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Edição 1 - Ano 1 - Revista Coolt - Universidade Anhembi Morumbi

Ruas pulsantes Um  ano  depois,  o  balanço   das  manifestações  de   Junho  de  2013  e  as  suas   consequências  para  a   política  brasileira    pág.  22

Trote solidário

Uma alternativa contra a violência no ambiente acadêmico pág. 20

Volta ao mundo

As histórias de três casais que abandonaram tudo para buscar aventuras pág. 43

Revistas de moda O futuro dos veículos independentes deste segmento pág. 52


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Editorial

Pensar o  novo

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esta primeira edição da Revista Coolt, você irá abrir seus olhos para a nova geração de universitários que buscam se informar mais e descobrir novos assuntos que interferem na vida social de cada um. Nossa intenção é entreter, informar e envolver os leitores nesta nova era, que parece estar cada vez mais perto. Esta publicação quer pensar o novo, e mostrar que a informação deve chegar a todos. Abrir essa porta para os universitários é chegar ao ponto em que eles estão e, a partir daí, aliar-se a eles nesta jornada. A fase da universidade é um momento inédito - amizades diferentes se formam, experiências são trocadas e, por tudo isso, os pensamentos se atualizam. Ao entrar na faculdade tudo se modifica, e é neste instante em que se nota como as coisas eram mais fáceis antes. Agora é preciso amadurecer e ter acesso a informações para formar a sua própria opinião. Tudo é mais acessível, afinal. Não há mais desculpas. E a Coolt surge para preencher essa lacuna. Uma revista com inovações, onde o jovem pode encontrar de tudo e interagir. Pensar o novo é isso.

Junho de 2014

Os temas abordados nesta estreia são de total relevância para quem quer conhecer a fundo assuntos ainda não explorados como deveriam. Qual é a leitura histórica que pode ser feita das manifestações de 2013? Que alternativa é essa que surge para substituir os trotes violentos nas universidades? Como é arrumar as malas e partir em uma viagem inesquecível mundo afora? Por que o ‘boom’ nas revistas especializadas em moda, e qual é o futuro desta vertente no nosso país? Como funciona o trabalho de um produtor musical, que precisa administrar egos e saber de tudo um pouco para ter sucesso? Essas e muitas outras questões são respondidas, e você ainda terá o seu mundo aberto com ensaios fotográficos, estilos de vida, novas profissões, o lado cultural da Copa do Mundo, saúde e bem-estar. Nas próximas páginas, você encontrará toda a dedicação de uma equipe unida que pensou na própria geração e em tudo o que ela gostaria de entender. Boa leitura!

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Sumário

Gustavo Basso/UOL

Ruas pulsantes, um balanço das manifestações de Junho de 2013

Duas semanas de rebelião urbana que mudarão a história da política brasileira? A mais rápida, expressiva e surpreendente vitória popular de que se tem notícia em nosso país? Um ano após as manifestações de Junho, a Revista Coolt debruçou-se sobre o fenômeno que pautou a sociedade brasileira em 2013, diagnosticou as suas causas e projetou os seus efeitos. Página 22

O lado cultural da Copa do Mundo 8 MMA para mulheres 10 Zumba nas academias 12 Infarto em jovens 13 Emagrecer com saúde 14 Profissões no Jornalismo 16 Rua Augusta e suas tribos 18

Trote solidário Aos poucos, a violência nas universidades vem perdendo espaço. Como alternativas a essa prática, projetos sociais e doações de sangue já estão criando um novo conceito para o termo “trote”.

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Produção musical 31 Cinema brasileiro 32 Turismo no Nordeste 34

Expediente Professora responsável: Cleofe Monteiro de Sequeira Planejamento gráfico: Prof. Luiz Vicente Lázaro

Ensaio fotográfico de viagens 38

Diretores de publicidade: Profs. Leandro Ferretti e Patricia Passos

Volta ao mundo de carro

Editor-chefe: Gustavo Carratte Editor-asssistente: Cainã Ito

Três histórias de casais que largaram a vida na cidade para ir atrás de uma paixão em comum: viajar. Eles percorreram milhares de quilômetros nos cinco continentes da Terra a bordo de um carro, explorando culturas diferentes e fazendo muitas amizades pelo caminho.

Diagramação: Gustavo Carratte Editorialista: Maria Carolina Mendonça

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Itaipu, um polo turístico 46

Repórteres: Ana Carolina Haraki, Cainã Ito, Carolina Gabbi, Charles Toledo, Gustavo Carratte, Isabela Rios, Manuela Almeida, Maria Carolina Mendonça, Marjorie Prolla, Mayara Bueno e Stephanie Van Sebroeck Colaboração: Fabio Silvestre Cardoso

Furacão Gisele 50 Street style 51

Projetos publicitários: Douglas Silva, Henrique Jum, Juan Alves, Rafael Villaça, Ana Torres e Ingrid Oliveira

Revistas de moda independentes Devido ao crescimento do número de revistas de moda independentes no mundo, uma reflexão sobre o futuro deste nicho no Brasil. Docente de Design e Negócios da Moda na Universidade Anhembi Morumbi, Mariana Rachel Roncoletta explica o fenômeno jornalístico e o motivo pelo qual o segmento ainda é pouco explorado em território nacional. Página 52

450 anos de Shakespeare 54 “Café amargo” 55

www.anhembi.br Telefone: (11) 4007-1192 para regiões metropolitanas, e 0800 015 9020 para as demais localidades. Atendimento de segunda a sexta-feira, das 8h às 21h, e aos sábados, das 8h às 15h Rua Casa do Ator, 246 - Vila Olímpia São Paulo - SP - CEP: 04546-001


Esportes

O lado  cultural  da Com exposições temáticas e históricas, o Museu do Futebol e o Centro POR CHARLES TOLEDO

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urante a Copa do Mundo de 2014, o Brasil receberá uma imensa gama de turistas. A estimativa é que só a capital paulista receba cerca de 300 mil estrangeiros, e de que o faturamento seja em torno de R$ 1 bilhão entre junho e julho. Pensando nisso, o Museu do Futebol, localizado no tradicional Estádio do Pacaembu, abriga desde o dia 13 de maio as exposições temáticas chamadas “Copas do Mundo de A a Z” e “Brasil de 20 Copas”, além do Segundo Simpósio Internacional de Estudo sobre o Futebol. A exposição “Copas do Mundo de A a Z” usa as 26 letras do alfabeto para recontar as histórias das Copas de uma forma divertida e inusitada, misturando linguagens variadas e aspectos geo-

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políticos que fazem parte dos torneios mundiais. A exposição, por exemplo, começa com a letra “A” de África do Sul, curiosamente o último país a sediar uma Copa do Mundo. Já na letra “I”, de Jardim Irene, é feita uma homenagem a Cafú, capitão da Seleção Brasileira no pentacampeonato de 2002. A exposição “Brasil de 20 Copas” retrata os bastidores dos mundiais com foco em tentar explicar por que o Brasil é o maior campeão de todos os tempos. Para o turista, a interatividade joga junto, fazendo com que ele se aproxime e aprenda um pouco mais sobre a história do futebol brasileiro que se confunde com as Copas do Mundo. “Estamos buscando alternativas para que continuemos a ser um dos museus mais visitados”, afirma Luiz Bloch, diretor do Museu do Futebol.

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a Copa  do  Mundo Cultural de São Paulo preparam programações especiais para turistas Já o Segundo Simpósio Internacional de Estudo sobre o Futebol contará até com um auditório para que os especialistas debatam em várias línguas o assunto. “Esse evento é uma reunião de pesquisadores brasileiros e estrangeiros da área de ciências humanas que vão abordar o futebol sobre os mais diversos aspectos”, diz Flávio Campos, organizador do simpósio. O museu funcionará até 22h de terça a domingo, o que significa quatro horas a mais do que o habitual. Aos sábados e às quintas-feiras, a entrada é gratuita. AS DONAS DA BOLA Com uma programação voltada especialmente para o período da Copa do Mundo, o Centro Cultural de São Paulo, localizado nas imediações do Metrô Vergueiro,

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apresenta uma exposição que reúne experientes fotógrafas do jornalismo. A exposição, batizada de “As donas da bola”, retrata o universo feminino na cultura do futebol. Essa iniciativa pretende ampliar a percepção e a consciência social sobre a importância da mulher neste esporte através de onze importantes fotógrafas - Ana Araújo, Ana Carolina Fernandes, Bel Pedrosa, Eliária Andrade, Evelyn Ruman, Luciana Whitaker, Luludi Melo, Marcia Zoet, Marlene Bergamo, Mônica Zarattini e Nair Benedicto. A exposição ficará aberta até 13 de julho, dia da final da Copa, de terça a sexta-feira, das 10h às 20h, e aos sábado e domingos, das 10h às 18h. A entrada é franca. Com as exposições que irão ocorrer ao longo da Copa do Mundo no Brasil, não há a possibilidade de o turista sair daqui sem saber por que o Brasil é o favorito para ganhar mais essa Copa. •

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Esportes

O octógono  

O esporte atingiu em cheio o público feminino e se transformou em u POR MARJORIE PROLLA

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MMA (mixed martial arts ou artes marciais mistas) é procurado hoje em dia como alternativa de atividade física entre as mulheres, mas há poucos anos essa era uma prática fundamentalmente do sexo masculino. Sem nenhum preconceito, mulheres de várias partes do mundo, inclusive do Brasil, estão lotando as aulas em busca de mais preparo físico e queima de calorias. Com lutas televisionadas e grandes lutadores brasileiros entre os principais atletas, é inegável que o esporte virou febre no país do futebol. “Em uma hora de aula dá para gastar de 600 a 1.000 calorias, dependendo do nível de intensidade que cada praticante impõe no seu ritmo e na carga dos exercício”, conta o professor Henrique Hamoy. De acordo com ele, são gastas por hora de treino até 2 mil calorias. Outra vantagem é que o MMA combina diversos tipos de lutas e mobiliza o corpo todo, definindo a musculatura. Os praticantes utilizavam cordas enroladas nas mãos e, com o tempo, substituíram-nas por luvas. Esta arte marcial usa um combinado de punhos, cotovelos, joelhos, canelas e pés. O professor Hamoy avisa que o treinamento de MMA para mulheres é puxado e requer muita força e resistência da aluna. “Converso com cada aluna nova para saber o que ela busca com a aula e, assim, conseguir passar os exercícios que melhor atendam ao objetivo dela”, diz. Por agrupar tantas práticas, o MMA inclui movimentos no chão, chutes no ar, derrubada do adversário, trabalho de

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equilíbrio e isometria (segurar o adversário no chão), o que promove diversos benefícios ao corpo. Os resultados serão fortalecimento, agilidade, equilíbrio, flexibilidade e gordurinhas exterminadas. E, além de fortalecer músculos e modelar seu corpo, a prática de luta fortalece outro ponto: a autoconfiança. O resultado é animador: um estudo da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, revelou que exercícios intensos, que trabalham ao máximo o aproveitamento de oxigênio pelo organismo, prolongam a queima de energia até 14 horas depois que você parou de malhar. Um dos pontos interessantes do MMA é que você não vai ganhar braços grandes demais ou ficar com o corpo masculino se começar a lutar. “Esse tipo de treino não faz os músculos bombarem. O exercício, além de ser ótimo para secar gordura, define o corpo sem aumentar a massa muscular. Neles, o foco não é hipertrofia”, reforça Hamoy. Combinando mais de uma modalidade de aula, você consegue tonificar a musculatura do corpo inteiro por igual. A barriga retinha e definida de quem pratica alguma modalidade de luta é resultado da malhação pesada que essas aulas são para o core (a musculatura que inclui abdômen, glúteos e parte de baixo das costas), que é o centro de força do corpo. Em outras palavras, é ele que dá sustentação à coluna e garante que você resista em pé aos ataques do oponente durante o treino. De quebra, fortalecer esses músculos é fundamental para estabilizar as costas, acertar a postura e prevenir dores. No en-

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da vaidade

uma das atividades mais procuradas por quem quer queimar calorias tanto, quem já sofre de algum desconforto em alguma região das costas não deve sair lutando sem antes conversar com um médico e o professor da academia para saber a causa do incômodo. O motivo disso é que a agilidade e o impacto dos golpes podem acabar piorando a situação e tirando você do combate. “Todo tipo de luta e arte marcial é ótimo para eliminar a energia interna represada e recuperar o equilíbrio e a calma”, fala a psicóloga do esporte Rita de Cássia. Ou seja, passar alguns minutos socando um saco de areia é tiro e queda para mandar embora a raiva, a irritação e o nervosismo. Um estudo publicado na revista científica americana Psychology Today comprovou: pessoas que praticam artes marciais com frequência têm níveis mais baixos de stress e mais altos de autoestima e inteligência para enfrentar situações difíceis do dia a dia. Para uma lutadora, o treino mental é tão importante quanto o condicionamento físico e a força. Controlar as emoções e os pensamentos negativos durante o combate é o segredo para a vitória (ou, pelo menos, para não ir ao chão). “Na aula, é preciso ter foco no adversário e atenção para coordenar os golpes e evitar lesões”, explica Livia Luzano, de 21 anos, aluna de uma academia de São Paulo. Um estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) concluiu que a prática de artes marciais contribui para melhorar o nível de concentração em crianças e jovens com transtorno de déficit de atenção, de modo que os prejuízos na vida adulta sejam menores. •

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Bate-papo com o especialista* Quem nunca praticou nenhum outro tipo de luta pode treinar MMA? Sim, e isso pode até ajudar, pois começará a treinar sem "vícios” pré-adquiridos. O MMA, por ser um esporte de contato total, é diferente de Boxe, Muay Thai, Jiu-jítsu, Luta Livre, Caratê e outras lutas. Apesar de empregar golpes dessas e outras modalidades, não se limita a nenhuma delas e abrange todas as fases de um combate, desde a trocação com socos e chutes, clinches, arremessos e quedas até a luta de solo com técnicas de finalização. Qual é a diferença das aulas do sexo feminino para o masculino? Em algumas academias, as mulheres chegam até a treinar junto com os homens. Não existe diferença entre as aulas, o que muda é a intensidade. Existe algum outro benefício com a prática do MMA, além de fortalecer músculos e modelar o corpo? Ele desenvolve a autoconfiança e também a coordenação motora, podendo ser trabalhado, inclusive, como defesa pessoal. * Henrique Hamoy, 28, é professor de MMA há oito anos - para mulheres, há seis.

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Saúde

A  nova  febre       nas  academias A prática de Zumba vem inovando a maneira de se exercitar com mistura de ritmos, muita energia e passos fáceis de serem acompanhados POR ANA CAROLINA HARAKI

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uando o assunto é academia, nem todos gostam - alguns até consideram uma tarefa desagradável. Mas e se a academia fosse um lugar de festa e diversão? Até parece um pouco difícil de imaginar, mas é essa a proposta da Zumba. Uma aula de dança com ginástica, que utiliza ritmos latinos e internacionais em coreografias dinâmicas e fáceis. Alberto Perez, de 44 anos, é o precursor dessa modalidade. Natural de Cali, na Colômbia, Beto, como é mais conhecido, iniciou a sua carreira na dança ainda jovem, fazendo coreografias para artistas locais e dançando em clubes de salsa. O seu interesse por ginástica fez com que se tornasse um instrutor certificado. Certo dia, ao chegar a uma de suas aulas, percebeu que havia esquecido sua fita com músicas de ginástica. Como não podia dispensar seus alunos, resolveu aproveitar músicas latinas que tinha em sua mochila e improvisar uma aula diferente. Ali nascia a Zumba, que em 2001 se consolidou como uma marca global de estilo de vida. O seu programa de exercícios foi criado para fazer com que as aulas de ginástica em grupo se tornassem mais atraentes e divertidas. Para isso, utiliza músicas com muita energia e mexe com o corpo todo, fazendo com que as pessoas nem percebam que estão se exercitando. Beto Perez não imaginava que a Zumba se tornaria um fenômeno mundial tão rapidamente. Em 2007, já contava com 10 mil instrutores e estava espalhada em mais de 30 países. Até hoje,

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a quantidade de academias que resolveu incluir a modalidade em sua grade horária é imensa. Para dar aula de Zumba, é necessário ter formação em Educação Física e concluir o curso Básico 1, onde se aprende os ritmos de salsa, merengue, cúmbia e reggaeton. Caso o instrutor queira aumentar a sua especialização, pode fazer o curso Básico 2, com outros cinco ritmos. Há, ainda, o Zumba Gold, voltado para pessoas idosas; o Aqua Zumba, que utiliza a hidroginástica; e mais de dez formas de licenciamento. A instrutora Cristiani Aparecida Lisboa Lopes, de 40 anos, descobriu a sua paixão por salsa e merengue ainda na faculdade. Quando a Zumba veio para o Brasil, resolveu experimentar incluí-la em sua academia, localizada em Iguape, no litoral de São Paulo. Logo na primeira aula, percebeu que as pessoas começaram a ficar felizes de estar ali, e não iam mais para a academia apenas por obrigação. Desde então, as aulas estão sempre cheias. “Com a modalidade, é possível trabalhar a parte neurológica da pessoa, já que a dança faz com que haja um ajuste cerebral, melhorando a direção, lateralidade, ritmo e agilidade. Quem a pratica, também ganha mais resistência, pois uma aula equivale à aproximadamente uma hora de corrida e pode queimar até mil calorias”, explica. Entre as diversificações desta prática, há a Zumba Step, voltada para o fortalecimento das pernas e glúteos, utilizando movimentos no step; a Zumba Sentao, que conta com o auxílio de uma cadeira para definir os músculos e fortalecer a região central; e até a Zumba Kids, com aula para as crianças. •

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Corações em  risco Infarto em jovens está cada vez mais frequente. Na última década, o número de casos em SP dobrou POR MAYARA BUENO

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infarto agudo do miocárdio (IAM), doença cardiovascular que ocorre em pessoas com mais de 40 anos, está cada vez mais atingindo os jovens. Segundo o cardiologista, professor e doutor Carlos Alberto Pastore, a doença se dá pela obstrução das artérias coronárias que irrigam o coração. E explica: a adesão de um trombo ou coágulo sobre uma placa de gordura ou o espasmo da artéria coronária são as causas da interrupção do fluxo sanguíneo. Atualmente, o aumento do consumo de drogas, associado ao grande número de fumantes e obesos, causou avanço significativo nos óbitos por infarto agudo do miocárdio. “Além dessas causas, o estresse é o fator que mais acelera o processo de obstrução das artérias por gordura (ateroesclerose)”, diz o cardiologista. Os jovens estressados, fumantes, sedentários e com peso acima do ideal, na faixa etária entre 20 e 40 anos, estão sofrendo mais infartos do miocárdio. Na cidade de São Paulo, por exemplo, eles representam, em média, 12% dos casos - essa incidência há dez anos não passava de 6%. “Alguns estudos revelam que 92% dos jovens que sofrem infarto são tabagistas. Cerca de 40% deles possuem familiares em primeiro grau com aterosclerose precoce e 65% apresentaram distúrbios da glicose”, afirma o cardiologista Rui Ramos. “O jovem acha que é imortal e, quando percebe o dano que causou à própria vida, muitas vezes é tarde demais. Temos que ser duros e realistas na conversa com eles e colocar que o tabaco e as drogas ilícitas causam inúmeros problemas, inclusive a disfunção erétil”, completa. A juventude deveria ficar atenta e se prevenir mais contra as doenças cardiovasculares e seus riscos, mas muitas vezes os jovens deixam de se cuidar. Desta maneira, nem imaginam que correm

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grandes riscos de sofrer um infarto precocemente. Fumam, são sedentários, têm má alimentação, com uma dieta rica em gordura e nada saudável. Poucos procuram um médico e fazem exames de rotina com frequência para poder reduzir os riscos, mesmo tendo predisposição genética, como no caso do estudante Vinicius Oliveira, de 24 anos. Sua mãe possui problemas de coração, mas mesmo assim ele começou a fumar bem cedo, aos 15 anos. Nunca procurou um médico ou fez um exame para saber se também tem chances de ter um infarto influenciado por fatores genéticos. “Comecei a fumar muito cedo e não tinha noção dos riscos que minha saúde estava e está correndo”, lamenta. “Há 3 anos faço academia e musculação, gosto também de caminhar, mas quando ando muito sinto bastante falta de ar. Isso acontece, também, quando subo escadas. Eu sei que é por causa do cigarro. Muitas vezes já tentei parar, mas ainda não consegui. Esse ano vou tentar de novo”, encoraja-se. Os sinais e sintomas de infarto agudo do miocárdio podem ser dor do lado esquerdo do peito (dor no coração em forma de aperto, pontada ou peso, que pode irradiar para o pescoço, axila, costas, braço esquerdo ou até mesmo braço direito), dor nas costas, mal estar, enjoo, tontura, palidez, dificuldade para respirar, dor de estômago, suor frio, tosse seca, respiração curta, rápida ou barulhenta. A dor de infarto geralmente dura cerca de 20 minutos ou mais, e pode ser muito intensa. Diante dessa situação, é necessário chamar imediatamente o serviço médico de emergência, manter a vítima deitada com as roupas afrouxadas e transmitir calma a ela. Alimentar-se corretamente, parar de fumar e de usar substâncias prejudiciais, praticar atividades físicas e ir ao médico regularmente para fazer exames de rotina são algumas das mudanças nos hábitos diários que podem minizar os riscos de infarto, melhorando, inclusive, a sua qualidade de vida. •

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Saúde

A melhor  opção  para  

A dieta dissociada é o processo que realmente funciona quan POR MARJORIE PROLLA

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á pensou quantas propostas para perder peso existem? Dieta dos pontos, Vegetariana, Mediterrânea, Sopa, Dieta funcional, Dukan, Detox... São tantos os nomes que é difícil saber qual realmente funciona. A Dieta Dissociada, essa dieta com o nome diferente, é o segredo das famosas e promete até 10% da redução do peso atual por mês com uma única regra: nunca misturar carboidratos e proteínas. A dieta dissociada só funciona se não houver a mistura de carboidratos e proteínas na mesma refeição. “A única restrição de para quem escolhe esse método alimentar é não consumir, por exemplo, grãos, tubérculos e farináceos junto com

carnes, ovos ou derivados do leite. Isso porque a combinação desses macronutrientes gera uma substância que estimula o organismo a estocar gordura”, explica a endocrinologista Marcia Silva. O ideal, diz a especialista, é que você deixe os carboidratos para o almoço e as proteínas para o jantar. À noite, o gasto energético é menor, por isso boa parte das massas ingeridas não é queimada. “O bom seria que o cardápio dissociado fosse seguido por até três meses, mas nada impede que se estenda o prazo, já que ele é balanceado e fornece 1.500 calorias por dia”, diz Marcia, que ainda indica uma dieta líquida uma vez por semana para potencializar o emagrecimento. De acordo com a nutricionista funcional

Arquivo pessoal

Ana Carolina Heck, de 32 anos, é uma das mulheres que descobriram a eficácia da dieta dissociada

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emagrecer com  saúde Louise Comerlatti, a mistura de proteínas e carboidratos na mesma refeição pode causar efeitos desagradáveis, como sensações de mal-estar e cansaço, falta de energia e metabolismo lento. “A dieta dissociada prega que essa combinação não seja feita, pois pode ser maléfica para o organismo, devido à fermentação que estimula a liberação de toxinas nocivas para o corpo e faz com que o aparelho digestivo fique sobrecarregado”, avisa. Essa dieta é indicada para todos os tipos de metabolismo por não fazer restrição a qualquer tipo de nutriente necessário ao organismo, o que faz a pessoa segui-la pelo resto da vida. Nenhum alimento está proibido. A restrição está na combinação. Os alimentos são apenas separados, mas tudo o que o corpo precisa é consumido ao longo do dia. Também não é contraindicada para crianças, gestantes, nem idosos. Essa é a dieta mais saudável, porque ajuda quem precisa perder peso sem provocar danos à saúde por causa do desequilíbrio nutricional – fica o alerta, no entanto, para que, antes de tudo, a pessoa vá ao nutricionista, para que ele faça uma avaliação. A grande desvantagem desta alternativa reside na dificuldade de seguir fielmente a essa separação de nutrientes, pois isso vai contra os nossos hábitos. De todo modo, é possível se adequar. “O que mais gosto na dieta dissociada é a praticidade e facilidade de associar as comidas, além de ser uma dieta que trabalha com hábitos alimentares, transforma completamente os costumes e não tem enfoque apenas na perda de peso. Não foi fácil, tive que me submeter a algumas mudanças complicadas como ter de aprender a parar de comer arroz, feijão e bife, por exemplo. Mas valeu muito a pena. Em 35 dias, fui dos 75kg para os 60”, conta Ana Carolina Heck, de 32 anos. Não há comprovação científica para a alegação de que o consumo destes alimentos separados comprometa a saciedade - afinal, ao mesmo tempo ou não, o que importa são eles no estômago. •

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Arquivo pessoal

ndo o objetivo é perder peso sem deixar de comer o que gosta

“Em 35 dias, fui dos 75kg para os 60”, diz Ana

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Comportamento

Nova  era        jornalística A busca por alternativas de estudantes que querem um lugar no mercado de trabalho POR MARIA CAROLINA MENDONÇA

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á não é novidade para os universitários que a profissão de jornalista passou por momentos de altos e baixos. Desde a introdução das novas tecnologias no Jornalismo muita coisa mudou e os teóricos ainda estão pesquisando para saber como ficará o futuro do impresso com a convergência das mídias. Com o novo panorama profissional, a tendência é a abertura de novos mercados para os jovens universitários, como blogs e mídias sociais. Mas, além de uma formação consistente, é preciso muita criatividade para ter sucesso nesta área tão competitiva e inovadora, onde “os sapos de fora estão loucos para chiar”. Um exemplo de criatividade é o fotojornalista Lucas Baptista, de 24 anos, que se apaixonou logo cedo pela fotografia e decidiu direcionar a sua paixão ao setor esportivo. Hoje, trabalhando na Agência Estado de S. Paulo, tem suas fotos divulgadas no mundo todo. Lucas acredita que todo jovem estudante quer entrar no mercado o quanto antes. “Percebo isso no ambiente em que convivo: recém-formados e estagiários estão dominando o mercado no jornalismo esportivo e nos portais de notícias. E as empresas de Comunicação estão apostando nessa juventude apaixonada pelo esporte e bastante competente. No meu setor, mais da metade dos jornalistas que dominam a área têm menos de 25 anos. O mais importante é que trabalham ao lado de profissionais com mais de 30 anos de experiência. Isso é ótimo, pois há uma troca muito positiva para todos”, analisa. Para Lucas, essa área profissional ainda tem muito a crescer. O trabalho de fotojornalista não tem o melhor salário, mas está em crescimento. O que importa, diz ele, é essa paixão, fazer o que gosta. “Tenho muita sede de aprender e busco fazer algo novo no meu trabalho, algo que às vezes não é compreendido pelo mercado. Faço o ‘arroz com feijão’ que o mercado exige, mas reservo um tempinho também para ousar, com fotos mais criativas para me diferenciar no meio de tanta gente na profissão”, diz o fotojornalista.

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Outro grande exemplo de jovem jornalista que buscou um caminho diferente e tirou proveito da profissão para falar sobre aquilo que ama é Manuela Carvalho, conhecida como Manu do Blog Vitrine. A oportunidade surgiu na Jovem Pan, onde percebeu que se dava bem comentando sobre moda e beleza. A partir daí, passou a escrever sobre o assunto, participando de eventos e gravando vídeos. Sempre muito comunicativa, Manuela encontrou no Jornalismo uma maneira de se expressar por meio de um blog e de interagir com seus leitores. “Na moda você mexe com muito glamour, mas também inveja. Trabalha com pessoas que te deixam lá pra cima e outras que te menosprezam”, pondera Manuela. Ela ainda acredita que é preciso ter uma formação para falar com mais propriedade sobre o assunto. Por isso, dedica parte de seu tempo a cursos especializados. “No ano passado, fiquei três meses em Londres para estudar História da Moda, e também me tornei maquiadora”, recorda. A credibilidade é um ponto chave na vida dos jornalistas, e Manu acredita já ter alcançado isso, já que no meio digital qualquer um pode criar um blog e escrever sobre o que quiser. “Acho que, por ser formada, tenho mais credibilidade junto às minhas leitoras. Mas, apesar disso, por mais engraçado que isso possa ser, muita gente ainda me vê apenas como blogueira”. Apesar de ser novidade para os brasileiros, a moda abordada nos blogs é referência para muitas mulheres que se guiam pelas dicas das autoras. Não pode-se esquecer, ainda, que o setor gera divisas para o Brasil e é a base de muita indústria média, que dão empregos na criação de roupas e acessórios. A busca por se vestir bem é antiga e cresce cada vez mais. A dica da Manuela para quem está começando é ter muita “cara de pau” e dedicação, pois a concorrência é muito grande. •

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Comportamento

Rua Augusta  

Pode ser rock, funk ou samba: a rua mais badalada de Sã POR ANA CAROLINA HARAKI

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e você está à procura de um barzinho ou uma balada diferente para ir no final de semana, então o lugar certo está na Augusta. A rua é uma das mais famosas da cidade de São Paulo, começa no Centro e termina no bairro dos Jardins, cruzando a Av. Paulista. A partir da década de 1960, começou a se tornar um lugar sinônimo de diversão para os jovens. E, hoje, não há dúvidas sobre a sua grande popularidade. A Augusta é um dos pontos turísticos paulis-

tanos com a maior variedade de lugares e pessoas e, por isso, tornou-se palco de todas as tribos. Ao descer na estação de metrô Consolação, pode-se perceber a energia da região: a banda está tocando, artistas de rua apresentam suas performances, hippies vendem artesanatos e a galera jovem se concentra em frente ao Banco Safra. Ali perto, descendo pela Augusta, está o Ibotirama no número 1236, um bar com cara de boteco, perfeito para o happy hour. Funciona todos os dias a partir das 18h até a meia noite, sempre com mesas cheias, e repleto do pessoal que vai após o trabalho

Ana Carolina  Haraki

Augusta de todas as tribos: a grande diversidade de estilos cativa os jovens paulistanos desde a década de 60 18

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e suas  tribos  

ão Paulo conta com pessoas e ambientes de todos os estilos apreciar um de seus variados petiscos, acompanhado de uma cerveja nacional ou importada. A casa oferece refeições e pratos do dia, e entre os mais pedidos estão o Virado à Paulista, às segundas-feiras, e a Feijoada, às quartas e sábados. Mas se você quiser dançar talvez a opção seja a Sarajevo, que abre de quarta-feira a sábado. A casa é uma mistura de bar com balada e fica numa portinha no número 1385. Grafites e pinturas nas paredes ajudam a compor um estilo de decoração underground. Dentro, há vários ambientes, e cada dia da semana tem show ao vivo com um ritmo diferente. Entre eles, pode-se ouvir por lá samba, soul, rock, groove e funk. Na Augusta, estão sempre surgindo novos lugares e, quando menos se espera, há um diferente para ir. Uma das novas atrações é o restaurante Maoz Vegetarian, no número 1523. A rede é uma espécie de fast food saudável, originária do Oriente Médio, e abriu sua filial no começo deste ano. Ao contrário do que muita gente pensa sobre os altos preços dos restaurantes vegetarianos, o Maoz serve opções baratíssimas, chegando a até R$ 20. A especialidade da casa é o falafel, bolinho de grão-de-bico frito, que tanto pode ser combinado com salada, como pode vir num sanduíche de pão de pita ou integral acompanhado de vegetais. Outro lugar que abriu recentemente é a Blitz Haus, casa que reúne bar, balada e jogos no número 657. O local é uma sociedade entre o DJ Click, conhecido por ter comandado o Atari Club, e o empresário Humberto de Jesus. É uma das apostas para alegrar a noite dos frequentadores da Rua Augusta. Possui três ambientes: o principal, com restaurante servindo pizzas quadradas, hambúrgueres e porções; o inferior com a pista de dança, onde acontece a balada de quinta-feira com música pop, sexta-feira com rock e sábado eletrônico; e o superior, onde ficam as mesas de sinuca, pebolim, tênis de mesa e fliperama. O que Junho de 2014

mais impressiona na Blitz Haus é a decoração retrô com mesas com imagens de personagens dos desenhos animados e paredes com pôsteres vintage, além, é claro, das televisões antigas que transmitem desenhos como Pernalonga e Patolino. Até às 23h a entrada é VIP - após esse horário, os preços podem chegar a até R$ 80 com consumação. Para quem gosta de um bom rock, o lugar que mais agrada é o The Pub, no número 576. O bar está aberto desde 2011 sob o comando do inglês Philip Yates. É um lugar pequeno e escuro com decoração peculiar: placas de ruas, propagandas antigas e objetos ingleses, como a minicabine telefônica, que lembram bem um legítimo pub europeu. O local funciona todos os dias à noite, e o happy hour acontece das 18h às 20h de segunda a sexta. Uma das especialidades da casa é o pint de Guiness, mas ainda há cerca de 50 opções de cervejas nacionais ou importadas. Se você for ao The Pub, deve provar um dos seus petiscos. Entre os mais gostosos está a porção 3 Dips Chips, batatas caseiras fritas e acompanhadas de três molhos diferentes (os preferidos são o sour cream e o gravy). Há também a Onion Blossom, cebola frita, e a costela ao molho barbecue. Quase todos os dias, bandas tocam desde Beatles e Elvis a Arctic Monkeys e Strokes. Às quartas-feiras, acontece a Ladies Night, com promoções de drinks durante a noite toda. E, claro, dentro de um pub não podem faltar as grandes televisões transmitindo canais de esporte. Esses são apenas alguns dos lugares mais famosos da querida rua paulistana. De tempos em tempos uns fecham e dão vez a outros, mas a pluralidade de locais continuará sendo enorme. Pode ser um bar com uma boa banda de rock, bar de samba para quem gosta de dançar, boteco para ir com os amigos depois do trabalho, uma balada agitada ou um restaurante com comida gostosa para curtir com os amigos ou namorada(o). O certo é: a Augusta sempre terá um lugar que lhe agrade, seja qual for a sua tribo. • 19


Comportamento

O trotar  da  b

Como alternativa à violência, cada vez mais universidades têm tra Divulgação

Em trote solidário, calouros arrecadam produtos para serem doados para instituições em geral POR CAINÃ ITO

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aspar o cabelo de um novato, ser sujado por tinta e humilhado são características conhecidas como trote nos rituais de passagem das faculdades brasileiras. Uma tradição datada desde as épocas medievais em regiões europeias, e que se mantém até os dias de hoje. Uma cultura que o calouro é “obrigado” a aceitar ao adentrar à universidade, visando a sua inserção no âmbito social com os veteranos em uma nova fase da vida. Os métodos desta prática, no entanto, precisam ser questionados e revistos. “Os estudantes não percebem como esses ritos de entrosamento são uma forma de denotar superioridade, poder e discriminação do veterano”, analisa o professor

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e historiador Vinícius Amaral. “Em épocas medievais os veteranos detinham o poder, pois ser mais velho queria dizer ter maior experiência de vida”. O termo trote traduz a ideia de que o calouro precisa aprender a trotar com o estudante mais antigo, pois é este segundo que detém a sabedoria - assim sendo, nada mais resta ao primeiro senão obedecer aos seus ensinamentos. Mas esse cenário mudou. Atualmente, com mais acesso à informação, o jovem passou a tomar atitudes que não lhe eram características em outras épocas. Este novato ingressa na universidade dotado de conhecimentos múltiplos. Hoje, ambos podem trocar conhecimentos e valores. “Vivemos em uma tradição de baixa cultura tão engessada e enraizada nas faculdades que esses ques-

Coolt


baixa cultura

ansformado o trote tradicional em oportunidade para ações sociais “Conheci melhor a universidade e encontrei muita gente interessante”, diz Felipe Rocha, formado em Direito, que participou de um trote solidário que consistia na doação de sangue. Aos poucos, um novo cenário vem ganhando espaço. Muitos casos de trotes violentos foram encaminhados à Justiça. A forma de reverter essa situação negativa vem da sociedade e dos setores acadêmicos - faculdades e veteranos que, pela pressão, estão mudando o cenário com métodos alternativos. A mudança do trote tradicional para um novo, com fortes contornos solidários, transforma o modo como as pessoas recebem o calouro. Saem as cenas de violência, e entram as doações de sangue, visitas a creches, asilos e orfanatos, idas a museus, jogos educativos e modalidades esportivas. •

Divulgação

tionamentos não aparecem”, afirma o psicólogo Bruno Carvalho. “Enquanto o trote não for debatido nos âmbitos acadêmico e social, ele vai se perpetuar”, alerta. Para ele, grande parte dos calouros aceitam fazer parte dessa iniciação sem perceber os baixos valores ali implícitos, seja por uma linha de aceitação sociocultural ou pela pressão da família, que insiste que o jovem passe por tal ritual. Cleber de Azevedo, hoje estudante de Jornalismo, passou pelo trote no ano de 2009, quando ingressou em sua primeira graduação, a licenciatura em Letras. Ele não vivenciou qualquer constrangimento ou humilhação, mas acredita que as atividades envolvidas para arrecadação de verba para o consumo de bebidas seja uma forma de convencer e persuadir os jovens ingressantes a consumir álcool.

Doação de sangue é apenas uma das muitas alternativas que o trote solidário oferece para os universitários

Junho de 2014

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OL

Basso/U

Gustavo

Política


Ruas pulsantes Um balanço das manifestações populares que, um ano depois de acontecerem, ainda sacodem o Brasil e o seu sistema político POR GUSTAVO CARRATTE 

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á faz um ano que jovens foram às ruas e promoveram as maiores manifestações populares da história recente do Brasil. Denominadas as “Jornadas de Junho”, para muitas pessoas ainda hoje são imprecisas e confusas não as suas motivações, muito bem baseadas na pauta inicial do transporte público, mas os seus desdobramentos. Partidos políticos demoraram a entender o que se passava, a sociedade que inicialmente repudiou os protestos chegou a ser mais do que 80% simpática a eles, muitos dos manifestantes voltaram para as suas casas e, para protestar, de lá nunca mais saíram, e outros tantos ainda estão promovendo as suas ações de sempre, iniciadas muito antes

de Junho de 2013, em busca de uma cidade, um país, um mundo e uma vida melhor... Conscientes disso ou não, as consequências da gigantesca onda de protestos será sentida por cada um deles. E o rumo que elas irão tomar ainda não está sacramentado. “Duas semanas de rebelião urbana que mudarão a história da política brasileira? A mais rápida, expressiva e surpreendente vitória popular de que se tem notícia em nosso país?”, questiona o filósofo Paulo Eduardo Arantes, ao comentar o livro ‘Cidades rebeldes – Passe Livre e as manifestações que tomaram conta das ruas do Brasil’. Cada vez mais, a resposta para essas questões parece ser ‘sim’.


Política

Os primeiros sinais de adesão popular aos gritos contra o aumento da tarifa dos transportes públicos, estopim para todo o restante das mobilizações, deu-se ainda em março, em Porto Alegre. O Movimento Passe Livre, formado por jovens sem um líder específico, organizados de forma coletiva e com ideologias políticas de esquerda, existe desde 2005, e tem representantes em diversos estados. Na capital paulista, por exemplo, já havia promovido grandes lutas contra aumentos de passagens em novembro de 2006 (quando elas subiram de R$ 2,00 para R$ 2,30), em janeiro de 2010 (de R$ 2,30 para R$ 2,70) e em janeiro de 2011 24

(de R$ 2,70 para R$ 3,00). Nunca antes, porém, os atos haviam recebido apoio maciço da população em geral. Para esse acontecimento, apresentam-se como principais ao menos três fatores: a sensação de insatisfação geral com o sistema político, o aumento da visão negativa a respeito da Copa do Mundo deste ano e, a partir dos protestos do dia 13 de Junho, a inegavelmente excessiva repressão policial. Depois daquela quinta-feira, de maneira mais específica, foi impossível continuar resumindo em depredações isoladas de latas de lixo e de alguns patrimônios privados, cometidas Coolt


por ínfima minoria dos presentes, tudo o que se passava nas ruas. “Não tinha mais como a imprensa segurar a informação – também porque ela própria havia sido massacrada, com os incontáveis repórteres que foram oprimidos pela polícia, mas principalmente porque foi tudo evidente”, resumiu Mayara Vivian, uma das organizadoras do MPL, sigla do movimento. “Por mais que no jornal do dia seguinte fossem noticiados apenas os vândalos, as pessoas estavam assistindo a tudo. Olhavam pelas janelas de suas casas e viam policiais batendo em pessoas que não estavam fazendo nada de errado. Junho de 2014

Tentavam se concentrar no que faziam, mas não paravam de ouvir as bombas explodindo do lado de fora. Tinha até gente abrindo as portas de suas casas e de seus carros para que manifestantes pudessem entrar e se refugiar. As pessoas não precisavam mais ligar a TV para saber o que estava acontecendo”. Demorou-se, ainda, para haver pronunciamentos das maiores autoridades nacionais. Uma crítica que a presidente Dilma Rousseff (PT) recebeu, e não apenas de seus opositores políticos, foi a sua tardia aparição em rede nacional, realizada em 24 de Junho. Nela, foi divulgado o Pacto 25


Política Nacional, onde apareciam cinco tópicos que prometiam acelerar as mudanças tão necessárias para o país: educação, saúde, responsabilidade fiscal, reforma política e, claro, transporte público. Com a mudança repentina do posicionamento dos principais veículos de imprensa, a quantidade de presentes nos atos contra o aumento da tarifa se multiplicou de forma incontrolável – e, junto com a quantidade de pessoas, também a de reivindicações. No dia 17 de Junho, que pode ser visto como o ápice dos protestos, estima-se que, em todo o Brasil, mais de um milhão de pessoas foram às ruas. Em São Paulo, houve uma gigantesca concentração no Largo da Batata, localizado no bairro de Pinheiros. Quando começaram as caminhadas, foram ocupadas importantes vias paulistanas, como a Marginal Pinheiros e as avenidas Paulista, Faria Lima e Berrini. Algumas dezenas de manifestantes também tentaram invadir o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, no bairro do Morumbi. No Rio de Janeiro, considerado, para muitos especialistas, um grande símbolo dos protestos – e nas explicações entram não apenas a adesão popular em larga escala, mas também as recentes ações de pacificação em favelas e o Estádio do Maracanã, que sediará a final da Copa -, centenas de milhares tomaram conta das ruas. Tudo isso sem mencionar Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza, Curitiba e, obviamente, Brasília, que, em 18 de Junho, assistiu à ocupação do Congresso Nacional. “Os protestos foram uma sobreposição de fenômenos alinhados. Os brasileiros reconhecem a sua melhora de vida, com mais acesso a bens materiais, espirituais e culturais, mas isso só aconteceu da porta de casa para dentro. Quando se leva em conta a vida do cidadão em um sentido mais amplo, sobretudo em relação à qualidade dos serviços públicos, nota-se que ainda temos muito a avançar”, analisou 26

Fernando Haddad (PT), prefeito de São Paulo. Na mesma entrevista, concedida à revista Carta Capital em março deste ano, o petista brincou com o fato de a natural lua de mel que prefeitos e cidades costumam viver durante o primeiro ano de um novo mandato ter, para ele, durado apenas alguns meses, evidenciando os arranhões que atingiram a todos os políticos. Com as revogações dos aumentos das tarifas, realizadas praticamente em conjunto pelas principais metrópoles brasileiras, as dimensões megalomaníacas dos protestos foram reduzidas. Por uma série de razões, grande parte das pessoas não foi mais às ruas para seguir protestando. Grupos isolados, no entanto, continuaram. E neste fator reside uma das principais polêmicas das Jornadas de Junho: o aproveitamento eleitoral das mobilizações genuinamente populares. Por um sentimento de ódio aos partidos e ao sistema político como um todo, foram gerados alguns outros movimentos, espécies de ramificações dos protestos maiores. Grupos adeptos da tática black bloc, existente há mais de 30 anos em todo o mundo, entraram na discussão, Mais de 100 cidades gerando inquietação revogaram o aumento. Não na opinião pública houve um refluxo. O que devido à maneira com aconteceu foi que, desta vez, que se dispunham a as manifestações venceram depredar símbolos do capitalismo, como, Lucas Monteiro por exemplo, agências organizador do MPL bancárias. Presentes durante toda a Copa das Confederações, evento-teste que acontece um ano antes dos mundiais, protestos contra os gastos públicos na preparação do principal torneio futebolístico do planeta também continuam. E, com isso, induzem a reflexões sobre o cenário político deste ano, onde acontecerão as eleições presidenciais que manterão ou não no poder o Partido Coolt


Agência Brasil

No dia 17 de Junho, centenas de milhares protagonizaram o “ápice” das manifestações em São Paulo

dos Trabalhadores, que assumiu as rédeas da República ainda em 2003, com Luiz Inácio Lula da Silva. “Não tenho dúvidas de que, nestes movimentos genuinamente de esquerda, haja o aproveitamento político de integrantes da direita. Provavelmente irá haver. Mas a grande maioria das pessoas estava na sua primeira manifestação, e não era, pelo menos conscientemente, nem de um lado nem de outro”, contrapôs Lucas Monteiro, outro organizador do MPL. Para ele, é importante ser cuidadoso na hora de analisar os acontecimentos, assim como também é necessário um rápido entendimento da esquerda de que as dimensões de suas ações atingem outras proporções quando o debate conta até mesmo com pessoas despolitizadas, que indubitavelmente aderiram às convocações. Além disso, Monteiro considera fundamental uma visão sóbria dos resultados das manifestações, não julgando desanimadora a diminuição do número de populares nas ruas, algo natural após a “vitória” ser anunciada pelas bocas dos próprios líderes dos Executivos municipais, que cancelaram o aumento no preço das passagens. “O que é preciso ter claro é que não houve um refluxo. Foram mais de 100 cidades que revogaram o aumento, inclusive Junho de 2014

São Paulo e Rio de Janeiro, as duas maiores do país. Não houve algo parecido nem no ‘Fora, Collor’, em que imensa parte dos grupos gestoriais era a favor de sua saída, e nem nas ‘Diretas já’, onde o povo perdeu. Não é que as manifestações recuaram. O que aconteceu foi que, desta vez, as manifestações venceram. E isso é lindo”, concluiu. Fim do “pemedebismo”? Assim como era clara a busca por um sentido durante as mobilizações populares, após o seu arrefecimento entra em disputa a sua leitura histórica. Professor de Gestão e Políticas Públicas da USP (Universidade de São Paulo), Pablo Ortellado acredita que esse jogo ainda não foi encerrado, e que dificilmente isso acontecerá tão cedo. “Ainda não sabemos se iremos nos lembrar de Junho de 2013 como o movimento que revogou o aumento das passagens de ônibus e introduziu a tarifa zero no horizonte da política ou se tudo será minimizado a centenas de milhares de pessoas que saíram às ruas enroladas na bandeira brasileira, com apitos, e gritando contra tudo de uma maneira, digamos, histérica”, afirmou. Segundo outros, entretanto, a questão é mais ampla do que olhar para as manifestações e defini-las como uma coisa ou outra. Augusto de Franco, cria27


Política

Rafael Stedile


dor da Escola-de-Redes, dedicada à análise do comportamento das redes sociais, tão importantes para a propagação de tudo o que se passou durante aquele mês, acredita que “está nascendo uma nova democracia, embora ainda não saibamos ao certo qual seja”. Para Marcos Nobre, filósofo político e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), esse conceito já está bastante claro. E suas origens são datadas de 1979, com o retorno do pluripartidarismo, ainda durante a Ditadura Militar (1964-1985). Sem medo de dimensionar Junho de 2013 de maneira exagerada, a sua avaliação é de que trata-se do fim do processo de redemocratização brasileira. Agora, já estamos vivendo o aprofundamento de nossa democracia. “As manifestações obrigam o sistema político a abandonar o comportamento que tanto tem lhe caracterizado, que é o de fechar-se em si mesmo”, analisou. “Desde o impeachment de Collor, em 1992, há essa tendência de ‘pemedebismo’ entre os partidos políticos, que é uma forma que o sistema encontrou de se blindar diante das exigências da sociedade. Na ocasião, foi propagado que o presidente caiu não apenas por não ter uma ‘maioria’ no Congresso, mas por não ter uma ‘supermaioria’, que é alguma coisa que ultrapasse os três quintos de votos necessários para realizar reformas constitucionais. As consequências disso, obviamente, não favorecem o jogo de ideias”. Nobre escrevia o livro “Imobilismo em movimento”, lançado no semestre final do ano passado, onde propõe-se a analisar a política brasileira desde a abertura democrática até o governo Dilma, quando foi surpreendido pela onda de protestos que, de uma maneira ou de outra, ele dizia estar a caminho em sua obra. Dedicou-se, então, durante dez dias, à escrita do e-book “Choque de democracia – Razões da Revolta”, um relato contextualizado dos protestos. Depois, retomou o projeto anterior – desta vez, além da análise do passado, também

com perspectivas, ciente de que os rumos políticos do país seriam outros. O estudioso também deixa claro que o nome “pemedebismo” não refere-se apenas ao PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), mas à cultura que tanto tem a ver com a sua existência. É de suma importância relembrar que, ainda nos anos de chumbo, quando chamava-se MDB, o partido foi obrigado a aglutinar todas as linhas de pensamento contrárias à Arena (Aliança Renovadora Nacional), o partido dos militares, por mais que elas fossem diferentes entre si. Essa lógica foi abraçada tanto por Itamar Franco (1992-1994) quanto por Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). No início do governo Lula, em 2003, os indícios eram de que haveria uma mudança nesta postura. Por pelo menos dois anos, a posição petista foi de contrariedade a essa imposição das costuras político-partidárias. Com o episódio do Mensalão, porém, ocorrido em meados de 2005, a volta ao jogo de antes foi inevitável. O mal-estar estava instaurado e, para não passar por apuros ainda maiores do que aqueles que enfrentou, o PT estabeleceu alianças fundamentais com o PMDB, de uma vez por todas, e não mais com apenas algumas de suas figuras – o avanço da parceria é tão grande que hoje, por exemplo, Michel Temer é o vice-presidente de Dilma Rousseff. “É preciso encontrar-se uma maneira de mudar esse panorama atual, que, inclusive, gera profundos prejuízos para a formação política de uma geração”, alertou Marcos Nobre. “Quem nasceu a partir de 1990, por exemplo, além de não ter convivido com a inflação, não conviveu também com a polarização no sistema político. Essa necessidade de adequar-se aos mais diversos interesses para poder governar com alguma tranquilidade resulta mais do que em uma flexibilização ideológica, é quase que a ausência de qualquer ideologia. Assim, passa a estar em disputa apenas o cargo de síndico deste enorme condomínio pemedebista”. •


CRIOLO

ARCTIC MONKEYS

LORDE

VESPAS AMBULANTES

CAGE THE ELEPHANT

TRIADE ELLIE GOLDIN

WILL SMITH

RAFA AMERICO

CHARLIE BROWN JR. OBA OBA SAMBA HOUSE

THE BACKSTREET BOYS LS JACK CLAUDINHO E BUCHECHA MICHAEL JACKSON

HARMONIA DO SAMBA CUMPADRE WASHINGTON LAURYN HILL

FESTIVAL

SKRILLEX JHONNY CASH THE BEATLES RAMONES JIMMY HENDRIX NSYNC THE SMITHS

RACIONAIS MC’S


Cultura

Muito além

da música

O trabalho de um produtor é bem mais complexo do que acompanhar as gravações musicais: eles controlam as sessões de gravação, guiam os músicos, fazem a mixagem e têm de administrar egos exacerbados POR STEPHANIE VAN SEBROECK

O

produtor musical atua nas gravações sonoras e, muitas vezes, como psicólogo. Clayton Martin, de 40 anos, possui 25 de estrada. O seu estúdio, o Submarino, existe desde 1989 no subsolo de sua casa na Móoca. Lá, já deu conselhos e auxiliou na gravação de discos e mixagens de bandas do rock underground nacional. Dentro do seu ambiente de trabalho e pelas pessoas com quem se relaciona, comenta que a maior dificuldade na sua atuação é o dinheiro. “Sem dinheiro, trabalha-se com menos tempo, menos equipamentos e por aí vai. Nem sempre podemos ter o que desejamos, o que acaba nos limitando, mas isso pode ser bom: obriga-nos a usar a criatividade”, avalia. Como todo o cenário underground, as bandas não são muito conhecidas e não

Divulgação

“Não ter dinheiro nos obriga a ter criatividade” Junho de 2014

possuem jogada comercial. Desta forma, com um público limitado, as chances de fazer uma coisa completamente diferente são maiores. Sem o uso de alguns equipamentos comuns, o improviso entra em cena e, com ele, um mundo cheio de alternativas é descoberto. Clayton comenta que o auge do seu improviso aconteceu com um vocalista de uma banda punk, que era muito grande e não conseguia passar pela porta. Ele teve que montar o microfone do lado de fora do estúdio. “Ele também suava muito, e deixou até hoje um cheiro estranho no meu fone de ouvido que precisou usar”, brinca o produtor. Fora as bizarrices, muitas pessoas querem que a música saia de uma forma perfeita, o que muitas vezes está fora do alcance artístico delas mesmas. Assim, o produtor ainda tem que encarar uma posição de psicólogo para explicar que a música não vai sair como a do artista que investiu milhões na produção, passou meses dentro do estúdio e está com a sua música em todas as rádios do mundo. “Faço o arranjo junto, quando os artistas vêm com músicas inacabadas, e dou a diretriz que o disco vai ter”, diz Clayton. Mesmo com uma voz e um violão, dá pra tirar um material bem legal e usar uns truques bacanas. Hoje, inclusive, há muitos programas que possibilitam que as pessoas façam isso em casa. Com efeitos, bases, equipamentos de última geração ou não, o que importa é ter um bom gosto na hora de fazer a produção musical. • 31


Cultura

A história  do  cin

Uma linha do tempo com as mudanças que aconteceram POR STEPHANIE VAN SEBROECK

A

pesar da primeira exibição de cinema no país ter acontecido em 1896, no Rio de Janeiro, o mercado cinematográfico se estabeleceu a partir de 1907, quando o fornecimento de energia

elétrica passa a ter maior distribuição entre as cidades brasileiras, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Com a sua longa trajetória, é possível dividir os 118 anos de História do Cinema Brasileiro em grandes blocos, que retomam a história de acordo com cada época.

Primeiros filmes (1906–1911)

Apesar de a primeira exibição no país ter acontecido em 1896, no Rio de Janeiro, o mercado cinematográfico se estabeleceu apenas em 1907, quando o fornecimento de energia elétrica passa a ter maior distribuição entre as cidades brasileiras. Os temas, normalmente, eram crimes e histórias em geral que já haviam sido abordadas pela mídia. Depois vieram os “filmes cantados”, onde artistas se dublavam enquanto o filme era exibido. Chanchada (1947-1959) Luiz Severiano Ribeiro compra a Atlântida Cinematográfica, que produzia filmes em grande quantidade. As comédias musicais ganharam espaço por sua boa comunicação com o público. Filmes que trazem a temática do Carnaval é adorada pelo público. Cinema novo (1953-1970) Os filmes passam a ser produzidos com baixo orçamento e temáticas populares. Após o Golpe Militar, a censura política afeta o cinema, que volta a produzir temas voltados para o passado. 32

Adaptações literárias (1911-1926)

Alguns dos imigrantes que chegaram ao Brasil (como Gilberto Rossi [O Guarani], João Stamato [Iracema] e Arturo Carrari [Ubirajara]) adaptaram histórias literárias para as telonas. Industrialização (1948-1959) Nasce a Vera Cruz, uma produtora construída nos moldes de Hollywood, com diretores europeus e elenco fixo. A produtora tinha problemas com a distribuição dos seus filmes e foi à falência. Anos 80 Com a crise econômica, produção de filmes volta a cair. A exibição de títulos com sexo explícito começa a ganhar força, assim como a de documentários.

Mercado é cultura (1970-1981) Comédias, estrelas da televisão e chanchadas passam a gerar um público fiel para o cinema brasileiro.

Coolt


nema brasileiro

m no cinema nacional desde o seu surgimento, em 1896 Cavação (1916-1935) Aparecem as exibições conhecidas como “cinejornais”, que são filmagens de jogos, festas e eventos. Na década de 70, perderia a sua força para os telejornais. Surgimento do som (1929-1935) O mercado de filmes brasileiros vai bem durante a época, já que os filmes dos Estados Unidos têm problemas para entrar no Brasil devido à dificuldade na língua e as condições precárias de algumas salas de cinema. Domínio de Hollywood (1934-1942) Depois das dificuldades, a indústria norte-americana passa a investir e ganhar as salas de cinema brasileiras. Ao mesmo tempo, a revista brasileira “Cinearte” defende a imitação dos filmes dos EUA, o que faz a produção nacional cair. Retomada (1992-2003) Através do “Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro”, o Ministério da Cultura passa a liberar recursos para a produção de filmes nacionais. A situação precária das salas de cinema e a baixa divulgação na imprensa, porém, não impulsionam o mercado. Anos 2000 O cinema nacional cresce. Em 2013, atinge o seu auge, com mais de 120 estreias e 26 milhões de ingressos vendidos. As produções independentes, no entanto, sofrem com o monopólio da Globo Filmes, criada ainda em 1997 e dona de 90% da receita dos cinemas nacionais. Junho de 2014

A visão dos diretores Com o atual crescimento do mercado cinematográfico nacional, o setor atrai cada vez mais curiosos, pesquisadores e profissionais. E, neste anos que estão por vir, alguns nomes serão citados, por terem marcado a complicada trajetória dos filmes brasileiros. De acordo com o diretor de cinema Ricardo Quintela, nomes como Lima Barreto, Carlos Manga, Glauber Rocha, Bruno Barreto, Eduardo Coutinho, Walter Salles, Fernando Meirelles e José Padilha vão demorar para serem esquecidos. Já André Pupo, também diretor, cita títulos dos mesmos diretores imortais, como ‘O Homem do Sputnik’, ‘Dona Flor e seus Dois Maridos’, ‘Cabra marcado para morrer’, ‘Central do Brasil’, ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Para ambos, a excentricidade dos diretores de cinema é comum dentro da profissão. “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, já dizia Glauber Rocha. “Os filmes brasileiros são, de maneira geral, independentes do ponto de vista artístico e econômico, com uma criatividade estética própria. Nos últimos anos, vêm conquistando aos poucos o mercado internacional, tendo em vista as recentes contratações de cineastas brasileiros para produções de outros países”, diz Quintela. Pupo acredita que o caminho para a melhoria do cinema brasileiro é o investimento e o incentivo, embora admita que a Ancine (Agência Nacional do Cinema) vem trabalhando cada vez mais para isso. 33


Turismo

O Nordeste  e  a  s Belezas naturais, destinos únicos e incríveis... Para você que gosta de viajar, a Coolt destaca o litoral mais extenso do país: o nordestino POR CAROLINA GABBI


sua rara  beleza


Turismo

D

ominada por uma costa de águas límpidas, piscinas naturais, praias paradisíacas de areias finas, margeadas por coqueiros e enseadas verdejantes, onde o clima é excepcional e o sol é o rei supremo, o Nordeste brasileiro é constituído pelos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe, além do Distrito Estadual de Fernando de Noronha e o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, pertencentes a Pernambuco. A região, quente por natureza, é o destino certo para aqueles que querem desfrutar de lindas paisagens e belezas naturais, regadas a muita água de coco e culinária tradicional. E, por falar em culinária, não importa qual a escolha do roteiro de sua viagem, é imprescindível provar quitutes como acarajé, tapioca, caldeirada, moqueca e tantas outras delícias nordestinas. Por essas e por outras, optar por um destino neste litoral em função das maravilhas proporcionadas por cada uma das exó-

ticas regiões deste paraíso pode se tornar um grande dilema na hora de decidir para onde viajar, já que cada pedacinho destes três mil quilômetros de costa e enseadas possui particularidades únicas que dificultam a escolha e a decisão de qualquer mortal. A verdade é que o nosso litoral abriga verdadeiras joias da natureza. Para a administradora hospitalar Kátia Carvalho, de 35 anos, o Nordeste é surpreendente. “Piscinas naturais, coqueirais, praias, falésias, recifes... Você jamais acredita que todas essas características possam ser encontradas numa única extensão litorânea. É incrível”, vibra. Os benefícios econômicos providos pela inserção do turismo nas regiões litorâneas levam as comunidades a contribuírem ativamente para o desenvolvimento turístico desses ecossistemas. As belas cidades litorâneas com suas praias atraem milhões de estrangeiros todo ano. O agente de viagens Henrique Vieira, de 38 anos, relaciona o aumento na procura por

Arquivo pessoal

Kátia Carvalho curte o fim de tarde na Praia do Jacaré, onde saxofonistas tocam “Bolero”, de Ravel 36

Coolt


Arquivo pessoal

“Desvendar as belezas do nosso litoral é uma oportunidade única”, diz Luciana, em Porto Seguro (BA) pacotes de viagens à atual fase econômica do país e da população brasileira. Segundo levantamento realizado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), os estados da região Nordeste são os preferidos pelos turistas. Dentre os quase 70% dos brasileiros que pretendem viajar pelo Brasil ainda neste ano, o litoral nordestino aparece com cerca de 50% dos indicativos no ranking. O que faz com que surja um maior fortalecimento da economia regional, que em grande maioria advém do turismo, e que se torna de fundamental importância para o crescimento das atividades e investimentos culturais nestes lugares. “Hoje não existe um período pré-demarcado para que as férias ou viagens em família ocorram. Quando você é procurado por um cliente para fechar uma viagem, um mundo de expectativas é esperado por ele. De forma positiva, claro, afinal essa pode ser a viagem da vida dele. Você já não vende só uma viagem, você vende um sonho antigo de desbravar o seu próprio país”, prossegue Vieira. A maioria das praias na região apresenta as águas cristalinas compondo cenários que podem ser definidos como selvagem, paradisíacos, encantadores, inesquecíveis. Esses

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adjetivos ajudam a definir lugares em que o visitante pode deitar-se em uma rede e admirar a linda paisagem – seja durante o dia, banhado pela luz do sol e protegido pela sombra de um coqueiro, ou à noite, sob a luz das estrelas. “O litoral nordestino guarda belezas inimagináveis em meio à imensidão mar”, diz a psicopedagoga Luciana Nunes, de 43 anos. O Paraíso Tropical ou Caribe brasileiro foi “criado” para agradar a gregos e troianos, pois oferece sombra e água fresca aos que querem sossego, e praias quentes e mar cristalino para aqueles que buscam o contato com a natureza. Desta forma, o litoral nordestino mostra ser uma região composta não só por um riquíssimo valor cultural como representa com perfeição a diversidade de cenários que envolvem esse pedaço do Brasil. Então, de Fortaleza a Natal, do Recife a Maceió ou de Aracaju a Salvador, o certo é que a sua estada, não importando o destino, será marcada com lembranças de paisagens dominadas pela diversidade e pelas belezas naturais, assim como pelo encanto de perfeita combinação entre o sol e os locais únicos que só podem ser encontrados no litoral nordestino, o mais rico do Brasil. •

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Ensaio fotográfico

Vivendo por  aí Com uma costa litorânea com mais de 7 mil km de extensão, o Brasil possui uma das mais belas paisagens do mundo. Prepare-se para a viagem! FOTOS DE CAROLINA GABBI


Ensaio fotogrĂĄfico

O amanhecer traz sempre a expectativa de um novo e lindo dia em Natal, a terra do sol

Diz a lenda que casais que passam de mĂŁos dadas pelo arco de Conde, na ParaĂ­ba, ficam juntos para sempre 40

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As águas quentes e translucidas de Maceió, capital do Alagoas, são o chamariz deste majestoso litoral

Praia do Sancho: uma importante área de preservação ambiental em Fernando de Noronha Junho de 2014

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“OFF THE WALL”


Turismo

Dando a  volta  ao   mundo  de  carro Um relato sobre as viagens de pessoas que largaram o emprego e a vida na cidade para rodar os cinco continentes POR ISABELA RIOS

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orar dentro de um carro e passar anos explorando lugares desconhecidos, conhecendo culturas diferentes e fazendo amizades em outras línguas é o sonho de qualquer pessoa que goste de viajar. E fazer essa jornada de carro é a melhor forma de conhecer os países mais a fundo, visitando os lugares que estão mais distantes dos aeroportos.

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A aventura exige desapego e muito planejamento. Um carro apropriado, vistos, informações sobre vacinas, planejamento de alimentação e dinheiro no bolso são algumas das preocupações de quem se joga na estrada. Mas existe uma forma de deixar tudo mais fácil: levar a pessoa amada junto. Três casais largaram a vida na cidade para percorrer milhares de quilômetros e dar a volta no globo. Essas são três histórias diferentes de pessoas que tinham um sonho em comum, juntaram o essencial e partiram em busca da experiência mais importante de suas vidas.

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Turismo DESAFIANDO SEUS SONHOS Duas pessoas de países e vidas diferentes, mas que compartilhavam o mesmo sonho. Grace Downey, brasileira de São Paulo, e Robert Ager, inglês nascido em Londres, começaram a namorar e logo perceberam que tinham paixões comuns: viajar, acampar e se aventurar. Após um tempo juntos, decidiram largar tudo e entrar em um desafio: dar a volta ao mundo de carro. Contrariando familiares e conhecidos, o casal saiu em janeiro de 2002 e voltou em agosto de 2005. Foram três anos e meio e mais de 168 mil quilômetros rodados por 50 países. “É difícil escolher uma região que marcou mais, mas gostamos muito da passagem pelo sul do continente africano: África do Sul, Namíbia, Botsuana, Zambia, e também Moçambique, Malawi, Tanzania e Quênia, na costa leste. Foi incrível”, diz Grace. Como toda aventura, o casal passou por situações divertidas mas também por momentos de tensão. No México, os dois chegaram à noite na cidade, e no local do camping encontraram um terreno grande cheio de árvores e uma casa meio abandonada. Pensaram que o lugar não existia mais, deram uma volta e retornaram para ir em busca de outro local para pernoitar. Então seis homens saíram de trás das árvores com metralhadoras em suas mãos. Um deles se aproximou e disse que eram policiais e estavam em busca de uma caminhonete roubada. “O engraçado de tudo isso foi que, após descobrirmos que eles eram policiais, falamos que estávamos em busca de um camping na região. O policial respondeu que era naquele lugar mesmo e que poderíamos acampar na região, pois era muito seguro. Mas obviamente não ficamos lá naquela noite”, relembra Grace. A aventura foi um grande desafio para eles, tanto como pessoas quanto como casal. “É um grande teste. Afinal, ficar três anos e meio juntos, 24 horas por dia, sete dias por semana e em um espaço pequeno, é difícil. Quando ‘brigávamos’, tínhamos que resolver ali, na hora. Não tinha como ficar sem se falar por

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alguns dias”, observou. “Com isso, respeitamos muito um ao outro e nosso relacionamento só se fortaleceu. Em nosso caso deu super certo, tanto é que nos casamos durante a viagem”. A história de amor e aventura não parou por aí. Cinco anos após retornarem, Grace e Robert partiram para outra aventura. Durante um ano eles percorreram o Brasil todo, explorando os detalhes do país e divulgando as belezas locais, sempre seguindo o lema do casal: “Você sempre vai querer planejar melhor, Nunca haverá dinheiro suficiente, E o momento ideal não existe. Portanto, encontre a coragem, Tome uma decisão, Prepare o quanto puder e Vá adaptando o resto pelo caminho. Será a melhor época de sua vida” MUNDO POR TERRA Impulsionado por um sonho e incentivado por um estranho, Roy Rudnick fez uma proposta para a namorada: largar a faculdade e a vida em Santa Catarina para morar dentro de um carro e percorrer os cinco continentes ao seu lado. Não demorou nada para que Michelle Weiss aceitasse e partisse um ano e meio depois para a maior aventura de sua vida. “É preciso um desapego muito grande na hora de largar emprego, faculdade, família, aconchego de casa, para encarar uma vida completamente desconhecida”, avisa Michelle. “Muitas pessoas sonham, mas não possuem a coragem e determinação para tomar a decisão”. A expedição iniciou-se em fevereiro de 2007. E a aventura conta que foram 1.033 dias de viagem, 60 países, 160.733 quilômetros rodados e muitas histórias. “Em cada país nos deparávamos com situações únicas, com paisagens, pessoas, culturas e experiências singulares, as quais são impossíveis de serem comparadas umas com as outras”. O casal foi marcado por uma jornada de aprendizados sobre o mundo e sobre como o ser humano pode ser diferente.

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“Um velho ditado diz: ‘Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso’. Uma das coisas que aprendemos nesta viagem foi respeitar os costumes dos outros”, afirma Roy. Em dezembro de 2009, Roy e Michelle voltaram para casa diferentes. “As pessoas nos perguntam o que aprendemos e temos dificuldade em responder, pois são tantas coisas, algumas conscientes e outras inconscientes, que fica até difícil explicar e, principalmente, colocar em palavras”. Os dois aprenderam a ser tolerantes, se comunicar e levar a vida mais leve. “Aprendemos muito um sobre o outro. Coisas que talvez casais que estejam casados há anos ainda não sabem”, diz. No segundo semestre deste ano, Roy e Michelle partem para a sua segunda volta ao mundo. FORASTEIROS BRASILEIROS Durante uma conversa, Paula Guimarães e Renan Baptista desabafaram sobre como estavam desmotivados com o trabalho e começaram a se questionar sobre o futuro. Tudo começou com uma semana de férias, onde o casal resolveu ir de carro para diversas praias ainda desconhecidas. E aí, então, surgiu a questão:

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“Por que não pegamos nossas coisas, colocamos em um carro e partimos para explorar o mundo - exatamente como estamos fazendo agora, mas, desta vez, o mundo inteiro?”. Foram quatro meses de preparação entre vender os bens, pedir demissão, preparar o carro, a mente e partir. Em dezembro de 2013, os dois saíram de São Paulo e viajaram um mês pelo Pantanal. “Além de ver belezas magníficas, pudemos testar os equipamentos e o carro”, conta Paula. Após retornar ao local de partida e ajustar os últimos detalhes, eles se jogaram na estrada e foram para o Sul, cruzando a fronteira com o Uruguai, passando pela ponta da América do Sul (Ushuaia) e atravessando Argentina, Chile e Bolívia, até chegar ao Peru, onde estão atualmente. Os planos são mais longos. O casal planeja subir até o Alasca e, então, despachar o carro para a Europa, continuar por África, Ásia, Austrália e Nova Zelândia em uma viagem de três anos e cerca de 200 mil quilômetros. As mudanças são difíceis e nem tudo ocorre dentro do planejado. Mas, mesmo com um longo caminho pela frente para eles, “o contato, o relacionamento com diversos povos do mundo e a amizade construída não têm preço”. •

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Turismo

Conheça  a  hid                  Itaipu  


drelética Binacional A maior usina do mundo em geração de energia limpa e renovável transforma a cidade de Foz do Iguaçu em um dos polos turísticos mais importantes do Brasil


Agência Brasil

Turismo

POR MAYARA BUENO

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om 30 anos de operação completados recentemente, a Usina Hidrelétrica de Itaipu faz brilhar os olhos de qualquer turista. A grandiosidade da Binacional Itaipu faz com que a cidade de Foz do Iguaçu seja conhecida mundialmente como um dos destinos turísticos mais importantes e mais procurados do Brasil. Itaipu é considerada um admirável empreendimento arquitetônico, sendo também umas das Sete Maravilhas do mundo moderno. “É realmente um dos destinos e passeios mais procurados aqui em Foz do Iguaçu”, diz o guia turístico Guilherme Silva, que também afirma que, depois que foi aberta à visitação, a usina já recebeu mais de 16 milhões de pessoas. “Possui uma estrutura organizada e qualificada para receber e atender os turistas. Há diversas opções de atrações tanto nas áreas mais técnicas da usina, como nas mais abrangentes. Todos os passeios são guiados e proporcionam um aprendizado muito bacana. Vale a pena conhecer”, prossegue. Construída por Brasil e Paraguai entre 1975 e 1982, a Usina Hidrelétrica de Itaipu é atualmente a maior usina hidrelétrica do mundo em geração de energia. Com 20 unidades geradoras e 14.000 MWh (megawatts-hora) de potência instalada, fornece cerca de 17% da energia consumida no Brasil e 75% do consumo paraguaio. Localizada no curso do rio Paraná, tem também uma barragem de 8 quilômetros de extensão que passa por Foz do Iguaçu, no Paraná, e também pela guarani Ciudade del Leste. “A energia de uma unidade geradora nada mais é do que a transformação da energia mecânica pela energia elétri-

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ca”, informa o engenheiro Thiago Gabriel. “Para melhor explicar, a energia mecânica que chega ao gerador e acaba se transformando em energia elétrica é como se fosse uma força/energia de dois imãs com seus lados opostos, onde um não encosta no outro e se tem aquilo que nada mais é do que uma força negativa”. A geração hidrelétrica está associada à vazão do rio Paraná, isto é, à quantidade de água disponível em um determinado período de tempo e à altura de sua queda. Quanto maiores são os volumes de sua queda, maior é o seu potencial de aproveitamento na geração de eletricidade. A vazão de um rio depende de suas condições geológicas, como inclinação, largura, obstáculos, tipos de solo e quedas. É determinada, ainda, pela quantidade de chuvas que o alimenta, o que faz com que sua capacidade de produção de energia varie bastante ao longo do ano. “A água represada produz força para a movimentação das turbinas que ficam embaixo das barragens. As turbinas transformam energia mecânica em elétrica, e dali vai para outras unidades ou subestações para se transformar em 220 volts ou 127 volts”, explica Suzete Nagliati, geógrafa e professora de Geografia. Itaipu produziu em 2013 um total de 98,63 milhões MWh, estabelecendo um novo recorde mundial de produção de energia. E considera-se que o custo direto do empreendimento seria de aproximadamente US$ 11,8 bilhões. Tanto o Brasil quanto o Paraguai obtiveram vantagens em relação à construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu. O Brasil pôde desenvolver uma tecnologia própria de construção de grandes barragens e incorporou ao seu setor elétrico uma usina que hoje

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O vertedouro escoa a água em excesso que chega ao reservatório e a utiliza para a geração de energia

é o correspondente a quase um quarto de todo o consumo nacional. Já o Paraguai passou a contar com energia suficiente para o seu abastecimento durante as próximas décadas sem que precise fazer qualquer outro investimento no setor, além de ter promovido o desenvolvimento de toda a região da fronteira. Sobre as vantagens da construção de uma usina hidrelétrica, o engenheiro Thiago Gabriel explica que “o grande diferencial da construção de usinas hidrelétricas está no uso de fontes naturais (os rios), o que faz com que a usina tenha uma vida útil praticamente infinita, desde que ocorram reformas,

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modernizações e manutenções”. Além das vantagens ligadas à produção da energia, existem aquelas indiretas, como, por exemplo, a geração de empregos e o desenvolvimento e a melhoria para as cidades e seus entornos. Há também, no entanto, significativas desvantagens, principalmente na esfera ambiental, onde podem existir grandes áreas alagadas, desmatamentos, transferência da fauna e flora de seu habitat natural. “Deve-se procurar instalar as usinas em rios de planalto para se ter uma área alagada menor do que em regiões de planície, alterando o menos possível o ambiente natural, o que é muito difícil”, analisa Suzete Nagliati. •

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Moda

Furacão Gisele

Um registro de como é a passagem da top model pelo São Paulo Fashion Week

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POR MANUELA ALMEIDA

Agência Fotosite

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clima era tenso entre a imprensa no quarto dia da São Paulo Fashion Week, edição inverno 2014, no Parque Villa-Lobos, em outubro de 2013. É que os jornalistas e fotógrafos não estavam pensando em outra coisa a não ser falar com a Gisele Bündchen, que iria desfilar pela coleção da Colcci. Neste dia, o itinerário de todo mundo passou a girar em torno da chegada da top. E o reflexo disso começou logo cedo: embora Gisele estivesse marcada para chegar às 19h15, horas antes os seguranças já haviam fechado os banheiros próximos ao backstage e organizado uma fila de aproximadamente 40 fotógrafos, com alguns carregando até escadas. Já os jornalistas receberam o comunicado de que estavam proibidos de chegar sequer a 500 metros da über - ou seja, não tinha a menor chance de alguém entrevistá-la. A regra era bem simples: no camarim, Gisele iria posar por alguns minutos para os fotógrafos e só - nada de entrevista. Aproveitei para entrevistar Izabel Goulart e Erin Heatherton, outras duas modelos importantes da Colcci, e consegui entrar no camarim horas antes de Gisele chegar, com a assessoria pedindo para eu deixar o local assim que terminasse de conversar com as duas modelos. Deixei o camarim, sim, mas permaneci feito um satélite circulando em volta do espaço. Quando apareceram mais assessores pedindo para os jornalistas desocuparem o local, eu e mais duas repórteres nos escondemos na sala de pronto-socorro. O plano era tirar uma foto de Gisele, mas, para o nosso desespero, quando a top finalmente chegou, lá para às 20h30, os seguranças a levaram até o backstage por uma “passagem secreta”. “Operação Gisele” havia sido um fracasso. Conformada de que não havia mais o que fazer, deixei a porta do backstage, peguei o meu convite do desfile da Colcci e me posicionei na arquibancada, pronta para assistir pela primeira vez a modelo mais bem paga do mundo desfilar. Presença e carisma contagiantes. Ela foi aplaudida de pé. Nunca vi nada igual. Como diz um amigo, “Gisele é Gisele”. • Coolt


Street         style FOTOS DE MANUELA ALMEIDA

Inspire-se no visual das alunas da Anhembi Morumbi

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Moda

O futuro  das  revistas  d

O número de veículos alternativos cresce em todo o mu POR MANUELA ALMEIDA

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eis anos atrás, o segmento de revistas de moda independentes - aquelas que seguem uma linha de pensamento alternativa em relação ao mundo da moda, não obstante a abordar os universos de cinema, arte e arquitetura - começou a expandir e ganhar maior notoriedade no mercado mundial. Surgiram revistas como a “Dossier” em 2008, a “Industrie” em 2009, a “Bullett” em 2010 e a “Garage” em 2011, para competir com as veteranos do nicho - “I-D”, “Purple”, “Dazed and Confused” e “Think TANK - e outros veículos de moda e arte fundados nas décadas de 1980 e 90. Conforme o público consumidor que aprecia a visão “não comercializada” da moda foi aumentando, o número de veículos independentes cresceu exponencialmente. Resultado: em 2013, o que se via nas bancas de jornais das mecas da moda Paris, Nova York e Londres eram mais de 30 publicações independentes, cada vez mais direcionados a um consumidor específico, desde estilistas e turma de arte de Nova York até modelos escandinavas, agentes de modelos e homens metrossexuais. “As revistas independentes fortaleceram-se com a cultura ‘do your self ’, que existe já há algumas décadas. Faz-se necessário distinguir as revistas fanzines das ezines: enquanto as primeiras valorizam o projeto gráfico, o conteúdo e a distribuição por nichos, as segundas – revistas independentes em formato digital - procuram, a maioria, expansão”, explica Mariana Rachel Roncoletta, docente de Design e Negócios da Moda na Universidade Anhembi Morumbi. Para ela, ambos os tipos - fanzines e ezines - são revistas que valorizam o con-

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Algumas das capas de ‘Purple’, ‘Garage’, ‘Dazed and confus teúdo, a reflexão e por muitas vezes são consideradas de vanguarda. “Na era digital, com a internet e redes sociais, quais informações são relevantes? Quais são os filtros? Qual dieta de informação que pode transformar-se em conhecimento? As re-

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de moda  independentes

undo, mas será que esse mercado tem espaço no Brasil?

ed’, ‘Industrie’ e outras revistas de sucesso mundo afora vistas independentes buscam responder a essas questões, e encaixam-se em um movimento intitulado de Slow Journalism”, completa. Embora esteja ocorrendo um “boom” internacional neste segmento de veículos impressos, no Brasil o mercado de revistas

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de moda independentes ainda não decolou. “São pouquíssimos os veículos de comunicação brasileiros de moda que se debruçam sobre a reflexão da moda como cultura ou que questionam o próprio sistema de moda. No entanto, se o jornalismo pretende mudar esse panorama, a longo prazo, deveria iniciar esse processo imediatamente”, enfatiza Mariana. “FFWmag”, “dObras” e “What About Mag” são algumas das poucas publicações que existem no âmbito nacional. A “FFWmag”, do Grupo Luminosidade, responsável pela São Paulo Fashion Week e Fashion Rio, é uma revista trimestral, criada em 2006, que discute moda, arte, design, diversidade cultural, comportamento, política, ciência e meio ambiente. O seu público são “lançadores de tendência e formadores de opinião, como jornalistas, críticos, estilistas, designers e multiartistas”. Já “dObras” é uma revista semestral, fundada em 2007, voltada para acadêmicos de moda. Os artigos do veículo são escritos por “pesquisadores autônomos ou vinculados a instituições públicas e privadas”, ou seja, experts no assunto fashion. Em contrapartida, a “What About Mag”, lançada em 2013, abrange moda, arte, gastronomia, cinema, música, arquitetura, design e fotografia. A revista foi idealizada pela empresária e blogueira Carol Rache, dona do site Whataboutmag.com. Mas é bom frisar que, apesar de ter o mesmo nome da publicação impressa, o site apresenta uma linguagem diferente. “A maioria do público brasileiro se interessa pela moda da telenovela ou pelo fast fashion. Porém, a educação sobre moda vai muito além das últimas tendências. E repito: se queremos mudar esse panorama, os meios de comunicação precisam exercer o poder gigantesco que têm”, finaliza a expert. •

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Relembrar é preciso...

Shakespeare, 450  anos  depois POR FABIO SILVESTRE CARDOSO*

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eria William Shakespeare o maior escritor de todos os tempos? Em tempos de listas e definições absolutas a cada segundo, a tentação mais natural, 450 anos depois de seu nascimento, é considerá-lo como um gênio insuperável, capaz de dar forma e sentido à tragédia humana, a ponto de ser utilizado como referência não somente nos estudos literários, mas também na ciência política, na psicanálise e, por extensão, para toda uma ideia de cultura. Cultura, neste sentido, não está vinculada apenas aos produtos de natureza estética – como filmes, discos, livros e obras de artes visuais. A ideia de cultura, aqui, está combinada à tradição, a um modo de conceber a realidade e, certamente, à forma com a qual nós lidamos com o universo ao nosso redor. Neste segmento, não há dúvida, Shakespeare nos mostrou que somos demasiadamente humanos, para recorrer à definição de Nietzsche, alguns muitos anos depois. A propósito disso, um dos principais críticos literários em atividade, Harold Bloom, assinalou, há alguns anos, que foi Shakespeare que inventou o humano tal como nós o conhecemos. É esse, aliás, o argumento-chave de seu livro “A invenção do humano”, publicado por aqui no ano 2000: os personagens criados pelo bardo inglês jamais existiram; ainda assim, eles estão presentes no imaginário coletivo

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desde a sua concepção – ou, no caso do teatro, desde sua primeira encenação. Mais recentemente, aqui mesmo no Brasil, o crítico literário e professor José Garcez Ghirardi destacou que a obra de Shakespeare dialoga intensamente com a contemporaneidade exatamente porque é capaz de demonstrar que algumas das tensões presentes em seus dramas ainda não foram totalmente dissipadas com o tempo, ou, ainda, são passíveis de reelaborarem questões igualmente importantes para os dilemas dos dias que correm, seja acerca das escolhas do indivíduo, seja em relação às decisões concernentes à vida política. O mais óbvio seria buscar uma referência à obra de Shakespeare na literatura contemporânea. E é correto assinalar que muitos são os artistas, de ontem e de hoje, que apresentam essas referências de forma direta, citando, muitas vezes nominalmente, o autor de Hamlet. O mais curioso, no entanto, é que a obra de Shakespeare permeia toda a ideia que temos de civilização há mais de quatro séculos. Aos 450 anos, Shakespeare jamais esteve tão vivo, ainda que as pessoas não tenham parado para refletir a esse respeito.

...

*Fabio Silvestre Cardoso, doutorando em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo, é professor na Universidade Anhembi Morumbi, onde formou-se em Jornalismo e tornou-se mestre em Comunicação, Cinema e Crítica de Cultura. Fez, ainda, especialização em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política.

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... refletir também

Café amargo POR CAINÃ ITO*

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cheiro fumegante sempre me trouxe a sensação de bem estar. O aroma dos grãos torrados resgata sobre mim lembranças em que o apreciar de um café era tratado como ritual da família. Minha avó, antes mesmo de acabar a refeição principal, não demorava para preparar as toalhas bordadas e as xícaras para servir à mesa. Naquele momento em que todos degustavam, a cafeína me fascinava. A balbúrdia de começo não passava agora de respirações, prevalecendo o silêncio. Poucos gestos se davam à mesa - apenas um simples sopro, a troca de olhares e um sorriso maroto. Tilintares das colheres soavam como partitura. Eles apreciavam o momento. Saboreavam o presente. Por contemplar várias vezes esse momento, aprendi aos poucos como apreciar uma boa caneca, e já pelos meus 9 anos os acompanhava na mesa. Sentia-me um adulto prematuro, mas, claro, era mais açúcar do que o próprio conteúdo que eu bebia. Meu paladar ainda não era lá simpatizante do Senhor Amargo, este que só veio a ser tornar meu melhor amigo aos 15 anos. Na adolescência, não demorei muito para praticar o bullying. Afastar do pobre açúcar os meus goles diários. Motivo de ensinamento dado pelos meus pais, em que certa vez, ao tomar café junto à mesa, percebi que sequer tocaram no açucareiro, causa de indagação. No ato, fiz cara de reprovação com certo desgosto, mas antes mesmo que a xícara queimasse meus dedos, eles me responderam: “O verdadeiro sabor não precisa ser adoçado”. Aquela frase ficou impregnada durante meses na minha mente. Era como um pó de café jamais coado e do qual eu bebia. Eu tomava algo falso, me questionava.

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Preparei-me psicologicamente para o real sabor do café. A verdade estava prestes a vir à tona. A caneca se aproximava lentamente, meus olhos vidrados, e eu pensava: “Mente aberta, você consegue. É apenas um amargo. O que pode ser de tão ruim?”. O café me venceu, e foram vários os nocautes ao ponto das cuspidas se tornarem um esporte. Só faltava a mira. Se ao menos as manchas sobre a toalha branca fossem arte, seria um renomado artista conceitual. Passado o esporte e da arte borrada sobre os panos, decidi que era a hora de ingressar na faculdade, e parar de apreciar somente o café dos outros. Recorri para a química, e logo me perguntei: “Como fazer café?” Tantos dilemas... Era como coar no escuro. Mergulhei inúmeras colheres de pó, e só cessei quando meu instinto barista instigou algo. Pudera eu dizer que a minha primeira experiência fosse um sucesso. Estava longe disso. Rotular como veneno de rato seria o mais apropriado. Logo percebi que o processo artesanal não seria o mais adequado. Viva a cafeteira elétrica! Grãos moídos passaram, e o fato de ter conseguido saborear do amargo, esteja ele nas barras de chocolate ou acompanhado do bom cappuccino, se tornara um deleite. O adoçar tornou-se lenda. O café aguçou as minhas percepções sobre aqueles que transitam sob meu olhar, aprendendo nos versos das embalagens que o colocar de uma colher açucarada não faz mal a ninguém. Mas não me refiro às xícaras, e sim às pessoas. Necessitamos ser mais doces nesta vida, pois de amargo entre nós já bastam nossas atitudes.

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*Cainã Ito é produtor cultural, apaixonado por cafés e estudante de Jornalismo.

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Chegou o novo Trident Global Connections, para vocĂŞ fazer a sua conexĂŁo.

Revista coolt junho 2014 1  
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