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REGIÃO AUTÓNOMA DA MADEIRA GOVERNO REGIONAL SECRETARIA REGIONAL DE EDUCAÇÃO ESCOLA BÁSICA E SECUNDÁRIA PADRE MANUEL ÁLVARES N.º do Código do Estabelecimento de Ensino 3107 / 201

Área de Competência

Cidadania e Profissionalidade

Núcleo Gerador

Programação

Domínio de Referência

DR1 – Privado

Tema

Capacidade Prospectiva

Critérios de Evidência

Identificar formas de gestão da vida pessoal Planificar e optimizar projectos pessoais e familiares Explorar recursos para uma gestão estratégica pessoal

Cursos de Educação e Formação para Adultos EFA Portaria n.º 80/2008 de 27 de Junho EFA S T6

Actividade n.º

SOCIEDADE DO HIPERCONSUMO

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Texto n.º1 «Nasceu uma nova modernidade: ela coincide com a “civilização do desejo” que se formou ao longo da segunda metade do século XX. Esta revolução é indissociável das novas orientações do capitalismo, que preconiza o incitamento perpétuo da procura, da comercialização e da multiplicação indefinida das necessidades: o capitalismo de consumo assumiu a liderança das economias de produção. Em apenas algumas décadas a affluent society abalou os modos de vida e os costumes, instituiu uma nova hierarquia de objectivos, assim como uma nova relação do indivíduo com as coisas e o tempo, consigo próprio e com os outros. A vida do presente sobrepôs-se às expectativas do futuro histórico, e o hedonismo às militâncias políticas; a febre do conforto ocupou o lugar das paixões nacionalistas e os lazeres substituíram a revolução. Apoiando-se na nova religião da melhoria contínua das condições de vida, o melhor-viver tornou-se uma paixão das massas, o objectivo supremo das sociedades democráticas. Um ideal exaltado em cada esquina. Raros são os fenómenos que conseguiram mudar de forma tão profunda os modos de vida e os gostos, as aspirações e os comportamentos da maioria das pessoas num período de tempo tão curto. Nunca teremos verdadeiramente a noção de quanto o homem das sociedades liberais “deve” à invenção da sociedade de consumo em massa. Aparentemente, nada ou quase nada mudou: continuamos a evoluir na sociedade do supermercado e da publicidade, do automóvel e da televisão. No entanto, nas duas últimas décadas, surgiu uma nova “convulsão” que pôs fim à boa velha sociedade de consumo, transformando tanto a organização da oferta como as práticas quotidianas e o universo mental do consumismo moderno: a revolução do consumo sofreu ela própria uma revolução. Uma nova fase do capitalismo de consumo teve início: trata-se precisamente da sociedade de hiperconsumo.» (Gilles Lipovetsky, A Felicidade Paradoxal, Ed. 70, pp.7-8) Texto n.º2 «A partir do final dos anos 70, quando a tecnologização moderna das casas praticamente se generalizou, desenvolve-se o multiequipamento, que traduz a passagem de um consumo organizado pela família a um consumo centrado no indivíduo. O impacto desta multiplicação dos objectos pessoais é considerável, uma vez que cada indivíduo pode, de certa forma, organizar a sua vida privada ao seu ritmo, independentemente dos outros. Telemóveis, microcomputadores, multiplicação de ecrãs de televisão, das aparelhagens de alta-fidelidade e das máquinas fotográficas digitais: o multiequipamento e os objectos electrónicos deram lugar a uma crescente individualização dos ritmos de vida, a um hiperindividualismo de consumo que resulta em actividades dessincronizadas, práticas domésticas diferenciadas, utilizações pessoais do espaço, do tempo e dos objectos, em todas as faixas etárias e todos os meios. Objectos como o telemóvel, o atendedor de telefone, o congelador, o microondas, o videogravador têm em comum o facto de permitirem aos indivíduos construir de forma autónoma o seu espaço-tempo. Assistimos à hiperindividualização dos bens de consumo, com ritmos descompassados no 2


seio de uma mesma família, a dessincronização das actividades quotidianas e da gestão do tempo. O lema da sociedade de hiperconsumo, escrito em letras triunfantes, será: “A cada um os seus objectos, a cada um os seus hábitos, a cada um o seu ritmo de vida.”.» (Gilles Lipovetsky, A Felicidade Paradoxal, Ed. 70, pp.88-89)

Texto n.º3 «Já nem a religião constitui um contrapoder face ao avanço do consumomundo. Ao contrário do que se verificava no passado, a Igreja já não privilegia as noções de pecado mortal, já não exalta o sacrifício ou a renúncia. O rigorismo e a culpabilização perderam muito da sua importância, tal como as antigas temáticas do sofrimento e da culpabilização. Uma vez que as ideias de prazer e desejo são cada vez menos associadas à “tentação”, a convicção de que cada um tem de carregar a sua cruz na Terra vai-se esbatendo. Já não se trata tanto de inculcar a aceitação das provas, mas sobretudo de responder à decepção perante mitologias seculares que não conseguiram cumprir a sua promessa e trazer a dimensão espiritual necessária ao desenvolvimento completo da pessoa. De uma religião centrada na salvação no Além, o cristianismo passou a ser uma religião ao serviço da felicidade terrena, colocando o ênfase nos valores da solidariedade e do amor, na harmonia, na paz interior, na realização total da pessoa. Daqui se concluiu que assistimos, não exactamente ao “retorno” do religioso, mas sobretudo a uma reinterpretação global do cristianismo, tendo-se este último ajustado aos ideais da felicidade, hedonismo e desenvolvimento pessoal difundidos pelo capitalismo do consumo: o universo hiperbólico do consumo não foi a sepultura da religião, mas o instrumento da sua adaptação à civilização moderna da felicidade terrena.» (Gilles Lipovetsky, A Felicidade Paradoxal, Ed. 70, pp.111-112)

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FELICIDADE PARADOXAL Texto n.º4 «Quais são os efeitos do consumo-mundo? Para onde nos dirigimos? Que males nos perseguem? À “revolução da esperança” sucedeu a consciência dos “danos do progresso”, a desconfiança face às novas tecnologias, o receio da degradação do nível de vida. Se, por um lado, a sociedade de hiperconsumo conseguiu neutralizar as lutas simbólicas que orquestravam os actos de consumo, por outro, reproduz incessantemente novos motivos de conflito entre o homem e as coisas, o homem e ele próprio, o homem e o social. Por detrás da ligeireza consumista, subsistem as angústias do mal-estar, do “duro desejo de durar”, da luta pela vida e pela sobrevivência. Numa época em que as nossas sociedades são mais ricas e mais poderosas que nunca, ressaltam os receios da exclusão e das restrições, as obsessões relativamente à idade, à saúde e à segurança: a humanidade mostra-se, afinal, tão vulnerável e frágil como no passado. Adivinha-se no horizonte, não a aniquilação dos valores e sentimentos, mas, num cenário mais prosaico, a desregulamentação das existências, a vida sem protecção, a fragilização dos indivíduos. A sociedade de hiperconsumo é contemporânea da espiral da ansiedade, das depressões, das carências ao nível do amor-próprio, da dificuldade em viver. Recordando as palavras de Woody Allen: “Deus morreu, Freud morreu, e eu não me sinto lá muito bem.” Todos nós temos cada vez mais dificuldade em assumir os problemas da vida, todos temos a sensação de que a vida se tornou mais pesada, mas caótica, mais “impossível”, apesar do progresso das condições materiais. A par da euforia do bem-estar, todos temos, mais ou menos, a sensação de não termos vivido aquilo que queríamos viver, de sermos mal compreendidos, de passarmos ao lado da “verdadeira vida”. Se nas sondagens a maioria dos inquiridos afirma ser feliz, todos nós, a intervalos mais ou menos regulares, nos mostramos inquietos, angustiados, insatisfeitos com a nossa vida privada ou profissional. A civilização que se anuncia não vem abolir a sociabilidade humana, mas destrói a tranquilidade interior e a paz com o mundo, como se a insatisfação do indivíduo consigo mesmo aumentasse na razão directa da satisfação proporcionada pelo mercado. Um passo à frente, um passo atrás: a alegria, a ligeireza da vida não vão de mãos dadas com o progresso. Cada vez mais prazeres materiais, cada vez mais viagens, mais divertimentos, maior esperança de vida – e, afinal, nada disso nos abriu de par em par as portas da alegria de viver.» (Gilles Lipovetsky, A Felicidade Paradoxal, Ed. 70, pp.126-127)

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Texto n.º5 «Ao longo do tempo, a civilização materialista tem sempre sido alvo de críticas por parte das mais diversas correntes de pensamento. Os movimentos cristãos tradicionais acusam-na de arruinar a fé e as obrigações religiosas. Os “republicanos”, a por Rousseau, criticaram o luxo e as comodidades da vida, culpando-os da corrupção dos costumes e das virtudes cívicas. Os racionalistas fustigaram a futilidade da moda, o supérfluo e o esbanjamento das sociedades da abundância. Os pensadores aristocráticos ou elitistas exprimiram o desprezo que lhes inspirava uma cultura “vulgar” que fazia triunfar as paixões mais medíocres. Quanto aos teóricos marxistas, lançaram as suas flechas contra o capitalismo da opulência, encarado como um novo ópio das massas, uma máquina económica produtora de falsas necessidades, de passividade alienante e de uma solidão impotente. A estas críticas “externas” vieram-se acrescentar críticas “internas” que denunciavam a impostura associada ao consumo, a incapacidade das sociedades ricas contentarem verdadeiramente os homens. Isto porque, enquanto promete os paraísos do ter, o mundo do consumo não deixa, na realidade, de orquestrar as frustrações, carências e desilusões da maioria das pessoas. Proclama-se a euforia, e a desolação dos seres aumenta a cada dia. Opulência material, défice de felicidade; proliferação dos bens de consumo, espiral de pobreza: na sociedade de hiperconsumo a insatisfação cresce mais depressa que as ofertas de felicidade. Consumimos mais, mas vivemos menos; somam-se os apetites de aquisição e agudizam-se as insatisfações individuais. Desespero, desapontamento, desilusão, desencanto, tédio, nova pobreza: o universo mercantilizado agrava metodicamente o sofrimento do homem, conduzindo-o a um estado de insatisfação irredutível.» (Gilles Lipovetsky, A Felicidade Paradoxal, Ed. 70, pp.135-136)

Os Formadores: Luis Freitas Nélio Jardim ___/___/2011

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Programação  

cibernetica antropoide

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