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Enganados por um sonho

Crédito: Luana de Oliveira

Dados das Nações Unidas apontam o tráfico de seres humanos como o terceiro crime mais rentável do mundo, movimentando cerca de U$ 32 bilhões por ano. Exploração sexual, trabalho escravo, adoção ilegal e tráfico de órgãos são alguns crimes relacionados. Muitas vítimas são enganadas pela promessa de uma vida melhor, outras, retiradas à força de suas famílias. Segundo o cientista social, mestre e doutorando em Sociologia Thales Speroni, que estuda migração e minorias étnicas na Universidade Autônoma de Barcelona e Universidade Federal do Rio Grande Do Sul, o suborno é apenas uma das práticas. Ele explica que, em casos envolvendo crianças, por exemplo, os pais podem, ou não, ter conhecimento da intenção de tráfico. “Na maioria dos casos, o aliciador é uma pessoa conhecida e, às vezes, quem suborna também está sendo vítima”, declara. O pesquisador conta que o próprio aliciador pode acreditar no que está propondo, não tendo ideia da situação na qual está pondo a outra pessoa. Instituições e órgãos de Direitos Humanos têm trabalhado para auxiliar as vítimas do tráfico de pessoas e suas famílias. O presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke, referência internacional reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), afirma que esse crime é comum no Norte e Nordeste do país, mas que no Rio Grande do Sul a ocorrência tem aumentado. O último caso que chegou ao seu conhecimento foi em um município do interior, onde pessoas supostamente ligadas ao Conselho Tutelar estariam retirando crianças de suas famílias alegando maus-tratos. Uma delas teria sido levada para a República Dominicana. “A mãe deu à luz e logo em seguida, a criança lhe foi tirada”, relembra. De


acordo com Krischke, as famílias vulneráveis são as que mais caem nas falsas promessas. A rede Um Grito Pela Vida é uma das entidades que lutam pelo fim do tráfico de pessoas, dando palestras em escolas e divulgando seu trabalho no Rio Grande do Sul. O objetivo é conscientizar, mobilizar, capacitar e prevenir a ocorrência do crime. A coordenadora da rede, irmã Maria Bernadete Macarini, explica que no Brasil a ONG possui 27 núcleos nas cinco regiões de atendimento. Ela esclarece que há casos em que a pessoa aceita ir para um lugar por acreditar que lá terá uma vida melhor. Um exemplo citado pela irmã é o de uma criança levada para longe da família para treinar em um clube de futebol. Logo em seguida quis voltar por ter jornadas exaustivas de treinos e falta de alimentos. No Brasil, um dos principais segmentos de tráfico de pessoas é para fins de trabalho análogo ao escravo. Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), carvoarias e plantações de cana são os principais locais de exploração. Nesses casos, as vítimas são de altos níveis de vulnerabilidade social, moradoras de regiões com graves problemas sociais e têm baixo nível de escolaridade. Brasil está entre as rotas internacionais Levadas para fora de seu estado, são submetidas a jornadas exaustivas de trabalho em lugares de difícil acesso. Além de não receberem o salário prometido, as vítimas ainda são obrigadas a pagar por tudo o que consomem, contraindo dívidas com seus patrões, o que as impede de voltar para casa até a quitação. Em operação no sul do Pará, no início da década, o inspetor da PRF Rodrigo Cardozo Hoppe, por exemplo, encontrou vítimas em situações degradantes. Com o resgate da Polícia Rodoviária Federal (PRF) junto ao Ministério do Trabalho (MTB) e Ministério Público do Trabalho (MPT), foi descoberto que as fazendas pagavam depois de dois ou três meses aos trabalhadores, que recebiam cerca de R$ 40, pois além de utensílios de trabalho, eram cobrados por alimentação e estadia. As ações são realizadas por meio de mapeamentos do MTB e MPT, a partir de denúncias que chegam até eles ou através da Polícia Civil. A Polícia Federal tem trabalhado em investigações para conter quadrilhas nas rotas de tráfico de pessoas que envolvem as fronteiras nacionais. Em 2013 houve um caso em Uruguaiana, em que asiáticos estavam sendo levados da fronteira à Buenos Aires para trabalhar numa tecelagem em uma colônia chinesa. Segundo o delegado da cidade, André Luiz Martins Epifânio, na época, as pessoas foram encontradas e levadas à delegacia. “Ao localizar a quadrilha e levá-los até a delegacia, analisamos os documentos e vimos que os vistos eram falsos”, diz Epifânio. Ele chegou à constatação de que se tratava de um grupo organizado que trazia os estrangeiros tendo Uruguaiana como rota. A quadrilha foi julgada e condenada, e as vítimas levadas ao seu país de origem. O delegado afirma que, muitas vezes, é difícil localizar os criminosos, pois muitos são estrangeiros.


Das estradas aos cruzeiros, das fronteiras às fazendas, o tráfico de pessoas continua fazendo vítimas no Brasil. Para os especialistas, o combate passa pela investigação de organizações criminosas a partir de denúncias de vítimas, amigos e familiares.

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Dados das Nações Unidas apontam o tráfico de seres humanos como o terceiro crime mais rentável do mundo, movimentando cerca de U$ 32 bilhões...

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