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Luiza Adorna, acadêmica de Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul Gerações agrícolas O futuro da agricultura diante das mudanças do mundo moderno

Era fim de tarde e a família Puntel se aconchegava em suas casas depois de mais um dia de trabalho. Nenhum dos componentes desse grupo familiar, precisou atravessar a cidade a lembrar do dia intenso de trabalho, do movimento dos carros e dos passos das pessoas pelas calçadas. Não possuem chefes e nem conhecem competição entre colegas e, além disso, não dependem de horários. Parece tão mais simples. Porém, a vida de agricultores da família Puntel e de todas as outras desse país não é fácil. Agricultores não trabalham das 8h às 18h, e sim do horário em que já é claro o suficiente até quando a escuridão da noite impede suas atividades. Rotinas também não existem. Se faz o necessário, diante das condições do tempo, época, clima e colaborações das amigas máquinas. O trabalho não é o mesmo, muda a cada ano, afinal, são muitas as novidades na área. E, as pessoas também mudam, se vão, deixam conhecimento, cultura e heranças em forma de terras e materiais. Em meio das mudanças de gerações, estão as mudanças mundiais. A influência da internet, a facilidade de entrar em um curso superior, as inúmeras possibilidades de abandonar o campo e procurar algo diferente. A agricultura pode se tornar um asilo de idosos? Na família Puntel, o guardião de todo legado é Domingos, 71 anos, cabelos brancos e sorriso no rosto. Sua ligação com esse meio dura há muito tempo. "Desde que nasci, afinal, não existia colégio para mim", diz o patriarca da família ao recordar que educação há sessenta anos era algo possível apenas dentro de casa. Sair para estudar, ir à escola, eram regalias para poucos. Filho de Domingos, Hamilton Puntel, 50 anos, conta trabalhar desde criança, aos sete anos de idade. Influenciado pelo pai, ele confessa não se enxergar em outra profissão. Através da atividade agrícola, Hamilton criou seus filhos. Dentre eles, está Sandro Junior, adolescente de 15 anos. Será que Junior, como é chamado, continuará com a prática no campo, cultivada há décadas por sua família? Essa não é apenas uma pergunta simples. E sim, uma dúvida do pai e do avô do adolescente.


A partir dos 13 anos, Junior começou a ajudar a família nas plantações de arroz e soja. Além dessas culturas, a família Puntel planta fumo. Junior

confessa

não

colaborar nessas lavouras por não aconselharem e não gostar. "Não gosto muito, pois é mais puxado", diz. Enquanto respondia as perguntas, a luz do computador do garoto piscava, lhe chamando para a internet. Junior, que concilia lavouras e escola, confessa que o meio online é a principal distração dos jovens para se afastarem do campo. "Às vezes, entre ir trabalhar e ficar na internet, prefiro ficar conectado", revela. Com a cuia de chimarrão, Hamilton gesticulava com suas mãos cansadas e calejadas pelo trabalho e firmes ao segurar o símbolo gaúcho. "A gurizada tá saindo, tá ficando difícil. A gente fala com os outros agricultores nas firmas e, pelo que dá para perceber, não tem uma região em que o jovem está ficando", diz Hamilton, preocupado com o futuro da agricultura. Ele ainda salienta a desvalorização do preço das culturas, como fato para o jovem não permanecer no campo. Outro ponto é o trabalho braçal. "Na lavoura tem que forcejar, na internet não", afirma. Já Domingos, enquanto brincava com sua cadela Fifi, escutava seu filho com atenção. Sobre a ida do jovem para cidade, o senhor interrompeu a conversa para afirmar que seu neto continuará no campo. "Ele tem todo o apoio e gosta. Sei que vai continuar",

fala Domingos, esperançoso diante de sua vontade. Diferente dele,

Hamilton quer que o filho permaneça com eles no campo, mas não sabe se isso, realmente, pode acontecer. "Do jeito que está, quando vê, ele encontra um trabalho melhor. O pai sempre quer que o filho fique. Mas, não sei se ele vai ficar", diz. Para Hamilton e Domingos, a desvalorização dos preços pode ser o ponto principal para afastar os adolescentes do campo. "É muita despesa dentro da lavoura, tudo é muito difícil", explica o avô de Junior. Para Domingos, "os governantes precisam ajudar os trabalhadores para as coisas melhorarem". Sem trabalhar muito no presente, no passado viveu a maior parte do seu tempo dentro das lavouras. Apaixonado pelo serviço no campo, ele acredita que se a produção de renda na agricultura aumentar, os jovens vão se estimular para continuar nesse cenário. Não apenas continuar, como também voltar. É isso que Hamilton crê. "Se tudo melhorar, de repente, os próprios jovens vão querer voltar", afirma. Para isso ocorrer, Hamilton espera auxílio do governo, subsídios e outras formas de apoios. Cortes de impostos também seriam fundamentais, segundo o agricultor. "O preço do óleo diesel


não motiva ninguém", salienta. Então, se houvesse uma mudança positiva nesse setor, ele acredita na migração do urbano para o rural, "afinal, o emprego na cidade também não está fácil". Segundo o mais novo trabalhador da família, as culturas não são tão valorizadas. "Os produtos deveriam ter melhor preço", diz Junior. Ele confessa estar tão acostumado em ajudar, que sentiria falta se tivesse de sair. Para confirmação de Domingos e alegria de Hamilton, Junior pretende seguir, sem problemas, o mesmo caminho do pai e do avô. Mas, na verdade, sonha ser piloto agrícola. "Porque assim, mesmo com estudo, não me desligaria totalmente do campo", explica. Exceção entre os tantos jovens que acabam se afastando, Junior opina sobre o futuro desse setor: "Com o tempo, vai restar apenas os mais velhos. Mas, como ninguém dura para sempre, as pessoas vão ter que voltar aos poucos". Domingos, Hamilton e Junior representam três gerações da família Puntel. Cada fase com suas características próprias e questões financeiras diferenciadas. Embora Domingos não tenha tantas condições de aproveitar a tecnologia presente nos maquinários nos dias atuais, o lado financeiro era mais regular e menos injusto no passado. As coisas mudam rápido demais. Nesse ramo, nada é certo, tudo pode variar. E pelo que se percebe, a agricultura pode sofrer com as futuras gerações. Não que os adolescentes não queiram ficar no campo, mas sim que nada parece motivar à isso.

Asilo de idosos

Adriano Madrid é diretor da Secretária Municipal de Indústria e Comércio de Cachoeira do Sul (SMIC) e, certa vez, em uma palestra para agricultores na cidade de Paraíso do Sul, disse: "a agricultura vai se tornar um asilo de idosos". Questionado sobre a afirmação, ele explica: "Era uma palestra em que foi identificado que não estavam preparando a sucessão, e ainda pior: estavam em conflito de geração. Abordei que a comunicação de brigar e reclamar poderia causar uma aversão dos filhos a terra, ao negócio rural, a tal atividade maldita".


Para ele, é necessário haver uma preparação de sucessão, de participação das esposas, filhos e filhas. "Uma troca de experiências entre gerações (know-how), criar um relacionamento de melhoria, de empreendedorismo, profissionalizar a atividade, maximizar os resultados, melhorando a qualidade de produto, atividade e de vida", diz. O diretor ainda explica que sua afirmação sobre o futuro da agricultura foi apenas uma previsão. "Era uma palestra "cutucacional" e não motivacional", se diverte. Além disso, para o diretor, as maiores contribuições para o êxodo rural são a falta de preparação, educação, capacitação e entendimento do jovem rural. "Temos que, urgente, mudar as questões dos valores do meio rural em relação aos valores do meio urbano. Para se ter uma ideia, hoje o jovem prefere não ser bilíngue ou poliglota, para não ter um sotaque alemão ou italiano e ser chamado de colono", diz. Além disso, há questões jurídicas, como um pai responder processo por seu filho de quase 17 anos dirigir um trator, dentro de sua propriedade, em um terreno plano e favorável. "Está na lei e temos que obedecer", explica. Porém, isso afeta ainda mais a necessidade de produção verso a demanda operacional de mão de obra. Segundo Madrid, esse é um limite no Rio Grande do Sul. Para isso, o especialista em área comercial e de alta performance, acredita nas políticas públicas especiais, compreensões dos valores rural e urbano, sucessão familiar e educação voltada para o rural, como forma de estímulo. Para ele, é preciso "aproveitar a condição especial de áreas produtivas, utilizar os jovens, as famílias e o poder público em uma ação para a valorização do campo com infraestrutura material, tecnológica e econômica".

Profissão agricultor Agricultor não tem cultura? Não tem conhecimento? É ignorante? Esqueça as perguntas sem prévio entendimento. Bacharel em Ciências Contábeis e pós graduado em Planejamento de Economia Rural, Adriano Madrid salienta o maior desafio do homem do campo: quebrar o paradigma de que colono é um coitado, assumir uma postura de ser dono do seu destino, de ser um empresário rural, do agronegócio". Para ele, pensar dessa maneira é importante para a economia e cadeia alimentar e produtiva. Ser um empresário do campo é ter a visão de quem planta e a compreensão de quem compra. "Temos irrigação, plasticultura, culturas hidropônicas, produtos com valor


agregado, tecnologias, adubação química e natural. Temos de maximizar os resultados positivos e manter a qualidade de vida e de produção", orienta. Madrid acrescenta sobre a amplitude da agricultura: "Temos o cultivo de plantas com o objetivo de obter alimento, energia, fibras e matéria prima para medicamentos, roupas e construções. Tudo isso em várias escalas e formas". Em torno das questões climáticas, para Madrid, seca e enchente sempre teve e sempre terá. "Os preços caem na safra e os insumos sempre sobem na precisão de uso. Isto é a lei do mercado, sempre foi e sempre será. É preciso ter planejamento e diversidades de ações", explica. Medir e comparar desempenhos, buscar informações, comunicar-se com fornecedores e clientes, fazer parcerias positivas, são os pontos abordados por Madrid como referência aos bons negócios. Em relação a valorização do preços dos produtos agrícolas, Madrid concorda com a classe trabalhadora que há muito exige seus direitos. "Existe uma carga tributária injusta, em relação à importância e prioridade da agricultura", diz. Segundo Madrid, os produtos de grande escala são commodities,

têm seus preços regulados

internacionalmente. "Se ele gastar 6% ou 30% com a logística, por exemplo, vai sair do valor dele. Por isso a importância dos indicadores, dos controles, do checar e corrigir os processos como um todo", exemplifica.


Grande Reportagem - Luiza Adorna