Page 1

UM ESTUDO DO LÉXICO DA CANA-DE-AÇÚCAR NO MARANHÃO

Luís Henrique Serra Curso de Letras Universidade Federal do Maranhão/ Projeto ALiMA

1. Introdução

A língua é o mais importante meio de comunicação e de identificação de um povo. A língua contém toda a existência humana, visto que é nela que o homem armazena todo o conhecimento e a experiência que lhe são necessários para viver em um mundo em que ele é o menos hábil. Nesse cenário, o processo de nomeação dos seres e dos objetos que cercam o universo humano ao longo dos séculos fez com que o léxico das línguas naturais se tornasse um importante registro linguístico e cultural humano. Para Biderman (2001), o processo de atribuição de nomes a cada objeto ou fenômeno que surge ajuda o homem a sistematizar, em sua memória, o universo que está a sua volta, e que lhe é vital conhecer. A autora afirma, ainda, que a primeira etapa do percurso científico do espírito humano é iniciada quando o homem começa a nomear os seres e os objetos e os categoriza em sua memória (BIDERMAN, 2001). Da mesma forma, dentro dos diferentes universos do interesse humano, a língua configura-se como um importante meio de comunicação interativa e de registro cognitivo. Cada signo linguístico de uma determinada área do saber e fazer humano (Administração, Direito, Agricultura técnica ou tradicional), que doravante chamaremos termo, funciona como um depósito de informações importantes para estudos sobre a cultura e a forma de organização social de uma comunidade. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo fazer o levantamento do léxico especializado, ou linguagem especializada, da cana-de-açúcar no Maranhão visando a conhecer esse universo e suas particularidades. Tendo em vista a relação estreita entre língua/sociedade/cultura, este trabalho visa, também, a contribuir para os estudos do português falado no Maranhão, sobretudo no âmbito do léxico, visto que o campo lexical especializado da cana-de-açúcar, certamente, contém particularidades do português falado no Estado.


Neste estudo, trabalhamos com uma pequena amostra dos dados do léxico especializado da cana-de-açúcar no Maranhão, extraídos do banco de dados terminológico do Atlas Linguístico do Maranhão – ALiMA.

2. A lexia, o termo e as ciências que os estudam: um breve resumo da literatura Lexicológica

Na Linguística, sobretudo na ciência que estuda o léxico, a Lexicologia, Lexicografia, Terminologia e a Socioterminologia, são muitas as definições que temos sobre o conjunto das unidades linguísticas: alguns entendem que o léxico é o conjunto de todas as unidades de uma língua, abrangendo, portanto, as palavras, as preposições, os artigos, os morfemas, entre outros elementos que têm função gramatical (gramemas, dêiticos, etc), ou seja, o conjunto de todos os elementos, nocionais ou não, de que uma língua dispõe; por outro lado, alguns estudiosos, como Schindler e Alan Rey1 (apud WELKER, 2004), defendem que léxico é o conjunto de elementos linguísticos com um conteúdo nocional, ficando de fora, por tanto, as preposições, os artigos e os morfemas da língua, ou seja, elementos com funções gramaticais (WELKER, 2004). Para este trabalho, adotamos a concepção de léxico, defendida por Rey e Schindler, o que significa dizer que só consideramos léxico as unidades linguísticas com conteúdo semântico, visto que um dos objetivos desta pesquisa é enfocar a relação língua, cultura e sociedade, com base em uma perspectiva semântico-lexical. Na Lexicologia, cada unidade linguística é denominada lexia, já na Terminologia, essas unidades são conhecidas por termo. Essa diferença terminológica é fundamental para a compreensão da natureza dessas unidades linguísticas. É importante ressaltar que termo e lexia, no sentido lato, são a mesma coisa, contudo, em um sentido mais restrito, o termo diferencia-se da lexia por sua função social – identificar um elemento de um universo particular, paralelo ao universo geral. Em outras palavras, o termo nomeia elementos e comportamentos de universo particular (ex: firewall da Informática, maniva, do universo da mandioca, e brainstrom do universo da Administração), e a lexia identifica elementos do léxico geral (ex: casa, mesa, papel).

1

Achamos esclarecedora a definição de léxico defendida por Alan Rey: “(...) conjunto indeterminado mas finito

de elementos, de unidades ou de „entradas‟ em oposição aos elementos que realizam diretamente funções gramaticais, como os determinativos, os auxiliares etc”. (REY apud WALKER, 2004, 17).


Tendo em vista essa distinção, a Lexicologia é a ciência que estuda a “palavra”, as lexias. As principais ocupações do lexicólogo é tentar compreender os processos de formação de palavras na língua geral, os neologismos; fazer análise mórfica das unidades linguísticas; conhecer e interpretar os elementos constitutivos do léxico geral (os morfemas livres e presos) e entender a relação léxico e sociedade; fornecer material teórico e linguístico para a produção de dicionários monolíngues e bilíngues das línguas naturais. A Terminologia, por sua vez, é o campo do saber humano que se ocupa da compreensão e da descrição do termo e de sua natureza classificadora. É papel do terminólogo classificar e identificar o termo dentro de um discurso especializado; distinguir sua natureza terminológica das dos outros elementos do léxico geral, perceber sua movimentação (terminologização e vocabulorização)

2

dentro dos diferentes discursos especializados e

fornecer material teórico e dados para elaboração de glossários e dicionários especializados mono e bilíngues. Dentro da Terminologia, a Socioterminologia é uma ciência que tem dado, nos últimos tempos, importantes contribuições para os estudos terminológicos. Se voltarmos um pouco no tempo e chegarmos à década de 30 do século XX, em Praga, verificaremos que, Eugen Wüster, engenheiro elétrico austríaco, elaborava uma teoria que, durante muito tempo, regeria o conhecimento e a prática terminologia, a Teoria Geral do Termo (conhecida como TGT). Na TGT, Wüster defendia que um termo é diferente de qualquer unidade linguística, e que a variação lingüística (fonética, fonológica, morfologia e discursiva/ diastrática, diatópica e diagerativa/ e mais ainda sincrônica e diageracional), inerente a qualquer unidade de uma língua, não poderia ser observada no termo, graças, sobretudo, à natureza monossêmica do termo. Para ele, a variação era a perturbação da unidade e, por isso, o terminólogo deveria combatê-la. Refletindo sobre a TGT e sua aplicabilidade real, teóricos como François Gaudin, Alan Rey e Maria Teresa Cabré propuseram a Socioterminologia, uma ciência fundamentada nos princípios teóricos metodológicos da Sociolinguística, que defende a variação terminológica, uma vez que o termo, no sentido linguístico, não se diferencia da lexia. Para esses estudiosos, o termo sofre as mesmas variações que os outros elementos da língua, e seu caráter monossêmico é conseguido, não por alguma característica especial do termo, como defendia Wüster, mas sim, por sua utilização em um contexto especializado.

2

Para maiores esclarecimentos desses dois processos de formação terminológica, é importante conferir Barbosa (2007).


Com base nessas ideias, Maria Teresa Cabré elabora a Teoria Comunicativa do Termo (TCT) que defende a variação terminológica nos moldes da Sociolinguística. A TCT é hoje um dos grandes avanços dentro da Terminologia, pois serve de embasamento para inúmeras reflexões sobre o termo e sua natureza, em diferentes linguagens de especialidade3. A pesquisa que nos propomos fazer está baseada nos princípios teóricos metodológicos da TCT e da Socioterminologia, visto que, como já constatamos em outros trabalhos (cf. SERRA, 2010), a variação terminológica é um fenômeno real em uma língua (linguagem) de especialidade. Acreditamos que o homem do campo, que cultiva e consome a cana-de-açúcar, quando utiliza elementos linguísticos que são comuns em seu discurso especializado, acaba por configurar sua própria linguagem de especialidade.

3. A cana-de-açúcar no Brasil e no Maranhão: algumas informações

A história da cana-de-açúcar no Brasil confunde-se com a própria história brasileira. Uma das primeiras culturas produzidas no Brasil, a cana-de-açúcar, segundo Lima (1998), chegou ao Brasil por intermédio dos escravos de Cabo Verde que vinham de seu país para trabalhar em terras brasileiras. Moura (2006) afirma que, durante muito tempo, a produção de açúcar sustentou a balança comercial brasileira, fazendo assim do açúcar um produto fundamental para a América portuguesa do século XVI. Lima (1998) afirma ainda que em meados do século XVII, o Brasil era o maior produtor mundial de açúcar. No Estado Colonial do Maranhão, os primeiros engenhos surgiram no município de Itapecuru, em 1622, multiplicando-se logo depois pelos municípios de Mearim, Guimarães e Pindaré (LIMA, 1998). Atualmente, o Brasil é um dos principais cultivadores da cana-de-açúcar no mundo, ficando entre os principais produtores de açúcar, etanol e outros derivados da cana-de-açúcar. O IBGE, no censo agropecuário de 2006, registrou o cultivo da cana-de-açúcar mais de seis mil localidades brasileiras, o que representam mais de 19 milhões para a economia brasileira. O Ministério da Agricultura registra, no ano de 2010, mais de 18 mil toneladas de cana-de-açúcar produzidas no território brasileiro. No Maranhão, a produção alcançou mais de 1 milhão de toneladas (Ministério da Agricultura, 2010).

3

Língua (linguagem ) para fins específicos, léxico especializado, ou mesmo, léxico


Segundo o IBGE (2009), o município de São Raimundo das Mangabeiras, ao sul do Maranhão, produz 1.200 mil toneladas de cana-de-açúcar por ano, ficando como o principal município produtor no Maranhão (IBGE, 2009). Como evidenciam os dados acima, o Maranhão está na rota das grandes produções de cana-de-açúcar no Brasil. É importante lembrar que boa parte dessa produção passa pelas mãos do micro e do pequeno agricultor maranhense, transformando-o em um dos principais atores de nossa economia. 4. Metodologia Os dados aqui apresentados fazem parte do banco de dados terminológico da cana-deaçúcar do Projeto ALiMA, mais exatamente de sua vertente Produto Extrativista e Agroextrativistas Maranhenses. Os dados dessa vertente são utilizados para produção de glossários socioterminológicos, dentre eles, o da cana-de-açúcar. A recolha dos dados é feita por meio de aplicação de questionários semântico-lexicais a indivíduos com o seguinte perfil socioeconômico:  Ambos os sexos; 

Com idade superior a 18 anos;

 Naturais das localidades pesquisadas;  Com experiência de mais de 5 anos, na atividade objeto da investigação. A aplicação dos questionários é registrada por meio de gravador digital e depois ouvida e transcrita grafematicamente. Para este trabalho, foi escolhido o município de São Bento, localizado na Baixada Maranhense, por ser o primeiro município investigado em nossa pesquisa e por sua importância na fabricação de produtos advindos da cana-de-açúcar, como a cachaça e o melaço. O levantamento dos termos do universo da cana-de-açúcar no Maranhão, que será demonstrado a seguir, foi realizado de acordo com as seguintes etapas:  Pesquisa bibliográficas e documental sobre a produção e do consumo da canade-açúcar no Maranhão e no município de São Bento;


 Seleção, no banco de dados do Projeto ALiMA, do material que comporá o corpus deste trabalho;  Seleção dos termos que comporão a amostra deste estudo;  Organização do quadro de termos do universo da can-de-açúcar. O corpus selecionado contém 35 termos e suas respectivas variantes. Para este estudo, selecionamos desse universo uma amostra com 23 termos distribuídos no quadro a seguir. 5. O léxico da cana-de-açúcar O quadro está organizado em colunas: na primeira, estão registrados os termos coletados4; na segunda, o significado de cada termo; e na terceira, as variantes encontradas no município de São Bento. Amostra dos termos da cana-de-açúcar em São Bento – Maranhão

4

TERMOS

SIGNIFICADO

VARIANTES

acero

espaço roçado entre a plantação de cana e a cerca, para que na hora da queimada, o fogo não alcance a cerca.

abate, limpeza

assentamento

local onde as caldeiras se localizam no engenho

batição

a primeira capina feita na roça de cana-de-açúcar

cachaça

líquido alcoólico extraído da depuração do bagaço da cana-de-açúcar após passar pela moenda

aguardente

cana

a própria cana-de-açúcar

cana-de-açúcar

canavial

local onde são plantados os pés de cana-de-açúcar

cana-ferro

cana-de-açúcar com a coloração rosada

canudo

pedaço da cana-de-açúcar que é enterrado para o crescimento de um outro pé.

capina

limpeza que se faz na roça de cana-de-açúcar, durante o desenvolvimento do pé de mandioca

olhadura

Optamos por preservar a fala dos informantes, razão por que nem sempre a forma apresentada corresponde à variante padrão


carro de boi

carroça, geralmente empurrada por um boi, em que são transportadas a cana-de-açúcar

carrero

pessoa que dirige o carro de boi

cova

buraco feito na terra para o plantio de pés de cana-deaçúcar

engenho

local em que é beneficiada a cana-de-açúcar para a produção de açúcar, cachaça e mel

enxda

instrumento de madeira com uma pá feita de ferro, utilizado para fazer as covas

foguista

pessoa responsável pela manutenção do fogo na caldeira

facão

instrumento, com cabo de madeira lâmina reta de aço, utilizado para o corte da cana-de-açúcar

garapa

caldo resultante da prensa da cana-de-açúcar

jovanesa

espécie de cana-de-açúcar com a coloração arroxeada

linha

pés de cana-de-açúcar plantados em fileiras, na roça

soca

parte da raiz da cana-de-açúcar que sobra, após o corte

tacho

pedaço de madeira onde a garapa é colocada para esfriar, para a produção de rapadura

pej

espécie de cana-de-açúcar com coloração verde fraco

terra roçada

terra preparada para o plantio da cana-de-açúcar

casa de engenho

fileira

Acreditamos que os termos desta amostra oferecem uma considerável visão do léxico da cana-de-açúcar no Maranhão. É importante observar que, mesmo em um só município (São Bento), é possível encontrar variação terminológica a como registrado à direita no quadro. Vale a pena observar algumas construções terminológicas como as encontradas no campo semântico produção: foguista, carrero, termos formados a partir da junção de um substantivo e um sufixo que denota profissão: -ista, - eiro. Alguns outros termos, não colocados nesse quadro, que já estão dicionarizados, como garapa, alambique, facão, enxada, tacho, engenho, entre outros. Porém, há alguns


desconhecidos nos vocabulários fora desse universo, como os termos batição, canudo (olhadura), cana-ferro e soca. Com estes primeiros resultados de nossa pesquisa, a hipótese que levantamos é a de que a variação terminológica é um fenômeno real na linguagem de especialidade do micro e pequeno agricultor da cana-de-açúcar no Maranhão. 6. Considerações finais Mesmo em seus primeiros passos, a pesquisa já demonstra algumas particularidades do micro e pequeno agricultor de cana-de-açúcar do Estado. Sua linguagem especializada apresenta um conteúdo lexical próprio e diferenciado, formado a partir de elementos mórficos comuns no léxico geral, como os sufixos que formam adjetivos profissionais, como em carreiro, fogueiro. Como afirmamos, os dados apresentados servirão de base para a produção do glossário socioterminológico da cana-de-açúcar no Maranhão que será importante para a comunicação entre o micro e pequeno agricultor de cana-de-açúcar e o profissional agrônomo, visto que a comunicação entre os dois, por vezes, sofre um considerável ruído. A melhora na comunicação entre esses dois interlocutores do universo da cana-de-açúcar (agrônomo e o pequeno agricultor) resultará na melhora dos serviços prestados pelo técnico agrônomo e, consequentemente, na melhora da produção da cana-de-açúcar e seus lucros para o micro e de pequeno agricultor. Por outro lado, um trabalho como este, tem importante contribuição a dar à conservação de parte do léxico maranhense que está em pleno processo de arcaização, visto que o universo agrícola sofre um severo processo de mecanização tem reflexos negativos na língua de especialidade do micro e pequeno agricultor, visto que que há uma tendência do pequeno agricultor a substituir sua linguagem pela do técnico o que implica dizer que haverá uma perda de parte significativas da cultura maranhense.

Referências BARBOSA, Maria Aparecida. Etno-terminologia e Teminologia Aplicada: objeto de estudo, campo de atuação. In. ISQUERDO, Aparecida Negri; ALVES, Ieda Maria. (Orgs). As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. Campo Grande: EDUFMS; São Paulo: Humanitas, 2007. v. 3. p. 433 – 445.


BARROS, Lídia Almeida. Curso básico de terminologia. São Paulo: EDUSP, 2004. BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. As ciências do léxico. In. OLIVEIRA, Ana Maria Pinto Pires de; ISQUERDO, Aparecida Negri. (Orgs). As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. Campo Grande: EDUFMS, 2001. v. 2. p 13-22. ISQUERDO, Aparecida Negri; KRIEGER, Maria da Graça (Orgs). As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. 2. ed. Campo Grande: EDUFMS, 2004. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cana-de-açúcar, quantidade

produzida

em

2009.

Disponível

em:

<

http://www.ibge.gov.br/cidadesat/comparamun/compara.php?codmun=211050&coduf=21&te ma=lavtemp2009&codv=v41&lang=>. Acesso em: 10/ nov./ 2010 LIMA, Zelinha Machado de Castro e. Pecados da gula: comeres e beberes da gente do Maranhão. São Luís: CBPC, 1998. MOURA, Ana Maria da Silva. Doce, amargo açúcar. Nossa história. Rio de Janeiro. n 29, v. 3 p 64 -68. Março, 2006. Ministério da Agricultura, Departamento da cana-de-açúcar. Acompanhamento da Produção

Sucroalcooleira

em

2010/2011.

Disponível

em:

<

http://mapas.agricultura.gov.br/spc/daa/Resumos%5CACOMPANHAMENTO_PRODUCAO _15_10_2010_10-11.pdf> acesso em: 10/ nov/ 2010. SERRA, Luís Henrique. Um estudo socioterminológico da mandioca no Maranhão. In. RAMOS, Conceição de Maria de Araujo. BEZERRA, José de Ribamar Mendes. ROCHA, Maria de Fátima Sopas. (Orgs). O português falado no Maranhão: múltiplos olhares. São Luís: EDUFMA, 2010, p 152 – 172. WELKER, Herbert Andreas. Dicionários: uma pequena introdução à lexicografia. Brasília: Thesaurus, 2004.

artigo - x encontro humanístico - última versão