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Energy is eternal delight. William Blake

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PREFÁCIO

Lui Morais, o renomado co-autor de Y e os Hippies, escritor de Faetonte, o filósofo de Crisólogo, Proteu, O Estudante do Coração e O Olho do Ciclope, o poeta de Larápio e Pindorama, o autor teatral de Peças leves, e o músico com mais de duzentos e cinquenta canções compostas, dessa vez foi além do que se esperava, mas não no sentido positivo. Seu novo livro, intitulado O homem secreto, é uma novela ou romance bizarro, que apela para o fantástico e a ficção científica, subgêneros sabidamente inferiores, característicos da paraliteratura. Ao ler este livro ficamos com a impressão de que levamos uma rasteira, por baixo, por cima, por trás, por algum outro lugar, ou pelos lados. Tudo ali está fora do lugar, tudo nos faz parar de pensar, fugir da compreensão, seja diegética, mimética ou teórica. O homem secreto é um livro que irrita, reflete e se repete. E repele. A única coisa que eu gosto nesse livro é o seu título, inesperadamente inspirado, num autor tão sem graça. Quem é o homem secreto? Falso livro de detetive, dentro do lugar comum pós-moderno de se utilizar de subgêneros como pastiche, a nome da obra brincaria com a ideia de falsa identidade etc. Mas, na verdade, o homem secreto é o escritor; percebam que as duas palavras são palíndromos.

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O escritor é o único artista que projeta o mundo, e se esconde do mundo, tanto do seu mundo real, aquele no qual passeia e é um homem comum, pelo incomum de sua criação artística, quanto de seus mundos literários, no comum de ser mais um, um homem como outro qualquer; os escritores são os verdadeiros agentes secretos da nossa sociedade. Por outro lado, o homem secreta alguma coisa, no sentido de uma ação que ele faz: o segredo, a obra, o tédio, a paixão, o medo, o enredo, são as suas secreções. E ainda: o poder oculta, ou algo oculta, no homem, alguma coisa diferente dele, do que sabe, do que sempre soube, do seu mundo, do que pensa que pensa e do que pensa que é. MACACO PELUDO

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CAPÍTULO 1

“OLHO PRO CÉU e vejo muito mais coisas ali no escuro desta noite do que julga tua rápida mirada. Há fanáticos que falam em discos voadores e fantasmas. Eu não acredito em nada disso. Adotei um pseudônimo para utilizar sob o título de minhas obras: Lucas Vivaqua. Sei que essa prática é mais própria aos escritores imaginativos, esses masturbadores ficcionistas, que só sabem inventar historinhas que contam no papel. Não os desprezo, porém também não os superestimo, pois bem sei o que vale a genuína invenção. Pouco importa não ser conhecido nem reconhecido pelo meu trabalho e pela minha genialidade. Sim, é essa a palavra. Faz pouco que completei meus trinta e cinco anos, e já consegui progressos em meus estudos de cibernética que são difíceis de explicar, e que mal podem ser apreciados por meus colegas coevos. Eu sei que estou à frente de meu tempo. E daí? Qualquer ser humano está à frente de seu tempo, pois ele sempre é forçado a viver e responder a realidades novas, futuras, desconhecidas, a cada segundo. O seu tempo é o segundo passado em que ele existiu com certeza, e já tomou alguma decisão, e já agiu, ou não agiu, e já se sabe como foi.

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No entanto o tempo em que ele pensa e age é um tempo novo, é futuro, sobre o qual nem ele nem ninguém sabe absolutamente coisa nenhuma. Agora suponho que pareço um filósofo. Entrementes não é este o caso, a filosofia que permanece puramente abstrata atraime ainda menos do que as fantasias dos escritores, pois estes pelo menos projetam algumas estruturas, nem que sejam linguísticas, ou de eventos narrados. Os filósofos não projetam nem fazem nada, só teorizam de maneira vã. Eu sou cientista. Eu mudo o mundo. Eu o projeto.” Morioni largou a caneta sobre a escrivaninha e fechou o grande caderno. Para quê estava escrevendo esse diário? Por acaso pensava em dar à luz suas meditações para-científicas? Tolice, e ele sabia disto. Outrossim, ao mesmo tempo, sentia a premente necessidade de desabafar... E quem entenderia os seus problemas? A quem ele poderia confiar os segredos de seus trabalhos mirabolantes? Quem teria o denso preparo científico para apreciar os dilemas com os quais se defrontava, e as soluções que lhes dava? Bobagem. Escrevia para si mesmo, sabia disto, apenas pelo desafogo psicológico, pela satisfação do mecanismo linguístico de conversar, desabafar com alguém. Já as suas comunicações científicas e papers teriam outra acolhida, se ele tivesse a coragem, ou seria melhor dizer, fizesse a temeridade, de dá-los à publicação. Porque ele sabia que suas realizações estavam na verdade anos à frente da ciência oficial da época em que vivia (como muitos outros aspectos seus).

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Suspirou, trancou o caderno em uma gaveta da escrivaninha, à chave, e foi para a biblioteca de sua luxuosa residência. Adora esta parte: ao puxar um volume encadernado, velho e empoeirado (um romance com o título de O Homem Secreto, e que o intrigava, sempre pensava em escrever um estudo sobre o nome da obra, afinal, quem ou o quê era o “homem secreto”?), toda uma parede se afasta, e ele adentra na ala secreta de sua mansão, o seu laboratório oculto (havia também um outro “oficial”, que ficava no prédio atrás da casa, onde ele desenvolvia pesquisas anódinas ou quase [pois às vezes realizava ali estudos parciais que por si só nada pareciam significar, e que ganhavam importância crucial se “encaixados” a outras pesquisas, maiores e mais abrangentes, dentro das quais eles adquiriam nova dimensão], e um observatório astronômico “de quintal”, ao lado daquele). Seu mordomo Bário (que era o único que tinha livre acesso e conhecimento do laboratório secreto, e em quem Lucas tinha total confiança, pois ele já trabalhava para seu pai e cuidava do cientista desde quando este era criança) entrou com um lanche reforçado. Morioni sorriu e disse que não tinha fome, estava debruçado sobre o computador, fazendo uma série infindável de cálculos (as pesquisas admitidas ou toleradas, e remuneradas de alguma forma, têm que obedecer aos desejos de uma sociedade bovina, vacum, onde o povo é totalmente manipulado pelos meios de comunicação de massa e vive nas mais crassas e absolutas ignorância e imbecilidade, e que tem em seus próceres sujeitos reacionários e não muito mais profundos do que o seu rebanho,

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e cujas instituições de pesquisa estão comprometidas com este estado de coisas, com o senso comum, os interesses da massa e da elite e ditames burocráticos ou que tais alheios ao verdadeiro espírito científico). Não obstante, Bário insistiu, até fazer com que o seu patrão comesse alguma coisa. Depois passeia pela pequena e aprazível cidade serrana, calmamente; ali todos o conhecem como Dr. Evilásio, um médico bem-sucedido e aposentado, apesar de ele ser tão novo ainda, as roupas que usa e a sua circunspecção ajudam a compor a personagem. Às vezes vem gente que o procura necessitando de seus serviços profissionais, que ele evita ao máximo, porém, se a insistência ou a necessidade for muita, ele ajuda, raramente cobrando honorários, apenas no caso em que a situação financeira amplamente privilegiada do cliente faria despertar suspeitas, caso ele não o fizesse. Gosta também de passear pelo centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde ele é mais ignorado ainda, sentindo-se prazerosamente como o homem invisível. Vivendo na década de setenta a ditadura militar que barbariza a população do Brasil (e cujos efeitos deletérios se fariam sentir ao longo das décadas seguintes), Morioni adotou nome falso e sumiu de circulação, não por causa de questões políticas, que essa politicalha miúda dos partidos nada lhe diz, nem ele a ela, mas, sim, por causa da repressão mais fina (de caráter acadêmico, social, moral, judicial etc.) às suas importantíssimas pesquisas que deveriam, isso sim, ser financiadas e apoiadas pelo governo.

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Sente-se como se vivendo em plena idade média. O que todos esses cientistas (supostamente) éticos que o condenam esperam conseguir, que a ciência fique estacionada em um estágio por eles determinado? E os médicos que caçaram o seu registro, o que pensam? Que a ciência e a pesquisa podem se desenvolver apenas com teorias e cobaias animais? Morioni é brasileiro, filho de fazendeiro do interior de Minas Gerais (neto de italianos) e de uma dona de casa (filha de índios). Aos quinze anos, veio estudar no Rio de Janeiro, onde fez duas faculdades simultâneas, medicina e física. Aos vinte e três anos já estava formado em ambas, e recebeu uma grande parcela da herança que lhe cabia. Nunca mais procurou pelos conhecidos de sua cidade natal. Aos vinte e cinco já era médico renomado e professor universitário, função na qual sua genialidade começou a se fazer notar e a incomodar os colegas invejosos. Principalmente o que despertava o seu ciúme era a universalidade dos interesses intelectuais do jovem cientista. Foi por essa época que começou a trabalhar com engenharia genética e clonagem, obtendo resultados muito promissores. No resto do mundo as mesmas pesquisas ainda engatinhavam, ele estava bem mais adiantado, e chegaria a resultados práticos antes de todos os concorrentes. Todavia foi descoberto. Na época quase ninguém sabia direito do que se tratava, porém alguns poucos pesquisadores informaram ao governo que eram pesquisas anti-humanistas, de controle absoluto sobre as criaturas, no estilo de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

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Falou-se até mesmo em eugenia e fascismo, o que muito o irritou, pois ele tinha verdadeira aversão ao racismo e ao nazismo. Eram esses mesmos que se submetiam a tudo que fosse europeu ou ianque, que vibravam com as insignificantes vitórias da seleção brasileira de futebol (ou outro esporte qualquer), e cortavam as verbas de pesquisa nacional, deixando assim que toda a biodiversidade da flora e da fauna brasileiras (que só na floresta amazônica é muitas vezes maior do que em todo o resto do mundo) seja roubada ao bel prazer das empresas e governos estrangeiros, como se fôssemos uma cambada de débeis mentais, que ainda por cima depois compramos produtos desses países, desenvolvidos com a tecnologia biológica (e a matéria prima e os recursos e a energia e a mão de obra e a inteligência etc. ad nauseam) daqui pirateada, tudo em prol de um neocolonialismo e de um modo de vida e produção deletérios. Morioni iria ver divertido (em parte) a primária experiência de produção de um clone de ovelha ser realizada na Escócia em 1996, mais de vinte anos depois de ele obter resultados muito mais completos, e de ter sido perseguido por isso, em seu próprio país. Veria também que a loucura humana ia ao ponto de quase todos os países realizarem imediatamente legislações que proibiam e penalizavam a clonagem humana. No momento nada disso o interessa mais. Seus trabalhos estavam muito além de algo tão simples e tão secreto, o clone humano que ele realizara com sucesso a partir de si mesmo. Morioni passeia a pé pelo caminho florido da Serra de Petrópolis, deslumbrado com a magnífica vegetação, milagrosamente ali conservada.

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CAPÍTULO 2

“VOCÊ JÁ PERCEBEU que as pessoas novas que surgem parecem que foram fabricadas, projetadas? Elas semelham misturas de pequenas partes de outras pessoas, pedaços de coisas, paisagens, animais, sentimentos; seus corpos dão-nos a sensação de serem compósitos, quase como que se retalhos fossem montados ao acaso.” Frederico olhava para o chão, já arrependido de ter vindo ver o amigo. Gostava muito de Ezequiel, mas essas suas ideias descabidas eram muito difíceis de suportar. “Você nota isso claramente nos artistas novos que aparecem. E não me refiro a imitação, emulação, qualquer coisa assim; se você reparar bem neles vai ver que são como bonecos de madeira ou de alguma outra matéria mais ou menos passiva que aceita ser uma salada das feições de muitos outros que os precederam. É óbvio que isso acontece com todos, artistas ou não. Mas quando os sujeitos estão em evidência o tr uque é berrante. É angustiante.” Frederico ouvia pacientemente. Daqui a pouco iria interferir, responder, argumentar: que não era nada disso, que a impressão de montagem vinha de nossa percepção ou de nossa tendência intelectual para a generalização, essas bobagens assim. Tentava

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aliviar o outro, porque gostava dele, mas sabia que Ezequiel era do tipo de cara que nada conhecido alivia. “Se você investigar vai descobrir que toda pessoa é um animal. Sim, é claro, nós somos animais, ninguém nunca duvidou disso. Os antigos, os medievais que queimavam aqueles que se deixavam dominar pela sua metade besta, e marginalizavam aqueles santos que se enchiam da sua metade anjo, os capitalistas que espremem suco de pessoas nas fábricas, os regimes autoritários e os regimes de consumo compulsório que fazem com crianças o que nenhum Pavlov teria a coragem de fazer com o mais reles vira-latas, todo mundo sempre soube e agiu de acordo: somos animais. “O que eu percebi e que vai além disso é que cada criatura, em sendo um caleidoscópio frankensteiniano de pedaços de outros seres precedentes ou por vir, cada um é também um bicho qualquer encarcerado em um ser humano. Todos. Alguns parecem ser, outros não tão na cara assim, mas todos são bichos, almas de feras ou de alimárias, almas baixas e materiais, presas na matéria. Um tanto diferente da concepção medieval, ein. Almas de besta, cheias de apetites e paixões, enfiadas por dentro de corpos de matéria passiva, de carne que luta por descansar, por se acalmar, por encontrar a sabedoria e a felicidade. “Corpos filosóficos e religiosos, almas dionisíacas, satíricas, priápicas, procurando por vícios; almas diabólicas encarceradas em corpos divinos. Esses somos nós.” Agora o magricela pequenote já não estava prestando tanta atenção ao que dizia aquele seu companheiro gordo e grandalhão, bruto, agressivo e brilhante, a cabeça ainda raspada da última

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“interação” (como ele chamava) — e disseram que ele tinha voltado melhor! Frederico já não acompanhava a linha do raciocínio delirante, e observava as lombadas e capas dos livros caoticamente espalhados por toda parte no quarto, enquanto seu interlocutor andava de um lado para o outro como uma fera na jaula, gesticulando, pulando, gritando: dava a impressão de que, a qualquer momento, ele iria pular no pescoço de alguém. “Você deve ser um leão.” Ezequiel voltou-lhe seu olho vermelho e riu com vontade. “Você é um leão na jaula, Frederico. Eu sou um urso. Os ursos são animais terríveis, traiçoeiros e totalmente agressivos, muito mais ferozes do que um tigre ou um leão. Nós somos feras em homens. Isso é duro. Mas pior é que nós vivemos em uma sociedade de porcos.” Livros de todo o tipo, de todas as matérias, ciência, literatura e filosofia. Livros de religião. Alguns rasgados com fúria. Outros ordenados na estante. Em uma cesta de lixo havia muitas e muitas bolas de papel amassado, ou pedacinhos de folhas rasgadas. Sobre a escrivaninha, outras tantas páginas escritas de alto a baixo, em letra pequena e ilegível. “O que você está escrevendo?” “Um livro. É muito importante.” “Que livro?” “É um livro só. Eu tenho vinte e quatro anos, como você deve saber, e escrevo desde os catorze. Quer dizer, guardo coisas escritas por mim desde essa idade — eu sempre escrevi, mesmo antes de aprender a ler e a escrever ‘oficialmente’. Há dez anos que faço este livro sem fim.”

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Paciência, olha pro céu, olha pro chão, olha prà cara do teu amigo, Frederico, tenta entender as pessoas. “E como é o nome do livro?” “Livro.” “Tipo Mallarmé?” “Tipo nada. É um livro chamado Livro.” “E de que trata? É ensaio, romance ou outra coisa?” “Outra coisa.” Paciência. Sabia que Ezequiel escrevia muito, eles foram colegas no Colégio de Aplicação (que, naquela época, ficava à Rua do Bispo), e o czar (era assim que ele e outros chamavam Ezequiel) era genial, ou relapso, dependia do dia. Suas redações eram muito elogiadas. Ele debochava dos professores, chamava todo mundo de burro, lia coisas sem sentido para Frederico e Ismênio. “Por onde anda Ismênio?” “Na rede.” “Você o tem visto?” “Ismênio é um periférico, desde criança, e você deve saber, caiu na rede é peixe, então eu tô fora. Cada macaco no seu galho, sacou?” Ou cada urso na sua caverna, pensou mas não falou dos dois o mais ou menos mais normal. “E qual é o seu?” “Eu vivo.” “Você é escritor? É filósofo?” “Eu sou eu.” Difícil. Começou a pensar em ir embora, aquele cara estava cada vez mais intolerável.

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“Lembra que a gente te chamava de czar?” “Hm.” “E o curso de russo?” “Larguei. Bobeira.” Pra ele tudo era bobeira. Tomou um gole de chá de camomila que a mãe de Ezequiel trouxera com broa de milho pra eles. Tudo muito calmante, menos a presença daquele filho grandalhão e doido, pouco afeito a convenções. “O que você pretende fazer agora?” “Tá na hora de você ir embora, Frederico.” “Que é isso? Tá me mandando embora, czar?” “Tua mãe deve ter feito ensopadinho pra você. Não tá com fome?” “Ezequiel, eu estou comendo broa que tua mãe me deu!” “A sua garotinha deve estar ansiosa pra te ver... como é mesmo o nome dela?” “Cirila.” “Então. Vai comer a Cirila. Você é um leão mesmo, tem sempre que estar comendo algo, ou alguém. Vai que ela deve estar ansiosa.” Frederico meio se chateou, mas, diabo, gostava daquele bobo, não ia cair no alçapão da briga assim mole, mesmo porque quando o czar brigava era pra sempre. “Cê tá trabalhando?” Ezequiel sentou-se na cama, meio emburrado. “Eu não quero falar sobre isso.” Bebeu todo o chá de um só gole. “Zequinha...”

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“Não me chame assim!” “Desculpe. Czar, você é um cara brilhante. Inteligente pra caramba. Forte, alto, simpático. Você só tem vinte e quatro anos. Qual é o problema?” “Nenhum. Tudo está perfeito. O mundo todo está em ordem.” “Quem somos nós para dizer o que seria melhor para o mundo e para as pessoas?” “Epoché, apatia filosófica, estoicismo, sei.” “Por falar nisso, sem querer ser chato, e a sua faculdade de filosofia?” “Não tenho nenhuma faculdade. Quem faz salsicha é o José de Alencar.” “Outro grande talento desperdiçado. Parou de estudar, se amasiou com aquela idiota, e fica trabalhando todo santo dia, oito horas por dia, na fábrica de salsicha.” “E você com sua faculdadezinha de merda está muito melhor? Ora, vá se catar, Frederico Guilherme!” “Que história é essa de Frederico Guilherme?” “Homenagem ao Nietzsche. Fred, aquela nossa turma de aplicados só deu loucos. Você escravo de uma lambisgóia, agarrado à saia dela e da sua mãe, perdendo tempo na salsicharia epistemológica. Faz letras! Isso é ridículo! Você nem sabe ler hebraico, nem grego, nem latim! Você é analfabeto!” “Eu faço Português-Literatura.” “Nem sânscrito você lê! Charlatão! “O Ismênio fica com seus olhos de zumbi, hipnotizado por essa sub-espécie de televisão que não fala, computa. E o José de Alencar criando chifre e barriga com sua mulherzinha vulgar, trabalhando de sol a sol em uma coisa de que ele não gosta.

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“Vocês são todos loucos. “Vocês são todos iguais.” “E só você é normal?”, e Frederico se arrependeu no exato instante em que falava, a ironia flagrante no tom e no jeito. “Você tá ficando igual a eles.” “Eles quem?” “Meus pais, seus pais, os pais deles e delas, eles e elas, todo mundo.” Frederico se sentia cada vez mais desconfortável. Olhou prà xícara azul, viu algo pequeno como uma formiga que boiava no chá, e tomou todo o líquido até o fim. Resolveu ir embora. “Acho que tá na hora de chegar.” “Eu sou normal, sim. Há outros, poucos, pois é muito difícil manter a sanidade dentro destas engrenagens em que estamos.” “Você lembra que a gente ia escrever um livro juntos, nós três?” “Besteiras de criança.” Frederico se levantou. Não sabia direito como fechar a estranha porém boa conversa. Sabia que seu amigo estava certo, que tudo que ele dizia fazia muito sentido, ele não era nem um pouco louco, na verdade (uma rara exceção!). Mas não sabia como absolvê-lo da sua solidão monolítica. “Bom trabalho aí com o seu Livro.” “É outra besteira. Tudo é besteira.” “Bom, tchau. Depois te ligo.” Encaminhou-se prà porta do quarto, mas o outro o agarrou com braços poderosos, apertando doloridamente seus ombros, e sussurrando:

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“Tem alguma coisa muito estranha acontecendo. Eu preciso falar com você. Mas não hoje. Chama o Ismênio e o José de Alencar e vem com eles dois aqui. Semana que vem, de noite. Na hora da novela. Agora vai.”

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CAPÍTULO 3

LUA ESTÁ DEITADA ouvindo música, vestida só de camiseta e de calcinha; Nadine entra no quarto, enrolada na toalha, cantarola a música que Lua está ouvindo; Lua abre os olhos e observa com carinho, enquanto Nadine veste uma calcinha e um camisão, por sua vez. — Vamos ver tv. — Tv? — A novela... — Blergh!!! Nadine senta-se ao lado da namorada na cama e as duas dão um longo beijo. — Apaga essa luz... Aumentam o volume do som, desligam a luz geral, acedem um abajur e tiram as roupas, rápidas. Quem foi que disse que sereia não tem sexo? A mão bate com os nós dos dedos na porta, assustando as duas meninas, empatando a foda. A mãe de Nadine grita (nervosa) do lado de fora: — Nadine, o que vocês estão fazendo trancadas nesse quarto??? — Ouvindo música, mãe — controlando-se.

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Abre essa porta! Alarme, vestir roupas até que é instantâneo, mudar o cenário, jogar uma colcha sobre a cama, uma saia comprida sobre a marca de mordida sangrada na coxa de Nadine, e um cachecol (com esse calorão) sobre o chupão no pescoço de Lua (o nome dela é Laura Amélia, mas a Nadine sempre a chama de Lua, e ela só gosta que a Nadine a chame assim). E o que fazer com o cheiro excitando todo o ar? Acende um incenso! Bom-ar que é um spray, abre a janela na noite quente gozosa, a lua cheia invade a penumbra do quarto com sua luz de sonho. Desliga o abajur e liga a luz! — Por que demorou tanto? O que vocês estavam fazendo? — Estudando, mãe. — A gente ia ligar a tv agora pra ver a novela, dona Maura. — Laura Amélia, sua mãe sabe que você tem dormido aqui em casa? — Ela sabe sim, ela acha super legal eu ter uma amiga com quem possa conversar, estudar, que me compreende. Ela diz que é bom não se sentir sozinha, principalmente nesta idade da gente. — É verdade. Lua liga a tv e senta na frente dela obediente, Nadine desliga o som alto (chamariz da mãe), Maura fica olhando suspeitosa. — Nadine, vem na cozinha um instantinho. Dá licença, Laura Amélia. Uma olhou com alarme prà outra. Take it easy, vamos ter calma, baby. Maura fechou a porta da cozinha, sentou-se e fez a filha se

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sentar também. Falou que ela precisava confiar na mãe, que uma tinha que ser amiga da outra, que a maior amiga que uma moça pode ter é a sua própria mãe, que ela era compreensiva e poderia ajudá-la, que essa era a sua preocupação, ajudá-la. Nadine ficou vermelha, sentiu as orelhas em fogo, por que diabos eu tenho tanta vergonha de gostar de menina? Qualé? E resolveu assumir, contar tudo prà mãe. — Minha filhinha, você está usando drogas? — Droga? Que drogas? — Eu senti um cheiro esquisito no seu quarto, vocês estavam cheirando maconha? Nadine respirou aliviada e tentou disfarçar o alívio, não dar mais bandeira ainda, e explicou pacientemente (e feliz toda vida): — Mãe, eu te juro que nem eu nem a Lua fumamos nada. O cheiro que você sentiu é de incenso, uma espécie de perfume do ar, mas totalmente inofensivo. — É aqueles pauzinhos que os Hare Krishna vendem nos ônibus? — É isso mesmo. Todo mundo usa. — E esse negócio não é tóxico? — Não, mãe, eu garanto pra você. O charme da suave marginalidade. O pai veio comer pastelão e entrou na conversa e garantiu à esposa que incenso tudo bem, barra limpa, deixa as meninas, o pai adorava a Nadine, sua filha única, e também simpatizava demais com a Laura Amélia. Ao voltar pro quarto encontrou a Lua comendo as unhas. — Calma, menina, ela não sentiu o cheirinho de... amor. Ela só farejou o incenso, e surtou que era Maria Joana.

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— Quem dera... E o resto da noite foi beleza, elas na delas, vendo e ouvindo sem prestar atenção as bobeiras da tv, fazendo amor a noite toda, até o cansaço chegar e elas dormirem abraçadas.

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CAPÍTULO 4

FIM DE MILÊNIO e as pessoas estão cada vez mais estúpidas, neste e nos outros países. Faliram todas as crenças, e quase todas as estruturas sociais têm crápulas como dirigentes e como figuras importantes. As pessoas não sabem mais se gostar, só querem se usar umas às outras, e ninguém mais dá valor ao ser humano, à cultura e a tudo o que realmente importa. O que é um relacionamento afetivo? Sexo. E quando o sexo cansa, porque o sexo cansa e gasta, aí não sobra nada, e as pessoas ficam juntas se odiando, e começam a se trair, a se bater, a se destruir mutuamente, ou trocam-se umas às outras, descartáveis como copos, roupas, camisinhas, casas, carros e pensamentos. Veja o caso de José de Alencar, o nosso ex-colega do colégio de Aplicação, e sua cara-metade Iracema (curiosa coincidência, mas a vida às vezes gosta de ser estapafúrdia, às vezes lírica, às vezes prosaica etc.), que vivem alternando cio com traições e porradas. Veja o caso de Ismênio e de Ezequiel, também condiscípulos contemporâneos meus na mesma escola; eles vivem sozinhos, tanto um quanto o outro, não querem e/ou não conseguem ter namorada, companheira, amante, esposa, qualquer coisa assim, uma mulher do lado, alguém em quem depositar esperança, confiança, carinho.

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E nós ainda tentamos cultivar as nossas amizades, somos meio que únicos nisto. Todo o resto de meus colegas do secundário, do clube, das ruas, sumiram, incógnitos como os passantes que da janela deste ônibus avisto velozes irem sumindo pela noite. Eu e Cirila... o que será? Já começo a sentir dúvidas. Mas há algo nela que me atrai, quando fico incerto, e ela me parece uma pessoa qualquer totalmente desconhecida, ou até um ser alienígena que nada fala aos meus instintos, feito de uma matéria ignorada e insossa, e pede que lhe diga que a amo, e me olha com medo e ansiedade esperando pela resposta, que ela sente no fundo que no fundo é só um caos emocional; eu tiro sua roupa, e olho sua vagina, e começo a me esfregar nela com prazer, e posso dizer que a amo, que a amo sim, que a amo muito, muito mesmo. Depois, cansado, volta a dúvida, e me dá vontade de sair na mesma hora, de estar em algum outro lugar. Assim pensava Frederico no ônibus que tomou perto da casa de Ezequiel Mongóis, que ficava na Vila das Famílias, um subúrbio distante. Agora ele estava indo para a URCE, a Universidade Racional Campos Elísios, onde cursava de noite a faculdade de letras. A viagem era longa e os caminhos feios e mal iluminados. Então ele se retirou pro seu interior e ficou pensando, primeiro nas coisas que o amigo lhe dissera, segundo no que seria o tal mistério sobre o qual gostaria de falar a ele e aos outros amigos no próximo encontro, terceiro as coisas já citadas, quarto que Cirila parecia uma cachorra, aquela vizinha, uma ave pequena, o amigo Pancrácio deveria ser um mico, e o seu impressionante professor de Filosofia, de cabelos e barbas longos e grisalhos, ar quixotesco,

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e inteligência arguta e polêmica, sempre surpreendente, com os olhos brilhantes e infantis, cheio de prazer de pensar e de fazer pensar, ele tinha a palavra “lobo” no nome, e era realmente um lobo enorme e feroz! Quinto: lembrou deles quatro aos quinze anos de idade, quando se conheceram, e fizeram o pacto. É preciso explicar, só o Ismênio fez pacto com o demônio, se é que falava a verdade, o que sempre garantiu fazer, em relação a isto. O pacto dos quatro foi de nunca deixarem de ser amigos e de se ver. Os quatro rapazes da Rua do Bispo. Chegaram a fazer um show de brincadeira, no final do último ano, em que todos fizeram alguma palhaçada, como parte das comemorações pela conclusão do curso. Levaram semanas ensaiando, tentando atingir a perfeição. Cada um deles realmente tocou o instrumento, não fizeram dublagem, foi tudo ao vivo mesmo. Ismênio na bateria (medíocre, mas correto), foi Ringo Starr. Ezequiel na guitarra solo (sons loucos, viajantes) era George Harrison. José de Alencar foi um Paul McCartney gordo e baixo, fingindo que tocava o dito cujo (bem ao reverso do modelo, alto, elegante e exímio instrumentista). E Frederico com seus oclinhos de aros redondos metálicos e a enorme cabeleira lisa e castanha que usava na época ficou sendo John Lennon, cuja cópia só arranhava um violão. “She loves you”, “If I fell”, “Revolution” e “All my loving”. A coragem, melhor dizer temeridade, e o sentimental da coisa, garantiram o maior sucesso do show. Lembrou também de muitas outras aventuras que tiveram juntos, além de serem os Beatles por um dia.

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Inventaram uma língua. Quer dizer, o Ismênio o fez, e os outros aprenderam um pouco daquela algaravia, com a qual adoravam conversar na frente dos outros, deixando a todos aturdidos pelo eterno indecifrável enigma. Pois ninguém nunca conseguiu determinar qual idioma falavam. Foi Ezequiel quem sugeriu que Ismênio inventasse um sistema de sinais não-verbais que eles usariam durante as aulas, as provas, no ônibus, nas festas, quando quisessem. Este era um código constituído de tosses, espirros, batidas de pé, tapas, pigarros, e outros sons malucos, até arrotos (havia um peido também, mas José de Alencar conseguiu convencer a todos que era inviável, por ser uma manifestação involuntária e histriônica demais, e que foi por isto substituído por uma crise de soluços, também risível, mas de falsificação praticável), e que foi usado durante anos para colas escolares e para caçoar dos outros, sem nunca ter sido descoberto por ninguém. Não lembrava quem tinha criado o apelido de czar, parecia algo nascido por geração espontânea, uma criação coletiva: todos respeitavam e temiam Ezequiel, e era muito difícil não sentir vontade de obedecê-lo. Ele fascinava as meninas, e namorou as mais belas da época. Talvez a mais escandalosa proeza do quarteto tenha sido colocar na caixa de água da escola um composto químico fabricado por José de Alencar, que ficava incolor na água, mas coloria a pele e a mucosa humanas de um azul profundo. Naquele dia houve pânico, bombeiros, polícia, médicos, imprensa. O composto era inofensivo, mas eles foram descobertos, ameaçados de expulsão, suspensos, ouviram vários esporros etc. e tal.

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E outras histórias, como naquela vez em que se perderam na floresta da Tijuca com quatro garotas, ou na vez em que fizeram um torneio pra ver quem conseguia namorar a Claudete Grant, uma loura fenomenal, com olhos de um azul parecido com o do composto de José, radical e denso. Frederico decidiu saltar e pegar outro ônibus, agora na direção da Gávea, onde morava, sozinho em seu apartamento high tec, o seu afortunado baterista Ringo Starr. Era meio tarde da noite quando chegou lá, mas o Ismênio sempre foi notívago. Frederico tocou a campainha com insistência, por uns dez minutos, e já pensava em voltar pela longa e sinuosa estrada, quando finalmente o outro atendeu. Explicou que estava conectado com o dreammer e o computador, ao mesmo tempo, vivendo experiências psicodélicas em realidade virtual. Ofereceu-as ao outro, que até tinha curiosidade sobre esses onirificadores cibernéticos, mas precisava conversar, não sabia direito sobre o quê, é que a conversa hoje mais cedo de tarde com o Ezequiel fora como agulhadas, e ele precisava... falar.

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CAPÍTULO 5

LAIO ESPEROU MUITO tempo, começou a chover, os postes da iluminação pública se acenderam, as ruas foram ficando desertas. Estava frio, a roupa molhada da chuva miúda e persistente, fome e sede, vontade de ir ao banheiro. Mas Pato Doido tinha dito que esperasse ali, que logo ele voltaria com a informação. E Laio esperou. Até ver a moto velha e barulhenta voltando, no silêncio bem comportado da noite na Vila das Famílias. Era ali mesmo que o negro hippie, cabeleira selvagem, roupas coloridas, colares no pescoço, era ali mesmo que ele fazia avião de todo o tipo de drogas, mas pros amigos mais chegados, só pra quem confiava. Pato Doido tinha idade indefinida, mas não era nenhum garotinho. Fora preso várias vezes por vadiagem, depois fora solto. Nada de grave; ele não era um criminoso, não roubava, por exemplo. Fazia artesanato, vendia nas feiras, consertava tudo, pedia dinheiro, arranjava encontros, dizem que de graça, e droga a preços razoáveis, mas tão somente para os amigos. Laio era negro como o outro. Criado por uma tia branca que morava ali, não tinha mais ninguém. Trabalhava de boy num escritório de representações,

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fazia o supletivo de noite em uma escola do governo, já tinha tido alguns casos, não tinha namorada. Não sabia o que faria da vida, se achava feio, pobre, tinha vergonha de morar naquela vila suburbana. Um dia conheceu Sofia, na igreja. A moça simpatizou com ele e lhe deu livros, discos, pequenos serviços pelos quais pagava muito bem. Sofia era ruiva e morava em uma casa com piscina e um viveiro de pássaros, que tinha até duas araras que berravam. Ela riu na cara dele quando ele lhe declarou amor. No outro dia, a empregada atendeu-o à porta dizendo que Sofia tinha viajado; e ela estava em casa, ele sabia. Laio procurou o Pato Doido na qualidade de quebra-galho profissional e cupido amador. Mas ao saber do caso o cara rira também, meu chapinha, tu tá querendo demais, qualé. Laio insistiu, insistiu. Pato ligou a moto e zuniu, lançando um jato de fumaça negra no rosto de Laio. Hoje, mais cedo, encontrou de novo o motoqueiro underground no bar da esquina. “Pato, você conhece alguma mágica de amor?” “Conheço afrodisíaco, um monte. Mas só adianta se a mulher estiver minimamente interessada em você, senão, você lhe dá a droga e ela vai dar pra outro.” “Pato, você conhece algum feiticeiro que conheça mágicas de amor?” O doido olhou em volta, fez cara de quem pede discrição, ficou bebendo cerveja sem falar. Depois de uma meia hora,

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quando Laio pensou que ele já tivesse esquecido a pergunta, Pato Doido disse: “Vem, vamos sair daqui. Vem ver a minha moto.” Sozinhos na esquina, falou com os lábios roçando a orelha de Laio: “Conheço. Mas é um sujeito muito esquisito, que se esconde de todo mundo, que cada dia está de um jeito, que não gosta de ver ninguém. Me espera aqui.” Uma hora depois voltava, dizendo: “Você hoje está com sorte, ele aceitou te ajudar. Mas tem que ser agora, e você tem que pagar duzentos e dez reais adiantados, cento e noventa pra ele, e vinte pra mim. Agora. Vai querer?” Laio pediu que o alcoviteiro esperasse dez minutos. “Cinco. Depois eu me mando.” Laio correu, entrou em casa, a tia vendo tv perguntou o que foi meu filho, ele disse tô com pressa, depois eu falo, foi correndo ao banheiro, mijar, seu coração batendo disparado, fazendo sua vista latejar, ouvia as pulsações nos ouvidos. A urina saindo lentamente, e ele apressado. Depois correu até a cozinha, abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e bebeu um longo gole do gargalo. Largou a garrafa sobre a mesa, subiu em uma cadeira, abriu um armário alto, tirou de dentro dele uma lata na qual estava escrito “Farinha”, abriu-a, pegou no seu interior os duzentos e dez reais, que era justamente o dinheiro do aluguel. Pensou num relâmpago que a tia iria perdoá-lo, ele não tinha culpa, sua paixão era maior do que tudo. Chegou na esquina exatamente a tempo de pular para a garupa

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da moto de Pato Doido, que arrancava alucinado, sem olhar para trás. O casebre do feiticeiro ficava em um morro que Laio não conhecia nem sabia exatamente onde ficava, num subúrbio muito afastado. Era preciso passar por uma favela e continuar subindo, entrar no meio do mato, quase floresta, e lá, totalmente oculto, se encontrava o barraco. Pato abriu a porta sem bater e os dois entraram. A sala estava iluminada por um lampião. O feiticeiro, que era preto também, como eles dois, parecia ter quase três metros de altura, na semi-obscuridade de sua sala, de pé, olhando pela janela. Virou-se e encarou-os assim que eles entraram. “É este o Dom Juan?” “Está fissurado. A mulher é loura e rica. Eu disse que não dava.” “Ruiva. O nome dela é Sofia.” “Dá sim. Dá.” Ficou um tempão fixando os olhos de Laio, como se perscrutasse o seu interior. “Mas tudo tem o seu preço.” Laio puxou o maço de cédulas. “Larga essa merda na mesa. Você tem que dar um pagamento maior.” Laio colocou o dinheiro em cima de uma mesa a um canto, de onde Pato Doido foi tirar seus vinte. O bruxo nem olhou. “Meu nome é Vulcão Lunático.”

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“Meu nome é Laio.” Vulcão ria um riso enigmático, com enormes e alvíssimos dentes. “Você pode ir embora.” Sem dizer palavra, Pato Doido saiu pela porta, quase correndo. Laio tinha certeza de que ele pegaria a moto no sopé do morro e voltaria para casa, deixando-o lá. Sentiu uma onda palpável de medo que veio, envolveu-o e passou, enquanto Vulcão continuava a olhá-lo com fixidez. “Laio, preste atenção. Vou te dar uma bebida. Você vai se ver em um lugar estranho. Não fuja, não olhe pra trás, não morra de medo. Ande até encontrar uma planta grande assim, de folhas miúdas e florzinha cor-de-rosa. É a erva edagônita. Colha folhas e flores, e coloque-as neste saco. Elas queimam, você aguenta a dor. Continue andando. Verá um lago de águas negras. Tire a roupa, mergulhe. Será atacado por uma criatura das águas, assim do seu tamanho. É o kriniu rgatiniok, um monstro meio humano, que morde e unha como se seus dentes e unhas fossem facas. Lute, vença-o, bata no alto de sua cabeça, onde ele tem uma espécie de galo na testa. Bata, que ele não suportará a dor. “Quando ele desmaiar, arraste-o para fora da água. Enfie esta faca em seu peito, e depois corte a bola que ele tem na cabeça. Coloque-a neste saco. Vista-se, continue andando. Encontrará pedras cercadas por uma água fervente. É ácido. Caminhe sobre as pedras, até uma gruta: entre nela. Há cobras venenosas ali. Cuidado. No fundo da gruta há uma fonte que mana um fiozinho de líquido. Encha este frasco com o líquido, que tem por nome

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‘pasturo’. Fuja dali o mais rápido que puder, masque esta folha, e voltará para cá. “Se me trouxer os três itens eu lhe darei Sofia. Você pode se machucar, se ferir gravemente, se aleijar ou morrer. Se viver, terá sua mulher. Este é o trato. Se não quiser, vá embora agora.” Laio não sentia mais medo. Era tudo tão ridículo, uma história da carochinha. Mas faria tudo que o estranho homem quisesse, na esperança de ter Sofia em seus braços. “Farei o que você quer.” “Tome isto.” Laio pegou o copo sujo com um líquido marrom e bebeu com determinação. Enquanto tudo a sua volta sumia, ainda ouviu a voz rouca de Vulcão Lunático dizendo: “Atenção, Laio. Tudo é real.”

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CAPÍTULO 6

DEPOIS QUE FREDERICO saiu, Ezequiel ligou o rádio, apagou a luz, deitou na cama e ficou pensando em Nadine. Sabia que era bobeira pensar nela. Aquilo nunca iria dar certo, ela não suportava homem em geral e ele em particular. E sabia ainda que havia o caso do Doutor Morioni, um desafio tremendo, um risco para ele e para todos; e que ele precisava de toda a energia e concentração que pudesse obter. Precisava evitar novas interações, pois enquanto estivesse na casa de pseudo-saúde, Morioni estaria livre e solto para perpetrar qualquer absurdo que quisesse, e todos os outros estariam indefesos, ignorantes, imbecis, alienados, idiotizados eternamente, como carneiros. Apesar de tudo isso a imagem de Nadine voltava sem parar a assombrá-lo. Desligou o som e foi até à sala, onde seu pai, o Detetive Gilberto, sem camisa, barrigudão, lata de cerveja do lado, assistia a um programa cretino na televisão. “Pai.” “Hm.” “Me conta mais sobre o caso do Doutor Morioni.” O pai pegou o controle remoto e apertou a tecla “mude”, virou-se para o jovem e encarou-o.

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“Zequinha, para com essa mania. Se você quiser ser da polícia, faz o concurso, eu já te disse, você tem segundo grau, pode ser escrivão. Se terminar aquela porcaria de faculdade de nada, pode fazer prova pra detetive. Zequinha, você não é burro, você passa na prova. O melhor ainda era você fazer curso de Direito e se tornar delegado. Mas você é quem sabe. Meu filho, você é o único que eu e sua mãe tivemos, e nós dois amamos muito você. Sabe que sempre pode contar conosco, mas você precisa pensar na sua vida, no seu futuro, ganhar autonomia. Tem que parar com essas bobagens de filosofia, de escrever besteira, de dar chilique e ficar se internando em casa de repouso. Você não é louco, você não é escritor, você não é filósofo. É bobagem ficar vivendo num filme. Você gosta de resolver mistérios de roubos e assassinatos, você é inteligente, forte, e tem um metro e noventa e oito de altura. Zequinha, eu me orgulho muito de você. E vou me orgulhar mais ainda quando você arrumar uma mulher bem bonita e arranjar um emprego, de preferência na casa.” Atingido, Ezequiel foi levantando para sair da sala. “Ah, e por favor, vê se esquece aquela sapatona!” O jovem correu a se trancar de novo no quarto, tremendo de nervoso. Mas ele não tinha coragem de enfrentar o pai durão, que ele amava tanto. Não tinha jeito... era hora de pensar em Nadine. Um dia avistou-a na faculdade. Viu uma menina de um metro e sessenta de altura, magérrima, vestida com roupas de hippie e cheia de piercings pelo corpo, nas orelhas (nas cartilagens), no umbigo, no nariz, no lábio, na língua...

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Parou seu corpanzil na sua frente e perguntou se ela era hippie. Ela olhou para ele com desprezo e disse: “Não.” Ele tentou rir e ficou pensando furiosamente em coisas espirituosas para lhe dizer. “Já sei. Hippie era sua avó!” “Me deixa.”, ela falou rispidamente, e saiu quase correndo de perto dele. Seguiu-a de longe e viu que ela entrava na Faculdade de Letras. Lembrou-se do amigo Frederico, e foi procurar por ele, olhando de sala em sala. Quando o encontrou foi logo dizendo: “Fred, você precisa me ajudar! Eu encontrei agora mesmo a mulher da minha vida! Foi amor à primeira vista, uma loucura!” “Quem sabe a cura?” “Não entendi e nem quero. Eu falei com ela, e ela me esnobou brabo, mas eu a vi entrando na sua faculdade. Você precisa me ajudar!” “Como é o nome dela?” “Ela não quis falar comigo, já disse.” “Como ela é?” “Baixinha assim como você, magra que nem você, clarinha igual a você.” Frederico soltou uma gargalhada: “Porra czar, tu ta apaixonado por mim!?” “Merda! Eu tô falando sério!” “Calma, cara. A gente vai descobrir quem é essa gata.” “Ela tem dez milhões de piercings pelo corpo.” Frederico fechou a cara.

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Puxou o amigo para uma sala vazia, sentou-o e sentou-se em frente a ele. “Eu sei quem é a garota.” Ezequiel ficou feito louco. “Então fala, cara, fala logo, onde ela está agora, como é o nome dela? Me apresenta pra ela! Vamos, Fred, se mexe, puta que o pariu!” “Calma. Ela estuda aqui sim. O nome dela é Nadine.” “Nadine! Nadine! Nadine! Nadine! Que nome lindo! Nadine! Nadine! Nadine e Ezequiel!” “Calma, czar, olha, presta atenção no que eu vou te dizer.” “O que é? Fala, fala, fala logo!” “A Nadine é homossexual.” Ezequiel não queria mais pensar naquilo. Foi ao banheiro, foi à sala e sentou-se à frente da tv. Os pais assistiam ao programa da Hebe Camargo, e davam gargalhadas. Ezequiel tentou se concentrar nas conversas dos artistas. Mas Nadine era como um vampiro voando em volta de sua cabeça. A noite da festa... quando ela brigou com a sua amiga tão querida... Ezequiel achava a outra simpática e bonita, na verdade muito atraente. Mas ela parecia que sabia o que ele sentia, e olhava-o com verdadeiro ódio. Frederico os apresentara na festa, e ele tentou ser simpático com as duas, mas elas o trataram super mal. Talvez fosse desejo e miragem, mas ele tinha a impressão de que Nadine sentia por ele a mesma atração irresistível que ele

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sentia por ela. Porém parecia que ela tinha medo de olhar nos seus olhos, como se gostar de meninos fosse uma coisa proibida, ilegal ou imoral. Talvez fosse só fantasia dele. Ela todavia não o encarava sob hipótese nenhuma. Tomou vinho brasileiro, batida, vodka, cuba libre e cerveja. Chegou perto dela e falou com voz pastosa de paixão: “Ti znaiech shto ti otchen krassívaia, sitchás i vsigdá?” Ela fingiu não entender ou não ouvir, e foi se agarrar na outra. Ezequiel ficou triste, ouvindo música da década de sessenta e vendo a jeunesse dorée dançar dançando. De repente, notou que as duas estavam discutindo, se empurrando emburradas, e viu a outra sair da festa. Seguiu Nadine pelo salão, e quando ela parou para pegar uma bebida, ele se encostou nela e falou: “Do you speak English at least?” Ela olhou pra ele! E os olhos deles dois chisparam chamas de raios múltiplos. “Of course. A iá gavariú pa-rússkii, tóje.” Essa é a mulher da minha vida, ele pensou antes de cair de bêbado, aos pés da aturdida menina. Quando acordou a coisa tinha terminado e nem sinal de Nadine. No dia seguinte procurou por ela na universidade, mas ela passou direto e deixou-o falando sozinho. Frederico arranjou seu telefone (finalmente!, o chato: “não adianta czar, o lema dela é Viva Sapata!, ela não suporta homem com mangueirinha, você vai se machucar, não vou te arrumar o

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telefone pra te dar falsas esperanças, depois você se queima e não segura, vai procurar ‘interação’, esquece dela, melhor arrumar outra musa” etc., o tal pentelho encravado), e Ezequiel correu a ligar. Quando entendeu quem era ela gritou esganiçada: “Desencana!!!” e bateu o telefone. Ele descobriu seu endereço na lista, espiava-a passar, sair, voltar, as luzes acesas, as luzes apagadas, a amiga que dormia frequentemente em sua casa, no seu quarto, em sua cama, com ela, “inocentemente”, sob o olhar complacente de seus pais. E ele foi pro quarto chorar. Tudo poderia acontecer, a burrice, as barragens, as guerras, os doutores morionis com suas máquinas fantásticas e suas fábricas desumanas, todas as mulheres podiam virar cínicas ou lésbicas, nada, nunca, nada importava, ele nunca, nunca, nunca, ela jamais iria esquecer nem renegar o seu amor verdadeiro por Nadine. Saiu e foi procurar o Pato Doido, pra ver se o maluco lhe conseguia algumas drogas bem legais.

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CAPÍTULO 7

“QUANTO ANOS VOCÊ tem, Frederico?” “Vinte e quatro. E você?” “Vinte e cinco.” Iracema veio, colocou as taças de sorvete sobre a mesa, falou qualquer coisa e saiu. Frederico ainda não tinha se acostumado com aquela dona, não sabia bem por quê. “Puxa, tá ficando cada vez mais difícil de te encontrar!” “Eu tô sempre por aí.” “O que você anda fazendo?” “Trabalhando na fábrica de salsichas. E você?” “Tô no último ano da faculdade de letras, e arranjei uma escola onde dou aulas.” “Blérgh! Aturar crianças debilóides! Como você consegue?” “Você faz salsicha.” “E o Ismênio já pirou? Tá com quantos?” “Vinte e nove. Você sabe, ele era de uma família pobre da baixada fluminense, pai peão, trilhões de irmãos. Teve muita dificuldade pra poder se formar, dinheiro pros livros, condução, essas coisas.” “E agora vive num apartamento de luxo na Gávea? E sozinho? Onde está a família dele?”

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“Você lembra como ele era feio e mirrado? Lembra que não tinha amigos, nem namorada, nem nada? E que no ano seguinte ficou de repente bonito, forte, cheio de dinheiro e de mulheres, e que até arrumou amigos, por acaso nós?” “Éramos os três patetas. Ele ficou sendo D’Artagnan. Mas como a vida mudou tanto para ele, de uma hora para outra?” “Você não sabe? Ele nunca te contou? Não acredito!” “O que foi que ele não me contou?” “Ele fez um pacto com o demônio.” “Ridículo. Isso não existe.” “José, você pode ser um materialista, um positivista, um cientista, sei lá. Mas o fato é que o Ismênio era raquítico, feio e pobre num ano, e no ano seguinte ficou forte, bonito e rico. Eu não vejo outra explicação.” “Que falta de imaginação você tem, Fred. Ele pode, por exemplo, ter ganhado na loteria. Manteve segredo, mudou prà zona sul, passou a se alimentar bem, fez spa pra engordar, academia de ginástica, comprou roupas caras... Dinheiro, esse o nome do seu diabo.” “Talvez. Porém pode ser que quem esteja tendo pouca imaginação seja você.” “Ah, meu filho, nessa eu não caio.” José riu. “Vocês três são tão engraçados, com todas as suas mistificações!” “Eu não faço mistificação nenhuma.” “O poeta romântico da era quântica!” Frederico riu.

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“E o Ismênio?” “O homem cibernético, gênio informático, alma semiótica, pacto mefistotélico, o onanista luxuoso.” “E o czar?” “Você deve estar querendo se referir ao Ezequiel, aquele palhaço. Eu sempre achei vergonhosa a submissão de todo mundo diante de tamanho babaca, só porque ele tem um metro e noventa ou coisa que o valha de altura. Grandes merda! Você já pensou quanto excremento um cavalão desses carrega na barriga e caga todos os dias? E se faz de i-luminado, ins-pirado, para-normal. Uma bichona, é isso que ele é.” “Me desculpe, mas você diria isso na frente dele?” “Eu? Pra quê? Pra o escroto metido a esquizofrênico sair espumando, vermelho, histérico, querendo briga? Eu não. Com sorte, aliás, eu não quero mais ficar na frente desse cossaco de bosta que vocês imbecilmente chamam de tsar.” “É sério? Pois ele mandou te chamar, juntamente com o Ismênio, pra nós três irmos na casa dele amanhã, que ele está a par de um mistério terrível, que nós temos que ajudá-lo, troço assim.” “Não acredito! E vocês caem nessa? Tenha santa paciência, Frederico!” Depois foi visitar a namorada. Cirila abriu a porta do apartamento para ele vestida só de camiseta de malha e calcinha rendada. Ele ficou todo sem jeito, ela explicou que os pais tinham viajado, e que a casa era deles por três dias.

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“E você atende à porta assim?” “Que que tem bobo? Eu sabia que só podia ser você!” Os dois se agarraram com tesão. Depois de muito se beijarem e acariciarem na sala, Frederico pegou Cirila no colo e levou-a para o quarto de seus pais. “Frederico, ai, Frederico, eu te amo! Meu amor!” Enquanto penetrava comovido o corpo lindo de sua mulher, Frederico não conseguia parar de pensar: “será se é realmente ela?”

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CAPÍTULO 8

“ALÔ? FRED? É o Ezequiel.” “Oi, czar, tudo otchen kharachó? Já to indo praí.” “Não. Espera. Não. Não dá. Eu tô indo me interar. Agora.” “Ai, ai, ai. Sai dessa, não vai não!” “Não dá, tenho de ir. Muita droga.” “Volta logo.” “Avisa os outros.” “Tá, aviso. Quando você voltar, liga pra mim,” Silêncio. Frederico pensou que o Ezequiel tinha largado o telefone e saído. Mas esperou. Um pouco depois, o outro tornou a falar: “Fred...” “Fala.” “Liga prà Nadine, diz que... não, não diz isso não. Fala que eu volto logo, só isso, não conta onde eu estou, nem o que vou fazer lá, nem me aparece por lá você. Fala pra ela não ficar preocupada, que eu volto logo.” Pronto, pirou. “E Fred...” “Fala.” “Eu não posso ainda te revelar tudo o que está acontecendo.

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Talvez você consiga descobrir por si mesmo. Pede ajuda ao Ismênio, com as geringonças dele, talvez vocês encontrem alguma coisa em algum lugar, de alguma maneira... Pesquisa o caso Morioni.” “Tá. Vê se se cuida...” “Não !!! Anota aí, merda, Doutor Lucas S. Morioni. Anotou?” “Peraí. Doutor Lucas S. Morioni. É isso?” “É.” “E o esse?” “Não sei ainda.” Pausa. “Promete. Procura o Ismênio, entra na rede com ele, vasculha tudo, descobre o que puder sobre Morioni. Não esquece: Morioni. Promete.” “Prometo. Sério.” Pausa. “Fred...” “Fala.” “Não sei se eu volto. Me ajuda. Descobre o que puder.” “Eu juro.” “Fred...” “Fala.” “Meu pai sabe de tudo. Ele é um dos tiras que estão investigando o caso. Não é loucura minha. Mas ele não pode falar. Tchau.” E desligou. Frederico se arrumou e saiu para a casa de Ismênio, preocupado.

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Ezequiel falara de um modo tão sério, não custava tentar... Levava o papel com o nome misterioso: Dr. Lucas S. Morioni. Não precisava desmarcar com o José, que dissera que não iria mesmo à casa de quem ele José considerava um mentecapto. Já Ismênio nunca atendia ao telefone de gente, só se comunicava por computador, e Frederico nem tinha nem sabia mexer com a máquina, ainda, anacrônico. Ao sair verificou que as nuvens escuras e pesadas se moviam com rapidez estonteante, como se estivessem lutando pelo céu. Ao entrar no ônibus sentiu as primeiras gotas de chuva grossa. Quando estava no meio da viagem, as ruas da cidade viraram caudalosos rios, pelos quais era impossível transitar; e pessoas corriam, ou tentavam, carros viravam, outros eram arrastados pela correnteza, gente caía nos bueiros ou era eletrocutado pelos cabos de alta tensão que caíam desencapados nas ruas, e Frederico pensou assustado: “E agora?”.

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CAPÍTULO 9

O SOL BRILHAVA forte e o céu estava azul igual os olhos de Claudete Grant. Frederico saltou do ônibus e entrou no prédio onde morava Ezequiel, na Vila das Famílias. Era de tarde, e só a sua mãe estava em casa. “Boa tarde, Dona Graça, tudo bem com a senhora?” “Boa tarde, meu filho, vou indo como Deus quer.” “E o Ezequiel, melhorou?” “Nada. Ainda internado. Ele mesmo diz que precisa ficar lá, para desintoxicar, veja que absurdo. Sorte o pai dele ser da polícia, senão ele iria acabar na cadeia. Já foi preso em boca de fumo, foi pego com maconha, andando pela rua. Mas o Gilberto vai lá e livra a cara dele. Agora ele mesmo pede pra se internar. Eu não entendo esse menino! Eu e o pai fazemos tudo por ele, e ele vive nessa paranóia, não estuda, não trabalha, o que vai ser do Zequinha?” Frederico sentou no sofá e ficou ouvindo o lenga-lenga da mulher. Seu pensamento estava longe, e ele de vez em quando balançava a cabeça num esboço de conivência, enquanto pensava no caso Morioni. Lembrou do dia em que Ezequiel ligara, e ele fora à casa de Ismênio, onde só chegou cinco horas depois, devido a um dos muitos temporais que simplesmente param a cidade, no verão.

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Ismênio não levou muito a sério o que Ezequiel tinha falado para Frederico, mas a insistentes instâncias deste, concordou em pesquisar, não sem antes explicar que era bem difícil e trabalhoso encontrar alguma coisa na rede assim, que se houvesse registros da polícia eles não teriam acesso, que havia n sites e endereços, o que eles iriam pedir ao programa de busca? Tá na cara que não haveria nada sob o termo “Morioni” Encontraram. Em uma página de ciência, estava escrito: MORIONI, Dr. Lucas da Silva, PhD. Cientista brasileiro, consta que teria sido o primeiro a tentar experiências com engenharia genética e clonagem. Foi considerado louco na época, esteve envolvido em vários escândalos e processos, entre os quais o do roubo de cadáveres e de uso de substâncias ilegais, para fins médicos e/ou de pesquisa. Desaparecido há vinte anos, não se sabe ao certo se ainda está vivo, ou qual o seu paradeiro. Especula-se em mudança de país e até mesmo em troca de identidade. Estranho. E mais nada encontraram, mesmo depois de muitas horas de busca ininterrupta. Desistiram, devido ao cansaço. Ismênio prometeu continuar, depois. Antes de sair, Frederico perguntou, talvez influenciado pelo clima fantástico que a história de Morioni deflagrara: “Você nunca me contou direito... como você fez o pacto?” “Você quer saber como eu fiz o pacto com o demônio?” “Quero.” “Por quê? Está a fim de fazer um também? Frederico sentiu um arrepio subir pelo seu corpo. “Só curiosidade.”

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“Foi pela rede. Um dia eu entrei e perguntei se o diabo estava me lendo. Aí apareceu a palavra SIM escrita na tela. Eu comecei a falar com ele, e perguntei sobre o pacto. Ele me explicou tudo, o diabo é muito educado, um verdadeiro gentleman, inteligente e cheio de espírito.” “Você fez o pacto pelo computador?” “Foi.” “E como sabe que não foi alguma brincadeira?” Frederico teve a impressão de ver um brilho vermelho passar pelos olhos do amigo. “Eu sei.” De repente Frederico percebeu que a mãe do amigo estava já há alguns minutos calada. Tomou coragem. “Dona Graça, eu fui várias vezes na clínica, eles nunca me deixam ver o Ezequiel.” “Eu sei. Foi pedido dele mesmo, ele não quer ver ninguém.” “Eu pensei que a senhora pudesse me ajudar.” “Especialmente você. Eu sei que vocês dois são grandes amigos, não fique triste, é que o Zequinha precisa desintoxicar. Ele diz que a linguagem verbal humana é uma droga, não quer falar com ninguém. Mas não fique chateado, daqui a pouco ele está de volta e bem. Eu sei o que você quer, o Zequinha me falou que você ia me procurar por causa de uns papéis, parece que é um conto, que ele ou você escreveu, não lembro bem. Não se aborreça comigo, eu tentei ler a coisa, sabia lá o que podia ser, mas vi que era só bobagem de ficção, não entendi nada. Toma, tá aqui neste envelope.” Frederico tentou ao máximo conter a excitação, pegou o envelope, agradeceu muitíssimo e saiu dali quase correndo, foi

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procurar uma praça pública onde sentou a um banco e leu o texto que havia ali: O HOMEM SECRETO Os dois cunhados estavam viajando para outro estado, onde iriam a uma reunião de família, ao encontro de suas mulheres, que tinham ido na frente. Wreb, corretor de seguros, contava casos extravagantes para distrair Blinghol, o médico seu contraparente, que guiava. Depois de algumas horas o estoque de mentiras e casos de Wreb foi se esgotando. Aí ele propôs: — Que tal agora invertermos? Eu posso dirigir, e você mente. — Bem, podemos tentar. — Ok. Pararam o carro, desceram, andaram um pouco, voltaram a entrar, os lugares trocados, agora. — Então vamos à história. — É... só que eu não vou te contar uma fantasia, não tenho imaginação para criar essas coisas. Mas já que você me pede, e já que você me divertiu todo este tempo contando seus casos tão interessantes, eu vou narrar uma experiência que realmente aconteceu comigo. — Tudo que eu falei era verdade. Mas, não importa, vamos aos fatos. — Eu era estudante de medicina, há vinte anos atrás, e tinha em um professor laureado da universidade um ídolo, um guia e um amigo. Ele se chamava Dr. Lucas da Silva Morioni, e tinha obtido fama internacional com suas pesquisas em genética. Na qualidade de seu monitor, eu frequentava com muita assiduidade uma determinada casa onde ele tinha instalado seu laboratório particular. Em dada ocasião, uma colega da faculdade morreu

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subitamente, ao escorregar no banheiro e bater com a cabeça, uma coisa estúpida, sem sentido. Eu fiquei arrasado. No dia de seu enterro, à noite, fui ao laboratório particular de meu mentor, buscando alívio, ou, pelo menos, o consolo de algum interesse em qualquer nova pesquisa. Ao chegar lá toquei a campainha, e a porta me foi aberta por... minha colega morta! Que estava ali, na minha frente, viva, andando, mas que parecia uma pessoa drogada, hipnotizada, um zumbi. Ela não quis deixar o local comigo, porém eu a peguei à força e arrastei para o meu carro, enquanto ouvia, ao longe, os gritos de Morioni, que, da porta de seu laboratório, me ordenava que voltasse, dizendo-me que eu era um imbecil, que estava pondo tudo a perder. Logo depois chegava à delegacia com a moça nos braços. Ela estava morta, no estado de decomposição correspondente aos dois dias que já haviam se passado. Fiquei em estado de choque. Contei minha história, mas ninguém acreditou em mim, pensaram que eu tinha imaginado vê-la viva, e acusaram o Dr. Morioni apenas por profanação de túmulo e roubo de cadáver. Nunca mais o médico foi visto, a partir da noite da terrível descoberta. Por mais que tentasse, a polícia não conseguiu nunca encontrá-lo — e aqui o Dr. Blinghol encerrou sua história, que deixou Wreb impressionado e pensativo. Começava a chover forte. — Essa história é mesmo verdadeira? — É. Dou-lhe minha palavra. Nunca a conta para ninguém, pois sei que todos achariam que eu tive um delírio, devido a forte emoção. Mas eu posso garantir a você que eu estava totalmente lúcido, que eu não me enganei, e que tudo aconteceu exatamente como eu lhe contei.

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A chuva ficava cada vez mais forte. — E qual a explicação científica para o fenômeno? — Não existe explicação. O que eu vi naquela noite foi algo impossível. Neste instante o carro parou, como se seu motor tivesse sido desligado. Os dois tentaram manter a calma, examinaram a máquina, tentaram empurrar, debaixo do fortíssimo temporal, tudo em vão. Já se conformavam com a perspectiva de passar a noite no carro, quando avistaram ao longe uma mansão, isolada naquele fim de mundo. Correram para lá, alegres, mas temerosos de que a enorme casa estivesse vazia. Ao serem atendidos por um mordomo correto, bem vestido, educado, ficaram mais calmos. Ele os fez entrar e convidou-os a sentar em confortáveis poltronas na sala, dizendo que não importava se as molhassem, por favor, fiquem à vontade. Depois disse que iria chamar o proprietário, o Dr. Evilásio Pantoja. Blinghol e Wreb sorriram alegres, quando seu anfitrião desceu as escadas e apareceu na sala. Foi aí que o Dr. Blinghol soltou um grito de puro pavor: — Doutor Morioni! Wreb entendeu tudo numa fração de segundo e tentou fugir, apenas para verificar que estava como que dopado, ou hipnotizado, e não conseguia se mover. Nunca mais se soube nada de Wreb e do Dr. Blinghol. Frederico guardou os papéis dentro do envelope, confuso. Como Ezequiel poderia saber de tanta coisa? Era tudo loucura? Ou estava realmente acontecendo? Afinal, quem era esse tal de Morioni, ou Pantoja? E em quê consistia a sua pesquisa científica?

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CAPÍTULO 10

LAIO ACORDOU ENJOADO, com a cabeça vazia. Abriu lentamente os olhos, confuso. Não lembrava de nada. Estava no meio de um forte matagal, ao léu. Como fora parar ali? Sentiu uma fisgada na perna esquerda, outra na mão direita. Olhou para esta e pode verificar que os dedos anular e mínimo tinham sido arrancados. Tentou levantar-se e constatou que a perna também estava ferida, e doía no limite da suportabilidade. O corpo todo estava dolorido, as roupas rasgadas e sujas, mas, fora alguns arranhões disseminados, aqueles eram os únicos ferimentos graves. O que teria acontecido com ele? Foi quando viu que um negro de mais de dois metros o observava, de uma certa distância. “Vulcão Lunático!”, pensou, e então lembrou de tudo. O bruxo se aproximou e perguntou: “Trouxe os artigos que eu lhe encomendei?”, assim, como se Laio tivesse ido ao supermercado. “Aqui estão os sacos e o frasco. Fiz tudo conforme falou. Quase morri. Foi uma luta terrível! Que lugar é aquele?” “Não importa. Você não entenderia.” “Quando eu despertei me vi no meio da mais fantástica floresta que você possa imaginar, com cogumelos do tamanho de prédios, e animais que pareciam saídos da mais delirante ficção científica. Procurei a planta primeiro...”

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“Não quero saber dos detalhes. Você foi lá, cumpriu a sua parte, me trouxe o que lhe pedi. Eu fiz uma mágica: Sofia está apaixonada por você. Estamos quites. Adeus.” “Espere! Estou todo ferido. Eu pensei que aquele mundo era um sonho induzido pela droga que você me deu...” “Eu tinha lhe avisado. É um mundo real.” “Outra dimensão?” “Não sei nem quero saber. Como já disse, Sofia é sua. Tenho que ir. Adeus.” “Espere! Como posso ter certeza de que você cumpriu mesmo a sua parte do trato?” Vulcão Lunático gargalhou com fúria de leão. “Tolo! Pobre! Estúpido! Se eu quisesse... Você é imbecil, não pode entender, você é como uma criancinha. Confie. Eu fiz a mágica, e Sofia te amará, pobre idiota.” Riu ainda. “Espere! Eu... me lembro de outro planeta, diferente da floresta dos cogumelos gigantes, que tinha um céu cor de rosa, e dois sóis abraçados no céu, envolvidos por uma grande espiral de gás alaranjado. Também me lembro do nome Louco Morioni. Isso faz algum sentido?” Vulcão Lunático riu de novo. “Você está começando a se lembrar. Isso é bom. Fique calmo, relaxe. Tudo virá por si. Adeus.” Entrou na folhagem e desapareceu. Mas, um segundo depois, voltou. “Guarde bem: seu nome agora é Lyáios Theóphoros.” Depois de dizer mais estas enigmáticas palavras, Vulcão Lunático sumiu no meio do mato cerrado, deixando Laio sozinho e confuso, em um morro desconhecido.

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CAPÍTULO 11

ISMÊNIO LEU AS páginas manuscritas que Frederico lhe dera e comentou: “Isso é um conto, ficção. Ou então é delírio do Ezequiel. Me admira você, levando essa bobajada a sério.” Frederico cruzou as pernas, a mão no queixo, os olhos boiando entre os peixinhos dourados do aquário da sala do apartamento de Ismênio. “Mas o pai dele é da polícia, e Ezequiel insinuou que ele está investigando o caso.” “A polícia não poderia conhecer os detalhes que estão no conto. Ali mesmo se diz que nunca mais se soube nada das duas figuras, como é mesmo que são os nomes deles?” “Blinghol e Wreb.” “Nomes ridículos! Pois é, pura bobagem, literatura!” “Literatura não é bobagem.” “Você sabe o que eu quero dizer.” “Não sei não. Isso só pode ser ignorância. Você, que gosta tanto de computador e de realidade virtual, saiba que o livro e o texto escrito foram os primeiros computadores e aparelhos de indução à realidade virtual que o ser humano fabricou.” “Não quero discutir isso. Desculpe falar mal de seus vetustos alfarrábios.”

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“Você esquece que nós encontramos a referência na rede?” “Aquilo também pode ser ficção. O próprio Ezequiel pode ter colocado o texto lá, ele não é analfabeto, é?” “Touché! Está bem, eu te chamei de ignorante, você me chama de analfabeto. Aliás, é o segundo, o czar também disse que o sou, só porque não sei sânscrito, hebraico, grego e latim.” “Não sabe?! Você não faz letras? Pois ele está certo!.” “Até tu Brutus! Pois saiba que as meninas lá da faculdade, tipo a Nadine, só querem saber de inglês e espanhol, e olhe lá. Elas acham ridículo alguém estudar um idioma não comercial, como os que eu citei e, em menor escala, italiano, alemão e japonês.” “E com isso? São burras, o mundo tá cheio de gente estúpida, eu pensei que você fosse diferente.” “Vocês três deram pra me esculhambar, é complô?” “Quem é Nadine?” “Faz parte talvez do nosso mistério. É uma garota lá da faculdade, pela qual o Ezequiel está trincado, só que ela é lésbica e tem alergia a pirulito.” “Isso não tem nada a ver. O Ezequiel já namorou um monte de mulher, de tudo quanto é tipo, e sempre foi maluco, a culpa não foi delas.” “Nem dele.” “Hm.” Ao lado do aquário uma tv sem som mostrava mulheres louras e altas, andando sensuais. Em outro canto da sala, um som ligado baixinho tocava música clássica direto. A tela do computador mostrava que ele estava conectado com a rede. A sala se

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mantinha permanentemente na penumbra de lâmpadas fracas encobertas por abajures, as janelas sempre fechadas, um cheiro de patichuli perfumava o ambiente. “Essa história do Ezequiel... pode ser verdade, pode ser piração. Mas e daí? O que ele tem com isso? O que nós temos com isso? O nosso é um país de escândalos, corrupções, barbaridades. Nós não somos paladinos da justiça, caçafantasmas ou os três mosqueteiros, toda essa besteira adolescente já passou. Se ele quer brincar de detetive, tudo bem, é uma profissão como outra qualquer, mas ele não tem o direito de ficar nos envolvendo nisso, nem você tem necessidade de ficar obsedado por essa história, que não te diz respeito. Você não tem mais o que fazer? Vá tratar da faculdade, dos teus aluninhos, vá preparar aulas, vai namorar, escreva livros. Deixe a psicose de Ezequiel pros médicos, e os crimes (se é que os há) de Morioni para a polícia.” “Tá bem. Eu não vou mais te envolver nisso. Eu pensei que você se preocupasse com o czar.” “Você e ele são meus amigos, quase que de infância, e é claro que eu gosto de vocês e quero saber o que está acontecendo, tanto com um quanto com o outro. Mas a gente não é mais aluno secundário, eu não vou ficar perdendo tempo com as fantasias de um lunático.” “Tá.” Ficaram em silêncio, meio sem jeito, Ismênio aliviado por ter sido sincero, mas um pouco constrangido com a possibilidade de ter magoado o amigo. “Você talvez não perceba, ainda, Fred, mas nós estamos

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vivendo uma realidade muito mais fantástica do que os mais arrojados delírios de qualquer maluco, ou de qualquer escritor.” “Você falando assim parece que os considera no mesmo nível. E o seu pacto com o demônio?” “Deixa isso pra lá... tá bem, o meu pacto. O demônio faz parte disso tudo. Não é o demônio dos religiosos medievais, eu não sou basbaque, não acredito nisso; quando eu falo em diabo estou me referindo a este nosso novo mundo, a esta face autodevoradora e esquizofrênica do capitalismo pós-industrial, ao mundo informático, às pluri-realidades virtuais. Foi com eles o meu pacto. Meu pai ganhava pouco, mas conseguiu comprar pra mim um micro velho. E eu descobri que sou uma espécie de gênio informático. Fiz programas que vendi, e desde então trabalho como free lancer, e ganho uma montanha de dinheiro com isso. Trabalhar e ganhar dinheiro, descobrir uma atividade que tanto me eletriza, tudo isso aumentou muito minha autoestima, e me transformou para melhor. Vocês ficaram perplexos com a minha metamorfose, e me indagaram o que tinha havido. Em parte expressando meu próprio pensamento sobre o póscapitalismo da informação, em parte brincando com vocês, com a sua crendice, com o anacronismo da mentalidade de certas pessoas, eu falei em pacto com o diabo. José de Alencar, químico frustrado, mas inteligente, não levou a sério. Porém você e Ezequiel acreditaram: ele, porque é pinel; você, porque é um poeta romântico deslocado, um escritor espiritualmente ligado ao século dezenove.” “Cada vez eu penso mais em tramoia de vocês. O José me disse quase que exatamente a mesma coisa, a meu respeito.”

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“É porque é verdade. Isso não é ruim. Alguém tem que ser poeta romântico, alguém tem que ser louco, alguém tem que ser policial, alguém tem que ser fracassado, alguém tem que ser gênio e ficar rico. É como se fosse uma peça de teatro, e cada um de nós ganhasse um papel diferente (você sabe, só há espetáculo se todos quiserem representar os seus personagens desiguais). Nosso orgulho de atores deve ser o de desempenhar a parte que nos coube da melhor maneira possível.”

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CAPÍTULO 12

ZECA DOLIVARES ERA um sujeito pacato, velho, aposentado, que morava só com a esposa em um dos prédios da Vila das Famílias. Tinha seus mistérios. Às vezes chegava em casa com embrulhos, se trancava no quarto ou no banheiro por um longo tempo, e não deixava a mulher entrar, nem queria lhe dizer o que era que tinha trazido da rua, ou o que fazia com as misteriosas coisas trancadas em uma gaveta, da qual só ele tinha a chave. Todavia Dona Isidora não se preocupava, era uma esquisitice inofensiva, o que poderia ser? Alguma coleção, revistas de mulher pelada, nada que o aposentado marido fizesse ou com que se ocupasse poderia ainda lhe despertar ciúme ou até mesmo interesse. A vida entre os dois seguia pacata, a não ser por outra das idiossincrasias de Zeca: sua irritabilidade. Apesar da idade avançada, ele era dado a ataques de fúria, quando fazia gestos tresloucados. Por sorte, tais momentos eram esporádicos. Exemplo: um dia ele teve que ficar a tarde toda na rua, tratando de negócios, e voltou às nove da noite pra casa, exausto e com fome. Só que justamente naquele dia Dona Isidora olhava

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hipnotizada para a televisão, acompanhando o último capítulo de sua novela, e não tinha ainda feito o jantar. Zeca, ao perceber o que se passava, começou a gritar e a jogar coisas no chão. A mulher ignorou-o com fleuma, e prosseguiu acompanhando o programa como se nada houvesse acontecido. A única providência que tomou foi colocar o aparelho no volume máximo, para encobrir com as falas das personagens os gritos histéricos de Zeca dOlivares. Diante da indiferença de Dona Isidora, o ancião pegou um jarro antigo, presente da avó dela, uma relíquia de família, e arremessou-o sobre o papagaio, que acordara com a gritaria e estava repetindo as frases que sabia de cor, aos gritos, nervoso, com insistência. O jarro se espatifou e a ave jazeu morta, dependurada pela corrente que a prendia pelo pé. Dona Isidora ficou uma semana sem falar com o marido, que todo dia tentava abraçá-la na cama, no escuro, de noite. Ela sempre o empurrava e saía prà sala, onde ficava, deitada no sofá, cochilando, até ter certeza de que ele pegara no sono, quando então voltava para a cama e dormia sossegada. Uma semana depois ele fez uma pergunta comezinha, distraído, esquecido da briga, e ela respondeu, adrede, pazes declaradas. Mas redarguiu: — Precisava matar o papagaio? Ele pediu desculpas, envergonhado, também pelo vaso da avó. Assim era Zeca dOlivares.

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CAPÍTULO 13

DONA GRAÇA FOI visitar o filho na clínica. Ele estava sozinho no quarto, lendo, quando ela entrou. “Meu filhinho, como você está? O médico me disse que você não tem nada demais, que você está ótimo. O que você acha de voltar para casa?” Ezequiel olhou para ela e falou com voz empostada: “Eu olhei: havia um vento tempestuoso que soprava do norte, uma grande nuvem e um fogo chamejante; em torno, de uma grande claridade e no centro de algo que parecia electro, no meio do fogo. No centro, algo com forma semelhante a quatro animais, mas cuja aparência fazia lembrar uma forma humana. Cada qual tinha quatro faces e quatro asas. As suas pernas eram retas e os seus cascos como cascos de novilho, mas luzentes, lembrando o brilho do latão polido. Sob as suas asas havia mãos humanas voltadas para as quatro direções, como as faces e as asas dos quatro. As asas se tocavam entre si; eles não se voltavam ao caminharem; antes, todos caminhavam para a frente; quanto às suas faces, tinham forma semelhante à de um homem, mas os quatro apresentavam face de leão do lado direito e todos os quatro apresentavam face de touro do lado esquerdo. Ademais, todos os quatro tinham face de águia. As suas asas abriam-se para cima. Cada qual tinha duas asas que se tocavam e duas que cobriam o corpo; todos moviam-se diretamente para frente, seguindo a direção em que o espírito os conduzia; enquanto se moviam, nunca se voltavam para o lado.”

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“Meu filho, que coisas estranhas são essas? Você está lendo a Bíblia?” Ezequiel se pôs de pé e olhou-a de cima: “Mãe, eu vi o carro!” Dona Graça acariciou seu rosto, fê-lo sentar-se à cama, alisou seus cabelos. “O doutor falou que você nunca sai do quarto. Você viu o carro de quem? Quando? Você chegou até o portão da rua?” Ezequiel estava malemolente pelos carinhos dela, e falou como se estivesse muito cansado: “Eu fui além, muito além disso...” “E não me falaram! Que clínica desorganizada! Eu vou agora mesmo pedir sua alta ao médico, vou ver se consigo levar você comigo pra casa, ainda hoje.” O filho começou a tremer. “O que é isso, menino?” “Mãe, por favor, não quero voltar pra casa, ainda não, por favor, eu preciso me desintoxicar, preciso mesmo!” “Mas Zequinha, o doutor falou que você não está com intoxicação nenhuma, que você só tomou remédio com uísque, há duas semanas atrás, que você está bem.” “Deixa eu ficar aqui mais três dias, por favor, mais três dias, eu lhe peço, por favor...” “Tá bem, calma, calma, fique calmo, eu vou conversar com o médico e marcar sua alta para daqui a dois dias.” “Obrigado, mulher, muito obrigado.” “Agora eu vou falar com o doutor.” A mãe se levantou para sair. “Eu comi o livro!”, declarou-lhe o filho. “Zequinha, não fica comendo papel, esse menino!”

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CAPÍTULO 14

ASSIM QUE SAIU do hospital, para onde fora conduzido pela polícia, que o encontrara sangrando e ferido perto de um morro do subúrbio, Laio foi para a casa da tia. Declarou à polícia e aos médicos não saber o que aconteceu, se fora atacado por algum animal, pelo quê ou por quem. Estava sem dinheiro nem documentos. Revelou onde morava, trabalhava e estudava. Tentaram avisar sua tia pelo telefone da vizinha, mas esta se recusou a dar o recado. Ao chegar a tia deu um grito: “Laio! Por onde você andou, menino? O que houve com sua perna? E os seus dedos?! O que foi isto???” Mentiu que caminhava pela rua quando foi atacado por uma matilha de cães ferozes; não podia revelar a verdade para ninguém — quem acreditaria que um monstro fabuloso chamado kriniu rgatniok arrancara dois dedos de sua mão e rasgara os nervos de sua pele, que uma planta de sonho chamada erva edagôntia o queimara tão fundo, ou que seus pés tinham duas cobras entrelaçadas, tatuagem feita pelas águas corrosivas da fonte de pasturo? Nem o Vulcão quis saber. “Roubaram todo o nosso dinheiro, na mesma noite em que você sumiu.”

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“A senhora desconfiou de mim?” “É claro que não!” “E como vai ser?” “Ah, não se preocupe, a comadre Lindalva me emprestou, pra eu pagar aos poucos.” Laio se lavou, se perfumou, se penteou e vestiu sua melhor roupa. Logo depois tocava a campainha da bela casa de Sofia. As araras gritaram, os cães latiram. A empregada apareceu. Ao vê-lo, meio que se assustou, falou precipitadamente: “A Dona Sofia ainda está viajando, vai ficar fora muitos meses...” Foi interrompida pela própria Sofia que apareceu atrás dela, mais linda do que nunca, uma visão celestial. “Deixe o senhor Laio entrar, Dolores, quero conversar com ele.” “Sim senhora. Por aqui.” Laio passou pelo viveiro, pelas araras e outros pássaros fartamente coloridos, pela fonte onde um menino mijava sem parar, pela piscina de água suavemente esverdeada, pelos galgos acorrentados, pelos carros importados estacionados no jardim, pela porta de madeira de lei ricamente entalhada, pela sala de tapetes persas e quadros na parede, pelo living particular de Sofia, só aberto aos eleitos, onde ele antes nunca tinha pisado, e onde ela tinha uma coleção de livros raros e uma múmia dentro de uma redoma com temperatura controlada, pela porta de seu quarto de dormir, pelas cortinas pendentes do dossel de sua cama, cor

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azul celeste e bordado de ouro, pelas suas roupas raras e caras, pelos seus lábios, pelos seus dentes de pérolas, pela sua garganta, pelos seus braços, seus seios, por seus quadris, sua calcinha, pelos seus pentelhos, por seus grandes lábios, e pelos pequenos, por sua vagina, e chegou ao seu útero escuro, onde plantou a semente de sua existência.

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CAPÍTULO 15

“TALVEZ”, AVENTOU FREDERICO, “você tenha mesmo feito o pacto, quando pensava que brincava, e nem tenha dado pela coisa.” Ismênio olhou-o sério. “Você acha mesmo isso?” “Estou brincando, são apenas jogos mentais. Vocês falam tanto que eu sou um poeta, um romântico, mas, sabe, o meu sonho é escrever um grande romance. E todo romancista é cético, ao contrário dos poetas, dos profetas, dos filósofos e dos ensaístas. Escrever um romance, com tantos personagens diferentes falando entre si e pensando de forma tão singular, criar ações, descrições, diálogos e monólogos interiores, caracteres psíquicos e físicos, tempo-espaço verossímil, tudo isso faz do romancista um descrente por natureza, ou uma espécie de crente tala larga, que pode crer em tudo, sem nunca crer em nada.” “Sei.” A campainha tocou. Ismênio pensou: “se esse meu interessante e chato amigo não estivesse aqui a chilrear suas balelas, eu estaria no dreammer e não ouviria a maldita campainha, e, por conseguinte, não estaria na obrigação moral e social de atender a um outro chato interessante que aguarda atrás da porta, e que

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fará uma corrente de achares e quasares e pulsares ao redor dos pulsos de minha atenção, cadeia de interação, quando toda a ação que eu quero está na minha mente e na supermente da inter-rede. Enfim, vamos à chacrinha.” Era José de Alencar, que vinha para chorar as mágoas de sua Iracema, e ficou muito satisfeito de adquirir quatro ouvidos pelo preço de dois. “Camaradas, eu não aguento mais aquela mulher!” “Larga dela”, sugeriu-lhe o anfitrião. “Se fosse assim tão fácil...” “E o que o impede?”, indagou Fred. “Não sei... Tudo, nada. Tesão. Ela é linda, linda, uma delícia! Mulata de corpo perfeito, nem gorda nem magra, sua pele lisa é homogênea, seus membros fortes, sua bunda maravilhosa, sua xota cheirosa e macia... seus cabelos, seus lábios, seus olhos!” “Ei, tovarishtch, como diria o Ezequi-é-lé-lé, é melhor tu ir correndo encontrá-la, antes que se esporre todo aí sozinho.” “Qualé, Ismênio, deixa o cara desabafar! Vocês, hein! É pra isso que servem os amigos. Fala, José, conta, qual é o problema?” “Tenho vergonha...” “Ela te bota chifre, eu sei, o Frederico sabe, o Zeca sabe, e metade da torcida do Flamengo.” Por uma semi-delicadeza Ismênio não disse tudo o que pensava, que a outra metade estava para além de saber, tendo obtido dela a práxis. “Que é isso gente?! Manera, Ismênio, tu tá maluco??” “Deixa, Frederico, é verdade, eu sei e vocês também sabem que ela me trai. Ela faz sexo com outros homens. É esporádico, porém...”

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“Porra! Meu amigo, deixa de ser bobo. Essa mulher não gosta de você! Se ela gostasse não te traía, não brigava tanto contigo. Tudo bem, ela é um tesão, a foda de vocês dois pode ser a milésima primeira maravilha do mundo, mas... e daí??? Cai fora. Você vai encontrar outras mulheres tão ou mais sensacionais, ainda.” Fez-se um longo silêncio, durante o qual o dono da casa serviu uísque a todos. Aos poucos o José foi se animando. “Vamos deixar essa história pra lá, depois eu resolvo. Como vão os seus computadores, Ismênio?” “Meu computador e todos os outros vão bem, batem altos papos.” “Ele leva o computador dele todo o dia pra passear no jardim, tomar sol e chuva, ver as novidades, conversar com os colegas e namorar.” “Pra que que serve isso, isso, aquilo, aquilo e aquilo outro?” “É complicado de explicar.” Ismênio começou a ficar com uma saudade enorme de sua solidão. “Quando você chegou o Ismênio ia justamente explicar por que a informática é a maior revolução pela qual a humanidade já passou.” “É complicado, levaria tempo.” “Tempo é o que nós temos.” “Todo mundo sabe disso.” “O José de Alencar não sabe, nem eu.” Teve vontade de dizer que ele não tinha culpa dos dois serem tão ignorantes e analfabetos, mas resolveu contemporizar,

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levando em conta que já fora agressivo demais hoje, tanto com um quanto com outro. “O Ezequiel está todo impressionado com a possibilidade de que um velho cientista, sob identidade falsa, por ser foragido da polícia, esteja há vinte anos trabalhando clandestinamente com engenharia genética, clonagem e outra coisas assim, para isso praticando delitos como roubo de cadáveres e uso de substâncias proibidas, e provavelmente, até mesmo sequestro e homicídio. Ele esquece que hoje em dia, no mundo todo, essas pesquisas estão em andamento, de forma mais ou menos secreta. Que em 1945 duas bombas atômicas explodiram sobre duas cidades do Japão, que na década de 50 o homem fez satélites artificiais, que em 1961 Gagárin entrou em órbita da Terra e que em 1969 os americanos pisaram na Lua. “Tudo isso, a biologia molecular, as diversas bombas nucleares, os voos espaciais, os robôs, e toda a tecnologia que constrói a estr utura metálica, maciça, elétrica, eletrônica, aquosa, informacional e neurológica, das cidades atuais; tudo, tudo, tudo, depende de padrões estabelecidos pela informática, está ligado aos computadores e foi neles projetado e realizado. A teoria dos três poderes é arcaica: hoje há uma pluralidade de poderes, o estado esquizofrênico. Leiam Gilles Deleuze e Félix Guattari. Ainda pouco tempo atrás existiam cinco poderes: o legislativo, o executivo, o judiciário, o comunicativo e o criminal. Tvs, rádios e jornais faziam muito mais que exercer pressão política e moldar a mole opinião pública. E assim também com o crime organizado. Os cinco poderes ainda existem, e se interpenetram de infinitas formas, favorecendo a pulverização do estado.

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“O que as pessoas não perceberam é que a informática vai muito além dos aparelhos chamados computadores. Ela já estava em nossa sociedade, desde que nos tornamos Homo sapiens sapiens (doce ilusão, repetida para que se possa acreditar), ou talvez até antes, talvez ela já esteja impregnada no próprio cosmos, ou caosmos, segundo Joyce e os filósofos que citei. Mas ela se tornou manifesta desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a par daqueles eventos mirabolantes, mas também nas mais mínimas práticas cotidianas. A informática não só dá padrões urbanos e sociais: ela dá principalmente padrões mentais, que são assimilados por todos os indivíduos do país Terra, independentemente de sua condição financeira ou intelectual. Isto é, o computador, e o que está por trás dele, que é algo mais sutil, mais abstrato, uma nova inteligência, está mudando a humanidade, a maneira dela pensar, sua sociedade, e até a face física do planeta, coisa que o homem já fazia antes, e que faz agora mais e melhor (ou pior, como quiserem) a fortiori.” E seguiram os três, bebendo e conversando, pela madrugada.

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CAPÍTULO 16

PRIMEIRO O FILHO Mauro viera com a Nora (era esse seu nome) e os netos de Zeca, agora era a filha Josefina com seu marido e os cinco filhos. De repente, o pequeno apartamento quarto e sala abrigava, além de Zeca dOlivares e sua mulher Isidora, os filhos deles dois, Mauro e Josefina, e Gervásio, o seu genro, e Nora a mulher de Mauro, todos muito exigentes, e suas oito crianças irrequietas, insuportáveis, comilonas, barulhentas, sujas, malcriadas, respondonas e cheias de vontades. Zeca já não aguentava mais. E a história do papagaio? Foi objeto de mofa de sua repentinamente agigantada família, que fazia questão um por um de casquiná-lo, implacável, no café, no almoço e no jantar. E todos sempre juntos: as crianças de férias na escola, as mulheres donas de casa perfeitas (como se o fossem, como se o houvesse, como se fosse mérito, como se alguém quisesse), os maridos coincidente e concomitantemente desempregados, devido à crise econômica, à dívida e(x)terna (quer dizer, a escravidão nacional e predatória), à globalização, às taxas de juros, à importação, à exploração, à remessa ilegal de lucros, à corr upção, à informatização do emprego, à robotização conspícua e inexorável (de acordo com a ideologia vigente) da indústria e das pessoas

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(isto é, trocaram robôs [que em tcheco ou outra língua eslava quer dizer trabalhador, como o radical em russo robot quer dizer trabalhar] de carne por outros de um material menos inflamável) etc. A gota d’água foi um dos netos apelidado Pimenta No Dos Outros, que estava com um pé de cabra, tentando arrombar a sua gaveta secreta, pessoal e intransferível, que até a Isidora (!) sempre tinha respeitado. Pronto; não grita com o menino, não dá cascudo, quem o senhor pensa que é (ele pensou e não falou: matriz genética vossa, quem paga todas as contas, quem apagava os incêndios da cidade por trinta e cinco anos, apanágio da vossa geração, quem criou um cocoon nesta casinha pra espantar pra longe os bichos papões tão reais e proteger vocês sempre), vovô que qui tem naquela gaveta, desembucha sogrão! Uns tinham vindo para ficar dois dias, estavam há dois meses; outros, por uma semana, estavam há sete. Zeca decidiu. Sabia o que fazer. Vestiu a camisa do seu Botafogo (ele que sempre fora bombeiro...), time do coração, pegou a bandeira e foi pro velho Maraca, o seu querido Maracanã, em dia de decisão de campeonato, tempo de tudo ou nada, torcer pro seu Fogão, no meio da torcida do Flamengo.

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CAPÍTULO 17

FREDERICO ESTAVA MUITO triste, nem sabia direito por quê, bebendo cerveja, num bar perto da universidade. Sozinho, ficava olhando o movimento das pessoas que entravam e saíam, uns apressados sem olhar pros lados, como se o mundo fosse uma gigantesca empresa de representações, outros indo com calma para o bar, onde se sentavam e bebiam por horas a fio, pra espantar o frio ou combater o calor, porque andavam solitários ou muito bem acompanhados. Quando deu por si Nadine tinha se sentado a sua mesa. “Oi.” “Oi.” Frederico reparou bem nela, de maneira pouco educada e evidente. Nadine devia ter um metro e sessenta e pouco de altura, era muito magra, seios definidos, bunda interessante, branca que não pega sol na praia até torrar (que maravilha!), olhos verdes, cabelos castanhos claros, quase louros, cortados bem curtos, cara de outsider de filme americano, jeito de filhinha de papai que tem de tudo, que compra suas roupas de doidona na butique, que consome drogas levadas em casa por alguém a quem paga o bastante, e que só vai a festas embalada, levando presença. Que bebe pouco e finge que bebe muito, que estuda violão com

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professor particular, e joga cartas pros amigos e charme pra todo mundo, como todo mundo, mas que igualmente tem medo de amar. Frederico falou tudo o que pensava pra ela. “Vocês machões são muito ridículos. Por que uma mulher que gosta de mulher ameaça tanto vocês? Eu não brigo com ninguém, não agredi você, nem beijo a Lua pela rua ou nos lugares (que você sabe que seria meu direito, ninguém tem nada a ver com isso), a Lua você deve conhecer, é a minha namorada, é, minha namorada sim, o que que tem?” “Calma! Desculpe dizer, mas você está sendo agressiva sim.” “A hipocrisia masculina. Vocês são agressivos, e muito. Você sabe como é para uma mulher andar pela rua, nos ônibus, em qualquer lugar? Qualquer escroto acha que você tá doida pra sair com ele, te diz as coisas mais nojentas, e se você reage, ou se tenta se esquivar, eles começam a te ofender, a dizer que você é isso e aquilo. Como se mulher fosse uma coisa, que só está ali esperando algum porra com esse negocinho escroto pendurado no meio das pernas pra se entregar toda, tonta, como se tivesse encontrado algum semideus. Vocês são uns macacos, isso sim. Eu até gosto de alguns homens como pessoas, tenho amigos e pai, e os amo; mas não tenho vontade nenhuma de namorar e muito menos de transar com um homem! E daí?” “Daí nada.” Ela se serviu da cerveja que ele lhe ofereceu com um gesto, ficaram os dois bebendo em pequenos goles. “Sabe por que eu me sentei aqui com você?” “Nem tenho ideia.”

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“Eu tava ali no balcão havia uns minutos já, e tava vendo você aí triste, jururu, olhando pro céu, olhando pro chão, com cara de choro, fiquei com pena, decidi parar um pouco pra conversar com você.” “Muito obrigado”, meio irônico. “O que você tem?” “Sei lá. Angústia, não sei. Alguma coisa ontológica, tipo algum tipo de filosofia, sacumé. Está tudo muito estranho, ficou tudo muito doido de repente.” “Problemas com a sua... como é mesmo o nome dela?” “Cirila. Não. Tá tudo bem entre a gente, eu acho... Eu, eu não tenho certeza.” “Não sabe mais se gosta dela?” “Hm..., é.” Frederico se espantou de estar se abrindo assim com uma pessoa que ele mal conhecia, e que tratara tão mal seu amável amigo, bem como a ele. “Outro grilo é o czar, é assim que eu chamo o Ezequiel.” “O seu amigo pirado?” “Por que você tratou ele daquele jeito?” “Ué, eu não fiz nada! Eu não sou obrigada a namorar alguém que eu não quero, sou?” “Não. Não se trata disso. Sei lá. Eu acho que eu nem tenho o direito de estar falando isso, mas ele se apaixonou mesmo, de verdade, no duro, por você.” “Sinto muito.” “Ele é meio doido, quer dizer, ele é um gênio, e tem mil insights, vislumbres, intuições; tanta voz na sua cabeça, misturada com a

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incompreensão de gente burra e insensível, fazem com que ele tenha fama e ficha médica de tantã.” “Não sou burra nem insensível. Mas nem por isso sou obrigada a gostar dele.” “Para de fazer cu doce! Como você é sebosa!” Nadine se levantou, ofendida. “Você não tem o direito de me xingar, só porque o seu amiguinho é pinel! Eu fui conversar com o cara, outro dia, na festa, e ele riu um riso alvar, falou um monte de coisa sem sentido e caiu de borco no chão junto aos meus pés. Agora, eu venho tentar fazer amizade com você, e você fica me agredindo gratuitamente. Quer saber? Tô fora, seus escrotos! Passe bem.” E saiu ventando.

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CAPÍTULO 18

ZECA DOLIVARES ESTAVA internado em um grande hospital do governo, todo quebrado, tendo sido alvo da fúria futebolística do povaréu, e salvo, pela polícia militar, de ser linchado no Maracanã. Seu leito ficava em uma enorme enfermaria onde havia dezenas de outros pacientes graves, cada um com um tipo diferente de problema, alguns contagiosos. Ficou lá esquecido um dia inteiro. No outro, a mulher Isidora apareceu para visitá-lo, furiosa. Ele pensou que ela estava assim irada devido a mais este seu gesto tresloucado; no entanto, o motivo era bem outro. Em meio aos gritos apocalípticos da consorte ele lograra compreender o que se sucedera: em sua ausência, o neto Pimenta No Dos Outros conseguira arrombar sua gaveta, e, encontrando espantado o seu conteúdo secreto, procurara o pai, o qual foi falar e mostrar os artigos à mãe, incontinente. Agora a mãe do pai do neto, que era a própria Isidora, berrava a plenos pulmões que ele era um velho safado. “Como você teve coragem de colocar essas coisas dentro do seu lar sagrado, comigo ali por perto, seu velho escroto?”

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Ela gritava, a plateia rugia de rir, e Zeca chorava mansamente, cheio de vergonha. Ela foi embora, depois de jogar tudo em cima dele, e de dizer que nunca mais queria vê-lo, e que ele deveria se esquecer de que tinha uma mulher e uma família, já que nunca as respeitara. E foi pra casa chorar as mágoas com a filha e a Nora. À noite, já assistia plácida aos programas da tv, esquecida do que acontecera, pronta para perdoar mais esta água fora da bacia do marido. Só que ela não sabia era que enquanto ela assistia à novela, dois capangas do Dr. Lucas da Silva Morioni invadiram a enfermaria abandonada do hospital público, e raptaram Zeca dOlivares, para que o ilustre cientista pudesse utilizá-lo em mais uma de suas inimagináveis experimentações.

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CAPÍTULO 19

FREDERICO SÓ, DEITADO em seu quarto, em casa, a luz apagada, pensava na vida. Estava com um monte de trabalhos atrasados na faculdade, tinha faltado a inúmeras aulas e perdido duas provas, já. Seu amigo parecia cada vez mais distante da realidade, só não sabia a qual dos três amigos e a qual das realidades especificamente ele estava se referindo. Cirila andava furiosa com ele, achando que ele não ligava mais pra ela, só queria saber de ler poetas antigos (pra ela qualquer poeta que ela não conhecesse era “poeta antigo”) e filósofos contemporâneos, e só queria conversar com seus colegas panacas. Ele, sozinho no escuro, deitado, não precisava esconder nada de ninguém, e tinha coragem de ser sincero consigo mesmo, e de assumir seus verdadeiros sentimentos, essa paixão repentina com calda de sentimento de culpa, essa fome danada e sem esperança de se saciar: Nadine. A mãe bateu na porta. Ismênio viera vê-lo (e Frederico achou isso estranho): estava agitado, e lhe contou rapidamente que pegara seu carro e viera até ali, porque precisava falar com ele, com urgência. “Não sei como, mas o Ezequiel conseguiu entrar na rede, encontrar meu endereço e me mandar essa mensagem: ‘Ismênio,

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sei de quase tudo sobre Morioni, pois estou em rapport telepático com ele, contra a minha vontade. Sei que ele pretende me raptar hoje à noite, e por isso estou te mandando estas informações, que você deve levar urgentemente ao Fred, que, por sua vez, saberá o que fazer. O Dr. Loucus da Silva Morioni está trabalhando em um aparelho que capta cenas do passado e do futuro, e precisa utilizar seres humanos no dispositivo, em acoplagem cibernética. As pessoas assim utilizadas não mais voltam a ser normais. Ele se esconde em uma mansão isolada, perto de Petrópolis, e utiliza o nome falso de Dr. Evilásio Pantoja, especialista em plantas e insetos tropicais. É tudo que sei, sondar esses fatos é muito difícil e doloroso, e ele está consciente de nossa ligação, considera-me uma peça preciosa para seu aparelho, e já está a caminho daqui. É tudo. Por favor, me ajudem!’ Só isso. Assim que imprimi o texto, vim correndo te ver. Você acha que ele enlouqueceu de vez? Como ele entrou na rede?” Frederico estava nervoso, confuso. Também não sabia o que fazer agora, sentia uma espécie de medo primal desse nome, desse homem: Pantoja/Morioni. No entanto todos esperavam dele alguma atitude, tinha sido nele que o czar pensara. Tinha que ter presença de espírito. “Me espere enquanto me visto.” Três minutos depois passava correndo pela sala e gritando: “Vamos! Me leve até a casa do czar. Precisamos contar tudo ao pai dele.”

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CAPÍTULO 20

LAIO BATEU NA porta do casebre. Pato Doido, que lhe servira de guia remunerado, já se evadira, morro abaixo. De dentro veio a voz profunda de Vulcão Lunático: “Entre, Lyáios Theóphoros.” Entrou, viu o gigante de pé, no meio da sala, olhando-o em silêncio. “Vim pedir sua ajuda de novo...” “A mulher?” “Me ama, espera um filho meu.” “Que mais você quer?” “Desde que fui à terra dos cogumelos gigantes, tenho tido visões de um planeta de céu rosado e dois sóis envolvidos por uma espiral. Vejo outras coisas também, que eu não entendo e não consigo descrever. E esse nome fica o tempo todo sendo sussurrado em meu ouvido: Loucus da Silva Morioni. Você sabe o que é isso tudo?” “Sei. Mas você vai ter que descobrir por si mesmo.” “Você não pode me ajudar?” “Eu posso te ajudar a se ajudar.” Vulcão pegou uma garrafa sobre a mesa, e derramou o líquido azul que ela continha em uma taça, que estendeu a Lyáios.

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“Beba.” Lyáios tomou todo o líquido, de sabor mentolado. Aos poucos as imagens à sua volta foram desaparecendo, e ele se sentiu desmaiar. Acordou em um enorme campo aberto. À sua frente, a entrada de um labirinto; depois do labirinto, uma grande montanha azul. De algum jeito ele sabia o que devia fazer. Entrou no labirinto.

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CAPÍTULO 21

DENTRO DO MONZA do Ismênio (que os quatro chamavam, brincando, de Ismêniomóvel, assim como ao seu apartamento apelidaram de Ismêniocaverna, e também falavam em Ismêniocomputador etc.), os dois discutiam enquanto “voavam” para a delegacia onde trabalhava o Detetive Gilberto, pai de Ezequiel. A mãe deste tinha vindo atender à porta com os olhos cheios de sono e de susto, e informara-lhe que o marido estava dando plantão, e dissera em que distrito, e eles disfarçaram, declarando ser um problema particular de Ismênio que os levava a procurálo, nada grave, deixa pra lá, boa noite, Dona Graça. “Eu te digo que o Ezequiel é normal como nós. Ele não está inventando nada, tudo que ele diz é verdade!” Ismênio fez um muxoxo descrente, abriu o porta-luvas e, ao mesmo tempo em que guiava em alta velocidade, puxou de lá de dentro um livro, que colocou na página 11 e entregou a Frederico. “Eu até comprei este livro pra ver se descobria qual era o nome da loucura do Ezequiel. Isto é, o nome da patologia psíquica de que ele é vítima. Fiquei na dúvida entre duas. Primeiro, pensei que fosse a paranoia, leia aí pra mim a definição.” Frederico pegou o livro e olhou a capa, tratava-se de Doença

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Mental e Psicologia de Michel Foucault. Fez o que o outro pedia: A paranoia: num fundo de exaltação (orgulho, ciúme), e de hiperatividade psicológica, vê-se desenvolver-se um delírio sistematizado, coerente, sem alucinação, cristalizando numa unidade pseudo-lógica temas de grandeza, perseguição e reivindicação.

“Foucault se baseia nos clássicos da psicologia, principalmente Dupré em sua obra La Constituition Emotive. Como eu disse, antes achei que Ezequiel fosse paranoico. Mas depois de ler e meditar bastante, cheguei à conclusão de que ele é hebefrênico. Leia o trecho referente, por favor.” Frederico leu: A hebefrenia, psicose da adolescência, é classicamente definida por uma excitação intelectual e motora (tagarelice, neologismos, trocadilhos; maneirismo e impulsos), por alucinações e um delírio desordenado, cujo polimorfismo empobrece paulatinamente.

“Viu? A descrição é um retrato perfeito de Ezequiel!” “Que absurdo! E se o que ele diz for verdade?” “Irrelevante! O que importa são os sintomas que ele apresenta, todos: excitação intelectual e motora, tagarelice, neologismos, trocadilhos, maneirismo, alucinações e delírio desordenado.” “Mas se é assim, você teria que diagnosticar como hebefrênicos boa parte dos escritores, de Homero a Joyce, passando por Rabelais, Sterne, Novalis e Dostoiévski! Eu mesmo estaria dentro de sua classificação.” “E quem foi que disse que essa alegre galeria por você evocada, e até você mesmo, não são também hebefrênicos?” Frederico quis responder, mas ficou mudo de raiva.

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“Isso se não forem coisas piores!” Ismênio riu, pediu calma, declarou que estava só brincando, implicando com ele, pra aliviar a tensão. “Você não é médico, nem psicólogo.” “Nem você.” “Mas o czar entrou na rede! Morioni existe! E se ele o raptar?” “Os fatos objetivos considerados isoladamente não provam nada, o que define Ezequiel como um patológico são os liames que ele estabelece entre esses fatos, e a interpretação subjacente que deles faz.” “Mas isso torna tudo uma questão acadêmica, que em nada influi.” “Concordo.” Era um longo trajeto, da Vila das Famílias até o centro. Ismênio dirigia com perícia e grande velocidade. “E as multas?” “Eu pago.” Frederico olhava o asfalto molhado, brilhante, refletindo lâmpadas de mercúrio, Vênus e Marte visíveis no céu, e a enorme e opalescente Lua. Lembrou-se de Nadine, sentiu vontade de vê-la, de beijar seus lábios finos e bem desenhados, onde ela tinha uma sardinha, no lábio superior. “Como demora.” “É rápido.” Frederico sentiu algo estranho de repente, passando por tantas ruas da zona norte, no carro que viera da Gávea (onde estaria Nadine?), e que agora ia para o centro da cidade. “Engraçado, você fala tanto em rede... As ruas são uma rede,

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um fio enorme que se dobra e redobra, numa trama gigantesca, pela cidade, pelo mundo.” “A teia para a aranha, o ninho para o pássaro, a amizade para o homem, disse Blake. Mas o homem também faz sua teia de neurônios, de chips, de fios telefônicos, de eletricidade, de ondas de rádio, de águas, de ruas, de relações (voltamos a ele)...” “Não sei, às vezes, pode ser. Mas eu penso que a coisa não é binária, ela é muito mais complicada, existem infindáveis modos de ser, aranha, mosca, vento, homem, gota de orvalho, rio, mar, raio de sol... e o ser humano encarna todos esses devires. O homem é teatro, e também é filme. A rede é de neurônios, de afetos, mas é também rede de lutas.” “Tipo Dr. Morioni.” “Morioni é colega de Caligari e Strangelove, é fantástico; a luta de hoje é entre o estado enquanto unificação da rede e os guerrilheiros da informação.” “Hackers.” “Também. E pirataria e espionagem e maníacos e softmakers e poetas e escritores e pornógrafos e atores e políticos e ricos e pensadores nômades... É uma selva. Mas depois a gente fala sobre isso.”

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CAPÍTULO 22

CHEGARAM À DELEGACIA. O detetive Gilberto conversava com um mendigo velho, quando os dois chegaram e pediram para vê-lo. “Oi, Fred, Ismênio, o que houve?” “O Ezequiel me mandou esta mensagem pelo computador.” O detetive leu rapidamente. “Nós achamos que é tudo imaginação, mas...” “Ele acha. Eu penso que Ezequiel fala a verdade.” “Imaginação? Morioni existe mesmo, é tremendamente perigoso. E foi Zequinha quem chamou a nossa atenção para ele. No início eu também não acreditei, mas procedi a uma investigação, só para agradar a meu filho. E descobri que ele estava certo. Vocês estão vendo aquele velho meio abobalhado? Ele é um vizinho nosso lá da Vila das Famílias chamado Zeca dOlivares, que Morioni raptou há um mês atrás para usá-lo em suas experiências, e que ontem foi abandonado no centro, nesse estado. Não consegue lembrar de quase nada, não fala direito, e apresenta perfurações sob as orelhas, nas axilas e na virilha.” “Nós precisamos fazer alguma coisa.” “Deixem que eu vou tomar providências. Primeiro vou telefonar para a clínica onde Ezequiel está internado.” Momentos depois ele voltava.

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“O Zequinha foi raptado há meia hora atrás. Eles estavam tentando entrar em contato comigo.” “E agora?” “Vou me comunicar com o delegado e pedir um contingente policial para atacar o esconderijo de Morioni. Sabemos que fica perto de Petrópolis, onde vamos procurar por um homem estranho e recluso, conhecido como Dr. Evilásio Pantoja, que mora em um casarão.” “Nós podemos ir junto?” Gilberto pensou por uns instantes. “Podem. Mas vocês têm que ficar na viatura como observadores, sem se envolver na ação.” Quando estavam saindo entraram dois pms, conduzindo um crioulo com cabelo black power e todo cheio de balangandãs. “Pato Doido. Você por aqui?” “Boa noite, seu doutor.” “Ele foi flagrado com duas trouxinhas e três sacolés, detetive.” “Eu sou viciado, doutor! Tenha pena de um pobre preto velho!” Gilberto teria rido, se pudesse. Chamou o escrivão: “Autua. Porte de drogas. Usuário.” “Muito obrigado, doutor.” Ainda para o escrivão: “Encaminhe o Zeca dOlivares para exame de corpo de delito e depois para um hospital. E mande avisar a família dele, neste endereço.” Estendeu um pedaço de papel. “Agora vamos atrás do filho da puta do Morioni.” Os carros arrancaram velozes com suas sirenes gritando estridentes mordendo forte os edifícios e as casas dormindo medrosas na noite.

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CAPÍTULO 23

PARECE QUE TUDO o que vinha das drogas de Vulcão Lunático eram provas de lutas contra monstros fabulosos. Dentro do labirinto, depois de ficar durante horas e mais horas perambulando, perdido, pelos corredores, todos iguais, Lyáios Theóphoros deparou-se com um minotauro que o quis devorar. Lutaram muito, até o homem vencer a fera, nem sabia como. Quando o corpo inatural caiu desfalecido ao chão, ouviram-se trovões assustadores, o céu enegreceu rapidamente, e se manteve assim, cortado apenas, às vezes, por brilhantísssimos relâmpagos, que iluminavam para Lyáios as paredes dos corredores sem fim, todos iguais, pelos quais persistia em tentar avançar. Também não percebeu o modo pelo qual encontrou a saída, mas o dia amanhecia esplendoroso, e ele se viu fora do labirinto, em frente à montanha azul. Sentia fome, frio, sede e cansaço, muito, mas sabia que ainda haveria outras provas. Iniciou a escalada. Levou o dia inteiro subindo pelo meio da vegetação, que de vez em quando explodia, devido a raios que caíam sempre perto demais, tentando atingi-lo. Ao cair da tarde chegou ao alto da montanha, onde havia um castelo todo de ouro, no meio de uma clareira. À sua frente,

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postavam-se três cavaleiros vestidos com armaduras de prata e segurando cada um um escudo de bronze. O primeiro portava uma espada, o segundo uma clava, e o terceiro um chicote de armas. Lyáios Theóphoros foi até um dos três cavalos amarrados ali perto, e tomou de uma acha, que estava presa a uma das selas. Lutou bravamente, sendo atingido no ombro pela espada, um corte não muito profundo, e na virilha um golpe do chicote de armas que quase o fez desmaiar de dor. Em resposta, quebrou-lhe a corrente e atingiu a joelheira do terceiro cavaleiro, que caiu ao chão. Ao segundo acertou com um golpe tremendo na couraça, deixando-o também prostrado. E quanto ao primeiro, Lyáios esmigalhou com a acha a viseira de seu elmo. Após vencê-los, correu a olhar seus rostos; as armaduras estavam vazias. Lyáios entrou no castelo. Viu-se em um aposento de incríveis proporções, em meio ao qual havia gigantesco dragão soltando fogo e fumo pela boca de ferro; os olhos, lâmpadas ferozes. Percebeu que o monstro era na verdade um robô. Correu a sua volta, fugindo das labaredas e cortando correias e engrenagens aqui e ali, com o machado. Aí o monstro parou. E, de dentro dele, saiu um homenzinho minúsculo, velho e careca. “Quem é você?” “Eu sou o Dr. Lucas da Silva Morioni. Eu sou você.”

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CAPÍTULO 24

E ZEQUIEL VOLTOU A si devagar, abriu os olhos e foi focalizando aos poucos. À sua frente um sujeito de um metro e cinquenta de altura, idoso, vivaz, glabro, calvo, alvo, magro; olhos glaucos e cândidos, sorrindo. “Dr. Morioni!” “Muito prazer, Ezequiel Mongóis. Finalmente nos encontramos. Sabe, eu sinto como se já nos conhecêssemos há muito tempo.” O jovem se inquietou com o absurdo e deslocado tom de bondade na voz do antigo cientista; tentou mover-se, apenas para perceber que tinha sido fixamente preso em pé, meio inclinado, a uma desconhecida estrutura de aço, fios e lâmpadas acesas. “O que é isso? Onde estou? O que você quer?” “Você não sabe?!” “Usar-me em sua máquina...?” “Dei-lhe o nome de psicaptor aiônico. Coloco este visor e posso testemunhar cenas do presente, do passado e do futuro, e dos passados, presentes e futuros alternativos daqui e de alhures. Não obstante há um problema: é necessário utilizar um ser

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humano como alto poder de PES (percepção extra-sensorial), que deve funcionar como antena para a máquina. É uma peçachave, cara, difícil e de pouca durabilidade. Você sabe, os neurônios da PESsoa utilizada aguentam apenas cerca de um mês...” “Por quê?” “Isso não importa! Veja esta outra invenção maravilhosa. Eu a chamo de transbudificador anímico. Com ela eu posso alterar profundamente a estrutura da psique e dos corpos sutis de qualquer ser vivo. A partir disto eu fabricarei gente, homens, mulheres, do jeito que eu quiser.” Os olhos do cientista soltavam chispas, brilhando com o estranho ardor da loucura. “Com ele eu farei uma humanidade muito melhor, uma raça de seres angelicais, libertos de sua metade animal, de sua alma animal, como quer você. Eu montarei as pessoas como delicados chips, quebra-cabeças animados, e as peças me serão fornecidas por elas próprias; o meu trabalho será o de redistribui-las, organizálas, incutir-lhes razão e amor à razão. Você irá adorar, Ezequiel. Esta modesta estrutura que ora você vislumbra é o início da grandiosa Fantástica Fábrica de Seres Humanos de Lyáios Theóphoros. Este será o novo nome que adotarei.” “Pare com toda essa loucura, eu nunca ouvi tanta imbecilidade.” “Você verá se tenho ou não razão.” “Mas você não tem esse direito!!!” “NÃO ME VENHA FALAR EM DIREITO.” Ezequiel sentiu que tinha pontas de aço cravadas em sua carne, sob as orelhas, nas axilas e nas virilhas, seis ao todo.

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“O que você vai fazer comigo?” “Você é um poderoso telepata. Eu o usarei como a nova antena de meu psicaptor aiônico.” “Morioni! Não seja louco! Deixe-me sair daqui!” Indiferente aos gritos do jovem, o Dr. Loucus da Silva Morioni ligou a chave do psicaptor. Imediatamente Ezequiel sentiu um choque, uma explosão, um clarão. Invadiam seu ser de uma forma total. Sensações múltiplas de dor e prazer como nunca outro ser já sentiu. Ele via e ouvia TUDO.

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CAPÍTULO 25

ATRAVÉS DO VISOR especial ajustado aos olhos Morioni também via tudo o que a antena humana do psicaptor anímico sintonizava. Em poucos minutos eles viram o átomo primordial, a sua precipitação em contração máxima e a sucessiva explosão. Toda a luz, toda a energia e toda a matéria foram criadas então e começaram a se irradiar rapidamente para todos os lados. Ezequiel/Morioni viu a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no ano 10000. Ruas desertas, alguns poucos pedestres, pequenos e carecas, pareciam-se com o cientista, tanto homens quanto mulheres, Ezequiel/Morioni sentiu repugnância/felicidade com a visão dos homenzinhos. Quando queriam utilizar veículos de transporte ou comunicação, desciam por escadas rolantes ao subsolo, onde carros elétricos e/ou solares deslizavam rápidos e silenciosos, limpos e gratuitos. No subsolo também havia teletelas, lojas e serviços. Na superfície, apenas calçadas para passeios, árvores e flores, e casas residenciais grandes, em forma de caracol, com receptores de energia solar nos tetos, e comunicação interna com sua parte correspondente ao subsolo. Algumas árvores factícias

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eram captadores de energia solar, que era enviada ao subsolo, para realizar os serviços da cidade. Ezequiel/Morioni sentiu saudade do barulho, da agitação, da fumaça do trânsito caótico da atualidade, das multidões. As imagens de diferentes tempos se sobrepunham, causando grande stress cognitivo e emocional. Viu o passado, um passado desconhecido da história, quando a Terra era habitada por uma humanidade de criaturas meio homens meio répteis, com a altura de dez metros em média, super inteligentes e longevos. E cenas de nossa história conhecida, que era como que desconhecida, de tão diferente de tudo o que ouvimos e sabemos a respeito. Viu cenas de outros planetas, os antigos marcianos (que invadiram a Terra e aculturaram os evoluídos terráqueos da época, já então Homo sapiens sapiens), o fim da civilização marciana e suas colossais construções que a Terra tentava humildemente reproduzir, uma comunicação de pedras, como o rosto visível da Terra e esculpido na rocha de Marte e que representava a consciência da unidade planetária e o poderio e a super-visão do Império Marciano (o nome era usado por eles mesmos e foi adaptado ao nosso idioma sânscrito escrito em alfabeto devanagari importado, do qual derivaram todos os outros, quando a unificação colonial ruiu e cada povo começou a praticar o idioma de maneira diferente dos outros; os subpovos então formados tentavam imitar o imperialismo do outro planeta, e assim surgiram os impérios, especialmente o romano, onde os imperadores, assim como Rômulo e Remo, eram considerados

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filhos de Marte. No caso dos dois fundadores, eles eram humanos filhos de humanos, mas nascidos em solo marciano, e vindos de lá, na qualidade de funcionários imperiais). Viu a futura colonização do sistema solar pelo novo povo da Terra; viu os habitantes e as civilizações de centenas de outros planetas de nossa galáxia, viu que todas as galáxias eram igualmente superpovoadas, e viu o povo estranho dos planetas de Alfa Centauri, e a Liga de Aldebarã; e até o duplo sol que iluminava o céu rosado de DurBuk em Beta Lyrae, onde ele viria a conhecer sua querida Ith. Ezequiel/Morioni viu seu próprio futuro e tudo o que iria acontecer com ele, em uma rama que entrelaçava e misturava suas vidas e suas almas tão diferentes. E viu um diamante gigante nas entranhas da terra & um cabelo boiando na água da privada de um banheiro de bar onde um homem maduro se drogava com uma seringa jogado num canto no chão & o alfa e o ômega e o álef e o shin e o alfabeto devanagari e o cirílico e o katakana/hiragana/kanji e ideogramas e hieróglifos & a biblioteca lotérica da Babilônia e a Torre de Papel e todos os escritos de Borges & uma molécula de água caindo na chuva indo para o rio indo para a rede e para a caixa d’água de um edifício e para um filtro residencial e para um copo e dali para a boca e percorrendo o corpo de um indivíduo e depois saindo na urina indo para o vaso sanitário e para o esgoto e para o mar e sendo evaporado e se tornando gotícula de água suspensa e essa molécula dentro dele e dias e dias depois se precipitando numa nova chuva & os milhares e milhares de alienígenas de diferentes planetas que vivem disfarçados no meio de nós e

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passam por terráqueos & o pensamento erótico com os seios enormes de uma mulher linda nua na revista aberta na banca de jornais que um lixeiro de uma grande cidade teve & toda a usina desvairada e precisa de uma adolescente jogando videogame e fazendo bilhões de cálculos por segundo enquanto sua mãe fala bem devagar menina larga essa porcaria vai ficar estúpida vai fazer o dever de matemática equação de primeiro grau que a professora idem passou para você fazer em casa & a vida nascente na rede de informática que ninguém detecta mas que os computadores sabem que existe e que se desenvolve e que se comunica e que os homens não reconhecem ainda porque é uma nova forma de vida totalmente inaudita que a nossa mentalidade nem sabe ainda conceber & a fraude eleitoral de novo perpetrada nas eleições gerais de um republiqueta da América Latina & os olhos de um gato na Índia & a unha de um velho em Liverpool um cocô nas ruas de Nova Iorque & uma plantinha nova que nasceu... Viu mais coisas... Ezequiel/Morioni morria e gemia, gozava. De repente viu muitos policiais nas proximidades, procurando por ele, indagando, investigando, chegando muito perto... Morioni saiu do psicaptor preocupado e foi avisar seus capangas. Voltou à sala onde ficavam suas máquinas celibatárias para ponderar sobre a defesa que tomaria contra o ataque iminente. Pensou muito nos poucos minutos que se seguiram, e resolveu que tentaria um grande lance, uma ousadia inominável, do tipo tudo ou nada.

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Chamou Bário, o chefe da segurança, e trocou algumas palavras com ele. “Mas o senhor tem certeza?” “Claro! Quando ataque começar, você venha pra cá e me avise. Eu vou ligar a máquina. Me dê um minuto, exatamente um minuto, e depois atire. Bem ali. Não vá errar!” “Está bem, farei como o senhor quiser.” “Eu conto com você.” “Pode contar sim, doutor”, respondeu o fiel Bário. Lucas pensou que era uma pena que o invisibilizador total ainda estivesse no projeto. Muita coisa poderia ser salva se ele pudesse contar com aquele recurso, deveria ter sido mais previdente e realizado com prioridade este importante invento.

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CAPÍTULO 26

O DETETIVE GILBERTO conseguira um bom reforço para o ataque ao bunker de Morioni. Eram vários carros da polícia, com cerca de trinta homens. Ao seu lado, Frederico e Ismênio, comprometidos a permanecer no carro como observadores, e a não participar de nada, não interferir nem atrapalhar. Tocaram a campainha, bateram, chamaram. Ninguém atendeu. Dentro da casa reinava o silêncio e o escuro. No entanto, vários informantes lhes haviam garantido que era ali mesmo que morava Pantoja. Munidos de mandato de prisão, os policiais arrombaram o portão e se encaminharam para a porta da frente da casa, onde tornaram a chamar com insistência. Como não houvesse resposta ainda desta vez, abriram a porta com a chave-mestra e entraram. Viram-se em um labirinto de paredes berrantemente coloridas, nas quais estavam gravadas imagens de todo o tipo, e onde se ouviam incessantemente os mais variados sons, melodias, ruídos, rugidos, palavras soltas sussurradas ou berradas, uma algaravia insuportável que parecia emanar das paredes. Caminharam durante horas, sem parar, e estavam quase

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desvairados de cansaço e confusão, quando conseguiram encontrar a saída. Esta dava para uma sala cheia de robôs enormes imóveis como estátuas. Quando começaram a se mover entre os robôs, estes os atacaram com disparos de raios laser. Alguns dos homens conseguiram ainda ultrapassar o novo obstáculo, chegando a um outro cômodo, onde foram recebidos a bala pelos seguranças do cientista. Seguiu-se um longo tiroteio, mas, aos poucos, a polícia foi levando a melhor. Quando percebeu a derrota iminente, Bário correu para o laboratório de seu patrão, e trancou a porta. No mesmo momento, do outro lado, os policiais iniciaram os esforços para arrombá-la. Morioni, vendo tudo aquilo, entrou em uma espécie de cabine que havia em seu transbudificador anímico, feita especialmente para acomodar um homem. Ainda lembrou a seu assistente que ele deveria esperar um minuto e depois atirar com precisão no local previamente indicado pelo grande cientista. Bário chorou, comovido, reiterando sua infinita estima e lealdade ao patrão. Morioni ligou o transbudificador anímico, ajustou a programação para teletransporte energético e inseriu as coordenadas de distante país europeu. Colocou-se em posição e começou a desaparecer. Bário esperou exatamente um minuto, sessenta longos segundos, em câmara lenta, enquanto as portas de aço do laboratório eram forçadas, e estavam quase cedendo.

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Quando o ponteiro do relógio marcava que o tempo determinado havia transcorrido várias coisas aconteceram concomitantemente: Morioni desapareceu no ar, Bário descarregou o tambor de sua arma sobre os controles do transbudificador, desencadeando uma explosão e um incêndio no laboratório, os policiais entraram e, ao verem Bário atirando, e supondo que os disparos se dirigissem contra eles, reagiram, matando o fiel servidor do sábio. Descobriram então Ezequiel preso a circuitos, soltaram-no e escaparam, levando o rapaz desacordado, do fogo que num átimo já começava a consumir a casa inteira. Morioni planejava fugir de corpo inteiro para a Europa, e queria que seu empregado destruísse todas as provas e inventos que ficassem para trás, pois, além de tudo, ele não queria ser roubado em suas ideias, e levava tudo em sua poderosa mente. Mas a destruição do transbudificador anímico enquanto o teletransporte estava se efetuando afetou o processo de uma forma que o Dr. Lucas não previra, frustrando os planos do gênio, que foi voltar a si em um local que ele jamais imaginara visitar, apesar de que, de certa maneira, ele já soubesse de tudo o que iria acontecer, subliminarmente, não porque fosse destino, porém devido à visão mesclada do tempo complicado que ele tivera antes, nesse mesmo dia.

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CAPÍTULO 27

ISMÊNIO CHEGOU AO sanatório e declarou que gostaria de visitar Ezequiel Mongóis. Foi encaminhado a um grande jardim, com muitas árvores, bancos, laguinho etc. Ali os pacientes passeavam, a sós ou acompanhados de outros internos ou de visitas. Alguns comiam, outros fumavam; havia os que jogavam, também. Tudo parecia muito calmo, um “paraíso relativo” (esta expressão era um título que às vezes Ezequiel dizia haver atribuído a sua famosa obra ininterrupta), o possível, para os pobres habitantes da loucura, pelo menos naquele momento. Viu ao longe o amigo sentado sozinho, balançando a cabeça devagar, e olhando para algum ponto indefinido, ao longe. “Oi czar, tudo bem com você?” Ezequiel olhou-o um tempo enorme, sem nada falar. “Ismênio, cara, é você mesmo... ou um holograma?” “Sou uma imagem e sou real. Segundo Bergson, você sabe, a matéria é um conjunto de imagens.” “O tempo é uma sobreposição alucinante de visões e sons...” A resposta não estava bem em concordância com a pilhéria de Ismênio, mas havia uma certa ressonância. Talvez ele estivesse se referindo à traumática experiência com o tal psicaptor anímico.”

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“Como foi?” “Não quero falar, não quero falar, não quero falar, não quero falar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Entendeu???????????????????????????????????????” Tentou acalmá-lo, comentando amenidades, fofocando sobre José de Alencar e Iracema, sobre Frederico e Cirila, sobre ele mesmo e Marcele (até neste assunto ele teve o desplante de tocar para tentar amenizar o companheiro!), e, tolo, insensato, arrependeu-se assim que falou em Nadine... Mas Ezequiel mostrou um total desinteresse. Disse que respeitava a opção sexual da moça (e até que na próxima passeata de orgulho gay de que ela participasse, com a adesão de GLS, gays lésbicas e simpatizantes, ele iria, na condição de simpatizante, evidentemente), que tudo fora uma fantasia dele mesmo, que havia tanta coisa mais importante para pensar e que sexo não era uma coisa tão fundamental assim... “O amor é.” “Aquilo não era amor. A gente (eu, você, ela, todos nós) não sabe o que é amor.” “Você ainda vai encontrar a garota certa, você vai ver. E vai voltar prà Faculdade de Filosofia!” “Não sei, vamos ver, vamos ver...”

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CAPÍTULO 28

ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE “Que diabos é isso?”, perguntou azucrinada Dona Isidora, diante da frase escrita com colorjet em enormes letras azuis na parede de seu apartamento. “Picharam aqui dentro de casa!” Zeca dOlivares ficou calado, olhando. Ainda se sentia fraco, confuso, medroso, não tinha vontade de falar nem de fazer nada. A experiência do psicaptor era difícil de esquecer. “No quarto, no banheiro, na cozinha... a casa está toda pichada!” Isso não tinha importância. Nada mais tinha importância. “E sempre a mesma frase cretina: ‘Zeca dOlivares provoca tempestade’. Que basbaquice é essa? Você por acaso provoca tempestade?” “Eu... bem... hm... quer dizer... eu acho que, já, já provoquei.” “Você provocou tempestade?” “Quando estava no psi... no psica-ca-ptor, sim. Fiz.” E maremoto, terremoto, furacão, vulcão e meteoro, mas dava muito trabalho agora pra falar. Estavam chegando do hospital, depois de muitos dias de internação ele fora considerado bom, tanto física quanto mentalmente,. Mas ele se sentia estranho...

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“Bosta de touro!” “Ahn?!” Zeca não entendia. “Você é muito ignorante, marido. Estou estudando inglês.” As pazes feitas, os deslizes olvidados, o homem recuperado, o bandido eliminado, tudo estaria perfeito, não fosse algum dos netos salafrários pichar assim as brancas paredes do seu ap. Nora, a mãe de Pimenta No Dos Outros, veio do quarto trazendo o próprio pregado pela orelha, que ela puxava com dor e sem dó, arrastando-o atrás de si. “Foi essa peste Dona Isidora. Já tô surrando ele.” “Vai apagar! Vocês vão pagar!” “Ele primeiro começou debochando do avô por causa daqueles... bom, imbecilidade do Pimenta. Eu bati nele. Depois ele virou o jogo, começou a dizer que o avô era herói, e tal, e saiu escrevendo essa merda em toda parte. Diz que o avô dele é um ser da Nova Era, o hermafrodita, o visionário, que esteve no inferno e viu o diabo, que já mudou o tempo, que provoca cheia e seca, maremoto e calmaria, e que saiu no Jornal Nacional.” “Essa última parte eu sei que é verdade, o resto é tudo invenção!” Zeca não tugia nem mugia. Pimenta olhava pra ele com olhos submissos, de fanático. De noite iria sair com a gang a pichar toda a cidade com a frase: ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE O velho homem virou mesmo herói de toda a meninada.

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CAPÍTULO 29

PARALELAS CORREM TODAS Umas mais do que as outras Lucas Morioni tentou abrir os olhos, mas não conseguiu. A frase sem nexo ficava sempre voltando. Tentou mover-se, não sentiu nada. Queria fazer alguma coisa. Parecia que estava congelado, longe, fora de si. Onde ele estava? Começou a lembrar... sua infância, a adolescência, o interesse despertado pelas pesquisas, a faculdade, a carreira de médico e cientista, as experiências com a destemporalização da matéria viva, a perseguição da polícia, o anonimato obrigatório, sorriria se pudesse, tanta gente caiu na clandestinidade nos anos 70, e ele também, mas por motivos absolutamente desiguais, a adoção da falsa identidade de Dr. Evilásio Pantoja, até diploma ele comprou com o novo nome junto a um falsificador batuta, o reinício dos trabalhos, clonagens, cibernética, robótica, engenharia molecular, não havia nada que sua inteligência privilegiada não lhe outorgasse, o psicaptor, a necessidade de utilizar antenas humanas, a captura de Blingol, Wreb, Zeca dOlivares e do excelente Ezequiel, os dois se descobriram telepática e concomitantemente, o ataque da polícia, a fuga para a Europa via transbudificador anímico... era isso! Ele fugira. Se tudo dera

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certo, agora deveria estar em Genebra. De hoje em diante ele iniciaria as mais arrojadas experiências, utilizando um novo nome cheio de significância: Lyáios Theóphoros. Fez força para tentar tomar pé da situação, e, de repente, percebeu que estava conseguindo divisar a luz e algo do que havia ao redor. Aos poucos foi distinguindo as coisas, e percebendo que não estava realmente em Genebra, na Suíça, na Europa, na Terra. Vislumbrou, por exemplo, uma abertura oval na estrutura onde se abrigava: via o céu cor-de-rosa lá fora, e via um duplo sol, um grande e azul, abraçado a outro, menor e amarelo, cercados por uma espiral vermelha, que se movia lentamente em torno dos dois sóis, e que ocupava todo o céu do planeta. Lembrou-se das visões do psicaptor, lembrou-se de um poema que ele vivia a escrever no futuro, já de volta à Terra: Minha amada ideal em Beta-Lyrae/Vive a 4.100 anos-luz de nosso sol!/Naquele ameno planeta iluminado/Por uma estrela dupla, azul e amarela/Um celeste amor/Pra sempre abraçadas/ E protegidas pela espiral de hidrogênio/Avermelhada, ao vácuo sem parar lançada/Uma homenagem de Beta a minha amada/E ao amor/Ith de DurBuk/Linda de tão diferente de nós de tudo e de todos/E a beleza nasceu quando te vi tão bela ali/Ao meu lado ao lado do frasco onde você guardava/A minha ígnea alma que você tinha capturado/E sem querer pra sempre aprisionado pelo amor/Que nos tornou livres, Ith de DurBuk/Ith de DurBuk/ Ith do Universo Inteiro “Gostei muito. Quer dizer que você vai me amar?” Era Ith, que captara seus pensamentos, o poema que ele

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lembrou lá do futuro, e tudo, e vinha falar com ele, assim em pensamento, pois ele agora não tinha ouvido, ele era uma alma presa dentro de uma espécie de bola de cristal que era parte do equipamento do cientista deste planeta chamado DurBuk em órbita de Beta da constelação de Lyra e que se chamava Ith, e que o tinha salvo sem querer, sem saber direito o que estava fazendo, por uma estranha coincidência, quando ele ligou o transbudificador na Terra e depois a máquina explodiu ele foi arremessado num espaço interdimensional, e Ith (que não é nem masculino nem feminina e tem os dois sexos por isso será chamado éle em vez de ele ela e será chamade bele em vez de bela belo etc.) estava testando um polarizador interdimensional que por algum desconhecido acidente da ciência capturou nesse instante a alma de Morioni e encerrou-a na esfera de cristal.

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CAPÍTULO 30

GOSTARIA QUE O Rico tivesse ido ver o filme na casa dela, como ela tinha lhe pedido, e ele prometera que iria, e faltara. Agora a coisa estava assim. Só gostava de chamá-lo de Rico porque era a única que o chamava desse jeito. Mas isso pra ele não fazia diferença. Ela perguntava: Rico, Riquinho, você me ama, você ama a sua Cirilinha?, e ele ficava calado com aquela cara de mau, fazia aquela sua cara de pau, aí pedia pra ela ligar o som, mandava ela ligar o som, e ia dando ordens, apaga a luz, acende o abajur, tira a roupa, não, troca esse disco, ela gostava tanto de ouvir Roberto Carlos, mas ele só queria que ela ligasse em rádio que tocasse rock, uma grossura, como fazer amor com um mont e de t roglodita gr itando palavrão, fazendo voz cavernosa?, ele mandava tudo, agora deita aqui, agora pega aqui, faz isso, faz aquilo, isso, mais, ali, agora assim, sim, Cirila, eu te amo. O Frederico tinha um jeito medroso e arrependido de dizer eu te amo que ficava parecendo que ele estava dizendo: eu temo. Isso era chato. Depois ele logo queria ir embora. E o pior era que ele achava que ela era burra, confundia sensibilidade (verdadeira, que

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desconhecia) com burrice, burro era ele, ela tinha certeza. Mas não importa, eu te amo mesmo assim... Comprou a fita especialmente pra eles assistirem juntos, ela gostava tanto de física e de filmes românticos, e estava tudo ali: A Teoria do Amor, em inglês IQ. Era uma fantasia em que Einstein ajudava um jovem e humilde mecânico a namorar sua sobrinha, inventando que ele (o jovem) era um gênio da física, envolvendo na farsa até o presidente. Uma delícia. Fez pizza, canapés, pipoca, refresco. Ele não veio. Depois iria ligar pra querer alguma coisa e quando ela cobrasse o furo ele ia dizer puxa a vida esqueci desculpe tá. Ele mentia, quando dizia que achava aquilo tudo uma besteira. Ele gostava era dela. Ele não a amava. Se a amasse ele iria se derreter todo com os filmes de amor, as pizzas, os canapés, as pipocas, os refrescos, os sorvetes... bem, o amor e a mulher certa e a conjugalidade (especialmente a monogâmica) engordam um homem, e o Frederico era bem charmoso assim magricelinho. Mas de que adiantava se ele estava escapulindo por entre seus dedos, e ela percebia tão bem e não conseguia descobrir um jeito de fazê-lo ficar? “Idiotinha”, ele costumava falar para ela como se fosse um carinho, tolo, pensando que ela gostava, e ela fingia que gostava pra agradar. “E você pensa que não é...” Pisava em ovos, não sabia o que fazer. O que ela queria era casar com ele, fazer faculdade de física, arrumar emprego de professora, ficar grávida dele, entrar de licença, três vezes, três nenens iam ser bem maneiros pra eles dois.

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Estava quase chorando. Bobona. Gostar de quem não gosta de mim. Ele se achava o supra-sumo da inteligência só porque lia seus poetas e romancistas, meu Deus, todo mundo lia os tais escritores, pura diversão, o que ele pensava?! Tentou induzi-lo à ciência, ele disse que nunca tinha entendido nada daquilo na escola, que era absolutamente por fora de matemática. Ela brincou que Einstein também não gostava de matemática, ele não acreditou, ele não acreditava em nada que ela lhe dizia! Ele é um tesão. Ela não sabia bem por quê. A química, a psicologia, a teoria do caos, Freud, a história, Engels, até o piroca do Nietzsche de quem o Rico tanto gostava, todos podiam explicar muito bem o que ia dela pra ele. Mas quem explicaria um homem assim dividido, se escondendo e se dando pra ela, ao mesmo tempo, amando amar ou amando o amor e sem querer amar a mulher que o ama, estando ali e alhures, nunca inteiro, dela, dela, dela e só? Cirila chorou pra caramba. Assistiu ao filme. Chorou de novo. Comeu a pizza e o resto, um pouco de tudo, se se distraísse ela comeria tudo, mas não comeu, eu?, eu não vou chorar, eu vou é cantar, pois a vida continua... Lembrou-se do famoso efeito borboleta da física quântica e também da ciência do caos; a batida das asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um furacão na China, e vice-versa. Relacionou este dado (ou teoria) com a complexidade dos envolvimentos sentimentais de uma pessoa, uma espécie de carma fractal: cada pequena coisa que você nem percebe que pensa e

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sente, cada detalhe de seu psiquismo e de seu correlato comportamento social e desempenho semiótico pode gerar cataclismas, tufões, vulcões, maremotos, titanics, nevascas, borrascas ou dias lindos de sol, brisas amenas, manhãs de passeios no parque, arco-íris, nuvens rosadas, tardes plácidas, meigas mocidades, matinês, mão dadas, pipocas compartilhadas, deliciosos picnics de sanduíches e saias levantadas pelo vento e/ou pelo tesão e a mão boba de seu lindo cavalheiro, que vem pra lhe buscar, basta você querer acreditar de todo o coração, a coroação do sentimento, o evento da fusão de dois momentos, é preciso desligar o investimento falido, e, devido ao efeito borboleta, provocar a meta da beta e do que vem depois.

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CAPÍTULO 31

FREDERICO VÊ NADINE, se esconde, meio que se esconde atrás de uma árvore, mesmo ele sendo magro dá pra ver seus membros, seu nariz, seu cabelo, seus óculos, suas orelhas, seus olhos espionando Nadine de longe, andando devagar ao lado de um cara desconhecido, quem diabo é esse cara, mas ela parece que não percebe que ele olha pra ela escondido e totalmente visível atrás de uma árvore, ele meio que vislumbra um sorriso que brinca em seus lábios e não chega a se esboçar, ela é a mulher secreta, ou pode ser que ele estivesse apenas criando coisas sem parar em cima da ideia que ele mesmo faz e faz mesmo fabrica de Nadine, um pedaço de nuvem, um lugar do tempo-espaço, uma nuvem de partículas que são elas mesmas meras probabilidades ou um sentimento difuso aglutinado em torno de uma certeza obtusa. Ontem ele a viu passar do lado da Lua, as mãos secretamente se roçando, se tocando, ele ficou louco de ciúme. Hoje ela passa do lado desse palhaço emplumado careta nojento se Frederico fosse um cara violento ele iria surrar sem parar esse paspalho até que todas as certezas se desamarrassem em sua máscara de macho latino latindo na latrina. Calma, Frederico Fonte Jorrante, Frederico Fonte Estuante,

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Frederico Fonte Esporrante, não fique assim ignorante, louco, por causa de uma mulher que não te quer, e que é o grande amor de seu melhor amigo, e que desfez dos dois em troca de uma lambisgoia magricela, e agora passeia toda lambida do lado desse mauricinho cu de merda, desse filhinho da puta direita, desse asqueroso leite de rosas e alma de capacho de terceiro tudo de usar mulher de molhar a mão de chover no molhado de apoiar o errado. Eles passam e eles podem ser só colegas conhecidos ou nem nada, e Frederico vê que está sendo ridículo, jogando tanta frustração naquele boneco, macaco, cachorrinho de madame, esparro de porra, capacho de burguês, filho de milico, contradições é o nome falso desse tipo de homem concreto que se locupleta e vota na direita e respeita tudo que é podre e viciado, e bate em viado, apedreja puta, crucifica os cristos, sacaneia os pobres, debocha dos fracos, mas se agacha e dá todos os rabos do corpo e da alma pra tudo que for lama pintada de dourado, elite da elite da elite da elite da elite da elite da elite da merda. Calma, meu amigo. Ela te trai com mulher, não é com esse escroto de academia. Calma, ela te odeia, odeia todos os homens por causa de vermes como esse aí, mas com ele ela anda confiante e elegante, a mim e a meus amigos ela chama de um monte de nomes, não quer me ver nem pintado. Calma. Essa menina é uma pessoinha igual às outras, se bem que normalmente totalmente diferente. Ela vai te ver amanhã e vai vir conversar com você muito educada, vai perguntar pelo teu amigo e pela tua garota, e o que você vai

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responder? Vai ter a coragem de dizer vem cá mulher, olha só pra mim, porque eu estou doido de amor paixão tesão carinho só por você, vai? Frederico anda pelas ruas feito um louco sem olhar pràs pessoas nem pra nada ele só pensa em Nadine 40 ou 70 % da alma o resto ele tem uma revolta incomensurável tudo acaba em pizza tudo acaba em nada tanta corrupção tanta coisa errada tanto filho da puta e tudo fica assim parado essa perfumaria enquanto há Morionis e outros monstros bem mais reais bem mais palpáveis sugando a alma e a força do mundo dos homens das coisas legais de tudo que é bom, e parece que ninguém quer ver isso, vai votar em branco, delegar poderes, recusar o poder, fazer como os macacos anedóticos, tampar os olhos, os ouvidos e a boca, colocar uma tarja no pensar, fazer como os cavalos e aceitar bitolas e arreios e freios e celas e não perceber que os outros cavalos são comidos e os outros são atrelados a fardos pesados demais e que são todos considerados alimárias mesmo os cavalos de corrida que ganham um pouco mais de alfafa e fingem que fingem que gostam de gostar de ser uma besta de carga em um mundo que podia ser o mais lindo dos mundos se não fosse a mesquinharia asquerosa de alguns ratos porcos gordos e grandes que se dizem homens. No outro dia ela veio falar com ele, mesmo, toda educada. Ele sentiu uma vontade danada de esmagar os lábios dela nos seus lábios, mas calou a boca e a fome da boca, não obstante falar tudo que pensava, menos que a amava, e que a viu passeando com x e com y, e tal, isso ele fingiu que calou e não sabia, ela sabia e ria sem rir, lábios parados, ele falou foi da sua revolta

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toda, desse ódio sem limite por tudo que há de errado e de escroto neste mundo. Aí ela se permitiu rir-se deliciada, como se todo lixo punk fosse maná, e resolveu ficar bondosa, como se banana de dinamite fosse banana, um sentimento de proteção maternal. “Você precisa ver um filme que eu vi outro dia de madrugada na tv e que adorei demais, e que me lembrou muito de você. Chama-se Coração Selvagem, do diretor de cinema norte-americano David Lynch.” Ele não respondeu, sentiu mais raiva dela pela pretensão, e a raiva o fez selvagem o suficiente pra cantar bonito pra ela: “Love me tender/Love me true/All my dreams for feel/For my darling/I love you/And I always will.” Que era a declaração de amor do herói do filme prà mocinha, e ela quando ouviu aquilo se mandou correndo sem sequer se despedir.

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CAPÍTULO 32

NESTE FRIO DO espaço interplanetário intermediário/Sigo procurando o caminho que siga/A rota original da trajetória para a glória/E a história e o resto deixo pra trás/Por parsecs e parsecs de incerteza/Tenho a beleza de que sigo o sim/Pois as paralelas correm todas desiguais umas muito mais que as outras e as outras/Me trazendo para sempre para perto de você/Que sabe/ quer/faz/acontece/merece/dá tudo que tem que ser/Ith de DurBuk Ith de DurBuk/Ith do Universo Inteiro “Lucas, eu sinto que você tem andado triste.” Brilhos no seu invólucro, cintilações sensíveis, comunicação direta sem barreiras linguísticas, se bem que éle estivesse lhe ensinando durBukiano básico. “O que está havendo? Não gosta de DurBuk? Nossa ligação não lhe safisfaz?” “Minha querida Ith, DurBuk me parece o próprio paraíso, e você é o amor de minha vida.” “Então o que há?” “Eu tenho uma missão, na Terra. E o feliz incidente que me trouxe pra cá, se me deu a glória de te conhecer, também interrompeu um trabalho de suma importância.”

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“Você não pode deixar tudo isso pra trás? Estamos aprendendo tanto um com o outro!” Lucas olhou a cidade mrindjordiana pela janela oval: viu alguns habitantes hermafroditas, brilhos amarelos encapsulados, boiando um pouco acima do chão cheio de matéria orgânica verde clara floculada. Viu o pôr-de-sol alaranjado, as luas cobreadas despontando no céu, mil tons e cores cambiantes, os prédios circulares em cima e afunildados embaixo da cor do ouro refulgindo aos sóis e às luas, viu os animais enormes, de vinte patas e longos pelos pelo corpo pleno, dóceis, querendo agradar, sorrindo felizes, para seus pequenos amigos racionais da raça de Ith. “Eu tenho que voltar para a Terra. Tenho que cumprir minha missão. Depois eu poderei retornar para cá. Para você.” “E como você vai fazer isso?!” “Não sei ainda. Todavia eu darei um jeito.” Ith sabia que podia confiar em seu amor, que ele era arrojado e heroico. “Vou fabricar um receptáculo robô semelhante a nós, para receber você da próxima vez.” “Você é linde e inteligente.” “Eu te amo.” “Eu te amo.” “Vou tentar saber de você.” “Sei que serei Lyáios Theóphoros quando chegar a meu planeta.” “Volte logo, Lucas.” “Voltarei logo para você, Ith.”

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E (artigo definido singular hermafrodita) apaixonade habitante de DurBuk disse: “Até logo” para e viajante terrestre. “Até sempre Ith.” “Até sempre Lucas.” E Ith reverteu os controles de seu polarizador, enviando Morioni de volta ao seu seio materno, à sua amada e amante Terra. Morioni fechou olhos transcendentais e esperou pelo raio, e lá se foi pelos interstícios dos tempos e dos espaços, em direção ao espaço e tempo de onde saíra. Havia um risco de voltar exatamente ao instante e ao ponto de partida, o que seria muito complicado, pois ele se veria de novo às voltas com a invasão de seu laboratório pela polícia. Havia ainda o problema de não se saber ao certo o que iria acontecer porque a sua captação pelo polarizador de Ith fora um acidente e nunca nada assim tinha sido tentado antes nem por ele nem por éle e não se podia ter certeza do que realmente aconteceria na inversão. E havia um problema que eles tinham desconsiderado: quando ele se foi da Terra para DurBuk havia dois polos, um emissor, representado pelo transbudificador anímico, e outro receptor, o polarizador interdimensional de Ith, em DurBuk. Agora só havia o pólo emissor, pois na Terra o transbudificador Morioni fora destruído a seu próprio pedido. Se voltasse no momento em que ele funcionara entraria no paradoxo de estar duas vezes exatamente no mesmo espaço-tempo como dois seres distintos, o que seria naturalmente rejeitado pela rede energética do universo (ou não?).

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Se caísse em qualquer ponto fora desse alvo emissor cairia num espaço-tempo sem receptor, o que significaria que não teria meios de se materializar (ou teria?). Ele teria que se substancializar na sua integralidade, o que Ith tinha recolhido em sua esfera de cristal era a totalidade da energia cósmica de Morioni, incluindo o que se chama popularmente por corpo e alma, já que tudo dele tinha se transformado em energia transdimensional e ali chegara. Agora o problema era: que meio ou instrumento ou aparelho poderia reconverter Morioni energético em forma humana se ele só podia voltar onde e quando não houvesse mais nenhum transbudificador? Foi um lance de dados. E o que aconteceu foi que ele voltou para a terra com indeterminação espácio-temporal total, em errância, como uma imagem que pula em várias direções, uma espécie de efeito ricochete que fez com que ele caísse milhares de vezes no passado e outras tantas no futuro em ziguezague, cada vez se aproximando mais de seu próprio presente, como em um cálculo infinitesimal. Morioni foi pedra na recente criação da Terra, foi homulher hermafrodita em 419.563.851 d.C., foi homossáurio de dez metros nos tempos desconhecidos, foi uma mulherzinha careca e baixa em 10000 na cidade do Rio de Janeiro do futuro, foi pequeno funcionário do Império Marciano, terrestre feitor de terrestres, foi um jovem gordo e mau chamado Guiárdnik que perseguia subversivos naturistas em uma terra superindustrializada e paranoica, foi o cavalo Branco de Napoleão, foi o neto de Frederico, foi o pai de Zeca dOlivares e...

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Nasceu em seu próprio tempo, pobre, preto, um bebê que no futuro seria um homem inteligente, esperto, alto e forte, que teria cerca de vinte anos quando da ida de Morioni para DurBuk, que estaria totalmente aparelhado para cumprir sua meta na mesma conjuntura dimensional, mas que nasceria e cresceria na total ignorância e no mais completo esquecimento de quem ele realmente era, de tudo o que acontecera e de qual era sua real incumbência, um rapaz chamado Laio Teofrasto, apaixonado por uma moça rica de nome Sofia, e que trabalhava como boy no centro e morava com a tia na Vila das Famílias, e que precisava urgentemente lembrar de tudo e começar a realizar o seu verdadeiro trabalho.

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CAPÍTULO 33

“EU NÃO QUERO ouvir nem mais uma palavra sobre esses teus amigos pirados ou sobre toda essa invencionice de Morioni. Isso por acaso é um livro que você está escrevendo?” “Talvez.” “Não tem nada mais ridículo do que homem fazendo essa cara de enigma da esfinge. Parece coisa de viado.” “Que é isso Cirila?!” “E por favor, vê se para de falar naquela sapatão! Você por acaso tá afim dela? Você tá querendo me sacanear?” Frederico não sabia mais o que responder para sua namorada. Ela estava mesquinha, vulgar, falando assim, fazendo cobranças. Ah, sim, ele não fora ao encontro marcado com ela, não assistira à tal fita como ela queria e não participara do tal ritual ou sabá ou o que fosse lá dela, que tinha marcado, e ele prometera que iria, com certeza. Aí ela veio uma fera falar com ele, cobrar. E ele explicou, contou tudo o que acontecera na noite em que deveria ter ido encontrá-la, o e-mail de Ezequiel, a saída com Ismênio para tentar salvá-lo, o ataque ao esconderijo do Dr. Loucus da Silva etc. E a tudo isso ela respondia assim, com tantas pedras na mão. Para acalmá-la ele lhe deu cerveja, deitou com ela, fez cafuné na sua cabeça, pediu pra ela ficar quietinha e começar a ronronar... Olhavam-se nos olhos, para bater de novo, e agora acontecia

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que nenhum deles sentia mais o que sentia quando a coisa acontecia, olhos, sexos, eles já não se molhavam mais. (Seria interessante de contar tudo o que se passou entre os dois nesta noite e nas outras duas. Mas as histórias de amor são pessoais e intransferíveis, e ao mesmo tempo são um transferidor que nos faz graus de um círculo infinito caos do mesmo mito espatifado e incólume em Áion, o amor é o maior transbudificador que já foi inventado, eles dois tiveram tanto que aprender e que se transmutar só para depois voltar a aprender que já não sabiam nada e que nada mais estava no lugar e que nunca nada fica como está e que o homem e a mulher são dois planetas em dois universos diferentes sim mas que isso é que é bom e ruim na gente e nas coisas do mundo porque é preciso ficar entrando no buraco negro e saindo lá no outro universo em uma supernova e voltando a entrar e sair pelo buraco negro e pela supernova de um universo pro outro sempre sem parar até que o tempo faça a curva e a luz também faça uma curva e volte e as paralelas se encontrem porque e Frederico e Cirila sem nem sair do Rio sabiam disso assim tão bem como se tivessem viajado por séculos e milênios-luz as paralelas parecem paradas mas correm sem parar em velocidades desiguais e se encontram, é por isso que a luz-tempo faz a curva e volta e revolta sem parar como a fita desta máquina ou a fita que gravou a música-instantesensação-tempo-vida e que pode ser ouvida de novo a fita vai pra trás e vai prà frente é e é por isso mesmo que a gente é gente e eles não podiam mais deixar de amar e é por isso que nós estamos (homens mulheres hermafroditas & os outros todos) cada um em um único e próprio e seu pessoal intransferível universo e mesmo assim podemos nos ver nos tocar nos comunicar nos entender e nos amar)

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CAPÍTULO 34

E LYÁIOS THEÓPHOROS se viu sozinho, no alto do mesmo morro onde conhecera Vulcão Lunático (tudo estava igual, mas a cabana do bruxo havia sumido). Ele lembrava de tudo: sua vida como Morioni, as perseguições, os anos em que viveu sendo Pantoja, o ataque ao laboratório, a fuga em voo cego, o transbudificador explodindo enquanto ele era teletransportado para DurBuk, planeta de Beta Lyrae, onde conhecera Ith, e todo o tempo que passaram juntos, aprendendo tanto um com o outro. Todavia ele tinha que voltar. E voltara. Sempre amaria Ith, e também DurBuk, seu lindo lar. No entanto agora ele tinha todo um futuro para construir. Agora ele era Lyáios Theóphoros e sabia exatamente o que fazer, e como. Desta vez teria sucesso. E Lyáios saiu caminhando com passos apressados, olhando para os lados, pela cidade enlouquecida, que era meta sua transmutar, experimentar, estudar. Seus cabelos compridos pixaim, sem penteado definido, sua

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silhueta nobre, suas roupas caras, coloridas, longas e impressionantes, seus olhos autoritários, vasculhando, procurando, por onde quer que fosse, onde quer que estivesse, o quê ou quem quer que. Sob os braços levava muitos papéis enrolados, planos, mapas do tempo, estudos incompletos, preciosas anotações dos que o precederam. “E volto aqui de novo persistente.” Pelas ruas pessoas passavam apressadas, como ele, mas sem desviar sua atenção reta de sua meta, um monte de zumbis, de robôs humanos, seus olhos opacos chispando raios de raiva congelada, frustração e outras mágoas, muitos deles falando sozinhos, todos tão fracos. Mutantes canibais corriam em grupos predadores no luscofusco da cidade abandonada que anoitecia, enquanto que homens de bem fugiam apavorados; às vezes, alguns deles caíam nas garras dos grupos que caçavam. Aves de rapina gigantescas devoravam o cimento das altas torres com seus bicos afiados, e muitos prédios caíam, como castelos de cartas, ou igual a castelos de areia, que de areia realmente eram, e sabiam todos que tudo não passava de grãos da mesma areia, ampulhetas do tempo, castelos de gelo, de lama, de sonhos, de pretextos.

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CAPÍTULO 35

FREDERICO NÃO SAÍA de casa havia dias e mais dias. Faltou às provas da faculdade, devia ter ficado reprovado em tudo. E daí? Que importância isso tinha? Cirila viera vê-lo várias vezes. Na primeira eles transaram. Na segunda, conversaram. E na terceira vez brigaram. Ele manifestou bem claras todas as dúvidas e incertezas do relacionamento deles dois, e ela falou que não queria mais nada com ele, que estava de saco cheio, chega, chega, chega, entendeu?! Eu não sou capacho! Não quero mais nada com você!, e saiu batendo a porta, deixando um enorme alívio em seu lugar. E os mosqueteiros? Cada um percorria seu caminho, sem olhar pros lados, ele tinha certeza. E não era certo assim? Ele não sabia de mais nada, nem queria saber. Não conseguia pensar, escrever, ler, estudar, ver tv, ouvir música, sair, conversar, namorar, trepar, comer, dormir, sonhar... nada. Tudo agora se resumia a uma única palavra sem fim: Nadine. Foi chamado à sala, visita de Ismênio. “Que alegria te ver. Tudo ok?” “Isso é alegria?! Eu não quero te ver triste, então.” A energia de Ismênio era visível, envolvente.

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“Você tá namorando alguém?” “Você sabe que eu vivo envolvido com Marcele. Mas é tão complicado, ela mais velha, casada, branca...” “Se vocês se amam, ela bem que podia abandonar aquele basbaque.” “Há que ser leve, e flutuar neste mar de basbaquice, meu caro. E a Cirila?” “Acabamos.” “Sei. E a Nadine?” “Ainda a vi duas vezes. Em uma não nos falamos, na outra voltamos a conversar, muito bem até, parecíamos camaradas.” “E não são?” “Você sabe que isso é impossível. Esqueceu da Lua? E do czar?” “Este, eu posso lhe garantir, não quer mais saber dela. Eu fui vê-lo, antes de vir pra cá, e ele falou que ela era isso e mais aquilo, que ele andava meio piroca das ideias por causa da intoxicação, da crise de impregnação ou outra coisa qualquer.” Frederico pegou uma bandeja de sanduíches de salaminho com alface e uma jarra de refresco de maracujá, ofereceu ao outro, e começou a comer com verdadeira fúria. “Quer dizer então que ele esqueceu a Nadine?” Ismênio riu, tomou um gole, fez suspense. “É claro. Você conhece o cara. É um volúvel. He is as false as the human being.” “Mudando de assunto, como está o senhor Zeca dOlivares?” “Em casa. Se recuperando.” “E o que aconteceu com Morioni, afinal?” “Qual versão você deseja?” “Quantas existem.”

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“Bem, há várias, só eu sei de três.” “Quero conhecê-las.” “A minha: fugiu, fazendo antes um monte de explosões e fumaça, pra acobertar a fuga. A oficial, da polícia e dos jornais: ele morreu com a explosão da máquina que ele mesmo chamava de transmutador anímico, eu acho, explosão essa que o teria desintegrado. A de Ezequiel: Morioni conseguiu com essa máquina produzir a própria transmigração para o corpo de um jovem industrial, homem misterioso e rico, preto assim como eu, de nome Laio Teodoro.” “Que absurdo!” “Mas ele está melhorzinho: decidiu não tentar desmascarar o tal Dr. Laio, pois diz que agora o Morioni se purificou e usará a sua inteligência doravante para o bem da humanidade.” “Um verdadeiro happy end!” “Ele diz que a coisa não acaba aí.” Riram, contentes. “E José de Alencar?” “Está cada vez mais apaixonado por Iracema.” “Mas ele não ia deixá-la?” “Pensou que ia, mas na hora h a paixão falou mais alto. Diz ele que o amor purifica tudo.” “Você e a Marcele...” “É diferente.” “Por quê?” “Ela é casada, tem filho, o marido dela é um arquiteto bemsucedido, cheio do dinheiro, ela é branca...” “E daí? Qual o problema? Racismo? Seu? Dela? Se ela te ama, se você a ama, porra! Vocês sabiam que já existe divórcio no Brasil?”

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“Tá bom, muito obrigado pelos conselhos, doutor Frederico Guilherme.” “De nada, doutor Ismais.” “Você se lembra disso!” “Eu nunca esqueço. E você ainda se recorda da Claudete Grant?” “A nossa aposta! Quem ganhou?” “Você sabe que foi você.” “Ah, é, que bom, então eu lembrei certo. Você entende, a minha memória é randômica.” Depois que ele foi embora, Frederico se deitou no quarto e ficou ouvindo Maria Bethânia e pensando... “Fred, tem uma menina aí querendo falar com você.” “Menina, que menina, mãe?” Era Nadine. Seus olhos brilhavam, seus dentes brilhavam, seus brincos brilhavam, ela toda brilhava sem parar. “Nadine!” “Frederico.” Ficaram se olhando, um tempão. Aí ela segurou a mão dele. “Mas como?!” “Sei lá!” E os dois se beijaram com amor. “E a Lua?”, perguntou Frederico, levemente embriagado de ventura. “Agora eu quero o Sol”, Nadine respondeu. E os dois saíram de mãos dadas e foram para a praia para ver o Sol nascer.

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O Homem Secreto  

por Luis Carlos de Morais junior

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