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Repórter não é visto como um escritor

Florianópolis, 29 de novembro de 2012 Edição nº1 - Ano 1

Jornalistas fogem do tradicional ao unir o romance e a realidade Autores norte-americanos utilizam as liberdades dos recursos literários para retratar tendências culturais da década de 1960

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ão, grosso modo, 7 anos de jorque seria a personificação de uma tennalismo em 390 páginas. Lançadência. “Pensávamos em idéias como do no Brasil em 2010, o livro A sendo o nosso assunto. As pessoas turma que não escrevia direito (editoeram interessantes para nós na medira Record) traz a história por trás das da em que personificavam certos conhistórias: o contexto e as situações que ceitos”, disse um dos editores da New envolveram a produção das reportaYork, Jack Nessel. “Um grande dogma gens de Tom Wolfe, Jimmy Breslin, do Novo Jornalismo era colorir fatos Gay Talese, Hunter S. Thompson, Joan e personagens como um aquarelista Didion, Lillian Ross, John Sack e Mipara chegar a uma verdade emocional chael Herr, escritores e repórteres que e filosófica maior”, diz o autor do livro. fizeram parte do chamado Novo JorEntre os recursos do Novo Jornanalismo. Marc Weingarten, também lismo estavam a descrição minuciosa autor de Quem Tem Medo de Tom da aparência física e da personalidade Wolfe?, entrevistou os principais parde pessoas, a reconstituição de diáloticipantes do movimento que decidiu gos, a criação de monólogos internos Retrato dos bastidores do “new journalism” utilizar recursos da literatura em re(pensamentos) e as onomatopeias portagens jornalísticas e buscar uma forma de contar (“Ggghhzzzzzzhhhhhggggggzzzzzzeeeeong – gawdam!”, os fatos que explicasse as grandes mudanças políticas, interpretação de Wolfe para o arrancar de um carro). sociais e culturais da sociedade americana nos anos 60. Era comum o repórter se colocar como personagem Eles eram cronistas de uma época frenética: os norte- da história, modificar aquilo sobre o que escrevia e en-americanos estavam envolvidos com a guerra e havia feitar situações. Hunter S. Thompson era quem levava o rock’n’roll, as drogas, os hippies e o presidente Nixon. esses instrumentos ao extremo - às vezes além da conHavia também uma insatisfação geral com a forma com ta. Uma frase que Thompson escreveu em um de seus que o jornalismo era feito e um grupo totalmente disper- ensaios talvez represente essa vontade que eles tinham so e diferente que resolveu mudar. “Não vejo porque eu de “escrever errado”: “Retroceda as páginas da história não deveria tentar fazer um artigo factual em forma de e veja os homens que moldaram o destino do mundo. romance, ou talvez um romance em formato Segurança nunca era factual”, dizia Lillian Ross. “O que estava ercom eles, mas eles viverado em todo o jornalismo era que o repórter ram, em vez de existitendia a ser objetivo e que esta era uma das rem”. O estilo dos novos maiores mentiras de todos os tempos”, dijornalistas gerou muita zia Norman Mailer. Bancados por corajosos controvérsia, mas as reeditores simpáticos à mudança, os escritores portagens conseguiam faziam o que bem entendiam - e dava certo. explicar contextos e nu“A regra número um do novo jornalisances que o jornalismo mo é: as antigas regras não se aplicam”, disse comum não alcançava. Tom Wolfe, quem nomeou o movimento e o Foram alguns poucos definiu como sendo “um jornalismo que se veículos que protagonilê como ficção e que soa como a verdade do zaram o “motim” confato relatado”. Segundo Clay Felker, editor da revista New tra tudo que era considerado convencional: a revista York, Norman Mailer Esquire, o suplemento dominical do jornal New York “simplesmente pegou Herald Tribune, a revista New York (que surgiu a partir o formato e o explodiu, do Tribune) e a Rolling Stone. Com o passar dos anos, mostrou aos escrito- porém, todos passaram a se adequar a demandas do púres que havia outras blico e dos anunciantes, publicando mais matérias de possibilidades” - e isso serviço e comportamento do que qualquer outra coisa. se aplica a todos eles. Em A turma que não escrevia direito, Weingarten Não se tratava, por mostra como o Novo Jornalismo foi tragado pelas exiexemplo, de conse- gências do mercado e o quanto se perdeu com isso. Faz guir descrever bem com que os leitores se interessem pelas referências que e corretamente um traz e, mais que isso, evidencia o buraco no qual a imindivíduo, mas jun- prensa de hoje se enterrou - buraco de onde saem petar características de quenas porções de informação facilmente digeríveis. vários para montar o A maior discussão que ele faz não é sobre uma questão de estilo, sobre “escrever direito”, mas sim sobre a função do jornalista de ampliar o fato para o leitor além A redação da Realidade, do que aconteceu. Porque atualmente os profissionais revista que publicava textos se escondem atrás da imparcialidade, e se esquivam com traços de literatura de fazer o que seria, verdadeiramente, o jornalismo.

A reportagem convencional não conseguia explicar o contexto social da contracultura

Jorge Butsen

Foram bastante esporádicas as manifestações do uso da literatura no jornalismo do Brasil, segundo Neila Bianchin, professora e escritora do livro Romance Reportagem. A maior delas, diz, é a revista Realidade, com um texto “mais livre e rico em contextualização” do que a maior parte dos veículos da época. Bianchin defende que essas tentativas, de uma forma geral, representam uma insatisfação dos jornalistas com um texto que só respondia as perguntas “O que? Quando? Onde? Como? Por quê?”. Como nos jornais não havia espaço ou incentivo para reportagens do tipo, Bianchin diz que os jornalistas começaram a utilizar as notícias publicadas para escrever livros. “Eles se propunham a ‘contar a história verdadeira’, explorar os motivos e contextos de determinadas situações. Isso aconteceu principalmente com matérias de polícia”. Para ela, foi assim que surgiu o “Romance Reportagem”, um híbrido de jornalismo e literatura que pode ser comparado ao Novo Jornalismo americano. Esses livros, como Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (José Louzeiro) e A menina que comeu césio (Fernando Pinto), foram criticados por não serem nem a literatura padrão, e nem bem jornalismo - ao romancear o fato, as obras estariam pecando na objetividade jornalística. Para escrever de forma romanceada, diz Bianchin, o repórter não pode modificar o fato e deve ser ético - mas isso “não necessariamente precisa limitar os instrumentos utilizados para conduzir a narrativa”.

Associated Press

Curso de Jornalismo da UFSC Atividade da disciplina Edição Professor: Ricardo Barreto • Edição, textos, planejamento e editoração eletrônica: Luisa Tavares • Colaboração: Júlia Schutz, Lucas Sampaio e Rafaella Coury • Serviços editoriais: The New York Times e Observatório da Imprensa Impressão: Postmix • Novembro de 2012

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Um homem do povo e dos incendiários James Earl “Jimmy” Breslin foi recrutado para trabalhar no suplemento dominical do New York Herald Tribune, um dos redutos do Novo Jornalismo, quando era repórter na editoria de esportes do New York Journal-American, em 1983. Fascinado pelos personagens derrotados e inspirado pelo lugar onde nasceu - o Queens-, Breslin passou a escrever colunas sobre indivíduos que nunca conseguiram ir muito longe. Filho de dois alcoólatras, era um estudante pobre, fazia faculdade de noite e escrevia de dia. As melhores histórias de Nova York estavam, para ele, na classe trabalhadora. Breslin fazia todas as suas pesquisas a pé, frequentemente em bares. Percebia que as melhores idéias de reportagens eram aquelas que soavam boas depois da ressaca. Descrevia personagens como “Marvin the Torch”, incendiário profissional, e com suas narrativas dava vida ao que relatava como nenhum outro repórter da época. Com muitos diálogos e humor negro, buscava arrancar risadas dos leitores. Enquanto todos escreviam com relativa antecedência, Breslin tinha uma luta ferrenha com os prazos de entrega das matérias: sentava à maquina quando só faltava uma hora e meia para o deadline. Não mudava seu texto por nada, nem pelo homem que assinava seu cheque toda semana, e se vários repórteres seguiam em uma direção, Breslin ia para o outro lado, em busca da “verdadeira história”. Dos Novos Jornalistas, ele se considera o último. Quando soube da morte de Norman Mailer, em 2007, o New York Times relatou sua reação aos telefonemas da imprensa na ocasião: “‘Todo mundo já morreu” Breslin disse, e o telefone tocou. Era a NPR [rádio pública nacional dos EUA] ligando de novo, e ele gritou para sua mulher ‘fala pra eles que eu morri’”. O humor negro continua sendo um dos seus pontos fortes. E ele continua escrevendo, no alto dos seus 82 anos - mas agora, na internet. Leia em: http://goo.gl/iiq8e

“Trata-se do jornalismo que se lê como ficção, e soa como a verdade do fato relatado”


Curso de Jornalismo da UFSC Atividade da disciplina Edição Professor: Ricardo Barreto • Edição, textos, planejamento e editoração eletrônica: Luisa Tavares • Colaboração: Júlia Schutz, Lucas Sampaio e Rafaella Coury • Serviços editoriais: The New York Times e Observatório da Imprensa Impressão: Postmix • Novembro de 2012

Florianópolis, 29 de novembro de 2012 Edição nº1 - Ano 1

Sem espaço para grandes textos Para Nilson Lage, “a imprensa deixou de ser receptiva às boas reportagens”

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Disparate!: Uma das grandes críticas ao Novo Jornalismo era a parcialidade e falta de objetividade. É possível que o jornalismo seja imparcial? Nilson Lage: Em hipótese alguma! Mas isso não significa ser desonesto. O jornalista tem que ser honesto - e culto também - para compreender o contexto do que escreve e não falar bobagem. O New York Times é um bom jornal, mas o que se vê escrito de besteira sobre os árabes é desesperador. É por isso que é tão difícil fazer o que o Wolfe e o Mailer faziam. Não é qualquer um que consegue. Mas pretender a imparcialidade total é pensar que há uma verdade única. Isso não existe. D: O Novo Jornalismo chega mais perto de descrever corretamente a realidade do que o jornalismo “comum”? NL: Imagine assim: eu sei histórias de pessoas que existem e não posso publicar porque passaria a vida inteira gastando com advogados. Esses caras aí se aproveitaram da literatura para contar o que não podiam. Em alguns casos os indivíduos são localizáveis, mas não tanto que possa dar processo. Então, o que é a realidade? O relato factual daquilo que pode ser dito ou o relato não factual do que realmente aconteceu? D: Houve tentativas de um Novo Jornalismo brasileiro?

viável. Na época não era tão viável. Agora, as obras que sobrevivem a isso são eventualmente espetaculares. D: Mas existem veículos que em outra época já deram melhores condições para que isso acontecesse? NL: Na época da Realidade esse modelo era novo, então tinha um esforço para reproduzir, imitar. Além dela teve, talvez, a revista Senhor. Mas acho que só. O Jornal da Tarde fazia tanto quanto fosse possível nas limitações de um jornal diário - o que não era muito. O problema do jornalismo literário é que não tem quem o faça e estrutura para suportá-lo - porque cada vez mais a informação se torna um objeto de consumo rápido. Para esse tipo de jornalismo ser viável, é preciso um investimento e confiabilidade profissional que não se encontra em lugar nenhum do mundo. Também não dá pra fazer pura literatura com os personagens, é preciso conseguir de alguma forma se ater aos fatos, e pra isso tem que ter uma tremenda bagagem cultural. D: Será que falta algo no perfil do jornalista de hoje? NL: Não só do jornalista, de todo mundo. Acho que isso passa pela educação. A escola não deveria formar um trabalhador, devia formar um homem, uma criatura humana, um cidadão. Alguém que entenda mais o mundo. Para escrever o que os novos jornalistas escreviam, é preciso ter uma grandeza de espírito que não é a formada no nosso sistema. Literatura é um pouco de texto e muito de entender a vida. E isso não se forma - ou pelo menos não se tenta formar. D: Deveria? NL: É... Poderia. Arquivo Pessoal

ilson Lage conversou com o Disparate! um dia depois do seu aniversário. “Na verdade eu nasci ontem, né?”. Apesar da brincadeira, a experiência de um dos principais teóricos do jornalismo brasileiro não vem de ontem. Em sua carreira como jornalista, Lage passou pelos principais jornais da imprensa do Rio de Janeiro e participou da modernização da linguagem jornalística no país no Diário Carioca e no JB (Jornal do Brasil). Foi professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e é autor de cinco livros sobre a linguagem jornalística.

“É uma seleção natural ao contrário: os criativos e contestadores são excluídos” NL: Você encontra tentativas esporádicas, um pouco na [revista] Realidade... mas sempre algo muito episódico. Porque a coisa mais fácil é acabar, na tentativa, fazendo uma espécie de “sub literatura”. Uma cópia sem criatividade. E o jornalismo é uma coisa de indústria, tem que sair todo mês aquele treco - ou toda semana. Arrumar um gênio por semana é complicado! E isso piora porque cada vez mais o que se pratica nas redações é uma seleção natural ao contrário: os criativos e contestadores são excluídos. Hoje já não é mais

Inovação e originalidade eram regra no JT

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Jornal da Tarde, cuja última edição circulou no dia 31 de outubro deste ano, deixou de ser publicada porque o grupo Estado, empresa que o editava, optou por focar em sua principal marca, o Estadão. O JT, como era conhecido, foi criado há 46 anos e trouxe inovações gráficas e textos leves ao jornalismo brasileiro: “ele tinha muitas sacadas inteligentes, fazia diferente daquela imprensa sisuda e daqueles títulos pesados que eram usados na época”, diz Mylton Severiano, jornalista que também fez parte da redação da revista Realidade. O jornalista Alberto Dines, em seu artigo no Observatório da Imprensa, escreveu em 30 de outubro que a empresa “oferecia um grau de liberdade único” e que a publicação seria um “jornal-revista nos moldes do Herald Tribune, que lhe serviu de paradigma inicial” [o Tribune foi um dos poucos que deu espaço para as transgressões do Novo Jornalismo, nas décadas de 60 e 70, nos Estados Unidos]. Apesar de o JT dar valor às reportagens - o então repórter e hoje escritor Fernando Morais foi mandado para a Amazônia -, Mylton Severiano diz que o jornal tinha

as limitações de um produto diário administrado por uma família conservadora em plena época da ditadura. “Ele não pegou tão pesado como a Realidade nas pautas que fazia. Enquanto a revista falava da fome, da prostituição, assuntos que iam no cerne da questão, o jornal era mais como uma New Yorker:

O papel dos editores passa despercebido “There goes (VAROOM! VAROOM!) that Kandy-Kolored (THPHHHHH) tangerine-flake streamline baby (RAHGHHHHHH) around the bend (BRUMMMMMMMM)”. Esse foi o título dado por um dos editores da revista Esquire a um artigo de Tom Wolfe sobre uma feira de carros. Muitos subestimam o papel que os editores exerceram no Novo Jornalismo. Clay Felker, editor da Esquire, do Herald Tribune e depois da New York, acertava ao combinar o escritor com a história e se arriscava ao publicar alguns artigos. Harold Hayes, também da Esquire, foi quem deu a chance para que Gay Talese começasse a escrever matérias para a revista, quando este era repórter de assuntos gerais no New York Times. E Jann Wenner, da Rolling Stone, foi quem a tornou palco de grandes reportagens. Esses eram os editores que mandavam repórteres para onde fosse - com dinheiro e a tarefa de escrever basicamente o que quisessem – e depois bancavam as loucuras que apareciam, criando títulos como o mencionado acima. Foram esses editores, também, que fizeram do Novo Jornalismo o que ele foi. Capas de edições da revista Esquire, do New York Herald Tribune, e da New York (estampando a matéria de Tom Wolfe “Radical Chique���, que depois se tornou um livro)

trazia a vida de São Paulo de uma maneira leve e divertida. Imagina que o JT ia lidar com o racismo, o homossexualismo... jamais!”. O jornal não mexia com tabus e polêmicas, mas contestava o formato, a linguagem vigente no jornalismo da época - que Severiano chama de “quase acadêmica”. “Era tudo menos popular”. E foi aí que a redação ousou: abria as fotos - antes pouco valorizadas - em páginas inteiras, utilizava o linguajar cotidiano nos textos e era transgressor na forma. Conseguiu atrair a juventude e as classes médias com “gente muito boa de texto, repórteres que tiravam férias e iam fazer freelance para a Realidade”. Se os repórteres da revista tinham três semanas de apuração, A foto que rendeu um os do JT contavam, prêmio Esso, na ocasião da derrota do Brasil na copa no máximo, com de 82, e a capa da última três dias. Eles fizeedição do jornal. ram um grande trabalho dentro das possibilidades de um jornal.

“O que estava errado era que o repórter tendia a ser objetivo, o que era uma mentira” Norman Mailer

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Jornal Mural Disparate!