Page 1

Luís Fernando Couto

Dezesseis peças, 100x100cm, acrílica sobre tela/1998


Arte Gráfica Luís Fernando Couto Fotografia Gilson Castro Textos (Orixas) Thot Evangelista - ODÉ EGÃ Texto (Histórico) Eliane Amaral Texto (Apresentação) André Luiz Mascarenhas - TALISSA 1998 Rio de Janeiro


500 Anos de História

Orixás: a lenda colorida da luz é um trabalho que está intimamente ligado à nossa cultura e à nos­sa raiz. Simboliza a liberdade de um povo, que se manteve puro, apesar do massacre a que foi sub­metido. Simboliza sua grande força interior e tradi­ção, capaz de influenciar na formação da cultura bra­sileira. Esta exposição é uma homenagem mais do que justa, no ano da celebração dos 500 anos do Des­cobrimento, pois não podemos pensar em Brasil sem levar em conta a cultura negra e tudo o que ela representou e representa na nossa história. O ne­gro ébano dessa resistente cultura, com todos os seus matizes, está mais do que imortalizado na pin­tura de Luis Fernando Couto. Vivemos num país onde 70,4 milhões de brasi­leiros são negros ou descendentes de negros, se­gundo levatamento feito em 1997 pela Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad). Isso representa 45% da população brasileira, e que nos torna o maior país em habitantes da raça negra fora do continente africano. É, portanto, mais do que necessário valorizar-mos essa cultura, que também é a nossa, pois as marcas da escravidão ainda persistem, no disfarçado precon­ceito racial e na situação miserável de milhares de brasileiros. Não se pretende unicamente discorrer a respeito do legado dessa cultura, mas sobretudo le­var a públicoo conhecimento e a percepção do mis­tério, do encanto e da magia dos Orixas. O Tráfico A expansão marítima significou a escravização dos negros. Nos tempos das descobertas, pelo menos 25 milhões de africanos, entre 1500 e 1870, foram captu­rados para servirem de escravos. Tribos inteiras foram destruídas e famílias separadas. Em quatro séculos, do XV ao XIX, a Áfiica perdeu, entre escravizado se mor­ tos 65 a 75 milhões de pessoas. Nos portos brasileiros desembarcaram 4 mi­lhões de africanos entre 1551 e 1850, para atender a lavoura canavieira, à mineração, ou para traba­lhar nas plantações de fumo, algodão e, principal­mente, de café. Quando a escravidão foi abolida (1888) os negros representavam 13% da popula­ção brasileira. Ritual de Liberdade Reunidos nas senzalas os negros escravizados puderam cultuar seus orixas. Se reagrupavam em “batuques” por nações de origem. Essa multidão de explorados somaram suas diferenças e criaram uma nova forma de viver nas terras que foram obri­gados a morar. Nas cerimônias, os escravos ao evocarem os orixas procuravam energia para so­breviver ao jugo ao mesmo tempo que conserva­vam o seu passado. Em seus cultos, resistiam sim­bolicamente à dominação. Criaram assim, um ritu­al de liberdade, protesto e reação a opressão. “Re­zar, batucar, dançar e cantar eram maneiras de ali­viar a asfixia da escravidão” 1.

Eliane Amaral e André Luiz Mascaremhas- TALISSA (I) In históriaria da Sociedadc Brasileira. pág. 27


Nossas Negras Raízes

O Berço

Recife e Salvador nos séculos XVI e XVII, e Rio de Janeiro, no século XVIII foram os princi­pais receptores de negros bantos (como os ango­las), de sudaneses (como os iorubás e gegês) e malês, de idioma árabe. Os primeiros negros que foram trazidos da Áfri­ca para o Brasil, como escravos, provindos de An­gola e do Congo pertenciam à família Bantu. Prati­camente já tinham perdido seus costumes e culto religioso, quando no século XVIII, com a desco­berta de ouro, foram trazidos negros da Costa do Marfim, no litoral norte do Golfo de Guiné. Estes negros da Costa do Marfim, desembar­caram em Salvador (na época capital do Brasil). Eles pertenciam a muitas nações importantes na África, alguns com adiantado grau de cultura como Gegês e os Iorubás, também chamados nagôs. Foi principalmente dos cultos iorubás que surgiu no Brasil o Candomblé ou Culto dos Orixás. A partir daí, a instituição de confrarias religiosas, sob a égide da Igreja Católica, separava as etnias africanas. Os negros de Angola, os Gegês e os Na­gôs, cada grupo formava uma sociedade religiosa com nomes de santos católicos. Com isso, juntaram seus cultos, pois na África, cada orixa estava ligado a uma cidade ou a uma nação inteira. Hoje, não só em Salvador, mas em todo país, se encontra uma grande variedade de locais onde se pratica a religião africana que no Brasil é conhecida principalmente como Candomblé - um ritual mágico no qual movimentos, cores e sons se mis­turam harmoniosamente. Nasce uma religião brasileira: o candomblé A resistência das religiões africanas às forças da alienação, da opressão e do extermínio, aca­bou por fundir a multifacetada africanidade em um só caminho: a religião do candomblé. O canto e a dança eram o refúgio dos negros. No candomblé os homens penetram no mundo dos deuses com todos os seus mistérios e por meio da dança e do canto atinge-se o êxtase místico. O orixa vindo ao encontro dos mortais proporciona alegria, paz e conforto. Do espaço ocupado pelas confrarias religiosas os negros partem para a conquista de um território próprio. Surgem os terreiros para possibilitarem a prática dos rituais. Os primeiros nascem na Bahia, estado de onde se difunde esses espaços ritualísti­cos. Os terreiros, além de promover o culto aos orixás, também têm importante papel social. O Ué Axé Opô Afonjá, instalado em 1910, na Bahia, é um deles. No estado do Rio de Janeiro instalaram­se numerosos candomblés, originários dos três ter­reiros kêto da Bahia.


Nossas Negras Raízes

A cultura que veio pelo mar A cultura brasileira resultou no entrelaçamento das culturas indígena, européia e negra. É indiscutível o valor da contribuição dessas culturas. Des­tacamos aqui a contribuição da cultura negra em alguns aspectos. Entre todos os estados é na Bahia que estão os mais conhecidos grupos de divulgação da cultura negra. Agremiações culturais e musicais, como o llê­ayê, Olodum e a Timbalada, vêm investindo parte do que ganham em programas de caráter social. A forte participação na cultura brasileira têm in­fluências manifestadas em diversas áreas, como: Alimentação - com o vatapá, acaçá, acarajé, cocada, pé-de-moleque, etc. Antes de sair de casa, as baianas às vezes, faziam oferendas de parte das comidas nos altares de seus orixas. “Quando as pessoas compravam e comiam acarajé, participa­vam, sem saber, de uma comida em comum com Iansã. Assim, por consideração aos gostos dos orixas, nasceram e perpetuaram-se os vários qui­tutes da Bahia” 2. Instrumentos musicais - tambores, ataba­ques, cuíca, berimbau. Danças- através do quilombo, maracatu e vá­rios aspectos do bumba-meu-boi. Vestuário - com o traje de baiana com turban­te, saia rodada, braceletes e colares. Agricultura - pela maneira de cultivar produ­tos como algodão, erva-doce e pimenta. Mineração - pelo uso da batéia para a lava­gem do cascalho. Religiosidade - representada por Xangô do Nordeste e o Candomblé. Sem contar a capoeira, em que o rítmo de uma determinada cantiga de Logunedé, corresponde as batidas do pandeiro na capoeira. Ou seja, o candom­blé é a fonte mágica de onde brota a magia da capo­eira. Orixás: força e vida Os orixás são a encarnação da natureza, base da religião africana, e existem enquanto forças mís­ticas, derivadas da profunda relação que o ho­mem mantém com a natureza e com suas forças psíquicas. O orixás vivem no órun, reino sobre­natural refletido no aiyé, nosso mundo material. Eles se manifestam na natureza e nos seres huma­nos, que herdam suas caracteísticas físicas e psi­ cológicas. “Cada orixa torna-se um arquétipo de ativida­de, de profissão, de função, complementares uns aos outros, representando assim o conjunto das forças que regem o mundo”3. Os orixas são a raiz e a lenda que cada homem traz dentro de sí. A lenda colorida da luz nada mais é do que a força evocada da natureza pelos homens, almejando as­sim alcançar a liberdade e a plenitude.” Homens e princípios cósmicos (orixás) se encantam, se atra­em, são parceiros de um jogo” 4. (2) In Orixás. pág.32 • (3) Ibidem. pág. 21 . (4) In A Verdade Seduzida, pá. 162


Bibliografia: Alencar. Francisco. História da Sociedade Brasileira. Francisco Alencar, Lúcia Carpi Ramalho, Marcus Venício Toledo Ribeiro. Ao Livro Técnico SIA, 2 • edição, Rio de Janeiro, 1981. Verger, Pierre Fawmbi. Orixas. Editora Corrupio, São Paulo, 1981. - - - -- - - - - - - Lendas Africanas dos Orixas. Pierre Verger/Carybé. Editora C’orrupio, 2 • edição, São Paulo, 1987. Sodré, Muniz. A Verdade seduzida: por um conceito de cultura no BrasiI. Rio de Janeiro. Codccri, 1983. Coleção Cultura Brasileira vol 01. Magnoli, Demétrio. Geografia geral e do Brasil: paisagem e território. Demétrioagnoli, Regina Araújo. Editora Moderna, 2a edição. São Paulo, 1997.


A lenda colorida da luz O artista, grande cúmplice dos elementos, se reveste de mago para captar os seus mistérios. Fogo e terra, água e ar. São eles que movem o mundo. Este mundo, segundo a cultura negra, é regido pelos Orixás. Entidades que repre-­ sentam a dignidade, a luta e a preservação dos costumes de um povo massa-­crado devido a escura tonalidade de sua pele. Durante mais de trezentos e cinquenta anos os navios negreiros transportaram através do Atlântico os es­cravos e com eles o seu modo de vida e suas crenças. Os Orixas são a própria encarnação da natureza, base da religião africana, e existem enquanto forças místicas. derivadas da profunda relação que o homem mantém com a natureza e com suas forças psíquicas. Não é uma coincidência que o artista plástico Luís Fernando Couto tenha abraça­do esse trabalho que é completamente diferente de tudo o que já produziu. Na estrada desde 1980, Luís Fernando passa da exploração do hiper-realismo para o abstrato, e deste para a profunda experiência de representar a plena subjetivida­de da energia pulsante da vida. A magia dos Orixás o envolveu e tomou conta da sua mente e de seu traço. O que podemos dizer do seu magnífico trabalho sobre estes cavaleiros da luz? Luís Fernando teve a sutil percepção e a plena sintonia para transmitir a energia que emana em toda a plenitude dessas Forças encanta­das do povo negro. O resultado se encontra em muitos metros quadrados de pintura em acrílica sobre tela. São 16 quadros, cada um representando a essência característica de cada divindade. Os Orixas são a raiz de tudo. A lenda que cada um traz dentro de si. A história da força motriz da vida. Mergulhemos pois em cada um deles e no todo. Suas cores, seus matizes, seu poder. E vamos conhecer o caçador Oxóssi e o seu filho pescador Logunedé. O feiticeiro Ossain. A força do vento de lansã. O sentido de justiça de Xangô. A senhora do mar lemanjá. O deus criador Olorum. O valente guerreiro Ogum. A doce mãe Oxum. O arco­íris e a serpente de Oxumaré. A Orixa mais velha e sábia, Nanã. O misterioso Obaluaê. A paz de Oxalufã, o rei pai, e de seu filho Oxaguiã. O mensageiro dos Orixás, Exu. E o senhor das mutações, o Tempo. Orixás: a pura energia que ema na da luz

Eliane Amaral Jornalista


“Apenas a visão de um mero servidor da cultura - um amante correspondido - sobre a retratação do artista. E tem como objetivo somar à leitura da obra a dimensão e a proximidade, em cada um de nós, dos orixas”.

Thot Evangelista - ODÉ EGÃ


Olorum O CRIADOR

LuĂ­s Fernando Couto

Desesseis telas 100x100cm acrĂ­lica sobre tela fevereiro a novembro de 1998


por Thot Evangelista - ODÉ EGÃ


1

Exu A LIGAÇÃO “SÓ FALE COMIGO SE REALMENTE ESTIVER CERTO DO QUE QUER.” Divertimento. Talvez seja essa a palavra que mais o define. Sempre rindo, não importa se para ou de você, segue alegre sua estrada. Por dominar como ninguém a arte de confundir é necessário que primeiro seja agradado para, só então, agradar alguém. Dominar o negativo como o positivo não lhe requer nenhuma ciência. Em geral, veste-se de cordeiro para ocultar um temperamento forte e imprevisível atua diretamente nacomunicação entre os mundos, por isso pode ser invocado a qualquer momento, desde que receba sua gratificação. Seu papel é o de levar a mensagem. Não espere uma triagem de sua parte. Mandou, pagou, chegou. Por isso, é preciso pensar bem antes dechamá-lo. Dar viagem perdida não lhe agrada. Jamais confunda sua função de mensageiro. O mesmo que vai e leva, volta e traz. A renovação é uma de suas caracteristicas. Gosta de ver o velho sendo recriado. Por ser jovem e viril tem poder revigorante entre os homens. A multiplicidade e a contradição dificultam sua definição, apesar de astúcia e vaidade se apresentarem de imediato em seu semblante. O filho de Exu - um entre mil - é dinâmico, simpático, elegante e generoso. Mas, se necessário, põe fogo com uma das mãos e o apaga com a mesma. A outra, ele nem tira do bolso.


2

Ogum A DETERMINAÇÃO “SE NÃO É PARA MATAR ENTÃO NÃO PEÇA A MINHA ARMA.” Decidido, vibrante e emotivo. Vive em perma­nente estado de vigilância e atuação. Se a força o seduz, o poder o encanta. Ter uma de suas determinações contrariadas resulta em atitudes impensadas de ira, normalmente seguidas de arrependimento, gerando autopunição, não mais suave que o motivo do próprio arrependimento. Suas explosões, embora assustadoras, estão sempre fundamentadas em razões justas e coe­rentes. Não poder atender a um pedido é algo inaceitável em sua concepção. Porém, não ad­mite ser chamado em vão. Seu impulso e cora­gem, por muitos chamados de arrogância, abrem portas que jamais são derrubadas, antes de insistentes batidas e propostas de negocia­ções. Um desafio é sempre muito bem-vindo. Quando não sai vitorioso, a frustração toma-se um incentivo para a próxima disputa. A persis­tência é apenas uma de suas características, bem como a exigência e a perfeição. Por isso é que não manda fazer, vai e faz. Tentar limitar um filho de Ogum é o mesmo que tentar tirar-lhe o direito de respirar: Ogum ja­mais pode ter sua ação determinada. Ele sim, determina a ação.


3

Oxóssi O PROVEDOR “O QUE É MEU É MEU. O QUE NÃO É PODE VIR A SER.” Vibrante, atraente e destemido. Orgulhoso de seus próprios atos. Fala da vida com alegria e empolgação. Costuma chamar a atenção onde quer que chegue. Sua presença é agradável e seu grande senso de desconfiança somado à sua rapidez mental e física, o ajuda a lidar com as mais diversas situações. É um colecionador de amizades, das quais não vê diferença. Gosta de viver acompanhado, mas não permite grandes intimidades. Ama seu vizinho, mas não derrube sua cerca. É um bom coordenador de atividades; distribui tarefas e também as executa, apesar de não ser essa sua maior preferência. Sua intelectualidade acaba por prevalecer. Impaciente e temperamental, nunca avisa quando e porque vai se irritar, apenas irrita-se. Como bom caçador faz questão da fartura e tem necessidade de auto­expressar-se. No amor é muito sentimental; seus desejos nascem na emoção, mas sua racionalidade trata de filtrá-los. A beleza, a variedade e a inteligência encantam Oxóssi. Se alguma situação torna-se entediante, foge assustado à procura de novas matas. Sua liberdade de expressão é vital. Coibi-la é o que há de mais enlouquecedor em sua cabeça. Se reconhecesse a morte, certamente preferiria morrer a ver-se aprisionado. O filho do grande Oxóssi é aquele que está sempre de pé. Se vai ao chão é para caçar. E quando levanta, podem esperar; traz nos dentes a caça mais linda de toda a floresta.


4

Ossain A SEDUÇÃO “SE SABES QUE TE VEJO, PARA QUE OLHAR PARA MIM?” Alegre, bem humorado e de natureza calma, procura ter sempre uma aparência bem cuidada. Semeia seu mistério de maneira delicada e sutil, embora prático e objetivo no dia-a-dia. Crítico e detalhista, empenha-se nas tarefas assumidas, defendendo seus pontos de vista até o fim. Por ter medo de falhar, diz não ao devaneio e exalta o concreto. Prefere ter a intelectualidade por perto a conviver com pensamentos confusos e ignorantes. Curioso, gosta das novidades. Com boa assimilação, procura estar sempre bem informado, se interessando por assuntos, às vezes, desprezados por muitos. Como precisa se esconder - teme a desilusão - pergunta demais para evitar assim o questionamento a seu respeito. É imune à sedução, mas seduz, e muito, ao lidar com os fatos sem se importar com os conceitos. Não se preocupa em ver o todo, vive o presente e se perde ao perceber o futuro. Quando ama, vive um amor racional de sentimento forte e dedicado sempre atento à qualidade desse amor. Para um filho de Ossain, a capacidade de seduzir está no sumo de cada folha. Ver a árvore e conhecer quem a plantou, pouco importa.


5

Tempo A REFLEXÃO “NADA COMO UM DJA ATRÁS DO OUTRO.” Pensamento a tivo, passos destemidos, perseverança e, claro, muita paciência. A disciplina de um sábio está na espera do momento certo para atuar com força e determinação. A espera é um Dom. Plantar, cultivar e colher são fases de igual importância para quem sabe que em todos os dias o número de horas é sempre o mesmo. É importante entender que o tempo tem seu próprio tempo. Fidelidade, submissão e cautela podem ser acessos à vitória merecida. Outros tantos caminhos igualmente existem, mas tantos outros pontos de chegada também. Preterir o tempo é inútil. Chova ou faça sol, ele está sempre lá. O filho do Tempo sabe como ninguém, que nenhuma fruta amadurece antes de sua época, mas reconhece que nada impede que ela seja colhida em qualquer tempo. É a liberdade de escolha.


6

Obaluaê A TRANSFORMAÇÃO “O QUE NÃO PODE DEIXAR DE SER COMO É, NÃO ME INTERESSA.” Cauteloso, discreto. Às vezes convencional e metódico. Se necessário, frio e exato, mas sempre prudente nas atitudes. Dono de uma introspecção natural demonstra suas emoções - quando demonstra - sem muito estardalhaço. Sorri enquanto todos gargalham. Da mesma forma que uma simples cara feia diz tanto, ou mais, que um grito de raiva. Adepto da filosofia de que cada um deve fazer a sua parte, se impacienta com a acomodação. Afinal, transformar é preciso. Se verdadeiramente contrariado chega a ser vingativo sem ser inconsequente. Aceita o corretivo justo, embora a segunda chance não seja muito o seu forte. No relacionamento afetivo raramente é capaz de uma paixão violenta. Apenas ama, já que defende a mente que controla o peito. A depressão costuma até visitá-lo com freqüência, mas transformar tal sensação é o seu algo mais. Conhecer bem um filho de Obaluaê quer dizer transpor suas características. Ou seja, primeiro é preciso se transformar para, sô então, vê-lo transformado.


7

Oxumarê O MISTÉRIO “ESTE E AQUELE; ESTA E AQUELA; ISTO E AQUILO. PARA MIM, NÃO HÁ Di fERENÇA.” Rápido e sagaz, seu lado prático facilita sua vida diária. Passa da noite para o dia, sem alterar sua naturalidade. Tem uma visão do bem e do mal, diferentemente dos demais. Chega a enxergar verdades e mentiras sob a mesma ótica. Tudo isso prova quanto os opostos são equilibrados, deixando dúvidas em quem lhe chama à atenção. Veste-se com elegância, gosta de jóias e procura manter atitudes que impressionam. Raramente abre seu coração, prefere a superficialidade quando fala de sua vida. Sempre atento, procura estar em paz com todos, pelo menos aparentemente. Mas quando se sente prejudicado não vacila no combate. A intriga pode ser uma de suas armas. Enigmático, valoriza o mistério, guardando segredos, parcialmente revelados de acordo com sua vontade. Conta o milagre sem revelar o nome do santo. Quando ama, ama. Quando odeia, diz que ama, pois ao invés de declarar a guerra, prefere armazenar munição e esperar por ela. No relacionamento afetivo gosta de companhia forte, dinâmica, sedutora e. principalmente, segura. Pois, seu misterioso jeito de ser cativa olhares de ambos os sexos. O que pode parecer surpreendente para muitos está sob a visão natural dos filhos de Oxumaré. Eles acreditam que os polos, iguais ou diferentes, tanto se atraem como se repelem.


8

Logunedé O ENCANTO “EU SEI O QUE FAZER E FAÇO BEM.” Eufórico, embora tímido. Impaciente, ao mesmo tempo que é cauteloso. Protetor e protegido. Extremamente alegre, mas às vezes melancólico. A dualidade faz prutede todo o seu ser. Talvez por isso, traga consigo a capacidade de facilmente encantar a todos. A doçura da mãe e a irritabilidade do pai são evidentes. Procura separar bem as coisas: se caça, não pesca. Gosta da liberdade de agir e das alegres aventuras da descoberta. Oque é monótono não o agrada. Como o pai, precisa de mudanças, mas sem abrir mão da segurança de um lar. Como não poderia ser diferente, as contradições estão presentes no seu discurso, mas nunca no seu pensamento. Sabe bem o que quer e, com convicção, descarta a presença de intrusos, uma vez que não vacila em suas opiniões e nem é muito simpático ao ouvir. Por ser jovem é muito malcriado, do tipo que não leva desaforo para casa. Desembaraçado, movimenta-se com rapidez, graça e elegância. É vaidoso, principalmente com cuidados da aparência. No amor vive as alegrias e as faciIidades da relação. A responsabilidade e o sofrimento da vida amorosa não são parte dele. Seus pensamentos são intensos e criativos. Com isso, é bastante sonhador. E às vezes comporta-se como se realmentea vida fosse um sonho. A auto-suficiência é uma das características dosfilhos de Logunedé. Por isso, se necessário, prefere até aprender às escondidas, mas jamais dizer que não sabe.


9

Xangô A INVENCIBILIDADE “SE TEM MENOS, É PORQUE NÃO SOUBE MERECER MAIS.” Generoso e cortês. Orgulhoso e impulsivo. Ambicioso e autoritário. Honesto e idealista. Elegante e vaidoso. Mas, acima de tudo, justo. É capaz de ser contra os próprios filhos, se eles estiverem errados. A Justiça à toda prova para quem merecer é seu lema. Possuidor de uma franqueza inigualável, não dissimula e nem esconde sentimentos. Exigente com seus desejos, gosta do luxo e do prazer. Sente-se bem em compartilhar bons momentos com os amigos. As festas, em geral, ganham sua admiração. Por acreditar no poder, a busca da fortuna e do sucesso fazem parte do seu cotidiano. Não tem muita paciência com a criatividade. Prefere o que já está pronto. Assim, sobra mais tempo para o desfrute. Gosta muito da vida e se afasta de tudo o que for contrátio a ela. Admitir seus erros não é tarefa muito fácil. A inflexibilidade o acompanha, principalmente quando certo de suas convicções. Convive facilmente com mais de um amor, sem perder a diplomacia social e o controle da situação. A prática sempre diz muito mais que a teoria. Arrependimento é palavra que desconhece. Por ser defensor imbatível da justiça, empenha-se nas decisões corretas, nem que para isso tenha que contrariar multidões. Luta quem pode e vence quem merece. É com este pensamento que o autêntico filho de Xangô faz sua marca. Afinal, aos justos, a vitória.


10

Iansã A EXPLOSÃO “PRA QUE MANDAR RECADOS, SE EU POSSO CHEGAR E DIZER?” Franca e decidida, não tem outro compromisso, senão com a verdade. Sua volúpia é constante. Encara a vida como uma batalha. Não dorme, descansa. Não briga, vence. Não deseja, conquista. Como uma tempestade, chega e diz ao que veio. Não aceita ordens e muito menos escuta desaforos. Independente, altiva e poderosa, tudo o que é oculto lhe interessa. Se não for provocada consegue manter um temperamento tranquilo e afetuoso. O ciúme é um de seus maiores problemas. Sempre reage com cólera e violência às provocações dos amantes. Inflexível em suas opiniões, pensa friamente e age com rapidez. Seus elogios são verdadeiros, suas críticas mais ainda. Nunca diz algo só para agradar. Sua coragem é a base de tudo. Não teme sequer a morte. Conhece exatamente seus defeitos e qualidades, tendo a capacidade de ser sua própria analista. Quando ama é sensual, despreza a solidão e busca sempre alguém cortês, romântico e encantador; uma companhia realmente capaz desequilibrar seu jeito vulcânico de ser. Assim como o vento, o filho de lansã tanto traz como leva, sem precisar de intermediários. Acredita que se anunciar uma explosão, já reduz sua força. E isso não é interessante.


11

Oxum A SENSIBILIDADE “AO BELO, TUDO. AO FEIO, MEU DESEJO DE QUE FOSSE BELO.” Doce, amável e protetora. Compreensiva até certo ponto. Sua beleza, vaidade e delicadeza não raramente se cobrem de um ciúme doentio que a faz sentir-se deprimida, sentimento esse que apenas desaparece com os elogios estimulantes do ser amado. Suas lágrimas são constantes, tanto nas alegrias quanto nas frustrações. Magoá-la é bastante fácil. A simples franqueza pode ser encarada como uma grosseria. Com isso, um choro de ira prevalece. Seu reino é a sua própria casa, local onde se sente mais protegida fazendo de tudo para torná-la cada vez mais agradável. A fertilidade é uma de suas maiores atuações. Gosta da segurança afetiva e tem a maternidade como uma de suas preferências. Com suas águas amamenta e nutre a todos. Cultua a beleza e sem se comprometer, despreza o feio. Sua personalidade sensível e graciosa lhe abre portas. Por isso, sua presença é constante em todos os lugares, até mesmo em ambientes pouco admirados por ela, embora isso ela nunca venha a assumir. Afinal, segundo sua própria visão, a sinceridade nem sempre é muito bonita. Sensível a tudo o que está ao seu redor o filho de Oxum, com suas constantes emoções à flor da pele, só precisa de uma certeza: a beleza do amor sempre existirá.


12

Iemanjá A IMENSIDÃO “ABRAÇO, GUARDO E PROTEJO. MAS DEVES OBEDIÊNCIA.” Grande. Tal qual o mar. Assim é o seu sentimento diante da vida. Às vezes com uma dose a mais de exagero nas preocupações que possam desequilibrar uma harmonia por ela­estabelecida. Gentil, sabe perdoar e compreender. Gosta de aconselhar, como também de ouvir conselhos. Geralmente consegue seus objetivos sem usar a força ou a violência, mas se preciso tem suas armas para intimidar. A curiosidade também é uma de suas características. Gosta de ter o controle de tudo sob seus olhos. Embora procure manter um comportamento meigo e suave, seu humor é bem variável. Às vezes calmo e sereno como a maré baixa; outras, arrebatador como um maremoto. Assim como a lua – sua maior identificação – gosta de variar de aparência: de uma roupa nova a uma plástica, tudo é possível. Seu amor matemo abriga a todos, mas tem seu preço: ‘respeito é bom e eu gosto.’ A família tem sua admiração; faz de tudo pela paz entre todos. A boa amizade e um grande amor também são por ela cultuados, mas quando se excede em cuidados e proteção, acaba por afogar o outro que, nem sempre sabe nadar. Mas, com cautela, boa conversa e sutil dramaticidade, volta a segurar firmemente o que já havia conquistado. Na cabeça do filho de Iemanjá há lugar para todos. Nela se entra, senta e fica à vontade, mas é preciso que se tenha sido convidado.


13

Nanã A SABEDORIA “NÃO, OBRIGADA. ESTOU SATISFEITA.” Reservada, sábia e justa. Com conceitos grandiosos, age com imparcialidade sempre que consultada a opinar sobre este ou aquele assunto. Tradicional e conservadora nas questões sociais, não aceita qualquer mudança antes de analisá-la profundamente. Sua memória é excelente. Dificilmente esquece um nome, uma data ou um acontecimento. Seus valores são rígidos e, por muito tempo guarda ressentimentos quando ofendida. Da mesma forma que é capaz de admirar uma construção, não lamenta por sua demolição. Compreende, e muito, que o fim existe e precisa ser respeitado. Uma vez contrariada, fato não muito raro, usa sem piedade a maior arma que possui: seu desprezo. É capaz de conviver com tal pessoa sem ao menos notar a cor de sua roupa. Econômica, chega a poupar além do que é necessário. Por outro lado, é bastante generosa com as crianças. Essas sim, são capazes de conseguir de um sorriso a um tesouro. Com movimentos lentos, porém seguros, vai aos poucos trabalhando para tomar qualquer situação ao seu gosto. Sua intuição é bem aguçada e determina seu comportamento. Enquanto todos dizem sim, ela não sente problema algum em dizer não. Costuma lembrar: quem pensa com a cabeça dos outros não tem direito a usar chapéu. Como tantas outras, a filha de Nanã também gosta de receber agrados, mas jamais se deixa iludir com elogios e promessas. Tem claro que se o concreto se quebra. o abstrato se desfaz.


14

Oxaguiã A PLENITUDE “SE MEREÇO APLAUSOS, PODEM APLAUDIR. MAS EU DIGO QUANDO.” Guerreiro, jovem e envolvente. Convencido de sua capacidade nem sempre se mostra tão humilde. Não gosta de lamúrias e queixas, embora ouça com respeito. A liderança é uma de suas especialidades. É contra qualquer tipo de agressão fisica, mas estrategicamente acaba por conseguir o que deseja. Calmo e decaráter inabalável. Entender o significado de sua própria existência é uma curiosidade. O dever e a moral têm destaques na sua personalidade. Inteligente, procura se destacar dos demais sem humilhá-los, mas também sem ceder o seu lugar. É a favor da paz até os extremos, mas se violento nada o detém. Seu bom senso parte sem dizer adeus. Aventureiro, cria oportunidades diversas, muitas veres audaciosas. Gosta da diversificação dos assuntos e acompanha todos com domínio e desenvoltura, sem deixar que percebam que está lidando com aquela situação pela primeira vez. A troca de experiências é sempre bem-vinda. A vida ativa, cheia de aventuras, diversões e viagens tem lugar na juventude. Mais tarde, toma-se acomodado e sua casa passa a ser o melhor lugar do mundo. Precisa sempre se ver apaixonado, não importa se por alguém ou por uma situação. Seu coração governa sua cabeça. No amor espera receber admiração, afeto, consideração e reconhecimento. Entende que seu amor vale muito. Deter o controle de uma situação marca a diferença do filho de Oxaguiã. Sem se expor ele determina e consegue ter todos os com os, quandos e porquês sob sua vontade.


15

Oxalufã A SERENIDADE “RESPEITAR, SIM. ACATAR, TALVEZ.” Agradável, generoso e paciente. Com muita calma consegue perceber a verdadeira intenção de quem o procura apenas para um bate-papo. Sua conversa é sincera e, com muita doçura, vai colocando suas opiniões sem demonstrar suas intenções. A paz e o equilíbriogeral entre os homens são seus maiores compromissos. Seu coração tem lugar para todos. Por ter essa infinita bondade é muito invejado. Seus adversários só não são desarmados quando o atacam traiçoeiramente. Basta seu olhar franco e compreensivo para transforma qualquer pensamento indesejado. Gosta de ditar regras e, por vezes, acaba, se excedendo em repreensões. Muito teimoso, não desiste de uma idéia com facilidade. Não admite ser motivo de risos de ninguém. Ver sua vida exposta ao ridículo lhe provoca ira. E, se voltando contra alguém é capaz de ser bastante severo, pois acredita que o sofrimento não apenas corrige, como também ensina. Pacificador, analisa com respeito sempre os dois lados da moeda, mas aceitá-los, pura e simplesmente, é outra questão. Jamais deixa alguém sem respostas. Atencioso, tem na sabedoria do velho, na confiança do pai e no ombro do amigo, a receita que faz com que todos se curvem diante de sua presença. O coração tranquilo do filho de Oxalufã está sempre aberto para receber quem quer que seja, desde que não entre sem ser convidado e nem bata a porta ao sair.


LuĂ­s Fernando Couto www.flordelotus.net 1998 Rio de Janeiro

Catalogo  
Catalogo  
Advertisement