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Quem és tu? Por que temos tanta dificuldade em nos definirmos e responder essa pergunta de apenas três palavras

Em meio à fumaça colorida de Narguilé e grandes folhas de jardim, ouve-se a voz delicada de Alice dizer: “Eu já nem sei, senhor. Mudei tantas vezes desde hoje de manhã, como vê”. A lagarta azul do clássico Alice no País das Maravilhas interroga a jovem garota sobre sua identidade e o que tem como resposta é “Sinto muito, mas não posso explicar, senhor. Já não sou a mesma, como vê”. Durante

a conversa, Alice admite sua crise de identidade causada pelas constantes transformações em seu tamanho e a perda da habilidade em recitar poemas. Atualmente, as ideias de sujeito unificado estão em declínio. Pode parecer assustador, mas a chamada “crise de identidade” é parte de um grande processo de mudança nas referências do mundo social. Chegamos em

um ponto no qual a identidade sofre um abalo junto com várias de nossas certezas. “O que define a identidade já não é mais um conjunto de características biológicas, nem mesmo históricas”, diz a pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais Carla Maia. “Mudamos nossas formas de conhecer e vivenciar o mundo”.


Crise de identidade

Em cheque, nossas diferenças: novas identidades surgem também com a ajuda de movimentos sociais

A questão “quem é você?” é bem mais antiga do que a animação produzida em 1951 pelos estúdios Disney. A identidade vem sendo pautada na teoria social há muito tempo. E por gente bem competente. Se formos listar alguns nomes que se destacaram, podemos começar por Descartes, Freud e Lacan. Antes deles, contudo, acreditava-se na individualidade do sujeito. Afinal, não havia mudanças de vida significativas até a época dos feudos: o status da pessoa a acompanhava até o fim dos seus dias. E assim era entendida a identidade. Ela surgia e se desenvolvia com a pessoa desde o seu nascimento. A partir do século 16, o Renascimento tira o homem do centro do universo e o colocou no centro dos estudos. Neste contexto, os pensadores da época passaram a acreditar que o núcleo interior das pessoas não era independente, mas formado na relação com os outros. O que está acontecendo, então? A fragmentação de conceitos, como classe, gênero e sexualidade está acabando com a ideia que temos de nós próprios como indivíduos unificados. “Vivemos em um século no qual estamos realizando uma quebra de valores em relação ao

século passado”, afirma o psicólogo Evandro Lemos. “Saindo de um ponto no qual os valores eram rígidos para uma época em que produzimos a ausência deles”, diz ele. Novas identidades surgem também com a ajuda de movimentos sociais. O feminismo, a luta contra o preconceito de cor e outros movimentos contribuem com a erosão das identidades pré-concebidas, porque se cria possibilidades de escolhas. A liberdade das mulheres, as raízes africanas e outras questões passam a ser aceitas. A cientista social e pesquisadora de gênero Liliane Rosa diz: “As mudanças no pensamento sobre identidade decorrem da percepção de que, enquanto sujeitos sociais, experimentamos a existência em um contexto multicultural”.

Nada de fantasia

Nascido numa família jamaicana de classe média e cercado de preconceito durante sua infância e adolescência, o professor Stuart Hall é hoje um dos mais influentes pensadores dos estudos culturais. Em seu livro A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, ele nos diz que se temos a sensação de uma identidade unificada do nascimento até nossa morte, significa que construímos


uma história cômoda sobre nós mesmos. Para ele, identidade inteiramente coerente é fantasia. Em vez disso, somos atravessados por várias identidades que poderíamos adotar, mesmo que temporariamente. Podemos ser hippies e dançar samba ou podemos nos vestir como punks e ouvir música clássica — tudo ao mesmo tempo. No final das contas, somos sujeitos sem identidades fixas e permanentes. E não há problema algum nisso. Para algumas pessoas a globalização é a principal responsável por essa ruptura. Os fenômenos recentes do nosso cotidiano, como a Internet e a telefonia móvel, contribuem com a sensação de que pertencemos a todo e a lugar nenhum ao mesmo tempo. “O argumento é que, num mundo sem fronteiras, ficaria mais complicado para o indivíduo encontrar os limites de sua identidade”, esclarece Carla Maia.

À procura do norte

Dizer que estamos em um grande problema seria exagero. Diante de todas as incertezas da modernidade, podemos tirar pelo menos uma conclusão: identidade passou a dizer pouco de quem somos para explicar como nos apresentamos. “Estamos vivendo de forma

material”, afirma Evandro Lemos. “Precisamos de produtos para sermos. Mas uma análise mais profunda nos mostra que esses materiais não são vendidos pelo que são realmente e sim por valores agregados a eles. Consumimos algo externo para tentar preencher o que sentimos no interno”, explica. Há um caminho para escapar disso? O psicólogo não sabe se há uma forma de encontrar a identidade, mas observa que a busca pela identificação na vivência das experiências com os outros à nossa volta tem dado certo no tratamento de seus clientes. “No elo da relação, do contato real. Algo que nos vem sendo ensinado a separar diante ao individualismo atual”, diz. Não há uma fórmula, mas a ideia é fazer diferente de Alice e sua incansável perseguição pelo Coelho Branco. Como defende Carla Maia, a vida é transformação e o homem sempre tentará encontrar definições para sua identidade. “Esses conceitos sempre serão insuficientes para dar conta do caráter movente e mutável da existência. Isso não significa, entretanto, que devemos desistir da busca. É ela quem nos mantém vivos e nos conecta uns aos outros”, explica a professora. ■

Celebração móvel: esses conceitos sempre serão insuficientes para dar conta do caráter movente e mutável da existência



Quem és tu?