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D

EDICADO À

N

ATASHIA

K

ITAMURA QUE FOI A PRIMEIRA A LER ESTA HISTÓRIA E SURTAR POR ELA.

O

BRIGADA PELA AMIZADE!


I

NTRODUÇÃO

P K OR

EIRA

Aqui estou eu, imóvel e preocupada com o que está acontecendo na parte de baixo de meu corpo que está tapado por uma cortina azul de sala de cirurgia. Julian me encara com expectativa e eu podia desmaiar a qualquer instante, tamanha minha ansiedade. Eu havia esperado tanto por aquele momento que chegava a sentir meu coração bater mais rápido a cada minuto que se passava com os médicos trabalhando por de trás da cortina. Você deve estar se perguntando quem sou eu e o que diabos está acontecendo. Meu nome é Keira Christensen. E eu estou tendo um filho do meu melhor amigo. Não, nós dois não somos um casal no sentido dois pombinhos apaixonados. Somos um casal, mas um casal de amigos. Simples e puramente amigos. Mas, talvez, para que você entenda melhor a nossa história, nós tenhamos que voltar alguns meses em nossas vidas…


C

APÍTULO 1

P K OR

EIRA

M

ESES ANTES…

Eu encarava a tela de meu computador tentando achar uma forma de resolver aquele problema na codificação do sistema que havia desenvolvido recentemente para uma empresa de softwares. Aquilo estava me dando uma bela dor de cabeça e eu já não aguentava mais ver números e letras na minha frente. Olhei para o relógio no canto da tela, pouco menos de cinco minutos para as seis da tarde. Ora, que se danasse. Fechei toda a programação e logo em seguida desliguei o computador. Revirei minha nécessaire em busca de um remédio que fizesse a dor de cabeça passar e fui até a cozinha em busca de um belo copo d’água. Eu mal havia terminado de engolir o comprimido quando o telefone tocou fazendo minha cabeça zunir. — Alô? — Retruquei um pouco mal-humorada. — Nossa, o que houve com você? — Ouvi a voz de Tricia perguntar do outro lado da linha. — Ah, eu fiquei o dia inteiro tentando descobrir qual o problema do sistema que criei para a Saunders Tech e agora estou com uma bela dor de cabeça… — Murmurei massageando a base de meu nariz. — Puxa, que droga! — Tris exclamou parecendo emburrada. — Eu ia te chamar para sairmos e nos divertimos em alguma balada por aí. — Ela disse parecendo realmente ressentida. — Tricia, amiga… Você sabe que eu detesto baladas, não sabe? — Perguntei me jogando no sofá para ficar encarando o teto branco de meu apartamento. — Aff, sério, Key. Você precisa arrumar um namorado. — E você sabe o que eu penso sobre o que você pensa sobre o assunto “namorado para Key”, certo? — Disse, apenas para me certificar. — Blábláblá… — Tris retrucou. — E você sabe o que eu penso sobre você não querer ninguém na sua vida. Poxa, Keira, existem tantos homens maravilhosos por aí! — Eu não preciso de um homem na minha vida, Tris. Estou muito bem como estou. — Pontuei, logo em seguida ouvindo minha amiga bufar. — Você precisa de um homem para realizar o seu sonho. Outch. — Não preciso de um marido para isso, Tricia. — Resmunguei. — Sério, você tem problemas… — Sou perfeitamente normal como toda mulher independente que apenas quer ter filhos e não maridos. — Retruquei.


— De verdade, você é maluquinha. — Tris gargalhou, mas sabia bem quais eram os meus planos para o futuro. E não incluía nenhum homem para chamar de marido. Desde os meus 23 anos eu já sabia que não teria uma família “convencional” já que, apesar de sentir certa atração por alguns caras, eu nunca senti vontade de ter algum relacionamento que fosse além de um flerte e troca de olhares que não levariam a mais nada. Eu havia tentado me impor a relacionamentos convencionais antes. Havia tido um namorado na adolescência, mas tudo foi por água abaixo quando ele percebeu que meu “apetite sexual” não era nem de longe o mesmo que o dele. Entendi desde aquele momento que constituir uma família convencional não era para mim. Embora meus pais tenham me levado à especialistas para tentar “reverter” a situação, bem lá no fundo eu sabia que eles não teriam um genro. Mas eu teria meu bebê. Por mais que meus instintos de procriação estivessem fora dos padrões, meu instinto maternal ainda existia, de alguma forma. E é claro que eu correria atrás desse sonho; eu era uma programadora bem paga para trabalhar em casa, tinha dinheiro o bastante para investir nisso e existiam as inseminações artificiais com doações de esperma. O que poderia me impedir? — Tudo bem, tudo bem. Um dia eu vou entender esse seu lado, prometo. — Tris murmurou suspirando. — Mas você não quer mesmo ir pra uma balada comigo, só pra fazer companhia? — Choramingou e então foi a minha vez de suspirar. — Tris, eu realmente preciso descansar e uma balada não é o melhor lugar para isso. — Murmurei. — Ok. Vou sozinha. Sua chata. — Ela disse e desligou. Conhecendo como a conheço, ela deve ter mostrado a língua para o telefone pela frustração. Tricia Conner era minha melhor amiga desde os 18 anos. E desde essa idade ela vive querendo me empurrar para o primeiro homem que surge na nossa frente. Não é por mal, eu sei. Já tentei explicar várias vezes que aquilo não rolaria comigo como rolava com ela, mas ter uma amiga que não sente atração sexual por homem ou mulher era confuso demais para ela processar, por isso sempre tínhamos a mesma discussão quando o assunto era balada e ficadas. Eu tinha trinta anos e por mais que eu ainda fosse jovem o bastante para ir à uma balada, qual exatamente seria meu objetivo num lugar como aquele? Eu não sabia dançar, detestava lugares cheios, não era muito chegada às bebidas servidas nos bares e não queria arranjar um ficante nem um caso de uma noite só. Tris sempre ficava triste quando eu frustrava seus planos de me arranjar alguém numa balada, mas eu sabia que ela se divertiria muito mais sem mim. E era de fato o que realmente acontecia. Estava quase pegando no sono quando minha campainha tocou e eu dei um pulo com o susto. Um pouco cambaleante e sonolenta fui até o olho-mágico na porta e espiei para ver quem era a pessoa que me visitava. Destranquei a porta e abri uma brecha para que o visitante entrasse. — Mas que modos, Keira! — Julian ralhou comigo enquanto entrava e fechava a porta. Julian Deasey era meu melhor amigo de infância. Não nos desgrudávamos e isso significava que morávamos no mesmo prédio.


— Lian, você já é de casa e tem sua própria chave, não sei por que ainda toca a campainha. — Retruquei me jogando de volta ao sofá. — Eu tenho modos, Keira, modos. — Ele disse erguendo minhas pernas para poder se sentar no sofá também. Revirei os olhos. — O que te traz aqui? — Perguntei fechando os olhos enquanto recebia massagem nas pernas. Já disse o quanto amo Lian? — Você se lembra de que entrei com o processo de adoção há alguns meses? — Ele perguntou e eu assenti sentindo a sonolência voltar ao meu corpo. — Eles estão demorando mais do que o normal para prosseguir com o processo. — Resmungou parecendo magoado. Abri os olhos imediatamente e me endireitei no sofá para poder encarar meu melhor amigo. — Hei, vocês vão conseguir. — Eu disse segurando em suas mãos. — Eu não sei, de verdade. — Lian parecia desanimado de uma forma que eu nunca tinha visto antes. — Vocês dois tem tudo para conseguirem a adoção, Lian, você sabe disso. — Acariciei sua bochecha e ele me encarou sério, seus olhos com um brilho de dúvida. — Sabe que existem muitos contra o nosso tipo de família, Key. E receio que o encarregado de avaliar nosso caso seja um desses. Suspirei pesadamente. Julian, assim como eu, não tinha – ou teria algum dia – uma família “convencional”. Lian é gay e estava noivo de Mathias Wurfel. Os dois haviam entrado num processo para adotar uma criança, mas, por mais que o mundo diga que não há mais preconceito em relação à isso, mesmo na lei, com toda a certeza o fato de Julian e Mathias serem um casal gay interferia bastante na decisão do juiz. Lian e eu sempre fomos muito unidos e confidentes um do outro, mas a verdade é que foi uma grande surpresa quando ele anunciou a mim e aos pais que era homossexual. Ele nunca teve trejeitos ou dera indícios de sua opção sexual até aquele momento. Na verdade, quando saímos só nós dois para conversar, somos confundidos como um casal heterossexual. Lian sempre tivera um porte bastante másculo e atraente, o que definitivamente confundia – e ainda confunde – a cabeça de muitas pessoas. Foi convivendo com ele, meu melhor amigo, que percebi o quanto todos nós estereotipamos os gays como aqueles personagens de filmes e seriados afetados e com trejeitos femininos. Para algumas pessoas do nosso círculo social ainda é desconcertante saber que Julian é gay. E muito bem quase casado. — Pense positivo, Lian. — Disse séria. — Nem parece o Julian que eu conheço com essa cara insossa e desanimada. Lian gargalhou, mas por poucos segundos, o que ainda não era um bom resultado. — Ora vamos, se não der certo, ainda temos um ao outro. — Murmurei nosso velho bordão de quando ainda éramos adolescentes sonhadores.


— Mathias está ficando de cabelos brancos com a falta de ação em nosso processo. — Julian disse bagunçando os cabelos, forma como ele expressava sua aflição. — Vai dar tudo certo. — Eu disse, rezando em meu íntimo para que realmente desse certo. Depois de alguns instantes em silêncio, Lian voltou-se para mim. — E quanto a você? — O que tem eu? — Você e sua ideia maluca de inseminação artificial pelo banco de doadores. — Até tu, Brutus? — Resmunguei. — O quê? — Até você acha que é maluquice eu querer ter um filho sem ter um “marido” ou homem? — Perguntei um pouco indignada. — Olha, Key, eu realmente não sou contra você querer ter um filho, mas acho que é bastante arriscado usar o banco de doadores de sêmen, você sabe… Não vai saber quem é o pai biológico da criança… E se ele tiver algum problema genético? — Não me interessa nem um pouquinho quem será o pai biológico da criança e você me conhece, Lian. Acredito que se for para ser, simplesmente será. — Retruquei cruzando os braços e as pernas, um pouco emburrada. — Eu sei, eu sei. Mas você poderia considerar a adoção também… — Ele deu de ombros. Sim, eu realmente poderia considerar a adoção, mas desde os meus 25 anos eu tenho o sonho de ser mãe passando por todos os estágios – tirando a parte do sexo, claro – desde o enjoo das primeiras semanas até o esperado dia do nascimento do bebê. Queria amamentar e ninar, e ensinar coisas e também, admitindo um pouco de egoísmo da minha parte, eu queria poder olhar para a criança e ver um pouco de mim nela. E por essas razões eu optara pela inseminação. — Ok, isso não me diz respeito, é uma decisão sua, já saquei. — Lian murmurou depois de eu ficar calada por longos instantes. Sorri para ele. Por mais que o tempo passasse ainda nos entendíamos perfeitamente, mesmo sem usar palavras. Ficamos em silêncio por alguns instantes até que o celular de Julian tocou. Era Mathias preocupado pela demora. — Preciso ir, Keikey. — Ele se levantou e deu um beijo em minha testa como sempre fazia quando nos despedíamos. — Mathias preparou o jantar e parece que teremos vinho hoje. — Poupe-me dos detalhes, Julian! — Exclamei tacando-lhe uma almofada que sequer o acertou, já que ele já estava praticamente na porta de meu apartamento. — Até mais tarde, Keikey! — Ele cantarolou em meio a risinho antes de fechar a


porta. E então, lá estava eu novamente, sozinha em meu apartamento… Com uma bela dor de cabeça querendo voltar a dar o ar da graça.


C

APÍTULO 2

P J OR

ULIAN

Eu encarava aquelas crianças na fila de espera do hospital em que estava dando plantão no momento e meu coração batia em alegria ao vê-las – ao menos em sua maioria – alegres e brincalhonas umas com as outras. Eu sempre quis ser pai, pelo menos desde que eu era criança e brincava de casinha com Keira no quintal dela. Mas também sempre soube que seria uma coisa bastante difícil de se alcançar dada a minha opção sexual. Eu sou gay e desde muito cedo eu sabia que era diferente dos garotos dados como “normais”, e como a maioria bem sabe – mas gosta de fingir que não – pessoas “diferentes” tendem a ser encaradas com certo asco pela sociedade, mesmo que hoje em dia haja toda essa luta de direitos iguais, não a preconceitos e todo o resto, a mente de uma boa parcela da população ainda não está preparada para realmente aceitar que um homem ou uma mulher gays podem e tem o direito de serem felizes com quem quiserem com os mesmos direitos de pessoas não-gays. Eu tenho um tio que se assumiu gay quando eu tinha pouco mais de dez anos. E vi o quanto ele sofria com os preconceitos até da própria família. Ele fora casado por longos dez anos e tivera um casal de filhos. Tia Molly o apoiou naquele momento como sempre fizera durante toda a vida deles juntos, mas vovô e vovó ficaram horrorizados em saber que tinham um filho daquele tipo como costumavam rotular os homossexuais. Meus primos ficaram bastante confusos na época, mas por terem um pai gay, aprenderam desde cedo a serem mais tolerantes com o “diferente”. Eu, por outro lado, fiquei bastante assustado com a reação do restante da família, o que incluía meu pai que por um bom tempo se manteve afastado do próprio irmão. Por isso eu resolvi que não deixaria o meu eu “daquele tipo” transparecer. Eu seria um menino perfeitamente normal. E por vários anos eu realmente fiz bem esse papel – embora eu só tenha beijado duas garotas na vida – até completar dezessete anos e decidir “sair do armário”. Minha mãe aceitara o fato com certo pesar, mas sempre com aquele jeito de mãe “Eu sempre vou te amar, não importa como”; já meu pai quase derrubou a casa dizendo que não admitiria mais um do tipo de Jackson em sua família. Por sorte Keira estava comigo naquele momento. Ah, Keira. Keira Christensen era minha melhor amiga desde sempre. E fora ela a última garota que eu beijei na vida. Sim, eu beijei minha melhor amiga. Depois de ter contado à ela que era gay. — Vamos só testar, oras. — Ela disse quando propôs o beijo, aos meus quinze anos. — Keikey, eu já disse que garotas não são muito a minha praia. — Respondi encostado no muro do colégio, todos os alunos já haviam saído e nós estávamos lá ainda sabe-se lá por qual motivo. — Eu não sou só uma garota, eu sou sua melhor amiga! Revirei os olhos com a resposta. — Tudo bem então. — Respondi. Suspeito que na verdade ela só estivesse querendo beijar pela primeira vez, mas que mal poderia haver em um simples beijo?


Keira avançou em minha direção, o que me surpreendeu e então nós demos o nosso primeiro beijo mais desajeitado e esquisito do mundo em frente ao portão da escola. Não demorou mais do que cinco segundos até nós dois nos separarmos de bom grado e murmurarmos um “eca” em uníssono. — Definitivamente. Não. — Murmurei limpando a boca com as costas da mão. — Definitivamente. — Key respondeu fazendo o mesmo. Tenho a leve impressão de que aquele foi o momento em que Keira começou a pensar em não ter um namorado ou casar. Às vezes me sinto um pouco culpado quando penso nisso. Talvez eu tenha estragado a concepção de amor “normal” para minha melhor amiga. Mas depois disso Adam surgiu. Adam foi o primeiro e único namorado de Key, mas os dois terminaram com pouco mais de seis meses de namoro. De início Keira não queria se abrir comigo sobre o término, mas depois finalmente dissera que ela não sentia atração sexual pelo parceiro. E por nenhuma outra pessoa. Nós somos um casal de amigos bastante peculiar… Fui até a recepção e chamei pelo nome de minha próxima paciente: Eva Woods. Eva era um dos nomes que eu gostaria de dar para minha filha e coincidentemente, era o nome da garotinha que Mathias e eu estávamos tentando adotar. — Olá, pequenina. — Murmurei para a criança no colo da mãe que riu para mim e logo escondeu o rosto entre os cabelos da mulher. — Diz oi para o doutor, Eva. A garotinha sorriu um pouco acanhada e me deu um oi com as mãozinhas gorduchas. — E então, o que as trazem aqui? — Perguntei guiando as duas para a minha sala de atendimento. — Ah, Eva está com uma tosse seca faz alguns dias… Eu decidira fazer medicina e me especializar em pediatria quando percebi que me dava bem com crianças e elas pareciam gostar de mim. E trabalhar ajudando-as de alguma forma era gratificante. Acabei optando por trabalhar numa clínica pediátrica durante a semana e no hospital comunitário durante os fins de semana para famílias carentes. Queria poder ajudar ao máximo aqueles pequeninos que seriam o futuro do nosso mundo. Meu turno terminara às seis e antes de ir para casa, decidi passar no apartamento de Keira, que ficava no mesmo prédio que o meu e o de Mathias. Toquei a campainha e ela me atendeu como sempre me atendia: abria a porta e saía andando. — E então, como vão os planos? — Perguntei fechando a porta e acompanhando Key que fora se sentar em frente ao computador no qual vivia trabalhando.


— Vou fazer os exames amanhã de manhã! — Anunciou com animação, mesmo sem olhar para mim. Keira estava no processo de exames para fazer uma inseminação artificial, a maneira que ela encontrara para realizar seu sonho de ser mãe sem ter de arranjar um marido. — Isso é ótimo. — Murmurei puxando uma cadeira para me sentar ao seu lado e observar o que ela fazia. Códigos e mais códigos. Deus, como ela conseguia entender qualquer coisa daquilo? — Só vai ser ótimo quando os resultados saírem e indicarem que estou perfeitamente bem para ter um filho. — Ela murmurou virando-se para mim. Ela parecia um pouquinho preocupada. — Vai dar certo, assim como vai dar certo comigo e com Mathias, lembra? — Cutuquei-a lembrando de todo o positivismo que ela tivera semanas antes quando eu estava sem muitas expectativas com relação ao processo de adoção de Eva. Keira sorriu cansada e me abraçou. Ela parecia com medo de as coisas não darem certo, assim como eu me sentia antes. Era engraçado o quanto nós dois conseguíamos “nos equilibrar”… Quando um estava mal, o outro estava bem o bastante para alegrar a ambos. E quando os dois estavam bem, era pura festa. O que mais eu podia querer da vida? Ficamos conversando por algum tempo até eu olhar o relógio e perceber que eram quase sete e meia. Mathias deveria estar me esperando. Me despedi de uma Keira cansada e preocupada com os exames do dia seguinte e rumei para o elevador, apertando o número 9, andar de nosso apartamento, meu e de Mathias. Quando adentrei o lugar, encontrei Math sentado à mesa com seu notebook, concentrado no que estava fazendo, tanto que mal havia percebido minha chegada. — Boa noite, meu amor. — Murmurei deixando minha maleta de lado e indo em sua direção. — Ah, boa noite. — Respondeu parecendo um pouco desapontado com o que estava vendo na tela de seu notebook. — O que houve? — Nosso processo continua parado… — Soltou completamente desanimado. Havia meses Mathias e eu tínhamos entrado com o processo de adoção de Eva, e como Math era advogado, decidira ele mesmo fazer todos os requerimentos necessários para iniciarmos o processo de adoção. O que o deixava ainda mais ansioso, verificando praticamente todos os dias como estava o andamento. — Math, precisa parar de ficar olhando isso todas as vezes. — Murmurei sentandome na cadeira ao seu lado. — Vai acabar ficando paranoico. — Acariciei sua mão. — Eu sei, eu sei! — Exclamou. — Mas já fazem meses e não temos resposta alguma. — Disse frustrado. — Hei, quer saber do meu dia hoje? — Perguntei quase de forma retórica. — Atendi


uma menininha linda chamada Eva. E imaginei como nossa Eva vai ser quando a tivermos conosco. — Sorri encarando Mathias, que me sorriu de volta um pouco triste. — Não sei se vamos conseguir, Lian… — Shh. — Retruquei. — Nós vamos conseguir, meu amor. Nós vamos. — Repeti aquele mantra milhares de vezes em minha mente durante semanas e agora eu realmente pensava que conseguiríamos. — E se não conseguirmos? — Mathias andava bastante pessimista ultimamente, o que anda me deixando um tanto irritado. — Se não conseguirmos tentaremos de novo. E se não conseguirmos de novo, tentaremos outra coisa. — Respondi um pouco ríspido. — Desculpe. Eu sei o quanto você detesta quando eu fico negativo demais, mas é que isso anda demorando tanto que está me deixando maluco! — Exclamou passando as mãos pelos cabelos. Me senti culpado por ter sido tão grosseiro, afinal, nós dois estávamos no mesmo barco esperando por nossa Eva, mas eu tinha meu trabalho para dispersar os pensamentos sobre ela pelo menos por algumas horas do meu dia, já Mathias… Bem, o trabalho dele era pensar em como andava o processo jurídico tanto da nossa adoção quanto outros processos de outros clientes. Ele não tinha escapatória quanto a isso. — Me perdoe, meu amor. — Murmurei segurando sua mão com firmeza. — Eu deveria saber o quanto é difícil ter que lidar com isso todos os dias, mesmo sem querer. Math suspirou um pouco consternado e massageou a base de eu nariz. — Vem, me ajude a fazer nosso jantar. — Me levantei dando um beijo em sua testa. — Já vou. — Ele murmurou um pouco desanimado, mas já se levantando. — O que vamos fazer? — Grude a carbonara? — Perguntei sorrindo de lado. Mathias riu e assentiu. — Que tal um pouco de vinho hoje? — Ele sugeriu. Nós dois gargalhamos e concordamos com o vinho.


C

APÍTULO 3

P K OR

EIRA

Era segunda de manhã e eu estava ansiosa para entrar no consultório da doutora Pearson para que ela avaliasse meus exames e dissesse que tudo estava perfeitamente normal para que pudéssemos dar início aos preparativos da inseminação. Foram os dez minutos de espera mais longos da minha vida. Quando Sophia – a médica – finalmente me chamou eu dei um pulo de minha poltrona na recepção e quase corri em sua direção. — Você parece animada, Keira. — A doutora Pearson comentou enquanto fechava a porta e ia em direção à sua mesa. — Hoje é começo do grande dia! — Esfreguei as mãos com empolgação e entreguei os resultados da bateria de exames que havia feito. Sophia passou página por página dos exames de sangue, ultrassons, e todas aquelas coisas em um silêncio que quase me matou de ansiedade. — Sophia, pelo amor de Deus… — Está tudo em ordem. — Ela murmurou guardando os últimos exames em seus devidos envelopes. Soltei um suspiro de alívio e me deixei relaxar na cadeira. — Quando podemos começar? — Perguntei sentindo a ansiedade retornar aos poucos em mim novamente. — Poderemos começar os preparativos assim que você menstruar. — A doutora explicou. — No segundo dia de sua menstruação começaremos a aplicação dos hormônios. Fiz as contas nos dedos e ainda faltava meio mês para que eu finalmente menstruasse, seriam longos quinze dias e aquilo estava começando a me deixar nervosa. — Querida, vai dar tudo certo. — Sophia disse sorrindo. — E ansiedade só piora as coisas nesses momentos. — Pontuou. Ela estava certa, eu não podia ficar ansiosa daquela forma. Eu bem sabia que quando alguma coisa incomum mexia com meu psicológico minha menstruação começava a desregular. E não era aquilo que eu queria. Respirei o mais fundo que consegui e depois de alguns segundos prendendo a respiração, expirei. — Tudo bem, eu vou conseguir. — Murmurei para mim mesma. — Volte aqui em… — A doutora olhou em seu computador. — Quinze dias, certo? Assenti. Saí do consultório da doutora Pearson feliz e ao mesmo tempo angustiada. Tão perto e tão longe! Eu não podia menstruar naquele exato momento e começar o tratamento no dia seguinte? Peguei o carro no estacionamento e dirigi sem pressa para chegar em casa. Dirigir me fazia não pensar nas coisas. Eu apenas me sentava ao volante e tudo no que tinha que me


concentrar era no meu caminho. Só. Então o telefone tocou e toda a concentração fora para o lixo. Aproveitei o farol fechado para colocar o telefone no viva-voz. — E aí, como foi? — Ouvi a voz de Tricia soar animada e curiosa. — Está tudo bem e em quinze dias poderei começar o tratamento. — Quinze dias? Por que quinze dias? Com um suspiro expliquei à Tris como todo o tratamento funcionava e como eu infelizmente precisava esperar o segundo dia da minha menstruação para poder começar tudo de verdade. — Mas quinze dias passam rápido! — Deus te ouça, Tris, Deus te ouça… — Murmurei voltando minha atenção para o tráfego à minha frente. — Eu estou tão ansiosa! — Exclamei. — Amiga, você realmente é doida. — Tricia rebateu. — Quer dizer, se tivesse um homem envolvido nessa história eu até entenderia a sua ansiedade, mas… — Tecnicamente vai ter um homem. Eu só não vou saber quem é e nem vou ter que ter relações com ele. — Aí é que está! Você vai pular a melhor parte! Revirei os olhos. Acho que para pessoas “convencionais” como Tricia era realmente difícil de entender pessoas “nem-tão-convencionais” como eu. Eu, Keira Christensen, a garota/mulher sem desejo sexual. Para Tris aquilo era tão esquisito quanto um cara dançando pelado no meio da rua. Para mim, beijar ou transar com um cara era tão esquisito quanto tudo isso era esquisito para Tricia. — Você pode ficar com essa parte, Tris. Eu só quero o meu bebê. — Respondi. — E você pode ficar com seu bebê, eu ainda sou muito nova para essas coisas. — Ela resmungou de volta. Tris e eu tínhamos a mesma idade e por mais que agíssemos como adolescentes loucas de vez em quando, nós duas tínhamos ideais diferentes para nosso futuro. Ela queria diversão e alguns caras para amar antes de finalmente se estabelecer e talvez começar uma família. Eu queria uma família sem cara nenhum e só com meu bebê. Não era assim tão difícil de aceitar. — Sério, você vai deixar um médico enfiar um tubo em você, mas não deixa um cara enfiar… — Tricia, eu já decidi que vai ser assim e pronto. — Eu a interrompi antes que as coisas saíssem de controle. — Você não tem jeito mesmo. — Ela murmurou. — Então só me resta esperar meu sobrinho sem pai. — Ele vai ter um progenitor e uma mãe que vai amá-lo muito. É o bastante. — Progenitor não é o mesmo que ter um pai! E sério, qual seria o problema em tentar da forma tradicional?


— Tchau, Tricia. — Eu disse desligando o celular. Havia acabado de chegar ao meu prédio. Eu havia ligado para meus pais há algum tempo para contar meu plano de ser mãe. Meu pai logo saíra da ligação quando as coisas começaram a rumar para “coisas de mulher” dizendo que qualquer escolha que eu fizesse ele estaria apoiando, contanto que ele não tivesse que conhecer nenhum aproveitador barato interessado apenas em nosso dinheiro. Já minha mãe fizera a mesma pergunta que Tris “Qual era o problema em tentar da forma tradicional?” e lá fui eu tentar explicar mais uma vez à minha mãe qual era o problema. Desde muito jovem tanto ela quanto eu sabíamos que eu não era lá “normal” com relação à namoros e relações mais íntimas. Fui obrigada e ir a médicos e psicólogos para tentar “sanar” o “problema”, mas aquilo não era um problema, aquilo era eu. Simplesmente como eu era e ainda sou. Eu não teria um marido. Não teria um namorado. Não teria nem mesmo um caso de uma noite. Eu só teria a mim mesma e, contando com a sorte, meu bebê. E eu não precisava de mais nada. Talvez só um cachorro para ter mais companhia. Mas mais nada além disso para ser feliz. Cheguei em casa e fui direto para minha máquina de café para tomar “um gás” e finalmente começar a trabalhar. Eu havia conseguido resolver o problema da Saunders Tech, mas agora eles queriam que eu verificasse a interface de outro software para que a usabilidade dele se tornasse mais prática. Quem diria que minhas aulas de web design serviriam para alguma coisa neste momento da minha vida. Ok. Julian havia me dito. E me obrigado a fazer os cursos dizendo que um dia eles seriam necessários para mim. E cá estou… Fiz pesquisas e pensei de forma prática para poder enviar um esboço para a Saunders o mais rápido possível, porém, isso me tomou mais da metade do meu dia. E quando percebi, me vi ansiosa e apreensiva novamente pensando no meu futuro bebê e os quinze dias que me separavam de quase tê-lo. Olhei para o relógio e decidi ligar pra Julian. Eram quatro e meia e ele geralmente terminava seu expediente às quatro em dias normais na clínica, então não havia o problema de atrapalhar alguma consulta. A não ser é claro, se não fosse um dia normal na clínica. Mas decidi arriscar mesmo assim. — E aí, Keikey? — Ouvi a voz de meu melhor amigo soar do outro lado da linha. — Você está livre para falar? — Perguntei torcendo para que ele estivesse. — Estou terminando de ver algumas coisas na clínica, mas pode falar. — Não é nada demais, é só que eu estou muito ansiosa. — Murmurei começando a andar de um lado para o outro com o telefone na mão. — Ansiosa para q… — Lian se interrompeu. — Ah, a coisa toda a inseminação! — Exclamou se lembrando. Era por isso que eu amava Julian. — E então, deu certo?


— Tenho que esperar mais quinze dias para poder começar o tratamento. — Resmunguei. — Mas por que é que… Ah! O ciclo menstrual… — Ele mesmo respondera à pergunta. — Estou ansiosa, Lian! — Disse num tom completamente manhoso, preciso admitir. — São quinze dias! — Reclamei e ele soltou um muxoxo. — São apenas quinze dias. — Retrucou. E então me lembrei de quanto tempo Julian e Mathias estavam esperando pela guarda de Eva. E então me senti terrível e egoísta por estar ligando para Lian para reclamar dos meus quinze dias. — Ai, Lian, me desculpe por te incomodar com uma besteira dessas… E quanto à Eva? — Perguntei rezando para que não tivesse estragado ainda mais a conversa. — Ainda estamos no mesmo pé. Ao menos parece que o pedido foi enviado para análise. Vamos ver quanto tempo mais teremos de esperar… — Ah, Lian! — Exclamei querendo me chutar. — Eu sinto muito. Eu nem deveria ter ligado para te atrapalhar. Eu sou uma péssima amiga. — Quase choraminguei. — Key, ainda está um pouco cedo para sua TPM, querida. — Julian murmurou um tanto desdenhoso e logo depois riu, o que me fez ficar um pouco mais aliviada. — Eu só não queria te deixar preocupado com a história da Eva. — Expliquei. Eva era um assunto delicado. Fazia mais ou menos quatro meses que Mathias e Lian haviam decidido adotá-la como um casal. Eles estavam pensando em adoção fazia mais de um ano e durante esse tempo ficaram indo de orfanato em orfanato à procura da criança que tocaria seus corações. E essa criança foi a pequena Eva de um ano e meio. Lembro que “Eva” era o nome que Lian queria colocar em sua filha caso tivesse uma no futuro e por isso acho que essa menininha foi feita para esses dois. Mas não estava apenas nas mãos de Lian e Math a decisão de dar um lar para Eva. Precisavam do consentimento do juizado de menores e da assistente social que avaliariam se eles seriam uma boa família para a criança. O que nos leva à questão do preconceito. A porcentagem de aceitação de casais gays para adoção era muito baixa, apesar de haver algumas adoções aceitas. Todos nós tínhamos medo de que Julian e Mathias estivessem junto com a maioria dos casais homossexuais da lista. — Keikey, lembra da minha filosofia? — Lian perguntou sério. “Se for para ser, será…” Murmuramos em uníssono. Era o que eu levava para mim também, mas o desejo de que tudo desse certo era ainda maior do que essa filosofia. Eu só queria ver meu melhor amigo podendo ser feliz e completo tanto quanto eu poderia ser e seria. — Tudo vai dar certo, de um jeito ou de outro. — Julian disse numa mistura de sentimentos, eu só não sabia distinguir quais…


C

APÍTULO 4

P J OR

ULIAN

Finalmente eles haviam liberado nosso processo para a adoção de Eva. Era dia da visita da assistente social à nossa casa. Mathias e eu estávamos completamente malucos e neuróticos com aquela notícia. Precisávamos causar uma bela impressão para passarmos ao próximo passo do processo. Minhas mãos estavam suando e Math não parava quieto no lugar. Estávamos os dois uma pilha de nervos. Eu estava indo preparar um café quando o interfone tocou e Mathias quase literalmente deu um pulo com o susto. Era isso, havia chegado a hora da verdade. Math foi atender ao interfone para deixar a assistente subir e então nós dois trocamos olhares ansiosos. Tínhamos deixado a casa impecável. Não que normalmente ela já não fosse, mas havíamos reforçado um pouco mais na limpeza dessa vez. Estava tudo nos conformes, mas nada exagerado demais para que não parecesse artificial, como que só tivéssemos feito tudo aquilo por causa da visita da assistente. A campainha tocou e dessa vez nós dois demos um salto. Mathias se endireitou e foi abrir a porta enquanto eu secava o suor das mãos nas calças. — Bom dia, Mathias, certo? — A assistente social o cumprimentou num aperto de mão animado. — Sou Dorothy Jones, a assistente do seu caso. — Sorriu. — É um prazer finalmente conhece-la senhorita Jones. A mulher encarou ao seu redor e fez algumas anotações na prancheta que carregava, depois ficara em silêncio como se estivesse esperando por algo. — E então…? — Mathias perguntou um pouco sem jeito. — Poderemos começar quando sua noiva Julia se juntar a nós. — Dorothy sorriu largamente e eu parei onde estava, como uma estátua, absorvendo as palavras que aquela mulher havia acabado de proferir. Mathias olhou em minha direção sem saber o que dizer e tampouco eu sabia como me pronunciar com aquele pequeno erro… — Hum… Bem… — Math murmurou um pouco sem jeito. — O que foi? — A assistente perguntou inocentemente. — Oi. — Decidi chamar sua atenção para mim. — Sou Julian, o noivo de Mathias. — Tentei ser o mais simpático possível. Vi o sorriso de Dorothy Jones ir se desfazendo aos poucos enquanto discretamente ia verificar sua ficha na prancheta. — Oh… — Ela murmurou erguendo as sobrancelhas. — Parece que esqueceram de uma letrinha aqui. — Disse me encarando, um sorriso falso nos lábios. — Sinto muito pela confusão.


Eu ia abrir a boca para me manifestar, mas Mathias fora mais rápido. — Então, já que já nos conhecemos, podemos começar a visita? — Perguntou esperançoso, tentando amenizar a situação desconfortante. — Claro, claro. — Dorothy assentiu no mesmo instante, mas seus olhos pousaram sobre mim novamente de uma forma que me incomodou um pouco. Apresentamos todo o nosso apartamento e a assistente social ficara fazendo anotações em sua prancheta. Então sentamos para conversar. Mathias e eu ficamos lado a lado no sofá de mãos dadas enquanto Dorothy sentara-se na poltrona adjacente, nos encarando com uma postura superior que deveria ser intimidante. — Bem, vocês… Pretendem casar quando? — Perguntou, seus olhos voltando-se ligeiramente para nossas mãos entrelaçadas (minha e de Math). — Assim que tivermos uma resposta positiva sobre a adoção de Eva. — Mathias murmurou com expectativa, de forma inocente e sonhadora. Mas eu logo percebi naqueles olhos escuros de Dorothy Jones que nossas chances eram mínimas se dependesse dela. — Vi que o apartamento só tem um quarto, onde pretendem colocar a criança? — Questionou, o tom amável e leve indo embora de sua voz. — Estamos negociando um novo apartamento neste mesmo prédio, ele tem três quartos — Math disse radiante voltando-se para mim com um sorriso que me faria sorrir se não fosse a assistente social nos encarando. — E um dos quartos poderá ser o quartinho da bagunça de Eva! — Ele apertou firme minha mão, de forma empolgada. — Certo… — Dorothy murmurou fazendo mais anotações. — Vejo aqui que Mathias Wurfel trabalha como advogado. E quanto ao senhor, Julian Deasey? — Sou pediatra numa clínica no centro e aos fins de semana faço plantão em um hospital comunitário. — Respondi quase de forma ríspida, recebendo um leve cutucão da parte de Math. Ela anotou mais alguma coisa e então se levantou. — Muito bem, meu trabalho está feito por hoje. — Anunciou. — Mas já? A senhora não gostaria de uma xícara de café ou chá? — Mathias perguntou levantando-se também. Dorothy encarou meu noivo com certo ar de asco disfarçado e então recusou da forma mais educada que conseguira. — Meu amor, a senhorita Jones deve ter mais casos para analisar, vamos deixá-la ir. — Eu disse acompanhando a mulher até a porta. — Mas… — É a triste verdade, meu amor. Ela precisa ir. — Eu disse fechando a porta assim que a mulher botara os pés para fora de nosso apartamento da forma menos delicada possível.


Fui até a cozinha pegar meu café para tentar relaxar. — O que foi, Lian? — Math viera a meu encontro com preocupação. — Foi por causa da confusão com os nomes? Quem me dera fosse apenas aquilo… — Você percebeu a forma como ela nos olhou depois que descobriu éramos um casal? — Perguntei segurando a irritação. — Julian, foi só um erro de grafia… — Não, não foi só um erro de grafia, Math. — Exclamei. — Enquanto Dorothy pensava que eu era “Julia” ela foi completamente diferente do que quando ela descobriu eu que era Julian. — Retruquei. — A opinião pessoal dela sobre casais homossexuais não pode interferir no nosso processo. — Mathias murmurou sério, agora compreendendo a situação. Cocei a nuca e respirei fundo depois de engolir uma boa quantidade de café. — Mas você sabe que vai… — Retruquei largando minha caneca no balcão da cozinha e indo em direção à sala. Mathias sentou-se ao meu lado no sofá e parecia frágil e angustiado. — Por que precisa ser tão difícil assim? — Questionou com a voz um tanto trêmula. Eu o puxei para um abraço e ele se aninhou em meu peito. — Nós sabíamos que seria complicado conseguirmos a guarda de uma criança. — Murmurei deixando de lado minha raiva pela assistente social para dar mais conforto a meu parceiro. — Nós não vamos conseguir nossa Eva, vamos? — Math perguntou de forma deprimida, sem se desfazer de nosso abraço. Eu afaguei seus cabelos e suspirei. Não podia deixar que nossa esperança morresse. Se um estava descrente o outro precisava acreditar. E naquele momento eu precisava acreditar que tudo daria certo, que teríamos nossa princesinha conosco em breve. — Vai dar tudo certo, meu amor. — Murmurei dando um beijo no topo de sua cabeça. Depois de ficarmos horas – havíamos tirado o dia de folga de nossos trabalhos – conversando e tentando pensar positivo, Math decidiu ir visitar a casa da mãe para contar as “novidades” e eu decidi ir visitar Keira para tentar descontrair um pouco. Quando cheguei em seu andar e toquei a campainha como sempre, Key abriu a porta com cara de acabada, pijamas e pantufas enormes nos pés. — Tá tudo bem? — Perguntei adentrando o apartamento. — Tudo péssimo. — Ela resmungou indo se jogar no sofá. — O que houve? — Sinto como se tivesse sido violada. — Ela disse se encolhendo ao deitar.


— Como assim? — Hoje foi o dia da inseminação… — Resmungou. — Você não deveria estar feliz? — Perguntei me sentando numa poltrona perto de onde a cabeça de Keira se encontrava coberta por um lençol. — Eu estou feliz. — Disse de forma abafada. — Mas dolorida. — Explicou. Ergui a sobrancelha sem entender muito bem. O processo de inseminação costuma ser indolor… — Mas… — A doutora Pearse disse que usaria o cateter mais fino que tinha no consultório, mas que poderia ser um pouco desconfortável já que eu sou virgem… Claro, como eu podia ter me esquecido desse pequeno detalhe? Keira Christensen era virgem. E aquele processo de inseminação intrauterino deveria tê-la traumatizado… E agora ela estava mais abatida do que quando recebera a notícia de que não fora aceita como técnica de informática na empresa que ela mais almejava. — Ah, Keikey, eu sinto muito por você ter de passar por isso… — Murmurei botando a mão em sua cabeça. — Já está passando. — Ela meio que fungou e se endireitou para me encarar. — E como foi a visita da assistente? — Perguntou abraçando uma almofada como uma criança. Cocei a nuca um pouco desconfortável, mas contei como fora a visita. Keira não escondeu a diversão sobre o fato de Dorothy ter me chamado de Julia, ela gargalhara até sentir falta de ar. — Oh meu Deus, Lian! — Ela exclamou entre risos. — Eu queria ter estado lá para ver a sua cara! — Gargalhou mais ainda. — Haha. Besta. — Retruquei. — Desculpe, mas foi engraçado. — Ela disse tentando se recompor. — Poderia ter sido engraçado se fosse só a questão do nome. — Eu disse sério e então ela parou de rir e me olhou. Então finalmente compreendeu. — Ah, não… — Foi o que ela soltou com seu melhor tom de ultraje. — Pois é… — Essa Dorothy sei lá o que não pode se atrever…! — Estamos nas mãos dela, Keikey. Não há nada que possamos fazer se ela decidir que nós não somo o casal perfeito para adotar Eva. — Processem ela por homofobia! — Keira praticamente berrou, o rosto ficando avermelhado com a raiva que lhe subia. — Não temos provas, Key. E além disso, pode ser só minha imaginação. — Tentei me convencer daquilo. Keira me encarou com os olhos semicerrados e bufou. Ela sabia que eu não era o tipo


de cara que enxergava preconceito e homofobia em tudo e em todos, e se eu desconfiava de algo, ela sabia que na maior parte das vezes era real. — Se vocês não forem aprovados para Eva, eu vou pessoalmente dar umas na cara dessa Dorothy. — Keira disse cerrando os punhos e com ar de determinação, o que me fez rir. — O quê? — Fiquei imaginando uma mulher grávida aos tapas com uma assistente social, só isso. — Eu ri novamente. — Grávida ou não, ela vai apanhar! — Key disse fazendo sua expressão mais maquiavélica. — Keira, querida. Melhor se acalmar. — Disse fazendo-a se deitar novamente. — Mas eu quero que ela se ferre. — Ela resmungou deixando que eu a deitasse. — Tudo vai se resolver da melhor forma para todos nós. Espero. — Acrescentei no final. Era engraçado o fato de eu ter ido até Keira para desabafar e no final estar defendendo uma ideia nem tão negativa assim. Eu sentia bem lá no fundo que a adoção de Eva não daria certo naquele momento, mas também sentia que algo estava preparado para mim. Só me restava esperar para saber o quê.


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APÍTULO 5

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EIRA

Aquele era o segundo mês, lá estava eu esperando para que meu exame de sangue fosse liberado e torcendo para que um positivo surgisse. Há um mês eu passara por aquela mesma coisa e o resultado da inseminação havia sido negativo. A doutora Pearsen me tranquilizou e dissera que era normal a primeira vez não dar certo na maioria das vezes e que poderíamos tentar mais uma. E lá fui eu passar por todos os procedimentos de hormônios e inseminação. Estava nervosa enquanto esperava. Eu havia prometido a mim mesma de que se daquela vez não desse certo, então eu não devia mais tentar. Simplesmente não era para ser, não é? Por mais que eu desejasse com todas as minhas forças que fosse para ser, eu tinha em minha mente que se as coisas não davam certo de primeira – ou de segunda – era um sinal para que eu parasse. Mas eu queria tanto aquele bebê! Os minutos se passaram arrastados e eu estava acabando com minhas unhas com a ansiedade. A enfermeira enfim chamou meu nome e me entregou o envelope lacrado do exame de sangue que diria se eu realizaria meu sonho ou não. Peguei o resultado das mãos da mulher a agradecendo e então segui para fora do laboratório direto para meu carro. Respirei fundo e depois de me acomodar no banco do motorista, rasguei o lacre do envelope branco e comecei a analisa-lo com atenção. Meus olhos marejaram quando finalmente entendi o que estava descrito ali… Eu não estava grávida. Mais uma vez a inseminação havia dado errado. Encostei minha cabeça no volante por alguns instantes deixando a papelada do exame de lado. Eu queria chorar para o resto da minha vida ali, parecia que tudo o que eu teria em minha família não-convencional seria um cachorro gigante para me fazer companhia. Algumas lágrimas escorreram por meu rosto e eu as sequei tentando não chorar. Calma, Key, calma. Eu dizia para mim mesma inspirando e expirando. Ergui a cabeça do volante e foi aí que percebi que um dos guardas do estacionamento do laboratório me encarava com certa preocupação. Acenei para ele e lhe dei um sorriso meio sem vontade e então me preparei para partir. No meio do percurso eu não consegui conter as lágrimas que foram escorrendo enquanto eu dirigia e tentava não bater nem atropelar ninguém. Chegar em casa e perceber que eu não teria futuramente um filho me esperando com um abraço de boas-vindas simplesmente fez meu mundo desabar. Eu nunca seria mãe. Tranquei a porta e me arrastei até o sofá, me jogando de bruços sobre ele, finalmente me permitindo chorar o quanto queria. Talvez eu tivesse chorado por horas antes de pegar no sono, eu não sabia direito. Só sabia que a tarde já havia passado e a noite estava caindo quando acordei. E levei um susto quando vi Julian sentado em minha poltrona me observando de sobrancelha erguida. — Como você entrou aqui? — Perguntei ainda tonta de sono e com cara amassada e inchada pelo choro.


— Foi a primeira vez que tive que usar a minha cópia da chave nesse apartamento. — Ele respondeu simplesmente. — Mas o que diabos aconteceu com você? — Perguntou se levantando e vindo em minha direção, me analisando. — Eu te liguei de tarde pelo menos umas cinco vezes e você não atendeu. E quando toquei a campainha você também não me atendeu. O que houve? Me sentei no sofá e suspirei. — Deu negativo. — Murmurei simplesmente, sentindo que a tristeza estava novamente prestes a me sufocar. Lian me encarara por alguns segundos sem entender e então abriu a boca sem saber o que dizer. — Ah, minha Keikey… — Ele sentou ao meu lado e me abraçou com força. — Mas você ainda pode continuar tentando, não é? — Perguntou se afastando um pouco para poder me encarar. — Eu não vou continuar, Lian. — Respondi com a voz embargada. — Acho que não é a vontade de Deus que eu tenha a minha família “não-convencional”. — Sorri triste. — Mas você só tentou duas vezes, o começo pode mesmo ser difícil… — Não, Lian. Acabou. Eu nunca vou ser mãe. Preciso começar a aceitar isso. — Keira, você estava tão feliz com essa ideia… — Ele murmurou segurando minhas mãos. — Mas quando não é para ser… — Ah, Keikey… — Julian voltou a me abraçar enquanto eu começava a fungar. — Eu sinto que não terminou ainda. Nem para você e nem para mim. — Ele murmurou afagando meus cabelos. Lian era o único homem que eu permitia uma aproximação como aquela. Foi então que eu parei para analisar o que meu melhor amigo havia dito. Não terminou nem para você e nem para mim. Me afastei de súbito do abraço e o encarei séria. — O que houve? — Perguntei um pouco esquecida da minha dor e mais preocupada com a resposta que eu temia já saber. — O Conselho Tutelar não aprovou o nosso pedido de adoção. — Lian sorriu tristemente. — Mathias está arrasado. Julian falara aquilo com tanta naturalidade que parecia que ele já sabia que a resposta daquele processo de adoção seria tal. — Ah, Lian, eu sinto muito! — Exclamei, daquela vez eu o abracei com força. Nós dois ficamos abraçados por longos minutos, cada um sentindo a própria dor. Eu não sabia o que dizer para ele numa situação como aquela. Julian, assim como eu, desejava desde jovem ser pai, ter uma criança para chamar de sua. E agora ele tinha a chance tirada de seu alcance por – provavelmente – preconceito de pessoas que não encaravam as diferenças como uma coisa boa. Por que o mundo tinha de ser tão injusto?


Funguei e me afastei limpando algumas lágrimas que haviam se acumulado em meus olhos. — Hei, eu realmente sinto que não é o fim para nós, Keira. — Meu melhor amigo disse soando esperançoso e sonhador como costumava fazer quando era mais jovem. — E o que você acha que ainda tem para nós, Lian? — Perguntei com certa amargura. — Eu não sei, mas não acabou. — Ele sorriu com uma confiança que era de assustar. Nós tentamos ficar jogando conversa fora até que Julian dissera que precisava voltar para Mathias que estava desolado no apartamento. Pois é, eu sabia muito bem como ele estava se sentindo…


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APÍTULO 6

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ULIAN

Keira não havia engravidado com sua inseminação artificial e eu e Math não tínhamos conseguido a guarda de Eva. E por mais que as coisas estivessem parecendo realmente ruins, eu sentia bem lá no fundo uma pontinha de esperança. Esperança de conseguir realizar meu sonho de ser pai. Eu não sabia como, mas sabia que em algum momento eu realizaria esse sonho. Estávamos eu, Mathias e Tricia no apartamento de Keira conversando sobre amenidades, ela estivera bastante abalada com o resultado de sua inseminação e nós decidimos fazer-lhe companhia num domingo ensolarado. Math e eu já havíamos nos acostumado com a ideia de não podermos adotar Eva, claro, ainda estávamos um pouco mexidos com isso, mas já não machucava tanto pensar ou falar sobre o assunto. Ao contrário de Keira que parecia estar num eterno luto. — Amiga, eu bem que disse para você tentar do modo tradicional. — Tricia murmurou enquanto comia um pedaço de pão doce. — Tris! — Exclamei a censurando, mas Key deu um pequeno risinho. — É, talvez tivesse dado certo se tivesse sido do modo tradicional… — Ela disse num tom desanimado enquanto brincava com as migalhas de pão à sua frente na mesa em que estávamos todos reunidos. — Mas você vive com essa ideia de não se relacionar com ninguém e tudo mais… — Tricia, isso não é exatamente uma escolha dela… — Eu retruquei. Tris era praticamente uma amiga para mim, eu a conhecia desde que Keira a conhecera, mas nós não frequentávamos o mesmo círculo de amizade e a única coisa que nos conectava era Key. Mas nos dávamos bem quando nos encontrávamos e pelo tempo que se passou, nós dois nos permitíamos algumas intimidades como fazer piadas ou repreender um ao outro. — É claro que é! — Tris exclamou erguendo a sobrancelha. — Não. — Murmurei com paciência. — Não é como se ela tivesse vontade e simplesmente não fizesse. — Comecei. — Ela não tem essa vontade. — Mas todo mundo tem vontade de transar! — Tricia exclamou bastante alto. — Ou pelo menos de beijar e dar uns amassos. — Como dizia mamãe: Eu não sou todo mundo, Tris. — Keira respondeu ainda cabisbaixa, agora brincando com a colher em sua xícara de chá vazia. — E nunca fui. — Dera de ombros. Tricia, Mathias e eu começamos uma longa discussão filosófica sobre sexualidade e sobre como cada um se descobriu como era. — Eu sou a louca da uma noite. — Tris riu de si mesma. — Mas não tô nem aí para o


que os outros podem pensar em dizer sobre mim. — Ela estufou o peito com orgulho. — Eu tenho a liberdade de transar com quem e quantos eu quiser. — Disse. — Meu pai não levou muito bem a história de eu ser gay. — Comentei. — Mas acabou se acostumando. — Os meus conseguiram estragar minha adolescência, mas eu sobrevivi. — Mathias murmurou. Math havia passado por maus bocados quando decidira revelar aos pais que era homossexual. Nem a mãe e o pai dele o apoiaram e passar por um momento assim sem um apoio na adolescência fora extremamente complicado para ele. Havia se envolvido com drogas e com pessoas que não deveria para conseguir uma certa proteção dos bullies do colégio. Estávamos falando sobre besteiras que todo grupo de amigos fala, até mesmo Key estava se divertindo um pouquinho. Foi quando Tricia dera um berro, nos interrompendo. — Amiga, você ficou louca? — Keira perguntou parecendo realmente assustada. — Não. Quer dizer… — Tris parou e seu olhar começara a passear entre mim e Key. — Bom… — Desembucha logo, Tris! — Mathias riu da cara de Tricia. — Bem, eu estava pensando… — Ela começou. — Vocês dois são um casal que quer filhos… — Murmurou olhando para mim e para Math. — E você é uma mulher que quer ter filhos. — Apontou para Keira. — E vocês dois são melhores amigos. — Hmm… — Entoei. — Não sei se estou gostando do rumo desta conversa… — Murmurei encarando Keira, que parecia mais confusa do que qualquer um de nós. — E você é homem. — Tris continuou ignorando meu comentário. — É bem interessante você ter percebido isso, Tricia… — Ergui a sobrancelha. — Por que vocês não têm um filho juntos? — Ela soltou como se fosse a coisa mais normal do mundo. Mathias engasgou com o chá que estava terminando de beber, Keira deixou a colher cair de forma barulhenta dentro da xícara, e eu apenas encarei a melhor amiga de faculdade da minha melhor amiga de infância. — Olha, Tris… — Keira murmurou. — Eu não sei se você sabe, mas vai haver divergência de interesses por aqui. — Ela encarou Mathias sugestivamente. — E você se lembra que eu sou a virgem de 30 anos e o Lian é gay, certo? — Key murmurou lentamente, como se estivesse lidando com uma pessoa completamente maluca. — Ai, gente! Vocês vivem falando de família “não-convencional” e agora tão com essa frescura? — Tricia perguntou. — Meu interesse está em constituir uma família com Mathias, Tris… — Murmurei com cuidado. — Bom, e por que não constituir uma família com Mathias, Keira e um bebê? — Ela questionou como se fosse a coisa mais normal e óbvia do mundo.


Ficamos os três em silêncio intercalando olhares um para o outro. — Tris, nós — Key apontou para mim — não vamos transar. — E quem tá falando em transar? — Tricia revirou os olhos. — É só um dos dois doar o esperma e você fazer a inseminação, oras. Ela esclareceu a ideia e nós voltamos a nos entreolhar. — Não, eu já disse que não vou mais tentar inseminação alguma. — Key retrucou ficando um pouco emburrada. — E nós dois não teríamos capacidade de escolher quem seria o doador… — Eu murmurei pensando seriamente nas condições psicológicas em que Tricia se encontrava. — Duh. — Ela bateu na própria testa. — É óbvio que teria de ser você, Julian. É você o melhor amigo de infância da Key, é você que a conhece melhor do que ninguém e é o confidente dela. Tá mais do que óbvio, né, gente? — Tricia parecia estar perdendo a paciência com a explicação. — E vocês três seriam uma família nada convencional feliz e com bebezinhos. — Concluiu. Nós três continuamos parados tentando processar aquela ideia maluca que Tricia havia dado. — Eu não tenho o que dizer. — Keira ergueu as mãos em rendição. — Nem eu. — Math desviou o olhar. Fiquei calado, remoendo aquilo em minha mente, mas ninguém realmente percebeu ou deu atenção. Mathias e eu fomos embora quando a noite caiu. — Dá pra acreditar na ideia da maluca da Tricia? — Math indagou enquanto adentrávamos nosso apartamento. Fiquei em silêncio por alguns instantes, instantes longos demais para Mathias. — Você está considerando a ideia, não está? Desviei meu olhar do seu tentando achar as palavras certas para um momento tão delicado. — Math, pode ser nossa chance, amor. — Murmurei puxando-o para sentarmos no sofá e conversarmos melhor. — Claro que a guarda seria compartilhada e nos primeiros meses ele ficaria mais com Keira, mas seria nosso também. Mathias baixou o olhar por alguns instantes. — Eu não sei, Lian… — Pode ser a nossa única chance, Math. E quem melhor do que Keira para ser a mãe? Podemos confiar completamente nela e ela completamente em nós! — Exclamei deixando aquela ideia terrível tomar conta de meu ser. — Então vamos desistir de Eva? Aquela pergunta me fez engolir em seco. Por mais que eu tivesse quase superado a


história, Eva ainda mexia comigo. E como não mexeria? Eu havia me encantado com aquela pequenina. — Talvez possamos ter a nossa própria Eva… — Murmurei. Eu sabia que a proposta poderia soar descabida e egoísta da minha parte, mas eu sentia que aquela era a chance que estávamos todos esperando. Mathias poderia se sentir um pouco mal por não ter os genes na criança, mas nossa primeira opção fora a adoção e a criança não teria gene algum de nenhum de nós. Tecnicamente eu seria o pai biológico do bebê, mas aquilo não era importante. Nada mudaria se nós três soubéssemos lidar com a situação. E nós saberíamos! Eu argumentei por vários minutos e expliquei meu ponto de vista para Mathias. — Ok, tudo bem. — Ele murmurou se deixando convencer. — Se você acredita que essa pode ser a nossa chance, então eu estou com você. — Sorriu e eu me animei com a resposta. Abracei-o e então selei nossos lábios com alegria. — Que tal terminarmos a noite com vinho? — Perguntei me levantando. — Com toda a certeza eu aceito. — Ele me respondeu me seguindo para nosso quarto.


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APÍTULO 7

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EIRA

Eu não acredito que estou fazendo isso de novo… Já estava tudo nos conformes, eu estava quase aceitando o fato de que nunca seria mãe quando Tricia veio com a brilhante ideia. E Julian acatou! E me convenceu a aceitar a ideia também! Que tipo de pessoa sou eu? Eu estava me preparando para engravidar artificialmente do meu melhor amigo gay! Eu não podia estar no meu melhor estado mental, simplesmente não podia. Há um mês depois daquela conversa maluca com Tricia, Julian foi ao meu apartamento e eu o atendi como sempre, dando atenção ao meu trabalho ao invés de prestar atenção nele. Até que ele disse: — A ideia de Tris não é tão ruim. Eu estava prestes a tomar um gole de café da minha caneca favorita, mas consegui parar antes de correr o risco de engasgar. — O quê? — Disse em um tom estridente que quase nunca uso. — Você sabe, sobre nós termos um bebê. Fiquei encarando Julian como se ele fosse a maior aberração do mundo. Mas o que diabos ele estava pensando? — Lian, você tá bêbado? — Perguntei chegando mais perto para ver se sentia o cheiro de álcool nele, mas nada. Completamente limpo e com cheirinho de hortelã. — Eu tô falando sério, Key. — Respondeu fechando um pouco a cara. — Math e eu ficamos conversando sobre isso ontem. E essa é a nossa chance! De nós três. Eu não conseguia fazer muita coisa a não ser ficar encarando feito idiota o meu melhor amigo, aquele que me conhecia desde a infância, aquele que foi o primeiro cara que beijei – e foi horrível, devo acrescentar –, aquele que me contou em primeira mão que era gay… Aquele que naquele instante estava pedindo para ter um filho comigo… — Julian, você só pode ter perdido a noção. Você e Mathias! — Exclamei me levantando e finalmente dando um gole em meu café. — A história da adoção deve ter mexido muito com o psicológico de vocês dois. Lian suspirou e coçou a base do nariz, lá vinha uma longa conversa pela frente. — Escute, Keikey. — Ele se levantou também e se aproximou de mim segurando meu braço. — Eu sei que parece loucura… — É loucura! — Shiu, me deixa falar. Fique calada. — Ele pousou o indicador sobre meus lábios e depois de perceber que eu não calaria a boca de forma tão fácil, Lian tapou minha boca


toda com a palma de uma das mãos. — Eu sei que parece loucura, mas é o nosso sonho desde muito tempo sermos pais. Eu não poderia ser pai biológico de uma criança por ser gay e, Deus me livre, nunca arrumaria uma barriga de aluguel para isso; e você não poderia ser mãe de forma convencional sendo… Você. — Ele dera de ombros ao dizer “você”. — Então aqui estamos nós, querendo realizar nossos sonhos. Por que não? Lian finalmente me soltou e liberou minha boca para que eu pudesse falar. — Porque isso não faz o menor sentido! — Exclamei. — E como seria com Mathias? Ele estaria fora dessa equação. — Apontei. — Não se nós compartilhássemos a guarda da criança. — Julian, um bebê não é brinquedo. Não é algo que se pode levar e trazer como bem entender e a hora que quiser! — Rebati. — Escute, nós faríamos a criança se acostumar a isso. — Julian argumentou. — Eu sei que posso confiar em você enquanto estiver com o bebê e você sabe que pode confiar em mim e em Mathias quando nós estivermos com ele. Parei e me voltei para encarar Julian. Ele estava mesmo disposto a seguir com aquela ideia maluca, já tinha pensado em todos os argumentos e todos os tipos de coisas para resolver problemas que nem tinham acontecido ainda. — Lian, eu realmente não acho que seja a melhor ideia… — Então vamos fazer o seguinte. — Ele apontou para mim como fazia quando tinha alguma ideia brilhante, ou achava que tinha. — Nós tentaremos só essa vez. Se a inseminação não der certo, então eu aceito, é o fim para nós dois. Eu o encarei novamente sentindo um nó na garganta. Não estava preparada para ouvir um “É o fim para nós”. Fiquei sem muito o que dizer. — Mas e se der certo? — Foi a única coisa que consegui proferir. — Se der certo então é porque era para ser assim. — Julian pegou minhas mãos e me encarou profundamente nos olhos. — E quem melhor do que eu e você e Mathias para amar essa criança? Nós nos amamos. Eu ia argumentar que não amava Mathias – não desse jeito – e que aquilo poderia dar uma bela encrenca futuramente, mas Julian já estava me abraçando e rodopiando comigo no ar como se minha resposta já fosse um sim… E realmente foi. E agora aqui estou eu, deitada na mesa de exames da doutora Pearsen que havia acabado de fazer um ultrassom para avaliar meu óvulo e folículos, eu estava prestes a ovular, segundo ela. — É a vez de seu parceiro entrar em ação. — A doutora exclamou com diversão pegando um potinho de coleta e uma revista para entregar a Julian, que naquele momento estava me acompanhando na consulta. — Sophia, ele não é… — Aqui está, o banheiro fica no fim do corredor, sabe o que fazer, não é garotão? —


Disse Sophia me ignorando completamente. Lian pegou o potinho de coleta e rindo soltou um “Pode apostar” antes de sair da sala de exames. Eu realmente não queria ser Julian naquele momento. ECA! Depois de vários minutos, Lian voltou com o potinho em mãos e entregou para a doutora Pearsen que o pegou alegremente. — Agora vou levar isso ao laboratório para fazermos a seleção dos campeões e volto logo! Sophia parecia especialmente alegre naquele dia. Talvez porque pensasse que Lian era meu namorado-futuro-marido e que eu não morreria uma mulher solteira e solitária sem um companheiro para o resto da minha vida. Pobre doutora Pearsen, mal sabia ela que o que estávamos realmente fazendo era uma coisa terrível. — E então, como está se sentindo? — Lian perguntou chegando mais perto de mim e fazendo menção de segurar minha mão. — Você lavou as mãos? — Perguntei fazendo careta de nojo. — Ora, que é isso, Key! — Julian gargalhou. — É óbvio que lavei. E ainda usei álcool gel depois disso. — Disse mostrando as palmas das mãos limpinhas. — Como é que vocês conseguem fazer isso? — Perguntei mais de forma retórica do que para realmente receber uma resposta. — Oras, é bem simples, você só precisa pensar em coisas que… — Lian, Lian… — Chamei sua atenção. — Eu não quero saber. Ele fez um positivo e se calou sentando-se ao meu lado. Ficamos ali esperando a doutora Pearsen voltar do laboratório, vez ou outra começávamos a falar de qualquer bobagem para passar o tempo, então, Sophia voltara com um largo sorriso nos lábios. — Você tem espécimes fabulosos, senhor Deasey. Tem sorte, Keira. — A doutora disse indo até seu balcão de apetrechos. Lian lançou-me um olhar insinuador, o que me fez dar um belo tapa em seu braço. — Bem, está na hora de começar. — Sophia murmurou segurando o terrível cateter e vindo em minha direção. — Eu sei que das outras vezes foi desconfortável, mas dessa vez você tem companhia, não é mesmo? — Ela encarou Lian sugestivamente. — Ah, claro. — Ele exclamou. — Quer que eu segure a sua mão? — Perguntou baixinho. — Sai pra lá. — Retruquei, mas ele riu e mesmo assim segurou minha mão. — Ok, vamos lá, vou introduzir o cateter agora… — A doutora disse e no mesmo instante eu senti o conhecido desconforto. Apertei a mão de Julian que afagou meus cabelos com carinho, tentando me fazer relaxar.


Caramba! Se um cateter fino daquele jeito incomodava tanto, eu mal podia imaginar o que diabos aconteceria se fosse outra coisa ali. — Certo, certo, estou quase lá… — Sophia ia dizendo. — Querida, isso pode doer um pouco, mas terei de dar uma pequena pinçada para enxergar melhor seu útero. — Ela explicou e eu senti meu sangue todo gelar. — Calma, Keikey, eu estou aqui. Respira. — Julian disse apertando um pouco mais minha mão. A pequena “pinçada” da doutora Pearsen me fez retrair totalmente meu corpo. — Pronto, pronto. — Ela disse tentando me deixar calma. — Agora é só inserir os safadinhos e… — Ela retirou o cateter de dentro da minha vagina e sorriu. — Prontinho! Agora é só deixar os danadinhos fazerem a festa! Ah, mas você precisa ficar nesta posição por meia hora, não se esqueça. — Advertiu. Ótimo, eu estava com as pernas arreganhadas e em cima do suporte para exames, com apenas um avental médico me cobrindo… Com melhor amigo ao meu lado. Era a cena mais esquisita que eu já havia protagonizado em toda a minha vida. Tirando, talvez, o dia em que meu primeiro e único namorado tentou transar comigo e eu o fiz parar muito antes de ele começar a diversão. — Você está se sentindo bem, Key? — Lian perguntou todo atencioso. — Estou ótima. — Respondi um pouco rabugenta. — Quem mais pode falar que perdeu a virgindade com uma médica e um cateter? — Ri irônica. — Você é que teve a ideia de inseminação antes mesmo de ter a primeira vez, então não reclame. — Julian retrucou e eu acabei rindo. — Acha que vai dar certo? — Perguntei um pouco apreensiva e dividida. Por um lado eu queria que desse certo. Por outro eu torcia para dar errado. Claro que eu queria ser mãe, mas Julian e Mathias não estavam na equação inicial. Eu sei, estava sendo egoísta, mas aquilo ficava mais estranho do que eu ser mãe solteira por inseminação artificial. Agora se tudo desse certo, eu seria uma mãe solteira por inseminação artificial com os espermatozoides do meu melhor amigo gay. Deus, no que eu estava pensando quando aceitei isso?


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APÍTULO 8

P J OR

ULIAN

Os dias estavam se arrastando para mim. Agora quem estava ansioso e preocupado não era Mathias, era eu. Fazia pouco mais de quinze dias que Keira havia feito a inseminação e eu estava louco para saber se o resultado seria positivo ou negativo. Agora eu podia imaginar o quanto Keira sofrera durante os dois primeiros tratamentos. Era desgastante a ansiedade que eu sentia. Acordava pensando nisso, trabalhava pensando nisso, dormia pensando nisso… Eu só conseguia pensar se Keira estava grávida ou não. Mathias reclamava um pouco às vezes pela minha atenção estar tão voltada para essa história, mas eu sabia que ele entendia que aquela era nossa última chance de constituir uma família, mesmo que de início a soma não incluísse uma mulher em nossas vidas que não fosse nossa pequena Eva. Mas nós teríamos de nos acostumar com a ideia de que Key faria parte constantemente de nosso novo futuro dia-a-dia. Eu estava um pouco distraído durante o trabalho só pensando na gravidez, admito. Nem mesmo as gracinhas que as crianças faziam em meu consultório me tiravam o foco daquilo. — Doutor, o senhor parece um pouco distante hoje, aconteceu alguma coisa? — Uma das enfermeiras do hospital comunitário perguntou. — Não é nada… — Respondi abanando o ar. — Puxa, que nada mais preocupante. Eu ri de sua tentativa de extrair alguma coisa de mim, mas eu não diria coisa alguma enquanto não tivesse a certeza de que eu poderia realizar finalmente meu sonho. A pequena Eva, minha paciente, estava de volta no hospital, daquela vez para tomar vacinas. Enquanto preparava a seringa, fiquei imaginando como seria quando fosse meu filho. Meu, de Keira e Mathias. Como seria o primeiro choro? O primeiro banho? A primeira palavra? Eva fora uma garotinha corajosa e não derramara sequer uma lágrima pela picada da agulha, ganhando um pirulito como recompensa, o que a fez abrir o sorriso mais radiante do mundo. Aquilo fizera meu dia… Por algumas horas. Logo eu já me sentia aflito pensando em Keira novamente. Quem me visse ou soubesse que eu pensava em Key tantas horas ao dia desconfiaria de minha opção sexual. Ainda haviam enfermeiras no hospital comunitário que não sabiam que eu era gay e era uma coisa estranha e divertida vê-las tentando chamar minha atenção, mesmo vendo minha aliança de noivado. Eu não saía por aí contando para todos que conhecia que eu era gay, não importava na maioria das circunstâncias. Quando meu expediente terminou, fui direto para o apartamento de Key para ver como ela estava. — Tirando a parte em que me sinto sufocada de tanta atenção de sua parte, estou ótima. — Respondeu encarando a tela de seu computador. Certo, eu vinha visitando Keira todos os dias para saber como ela estava e se estava se cuidando bem, mas era culpa da ansiedade!


— Você não está nem um pouco ansiosa para saber o resultado? — Questionei pegando uma caneta e uma folha em cima da escrivaninha para rabiscar. — Estou, mas já passei por isso duas vezes, estou começando a me acostumar… — Dera de ombros. — Mathias não está ficando magoado com tanta atenção voltada para mim? — Perguntou finalmente me encarando. De fato, Math não estava lá muito feliz com minhas constantes visitas à Keira, mas eu estava mais do que ansioso e precisava saber das coisas, fazer alguma coisa enquanto esperava o grande dia do exame. — Ele vai superar. — Não sei não. — Key retrucou. — Não sei como funcionam as coisas entre vocês, mas eu morreria de ciúmes se meu noivo estivesse dando mais atenção para outra pessoa do que a mim. — Ela disse erguendo a sobrancelha. — Não quero ser alvo da fúria de alguém enciumado. — Mathias está ótimo. — Rebati. — E além disso, por que motivos ele teria ciúmes de mim com você? — Retruquei. — Eu sou gay e você assexuada, onde isso resultaria em ciúmes? Keira revirou os olhos. Ok, talvez Math estivesse mesmo com um pouquinho de ciúmes, mas não exatamente de Keira, e sim do tempo que passo com ela. Mas até ali estávamos lidando muito bem com a situação sentando e conversando sobre nossos sentimentos. Era assim que funcionava nosso relacionamento, desabafos e discussões para achar soluções para os pequenos problemas do dia-a-dia. — Acho que você deveria passar mais tempo com Mathias, Lian. Acho que ele pode ficar carente de companhia e você sabe o que acontece quando alguém fica carente de companhia. — Math nunca faria algo assim. — Pontuei. — Nunca se sabe. — Keira dera de ombros. Traição, era disso que ela estava falando. Mathias nunca me trairia, nós éramos completamente felizes e a chegada de um bebê apenas traria ainda mais felicidade para nós dois. — Pare de dizer besteiras. — Retorqui. — Já comeu o seu lanche da tarde? — Lian, são quase sete horas, deveria estar preocupado com a minha janta. — Ela disse revirando os olhos para mim. — Você comeu hoje? — Ah, devo ter beliscado alguma coisa enquanto trabalhava nessa programação. Eu suspirei derrotado. Keira não estava se cuidando como uma futura mãe deveria. — Julian, eu nem estou grávida! — Ainda. — Pontuei e ela bufou. — Pois é. Será que podemos deixar para nos preocuparmos com minha saúde de


grávida quando tivermos certeza de que estou grávida? Keira andava de mau humor havia alguns dias. Talvez significasse alguma coisa. A gravidez mexia com os hormônios, afinal. — Tudo bem, tudo bem. — Me dei por vencido. — Você está certa, eu não vou ficar te enchendo nos próximos quinze dias. — Vai tomar vinho com o Mathias, Lian. — Ela retorquiu abanando a mão em direção à porta, me enxotando. — Preciso terminar esse projeto ainda hoje. — Você deveria colocar um limite de horas no seu… — Parei de falar, já que a expressão de Keira não era nada amigável. — Tudo bem, já estou indo… — Disse indo em direção à porta. — Apenas pare de pensar sobre o assunto e o tempo vai passar num piscar de olhos! — Ouvi-a dizer antes de fechar a porta às minhas costas. Como se isso fosse fácil! Eu sei que eu andava um tanto paranoico com tudo isso, mas a chance foi jogada na minha cara e eu não iria cometer - ou deixar que Keira cometesse - nenhum deslize que me colocasse cada vez mais distante de nosso sonho. Abri a porta de meu apartamento. — Math, cheguei. — Exclamei. — Estava na Keira de novo? — Mathias perguntou sentado no sofá encarando a TV que passava o noticiário. — Você sabe o quanto Key é meio irresponsável com a saúde dela. — Respondi indo me sentar ao seu lado. — Julian, você não pode ser responsável pela vida de alguém ou de como ela cuida da saúde. — Math retorquiu me encarando seriamente. Eu me virei em sua direção e ergui a sobrancelha. — Está com ciúmes? — Perguntei quase incrédulo. Mathias desviou o olhar e eu não consegui segurar um pequeno riso. — Math, amor, você não tem por que sentir ciúmes! — Eu sei, mas você passa mais tempo com Keira do que comigo agora. — Ele fez uma expressão ressentida. — Mathias… — Cheguei mais perto e acariciei seu rosto tentando fazê-lo olhar para mim. — Eu te amo e você sabe disso. — Murmurei erguendo seu rosto para que me encarasse. Ele permaneceu sério e eu o beijei tentando amolecer seu mau humor. — Que tal um vinho? — Perguntei sorrindo depois de nos separarmos. — Acho que hoje não, Lian… — Ele respondeu se levantando sem ânimo. — Vou preparar o jantar. Dizendo aquilo ele se afastou caminhando em direção à cozinha. Que ótimo, eu tinha


as duas pessoas que eu mais amava no mundo de mau humor. E Mathias nunca recusava um bom vinho.


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APÍTULO 9

P K OR

EIRA

Era chegado o grande dia, o dia do exame de sangue que me diria se eu estava grávida ou não. Aquele sentimentozinho estranho ainda estava em meu ser, eu não sabia se eu realmente queria que o exame desse positivo. Não que eu não quisesse ser mãe, é claro que eu queria! Era meu sonho desde… Bem, eu não lembro desde quando, mas já fazia muito tempo. É só que um homem não estava incluso na equação e muito menos dois. Julian não estava incluso na equação inicial e muito menos Mathias. E agora os dois estavam ali, comigo, esperando o resultado de um exame de gravidez. Mathias parecia estar num misto de ansiedade e ressentimento, já Julian parecia completamente fora de si de tão empolgado, ele já estava dando como certo o positivo, e eu… Bem, eu estava receosa com o meu próprio futuro. Eu não tinha ideia do que seria de mim se aquele exame desse positivo. Quero dizer, lidar com Lian seria fácil, eu já lidava com ele desde sempre, mas meu verdadeiro receio era Mathias. Julian não queria dizer com todas as letras, mas eu sabia – e sabia que ele sabia que eu sabia – que os dois estavam tendo algumas discussões no último mês por conta da decisão de Lian de ter um filho comigo. E nem vamos comentar o quão estranho soou essa última frase. Mathias era ciumento e eu entendo perfeitamente o lado dele. Ele era a sobra da equação. Eu não queria pensar desse jeito, mas era a cruel realidade. Julian e eu tínhamos uma conexão desde muito pequenos, uma conexão que só se fortaleceu a cada ano passado, mas o que eu tinha com Mathias além da conexão que ele tinha com Lian? Nada. Não que eu não gostasse de Math, mas eu só o conhecia havia cinco anos e ele não era muito do tipo que gostava de conversar e sair contando sobre seu passado para qualquer um. A conexão dele era com Lian e não comigo. E aquele bebê – se é que eu estava grávida – era só mais um ponto para fortificar o que eu e Lian tínhamos. Mathias estava tentando lidar com aquilo tudo da melhor forma possível, mas eu sabia, sentia que ele estava quase chegando no limite. Eu não estava na equação da vida que Math estivera planejando com Lian. E nem ele e nem Lian estavam na minha. Nós tínhamos um grande problema prestes a explodir por conta de um mísero envelope. — Senhora Keira Christensen? — A atendente chamou e eu prontamente me levantei. — Aqui está seu exame. — Sorriu me entregando o pequeno envelope branco. — Obrigada. — Sorri um pouco amarelo por estar nervosa. Voltei caminhando e respirando fundo, o peso daquele envelope parecendo o de uma bigorna gigante. Julian pulou de seu assento e correu em minha direção. — E então? — Perguntou empolgado. — Calma, querido, ela acabou de receber o envelope… — Mathias chegou um pouco depois, fazendo Lian aquietar-se um pouco. Eu parei onde estava e com certa relutância peguei o envelope e o abri. Fiquei em


silêncio por vários segundos até absorver a notícia… Positivo. — Keira? — Deu positivo. — Consegui murmurar. Julian deu um berro de alegria fazendo vários olhares se voltarem para nós. — Nós vamos ter um bebê! — Ele exclamou tentando conter o grito. Havia uma alma radiante e duas confusas naquele momento. Chegamos até nosso edifício e Julian fez questão de me acompanhar até meu apartamento. — Nós três teremos um bebê! — Ele cantarolava a cada cinco minutos e eu ainda estava pensando se comemorava junto ou o mandava calar a boca de vez. Mathias decidiu subir para seu apartamento dizendo que estava cansado e precisava rever alguns processos ainda naquele dia e desapareceu. — Sério, Lian. — Eu disse quando ele foi ajeitar o sofá para que eu me sentasse. — Eu não preciso de todo esse cuidado. Não vou quebrar só de sentar em um sofá. — Reclamei. — E você sabe que eu odeio ficar encostada em almofadas. — Agora que sabemos que você está grávida, precisamos tomar o máximo de cuidado para manter o embrião seguro e saudável. — Explicou. — Você precisa se alimentar o melhor possível, nada de besteiras. Ah, e nada de refrigerantes, dá cólica no bebê. Julian parecia praticamente quem estava grávido ali. Todo preocupado e revirando minha geladeira pegando todos os alimentos que ele julgava não saudáveis e enfiando em uma sacola. — Lian, pelo amor de Deus! — Exclamei quase puxando meus cabelos com desespero. — A única coisa que eu realmente preciso agora é de descanso. Só isso. — Claro, vou fazer um chá para você… — Lian, sai da minha casa. — Retruquei me levantando e apontando para a porta. — Mas, Keikey! — Não, sai. — Fui até ele e o arrastei pelo braço em direção à porta. — Vá dar sua atenção a Mathias. Ele precisa mais do que eu. — Keira! — Mas eu o empurrei para fora e fechei o trinco. Julian ficara alguns instantes resmungando e dizendo que ele também era parte daquela gravidez, mas logo desistiu e fora embora. E então eu finalmente pude respirar um pouco e refletir. Eu teria um bebê. Eu finalmente teria meu bebê. Embora agora eu tivesse que dividi-lo com mais duas pessoas, ainda assim era o meu bebê. Me peguei acariciando minha barriga sem perceber. Não havia diferença alguma ali, mas agora que eu sabia que havia uma vida se formando em


meu ventre, senti aquele instinto materno voltar com tudo dentro de mim. Eu me vi sorrindo, quase gargalhando de alegria. — Meu pequeno futuro bebê… — Murmurei olhando para minha barriga como se o embrião realmente pudesse me ouvir ou sentir. — Eu vou ser a melhor mãe do mundo para você, meu amor… — Sussurrei e depois me senti completamente idiota falando sozinha com minha barriga que sequer tinha uma protuberância que indicasse gravidez. Eu precisava contar a novidade para alguém. Normalmente esse alguém seria Julian, mas ele já sabia e já estava se intrometendo demais, então decidi ligar para Tricia. Ela berrou e gritou com muita empolgação quando contei a boa nova. — Caramba, não é a coisa mais estranha estar grávida do seu melhor amigo? — Ela exclamou toda espontânea e eu tive que rir daquilo. — E sem sexo… — Soltei, de alguma forma eu estava com o humor melhor. — O que é mais estranho ainda… — Ela disse. — Mas me conta, o que o Julian e o Mathias disseram? — Ah, bom… — Comecei a enrolar um pouco. — Lian está radiante, acho que nunca o vi desse jeito antes… — E o Mathias…? — Bom, você sabe… Está sendo difícil para ele… — Difícil? Difícil como? Você vai ter um bebê, Lian vai ter um bebê e consequentemente Math também vai ter um bebê. — Ela exclamou como se aquilo fosse a coisa mais fácil de se assimilar. — Tris, o filho tecnicamente é meu e de Lian, Mathias não tem nenhuma ligação genética com a criança. — Murmurei devagar. — E qual a complicação nisso? Eles iam adotar uma criança que não tinha ligação genética com nenhum dos dois, qual é! — Tris, amiga, aí é que está. — Murmurei querendo saber como a conversa alegre da novidade do meu bebê havia virado uma conversa séria comigo tentando explicar o ponto de vista de Math. — Quando os dois decidiram adotar Eva, nenhum deles tinha ligação genética com ela, então não haveria “briga” ou ciúmes. Mas agora, Lian é o pai biológico do meu bebê e Mathias é o único excluído nisso. Tricia ficara em silêncio por alguns segundos até que soltou um palavrão. — Cara, achei que Mathias ficaria feliz pela felicidade do Lian… — Tris murmurou completamente desapontada. — Amiga, às vezes é difícil amar… — Murmurei. — Mas vai tudo dar certo, não é? Quando o bebê nascer todos ficarão felizes, inclusive eu! — Ela exclamou voltando a ficar animada. — Aliás, já sabe que eu é que vou preparar o chá de bebê, né? Já que eu não tive a oportunidade de fazer a despedida de solteira… — Eu podia apostar que ela revirava os olhos.


— Ainda temos nove longos meses pela frente, Tris… Longos…


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APÍTULO 10

P J OR

ULIAN

Uma semana havia se passado desde que recebemos a notícia da gravidez. Eu não poderia estar mais radiante, e Math não poderia estar mais infeliz por algum motivo. Eu tentava sentar e conversar com ele, mas ele não parecia disposto a se pronunciar a respeito. Talvez eu estivesse tão particularmente feliz que tivesse esquecido da minha felicidade compartilhada. Mas por mais que eu insistisse em saber qual era o motivo dele estar tão chateado, Mathias simplesmente me dava respostas vagas e fugia do assunto. — Math, amor, vamos conversar, por favor… — Eu murmurei sentando no sofá, esperando que ele me ouvisse. — O que quer, Lian? — Ele perguntou secamente, o que era de se entranhar. Muito. — O que é que está havendo? — Perguntei me levantando e indo em sua direção. — Qual o problema? — O problema é exatamente você não saber o que há de errado, Julian! — Ele exclamou parecendo irritado e magoado ao mesmo tempo. — Como é que eu vou saber o que está errado se nós não conversamos? — Você simplesmente devia ao menos desconfiar. — Math retrucou pegando sua jaqueta que estava em cima da poltrona. — Onde você vai? — Por aí… Fiquei encarando-o sair pela porta e depois fiquei encarando a porta por vários instantes. Aquilo não era do feitio de Mathias. Decidi ir até Keira para conversarmos, talvez ela pudesse me dar alguma luz. Bati na porta e ela atendeu rapidamente com cara de sono. — Ai, graças a Deus alguém pra conversar! — Ela exclamou com certo tom de alívio. — Eu estou morrendo de sono o dia todo. — Reclamou indo se sentar no sofá onde mexia em seu notebook. — Mathias saiu de casa dizendo que ia “por aí”. — Bufei me sentando ao seu lado. — Uh, nada bom. — Ela voltou sua atenção para a tela do notebook, nossas conversas geralmente eram assim, ela quase nunca olhava enquanto eu falava, mas aquele assunto era importante. Peguei o aparelho de seu colo e o fechei, afastando-o de Keira. — HEI! Eu não tinha salvado nada desse projeto! — Choramingou. — Desculpe, mas seu melhor amigo aqui está precisando de atenção. — Resmunguei. Senti um pouco de pena ao pensar em todo o trabalho provavelmente perdido dela. — Credo, Julian… Eu é que sou a solteira grávida e você é que tá na carência? — Ela riu. Incrível como os hormônios de uma grávida podiam interferir tão facilmente em seu humor.


— Mathias anda chateado com alguma coisa, mas não quer me dizer o que há de errado. — Muito provavelmente porque ele esperava que você soubesse do que se trata… — Ela ergueu a sobrancelha como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Foi isso que ele disse! — Retruquei me sentindo com a mente tão masculina quanto nunca. — Lian, você está tão ensandecido com toda essa história de ser pai que deve ter deixado passar alguma coisa. — Keira disse simplesmente. O que eu havia deixado passar? O aniversário dele? Não, ele fazia aniversário no começo do ano e já havíamos comemorado, e como. Também não fora o aniversário de namoro, eu ainda me lembrava da comemoração daquele ano. Então, o quê? — Julian, pelo amor de Deus, é mais do que óbvio que ele está chateado com a minha gravidez. — Key exclamou um pouco impaciente. Parei de pensar e encarei minha melhor amiga. Não fazia o menor sentido! — Não, Keikey. Antes de tomarmos essa decisão nós conversamos e ele aceitou. — Eu disse convicto. — Mas depois que as coisas aconteceram, talvez ele tenha mudado de ideia. — Mudado de ideia? — Exclamei incrédulo. — Desistido do nosso sonho de ter uma família? — Perguntei. — Talvez o sonho dele não incluísse a mim e um filho comigo, Lian. — Ela disse com cara de tédio. — E o que… — Julian, essa criança terá o nosso DNA, meu e seu, nada de Mathias. Acha que ele não ia se importar com isso? Parei para pensar um momento mais. Sim, o bebê só teria o meu código genético – e o de Keira –, mas eu nunca pensei que Mathias poderia se incomodar com algo assim. Seria nosso filho de qualquer forma. Seríamos a família mais linda, feliz e incomum do mundo! — Acha que é mesmo isso? — Perguntei ficando um pouco chateado. Keira suspirou profundamente me olhando com paciência. — Lian, se fosse comigo, eu ficaria muito magoada com algo assim. — Disse. — Por quê? — Porque meu noivo estaria tendo um filho com a melhor amiga dele! — Exclamou. — Porque os dois teriam uma ligação que ele jamais teria comigo. Engoli em seco, eu não havia pensado pelo ponto de vista de uma das pessoas mais importantes da minha vida. Havia sido egoísta e esquecido que aquela era uma decisão a ser tomada a dois, por um casal. Eu havia decidido sozinho e convencido tanto Math quanto Key a aceitarem o que eu propunha.


— Eu sinto muito. — Murmurei para Keira que me olhou surpresa. — Sente muito por… — Por não ter pensado em vocês dois, em você. — Não se preocupe comigo. — Key abanou o ar sem dar muita importância. — Não é uma maravilha o que os hormônios de uma grávida fazem com seu instinto maternal? — Ela cantarolou. — Mas admito que fiquei bastante puta no início disso tudo. Quer dizer, ter um filho do meu melhor amigo gay? Que ideia de jerico era aquela? Me senti ainda mais culpado e idiota com aquela afirmação. — Mas então percebi que era a melhor ideia que poderia ter surgido. Você seria o amor da minha vida se não fosse gay e eu pudesse sentir alguma atração por você… — Keira disse como se comentasse o tempo. — Mas é ainda melhor do que isso, porque você é um dos amores da minha vida, me entende melhor do que ninguém, sempre me apoiou, sempre esteve comigo… Somos praticamente um casal. Mas um casal de melhores amigos. — Keikey, amor… Você está precisando descansar… — Murmurei estranhando toda aquela “declaração de amor”. — Eu só estou feliz, Lian. Por poder realizar o sonho da minha vida com alguém mais que perfeito para isso. Senti minha garganta secar. Eu e ela estávamos realizando nosso maior sonho, e eu havia excluído meu parceiro, o amor da minha vida, meu noivo, disso. Eu devia belas desculpas a Math. Me levantei e fui caminhando em direção à porta sem dizer mais nada. — Já acabamos? — Keira perguntou erguendo a sobrancelha para mim. — Preciso falar com Math. — É, precisa mesmo. — Obrigada, Keikey. — Obrigada, nada. Você vai me pagar pelas horas que perdi fazendo a programação que você fechou sem me deixar salvar! — Ouvi ela gritar de dentro do apartamento, eu já estava de saída. Subi para meu apartamento e percebi que Math não havia voltado. Decidi fazer um jantar especial para ele naquela noite. Eu era péssimo na cozinha, mas todos conseguem cozinhar seguindo receitas, certo? Preparei risoto de cogumelos, o prato favorito de Mathias e servi vinho do porto em duas taças. Fiquei esperando por ele durante horas, mas ele não voltou no horário de costume, era quinze para as nove quando ele abriu a porta e jogou o casaco em cima da poltrona. — Onde estava? — Perguntei me levantando. — Andando. — Respondeu se jogando no sofá.


— Andando durante cinco horas? — Julian, eu precisava espairecer. — Ele bufou. — Fiz o jantar e fiquei te esperando! — Não estou com fome, comi um lanche na rua. Eu respirei fundo me lembrando de que quem devia desculpas naquele momento era eu. Me levantei e fui até seu lado no sofá. — Math, vamos conversar. Ele se afastou para que eu pudesse me sentar. — Eu sei que te excluí da maior decisão de nossas vidas e peço desculpas por isso, eu estava cego de empolgação e acabei atropelando a sua opinião. A opinião do meu futuro marido. — Murmurei pegando suas mãos. — Ah, agora você se lembra de que somos noivos, Julian? — Ele resmungou afastando minhas mãos. — Porque no último mês parecia mais que você estava noivo de Keira. Fiquei encarando Math por longos instantes processando a última frase proferida. — Você está com ciúmes de Keira? — Perguntei boquiaberto. — Eu não sei, vocês decidiram ter um filho juntos, vivem grudados mais do que o normal… — Ele resmungou de forma insinuadora. — Mathias, você sabe que eu amo você. — Eu disse seriamente. — Keira e eu temos uma conexão diferente… — Bom, talvez essa conexão diferente na verdade esteja se tornando alguma outra coisa. Eu ri exasperado. Não podia acreditar que estava ouvindo aquilo do homem que era meu noivo e havia ficado comigo por mais de cinco anos. — Mathias, nós estamos noivos, pelo amor de Deus, você sabe melhor do que ninguém de que sou gay. Eu não sinto absolutamente nada diferente de amizade por Keira! — Desculpe, Julian, mas eu nunca pude ser capaz de compreender a amizade de vocês. — Ele disse se levantando. — E agora compreendo menos ainda. — Math! — Eu estou cansado, Julian. Foi um longo dia e estou com uma dor de cabeça terrível, se não se incomodar, vou para a cama. Eu queria dizer que sim, eu me incomodava, mas acabei parado feito idiota encarando-o caminhar para o nosso quarto. Bufei e berrei com a cara enfiada em uma almofada. Como foi que as coisas ficaram daquela maneira? Fiquei horas na sala vendo qualquer coisa que passasse na TV. Esperei que Mathias pegasse no sono para poder ir para a cama também, tirei minha roupa e coloquei uma


calça moletom que geralmente servia de pijamas, deitei ao lado de Math – que estava de costas para mim – e o abracei querendo mantê-lo o mais perto possível de mim. No dia seguinte acordei sozinho e atrasado para o trabalho.


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APÍTULO 11

P K OR

EIRA

Lian estava completamente preocupado com o rumo que sua vida amorosa estava tomando. Mathias parecia cada dia mais distante e querendo menos conversa, o que levava Julian a se aproximar cada vez mais de minha companhia. Eu detestava vê-lo daquele jeito. Quero dizer, Lian tivera vários namoros frustrados com base apenas em sexo – ECA! – e isso o estava deixando completamente insatisfeito. Até encontrar Mathias. O cara mais velho, sério e centrado que queria um relacionamento à sua altura. E Julian provara que era digno de sua atenção, eles ficaram juntos por quase cinco anos e agora estavam noivos há seis meses. Eram o casal mais perfeito o mundo e agora… Agora mal se falavam direito. E eu me sentia culpada por parte disso. Antes de eu concordar em tentar a inseminação com Julian as coisas iam perfeitamente bem. Agora eu tinha um melhor amigo choramingando pelos cantos da minha casa por conta de um noivo frustrado. Eu já havia dito que entendia perfeitamente o ponto de vista de Mathias, não poderia existir uma família biológica de três. Não pelo menos nessa família. O desejo de Mathias era poder compartilhar com Julian a felicidade de ter uma criança, mas me incluir no meio não fazia parte do plano e muito menos sentido. Julian jurava que insistia em conversar com Math, tentar explicar as coisas, tentar entender o lado dele, tentar arranjar uma solução. Mas a menos que eu perca esse bebê, não vejo uma solução à vista, por mais que digamos que nós três seremos os pais, a paternidade é de Lian. E para ser sincera, eu não queria perder o bebê. Eu estava realizando meu sonho. Massacrando o sonho de outra pessoa, mas realizando o meu sonho. E ainda sou do pensamento de que se até aquele momento havia dado certo, então eu podia seguir adiante com aquela loucura, porque era para ser. Eu esperava que as coisas melhorassem para Lian. Não estava lá muito preocupada com Mathias, ele não ia muito com a minha cara por causa da minha aproximação com seu noivo, o que tecnicamente era uma questão idiota, já que Lian era completamente gay e eu completamente assexuada, não havia motivo para ciúmes e muito menos para “perigo”. Os meses se passaram e eu finalmente completei três meses, era hora de fazer o nosso primeiro ultrassom. Não dava para perceber muito a minha barriga, quem me encontrasse e não soubesse do assunto apenas pensaria “Nossa, como ela engordou”, mas quem realmente estava ligando? Julian quase saltitava de empolgação naquele dia, Math apenas dissera que tinha uma audiência para acompanhar e saíra de casa. — Mas é importante o primeiro ultrassom do nosso bebê. — Murmurei tentando fazê-lo entender que aquela criança também seria dele. Mas tudo o que recebi em resposta foi um sorriso irônico e uma porta fechada. Lian ficara irritado com a atitude. Na verdade ele andava irritado com qualquer atitude hostil dirigida a mim, parecia mesmo que ele era meu marido… Ah, Julian, por que você não se ajuda, seu paspalhão?


Decidimos – Lian decidiu – ir no carro dele, já que eu estava grávida, não deveria passar pelo estresse do trânsito. Julian dirigiu muito cuidadosamente como sempre dirigia, mas xingava a cada fechada ou falta de seta dos outros motoristas. Caramba, quem estava sofrendo mudanças no corpo e nos hormônios mesmo? Sei lá, talvez Lian estivesse com aquele tipo de gravidez imaginária que alguns maridos tinham quando as esposas ficavam grávidas. Tirando a parte do esposa nessa nossa história, claro. Chegamos à clínica e a doutora Pearsen em minutos nos atendeu. — E então, papai, está pronto para ver a primeira imagem de seu filho? — Sophia perguntou completamente empolgada. Eu queria pontuar mais uma vez de que Lian não era meu marido, mas deixei quieto, afinal, ele era mesmo o pai da criança. — Vamos lá… Isso pode ser gelado e fazer cócegas. — A médica me alertou, em seguida passando o gel para poder fazer o exame. Ela ficou alguns instantes vasculhando minha barrigada e aqueles instantes estavam me deixando ansiosa. O que estava acontecendo? Não era um bebê crescendo na minha barriga? Era algum tipo de tumor ou monstro que Lian e eu havíamos criado? Mas então Sophia abriu um largo sorriso e virou o monitor de exames em nossa direção. — Aqui. — Ela apontou para uma imagem que eu não conseguia entender. Definitivamente. — Ainda não se consegue ver muito, mas o bebê de vocês está aí! — Ela exclamou completamente alegre e acho que se ela não fosse muito profissional, estaria dando saltitos e batendo palmas de alegria. — Ah, querida, não sabe o quanto eu estou feliz por você. — Ela me disse dando um leve tapinha em minha mão. Sophia sabia o quanto eu queria aquilo para mim, o quanto eu sentia necessidade em ser mãe. E acompanhou todos os meus picos de depressão quando eu pensava que nunca poderia ser. — Ah, claro, estou muito feliz por vocês dois. — Sorriu me entregando alguns papéis toalhas para me secar. Eu sorri agradecendo e já me levantando para sair quando percebi um Julian completamente abestado parado ao meu lado ainda encarando a imagem congelada de meu ultrassom. — Lian? — Chamei o cutucando. — Ah, claro, vocês podem ficar com a imagem do pequenino. — Sophia sorriu apertando um botão e quase que imediatamente um papel saiu da máquina de exames. — Aqui. — Ela o entregou para Lian que ficara encarando a imagem completamente fascinado. — Obrigada, doutora. — Já dá para saber se é menino ou menina? — Julian perguntou de repente, finalmente tirando os olhos da imagem. — Ainda é cedo para isso, meu querido. — Sophia sorriu compreensiva. — Mas talvez daqui dois meses consigamos descobrir esse mistério. — A doutora Pearsen piscou


de forma marota e nos acompanhou até a porta, era nossa deixa para sair. Estávamos na recepção quando Lian voltou a encarar a imagem que segurava. — Me dá a chave do carro. — Eu disse estendendo a mão em sua direção. — O quê? — Perguntou absorto. — A chave do carro! — Exclamei autoritária. — Eu já disse que você não vai diri… — Cale a boca, Julian, você é capaz de provocar um acidente de tão hipnotizado que está com essa imagem. — Retruquei começando a procurar as chaves em seus bolsos da calça jeans. — Essa imagem é o meu filho. — Disse um tanto contrariado. — Nosso. — Pontuei. — Tudo bem, nosso filho. — Ele disse me entregando finalmente as chaves que estavam dentro do bolso do casaco que ele usava. — Ok, isso soou estranho. Vamos dizer meu filho e seu filho, assim, separadamente. Nada de nosso. — Disse já caminhando em direção à saída da clínica. — Você sabe que tecnicamente a frase sugere a mesma coisa, não é? — Ele correu para me acompanhar. — Quem diabos coloca as chaves do carro no bolso do casaco? — Eu perguntei mudando de assunto.


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APÍTULO 12

P J OR

ULIAN

Por mais que Mathias estivesse completamente fora de si, eu estava louco para compartilhar aquela pequena imagem do primeiro ultrassom do nosso futuro filho ou filha. Mostrei o ultrassom para algumas das atendentes da clínica que ficaram me perguntando sobre como eu estava tendo um filho, eu fugia das perguntas dizendo que eram coisas estritamente íntimas e que não queria envolver isso com o trabalho. Não essa parte pelo menos. Depois de voltar do restante do expediente na clínica pediátrica, emoldurei aquela foto e a deixei em cima de nossa estante. Esperei por Math que na realidade costumava chegar mais cedo do que eu do trabalho. Eu estava doido para contar que o nosso bebê estava saudável e que com cinco meses poderíamos descobrir o sexo da criança. Queria que ele pudesse sentir a mesma empolgação que eu estava sentindo, talvez aquela imagem ajudasse. Preparei um jantar básico já que era chegado o horário e quem costumava cozinhar era Mathias, que não havia chegado, nem ligado e nem retornado minhas ligações. Minha alegria começava a se dissipar com esses pequenos detalhes. Mas eu ainda tinha esperanças de que tudo daria certo no final. Seríamos uma família nada convencional, mas felizes. Às oito e pouco Math chegou suspirando de cansaço. Fui até ele e ajudei-o a tirar o casaco e a colocar sua maleta em algum lugar. — Nosso bebê está perfeito. — Exclamei sorrindo e caminhando em direção a um beijo, mas Mathias desviou o rosto. Fingi não me importar e fui pegar a imagem do ultrassom para que ele pudesse ver. Math pegou o porta-retratos de minhas mãos e encarou-o por alguns segundos. — Que diabos é isso? — Ele perguntou me devolvendo a imagem e indo se sentar no sofá enquanto afrouxava a gravata e ligava a TV. — Como assim, amor? — Perguntei fingindo não ter detectado o tom ofensivo dele. — É o nosso bebê. — Disse indo me sentar ao seu lado. Mathias desligou o televisor, respirou fundo e me encarou seriamente. — Não é o nosso bebê, Julian. É seu e de Keira, não meu. — Retrucou. — É claro que também é seu, amor! — Exclamei como se fosse óbvio, eu vinha tentando fazê-lo ver as coisas sob a minha perspectiva, mas nada realmente funcionava. — Não, Julian! — Ele se exaltou. — Essa criança nunca vai ser minha, você é o pai e Keira a mãe, ela não precisa de outro pai. — Math, isso é como se fôssemos adotar nossa Eva, mas agora sabemos de onde ela veio e que é parte nossa. Eu já disse que Keira não vai se… — Julian, eu estou com outro. — Math jogou aquela frase para cima de mim sem a


menor consideração. — O quê? — Estou com outro, estou te traindo, pulei a cerca. O que mais quer que eu fale? — Que está mentindo, talvez? — Perguntei um tanto boquiaberto. — Bem, mas não é mentira. Eu estou mesmo saindo com outra pessoa. — Mathias disse sério se levantando do sofá. — Como é que… — Escuta, eu achei que tivéssemos uma coisa diferente, que pudéssemos fazer dar certo, ter uma família… — Ele murmurou. — Mas eu não posso competir com Keira. — Competir com Keira? — Perguntei surpreso e indignado. — Você não tem que competir com Keira, Math! Eu já lhe disse milhões de vezes que o que sentimos um pelo outro é somente amizade. — Amigos que tem filhos juntos? — Retrucou. — Math, nós sequer transamos! — Exclamei. — Foi uma alternativa para realizar um sonho. Tudo bem, eu errei em não levar em consideração o seu ponto de vista, mas… — Não tem mais o que ser discutido, Julian. Acabou. — Ele disse pegando nossa aliança de compromisso e jogando no ar, peguei-a por impulso. — Adeus. — O que? Como assim, adeus? — Fui em sua direção indignado. — Nós estamos noivos, vamos nos casar no final do ano, vamos ter um bebê em alguns meses, como assim, adeus? — Adeus, Lian. Só… Adeus. — Ele respondeu indo em direção à porta. — Vou pedir para um amigo vir buscar minhas coisas outro dia. — Disse já na porta. — Boa sorte com seu bebê. — Ele praticamente resmungou a última parte e fechou a porta. Minha mente dizia para eu sair daquele apartamento e correr atrás de Mathias. As coisas não eram daquela forma. E como assim ele tinha outro? Mas meu corpo simplesmente ficou ali, inerte no meio da sala. Quando a ficha finalmente caiu eu tentei ligar para Mathias para que pudéssemos conversar melhor, mas ele não me respondia antes, não me responderia agora. Encarei nossa adega de vinhos e decidi beber um pouco. E enquanto bebia eu continuava tentando ligar para Math. E depois de duas horas tentando, eu finalmente desisti e só continuei com o vinho. Depois as lágrimas vieram. Eu achava que Math e eu havíamos construído uma história com uma estrutura sólida baseada na confiança e na conversa. Mas eu estava muito equivocado. Durante anos eu vivi um sonho, um sonho lindo que se despedaçou na minha frente sem que eu pudesse fazer nada. Senti que estava um pouco alto, mas mesmo assim decidi ir para a casa de Keira. Eu precisava de alguém que me ouvisse e que me entendesse. Key abriu a porta com pijamas e pantufas e fez cara de surpresa quando me viu, talvez eu estivesse com uma aparência horrível. — Lian, o que houve? É quase meia-noite.


— Será que podemos fingir que temos dezessete anos outra vez e só… Conversar? — Perguntei sorrindo amarelo. — Ah… Claro? — Key pareceu confusa, mas abriu espaço para que eu entrasse. — O que está acontecendo, Lian? Você bebeu demais? Mathias vai te matar quando perceber que… — Mathias me deixou. — Murmurei sem esboçar nenhum sentimento. — E ele tem outro. — Dei de ombros. Keira me encarou com aquela expressão que ela geralmente usa quando espera que uma afirmação seja dita como uma brincadeira, mas logo percebeu que eu estava falando sério, então se aproximou sem dizer nada e me abraçou com força. Eu quase chorei novamente em seus braços, mas eu só havia feito isso uma vez quando meus pais não quiseram me deixar dormir na casa de Keira, aos onze anos. Eu ri. — O que foi? — Ela perguntou confusa, me empurrando para que sentássemos no sofá. — Estou lembrando de quando chorei pela primeira vez na sua frente. — Murmurei. — Foi ridículo. — Pois é, o motivo foi ridículo, mas você chorar, não. Homens também choram. — Ela disse acariciando meus cabelos. — E gays também. — Murmurei tentando fazer uma piadinha, mas nenhum de nós riu. Ficamos em silêncio por longos minutos nos aconchegando no abraço um do outro. — Mathias é um grande idiota. — Keira exclamou de repente. — Não fale assim, Keikey… — Não, já se esqueceu de como funciona, Lian? Em situações assim você tem que concordar. — Ela disse me encarando sério. — Do que porras você está falando? — Perguntei já um pouco grogue de sono. — Das obrigações do melhor amigo, oras. Encarei Keira como se ela fosse alguma lunática, mas então me lembrei de quando ela conhecera um de seus primeiros paqueras e ele fora completamente estúpido com ela. Então ela foi choramingando até mim e eu disse que devíamos xingá-lo até que ela se sentisse melhor. — Nossa… Isso é velho. — Murmurei. — Então. Mathias é um idiota. — Ela repetiu. — Completamente. — Concordei entrando na brincadeira, mas me sentindo um lixo por dentro. — Ele perdeu o melhor homem do mundo. — E que segundo a sua médica tem muito bons “espécimes” para dividir. — Disse rindo da cara de nojo que Key fizera.


— E ele perdeu a oportunidade de fazer parte de uma família-nada-convencional e feliz. Eu deitei a cabeça em seu ombro e fiquei encarando sua barriga que tinha uma pequena protuberância. — Isso é incrível… — Murmurei meio sonolento. — Ahn? — Você é incrível. — Continuei agora encarando a ela. — Lian, por mais que você esteja bêbado e carente, eu não vou transar com você. — Ela disse séria e eu gargalhei. — Você é incrível por estar gerando uma vida dentro de você. — Expliquei voltando a encostar a cabeça em seu ombro. — Então nós dois somos incríveis, porque um bebê não se faz sozinho. — Talvez devamos incluir a doutora Pearsen nessa lista também… — Murmurei com o sono me pegando de jeito. Me acomodei ali mesmo no sofá do apartamento de minha melhor amiga e apaguei.


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APÍTULO 13

P K OR

EIRA

Havia três dias que Lian estava depressivo com o fato de que Mathias não havia voltado e estava na fase da negação. Custava a acreditar que o parceiro de cinco anos havia mesmo arranjado outro. Ficava se perguntando quem era, se seria algum conhecido. Eu tentava fazê-lo pensar no bebê e no quão feliz ele estava, mas tudo o que eu conseguia arrancar dele era um sorrisinho meio tristonho que não me agradava em nada. Nesses três dias nós meio que invertemos os papéis, já que eu ia toda hora ver se ele estava bem – não, ele não estava, aliás, sequer estava indo trabalhar – e para alimentá-lo, já que ele conseguia ser uma desgraça na cozinha, principalmente morando sozinho. O máximo que ele fazia era macarrão instantâneo. Ao menos Mathias havia feito algo de bom nesses últimos anos, Julian se sentia motivado a cozinhar para agradar o parceiro… Aquele era o quarto dia e como sempre lá fui eu subir para o apartamento de meu melhor amigo para verificar se ele ainda estava vivo e alimentado. Saquei minha cópia da chave – que por motivos óbvios eu não usava quando ele começou a dividir o lugar com Mathias – e fui abrir a porta, logo percebendo que a mesma estava destrancada. Achei muito estranho, por mais que Lian estivesse descuidado, eu fazia o possível para mantê-lo seguro e trancava a porta todas as vezes em que ia visita-lo – o que incluía café da manhã, almoço e jantar – então eu tinha certeza de que no dia anterior eu havia fechado o apartamento. Adentrei o lugar com muito cuidado, tentando não fazer barulho e quase trombei com um cara de camisa social que segurava algumas caixas. Mas que diabos? Me endireitei e tentei entender o que estava acontecendo. Olhei para o número na porta apenas para confirmar se estava no apartamento certo. Estava. Então quem era aquele homem? Foi então que vi Mathias logo atrás dele com mais algumas caixas. Encarei os dois e os dois me encararam. Decidi iniciar a conversa. — Ora, Mathias… — Murmurei em tom irônico enquanto cruzava os braços e o encarava bloqueando a passagem. — O que está fazendo aqui? — Perguntei séria, medindo o outro homem dos pés à cabeça. — Vim buscar minhas coisas, Keira. — Ele retrucou usando um tom nada agradável ao dizer meu nome. — E esse, é seu novo namoradinho? — Perguntei com certo nojo. O homem – que mais tarde eu descobriria se chamar Carlo – fez menção de abrir a boca, mas eu ergui a mão. — Estou falando com ele. — Retruquei voltando novamente meu olhar a Mathias que parecia nada feliz em me encontrar. — Acho que isso não lhe diz respeito, querida. — Math sibilou caminhando em minha direção para tentar passar por mim, mas eu não permiti. — Não me diz respeito? Não me diz respeito? — Perguntei um tanto exaltada. — Você traiu o seu noivo e companheiro de cinco anos que por um acaso é meu melhor amigo e você me vem com essa de que não me diz respeito? — Exclamei cerrando os dentes tentando não gritar muito.


— Com licença, senhorita… — O estranho começou a dizer. — Cala a boca, seu talarico de meia tigela! — Exclamei e me senti uma adolescente do colegial falando daquela maneira. — E você, Mathias? Dizia que amava Julian com o maior orgulho. — Tudo bem, Carlo. — Disse para o outro homem. — E eu amava. — Ele respondeu a contragosto. — Amava? Sério? Amava, no passado? Já, tão cedo? — Perguntei empurrando-o de volta para dentro do apartamento que ele tentava deixar. — Isso não é amor, Mathias. — Respondi. — E quem é você para falar de amor, Keira? — Ele deixou as caixas que carregava caírem no chão enquanto falava. — Ah, é, a garota esquisita que teve que engravidar do próprio amigo porque não arranja ninguém. Eu encarei Mathias desacreditada. Ele tinha mesmo dito aquilo? Mal percebi quando a irritação passou para o ódio, só sei que quando vi, já tinha metido um belo soco no meio da cara daquele traidor de merda. Quem ele pensava que era para falar daquele jeito comigo? Como ousava falar em amor enquanto iludia meu melhor amigo? Enquanto Lian pensava na felicidade deles – por meios não convencionais, e sem sentido – e na possibilidade de realizar um dos maiores sonhos dos dois, como ele ousava falar sobre amor comigo? — Ai meu Deus, está sangrando! — Ouvi Carlo exclamar um pouco preocupado deixando sua caixa de lado também para ajudar Mathias. Eu estava bastante irritada para arranjar forças do além e empurrar ambos para fora do apartamento de Julian, os dois tentavam me parar e um cotovelo me acertou na barriga. — Como é que ousam agredir uma mulher grávida, seus estúpidos e insignificantes? — Berrei parando de empurrá-los. — Estou pouco me lixando para esse feto. — Mathias disse da forma mais baixa que uma pessoa podia fazer. — SAIAM DAQUI SEUS FILHOS DA PUTA MAL AMADOS. SAIAM! — Berrei perdendo completamente o pouco bom senso que tinha e os expulsando a pontapés e chutes. — Esse apartamento também é meu, minhas coisas estão aí dentro! — Mathias exclamou tentando passar por mim, mas eu o segurei bloqueando-o com a porta. — Esse apartamento está no nome de Julian. — Retorqui, pegando uma das caixas mais próximas de mim. — E tome as suas coisas, seu vadio! — Exclamei jogando a caixa na direção dos dois que com a surpresa se afastaram para não serem atingidos, aproveitando, peguei as outras caixas e fui arremessando uma a uma na direção deles. Uma pena minha mira ser tão ruim. — Você perdeu completamente o senso! — Mathias exclamou enquanto pegava suas coisas do chão com a ajuda do talarico. — E você perdeu o melhor homem que poderia encontrar no mundo! — Exclamei


como se aquilo fosse realmente um contra-argumento. — ESPERO QUE A FODA DE VOCÊS SEJA A PIOR DO MUNDO, SEUS PUTOS! — Gritei antes de fechar a porta com força e trancá-la, além de colocar a corrente no trinco para o caso de Mathias tentar usar a chave extra dele. Depois de respirar profundamente e me certificar de que aqueles dois tinham ido embora, me permiti ficar mais calma. Fui pegar um copo de água – a cozinha estava uma zona – e depois fui me sentar no sofá. Uma grávida não deveria se exaltar daquela forma, não é? Após alguns minutos resolvi ligar para o celular de Lian. — Alô? — Ele atendeu sem o menor ânimo. — Por que você não me avisou que ia trabalhar hoje? — Resmunguei entredentes. — Ah, Keikey, me desculpe, foi uma chamada de emergência eu tive de sair… — Você podia ter me avisado, teria me poupado de encontros com pessoas indesejadas. — Disse voltando a ficar um pouco ofegante só de lembrar da raiva que havia passado. — Como assim encontros com pessoas indesejadas? — Lian perguntou um pouco confuso. — Acredita que Mathias esteve aqui? No seu apartamento? — O quê? Ele está aí agora? Me deixe… — Quê? É claro que ele não está mais aqui, Julian! — Exclamei começando a me irritar com o fato de meu melhor amigo não aceitar o fato de que tudo entre eles havia acabado. — O que você fez, Keira? — Ele perguntou como se eu fosse a culpada! — O que eu fiz? — Retorqui. — Ele teve a cara de pau de aparecer aqui com o puto do outro. Depois dessa informação Julian ficara mudo na linha. Fiquei um pouco preocupada, talvez ele tivesse tido um ataque cardíaco, apesar de ele ter uma saúde física de dar inveja. — Lian? — Chamei e ele pigarreou para mostrar que ainda estava na linha. — Volta pra casa logo. Sua melhor amiga grávida precisa de você. — O que foi? Está sentindo alguma coisa? — Ele logo ficara alerta. — Estou. Sentindo uma raiva terrível e não posso beber para esquecer, então meu único remédio é você. Ouvi Julian rir baixinho e então ele avisou que já estava saindo da clínica para me ajudar. Demorou mais de meia hora para que ele finalmente chegasse e se sentasse comigo no sofá. — E como foi com ele? — Lian perguntou sem querer mencionar o nome de seu ex. — Só confirmei minhas suspeitas de que ele é um babaca. — Respondi e de repente meu ódio começou a me deixar sensível e minhas próximas frases acabaram saindo


embargadas. — E ele teve a coragem de dizer que pouco se lixava para o seu e o meu bebê… — Murmurei quase chorando. Merda de hormônios! — Ah, meu amor… — Julian me puxou para mais perto e me abraçou com força para me confortar, então logo me senti melhor para continuar a contar minha história. — Eu dei um soco na fuça dele. — Informei me afastando e limpando as poucas lágrimas remanescentes. — Fuça, Keira? — Ele me repreendeu pelo palavreado e não por ter metido um soco na cara de seu ex. Isso devia ser um progresso, certo? — Um animal tem fuça. — Expliquei meu ponto de vista e vi Julian revirar os olhos. — E além disso um deles ainda me deu uma cotovelada na barriga. — Retruquei deixando de fora a parte de que provavelmente havia sido um acidente. — O quê? — Lian me encarou sério e acho que ele mesmo daria um soco em Mathias naquele instante se pudesse. — Mas eu revidei a pontapés e chutes. — Informei calmamente. — E desejei no final que os dois tivessem a pior foda do mundo. Julian ficou me encarando incrédulo por vários segundos, acho que estava um pouco assustado com meu palavreado já que eu não costumava falar palavrões desde o final de minha adolescência. — Você não devia ter feito essas coisas, Key. — Ele disse por fim. — Lian, meu querido. — Eu me voltei em sua direção segurando seu rosto entre minhas mãos. — Alguém precisava dar pití por aqui e já que não foi você… Julian gargalhou de uma forma que fazia tempo que eu não ouvia e aquilo me fez sorrir. Era tão bom ouvir aquele som. Meu Lian estava voltando. — Às vezes me pergunto quem é o homem e a mulher na nossa relação. — Ele disse ainda rindo. — Obviamente nesta situação eu fiz o papel dos dois ao mesmo tempo. — Me vangloriei. — Dei um pití lindo e ainda dei um soco bem dado na carinha fofa daquele infeliz. — Sorri. — Foi um dos melhores dias da minha vida. Julian me encarou novamente e eu tinha certeza de que ele se perguntava de onde ele havia tirado uma melhor amiga como eu. Eu era rara demais e era muita sorte ele ter me encontrado. Eu sei.


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APÍTULO 14

P K OR

EIRA

Quinze dias se passaram e finalmente Julian mostrara alguma melhora. Digo, ao menos ele estava indo trabalhar e eu não precisava mais ir conferir todo dia se ele estava bem. Ele voltou a me visitar todos os dias e agora ficava em casa até muito mais tarde já que não tinha mais um noivo idiota, puto para quem voltar. Eu particularmente não estava mais me importando com isso. Até apreciava ter alguém com quem conversar e desabafar, e ouvir desabafos e… Simplesmente jogar conversa fora. Lian havia voltado a ficar empolgado com nosso bebê, o que me fazia ficar mais feliz e animada. Hormônios, fazer o quê? Lá estávamos nós conversando sobre o quanto gelatina colorida era deliciosa e linda – o que estava me deixando com uma vontade enorme de comer gelatina colorida – quando o interfone tocou nos surpreendendo. Eu não costumava ter visitas e muito menos às sete da noite que não fosse Lian. — Sim? — Atendi. — A senhorita Tricia está aqui. — Anunciou o porteiro. — Oh. — Murmurei um pouco surpresa, Tris não costumava aparecer sem antes me ligar. — Pode mandar subir. — Quem é? — Julian perguntou curioso. — Tris. — Oh… Em menos de cinco minutos Tricia batia à minha porta com certa urgência. Fui atender e ela mal me deu oi, adentrando direto meu apartamento usando um vestido curto e grudado ao corpo e um salto alto e fino. — AH! Eu sabia que você estaria aqui! — Ela exclamou apontando para Julian colocando uma das mãos na cintura. — Tris, o que faz aqui? — Perguntei indo me sentar e encarar minha melhor amiga impaciente e batendo o pé no chão de madeira. — Decidi que vamos à uma balada. — Ela informou. — Você decidiu que nós vamos à uma balada? — Perguntei erguendo minha sobrancelha. — Sim, você, eu e Julian. Principalmente Julian. Eu e Lian nos entreolhamos e franzimos o cenho. Vindo de Tricia aquilo não podia ser muito bom. — Tris, uma balada não é o lugar para uma mulher grávida. — Eu disse negando minha ida.


— E desde quando estar grávida é sinônimo de não poder se divertir? — Ela perguntou erguendo a sobrancelha e cruzando os braços. Eu abri a boca para responder, mas Lian soltou uma pequena risadinha de deboche que fez com que Tris e eu nos virássemos para ele. — Tris, ela não ia à uma balada nem quando não estava grávida, acha mesmo que ela vai aceitar agora? — Ele perguntou todo debochado e risonho. Idiota. — Ah, claro… É verdade. — Tris respondeu fazendo uma cara pensativa. — Mas vocês dois precisam ir à essa balada comigo. — Retorquiu. — Sinceramente, não estou no clima de uma balada, Tricia. — Julian respondeu se espreguiçando. — E eu já disse que balada não é lugar para uma grávida. — Repeti fazendo careta. — Uma vez Keira, sempre Keira. Mesmo grávida. — Tricia revirou os olhos, mas veio em minha direção me fazendo levantar. — Vocês dois vão comigo à essa balada LGBT que arranjei. — LGBT? Você resolveu procurar o amor entre o mesmo sexo? — Perguntei erguendo a sobrancelha. — Isso não é o tipo de informação que se possa esconder da sua melhor amiga. — Retruquei indignada. — Não! — Ela exclamou revirando os olhos. — Mas apenas acho que é hora de alguém sair da fossa. — Ela olhou discretamente em direção a Lian, mas é claro que o discreto de Tricia não era lá essas coisas. — Ah, não! — Julian exclamou ficando sério. — É sério Tricia, eu não preciso de uma balada nesse momento. De verdade. — Eu não disse que você precisa pegar alguém na balada, só que precisamos nos divertir. Lian ia rebater, mas eu abri a boca antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. — Nós vamos. — Eu disse e lancei um olhar autoritário ao meu melhor amigo. — Quê? — Ele perguntou incrédulo. Fiquei meia hora falando palavras de incentivo a Lian enquanto me trocava e depois Tricia e eu o ajudávamos a escolher uma roupa apropriada para ele. Ele ainda resmungava de uma forma que eu não o via fazendo desde a sétima série quando entramos no carro de Tris para ir à tal balada. Eu definitivamente não estava vestida para a ocasião – estava usando uma bata que escondia ligeiramente a barriga que começava a se formar, uma calça jeans escura e um sapatinho sem salto –, mas quem estava ligando? Eu só ficaria de escanteio sentada no banquinho do bar esperando que meu melhor amigo gay arranjasse alguma amizade para se animar um pouco. Eu estava perfeita se fosse analisar. Tricia conhecia o dono do local e nós conseguimos entrar na frente de várias pessoas que ficaram nos olhando um pouco torto. Eu não fazia ideia do que fazer lá dentro. A música estava alta e algumas pessoas dançavam no meio da pista de dança enquanto outros grupos praticamente berravam uns


com os outros para se comunicarem. Ok, talvez aquela ideia tivesse sido uma grande merda afinal… Caminhei acompanhando Tricia e Julian que me levaram para a fila do bar. Ok, o que diabos eu ia pedir no bar de uma balada que não tivesse álcool? Água? — Duas caipirinhas e uma batida sem álcool, Jay! — Tricia exclamou para o barman que fez um positivo para ela e sorriu. — Caipirinha? — Lian perguntou fazendo careta. — Batida sem álcool? — Perguntei quase ao mesmo tempo, mas surpresa. — Caipirinha, você vai adorar. E batida sem álcool porque grávidas não podem beber, né? — Tris disse olhando para Lian que fez que sim com a cabeça. — O dono desse lugar é brasileiro, trouxe as melhores misturas de caipirinha do mundo para cá! — Ela exclamou empolgada. Nós ficamos esperando alguns minutos na fila quando um rapaz jovem esbarrou em mim e se virou para pedir desculpas. Se eu estivesse bebendo com certeza teria engasgado terrivelmente ao reconhecer aquele rosto. — Finlay Taylor? — Me vi perguntando com surpresa. — Chefinha! — Ele exclamou com alegria. — Como você está? — Perguntou me dando um abraço em cumprimento. — Eu estou ótima. E faz mais de dois anos que não sou mais sua chefe, Finn. — Retorqui. — Força do hábito. — Ele sorriu um pouco sem graça. — E aí, gente! — Tricia chegou com dois copos na mão entregando um para mim. — Quem é o gatinho? — Ela me perguntou dando cutucadinhas insinuadoras em meu braço. — Gente — murmurei quando Lian chegou logo depois de Tris —, esse é Finlay Taylor, meu ex-estagiário na empresa que trabalhei. — Disse. — Finn, esses são Tricia e Julian. — Apresentei e todos se cumprimentaram. Eu estava bebericando minha batida sem álcool quando Tricia chegou mais perto de mim. — Ele é gay ou simpatizante? — Ela me perguntou sem tirar os olhos de Finn, que engatara uma conversa com Lian que parecia estar começando a se divertir. — Acho que isso não importa muito, Tris… — Murmurei sem dar muita atenção enquanto continuava a bebericar minha bebida. — Importa para mim se ele for só simpatizante! — Não, não importa. — Disse me afastando um pouco para me aproximar de Finn e Lian. — E então, Finlay, continua na Saunders? — Ah, é, continuo. — Ele sorriu.


— Esse safado roubou meu emprego. — Eu disse dando um soquinho de leve no braço do meu ex-aprendiz. — Não roubei nada, se a senhora… — Taylor, meu nome é Keira, tenho 30 anos e não sou casada. Pare de me chamar de senhora. — Ok, Keira… Se você não tivesse decidido sair da Saunders Tech eu definitivamente teria sido demitido. — É claro que não, aprendiz meu nunca é demitido. — Me vangloriei, apesar de só ter tido dois em toda a minha vida. — Foi aprendiz de Keira? — Julian voltou à conversa. — Então teve a melhor instrutora. — Ele sorriu me dando uma cutucada. Por que todo mundo estava me cutucando hoje? — Ah, com certeza. — Finn sorriu. — Vocês dois são namorados? — Ele perguntou curioso. — O quê? — Tricia surgiu do nada entrando na conversa. — Esses dois não poderiam ser namorados nem se quisessem. Melhores amigos de infância. Consegue imaginar isso? — Ela perguntou fazendo careta. — Acho que vocês fariam um belo casal. — Finn admitiu um pouco sem graça. — Ah, muita gente diz isso. — Julian murmurou abanando o ar. — Mas essa não é muito a minha praia se é que me entende… — Lian disse dando de ombros. — Oh… Claro, claro. Entendi. — Finn exclamou um pouco encabulado e eu soltei um risinho. Lian e Finlay voltaram a conversar sobre sabe-se lá o que e eu fiquei observando de um canto – como eu havia previsto – sentada numa mesa vaga perto dos banheiros. Eu percebi que os dois se olhavam de uma forma diferente e de repente me lembrei de que Finn era gay. Do estilo de Julian… Aquela saída para uma balada LGBT poderia gerar bons frutos, talvez? Tirando as cantadas que eu havia recebido – tanto de homens quanto de mulheres – a noite até que havia sido bem interessante…


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APÍTULO 15

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EIRA

Era dia de ultrassom e eu corri para chamar Lian em seu apartamento. Toquei a campainha esperando impaciente que ele atendesse. Ele demorou mais do que o normal para abrir a porta e eu estava com certa pressa. Havia acordado um pouco atrasada naquele dia e se ele demorasse mais dois segundos, iria sair sem ele. Foi então que Julian entreabriu a porta e saiu andando para dentro do apartamento novamente. — Espera só um pouco, já estou quase pronto. — Ele disse num tom um pouco estranho e eu apenas assenti. Menos de dois minutos depois ele estava de volta e então pude ver o motivo do seu tom de voz anterior estar estranho. Os olhos de Lian estavam avermelhados e por mais que ele tenha tentado lavar o rosto para dar uma enganada na vermelhidão, eu sabia que ele estivera chorando. — Lian… — Vamos? — Ele perguntou ignorando completamente minha preocupação. Eu apenas concordei e nós descemos até a garagem para pegar o carro dele. Decidi não fazer perguntas sobre o motivo de seu choro, se ele não havia me dito espontaneamente significava que queria evitar o assunto, então decidi respeitar isso. Chegamos um pouco em cima da hora no consultório da doutora Pearsen que já nos esperava. Ela nos abraçou em forma de cumprimento e nos empurrou para a sala de ultrassom. — Vamos ver se está tudo bem com esse pequenino! — Ela sorriu enquanto eu me preparava colocando o avental de exames e me deitava na maca. Minha barriga estava um pouco mais aparente agora e ela não precisava forçar tanto para conseguir enxergar alguma coisa. — Olhem aqui, papais! — Ela virou o monitor para que Lian e eu pudéssemos ver o que ele exibia. O contorno de um bebê estava muito mais nítido agora, apesar de eu ainda não entender direito aquelas imagens. De repente a imagem na tela se mexeu um pouco – bem pouquinho mesmo – e eu ofeguei surpresa. — Logo esse pequeno vai começar a se mexer como um louco nessa barriga, Keira, é melhor ir se acostumando. — A doutora Pearsen avisou sorrindo. — E mês que vem talvez consigamos ver o sexo dele! Julian deu um pequeno pulo ao meu lado com certa alegria e eu sorri para a imagem na tela que voltou a se mexer. — Oi, meu pequenino… — Murmurei sorrindo para a imagem que deu uma leve mexida novamente.


— Os bebês podem ouvir o que as pessoas dizem, principalmente a mãe e o pai. — Sophia disse dando uma piscadela para mim e Lian. A doutora desligou os aparelhos e me deu o papel toalha para eu limpar o excesso de gel em minha barriga e depois me liberou para me vestir. Quando saímos do consultório, Lian estava um pouco menos abestalhado do que da primeira vez em que viemos, graças a Deus. Ele me levou para casa e disse que iria trabalhar o restante do período e que de noite ele estaria de volta e que traria nosso jantar. — Não, Lian, sério, não precisa “trazer o nosso jantar” posso cozinhar para nós. — Eu murmurei indo ligar meu computador, estava com algumas pendências em atraso. — Você vai ficar o dia inteiro trabalhando nesse computador, vai estar cansada demais para fazer jantar. Prometo que trago algo saudável e nutritivo. — Ele disse já saindo de meu apartamento. Suspirei fazendo careta. “Saudável e nutritivo” com certeza significava salada. Odeio salada. A não ser é claro que tenha um molho muito bom e um ótimo acompanhamento, como um filé de frango ou de salmão. Eu esperava do fundo do coração que meu jantar não fosse só folhas e vegetais. ECA. Comecei a trabalhar na atualização de sistema da Saunders. Sim, eu havia saído da empresa e havia virado autônoma/freelancer, mas como eu já conhecia todos os esquemas da Saunders Tech e sempre fora eu a mexer com o sistema deles, eles decidiram contratar meus serviços “por fora”. Mas além daquele trabalho eu ainda precisava revisar alguns outros que eu pegara para cobrir algumas despesas a mais. Enquanto mexia nas codificações da Saunders, acabei me lembrando de Finn. E de como ele e Julian haviam se dado bem. Talvez, só talvez, eles pudessem ter alguma coisa. Eu queria poder falar sobre isso com Julian como nos velhos tempos em que nós fazíamos nossa festa do pijama e ficávamos acordados a noite toda discutindo quem seria o par ideal para nós no colégio. Claro que naquela época eu achava que poderia ter uma chance de ser uma garota normal com um pretendente e como diria minha mãe “fogo no rabo”. Mas agora era um momento delicado para falar sobre novos companheiros com Lian. Ele mal havia se recuperado do idiota puto do Mathias. Mas futuramente poderia ser uma possibilidade. Eu sorri sozinha pensando nisso. Às sete horas Julian chegou com algumas sacolas penduradas nos braços, sua maleta e seu paletó. Ele deveria parecer desengonçado e desequilibrado segurando aquele tanto de coisas, mas o infeliz parecia uma lady mesmo assim. Ok, um lord seria a melhor palavra, já que ele tinha o porte de um homem elegante. Mesmo segurando um monte de coisas ao mesmo tempo em que empurrava a porta com o pé. Pois é, as coisas precisavam ser equilibradas num relacionamento, certo? Mesmo num relacionamento entre melhores amigos. Fui ao seu encontro e peguei a maleta e o paletó que estavam mais fáceis de pegar sem derrubar nada e Julian seguiu para a mesa de jantar colocando as sacolas ali em cima. — E então, como foi o dia, meu amor? — Lian perguntou num tom brincalhão, já que estávamos parecendo marido e mulher. — Cansativo, querido. E o seu? — Perguntei entrando na brincadeira. — Cuidei de uma criança com feijão no ouvido, foi uma maravilha! — Ele exclamou


tirando o que pareciam ser marmitas. — Eca, Lian! — Exclamei fazendo cara de nojo. — Que foi? Você foi quem perguntou como havia sido o meu dia. — Então isso do feijão foi sério? — Foi… — Ele respondeu como se fosse a coisa mais normal do mundo uma criança com um feijão no ouvido surgir em seu consultório. Fiz uma careta e decidi não comentar mais nada. Abri as outras sacolas e fui tirando o restante das marmitas. Tive a alegre – por favor, sinta a ironia – honra de tirar as bandejas de salada fiz uma careta involuntária. — Salada faz bem tanto para você quanto para o bebê. — Lian murmurou percebendo minha cara. — Não vou discutir isso, não se preocupe. Só não vou comer muito isso aí. — Apontei para as folhas de tons variados de verde. — Para sua alegria, comprei algumas coisas diferentes, mas gostosas e saudáveis para você. Ele havia comprado risoto com arroz integral, salada com molho de sei lá o que – mas que parecia bem apetitoso –, macarrão integral com molho branco e filé grelhado de frango. Minha barriga roncou e Lian olhou para mim e nós dois demos gargalhadas. — Vamos comer logo. — Ele disse indo buscar os pratos e copos. Começamos a comer e até que a comida não era tão ruim por ser saudável. Quando estávamos recolhendo os pratos, o interfone tocou e fui atender. Era Tris. Ela bateu na porta e Lian foi atender enquanto eu ia lavar a louça. — Oi, Julian, que bom te ver aqui! — Ela exclamou daquele jeito típico de Tricia. — Tris, o que faz aqui? É segunda-feira e são quase nove da noite. — Eu só estava a fim de conversar um pouco com minha melhor amiga e saber do meu futuro sobrinho ou sobrinha. Como foi o ultrassom? — Ela disse pegando um copo do armário e se servindo do restante do suco de uva que havíamos deixado em cima da mesa. — O bebê está ótimo e ele se mexeu pela primeira vez no exame! — Julian começou a tagarelar completamente empolgado, deixei essa parte para ele. — E como foi? Para vocês, quer dizer? — Eu me senti tão… Especial vendo aquelas imagens e o bebê se mexendo foi a coisa mais extraordinária do mundo. — Me vi exclamando como uma adolescente empolgada e então formamos uma rodinha na sala e começamos a falar e falar. Era quase onze horas quando eu bocejei e comentei o quanto estava me sentindo cansada. Lian se levantou quase que imediatamente dizendo que ele ia embora para me deixar descansar e que Tricia deveria fazer o mesmo, mas então, Tris o fez ficar quieto e se acalmar com um barulho parecido com o que alguns treinadores de cães usam para


chamar a atenção dos animais. — Por que você não dorme aqui? — Ela perguntou simplesmente. Julian encarou minha melhor amiga como se ela fosse louca. — Porque eu tenho uma casa? — É, uma casa que te lembra constantemente do cara mais filho da puta com quem você já dividiu várias coisas. — Tricia pontuou séria. — É uma boa você trocar de ares um pouco, pelo menos nesse período mais complicado. — Eu não vou dividir a cama com você. — Apontei para Lian de forma acusadora. — E não precisa, sua besta! — Tricia exclamou para mim rolando os olhos. — Ele pode ficar no quarto de visitas que aliás, eu nem sei por que você o tem. Nunca recebe visitas que passam a noite aqui. — Tris retrucou e eu tive vontade de rebater com uma resposta maravilhosa, mas a resposta não veio em minha mente, então decidi ficar calada. — E além do Lian estar precisando mudar de ares, você precisa de constante supervisão agora que está completamente grávida. — Olha, estar grávida não é estar inválida ou doente, ok? — Eu disse me sentindo um pouco rebaixada. — Mas você sabe que todo cuidado é pouco. — Ela respondeu apontando para mim. — Eu sei que Lian é terrível cozinhando, mas pelo menos vai poder te ajudar em outras coisas, como manter a casa limpa, por exemplo… — Tris lançou um olhar sugestivo para os meus pares de sapato todos espalhados por aí. Lian e eu nos entreolhamos e numa conversa muda, começamos a discutir o que seria melhor para nós. Lian realmente precisava sair daquele apartamento que estava infestado com a presença de Mathias, mas dividir o apartamento com outra pessoa poderia ser um incômodo para ele… Mas nós éramos melhores amigos desde sempre, então qual era o problema? Depois dessa troca de olhares, Tricia nos encarou esperando uma resposta. — Tudo bem, Lian. Acho que vai ser melhor para nós dois ficarmos juntos, ainda mais nessa fase da gravidez em que a criança começa a chutar e eu vou começar a ficar louca e mal-humorada. — Respondi sorrindo. Tricia fez uma pose de peito estufado se sentindo a grande salvadora do mundo e Lian me encarou com um olhar que quase agradecia. Fui arrumar o quarto de hóspedes enquanto Tris ia para casa e Lian ia buscar algumas coisas para passar a noite em meu apartamento.


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APÍTULO 16

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EIRA

Julian estava retomando o pique da vida agora que estava morando comigo. Um dia ou outro ele saía para algum barzinho para encontrar alguém que ele não queria me contar, o que me deixava bastante furiosa, já que ele era meu melhor amigo. Melhores amigos contam tudo um ao outro! Ele insistia que era um caso de trabalho que era estritamente profissional, mas quem diabos trata de assuntos profissionais num bar até uma hora da manhã? Ok, esse negócio de dividir o apartamento com o pai do meu filho estava me deixando um pouco neurótica, fora os hormônios que estavam loucos e me deixando emotiva. Eu estava com quatro meses e meio e minha barriga já começava a parecer um pouco mais com uma barriga de grávida e um pouco menos com uma barriga “nossa, como você engordou!”. Eu passava o dia todo conversando com meu bebê e apesar de soar estranho, eu não me sentia idiota em fazer aquilo. Falava sobre o trabalho, os problemas que estava tendo com alguma codificação, sobre o tempo, sobre como seria quando ele finalmente nascesse… Eu estava um pouco preocupada com a questão do depois. Quero dizer, por enquanto Lian estava solteiro e não teríamos problema em dividir a guarda, até porque, já estávamos dividindo o mesmo apartamento, então… Aos olhos da sociedade nós éramos um casal com um filho. O problema seria se Julian arranjasse um novo parceiro. E esse parceiro quisesse levar Lian para longe de mim e da criança. Aí teríamos de fazer algum tipo de guarda compartilhada e eu achava esse tipo de coisa tão confusa para a criança… Mas eu tinha esperança de que Julian arrumaria um novo parceiro que entenderia completamente nossa situação, por mais estranha que fosse e nos permitiria viver ao menos perto o bastante um do outro para que nosso bebê tivesse a presença constante tanto do pai quanto da mãe. Eu havia ficado um tanto estressada durante o dia por conta do nosso futuro – meu, do bebê e de Lian – que quando percebi Julian já estava de volta e aparentemente havia passado no mercado para comprar coisas saudáveis para minha geladeira. — Como foi o dia? — Perguntei como sempre indo ajuda-lo a arrumar as compras. — Ah, nada muito grave. Apenas gripes e alergias. — Ele comentou. — E o bebê? — Acho que ele está bem. Começando a me deixar bastante cansada, mas bem. — Comentei enquanto dava um bocejo. Nós dois arrumamos a geladeira e a despensa em alguns minutos e Lian foi procurar uma receita nutritiva para grávidas na internet. — Sério, Lian? — Perguntei enquanto ele pesquisava. — A maioria das grávidas come coisas normais, por que essa preocupação toda? — A maioria das grávidas não está gerando um filho meu na barriga. — Ele respondeu concentrado em sua pesquisa. Aquela frase meio que me pegou de surpresa. Não de um modo que em outros tipos


de história a mocinha descobriria o quanto está apaixonada pelo mocinho, mas me pegou de surpresa de um jeito que me levou a sentir algumas lágrimas se formarem, mas que eu segurei bravamente em meus olhos. Foi então que eu senti. O primeiro movimento que vinha de meu ventre. Dei um pulinho de susto, achei que tinha sido discreto, mas Lian percebeu. — O que houve? — Perguntou deixando o celular um pouco de lado para me dar atenção. — O bebê… — Murmurei colocando a mão sobre minha barriga. — O que tem o bebê? Você está se sentindo mal? O que houve? — Julian começara a ficar um pouco desesperado. — O bebê chutou! — Exclamei finalmente, dando um largo sorriso puxando a mão de Lian e a colocando no lugar onde estava sentindo o bebê se mexer. Lian olhou para mim com expressão fascinada e eu quase deixei minhas lágrimas escorrerem de vez. Meu bebê e de Lian estava ali, se desenvolvendo, se mexendo dentro de mim. Era uma sensação estranha, mas ao mesmo tempo gostosa. — Isso… Isso é demais! — Ele exclamou se levantando e me dando um abraço. — Nosso bebê está aí. — Ele tinha os olhos marejados, mas parecia bastante alegre. — Pois é, acho que ele quer mesmo que saibamos que ele está aqui. — Eu disse. — Ele deu uma mexidinha de novo. — Comentei e Lian quase deu um pulo de alegria. — Você acha que é menino ou menina? — Ele perguntou voltando a se sentar e encarando minha barriga. — Como é que eu vou saber? — Perguntei erguendo a sobrancelha. — Sei lá, dizem que as mães têm um instinto para saber essas coisas. O que você sente que é? — Lian perguntou com os olhos brilhando de expectativa. — Sinceramente? — Murmurei pensativa. — Acho que talvez seja um menininho… Julian sorriu alegremente. — Estou louco para saber se teremos uma menina ou um menino para podermos começar a escolher nomes e o enxoval! — Lian ficara tão alegre que aí sim quem não soubesse de sua opção sexual teria uma ligeira dúvida se ele era gay ou não. — Que bom que você está animado com essas coisas porque eu não faço ideia em que nome colocar se for uma menina… — Comentei. — E se for menino? — Estava pensando em Marco. Eu sempre gostei desse nome. — Sorri. — Isso não tem nada a ver com sua paixonite aguda do pré-primário que se chamava Marcos, tem? — Julian perguntou e eu logo fechei a cara. — Claro que não! — Exclamei indignada. — Eu nem me lembrava dele. Eu só acho que Marco é um nome bonito. — Se for uma menina…


— Eva, eu sei. — O interrompi e ele assentiu sorrindo por eu já saber sua resposta. — Você acha que colocamos um nome do meio? — Ele perguntou com a expressão pensativa. — Não. — Respondi de imediato. — Acho que um nome e os nossos sobrenomes estão ótimos. — Disse. Eu sempre achava um exagero colocar trezentos nomes numa criança que só usaria um a vida toda. — E qual seria a ordem dos sobrenomes? — Lian perguntou ainda pensativo. — Podemos colocar o seu sobrenome como o principal, é assim que funciona, certo? O sobrenome do pai é o principal. — Mas é você que está tendo o trabalho todo de gerar essa criança dentro de você. — Ele argumentou e eu me senti a pessoa mais especial do mundo por alguém admitir que gerar um filho dentro do próprio corpo não era nada fácil. — Ele vai ter o meu sobrenome também e é isso que importa. Ele será tanto meu quanto seu. — Murmurei me sentando ao seu lado e encostando a cabeça em seu ombro. Ficamos em silêncio por um bom tempo, apenas pensando e aproveitando a companhia um do outro. Até que minha barriga roncou e Julian gargalhou. — Eu vou preparar uma coisa bem gostosa e nutritiva para vocês. — Ele se levantou, mas então logo se virou de volta e se agachou a minha frente. — Papai não vai deixar você passar fome, prometo. — E beijou minha barriga antes de sair andando com o celular na mão em direção à cozinha. Eu nunca pensei que ficar grávida seria uma experiência tão… Gostosa.


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APÍTULO 17

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EIRA

As semanas se passaram rápidas e logo já havia chegado o quinto mês de minha gravidez. Julian finalmente estava mais animado e menos depressivo em relação ao ocorrido com Mathias e nós dois estávamos cada vez mais próximos. Era estranho estar carregando um filho do seu melhor amigo, sendo ele gay e você virgem. Era muito estranho se eu fosse pensar como alguém de fora. Mas era quase normal para nós dois, afinal, sempre fomos próximos e unidos e muito provavelmente ele era feito para mim de uma forma muito além do que qualquer um poderia entender. Era mais um dia de ultrassom e talvez finalmente nós pudéssemos descobrir se estávamos esperando uma menina ou um menino. Eu particularmente gostaria que fosse um menininho, mas obviamente amaria uma menininha da mesma maneira. Lian estava pulando – quase que literalmente – de ansiedade e expectativa enquanto eu me arrumava para podermos ir à clínica fazer o exame. — Vamos logo, Keira! — Ele exclamou me apressando. — Calma, Lian a gente já vai, só preciso arrumar o cabelo. — Você tá linda assim, agora vamos! — Ele disse me puxando pelo braço para sair da frente do espelho do banheiro. Bufei. Nem parecia que era eu que estava grávida naquele lugar. Fomos para a garagem e enquanto o elevador descia, Julian não parava de bater o pé no chão, impaciente. — Lian, calma! — Exclamei segurando em seus braços fazendo-o parar e me encarar. — Desculpe, estou ansioso para saber se é menino ou menina! — Ele disse parecendo um pouco embaraçado. — Não sei como você consegue ficar calma desse jeito! — Julian, eu estou tão ansiosa quanto você, só não estou demonstrando tão… Espalhafatosamente. — Conclui indo em direção ao seu carro. — E eu não deveria te deixar dirigir nesse estado. — Falei. — Como se eu fosse deixar você dirigir estando com uma barriga desse tamanho… — Julian revirou os olhos. Olhei para baixo e fiz careta para Lian. Minha barriga não estava tão grande assim. Mas admito que atrapalharia um pouquinho na hora de dirigir. Por mais ansioso que Julian estivesse, ele dirigiu com calma e muito cuidado até a clínica da doutora Pearsen, mas logo que botou os pés ali, recomeçara com a ansiedade e a andar de um lado para o outro sem parar. Eu estava começando a ficar incomodada com aquilo quando finalmente Sophia nos chamou para o exame de ultrassom. — E então papais, prontos para saberem qual o sexo do bebê? — Ela perguntou toda sorrisos, como sempre.


— Lian está louco de ansiedade… — Eu murmurei lançando um pequeno olhar insinuador em direção a ele. — Ah, saber o sexo do bebê é praticamente o início de tudo! — A doutora Pearsen exclamou enquanto me apontava o avental de exames para que eu me trocasse. — É aí que vocês podem começar a planejar o quarto, as roupinhas, os possíveis nomes… — Ela ia enumerando enquanto eu tirava minha blusa ali mesmo e vestia o avental. — Sim! — Lian exclamou daquela forma que deixa todo mundo na dúvida se ele é gay ou hétero. — Eu não sei como Keira pode estar tão indiferente quanto a isso! — Ele disse indignado para a médica que gargalhou. — Eu não estou indiferente! — Reclamei enquanto me deitava na maca. — Só estou sabendo me controlar, ora. Sophia riu e então começou com os procedimentos de sempre, colocou o gel sobre minha barriga e começou a vasculhá-la apertando um pouco aqui e um pouco ali. Senti o bebê se mexer no mesmo instante em que Sophia virou o monitor e deu uma risada. — Parece que o garotinho aqui não gosta muito de ser incomodado. — Murmurou apontando na tela uma imagem de um bebê que parecia agitado e se mexia conforme o aparelho de ultrassom se movia para captar mais informações sobre ele. — Garotinho? — Julian murmurou. Eu mal havia prestado atenção àquela palavra, tudo o que eu queria ver era meu bebê naquela tela. — Sim, é um meninão, se é que me entende. — Sophia piscou para Julian e depois gargalhou. — Vamos ter um Marco, Key! Vamos ter um Marco! — Lian exclamou com o maior entusiasmo do mundo. — Hei, paizão, seu garotinho está ouvindo você! — A doutora Pearsen murmurou apontando para a tela de exames onde Marco se remexia e às vezes me chutava. — Oh, meu pequeno, desculpe, desculpe! — Ele disse num tom mais baixo, chegando bem perto de minha barriga para sussurrar. No mesmo instante Marco se acalmou e seus movimentos ficaram menos agitados. — Ele está perfeito, crescimento normal, desenvolvimento normal. Tudo maravilhosamente bem. — A doutora concluiu. — Vou dar um DVD com a gravação do exame para vocês, sei como pais adoram essas coisas! — E como habitualmente, me deu a folha de papel toalha para que eu me limpasse e pudesse me trocar. Quando saímos do consultório Lian estava mais abobalhado do que sempre e seus olhos brilhavam de excitação. — Nós vamos ter um Marco, Keikey! — Ele exclamou novamente parando em minha frente e segurando minhas mãos. — Um pequeno menininho nosso. — Ele sorriu se abaixando para ficar murmurando coisas para minha barriga. Eu não me importei muito com o “nosso” na frase. Eu já havia me acostumado com a ideia de que aquele bebê seria para sempre nosso, meu e de Julian. Não dava para negar os fatos, não é? Quando chegamos em meu apartamento – no momento nosso apartamento – Lian


disse que iria trabalhar o restante do período como sempre e eu fui sentar em frente ao meu computador para começar a trabalhar também, mas é claro que agora meus pensamentos estavam muito mais dispersos e eu facilmente me via navegando pela internet procurando por berços e acessórios para quartos de crianças que poderiam ser úteis para nós. Já imaginava transformar o quarto de hóspedes no quarto de Marco. Só precisava realocar Julian que com certeza iria querer ficar 24 horas por dia ao meu lado e ao lado do bebê quando ele finalmente nascesse. Talvez eu pudesse deixar o berço no meu quarto nos primeiros meses e depois discutir com Julian o que faríamos dali em diante. Eu não conseguia parar de olhar os sites de lojas especializadas para coisas de bebês, era cada coisa mais linda que a outra! Meu desejo era ir clicando em tudo e ir comprando, mas eu precisava me controlar. Por mais que já tivessem se passado cinco meses e o bebê estivesse crescendo normal e tranquilamente, eu ainda tinha medo de me empolgar demais e acabar me frustrando no futuro. Decidi esperar Lian voltar para conversar e pensar na melhor forma de agirmos. Deus, estávamos mesmo parecendo um casal! Julian chegou às sete e meia e eu já estava impaciente com sua demora, mas ele chegara com um sorriso tão radiante nos lábios que eu não tive coragem de repreendê-lo por não ter me avisado que iria demorar mais do que o normal… Apesar de eu não ter esse direito de cobrá-lo. Ele chegou de mansinho até mim com aquela cara empolgada escondendo alguma coisa às suas costas. — Adivinha o que eu trouxe? — Perguntou com um ar brincalhão. — Uma maçã do amor? Porque eu estou louca por uma maçã do amor! — Exclamei brincando e fazendo meu melhor amigo revirar os olhos. — Anda, me mostra logo o que trouxe, Julian! — Retruquei querendo ver o que ele escondia. — Tarã! — Exclamou me estendendo uma sacolinha de uma loja de artigos para bebês. Encarei ele um pouco desconfiada, mas logo abri a sacola e vi um conjuntinho para recém-nascido em estilo marinheiro que era a coisa mais fofa do mundo. Olhei para meu melhor amigo e sorri dando-lhe um abraço. — Como você adivinhou? — Perguntei, já que estilizar todo o quarto com motivos de marinheiro era o que eu iria propor a Lian. — Somos melhores amigos, temos telepatia, dur. — Ele revirou os olhos e depois riu. Eu o abracei novamente por impulso e ele me abraçou de volta me apertando o máximo que a barriga entre nós permitia. — Eu te amo, Lian… — Murmurei ainda no abraço. — Eu também te amo, Key. — Ele respondeu de volta. Nós dois sabíamos que aquele “eu te amo” não era o convencional “eu te amo” que um homem diz à uma mulher ou vice e versa. Aquela frase estava muito além daquilo. Era um amor diferente e que muito poucos poderiam entender…


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APÍTULO 18

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EIRA

As semanas foram se passando cada vez mais rápidas e quando fui ver estava com sete meses. Julian estava dando a louca comprando várias roupinhas para Marco e decidira que compraria o apartamento ao lado do meu e faria uma porta conectando ambos para não perder nada da evolução de seu filho. Achei aquilo um pouco exagerado, mas ele já estava negociando tudo com o proprietário atual do apartamento, não seria eu a estragar aquela alegria louca toda. Já estávamos aprontando o quarto de Marco, as paredes estavam pintadas de azul marinho da metade para baixo e de creme na outra metade uma fita com ursinhos fazia a divisão. Ainda não havíamos comprado o berço e nem nada, mas aos poucos estávamos dando um jeito naquele quartinho. Era sábado de tarde e Lian havia pegado folga no hospital comunitário, já que haviam encontrado outro pediatra para fazer rodízio com ele. Eu estava sentada no sofá tentando arranjar um jeito de ficar confortável – a barriga já estava bem avantajada e pesava bastante – quando o interfone tocou. Lian prontamente foi atender e estranhou um pouco a visita sem aviso de Tricia. — Ok, pode mandar subir… — Ele murmurou um pouco desconfiado. — Tris está aqui e não me falou que viria… Isso não pode ser boa coisa… — Murmurei me encolhendo um pouco no sofá, o bebê dando um pequeno chute por eu ter contraído um pouco a barriga. Em poucos minutos Tricia estava à minha porta batendo e tocando a campainha como uma louca. Julian foi atender provavelmente com as palavras de repreensão prontas pela cara que estava fazendo, mas ao abrir a porta ele fora atropelado por um bando de mulheres lideradas por Tricia. — Mas o que… — Viemos fazer o seu chá de bebê! — Tris exclamou com ar triunfante e toda sorrisos. — Espero que não se importe, mas chamei algumas amigas minhas já que você não tem muitas amigas próximas. — Ela revirou os olhos ao dizer a última parte. — Chá de bebê? — Lian e eu perguntamos em uníssono. — Ah, Julian, você está aí? — Tris perguntou como se realmente não o tivesse visto. ��� Você tem que sair. — Apontou para a porta. — Como assim? — Ele perguntou indignado. — Chá de bebê é só para mulheres. — Uma das amigas de Tricia que carregava vários tipos de bebidas – não alcoólicas, devo dizer – disse em resposta. — Mas eu sou o pai! — Ele retrucou ainda indignado. — Ok, tudo bem, não tem problema o marido dela ficar. — Uma outra amiga disse.


— Ele não é o marido dela, Lou. – Tris disse revirando os olhos, mas se limitou a dizer apenas isso. Eu fiquei bastante besta vendo aquele bando de mulheres – eram mais de dez sem contar Tricia – arrumando as coisas e se acomodando em minha sala sem eu nem sequer saber quem eram! Puxei Tricia para um canto. — O que diabos você está fazendo? — Perguntei o mais baixo que consegui. — O seu chá de bebê, oras. — Respondeu enquanto abria alguns pratos de salgados e doces. — Tudo bem que não foi nada muito bem planejado, mas eu não ia deixar meu sobrinho sem um chá de bebê, nem que fosse só uma coisinha simbólica. — Ela virou-se para mim com a expressão séria. — Mas você nem me avisou que viria! — Se eu avisasse você não iria me deixar subir com todo mundo. — Tris argumentou e eu tive de admitir que ela estava extremamente certa. — Todo mundo já comprou os presentes. — Tricia, eu nem conheço essas mulheres! — Exclamei começando a ficar um pouco apavorada com tanta gente desconhecida na minha casa, o que certamente refletiu em Marco que me deu um belo chute. — Relaxa, Key, elas são maravilhosas e você vai adorar os presentes! — Mas… Eu não tive tempo de continuar a retrucar, Tricia foi até a rodinha de amigas para verificar se tudo estava certo. — É hora de começar! — Ela exclamou e suas amigas deram gritinhos de alegria. Lian se aproximou de mim e ficou ali parado, sem dizer nada. — Venham, papais! Sentem-se aqui. — Uma das amigas de Tris – Lou, acho – exclamou apontando para o sofá. Nós dois seguimos para lá com cautela, não fazíamos ideia do que Tricia poderia ter planejado. — Podem ficar calmos, não vamos fazer nada muito espalhafatoso, até porque, não deu tempo de planejar nada. — Ela disse revirando os olhos de frustração. — Talvez façamos vocês pagarem alguma prenda ou coisa assim, mas nada perigoso. — Ela riu. Não tinha graça nenhuma. — Tudo o que você, Keira, tem que fazer é acertar qual é o presente que está embrulhado aqui. Se acertar, ok, se errar nós escolheremos se pintaremos seu rosto ou se faremos Julian pagar um mico. — Ela sorriu de forma meio diabólica. — É bom você acertar todas, Key. — Lian tentou soar ameaçador. O fato é que eu acabei com a cara – e a barriga – toda pintada de batom de vários tons e Lian acabou tendo que dançar até o chão e também a Macarena. O único presente que acertei o que era foram os pacotes de fraldas que Mariah havia me dado por ser uma caixa bem grande e quase óbvia. Além das fraldas ainda ganhei um kit com mamadeira,


porta chupeta e chupeta; algumas toalhinhas de bebê personalizadas com o nome de Marco e estampinhas de marinheiro; toalhas de banho e um kit de saída de maternidade que obviamente fora Tris quem dera. Nesse kit ela até deixara uma roupa para mim combinando com a do bebê, o que foi a coisa mais fofa do dia. Julian ganhara um chapeuzinho azul marinho para combinar conosco. Apesar de eu estar bastante desconfortável no início, até que me diverti bastante com todas as amigas de Tricia. Algumas já eram mães e me deram dicas como quando o bebê ficasse com cólicas e coisas do tipo. Discutimos bastante também a forma de parto. Eu havia decidido fazer uma cesariana. — Menina, parto normal é a melhor coisa do mundo! — Noemy exclamou espalhafatosa. — Você só sente a dor na hora e pronto. Acabou. — Ah, não, não! — Mariah disse chamando a atenção para si. — Minha prima optou por parto normal e se arrependeu logo que as contrações chegaram. Ela disse que teve vontade de morrer quando chegou a hora do parto. — Eu tive um parto por cesariana e correu tudo bem, é claro que você sente um pouco de dor por algumas semanas, mas não é nada tão aterrorizante quanto costumam fazer parecer. — Joanna murmurou abanando o ar. — E não fica marca visível o que é uma maravilha da atualidade! Continuamos conversando sobre partos e tudo mais. Eu não queria passar pelo desespero de começar a sentir as contrações e de repente minha bolsa estourar e eu ter de sair correndo para o hospital, com dor e tendo de esperar a dilatação certa para que eu pudesse fazer força e sentir ainda mais dor para forçar o bebê a sair. Não, muito obrigada. Eu já tinha a data certinha marcada no calendário para ir com tranquilidade à maternidade e não passar por aqueles tipos de sufocos. — Esse bebê vai ser uma coisa linda! — Noemy exclamou depois de algum tempo analisando a mim e a Julian. — Os pais tem uma genética maravilhosa. — Ela sorriu. — Claro que isso não importa para os pais, mas foi só um comentário. — Riu. — É claro que Marco vai ser lindo! É meu sobrinho! — Tricia se gabou. — Qualquer sobrinho ou sobrinha meus sempre serão lindos. — Ela estufou o peito se vangloriando como sempre. Eu ri de minha melhor amiga e depois bocejei sentindo o cansaço me pegar. — Meninas, acho que é hora de irmos, a mamãe precisa descansar. — Mariah murmurou já se levantando e as outras a acompanharam. — Eu vou ficar para ajudar arrumar a bagunça. — Tricia avisou. — Muito obrigada por tudo, meninas. — Eu disse me despedindo de cada uma delas. — Principalmente pelo vídeo de Julian dançando a Macarena. — Comentei logo dando uma gargalhada ao ver a cara nada satisfeita de Lian. — Foi um prazer, Keira! — Joanna fora a última a se despedir. — Nos mande fotos do pequeno quando ele nascer! — Exclamou quando já estava na porta do apartamento. — Pode deixar!


Quando todos foram embora, eu estava me sentindo exausta. Me sentei no sofá de uma forma meio torta por conta da barriga e encostei a cabeça numa das almofadas ali perto. Eu mal percebi quando peguei no sono, só fui levantar às oito da noite que foi quando Lian me acordou para jantar. Salada de novo. ECA!


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APÍTULO 19

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EIRA

Com oito meses eu estava com uma barriga consideravelmente enorme e andar já não era uma coisa tão confortável assim. Aliás, nem andar, nem sentar, nem deitar, nada era confortável para mim naqueles últimos meses de gravidez. Eu estava quase sempre exausta por não conseguir dormir direito à noite sem conseguir encontrar uma posição confortável o bastante. Lian comprara um monte de travesseiros para ver se me ajudava, mas dormir sentada não era coisa mais legal do mundo. Eu estava um pouco mal-humorada num fim de semana quando Julian chegara dizendo que era hora de completar o enxoval e que queria que eu estivesse junto já que todo o resto nós havíamos escolhido juntos. Já havíamos comprado o berço e o trocador, a cômoda e uma poltrona para que eu pudesse amamentar durante a madrugada. Agora Lian queria comprar todas as coisas que tinha direito para Marco. Havia feito uma listinha do que queria ver comigo no centro da cidade o que incluía algumas coisas meio supérfluas, mas quem realmente estava ligando quando se estava mimando o próprio filho? A cada dia Lian parecia mais radiante e feliz do que o normal, o que na minha opinião não era lá ruim, mas era suspeito. Suspeito porque ele estava feliz além do normal que incluía apenas Marco e sua chegada próxima. Havia mais alguma coisa que o estava deixando radiante e alegre todos os dias, mas ele não queria me contar. Eu já o havia confrontado querendo saber o que estava acontecendo, mas ele me respondera com o típico “não é nada!” para fugir do assunto. Ele tinha arranjado outro? Analisei todos os fatos e hipóteses e cheguei à conclusão de que sim, ele tinha arranjado outro. Mas se era esse o caso, então por que não me dizia de uma vez e não me apresentava ou pelo menos me mostrava uma foto? Era isso que melhores amigos deveriam fazer, certo? A não ser que esse outro fosse o mesmo. E com “o mesmo” eu queria dizer Mathias. Mas não, não poderia ser possível. Meu amigo era sentimental às vezes, mas não era burro o bastante para aceitar de volta um cara que disse na cara dura que o estava traindo. E que ainda havia levado o amante para o apartamento de Lian. Não, não podia ser. Chegamos ao centro da cidade e o lugar já estava meio cheio por ser fim de semana e aquilo não me ajudava em nada no humor. Fui caminhando lentamente com minhas costas doendo e Lian me segurando pelo braço e pela cintura para tentar me ajudar a equilibrar a barriga. Fomos atrás de mobiles, cortinas, mais roupas, travesseirinho, artigos para decoração, mantinhas e mais algumas coisas que ele achava necessário para mim, como uma cinta para manter os pontos da cesariana no lugar, uma camisola para que eu pudesse ficar no hospital e chinelos novos. Eu realmente não achava que aquilo era necessário para aquele momento, mas não queria estragar a felicidade de Julian de estar gastando dinheiro com o filho. Decidimos almoçar por ali mesmo e enquanto eu saboreava minha sobremesa do tamanho de uma montanha, fiquei observando Lian mexer incessantemente no celular e soltar alguns sorrisos involuntários para a tela do aparelho. Bufei e empurrei minha


sobremesa de lado chamando a atenção de Julian. — O que houve? Está sentindo alguma coisa? — Perguntou preocupado. — Julian Deasey, com quem você está falando? — Perguntei entredentes, já temendo pelo pior. — O quê? — Com quem você está falando? — Repeti cruzando os braços e lançando um olhar sério em sua direção. — Com ninguém importante. — Ele respondeu guardando o celular imediatamente. — Julian… — É sério. Não precisa se preocupar. — Ele respondeu segurando minha mão tentando me tranquilizar. — Lian, você sabe que quando dizemos “não precisa se preocupar” numa situação assim quer dizer que devemos nos preocupar, certo? Ele ficara mudo por alguns instantes o que fora o bastante para eu ter um pequeno surto. — Ah meu Deus, você voltou com Mathias! — Exclamei meio que acusadoramente. — O quê? É claro que não! — Ele exclamou parecendo um tanto ofendido. — Ficou maluca? — Você voltou com ele! — Acusei. — Voltou e é por isso que não quer me dizer, porque sabe que eu sou completamente contra isso! — Keira, não é nada disso, pelo amor de Deus! — Julian massageou as têmporas, provavelmente pedindo paciência. — Eu não voltei com Mathias, ok? — Então porque ficou todo com cara de bobo apaixonado sorrindo para a tela do celular durante quase todo o almoço? — Perguntei o acusando novamente. — Jesus, Keira! — Ele exclamou parecendo espantado. — Você está parecendo uma esposa ciumenta! — Não Lian, estou parecendo uma melhor amiga preocupada com as possíveis cagadas que o melhor amigo pode estar cometendo. Julian respirou fundo e olhou um pouco para os lados. Algumas pessoas de mesas um pouco afastadas da nossa estavam começando a nos encarar com curiosidade e estranheza. Ele então se voltou novamente para mim e voltou a segurar minha mão. — Keira, eu estou sim saindo com uma pessoa. — Ele murmurou baixinho. — Mas eu juro que não é o Mathias. — Completou. — Então por que não falou nada para mim? — Retruquei ressentida. Lian suspirou mais uma vez e ficara alguns instantes pensando no que me dizer. — Eu não quero criar expectativas sobre ele enquanto o bebê não nascer. Nós estamos saindo e nos conhecendo melhor, mas minha prioridade é Marco. E também


preciso pensar bem se é isso mesmo que eu quero. — Como assim, isso mesmo que você quer? — Perguntei ficando um tanto confusa. — Outro companheiro. Algo sério. Ainda mais com Marco e toda a nossa história. Se foi difícil para Mathias entender, imagine alguém de fora? Eu bem podia imaginar o belo nó que nossa história daria no cérebro de qualquer um que não tivesse a mente aberta, mas se o novo companheiro de Julian fosse um cara compreensivo e tolerante, com toda a certeza ele entenderia a decisão que nós dois havíamos tomado em termos um filho juntos. — Lian, você melhor do que ninguém sabe: Se for para ser, será. — Eu disse finalmente e sorri recebendo um tímido sorriso de volta. — Eu espero que seja para ser. — Ele sorriu e eu ri concordando. Não havia coisa que eu quisesse mais naquele mundo – além de Marco, claro – do que ver meu melhor amigo feliz com a pessoa certa. E eu esperava que a pessoa certa estivesse bem próxima.


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APÍTULO 20

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EIRA

Instantes quase atuais Finalmente era chegado o grande dia! Ah, a alegria e tranquilidade de não ter que ficar esperando a vontade do bebê de sair de você, que maravilha! Eu já havia deixado todas as minhas coisas prontas, minhas e do bebê, em uma maletinha para passar os três dias na maternidade. Agora quem estava extremamente ansiosa era eu e não Lian. Digo, Julian estava ansioso, mas não tanto quanto eu. Acho que ele estava mais para empolgado. — Keikey, você precisa se acalmar ou vai acabar tendo o bebê aqui mesmo! — Lian exclamou enquanto pegava minha maleta e me ajudava a ir em direção à porta do apartamento. — Deus me livre! — Quase gritei imaginando contrações e dores de um parto normal. Definitivamente não. — Vamos, Key, respire e relaxe. — Ele sorriu e foi apertar o botão do elevador. O elevador demorou tanto para subir que eu estava quase considerando descer pelas escadas se não fosse o fato de estarmos no sétimo andar e eu estar extremamente grávida. Ao menos a descida para a garagem fora mais rápida e sem interrupções. Quase corri em direção ao carro de Lian, mas eu não estava em condições de dar mais do que passinhos um pouco mais ligeiros do que uma caminhada. Julian tentou me deixar confortável no bando do passageiro, mas estava bem difícil. Graças a Deus a maternidade não ficava tão longe e ainda era de manhã, o trânsito não deveria estar tão ruim. Foram quinze minutos longos demais para mim. Lian colocou música para me acalmar e quase estava dando certo, mas a ansiedade continuava bem presente quando chegamos. Uma enfermeira me levou até um leito e me fez deitar para ficar tomando soro enquanto a doutora Pearsen não chegava. Eu tamborilava os dedos, agitava meus pés, e queria ficar zanzando por aí de tanta ansiedade até que finalmente Sophia chegou com o típico sorriso nos lábios. — E então, papais, estão prontos para o dia especial? — Ela perguntou vindo até mim e segurando minha mão. — Keira está quase tendo o bebê de tanta ansiedade. — Julian murmurou fazendo a médica rir. — Ah, isso é muito normal, em pouco tempo vocês dois poderão pegar seu filho nos braços. — Sophia sorriu. — Agora vou aplicar a anestesia e em alguns poucos minutos, quando ela fizer efeito, estaremos todos prontos para o nascimento de nosso pequeno Marco!


Momentos atuais da introdução E assim você pode entender um pouco melhor como é que eu estou tendo o filho do meu melhor amigo, agora nosso filho. Eu ainda estou preocupada com o que está acontecendo na parte de baixo do meu corpo, quero dizer, a doutora Pearsen e o restante da equipe não estão fazendo nenhum ruído e acho que isso é de se preocupar, não é? Mas pela cara de alegria que Julian está fazendo, parece que tudo está indo bem. Respiro fundo tentando acalmar a mente e estou pensando em números e carneirinhos quando ouço o primeiro choro daquela sala. — Ah! Nosso pequeno Marco está aqui! — A doutora Pearsen exclama com o tom mais alegre que eu já tinha ouvido antes. — E que pulmões! É isso aí, garotinho! Eu fico impaciente querendo ver meu bebê, mas provavelmente ainda estão me fechando do outro lado das cortinas, então não posso me mexer. Julian desaparece por alguns segundos de minha vista e então reaparece com um pequeno embrulho nos braços. Estou eufórica e quero levantar minha cabeça para enxergar melhor, mas a doutora havia me advertido para não fazer movimentos bruscos com a cabeça enquanto o efeito da anestesia não passasse. Lian está todo sorridente ao meu lado e então se abaixa para que eu possa ver um pouco melhor o rostinho de Marco. Ele ainda está um pouco molhado, de olhos fechados e fazendo careta, mas para mim já é a coisa mais linda do mundo. Agora posso dizer que entendo o que é o olhar de mãe. Nossos filhos nunca são feios aos nossos olhos. Mas os dos outros continuam parecendo criancinhas com caras de joelho para mim. — Será que posso tirar uma foto? — Lian pergunta todo emocionado ao meu lado. — Mas é claro, meu querido, se quiser, eu tiro para você! — A doutora Pearsen exclama toda empolgada tirando as luvas de cirurgia e pegando o celular das mãos de Lian. Lian se posiciona ao meu lado com Marco entre nós e nós sorrimos para o primeiro retrato de família. Momentos mais tarde O parto havia sido completamente normal e em pouco mais de meia hora eu já estava liberada para meu quarto. Marco ainda estava tendo todos os primeiros cuidados com as enfermeiras e eu estava completamente agoniada por ainda não ter meu pequeno nos braços. Lian ficava encarando a foto tirada na sala de parto a todo momento e aparentemente estava enviando-a para todos os seus conhecidos, e com certeza para Tricia também. Eu queria muito me levantar para ir ver a ala do berçário e saber qual era o problema para tanta demora quando finalmente a enfermeira chegou abrindo a porta e empurrando um carrinho-berço para dentro do quarto. Quase dei um pulo de alegria me sentando com rapidez na cama, o que me fez gemer de dor por conta dos pontos da


cesariana. — Cuidado, querida! — A mulher exclamou deixando o carrinho com Marco em um canto do quarto e vindo me ajudar. Ela ajustou o módulo da cama para que eu pudesse ficar sentada e encostada no encosto da maca de uma forma confortável. — Pronto, acho que assim está melhor. — Ela deu uma piscadela e voltou-se para o carrinho que trouxera e que Lian estava observando com toda a atenção do mundo. — Venha, querido, traga-o para cá ou vai deixar uma mãe furiosa! — A enfermeira exclamou e eu assenti cruzando os braços. Julian pegou o pequeno embrulho de mantas com enfeites de marinheiro e com cuidado veio trazendo-o em minha direção. Preparei meus braços e ainda um pouco sem jeito segurei pela primeira vez meu pequeno Mac. Ele era tão pequeno e frágil. Ainda não se parecia com nenhum de nós dois, mas pouco me importava, ele era lindo. E eu estava apaixonada. Alguns minutos em meu colo e Marco começara a chorar. Eu não fazia ideia do que fazer e tudo que consegui foi encarar Julian e a enfermeira que sorriu compreensiva. — Está na hora da comida, mamãe! — Ela informou e eu me senti completamente idiota por não ter pensado naquilo antes. Fiquei um pouco sem jeito de amamentar meu filho pela primeira vez na frente de uma desconhecida e pela primeira vez fiquei com vergonha de Lian. Quero dizer, ele já havia me visto seminua milhares de vezes na vida, mas não quase completamente nua. Mas respirei fundo e descobri um dos seios para amamentar Marco que parou de chorar agradecido no instante em que sua boca começou a sugar o leite que havia se acumulado em meu peito. — Prontinho. Qualquer coisa que precisarem é só apertar o botão aqui e virei correndo ajudar. — A enfermeira sorriu e depois saiu pela porta cantarolando de forma alegre e meio doida. — E então, qual é a sensação? — Lian perguntou arrastando a poltrona de acompanhante para ficar mais perto de nós. — Sensação de que, exatamente? — Perguntei um pouco confusa. — De amamentar! Encarei Lian com uma sobrancelha erguida e comecei a tentar explicar da melhor forma possível, mas no final eu apenas disse: — É uma sensação maravilhosa, Lian. Ele sorriu encantado para mim e para Marco e então se levantou e veio dar-nos um beijo na testa. Eu quase poderia chorar naquele momento, mas Lian já estava fazendo isso por mim.


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APÍTULO 21

P J OR

ULIAN

Eu estava completamente encantado com Marco. Ele mal havia dado o seu primeiro choro e já havia me conquistado e pelo olhar de Keira, ela também já havia sido fisgada pelo nosso pequeno. Eu estava em puro êxtase enviando fotos de Marco para todos os meus conhecidos mais próximos e espalhando em minhas redes sociais. Obviamente comecei a receber perguntas sobre como eu havia me tornado pai, se eu havia “virado homem” e se eu havia feito barriga de aluguel, mas aquelas perguntas ficariam sem respostas por enquanto. Apenas prestava mais atenção aos comentários de amor e carinho que vinham me mandando. Estávamos conversando, Keira e eu, sobre alguns comentários um tanto homofóbicos em meu perfil quando Tricia entrou no quarto de forma espalhafatosa – jeito de Tricia, claro – e quase acordando Marco que havia acabado de pegar no sono. — Own, que carinha de joelho mais gracinha da titia! — Ela murmurou observando meu filho dormir tranquilamente agarrado com suas mãozinhas à coberta de marinheiro. — Acho que ele vai ser a coisa mais linda do mundo. — Tris disse se virando para mim e Keira que paramos de falar quando ela chegara. — Do que estavam falando? — Ela puxou uma cadeira para mais perto da cama de Key e se juntou à “rodinha”. — Eu estava dizendo que o que mais eu tenho “inveja” de vocês mulheres é que vocês podem dar à luz uma criança. — Murmurei. — Oh. Bem… Eu fico puta em saber que um cara é gay. — Tricia começou e eu meio que me senti ofendido, e acho que deixei isso transparecer. — Calma. Eu fico puta porque eu não posso sequer competir pela atenção dele! — Ela choramingou e eu dei um risinho. — Eu encontro um cara gato com um papo ma-ra-vi-lho-so e quando penso que estamos indo aos finalmente ele me informa que é gay. Eu tenho vontade de morrer! — Tricia exclamou teatralmente. — Você não queria que andássemos com uma plaquinha “Oi, eu sou fulano e sou gay” no pescoço, queria? — Perguntei erguendo a sobrancelha. — Não, mas não custava nada dizer isso antes de me dar esperanças, né? — Tris retrucou fazendo bico. — É, com isso preciso concordar. — Ri. — Que tal uma selfie? — Tricia perguntou mudando completamente de assunto pegando seu celular decorado com brilhantes rosas e chamativos. — Tris, eu tô horrível! — Keira exclamou. É, ela não estava em seu melhor momento. — Ai, é só jogar esse cabelo um pouco pra cá e dar aquele sorriso matador que vai ficar ótimo! — Tricia disse arrumando o cabelo de Keira. — Será que o nosso principezinho gostaria de participar da foto? — Ela perguntou encarando o berço que estava perto de mim.


Olhei o relógio, eram quase cinco, logo ele teria de acordar para tomar o primeiro banho, então nós decidimos que Marco participaria da selfie de Tricia. Peguei meu filho no colo e Keira e eu dividimos o braço para equilibrá-lo entre nós. Tris ficou ao lado de Key e tirou uma foto surpreendentemente boa considerando que estávamos num hospital e que Key havia acabado de passar por uma cirurgia. Ficamos todos sorridentes e radiantes. — Vou postar em todas as minhas redes sociais. Meu sobrinho é a carinha de joelho mais linda do mundo! — Exclamou enquanto começava a compartilhar a imagem. — Tris, pare de chamar o meu filho de cara de joelho, por favor? — Retruquei segurando Marco no colo e o embalando para que ele continuasse dormindo mais um pouco. — O filho não é meu, qualquer filho que não seja meu terá sempre cara de joelho enquanto recém-nascido. — Tris respondeu sem sequer olhar para mim. Apenas revirei os olhos e Keira riu. — Era nossa filosofia, Lian. Nós duas sempre achamos os recém-nascidos com carinhas de joelho por serem pequenos e enrugados. — Key me explicou e eu revirei mais uma vez meus olhos. — Mas obviamente Marco não tem cara de joelho para mim, afinal, eu sou a mãe dele. Mães nunca acham que seus filhos têm cara de joelho. — Ela disse como se aquilo fosse a coisa que mais fazia sentido no mundo. O que definitivamente não fazia. Ficamos discutindo sobre o negócio da cara de joelho por longos minutos até a enfermeira chegar e dizer que era hora do banho do bebê. Key e eu ficamos eufóricos, mas ela me dissera para dar o primeiro banho pois ela ainda estava um pouco dolorida nos pontos da cesariana. E então, lá fui eu em direção à banheira que a enfermeira havia trazido. — Antes de mais nada, sempre verifique a temperatura da água. Ela nunca deve estar muito quente pois a pele do bebê é bastante sensível. — A enfermeira instruiu. Eu mal me dei ao trabalho de dizer que já sabia daquelas pequenas coisas por ser pediatra. Naquele momento eu era o pai de primeira viagem mais feliz do mundo. — Pegue o bebê e vamos tirar as roupinhas dele. E não se esqueçam de separar a nova roupa e a fralda para depois do banho. — Ela instruiu e eu fui preparar a próxima roupa de Marco e a fralda enquanto a enfermeira despia o bebê. Ela me ensinou a verificar a temperatura e a fazer com que o banho ficasse confortável para Marco caso ele ficasse muito agitado, o que não era o caso no momento, ele continuava dormindo e parecia estar gostando da forma como estava sendo tratado. Dar banho em Marco fora bastante fácil para uma primeira vez, e eu estava me sentindo bastante orgulhoso por ter conseguido aquele feito. Keira olhava para mim com uma mistura de ternura e orgulho também, sorria como uma boba na nossa direção. Acho que aquilo significava que nossa família estava se construindo. Finalmente.


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APÍTULO 22

P J OR

ULIAN

As primeiras semanas como mãe de primeira viagem me deixaram completamente perdida e sem energia. Graças a Deus Julian havia conseguido ficar com o apartamento ao lado do meu e como havia prometido, conectou ambos com uma porta no meio do corredor de quartos. Eu havia decidido deixar o berço de Marco em meu quarto durante os primeiros meses já que eu estava com o sono pesado e tinha medo da babá eletrônica falhar ou eu simplesmente não escutar quando ele chorasse. Obviamente Lian vivia mais no meu apartamento do que no dele, mas nós dois já havíamos nos acostumado com aquilo. Vez ou outra era ele quem cuidava de Mac durante a madrugada me acordando apenas quando a questão era a amamentação. Julian estava se saindo um belo pai coruja e babão. Meus pais decidiram vir me visitar já que eu havia realmente realizado a loucura de ter um filho sozinha. Lian cedeu seu lado do apartamento para que meus pais pudessem ficar o quanto tempo quisessem e minha mãe estava completamente louca com Marco. Ela havia trazido vários presentinhos que seriam úteis apenas futuramente, como um mordedor para quando os dentinhos estivessem nascendo, alguns bichinhos de pelúcia e roupas para bebês de três meses. — Essas crianças crescem rápido demais! Você vai ver, quando menos esperar, vai estar usando essas roupas. — Ela disse analisando o que havia trazido para seu mais novo neto. — Eu ainda não acredito que você fez mesmo essa loucura de inseminação… — Ela balançava a cabeça negativamente. — Mas pelo menos meu netinho é lindo e saudável. — Mamãe murmurou lançando um olhar todo apaixonado na direção de Marco que estava em meu colo sonolento. Papai não ligou muito para como eu havia arranjado um bebê que ele podia chamar de neto, mas adorou poder segurar Marco pela primeira vez e como sempre, o encanto dos recém-nascidos aconteceu. Todos estavam apaixonados por meu filho. Aliás, meu e de Julian. — Senhor e senhora Christensen, os senhores podem ficar em meu apartamento, esta porta faz ligação entre os dois, então podem ir e vir à vontade. — Lian disse todo cortês e educado. — Senhor e senhora Christensen, Julian? — Mamãe virou-se para encarar meu amigo. — Nós te conhecemos desde que saiu das fraldas, pelo amor de Deus, menino! — Ela retrucou caminhando para a parte de Julian do apartamento sem dar chance para que ele respondesse, eu apenas ri e ele coçou a nuca um tanto encabulado. — É que já faz um bom tempo que eu não os vejo, né? — Ele murmurou para mim que apenas dei tapinhas solidários em seu ombro. — Papai e mamãe sempre te amaram, Lian. Você é como um segundo filho para eles. Devia chamá-los de tio e tia. — Revirei os olhos e ele gargalhou. Ainda estava no primeiro mês com Marco e me acostumando aos seus horários de


amamentação. Decidi deixar um despertador para que não me esquecesse e para que Mac não precisasse chorar para eu me lembrar de que precisava alimentá-lo. Quase na mesma semana em que meus pais chegaram, os pais de Lian também vieram ver a pequena surpresinha que seu filho resolvera aprontar. Claro que minha mãe e meu pai tinham um dedo no meio disso, já que os senhores Deasey não viriam até aqui pelo filho. Pelo menos não o senhor Deasey, o pai de Julian. No início parecia que tudo estava indo muito bem, estávamos conversando sobre como as coisas estavam indo para cada um de nós e a mãe de Lian e minha mãe não paravam de ficar olhando para Marco e o pegando no colo quando uma delas percebia que ele estava acordado. — Mas me expliquem vocês dois — a senhora Deasey exclamou apontando para mim e Julian — como foi que vocês me aprontaram isso? — Perguntou erguendo a sobrancelha. — E o mais importante: por que eu não fui avisada antecipadamente que seria avó? — Retrucou fazendo cara feia para o filho. — Nós decidimos tentar de última hora, mãe… — Lian disse tentando evitar uma longa história a ser contada. — E eu não contei para a senhora porque… — Ele parou de falar e lançou um rápido olhar em direção ao pai que estava sentado com uma carranca nada agradável em minha poltrona. — Ora, mas eu sou avó e tinha o direito de saber que meu filho ia ser pai! — A senhora Deasey exclamou. — Oh meu Deus, eu sou avó! — Ela abraçou minha mãe que estava sentada ao seu lado. — Eu nunca pensei que seria avó, Lian. — Ah, Janet, eu menos ainda… — Mamãe disse revirando os olhos e me fazendo lançar a ela um olhar nada amigável. — Ora, filha, você sempre me disse que não queria se casar e que não tinha o menor interesse em sexo… — E Julian eu imaginava que acabaria adotando uma criança e eu estava preparada para isso, mas ter um neto sangue do meu sangue… Ah, isso é demais! — Mas como foi que vocês decidiram fazer isso? — Janet, mãe de Julian, perguntou não querendo deixar o assunto morrer. — Ah, bem… — Eu murmurei vendo que Lian não estava lá muito confortável com a presença de seu pai. — Vocês sabem, nós somos melhores amigos desde criança, estávamos querendo a mesma coisa… Então por que não unir o útil ao agradável? — Tentei resumir. — Own, vocês formam um par perfeito! — Mamãe exclamou toda boba. Agradeci mentalmente por ela não ter usado a palavra “casal”. — Formariam se Julian não fosse aquele tipo de pessoa. — Pela primeira vez o pai de Lian se pronunciou e eu senti toda a alegria e harmonia do ambiente se esvaindo, até mesmo Marco se remexeu em meus braços e resmungou um pouco. — E qual o problema nisso, senhor Deasey? — Tomei a liberdade de perguntar. — Não é natural. — O senhor carrancudo dirigiu seu olhar mais frio em minha direção.


— Pois eu acho que foi a melhor escolha para os dois. — Mamãe interveio ainda toda boba com Marco em meus braços. — A melhor coisa? — O pai de Julian perguntou com certo asco na voz. — Garotinha, já imaginou o que fará se esse seu filho for aquele tipo de gente também? — O homem virou-se com tanta ira no olhar em minha direção que eu quase pude tocar o sentimento. O recinto caiu em um silêncio incômodo até que Marco começou a se remexer e a chorar em meus braços eu o segurei com mais força contra meu peito e tentei niná-lo mesmo sentindo um pequeno ódio do avô paterno de meu filho. — Senhor Deasey, use a palavra. — Eu disse um tanto entredentes. — Se Marco for gay eu vou ser a mãe dele e amá-lo da mesma forma que amarei se ele não for. — Respondi sentindo minha face esquentar um pouco com a raiva que vinha me subindo. Como depois de tantos anos aquele homem ainda continuava com uma concepção tão arcaica sobre o próprio filho? — O que o senhor deveria estar fazendo com seu filho. Julian é sangue do seu sangue e não é só por uma bobagem dessas que ele deixará de ser seu filho. — Não sei do que está falando, garotinha. — O senhor Deasey desviou o olhar e fechou a cara novamente. — O senhor deveria se orgulhar de seu filho por seu caráter, por seu bom coração, pelas coisas boas que ele faz, e não o odiar por um simples detalhe que não muda nada do que ele é. — Eu disse com a raiva realmente subindo à cabeça. Eu apenas não havia levantado de onde estava porque Marco estava em meu colo e porque Julian segurava firmemente em meu braço. — Ok, já chega. — Janet murmurou antes que o marido abrisse a boca novamente. — Está na hora de deixarmos o bebê descansar. — Oh, com certeza, já tomamos tempo demais aqui. — Mamãe concordou puxando papai pelo braço em direção à porta que levava ao apartamento ao lado, Janet fazendo o mesmo. — Nos vemos mais tarde, ok, querida? — Claro, mamãe… — Respondi um pouco a contragosto. Quando ficamos sozinhos Lian pediu para que eu passasse Marco para ele. Quando ele o pegou, percebi que lágrimas intensas escorriam por seus olhos e um e outra caíam sobre a manta na qual Mac estava enrolado. Eu fiquei completamente sem ação ao ver aquela cena. Julian abraçou Marco com cuidado e continuou chorando de uma forma que me fez sentir uma pontada de dor no peito. — Lian… Eu sinto muito… — Murmurei me agachando com um pouco de dificuldade por conta dos pontos recentes da cesariana. — Eu não deveria ter dito aquelas coisas ao seu pai e… — Não, Keikey, você foi perfeita… — Ele murmurou entre uma fungada e outra. — Então por que você está chorando assim? — Perguntei confusa. — Porque eu sei que meu filho vai ter apoio para o que quer que ele decida na vida,


tanto da minha parte quanto da sua. — Ele disse fracamente. — Eu te amo, Keikey… — Eu te amo, Lian… — Murmurei dando um jeito de abraçar os dois, Lian e Marco, da posição em que me encontrava. E ficamos ali, aproveitando a companhia e a quentura daquele abraço de família.


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APÍTULO 23

P K OR

EIRA

Mal dava para acreditar que três meses haviam se passado tão rápido. Marco estava cada dia mais esperto e já tentava virar a cabeça quando ouvia seu nome ou algum barulho que lhe interessasse. Ele adorava a hora do banho, o que facilitava muito as coisas para mim. Lian havia ido para seu apartamento finalmente e quase voltado à sua rotina normal. Ele ainda vinha verificar se eu estava fazendo uma dieta adequada para uma amamentação saudável e vez ou outra me trazia comida para o jantar. Foi um dia desses em que eu estava tranquila brincando com Mac quando ele entrou em casa com várias sacolas nos braços e um sorriso não muito convincente no rosto. Ergui as sobrancelhas desconfiada. — Keikey, minha melhor amiga mais linda…! — Exclamou assim que botou as sacolas num canto. — Desembucha, Deasey. — Retruquei me levantando com Marco no colo. Ele ficara calado por um tempo que eu realmente achei que deveriam ter sido minutos. Até que pigarreou e começou a falar. — Bem, lembra que eu disse que estava saindo com uma pessoa? — Ele perguntou um pouco acanhado. Julian acanhado por falar de um de seus rolos, essa era nova… — Então, eu decidi que estava na hora de vocês se conhecerem. — Continuou. — Ah, finalmente! — Eu exclamei e se pudesse jogaria meus braços para o alto em comemoração. — É, só que eu resolvi convidá-lo para o jantar hoje… Eu abri a boca para falar alguma coisa, mas meu cérebro ainda estava processando o recado e então dei um pulo. — Como assim, hoje? — Exclamei e Mac resmungou em meus braços. — Olha o estado da minha casa! Olha o meu estado! — Disse. — O que ele vai pensar de mim? — De você? — Lian perguntou erguendo uma das sobrancelhas. — Estou mais preocupado com o que você vai pensar dele… — O quê? Por quê? — Olha, ele deve chegar em algumas horas para o jantar e… — Você explicou sobre… Sobre nós? — Perguntei ainda achando muito estranho me referir a Lian e a mim como “nós”. — Aí é que está, eu mencionei que tinha um filho, mas não entrei em detalhes… — Como assim não entrou em detalhes? — Perguntei entredentes fazendo um grande esforço para não incomodar Marco que brincava com uma mecha dos meus cabelos. — Julian! Ele encolheu os ombros como um garotinho acuado e baixou o olhar.


— Eu disse que antes de podermos continuar com qualquer coisa nós teríamos de fazer este jantar porque ele precisava ser aprovado por uma pessoa antes. — Lian murmurou encabulado. Eu lhe lancei um olhar severo e nada agradável, o que o fez se encolher mais ainda. — Julian, pelo amor de Deus, como é que você não foi falar sobre nós para um futuro namorado seu? — Retruquei indo levar Marco para o berço para que eu pudesse falar um pouco mais à vontade com meu melhor amigo idiota. — Escuta, eu já o preparei, ok? — Ele segurou em meus braços para tentar me acalmar. — Disse que a presença da mãe era constante na vida do meu filho e consequentemente na minha. Aquela informação me deixou um pouco menos irritada. Então ele havia falado sobre mim. — Tudo bem, então qual é o problema? — Perguntei respirando fundo. — Bem, você é a mãe do meu filho. E eu não vou ficar com alguém que você não ache que seja uma boa influência para Marco. — Ele disse como se fosse óbvio. Fiquei encarando Julian por um tempo bem longo ao meu ver. Ele estava querendo a minha aprovação para um namorado dele! Por causa de Mac! Own, não poderia ter um melhor amigo gay e pai do meu filho melhor do que esse! — Tudo bem, eu vou analisar seu companheiro para você. — Sorri torto toda metida, o que fez Lian revirar os olhos. — O jantar vai ser em casa então você não precisa se preocupar com nada. — Você vai comprar comida pronta, não vai? — Perguntei o óbvio e ele com muita relutância assentiu. — Sério, Lian? — Comida chinesa. — Deu de ombros. — Tá, tá, vai logo para sua casa que eu preciso me aprontar e arrumar o Marco. — Eu o enxotei para fora do meu apartamento. Eram quase oito da noite e eu estava pronta para o jantar que Lian havia me arranjado com seu namorado. Marco estava pronto em uma roupa listrada que o fazia parecer uma abelhinha e também já havia mamado. Estávamos prontos. Bati na porta que conectava nossos apartamentos e fui entrando ao mesmo tempo em que vi um rapaz alto e jovem adentrar a porta de entrada do apartamento de Julian. Eu juro que quase deixei Marco cair de meu colo quando reconheci aquele ser branquelo e alto que agora olhava para mim com surpresa. Era Finlay Taylor. Lancei a Julian um olhar fulminante que o deixaria mortinho se aquilo fosse possível. Ele deu um leve dar de ombros. — Hum… Bem… Entrem, Finn e Key… A comida já deve estar chega… — Vá buscar a comida, Julian. — Eu ordenei sem tirar os olhos de Finn que parecia um pouco incomodado.


— Mas Keira… — Vai buscar a comida, Julian. — Repeti, desta vez olhando em sua direção. Lian ergueu os braços dando-se por vencido e saindo do apartamento. — Eu vou com… — Você fica, Taylor. — Disse e percebi que Finn engolira em seco quando ouviu a porta às suas costas se fechar. Eu o guiei até a sala de estar e o fiz sentar no sofá enquanto eu me acomodava na poltrona adjacente acendendo o abajur ao meu lado. — Então quer dizer que é você o novo namorado de Julian? — Perguntei encarando-o séria. — Parece que sim… — Finn sorriu um pouco sem graça. — Quando ele disse que eu precisava conhecer alguém hoje, pensei que seriam os pais dele ou algo assim… — Ele admitiu. — É algo muito pior que os pais dele, Finlay. É a mãe do filho dele. Finn me observou um pouco mais sereno e olhou para Marco em meu colo que virara a cabeça para tentar saber o que estava acontecendo ao seu redor. — Ele se parece com uma mistura perfeita entre você e Julian. — Finn murmurou sorrindo para Mac, que aparentemente sorrira de volta. — Não mude de assunto, Taylor. — Eu o adverti e ele voltou a me encarar. — Como você está recebendo esta notícia? — Perguntei. — Bem… Não era bem o que eu imaginava… Quero dizer, meu namorado e minha ex-chefe com um filho… Você sabe, é um pouco estranho… — Está com ciúmes? — Perguntei de imediato. Finn arregalou os olhos para mim parecendo surpreso com a pergunta. — Não! — Exclamou agora parecendo confuso. — Por que eu teria ciúmes? Fiquei quieta por um segundo me perguntando o mesmo, mas então me lembrei de Mathias. — Eu não sei se Julian te contou como terminou o último relacionamento dele. — Murmurei. — Mas não foi nada bom. E eu como melhor amiga e mãe do filho dele tenho a obrigação de ter certeza de que ninguém vai fazê-lo sofrer da mesma forma que aquele… Aquele… — Eu não sabia exatamente que palavras usar para xingar Mathias. — Aquele filho de uma… — Ok. Já entendi o que quer dizer sobre o outro cara. — Finn me interrompeu. Ele não era muito fã de palavrões eu havia me lembrado. — Certo. Eu não quero ver aquele drama todo se repetindo na vida de Julian, está me entendendo, Finlay? — Perguntei. — Claro, só não estou entendendo por que esse drama todo começou… — Ele


comentou inocentemente. Eu respirei fundo e mudei Marco de posição em meus braços. — Olha, se não quiser dizer, eu entendo completamente, não é exatamente da minha conta e… Ergui minha mão para fazer ele se calar. — Mathias e Julian estavam planejando adotar uma criança juntos, estavam até mesmo preparando o casamento para isso, mas a adoção não deu certo. E então surgiram com a ideia de que já que eu também queria um bebê, a melhor solução seria uma inseminação usando os espermas de Lian e os meus óvulos. — Olhei para Finn para ver se ele estava acompanhando. — Com o tempo, Julian estava com a atenção quase que totalmente voltada para mim e os cuidados que eu deveria tomar como “nosso” bebê. E Mathias ficou com ciúmes. — Por causa da atenção? — Finn perguntou confuso. — Mas ele não podia participar disso junto com Lian? Oh, Finn, você era tão… Finn! — É essa a questão! Ele provavelmente estava com ciúmes de mim e da conexão que Julian e eu temos. — Olha, chefinha, eu lembro muito bem do quanto você falava de Julian no escritório e só com isso eu já pude perceber que vocês tinham algo especial. Quer dizer, qualquer um pode ver. — Ele deu de ombros. — E quanto a ter ciúmes de você ter tido um filho de Lian, bem… É estranho, mas eu sei que Lian é completamente gay. — E eu sou assexuada. — Apontei imediatamente. — O quê? — Não curto sexo e nem muita intimidade com ninguém. — Bom, então aí está. — Finn murmurou apontando para mim como se tivesse descoberto um novo tipo de vida no planeta. — Eu não tenho por que ter ciúmes da melhor amiga do meu namorado porque sei que meu namorado é gay e sei que a melhor amiga dele é neutra. Eu encarei por um longo tempo aquele garoto bobo que eu havia ajudado a crescer na Saunders Tech e quase senti um orgulho de mãe naquele instante. — Bem-vindo à família, senhor Taylor. — Eu sorri com bastante alegria.


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APÍTULO 24

P J OR

ULIAN

Eu estava completamente em pânico quando saí do meu apartamento para ir buscar a comida no restaurante chinês a duas quadras do prédio. Eu sabia que não devia ter me envolvido com Finlay, afinal, ele fora o ex-aprendiz de Keira e aquilo podia ficar bastante estranho. Como eu havia sido burro! Fiquei cerca de quinze minutos esperando minha encomenda ficar pronta e embalada para viagem e voltei a pé sem o menor ânimo já imaginando a pior das cenas em meu apartamento. Mas o que vi quando abri a porta quase me fez derrubar nosso jantar inteiro. Keira ria animadamente enquanto observava Finn brincar com Marco que gargalhava enquanto era levantado para o alto e baixado sucessivamente. — Ah, Lian, finalmente chegou. — Keira exclamou. — Nós dois estamos com fome. — Retrucou se levantando para vir pegar algumas das sacolas que eu segurava. Eu ainda fiquei parado como um idiota no meio do hall de entrada processando o que tinha acabado de ver. — O que exatamente… — Está tudo certo, Lian. — Keira me deu um leve cutucão no braço e me puxou para que pudéssemos arrumar a mesa e finalmente comer. Enquanto Key e eu arrumávamos a mesa, Finn ficara cuidando de Marco que parecia ter gostado bastante da nova companhia. Finlay parecia bastante animado com o meu bebê e aquilo me deixava completamente aquecido por dentro. Talvez pudesse dar certo afinal, a nossa família não-convencional. Sentamos à mesa e Mac fora para o carrinho de passeio e se entretera com os bichinhos de pelúcia que lhe faziam companhia. Começamos a conversar e Keira contara como conhecera Finn e como o havia achado uma gracinha com aquele jeito meio menino de ser mesmo com vinte e quatro anos. Bem, ele não havia perdido o jeito de menino nem mesmo com vinte e seis e aquilo era realmente encantador. — Se vocês não fossem completamente opostos sexualmente, eu diria que formam o casal perfeito. — Finn murmurou encarando a mim e à Keira que gargalhou. — Eu cansei de ouvir isso das pessoas e acho que mesmo que Lian não fosse gay e eu fosse “normal”, nós não seríamos um casal. — Key murmurou brincando um pouco com Marco que já começava a ficar sonolento. — E por que não? — Finn perguntou erguendo as sobrancelhas. — Porque nós sabemos demais um do outro e sabemos que enchemos o saco um do outro também. — Keira me cutucou e eu ri. — Se Lian não fosse gay, talvez nós dois sequer teríamos mantido a amizade. Mas graças a Deus ele é gay e eu tenho o meu melhor amigo comigo. — Ela me deu um leve abraço e depois um tapa ardido.


— Mas o que… — Como ousou me esconder um relacionamento desses por tanto tempo? — Ela perguntou parecendo bastante ofendida. — Melhores amigos não escondem nada um do outro! — Retrucou. — E só porque agora eu sou a mãe do seu filho, não significa que você pode ficar por aí escondendo coisas importantes de mim! — Keira reclamou cruzando os braços, mas logo todos nós estávamos caindo na gargalhada. Nós continuamos conversando por algum tempo até Marco começar a chorar e Key dizer que era hora de mamar e dormir e então se retirou. Ficamos Finn e eu na cozinha arrumando as coisas que haviam sobrado no jantar. — E então, Keira pegou pesado com você? — Perguntei cutucando de leve o braço de Finn. — Ah, em comparação ao que ela fazia quando eu era estagiário, foi fichinha. — Ele sorriu voltando o olhar para mim. — Então ela te aceitou bem? — Nós meio que já nos conhecemos bem o bastante para que ela possa ficar tranquila. — Ele piscou e eu senti uma imensa vontade de beijá-lo. — Marco é muito importante para nós dois… — Murmurei. — Bem, ela parecia muito mais preocupada com você do que com Marco quando começou a me interrogar… — Finn murmurou dando de ombro enquanto começava a secar a louça. — Sério? — Perguntei. — Sim, acho que ela seria capaz de me seguir até o inferno se eu o fizer sofrer. — Finlay murmurou rindo. Eu deveria ter imaginado que Keira pensaria em mim também. Me senti um idiota ao imaginar que ela só pensaria em Marco de agora em diante. — Ela disse que sou bem-vindo à família. — Finn sussurrou largando o pano de prato e voltando-se para mim. — Ela disse? — Perguntei me aproximando um pouco mais. — Talvez isso seja motivo de comemoração… — Eu sorri maroto roçando nossos lábios. Bem no momento em que íamos nos beijar, Keira escancarou a porta de conexão dos nossos apartamentos e deu um grito considerável de lá. — Por favor, sejam discretos! Tem uma mulher e um bebê querendo dormir aqui do lado! — E assim que deu seu recado, ela fechou a porta num baque. Nós dois rimos e então eu finalmente beijei Finn, mas de um jeito muito menos emocionante do que pretendia antes de sermos interrompidos. — Acho que podemos comemorar outro dia. — Ele riu da minha cara de frustração. — Hoje podemos só ficar juntos e ver um filme qualquer, que tal? — Ele sugeriu voltando


a secar a louça. — Parece um ótimo começo. — Eu respondi indo ajuda-lo a limpar e guardar as coisas. No dia seguinte acordei com Finn dormindo ao meu lado na cama numa posição um tanto torta. Ele sempre se mexia durante a noite, mas aquilo não me incomodava, só me fazia rir quando eu via o resultado final. — Bom dia… — Sussurrei em seu ouvido e ele resmungou alguma coisa, ainda no limiar do sono. — Está atrasado para o trabalho. — Avisei revirando os olhos quando ele deu um pulo da cama completamente desnorteado. — O quê? Atrasado? — Ele olhou para seu relógio de pulso e deu um suspiro aliviado. — Seu boboca. — Ele retrucou lançando um travesseiro em minha direção. — Eu quis te acordar de um jeito mais carinhoso, mas você só ficou resmungando. Finn balançou a cabeça negativamente e se olhou no espelho. Sua roupa estava extremamente amassada e seus cabelos uma bagunça. — Deus, ainda bem que hoje eu não trabalho. — Ele exclamou tentando arrumar os cabelos. — Pois eu acho que você está uma graça assim. — Eu disse me postando ao seu lado e o abraçando. A nossa diferença de idade era bastante aparente mesmo sendo meros cinco anos. Finn ainda tinha uma aparência de jovem e eu já tinha uma aparência mais puxada para um homem formado. O que de fato nos definia. Mas a idade não era exatamente um empecilho e nós dois estávamos muito bem juntos. — Vou preparar o café e ver se Keira já comeu. Você sabe como ela pode ser nada saudável… — Murmurei dando um beijo em seu ombro e saindo do quarto. Primeiro fui ver como estava Key, era pouco mais de oito horas e ela já devia ter acordado há algum tempo, ela já me aguardava sentada no sofá de braços cruzados. — Você já… — Nananinanão, pode chegar mais aqui. — Ela disse me calando e apontando para o lugar vago ao lado do seu no sofá. Fui até lá um pouco desconfiado e me sentei. — Anda, pode me contar. — Fizemos sexo selvagem a noite inteira. — Não essa parte. — Ela revirou os olhos e eu gargalhei. — Acha que ele vai ficar? Para valer e fazer parte da nossa família? — Ela perguntou preocupada. — Eu não sei bem, acho que ainda é muito cedo para dizer isso definitivamente. Mas eu sinto que vai dar certo dessa vez. — Confessei.


— Eu te daria uma bela bronca e diria que isso é papo de apaixonado, mas eu também sinto que dessa vez vai dar certo. — Ela me abraçou com força e eu retribui o abraço. Nós dois nos viramos como se tivéssemos sido pegos por nossos pais no meio de um amasso quando a porta de conexão se abriu e Finn entrou sem cerimônias. Ficamos nós dois, Keira e eu, parados feito pedras esperando a reação de Finlay. — O que foi, gente? Eu só vim aqui saber do pequeno Marco… — Ele ergueu as mãos como se estivesse se sentindo culpado por ter interrompido algum momento importante. Keira se levantou e foi correndo até Finn dando-lhe um forte abraço. — Dessa vez vai dar certo. — Ela disse depois de soltá-lo e sorriu radiante para mim. É, ia dar certo sim.


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APÍTULO 25

P K OR

EIRA

Três anos mais tarde Eu não podia acreditar no quanto o tempo passava rápido. Num dia eu estava grávida e no outro meu pequeno já estava com três anos e na escolinha. O quanto as coisas podiam mudar em três anos? Bem, Julian e Finn estavam noivos apesar de ainda não saberem quando iriam casar realmente, já que Finlay estava focado em um novo curso para aprimorar seus dons em programação e queria estar cem por cento presente quando o casamento acontecesse. Meu Marco adorava a ideia de ter dois pais e eu adorava que ele adorasse isso. Finn era ótimo com crianças e Julian parecia cada dia mais encantado com seu noivo. Eu sentia que finalmente as coisas estavam se encaixando em nossas vidas, e já não era sem tempo! Por mais que Finn fosse bastante presente na vida de Mac, ele nunca opinava nas coisas em relação à educação dele, talvez Finlay ainda não se sentisse confortável ou se sentisse um intruso quando a questão era educar Marco. Ele não era pai pai de Mac. E eu não me sentia lá muito à vontade em obriga-lo a fazer parte disso. Talvez ele não quisesse essa responsabilidade. Mas o fato era que Mac amava ter os dois por perto. Na escolinha Marco tinha amiguinhos e havia aprendido a morder os outros para revidar desavenças, o que eu repreendi logo na primeira vez em que recebi um bilhete em seu caderninho. Já Lian dissera que se ele levasse uma mordida então ele também poderia dar uma mordida. E acho que foi a opção de Lian que Mac decidiu seguir, já que uma vez ou outra eu recebia bilhetes da professora falando sobre mordidas. O que mais havia mudado em dois anos? Ah, Finn não estava morando junto com Lian, mas estava todos os dias em nossos apartamentos para ver como estávamos e às vezes passava a noite com Lian, já que eles eram um casal. Ao menos eles sabiam ser discretos… Eu havia diminuído o ritmo do trabalho e continuei apenas com duas empresas, e obviamente a Saunders Tech fazia parte da lista. Eu me sentia a pessoa mais realizada do mundo e aquela sensação era impagável. Fui buscar Marco na escolinha e ele veio correndo em minha direção arrastando a mochila por onde passava para me dar um abraço. — Mac, o que eu falei sobre a mochila? — Perguntei agachada para encará-lo nos olhos seriamente. — Nada de arrastar mochila no chão… — Ele respondeu daquele jeito meio enrolado de crianças com três anos. — Isso mesmo. Promete não fazer mais isso?


— Prometo, mamãe. — Ele sorriu e me abraçou. — Oh, Keira! — Joanna, uma das amigas de Tricia que já era mãe, exclamou vindo em minha direção com sua filha de cinco anos em seu encalço. — Veja só esse mocinho lindo. O que fez hoje na escolinha, hein? — Ela abaixou-se para falar com Marco. — Brinquei e a professora contou historinha. — Mac respondeu sorrindo empolgado. — Ah, Key! Seu menino está cada dia mais fofo! — Joanna exclamou para mim e apertou as bochechas de Marco. — E sua filha está cada dia mais linda! — Eu disse observando a garotinha de cabelos castanhos e olhos amendoados que me encarava curiosa. — Ai, como o tempo passa, meu Deus! — Joan exclamou pegando a filha pela mão e começando a andar comigo na calçada. — Como está Julian? — Ah, ele está ótimo e ensinando Marco a revidar as briguinhas bobas de criança… — Murmurei revirando os olhos. — Homens, são assim mesmo. — Joanna disse num suspiro. — Alice recebeu uma advertência ano passado porque chutou a canela de um dos coleguinhas de classe que roubou um brinquedo dela. Coisa do Jonathan que fica dizendo para ela fazer essas coisas. Eu dei um risinho e Joan me acompanhou. — Essas crianças… — Balançou a cabeça. — Vocês ainda são só vocês? — Ela perguntou e eu demorei um pouco até entender o que ela queria dizer. — Ah! — Exclamei. — Bem, não mais exatamente… Julian está noivo novamente. — Eu disse e senti vários olhares curiosos e discretos se voltando para mim. — Espero que dessa vez dê certo. — Oh meu Deus, sério? — Joanna exclamou com alegria. — É alguém que conheço ou que Tricia conhece? — Ele foi meu aprendiz na Saunders Tech. — Dei de ombros. E quando eu disse a palavra “ele”, percebi várias caretas ao meu redor. — Pelo jeito ele aceitou bem o negócio de Julian ser pai do seu filho. — Super bem! — Sorri radiante. — Isso é ótimo, querida! Espero muito que vocês sejam muito felizes! Mas agora eu preciso ir, Alice tem aula de natação daqui a pouco. — Joan examinou seu relógio de pulso. — Até mais, Joanna, tchauzinho, Alice. — Eu disse acenando e vendo Mac fazer o mesmo. Nós dois fomos para meu apartamento e eu fui ler o caderninho de anotações dos professores para saber se havia alguma novidade. Além de uma excursão para o zoológico da cidade, haveria uma reunião de pais na sexta-feira. Assinei os dois bilhetes para que os professores soubessem que um dos pais tinha lido e enfiei o caderninho de volta na mochila de Marco, que agora brincava com seus bloquinhos de montar.


— E então, amigão, como foi o seu dia hoje? — Perguntei me sentando ao seu lado para ver melhor o que ele estava fazendo. — A professora contou historinha dos três porquinhos. — Ele disse enquanto montava algo com os bloquinhos. — E a gente brincou bastante antes da soneca. — Ele olhou para mim com um sorriso largo. — Ah, que maravilha, meu amor! — Sorri o abraçando. — Mamãe vai fazer o almoço, se comporte, ok? — Tá bom, mamãe. — Mac respondeu voltando a se concentrar no que montava. Passei o restante da tarde entre brincar com Marco e trabalhar. Ele estava bastante contente com sua criação nos blocos de montagem, alguns prédios e torres que ele guardou com cuidado para mostrar “aos papais” quando eles chegassem. Julian chegou primeiro do que Finn, como de costume, mas Marco não mostrou suas criações para ele. — Não, mamãe, quero mostrar para os dois papais juntos! — Ele exclamou cruzando os bracinhos e eu ri. Esperamos a chegada de Finn para finalmente Mac mostrar suas obras de arte em blocos de montar e Lian e Finlay fizeram a maior festa com Marco pela criação. Eu encarei aqueles três brincando juntos e quase senti meus olhos marejarem. Nós éramos uma família. Na hora do jantar, Finn me ajudou a cozinhar e Lian ficou brincando com Mac enquanto as coisas não ficavam prontas. — Vamos ter uma reunião de pais sexta-feira. — Anunciei enquanto fazia o prato de Marco que já estava sentado em sua cadeirinha esperando impaciente. — Preciso reagendar algumas consultas então. — Julian disse se servindo. Todos nos sentamos e começamos a comer. Finn não havia dito nada a respeito e então eu senti a necessidade de dizer. — Você vai ter que pedir dispensa por algumas horas na Saunders, Taylor. — Murmurei sem olhar para o rapaz que parara com o garfo a meio caminho da boca. — Eu? — Perguntou surpreso e Lian parecia mais surpreso ainda. — Sim, Finlay, você. — Revirei os olhos. — Se vai querer mesmo fazer parte desta família, é bom ir se acostumando a reuniões de pais muito chatas e a ter de sair em horários estranhos para ir buscar seu filho porque ele ficou com dor de barriga. Todos ficaram em silêncio – exceto Mac que brincava de aviãozinho com a comida sozinho –, Lian encarando Finn, Finn me encarando e eu encarando minha comida. — O que é? Não quer fazer parte disso? — Perguntei erguendo a sobrancelha em direção a Finlay que estava um tanto embasbacado. — Ah… Eu… — Ele gaguejou absorvendo as informações, presumo. — Eu estava louco para fazer parte disso! — Exclamou finalmente completamente abobalhado. Eu sorri com satisfação e Lian suspirou com alívio.


— Ótimo, então sexta-feira às oito nos encontramos aqui para irmos todos juntos à reunião de pais do Mac! — A reunião de pais foi bastante tranquila tirando o fato de alguns olhares meio enviesados para mim, Lian e Finn que nos apresentamos como os pais de Marco. Nós três podíamos sentir toda a tensão e o preconceito surgindo de vários cantos da sala onde se dava a reunião, mas o que importa é que os professores foram bastante profissionais e apenas comentaram sobre o desempenho de Mac na escola como fizeram com todos os outros pais. Me senti satisfeita. Quando saímos de lá Finn estava extasiado com sua primeira participação como pai de Marco. Na verdade, ele estava bastante orgulhoso com os elogios que a professora havia feito. Fomos os três buscar Marco na casa de Tricia que ficara como babá naquele meio tempo. — Graças a Deus o menino puxou a inteligência da mãe… — Ela comentou e Julian lhe mostrou o dedo do meio. — Precisa admitir que você é lerdinho para aprender as coisas, bem diferente do Mac aqui. — Tris respondeu dando de ombros. — A professora disse que tirando as eventuais mordidas, ele é um dos melhores alunos da turma. — Finn exclamou empolgado enquanto dava um abraço em Marco. — Own, é tão bom ver vocês todos agindo assim, todos juntinhos e se amando… — Tricia murmurou nos encarando com ar de doçura, o que era bem raro de acontecer. — Vai dar certo, eu disse. — Sorri para Lian e Finn que brincavam com Marco e o elogiavam pelo que as professoras haviam dito sobre ele. — Eu nunca pensei que fosse achar uma família nem-um-pouco-convencional tão fofa! AI MEU DEUS! — Tris exclamou toda alegre. — E quando vai ser o casamento? Finn e Lian se entreolharam. — O quê? Ainda não marcaram o casamento? — Tricia exclamou completamente indignada. — Tris, minha querida, nós estamos esperando o momento certo. — Julian murmurou. — E quando vai ser isso? Quando os dois estiverem velhinhos e gagás? — Só quero ganhar um pouco mais de estabilidade no trabalho antes de fazer totalmente parte dessa família, Tris. — Finn respondeu sorrindo um pouco sem jeito. — Oh, bem… Olhando por esse lado, eu aceito. — Ela respondeu se acalmando um pouco. — Mas eu quero organizar tudo! — Ela exclamou em seguida. — Tris, nós não vamos fazer nada demais, apenas o casamento no civil. — Não vai ter igreja e nem festa? Nada? — Amorzinho, alguma vez você já viu algum padre casando dois homens ou duas mulheres? — Lian perguntou erguendo a sobrancelha.


— Bando de babacas preconceituosos. — Tricia resmungou. — Babacas! — Nós todos pudemos ouvir Mac repetir a palavra. Olhei torto para Tris que pediu desculpas com o olhar. — Mac, você não pode falar essas coisas. É muito feio. — Lian o repreendeu. — Mas por que a tia Tris disse, então? — Marco perguntou fazendo bico. — Porque ela esqueceu que isso é feio. — Finn interveio e eu sorri por ele estar fazendo mais parte da família agora. — Mas você não pode esquecer, entendido? Mac assentiu com a cabeça e pediu desculpas. Nós todos ficamos conversando sobre a reunião, cada um mais orgulhoso que o outro com todos os elogios que fizeram a Marco. Enquanto isso, ele ficara sentado no chão com algumas folhas de papel e giz de cera para brincar. — Não é uma doideira o quanto isso deu certo? — Tricia murmurou encarando Mac desenhar e rabiscar nas folhas. — Loucura que você nos enfiou, lembra? — Retruquei. — Mas deu certo e é isso que importa. Olha essa criança maravilhosa que vocês dois geraram e que agora Finn está ajudando a moldar e educar. — Tris murmurou com carinho e ao mesmo tempo com bastante orgulho. — E eu faço o papel da tia que mima e estraga todo o trabalho de vocês. — Ela fez joinha e sorriu de forma marota. — Marco é mesmo uma benção. — Julian disse sorrindo todo bobo. Marco era uma coisa preciosa para todos que estavam sentados àquela mesa. Não era o fruto de um amor entre um homem e uma mulher, mas o fruto de um desejo de dois melh0res amigos que se amavam. Não era lá muito diferente de uma família convencional. E havia Finlay que eu nunca imaginaria que seria o complemento final da nossa família não-convencional. Ele fazia Lian feliz e sabia lidar com crianças, estava sempre presente e parecia amar Marco tanto quanto eu ou Julian. Eu não poderia querer mais do que isso para minha vida. Não mesmo.


C

APÍTULO 26

P J OR

ULIAN

Finalmente o dia havia chegado. O dia do meu casamento. Eu estava nervoso e Keira estava impaciente ao meu lado arrumando minha gravata e alisando meu terno. Eu sentia minhas mãos suando de nervosismo. Havia passado quase um ano desde que Finn e eu ficamos noivos e agora, finalmente poder colocar no papel que seríamos um do outro, parecia um sonho. — Anda, Lian! Vamos nos atrasar. — Keira exclamou batendo seu salto no chão com impaciência. — Desculpa, desculpa, estou nervoso! — Vocês dois vão no mesmo carro até um cartório para assinar papéis, não é como se Finn tivesse a opção de fugir com outro, né? — Keira revirou os olhos fazendo o seu melhor papel de amiga insensível. — Ah, e só para constar, você está um gato e eu pegaria. — Ela me deu uma piscadela e me fez rir com isso. Me olhei no espelho uma última vez e por fim saí do quarto respirando fundo. Keira estava me esperando no hall de entrada do apartamento e estava linda como sempre, usava um vestido bege que batia nos joelhos e um salto alto que eu morria de inveja. Marco estava vestido com um pequeno terno como o meu e se exibia todo se sentindo especial naquela roupa. — Olha mamãe, estou igual ao papai! — Exclamou todo contente. — É, mas está muito mais bonito do que ele. — Keira abaixou-se para dar um beijo na bochecha de Marco que riu. — Nisso vou ter que concordar. — Eu sorri me aproximando e abraçando os dois. — E então, está pronto para o grande dia? — Não, mas vamos lá. — Eu disse fazendo Key dar uma bela gargalhada. Saímos do apartamento e já encontramos Tricia e Finn nos esperando perto dos elevadores. Finlay estava lindo. Ele ficava ótimo com roupas sociais e com seu terno branco e elegante deixava qualquer um sem ar. Principalmente eu. — Hum! Senhores, vocês estão um arraso! — Tricia exclamou vindo me cumprimentar e depois indo mimar Marco que adorou a atenção. Cheguei um pouco mais perto de Finn e me senti bastante estranho. Digo, nós nos conhecíamos muito bem e já havíamos trocado muitas intimidades, mas naquele dia era como se fosse a primeira vez que eu o via em anos. — Você está muito bonito… — Comentei um pouco sem graça. — Você também. — Ele sorriu para mim. Ficamos em silêncio por alguns instantes apenas ouvindo as gargalhadas de Marco


um pouco mais distante de nós junto com Keira e Tricia. — Como está se sentindo? — Perguntei finalmente, mas com medo das possíveis respostas. Finn ficara quieto e pensativo por alguns instantes o que me fez suar ainda mais. — Ah, você sabe, por mais que seja irracional, eu estou sentindo um friozinho na barriga. — Confessou e eu me senti um pouco mais aliviado. — Eu sei o quanto é idiota, mas eu sinto um medo de você dizer não… — Ele murmurou sem graça. Eu não consegui refrear as risadas que soltei. Nós dois estávamos sentindo as mesmas coisas e sabíamos que era tolice. — Bem, eu não vou a lugar algum sem você… — Murmurei segurando sua mão. — E não vou deixar que você vá a lugar algum sem mim. — Completei dando um selinho em seus lábios, o que o fez sorrir. — Ei, vocês, pombinhos apaixonados! A lua de mel ainda não chegou! — Tricia berrou e abriu a porta de um dos elevadores que finalmente havia chegado em nosso andar. — Vamos? — Perguntei e Finn sorriu assentindo e me seguindo. Chegamos ao cartório e havia duas pessoas na nossa frente para se casarem. Uma jovem grávida e um casal de idosos. Quanta variedade! Ao chegar a nossa vez, o juiz nos olhou de cima a baixo e fez uma careta. — Então. Este é o casamento de Julian Deasey e Finlay Taylor… — Mais uma careta. O juiz ia continuar quando Tricia começou a resmungar. — Escuta aqui, meu senhor. — Ela avançou em direção ao juiz que se espantou um pouco. — O senhor tem alguma coisa contra gays? Está incomodado em fazer esse casamento? Porque eu não vi essa cara feia no senhor enquanto estava casando os dois jovens e os dois idosos. — Tricia apontou descaradamente em direção ao juiz. — Minha senhora, por favor… — Minha senhora o grande caramba! — Ela exclamou e vi Keira se aproximando para tentar segurar a amiga. — Escute aqui, senhor juiz de meia tigela. Meus dois amigos aqui são cidadãos de bem e como qualquer outro. Eles têm o direito de se casar tanto quanto aquela menina grávida ou aquele senhor de oitenta anos que acabou de sair daqui. Eles pagam impostos, eles votam, eles são honestos, são trabalhadores. Então qual é a da sua cara feia, hein? — Ela exclamou a menos de um palmo do juiz que parecia bastante surpreso e sem ação. — Pode começar tudo de novo. — Ordenou. — E não é “Este é o casamento de…” — Ela disse imitando o homem com voz de deboche. — É “Esta é a celebração da união de…”. — Ela disse enquanto era afastada da mesa do juiz por uma Keira envergonhada. — Pelo amor de Deus, qualquer um sabe que essas são as palavras! Olhei de relance para Finn e ele parecia mais estar segurando o riso do que envergonhado como eu estava. Eu ia pedir desculpas ao homem à minha frente quando ele deu um pigarro.


— Bem… Esta é a celebração da união entre Julian Deasey e Finlau Taylor… — Ele recomeçou e agora quem teve de segurar o riso fora eu. Seguimos com a cerimônia normalmente até Finn e eu assinarmos os papéis e Keira e Tricia serem chamadas como testemunhas. Tricia dera um belo olhar fulminante em direção ao juiz que parecia estar querendo sair correndo de perto dela. Eu só não sabia como não havíamos sido expulsos do cartório. — Bem, acho que terminei por aqui e… — O juiz ia dizendo quando Tris ergueu o dedo. — Não, é claro que não! — Exclamou indignada. — Falta o beijo dos noivos. — Ela sorriu num misto de orgulho e perversidade em direção ao juiz. — Vamos, meus amores, se beijem! É assim que se sela a união matrimonial! — Ela bateu palminhas empolgada. Me virei em direção a Finn e ele dera de ombros se divertindo tanto quanto Tricia com a situação e então me beijou de uma forma bastante chamativa que normalmente não faríamos em público, mas bem que aquele juiz estava merecendo. — VIVA OS NOIVOS! — Tricia exclamou e veio nos abraçar. — Viva os papais! — Marco exclamou e saiu correndo para pular em nosso colo. — Finalmente… — Eu murmurei para Finn. — Finalmente. — Ele sorriu para mim. — Vamos ser a família não-convencional mais feliz desse mundo. — Keira chegou mais perto, os olhos marejados. Eu a puxei para um abraço e Finn nos cobriu com seus braços. — Depois da festa. — Tricia disse interrompendo nosso momento. — Como assim festa? — Perguntei me levantando com Marco no colo. — É óbvio que eu, Tricia Conner, nunca ia deixar essa data tão importante passar em branco, faça-me o favor, né? — Ela revirou os olhos. — Tris, o que você aprontou? — Keira perguntou com receio. — Só uma festinha para os mais íntimos, ora. Bem, nós três – Key, Finn e eu – devíamos saber que uma “festinha para os mais íntimos” nunca era uma festinha para os mais íntimos quando se tratava de Tricia na organização. Ela havia chamado todas as amigas dela – inclusive as que estiveram no chá de bebê improvisado –, todas as pessoas da clínica em que eu trabalhava, e todas as pessoas que trabalhavam no mesmo setor que Finn na Saunders Tech. Todos trouxeram presentes e alegremente nos cumprimentaram – estranhamente também cumprimentaram à Keira – fazendo festa e comemorando como numa verdadeira festa de casamento. Até mesmo o bolo estava lá! — Querido, o que é uma festa de casamento sem bolo? — Tris retrucou revirando os olhos. — Agora vão! Se divirtam! — Ela empurrou a mim e a Finlay em direção à pista de dança improvisada e nós demos de ombro e começamos a dançar como todos os outros.


Era de tarde quando cortamos o bolo e toda aquela gente começou a ir embora, muitos voltando para nos cumprimentar novamente. — Dá pra acreditar nisso? — Eu perguntei para Finn que segurava minha mão. — Não dava para duvidar que algo assim aconteceria, não lembra dos aniversários de Marco? — Finn perguntou rindo e me dando um beijo no canto da boca. — É, eu devia ter previsto. — Rolei os olhos e nós dois rimos e nos beijamos. Estávamos apenas sentados apreciando a vista do salão que Tris havia alugado quando Marco chegou correndo até nós com um envelope nas mãos e Keira vinha logo atrás. — Toma papais! — Ele exclamou nos estendendo o envelope. — Presente de casamento! — Mas o que… — Para vocês começarem o felizes para sempre como qualquer outro casal. — Key piscou para nós e se afastou. Finn e eu abrimos o envelope e nele encontramos duas passagens para as Bahamas com tudo pago por quinze dias… Nós dois nos viramos para encarar Keira e ela apenas soprou um beijinho para nós e piscou com cumplicidade. — Ao nosso felizes para sempre? — Perguntei sorrindo. — Ao nosso felizes para sempre. — Finn sorriu e nós dois nos beijamos com o fim de tarde nos fazendo companhia.


C

APÍTULO 27

P K OR

EIRA

Dois anos depois As coisas não poderiam estar mais maravilhosas em minha vida do que estavam naquele momento. Finn e Lian estavam com o casamento às mil maravilhas e apesar de Finn ainda não querer se impor muito como pai, estava fazendo um ótimo trabalho mesmo assim. Marco já estava na primeira série e vivia fazendo perguntas inteligentes e surpreendentes para nós. — Mamãe, papais, por que eu tenho dois pais e uma mãe e a maioria dos meus colegas só tem um de cada? — Fora uma das perguntas que ele fizera. Nós três nos entreolhamos e ficamos silenciosamente passando a bola um para o outro, mas como sempre, o início da conversa sobrara para mim. — Filho, por que está perguntando isso? — Comecei. — Nada, eu só estava observando e percebi isso. — Deu de ombros. — Bem, meu amor… — Eu me abaixei para poder ficar de sua altura. — Às vezes existem alguns tipos de família que são diferentes. — Eu disse. — Você tem vergonha disso? — Perguntei com certo medo da resposta. — Não, mamãe. Eu amo você e os meus dois papais. — Ele sorriu e eu quis apertá-lo em meus braços. — Marco, amor, na vida às vezes algumas pessoas não vão entender o nosso tipo de família, talvez digam coisas que te magoem. — Fui tentando explicar e ele balançou a cabeça. — Um dia Luke disse que minha família era esquisita. — Mac murmurou. — Eu fiquei chateado, mas logo nem dei bola porque eu sei o quanto vocês me amam. — Ele me abraçou. — E eu amo vocês. — Disse, e então Finlay e Julian vieram ao nosso encontro para nos abraçar também. Eu tinha orgulho do nosso pequeno. Muito orgulho. Ele era um pequeno homem e só tinha seis anos e meio. O que mais pais babões como nós três poderiam querer? Mas menos de um mês depois daquela conversa, recebi um bilhete no caderno de Marco e fiquei surpresa, já que o mesmo dizia que a diretora e a professora queriam fazer uma reunião comigo e com o pai de Mac para falarem sobre um ocorrido na sala de aula. Fiquei extremamente estupefata com aquele bilhete, já que Marco não era de briga e desde o jardim de infância eu não recebia bilhetes como aquele. A reunião seria naquela mesma tarde. Liguei para Lian e Finn e os dois vieram imediatamente, pegamos Mac e fomos até a escola.


A diretora nos acompanhou até uma sala de reuniões onde uma mulher e um garoto estavam sentados em um canto, e dois homens e um garoto em outro, todos em um silêncio de velório. — Bem, agradeço por todos poderem ter vindo. — A diretora disse. — Professora Anna, por favor… — Boa tarde, senhores. — A professora de meu filho nos cumprimentou. — Acho que já sabem por que pedi que os chamassem aqui, sim? — Na verdade, não. — Eu respondi. — Seu bilhete foi muito vago, professora. Eu não faço a menor ideia do que está acontecendo. — Murmurei e vi Mac se encolher um pouco no colo de Finn. — Então Marco não lhe contou o que aconteceu hoje de manhã? — Não… — Eu vou contar o que aconteceu! — A mulher com o menino ergueu a voz parecendo furiosa. — Esse seu filhinho… — Ah, desculpe, mas nos conhecemos? — Perguntei à mulher. — Meu nome é Keira Christensen e esse meu “filhinho” se chama Marco. — Apresentei. A mulher se calou enfezada em seu canto. — Bem, senhora Christensen… — Anna continuou. — Hoje de manhã tivemos um pequeno incidente envolvendo Marco, Luke e Conrad. — Explicou. — Os três começaram a discutir e Marco… Bem, Marco fez Luke chorar. Eu encarei Anna com o olhar bastante confuso. Estávamos tendo aquela reunião no meio da tarde só porque Luke chorou? Pedi para que Finn soltasse Marco e eu me ajoelhei à sua frente. — Filho, me conte o que aconteceu. — Pedi, ignorando a mulher, provavelmente mãe de Luke, que se exaltava em seu canto, sendo calada pela diretora que pedira silêncio. — Mamãe, não briga comigo, eu juro que não fiz por mal… — Mac murmurou fazendo bico. — Mamãe não vai brigar com você, mas precisa contar o que aconteceu. — Eu disse encarando-o séria. Ele assentiu. — Eu estava brincando com Conrad na hora do intervalo quando Luke veio dizer a Conrad que ele era esquisito por ter dois pais. — Mac dizia e ia apontando para cada um para que eu soubesse quem era quem. Até ali eu não havia visto nada que pudesse fazer o pequeno Luke chorar. — Continua, meu amor. — Pedi. — Daí eu disse para Luke que Conrad e eu tínhamos muito mais sorte por termos dois pais do que ele que não tinha nenhum… — Marco terminou sua narrativa baixando a cabeça parecendo envergonhado.


— Ah, meu amor… — Eu disse o abraçando. — Ah, meu amor? — A mãe de Luke se levantou com raiva. — É assim que você educa seu filho quando ele faz uma coisa errada? — Ela apontou para mim de forma acusadora. — Olha senhora, mãe do Luke, pelo que posso ver aqui, a única que fez algo errado foi a senhora ao educar Luke para ser intolerante às diferenças. — Murmurei me levantando para encarar aquela mulher que eu mal conhecia e já havia criado uma bela antipatia. — Você não tem o menor direito de dizer como eu devo educar meu filho, sua esquisita! — A senhora exclamou como se fosse a dona da razão. Eu queria muito responder àquilo, mas engoli todas as ofensas que me vieram à mente e me virei à professa e à diretora. — É só isso? — Perguntei. — Porque eu não vi nada de mais no que meu filho fez, ele defendeu um amiguinho de um menino que mal saiu das fraldas e já tem traços de homofobia. Não é culpa do meu filho a intolerância ou ignorância que os pais passam para os seus filhos em relação a isso. A única coisa que posso fazer é dizer a Marco que não é bonito diminuir os outros pelo que elas têm ou deixam de ter. Mais nada porque ele não fez nada mais de errado. — Disse sentindo minhas bochechas corarem com a raiva me subindo. — Sim, é só isso. — A diretora disse sorrindo em minha direção. — Como assim é só isso? Não é só isso! E quanto à vergonha que meu filho passou chorando na frente de todo mundo, hein? Eu tamborilei meus dedos sobre meu braço quase bufando e me segurando para não voar no pescoço daquela mulher nojenta, mas quem se pronunciou foi Finn. — Oi, senhora sei lá o que… — Ele sorriu com seu sorriso mais infantil do mundo. Que boboca. — Eu acho que a única pessoa que precisa pedir desculpas aqui ao seu filho é a senhora. — Ele murmurou como se desse de ombros. — Afinal, por que o seu filho passaria vergonha por chorar? — Ele exclamou como se fosse óbvio. — E se ele pensa que chorar é uma vergonha, então a senhora ensinou tudo errado a ele. Ei, Luke — Finn chamou o garoto que parecia um pimentão de envergonhado. — Não é vergonha chorar na frente dos outros. Os homens também choram. — Ele sorriu e eu quase pude ver um sorriso nascer nos lábios do pequeno Luke de volta, se não fosse a mãe dele o puxando com severidade para que levantasse. — Ora. Eu não tenho que ficar aqui ouvindo como educar o meu filho por um gay. — Ela disse arrastando o garoto consigo para fora da sala de reuniões. Eu encarei a diretora e a professora que suspiraram com alívio. — Foi a mãe de Luke que convocou a reunião, eu sinto muito. — A diretora fora a primeira a se pronunciar. — Ela acabou de se separar do marido e é bastante intolerante, devo dizer. — Pobre menino… — Um dos pais de Conrad murmurou se levantando. — Sou


Mark e aquele é meu marido Jeff. — Eles nos cumprimentaram. — Queria agradecer por seu filho ter defendido o nosso. — Queria que ele não tivesse de ter feito isso. — Murmurei um pouco chateada. — É, mas infelizmente existem muitos pais intolerantes como a mãe de Luke. — Infelizmente… — Todos nós concordamos. Ficamos conversando por algum tempo e Mark e Jeff explicaram que haviam adotado Conrad com pouco mais de seis meses, e nós explicamos como era a nossa família nãoconvencional. A diretora havia decidido que faria uma reunião com os professores e eles fariam uma apresentação sobre tolerância e fim ao preconceito. — Sei que não vai mudar muita coisa… — Disse a diretora com ar derrotado. — Mas ao menos a senhora vai tentar, o que já é alguma coisa. — Julian murmurou e todos os outros concordaram. Eu não sei o que houve com Luke depois daquela reunião, mas ao que parece, a mãe dele decidiu transferi-lo para uma escola com pessoas menos “esquisitas” do que aquela. Eu não podia ver final mais feliz para nós do que aquele, sinceramente…


E

PÍLOGO

P K OR

EIRA

Dizem que todos têm um par neste mundo. Não vou dizer que estão errados, todos devem mesmo ter um par para lhe completar por aí, mas no meu caso foi diferente. E pensar que eu achava que não precisava de ninguém para me completar… Eu estava enganada. E além de agora estar completa, tenho dois homens e um lindo garotinho para fazer parte da minha família não-convencional. Vamos enfrentar muitos obstáculos, preconceito e intolerância? Pode ter certeza que sim, mas enfrentaremos juntos.


S

OBRE A AUTORA

H

H

ELLEN

AYASHIDA OU

L

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ELEN, 24 ANOS.

A

MANTE DO TERROR E DO SOBRENATURAL.

A

COMPANHE AS NOVIDADES

FACEBOOK.COM/GROUPS/HAYLELEN

O

UTRAS HISTÓRIAS

WATTPAD.COM/HAYLELEN

S

T

IGA NO

U B

CHA QUE ESTÁ ESCREVENDO SEU FUTURO COM

WITTER

TWITTER.COM/JUSTNARCISISM

M

L

EBÊ PARA

IAN &

K

EY.


Table of Contents Dedicatória Introdução Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Epílogo


Um Bebê para Lian e Key - Lelen Hayashida