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sinapse


A capa A capa dessa edição conta com o Gerald Reisinger. Gerald fotógrafo surrealista nascido na Austrália. Já atua na área a 3 anos, tira fotos visionárias usando luz infravermelho. Inspirado pela sua infância na fazenda e inúmeros grandes fotografos pelo mundo. Ama o mundo analógico do preto e branco além de ter grande interesse em arquitetura. Sua citação favorita é: “Uma grande fotografia é aquela que expressa plenamente o que se sente, no sentido mais profundo, sobre o que está sendo fotografado.” - Ansel Adams


EDITORIAL

Convidamos você a criar Sinapses As sinapses são ligações entre neurônios e aumentar o número delas é um feito possível e devidamente comprovado pela ciência há muito tempo. Através das cargas de informação e conhecimento que recebemos o números de sinapses formadas aumenta, com isso criamos uma rede cada vez mais ligada de neurônios e assim o próprio desempenho das funções cerebrais é melhorado. Quanto maior a variedade e quantidade de conhecimento, maior será a quantidade de sinapses e assim melhor será a memória e mais rápido será o raciocínio. Nessa edição trazemos uma variada oferta de conhecimentos, desde a reflexão no texto de François Jullien até o deleite visual nas fotografias de Gerard Reisinger. Tudo isso para contribuir com as suas sinapses. Uriel Novais


CRÉDITOS

Colaboradores dessa edição Jean Baudriallard François Jullien Ruben Alves Fernando Pessoa Manoel de Barros Gerald Reisinger Eduardo Recife

sinapse Conselho Editorial: Uriel Novais de Morais(Presidente), Camila Cibele de Almeida (Vice-Presidente), André Talhari López, Luiza Morena Moraes, Diego Leonardo de Camargo, Luan Felipe Saportiti Diretor de Assinaturas: Luan Saporiti Diretor Geral Digital: Diego Leonardo de Camargo Diretor Financeiro e Administrativo: André Talhari López Diretor Geral de Publicidade: Uriel Novais de Morais Diretora de Recursos Humanos: Luiza Morena Moraes Diretora de serviços Editoriais: Camila Cibele de Almeida

Diretor de Redação: André Talhari López Redator-Chefe: Uriel Novais de Morais Diretora de Arte: Luiza Morena Moraes Editor de Beleza: André Talhari López Editor Assistents: Luan Saporiti Repórteres: Uriel Novais de Morais, Camila Cibele de Almeida Designers: André Talhari López, Diego Leonardo de Camargo Luan Felipe Saporiti Uriel Novasi de Morais Camila Cibele de Almeida Luiza Morena Moraes Estagiário: Diego Leonardo de Camargo Faxineiro: Luan Felipe Saporiti


01. DISCUSSÃO

01

07 - 08 O Virtual (opinião) Jean Baudrillard

02

~

02. PENSAMENTO

09 - 10 Instruções para subir uma escada Julio Cortázar 11 - 12 Um sábio não tem idéia François Jullien

~

13 - 16 KOAN Rubem Alves

ÍNDICE


03 04

~

03. CULTURA

17 - 18 Desassossego Fernando Pessoa

19 - 20 O livro das Ignorãças Manoel de Barros

04. GALERIA

21 - 26 Fotografias Gerard Reisinger

27 - 32 Eduardo Recife

~

ÍNDICE


01. DISCUSSÃO

O VIRTUAL Jean Baudrillard

E

m sua acepção mais usual, o virtual se opõe ao real, mas sua subira emergência, pelo viés das novas Tecnologias, dá a impressão de que, a partir de então, ele marca a eliminação, o fim desse real. Do meu ponto de vista, como já disse, fazer acontecer um mundo real é já produzi-lo, e o real jamais foi outra coisa senão uma forma de simulação. Podemos, certamente, pretender que exista um efeito de real, um efeito de verdade, um efeito de objetividade, mas o real, em si, não existe. O virtual não é, então, mais que uma hipérbole dessa tendência a passar do simbólico para o real - que é o seu grau zero. Neste sentido, o virtual coincide com a noção de hiper-realidade. Á realidade virtual, a que seria perfeitamente homogeneizada, colocada em números, “operacionalizada”, substitui a outra porque ela é perfeita, controlável e nãocontraditória. Por conseguinte, como ela é mais “acabada”, ela é mais real do que o que construímos como simulacro. Mas é preciso que se diga que esta expressão, “realidade virtual”, é um verdadeiro oxímoro. Não estamos mais na boa e velha acepção filosó¬fica em que o virtual era o que estava destinado a tornar-se ato, e em que se instaurava uma dialética entre as duas noções. Agora, o virtual é o que está no lugar do real, é mesmo

07•PENSAMENTO ♦ O Virtual

sua solução final na medida em que efetiva o mundo em sua realidade definitiva e, ao mesmo tempo, assinala sua dissolução. Chegando a esse ponto, é o virtual que nos pensa: não há mais necessidade de um sujeito do pensamento, de um sujeito da ação, tudo se passa pelo viés de mediações tecnológicas. Mas será que o virtual é o que põe fim, definitivamente, a um mundo do real e do jogo, ou ele faz parte de uma experimentação com a qual estamos jogando? Será que não estamos representando a comédia do virtual, com um toque de ironia, como na comé¬dia do poder? Essa imensa instalação da virtualidade,


performance no sentido artístico, não é ela, no fundo, uma nova cena, em que operadores substituíram os atores? Ela não deveria, então, ser mais digna de crença que qualquer outra organização ideológica. Hipótese que não deixa de ser tranqüilizante: no final das contas tudo isso não seria muito sério, e a exterminação da realidade não seria, em absoluto, algo incontestável. Mas, no momento em que nosso mundo efetivamente inventa para si mesmo seu duplo virtual, é preciso ver que isto é a realização de uma tendência que se iniciou há bastante tempo. A realidade, como sabemos, não existiu desde sempre. Só se fala dela a partir do momento em que há uma racionalidade para dizê-la, parâmetros que permitem representá-la por signos codificados e decodificáveis. No virtual, não se trata mais de valor; trata-se, pura e simplesmente, de gerar informação, de efetuar cálculos, de uma computação generalizada em que os efeitos de real desaparecem. O virtual seria verdadeiramente o horizonte do real no sentido com que se fala do horizonte dos eventos em física. Mas podemos igualmente pensar que tudo isso não passa de um caminho mais curto para uma jornada que não podemos ainda discernir qual seja.

“Só se fala dela a partir do momento

em que há uma racionalidade para dizê-la, parâmetros que permitem representá-la

por signos codificados e decodificáveis.

O Virtual • PENSAMENTO 08


N

inguém terá deixado de observar que freqüentemente o chão se dobra de tal maneira que uma parte sobe em ângulo reto com o plano do chão, e logo a parte seguinte se coloca paralela a esse plano, para dar passagem a uma perpendicular, comportamento que se repete em espiral ou em linha quebrada até alturas extremamente variáveis. Abaixando-se e pondo a mão esquerda numa das partes verticais, e a direita na horizontal correspondente, fica-se na posse momentânea de um degrau ou escalão. Cada um desses degraus, formados, como se vê, por dois elementos, situa-se um pouco mais acima e mais adiante do anterior, princípio que dá sentido à escada, já que qualquer outra combinação produziria formas talvez mais bonitas ou pitorescas, mas incapazes de transportar as pessoas do térreo ao primeiro andar. As escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incômodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está

09•PENSAMENTO ♦ Instruções para subir uma escada

COMO SUBIR

02. PENSAMENTO

INSTRUÇÕES DE

UMA

ESCADA Julio Cortázar


pisando, a respiração lenta e regular. Para subir uma escada começa-se por levantar aquela parte do corpo situada em baixo à direta, quase sempre envolvida em couro ou camurça e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhe-se a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que neste descansará o pé, e no primeiro descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.) Chegando dessa maneira ao segundo degrau, será suficiente repetir alternadamente os movimentos até chegar ao fim da escada. Pode-se sair dela com facilidade, com um ligeiro golpe de calcanhar que fixa em seu lugar, do qual não se moverá até o memento da descida.

Instruções para subir uma escada •PENSAMENTO •10


02. PENSAMENTO

UM SÁBIO NÃO TEM

IDÉIAS François Jullien

11•PENSAMENTO ♦ Um sábio não tem idéia


Um sábio, estabeleceremos de saída, não

tem idéia.“Não ter idéia” significa que ele evita pôr uma idéia à frente das outras- em detrimento das outras: não há idéia que ele ponha em primeiro lugar, posta em princípio, servindo de fundamento ou simplesmente de início, a partir do qual seu pensamento poderia se deduzir ou, pelo menos, se desenvolver. Princípio, arché: ao mesmo tempo o que começa e o que comanda, aquilo por que o pensamento pode começar. Uma vez ele colocado, o resto segue. Mas, justamente, aí está a cilada, o sábio teme essa direção imediatamente tomada e a hegemonia que ela instaura. Porque a idéia assim que é proposta faz as outras refluírem, nem que para vir depois a associá-las a si, ou antes, ela já as jugulou por baixo do pano. O sábio teme esse poder ordenador do primeiro. Assim, essas “idéias”, ele tratará de mantê-las no mesmo plano – e está nisso sua sabedoria: mantê-las igualmente possíveis, igualmente acessíveis, sem que nenhuma, passando a frente, venha a ocultar a outra, lance sombra sobre a outra, em suma, sem que nenhuma seja privilegiada. “Não ter idéia” significa que o sábio não está de posse de nenhuma, não é prisioneiro de nenhuma. Sejamos mais rigorosos, literais: ele não avança nenhuma. Mas é possível evitar isso? Como poderíamos pensar sem nada propor? No entanto, assim que começamos a avançar uma idéia, diz-nos a sabedoria, é todo o real (ou todo o pensável) que, de repente, recua: ou antes, ei-lo perdido atrás, será necessário tanto esforço e mediação, daí em diante, para se aproximar dele. Essa primeira idéia proposta rompeu o fundo de evidência que nos rodeava; apontando de um lado, este em vez daquele, ela nos fez pender para o arbitrário, nós fomos para este lado e o outro fica perdido, a queda é irremediável: ainda que depois reconstruamos todas as cadeias de razões possíveis, nunca

escaparemos – aprofundaremos sempre mais, enterraremos sempre mais, sempre presos nas anfractuosidades e nas entranhas do pensamento, sem nunca mais voltar à superfície, plana, a da evidência. Por isso, se você desejar que o mundo continue a se oferecer a você, diz-nos a sabedoria, e que, para tanto, ele possa permanecer indefinidamente igual, absolutamente estacionário, você tem de renunciar à arbitrariedade de uma primeira idéia (de uma idéia posta em primeiro; inclusive aquela pela qual acabo de começar). Porque toda primeira idéia já é sectária: ela começou a monopolizar e, com isso, a deixar de lado. Já o sábio não deixa nada de lado, não deixa nada de mão. Ora, ele sabe que, ao se propor uma idéia, já se toma, nem que temporariamente, certo partido em relação à realidade: quem se põe a puxar um fio da meada das coerências, este em vez daquele, começa a preguear (plisser) o pensamento em certo sentido. Assim, propor uma idéia seria perder de saída o que você queria começar a esclarecer, por mais prudente e metodicamente que o faça: você fica condenado a um ângulo de visão particular, por mais que se esforce depois para reconquistar a totalidade; e, daí em diante, não parará de depender dessa prega (plí), a prega formada pela primeira idéia proposta, de passar por ela; não parará mais, tampouco, de voltar a ela, querendo suprimi-la, e por isso de amarrotar de outro modo o campo do pensável – mas perde para sempre o sem pregas do pensamento.

Um sábio não tem idéia •PENSAMENTO •12


02. PENSAMENTO

Koan Rubem Alves

Os

mestres Zen eram educadores estranhos. Não pretendiam ensinar coisa alguma. O que desejavam era “desensinar”. Avaliações de aprendizagem? Nem pensar. Mas estavam constantemente avaliando a desaprendizagem dos seus discípulos. E quando percebiam que a desaprendizagem acontecera, eles riam de felicidade... Loucos? Há uma razão na loucura. “Desensinavam” para que os discípulos pudessem ver como nunca tinham visto. Nietzsche dizia que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. Ver é coisa complicada, não é função natural. Precisa ser aprendida. Os olhos são órgãos anatômicos que funcionam segundo as leis da física ótica. Mas a visão não obedece às leis da física ótica. Bernardo Soares: “O que vemos não é o que vemos, senão o que somos”. É preciso ser diferente para ver diferente. Mas, e o “Ser”? Ele é feito de quê? “Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo”, dizia Wittgenstein. O “Ser” é feito de palavras. Prisioneiros da linguagem, só vemos aquilo que a linguagem permite e ordena ver. A visão é um processo pelo qual construímos nossas impressões óticas segundo o modelo que a linguagem impõe. Então, para se ver diferente, é inútil refinar a linguagem, refinar as teorias. O refinamento das teorias só aumenta a clareza da 13•PENSAMENTO ♦ koan

mesmice. A pedagogia dos mestres Zen tinha por objetivo desarticular a linguagem, quebrar o seu “feitiço”. Com o que concordaria Wittengstein, que definia a filosofia como uma luta com o feitiço da linguagem. Quebrado o feitiço, os olhos são libertados dos “saberes” e ganham a condição de olhos de criança: vêem como nunca haviam visto. Está lá em Alberto Caeiro, que fazia poesia para que os seus leitores ganhassem olhos de criança... A psicanálise é uma versão moderna da pedagogia Zen. Freud sugeriu que os neuróticos são pessoas “possuídas” pela memória, memória que as obriga a viver vendo um mundo da forma como o viram num dia passado. A memória nos torna prisioneiros do passado, não nos deixa perceber a “eterna novidade do Mundo”. Os neuróticos são prisioneiros da sua mesmice. Por isso, são confiáveis: serão hoje e


amanhã o que foram ontem. A psicanálise é uma pedagogia da desaprendizagem. É preciso esquecer o que se sabe a fim de ver o que não se via. Se a terapia for bem-sucedida, se o paciente conseguir desaprender suas memórias, então ele estará livre para ver o mundo que nunca havia imaginado. Roland Barthes teve uma iluminação Zen na sua velhice. Na sua famosa “Aula”, ele diz, como “últimas palavras”: Empreendo, pois, o deixar-me levar pela força de toda vida viva: o esquecimento. Há uma idade em que se ensina o que se sabe; vem, em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender.

E ele concluiu: “Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia...” Os mestres Zen nada ensinavam. O seu objetivo era levar os seus discípulos a “desaprender” o que sabiam, a ficar livres de qualquer filosofia. Para isso eles se valiam de um artifício pedagógico a que davam nome de koan. Koans são “rasteiras” que os mestres aplicam na linguagem dos discípulos: é preciso que eles caiam nas rachaduras de seus próprios saberes.

Koan •PENSAMENTO •14


02. PENSAMENTO

A psicanálise repete a mesma coisa: a verdade aparece inesperadamente quando acontece o lapsus, a queda, uma fratura do discurso lógico. Aí, nesse momento, a iluminação acontece. Abre-se um terceiro olho que estava fechado. Acontece o satori: o discípulo fica iluminado... Isso que estou dizendo os poetas sempre souberam. Poemas são koans, violências à lógica da linguagem para que o leitor veja um mundo que nunca havia visto. É por isso que a experiência poética é sempre

15•PENSAMENTO ♦ Koan

um evento místico, de euforia. Não resisto à tentação de transcrever um trecho do poema de Vinícius de Moraes, “O operário em construção”. Tenho medo desse poema porque choro todas as vezes que o leio. Ele começa descrevendo a mesmice do mundo que o operário via no seu cotidiano, os pensamentos que ele pensava, as palavras que ele falava. Mas, de repente...


“A

psicanálise repete a mesma coisa: a verdade aparece inesperadamente quando acontece o lapsus, a queda, uma fratura do

discurso lógico

Koan •PENSAMENTO •16


03. CULTURA

DESASSOSSEGO Fernando Pessoa

Nunca durmo: vivoe sonho, ou antes, sonho

em vida e a dormir, que também é vida. Não há interrupção em minha consciência:sinto o que me cerca e não durmo ainda, ou se não durmo bem; entro logo a sonhar desde que deveras durmo. Assim, o que sou é um perpétuo desenrolamento de imagens, conexas ou desconexas, fingindo sempre de exteriores, umas postas entre os homens e a luz, se estou desperto, outras postas entre os fantasmas e a sem luz que se vê, se estou dormindo. Verdadeiramente, não sei como distinguir uma coisa da outra, nem ouso afirmar se não durmo quando estou desperto, se não estou a despertar quando durmo. A vida é um novelo que alguém emaranhou. Há um sentido nela, se estiver desenrolada e posta ao comprido, ou enrolada bem. Mas, tal como está, se estiver enrolada é um problema sem novelo próprio, um embrulhar-se sem onde. Sinto isso, e depois escreverei, pois que já vou sonhando as frases a dizer, quando, através da noite de meio-dormir, sinto, junto com as paisagens de sonhos vagos, o ruído da chuva lá fora, a tornarmos mais vagos ainda. Era sem dúvida, nas alamedas do parque que se passou a tragédia de que resultou a vida. Eram dois e belos e desejavam ser outra coisa; o amor tardava-lhes no tédio do futuro. Não sei o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se tem alguma.

17•CULTURA ♦ Desassossego


A sensação dele. A dos sonhos é errada; nele roçamos o tempo, umna vez prolongadamente, outra vez depressa, e o que vivemos é apressado ou lento conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro. Julgo, às vezes, que tudo é falso, e que o tempo não é mais do que uma moldura para enquadrar o que lhe é estranho. Na recordação que tenho de minha vida, os tempos estão dispostos em níveis e planos absurdos, sendo eu mais jovem em certo episódio dos quinze anos solenes. Chegam-me então, pensamentos absurdos, que não consigo todavia repelir. Penso se um homem medita devagar dentro de um carro que segue depressa, penso se serão iguais as velocidades identicas com que caem no mar o suicida ou o que se desiquilibrou na esplanada. Penso se realmente não são sincrônicos os movimentos, que ocupam o mesmo tempo, entre os quais fumo, escrevo e penso obscuramente.

Desassossego CULTURA •18


03. CULTURA

O LIVRO DAS IGNORÃÇAS Manoel de Barros

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis: Elas desejam ser olhadas de azul – Que nem uma criança que você olha de ave. Poesia é voar fora da asa.

19•PENSAMENTO ♦ O livro das Ignoranças


Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no mês de agosto. Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca. Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz. Hoje eu desenho o cheiro das árvores. Não tem altura o silêncio das pedras.

No descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo. O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos. A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som. Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira. E pois. Em poesia que é voz de poeta, que é voz de fazer nascimentos – O verbo tem que pegar delírio. Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.

O livro das ignoranças •PENSAMENTO •20


04. GALERIA

MONOLAB

Monolab, como também é conhecido Gerald Reisinger nos guia por uma caminho surrealista e surpreendente.

21•GALERIA ♦ Gerald Reisinger


O livro das Gerald ignoranças Reisinger •PENSAMENTO ♦•GALERIA •22 •18


23•GALERIA ♦ Gerald Reisinger


Gerald Reisinger ♦•GALERIA 24


25•GALERIA ♦ Gerald Reisinger


Gerald Reisinger ♦•GALERIA •26


04. GALERIA

Eduardo Recife

27•GALERIA ♦ Eduardo Recife


Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no mês de agosto. Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca. Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz. Hoje eu desenho o cheiro das árvores. Não tem altura o silêncio das pedras.

"Tipografia e tao forte porque e uma mistura edetaotanto "Tipografia forte"palavras" porque e

como "imagens".de Otanto que "palavras" pode ser uma mistura mais comopoderoso "imagens".queO isso que quando pode ser queremos comunicar alguma coisa?" mais poderoso que isso quando queremos comunicar alguma coisa?"

Eduardo Recife é um ilustrador e designer gráfico especializado em Tipografia. Fontes feitas marcadas por Eduardo Recifeà é mão um ilustrador e designer uma aparência forte em e Tipografia. impactante, gráfico especializado frequentemente construídas com Fontes feitas à mão marcadas por uma muitos ruídos e aspecto antigo. aparência forte e impactante, frequent-

emente construídas com muitos ruídos e Noaspecto seu antigo. site www.misprintedtype. com possível encontrar tanto fontes é Noéseu site www.misprintedtype.com gratuítas e pagas. o próprio possível encontrarSegundo tanto fontes gratuítas o enome do site “MisprintedType” pagas. Segundo o próprio o nome do significa “tipo mal impresso, com site “MisprintedType” significaou “tipo mal erros de impressão”, justificado por impresso, ou com erros de impressão”, seu estilo depor produção. justificado seu estilo de produção. Uma dentre porele eleé a Uma dentreasasfontes fontes criadas criadas por é a“Misproject” “Misproject” que é usada no título que é usada no título dessa dessa galeria. galeria.

O trabalho em tipografia manual é mais Oum trabalho em tipografia manual é mais divertimento, um projeto pessoal. Seus umtrabalhos divertimento, um projeto pessoal. para clientes são normalmente Seus trabalhos para de clientes são e ilustrações para capas álbuns/livros material publicitário.

Eduardo acredita que o estilo gráfico normalmente para capas clássico, ou ilustrações vintage é dotado de de uma álbuns/livros e material publicitário. beleza e uma dinâmica não mais en-

contrada no que é produzido nos dias Eduardo que estilo pequeno gráfico de hoje.acredita Diz ainda queo desde clássico, é dotado deusados, uma gostou ou de vintage antiguidades e itens beleza e uma dinâmica não mais a aparência antiga e desgastada dá uma encontrada no ter quesido é produzido nos dias sensação de tocada pelas mãos dedohoje. Diz ainda que desde pequeno tempo e pelo artista. gostou de vintage, antiguidades e itens usados, Além do sua arte também é mara aparência antiga e desgastada dá uma cada pela interferência e pelo inusitado. sensação de ter sido tocada pelas mãos As linhas retas e precisas da arte digital doo tempo e pelo artista.que são artes frias entediam, acredita e mecânicas. Além do parte vintage, sua trabalhos arte também A maior de seus digitais é são marcada pela interferência e pelo é produzidos à mão, o computador inusitado. As linhas retas e precisas apenas algo a ajudar na composiçãodada arte digital entediam, acredita que são arte e nãooum meio para escravizá-lo. artes frias e mecânicas. A maior parte de seus trabalhos digitais são produzidos à mão, o computador é apenas algo a ajudar na composição da arte e não um meio para escravizá-lo.

Eduardo Recife ♦•GALERIA ♦•GALERIA •28 •14 Gerald Reisinger Gerald Reisinger


29•GALERIA ♦ Eduardo Recife


Eduardo Recife ♦•GALERIA •30


31•GALERIA ♦ Eduardo Recife


Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no mês de agosto. Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca. Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato sair na voz. Hoje eu desenho o cheiro das árvores. Não tem altura o silêncio das pedras.

Eduardo Recife ♦•GALERIA •32


sinapse

Sinapse  

Revista produzida para a disciplina de Design Editorial ministrada pela professora Rita Solieri. UFPR/2013

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