Issuu on Google+


Collete West

2


Equipe PL Tradução: Marcia Oliveira Revisão Inicial: Lorac; Mari S; Thiengo; Ju Ferreira ; Sassá Thomaz Revisão Final : Ciça; Weri I; Cacau; Paloma; Lua; T. Caldeira Formatação: Milena Calegari Leitura Final Milena G Calegari:

3


4


Sinopse A única coisa que Luke —Single1— está ansiando fazer é voltar a jogar. Depois de ser atingido no pescoço por um arremesso - durante um passe - e ter uma lesão que quase lhe custou a vida, ele tem uma última chance de jogar para a equipe de sua cidade natal, os Stockton Beavers. Mas, sua mãe está sofrendo de Alzheimer, e ele é tudo o que ela tem. Como ele pode seguir com sua carreira, tendo que cuidar de alguém especial? A última coisa que a cuidadora pessoal Roberta Bennett quer é namorar jogadores de beisebol. Atingindo sua cota de desgosto, ela se dirige para Stockton, na esperança de um recomeço. Mas depois que ela encontra a mãe de Luke na rua, perdida, e sozinha, ela não pode recusar quando ele a contrata. Sem o conhecimento de Luke, Roberta está muito familiarizada com as tendências violentas do arremessador que o atingiu. Agora que eles estão vivendo sob o mesmo teto, a última coisa que qualquer um deles está procurando é um relacionamento. Mas, não demora muito até que eles se encontrem atraídos um pelo outro. E bem quando Luke está pensando em finalmente mudar seu status de solteiro, um segredo do passado de Roberta vem à tona, e ele tem poder para separá-los.

1

Single significa solteiro em inglês.

5


Capítulo Um

Um lamento cruel ecoou pela casa, me arrancando do sono. O alarme de incêndio... Eu salto da cama, jogando as cobertas ao lado. Não, não, não... Por favor, Deus, não... Saindo do meu quarto, eu subo as escadas de dois em dois. Mas, uma vez que eu vejo uma nuvem escura de fumaça se arrastando para fora da cozinha, eu não perco tempo e lanço meu corpo sobre o corrimão.

Arrombando

a

porta,

eu

olho

ao

redor

freneticamente. Onde ela está? Através da fumaça, a torradeira está incandescente sobre o balcão, as chamas lambendo o teto. Uma fatia inteira de pão está apoiada acima da abertura, ainda no saco de plástico, que está agora em chamas e escorrendo pelos lados. Tossindo, eu puxo a gola da minha camisa até cobrir meu nariz, enquanto os meus olhos começam a lacrimejar. Oh Deus, ela está aqui em algum lugar? Caindo de joelhos, eu rastejo rapidamente pelo chão da cozinha até o armário, debaixo da pia, conforme sinto uma onda de calor intenso bem acima da minha cabeça. Eu envolvo minhas mãos trêmulas ao redor do extintor de incêndio e vou para lá, 6


cobrindo tudo ao meu redor com uma camada de espuma espessa e branca. Depois de esvaziar o conteúdo do recipiente, eu limpo minha testa com a parte de trás do meu braço, deixando minha camisa cair de volta no lugar. Eu apaguei o fogo, mas ainda não sei onde ela está. — Mamãe! — Eu chamo, com meu coração acelerado. Eu tento de novo, mas minha garganta fica apertada, me lembrando do quanto eu preciso respirar. Tropeçando desajeitadamente sobre meus pés, eu cambaleio em direção à porta dos fundos. Eu me atrapalho com o trinco, mas a porta já está destrancada, e o medo preenche a minha alma. Ela saiu de casa. Ela poderia estar ferida. Ela… Eu examino o quintal, e cada pensamento terrível deixa minha cabeça no segundo em que eu a vejo, olhando para o céu, balançando para frente e para trás em sua cadeira. Aquela cadeira bizarra e maluca... Depois que meu pai se aposentou, ele juntou os restos de toda a sua coleção de bastões de beisebol, os que ele não considerava bons o suficiente para usar em um jogo de verdade, os que ele designou para a pilha de sucata — que é exatamente onde eu acabei, quando a organização dos New York King´s decidiu me liberar. Aparentemente, o seu investimento em mim como uma das suas perspectivas de esperança não foi suficiente para compensar a minha recuperação questionável, já que eu estava saindo de uma lesão. Ou seja, eles não estavam interessados em mim, até agora... E é por isso que estou aqui fora com a minha mãe no 7


quintal, aparentemente não afetado pelo cheiro de plástico derretido, escapando para o ar úmido da manhã. Ela não sabe que eles me querem de volta, mas ela certamente reparou na minha agitação após o telefonema de ontem à noite — A habilidade que ela tem de simular as minhas emoções, independente do seu Alzheimer, eu acho que nunca vou entender. — Mamãe…? — Eu falo com dificuldade, engasgando com os restos de fumaça que estão serpenteando por mim — Você está bem? Ela para e puxa os punhos carbonizados de sua camisola para baixo sobre as mãos. — O café da manhã está quase pronto. — Ela sorri para mim. — Eu não posso mandar o meu pequeno Lukey para a escola com o estômago vazio, posso? Isso não seria bom. — Ela balança a cabeça e começa a balançar novamente. — Não, isso não seria nada bom. Eu pisco. Ela nem mesmo percebe que quase queimou a casa, comigo dentro. Eu quero brigar com ela por quase me matar de medo desse jeito, mas o médico disse para sempre manter um raio de sol na minha voz, todas as vezes que a mente dela decidir voltar para o passado. Mas nesse momento, é muito difícil não ficar com raiva dela. Eu olho para o céu, cinzento e maçante, e vou me acalmando. Ela está aqui, segura comigo, no quintal. Eu sempre consigo alguém para entrar e reparar os danos. É provavelmente por minha culpa que isso tudo aconteceu, de qualquer maneira. Peguei a torradeira para nos fazer alguns 8


sanduíches na noite passada, e devo ter esquecido de colocar de volta no armário fechado, onde eu estive escondendo cada item doméstico com que ela pode, eventualmente, se ferir — como o ferro, o kit de costura, o conjunto de faca de cozinha que eu dei a ela há dois Natais atrás, quando ela ainda era capaz de cozinhar. Mas eu me distraí quando meu agente me ligou para dizer que os King´s iam, finalmente, me dar outra chance. O jogador da segunda base 2 que eles iam contratar para a equipe Triplo A3, os Beaveres Stockton, rompeu o ligamento cruzado anterior, no último dia do treinamento. Agora eles estão em apuros, e sabendo que eu vivo aqui em Stockton, eles estão oferecendo meu antigo emprego de volta, pelo menos temporariamente. Sim, não é nada mais do que uma abençoada experiência, mas ainda assim, eu deveria estar em êxtase. Eu nunca pensei que iria ter outra chance de jogar num time grande. No fundo da minha mente, eu sempre esperava que fizesse — e eu trabalhei duro durante o ano passado, para voltar onde estava antes de me machucar — Mas no beisebol, não há garantias. Meus olhos piscam com a expressão vazia no rosto de mamãe. Assim como na vida... Eu vou para perto dela e me agacho a seus pés, para examinar suas mãos. Há marcas de queimadura em suas palmas, e eu me sinto horrível por quase ter gritado com ela, deixando o meu medo assumir. 2 campo.

Do original ‘Second Baseman’, termo do Baseball usado para designar o jogador que cobre a segunda base do

3

Do original ‘Triple A Team’ (Classe AAA), que se refere ao nível mais alto das Ligas Profissionais de Baseball, que tem como objetivo preparar os jogadores para as Grandes Ligas.

9


— Vamos, Mãe. Vamos te levar pra dentro. — Eu coloco meu

braço

sobre

seus

ombros,

e

quando

ela

treme

incontrolavelmente contra mim, eu sou dominado pelo arrependimento. Por que eu não acordei mais cedo? Quanto tempo ela está aqui? É o início de abril, mas estamos em uma região montanhosa da Pensilvânia, por isso não é exatamente primavera como em outros lugares. Ferida, com frio e sozinha... E se ela se afastasse e eu não pudesse encontrá-la? — Você cheira como uma chaminé remendada — ela resmunga, amassando o nariz em mim. — Se seu pai te pega fumando, ele vai... E simples assim, a antiga ferida lateja dentro do meu coração. Meu pai morreu de um ataque cardíaco na última primavera. Perdê-lo da maneira repentina como perdemos, mudou nossas vidas para sempre. Mas minha mãe, em sua maior parte, não se lembra daquele dia terrível — o Alzheimer lhe concedeu uma prorrogação. Mas eu me lembro. Me lembro o suficiente por nós dois. Quando minha mãe foi diagnosticada pela primeira vez, papai jurou que nunca iria colocá-la em uma casa de repouso — e agora que ele se foi, eu pretendo fazer tudo ao meu alcance para honrar a sua promessa. Esta é a sua casa. Este é o lugar onde ela se sente confortável. E é aqui que ela vai ficar. É o que meu pai teria desejado. Mesmo que eu não saiba como nós vamos ser capazes de conseguir recursos pra continuar a viver aqui por mais tempo, uma vez que o seguro de vida do meu pai se acabe. Não é como se eu pudesse sair e encontrar outro 10


emprego. Agora, cuidar da minha mãe é o meu trabalho em tempo integral. Pondo-me de pé, eu gentilmente a levanto do seu trono de Louisville Sluggers. Mas eu não posso encobrir mais isso. Nós chegamos perto de perder tudo, esta manhã, e eu estava aqui. Eu não quero nem pensar no que poderia ter acontecido se eu não estivesse. Claro, a nossa vizinha do lado, a senhora Jenkins, ajuda de vez em quando, mas apenas algumas horas, de cada vez. De jeito nenhum eu vou poder dizer sim aos Beaveres. Como eu posso até mesmo pensar em voltar ao beisebol, depois do que aconteceu? É hora de largar meus sonhos estúpidos e encarar a realidade. Cansada, mamãe se apoia em mim, e eu a abraço com toda a força, beijando o topo de sua cabeça. — Eu te amo, mãe. Eu te amo tanto — eu sussurro através de um suspiro, quando ela me dá um tapinha nas costas, como se ela fosse a única a tentar me fazer sentir melhor. Ela me cutuca nas costelas após entrar na casa e ver o estado de sua cozinha. — Luke, quantas vezes eu tenho que te dizer? Você é jovem demais para ir perto do fogão! Eu tento um sorriso. — Não se preocupe com isso, Mãe. Eu vou limpar tudo depois. — É melhor, mesmo! Eu puxo um pano de prato limpo para fora da gaveta e coloco sob a água fria antes de torcer. Guiando-a para fora da 11


cozinha, eu bato em uma das almofadas no sofá da sala, convencendo ela a sentar. Eu não me importo com as manchas de fuligem que ela tem sobre si. Neste momento, a minha prioridade é cuidar de suas mãos. — Aqui, Mãe. Segure isso, ok? — Eu coloco as compressas

improvisadas

nas

palmas

das

suas

mãos

estendidas, que agora estão todas vermelhas e inchadas. Ela

ainda

está

tremendo,

então

eu

vou

para

o

termostato e regulo ate a sala se encher de calor. Eu sei que eu tive sorte hoje, e é apenas uma questão de tempo antes da minha sorte se esgotar. Claro, estou desapontado por ter que dizer não aos Beaveres, mas eu vou lidar com isso. A alternativa é perder minha mãe ou ter que colocá-la em algum lugar, e isso é algo que eu simplesmente não posso fazer. Eu sei o que é mais importante para mim, e é ela. Nós vamos dar um jeito. Nós sempre conseguimos. Meu telefone toca, e eu amaldiçoo sob a minha respiração.

Percebendo

a

minha

irritação,

ela

joga

a

compressa de lado e se encolhe, assim que ela começa a se agitar, torcendo as mãos, já esquecendo que elas estão queimadas. — Luke, se for seu pai, diga a ele que... Eu aceno obedientemente e entrego a compressa de volta para ela, enquanto ela continua a divagar. A casa está um desastre. Eu sou um desastre. Mas eu não posso dizer a ela que não é o papai. Eu decido volta para a cozinha, porque eu realmente não quero que ninguém a ouça quando ela fica assim. 12


Mas

eu

não

preciso

me

preocupar

quando

sou

imediatamente recebido pelo barbudo entusiasmado do outro lado da linha. —

Você

recebeu

a

mensagem?

O

que

estou

perguntando?! É claro que você não recebeu a mensagem! Você provavelmente não está nem mesmo na lista de jogadores ativos ainda. É por isso que eu liguei. Para dizer eu mesmo. Quando se trata das excentricidades incorporadas por arremessadores canhotos, Dan O'Malley é, de longe, o mais bizarro que eu já conheci. O cara nunca para de falar, o que é provavelmente a razão de, no passado, eu sempre ter ficado preso, sentado ao lado dele na frente do ônibus, quando íamos e voltávamos dos jogos fora de casa. Mas Dan é tão leal como as pessoas o vêem. Ele está ciente de como a minha mãe está ficando ultimamente e, no entanto, nunca disse uma palavra a ninguém sobre isso — O que é, provavelmente, a razão da equipe pensar que eu ia saltar em sua oferta. Eles não têm ideia do que estou lidando em casa. Eu pego um esfregão do armário e deslizo o balde com o pé. — Bem, você está certo, Danny Boy. Eu não recebi a lista, provavelmente porque eu ainda não dei uma resposta a eles. Eu disse que precisava pensar sobre isso. — O que? — Dan ruge no meu ouvido — Mike Landry, o maior e melhor arremessador de todos os tempos, acaba de comprar os direitos de propriedade sobre os Beaveres

13


Stockton, e você está me dizendo que você não vai agarrar a oportunidade de jogar na equipe dele? Eu entendo isso, Dan é um fanático do New York King´s. Ele tem sido toda a sua vida. E não há ninguém que ele admira mais do que o ex-craque da equipe, Mike Landry. Na verdade, ele beira a obsessão com o cara. E eu tenho que admitir, o momento para tudo isso é curioso. Landry é um velho amigo do meu pai, e é bem possível que ele tenha mexido alguns pauzinhos para me levar de volta pra equipe — o que só torna o que eu tenho que fazer muito mais difícil. Eu

espremo

a

água

suja

do

esfregão

e,

intencionalmente, me esquivo da pergunta de Dan. — Então, você finalmente aceitou a aposentadoria do Landry? Não vai twittar mais sobre o quão chateado você esta ou forçar as pessoas a assinar a sua petição estúpida no Facebook, pedindo pra ele voltar? Dan bufa alto. — Cara, ele ganhou a World Series4 com os King´s no ano passado. E com o número de innings 5 que ele deixou naquele braço, eu estou dizendo, era muito cedo para ele estar falando em sair. Eu me inclino sobre o cabo do esfregão e sorrio. — Você só queria que ele ficasse por tempo suficiente para que você pudesse dizer que jogou com ele.

4

Campeonato Mundial de Baseball Um dos nove tempos regulares de um jogo de Baseball, onde cada time tem a vez de rebater. 5

14


— Claro, que sim! — ele exclama, me fazendo rir — Mas talvez isso seja melhor. No ritmo que eu vou, quem sabe se um dia eu vou conseguir chegar aos King´s? Mas agora que Landry é nosso novo chefe, eu tenho certeza que vou conhecê-lo, certo? Eu arregaço as mangas e volto para esvaziar o balde na pia. Eu não me curvo ao desespero de encontrar os jogadores das grandes ligas, como Dan faz, provavelmente porque meu pai recebia muitos amigos jogadores em casa quando eu estava

crescendo,

eles ficavam

sentados nesta

mesma

cozinha, pra ser exato. Eu coloco o balde de volta no chão. — Vamos, Dan. Não é por isso que ele se aposentou? Para ficar longe de malucos como você? — Não, espertinho. Foi por causa de seus filhos, e eu não o culpo por isso, — Dan admite — Deve ter sido difícil para ele depois que a esposa morreu. Mas os King´s enviaram uma cuidadora para ajudá-lo, então eu não entendo por que ele não poderia continuar jogando. Meus ouvidos se animam com isso, enquanto eu abro a gaveta superior. — Por quê? Ela não está mais com ele? — Você quer dizer a Roberta... Qual é mesmo o nome dela? — Bennett. Roberta Bennett. Puxando um par de luvas de forno, eu me curvo para examinar a torradeira, que parece ter derretido na bancada,

15


meu rosto ficando tão vermelho como as chamas que estavam saindo dela. — Espera, cara... Você a conhece? — É... mais ou menos. — Eu grunhi ao tentar soltar a torradeira — Ela estava com Arnold Heimlich no escritório, no dia que os King´s honraram meu pai pelas suas vinte temporadas com os Beaveres. — Uau, Arnold, o Grande Chefe — Dan sussurra em reverência — Esse nome ainda tem o poder de espalhar o terror no coração de cada jogador de beisebol na face da terra. Se não fosse por seu acidente vascular cerebral, ele ainda seria o proprietário dos King´s, e eu nunca teria a menor chance de jogar em Nova Iorque. Eu rio. — Não, eu acho que é esse ninho de rato no seu rosto que tem te segurado. — Ei, não critique minha barba, irmão. Você sabe que eu tenho deixado ela crescer desde o início do Recrutamento. — Todo o caminho através da Low-A, Single-A, Double-A, Triple-A6 ... — Eu zombo — Mas quando, não se, você for chamado para os King´s, você vai ter de fazer a barba. Eles não permitem pelos faciais sob as luzes brilhantes do Estádio dos King´s, meu amigo. — Tudo bem, temos um acordo — ele dispara de volta — Eu faria essa troca de muito boa vontade. E você também. Eu sorrio, olhando uma foto do meu pai, que está pendurada na parede O quadro agora coberto por uma 6

Níveis das Ligas de Baseball em escala crescente.

16


camada enfumaçada, gordurosa. No entanto, eu ainda sou capaz de identificar o mascote — pateta e dentuço — na frente do seu uniforme dos Stockton Beavers. Meu pai, Luke Singleton, veterano... Ele tinha cerca de vinte e três anos quando a foto foi tirada, a mesma idade que tenho agora, e é como olhar em um espelho. Os tufos marrom-avermelhados de cabelo estão saindo dos lados do boné, e as meias são puxadas até os joelhos, acentuando a estrutura baixa e robusta que nós compartilhamos. Mas é o cavanhaque sempre presente que me chama a atenção, eu nunca o vi sem... O mesmo que eu tenho. O que eu deixei crescer em homenagem a ele. — Mas isso ainda não responde a minha pergunta... — Dan continua — O que há de tão especial sobre essa garota Roberta que você, de todas as pessoas, consegue se lembrar do nome? Eu uso todas as minhas forças para arrancar a torradeira livre. — Eu não sei. Dan apenas riu. — O quê? Eu apenas achei que ela era atraente. Só isso. — Você não sabe nada sobre ela, então. — ele responde sinistramente. Faço uma pausa no que estou fazendo. — O que você quer dizer? — Ela está supostamente com Landry agora... Mas antes, ela estava ligada ao Jake Woodbury, Scott Harper...

17


Cara, ela praticamente cavou um caminho através de cada cara dos King´s. Eu aperto a torradeira em minhas mãos, amassando-a ainda mais. — Você não sabe se isso é verdade. — E quando é que as fofocas que surgem entre os Kings e os Beaveres já estiveram erradas? Ele me pegou, mas eu prefiro não pensar nisso, então eu pergunto: — Você acha que Landry vai trazê-la com ele para Stockton? — Sério, cara? Mike Landry lhe deu seu antigo emprego de volta e você está pensando em disputar com ele, de igual para igual, por uma garota? Se eu não te conhecesse bem, eu ia jurar que você perdeu a cabeça, Single. Ok, quando eu estava nos Beaveres, os caras gostavam de encher meu saco pelo fato de eu nunca mudar o status de relacionamento, e é por isso que eu acabei com esse apelido, Single7. Mas vamos ser justos, quando eu estava jogando, não era fácil fazer as mulheres olharem para mim, não quando eu estava de pé no campo ao lado de todos eles, o pequeno encrenqueiro tentando jogar com os meninos grandes. E desde que saí da equipe, eu não tenho ajudado a minha causa, de qualquer jeito. Ao assumir o papel de cuidador principal da minha mãe, eu não tive tempo nem de fazer a barba, muito menos outras coisas.

7

Single em inglês que dizer solteiro.

18


É por isso que eu não consigo deixar de pensar em como Roberta estava naquele dia com Arnold Heimlich. Ela nem sequer hesitou em limpar a baba do queixo dele, enquanto ele estava sentado em sua cadeira de rodas, e o altruísmo de seu gesto me deu uma sensação diferente. Na época, a minha mãe estava no começo dos estágios iniciais do Alzheimer, e ela era uma menina da minha idade, que estava cuidando de alguém com dignidade e graça. Essa imagem dela ficou comigo, e depois de perder meu pai, isso me fez pensar que talvez eu pudesse cuidar da mamãe por mim, que talvez eu pudesse manter as coisas numa boa, como ela fez. Eu pulo quando o volume da TV na sala de estar vai de suave a alto, em uma questão de segundos. — Cara, eu estava tentando ser educado e não dizer nada, mas o que diabos está acontecendo por ai? Você está dando uma festa sem mim? — Dan grita acima do barulho. Eu suspiro, jogando os restos da torradeira no lixo e tirando as luvas de forno. — Não, é a mamãe, tá agindo como se estivesse distante novamente. Olha, eu tenho que ir. — Luke, você tem que dizer aos Beaveres sobre o que está acontecendo com ela. Talvez eles possam ajudar... — Desculpe, cara. Eu não acho isso. Eu não quero caridade de ninguém. E eu, particularmente, não quero Mike Landry se intrometendo na minha vida.

19


Vamos,

Single.

Pelo

menos

venha

ao

treino

obrigatório da equipe amanhã de manhã. É no campo Beaver, às dez horas. — ele insiste. — Você quer dizer antes ou depois de eu dizer não a eles? — Seja como for, cara. Mas eu acho que você deve isso a si mesmo. O salário viria a calhar. Pelo menos pense sobre isso. Eu franzo minha testa. — Tudo bem, eu vou pensar sobre isso. — Agora vá verificar Sra. S, antes que ela queime a casa inteira, ele brinca. E eu não posso dizer-lhe a verdade. — Ok. Até mais tarde, cara. Uma última manhã com a equipe poderia ser tudo o que eu preciso, então talvez os pesadelos que tive desde que eu fui atingido iriam finalmente parar. Contanto que eu não caia na armadilha de me permitir acreditar que, de alguma forma, eu possa ter tudo — Jogar beisebol e estar lá pra minha mãe. Enfio meu celular de volta no bolso e apressadamente caminho através do assoalho molhado, sujo. Espio ao virar o corredor e mamãe ainda está no sofá. Ela tem o controle remoto na mão, com muito medo de todo o barulho que ela criou. Deixando um rastro de pegadas sujas na minha caminhada, eu gentilmente tiro o controle do seu alcance e aperto o botão do volume, até que eu seja finalmente capaz de ouvir meus próprios pensamentos. Diante de tantas

20


incógnitas — a saúde dela, a minha carreira, as nossas finanças — nada está claro. É tudo um borrão. E o meu coração dói dentro do meu peito, porque isso é provavelmente o que ela sente o tempo todo agora. Perdida... Confusa... Sozinha... Então eu faço a única coisa que eu posso fazer. Eu coloco a compressa de volta em sua mão e delicadamente envolvo meus dedos ao redor dos dela, a deixando saber que está tudo bem. Mesmo que não esteja. Nada disto está. Nada.

21


Capítulo Dois — Bobbie Jo, você tem certeza que está pronta para isso? Eu me levanto, logo que a bola bate na minha luva. — Landry, eu não estaria aqui se eu não estivesse. Ele me dá um grande sorriso, cheio de dentes, antes de se curvar e pegar o saco de resina. — Eu não sei o que vou fazer sem você. Eu realmente não sei. Ao longo dos últimos meses, Mike Landry e eu estivemos próximos, mas não da maneira que a maioria das pessoas pensa. No verão passado, a família Heimlich me enviou para ser a cuidadora da esposa de Mike, que estava nos estágios finais de câncer de ovário. E pelo pouco tempo em que eu cuidei de Julie Landry, eu realmente gostei dela. Seu espírito manso queimava com o amor intenso que ela tinha pela sua família, e ela me implorou para não abandoná-los depois que ela fosse embora, me fazendo prometer que ficaria em seu rancho, pelo menos por um tempo. Então eu fiquei, ajudando Landry, sua garotinha Taylor, e seu filho adolescente Jason, fazendo-os voltar a fixar os pés no chão.

22


Mas agora, é hora de seguir em frente. E isso é o que eu planejo fazer em Stockton — encontrar um novo emprego e começar de novo. Eu tiro minha luva e agito minha mão. — Você está arremessando maldosamente, Big Mike. Eu acho que a aposentadoria não foi uma boa ideia, no fim das contas. — Foi para mim. — ele pronuncia devagar, estendendo a mão para a bola. — Pela primeira vez na minha vida, eu vou poder passar um verão inteiro com meus filhos. — Seu sorriso só cresce, enquanto ele tira o chapéu de cowboy, com as abas largas para mim. Apenas Landry iria vestir um chapéu de vaqueiro fora do campo, mas ele está aqui apenas para observar a sessão de treino da equipe e deixar o seu braço —pronto— para amanhã. Ele vai fazer o primeiro arremesso, como parte das festividades do cerimonial no dia de abertura. Mas as raízes de Landry no Texas são profundas, e após a morte de Julie, parece que ele está mais perto do que nunca daquilo que é importante para ele. Acontece que se afastar da vida de jogador não foi tão difícil quanto ele achou que seria. Ele não tem mais que lançar para ganhar. Agora, como o novo proprietário dos Beaveres Stockton, ele está esperando deixar todo o stress para trás e simplesmente aproveitar o jogo novamente. Apesar de que, trabalhar com Heimlichs, nunca deixa ninguém livre do estresse... Eu deveria saber.

23


Eu lanço um passe dissimulado, e olho para ele através da gaiola de aros da máscara do coletor. — Então, após o jogo de amanhã, você vai apenas pegar um avião e partir? Ele sorri quando eu coloco minhas mãos nos quadris, me recusando a agachar. — Eu pensei em fazer apenas uma aparição na abertura. Mostrar aos caras que eu estou atrás deles. Mas, como eu disse aos Heimlichs, ao entrar nisso, não tenho nenhuma intenção de arrastar meus filhos pra isso, não com Jason prestes a se formar na escola e tudo. Além disso, eu não preciso micro gerenciar as coisas. Eu confio na comissão técnica para me manter informado. Mas eu gostaria que ele fosse capaz de ficar um pouco mais. A separação iminente está começando a parecer real agora. Eu não fico emocional sobre coisas como esta. Mas eu ainda vou sentir falta do grande cowboy... e a segurança que seu rancho forneceu. Eu levanto a máscara do meu rosto e a deixo descansar em cima da minha cabeça, afastando os fios encaracolados que já estão caídos, livres do meu rabo de cavalo. Para chegar a minha garrafa de água. — Então é isso? Ele levanta as mãos e ri para mim. — Você está pronta para alçar seu próprio voo, senhorita. E eu também. É hora de começar um novo Capítulo em ambas a nossas vidas. Reviro os olhos para o céu.

24


— Oh, sim, isso é certo. Estamos colocando o passado para trás agora. Ele balança a cabeça para mim. — Uh-uh, não foi isso que eu disse. — Ele dá a volta até a ponta do campo e acena para um grupo de jogadores do Beavers, que estão se alongando perto das arquibancadas. — Você já está esquecendo do pacto que fizemos? Eu bato no braço dele, com força. — Eu não namoro jogadores de beisebol, caso você não tenha notado. — Sim, isso eu vou precisar ver pra crer. — , Landry resmunga, coçando o queixo. Ok, se ele vai manter essa porcaria super protetora comigo, então eu pretendo fazê-lo se contorcer. Os caras estão todos usando seus uniformes da prática de rebatidas, que, infelizmente, têm apenas o número na parte de trás e não o nome do jogador. E, desde que eu não planejo perder meu tempo me familiarizando com a lista dos jogadores dos Beaveres, eu só vou ter que... Escolher. — Bem... — Eu deliberadamente aponto para os ombros largos do cara que tem, de longe, o corpo mais bonito da equipe — Eu acho que o número vinte e dois vai ser o primeiro da lista pra quem vou ter que ligar. Landry sorri para mim. — É, só que isso não vai acontecer. — Por quê? — Eu pergunto — Quem é ele?

25


— Rob Reardon, um projeto que foi escolhido na primeira rodada, pra ser o novo corredor8, um cara novo que cometeu cinquenta erros no ano passado na liga Duplo-A. Desculpe, Bobbie Jo, mas o menino precisa trabalhar mais seu jogo. — Tudo bem. Que tal o grande e corpulento homem montanha ali... aquele com a barba? Número quarenta e seis? — Dan O'Malley? — Landry riu alto. — Esse cara não, ele é tipo o meu maior fã de todos os tempos... então, não, nunca. — Bem, deixa ele fora da lista. — murmuro. — Mais um erro e você está fora. — Landry diz, ditando as regras à medida que avançamos. — Depois disso, eu vou dar um fim nessa sua ideia absurda. — Droga, eu estava começando a gostar disso... — Eu falo com insolência de volta. Eu continuo a minha busca por um novo alvo quando meus olhos pousam em um jogador que apareceu de repente, na área de falta9 dos Beaveres. Caramba, o seu número é noventa e nove. Ele certamente não seria minha primeira escolha. Mas então, com base na maneira como ele está segurando o taco, uma agitação estranhamente nervosa começa no meu estômago, porque, mesmo de tão longe, sua postura parece familiar.

8

Do original ‘shortstop’, nome dado ao jogador de Baseball que se posiciona entre a segunda e a terceira base, que cobre a base de arremessos do time. 9 Do original ‘Dugout’, que dá nome ao banco de reservas da equipe, localizado entre as bases e a área dos batedores.

26


Não pode ser ele, pode? Não, de jeito nenhum. Landry bate no visor de seu relógio. — Dez segundos... nove... oito... sete... Mal dando ao resto da equipe uma segunda olhada, eu deixei escapar. — Humm... Número trinta. — O velho rabugento do Eddie Hoffman? — Landry não consegue segurar o riso por muito tempo. — Ele está lá encarando você agora por roubar seu equipamento. Eu odiaria ver o que aconteceria se vocês dois fossem a um encontro juntos. Vocês iriam matar um ao outro. Mas meus olhos estão grudados no número noventa e nove. Ele se encaixa no perfil. Cabelo comprido. Corpo robusto. Mas esse cara tem um cavanhaque. Ele não tinha... pelo menos não naquela época. — Então, qual dos seus jogadores será que eu vou escolher, hein? — Eu mascaro a minha ansiedade, com uma dose saudável de sarcasmo. — Hmmm... o suspense deve estar te matando, Landry. Espera só a Taylor se tornar uma adolescente. Como no mundo você vai fazer pra mantê-la longe de sua equipe de jogadores de beisebol, jovens e atraentes? — Muito engraçado! — ele geme, olhando pra mim intensamente. — Só para você saber, Taylor não vai ter encontros até o dia em que eu disser que ela pode, e eu não vou dizer tipo, nunca. Eu descanso meu queixo no topo da divisória.

27


— Eu não sei nada sobre isso, papai urso. — Prendo a respiração e tento mergulhar em águas mais perigosas. — Embora, o noventa e nove pareça bastante inofensivo. Por que você deu ao pobre rapaz esse número? O que... o duplo zero não estava mais disponível? Landry cruza os braços ao meu lado e olha para mim, com o canto do olho. Estou agindo de um jeito estranho. Ele sabe que tem alguma coisa errada, mesmo que ele não consiga saber ao certo o que é. Ele se tornou um irmão mais velho para mim, do tipo com o que eu gostaria de ter crescido. Então, talvez alguém tivesse cuidado de mim, não me permitindo cometer tantos erros dolorosos. Landry dá de ombros. — Ele mesmo escolheu esse número, disse que o manteria humilde. Eu me esforço para extrair o ar em meus pulmões quando Landry ainda não revela seu nome. —

Você

não

era

intransigente

com

esses

casos

problemáticos? — Eu sei no que você está pensando, Bobbie Jo. Sim, ele tem 1,70cm e ele está no lado mais curto, mas não deixe o seu tamanho enganá-la. — aconselha Landry — Há um coração de um guerreiro batendo dentro daquele pequeno corpo. Mas eu não estava se referindo à sua altura. Há uma razão poderosamente grande pela qual eu estou interessada nele, e certamente não é para tirar sarro dele por ser tão alto como eu sou. 28


— Tudo bem, então. O que há com ele? — Mas Landry me para por aí. — Não, Bobbie Jo. Eu não quero ouvir você falando dele. Você não sabe tudo o que ele já passou. Um peso começa a se formar no fundo do meu estômago. Mas e se ele estiver errado? E se eu souber? — Seu pai foi um cara e tanto. Quando eu estava nos Beaveres, eu realmente gostava de jogar com ele. Na época, eu era apenas um garoto e ele me ensinou muito — Landry diz, seu rosto assumindo um olhar distante. — E agora que eu estou em posição para fazer algo pelo seu filho, pode ter certeza que eu vou ajudar. — Ah, o nepotismo na sua melhor forma. Landry se vira para mim. — Você não entende. Aquele bastardo caçador de talentos não vai ter a última palavra sobre este assunto. Não se eu puder fazer alguma coisa sobre isso. Eu limpo minha garganta. — Que bastardo caçador de talentos? — O cara que o atingiu. — murmura Landry — Um lançador, que você provavelmente nunca ouviu falar, David Nichols. Mordo com força o lado de dentro da minha bochecha, bem familiarizada com o nome que saiu de seus lábios. — Ele não é nada além de escória humana, tanto quanto eu estou preocupado — diz Landry — Você não arremessa simplesmente direto na cabeça de um cara.

29


Atordoada, eu me inclino contra a grade. Landry não tem que me dizer qualquer outra coisa. Ele apenas confirmou tudo para mim. Luke Singleton é o número noventa e nove. Eu engulo o nó que se forma na minha garganta enquanto Luke entra na gaiola do batedor. O que aconteceu com ele na temporada passada é a essência dos meus pesadelos. Eu vi o clipe no YouTube. O arremesso chegando a mais de cem milhas por hora, como ele o atingiu de lado, no pescoço, derrubando-o no chão... Deixando-o incapaz de respirar... Até que os paramédicos o levaram para fora do campo em uma maca, sem saber se ele ia sobreviver. — É um milagre que Luke ainda esteja vivo, muito mais em um uniforme de beisebol — Landry fala, e lança — Mas esse é o tipo de determinação que eu quero nesta equipe. Caras que não desistam do jogo, de si mesmo ou da vida. — Ele não tem que dizer isso. Basta ouvi-lo, e eu sei que ele está pensando em Julie, em si mesmo, e nas crianças. — Os Heimlichs acham que ele já deu tudo o que tinha que dar, mas eu quero ver o que ele ainda pode fazer. O campo inteiro fica absolutamente imóvel quando Luke paralisa no primeiro arremesso que ele vê, ele se joga no chão sujo, como se ele não pudesse sair do caminho rápido o suficiente. Sem saber o que fazer, o lançador fica apenas lá, atordoado. Ninguém corre para ajudar Luke, nem mesmo o treinador que o está observando de perto, do lugar mais alto do banco. A bola nem sequer o tocou. Não havia nenhum som amortecido pela pele atingindo a carne. Nada havia se machucado dessa vez, exceto seu orgulho. 30


Landry coloca as mãos em volta da boca e grita: — Você precisa de mais algumas bolas para continuar? O

arremessador

encara

a

área de

aquecimento10,

protegendo os olhos com a luva. — Sim, isso seria ótimo, chefe! Toda a equipe está ciente do que Landry está fazendo, tentando tirar um pouco do foco em Luke. Mas será que vai ser o suficiente? Luke ainda está de joelhos, não fazendo qualquer tentativa pra se levantar. Eu estou de pé na porta da grade, com um pé na linha de advertência, quando Landry se vira para mim. — Bobbie Jo, pega esse balde de bolas e leve lá para mim. Você pode fazer isso? Meu queixo cai. — O que?! Não! Landry franze a testa para mim. — Porque não? Faço uma pausa, me forçando a pensar em alguma coisa. — Você... Você me disse para ficar longe de seus jogadores, não disse? — Sério? Agora você está ficando constrangida comigo? Eu respiro fundo, lutando para manter a compostura enquanto observo Luke se levantar lentamente. Landry se junta a mim na porta.

10

Do original ‘Bullpen’, termo do Baseball que se refere à área onde os rebatedores fazem seus aquecimentos.

31


— Vamos, Bobbie Jo. Ele está um pouco inseguro. Se eu for lá agora, só vai piorar as coisas. Faça isso como um favor para mim. Eu não estou pedindo para você se casar com o cara ou nada do tipo. Quando eu não respondo imediatamente como eu costumo fazer sempre que ele traz à tona o assunto do casamento, ele me dá um olhar penetrante. Minhas emoções estão borbulhando dentro de mim, ameaçando transbordar. Estou encurralada. Se eu pensar em recusar o pedido de Landry, ele vai saber que algo está errado, e então ele não vai descansar até que ele extraia tudo de mim. Sim, ele é meu amigo, mas eu morreria se ele soubesse sobre isso. Ele não pode descobrir. Eu não posso deixar. Lentamente, eu começo a me mover, segurando o balde na frente do meu protetor de peito. Ouço o som das minhas caneleiras esfregando juntas conforme eu ando, há um silêncio nervoso preenchendo o espaço entre mim e ele. Não diga nenhuma palavra para ele. Ele não sabe quem você é. Ninguém sabe... Não de verdade. A cabeça de Luke esta abaixada, enquanto ele olha para placa de home 11, batendo o final de seu bastão contra ela. Eu cruzo meus dedos. Talvez eu possa fazer isso sem ele sequer me notar. Mas, em seguida, de dentro da área, o apanhador começa a reclamar.

11

Do original ‘Home Plate’, termo do Baseball que se refere à base, geralmente de borracha dura, em que o batedor se levanta ao rebater e que um corredor de base deve finalmente tocar para marcar.

32


— Não vai me dizer que ela está vestindo uma das minhas máscaras... O que Landry está pensando? Deveria ser eu lá fora com ele, não ela. E minha respiração para quando Luke Singleton olha para cima, e eu sou cumprimentada pelo mais claro e aberto conjunto de olhos que se poderia imaginar. Por uma fração de segundos, eu estou surpreendida quando a luz do sol bate neles e eles parecem mudar de um castanho avermelhado escuro para um verde cintilante. Mas então ele me oferece um sorriso tímido, e eu fico completamente desconcertada. Oh Deus, eu não posso fazer isso. Eu abaixo a máscara do apanhador sobre meu rosto e deixo cair o balde de bolas nos pés do lançador. Eu não posso olhar para ele novamente, então eu viro o meu calcanhar e marcho direto de volta para a grade. Mas assim que eu faço, eu sinto o peso dos olhos de Luke em mim, e eu não posso ignorar o choque inexplicável que chega à boca do meu estômago. É como se eu estivesse em uma montanha russa de emoções, uma que eu nunca quis entrar. Quando eu chego ao alcance da voz, Landry exala ruidosamente pelo nariz. — Deus, que droga. — ele murmura. — Eu cometi um erro enorme, apressando a volta dele assim. Ok,

ele

não

está

desapontado

comigo.

Ele

está

desapontado com ele mesmo pelo que aconteceu com Luke lá fora, e de alguma forma isso me faz sentir ainda pior. — Por que você diz isso? Por que agora?

33


Landry baixa a aba de seu chapéu de cowboy até os olhos, somente a cova no queixo é visível. — Alguns caras não voltam a ser o que eram antes, depois de serem atropelados assim, Bobbie Jo. — Bem, ele ficou com o braço bom pra trabalhar de novo, não foi? Landry lança um olhar de soslaio para mim. — Será? — Além disso, — eu protesto, falando muito rápido, não querendo dar muito espaço pra ele repensar. — Quem sabe o que ele vai fazer em uma situação de jogo? Você não pode julgá-lo com base no que você acabou de ver. — E o que eu faço agora? Ele acena a cabeça em direção a Luke, que está arrastando os pés pra fora do campo, baixando a cabeça em derrota. Os outros jogadores se separam como o Mar Vermelho para ele, enquanto ele trota, descendo os degraus e indo para no banco de reservas, recebendo tapinhas de seus companheiros de equipe no capacete, enquanto ele passa. Mas o que realmente me chateia é que ele para e dá um longo olhar para trás, para o campo, antes de passar pela porta que dava para o clube. Landry suspira, claramente desanimado. — Parece que ele já fez sua própria escolha. — Você não sabe disso. — eu argumento. — Em vez de voltar e montar o cavalo, ele caminhou para fora do maldito rodeio. E é uma vergonha também, porque eu não acho que ele está planejando ficar por aí. 34


— Landry, você tem que falar com ele. Faça alguma coisa. — Eu vou, se ele vier para mim, mas eu não vou forçá-lo a jogar, não se ele não estiver pronto. — Landry... Ele me lança um sorriso triste antes de me dar uns tapinhas no ombro. — Eu pensei que você disse que não se envolvia mais com jogadores de beisebol, Bobbie Jo. Eu balanço minha cabeça, porque, por algum motivo, dói meu coração por Landry pensar que eu só estou falando de Luke a fim de ganhar a discussão que estávamos tendo. Ele dá um aperto rápido no meu braço. — Agora, não se envolva nisso, Bobbie Jo. Deixe-me pensar. Não tem necessidade de tomar os problemas de outra pessoa pra você. Você está aqui para recomeçar, lembra? Concordo com a cabeça quando ele sai da grade. Mas, eu não posso parar de pensar em Luke Singleton. Eu estive pensando nele todos os dias, há meses. Desde que eu descobri que foi David Nichols que o atingiu.

35


Capítulo Três

Eu estava apavorado em voltar na área dos batedores12 de novo, e ela estava lá para testemunhar cada segundo humilhante dele. Não foi à toa que ela nem se incomodou em me dar uma segunda olhada, quando ela saiu em direção ao lançador. Eu odeio admitir isso, mas era hora de eu desistir. Independentemente simplesmente

não

da

condição

tenho mais

da o que

minha é

mãe,

preciso,

eu e

é

extremamente humilhante ter certeza disso agora. Sim, eu tenho trabalhado duro para manter meu corpo em forma, mas minha mente não está nem perto. Se eu fico com medo de ser atingido cada vez que lançam, então não há lugar para mim nesta equipe, ou em qualquer equipe, a final. Mas Landry merece ouvir isso de mim, cara a cara. Do lado de fora do quarto, que foi rapidamente designado como seu escritório, meus olhos vão até o desenho de giz colado à porta. A filha de Landry deve ter feito o desenho para ele. Letras grandes e coloridas formam a frase: Meu papai, o Sr. Beaver.

12

Do original Batter's Box, termo de Baseball que determina a área à esquerda e à direita da placa de pontuação, onde o batedor está.

36


Sr. Beaver... Deus, quando eu estava crescendo, era disso que os fãs costumavam chamar o meu pai. Eu sorrio, enquanto penso no tempo em eu tinha seis anos. Os treinadores do time infantil 13, um bando de caras com barrigas de cerveja, que não tinham jogado um jogo desde o colégio, se reuniu e decidiram que queriam descontar a frustração no filho do Sr. Beaver. Eles tiveram a ousadia de me afastar, dizendo que eu era pequeno demais para jogar, que eu podia me machucar. Então, o que o meu pai fez? Ele gritou pra deixarem? Não. Ele foi e construiu uma miniatura do

meu

próprio

campo

de

beisebol,

no

quintal,

me

preparando para quando eu ficasse maior e mais forte, me ensinando a trabalhar duro e nunca, nunca desistir. Ele continuou me dizendo que eu ia ter a minha chance um dia, era só ter paciência. Eu abaixo minha cabeça. Cara, estou feliz por ele não estar vivo para ver isso — eu jogando a toalha, me afastando do jogo que ele amava de todo o coração. Eu inspiro, em seguida, deixo o ar sair. Lamentando ou não, eu não posso adiar mais isso. E já são mais de duas horas. A Sra. Jenkins só pode ficar com a mamãe até as três, e com isso, Landry tem menos de vinte e quatro horas para chamar outro homem de segunda base para o jogo de amanhã. Se eu estou abrindo mão de alguma coisa, é de viver nesta terra da fantasia, onde eu pensei que poderia magicamente voltar a ser um jogador de beisebol.

13

Do original T-Ball, uma forma de beisebol jogada por crianças, em que a bola não é lançada e sim rebatida de uma posição fixa, na direção de um alvo.

37


Enfiando meu cabelo atrás das orelhas, eu bato levemente na porta do Sr. Beaver e espero. Há um pouco de barulho do outro lado, e na minha mente, eu me preparo para o que eu vou ter que dizer. Landry, obrigado pela oportunidade, mas... Sinto muito, eu deveria ter lhe dito antes, mas... Foi

muito

emocionante

colocar

o

uniforme

Beaver

novamente, mas... No entanto, quando a porta se abre, não é Landry quem está me encarando. É Roberta Bennett. Eu congelo, ficando mudo, como um estúpido idiota. Eu nunca pensei que ela estaria no escritório de Landry. Provavelmente, por causa da relutância em acreditar que os rumores são verdadeiros, que ela é realmente a namorada dele. Coçando o pescoço, eu dou um sorriso de desculpas, desejando que meu rosto não estivesse em chamas. — Desculpe, hum... eu não queria perturbá-la... Eu olhei rapidamente para ela. Eu nunca a vi com o cabelo solto antes. Seus cachos escuros são realmente bonitos. Mas é o uniforme atlético preto e elegante que ela está usando que está chamando minha atenção. Mostra muito mais silhueta do que o uniforme volumoso do apanhador, que estava usando antes. Ela dá um passo pra frente e olha através do corredor. — Sim... Landry não está aqui. Eu levanto os meus olhos para os dela. Por que ela está tão nervosa, como se ela estivesse com medo de ficar sozinha 38


comigo? Essa menina é destemida. Ela trabalhou para Arnold Heimlich. Ela trabalhava para um dos arremessadores mais dominantes em todo o baseball. Por que ela estaria com — a voz da minha mãe me vem à cabeça — medo do pequeno Lukey? — Uh, bem... você sabe quando ele vai voltar? Mas eu tenho a impressão de que ela realmente não quer estar em qualquer lugar perto de mim, uma vez que ela está praticamente fechando a porta na minha cara. E isso é uma porcaria, porque eu a admirei por tanto tempo. Aposto que ela nem se lembra da primeira vez que nos conhecemos, meu rosto, provavelmente, se misturando à multidão sem nome dos jogadores das ligas menores, que percorreriam o escritório de Arnold Heimlich a cada temporada. Quem se importa se meu pai era o Sr. Beaver? Isso obviamente não significava nada para ela. Estou prestes a dizer que eu vou voltar mais tarde, quando ela deixa escapar um gemido horrorizado. — Oh meu Deus, você está sangrando! Eu olho para baixo. Cristo, eu estou. Eu cerro os dentes. Eu não consigo fazer nada direito perto desta menina. — Eu devo ter raspado meu cotovelo quando eu caí mais cedo. — Eu reviro os olhos, para fazê-la rir comigo, mas é claro que ela não ri — Não se preocupe. Não é nada. Eu fico ali, olhando sem jeito para o sangue. Eu estou com todos meus dedos manchados. Não sabendo mais o que fazer, eu começo a limpá-los na minha camisa, mas ela agarra meu braço. 39


— Não! — ela ordena. Lançando um olhar mais furtivo no corredor, ela suspira com relutância — Venha comigo. — Ela me leva até o escritório de Landry, seus dedos levemente segurando meu pulso, mas assim que chegamos à mesa, ela me solta, como se ela só estivesse me tocando porque era absolutamente necessário. Ela levanta uma pilha de pastas pesadas de uma cadeira, e as despeja sem cerimônia no chão. — Aqui, sente-se. Eu me sento, não sabendo mais o que fazer, e ela joga sua bolsa sobre a mesa e começa a sussurrar pra ela mesma, antes de puxar um kit de primeiros socorros, entre tantas outras coisas. Eu tento não olhar, mas por trás, não posso deixar de admirar como sua cintura vem sobre seus quadris. Seu corpo flexível e forte. Não há nada delicado sobre ela. Eu quase começo a sorrir. Ela provavelmente poderia chutar a minha bunda, e eu não sei por que, mas eu gosto disso. Ela me lança um olhar irritado por cima do ombro. — Pare com isso. — O que? — Você já não ficou me secando o suficiente por um dia? Minhas bochechas queimam novamente. Então ela me pegou olhando pra ela no campo. Droga. Ela levanta meu braço e vira para o cotovelo. Era meu braço, o que eu não podia mover depois de receber o golpe no meu pescoço. No inicio, os exames não sabiam se eu estava parcialmente paralisado ou não. Vamos apenas dizer que foi um pouco assustador durante quatro dias e meio, antes de 40


eu, finalmente, detectar o primeiro sinal de que eu conseguia senti-lo. Eu olho para ela. Mas será que ela sabe disso? — Agora, sente-se ainda. Isso vai doer um pouco. — Ela aplica uma fina camada de antisséptico no meu corte, e eu tento o meu melhor para não me contorcer. Durante o ano passado, muitos médicos e enfermeiros tinham picado e cutucado meu corpo, mas seu toque é suave e reconfortante. E se eu não estivesse tão miseravelmente atraído por ela, tenho certeza que sua maneira tranquila teria me colocado completamente à vontade agora. Recuando para examinar seu trabalho, ela pergunta: — Então, porque você veio ver o Landry? Seus

olhos

azuis

brilham.

Parece

que

ela

está

superando o choque inicial de me encontrar do lado de fora da sua porta. Sua timidez desapareceu, e ela voltou a ser a menina destemida que eu me lembro. Eu me sento em linha reta e engulo a minha hesitação. — Eu estou aqui para dizer a ele que eu não posso mais jogar. — Isso está certo? — Ela segura no meu braço enquanto enrola uma atadura em volta do meu cotovelo. Eu mudo, desconfortavelmente

na

minha

cadeira,

quando

ela

inadvertidamente aperta meu bíceps. Rapaz, estou feliz que eu converti o porão em um espaço de treino para mim, uma vez que eu não posso mais ir a uma academia. Não com a minha mãe...

41


Mãe...

Eu

olho

em

volta,

descontroladamente

procurando um relógio. Roberta levanta uma sobrancelha para mim. — Eu disse pra ficar quieto. Estou quase terminando. — Que horas são? Ela aperta os olhos, olhando por cima da minha cabeça. — Duas e meia. Por quê? Eu faço um movimento para me levantar. — Eu tenho que ir. Mas ela coloca as duas mãos sobre os meus ombros, me empurrando de volta para baixo. — Eu ainda não terminei. Ela pega a tesoura e corta o fim do curativo, amarrando bem apertado. — Então, você não acha que pode jogar amanhã... por causa de um pequeno arranhão no seu cotovelo? Deixe-me dizer, Landry não vai gostar disso. Eu suspiro. — Não, não é por isso. É muito mais complicado do que isso. Ela solta meu braço, mas não é como se eu pudesse me levantar, desde que sua perna ainda está pressionando contra o meu joelho. — Bem, eu posso te dizer o que ele vai dizer. — Ela aprofunda sua voz, dando uma impressão bastante decente de seu distintivo sotaque texano — Você tem que voltar para o cavalo, eventualmente, filho.

42


Então, ela conhece minha história triste... Eu tenho certeza que Landry disse a ela todos os detalhes. E por alguma razão, isso me irrita mais do que eu estou disposto a admitir. Eu não quero que esta mulher capaz, bonita e forte pense que eu sou patético e fraco. Mas eu não tenho uma escolha. Deixo que ela pense que eu ainda estou assombrado por flashbacks de ser atingido por David Nichols. Não é como se eu fosse superar meus medos de uma hora pra outra. É apenas melhor do que ter que deixar ela saber sobre minha mãe, porque, se o fizesse, ela iria correr direito de Landry. E então ele se sentiria na obrigação de se envolver em algum tipo de benfeitor, que eu faria qualquer coisa para evitar. Ela se inclina para trás para me observar. — Eu provavelmente não deveria estar dizendo isso, mas há algo que você deveria saber. É como se eu estivesse pegando fogo sob o peso de seu olhar. — O que... o que é? — Os Heimlichs estão colocando muita pressão sobre Landry, para dobrar a participação dos Beaveres este ano. — Sua expressão rapidamente se transforma em uma careta. — Eu costumava trabalhar para eles. Eu sei quão exigente eles podem ser. Então ela realmente não se lembra de me encontrar antes, no escritório do Arnold...

43


— Luke, eu não sei se você sabe disso, mas Landry saiu em sua defesa com os Heimlichs, e essa não é a forma como eu iria querer retribuir, se eu fosse você. Não há dúvida de que as pessoas vão estar interessadas em ver se eu posso fazer um bom retorno ou não. Eu sou um menino Stockton. Eu sou o filho do Sr. Beaver. Eu sou um tipo de atração. E agora, ela está me pedindo para ser a salvação financeira de seu namorado super bem-sucedido. Não há nenhuma dúvida sobre isso agora. Ela não estaria me pedindo favores, se ela realmente não se preocupasse com ele. No entanto, nesse momento, eu gosto de ter sua total e completa atenção. É loucura, mas eu estaria disposto a fazer quase qualquer coisa para fazê-la pensar em mim. Ela não está olhando para mim com pena. Há algo mais vindo de seus grandes olhos azuis, e eu não acho que meu coração poderia bater mais rápido quando Landry aparece de repente no escritório, surpreendendo a nós dois. — Bobbie Jo, você nunca vai... Oh, hey, Single... O que você está fazendo aqui? Bobbie Jo... ele a chama Bobbie Jo? Roberta se afasta de mim, e eu me sinto imediatamente vazio. Mas é o olhar que eles trocam que fala bastante. Vê-los juntos, me faz sentir como um estranho bisbilhotando, me intrometendo em um momento privado, do qual eu não faço parte. Vou esperar até que eu possa conversar com Landry sozinho,

como

eu

ia

fazer

antes,

porque

agora,

44


testemunhando o vínculo que eles têm entre eles, eu percebo que não tenho a menor chance com ela. — Luke, você não ia perguntar ao Landry sobre bilhetes para o jogo de amanhã ou algo assim? Eu congelo com as mãos sobre os braços da cadeira. Peraí... o que foi que ela disse? — Oh, sim, Single? De quantos você precisa? — Landry pergunta, tirando o chapéu e pendurando-o no gancho porta. Quando ele está de costas, Roberta me dá um olhar que é destinado apenas para mim, que diz claramente: cale a boca e concorde comigo sobre isso, ou então... E é assustador o quanto sua influência é capaz de me balançar. Eu acho que eu poderia jogar dessa vez, apenas para provar que eu ainda posso rebater a droga da bola, que eu ainda posso permanecer em pé na base do batedor. Enquanto eu fico lá sentado, debatendo interiormente o que eu vou fazer, Landry sorri para mim. — Fala logo, Single. Você quer que a sua namorada venha ver você ou algo assim? Roberta olha em minha direção. — Não. — eu sorrio, ficando nervoso. — Provavelmente só a minha mãe... e sua amiga. — Sim, Sem problemas. Vou guardar dois lugares atrás do banco de reservas para elas. — Ele me bate nas costas. — Como está sua mãe filho? Eu não vejo a Senhora Carla há séculos. — Oh, uau, você olha as horas! — Eu pulo da cadeira e passo por Landry — Desculpe, mas eu tenho que correr. 45


E é quando ele percebe o curativo no meu cotovelo. — Minha nossa, o que é isso, filho? — Ele está bem. — Roberta lhe assegura, antes de se posicionar na frente da porta — Eu já dei uma olhada nele enquanto estávamos esperando por você. É só um arranhão. Ele vai se curar. Seus olhos encontram os meus, me desafiando a contradizê-la. — Oh, é bom ouvir isso! — Landry exclama. — Single, não queremos que você perca o dia de abertura, não é? E todas as vendas de bilhetes extras que eu vou levar comigo, eu penso comigo mesmo. — Eu estarei lá, senhor. — murmuro com tanto entusiasmo quanto eu pude reunir e então, apenas depois disso, é que ela finalmente se afasta. Eu não posso desperdiçar um momento enquanto eu passo por ela. Eu mal vou conseguir chegar em casa a tempo ver como minha mãe está. Mas mesmo antes de eu começar a correr, já estou respirando com dificuldade, graças ao aroma de seu shampoo ou perfume, ou o que quer que fosse que ela estava usando, que encheu minha cabeça e estava nublando meu julgamento. Como é que eu deixei ela me convencer a isso? Mas, o mais importante, o que diabos eu vou fazer em relação à mamãe?

46


Capítulo Quatro

Encosto meu carro alugado no acostamento e checo duas vezes o endereço que Landry me deu: Cedar Crest Lane, número 44. Olho apreensiva para a janela da frente. Há um brilho bruxuleante vindo de dentro. A TV está ligada, então presumo que ele esteja em casa. Mas é tão estranho fazer isso. Depois que Luke saiu correndo de seu escritório, Landry insistira para que eu viesse entregar os bilhetes pessoalmente. Ele podia claramente ver que Luke estava assustado e a última coisa que queria era que ele desistisse no último minuto. Landry não tinha nada além de boas intenções quando o assunto era reacender a carreira de Luke. Ele é mais do que capaz de lidar com os Heimlichs por conta própria, e nunca exploraria um de seus jogadores para isso. Na verdade, ele seria capaz de explorar a si próprio, mas jamais sacrificaria um deles. É por isso que está em Stockton para o dia de abertura, para chamar os torcedores para o estádio. Eu só não sabia o que mais poderia fazer para convencer Luke a ficar. E a culpa tende a ser sempre um poderoso motivador. É por isso que estou aqui sentada no carro do lado de fora de sua casa.

47


Deito a cabeça no volante e olho ao redor. É um bairro agradável, ruas arborizadas, antigo, mas com casas bem cuidadas. Entretanto, não é o lugar que eu imaginaria para um cara jovem como ele. A atmosfera aqui exala brincadeiras de balanço e ônibus escolares, não noites de jogos de pôquer com os caras. Olho a trilha de pedra que termina numa linda guirlanda de flores enfeitando a porta e as cortinas de renda branca que adornam cada janela. Muitos toques femininos para um apartamento de solteiro, o que significa que ele deve viver aqui com a namorada. Não é o tipo de lugar que poderia pagar por conta própria. A maioria dos jogadores são forçados a dividir apartamentos entre dois ou três apenas para alugar por uma temporada. Sua namorada deve ter um trabalho bastante decente aqui em Stockton já que estão morando em uma casa grande como essa... É a única explicação que faz algum sentido. E uma delas não me deixa muito ansiosa para sair do carro e bater na porta.... Já é ruim o suficiente ter que enfrentá-lo, pior ainda seria ter que explicar para sua namorada quem sou e o que eu estou fazendo aqui. Por alguma razão estúpida, dói ver que alguma garota — uma garota que sequer conheço — está vivendo a vida que nunca cheguei a viver. Uma vida segura, feliz, com um homem cuja carreira é tudo menos estável. O sol já está começando a se pôr, e a menos que eu esteja planejando chegar a Sheraton no escuro, preciso parar de enrolar e acabar logo com isso. Não sou muito boa em 48


seguir um GPS e ter que dirigir em ruas que não conheço. Me deixa nervosa, e já estou bem nervosa. Ajeito meus cachos e saio do carro. Meio que espero que alguém olhe pela janela quando bato na porta, mas ninguém o faz. Segurando o envelope com os bilhetes nas mãos, relaxo os ombros e marcho com determinação pela trilha, quando me deparo com marcas de mão de criança no cimento. Eu havia memorizado sua biografia de ponta a ponta, e em nenhum lugar, em qualquer entrevista ou perfil, uma criança fora mencionada. Mas, pensando bem, ele está fora de cena há meses agora, e uma vez que isso tenha acontecido,

o

perfil

online

de

um

jogador

não

é

necessariamente atualizado com as informações mais atuais, especialmente quando se trata de sua vida pessoal. E se, nesse meio tempo, ele...? Não. Me recuso a acreditar nisso. Desvio em pequenos passos das mãos marcadas no cimento e chego à varanda. Luke não pode ter se tornado pai. Ele não pode. Minha cabeça está girando. É muita coisa para absorver. Não me admira ele ter aparecido hoje, mesmo que com medo, com aquela vontade férrea de sustentar a família emergindo alta e clara, o orgulho ferido por não ser mais capaz de ser o provedor. E isso me corrói por dentro, principalmente agora que estou ciente do quanto ele deve ter sofrido por causa de David, muito mais do que imaginei.

49


Com a mão tremendo, estendo e aperto a campainha. Quase que imediatamente passos vêm correndo em minha direção. — Depois que eu disse a eles, especificamente, não para tocarem a.... — Ouço Luke resmungar de dentro da casa. — Acabei que fazê-la dormir... Ok, de quem ele está falando? Meu coração dá uma guinada. Sua filha? Rapidamente dou um passo atrás. Certo, não quero vêlo desistir de sua carreira por causa do que David fez a ele, mas a última coisa de que sou capaz de fazer agora é consolar sua menininha. Já estou com um pé na trilha quando a luz da porta aberta brilha em meu caminho. — Sinto muito, quanto é mesmo o total, de novo? Paro de costas para ele quando seus passos me seguem para a varanda. Ele abaixa a voz para um sussurro, — Tudo o que tenho é uma nota de vinte, mas... — Ele para. — Roberta...? É você? Tremo com a mão segurando o corrimão. Ótimo. Agora, eu não tenho escolha a não ser me virar e encará-lo. Forçome a dar um sorriso e de forma desajeitada encolho os ombros impotentes. —Ferrou. Mas ele, de modo algum, parece feliz em me ver quando se apressa de volta para a porta e rapidamente a fecha atrás de si antes de me confrontar. —O que está fazendo aqui? Estendo o envelope em direção a ele. 50


— Apenas entregando seus bilhetes. Mas ele não pega o envelope da minha mão. Em vez disso, apenas olha para ele. — Você não tem que fazer isso. Subo o primeiro degrau. — Está tudo bem. Vou ter que me familiarizar com as ruas de Stockton, eventualmente. — Então, você e Landry estão se mudando para cá?— ele pergunta. — Não, só eu. E por um minuto, ele parece atordoado. —Por quê? Antes de Landry fazer as propostas de compra do time aos Heimlichs, o ajudei a aprender tudo o que havia para saber sobre Stockton. E enquanto pesquisava on-line, não demorei muito a perceber que se encaixava nos três critérios que estava procurando: uma cidade que fosse pequena, calma e segura. Ao contrário do que levei Landry a acreditar, não vim aqui para começar de novo. Oh, não, eu deixei o rancho a fim de protegê-lo, para proteger seus filhos. Doeu em meu coração ter que deixar o Texas bem quando senti como se houvesse me tornado parte de sua família. Mas eu não tinha escolha. Haviam circunstâncias além do meu controle que me forçaram a sair de cena por um tempo. Me misturar. Desaparecer. Escolhi Stockton porque ninguém jamais iria me encontrar aqui. Mas não posso exatamente dizer isso a Luke. De quem estou me escondendo... isso é algo que ele nunca pode descobrir. 51


— Stockton é um lugar tão bom quanto qualquer outro, — Rebato. Ele se senta no degrau mais alto e deixa as mãos penderem entre os joelhos. — Então, você tem um emprego? Um lugar para ficar? Dou uma franzida nos lábios. — Não exatamente. Ele acena com a cabeça lentamente, inclinando para esfregar o lado de seu pescoço. Tento não olhar, mas ele está esfregando os dedos bem na área onde fora atingido. Será que ele está com dor? Será que ele…? Ele olha para mim, prendendo-me com seu olhar. — Será que é possível que você esteja procurando um trabalho como cuidadora pessoal? Ele sabe sobre mim... O que estou dizendo? É claro que ele sabe sobre mim. Todos os jogadores sabem quem sou. E já posso imaginar o que eles andaram dizendo sobre mim no clube depois que me viram no celeiro com Landry. E me sinto terrivelmente desconfortável de repente sabendo que Luke ouviu todas as fofocas de mau gosto sobre mim, sendo que metade de tais fofocas sequer são verdadeiras. — Sim, bem. É o que eu faço melhor. — Dou mais um passo adiante e jogo o envelope para a varanda ao seu lado. — Foi bom vê-lo novamente. Boa sorte no jogo amanhã. — Ei, não vá, — diz ele, pegando o envelope e batendo-o contra o joelho. — Olha, eu pedi pizza. Por que você não fica e come comigo?

52


Eu ainda não comi e sua oferta soa tentadora. Mas realmente quero ser uma intrusa no jantar em família? — Uh, acho que não. — Dou-lhe um sorriso tenso. — Está ficando tarde. Eu realmente deveria estar voltando para o hotel. — Não seja boba. — Ele coloca a mão atrás da cabeça e, lentamente, se desloca de um lado para o outro, e os meus olhos são atraídos para o curativo em seu cotovelo. — O Sheraton não é exatamente conhecido por sua comida. — Ele relaxa a cabeça. — É onde está hospedada, não é? O Sheraton? Olho para ele com cautela. — Sim. Ele ri. — Ei, não me olhe assim. É que é o único hotel decente que há no centro. Onde hospedam todas as equipes visitantes. — Ele franze a testa. — Tenho certeza que os Jacksonville Jackalopes estão todos hospedados para a noite. Então, cuidado se decidir se aventurar no bar. — Obrigada, mas não planejo ir a qualquer lugar perto do bar. Ele sorri para mim. Será que esse cara nunca para de sorrir? — Bem, esse provavelmente será o único lugar por perto que estará aberto quando chegar. Stockton não é exatamente agitada em uma noite de semana. Então, estas são as minhas escolhas? Suportar um jantar desconfortável com um jogador e sua família ou 53


encarar um bar por minha conta e risco e ser alvo de uma equipe inteira de jogadores bêbados? Ainda assim, quanto mais pondero sobre isso, a festa da pizza improvisada de Luke é de longe a opção mais perigosa. Estou prestes a recusar sua oferta de hospitalidade quando a buzina de uma velha Honda grita no meio-fio com um letreiro iluminado no telhado escrito Pizza do Russo. Luke se levanta e esfrega a barriga. — Hmmm, estive esperando por isso o dia todo. Se vai ser uma verdadeira Stocktonite, lembre-se de uma coisa:. A pizza do Russo é a melhor. — Ele cutuca meu braço, enquanto passa apressado por mim ao descer os degraus. — Vamos lá, fique. Quem não gosta de pepperoni? O motorista pula da moto e começa a remover uma caixa de pizza grande de um dos cases de aquecimento. — Não se preocupe, Single, meu chapa. Eu não ia tocar a campainha. Não há necessidade de ficar de guarda do lado de fora da Casa Singleton. Luke escava no bolso e lhe entrega a nota de vinte. —

Obrigado,

Billy.

Minha

cozinha

está

sendo

remodelada... então você provavelmente vai me ver muito esta semana. Billy lança um rápido olhar para mim. —Mas, cara, quem é aquela? Luke pega a caixa dele. — Só uma amiga. Como se eu não tivesse ouvido aquela mentirinha básica de jogador de beisebol antes. Se a namorada de Luke não 54


viesse aqui em breve, ou pior ainda, estou começando a achar que ela nem mesmo está em casa — a última coisa que quero é que as más línguas comecem a falar por toda Stockton. Deus, eu não queria nem cruzar com Luke Singleton, uma vez que descobri que ele estava nos Beaveres, e agora ele quer que jantemos juntos? Luke já está voltando para casa quando Billy grita: — Ei, quer o troco? Luke sorri, mas continua andando. — Eu já quis? — Obrigado, Single! — Ele beija a conta na mão. — Meu dinheiro está em você e no Beavers amanhã! — ele diz, saltando de volta ao volante. Luke geme, — Billy, por favor, não vá apostar em esportes de novo, não com esses bicheiros por aí no ... Mas Billy não está nem escutando. Em vez disso, ele liga o motor e acelera noite adentro fazendo com que Luke pare e olhe para uma das janelas do segundo andar, assim que uma luz se acende. Ele corre para a varanda e joga a caixa de pizza em minhas mãos. Encaro-o intrigada. — Qual o problema? Mas tudo o que ele faz é colocar um dedo sobre os lábios, sua mão já na maçaneta da porta. — Tudo bem, se você não quer que sua namorada saiba que estou aqui fora, então eu mesma conto! 55


— Namorada? O que...? Não tenho namorada, — ele sussurra, recuando para dentro. — Só sente-se por um minuto. Já volto. Ao invés disso, aperto a caixa de pizza contra a porta. — Ah, eu vou. Onde ela está? — Perdão? — Nem tente negar. Eu ouvi. Você disse, 'Eu acabei de colocá-la para dormir’. Ele fica lá, aflito, e eu aproveito a oportunidade para passar por ele e entrar na casa. Mas não consigo ir muito longe quando ele pisa na minha frente, bloqueando minha visão. — Sinto muito, mas você não pode entrar. — Sim, sim, sim, porque a

cozinha

está

sendo

remodelada, certo? Estou prestes a espetá-lo no peito com a caixa de pizza quando quase a deixo cair no chão. —Luuuuukey? Onde está meu pequeno Lukey? — Já estou indo!— ele grita, antes gesticulando comigo com os olhos. — Você tem que sair agora. — Luke, quem está chamando? A voz é definitivamente infantil, ainda que haja uma certa gravidade, semelhante à de um fumante. Na verdade, toda a casa tem cheiro de fumaça. Eu forço os olhos e os fixo no topo das escadas, mas é escuro demais para distinguir qualquer coisa. Tudo o que vejo são sombras se movendo no andar de cima.

56


— Por favor, — ele implora. — A pizza é toda sua. Por minha conta. Mas você realmente tem que ir. — Mas o que você vai comer? — Protesto, ainda tentando ter um vislumbre do que está lá em cima enquanto ele me empurra em direção à porta. — Você disse que sua cozinha...— Não se preocupe comigo. Ficarei bem. — Lukey, rápido!— Há um gemido suave que está logo acompanhado por um soluço lamentável. — Eu acho... acho... que molhei a cama de novo... — Ma, já já estarei aí! Os olhos de Luke se arregalam, percebendo seu erro, assim que piso na varanda. — Luke!— Suspiro. — É a sua mãe que está lá em cima? Seu rosto fica totalmente pálido. — Luke, é ela? Ele continua sem me responder. Mas está esquecendo que, como uma cuidadora, minha única preocupação é o bem-estar de alguém. Isso sempre vem em primeiro lugar. No entanto, ao mesmo tempo, tudo o que quero fazer é envolvê-lo em meus braços, dar-lhe um grande abraço, e dizer-lhe que tudo vai ficar bem. —

O

que

de

errado

com

ela?

Sussurro

suavemente, suplicando-lhe para se abrir para mim. Ele hesita, seus olhos refletem tanta dor. Então tento novamente mantendo minha voz leve. — É demência ou...?

57


No entanto, é claro que é algo que ele não quer falar sobre, pelo menos não comigo quando abaixa a cabeça e tenciona a mandíbula. Entendo por que ele não confia em mim. Sou uma estranha virtual para ele. Mas isso é muito importante. Não posso simplesmente ignorar. Pense, Bobbie Jo. O que posso fazer para aliviar seus medos? Como posso ajudá-lo a entender de onde venho? Não estou tentando invadir sua vida pessoal. Só estou fazendo isso porque me importo. — Está tudo bem, Luke. Não estou julgando você, — Começo, tentando deixá-lo à vontade. — Mas preciso saber, ela está recebendo a devida atenção? Você tem alguém que entre e o ajude com ela? — Faço uma pausa, olhando para a cabeça inclinada, quando um terrível pensamento atravessa minha mente. — Por favor, não me diga que você está tentando fazer tudo isso sozinho. Ele finalmente olha para cima, lançando-me um olhar suplicante. — Oh meu Deus, você está, não é? — Digo antes que possa me conter, um nó preso em minha garganta, e ele se afasta. — Luke, por favor, me escute. Trabalhei em um asilo com pacientes com Alzheimer e demência antes. Eu sei o quão difícil pode ser mesmo com uma equipe totalmente treinada. Não posso imaginar como você tem lidado com tudo isso sozinho. Você não pode. Ninguém pode . — Quando percebo que ele continua sem responder, sou obrigada a ir direto ao ponto numa tentativa de fazer com que ele encare os fatos. — Luke, ela só vai piorar, e então, o que você vai fazer? 58


Ele balança a cabeça, impotente. — Não sei, mas não vou perdê-la. Roberta, sou tudo o que ela tem. Eu pisco, tomada pela emoção em seu rosto. — Lukey! — sua mãe lamenta novamente. — Sinto muito. Sei que tem boas intenções. Mas, por favor... apenas vá. Antes que eu possa pará-lo, ele fecha a porta e bato nela com o punho. — Luke, deixe-me entrar! Luke! Mas ele apenas apaga a luz. Não preciso de um diagnóstico oficial para ver o que está acontecendo. Sua mãe precisa de cuidados de hora em hora, e ele acha que pode dar a ela. Mas com base em minha experiência com outras famílias que enfrentam a mesma situação, ele está apenas se preparando para falhar. Ou o mais provável, indo em direção a um desfecho trágico, um que talvez eu possa ser capaz de impedir. Tenho uma responsabilidade aqui que simplesmente não posso ignorar. Ele veio ao escritório de Landry para lhe dizer que não poderia jogar, e eu o parei. Ele estava tentando burlar a situação delicadamente, e eu não iria deixá-lo. Gostando ou não, estou envolvida agora. No entanto, se Luke soubesse quem realmente sou... quem eu era... Deus, ele teria todo o direito de bater a porta na minha cara. Agora, a coisa mais fácil para mim seria ficar de fora disso. Dizer a Landry. Deixá-lo lidar com isso. Mas agora que 59


vi com o que Luke está tendo de lidar, será que realmente posso fazer isso? Posso apenas ir embora e me convencer de que não é problema meu, que não sou a única que pode ajudá-lo?

60


Capítulo Cinco E — Cara, parece que você foi atropelado por um caminhão Mack, — Danny diz no dia seguinte enquanto se inclina para a frente e cospe sobre o trilho do banco. — Noite difícil, — murmuro, não conseguindo conter um bocejo. Mas a verdade é que está se tornando minha rotina noturna. Levar a mamãe para tomar um segundo banho. Pegar uma camisola limpa na gaveta. Mudar os lençóis enquanto ela está na banheira. Sentar-me ao lado da cama até que ela adormeça. No entanto, ontem à noite foi diferente, então mandei uma mensagem para Danny. EU: Roberta estava aqui. DANNY: O que ??? EU: Sim, eu estupidamente pedi a Landry alguns bilhetes por acaso e ele a fez trazê-los. Mamãe surtou e Roberta ouviu. DANNY: Será que ela vai contar a Landry? EU: Não sei. Trocamos algumas mensagens, mas nada que houvesse ajudado ou qualquer coisa. Me deitei e fiquei virando na cama a noite toda com medo do que Roberta pudesse fazer. 61


Quero continuar falando com Danny sobre isso, mas considerando a quantidade resmungos atrás de nós, é claro que nosso apanhador de Eddie “Hoff” Hoffman não está muito feliz em ter que sentar no banco. Mas Danny é esperto. Ele sabe como manter a conversa em tom baixo. No caso de Hoff, ou qualquer um dos outros caras acabarem nos ouvindo, pensarão que estamos apenas conversando sobre alguma garota. Danny começa com: — Ela...? — Sim. — Dou puxão na aba de meu boné. —Foi muito ruim. Danny vira e descansa suas costas contra o trilho, dando a Hoff um aceno rápido antes de olhar para a onde mamãe e a senhora Jenkins estão sentadas. — Bem, ela não parece pior com o desgaste. Eu suspiro. — Ela dormiu como um bebê. Danny brinca com sua barba rasa, pensativo. — Então você está dizendo que, depois de hoje, vai colocar um fim... nisso. — Ele dá um tapinha na frente de sua camisa para indicar o que queria dizer. — Vai ser só um casinho de uma noite? Dou de ombros. — Como é que pode não ser? De jeito nenhum vou deixar que o namorado dela descubra mais sobre isso. — Descanso a cabeça em meus braços estendidos. — Isto é, se ele já não souber. 62


Hoff resmunga. — Vocês dois estão falando sobre a mais nova aquisição de Landry, não é? — Não, não estamos, — Danny diz um pouco rápido demais. Hoff dá um olhar vesgo para nós. — Ela com certeza não perdeu tempo antes de entrar na parte rasa do lago Beaver. Eu me afasto do banco e fico na frente dele. — Não fale assim dela, Hoff. — Pare de reclamar, homenzinho. Eu vi vocês dois indo para o escritório de Landry ontem... sozinhos. — E como sabe que Landry não estava lá com eles? O que, tem visão de raio-X agora? — Danny o desafia. Apenas para ser colocado profundamente em seu lugar. — Talvez porque eu houvesse acabado de deixar ele se esvaziando no banheiro masculino. Aos trinta e dois anos de idade, Hoff é um veterano astuto. Ele tem estado por aqui por um longo tempo, e sua voz carrega um certo peso no clube. Papai estava numa posição semelhante em sua época, mas levava seu papel de liderança muito a sério, escolhendo sair de seu caminho para orientar os caras mais jovens que vinham atrás dele. No entanto, Hoff tem uma abordagem muito diferente, sentindo a necessidade de nos manter em sintonia mesmo que com as táticas de intimidação pura. — O que exatamente você estava fazendo lá com ela todo esse tempo, hein, Single? — ele alfineta. — Com certeza soa 63


como algo que eu preciso contar ao nosso novo chefe, vendo que o que você dois começaram no escritório dele pareceu continuar até bem tarde da noite. Ele se levanta do banco e dá uma risadinha quando tenho que levantar meu queixo afim de encará-lo. — Se cuide, Single. Se ela já te desmarcou do cartão de pontuação, a vadiazinha não vai querer ter mais nada contigo. Ele esbarra em meu ombro rindo baixinho enquanto se afasta. — Ignore ele, cara — diz Danny. — Só está com o rabo entre as pernas porque Landry o cortou, escolhendo, por qualquer razão jogar para Roberta em vez dele. Mas o Hoff tem de perceber que Landry não é mais um de nós. Ele é o nosso chefe. Ele tem o direito de tomar qualquer decisão que queira. — Ele delibera. — Mas acho que se eu fosse um apanhador, e não pudesse pegar o Landry, ficaria arrasado também. Landry é o maior. Ele... — Por favor, Danny, não outra melação sobre o Landry, não agora. A maioria da equipe está aglomerada em torno do refrigerador de Gatorade se hidratando antes do início do jogo. Eu minuciosamente faço uma varredura do campo. Apesar de tudo, ainda estou ansioso para ter um vislumbre dela. E lá está ela, com outra das máscaras de Hoff sobre o rosto. E meu coração começa a pulsar dolorosamente, sabendo que ela sabe sobre a mamãe. Danny segue meu olhar. 64


— Ela é muito foda se consegue deixar Hoff todo nervosinho assim. Não diga a ele, mas acho que ela vai pegar o trabalho dele, — ele brinca, conseguindo tirar um sorriso relutante de mim. — Não se preocupe, Single. Está se esquecendo do que seu pai sempre lhe disse? — Danny, não comece. Ele sorri enquanto repete a mensagem que foi incutida em mim durante toda a minha infância, — Nunca deixe ninguém lhe dizer que você não pode fazer algo. Eu murmuro em resposta, — Vamos, Danny. Você sabe como é. Ele se vira para mim. — Não, como é? Espio de volta para a mamãe só para certificar-me de que a senhora Jenkins está de olho nela. Ela tem uma tendência em vaguear no meio de multidões, razão pela qual, até Roberta me forçar a isso, eu tinha intenção zero de levá-la ao estádio Beaver hoje. Eu nem sequer a levo mais comigo a mercearia. Não depois da vez que ela se afastou de mim e acabou disparando cada alarme de carro no estacionamento quando não conseguia se lembrar de qual era o meu. — Eu não deveria nem estar aqui, cara. Mas, pelo jeito como Danny está olhando para mim, ele não está comprando. — O que?

65


— Você está esperando que ela não tenha contado ao Landry, porque então, talvez, apenas talvez, ela possa estar pensando em ajudá-lo. Não posso deixar que Danny coloque essas ideias em minha cabeça. É loucura. Por que ela sequer consideraria ajudar-me depois que eu disse a ela para ir embora? — Sim, bem. Isso não vai acontecer. — Single, acorde. Ela é a resposta para todos os seus problemas. Estreito os olhos para ele. — Então o que você quer que eu faça? Que eu vá lá agora e pergunte se ela estaria disposta a cuidar da minha mãe para que eu possa continuar a jogar? Danny bate com o punho na parte de trás do uniforme. — Ou isso, ou perguntar se ela é capaz de segurar meu rebentado malvado. Diga-me, Single. Quão macias são as mãos dela? Dou-lhe um empurrão. — E o que você ainda está fazendo aqui de qualquer maneira, canhoto? Os bullpen pitchers14 não deveriam estar no aquecimento? Ele volta ao trilho. — Está brincando? Não quando eu posso ver Landry de perto e pessoalmente. Olhe para ele. Você vai amar o quão sério ele está levando um primeiro arremesso cerimonial. Meus olhos seguem Landry enquanto ele caminha de uniforme completo. Não há nenhuma dúvida sobre isso, ele é 14

Arremessadores

66


um garanhão, um puro-sangue. Por sua postura, fica claro que sua mentalidade competidora ainda está lá, queimando sob a superfície. Com suficientes anéis World Series para enfeitar cada dedo da mão de lançador, ele é um homem que vai atrás do que quer e consegue. Ele não aceitaria minha demissão após o jogo de maneira alguma. Se eu for contra ele, pura e simplesmente, perderei. Ele me espremerá até que eu concorde em colocar a mamãe em alguma clínica. Se Roberta não tiver dito nada, contratá-la pode ser minha única maneira de sair dessa bagunça. Ela tira o pó da placa da casa com o pé antes de arrumar a quadratura em frente a ele, pronta para Landry se preparar, girar e arremessar. Danny ri quando ela põe um sinal. — Isso é o que eu chamo de um companheiro de bateria doce. Só Landry poderia aceitar jogar para sua namorada gostosa. Ele deve ter bolas de aço. Cara, eu não seria capaz de me concentrar, tendo uma apanhadora tão gostosa como ela por perto. Mas que ela seja namorada de Landry, por quanto tempo será capaz de esconder isso dele? Será que vai mesmo querer? Landry dispara com sua jogada cortante, e ela nem sequer vacila; ela simplesmente fecha a luva em torno da bola. Livrando-se da máscara de apanhador, ela casualmente corre para Landry com a bola. Assim que ela chega, ele estende a mão para dar-lhe uma pancada de congratulações no topo do capacete, mas ela simplesmente vai para o lado,

67


não querendo qualquer parte dela. E simpatizo com sua exibição intencional de independência. Deslizando minha luva do banco, estico o couro sobre meus dedos, necessitando de uma confirmação para o que acabei de ver. — Danny, você acha que há alguma coisa acontecendo entre eles... realmente? — Não sei. Você teve a oportunidade perfeita para perguntar ontem, quando ela estava beijando seu cotovelo e fazendo-o se sentir melhor, — ele provoca. — Assim, se não estou enganado, você é o caso de simpatia residente aqui, certo? Sorrio para ele. — Obrigado, cara. Continue levantando minha moral. — Sim, — ele repreende. — Os joelhos vão começar a tremer em breve, quando for sua vez de bater. Ele bate em meu traseiro com a luva antes de subir os degraus do banco, sem perceber o efeito de seu comentário de despedida tem em mim. Jogadores conversam se batendo o tempo

todo.

É

uma

forma

de

mostrarmos

que

nos

preocupamos uns com os outros. Mas, até agora, é como se eu houvesse empurrado para o fundo da minha mente a verdadeira razão de estar aqui. Caindo no banco, coloco a cabeça entre os joelhos e respiro. Tiro minha luva e lanço minhas mãos nas costas, fazendo tudo o que posso para remover a tensão do corpo. Vou jogar hoje. Na verdade, eu realmente vou jogar hoje. E tenho que ficar relaxado. No entanto, sob meu uniforme, já 68


estou começando a suar frio. Os médicos disseram que se eu sofrer outra lesão como a que sofri antes, poderia muito bem ser mortal para mim. E então quem estará lá para minha mãe? Se eu não houvesse deixado Danny me convencer a vir ontem, então Roberta nunca teria descoberto sobre ela. Era egoísta, irresponsável, arriscando tudo só para me sentir normal de novo, para estar de volta em um campo de beisebol, de volta onde eu pertenço. Mas hoje, eu voltei por um motivo diferente, por uma chance de vê-la. Ontem à noite, por um breve momento, eu vi algo em seus olhos, uma conexão, como se talvez eu não estivesse mais sozinho nisso. E a esperança que se agitou dentro do meu coração me assustou mais do que ser ferido novamente. Ela segura o meu destino em suas mãos. A pergunta é: o que ela vai fazer com ele?

69


Capítulo Seis Uma gota de chuva bate em meu braço, e depois no outro. Faço uma careta para o céu quando nuvens de tempestade convergem acima do campo Beaver. É apenas a quarta base, e Landry vai me matar por sair. Mas no último inning, Luke continuou tropeçando nos próprios pés a fim de ficar longe da bola, se abaixando em três strikes sem equilíbrio algum. E eu sabia que era uma tola por acreditar que pudesse ajudá-lo. É por isso que estou entrando em meu carro e partindo. Encontrarei Landry no aeroporto. Irei voltar para o Texas com ele. Descobrir o que eu vou fazer por lá porque não vou ficar em Stockton. Não agora. Ignoro a pontada de culpa que está martelando minha consciência. Por que ficar onde não é meu lugar? Luke parecia apavorado com a placa. Ele está muito abalado. Não pode jogar. Tudo porque David tinha que mexer com sua cabeça. Assim como fez comigo... À medida que o prelúdio de chuva superficial se transforma em um dilúvio pleno, giro a chave na ignição ligo os limpa para-brisas. Stockton teria sido uma boa mudança de ritmo para mim — não como o esnobe enclave Wistchester 70


de Arnold ou as terras afastadas de Landry. É uma sensação caseira, uma pequena cidade de colarinho azul como a na qual cresci. Gosto do bairro de Luke. Faz-me lembrar as esperanças e sonhos que tive quando mais jovem, o tipo de vida que me imaginei vivendo um dia. Marido, filhos, um grande quintal com um cão. Até que olho para o ônibus fretado que está esperando para levar os Jackalopes de volta para o hotel, e tudo o que sinto é repulsa. Vivi essa vida uma vez antes e eu não farei isso de novo, os altos e baixos, a sensação constante de incerteza. Começo a dirigir. No que estava pensando? Tenho que sair daqui, agora. Manobro em torno das hordas de pessoas que estão começando a sair do estádio. Aparentemente, eles não se importam se o jogo vai recomeçar ou não. Eles já viram o que queriam. A estrela de Landry combinado ao espetáculo do retorno decepcionante de Luke. O que mais um fã de Beaver poderia querer no dia de abertura? Buzino e recebo um monte de olhares de reprovação, mas não estou com humor para esperar por essas pessoas passarem por mim. Um pouco à minha direita, espio a estrada de acesso restrito. O portão está aberto, mas ninguém o está usando, provavelmente por causa da placa de “Apenas funcionários”. Mas, se alguém me parar, vou simplesmente colocar o nome de Landry no meio. Viro-me para ele, esperando que seja um atalho que me leve de alguma forma de volta para a estrada e longe de Beaver Field. Neste momento, qualquer lugar é melhor do que 71


estar em um impasse de trânsito. Tenho que seguir em frente, colocar a maior distância possível entre mim e Stockton. Luke voltará a cuidar de sua mãe. Landry vai encontrar um novo segunda base. E ninguém vai ter que pensar sobre David Nichols novamente, nem mesmo eu. Mas logo lamento a minha decisão quando, depois de nem mesmo um quilômetro, o pavimento vai a um fim abrupto. Frustrada, encosto em um lagosteiro sobre a estrada de terra. É lamacento, rochoso, e contornado por uma área de floresta logo atrás do estádio. Com a chuva caindo forte, não consigo enxergar dois pés em frente a mim. Eu deveria virar-me, mas não vou voltar. Não vou. Vou realmente avançar desta vez. E apesar das condições perigosas, teimo em continuar. Quando, de repente, lá na frente, um lampejo de vermelho aparece no canto de minha visão, e sou forçada a pisar no freio. O que…? Me jogo de volta em meu lugar, meu coração na garganta. Tremendo, olho através do para-brisa. Seja o que for, ainda está se arrastando para frente. Não acho que o atropelei. Minha garganta aperta, respirando rápido, porque ele parece ser... uma mulher, uma mulher vestindo uma jaqueta vermelha. Eu nem sequer hesito. Estou fora do carro em dois segundos. — Ei! — Chamo. — Espere! Dentro de um ou dois passos, estou molhada até os ossos, mas vendo as três camadas de lama que revestem a 72


parte inferior de seus sapatos, e os pedaços de folhas presas em seu cabelo, ela deve ter tomado o caminho mais cênico, passando por toda a mata e arbustos desde o estádio. Eu me aproximo dela por trás, e ela para, mas não se vira. Quando chego mais perto, a respiração torna-se palpável no ar úmido. O casaco está pendurado aberto e todo o seu corpo está tremendo de frio. — Onde está meu pequeno Lukey? Congelo. Oh meu Deus, é a mãe de Luke! O que no mundo que ela está fazendo aqui? — Sra. Singleton? — Grito. — Você está bem? Coloco levemente meu braço em volta de seus ombros, e ela me dá de ombros. — Sra. Singleton? — ela resmunga. — Todos os amigos de Lukey me chamam de Sra S. Ela não me conhece, e está provavelmente assustada. Mas seus dentes estão batendo e seus lábios estão ficando azuis. Não tenho tempo para ficar e discutir com ela. Preciso tirá-la da chuva. — Lukey me pediu para buscá-la, — respondo, usando o nome da pessoa que ela acabou de mencionar, uma pequena dica que peguei no trabalho na divisão de Alzheimer. E por um segundo, o amortecimento deixa os olhos. — Ele pediu? Concordo. — Sim, ele está preocupado que a senhora não consiga chegar a ver o final do jogo.

73


— Lukey está aqui? — ela pergunta, inclinando a cabeça para olhar para mim enquanto a chuva escorre pelo rosto. — Onde está o meu pequeno Lukey? Meu coração se contrai ao ouvi-la chamá-lo desse jeito, assim como fez na noite passada quando estava com medo. Respondo usando palavras-chave de gatilho para levá-la a responder a mim. — Não, Lukey está em Beaver Field. Ele me pediu para levá-la até lá. O que acha disso, Sra Single... Sra S.? Ela une as sobrancelhas, o cabelo molhado grudado em seu rosto. — Tudo bem..., — ela responde, hesitante. Eu sorrio para ela. — Bom. Siga-me. Desta vez, não a toquei. Em vez disso, só começo a andar em direção ao carro. Prendendo a respiração, tudo o que ouço é a batida da chuva no chão, então eu relaxo até que seja eventualmente, acompanhado pelo som de boasvindas de seus sapatos batendo forte na lama atrás de mim. Continuo em frente e mantenho a porta aberta para ela, felizmente, ela entra no carro sem qualquer problema. — Aperte os cintos, por favor, — digo tão alegremente quanto posso, testando para ver o quanto ela confia em mim. Quando ela cumpre a ordem, rapidamente fecho a porta e volto correndo para o volante. Não gostando de como as mãos estão tão vermelhas, como as pontas dos dedos estão ficando brancas, aumento o volume ao máximo de calor. A temperatura exterior está em torno de sete graus, bem acima 74


de zero, mas ela é frágil e hipotermia ainda representa um perigo. Ela é tão magra, fazendo-me pensar sobre sua dieta e como deve ser difícil para Luke faze-la comer. Eu deveria ver se ela gosta... Contenho-me. Não, só porque a encontrei não significa que vou ficar. Nada mudou. Luke obviamente não quer minha ajuda. Se quisesse, teria pedido, e não vou insistir. Não seria certo por muitos motivos. A estrada é estreita, e estou debatendo interiormente se tenho espaço suficiente para virar ou se devia voltar pelo mesmo caminho quando ela pergunta: — Você disse que Sênior joga hoje? —Senior? — Sim, Senior, — ela murmura, impaciente. —Meu marido. Mordo meu lábio, girando as rodas, tanto quanto o possível. — Não, não é o seu marido, Sra S. Seu filho, Luke Singleton, Junior. — Meu filho não joga mais beisebol, — ela murmura enquanto meus pneus começam a girar na lama. Ótimo... A última coisa que preciso é ficar presa aqui quando ela precisa desesperadamente de roupas quentes. — Oh, é mesmo?— Respondo, distraidamente. — Sim, ele joga T-ball com o pai, — diz ela, sorrindo com orgulho. — Você devia ver o campinho que ele fez para Lukey no quintal. Você joga T-ball? Talvez também possa jogar com eles. 75


Dou uma olhada em seu rosto radiante e estaciono o carro, colocando sua mão esquerda em ambas as minhas. — Peguei essa. Agora segure a outra até melhorar. Ela faz o que pedi, olhando para mim com seus grandes olhos de corça. — Mas dói, — ela choraminga. — Isso é bom, — incentivo. — Significa que a circulação está voltando ao normal. Meus dedos correm através de uma bolha no interior da palma da mão, e eu os aliso. Parece que ela se queimou, e muito recentemente, pelo que parece. — O que aconteceu aqui? Mas tudo o que ela faz é suspirar antes de brincar com o zíper da jaqueta, já esquecendo de manter a mão para cima perto do calor. Luke obviamente tem muito trabalho com ela. Ainda é comunicativa, mas muito mal. Sua mente é incapaz de compreender qualquer sentido do presente, exceto quando se trata de casos extremos de dor ou desconforto, o que faz dela um perigo para si mesma e para os outros. Nesta fase, ela realmente deveria estar em uma instalação qualificada, não vivendo com um filho que não é treinado para fornecer cuidados adequados de vinte e quatro horas por dia. Não é culpa dele. É incrível que ele tenha chegado tão longe sem quaisquer grandes catástrofes. Mas a queimadura na mão, e a fuga de hoje são dois graves sinais de que as coisas não podem continuar como estão.

76


Solto sua mão e volto minha atenção para a estrada, sentindo-me instável. Luke poder ou não jogar não tem nada a ver com isso. Sua mãe precisa de mim. Sou uma cuidadora. Cuido de pessoas. É o que faço. E meu coração está implorando para ajudá-los. O som de meu carro foi o que a atraiu, fazendo-a tropeçar na estrada. Se não houvéssemos nos esbarrado como aconteceu, ela provavelmente teria vagado mais e mais fundo na floresta, com uma possibilidade muito grande de não ser encontrada até que fosse tarde demais. Coloco o pé sobre o acelerador, pronta para tentar outra vez. Mas antes disso, olho para ela enquanto começa a balançar para trás e para frente, cantarolando para si mesma. Seus olhos estão fechados, e ela tem os braços em volta do corpo. Com meus olhos aguados, desvio o olhar. Realmente quero dar as costas para ela agora? — Vamos lá — sussurro, me engasgando. — Vamos encontrar seu pequeno Lukey.

77


Capítulo Sete

Os árbitros, depois de ver a constante chuva se deslocando no radar, decidiram cancelar o jogo. Agora os Beaveres e o Jackalopes disputarão em um jogo duplo na noite de amanhã. Se eu estivesse jogando, meus músculos já estariam doloridos. Mas não estou. Não depois de eu falar com... — Obrigado por ajudar a arrastar a lona para o campo, Single. — A voz pesada de Landry me cumprimenta no momento em que saio do clube. — Porque, deixe-me te dizer, os caras que não mergulharem vão acabar sendo substituídos por

você,

honestamente.

Não

vou

tolerar

quaisquer

preguiçosos nesta equipe. Ele esfrega uma toalha sobre seu cabelo molhado, e eu cautelosamente levanto os olhos para ele. Ele está aqui fora... esperando por mim? Engulo. Será que ele sabe? Será que Roberta lhe contou sobre a mamãe? Dou de ombros. — Não foi nada demais. — Vê? É isso é o que gosto em você, Single. Você é da velha escola, — diz ele jogando a toalha por cima do ombro. — Não há muitos caras como você. Merda, alguns deles não 78


vão nem mesmo pegar as bolas na gaiola depois do BP. — Ele exala ruidosamente pelo nariz antes de me dar um sorriso torto. — Mas seu pai ensinou-lhe como jogar o jogo da maneira certa, filho. Então, basta continuar a fazer o que está fazendo e, por enquanto, não se preocupe com os resultados. — Ele me bate nas costas. —Eles vão vir. — Mas… — Não, não há objeção sobre isso. — Ele levanta as mãos no ar. — Amanhã é outro dia. Vamos ver o que acontece em seguida. Um dia de cada vez, Single. Um dia de cada vez. Puxo os cordões do meu moletom com capuz. — Mas minha mãe... Ele se vira com a mão na porta. É isso. A batalha real. — Puxa, droga. Sinto muito, Single. — Ele dá um tapinha na testa. — Olha, tenho que levar esse traseiro direto para o aeroporto bem rápido depois que tirar esses idiotas daqui. Sabe, meu filho, Jason, tem um show de arte digital na escola amanhã, e prometi a ele que não perderia. Então, por favor, dê a sua mãe os meus cumprimentos. Ela é uma mulher tão doce... e afiada como um chicote, também. Engulo em seco. Afiada como chicote...? Ele não sabe. Roberta não contou a ele. — Vá em frente. Hora de debandar! — Ele aponta para o corredor que conduz ao estacionamento dos jogadores, a pedra de diamante de seu anel da World Series brilhando sob as luzes. — Não deixe que um dia ruim afete você. Porque, só entre nós dois? Você é o tipo de jogador que consigo ver 79


liderando toda esta equipe. — Ele sorri para mim. —Então apareça por lá, tudo bem? Ele está basicamente dizendo que o trabalho na segunda base é meu, e como jogador, um endosso proveniente de alguém como ele deve me dar toda a confiança do mundo para aguentar e de alguma forma encontrar o meu equilíbrio novamente. Mas sabendo que o elogio é proveniente do namorado de Roberta de alguma forma apaga todo o brilho da coisa em mim. Landry entra no clube, e a sala imediatamente fica em silêncio. — Ouçam meninos, porque eu só vou dizer isso uma vez..., — diz ele enquanto a porta se fecha atrás dele. Sim, ele é todo estilo caipira quando não está no jogo. Mas se trata de vencer? É totalmente competitivo. Sou grato por não ter que jogar contra ele. Ainda tenho tempo para descobrir alguma coisa. Ele afirma que está construindo esta equipe em torno de mim. Se for esse o caso, então não há nenhuma chance de que ele vá me deixar desistir por causa da mamãe. Ele vai me pressionar de forma esmagadora e colocá-la em algum asilo antes que eu possa sequer piscar. Espio a chuva e puxo o capuz por cima da cabeça. Mas, por agora, mamãe ainda está comigo, sã e salva, e tenho que continuar repetindo isso para mim mesmo. Roberta não me traiu. E enquanto piso com meu tênis pelas poças, há uma inegável energia em meus passos, uma que já estava desaparecida há algum tempo. Talvez eu possa convencer a senhora Jenkins a vir de novo mais tarde para que eu possa 80


ir até Sheraton e agradecer a Roberta pessoalmente por não derramar o caldo e virar minha vida de cabeça para baixo. Em um bom dia, minha lata velha Subaru não é tão difícil de achar. Em geral, ela se destaca entre as pickups turbinadas e rápidas dos outros jogadores. Mas hoje, a sombrinha azul de mamãe está me levando até ela como um sinal de localização. Sorrio lembrando-me da noite em que meu pai a trouxe para casa, um brinde pelas várias noites de dedicação ao campo Beaver. — Oi Mãe! — Chamo. — Aproveitou o jogo hoje? Mas quando o guarda-chuva gira em minha direção, não é a mamãe de pé debaixo dela. É a senhora Jenkins, falando freneticamente com um guarda de segurança do estádio. E danem-se as poças, começo a correr. — Sra. Jenkins, onde ela está? Onde está a mamãe? Ao me aproximar, lágrimas começam a cair por suas bochechas. — Eu não sei, — ela soluça. — Afastei-me por um segundo... e ela sumiu. — O que? — Seguro minha capa, tentando absorver o que ela está me dizendo. — Você deveria estar cuidando dela! — Luke, aconteceu tão rápido, — ela lamenta. — Desde o primeiro tempo estive procurando por ela por toda parte... — O primeiro tempo! — Exclamo. — Isso foi há quase duas horas atrás! — Sr. Singleton, eu vou ter de pedir-lhe para se acalmar. — O guarda de segurança entra em cena colocando

81


a mão no meu braço. — Estamos fazendo tudo o que podemos para localizar sua mãe. — Então, onde ela está? — Eu grito de volta. — Ela poderia estar em qualquer lugar agora! Giro em torno de um círculo, meus olhos vasculhando a área, buscando em todos os lugares ao mesmo tempo. Sim, mamãe já fez isso antes, mas normalmente há um monte de pessoas por perto que poderiam dizer em que direção ela foi. Mas a multidão dispersou agora. Qualquer pessoa que poderia tê-la visto está muito longe agora. É neste momento que meus olhos desviam para a área florestal bem além dos muros do campo, e um arrepio percorre toda minha espinha. — Você está procurando em todos os lugares? Tem alguém lá fora procurando por ela? — Exijo. — Senhor, não temos pessoal para isso. Agora, estamos procurando nos banheiros do estádio e ... — Por duas horas? — Grito para ele. — Durante duas horas, tudo o que têm feito é chutar portas de banheiro? Precisa chamar a polícia. — Mas, Luke, — A Sra. Jenkins sussurra puxando meu braço. — Eu lhe disse que não. — Isso mesmo, — o guarda concorda. — Ela disse que não queria policiais. A Sra. Jenkins olha para mim, tremendo, quando percebo a confusão em seu olhar. — Luke, eu achei que você não iria querer que alguém soubesse sobre...

82


— Sobre o que…?— O guarda pede, olhando entre nós dois. — Se há algo que você está escondendo de mim, então um de vocês precisa me dizer o que é agora. A mamãe lá fora sozinha em algum lugar, provavelmente com frio, molhada e aterrorizada. Tenho que lhe dizer que ela sofre de Alzheimer, mesmo que eles acabem levando ela para longe de mim. Não tenho outra escolha. E eu aqui pensando que havia acabado de me livrar de uma bomba com Landry... Limpo a chuva no rosto e respiro de forma instável. Só a quero de volta, não importa como. Isso é tudo o que importa agora. — Ela tem... Sou interrompido pelas explosões estridentes de uma buzina de carro. A Sra Jenkins leva a mão aos olhos como que para bloquear a luz do farol. — Oh meu bom Deus, o que é isso? Pisco enquanto um carro vem em direção a nós através da chuva. — Eu disse a eles para isolarem esta área ... — o guarda resmunga pegando o rádio de mão. — Por favor, pessoal. Afastem-se. Mas então o carro de repente dá uma parada brusca bem na nossa frente e meu coração quase para de bater junto com ele. Eu conheço este carro. Ele estava estacionado em frente a minha casa ontem à noite. A janela diminui e Roberta grita,

83


— Luke, aí está você! Por que diabos você demorou tanto? Será que podemos ir para casa agora? Ok, mas do que diabos ela está falando? Mas quando ela faz um gesto com a cabeça, é claro que ela não está sozinha dentro do carro. Há alguém com ela, alguém que eu nunca esperava ver. Totalmente atordoado, tudo o que posso fazer é obedecer. Nem sinto minhas pernas quando entro no carro, meu coração aos pulos em meu peito como se houvesse perdido o chão. De longe, Roberta parece chateada, irada mesmo, mas quando me aproximo seus olhos começam a me contar uma história diferente. Ela está ansiosa enquanto seu olhar continua

passando

rapidamente

pelo

guarda.

Somente

quando apoio os cotovelos em cima da janela aberta, bloqueando-lhe a visão, ela sente-se confortável e permite-me olhar dentro. E lá está a mamãe, desorientada e mais úmida do que molhada. Ela está tremendo, o que significa que não esteve segura, seca e aquecida no carro de Roberta o tempo todo. — Mamãe, sou eu... É Luke! — Mas ela só olha para a chuva, nem mesmo me reconhecendo. Roberta se vira para ela com preocupação e seus cachos me acertam no rosto. Por um momento, meus olhos, meu nariz, meus lábios estão todos enterrados em seu cabelo. E eu fico completamente imóvel. Ela está molhada também. Ambas estão. Inclino-me para trás e ela esfrega a mão da mamãe entre as dela, segurando-a até aquecer. 84


— Se quer manter isso em segredo, então entre em seu carro e siga-me até sua casa. — Por quê? Onde você estava? Como a encontrou? Ela balança a cabeça para mim. — Não aqui. Temos que ir. — Ok, ok, mas diga-me uma coisa... — Eu fico olhandoa nos olhos. — Ela vai ficar bem? Roberta olha para mim. — Ela vai ficar, mas o tempo está fora de questão. Começo a andar para trás, pegando as chaves do bolso. — Só tenho que levar a senhora Jenkins para casa. Ela mora ao lado. Não vai dizer nada. — E ele?— Ela pergunta, projetando o queixo para o guarda. — Ele não sabe sobre a situação. — Dou de ombros levantando meu capuz enquanto a chuva começa a se intensificar. — Só vou dizer-lhe que ela estava com você e que pensamos a mesma coisa ou algo assim. — Tudo bem, vejo você lá. — Ela fecha a janela, e eu aceno enquanto ela dirige passando por mim em direção à saída do estádio. — Oh, Luke! O que aconteceu? — A Sra. Jenkins pergunta, lutando para manter o guarda-chuva aberto contra o vento. — Ela foi pega falando com alguns de seus antigos amigos no campo Beaver e perdeu a noção do tempo. — Eu disfarço para o guarda. — Você sabe como é ser esposa do Sr.

85


Beaver. Ela conhece todo mundo em Stockton e todo mundo a conhece. Desculpe ter incomodado. Cruzo os dedos dentro do bolso da frente de meu moletom com capuz. Tenho mantido a mamãe fora da vista na maior parte do tempo durante todo o ano desde que sua mente começou a se deteriorar rapidamente. Não quero que ninguém veja pelo o que ela está passando, numa tentativa de manter as coisas no maior sigilo possível. Ser reconhecida em toda Stockton não ajudou. A atenção adicional em público só a fez ficar mais agitada atrapalhando seus pensamentos ainda mais. Simplesmente não valia a pena fazê-la ficar tão chateada se ela poderia muito bem ficar em casa com a senhora Jenkins e assistir TV por algumas horas quando eu tinha que ir a algum lugar. Hoje foi uma rara exceção, e uma que desejaria com todo meu coração não ter aberto. O guarda está sendo bombardeado no rosto com chuva. E é claro que ele não tem intenção de ficar e discutir comigo. Enquanto eu estivesse satisfeito, ele também estaria. — Bem, se é isso que vai ser, então, vou deixá-lo. — Ele acena para nós. — Tenha uma viagem segura de volta para casa. Ele começa a marchar de volta para o estádio, provavelmente ansioso para o tempo passar e chegar logo o dia. Só então posso soltar um suspiro de alívio. — Luke, você pode me perdoar? — A Sra. Jenkins pede no minuto em que entramos na minha Subaru. Corro as mãos em meu rosto e puxo meu capuz para baixo. A Sra Jenkins é uma senhora idosa, e sei o quão 86


rápido minha mãe pode desaparecer na multidão. Não posso culpá-la por isso. Não é culpa dela. — Sim, é claro. Eu a perdoo, Sra. Jenkins. — Dou-lhe um sorriso triste. — Não saberia o que fazer sem a senhora. Ela sorri de volta para mim com gratidão, mas tudo ficou tão fora de controle de uma forma mais rápida do que eu pude supor. Não posso mais fazer isso sozinho ou simplesmente deixar toda a responsabilidade pela segurança da mamãe nas mãos da senhora Jenkins. Preciso de ajuda. E espero que Roberta esteja disposta a dá-la para mim.

87


Capítulo Oito Inclino-me de volta para o fluxo constante de água quente, finalmente sentindo um pouco de calor infiltrar-se em meus ossos. A mãe de Luke está descansando confortavelmente em seu quarto depois que dei banho e a deixei pronta para dormir. Luke observava tudo atentamente durante todo o tempo

em

que

eu

cuidava

dela,

mas

acho

que

é

compreensível. Ela lhe deu um susto hoje, e ele não queria deixá-la fora de vista. Ainda assim, insisti para que ele tomasse banho antes de mim, pois eu precisava de algum tempo longe dele a fim de pensar. Seria este um trabalho que eu estaria disposta a assumir de forma mais permanente? Jogando a cabeça para trás no chuveiro, suspiro enquanto tento aliviar meu corpo do cansaço. Nunca senti tanto frio por tanto tempo antes, e não quero nem pensar no que teria acontecido com a mãe de Luke se ninguém a houvesse encontrado a tempo... Os tubos começam a ressoar, e eu grito quando uma explosão frígida me atinge. O que…? Eu rapidamente giro as torneiras sob o bico, esquecendo qual é do qual, tentando de alguma forma desligar a água. Saio e enterro meu rosto em uma toalha. É uma casa antiga; coisas acontecem. Mas não 88


acho que ficar sem água quente tem alguma coisa a ver com o estado lastimável da cozinha. Eu me enxugo. Todos os sinais estão ali. Eu só não quero vê-los. Limpando a condensação do espelho, sei que preciso ter uma boa conversa comigo mesma antes de chegar a uma decisão. A mãe de Luke está lentamente perecendo, e seu coração só vai se partir mais e mais a cada dia que passar. Então é melhor eu ter total certeza de que vou estar aqui para isso antes de fazer qualquer promessa. Olho para meu reflexo. Deus, a quem estou querendo enganar? Minha mente se decidiu no momento que ela o chamou de pequeno Lukey. Toc, toc, toc. — Roberta, está tudo bem aí? Cristo, é Luke... e não me lembro se tranquei a porta ou não. Minhas bochechas começam a queimar enquanto apressadamente pego o robe de seda que ele me emprestou até minhas roupas secarem. A mãe dele é bem menor que eu, e esta é provavelmente a única coisa dela que cabe em mim. Mantenho os olhos treinados na maçaneta da porta, até que meu corpo esteja completamente coberto. — Uh, sim. Estou saindo. — Sinto muito. Eu não estava pensando, — ele geme. — É que faz tanto tempo que não tenho que escutar alguém no banheiro antes de ligar a máquina de lavar... Eu sorrio. — Bem, já que você ia desligar o chuveiro para mim quando terminasse, por que não avisar mesmo? Descanso a testa contra a porta e escuto-o rir do outro lado. Muitos caras não são atenciosos assim, não como ele é. 89


Meu ex-marido certamente não era. Vou até o quarto de sua mãe na ponta dos pés e suspiro. Posso deixar Stockton como estive pensando em fazer ou posso continuar mentindo descaradamente para Luke. Mas se for lá e dizer a verdade sobre mim, há uma possibilidade muito grande de que ele me diga para sair e nunca mais voltar. E depois de hoje, não há nenhuma possibilidade de eu colocar os cuidados de sua mãe de volta nas mãos de sua vizinha idosa, não quando eu posso estar aqui e fazer algo sobre isso. Lentamente, eu abro a porta, e fico surpresa de encontrá-lo ali de pé, segurando uma bandeja com uma xícara de chá. — O que é tudo isso? Ele enruga a testa para mim. — Um pedido de desculpas. — Um pedido de desculpas? Por quê? — Pela noite passada, por hoje, por tudo. — Ele aponta na direção de duas grandes almofadas encostadas contra a parede. — Por favor, sente-se. Envolvo meus braços em volta de mim. — Quer que eu sente no chão? Ele aponta com o queixo em direção ao final do corredor. — Só para que eu possa ouvir minha mãe, no caso de ela se levantar de novo. — Luke, — protesto. — Ela está bem. Caiu no sono. Você não tem que...-

90


— Eu sei. Mas isso iria fazer com que me sentisse melhor, — diz ele, entregando-me um pires com uma xícara lindamente pintada por cima. — Se importa? Dou um passo para fora do banheiro cheio de vapor, sentindo-me muito consciente. — Curtirmos uma festa do chá, nós? Parece que alguém está tentando me agradar por algum motivo. Ele dá de ombros. — Minha mãe sempre fez as coisas direito. E eu sei que é assim que ela gostaria de agradecer a você... se pudesse. Eu serei a primeira a admitir que nunca me senti atraída por caras baixos. Mas há algo de intensamente íntimo sobre poder olhar diretamente nos olhos de Luke como faço agora. É desconcertante, porque não há nenhum lugar para me esconder. Eles são claros, abertos e honestos, os olhos de alguém que, apesar de todos os problemas, está em paz consigo mesmo. E por um momento, não consigo atrever-me a olhar para ele. Sentindo meu desconforto, ele abaixa a bandeja no chão e se recosta em um dos travesseiros. — Seu chá espera, milady. Sorrio sem jeito, não tendo escolha se não me juntar a ele. Ele cruza as pernas, e seus calções, que antes batiam-lhe quase no meio das pernas, agora estão na altura dos joelhos, onde deveriam estar, que é justamente onde este curto roupão para em mim. Do jeito mais comportado que posso, me abaixo ao lado dele, primeiro com um joelho e depois o outro, antes de rapidamente unir as pernas novamente. 91


— Alguém já lhe disse que você fica bonita de rosa? — Ele pisca para mim. — Sim, bem. — Olho para o padrão floral no manto de sua mãe enquanto encho minha xícara. — No caso de não ter notado, preto é mais a minha cor. Faz-me sentir forte e poderosa, não como uma flor murcha flutuante no copo de uma bebida. — Então você é uma garota que nunca gostou de rosa? — Ele brinca, tirando o bule de mim. Deliberadamente tomo um gole antes de responder: — Jurei que nunca iria usar rosa novamente. — Encaroo sobre a borda do meu copo. — E olhe para mim agora. Assim como eu disse a Landry que estava cheia de jogadores gatos de beisebol... e aqui estou eu. Antes de vir para Stockton, me livrei de tudo o que me prendia a meu passado, incluindo minha camisola rosa pálido favorita que um certo alguém me deu no Natal em um ano. Mas ele não era o homem que me desapontou. Era apenas um de meus muitos rebotes imprudentes na vã tentativa de esquecer quem me fez isso. Luke me dá um olhar de avaliação. — Bem, você não precisa se vestir de preto a fim de me impressionar. Já estou impressionado com você. E minha guarda imediatamente sobe. Por favor, não me diga que ele está dando em cima de mim. Mas não há nenhum vestígio de pálpebras pesadas de luxúria ou sugestão de flerte em seus olhos. Em vez disso, eles parecem estar brilhando com genuína admiração por mim, reforçando 92


a sinceridade de seu cumprimento. E isso me incomoda mais porque não mereço sua bondade. — Você está impressionado com alguém que limpa bundas enrugadas para viver? E aí está, a minha garota difícil interior, pronta para reafirmar-se sempre que me sinto um pouco assustada. Não sei o que acontece comigo, mas sempre que me sinto acuada, meu lado sarcástico emerge, riscando com força total qualquer possibilidade a minha frente. Mesmo quando é um cara legal e despretensioso como Luke Singleton. Mas seus olhos enrugam com alegria. — Só para você saber, eu trabalho duro, então minha bunda não é flácida ou amassada, mas isto não é sobre mim. É sobre minha mãe e a bunda flácida dela. Tento controlar minha mão para parar de tremer enquanto coloco minha xícara de volta na bandeja. Tenho lidado com um monte de situações difíceis na vida, e sobrevivi com uma língua afiada o suficiente para provar isso, mas isso não me dá o direito de ir por aí insultando as pessoas. — Luke, eu não quis dizer... — Eu sei que você não quis. — Ele sorri para mim, colocando sua xícara ao lado da minha. — Mas agora que você mencionou, hoje foi um dia de grandes revelações para mim, de mais de uma maneira. E há algo que eu preciso lhe perguntar. — OK…

93


Aqui vamos nós. Você sabia que isto estava vindo. Então, apenas respire... respire... — Roberta, você acha que eu posso contratá-la para se mudar para cá e cuidar da minha mãe? Respire… Se eu não lhe contar quem sou agora, não haverá retorno para consertar mais tarde. Se ele descobrir, nunca vai me perdoar por tê-lo enganado. Mas ele nunca vai descobrir, certo? Considero. — Isso é para que assim você possa jogar? Porque eu não acho... Meus olhos inconscientemente viajam para o lado de seu pescoço, enquanto seu olhar permanece fixo em mim, sem vacilar nem por um minuto. — Não tenho medo de ser atingido novamente, Roberta, se é isso que você está pensando. — Encaro-o, deixando-o saber que eu sei que ele está blefando, mesmo que ele queira acreditar que o está dizendo é verdade. — É apenas um reflexo, meu cérebro tentando proteger meu corpo, isso é tudo. Mas quanto mais batidas eu receber, mais rápido vou me ajustar. Você vai ver. — Luke, com o tipo de lesão que você sofreu, ninguém iria culpá-lo por... — Pelo quê? Por desistir? — Seus olhos escurecem consideravelmente. — Bem, está atrasada. Seu namorado já conversou comigo sobre isso. Corro as mãos pelo cabelo, agitado. 94


— Se você está falando de Landry, pode relaxar. Não vou contar a ele sobre sua mãe. — Então ele é seu namorado? — Deus, por que isso importa? Ele fica de joelhos e descansa suas mãos em ambos os lados do travesseiro em que eu estou sentada, me cercando com os braços, braços que são membros fortes, de músculos vigorosos. Eu sei. Os senti ontem. Encontrando meus olhos, ele afirma: — É importante porque preciso saber se posso confiar em você. Levanto o meu queixo para ele. — Bem, se você já acredita em cada rumor que está circulando por aí sobre mim, então como espera que eu confie em você? Ele suspira, — Roberta, ele é meu chefe. Então, se vamos viver juntos, sinto que tenho o direito de saber se você está saindo com ele ou não. — Bem, eu não estou, — retruco. — Isso responde sua pergunta? Ele senta-se nos calcanhares. — Você não está? — Não, não estou. — Wow, isso é ótimo! — Ele deixa escapar, acenando com a cabeça. — Quero dizer, isso é bom... não há conflito de interesses com relação a contratar você.

95


— E acho que não tenho que lhe perguntar se você tem uma namorada. — Deslizo o manto para baixo sobre as coxas. — Já que você já respondeu esta pergunta para mim ontem. Eles não te chamam de Single por nada, não é? Ele cora. — Ponto para você. Sem mais perguntas pessoais, eu prometo, — ele responde, colocando a mão sobre o coração. — Então você se considera casado com o jogo, é isso?— Pergunto, levantando os olhos para ele. — Sim. E com a sua ajuda, pretendo voltar ao que era. — Ele tira a mão do peito e oferece-a para mim, e algo sobre aquele simples, porém significativo gesto me toca lá no fundo. — O que diz? Temos um acordo? Aperto a mão dele e peço a Deus que ele não possa senti-la tremer. — Combinado. Mal sabe ele que uma vez estive casada com o jogo também. Meu nome não era Roberta Bennett simplesmente. Oh, não, de volta à quando eu era jovem e confiante e tola, era Bobbie Jo Nichols. Casada com David — o cara que quase encerrou sua carreira, o cara que quase o matou. Meu exmarido.

96


Capítulo Nove

Está acontecendo de novo. Eu estou caindo, e não consigo ver nada. Movo meus braços através do ar, mas não há nada para agarrar, nada para retardar minha descida. O vento chicoteia meu rosto enquanto acelero cada vez mais, e penso comigo, é isso. É a maneira como irei morrer. No entanto, minha queda, de repente, para, e é como se eu nunca estivesse caindo. Em vez disso, estou de pé na parte rasa de uma piscina. Está escuro, frio e úmido aqui embaixo. Assustado, passo minhas mãos sobre a parede de tijolos, virando-me em um círculo completo, percebendo que estou dentro de uma caixa. Golpeio tudo ao meu redor, desesperado para encontrar uma saída, mas não há nenhuma. Com a água batendo em torno de meus tornozelos, olho para cima, só para ver uma estrela solitária, brilhando sobre mim. Eu sorrio para ela. É a única fonte de luz que tenho capaz de dissipar a espessa cortina de escuridão que está ao meu redor. Até que, pouco a pouco, alguém começa a tapar a abertura acima da minha cabeça. —Não! Por favor, não!— Eu grito para cima. —Eu ainda estou aqui!

97


Quem quer que seja, não presta atenção ao meu clamor. Em vez disso, tudo o que ouço em resposta é: — Lukey! Onde está você? Lukey? Meu coração começa a pulsar mais forte dentro do meu peito. — Mãe? Mãe, é você? — Lukey... socorro! Mamãe precisa de mim. Eu preciso sair daqui. Preciso chegar até ela. — É ele! — Mamãe chama novamente, completamente aterrorizada. — Ele vai levá-lo para longe de mim. — Quem, Mãe? Quem é? Quem está aí com você? — É ele, — ela choraminga volta. — O jogador que o acertou. Nichols? Mas sua voz fica abafada, uma vez que a tampa é fechada sobre o poço, emitindo ecos ao meu redor. Nichols pegou minha mãe, e eu não posso protegê-la. Eu começo a entrar em pânico quando tudo que sinto, é um contínuo gotejamento de água caindo sobre mim. Me movo para evitá-lo, mas não importa onde eu vá, ele simplesmente continua me acertando bem ao lado do meu pescoço. — Não não não! — Eu grito, arranhando as paredes. — NÃO! — Luke, shhhh. Está tudo bem. Meus olhos se abrem e encontro Roberta pairando sobre mim, me acordando. Por um momento, eu só olho para os seus lindos olhos azuis que me envolvem da mesma maneira 98


que o brilho daquela estrela e, ao mesmo tempo, eu tento entender o que ela está fazendo aqui. — Você estava tendo um pesadelo, — ela sussurra, ajoelhando-se ao lado da minha cama. — Eu espero que você não se importe que eu tenha invadido o seu quarto, mas quando

te

ouvi

gritando

através

da

parede,

fiquei

preocupada. Sento-me, chutando as cobertas de lado, e fico agitado que ela tenha me visto desse jeito. — Desculpe, — murmuro. — Eu não queria perturbá-la. Ela suspira, sentando-se para trás. — Tudo bem. A luz noturna vinda do corredor, estende-se em um feixe diagonal de luz em direção ao outro lado da minha cama. Embora agora ela esteja longe do alcance da luz e, não consiga realmente vê-la, posso sentir seus olhos em mim. Corro minhas mãos sobre o meu rosto, sentido a necessidade de tranquilizá-la de alguma forma. Não quero que ela fique com medo de mim. Não quero que ela vá embora. — Vivendo aqui... — Eu começo, sem saber por onde começar. — É possível que você me ouça gritar durante o meu sono, e caso você ouça, por favor... apenas ignore. Foi

gentil

da

parte

dela

verificar-me,

mas

ela,

provavelmente, está nesse momento se lamentado de ter tomado a decisão de morar com a gente. Levantar-se por causa da minha mãe, no meio da noite, vai ser bastante difícil para ela, e eu não vou deixá-la perder seu sono por minha causa. 99


— Então, não é a primeira vez que isso acontece? — ela pergunta. Descansando minha cabeça em minhas mãos, deixo escapar um gemido baixo. — Não. Mas ela continua me questionando, aparentemente implacável. — Quando começaram? Eu ergo minha cabeça para responder a ela. — Logo depois que eu fui atingido. Você pode acreditar que foi a mesma coisa que eu vi quando eu apaguei? — Faço uma pausa, não sabendo como ela vai lidar com tanta veracidade. E quando ela permanece em silêncio, fico nervoso e rio sem entusiasmo. — Eu acho que ter uma experiência de quase-morte na última base, faz isso com um cara. Eu espero que ela fuja, ou arrume alguma desculpa esfarrapada para se levantar e ir embora, mas em vez disso, ela pede gentilmente, — O que é que você vê? Eu corro minha mão sobre a mandíbula. Realmente, nunca falei sobre isso com ninguém antes, e não tenho certeza de como colocar isso em palavras. Não me lembro de muita coisa depois que acordei, apenas os pontos principais, principalmente o medo. — Bem, — eu começo devagar, mas depois falo apressadamente. — Eu caio dentro de um profundo e escuro poço. Alguém o tampa e, então fico preso lá dentro. É mais ou menos isso. 100


Estou convencido de que ela pensa que eu sou louco, até que ela diz: — Eu costumava ter pesadelos também. Eu sei como é isso. Eu a instigo. — Ah, é? Sobre o quê? — Bem, eu não fui jogada viva dentro de um poço abandonado e assustador. O lugar que eu sonhava não parecia ser perigoso ou assustador. Parecia mais como uma fuga, — ela responde, pensativa. — Eu estava com mais medo de acordar. Perplexo, eu gaguejo, — Você está me dizendo que não quer que ele acabe? A honestidade em sua voz bate com força no meu coração, pois me acerta através da escuridão. — Não, para mim, a pior parte sempre era quando eu sabia que estava deixando aquele lugar seguro e bom. Eu penso no que ela disse por um momento. — Portanto, o seu pesadelo era basicamente o oposto completo do meu? Ela está de pé, seu corpo roçando a luz noturna. — Um pesadelo é um pesadelo. Eles certamente não são nada divertidos. Ela vai voltar para o seu quarto. Ela não quer falar mais sobre isso, porque deixei as coisas muito pessoais. Ela estava bem quando estávamos falando de mim, mas quando comecei a interrogá-la, é como se ela não pudesse sair daqui rápido o suficiente. Preciso fazer uma nota mental de nunca falar 101


disso novamente. Eu entendo. Reviver o seu pior pesadelo não é algo que, particularmente quero falar com alguém. Mas há algo que eu preciso saber, algo que talvez ela possa me ajudar. — Ei, espere, — eu sussurro e ela faz uma pausa na soleira da porta, mantendo-se de costas para mim. — Como você…? — Eu tusso para limpar a minha garganta, minha voz está desgastada de toda a gritaria do meu sono. —O que você fez para pará-los? Ela olha para mim, seu rosto desenhado pelo o brilho da luz da noite, derramando-se pelo seu ombro. — Eu encontrei um lugar seguro para mim fora do pesadelo. — Ela encolhe os ombros. — Mas é apenas um conserto temporário. Não quer dizer que não vai voltar. Olho para ela. — Você tem medo que eles voltem? Ela balança a cabeça. — O tempo todo, mas eu não os deixo me impedirem de seguir em frente com a minha vida. Eu só aprendi a ser esperta sobre isso. — Ela bate um dedo ao lado de sua cabeça. — Força de vontade. Eu respiro agudamente através do meu nariz. — Pode ser realmente assim tão simples? — Pode ser, se você deixá-lo. — Permito que suas palavras me penetrem enquanto ela alcança a maçaneta. — Boa noite, Luke. — Boa noite, Roberta, — eu sussurro, quando ela fecha a porta, levando a luz junto com ela. 102


Desta vez, não estou sozinho em um poço escuro, não mais. Ela veio aqui e, conseguiu acender algo muito brilhante dentro do meu coração, um brilho que, por enquanto, nada pode extingui-lo. Nem meus pesadelos com Nichols, nem mesmo meu medo de perder minha mãe. O que Roberta passou para mim é uma chama que, uma vez acesa, nunca se apaga. Um lampejo de esperança de que, não importa como as coisas são difíceis agora, elas vão melhorar. Eu só tenho que acreditar que elas vão.

103


Capítulo Dez

Eu levantei a barra sobre a minha cabeça, segurando-a lá. Pesa apenas 22kg, e mesmo assim, posso facilmente levantar muito mais peso que isso, sem precisar de ajuda ou acompanhamento. Resmungo, outra desvantagem de estar preso numa academia dentro do porão. Vou compensar fazendo mais repetições, porque, cara, oh cara, eu tenho um monte de frustração reprimida dentro de mim agora. Um bom exercício é exatamente o que eu preciso. Eu não havia conseguido rebater no jogo de baseball, ontem

contra

os

Jackalopes,

mas

não

fui

tão

ruim

novamente. Infelizmente, o treinador e a comissão técnica dos Beavers não o consideraram como um progresso. Com Landry no Texas, eles realizaram uma reunião com a equipe hoje e, chamaram-me na frente de todos, mostrando vídeo de todos os meus rebotes e apontando, com detalhes excruciantes, tudo o que fiz de errado. —Você não pode continuar arremessando a bola de cima para dentro. —Eu garanto que os batedores já o tem marcado.

104


—Você, marque minhas palavras, Singleton. Se não virar homem e os derrotar, os arremessadores em breve, vão pensar que podem nos vencer. Meus braços começaram a queimar, a prova de que meu fogo competitivo não se foi completamente; ele ainda está em chamas. O técnico dos Beavers é novo. Não conheço Rex Carlson, e ele não me conhece. Ele queria o cara que teve uma grande performance no seu ACL fosse a sua segunda base este ano, não eu. É por isso que fui designado para ser o reserva. Para ele, eu sou apenas um projeto de animal de estimação de Landry. Mas ele vai se arrepender. Vou mostrar a ele e a sua equipe o que posso fazer. Estou mais do que pronto para provar que estão errados. Com o meu iPod ligado e os olhos fechados, fico assustado quando alguém toma a barra direita para a fora das minhas mãos. Pisco, olho para cima, e vejo Roberta, colocando-o de volta na prateleira sobre a minha cabeça. Imediatamente, salto para cima... porque eu não tenho uma camisa. Eu continuo esquecendo que não posso fazer esse tipo de coisas mais, não com ela ao redor. Sinto seus olhos em mim assim como eu senti há duas noites atrás, quando acordei e a encontrei no meu quarto. Mas naquela noite, não tentei me cobrir porque ela realmente não podia me ver no escuro. Mas agora ela pode. Eu, rapidamente, alcanço minha camiseta, e por meio segundo, pergunto-me se ela gosta do que vê. Mas estou com vergonha de virar e descobrir. Eu não estou em boa forma como a maioria dos jogadores lá fora. 105


Retiro meus fones de ouvido e dou-lhe um sorriso hesitante. — Ei. Mas ela não havia prestado a atenção nisso. — Você não ouviu eu te chamando? — ela pergunta, acenando com o que quer que seja, na frente do meu rosto. — Sua mãe encontrou sua mala e, todas as suas estranhas calças remendadas com fitas estão espalhadas por toda a sala de estar! Ok, ela descobrir que eu tenho que remendar minhas calças é mais humilhante do que qualquer coisa que meus treinadores poderiam ter falado durante a reunião de hoje. Como trazer a atenção a minha altura, ou a falta dela, nunca é uma coisa boa. Dou de ombros, tentando ficar sério. — E eu aqui pensando que estava tudo embalado. Além disso, como você conseguiu ver a fita? Eu a coloquei dentro. Ela geme, — Luke, as barras das calças estão todas amontoadas. Elas parecem terríveis. Você não pode sair por aí vestindo isso. — Bem, caso você tenha esquecido, eu estou saindo em uma viagem de seis dias após a noite do jogo, e com tudo o que está acontecendo por aqui, não tive tempo para marcar um horário com o meu alfaiate. — Eu rolo os olhos para ela. — Além disso, eu não tenho nenhuma ideia de como costurar. Minha mãe costumava arrumá-las para mim antes... — Eu paro, forçando de volta a memória. 106


Seus olhos amolecem. — Então é por isso que ela não vai deixar-me colocá-las de volta. — Ela as dobram sobre o braço. — Desculpe, Luke. Eu não queria brigar com você. Sou capaz de costurar graças as aulas que eu tive na escola. Então, quando você voltar, me lembre sobre elas e, assim vou ver o que posso fazer. Ela as entrega para mim, e um cartão cai do bolso. Curvo-me para pegá-lo, mas ela o pega de minhas mãos. — Heidi Foster, fonoaudióloga. Uau, ela é bonita. Se você gosta de loiras..., — diz ela, examinando a foto na frente do cartão antes de virá-lo e, examinar a mensagem escrita à mão na parte de trás. — E você disse que não tinha uma namorada. — Ela me dá um olhar aguçado antes de passá-lo de volta para mim. Eu coro, sem saber o que fazer com isso. — Eu não tenho. — Uh-huh, é por isso que ela lhe passou seu número pessoal para 'chamá-la a qualquer momento, — ela imita, atirando-me um olhar de desprezo. — Não é assim, — eu protesto, esfregando o lado do meu pescoço. — Ela me ajudou depois do acidente... quando eu tive que reaprender a falar de novo. Seus olhos se ampliam. — Luke, eu não— Sim, muitas pessoas não sabem sobre isso, — eu admito, sentindo-me mais exposto do que sentia quando estava sem camiseta. Deixei escapar um suspiro. — Mas agora que você sabe. 107


Ela se senta no banco de exercício. — Você ainda tem que vê-la? — Todas as semanas. — Eu tento encontrar seus olhos, mas ela não me olha. — Roberta, está tudo bem, realmente... Eu estou bem. Agora, você não pode calar minha boca mesmo que tentasse. Sento-me ao lado dela e cutuco seu pé com o meu. — Ei, eu não sabia que você era tão molenga. Sua cabeça atira para cima. — Eu não sou, — ela declara, olhando para mim. — Estou apenas doente e cansada de ouvir sobre as coisas ruins que acontecem com as pessoas boas. Eu sorrio. — Então, você acha que eu sou uma boa pessoa? A luz brilhando em seus olhos azuis faz meu coração se sentir bem. — Eu não estaria aqui se não achasse. Não há nada mais que eu gostaria de fazer, a não ser me inclinar e beijá-la. Tudo o que tenho que fazer é inclinar minha cabeça, mover-me, e.... Não, não seria apropriado. Eu a contratei para cuidar da minha mãe. Só porque estou interessado nela não significa que ela está interessada em mim, e as coisas podem ficar confusas rapidamente, se eu fizer uma jogada sobre ela e ela me rejeitar. Nós estamos praticamente morando juntos agora. Não posso ultrapassar as linhas de indefinição, que não devem ser cruzadas. Sorrio para mim mesmo. Ela provavelmente iria dar um tapa no meu rosto por tentar qualquer coisa com ela. 108


— O que você está rindo? — ela pergunta. — Nada. — Estou, resistindo à tentação de estar tão perto dela. — Mentiroso, — ela repreende, seus olhos nunca deixando meu rosto. — Você tem uma queda pela Heidi, a terapeuta, não é? Não, eu tenho uma queda por você, e eu a tenho por um bom tempo. Mas eu não posso dizer isso a ela, já que ela nem se lembra de ter me conhecido no escritório de Arnold. Ainda assim,

as

minhas

bochechas

permaneciam

vermelhas,

sabendo que ela está me observando. — Eu sabia, — ela geme. — Jogadores como você nunca estão realmente solteiros. Não é? Ela balançou a cabeça, indo em direção aos degraus, e alcanço seu braço afim de impedi-la. Mas foi muito tarde, meus dedos agarraram nada além de ar. Quero dizer a ela que, ela entendeu tudo errado, não sou assim, sou solteiro, mas meu verdadeiro status de relacionamento não parece ser algo de seu interesse. Ela espera por mim para acompanhá-la, dando-me um sorriso malicioso. —Quer saber? Eu mal posso esperar para nós, meninas, termos a casa só para nós enquanto você estiver fora. Eu tremo, temendo que ela esteja se referindo as minhas explosões durante a noite. Então, tento jogar com calma, e agir como o que ela disse não me incomodasse.

109


— Isso está certo? — Eu sorri para ela enquanto marchamos até as escadas juntos. — Você não vai sentir minha falta? — Não, — ela ri. — Estou ansiosa para ter algum tempo de ligação com a sua mãe, só nos duas. Em vez disso, sua observação faz com que as minhas emoções desviem em uma direção completamente diferente. Não estou preocupado com o que Roberta pensa dos meus pesadelos. Estou mais preocupado sobre como a minha mãe irá lidar ao ficar longe de mim. — E se ela não conseguir lembrar de você de um dia para o outro? — Eu não posso deixar de perguntar. — Até agora, eu tive que apresentar você a ela duas vezes, e você só esteve aqui dois dias. E se ela acordar amanhã e entrar em pânico quando eu não estiver lá para lembrá-la quem você é, e o que está fazendo em sua casa? — Então você estará recebendo uma ligação nas primeiras horas da manhã de nós. — Ela sorri para mim. — Mas não acho que isso vai acontecer. Passo a mão na minha testa, resmungando: — Nós vamos estar jogando contra duas equipes nesta primeira viajem. Eu vou estar a oito horas de distância se alguma coisa acontecer. Tem certeza que você conseguirá lidar com ela por contra própria? — Positivo, — ela proclama assim que chegamos ao topo das escadas. E lá está a minha mãe, ajoelhada ao lado de minha mala. Ela nem sequer olha para cima, só permanece, 110


metodicamente, dobrando e desdobrando o mesmo par de calças, enquanto o resto das minhas roupas estão espalhadas sobre o abajur ou deitadas em pilhas amassadas no chão. Roberta pega a minha mão e dando-lhe um aperto. — Eu prometo a você. Eu tenho isto. — Ela a deixa ir tão rapidamente como ela pegou. Mas a sensação, de quão bom me senti ao segurar sua mão na minha, fica comigo enquanto ela corre para a frente para começar a limpar tudo. — Senhora S., precisamos ter tudo pronto para que Luke possa ir, — diz sorrindo para ela. — Ele irá com os Beaver Field, daqui a cerca de quinze minutos. Então, o que você diria? Você acha que pode fazer isso? — Ele vai... onde? — Minha mãe pergunta, segurando minhas calças em suas mãos, amassando-as ainda mais. — Ele tem um jogo hoje à noite, e nós realmente queremos que ele tenha sucesso agora, não é? — Roberta incentiva, mantendo a voz amigável. Minha mãe acena. — Claro, nós queremos. Roberta se ajoelha e gentilmente desliza as calças fora de seu aperto. — Bom, porque nós temos que deixá-lo saber que o estamos apoiando cem por cento. Então, que tal nós darmos a ele um “Vá Beavers!” Mãe se vira para olhar para mim. — Vá... Beavers? Roberta ri, e o mesmo acontece com minha mãe, eu sinto minha garganta apertar quando elas sorriem uma para 111


o outra. Roberta trata minha mãe como uma pessoa, não como um incômodo ou um fardo. E isso é tudo que eu sempre quis quando se trata de seus cuidados. Pela primeira vez desde que meu pai morreu, sinto que tenho alguém que pode me apoiar, como se talvez, não estivesse sozinho mais, e ela é alguém em quem eu possa confiar.

112


Capítulo Onze Quando se trata de homens, observe como eles tratam sua mãe, e terá uma boa ideia de como eles irão te tratar. Rabisco furiosamente a página do meu diário. Não é exatamente um diário e, sim mais como uma coletânea de lições de vida que tenho escrito a filha que nunca irei ter. Corro minha mão pela minha barriga. Perdi dois bebês, um nasceu

morto,

e

o

outro

foi

um

aborto

espontâneo.

Entretanto, um anseio profundo de ser mãe ainda permanece dentro de mim, mesmo que eu tenha jurado que nunca mais iria me permitir pensar sobre isso. Mas agora o que parecia ser tão improvável, me faz começar novamente a pensar sobre as minha chances. Fecho a capa do meu diário e estico-me sobre a cama, esperando o telefonema de Luke. Por enquanto, não precisei chamá-lo, apesar de ele estar nos checando fielmente todas as noites após o jogo, sempre que está de volta ao hotel. Ocorrendo bem depois da meia-noite, nossas conversas têm sido breves e, principalmente, sobre sua mãe. Até agora, nós não falamos nada sobre beisebol, mas eu pretendo mudar essa situação esta noite. Pego meu telefone e percorro os comentários dos Beavers no Twitter novamente, observando a atualização a 113


partir de três horas: Singleton faz uma queimada dupla diretamente do centro do campo. Ele finalmente conseguiu ser um sucesso, é o seu primeiro ano, e estou realmente ansiosa para parabenizá-lo. Mas agora é uma hora da manhã, e meus olhos estão começando a fechar. Realmente queria ouvir a emoção em sua voz, mas parece que vou ter que me contentar enviando uma mensagem cheia de emoji. Os Beavers estão viajando para outra cidade hoje à noite, e estou supondo que ele não quer falar comigo no ônibus com todos os seus companheiros ouvindo. Ele não quer que eles ouçam e digam ao Landry que ele havia me contratado, então quanto menos os Beavers souberem que fui morar com ele, melhor. Passo minha mão pelo meu cabelo, puxando meus cachos para longe do meu rosto. Tudo aconteceu tão rápido. Concordei com o plano de Luke sem, realmente, pensar como isso afetaria as coisas entre mim e Landry. O pobre rapaz está me deixando longas mensagens de voz, querendo saber como eu estou me ajustando em Stockton, dizendo-me o que as crianças estão fazendo, e tudo que eu tenho feito, é enviarlhe algumas mensagens curtas em resposta. Não tenho sido exatamente uma boa amiga para ele ultimamente. Por força do hábito, mudo para uma a janela que tenho guardado nos meus favoritos do navegador, exibindo os recentes resultados de pesquisa de David Nichols. Desde que deixei o rancho, a necessidade de saber onde ele está e o que ele está fazendo em todos os momentos está sempre passando pela minha mente. Observa-lo, cuidadosamente, 114


agora que sei que ele está fora da prisão é a única coisa que me ajuda, me faz sentir segura e no controle da minha vida. Clico em atualizar, mas esta noite, as manchetes que aparecem não são sobre seus melhores arremessos, como de costume, depois de um jogo. Oh, não, a notícia é muito mais preocupante do que isso. Nichols bate em três batedores em um jogo. Nichols enviado para prisão depois de um ataque de raiva ressurgir. Os Titãs de Nova Iorque parecem tolos por darem uma chance ao ex presidiário. Cliclo em página após página, todas confirmando o meu pior medo. As costas de David no Triplo-A, o que significa que ele vai, eventualmente, ter de jogar uma partida em Stockton. De repente fica difícil de respirar, como se o mundo ao meu redor fosse desabar. Tremendo, levanto minha mão até minha boca. Não posso acreditar que isso está acontecendo. Tudo o que eu queria fazer, era ter um novo começo em alguma cidade pacata, em um local isolado e remoto, em vez de me esconder atrás dos portões da mansão de Arnold, ou no caso, o rancho de Landry. Não poderia ficar no universo dos Kings, não depois de David ter saído e sido, imediatamente, contratado por outra equipe principal da liga de Nova York, os Titãs. E quando Landry começou a falar sobre Stockton, pensei, por que não? Mas agora, tudo está sendo preenchido em um ciclo completo, convertendo-se em uma perfeita tempestade.

115


No mundo do beisebol, os segredos raramente morrem. Fui casada com David por seis meses, logo no início de sua carreira. E mesmo que tenha pintado o meu cabelo de loiro para castanho e, transformado-me em Roberta Bennett, o nome de solteira da minha mãe, em vez de Bobbie Jo Nichols, de alguma forma, não tenho dúvidas de que David irá me encontrar. Ele já conseguiu antes. O telefone vibra sobre a cama, e por uma fração de segundo, hesito em pegá-lo. Mas não posso fazer isso com Luke, não quando ele está tão preocupado com sua mãe. Não quando ele finalmente teve uma ótima noite. — Hey, — digo. — Ei, você — ele ri no meu ouvido. — Eu finalmente fui bem! Meus olhos passeiam pelo o quarto, minha mente a quilômetros de distância. — Isso é ótimo. — Oh, vamos lá. Isso não merece um “Vá Beavers?” —Está tarde, Luke. — Eu o corto. — Não quero acordar sua mãe. Embora, eu escute pelo o monitor do bebê que coloquei sobre a mesa e, sei que ela está roncando pacificamente em seu quarto. — Como tudo está? — Luke pergunta, preocupação substituindo rapidamente a brincadeira em sua voz. — Ela tem seus momentos... mas, no geral, está tudo bem. Ela só perguntou onde você estava hoje quarenta vezes em vez de cinquenta vezes. 116


Ele geme pesadamente, — Você deveria ter me chamado. — Está tudo bem. — Eu massageio minha testa, tentando aliviar minha tensão. — Ela não estava nem perto de um colapso. — Sim, mas você soa uma pouco desanimada, — ele suspira. — Mais três noites e eu estarei em casa. E não se esqueça, tenho um dia de folga na segunda-feira. Que tal se eu entrar em contato com a Sra Jenkins e pedir para cuidar da minha mãe, então posso levá-la para jantar ou algo assim? Parece que você precisa de uma pausa. — Ah, Luke. Eu não sei. — Seguindo com o meu dedo os pontos da colcha de retalhos que está cobrindo meu colo. — Não acho que seja uma boa ideia. — Porque não? — E eu juro que posso ouvir a sua voz tremer enquanto ele engole, mesmo sobre o barulho do motor do ônibus. Mas antes de ter a chance de responder, somos interrompidos por alguns murmúrios agitados seguido por palavras vulgares e rudes. — O que é isso? — sussurro. —O que está acontecendo? — Deus, Danny me mostrou algo em seu telefone. É por isso que você tem sido tão tranquila, não é? Você sabia, e você não ia me contar. Meu estômago se vira. — Luke, deixe-me explicar— Não há nada para explicar, — ele bufa, e parece que meu coração vai saltar para fora do meu peito. 117


Eu vacilo. — Luke, eu — Não quero sua piedade ou de qualquer outra pessoa, — diz ele desafiadoramente. — Não tenho medo de enfrentar David Nichols novamente. Sinto-me terrível, porque até agora, nem sequer havia levado em consideração como a notícia sobre David poderia afetar Luke. Estava presa apenas nos pensamentos sobre mim mesma. — Nichols quase bateu um cara até a morte em uma briga de bar e só terá dez meses de cadeia para ele? — Luke ferve, irritado. — Meu pai jogou toda a sua carreira nas menores equipes, e os Titãs oferecerem a esse idiota um acordo na principal liga logo que sai da prisão? Fico feliz que ele foi mandado para cadeia. Tanto quanto eu estou preocupado, quero que o tragam de volta. Um elogio soa no fundo, seus companheiros de equipe, sem dúvida, incitando-o. Ele certamente não está prestes a encolher-se na frente deles. Mas ao contrário de todos eles, sei como é a sensação de ser atingida por David. Não com a bola, mas com os punhos. Esse tipo de medo não desaparece. Ele permanece dentro com você. E eu não quero Luke, indo a qualquer lugar, perto dele.

118


Capítulo Doze Sete anos mais cedo — Onde você estava? — David pede no minuto em que passo pela porta. Ele está largado na cadeira, e por esse ângulo, só posso ver seu joelho saltando para cima e para baixo, seu calcanhar batendo contra o chão, um sinal claro de que eu deveria ficar longe, muito longe. Mas não havia feito nada de errado, e sua implicação me levou na direção errada. Jogando minha bolsa e as chaves sobre a mesa, faço com que minha voz seja ouvida sobre qualquer jogo que ele esteja assistindo. — Fui ao cinema. Eu não estava prestes a sentar-me durante todo o dia, esperando você se levantar. — Fui ao cinema, — ele zomba de mim em uma voz áspera e estridente. — Então, isso é o que você faz por aqui quando eu saio, absolutamente nada. Quando movo-me para ficar ao lado dele, ele olha para frente, para a TV, apertando sua mandíbula. Ele ainda está usando a camiseta do Hooters desde a noite passada, e sabe que eu não a suporto. E com base na quantidade de barba

119


em seu rosto, sei que ele ainda não tomou banho ou barbeouse, e são quase três horas da tarde. Vejo uma névoa vermelha de raiva, incapaz de parar as próximas palavras que voam da minha boca. — Não se atreva a dizer que eu sou preguiçosa quando você é o único que ficou na frente da TV o dia todo! — Eu acabei de voltar, depois de passar duas semanas na estrada, — ele rosna baixinho. — Acho que tenho o direito de descontrair e relaxar um pouco. Eu cruzo meus braços, minhas mãos que vêm para descansar sobre o topo da minha barriga de grávida. — Dá um tempo. Você nem sequer jogou na noite passada. Ele senta-se com um brilho perigoso em seus olhos. — Bem, eu não estou exatamente bem descansado depois de você me obrigar a dormir no sofá de novo. Balanço minha cabeça enquanto ando longe dele. — Diga isso a mulher que dormiu sobre você em Jacksonville pois não quero ouvi-lo. Ele desliga a TV, jogando o controle remoto através da sala. — Eu estava apenas tomando uma bebida no bar do hotel. Ela deu em cima de mim. — Claro, que ela deu, — cuspo de volta. — E aposto que, só aconteceu de ela ter tropeçado para dentro do quarto também. Ele bate as mãos contra as coxas antes de levantar-se e vir em minha direção. 120


Mas eu não recuo. Vou defender-me. — Sim, isso é o que eu pensava. Você não pode sequer se preocupar em inventar uma desculpa mais decente para mim. — Ele paira sobre mim, cerrando os punhos e respirando com dificuldade. Sei que não deveria provocá-lo, mas não resisto. — Se você vai mentir para mim, David, pelo menos, torne-o um pouco mais crível. Wham! Antes que eu saiba o que está acontecendo, o dorso da sua mão colide com o meu rosto e, sou lançada para o chão. Por um momento, só fico ali, atordoada demais para me mover. Ele bateu-me muitas vezes antes, mas não como essa, não desde que eu disse a ele que estou grávida. Lambo os lábios, sentindo o sabor metálico de sangue encher minha boca. Cautelosamente, alcanço minha bochecha e a toco. Já está começando a inchar, e um dos meus dentes da frente parece que está solto. É triste, mas o primeiro pensamento que tenho é: Como é que eu vou ser capaz de esconder isso? — Levante-se, — ele ordena, elevando-se sobre mim. Lamento, incapaz de me mover, e foi aí que ele realmente perdeu sua paciência. — Eu disse, levante-se! — Ele agarrame pelo cotovelo e me puxa de joelhos. Tonta, sou incapaz de me levantar com a sala começando a girar. Mas ele não se importa, e continua a travar seu ataque. — Desde que você não consegue parar de vagabundear e encontrar um trabalho, sou o único que paga todas as contas por aqui! Então isso me dá o direito de fazer o que quiser. Você entendeu? Aperto meu estômago, olhando para ele. — Por favor, David... o bebê. 121


Ele passa as mãos pelo seu cabelo antes de deixá-los cair para os lados. — Isso é o que quero dizer ... mais pressão! Isso é tudo que você faz, dar-me mais dores de cabeça, mais coisas para me preocupar. — Então por que você se casou comigo? — Confronto-o com a pergunta que vem pairando em minha mente por muito tempo. — Porque você não apenas usou-me e largoume como o resto das mulheres que você continua pegando nos bares? Ele olhou-me maliciosamente. — Porque eu pensei que você fosse uma cuidadora. Você deveria cuidar de mim. Sou seu marido, mas você me joga para fora da nossa cama, recusando-se a realizar os seus deveres como esposa, deixando-me a buscar conforto em outro lugar. É tudo sua culpa. Você fez isso, Bobbie Jo. Não eu! — Então eu suponho que devo aceitar a sua infidelidade e manter minha boca fechada? É isso que você está dizendo? — Olho para ele. — Eu não acho isso. Você foi longe demais desta vez, David. Eu não tenho que aturar isso mais. Estou farta! Fugindo para longe dele, inclino-me contra a parede, ofegante. Jurei a mim mesma, no momento em que descobri que estava grávida, que nunca mais iria deixá-lo encostar um dedo em mim novamente. Durante meses, mantive-me cautelosa, fazendo-me de cega em relação a suas traições sem fim. Mas hoje, ele passou dos limites e foi além da 122


quantidade de sofrimento que sou capaz de suportar. Ele pode pensar que pode pisar em cima de mim, mas não estou prestes a ficar para trás e deixá-lo machucar o bebê. — E onde você pensa que está indo, hein? — Ele zomba de mim. — Você não tem nada, sem emprego, sem apartamento, sem carro, sem amigos, nada. Portanto, nem sequer pense nisso, Bobbie Jo. Eu prendo meus dedos sobre o meu lábio sangrando. — Sou uma cuidadora, não uma escrava, David. Você não pode me tratar da maneira que você acha que deve. Não foi com isso que concordei. Não é assim que um casamento deve ser. Ele cutuca minha perna com a ponta do sapato. — Oh, realmente? Porque se alguém está sendo aproveitado aqui, definitivamente, sou eu. — O que…? — Eu estalo de volta, mas eu paro quando ele roça o pé ao longo do comprimento da minha panturrilha. Ciente do medo que ele está construindo dentro de mim, ele joga comigo, tomando seu tempo. — Você não se lembra da noite em que nós nos conhecemos... e quando te disse que eu estava tão perto de jogar nas ligas principais? — Bem, você ainda não fez... não é? — Eu jogo de volta em seu rosto, odiando o quão fraca e vulnerável ele está me fazendo sentir, e como não há absolutamente nada que eu possa fazer sobre isso. — Sim, mas eu vi seus olhos se iluminando com o pensamento dos milhões que iriam vir em minha direção. — 123


Ele me dá um sorriso malicioso quando, sem aviso, ele pisa com força no meu tornozelo, fazendo-me gritar de agonia. Ele continua a torcer o pé, moendo-o para frente e para trás como

se

estivesse

apagando

uma

bituca

de

cigarro,

saboreando a dor que está me causando. — É assim que todas as mulheres olham para mim, como se eu fosse o passe livre da sua refeição. Não sei porque eu achei que você ia ser diferente. Quando ele me puxa pelo meu cabelo, forçando-me a ficar de joelho, percebo como foi um erro terrível provocá-lo. Só deveria ter mantido minha boca fechada. — Por favor, David, — Eu imploro, e as lágrimas começam a cair. — Sinto muito. Eu não quis dizer isso. — Sério? Porque eu acho que você quis. Eu apenas cambaleio sobre os meus pés quando ele agarra meus ombros e me arremessa contra a parede. A parte de trás da minha cabeça se choca, fortemente, contra ela. Vejo estrelas, quando ele embrulha suas grandes mãos em volta do meu pescoço e começa a drenar a vida fora de mim. Preparo-me mentalmente e fisicamente, contra a parede, tentando gerar a força que preciso para poder livrar-me de suas garras. Mas não consigo respirar. Estranhos sons saem dos meus lábios, e ainda assim, ele não para. E pelo olhar selvagem em seus olhos, não tenho dúvida de que ele vai me matar. No entanto, quando estou no limite, com a sensação de estar me afogando com minha cabeça pressionada debaixo d'água, ele me liberta e, afundo-me até o chão, ofegante e tossindo intensamente. 124


Com um gemido, não me mexo, rezando para que tenha acabado, mas em vez disso, ele se abaixa e começa a puxarme para fora da sala de estar pelas minhas pernas. Tento chutar e sacodir, fazendo qualquer coisa contra o seu agarre, mas ele é muito forte. Ele aperta meus tornozelos juntos e começa a arrastar-me de volta com ele para o quarto. — David, não! Por favor! Não assim, — Eu lamento quando os tapetes esfregam contra meu estômago. Mas ele não escuta. Ele está fora de si agora. Não há como pará-lo quando ele fica assim, sua sede de violência alimenta a sua raiva. Enquanto ele puxa-me ao virar da esquina, eu agarro o batente da porta lutando pela minha vida. Ele fez muito no passado, mas eu não posso deixá-lo fazer isso... eu não posso. Enfurecido, ele me vira para o meu lado. — Vamos! — ele ferve, tentando puxar-me da porta. — Solte! Mas não consigo falar, minha garganta está muito dolorida, então apenas cavo minhas unhas na madeira ainda mais forte. Seus olhos escurecem e há uma letalidade em seu olhar, o mesmo tipo de desprendimento que ele demostra sempre que acerta e machuca algum jogador de propósito durante o jogo. Tremo só porque ele está me olhando assim, sua esposa grávida, mas isso não faz nenhuma diferença para ele, não sou diferente para ele. Mas ainda assim, não esperava que quando fosse ficar frustrado por não ter conseguido fazer sexo comigo, ele fosse recuar e chutar meu estômago. 125


Instintivamente, encolho-me em uma posição fetal, mas é tarde demais. No segundo chute, sinto algo quente escorrer por minhas pernas. No terceiro, apago completamente. É a única maneira que meu cérebro sabe como se proteger. Ele desliga, afundando-me, então não tenho que presenciar este momento, e assim não ficar com quaisquer memórias dele. Eu escapo para um estado de esquecimento, um lugar seguro, onde já não sou capaz de compreender o que está acontecendo fora do meu corpo, onde não tenho que estar consciente do fato que, o pai do meu bebê, prestes a nascer, está me batendo intensamente. Vou lamentar a perda do meu bebê inocente quando eu acordar. Neste momento, tudo que quero fazer é sonhar com a vida que eu poderia ter conhecido.

126


Capítulo Treze

É apenas para agradecer a Roberta o bom trabalho que ela vem fazendo... Repito pela vigésima vez dentro da minha cabeça. Ando até a frente da porta, enquanto a senhora Jenkins me olha com curiosidade do sofá. Se não fosse pelo fato da minha mãe estar cochilando ao seu lado, tenho certeza que ela estaria dizendo-me para sentar. Mas sério, o que estou fazendo, saindo com uma mulher que não tem a mínima ideia de que tenho uma grande paixão por ela? Eu devo ser um masoquista. Pois é, agora nós compartilhamos este elo em comum de cuidar da minha mãe juntos, mas quero que isso seja uma noite de diversão para ela. E honestamente, estou nervoso porque eu não sei mais o que falar com ela. Talvez, eu possa me abrir, convidando-a para se juntar ao meu fã clube David Nichols ou algo assim. Qualquer coisa para fazê-la rir. As escadas rangem e, olho para cima enquanto ela caminha, brincando com as franjas na ponta do seu lenço. Uau, ela parece incrível. Jeans apertados, colete acolchoado, botas de carneiro — toda de preto, essa cor é a sua assinatura. E eu me sinto como um imprestável total, em um blusão e moletom. Propositalmente, não me vesti melhor pois 127


não queria dar-lhe a ideia errada, porque isto não é um encontro... certo? — Só para você saber, — Roberta cumprimenta-me, cruzando

os

braços

na

frente

dela.

Em

outras

circunstâncias, eu estaria imensa em um agradável e quente banho de espuma neste momento e, depois iria rastejar para debaixo das cobertas. Engulo em seco, tendo uma boa visão do que ela está descrevendo dentro da minha cabeça e pisco, precisando tirar essa imagem suja da minha mente. É uma noite fria de primavera, do tipo que até mesmo a pessoa mais social que existe não iria querer sair. Mas eu não estou prestes a deixar de passar algum tempo com ela, para que então talvez ela possa conhecer o verdadeiro eu, longe das responsabilidades que estou sempre carregando em torno de meus ombros. Ergo minhas mãos em sinal de rendição. — Tudo bem. Vamos comer e voltar logo. Mas... eu lhe fiz a promessa de mostrar Stockton, não foi? Ela me dá um pequeno sorriso. — Então, onde estamos indo? Sra Jenkins tosse, apontando para o relógio. — Não se esqueça, Luke. Seja pontual. Você tem exatamente cinquenta e sete minutos antes de eu ter que sair para o bingo da igreja esta noite. — Puxa, obrigado por me lembrar, — Eu rio, um pouco irritado com a forma como ela está apressando as coisas. Dou a Roberta um sorriso encabulado. — Eu pensei que nós

128


poderíamos pegar algo para comer no food truck que há na praça. Ela franze os lábios para mim. — E eu aqui esperando por uma refeição em um restaurante agradável com mesas, cadeiras e tudo mais. Abro a porta para ela. — É uma tradição Stockton. Você vai amá-lo. — Ter uma refeição gordurosa sobre rodas? Ótimo, — ela murmura sem entusiasmo, colocando seu cachecol, mais firmemente, em torno de seu pescoço. — Com certeza, oferecer comida sem qualidade a um cara solteiro como você que, provavelmente, só vive comendo hambúrgueres, batatas fritas, milk shake, não é nenhum tipo de sacrifício. — Não o critique até que você tenha provado, querida — Mrs. Jenkins sussurra alto do sofá. Roberta revira os olhos para mim enquanto sai. — Quão longe é a caminhada? — Apenas alguns quarteirões. — Dou-lhe um olhar de soslaio, com o vento chicoteando em torno de nós. — Porque? Você está com frio? — Um pouco, — ela admite. — Tem certeza de que realmente quer comer ao ar livre? Não existe outro lugar onde podemos ir? — Eu sei que é uma noite miserável, mas confie em mim, a comida vale a pena. — Se você diz. Nós viramos a esquina, e eu estou sem palavras. Ela não está sentindo isso, e não está fingindo estar de bom humor 129


por minha causa. Eu não sei muito sobre meninas. Será que todas elas agem assim? Talvez esteja no seu período do mês ou algo assim, ou esteja cansada. Só espero que isso não tenha sido um grande erro. E se isso se transformar em algo que não temos nada em comum? Eu sou um cara que me contento com pouco. Eu estou bem em comer comidas feitas dentro de um caminhão, mas se ela não está... Estamos andando por uma rua cheia de lojas, cuja propriedade são de famílias que estiveram em Stockton por gerações, então ela para e olha para a vitrine de joias. Chego ao lado dela e projeto meu queixo para todos os anéis de noivado de diamante. — Qual você gosta? — Nenhum deles, — ela geme, andando na minha frente. Eu rio. — Então por que você parou para olha-los? Algo deve ter chamado a sua atenção. Ela enfia as mãos nos bolsos de seu colete. — Desculpe desapontá-lo, mas casamento realmente não é a minha coisa. — Como a senhora Jenkins disse: “Não o critique até que você tenha provado”, — eu brinco, esperando derreter um pouco da sua cautela. Mas ela só exala alto. — Eu tentei, e eu não gostei. Eu parei abruptamente. — Espere. Você já foi casada antes? 130


— Sim, há muito tempo. Estou

completamente

chocado.

Eu

não

estava

esperando por ela dizer isso. Segundo as fofocas no clube, ela esteve envolvida, em diferentes ocasiões, com Jake Woodbury e Scott Harper no Kings, mas eu nunca havia ouvido que ela foi casada. É verdade, ela me avisou para não acreditar em nenhum rumor que havia sobre ela. Mas isso não é um rumor. O que ela está me dizendo está vindo direto de seus próprios lábios. E eu tenho que admitir, isso havia me perturbado inesperadamente. Ela provavelmente não tem mais que vinte e cinco anos, e já foi casada e se divorciou? Resolvo

brincar

para

poder

mascarar

a

minha

ansiedade. — Então me diga...Quem é o sortudo? — Um cara doce que conheci em um bar, e que acabou por não ser tão doce depois de tudo. — Ela me dá um olhar aguçado. — Podemos não falar sobre isso? — Sim, claro. Sem problema. — Bom. Eu não quero me intrometer em sua vida pessoal, mas ela foi a única que trouxe o assunto. É como se ela já tivesse vivido

essa

vida

plena

e

havia

experimentado

muito,

enquanto eu ainda nem sequer havia saído de Stockton. Não é à toa que ela está aborrecida comigo enquanto caminhamos em silêncio o resto do caminho. É como se ela estivesse me dizendo para não ter esperanças. Tanto quanto ela está preocupada, isso certamente não é um encontro. Ela precisava comer. Eu precisava comer. Fim da história. 131


Mas eu não resisto de cutucar seu ombro quando avisto o caminhão de alimentos. — Lá está. E eu estou surpreso quando seus olhos se iluminam e um sorriso satisfeito cruza seus lábios. — Oh meu Deus, eles têm comida mexicana! Você não sabe o quanto eu estava morrendo de vontade de comer comida mexicana! Ela corre à minha frente para ler o menu enquanto um grupo de jovens rapazes, que havia acabado de pegar suas comidas, me olham. — Hey, O Único, meu homem! Golpeie o velho buraco dos Beaver para mim amanhã à noite, você poderia certo? — O Único, você é o meu cara, ei. Continue seguindo em frente, irmão. Um deles lança um olhar sugestivo para Roberta. — Não é o tamanho de sua motivação, mas seria o tamanho do seu taco. Oww, owww! Todos eles começam a rir enquanto se afastam. Roberta se vira e os lança um olhar furioso. Não posso resistir. — Tudo bem... quando se trata de mim? Acredite em tudo que você ouvir. Ela bufa, e eu começo a rir e, de repente, parece que a tensão no ar desapareceu e, que estamos finalmente nos divertindo juntos. Eu coloco minha mão em suas costas, impulsionando-a para entrar na fila, e um arrepio de excitação dispara através 132


de mim novamente quando sinto-me quente. É bom inventar outra desculpa para tocá-la. Não vou negar. — Eles têm churrasco picante coreano, tacos de tofu... Acho que estou no céu, — ela suspira. Estendo minha mão e toco seu braço quando ela vai retirar sua carteira. — Por favor, deixe-me pagar. Acho que ela vai começar a argumentar, mas quando vê meu olhar determinado, ela fica de lado e me permite pagar para ela. Não sei por que, mas parece que eu acabei de ter uma grande vitória. Então, eu caminho, agarrando nossos alimentos, indo em direção a um canto da parede de tijolos que há na praça. Estamos fora do vento e, é realmente quentinho aqui, graças à abertura de ventilação da máquina de secar da lavanderia que há ao lado. — Você tinha tudo isso planejado antes, não é?— ela cutuca minhas costelas enquanto solta seu lenço. — Contanto que você esteja confortável. — Muito. — Ela balança a cabeça, inclinando-se contra a lateral do edifício. Junto-me a ela, abrindo o saco e entrego seu burrito de costela. Ela dá uma mordida e fecha os olhos, gemendo de apreciação. — É Delicioso. — Viver no Texas nos últimos meses tem me mimado, — admite ela, lambendo um pouco de molho dos seus dedos. — Mas isso é muito bom também.

133


Eu a observo, e sinto aquele mesmo nervosismo, a inquietação dentro do meu estômago novamente. — Então, está gostando do seu passeio por Stockton?— Pergunto, pegando o meu taco de frango. Ela enxuga a boca com um guardanapo. —Há muitas características típicas do lugar, como os costumes, modo de falar, vestir. Com certeza. — Você ainda não viu nada ainda. — Eu aponto para um canto perto da praça. — Vê aquela estátua lá... de bronze? É do meu pai. Ela faz uma pausa no meio da mordida. — Você está brincando? — Não, ele era o Sr. Beaver. E ela quase engasga com a comida. Bato

levemente

nas

suas

costas

enquanto

ela

rapidamente alcança sua garrafa de água. — Está tudo bem. Eu sei que soa ridículo. Como seria ir para a escola com todas as crianças sabendo que você é o filho do Sr. Beaver? Acho que poderia ter sido pior. Ele poderia ter me nomeado após aquele mascote. — Faço uma pausa, segurando meu sorriso. — Bucky Beaver. A água jorra de sua boca, e eu rio ruidosamente. — Pegadinha! Ela quer ficar com raiva de mim, mas não consegue. É muito muito engraçado. Quando ela está perto de ser capaz de falar, resolvo brincar mais um pouco,

134


— Espere até eu ter filhos. Haverá um monte de pequenos Buckys correndo ao redor. Mas minha observação parece matar a alegria em seus olhos. Ela leva o invólucro vazio da minha mão e começa a limpar. — Nós provavelmente deveríamos voltar agora. Rapaz, as coisas estavam indo tão bem, e eu tinha que e estragar tudo. Estendo a mão para seu braço. — Roberta, o que foi? O que eu disse? — Nada. — Ela encolhe os ombros livrando-se da minha mão. Mas eu não estou prestes a deixá-la fugir com tanta facilidade, não quando estávamos finalmente começando a nos divertir. Desta vez, eu puxo o lenço para o canto, e acabo puxando-o para cima do seu ombro, girando-o em torno dela. Eu a deixo desequilibrada, tentando mantê-la de pé, quando ela cai em meus braços. Seus olhos nunca desviam dos meus quando uma de suas mãos vem descansar no meu pescoço, no ponto exato onde fui atingido. Eu engulo em seco, não acreditando que qualquer coisa no mundo poderia sentir-se tão bem como isso. Se me fosse dada uma escolha, passo tudo de novo, por toda a dor e reabilitação, só para tê-la em meus braços. Ela desliza os dedos ao longo da minha mandíbula e em meu cavanhaque, antes de, levemente roçar meus lábios, fazendome estremecer de prazer. Eu me inclino, e ela abaixa a mão, os olhos queimando em mim. Com a intenção de capturar 135


seus lábios aos meus, eu estou perto o suficiente para sentir o seu hálito quente no meu rosto quando, de repente, ela me empurra para longe dela, dando um passo para trás. Segurando uma mão na testa, ela é incapaz de olhar para mim. — Desculpe...eu tropecei e— Roberta — Suspiro, lutando para recuperar o fôlego. — Está tudo bem. Eu...No entanto, tudo o que ela diz é: — Vamos lá, Sra Jenkins está esperando, — antes de virar e ir embora. Eu corro uma mão pelo rosto, tentando entender o que aconteceu. Eu quase a beijei... E por uma fração de segundo, podia jurar pelo fogo em seus olhos que ela realmente me queria. Deus, ela poderia ter sentimentos por mim? Não...Isso é uma loucura. Ela provavelmente não queria ferir meus sentimentos,

e

para

me

salvar

do

embaraço,

ela

graciosamente afastou-se antes que qualquer coisa pudesse acontecer. Sim, isso soou melhor. Agora podemos apenas fingir que ela tropeçou e eu a segurei, e continuar fazendo o que nós temos feito. Meus dedos desviam para o meu pescoço, exatamente onde ela tocou. Porque é isso que ela quer, certo?

136


Capítulo Quatorze

— Fique quieto — eu imploro, puxando a perna da sua calça. — Eu nunca vou conseguir fazer isso direito se você continuar se mexendo. — Quanto tempo vai demorar? — Luke geme de cima do banquinho. — Vamos, Roberta. Estou cansado. Eu pego um alfinete da minha boca e o prendo no punho da sua camiseta. — Não me culpe. Culpe Landry. Ele veio com essa ideia louca de leiloar encontros com seus jogadores, não eu. Luke geme, inclinando a cabeça para trás. — Eu acabei de jogar onze tempos e eu tenho outro jogo amanhã. Neste momento, eu não me importo com o que eu vou vestir pra esse encontro. — Bem, eu me importo — afirmo enfaticamente. — Se esta é a maneira do Landry chamar a atenção para a equipe, então você vai ter que fazer sua parte e parecer adequado. Além disso, eu sou a única que está fazendo todo o trabalho aqui. Então pare de reclamar, ok? Ele se inclina um pouco enquanto resmunga para mim. — Eu não quero ir a um encontro com uma garota que nem conheço.

137


Uma fisgada repentina dispara em meu coração, porque eu também não quero que ele vá. Eu coloco a fita métrica em volta do meu pescoço. Preciso me controlar. Luke é um jogador bonito e solteiro, e extremamente popular em Stockton. Claro que haverá uma tonelada de meninas que irão se oferecer a ele. Quem pode resistir àquele cabelo desgrenhado e olhos expressivos? Ele é como erva-de-gato15 para as mulheres. Adicione as lesões com risco de vida, e elas irão bajulá-lo, lutando para colocarem seus instintos acolhedores da maneira certa. No entanto, ajudá-lo a se preparar para este leilão de encontros está me incomodando. Não é como se eu quisesse ter ele para mim ou qualquer coisa do tipo, mas, ao mesmo tempo, eu simplesmente não consigo tolerar o pensamento de alguém ter ele também. — Owww! — Eu grito. Ele olha para mim com preocupação. — O que é? O que há de errado? — Nada... Eu não estava vendo o que eu estava fazendo e me espetei — Eu resmungo. — Talvez devêssemos terminar isso e irmos dormir. Eu não quero sangrar sobre o seu terno novo. — Eu chupo meu polegar — Tudo bem, eu vou precisar que você tire suas calças para mim. — Uh... aqui? — ele pergunta com suas bochechas corando, de maneira adorável.

15

A erva-de-gato é usada para acalmar os gatos agressivos, sendo que seu efeito é mais forte nos primeiros 10 minutos de uso.

138


E por um momento impertinente, eu me pergunto o que ele faria se eu dissesse que sim. Eu posso imaginar suas mãos trêmulas puxando o zíper para baixo, o tilintar de seu cinto quando ele batesse no chão... Ok, Bobbie Jo. Pare. O que diabos deu em mim esta noite? Mas eu sei exatamente o que é... É aquele beijo que quase demos, no qual não parei de pensar na última semana e meia. — Não, você pode se trocar no banheiro e trazê-la para mim. — Eu aceno com minha cabeça, colocando distância entre as coisas. Ele desce do banquinho e a força do seu corpo agita os pratos da cristaleira. Trocamos um olhar nervoso, nossos ouvidos treinados para a babá eletrônica sobre a mesa de café. Mas, felizmente, o barulho não acordou sua mãe. Quando ele se afasta de mim, eu sussurro — Tenha cuidado com os alfinetes. — Sim, eu sei — ele responde. Quando eu roubo um olhar pra ele, eu não posso deixar de sorrir. Ele está andando devagar, segurando as calças pelos joelhos, tentando não bagunçar o trabalho que fiz. Antes de fechar a porta do banheiro, ele grita: — Você pode colocar o...? Eu fico de pé. — Já coloquei. É uma loucura, mas nós desenvolvemos esta forma abreviada de se comunicar um com o outro. Chegou ao ponto dele nem ter mais que terminar suas frases. Eu já sei o que ele precisa que eu faça. 139


Retirando meu conjunto de chaves, eu destravo o armário lateral e deslizo a caixa de costura para dentro. Depois que Luke me contou como sua mãe pegou a torradeira e quase queimou a casa inteira, eu adicionei muitos itens no armário, preenchendo quase todos os espaços da prateleira, lotando sua capacidade. Eu realmente tenho que elogiar Luke por tomar todas as precauções necessárias. Ele fez o seu dever de casa, indo acima e além do seu papel como cuidador de um membro da família. E até recentemente, ele estava comprometido com dois objetivos: manter sua mãe segura e mantê-la ao seu lado. Mesmo antes de eu chegar, ele já tinha todo o trabalho feito, sem receber qualquer tipo de formação profissional ou de assistência externa. No entanto, enquanto passava pela cozinha, não pude deixar de notar a mancha preta de fumaça ainda visível no papel de parede, sabendo que basta um pequeno erro para acontecer uma tragédia grave. Honestamente, eu não sei quanto tempo mais a mãe de Luke será capaz de ficar em casa. Eu posso fazer muita coisa, mas não há maneira de contornar isso, sua condição vai piorar. É um assunto que ainda não abordei com Luke, com medo de como ele vai reagir. Por enquanto, tudo que posso fazer é dar o meu melhor a ele e sua mãe, a fim de mantê-los juntos por tanto tempo quanto puder. Eu volto à sala de estar, tentando dissipar os meus pensamentos sombrios, quando noto que ele colocou a calça sobre o encosto do sofá. Passo meu dedo levemente sobre ela, e noto que não há um alfinete fora do lugar. Eu fico olhando 140


para a parte de trás de sua cabeça, que está inclinada para o lado como se ele estivesse se concentrando em alguma coisa, e eu estou rodeada por um sentimento tão quente de ternura por ele. Tudo o que eu quero fazer é despentear seu cabelo, estender a mão e tocá-lo, porque eu estou morrendo para saber se ele é tão suave como eu acho que é. Mas se eu consegui resistir todo esse tempo... — O que você está fazendo? — Eu pergunto, vindo por trás dele. Ele sorri para mim. — Retornando um favor. Isso se meus dedos grandes deixarem... — Ele passa a ponta da língua no canto da boca, enquanto tenta abrir um Band-Aid. — Puxa, isso é pior do que abrir sacos plásticos de supermercado. Eu juro, sou muito desajeitado com os dedos. Sento-me na ponta do sofá e cruzo as pernas. — Deixeme tentar. — Não, é a minha vez de cuidar de você. Eu vou conseguir, eventualmente. — ele protesta, me afastando. Ele escapa para frente, inconscientemente afastando suas pernas ainda mais. E quando um pedaço do seu short de malha desliza sobre a parte superior do meu pé, minha respiração foge dos meus pulmões. Distraído, ele continua focando no Band-Aid, curvando-se e segurando-o entre os joelhos. — Sou um jogador famoso por causa de minhas mãos — ele geme, baixo e profundo em sua garganta, o som masculino ecoa por toda a sala. 141


Eu me contorço desconfortavelmente ao lado dele, levando-o a olhar para mim. E quando ele vê a maneira que eu estou olhando para

ele,

corada

e com

os lábios

entreabertos, seu pomo de Adão se mexe em sua garganta. Apoiando os cotovelos sobre os joelhos, ele se vira para mim e eu assisto seu cabelo cair sobre o seu rosto. Mas ele não o empurra para trás, seus olhos se recusam a deixar os meus, nem por um instante. Eu

lambo

meus

lábios

e

ele

fica

alerta,

agora

plenamente consciente da reação que estou tendo sobre ele. E eu me pergunto o que ele irá fazer sobre isso quando seu peito começa a arfar debaixo da sua camiseta branca de algodão. Nós não falamos sobre aquela noite, quando ele quase me beijou, mas não há como negar a sensação de tensão que está sendo construída entre nós desde então. Depois que eu o rejeitei na última vez, ele não parece disposto a fazer nenhum movimento sem receber algum tipo de confirmação primeiro. É como se ele estivesse esperando por mim para lhe dar o aval. Mas tudo o que eu faço é manter o meu dedo para ele. — É esse aqui. E ele apenas me encara, com um vinco acentuado formando-se entre as sobrancelhas. Impaciente, eu mexo o dedo na frente dele, e ele olha para mim sob os cílios, seu olhar penetrante. — Bem, eu não tenho a noite toda. — Eu esbravejo, tentando manter uma aparência de autocontrole. — Vamos lá, se você vai fazer isso, vamos logo. 142


Ele me dá um sorriso lento e confiante, antes de rasgar o Band-Aid com os dentes. Eu fico olhando surpresa enquanto ele o coloca sobre seu joelho, antes de alcançar minha mão e abaixar a cabeça sobre ela. Eu suspiro, completamente dominada, quando ele traz meu dedo aos seus lábios, dando-lhe um beijo suave e gentil. Sua respiração é quente sobre minha pele, seu cavanhaque levemente fazendo cócegas na minha mão, e tudo que eu sei é que eu quero mais. Mas quando ele levanta a cabeça, ele não olha para mim. Em vez disso, ele leva o Band-Aid e o envolve cuidadosamente em volta do meu dedo, antes de se levantar do sofá. — Boa noite, Roberta. Ok, o que...? Eu estou ofegante enquanto ele se afasta de mim com um brilho nos olhos. E eu quero lançar algo em sua direção — um travesseiro, um controle remoto, qualquer coisa — Mas, quando ele sobe os degraus em direção a seu quarto, tudo o que posso fazer é permanecer sentada, atordoada demais para me mover.

143


Capítulo Quinze

Eu pensei que ela iria me deixar beijá-la desta vez — e eu deveria ter feito isso — mas, meu orgulho não iria sobreviver a outro golpe. Se eu tivesse tentado isso e ela me rejeitasse... de novo, não haveria nenhum outro movimento a ser feito depois. E eu quero manter aceso o meu sonho sobre nós dois e, talvez de alguma forma, eu ainda possa fazer ela gostar de mim desse jeito. — Você pode acreditar que Hoff está vestindo o smoking do seu casamento? — Dan riu ao meu lado enquanto estamos com o resto dos nossos colegas no salão do leilão. — Seu casamento já acabou faz tempo, mas ele afirma que é o único smoking que lhe serviu. — Bem, eu posso entender isso. — respondo, olhando para os meus punhos perfeitamente arrumados, os que Roberta terminou de costurar para mim esta manhã. — Eu nem sequer o reconheço, homem, — Dan me ataca. — Viver com uma mulher te deixou todo certinho. — Sim, mas o que tem de bom nisso? — Murmuro — Se ela não está aqui para me fazer uma oferta. Eu olho por cima das cabeças dos participantes que ocuparam os lugares no salão VIP no Clube dos Beavers. Estamos todos alinhados em uma fileira, e nosso estado de 144


espírito coletivo não é bom. Perdemos o jogo anterior, e com base na

quantidade dos resmungos dentro do

clube,

enquanto trocávamos para nossos trajes formais, todos querem acabar com isso o mais rápido possível. A maioria dos caras têm esposas ou namoradas que não estão muito felizes com essa coisa toda de “ganhar um encontro com o homem delas”. De acordo com a maioria deles, se alguma mulher gostosa se oferecer, eles terão um verdadeiro inferno esperando quando chegarem em casa. Mas eu não tenho esse problema. Eu não tenho uma namorada. A mulher que está me esperando em casa é a única que eu gostaria de ver nesse papel, mas a verdade é que, não acho que Roberta se importaria se eu passasse a noite com outra pessoa. — Vamos lá, cara. — Dan me cutuca nas costelas. — Landry sequer sabe que você a contratou? — Não. Dan balança a cabeça. — Cara, você está brincando com fogo. — Minha mãe precisa dela. — eu protesto. — Sim, parece mais que você precisa dela. — ele zomba. — Tudo bem, já chega de falar de mim. Com quem você acha que vai ficar? — Eu o cutuco nas costelas, muito mais forte do que ele me cutucou. — Só você esperar. — ele ri, esfregando seu lado. — A brincadeira não para só porque estamos todos vestidos, Danny Boy, — retruco. — Vamos lá, quem? Ele faz uma varredura rápida da sala. 145


— Eu não sei você, mas eu não me importaria de conhecer aquela loira um pouco melhor. Eu olho na direção em que ele está olhando. — Quem? — Muito engraçado, Single, — ele geme. — Ela é a garota mais quente aqui. Eu acho que a cabeça de cada homem virou, no minuto em que ela entrou pela porta, e você está me dizendo que nem sequer a notou? Típico. Ela está olhando direto para você. E é ai que faço contato visual com Heidi, minha terapeuta. Ela acena para mim, e eu não tenho escolha, a não ser, acenar de volta. Dan se vira para mim. — Jesus, você conhece? Eu dou de ombros. — Conheço todo mundo em Stockton. — Sim, então, me diz como você a conhece. — ele exige. Eu olho para longe e enfio as mãos nos bolsos. — Ela tem um emprego no centro de reabilitação, no centro da cidade, e ela trabalhou comigo depois da minha lesão. Não é grande coisa. Eu sinto o peso de seu olhar em mim. — Então você tem uma história com ela? Eu sorrio para ele. — Eu fui para a escola com ela, se é isso que você quer dizer. — Então você está me dizendo para recuar? — ele diz, abruptamente. — Que você não a levou para tomar um café e 146


agradeceu por ter te ajudado, ou a convidou pra jantar, para comemorar sua recuperação? — Bem… — Eu conheço você, Single. Você é um cara muito bacana para não fazer algo assim. — Mas eu não estou interessado nela... Eu não — Os dois idiotas poderiam calar a boca agora? — Hoff dá um passo à frente e olha para nós da parte de baixo da fila. — Não importa com quem vocês irão ficar, porque não é como se vocês fossem ficar com alguém. Um monte de caras riem da sua observação, e eu acho que é a primeira vez que alguém sorriu desde que esteve aqui em cima. — Bem, pelo menos não estamos usando um smoking marrom, feio pra burro, como você. — Dan o provoca. Hoff puxa com orgulho suas lapelas. — Isso aqui é um material extremamente bom. Toda vez que minha ex-mulher me vê, ela não consegue manter suas mãos longe de mim. Os risos se tornam mais altos. — Bem, boa sorte com isso porque aquele cara na primeira fila, que está vestindo uma camiseta do time? Parece que ele esperou a vida inteira para ir a um encontro com você! — Danny tira sarro. — Eu não sei por quê. Não é como se um jogador velho e acabado como você, fosse capaz de se curvar para ele. A sugestão de um sorriso cruza os lábios de Hoff enquanto ele endireita os ombros e os botões de seu paletó. 147


— Pelo menos, eu não tenho que entrar na cama sorrateiramente. Ao contrário de seu amigo. Um estrondo nervoso soa abaixo da fila. — Single, não. — Danny me avisa. Mas de jeito nenhum eu vou recuar. Viro-me para encará-lo. — Eu não tenho ideia do que você está falando, Hoff. — Oh, não? Primeiro você liga pra ela no ônibus. E agora ela, o que... vive com você ou algo assim? Fico imaginando quanto você paga para ela se curvar sobre seus Eu saio da fila e me posiciono bem na frente dele. — Eu tenho pena de sua ex-esposa! — Ah, é? E por quê? — Porque é óbvio que você está obcecado com o tipo de mulher que você nunca vai ter, o tipo de mulher que nunca vai se importar ou respeitar você. Seus olhos incendiam de surpresa, e eu sei que eu deduzi certo. — Pela segunda vez, deixe-me lembrá-lo de não falar sobre ela desse jeito — Eu olho para ele. — Ou sobre qualquer outra mulher, pra constar, incluindo sua ex. Danny estava certo. Não me admiro que ela te deixou. Provavelmente foi porque ela não conseguia continuar olhando pra esse seu terno feio pra burro. Às vezes, a única maneira de fazer um valentão recuar é enfrentá-lo. E se meu pai me ensinou alguma coisa, foi isso. Eu volto ao meu lugar enquanto o resto da equipe fica em silêncio. Todo mundo está ciente de que isto não acabou. 148


Haverá um monte de problemas por ter esculachado Hoff na frente de todo mundo. — Estava tudo certo. — Danny sussurra para mim quando os lances começam. — Você não tinha que fazer isso. Eu balanço meus ombros em resposta e sorrio para a multidão. — Oh, sim, eu tinha.

149


Capítulo Dezesseis

— É isso aí. — Aceno a cabeça em direção à mãe de Luke, da cadeira na qual estou ao lado. — Continue enxugando o canto. — Assim? — ela pergunta, imergindo toda esponja e as mangas da camisola em uma bacia cheia de água. Eu salto, na esperança de impedir que ela a derrube. — Sim, mas você tem que arrancá-lo em primeiro lugar. — eu digo suavemente, antes de tomar a bacia para longe dela. São dez horas da noite, e eu estou colando papel de parede na cozinha de Luke. É uma loucura, eu sei. Mas eu precisava de algo para manter minha mente fora do que está acontecendo no Clube dos Beavers hoje à noite. — Onde estão todas as minhas flores bonitas? — ela lamenta, olhando para os restos dos papeis queimados, espalhados por todo o chão. — Eu gosto das minhas flores bonitas. — Elas morreram. — murmuro, muito cansada para pensar em uma desculpa melhor. — Então, nós estamos colocando novas flores. — Elas morreram? — ela chora. — Então nós temos que levá-las para a funerária. Sepultá-las com o meu marido. 150


Ela se levanta de sua cadeira. Ela raramente, ou nunca, se lembra de que seu marido está morto. E quando ela o faz, isso a perturba muito. Agora olha o que eu fiz... Só porque eu estou ocupada pensando sobre o resultado desse estúpido leilão de encontros, não significa que eu deveria falar as coisas sem pensar antes. Eu largo o que estou fazendo e vou até ela. — Sra S., por favor, sente-se. Elas não morreram. — Eu seguro um dos pedaços queimados que havia tirado da parede e jogado no chão. — Vê? Elas ainda estão aqui. Eu pensei que era hora de você olhar para flores diferentes... mais bonitas... Aquelas que são pintadas em xícaras e pires, tal como o seu jogo de chá favorito. — Volto e pego um pedaço do novo papel de parede e deslizo minha mão sobre ele. — Não são lindas? — Eu diria que são. Eu me viro e Luke está em pé, parado na porta, olhando para nós. Ele está em seu terno, e caramba, ele parece muito bom nele. A camisa branca, gravata preta de seda, cinto de couro apertando seus músculos da cintura, ele é todo homem naquele terno. E eu não posso fazer nada, a não ser fraquejar sobre quão perfeitamente o terno acentua os músculos do seu corpo. No entanto, o que está realmente me abalando é como seu cabelo está penteado. Ele está batendo em seus ombros

e

destacando

as

luzes

naturais

vermelhas,

maravilhoso. Neste momento, não há nada que eu gostaria mais do que passar meus dedos sobre ele, alisando, e colocalo atrás das orelhas, e... 151


— O que você duas estão fazendo até tão tarde? — ele pergunta, cruzando um pé sobre o outro enquanto se inclina para trás contra a parede. Meu rosto parece que está pegando fogo, e eu me afasto dele. — Sinto muito. Eu sei que deveria ter perguntado primeiro. — Está tudo bem. — ele responde em voz baixa, — Mas só para saber, você não precisar fazer tudo isso. Eu não espero que você faça essas coisas. Eu mantenho minha cabeça para baixo. — Não me incomoda. Gosto de ter algo para fazer. Ele caminha até a cozinha para dar uma olhada melhor. — Onde você conseguiu o papel de parede? — Quando eu levei sua mãe para consulta hoje, tinha uma loja de ferragens do outro lado da rua. E eu pensei, por que não? — Eu olho para cima e encaro-o com expectativa. — Você gostou? Eu nervosamente aguardo seu veredicto enquanto ele olha ao redor. — Sim, é bom. — diz ele, sorrindo para mim. — Muito bom. Sua mãe bate a mão dele para longe, preparada para repreendê-lo. — Não toque. — Sim, Mãe. — ele ri, piscando para mim. — Sua cozinha, suas regras. — Não mais. — ela resmunga. — É dela agora. 152


— De quem? — ele pergunta, brincando junto. — Dela. — ela chora, enfiando o dedo na minha cara. — Sra. S. — Eu começo. — Oh, por que você se casou com alguém, Luke, e nem sequer me contou? — ela geme, segurando seu estômago. Luke me lança um olhar melancólico antes de se ajoelhar ao lado dela. — Mãe, não somos casados. Roberta está aqui para ajudá-la. Ela é sua cuidadora, lembra? — Não me importa quem ela é. — Ela repousa a cabeça sobre a mesa. — Ela tem seus olhos em você. Eu sei. Todas as meninas na escola gostam do meu pequeno Lukey. Luke começa a rir. — Isso é porque eu sempre as escutava enquanto elas soluçavam e falavam intensamente sobre os meninos que realmente gostavam. — Não, não, não... — Ela balança a cabeça. — Elas estavam todas apaixonadas por você. Elas estavam todas apaixonadas por você. Elas estavam todas apaixonadas... Luke fala sobre a voz dela, enquanto ela fica repetindo a si mesma. — Como foi a consulta? O que o médico disse? Mas eu não quero entrar nisso agora, não no meio de um de seus episódios. — Ela está apenas cansada, foi um dia longo. É minha culpa por não colocá-la na cama mais cedo. — Eu coloco minhas mãos debaixo dos braços dela, impulsionando-a a sentar-se. — Vamos, Sra S. É hora de ir dormir. 153


— Não, eu vou dormir aqui. — ela geme, esfregando os olhos. Mas eu não quero que Luke pense que eu sou incapaz de lidar com ela quando ela fica assim. A última coisa que eu quero, é que ele tenha dúvidas sobre o que acontece aqui quando não está em casa. — Sra S. — Tento novamente. — Quando você acordar amanhã e descer as escadas, todas as suas flores bonitas estarão esperando por você. Ela levanta a cabeça. — Não, elas não vão. Elas não vão! Luke coloca a mão no meu braço. — Por que você não me deixa ajudar, dessa vez? — Mas eu... Ele se levanta. — Quando ela chega a este ponto, confie em mim, vai ser mais fácil para todos se eu apenas ajudar, antes dela entrar em um frenesi. Antes que eu possa responder, Luke se abaixa e a levanta em seus braços. Ela bate nele e começa a gritar: — Coloque-me no chão! Ponha-me no chão! — Está tudo bem, Mãe. — ele sussurra ao seu ouvido. — Eu tenho você. Tudo vai ficar bem. Ela bate em suas costas, puxa seu cabelo, e eu não posso fazer nada além de assistir enquanto ele a leva, lutando contra ele, para fora da porta e subindo as escadas. Eu empurro meu cabelo longe do meu rosto e olho para a bagunça que eu fiz na cozinha. Há papel de parede em 154


todos os lugares. Metade está fixado na parede, metade está no chão. Resumindo, eu vou ficar acordada a noite inteira tentando terminar isso. Mas

com

nenhuma

outra

escolha,

eu

começo

a

trabalhar, e meia hora mais tarde, Luke retorna sem o seu terno e com a gravata desfeita. Ele suspira, indo em direção à geladeira e pega a caixa do suco de laranja. Colocando ela na boca, ele geme: — Isso foi difícil. — Ei, direto da caixa não! — eu falo com as minhas duas mãos firmemente pressionadas contra a parede. Ele abaixa a caixa timidamente. — Ah é, eu esqueci. — Mas quando ele vê o que eu estou fazendo, ele a coloca para baixo e corre até mim. — Aqui, deixe-me ajudá-la com isso. — Não, eu consigo. — eu insisto. Mas ele não escuta. Em vez disso, ele está bem atrás de mim, o calor de seu corpo exalando para fora dele e batendo nas minhas costas. Ele desloca suas mãos ao lado das minhas, tomando cuidado para não me tocar. — O que você quer que eu faça? — ele pergunta, e sua respiração, sem aviso, empurra meu cabelo na frente do rosto. Eu abaixo minhas mãos da parede. — Alise suavemente, para que não haja bolhas ou saliências por baixo. Eu balanço minha cabeça. Mas ele está tão perto que meu cabelo acaba atingindo-o no rosto. Ele treme antes de 155


respirar profundamente. Ele não se move, e eu não sei o que fazer enquanto todo o seu corpo fica tenso ao meu redor. Perturbada, vou para trás, na sua direção, e ele solta um gemido baixo. Percebendo o meu erro, vou para o lado e deslizo por debaixo do braço dele, enquanto piso no seu pé. —

Você

está

tentando

me

matar?

ele

geme,

descansando sua testa contra a parede. Exausta, eu respondo de volta. — Bem, você não tem que vir e se esfregar em mim. Guarda isso pro seu encontro com a Heidi. Ele olha para mim por cima do ombro. — O que...? Como você mesmo sabe que ela... — Que ela ganhou você? — Retruco. — Talvez porque Landry me mandou uma mensagem com a foto da —gostosa — que gastou quase mil dólares para ter o prazer da sua companhia. Ele cerra os olhos para mim. — Agora, por que ele faria isso? — Eu não sei, talvez porque cada centavo do leilão vai para a fundação do câncer que ele montou em homenagem a sua falecida esposa, e deixe-me dizer, a sua Heidi certamente tem a atenção dele. Ela colocou o lance mais alto da noite. $999,99 para ser exata. Vamos lá, número noventa e nove. O quão fofo isso é? — Quer parar de dizer isso? Ela não é minha Heidi. — Luke afrouxa seu domínio sobre o papel de parede, e o canto superior tomba mais. — Roberta, não é o que você pensa. Eu arrasto a cadeira, empurrando ele para o lado. 156


— Oh, não me interprete mal, Luke. Eu acho que é maravilhoso como você se doou para arrecadar dinheiro para caridade. Quão nobre de sua parte. — Eu? — ele sussurra acaloradamente. — Foi você que me vestiu e me mandou ir lá. — Ele segura firmemente a cadeira, enquanto subo para pressionar o papel de parede de volta no lugar. — Então me processe, mas eu não entendo por que você está tão chateada com isso. Deus, agora eu sei do que os outros caras estavam falando quando disseram... Eu olho brava para ele. — Oh, não pare. Vá em frente. Diga-me o que eles disseram sobre mim. Ele leva a mão ao pescoço, algo que ele sempre faz quando está nervoso. — Nada. Esqueça o que eu disse. Com raiva, piso forte meu pé no chão. — Uau, deve ter sido muito ruim se você não pode nem mesmo repetir. — Ruim, tipo, você não me dizer o que o médico da minha mãe disse hoje? Meus olhos encontram os dele. Ele não se esqueceu. Claro que não. Não importa o que, sua mãe é sempre a primeira coisa em sua mente. E eu não quero discutir mais com ele, não sobre algo tão importante como isso. É hora de dar a ele a versão abreviada, pelo menos por agora. — Ele não acha que me ter por aqui vai ser suficiente, especialmente com você saindo o tempo todo. — Eu admito. — Ele pensa que você deve adicionar um sistema de 157


segurança para as portas, para elas dispararem um alarme caso eu esteja lá em cima e ela tente sair. — Você disse a ele sobre... — Ele engole antes de continuar — Sobre como você a encontrou na floresta do clube dos Beavers? — Não. — eu respondo, e ele suspira de alívio. — Mas ele encontrou as marcas de queimaduras em suas mãos e eu tive que dizer a ele como ela as conseguiu, Luke. Eu não podia mentir para ele. — E eu aposto que ele te entregou os folhetos de cada instalação de enfermagem em um raio de dez quilômetros, não foi? — murmura Luke. — Essa é sempre solução dele quando algo dá errado. — Ele mencionou isso. — E você concorda com ele? — Eu não tenho uma parede cheia de diplomas de medicina para me apoiar, — afirmo claramente. — Minha opinião não importa. É nele que você deve confiar. Ele começa a recolher todos os pedaços de papel de parede chamuscados do chão, amassando-os em uma bola. — Não faça isso. — Estendo a mão para seu braço. — Você vai sujar todo o seu terno. — Não me importo mais. — Ele os enfia no lixo antes de se virar para sair da sala. — Eu sei que você está tentando ajudar, Roberta. Mas neste momento, você não está. Eu o deixo se afastar de mim. Ele me deixou sozinha de novo, mas ao contrário de ontem à noite, eu não me sinto

158


frustrada.

Em

vez

disso,

eu

me

sinto

muito,

muito

incompleta.

159


Capítulo Dezessete

Eu queria estar saindo com Roberta esta noite, em vez de Heidi. Olho mais uma vez para mim mesmo no espelho. Acho que estou bem vestido. Eu precisava me sentir forte e no controle, e foi por isso que segui as recomendações da ‘cartilha’ da Roberta. Jeans preto. Camiseta preta. Botas pretas. Eu mesmo amarrei meu cabelo para trás, algo que nunca faço. Só tenho que ir a um encontro com ela — isso é tudo. Foi por isso que ela pagou. É só que tudo o que Heidi sabe fazer é falar sobre si mesma. Será que ela deveria reagendar uma hora no salão de beleza, para conseguir uma aula extra de Pilates? Será que ela deveria aceitar o convite de casamento da sua amiga ou clarear seus dentes? E isso, e aquilo, e aquilo outro... A única preocupação dela é ter com o que gastar seu dinheiro. No início, eu não tinha escolha a não ser ouvi-la, já que eu realmente não podia falar depois da minha lesão. Então, depois que ela trabalhou comigo por um tempo e a minha voz começou a voltar, ela se insinuava para mim, querendo me fazer pedir para sair com ela. No início, eu fiquei lisonjeado. A garota quente do ensino médio estava interessada em mim. Mas ainda assim, não é como se nós tivéssemos alguma coisa 160


em comum. Eu não conseguiria me relacionar com seu estilo de vida despreocupado, e ela não tinha ideia do que eu estava lidando em casa. Se ela tivesse ideia, tenho certeza que eu seria o último cara com quem ela iria querer se envolver. Vamos apenas dizer que ela é o tipo de garota cujo dia fica arruinado se quebrar uma unha. Então, quando os Beavers começaram a perder o interesse em mim, ela também o fez. No início, havia menos conversa entre nós durante as minhas sessões, e então, ela me transferiu para outro terapeuta, alegando que estava sobrecarregada com novos clientes. Eu não a vi em semanas, até que ela apareceu no leilão. E o que torna as coisas ainda piores é que Roberta está com raiva de mim por causa disso. Eu acabei de voltar de uma viagem de uma semana, e prometi dar a ela uma noite de folga. No entanto, as minhas boas intenções foram frustradas quando Landry me chamou no último minuto e perguntou se eu estaria disposto a sair com Heidi hoje à noite. Parece que ela está incomodando bastante a equipe dos Beavers, querendo saber quando será o seu encontro comigo. Então, o que eu poderia dizer... Não? Ele é meu chefe. Mas eu tenho a sensação de que hoje será uma noite difícil quando a campainha toca, e mãe imediatamente começa a gritar lá embaixo. Obrigado Heidi por ignorar aviso de “Por favor, bata” que eu havia gravado na porta. Eu corro para baixo das escadas, apenas para encontrar Roberta embalando mamãe e, repetindo mais e mais

161


— Está tudo bem. Está tudo bem. Está tudo bem. — enquanto ela bate o código do novo sistema de segurança que eu tinha instalado. Quando o alarme para, o mesmo acontece com a mamãe, e eu não poderia estar mais grato. — Ela tentou sair? — Eu pergunto, chegando por detrás delas. — Sim. — murmura Roberta, seus nervos exaustos. — Você sabe como ela sempre tenta fugir quando ouve a campainha. — Eu sei — murmuro. — Obrigado por impedi-la. Ela encolhe os ombros. — É para isso que você me paga, não é? Outra

rejeição

provavelmente

porque

ela

está

consciente de quem está parada do outro lado da porta. Ela passa o braço em volta dos ombros da minha mãe, pronta para levá-la de volta para a cozinha. — Vamos, Sra S. Vamos terminar o nosso jantar. — Mas meu coração para quando ela dá uma leve puxar no meu cabelo quando passa por mim. — Rabo de cabelo legal. A parte de trás do meu pescoço ressurge à vida ao seu simples toque. —Estou feliz que você gostou. Seus olhos azuis brilham para mim, até que uma impaciente batida interrompe o nosso momento. — Eu tenho que... — Eu digo. Ela balança a cabeça com um suspiro. — Sim, eu sei.

162


Eu estou esmagado pela quantidade de dor em seus olhos. A vida não deveria estar acontecendo dessa forma, mas está. Estendo a mão para a maçaneta da porta, meu estômago está em uma queda livre. E não existe nada melhor do que abrir a porta e as primeiras palavras que saem da boca de Heidi são: — Luke, eu simplesmente não consigo me acostumar com essa barba no seu rosto. Ugh... Quando você vai tirar essa coisa? — enquanto passa por mim e entra na minha casa. Nunca, eu penso, quando passa pela minha cabeça a imagem de Roberta correndo os dedos sobre meu cavanhaque naquela noite da praça e o quanto ela parecia gostar. Mas sonhar com Roberta tendo Heidi ali de pé, olhando para mim, me deixa um pouco confuso. — Per-per-perdão? — acabo gaguejando, o que eu não fazia há um longo tempo. — Respire. Tome seu tempo. Emita o som. Abra seus lábios. — ela emite sua sequência familiar de comandos, os quais eu não ouvi desde a última vez que estive em seu escritório. — Eu não sei, Luke. — Ela bate um dedo aos lábios. — Eu acho que deveria marcar para você uma sessão de emergência. Que tal amanhã de manhã? Antes de você ir ao estádio? Vai ser divertido, como nos velhos tempos... só que não. — Ela sorri para mim enquanto agarra a minha camisa.

163


Ok, eu tenho que colocar um fim nisso antes que as coisas fiquem feias. Eu pego seus pulsos, e com cuidado, levo suas mãos para longe de mim. — Eu estou bem. Sério. — Oh, eu não me importo — diz ela, despreocupada — Além disso, depois dessa noite, tenho certeza que vamos estar vendo um ao outro, muito mais. — Um... s-s-sim, sobre isso — eu tropeço, odiando como na sua presença o meu discurso continua vacilando, bem quando eu mais preciso dele. — Estou muito ocupado, já que estou voltando a jogar e tudo mais. Não acho que vou ter tempo para quaisquer encontros depois desse. Ela volta com a mão no meu peito e me dá um empurrão, brincando. — Bem, eu vou até você, em qualquer lugar, a qualquer hora. — Heidi, eu... — Eu trouxe um vinho e tudo mais. — Ela tira a garrafa de sua bolsa. — Vamos apenas ver aonde a noite nos leva, pode ser? Eu coro, meu rosto pegando fogo, porque parece Heidi não tem intenções de sair à noite. Ela veio aqui pensando que poderia me seduzir, então eu a deixaria passar a noite. Recuando, meus olhos voam para o relógio. — Sim, humm...devemos ir. Ela sugestivamente morde seu dedo enquanto continua a sorrir para mim. 164


— Eu não me importo se vamos comer ou não. Algo faz barulho no chão atrás de nós. Heidi suspira. — O que foi isso? — Uh, eu estou tendo a minha cozinha remodelada. — Eu penso rápido. — Está uma bagunça lá atrás, coisas caindo em todo o lugar. Eu não tive uma refeição decente durante o dia inteiro. Não sei você, mas eu estou morrendo de fome. Por que não vamos logo? — Não até que você me diga se sua geladeira ainda está funcionando. — ela sorri. Eu pisco, perplexo. — Para quê? — Para gelar o vinho. — Ela me dá um beicinho atrevido. — Para mais tarde… Sonhe, Heidi, porque não irá haver um “mais tarde”. Eu estou comprometido apenas com o jantar. E é isso aí. Eu levo a garrafa e me forço um sorrir de volta para ela. — Que tal você me esperar no carro? Ela caminha até mim e esfrega a mão para cima e para baixo no meu braço. — Ah, Luke, não seja bobo. Eu posso esperar. — Mas eu tenho que ter certeza que o alarme vai funcionar. — Eu digito o código que Roberta tinha definido — 9999— e mantenho a porta aberta para ela. — Ele não estava funcionando muito bem durante o dia, e eu não quero que pare de funcionar enquanto estivermos fora.

165


— Ah, a maravilha de viver sozinho, certo? Não depender de ninguém, a não ser você mesmo. Eu conheço o sentimento. Mas não acho que qualquer um de nós terá que se preocupar com isso por muito tempo. — Ela pisca para mim, antes de ir para a varanda, agitando sua saia rosa. Eu fecho a porta e bato minha cabeça contra ela. Essa foi por pouco. Reunindo coragem, vou até a cozinha, e Roberta rouba a garrafa de vinho para longe de mim na hora em que entro na sala. — O que diabos você está fazendo? — ela pergunta, batendo meu ombro. — Eu não tenho ideia — respondo — Mas isso não explica o porquê de você estar aqui em pé, ouvindo a nossa conversa. — Sua mãe deixou cair o garfo, e eu estava procurando. Não quero que ela volte aqui, pra bisbilhotar ao redor. Mamãe está sentada, comendo o frango e o arroz que Roberta havia preparado, e que eu não consigo deixar de comer. Eu bagunço a cabeça da minha mãe, enquanto passo meu braço pelo outro lado e roubo o garfo de Roberta para pegar um pouco de comida do seu prato. — Hmmm, isso é tão bom. Guarde um pouco para mim. Roberta olha pra cima, colocando o vinho na geladeira. — Ei, isso é meu. — E o que você estava indo dizer antes de Heidi chegar? — Pergunto, deslizando outra garfada deliciosa na minha boca. 166


Ela pega um prato vazio do armário e começa servindo uma porção para guardar para mim. — Eu sou a ajuda contratada, então eu sou qualquer coisa que você precise que eu seja. Sua decoradora de interiores, sua alfaiate, a sua escolta... Eu começo a rir. — Escolta? — A única maneira dela entrar aqui, e assustar sua mãe, é por cima do meu cadáver. — Ela declara, rasgando com força um pedaço de filme plástico. Dou-lhe um ligeiro aceno de cabeça. — Confie em mim. Eu não ia convidar ela pra entrar, mas ela chegou aqui quinze minutos mais cedo, e eu fui incapaz de contê-la. — Assim como você tentou fazer comigo — ela zomba, cobrindo o prato. Eu curvo minha cabeça. — Até que você se tornou a guardiã de todos os meus segredos. Nós olhamos um para o outro por muito tempo, e ela é a primeira a desviar o olhar. — Bem, não me deixe mantê-lo longe de seu encontro. — Ela me faz uma reverência sarcástica, estendendo a mão como um desabrochar de uma flor. — É hora da cuidadora voltar ao trabalho. Fecho os olhos e respiro. — Roberta, eu não quero sair com ela, mas eu não tenho escolha. 167


— É muito sofrimento você ter que passar uma noite com uma mulher bonita. — Ela revira os olhos. — Luke, você não tem que se explicar para mim. Não é como se estivéssemos em um relacionamento ou qualquer coisa. Eu só trabalho para você, lembra? Sim, eu penso, exceto que eu quero tanto te beijar, que eu não consigo respirar, não consigo dormir, não consigo pensar em mais ninguém, exceto você. Eu me levanto da mesa e solto um suspiro insatisfeito. — Eu acho que todos nós temos os nossos deveres. Você tem o seu, e eu tenho o meu. Ela olha para mim, colocando o queixo em seu ombro. — Mas porque tem que ser tão difícil? Voltando para o corredor, eu paro, intrigado. — O que? Ela oscila para frente e para trás, enfiando as mãos nos bolsos. — Eu não sei. A vida, o amor... chame do que quiser. E eu não posso olhar para ela, porque o que ela poderia estar insinuando é quase bom demais pra ser verdade. Eu me viro e deslizo a mão para baixo, no novo papel de parede, reunindo a coragem de dizer o que o meu coração está me pedindo para dizer. Eu bato meus dedos contra a parede e sussurro — O que vale a pena ter, vale a pena esperar. Quando ela inala profundamente atrás de mim, eu passo para o corredor e continuo indo, com muito medo de parar e descobrir o que tudo isso poderia significar. 168


Capítulo Dezoito

— Um encontro duplo... sério?— Heidi franze o nariz para mim. — Por quê? Não está se divertindo? — Pergunto radiante, rodando um pouco da calda extra no garfo ao lado de meu brownie . — Você está em uma mesa não com um, mas dois, Stockton Beavers. Assim que entramos no carro, Danny me mandou uma mensagem dizendo que havia decidido riscar o encontro de sua lista de coisas a fazer, e perguntou se eu gostaria de me encontrar com ele no Russo. Não pude digitar sim rápido o suficiente. Mas, como se vê, a mulher que o ganhara, Chrissy, é uma mulher bem casada e mãe de três filhos, além de uma grande fã de beisebol e portadora de um bilhete de temporada Beaver Field. Na verdade, fora seu marido quem havia colocado o lance vencedor em Danny para ela como uma surpresa de aniversário. Então, Danny não precisava que eu fosse um amortecedor para ele no fim das contas, mas cara, eu com certeza precisava dele. Acho que seu interesse inicial por Heidi já sumiu há um bom tempo, a beleza dela não era suficiente para adoçar a língua afiada. Heidi relaxa em seu assento, irritada.

169


— Sim, mas no Russo? Venho aqui desde que tinha dois anos. — Ela desliza a cesta de breadsticks para o outro lado da toalha xadrez vermelha e branca. A garçonete retorna, colocando um cannoli diante de Chrissy, que sorri para ela. — Obrigada, — diz ela ansiosamente passando a cesta para ela. — Será que eu poderia levar para casa, também? Meus filhos amam. — Oh, eles são os melhores, — Danny prontamente concorda. — Estou surpreso que tenha sobrado algum. Achei que houvesse comido todos eles. Nós todos começamos a rir, enquanto Heidi apenas permanece sentada ali, girando o canudo no copo. Ela começa a resmungar em voz baixa, alto o suficiente para que apenas eu ouvisse, — Pelo menos, esse é um alimento que não terminou na barba dele. Cutuco-a, em uma última tentativa corajosa de animála. — Tem certeza de que não quer nada para a sobremesa? Posso pedir à garçonete enquanto ela está aqui. — Já lhe disse, não, — ela rebate. —Eu não posso comer essas coisas. Vou engordar. Chrissy faz uma pausa com o cannoli a meio caminho da boca. E mesmo que seja apenas um dos muitos comentários sarcásticos que Heidi fez durante toda a noite, este é um que não posso ignorar, porque não tem nada a ver comigo ou com 170


Stockton ou beisebol, e sim com uma senhora doce e agradável que não merece ser tratadas assim. Tiro o guardanapo de meu colo e viro o rosto para ela. — Retire o que disse. Entediada, ela brinca com o celular como se não pudesse ser incomodada por mim. Sentindo a tensão formada entre nós, Chrissy coloca seu cannoli no prato e rapidamente lambe o vão dos dedos. — Está tudo bem. Ela está certa. Esses bebês irão direto para os quadris. Acho que se pode dizer que como doces demais. Ela solta um riso nervoso e Danny me lança um olhar significativo. — Bem, se suas filhas forem tão bonitas como você, então deve ter a família mais bonita em toda Stockton. — Danny usa todo seu charme, fazendo com que Heidi suspirasse alto ao meu lado. Danny franze a testa para ela, pronto para dizer alguma coisa quando Chrissy intervém. — Ah, obrigada, Danny. Nossas meninas são bonitas, mas eu não tenho nada a ver com isso, — ela ri. —Elas são todas adotadas. — Sério? — Danny indaga. Ela sorri para ele. — Sim, acho que tendo a trazer meu trabalho para casa. Sou uma assistente social da agência de adoção do centro.

171


A garçonete retorna com o cartão de crédito de Danny junto com breadsticks embrulhados de Chrissy e vários outros recipientes mais para levar para o resto da mesa. — A comida estava ótima. O serviço foi ótimo. — Danny assina seu nome no recibo e sorri para a garçonete antes de sorrir para Chrissy. — Mas o meu encontro foi fenomenal. — Ele se gaba, fazendo Chrissy rir. — Eu realmente odeio encerrar a noite, mas... — Oh, eu sei que está ficando tarde. Hora de ir embora. — Chrissy balança a cabeça, rapidamente colocando seu cannoli não consumido em um dos recipientes extras. —É noite de escola, e ainda tenho que colocar as crianças para dormir. — Ela levanta a mão até o ouvido de Danny, rindo, — Apenas entre você e eu, elas nunca ouvem o meu marido. Heidi ri maliciosamente, mas não diz nada. Chrissy se levanta e Danny, cavalheiro como é, a ajuda a colocar a jaqueta. — Se agarre a essa assinatura, senhorita. Vai valer muito algum dia. — Chrissy pisca para a garçonete quando ela levanta os olhos enquanto limpa a mesa. — Tenho a sensação de que esse garoto será uma estrela. — Ela arruma o colarinho e sorri para mim quando encontra meus olhos. — Os dois serão. Marque minhas palavras. Reconheço o talento quando o vejo. Lembre-se desses nomes: Dan O'Malley e Luke Singleton. A garçonete olha para mim, apoiando a bandeja contra o quadril.

172


— Não é o Luke Singleton? O cara com quem falo praticamente todas as noites ao telefone? Heidi se ajeita, colocando os cotovelos sobre a mesa. — Vocês dois se conhecem? — Sim, bem... de certo modo, — diz ela, ficando constrangida. — Acho que sei a ordem de entrega para 44 Cedar Crest Lane de cor. Como está sua mãe, a propósito? Sempre me certifico de lembrar Billy para não tocar a campainha. Heidi se move ao meu lado. — Sua mãe...? Você ainda mora com a sua mãe? Eu dou à garçonete um aceno de cabeça frio. — Ela está bem. Obrigado. Danny vem para o resgate, mais do que disposto a prender a atenção da garçonete. — Você acha que você poderia me dar uma pilha de menus para viagem? Eu adoraria deixá-los na sede do clube para os outros caras. Muitos deles são novos na área, e não têm ideia de onde encontrar uma boa comida por aqui. — É claro. — Ela aponta para o balcão. — Por aqui. Danny oferece o braço à Chrissy, em seguida lança um olhar preocupado em minha direção. Dou de ombros, não sabendo mais o que fazer, enquanto ele me deixa sozinho com Heidi. — O que? Você mantém sua mãe trancada no porão ou algo assim? — Heidi bate as unhas com impaciência sobre a mesa. — Eu não a vi em anos. Achei que após a morte de seu

173


pai ela houvesse se mudado para a Flórida ou algo assim. Não é para lá que todos os idosos vão? Dreno a água que resta no meu copo até o gelo. — Não, ela ainda mora em casa. — Bem, por que a paranoia sobre a campainha, então? O que ela é, cão de ataque? — Heidi ri. — Então você viu o sinal... — Eu resmungo. — Siiiim, — ela geme, como se tivesse quatorze anos. — Mas não imaginava que se aplicava a mim. Faço uma careta e empurro o que resta do meu brownie para o lado. — Havia este ruído alto vindo de dentro de sua casa, e eu

fiquei

com

medo.

Mas,

então,

vozes...vozes

femininas...mais de uma, na verdade. Ótimo. Ela havia ouvido mais do que pensei que houvesse. O alarme não havia abafado tudo. Ela dobra o corpo mais perto do meu, descansa o queixo na mão e me olha atentamente. — Parece que está tentando esconder alguma coisa, Luke. Mas o quê? — Não estou tentando esconder nada. Ela me estuda com um brilho tímido nos olhos. — Assim como você não queria que os Beaveres soubessem que estava vendo um terapeuta de fala, certo? — Isso foi diferente. Isso foi... — Luke, você pagou pelos meus serviços de seu próprio bolso. Não os levou para o seu plano de saúde ou para os Beaveres ou para qualquer outra pessoa. Eu verifiquei. 174


— Essa informação deveria ser confidencial, Heidi. É

quando

a

música

ambiente

do

Russo

muda

abruptamente de Dean Martin com a jubilosa “That’s Amore” para o suave tema de abertura de Godfather, e minha voz ressona através de todo o restaurante, fazendo com que todos se virassem para olhar para mim. Heidi espera até que não somos mais o centro das atenções antes de sussurrar, — É por isso que eles não quiseram levá-lo de volta, não é? Não acreditam que você se recuperaria completamente. Afasto-me para poder olhar para ela. — Bem, eu fiz. Graças a você. Ela desliza a mão até meu joelho. — Oh, você vai me agradecer, tudo bem. Ou então esses caras agradáveis com quem estive conversando sobre Beaver Field vão descobrir que algo suspeito está acontecendo em sua casa. Talvez eles até me passem para Mike Landry dessa vez. — Você não faria isso. — Me teste. — Ela olha para mim com os olhos apertados, sua cortina de cabelos loiros derramados sobre os ombros. — Se tornar público, acho que daria um bom show ser sua namorada. O melhor e mais brilhante sempre deixa Stockton, e não estou disposta a ser deixada para trás. Ela pega meu garfo e corta um pedaço do tamanho de uma mordida do brownie antes de mergulhar no chantilly. — Abra, Luke, — ela suplica, segurando-o na frente da minha boca. 175


As pessoas nas outras mesas continuam a nos lançar olhares curiosos, e não tenho escolha a não ser deixá-la me alimentar enquanto desliza o garfo entre meus lábios e sorri quando começo a mastigar. — Hmmm, agora me diga se não soa bem? — Ela dá tapinhas nos cantos de minha boca com o guardanapo, agitando-o em cima de mim. — Agora... não posso esperar para descobrir todas as coisas que você fará por mim. Conte esse como o primeiro de muitos, muitos encontros que virão.

176


Capítulo Dezenove

Quando você o conhecer, um homem egoísta irá te dizer palavras doces e fazê-la acreditar que o mundo gira em torno dele. Não se apaixone por ele. Um homem que leva sem dar nunca vai colocá-la em primeiro lugar. Sua única prioridade sempre será ele mesmo. Sob o brilho da noite no andar de cima, mordisco a ponta da minha caneta. Este conselho é muito duro? Levanto minha xícara de chá da bandeja e o saboreio enquanto pondero minhas palavras. Não é como se eu houvesse desistido totalmente da ideia de amor, apenas espero que qualquer jovem garota se apaixone com os olhos bem abertos. Alguns homens são desonestos, nocivos e cruéis, e eu estaria fazendo um grave desserviço se não incluísse qualquer aviso sobre eles. Caras assim são cheios de truques, e nenhuma garota merece ser infeliz apenas para ter alguém em sua vida. Uma chave se agita na fechadura, e eu apressadamente coloco o copo na mesa antes de deslizar meu diário sob o cobertor dobrado no qual estou sentada. Recém-chegado de outra viagem, Luke passara o dia todo ocupado com tarefas, consertando a goteira na calha do lado da casa, e indo ao seu encontro, portanto, não tiveram tempo para pôr o assunto em dia. Por isso esperei por ele, mas provavelmente está exausto 177


e desejando sua própria cama. É só que ele fez falta, mais do que pensei que faria. Seus passos suaves chegam às escadas enquanto tenta fazer o mínimo de barulho possível. Meu coração pula. Uhoh, ele acha que todo mundo está dormindo. O que no mundo ele pensará quando me encontrar aqui fora no corredor? Provavelmente que estou bisbilhotando para saber sobre seu encontro, o que realmente estou fazendo... Mas quando ele chega ao topo, é evidente que algo não está certo. Seu cabelo não está mais penteado para trás. Seu rosto está vermelho, e sua camisa para fora da calça. No entanto, seus olhos se iluminam no segundo em que me vê. — Se eu soubesse que teria uma festa do chá para dois esperando por mim em casa, definitivamente teria pulado a sobremesa. — Ele geme, ajoelhando-se ao meu lado. —Cara, eu poderia realmente usar alguma coisa estimulante agora. — Como foi? — Pergunto, enchendo o copo antes de adicionar um toque de creme e quatro torrões de açúcar para ele. Ele balança a cabeça, divertido, quando entrego a ele. — Você se lembra de como eu gosto. — Bem, não há muitos caras que bebem chá. Vocês se destacam. — Provoco. Ele

pressiona

os

ombros

fortes

contra

a

parede

enquanto se senta ao meu lado. —

Estou

realmente

gostando

dessa

tradição

que

começamos.

178


Ele toma um longo gole antes de limpar a boca com as costas da mão, e não consigo tirar o olhar de seus lábios, totalmente encantada com a forma como os pelos ao redor de sua boca são agora um pouco mais escuros do que o resto do cavanhaque. Tenho esse desejo inacreditável de beijá-lo só para ver como seria, o quão doce seus lábios seriam. Em vez disso, tiro a bandeja do meio de nós e lanço um olhar rápido em sua expressão distraída. —Então, me conte sobre o encontro. Foi tão ruim assim? Ele suspira, esticando as pernas. — Sabe que eu corri ao redor da praça dez vezes só agora? Depois que levei Heidi até o carro dela, simplesmente não podia voltar ainda. Ela tinha me estressado tanto que tive que queimar algumas calorias ainda. Esclarecer as coisas. — E conseguiu? — Sim, acho que sim, — ele sussurra, virando a cabeça e descansando no ombro para olhar para mim. — Roberta, há algo que temos que fazer juntos. E temo que não possamos adiar mais. Inalei bruscamente. Ele está dizendo o que eu acho que está dizendo? Será que finalmente vai me beijar? — Por acaso, seu celular está com você? Tento o meu melhor para esconder a decepção. — Sim, por quê? Viro a cabeça, e estamos tão perto que nossas testas praticamente se tocam. Imediatamente, encontro-me imersa naqueles lindos olhos dele, perdendo qualquer rastro de 179


autocontrole que ainda me restava. Aqueles olhos... Droga, garota. Se recomponha. Luke é realmente lindo, e daí? É que cada vez que percebo isso, parece uma nova descoberta. Antes daquele dia em Beaver Field, eu realmente nunca havia pensado sobre ele dessa maneira. Em todos os vídeo on-line que já havia visto, ele sempre estava com o capacete protetor o escondendo. E ele não havia exatamente me encantado com a foto ao estilo DMV no site dos Beaveres '. Mas, pessoalmente, ele exala isso... Não sei o que... Uma qualidade que nenhum dos ‘pregos’ que namorei no passado chegavam perto de possuir. É como ele é grato por cada respiração, cada momento, e através dessa gratidão brilha um espírito que envolve tudo ao seu redor. Ele não está preso com o que está passando. Está mais interessado em conhecer a pessoa em sua frente. E em algum lugar no fundo do meu coração, reconheço aquilo como realmente é.... Altruísmo completo e absoluto. Sem dizer mais nem uma palavra, coloco a mão no bolso e puxo meu celular, disposta a dar-lhe qualquer coisa que me pedisse. Ele se senta, olhando-me diretamente nos olhos. —Precisamos contar a Landry que a contratei. Qualquer

coisa,

menos

isso,

penso

eu,

enquanto

inundações de pânico passam por mim de uma vez. — Está louco? Você disse... — Esqueça o que eu disse. — Ele gentilmente coloca a mão sobre a minha. — Não importa agora... Heidi sabe. Arranco minha mão debaixo da dele. — Você contou a ela? 180


— Não, claro que não, — ele insiste. — Ela ouviu você e a mamãe quando estava em pé na varanda. Sabe que algo está acontecendo, e está ameaçando contar aos Beaveres se eu não cooperar. — Ele encontra o meu olhar, e eu não consigo desviar enquanto seus olhos espreitavam os meus. — Por favor, Roberta. Temos que contar a ele. É a única maneira de eu não precisar mais ir em qualquer outro encontro com ela. Porque até onde sei, o pouco tempo livre que tenho pertence a você e mamãe e mais ninguém. Não há qualquer dúvida de que ele quer dizer cada palavra que disse. Basicamente, admitiu que não tem o menor interesse em se envolver com outra mulher, e isso me faz vibrar até os dedos dos pés. Ele quer estar em casa comigo e não saindo com qualquer outra pessoa. Tentando esconder o calor que rasteja em meu rosto, levanto os joelhos e os levo até o queixo. — Ok, então o que exatamente vamos dizer a Landry? — Só que a mamãe ficou doente, e você vai estar cuidando dela por um tempo. — Mas Luke, você não conhece Landry como eu., — protesto. — Ele vai querer mais detalhes. — Roberta, — Luke pede, buscando minha mão novamente. — Ele não pode descobrir o que ela tem Alzheimer. Vai querer se envolver, e eu... — Você não pode arriscar. — Aceno, colocando minha mão em cima da sua. — E entendo. Não estaria aqui se não entendesse.

181


Baixando

a

cabeça,

ele

acena

com

a

cabeça,

sussurrando: — Eu sei. Ter a minha mão na dele traz uma sensação inebriante. É maior do que a minha, mais forte também. E por estender a mão para mim, é evidente que naquele espaço de poucas semanas, veio a confiar muito em mim. E o triste é que ele tem sido nada além de aberto e honesto comigo, quando eu tenho me apegado tanto. Relutante, solto sua mão e coloco o celular em cima da bandeja. — Basta seguir o meu exemplo, ok? Ele olha para baixo enquanto aperto o botão alto-falante antes de olhar rapidamente para mim outra vez. — Obrigado por isso. Dou-lhe um sorriso irônico. — Não me agradeça ainda. Começa a tocar, e por um momento, fecho os olhos, não querendo ter que mentir para meu bom amigo, mas sabendo o quanto Luke pode precisar de mim. E não é como se Luke estivesse o julgando completamente errado. Landry vive para corrigir as pessoas. Fez isso comigo. Fez isso com Luke. E tenho certeza de que não há nada que ele gostaria mais de fazer do que se intrometer e salvar o dia, “ajudar” a mãe de Luke. É exatamente o tipo de cara que ele é. Tem boas intenções, mas, ao mesmo tempo, pode ser extremamente dominador. Acho que, desde que sua esposa morreu, é a

182


única maneira que consegue demonstrar algum controle sobre essa coisa louca chamada vida. — Bobbie Jo? — Landry me cumprimenta com seu sotaque familiar. E por um momento, sinto uma dor aguda no coração. Fazia um tempo desde que alguém me chamava de Bobbie Jo, e não havia percebido o quanto senti falta até ouvir sua voz. Fecho os olhos e respiro. Agora não é o momento de me lamentar sobre o fato de que Landry é a única pessoa em minha vida que sabe meu verdadeiro nome. Ele surgiu na manhã, em que ele me levou do hospital para casa. Qualquer outra pessoa iria querer saber o que eu havia feito e por que, mas ele confiou em mim depois de ver como tornei mais fáceis os momentos finais de sua esposa. Ele não fez perguntas quando me pegou depois de minha cirurgia, e nunca me pressionou por respostas mais tarde. Simplesmente esteve lá por mim num momento em que eu precisava de um amigo, e esteve por perto desde então, respeitando minha privacidade o suficiente para me apoiar, e, ao mesmo tempo, sabendo bem o suficiente para me deixar livre. Em troca, embora eu nunca houvesse dito a ele sobre David, perguntei-lhe se, a partir daí, pudesse me chamar pelo meu nome real, Bobbie Jo. Uma parte de mim que gostaria de poder compartilhar com Luke. — É você mesmo, querida? Onde vem se escondendo? Reviro os olhos para o benefício de Luke e recebo um sorriso nervoso dele em troca. — Agora, Landry. Que coisa a

183


se dizer. Não é como se nós não houvéssemos trocado mensagens desde que voltou ao rancho. — Mas ainda seria bom ouvir sua voz de vez em quando, — ele me repreende. — Sinto sua falta. As crianças sentem sua falta. Não é o mesmo por aqui sem você. E meu coração cambaleia de novo, eu odiava estar longe das

crianças,

meus

instintos

maternos

clamando,

especialmente por sua filha, Taylor. Verdade seja dita, sempre que escrevo em meu diário, ela é como eu idealizo minha própria filha. Inteligente, loura, cheia de vida. O sorriso de Luke vacila um pouco quando ele vê o quanto as palavras de Landry estão me afetando. Em pânico, prossigo, a necessidade de controlar minhas emoções. — Não venha me contar nenhuma história de pescador, vaqueiro. Parece que ainda há muita algazarra acontecendo por aí. Isso que acabei de ouvir no fundo foi um mergulho? Ele ri. — Sim, eu estou grelhando alguns bifes à beira da piscina para um jantar tardio. Ruby está vindo e.... — Espere um minuto...Ruby Brier? Um sorriso malicioso atravessa meus lábios quando os olhos de Luke encontram os meus. — Não comece, Bobbie Jo — Landry pronunciou lentamente. — Nós estávamos lá no centro de câncer, saindo do leilão, e as crianças a convidaram. Como ela tem me ajudado a organizar a defesa do paciente da organização e tudo mais, pensei, por que não? Agora é um momento tão

184


bom quanto qualquer outro para lhe agradecer por tudo o que ela tem sido para mim. — Bem, como dá para ver, não estou sozinha aqui também. — Pisco para Luke. — Estou sentada ao lado de seu grande atrativo de leilão em pessoa. Landry cospe o que quer que estivesse bebendo. — Single? — ele engasga. — Você está com o Single? É difícil decifrar o que está acontecendo na cabeça de Landry agora, mesmo para mim, mas Luke se inclina para frente e corajosamente entra para a conversa. — E aí, cara? Beleza? No entanto, Landry rudemente o ignora. — Bobbie Jo, estou no viva-voz? Quando o rosto de Luke fica branco, tento rir. — Bem, sim. — Desligue, por favor. E é quando começo a ficar preocupada porque este não é o Mike Landry que conheço. Não posso sequer olhar para Luke quando levanto o celular até o ouvido. — O que é isso? — Bobbie Jo, apenas... o que você acha que está fazendo? — Landry começa. — O que? nada! — Ele deveria estar em um encontro com a vencedora do leilão esta noite. Então... o que está fazendo aí com você? O rosto de Luke se transforma de branco para verde, e coloco minha mão sobre meu coração acelerado.

185


— Relaxe, Landry. Ele saiu com ela. Posso garantir pessoalmente por ele. — E eu realmente quero saber como você conseguiu isso? — Porque ele me contratou para cuidar da mãe, — Deixo escapar. — Por isso te ligamos. Landry suspira pesadamente na outra extremidade, e tudo o que posso fazer é dar de ombros para Luke enquanto ele enterra a cabeça nas mãos. Os bifes estão chiando na grelha, e eu espero que Landry entregue um por um, antes de responder: — Pensei que tivéssemos um pacto, Bobbie Jo. Sento-me em linha reta, como se houvesse sido pega fazendo algo errado. — Nós temos. — Então por que está aí com um dos meus jogadores?— ele pergunta, à queima-roupa. — Não é desse jeito. Seu telefone toca e ele não me responde de imediato. Em vez disso tudo que ouço é uma cadeira raspando sobre o cimento enquanto ele a arrasta para mais perto das crianças gritando na piscina. Eu espero, ficando cada vez mais ansiosa, até que ele finalmente responde: — Não é? Porque agora mesmo estou lendo um e-mail que acabou de ser enviado para mim. Você quer saber de quem é? — Ele faz uma breve pausa só para gemer no meu ouvido. . —A jovem que o ganhou no leilão... Heidi Foster Ela está reclamando sobre o quão decepcionada esteve a noite 186


toda, e eu nem sequer passei a linha de assunto ainda. Então, quero saber, Bobbie Jo: Por que Luke terminaria seu encontro cedo e viria correndo para você? Eu gemo, e Luke olha para cima, segurando a testa. — Ele não veio correndo para mim. Veio correndo para sua mãe, Landry. Não posso fazer nada se acontece de nós três estarmos vivendo na mesma casa. Landry se exalta. — O que?! — Você me ouviu, — eu respondo com calma. — Bobbie Jo, o que pode haver de errado com Carla Singleton que você teve que ir e morar com eles? Luke mastiga o lábio, me observando. É isso, momento da verdade. Não posso estragar tudo para ele. — Ela teve um acidente na cozinha e queimou as mãos. Então não pode fazer muita coisa. É por isso que estou aqui. Tudo bem, eu não menti descaradamente para ele. Não faria isso. Mas será que o pouco que disse a ele seria o suficiente? — Então, é apenas um arranjo temporário? — ele estimula. — Eu realmente não posso dar-lhe um prazo, Landry, — Me esquivei. — Cada cliente é diferente. — Mas isso não explica por que sou a última pessoa a saber disso, — ele bufa. — Você não é, — eu respondo mais suavemente, a fim de suavizar suas penas eriçadas. — Luke não queria incomodá-lo sobre isso. Me ofereceu o trabalho na noite em 187


que você me entregou os ingressos para sua casa, e não ter quaisquer outras oportunidades de emprego imediatas, decidi aceitar a dele. — Está me dizendo que você poderia jurar sobre uma pilha de Bíblias que isso é tudo? Que é nada mais do que um trabalho para você? Cruzo os dedos atrás das costas enquanto olho para Luke. — Eu juro. — Porque não preciso de mais nenhum drama quando se trata de Single, Bobbie Jo. O que preciso é que ele comece a trabalhar duro para que eu possa tirar o escritório das minhas costas por causa dele, — resmunga. — Eles não gostam de como ele está com medo da própria sombra, especialmente quando não houve nenhum aumento notável nas vendas de ingressos para compensar. Uau, Landry está ainda mais desgastado trabalhando para os Heimlichs do que jogando para eles. Mas pelo menos agora o comportamento irritante está começando a fazer sentido.

Ele

não

queria

Luke

na

linha

porque

está

enfrentando um grande incêndio, e não estava disposto a deixar um de seus jogadores vê-lo suar. — Landry, eu entendo, e Luke também. É por isso que me contratou. Para dar-lhe a paz de espírito que precisa para sair e jogar todos os dias. — A linha inferior, Single tem que começar a bater na bola do jeito que fez no ano passado, — responde Landry. — Então, se você pode aliviar um pouco a pressão dele em casa 188


e mantê-lo focado no estádio, acho que sua estadia aí é uma coisa boa. — Sério? — Eu chio, e Luke desloca a cabeça para o lado, como se estivesse tentando decifrar minha reação. — Sim, basta lembrar, nenhuma gracinha, Bobbie Jo, — Landry me escarnece. — Single está por aí, mas ainda não chegou lá. Sua autoconfiança ainda é extremamente instável. Então não vá amarrar o pobre rapaz com seus truques femininos, tudo bem? — Landry, você me faz parecer... não vou nem dizer. E finalmente recebo aquela grande risada, exagerada dele — Que tipo de irmão mais velho eu seria se não cuidasse da minha irmãzinha? — Um bom irmão mais velho, — o repreendo. —Ah, e.... aproveite seu encontro com Ruby. — Não é um encontro... — Uh-huh... Tchau, Landry, — murmuro, desligando na cara dele, irmãzinha malcriada que eu sou. Mas é claro que Luke ainda está ansioso porque, antes que eu possa sequer desligar o telefone, pergunta: — O que ele disse? — Bem, não está animado com toda a situação, mas vai superar, — respondo da forma mais diplomática que posso. — O importante é que consegui evitar o assunto. De qualquer maneira, ele ainda não faz ideia sobre o Alzheimer da sua mãe. Com a emoção, Luke fica de pé, me puxando junto com ele, e seus braços imediatamente envolvendo minha cintura. 189


— Obrigado, obrigado, obrigado, — ele sussurra em meu cabelo. — Muito obrigado. Ele me envolve em um grande abraço, e eu balanço para trás e para a frente sob meus pés. É uma sensação agradável e segura, e meus joelhos se dobram enquanto eu derreto em seus braços como se não houvesse outro lugar no mundo em que eu gostaria de estar. E só quando ele se inclina um pouco para trás que percebo que estou agarrando tanto a manga de sua camisa que acabei puxando a gola de sua camisa para baixo, deixando os ombros a mostra. Incapaz de desviar o olhar, meus olhos famintos seguem o caminho da pele exposta em seu corpo, de seu bíceps esculpido em toda a clavícula até o pescoço. Meu coração aperta quando a luz noturna brilha sobre algo que eu não havia notado antes, uma pequena cicatriz deixada pela lesão, e tudo o que quero fazer é colocar meus lábios ali, pronta e disposta a fazer o que fosse preciso para que desaparecesse para sempre. Vendo a maneira como o estou olhando, ele desliza o dedo ao longo de minha bochecha e sussurra: — Landry estava certo, sabe. Larguei meu encontro e vim correndo para você. E eu me derreto como nunca antes. Isso é loucura. Ele não é meu tipo. Não gosto de caras baixinhos, sensíveis, caras que deixam o coração à mostra. Mas ter olhos nos olhos como temos agora, ele me vê e eu o vejo. Não tenho que olhar para cima. Ele não está me dominando. Somos iguais. E nunca senti isso com um homem antes, nunca.

190


Ele se move, e eu pisco, sabendo que não é uma boa ideia. No fim só vou partir seu coração. Não posso deixar que isso aconteça. Não posso...Mas, oh... Eu gemo contra sua boca quando ele pressiona os lábios cheios nos meu. Eles são tão quentes, tão ternos, e não consigo ter o suficiente deles. Subindo um pouco, faço o que queria fazer e acaricio a cicatriz no lado de seu pescoço, ele suspira, abrindo ainda mais a boca para mim. Quando sinto seu hálito quente em meu rosto, não hesito. Aprofundo o beijo, gemendo contra ele enquanto saboreio a doçura açucarada de sua língua, sem parar até minhas mãos estarem enterradas em seu cabelo, amando o fato de ser ainda mais macio do que pensei que seria. — Lukey! Onde está você? Lukey! E assim

tão de repente como

nos unimos,

nos

separamos. Colocando sua camisa de volta no lugar, ele ofega, comicamente tombando a cabeça. — Boa noite, Roberta. Giro em meus calcanhares, o peito arfando. — De novo não… — Mas pense nisso. Não é o que fez tão bom? A antecipação? — Ele sorri para mim. — Basta esperar até a próxima vez. — Ah, é? — Sorrio de volta para ele. — Quem disse que vai haver uma próxima vez? — Seus lábios.

191


Sua resposta é tão verídica que começo a rir, e enquanto ele anda pelo corredor em direção ao quarto da mãe, eu sou recompensada com o ronco baixo, sexy de sua risada. Cada homem com os quais já me envolvi me fizeram chorar. Inclino-me contra a parede e aprecio o calor persistente do corpo de Luke no meu. Nunca pensei que fosse encontrar alguém que me fizesse rir. Mas a questão é: com tantas coisas contra nós, será que posso permitir-me acreditar que ele realmente possa ser meu?

192


Capítulo Vinte

Mergulho as mãos na pia e jogo água fria no rosto. Deixando-a escorrer do cavanhaque, tento relaxar um pouco. Durante a última hora, tive que sentar-me no sofá com Roberta, assistindo TV com minha mãe no meio de nós. Ela está tão tentadoramente perto, e ainda assim não posso tocála, nem lhe perguntar como estamos, porque não consigo ter nenhum momento a sós com ela. Balancei a água do rosto. Faz uma semana desde que a beijei, e cada vez que tento roubar um momento sozinho com ela, todos esses obstáculos continuam surgindo. Ou estou em casa e ela fora, ou estou livre e ela ocupada. As poucas vezes em que realmente estivemos juntos na mesma sala, mamãe parece sempre estar lá também. É realmente a vida atrapalhando, ou ela está propositalmente me evitando? De qualquer forma, estou enlouquecendo. Depois daquele beijo, viver na mesma casa está ficando muito mais difícil do que pensei que seria. Está me matando saber quando ela está no chuveiro, ou pior ainda, ouvi-la rolar na cama enquanto estou deitado, acordado do outro lado da parede. Sejamos honestos. Eu não esperava que um beijo mudasse tudo, mas nunca imaginei que continuaríamos exatamente do mesmo jeito que antes. E não sei como 193


avançar. Não são as mulheres que geralmente fazem esse tipo de coisa? São elas que colocam rótulos em tudo, indicando que limites precisam ser cruzados e quando. No entanto Roberta não está fazendo nada disso. É como se estivesse deixando que eu definisse o que éramos. — Luke, está tudo bem aí? Eu me agarro às extremidades da pia, lembrando de quando eu disse exatamente essas mesmas palavras a ela depois de, sem querer, ter lhe dado uma ducha fria, algo que eu realmente poderia usar agora mesmo. Estou a um passo de abrir a porta e puxá-la para dentro só para invadir sua boca doce e macia. Isso é o que um homem forte e confiante faria. — Sim, estou bem. Mas eu não sou um homem forte e confiante. Agora mesmo, sinto-me mais como um menino assustado. Por uma razão muito grande — David Nichols vai lançar contra os Beaveres este fim de semana. —Tem certeza?— ela pergunta novamente. Deus, por que ela teria interesse em ter um covarde como eu de namorado? Eu devia estar animado, ansioso por colocar um cara como Nichols em seu devido lugar, mas não estou. — Tenho certeza, — respondo. Prendo a respiração, mas tudo está quieto. E estou feliz por ela ter ido, porque como ao menos começaria a explicar pelo que passei para ela? A dor debilitante que sofri nas mãos de Nichols está gravada em meus sentidos. Pendendo a 194


cabeça para o lado, coloco o dedo na cicatriz em meu pescoço, lembrando como era ter que inalar pelo o meu próximo fôlego sem saber se ele estava indo antes de apagar. De qualquer maneira, não posso ficar no banheiro do térreo a noite toda também. Com um gemido frustrado, eu saio. E lá está ela, esperando por mim. — Você ficou lá tempo demais. Lutei por uma resposta. — Sim, não estou me sentindo muito bem. Acho que vou me deitar. Ela segura meu braço. — O que tem de errado? Aí está, aquela eletricidade. Sinto no segundo em que ela me toca, e não há como negar a intensidade dos sentimentos que tenho por ela. Respiro fundo e tento manter a postura. — Nada, apenas uma dor de cabeça. Movo-me para passar por ela, mas ela não solta meu braço. — Por que não toma algum remédio para a dor? Levantando os olhos para os dela, dou-lhe um leve indício de sorriso. — Não acho que aspirina possa ajudar. — Está nervoso, não é? — Sobre o que? — Sobre este fim de semana. Suspiro, e ela sabe que me pegou.

195


— Luke, está tudo bem. — Sua mão viaja do meu braço até meu ombro, e meus músculos ondulam em resposta. Sua mão para, e exalo alto, arrastando os pés. Ainda assim, ela não diz nada, não me dá o menor sinal de encorajamento. Deixo meu olhar cair, passando-o sobre seu corpo, e pelo lindo rubor subindo por seu pescoço, tenho certeza que não sou o único que sente o calor crescendo entre nós. Dou-lhe um momento, esperando que ela me diga o que quer. Mas ela permanece quieta. Na verdade, ela nem sequer se move. — Vou para a cama, — sussurro. Juro que a ouço gemer, mas é tão suave que não tenho certeza. Oh Deus, se é esse o doce som da submissão saindo de seus lábios, não há nada que eu queira mais do que pegála em meus braços e levá-la para cima comigo. Agora, ela é a única coisa que pode me fazer esquecer que Nichols está vindo para a cidade. Tudo o que quero fazer é afogar-me naqueles claros olhos azuis dela. Estou pronto para me perder dentro deles. Ela dá um passo para trás. — Boa noite, Luke. E me destrói ouvi-la pegar a promessa que está sendo construindo entre nós e apenas ir embora. — Roberta... — Lamento. Ela começa a dar passos lentos para trás, dando-me um sorriso fraco. — Está tudo bem. Descanse um pouco.

196


Só que mais tempo sozinho não é o que preciso agora. O que realmente preciso é ela.

197


Capítulo Vinte e Um

Como Landry disse, tudo o que posso fazer é viver dia após dia. E depois da noite que tive, batendo um home run em meu primeiro at bat, espirro a água das poças que começaram a surgir em todo o campo, sentindo-me como uma criança novamente. Depois de ser afastado do jogo, comecei a apreciar as pequenas coisas ainda mais. No entanto, meus companheiros de equipe não estão muito felizes com isso, mesmo com a palestra do dia de abertura de Landry ainda fresca em suas mentes. — Não é um pouco tarde para isso? monstruoso

gigante

de

corridas

curtas,

Rob

— Nosso Reardon,

resmunga ao meu lado. Ele é a possibilidade número um na organização, 1,95 de altura e 106,5 quilos de puro músculo. E, aparentemente, ele não está muito interessado em ceder à uma pequena tradição Beaver Field, que exige que os jogadores em posição ajudem a equipe a colocar a lona no campo. Então talvez seja minha responsabilidade dar um bom exemplo e fazer o que meu pai teria feito. — Sim, provavelmente é. — Sorrio para ele. — Mas é uma das coisas que amo em estar no escanteio. Você começa a arregaçar as mangas. Se sente parte das coisas.

198


— Você realmente acha isso divertido, não é? — Ele pega um pedaço da lona que está ondulando acima de minha cabeça e puxa-o para baixo para eu agarrar. — É melhor do que ter que jogar nove innings com você, — consigo dizer com uma expressão séria. Como meu parceiro de jogo duplo, Rob estragou uma saída fácil bem antes de os árbitros darem o aviso de atraso devido à chuva. Não conseguiu uma boa aderência na bola, sem dúvida porque seus dedos estavam tão molhados quanto os meus. Ainda assim, cometer um erro defensivo não era como ele esperava terminar o dia. Ele olha para mim por cima do ombro, a chuva escorrendo de seu boné, pelo nariz e queixo. Meu lábio inferior começa a tremer, porque seus olhos parecem estar saltando para fora. Quando ele escorrega e quase cai, eu rio, e engraçado, Rob ri também. —

Deus,

isso

deve

ter

sido

ridículo

visto

das

arquibancadas, — Rob geme. — Espero que ninguém tenha gravado. — A Aww, R-squared não quer nenhuma gravação embaraçosa de si mesmo por aí quando brilhar na cena de Nova York, — Hoff o indaga. — Alguns de nós sabem como rir de si mesmos, Hoff, — Respondo rápido. — Deveria tentar algum dia. É um esforço grupal quando lutamos para desprender a lona encharcada de chuva do campo. A monstruosidade de uma lona se agita com a brisa atrás de nós, aparentemente viva e recusando-se a ser domada. Minhas chuteiras estão 199


afundando na terra encharcada ao mesmo tempo em que me esforço para manter o ritmo de Rob enquanto ele nos guia através do diamante. — Ria o quanto quiser, Single, — Hoff diz, respirando com dificuldade. — Porque com certeza não estará rindo amanhã. — Então, qual é o plano? — Rob pergunta, baixando a voz. — O primeiro cara que enfrentá-lo vai atirar seu bastão e desafiá-lo? — Não seja um idiota, garoto, — esbraveja Hoff. — Se alguém vai desafiá-lo, serei eu. — Não penso assim, rapazes, — Zombo. —Não preciso que vocês lutem minhas lutas por mim. Rob olha para baixo. — Bem, você não vai lidar com ele sozinho. Pode esquecer — Embora eu ache que ele tentaria algo estúpido assim, — Hoff murmura para Rob sobre minha cabeça. — Falo de um complexo de Napoleão. — Sim, bem, ele não bateu em você. Ou bateu, Hoff? — Olho para ele. O chefe da equipe está dirigindo a equipe no meio do rugido da tempestade, ritmicamente cantando, — Heave ho! Heave ho! — Não que isso vá fazer muita diferença, as condições de campo já estão tão ruins que não há nenhuma chance de retomarmos este jogo. O que significa que na próxima vez que entrar em campo, será amanhã à noite contra a seleção dos New York Titans' Triple-A, o Clash 200


Clearwater. E tenho total intenção de lidar com David Nichols eu mesmo. Não me importo em ter que bancar o tolo. Não me importo

em

ser

multado.

Quaisquer

que

sejam

as

consequências, estou pronto para fazer o que tenho que fazer. — Single, eu entendo. É pessoal. Mas Nichols é louco. Você não pode simplesmente ir para cima dele. Precisa de um plano, — Rob exorta. Oh, eu tenho um plano, Rob. Você só não sabe o que é ainda. — E aposto que ele aprendeu uma coisa ou outra no tempo que passou na prisão, — murmura Hoff. — Apenas colocou no saco de truques sujos. — Você tem que agarrá-lo pela frente da camisa e segurar, — Rob aconselha, demonstrando o que quer dizer, forte o suficiente para segurar sua parte da lona com uma mão. — Vai te ajudar a ficar reto para manter o equilíbrio pelo maior tempo possível. Faça o que fizer, não deixe que ele te derrube. — Porque aí já era, — concorda Hoff — .Gente, qual é! Parem com isso, — gemo enquanto luto com a lona pesada e encharcada. — Se virar um banho de sangue, não vamos deixá-lo lá enquanto Nichols o surra até morte, — Hoff geme, o rosto vermelho pelo esforço. — Vamos tirá-lo de cima de você se for preciso. Viro a cabeça para olhar furioso para ele. — Puxa, obrigado, mas isso não vai acontecer. Eu garanto. 201


Rob segura a lona com ambas as mãos, e mesmo que Hoff e eu sejamos orgulhosos demais para admitir, acho que nós dois soltamos um suspiro de alívio. O garoto é forte como um touro. Nós passamos pela primeira base, cobrindo completamente o campo interno, e os fãs sentados nos assentos com seus ponchos e guarda-sóis começam a se agitar e assobiar em aprovação, alguns com seus celulares direcionados diretamente para nós. Dando-lhes um grande aceno, bato no braço de Hoff. — E aí, velho. Não foi divertido? Ele relutantemente levanta a mão para cumprimentálos. — Oh, maravilhoso. Quando um estalo ensurdecedor de trovão ressoa, Rob analisa o céu com cautela. — Ok, o craque dos Beaveres precisa sair do campo imediatamente. — Quer dizer eu? — Brinco com ele enquanto corremos ao lado uns dos outros, deixando Hoff e os joelhos de apanhador no chão. Estou prestes a ultrapassar os passos desajeitados de Rob quando sou forçado a recuar depois que ele bate na aba de meu boné e a empurra para baixo, me cegando. Ele ri enquanto corre. — Não se preocupe. Nós te damos cobertura, Single. Nada vai acontecer com você. Não desta vez. Ergo a cabeça e chuto a terra com o pé. Quando descobri que David Nichols havia voltado ao Triple-A, a 202


última coisa que queria era que ele se tornasse uma distração. Ser ferido me ensinou uma lição de humildade. Não sou o batedor que era antes de me machucar; isso é certo. No 195, minha média de rebatidas se parece mais como um número interestadual do que uma estatística de beisebol respeitável. E me recuso a ser o elo mais fraco que retém a equipe. David Nichols não vai machucar mais ninguém dos Beaveres, não se eu puder evitar. Lanço um olhar apressado na seção 110, e meu estômago revira quando não vejo minha mãe em lugar nenhum. Relaxe, idiota. Roberta provavelmente apenas a tirou de debaixo da chuva. Eu queria lhes entregar os ingressos para o jogo de amanhã à noite contra o Clash. Com a ameaça de Nichols iminente bem em minha frente, as queria aqui comigo para apoio moral. Mas Roberta havia me dito para deixá-las virem esta noite em vez disso, insistindo que não suportaria me ver enfrentar Nichols outra vez. E o pensamento

de

causar-lhe

mais

sofrimento

reforça

a

determinação para o que estou prestes a fazer. Sento-me no degrau mais alto da reserva e olho para além da lona, e a ideia se formando em minha mente é a única maneira que tenho de resolver isso sem mais violência. Meu pai era bem conhecido por fazer palhaçadas, com malabarismos com bolas nos aquecimentos, correndo por Bucky Beaver entre innings. Era tudo sobre diversão e criar uma atmosfera agradável para os torcedores. E agora, há um monte de rostos emburrados nas arquibancadas, graças a mais uma chuva. 203


Isso não ajudará Landry na questão da dobra de espectadores do ano passado. E agora estou prestes a ter um confronto muito aguardado amanhã à noite, mas talvez se algo de positivo sair disso, talvez sua ira contra mim diminua um pouco. — Parecendo poderoso, noventa e nove. E ali está Roberta, segurando um guarda-chuva sobre a cabeça da minha mãe e sorrindo para mim da parte superior do banco. — Senhoras. — Tiro o boné para elas. — As nuvens parecem abrir por aqui sempre que vocês duas estão em casa. — Chuva, chuva, vá embora, — Minh mãe canta para si mesma. — Volte outro dia. — Pode ser verdade, mas não explica o que diabos você está fazendo. — Roberta levanta uma sobrancelha para mim enquanto chuto minhas chuteiras e continuo a tirar meus estribos e meias. — Landry quer manter os torcedores felizes, certo? — Olho para ela, um sorriso puxando meus lábios. — Bem, então alguém tem que dar-lhes uma razão para estar. — O que quer dizer?— ela exige enquanto empurro as calças do uniforme para cima dos joelhos. Esfrego as mãos. — Baby, é hora de escorregar. Assim que ela percebe o que estou prestes a fazer, saio do banco em meus pés descalços, relaxo quando os caras em campo começar a torcer por mim. Eles gritam tão alto que os 204


torcedores que sobraram embalam na torcida. Alimentandome de sua energia, salto sobre a base do arremessador e deslizo de barriga em toda a superfície escorregadia da lona. Com água espirrando a minha volta, abro os braços e pernas e deslizar todo o caminho até a base principal. Quando paro completamente, me ajoelho e limpo o rosto com a frente do uniforme, levantando o punho para a multidão. E eles vão a loucura, um enorme sorriso em cada um de seus rostos. E me sinto bem em fazer as pessoas sorrirem, mesmo que este não seja o tipo de craque que Landry procura. Esse é Rob, não eu, não mais. A tocha fora passada. Agora sou apenas o cara se recuperando de uma das lesões mais terríveis da história do beisebol. E com o retorno iminente de David Nichols para Beaver Field, isso é algo pelo que não quero ser conhecido, assim como meu pai era muito mais do que o Sr. Beaver. Mas, aparentemente, a torcida ainda não acabou comigo quando outro enorme rugido ressoa da multidão. Olho rapidamente e percebo que não estão torcendo por mim, não mais. Em vez disso, sua atenção está voltada para o que está acontecendo atrás de mim. Viro-me bem a tempo de ver Roberta escorregando para mim, a camiseta molhada colada ao corpo, a massa de cachos saltando ao redor de seus ombros

enquanto

copia

meu

mergulho,

esticando

e

completando uma descida perfeita. Ela está rindo histericamente quando se vira de costas e aperta os olhos para o céu, a chuva batendo no rosto. Curvo-

205


me para protegê-la, tanto quanto posso, olhando em seus olhos. — Roberta, por que diabos você fez isso? Seus olhos brilham para mim. — Por que você fez? Ela me pega com isso, mas não há tempo para discutir. Os guardas estão começando a se aproximar de nós, e ela não deveria estar aqui fora comigo. Tecnicamente, ela não tem permissão. Aceno, gritando: — Está tudo bem. Ela está comigo. Ela é minha... E não posso acreditar que quase digo... namorada. Ela olha para mim, com o peito subindo e descendo. — Eu sou o quê sua?— pergunta timidamente. Preciso parar enquanto estou em vantagem e deixar por aquilo mesmo. Nós havíamos nos beijado. Só isso. Nunca conversamos sobre isso. Não sei o que ela está pensando, e tenho muito medo de descobrir. Ofereço-lhe a mão para ajudá-la. — Você é meu...bote salva-vidas. — Uau, Luke. Que poético. Ela envolve seus dedos com os meus, quase me puxando para cima dela quando perco o equilíbrio. Caindo de joelhos, uma das minhas mãos na terra ao lado de seu quadril, enquanto a outra apertada com força na dela vai parar em sua barriga. Meu coração está batendo forte e rápido. Não consigo respirar. Com pingos de chuva caindo em sua pele, cabelo, e todo o corpo.... Nunca vi ninguém tão linda como ela está agora. 206


A multidão está vaiando e gritando enquanto nos assistem, e os sinto minha nuca pinica em constrangimento. Eles esperam que eu a beije. Sei que esperam. Mas não quero uma plateia. Se alguma vez voltarmos ao momento em que paramos, será para nós, não para eles. Me levanto, usando os músculos das pernas desta vez para que ela não possa colocar a mão em mim, enquanto a coloco de pé. Ela se agarra a meu bíceps, e me controlo um pouco até que a outra mão desliza em meu peito. Olho para ela, querendo tanto tocá-la como ela me toca. Mas então se afasta para torcer a água dos cabelos. Derrubado, olho para longe, e o pensamento de que geralmente está sempre em primeiro em minha mente vem surge imediatamente. — Oh meu Deus! Onde está minha mãe? Roberta coloca a mão levemente no centro de minhas costas. — Luke, eu não teria vindo aqui se seu amigo Danny não houvesse aparecido para dizer olá. Ela está bem. Respiro fundo para me acalmar. — Ok, por que você veio? Ainda não me deu uma resposta. Nos dirigimos ao banco de reservas, e ela cruza os braços em frente ao corpo, de repente, tenho consciência do quão fina a camiseta realmente é. — Qual é, Luke. Está tentando se encrencar apenas para não precisar jogar nas séries contra Clash. Estou certa? Tiro meu boné e coço a parte de trás da cabeça. 207


— Não… — Sério? — ela me confronta. — Luke, não há problema em ter medo, mas você não é uma piada, então não aja como uma. Tremo por dentro com a avaliação, sabendo que ela está certa, mas não quero admitir isso a ela. — Parece uma psiquiatra, — murmuro. — Bem, eu não sou, mas sei o que é ter um medo absurdo de alguém. O que? De quem ela tem medo? Ela não tem medo de ninguém. É destemida. Quero perguntar mais, mas não posso, não com Danny em pé ali. — Eu me sinto tão excluído. — Ele faz beicinho debaixo do guarda-chuva da minha mãe. — Sim, certo. Você é o único que ainda está seco, — brinco. — Já que nem veio ajudar com a lona. — Ah, cara. — Ele dá de ombros, levantando o guardachuva e fazendo minha mãe agarrar seu pulso e puxá-lo de volta para baixo. — Você sabe que não tenho que fazer isso. Tenho que poupar meu braço. Tudo que preciso é evitar fazer uma coisa estúpida dessas. — Você também apanhou? — Minha mãe pergunta, olhando para ele. — Não, Ma. Ele está apenas sendo uma obra prima. — Ele bateu, não foi?— ela continua. —Ele bateu no meu Lukey. E bateu nela também. Ela aponta para Roberta, e pela primeira vez desde que a conheci, ela parece realmente aterrorizada. 208


— Não...não, ele não fez isso. — Sim ele fez. — Minha mãe bate o pé. — Ele fez...Ele fez...Ele fez! Contrariar mamãe sempre pareceu irritá-la. Roberta sabe disso. Então por que optou por fazer isso agora, quando estamos em público? — Acho que é hora de ir, — murmuro, lançando um olhar furtivo ao redor, esperando que ninguém esteja olhando para ela. — Mas, cara, — Danny argumenta enquanto Roberta pega o guarda-chuva dele. — Você não pode sair de uniforme. É contra as regras. Bom. Outra infração. Definitivamente não vou jogar amanhã. Coloco o braço de minha mãe debaixo do meu. — Ah, é? Observe. Olho para Roberta, mas é como se ela estivesse perdida em algum lugar dentro de sua mente. Sim, ela está desapontada comigo por não enfrentar meus medos, mas aquilo não é por minha causa. É por causa da segurança dos meus companheiros de equipe. Não quero que eles se machuquem em alguma briga por mim. Mas me pergunto se isso é tudo o que fiz de errado. É também porque não a beijei lá? Felizmente, sei como corrigir isso. Basta esperar até chegarmos em casa...

209


Capítulo Vinte e Dois

Meu sangue gela no minuto em que saio do Subaru de Luke. — Oi, Sra Singleton! É Heidi. Heidi Foster. Se lembra de mim? Estudei com seu filho. — O que ela está fazendo aqui? — Murmuro para Luke. — Não sei, mas ela não vai ficar. — Ele entrega sua mãe para mim, colocando as mãos nos em nossos ombros, como se tentasse drenar de nós toda a força que pudesse antes de ter que lidar com Heidi. — Leve minha mãe para dentro para mim, tudo bem? Vou me livrar dela. Passada há muito de sua hora de dormir, a mãe de Luke balança a cabeça contra mim, meio adormecida. Ela é basicamente incoerente neste ponto, e é óbvio que não reconhece Heidi. A última coisa que precisa agora é que sua memória seja posta à prova. — O que há de errado com sua mãe, Luke? — Heidi chama-se enquanto seus saltos batem na calçada. — Ela não parece muito bem. Está doente ou algo assim? Luke vira relutantemente para encará-la. — Heidi, agora não é uma boa hora. Vá embora. — Mas eu vim até aqui para trazer estes brownies. —Ela levanta a caixa que está carregando. — Estive trabalhando

210


como escrava durante a noite toda. Não vai ao menos experimentar um? Sob a luz da varanda, as rugas na testa de Luke se aprofundam. — Por que fez isso? Coloco a chave na fechadura, mas me viro a tempo de vê-la colocar a mão em seu braço. — Para desejar-lhe boa sorte, bobo. Vai jogar contra o cara que bateu em você amanhã à noite, não vai? Ele tira a mão de Heidi seu braço. — Desculpe, mas não preciso de uma dúzia de brownies comprados em alguma loja para fazer isso. Ela empurra a caixa contra o peito. — E daí se são comprados ou não? Você gostou bastante dos do Russo. Eu bufo da varanda, e ela olha para mim. — Quem é ela...a empregada? Encaro-a, e ela me dá um pequeno sorriso altivo por trás de seu batom perfeitamente aplicado. Mas antes que eu possa realmente rebatê-la, Luke responde por mim, — Esqueça, Heidi. Não é da sua conta. — Então está me dizendo que ela é sua namorada? Engraçado como você nunca disse isso em nosso encontro. — Isso é porque nosso encontro não era real, Heidi. Ou você não sabia disso?

211


Estremeci; essa não é a abordagem que ele deveria ter com ela. Fazê-la ficar com raiva apenas a deixará ainda mais curiosa a meu respeito. Abro a porta da frente para a mãe de Luke e a deixo entrar na minha frente. Devo voltar lá, ou apenas ficar de fora? Debato internamente sobre o que devo fazer enquanto sigo os pés desajeitados da Sra Single até a sala e a coloco em frente à TV, mantendo o volume baixo para que possa pegar pedaços do que está acontecendo lá fora, através da porta parcialmente aberta. Os olhos dela já estão começando a fechar quando coloco uma almofada sobre suas pernas. Ela está prestes a cair no sono. Não tem como ela sair deste sofá, e não posso simplesmente deixar Luke lá fora, com Heidi enquanto a escuto disparar pergunta após pergunta para ele. Tenho que ajudá-lo a sair dessa confusão. Se farei isso, agora é a hora. Com efeito, cruzo a sala e volto para a varanda. Fechando a porta atrás de mim, interrompo o interrogatório chamando por ela, — Você está certa. Eu sou a empregada. Heidi levanta a cabeça e me lança um olhar gelado, nada feliz por eu ter entrado no que ela assumiu ser uma conversa particular entre Luke e ela. — Sério? Então, por que você estava no banco da frente do carro e não no de trás? — Ela sorri para mim, seus dentes brancos brilhando quando eu inadvertidamente caio direto na armadilha que ela armou para mim. Luke se atrapalha por alguma razão. 212


— Minha mãe... gosta de ficar no banco de trás. — E você não? — Ela pergunta, sua atenção fixa em mim. — Sinto muito. Qual é seu nome? Sua falsidade me faz ranger os dentes. — Roberta. Roberta Bennett. Ela bate um dedo nos lábios. — Por que você parece tão familiar? Já nos encontramos antes? — Acho que não. — Tem certeza? — Positivo. Ela sorri presunçosamente para mim. — Interessante. — O que? — Luke pede, ficando excessivamente na defensiva. — Eu nunca esqueço um nome, ou um rosto. Tenho certeza que uma hora ou outra descobrirei de onde a conheço, Roberta. Aí riremos muito disso, tenho certeza. Um tremor de incerteza invade minha mente. Ela não tem como saber quem sou, tem? Não é possível. Ninguém sabe que eu era casada com David, nem mesmo Landry. Ela se aproxima de Luke, e antes mesmo que ele saiba o que está fazendo, ela coloca a mão em seu ombro, ergue-se na ponta dos pés, e beija sua bochecha. — Há mais de onde veio isso. — Ela dá um passo para trás, sorrindo para ele. — Me liga. Jogando os cabelos, ela me lança um olhar de desprezo, deixando-me saber, em termos inequívocos de que ela está no 213


jogo. Não está disposta a desistir de Luke sem luta. Ela o quer, e está determinada a tê-lo, independentemente se eu planejo pará-la ou não. E uma pontada de ciúme me esfaqueia no estômago quando percebo que ela é tão pequena que teve que ficar na ponta dos pés para beijá-lo. E aquele lado homem das cavernas que está em cada homem de sangue quente deve achar isso lisonjeiro. Homens sempre preferem as meninas que são menores do que eles. É Biologia 101. Depois que ela se afasta em um Jetta Volkswagen que é doentiamente do mesmo tom de vermelho de seu batom, Luke dá passos largos até o meio-fio e joga os brownies dentro de uma das latas de lixo. Ele tira o pó das mãos, me fazendo rir. Ok, talvez ele não esteja tão na dela assim. Ele pisa na varanda, sua mandíbula definida em aborrecimento, e não resisto a provocá-lo, — Eu teria comido esses brownies, se não os quisesse. Uma luz de boas-vindas entra em seus olhos enquanto o canto de sua boca começa a se contorcer. — Agora você diz. Eu rio, e fico feliz quando ele retribui. Tudo o que quero fazer é ajudá-lo a relaxar e não pensar no amanhã. Levantando meus braços, agarrar-me a seus bíceps e o giro. — O que está fazendo? — ele pergunta, imediatamente tenso agora que minhas mãos estão sobre ele. — Relaxando você. Está uma pilha de nervos, Singleton. — Aperto as mãos em seus ombros, pronta para tirar todas as torções. 214


Enquanto continuo a tocá-lo, ele assume a mesma postura torturada que fez na noite passada. Posso sentir a tensão que está carregando em seus músculos quando começo a lhe dar uma massagem realmente necessária. É como se toda vez que chegasse perto, ele sentisse a necessidade de manter-se recuado por conta de como estive rejeitando seus avanços. Com a ideia de David na cidade, tenho me sentido tão insegura de mim mesma, cedendo a minhas

dúvidas

sobre

lutar

por

qualquer

tipo

de

relacionamento com Luke. Agora, na véspera da maior noite de sua carreira, o coitado está todo amarrado. Tenho que consertá-lo. Tenho que fazer isso direito. Mas assim que esfrego o lado de seu pescoço, ele geme como um homem em seu limite. Mordo o interior de minha bochecha, mas não antes de um suspiro ofegante escapar de meus

lábios.

Ouvindo

isso,

ele

vira

a

cabeça

muito

ligeiramente, fazendo com que as pontas suaves de seu cabelo encontrassem meus dedos, e sinto aquilo fundo em mim.

Deslocando

minhas

mãos,

tomo

conta

dele,

aumentando a pressão de meus dedos. Pendo a cabeça e suspiro quando a parte de trás de sua camisa roça em minha testa. Ele permanece imóvel, ainda assim há um ligeiro relaxamento da postura, então sei que meus dedos estão fazendo sua magia. Então quando corro minhas unhas pelo comprimento de suas costas, ele abre as pernas afastadas e começa a deslocar seu peso de pé para pé . — Roberta, — ele sussurra, movendo as mãos ao lado. — Talvez devêssemos... 215


— Continuar lá dentro? Eu não poderia concordar mais. De uma só vez, ele se vira e me pega, e coro quando ele segura meu traseiro em suas mãos. Sabia que ele era forte, mas saber e experimentar são duas coisas completamente diferentes. Cruzo meus tornozelos atrás de suas costas, fechando as pernas em volta de sua cintura, e é como se não conseguisse chegar perto o suficiente dele. Quero mais... muito mais. Ele abre a porta e entramos, e não posso evitar sussurrar, — Luke, e a sua mãe? — Meu peito é pressionado contra o seu quando ele respira fundo, mas não faz nenhum movimento para me pôr no chão. Em vez disso, se dirige para as escadas. — Luke! Nós não podemos deixá-la aqui, — protesto contra a sua orelha. Relutantemente, ele me coloca de pé. — Quanto tempo mais? Eu sorrio para o que ele está sugerindo. — Vinte...trinta minutos, no máximo. Ele passa a mão sobre a boca quando olha para mim. — Faça em vinte. Bato o cotovelo quando o celular toca em minha bolsa. — Ugh, é melhor atender. Pode ser Landry. Sabendo que Luke me observa curvada, meu rosto esquenta. Estou prestes a responder quando uma mensagem de chamada não atendida aparece na tela. — Era ele? — Luke pergunta. — Não,— respondo, tentando esconder meu celular dele. 216


Mas ele é mais rápido que eu. Ele pega da minha mão e o estuda um momento antes de entregá-lo de volta para mim. — Rhode Island. Quem você conhece em Rhode Island? — Ninguém. Provavelmente é um engano. Ele me dá um sorriso torto. — Tudo bem. Então, por que está tão assustada com isso? — Não estou!— Rebato, afastando-me dele.— É só que… Ele dá um passo na minha frente. — O que? Tiro o cabelo do rosto e o jogo sobre o ombro. — Talvez agora não seja uma boa hora. Está tarde. Tenho que colocar sua mãe para dormir. Você precisa... Ele se aproxima de mim. — O que eu preciso é... Coloco a mão sobre seus lábios. — Por favor... não diga isso. — Um arrepio percorre meu corpo quando sinto seu hálito quente em meus dedos, mas faço meu melhor para contê-lo. — Luke, sinto muito. Eu não estava pensando. Não posso... não podemos. Afasto-me dele, me odiando por isso. Mas não estou perto de dar o próximo passo com ele, não quando sei muito bem quem jogou em Rhode Island esta noite.

217


Capítulo Vinte e Três

Sete anos antes Tiro

a

lasanha

do

micro-ondas

e

sorrio.

Estive

esperando por isso o dia todo. Depois de trabalhar em turno duplo na casa de repouso, tudo que quero fazer é relaxar em meu novo apartamento com um copo de vinho e o delicioso lanche que comprei no pequeno deli italiano da rua. Ainda estou conhecendo tudo o que o bairro tem a oferecer, mas, mesmo assim, ele já parece uma casa para mim, mais do que viver com David jamais pareceu. Colocando meu prato sobre a mesa, sento-me, pronta para

devorar

tudo

dentro.

Esta

noite

é

toda

uma

comemoração por ser uma mulher solteira novamente já que meu advogado ligou hoje para me dizer que David tinha assinado os papéis do divórcio. É oficial. Eu havia tomado o primeiro passo para dissolver nosso casamento. Ainda assim, estou um pouco ansiosa, sabendo que meu endereço atual teve que ser listado para a papelada ser arquivada. Eu poderia ter falado e levantado argumentos sobre minha segurança, mas tive vergonha de explicar para o advogado a verdadeira razão pela qual deixei meu marido. Nenhuma mulher em seu juízo perfeito teria ficado tanto tempo como eu fiquei, e eu sabia que meu advogado, junto com o resto do 218


mundo, provavelmente me julgaria por perder nosso bebê, pensando que a culpa era minha. Tem sido difícil. Não vou mentir. Começar de novo em um lugar novo, trabalhando por vezes, dezesseis horas por dia, a fim de fazer dar conta das despesas, bem, não tem sido exatamente viver uma vida de Riley. Mas é minha vida, e ninguém pode tirar isso de mim. Estou livre. Posso respirar novamente. E mesmo que eu esteja sozinha, sem ninguém com quem contar, estou conseguindo. Estou me apoiando. Não estou em dívida com ninguém. E cara, é muito bom. Levanto o garfo até a boca e sopro, observando a onda de vapor voar para longe da massa. No passado, eu teria queimado minha boca na pressa de satisfazer meu estômago roncando, mas sei mais agora. Posso esperar. Fiquei muito boa em ser paciente. Então ouço um barulhinho estranho vindo da porta de trás. Ainda estou me acostumando com os sons do lugar novo, mas confesso que nunca ouvi nada como isso antes. É uma espécie de tilintar constante, tão fraco que quase não o ouço até que o motor na geladeira parou. Abaixando meu garfo,

levanto-me

para

investigar.

Cautelosamente,

me

aproximo da porta e olho através da cortina na janela, e por um momento, o ruído para. Está escuro lá fora. Com a luz acesa aqui, é bem fácil de ver, mas quase impossível enxergar lá fora. Dou um passo de distância. Provavelmente estava apenas imaginando coisas. Não há ninguém lá fora. Estou 219


prestes a retomar minha refeição quando o som volta novamente, desta vez mais alto. Irritada, me esgueiro de volta para a porta em minhas mãos e joelhos, permanecendo bem abaixo do ponto de vista da janela. Quando chego mais perto, noto pela primeira vez como o botão está se movendo-se ligeiramente, como se alguém estivesse do outro lado da porta, tentando arrombar a fechadura. Um arrepio percorre minha espinha. Em pânico, me levanto e corro para o telefone na parede. É quando o barulho do outro lado aumenta drasticamente, passando de um tilintar sutil para um baque alto, pesado enquanto algo começa a golpear com força a base da porta. Com a mão apertada, soco os números no teclado. — 911, qual é sua emergência? —

Acho

que

alguém

está

tentando

invadir

meu

apartamento. O bater para, como se quem estivesse lá fora estivesse se esforçando para ouvir o que estou dizendo. — Seu endereço...? — a atendente começa. Mas eu já não posso ouvir o que está sendo dito quando todo o batente da porta começa a se sacudir e agitar como se estivesse sendo arrancado de suas dobradiças. Me acovardo no chão, agarrando-me ao telefone. — Eles estão entrando! — Eu grito. — Tenho um marco na chamada. Um oficial estará aí em um momento. — Oh, Deus... O que eu faço? — Lamento. 220


— Fique na linha comigo, senhora, — pede a atendente, antes de começar a ler roboticamente uma lista de sugestões para mim. — Não se envolva com o agressor. Se ele tiver uma arma, não tente tomá-la. Mas, então, paro de prestar atenção quando um flash de luzes vermelhas e azuis reflete pela janela e a porta se aquieta. — Senhora, nosso oficialr está a caminho. Ele baterá em sua porta da frente. Por favor, deixe-o entrar quando bater. — Tem certeza de que é seguro? — Sussurro. — E se eles ainda estiverem lá fora? E se...? — O reforço está a caminho, senhora. ETA em dois minutos ou menos. Pode, por favor abrir a porta? Forço-me a me levantar do chão quando a batida vem. — OK. — Não desligue. Por favor, deixe-me saber quando o oficial entrar. Deixo

cair

o

telefone

e

corro

para

a

frente

do

apartamento, destravando o trinco e abrindo a porta. Ao ver minha expressão aterrorizada, o oficial de cabelos grisalhos me dá um sorriso tranquilizador. — Está tudo bem, minha senhora. Meu parceiro já checou a área. Quem quer que estivesse lá fora está muito longe. Tomo um suspiro instável. — Tem certeza?

221


— Positivo, — afirma. — Vamos percorrer e ele pode mostrar-lhe o que encontrou. — Ele bate o walkie-talkie. — Frente das instalações seguras, vítima ilesa, 10-4. Sinto como se estivesse em transe quando ele me guia através do que já havia chegado a considerar meu santuário, o restante do meu jantar deixado sobre a mesa, o telefone pendurado pelo cabo. O oficial, sabendo o que fazer, começa a falar com a atendente quando aponta para mim pedindo que eu abrisse a porta dos fundos. É tudo como um borrão quando abro a fechadura com o coração na garganta, apenas para ser saudada pelo rosto cheio, redondo do parceiro do policial. — Boa noite, senhora. Fiz uma varredura inicial. — Ele vasculha o quintal com o feixe de sua lanterna antes de deixá-lo repousar na base da porta. — E a única coisa que encontrei foi isto, — ele diz, mostrando uma série de pegadas de lama, uma sobreposta à outra. Suspiro, e ele me lança um olhar simpático. — Alguém estava determinado a entrar aqui. Tem alguma ideia de quem possa ser? Minha garganta se aperta, ouço a voz de David em minha cabeça. Viu, eles já pensam que é culpa sua... culpa sua... culpa sua... Quando começo a tremer, o oficial estende a mão para mim. — Está tudo bem, senhora. Você está segura agora. Balanço a cabeça. — Não, não estou, — murmuro, olhando para ele com tristeza. — Nunca estarei segura outra vez. 222


Capítulo Vinte e Quatro

—E olhe para esta gente. O próprio Luke Singleton de Stockton decidiu agitar as coisas no que acabou por ser a quinta chuva da temporada dos Beavers. O tempo não tem sido bom para os torcedores do Beaver este ano, mas com certeza Single deu um show para a multidão da cidade natal na noite passada. Uma mulher ainda pulou da arquibancada para entrar na brincadeira. Brenda, você já viu uma lona ser utilizada desse jeito antes? — Não, Phil. Nunca vi. Mas com certeza parece divertido! — Bem, pessoal, se pensaram ir para Beaver Field neste fim de semana-não vão. Todos os três jogos contra o Clash Clearwater já estão esgotados. Quão alto você acha que os pássaros vão cantar quando David Nichols sair do curral? — Ensurdecedor, Phil. A quantidade de zumbido em torno desses três jogos é bem incrível. Aqui esperamos que o filho do Sr. Beaver consiga bater uma para fora do estádio em Nichols. Phil, você não concorda? Ganhar é a melhor vingança. Desligo a TV e esfrego os olhos depois de dormir um pouco, se dormi. Depois que Roberta foi para a cama, assisti o vídeo de quando fui atingido, pela primeira vez. E assim que comecei, simplesmente não pude parar. O assisti uma e outra vez, revivendo o momento em que a bola bateu contra o meu pescoço, e o tiro ardente de dor que se seguiu logo depois, 223


antes de tudo ficar preto. Mas não importa quantas vezes assista, ainda não consigo entender como Nichols pôde simplesmente ficar na base enquanto eu estava deitado no chão, inconsciente, insensível, incapaz de respirar. Aquele cara é mesmo humano? Roberta boceja enquanto vai para a cozinha e se dirige diretamente para a cafeteira. — O que está fazendo tão cedo? — Vendo você no noticiário da manhã. Seus ombros endurecem enquanto sua mão permanece imóvel em cima da pia. — Eu estava no noticiário? —Sim, nós dois. Ela liga a torneira. — Mencionaram meu nome? — Não. — Acaricio distraidamente meu cavanhaque. — Era apenas uma mulher anônima que ficou com toda a diversão. — Mas dava para ver que era eu?— ela pergunta, ainda sem se virar. — Acho que sim. Eles deram zoom em nós no final. Ela se move até a geladeira e olha dentro, escondendo o rosto de mim. — Sim, mas por quanto tempo? — Não sei, uns dois segundos. Por quê? — Mantenho a porta aberta para ela. — Não me diga que você é tímida com câmeras. Ela olha para mim, os olhos brilhando de raiva. 224


— Eles estão tão desesperados por notícias por aqui que colocam qualquer coisa na TV? Eu rio. — Não é preciso muito para se tornar notícia em Stockton. Eles precisam de algo para falar além do tempo. — Claro, porque não há melhor visual do que uma mulher com uma camiseta molhada, não é? — ela resmunga. Largo a porta enquanto ela se afasta. — Ei, não fique com raiva de mim. Não tenho nada a ver com isso. Ela enfia a mão no saco de café, e coloca, pelo menos, três colheres a mais no filtro. — Você certamente teve algo a ver com isso. Eu não teria corrido até lá se não fosse para salvar sua bunda. Pego meu celular do bolso e sacudo na frente dela. — Bem, não funcionou, porque meu gerente já me enviou uma mensagem dizendo que além de me multar em US $ 250 pela brincadeira, ainda vou jogar hoje. Ela gira. — O que? — Minha ideia brilhante não funcionou, — respondo com tristeza. — Acho que tudo se resume a venda de ingressos. Sou quem todo mundo está vindo ver este fim de semana. Se eles não me colocarem para jogar, nunca terão os torcedores de volta. Vigorosamente aperto o botão de ligar, ela fica ali, pensativa, mordendo o lábio. O aroma convidativo de café fresco começa a permear pela cozinha, mas passo para o 225


balcão e pego um saco de chá de uma das latas floridas de minha mãe, tirando duas canecas da prateleira à minha frente. — Camomila... sério? — ela pergunta. Depois de encher minha caneca na pia, a coloco no microondas, pressiono o botão de noventa segundos, e espero. — Preciso desesperadamente de um cochilo antes do jogo. — Não pode deixá-lo te atingir. Você é mais forte do que pensa. — Ah, é? — É. — Ela pega minha mão. — Não o deixe ganhar, Luke. Você já passou por muita coisa para que isso não valha nada. Encontrei seus olhos. — Você realmente quer que eu jogue contra ele? Ela solta um suspiro trêmulo. — Não, claro que não. Mas também não quero vê-lo detonado outra vez. Você é o melhor homem, Luke. Vale mais do que uma centena de Davids. Meu lábio treme. — Você fala sobre ele como se o conhecesse. O microondas apaga e ela solta minha mão, voltando-se para o café. Mas não rápido o suficiente para esconder a expressão de puro terror que acabou de tomar conta de seu rosto.

226


— Não tão rápido. — Puxo a parte de trás de sua camiseta. — Qual é, Luke, — ela suspira. — Me largue. Deslizo minha mão até sua cintura e a puxo contra mim, acariciando seus cabelos. — O que é isso? — Nada, — diz ela sem rodeios. — É engraçado como você sabe, basicamente, tudo o que há para saber sobre mim, e eu ainda não sei quase nada sobre você, — sussurro. — Não tem que ser assim. Pode se abrir para mim, Roberta. Ela balança a cabeça com firmeza contra meu peito. — Não, é aí que você se engana, Luke. Eu não posso. — Por quê? Não vou trair sua confiança. Não vou. — Não é isso, — ela responde, o corpo tenso. — Escute, se você está lamentando o que quase aconteceu entre nós na noite passada... — Corajosamente limpo a garganta. — Está tudo bem. Só quero que saiba que estou aqui por você. Como um amigo, como qualquer coisa. Não importa. Ela se vira em meus braços. — Não me arrependo, mas... Tremo quando as mãos dela descansam em meu peito, o calor me atingindo através da camiseta branca e lisa. — Mas…? Ela abaixa a cabeça, mas puxo seu queixo para cima, forçando-a a olhar para mim. — Luke, anos atrás... — Ela hesita. —Eu estava ca.... 227


O telefone da casa toca na parede, interrompendo-a. Tremendo, ela sai de meus braços. — Vou... — Ela começa a passar as mãos pelos cabelos. — Vou atender. — E antes que eu possa detê-la, ela cruza o cômodo, passando por mim e pega o telefone. — Alô? — Seus olhos quase saltam enquanto ela se envolve a si mesma. — Como você…? Seja qual for a cor que ainda havia em seu rosto, desaparece, e percebendo que estou olhando para ela, vira as costas para mim. — Não me importo. Nunca mais ligue aqui novamente. Ela bate o telefone, assustando-me, em seguida, estica a mão e se apoia na parede. Alguns estranhos segundos se passam sem que nenhum de nós diga uma palavra. Eu engulo, decidido a provocá-la, sem saber mais o que fazer. — O quê? Você está recebendo ligações aqui agora? — Operador de telemarketing estúpido, — ela responde em voz baixa. — Acho... acho que vou acordar sua mãe agora. — Roberta, — murmuro. — Espere... Não terminamos ainda. Mas ela já se foi.

228


Capítulo Vinte e Cinco

Eu me levanto e vou para a porta novamente. Espiando através da cortina, examino a rua, à procura de automóveis que não pertencem aos vizinhos. Sente-se, Bobbie Jo. Ele não está lá fora. Ele está no jogo. Mordendo minha unha do polegar, abro a página do Twitter dos Beavers. T7: O Clash cai no fim. Clearwater leva 4-3. Hoffman, Singleton e Reardon aguardando para Stockton. O palco está montado. De acordo com todas as informações que eu li on-line, às vezes o seu braço fica consumido pelo cansaço nos períodos finais, sempre que o Clash têm a liderança. Ele vai entrar para o jogo. Eu sei disso. E, como se estivesse lendo minha mente, um novo tweet aparece. B7: Nichols entra em campo. Não posso ficar no sofá. Ando ao redor da sala, segurando a mão contra a testa. Eu acho que estou ficando doente. E eu sei que não é apenas o pensamento de arremessar na frente de uma multidão que esgotou os ingressos, que está estimulando David esta noite. Neste momento, ele está lançando as suas jogadas de aquecimento no apanhador, adicionando uma velocidade extra na sua já intimidante bola rápida. É pessoal agora. Luke, não é apenas 229


mais um alvo de prática, não mais. Ele é o cara que sua exmulher está tendo um caso. Se ao menos eu não tivesse tido sexo casual... Se ao menos eu não acabasse na TV... Se ao menos ele não tivesse estado em Stockton para ver isso e começar a fazer perguntas... Todos os “se ao menos” no mundo não vão mudar nada. Ele me encontrou. Ele sabe que eu estou na casa de Luke Singleton. Os “como” e os “porquês” do que estou fazendo aqui não importam para ele. Eu estou com outro homem, um homem que não é ele. Em sua mente distorcida, isso é tudo que importa. Batida! Minha cabeça vira na direção da escada. — Luuuuukey! Onde está você? Sem outro pensamento, subo os degraus. Meu coração começa a acelerar. Por favor, não me diga... Eu cambaleio para dentro do quarto no fim do corredor, só para encontrar a mãe de Luke inclinando-se a meio caminho para fora da janela. Eu suspiro, correndo em sua direção. — Sra. S.! O que está fazendo? — Eu quero voar com suas bonitas borboletas. — ela geme. — Elas disseram que vão me levar para Lukey. — Minhas borboletas? Sra. S., não existem quaisquer borboletas lá fora. — Sim, há! Eu as vi, as azuis e verdes. Meu coração dá uma guinada. Há borboletas azuis e verdes na capa do meu diário. Eu tenho escrito nele na sua 230


frente muitas vezes, mas até agora nunca pensei que ela tivesse notado isso. Mas então, houve aquele comentário espontâneo que ela fez na noite passada no Campo dos Beavers, o único sobre David atingindo Luke... E eu. Oh Deus, ela leu o que eu escrevi? — Vou pegar as borboletas para você. — Eu negociei com ela. — Eu sei onde elas estão, mas você tem que se afastar da janela. Eu esperava que ela discutisse comigo, resistindo a qualquer tentativa de tirá-la do caminho do perigo, mas em vez disso, ela fracamente desaba sobre mim, soluçando. Eu roubei um olhar sobre sua cabeça, e a tela caída no chão. E se fosse tarde demais? E se ela pulasse antes que eu pudesse chegar até aqui? Eu a abracei contra mim enquanto ela chorava copiosamente, tremendo. A fim de acalmá-la, a balancei para frente e para trás em meus

braços,

cantarolando

suavemente.

De

todos

os

momentos para ela fazer algo assim... é como se de alguma forma ela soubesse que seu filho está em perigo e está tentando chegar até ele de qualquer maneira, tudo graças a mim. Aperto seu corpo minúsculo e tiro o seu cabelo longe do rosto. — Está tudo bem, Sra. S. Eu tenho você. Ela soluça, tentando recuperar o fôlego. — Mas Lukey... Eu me abaixo para o pé da cama e relutantemente alcanço o meu telefone. — Vamos ver como ele está indo, certo? 231


Ela esconde o rosto no meu ombro, quase como se ela tivesse medo de descobrir. Reunindo minha coragem, eu ligo. B7:

Hoffman

K

procurando.

*

MUDANÇA

DE

ARREMESSADOR * Nichols sai. Juarez entra. Singleton deve continuar. Jogando o telefone de lado, eu solto um grito de alegria e a mãe de Luke me olha. Cobrindo minha boca, eu esfrego suas costas, muito sobrecarregada para falar. David não vai arremessar para Luke. Ele está seguro. — Lukey está bem? Ela pergunta, com os olhos brilhando. — Sim. — Eu aceno, sorrindo para ela. — Ele está bem. Ela se aconchega contra mim. — Bom. Eu sabia que suas borboletas iriam pegá-lo a tempo. Pacientes com Alzheimer tendem a tornar-se mais infantis em seu comportamento. Alguns membros da família acham que é incrivelmente difícil de lidar, mas agora eu não acho que eu já testemunhei um sentimento tão genuíno de contentamento de ninguém antes. Sem sentido ou razão, ela confia em mim. Como se de alguma forma, de alguma maneira, ela soubesse que eu nunca mentiria para ela sobre seu filho, que ambas se preocupam com ele, cada uma a nossa própria maneira. Isso que a maternidade é, uma ligação ao longo da vida entre mãe e filho, que desafia qualquer explicação. Seu amor por Luke se eleva acima de tudo, até mesmo sua doença. É poderoso, eterno. 232


Meus olhos começam a marejar, porque eu nunca vou chegar a experimentar plenamente o que é isso. Qualquer chance que eu tinha de ter o meu próprio filho passou. E estar nesta sala, com a mãe de Luke agarrada a mim, eu faço algo que eu não fiz em um longo tempo. Eu choro desoladamente,

e

simplesmente

boto

tudo

para

fora.

Lágrimas estão escorrendo pelo meu rosto. Meu nariz está escorrendo.

Minha

respiração

está

saindo

em

jorros

irregulares. E a mãe de Luke nem sequer levanta a cabeça, desta vez, ela simplesmente mantém-se em mim, conforme eu a seguro. — O que é, querida? — ela sussurra uma vez que eu começo a me acalmar. — Porque você está tão triste? Eu devo contar a ela? Seria tão bom tirar isso do meu peito e ter alguém para me ouvir. Eu pisco para o teto, tentando colocar as palavras juntas. — Eu fui mãe, também. — Está escuro lá fora. — Ela treme. — Por que não está em casa com seus filhos? Eu limpo os olhos com a manga da camisa. — Bem, eu ainda me considero uma mãe, mesmo que eu nunca realmente dei à luz. Um dos meus bebês nasceu morto, e o outro... Torcendo o rosto, ela bate com o seu punho na cama. — O que? Por quê? — Bem. — Eu expiro profundamente. — Você estava certa quando disse: ‘Ele bate nela também’, porque o meu 233


marido na época costumava me bater quando ficava bravo. Meu bebê nasceu morto, porque ele me chutou no estômago. Ela levanta os olhos. — Nenhum homem tem o direito de bater numa mulher. Concordo com a cabeça, engolindo minhas lágrimas. — É por isso que me divorciei dele. Mas ele realmente nunca aceitou que tudo estava acabado. Ele tem feito coisas, coisas terríveis, e eu estou com medo, Sra. S. Tenho medo do que ele vai fazer a seguir. Ela beija o topo da minha cabeça. — Não se preocupe. Meu Lukey irá protegê-la. Eu deixo escapar uma risada trêmula. — Eu sei que ele tentaria, Sra. S., mas se você soubesse o que meu ex-marido é... — Lukey não tem medo de ninguém. — Ela me silencia, empurrando minha cabeça para baixo em seu ombro e acariciando meu cabelo. — Ele não recua de uma luta. Eu enfaixei os seus cortes. Eu coloquei gelo nas suas contusões. Eu sei. Minha mente é bombardeada com uma enxurrada de imagens, a imagem dele sendo atingido, a cicatriz em seu pescoço, o medo em seus olhos antes dele sair para o estádio. Ele já atingiu David e perdeu. Eu não posso deixá-lo fazer isso de novo, não por minha causa. — Mas se ele machucar você... Ou Luke... — Respiro com dificuldade. — Eu nunca poderia me perdoar.

234


— Tenha fé em meu filho. — Diz ela, sua voz de repente forte e segura. — Ele nunca decepciona ninguém. Ele não vai te decepcionar também. Olho para ela, e ela sorri para mim, com os olhos mais lúcidos que eu já vi. É como se ela ainda estivesse aqui comigo, ciente e consciente. Até que ela dá um tapinha na minha bochecha e se arrasta atrás de mim, voltando para debaixo das cobertas. — Eu vou para a cama agora. Você pode fechar a janela? ela suspira, fechando os olhos, completamente exausta da nossa conversa. Eu imediatamente sinto sua perda, mesmo que ainda estejamos juntas na mesma sala. Eu estou tão afetada por isso que eu não posso imaginar o quão difícil estes momentos devem ser para Luke. Pacientes com Alzheimer estão aqui em um minuto, e desaparecem no próximo. Isso causa estragos em seu coração como nada mais pode, especialmente quando envolve o amor de um pai. Deslizando a janela para baixo, eu viro a alavanca em cima, trancando-a, e olho para a noite. David estará na cidade pelos próximos dois dias, e eu não me arriscarei.

235


Capítulo Vinte e Seis

Desço pela linha e bato meu punho contra meus companheiros de equipe, celebrando o nosso alcance de três jogos do Clash. Teremos que os confrontar novamente em agosto, mas por agora, a vitória é doce. — Dor de cotovelo, minha bunda. — Hoff murmura atrás de mim à medida que caminhamos para fora do campo. Danny começa a andar em passos lentos para trás. — Sim, e ele teve que percorrer todo o caminho de volta para Nova York para uma ressonância magnética? Merda. Você é o único cara para quem ele acabou arremessando, Hoff. Rob corre para nós e aperta minha cabeça através do boné. — Isso é porque ele tem medo de nosso menino aqui. Eu empurro sua mão para longe. — Vamos, rapazes. Não acabou, não por um longo tempo. Você realmente acha que foi decisão dele de sair do jogo? Eu não. Há uma tonelada de publicidade negativa em torno dele agora. Mas quando as coisas se esfriarem — e sempre esfriam — ele estará de volta, pronto para ir. Hoff esmaga suas luvas. — E estaremos prontos para ele.

236


— E eu que pensava que o velho odiava todos nós. — Rob brinca. — Mas apenas a menção de uma rixa, e ele é todo sobre isso. Danny cutuca o ombro de Rob. —Você viu seus olhos brilharem? Ele não pode esperar pelos dias de folga de agosto, para relaxar e não ter nada para fazer. Hoff dá de ombros. — Quando se trata de escolher os lados... Sim, eu fico com arruaceiros como você, do que com caçadores de cabeças, como ele, de qualquer forma. Porque nenhum jogador tem o direito de bagunçar com a carreira de um cara. Eu sofri concussões suficientes para saber isso. — Então é por isso que você é do jeito que é. — Eu o cutuco. — Uma cabeça arrebentada demais? Ele bate nas minhas costas e passa. — Cuidado, garoto. Só porque eu vou para o batedor por você não significa que eu tenho que gostar você. Rob e Danny riem em silêncio enquanto o seguem para o banco de reservas, mas eu paro quando eu identifico Roberta e mamãe. Um fluxo constante de calor flui através de mim ao vê-las lá. Tem sido dias difíceis, ficando estressado por nada. Mas Roberta parece como ela mesma de novo, e estou muito feliz por isso. Estou prestes a me levantar sobre a cerca e me juntar a elas, quando uma voz irritante corta o ar. — Eu sei quem você é, agora! Você é ex-mulher de David Nichols, não é? 237


Heidi sorri brilhantemente para Roberta, e o meu sangue arde em brasa. Em um pulo rápido, eu vou para cima e sobre o outro lado, me inserindo entre elas. — Boa tentativa, Heidi. — Eu a olho furioso. — Agora cai fora daqui. Heidi me ignora, estudando Roberta atentamente. — Embora, ela tivesse cabelo loiro nessa ocasião... — Luke, eu — Roberta começa. Mas eu não terminei com Heidi, absolutamente não. Sigo até ela, fazendo com que ela recue. — Sério? Isso é o melhor que você pode fazer? Seus olhos piscam para mim com diversão. — Ela usava um nome diferente, então. Qual era? Oh sim...Bobbie Jo. Eu

me

detive

no

caminho,

porque

com

aquele

comentário descuidado, Heidi planta com sucesso uma semente venenosa de dúvida em minha mente. A única pessoa que eu já ouvi referir-se a Roberta por esse nome foi Landry, um homem que ela confia com sua vida. Heidi bate palmas alegremente. — Eu sabia que estava certa. — Você não tem nenhuma prova! — Roberta chora, conforme minha mãe começa a se agitar ao seu lado. — Não tenho? — Heidi zomba, sacando seu telefone e empurrando-o na minha cara. — Luke, me diga que não é ela. Eu sinto o peso dos olhos de Roberta perfurando minhas costas, e eu não consigo me obrigar a olhar pra ela. 238


— Luke... — choraminga Heidi. — Vamos lá. Roberta avança em direção a ela. — Mas o que exatamente você está mostrando a ele? — Sua foto do casamento. — Ela se alegra. — Não me diga que você não se lembra de andar pelo corredor no grande dia? — E quer que acreditemos que o que você está me mostrando é real? — Defendo de volta com veemência. — Pelo que sei você poderia ter tido alguém editando seu rosto no corpo de outra pessoa. Heidi revira os olhos. — Como se eu fosse ter todo esse trabalho. Roberta me olha tristemente antes de tomar o telefone da mão de Heidi. — Sim, mas você se incomodou em procurar isso em primeiro lugar. — Segurando-o na minha direção, sua voz começa a quebrar quando diz, — Vá em frente, Luke. Veja por si mesmo. Forçando-me a olhar, não há dúvidas sobre seus olhos azuis claros, o conjunto determinado de seu queixo, os braços em volta do homem que quase acabou com a minha vida. E isso me dilacera por dentro, não porque ela escondeu de mim, mas porque eu odeio ter que vê-la tão apaixonada por alguém que não seja eu, alguém tão implacável quanto David Nichols. Heidi dá de ombros.

239


— Eu a encontrei em um blog que mantém guias sobre todas as esposas e namoradas de jogadores da Maior Liga de Baseball. — Um site que você freqüenta muitas vezes? — Roberta murmura em desgosto. — Confie em mim, ser a esposa de um jogador não é tudo que se imagina ser. Eu acho que eu compraria uma passagem para sair de Stockton se fosse você. — Bem, eu faria um trabalho muito melhor para segurar meu homem do que você fez. — Retruca Heidi. — O que, você ficou casada com Nichols por tipo seis meses ou algo assim? Eu viro o telefone de Heidi repetidamente e olho fixamente para Roberta. — Você ia me contar? — Como eu poderia? — ela sussurra de volta. E isso é quando a imagem inteira se encaixa dentro da minha cabeça: ela mencionando de passagem um ex-marido, a revelação de que ela estava com muito medo de alguém, sua reticência de perseguir quaisquer sentimentos que ela podia ter por mim. Tudo se encaixa. Ela realmente era casada com esse monstro. Eu aperto a minha mandíbula. — Por que você o deixou? O que ele fez com você? — Nada. Eu olho para sua expressão aflita, e meu coração para na verdade que ela não é mais capaz de esconder de mim. Ela pode ter sido apaixonada por ele uma vez, mas agora mais do que qualquer coisa, ela tem pavor dele. E se o que ele fez para mim em público é qualquer indicação de quão cruel ele pode 240


ser, eu não posso imaginar o que ele deve ter feito com ela em privado. E me mata saber que ela estava ligada a um bruto como ele. — Ele é um homem mau! — Minha mãe grita, batendo o pé. — Ele é. Ele é. Ele é. — Sra. S., shhhh... — Sussurra Roberta. Mas eu conheço os sinais quando minha mãe está se esforçando muito para lembrar de algo importante. Roberta deve ter confiado nela... mas o quê? — Mãe. — Eu incentivo, cegamente passando o telefone de volta para Heidi. — Por que ele é um homem mau? O que ele fez? Ela vira a cabeça para me olhar. — Quem? Heidi bufa. — Boa. Mamãe solta um gemido lamentável, e Roberta é rápida em intervir. — Pare com isso. Você a está perturbando. Heidi se abaixa e murmura no rosto de mamãe. — Awww, Sra. Singleton. Você está bem? — Afaste-se de minha mãe, Heidi. — Eu advirto. — Mas Luke, algo está errado com ela. Roberta dá um passo, envolvendo o braço em volta da minha mãe. — Encontraremos você no carro, certo?

241


Tudo o que posso fazer é acenar com a cabeça quando ela começa a guiá-la em direção à saída, o rosto de mamãe enterrado na curva de seu pescoço. Enfurecido, eu me volto para Heidi. — Feliz agora? — O que? — Ela bufa. — Eu só estava tentando ajudar. —

Não.

Você

não

estava.

Eu

respondo

com

honestidade cega. — Você só queria provocar problemas, como você sempre faz. Mas não estamos mais na escola, Heidi. Já passou da hora de você crescer. — Você vai se arrepender de me tratar desse jeito. — Ela exaspera. — Porque eu conheço um monte de pessoas ao redor Stockton, bem como certos indivíduos nas organizações dos Beavers, que estariam muito interessados em ouvir que a sua mãe foi ao fundo do poço. Eu não estou disposto deixá-la ir longe com isso, e agarro o seu braço. — Não se atreva a dizer uma palavra a ninguém sobre ela. — Ou o quê? O que você vai fazer, Luke? — Seus olhos assumem um brilho diabólico. — Me bater? Eu imediatamente solto o braço dela. Eu não ameaço mulheres, isso não é quem eu sou, mesmo uma tão manipuladora quanto ela. — Sim, foi o que eu pensei. — Ela ri, pairando por mim. — Eu acho que garantir o meu silêncio me dá direito a muito mais do que o seu desprezo, não é? — Quando eu não disse nada, sua voz assume uma vantagem mais forte. — Encare 242


isso, Luke. Bobbie Jo... Roberta... Ou o que você quiser chamá-la... Está danificada. Nichols a tem tão abatida e com medo da própria sombra que ela não conseguiu nem mesmo te dizer que ela era casada com ele. É realmente isso o que você quer, quando você pode ter uma mulher ao seu lado que está confiante o suficiente para ser honesta com você sobre quem é? Eu cerro os dentes, ansiando, a não entrar em uma competição de gritos com ela. Ela passeia pelos degraus, sorrindo para mim, pensando que me tem exatamente onde ela me quer, sob seu polegar. Mas ela se engana se ela pensa que eu vou desistir de Roberta tão facilmente. Ela sempre será a minha garota sem medo, quer ela ainda esteja traumatizada por Nichols ou não. Tudo o que posso fazer contra toda a esperança de que, o que quer que seja que ela passou com ele, ela vai encontrar a coragem — a coragem que eu sei que ela possui — dentro do seu coração para se abrir para mim sobre o que ele fez com ela.

243


Capítulo Vinte e Sete

Nunca minta para um bom homem sobre o seu passado. Pode parecer uma boa ideia na hora, mas você só vai acabar machucando-o no final. Fique atenta e escute, ele é o único que merece sua confiança, e não aquele que veio antes dele. Um homem mau pode destroçar o seu coração, mas um bom homem pode abri-lo novamente. Não o engane como você foi enganada. Ambos merecem coisa melhor do que isso. Sublinho a última frase, uma, duas, três vezes. Não consigo desligar a minha mente, não importa o quanto eu tente. Eu realmente estraguei as coisas com Luke, e o único conforto que eu posso me dar agora é dizer a minha filha imaginária para não cometer o mesmo erro que eu. Então, eu estou surpresa quando ouço uma batida na minha porta. É tarde, muito tarde, mas eu deslizo para fora da cama, na ponta dos pés através do quarto. Hesitando, eu descanso minha bochecha contra a porta e sussurro, — Sim? A voz grossa e rouca de Luke cumprimenta meu ouvido. — Sou eu... Posso entrar? — Por que... A sua mãe precisa de mim para alguma coisa? — Não, ela está bem.

244


Eu me apavoro, aterrorizada com a finalidade do que isso poderia significar. — Eu não sei Luke. Agora não é exatamente uma boa hora. Mas sua voz profunda e suave reverbera através de mim. — Eu não estou perguntando como seu chefe. Estou perguntando como seu amigo. Nós não falamos em toda volta para casa. Eu estava muito ocupada tentando acalmar a sua mãe. No entanto, após colocá-la na cama, eu sabia que ele estava lá embaixo assistindo TV, e eu não queria me juntar a ele. Eu não me incomodei mesmo em dizer boa noite. Eu fiz o esforço consciente de evitá-lo, me esgueirando até o quarto. E agora ele está do lado de fora da minha porta no meio da noite, tão inquieto como eu estou. É inútil tentar me convencer de que eu posso me esconder dele. Mas, Deus... O que ele deve pensar de mim agora? — Roberta — Ele suspira. — Por favor… Lentamente, eu abro a porta, apenas para me perder nas profundezas agitadas daqueles olhos cheios de emoções. Não consigo me mover. Eu não consigo pensar. Apenas olhamos um para o outro, até o ponto onde estou nervosa o suficiente para perguntar: — O que... Sem chá? Ele balança a cabeça levemente. — Não essa noite.

245


— Oh... — Me remexendo, eu seguro o largo decote do meu top, de repente autoconsciente. — Bobbie Jo... — Ele sussurra, travando a si mesmo. — Está tudo bem se eu te chamar Bobbie Jo? Concordo com a cabeça, inclinando-me contra a porta e mantendo-a aberta para ele. Oh, eu amo como meu nome soa vindo de seus lábios — mas eu não posso lhe dizer, não agora. Em vez disso, o meu olhar desvia para baixo, para seus shorts, e como de costume, eles estão atingindo bem abaixo dos joelhos. Mas eu não estou mais o comparando a algum tipo físico ideal do que o homem perfeito deve ser. Eu apenas o observo e como eu respondo a sua presença no meu quarto, meu corpo completamente em sintonia com o seu. — Obrigado. — ele diz, dando um passo para frente, a manga levemente roçando meu braço. Corando, eu pressiono minha testa na porta conforme a fecho atrás dele, precisando de um ou dois segundos. — Por favor... você não tem que me agradecer. Ele percebe o estado dos meus lençóis amarrotados e empurra as mãos nos seus bolsos, arrastando os pés. — Umm... Sobre antes... Olho para ele com cautela. — Luke, eu sei que você tem todo o direito de me demitir, mas, por favor, eu lhe imploro, me ouça. Eu vou, mas eu não posso ir embora até que você tenha contratado alguém para me substituir. Os cuidados com sua mãe é o que importa aqui, não o que acontece comigo.

246


Ele foi em direção a minha cama e encarou meu diário. Meu coração praticamente para quando ele o pega e vira do outro lado. — O que é isso? Eu me aproximo dele, estendendo a mão para ele. — Nada. Mas ele é rápido demais para mim e o esconde atrás das costas. — Mais segredos, Bobbie Jo? — Não... — Eu o golpeio, mas ele apenas o mantém acima da minha cabeça. — É apenas... Pessoal. — Sim, eu sei tudo sobre ser pessoal. — resmunga. — Eu deixei você entrar na minha casa. Eu compartilhei com você tudo que há para saber sobre a minha mãe. E ainda... — Sinto muito, ta bom? Foi errado de minha parte esconder isso de você. Eu só não sabia como você iria encarar. Eu não quero que você me odeie. Uma linha se forma entre as suas sobrancelhas. — Odiar você? — Sim. — Eu murmuro. — Não que você não tenha todo o direito de me odiar. Ele coloca meu diário de volta na cama. — É isso que você acha? — E quando ele olha para mim, a dor em seus olhos é ainda mais acentuada do que antes. — Eu nunca poderia te odiar. — Mas depois do que David fez.

247


Ele se aproxima de mim, seus olhos nunca deixando meu rosto. — Aquilo foi ele. Sobre o que eu estou preocupado, não tem nada a ver com você. Eu aperto meus braços firmemente no meu peito. — Mas eu fui casada com ele, Luke. Alguma parte de você tem de me culpar por isso. Ele lentamente deixa escapar a respiração que estava segurando. — Apenas me diga. Minha mãe tinha razão no que ela disse sobre ele? — Você realmente precisa perguntar? — Eu sussurro. — Porque eu acho que você já sabe a resposta para isso. Colocando as mãos em meus cotovelos, ele olha profundamente dentro dos meus olhos. — Mas eu quero ouvir isso de você. Eu me esquivo pra longe dele. — Confie em mim. Você não quer saber. Ele permanece em silêncio enquanto eu sigo em direção à janela e olho para fora, meus olhos vagando para cima e para baixo na rua, à procura de qualquer coisa que pareça fora do lugar. David nunca vai parar de me caçar. Ele pode ter recuado por agora, mas ele estará de volta. E eu estou determinada a não estar aqui quando ele retornar. Encontro meu reflexo no espelho, eu sei o que tenho que fazer. — Luke, agora que ele sabe que eu estou aqui, eu não posso ficar. Não é seguro... Para você ou sua mãe.

248


Ele atravessa a sala em dois passos e me gira para encará-lo. — Você não vai a lugar algum, está me ouvindo? Mas não há como negar o medo em seus olhos, e eu empurro de volta contra seus braços. — Como você pode dizer isso quando você está com medo dele, você mesmo? — Você entendeu tudo errado. Eu não tenho medo dele. — Deslizando-me entre seus braços, ele fecha as mãos atrás da minha cintura. — Eu tenho medo de você. Você me deixar e ir para algum lugar onde eu não vou ser capaz de te proteger. Eu luto contra ele, porque é inconcebível que eu nunca serei capaz de estabelecer esse fardo que eu tenho carregado por tanto tempo. A vida não funciona dessa maneira. Eu acabei sendo outro problema para ele ter que lidar, um que ele não precisa. — Você não tem que me manter segura, Luke. Eu posso cuidar de mim mesma. Ele me abraça. — Você não está sozinha nisto, não mais. Você tem a mim agora, e eu não vou deixar nada acontecer com você. Meus pulmões se expandem contra seu peito. — Você não sabe mesmo o que ele fez para mim. — Então me diga. — Ele puxa para trás para descansar sua testa contra a minha, me acalmando com seu apelo. — Não importa o quão ruim você pensa que é eu não vou a lugar nenhum. 249


Seu hálito quente acaricia meu rosto enquanto seus polegares suavemente traçam círculos ao longo das minhas costas, me levando a me abrir para ele. Mas será que eu posso fazer isso, quando eu ainda estou tão envergonhada de mim mesma? Eu o seguro, disposta a fazer isso por sua causa. — Eu era jovem... Eu pensei que eu estava apaixonada. — E…? — E... — Eu suspiro. — Eu acho que se eu estivesse sendo completamente honesta, eu não era tão diferente de Heidi. — Eu endureço em seus braços. — Eu estava seduzida pela ideia de estar com um jogador de beisebol. Quando ele veio até mim no bar, eu estava tipo, uau, dentre todas as mulheres aqui esta noite, ele está na minha — um cara que vai a lugares, que está fazendo algo com sua vida. Eu penso na menina rebelde que eu era antes, e estremeço. Eu estava tão determinada a não viver uma vida normal, embora eu estivesse com tudo pronto para ir para a faculdade no outono, para me tornar uma enfermeira, assim como a minha mãe. Eu estava firmemente posta no caminho para conseguir um emprego bom, estável e vivendo em um bairro agradável e chato. E o pensamento absolutamente me aterrorizou. Eu senti como se estivesse caindo em uma armadilha cuidadosamente construída, que iria determinar como eu iria viver o resto da minha vida. Eu não queria me tornar a minha mãe, e eu queimei com ressentimento por dentro. Eu queria escolher o meu futuro. Eu não queria o que todo mundo estabeleceu pra si. Eu queria emoção, mistério... 250


Até mesmo uma pitada de perigo. E quando David me ofereceu o que eu pensei que estava procurando, eu agarrei com as duas mãos, sem a sabedoria para perceber o que eu estava jogando fora. E quanto tempo eu levaria para encontrar meu caminho de volta a um lugar como 44 Cedar Crest Lane. Saindo das minhas memórias, Luke pergunta baixinho: — E então? Eu enterro minha cabeça no peito dele. — Para encurtar a longa história, quando ele foi promovido de Duplo-A a Triplo-A, ele me pediu para ir com ele. Eu estava animada para começar de novo em uma nova cidade. Eu nem sequer me importei que acabamos morando em algum pequeno apartamento miserável. Eu só não sabia que eu me sentiria tão sozinha o tempo todo. Luke passa os dedos pelo meu cabelo, embalando depois a parte de trás da minha cabeça. — Mas ele, com certeza, não estava sozinho. Não demorou muito tempo para descobrir que ele estava me traindo. Na verdade, ele nem sequer tentou esconder isso. Era como se ele estivesse me deixando pistas para descobrir sua infidelidade. Sempre que ele estava em uma viagem, as mulheres começavam a adicioná-lo como loucas no Facebook. Então,

quando

ele

chegava

em

casa,

haviam

recibos

amassados em seus bolsos, com números de telefone rabiscados neles. Ele até mesmo saia da cama para atender as ligações de madrugada, na escada de incêndio.

251


— Você questionou ele sobre isso? — Luke sussurra em meu ouvido. Fechei os olhos com força. — Sim, e isso foi quando ele mostrou seu verdadeiro caráter. Ele não era o cara legal que eu pensava que ele era. A primeira vez que ele me bateu... — Eu engulo em seco. — Foi um grande choque. Eu paro e escuto o ritmo constante do coração de Luke, como ele bate profundamente dentro do peito. David deixou Stockton dias atrás. Ele está à milhas de distância, em Nova York. Ele não pode me pegar. Ele não está lá fora, rondando no escuro. Eu só tenho que continuar me dizendo isso. — Eu não entendo... — Luke me distrai. — Se você sabia como ele era, por que você se casou com ele? Por que você não o deixou? — Por que... — Eu murmuro, e Luke me aperta em seu abraço — Esperei muito tempo, apenas porque eu pensei que talvez o bebê tornasse as coisas melhores... — Bebê? — Ele esbraveja. — Mas você não tem nenhum... Você não é uma... — Luke, você não tem ideia do que ele é capaz de... O que ele fez para mim. Quando uma lágrima solitária rola pelo meu rosto, eu estremeço quando ele gentilmente a alcança e a seca. Sua mão treme enquanto ele ternamente aperta meu queixo. — Eu juro por Deus, enquanto eu respirar, ele nunca vai tocar em você novamente. Eu levanto os meus olhos para ele. 252


— Mas eu não posso ficar aqui, Luke. Você tem que entender, David nunca vai me deixar ir. Por anos, eu consegui ficar um passo à frente dele, mas as coisas são diferentes agora. Ele sabe onde estou e ele está vindo me pegar. Ele mesmo disse. Luke abaixa a mão do meu rosto. — Espere um minuto... você falou com ele? Quando? — Sim, ele ligou aqui naquela manhã que estávamos no noticiário. Ele me viu e... Eu aperto seu pulso, sentindo o pulso forte em suas veias. — Ele fez contato com você... em Stockton... na minha casa... e mesmo assim você não me contou? Eu deslizo meus dedos sobre as juntas da sua mão. — É por isso que você tem que encontrar alguém para ficar no meu lugar. Mas não posso sair a menos que eu saiba que a sua mãe vai ficar bem... — Eu abaixo a minha voz. — Até que eu saiba que você vai ficar bem. A culpa que eu sinto supera o aperto frágil que eu tenho sobre as minhas emoções. Eu não quero ferir o único homem que me deu o propósito e força para viver novamente. Quero consolá-lo. Deslizando meus braços em torno dele, eu me aninho contra o seu corpo, e ele suspira antes de me puxar para perto dele. Por alguns minutos gloriosos, nós apenas seguramos um ao outro, nenhum de nós querendo soltar. Ele parece tão certo, a cadência suave de sua respiração fazendo cócegas no meu ouvido, os pelos do seu cavanhaque raspando contra a minha testa. Mas não é o suficiente. Se 253


isto é realmente um adeus, então eu vou precisar de muito mais dele. Eu acaricio seu pescoço e uma onda quente de desejo se apodera de mim, como eu nunca sentii antes. Eu beijo a sua cicatriz e sua respiração se torna difícil, mas eu não paro, até guiá-lo para minha cama e puxá-lo para baixo comigo. Ele começa a tremer. — Você não pode ir. Não agora, não quando eu... Não quando eu me apaixonei por você. Eu trago seu rosto até o meu. — O amor... Eu nunca pensei que iria experimentar como é realmente sentir isso. — E agora? — Ele sussurra, tocando minha bochecha. — E agora... — Eu sorrio em seus olhos. — Eu finalmente sei. O que começa hesitante e inseguro, logo se transforma, consumindo tudo. Eu o quero mais do que eu quis qualquer homem antes. E pelo jeito que ele está me beijando de volta, eu sei que ele quer isso tanto quanto eu. Ele não resiste quando eu o rolo por cima de mim, e saboreio o prazer de ter cada polegada de seu corpo vindo para descansar plenamente em mim. Gemendo contra seus lábios, eu coloco minhas pernas em volta da sua cintura, pronta para me dar a ele completamente, e apenas deixar ir.

254


Capítulo Vinte e Oito

Eu assisto os cílios de Luke

roçando nas suas

bochechas enquanto ele dorme, e sua vulnerabilidade aperta meu coração. Ontem à noite, cada instinto de proteção que possuo estava me dizendo para fugir, para não colocá-lo em mais nenhum perigo, para sair de Stockton e nunca mais voltar. No entanto, ao acordar e encontrar seu rosto ao meu lado no travesseiro, eu sei que nunca poderia deixá-lo. Não depois de ontem à noite, quando ele estava tão generoso e entregue, em sintonia com todas as minhas necessidades. Ele intensificou meus sentidos com tudo o que ele fez — a maneira terna que ele beijou meu estômago antes dele entrelaçar seus dedos nos meus, seus olhos nunca deixando meu rosto. Ele me deixou saber o quanto eu significo para ele. Honestamente, eu nunca senti nada parecido antes, e eu sei que nenhum homem jamais será capaz de me fazer sentir desse jeito novamente, somente ele. É uma revelação que eu não estava esperando. Eu estava simplesmente buscando uma memória dele para levar comigo, onde quer que eu termine. Mas algo mudou entre nós, algo grande. Ele compartilhou essa parte mais íntima de si mesmo, me dando o seu coração, sem qualquer intenção de pega-lo de volta.

255


Agora, ainda com a cabeça no travesseiro, enquanto seus olhos se abrem aos poucos, ele me dá o sorriso de um homem que tem dado tudo o que ele poderia querer, e o brilho de felicidade que eu vejo em seu rosto me prende a ele até a minha própria alma. Eu tremo quando ele acaricia meu rosto, cutucando meu nariz com o dele. — Eu vou mantê-la segura. — Ele murmura. — Você pode contar comigo. E quando ele faz esse doce voto, sussurrado, eu acredito nele. Depois disso, as semanas passam em um borrão agradável. Algumas noites acabam em seu quarto, outras vezes no meu. Eu sofro por ele sempre que ele viaja, e os nossos telefonemas noturnos se estendem até as primeiras horas da manhã, nenhum de nós quer dizer adeus para o outro, ambos chegando com desculpa após desculpa para ficar na linha e conversar. Durante esse período, algo milagroso acontece. Luke começa a bater na bola impiedosamente. Ela começa com uma batida leve aqui, atinge um campo interno lá, mas sua confiança cresce de forma constante à medida que a sua média de rebatidas sobe de 200 - 250 para 275. Hoje à noite, no Campo do Beaver, ele celebrou o fim de semana de 4 de julho em grande estilo, rebatendo no ciclo — batendo um simples, um duplo, um triplo e um home run, tudo num só jogo. E vamos apenas dizer que quando chegou em casa, ele estava determinado a criar alguns dos próprios fogos de artifício quando ele me levantou do sofá, me jogou 256


por cima do ombro, e me levou lá para o andar de cima com ele. Agora nós dois estamos de costas, exaustos e ofegantes, sob ventilador de teto. Ele se vira para mim. — Obrigado. Eu inclino minha cabeça para olhar para ele. — Pelo quê? Ele olha profundamente nos meus olhos. — Por me ajudar a encontrar o meu jogo novamente. Eu solto o ar bruscamente, ficando perturbada. — Eu não tive nada a ver com isso. É tudo você. Ele rola para o lado para acariciar meu rosto. — Eu tenho que discordar. — Mas, Luke, eu... Seus olhos enrugam no riso. — Você nunca consegue aceitar um elogio, não é? Eu franzo a testa em frustração, sabendo que ele está certo. Eu lhe dei tanto de mim, mais do que eu dei a qualquer outro homem. No entanto, eu ainda estou segurando uma parte de mim, e ele pode sentir isso. Tenho tanto medo de me permitir ser vulnerável, que eu me treinei para ser resistente, endurecendo meu coração contra todas as pessoas que chegam perto de mim. Mas algo dentro de mim se estilhaça quando ele sussurra: — Você pode derrubar as paredes em torno de seu coração agora. — E por que eu iria querer fazer isso? 257


Minha teimosia não vai desistir sem lutar. E se mobilizando para fazer uma batalha final, sabendo muito bem que foi derrotada. Eu o atravesso com meu o olhar, e seu olhar suaviza ainda mais. — Porque eu nunca te machucaria, Bobbie Jo. Pode confiar em mim. Surpreendendo a mim mesma, deixo escapar um gemido, comovida além da conta. Ele me dá um sorriso terno antes de me silenciar com os lábios. Seu beijo é doce, gentil, mas tão cheio de significado. Derretendo por ele, eu o alcanço até tocar seu rosto, assim como ele está tocando o meu, agradecendo-lhe assim como ele me agradeceu. Quando nos separamos, ele corre o dedo pela minha bochecha. — Você está com fome? E eu não posso deixar de rir. — Faminta. Com um brilho malicioso em seus olhos, ele pergunta: — Então, que tal eu preparar alguma coisa na grelha para a gente? Eu sorrio de volta, gostando da idéia. — Nós vamos ter que ficar quietos. Sua mãe está dormindo. — Nós vamos levar tudo para o pátio. — Ele pisca para mim. — Você não está acostumada a fazer refeições ao ar livre comigo até agora?

258


Nos sentamos, e eu beijo o seu rosto quando ele desliza sua camiseta sobre a minha cabeça e gentilmente sacode meus cachos para fora, por debaixo do colarinho. — Sim, mas é muito mais agradável em uma noite quente de verão. Ele sai da cama e caminha subindo seus shorts sobre seus quadris. — E só vai voltar a ficar quente... Quando trouxer você de volta para esta cama. — Ele me dá um sorriso diabólico antes de me oferecer sua mão. — Mas, por agora, vamos comer. Eu gemo. — Porque é que o caminho para chegar ao coração de um homem é sempre pelo estômago? Eu bato na sua bunda e tento me apressar para passar por ele, mas ele é muito rápido pra mim, então ele põe seus braços em volta de mim por trás, beijando meu pescoço. — Você não tem que se preocupar com isso porque você já tem meu coração, todo ele. Eu me inclino para trás contra ele enquanto suas mãos se deslocam sobre o meu estômago. Fechando os olhos, eu saboreio a sua força e seu calor. Fora do quarto, Lucas não é um cara de expressar emoções. Ele não fica com as mãos em cima de mim a cada minuto do dia e eu gosto disso nele. Ele não me sufoca. Ele me dá espaço. E ele é sempre respeitoso na frente de sua mãe. Mas ele não deixa de roubar um beijo sempre que pode ou facilmente correndo um dedo pelo meu braço quando ele acha que sua mãe não está olhando. Mas 259


no meio da noite é uma história diferente. Elas pertencem a nós, e quando estamos sozinhos, ele não é tímido ao expressar seu desejo por mim. Como mulher, é lisonjeiro saber o quanto ele me quer. — Será que sua fome por mim nunca será satisfeita? — Eu o provoco. — Nunca. — Ele sussurra, perto do meu ouvido. — Estou apenas esperando que eu seja o suficiente para você. Eu giro em seus braços. — É claro que você é! Como ousa dizer isso! — Não sei. — Ele dá de ombros, baixando a cabeça. — É só que mulheres bonitas como você, normalmente não são para caras como eu. Eu agarro uma parte do seu queixo e puxo para cima. — Luke Singleton, você balança meu mundo. Você sabe disso, certo? Apesar do quão confiante ele parecia quando estava expressando seus elogios, ele fica vermelho, e eu percebo que eu deveria elogiá-lo muito mais do que eu faço. Ele não deveria ter quaisquer dúvidas quando se trata do quanto eu estou atraída por ele. Roço meu polegar sobre seu queixo. — Luke, estar com você... — Eu paro, procurando as palavras certas, e ele timidamente levanta os olhos para os meus. — O que temos...? Isso nunca foi tão bom para mim, como é com você. Isso responde a sua pergunta? — E eu sei que eu disse a coisa certa quando seus olhos imediatamente

260


brilham. Ele pega a minha mão e a beija, e eu sinto isso até os dedos dos pés. — Bom. — Ele sussurra timidamente. — Porque eu me sinto exatamente da mesma maneira sobre você. Agora eu sou a única corando enquanto puxo sua mão, agarrando a babá eletrônica fora da cômoda, antes de puxá-lo para fora da porta comigo. Nós rastejamos em silêncio escadas abaixo e na ponta dos pés até cozinha. Eu estou atrás dele quando ele começa a puxar as coisas para fora da geladeira — salsichas, hambúrgueres vegetarianos, queijo, ketchup, mostarda, duas garrafas de cerveja, os ingredientes. Eu bato nas suas costas. — Tem certeza de que não precisa de mim para levar alguma coisa? Virando-se com os braços carregados, ele ri para mim com os olhos. — Apenas os pães. — Ele brinca, antes de levantar a perna, empurrando minha bunda com o seu dedo do pé. — Pare com isso! — Eu tiro seu pé para longe quando entro com os quatro noves no painel de segurança. — Bem, você tem uma bunda encantadoramente grande. Ele flerta comigo. — Uma que você não pode parar de olhar desde o dia que nos conhecemos, se bem me lembro. — Eu mantenho a porta aberta para ele e o guio através, mas ele fica lá e me dá um olhar penetrante. — O que? — Eu pergunto.

261


— Nada. — Responde ele, antes de rapidamente olhar para longe e se dirigir para o quintal. Eu fico olhando para os declives e inclinações de suas costas nuas enquanto ele coloca para baixo o que ele está carregando, antes de se curvar para acender a churrasqueira. Mas eu decido não pressioná-lo sobre isso. Ele é sempre tão franco comigo, por isso, se há algo incomodando, ele vai me dizer. Eu não preciso atormentá-lo sobre isso. Se estar em um relacionamento com Luke Singleton me ensinou alguma coisa, é que ele normalmente faz as coisas do seu jeito, como me fazer esperar tanto tempo para o nosso primeiro beijo...e nosso segundo. Eu

começo

a

organizar

as

coisas

na

mesa

de

piquenique, sacando as tampas das garrafas de cerveja fora e entregando-lhe uma. — Faz tempo que eu fiz isso. Ele me olha por cima do ombro, levantando a garrafa aos lábios. — Você está me dizendo que Landry nunca fez churrasco para você em todo o tempo que você esteve no Texas? Sento-me na cadeira que seu pai fez de bastões de beisebol. — Certo, deixe-me reformular. Faz tempo que eu não me sinto tão relaxada. — Tomo um gole da minha cerveja e olho para a lua. — É bom. Eu poderia me acostumar com isso. — Bem, você pode, sabe... Ele não vai voltar até o próximo mês. — Luke murmura, atiçando as brasas. 262


Eu aperto meus braços contra o meu peito, não querendo

pensar

em

David

agora.

Percebendo

minha

inquietação, Luke muda o assunto. — Então me diga... Como você passava o 4 de Julho quando era criança? — ele pergunta, acrescentando um hambúrguer

vegetariano

na

grelha

para

mim,

automaticamente sabendo o que eu quero sem ter que perguntar. Desde que eu me mudei, eu tenho batido na mesma tecla com ele, que já que ele é um atleta profissional, ele precisa fazer escolhas mais saudáveis quando se trata de sua dieta, e para a maior parte, ele está seguindo o meu bom exemplo, exceto em noites como esta, quando ele é o único a cozinhar. Eu sorrio para mim mesma. Certo, eu não sou tão ruim. Eu sei que é um feriado, e eu estou disposta a deixá-lo desfrutar um pouco de seu desejo por comida ruim. O pacote de salsichas nem sequer estaria na geladeira se eu não trouxesse comigo da loja para casa. Tomo outro gole da minha cerveja antes de responder: — Nós sempre fomos para a casa dos meus avôs. Minha avó fazia o melhor churrasco de frango deste lado do Mississippi. — Você era próxima de seus avôs? — Muito... Eu acho que é por isso que eu me tornei uma cuidadora. Eu sempre me dei bem com os idosos, muito mais do que com pessoas da minha idade. Ele corta uma salsicha no meio, depois outra.

263


— Você não tem que me dizer que você tem uma boa alma. Eu sabia desde o primeiro dia. Eu franzo a testa. — Você sabia? Ele limpa a garganta. —

Então,

por

que

você

não

faz

este

frango

mundialmente famoso para mim? Eu ri. — Eu posso ter que fazer, desde que nós estamos comendo o que eu planejava servir amanhã. — Eu bebi toda minha cerveja. — A propósito, eu acho que você é o primeiro jogador de beisebol que eu já vi comer um cachorro-quente fora de um estádio. Ele ri. — Bem, apenas em ocasiões especiais. Tenho certeza que comi o suficiente deles no campo dos Beaver quando eu estava crescendo. Eu analiso a cadeira que eu estou sentada. — Como o seu pai era? Ele vira o meu hambúrguer, balançando a cabeça. — Ele era uma figura, isso é certo. Ele era rude, mas todo mundo gostava dele porque ele não forçava as pessoas a gostar dele. Sabe o que quero dizer? Ele era quem ele era, era pegar ou largar. — Mas parece que ele tinha um grande senso de humor. — Eu agarro e punho na extremidade do apoio de braços. — Se ele construiu algo parecido com isto. Luke balança a cabeça, abrindo um pacote de pães. 264


— Ele era um brincalhão, especialmente em casa. Ele me envolvia em suas brincadeiras, e usava isso para gerir as loucuras da mãe. Nós deixávamos aranhas de plástico na banheira e esperávamos ela gritar. Ele prendia uma nota de 1 dólar a uma corda, então, eu arrastava pelo chão, para ela se abaixar e pegar. Mãe teve a paciência de um santo, agüentando nós dois. Um sorriso amargo atravessa minha cara quando eu olho para as estrelas. — Eu tenho medo que meu pai seja mais sério do que isso. Luke lança um cachorro-quente em um pão. — Oh sim? — Sim. — Pego minha cerveja. — Ele basicamente não tinha nada a ver comigo desde que eu tinha dezoito anos. Eu suspiro. — Ele queria que eu fosse para a faculdade, conseguir um bom emprego, mas em vez disso, eu escolhi fugir com David. Luke aperta seu queixo enquanto ele pressiona a espátula para baixo no meu hambúrguer. — É por isso que você não queria deixá-lo? Porque você não podia voltar para casa? Eu concordo. — Em parte. Isso, e minha própria insistência estúpida que David iria mudar. Eu acho que eu estava fugindo do controle do meu pai, só para acabar sendo controlada por um homem que era muito pior do que ele.

265


Luke solta o ar, deslizando meu hambúrguer em um prato. Quando ele se vira, ele caminha em linha reta em minha direção antes de se ajoelhar aos meus pés. — Eu não quero nunca que você pense que eu sou como eles. Você é livre para fazer o que quiser. Eu nunca teria a presunção de dizer o que você pode e não pode fazer. Eu pisco para ele, pegando o prato dele. —

Bom,

porque

eu

gostaria

de

comer

o

meu

hambúrguer agora. Ele se inclina para frente e beija a ponta do meu nariz. — Prepare-se, porque é o primeiro de muitos. Estou pensando em fazer muitos este verão. — Ele se levanta e eu dou uma mordida, ciente de como eu tendo a me afastar com demasiado sentimentalismo. — Como está? — Eu acho que o verão se tornou minha nova estação favorita. — Eu digo com a boca cheia. Ele me dá um olhar amoroso, que eu não desvio, um que me permito o prazer de relaxar. — Eu sei que é minha estação favorita. É a que me trouxe até você. Faço uma pausa no hambúrguer a meio caminho dos meus lábios. — Mas nós nos conhecemos em abril. Isso é na primavera. Ele para de apertar a mostarda em seu cachorro-quente. — Sim, bem... Eu sempre considero o início da temporada de beisebol por ser o início do verão de qualquer

266


maneira. E só o verão tem uma vibração que cerca tudo mais feliz a ele, você não acha? Liberdade da escola... — Faz um bom tempo desde que eu tive que me preocupar com a escola. — Bem, um dia, quando você for uma senhora casada, de idade com as suas próprias crianças. Eu me apresso para interrompê-lo. — Que tal ficar com o gosto pelo verão por causa do verão? — Bem, bem, bem. — Diz ele, sentando na cadeira ao meu lado. — Vamos apenas dizer que esta pode ser uma estação abençoadamente livre de responsabilidade. O monitor do bebê ressoa para a vida. — Lukey...? Ele suspira. — Exceto pela mãe. Eu dou risada, ficando de pé. — Eu cuido disso. — Você tem certeza? — Ele pergunta. — Você nem sequer chegou a terminar o seu hambúrguer. — Positivo. Sua mãe é a única responsabilidade que eu nunca vou desistir, nem mesmo pelos preguiçosos dias de verão. — Eu te amo. — Ele sussurra seus olhos brilhando para mim. Eu dou um aperto rápido em seu ombro conforme eu passo por ele. Eu não consigo nem encontrar a minha voz para dizer-lhe que eu o amo também conforme eu pisco as 267


lágrimas que estão ameaçando derramar para fora. Corro para casa com as implicações do sonho de Luke de ter filhos e começar uma família, passando pela minha cabeça. Eu começo a tremer, sabendo que eu nunca vou ser capaz de lhe dar o verão feliz e tranquilo que ele está imaginando.

268


Capítulo Vinte e Nove

Seis semanas mais tarde — Você vai manter todas essas mulheres longe de mim correto? — Eu pergunto, movendo Roberta para o meu colo, de onde ela está de pé em frente a mim no bar. Ela se recosta, passando os lábios ao longo do meu queixo. — Eu não acho que Landry gostará muito se eu mantiver o mais quente rebatedor dos Beavers só para mim. Eu rio, inclinando meus lábios mais perto dela. — Bem, você pode dizer a Landry que... Antes que eu possa dizer qualquer outra coisa, ela me beija e eu imediatamente perco a noção de tempo e lugar. Eu não me importo se qualquer pessoa está observando ou se há uma linha de fãs, pacientemente esperando por mim para perambular até a mesa de autógrafos que está montada no canto. Em vez disso, eu a deslizo de lado em meu colo e gemo quando ela passa uma mão atrás da minha cabeça para brincar com o meu cabelo. Estou no meio de provar o que resta dos daiquiris de morango em seus lábios quando Danny assobia agudamente em meu ouvido. — Tudo bem, é o suficiente pombinhos! — Ele bate as mãos enquanto espera nos separarmos. — Vamos lá, para 269


cima, Single. Eu também não gosto deste encontro com um monte de fãs embriagados, mas eu, decididamente, não vou fazer sozinho. Rubor preenche meu rosto, então Roberta tem que falar por mim. — Ele estará lá com você. — Ela sorri, seu braço ainda possessivamente em volta do meu pescoço. — Enquanto isso, por que você não vai lá e aquece a multidão? Eu tenho certeza que eles estão morrendo para saber se essa barba de vocês é real ou não. Sua mão voa para a nuca vermelha que está pendurada umas boas seis polegadas sob o queixo. — Ninguém vai tocar na barba. Por que todos pensam que têm o direito de puxá-la? Dói! Eu rio dentro dos cachos de Roberta conforme ele caminha através das mesas desordenadas em torno do bar. Quando ele finalmente chega ao seu destino, uma torcida vibrante aumenta, cortando a música estridente e os vários televisores em todas as paredes, mostrando praticamente todos os jogos da liga principal acontecendo no momento. — Você não está feliz por ficar em Stockton? — Eu a provoco. — Então, seu namorado pode fazer coisas como esta em sua noite de folga, em vez de passar com você? — Você está passando comigo. — Ela protesta. — A Sra. Jenkins está segurando as pontas para que possamos ter uma noite juntos. — Mas esta não é a minha ideia de uma noite fora. — Eu reclamo quando ela desliza do meu colo. 270


Colocando as mãos nos quadris, ela pergunta: — E o que é? Jantar à la food truck? Eu sorrio, amando quando ela fica petulante comigo. — Você sabe o que eu quero dizer. Ela toma mais um gole de seu daiquiris. — Todos nós temos nossas responsabilidades, Luke. E estes eventos de “conheçam o jogador” nos bares locais é uma parte das suas. Fico em pé, colocando minhas mãos em sua cintura e puxando-a para perto. —Mas eles estão realmente conduzindo os trabalhadores de Stockton para vir gastar dinheiro em Beaver Field? Sorrindo, ela balança a cabeça. — Provavelmente não. Mas a série de vitórias que vocês têm juntos? Agora isso é algo que eu posso considerar depois. — Ela acaricia a cicatriz no meu pescoço com os dedos. — Porque mesmo que eu esteja demonstrando uma expressão corajosa, eu particularmente não gosto de compartilhar você com um monte de mulheres, bêbadas e excitadas. Olhando para ela, contemplo seus brilhantes olhos azuis. — Eu queria que você não precisasse. Mas você não tem nada para se preocupar. Eu não sou como... Ela aperta os dedos em meus lábios. — Shhhh, você não tem que dizer isso. Eu já sei que você não é nada como ele. E lá está ele, o elefante na sala. David Nichols deve voltar à cidade nas próximas horas, por isso que eu insisti 271


que ela viesse comigo esta noite. Não vou deixá-la fora da minha vista, nem por um momento. Durante toda a semana, ela estava tentando esconder sua ansiedade de mim, mas baseado na quantidade de chutes que ela vem dando durante o sono, seus pesadelos voltaram com força total. Ela está quase tão emocionalmente preparada para o seu regresso à Stockton como eu estou com uma importante diferença. Eu não tenho mais medo dele querer brigar comigo. Na verdade, eu tenho mais medo de não ser capaz de me controlar quando ele fizer. Eu não queria saber dele antes. Mas as coisas são diferentes agora. Não é sobre o que ele fez para mim. É sobre o que ele fez para ela. Eu seguro seu rosto. — Eu vou mantê-la segura, Roberta. Ele não vai chegar nem a dez passos de você. Eu prometo. Seus olhos brilham. — Você esta falando sério se você está me chamando de Roberta novamente. Eu suspiro, passando minhas mãos pelos seus braços. — Estou falando sério. Eu gostaria que você trouxesse a mamãe para o jogo de amanhã à noite. Ela encolhe os ombros. — Vamos, Luke. O que poderia acontecer? Ele vai estar no jogo, também. Nós vamos ficar bem. Precisando dela para me tranquilizar mais um pouco. — Eu tomo suas mãos nas minhas. — Pode ser, mas eu ainda não gosto disso.

272


Ela dá um aperto suave, entrelaçando os dedos nos meus, e eu juro que não há melhor sensação no mundo. — Luke, nós já discutimos isso. Qualquer coisa pode acontecer

no

estádio.

estacionamento.

Ele

Ele pode

pode

esperar

andar

por

direto

mim para

no as

arquibancadas, se quisesse. Você não pode me proteger lá. Confie em mim. Sua casa é um ambiente muito mais seguro. Eu acaricio seu nariz conforme sua respiração dança em meus lábios. — Sim, mas agora é a sua casa, também. — Então me deixe ficar em casa. Necessitando realmente beijá-la novamente, eu gemo quando ela dá um passo atrás. — Pelo menos, venha comigo agora. — Eu imploro, recusando a soltar sua mão. Sua boca se torce com meu pedido. — Eu acho que você me deve uma noite no food truck por isso. Não, duas noites! — Feito. E uma noite no Russo... Se você tiver sorte. Sorrindo, andamos de mãos dadas até a mesa de autógrafos, e tudo o que posso pensar é levá-la para casa, desligar as luzes, e... — Oh, meu Deus! É Luke Singleton! A mulher que me viu ergue seu copo no ar, enquanto os outros que estão esperando na fila atrás dela me cegam com os flashes. A maioria dos bares são bastante escuros e este não é exceção. Piscando em constrangimento, eu perco meu aperto na mão de Roberta. Recuperando-me da expressão de 273


surpresa, Danny se levanta de trás da mesa e me dirige até lá. — Está tudo bem, cara. Ela está de pé contra a parede. Vê ela ali? Ele aponta na direção, e meu coração só diminui seu ritmo acelerado quando eu vejo Roberta acenando para mim. Eu esfrego as mãos sobre o rosto. — Danny, se você soubesse como esses últimos dias têm sido. Ele puxa a cadeira perto dele. — Bem, ele não está aqui ainda, então você pode apenas relaxar. Quando eu sento, ele me dá um gesto de incentivo antes dar um sorriso deslumbrante para a mãe futebolística que está vestindo uma camisa Bucky Beaver. Entrando em cena, Danny lhe dá um grande joia. — Bucky Beaver, tudo bem! Agora essa é a camisa para conseguir. — E por que isso? — Eu brinco de volta, familiarizado com a sua brincadeira. — Porque, ao contrário do resto de nós, ele é o único Beaver que você pode contar. Ele sempre vai estar na equipe. — Ela ri estrondosamente para ele, e ele pisca para mim. — Onde você gostaria que eu assinasse, senhora? Ela se vira, posicionando-se o mais perto dele. — Eu adoraria se você pudesse autografar um dos zeros na parte de trás, e eu estou esperando que Luke possa assinar o outro. 274


O sorriso de Danny fica ainda maior. — Só Bucky é legal o suficiente para usar um duplo zero. Certo, Single? Mas estou distraído, observando um cara tentar a sorte com Roberta. — Sim, o que você disser, Danny Boy. A mulher ri quando a ponta da caneta de Danny patina sobre suas costas. Ele lhe dá um floreio extra, alongando a curva do Y no O'Malley antes bater no topo da minha cabeça. — Sua vez, meu homem. O cara descansa o cotovelo contra a parede, pairando sobre Roberta, e conforme eu fico em pé, eu penso em chegar até lá e empurrá-lo para longe dela. — Luke, eu simplesmente adorava seu pai. — A mulher murmura para mim por cima do ombro. — Ele sempre será o Sr. Beaver para mim. — Bom ouvir você dizer, minha senhora. — Eu respondo, olhando por cima da sua cabeça. — E assim, eu gosto de ver você jogar também, querido, e todo o sucesso que você tem tido ultimamente. — Ela lança. — Eu acho que você finalmente vai quebrar a maldição. — Ela irrompe. — Eu posso sentir isso! Roberta vira as costas para o cara, e ele fica atrás dela, perplexo. — Uh... Que maldição, senhora? — Eu pergunto enquanto adiciono #99 sob a minha assinatura. — Você sabe... — Ela gira ao redor. — Sobre jogar para times grandes! Seu pai nunca jogou, mas, Luke, você está 275


bem no caminho para isso. Os Kings seriam loucos de não chamá-lo para uma das escalações de setembro. Meu estômago revira. Tão caótico como as coisas têm sido

ultimamente,

eu

nem

sequer

pensei

nisso,

provavelmente porque meu treinador osso duro de roer nem sequer mencionou isso para mim. Mas ela está certa. Minha média subiu para quase 300, e eu roubei vinte bases ao longo da temporada. Meu nome, sem dúvida, estará associado, quando os Kings expandirem sua lista no próximo mês, o que significa que terei que ir para Nova York e deixar Roberta e mamãe. O cara bate em Roberta no ombro, recusando-se a desistir, e eu estou ao ponto de ir até lá. Ela lhe diz alguma coisa, mantendo-se de costas, e ele abaixa a cabeça enquanto se afasta em derrota. É uma boa lição para mim. Eu tenho que lembrar que ela é mais do que capaz de cuidar de si mesma. Mas depois do que ela me contou sobre Nichols, é difícil para eu não querer estar lá com ela, cada segundo de cada dia. Eu estou acostumado a ser o cara de quem ela e minha mãe dependem, e eu realmente não gosto da ideia de não estar perto quando elas precisam. Então, como é que eu vou estar feliz em dar o próximo passo na minha carreira, quando isso significa que eu vou deixá-las vulneráveis a ameaça de Nichols voltar, no instante que ouvir que eu estou em Nova York? Danny segue o meu olhar e levanta a mão para a multidão. 276


— Aguentem firme, senhoras. Nós ficaremos com vocês. — O anúncio é recebido com um coro de gemidos, mas ele não liga, posicionando a cadeira mais perto da minha. — Ei, cara, o que você vai fazer se você for convocado? Deixei escapar um suspiro exasperado. — Não há nenhuma maneira de Rex me dar o consentimento sobre um de seus favoritos. Danny toma um gole de sua garrafa de água antes de responder. —

Eu

não

sei.

Esqueça

a

primeira

metade

da

temporada. Você estava fortíssimo no final. E o bônus por ser convocado seria doce. Estamos falando de uma grande quantia de dinheiro, Single. — Eu sei. É como um ano de salário para a maioria das pessoas em Stockton, por um trabalho de quatro semanas. — Eu respondo emburrado. Danny aperta o peito. — Você está me matando com esse seu entusiasmo. O que eu não daria para fazer O Show. Eu trocaria de lugar com você num piscar de olhos. Eu o encaro abatido. — Ninguém disse que eu estou fazendo isso, e ninguém disse que você não está. Ele estica os braços na frente dele e estala seus dedos. — Single, minha média de corridas limpas subiu para 6.36 em julho. Eu não vou a lugar nenhum, a não ser de volta para casa, uma vez que a temporada dos Beavers acabe. Você tem que viver esse sonho por nós dois, cara. 277


— Você simplesmente não quer se livrar da barba. Olho para Roberta novamente, e Danny chuta meu pé debaixo da mesa. — Single, se a oportunidade surge em seu caminho, você não pode perder, repito, não pode abandoná-la. Você me ouviu? Mas quando os olhos de Roberta me encaram, tudo o que posso fazer é balançar a cabeça. — Não posso ir, Danny. Eu não posso deixá-la... Eu não posso deixar minha mãe. Danny vira sua cadeira de modo que ele está na minha frente. — Se você quer que eu fique perto de Stockton, até você voltar, eu fico. Eu sorrio, tocado por sua oferta. — Obrigado, cara. Mas eu não posso pedir-lhe para fazer isso. Ninguém sabe o que Nichols é capaz de fazer, e eu não quero que você se envolva nisso. — Mas... — . Eu o silencio com um olhar. — Cabe a mim mantê-la segura, e eu vou fazer isso muito bem. O canto da sua boca vira para cima. — Você realmente a ama, não é? — Mais do que minha própria vida.

278


Capítulo Trinta

Minha cabeça sobe e desce no peito de Luke. Ele está roncando alegremente depois de cair no sono cerca de uma hora atrás. Uma vez que chegamos em casa do bar, ele tomou o seu tempo ao me colocar na cama da maneira certa. Foi o paraíso na terra e eu desfrutei. Depois, sabendo quão preocupada eu estou ele esperou que eu adormecesse primeiro. Mas isso simplesmente não estava acontecendo. Não essa noite… É por isso que estamos no meu quarto, ao invés do seu. A janela tem vista direta sobre Cedar Crest Lane. Se uma porta do carro bater quando fechar ou um cão latir, eu vou ouvir. Olho para o relógio e os números vermelhos mostram 04:07. O time Clash Clearwater jogou com uma equipe em Nova York esta noite. Eles não estavam mais do que uma viagem ao sul de três horas. Em toda a probabilidade, o ônibus já os deixou no Sheraton para a noite. Fechei os olhos para a realidade do que isso significava — David estava de volta em Stockton. Mais cedo, não querendo alarmar Luke, eu escapei com meu telefone para o banheiro enquanto eu estava escovando meus dentes e descobri que a estrela do Clash estava longe esta noite, arremessando sozinho. David não foi usado. 279


Então, ele vai estar descansado e disponível para a partida contra os Beaveres. Não terá como ficar de fora desta vez. Ele está livre de lesões e não atingiu uma massa em meses. Ele tem estado em seu melhor comportamento, pacientemente aguardando o seu tempo. É um padrão que estou familiarizada. Ele sempre me bajulava até conseguir o que queria. Enquanto ele estava na estrada, dormindo com outras mulheres, ele sempre me enviava flores. Ele pensou que poderia comprar o meu silêncio, que eu tinha fechado os olhos para o que estava fazendo. Então, quando eu não dava as boas vindas calorosamente em nossa cama, eu ficava com várias marcas pretas e azuis para encobrir na manhã seguinte por causa disso. Eu rolo em minhas costas e corro a mão pelo meu estômago. Lágrimas se formam em meus olhos quando tantas memórias dolorosas piscam pela minha mente. Eu começo a chorar silenciosamente, sacudindo a cama, e Luke chega até mim, meio adormecido. Estalando os lábios, ele se vira, olhando para mim com as pálpebras pesadas. — Bobbie Jo? Você está chorando? Balanço a cabeça, jogando meus cachos sobre o travesseiro. Seus dedos roçam ao longo da minha bochecha, sentindo a evidência das minhas lágrimas. — O que foi, baby? Você teve outro pesadelo? — Ele murmura, pegando a minha mão debaixo das cobertas.

280


Eu não deveria ter me movido. Ele esta acostumado a adormecer comigo em seus braços. Sempre que eu me deslocava fora de seu abraço, ele sempre se vira até se aconchegar contra mim de novo, suas pernas entrelaçadas nas minhas. Ele não teve nenhum pesadelo desde que começamos a dormir juntos, e eu não quero que ele pense que ele tem que me confortar agora. Então eu viro para o meu lado. Mas ele não está desistindo tão facilmente e sua mão permanece em cima da minha. — Eu estou bem, — murmuro, esperando que ele volte a dormir. Não convencido, ele circula meu umbigo com o polegar. Mas quando eu vacilo, ele acalma sua mão. Eu sempre me deleito com seu toque. Eu nunca, nenhuma vez o rejeitei, porque eu não tinha nenhuma razão para isso. E o meu coração se parte quando ele sussurra: — Você quer que eu volte para o meu quarto? — Não, — eu digo com veemência, envolvendo seu braço em volta de mim. — Então me diga por que você está chorando. Fale comigo. Confissões são sempre mais fáceis no escuro. Contato visual não é necessário. As expressões faciais são ocultadas. Tudo o que ele tem para seguir em frente é o tom da minha voz. — Só de saber que ele se encontra nas proximidades... — Faço uma pausa, respirando fundo para me equilibrar. — Isso só traz tudo de volta. 281


Ele beija a minha nuca. — Esqueça ele. Você está segura aqui comigo. Eu suspiro. — Esse é o problema. Eu não posso esquecer o que ele fez para mim. Oh, como eu gostaria que eu pudesse. — O que eu posso fazer? — Luke implora. — Me diga. — Nada, — eu gemo. — Quando ele veio atrás de mim pela primeira vez, eu fiz tudo o que eu podia pensar em fazer para me sentir segura novamente. Eu mudei meu número de telefone. Eu fiz uma aula de autodefesa. Fui para a polícia. Eu entrei com uma ordem de restrição. Mas ele ainda conseguiu me encontrar novamente, depois de todo esse tempo. Sempre houve essa estranha atração magnética entre David e eu. Eu senti na noite que nos conhecemos, e eu sinto o mesmo agora. Mas seus sentimentos por mim, nunca foi amor. Eram escuros, na fronteira com obsessão. Quando eu descobri que ele estava me traindo, ele disse que todas essas outras mulheres não significavam nada para ele. Ele alegou que só fez isso porque quando ele estava na estrada, ele não poderia estar comigo, e que eu estava sempre em seu pensamento quando ele estava com outra pessoa. Ele estava doente, e eu me permiti acreditar nele. Até que começou a acontecer no período de pausa. E quando eu me recusei a aceitar isso, foi quando começaram as agressões. Ele não queria se casar tão jovem. Eu tinha dezoito anos. Ele tinha vinte e um. Mas quando ele descobriu que eu 282


estava grávida, as coisas mudaram. Eu ameacei voltar para casa e pedir aos meus pais para me perdoarem se ele não parasse de me bater, e ele sabia que estava correndo risco de perder o seu bem cobiçado. Eu não acho que o conceito de ser um pai para uma criança de verdade nunca bateu realmente na cabeça dele. Tinha mais a ver com o sentido de propriedade do que qualquer outra coisa. Em sua mente, não foram os votos de casamento que trocamos que nos unia. Tinha mais a ver com o fato de que algo que pertencia a ele estava crescendo dentro de mim. E se ele poderia dar a vida, ele também poderia tirá-la. Eu acho que ele estava com ciúmes do nosso filho nascer, porque ele deveria ser a pessoa mais importante na minha vida, e não um bebê. Luke se colocou sobre o cotovelo e olhou para mim antes de falar, — Quando você falou com os policiais sobre ele... O que eles disseram? — Como que eu não denunciei o abuso, desde o início, eles disseram que eu não tinha mais do que um caso, — eu respondi na escuridão. — Depois eles me fizeram tirar a roupa para que eles pudessem fotografar meu estômago... Eu jurei que nunca iria passar por isso de novo. Seus braços sobre mim apertam. — Por que eles queriam fazer isso? Eu mordo meu lábio, amaldiçoando minha língua solta. — Roberta, o que ele...? — Ele não podia mesmo dizer isso.

283


— Sim, — eu respondo, minha voz desprovida de emoção. — Quando eu estava grávida, ele me chutou no estômago quando eu lhe disse que estava deixando-o. E levou muito tempo para que as contusões fossem embora. Luke enterra o rosto na curva do meu pescoço, exalando alto. Ele não pode lidar o que ele acabara de ouvir, mas, ao mesmo tempo, ele não queria me ver mais chateada do que já estava. Ele está tentando corajosamente abafar sua raiva, me colocando em primeiro lugar como ele sempre faz. Mas há um assunto sensível que fora aparecendo no ar entre nós por um bom tempo, e é o que ele não pode resistir, trazendo à tona agora. — O que você passou... Eu não posso sequer imaginar o quão terrível deve ter sido para você. Mas não acredito nem por um momento que você não vai ser uma grande mãe algum dia, porque eu sei que você vai. Eu posso sentir isto. Eu amo Luke. Eu estimo o que nós temos além da medida. Mas o que eu digo a seguir poderia derrubar a vida que nós temos construído juntos. Há uma progressão natural em qualquer relação de atração, namoro, casamento, filhos. E isso me mata que eu não serei capaz de dar-lhe tudo o que ele sonhou. — Não é assim tão simples, Luke, — Eu me cerco, empurrando a mão. — Não faça isso, — ele implora. — Não se esconda dentro de si mesma, não quando eu estou aqui. Eu me esforço para extrair o ar em meus pulmões. — Luke, por favor. Você não entende. 284


— Assim como eu pensei que ninguém iria entender sobre Mamãe, — ele sussurra suavemente. — Até que eu conheci você. Eu soluço e agarro seu braço. — Não é que eu queira dar a David tanto poder sobre mim. — Então, Roberta, por que não? Eu respiro fundo. — Por causa dele, eu tive que ter a...WAH! WAH! WAH! O som do alarme de segurança me corta no meio da frase. Por um momento, nós dois estamos muito atordoados para nos mover até que ele se enrola para fora da cama e pega suas calças. Esfregando as mãos pelos cabelos, seus olhos olham minha expressão de espanto. — Fique aqui. Eu vou ver o que está acontecendo. Eu deslizo meus pés em meus chinelos no quarto. — Não, eu vou com você. Sua mãe poderia estar no meio do quarteirão até agora. — Roberta, não é mamãe, — diz ele, seu tom firme. — O que quer dizer? Claro que é! Nós dois estamos aqui em cima, e o alarme... — Eu reconfigurei para soar em caso de alguém tentar entrar, não sair. Então, até que eu saiba o que está acontecendo, eu quero que você espere lá em cima. Não me siga.

285


Um arrepio percorre minha espinha enquanto ele puxa um taco de beisebol para fora do armário do corredor. Eu corro até ele e coloco uma mão em seu braço. — Luke, não. Ele passa mim. — Não há tempo. — Por que você precisa de um bastão? — Exijo, em pé na frente dele. Trocamos um olhar quando ele diz, — Você sabe por que, — antes de passar apressado por mim. — Luke! — Eu grito. Mas ele não para. Ele apenas continua indo. É David. Eu sei que é. E agora ele irá machucar Luke novamente e... Mas, primeiro, eu preciso ter certeza de que sua mãe está bem. Apressadamente, eu passo uma das camisetas brancas de Luke sobre a minha cabeça uma suave que cheira a ele, a que eu tinha furtado de sua gaveta semanas atrás, a única que eu tenho dormido sempre que ele está fora para fazer me sentir segura. Eu já estou meio caminho da porta quando visto o meu roupão, morrendo de medo do perigo que ele está se colocando por mim neste momento. Com o estridente alarme e meus nervos no limite, eu corro para o quarto de sua mãe, apenas para encontrá-la batendo sua cabeça contra a parede. — Sra. S.! Pare!

286


O lamento estridente jogou-a em um frenesi, e eu nem sequer pensei que ela poderia me ouvir neste momento. Eu pego as costas da camisola, mas sem sucesso. Quando os pacientes de Alzheimer entram em crise, sua força pode ser sobre-humana, às vezes. Sem outra opção, eu coloco meus braços em volta de sua cintura e a puxo com força para longe da parede, quando chegamos para trás nós caímos em uma pilha em sua cama e é quando eu sinto algo quente derramar em meus dedos. Sangue. O sangue dela. Oh, não, ela bateu a cabeça

até

abrir.

Lutando

para

me

sentar,

eu

apressadamente removo o manto e coloco contra sua testa. Mas ela não está tendo nada disso. Ela quer sair. — Você não pode sair, Sra S., — eu gemo, segurando-a de volta. — Lukey quer que você fique bem onde você está. O alarme ainda está apitando. Luke está bem? E se David está lá embaixo batendo nele sem sentido? Eu preciso verificá-lo, mas como eu posso deixar a sua mãe? Não sabendo o que fazer, eu sou grata quando o alarme finalmente para. Agora que a fonte de sua angústia acabou, ela fica mole em meus braços e emite um gemido suave. — Lukey? Reaplico a pressão em sua ferida. — Sim, Lukey. Ele vai ficar bem, ok? — OK. Pelo menos, eu espero que ele vai, porque eu nem sequer considero outra alternativa.

287


Meus nervos estão prestes a se romper quando alguém chega e acende a luz. Momentaneamente cega, eu levanto a mão para os olhos e aperto contra o brilho, meu coração na minha garganta. Por favor, não deixe que seja... — A porta dos fundos estava aberta. Alguém a arrombou. Minha mão voa para meu peito. — Eu não vi ninguém. — Luke bate o taco contra a palma de sua mão antes de apoiá-lo contra a parede. — Eu só encontrei uma grande, pegada enlameada na porta, nada na cozinha. O alarme deve tê-lo assustado. — Mas ele vai voltar... — Nós nem sequer sabíamos se era ele. — Eu sei. Luke atira-me um olhar assustado. — Por que você diz isso? — Porque ele fez isso antes. — Roberta, eu... — Você não vê, Luke? É por isso que eu não deveria ter ficado. Ele sempre volta. Ele

se

senta

ao

meu

lado,

tomando

o

manto

ensanguentado da minha mão para examinar o rosto de sua mãe. Ela olha para ele em adoração quando ele enxuga sua testa. Eu passo debaixo de seu braço estendido, muito nervosa para ficar sentada por mais tempo. — Eu vou pegar o kit de primeiros socorros.

288


— Só para você saber, eu liguei para a empresa de segurança, — diz ele quando estou de costas. — Eu disse a eles que era apenas um alarme falso. Faço uma pausa a meio caminho da porta. — A polícia vindo aqui não faria nenhum bem de qualquer maneira. Nunca fez. — Mas se fosse ele, ele é fichado agora. Ele cumpriu pena por um tempo... Por que ele iria arriscar voltar para a prisão por invasão de domicílio? — Porque ele é obcecado por mim. Luke suspira, o tipo de suspiro que me faz querer virar e não fazer nada, além de me aconchegar em seus braços. Mas ele tem sua mãe para se preocupar, e ela precisa ser cuidada. Eu não posso desmoronar sobre ele agora. Eu preciso ser forte. Mas o que ele diz a seguir me faz apoiar no batente da porta em busca de suporte. — Roberta, eu juro que nunca vou deixar ele chegar perto de você. Ele vai ter que me matar primeiro. Todos estes cenários horríveis piscam na minha mente, cada um pior que o outro. — Luke, por favor, — eu gemo. — Por favor, não diga coisas como essa. ��� Eu quero dizer isso. Ele levou o suficiente de você. Ele não vai levar mais. Eu olho para ele. — Mas você vai deixar que ele te leve para longe de mim? Ele aperta a mandíbula e se vira para sua mãe. 289


— Luke, prometa-me agora que você não vai fazer nada estúpido. Isso... — Eu começo a sufocar. — Que você nunca vai me deixar. Quando ele finalmente olha normalmente

hipnóticos

parecem

para

mim, os olhos

torturados,

sua

boca

formando uma linha fina. — Eu prometo, — ele sussurra. — Não importa o que, eu nunca vou deixar você. Eu aceno antes de sair da sala, não me sentindo nem um pouco melhor.

290


Capítulo Trinta e Um

Quando Hoff pega três strikes para terminar a primeira parte da sétima entrada, eu permaneço na segunda base, esperando o

16PA,

eu sei quem virá.

— Agora lançando para o Clash, número dezenove, David Nichols. Como se na sugestão, tudo fica preto ao meu redor. Mas eu não entro em pânico. Eu sei o que é. Eu experimentei esse tipo

de

medo

paralisante

antes,

e

meu

instinto

de

sobrevivência tem afastado a memória para os mais distantes recantos do meu cérebro. Eu imagino que estou preso no fundo de um poço bem profundo, bem escuro, mas na realidade eu não estou. Agora eu sei que há um ponto de luz para me guiar para fora. Eu só tenho que procurá-lo sob a forma daqueles brilhantes olhos azuis. Eu devo ser o primeiro. Eu não deveria estar aqui ainda. Fecho os olhos e respiro quando sinto a sensação de queda que tem me atormentado por todas as noites. Eu tenho tentado ser forte por ela, mas meu medo me atinge em cheio. Eu não posso mais fugir disso. Mas esta não é a forma como os meus pesadelos começaram. Não é como a última vez. Eu 16

Refere-se à volta de um batedor. Cada batida e volta completada é um PA. Os jogadores são revezados pelo tanto de PA acumulado ao longo da partida

291


não sou pego de surpresa. Eu sei o que está por vir. Eu sou o único no controle, e não ele. Piscando, a minha visão começa a limpar e eu me vejo na familiar fileira de assentos acima do banco de reservas, meu refúgio, meu santuário. Roberta está de pé, segurando a mão da minha mãe, e meu coração começa a bater novamente. Posso não ter coragem de entrar na área do rebatedor por mim. Mas por ela, eu vou encontrar a coragem para fazer qualquer coisa. Hoff

bate

nas

minhas

costas,

ainda

com

seu

equipamento de receptor. — Vamos, Single, — diz ele, pegando a luva da minha mão e colocando meu bastão nela. — Hora de bater. Por um momento, é como se eu estivesse de volta no inicio, esparramado no chão, lutando pela minha vida. Eu não posso sentir meu braço. Eu não posso falar. Eu não posso respirar. — Ele seria um idiota em tentar qualquer coisa, — murmura Hoff. — Olhe para todos os seus companheiros de equipe ali. Eles estão prontos para socá-lo se ele sequer pensar em te atacar. Minhas pernas começam a funcionar novamente quando ele me leva para o

17home

plate, plantando firmemente a mão

entre os dois noves nas minhas costas. E, pela primeira vez, noto que Roberta e mamãe não são as únicas que estão de 17 Para o time que está no ataque em uma partida de beisebol, o jogo começa no home plate, que é também chamado de home base. É um pouco ao lado dessa área que o rebatedor se posiciona para tentar acertar a bola e se encaminhar para a primeira, segunda e terceira bases e, se obtiver sucesso na empreitada, anotará um ponto para a sua agremiação quando retornar ao home plate. Por esse motivo, essa expressão pode, em outros contextos, tanto significar —ponto de partida— quanto — ponto de chegada—.

292


pé. O estádio inteiro está me dando uma ovação de pé, e eu nem sequer fiz nada ainda. Isso é Stockton para você. Eles sempre vão apoiar um dos seus. — Hoff, — eu grasno, encontrando a minha língua. — Ele não vai mudar, nenhum pouco, a forma como arremessa para mim. Hoff me lança um olhar intrigado. — Single, ele pode ser louco, mas ninguém é tão estúpido. — Ele é. Eu aperto o bastão, recebendo o conforto no peso da madeira lisa, sólida na minha mão, e os danos que posso fazer com ele. Um

coro

ensurdecedor

de

vaias

chove

das

arquibancadas, sinalizando a chegada de Nichols, e Hoff tem que gritar praticamente no meu ouvido, — Single, o que você sabe e que não está me dizendo? Mas o árbitro claramente quer mudar as coisas quando ele grita para o rapaz que carrega os bastões para trazer o meu capacete. No entanto, há algo que eu tenho que fazer antes de começar. Rapidamente, eu encontro Roberta na arquibancada novamente. Se eu estou com medo, ela deve estar absolutamente aterrorizada. Mas, quando eu deixo o meu olhar descansar sobre ela, ela nem mesmo olha para ele, ela está olhando para mim. Essa é minha garota destemida. Eu não queria que ela e minha mãe ficassem para trás, não depois do que aconteceu ontem à noite. Eu insisti para que elas viessem para o jogo. Então Roberta bravamente colocou 293


seus medos de lado por mim, e eu estou determinado a fazer o mesmo por ela quando eu tiro meu boné para ela. — Single, — Hoff resmunga, agarrando meu ombro, pronto para me oferecer um último conselho. — Basta dar três passos e sair fora de lá. Ninguém está pedindo para fazer o papel de herói. Eu entrego ao cara do bastão meu boné e encaixo meu capacete em cima da minha cabeça, ajustando o protetor de queixo. O supervisor de equipamentos do The Beaveres 'acrescentou, — pensando que iria me fazer sentir mais seguro. Eu não tinha ânimo para lhe dizer: — Obrigado, mas meu pescoço ainda está exposto. — Durante toda a noite, todos estão tentando me proteger. Mesmo Rex, meu agente, ofereceu-se para enviar um rebatedor para mim se Nichols entrasse no jogo, mas eu disse que não. Isso é algo que tenho que fazer. Tocando a ponta de cada chuteira com a cabeça do meu taco, eu ensaio alguns balanços antes de dar um sorriso trêmulo a Hoff. — Chega de papear, velho. Você é o próximo depois de mim. Hoff olha para mim. — Você está tão perto de chegar a ligas maiores, garoto, então não deixe que este idiota tire tudo de você. — Seus olhos suavizam inexplicavelmente. — O que você tem sido capaz de alcançar nesta temporada? Seu pai ficaria orgulhoso de você. Eu sei, porque eu estou.

294


Ele

dirige-se

lentamente

ao

banco

de

reservas,

mancando. Este é provavelmente o fim da linha para Hoff. Seu corpo está cobrando dele. Ele não tem muito no tanque. Sua sabedoria soa, porque é baseado em alguma experiência muito duramente conquistada. Mas entrar para o Kings não é mais o meu foco. Estou focando em outra coisa agora. — Agora rebatendo, segunda base, número noventa e nove, Luke Singleton. A multidão entra em erupção, e eu aceno para o árbitro quando eu desenho uma linha na terra com meu bastão, marcando quão longe eu planejo configurar o plate. O sangue corre para a minha cabeça, e eu posso ouvir meu coração batendo em meus ouvidos. Eu me enquadro, com o plate. Se ele me acertar, me acertou. Deixe-o jogar tão duro quanto pode. Eu sobrevivi a isso antes. Eu vou sobreviver a isso novamente. Tomando um último suspiro, eu estendo o meu bastão como uma espada samurai em direção ao monte do lançador e olho para o bandido que achava que poderia me bater com tanta força que eu nunca voltaria novamente, o covarde que achou que poderia invadir minha casa sem ser convidado e ferir a mulher que amo. Eu não posso nem ver seus olhos, a aba do boné está muito baixa. Ele é uma sombra, um fantasma da minha imaginação. Embora, ele esteja maior do que eu lembro, provavelmente, deve ter aumentado na prisão. Mas eu não estou intimidado. De acordo com os relatórios prévios, ele não lança mais de cem milhas por hora. Ele perdeu velocidade em 295


sua bola rápida, única, fragilizando-se pela adição de todos esses músculos extra. Embora eu tenha trabalhado em meu balanço, tornando a minha tacada mais rápida do que nunca. Eu sorrio para ele. Eu posso ser menor, mas eu sou mais rápido. Um rato será sempre capaz de superar um elefante. O apanhador do Clash espreita para mim. — Cuidado, cara. É agosto e ele ainda não memorizou os sinais. Eu tive mais bolas passadas este ano graças a esse idiota do que eu tive em toda a minha carreira. Eu cuspo na terra. — Mas enquanto você esteve se comunicando com ele, ele não acertou nada, certo? — Ainda não, — ele responde com tristeza. Eu não tenho tempo para digerir sua advertência quando o arbitro sinaliza, — jogar bola. Imediatamente,

Nichols

assopra,

se

posiciona,

e

arremessa. E eu quase não posso acreditar quando a bola é rapidamente arremessada em minha direção, e meu corpo age por conta própria. Antes que eu saiba, meu traseiro está batendo contra o chão com tanta força, que meus dentes batem, ecoando, dentro da minha cabeça e uma rajada certeira de dor dispara minha espinha. — Você foi avisado, Nichols!— o árbitro grita acima da minha cabeça. Ele está há segundos para expulsá-lo do jogo, mas não posso deixá-lo fazer isso. Eu me forço, vacilantemente, a ficar em pé. — Reflexos estúpidos. Não foi nem perto.

296


O árbitro me lança um olhar cético. Ele, assim como eu, sabe que foi dentro. Mas Nichols não vai me intimidar com isso. Vai demorar muito mais do que um passe para acertar as contas. Abaixando a sua máscara, o árbitro me diz: — Leve o tempo que for necessário, — antes de caminhar calmamente em direção ao recuo. Usando o momento a meu favor, eu roubo um olhar para a seção 110. Mamãe está de pé, imitando as ações das pessoas ao seu redor, vaiando Nichols, juntamente com todos os outros. Se eu estivesse em um bom humor, eu estaria rindo muito dela sacudindo seu dedo no ar. Sem saber que estava gritando para o lançador que quase atingiu seu filho uma segunda vez, ela olha para o homem ao lado dela, que está gritando pra caramba, tentando entender. Roberta, por sua vez, está sentada em sua cadeira com as mãos cobrindo a boca. Ela está dependendo de mim para mantê-la segura. Se eu cair, Nichols terá acesso facil a ela, e isso não vai acontecer. Indo até ao árbitro, eu me posiciono novamente. Desta vez, quando eu olho para o monte, eu detecto a sugestão de um sorriso no rosto de Nichols. Ele claramente gostou de me derrubar novamente. Meu sangue ferve quando eu levanto o meu bastão sobre o meu ombro. Ele não vai escapar, não desta vez. Ele recua, colocando um pouco mais de força em seu arremesso, e a bola voa tão rapidamente para fora de sua mão, que eu sou incapaz de pegar o seu ponto de 297


lançamento. Eu mal posso perceber a mancha vermelho e branca girando quando vem em direção a mim. Eu me forço a ficar para trás, esperando até o último momento possível para seguir com o meu movimento. E eis que, eu faço contato. A bola dispara do meu bastão como uma bala, invertendo a trajetória e voltando diretamente de onde veio. O som de algo se rachando não provém dos fragmentos do meu bastão quebrado. É a mão de Nichols, enquanto ele se contorce em agonia no monte, a bola a seus pés. Um suspiro coletivo surge da multidão, mas seus companheiros de equipe ficam exatamente onde eles estão. Eles não fazem nenhum movimento em direção a ele, ou a bola. O árbitro suspira atrás de mim, — Vá em frente. Tome a sua base. — Mas… — Eu disse, tome a sua base, — ele late. — E se eles não querem defender, tome outra. A bola ainda está viva. Relutantemente, eu largo o que sobrou do meu bastão e corro em direção à primeira. — Como você pode fazer isto comigo?— Nichols chora com lágrimas rolando pelo seu rosto quando eu passo rápido por ele. — Oh Deus, isso dói... dói! Olhe para isso! — Ele levanta a mão e os dedos estão pendurados em um ângulo estranho enquanto um gigante, hematoma cresce na frente dela. — Uau, hum, eu não quis...

298


— Oh, sim, você quis! Você queria que eu parecesse patético em seus olhos. — Você não precisa de mim para fazer isso. Você fez tudo sozinho. Eu continuo caminhando para frente, e quando meu pé toca a primeira base, o apanhador caminha obedientemente para o monte e apanha a bola. O treinador corre na direção de Nichols, enquanto ele berra como um bebê porque ele nunca mais será capaz de segurar uma bola de beisebol, novamente, a sensação de queda finalmente começa a deixar o meu estômago. Se ele não pode agarrar uma bola de beisebol, então ele não pode fechar a mão em um punho, o que significa que ele não será capaz de ferir Roberta, nunca mais. Se ele sabe ou não, acabou. E com base no jeito que Roberta está de pé, com a cabeça girando lentamente dele para mim, é claro que ela não percebe isso. Porque a conhecendo tão bem quanto eu faço, é óbvio que ela ainda está com medo.

299


Capítulo Trinta e Dois

Isso termina esta noite. Eu estou na frente da recepção na sala de emergência do hospital no meu uniforme de beisebol, esperando a enfermeira atrás da janela levantar a cabeça e me reconhecer. Mas vou esperar a noite toda, se for preciso, porque eu nunca mais quero ver esse olhar de medo no rosto de Roberta, nunca mais. É por isso que estou aqui. É por isso que eu pedi a Danny para me cobrir. Ele provavelmente está levando Roberta e mamãe para casa agora. Mas eu não estou preocupado. Danny conhece o plano. Disse a ele para pegar Roberta após o jogo, dizer que eu tinha que falar com os meios de comunicação e, eu não sabia quanto tempo eu ficaria. Eu não sei se ela comprou a estória, mas pelo menos me deu algum tempo. Eu bato no vidro e os olhos da enfermeira quase saltam para fora quando ela me vê. Lentamente, ela abre a janela, ignorando os telefones tocando ao seu redor. — Posso ajudar? Eu faço uma cara de arrependido. — Sim, oi. Sou Luke Singleton. Sou um jogador dos Beavers. — Oh, você não tem que me dizer, — ela interrompe. — Eu sei quem você é... e o que você fez. — Imaginando que 300


minhas esperanças fosse por água a baixo, eu tomo coragem quando ela me dá um pequeno sorriso tímido. — Não diga a ninguém que eu disse isso, mas fez muito bem! Mas eu não deixo a minha expressão de arrependimento vacilar. — É que eu me sinto terrível sobre o que aconteceu. E significaria muito para mim se eu pudesse voltar lá e dizer a ele que sinto muito. Ela franze a testa. — Bem, tecnicamente, eu não estou autorizada a deixar ninguém a não ser um membro da família. Dou-lhe um olhar queixoso. — Por favor... por mim? Só desta vez? Ela olha em volta para ter certeza de que ninguém está observando. — Tudo bem, mas faça isso rápido. Eu faço o meu melhor para permanecer triste, quando na verdade eu estou pulando por dentro. As enfermeiras mais velhas ou da idade de mamãe, antes dela ficar doente sempre disseram que nunca poderia resistir aos meus olhos tristes, de cachorrinho. Eu acho que essa enfermeira não poderia também. Ela pressiona contra a porta, mantendo-a aberta para mim. — Ele está atrás da quinta cortina do lado esquerdo. A ambulância o trouxe cerca de uma hora atrás. O médico o atendeu e deu alguns analgésicos até que o cirurgião fosse

301


capaz de examinar seus raios-X, então ele pode estar um pouco fora de si. Ótimo. Eu realmente preciso que ele não esteja em seu juízo perfeito quando eu disser o que tenho a dizer a ele. — Ele saberá quem sou eu? — Eu pergunto. Ela encolhe os ombros. — Eu não tenho certeza. Quando lhe perguntamos se ele queria que nós chamássemos sua esposa, ele empurrou o plantonista ao lado dele tão forte que ele caiu no chão. Mesmo depois de estar gravemente ferido, sua violência não conhece limites. Eu fiz a decisão certa em vir aqui esta noite. Ele precisa ser colocado em seu lugar, de uma vez por todas. Eu sorrio para ela. — Ok, obrigado, senhora, por toda sua ajuda. Ela me dá um aceno rápido. — Apenas lembre-se. Seja rápido. Eu passo por ela. — Eu vou. O que eu tenho a dizer não vai demorar muito. A trava da porta clica atrás de mim quando ela retorna à sua mesa, e os meus ouvidos são imediatamente agredidos pelos gemidos altos de dor vindos do centro da sala. Eu conto as cortinas caminhando pela fileira de camas enquanto os membros da equipe passam por mim, e eu não estou surpreso de que o ruído esteja vindo detrás da cortina número 5.

302


Agarrando-a, empurro de lado, apenas para encontrar Nichols gemendo e suando no outro lado. Seus olhos quase revertem em sua cabeça quando ele vê que sou eu. — Você... O que você está fazendo aqui? Você pequeno fracote... seu pequeno covarde... seu pequeno pedaço de... Ele claramente sabe quem eu sou, não há preocupações. — Eu vim para entregar uma mensagem, — eu respondo friamente. — Saia, — ele rosna, com a mão quebrada descansando frouxamente em seu estômago, enquanto ele tenta se levantar. — Eu disse, saia! Fechando a cortina, eu caminho até ele. — Não até que você me escute. — Enfermeira! — ele clama. — Enfermeira! Eu olho para ele. — Grite o quanto quiser. Ninguém está vindo para ajudá-lo depois que você derrubou o plantonista. Respirando pesadamente, ele se inclina para trás contra o travesseiro, olhando-me com desconfiança. — O que você quer? Eu seguro as barras da cama e vou sobre ele. — Eu quero que você fique longe de Bobbie Jo. Você não vai telefonar, enviar mensagem ou se aproximar dela. Você entendeu? — E o que você vai fazer sobre isso?— ele zomba. — Quebrar minha outra mão? Eu estreito meus olhos para ele. 303


— Desculpe, eu não sou como você. Eu não ando por aí ferindo pessoas inocentes por diversão. Ele ri — Eu acertei um monte de caras ao longo da minha carreira, mas você é a única pessoa que se recusa a reconhecer quando foi derrotado. Eu fico bem na sua cara. — É aí que você está errado. Você não tem uma carreira mais. Você é o único que foi derrotado. Um lampejo de incerteza cruza seu rosto antes que ele possa escondê-lo. O maior medo de todo jogador é sofrer uma lesão no fim da carreira. Eu deveria saber. Por um tempo, essa era a minha vida, graças a ele. Mas eu me recuperei, e ele não vai ter tanta sorte, por uma razão muito importante, ele não tem Roberta para ajudá-lo a passar por isso, e eu tive. — Acabou. Ela está comigo agora. Ela não quer mais você. — Eu balancei minha cabeça enquanto eu olhava para sua mão disforme. — Você pode culpá-la? Ele olha para mim. — Você não conhece Bobbie Jo como eu. Você pode pensar que sim, mas você não conhece. E é quando eu vou pra cima dele. — Como a chutando no estômago quando ela estava grávida de seu filho? Seus olhos bloqueiam nos meus. — Ela te disse isso? Eu aceno, mas eu prefiro arrancar aquele sorriso feio fora de seu rosto. 304


— Sim, bem. Ela está mentindo. Eu solto as barras da cama e dou um passo atrás, porque é a única maneira que eu vou ser capaz de me conter. — Pode continuar dizendo isso. Mas nós dois sabemos o que aconteceu, não é? Ela pode ter tido medo de apresentar queixa logo em seguida, mas ela me tem agora. E eu juro por Deus, se você alguma vez a machucar de novo, você vai apodrecer na cadeia por um longo, longo tempo. Ele franze a testa para mim de mau humor, e eu me certifico que deixei meu ponto bem claro, então não há confusão. — Você tem um registro agora. Você cumpriu pena. Nenhum juiz vai tomar o seu lado sobre o meu. Então, se você tentar invadir minha casa de novo no meio da noite, saiba disso, eu estarei pronto para você, Nichols, e vou aproveitar para acabar com você de uma vez por todas. Estamos entendidos? Ele me olha afiado, teimosamente permanecendo em silêncio. Eu me movo para mais perto dele. — Eu repito, nós estamos entendidos? — Sim, nós estamos entendidos, — ele rosna de volta, com a intenção de ter a última palavra. — Além disso, nenhum homem de verdade vai querê-la agora, não depois que ela se rebaixou para ficar com um cara como você. Desta vez, sou eu quem sorrio para ele. — Sério? Isso é o melhor que você pode fazer?

305


Seus olhos estão como fendas enquanto ele ferve de raiva na cama. — Dê o fora. — Com prazer, — murmuro, girando em meu calcanhar e fechando a cortina. Tomou cada grama de coragem que possuía para entrar lá. Antes, eu o deixaria fugir com o que ele fez para mim. Mas agora, eu era capaz de fazer o que tinha de ser feito, pronto para defender o que é certo. Mas Roberta nunca pode descobrir sobre isso. Vai ser o único segredo que eu vou sempre manter dela, mas eu tenho de manter. Ela não iria gostar de eu ter vindo aqui para enfrentar seu ex-marido. Mas eu sou o homem em sua vida agora, e cabe a mim, delimitar a linha na areia. Eu caminho através da porta, e quando a enfermeira na recepção me vê, ela grita: — Como foi? Está tudo bem entre vocês dois agora? Aceno com a cabeça para ela. — Não poderia estar melhor.

306


Capítulo Trinta e Três

—Bobbie Jo, são duas horas da manhã. O que você está fazendo aqui? — Luke pergunta quando ele me encontra na cozinha. Já era tarde quando ele chegou em casa, e eu fingia estar dormindo, não querendo falar sobre David quando minha mente estava toda atrapalhada e confusa. Então eu fugi aqui para baixo para escrever no meu diário, que é o que eu tenho tentado fazer nas últimas duas horas e meia. Meu corpo está em estado de alerta como se eu tivesse tomado três expressos. Normalmente, eu sou capaz de organizar meus pensamentos no papel, mas esta noite, isso não está funcionando. Eu ainda estou por um fio, tensa, ansiosa. Eu rabisco tudo, porque nada que eu tenha escrito faz sentido. Eu olho seu cabelo bagunçado e o estado amassado de sua camiseta e me pergunto por que diabos estou aqui quando eu poderia estar lá em cima com seus braços fortes em volta de mim. Eu não tenho uma resposta para isso, e eu preciso continuar escrevendo até que eu tenha. Ele anda lentamente até mim, com os pés descalços. — Vamos para a cama. — Eu não posso, ainda não.

307


— Bobbie Jo... — Ele chega por trás de mim para massagear meus ombros, e eu rapidamente fecho meu diário. — Ele não vai voltar, não esta noite, nem nunca. Mas isso não é o que eu tenho medo. Eu olho para frente para a imagem do pai de Luke na parede. Quando Luke me mostrou sua estátua na praça, ele brincou sobre ter que crescer como o filho de Mr. Beaver e como seria quando ele tivesse seus próprios filhos um dia. Depois que ele disse isso, eu fiquei rasgada. Devo contar a ele ou não? Eu estava tão indecisa que eu nem sequer deixei ele me beijar naquela noite, apesar do quanto eu queria que ele fizesse. Ele interrompe meus pensamentos, indo para o outro lado da mesa, me fazendo olhar para ele. — Eu nem sabia que você estava aqui até que meu telefone descarregou. Meu agente louco sentiu a necessidade de me enviar uma mensagem dizendo que eu fui escolhido para jogar com os King’s em setembro. Sua boa notícia dá ao meu espírito uma elevação muito necessária. — Oh, Luke. Isso é maravilhoso! Estou quase levantando da minha cadeira para dar-lhe um abraço quando ele diz: — Obrigado, mas eu não vou aceitar a vaga. — O que? — Pergunto, caindo de volta em meu lugar. — É uma honra e tudo, mas não há nenhuma maneira de eu deixar você e mamãe. — Luke... — Eu gemo. — É apenas por algumas semanas, um mês, no máximo. Nós vamos ficar bem. 308


— Mas e se não ficarem? — ele pergunta. — E se eu registrar nos playoffs e os Kings irem para a World Series? Então, estamos falando de mais oito semanas, em vez de quatro. E isso sem levar a próxima temporada em conta. Não há nenhuma maneira que eu possa levar mamãe para morar em Nova York. Não é possível . Eu aperto sua mão. — É por isso que você tem que falar com Landry. Ele pode ajudá-lo. Eu sei que ele pode. — Não. — Ele desliza a mão da minha. — Roberta, você sabe como me sinto sobre isso. — Mas isso é uma grande oportunidade para que você possa deixar passar. Você não pode perder isso Luke. Eu não vou deixar você fazer isso. — Mas não é apenas sobre a mamãe. — Ele me segura com seu olhar. — Eu não quero ficar longe de você. Meu coração bate verdadeiramente forte em resposta porque eu sinto exatamente da mesma maneira. Eu não quero ficar separada dele também. Esta vida que temos construído para nós mesmos aqui em Stockton tornou-se meu mundo inteiro. Mas ele está tomando uma decisão monumental, sem ter todos os fatos. Eu me remexo, apertando a tampa da minha caneta. — Essa coisa com David... você acha que acabou, mas não acabou. Ele vira a cabeça para o lado.

309


— O quê? É claro que sim. A bola quebrou a mão dele. Mesmo com a cirurgia, ele não será capaz de machucar você nunca mais, eu juro. Eu mantenho minha cabeça em minhas mãos. — Mas Luke, você não sabe... — Eu lamento. — David sempre vence. Na verdade, ele já ganhou. Luke ri, abrindo um grande sorriso. — Você está deixando sua mente brincar com você. Eu sei que você tem andado com medo por um longo tempo agora, mas não tem que ter mais medo. Confie em mim. As coisas vão ficar muito mais brilhantes depois de uma boa noite de sono. Ele me oferece a mão, mas eu não aceito. — Diga-me, Luke. O que você realmente quer? Você realmente sabe? Ele se ajoelha ao meu lado, tirando a caneta da minha mão. — Sim, — ele sussurra, seus olhos mudando de uma intensa cor âmbar dourado para aquela sombra suave de verde que eu amo. — Eu quero você. Eu tenho que simplesmente lhe dizer tudo. É a única maneira que eu vou descobrir a verdade. — Mesmo que eu não seja capaz de ter filhos? Ele cai em um silêncio atordoado, e eu tenho a minha resposta. Empurrando minha cadeira, eu ando para a janela, colocando alguma distância entre nós. Quando eu olho para o quintal, o contorno do campo de beisebol em miniatura é visível à luz do luar. O pai de Luke fez para ele, o que ele, sem 310


dúvida, quer compartilhar com os seus próprios filhos algum dia, as crianças que eu não serei capaz de dar-lhe. Quando ele finalmente fala, a pergunta parece difícil e me atinge profundamente. — É por causa dele, não é? Por causa do que ele fez com você? Eu

não

tenho

nenhuma

razão

para

estar

mais

assustada. David já não representa uma ameaça imediata para nós. Ele não pode me machucar. Ele não pode ferir Luke — somente eu sou capaz de fazer isso agora. Mas isso não significa que Luke esteja errado. Respirando fundo, eu libero minha respiração que estava reprimida dentro de mim. — Sim, David tem algo a ver com isso. Quando Luke bate com o punho na mesa, eu pulo. — Eu deveria ter quebrado a sua outra mão quando eu tive a chance! Mas quando ele senta na minha cadeira vazia, a energia que

alimenta

suas

bravatas

de

durão

desaparece

rapidamente. Luke não é um homem violento. Ele não é como David. Fora esta noite no campo, eu vi o quão culpado ele se sentia pelo que fez. Mesmo que fosse um acidente, ele não leva alegria no sofrimento de ninguém. Isso não é quem ele é. E é por isso que eu o amo. E é por isso, que não importa o quão doloroso seja para mim dizer, ele merece saber a verdade. Mas a centelha de esperança que está queimando dentro dele está lentamente morrendo.

311


— Mas e se há um médico, um especialista em algum lugar, que pode ajudá-la? E dói ter que extingui-la. — Luke, há algo que você deve saber. Depois que eu deixei David, eu tinha uma série de... o que eu acho que você chamaria... relacionamentos rebote. Eu estava em um mau momento onde eu saltava de um cara para outro, porque eu estava muito confusa por dentro. Eu estava trabalhando para Arnold Heimlich no momento, e eu comecei a dormir com... alguns dos Kings. Ele abaixa a cabeça, esfregando a mão sobre sua mandíbula quando ele começa a entender que alguns dos rumores sobre mim são realmente verdadeiros. — Mas eu não me apaixonei por nenhum deles. Para mim, eles eram mais como uma tentativa do que qualquer outra coisa. Então, ninguém ficou mais surpresa do que eu quando... — Eu paro para me recompor. — Quando eu acabei ficando grávida de novo. A mão que ele estava correndo sobre seu cavanhaque cai sobre a mesa. — Mas você tem que entender, — eu imploro. — Foi à chamada para o despertar que eu precisava. Mesmo se eu não ligasse para mim, eu não tinha escolha, a não ser arrumar minha vida para o bem do bebê. Era minha chance de começar de novo. Eu depositei toda a minha espera nele. — Quem era o pai? — Jake Woodbury.

312


Ouvindo isso, seu rosto permanece em branco. E agora, este é o lugar onde as coisas ficam difíceis. Eu poderia simplesmente deixar pra lá. Eu não tenho que continuar. E se fosse qualquer outra pessoa, eu provavelmente iria parar por aqui e me fechar, esconder dele o que eu não quero que ele saiba, mas eu não posso com Luke. Ele se abriu completamente, e ele merece o mesmo de mim. Eu abaixo minha cabeça. — Mas muito cedo, eu sofri um aborto espontâneo. — Eu tomo um momento, cavo fundo para encontrar a força para ir em frente. — A angústia mental que eu passei depois disso foi o período mais negro da minha vida eu sei que parece loucura, mas na minha cabeça, eu continuei a ouvir David me dizendo: A culpa é sua, Bobbie Jo, é sempre culpa sua e eu acreditava. Na voz dentro da minha cabeça, porque eu não tinha ninguém para me dizer o contrário. Luke, você não tem ideia do quanto eu queria esse bebê depois do que aconteceu com David... E quando eu o perdi, doía... dói tanto. Eu estava experimentando uma grande quantidade de dor física também, mas a dor no coração era maior. Consciente da minha história médica, o meu médico estava preocupado e ele me fez passar por uma série de testes. O que ele descobriu não era bom. Havia várias cicatrizes em torno de meu útero da cirurgia de emergência que eu tive depois do que David fez para mim. Eu nem sequer sei, porque quando eu acordei no hospital, tudo o que foi dito é que era a maneira que eles escolheram para lidar com a morte do feto.

313


— Faço uma pausa, minha voz começando a tremer. — Então, quando eu fiquei grávida de novo... E, eventualmente, abortei... — Eu paro, revivendo tudo de novo em minha mente. — Os testes revelaram que a placenta não foi capaz de desalojar totalmente a maneira que deveria. Uma parte dela ainda estava ligada à parede do útero, no tecido da cicatriz, com um perigo muito real de hemorragia. — Eu respiro fundo. — Eu não tinha escolha. Eu tinha que fazer uma histerectomia... então é isso que eu fiz. Eu nem sequer pensei duas vezes sobre isso. — Eu acho que nesse ponto eu estava pronta para fazer qualquer coisa para fazer a dor ir embora, independentemente do que me custaria. A testa de Luke franze como se ele não estivesse entendendo exatamente o que estava tentando dizer a ele, e me matava ter que explicar isso a ele. Um soluço sobe na minha garganta. — Luke, você não vê? Eu não posso dar-lhe os filhos que você quer. Eu não posso dar-lhe uma família. O que eu fiz não pode ser desfeito. — As lágrimas começam a fluir de verdade agora, e eu não posso segurá-las. —É só que, no momento, eu me convenci de que eu estava bem com isso porque eu nunca pensei que iria encontrar alguém como você. Eu desisti da vida, em vez de me apaixonar mais uma vez, em vez de ser feliz novamente. — Eu tomo uma respiração instável. — E agora, eu sou metade de uma mulher... sem nada para lhe oferecer.

314


— Não diga isso, — ele grita, levantando-se e estendendo a mão para mim. — Você é tudo que eu poderia querer e muito mais. Você não sabe disso? Eu fujo dele, não permitindo que ele me puxe para o calor do seu abraço. — E você realmente acha que eu poderia ser feliz, sabendo que você jogou fora o seu futuro por causa de mim? Luke, eu me recuso a retê-lo. Eu quero que você tenha tudo que sempre sonhou, porque você merece. É por isso que eu quero que você diga ao seu empresário que sim. Você deve isso a si mesmo, sua mãe... seu pai... ir e jogar em Nova York. — Eu suspiro profundamente. — Se você não fizer isso, eu não acho que eu seja capaz de me perdoar, nunca. — Envolvendo meus braços ao meu peito, eu lentamente caminho para fora da cozinha. — Roberta..., — ele sussurra. Mas com lágrimas silenciosas escorrendo pelo meu rosto, eu continuo. Uma vez que eu entro no meu quarto, eu tranco a porta antes de me jogar na cama, puxando as cobertas em torno de mim que ainda estão quentes de seu corpo.

315


Capítulo Trinta e Quatro

Quando você tem em torno de doze ou treze anos, nem sequer pensa em dar forma a suas próprias sobrancelhas. Venha a mim e eu vou levá-lo para tê-las feita por um profissional. O cabelo que você arranca hoje, você estará desejando que o tivesse de volta quando estiver mais velho. Quando a vida se torna esmagadora, nunca ataque aqueles que o rodeiam. Dê uma volta de carro. Aumente a música. Vá caminhar. Palavras ditas com amargura tendem a deixar uma marca permanente. Elas são sempre as que você deseja pegar de volta. A felicidade não é uma grande coisa concreta onde uma vez que a encontra, você vai tê-la para sempre. É mais de uma coleção de momentos fugazes, porém perfeitos. Tomando sorvete sob as estrelas em uma noite de verão. Pisando em folhas secas e barulhentas, em um dia de outono. Pegando um floco de neve em sua língua e rindo quando você faz. Fama, sucesso, dinheiro, poder — nenhum deles vai dar o que você precisa — Nesse sentido puro, simples de felicidade, isto permite que você seja capaz de viver consigo mesmo e perdoar a si mesmo pelas escolhas que fez. Larguei o diário de Roberta. Eu fiquei acordado a noite toda lendo. Quando ela saiu da cozinha, eu não sabia o que fazer, o que pensar, o que dizer. Então meus olhos caíram 316


sobre as borboletas azuis e verdes flutuando por toda a capa, e eu precisava descobrir o que estava lá dentro. Ela pensou, que me contando que não podia ter filhos que eu não ia mais gostar dela, mas posso dizer honestamente, que, depois de ler todos os seus calorosos, engraçados e sinceros registros para a filha que ela nunca vai ter, eu agora a quero mais do que nunca. Sua força, sua visão, sua compaixão, sua alma, veio transbordando por estas páginas, e isso me rasga, a ouvir se chamando de uma metade de uma mulher. Ela é uma sobrevivente, suportando o tipo de dificuldades que teria quebrado o espírito de muitos. No entanto, aqui está ela, ainda aguentando, recusando-se a deixar de lado a bondade dentro dela. A

campainha

toca,

e

o

gemido

da

minha

mãe

imediatamente atinge todos os cantos da casa. Eu levanto os meus olhos para o teto, quando seus passos em pânico começam freneticamente tamborilar o toc toc lá em cima. Eu não sei quem está na minha porta às sete horas da manhã, mas provavelmente é alguém que eu não quero que ela encontre. Só espero que Roberta a pare antes que ela desça as escadas. A corrida começa quando eu vou para fora da cozinha. Mas quando eu pego um vislumbre de quem está de pé na varanda, eu gemo. E meu coração afunda ainda mais quando mamãe vem descendo os degraus da escada com pressa, fazendo um caminho mais curto diretamente a mim.

317


— Lukey! O que está acontecendo? O seu pai esqueceu suas chaves outra vez? — ela pergunta tudo em um só fôlego. Seus olhos estão muito brilhantes, sinalizando para mim que seu cérebro está lutando para dar sentido às coisas. Sua cognição não é muito boa na primeira parte da manhã. Adicione ser arrancada de um sono profundo, e eu sei que não há nenhuma chance de esconder sua condição. Não poderia haver pior momento para convidar esta pessoa para entrar. Eu seguro seu rosto em ambas as mãos. —Ma, me escute. Não é meu pai... É um de seus amigos. — Amigo dele…?— ela sussurra. — Ele não tem nenhum amigo. — Sim ele tem. — Mesmo no meio de um desastre iminente, ela me faz sorrir, apesar de mim mesmo. — Você gosta deste homem. Você mesma me disse isso. Ela torce o nariz. —Eu não gosto de homens. Eles são altos e confusos e... — Você gosta muito de mim, não é? Agarrando meus pulsos, ela aperta as mãos do rosto. — Você não é um homem, Lukey. Você é o meu menino. Eu fecho meus olhos, sua observação me afetando em um nível muito mais profundo depois de saber o que Roberta me disse ontem à noite. — Eu sei, — eu sussurro. — Por que você não vai lá para cima e encontra Roberta? Pode fazer isso por mim? — Quem...? Não, eu quero ficar com você.

318


Mas eu não tenho muito tempo para contemplar onde Roberta esta agora e por que ela não está aqui. — Tudo bem, deixe que apenas eu fale, ok? Ela balança a cabeça. — Ok, Lukey. Meus dedos dançam sobre as teclas do painel de segurança quando eu soco o código. Eu não sei como eu vou explicar isso a ele, se as coisas irão por água a baixo, mas aqui vamos nós. No entanto, logo que eu abro a porta, mamãe diz em voz baixa: — Uau... olhe para isso? Há um vaqueiro em pé na varanda da frente! De onde ele vem? Landry olha para ela e para mim com uma tristeza em seus olhos que eu nunca vi antes. — Então... é verdade? E apenas quando eu pensei que tinha escapado do meu pesadelo, aquela sensação terrível de ser enterrado vivo no fundo de um poço profundo, escuro, me oprime. Minha boca fica seca, mas de alguma forma eu consigo proferir: — Você sabia? — Sua namorada me disse. — Bobbie Jo? Suas sobrancelhas atiram para cima, muito acima da aba de seu chapéu. — Não, eu estava falando sobre o seu encontro do leilão — Heidi. 319


Eu bato com a cabeça contra o batente da porta e minha mãe se esgueira por mim. — Onde está seu cavalo? Você o deixou no quintal? Ele coloca seus dedos nos passantes da calça jeans e apenas olha para ela por um momento. — Bem, muito ruim, Carla. Eu realmente sinto muito que não se lembra de mim. — Eu deveria? — Ela coça a cabeça. — Quem é você o Lone Ranger ou o Homem de Marlboro? Ele tira o chapéu e o coloca sobre o seu coração. — É Mike, Carla... Mike Landry. Tivemos muitos bons momentos juntos, você e seu marido, eu e minha esposa. — Onde está sua esposa?— ela pergunta, olhando em volta. Landry amassa o chapéu contra seu peito. — Ela... ela morreu, Carla. — Ah, é? Eu acho que o meu marido me deixou por outra mulher, — ela responde o assunto com naturalidade. — Ele nunca está em casa mais. Eu não sei onde ele vai. Ele coloca a mão em seu ombro. — Seu marido é um homem bom, um dos melhores que eu já conheci. — Ele pisca para mim. — E seu filho não é muito ruim. — Landry! O que está fazendo aqui?— Roberta pergunta sem fôlego. Ela está na entrada, espantada, ainda nas roupas que ela estava na noite anterior. Seu cabelo não foi penteado. Ela tem olheiras sob seus olhos. Ela está uma bagunça. Eu

320


estou uma bagunça. Mamãe é uma bagunça. De sua perspectiva, essa cena deve parecer muito, muito ruim. — Eu vim para ter um coração para coração com o seu novo namorado aqui. Se importa se eu entrar? — Ele entra em cena entre nós, as botas tilintando enquanto ele anda. — Carla, a casa parece grande, da mesma forma como eu me lembro. É realmente como voltar para casa de novo. Eu só desejava que eu tivesse tempo no começo da temporada para ter vindo te ver. Mamãe o segue, e eu troco um olhar preocupado com Roberta. — Ele está apenas fazendo conversa fiada ou será que ele realmente o desaprova...? — Claro que ele não nos aprova, — ela geme. — Sim, mas Heidi avisou, disse-lhe que havia algo errado com a mamãe. É por isso que ele está aqui. Para investigar. Para ver se é verdade. — Eu suspiro. — E eu receio que, não demorou muito tempo para descobrir isso. Ela descansa a mão em sua parte inferior das costas, tentando entender. — Sua filha acabou de voltar para a escola, e com seu filho longe na faculdade, ele jamais se levantaria e a deixaria. — Bem, ele está aqui, não é? — Eu fecho a porta e minha mente salta à frente, correndo através de todos os possíveis cenários do que a sua aparição na minha porta implica. Ele está aqui para levar a mãe para longe de mim, ou há alguma outra razão por trás de sua visita surpresa?

321


— Single, por que você não pega uma cadeira?— ele comanda,

sua

profunda

voz

de

barítono

ressoa

com

autoridade. Minha coluna imediatamente endurece. Quando foi que ele chegou, ordenando-me ao redor em minha própria casa? Relutantemente, eu apoio meu quadril no braço do sofá, metade cumprindo com o seu pedido. — Parece que você está prestes a dar algumas notícias bem ruins. — Eu receio que sim. — Ele faz uma careta. —É por isso que eu vim aqui para dizer pessoalmente. O seu agente entrou em contato com você na noite passada? Eu me inclino para frente. — Sim, sobre as convocações de Setembro. Por quê? Roberta salta. — Ele vai para Nova York, Landry. Nós já falamos sobre isso. Eu tenho tudo sob controle aqui. — Sim, — ele fala devagar. — Carla tem se recuperado realmente bem, Bobbie Jo. E é como se ele fosse o único colocar a tampa no poço agora, bloqueando até mesmo o ponto mais ínfimo de luz. Agora, eu estou pronto para fazer o que for preciso para fazêlo recuar. — Landry, não devíamos ter mentido para você, — eu deixo escapar. — Mas Bobbie Jo não é a culpada. Foi minha ideia manter silêncio sobre a mamãe e o Alzheimer, não dela. Ele medita enquanto meticulosamente arregaça as mangas de sua camisa xadrez, mostrando o braço de 322


arremessador que fez de seu nome um sucesso. Ele é um cara que tem um monte de poder sobre o sentido da minha vida. Como ele decide exercer sua influência não afetará somente a mim, mas as outras duas pessoas sentadas nesta sala. Em seus olhos, eu sempre vou ser uma criança. Ele me conheceu quando eu estava brincando com meus caminhões Tonka debaixo da mesa da cozinha. Para ele, eu sempre vou ter Júnior anexado ao final do meu nome. Ele considera que a mamãe seja um de seus queridos amigos. Se ele se sente como eu estou me sinto, ele não vai descansar até acalmar a sua consciência sobre a situação de mamãe. Mas em Roberta, ele confia. Ela é a única pessoa que pode influenciá-lo ao meu lado. Ele relaxa e me estuda. — Então... se você fosse jogar em Nova York, Bobbie Jo supostamente

viveria

em

Stockton

com

sua

mãe...

indefinidamente? Eu não hesito. E digo o que ele precisa ouvir de mim. — Eu não quero jogar em Nova York. — Você não quer? — Luke, shhhh. — Roberta olha para mim. — Landry, não o escute. Claro que ele quer jogar em Nova York. — Não... — Reitero, tornando-o tão simples quanto pode ser. — Eu não quero. O canto da boca de Landry contrai enquanto ele se senta para frente, balançando o chapéu entre os joelhos. — É isso o que realmente sente, filho? 323


— É sim. Roberta suspira, sacudindo a cabeça. — Ele só está dizendo isso porque ele tem medo. — Medo? — Landry ri para ela enquanto me lança um olhar de lado. — Eu não contei a ninguém que eu estava vindo para Stockton. Mas eu fiz meu ponto voando porque eu queria estar aqui no caso de Nichols tentar alguma coisa. Porém, eu não precisava ter me preocupado. Seu namorado matou Golias literalmente. Se isso não provar que ele tem o maior par de bolas do que qualquer um que eu conheça, eu não sei o que faz. — Ele se volta para ela. —Então me diga do que é que ele tem tanto medo, Bobbie Jo? — Você! — Ela levanta as mãos. Ele olha para mim, incrédulo. — Eu? — Sim você! — ela bufa. — De você, metendo o nariz onde não é chamado. Landry, eu sei que você quer fazer o bem, mas você não pode sair por aí ditando como as outras pessoas devem viver suas vidas. Luke não quer colocar sua mãe em uma casa de repouso. E até que chegue o momento em que ele absolutamente tenha que fazer isso, eu o apoio cem por cento. Meus

olhos

piscam

para

o

seu

perfil

agitado.

Exatamente quando ela estava indo me dizer isso? Ela nunca mencionou nenhum um dia que sua ajuda pode não ser suficiente. Landry, completamente envergonhado, cruza os braços e não diz nada. 324


— E outra coisa, — Roberta continua. — Então, e daí que Luke e eu estamos namorando? Você não deveria se importar com isso. Você não é meu chefe mais. — Sim, mas eu sou dele, — diz ele em resposta, tirando mais o controle dela. — Mas isso não lhe dá o direito a... — Bobbie Jo. — Landry a corta. — Eu não estou aqui para falar sobre isso. Eu estou aqui para dizer a Single que Heimlichs quer chamar Rob Reardon, em vez dele. Eu pisco, tentando absorver o que ele disse. Ele descansa a mão nas minhas costas. — Minhas sinceras desculpas, Single. Rex falou demais. Ontem à noite, depois de algumas cervejas no bar do hotel, ele estava me dizendo o que você fez para Nichols como se não pudesse acreditar. Eu acho que ele não acreditava que você tinha isso em você. Mas eu sabia. Eu sabia o tempo todo. Eu mencionei que estava na lista de nomes que os Heimlichs

estavam

considerando,

mas

eu

deixei

perfeitamente claro para ele que as coisas ainda estavam no ar, nada de concreto ainda. Mas Rexy estava se sentindo culpado

sobre

como

ele

tratou

você

durante

toda

a

temporada, e ele nunca foi bom em segurar o seu uísque. Esta manhã, quando ele me disse que te mandou uma mensagem sobre isso como uma forma de fazer as pazes, eu vim direto para cá. — Ele agarra meu ombro. —Os Heimlichs tem bastante certeza de que os Kings vão se tornar os playoffs, e eles querem Rob para obter alguma experiência póstemporada sob o seu cinto. Como você sabe, eles estão o 325


criando para ser uma estrela. — Landry suspira. — Mas, Single, eu quero que você saiba que eu lutei por você. Eu realmente fiz. Espero que ele diga que eu não poderia discordar mais com a decisão dos Heimlichs. —

Oh,

Luke,

Roberta

geme,

sua

raiva

instantaneamente recuando enquanto ela empurra Landry de lado e joga seus braços em volta de mim. — Isso é tão injusto. Você merece mais do que ninguém estar na equipe. — Está tudo bem, — murmuro através de seu cabelo. — Na verdade, estou um bocado aliviado. Ela dá um passo para trás. — Por favor, não diga isso. — Single... — intervém Landry. — Eu sei o quanto isso significava para o seu pai, e agora você ficando tão perto depois de tudo que você passou... Eu tenho que te dizer, isso parte meu coração. — Não seja bobo. — Eu aceno. — Há coisas muito piores que podem quebrar meu coração, e confie em mim, isso não é uma delas. Os olhos de Roberta encontram os meus. Seu olhar está perturbado, assumindo automaticamente que eu estou me referindo ao que ela me disse ontem à noite. Mas ela não podia estar mais errada. Eu só não posso falar sobre isso na frente de Landry. — Bem, — Landry tosse, vendo a maneira que nós estamos olhando um para o outro. — A lotação esgotada da noite passada superou a marca da temporada que os Heimlichs estabeleram para mim, o que significa que eles 326


prolongaram meu contrato por mais três anos. E eu prometo a você, Single, você terá um lugar na organização dos Beaveres enquanto eu fizer parte dela. Estendo minha mão a ele. — Obrigado, cara. Ele sacode calorosamente. — Sobre a sua mãe... — Ele lança um olhar para onde ela está balançando em seu lugar no sofá. — Você está em boas mãos com Bobbie Jo. Ela é a melhor. — Ela certamente é, — eu digo, incapaz de arrancar meus olhos longe dela. Ela cora, olhando para as mãos. — Então é isso?— ela pergunta. — É isso aí, — responde Landry. Ela lhe entrega o chapéu. — Então, você já esta de saída? — E eu aqui pensando que você queria ouvir tudo sobre o meu encontro com Ruby, — ele brinca. — Eu pensei que não era um encontro? — Naquela noite não foi... mas um tempo depois, e um tempo depois... Ela cobre as orelhas e seus olhos brilham para ela. — Tudo bem, o suficiente! Eu tenho a imagem. — Ela com certeza tem essa coisa de se soltar com o cowboy. Eu tentei tomar conta de seus tratamentos de câncer, e ela tranquilamente me colocou no meu lugar, — ele ri. Mas Roberta não. 327


— Ela ainda está fazendo quimioterapia? — Não, nada disso, — diz ele, colocando o chapéu em cima de sua cabeça. — O que eu deveria ter dito era a continuação do seu tratamento. Ela está livre do câncer há pouco mais de um mês. Agora isso que é um relacionamento arriscado, se eu já ouvi falar de um, e isso só me faz admirar o cara ainda mais. Não porque Landry se acha o máximo, mas porque sua esposa, a mãe de seus filhos, morreu de câncer, e agora ele está namorando uma mulher que está no caminho da recuperação. Mas ele não tem medo. Ele está indo para ele. E eu acho isso inspirador. Landry sorri largamente. — Ela esta, na verdade, no hotel, esperando eu voltar. Roberta dá um soco no braço. — Você está me dizendo que a trouxe para Stockton e você nem sequer a trouxe aqui com você? — Eu realmente não vim aqui em uma visita social, Bobbie Jo, — resmunga. Ela apunhala o botão número nove na caixa de segurança antes de abrir a porta. — Bem, vai, então. E nós dois começamos a rir. — Você tem um fio desencapado aqui, Single. Tem certeza de que pode lidar com ela? — Eu tenho certeza que eu estou pronto para o desafio, considerando a alternativa. Ele ergue uma sobrancelha para mim. 328


— E isso é…? — Heidi Foster. Ele gargalha quando Roberta olha para mim. — Eu já disse ao meu assistente para não aceitar mais chamadas dela. Essa menina é completamente louca. — Sim, obrigado por me colocar com ela, — Eu digo inexpressivo. Ele toca a aba do chapéu. — Devo a você e Bobbie Jo uma noite na cidade por isso. Por minha conta, onde quer que você queira ir, basta dizer. Eu sorrio para ele. — Eu entrarei em contato. — Não tenho uma palavra a dizer em tudo isso?— Roberta fala. — Não, — nós respondemos em uníssono, rindo. Roberta coloca as mãos nas costas de Landry e divertidamente empurra para fora da porta. — E não volte. — Oh, eu vou, — ele chama por cima do ombro. — Você pode ter certeza disso. Ei, espere um minuto. Desde que você está saindo com 'Single agora, isso faz de você... Bobbie Jo Beaver? E ela prontamente bate a porta na cara dele.

329


Capítulo Trinta e Cinco

Eu descanso minhas costas contra a porta, meus olhos fixos no rosto de Luke. — Então, você vai ficar com os Beaver... E você está realmente bem com isso? Ele caminha até mim, pegando minha mão e levando-a aos lábios. Quando ele a beija, um delicioso formigamento corre através de mim, enquanto seus olhos queimam os meus. — Eu não preciso jogar nas Grandes Ligas pra validar a minha carreira. Eu franzo a testa. Ótimo. Ele acha que eu estou decepcionada com ele. Mas isso não poderia estar mais longe da

verdade.

Estou

desapontada

por

ele

e

como

as

oportunidades nunca parecem seguir o seu caminho. Ele é talentoso, dedicado, com o coração de um campeão. Eu só quero vê-lo ser recompensado por isso. Eu aperto a mão dele. — Luke, eu só quero que você saiba que eu estou muito orgulhosa de você. O que você realizou nesta temporada? O seu retorno? Ninguém mais poderia ter feito o que você fez. Seus olhos brilham para mim. — Bem, isso não teria sido possível sem uma coisa muito importante... 330


Prendo a respiração. — Você. Eu me encolho, pressionando meu ombro contra a porta. — Luke, não diga essas coisas. Ele descansa o ombro ao lado do meu, então eu não posso esconder meu rosto dele. — Por quê? É a verdade. Eu não poderia ter feito isso sem você. Você é a cola que me manteve junto. — Mas quando você ouviu na noite passada que tinha conseguido a vaga nos Kings, a primeira coisa que deve ter passado por sua mente foi que um dia você diria a seus filhos sobre isso. — Eu fecho meus olhos e sussurro: — Por favor... Não negue. Ele suspira. — É isso que você não entende. Um dia, eu vou contar aos meus filhos sobre isso. Ele se empurra para longe da porta e me deixa de pé lá, e meu coração dói como nunca doeu antes. Quando eu lhe disse que não podia ter filhos, eu sabia que havia uma possibilidade muito real de que eu poderia perdê-lo. Que homem não quer ter seus próprios filhos? Mas, ouvi-lo falar sobre isso, tão casualmente, machucou muito mais do que eu pensava. No entanto, quando ele correu para fora da sala e na cozinha, gritando: — Mãe! Onde está você? Mãe!? — Eu sabia que algo estava terrivelmente errado. 331


Aperto minha garganta. — Ela não está aí? — Não. — Onde ela poderia ter ido? Ele aperta sua fronte. — O alarme foi desativado por alguns minutos, quando deixamos Landry sair. Ela deve ter escapado pela porta dos fundos. — Oh meu Deus! — eu sussurro enquanto ele digita o código e corre para o quintal. Seguindo ele, minha mente começa a correr. Ela não poderia ter ido longe. Quanto tempo ficamos falando no hall de entrada? Cinco... Dez minutos, no máximo? Eu deveria chamar a polícia. Eu deveria… — Mamãe! Não se mexa! Estou indo! Eu olho para cima e vejo a Sra. S. montada fragilmente na escada, pendurada na lateral da casa, a que Luke estava usando para reparar a calha de chuva que pingava pela milionésima vez. Ela tinha algo em suas mãos, algum tipo de livro, que ela estava rasgando as páginas e deixando-as flutuar na brisa. — Voem, borboletas! Voem! — Ela chora, enquanto deixa outra página ir com o vento. Borboletas? Meu coração para. Não, Deus, não... Meu diário não! — Luke! — Eu solto um grito estrangulado. — Eu sei eu sei. — Ele tenta estabilizar a escada debaixo dela, mas quando começa a subir, começa a balançar 332


enquanto ela se inclina para o lado, tentando escapar do seu alcance. Eles vão cair, é a primeira coisa que passa pela minha mente. Os dois vão cair. E com uma explosão de velocidade, uma que eu não sabia que possuía, alcanço a escada e a agarro com toda a força que eu tenho em mim. Mas o peso dos dois juntos é demais. Está começando a cair. Eu cavo em meus calcanhares e dobro os joelhos para me preparar, lutando para mantê-la na posição vertical enquanto Luke sobe outro degrau. — Eu te seguro, Mãe. — ele grita para ela. — Solte o diário. Ela ri quando joga rapidamente a capa para longe dela como se estivesse jogando um disco de Frisbee. A escada treme e o suor escorre na minha testa, enquanto a escada range sob meus dedos. — Dê um passo para baixo. — Luke manda, pegando as costas de sua camisola. — Estou bem atrás de você. Seu braço, o que ficou paralisado após a lesão, está perigosamente exposto. Se a escada cair, ele levará todo o peso do impacto. Eu não posso deixar que isso aconteça, não depois do quão longe ele chegou. Mas eu não acho que vou ser capaz de segurar por muito mais tempo. Ele tem que descê-la agora. Eu cerro os dentes e o calcanhar de Luke começa a descer um degrau, depois dois degraus, depois três. E Sra. S. está bem atrás dele, descendo cada degrau com muito menos cuidado do que ele. Quando seu pé está praticamente no meu 333


rosto, eu passo para o lado e ele pula fora, trazendo-a para baixo em cima dele, enquanto a escada faz barulho para o lado. Ela olha para mim, sentada em cima do peito de Luke enquanto eu fico ali, tentando recuperar o fôlego. Quando Luke geme, eu me apresso, estendendo as mãos para ela, para ajudá-la. Mas ela não pega. Ela fica me encarando, em vez disso. — Você é a guardiã das borboletas, não é? — ela pergunta. Eu concordo. — Sim, mas você tem que se levantar agora. — Você mantém as borboletas. Mas agora, eu as libertei. Eu as deixei livres, pra voar pelo mundo. — Ela olha para o filho. — Agora, você tem que me deixar ir, Lukey. Você tem que me deixar voar com as borboletas também. A cabeça de Luke se vira para o lado, seu olhar pousando sobre ela, e eu sinto vontade de chorar, porque não conseguir jogar com os Kings pode não ter quebrado seu coração, mas perceber o estado de sua mãe, esmaga-o como nada mais pode. Ele tentou tão duro mantê-la com ele, mas é como se ela estivesse dando permissão para ele fazer o que precisa ser feito, como se ela o estivesse libertando. Eu seguro suas mãos e ela me permite levantá-la. E eu fico surpresa quando ela me dá um grande abraço. — Você é uma boa menina. E isso é o que eu quero para o meu Lukey, uma boa menina. — Ela sorri, até que o olhar ausente rouba suas feições novamente, enquanto ela vagueia 334


sem rumo até a cadeira que seu marido havia feito para ela e se senta. Ajoelho-me ao lado de Luke enquanto ele se senta. — Você está bem? Ele me dá um meio sorriso. — Sim, o vento só me acertou muito forte. Isso é tudo. — Ele amaldiçoa em voz baixa quando se levanta e começa a se curvar para recuperar algumas das páginas que estão espalhadas pelo gramado. — Não. — eu insisto, agarrando seu braço. — Ela está certa. Basta deixá-las ir. Ele olha para as manchas de tinta indecifráveis, as páginas todas molhadas do orvalho sobre a grama. Ele esfrega o rosto consternado. — Ela arruinou tudo. Ela Mas eu coloco minha mão em seu rosto. — Não fique zangado com ela. Ela não sabia o que estava fazendo. — Seus olhos entristecem, mas eu continuo. — Luke, é melhor assim. Não é como se eu precisasse mais do meu diário. Era apenas um meio de manter meus arrependimentos vivos. Ele pega a minha mão do seu rosto e pressiona em seu coração. — E se eu não puder abandonar o seu sonho sobre ela, a filha sobre a qual você escreveu esse tempo todo? Eu inspiro, estremecendo, enquanto seguro a parte da frente de sua camisa.

335


— Ela não existe, Luke. Ela nunca vai existir. Qual parte disso você não entende? — Bem, eu não vou desistir dela. Ela está lá fora em algum lugar, apenas esperando por nós para encontrá-la, — diz ele tão ardentemente, que meu coração pulsa de novo dentro do meu peito. — O que você está dizendo? — Eu estou dizendo que a nossa filha, uma criança que podemos amar de todo o coração, ainda pode entrar em nossas vidas — ele sussurra, correndo o polegar levemente em toda a palma da minha mão. — Você quer dizer... — Gaguejo. — Você está falando sobre...? Ele sorri para mim de todo o seu coração. — Adoção? Sim... Eu estou. Fechei os olhos com força. — Mas ela não será sua. Ela não vai ser... — Ela vai ser nossa. Ele segura meu queixo, estendendo seus dedos, até que eu viro meu rosto no calor da sua mão. — Você realmente quer dizer isso? — Família é tudo para mim. — Ele abaixa a cabeça. — É por isso que eu estava tentando manter minha mãe em casa, com todas as minhas forças. Porque você acha que eu passei por tanta dificuldade, quando a maioria das pessoas não teria se incomodado? Mas uma palavra em particular chamou minha atenção. — Estava? — Eu o interroguei. 336


— Eu não posso pedir para você fazer mais isso, Roberta. Luke tem aquele olhar em seu rosto. Eu reconheço o olhar, porque eu já vi isso em tantos membros da família. Chega um momento de revelação em cada família, quando a condição

de

um

paciente

com

Alzheimer

desce

tão

rapidamente, que não há mais qualquer dúvida de que as coisas só vão piorar em vez de melhorar. É uma realidade preocupante ter que admitir a derrota em face de uma doença que não se sabe se tem cura. Ninguém quer desistir de alguém que ama, e ninguém ama mais profunda ou mais verdadeiramente do que Luke. Ele é um homem que ama com todo seu coração, e quebra o meu saber que este momento chegou para ele. Ele olha por cima de sua mãe enquanto ela olha para o espaço, perdida em seu próprio mundinho. Deixando cair seu olhar, ele lentamente levanta os olhos para os meus. — É só que... você já viu alguns desses lugares? — Ele abaixa suas mãos do meu rosto, dando um passo para o lado. — As pessoas perambulando como zumbis, sendo agrupados como gado. — Nem todos os lares para idosos são assim. Eu trabalhei em um, lembra? — Eu respondo suavemente, e quando eu me aproximo dele, ele para de andar de um lado pro outro. — Luke, eu só fui capaz de oferecer uma solução temporária.

Ia

chegar

um

momento

em

que

suas

necessidades seriam maiores do que o nível de cuidado que eu sou capaz de fornecer. E depois de hoje... — Eu mordo 337


meu lábio. — É algo que você não pode adiar por muito mais tempo. — De quanto tempo estamos falando? — Podem ser anos, meses, semanas. Eu não sei. — Eu coloco a mão em seu braço. — Ela já foi diagnosticada com a doença de Alzheimer... Quando foi isso, cerca de dois anos atrás? Sua mente oscila, e ele começa a divagar. — Sim, bem na época em que te vi no... — Você me viu? — Exclamo. — Onde você me viu? — No escritório de Arnold Heimlich. — Eu olho em seus olhos, que estão vivos com uma memória que eu queria, de todo meu coração, ser capaz de recordar. — Foi só por um momento. Mas eu não sei... a maneira como você cuidou dele? Era isso que eu queria pra minha mãe. Meu coração responde a ele, reconhecendo uma parte de si mesmo batendo fora do meu corpo, fazendo com que a minha ligação com ele pareça ainda mais especial do que antes. Eu lanço um olhar cheio de culpa para ele. — Me desculpe, eu não me lembro. Havia tanta coisa acontecendo na minha vida naquela época — trabalho novo, chefe novo, lugar novo para morar, novo... Tudo. Nesse ponto, eu provavelmente não poderia nem mesmo ter te dito meu nome, se você tivesse me perguntado. Ele ri, como se a última coisa que quisesse era me fazer sentir culpada por nada.

338


— Está tudo bem. Você me inspirou, isso é tudo o que importa. Eu sussurro, quase para mim mesma, — É só que é tão engraçado. — O que é engraçado? — Como você pode fazer um impacto na vida de alguém, e nem sequer saber disso? — Você fez... — Ele faz uma pausa, sua voz começando a rachar. — Eu apenas pensei que tudo ia ficar bem, uma vez que você chegou a Stockton. Que, de alguma forma, você estivesse aqui para salvar o dia. — Ele inclina a cabeça. — Mas eu acho que o que você está tentando passar para minha cabeça dura é que, no final, nenhum de nós tem o que é preciso para manter minha mãe fora de uma casa de repouso, e é devastador ter que aceitar isso. Gentilmente, eu toco seu rosto. — Luke, me escute. Eu prometo a você que nós vamos encontrar um bom lugar para ela. Eu te dou minha palavra. — Eu corro o meu polegar sobre a maçã de seu rosto, enquanto ele luta para segurar a compostura. — OK? Seus

olhos

estão

brilhando

com

lágrimas

não

derramadas, enquanto ele balança a cabeça para mim. — OK. Se ele está disposto a me dar a esperança de ter uma filha, coisa que eu nunca pensei que teria, eu não vou parar até encontrar um bom lugar para sua mãe. Eu posso tê-lo inspirado, mas agora ele é quem me inspira.

339


Capítulo Trinta e Seis

Oito meses mais tarde — Não era isso que eu tinha em mente quando Landry disse que ia pegar uma mesa em uma de nossas noites de encontro. — eu brinco com Roberta, quando ela abraça a si mesma ao meu lado. — Então, o que você tinha em mente? — Ela murmura, roçando os lábios contra a minha orelha. — Um fim de semana prolongado no rancho? — Bem, certamente não incluía a linha de cadeiras de rodas atrás de nós. Eu olho para trás, na seção de deficientes do Campo dos Beavers, e lá está a mamãe, aconchegada em um cobertor e ostentando orgulhosa um dos bonés velhos do papai em sua cabeça. Os outros pacientes de Alzheimer em torno dela estão mostrando níveis variados de interesse quando se trata do jogo de exibição da pré-temporada dos New York Kings, que estão jogando no nosso campo. Um está se concentrando em um avião voando, enquanto outra está lambendo os lábios para o algodão doce que o menino na frente dela está comendo. Estou impressionado que a atenção da mamãe está no campo, como se ela não quisesse perder o papai saindo do esconderijo subterrâneo na caixa do batedor. 340


Em uma noite como esta, eu poderia jurar que ela se lembra de todos os jogos em que ela esteve ao longo dos anos. Memórias como essa não deixam a sua marca apenas na mente, mas na alma também. Ela amava o papai. Ela ficou com ele contra tudo e contra todos. Não deve ter sido fácil para ela, ser forçada a ficar e assistir o sonho dele de ir para a equipe dos Majors 18 escapar. Mas ela não permitiu que qualquer amargura afetasse sua visão da vida. Ela pode não ter sido tão vocal como meu pai, me dizendo que eu poderia fazer qualquer coisa que eu quisesse, mas ela estava sempre lá para me apoiar, concordando com minha decisão de seguir os passos do papai ou não. Como meu pai, talvez eu nunca chegue a ter a altura dos principais jogadores da liga que assistimos hoje, mas eu estou bem com isso. Daqui a duas noites, eu vou estar neste mesmo campo, quando a série de três jogos dos Kings contra os Titans terminar, e os Beaveres começarem a temporada regular. Eu fiz as pazes com isso porque, no fundo, não há outro lugar em que eu gostaria de estar. Stockton é onde meu coração está, e todas as seduções de Nova York e as Grandes Ligas simplesmente não podem competir com o que eu tenho aqui. Roberta sorri para mim. — Você não pode me enganar, Luke Singleton. Você não gostaria de passar a noite de outra maneira... E eu também não.

18

Major League Baseball ou Majors, o mais alto nível de competição de beisebol profissional norte-americana

341


Inclino a cabeça na direção da minha mãe. — Mas, agora eu vejo como eu estava sendo teimoso, como eu estava com medo de pedir ajuda. Sem você, nada disso teria sido possível. — Você está brincando? Eu vivo para coisas como esta , — ela brinca, descansando a cabeça no meu braço. — E, uma vez que eu encontrei a residência perfeita para a sua mãe, de jeito nenhum eu ia deixar você desistir disso, quando pensou que não seria capaz arcar com os gastos. — Eu não teria me sentido confortável em deixar minha mãe em qualquer outro lugar , — eu sussurro. — Eu teria feito qualquer coisa para que ela fosse capaz de ficar lá. Até vender a casa. Ela levanta, até beijar minha bochecha. — Eu sei. E eu estou feliz que você não precisou. No ano passado, Roberta e eu olhamos várias casas de repouso na área de Stockton, e nós não ficamos satisfeitos com o que vimos. Passar por aquelas portas não fez nada para aliviar meus medos. Ou fomos atropelados pelo cheiro de roupa de cama sem lavar ou surpreendidos pelo número de

residentes

caminhávamos

gemendo por

seus

em

suas

quartos,

camas,

enquanto

observando-os

tocar

inutilmente seus botões de chamada para obter assistência. Boas impressões foram difíceis de encontrar, e eu estava prestes a perder a esperança quando nos deparamos com o Centro de Idosos Anjo Guardião, uma instalação de dez leitos, privada, que tinha acabado de abrir. A ideia foi de uma mulher local, Gloria Walker. Depois que sua mãe sucumbiu à 342


doença de Alzheimer, Gloria voltou para a escola, pra se formar em enfermagem. Tendo atravessado o que estávamos passando, Gloria sabia que não havia muitas opções viáveis em torno de Stockton. Então, ela decidiu abrir sua própria clínica, a fim de proporcionar as pessoas com doença de Alzheimer um ambiente seguro e compassivo para se viver. Mas ainda era difícil. Quando a mamãe saiu de casa, estávamos os dois de coração partido com o tanto que sentíamos saudades dela, mas a transição acabou por ser muito mais difícil para Roberta que eu esperava. Cada vez que as visitas acabavam, eu tinha que praticamente arrastar ela pra casa comigo. A culpa por não ser mais capaz de cuidar da mamãe já estava corroendo ela. Ela ficava me dizendo que sentia como se tivesse falhado com ela de alguma forma. E eu me senti da mesma forma. Embora eu gostasse de tudo nas instalações da Gloria, eu sabia que quando eu coloquei minha Mãe lá, não conseguiria manter sua estadia por muito tempo. O custo a longo prazo estava bem fora do meu orçamento. O seguro da mamãe não cobria a coisa toda, e, infelizmente, eu não fiz o suficiente com os Beaveres para compensar a diferença. Tudo que eu tinha era a casa, e eu pensei que não teria outra escolha, a não ser colocá-la à venda. Em seguida, sem que eu soubesse, Roberta foi e falou com Gloria e elas elaboraram um arranjo, onde ela poderia vir trabalhar para ela em troca do que eu devia pelos cuidados da minha mãe. Ao fazer isso, eu não teria que vender a casa, 343


e o futuro da mamãe estaria seguro. Antes de conhecer Roberta, achei que encontrar a condição perfeita para cuidar da minha mãe era praticamente impossível, mas Roberta não só encontrou e me entregou — ela fez isso acontecer. Eu só gostaria de ter a mesma confiança agora, enquanto coloco a mão no bolso para pegar meu telefone. Há algo que eu quero perguntar a ela. Agora que a mamãe está a poucas quadras de distância, estamos prontos para dar o próximo passo em nossa jornada juntos. Eu ligo o telefone e a foto de uma menina com um ano de idade, com pequenos tufos loiros saindo de suas tranças enche a tela. Eu inspiro profundamente, antes de virar a tela para ela. Eu engulo, me engasgando. — O que você acha dela? Despreocupadamente, Roberta pega o telefone da minha mão. — Ahhh, Luke. Ela é adorável. De quem é ela? Um dos Beaveres? — Uh... Não. — Pigarreio, percebendo que eu preciso explicar as coisas, e rápido. — Ela poderia ser... Ela podia ser nossa. Roberta se senta para olhar para mim. — Luke, o que você está dizendo? — Você se lembra de Danny falando sobre seu encontro do leilão? Uma mulher chamada Chrissy? Franzindo a testa, ela pergunta: — A mãe com o cannoli?

344


E pela expressão perplexa no rosto, eu posso dizer que estou deixando ela confusa. Sempre que eu fico nervoso, eu tendo a falar em círculos e os detalhes importantes se perdem saindo da minha boca. Provavelmente porque eu fico apavorado dela acabar não comprando minha ideia. É por isso que eu mostrei a imagem, em primeiro lugar. Como é que alguém pode dizer não a essa carinha? Enfio o meu cabelo atrás das orelhas. — Sim, a mãe com o cannoli. Ela é assistente social da agência

de

atendimento

do

centro.

Roberta

fica

boquiaberta, e eu continuo falando — Depois daquele dia no quintal, no verão passado, eu fui até ela e preenchi a papelada que nos registra para nos tornarmos pais adotivos. Depois, Chrissy começou a sondar as coisas para nós. — E você nem sequer me contou sobre isso? — ela exige. — Você estava tão ocupada fazendo a mãe se acomodar. — Eu arranho meu pescoço. — E Chrissy disse que poderia levar meses até encontrar a criança certa. Eu não queria que você tivesse esperanças, até que ela conseguisse alguma coisa. Roberta colocou os cotovelos sobre os joelhos, e eu dei a ela um momento para absorver tudo isso. — Bobbie Jo , — eu digo suavemente. — Eu sei que você não queria adotar um recém-nascido. — Luke, nós já conversamos sobre isso , — ela me corta. — Você sabe por que eu não poderia fazer isso. Seria muito difícil.

345


— Eu sei... é por isso que eu acho que Summer é perfeita para nós. Ela olha para a foto de novo, e sua voz pega. — O nome dela é Summer? — Summer Rose, — eu respondo. Os ombros de Roberta sobem e descem no ritmo de cada respiração, e eu levo isso como um sinal para continuar. — Sua mãe não pode mais cuidar dela. — E aqui é onde fica difícil, porque o que tenho a dizer agora vai determinar o que acontece em seguida. — A mãe de Summer morreu... Roberta inclina a cabeça, se concentrando na fotografia. — Como? Olho para baixo, para minha mãe. Eu gostaria que ela pudesse me dar alguns conselhos sobre como lidar com isso. Estou feliz que ela está aqui porque agora eu preciso dela mais do que nunca. Eu nunca estive tão assustado quanto eu estou neste momento. Eu quero essa criança. Esta criança precisa de nós. Mas quando Roberta ouvir sobre o que aconteceu, ela pode muito bem dizer não. Quando eu não respondo de imediato, Roberta levanta a cabeça, me trancando em seu olhar azul. — Luke, como ela morreu? — Em um incidente de violência doméstica. — eu sussurro. Roberta suspira, enquanto o meu telefone cai de seu colo no chão. Mas eu nem sequer chego para ele. Em vez disso, eu alcanço sua mão.

346


— A polícia encontrou Summer na sala ao lado, chorando em seu berço. Ela não estava ferida , — Eu adiciono rapidamente, quando os dedos de Roberta apertam os meus. — Mas, ela não tem nenhum parente mais próximo. Sua mãe se foi. Seu pai está na cadeia. E Chrissy disse que, quanto mais cedo ela encontrar o amor e bondade em um lar estável, menor será a quantidade de trauma que ela sofrerá, a longo prazo. Meu coração dói quando Roberta levanta os olhos cheios de lágrimas aos meus. — Mas Luke, nós não somos casados. Por que eles iriam até mesmo considerar nós dois? Pego as duas mãos dela, puxando-a para mim. — Porque nós iremos um dia. — Mas… Inclinando-me, eu beijo o topo de sua cabeça. — Eu sei que você não pretende se casar de novo tão cedo, e eu entendo o porquê de você se sentir assim. Eu não estou apressando algo que você não quer fazer, mas não podemos perdê-la, Bobbie Jo. Ela é única. Ela é a única que precisa de nós. Lentamente, Roberta acena com a cabeça, lágrimas derramando por suas bochechas. —

É

possível

amar

alguém

tanto

assim,

tão

rapidamente? — Sim , — eu sussurro contra sua testa. — Porque é da mesma maneira que eu me senti por você.

347


— Oh, Luke. — Ela cai em mim, soluçando, quando os outros

residentes

começam

a

tomar

conhecimento

da

situação. — Por que ela está chorando? — Quem está chorando? — Ela. — Quem? — Aquela mulher lá em baixo. Ao ouvir eles murmurando, minha mãe olha para fila e imediatamente sai do seu assento, quando ela avista o rosto manchado de lágrimas de Roberta. Ignorando a fileira de cadeiras de rodas, ela não para, até que ela está ao lado de Roberta, apertando-a protetoramente por trás. Roberta olha para cima em estado de choque, quando ela sente acariciá-la na cabeça. — Sra. S.! O que está fazendo aqui? — Pare com isso, Lukey! — Mamãe fecha a cara para mim. Eu levanto meus braços em autodefesa. — Mãe, eu juro. Eu não fiz nada. — O que há de errado com você? Não faça todas as meninas chorarem! — Está tudo bem, Sra. S. e você quer saber por quê? — A choradeira de Roberta para, enquanto enxuga os olhos, um sorriso se estende através de seus lábios. — Você vai ser avó! — Ela pega o telefone e a cara de Summer sorri para ela. — O que você acha disso?

348


Meu coração aperta enquanto minha mãe tenta fazer a conexão entre a declaração cheia de alegria de Roberta e a imagem da menina adorável que está olhando. Eu prendo a respiração, pensando no quanto irá doer, inevitavelmente, quando ela for incapaz de se lembrar disso. Mas minha mãe me surpreende quando acaricia o cabelo de Summer na tela e murmura: — Ela é absolutamente linda. Roberta aperta meu braço, e eu luto para não derramar as lágrimas quando percebo que, neste momento, tudo parece... Certo. — Obrigado, mãe. Eu também penso assim. — Eu estendo minha mão para ela e envolvo a nós três em um grande abraço, com nosso amor por Summer nos unindo ainda mais. É isso que significa ser uma família. E para mim, a família está sempre em primeiro lugar. Tem que ser.

349


Capítulo Trinta e Sete

— Eu não posso acreditar que você deixou os meus dois ex-namorados em sua casa, — eu sussurro no ouvido de Luke. — Desculpe-me... Na nossa casa , — ele diz, antes de piscar para mim. — Além disso, você deveria saber que eu não sou do tipo ciumento. — Eu sei, e estou feliz por isso, mas eu mal posso esperar para esta noite acabar. — Eu olho para ele. — Eu não acredito que não cancelamos essa festa para os Kings, depois que descobrimos que receberíamos a Summer hoje. Eu afago a doce e macia cabeça de Summer, que atualmente se aninhou contra o peito de Luke, e ele sorri para mim, antes de examinar a multidão barulhenta que está entrando e saindo da cozinha, ansiosa para provar a extensão de sanduíches e saladas dispostas sobre a mesa, como um buffet improvisado. — É surpreendente que ela é capaz de dormir com tudo isso, não é? — Ele esfrega as costas de Summer, enquanto balança ela suavemente em seus braços. — Mas é como meu pai teria querido. Sua porta estava sempre aberta a qualquer jogador que passou em Stockton. Eu resmungo.

350


— Sim, e com base na maneira como eles estão enchendo os pratos, eles certamente não ficam tímidos em aceitar nossa hospitalidade. Você acha que vai sobrar alguma coisa para nós comermos? Ele sorri para mim, sobre a cabeça de Summer. — Com os Beaveres e os Kings, bem como ambas as equipes treinando aqui, deve haver mais de sessenta homens na casa agora. Eu não acho que haverá uma migalha sobrando no momento em que eles acabarem. Eu lancei um olhar preocupado em sua direção. — E se Summer ficar com fome? Ele beija seu cabelo loiro e macio. — Ela está desmaiada. Não há como ela acordar tão cedo. — Ele pega a minha mão. — Não se preocupe, mamãe. Papai tem tudo sob controle. Minha atenção está focada em Luke e no quão natural ele é quando se trata de ser um pai, quando alguém me bate no braço. Relutantemente, eu me viro. — Sim…? — Mas a palavra morre em meus lábios uma vez que eu vejo quem é. — Umm, Roberta? Sinto muito incomodá-la, mas como você está? — Scott Harper me dá seu sorriso mais cativante, enquanto Jake Woodbury está timidamente atrás dele. — Oh, essa é sua garotinha? — Scott se move, curvando-se para olhar para o rosto dela. — Ela é uma gracinha. Ei, pequena. O que há? Jake bate em suas costas.

351


— Pare com isso, Scott. Você vai acordá-la. — Ele me lança um olhar nervoso antes de ficar do meu lado. — Hey, Roberta. É bom ver você de novo. Eu, desajeitadamente, pressiono meus lábios. — Sim, você também. Não há como fugir disto. Eu me sinto culpada de estar perto de Jake novamente, culpada que por mim, ele inadvertidamente se tornou mais uma vítima da violência de David. Eu nunca disse a Jake o que David fez para mim, e eu nunca vou. Mas eu não tratei Jake tão bem como eu deveria ter tratado. Eu deixei a má influência de David envenenar minha vida por muito tempo. É verdade que eu nunca amei Jake, mas eu também nunca quis machucá-lo. Eu só não fui capaz de lidar com as emoções que engravidar novamente despertaria dentro de mim. Jake sempre me chamou de seu pássaro ferido, mas acho que antes de conhecer Luke, eu era mais como um urso ferido, lentamente sangrando até a morte na selva. Eu era alguém de quem Jake deveria ter ficado longe. Eu estava ferida, com medo, achando que eu tinha que soltar minhas garras em qualquer um que tentasse me ajudar, a fim de me defender, acreditando que, apesar de Jake ter boas intenções, ele só iria me machucar no final. Luke era capaz de ter sucesso comigo onde Jake não podia, por uma razão muito importante. Desde o início, eu sempre tinha visto Luke como um colega vítima. Ele era alguém que sabia o que significava sofrer nas mãos de David. Na minha mente, Luke não estava acima de mim ou abaixo 352


de mim. Nós éramos iguais. Embora, tanto quanto Jake estava interessado, eu simplesmente não era capaz de chegar lá com ele. Eu não estava pronta, e por fim, nós apenas não éramos certos um para o outro. Ele não conseguia entender o que eu estava passando, porque eu nunca o deixei entrar. Eu estava ferrada, e até que eu fosse capaz de me curar, a única coisa que eu seria capaz de fazer era quebrar ele também. David pode ter sido a causa por trás de tudo isso, mas quando se tratava de Jake, eu assumia total responsabilidade por ser a única que lhe causou tanta dor. É

por

isso

que

eu

estava

apreensiva

em

vê-lo

novamente. Eu sei o quanto eu o feri por ir embora depois que eu abortei, fugindo para o rancho de Landry no Texas, deixando-o lidar com a perda sozinho. Agora que ele está casado e com um novo bebê, espero que sua esposa e filho curem suas feridas, assim como Luke e Summer curaram as minhas — as que eu não tive a intenção de infligir dor, mas fiz. Eu só posso rezar para que nós dois tenhamos encontrado a felicidade, cada um em sua própria maneira. Jake mete as mãos nos bolsos, os olhos rapidamente deixando meu rosto e viajando para Summer. — Qual é o nome dela? — Summer Rose — Luke responde por mim, enquanto sorri de volta para Jake. Encorajado pela resposta de Luke, Jake solta. — Vocês realmente a trouxeram para casa hoje? Uau, isso é incrível. Parabéns. Luke está praticamente radiante, ele está tão feliz. 353


— Obrigado, cara. O sistema de assistência social queria colocá-la em uma boa casa o mais cedo possível, e nós aproveitamos a oportunidade para trazê-la. Ela é apenas a nossa

filha

temporária

por

agora,

mas

nós

estamos

esperando adotá-la. Scott acena com entusiasmo. — Isso é incrível, mano. Mas estou surpresa quando Jake não responde. Em vez disso, ele só mastiga o lábio inferior, enquanto seus olhos miram o chão. Scott, sentindo o desconforto de Jake, começa a embalar as coisas. — Sim, obrigado novamente por tudo. Foi um prazer conhecer você, Single. Talvez tenhamos de fazer algumas jogadas duplas juntos em Nova York, uma vez que os Heimlichs tenham suas cabeças fora de suas bundas. Luke ri dele. — Você não está casado com uma Heimlich? — Sim. — Ele se inclina. — Mas isso não significa que eu concorde com tudo o que fazem. — Ele balança para trás, sobre os calcanhares com um brilho em seus olhos. — Vamos, marmota. Vamos pegar um pouco de bolo antes Jilly vir e devorar tudo. Mas Jake se mantém firmemente enraizado no local. — Você vai na frente. Eu te alcanço. Scott dá de ombros.

354


— Tudo bem. Como quiser, mas não diga que eu não avisei. — Recuando, ele se posiciona diretamente pelas costas de Jake, a fim de me dizer: — Pega leve com ele. Eu reviro os olhos, enquanto Jake olha para mim. Inseguro de si mesmo, ele me dá um sorriso tímido antes de correr a mão pelo cabelo espesso e escuro. — Roberta, eu só quero que você saiba o quanto estou feliz por você. — Ele lança um olhar apressado para Luke. — Por vocês dois. Sobrecarregada, eu só fico ali, sem saber o que dizer. Eu nunca fui boa em lidar com as minhas emoções, e Luke sabe disso. Quando eu não respondo, ele responde por mim. — Você tem um menino, não é? O sorriso de Jake corresponde ao de Luke. — Sim, o nome dele é Caleb. — Bem, espero ser capaz de apresentá-lo a Summer algum dia , — Luke responde calorosamente. Jake concorda com a cabeça antes de olhar para mim. — Eu realmente gostaria disso. Luke sutilmente cutuca meu braço com o cotovelo, me incentivando a responder, e eu o cutuco de volta antes de dizer — Sim... isso seria ótimo. Realmente ótimo. Summer se mexe nos braços de Luke, e Jake leva isso como sua sugestão para sair. — Tudo bem, legal. Eu acho que eu vou pegar um pedaço desse bolo que Scott mencionou. Tomem cuidado, vocês.

355


— Até mais, cara , — Luke responde. Summer boceja, aninhando o rosto sob seu queixo, e quando ele olha para mim, olha tão contente quanto poderia estar. — Isso não foi tão ruim, foi? — Não para você, — eu gemo, ainda me batendo mentalmente por isso. Ele ri, olhando para o relógio acima da minha cabeça. — Ok, eu sei que você estava com medo. Mas agora acabou, e você conseguiu passar por isso. Mais do que isso, você fez o cara se sentir bem. — Ele sorri para mim. — Então, o que você diz de colocarmos esta senhorita na cama? Eu levanto uma sobrancelha para ele. — E os nossos convidados? Ele me dá um sorriso malicioso quando começa a caminhar para fora da cozinha, com Summer agarrada a ele. — Eu acho que sei quem estaria mais do que feliz em assumir para nós. — Eu o sigo, imaginando o que ele está fazendo, quando ele caminha até Landry. —Ei, cara, está com vontade de jogar de anfitrião por um tempo? Landry cambaleia para cima do sofá, onde há um momento ele estava precariamente equilibrando uma bandeja de alimentos em seu colo. — Você está brincando? Eu sei uma coisa ou duas sobre como manter estes garanhões na linha. — Oh sim? — Eu o desafio. — E como é que você vai fazer isso, quando você não consegue nem mesmo comer sem derrubar tudo em si mesmo?— Eu aponto para a mancha que ele tem na frente de sua camisa. 356


Ele olha para ela, impotente, o prato na mão, um copo de plástico na outra. — Puxa, maldição. Eu nem sequer vi isso. — Ele olha através do quarto ansiosamente antes de chamar — Ruby! Uma mulher atraente, com o cabelo curto olha e sorri para a gente, e o grupo de jogadores do Beaver que estava pendurado em cada palavra dela, olhou cautelosamente para seu chefe, esperando que não estejam em apuros por flertar com a namorada dele. Landry ergue o queixo para ela com orgulho. — Olha para todos eles. Eles estão fascinados apenas escutando ela. — Ela é realmente maravilhosa, Landry, — Eu não hesito em admitir. — Eu não sei como poderíamos ter feito isto hoje à noite, se não fosse por ela. Ela correu ao redor de Stockton durante todo o dia, nos ajudando a arrumar tudo. Um sorriso enorme se estende por todo o rosto de Landry. — E você quer saber a melhor coisa? Meus filhos são absolutamente loucos por ela. — E você não é? — Luke brinca. — Eu não vou nem mesmo tentar negar. Ela me fisgou , — ele se alegra, enquanto ela caminha para se juntar a nós. — Aí está você, baby. Nós estávamos falando sobre você. Ela pega o guardanapo, mergulhando-o em seu copo antes de tentar tirar a mancha em sua camisa. — Oh, não, de novo não. Mike, já chega. — Ruby diz timidamente, enquanto suas mãos descansam em seu peito. 357


— Roberta e Luke precisam colocar a pequenina deles na cama. — Ela não é ótima? — Landry suspira, sonhador. Balanço a cabeça em diversão. — Você foi laçado, vaqueiro. Eu espero que você saiba disso, Ruby. Ela ri, sorrindo para ele. — Eu acho que tenho uma boa ideia. Luke os chama quando chegamos ao pé da escada. — Ainda vamos jantar amanhã à noite, certo? Russo’s após o jogo? Landry dá a ele um grande polegar para cima, uma vez que o Ruby leva o prato da sua mão. — Você sabe disso, Single. É tudo sobre a comemoração de mais um dia de abertura. E já que você é o capitão da equipe agora, pretendo tirar algumas ideias de você. Obter a sua opinião sobre como ajudar Hoff a se ajustar ao seu novo papel como apanhador reserva, e como manter Rob focado aqui, agora que ele teve um gostinho do grande momento. Luke assente. — Parece bom, chefe. Eu aceno pra eles, e justo quando começamos a subir as escadas, a porta da frente se abre e Danny entra. — Ei, vocês dois... ou devo dizer, vocês três? — Ele sorri para nós. — Oh cara, é a Summer dormindo? E aqui estava eu esperando começar a ouvir o meu menino, Single, colocar suas habilidades de contar histórias pra dormir em uso.

358


— Bem, você seria a pessoa perfeita para praticar , — Luke dispara de volta. — Desde que eu não posso te dizer quantas vezes eu acordei no ônibus para te encontrar babando todo meu ombro. Danny olha para mim, procurando por simpatia. — Você vê como ele me trata, Roberta? — Sim , — murmuro. — E você merece totalmente. Ele aperta o peito dramaticamente, como se eu tivesse rasgado seu coração e Summer levanta a cabeça para olhar para ele. Danny engole, ficando rígido. — Oh, merda... ela está acordada. Summer olha para ele, seus olhos arregalando quando ela vê sua longa barba vermelha. Os olhos de Luke como dardos nos dois. — Danny, eu acho que você está assustando minha filha. Ele se afasta lentamente com as mãos no ar. — Ok, estou fora daqui. A última coisa que quero é fazêla chorar ou algo assim. — Ela seria a primeira mulher a chorar por você, já que normalmente é o contrário , — Luke provoca ele. — Hey , — diz ele, enfiando a cabeça no corredor e balançando as sobrancelhas para nós. — Eu disse a vocês que eu conheci alguém? — Conheceu? — Luke e eu respondemos, rindo quando a cabeça de Summer chicoteia entre dois de nós, sem saber o que fazer com a nossa reação. 359


— Tio Danny finalmente convenceu alguma pobre menina a sair com ele. — Luke levanta o braço de Summer em vitória quando ela envolve seus dedos em torno de seu polegar. — Você realmente foi a um encontro... Um de verdade, dessa vez? — Eu o interrogo. — Ei, pessoal, não é engraçado, — Danny protesta, seus sentimentos, obviamente feridos. — Eu realmente gosto dessa garota, e ela realmente gosta de mim. — Se você diz, cara, — Luke responde, tentando esconder o sorriso. — Espere até você encontrá-la, — ele insiste. — Você vai ver. Ela é perfeita para mim. Eu troco um olhar duvidoso com Luke, sabendo que, quando se trata de relacionamentos, nada parece durar para Danny. — Sim, você vai ter que trazê-la algum dia. Ele balança a cabeça. — Bem, ela está vindo para o jogo na próxima semana, então talvez todos nós pudéssemos nos encontrar mais tarde. — Tudo bem... — Eu paro. — Boa noite, Danny — Luke geme, quando ele começa a subir as escadas novamente, e eu não tenho escolha, a não ser segui-lo. — Sobre o que foi tudo isso? — Peço à medida que caminhamos para o corredor. — Eu não tenho ideia. — Luke diz, dando um passo dentro do quarto, no outro lado — Mas isso não pode ser 360


bom. Danny tem a pior sorte quando se trata de mulheres. Toda vez que ele começa a namorar alguém, ele sempre acha que ela é a única. E tudo o que sempre acontece é que ele tem o coração machucado, uma vez atrás da outra. — Bem, talvez essa vez... — Eu paro quando ele me lança um olhar cético, enquanto coloca Summer em seu berço. Ele puxa o pequeno cobertor sobre ela enquanto ela se instala. — Danny é como um irmão para mim. Eu me preocupo com ele. De verdade. Mas agora, eu gostaria de me concentrar em nós. Ele estende a mão para mim, e eu prontamente me inclino para ele, e ele envolve seus braços em volta de mim. — Eu não posso acreditar que isso é real. Que ela está aqui... no antigo quarto de sua mãe. Luke engole, me apertando em seus braços. — Eu só queria que a mamãe estivesse com a gente também. — Nós vamos vê-la amanhã antes do jogo, — eu o lembro. — Eu não posso esperar para ela conhecer Summer. — Sim, eu também , — ele suspira. Dou-lhe um minuto, sabendo que ainda é difícil para ele, às vezes, não ter a mãe dele aqui conosco. É por isso que eu decorei o quarto desse jeito. Eu esfrego o braço, incitandoo a olhar ao redor. — O que você acha? Parece com um quarto de criança? Eu sei que não está pronto ainda... 361


Ele olha para a parede ao lado do berço. — Ei, não são essas as borboletas que estavam na capa de seu diário? Eu aceno, feliz que ele percebeu. — Sim, eu achei que elas pertenciam a esse lugar. — Eu respiro profundamente — Eu meio que gosto da ideia delas olhando por ela. É como se fosse sua mãe olhando por ela. Ele

nos

mantém

juntos,

embora

seus

braços

começassem a tremer em torno de mim. Eu chego para baixo para alisar o cabelo de Summer longe de seu rosto enquanto ela chupa o dedo, sonhando sonhos doces depois de encontrar um lugar seguro para colocar sua cabeça. De alguma forma, ela encontrou seu caminho para nós, e agora é como se ela voltasse para casa, para uma casa que está cheia de nada além de amor por ela. — Nós temos que voltar para a festa? — Luke pergunta, olhando para ela. — Porque eu não sei você, mas eu acho que eu poderia ficar aqui e vê-la durante toda a noite. Eu sorrio, sussurrando pra ele suavemente — Eu acho que você vai ser o melhor pai do mundo. Ele beija meu cabelo. — E você vai ser a mãe mais fantástica... — Ele vira a cabeça, pressionando a bochecha contra a minha, olhando para as borboletas e o sonho que elas representam. — Você já era. Eu pego sua mão e a aperto quando começo a ficar emocional. E, desta vez, eu não luto contra isso. Eu me

362


entrego aos meus sentimentos, me permitindo falar direto do coração, sem reter nada. — Não, primeiro eu tive que aprender com os melhores. Sua mãe me ensinou que nada pode quebrar os laços de amor. Ele continua me tocando, tocando em você, tocando a nossa

garotinha.

Seu

alcance

nunca

acaba...

eu

não

acreditava nisso antes, mas eu acredito agora, com todo o meu

coração.

O

amor

nunca

morre.

Ele

continua

e

continua... — Eu fungo através das minhas lágrimas. — Essa é a lição de vida que eu precisava aprender antes de me tornar uma mãe, e é o que eu mal posso esperar para ensinar a nossa filha — o quanto sua avó a ama, o quanto você a ama, o quanto eu a amo e quanto amor temos um pelo outro, como uma família. Para ela saber que é amada — isso é tudo que eu poderia querer para ela. Se ela tiver isso, ela terá tudo.

363


Sobre a autora Collette

West

cresceu

como

uma

híbrida de atleta e nerd. Entrando no mundo três semanas prematura, seu pai quase perdeu seu nascimento, porque ele tinha assentos atrás do abrigo para um esgotado — e muito aguardado — jogo entre dois dos maiores rivais do baseball. Para não ficar atrás, sua mãe amante de livros lhe ensinou a ler quando ela tinha três anos. Um amor por

jogo,

juntamente com uma apreciação para a palavra escrita foram colocadas no impressionante cérebro de Collette a partir de uma jovem idade. Não admira que as suas personagens acreditem na filosofia: esportes + Romance = um pequeno pedaço do céu. Dividindo seu tempo entre as montanhas de Pocono e Manhattan, Collette satisfazia sua personalidade de fã do interior, indo para tantos jogos quanto pôde — do hóquei ao beisebol — e faz download de todos os romances esportivos existentes em seu iPad. Quando ela não está clicando em seu laptop, ela gosta de andar com seu cachorro no Central Park, satisfazendo seu desejo de cafeína no Starbucks da Broadway e mantendo-se atenta para o Sr. Certo. Mas acima de tudo, ela adora acompanhar seus leitores. Ela é a autora da série Stockton Beavers e da série New York Kings.

364


365


Single vol. 1 (revisado) - Collete West