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Teatro

Revolução na América do Sul Grupo Teatro Arena

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e roteiro de Augusto Boal e direção de José Renato, Revolução na América do Sul é irrecusável. O grupo Arena tem, sem dúvida, contribuído muito com o teatro brasileiro, com suas peças inteligentes e bem estruturadas, e Revolução não é exceção. A narrativa acompanha a trajetória e as desventuras de José da Silva (Flávio Migliaccio), um operário explorado de todas as formas possíveis pelo capitalismo de multinacionais. Falando primeiramente em termos técnicos, a forma inovadora da peça é admirável. Boal traz, com maestria, a teoria brechtiana para Revolução, inovando com um verdadeiro épico à moda brasileira. Mais surpreendente, porém, que a audaciosa gestão dos elementos, é a perfeição com que o aspecto formal da peça se adéqua e impulsiona o conteúdo. Como se pode observar pelos trabalhos anteriores do Arena, o grupo debruça-se sobre um teatro engajado social e politicamente, e assim o é esta peça, tratando dos temas recorrentes do proletariado, do capitalismo e do imperialismo. Em Revo-

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O roteiro de Revolução na América do Sul é Augusto Boal

lução, no entanto, Boal constrói personagens, sobretudo o protagonista, com subjetividade difusa, ou seja, objetivadas. Dessa forma, quem se materializa no palco não é o José da Silva, com seus anseios e sentimentos, mas o próprio povo. E a apatia e a omissão não pertencem a José, mas a toda a sua classe. Zé da Silva, encarnando o povo, é extorquido pagando royaltes sobre tudo o que consome – até mesmo sobre o ar que respira – e permanece indiferente. O prólogo já adianta: “um homem que morreu sem conhecer o inimigo, o inimigo o cercou e até as calças roubou”. Há ainda uma outra crítica que permeia a peça, à inação da burguesia, dedicada

antes aos seus interesses capitalistas. Assim, Boal forma uma tríade a ser criticada: o imperialismo, a apatia do povo e os interesses implícitos da burguesia, formando a contra-revolução. Esses três fatores constituem um movimento velado que nos afasta de transformações necessárias. A Revolução é tão impactante justamente porque, ao desejar que Zé da Silva abrisse seus olhos, percebemos que também devemos abrir os nossos. Boal quer nos conduzir à realidade social e econômica de nosso país, revelando-nos injustiças que se aprofundam às custas da nossa inércia. Por Ana Almeida

Assista à Peça Local: Teatro de Arena Rua Teodoro Baima, 94 - Vila Buarque - Centro, São Paulo • Horários: De quinta-feira a sábado, às 21h Até o início de novembro

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Revista Cultura Brasileira  
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