortal. Um segundo depois, aquele borrão voltou, acompanhado por um flash de prata que virou um risco vermelho. Ian pousou com força suficiente para quebrar o chão. Ele girou, segurando a cabeça do ghoul que tentou matar Bones. Então ele a jogou para o restante dos comedores de carne. — Quem quer mais de mim? — Ele os provocou. Sobraram pelo menos oito ghouls, e todos aceitaram a oferta dele. Facas de prata voaram na direção dele, mas Ian foi mais rápido, voando para fora do caminho delas com acrobacias aéreas impressionantes que eu não achei que ele fosse capaz. De vez em quando, ele usava aquela velocidade incrível para atingir um ghoul, arrancando a cabeça dele antes que seus companheiros percebessem que um deles estava sob ataque. Então ele jogava a cabeça no chão como um jogador de futebol celebrando um touchdown. Dizer que aquilo enfurecia os ghouls era pouco. Eles chutavam as paredes,


tentando usá-las como trampolim para pegar Ian durante seus ataques no ar. Gesso, madeira podre e pó de concreto logo encheram o ar, tornando difícil ver. Logo, somente as provocações do Ian, as ameaçavas do ghouls e barulhos de quebra-quebra me permitiam saber que a luta continuava. Entretanto, suas palhaçadas explosivas os levaram para longe do Bones, que ainda mal podia rastejar. É melhor que ninguém diga qualquer coisa ruim sobre o Ian perto de mim depois de hoje. Eu oficialmente amo aquele filho da puta. Já que minha luta não adiantou nada, eu desisti, focando, ao invés, em deslizar minhas mãos por baixo do abraço de aço do Trove. Eu precisava alcançar meus bolsos. Quando o demônio aumentou seu aperto, impedindo aquilo, eu amoleci, fingindo desmaiar. Eu não me sentia muito longe daquilo, na verdade. Meus ouvidos estavam zumbindo, e uma dormência horrível se apoderou dos meus membros. Eu não me sentia tão indefesa assim desde que era metade humana, e um vampiro estava festejando no meu pescoço. Bones me salvou na época, mas, agora, eu é que tinha que salvá-lo. Ele estava se arrastando na nossa direção, com uma expressão assassina embora, claramente, ele não tivesse força suficiente para cumprir suas intenções. E Trove pode não hesitar em matá-lo. Ele disse que me queria viva para alimentar a sua guerra. Ele não disse o mesmo sobre Bones. Eu não arriscaria descobrir o que o demônio faria quando Bones nos alcançasse. Meu corpo inteiro ficando mole obrigou Trove a ajustar seu aperto, e aquilo me permitiu enfiar uma mão no bolso. Quando senti a faca fina e dura, eu quase sorri, mas me recusava a gastar aquela energia. Eu precisava de tudo o que restava em mim para o que eu estava prestes a fazer. Afinal, Marie não foi a única pessoa que nós visitamos antes de vir para Detroit. Nós paramos na casa da Denise, também. A cabeça do Trove estava em cima da minha, a bochecha repousando no meu crânio, pelo que parecia. Ele me apertou como se eu fosse uma caixa de suco, reclamando sobre eu estar ficando sem poder. Ele estava certo. Exceto por segurar aquela faca, eu não tinha nem uma gota de energia. Ele roubou tudo. Bones estava quase nos alcançando. Eu mais senti do que vi os olhos de


Trove nele, talvez pensando sobre drenar o resto da energia dele, ou com intenções mais sinistras. Ainda assim, eu continuei mole ao ponto de inércia, suprimindo minha raiva que só crescia. — Já está vazia? Pensei que você fosse mais resistente. — Trove disse, seu tom pesado de desapontamento. Com aquele comentário depreciativo, ele me soltou, sem dúvida esperando que eu caísse no chão. Eu não caí. Meus joelhos tremeram, mas aguentaram, e assim que seu abraço sugador de energia se foi, a faca de osso que Ian fez meses atrás, da perna da Denise, disparou em um arco para cima. Exceto por segurar brevemente a mão da minha filha, sentir a faca entrar no olho de Trove foi o ponto alto da minha semana. O demônio gritou, o som cortando pelo ar como se todos os cães do inferno o acompanhassem. Eu me virei, tentando dar aquele segundo golpe fatal, mas ele bateu na minha mão. Então seu terno Armani rasgou nas costuras quando o corpo dele começou a crescer em uma velocidade impossível. Vermelho apareceu por baixo dos rasgos no tecido. Não sangue. Pele, enquanto o demônio abandonava sua aparência humana e se transformava em sua forma verdadeira. — Eu vou te matar! — ele rosnou, tentando agarrar a faca de osso. Parte de mim estava aliviada por ele não ter usado seu truque de teletransporte e desaparecido. O resto de mim soltou um oh-oh interno porque eu não estava em condição de lutar. Entretanto, eu tinha que tentar, então segurei aquela faca com o aperto dos malditos enquanto Trove tentava tirá-la de mim. Mesmo com um olho destruído, ele era muito forte. A lâmina começou a escorregar da minha mão, me cortando pelo quão forte eu tentava segurá-la. Bem quando ela estava prestes a ser arrancada de mim, algo grande caiu em cima do Trove. Bones. Ele pode ter perdido sua força física, mas seu peso e tamanho foram suficientes para fazer Trove me soltar. Eu segurei a faca com força, impedindo que o demônio a tomasse. Trove soltou uma maldição furiosa, tentando


derrubar Bones e agarrar a faca de volta ao mesmo tempo. Ele não drenou poder de nenhum de nós, entretanto, e isso não podia ser por acidente. Talvez, com um olho destruído, ele não pudesse mais. Eu tentei afastar a lâmina para outro golpe, mas o aperto do Trove era muito forte. Ele também cresceu meio metro durante nossa luta, sua forma agora superando a do vampiro que se agarrava a ele com determinação cruel. Não seria suficiente. Nós dois estávamos muito enfraquecidos para prender Trove por tempo suficiente para enfiar a faca no seu outro olho. Nós precisávamos tentar outra coisa. Qualquer coisa para ganhar uma vantagem. Por um breve momento, os olhos castanho-escuros do Bones se prenderam nos meus quando nossos rostos ficaram no mesmo nível; ele nas costas do Trove, eu na frente dele, ocupada com um jogo letal de cabo de guerra. Meu olhar deve ter transmitido meu desespero, porque Bones fez algo mais. Algo impensável. Suas presas se afundaram na garganta do Trove e ele sugou com tanta força que as veias no pescoço dele incharam. Por um segundo, eu estava tão horrorizada que congelei. Bones sabia que sangue demoníacamente alterado é o mesmo que heroína para os vampiros. É por isso que Denise tinha que manter sua nova natureza em segredo. Sangue de demônio costuma ser vendido como droga no mercado negro dos vampiros, e os Guardiões da Lei a executariam na hora se soubessem que ela é uma fonte disso. Trove uivou outra vez e tentou derrubar Bones. Ele só conseguiu abrir uma fonte de alimentação maior quando as presas do Bones deslizaram mais fundo por causa do empurrão. Apesar dos esforços frenéticos do demônio, Bones segurou firme. Diante dos meus olhos, seus movimentos ficaram menos lentos e descoordenados. Logo, ele estava agarrando Trove com tanta ferocidade que o demônio teve que me soltar para impedir que Bones mastigasse sua garganta inteira. Foi quando eu entendi. Com todo o seu poder comum drenado, e sem sangue humano disponível para um refil, Bones se voltou para a única fonte disponível: Sangue de demônio. Com suas propriedades narcóticas para vampiros, aquilo deu ao Bones a mesma força artificialmente aumentada que um humano drogado experimenta. Ele provavelmente nem sentiu quando Trove os jogou para trás, esmagando


Bones contra o chão com seu novo corpo maior. O concreto rachou ao redor deles, mas Bones continuou rasgando o pescoço de Trove, engolindo aquele fluxo vermelho tão rápido quanto ele jorrava. Então seus braços e pernas se enrolaram ao redor do demônio, não o soltando nem quando Trove começou a bater contra tudo na tentativa de se libertar. Essa era a minha chance. Eu pulei sobre Trove, e, durante alguns momentos insanos, eu fui esmagada e socada junto com eles. Era como estar presa em uma rocha rolando uma montanha, mas eu não podia me concentrar na dor enquanto costelas eram quebradas e ossos esmagados com os movimentos impiedosos do demônio. Tudo em que eu me concentrei foi em segurar aquela faca, e quando Trove nos jogou em um canto, brevemente nos prendendo em duas redes cruzadas de canos, eu golpeei. A faca bateu na sua bochecha… errei. Eu continuei, sangue manchando as bordas afiadas enquanto eu a enfiava mais forte, mais fundo, tentando cavar através da sua maçã do rosto. As novas garras do Trove correram pelas minhas costas, cortando couro, então pele e tecidos. Meu corpo inteiro vibrou com dor, e a tontura que me dominou era ou por usar o resto da minha força nos meus esforços para matálo, ou danos no crânio pelas tentativas brutais do Trove de nos libertar da rede de canos. Nada disso importava. Tudo em que eu focava era naquele único, brilhante olho vermelho. Eu continuei movendo a faca pela cabeça dele, mas era bem claro que eu não tinha a força necessária para fazê-la atravessar a maçã o rosto dele. Então Trove nos arrancou do labirinto de canos que nos prendeu brevemente. Por um momento, nós estávamos no ar. Bones agarrado nas costas do demônio, eu ainda por cima dele, com uma faca presa abaixo do olho do demônio. Como se fosse em câmera lenta, eu vi o chão do porão se aproximando, e fui dominada por uma ideia. Com um grito que foi tanto de fúria quanto de frustração, eu equilibrei o punho da faca contra meu peito e me joguei para frente. Nós atingimos o chão no instante seguinte.


Meu peso, somado ao ímpeto dos nossos três corpos batendo no concreto, fez o que a minha falta de força não pôde. A lâmina de osso atingiu o alvo, viajando até o olho do Trove. Sangue esguichou, cobrindo minhas mãos, e senti uma nova dor afiada pelo cabo da faca ou ter quebrado meu esterno ou o perfurado. Eu me recusei a soltar. Ao invés disso, eu empurrei com fúria o que eu podia sentir da lâmina, não parando até ela atingir a parte de trás do crânio de Trove. Só quando aquela forma enorme começou a se contrair, se enrugando como um balão lentamente desinflando, é que eu soltei a faca de osso. Finalmente, quando só sobrava um esqueleto, um terno e o cheiro de enxofre entre Bones e eu, eu soltei. Por alguns segundos abençoados, eu fechei os olhos, cada músculo no meu corpo relaxando com um alívio tão profundo que eu pensei que podia ter desmaiado de verdade. Então a voz familiar do Bones penetrou a minha exaustão. — Saia de cima, amor. Eu estou mais alto que uma pipa sangrenta. Não dá pra saber o que eu posso fazer. Eu ri. Se Bones estar drogado fosse nosso maior perigo, então esse dia se transformou no melhor das nossas vidas.


Capitulo Trinta e Seis.

P

assos atraíram minha atenção para o outro lado da sala das caldeiras.

Ian apareceu, coberto de sujeira, sangue e muito menos vestido, já que o que ele usava foi quase tudo rasgado. Ele tinha até mesmo perdido tufos de seu cabelo castanho-avermelhado. Eu nunca o vi em um estado pior – e eu nunca estive tão feliz em vê-lo. — Você conseguiu, — eu respirei. Ele olhou para os restos do demônio entre nós. — Assim como você, mas isso ainda não acabou. Mencheres está aqui, e ele trouxe Marie Laveau, Guardiões da Lei e o conselho de vampiros com ele. Eu pulei de pé como se meu sangue tivesse sido substituído por combustível de foguete. Todos os meus piores medos se tornaram verdade quando Tate apareceu por trás do Ian, sua expressão congelada em uma mistura de ódio e desespero. Nem um músculo nele se movia, e ele estava flutuando, pairando vários centímetros acima do chão. Como o poder do Bones estava esgotado, Mencheres devia estar controlando Tate, mas eu ainda não o tinha visto. Meu olhar era todo para Katie enquanto ela flutuava atrás do Tate, medo distorcendo suas feições delicadas ao invés da sua indiferença normal. Eu corri para ela. Ou tentei. Após os dois primeiros passos, eu fui envolvida no que parecia um pulso gigante e invisível. Aquilo me espremia do queixo para baixo, torando impossível escapar e difícil falar. — Me solte, — eu consegui dizer entre dentes cerrados. Então Mencheres apareceu, e ele tinha uma comitiva. Veritas era a única Guardiã da Lei que eu conhecia por nome, mas eu reconheci os outros três homens. Anos atrás, eles supervisionaram o duelo do Bones com Gregor, o que significa que nós já tínhamos uma história. Eu quase fui executada por interferir naquele duelo, e ainda havia alguns que pensavam que eu devia ter


sido. Marie era a próxima, sua longa saia preta e jaqueta preta bordada enviando mais fagulhas de medo através de mim. Parecia que ela estava indo a um funeral, e embora os três vampiros atrás dela não estivessem vestidos tão melancolicamente, as expressões deles eram mais sombrias que carvão. — Mas que inferno “sangrent” é isso? O tom severo do Bones não conseguia esconder sua fala enrolada. Dopado como ele estava, ele ainda conseguiu se levantar sem cambalear. Ele não foi muito longe, entretanto. O poder do Mencheres disparou e o parou. — Estou fazendo o que deve ser feito, — seu amigo e avô respondeu. Então olhos negros encontraram os meus, uma enorme quantidade de pena em suas profundezas. — Eu sinto muito, Cat, — Mencheres adicionou, suavemente. — Não! Aquilo rasgou através de mim com toda a agonia que a esperança levantou, e então esmagou. Nós não podíamos ter chegado tão longe, para perder tudo agora! Trove está morto, Marie jurou nos deixar em paz, e nós encontramos Katie. Eu tinha olhado nos olhos da minha filha e jurado protegê-la. Ela pode não acreditar em mim, mas, com o tempo, eu provaria isso a ela. Ela teria todo o amor e aceitação que foi negado a ela antes, e para cumprir a minha promessa, tudo o que nós tínhamos que fazer era partir. Graças ao vampiro Mega Mestre e seus associados mortos vivos, nós não poderíamos, mesmo que Bones e eu estivéssemos em plena força. Esqueça sobre Marie, a sala das caldeiras crepitava com o poder vindo dos quatro Guardiões da Lei e três membros do conselho. A qualquer segundo, poderia começar a chover faíscas. — Como você pôde? Minhas palavras estavam sufocadas com mais do que a dificuldade de dizêlas com a pressão me congelando. Marie e os outros vampiros não nos encontraram por sorte. Apenas Mencheres sabia onde nós estávamos indo. Veritas deu um passo à frente, sua túnica branca farfalhando por causa de toda a energia sobrenatural no ar.


— Mencheres fez o que pôde por vocês. Em troque de entregar a criança para nós, suas mentiras agora ficarão sem punição. — Nós não pedimos pela sua maldita ajuda! — Bones disse, sua voz como um trovão. Mencheres suspirou pesadamente. — Você não pediu, mas, como co-regente da nossa linhagem, eu não podia te permitir arrastar nosso povo para uma guerra. É isso que aconteceria, e o resultado seria o mesmo. Agora ou depois, a criança morreria. Dessa forma, apenas uma vida será perdida, ao invés de incontáveis milhares. Meu corpo inteiro vibrava pelas emoções venenosas me corroendo. Se eu ainda tivesse algum poder sobrando, a cabeça de Mencheres teria sido arrancada dos ombros dele com aquelas palavras. — Por favor, não faça isso. Minha voz quebrou pelo ódio e medo rolando dentro de mim. Eu queria massacrar todo mundo, não implorar para eles, mas, com meu corpo imobilizado e minhas habilidades exauridas, implorar era tudo o que me restava. — Por favor. Nós vamos levá-la embora. Vocês nunca terão que vê-la novamente, e não haverá guerra, eu prometo! Grunhidos urgentes vinham do Tate, sua única forma de expressar o mesmo apelo. Mencheres congelou tudo nele, ao que parece. — Não há outro jeito, — um membro do conselho, que poderia ser dublê do Gandalf, de O Senhor dos Anéis, disse. Então ele fungou enquanto entrava na sala, aproximando-se do corpo do Trove. — O cheiro de enxofre saindo desse demônio está por toda parte. — Você está prestes a assassinar uma criança, e o que te enoja mais é fedor de demônio? — A voz do Ian estava mordaz. — Vocês se denominam protetores da nossa raça, mas tudo o que eu vejo diante de mim são covardes. — Silêncio. — O vampiro de cabelo branco ordenou. Então ele virou para o Guardião da Lei com cabelo negro selvagem e feições orientais.


— Thonos. O vampiro removeu uma espada de prata curvada que era mais longa que meu antebraço. Então ele foi em direção à Katie, agarrando o cabelo dela. Veritas desviou o olhar, sua boca se comprimindo. — Não, por favor! — Eu gritei. Meus dentes rasgaram meu lábio inferior, derramando sangue, mas, embora eu desejasse com todo o meu pânico que Remnants aparecessem, nada aconteceu. Trove me drenou de mais. Lágrimas escorreram dos meus olhos, borrando minha visão com rosa que rapidamente virou vermelho. — Espere, — Marie disse. Esperança me invadiu quando Thonos pausou, aquela espada longa e maligna levantada. O que parecia o Gandalf ergueu uma sobrancelha, mas acenou, concordando. Marie veio até mim, secando minhas lágrimas com toques breves, mas gentis. — Você não pode chorar, Reaper, — ela disse, com a voz tão baixa que somente eu poderia ouvir. — Você carrega o meu poder. Se chorar, você condenará sua filha ao mesmo destino que seu tio. Você deve ser forte agora. É a única coisa que você pode fazer por ela. Uma esperança selvagem fluiu através de mim. É verdade, se eu chorar, o sangue em minhas lágrimas trará Katie de volta como fantasma! Por um momento louco, eu saboreei aquele pensamento. Se essa era a única forma que nós poderíamos ficar juntas, eu aceito. Eu já vi outros fantasmas de crianças, e eles não pareciam estar miseráveis… — Kitten. Meu olhar voou para o Bones. Ele me encarava, sua expressão mostrando tanto raiva quanto mágoa. — Não. — Ele disse, simplesmente. Dor explodiu então, tão envolvente que parecia quase purificadora. Claro que eu não podia fazer aquilo. Eu estaria sentenciando Katie a um destino pior que o que esses bastardos impiedosos decretaram, e pior, pela mesma razão.


Egoísmo. Eles queriam eliminar a ameaça de guerra do jeito fácil, ao invés de encarar o problema real; que após dezenas de milhares de anos, vampiros e ghouls ainda não confiavam uns nos outros porque eles são raças diferentes. Por que tentar resolver seu preconceito feio e sem fundamento se, a cada centenas de anos, eles podem simplesmente assassinar alguém que os faça lembrar dele? Eu queria minha filha comigo, mas, diferente deles, eu peguei o caminho difícil. Aquele que feria mais a mim do que a ela. Se eu puder ser uma mãe para ela pelos próximos segundos, eu não falharei. Marie estava certa. Isso era tudo o que eu podia fazer pela minha filha. Com um som áspero, eu parei minhas lágrimas. Então usei toda a minha força de vontade para segurar as novas. Quando meus olhos estavam finalmente secos, eu acenei, tanto quanto podia. — Certo. Marie tocou meu rosto. Não para secar qualquer rastro de lágrima; elas se foram. Mas como um cumprimento. — Você é uma adversária digna, — ela disse, gentilmente. Então ela se virou e partiu, indo para perto do conselho de vampiros e Guardiões da Lei. Amargamente, notei que eles esperavam em uma linha atrás do Thonos. Eles ordenaram a morte de Katie, mas não devem querer olhar nos olhos dela enquanto ela morre. As costas do executor alto e musculoso bloqueava a maior parte da visão deles. Nada bloqueava a minha. Eu olhei para Katie, cada célula do meu corpo gritando com o pesar que eu me recusava a libertar com lágrimas. A garotinha olhava para a faca sobre ela como se estivesse hipnotizada, suas feições em uma estranha mistura de medo e determinação. Então, como se ela sentisse meu olhar, ela olhou para mim. Em minha vida, eu fui baleada, esfaqueada, perfurada, queimada, mordida, espancada, estrangulada, atingida por um carro e torturada por meios físicos e metafísicos. Nada se comparava à aflição que eu senti quando nossos olhares se encontraram e eu vi a aceitação nos dela. Ela sabia que nada podia salvá-la e, apesar do seu medo óbvio, ela aceitou aquilo. Talvez seja porque, em sua


existência curta, sempre em cativeiro, ela nunca soube que há mais na vida do que horror e morte. Tanto mais, como esperança, amor, dar risada, dançar… e agora ela nunca saberá. Tudo acabaria aqui. Algo quebrou dentro de mim. Eu consegui segurar as lágrimas, mas não pude impedir o som que saiu de mim. Agonia se tornou fôlego e quebrou o silêncio que se formou na sala. Então três palavras deslizaram na minha mente, falando em um sussurro que, de alguma forma, conseguiu ressoar entre os meus pensamentos. Confie em mim. Meus olhos se arregalaram. Mencheres era a única pessoa que eu conhecia que tinha a habilidade de se comunicar telepaticamente, mas não foi a voz dele. Foi a do Bones. Uma fração de mim estava admirada por ele ter essa habilidade, mas o resto de mim estava muito destruído com o luto para me importar. Confiar nele? Ele estava tão impotente quanto eu para impedir isso! Confie em mim, sua voz interna repetiu, enfática o suficiente para suprimir meu agouro mental. Raiva surgiu em meio ao meu pesar. Confiar em quê? Que nós superaremos isso juntos? Ou que o tempo curará todas as feridas? Bem, eu não tinha a menor intenção de me curar. Eu queria sentir essa dor para sempre, por que isso é tudo o me resta da minha filhaConfie em mim! A lâmina de Thonos começou a descer em direção àquela garganta pequena e vulnerável. Katie ainda olhava para mim e, por uma fração de segundo, seus olhos mudaram do mesmo cinza profundo que o meu para algo diferente. Vermelho. O olhar da Katie só deveria ser capaz de mudar para uma outra cor. Verde brilhante de vampiro. Vermelho era a marca de outra raça. Uma que


supostamente a criança não tinha em sua composição genética mista. Esperança explodiu em mim com força suficiente para me derrubar, se eu estivesse me sustentando sozinha. Mas eu não estava. Mencheres ainda me tinha naquele aperto invisível, e no instante agonizante antes que a lâmina assassina encontrasse carne, eu vi a sala das caldeiras com novos olhos. Quatro Guardiões da Lei, três membros do conselho, e a rainha dos ghouls estavam presentes para a execução da criança com um mix de espécies. Qualquer um da linhagem do Bones seria considerado testemunha não confiável por razões pessoais, mas ninguém questionaria qualquer um deles sobre o que realmente aconteceu. Eles nunca mostraram clemência antes, quando se tratava de proteger o equilíbrio de poder entre as raças, e nada mudou nos séculos desde então. A menos que haja uma execução pública, Marie havia dito, eles vão continuar caçando-a. Ela acreditava tanto nisso, que estava preparada para morrer por isso. E Bones havia dito: Se nós te prometermos isso, você concordará com o resto dos nossos termos? Eu havia ficado horrorizada, mas antes que pudesse expressar minha indignação, ele me imobilizou, do mesmo jeito que Mencheres. Kitten, confie em mim, ele disse na época. Confie em mim, ele implorou três vezes agora. Eu me agarrei àquilo com todo o desespero esperançoso em mim enquanto a lâmina atravessava o pescoço de Katie, aparecendo lavada de vermelho do outro lado. O corpo dela caiu, e a visão de Thonos segurando a cabeça dela me atingiu como uma bola de demolição, direto no coração. Ele a colocou perto do corpo dela, limpando o excesso de sangue de sua lâmina, e meu próprio sangue pareceu gritar em resposta. Lágrimas jorravam em um fluxo constante dos olhos do Tate. Marie se dobrou, em saudação. Os outros dois Guardiões da Lei estavam indiferentes, exceto por Veritas, que encarava o corpo de Katie com uma intensidade que me encheu de ódio. Ela estava tentando memorizar a visão horrenda? Os membros do conselho não olharam para o seu feito. Eles se moviam,


quase sem jeito. Agora que estava feito, eles pareciam bem menos entusiasmados com isso. Eu não conseguia parar de encarar o corpo encolhido de Katie; sua cabeça a vários centímetros do resto dela. Horror, esperança e terror se misturavam de forma nauseante dentro de mim. Eu estava errada, e estava olhando para a minha filha? Ou era a minha melhor amiga, transformada nela? E, se era, ela poderia retornar isso? Supostamente, nada deveria matá-la, exceto osso de demônio entre os olhos, mas, querido Deus, ela não tinha mais cabeça! — Deixe o corpo. A voz do Mencheres me assustou. Aquilo pareceu surpreender os membros do conselho, também. O que parece o Gandalf franziu os lábios, desaprovando. — Nós não concordamos com isso. — Você vai. — Aço temperou as palavras do Mencheres. — E você deixará a espada. Como mãe da criança, ela tem direito a ambos. Os outros membros do conselho se olharam, claramente indecisos. Veritas se aproximou, agarrando a mão do Thonos antes que ele pudesse colocar sua arma de volta na bainha. — Você foi ordenado a matar a criança em um caso de necessidade, — ela disse, agitada. — Negar esse pedido seria cruel. Não negue a ela algo tão pequeno, quando nós tiramos todo o resto. Thonos não a impediu quando ela pegou sua lâmina e pousou aos meus pés. Quando ela levantou, por um segundo, seu olhar afiado encontrou o meu. O que eu vi me fez arfar. Sem dizer uma palavra, ela conseguiu mostrar admiração e um claro aviso. A menos que ela saiba mais que os outros, por que ela faria isso? Ela não pode saber! Minha mente se enfureceu. Pode? Então Veritas se virou. — A criança e a espada ficam, mas eu vou levar um


pouco dos ossos do demônio. Não foi uma pergunta. Eu arfei em terror absoluto. E se ela quiser enfiar aquilo entre os olhos da Katie – Denise? –? Mencheres foi até o corpo do demônio, arrancou um dos braços do Trove como se não fosse nada além de um galho seco. — É o suficiente? Ele perguntou, estendendo. Veritas pegou, analisando. — Servirá. Então, para o meu grande alívio, ela passou pelo corpo encolhido de Katie sem nem olhar, e foi se juntar ao outro Guardião da Lei. Nenhum deles olhou para mim. Tudo bem. Eu nunca queria ver qualquer um deles novamente. — Nós acabamos, — o líder de cabelo branco disse. — Sua cooperação será lembrada, Mencheres. — Assim como a traição dele, — Bones respondeu imediatamente, falando as primeiras palavras em voz alta desde que Thonos agarrou Katie. Então ele encarou Mencheres. — Eu jurei pelo meu sangue co-reger nossas linhagens. Pelo bem do meu povo, eu não vou rescindir isso, mas minha esposa e eu estamos partindo, e você não nos verá por muito tempo. Mencheres inclinou a cabeça. — Eu entendo, e, mais uma vez, eu realmente sinto muito. — É pra sentir mesmo, — Ian disse, com nojo. Ele se agachou sobre Trove, arrancando a jaqueta do demônio dos seus ossos. Então Ian a pegou e envolveu o corpo de Katie nela, cabeça e tudo. Ela era tão pequena que a jaqueta a cobriu inteira. Marie, os Guardiões da Lei e membros do conselho partiram sem dizer mais nada. Por vários segundos, os passos deles ecoaram no andar arruinado do depósito de livros; e então houve silêncio. O poder opressivo que emanava deles desapareceu também, até não sobrar nada exceto a energia irradiando


do Mencheres. Com um estalo tangível, o ninho em que eu estive presa desapareceu. Assim como o do Bones e do Tate. Nós dois corremos para a trouxa de roupas na frente do Ian, mas Tate foi direto para Mencheres e o socou com tanta força que eu ouvi os ossos da mão dele quebrar. — Eu vou te matar por isso, — Ele jurou, em uma voz estrangulada. O pulsar de energia que eu senti era provavelmente Mencheres colocando-o de volta em uma prisão invisível, mas eu não me afastei da trouxinha na minha frente. Eu estendi a mão, e então parei. Eu estava com medo de puxar o pano e com medo de não puxar. Eu encontraria tudo pelo que eu esperava, ou perceberia que tudo o que eu temi se realizou? Mencheres ajoelhou perto de nós. Quando ele olhou para o montinho por baixo do casaco, resignação passou pelas suas feições sombriamente belas. — Charles vai me matar quando souber disso. — Só depois que ele acabar de fritar meu traseiro, — Bones respondeu em um tom igualmente desgostoso. — Charles? — Ian soou tão irritado quanto confuso. — O que ele tem a ver com qualquer coisa disso? — Muito, — Bones respondeu, pegando o casaco cuidadosamente e acomodando contra o peito. — Eu vou explicar depois. Pegue o Tate e tente acompanhar. Mencheres? — Deixa comigo, — seu co-regente respondeu, me dando um dos seus raros sorrisos. — Todos vocês. Eu não tive chance de responder. Ou de perguntar se a trouxa que Bones carregava era Denise, então, onde está Katie? Mencheres pegou a espada ensanguentada e o resto dos osso de Trove, então nós fomos lançados no ar. Antes que atingíssemos o teto, um buraco se abriu, permitindo-nos passar sem impacto. Então as janelas vazias no primeiro andar mudaram, as estruturas de metal se abrindo para fora como membros nus tentando alcançar o céu. Nós voamos entre elas para a noite, não deixando nada para trás no edifício arruinado exceto sangue e o cheiro de enxofre.


Capitulo Trinta e Sete.

M

encheres nos levou de volta a Chicago, mas não para a enorme

propriedade que ele divide com Kira. Assim que chegamos na periferia da área metropolitana, nós pousamos nos fundos de uma igreja de dois andares. Era bem depois da meia noite, então não havia luzes lá dentro. Todo o barulho vindo dos edifícios vizinhos tornava impossível dizer se ela estava vazia, entretanto. Pode ser tarde, mas partes de Chicago ainda estavam muito acordadas, e nós estávamos em frente ao bairro mais movimentado da cidade. Bones ajeitou a trouxa que carregava e seguiu Mencheres para a porta lateral. Mencheres nos trouxe aqui tão rápido que eu não fui capaz de confirmar quem estava na jaqueta, porque o vento roubava minhas palavras. Agora, a pergunta disparou de mim como a bala de uma arma. — Essa é a Denise, não é? A porta lateral abriu e Mencheres entrou. Bones olhou para trás, para mim, hesitando. — Sim. O alívio transformou meus joelhos em gelatina. A alegria me manteve de pé, e ansiedade fez meu estômago se agitar. Eu ainda podia ver duas partes distintas sob o casaco que Bones segurava. — Essa é a Denise? — Tate disse, incrédulo. Ian assobiou baixinho. — Você está certo; Charles vai matar você, e isso só se ela voltar disso. Se ela não voltar, ele vai te manter vivo para poder te torturar por décadas. Foi o medo pela minha melhor amiga que fez minha voz tremer, não preocupação pela profecia do Ian. — Ela pode voltar disso? Claro, outros demônios disseram que só ossos dos


irmãos podem matá-los, mas decapitação mata cem por cento do resto da população. — Acho que estamos prestes a descobrir. — Bones murmurou. Então ele desapareceu para dentro da mesma porta que Mencheres. Eu os segui, muito preocupada com Denise para comentar sobre a ironia de escolher uma igreja para ver se alguém marcada pela essência de um demônio pode se ressuscitar. A parte de trás tinha uma pequena cozinha, três escritórios e um banheiro. Mencheres e Bones passaram por todos eles, entrando no santuário principal por uma porta lateral. O cheiro de velas, incensos e madeira polida perfumavam o ar. Um vitral na parede contornava todo o andar de cima do santuário, transformando a luz comum da rua em raios de roxo, azul, âmbar e esmeralda. As cores iluminavam os bancos vazios, a área do coral e a cruz pendurada em cima do centro do altar. Katie estava debaixo dela, flanqueada por Gorgon, Kira e um homem humano que parecia vagamente familiar. Eu não olhei duas vezes para nenhum deles, porque não conseguia afastar os olhos da minha filha. Ela estava viva. Inteira. Intacta. Enquanto olhava, fui dominada pelo desejo de abraçá-la, girando em círculos delirantemente felizes – e a compulsão de cair de joelhos e chorar meus agradecimentos a Deus. Ambas as ações assustariam ela. Ela já fez um progresso enorme em ficar ali ao invés de correr ou tentar esfaquear alguém, e me ver colapsando histericamente dificilmente seria tranquilizador. Ao invés disso, eu sorri enquanto me aproximava com passos lentos e calculados. — Oi, Katie. Eu vejo que você conheceu meus amigos. Aquelas luzes coloridas dançaram sobre o rosto dela quando ela deu um passo na minha direção, sua cabeça se inclinando para o lado. — Eu fiquei com eles, como você mandou, — Ela disse na sua voz alta e musical. Como eu mandei? Antes que eu pudesse perguntar do que ela estava falando, Tate passou esbarrando por mim, parando quando viu Katie. Por sua


expressão aturdida, ele não acreditou no que nós dissemos a ele sobre Denise até aquele momento. — Katie, — ele arfou com o mesmo sussurro reverente que a maioria das pessoas usa quando estão na igreja. Então ele caiu de joelhos, seus ombros começando a tremer com soluços. Os olhos dela se arregalaram, e ela olhou para trás. Yep, assustada, assim como eu pensei. Eu cutuquei Tate, sussurrando “Se recomponha, você está assustando ela,” enquanto mantinha o sorriso no rosto. Bones proveu uma grande distração quando colocou o casaco volumoso no banco mais próximo. Quando ele afastou o tecido ensopado de sangue, eu não fui a única que ofegou com o que estava por baixo. Uma réplica exata da cabeça de Katie repousava contra o corpo pequeno e delgado. Braços pequenos e pálidos estavam dobrados sobre a cabeça, quase fazendo parecer que a sósia sem cabeça estava abraçando aquilo contra o peito. Embora a visão fosse extremamente perturbadora, eu estava mais preocupada que não havia nem uma pitada de regeneração nos tecidos expostos. Denise não estava se curando do seu ferimento horrível. Bones tinha a mesma preocupação. — Nathanial, — ele disse, rígido. — Por que ainda não cresceu uma nova cabeça nela? Nathanial. Agora eu lembrava; o ruivo alto e magro era um parente muito mais velho da Denise. Ele também foi marcado com a essência de um demônio, que é o porquê de ele não ter envelhecido nos séculos desde então. — Há quanto tempo isso aconteceu? — Nathanial perguntou, soando mais engraçado do que preocupado. — Cerca de duas horas, — Bones disse. Racionalmente, eu sabia que ele estava certo, mas parecia que só haviam passado minutos desde que nós deixamos o depósito de livros. Emoções agem como seu próprio tipo de máquina do tempo, desacelerando ou fazendo avançar rápido, dependendo das circunstâncias.


— Por que isso parece comigo? — Katie perguntou em um tom muito calmo. Eu reprimi meu gemido. Eu estava tão nervosa sobre Denise que não pensei em esconder a visão dela. Um dia no trabalho e eu já era uma mãe terrível, deixando minha criança ver um corpo decapitado. — Hum, eu acho que nós devíamos ir para o outro quarto, — eu comecei. — Ela é uma transmorfa, — Bones interrompeu, respondendo a pergunta ao invés de se incomodar com o que Katie viu. Talvez fosse porque ele ainda estava bêbado de sangue de demônio. Quando Katie continuou só olhando, Bones elaborou. — Transmorfos podem se transformar em qualquer coisa que eles verem ou imaginarem. Como havia pessoas atrás de você, essa aqui assumiu a sua forma. Isso permitiu que Gorgon te levasse embora sem que eles soubessem que você partiu. — Por que essa me ajudou? — Ela perguntou. Eu respondi aquilo, minha voz vibrando de emoção. — Por que ela é minha amiga, e ela sabia que eu não queria que você morresse. Por um breve momento, a máscara facial da Katie rachou de um jeito que eu nunca vi. Sua boca lentamente se curvou em uma tentativa de sorriso. — Sua atuação foi brilhante. — Ela disse naquele seu vocabulário muito formal. Momento Mãe Terrível Número Dois: Eu não conseguia me obrigar a dizer a Katie que eu não sabia sobre Denise até os últimos poucos segundos antes de a espada do Thonos descer. Não apenas eu estaria admitindo que fui incapaz de cumprir minha promessa de mantê-la segura apenas alguns minutos depois de fazê-la, mas também porque Katie sorriu para mim. Eu mentiria pra caramba se fosse pra ganhar outro daquele. — Obrigada, — eu disse, lutando contra outra urgência de abraçá-la. Muito rápido, o sorriso dela sumiu. — Mas agora isso está morto, você


deveria jogar isso fora antes que comece a feder. Eu me encolhi, tanto pelo raciocínio frio quanto pelo medo de que ela possa estar certa. Querido Deus, por favor, permita que Denise volte disso! O que ela fez vai muito além da amizade – e da coragem. Eu não podia suportar que ela possa ter partido para sempre por seu ato generoso. Até mesmo o pensamento me fazia querer chorar sobre os seus restos até não restar nada em mim. — Não é “isso”, — eu falei, com a voz rouca. — Ela, Katie. O certo é ela. Nós tínhamos uma grande batalha pela frente para desprogramar todo o treinamento sem consciência de Madigan. Katie tem sete, e seu corpo pode parecer ter dez, mas, em algum lugar dentro dessa superfície militar prematuramente envelhecida há uma garotinha. Eu só tinha que descascar as camadas para encontrá-la. — E Denise não está morta, — eu adicionei com uma rápida prece mental para estar certa. — Ela vai voltar disso. Katie expressou sua descrença com um piscar lento e sério. — Ela vai voltar, garota, — Nathanial concordou, seu tom confiante sendo um bálsamo para o meu medo. — A mesma coisa já aconteceu comigo, e aqui estou, inteiro. Ela vai ficar bem. Você vai ver. Ian lançou um olhar sarcástico para a cruz sobre nós. — Melhor torcer para alguém estar ouvido, companheiro, ou, quando Charles chegar, nós estaremos todos fo— Fortemente conscientes, — eu interrompi, fuzilando Ian com os olhos. — Fortemente conscientes do quão terrível a perda dele será. Ian bufou. — Meu linguajar é a menor das suas preocupações, Reaper. Verdade, mas… — Todo mundo tem que começar de algum lugar, Ian. — Silêncio. Eu estou sentindo alguma coisa. A voz do Mencheres cortou através da igreja, atraindo todos os olhos para ele. Fiquei tensa quando vi sua expressão grave. Será que alguém dos membros do conselho ou Guardiões da Lei nos seguiu?


Então um barulho atraiu minha atenção de volta ao banco, e eu arfei, horrorizada. A cabeça decapitada Não-Katie encolhia, a pele e tecidos evaporando com a mesma velocidade que a do Trove quando eu o esfaqueei no olho pela segunda vez. Aquela coroa de cabelo castanho-avermelhado mudou, também, se enrolando e desaparecendo como se estivesse sendo queimada por chamas invisíveis. Dentro de segundos, só um crânio nu sobrava. Um grito me escapou quando, com um pop, aquilo implodiu, dissipando até só sobrar uma pequena pilha de poeira. — Não, — eu sussurrei. Oh, Denise, não! Algo ondulou sobre os resto decapitado, cinzento e tão rápido que me lembrou Remnants em um frenesi assassino. Então aquilo mudou, ficando um rosa pálido ao invés de cinza, explodindo sobre aquela forma pequena e sem vida como onda após onda na arrebentação. Ao invés de encolher, o corpo Não-Katie começou a crescer, inflando até que as roupas que estavam largas por excesso de tecido agora se esticavam e apertavam. Eu não me lembro de ter corrido para ela, mas, de alguma forma, eu estava de pé na frente do banco, olhando para baixo em descrença enquanto cetim cor de mogno parecia se derramar do buraco enorme no pescoço dela. Um globo pálido o seguiu, inflando como um balão. Em outro borrão de movimento, os traços do rosto ficaram distinguíveis na pele. Bem quando o botão de cima saiu voando da sua camisa ensanguentada porque seu corpo voltou ao ] tamanho e curvas normais, cílios escuros abriram, revelando olhos cor de avelã piscando para mim. — Cat, — Denise falou, a voz rouca. — Isso… funcionou? Eu caí de joelhos, um soluço feliz explodindo de mim. Foi a única resposta que eu fui capaz de dar.


Epilogo.

A

grande embarcação balançava para cima e para baixo nas ondas

agitadas do Atlântico, presa no lugar pela âncora que nós soltamos horas atrás. REAPER costumava estar adornado em vermelho ao redor do casco, mas agora dizia DESCANSO em letras verdes da cor do mar. Eu gostava mais do novo nome. Ele representava a mudança de direção na minha vida. Para todos os efeitos, a Red Reaper se foi. Pelo menos por um bom, longo tempo. A sociedade dos vampiros e ghouls acreditava que Bones e eu desaparecemos porque eu estava devastada pelo luto, e ele estava realmente irritado com seu co-regente. Apenas um punhado de pessoas sabia que nenhum dos cenários era correto. A maioria dessas pessoas estava reunida na costa rochosa da Nova Escócia, cerca de quinhentos metros de onde nosso barco estava ancorado. Nós não tivemos a chance de dizer adeus direito antes, especialmente com alguns deles estando espalhados pelo mundo enquanto tudo acontecida em Detroit e Chicago. Já se passou um par de semanas desde então. Agora, Spade não tentava mais golpear Mencheres e Bones assim que os via. Mas ele ainda os fuzilava com o olhar, entretanto, e parecia que seu braço estava grudado permanentemente ao redor de Denise. Ele não a soltou nem quando ela me abraçou após Bones e eu sairmos do nosso bote. — Pela milésima vez, eu estou bem. — Denise resmungou com ele, apertando sua mão. Então ela me deu um sorriso torto. — Embora eu nunca queira fazer isso de novo. Não é doloroso, na verdade, mas você sabia que eu ainda podia ver por alguns segundos antes de apagar? Se eu tivesse um estômago, eu teria vomitado, com certeza. Eu sempre seria grata – e maravilhada – pelo que ela fez. Que ela podia fazer piadas sobre isso agora apenas mostrava o tamanho da sua coragem. Quanto a Katie, nós a estávamos ensinando a falar normalmente, ao invés do jargão militar dela, entre muitas outras formas que estávamos tentando apagar o treinamento de Madigan. Levaria um tempo, e estava tudo bem por


mim. Ela riu pela primeira vez ontem, quando minha mãe bateu no Tate, e então no Bones, com uma garoupa recém-pescada após os dois homens ficarem brigando sobre o melhor jeito de cozinhá-la. Nós cinco no mesmo navio fez minha mãe murmurar “Nós vamos precisar de um barco maior” mais do que uma vez, mas ela estava mais feliz do que eu já a vi. Se eu nunca pensei em ser mãe, ela realmente nunca pensou em ser uma avó, e ela pareceu assumir como sua missão pessoal compensar os erros que cometeu comigo dando muito amor para Katie. — Ela é a minha segunda chance, — ela disse, olhando para mim com remorso em seus olhos azuis. Eu entendi o pedido de desculpas silencioso, e aceitava. Todo mundo merece uma segunda chance, às vezes. É por isso que agora um fantasma pairava sobre Descanso, ficando no barco com Katie, Tate e Justina enquanto Bones e eu nos despedíamos. Don não precisava dizer adeus para ninguém. Como fantasma, ele poderia pular de um lugar para o outro com facilidade, especialmente já que a essência de Marie agia como um tipo de GPS em minhas veias. Além disso, ele não ficaria no barco enquanto viajávamos. Bones não o tinha perdoado e talvez nunca fosse, mas, com minha insistência, Don foi permitido visitar Katie por algumas horas a cada poucos dias. Assim que escolhermos um lugar mais permanente para chamar de casa, ele pode encostar seu ectoplasma por perto, se quiser. Família é família, e daí se alguns membros não se entendem? Bem, nós queríamos dar à Katie uma educação tão normal quanto possível. Não tinha como ficar mais normal que isso. — Eu vou sentir sua falta, — Eu falei para Denise, libertando ela do meu abraço. Ela sorriu, piscando para afastar o brilho em seus olhos cor de avelã. — Eu também vou sentir sua falta, mas nós vamos nos ver após você se estabelecer em algum lugar. — Não tão cedo, — Spade murmurou sob a respiração.


Denise deu um soco de brincadeira nele. — Eu ouvi isso. O olhar que ele deu a ela foi tão amoroso que eu não liguei por Spade meio que nos odiar no momento. Ele era maravilhoso para a minha melhor amiga, e é isso o que importa. Além disso, eu não podia culpá-lo por estar irritado, apesar de Denise ter agido por vontade própria. Quando você ama alguém, o pensamento de quase perdê-lo te faz enlouquecer. Quem era eu para julgá-lo por isso? — Até novamente, companheiro, — Bones disse, estendendo a mão. Spade olhou para ela. Então ele a agarrou, usando-a para puxar Bones para um abraço rápido e firme. — Até novamente, Crispin, — Ele disse com uma voz carregada. Escondi meu sorriso. Eu sabia que ele perdoaria Bones, eventualmente. A história deles é muito longa e complexa para que ele não perdoasse. Então Bones virou para a vampira loira-moranga voluptuosa de pé ao lado do Spade. Nós estávamos em uma praia rochosa, com sprays salgados nos atingindo como se estivessem furiosos, e ainda assim Annette estava vestida de forma impecável. Ela até usava saltos. Sua maquiagem estava um pouco bagunçada para a roupa, mas isso era por causa das lágrimas escorrendo dos seus olhos cor de champanhe. — Oh, Crispin, e vou sentir sua falta terrivelmente, — ela disse quando ele a envolveu em um abraço. Antigamente, a visão de Bones abraçando o corpo adorável dela teria me enchido de ciúmes. Agora, eu só sentia pena de Annette. Ela o ama desde que os dois eram humanos, e embora Bones tenha um grande afeto por ela, ele nunca se sentiu da mesma forma. Eu espero que um dia ela ache alguém para amar, que a ame de volta. Apesar das suas falhas – e um incidente muito memorável no dia em que nos conhecemos – Annette provou ser ferozmente leal. É por isso que Bones confiou nela com isso, seu maior segredo. — Você será um pai maravilhoso, — eu a ouvi sussurrar quando o soltou. — Ele já é, — eu disse, sorrindo para o Bones. Então eu abracei Annette, falando sério quando disse — Nós tivemos um


começo difícil, mas você provou ser uma boa pessoa. Seu bufar foi, de alguma forma, elegante. — O que é uma tentativa de matar uma a outra entre amigas, certo, querida? Eu ri enquanto a soltava. — Exatamente o que eu penso. — Nós podemos andar logo com isso? — Uma voz entediada falou. — Eu tenho lugares para estar e pessoas para foder. — Ian, eu não vou te abraçar, — eu falei enquanto me aproximava dele. — Eu sei que você gosta mais disso. Com aquilo, eu dei um tapa nele com força suficiente para jogar a cabeça dele para o lado. Quando se ajeitou, ele me lançou um sorriso pervertido. — Finalmente, você me deu o que eu queria. Sabia que você me amava, Reaper. — Oh, desde o começo. — Eu o garanti, rolando meus olhos. Bones agarrou Ian, abraçando-o enquanto os dois trocavam tapas masculinos nas costas. — Vejo você logo, primo. — Bones disse quando eles terminaram. — De fato, vai mesmo, — Ian respondeu, piscando para mim. Eu recebi abraços de urso de Juan, Dave e Cooper em seguida. Se transformar tinha eliminado a maioria dos danos que Madigan causou, mas Cooper pareceria magro para sempre, ao invés da sua constituição forte normal. — Eu vou sentir tanto a falta de vocês, rapazes, — eu disse a eles. — Fiquem seguros, certo? Cooper resmungou, divertido. — Bones vai fazer Mencheres vigiar nossas costas enquanto você está fora, então, como não ficaríamos? — Então a expressão dele ficou séria. — Eu fui mantido longe, tentando controlar minha fome, então me diga uma coisa, Cat: ele está morto? — Sim, — eu disse com firmeza. — Madigan está morto. Eu não estava lá para ver. Nem Bones. Mencheres executou nosso antigo


inimigo, arrancando a cabeça dele com uma explosão do seu incrível poder. Madigan nunca soube o que o atingiu, Don disse. Em um momento, ele estava tagarelando sobre lápis de cor, no outro, ele não estava mais. O Madigan que destruiu tantas vidas não merecia um fim tão fácil, mas tudo o que nos sobrou foi a concha dele. Fazer a concha pagar pelos crimes de outro não parecia justo. Conceder a misericórdia de uma morte rápida e sem dor era. Até mesmo a concha sabia demais sobre Katie para ser seguro. Uma forma escura apareceu no céu turvo sobre nós, afastando aquela linha de pensamento. Então aquela forma caiu quase mais rápido que a velocidade do som, pousando com as costas para nós a cerca de quatro metros de distância. Eu só precisei ver o longo cabelo negro balançando com o vento para saber que era Mencheres. Dê crédito ao antigo faraó por saber como fazer uma entrada. Quando ele se virou, eu esperei que a mulher abraçada ao seu peito fosse Kira. Quando eu vi um cabelo negro espesso e um tom de pele decididamente mais escuro, eu fiquei em choque. — Por que ela está aqui? — Eu ofeguei. Marie soltou Mencheres com uma graça real, mas ela parecia tão surpresa em me ver quanto eu fiquei em vê-la. — Você disse que tinha negócios urgentes comigo, Mencheres, — ela disse, a voz mais fria do que a temperatura da noite. — Você me trouxe aqui para vingança, então? — Não, — Bones disse, pegando minha mão e me puxando para frente. — Você está aqui para ser lembrada da sua promessa, Majestic. Ele ia contar a ela que Katie está viva? Bom Deus, por quê? Nós já estávamos quase acabando de dar nossos adeus e a caminho de uma fuga limpa! Então eu parei. Bones nunca colocaria Katie em perigo, então, o que eu estava deixando passar? Uma sombra apareceu na minha visão periférica e, após uma olhada, eu afastei aquilo.


Era só um fantasma. Eu estive atraindo eles como fedor atrai moscas, e é por isso que nós passaríamos alguns meses em um barco antes de nos estabelecermos ou na Nova Zelândia ou na Austrália. Fantasmas não costumam frequentar água aberta, e quando nós finalmente decidirmos para onde ir – e conseguirmos preparar Katie para interagir com pessoas sem se assustar – o poder de Marie estaria fora do meu sistema. Até lá, eu tinha que despachar o fantasma com instruções para não repetir nada do que ele viu ou ouviu. O mesmo que eu fiz com todos os outros antes, e— Claro! — Eu disse em voz alta. Marie levantou as sobrancelhas como se dissesse você vai dividir isso com o resto da classe ou não? — Bones está certo, você não está aqui porque nós queremos vingança, — Eu disse, — Nós não precisamos. Katie está viva. O queixo de Marie até mesmo caiu, então ela me olhou de um jeito estranho, como se estivesse se perguntando se minha mente tinha quebrado pela tristeza. — Eu não vejo como isso seja possível, — ela disse em um tom neutro. — Um demônio transmorfo que nos fez um favor, — eu disse. — Você só pode matar demônios de um jeito, e decapitação não é ele. Suspeita e descrença competiam nas feições dela antes que elas ficassem perfeitamente suaves. — Se a pessoa executada não era a criança, por que você diria a mim? — Você é a única pessoa que pode nos encontrar sem procurar, — Bones disse. — Com aqueles seus capangas nebulosos, ninguém pode se esconder de você. — Então, se algum fantasma contar histórias sobre uma estranha família de vampiros que eles encontraram, você pode mandá-los calar a boca, — eu adicionei. — Meu poder de controlar fantasmas vai acabar, mas o seu nunca vai. É por isso que estamos te contando sobre a Katie. Você vai nos ajudar a mantê-la em segredo. A boca do Bones se curvou. — E você vai querer fazer isso, por que se uma


palavra sobre ela ter sobrevivido vazar, você será considerada cúmplice de enganar o conselho vampiro. — Como? — Marie perguntou simplesmente. — Com isso, — Ian disse em um tom alegre. Todos nos viramos. Ele segurava uma câmera, sorrindo. — Tirei algumas fotos adoráveis de você falando com Crispin, Cat e Mencheres, mas é o barco no fundo que realmente torna isso incriminador. — Além disso, — O sorriso do Mencheres era grande o bastante para exibir as presas. — Você fará isso por que, se não fizer, eu posso arrancar a sua cabeça a duas cidades de distância. Marie riu de forma afiada depois daquilo. — Eu posso enviar Remnants atrás de você da mesma distância, então vamos parar com as ameaças. — Sim, vamos, — Eu disse de uma vez. — Ao invés disso, por que nós não tentamos algo que nenhuma das nossas espécies foi capaz de fazer antes? Vamos confiar uns nos outros. Eu estendi a mão, encarando os olhos cor de avelã de Marie. — Em Nova Orleans, você jurou por seu sangue que se houvesse uma execução pública, você deixaria Katie e o resto de nós em paz. Você conseguiu sua execução. Agora, dê-nos nossa paz, e nós prometemos fazer o mesmo por você e seu povo. Marie olhou para a minha mão, e então para o barco à distância. — Você está preparada para escondê-la até ela morrer uma morte natural? Com a linhagem de sangue dela, isso pode demorar bastante. — Então esse é o tempo em que nós ficaremos longe. — eu respondi calmamente. — Mencheres prometeu lidar com os problemas do povo deles, e eu nunca fui uma borboleta sociável, de qualquer forma. Seu olhar voou para o Bones, em seguida.


— Você desistiria de tanto assim, pela filha de outro homem? — Katie é minha filha, — Bones respondeu instantaneamente. — Ela pode não ser minha filha biológica, mas isso meramente significa que ela tem dois pais. Marie olhou para o barco outra vez. Eu também olhei. Tate estava no convés, Katie de pé ao lado dele. Ela estava com Helsing nos braços, como de costume. Pare meu deleite, Katie amava ter um animalzinho, e meu gatinho recebeu o afeto adicional como devia. Já estava quase escuro, mas ainda assim eu podia ver as novas mechas loiras no cabelo castanho-avermelhado de Katie. Ela amava a luz do sol, embora nós tivéssemos que emplastrar ela de protetor solar Fator 50. Talvez ela passe tanto tempo nele agora porque ela raramente o via antes. Então Marie olhou de volta para mim. Com uma pitada de sorriso sarcástico, ela pegou minha mão. — Nós confiaremos uns nos outros então. Depois de milhares de anos, já passou da hora das nossas duas espécies tentarem isso, ao invés de ameaças e morte. — Melhor tarde do que nunca, — Eu disse, balançando a mão dela. Quando nós soltamos, eu peguei a mão do Bones, saboreando a sensação da sua carne e o poder que me envolveu com sua própria carícia. Nós podíamos fazer qualquer coisa juntos. Eu não acreditei nisso antes, mas acreditava agora. — Mencheres, — Marie disse, virando para o outro vampiro. — Já que estamos todos de acordo, você precisa me levar de volta à minha cidade. Eu preciso me certificar de que mais ninguém do meu povo me desobedeça como aqueles em Detroit fizeram. — O trabalho de uma rainha nunca termina, — eu disse, com humor. Agora o sorriso dela foi sagaz. — Nem o de uma mãe, Reaper, como você logo descobrirá. Eu olhei para o barco, acenando dessa vez. Tate acenou de volta. Katie olhou para ele, para mim, e então levantou a mão, balançando ela de forma


hesitante. Eu não poderia estar mais orgulhosa nem se ela tivesse composto um soneto e então prendido ele em um alvo atirando uma faca há cinquenta passos de distância. Quando eu olhei de volta para Marie, eu estava sorrindo. — Eu não posso esperar para descobrir, e é por isso que eu vou começar agora. Bones? Ele riu. — Eu já estava pronto, amor. É você que estava demorando tanto, como sempre. Eu não pude me impedir de sorrir. — Então não vamos esperar mais. Todo mundo… nós os veremos novamente, alguns mais cedo, outros mais tarde, mas, como vampiros dizem, até novamente. Então, ao invés de subir de volta no bote e remar, eu o agarrei e voei.

Fim!


Nota da Tradutora: Nossa série principal chegou ao fim :’( Embora ainda tenhamos um livro de Night Prince para traduzir e, possivelmente, mais alguns contos, o coração fica apertado em saber que não teremos mais Cat e Bones para nos fazer pirar! Eu, pessoalmente, devo muito à série e a autora. Não apenas Jeaniene Frost me inspirou a começar a escrever – o que já rendeu três livros em contrato e alguns contos – mas foi por causa de Night Huntress que eu aprendi inglês. A série vai ficar no coração para sempre, mas estou muito feliz com a forma que a Jeaniene conseguiu fechá-la com chave de ouro. Existem séries maravilhoas com dezenas de volumes, mas algumas histórias nós precisamos deixar ir, por mais que doa, para que ela se vá como deve ser. Quando o autor pensa com o coração, e não com o bolso, e finaliza uma série no momento devido, nós sabemos que ele valoriza seus leitores e seu trabalho. Fico muito feliz por a Jeaniene ser assim. Night Huntress também influenciou minha vida de outra forma: deu-me vários amigos maravilhosos dede a época do Orkut! Nosso grupo de tradução não irá acabar! Graças a Deus, a Jeniene está no auge da sua carreira, e nós vamos traduzir seus outros livros e contos lá no grupo. Com certeza ela nos dará muitos personagens maravilhosos para amarmos e história para nos fazer esquecer as complicaçoes do dia a dia. Obrigada a todas as Kittens pelo carinho com o grupo, com nosso trabalho, e por serem pacientes com os atrasos. Nós bem que gostaríamos de poder traduzir o dia inteiro, mas infelizmente a vida real chama. E mesmo que a série mude, seremos Kittens para sempre! Nos veremos em breve em Broken Destiny! E, já pra que fique claro, o Adrian é MEU! :p


Ordem de Leitura: 

RECKONING – Conto 0.5 – traduzido e disponível para dowload no grupo.

HALFWAY TO THE GRAVE – Livro Night Huntress 01 - traduzido e disponível para dowload no grupo.

ONE FOOT IN THE GRAVE – Livro Night Huntress 02 - traduzido e disponível para dowload no grupo.

HAPPILY NEVER AFTER – Conto 2.5 – AINDA EM TRADUÇÃO.

AT GRAVE’S END – Livro Night Huntress 03 - traduzido e disponível para dowload no grupo.

DEVIL TO PAY – Conto 3.5 - traduzido e disponível para dowload no grupo.

DESTINED FOR NA EARLY GRAVE – Livro Night Huntress 04 - traduzido e disponível para dowload no grupo.

ONE FOR THE MONEY – Conto 4.5 - traduzido e disponível para dowload no grupo.

FIRST DROP OF CRIMSON – Livro Night Huntress World 01 (spin-off) - traduzido e disponível para dowload no grupo.

ETERNAL KISS OF DARKNESS – Livro Night Huntress World 02 (spin-off) - traduzido e disponível para dowload no grupo.

THIS SIDE OF THE GRAVE – Livro Night Huntress 05 - traduzido e disponível para dowload no grupo.

ONE GRAVE AT A TIME – Livro Night Huntress 06 - traduzido e disponível para dowload no grupo.

HOME FOR THE HOLIDAYS – Conto 6.5 - traduzido e disponível para dowload no grupo.

ONCE BURNED – Livro Night Prince 01 (spin-off) - traduzido e disponível para dowload no grupo.

TWICE TEMPTED – Livro Night Prince 02 (spin-off) - traduzido e disponível para dowload no grupo.

UP FROM THE GRAVE – Livro Night Huntress 07 – ESTE EBOOK. É o último da série Night Huntress. Traduzido e disponível para dowload no grupo.

BOUND BY FLAMES – Livros Night Prince 03 (spin-off) – Ùltimo livro da série Night Prince. O lançamento está previsto para 26 de Janeiro de 2015. Também será traduzido por nós.

Atenção, todos os contos pertencem à série Night Huntress.


ATENÇÃO, ESTA TRADUÇÃO É FEITA ENTRE FÃS, SEM FINS LUCRATIVOS! É PROIBÍDA A DISTRIBUIÇÃO DE FORMA COMERCIAL. PRESTIGIE A AUTORA, COMPRE OS LIVROS DA SÉRIE!

Para ler os livros da série Night Huntress, Night Huntress World, Night Prince, contos e cenas deletadas, participe do nosso grupo! https://www.facebook.com/groups/nighhuntress/

Up from the grave - Jeaniene Frost  
Up from the grave - Jeaniene Frost  
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