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J. M. DARHOWER

Sempre


Sempre

Série Forever, volume 1

Copyright © 2013 by Jessica Mae Darhower

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Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.

Diretor editorial: Luis Matos

Editora-chefe: Marcia Batista

Assistentes editoriais: Aline Graça, Letícia Nakamura e Rodolfo Santana

Tradução: Sally Tilelli

Preparação: Júlia Yoshino


Revisão: Carolina Zuppo e Viviane Zeppelini

Arte e capa: Francine C. Silva e Valdinei Gomes

Capa: Rebecca Barboza

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Angélica Ilacqua CRB-8/7057

D232s

Darhower, J. M. Sempre / J. M. Darhower ; tradução de Sally Tilelli. – – São Paulo: Universo dos Livros, 2015. 544 p. (Forever, v. 1)

ISBN: 978-85-7930-847-5 Título original: Sempre

1. Literatura norte-americana 2. Romance 3. Tráfico humano – Ficção 4. Máfia Ficção I. Título II. Tilelli, Sally

15-0426 CDD 813.6


Universo dos Livros Editora Ltda.

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Prólogo

BLACKBURN , CALIFÓRNIA, SUDOESTE DOS ESTADOS UNIDOS O prédio estava em ruínas. O passar das décadas à mercê do clima seco e desértico era evidente naquela fachada. No passado, a construção fora usada como sede da prefeitura, quando as empresas mineradoras ainda eram as donas daquelas terras. Essa época, porém, havia ficado para trás. Agora, apenas uma sombra do antigo edifício, vazio e dilapidado, podia ser identificada na noite, como uma vaga lembrança de um lugar que, no passado, florescera. O local que outrora reunira um grande número de trabalhadores ocupados hoje atraía outro tipo de aglomeração, bem mais sinistra, com a qual a pequena Haven, de sete anos, teria de aprender a conviver. Suas pernas tremiam e seu estômago se contorcia enquanto seguia os passos do seu mestre rumo ao interior da construção. Ela se mantinha bem próxima dele, mas tomando cuidado para não pisar em seus sapatos pretos e lustrosos. Ambos caminharam por um hall estreito e escuro, passando por alguns homens. Haven mantinha seus olhos no chão. O som daquelas vozes ao cumprimentarem o mestre provocava nela um calafrio na espinha. Aqueles sujeitos eram novos ali, pessoas estranhas que ela jamais imaginara existirem. Ele a levou por uma porta no final do corredor e a imagem com que deparou fez com que a menina parasse de maneira abrupta. Um misto de suor e mofo saturava o ambiente; o cheiro forte de charuto queimava o nariz da garota. Um grande número de homens se reunia ali, falando alto, ao mesmo tempo em que o choro ecoava pelas paredes, apavorando a criança. Com o coração à boca, ela respirou fundo e começou a procurar de onde vinham os gritos de pavor. Porém, diante daquele aglomerado de homens, era impossível ver qualquer coisa. Foi então que seu mestre a pegou pela mão e a forçou a se posicionar à frente dele. Ela se contraiu no momento em que as mãos dele se fixaram em seus pequenos ombros, mas continuou andando, atendendo ao seu comando. A aglomeração foi se abrindo para que ambos passassem; logo Haven alcançou seu destino, de maneira obediente. Ela sentia os homens observando-a; os olhos deles eram como lasers que queimavam profundamente sua pele e esquentavam seu sangue, fazendo seu rosto enrubescer cada vez mais. Na parte frontal do salão, sobre um pequeno palco improvisado, algumas garotas jovens formavam uma fila, ajoelhadas. Etiquetas estavam penduradas em suas roupas rasgadas, e cada uma delas trazia um número escrito com um marcador preto. Haven se manteve tão imóvel quanto possível, tentando ignorar o toque de seu mestre, ao mesmo tempo que observava a multidão que atirava dinheiro sobre o chão. Uma a uma, as meninas foram leiloadas pelo lance mais elevado, suas lágrimas rolavam pelos rostos frágeis à medida que eram arrastadas pelos respectivos arrematadores. – Frankie! Haven contraiu se corpo ao ouvir o nome de seu mestre e recuou ao ver um homem se aproximando. O rosto dele parecia couro envelhecido, craquelado, e estava coberto de cicatrizes. Seus olhos eram negros como dois poços de piche. Em sua mente aturdida, ela o percebeu como um verdadeiro monstro. Frankie a segurou mais firme, mantendo-a segura enquanto cumprimentava o sujeito: – Olá, Carlo.


– Vejo que trouxe sua garota. – disse o homem – Está querendo se livrar dela? Se for o caso… Frankie o interrompeu antes que prosseguisse: – Não, nada disso. Só achei que seria bom que conhecesse outras garotas iguais a ela. Iguais a ela. Aquelas palavras atraíram a atenção de Haven, que imediatamente olhou para o pequeno palco e viu quando uma menina desceu de lá: era uma adolescente que parecia ter se envolvido em alguma briga com tesouras, tantos eram os buracos em suas roupas; seus cabelos loiros pareciam ter sido tosados sem o menor cuidado. Ela estava amordaçada e algemada, e ostentava o número 33 na roupa. Haven se perguntou: Será que ela própria era como aquela menina? Poderiam as duas ser iguais? A número 33 lutou e se debateu o quanto pôde, mais que todas as outras, quando um homem a agarrou pelo braço e a puxou. Todavia, um único segundo mudaria tudo. Mesmo com os aros de metal ao redor dos tornozelos a jovem tentou escapar, pulando para a frente do palco, colocando-se de pé e encarando a multidão. Como a lava de um vulcão que de repente entra em erupção, o caos se alastrou de modo violento. Todos os homens gritavam. Haven prendeu a respiração enquanto Frankie reagiu de um jeito frio, enfiando a mão no bolso do casaco e sacando uma arma. Um único tiro foi disparado bem do seu lado, o que a assustou e deixou seus ouvidos surdos por alguns instantes. A número 33 estava agora caída no chão, com a testa perfurada por um projétil. O sangue fresco da jovem imediatamente se espalhou pelo local, salpicando de vermelho até mesmo o vestido jeans usado por Haven. O peito da garotinha doía enquanto respirava ofegante diante do cadáver que repousava próximo aos seus pés descalços. O sangue logo escorreu do ferimento, encharcando o velho piso de madeira e tingindo os cabelos loiros da jovem de um escarlate intenso. Seus olhos azuis e congelados permaneceram abertos, voltados para Haven, como se pudessem enxergar através de sua pele. Frankie guardou a arma de volta em seu casaco e se agachou para ficar na altura de Haven que, a essa hora, tentava se afastar daquela carnificina. Ele, entretanto, a agarrou por trás do pescoço e a forçou a olhar para a número 33. – É isso o que acontece quando as pessoas esquecem qual é o seu lugar. – ele disse, com a voz tão gélida e impiedosa quanto os olhos que a encaravam. Então ele se levantou, voltando à posição original e mantendo as mãos firmes nos ombros da garota aterrorizada. O leilão continuou como se nada tivesse acontecido, enquanto o corpo sem vida da número 33 jazia no chão, sem que ninguém se preocupasse com ela, exceto, é claro, a própria Haven. Aquela tenebrosa visão a assombraria para sempre.


Dez anos mais tarde‌


Capítulo 1

O ar quente e seco queimava a pele de Haven, que lutava para respirar conforme a poeira, levantada pelos seus próprios pés enquanto corria, dificultava sua visão. Não que ela pudesse enxergar alguma coisa, a noite estava escura demais e ela não tinha ideia de onde estava ou para onde estava correndo. Tudo parecia igual em todas as direções; ela estava cercada pelo deserto. Seus pés pareciam arder em chamas; todos os músculos de seu corpo imploravam para que ela parasse. Tornava-se cada vez mais difícil continuar; sua força se deteriorava e a adrenalina inicial se dissipava. Foi então que escutou um barulho. Suas pernas já não respondiam ao seu comando, então ela se virou na direção do som, encontrando uma luz fraca a distância. Uma casa. Ela seguiu naquela direção, tentando gritar e pedir ajuda, mas nenhum som escapava de sua garganta. Seu corpo se contorcia, desistindo da luta quando ela mais precisava dele. A luz se tornava cada vez mais forte conforme ela se aproximava. De repente, tudo o que viu foi um clarão. Cega pela luz, acabou tropeçando e caindo no chão. A dor percorria seu corpo em forma de ondas, enquanto o calor da luz a queimava por dentro.

O porão era escuro e úmido. A única saída era por uma porta de metal trancada com pesadas correntes. Sem janelas, o lugar era muito abafado; o ar era poluído e o cheiro pútrido de esgoto era forte. O piso de concreto tinha manchas de sangue seco, como respingos de tinta vermelha. O cenário grotesco de um sofrimento interminável. Haven estava deitada num canto, com seu corpo frágil completamente imóvel, exceto pela leve ondulação no peito causada pela respiração. Seus cabelos longos e castanhos, normalmente encaracolados, pareciam bem mais curtos de tão emaranhados. Ela não poderia estar pior: seus ossos da clavícula, assim como as costelas, estavam tão visíveis que podiam ser contados; sua pele, ensanguentada e repleta de hematomas. Apesar disso, ela se considerava saudável, afinal, já tivera a oportunidade de ver pessoas em situação ainda pior que a dela. O dia começara como qualquer outro. Haven acordou ainda de madrugada e passou a maior parte da manhã fazendo faxina. Durante a tarde ela passou algum tempo com sua mãe, ambas sentadas e encostadas à parede externa da casa de madeira. As duas estavam caladas e ouviam o som da TV, que saía pela janela aberta bem acima delas. O noticiário previa um furacão, que se formara no sul, e também discorria sobre uma guerra que atingia o Iraque. Nada disso, no entanto, tinha qualquer significado para Haven. Sua mãe lhe dissera que escutar o rádio era perda de tempo, uma vez que, nesse mundo, ambas não passavam de um blip em um grande radar. Mas Haven não conseguia evitar. O noticiário das 5h da manhã era o ponto alto de cada um de seus dias. Ela precisava sentir que era real, que algo ou alguém com quem tivera contato no passado ainda existia, em algum lugar. A gritaria começou dentro da casa, interrompendo as notícias assim que uma luta se alastrou pela sala de estar. Haven ficou de pé, tomando cuidado para que ninguém a visse bisbilhotando quando, de repente, ouviu algo que a deixou paralisada: – Quero essa menina fora daqui! – Eu sei, Katrina! Estou cuidando disso!


– Pelo visto não está se esforçando o suficiente! – Katrina era a dona da casa, uma mulher cruel, de cabelos curtos e negros e um rosto comprido e maldoso – Livre-se dela logo de uma vez! Livre-se dela de uma vez. Aquelas palavras deixaram Haven sem ar. A briga continuou enquanto ambos seguiram para o andar de cima, as vozes tornaram-se mais abafadas e finalmente o silêncio se instalou. Ela estava em uma grande enrascada. – Esse mundo é assustador. – sua mãe sussurrou – As pessoas irão machucá-la. Elas farão coisas ruins com você, coisas doentias… O tipo de coisas que espero que jamais veja por si mesma. Elas lhe enganarão, mentirão pra você. É preciso estar de olhos abertos o tempo todo, minha menina. Haven não gostava do rumo que aquela conversa estava tomando: – Por que você está me dizendo isso? – Porque você precisa saber. – explicou – Você tem que fugir. Haven a encarou sem acreditar no que estava ouvindo. – Fugir? – Sim, esta noite. Há mais na vida do que isso aqui, e tenho medo do que possa acontecer se ficar. – Mas não posso fugir, mamãe. Não quero saber o que tem lá fora. – As pessoas lá fora serão capazes de ajudá-la. Lágrimas se formaram nos olhos de Haven. – Não posso deixá-la para trás. – Este é o único jeito. – insistiu a mãe – Você precisa fugir daqui, encontrar alguém e dizer quem você é. Eles irão… – Salvá-la? – Haven perguntou, completando a frase – Eles virão até aqui? – Talvez… – algo brilhou nos olhos da mãe. Esperança? – Então, eu o farei. – disse Haven – O farei por você. Depois do cair da noite, quando Haven imaginou que ninguém mais procuraria por ela, pelo menos até a manhã seguinte, ela tentou escapar silenciosamente, correndo para o mundo que existia além daquele rancho, determinada a encontrar ajuda para que nunca tivesse de retornar àquela vida. Depois de acordar em um porão cheio de mofo, ao ouvir um forte barulho, ela logo percebeu que havia falhado em sua empreitada. Uma forte luz a iluminava. Encolhendo-se, reparou que as portas se abriram e alguém parou de pé a apenas alguns centímetros de onde estava: um homem com a pele esverdeada e uma camisa branca abotoada, de mangas enroladas até os cotovelos. Naquele momento ela reparou na arma prateada que ele trazia presa ao cinto. Com a voz falhando ela perguntou: – Você é da polícia? O homem se ajoelhou perto dela e colocou uma pequena maleta sobre o chão. Ele não respondeu sua pergunta, mas sorriu enquanto pressionou a palma de sua mão contra a testa dela. Haven fechou seus olhos sonolentos e se perdeu em meio ao silêncio até que o estranho finalmente falou. Ela voltou a abrir os olhos, surpresa pelo tom gentil de sua voz, mas se retraiu ao perceber um olhar hostil. Por trás do estranho havia alguém que ela conhecia muito bem. Michael, ou mestre, como ele próprio preferia ser chamado, a encarava com raiva; sua íris era escura e contrastava com o branco amarelado que tingia o resto dos olhos. Seus lábios formavam um sorriso zombeteiro e seus cabelos crespos ostentavam um tom acinzentado ao redor das orelhas. – Relaxe, criança… – disse o estranho – Tudo vai ficar bem. Ela o encarou, imaginando se podia mesmo confiar em suas palavras, mas entrou em pânico quando o viu tirar uma agulha de dentro de sua maleta. Ela choramingou, tentando se afastar, mas ele a agarrou e enfiou a agulha em seu ombro.


– Não vou machucá-la. – ele disse, soltando-a e entregando a pequena seringa a Michael – Só estou tentando ajudá-la. – Ajudar? – ela se lembrou do que sua mãe havia lhe dito sobre pessoas que poderiam ajudá-la, mas também se recordou do alerta de que outros mentiriam para ela. Haven não tinha certeza quanto ao grupo em que aquele homem se encaixava, mas estava mais inclinada a acreditar na segunda hipótese. – Sim, ajudar. – o homem colocou-se de pé – Você precisa descansar. Poupar suas energias. Então, ele saiu e seu mestre o seguiu, sem dizer uma palavra. Haven ficou deitada ali, exausta demais para pensar sobre tudo aquilo; seus olhos se fecharam por um momento, mas logo voltou a escutar as vozes. – Ela parece horrível! – o homem gritou. O tom gentil havia desaparecido completamente – Como você deixou que isso acontecesse, Antonelli? – Eu não tive a intenção. – Michael respondeu – Não tinha ideia de que ela tentaria fugir. – Isso não começou ontem, e você sabe disso! Deveria estar de olhos abertos. – Eu sei. Sinto muito. – E deve sentir mesmo. – Haven começou a adormecer, mas antes de cair totalmente no sono, ouviu mais uma vez a voz do estranho – Eu lhe darei o que está pedindo por ela, mas saiba que não estou nem um pouco feliz com tudo isso. De jeito nenhum.

Haven acordou mais tarde, ainda deitada no chão de concreto. Todo o seu corpo doía e foi difícil conseguir se sentar. Ela escutou alguém pigarreando e percebeu que o estranho estava novamente de pé ao seu lado. – Como se sente? Ela cruzou os braços sobre o peito, como que tentando se proteger enquanto ele se aproximava dela. – Bem. A voz dele era calma, mas firme: – Diga a verdade. – Dolorida. – admitiu de um jeito relutante – Minha cabeça está doendo. – Isso não me surpreende. – ele disse, ajoelhando-se novamente e esticando o braço para tocá-la, fazendo com que ela se encolhesse – Não vou bater em você, criança. – ele sentiu sua testa e segurou o queixo da menina, observando seu rosto – Sabe quem eu sou? – ela acenou negativamente a cabeça, embora algo nele lhe parecesse familiar. Ela achou que talvez já o tivesse visto antes, a distância. Quem sabe fosse um dos visitantes dos quais ela fora mantida afastada ao longo dos anos – Sou o doutor Vincent DeMarco. – Doutor? – nunca antes alguém ali recebera cuidados médicos, mesmo quando a situação era grave. – Sim, sou um médico – ele disse –, mas também sou um sócio dos Antonelli. Cheguei depois que você fugiu. Você sofreu uma pequena concussão e está desidratada, mas não há nada mais grave que eu possa perceber. Teve sorte de ser encontrada. Poderia ter morrido lá mesmo. Um profundo vazio tomou conta de Haven; parte dela provavelmente desejava que isso tivesse ocorrido. Pelo menos teria sido melhor que padecer nas mãos daquele monstro que se autodenominava mestre. O doutor DeMarco olhou para o relógio.


– Acha que consegue caminhar? Nós precisamos sair logo. – Nós? – Sim, a partir de agora você ficará comigo. Ela acenou negativamente com a cabeça, contraindo-se à medida que a dor se intensificava. – Não posso deixar minha mãe. Ela precisa de mim. – Talvez devesse ter pensado nisso antes de fugir. Ela tentou explicar seus motivos, mas as palavras saíam confusas. – Eles iam me matar. Não tive escolha. – Sempre existe uma escolha, criança. – ele disse – Na verdade, você terá de fazer uma agora mesmo. – Você está me dando uma escolha? – Claro que estou. Você pode vir comigo. – Ou? Ele ergueu os ombros. – Ou… você fica aqui e eu vou embora sozinho. Mas antes que decida, pense bem e me responda. Você fugiu porque achou que eles fossem matá-la. O que acha que farão agora, depois que eu partir? Ela abaixou a cabeça e olhou para os pés machucados e sujos. – Então, ou eu vou com você ou eu morro? Que tipo de escolha é essa? – Uma que acredito que você não queira fazer – disse ele –, mas que, ainda assim, é uma escolha. Um silêncio tenso pairou entre os dois. Haven não gostava daquele homem manipulador. – Para que você me quer? Ela costumava ser punida por falar sem permissão, mas não tinha nada a perder. Afinal, o que ele poderia fazer, matá-la? – Eu nunca disse que queria você, mas sou um homem ocupado. Você poderia limpar a casa e cozinhar para mim. – Não pode pagar alguém pra fazer isso? – ela se arrependeu imediatamente do que disse, e recuou – Bem… Pelo menos isso seria legal. Acho que o que está pensando é ilegal, não é? Ela realmente não tinha certeza. – Suponho que, tecnicamente, o seja… Porém… Mas antes que ele pudesse terminar, novos gritos foram ouvidos no andar de cima. Haven hesitou diante do som alto e do barulho de choro. As lágrimas passaram a escorrer pelos seus olhos ao perceber que Michael estava machucando sua mãe. DeMarco suspirou: – Ouça, não vou ficar aqui a noite toda esperando por você. Se não quiser minha ajuda, tudo bem. Fique aqui e morra. O homem se levantou para sair. Haven se colocou de pé e sussurrou: – Por que eu? – ela queria acreditar que havia uma razão para tudo aquilo, mas já não tinha certeza. Ele acenou levemente com a cabeça: – Também gostaria de saber.

As solas dos pés de Haven queimavam enquanto o doutor DeMarco a encaminhava para fora do porão. – Não irei atrás de você se fugir. – ele avisou, rindo de um jeito amargo ao perceber o pânico nos olhos da menina, que mais uma vez viu a arma em seu cinto – Tampouco atirarei em você.


– Não? – Não. – ele respondeu – Eu atirarei em sua mãe em vez disso. Ela respirou fundo no momento em que ele soltou seu braço. – Por favor, não a machuque! – Fique onde está e eu não terei de fazer isso. – ele disse, saindo. Embora suas pernas estivessem fracas e ela, tonta, Haven se recusou a mover-se um milímetro que fosse enquanto ele desaparecia pela escada. À medida que o sol se punha no horizonte o céu ganhava um brilho alaranjado, revelando sombras distorcidas sobre a paisagem. Ela não sabia a data, tampouco tinha ideia de quanto tempo havia se passado. Pela pequena janela percorria os olhos por todo o terreno da propriedade em busca de algum sinal de sua mãe. Ela queria vê-la, chamá-la, encontrá-la. Queria saber o que fazer. Porém, sua mãe nunca apareceu. O sol finalmente se pôs, e do meio da escuridão surgiu mais uma vez a figura do doutor DeMarco. Ele não olhou para ela enquanto abria a porta do carro preto, apenas comunicou: – Hora de ir. De um jeito tímido, Haven entrou no automóvel, acomodando-se no assento do passageiro. Então, quando a porta foi fechada, ela olhou em seu entorno. O cheiro forte de couro fresco dentro do espaço confinado fez com que ela sentisse um peso em seu peito. Ela tinha dificuldades para respirar e lutava para se manter calma enquanto ele se sentava ao lado dela. O doutor DeMarco franziu as sobrancelhas ao se esticar para pegar sua maleta no banco de trás. Sem dizer uma palavra, ele retirou de lá outra seringa e aplicou na jovem. Ela, mais uma vez, adormeceu.

A pequena estrada cruzava uma densa floresta; as linhas centrais estavam tão desbotadas que pareciam até uma via de mão única. Uma nova rodovia desviava o trânsito daquela região, por isso, somente locais transitavam por ali, ou pessoas que estavam perdidas. Haven estava literalmente tombada no banco do carro, zonza, observando as árvores sendo rapidamente deixadas para trás em meio à escuridão. Ela virou de costas para a janela, lutando contra o mal-estar, quando seus olhos depararam com o relógio no painel: o mostrador indicava meia-noite e quinze. Ela ficara desacordada por horas. – Não tive a intenção de sedá-la por tanto tempo. – explicou-se o doutor DeMarco, percebendo sua movimentação – Você dormiu durante todo o voo. – Num avião? – ela se surpreendeu. Ele acenou afirmativamente com a cabeça. Aquela fora a primeira vez que se aproximara de uma aeronave. Naquele momento, ela não tinha certeza se devia ficar feliz por estar em terra firme ou desapontada por ter perdido a aventura – Onde estamos agora? – Quase em casa. – Em casa? – Haven não sabia exatamente o que aquilo significava. – Porém, antes de chegarmos lá, quero deixar uma coisa bem clara. – pontuou DeMarco – Você terá uma vida mais normal vivendo conosco, mas não confunda minha gentileza com fraqueza. Espero sua lealdade. Se trair minha confiança de algum modo, haverá consequências. Desde que se lembre disso, não teremos nenhum problema. – ele fez uma pausa – Quero que se sinta confortável conosco. Portanto, poderá falar livremente, desde que seja respeitosa. – Nunca o desrespeitaria, senhor. – Nunca diga “nunca.” Às vezes não percebemos quando estamos sendo desrespeitosos. – Haven ficou imaginando o que ele queria dizer com aquela afirmação, porém, ele não explicou – Você tem


alguma pergunta? – Você disse “nós.” O senhor tem uma família? – Sim, tenho dois filhos. Eles têm dezessete e dezoito anos. – Entendo. – ela estava à beira do pânico. Nunca tivera contato com pessoas de sua idade, muito menos com rapazes. Observando mais cuidadosamente, ela reparou na aliança de ouro que brilhava sob a luz da lua na mão esquerda do médico. Casado – E sua esposa, senhor? A mãe dos seus filhos? No momento em que a pergunta saiu de seus lábios, a expressão de DeMarco mudou de maneira radical. Sua postura tornou-se rígida; sua mandíbula se contraiu enquanto seus olhos se fixaram na estrada à frente. Seu pé pressionou ainda mais o pedal do acelerador e suas mãos seguraram o volante com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos como os próprios ossos. A conversa havia chegado ao fim. Acho que chega de falar livremente. O carro deixou a estrada asfaltada e seguiu por uma via esburacada, entre as árvores densas. Finalmente chegaram a um lugar aberto e Haven vislumbrou a casa. A sede da fazenda tinha três andares; suas colunas se erguiam do solo até o topo da estrutura. O branco da pintura original estava desbotado, o que dava à fachada uma coloração acinzentada. Uma ampla varanda envolvia todo o primeiro andar, com outras menores decorando o segundo e o terceiro andar. Doutor DeMarco estacionou ao lado de dois carros menores, um preto e o outro na cor prata. Haven saiu do automóvel com cuidado, olhando ao redor. Tudo o que conseguia ver na escuridão era a silhueta das árvores. Uma luz na varanda iluminava levemente o caminho de pedras até a entrada. DeMarco pegou a bagagem antes de se direcionar à porta, sendo seguido pela jovem, que o acompanhava com certa dificuldade e de mãos vazias, uma vez que não tinha nada seu para carregar. De fato, ela nunca possuíra praticamente nada; todas as suas roupas eram trapos usados, vindos de outras pessoas. Coisas que fora obrigada a deixar para trás. Depois de pisar na varanda, o doutor DeMarco acionou com o dedo o teclado de um pequeno painel retangular, que emitiu um bipe antes de a porta se abrir. Haven entrou na casa e manteve-se de pé, parada, enquanto ele fechava a porta e acionava outro painel similar. Uma luz verde piscou e a porta se trancou automaticamente. – Está ligado a uma rede de computadores. – explicou DeMarco – Essa casa é impenetrável; as janelas são de vidro à prova de balas e ficam sempre trancadas. Você precisa de um código ou impressão digital autorizada para entrar e sair. – Mas e se acabar a energia, senhor? – Há um gerador para casos como esse. – E se o gerador não funcionar? – Então acho que ficará trancada na casa até que a força seja restaurada. – Eu também terei um código? – Talvez um dia, quando sentir que posso confiar em você. – ele disse – Depois do que aprontou em Blackburn, tenho certeza de que compreende minha posição. Estamos bem mais próximos da civilização do que antes. Ela não conseguia entender a posição dele, e se recusou a tentar: – O que acontece se houver uma emergência? – Há meios de burlar o sistema, mas não prevejo nenhuma situação que exija que você aprenda esses truques. – Mas e se a casa pegar fogo e eu precisar escapar? O doutor DeMarco olhou atentamente para ela: – Você é bem astuta, não é mesmo? – mas antes mesmo que ela pudesse responder, ele se virou – Venha, vou lhe mostrar a casa.


Bem diante deles havia uma sala de estar, com vários sofás e uma TV numa das paredes. Uma lareira ornamentava a parede de trás e tinha um piano ao lado; o piso de madeira brilhava refletindo o luar que invadia o local através das grandes janelas de vidro. À esquerda, ficava a cozinha, completamente equipada com todos os equipamentos e eletrodomésticos em aço escovado. No centro havia uma ilha e, sobre ela, estavam penduradas panelas e caldeirões. A sala de jantar abrigava a maior mesa que Haven já tinha visto, grande o suficiente para acomodar quatorze pessoas. Ela ficou imaginando com que frequência todos aqueles lugares eram ocupados, incapaz de pensar na ideia de cozinhar para tanta gente. À direita, havia um banheiro e a lavanderia, assim como um escritório, logo abaixo da escada. O segundo andar pertencia ao doutor DeMarco. Lá havia um quarto e um banheiro, assim como outro escritório e um quarto extra. Algumas das portas tinham painéis eletrônicos ao lado, um claro sinal de que Haven não deveria ultrapassar aqueles limites. Eles continuaram até o terceiro andar. As escadas terminavam em um amplo espaço. A parede de trás era tomada por uma grande janela e, bem à frente, havia uma mesa com duas cadeiras na cor cinza. As outras três paredes tinham portas que levavam aos quartos. A sala estava repleta de estantes que, por sua vez, abrigavam centenas de livros empoeirados. Haven ficou surpresa, afinal, nunca vira tantos exemplares juntos em toda sua vida. – Nossa biblioteca. – apresentou DeMarco – Ninguém a usa muito, e acho que isso não irá mudar, considerando que Antonelli me disse que você não sabe ler. Haven podia sentir os olhos dele sobre ela, mas permaneceu quieta, sem encará-lo. De repente uma porta se abriu e um jovem saiu de um dos quartos. Ele era alto e esbelto; seus cabelos eram escuros e malcuidados. DeMarco se virou para ele e disse: – Dominic, esta é… Bem… ela irá morar conosco. Dominic a olhou com curiosidade: – Olá! – Olá, senhor. – ela respondeu, com a voz trêmula. O riso do rapaz ecoou pela sala. – Não, não precisa me chamar de senhor. Apenas Dom. O jovem desceu as escadas e DeMarco a levou pela biblioteca, passando por uma porta sem dizer uma palavra, e finalmente parando. – É aqui que você irá dormir. Entre. Eu voltarei logo. Haven entrou no cômodo com certa hesitação. Os móveis, as cortinas e o carpete eram lisos e na cor branca. Tudo estava empoeirado. De fato, a maior parte da casa tinha o mesmo tipo de decoração; as paredes e os cômodos meio vazios. Não havia quadros nem bibelôs; nada que sugerisse algum valor sentimental. Nada que lhe desse alguma pista do tipo de pessoas com as quais estava lidando. Ela ainda estava de pé à porta quando o doutor DeMarco retornou com uma pilha de roupas. – Com certeza ficarão grandes, mas pelo menos estão limpas. Ela pegou as roupas e agradeceu: – Obrigada, senhor. – De nada. – ele respondeu – Tome um banho e se acomode. Afinal, esta também é sua casa agora. Ele repetiu aquela palavra. Casa. Ela havia morado com os Antonelli durante toda a sua vida e nunca ouvira nenhum deles chamar o lugar de casa ou lar. DeMarco deu alguns passos e então parou. – Ah, e pegue o que quiser na cozinha se estiver com fome, mas não tente colocar fogo em minha casa. Isso não irá ajudá-la a conseguir um código mais rápido. A permitir que você me engane, prefiro deixar que queime até a morte.


Haven passou a mão sobre o acolchoado macio. Jamais tivera uma cama em sua vida, muito menos um quarto só para ela. Em Blackburn ela costumava dormir em estábulos, em um pedaço de madeira coberto com um colchão velho cujas molas eram visíveis em alguns lugares. A temperatura costumava ser confortável na região, portanto, ela não tinha que se preocupar com cobertores. Contava apenas com uma coberta velha e suja para cavalos, quando realmente esfriava. Ela preferia não usá-la, uma vez que era áspera e arranhava sua pele. Nada podia se comparar ao que tinha sob o toque naquele momento. Depois de se livrar de suas roupas velhas, Haven foi até o banheiro da suíte. Lá havia uma grande banheira num dos cantos, assim como um longo balcão. O lugar também contava com uma pia e um espelho retangular na parede. De um jeito hesitante, Haven olhou seu reflexo no espelho: seu rosto estava magro e cheio de cortes. Uma marca roxa se estendia pelo lado direito da mandíbula. Na testa, no limite dos cabelos, havia um corte que formara uma mancha de sangue seco. Era como se o seu corpo inteiro estivesse debaixo de uma camada de sujeira, que tingira sua pele de um tom mais escuro; ainda assim, aquilo não era suficiente para cobrir suas cicatrizes. Havia dezenas que eram visíveis, além de várias outras nas costas; lembretes constantes de tudo por que já tinha passado. As marcas roxas desapareciam, assim como, às vezes, as memórias; porém, as cicatrizes… estas jamais deixariam de existir. Ela encheu a banheira e escorregou para dentro, murmurando ao sentir sua pele em contato com a água quente. Esfregou cada milímetro de seu corpo, enquanto as lágrimas brotavam de seus olhos, assustada e incerta em relação ao que aconteceria com ela. O doutor DeMarco vinha se mostrando civilizado, mas ela não se deixava enganar por sua voz gentil e pelas ofertas sutis de independência. Nada na vida é de graça. Embora o doutor DeMarco não parecesse um monstro, Haven era esperta o suficiente para saber que nada impedia que uma terrível criatura residisse dentro dele, escondida, mas à espreita. A experiência lhe dizia que isso sempre se confirmava. Depois que a água esfriou, ela saiu da banheira e encontrou uma toalha em um pequeno armário. A peça era macia e trazia um perfume floral. Haven a enrolou em seu corpo e retornou para o quarto, onde pegou as roupas que lhe foram dadas. Em seguida, vestiu as calças pretas de um pijama de flanela que, de tão largas em seu corpo frágil, tiveram de ser enroladas várias vezes na cintura, para não cair. Então pegou e desdobrou uma camiseta branca, reparando no desenho de uma bola na parte da frente e um grande número 3 na parte de trás.

O tempo passou lentamente, uma vez que Haven não conseguia dormir. Ela estava encolhida sob o cobertor, tentando se sentir confortável, mas o silêncio era incômodo. Tudo aquilo era muito novo e estranho. Sentia-se como se sua pele estivesse sendo alfinetada e as paredes estivessem se fechando sobre ela. A ansiedade e a fome estavam se apossando de seu corpo. Durante a madrugada, o desconforto tornou-se insuportável e ela silenciosamente desceu as escadas. Os corredores estavam escuros, mas ela logo notou uma luz na cozinha. Andando na ponta dos pés, ela olhou pela porta e viu um rapaz em frente à geladeira. Ele era um pouco mais alto que ela e sua pele, da cor de café misturado a uma grande quantidade de leite. A barba de alguns dias por fazer acentuava seu rosto, e seus cabelos grossos eram escuros, mais curtos dos lados do que em


cima. Sua camiseta cinza estava grudada em seu peito, as mangas curtas expunham seus braços. Havia uma figura em seu braço direito, uma tatuagem que ela não conseguiu identificar na escuridão. O jovem também usava calças idênticas àquelas que ela própria vestia. Sem perceber sua presença, o rapaz bebeu o suco diretamente da garrafa. Haven deu um passo atrás para sair dali. Porém, o movimento chamou sua atenção, e ele se virou para ela, derrubando a garrafa ao vê-la. O vasilhame foi ao chão e se espatifou, ensopando suas calças. Dando um pulo, ele olhou assustado para baixo. – Merda! Aquela palavra deixou Haven em pânico, fazendo com que ela imediatamente corresse até ele para limpar a bagunça. Ele se ajoelhou no mesmo instante em que Haven também se abaixou e suas cabeças colidiram. A força o atirou para trás, fazendo com que ele se desequilibrasse e ferisse a mão com um caco de vidro. Mais uma vez ele praguejou ao ver sangue escorrendo de um pequeno corte no polegar, e o levou à boca. Ao olhar para o rapaz, reparou numa cicatriz que marcava sua sobrancelha direita, partindo-a ao meio. Ele ergueu a cabeça e olhou para Haven com seus olhos verdes e vibrantes. A paixão intensa que se revelou naquele olhar roubou-lhe o ar. Ela interrompeu o contato visual e, ainda prendendo o ar, levantou-se e foi ao balcão em busca de uma toalha para limpar o suco. Lágrimas escorriam por sua face à medida que juntava os pedaços de vidro em uma pilha, mas logo foi interrompida quando a mão dele segurou seu pulso. Ela deu um pulo como se tivesse levado um choque, e ele piscou ao ser pego de surpresa por aquela reação. – O que há de errado com você? – ele perguntou, segurando-a firme. – Sinto muito! – ela disse – Por favor, não me castigue. Antes que qualquer um dos dois pudesse dizer outra palavra, a luz principal foi acesa e ambos escutaram a voz severa do doutor DeMarco: – Solte a moça. O rapaz rapidamente soltou o pulso de Haven, como se sua mão estivesse em chamas. – Desculpe. – ele disse em voz baixa, levantando-se. Haven mal conseguia respirar. DeMarco encheu um copo de água da torneira e ofereceu a ela: – Beba – ordenou. Ela forçou a água goela abaixo, embora seu estômago parecesse mais disposto a expelir o pouco que tinha lá dentro – O que aconteceu aqui? Ambos responderam ao mesmo tempo, quase de maneira sincronizada: – Foi um acidente. – Não acontecerá novamente, senhor. – Haven prosseguiu – Eu prometo. O doutor DeMarco pestanejou algumas vezes e completou: – Nesta casa é bastante incomum que duas pessoas concordem e se desculpem ao mesmo tempo. Como que aceitando a deixa, o jovem voltou a falar: – É… Bem… Na verdade não foi minha culpa. Ela me assustou. Aliás, de onde surgiu essa ninja maluca? O doutor DeMarco pinçou o nariz com os dedos e censurou: – Preste atenção no que diz, filho. Agora vá se aprontar para a escola. Ele começou a discutir, mas DeMarco ergueu a mão e o fez parar de falar. Aquele gesto repentino assustou Haven, que se contraiu, como que se preparando para ser espancada. O rapaz a encarou de um jeito estranho. – O que diabos há de errado com essa…? – Eu o mandei se aprontar. – disse DeMarco – Não tenho tempo para você agora. – Tudo bem, que seja. O doutor DeMarco se virou para ela depois que o rapaz saiu:


– Em geral ele não é… Bem… isso não é bem verdade. Geralmente ele é assim. Um rapaz meticuloso e sempre com raiva. Deixemos isso de lado; é irrelevante. É o jeito dele e não importa o que eu faça. O nome dele é Carmine. Carmine. Um nome estranho para um jovem esquisito. – Mas o que a fez levantar tão cedo? – ele indagou – Imaginei que fosse dormir o dia todo para se recuperar. – Não sabia a que horas eu deveria me levantar. – Você se levanta quando quiser levantar. – ele esclareceu – Pode voltar para a cama agora. – Mas e o… DeMarco não a deixou terminar: – Eu cuido disso, não se preocupe em fazer nada hoje. Apenas descanse.


Capítulo 2

– Preciso de um favor. Carmine passou direto pelo pai, recusando-se a tomar conhecimento de que havia lhe dirigido a palavra. O cheiro de café feito na hora se espalhava pela cozinha, enquanto Vincent limpava o chão. Os joelhos de seu novíssimo terno Armani estavam molhados por causa do suco derramado, e Carmine gostou do que viu. – Agora você vai me ignorar, filho? – Ah, agora o senhor está falando comigo? Pensei que não tivesse tempo para mim esta manhã. Vincent se levantou. – Certamente não tenho tempo para esse tipo de atitude, mas preciso de um favor. – Claro que precisa. Vincent retirou um pedaço de papel de seu bolso e o entregou ao filho: – Pergunte a Dia se ela poderia arranjar essas coisas depois da escola. Eu mesmo o faria, mas não entendo nada sobre as necessidades de uma jovem adolescente. Carmine sorriu. – Não acho que Dia entenda mais sobre isso que você. – Acho que ela sabe o suficiente. – respondeu – Apenas peça a ela. Carmine enfiou o papel no bolso e disse: – Como quiser. É para a ninja maluca? Quem é ela, afinal? – Você realmente se importa? – Não. – a palavra saiu automaticamente de sua boca. Ele não sabia muito bem o que pensar. – Então não importa quem ela é. – respondeu Vincent – Mas, independentemente disso, ela precisa dessas coisas, então não se esqueça de falar com Dia. – Eu ouvi da primeira vez. – retrucou o rapaz – De qualquer modo, acho que teria sido legal se tivesse nos avisado que traria alguém pra essa casa. De onde ela veio? Vincent despejou um pouco de café em sua garrafa térmica para viagem. – Pensei que tivesse dito que não se importava. – E não me importo mesmo. – Então, não importa quem ela é. O que importa é que ela está aqui agora. – Pra mim tanto faz. – “Tanto faz”… – repetiu Vincent, acenando negativamente com a cabeça – É bom saber que todo o dinheiro que investi em você para que frequentasse a Benton Academy o tornou tão mais… articulado. Carmine estremeceu só de ouvir a menção ao lugar. Ele se metera em encrenca no ano anterior. Algo que poderia ter arruinado sua vida, mas seu pai mexeu alguns pauzinhos e conseguiu dar um jeito na situação. Entretanto, ele não perdoou a atitude do filho e acabou o matriculando em um internato pelo resto do semestre. Ainda dentro do avião, ao retornar para casa, Carmine jurou para si mesmo que aquilo não se repetiria. Porém, prometer é bem mais fácil que cumprir. Na verdade, ele nunca procurava problemas, mesmo assim, eles o encontravam pelo caminho. E pode-se dizer que Carmine costumava caminhar bastante. – Pois é, você deveria ter economizado seu dinheiro. Sua vida seria mais fácil se tivesse me deixado apodrecer lá.


– Aposto que realmente acredita nisso. – disse Vincent, olhando para o relógio – Tenho de me limpar antes de sair para o trabalho. Apenas se lembre de falar com Dia. – Eu disse que já ouvi. Quantas vezes você pretende me lembrar? – Até ter certeza de que não vai esquecer. – Não vou! – Ótimo! – disse o pai – Até porque se você esquecer nós dois teremos um problema.

Dia Harper dirigia um velho Toyota cinza-escuro, que tinha duas calotas faltando. Ela o comprara com o dinheiro economizado fazendo bicos. Isso significava que ela estava acostumada a fazer praticamente qualquer coisa para ganhar algum dinheiro: fazer compras, limpeza, levar mensagens… Certa vez, por cinquenta dólares, ela chegou a fazer um trabalho de escola para Carmine. Um vazamento no sistema exaustor fazia que o veículo emitisse muita fumaça. Algo que ela tentava encobrir espalhando vários aromatizadores pelo carro, todos no formato de pequenas árvores. Carmine jamais seria visto dentro daquela lata velha mas, para Dia, aquele carro era o Santo Graal. Quando Carmine chegou à escola, dirigindo seu Mazda preto, Dia já o esperava no estacionamento, sentada sobre o capô do carro. – Ainda não entendi. – ela disse, meneando com a cabeça, enquanto ele saía do veículo – Explique novamente. Carmine se encostou no próprio carro. – Não há nada pra explicar. É apenas o que é. – E o que é? – Sexo. – ele disse, gargalhando diante da expressão assustada no rosto de Dia. Seus olhos azuis estavam escondidos sob camadas de maquiagem escura e, do dia anterior para cá, ela acrescentara algumas mechas roxas e pink nos seus cabelos curtos e loiros. Dia era a própria definição de excentricidade: usava roupas que não combinavam e trazia no pescoço sua nova e enorme câmera. Nada naquela mulher obedecia a qualquer padrão, e era justamente isso o que atraía Carmine. Embora fosse um rapaz popular, não tinha muitas pessoas as quais considerasse amigas. Ele achava que existiam dois tipos de pessoas na pequena cidade de Durante, na Carolina do Norte, onde viviam: aquelas que o queriam e as que desejavam estar em seu lugar. Dia era diferente. Ela era uma pessoa honesta e direta, embora vivesse em um mundo cercado de mentiras. Carmine apreciava aquilo. – Mas por que Lisa? – Dia perguntou, recusando-se a deixar o assunto morrer. Carmine olhou para o estacionamento em direção a um grupo de jovens e deu de ombros quando localizou Lisa Donovan, uma garota de cabelos loiros e longos, corpo esbelto e bem bronzeado. De fato, ela se parecia com todas as outras jovens da escola, sem qualquer atributo especial. Não que alguém em sua casa se importasse muito com a vida dele. – Digamos que ela seja rápida para tirar a roupa, o que me dá menos trabalho. – Isso é tão grosseiro – ela concluiu, enrugando o nariz – Você precisa de uma garota decente para dar um jeito na sua vida. – Não preciso dar um jeito na minha vida. – completou Carmine. Afinal, pra que se afogar no amor quando se pode nadar e se divertir na luxúria? – Mas justo com ela? – Dia insistiu – De todas as mulheres nesta escola você foi escolher justo essa Lisa-Reclamona? Carmine deu risada do apelido e pegou uma mecha colorida do cabelo de Dia. – Parece que hoje você é a pintura do pedaço, Warhol.


– Ei… Eu gostei disso! – ela se animou – Andy Warhol foi um dos melhores. – Ele era um maluco. – Talvez, mas, ainda assim, um gênio. – completou, assentindo com a cabeça em direção às garotas – Algo que a Lisa-Reclamona certamente não é. Não acho que ela consiga formular sequer uma frase que faça algum sentido. Já tentou manter um diálogo inteligente com ela? É como falar com uma parede de tijolos. – Bem, na verdade a gente não perde tempo falando. – explicou – Aliás, até que ela não é ruim quando está nua, de quatro e com a cabeça enfiada no colchão. Dia balançou a cabeça em reprovação, enquanto Carmine soltou uma gargalhada. Ele não tinha nenhum interesse por Lisa nem por qualquer outra mulher. Porém, embora relacionamentos não passassem por sua cabeça, ele já tinha percebido os benefícios de se manter uma companhia feminina. Talvez elas não fossem intelectualmente estimulantes, mas com certeza despertavam outras partes do seu corpo… e com frequência. Um Audi prateado estacionou ao lado dos dois veículos. Dele saíram Dominic e sua namorada, Tess, que, aliás, era irmã gêmea de Dia. Ambas, entretanto, não podiam ser mais diferentes. Os quatro já se conheciam há muito tempo, desde que os meninos se mudaram para a região, ainda no primário, mas o namoro entre Dominic e Tess era algo recente. Tudo aquilo era estranho para Carmine. A vida que ele deixara para trás não era a mesma agora que havia retornado à cidade. Estava difícil para ele se ajustar a todas as mudanças. – E aí, o que estão fazendo? – Dominic perguntou. – Estou tentando enfiar na cabeça de Carmine que ele está fazendo merda quando o assunto é a Lisa – respondeu Dia –, mas não está funcionando. – Não posso dizer que esteja surpresa. – replicou Tess – Afinal, nenhuma garota que tenha o mínimo de respeito próprio iria querer algo com alguém como ele. – Ah, não sou assim tão ruim. Sou rico, popular, tenho senso de humor, boa aparência. Isso tudo sem mencionar meu enorme… – todos soltaram um urro antes que ele terminasse a frase. Carmine deu de ombros, julgando que sua descrição de si mesmo fora bem adequada – Além disso, não estou planejando namorá-la. A única vez em que vocês me verão convidando uma garota pra sair será quando já tiver fodido com ela e a estiver convidando para sair da minha frente. – E é justamente por isso que sempre ficará sozinho! – disse Tess – Você só pensa em si mesmo. – Veja quem fala, a vadia mais fútil do planeta. – ele replicou – É melhor ter cuidado com sua língua afiada, Tess, ou em algum momento vai acabar se cortando. – Ei, já chega vocês dois! – quis encerrar Dominic, colocando-se entre os dois – Carmine é livre pra fazer o que quiser e com quem quiser, então pare de pegar no pé dele. Quanto a você, cara, acho melhor ter cuidado e não ameaçar minha namorada. – Eu não a ameacei, apenas a alertei. Ela devia me agradecer por isso. Revirando os olhos, Tess saiu andando. Dominic foi atrás dela, chamando seu nome. Aquela era uma rotina diária: Tess ficava brava, saía batendo os pés, e Dominic ia atrás dela como um cachorrinho. Carmine não compreendia aquilo. – Ele é patético. – Ele está apaixonado. – Se é isso que o amor faz com você, tô fora! – ele não podia sequer imaginar a ideia de passar cada momento de sua vida ao lado de uma mesma pessoa, fazendo a mesma merda que já haviam feito no dia anterior – Isso deve ser muuuuuuito entediante. – E o que você faz, não é? Ele olhou para ela sem acreditar no que tinha ouvido.


– Você acha que minha vida é chata? Fique sabendo que eu tenho o que quero, quando quero. Gosto demais da minha liberdade pra me envolver com alguma vagabunda. – Você realmente tem que usar essa palavra? – Que palavra? Dia olhou para ele, mas não respondeu. Carmine sabia perfeitamente a que palavra Dia se referia, mas não via razão para que ela se sentisse ofendida, considerando que era apenas aquilo: uma palavra. – Ei, o que foi que aconteceu com aquela garota que costumava dizer “o que vem de baixo não me atinge”, hein? O sinal tocou a distância, indicando o início das aulas. – Lá vem a Lisa-Reclamona – alertou Dia, saltando do carro – E, sim, uma garota teria sorte em ter você, Carmine, mas não assim. Você está perdendo seu tempo com quem não te merece. Você precisa encontrar alguém que valha a pena. Dia se afastou antes que ele tivesse a chance de responder. – Olá, bonitão. – disse Lisa ao se aproximar. Ela se encostou no carro dele, mas ele a afastou. Detestava que as pessoas tocassem em suas coisas. Entretanto, ela nem notou e foi passando a mão sobre seu peito, brincando com os botões de sua camisa. – Você está irresistível hoje, sabia? – Obrigado, mas sabe o que seria ainda mais irresistível? – O quê? – Bocchino. – ele respondeu, tocando com o dedo os lábios da jovem, cobertos com gloss na cor pink – Essa sua boca deliciosa no meu pau!

Uma dor aguda ricocheteou a cabeça de Carmine, enquanto sentia algo quente escorrer pela lateral do seu rosto. Cada ínfimo de racionalidade rapidamente deixou seu corpo. Ele estava sangrando. Mais uma vez. Aquilo era inaceitável. Ele conseguia ouvir uma voz nervosa ao fundo, tentando se desculpar de todas as formas, mas as palavras soavam distantes ao mesmo tempo que o temperamento de Carmine se tornava perigosamente violento. Ele esmurrou a porta do armário que o atingira antes de partir para a agressão física, arremessando o outro rapaz contra a parede oposta, depois de socar-lhe o estômago. Foi então que alguém se interpôs entre os dois. Carmine já se preparava para revidar quando seus olhos se depararam com os do treinador Woods, fumegantes. Ele estava parado bem diante dele, bastante irritado. – Já pra diretoria! – ordenou. – Eu?! Mas isso é palhaçada! O treinador Woods olhou para ele: – Não se atreva a falar desse jeito no meu vestiário! Eu o deixarei mofando no banco! Como novo zagueiro do time de futebol americano universitário, Carmine em geral contava com certas regalias, mas, pela aparência do técnico, ele sabia que dessa vez não seria o caso. Ele pegou uma toalha, segurou-a junto à testa para estancar o sangue e saiu rapidamente do vestiário. A secretária na recepção mal conseguiu ver quando Carmine entrou pela porta e se atirou numa poltrona, para aguardar impacientemente sua vez. Agindo de modo casual, a funcionária notificou o diretor de que havia alguém à sua espera. Em seguida, o diretor Rutledge saiu de sua sala e olhou para Carmine, convidando-o para entrar. O jovem adentrou o pequeno escritório e logo ocupou a


mesma cadeira de couro craquelado que já estava acostumado a usar, ainda segurando a toalha em sua cabeça e esticando as pernas. – O que foi dessa vez? – a mesma pergunta que Rutledge fazia a Carmine semanalmente, desde o seu primeiro ano. – Alguém me atingiu com a porta de um armário. – De modo intencional? O jovem deu de ombros. – Pode ter sido de propósito. O diretor pegou o telefone e discou para um número que já havia memorizado há muito tempo. Enquanto esperava, Carmine aproveitou para observar o pequeno espaço e reparou em uma moldura nova sobre o arquivo. Era a filha do diretor, aluna do segundo ano. A jovem era curvilínea e tinha olhos avelã e cabelos castanhos. – Sua filha está muito bonita. – Fique longe dela, Carmine. Ele riu, mas não teve muito tempo para responder antes que o diretor se concentrasse no diálogo ao telefone: – Doutor DeMarco, aqui quem fala é Jack Rutledge… Sim… estou bem, e o senhor, como vai? Sim, bem, houve um incidente… Ele está machucado… Não, não acho que o outro rapaz esteja… Ele ainda está no meu escritório… Não, ele ainda não passou pela enfermaria. O diretor encarou Carmine e perguntou: – Acha que precisará de pontos? Carmine deu de ombros, mas o diretor não esperou por sua resposta e continuou ao telefone: – Sim, nós temos um protocolo para atender alunos feridos… Sim, eu compreendo… Com todo o respeito, não acho que seja algo sério… Claro, o senhor está certo; não sou médico. – ele fez uma pausa enquanto seus olhos se arregalaram – Sim, a escola está coberta pelo seguro, mas não acho que esse tenha sido um caso de negligência de nossa parte. Carmine deu um sorriso zombeteiro. A maioria das pessoas não sabia que tipo de homem era seu pai mas, com certeza, ele conseguia aterrorizar todos ao seu redor. – Eu o enviarei imediatamente. – o diretor desligou, olhando para o jovem de um jeito cauteloso – Você precisa ir a um hospital para ser examinado. Eu já deveria ter feito isso; não sei no que estava pensando. Carmine se levantou: – É, também não faço ideia.

Carmine entrou direto pela emergência do hospital, passando pelo balcão de atendimento e seguindo para o consultório do pai, no terceiro andar. Vincent já o esperava com os braços cruzados sobre o peito. Ao ver o filho, fez um movimento para que se aproximasse e, então, verificou o ferimento. – Você precisará de alguns pontos. – Legal! Vincent tirou seus óculos e pinçou o alto do nariz, franzindo a testa. – O que estava pensando? – Foi ele quem começou. Seu pai meneou com a cabeça. – A culpa nunca é sua, não é mesmo? Nem sempre será possível escapar impune, Carmine. Algum


dia acabará se metendo em uma situação sem volta, e então terá de aprender a viver com as consequências. Carmine sorriu, zombando do pai: – E o mesmo se aplica a você. Vincent o levou até a emergência, e Carmine sentou-se em uma das macas, esperando pela sutura. Depois de alguns minutos, a porta se abriu e uma jovem loira vestida com um uniforme na cor pink entrou na sala. – Ora, ora, ora, veja quem está aqui. – Jen. – Carmine quase riu ao ouvir seu nome. Para ele, o termo “oportunista” no dicionário poderia ter a foto dela como sinônimo. Ele mesmo jamais a tocaria, mas seu pai já o havia feito. Ele os flagrara certa vez. O que ele viu naquele dia foi algo que sempre tentou engolir, mas não conseguiu. Três pontos e duas doses surrupiadas de Percocet mais tarde, Carmine saiu pela porta sentindo-se como se estivesse flutuando no ar. Vincent o cercou na frente do prédio e ordenou: – Vá direto para casa. Conversaremos quando eu chegar lá. Numa atitude de escárnio, Carmine ergueu a mão e prestou continência militar para, em seguida, dirigir-se ao estacionamento. Seu carro estava parado numa vaga para médicos, bem em frente ao prédio. Ao levar a mão ao bolso para pegar suas chaves, encontrou um pedaço de papel e logo franziu as sobrancelhas. – Merda! No final das contas, ele realmente acabou se esquecendo da lista. Ele entrou no carro, relutando um pouco antes de seguir pelas ruas da cidade, e passou direto pela saída que o levaria para casa; em vez disso, pegou a rodovia que o levaria até a casa de Lisa. Uma vez sabido que estaria de qualquer forma em apuros, pelo menos faria com que a bronca fosse bem merecida.

Haven cantarolava enquanto trabalhava. Aquele era um hábito que ela sempre cultivara em sua vida. Fora herdado de sua mãe, que também costumava cantar musiquinhas infantis e fazer movimentos com as mãos para ela dormir no estábulo, antes mesmo de saber. Aquilo costumava acalmá-la e tranquilizá-la enquanto fazia o trabalho, pois o efeito era similar. As letras das canções já haviam sido esquecidas, mas as melodias continuavam a tocar em sua cabeça. Aquilo trazia Haven de volta ao passado, um tempo em que sua vida ainda era inocente. Ela cantarolava e, de repente, o sol parecia brilhar mais forte, deixando o mundo ao seu redor menos escuro, como ela sabia que podia ser. Acostumada a ter sua vida controlada até os mínimos detalhes, agora era difícil para ela resolver as coisas por si mesma. Ela deveria ter pedido mais informações, pois não deveria presumir nada. Porém, tinha tanto medo de cometer erros que não conseguia expressar suas dúvidas. Ela já havia irritado o doutor DeMarco uma vez ao lhe fazer uma pergunta indevida. Quantas chances ela ainda teria antes que ele se enfurecesse? Então, ela decidiu ir fazendo tudo conforme as tarefas se apresentavam. Naquela tarde, esfregou o piso de madeira e limpou os banheiros. Ela passou o aspirador e espanou os móveis, mas se manteve distante de todos os cômodos que tinham sistemas de alarme e cujos limites, obviamente, não deveriam ser ultrapassados. No armário de suprimentos ela encontrou uma garrafa clara em que estava escrito “limpeza de janelas,” em letras pretas. Eram as únicas partes sujas da casa, então ela as


limpou até a altura que alcançava. Por volta das três da tarde, Haven já não tinha mais o que fazer. Ela estava checando a despensa quando escutou um bipe, e percebeu que a porta da frente se abrira. Logo ouviu passos vindo em sua direção e seu coração disparou. Em pânico, ela correu para se esconder e esbarrou em Dominic, quando este entrou na cozinha. – Ei, pé de valsa, avise-me da próxima vez que quiser dançar. Ela instintivamente recuou alguns passos. – Me desculpe. – Está tudo bem. – ele disse, indo até a geladeira – Está com fome? Haven olhou pela porta em busca de alguém que o estivesse acompanhando, só então percebendo que ele estava se dirigindo a ela, que imediatamente começou a gaguejar. Porém, antes mesmo que pudesse emitir um pensamento coerente, seu estômago roncou. Dominic deu risada e emendou. – Acho que devo tomar isso como um sim. Ele enfiou algumas fatias de presunto e queijo no meio do pão, o colocou em um guardanapo e entregou o sanduíche a ela. Haven encarou o gesto com surpresa, mas aceitou a oferta mesmo assim, com cuidado. Ela nem se lembrava da última vez em que havia comido alguma coisa; não tinha coragem de tocar na comida deles sem autorização. Haven deu uma pequena mordida no lanche enquanto Dominic limpava a mesa. Aquele momento lhe pareceu surreal. Ela mal podia acreditar que ele, um dos donos da casa, tivesse servido a empregada.


Capítulo 3

Haven sentou-se na beirada da cama e colocou as mãos sobre as pernas enquanto mantinha seus olhos fixos no chão, como de costume. Mesmo assim, ela podia ver a ponta dos sapatos do doutor DeMarco e um pequeno rastro de sujeira no tapete, que ele próprio havia deixado. Ela sentiu uma forte necessidade de limpar aquilo, mas se manteve imóvel para evitar ofendê-lo. Era pouco depois das seis da tarde. Ela havia retornado ao seu quarto depois de comer o sanduíche, pois sentia-se um tanto deslocada no andar de baixo. – Você limpou a casa. – Sim, senhor. – Mas eu lhe havia dito para descansar. Ela ficou tensa. Teria agido com desrespeito? – Eu estava acordada e não sabia o que fazer. – Aprecio seu esforço. – ele disse – Honestamente, não consigo me lembrar da última vez em que essas janelas haviam sido esfregadas. Você as limpou, não foi? – Sim, senhor. – E usou o produto certo? – Acho que sim – respondeu –, a garrafa clara que estava no armário. Ele deu um passou em sua direção. Ela se encolheu quando ele esticou a mão, mas sua reação não o impediu. Segurando seu queixo, ele a forçou a olhar para ele. – Não espero perfeição, criança. Certifique-se apenas de que a casa se mantenha limpa, que as camas estejam feitas e as roupas lavadas, e assim não teremos nenhum problema. O jantar deve ser servido às sete, todas as noites, a menos que eu lhe dê outras instruções. Entendeu? – Sim, senhor. O doutor DeMarco soltou-a e ela olhou para o lado, sentindo-se desconfortável com o contato visual. Ele se virou para sair do quarto, mas parou na biblioteca ao perceber que ela o estava seguindo. – Há algo de que precise? – Já passa das seis horas da tarde, então acho que devo começar o jantar. Ele deu um suspiro. – Amanhã. Descanse essa noite. Ela ficou de pé na ponta da escada enquanto ele se foi. Descanse essa noite. Ela compreendeu as palavras, contudo elas pareciam não se fixar em sua mente. Na verdade, elas soavam tão estranhas quanto uma língua estrangeira. Afinal, quem são essas pessoas?

1h47 Os números vermelhos e brilhantes no relógio a assustavam. Tudo estava quieto demais. O silêncio parecia ensurdecedor. Ela nunca ficara sozinha por tanto tempo. Mesmo durante a noite no estábulo, os animais costumavam lhe fazer companhia enquanto dormia. Geralmente sua mãe estava por perto,


então, quando se viu sozinha naquele quarto, percebeu que nunca pensara que um dia se afastaria dela. Agora ela não tinha mais ninguém. Estava sozinha. 2h12 Haven ainda pensava na mãe, imaginando o que estaria fazendo e se estaria bem. Será que ela ficou sabendo o que aconteceu, ou estaria achando que sua filha estava em algum lugar, pedindo ajuda? Haven podia vê-la de pé na varanda do rancho, olhando para o deserto e esperando um sinal. Aguardando ser resgatada. Esperando por ela. 3h28 Haven imaginava o que teria acontecido se tivesse encontrado alguém para salvá-la. Será que ambas estariam juntas em algum lugar? Ela ficou pensando em como seria as duas tendo sua própria casa, com um jardim e um gatinho branco e fofinho para lhes fazer companhia. Ele se chamaria Bola de Neve e escalaria a árvore de Natal que teriam na casa, arrancando as luzinhas e espalhando galhos do pinheiro. Haveria presentes e chocolate quente, e a neve cobriria tudo do lado de fora. Haven havia visto neve somente por fotos, mas sua mãe falava sobre o inverno algumas vezes; sobre o sabor dos flocos de neve em sua boca. Haven se perguntava como ela poderia saber, uma vez que jamais tivera uma vida diferente daquela em que ambas viviam. “Sonho com isso”, a mãe costumava dizer. “Quando você sonha é capaz de ir a qualquer lugar. Sempre vou em direção à neve.” 4h18 A jovem imaginou sua mãe com a pele vermelha por causa da neve. Com flocos nos cabelos. Ela sorria e brilhava enquanto rodopiava na neve. Estava mais feliz do que Haven jamais a vira antes, vivendo uma vida normal… o tipo de vida que ela sempre merecera. 5h03 Suas bochechas estavam marcadas pelas lágrimas e seus olhos queimavam como se estivessem cheios de grãos de areia. Ela se sentia como se estivesse correndo novamente, sufocando-se enquanto lutava para respirar, mas, não importava o quanto lutasse, jamais chegaria a algum lugar. 5h46 O som suave da música chegou ao seu quarto, uma interrupção bem-vinda para aquele silêncio agonizante. A melodia trouxe conforto para Haven. Ela relaxou à medida que a tensão se esvaiu de seu corpo, mas nem aquilo fora capaz de fazer sua mente parar de pensar. Ela permaneceu acordada, ouvindo, e olhava para o relógio, desejando algum alívio para sua dor. 6h30 O horário em que todos se levantavam no rancho. Haven saiu da cama depois que a música parou e secou as lágrimas do rosto. Em silêncio, ela caminhou pela biblioteca, deslizando os dedos sobre as lombadas dos livros. Ela manteve a luz apagada, mas a iluminação que vinha de fora era suficiente para que ela enxergasse. Um estranho sentimento de paz tomou conta dela. Pela primeira vez em muito tempo, talvez em toda sua vida, Haven quase se sentia segura. Quase. Ela andou até a janela e olhou para fora, vendo o céu se iluminar à medida que o sol se levantava. O jardim era verde e exuberante. Havia árvores espalhadas por todo o espaço, mas a floresta mais densa ficava ainda a algumas centenas de metros. Haven ficava imaginando até onde iria aquela mata fechada; quão longe ficaria a cidade mais próxima e quanto tempo demoraria para alguém chegar lá a pé. De repente, uma leve tosse a alertou para o fato de que já não estava mais sozinha. Carmine caminhou em direção às escadas com uma atadura na cabeça que não estava ali no dia anterior. De algum modo, a visão daquele jovem mexeu com Haven. Seu olhar desviou para ele, que deu um pulo, levando a mão ao peito. – Jesus! O que está fazendo aí?


– Só olhando. – ela respondeu, apontando para a janela. – No escuro? Não podia ter acendido a luz? Ele desviou o olhar e se desculpou. – Tá tudo bem – ele disse –, apenas tente fazer algum barulho da próxima vez. Você é pior que um gato perambulando pela casa. Talvez precise de um sininho no pescoço. Lágrimas indesejadas se formaram em seus olhos. Não permita que ele te veja chorar. – Vou tentar. – Quem é você, afinal? O que está fazendo aqui? – Haven. – ela disse em voz baixa, olhando para ele. Ele a encarou de um jeito peculiar. Os olhos dele estavam vermelhos como sangue e havia círculos escuros ao redor deles. – Heaven? Como “paraíso” em inglês? Não, isso aqui definitivamente não é o paraíso. Mas entendo por que está confusa, afinal, estou parado diante de você. – ela o encarou enquanto ele esboçava um sorriso irônico – Estou brincando. Bem, pelo menos de certo modo… Já me disseram algumas vezes que sou capaz de levar as garotas ao paraíso. – É Haven, não Heaven. – ela corrigiu, com a voz mais alta. Nada naquele diálogo fazia o menor sentido para ela – Meu nome é Haven. Significa… – Eu sei o que significa – sua voz afiada a interrompeu. Ela modificou o tom de voz e se encostou à janela. O temperamento dele mudava rápido demais para que ela conseguisse ler sua mente – Então, o que aconteceu com você? Quero dizer, sem ofensas, mas você parece meio zoada. Parece que esteve no inferno e voltou. Ela ergueu a mão para tocar em seu rosto ainda arroxeado assim que entendeu ao que ele se referia. – Eu caí. – Você caiu? Se não quiser me dizer o que houve, diga de uma vez. Não precisa inventar qualquer merda. – Estou dizendo a verdade. Eu caí! Eu tentei… Bem… eu estava… – Não tem que me explicar. Não é mesmo da minha conta. – Mas eu caí mesmo. – ela insistiu, embora ele ainda não parecesse convencido; mas a jovem não sabia ao certo o que dizer. Ela apontou para a atadura na cabeça dele – E o que aconteceu com você? Ele tocou o ferimento do mesmo modo como ela fizera e deu de ombros. – Eu caí. – É mesmo? – Não. – ele respondeu dando risadas, desaparecendo pelas escadas. Ela cerrou as sobrancelhas e reafirmou: – Mas eu caí.

Quando Carmine tinha dez anos, seu pai trouxe um gato para casa. O pelo do animal estava cheio de falhas e o rabo fora cortado. O bicho infestou a casa de pulgas e arranhou toda a mobília. Duas semanas depois o animal desapareceu. Carmine nunca perguntou o que havia acontecido com ele. Honestamente, ele nunca se importou. Aos quatorze anos, foram dois cachorros. O primeiro vivia mordiscando o tornozelo de todos. Tinha uma cor amarelada esquisita e apenas três patas. Ele fazia xixi por toda a casa e acabou sumindo depois que mordeu e destruiu os sapatos favoritos de Vincent. O outro cão era da raça Pit


Bull. Tinha um olho só e as orelhas deformadas. Seu pai costumava amarrá-lo no jardim. O bicho ficava latindo a noite toda e não deixava ninguém dormir. Carmine mal conseguia manter os olhos abertos durante as aulas no dia seguinte; até que, certo dia, chegou em casa e viu que o cachorro havia desaparecido. Depois de tudo isso, Carmine gostaria de estar chocado ao ver aquela jovem em sua casa, mas não estava. Ele imaginava que o pai havia apenas recolhido algum animalzinho perdido pela rua. Mas, ao mesmo tempo, sabia que havia algo diferente dessa vez, só não conseguia compreender o quê. O pai estava comprando coisas para aquela jovem. Ele nunca se preocupara em trazer comida para o último cachorro. Aquilo foi se instalando em sua mente à medida que descia as escadas, mas ele preferia acreditar que era pura curiosidade. Porém, em verdade, em apenas um dia aquela garota havia realmente o tocado de maneira mais profunda. Ele não sabia por que, tampouco o que fazer a esse respeito, mas não apreciava a sensação que aquilo lhe provocava no estômago. Aquela situação o irritava e o mantinha acordado durante a noite, como se fosse um pequeno martelo golpeando sua mente de modo incessante. Merda de consciência. Ele parou no segundo andar, de frente para o escritório do pai. – Ei, você quer que eu…? – Não. A voz afiada e direta interrompeu o rapaz antes que ele pudesse terminar a frase. – Você nem me deixou terminar a frase. Eu ia perguntar se… – Não preciso que você termine. – disse Vincent, sem desviar os olhos de seu notebook, com os óculos de leitura na ponta do nariz – Não quero que faça nada por mim. – Mas e sobre a…? – Não se preocupe com isso. – disse o pai, rindo de um jeito bem-humorado – Não que você realmente se incomode. Não se importa com nada que não o beneficie diretamente. – Isso não é verdade. Eu me importo… – Não, não se importa. – Caramba, será que posso terminar pelo menos uma frase? Estou tentando ajudar. – Não preciso de sua ajuda. – Vincent respondeu, meneando com a cabeça – Eu lhe pedi que fizesse uma coisa, uma única coisa, mas você não foi capaz. Aprendi a lição, filho. Agora sei que não posso mesmo contar com você. Droga. A lista. – Eu esqueci – replicou –, mas irei compensá-lo. – Tarde demais. Já pedi a outra pessoa que cuidasse disso. – Quem? – Jen. Ele fez uma careta antes de perguntar: – E por que ela? – Bem, ela sabe o tipo de coisas que uma garota precisa, já que também é uma garota. Com algum esforço, Carmine evitou mencionar a idade de Jen, mas não podia evitar compartilhar parte de sua opinião. – Bem, se com isso você se refere a contraceptivos e doses altas de penicilina, então eu concordo. Vincent o olhou com reprovação. – Acho que não está em posição de julgar, considerando sua atual companhia. – É verdade, mas não sou exatamente um modelo que deveria ser seguido, não é? Gostaria que eu comprasse as coisas? – De jeito nenhum. – respondeu – Chegaria em casa com calcinhas fio-dental e coisas do tipo.


– E acha que a Jen não fará o mesmo? Ele sequer usa roupa de baixo. Vincent o encarou com firmeza. – Não está atrasado para a escola? – Que se dane. Ele se virou para sair, mas seu pai o chamou: – Se realmente deseja compensar sua atitude, há algo que pode fazer. Carmine o olhou fixamente: – O quê? – Mantenha-se longe de encrencas. – Vou tentar, mas acredito que me meter em confusões faça parte do meu DNA, pai.

Uma hora e meia atrasado, Carmine entrou na sala, interrompendo a aula de História de sua professora, a senhora Anderson, e no meio de uma apresentação. Ela sorriu e disse: – Ah, senhor DeMarco, chegou bem na hora de nos presentear com sua apresentação sobre a Batalha de Gettysburg. Ele só resmungou. Havia esquecido totalmente que teria de fazer uma apresentação oral naquele dia. Ela então fez um movimento com a mão, apontando para a frente da sala e, sem muita disposição, Carmine caminhou até a frente enquanto ela se sentava à mesa. – Pode começar quando quiser. – Bem, a batalha aconteceu na Pensilvânia. Por volta dos anos 1 800. A senhora Anderson o corrigiu: – 1 863. – É, exatamente. O General Lee liderou seu exército a partir do Sul e deparou com as tropas do Norte em Gettysburg. Algumas pessoas morreram em ambos os lados, centenas de milhares. – Dezenas de milhares. – É, por aí… – disse – O Sul perdeu e o Norte ganhou. Então, veio Abraham Lincoln e fez a Proclamação da Emancipação. – O Discurso de Gettysburg. – respondeu a senhora Anderson – A Proclamação da Emancipação ocorreu seis meses antes da batalha de Gettysburg. Ele respirou fundo e perguntou: – Afinal, quem está apresentando o trabalho aqui? Ela acenou com a mão. – Prossiga. – Como estava dizendo, o Norte venceu. Os escravos foram libertados. Viva… Viva… Fim. Ele se inclinou para frente, como se estivesse agradecendo pelos aplausos num teatro e todos deram risada. A professora Anderson balançou negativamente a cabeça e perguntou: – Você sequer leu a matéria? – Claro que li! – E quem foi o líder no Norte? – Lincoln. – Não, ele era o presidente. – Sim, o que significa que ele era o bosta do líder de todos. A senhora Anderson ficou furiosa: – O senhor não deve usar esse tipo de linguagem na minha sala! – Caramba, quase me enganei. – respondeu de modo sarcástico – Achei que já tivesse usado.


Todos os alunos da sala prenderam a respiração enquanto a professora se colocou de pé. Mas antes mesmo que ela abrisse a boca, Carmine caminhou em direção à porta, sussurrando: “Já para a sala do diretor”, imitando as palavras que simultaneamente saíam da boca da senhora Anderson. Sem pressa para reencontrar o diretor da escola, Carmine saiu pela porta lateral e foi direto para o estacionamento.

A casa estava em silêncio quando Carmine chegou. Ele foi para o terceiro andar, mas parou no topo da escada. Na biblioteca, praticamente no mesmo lugar em que a viu pela manhã, estava Haven. Ela olhava para o jardim com uma expressão vazia, com os braços cruzados. Ele pigarreou para atrair sua atenção. Ela percebeu a presença, mas não olhou para ele. Depois de um instante, ele caminhou até a jovem e parou ao lado dela. Seu corpo tensionou-se e ela prendeu a respiração quando seus braços se tocaram. Aquele leve contato físico sequer teria sido percebido por ele não fosse por sua reação. – Você chegou a sair daí em algum momento? – Sim. Ele esperou que ela continuasse, mas nenhuma outra palavra saiu de seus lábios. Foi então que ele percebeu que ela estava usando as roupas dele e se lembrou de ter visto seu pai as retirando de seu quarto. – Ei, você está usando minhas roupas! Carmine não pensou que aquilo fosse possível, mas a jovem conseguiu ficar ainda mais nervosa. – Posso tirá-las se quiser. Ele suprimiu o riso. – Você está se oferecendo para tirar suas roupas pra mim? – São suas essas roupas. Eu não tenho nenhuma. De repente ela o fez sentir-se culpado. Ela teria o que usar se ele tivesse atendido ao pedido do pai. – O que aconteceu com as que você estava usando quando chegou aqui? – Elas tinham manchas de sangue, então o doutor DeMarco se livrou delas. – Sangue de quem? – Meu. Ele inclinou a cabeça e a encarou. Havia algo estranho na maneira como ela se mantinha imóvel e, ao mesmo tempo, parecia tremer. Aquilo o deixou desconfortável. – Fique com as roupas. – ele disse, afastando-se dela para clarear os pensamentos. Ele não gostava de se sentir desconfortável em sua própria casa – Vou tirar um cochilo, Heaven. – Haven – ela o corrigiu. – Eu sei. – respondeu – É que gosto mais de Heaven. Ela se virou para ele. Seus olhos se encontraram pela primeira vez desde que ele havia chegado. – Eu também.

Apesar de Carmine ser bastante ciumento e protetor em relação a seus pertences, ele não tinha nenhum cuidado com o que ele mesmo fazia com suas coisas. Seu quarto era entulhado; tudo ficava jogado no chão: sapatos estavam misturados a pilhas de roupas sujas, enquanto o cesto ficava vazio no canto do quarto. Sua escrivaninha estava coberta de papéis e livros, e em algum lugar havia um notebook perdido.


Aquilo jamais o incomodara. Estava acostumado com a ideia de que nada em sua vida fosse organizado e bem cuidado. O jovem se sentia protegido em meio ao caos que o rodeava; cercado pelas coisas que só ele controlava. Era isso que ele mais desejava: controle sobre a própria vida; algo de que ele nunca tivera a oportunidade de usufruir. Uma sucessão de pancadas interrompeu o cochilo de Carmine. Ele caminhou até a porta e, ao abrila, deu de cara com o pai. Vincent entrou no quarto, tropeçando nas coisas que estavam pelo chão. Resmungando, ele simplesmente as chutava para longe do seu caminho. – Onde estão suas chaves? Carmine esfregou os olhos e entrou na defensiva com a ideia de alguém invadir seu espaço pessoal. – O quê? – As chaves do seu carro. – Vincent disse, começando a procurar sobre a escrivaninha, empurrando furiosamente a bagunça e atirando no chão metade do que estava lá. – Pra que diabos você quer a minha chave? – Apenas me entregue as chaves! – Vincent abriu a primeira gaveta e pegou de lá a carteira de Carmine. De dentro dela, retirou o cartão de crédito American Express e o enfiou em seu próprio bolso, antes de largar a carteira e voltar a procurar as chaves. Carmine sentiu o sangue ferver: – O que acha que está fazendo?! – Tentei ser seu amigo. – Vincent respondeu – Deixei muita coisa passar, acreditando, esperando que fosse apenas uma fase, mas você só piorou. Então, eu o enviei para longe. Depois do que fez no ano passado, por Deus, eu tinha a esperança de que tivesse compreendido a mensagem. Mas isso não funcionou. Você voltou e começou o ciclo novamente. As brigas, as respostas malcriadas, os revides e o desrespeito… Não posso aceitar mais isso. – Mas o que foi que eu fiz dessa vez? – Seria melhor se perguntasse o que não fez. – respondeu, fechando com força a primeira gaveta e tentando abrir a de baixo. Ela não se movia. – O que tem aí dentro? Carmine não respondeu e continuou olhando enquanto seu pai a forçava. – Onde está a chave dessa gaveta, Carmine? – Não vou lhe entregar. Você não vai pegar nenhuma das minhas chaves. Vincent o encarou e disse: – Eu vou pegar as suas chaves. Você está de castigo. Não irá a lugar nenhum, exceto para a escola. E ficará lá, sem tentar escapar. Fará suas lições e trabalhos de casa, prestará atenção ao que diz e manterá suas mãos longe das pessoas. E, quando o último sinal tocar, voltará direto para casa. Nada além disso. – Eu não posso – ele disse –, tenho que treinar futebol. – Você não me diz o que pode ou não fazer. Eu lhe digo. Carmine cerrou os punhos. – Então, agora você vai me impedir de jogar futebol? – Foi você quem provocou isso. Carmine estreitou os olhos enquanto seu pai deixava a escrivaninha de lado e se dirigia à cômoda. – Só estou vivendo a vida que você me deu! – Não, você não pode me culpar por isso. – disse Vincent, abrindo a gaveta de cima e retirando um molho de chaves de dentro, diante do olhar incrédulo de Carmine – Seu irmão se tornou uma pessoa normal. – Meu irmão não passou pelo que eu passei! Mas sabe de uma coisa? Eu não me importo. Vá em


frente e tire de mim o futebol. Faça isso. Eu já perdi tudo na vida por sua causa! O tempo pareceu congelar por um momento enquanto aquelas palavras pairavam no ar entre os dois. Aquilo fora um golpe baixo, e Carmine quase se sentiu culpado ao perceber a dor nos olhos do pai. – Você sempre irá me culpar, não é? – Pode ter certeza disso. – respondeu Carmine – Devolva minhas chaves. – Não. O rapaz perdeu completamente a sensatez quando seu pai deu as costas para ele. – Se não me devolver as chaves, chamarei a polícia. Vincent se virou tão rápido que até assustou Carmine. – Você não o faria. – Faria sim. – Arriscaria tudo por causa de um carro? – Sim. – ele respondeu – E você faria o mesmo se isso fosse tudo o que lhe restasse. Aquela centelha de mágoa rapidamente reacendeu, mas logo se dissipou. Vincent atirou as chaves contra o peito de Carmine. – Muito bem, fique com o carro e vá jogar seu precioso futebol, mas o cartão de crédito fica comigo. – Não me importa. Não preciso do seu dinheiro. Vincent sorriu secamente. – Veremos.

Havia uma dezena de sacolas cheias até a boca espalhadas pelo chão, como manchas coloridas sobre o carpete velho e sem graça. O doutor DeMarco as havia trazido, dizendo que eram necessárias, mas Haven passara a vida toda sem nunca ter acesso àquelas coisas. – Tudo isso é pra mim? – Sim. – respondeu DeMarco, de pé à porta do quarto, equilibrando-se sobre os calcanhares. Ele estava enraivecido, embora não soubesse o porquê – Se perceber que algo está faltando, me avise. Haven murmurou um agradecimento no momento em que ele saiu, deixando-a sozinha com seus novos pertences. Ela desembrulhou tudo, pendurou as roupas no armário e levou os itens de toalete para o banheiro. Acostumada a ter somente uma barra de sabão para se limpar, ela não fazia ideia de para que serviam sais de banho ou pedras-pomes. Encontrou uma escova e, meio atrapalhada, passoua pelos cabelos tentando desfazer os nós. Ela vestiu roupas novas, retirando o que pertencia a Carmine, e então desceu para preparar o jantar. Cozinhar não era sua principal tarefa em Blackburn. Isso normalmente cabia à mãe, mas Haven costumava ajudá-la sempre que podia. Segundo sua mãe, cozinhar era uma arte. Receitas e instruções eram desnecessárias, pois as melhores refeições eram feitas com a intuição e o coração. Ela sempre colocara tudo de si nos pratos que preparava, mesmo que não lhe fosse permitido experimentá-los. Aquela era uma característica que Haven herdara, e que se mostraria bem útil no momento em que entrasse na cozinha dos DeMarco. O doutor DeMarco entrou no momento em que ela terminou de preparar o espaguete. Nervosa, ela se afastou das panelas, aguardando sua reação. Ele olhou para as panelas antes de balançar a cabeça, em aprovação. – Você nos acompanha no jantar?


De modo instintivo ela fez um sinal negativo com a cabeça. – Bem, você não precisa se não quiser, mas insisto que se alimente todos os dias. Não permitirei que morra de fome debaixo do meu teto. Mesmo algo tão generoso como oferecer-lhe comida soava como uma ordem vindo de sua boca.


Capítulo 4

Viver em Blackburn não fora fácil para Haven. Lá o trabalho era abundante e a comida escassa, mas ela sempre encontrou um jeito de sobreviver. Era uma vida horrível, mas aquela fora sua realidade; a única que conhecera. A vida em Durante, em contrapartida, onde o ritmo era lento e nem sempre havia o que fazer, deixava-a intimidada. Já no terceiro dia, contudo, ela se acostumou à rotina. Limpava a casa durante o dia e cozinhava à noite, antes de se esconder até que todos já estivessem deitados. Só então ela descia e comia alguma coisa na sala de jantar, sempre no escuro. Em seguida voltava para o quarto. Deitava-se e a música logo começava a tocar. Não sabia de onde vinha, mas a melodia a ajudava a dormir. Então, ficava no quarto até que todos já tivessem saído pela manhã. Embora facilitassem a vida, muitas coisas ainda lhe pareciam estranhas. O sabor de menta na pasta de dentes, a água quente para tomar banho e o uso de talheres nas refeições eram luxos aos quais não estava acostumada, e cada um deles deixava-a um pouquinho assustada. Ela jamais tivera acesso àquilo que parecia normal para outras pessoas. Até mesmo os sapatos machucavam seus pés. Ela não gostava deles.

Era pouco depois das três da tarde, no terceiro dia, quando ela se deparou novamente com Dominic. Ele entrou na casa e soltou sua mochila no chão antes de se sentar na sala de estar. Haven considerou a ideia de correr para o andar cima, mas na mesma hora se sentiu culpada. Afinal, ele fora bastante gentil com ela. Ela entrou na sala de estar, nervosa, cutucando as próprias unhas e perguntou: – Precisa de alguma coisa? Dominic fez um sinal negativo com a cabeça. – Não, está tudo bem. – Tem certeza? Deve haver algo que eu possa fazer por você. – Bem… Até gostaria de comer alguma coisa, eu acho. Ela sorriu e perguntou: – Comer o quê? – Surpreenda-me! Haven correu até a cozinha e preparou um sanduíche de pasta de amendoim com geleia de uva, colocou-o em um guardanapo e levou para ele. Dominic pegou-o de suas mãos. – Você não precisava ter feito isso, é sério. Ela evitou o olhar. – Mas você me preparou um… Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela retornou à cozinha para limpar o balcão. Um minuto depois, enquanto se preparava para descongelar o frango para o jantar, viu Dominic arrastando seu cesto de roupas para baixo. Ela parou no hall bem na frente dele. – Posso fazer isso pra você? Ele riu:


– Está se oferecendo para lavar minhas roupas? – Sim. Dominic hesitou, mas deixou que Haven terminasse de arrastar o cesto até a lavanderia. Ele a seguiu, parando à porta. – Ouça, Pé de Valsa, não sei quem você é… Ela se apresentou: – Sou Haven. – Haven, a questão é que prefiro ficar longe dos negócios do meu pai. Isso me dá a chance de negar conhecimento de maneira plausível, o que significa que não faço ideia do que está acontecendo – ele gesticulou com a mão e completou – nesta casa. Do modo como vejo as coisas, já que está morando aqui, devo ser hospitaleiro. Portanto, se eu lhe faço um sanduíche isso não significa que você tenha de fazer outro pra mim. Foi só um sanduíche. Ela não disse nada, mas ele estava equivocado. Aquilo não fora apenas um sanduíche. De fato, aquele gesto significou muito mais para ela. – E aprecio sua oferta de cuidar das minhas roupas. Obrigada, Haven. Ele saiu e ela sussurrou para si mesma. – Não, sou eu que tenho que agradecer a você.

Mais uma vez o jantar estava pronto às 18h45, e Haven o mantinha quente enquanto dobrava as roupas de Dominic. A porta da frente se abriu quando estava na lavanderia, então ela saiu para cumprimentar o doutor DeMarco. Na verdade, não tinha certeza se deveria fazê-lo. – O cheiro está delicioso! – ele disse. – Obrigada, senhor. O jantar está pronto. – Ótimo, Carmine deve chegar do futebol em poucos minutos. Seu coração disparou ao ouvir o nome de Carmine. Ela não o havia visto desde seu último encontro na biblioteca, e não tinha certeza de que gostaria de vê-lo tão cedo. Ela preparou a mesa, colocando as travessas no centro para que eles se servissem, antes de pegar o cesto de roupas de Dominic e levar para cima. Acabava de chegar ao segundo andar, quando a porta da frente se abriu e ela ouviu nitidamente a voz de Carmine: – Cazzo, mas que porra é essa que está cheirando tão bem? Ela sorriu para si mesma e terminou de carregar o cesto, colocando-o na porta do quarto de Dominic e antes de se esconder no seu.

Na noite seguinte, doutor DeMarco chegou em casa quando Haven ainda procurava algo para fazer no jantar. – Ah, esqueci de lhe dizer. Essa é sua noite de folga. Ela fechou a porta da despensa. – Certo. – É sexta-feira. Os rapazes estarão no jogo de futebol, e eu terei uma viagem de negócios neste final de semana. Ela ficou confusa. Ele estava partindo?


– Tem certeza de que não quer que eu lhe prepare nada antes de sair? – Tenho sim. – ele respondeu, estendendo o braço e colocando a mão sobre o ombro da jovem, mesmo com ela se encolhendo – Venha comigo. Quero lhe mostrar uma coisa. Ela o seguiu até a sala de estar, onde ele pegou o telefone sem fio. – Instalei um telefone, caso você precise de qualquer coisa enquanto eu estiver fora. Veja, se discar o número 1 cairá direto no meu celular. Caso eu não responda e seja uma emergência, disque 2, é o telefone de Dominic. – O número 3 é de Carmine? – as palavras saíram de sua boca antes que tivesse tempo de pensar. – Sim, mas seja qual for a emergência, com certeza não será pior do que os problemas que o meu filho caçula poderia lhe causar. Então, se precisar de algo, ligue para um dos dois primeiros números da lista. – Certo. – ela disse, ainda olhando para o telefone – E como faço isso? Soltando um suspiro, ele deu algumas instruções rápidas sobre como fazer uma ligação. Vários pensamentos inundaram sua cabeça enquanto ela o ouvia, mas o doutor DeMarco interrompeu seus devaneios: – Saberei sempre que for usado, portanto, não tenha nenhuma ideia brilhante, como ligar para 1-90. Ela franziu a testa. – Quem é 1-9-0? Ele a encarou como se achasse que ela estivesse brincando. – Digamos apenas que ligar para 1-9-0 é a última coisa que você gostaria de fazer, criança. O doutor DeMarco saiu, mas aquelas palavras ficaram na cabeça de Haven enquanto perambulava pela casa vazia. Ela acabou retornando à sala de estar depois de alguns minutos, parando diante do telefone. Ela o apanhou, apertou a tecla on, como DeMarco lhe havia instruído. Teclou o número 1 e então o 9. A partir daí seu dedo ficou parado, prestes a apertar o 0. Ela ficou petrificada e seu coração disparou, antes que decidisse por pressionar a tecla off e desligar o aparelho. Ela repetiria a mesma atitude outras três vezes antes de colocar o telefone definitivamente na base e sair da sala, assustada demais para concluir a discagem.

O sol já estava se pondo quando Haven foi até a biblioteca. Encontrou alguns papéis e cortou alguns pedaços, buscando em seguida por um lápis antes de correr para seu quarto. Ela se deitou na cama e começou a desenhar. Logo o rosto de sua mãe surgiu no papel. Sem nenhuma foto, Haven tinha medo de que pudesse esquecer suas feições; temia que sua memória se dissipasse com o tempo. Desenhar era um dom natural de Haven. Quando ainda era pequena, por volta dos sete anos, sua primeira patroa, Mônica, lhe deu papel e lápis coloridos. Aquela fora a primeira vez que ela ganhara alguma coisa, e também a última desde então, mas Haven usou o presente até que o último pedacinho de lápis desaparecesse. Conforme cresceu, costumava surrupiar algumas coisas do rancho, mas depois destruía todas as evidências para que ninguém descobrisse. Em geral ela dobrava os desenhos e os enfiava no bolso, para então queimá-los na primeira oportunidade. Haven perdeu a noção do tempo enquanto submergiu na tarefa de reproduzir o rosto de sua mãe, e já era quase meia-noite quando o som de música atraiu sua atenção. Era mais cedo que nas noites anteriores. Curiosa, ela deixou o desenho de lado e foi até a porta para descobrir de onde vinha. Carmine estava sentado na biblioteca, segurando um velho violão. A escuridão impedia que Haven


visse seu rosto, mas o luar iluminava seus dedos sobre as cordas. Seu corpo foi sendo lentamente tomado pela melodia e seus braços ficaram arrepiados. Sentiu uma palpitação no estômago, seus membros ficaram trêmulos e o calor se espalhou por todo seu corpo. Ela fechou os olhos, deliciando-se com aquela sensação, até que a música parou. Ela voltou a abrir os olhos e, dessa vez, pôde ver o rosto dele, ainda parcialmente encoberto pela sombra. Ele enrugou a testa, olhando para ela com uma pergunta nos olhos, mas Haven não tinha nenhuma resposta a oferecer. A jovem se virou e correu para seu quarto, fechando a porta e colocando-se de costas, até que música recomeçasse.

Na manhã seguinte, Carmine acordou mais cedo que o normal e pegou uma tigela de cereais. Seus passos podiam ser ouvidos da sala de estar. Dominic estava sentado no sofá lendo uma revista de esportes e Haven estava ao seu lado. Todos em silêncio. Antes que Carmine pudesse dizer uma única palavra, Haven deu um pulo e saiu correndo. Ele ficou olhando para o assento do sofá enquanto o couro retomava sua forma original. – Caramba, ela age como se eu tivesse alguma doença contagiosa e não devesse me aproximar. Dominic concordou com a cabeça: – É, eu reparei. – Não fiz nada pra ela. – ele fez uma pausa. – Pelo menos acho que não fiz nada. – Você não percebe o quanto parece ofensivo às vezes. – disse Dominic – É o jeito como olha para as pessoas. Carmine deu de ombros. Não havia nada que pudesse fazer em relação a isso. – Não importa. Mas existe algo errado com ela. – Você por acaso já tentou perguntar a ela o que seria? – Nem tive a chance. Como já disse, ela sempre sai correndo de mim. – Bem, talvez se você se interessasse um pouco mais ela não agisse assim com você. – Foi isso o que você fez? Demonstrou interesse? – perguntou Carmine – Não acho que a Tess gostaria de saber disso. Dominic deu-lhe um cutucão, espalhando um pouco do cereal sobre a roupa do irmão. – Eu simplesmente fui simpático com ela, cara. Talvez devesse tentar algum dia. Carmine se livrou de alguns cereais que caíram sobre ele e olhou para a mancha de leite na calça. – Otário.

Vincent DeMarco era um homem bem conhecido. Para as pessoas da cidade de Durante, ele era um médico talentoso e um pai dedicado; para as mulheres, era um ricaço disponível e, portanto, constantemente assediado. De fato, embora já tivesse acumulado alguns cabelos grisalhos, não aparentava a idade que tinha: quarenta anos. Era muito parecido com seu pai, Antonio DeMarco, que morrera aos cinquenta aparentando trinta e cinco. A genética era algo peculiar, segundo Vincent. Embora fosse famoso e respeitado, poucas pessoas de fato conheciam o homem por trás daquela máscara. Era como se ele vivesse duas vidas diferentes, ambas reais, porém, antagônicas. Ele gostava de acreditar que era o homem de família que os outros enxergavam mas, ao mesmo tempo, estava profundamente comprometido com outro tipo de família.


Esta não era ligada por laços genéticos, mas forjada por sangue derramado e juramentos perversos. O governo norte-americano chamava-a de LCN, ou La Cosa Nostra, que, por sua vez, também era conhecida como La famiglia,1 Borgata2, Outfit3 e Syndicate4. No final, todas essas expressões queriam dizer a mesma coisa: a máfia. Ele se afastara um pouco daquela vida há alguns anos, depois de se mudar de Chicago, o olho do furacão. Porém, uma vez tendo feito parte da famiglia, não havia como abandoná-la. Ele era mantido como um consigliere5 extraoficial para o Chefe, Salvatore Capozzi. O trabalho de Vincent era atuar como um intermediário nas negociações, oferecer conselhos quando solicitado e atender às convocações. Ele o fazia de modo obediente, cuidando do que quer que precisasse ser resolvido. Todavia, o fato de ser bom no que fazia não significava que gostasse de suas atribuições. Vincent se sentou no esfumaçado gabinete da mansão em Lincoln Park e segurava um copo de uísque enquanto ouvia um bando de homens debater sobre negócios. Havia vinte participantes no local, mas Vincent não sabia por que metade deles estava ali. Eles não tinham direito de dizer o que pensavam e alguns eram tão novos que sequer haviam efetivamente realizado algum trabalho sujo para a organização. Não havia razão para confiar neles, para revelar segredos na sua frente. Aqueles sujeitos ainda não tinham sangue nas mãos. Não que ele quisesse que eles fossem assassinos. Ele invejava a consciência limpa daquelas pessoas e gostaria de poder avisar a todos que se afastassem enquanto havia tempo, pois, um dia seria tarde demais… E isso provavelmente significaria uma longa sentença na prisão. Ou, quem sabe, um buraco de bala na cabeça. Vincent ainda não havia decidido qual dos destinos era mais nefasto. Mas não havia como alertar ninguém. Ele fizera um juramento, e nele a organização vinha antes de qualquer coisa; se a máfia queria contratar esses novatos e inexperientes, Vincent se manteria em silêncio. Ele começara cedo, tornando-se um dos mais jovens ricaços da história. Em geral, os integrantes tinham de lutar por décadas para provar seu valor; a maioria nem sobrevivia tempo suficiente para prosperar financeiramente. Mas esse não foi o caso de Vincent. Ele estava no lugar certo quando seu pai ainda estava no controle. Vincent, entretanto, não era o mais jovem a fazer negócios com a máfia. Crianças eram recrutadas ainda no colegial, transformadas em “soldados vingadores”, prontos para resolver os assuntos da famiglia. Os mais jovens corriam todo o risco, enquanto os membros do alto escalão colhiam os frutos. Dinheiro sujo de sangue. Centenas haviam morrido para pagar pela mansão dentro da qual estavam confortavelmente reunidos. – Não podemos tolerar esse tipo de coisa. Eles são selvagens. Giovanni estava falando, mas seu forte sotaque obrigava Vincent a se esforçar para compreendêlo. Siciliano de nascimento, imigrara para a América uma década antes e, desde então, subira na hierarquia para se tornar o capo6 mais produtivo. Alguns de seus subordinados estavam presentes e sentados ao lado dele. Normalmente, Vincent tinha dificuldades para se lembrar dos nomes dos soldati,7 mas havia um em particular que ele conhecia bem: Nunzio. Ele já estava na organização havia muitos anos. O apelido dele era Squint, pelo modo como mantinha seus olhos semifechados, como se estivesse sempre de soslaio; seu rosto ostentava uma expressão ameaçadora. Parecia sempre bêbado. Os cabelos castanhos eram apenas uma fina pelugem na cabeça; os olhos tinham a cor de terra ressecada. O irmão do Chefe o havia adotado quando ainda era bebê, por isso, Salvatore tinha um carinho todo especial pelo sujeito. Os homens debatiam enquanto Vincent girava o copo de uísque nas mãos, sem a menor intenção de bebê-lo. Ele se manteve em silêncio até que a voz inconfundível de Chefe se dirigiu a ele: – O que você acha, Vincent?


Acho que gostaria de voltar pra casa. – Bem, eu acho que se agirmos de modo apressado o tiro acabará saindo pela culatra. Não gosto do modo como os russos conduzem seus negócios, mas nunca machucaram nenhum de nós. – Mas irão! – alertou Giovanni. – Se o fizerem, cuidaremos disso da maneira adequada – respondeu –, mas, até que isso aconteça, quem somos nós para policiar outro grupo? Vincent olhou para o Chefe. Ele estava sentado em sua cadeira favorita, bem na ponta da mesa. Já com quase setenta anos, parecia um balão de tão gordo e sua voz era fina, como se seu corpo estivesse sempre repleto de gás hélio. Ele era o subchefe na época em que o pai de Vincent comandava as coisas e o sucedeu depois de sua morte. Antonio o havia apelidado de Salamandra. “Se assustar uma salamandra ela se livra da cauda e foge”, ele costumava dizer. “Elas não ligam, pois em duas semanas estarão novinhas em folha.” Sal refletiu um pouco sobre as palavras de Vincent. – Você está certo. Talvez eles se matem sozinhos com sua própria estupidez. Squint soltou um riso seco, mas tentou encobri-lo com uma tosse forçada ao perceber que todos se voltaram para ele. O sujeito ao lado dele parecia incomodado pela reação. Era outro soldato, cujo nome escapou à memória de Vincent. Ele achava que poderia ser Johnny; um entre tantos outros Johnnys que perambulavam pelas ruas. Sua aparência certamente combinava com o nome: indistinguível, genérico. Mais um fulano na multidão que poderia ser facilmente substituído e do qual ninguém sentiria falta. Era apenas mais uma cauda de salamandra que poderia ser facilmente deixada para trás, e Sal não teria o menor problema em fazê-lo. Quando Sal mandou todos saírem com um aceno de mão, Vincent foi o primeiro a se levantar. Ele deixou o uísque sobre a mesa e seguiu em direção à porta, mas Giovanni o interrompeu. – Acho que estamos cometendo um grande erro, Doutor. Não será bom se os ignorarmos agora. – Nós não os estamos ignorando – Vincent respondeu –, só não os estamos instigando a lutar. A última coisa de que precisamos é violência em nossas ruas por coisas que nada têm a ver conosco. Vincent seguia em direção ao seu carro alugado, quando a voz de Giovanni foi ouvida novamente: – Só porque ainda não sabemos de nada não significa que eles não tenham invadido nosso território. Haverá uma guerra. A família. Distrito. Organização. Sindicato. Conselheiro. Chefe. Gângsters.


Capítulo 5

Carmine retirou a última camisa limpa do cabide em seu armário. As pequenas pilhas de roupas para lavar haviam se transformado em montanhas. Cada peça de roupa que possuía estava suja e atirada no chão. Em geral, as coisas não chegariam a esse ponto, pois já teria levado tudo para a lavanderia local, mas agora ele tinha um problema: estava sem dinheiro. Ele então caminhou pela biblioteca até o outro lado e tentou abrir a porta de Dominic, mas ficou furioso ao perceber que estava trancada. Era possível escutar vozes lá de dentro, então resolver bater à porta. Dominic abriu e perguntou: – O que foi? Carmine viu Tess deitada na cama usando uma das camisas de Dominic, e se contraiu diante daquela imagem, percebendo o que havia interrompido. – Preciso de algum dinheiro, preciso levar as roupas na lavanderia. Estão todas sujas. – Você quer dinheiro? – Sim, um empréstimo. – Você tem um jeito bem engraçado de pedir, cara – respondeu Dominic –, mas como pretende me pagar se não tem um emprego? Carmine ergueu os ombros e respondeu: – Eu darei um jeito nisso. – Ah, com toda certeza você dará um jeito – disse Dominic –, mas de cuidar de suas próprias roupas. Ao dizer essas palavras, Dominic fechou a porta na cara do irmão. Tess riu lá de dentro e Carmine esmurrou as paredes antes de retornar ao próprio quarto. Ele então pegou o telefone e ligou para a casa de Dia, soltando um suspiro de alívio quando ela atendeu: – O que você quer, Carmine? – Mas o que te faz pensar que quero alguma coisa? – Eu te conheço – ela respondeu –, e você nunca liga pra bater papo. Ele suspirou novamente. – Preciso levar as roupas na lavanderia. – E quer que eu lave suas roupas? – Sim, não sei a quem mais poderia pedir. – Bem, quanto dinheiro você tem? – Nenhum. Tudo o que ele escutou do outro lado da linha foi uma gargalhada antes de Dia desligar na sua cara. Irritado, pegou toda a montanha de roupas e enfiou no cesto antes de arrastá-lo pelas escadas. Assim que chegou à lavanderia ouviu alguém cantarolando uma melodia suave e doce, como uma canção de ninar. Haven estava diante da secadora, dobrando roupas. Porém, assim que o viu à porta, ficou apreensiva e se calou. Seus olhos se desviaram de Carmine e se concentraram no cesto. Este estava tão cheio que havia roupas penduradas por todos os lados. Ele soltou o cesto no meio da lavanderia, abriu a tampa da máquina de lavar e simplesmente enfiou tudo de uma vez lá dentro. A máquina ficou cheia e ele se viu obrigado a forçar as roupas para baixo para fechá-la. Olhou para os lados procurando o sabão e se deparou com os olhos fixos de Haven. A jovem segurava um par de


calças. Ele não fazia ideia de qual era o problema dela, mas estava com raiva demais para lidar com isso agora. Outra semana havia se passado e ela continuava o evitando, fugindo de qualquer cômodo em que ele estivesse, antes mesmo que ele pudesse dizer olá. – Então, onde está o sabão? – ele perguntou – Você sabe, o que se usa pra colocar na máquina. Haven se virou, abriu um armário e pegou um pote de sabão. Carmine pegou o produto de suas mãos, abriu a máquina e estava prestes a despejar sobre as roupas quando Haven prendeu a respiração. Aquela reação o interrompeu. – O que foi? – Não seria melhor você colocar somente a quantidade certa de roupas e o sabão no reservatório? – Seria? – ele hesitou. – Eu fui ensinada dessa maneira: primeiro se coloca a roupa, até o limite, então o sabão e só depois giramos o disco até a marca apropriada. – Que marca? – A marca que mostra o procedimento da máquina conforme a quantidade e o tipo de roupa. – Tem uma marca? Um limite? – ele perguntou, baixando o sabão antes de começar a retirar as roupas de dentro da máquina. Haven voltou a dobrar as roupas enquanto ele se manteve parado sem saber o que fazer – E onde fica isso? – Nesse disco. – ela respondeu – Você o puxa para cima, escolhe o programa que precisa e então o pressiona novamente. Seu conhecimento em relação ao processo o deixou irritado. – E qual é o programa de que preciso? Pra mim a máquina de lavar serve pra lavar roupas, mas o problema é que não sei como fazer ela funcionar. Ela franziu o cenho. – Será que… Será que eu posso fazer pra você? Aquela pergunta o pegou de surpresa. – Não sei. Ela se aproximou, ajeitou a metade das roupas do cesto dentro do tambor, colocou o sabão e o amaciante nos locais adequados, puxou o disco e o girou até a posição “roupas coloridas”, então o pressionou novamente. A máquina se encheu até um limite predeterminado e, em seguida, começou a funcionar. O restante das roupas permaneceu no cesto. Haven o empurrou para o lado e voltou a dobrar as roupas já lavadas. Carmine ficou ali parado, ansioso, e sem saber o que dizer. Durante toda a semana ele inventara algum tipo de diálogo em sua mente; coisas que ele planejava dizer a ela quando ela parasse de evitálo, e agora que ela estava ali, do lado dele, não sabia o que dizer. – Ei, você é muito boa nesse tipo de coisa. Meio sem jeito, ela abriu um sorriso gentil. – Tenho feito isso a minha vida toda. – É mesmo? Bem, pra mim essa é a primeira vez. – ele disse em voz baixa – Então, quem é você? Ela ficou confusa. – Eu já lhe disse meu nome. – Sim, mas isso não me diz o quero saber. Você tem um sobrenome? Ela continuou a dobrar as roupas. – Antonelli, talvez. – Talvez? – Eu não tenho um sobrenome de verdade, mas esse era o dele.


Ele inclinou a cabeça para o lado, analisando-a. – Dele quem? – Do meu mestre. – O que quer dizer com “seu mestre”? – O meu mestre. O lugar de onde vim, você sabe. Mas ele não sabia. – E de onde foi que você veio? – De Blackburn. Acho que fica na Califórnia. – Você acha? Viveu muito tempo lá? Ela balançou afirmativamente a cabeça. – Sim, até vir pra cá. – E você não tem certeza de onde fica? – ele perguntou surpreso – Você odiava o lugar ou algo assim? – Depende do que quer dizer com isso. – Explique pra mim. Ela soltou um suspiro. – Eu não gostava do meu mestre, mas havia alguém lá que me compreendia. – E daqui, você gosta? – Aqui eu tenho comida e roupas pra vestir. – Mas ninguém te entende? Ela fez que não com a cabeça. – Aqui os meus mestres me tratam delicadamente. – Espera aí, mestre? – ele interpretou aquilo da maneira errada – Mas por que você fica dizendo isso? Parece errado, como se você fosse uma serva ou escrava, ou algo do tipo. Ela olhou para ele enquanto falava. – E não sou? – Como…? Mas que merda é essa? – Não é ruim aqui. – ela pôs-se a explicar rapidamente – Pessoas como eu sonham com esse tipo de lugar, onde não tenham medo de pagar pelos erros dos outros com a própria vida. – E seja lá de onde você tenha vindo, você temia ser morta sem qualquer razão? – Não, sempre havia um motivo, só que nem sempre você era o responsável. Carmine ficou surpreso ao perceber o quanto ele compreendia aquela garota estranha. Talvez ela não tivesse reparado, mas o rapaz sabia exatamente o que era pagar pelos erros dos outros. Ele sabia como era viver sabendo que sua vida poderia terminar a qualquer momento por coisas que outras pessoas fizeram. Porém, ele ainda não compreendia a palavra “mestre”. Haven terminou de dobrar as roupas em silêncio antes de se preparar para sair, mas Carmine permaneceu na porta, bloqueando sua passagem. – Você precisa de algo mais? – ela perguntou. – Preciso saber por que você me odeia. Ela voltou a franzir o cenho. – Mas o que você quer dizer? – Você fugiu de mim várias vezes; nunca olha ou conversa comigo. Só está fazendo isso agora porque acha que não tem escolha. Você não tem problemas em ficar ao lado do meu irmão, então porque me evita? Sou tão horrível assim? – ela olhou para ele enquanto revelava toda sua frustração. Seu silêncio o deixava ainda mais no limite – Jesus, agora eu tô gritando com você, como se isso fosse resolver o problema. Esse é o problema, não é? Meu temperamento.


– Eu não detesto você. Eu apenas… Eu apenas não o compreendo. Algo naquelas palavras o fez sentir como se um punhal tivesse sido enfiado em seu peito. Ninguém jamais o havia compreendido antes, mas ele queria que ela o entendesse. Ele precisava disso, pois, pela primeira vez em muitos anos, ele imaginava se alguém finalmente seria capaz de fazê-lo. O toque do celular interrompeu sua resposta. Ele o tirou do bolso e ela aproveitou para sair da lavanderia. – Haven! – ele chamou, saindo atrás dela – Acho que se me conhecer melhor descobrirá que somos bem mais parecidos do que pensa. Então, ele se virou para responder o chamado. – Oi, Dia. – Eu não deveria ter desligado na sua cara. – ela disse – Você ainda precisa de alguém pra lavar suas roupas? – Não, já resolvi. – ele disse – Alguém me mostrou como lavar. Olhando para a lavanderia, percebeu que sequer havia agradecido Haven pelo que fizera por ele.

Carmine invadiu o escritório do pai e se atirou na cadeira à frente da escrivaninha. Vincent, por sua vez, abaixou o jornal médico que estava lendo e tirou os óculos. – Entre, filho, sente-se. Não, você não está me interrompendo, de jeito algum. – Não estou com humor para sermões. – Carmine disse, indo direto ao ponto – Por que aquela garota está aqui? Vincent suspirou. – Já não discutimos sobre isso? Você mesmo disse que não se importava. – Pois bem, agora me importo. – suas próprias palavras o pegaram de surpresa. Será mesmo? Vincent o olhou surpreso: – E por quê? Boa pergunta. – Ela fala umas merdas que não consigo entender. – Não fazia ideia de que se importava o suficiente para conversar com ela. – Claro… Bem… ela está morando na minha casa… – Minha casa – Vincent o corrigiu –, seu avô deixou essa casa para mim quando faleceu. E a garota está aqui porque eu a trouxe para cá. – De vontade própria? Porque não me parece que ela esteja aqui em férias, tendo de fazer o jantar e limpar a casa. Ela sequer tinha algum pertence quando chegou aqui. – Você está certo – realmente ela não está aqui em férias –, mas já é um grande passo se considerarmos o lugar em que vivia antes. – Na Califórnia – disse Carmine – ou, pelo menos, é o que ela acha. Ele vivia com um “mestre” que poderia tê-la matado. Os olhos de Vincent se arregalaram. – Fico surpreso por ela ter falado tanto. – Eu perguntei e, aparentemente, é como se ela não pudesse mentir diante de qualquer pergunta que lhe seja feita. – Não, nisso você está errado. – Vincent contestou – Se essa criança não quisesse ter lhe contato, não o teria feito. Ela pode ter sido treinada para servir, mas sabe como guardar segredos. Não teria sobrevivido por tanto tempo se não soubesse. Carmine não fazia ideia de como responder.


– Então, o que vai fazer? Ela ficará aqui para sempre? – Sim. – Vincent respondeu, colocando os óculos de volta – E ela não deve sair dessa casa sem a minha permissão, portanto, acostume-se com sua presença. – Você quer que eu me acostume com ela? Sério? Há algo muito errado com o jeito como vivemos nessa casa. Vincent fez um movimento negativo com a cabeça. – Sei exatamente como você é, portanto, a menos que precise de mais ajuda com a lavagem de suas roupas, sugiro que se mantenha longe dela. – Como sabe que ela me ajudou com as minhas roupas? Vincent se virou para o monitor em sua escrivaninha. Carmine logo percebeu que seu pai assistira toda a conversa pela câmera de segurança. Havia algumas espalhadas pela casa, principalmente nas áreas comuns. – Não estava observando por sua causa. Ainda não existem câmeras nos quartos. – E é melhor que continue assim. – Carmine concluiu. – Não tenho interesse em ver o que se passa naquele chiqueiro mais do que você próprio deseja que eu veja. – Vincent respondeu, pegando novamente seu jornal – Apenas lembre-se do que lhe disse. Eu apreciaria se você fosse educado e não tentasse se intrometer nisso. A última coisa de que essa jovem precisa é que você torne as coisas ainda mais difíceis para ela. Carmine se levantou. – Em outras palavras, basta que eu não seja eu mesmo. – Precisamente, filho.

Carmine chegou à escola na manhã de segunda-feira e se deparou com seu irmão e Tess discutindo no estacionamento. Ele saiu do carro e Dia logo se aproximou para então sentar sobre o capô do Mazda, mas ele a fez sair imediatamente dali. Ela riu e se sentou no capô do próprio carro. – O que aconteceu com esses dois? Dia deu de ombros no momento em que Tess riu de um jeito seco e passou por trás de Dominic. – O que aconteceu entre nós é o fato de o seu pai ser um idiota. – Pare com isso, Tess. – disse Dominic – Não é razão pra tanto, caramba. Tess o fuzilou com os olhos. – O doutor DeMarco traz uma adolescente para viver na sua casa e você não apenas não conta à sua namorada, mas, quando eu descubro sozinha, diz que não é pra tanto? Dia se inclinou na direção de Carmine: – Há uma garota morando com vocês? – Sim, mas sua irmã está dando importância demais para o fato. – explicou Carmine – É apenas uma garota comum. – Apenas uma garota vivendo na mesma casa que o “senhor comedor”; um homem acostumado a foder qualquer coisa que passe na sua frente – Tess reagiu. – Ei, dá um tempo, tá? – disse Carmine – Não aja como se estivesse irritada por minha causa. Não é culpa minha que você não confie no seu namorado. Tess ergueu o dedo médio antes de partir enfurecida, mas, dessa vez, Dominic ficou parado onde estava, sem correr atrás dela. – Aquilo foi bem interessante. – disse Dia – Você não está trepando com a garota, está? Dominic se intrometeu: – Eles nem se dão bem.


– Não é que a gente não se dê bem. – Carmine corrigiu – É só que ela se afasta toda vez que eu chego perto dela. Dia sorriu. – Se você relaxasse um pouco, tenho certeza de que ela se aproximaria. – Você nunca a viu. – disse Carmine – Caralho, há um minuto você nem sabia que ela existia. E, quer saber, você não é exatamente uma expert nesse assunto. – Ela é uma garota, não é? Não somos assim tão complicadas. Além disso, não estou dizendo que deveria traçar a moça, mas não há nada de errado em fazer amigos. Carmine revirou os olhos. – Ninguém nem usa mais a expressão traçar, Dia. Os anos noventa ficaram pra trás, sabia? As pessoas simplesmente fodem. – Nem sempre. – ela discordou – Às vezes as pessoas fazem amor. – Eu não.

Quarenta e cinco minutos mais tarde, Carmine seguia pelo corredor da escola, a caminho do segundo período, quando viu seu irmão na biblioteca. Dominic estava sentado diante de um computador, digitando com nervosismo. Carmine ficou curioso e entrou na sala pela porta de vidro. – Jesus, essa sala é iluminada demais! – Carmine protegeu os olhos com a mão no momento em que sua voz ecoou pelo cômodo silencioso, mas não havia mais ninguém ali para repreendê-lo. – Primeira vez na biblioteca da escola? – perguntou Dominic. – Já estive aqui para aulas de inglês. – disse em sua defesa – Até dei uma olhada num livro certa vez. – Que livro? – O Conde de Monte Cristo. Tive de fazer um trabalho sobre ele no ano passado. – Então, você o leu? – É… – ele balbuciou – Eu li a primeira página antes de decidir alugar o filme. Dominic caiu na risada, mas não fez comentários. Estava ocupado demais buscando arquivos no computador. Carmine se encostou na carteira mais próxima, tentando decifrar o que todos aqueles códigos significavam. – O que está fazendo? – Alterando suas notas pra você, maninho. Os olhos de Carmine se arregalaram. – Mesmo? – Não, mas eu já dei uma olhada nelas. Jamais terminará o Ensino Médio nesse ritmo. Carmine balançou a cabeça. – Você é bem corajoso em invadir os servidores da escola e olhar os registros dos alunos, como se não fosse ilegal. E as pessoas ainda dizem que fui eu quem puxou ao papai. – Não machuco as pessoas intencionalmente, mesmo assim, estou sempre lá pra livrar a sua barra. – reagiu Dominic – Além disso, já viu seu registro disciplinar? – Acho que a verdadeira pergunta aqui é se você já o viu, Dom. – Com certeza. E foi como assistir a um romance policial, repleto de crimes. Presumo que seu registro permanente seja mais longo que a ficha policial do tio Corrado, mas é só um palpite. O marido da tia Celia, Corrado Moretti, havia sido preso mais vezes ao longo da vida do que tinha celebrado aniversários, mas nenhuma das acusações jamais conseguiu segurá-lo atrás das grades. Uma hora, faltavam testemunhas, na outra, o juiz ou alguém do júri estava comprado. Corrado


sempre encontrava um jeito de se livrar. Um jornalista certa vez o apelidara de “O Assassino à Prova de Grades”, pois, independentemente do que ele fosse acusado de ter feito, sempre saía ileso. – Tio Corrado é o Homem de Aço. – Dominic comentou – Mais rápido que uma bala. – Espere aí, você realmente acabou de compará-lo a um super-herói? – Sim, mas acho que não fui eu quem inventou isso. Olhando para seu relógio, Carmine se afastou da mesa e disse: – Bem, tenho que ir para a aula de História, antes que a senhora Anderson envie uma equipe de busca atrás de mim. – É, faça isso – disse Dominic –, pois, pelo que andei vendo, você não vai passar na matéria dela. – Sério que você não vai alterar minha nota, maninho? – Desculpe, mas não posso fazer isso. O que é mesmo que o Super-Homem costumava dizer? “Com o grande poder vem a grande responsabilidade”? Carmine deu um tapinha na parte de trás da cabeça do irmão e foi saindo: – Quem disse isso foi o Homem-Aranha, seu tonto.

Carmine chegou em casa naquela tarde, logo depois do treino de futebol, e só teve tempo de vislumbrar Haven subir correndo pelas escadas. Ele lavou as mãos e se dirigiu à sala de jantar, onde a comida já havia sido servida. Seu pai já estava iniciando suas preces quando ele se sentou. – Signore, benedici questi peccatori che esse mangiano la loro cene. – Senhor, abençoe esses pecadores enquanto se alimentam com esse jantar. Carmine já estava comendo antes mesmo que todos pudessem dizer “Amém”. Vincent tentou puxar conversa durante a refeição, e Dominic até o deixou bem-humorado, mas Carmine permaneceu em silêncio. Já havia escurecido há bastante tempo quando o pager de Vincent disparou. Ele então dispensou os filhos, dizendo que tinha de trabalhar. Carmine subiu as escadas e hesitou ao ver Haven na biblioteca, olhando pela janela com a palma da mão pressionada contra o vidro. Ele esperava que mais uma vez ela fugisse, mas, em vez disso, ela se concentrou nos pequenos brilhos de luz na escuridão. – O que são aquelas coisas? Carmine se virou para ver se havia mais alguém por ali, assustado pelo fato de que ela estava tentando conversar com ele. – São vaga-lumes. Algumas pessoas os chamam de pirilampos. – Por que eles brilham? – ela perguntou – É assim que eles enxergam? Ele caminhou até ela e respondeu: – Acho que é o jeito como conversam uns com os outros. – Uau! – Nunca tinha visto um desses bichinhos antes? Ela balançou negativamente a cabeça. – Não havia bichinhos assim em Blackburn. – Bem, aqui existem muitos. – ele disse – São como besouros, só que no caso deles, o traseiro fica iluminado. Ela sorriu diante da descrição. – Eles são lindos. – São só insetos. Nada de especial. – Eles estão vivos, oras. Isso os torna especiais.


Ele não tinha como retrucar diante daquelas palavras. Haven continuou a olhar pela janela enquanto ele observava a expressão maravilhada da jovem. Era como se ela estivesse vendo o mundo pela primeira vez; como se fosse cega até bem pouco tempo atrás, e agora, de repente, pudesse enxergar. Ele ficou imaginando se ela também se sentia daquele jeito; se tudo diante de seus olhos era absolutamente novo. Ele tentou se lembrar da primeira vez que viu um vaga-lume, mas nada vinha à mente em relação àquele ponto de sua infância. Recordava-se vagamente de ter prendido alguns em um pote de vidro certa vez. – Gostaria de vê-los de perto? As palavras saíram de sua boca antes mesmo que percebesse o que estava sugerindo. Ele ouvira as palavras do pai, mas, ao mesmo tempo, não imaginou que seria um problema. Ela se virou e o encarou: – Eu posso? – Claro. Seus olhos brilharam entusiasmados. Aquela visão fez o coração de Carmine parar por um segundo. Havia anos desde a última vez que sentira algo parecido e, por um momento, ele gostaria de poder roubar aquele instante para si mesmo. – Você quer dizer ir lá fora? – Sim. – Mas não tenho permissão para isso. Ele deu de ombros. – Nem eu. Tecnicamente isso era verdade, uma vez que ele estava de castigo. Entretanto, ele jamais deixaria que aquilo o impedisse. – Eu adoraria – ela disse, fazendo uma pausa –, se você tiver certeza. Ele sorriu. Ela estava confiando nele. Por um momento ele pensou que talvez ela não devesse confiar, mas, sem dúvida, aquele fora um passo e tanto em sua relação. – Espere aqui. Eu já volto. Ele correu até a cozinha, e ficou feliz pelo fato de seu pai já ter saído de lá, então retornou ao terceiro andar, depois de pegar um pote de vidro vazio. Haven estava exatamente no mesmo lugar, com a mão ainda pressionada contra o vidro. – Venha. – ele chamou, seguindo para o quarto dele. Ao acender a luz, percebeu que ela ficara parada na porta, observando a bagunça – Você vem ou não? Eu sei que parece um desastre… – Não, não é isso… – ela parecia em pânico – Não sei se deveria. – Bem, não podemos sair pela porta porque meu pai descobriria. Teremos de sair por aqui. Ela franziu a testa. – Do terceiro andar? Como? – Você vai ver. Ele percebeu que ela estava insegura antes de dar um passo e entrar no quarto. Com cuidado para não tropeçar em nada que estava pelo caminho, ela andou até ele. Carmine levantou as persianas antes de tentar abrir a grande janela. Esta rangeu um pouco, mas acabou abrindo. Haven olhou para aquilo. – Eu não sabia que essas janelas abriam. – Elas não abrem. – ele disse – Dominic conseguiu deixar esta aqui fora do sistema de alarme, para que eu pudesse escapar durante a noite. Meu pai nunca me pegou, afinal, nenhum alarme é disparado. Carmine manteve as cortinas abertas, fazendo um movimento para que ela saísse pela janela. Ela então pisou na estreita varanda que circundava o andar. Carmine logo se juntou a ela e a jovem o


seguiu com cuidado até a extremidade da casa, onde havia um plátano enorme. Os grossos galhos da árvore se estendiam até a casa. De fato, estavam tão próximos que Haven conseguiu tocar em algumas folhas, cujas pontas já estavam amarronzadas pela proximidade do outono. O rapaz atirou o vidro lá de cima, prendendo a respiração antes de vê-lo cair na grama, sem quebrar. Segurando o galho mais próximo, ele subiu no peitoril da varanda e pulou na árvore. – Venha, é fácil. Ela olhou de cima da varanda. – Eu não quero cair. – Não vai. – Promete? Ele riu. – Sempre, pode acreditar. Ela hesitou antes de segurar no galho do mesmo modo como ele havia feito e passar por cima do peitoril. Carmine desceu habilmente pela árvore, como fizera dezena de vezes no passado, e Haven o seguiu com cuidado. Um minuto depois de ter alcançado solo firme, ela também caiu de pé ao seu lado. – Viu, não foi tão ruim, não é? O esboço de um sorriso surgiu nos lábios de Haven. – Eu não caí. Carmine pegou o pote de vidro enquanto a jovem deu alguns passos para o lado e olhou para todos ao seu redor. Os vaga-lumes continuavam a se distinguir na escuridão, com seu brilho fugaz iluminando seu rosto assustado. Seu sorriso se abriu no momento em que ela esticou a mão para tocá-los, mas logo a recolheu. – Eles não vão me machucar, não é? – Não. – ele disse – Você provavelmente é dez vezes mais perigosa que esses vaga-lumes. Perigosa. Aquela palavra fez com que o coração dele disparasse. Algo lhe dizia que aquela jovem era um perigo para sua própria sanidade. Ela gentilmente capturou um vaga-lume com a palma da mão e olhou para ele com admiração; então, o pequeno inseto correu até seu dedo e voou. Um riso suave surgiu de sua boca quando o vaga-lume desapareceu. Aquilo pegou Carmine de surpresa. Aquela era a primeira vez que ele a via dar risada. Livrando-se daquele momento hipnótico, ele entregou o pote em suas mãos. – Venha, pegue alguns. Carmine se sentou na grama enquanto ela corria atrás dos vaga-lumes, mas eles fugiam dela. Logo os risos dela se misturaram aos dele. Ela ficou entusiasmada ao conseguir apanhar alguns. Ela girou e rodopiou, correu e pulou, o tempo todo com um sorriso estampado no rosto. Enquanto a olhava, Carmine percebeu que ela parecia diferente da garota que ele encontrara na primeira vez. Ela não estava sem jeito. A tensão que tomava seu corpo havia desaparecido. Naquele jardim, sob o luar, ela parecia tranquila e livre.

Haven se sentou e esticou as pernas; a grama macia fazia cócegas em seus pés. Ela inspirou profundamente o ar frio da noite, algo muito distante da respiração superficial à qual estava costumava enquanto crescia. O cheiro daqui era diferente, o ar era fresco e gelado. Tudo era tão verde. Ela nunca dera muita importância às cores, mas naquele momento percebeu que elas representavam mais que apenas algo diferente para ver. Eram sentimentos, tinham sabor e perfume.


Aquilo tudo era tão novo, tão reconfortante; a umidade da grama e a proteção das árvores. O verde significava felicidade. O verde lhe causou uma estranha sensação na barriga. As poucas árvores que vira em Blackburn eram marrons, deformadas; pequenos gravetos que se erguiam na terra. Aqui havia aqueles gigantescos guarda-chuvas de folhas bem acima dela. Haven olhou para o pote em seu colo e observou a meia dúzia de vaga-lumes que conseguira apanhar. Eles brilhavam de modo intercalado. Ela estranhou o fato de eles piscarem de um jeito harmonioso, criando uma melodia silenciosa que ela se esforçava para ouvir. – O que será que eles estão dizendo? – ela perguntou, interrompendo o silêncio que havia se formado entre os dois. Carmine apontou para o pote. – Tenho certeza de que esse aqui está dizendo para aquela ali do outro lado que ela tem um bumbum bonito e brilhante. – E os outros? – Bem, vejamos… Esse aqui parece com ciúmes, porque estava a fim daquela com o bumbum brilhante. – ele continou, apontando novamente para o pote – Já os demais estão fofocando. Você sabe, quem fez o quê, quando, onde, por quê e tudo mais. – Não havia percebido que os insetos eram tão infames. Ele riu. – É a natureza. Eles não podem evitar. Ela olhou para o pote sem saber o que pensar. Carmine se levantou depois de alguns minutos, sacudindo a grama de suas calças. – É melhor voltarmos para dentro da casa antes que sejamos pegos em flagrante. Você pode trazer o pote com você. Discordando com a cabeça ela o destampou. – Não, eles devem ser livres. – ela disse com a voz baixa, observando os vaga-lumes voarem para longe. Carmine pegou sua mão e a colocou de pé. Ela sentiu os dedos formigarem com o toque do rapaz. Aquela sensação a deixou alarmada. Era como eletricidade sob a pele, percorrendo suas veias e alcançando seu coração. Seu pulso ficou acelerado e ela desviou o olhar, não ousando encarar o rapaz, cujos olhos eram tão verdes quanto a grama e as árvores. De repente, Haven se sentiu como se ela também estivesse brilhando como um vaga-lume.


Capítulo 6

Durante as semanas seguintes, essas fugas mais uma vez se transformaram num meio de sobrevivência para Haven, mas no fundo ela sabia que aquilo não iria durar. Numa sexta-feira, quando desceu as escadas para começar seu trabalho, ouviu a TV ligada na sala de estar. Seu pulso acelerou; todos já deveriam ter saído de casa. Todos os dias da semana ela costumava ficar sozinha até as três da tarde. Ela não gostava de mudanças na rotina. Em silêncio ela caminhou até a sala e viu o doutor DeMarco sentado no sofá. Sem desviar o olhar ele a cumprimentou. – Bom dia, criança. Assustada, ela sussurrou: – Bom dia, mestre. DeMarco balançou a cabeça em reprovação e disse: – Não precisa me chamar assim. Faz com que eu sinta que está me colocando no mesmo nível que Antonelli, e gosto de pensar que sou um homem melhor que aquilo. – Peço desculpas, senhor. – Também não precisa se desculpar. Pode me chamar de Vincent, se preferir. Ela ficou chocada quando ele sugeriu que ela o chamasse pelo primeiro nome. – O senhor deseja alguma coisa? – Não, eu estava só esperando por você. Tenho adiado isso, mas é preciso que você passe por um check-up ainda hoje. Os olhos dela se arregalaram. – Não irá demorar. – ele disse, finalmente olhando para ela – E o lado positivo é que você poderá sair da casa por alguns momentos. Você não colocou os pés para fora desde que chegou aqui, afinal. Aquilo não era verdade, mas ela não ousaria corrigi-lo.

Ele a levou de carro até uma pequena construção de tijolos, a cerca de dez minutos da casa. Lá havia uma placa branca indicando “Clínica Durante”, acima da entrada principal. Bem diferente do hospital movimentado que podia ser visto do estacionamento, a clínica era escura e vazia. Não havia alma alguma em nenhum lugar. – Eles estão fechados hoje, então não seremos interrompidos. – disse DeMarco ao destrancar a porta da frente. – O que vamos fazer aqui? – ela perguntou. – Só o básico. Haven não fazia ideia do que “o básico” significava, e o doutor DeMarco também não se mostrou inclinado a explicar. Ele a levou pelo prédio. A cada passo a jovem se sentia mais tensa. Eles foram direto para uma sala de exames, onde havia uma maca acolchoada marrom. DeMarco acendeu uma única luz. Ela ficou ali de pé enquanto ele explorava a sala, pegava as coisas de que precisaria e ligava os equipamentos. Ele então pegou seu braço e, sem dizer uma única palavra, introduziu-lhe uma agulha na veia. Ela se


manteve imóvel enquanto ele enchia alguns tubos com o seu sangue, o que começou a deixá-la um pouco tonta. De fato, a jovem ficou tão zonza que quase desmaiou. O doutor DeMarco pesou e mediu-a antes de encaminhá-la para a maca. – Terá de tirar suas roupas. – ela o encarou apavorada; ele suspirou frustrado diante de sua expressão de medo – Isso irá acontecer, quer você coopere ou não, eu preferiria que fosse de um jeito tranquilo, sem ter de forçá-la. DeMarco foi até a janela enquanto Haven cuidadosamente se despia e se sentava na maca. Seus pés estavam pendurados de um dos lados, longe do chão, enquanto ela se cobria com um fino avental de papel, segurando-o firme, como se pudesse protegê-la. Então, ainda de costas para ela, DeMarco ordenou: – Deite-se de barriga para cima na ponta da maca, erga as pernas, coloque seus pés nos apoios laterais e tente relaxar. Ela fez o que ele mandou, fechando os olhos ao ouvir seus passos se aproximando. – Você irá sentir algo frio lá embaixo. – ele explicou, puxando um banco para perto da maca e sentando-se enquanto colocava um par de luvas de látex – Será desconfortável, mas terminarei rápido. Ela cerrou os olhos ainda com mais força quando sentiu seu toque. Uma lágrima escorreu do seu rosto. Ela tentava contar mentalmente, tentando se distrair e, assim que chegou ao número 10, ele a soltou. – Você parece estar bem, pelo que posso ver. – ele disse, livrando-se de suas luvas. Os olhos dela estavam embaçados pelas lágrimas, mas ela conseguia ver o médico ao seu lado. Ele injetou nela o conteúdo de algumas seringas, sendo que umas doíam mais que as outras, e se dirigiu até a porta. – Vista-se para que possamos ir embora. Esperarei por você no hall. Ela levantou-se com as pernas ainda trêmulas e se vestiu.

Haven se deitou naquela noite e, como de costume, ficou escutando a música suave que vinha da biblioteca. Era a mesma melodia de sempre, que no geral a fazia dormir, mas dessa vez ela não conseguia relaxar. Sua pele parecia tensa, seus músculos, retesados; sentia-se furiosa e enojada. Mesmo depois de se esfregar muito durante o banho, ainda se sentia suja. Ela nunca se sentira tão confusa em sua vida. A jovem se manteve a distância de Carmine, esperando que os estranhos sentimentos que tinha por ele desaparecessem. Ela não compreendia a razão pela qual seu peito parecia ficar prestes a explodir toda vez que ele se dirigia a ela; por que sua pele ficava arrepiada quando ele se aproximava, ou o motivo de ficar tonta quando o ouvia dar risadas. Ela mal o conhecia e decidiu que seria melhor que as coisas continuassem assim, mas isso não fazia qualquer diferença, pois aqueles sentimentos surgiam mesmo não querendo. Haven pegou um pedaço de papel e desenhou o rosto de Carmine, lembrando-se de cada detalhe: o formato de sua mandíbula, as curvas dos seus lábios, o arco das sobrancelhas e o ângulo do nariz. Ela se lembrou de seus olhos e do modo como brilhavam contra a luz. Ele tinha algumas sardas no nariz e também nas bochechas, e uma pequena cicatriz no lado direito de seu lábio inferior. Deitada, ela começou a pensar em como havia reparado em todos aqueles detalhes. Depois que terminou, ela levantou o desenho para admirá-lo sob a luz. Mas algo estava errado; o desenho parecia sem vida e sem cor. Ele não transmitia uma fração da emoção contida na música. Frustrada, ela amassou o papel e o jogou longe.


Mais uma vez Haven o estava evitando, e Carmine não conseguia entender o motivo. Ele tentou esperar e dar-lhe tempo para relaxar, mas não tinha muita paciência. Acabou ficando com insônia e quando desceu as escadas na tarde seguinte, ainda exausto e todo dolorido por causa do jogo de futebol no dia anterior, estava determinado a não aceitar mais aquela atitude por parte de Haven. Ainda um pouco tonto, ele hesitou no hall quando a jovem apareceu na porta da cozinha. Ele passou a mão nos cabelos desgrenhados, sem ter se preocupado em penteá-los. – E aí, o que está fazendo? – Nada. – ela respondeu, olhando ao seu redor – Eu deveria estar fazendo alguma coisa? Ele deu de ombros. – Diga-me você. – Está com fome? Eu poderia lhe preparar algo para comer. – Não. – Precisa que eu lave suas roupas? – Não. – Já limpei a casa. – ela disse – Acho que não esqueci nada. – Eu não estava insinuando que tivesse esquecido. Estava apenas conversando com você. – Ah, sim. Ela se manteve de pé, olhando para ele com apreensão. Conforme a tensão aumentou, ele se arrependeu de ter saído da cama. – Que tal assistirmos um filme ou algo assim? Ela pareceu surpresa com a sugestão. – Tudo bem. – Esse “tudo bem” que dizer: “Tudo bem, eu quero assistir um filme com você, Carmine” ou “tudo bem, eu farei qualquer porra que me peça pra fazer, seja lá o que for, porque acho que devo fazer”? Você pode discordar de mim, sabia? Você pode até gritar comigo se isso lhe fizer se sentir melhor, mas, por favor, não diga “tudo bem”, porque não tenho ideia do que quer dizer com isso. – Tudo bem. Eles não estavam chegando a lugar nenhum com aquela conversa. – Olha aqui, vou sentar minha bunda naquele sofá. Se você vai ou não se juntar a mim, o problema é seu. Ele se virou e ouviu a voz dela novamente. – Você quer algo para beber? Carmine parou de repente. – Ah, claro. – O que deseja? – Uma Coca-Cola Cereja seria legal. – Coca-Cola Cereja? Ele respirou fundo e passou as duas mãos no rosto. Era cedo demais para isso. – É, Coca-Cola com sabor de cereja. É daí que vem o nome, oras, Coca-Cola Cereja. Ela correu para dentro da cozinha e Carmine se dirigiu à sala de estar, ligando a tv. Depois de alguns minutos ele percebeu alguma movimentação no canto dos olhos. Haven estava diante dele, evitando seu olhar, e com um copo de refrigerante na mão. Ele o pegou e ela se sentou ao lado dele no sofá, mantendo uma pequena distância. Confuso, ele olhou para o copo se perguntando por que ela não trouxera a lata. Foi então que


reparou nas cerejas boiando no copo. Ele tomou um gole, percebendo que ela havia lhe preparado uma Coca-Cola com cereja. Estupefato, ele não conseguia encontrar as palavras para agradecê-la. Sua mãe uma vez havia feito aquilo para ele quando ainda era uma criança. Haven mostrou a ele que realmente queria assistir o filme, colocando os pés sobre o sofá e inclinando levemente a cabeça. – Já assistiu a esse filme? – Carmine perguntou. Ela respondeu que não com a cabeça, como se aquela fosse uma pergunta idiota. – Nunca assisti a filme nenhum. Essa é a primeira vez que alguém me convida para assistir tv. Ele franziu a testa. – Você nunca assistiu TV? – Não era permitido. – E como você costumava passar o tempo? Lendo? – Não, isso também não era permitido. Não achavam apropriado. Ele a encarou e disse: – Os professores constantemente enfiam livros goela abaixo dos alunos e havia pessoas que lhe diziam que ler era inapropriado? – Eles não queriam que eu tivesse alguma ideia. – Ideias? Mas que tipo de mal poderiam fazer os livros? – Muito mal. Eles achavam que eu colocaria na cabeça que o mundo exterior era o local ao qual eu pertencia. – O mundo exterior? Você faz soar como se estivesse vivendo em um universo paralelo. Ela ergueu os ombros, com os olhos ainda fixos na tv. – Às vezes parece que é isso mesmo.

O iate de quase quatorze metros flutuava nas águas do Lago Michigan, ao leste do Navy Pear. O brilho do luar que refletia nas águas tranquilas era suficiente para Vincent. Nada além de escuridão podia ser visto abaixo da superfície, mas já estivera ali um número de vezes suficiente para saber o que repousava lá embaixo. Algas, peixes, destroços de barcos, carros afundados e corpos. Sim, ele sabia de pelo menos quatro corpos que estavam no fundo daquele lago… ou o que sobrara deles, de qualquer modo. Todos foram atirados exatamente do lugar onde ele estava, a parte de trás do The Federica. Aquelas palavras estavam escritas em preto no casco do barco, em homenagem à falecida irmã do Chefe. O iate de meio milhão de dólares pertencia a Salvatore Capozzi, mas, para o governo, ele era da Galaxy Corp, uma empresa sediada fora de Chicago, que fabricava chips para GPS. Era um disfarce para as práticas mais sombrias. Com efeito, a maioria de seus pertences extravagantes estava em nome de empresas. Desse modo, se a Receita Federal dos Estados Unidos viesse bater à sua porta, não teria de explicar como poderia pagar por tudo aquilo. Ele estava apenas tomando emprestado. Pura sonegação fiscal. Vincent admirava o modo como Salvatore fazia da manipulação uma verdadeira arte. Ele então ouviu um pigarro atrás de si, mas se manteve imóvel, olhando para a água enquanto Sal se aproximava. – Está enjoado? Vincent gostaria que aquele fosse realmente seu problema. – Não, apenas apreciando a vista.


– É bonito aqui, não é? Tranquilo. Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça. Paz não era algo que ele sentia com frequência e, agora que fora interrompido, a havia perdido novamente. Sal colocou a mão em seu ombro. – Venha para dentro. Quero terminar isso e voltar para terra firme. Mesmo sem desejar, Vincent acompanhou Sal e, logo que entrou, reparou em dois homens sentados num sofá de couro preto. Um deles ele conhecia bem: seu cunhado, Corrado, um homem de poucas palavras. Seu silêncio, porém, costumava dizer muito sobre si. Mezza parola, ou “meia palavra”, era assim que costumavam chamá-lo. Ele era capaz de manter uma longa conversa apenas acenando com a cabeça. Alguns anos mais velho que o próprio Vincent, os cabelos densos e escuros de Corrado não apresentavam nenhum fio grisalho, e o fato de serem um pouco encaracolados o faziam parecer mais jovem. Era um homem alto, robusto e de pele levemente bronzeada. As mulheres costumavam achálo atraente, mas ele nunca demonstrou nenhum interesse por elas, exceto Celia. A cabeça de Corrado estava sempre nos negócios. Sendo ou não da família, a presença de Corrado deixava Vincent desconfortável. Significava que algo havia saído muito errado, mas o jovem ao lado dele não tinha experiência suficiente para saber disso. Nervoso, o rapaz não parava de mexer as mãos. Por ser um médico, para Vincent era óbvio que ele estava sob o efeito de alguma droga. Talvez cocaína, ele pensou, mas metanfetamina também não o surpreenderia. Ele já havia presenciado coisas demais na vida para se deixar chocar facilmente. Salvatore olhou para o rapaz. – Tem trabalhado para nós há quanto tempo? – Um ano. – suas palavras irradiavam entusiasmo; tinha orgulho do bom trabalho realizado. O sujeito não devia ser muito mais velho que os filhos de Vincent, o que significava que provavelmente havia se envolvido aos dezoito. Jovens turcos idiotas. – Um ano… – Salvatore repetiu – Pelo que seu capo diz, você já conseguiu bastante dinheiro para nós… mais do que muitos garotos que trabalham nas ruas. – É verdade. Apenas fazendo minha parte, sabe? É preciso colocar as mãos nas verdinhas. De canto de olho, Vincent percebeu o sorriso no rosto de Corrado. – Ouvi dizer que você tem pedido mais responsabilidades. – prosseguiu Salvatore – Acha mesmo que possui o que é preciso? – Com certeza. – o jovem confirmou – Já estou pronto desde que nasci. Salvatore pegou uma garrafa de uísque e serviu quatro copos. Vincent pegou o seu e ficou a distância, girando o líquido enquanto ouvia o rapaz se gabar de todos os serviços que fizera. Sequestros e roubos, extorsões e apostas, mas, em nenhum momento ele mencionou de onde vinha a maior parte do dinheiro. – Drogas. – Vincent interrompeu, cansado das brincadeiras. – Esqueceu de mencionar as drogas. O rapaz ficou branco. Mesmo trabalhando nos escalões mais baixos da organização, ele sabia que a política da Casa Nostra era: não ser pego com drogas. Jamais. – Que drogas? – Aquelas que você tem vendido em sua casa. – disse Vincent – Um informante já nos disse que a polícia tem informações sobre a localização. – Eu, hum… Eu não… Ele não teve tempo de inventar uma desculpa. Corrado levou a mão no casaco e sacou sua arma, apontando para a nuca do sujeito. Vincent olhou para o lado e Corrado puxou o gatilho, com o silenciador abafando o ruído da bala que atravessou o crânio do rapaz. Não havia qualquer emoção


no lugar. Corrado botou a arma de volta no casaco; Sal continuou bebendo seu uísque como se nada tivesse acontecido. Vincent sentiu o estômago revirar no momento em que olhou para a expressão de medo nos olhos do jovem e saiu rapidamente do iate, dirigindo-se até a lateral para vomitar. Sal se juntou a ele e o observou com estranheza. Vincent soltou um suspiro e disse: – Bem, parece que o enjoo finalmente me atingiu. Corrado arrastou o corpo até o deque, embrulhou-o com uma lona, prendeu as correntes e o atirou na água. Vincent ficou observando o corpo do jovem desaparecer na escuridão da água. Agora eram cinco os que repousavam no fundo do lago.


Capítulo 7

A cabeça de Haven estava prestes a explodir quando ela abriu seus olhos no sábado seguinte à consulta. Passaram-se uns três segundos até que ela se sentisse nauseada e tivesse de correr para o banheiro a tempo de vomitar. Uma hora se passou antes que ela pudesse se levantar. Com as roupas amarrotadas e os cabelos desgrenhados, ela seguiu para baixo, dando de cara com Carmine já no segundo andar. Ele estava acompanhado por uma garota de cabelos coloridos. Ela vira Carmine algumas vezes naquela última semana, mas nunca sabia dizer o que ele estava pensando. Ele ficou curioso ao olhar para ela. Aquela atenção fez com que seu peito se estufasse com uma sensação desconhecida, algo que ela ainda tinha medo de encarar ou, até mesmo, de colocar em palavras. Escapando de ambos antes que pudessem falar, ela quase escorregou escada abaixo ao correr para cozinha. Tentou se acalmar, lavando alguns pratos, mas uma voz inesperada à porta assustou-a ainda mais: – Olá, meu nome é Dia. O copo que estava segurando escorregou de suas mãos no momento em que ela se virou, e, por sorte, não quebrou. – Ah, olá. Dia ergueu as sobrancelhas e perguntou: – Você está bem? Haven olhou para ela. Era óbvio que não. Ela estava sozinha e sentia falta de sua mãe; estava tão confusa e emocionalmente exausta que não sabia mais como agir. Isso sem mencionar que sentia estar prestes a vomitar novamente. – Estou bem – ela sussurrou, desviando o olhar. Então ela respirou fundo algumas vezes, ainda tonta, e seguiu para as escadas mais uma vez sem dizer nada. Respirando pesadamente, ela se viu obrigada a parar no topo do primeiro lance de degraus. Sua visão ficou embaçada, seu peito começou a queimar e ela não conseguia mais respirar. Suas pernas falharam e não viu mais nada. Ela caiu ao chão, batendo violentamente a cabeça na parede. Em seus ouvidos havia um ruído de trem correndo sobre os trilhos.

– Haven? Ela abriu os olhos ao ouvir a voz familiar, incrivelmente perto, e deparou com os olhos verdes bem em frente aos dela. Ela piscou algumas vezes antes que Carmine se afastasse. – Maledicalo! Você não pode fazer isso comigo, maldição! Confusa, sua visão novamente ficou embaçada, mas, dessa vez, pelas lágrimas inesperadas. – O que disse? – Você não pode desmaiar novamente como acabou de acontecer! Parecia que estava morta. Jesus, eu pensei que estivesse! Ela o encarou. Ele se preocupara que tivesse morrido? – Dom já chamou o meu pai para que ele venha dar uma olhada em você. Você bateu a cabeça com


muita força. – ele disse, passando a mão sobre sua testa. Seus dedos estavam frios sobre a pele que queimava de febre. Ele falou novamente, com a voz tão suave que ela mal conseguia escutá-lo – Você me assustou pra caramba, bella ragazza. Ela olhou para ele. – O que isso significa? – O que significa o quê? Eu disse que você me assustou pra caralho. Eles ficaram sentados em silêncio, Carmine passando as costas da mão em sua face enquanto olhava para os olhos dela. Aquilo era desconfortável, mas Haven não conseguia interromper o olhar. – Sinto muito que isso tenha acontecido – ela se desculpou –, e logo quando sua namorada estava lhe fazendo uma visita. As sobrancelhas dele se ergueram antes que ele caísse na risada. – Eu não tenho uma namorada, mas, se tivesse, certamente não seria a Dia. Digamos que meu equipamento não seja o mais adequado para ela. Haven não tinha certeza do que ele queria dizer com aquelas palavras. Suas bochechas ficaram vermelhas diante da intensidade do olhar do rapaz, mas antes que pudesse colocar os pensamentos em ordem, escutou a voz de Dominic, irrompendo: – Colpo di fulmine. Ambos deram um pulo, olhando para a porta. Carmine retirou sua mão, perguntando: – O que disse? – Eu disse Colpo di fulmine. – um sorriso lento se espalhou pelo rosto de Dominic – Não sei como não percebi antes. A expressão no rosto de Carmine mudou. – De jeito nenhum! – Ah, sim! – disse Dominic – Boom! Carmine saiu do quarto com Dominic gargalhando, sentando-se no lugar onde estava seu irmão. – Aquele cara é cheio de surpresas.

Colpo di fulmine, uma expressão italiana cujo significado era algo como “raio fulminante”. É quando o amor invade o coração de alguém, como um relâmpago, e de modo tão intenso que não pode ser negado. É lindo, mas ao mesmo tempo complicado, abrir seu coração e revelar sua alma para o mundo todo. Essa sensação é capaz de virar uma pessoa do avesso, e não há como voltar para trás. Depois que o raio cai, sua vida muda radicalmente. Carmine, entretanto, jamais acreditara naquilo tudo: Colpo di fulmine, amor à primeira vista, almas gêmeas, flecha do cupido… Para ele, tudo aquilo não passava de baboseira. O amor era simplesmente um sinal de que a pessoa estava iludida pela luxúria, que cegava os homens e os impedia de usar o bom senso. E ele ainda desejava pensar assim. Queria negar tudo aquilo. Mas algo dentro dele, lá no fundo, que ia muito além da cerca de arame farpado e do escudo de aço reforçado que cercavam seu coração, sugeria exatamente o contrário. E quando ele viu o corpo frágil de Haven caído no chão, ele apenas não podia mais ignorar aquele sentimento. Aquela jovem tão peculiar havia aparecido do nada, e ele temia que ela desaparecesse tão rápido quanto chegou. Que ela sumisse de sua vida antes que tivesse a chance de conhecê-la. Seu peito doía ao pensar nisso, suas entranhas estavam em chamas, e a jovem que provocara tudo aquilo não fazia a menor ideia. Em outras palavras, Carmine estava realmente fodido. Ele saiu como um raio daquela casa e dirigiu até a cidade, juntou todas as moedas que conseguiu


encontrar no carro para comprar uma garrafa de vodca de quinta categoria com sua identidade falsa. Então parou na beira da estrada e bebeu sozinho na escuridão, até que sua mente estivesse atordoada o suficiente para que não sentisse mais nada. Ele acabou desmaiando e só acordou no dia seguinte, com uma bela enxaqueca. Colocou, então, os óculos escuros e dirigiu de volta para casa, cuidando para não ultrapassar o limite de velocidade. Afinal, não queria ser parado pela polícia, uma vez que certamente ainda haveria traços de álcool em seu sangue. Ele tinha certeza de que seu pai ficaria tão animado em pagar sua fiança no meio da tarde quanto os policiais em encontrar uma pistola Colt 45 debaixo do seu banco. Quando Carmine entrou na casa, encontrou Haven dormindo no sofá da sala de estar. Naquele momento algo mudou dentro dele. Ela estava toda arrepiada, então ele apanhou um cobertor no armário e cuidadosamente colocou-o sobre ela. Ele já ia subir para tomar um banho quando resolver pegar algumas bolachas para jogar no estômago. Ao retornar à sala de estar, ouviu Haven chamá-lo pelo nome. Ele passou a mão nos cabelos no momento em que seus olhos se encontraram. Ela o encarou com um olhar suplicante, e aquele era um convite que não poderia recusar. Ele se sentou ao lado dela e perguntou: – Está se sentindo melhor hoje? – Sim. – ela respondeu, afastando-se um pouquinho dele – O doutor DeMarco disse que pode ser uma virose estomacal. Pode ser contagioso, então é melhor ficar longe de mim. – Não estou preocupado com isso – disse Carmine –, afinal, se pegar de você ficarei longe da escola por alguns dias. – Você não deveria estar na escola agora? – É, deveria, mas não sou exatamente conhecido por fazer o que deveria. Ela sorriu. – Rebelde. Carmine ficou surpreso ao perceber que o relacionamento dos dois estava mais relaxado. Ele esperava alguma tensão. Haven ficou em silêncio por algum tempo, e seus olhos desceram até o peito de Carmine. Logo ele percebeu que ela estava olhando para sua tatuagem. Os olhos dela o encararam. – O que quer dizer? – Minha tatuagem? Il tempo guarisce tutti i mali, ou “O tempo cura todas as feridas.” – Desculpe, não quis bisbilhotar. – Tudo bem. A que tenho no braço é de uma cruz enrolada na bandeira italiana, e no pulso está escrito fiducia nessuno. Em geral ela fica coberta. – ele então removeu o relógio e estendeu o braço para que ela pudesse ver de perto as pequenas letras. Ela delicadamente passou os dedos sobre as palavras. Aquele simples toque provocou nele uma forte sensação e o fez fechar os olhos. – O que quer dizer? Ele recolocou o relógio no pulso e respondeu: – Não confie em ninguém. – Doeu pra fazer? Ele deu de ombros. – Já senti dores bem piores. Várias imagens passaram em sua mente ao dizer aquelas palavras, e sem perceber, passou a mão na cicatriz que tinha no rosto. Ele se perdeu naquela memória por um momento, até que ouviu um ronco e retornou à realidade. Ele olhou para Haven, percebendo que era seu estômago. – Você come alguma hora? Ela afirmou com a cabeça. – Sim, toda noite.


– É verdade? Você nunca janta conosco. A jovem hesitou. – O mestre Michael disse que alguém como eu não deveria jamais dormir na mesma casa que alguém como você, e muito menos se sentar à mesa de jantar. – Meu Deus, eles fizeram uma lavagem cerebral em você. Você sempre viveu com esse Michael? – Ele estava sempre por perto, mas não se tornou meu mestre até que seus pais morressem. – E os pais dele eram assim tão ruins quanto ele? – Frankie me assustava, mas ele não me batia muito. A senhora Mônica às vezes brincava comigo quando eu era criança. Michael me ignorava no início, mas as coisas pioraram quando a dona da casa percebeu que ele… Bem… que ele… – Ele o quê? – Ele me fez. Os olhos de Carmine se arregalaram. – Michael é seu pai? Constrangida, ela começou a mexer nas unhas. – Sim, mas não queria ser.


Capítulo 8

Pela primeira vez desde que chegara a Durante, ela não escutou música durante a noite. Haven imediatamente percebeu que algo estava errado, que estava se intrometendo e testemunhando algo que não era de sua conta. Alguma coisa sagrada e íntima. Contudo, ela não conseguiu evitar. Inquieta e exausta, ela se sentia ansiosa demais para conseguir dormir. Então, levantou-se da cama e topou com Carmine na sala de estar. Ele parecia estar em transe. O brilho do luar iluminava o cômodo silencioso, e o jovem estava sentado diante do piano, inclinado para frente, olhando para as teclas. O rapaz passou a mão nos cabelos, abaixou a cabeça e soltou um grito abafado; um choro triste ecoou pela sala. Prendendo a respiração e sentindo seu coração se contrair, Haven deu um passo atrás e voltou para cima, aliviada por chegar ao quarto sem ser pega. Estava perturbada. Mesmo sem saber o que sentia por ele, vê-lo tão triste a deixou preocupada. Seu alarme soou diante daquela percepção e seu coração disparou. Vulnerabilidade não lhe faria nenhum bem, apenas a machucaria. Somente depois que ouviu Carmine subir, ela teve coragem para se aventurar e descer as escadas. Ela preparava o café da manhã para se distrair dos pensamentos, e acabava de terminar tudo quando Carmine apareceu. Ele abriu a geladeira, pegou o jarro de suco de laranja e então passou por ela para pegar um copo. – O cheiro está bom. – ele disse. Mas suas palavras pareciam desprovidas de sentimento ou verdade. Haven tentou a todo custo controlar seu desejo de aliviar as olheiras sob aqueles olhos vermelhos. Enquanto os rapazes comiam, Haven descobriu como fazer café. Ela sabia que o doutor DeMarco apreciava tomá-lo todas as manhãs. Já estava quase pronto quando ele entrou na cozinha e se deteve a menos de meio metro de onde estava. Ele olhou para o bule antes de se virar para ela e dizer num tom acusatório: – Você fez meu café. – Sim, senhor. – ela respondeu – Está com fome? – Ficarei em casa hoje. – ele disse, ignorando sua pergunta – Não quero ser incomodado, a menos que seja uma emergência. E saiu sem tomar o café.

Além de lavar algumas roupas do doutor DeMarco, não havia muito a fazer naquele dia. Por volta do meio-dia, Haven já havia lavado e carregado todas as roupas dele para cima. DeMarco costumava deixar as portas abertas nos dias em que desejava que ela fizesse limpeza, uma vez que não lhe dera os códigos para entrar. Ela puxou o cesto para dentro do quarto e abriu a gaveta da cômoda, mas parou ao ver o revolver prateado sobre as roupas. Então pegou-o pela parte de trás e o tirou de seu caminho, sentindo um desconforto na barriga. Era bem mais pesado do que imaginara. O som de uma porta batendo chamou sua atenção e ela se virou para a direção de onde veio o barulho. O doutor DeMarco estava de pé dentro do quarto, e havia trancado a porta. Um medo intenso


tomou conta da jovem vendo a expressão em seu rosto. Ele carregava a mesma máscara serena de sempre, mas seus olhos estavam tomados pelo ódio. Num reflexo ela soltou a arma, que caiu sobre a cômoda fazendo barulho. O fogo nos olhos do doutor DeMarco tornou-se ainda mais intenso com o ruído. Ele então esticou o braço para trás e, de um jeito cuidadoso e deliberado, quase em câmera lenta, colocou a mão sobre a fechadura de segurança, girando-a suavemente. O coração de Haven disparou ao ouvir o clique do dispositivo. Naquele momento ela descobriu que cometera um grave erro. Ela nunca o tinha visto daquele jeito; seus olhos escureceram como um tornado que se aproxima, destruindo tudo ao ser redor. Havia neles um brilho maldoso e imprevisível. Olhando para o médico, Haven finalmente vislumbrou o verdadeiro Vincent DeMarco. O monstro. Ele deu um passo à frente e, instintivamente, Haven também deu um passo para trás. Ela ficou presa à parede enquanto DeMarco parava diante da cômoda e pegava a arma. – Essas coisas são tão lindas. – ele disse, esticando a mão dentro da gaveta e pegando um projétil dourado, segurando-o – É fascinante o tamanho da devastação que algo tão pequeno é capaz de causar. Entende alguma coisa sobre armas? A frieza em sua voz assustava Haven cada vez mais, fazendo seu corpo todo tremer. Ela tentou parecer forte, mas sua voz também estava trêmula. – Não, senhor. Ele recolocou a bala na gaveta e a fechou, olhando para a arma. – Este é um revolver Smith & Wesson 627, calibre Magnun 357, capacidade de oito tiros; a munição é de balas de ponta oca. Tenho muitas armas, mas esta aqui sempre foi minha favorita. Ela nunca me deixou na mão – ele pausou –, exceto uma vez. Ele apontou a arma para Haven e continuou a se aproximar, colocando o cano contra sua garganta. Ela não conseguia respirar; a força aplicada impedia o fluxo de ar. – Um movimento do meu dedo no gatilho fará um buraco no seu pescoço que certamente a matará. Se tiver sorte, pode ser bem rápido, mas não há garantias. O mais provável é que você não consiga falar ou respirar, mas sinta tudo até sufocar. Ele retirou o cano, permitindo que ela respirasse e novamente pressionou-o contra sua garganta. Seu peito parecia que ia estourar quando ele voltou a falar. – Será que devemos ver o que acontece se eu puxar o gatilho? Acho que sim. Ela tentou chorar preparando-se para sentir a dor. Aquele seria seu fim. Ela iria morrer, então, cerrou os olhos à espera da explosão e deu um pulo ao ouvir o clique. A pressão em seu pescoço desapareceu e ela caiu no chão, chorando e soluçando, sem conseguir se levantar. – Olhe para mim. – ele ordenou, estendendo a mão e segurando seu queixo de um jeito rude – Você teve sorte por não estar carregada, ou estaria morta agora. Compreende? Exasperada, ela balançou afirmativamente a cabeça. – Bom. Agora vá para seu quarto e espere sua punição. É hora de aprender o que acontece quando as pessoas esquecem seu lugar. DeMarco destrancou a porta e saiu com a arma em punho. Suas palavras reverberavam em sua mente enquanto imagens do passado surgiam à sua frente; flashes de olhos sem vida consumiam seu coração. É isso o que acontece quando as pessoas esquecem seu lugar. A morte aconteceu. A número 33 morreu. Frankie lhe havia dito para se lembrar e ela tinha plena certeza de que jamais esqueceria. Como poderia esquecer? Ela conseguiu se colocar de pé e mesmo com as pernas trêmulas chegou ao terceiro andar. O medo sobrepujava qualquer lógica. Chegando lá, ela foi direto para o quarto de Carmine, abriu a janela e passou por ela. Correu pela varanda, prendeu a respiração e se forçou a não olhar para trás, enquanto


pulava na árvore para escorregar até o jardim. No momento em que seus pés tocaram o solo, ela correu. Galhos e gravetos arranhavam seu rosto e seus membros conforme se embrenhava na floresta densa. Seu coração batia descontrolado. Ela se movia o mais rápido que suas pernas lhe permitiam, sem qualquer senso de direção. Estava mais uma vez correndo por sua vida. Finalmente a floresta tornou-se menos densa. Haven percebeu uma clareira por trás das árvores e correu naquela direção, direto para a estrada. Foi então que ela ouviu o som dos pneus brecando praticamente em cima dela, e perdeu o ar ao reconhecer o familiar carro preto. Não, não, não… Ela tentou se afastar, sacudiu com a cabeça para que ele não a tocasse, mas era tarde demais. DeMarco segurou-a pelo braço e arrastou-a até o carro. Ela implorou ao ver o porta-malas aberto, mas sem muito esforço ele a pegou e enfiou dentro do compartimento. Ela estava apavorada. Ele a encarou com fúria nos olhos e em seguida fechou o porta-malas. Haven se sentia aterrorizada presa na escuridão. À medida que acelerava o carro, o corpo da jovem era jogado de um lado para o outro. Sua cabeça batia contra a lataria. Soluçando, ela ainda tentou buscar um meio de fugir. Uma luz se acendia toda vez que ele pisava no freio, iluminando o espaço por tempo suficiente para que ela pudesse enxergar. Ela então encontrou uma pequena alavanca e a puxou, ficando atônita ao ver que a tampa se abriu. Mais uma vez DeMarco pisou nos freios e embora tenha sido atirada mais uma vez, ela conseguiu pular para fora. Seus pés, entretanto, não a levaram muito longe. Logo ela sentiu um braço ao redor de seu pescoço e uma mão pressionando sua cabeça. Ela lutou, mas ele era forte demais para ela. Em questão de segundos tudo ficou escuro.

Quando Haven recobrou a consciência, percebeu que estava no chão do seu quarto, amarrada à cabeceira da cama. O doutor DeMarco estava de pé a alguns metros de distância, observando, esperando. Ela soltou um soluço no momento em que viu a realidade ao seu redor, mas DeMarco ergueu a mão para que ela permanecesse em silêncio. – Você realmente achou que conseguiria escapar? Não aprendeu a lição da última vez que tentou? Eu já lhe disse uma vez. Você não conseguirá ser mais esperta do que eu. – Eu não… Eu… eu só… – seu choro escondia as palavras – Eu só não quero morrer. DeMarco tornou-se ainda mais rígido antes de pegar um rolo de fita adesiva do criado-mudo. Ela lutou o quanto pôde enquanto ele rasgava um pedaço de fita, mas isso não o impediu de tapar sua boca. – Quero que você pense em tudo de bom que tem aqui. Pense na sorte que tem por ainda estar viva.

Ele então saiu do quarto, deixando-a sozinha. Nove anos. Quase uma década havia se passado desde o dia fatídico que mudaria para sempre a vida de Carmine. O dia sobre o qual ninguém falava. Porém, aquilo ainda o afetava como se tivesse acontecido no dia anterior, embora ninguém soubesse. Até então, ninguém jamais desconfiara de que ele costumava chorar durante as noites, sem conseguir dormir. Mas pela primeira vez em todo esse tempo, ele desejou que alguém soubesse. No momento em que chegou da escola e entrou pela porta, já se deu conta de que algo acontecera.


Era uma sensação que pairava no ar; um silêncio sufocante; uma percepção de perigo que disparou um fluxo de adrenalina em seu corpo, queimando seus nervos enquanto o sangue corria por suas veias. Carmine subiu as escadas, olhando para os lados, e se deparou com a porta do seu quarto aberta. Uma brisa gelada tomava conta do cômodo; a janela estava aberta e as cortinas, ondulando ao vento. Seu coração disparou. Aquilo era ruim. Aliás, era péssimo. A voz atrás dele era fria e desapegada. – Como ela sabia? Carmine se virou e viu o pai próximo às escadas, casualmente encostado à parede, com seu revolver enfiado no cinto. – Como ela sabia o quê? – Como ela sabia que a janela do seu quarto podia ser aberta, Carmine? Porque esta é a minha casa, e eu não sabia! Carmine se virou para a janela. Que merda! – Onde ela está? – Isso importa? – Sim. Seu pai o encarou de um jeito sério. – Por quê? Carmine empalideceu. Por quê? – Porque sim. Você é muitas coisas, pai, mas… Jesus Cristo, isso? Eu não sabia que o senhor era um homem tão mau! Os olhos de Vincent se estreitaram. – Você tem algo a me dizer? – Sim. Nada irá trazê-la de volta. A máscara de controle de Vincent caiu. – O que disse? – Você me ouviu muito bem. Isso não mudará nada! Ela nunca voltou! Aquelas palavras estilhaçaram algo dentro de Vincent, fazendo com que ele perdesse sua sanidade. Ele pegou a arma e a apontou para a cabeça do filho. – Não vai atirar em mim – Carmine disse –, afinal, eu me pareço demais com ela. Vincent assentiu com a cabeça, confirmando as palavras do filho. – Fique longe daquela garota. Ele disse em tom de ameaça, mas Carmine sentiu-se aliviado. Aquilo significava que Haven ainda estava ali, em algum lugar da casa, e ele não tinha a menor intenção de se manter distante da jovem.

O tempo se passou de maneira terrivelmente lenta para Haven enquanto ela mantinha a mesma posição no quarto escuro. Seus músculos doíam e nada parecia capaz de aliviar a tensão. Ela gritou até ser tomada pela exaustão e acabou dormindo. Um barulho a acordou um pouco mais tarde; a dor se tornou insuportável no momento em que abriu seus olhos. Ela mal podia ver uma forma encoberta pelas sombras; franziu as sobrancelhas ao encontrar aqueles olhos verdes e tristes. Carmine se ajoelhou diante dela e secou as lágrimas antes de deslizar os dedos sobre a fita que cobria sua boca. – La mia bella ragazza. Sinto muito que isso tenha acontecido. Ela o analisou por um segundo; sua cabeça se inclinou como se aquilo a ajudasse a compreender.


– Hoje é aniversário de… Droga… Caralho! Por que não consigo dizer? É o dia em que minha mãe… – ele parou, deixando-a confusa. Ninguém falava a respeito da mãe de Carmine. Haven sequer sabia o nome dela – Eu gostaria de poder soltá-la, mas ele me mataria. Não, ele mataria você. Ele me ordenou que não me aproximasse de você, mas precisava saber se estava bem. Mas, Jesus, olha pra você! O que há de errado com ele?! Ele ajeitou os cabelos da jovem atrás das orelhas; seus dedos mais uma vez deslizaram sobre a fita adesiva. – Voltarei pela manhã. Mantenha-se forte, tesoro. Nunca deixarei que nada de ruim te aconteça novamente.

– Você está acordada? Os olhos de Haven se abriram ao escutar a voz do doutor DeMarco na manhã seguinte; seu tom já não era tão rude como no dia anterior. Agachando-se ao lado dela, ele pegou a ponta da fita adesiva e a arrancou de uma só vez. Ela recuou; seus lábios tremiam sem parar. O doutor DeMarco a livrou das amarras que a prendiam e ela esfregou os pulsos que queimavam. Ela ficou sentada ali com a cabeça abaixada, limpando o nariz com a manga da camisa, ao mesmo tempo que flexionava suas pernas, tentando se livrar das câimbras. Depois de apenas alguns minutos Carmine bateu e entrou no quarto com um copo de água na mão. Ele se ajoelhou mais uma vez ao lado dela. – Beba isso. Ela pegou o copo e tentou oferecer-lhe um sorriso diante de sua generosidade, mas não conseguiu. Tudo em seu corpo doía demais. Carmine lhe ofereceu uma pequena pílula amarela. Os jovens na escola comeriam isso como se fossem balas, se pudessem. – Isso aliviará sua dor. Ela pegou o comprimido e o engoliu, dizendo em seguida, em voz baixa: – Obrigada. – De nada. Acha que consegue se levantar? Carmine estendeu suas mãos em direção a ela e a puxou para que ficasse de pé, mas no momento em que ele a soltou os joelhos da jovem falharam. Carmine praguejou e a segurou antes que ela fosse ao chão, puxando-a em sua direção. O rosto dele se suavizou no momento em que ele a pegou e a carregou até seu quarto, colocando-a na cama dele. Confusa, ela permaneceu imóvel enquanto Carmine desapareceu no banheiro, retornando em seguida com vários itens de primeiros-socorros. Ele jogou tudo o sobre a cama e sentou-se ao lado dela, com uma toalha na mão. – Preciso cuidar de você. Não queremos que esses ferimentos infeccionem. Carmine limpou o rosto dela; a toalha úmida lhe causou uma sensação confortável na pele. Ele a passou sobre a boca, sendo bastante gentil, e limpou o sangue de seus punhos. Haven fez o possível para ignorar a dor, mantendo-se focada no rosto dele, absolutamente concentrado. A dor começou a desaparecer à medida que a droga fazia efeito. – Você é bom nisso. Ele sorriu. – Bem, tenho feito isso a minha vida toda.


Capítulo 9

Carmine fez uma pausa ao lado da cama e encarou Haven, cujo rosto estava enfiado no travesseiro dele. Ele sorriu de modo inconsciente ao vê-la se sentar. – Quer falar a respeito do que aconteceu? – Não há nada pra falar. – ela sussurrou – Eu sobrevivi. É isso que eu faço. E continuarei a sobreviver até quando for possível. – Então, está me dizendo que é uma sobrevivente? Suas faces enrubesceram. – É, isso não soou muito inteligente. Acho que preciso de um di… dicio… Ah, um desses livros com palavras. – Um dicionário? – perguntou rindo. – Sim, isso. – Eu te arrumarei um se me prometer que irá usá-lo. – Claro, usarei – um reconhecimento brilhou em seu rosto, mas, em seguida, o sorriso esvaneceu – Se bem que… você terá de ler pra mim. Não sei ler. – Jura? Ela hesitou. – Bem, na verdade só um pouquinho. As pessoas me ensinavam e eu também captava algumas coisas de quando minha patroa assistia TV e apareciam as legendas… Então, acho que posso dizer que também já assisti um pouco de televisão. Ele balançou a cabeça, em reprovação. – Ainda não compreendo porque isso importava para aquele sujeito, o Michael. – Porque pessoas inteligentes tentam escapar. – ela respondeu – Elas acham que conseguirão sobreviver no mundo lá fora. Os que não entendem nada são mais fáceis de controlar. É por isso que eles precisavam me manter nas rédeas. Ele ficou boquiaberto e surpreso diante de sua repentina seriedade, respondendo apenas: – Tudo bem. Haven deu risadas; sua expressão satisfeita logo ressurgiu em seu rosto. – Esse “tudo bem” significa “compreendi o que disse, Haven”, ou é do tipo “vou concordar apenas porque não sei o que deveria dizer”. Ela gozou da cara dele. Justamente dele. – Você usou a expressão de um jeito todo errado. Nem falou palavrão! – Nunca digo palavrões. Ele ergueu uma sobrancelha e perguntou: – Por quê não? – Vi muita gente perder os dentes depois de falar palavrões. – Então, não xingar fez com que você mantivesse todos os seus dentes? – Não, isso foi sorte mesmo. Depois de levar tantos socos no rosto eu deveria estar ainda mais desfigurada que agora. Ele replicou. – Você não está desfigurada. – Meu nariz não é bonito. – ela disse, de um jeito trivial – Tem um carocinho aqui, bem aqui.


Ele estreitou os olhos ao olhar para o nariz dela, mas não viu nada de errado nele. – E como foi que você conseguiu esse carocinho, supostamente tão horrível? – Minha dona me deu um chute no rosto. Ele se contraiu. – Mas por que ela chutou você? – Porque arranhei os sapatos de salto alto dela quando ela tropeçou em mim. – E por que razão ela tropeçou em você? – Não sei, acho que pra se divertir. Ele franziu o cenho. – A cadela tropeçou em você de brincadeira, ficou puta porque arranhou o próprio sapato e decidiu chutar seu nariz como punição? Ela fez que sim com a cabeça. – Quer saber a cor dos sapatos também? Afinal, já que perguntou todo o resto. – os olhos de Carmine arregalaram diante do tom sarcástico. Haven percebeu sua expressão de estranheza e cobriu a boca – Sinto muito. – Não sinta. – ele respondeu – Se quiser me contar a cor dos sapatos, faça isso. Mas se estiver de saco cheio com as minhas perguntas, me mande calar a maldita da minha boca. – Eles eram vermelhos, e não ligo que me faça perguntas. – ela disse – Nem acredito que disse essas coisas para você. Ele sorriu. – É o remédio. É por causa dele que na última meia hora você está tirando sarro da minha cara, se soltando e falando à vontade. – Então quando o efeito passar eu vou ficar com dor e envergonhada? E até mesmo em apuros? – Não há razão pra ficar constrangida. – ele disse – E nada irá superar o fato de você ter pulado pela janela do meu quarto, então não acho que deva se preocupar em ficar em apuros por causa do que disse. Ela começou a mexer nas unhas e perguntou: – Eu te coloquei numa enrascada também? – Nada além daquelas em que eu já me meto diariamente. – ele descontraiu – Só que ele veio aqui no meio da noite e pregou a janela, portanto, não temos mais como escapar pela árvore… Pelo menos até eu conseguir destravá-la de novo. – Entrei em pânico. – ela disse – Pensei que ele fosse me matar. – Ele não o faria… – Ele não a mataria? Carmine não estava tão certo de que acreditava em suas próprias palavras – Mas por que pensou que ele fosse fazê-lo? – Ele disse a mesma frase que meu mestre usou quando eu o vi matar uma menina. Carmine não sabia o que esperar em resposta, mas certamente aquilo o chocou. – Você viu uma garota morrer? Isso foi o pior que já viu na sua vida? – Talvez. Eu já vi muita coisa. – Do tipo? Ela desviou os olhos. – Como minha mãe sendo estuprada. Apesar do efeito que aquelas palavras provocaram nele, Carmine estava satisfeito com o que quer que a empresa farmacêutica tivesse usado naquele medicamento. O comprimido fez com que ela se abrisse. – Isso jamais acontecerá com você. Sabe disso, não é? Ela balançou a cabeça, mas não pareceu estar convencida. – Olha, o sexo pode ser ótimo quando os dois querem praticar, mas nunca tocaria numa mulher a


menos que ela quisesse. Ninguém aqui faria isso. Isso é errado. – Você ama as mulheres em que toca? – Não – ele se sentiu mal em admitir. – Já se apaixonou? Ele a encarou, sem saber ao certo o que dizer. – Não sei. Ainda estou tentando entender o que é o amor. – Eu também – ela disse –, é tão confuso. Ele torceu o lábio ao pensar sobre aquilo. Será que ela estaria sentindo o mesmo que ele? Ele não podia perguntar isso. Mesmo que dissesse que sim, não ficaria claro se a afirmação não teria sido por causa da droga. Deitando-se na cama, Carmine olhava para o teto, quando Haven perguntou, com as palavras escorregando de sua boca pela exaustão em que se encontrava: – Carmine? Qual a pior coisa que você viu na vida? Ele ponderou um pouco antes de responder. Aquela história ele jamais contara a ninguém. Sua família sabia os detalhes técnicos, a merda que saiu nos jornais, mas ele nunca falou sobre o que acontecera. Poderia compartilhar com ela? Ele olhou para a jovem e sorriu ao perceber que os olhos dela estavam fechados e seus lábios semiabertos. Ela caíra no sono. Ele teria contado a história, percebeu. Teria lhe dito qualquer coisa.

Quando Haven acordou, sentiu dores até em músculos que desconhecia possuir. O perfume intoxicante de colônia invadia seus pulmões, pegando de assalto cada célula viva de seu corpo. Foi então que ela respirou fundo. Aquilo a lembrava do cheiro que costumava sentir em Blackburn, quando se aproximava uma tempestade que duraria dois dias. Haven se sentou. Ela precisava clarear os pensamentos e esticou as costas. Nesse momento, Carmine pegou um frasco de Tylenol, sentou-se ao seu lado e lhe deu as pílulas antes de esticar a mão e agarrar um vasilhame de água pela metade que estava em sua mesa de cabeceira. – Juro que não tenho nenhuma doença. Ela pegou a garrafa de sua mão e bebeu o resto da água, devolvendo em seguida para ele. Ele pegou o vasilhame e, dando de ombros, o atirou sobre a pilha de roupas sujas. De algum modo o quarto estava ainda mais bagunçado que da última vez que o vira. – Eu poderia limpar seu quarto pra você. – Não a forçarei a fazer isso. – Eu sei, mas você foi tão bom comigo. Gostaria de retribuir. Ele ergueu uma sobrancelha e disse: – Certo. Mas não fale isso em voz alta, pois poderia arruinar minha reputação. É, talvez eu lhe peça ajuda com o meu quarto algum dia, mas não hoje. – Algum dia, então. Ambos ficaram num silêncio desconcertante. Haven tentou pensar em algo para dizer e aliviar o peso que pairava no ambiente, mas os olhos dele a encaravam, não deixando que se concentrasse em outra coisa que não fosse seu olhar. Haven então voltou a olhar para o quarto, sentindo a necessidade de interromper aquela situação. – Preciso tentar me levantar logo. Quanto mais ficar deitada, mais difícil será quando tiver de me levantar. Carmine a ajudou a ficar de pé. Colocar o peso sobre as pernas não foi fácil. Ele segurou seu


braço o caminho todo pelas escadas, soltando-a de um modo hesitante quando chegaram à sala de estar. Ambos se sentaram tranquilamente no sofá enquanto a noite caía. Carmine pegou o controle remoto e ligou a TV, mudando de canal sempre que surgiam os comerciais. Pouco depois das sete, ele finalmente se decidiu por um episódio do programa Jeopardy! “Esse prato popular consiste de tiras largas de massa, intercaladas com queijo e carne moída, ao molho de tomate”. – Lasanha! – Haven e Carmine responderam ao mesmo tempo. Ela sorriu e perguntou: – Que programa é esse? – É um programa de perguntas e respostas sobre temas idiotas – explicou, completando –, como as coisas que aprendemos na escola. Ela se virou para a televisão e permaneceu atenta a tudo que foi dito até o final. Quando o show terminou, ela se virou para Carmine. Ele parecia entediado, com a cabeça apoiada sobre a mão, no braço do sofá. Então, ele novamente mudou de canal. – Obrigada – ela disse –, gostei muito daquele programa. – Passa todas as noites no mesmo horário. – ele disse – Sabe… Caso você queira assistir novamente.

A porta da frente se abriu alguns minutos depois e Haven ficou nervosa ao ouvir os passos. Ela podia sentir que Carmine estava olhando intensamente para ela, mas não conseguiu retribuir o olhar. Não queria ver sua expressão; sua pena. Ele a tratara de igual para igual, e ela não queria se sentir novamente menos que o rapaz. O doutor DeMarco entrou na sala trazendo consigo uma tensão desconfortável. Haven tentou controlar um surto de ansiedade, concentrando-se numa mancha no chão. – Poderia ir para seu quarto, Carmine? – pediu DeMarco – Gostaria de conversar com ela a sós. O coração de Haven disparou e ela voltou a cutucar as unhas, tentando manter a compostura enquanto Carmine deixava o local. O doutor DeMarco se abaixou diante dela, bloqueando o ponto para o qual ela estava olhando, então, sem desviar a cabeça, ela fixou os olhos na camisa dele. Ele ergueu a mão e, nesse momento, Haven se contraiu tentando se proteger o máximo possível, cruzando os braços e se mantendo o mais distante possível. A sensação de constrangimento continuou e Haven mordeu o lábio inferior para se controlar. – Você deveria descansar suas pernas por alguns dias. – ele enfim disse, colocando as mãos sobre os joelhos dela e pressionando-os levemente. Ela sentiu dor e voltou a se contrair. – Estou bem, senhor. – Você sofre de bursite. É quando as pequenas bolsas serosas sobre as rótulas se inflamam. É preciso que você descanse e coloque gelo sobre os joelhos para que o inchaço desapareça. Ele então soltou os joelhos da jovem, mas permaneceu agachado. – Ouça. – ele disse com a voz mais suave – Sabe o que é um chip GPS? Ela balançou negativamente a cabeça. – É um dispositivo de rastreamento, às vezes tão pequeno quanto um grão de arroz. Meu carro tem um. Se alguém roubá-lo, poderei encontrá-lo rapidamente. É uma medida de segurança para que ninguém tire de mim aquilo que me pertence. – ele pausou – Você não é diferente, criança. Há um chip instalado em você.


Ao ouvir aquelas palavras Haven o encarou. Havia simpatia em seus olhos, o que a deixou ainda mais enojada. – Eu instalei um em você no primeiro dia em que veio para essa casa. Portanto, não importa o que aconteça, eu sempre a encontrarei. Foi assim que eu soube exatamente onde estava ontem. Ela não conseguia falar. Temia que se abrisse a boca perderia o controle. Ela nunca reagira desse modo com o mestre Michael. Ela suportara anos de abuso e poderia ter aguentado ainda mais. Talvez ferida, mas forte. Porém, em apenas um segundo e sem levantar a mão ou o tom de voz, DeMarco havia estilhaçado algo dentro dela.


Capítulo 10

Agora era outono na cidade de Durante. O belo verde que tomava conta da região foi aos poucos desbotando e sendo substituído por tons ricos e quentes que recobriam o solo entre os pinheiros. Havia montanhas de folhas secas no chão. Era como um enorme tapete estaladiço. Com o outono veio também o festival mais popular da cidade, o Homecoming, uma grande festa para reunir todos os alunos da escola e elevar o espírito de todos com um desfile e um jogo de futebol. A semana era repleta de atividades que culminavam em um baile. Carmine deveria estar entusiasmado, mas, dessa vez, estava com medo da aproximação da data. Haven se tornara fria com ele novamente, escondendo-se sempre que estava em casa. Ele a ouvia chorar à noite enquanto ficava sentado na biblioteca, passando o tempo tocando seu violão. Ele queria poder ir até ela e consolá-la, mas não sabia o que lhe dizer. Sinto muito que esteja aqui? Sinto muito por estar presa nessa casa? Peço desculpas pelo fato de o meu pai ser um filho da puta? Como ele poderia explicar aquilo, ajeitar aquela situação, quando nada parecia fazer sentido nem para ele próprio?

Eram quase seis da tarde quando Haven abriu a porta e deu de encontro com o doutor DeMarco. Ele estava parado no hall e pronto para bater à sua porta; ela recuou quando ele abaixou a mão. – Posso entrar? Ela assentiu, confusa pelo fato de ele lhe pedir permissão para entrar em um cômodo de sua própria casa. Ele entrou de modo casual, como se estivesse ali para uma conversa normal. Olhou para os lados e então se dirigiu a ela: – Como estão seus joelhos? – Estão bem. – ela respondeu em voz baixa. – Acha que está em condições de fazer um passeio? Aquela pergunta a deixou alarmada. Uma voz em sua mente gritava: isso é um truque! – Somente se você disser, senhor. – ela disse, sem fixar os olhos. DeMarco aproximou-se dela, fazendo-a contrair o corpo. Seu coração batia acelerado e ela cruzou os braços imaginando que levaria um tapa. Porém, ele não a tocou. Um suspiro frustrado escapou de seus lábios, ao se virar e pinçar o alto do nariz com os dedos, franzindo a testa. – Nós vamos ao jogo de futebol de Carmine. Vista algo apresentável. Ela ficou ali parada, sem a menor ideia do que ele quisera dizer com “apresentável”. Ela então vestiu calças cáqui e um suéter. Escovou os cabelos encaracolados, mas nada era capaz de deixá-los menos volumosos. Ela então fez um rabo de cavalo e enfiou os pés num par de sapatos, pronta para descer as escadas. DeMarco a aguardava no hall com as mãos enfiadas nos bolsos, balançando o corpo para frente e para trás. Percebendo sua aproximação ele a olhou da cabeça aos pés. Ela esperou por sua avaliação, mas ele não disse nada, apenas pegou as chaves e abriu a porta. Haven aguardou por ele na varanda até que trancasse a casa. Em seguida, ele a levou até o banco do passageiro. O estacionamento do Colégio Durante estava lotado quando eles chegaram. Havia carros parados na rua e até mesmo no campo ao lado da escola. Haven os observou com admiração, enquanto


DeMarco estacionava sobre a grama. – Agi de uma maneira inadequada. – ele disse – Mantive-a dentro de casa até achar que estivesse pronta para se comportar bem em público, mas você nunca conseguirá isso se eu não permitir que tenha contato com pessoas. Então, estou lhe dando uma chance e espero que você se comporte bem. – Sim, senhor. Seus joelhos tremiam ao caminharem até o estádio. As pessoas os cercavam por todos os lados, empurrando e bloqueando a passagem. DeMarco caminhou tranquilamente por entre a multidão. Ela vinha atrás dele e sentia-se como se estivesse se afogando. Aquela multidão a cercou completamente. Era como se aquelas vozes e pessoas a engolissem. DeMarco a ignorou enquanto seguiam para as arquibancadas lotadas. Havia uma voz nos autofalantes durante a apresentação de uma banda, e as líderes de torcida cantavam algo que Haven não compreendia por causa do barulho da multidão. Ela tampou os ouvidos até que todos se sentassem, apenas retirando as mãos quando tudo já estava mais calmo. Um riso familiar fez com que Haven olhasse para um lado. Era Dominic, caminhando na direção deles com o braço ao redor de uma jovem, e Dia os seguindo, com um olhar invejoso. Dominic se sentou na frente deles e apresentou Haven à namorada dele. Tess observou Haven por um momento, com um olhar intenso, mas não disse uma única palavra ao se sentar ao lado do namorado. Dia, por sua vez, dirigiu-se até a frente de Haven e DeMarco. Aquilo assustou a jovem, mas o médico simplesmente se levantou e sentou no próximo lugar que estava vago. Haven se voltou para o jogo, tentando ignorar as pessoas ao seu redor. Ela olhou para o campo em silêncio quando viu um jogador ser atingido nas costas. Ela se contraiu. – Nossa, parece que o número três foi atingido. – ela disse – Espero que ele esteja bem. – Ele está bem – disse Dominic –, Carmine é durão. Seus olhos se voltaram mais uma vez para o campo. Carmine? Ele se levantou e flexionou os dedos. O número três de sua camiseta estava agora sujo de grama e terra. A jovem ficou com a boca seca ao ver aquilo. Então era aquilo que o grande número preto significava. – Você não entende nada de futebol, não é? – perguntou Dominic, virando-se para ela – Não, posso ver pela sua cara. – Não… – ela respondeu com um sorriso envergonhado. Dominic ainda estava tentando explicar o básico sobre o jogo, embora ela não estivesse entendendo praticamente nada, quando Carmine tirou o capacete. A pele dele brilhava de suor sob a luz do estádio. Quando ela o viu sua respiração ficou ofegante. Carmine se virou para as arquibancadas e seus olhos se voltaram na direção deles. Haven poderia jurar que ele a encarou por um segundo a mais que os outros.

O resto do jogo transcorreu normalmente, mas a energia do estádio deixou Haven um pouco tensa. De vez em quando alguém se aproximava de DeMarco, mas ninguém lhe perguntava quem ela era. Ela podia perceber nos olhos das pessoas, em suas expressões, todos a observando de longe, tentando compreender sua presença. Quando soou o apito final, a multidão foi em direção ao campo. Com passos inseguros, Haven seguiu DeMarco até o alambrado. Ele então parou e disse – Não saia daqui. Lembre-se do que lhe disse. A voz em sua cabeça lhe dizia: Ele está te testando!


Alguém se aproximou dela enquanto ela estava ali parada. A voz não lhe parecia familiar e o sotaque era difícil e arrastado como nada que escutara até então: – Está perdida? Haven se virou para o rapaz, cuja pele era bronzeada, os cabelos, loiros e meio escondidos sob o boné de beisebol. Ele usava shorts com grandes bolsos e uma camiseta azul. Haven imediatamente se concentrou em seus pés quase nus e sorriu. Ele estava usando chinelos de dedo. Seus próprios pés estavam doloridos. Ela daria qualquer coisa por um par de chinelos. – Não, não estou perdida. – respondeu educadamente – Só estou esperando alguém. – Sou Nicholas. – Haven. – Então me diga, Haven. Como se chama um cachorro conduzindo um ônibus? – Como? – Cãodutor. – Nicholas sorriu – Entendeu? Condutor… cãodutor. Ela sorriu quando percebeu que era uma piada. – Ah, um sorriso! – ele disse, brincando e apertando seu braço. O sorriso de Haven desapareceu no momento em que ele a tocou, mas ele pareceu não ter percebido.

Um ódio mortal tomou conta de Carmine. Ele estava procurando por Haven em meio à multidão, mas seus olhos, em vez disso, se concentraram em Nicholas Barlow. De maneira quase automática, ele seguiu na direção dos dois, soltando o capacete no meio do campo e correndo o mais rápido que conseguia. Alguém gritava atrás dele, mas ele não diminuiu o ritmo. Ele não podia. Carmine saltou sobre o alambrado e caiu de pé do outro lado no momento em que Nicholas e Haven perceberam toda a comoção. Haven estava confusa, já Nicholas estreitou os olhos. Carmine odiava e desprezava aquele garoto; o mesmo poderia ser dito sobre Nicholas em relação a Carmine. Nicholas deu alguns passos para trás, mas já era tarde demais. Carmine se aproximou e o atirou no solo, colocando seu joelho sobre a virilha do rapaz e se preparando para lhe dar um soco, mas alguém o segurou pela camisa antes que ele pudesse fazê-lo e o ergueu colocando-o de pé. Vincent se colocou entre ambos, empurrando seu filho para longe. Nicholas parecia chocado no momento em que se levantou, hesitando por um momento antes de sair correndo. Carmine teria rido de sua covardia, não fosse pelo olhar de seu pai. – Você sabe o que tive de fazer para te tirar da encrenca em que se meteu no ano passado? – perguntou Vincent, soltando fumaça – Não farei novamente! Seu pai saiu dali rapidamente, pegando Haven pelo pulso e puxando-a na frente dele. Lágrimas escorreram pela sua face à medida que eles desapareciam em meio à multidão. Carmine se arrependeu do que fizera: ele havia estragado tudo mais uma vez.

A Homecoming do ano anterior fora bem diferente. Sendo um aluno do segundo ano, Carmine era apenas um espectador do jogo. Estava nas arquibancadas, cercado por colegas e ao lado de seu melhor amigo, Nicholas Barlow. Melhor amigo. Aquelas palavras soavam venenosas para Carmine agora. Embora as circunstâncias fossem diferentes esse ano, Carmine tinha toda a intenção de terminar


aquela noite exatamente como no passado: em sérios apuros. Só que dessa vez ele estaria sozinho. As pessoas já preparavam a festa pós-jogo quando Carmine entrou na pequena casa, onde dezenas de pessoas disputavam espaço. Ele passou pela multidão, pegou vodca na cozinha e então seguiu pelo corredor até o porão. O lugar estava escuro, exceto por uma luz fraca num canto. Uma música suave estava tocando no aparelho de som. Todos o olharam quando entrou no recinto e um rapaz chamado Max acenou com a cabeça, cumprimentando-o. – Tem pó aí? – Carmine perguntou, sentando-se no sofá. Depois da semana infernal que tivera, certamente precisava de algo que o fizesse se sentir melhor. Max saiu da sala e retornou alguns minutos depois com um pequeno saquinho contendo cocaína. Carmine colocou parte do pó sobre a mesa, o suficiente para duas carreiras, então inspirou uma delas no ato, ficando com o nariz adormecido e o batimento cardíaco acelerado. Depois de inalar a segunda carreira, ele fechou os olhos e se recostou no sofá. Uma sensação de euforia tomou conta de seu corpo, ao mesmo tempo que o calor irradiava do seu peito em direção aos membros. Ele se sentiu leve, invencível e desencanado. Pouco tempo depois, Lisa chegou e sentou em seu colo. Carmine sentiu um pico de euforia. – Se quer se sentar sobre mim é melhor tirar a roupa antes. Ele então a empurrou para o lado e estendeu duas outras carreiras e as cheirou, desesperado para repetir a sensação. Depois de passar a mão sobre o nariz cheio de pó, ele despejou o restante da droga sobre a mesa e ofereceu a Lisa, que o inalou na mesma hora. – Eu te trouxe uma gravata. – ela disse, acomodando-se no sofá ao lado dele – Combina com o meu vestido. – Uma gravata? – Sim, para o baile. O baile. Carmine sequer se lembrava de tê-la convidado para ir com ele. – E qual é a cor da tal gravata? – Fandango. Ele olhou para ela. – E o que diabos quer dizer fandango? – É como fúcsia, mas um pouco mais escuro. – Então é roxo ou algo assim? – É, mais ou menos isso. Ele deu de ombros e desviou o olhar. Ele não se importava com a cor, desde que não fosse rosa. A noite foi regada a álcool e drogas e se desenrolou como um filme em rotação acelerada, cujo ritmo não podia ser reduzido. Ele bebeu, fumou e cheirou, então tomou algumas pílulas antes de recomeçar tudo de novo. Esse ciclo continuou até que finalmente ele desmaiou no lugar onde estava.

Na manhã seguinte, Carmine sentiu a pior ressaca de sua vida. Sua cabeça doía tanto que os olhos pulsavam. Sentindo-se tonto, cerrou os olhos diante da forte luz do sol. Na mesma hora, colocou seus óculos escuros e pulou no carro. No momento em que estacionou diante de sua casa, sentiu algo quente escorrendo do nariz. Ao olhar para o espelho do quebra-sol, percebeu que era sangue. Ele então tirou a camisa e a segurou contra o nariz para estancar o sangramento. Ao entrar no hall deu de cara com seu pai, que trazia consigo uma mala de tecido preto.


– Vai viajar? – perguntou Carmine, tentando seguir rumo à escada, mas sendo impedido por Vincent, que parou à sua frente. – Para Chicago. – respondeu, retirando a mão de Carmine do rosto para avaliar o sangramento – Se continuar cheirando essa porcaria, vai danificar seu septo. Carmine se afastou dele e perguntou. – Como sabe que não levei um soco? – Porque se alguém o tivesse socado você com certeza teria quebrado o nariz dessa pessoa. – Vincent rebateu, caminhando em direção à porta – Largue a cocaína ou essa droga acabará te matando.

Carmine caiu no sono assim que se deitou, mas não teve muito tempo para descansar. Foi acordado por uma batida na porta. Ele saiu da cama resmungando e ainda com os olhos meio fechados. Era Dominic, trazendo um pacote pequeno. – Sua namorada está te esperando. Merda. Ele havia se esquecido completamente do baile. Carmine tomou um banho para tentar despertar. Vestiu terno e sapatos pretos antes de pegar o embrulho e abri-lo. Dentro havia uma gravata pink. Fandango o cacete, né? Sem ter a opção de recusar, ele a colocou no pescoço. Em seguida, abriu a gaveta da cômoda, encheu um pequeno frasco com vodca e o enfiou no bolso. Ele saiu do quarto e deu de cara com Haven, no topo da escada. Carmine tentou pensar em algo significativo para dizer, algo capaz de consertar a situação. – Essa gravata me faz parecer um “veado”, não é? Isso não era muito significativo. Haven caiu na gargalhada. – Aqueles bichos que têm chifres que parecem galhos? Ele balançou negativamente a cabeça no momento em que ela correu para o quarto dela. Era óbvio que ela não havia entendido o que ele quisera dizer… Ou será que havia?

Logo que chegaram à escol, Lisa foi ao encontro dos amigos. Carmine se manteve ao seu lado, bebendo sem parar. Eles dançaram um pouco e, no momento em que seu frasco ficou vazio, ele já estava bêbado e pronto para ir embora. Lisa sorriu de um jeito sedutor e ambos seguiram para a casa dela. Os pais da jovem haviam viajado naquele final de semana. Lisa foi até o armário de bebidas, pegou uma garrafa de uísque e entregou a ele. Ela então o levou para seu quarto, onde ele bebeu ainda mais. Lisa beijou seu pescoço e tirou a garrafa de suas mãos, antes de empurrá-lo para a cama. Ele se deitou, permitiu que a jovem o despisse e então observou enquanto ela tirava o vestido. Em seguida, Lisa se arrastou sobre a cama, sentou-se nua sobre ele e se inclinou para beijá-lo. Ele, entretanto, desviou a cabeça para o lado e murmurou: – Não estou assim tão bêbado. O fato é que o toque da moça lhe pareceu desconfortável; talvez íntimo demais. Ela se movia de um jeito lento e gentil, mas nada daquilo parecia estar correto; o corpo dela não estava certo. De olhos fechados, Carmine ainda tentou relaxar e curtir o momento. Ele havia se comprometido e usado uma gravata rosa, agora, seu corpo rejeitava uma transa garantida. Ele já não conseguia reconhecer a si mesmo. Isso o deixou confuso.


No momento em que aquele pensamento surgiu em sua mente, não conseguiu se controlar e caiu na gargalhada. Atônita diante da situação, a jovem se afastou. – Mas o que há de errado com você, Carmine? Está maluco? – É, eu sei – ele ficou de pé e pegou suas roupas –, devo estar ficando maluco mesmo. Ela o encarou sem acreditar. – Espere, você está indo embora? Por quê? – Eu não te amo. – ele disse, seguindo em direção à porta – Eu nunca vou te amar, Lisa.

Com suas torres pontudas e a fachada de tijolos escuros, a igreja católica de Saint Mary parecia um castelo medieval em pleno coração de Chicago. O gramado que a circundava estava seco, o piso da calçada todo trincado, mas a igreja ainda se mostrava imaculada. Arcos enormes e paredes com detalhes dourados davam um toque especial à decoração em madeira. O piso interno de mármore na cor marfim brilhava sob a luz que invadia o local pelos vitrais. Quando Vincent ainda era criança, cada vez que entrava naquele local sentia como se estivesse num baú de tesouros. Ele frequentava as missas todos os domingos, impreterivelmente, o que, na época, o fazia acreditar que pertencia àquela comunidade religiosa. Agora, entretanto, quando caminhava por entre os bancos vazios daquele local sagrado, sentia-se como um peixe fora d’água. Seus passos ecoaram no recinto e alertaram o padre Alberto de sua chegada. Ele estava sentado no confessionário, e Vincent foi direto para lá, sentando-se do lado externo. Ele afastou a cortina que os separava, sabendo que não fazia sentido esconder-se do padre. Afinal, ele logo saberia de quem se tratava – ele sempre sabia. – Abençoe-me, padre, pois eu pequei. Já se passaram três meses desde minha última confissão. Antes de dizer qualquer coisa, o padre fez o sinal da cruz. Apesar de já viver há décadas na América, seu sotaque siciliano ainda era bem forte. – E quais foram seus pecados, meu filho? Desde sua última visita Vincent havia mentido, roubado e sido cúmplice em um assassinato, tudo em nome da famiglia. Entretanto, havia um pecado que pesava mais em sua mente. – Machuquei alguém, padre… uma jovem. – Você teve a intenção de ferir essa jovem? Ele hesitou antes de responder. – Sim, eu tive. – Sente-se arrependido? Mais uma pausa. – Sim, estou arrependido. – E disse isso a ela? Frustrado, ele passou as mãos sobre o rosto e respondeu. – Não. O padre Alberto ficou em silêncio por um instante, então perguntou. – Foi ela quem você machucou? Vincent não precisou responder. Ambos sabiam a resposta… E os dois estavam cientes de que aquela não fora a primeira vez. – Eu estava furioso. – disse Vincent – A dor daquela manhã foi a pior que senti em anos. Eu queria que outra pessoa sofresse pelo menos uma vez. Queria que alguém sentisse o que eu senti. Tinha que tirar aquilo de dentro de mim antes que explodisse. Precisava me sentir melhor.


– E se sentiu melhor? – Não. – respondeu – Ainda estou furioso. Tão furioso, padre, mas, acima de tudo, estou tão envergonhado. Não quero mais me sentir desse modo, mas não consigo deixar para trás. – Ah, mas eu acho que você consegue. – disse padre Alberto – Não julgueis, e não sereis julgados. Não condeneis, e não sereis condenados. Perdoai, e sereis perdoados. – Lucas 6:37. – Vincent reconheceu os versículos da Bíblia – Mas e se eu não conseguir parar? E se não conseguir deixar para trás? E se não for capaz de perdoar? – Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai não perdoará as vossas ofensas. – Mateus, 6:15. Padre Alberto sorriu. – Seu ódio é veneno, Vincenzo. Ele o consome de dentro para fora. É preciso encontrar o perdão em seu coração para esquecer. Então, e somente então, você será perdoado.


Capítulo 11

Haven olhava para o despertador quando os números indicavam que já havia passado da meianoite. Por vários dias suas noites de sono foram interrompidas por pesadelos, e a simples ideia de fechar os olhos a aterrorizava. Ela precisava desesperadamente de paz, mas só podia contar com um silêncio ensurdecedor. Não havia música essa noite. Nada para distraí-la. Depois que os rapazes saíram para o baile, Haven passou a noite desenhando e pensando na vida. Mesmo sem querer admitir, ela acabara ficando com ciúmes. Ela gostaria muito de ser uma jovem bonita, dentro de um vestido maravilhoso, e a caminho de um baile com outros adolescentes. Cansada de rolar de um lado para outro, resolveu descer as escadas. Foi até a cozinha para pegar algo para beber, mas congelou ao ver que havia alguém ali. Carmine estava sentado sobre o balcão, ao lado da geladeira, com os ombros curvados para frente e uma garrafa de vodca nas mãos. Seus olhares se cruzaram e, mesmo a distância, ela pôde ver a paixão dentro dos olhos dele. Uma grande alma se escondia por debaixo daquele exterior hostil. – Não queria interromper. – ela disse. – Você não está interrompendo, Haven. Não estou fazendo nada de especial, só sentado aqui, tentando ficar bêbado e entrar em coma. – o tom de sua voz a deixou assustada. Ela considerou a ideia de ir embora, mas ele continuou a falar – Eu falei como um idiota, não é? Sem responder à pergunta, ela passou por ele a caminho da geladeira, abriu a porta, pegou uma jarra de suco de laranja e a colocou no balcão. Em seguida, se esticou para pegar um copo no armário atrás de Carmine. Ele se virou para ela e, soltando a respiração, disse: – Pegue um pra mim também. Um arrepio tomou conta de seu corpo naquele momento. Sem conseguir olhar para ele, a jovem pegou o segundo copo, encheu os dois de suco e guardou a jarra na geladeira. O comportamento de Carmine a deixava confusa, mas uma parte ingênua de seu coração apreciava a companhia dele. Além disso, agora que ele estava lá ela tinha alguma distração. Talvez ela até pudesse escutá-lo tocar violão. Ele tomou mais um gole da vodca e soltou um gemido ao afastar a garrafa dos lábios. – Urgh, já chega. – disse, com a voz rouca. Em seguida colocou um pouco da bebida em seu suco e hesitou antes de fazer o mesmo no dela – Não gosto de beber sozinho. Sozinho. Haven sabia como era se sentir só. Ela cheirou a bebida, franzindo o nariz. – O que é isso? – Por que me pergunta? Você sabe ler… Leia a porra da garrafa. – os olhos dela se arregalaram e ele soltou um grunhido – Cacete, fui grosseiro com você de novo. Não foi minha intenção. Irritada, ela virou o copo. Ainda tinha gosto de suco de laranja, mas o sabor amargo no final queimou sua garganta. Carmine a encarou no momento em que ela colocou o copo vazio sobre o balcão. – La mia grande bella ragazza… – ele disse, rindo antes de virar o copo – Você tem potencial, tesoro. Ela sorriu.


– Obrigada, eu acho. – Isso foi um elogio – ele disse –, e receberá outros se fizer isso de novo. Ele saltou do balcão, pegou o suco na geladeira e serviu duas outras doses, acrescentando vodca nos dois copos. Haven respirou fundo, pegou o dela e o levou à boca. A bebida estava bem mais forte dessa segunda vez e a sensação de queimação foi ainda mais profunda. Ela não conseguiu tomar tudo e já começou a tossir. – Meu Deus, isso está muito forte. – É, dessa vez eu caprichei. – ele replicou – Não entorne outra vez, do contrário vai acabar desmaiando e, neste momento, eu estou precisando de companhia. Ele ergueu a garrafa. – E isso aqui é vodca, caso ainda queira saber.

Ambos subiram as escadas até o terceiro andar e foram para o quarto de Carmine. Ele colocou o copo na escrivaninha e sentou-se. Haven, em contrapartida, hesitou e ficou parada na porta, sem saber o que fazer. – Você pode se sentar onde quiser. – disse, notando seu dilema. Ela se sentou na beirada da cama e, com certa ansiedade, tomou mais um gole de sua bebida. – Então, o que acha de jogarmos alguma coisa? – Carmine sugeriu – Que tal “21 Perguntas”? Ela ficou um pouco tensa. Não tinha ideia do que aquilo significava. Ele reparou em sua expressão assustada e resolveu explicar: – Nós dois nos alternamos em fazer perguntas um ao outro, até chegarmos a vinte e um. A única regra é: não pode mentir. Não importa sobre o que serão as perguntas, só não vale mentir. – Ok – ela respirou fundo –, mas você começa. As mãos dela começaram a tremer quando Carmine a olhou do canto do quarto. Ele deu um suspiro e se levantou, pegando o copo dela e o colocando sobre a escrivaninha. Depois de puxar a chave do bolso ele destrancou a gaveta. – O que pensa sobre drogas? Ah, mas isso não conta como uma pergunta. Só quero saber antes de agir. – Bem, não sei muito sobre elas. Ele pegou o que parecia um cigarro e o acendeu. Imediatamente o quarto foi inundado com um cheiro forte. Ele levou o cigarro até os lábios e inalou profundamente enquanto se agachava à frente dela. – Isso a deixará relaxada, ok? Ela acenou com a cabeça, petrificada pela proximidade do jovem. – Vou facilitar as coisas pra você – ele disse –, apenas inspire e segure o mais que puder. Então ele repetiu o movimento com o cigarro e se inclinou na direção dela. O coração de Haven disparou no momento em que ele pendeu a cabeça para um lado, parando com os lábios a apenas alguns centímetros dos dela e exalou a fumaça de seus pulmões, que imediatamente se infiltrou nos dela. Haven fechou os olhos diante daquela nuvem e só soltou a respiração quando precisou de ar. Exalando lentamente ela abriu os olhos e encontrou Carmine no mesmo lugar; a expressão dela parecia mais ardente que a própria fumaça. – Pergunta número um: Como você aprendeu a ler se não tinha permissão para ter livros? Ela ficou vermelha. – Peguei um livro que pertencia ao meu primeiro mestre.


– Isso a deixa embaraçada? – Acabei de confessar que roubei algo. Ele se sentou novamente. – Ah, tudo bem, você vive na casa de um criminoso profissional. Roubo não nos deixa intimidados. – Você é um criminoso profissional? Ele a olhou, confuso. – Não, eu estava me referindo ao meu pai. Ao que ele faz em Chicago. – ela não sabia e ele logo percebeu isso – Merda, eu já sei… mas isso não importa. Pergunte outra coisa. Ainda confusa, ela pensou em algo diferente. – Como conseguiu essa cicatriz no rosto? – Jesus, você não vai aliviar pra mim, não é? – ele passou a mão nos cabelos – Ganhei essa cicatriz quanto tinha oito anos, uma bala me acertou de raspão. Haven havia pensado em algo como uma queda ou um acidente qualquer, mas nunca imaginaria que ele fosse dizer que levara um tiro. – Como já te disse, somos mais parecidos do que você imagina. – ele continuou – Também sangrei por causa de merdas que não tinham nada a ver comigo. Será que eles poderiam mesmo ter algo em comum? – Por que atiraram em você? Ele balançou negativamente a cabeça. – Não, é minha vez. Você tem algum talento secreto? – Bem, eu gosto de desenhar, mas não sei se isso é um talento. – Você pode desenhar algo pra mim? Ela sorriu. – Você já fez sua pergunta. Ele acenou com a mão. – Tá legal, sua vez. – Por que atiraram em você? – Não posso responder porque realmente não sei. – disse – Pergunte outra coisa. Ela hesitou. – Bem, então, por que você atacou aquele rapaz no jogo? – Porque o Nicholas mereceu. Mas derrubar ele não foi nada perto do que aconteceu da última vez que nos vimos. – ele murmurou para si mesmo antes de prosseguir – Então, vai desenhar algo para mim? – Talvez um dia. – Algum dia? O que algum dia significa? – Eu desenharei pra você no mesmo dia em que me permitir limpar seu quarto. – respondeu. Ele abriu a boca como se fosse argumentar, mas ela o interrompeu com a próxima pergunta – O que fez com Nicholas antes que foi assim tão ruim? – Atirei no carro dele. O tanque de gasolina pegou fogo. Me acusaram de tentar matar, mas… honestamente, não estava tentando matar ele. Ah, que se dane! Haven ficou chocada ao saber que Carmine fora tão violento com um jovem que lhe parecera tão gentil. – O que ele te perguntou que a fez sorrir? – perguntou Carmine. – Ele me contou uma piada sobre um cachorro. Ele revirou os olhos. – Isso não conta como minha pergunta. Você já foi beijada? Ela fez um movimento lento e negativo com a cabeça, sentindo-se constrangida.


– Isso provavelmente me faz passar como imatura… – De jeito nenhum. Eu não devia ter lhe perguntado isso. – ele disse, demonstrando nervosismo e mudando de posição na cadeira – Bem, tecnicamente eu também nunca beijei ninguém. Afinal, nunca beijei os lábios de uma mulher. – ele parou novamente – E isso provavelmente me faz parecer um babaca; como alguém que só quer mesmo fazer sexo, sem jamais beijar uma garota. – E com quantas garotas você já ficou? Ele abaixou a cabeça diante da pergunta. – Sei lá, umas dezoito; talvez duas ou três mais que isso, quem sabe? – Então são vinte ou vinte e uma? Ele olhou para ela. – Ei, você é boa de matemática. E eu sei que esse número é bem alto. Ele pareceu triste diante da própria resposta, e ela não conseguiu evitar a impressão de que talvez ele tivesse se arrependido de algumas delas. Ela sorriu, tentando demonstrar confiança, mas ele apenas rosnou. – Outro assunto. Pergunta número… seja lá qual for o número da próxima. Quando você ficou mais apavorada na vida? – Acho que foi no quarto do seu pai. Carmine acenou como se esperasse por aquela resposta e se virou para pegar sua bebida. – Sua vez. – Onde está sua mãe? Ela perguntou de repente, logo encobrindo a boca com a mão ao perceber que Carmine parou com o copo no meio do caminho. – Chicago. – ele disse, colocando o copo de volta sem beber. Então, ele se virou para ela e a surpreendeu com a falta de qualquer expressão no rosto. – Chicago? – Bem, na verdade o nome do lugar é Hillside; fica a alguns quilômetros de Chicago. – Ah. – Tudo bem – ele disse –, e qual é sua cor favorita? – Verde. – as bochechas dela ficaram rosadas ao responder. Ela se deitou na cama para evitar o olhar dele. A cama se moveu no momento em que ele se sentou ao lado dela. Os olhos de Haven o encararam no momento em que ele se fixou nela. – Sua vez. – E qual é a sua cor favorita? – ela estava embaraçada demais para pensar em outra coisa. – Nesse momento estou meio dividido entre marrom profundo e esse tom de vermelho rosado. Parece com a minha gravata. Ela ficou ainda mais vermelha. Seu coração acelerou e ela sentiu que precisava desviar o olhar. – Minha vez. Por que verde é sua cor favorita? – Não quero responder essa. – Você não pode deixar de responder. – Mas você não respondeu algumas perguntas. – Tudo bem, então outra pergunta. Por que você se sente embaraçada pelo fato de verde ser sua cor favorita? Ele franziu a testa. – Mas eu disse que não queria responder essa pergunta. – Não, você disse que não queria responder “Por que verde é sua cor favorita?” Agora quero saber por que o fato de verde ser a sua cor favorita a deixa sem graça? Duas coisas completamente


diferentes. Ele foi incisivo, como se aquilo tudo fosse muito simples. – Acho que você está trapaceando – ela respondeu –, então também não vou responder essa pergunta. Carmine deu uma gargalhada e reacendeu seu cigarro. Haven ficou surpresa pela calma no rosto dele enquanto tragava. Sua pele se arrepiou ao olhar para o rapaz. Talvez fosse efeito da droga, mas algo a deixava confortável ao lado dele. Ela se sentia segura e, por mais assustadora que aquela situação lhe parecesse, ela apreciava aquela sensação. Nunca em sua vida ela se sentira segura ao lado de ninguém, nem mesmo de sua mãe. Afinal, ela não podia protegê-la. Haven confiava em Carmine, mesmo sabendo que não deveria. Afinal, ele era filho do homem que a controlava. A família dele tinha a vida dela em suas mãos. Eles poderiam matá-la e ela não teria como se defender. Mesmo assim ela acreditava nele, e podia sentir isso em cada partícula de seu corpo, em cada batimento do seu coração. Algo a respeito daquele jovem havia se arraigado sob sua pele. Carmine se inclinou para frente, ficando mais uma vez a apenas alguns centímetros de sua boca. Ela abriu os lábios, inalando tudo o que ele exalava e fechou os olhos enquanto experimentava a sensação. O rosto dele roçou em sua face; fagulhas se espalharam pelo corpo dela. Ela podia sentir o toque de seus pelos faciais arranhando seu rosto enquanto ele inalava profundamente mais uma vez. Ele voltou a soltar a respiração sobre ela e, nesse momento, ela se permitiu imaginar que talvez, apenas talvez, aquela criatura assustadora pudesse estar querendo o mesmo que ela. Ela prendeu a respiração o mais que pôde, sem querer abrir a boca. Porém, a necessidade de oxigênio foi mais forte. Ela exalou o ar no momento em que Carmine se levantou, mas ela manteve os olhos fechados. Ainda não queria encarar a realidade. Carmine saiu do quarto. Ele precisava colocar algum espaço entre os dois. Ela o havia confundido. De repente tudo estava de cabeça para baixo, o errado parecia correto e tudo ao seu redor se tornara nebuloso. Era difícil para ele admitir que tinha tão pouca experiência quanto ela. Ele podia transar com uma garota sem sentir nada, mas, quando o assunto era amar uma mulher, ele não tinha ideia do que fazer. Amar. Aquela palavra o deixava perplexo. Ele já não estava mais navegando em um mar de luxúria. Aquelas águas eram desconhecidas para ele, e sentia-se como se estivesse se afogando. Carmine acendeu a luz da biblioteca. Piscando algumas vezes, ele olhou para os títulos dos livros nas prateleiras, pegando um deles antes de voltar ao quarto. Haven estava de bruços na cama, com os pés para cima, ao lado dos travesseiros. Ele estampou um sorriso suave e fechou a porta atrás de si, entregando-lhe o livro. – O Jardim Secreto. Achei que gostaria desse. Ela o pegou. – Sobre o que é? Ele ergueu os ombros. – Talvez sobre um jardim? Um segredo? Não sei. Leia e me diga. – Bem. – ela começou, franzindo o cenho enquanto admirava a capa. Ele riu. Um livro era capaz de deixá-la envergonhada. – Olha, você não precisar ler se não quiser. Não vou te pedir pra escrever uma redação. Só achei que isso lhe daria algo para fazer. – Mas eu quero ler! É só que… E se o seu pai descobrir? – Não se preocupe com o meu pai – ele disse –, te darei cobertura. Os olhos dela se encheram de lágrimas no momento em que ela abriu aleatoriamente o livro. – Não sei se consigo ler isso. Há muitas palavras diferentes.


– Eu acho que você consegue. – ele incentivou – Além disso, você agora tem ajuda. – Ajuda? – É. Digo, se não quiser, tudo bem, mas eu ficaria feliz em ajudar. Ela voltou a olhar para o livro. – Então tudo bem. – Tudo bem. Ok, lá vamos nós de novo. Esse “tudo bem” é de “Sim, eu gostaria de ler essa porcaria com você” ou de “Sim, você é maluco se acha que pode me ajudar nisso”? Ela apenas sorriu, praticamente lhe dizendo que era provavelmente uma mistura de ambos. Ele tirou os sapatos e se sentou perto dela, tocando algumas notas em seu violão enquanto ela lia o livro. Aquilo o aqueceu por dentro e, por um momento, sua vida pareceu normal… Ambos eram pessoas normais. Apenas um jovem e uma garota, ambos um pouco ferrados, mas, simplesmente eles próprios. Ele saboreou aquele momento. Mesmo tentando desviar sua atenção para não deixá-la desconfortável, pelo canto dos olhos ele podia ver a concentração de Haven enquanto dizia as palavras em voz alta. – O que é tir… tirân… essa palavra aqui? Ele colocou o violão de lado e seu estômago revirou quando viu a palavra que ela apontava no livro. Carmine apoiou o queixo no ombro dela e explicou. – Tirânico. É como tirano, opressivo, como um mestre. Ela se virou para ele e ambos ficaram tão próximos que as pontinhas dos narizes se tocaram.


Capítulo 12

Haven estava de pé na cozinha, pensativa enquanto preparava biscoitos. Ela levantara uma hora antes, ainda tensa pela noite anterior. Conseguia controlar seu corpo enquanto estava ao lado de Carmine, mas seu coração assumia o controle sobre sua mente, que dizia que era ridículo e perigoso passar o tempo ao lado dele, mas seu coração lhe garantia que estava tudo bem. Ela havia preaquecido o forno e colocado uma assadeira dentro quando ouviu alguém bater à porta. Olhando pela janela, viu um pequeno carro branco na frente da casa. Quem quer que fosse o dono estava batendo novamente, e com mais força dessa vez. Ela não podia abrir a porta. O alarme estava ligado e ela ainda não tinha o código. Sem saber o que fazer, sentiu-se aliviada quando Carmine desceu as escadas. – Quem quer que seja, é melhor ter um mandado de busca. Haven foi até a sala para vê-lo abrir a porta. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, alguém o empurrou e entrou na casa. – Você é um filho da puta! Enquanto Haven ficou assustada, a expressão de Carmine se manteve tranquila. – Lisa. – Como você pôde fazer aquilo comigo ontem à noite? – Lisa berrou, olhando furiosa para ele, fazendo com que Haven se recordasse da gritaria de Katrina com o mestre Michael. Ela ficou imaginando o que Carmine poderia ter feito para provocar tamanha ira, mas ele não parecia disposto a responder. Carmine olhou para a cozinha enquanto Lisa continuava xingando o rapaz, e ele sorriu quando viu Haven assistindo a tudo aquilo. Lisa percebeu a troca de olhares. – É por causa dela, Carmine? Dessa vaca? O sorriso de Carmine desapareceu. – Se você sabe o que é bom pra você, é melhor calar a boca. – Pensei que fosse melhor que isso! Olha pra ela! – Lisa olhou para Haven – Ei, quanto o doutor DeMarco está te pagando para foder o filho dele? Aquelas palavras fizeram Carmine perder a paciência. Ele pegou Lisa pelo braço, abriu a porta da frente com tamanha força que ela bateu com estrondo na parede. Em seguida ele empurrou a moça até o carro. Lisa continuou gritando, se debatendo e tentando atingi-lo, mas Carmine conseguiu se esquivar. Ele também gritou com ela e, embora Haven não pudesse ouvir o que ele dizia, era óbvio que estava furioso. De repente ele deu um soco no capô do carro. O alarme do forno apitou. Os biscoitos estavam prontos. Haven retirou a assadeira e ouviu a porta bater forte novamente, balançando tudo na cozinha. – Você deveria ter atendido e dito que eu não estava em casa. – Eu não podia. Não tenho o código. Ele olhou para ela de um jeito peculiar, roubou um dos biscoitos da assadeira, deu uma mordida e disse: – Coma um biscoito, Haven. Eles estão ótimos.


O doutor DeMarco chegou em casa no momento em que Haven colocava os biscoitos dentro de uma vasilha. Ele caminhou até a cozinha e parou tão perto dela que seu braço encostou no dela. Sua pele ficou arrepiada; sua presença a deixava assustada, mas tentou se controlar. DeMarco roubou um biscoito antes que ela tampasse o recipiente. – Bom dia, dolcezza. – Bom dia, senhor. – ela fez uma pausa antes de perguntar – O que quer dizer essa palavra? – Dolcezza? – ele deu uma mordida e sorriu – Quer dizer “doçura”. Doçura? Em seguida, DeMarco preparou um bule de café, algo que Haven não se atreveu mais a fazer desde aquela manhã horrível, em que tudo dera errado. Ele serviu uma xícara antes de sair da cozinha. Ela então sacudiu a farinha do avental e terminou de limpar tudo antes de seguir para a sala de estar, onde todos já estavam reunidos. Carmine olhou para ela do lugar que ocupava no sofá. – Pai. – ele disse, mantendo os olhos fixos nela – Vou ensinar Haven a ler. Ela ficou assustada. O doutor DeMarco ergueu as sobrancelhas e disse: – Imagino que para ensinar algo a alguém é preciso saber como fazer a tal coisa. Carmine revirou os olhos. – Eu sei ler, pai. – Com certeza, pai. – interferiu Dominic – O senhor não sabia? Carmine leu a primeira página de O Conde de Monte Cristo. – Vaffanculo! – protestou Carmine. O doutor DeMarco suspirou ao voltar sua atenção para Haven. – Sente-se, criança. Ela nunca podia distinguir quando era um convite ou uma ordem, mas considerava mais seguro fazer o que ele dizia. Um pouco tensa, ela se sentou no lugar vazio ao lado de Carmine, colocando as mãos sobre as pernas. Carmine, em contrapartida, pôs os pés casualmente sobre a mesa de centro e se afundou no sofá, como se estivesse entediado. Alguém bateu à porta, mas ninguém se levantou para atender. A pessoa voltou a bater e quando ninguém respondeu, uma voz feminina fez-se ser ouvida do lado de fora: – Ei, ninguém aí pode abrir a porta para mim? Finalmente a porta foi aberta pelo próprio doutor DeMarco e logo uma jovem entrou na sala de estar. Era Tess, que olhou para todos que estavam ali, concentrando-se um segundo a mais em Haven, e apertando-se em seguida no sofá ao lado de Dominic. Haven se voltou para a TV e tentou se concentrar no filme, mas Carmine continuou a escorregar para cada vez mais perto dela. A proximidade dele mexia com ela. – Doc, seu filho te falou que esmurrou o carro de Lisa essa manhã? – Tess perguntou. – Eu dei um murro no carro dela – disse Carmine –, mas só ficou uma marquinha pequena. – Bem, então é melhor arrumar um emprego para pagar pelo conserto dessa marquinha pequena. – disse o doutor DeMarco – Não vou mais pagar suas contas, lembra-se? – Eu não deveria pagar por nada. Ela mereceu, depois de invadir essa casa e começar a me interrogar. Aquelas palavras atraíram a atenção de DeMarco. – E por que ela o interrogou? – Ela quer namorar comigo ou algo assim. DeMarco deu risada. – É isso o que dá sair por aí flertando com garotas. – Qual é, eu não fico flertando com ninguém. Bom, talvez eu até merecesse ser xingado, mas a Haven não precisava ter sido arrastada para a briga.


DeMarco ergueu a sobrancelha. – E como foi que isso aconteceu? Carmine deu de ombros e respondeu. – Lugar errado na hora errada. – Não acho que ela tenha desejado me ofender. – ela disse em voz baixa. – O cacete que não. – replicou Carmine – Lisa sabia exatamente o que estava fazendo. O doutor DeMarco acenou com a cabeça. – Você não deveria ficar na linha de fogo entre Carmine e as puttani que ele arranja por aí. Haven não fazia ideia do que DeMarco queria dizer com aquilo, mas pressentia que fosse algo ruim. – Já sobrevivi a coisas bem piores. O olhar de DeMarco foi intenso. – Sim, é verdade. Todos se voltaram para a TV, mas Haven continuava nervosa em seu lugar. Desconfortável, precisava de uma razão para sair da sala, então se voltou para Carmine. – Você quer algo pra beber? Ele ergueu os ombros. – É, você pode me trazer algo. Ela se levantou e deu alguns passos em direção à cozinha. – O senhor deseja alguma coisa, doutor DeMarco? – Não, obrigado. – Eu gostaria de uma garrafa de água, e obrigada por perguntar. – Tess alfinetou. Haven parou por um momento, com medo de ter cometido um erro, mas o doutor DeMarco aliviou sua preocupação. – Você é perfeitamente capaz de pegar sua própria água, Tess. Não há nada de errado com suas pernas. Haven preparou uma Coca-Cola com cereja para Carmine e pegou uma garrafa de água para si mesma, hesitando antes de pegar a segunda. Em seguida, voltou à sala de estar e entregou a garrafa a Tess, que ergueu as sobrancelhas e pegou o vasilhame sem dizer uma única palavra. Haven se sentou novamente e entregou o refrigerante a Carmine. – Você não precisava ter feito isso. Aliás, você não precisava ter trazido nada. – ele afirmou, levando o copo até a boca e tomando um gole – Mas eu gostei, obrigado. – Não há de quê. – naquele momento, algo lhe chamou a atenção no canto dos olhos: o doutor DeMarco a estava observando novamente. Foi então que o telefone da casa tocou e todos deram um pulo. Haven nunca ouvira o som do aparelho. Seu coração disparou no momento em que o doutor DeMarco se levantou para atender a chamada. Haven percebeu a expressão de surpresa no rosto de Carmine. – É o telefone. – É, eu sei disso, mas de onde ele veio? Ela deu de ombros enquanto DeMarco atendia à ligação. – Residência dos DeMarco… Espere, fale mais devagar… Quantas você disse? – Haven tentou não ficar escutando, mas ele falava em voz alta – E como isso foi possível? – Sério – disse Carmine –, quando foi que adquirimos um telefone? Dominic deu risada. – Há semanas, maninho. DeMarco elevou ainda mais a voz.


– Verifique de novo. Se voltar a se repetir faremos tudo outra vez, mas isso que me disse tem de estar errado. Não há como estar correta essa informação. – E por que ninguém me disse nada? – Carmine perguntou. – A pergunta certa, maninho, é: por que você não reparou? – Não faça nenhum registro disso. – continuava DeMarco em voz mais alta – Não quero que isso se espalhe até entender o que foi que aconteceu. Capice? Ele colocou o fone no gancho, encerrando a chamada, e cutucou a ponta do nariz com os dedos. Seu olhar se voltou para Carmine e Haven; sua expressão era indefinida, mas o olhar furioso estava de volta aos seus olhos. Ele caminhou até Carmine e tirou o refrigerante de sua mão, derramando algumas gotas no chão enquanto saía da sala. Um segundo depois foi possível ouvir o som de vidro se estilhaçando na cozinha, como se algo tivesse sito atirado contra a pia de metal. Assustada, Haven olhou para Carmine. – Mas o que foi que aconteceu? Ele deu de ombros, olhando para a mão vazia. – Não faço a menor ideia. Nem sabia que tínhamos a porcaria do telefone.

Surpreendentemente, a porta do escritório de DeMarco no segundo andar estava aberta. Vincent estava sentado à escrivaninha, com os óculos posicionados na ponta do nariz, e remexia seus arquivos. Carmine ficou de pé à porta, olhando para o pai. – Quem fodeu com o seu dia? Vincent o encarou com uma expressão confusa. – Como é? – Qual é o seu problema? – perguntou Carmine, elaborando melhor sua frase ao entrar no cômodo e se sentar, sem esperar pelo convite – Você estava bem pra caramba e, de repente, foi como se alguém tivesse fodido o seu dia. Vincent balançou a cabeça em reprovação e perguntou: – Você precisa ser sempre assim tão grosseiro no seu linguajar? – Sei lá – respondeu Carmine –, e você, precisa ser sempre tão evasivo? – Somente quando faz perguntas para as quais não quer realmente saber a resposta. – Vincent retrucou – Você precisa de alguma coisa? Tenho coisas a resolver. – Bem, em primeiro lugar, quero saber por que pegou minha bebida. – Eu estava com sede. – Então você bebeu meu refrigerante? – Não. – respondeu – Mais alguma pergunta? – Sim. Por que você mantém Haven presa nessa casa, como se fosse uma prisioneira? – Ela já saiu de casa. – Vincent disse, olhando de um jeito incrédulo para filho – Aliás, ela pareceu estar se divertindo até o momento em que você teve um dos seus surtos. – Um dos meus surtos? É assim que você os chama? – A menos que tenha um nome melhor para eles. – Como quiser. – Carmine replicou – A questão é que ela raramente sai de casa. Ela sequer tem um código pra abrir a porta. Exasperado, Vincent soltou um suspiro. – E por que de repente você resolveu se importar com isso? – Porque ela é uma pessoa. – Tanto quanto Nicholas Barlow, mas você nunca pareceu se preocupar com ele.


– É diferente. Alguém realmente deveria colocá-lo atrás das grades, mas ela é apenas uma menina. Ela é inofensiva. Vincent olhou novamente para o filho ao escutar aquelas palavras, piscando algumas vezes. – Carmine, estaria você sugerindo que nunca machucou uma garota antes? Porque acho que algumas delas pensam diferente. O escritório ficou em silêncio, uma vez que Carmine não tinha o que responder. Vincent colocou sua papelada de lado e tirou os óculos. – Ouça, essa jovem está trancafiada aqui porque eu não tenho nem tempo nem energia para levá-la a lugar algum, e não há mais ninguém para fazer isso. – É, talvez você esteja certo. – replicou – Não tenho nem gasolina suficiente no tanque para sair dessa casa. – Ah, e como planeja ir à escola? Carmine deu de ombros. – Roubando alguma gasolina do seu carro enquanto dorme. Apesar da tensão que se criou, Vincent caiu na gargalhada. – É, você provavelmente faria isso. Carmine sorriu. Ele certamente o faria. Vincent abriu sua gaveta e retirou de lá um cartão American Express. – Bem, então façamos um acordo. Carmine o encarou de maneira cética. – Estou escutando. – Eu lhe darei seu cartão de crédito de volta se você se esforçar um pouco mais. – Como assim? Tipo, mantendo meu quarto limpo e arrumado? – Eu disse se esforçar um pouco mais, não operar um milagre. E o que quero dizer com isso é que você se torne mais responsável: pare com as brigas, com as drogas, seja aprovado na escola e, quando eu lhe pedir um favor, simplesmente o faça. – É justo. – respondeu Carmine, pegando o cartão da mão do pai antes que ele se arrependesse – Vou me esforçar. – Ótimo, porque preciso de um favor. Carmine olhou para ele, sem demonstrar surpresa. – Preciso que vá ao supermercado e compre algumas coisas. – disse Vincent – O suficiente para durar algum tempo. – Tipo comida e outras merdas? – Só comida já é o suficiente, Carmine. – E quer que eu compre essa comida sozinho? – É claro que não. – Vincent retrucou – E já que está tão preocupado, leve a garota com você. Carmine olhou para o pai e novamente para o cartão. – Isso é algum tipo de teste? Porque há menos de duas horas você disse que não pagaria mais as minhas contas. – As coisas mudam, filho. – O que mudou? Vincent balançou a cabeça, evitando responder. – Você quer uma chance de provar que é capaz, não é? Então simplesmente faça. E veja se não estraga tudo dessa vez. Se algo acontecer com essa jovem, as consequências para você serão bem mais sérias do que ficar sem o seu cartão de crédito. Carmine se levantou, imaginando que seria melhor ir embora antes que seu pai recobrasse o juízo. – Isso significa que não estou mais de castigo?


Vincent suspirou. – Você tem estado de castigo desde que tinha treze anos, e continuará assim enquanto morar sob o meu teto. Não que isso o impeça de fazer asneiras. – Então, basicamente, não estou realmente de castigo. – Você realmente já ficou alguma vez de castigo? Carmine deu risada. – Não.


Capítulo 13

A mansão Sunny Oaks, localizada nas imediações de Hyde Park, em Chicago, parecia uma residência extremamente sofisticada. O único detalhe que revelava sua verdadeira natureza eram as pessoas que ali trabalhavam, usando aventais médicos como uniformes. Todos eram amistosos e as instalações eram modernas, mas nada disso importava para Gia DeMarco. Vincent fizera tudo ao seu alcance para mantê-la confortável, assegurando-lhe o maior quarto e também todos os luxos permitidos, mas ela ainda se ressentia pelo fato de ter sido forçada a se mudar para lá. Sunny Oaks não era sua casa, ela insistia, e no que lhe dissesse respeito, jamais o seria. Gia estava sentada numa cadeira à janela. Seu quarto ficava de frente para o jardim. Ela vestia um impecável vestido azul e sapatos pretos de salto alto. Diante da mãe, Vincent esticou o braço e tocou no braço da cadeira, mas não se surpreendeu ao ver que ela se recusava a cumprimentá-lo. O mesmo ocorria todas as vezes. – Está um dia lindo lá fora. – ele disse, tentando iniciar uma conversa – Poderíamos sair para uma caminhada. – Não o vejo há meses, Vincenzo. – Gia retrucou, com a voz rude – Há meses. Vincent suspirou. – Faz apenas três semanas. – Três meses, três semanas. – ela replicou – Talvez tenham sido três anos. Você não liga. – Eu ligo sim, mas já não moro mais em Chicago, você se lembra? – Não precisa me recordar. – respondeu – Odeio pensar que meu único filho abandonou sua família. Vincent sabia que por família ela não estava se referindo a laços de sangue, mas a la famiglia, na qual, aliás, toda sua lealdade estava depositada. Se havia no mundo um estereótipo de esposa da Máfia, ou seja, de alguém que sempre dedicara seu estilo de vida à Cosa Nostra, essa pessoa seria sua mãe. – Não abandonei ninguém. – disse Vincent. – Sim, você me abandonou. – Gia retrucou – Você me prendeu nesse hospital. – Não se trata de um hospital, mamãe, mas de uma comunidade de repouso. – Esse lugar não é para mim. – ela resmungou – Não estou doente! Seu pai, que Deus proteja a alma dele, teria vergonha de você. Aquilo não era uma novidade. – Bem, que tal o passeio agora? – Não me importa o que esses idiotas dizem. – afirmou, desconsiderando seu convite – Não se pode confiar neles. É provável que todos estejam trabalhando para o governo. Kennedy sempre quis destruir seu pai. Acabar com ele. – Kennedy está morto. – Vincent respondeu – E já faz muito tempo. – Sei disso. – ela resmungou – Não sou louca. Vincent sorriu de um jeito seco. Quanto a isso ninguém tinha certeza. Os médicos suspeitavam que Gia DeMarco sofresse de demência prematura, mas Vincent se inclinou em direção a ela se recusando a deixar para trás seus dias de glória. Ela não queria admitir que a vida seguira em frente sem ela; que o mundo não parara de girar porque seu marido havia morrido. Geralmente lúcida, Gia de vez em quando retornava aos velhos tempos, época em que Antonio


DeMarco era o homem mais poderoso de Chicago e Vincent ainda se importava em fazer com que seus pais se orgulhassem dele. – Um pouco de ar fresco lhe faria bem, não acha? Gia levantou a mão e esfregou o ouvido direito, ignorando pela terceira vez o convite do filho. – Meu ouvido está zumbindo. A velha Gertrude do quarto ao lado deve estar falando de mim. – A senhora tomou sua aspirina hoje? Isso pode estar causando o zumbido. – Não é a medicação. – ela retrucou – É ela. Gia era bastante supersticiosa. – Gertrude não me parece o tipo que gosta de fofocar sobre a vida alheia. – Ah, como se pudesse distinguir algo assim, Vincenzo. É um completo imbecil em seus julgamentos! Você e sua irlandesa… – Não comece mãe. – Vincent ergueu a voz e a interrompeu – Não pretendo escutar isso novamente. Gia ficou quieta, como se considerasse a ideia de terminar ou não a frase que havia começado, mas resolveu mudar de assunto. – Sua irmã me visita o tempo todo. Vejo Corrado mais que você. Aquilo não era verdade, mesmo assim, Vincent preferiu levar a culpa. – Aquele sim é um bom homem. – ela disse – Corrado é perfeito. Sempre foi. Seu único defeito foi jamais ter dado um filho à sua irmã. Sempre quis ter netos. – Mas a senhora tem netos; dois, aliás. – replicou Vincent. Gia fez um gesto zombeteiro, mas conseguiu se manter calada em relação à opinião que tinha sobre isso. Ela então olhou pela janela, meneando com a cabeça, e disse: – Você não liga para mim, Vincenzo. Nunca mais sequer me convidou para dar um passeio lá fora.

Desde que os DeMarco se mudaram para a Carolina do Norte, os rapazes habituaram-se a dar uma festa de Halloween. Vincent estava hesitante em concordar neste ano, mas depois de muita insistência e de inúmeras promessas, ele concordou, estabelecendo uma única regra: Haven deveria ser observada o tempo todo. A casa cheirava muito bem quando Carmine chegou naquela tarde; o aroma de desinfetante era tão forte que fazia seus olhos arderem. Ele parou à porta da cozinha, de onde ficou observando Haven esfregar o mármore do chão. Ela cantarolava, sem perceber sua presença; ele ouvia e tentava se lembrar da música. Ela ficou de pé e se virou, parando imediatamente de cantar e soltando um gritinho. – Ah, você já chegou! Ele riu quando a viu soltar a esponja. – Não queria interromper o beija-flor enquanto cantarolava. – Ah, você não interrompeu. Eu só estava… – então ela se virou para ele e olhou de um modo peculiar – Beija-flor? – Sim, beija-flor, ou colibri se preferir. Você me faz lembrar esses pássaros. Ele se sentia como um idiota com aquele diálogo. Ela pareceu surpresa. – Mas por quê? – Sei lá. – ele disse – Eles são coloridos e voam pra lá e pra cá, sempre cantando. E você também é assim. As bochechas dela coraram.


– Você já tinha me ouvido cantar? – Já ouvi algumas vezes. É, uh… – ele não sabia bem o que dizer – Que música é essa? – É algo que minha mãe costumava cantar. – ela disse, movimentando nervosamente as mãos e evitando seu olhar. Suas calças de moletom e blusa estavam cheias de manchas de sabão; seu cabelo, todo desajeitado. – Bem, é melhor trocar de roupa – ele sugeriu –, pois temos de sair e acho que gostaria de vestir outra coisa. Ela o olhou sem acreditar e ainda esperou um pouco antes de dizer seu costumeiro “tudo bem” e subir as escadas. Carmine, por sua vez, girou os ombros tensos enquanto repreendia a si mesmo em silêncio, desejando se sentir mais relaxado ao lado dela. A ansiedade dele alimentava a dela, e a última coisa que ele queria é que ela voltasse a evitá-lo novamente. Só demorou alguns minutos para Haven retornar, usando jeans e uma camiseta. Ele abriu a porta da frente e a jovem hesitou à soleira antes de pisar na varanda. Depois de fechar a porta e religar o alarme, ele a ajudou a entrar no carro. Ela agradeceu a gentileza quando ele sentou no banco do motorista. Seus olhos não perdiam nada enquanto ele dirigia. Então perguntou: – Aonde estamos indo? Carmine abriu o console central do carro, à procura da lista, antes de se voltar para o porta-luvas. – Procure ali por um pedaço de papel. Ela seguiu as instruções dele e começou a remexer as coisas, ficando vermelha ao se deparar com uma caixinha preta. Carmine resmungou ao perceber que ela achara as camisinhas que costumava guardar no carro. – Jesus, esqueci que elas estavam aí! – ele disse, pegando-as da mão dela, abaixando o vidro e atirando a caixinha no meio da estrada. Ele ignorou seu olhar de incredulidade, sem querer dar explicações, e fez sinal para que continuasse procurando. Haven finalmente encontrou um pedaço de folha de caderno. – É isso? – Sim, leia o que está aí. Com os olhos arregalados, ela gaguejou algumas palavras – Uh, batata frita… pret… hum… pretzels… refrigerante… Estamos indo num supermercado? – Sim! É disso que precisamos para a festa. E, enquanto estivermos lá, vamos fazer algumas compras pra casa. Assim matamos dois coelhos com uma cajadada só.

Ao chegarem no mercado, as pernas de Haven bambearam quando a porta se abriu sozinha. Ela as examinou com atenção, como se estivesse com medo de sair do veículo. Carmine esperou que ela pegasse um carrinho, mas ela ficou parada. – Você alguma vez foi a um mercado? – perguntou. Ela respondeu que não com a cabeça. – Nunca estive em um mercado. – Nunca? – Nunca. A tarefa parecia mais complicada do que ele pensara. – Bem, não posso dizer que já tenha feito isso também. Em geral não confiam em mim, então acho que teremos que descobrir isso juntos. Haven tentou entregar-lhe o papel, mas, em vez disso, foi ele quem lhe deu uma caneta.


– Você cuida da lista. A prática leva à perfeição. Antes que ela pudesse argumentar, ele pegou um carrinho e seguiu para o setor de verduras e legumes. – Bem, tenho que confessar outra coisa. Eu não posso dizer que já tenha cozinhado na vida, portanto, não faço ideia do que é a metade dessas porcarias. Ele pegou um maço verde e olhou, cético: – Por exemplo, que merda é essa? Ela sorriu. – Isso é couve-de-bruxelas. – Definitivamente não vou comprar isso. – ele disse, atirando o vegetal de volta à banca. Estava bem no início da tarde, então havia poucos consumidores no local, além deles próprios. Carmine estava feliz pela privacidade. Haven estava claramente se sentindo um peixe fora d’água, e segurava a lista com força, monitorando tudo ao seu redor. – O que devemos levar? – O que quer que queira cozinhar. – ele disse – Não sei se você notou, mas o Dom come de tudo. Credo, ele comeria até essa couve-de-… bruxelas! Meu pai também não é difícil de agradar. – E quanto a você? Ele deu de ombros. – Você é meio enjoado pra comida. – disse em voz baixa. Ele pestanejou algumas vezes, – Do que foi que me chamou? Ela se sentiu culpada ao repetir o que dissera: – Enjoado. – Foi o meu pai quem te disse isso sobre mim, não é? Ele me chama assim todo o tempo. – O doutor DeMarco realmente mencionou isso, mas não quis ser desrespeitosa. – Eu sei. – ele disse – Bem, seja como for, vamos fazer as compras. Parecemos dois idiotas parados aqui, como se nunca tivéssemos feito isso antes. – E não fizemos mesmo. – ela o relembrou. – É, eu sei disso, você sabe disso, mas os demais filhos da puta dentro do mercado não precisam saber, né?

Eles percorreram todos os corredores. Carmine fez a maior parte do trabalho, enchendo o carrinho de besteiras, enquanto Haven pegava os itens essenciais que ele deixava de lado. Ele a observava conforme ela pegava leite, ovos, pão de forma, com os ombros já relaxados e demonstrando confiança. Finalmente ela devolveu a lista ao jovem, depois que todos os itens estavam ticados, e eles foram para o caixa. Ele colocou todas as compras na esteira rolante e esticou a mão para pegar um chocolate. Haven se assustou com o movimento brusco, então ele foi mais cuidadoso ao atirar a barra de Toblerone sobre a esteira. Depois de pagar, Carmine encheu o porta-malas com todos as sacolas enquanto Haven aguardava ao lado da porta do passageiro. Ele não estava prestando atenção quando ela decidiu devolver o carrinho de compras. Seu estômago virou do avesso quando ele se virou para o carro. Haven já não estava mais lá. Carmine entrou em pânico, olhando para todos os lados no estacionamento à procura da jovem, sem encontrar um sinal dela. O pai dele certamente iria matá-lo dessa vez. Foram necessários apenas


dez segundos, meros dez segundos de desatenção para que ela sumisse, desaparecesse em pleno ar. Ele correu para o carro e entrou tão rápido que quase arrebentou o joelho. Para sua surpresa, Haven já ocupava o banco do passageiro, com o cinto de segurança afivelado e as mãos sobre as pernas. Ele teve de respirar fundo para recobrar a calma e apreciar a sensação de alívio, antes de se ajeitar no assento com a barra de chocolate na mão. Carmine abriu a caixinha amarela, quebrou um triângulo e o ofereceu a ela, observando confuso enquanto ela olhava para a mão dele. – Você gosta de chocolate? – Nunca provei. Ele atirou o triângulo para ela. – Jesus, garota, experimente então! Ela riu diante do entusiasmo do rapaz e deu uma pequena mordida no cantinho do chocolate. – Uau, isso é doce. Separando alguns triângulos para si mesmo, Carmine entregou o restante do chocolate a Haven. – Já sei o que vai dizer. É delicioso, não é?

Estava garoando quando chegaram em casa, então Carmine estacionou o mais próximo da varanda que conseguiu. – Destranque a porta, ok? – ela se preparou para responder, mas ele a interrompeu – O código é 62-3-7-3. Digite isso no teclado e então aperte o botão maior. Consegue se lembrar? – 6-2-3-7-3. – ela repetiu. Ela pressionou os números e correu para dentro de casa no momento em que a chuva se tornou mais intensa. Depois que a porta já estava aberta, ela pegou algumas sacolas e levou para a cozinha. Quando retornou para ajudar com mais compras, ele colocou a mão à sua frente para impedi-la. Os braços de Haven logo se ergueram num movimento de autoproteção, então ele retirou a mão. – Merda, não tive a intenção de lhe assustar. Só não queria que você se molhasse. Ela o olhou com uma mistura de confusão e divertimento, antes de pegar as sacolas da mão dele e levá-las para a cozinha. Ele tirou tudo do carro e tentou ajudá-la a guardar, enfiando as coisas nos lugares que ele achava corretos. Na verdade, ele só tornou a tarefa da jovem mais difícil ao se colocar no caminho. Dominic comprou pizzas para o jantar e Carmine foi direto na caixa da pizza de pepperoni antes de pular no sofá. Olhando para Haven, ele deu um tapinha no assento vago ao seu lado. Os olhos dela, entretanto, se voltaram para as escadas. O rapaz franziu a sobrancelha para ela, como se dissesse “Não ouse fazer isso”. Ele a teria arrastado de volta para a sala. Não havia razão para que ela não jantasse com ele.

Carmine acordou na tarde seguinte com a casa em um verdadeiro caos. Tess e Dia estavam de pé sobre cadeiras na sala de estar, prendendo fitas nas janelas, enquanto Haven cuidava de uma caixa com flores de plástico. Dominic corria de um lado para outro, atendendo às ordens de Tess. Entrando silenciosamente na sala, Carmine balançou a cadeira sobre a qual Tess estava, assustando-a. Dando um berro, Tess pulou da cadeira e ele cobriu a cabeça enquanto ela estapeava a cabeça dele. – Você é um imbecil, Carmine!


– Qual é, você bate como uma menininha. – aquelas palavras mal saíram de sua boca e ela lhe deu um soco no peito. Ele estreitou os olhos – Caramba! Tess sorriu. – Quem é a menininha agora? – Aparentemente, eu. – disse Carmine massageando o peito e olhando para o irmão, que ajeitava as flores que recebia de Haven – De qualquer jeito, estou começando a me sentir como uma, nessa sala cheia de cadelas. – Do que você me chamou? – a voz de Haven soava diferente. Ele jamais ouvira aquele tom desde que ela chegara a sua casa. Ele franziu o cenho até que a ficha caísse e ele percebesse o que havia dito. – Ah, merda… – cadela, pensou – Nada, não disse nada. Haven se voltou para as flores sem dizer uma só palavra, entregando mais delas a Dominic. Carmine a observou antes de se aproximar, inclinar-se ao lado dela e sussurrar em seu ouvido: – Desculpe. Não quis dizer isso. A jovem nem reagiu e ele sentiu seu peito encher-se de culpa. Ele não sabia se ela havia acreditado e aceitado seu pedido de desculpas.

Depois que a casa já estava decorada, Carmine vestiu sua fantasia de pirata: calças e botas pretas, camisa branca e bandana vermelha na cabeça. Em seguida, pegou o grande chapéu preto e desceu para ver Dominic no hall, segurando uma espada. – Quem foi o idiota que deu a ele uma arma? – Carmine gritou, se esquivando da lâmina de plástico quando seu irmão a apontou para ele – Vocês deveriam ter mais bom senso. – Ninguém a deu para ele. – Tess respondeu, saindo da sala de estar em sua fantasia de diabo – Ele a encontrou sozinho. Acenando com a cabeça, Carmine foi até o escritório que ficava embaixo das escadas e digitou o código para destrancar a porta. O cômodo parecia um escritório normal, com uma mesa de mogno e uma cadeira de couro preta. Um tapete persa cobria o chão; Carmine virou a ponta, expondo uma porta oculta. Ele então a abriu e desceu a escada estreita até o porão, acendendo as luzes. Um brilho sutil tomou conta do lugar, revelando dezenas de caixas de madeira. Usando a parte da frente de sua camisa para cobrir a mão, ele retirou a tampa da que estava mais próxima da escada e pegou algumas garrafas de bebida. Ele não se atreveria a ir mais à frente; não desejava se arriscar. Não tinha certeza se era algum medo inconsciente ou se o seu pai o havia ensinado isso em algum momento, mas ele nunca deixava suas digitais naquele lugar. Então, depois de pegar as bebidas que desejava, subiu antes de os convidados começarem a chegar.

Haven sentou-se na beirada da cama, remexendo as unhas e sentindo o estômago se contorcer. Ela se sentia como um peixe fora d’água e estava com medo de descer as escadas; temia que, ao olharem para ela, todos soubessem o que ela era; que não pertencia àquele mundo. De repente ela escutou uma suave batida na porta, e então Dominic apareceu. – Posso entrar, Pé de Valsa? – Claro. – ela respondeu. Ele entrou, usando a espada como bengala e sentou-se ao lado dela na cama. Em seguida se apoiou


nos cotovelos e ambos ficaram em silêncio, enquanto Dominic olhava para o teto. Ela se perguntava o que ele estaria fazendo ali, em vez de estar aproveitando sua festa, mas permaneceu em silêncio e deixou que ele falasse primeiro. – Nella vita: chi non risica, non rasica. – ele disse – Na vida, quem não arrisca, não petisca. Minha mãe costumava nos dizer isso. Já faz um bom tempo, mas ainda consigo ouvir a voz dela. Ele sorriu para si mesmo ao recordar-se, enquanto Haven tentava se lembrar da voz de sua própria mãe, desejando jamais se esquecer do modo como ela falava. – Mamãe nos ensinou muito, mas é disso que mais costumo me lembrar. Você não deveria ter medo de se arriscar. Talvez as coisas não funcionem; é possível que você fracasse e até se machuque, mas jamais saberá a menos que tente. – ele fez uma pausa e deu um suspiro – Você pode tentar evitar correr riscos, Haven, e eu não a condenaria por isso. Pode continuar sendo como sempre foi, e sobreviverá, mas é isso o que quer? Isso seria suficiente? Haven não tinha uma resposta para aquilo. – Ou você pode escolher se arriscar. – continuou – Sei que traz isso dentro de você. Não posso lhe prometer que conseguirá tudo o que quer da vida, mas lhe asseguro que nada irá mudar se você não tentar. Ela o encarou, absorvendo cada palavra, e percebeu quando a expressão de Dominic se tornou mais sombria. – Carmine nem sempre foi desse jeito, sabe? Ele costumava ser como a mamãe, incapaz de ferir uma mosca, mas tudo isso mudou. Ele agora corre riscos físicos. Tanto que às vezes me pergunto se ele dá alguma importância para a própria vida, mas qualquer coisa de caráter emocional lhe é impossível. Você é boa para ele do jeito que é. Aliás, é a primeira mulher para quem ele olha como um ser humano, não como um objeto. Os olhos de Haven arregalaram. – Mas por que eu sou diferente para ele? – Acho que você o faz lembrar-se de nossa mãe, mas ele é o único que pode responder a essa pergunta. – Dominic levantou-se – Agora me diga, vamos nos proteger ou vamos nos arriscar? A festa já durava mais de uma hora, e durante esse tempo ninguém havia colocado os olhos em Haven. Carmine caminhava entre os convidados em busca dela, mas ao chegar à cozinha se deparou com Dia, sozinha. Ela usava um vestido colorido e meia-calça azul, um bico amarelo no nariz, que combinava com seus tênis gema de ovo. – Olá, senhorita papagaio. – ele a cutucou – Como é que você consegue parecer mais normal justamente quando está fantasiada para o Halloween? Ela revirou os olhos. – Ha… ha… ha… Muuuuito engraçado. Foi então que um grupo de garotas entrou na cozinha e Carmine rosnou ao ver Lisa fantasiada de mulher gato. – Quem foi que a convidou? Dia o pegou pelo braço e o arrastou para fora dali antes que Lisa pudesse chegar até ele. – Tenho quase certeza de que foi você, quando ainda estavam saindo juntos. – Eu não estava saindo com ela. – ele retrucou – Acho que poderíamos dizer que eu estava entrando nela de vez em quando. Dia se encolheu. – Nossa, como você é grosseiro. – É, mas na verdade a culpa é sua. Você deveria ter me alertado em relação a isso… ou, sendo mais específico, em relação a ela. Mas deixa pra lá. – Eu bem que tentei. Foi você quem não quis escutar.


Ambos entraram no hall no momento em que Haven surgiu no topo da escada, trajando um vestido dourado brilhante, repleto de moedinhas falsas penduradas nas extremidades. Havia ainda bijuterias ao redor do pescoço e uma pequena tiara no cabelo. – Ela é o meu tesouro ou não é? Dia deu um tapinha de leve no rosto de Carmine e então se afastou. Haven parou no hall no momento em que Carmine deu um passo à frente, pegando sua mão. – Bella ragazza. Os olhos dela brilharam quando viu suas mãos juntas. – O que isso significa? Ele deu um sorriso e, sem responder, puxou-a em direção à cozinha para se reunir com os outros convidados. Ela se mostrou atenciosa, sorriu e cumprimentou a todos como se já estivesse acostumada a receber convidados. Observá-la deixava Carmine fascinado: era impressionante o modo como ela se adaptava facilmente ao que acontecia ao seu redor. Ele não conseguia deixar de imaginar a enorme injustiça que sua ausência representava para o mundo. Os dois estavam pegando suas bebidas quando alguém decidiu aumentar o volume do som na sala. Carmine pegou a mão de Haven para girá-la. Ela riu e perdeu o equilíbrio. Carmine a segurou firme e a puxou para perto dele. Já um pouco alterado pela bebida, ele só queria senti-la o mais próximo possível. Ele então segurou os quadris da jovem e guiou seu corpo tenso ao ritmo da música. – Relaxe, tesoro. A ansiedade em sua expressão diminuiu. – Algum dia você me dirá o que essas palavras significam? – Tesoro significa quase o mesmo que doçura, mas a tradução é tesouro… o que, aliás, é a palavra perfeita pra descrever você nesse momento. Ela ficou vermelha e, sem graça, desviou o olhar. Ele, por sua vez, aproveitou a oportunidade para pressionar suas costas. Soltando um ganido, ela colocou os braços ao redor do pescoço dele e deu risada quando ele puxou suas costas mais para cima. As pontas dos narizes se tocaram e ele ficou congelado no momento em que Haven inclinou a cabeça para o lado e encostou suavemente seus lábios nos dele. O sabor de morango do batom que ela usava se espalhou por sua boca, e ele lambeu os lábios, chocado demais para fazer qualquer outra coisa além de encará-la. Haven deu alguns passos para trás, afastando-se dele, mas ele agarrou os braços dela no momento em que percebeu que ela iria fugir. Puxando-a com mais força, ele a beijou com desejo sem pensar duas vezes. Naquele abraço roubado, e naquele beijo, foram liberados dezessete anos de paixão. Haven retribuiu; seus lábios se abriram e se moveram juntos dos dele. Passando sua mão trêmula atrás da cabeça dele, ela tocou seus cabelos com os dedos, mas Carmine não sabia dizer se aquilo era nervosismo ou excitação. – Caralho! Os dois interromperam o beijo ao ouvir a voz de Dominic. Ele estava parado na porta da cozinha, olhando para eles. Haven se afastou e rapidamente saiu da cozinha, antes que qualquer um deles pudesse impedi-la. – Droga, eu não queria atrapalhar – disse Dominic, dando um tapinha nas costas do irmão –, mas, honestamente, não esperava por essa. Carmine acenou com a cabeça, confuso. Ele também não esperava.

Haven olhava para o espelho do banheiro, levando a mão aos lábios, que latejavam com a força do


beijo de Carmine. Sua mente estava a mil enquanto ela tentava entender o que havia acontecido. Será que aquilo significava que o que ela sentia por ele era recíproco? Alguém bateu à porta dizendo que precisava usar o banheiro e Haven saiu de lá à procura de Carmine. Ela perguntou a Dia, que apontou para as escadas. Haven subiu até o terceiro andar e viu Carmine parado na porta do quarto dela com um grupo de rapazes. Um sorriso se abriu nos lábios dela à medida que se aproximou dele. Ele retribuiu o sorriso, mas este desapareceu rapidamente quando o garoto parado ao lado dele sussurrou. – Carne nova? Tudo aconteceu tão rápido quanto o toque num interruptor. Seu sorriso se transformou em uma expressão de raiva; suas mãos se fecharam e se preparavam para a briga. Sem dizer uma única palavra, Carmine pegou o sujeito e o empurrou até a parede, dando-lhe um soco na boca. As pessoas começaram a gritar e seguiram para o caos que se estabeleceu no terceiro andar. Carmine batia e chutava o rapaz, liberando toda sua ira em cima dele. – Se você ousar olhar pra ela de novo, eu juro que te mato! – ele esbravejou. Haven respirou fundo e correu para seu quarto, trancando imediatamente a porta atrás de si.

As batidas na porta eram tão fortes que faziam as paredes vibrarem, transportando Haven direto para o passado. Tum. Tum. Tum. Haven estava encolhida num canto do estábulo, tapando os ouvidos. Mas isso não aliviava o som. Ela não sabia o que estava acontecendo. A mãe dela já tinha ido embora quando as batidas começaram. Tum. Tum. Tum. As pancadas se tornavam cada vez mais altas. Onde estava sua mãe? Haven apertava os olhos, contando mentalmente para acabar com aquilo. Ela contou até seis antes de se perder e recomeçar, sem nunca conseguir chegar ao dez. Tum. Tum. Tum. Havia alguém chorando e gritando, mas não era ela. Aquilo parecia tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. Naquela escuridão, ela não conseguia descobrir de onde vinha. Tum. Tum. Tum. Foi então que ela ouviu uma voz baixa e maliciosa dizer – Se contar para alguém, eu juro que te mato. – Ela não sabia quem estava falando, tampouco o que não deveria ser contado, mas soava como o silvo de uma cobra. – Prometo que não direi nada – respondeu a outra voz, terrivelmente familiar –, mas eu te imploro, não toque na minha menina. Tum. Tum. Tum. O barulho desapareceu, porém, o silêncio não a confortou. Ela abriu os olhos esperando que fosse um pesadelo, mas a primeira coisa que viu foi o rosto daquele monstro maldito. Ele estava parado do lado de fora do estábulo, fechando as calças e a encarando de um jeito provocativo. O estômago dela estava mais contorcido que a pele desfigurada daquele monstro. Seu peito doía de tanto chorar; havia um grande vazio interior. Naquela noite sua mãe voltou tremendo e a abraçou. Hoje, entretanto, ela não estava lá para aplacar o terror que Haven sentia.

– Haven? – a voz de Carmine era suave e as batidas na porta eram leves – Cacete, eu sinto muito. Não quis te assustar.


Capítulo 14

A parede branca da biblioteca ostentava uma mancha de sangue. Haven estava tentando limpá-la com um pano quando Carmine, com os cabelos desgrenhados, saiu de seu quarto e olhou para ela. – O que está fazendo? Você não deveria estar esfregando isso! – ele exclamou, arrancando o pano das mãos da jovem. Ela ficou assustada e seus olhos se encheram de lágrimas. Carmine esticou as mãos em sua direção, mas ela se contraiu. Estava devastada e exausta; simplesmente não conseguia suportar aquele olhar repleto de raiva e aversão. Porém, na tentativa de evitar o toque do rapaz, acabou tropeçando e caindo no chão. Confuso, ele deixou o braço cair. – Não dou uma dentro com você, não é? – Sinto muito. – ela respondeu, sem compreender bem a pergunta. Afinal, ela apenas estava tentando limpar o sangue da parede. Ele rosnou e atirou o pano longe, esbravejando. – Você sente muito? Pelo quê? Ciò è scopare pazzesco! O porra-louca aqui sou eu. Vou ficar maluco se não parar com esse jogo! Jogo? – Do que você está falando? Ele agarrou o braço de Haven. Um frio percorreu sua espinha. Ao mesmo tempo em que ela se perguntava por que ele a estaria tocando, uma parte irracional sua desejava que ele continuasse. Toda vez que ele encostava a mão em seu corpo ela se sentia menos sozinha. Pela primeira vez na vida ela sabia o que era estar viva. – Diga que não sente nada e eu me afastarei. Ela olhou para a mão dele e, em seguida, o encarou. – Então você também sente? – É claro que sinto. Eu te beijei ontem à noite! Ela pestanejou algumas vezes. – Na verdade fui eu quem te beijou. Eu não devia ter feito aquilo, afinal, você mesmo me disse que nunca… – Você apenas tocou nos meus lábios; fui eu quem praticamente te engoliu viva. – ele balançou negativamente a cabeça – E… você está certa. Não faço isso. E é justamente por essa razão que estou enlouquecendo. É o que venho tentando te dizer. Ele deslizou os dedos pelos próprios cabelos desarrumados e a encarou como se estivesse implorando. Implorando pelo quê? Haven não fazia ideia. – Dizer o quê? A resposta dele foi o silêncio. Carmine deslizou o corpo pela parede, sentou-se no chão e contraiu os joelhos, segurando-os com os braços. – Eu mesmo teria limpado esse sangue na parede, afinal, ele só está aí por minha causa. – Tudo bem com o rapaz? – Claro! Aquilo ali é como uma lagartixa. Eu poderia ter arrancado o rabo dele e ainda assim estaria saracoteando por aí. Ela soltou um suspiro diante de sua relutância em oferecer-lhe uma resposta direta. – Sei que não tenho o direito de lhe dizer o que fazer, mas não gosto que pessoas fiquem machucadas por minha causa. Se quiser culpar alguém culpe a mim. Puna a mim. Mas, por favor, pare


de machucar as pessoas desse jeito. Nenhum desses caras me fez nada. Ele mais uma vez a encarou e, dessa vez, ficou com a boca aberta. – Acha que te vejo desse jeito? – Quando você ataca alguém é como se estivesse irritado porque eles estão mexendo com algo que pertence a você. Ele mais uma vez passou as mãos na cabeça e agarrou alguns dos próprios cachos. – Tudo bem, eu tenho um problema com o meu temperamento. É só que… Eu sinto… – ele hesitou e então respirou fundo – Olha, não é que eu ache que você pertença a mim; eu só quero que você seja minha. Haven franziu as sobrancelhas. – E há alguma diferença? – Tá, isso não soou como deveria. Caramba, eu me importo com você, entendeu? Eu reajo desse jeito porque não quero que ninguém te machuque. E eu sei que talvez isso não faça muito sentido, considerando que eu acabo te machucando mais que esses filhos da puta, mas não é a minha intenção. Você não se parece com ninguém que eu já tenha conhecido. Você é capaz de me compreender como ninguém nunca conseguiu. – ele se aproximou dela – La mia bella ragazza. – Você sabe que eu não sei o que isso significa. – ela disse, ficando vermelha diante da intensidade do olhar do jovem. Ele deslizou a parte da frente de seus dedos pela sua bochecha corada. Seu toque era suave e ela inclinou a cabeça na direção dele. – Minha linda garota. – ele finalmente traduziu. Ela ouviu aquela frase e o encarou. – Você me acha linda? – Eu não acho que você seja linda, Haven. Eu sei que você é. Suas palavras deixaram-na confusa. – Você também é. Ele fez uma careta. – Você está me dizendo que me acha bonito? Haven confirmou com a cabeça. – Você é uma pessoa bonita. – Caramba, já me chamaram de um monte de coisas nessa vida, mas “pessoa bonita” nunca foi uma delas.

Nunca em toda sua vida Haven se deparara com um desastre de tamanha proporção quanto aquele que os esperava no andar térreo. Havia coisas espalhadas por todos os cômodos; garrafas e latas vazias largadas sobre as mesas e os balcões. O chão estava coberto de comida pisoteada e a casa cheirava como uma enorme lata de lixo. Havia vidro quebrado na sala de estar; os móveis e objetos estavam fora do lugar. Haven ficou parada no último degrau da escada avaliando a bagunça, enquanto Carmine seguiu direto para a lavanderia. Ele logo retornou com vários sacos para recolher o lixo. – Você começa pela cozinha enquanto eu checo o que foi quebrado. Tenho certeza de que nem tudo sobreviveu intacto à noite de ontem. – Você não tem de fazer isso. – ela disse – Posso cuidar de tudo. – Sei que pode, Haven. – ele respondeu – Mas deixe que eu tente te ajudar. Ela seguiu para a cozinha e limpou os balcões, escutando alguns barulhos de vez em quando. Era


Carmine remexendo as coisas na sala de estar. Ela recolheu todas as latas e encostou o saco num canto. Haven acabava de começar a lavar a louça quando Carmine reapareceu, deixando outro saco de lixo no chão. – Você não tem de lavar tudo isso com as mãos. – ele disse – Temos uma máquina de lavar louças. – Não sei como fazer ela funcionar. Carmine abriu a máquina e puxou a bandeja superior. – Agora coloque tudo aqui e tire suas mãos dessa água suja. Ela olhou para ele com certa cautela. Considerando que ele não sabia como operar uma máquina de lavar roupas, ela esperava que ele também não fizesse ideia de como lidar com aquela. Todavia, achou melhor acatar o que havia dito e colocar pratos e copos nos devidos lugares. Quando a máquina ficou cheia ele deu um sorriso metido. Haven não tinha certeza se estava orgulhoso de si mesmo ou dela. Em seguida, Carmine colocou um pouco de sabão e fechou o tampo frontal; estreitou os olhos e começou a pressionar alguns botões. O equipamento começou a funcionar imediatamente e ele logo afastou as mãos, surpreso. Haven deu risadas assim que ele saiu da cozinha, sabendo que estava certa desde o início: ele realmente não sabia como mexer na máquina. Depois de colocar algumas roupas para lavar ela retornou para a cozinha, mas, no instante em que se aproximou da pia, a jovem pisou numa poça d’água e escorregou. Felizmente conseguiu se agarrar ao balcão e manter-se de pé. Foi então que ela olhou para o lado e ficou estarrecida ao perceber as bolhas de sabão saindo da máquina de lavar louças. – Carmine! – ela gritou. Não havia como aquilo ser normal. Haven ouviu alguém descendo as escadas rapidamente e em seguida ele entrou na cozinha. Ela tentou avisá-lo – Cuidado! – mas ele escorregou na água cheia de sabão. – Merda! – ele praguejou, tentando vencer a espuma que aumentava e chegar à máquina. Desesperado, ele fuçou em todos os botões e bateu no tampo frontal do equipamento tentando fazê-la parar, porém, mais bolhas continuavam a sair por todos os lados. Furioso, ele esmurrou e chutou a máquina. Haven franziu a testa ao perceber que ele deixara uma marca na parte da frente. Carmine continuou xingando, esbravejando e apertando todos os botões, até que a máquina finalmente parou de funcionar. – Acho que temos um probleminha aqui. – Haven concluiu ao ver aquela enorme confusão. Era impossível ver o piso da cozinha. De algum modo os dois conseguiram piorar muito a situação. Ela sorriu, tentando se manter séria, e então levou a mão à boca para segurar o riso. Carmine ergueu uma sobrancelha e indagou. – Você está rindo de mim? Ao ver a expressão no rosto dele, Haven não se conteve e caiu na gargalhada. Ela então soltou a mão do balcão e, sem prestar atenção por onde andava, acabou escorregando. Carmine tentou segurála, mas também perdeu o equilíbrio. Ela caiu de costas para o chão e o rapaz sobre ela. Embaraçado pela situação, ele logo se colocou de joelhos ao lado dela. – Caralho, eu não queria te derrubar! Você se machucou? Eu te machuquei? Hein? Machuquei? Diga alguma coisa, caramba! Ambos conseguiram se sentar um de frente para o outro. Haven estava ensopada; Carmine a encarou assustado, como se ela tivesse agora duas cabeças. Ela meneou com a cabeça e mais uma vez levou a mão à boca para tentar segurar o riso, mas foi em vão. Ele começou a rir sem parar. – Acho que você fez algo errado com a máquina, Carmine. Ele encheu a mão com bolhas de sabão e atirou contra ela. Ela conseguiu desviar parcialmente, e foi atingida só no peito e na bochecha. A jovem não hesitou em dar o troco. As bolhas o atingiram


bem no rosto; ele cerrou os olhos e passou a mão na face para se limpar. – Eu não acredito que você fez isso! – ele disse, olhando para ela com uma expressão determinada. Ela ainda tentou desviar de novo, mas ele a pegou antes que pudesse escapar. Ele a empurrou de costas para o chão e deslizou sobre ela, prendendo-a no meio da água cheia de sabão. Ela ainda conseguiu atirar algumas bolhas contra ele, mas o tiro saiu pela culatra. Ele se inclinou e passou o nariz sobre o dela, transferindo o sabão. Haven inclinou a cabeça para o lado, sentindo-se forte, o beijou. Os lábios dele eram macios e úmidos; sua boca tinha o gosto doce e mentolado. Havia, entretanto, algo amargo no meio daquilo e ela enrugou o nariz. – Você está com gosto de sabão. Rindo, ele a pegou pela mão, colocou-a de pé e retirou algumas bolhas do cabelo da jovem. – Que tal nós limparmos essa bagunça para podermos conversar? – ele perguntou, dando uma boa olhada na situação, e completou – E tirar um cochilo. Eu definitivamente preciso de um cochilo.


Capítulo 15

Depois que a casa estava finalmente limpa e organizada, e o chão da cozinha tão brilhante a ponto de Carmine conseguir ver seu reflexo nele, ambos foram para o terceiro andar. Haven foi para seu quarto tomar banho e Carmine para o dele. O jovem se despiu e atirou as roupas imundas e molhadas sobre a pilha das que precisavam ainda serem lavadas. Ele realmente precisava delas limpas, mas se achava um bundão por ter de pedir a Haven que o ajudasse. Será que namoradas costumavam fazer essas coisas por seus namorados? Ele não tinha certeza, considerando que jamais tivera um relacionamento sério até então. Caramba, ele sequer tinha certeza de que ela fosse sua namorada. Tudo de que tinha certeza era que aquela jovem roubara seu coração e não havia como pedi-lo de volta. De repente, num curto espaço de tempo, ela o havia sequestrado, e representava para ele uma parte tão crucial de seu corpo como o próprio ar que respirava. Que desastre! Pensou. Em seguida, vestiu seus shorts, pegou o controle remoto do aparelho de som e se atirou na cama, passando por várias estações. Ele estava muito cansado e logo caiu no sono. De repente a cama estalou. Haven se sentou ao lado do rapaz, então ele moveu o edredom e fez sinal para que ela se unisse a ele. – Não tive a intenção de acordá-lo. – ela disse, deitando-se ao lado dele. – Estava apenas descansando os olhos. – ele afirmou – A propósito, você parece bem melhor agora. Não estou dizendo que não estava bem antes, apenas que fica mais bonita depois que toma banho. Tá, eu sei, isso não soou muito bem também. Quer saber, deixa isso pra lá. Ela riu de todo aquele falatório e esticou a mão, hesitando no meio do movimento. Ele sorriu como se pedindo que ela continuasse e fechou os olhos, apreciando seu toque leve explorando seu rosto. Ela deslizou os dedos pelo nariz dele e pela testa antes de chegar aos cabelos. Quando ele voltou a abrir os olhos, sua expressão o surpreendeu. Ela parecia apavorada. Sua mão ficou imóvel sobre sua face; seus olhos pareciam vidrados e cheios de lágrimas não derramadas. – Há algo de errado? – ele perguntou. – Você…? – ela deslizou seu polegar pelo rosto dele, provocando uma sensação deliciosa no corpo do rapaz – Você realmente sente alguma coisa? – É como se houvesse estática debaixo da pele. – O que acha que é? – Colpo di fulmine? – ele sugeriu. Ela olhou para ele e o jovem sorriu – Acho que vai querer uma tradução. – Por favor. – É quando você se sente atraído por alguém com tanta força que é como ser atingido por um raio. Ela o encarou e disse. – Ah, muito bem. – Espere aí, esse “muito bem” é do tipo “Muito bem, você é mesmo um idiota, Carmine, portanto tanto faz o que tenha dito” ou, quem sabe, de “Muito bem, Carmine, isso faz todo sentido”? – De faz todo sentido. – ela respondeu – Não entendo o que está acontecendo. É tudo tão novo, e não sei o que espera de mim. – Não espero nada de você, tesoro. – ele disse – Não posso mentir. Estou me sentindo atraído por você, mas… Você só fará o que quiser. Seremos o que quer que você queira que nós sejamos. Só


quero uma chance. Estou te pedindo uma oportunidade. – Uma oportunidade para fazer o quê? Para fazer o quê? Para se provar como pessoa? Para ser feliz? Para que alguém confiasse nele? Para que alguém o amasse? Para que ele a amasse? Para finalmente se transformar em alguém que valesse a pena. – Sei lá, apenas… uma oportunidade. Não posso lhe prometer que as coisas serão fáceis, tampouco que só teremos momentos felizes. Nunca estive numa situação parecida, então também não sei direito o que estou fazendo. Mas tentarei ser bom pra você. – Também não sei o que estou fazendo. – ela disse. – Podemos aprender juntos. Apenas me diga o que deseja de mim, e nós descobriremos juntos. Ela sorriu, mas ele ainda pôde sentir sua apreensão. – Você me faz feliz. Eu, bem… Não gosto de estar aqui quando você não está por perto. Certamente era difícil para ela admitir aquilo. – Não posso prever o futuro, mas farei tudo o que puder por você. Você está se arriscando comigo. Aprecio o que está fazendo e saberei valorizar isso. Ele então pressionou seus lábios contra os dela e ela sorriu quando ele se afastou. – Uau! – ela exclamou, percorrendo a boca dele gentilmente com os dedos – Sua boca é surpreendentemente doce para quem diz coisas tão feias e rudes. Ele caiu na gargalhada. – Acho que você está delirando. Que tal tirarmos um cochilo antes que resolva me dizer que tenho o cheiro do brilho do sol ou algo desse tipo? – Você realmente tem o cheiro da luz do sol. – É, e como cheira a luz do sol? – Cheira como o mundo lá fora. Quente. Alegre. Seguro… – ela fez uma pausa, então continuou – Verde. – Verde? Ela confirmou com a cabeça – Com certeza, verde.

A Pizzaria Tarullo era um estabelecimento pequeno cujo proprietário, John Tarullo, fazia parte da segunda geração de imigrantes italianos. Ele era o que todos costumavam chamar de um uomo de panza, ou seja, um homem barrigudo, e a Cosa Nostra o recompensava por isso. Ele cuidava dos próprios negócios e nunca prestava atenção a assuntos que não lhe diziam respeito. Em troca de seu silêncio, a famiglia garantia sua prosperidade. Tarullo não gostava de confiar na máfia. Na verdade, várias vezes ele chegara a comentar com Vincent que detestava aquela organização, porém, se não fossem eles seriam outras pessoas. Alguém viria até ele esperando algo em troca e era bom que esse alguém pelo menos tivesse um rosto familiar. O próprio Vincent gostava de proteger a pizzaria. Tarullo foi o responsável por encontrar Carmine na noite em que ele fora baleado e Vincent sempre se sentiria em dívida com ele por ter salvado a vida de seu filho. Isso era algo que Tarullo preferia esquecer. Nunca havia problemas naquela pizzaria, afinal, todos sabiam que o lugar era protegido pelos mafiosi, por isso Vincent ficou chocado ao receber uma ligação para comparecer ao local, principalmente depois de tantos anos do ocorrido. No momento em que pisou no restaurante e ouviu as vozes altas e impacientes, sua mão repousou


sobre a arma escondida no casaco. Ele ficou imóvel, observando os homens que estavam no balcão, ambos caucasianos e com cabelos ruivos. Vincent os avaliou enquanto brigavam; ambos falavam de um jeito enrolado. Ele não tinha certeza do porquê fora chamado para resolver uma situação tão corriqueira, mas quando o alvo dos dois passou a ser Tarullo, DeMarco deu um passo à frente. De fato, ele se afastara pouco da porta quando esta se abriu novamente e ele ouviu alguém dizer uma única palavra. – Zatknis! Cale a boca. Aquela era a única expressão que Vincent conhecia em russo. Ele a ouvira muitas vezes dos lábios do homem que agora estava parado a apenas alguns centímetros dele. Vincent o encarou. Era alto e forte como um jogador de futebol americano. Os cabelos grisalhos estavam escondidos por um boné preto. Embora estivesse na casa dos setenta, o sujeito parecia um jovem psicopata assassino. – Ivan Volkov – Vincent disse –, você não é bem-vindo neste lugar. Ivan o encarou sem expressão por um momento antes de sair da pizzaria. Porém, antes mesmo que a porta se fechasse, ele voltou. – Não vejo seu nome na placa. – Não preciso ser o dono do lugar. – Vincent retrucou – Você não tem negócios nessa parte da cidade. Apesar de Vincent estar irritado, Ivan teve a audácia de sorrir. – Por que está sempre tão sério? Só viemos comer uma pizza. – Procure outro lugar. – Mas eu quero jantar aqui. Os dois estavam em um impasse; a mão de Vincent ainda posicionada sobre o revólver em seu casaco. Porém, Ivan não parecia afetado, apenas impaciente ao olhar o cardápio afixado na parede. A porta se abriu novamente e Corrado entrou no restaurante. Ele sequer olhou para Ivan quando passou por ele. – Volkov. – Moretti. – Saia. – Por quê? – Porque serei forçado a te matar se não sair. Estou usando minha camisa favorita, portanto, arruinaria o meu dia se ela ficasse manchada com o seu sangue. Ivan não disse uma só palavra enquanto Corrado caminhava de modo casual até o balcão. Os dois sujeitos que estavam sentados se afastaram quando Corrado levou a mão ao bolso. Todos estavam tensos e o silêncio sufocante inundava o ambiente. Porém, em vez de retirar sua arma, ele pegou sua carteira. – Quero uma pizza de calabresa com cogumelos. Com pouco molho. Você sabe como eu prefiro. Tarullo o chamou e ao mexer na registradora ela emitiu um som forte, que interrompeu o silêncio do local. – São 17 dólares e 78 centavos. Corrado entregou-lhe uma nota de cinquenta dólares e comentou: – Guarde o troco. Ivan respirou fundo e gesticulou para que seus homens deixassem aquele local. Em seguida voltouse para Vincent. – Nós nos encontraremos novamente. Vincent acenou com a cabeça. – Tenho certeza de que sim. Os russos saíram, falando mais uma vez em voz alta ao deixarem o local. Vincent olhou para seu


cunhado. Corrado também o encarou de um jeito peculiar, apoiado no balcão à espera de sua pizza. – Eles estão tentando nos provocar. – Eu sei. – disse Vincent – Também recebeu um telefonema para vir aqui esta noite? – Não, só queria comer pizza. Vincent olhou para ele e disse. – Sabe que Sal nos espera para uma reunião, certo? – Sei – respondeu Corrado, olhando para o relógio –, mas estou faminto.

Reuniões da famiglia não se pareciam em nada com as do cinema. Quando ainda era criança, Vincent costumava assistir a encontros elaborados que mais pareciam julgamentos, então ria ao imaginar seu pai num traje preto e com um martelo na mão, sentado no centro da sala enquanto ambos os lados defendiam suas posições. O culpado perdia e a justiça era feita; mais um caso resolvido. Não, as reuniões da famiglia não eram assim. Em geral elas ocorriam em uma caminhada casual, às vezes chegando ao fim sem que uma única palavra fosse trocada. Não havia argumentação e também não importava se você era inocente. O julgamento já havia ocorrido antes de sua chegada. Vincent ficou de pé próximo ao píer olhando para o Lago Michigan. O Federica flutuava a não mais de trinta metros de onde ele estava. Havia uma mulher caminhando no deque. Ela parecia jovem, possivelmente não tinha trinta anos. Uma goonah, ou amante, que se sentia atraída por esse estilo de vida e também pelo poder desses homens. Vincent as via apenas como prostitutas de luxo, que trocavam sexo por presentes e viagens ao exterior. – Carlo também foi chamado? – perguntou Giovanni. Vincent se virou e olhou para os homens que já estavam reunidos. Giovanni parecia congelado dentro de um casaco grosso. Sal negou com a cabeça. – Não, ele voltou para Vegas. Carlo havia assumido as operações da famiglia há alguns anos em Vegas, então raramente aparecia em Chicago. Vincent se ressentia pelo tratamento especial que recebia. Afinal, ele também se mudara, mas ainda assim era obrigado a comparecer. – Muito bem, quatorze dos nossos foram presos. – iniciou Sal, indo direto ao assunto – Dois deles estão colaborando com a polícia. Um falatório se instalou entre os presentes. Quatorze membros da Cosa Nostra haviam sido presos e dois deles se tornaram testemunhas e estavam cooperando com o governo. – Você irá silenciá-los? – perguntou Squint. Vincent olhou para ele, ainda sem entender por que aquele sujeito era convidado para as reuniões. – As coisas ainda não esfriaram. Eles estão bem protegidos. – Mas então – disse Squint –, por que não pegamos suas famílias? Os dois entenderão o recado. Em conjunto, Vincent e Giovanni tentaram fazer suas objeções, mas a voz de Corrado se sobressaiu à voz de ambos. – Não. Ele então se encostou à sua Mercedes e pegou a caixa de pizza que estava no banco. Ele a devorou como se não comesse há semanas. Aquela foi sua única palavra. Não houve qualquer explicação, o que não surpreendia Vincent. Ele dissera tudo o que precisava com aquela única palavra. – Corrado está certo. – disse Sal – Vamos apenas ser cuidadosos até descobrirmos mais. Squint resmungou para si mesmo enquanto Corrado continuava a comer. Giovanni sentia calafrios e Vincent estava impaciente quando percebeu que a atenção de Sal se voltara para o barco. Eles


conversaram um pouco mais até que a atenção de Vincent foi atraída pela menção dos russos. – Eles estavam no Tarullo esta noite. – Vincent disse. – Eles machucaram alguém? – perguntou Sal – Ou a situação foi resolvida? – Foi resolvida. Ele aprovou com a cabeça. – Não há motivos para entrarmos em conflito com eles. Giovanni tentou interferir, mas o olhar de Sal foi suficiente para encerrar a conversa. Ele então abanou a mão, liberando todos os presentes. Corrado entrou no carro sem dizer outra palavra. Vincent se virou para sair, mas foi interrompido pela voz de Salvatore. – Como vai meu afilhado? O sangue de Vincent congelou ao ouvir aquela pergunta. – Ele está bem. – Está se saindo bem na escola, passando de ano? – Ele vive reclamando; falta bastante. Sal deu risadas. – Isso não me surpreende. Os negócios, a famiglia está no sangue daquele jovem. E isso é tudo, você sabe. A famiglia é tudo o que importa. Vincent não tinha nada de positivo a dizer sobre o assunto, mas Sal não esperou por uma resposta. Levando a mão ao bolso, pegou um envelope grosso e o entregou a Vincent. – Dê isso ao Príncipe por mim. Um presentinho de seu padrinho. Mesmo sem querer, Vincent pegou o envelope e seguiu para o carro. Depois que se sentou, enfiou o envelope no porta-luvas. Não tinha a menor intenção de entregar aquele presente ao seu filho.

Haven se sentou à janela da biblioteca. Carmine pegou seu violão e se aproximou dela. Sem dizer nada, ela pegou um livro que estava na mesinha entre eles. Carmine sorriu ao perceber que se tratava de O Jardim Secreto. – Então, você ainda não desistiu desse livro? – Não. – ela respondeu, abrindo o livro no que representava um quarto das páginas – É muito bom. Ela busca um jardim e faz amizade com um pequeno passarinho. Isso me faz lembrar… Ela interrompeu a frase no meio e Carmine continuou dedilhando o violão de maneira aleatória até que perguntou. – Te faz lembrar o quê? – De quando eu era criança e costumava conversar com os animais. – ela respondeu – Havia alguns cachorros, mas na maioria eram cavalos. Eu costumava ficar nos estábulos com eles. Pego de surpresa, Carmine errou a nota e ambos se contraíram ao ouvir o som desagradável. – Você dormia com os malditos cavalos? – Sim, mas não era tão ruim. Eles me faziam companhia. Ele contraiu a mandíbula e tentou se controlar. Ela poderia dizer que aquilo não era ruim, se quisesse, mas Carmine não conseguia imaginar um cenário mais desumano. Continuou a dedilhar seu violão, brincando com as notas. O olhar dela ocasionalmente aparecia acima do livro e se concentrava nele. – Posso te fazer uma pergunta, Carmine? – Claro que pode. – Por que atirou em Nicholas no ano passado? Mais uma vez ele errou a nota. De todas as coisas que ela poderia lhe perguntar, ela queria saber


logo sobre Nicholas? – Nós discutimos depois que eu me meti com a irmã dele. Ele ficou puto comigo e acabou dizendo algo sobre a minha mãe. Eu surtei. – Sua mãe? – Sim. – E ela está em Chicago? Ele deu um suspiro. – Em Hillside. – E o que ela está fazendo lá? Ele hesitou por um segundo. – Nada. Ela se foi. – Você quer dizer que ela já… morreu? Carmine se contraiu ao escutar aquela palavra e confirmou com a cabeça. Ele voltou a dedilhar enquanto ela se concentrou no livro. Ele não sentiu qualquer tipo de julgamento, desapontamento ou pressão para explicar o que acontecera. Só naquele instante ele percebeu o quanto ele precisava desse tipo de aceitação. Ela o havia mudado. Embora não soubesse de que modo, ele se sentia diferente. Ele havia voltado a ser o filho de Maura, e não somente o herdeiro de Vincent DeMarco.

– Olhe aquele Chevy Suburban. A voz parecia casual, mas Vincent conhecia Corrado bem o suficiente para saber que ele estava alerta. O médico esperou alguns segundos antes de se virar e observar um veículo Chevy Suburban na cor preta, estacionado próximo à guia, a meio quarteirão de distância. Os vidros escuros impediam a visão do interior, mas Vincent tinha um ou dois palpites. – Acha que é o FBI? Não parece ser da região. – Qualquer coisa é possível – dissse Corrado – FBI, Departamento de Justiça, cia… Vincent fez um movimento negativo com a cabeça. – O que aprontou para fazer a cia trabalhar em pleno sábado à noite? – Nunca se sabe. – disse Corrado – Talvez eles estejam querendo me recrutar. Vincent deu risada, embora ele não descartasse essa possibilidade. Não teria sido a primeira vez que alguém da cia tentava trocar informações. – Eles estavam parados próximo do clube esta manhã. – disse Corrado – Agora estão perto do restaurante. – E só agora você me dá essa informação? – Você mesmo deveria ter percebido a presença deles. – Não acha que seja alguém como os irlandeses, não é? Russos, talvez? – Não. Eles são policiais. – Talvez um novato fazendo sua primeira campana. – sugeriu Vincent – Ou estão deliberadamente fazendo com que nós os vejamos. – De qualquer modo você está me ofendendo. O que acha que eu sou? Um idiota que não perceberia ou um covarde que se sentiria intimidado? – Talvez não estejam aqui por sua causa. – disse Vincent – Talvez estejam aqui para me observar. Corrado deu de ombros. – Isso faria mais sentido. – Por quê?


– Porque você é o idiota que não percebeu a presença deles. Se Vincent não fosse um homem maduro e seu cunhado não lhe desse um murro na cara por fazêlo, ele certamente teria revirado os olhos. – Vou falar pro Sal. – disse Corrado – Se eles estão por aqui é melhor tomarmos precauções. Fazendo um gesto com a cabeça, Corrado seguiu direto para sua casa, enquanto Vincent desceu o quarteirão. Ao chegar na varanda do imóvel branco de dois andares, ele pegou um molho de chaves que trazia em seu bolso e usou uma velha chave de cobre para abrir a porta. Ao abri-la sentiu imediatamente o forte cheiro de mofo. O pó do local fez seu nariz coçar conforme seguia pelo corredor. Depois de ficar fechado por tanto tempo, o lugar estava abafado e úmido. Vincent entrou no piso térreo vazio e o som dos seus passos sobre a madeira ecoou pelas paredes vazias. Uma dor no peito dificultava sua respiração, e embora preferisse culpar o ar pesado, ele sabia perfeitamente que se tratava de um tormento emocional que o engolia por dentro. Já na sala de estar, encostou-se a uma parede e fechou os olhos. Foi então que conseguiu ver a luz do sol entrando pelas janelas, soprando e movimentando as cortinas azuis. A casa agora estava atulhada de móveis, bibelôs e retratos de família. Ele também conseguia ouvir os passos no piso de cima; os gritos entusiasmados das crianças brincando de esconde-esconde. No rádio ele ainda podia escutar o som de Mozart e Beethoven. Vincent era capaz de senti-los: o calor, o amor e a felicidade que tanto buscava. Aquele lugar era um caos, mas representava também sua paz interior. Era sua casa e não havia nada como aquele lugar. E lá estava ela, como sempre, se movendo pela casa num vestido leve de verão, com os pés descalços sobre o piso de madeira; as unhas dos pés pintadas de um cor-de-rosa suave. Ela sorriu para ele com aqueles olhos verdes brilhantes. Porém, quando abriu novamente os olhos tudo havia desaparecido. Ele se deparou com a escuridão total e um profundo silêncio que só era quebrado pelo som de sua respiração ofegante. Ele ainda dormia lá às vezes, quando visitava a cidade, mesmo não havendo eletricidade nem móveis. Costumava se deitar no chão e olhar para o teto, deixava o tempo passar entregando-se às lembranças. Mas este não seria o caso nesta noite. Ele não poderia ficar. O Chevy Suburban preto já havia desaparecido quando ele saiu.

Haven ficou acordada naquela noite, sem conseguir dormir. Ela passara toda sua vida pertencendo a outras pessoas, mas, pela primeira vez, ela sentia como se realmente fizesse parte de algo. Não era como ser um objeto, mas pertencer a alguma coisa maior. Ninguém nunca se preocupara com o que ela sentia até então, mas Carmine era diferente. Ele perguntava e Haven sentia que queria responder. Ainda era de madrugada quando ela desistiu de tentar dormir e desceu as escadas, surpresa ao ouvir barulhos na sala de estar. Dominic estava deitado no sofá vestindo pijamas, com a TV ligada. Ele se sentou ao perceber sua presença e fez um sinal para que se juntasse a ele. – Venha, sente-se aqui. Ela se sentou e colocou as mãos sobre os joelhos. – Estou surpresa que esteja acordado tão cedo. – Não consegui dormir. – ele disse – E você, por que está de pé a essa hora? – O mesmo que você. – respondeu – Achei melhor descer e ver se tudo estava em ordem. – Não há pressa. – ele disse – É provável que meu pai ainda demore alguns dias. Ela encarou Dominic e comentou.


– Ele viaja bastante. – É verdade, e tem sido assim desde que consigo me lembrar. – explicou – Há sempre algo para ele fazer em algum outro lugar longe daqui. – E o que ele faz quando viaja? Dominic sorriu de um jeito seco. – Não sei e também não quero saber. Meu pai nos trouxe para cá há alguns anos para que não fizéssemos parte de tudo aquilo. Ele disse que queria que nós dois tivéssemos uma vida normal; que fôssemos crianças normais, mas não há nada de normal em criar a si mesmo, sabe? Não há nada de normal na sua situação. Todos nós sofremos por coisas que ele fez, e odeio a ideia de pensar o quanto sofreríamos se soubéssemos em que tipo de coisa ele está envolvido. Ela o encarou, confusa, e ele sorriu diante de sua expressão. – Em outras palavras, Pé de Valsa, a ignorância é uma bênção.

Vincent colocou uma nota de cem dólares no cesto de coleta da igreja e suspirou quando sua mãe o passou para frente. Fazia anos que ela não contribuía, convencida de que os coroinhas estavam roubando o dinheiro para comprar drogas e pagar prostitutas, embora todos ainda estivessem no ensino fundamental. Celia e Corrado também fizeram sua doação, e os quatro se sentaram enquanto o cestinho passava pelo resto da multidão. Como sempre, Corrado se manteve distante, enquanto a irmã de Vincent se portava como sempre, sorridente. Celia era uma mulher alta e magra; seu rosto era suave e redondo. Ela tinha cabelos pretos, da cor da noite, e seus olhos também ostentavam a mesma cor. Os bancos estavam cheios. Vincent olhou para a congregação e percebeu que a maioria dos membros da famiglia estava presente. Todos estavam bem vestidos, na parte da frente da igreja. Aquela era uma grande produção para eles, o único dia da semana em que podiam compartilhar seu dinheiro e fingir serem boas pessoas. Aquilo fazia com que os homens honestos – os galantuomini – se sentissem protegidos e, assim, os respeitassem, confiassem neles e se mostrassem menos inclinados a traí-los. Depois que as doações terminaram, as pessoas se reuniram no corredor e uma longa fila se formou para a comunhão. Vincent, entretanto, permanecia em seu lugar. Corrado o olhou de um jeito peculiar, mas se manteve em silêncio enquanto entrava na fila. O restante da celebração foi rápido e todos ficaram de pé para ouvir a última oração. O padre Alberto fez o sinal da cruz e encerrou o culto dizendo: – Que a paz esteja com vocês. Os quatro já se preparavam para sair quando o padre chamou o nome de Vincent. Os pelos de sua nuca se levantaram, como se estivesse prestes a levar uma bronca. – Sim, padre? – Não tomou a comunhão, meu filho. – disse o padre, demonstrando preocupação genuína – Aliás, não tem comungado há semanas. Na verdade, haviam se passado meses desde a última vez, mas Vincent preferiu não corrigir o padre. – Sempre me esqueço de jejuar antes da missa. Padre Alberto sabia que ele estava mentindo. – A igreja nunca fecha. Não precisa marcar hora. Deus está sempre aqui para você. – Eu sei, padre. Obrigado. Vincent saiu antes que o padre pudesse continuar pressionando e se reuniu à sua família nos


degraus da catedral. Corrado e Celia estavam parados, esperando. Gia já havia se misturado à multidão. Estava cercada de mafiosi, que a escutavam enquanto ela falava sobre o passado. Todos sorriam e gargalhavam, dando corda, sem jamais fazer pouco caso dela. Afinal, ela era a viúva de um ex-chefe da máfia, mãe de um consigliere e ainda tinha como genro outro homem importante. Todos a respeitavam, independentemente de sua mente estar ou não afetada. O fato é que, vivendo em Sunny Oaks, Gia não se sentia respeitada. Vincent esperou que a mãe terminasse de contar suas histórias sobre Antonio e uma de suas aventuras de quando Vincent e Celia ainda eram jovens. Ele sorriu ao pensar naqueles dias. Foi antes daquela tragédia tê-lo afetado. Antes de Maura e as crianças; antes dos Antonelli e a garota. Antes de a família de Salvatore ser assassinada e que o mundo implodisse ao redor de todos. Gia se virou para o filho quando terminou; todos já se despediam e aos poucos a multidão se dissipava. – Mãe, já está pronta para… – Você não comungou. Ele deu um suspiro. Planejava perguntar se estava pronta para retornar a Sunny Oaks, mas aquilo não fazia mais sentido agora. Ela não iria a lugar algum antes de dizer tudo o que quisesse. – Não, eu não pude. Gia sorriu. – Ah, estou orgulhosa de você. Ele ficou paralisado enquanto assimilava aquelas palavras. Nunca em sua vida ouvira aquilo da boca de sua mãe. Ela deve estar demente. – Está orgulhosa de mim? Ela confirmou com a cabeça. – Agora você vê, não é? Depois de todos esses anos, você compreende. – Compreendo o quê? – Que estava vivendo em pecado. Seu casamento nunca foi reconhecido pela igreja. O sorriso desapareceu do rosto de Vincent. Não, ela não estava demente, estava apenas sendo a pessoa maligna de sempre. – Sim, meu casamento foi reconhecido. – Você era jovem, Vincenzo. E ela era irlandesa. Nem era como nós. Celia respondeu antes de Vincent. – Maura era católica, mamãe. A união dele foi abençoada. O padre Alberto os casou. Gia sorriu para a filha antes de fazer um movimento com a mão, como se isso não importasse. – Como eu poderia saber? Nem fui convidada. Ela fora convidada, é claro, mas não compareceu à cerimônia. Antônio viera em respeito ao filho, mas Gia se recusou. Em sua cabeça, se ela não viu o casamento ela poderia continuar agindo como se a união não tivesse ocorrido. – Você foi convidada. – Vincent refutou – Mas decidiu não aparecer. – Isso é ridículo. – Gia retrucou – Não sabia nada sobre o casamento até que tudo já estivesse acabado. – Se isso fosse verdade, mãe, como é que o papai compareceu? – O que isso tem a ver comigo? Seu pai sempre me escondia as coisas. Não me contava nada. Por que seria diferente neste caso? Vincent tentou controlar sua raiva. – Porque eu entreguei o convite em sua mão. Você o olhou e atirou na lata de lixo. Gia reclamou. – E aqueles médicos charlatões ainda dizem que tenho problemas de memória. Isso nunca


aconteceu. Corrado se aproximou, com as mãos nos bolsos. – Sobre o que é a discussão agora? – O casamento de Vincent e Maura – Celia explicou –, de novo. – Ah, sei. – respondeu Corrado – Sinto por não ter comparecido. Gia sorriu. – Eles também não te convidaram? – Eu fui convidado. Só achei que não seria apropriado participar da cerimônia. – Viu? – Gia falou – Eu te disse que aquilo não foi um casamento de verdade. Corrado concorda comigo. Corrado começou a corrigi-la, mas Vincent acenou negativamente com a cabeça. Embora ainda o deixasse magoado o fato de seu cunhado não ter comparecido ao casamento, Vincent compreendia a situação. Diferentemente de Gia, a intenção de Corrado era boa. – Não importa o que outras pessoas pensem. – disse Vincent – Eu sei que nosso casamento foi real.

Haven passou a manhã toda limpando a casa e terminou por volta das três da tarde. Foi então que ouviu o barulho de carros do lado de fora. O alarme foi desativado e a porta da frente se abriu. Ela rapidamente seguiu para a cozinha, escutando outras vozes além do doutor DeMarco. Os pelos na nuca da jovem se levantaram quando ela os viu. Os olhos de DeMarco se fixaram nela e a jovem logo percebeu que aqueles homens eram provavelmente como o mestre Michael: frios e indiferentes; sem nenhum respeito por pessoas como ela. Eles eram como a parte sombria do médico, que ela testemunhara no quarto dele há pouco tempo. Eram perigosos. Verdadeiros monstros. Ela respirou fundo e deu um passo à frente para avaliar a reação de DeMarco. Os cantos de sua boca se curvaram para cima e ela entendeu que deveria ficar. As pernas da jovem tremiam quando ela entrou na sala de estar, onde todos estavam reunidos. Os sujeitos perceberam sua presença imediatamente. – Traga-nos uma garrafa de uísque e copos. – solicitou DeMarco com um aceno. Haven correu para a cozinha e procurou nos armários até encontrar uma garrafa em que estava escrito Glenfiddich Single Malt Scotch Whiskey. Então tirou o pó de cima do vasilhame e o levou juntamente com três copos até a sala. Ela serviu as bebidas, nervosa demais para olhar nos olhos daqueles homens. – Então, essa é a garota. Haven imediatamente olhou para o sujeito que falou; sua voz soava como vidro sendo arranhado por metal. Um ar de autoridade pairava sobre ele, que estava sentado entre DeMarco e o outro sujeito. Ele era bem mais velho que os demais. – Sim. – respondeu DeMarco – É ela mesma. – Estou curioso, Vincent. – disse o homem – Acha que valeu a pena? O riso amargo de DeMarco provocou um frio na espinha de Haven, deixando-a ainda mais nervosa. – Você quer dizer em termos pessoais ou comerciais? – Pessoais. – É claro que não valeu. Ela não conseguia respirar; as palavras de DeMarco a magoaram. Seria ela tão inútil? – Porém, como homem de negócios – DeMarco continuou, dando de ombros –, posso dizer que ela trabalha duro.


– Então, não foi um mau investimento? – perguntou o outro sujeito. Haven olhou para ele. Investimento? Seus olhos se encontraram e ela percebeu nos dele o perigo de uma lâmina afiada. A pele dela se arrepiou diante do interesse que demonstraram por ela. Viu-se obrigada a desviar o olhar. – É, pode-se dizer que não. – disse DeMarco, mudando de posição e pigarreando – Por que não começa o jantar, criança? Meus convidados nos acompanharão esta noite.

O coração de Haven disparou no momento em que ela correu para a cozinha, apoiando-se no balcão para respirar fundo. Dominic chegou em casa enquanto ela ainda estava ali, e cumprimentou os homens na sala de estar antes de se juntar a ela. – Você parece preocupada. – ele disse, pegando um refrigerante na geladeira. – Estou nervosa. – ela admitiu. Dominic suspirou, abrindo a lata e encostando-se no balcão. – Ajudaria saber que também não me sinto confortável com eles aqui? De fato suas palavras ajudaram um pouco, mas não foram suficientes para eliminar seus temores. – Sabe por que eles estão aqui? – Negócios, eu acho. Como já disse, nunca me envolvo. – ele tomou um gole e meneou a cabeça – Na verdade, eu conheço o sujeito de terno cinza. É Salvatore, e ele está no comando. – E o outro? – O nome dele é Nunzio. Costumávamos brincar juntos quando éramos crianças, mas agora já não somos mais amigos.

Uma hora depois, enquanto ainda preparava o jantar, Haven ouviu alguém se aproximando dela. Foi então que o sujeito chamado Nunzio apareceu na porta. Seus olhos se fixaram nela enquanto ela deliberadamente se concentrava no jantar, ignorando a pele arrepiada e esperando que ele fosse embora depois de fazer o que pretendia. Entretanto, ela ainda mexia o macarrão quando sentiu que ele se movia na direção dela. A tensão fez com que seus músculos doessem; suas mãos tremiam cada vez mais a cada passo dado por aquele homem. Um calafrio percorreu sua espinha quando sentiu a respiração dele em sua pele. – Você é mais bonita do que eu esperava. – ele disse, passando a parte da frente dos dedos em seu braço – Acho que poderíamos nos divertir um pouco mais tarde. A mão dele repousou no quadril de Haven, que cerrou os olhos e desejou do fundo do coração que ele a soltasse. Foi então que a mão dela encostou no caldeirão de água fervente. A dor fez com que ela reabrisse os olhos e segurasse a mão ferida com a outra. Nesse momento, DeMarco prendeu Nunzio contra o balcão, bem ao lado dela, com uma faca de serra bem próxima à garganta do sujeito. A voz dele era severa. – Não toque no que me pertence, Squint. Nunzio respondeu de cara feia. – Já ouvi, doutor. A lâmina da faca quase cortou a pele do homem, bem onde o sangue pulsava. DeMarco deu um passo para trás e Nunzio deu uma última olhada para Haven antes de sair da cozinha. A faca foi atirada sobre o balcão e, em seguida, DeMarco caminhou até ela, que se contraiu. – Sinto muito.


Ignorando seu nervosismo, ele pegou na mão dela e deu algumas instruções sobre como cuidar do ferimento. Ele se virou para sair, mas hesitou, olhando para o caldeirão de água fervente. – Você jantará conosco essa noite, portanto, prepare um lugar à mesa.

Carmine estacionou na garagem depois do treino de futebol e logo viu o sedan preto alugado parado na frente da casa. Aquela visão o deixou agitado. Seu pai não voltara de Chicago sozinho. Ele escutou a voz de Salvatore assim que entrou no hall. Carmine olhou rapidamente para Haven na cozinha antes de seguir para a sala de estar. Salvatore sorriu ao vê-lo entrar. – Ah, Principe! Carmine beijou a mão de Salvatore quando ele a esticou em sua direção, tentando controlar o desejo de se esquivar. Se havia um costume que fazia com que seu estômago revirasse, era justamente aquele. – Ótimo revê-lo, Sal. – Digo o mesmo, meu querido. Estávamos falando a seu respeito. – Coisas boas? – perguntou Carmine. – Seu pai estava me contando as coisas que tem feito. Ele riu. – Então, não devem ter sido coisas boas. Vincent manteve-se de pé, balançando a cabeça enquanto os outros riam. – Se me derem licença por um minuto, preciso falar com meu filho. Sal acenou com a mão e Carmine ficou imediatamente pálido diante da expressão desconfortável de seu pai.


Capítulo 16

Carmine se sentou na cadeira de couro no escritório de seu pai, tentando demonstrar tranquilidade, mesmo estando bastante nervoso. Ele dedilhava os braços da cadeira enquanto Vincent se sentava à escrivaninha com seu notebook. – Gosta do número 13, Carmine? Carmine franziu as sobrancelhas diante daquela pergunta. – Bem, para mim é só um número. – Nunca compreendi esse fascínio. – disse Vincent, digitando algo no computador, sem levantar os olhos – Existe até mesmo um distúrbio psicológico associado ao medo desse número: triscadecafobia. No sul da Itália, tredici, ou treze, é uma gíria. Significa que a sorte de alguém está chegando ao fim. Ele parou de falar e o escritório ficou em absoluto silêncio. Carmine mais uma vez dedilhou os braços da cadeira. – Agradeço por compartilhar esse conhecimento, e tenho certeza de que se um dia participar do Jeopardy! na TV, essa informação será bem útil. Mas não compreendo o que isso tem a ver comigo. Vincent parou de digitar. – Lasciare in tredici. – Está me dizendo que minha sorte acabou? – Não somente a sua, filho. – Vincent se voltou novamente para o notebook – Preciso de outro favor. – Claro que sim. – Preciso que alguém fique de olho na garota. Carmine olhou incrédulo para o pai. – Quer que eu a espione para você? – Não exatamente. – ele respondeu – Preciso me certificar de que ela fique segura. Peguei o Squint tocando nela. Carmine ficou furioso e se levantou tão rápido que a cadeira se virou para trás. – Ele a tocou? – Ele não a machucou, embora ela tenha queimado a mão. – Vincent disse de um modo casual, ignorando a ira do filho – Eu já cuidei disso. – Você cuidou disso? – Carmine cerrou os punhos e se controlou para não quebrar alguma coisa. – Sim, já cuidei. – Vincent repetiu – O que deu em você? Carmine olhou para o pai, ajeitou a cadeira e voltou a se sentar. – Não gosto dessa merda. – Eu sei, mas precisa controlar seu temperamento. Eu me livraria de Squint se pudesse, mas Sal parece cego. Para ele o sujeito faz parte da família. Seu padrinho não tem parentes de sangue, uma vez que as famílias de seu irmão e de sua irmã foram assassinadas. É por isso que sempre teve fixação por você. É o que tem de mais próximo a um filho: seu afilhado. Fazer com que ele acredite que Squint não é confiável não será fácil. – Você acha que ele poderia ser perigoso? Vincent suspirou. – Coisas ruins estão para acontecer, e digamos que ninguém esteja realmente concentrado no que


acontece dentro da fortaleza. Acho que Squint está mais do que feliz em se aproveitar disso. – Mas por que ele estaria interessado em Haven? – Provavelmente porque seria a coisa errada a fazer. O coração de Carmine disparou. Errada? – Por acaso você quer dizer que é errado alguém como ela ficar com alguém como algum de vocês? – Estava me referindo ao fato de ele não ter o direito de tocar no que não lhe pertence – respondeu Vincent –, embora esse seja um ponto importante. – Então, você realmente pensa assim? – Claro que é errado. – Vincent respondeu – Estupro sempre é errado. – Digo, sexo consensual. Vincent balançou negativamente a cabeça. – E você realmente acha que uma garota como ela tem a estrutura para consentir? Seria preciso uma mulher forte para olhar para ele como um homem, não como um mestre; vê-lo como realmente é, e não pelo que faz da vida. Mas só porque poderia acontecer não significa que deveria. É arrumar problema para todos os envolvidos. Carmine ficou em silêncio por alguns instantes. Ele jamais pensara muito sobre essas questões. Para ele, Haven era apenas uma jovem. – De qualquer modo, as investidas de Squint foram indesejadas. – disse Vincent – Eu deveria ter imaginado que isso iria acontecer, mas não podia ter agido de modo diferente. Não podia continuar mantendo a menina escondida. Sal teria perguntado sobre ela pelo fato de ela ser quem é. As sobrancelhas de Carmine se ergueram. – E quem é ela? – O que disse? – O pai dela é alguém importante, ou algo assim? Michael Antonelli? Vincent o encarou. – Não me lembro de ter lhe dito que Michael era o pai dela. Ele deu de ombros. – Talvez Haven tenha mencionado. – Estou surpreso. – ele disse – Michael nunca a reconheceu, portanto, não há muita gente que saiba sobre isso. Sua própria mulher só descobriu isso recentemente, e não ficou nada feliz. Carmine sorriu. – É, Haven também me contou isso. Vincent ergueu uma sobrancelha. – Você disse a ela que os conhecia? Carmine olhou para o pai. – Mas eu não conheço. – Sim, conhece. – Vincent insistiu – Bem, pelo menos conhece o irmão de Katrina. Somos parentes, afinal. O silêncio tomou conta do lugar. Demorou algum tempo para que a ficha caísse. – Katrina Moretti? Está me dizendo que a filha da puta que torturava Haven é irmã de Corrado? – Sim. – Aquele canalha! Ele sabia o que estavam fazendo? – Possivelmente, mas nada disso importa nesse momento. – disse Vincent – Squint colocou os olhos na garota, portanto ela precisa ser vigiada o tempo todo. Aquilo não fazia sentindo para Carmine, mas ele sabia que seu pai não lhe contaria mais nada.


– Apenas relaxe. – disse Carmine com a voz suave, puxando uma cadeira para que Haven se sentasse à mesa de jantar. Ele se sentou ao lado dela e Haven permaneceu imóvel enquanto todos abaixaram a cabeça para rezar. Todos se serviram, mas a jovem só pegou uma pequena porção. Estava aflita demais para comer. Ela remexeu a comida no prato, alarmada, tentando ignorar o olhar de Nunzio do outro lado da mesa. – Então, Carmine. – disse Salvatore, tentando iniciar uma conversa – Em poucos meses estará com dezoito anos. Algum plano para o futuro? Haven olhou para ele, curiosa. Ela também se perguntava a respeito dos planos que teria, mas Carmine apenas ergueu os ombros, sem responder. DeMarco pigarreou. – Carmine poderá fazer o que quiser com sua vida, mas prefiro imaginar que ele permanecerá nesta casa até se formar. Nunzio deu risadas. – Escola é inútil. O que um diploma poderá lhe garantir hoje em dia, um emprego no McDonalds? Pode-se ganhar muito dinheiro na vida, mas nenhum pedaço de papel oferecido por alguma escola irá importar. DeMarco voltou a se pronunciar, com a voz afiada. – Um diploma pode não importar muito na área em que trabalhamos, mas não se trata de um pedaço de papel. Diz respeito a terminar o que começou; dedicar-se a alguma coisa e não se vender. Não há nada pior que um oportunista. – Não acho que isso tenha a ver com ser oportunista. – replicou Nunzio – É abrir os olhos e mudar as prioridades. – As prioridades não deveriam ser mudadas quando alguém jura fidelidade ao caminho escolhido. – retrucou Vincent – A mãe de Carmine certamente teria desejado que ele terminasse os estudos. Nunzio deu de ombros. – Mas a Maura não está mais aqui, então, o que importa o que ela desejaria? DeMarco saltou da cadeira, que caiu no chão. – Nunca mais diga o nome dela, scarafaggio! A família nunca fica de lado, seu inseto nojento! Haven estava tensa; seu coração batia acelerado e ela estava ficando tonta. Salvatore pegou no braço de DeMarco e o fez sentar à mesa. Todos voltaram a comer sem dizer uma única palavra; o silêncio tomou conta da sala de jantar. – Mas então, Haven… Ouvir seu nome sendo pronunciado em voz alta fez com que a jovem soltasse o garfo que tinha na mão, que caiu sobre o prato. Ela se contraiu. Respirando fundo, olhou para Salvatore. Tudo o que ela queria era desaparecer, tornar-se invisível. – Não precisa ficar nervosa. – disse Salvatore – Só estou curioso para saber o que está achando da vida na casa de Vincent. Escondida como estava, pensei que fosse apenas parte de nossa imaginação. – Os DeMarco são generosos comigo, senhor. – ela disse em voz baixa – Eles me tratam com justiça. Salvatore acenou. – É ótimo ouvir isso. Se eu soubesse que os Antonelli estavam sendo tão cruéis com você, já teria agido. Quando Vincent me contou, a situação já estava complicada demais para que eu pudesse intervir. Antes que Haven tivesse a chance de compreender, Carmine interferiu.


– Mas de que diabos vocês estão falando? DeMarco rosnou. – Veja como fala, filho. Salvatore deu de ombros. – Talvez eu tenha falado demais. Esqueça esse assunto. – Não se pode dizer algo assim e em seguida pedir que as pessoas esqueçam. – retrucou Carmine – Se sabia que um dos seus abusava de uma criança, por que não fez nada? Salvatore olhou para DeMarco, que balançou a cabeça em reprovação. – Michael Antonelli não é um dos nossos. – respondeu Salvatore, voltando-se para Carmine – Há certas regras que governam a vida. Elas não devem ser desconsideradas pelo fato de não gostar do que está acontecendo. Sentimentos pessoais não têm espaço nos negócios. Nunzio soltou uma risada amarga, mas não opinou. O silêncio voltou a se fazer presente no momento em que Carmine olhou para Salvatore e seu pai. Eles pareciam não ligar para ele; ambos estavam concentrados em Haven. Ela limpou a garganta, nervosa. – Obrigado por se preocupar, senhor. Em voz baixa Carmine resmungou. – Não o agradeça, merda!

Mais tarde naquela noite Haven deitou a cabeça no ombro de Carmine enquanto ambos assistiam a um filme no quarto dela. Ela deslizou seus dedos sobre o braço dele e tocou as costas de sua mão, antes de virá-la e percorrer as linhas de sua palma. Os dedos dele se contraíram quando ela tocou na tatuagem em seu pulso. – Você realmente acredita nisso? Não confie em ninguém? – Eu costumava acreditar. – ele respondeu – Até que você aparecesse. Ela ergueu a cabeça e olhou para ele. – Você confia em mim? – Sim, mas por que isso a surpreende? – perguntou – Eu deixo você dormir na minha cama e se aproximar das minhas coisas. Acha que eu faria isso se não confiasse em você? Eu nunca faria isso. – É verdade – ela disse –, você é fresco. Ele soltou uma risada e ambos os corpos chacoalharam. – Sou assim tão ruim? – Não. – ela respondeu – Mas ainda não deixa que eu arrume seu quarto. Ele suspirou fundo. – Isso nada tem a ver com confiança ou frescura. Eu me sinto como um babaca deixando que você limpe a bagunça que eu faço. Quero dizer, você é minha garota, e não tem que fazer isso. Uma fagulha de esperança surgiu dentro dela quando ouviu as palavras minha garota saindo dos lábios dele. – Mas você não percebe? Essa é uma das poucas coisas que posso fazer por você. Não tenho nada a lhe oferecer, Carmine. Não tenho como fazer você feliz. Ele a encarou com uma expressão intensa. Constrangida, Haven desviou o olhar, mas Carmine pegou seu queixo e fez com que ela o olhasse novamente. – Não pense que você precise fazer algo pra me impressionar. Ser você mesma já é o suficiente para me manter interessado.


Olhando para ele, ela imaginou se as coisas poderiam ser assim tão simples. – Você é pura. – ele disse, como se pudesse sentir seu desconforto – Depois de tudo o que fiz, espero poder ser bom o suficiente para você. Ela piscou algumas vezes, surpresa com as palavras do rapaz. – Você é bom demais para mim. – Eu? – ele retrucou – Tem certeza de que estamos falando da mesma pessoa? Do filho da puta egoísta que xinga, berra e bate em todo mundo porque não consegue controlar o próprio temperamento? Você sabe, aquele que bebe como se não houvesse amanhã e destrói o cérebro com drogas? É esse o sujeito que é bom demais pra você? Ela fez um sinal negativo com a cabeça. – Não, estou falando do rapaz que dividiu comigo uma barra de chocolate, mesmo nunca tendo compartilhado nada com ninguém; da pessoa que me emprestou o livro favorito de sua mãe porque achou que eu merecia aprender a ler. Estou falando sobre o garoto que me trata como se eu fosse uma garota normal; do cara que precisa desesperadamente que seu quarto seja limpo e suas roupas sejam lavadas, mas prefere viver no meio da bagunça e usar roupas sujas porque é educado demais para pedir ajuda à garota que beija. – Uau! – exclamou Carmine – Acho que gostaria de conhecer esse sujeito. Haven sorriu e ele voltou a puxá-la para perto dele. Ela colocou a cabeça em seu ombro. Carmine pegou sua mão e a acariciou como ela fizera antes, sendo cuidadoso para não tocar no ferimento recente.


Capítulo 17

Haven saiu de seu quarto por volta de 8h15 da manhã e deu de cara com Dominic parado diante da porta. Ela se contraiu, mas ele continuou na frente dela, segurando um DVD e um pote de pipocas. – Já estava na hora de acordar, Pé de Valsa. Agora vire-se e volte para o quarto. Dominic deu um passo à frente e Haven instintivamente deu outro para trás. Ele achou engraçado e repetiu o ato até que ambos estivessem dentro do quarto. Ele então fechou a porta e colocou o pote sobre a mesa, antes de ligar o DVD. Pegando o controle remoto, atirou-se ao sofá e colocou os pés sobre a mesa. Então iniciou o filme, começando a fazer barulho ao mastigar as pipocas. – Pretende ficar de pé? Ficará cansada. Um pouco intimidada, Haven se sentou ao lado dele, e franziu o cenho ao perceber que ele colocara um desenho. Ela estava prestes a lhe perguntar o que iriam assistir quando ele colocou o pote de pipocas bem na sua cara. Ela se assustou com o movimento brusco, e ele parou. – Tem medo de pipocas? – Não. – ela respondeu, enquanto ele aproximava o pote mais uma vez. Ela pegou um punhado e se virou para a TV – O que vamos assistir? – Shrek. – ele respondeu, colocando um punhado de pipocas na boca – Adoro essa porcaria de desenho. Ela assistiu um pouco. Depois de conhecer Dominic, Haven não ficou surpresa em saber que ele gostava desse tipo de filme. – Bem, faz sentido você assistir a desenhos. Não é isso que as babás fazem quando cuidam de crianças? Ele riu, assustando Haven ao atirar uma pipoca contra ela. – Olhe quem está fazendo uma piada! Você é engraçada. Não é de admirar que Carmine tenha se apaixonado por você. Ela o encarou. – Ah, não sei se diria que ele… se apaixonou por mim. – a última parte foi dita na forma de um sussurro, sendo difícil para ela pronunciar aquelas palavras. – Por favor, garota. Ele deixou de lado todas as puttani e isso é algo que jamais pensei que veria. O passatempo favorito dele era dar uma gozada. – Dar uma gozada? Dominic soltou um suspiro. – Você é tão inocente. Pergunte a Carmine o que isso significa quando ele chegar em casa. Quero vê-lo tentando explicar isso pra você.

Depois que o filme terminou, Haven seguiu Dominic até o jardim, que ficava na parte de trás da casa. Ela ficou parada na porta e logo sentiu um raio de sol tocando seu rosto. O ar estava úmido e uma brisa fria soprava contra seus braços descobertos e bochechas coradas.


Ela parou antes de colocar o pé para fora. – Tem certeza de que realmente posso sair da casa? – Sim, tenho certeza absoluta. – ele respondeu – Eu pedi permissão. Os dois caminharam em direção às árvores, que se tornavam mais densas. O chão de pedras estava estalando por conta das folhas secas. Ela ficou apreensiva quando ambos entraram na floresta; a mesma pela qual ela tentara fugir há alguns meses, mas queria acreditar que Dominic não fosse largá-la pelo meio do caminho. O som de água corrente chegou aos seus ouvidos enquanto caminhavam, e logo os dois chegaram a um pequeno riacho. Ela se ajoelhou e colocou a mão na água gelada. – Esse lugar é lindo. – É, acho que sim. – disse Dominic – Não sou um grande apreciador da natureza. Carmine gosta mais de andar pela floresta. – Ele costuma vir aqui? – Ele não veio mais depois que voltou do internato, mas costumava vir quando queria ficar sozinho. Quando estava preocupado ou infeliz ele se sentava perto da água ou corria pela trilha. Dominic se sentou e se apoiou em uma árvore, olhando para a água. Haven esperou um pouco antes de tirar os sapatos e caminhar pela grama. Então subiu as calças até os joelhos e entrou no riacho. A água estava gelada. – Ei, há todo tipo de bichos aí. Peixes, insetos e até cobras. Ela sorriu ao ver a lama entrar pelos dedos dos pés. – Não tenho medo do que está na água. – Pensei que todas as mulheres tivessem medo de cobras. – Eu não. – ela riu – Cresci ao lado de escorpiões. – Tem medo de alguma coisa? – Claro. Todo mundo tem medo de algo. – Então, do que tem medo? Ela fez uma pausa, pensando em como responder. – De ter esperança. Dominic franziu a testa. – Ter esperança te assusta? – Tento nunca esperar por nada. – ela continuou – Se não esperar por nada, não ficará desapontada quando não receber nada. – Isso é… muito triste. – ele disse – Você não tem nenhuma esperança? – Acho que tenho um pouquinho agora. – ela respondeu, chutando a lama e desviando a conversa. Ela não queria discutir o fato de que agora tinha a única coisa para a qual jurara a si mesma que não sucumbiria – Do que você tem medo, Dominic? – De perder o meu pai. – ele disse – Já perdi minha mãe para essa vida. Não quero perdê-lo também. A jovem sentiu uma dor no peito ao pensar naquelas palavras. A mãe dela ainda estava viva, mas ela achava que a havia perdido para sempre. – Não se pode perder a esperança, sabia? – disse Dominic. – Minha mãe costumava dizer isso o tempo todo. – Mulher inteligente. – ele disse – Então, você a conheceu? – Sim. Passei minha vida inteira ao lado dela. Ela me disse pra correr, tentar escapar, mas fui pega. Foi então que o seu pai me trouxe para cá. Dominic a encarou. – Meu pai a afastou de sua mãe? Ele sabe disso?


– Sim, ele sabe. Ambos ficaram em silêncio por algum tempo. Dominic perdido em pensamentos, enquanto ela caminhava dentro da água. – Sinto muito que esteja aqui. – ele finalmente falou – É inacreditável que ele tenha sido capaz de afastar você de sua mãe. Isso é errado. – Foi assustador deixar ela para trás, mas eu não diria que ele agiu errado. – ela disse – Comparado ao lugar de onde vim, minha mãe diria que ele me fez um grande favor. Dominic a encarou em silêncio por alguns instantes e então lhe disse que precisavam voltar para casa. Embora não quisesse retornar, ela acabou saindo da água. Seus pés estavam cobertos de lama, então ela os lavou. Afinal, o doutor DeMarco não ficaria feliz em ter uma empregada com os pés sujos justamente quando ele tinha companhia. Ambos caminharam de volta para a casa em silêncio e se depararam com um grande caminhão-baú branco parado no jardim. Os homens da noite anterior estavam descarregando caixas e as levando até uma porta lateral da casa, que ficava meio escondida sob as videiras e as heras. – Não sabia que havia uma porta ali. – ela disse. – Ela leva ao porão. – ele explicou – Acredite em mim quando lhe digo que não quer ir até lá. Nesse momento, Nunzio surgiu de trás do caminhão com uma caixa nas mãos e logo seus olhos se concentraram na jovem. Haven se aproximou de Dominic e passou a olhar para o chão, sem querer lhe dar uma impressão errada. Assim que os dois entraram, Dominic foi tomar banho e Haven reuniu as roupas sujas de Carmine para lavá-las e então iniciar a limpeza. Depois de descer apenas alguns degraus ela parou, petrificada, ao perceber que alguém vinha em sua direção. O medo se espalhou tão rapidamente que ela quase parou de respirar.

Nunzio. O que ela viu nos olhos dele a deixou alarmada. Havia ódio e luxúria em sua expressão. O coração dela batia acelerado e uma voz em sua cabeça lhe dizia para correr. Ela deu alguns passos para trás, derrubando o cesto de roupas, e correu para seu quarto. Ela podia escutá-lo vindo atrás dela quando entrou no quarto e tentou fechar a porta. O pé dele a estava bloqueando. Ela deu alguns passos para trás e buscou algum tipo de proteção, mas ele logo entrou no quarto. Nunzio fechou e então trancou a porta. As pernas de Haven estavam trêmulas. Ela estava presa ali. Nunzio calmamente retirou o casaco e o atirou sobre a mesa. Seu tom de voz soava como se eles fossem velhos amigos. – Finalmente sozinhos. Afrouxando a gravata, ele puxou a camisa para fora das calças e começou a andar na direção dela. Haven pediu ajuda, mas Nunzio tapou sua boca antes que alguém pudesse escutá-la. Ela ficou em silêncio. – Comporte-se – ele disse –, e acabará gostando. Lágrimas escorriam de seus olhos e ela deu mais um passo para trás, colidindo com a cama. – Não toque em mim. – Ah, não seja assim. – ele sorriu de um jeito vingativo – Não gosta de fazer as pessoas felizes? É só isso que tem de fazer. Seja uma boa garota e me faça feliz. Afinal, é pra isso que existe. É só pra isso que serve. Ninguém jamais amaria alguém como você. Ele diminuiu a distância entre os dois e desafivelou o cinto. Ela segurou a vontade de chorar,


embora seu corpo estivesse tremendo. Foi então que tentou fugir pelo lado dele, mas Nunzio bloqueou sua passagem. – Não morda ou eu arranco seus dentes. – ele disse, com a voz áspera. Em seguida, segurando a cabeça dela com uma das mãos, ele a forçou a se ajoelhar a sua frente. A outra ele enfiou dentro das calças. Em pânico e sem alternativa, Haven pegou a arma que estava na cintura dele e, usando toda a força que lhe restava, deu uma pancada no rosto dele com a coronha. Atordoado, Nunzio caiu no chão e a soltou. Era tudo que Haven precisava para fugir. Atirando a arma longe, ela correu para a porta, mas Nunzio se recuperou e veio atrás dela, gritando. Sua mão conseguiu destrancar a porta, mas ele a pegou antes que pudesse abri-la. Haven gritou o nome de Dominic, mas ele conseguiu agarrá-la e atirá-la sobre a cama. Ela caiu sobre o colchão e tentou se afastar enquanto ele avançava para cima dela. Foi então que a porta se abriu e Dominic entrou no quarto, somente com uma toalha e ainda molhado. Ele empurrou Nunzio para longe de seu caminho e ajudou Haven a ficar de pé. – Você está bem? – Estou bem. – Haven respondeu, ainda secando as lágrimas – Está tudo bem. – Ele te machucou? Ela acenou negativamente a cabeça, enquanto Nunzio se defendia. – Eu, machucá-la? Essa vadia me atacou! Uma expressão de fúria se apossou do rosto de Dominic. Ele pegou a arma no chão e se virou para a jovem. – Saia, Haven. Preciso ter uma conversinha com meu velho amigo. Haven correu e hesitou na biblioteca antes de se esconder no quarto de Carmine. Depois de se trancar em segurança, ela se sentou na beirada da cama e tampou os ouvidos para não escutar a discussão.

Carmine sabia que algo estava errado no momento em que chegou em casa e ouviu a gritaria. Ouvia-se xingamentos e insultos em várias línguas. Era possível sentir que havia muita hostilidade na cozinha. Assustado, Carmine parou à porta e viu seu pai suturando um corte no rosto de Nunzio. – O que foi que aconteceu aqui? Dominic passou por trás de Carmine e o olhou com certa cautela. – Eu deveria ter protegido Haven. Nunzio a prendeu no quarto. O estômago de Carmine se revirou e ele teve de se esforçar para manter o controle. – Onde ela está? – No seu quarto. – respondeu Dominic – Ela disse que está bem. Bufando, Carmine olhou para seu pai na cozinha. Nunzio se afastou um pouco e gritou: – Aquela vagabunda estava implorando por isso. Carmine perdeu o controle ao escutar aquelas palavras. – O que foi que você disse? Nunzio olhou para ele e respondeu. – Eu disse que ela queria que eu a comesse. Carmine deu um pulo em sua direção e Vincent bloqueou o caminho quando Nunzio tentou se mover. Carmine quase conseguiu atingir o nariz dele, mas foi impedido por Sal, que interveio e o arrastou para fora da cozinha.


– Você é doente! – Carmine gritou, enquanto Vincent empurrava Nunzio contra a parede, continuando a suturá-lo. Sal puxou Carmine até o hall, sem soltá-lo até que estivessem próximos da escada. – Isso não está certo. – Eu sei, Principe, mas não conversamos ontem sobre o fato de não haver espaço para sentimentos nos negócios? Ele sofrerá as consequências por ter desrespeitado seu pai, mas o que ele fez com a garota não pode ser considerado uma grande violação. Carmine o encarou. – Então ela não vale nada pra vocês? É isso o que está me dizendo? Quem liga se ele machucou a garota? Ela não é nada, simplesmente porque não teve a sorte de nascer em uma família poderosa! A expressão de Sal mudou e ele ficou furioso, o que fez com que Carmine ficasse em silêncio. – Aquela jovem significa mais do que você compreende, mas, para a famiglia, as coisas são muito claras. Você precisa aprender a distinguir entre o que é pessoal e o que são negócios. Precisa aprender a seguir o código de conduta aqui. – ele esbravejou, dando um tapa na parte de trás da cabeça do jovem – E pare de se meter nisso. No momento em que você me respondeu com grosseria ontem à noite eu percebi que ela havia mexido com você. – outro tapa, dessa vez no peito – E certamente causará problemas se não começar a usar isso aqui. – Sal completou, dando um tapa na cabeça de Carmine. – Pare de me bater! Sal acenou a cabeça. – Você sabe que gosto de você como um filho. Sempre o tratei como se fosse meu e quero o que for melhor para você. Quero que seja bem-sucedido, que tenha uma vida boa, a vida que merece. Não estou lhe dizendo para não deixar que aquela garota entre aqui – ele tocou com a mão no coração do jovem –, mas estou ordenando que não deixe que esses sentimentos sobrepujem todo o resto. Você precisa de equilíbrio. Frustrado, Carmine passou as mãos no rosto. – Eu entendo. Sal deu um tapinha em seu ombro. – Você está apaixonado. Essas coisas acontecem, mas essa é uma situação delicada que não pode ser exposta. Acredite em mim quando lhe digo que não é hora de ignorar a razão. – Eu só… Não percebi que era tão óbvio. – É uma situação complicada. – Sal replicou – Seu pai tem um problema similar. Passei anos tentando fazê-lo perceber certos limites, mas ele continua misturando as coisas. – um som alto ecoou na cozinha e Salvatore suspirou – E acho que isso acaba de acontecer novamente.

Haven olhava para o relógio e contava os minutos. Três. Cinco. Oito. Doze. Dezesseis. Vinte e dois. Depois de agonizantes trinta minutos ela ouviu passos rápidos na biblioteca. Alguém tentava girar a maçaneta, mas Haven não destrancou a porta, aterrorizada. Ela ouviu o barulho de chaves e a porta se abriu. Carmine correu para dentro do quarto e a abraçou. Lágrimas escorriam pelo rosto dela. Ela não tinha certeza de quanto tempo havia se passado quando escutou a voz de DeMarco na porta do quarto. – Ela está bem? A visão de Haven estava embaçada, mas ela podia sentir a expressão grave na voz do médico. Ele parecia furioso. Ela só esperava que toda aquela raiva não fosse dirigida a ela.


– Ela ficará bem. – disse Carmine – Nunzio já foi embora? – Sal o está levando para o aeroporto agora. – Para o aeroporto? – Carmine perguntou – Ele se safou fácil demais. Eu teria matado aquele filho da puta. Tudo ficou em silêncio por alguns momentos e Haven fechou os olhos. Ela imaginava se os dois estariam sozinhos quando a voz de DeMarco foi ouvida novamente. – Eu também o teria matado.

Carmine se deitou ao lado dela na cama e retirou os fios de cabelo grudados em seu rosto. Ela havia parado de chorar, mas seu rosto ainda estava inchado. – Sinto muito. – ele disse – Eu deveria estar aqui para proteger você – Não foi sua culpa. – ela respondeu, com a voz embargada – Eu que não deveria ser tão fraca. – Você não é fraca. – ele retrucou – Você tem todo o direito de estar assustada. Merda, eu estou. Ninguém toca na minha garota a menos que ela queira ser tocada. Isso foi algo que minha mãe me ensinou desde cedo. O corpo de uma mulher é um templo e não deve ser invadido sem ser convidado. Ele fez uma pausa e deslizou os dedos pelos cabelos. Era difícil para Carmine falar sobre esse assunto, mas ele queria compartilhar aquilo com Haven. – Não sei dos detalhes, mas a minha mãe foi estuprada quando era jovem. Depois disso ela se tornou uma voluntária e passou a defender pessoas carentes. Meu pai ainda faz doações para o centro no qual ela trabalhava em Chicago. Haven se aproximou ainda mais dele. – Nossa… – É por isso que não quero que você se sinta como se tivéssemos de fazer qualquer coisa. Seu corpo é um templo e eu não vou entrar a menos que você o queira. – no momento em que aquelas palavras saíram de sua boca, começou a rir para si mesmo – Minha nossa, o que eu disse soou muito errado. Não foi minha intenção. Haven ergueu a cabeça e o encarou. – Mas o que há de errado no que você disse? É claro que ela não entenderia a conotação pervertida daquele comentário. – Não acho que seja o momento certo para explicar. Ela ergueu os ombros e deitou novamente a cabeça. O quarto estava em silêncio, exceto pelo barulho do ventilador no teto. Haven entrelaçou seus dedos aos de Carmine e levou a mão dele até seu peito. Ele podia sentir a respiração dela pelos lábios que repousavam sobre as juntas de seus dedos. Ele sorriu ao sentir que ela estava beijando a mão dele. – No que está pensando, tesoro? – Estava imaginando se… bem… é algo estúpido. Ele ficou ainda mais curioso. – Nada do que pensa é estúpido. – Bem, você acha… – ela parou para respirar fundo – Você acha que seria capaz de amar alguém como eu? – ela sussurrou a pergunta e o fez congelar. Antes que ele pudesse reunir seus pensamentos e responder, Haven o interrompeu – Eu disse que era algo estúpido. Uma sensação devastadora fez sua voz tremer no momento em que ela viu aquela hesitação como rejeição. Ela teve a coragem de levantar uma questão que ele próprio não fora capaz de discutir; de


dizer a palavra amor, que tanto o aterrorizava, mas, em vez de encorajá-la ele ficou ali, parado. – Haven, eu jamais poderia amar alguém como você, simplesmente porque não existe mais ninguém como você. Você é única.

Aquela melodia insistia em ocupar o subconsciente de Carmine e assombrá-lo. Ele via sua mãe sob a luz tremeluzente de uma rua estreita. Suas palavras podiam ser ouvidas em meio à canção triste; sua voz era suave. Mio sole, ela dizia em voz baixa. Ela o chamava de “meu sol” porque ele brilhava como um astro. Ela sorria, abafando as notas da música. Era uma noite tão linda que ela preferiu caminhar até em casa. Carmine confiava nela, então não reclamou. Sua mãe nunca cometia erros, portanto, ele sempre acatava suas decisões. De repente tudo se transformou em caos. As imagens surgiram do nada. Tudo aconteceu tão rápido que ele mal conseguiu entender o que estava se passando. O som de pneus cantando. O terror no rosto dela. A frieza nas vozes daqueles homens; as palavras brutais. Corra, Carmine, ela gritou. E não pare, meu querido, não pare! Ela gritou tão alto, mas não havia ninguém para ajudá-la. Carmine ficou petrificado. Ele não queria ir sozinho, tampouco deixá-la para trás. Afinal, ele era o sol de sua mãe… Ele não podia deixá-la sozinha na escuridão. Se você me ama, Carmine Marcello, corra! Ela disse com lágrimas escorrendo de seus olhos. Ele hesitou, aterrorizado, mas no último minuto acatou suas ordens. Cale a boca dela! Gritou um homem. E rápido! Aquele grito aterrorizante ecoou pela rua estreita. Os passos do garoto eram apressados, mas, de repente, ele parou e se voltou para ver o que estava acontecendo. Eles estavam machucando sua mãe. Ela precisava dele. Os homens estavam vestidos de preto, mas com a luz ele pôde ver parte do rosto de um deles. Era uma imagem borrada que misturava ódio e um mosaico de cicatrizes. Então, ele ouviu o tiro fatídico que ecoaria para sempre em sua mente. Assustado, Carmine se sentou na cama e levou as mãos ao peito tentando fazer seu coração desacelerar. Olhando para o lado ele pôde ver Haven, com olhos bem abertos e uma expressão preocupada. Ao deitar-se novamente ele passou as duas mãos no rosto. Estava suando e tremendo; sua respiração era irregular. Ele esperava que Haven corresse ao vê-lo estender a mão em sua direção, mas ela ficou. Em vez disso, ela permitiu que ele a abraçasse forte. As lágrimas se acumularam em seus olhos e ele lutou para limpar a garganta. – Eu tinha oito anos. Era o meu primeiro recital de piano. Acabou muito tarde e minha mãe preferiu caminhar até em casa. Ela não queria esperar que alguém fosse nos buscar. Nós pegamos um atalho. Uma rua estreita e, de repente, um carro brecou bem perto. Era preto e tinha janelas escuras. Carmine ainda conseguia vê-lo. Era um automóvel comum; outro sedan preto e indistinguível, mas de alguma maneira aquele carro ficara em sua mente. – Eu o vi e pensei que papai o tivesse enviado para nos pegar, porque ele não gostava que andássemos sem proteção. Mas a minha mãe sabia da verdade. Não sei como, mas ela sabia. Ela me mandou correr; ir direto para casa. Eu não queria, mas ela disse que se eu a amasse faria o que ela estava pedindo. Eu a amava, então eu corri. Lágrimas quentes queimavam a face do rapaz. Ele não a defendera. Eles a teriam matado, ele


querendo ou não. – Eu tinha chegado ao final do beco quando ouvi ela gritar; eu me virei e o vi puxar o gatilho. Ela caiu. O outro sujeito apontou a arma para mim. Senti algo queimando. Pensei que estivesse em chamas. Corri e consegui me esconder atrás do lixo da pizzaria da esquina. Eu estava apavorado demais para seguir em frente. Achei que eles estivessem atrás de mim. Pensei que fosse morrer. Ele parou e limpou a garganta novamente, tomando fôlego. – A próxima coisa de que me lembro foi de acordar num hospital. Eu nunca tinha visto meu pai chorar antes daquele dia. Ele estava sentado ao lado da minha cama, dizendo “a culpa é minha”. E, merda, eu me senti do mesmo jeito. Eu corri. Eu deixei ela pra trás; deixei ela morrer. A respiração de Carmine estava trêmula, e ele abraçava Haven com força, sentindo seu calor e sua vida. A mão dela tocou em seu peito quando ela o encarou com o rosto cheio de lágrimas. – Eu também corri, você sabe? Minha mãe me mandou correr e ir embora. Eu só o fiz porque ela me pediu. – Então você sabe a culpa que carrego. Haven acenou com a cabeça. – Mas você não a decepcionou, Carmine. Você fez o que ela precisava que você fizesse naquele momento. Carmine esfregou as lágrimas com a mão. – E o que foi que eu fiz? – Você sobreviveu.


Capítulo 18

Semanas se passaram e, aos poucos, o frio outono sulista deu lugar a um inverno particularmente gelado. A temporada de futebol já havia terminado e, agora, Carmine passava mais tempo em casa. A cada dia, ele e Haven se tornavam mais próximos. Apesar do frio e do clima horrível do lado de fora, calor e paixão ganhavam força dentro da antiga casa de fazenda à medida que aquele amor juvenil florescia, sem que nada pudesse detê-lo. Carmine e Haven se acostumaram a deitar lado a lado; a segurar a mão um do outro e a se abraçarem no quarto escuro depois do cair da noite, longe dos olhares curiosos; longe daquela realidade cruel e incapaz de compreender como aquelas duas crianças ansiosas, e cujas vidas haviam sido estilhaçadas, conseguiam encontrar um meio de completar um ao outro. Certo dia, Carmine aproximou os lábios dos ouvidos de Haven e disse. – Ti amo tantissimo, mia bella ragazza. Embora Haven não soubesse exatamente o que ele estava lhe dizendo, o mero som de suas palavras fazia seu coração disparar. Então, quando ela se deitou na cama, ele a beijou. Ela segurou firme em seus ombros, tentando aproximá-lo ainda mais. Seus corpos se moviam no mesmo ritmo e se tocavam de uma maneira incessante. De repente Carmine se afastou e procurou dentro dos olhos de Haven a resposta para uma pergunta que sequer fora feita. A jovem precisava desesperadamente descobrir o que se passava na mente dele, porém, antes mesmo que pudesse perguntar, ela percebeu que Carmine já havia encontrado a resposta. Os cantos de sua boca formaram um sorriso e ele a beijou com doçura antes de sussurrar em seu ouvido. – Deixe que eu faça você se sentir bem. Prometto di non danneggiarlo. Digo, eu prometo que não irei machucá-la; apenas tocá-la. Ela tremeu ao ouvir aquelas palavras. Seu corpo se incendiou. Até então, aquela sensação lhe era totalmente desconhecida. – Confio em você. Carmine esticou o braço até o criado-mudo e pegou o controle remoto do som. A melodia suave da música clássica imediatamente preencheu o quarto. – Se quiser que eu pare, basta me pedir e vou parar no mesmo momento, tudo bem? Ela deslizou seus dedos trêmulos pelos cabelos grossos de Carmine enquanto os lábios do rapaz percorriam seu pescoço, e as mãos dele tocavam suavemente as laterais de seu corpo já despido da blusa que vestia. Haven fechou os olhos tentando relaxar, mas sentiu um arrepio quando percebeu a respiração dele próxima de seu barriga. Ele passou a língua sobre o corpo dela e a enfiou delicadamente em seu umbigo. Ela suspirou, sentindo um estranho formigamento na parte inferior do corpo. Carmine aproveitou muito bem aquela oportunidade, beijando e acariciando cada milímetro da pele exposta de Haven. Ela se contorcia e gemia. Os sons de prazer e descoberta se misturavam à música suave soprada pelos alto-falantes. Ela não fazia ideia de quem era o autor da música, tampouco sabia quem a estava executando, mas o fato é que a melodia invadira seu corpo, acentuando cada movimento e cada toque dos dedos de Carmine. As mãos dele deslizaram pelas coxas da jovem e tocaram sua pele macia antes de retornarem à cintura. Ele então passou as mãos pelas costas de


Haven e, com um movimento rápido e experiente, abriu o fecho do sutiã. Surpresa, Haven abriu os olhos novamente e o encarou enquanto ele se colocava de joelhos sobre a cama e se acomodava sobre as próprias pernas. Ele sorriu no momento em que ele puxou o sutiã e o atirou no chão. Seus olhos permaneceram fixos nos dela por um momento antes que ele se inclinasse em sua direção, de um jeito lento e carinhoso. Ela ficou tensa ao se lembrar das cicatrizes. Agora ele podia ver cada marca; cada deformidade remanescente das inúmeras surras que tivera de suportar nas mãos das pessoas que, supostamente, deveriam tê-la protegido. Sentia-se absolutamente inexperiente e exposta, afinal, jamais mostrara seu corpo a ninguém. Ela esperou que ele reagisse negativamente àquela visão; que se sentisse repelido e se afastasse. Porém, em vez disso, percorreu com o dedo indicador a trilha que se desenhava entre o pescoço da jovem e o espaço entre os seios. Ele tocou cada uma das pequenas cicatrizes com as pontas dos dedos e desenhou círculos em seu abdômen trêmulo. – Bellissima. – ele sussurrou – Você é tão linda. O som da voz dele a deixou mais tranquila. Fagulhas se desprendiam do seu peito à medida que sua pele se arrepiava com o toque do jovem. A mão que ainda repousava sobre a barriga de Haven lentamente escorregou por debaixo de seus shorts. Tudo em que Haven pensava era naquele toque; tudo o que sentia se resumia a ele; aquela sensação forte mexia com ela, da cabeça aos pés, e ficou ainda mais intensa quando ele tocou a região entre suas coxas. Até aquele momento ela não fazia ideia de que aquela parte de seu corpo urgia tamanha atenção. Ele pressionou seus lábios contra os dela, calando seus gemidos de prazer e fazendo com que suas costas arqueassem. Pura eletricidade percorreu suas veias e minúsculas explosões se espalharam por dentro de seu corpo delicado. As pernas dela tremiam; sua respiração era irregular e murmúrios suaves escapavam de sua garganta. Ela cerrou os olhos e segurou firme nos lençóis. As sensações provocadas pelos toques de Carmine eram mais intensas do que ela jamais imaginara possível. Todo seu corpo estava em chamas; lava escorria em suas artérias deixando a superfície de sua pele quente e rosada. Carmine mais uma vez sussurrou em seu pescoço com a voz rouca. – Apenas sinta, beija-flor. Curta esse momento. A sensação de prazer se intensificou, tornando-se cada vez mais forte enquanto Haven movia seus quadris, tentando intuitivamente aumentar a fricção. Seu corpo precisava daquilo; exigia e implorava por mais. Com um rosnado, Carmine afastou sua boca do pescoço da jovem e os lábios de ambos se encontraram. Haven já estava completamente dominada antes mesmo que o prazer irrompesse e seu corpo entrasse em erupção. Ondas de choque se espalharam dentro dela, percorrendo suas pernas e seu estômago enquanto ela convulsionava com seu primeiro orgasmo. Ela tentou pronunciar o nome dele, porém, com os lábios atracados aos dele, era impossível deixar escapar qualquer palavra coerente. A sensação desapareceu tão rapidamente quanto surgiu e ela pôde sentir o refluxo da tensão em seus músculos.


Capítulo 19

Eram duas da manhã e Carmine não conseguia dormir. Ele desceu as escadas e deu um pulo ao ver o pai na porta da cozinha. Ele não esperava encontrar alguém acordado àquela hora, muito menos seu pai. O olhar de Vincent perseguiu o jovem no momento em que passou por ele em direção à cozinha. – Insônia? Carmine ergueu os ombros. – É, poderia dizer que sim. – Está tendo pesadelos novamente? – É, também poderia dizer que sim. – Carmine estava irritado pelo fato de o pai levantar aquele assunto, mas podia ver a preocupação genuína na expressão do pai. Ele, entretanto, não queria discutir, então rapidamente mudou de assunto. – E você, por que está de pé? Vincent respirou fundo. – Estou viajando para Chicago. – Não sabia que teria de viajar neste final de semana. – Nem eu, até que Sal me ligou. – explicou – Eu não precisaria viajar até o próximo final de semana, mas parece que os problemas com os russos estão ficando mais graves. Carmine ergueu as sobrancelhas. – Então você tem um problema com russos? – Somente um, por enquanto. Eles se meteram no nosso território, algo que não podemos tolerar. Carmine ficou surpreso pelo fato de o pai estar lhe contando tantos detalhes. Ele não era do tipo de oferecer informações extras. – Bem, então boa sorte com isso, eu acho. – Obrigado. Estarei de volta no domingo à noite… Pelo menos assim espero. – DeMarco hesitou por um momento, como se tivesse algo mais para dizer, mas, no final, apenas acenou com a cabeça – Tenha um bom fim de semana, filho. Vincent saiu da cozinha e Carmine ficou de pé, continuando a olhar para o lugar onde seu pai estava e que agora se encontrava vazio. Ele bebeu o resto do suco para então subir as escadas, deitarse silenciosamente na cama e olhar para o teto.

Quando Haven acordou na manhã seguinte, ele a abraçou pela cintura. – Bom dia, bella ragazza. Que tal nos vestirmos e fazermos algo diferente hoje? Ela sorriu desconfiada. – Como o quê, por exemplo? – O que você quiser. – ele disse – Podemos ir ao cinema ou ao parque, talvez jantar fora. Ele não fazia ideia do que os namorados costumavam fazer. O mais perto que ele chegara desse tipo de situação foi quando passou pelo drive-thru de uma lanchonete antes de deixar uma garota em casa, depois de fazer sexo com ela. Mas não tinha certeza se aquilo podia contar, considerando que ele, geralmente, fazia que elas comprassem a própria comida.


Uma expressão diferente surgiu no rosto de Haven. – Em público? Ele riu. – Sim, em público. Com outras pessoas ao nosso lado. – Ah, muito bem – ela sorriu, entusiasmada –, vou me vestir. Ele a soltou e a seguiu com os olhos enquanto desaparecia nas escadas, surpreso que algo tão comum como assistir a um filme no cinema pudesse deixá-la tão feliz. Carmine subiu, tomou um banho e procurou algo apropriado entre suas roupas. Ele optou por um par de jeans desbotados e uma camiseta polo verde, de mangas compridas, uma vez que aquela era a cor preferida de Haven. Em seguida, sentindo-se abafado, dobrou as mangas; então calçou um par de tênis Nike e pegou suas coisas. Ao sair do quarto, deparou-se com Haven de pé na porta do quarto dela, vestindo um par de jeans justinhos e um suéter azul. Ela parecia agitada. – Estou bem assim? – Você está mais do que bem. – ele disse, esticando a mão em sua direção. Os dois desceram e seguiram em direção ao carro. Ele abriu a porta para que ela entrasse, deu a volta, se sentou e passou alguns minutos ajeitando os espelhos e o banco. Haven deu risada e disse: – Enjoado. Ele revirou os olhos e ligou o carro. Já em movimento, começou a procurar alguma música interessante no rádio enquanto Haven olhava pela janela, com um sorriso contido nos lábios. Eles deram as mãos e falaram sobre coisas sem importância ao longo do trajeto. Ela nunca deixava de assustá-lo com seu conhecimento sobre coisas que jamais experimentara na vida. Ele dirigiu até seu restaurante mexicano favorito e já diminuía para entrar no estacionamento quando percebeu um carro branco familiar e resolveu passar direto. Ele sabia que eles não poderiam comer ali se Lisa estivesse trabalhando. Ele parou numa churrascaria no quarteirão seguinte e Haven se virou para ele. – Você conhecia alguém lá, não é? Ele suspirou e passou a mão nos cabelos. – Sim. Mas não quero que você pense que não desejo ser visto ao seu lado, porque isso não é verdade. É só que… é a Lisa, e ela… Haven colocou o dedo indicador sobre os lábios de Carmine. – Eu entendo.

Logo os dois estavam sentados à mesa e Haven pegou o cardápio laminado. Ela franziu a testa e moveu lentamente os lábios pronunciando as palavras em voz alta. Quando a garçonete se aproximou, ela olhou para Carmine esperando que ele fizesse o pedido pelos dois, mas ele ficou parado, esperando pacientemente. Ela entendeu. – Eu vou querer peito de frango recheado, com salada, por favor. Carmine sorriu. – Para mim um bife grelhado. – E como prefere o bife? – perguntou a garçonete. – Mal passado. – ele respondeu – Só passado na grelha. Haven o encarou de um jeito peculiar quando a moça se afastou. – Eu não sabia que gostava de carne mal passada. Sempre preparo seu bife bem passado.


– É, há duas coisas na vida que eu prefiro sangrando: meu bife e meus inimigos. Ela acenou balançou a cabeça em desaprovação. – Você é jovem demais para ter inimigos. – Quem me dera. – ele disse em voz baixa – Já nasci com inimigos. Só o meu sobrenome já pesa o suficiente. Poucos minutos depois do pedido, os pratos foram servidos. Carmine imaginou que ela se sentiria um pouco deslocada no meio de tantas pessoas, já que Haven raramente tinha esse tipo de oportunidade. Porém, mais uma vez ela o surpreendeu, então, ele ficou imaginando se em algum momento ela deixaria de fazê-lo. Ele pagou a conta antes de seguirem para o cinema, do outro lado da cidade. Ambos ficaram um pouco afastados da multidão e Carmine pegou na mão dela enquanto olhava a lista de filmes. – Bem, o que gostaria de assistir? – Não sei muito a respeito de cada um. – Bem, tem um aqui sobre uma estrela do rock drogada; um com uma família cheia de filhos e outro sobre umas crianças que são sugadas para dentro de um vídeo game. – ela o encarou, confusa por causa da última opção, e ele riu – Nem pergunte. Ah, e tem outro do tipo meloso. – Meloso? – É, você sabe, do tipo romântico e sentimental. Ela riu. – Bem, qualquer um destes está bom para mim. Ele a levou até a bilheteria e comprou dois ingressos. Em seguida foi à lanchonete e comprou refrigerante e Sour patch kids – balas de goma, antes de entrarem no cinema já quase lotado. Ela hesitou por um momento, olhando ao seu redor, e então ele se deu conta de que aquela era a primeira vez em que ela ia a um cinema. Às vezes era fácil para Carmine esquecer que o mundo ainda era algo novo para Haven e que ela jamais experimentara coisas que para ele eram comuns. Ele apertou a mão dela, tentando lhe transmitir segurança, e escolheu assentos próximos da saída, para o caso de ela precisar sair rapidamente dali. Ela relaxou no momento em que ele afastou o braço móvel que separava as poltronas e a puxou para perto dele. A sala ficou lotada e as luzes se apagaram. Haven ficou um pouco nervosa ao ouvir o som alto vindo dos autofalantes, mas voltou a se tranquilizar quando o filme começou. Ele colocou algumas balas de goma na boca; Haven analisou o doce antes de pegar uma. Ela fez uma careta assim que mordeu a bala. – Caramba, isso é azedo. – e ele riu de sua expressão. – É, mas é bom. Ela pegou mais algumas e assistiu ao filme com muita atenção, enquanto Carmine passou a maior parte do tempo olhando para ela. Eles compartilharam o refrigerante e se esbaldaram com as balas de goma, como se aquilo fosse grande coisa. Mas aquelas coisas simples representavam muito para ambos. Carmine estava tendo a oportunidade de dar alguma coisa a alguém; Haven, por sua vez, não tinha problemas em receber o que ele lhe oferecia. Ele não ficou bravo quando ela surrupiou uma bala de sua mão. Pelo contrário. Ele ficou orgulhoso pelo fato de ela ter se tornado mais corajosa. Ela baixara a guarda e, pouco a pouco, Carmine sentia que estava ficando menos na defensiva. Quando os créditos apareceram na tela, ele pegou a mão dela e ambos saíram rapidamente do cinema, antes que o resto das pessoas fizesse o mesmo. Entusiasmada, Haven falou durante todo o trajeto de volta para casa. Ele não fazia ideia qual era o assunto, mas sorria de qualquer modo; a alegria dela o deixava feliz.


Nove homens. Nove armas e quase noventa balas. Um caminhão de entregas cheio de equipamentos eletrônicos. Não era assim que Vincent planejara passar sua noite de sábado. Eles estavam em número menor. Eram dois para um. Uma Glock do tipo comum estava apontada para o peito de Vincent, que, em contrapartida, segurava uma Beretta. A mão do sujeito que empunhava a Glock tremia, o que revelava para Vincent seu nervosismo. Por essa razão, DeMarco optou por mirar seu revólver no outro. Se Vincent havia aprendido algo na vida era que um homem com a mão firme não hesitaria em puxar o gatilho. Corrado estava a alguns metros, de frente para Ivan Volkov. Os dois homens olhavam um para o outro, imóveis e calados, com suas respectivas armas apontadas para a cabeça um do outro. Corrado parecia nem perceber as pessoas que estavam ao seu redor. Vincent não sabia se aquilo era bom ou ruim. Giovanni mantinha sua postura apesar de homens armados o terem como alvo. O caminhão-baú estava em ponto morto; a rua estreita, repleta de fumaça intoxicante. Aquilo queimava o nariz de Vincent e distorcia sua visão, mas ele lutou para manter a concentração. Eles haviam sido chamados por Sal poucos minutos antes, que informou que um caminhão sequestrado pela equipe de Giovanni no lado leste da cidade havia sido roubado por uns bandidos. Eles foram atrás, pensando que se tratavam de amadores, mas se depararam mais uma vez com os russos. O homem com a Glock foi o primeiro a desistir. Ele baixou sua arma e rapidamente deu um passo para trás. Acenando com a cabeça, saiu correndo sem dizer uma única palavra. Um por um, todos se renderam. Era impressionante sua falta de lealdade em relação ao chefe. Todos desapareceram, deixando o calmo Volkov para trás nas mãos de três mafiosi. Não havia medo em sua expressão, preocupação em seus olhos ou surpresa pelo fato de seus homens terem abandonado seus postos. Eles eram completamente diferentes dos italianos. Se um deles deixasse a famiglia, simplesmente não viveria para ver o sol nascer. Depois de um momento, Volkov abaixou sua arma e a colocou de volta no bolso. – Podem levar o caminhão. – ele disse, como se estivesse fazendo um favor diante das circunstâncias. Ele tentou ir embora, mas Corrado se colocou em seu caminho. – Da próxima vez que eu ver você, vou te matar. Volkov parou por um instante. – Isso é uma ameaça? – Não, é um fato. Mais um segundo tenso se passou, então outro e mais outro. Por fim, Volkov ostentou um leve sorriso em seu rosto gélido e respondeu. – Estou ansioso pelo nosso próximo encontro, Moretti.

Haven sentou-se com as pernas cruzadas na cama de Carmine, com o livro O Jardim Secreto no colo. Carmine entrou no quarto e chutou um livro da escola que estava no caminho, machucando o dedão. Ele deu um grito, pegou o livro e se jogou na cama ao lado dela, balançando o colchão e fazendo com que ela perdesse a página. Mas antes que ela pudesse achá-la, ele pegou o livro de suas


mãos e o fechou. Por um segundo ela ficou irritada pela interrupção, mas o sentimento desapareceu quando ele deitou a cabeça em suas pernas. Ela passou a mão sobre o rosto dele, e o olhou com um sorriso enquanto ele falava. – É, meu quarto precisa de uma faxina. Ela caiu na gargalhada e acabou sacudindo os dois. – É, precisa mesmo. Haven passou a mão sobre o cabelo dele, que deu um suspiro de satisfação. – Amanhã. A faxina pode esperar. – Estou ansiosa por limpar isso aqui. Ele riu. – Você deveria estar com medo, isso sim. Ambos caíram no sono. Quando Haven despertou, um pouco mais tarde, percebeu que estava sozinha. Ela saiu do quarto e ficou surpresa ao encontrar a biblioteca vazia. Desceu as escadas em busca de Carmine. A casa parecia estar em silêncio, porém, no andar térreo ela conseguiu ouvir o som abafado de música, uma melodia triste. Caminhou lentamente até a sala de estar e logo viu Carmine sentado ao piano, com uma postura que também revelava tristeza. Ela o viu dedilhar o teclado vigorosamente, fazendo a música crescer, inclinou-se e deslizou o corpo pela porta, sentando-se ao chão e assistindoo tocar como se estivesse num transe. Ficou hipnotizada e surpresa ao sentir tamanha emoção escorrendo pelos dedos de Carmine. A mesma música foi tocada repetidas vezes, do início ao fim. Ela reconheceu a melodia. Embora o tom fosse diferente, mais alto e fluido no piano, era a mesma música que ele costumava tocar no violão à noite. Suas pálpebras ficaram pesadas enquanto ouvia, mas ela combateu o sono, cativada pelo som. No final, entretanto, ela acabou perdendo a batalha e cochilando. A próxima coisa de que se lembrava é de estar sendo carregada. Seus olhos se abriram e ela ficou assustada ao ver que estava no colo de Carmine. Eles já estavam no segundo andar. Ela olhou para ele como se pedisse desculpas, esperando que ele não tivesse ficado chateado por ela tê-lo espionado, mas ele apenas sorriu. – Temos camas nessa casa, tesoro. Não é preciso dormir no chão.


Capítulo 20

Haven parou na porta do quarto de Carmine, exausta por causa da noite maldormida e sonhando em tirar um cochilo, mas tinha coisas mais urgentes para fazer. Ao olhar para a bagunça, ficou imaginando por onde deveria começar. – Ouça, eu não faço ideia do que você irá encontrar aqui – disse Carmine –, portanto, prefiro me desculpar antes, por tudo, assim não terei que ficar pedindo desculpas enquanto trabalhamos, ok? Ele foi até a pilha de roupas sujas e as colocou no cesto, enquanto Haven tentava encontrar uma trilha por onde passar. – Não prefere separar as roupas? – ela perguntou. Ele parou, segurando um par de caças. – Separar como? – Uma pilha de roupas brancas e outra de coloridas já é suficiente. – Sim, senhora. – ele riu e prestou uma continência. O sorriso dela se desfez e ele soltou um suspiro diante de sua expressão desanimada – Estou brincando. Eu posso separar as roupas… Só havia esquecido desse detalhe. Ele retirou tudo de dentro do cesto e fez duas pilhas de roupas enquanto Haven recolhia os livros do chão. Ela os colocou sobre a escrivaninha e organizou os papéis soltos para que todos ficassem numa mesma posição. – Bem, ah… – Carmine levantou uma camisa branca com listras azuis – Você consideraria isso como colorido ou branco? – Colorida – ela respondeu, observando as pilhas –, e aquela camiseta branca com detalhes em verde também. Carmine pegou a camisa e a colocou na outra pilha. – Como pode saber? – A etiqueta diz para não usar nenhum alvejante. – Você lê as etiquetas das minhas roupas? – a voz dele parecia séria como se estivessem discutindo algo escandaloso. Ela sorriu. – Sim, eu faço isso antes de lavar. – E você se lembra disso? – Claro. – Bem, você não me disse para ler as etiquetas. Haven segurou o riso, sabendo que aquilo só o deixaria mais irritado. Quando Carmine terminou de separar as roupas, ela levou o cesto com as brancas para já ir lavando. Retirou alguns itens que obviamente não poderiam ser alvejados e as deixou de lado para a próxima leva, sem querer chateálo com aquela história. Ela levou o cesto vazio para o quarto de Carmine e o pegou deitado de bruços na cama. Olhou para as costas dele e ficou impressionada com os músculos esculpidos e com o modo como suas tatuagens pareceram mais nítidas. Ele se virou, olhou para ela e sorriu com preguiça. – Desisto. Isso é difícil demais. Tudo que havia feito era separar algumas roupas, e já não foi um serviço bem feito. – Para mim é fácil.


Ele revirou os olhos e ela reuniu o segundo lote de roupas. Ele guardou alguns CDS e ela tirou as roupas de cama. Ele fez uma pausa. Ela buscou lençóis limpos. Ele colocou uma música. Ela arrumou a cama dele. Ele se sentou à escrivaninha enquanto ela perambulava pelo quarto, recolhendo coisas espalhadas por todos os cantos e as colocando nos lugares que considerava apropriados. Carmine ficou prestando atenção e ela percebeu que seus olhos a seguiam em cada movimento. Ela não se importava que ele não estivesse ajudando muito, considerando que as coisas ficariam mais bem-feitas se ela cuidasse de tudo sozinha, mas aquele olhar a incomodava. Ocasionalmente ele cerrava os dentes, tentando conter sua irritação quando ela tocava em alguns objetos. Não demorou muito até que o chão estivesse livre, exceto por um livro cuja ponta podia ser vista debaixo da cama. Ela se ajoelhou, surpresa ao ver o que ainda estava amontoado ali. Tirou livros, revistas e alguns filmes. Havia também algumas caixas de sapato, mas ela não as tocou. Então, colocou o edredom sobre a cama e olhou para a pilha que havia feito, assustando-se ao ver uma mulher nua na capa de um dos DVDS. Ela o cobriu, mas não foi rápida o suficiente, pois Carmine já havia reparado. – Sabia que acabaria encontrando pornografia. – ele riu e o pegou – Gostaria de assistir? Havia um brilho travesso no olhar dele. Ela fez um movimento negativo e veemente com a cabeça, então ele enfiou o filme em uma gaveta de sua mesa. Haven pegou uma pilha de fotos e Carmine apontou para a gaveta onde elas deveriam ser guardadas. – Pode vê-las se quiser. Acho que todos estão vestidos, mas não posso prometer. Ele deu uma piscada quando ela tornou a pegar as fotografias. À medida que foi olhando uma a uma, reconheceu rostos familiares e ficou surpresa ao encontrar Nicholas em algumas delas. Todos pareciam jovens e quase todos estavam felizes, exceto por Carmine. Os olhos dele estavam tristes e não havia neles o brilho com o qual ela havia se acostumado. Era óbvio que ele passara por maus momentos e aquelas fotos contavam uma história que nenhuma palavra conseguiria refletir. Ela abriu a gaveta onde ele disse que elas deveriam ser guardadas e ficou petrificada. Em cima de tudo havia um pequeno boneco feito de barbante, com pouco mais de alguns centímetros. Ele tinha cabelos curtos feitos com fios e roupas de feltro coladas ao corpinho. Ela ficou imaginando por que Carmine teria algo como aquilo e pegou nas mãos com cuidado para não estragá-lo. Ela sentiu uma forte dor no peito ao olhar com mais cuidado e se lembrar de ter visto algo similar há muito tempo. Ela tinha cinco ou seis anos e o viu enquanto corria pelo rancho dos Antonelli. Também se recordou de que, na ocasião, ela chutava a terra com os pés descalços e ria alto como os sinos da igreja que badalavam a distância nas manhãs de domingo. O pequeno boneco estava firme em sua mão e, quando ela correu para o estábulo, o longo fio marrom flutuou pelo vento. Mamãe, ela gritou, Olhe, mamãe! Sua mãe suspirou e olhou para trás. Seu rosto estava pingando de suor. Estou ocupada, Haven. Olhe, mamãe, ela disse novamente, parada do lado de fora do estábulo. Sua mãe ainda estava ao lado do cavalo. Rindo, Haven lhe entregou o boneco, superanimada. Ela nunca se sentira tão feliz em toda sua vida. Sou eu, mamãe. Os olhos de sua mãe se arregalaram e ela entrou em pânico ao ver o boneco. Onde foi que conseguiu isso? Precisa devolvê-lo. Não, mamãe. Ela disse. A mãe saiu do estábulo e tentou arrancar o boneco à força. Dê isso para mim agora. Você sabe muito bem o que irá acontecer. Não! Haven Isadora, me dê isso agora!


Ela o segurou atrás do corpo, balançando negativamente a cabeça. Já não estava feliz, apenas irritada. Nunca tivera um brinquedo antes, e ninguém o iria tirar de suas mãos, nem mesmo sua mãe. Não, é meu! É meu! Ela deu pra mim, não pra você! Quem deu a você? Meu anjo, mamãe. Ela me deu um presente! Seu anjo. Haven havia sonhado com aquilo por vários anos. A bela mulher vestida de branco, que brilhava sob a luz do sol no deserto. Ela lutava para se lembrar daquela imagem novamente quando ouviu alguém pigarrear ao seu lado, arrancando-a de seus pensamentos. Ela olhou para cima e viu Carmine parado ao seu lado. Ela colocou o boneco de volta na gaveta. – Sinto muito. Não deveria estar mexendo nas suas coisas. Ele ficou em silêncio enquanto o nervosismo dela só aumentou. Mordeu o lábio inferior, com medo de sua reação. Ele esticou a mão abruptamente na direção de Haven, fazendo-a contrair-se, mas ele apenas passou os dedos em sua boca e puxou levemente seu lábio para fora. – Vai acabar se machucando se continuar mordendo o lábio. – ele disse, reabrindo a gaveta – Minha mãe costumava fazer esses bonequinhos para as crianças que vinham para o centro em que ela trabalhava. A maioria das pessoas ali não ficava muito tempo num mesmo lugar, então não tinham praticamente nada. Ela dizia que era fácil guardar os bonequinhos porque eles eram pequenos. E também eram fáceis de esconder. Haven havia guardado seu bonequinho por vários anos sem que seu mestre soubesse. – Ela sempre achou que quanto mais individual melhor. – E ela estava certa. – disse Haven – É melhor. Ele suspirou, olhando para o bonequinho. – Há alguns meses eu teria discordado disso. – E agora? Ele fechou a gaveta novamente. – Agora tudo mudou.


Capítulo 21

Haven estava deitada na cama segurando um lápis e desenhando numa pilha de papéis à sua frente. Fez uma pausa e olhou para os traços em cinza, antes de amassar a folha e atirá-la no chão. Fazia horas que estava ali, o piso repleto de bolinhas de papel amassado. Ela se sentia culpada por desperdiçar tanto. O papel vinha das árvores e, embora não houvesse falta de verde em Durante, não era certo deixar de protegê-las. Ela sabia que as árvores eram seres vivos e respiravam; elas suportavam tantas intempéries, mas, ainda assim, sobreviviam e se tornavam cada vez maiores e mais fortes, a despeito das condições que enfrentavam todos os dias. Seria bobo considerar tanto a natureza? Ela deixou o lápis de lado e recolheu todas as bolinhas de papel, colocando-as na lata de lixo, e desceu as escadas. Era meados de dezembro, uma sexta-feira e o último dia de aula para Carmine antes das férias de inverno. O Natal se aproximava e o único pensamento de Haven repousava em sua mãe, em Blackburn. Ela se recordava do olhar dela quando se sentava no estábulo e olhava para o rancho decorado com luzes, desejando ser parte de algo maior. Jamais admitiria aquilo, mas, no Natal, sua mãe não queria estar do lado de fora, apenas olhando a comemoração. Haven conhecia bem aquele sentimento e agora se sentia muito triste pelo fato de estar longe de sua mãe; porém, ao mesmo tempo, ela estava feliz por ter se tornado parte de algo maior. Os DeMarco não costumavam decorar muito a casa. Havia apenas uma pequena árvore de plástico retirada de uma caixa. Mesmo assim, Haven ajudara Carmine a pendurar as luzes. Alguns ornamentos coloridos também foram acrescentados nos dias que se seguiram e Tess pendurou na porta de entrada um enfeite feito com visco. A presença do doutor DeMarco havia sido rara nas últimas semanas. Na maioria das noites, só chegava em casa depois de o sol já ter nascido e só permanecia tempo suficiente para tomar um banho e trocar de roupas. Haven não fazia perguntas, mas achava estranho o fato de ele a deixar tanto tempo por conta própria. Será que finalmente ele acreditava que ela não voltaria a fugir? Ela ainda cozinhava todas as noites, mesmo sabendo que DeMarco não estaria em casa para jantar, e acostumou-se a sentar à mesa com os rapazes. Nas noites em que ele vinha para casa, nunca reparava em sua presença. Ocasionalmente ela o flagrava olhando-a de um jeito desconfortável, como se estivesse se preparando para algo que nunca aconteceu. Naquele dia, enquanto Haven dava o primeiro gole no refrigerante que pegara na cozinha, ouviu um carro estacionar do lado de fora. A familiar Mercedes estava próxima da varanda e DeMarco entrou diretamente na casa. Ela pôde ouvir sua voz quando entrou no hall. Ele falava ao celular. Livrou-se do casaco e seus olhos repousaram sobre ela, permanecendo ali até o término da chamada. – Pode me esperar no meu escritório? Subirei num momento. Ele havia colocado na forma de pergunta, mas ela sabia que não se tratava de algo negociável. Nervosa, ela subiu até o escritório e se sentou na cadeira diante da escrivaninha do médico. O cômodo estava em silêncio, exceto pelo tique-taque do relógio na parede atrás dela. O tempo parecia não passar até que finalmente escutou os passos na escada. Seu coração disparou quando ele se aproximou, e ela instintivamente prendeu a respiração quando DeMarco entrou no local. Ele parou diante dela, segurando um grande cotonete e um recipiente plástico. Os joelhos dele estalaram no momento em que ele se agachou diante da jovem, levando-a a se contrair.


Preocupada, ela o observou enquanto ele sorria. Porém, havia algo estranho em sua expressão. Um quê de preocupação, talvez até mesmo certa irritação, mas, no geral, parecia tristeza. Aquilo a surpreendia. Ela olhou para ele e imaginou o que o teria deixado daquele jeito, mas não podia perguntar. Não era de sua conta. – Abra a boca. – ele ordenou. Ela obedeceu e ele passou o cotonete no interior de sua bochecha. Ele se levantou em seguida, guardando o cotonete dentro do recipiente, e se encostou na escrivaninha. – Você não parece… As palavras dele foram logo interrompidas por uma chamada telefônica. DeMarco fechou os olhos. – Pode ir, criança.

Haven seguiu diretamente para a sala de estar, sentou-se no sofá e ficou olhando para a arvorezinha de plástico. Os rapazes chegaram da escola; suas vozes animadas logo preencheram a casa. Os olhos dela repousaram em Carmine e ele piscou para ela ao se sentar numa cadeira do outro lado da sala. Dominic sorriu e se sentou ao lado dela, tão próximo que estava praticamente no colo da jovem, e ainda colocou o braço em seu ombro. – E aí, Pé de Valsa? Sentiu minha falta enquanto estava na escola? – Ah, sim. – ela respondeu – Acho que sim. Carmine olhou para ele incomodado, e Dominic caiu na risada, fingindo cochichar. – Acho que meu irmão está com ciúmes. Haven ouviu passos descendo as escadas e preparou-se para sair, mas Dominic a segurou. DeMarco entrou na sala e franziu a testa ao vê-los ali. – Não deixe que a Tess veja isso, ou iniciará uma guerra. Eu detestaria ter de intervir. Dominic deu risadas. – E de que lado ficaria? – Não disse nada sobre escolher um lado. Minha política é me manter sempre neutro. – Certo, mas digamos que tivesse de apostar – disse Dominic –, em quem colocaria seu dinheiro? DeMarco suspirou. – Está me perguntando quem eu acho que venceria numa briga? – É, acho que estou. Carmine rosnou do outro lado da sala. – Bem, Tess é muito boa no que se refere a golpes baixos, mas a jovem aqui tem um instinto de sobrevivência. Ela também não é indefesa, como Squint pode atestar. Tess está acostumada a contar com ajuda dos outros; essa menina, por sua vez, sempre se virou sozinha. Considerando tudo isso, acho que ela derrubaria facilmente a Tess. – os olhos de Haven se arregalaram; ela ficou surpresa ao ouvi-lo dizer aquelas palavras – Mas não conte isso a Tess ou ela poderá tentar provar que estou errado. – Eu não diria a Tess nem que minha vida dependesse disso. – disse Dominic – Ela me daria um pé na bunda. – E Haven provavelmente também o derrotaria. – completou DeMarco – Sei do que ela é capaz. As bochechas de Haven ficaram vermelhas quando todos olharam para ela. – Ah, não saberia lhe dizer, senhor. – Não subestime a si mesma. Eu não a subestimo. – Haven o encarou sem compreender o que ele


queria dizer, mas ele desviou o olhar sem explicar – Tenho coisas a fazer, portanto é provável que só retorne amanhã depois de escurecer. Tenham todos uma boa-noite. Ele saiu e um silêncio desconfortável se fez presente. – Nossa, isso foi bem estranho. – disse Carmine antes de se virar para o irmão – E tire o braço do ombro da minha garota antes que eu te quebre ao meio. Dominic se inclinou na direção de Haven e falou. – Eu disse que ele era ciumento. – Não importa. – disse Carmine – Aliás, qual o seu problema? “Quem venceria numa briga?” Que tipo de pergunta é essa? – Foi uma boa pergunta. – retrucou Dominic – Mas por que está tão bravo, afinal? Ele escolheu sua garota, não a minha.

Os dois estavam escutando música mais tarde naquela noite quando Carmine fez uma pergunta que surpreendeu Haven. – Que presente você gostaria de ganhar de Natal? O que ela queria? Ela jamais pensara sobre aquilo. – Não espero ganhar nada. – Bem, você vai ganhar alguma coisa. – Mas não tenho como te dar um presente. – Você já me deu um presente, Haven. Você mesma. E foi o melhor presente que já ganhei. Ela suspirou quando ele se deitou ao lado dela. – Ainda gostaria de te comprar alguma coisa. – Não estou precisando de nada. – ele disse – Mas haverá muitas outras ocasiões no futuro em que poderá mimar seu namorado. Uma sensação de esperança invadiu seu corpo. Natais. Presentes. Um futuro. Aquilo tudo era demais para ela compreender. – Vocês costumam fazer uma grande festa? – Costumávamos quando eu era jovem, mas agora somos só nós. Minha tia Celia sempre passa alguns dias com a gente. Fora ela e o marido, não temos outros parentes. Meu avô está morto e não visitamos nossa avó. Ela sofre de demência ou algo parecido. Não sei direito. – E quanto à família de sua mãe? Ele ficou em silêncio e ela imaginou que talvez tivesse feito uma pergunta intrometida, mas no final ele respondeu com a voz suave. – Não conheço ninguém da família dela. Ela imigrou para cá. – Já pensou em encontrar eles? – Não. – ele respondeu – Eles nunca vieram à procura de minha mãe; jamais se preocuparam em saber o que aconteceu com ela, então, por que me preocuparia em descobrir? Caramba, eu nem sabia que ela tinha nascido na Irlanda até que vi uma papelada do governo no escritório do meu pai há alguns anos. – Você não fica triste por não ter uma grande família? – perguntou Haven – Eu costumava fingir que tinha uma. Minha mãe dizia que eu estava sempre conversando com amigos imaginários. Eu costumava até mesmo conversar com um anjo. – Um anjo com asas e halo na cabeça e toda essa merda? – Era um anjo com certeza, mas não tinha nada disso. – ela respondeu – Minha mãe costumava


dizer que os anjos cuidavam de mim e que um dia eu também seria um deles, então eu pensava neles como pessoas. Meu anjo me contou sobre a vida. Ela disse que eu poderia ser livre como ela quando crescesse e ter qualquer coisa que quisesse. Acho que ela não queria me entristecer com a verdade. Carmine puxou-a para mais perto dele, enfiando a cabeça nos cabelos da jovem. Apesar de ainda ser cedo, Haven estava exausta. De fato, ela estava quase dormindo quando ouviu a voz suave de Carmine. – Você ainda pode ter uma grande família, beija-flor. Seu anjo não mentiu pra você.


Capítulo 22

Quando Carmine estava crescendo, o Natal sempre fora sua época favorita do ano. Ele adorava tudo que era relacionado à data. Assistir filmes como Rudolph - a rena do nariz vermelho, A lenda de Frosty, o boneco de neve e A felicidade não se compra, cantarolar músicas natalinas e tocar “Bate o Sino” no piano. Era simplesmente mágico! Essa era a maneira como Carmine descrevia aquele período, embora nem mesmo essas palavras fossem capazes de fazer jus ao sentimento que transbordava dentro dele. Porém, depois que sua mãe faleceu, tudo mudou. Ele perdeu o interesse pela maioria das coisas na vida, mas, em especial, pelos feriados e festas. O Natal o fazia se lembrar dela, e tudo o que ele sentiu depois de sua morte foi tristeza e sofrimento. Agora era novamente véspera de Natal, e, ao longo de toda a semana, Carmine observara Haven entrando no espírito natalino. Ele não via tanto entusiasmo pelas celebrações desde o último Natal que passara ao lado da mãe. Parte dele ainda queria esquecer aquilo, afastar-se de tudo e se esconder em seu buraco, mas, agora, uma parte ainda maior não podia evitar sentir-se feliz. Ele finalmente encontrara sua luz na escuridão; a centelha que se apagara quando sua mãe morreu, de algum modo ganhou vida em Haven. Porém, Carmine temia que essa luz desaparecesse novamente. Os nervos do rapaz estavam à flor da pele quando ele dedilhava os braços da poltrona, olhando atentamente para o relógio e sem conseguir prestar atenção na TV. Depois de cerca de vinte minutos, um carro estacionou na frente da casa. A porta se abriu e a voz de Vincent pôde ser ouvida no hall, seguida de uma voz feminina. Tia Celia. Dominic imediatamente se levantou, pegou-a nos braços e a girou pela sala. Depois de recolocada no chão, ela olhou para Carmine. – Cada vez que o vejo está mais parecido com sua mãe, garoto. Ela não precisava ser mais específica, pois Carmine sabia o que ela queria dizer. Ele a abraçou, sem se preocupar em responder. Era verdade, e Celia era a única pessoa que não tinha medo de falar a respeito de sua mãe. Celia se afastou um pouco e perguntou. – Você tem sido um bom rapaz? – Bem, não tenho explodido nada nos últimos tempos, se isso conta. – Já é um bom começo. Vincent pigarreou, concentrando-se em Haven, que estava de pé diante do sofá. Ela olhava para o chão e, nervosa, mexia nas unhas. Vê-la tão assustada mexeu com Carmine. Celia se aproximou da jovem. – Haven? – Sim, senhora. – Já ouvi muito sobre você. – disse Celia – É um grande prazer conhecê-la. A voz de Haven mal podia ser ouvida. – Digo o mesmo, senhora Moretti. – Pode me chamar de Celia, querida. A senhora Moretti é minha sogra e uma verdadeira bruxa, se quer saber.


Os olhos de Haven se arregalaram e Vincent riu da piada, mas balançou a cabeça sem compartilhar o que quer que tivesse achado engraçado. Ele lançou um olhar cúmplice para Celia, com os cantos de sua boca ainda lutando para esboçar um sorriso. – Bem, de qualquer modo, estou faminta e exausta pela viagem – disse Celia –, portanto não esperem que eu seja uma grande companhia essa noite. Os olhos de Haven se voltaram para o relógio. – É hora de eu preparar o jantar. Ela estava deixando a sala quando Vincent parou em seu caminho. Isso a assustou, fazendo-a prender a respiração e se contrair diante de sua mão erguida. Aquilo era péssimo, mas mesmo odiando aquela situação, Carmine não podia fazer nada além de assistir ao desenrolar dos fatos. – Acalme-se, criança. – disse Vincent – Eu só ia dizer a você que não se incomode em cozinhar. Haven se protegeu cruzando os braços. – Posso ir então, mes… digo, senhor? Carmine ficou tenso e se contraiu diante do diálogo. – Sim, pode ir. – a jovem saiu da sala como um relâmpago antes mesmo que a frase terminasse, e ele fez um sinal negativo com a cabeça – Eu deveria ter imaginado. – Você não poderia prever. – disse Celia – Também não passou pela minha cabeça. Carmine os observou, desconfiado. – Não poderia prever o quê? Uma sensação de pânico tomou conta de Carmine quando a tia começou a rir, surpresa. Ela conseguia ler o que estava em sua mente com facilidade e ele esquecera de considerar esse detalhe antes de abrir a boca. – Isso não importa. – disse Vincent, dando as costas para o filho – Cuidaremos da garota mais tarde.

Carmine não voltou a colocar os olhos em Haven naquela noite. Ele ficou perambulando pela biblioteca na esperança de que ela saísse do quarto, mas caiu a madrugada e nem sinal da jovem. Desistindo de esperar, desceu as escadas e foi até o piano, repousando os dedos sobre o teclado ainda na escuridão e começando a tocar “Sonata ao Luar”, de Beethoven. Ele tocou por alguns minutos; as notas tristes já o engoliam, quando ouviu alguém atrás dele. Interrompendo a música de maneira abrupta ele se virou e encontrou Haven. Seus cabelos estavam soltos e emolduravam um rosto exausto e solene. Ele tocou no banco do piano, convidando-a para sentar-se ao seu lado. Ela aceitou. – Você toca lindamente. – ela olhou para as teclas e ele voltou a tocar, continuando de onde havia parado – Essa é a única música que conhece? Ele terminou de tocar a sonata e respondeu. – Conheço algumas outras, não tão bem quanto essa, mas consigo tocar um pouquinho. – E todas são tristes? – Não. – Poderia tocar alguma música alegre para mim? Ele se sentiu tomado por certa irritação diante daquele pedido, mas tentou se controlar, sabendo que precisava fazê-lo quando estava ao lado dela. Ele então dedilhou a canção “Bate o Sino”, lembrando-se apenas vagamente das notas. Hipnotizada, os olhos de Haven brilhavam ao admirar os


dedos do rapaz. O cômodo ficou em silêncio quando ele terminou a música. – Feliz Natal, bella ragazza. Ela sorriu, sussurrando de volta em seus ouvidos. – Feliz Natal. Ele a olhou nos olhos e se inclinou para beijá-la, quando ouviu alguém pigarrear bem atrás deles. Ele se virou rapidamente. Cacete, quase fomos pegos. – Estou interrompendo? – perguntou Celia, com um sorriso nos lábios que dizia a Carmine que ela sabia que estava. Ele ia falar, mas Haven saiu correndo da sala antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Suspirou quando ela desapareceu e Celia se sentou ao lado dele no banco – Tão talentoso. Ele revirou os olhos. – Eu assassinei aquela música. Tenho tentado tocar ela há anos. – Haven achou que você a tocou lindamente. – Isso é porque ela nunca ouviu a música antes. Ela achou que meus erros foram intencionais. – Você está sendo autodepreciativo. Sua mãe sempre teve orgulho de seu pequeno Mozart. Ele não respondeu. Mas ela sabia que ele não o faria. Ele nunca respondia. – Ela me reconheceu. – disse Celia – Era sobre isso que eu e seu pai estávamos falando. Ela me viu quando visitei Blackburn. Carmine se ajeitou no banco. – E você alguma vez pensou em ajudar ela enquanto estava lá? – Acredite, meu rapaz. Eu queria tê-la ajudado. Conversei com Corrado sobre isso, mas não havia nada que pudéssemos fazer. É o negócio deles e… – Blá, blá, blá… – ele a interrompeu – Já sei, sempre mantenha a vida pessoal e os negócios separados; o código de conduta e toda essa baboseira. Já ouvi tudo isso antes. – Acho que andou conversando com Salvatore. – ela disse – Bem, de qualquer modo, se me permite, há uma garota se escondendo em algum lugar e gostaria de conversar com ela.


Capítulo 23

Haven se sentou na beirada da cama, sentindo-se deslocada. Ela nunca falara com Celia até a noite passada; apenas a vira passar, mas sua presença naquela casa fazia com que os dois mundos convergissem. Sua antiga vida, repleta de dor, se mesclava agora à nova vida. E justamente quando ela começava a se sentir mais confortável. Aquilo a deixava incomodada e ela queria muito que aquela sensação desaparecesse. Então ouviu uma leve batida na porta. Seu estômago estava embrulhado quando pegou na maçaneta com a mão suada. Ao abrir lentamente, ficou alarmada ao encontrar Celia. – Posso falar com você? Haven assentiu com a cabeça, então Celia se sentou na cama. A jovem tentou controlar as mãos trêmulas ao sentar-se ao lado da mulher. – Gostaria de lhe contar uma história. Você se oporia a isso? Uma história? – Não, senhora. – Nos anos 1970, quando eu ainda tinha cerca de onze anos, uma guerra começou a surgir entre os… os grupos. Casas seguras foram construídas em todo o país para que os homens pudessem tirar suas famílias da linha de fogo. Esta era uma delas. Foi para onde meu pai nos enviou. Também foi o lugar onde conheci meu marido, Corrado, e sua irmã Katrina. Nossos pais eram amigos. Vincent e eu nunca gostamos de Katrina. Ela é um demônio, que sente prazer em ferir as pessoas. Sei que você sabe disso. Haven concordou com a cabeça. Era verdade. – Corrado era o oposto de sua irmã. Ele costumava se manter fora do caminho e ficar quieto. Certo dia, todos estávamos próximos do riacho e Katrina começou a atirar pedrinhas em mim. Corrado ficou ali parado, observando. Nós o considerávamos ingênuo. Vincent, entretanto, não gostou da brincadeira e devolveu uma pedra, que pegou no rosto dela, deixando uma grande marca. Apesar de tudo, Haven sorriu. – Katrina deu com a língua nos dentes e minha mãe estava prestes a espancar Vincent quando Corrado de repente resolveu abrir a boca. O menino não havia dito uma palavra por semanas, e na primeira vez que abriu a boca ele falou com grande autoridade. Ele disse “A senhora não deveria bater nele”. Ele disse que uma pessoa não deveria ser punida por proteger sua família. Minha mãe ficou tão surpresa que deixou que Vincent fosse embora. Celia riu para si mesma. – Esse é o meu marido. Quando ele fala as pessoas escutam. – ela fez uma pausa – É provável que esteja imaginando aonde quero chegar com isso. – Sim, senhora. – Só quero que você saiba que não sou como as pessoas em Blackburn… Meu marido não é como eles. Nós também somos obrigados a lidar com pessoas com as quais não gostamos de lidar. É algo que se aprende quando se envolve com um homem que vive esse tipo de vida. Eles fazem coisas horríveis; coisas que a maioria das mulheres ficaria envergonhada em saber sobre seus maridos. Porém, nós sabemos que isso faz parte deles, assim como outras coisas fazem parte de quem nós somos. Eu aceitei Corrado pelo que ele é, e tenho certeza de que aceita Carmine, mesmo com suas atitudes ruins.


Haven ficou alarmada ao ouvir o nome de Carmine, mas tentou se manter inexpressiva. – Eu aceito igualmente os dois rapazes. Celia sorriu. – Tenho certeza de que os aceita, Haven. Não temo por Dominic. Apesar de tudo, é um rapaz bem ajustado, mas Carmine é diferente. Ele tem uma alma gentil por debaixo daquela terrível armadura que usa. Acho ótimo que alguém finalmente tenha conseguido ultrapassar essa barreira. O coração da jovem disparou. – Ele é… – ela não sabia como completar a frase – É diferente. – Sim, ele é. – ela concordou – Embora eu acredite que o significado que nós damos para isso não seja o mesmo. Mas, de qualquer modo, acho que devo começar o jantar. Haven deu um pulo, tendo se esquecido completamente do jantar. Afinal, aquela fora a razão para ter levantado tão cedo. – Oh, não, eu já deveria ter começado o jantar. – Relaxe. Eu cuido do jantar da véspera de Natal. Sempre espero ansiosamente por isso. Hoje você só tem que se divertir.

Depois que Celia deixou o quarto, Haven foi até a porta e viu Carmine invadir o local, segurando um presente. Ele o estendeu na direção dela, sem hesitar. Contudo, ele a pegara de surpresa, e a jovem deu um passo para trás, encostando na cama. Ele parou diante dela e continuou com a mão estendida até que ela pegasse o presente com as mãos trêmulas. – Abra. Foi difícil encontrar uma parte que não estivesse coberta de fita adesiva, mas ela conseguiu rasgar uma pontinha e abrir o pacote. Depois de se livrar do papel ela se deparou com um livro grosso e azul, que trazia escrito na capa Dicionário Léxico Merriam-Webster. – É para mim? – Sim. – ele disse – Eu me lembrei de quando você disse que precisava de um dicionário. Sei que estava brincando, mas achei… sabe… que talvez fosse útil ou, sei lá… – ele suspirou – Sou péssimo para dar presentes. Ela o encarou enquanto ele falava, percebendo que estava nervoso. – Obrigada. – Não é o que eu gostaria de te dar… – É um ótimo presente, Carmine. Em seguida ela caminhou até o outro lado da cama e, depois de reconsiderar rapidamente o que estava prestes a fazer, pensou em como ele havia se exposto e decidiu fazer o mesmo. – Desenhei algo pra você. Os lábios dele se abriram num belo sorriso. – Pensei que tivesse esquecido nosso trato. – Nunca me esqueço de nada. Ele riu. Todo o nervosismo dele parecia ter se dissipado, enquanto a tensão dela só estava aumentando. – Eu me lembrarei disso mais tarde quando fizer alguma besteira. Ela abriu a gaveta da cômoda e retirou uma folha de papel, colocando-a contra o peito para que ele não pudesse ver o que estava ali.


– Bem, ah… Não está tão bom. Ele esticou a mão. – Tenho certeza de que está ótimo. Aceitando o fato de que era tarde demais para voltar atrás, Haven entregou o desenho a ele e engoliu seco algumas vezes, tentando controlar os nervos enquanto se sentava ao lado dele. Fora sua mãe, ninguém mais tivera a oportunidade de ver nenhum de seus desenhos. – Ah, eu disse que não estava tão bom. – Tesoro, isso é fantástico! Estou sem palavras. E você achou que não estivesse bom? Ela olhou para a figura nas mãos dele. Embora jamais tivesse visto um pessoalmente, ela procurou a imagem de um beija-flor num livro da biblioteca. Era o único desenho que fizera que lhe pareceu proporcional. – É mesmo? Ele riu. – Sim, é mesmo. É a melhor coisa que alguém fez por mim. Eu disse que queria você de Natal e você me deu isso. É lindo. Você é linda, beija-flor.

Haven ficou petrificada quando olhou pela janela na sala de estar. O jardim estava escondido sob uma fina camada branca e flocos macios continuavam a cair do céu, como confete. – Não costuma nevar muito por aqui. – disse Carmine – Nunca dura muito tempo, mas é legal. Para ela a palavra “legal” não definia aquela cena. Era simplesmente lindo. Haven caminhou até a janela e pressionou sua mão contra os vidros embaçados; sua barriga estava leve enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Ela se lembrou de sua mãe, a visão dela dançando sobre a neve. Aquele era o lugar em que ela costumava se divertir; o lugar para onde se transportava quando sonhava. Agora Haven compreendia e também queria ir até lá. Alguém pigarreou atrás dela e a jovem se virou para ver que todos já estavam reunidos. Havia dezenas de presentes de todos os tamanhos e formatos sob a árvore, que agora estava decorada com papel brilhante e grandes bolas. Ela se sentou no sofá, com os nervos à flor da pele enquanto olhava para todos. Carmine hesitou por um momento, mas logo se sentou ao lado dela. DeMarco distribuiu os presentes e Haven ficou surpresa ao ver que ele colocou dois deles bem na frente dela. O nome de Dominic estava num deles; ela olhou para o segundo e viu uma letra não familiar. – Celia. – disse Carmine, no mesmo instante em que ela leu o nome no cartão. O presente de Dominic era uma caixa cheia de utensílios de arte, tintas, papéis e lápis de cor; o de Celia era um porta-retratos vazio. Surpresa pela generosidade de Celia, Haven nada pôde fazer além de sussurrar um agradecimento. Ela se sentiu quase uma garota normal olhando os outros abrindo seus presentes; era como se ela fosse uma simples adolescente apreciando as pequenas coisas da vida. Sentir-se parte daquela família aqueceu seu coração. Apesar disso, ainda havia nela um sentimento de culpa. Quando olhou para a sala e viu o chão tomado por papéis de presente e a mesa cheia de pratos com biscoitos, ela sentiu como se tivesse traído sua própria mãe. Lá onde ela estava, não havia doces, risos, família, neve ou amor. Ela estava tão perdida em seus pensamentos que não reparou que a sala já estava vazia, até que Carmine apertou seu joelho. Ela deu um pulo, assustada, e ele olhou para ela sem entender. – O que há de errado? – Eu só estava pensando na minha mãe.


Carmine colocou o braço ao redor dela e a puxou em sua direção. – Eu também sinto falta da minha.

Tess e Dia chegaram alguns minutos mais tarde e todos se reuniram na sala de estar enquanto Haven ficou parada na porta. DeMarco e sua irmã riam juntos de algum segredo sussurrado, e Tess estava sentada no colo de Dominic, sendo calorosamente abraçada por ele. Dia contava uma história que fazia Carmine dar risada. O amor naquela sala era tão puro e poderoso que os olhos de Haven ficaram anuviados. Carmine olhou para ela e bateu a mão no assento para que se juntasse a ele. – Por que estava parada ali sozinha? – Acho que é o hábito. – ela respondeu – Estou acostumada a ficar do lado de fora, só observando. – Bem, vamos quebrar esse hábito. Você pertence ao lado de dentro, comigo. Ela olhou para ele, sorrindo, antes de perceber por sobre o ombro do rapaz um par de olhos escuros observando-a. Aquilo a deixou paralisada. Era o doutor DeMarco, e ele não parecia mais estar se divertindo. – Hora de brincar na neve! Todos se levantaram imediatamente ao ouvir as palavras de Dominic, mas Haven continuou sentada enquanto todos saíam da sala. Celia deu risada. – Não vai se juntar a eles? – Eu devo? – Haven perguntou olhando para o doutor DeMarco e aguardando instruções, mas ele permaneceu calado, sem qualquer expressão no rosto. – Se quiser – Celia respondeu –, mas precisará se vestir apropriadamente. – Sim, senhora. Ela subiu as escadas e encontrou Carmine, que já esperava por ela. Haven colocou mais algumas roupas e pegou seu casaco. Ela vestia tantas camadas que teve dificuldade para descer as escadas. Todos foram em direção à porta de trás e Dominic logo se atirou no chão, jogando neve para todos os lados. Ele fez bolas de neve para atirar em Carmine, e Haven ria enquanto ele as devolvia. Rapidamente a brincadeira saiu de controle. Haven se abaixava enquanto Dia corria de um lado para outro, mas as duas sempre desviavam-se por pouco. Tess não teve a mesma sorte e foi logo atingida no peito. Dia caminhou até onde Haven estava abaixada, passando a mão na neve, e tirou fotos. Ela podia sentir o frio através das luvas, o ar gelado em seu rosto. Ela observava a neve escorrer pelos dedos, cativada pelo modo como ela se desfazia quando fechava a mão. Aquele peso no coração diminuiu. Por alguns instantes ela permitiu que sua culpa diminuísse. Carmine caminhou até ela e perguntou. – Quer dar uma caminhada, tesoro? Ela assentiu com a cabeça e seguiu os passos do rapaz. Chegaram até as árvores; Carmine pegou a mão de Haven e a levou em direção ao riacho. Ele parou a uns trinta centímetros de onde a água jorrava. No rosto, uma expressão de saudade. Ela olhou para ele, que com certeza sentiu que estava sendo observado, pois sorriu um segundo depois. – Gosta de algo que está vendo? Ela respondeu. – Você sabe que a resposta é sim. Eles ficaram parados sob as árvores, de mãos dadas, e dois esquilos passaram correndo. Haven


ficou olhando enquanto um perseguia o outro pela neve, antes de ambos subirem na árvore e pularem num galho. Ela se abaixou, percebendo o que estavam fazendo, mas Carmine não foi rápido o suficiente. No momento em que ele olhou para cima, um dos esquilos se encostou numa pilha de neve, que caiu direto no rosto do rapaz. – Filho da puta. – ele xingou, soltando a mão dela para tirar a neve do rosto. Ela deu risadas ao vêlo irritado e ele se virou pra ela – Achou alguma coisa engraçada? Ela mordeu o lábio para segurar a gargalhada. Porém, quando conseguiu se controlar, os esquilos vieram correndo pela árvore novamente e fizeram com que mais neve caísse sobre Carmine. Um brilho travesso surgiu nos olhos do jovem quando Haven riu novamente. Ela se virou para correr quando ele se moveu em sua direção, reconhecendo a mesma expressão do dia que usou a máquina de lavar louça. Contudo, não conseguiu ir muito longe e tropeçou em alguma coisa. Ela caiu com o rosto na neve e imediatamente sentiu o frio tomar conta de seu corpo. – Viu? – disse Carmine – É isso o que acontece quando você ri de mim. Ela se virou e, sem perder tempo, atirou uma bola de neve no peito dele. – E é isso o que acontece quando você ri de mim. Ele deu risada e a ajudou a levantar. – Agora você está coberta de neve. Ela deu de ombros. – É só água. – Só água? Esse gelo pode te causar feridas na pele, deixar você gripada e até mesmo causar uma pneumonia. Merda, você pode sofrer de hipotermia. Muitas coisas podem acontecer. Você pode até perder um dedo do pé. – Carmine, eu nasci prematura numa cocheira de cavalo, e sobrevivi. Passei muito tempo sem ver a luz do sol, e sobrevivi. Apontaram uma arma pra minha garganta e também sobrevivi. É só água gelada… Eu vou sobreviver. – Então, você está me dizendo novamente que é uma sobrevivente? – Sim, e como acabei de ganhar um dicionário ainda não tive tempo de arrumar outras palavras pra dizer isso. – Seguir em frente. – ele disse – Continuar vivendo. Permanecer viva. – Essas não seriam definições? – Sinônimos, definições… é a mesma coisa. É apenas um detalhe técnico. Olhando para ele, Haven mais uma vez teve de controlar o riso. – Não acho que essa seja a palavra que está buscando. Ele a ignorou. – Sabe que eu também nasci prematuro? Algumas semanas. Minha mãe sempre desejou um monte de filhos, mas ficamos só nós dois mesmo. Nunca compreendi o motivo. A voz dele era melancólica. Haven se aproximou e colocou os braços ao redor do pescoço dele. – Talvez eles tenham percebido que tinham alcançado a perfeição com você e que simplesmente não precisariam de outros filhos. – Estou bem longe de ser perfeito, Haven. – ele retrucou – Aliás, tenho mais defeitos que qualidades. – Sim, você tem defeitos, mas isso faz parte do que te faz maravilhoso. Você é perfeito. Perfeito para mim. – ela ficou na ponta dos pés e o beijou suavemente, cochichando no ouvido dele – Além disso, com defeitos, sem defeitos, com qualidades ou sem qualidades… Isso provavelmente é apenas um detalhe técnico também. O riso de Carmine aqueceu sua pele gelada.


Capítulo 24

Vincent estava de pé na sala de estar, vendo os jovens brincando na neve. Ele não conseguia se lembrar da última vez em que vira os dois rapazes felizes ao mesmo tempo. Por vários anos ele viu o mais novo em um eterno estado de desconforto; a alma dele parecia destruída e seu coração, partido. Vincent culpava a si mesmo por isso, por não ter feito mais para aplacar seus medos. Seu filho se parecia tanto com Maura, mas Vincent falhara com ele há muito tempo. Celia ficou de pé ao lado do irmão. – Carmine estava tocando piano esta manhã. – “Sonata ao Luar”? – Não. – Vincent conseguiu sentir o sorriso em sua voz – “Bate o Sino”. – Interessante. – É, muito interessante. – ela disse – Não posso acreditar que não me contou! Ele sabia perfeitamente ao que ela estava se referindo só pelo seu olhar. – E o que queria que eu lhe dissesse? Que meu filho é um idiota? Celia deu-lhe um cutucão pela lateral, com o cotovelo. – Não o chame assim. Ele gosta dela. – Ela é uma novidade para ele. – disse Vincent – Mas isso logo ficará para trás e então ele seguirá em frente. – Por favor, tenha dó. Nem você acredita no que está dizendo. – Sempre se pode torcer, não é? Ela balançou a cabeça. – Eles estão felizes juntos. – São dois idiotas. – Celia o empurrou novamente. Ele deu alguns passos e olhou para a irmã quando esta agarrou seu braço – Muito bem, e o que pretende fazer a respeito? – Não tenho ideia. – era a mais pura verdade; ele não fazia ideia de como lidar com aquela situação – Eu pensei em mandá-la pra Chicago. – Nós teríamos ficado com ela. – Vincent olhou para Celia com ceticismo e ela sorriu – Eu sei que de algum modo eu teria conseguido convencer Corrado. Vincent duvidava que mesmo ela fosse capaz de fazê-lo se envolver naquilo. Há anos ele se recusava a interferir e Vincent não podia culpá-lo. Foi um desastre. – Isso não importa agora. Perdi a oportunidade quando ela se apresentou. – Vincent, você é um idiota se acha que algum dia teve uma oportunidade. Ele não respondeu. Não havia nada a dizer. A irmã estava coberta de razão, mas ele se negava a admitir aquilo. Ele já sabia há algum tempo o que estava acontecendo. Ele temeu o pior desde a primeira manhã da jovem naquela casa, até ouvir o que o filho lhe disse ao soltar o pulso de Haven. Foi uma palavra simples, comum para a maioria das pessoas, mas poderosa para pessoas como eles. Algo que Carmine não dizia desde que tinha oito anos e era ingênuo em relação aos problemas da vida; mas, naquela manhã, ele dissera aquela palavra de um jeito tão casual, normal, que Vincent ficou imaginando se o rapaz sabia o significado. A palavra era desculpe. Algo que nem o próprio Vincent conseguia dizer. A irmã costumava falar que ele era um bom


homem, um sujeito decente com um coração cheio de compaixão; Maura teria dito o mesmo. Ela jamais percebera o demônio que se escondia dentro dele. Ninguém percebera. Quando sua esposa foi levada dos seus braços, a escuridão tomou conta dele. Foi tomado e consumido pelo ódio e pela culpa. Não importava quantas pessoas ele tivesse matado em sua busca por vingança, sua sede por sangue nunca passou. Aquela jovem tímida de cabelos castanhos, de quem seu filho mais novo aprendera a gostar, quase morrera nas mãos de Vincent, por conta de sua necessidade de se vingar. DeMarco se afastou de Celia e sentou-se, esfregando o rosto, frustrado. Celia sentou-se de frente para ele e riu. – É tão engraçadinho o modo como eles se acham astutos. Isso me faz lembrar de você e… – Pare. – ele disse. Celia interrompeu a frase no meio e fez um sinal com a mão, como se fechasse a boca com um zíper – Não há nada de engraçadinho nessa situação. – Ah, Vincent, tenha dó. Além disso, por que você não pode deixar as coisas acontecerem? – Você sabe o porquê. – ele respondeu – Você não pode honestamente acreditar que é uma ideia inteligente deixar os dois juntos. Celia olhou para o irmão. – Essa não deveria ser uma decisão deles? – Eles não sabem de nada. Ela ergueu uma sobrancelha. – Bem, talvez você devesse explicar. Conte a ele a verdade. DeMarco sorriu de um jeito amargo. – A verdade, Celia? E a que verdade você estaria se referindo? Quer que eu conte a ele tudo, mesmo a parte que irá machucá-lo? Ele se parece muito comigo agora e você precisa considerar a possibilidade de ele surtar. Carmine e eu quase não conseguimos nos relacionar do jeito que as coisas estão, e isso poderia arruinar o pouco que temos. É isso o que quer? – Sabe que não é. – Certo, então quer que eu lhe diga apenas parte da verdade que possibilite que os dois fiquem juntos, mas não posso enganá-lo dessa maneira. É tudo ou nada. Ela franziu o cenho. – Gostaria que houvesse um modo. – Eu sei. – ele disse – Tenho tentado encontrar um meio-termo em tudo isso, mas não consigo ver uma luz no fim do túnel. Eu sei o que deveria fazer, porém, a ira que isso provocaria contra nós seria grande demais para enfrentar. Isso sem mencionar que eu estaria atirando a pobre garota aos lobos. E, se isso acontecesse, sequer consigo imaginar do que Carmine seria capaz para ajudá-la. – Você não pode ficar eternamente se perguntando “e se…”, Vincent. – Eu não paro de pensar neles. – retrucou – Quase não durmo à noite, pensando em como um detalhe foi capaz de mudar tudo. E se eu não tivesse levado Maura comigo naquele final de semana? E se tivéssemos ido mais cedo? E se tivéssemos ido mais tarde? Por que tínhamos de estar ali, naquele lugar e naquele exato momento? – Se aquilo não tivesse acontecido, aquela garota lá fora já estaria morta. Você está salvando a vida dela e ela está curando seu filho. Vincent balançou negativamente a cabeça. – Se não estivéssemos lá, Celia, meu filho não precisaria ser curado. Ele jamais esqueceria o dia em que tudo começou, e como se sentiu dirigindo pela primeira vez por aquela longa estrada vazia no meio do deserto. Vincent estava péssimo, suando sem parar. O carro em completo silêncio, exceto pelo barulho do motor. Maura sabia que ele detestava quando ela ficava sem falar com ele. Ele preferia que ela gritasse em vez de ficar sem abrir a boca, olhando pela


janela do carro, sem qualquer expressão no rosto. DeMarco não fazia ideia de que enquanto segurava firme no volante, tudo conspirava para que aquele dia jamais fosse esquecido. – Maura, se não disser alguma coisa vou acabar explodindo. – ela respirou fundo e continuou calada – O que quer que eu faça, hein? É minha responsabilidade! Seu temperamento explosivo fez com que ela respondesse de modo crítico: – É nosso aniversário de casamento. É Dia dos Namorados! – Eu sei disso, mas eles não se importam. Quando meu pai chama, eu tenho que ir. Ela sabia, quando ele fez seu juramento, que ele teria que estar presente sempre que a famiglia o convocasse, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano. Vincent diminuiu a velocidade do carro quando chegaram à saída da rodovia que os levaria até a propriedade dos Antonelli. Ambos saíram do carro quando chegaram na casa, mas Maura ficou parada ao lado do veículo. Vincent foi até a varanda e bateu à porta. Nesse momento eles ouviram um grito alto. Ao se virar, ele viu uma garotinha frágil correndo na direção de Maura. Era magra como um palito de dente e mal alcançava a altura do joelho; os cabelos delas estavam sujos, pareciam tufos de pó. Ela parecia um ratinho de esgoto coberto de sujeira. A menina nem percebeu a presença de alguém no caminho e trombou de frente com Maura, sem sequer diminuir. Maura quase se desequilibrou, e a menina caiu no chão. Ela enrugou o narizinho sujo ao ver aquela pessoa em seu caminho. – Meu Deus, você está muito sujinha, garotinha. – disse Maura. A menina olhou para si mesma e perguntou: – Onde? Maura deu risada e se abaixou. – Você está completamente suja. Os negócios naquele dia não demoraram mais que trinta minutos para serem resolvidos, mas aquela meia hora mudaria tudo para sempre. A pequena garota invadira sua vida e tudo se virou de cabeça para baixo. Diante da insistência de Maura, Vincent acabou perguntando sobre a menina na semana seguinte, mas Frankie o informou que ela não estava à venda, por nenhum valor. Ele não iria negociar. Vincent achou que Maura esqueceria aquilo, mas a criança se tornou uma obsessão para ela. Ele, no entanto, manteve-se indiferente a tudo aquilo, vivendo numa concha de ignorância. Ele era uma boa pessoa, mas a esposa havia passado toda sua vida usando uma máscara sobre o rosto. Não fazia ideia do que ela era capaz de fazer. Mas deveria ter se preocupado em saber. Ele deveria saber que ela veria aquilo como uma segunda chance. Vincent se levantou. – Quando eles entrarem, diga a ela para ir até o meu escritório. – Quem? – Você sabe quem, Celia. Antes de se virar, viu quando a irmã fez um movimento negativo com a cabeça. – Ainda não compreendo por que nunca diz o nome dela.

Vincent estava digitando um e-mail quando ouviu uma batida delicada na porta, que se abriu suavemente. Ela entrou no escritório. Era uma garota firme, do tipo que sabe guardar segredos. Muito parecida com a esposa dele, nesse aspecto. Aquele pensamento o fez sentir como se tivesse


recebido um forte golpe no estômago. Ele acenou com a mão para que ela se sentasse. – Está se divertindo, criança? – Sim, senhor. Obrigada. – Ótimo. Posso lhe fazer uma pergunta? – Claro. – Antes de eu trazê-la para esta casa, lembra-se de ter me visto alguma vez? Ela enrugou o nariz e ele sorriu involuntariamente. Aquilo o fez lembrar do olhar que ela dera para Maura naquele dia. – Não, senhor – disse, hesitante. – A primeira vez que eu a vi, você tinha seis anos. – ele disse – Bem, na verdade você disse seis à minha esposa, mas só ergueu quatro dedos. Ela ficou surpresa. – Sua esposa? – Sim, minha esposa. – ele disse – Suponho que também não se lembre dela. – Sinto muito, senhor. – Não precisa se desculpar. – ele retrucou – De qualquer modo, a razão pela qual a chamei foi porque tenho algo para você. Ele abriu a gaveta da escrivaninha e retirou de lá uma fotografia e a empurrou até Haven. – Vi sua mãe há algumas semanas, enquanto estava viajando a negócios, e tirei uma fotografia. A jovem agarrou a foto com as mãos trêmulas e deslizou o dedo indicador pela silhueta da mulher. – Obrigada por me mostrar, senhor. – De nada. Bem, era isso que eu queria com você, portanto, pode voltar para a festa. – ela ficou de pé, olhou para a foto rapidamente antes de esticar o braço para devolvê-la. DeMarco acenou negativamente a cabeça – Fique com ela. Foi por isso que Celia lhe deu um porta-retrato vazio.

Carmine saiu do chuveiro enrolado apenas numa toalha e ficou surpreso ao ver Haven sentada na beirada de sua cama. Ela segurava uma foto e estava completamente concentrada naquela imagem. – O que é isso? Ela o encarou com os olhos vermelhos. – Minha mãe. Uma sensação de pavor tomou conta dele. – Sua mãe? Aconteceu algo com ela? – Não, é uma foto dela. Seu pai me deu essa noite. – Caramba, isso foi muito legal da parte dele. – ele passou a mão nos cabelos molhados e se sentou ao lado dela. Esticou a mão para tocar na fotografia, mas a jovem automaticamente a segurou mais firme – Só quero vê-la de perto, beija-flor. Vou te devolver. Ela sorriu envergonhada e a entregou a ele. Ele olhou para a foto de uma mulher bem magra, de cabelos curtos, de pé em frente a uma grande casa de madeira. Ao lado havia um estábulo com várias cocheiras velhas; também havia uma estufa atrás dela e um galpão de armazenamento. Haven repousou a cabeça no ombro dele. – Agora você sabe de onde eu vim. – Não posso acreditar que eles faziam você dormir no estábulo.


– Não era tão ruim. – Não era tão ruim? Há muito mais pra se ter na vida do que coisas não tão ruins. E quanto a ser feliz? – Felicidade não é nada mais que boa saúde e uma memória ruim. Ele franziu a testa. – O quê? – Albert Schweitzer disse isso. Ele revirou os olhos. – Você até que é bem sabichona, sabia? – Obrigada. – ela agradeceu de um jeito genuíno – Ninguém nunca me chamou de esperta até hoje. – Prego. Ela o encarou. – Prego? Para pendurar algo na parede? Ele riu. – Prego quer dizer “de nada” em italiano. – Ah. – ela voltou a se concentrar na foto – Por que você não tem uma fotografia de sua mãe? – Eu tenho, mas é difícil olhar para elas. Haven sorriu suavemente. – Aposto que ela era linda. – Claro que era. – ele disse de um jeito divertido – Afinal, ela me fez.

Vincent ficou sentado em silêncio no seu escritório por alguns instantes e então voltou a abrir a gaveta. Ele retirou dali algumas coisas e se ateve numa pequena foto que estava no fundo. Ela estivera ali por anos; as laterais já estavam amassadas e a imagem desbotada, embora raramente recebesse a luz do dia. Ele olhou para a foto de sua esposa e sentiu uma forte dor no peito. Desejava desesperadamente que ela estivesse ali, ao lado dele, pois entre todas as pessoas no mundo, somente ela seria capaz de lhe dizer o que fazer. Ela saberia o que dizer, como consertar as coisas. Ela sempre tinha as respostas certas, mesmo que não fossem aquelas que Vincent gostaria de ouvir. Levando a mão dentro da camisa, ele puxou uma corrente que trazia no pescoço e, meio que sem perceber, começou a mexer com a argola de ouro que estava pendurada ali. Era igual àquela que ainda trazia no dedo. Nunca tivera a coragem de retirá-la.

Carmine puxou a cadeira para que Haven se sentasse na sala de jantar, então deu a volta e se sentou na frente dela. Tess e Dia também se sentaram ao lado de Haven; Dominic e Celia, ao lado de Carmine. Vincent ocupou a ponta da mesa, abaixou a cabeça e fez uma prece como de costume. Todos contaram histórias sobre férias e festividades e Haven ouviu tudo com muita atenção, absorvendo cada palavra. Seus olhos brilhavam e um sorriso se abriu em seu rosto. Era um momento estranho, mas quando Carmine olhou ao seu redor, tudo parecia estar certo, como se todos realmente devessem estar ali. Ela pertencia àquela família, a ele, e algum sopro do destino a havia enviado para lá. Ele não se importava com o que ela dissera; felicidade era mais que boa saúde e memória ruim.


Aquilo ali era felicidade. Era ela e ele e aquele momento. Albert Schweitzer que se foda. Ele bem que podia ir pro inferno. A felicidade existia de verdade.

Depois do jantar, Haven e Carmine subiram e foram para o quarto dele. Ela colocou os braços em torno do pescoço dele, enfiou os dedos nos cabelos encaracolados e o puxou em sua direção, dandolhe um beijo apaixonado. Pego de surpresa, no início ele resistiu, mas acabou aceitando e a empurrando para a cama. Ele então tirou a camisa e a atirou no chão, antes de se deitar sobre a jovem. Ela ajeitou os quadris, pressionando seu corpo contra o dele. Carmine suspirou quando aquele movimento inesperado o deixou arrepiado. Ele a queria mais do que qualquer outra coisa na vida. Ele queria tê-la para si, sentir seu sabor e explorar seu corpo. Ele queria transar com ela, mas não podia. Haven não era o tipo de garota que alguém simplesmente fode. Ela era o tipo de mulher com quem se faz amor e, por mais que ele quisesse isso, não sabia direito como agir. Ele se afastou dos lábios dela; sua voz firme contrariava o que seu corpo dizia. – Precisamos parar por aqui. – Parar? – Sim, parar. – ele hesitou, pensando, quando é que eu me tornei a voz da abstinência sexual? – É que nós, você sabe… Ele não sabia, mas ela assentiu. – Tudo bem, Romeu. – Romeu? – Como em Romeu e Julieta. Eles vêm de lados opostos, mas se encontram no meio do caminho. Existe um amor proibido entre nós, não é? – É, mas nós não vamos nos matar no final, Haven, portanto, essa aí é a única coisa em comum. Além disso, Romeu é um idiota. Escolha outro exemplo. – Que tal o Shrek? Ele franziu a testa. – Shrek? Jura? Ele é um ogro. – Shrek e Fiona pensavam que eram diferentes, mas não eram. Ele até flertou com a ideia, mas se lembrou que ela os estava comparando com um desenho. – Não, outro. – Titanic? Rose e Jack não deviam ficar juntos. – Está falando sério? Ele morre no final. Isso dá azar. Ela ficou em silêncio por um instante, deslizando os dedos pelo abdômen do rapaz e pela cicatriz que tinha ali. – E que tal se fôssemos apenas Haven e Carmine? Não sabemos o final da história, mas podemos torcer pra que tudo dê certo. – Gosto disso. – ele disse – Além do mais, há uma razão para não sabermos como a história termina. – Qual? – Ela não termina.


Capítulo 25

Haven abriu a porta da secadora e enfiou todas as roupas úmidas dentro dela, escutando enquanto todos conversavam no hall. Celia tinha um voo para Chicago em poucas horas e o doutor DeMarco iria viajar com ela por alguns dias. Eles estavam se despedindo, então a jovem preferiu ficar na lavanderia, considerando que não seria adequado impor sua presença num momento familiar. Foi então que ela ouviu uma batida fraca na porta, virou-se e se deparou com Celia. Haven ficou tensa no momento em que a senhora a abraçou. – Foi ótimo conhecê-la. – Digo o mesmo, senhora. – Quero que me chame de Celia, querida. – ela retrucou – Tenho de ir antes que Vincent comece a reclamar, mas não podia ir embora sem me despedir de você. Haven ficou tocada pelo fato de aquela senhora se preocupar tanto. – Muito bem, Celia. A tia dos rapazes passou a mão nos cabelos da jovem antes de sair. Haven se virou para a secadora e Carmine veio procurá-la depois que todos haviam saído. – Dia quer saber que horas vamos chegar esta noite. – Você acha mesmo que eu deveria ir? – Mas é claro que sim. Por que não iria? – Bem, é que seus amigos estarão lá. É bem provável que eu só complique as coisas pra você. A verdade é que aquela noite era véspera de Ano-Novo e ela não queria passar a noite toda afastada de Carmine. – Ei, não chame a si mesma de complicação. – ele disse – E a resposta é sim, eu quero que você venha comigo. – Tudo bem. – ela respondeu com suavidade. Ele passou a mão no rosto, frustrado. – Tudo bem? Vamos entrar nessa de novo? Se não quiser ir, apenas diga. Eu ficarei com você em casa. Só achei que seria legal sairmos essa noite. E, honestamente, todos sabem a nosso respeito, até porque, Lisa tem uma língua bem comprida. Maldita schifosa. – O que significa schifosa? Ele levou a mão à cabeça e disse. – Uma garota feia. – E você realmente a considera feia, ou só está dizendo isso porque está com raiva dela? – Bom, eu acho que ela dá pro gasto. Haven sorriu para si mesma. – Eu irei com você essa noite. Só não quero deixar o meu namorado constrangido na frente de todas as schifosas com quem ele vai pra escola. Ele olhou para ela como se estivesse dissecando cada palavra. – Essa é a primeira vez que me chamou assim. – De que jeito? – De “meu namorado”. Ela hesitou. – Não é isso o que somos?


– Sim. – ele respondeu – É que você nunca reconheceu isso antes. Estava começando a imaginar se você estaria envergonhada com isso.

A festa de Ano-Novo estava acontecendo num campo aberto nos arredores de Durante; uma antiga fazenda de algodão que fora abandonada. O celeiro ainda estava lá, vazio e caindo aos pedaços. O mato estava alto pela falta de uso do local. Haven olhou para o lugar de um jeito peculiar enquanto Carmine estacionava ao lado de dúzias de outros automóveis. Já era tarde e estava bem escuro, mas Haven pôde ver uma enorme fogueira a distância. Carmine pegou na mão dela e ambos caminharam pelo campo. Algumas pessoas o cumprimentaram, mas o jovem parecia distraído. Então eles avistaram Dia e seguiram à esquerda em sua direção. Ela estava sozinha. – Já volto, ok? Fique aqui. – ele disse. Ele pareceu triste ao soltar a mão dela antes de se afastar. Aquela era a razão pela qual Haven havia considerado não ir à festa desde o início. – Ficarei bem sozinha, Dia. Pode ir se divertir. Dia deu risada. – Me divertir? Acho que não. Não curto esse tipo de coisa. Prefiro ficar aqui com você. A resposta de Dia surpreendeu Haven, que ficou aliviada ao ouvir. Ambas conversaram um pouquinho e várias pessoas passavam por elas como se não estivessem ali. De repente Haven ouviu um riso familiar. Ela se virou e deu de cara com Dominic, antes que ele apoiasse o braço em seu ombro. Tess parou bem na frente delas e seu namorado ofereceu um copo a Haven. – Aqui está, uma bebida pra você. Não aceite nada de nenhum desses outros filhos da puta que estão aqui. Ela pegou o copo e cheirou o líquido. – Ah, obrigada. – Bem, eu não sabia direito o que preferia, então peguei um pouco de chope. Imaginei que não gostaria. O fato é que ninguém aqui gosta desse treco, mas todos bebem do mesmo jeito. – ele levantou seu copo e bateu levemente contra o dela – Bem-vinda ao clube. Ele voltou a aproximar a bebida da boca e tomou um gole. Haven experimentou o líquido e fez uma careta ao considerá-lo amargo, mas bebeu mesmo assim e relaxou quando todos começaram a brincar. Ela riu ao lado de todos, quase se sentindo encaixada no grupo. – Olá, Dom. Uma voz soou atrás deles. Dominic se virou e levou Haven consigo. Ela tropeçou nos próprios pés ao ver Nicholas. Os dois rapazes se cumprimentaram. – E aí, como vão as coisas? – Nenhuma novidade. – Nicholas respondeu olhando para Haven – E você, resolveu trocar de namorada? Dominic riu. – Não, só estou tomando conta dela para que nenhum urubu se aproxime. – Certo, eu ouvi os comentários da Lisa mais cedo. – Nicholas se virou novamente para ela – Foi bom reencontrar você, Haven. Ela ficou surpresa que ele tivesse se mostrado gentil mesmo depois do que acontecera quando se


viram da primeira vez. – Digo o mesmo. Ele sorriu e, antes de partir, perguntou: – Diga, o que dois tomates disseram um pro outro ao atravessarem a rua? Ela ergueu os ombros, sem saber a resposta. – Olha o carro! “Ploc”. Onde? “Ploc”. Ela não entendeu, mas Dominic deu risada. – Bem, eu só queria dizer olá. – disse Nicholas – A gente se vê mais tarde. Ele foi embora e Haven imediatamente olhou para Dominic, perguntando, curiosa. – Você ainda gosta dele, mesmo depois de ter dito coisas ruins a respeito de sua mãe? Dominic balançou positivamente com a cabeça. – Nicholas não devia ter falado daquele jeito, mas ele queria provocar Carmine. Antes de você aparecer, Pé de Valsa, só havia um jeito de magoar ele: falando de nossa mãe. Dominic se voltou para o resto do grupo, levando-a consigo. Todos conversaram e beberam suas cervejas. Pouco tempo depois, ela ouviu uma risada próxima, tão perto que ficou arrepiada. Carmine se encostou e colocou os lábios próximos à orelha de Haven. – Oi, beija-flor. Haven sentiu a respiração de Carmine em seu pescoço, assim como o cheiro de álcool e menta, que a deixou um pouco tonta. Já não conseguia se concentrar no que estava acontecendo, pois a eletricidade que fluía do corpo dele a atingia com força. Ela se sentiu leve, tonta e extremamente feliz. Ela teve medo de cair, mas ele a puxou por trás e apoiou o queixo sobre a cabeça dela, enquanto lhe oferecia o que estava em seu copo. Ela experimentou. A cerveja quente era tão amarga quanto a que ela já estava bebendo. Dominic rosnou. – Ei, eu não te disse pra não aceitar bebidas de ninguém? – É só o Carmine. – ela respondeu. – E daí? Ele poderia drogar você, sabia? – Podia mesmo. – Carmine brincou – Eu já fiz isso, você se lembra? Aliás, duas vezes. Esqueci que deixei você meio tontinha daquela vez também. Isso sem mencionar quando te deixei bêbada. Jesus, sou um sujeito horrível. Eu corrompi você. Ela queria discordar, mas só conseguia suspirar e se entregar aos braços dele enquanto ele a beijava no pescoço. A sensação de sua boca sobre a pele dela fazia desaparecer qualquer pensamento coerente de sua cabeça. – Você está tremendo. – ele disse – Vamos dar uma volta. Carmine a segurou pela mão, entrelaçando os dedos, e a levou por entre os carros estacionados, sem dizer uma palavra. Ele a beijou e ela respondeu abrindo os lábios enquanto ele a empurrava contra o Mazda. Interrompendo o beijo por um instante, ele a segurou forte e ela soltou um grito de surpresa quando ele a sentou sobre o capô do veículo. Ele se encaixou entre as pernas dela e ela passou os dedos pelos cabelos do jovem. Os lábios de ambos voltaram a se encontrar. O coração de Haven se acelerou com aquela proximidade. O corpo dele estava pressionado contra o dela, irradiando calor e aquecendo cada milímetro. Ele se afastou por um instante para ganhar fôlego e suas testas se tocaram, relevando um leve suor no rosto dele. O nariz dela roçou no dele no momento em que o encarou e viu aquele verde radiante. Olhando para aqueles olhos, ela podia ver a emoção que se acumulava ali; ela sentia que o mesmo florescia dentro dela. Para Carmine, ela não era uma posse, tampouco um título. Ela era apenas uma garota. Uma jovem que de repente se sentiu como se estivesse flutuando.


– Eu te amo. – aquelas palavras simplesmente escorregaram da boca dela, com extrema facilidade, como se já tivessem sido pronunciadas milhões de vezes. Mas esse não era o caso. Ela nunca o havia dito antes. Porém, ao ouvi-las de sua própria boca, cada célula de seu corpo sabia que aquele sentimento era verdadeiro. Até aquele momento ela não sabia o que era amor, mas agora estava claro. Amor era aquela sensação estranhamente deliciosa que sentia em suas entranhas sempre que Carmine estava por perto; era o brilho no olhar de quando ria; o calor no corpo dela ao ouvir as palavras que ele dizia. Amor era alegria; era segurança; era verde. O amor era simplesmente ele. Aquele rapaz lindamente repleto de falhas que a fez brilhar. Ele olhou para ela enquanto aquelas palavras pairavam no ar entre ambos. – E eu amo você. – disse na forma de um sussurro. Haven, entretanto, sentiu aquelas palavras poderosas, profundas dentro de sua sua alma – Per sempre. – Per sempre? – ela indagou. Sorrindo, ele passou o dedo indicador suavemente sobre os lábios dela. – Quer dizer “para todo o sempre”. Naquele exato momento Haven escutou um assobio forte, seguido de uma forte explosão no ar. Haven se abaixou e tampou os ouvidos, enquanto Carmine continuou a olhar para ela. – São só fogos de artifício. Ele se encostou à porta do carro, ao lado dela, e a abraçou, apertando-a contra seu peito. As explosões continuaram e ela pôde ver as cores no céu. Ela se contraiu diante das luzes vibrantes no céu e Carmine deu risada. – Viu, são apenas fogos de artifício, tesoro. Não há nada a temer. Eles não vão te machucar. Os dois ficaram admirando as luzes em silêncio enquanto a multidão que estava ao lado da fogueira deu início à contagem regressiva. Carmine a pegou pelo braço e a colocou de frente para ele. Os fogos continuavam a explodir a distância. Quando a contagem chegou a zero, ele se inclinou em direção a ela e a beijou. – Você faz alguma ideia do quanto é importante pra mim? – perguntou, depois de afastar-se de seus lábios – Estou conseguindo me reencontrar por sua causa. Nunca achei que isso pudesse acontecer. Minha mãe costumava falar sobre o destino, e acho que você representa o meu… Você é o meu destino. Você foi trazida a mim por uma razão; para que nós salvássemos um ao outro. Você não era a única que precisava ser salva, Haven. Eu estava me afogando e você me estendeu a mão; me salvou. – ele fez uma pausa – Feliz Ano-Novo, meu beija-flor. Ela riu. – E você falou tudo isso sem dizer um só palavrão. Ele piscou algumas vezes. – É, acho que sim. Que… se foda!

Carmine abraçou a jovem com força e ambos apreciaram o silêncio que pairava no local. Os fogos haviam chegado ao fim e a multidão se acalmara, portanto, tudo o que restava ali eram os dois no meio da escuridão. Ele podia sentir o cheiro de seu xampu, doce e feminino, e tudo em que conseguia pensar era o quão sexy ela parecia. As outras garotas já não o atraíam em suas minissaias e rostos maquiados. Sua bela ragazza, com suas unhas mordiscadas e bochechas coradas, era mais sensual que todas, uma vez que sua beleza não era fabricada, mas real. Ela era real. – Nunca tinha pensado num futuro antes de você surgir em minha vida, Carmine. – ela disse depois de alguns segundos – Mas quero que nós dois tenhamos um, juntos.


– Não faz ideia do quanto fico feliz em ouvir isso. – ele disse, tirando o cabelo dela do rosto e deslizando a língua no pescoço da jovem e no lóbulo de sua orelha – Será que posso guardar você só pra mim? – ele sussurrou, rindo e se afastando dela assim que aquelas palavras saíram de sua boca – Mas o que há de errado comigo? Estou falando como o Gasparzinho. Ela o olhou curiosa. – Gasparzinho? – É, Gasparzinho, o fantasminha camarada – ele esperava que ela soubesse do que estava falando, mas ela apenas o encarou – Não importa. É um filme idiota. Acho que você iria gostar dele. Ela inclinou a cabeça e o olhou de um jeito estranho, indagando. – O que está dizendo? Ele ficou mudo. – Não… Eu não quis dizer isso. Não estava sugerindo que gostaria do filme porque ele é idiota, nem porque você fosse idiota. – ele rosnou – Você não é! A frase não saiu como deveria. Sabe que não penso assim. Aliás, você teria que ser muito boba para não perceber o quanto é esperta e inteligente. – ele fez uma pausa – Quer saber, acho melhor eu calar a boca. Os cantos dos lábios de Haven se curvaram para cima formando um sorriso e ela se encostou novamente no rapaz. – Obrigada! – Por saber quando calar a boca? Ela riu. – Não, por sempre se preocupar com meus sentimentos. Sei que isso não é algo com o que esteja acostumado. Nunca tive alguém que cuidasse de mim. – Sempre farei o que for melhor pra você, Haven. – ele disse – Tenho pensado muito sobre isso. Depois que eu completar dezoito anos e puder ter acesso direto à minha poupança, nós poderíamos desaparecer e fugir de tudo isso. Só acho que não vai dar pra levar o Mazda, porque ele tem um chip GPS. – Um chip GPS. – ela sussurrou. – Sim. – respondeu Carmine, olhando para o relógio – Você gostaria de voltar pra casa? Haven balançou afirmativamente a cabeça. Ambos entraram no carro e ele logo saiu pela estradinha que os levaria à rodovia. Haven se virou para a janela e começou a olhar para as árvores. O silêncio da jovem o preocupou. – O que há de errado? – Pensei que soubesse. – Soubesse do quê? – Que também tenho um chip implantado em mim. Ele a olhou, confuso, e imediatamente abaixou o volume do rádio. – O que está querendo dizer? – Como o seu carro. Tenho um chip de GPS instalado em mim. Carmine pisou fundo nos freios assim que ouviu aquelas palavras. Os pneus cantaram e o automóvel parou bruscamente. Assustada e com os olhos arregalados, Haven segurou firme no painel. – Tem um chip instalado em você? Onde? – Está no meu corpo, sob a minha pele. – Não, você só pode estar brincando. Seu pai colocou um chip em você, como se fosse um cachorro? Ela acenou negativamente a cabeça. – Não foi o meu pai quem fez isso, foi o seu.


Carmine piscou algumas vezes. – Você tem certeza disso? – Sim, tenho certeza. Ele enfiou uma agulha nas minhas costas. Também enfiou um cotonete na minha boca. Eu não sabia o porquê, mas ele fez isso. Ele disse que jamais conseguirei escapar. É impossível. Carmine sentiu o estômago revirar. Ele iria vomitar.

Vincent saiu do elevador no quinto andar do hotel Belden Stratford e caminhou em direção ao seu quarto no final do hall. A luz fraca fazia bem para seus olhos cansados. Ele não conseguia se lembrar da última vez que tivera uma boa noite de sono. Sua jornada contínua de trabalho estava começando a pesar. Exausto pela constante mudança de fuso, tudo o que ele mais queria era descansar um pouco. As próximas dez horas de sua agenda estavam surpreendentemente livres, e ele não tinha a menor intenção de fazer qualquer outra coisa senão ficar deitado numa cama. Estava cansado de viajar, de trabalhar, conversar, pensar. Tudo o que queria agora era apreciar um pouco de paz, pelo menos uma vez na vida. No momento em que adentrou o quarto do hotel, seu telefone tocou e ele ficou surpreso ao ver que era Carmine. Vincent se sentou na beirada da cama e atendeu. – Não é um pouco cedo para você já estar de pé, filho? Carmine suspirou e respondeu. – Chama-se insônia, lembra? Nunca durmo. Vincent conhecia bem aquela sensação. – O que há de errado? – Não há nada de errado. – ele respondeu – Um filho não pode ligar para o pai para desejar um feliz Ano-Novo? Vincent ficou surpreso. Carmine jamais ligara para ele para conversar casualmente. – Bem, nesse caso, feliz Ano-Novo para você também, filho. Vocês passaram bem a noite de réveillon? – Sim, tudo correu muito bem, eu acho. – Não se envolveu em nenhuma briga? – Não. Ninguém foi parar no hospital dessa vez. – Ótimo. – o pai respondeu, bocejando. O sol já começava a nascer lá fora – E o que vocês pretendem fazer hoje? – Ainda não sei. – respondeu o filho – Mas acho que poderá me dizer depois. Você sabe, né, por causa do rastreador que colocou na Haven. Aquelas palavras caíram como um raio na cabeça de Vincent. Demorou um minuto para que elas fossem devidamente incorporadas. – Ah, então ela te contou sobre isso? – É, acho que ela mencionou alguma coisa. – ele disse – Ah, e ela também falou sobre o fato de você ter passado um cotonete em sua boca. Ela não é, sei lá, nossa prima ou algo do tipo, é? Ou, quem sabe, uma filha ilegítima? Você andou traindo a mamãe? Vincent soltou um suspiro. – Claro que não. Não há nenhum laço de parentesco. A paz estava se esvaindo mais uma vez.


Capítulo 26

A primeira semana de janeiro passou rapidamente, pois logo os rapazes voltaram para a escola. Haven ficou na cama um pouco mais naquela sexta-feira, antes de sair do quarto e caminhar pela biblioteca. Ela levou um susto e levou a mão ao peito quando olhou para o topo da escada e viu DeMarco parado ali com os braços cruzados. Ele passara a semana toda em Chicago, portanto, era a última pessoa que Haven esperava ver ali. Ela o encarou, imaginando quando ele teria chegado em casa, mas ainda mais curiosa para descobrir o que ele estaria fazendo no terceiro andar. Algo dentro dela lhe dizia que havia alguma coisa errada, principalmente depois que ele fizera aquilo com ela. Ela procurou por alguma emoção escondida e percebeu um ar de aborrecimento em seu rosto. O monstro espreitava novamente. – Bom dia, doutor DeMarco. – Bom dia. – ele respondeu, com a voz fria e distante – Pegue seu casaco e desça. O medo a consumia por dentro, mas ela tentou se manter no controle. Ele continuou a encará-la, aguardando que ela lhe mostrasse que havia compreendido. Ela não sabia por que, mas não era como se tivesse escolha. Se ele a mandasse ir a algum lugar ela simplesmente acatava, querendo ou não. – Sim, senhor. Ela suspirou fundo quando ele desapareceu e balançou negativamente a cabeça enquanto pegava seu casaco. Haven enfiou as mãos no bolso e desceu as escadas, com as palmas das mãos suadas. Seria aquele o fim de sua estada naquela casa? Estaria DeMarco cansado dela? O que ele planejava fazer? Será que a venderia? E se ela jamais visse Carmine novamente? Já prestes a ter um colapso, a jovem sentiu uma mão em seu ombro. Ela se contraiu e DeMarco falou. – Você parece especialmente nervosa hoje. – Sinto muito. DeMarco olhou para o relógio e disse. – Vamos, não quero me atrasar. A porta foi aberta e ela manteve a cabeça abaixada ao sair. Ele trancou a porta e ligou o alarme, passando por ela em direção ao carro como se ela não existisse. Haven olhou pelo retrovisor quando ele saiu com o carro e pouco a pouco viu a casa desaparecer por trás das árvores. Soltando um suspiro, ela olhou para DeMarco desejando saber o que o havia incomodado tanto. Porém, ela o olhou por tempo demais. – É rude ficar encarando as pessoas. Se tem uma pergunta, faça. Se não for o caso, seja educada. Não estou disposto a tolerar insolência no dia de hoje. Ela não fazia ideia do significado daquela palavra, mas não pretendia dizer a ele. – Eu só estava imaginando aonde estamos indo, senhor. – Ao hospital. – ele respondeu, na mesma hora em que Haven identificou o prédio a distância. Ele estacionou em uma vaga na frente do prédio e desligou o carro – Assim como no dia do jogo de futebol, espero que você se comporte bem. Ela permaneceu imóvel, observando através do vidro a placa em que estava escrito Dr. Vincent DeMarco em letras azuis. – Eu me comportarei, senhor. Haven o seguiu dentro do prédio, acelerando o passo para não ficar para trás. Eles foram direto


para um elevador e, apesar de o trajeto não levar mais que trinta segundos, sua ansiedade triplicou entre o térreo e o terceiro andar. Ela sabia que DeMarco não a machucaria em público, mas não era fácil se manter racional confinada dentro de uma caixa com um homem perfeitamente capaz de ferila. Ela suspirou aliviada quando a porta se abriu, e então o seguiu por um longo corredor. Olhando para baixo, ela não reparou que ele havia parado até esbarrar nele. A jovem se contraiu, deu alguns passos para trás e ergueu as mãos para se proteger. DeMarco ficou parado, com as mãos agitadas. Ele chegou a cerrar o punho, mas lutou para manter o controle. Retirou do bolso um molho de chaves, abriu a porta, acendeu a luz e mandou que ela entrasse. – Sente-se, eu já volto. Logo ela já não podia mais escutar os passos dele do lado de fora, então ficou ali parada, olhando para a placa com o nome dele antes de observar o resto do consultório. Tudo parecia bem organizado. Os livros estavam dispostos na estante e as pastas, bem arrumadas sobre a escrivaninha. Não havia itens pessoais nem fotos de família; também não existiam canecas com inscrições do tipo “melhor pai do mundo”. As paredes eram brancas e vazias, os móveis todos de madeira, exceto pela cadeira de couro preto. O lugar se parecia com a casa; estéril. Ela se sentou numa das cadeiras e repousou os braços nos joelhos, cutucando as unhas. DeMarco retornou e se sentou à escrivaninha, colocando seus óculos. Arriscou-se a olhar para ele e percebeu que ele estava lendo um arquivo. Ele sentiu o olhar da jovem e suspirou de um jeito dramático. – Pergunte de uma vez. – Eu só estava pensando no motivo por que estamos aqui, senhor. – Eu preciso retornar ao trabalho e você precisa de uma injeção. – ele disse, retirando um livro da estante e o entregando a ela – Uma enfermeira logo cuidará de você, mas, fora isso, você passará a maior parte do dia aqui. Então, isso poderá entretê-la, já que aparentemente agora sabe ler.

O consultório de DeMarco era bastante silencioso, exceto pelo som das páginas que ocasionalmente eram viradas. Haven estava com as mãos agitadas enquanto o tempo demorava a passar. Depois de algum tempo, alguém bateu à porta e DeMarco se levantou para atender. – Boa tarde. Uma mulher jovem e loira entrou sorrindo para o médico e disse: – Feliz aniversário! Haven ficou congelada. Ninguém lhe havia dito que era aniversário dele. – Obrigado. – ele respondeu sem muito entusiasmo, virando-se para Haven – Vou buscar o almoço. Antes de sair, ele cerrou os olhos como que lhe dando um aviso silencioso. – Olá, eu sou a Jen. – disse a mulher, depois que ele já havia saído – É bom conhecer a jovem que conseguiu fazer com que Carmine entrasse nos eixos. Como conseguiu isso, afinal? Seu coração acelerou quando viu Jen pegar uma seringa. – Não sei… – Não dá pra explicar, não é? Aquele garoto costumava vir parar na emergência desse hospital, ou mandar alguém para cá, pelo menos uma vez por semana, mas já se passaram meses desde a última vez. O doutor DeMarco deve estar feliz. – ela fez uma pausa e sorriu – Agora vire-se e abaixe a calça. Essa tem que ser aplicada no bumbum. Haven seguiu as instruções, fechando os olhos quando a agulha atravessou sua pele.


– É difícil acreditar que agora o pior que Carmine é capaz de causar a alguém seja fazer com que sua namorada tome uma injeção anticoncepcional. Injeção anticoncepcional? Ela puxou as calças para cima e a porta se abriu. Era o doutor DeMarco, trazendo consigo dois recipientes com comida e entregando um a Haven no momento em que ela voltava a se sentar. A jovem abriu o recipiente e ficou olhando para a comida. – Apreciem o almoço, vocês dois. – disse Jen – Mais uma vez, foi ótimo conhecê-la, Haven. Ah, e não deixe que esses DeMarco deem muito trabalho a você. Às vezes é preciso mostrar a eles quem é o chefe. DeMarco sorriu ao ouvir aquelas palavras. Jen caminhou em direção à porta, mas parou e disse. – Além disso, já ouvi dizer que Carmine gosta de garotas safadas. O humor desapareceu do rosto de DeMarco e mais uma vez sua expressão parecia irritada. Quando a porta se fechou, Haven pegou o garfo, mas suas mãos tremiam. – Coma! – ordenou DeMarco. Ela se contraiu diante do tom de sua voz e levou uma garfada à boca, tão nauseada que quase não conseguiu engolir. Depois de uns dez minutos de tensão, enquanto forçava a comida goela abaixo, ela colocou o garfo de lado, esperando que aquilo o satisfizesse. Ele pegou o recipiente e o atirou no lixo. Em seguida, ela o viu pegar o telefone e discar um número, colocando no viva-voz quando começou a chamar. Ela ficou assustada ao reconhecer a voz do outro lado da linha. – Alô? – atendeu Carmine – Por que está me ligando na hora do almoço? – Preciso que venha até o hospital assim que sair da escola. Depois de uma pausa, ele retrucou. – Ei, não fui eu. DeMarco suspirou. – Não foi você o quê? – Seja lá o que estiver pensando que eu fiz. – Apenas venha ao meu consultório. Hoje não estou com paciência para suas gracinhas. DeMarco desligou antes que o filho tivesse tempo de responder e voltou sua atenção para a jovem. – Hoje é meu aniversário. – Feliz aniversário, senhor – ela disse – Ninguém me disse nada sobre isso. – Isso é porque não há nada para celebrar. Este pode ser o dia em que nasci, mas também é o dia em que minha vida foi tirada de mim. Eu posso até pegar o meu carro e ir a algum lugar, mas isso não significa nada. O que quer que me mandem fazer, eu tenho de fazer ou corro o risco de morrer. Você conhecia essa faceta de minha vida? Ela balançou negativamente a cabeça. De fato, ela não sabia de muita coisa. Carmine havia lhe falado algumas coisas sobre o pai, mas nunca explicou a fundo. Ninguém o fizera. DeMarco continuou depois de um momento. – Já vi isso acontecer inúmeras vezes. Homens recebendo ordens para matar a própria família. Eles seguiam as ordens ou eram mortos. Aquele senhor que esteve em minha casa? Ele é o meu mestre, assim como, independentemente do que eu faça, você continuará me vendo como o seu. Afinal, eu tenho o poder de mantê-la viva, assim como Sal tem o poder de me manter vivo. Não era muito mais velho que Carmine quando me envolvi nisso; e era tão estúpido naquela época quanto ele é agora. Ele não faz a mínima ideia sobre a confusão em que está se metendo; aliás, nenhum dos dois tem noção. Haven estava assustada demais para falar, então esperou que ele dissesse algo, mas, em vez disso, ele pegou uma caneta. Ela imaginou que a conversa estava encerrada e voltou a se concentrar no livro para passar o tempo, mas DeMarco falou novamente, deixando-a paralisada. – Você está apaixonada por ele?


O livro escorregou da mão dela e caiu no chão. – Por quem? – Você sabe muito bem de quem estou falando – ele disse –, não se finja de boba comigo. Uma profunda amargura tomou conta dela ao ouvir aquele tom de voz. – Sim. Ele pegou uma maleta preta e o coração da jovem disparou quando ele se moveu em direção a ela, sentando-se na cadeira que estava ao seu lado. Ele retirou seu notebook e o colocou sobre a escrivaninha para que ambos pudessem vê-lo. – Carmine me perguntou se havia um chip instalado em seu corpo e eu não fiquei nada feliz com essa pergunta. – Eu… Me desculpe… não sabia que não deveria dizer nada. – Não é por isso que estou furioso. Não me importa se ele sabe ou não. O que importa, e o que me preocupa, é o fato de ele estar tão interessado. A única razão em que consigo pensar para esse interesse é a possibilidade de ele estar considerando a ideia de fugir e levá-la daqui. Ela congelou ao ver DeMarco abrir um programa em seu notebook. – Não vou fugir daqui, senhor. Ele fez um sinal para que ela ficasse quieta antes de digitar alguns números no aplicativo. Um mapa surgiu na tela, com um ponto vermelho piscando no centro. – O problema está no fato de você ter estado ao lado de alguns dos homens mais perigosos do país. Por causa disso, vocês não se dão conta de situações potencialmente perigosas. Eu amo meu filho, mas ele é volátil. Eu era exatamente como ele quando tinha essa idade, e sei o que pode acontecer. Não sou um homem horrível. Tenho coração, e venho tentando deixar que as coisas sigam seu rumo naturalmente, na esperança de que tudo se acerte no final, mas Carmine está cada vez mais impaciente. Ele está indo fundo demais. Ele apontou para o ponto vermelho na tela. – É você. Não importa para onde vá, tudo o que tenho de fazer é abrir esse programa, digitar o código e ele me dará sua posição exata. Fugir só fará com que alguém saia machucado, e não posso deixar que isso aconteça. Eu tentaria explicar a Carmine, mas ele exigiria respostas que não posso lhe dar. Se resolver fugir com meu filho, eu irei atrás de você e a matarei. Não quero fazer isso, mas não posso sacrificar a vida dele. E se ambos forem estúpidos o suficiente para tentar desaparecer, Carmine acabará se machucando no final. Ela o encarou, assustada. A última coisa que desejava era que Carmine sofresse. – Não gosto de esconder coisas do meu filho, mas a segurança dele vem em primeiro lugar. Até porque, esses segredos dizem respeito a você. Ele desligou o notebook e o colocou de volta na maleta antes de retornar à cadeira atrás da escrivaninha. Haven ficou em silêncio, tentando absorver tudo o que ele lhe dissera. Muitas pessoas já haviam se machucado por causa dela, e Carmine não poderia ser a próxima vítima. Ela não podia permitir que aquilo acontecesse. – Sei que é informação demais para digerir. – disse DeMarco – Tenho tentado a todo custo manter meu filho longe desse estilo de vida. Quando entreguei minha vida à organização, jurei que eles sempre viriam em primeiro lugar. Sal vê Carmine como um principe, um príncipe da Máfia, e se descobrir que não quero isso para ele, Sal verá a mim como um traidor. Sabe qual é a punição para isso no mundo em que vivo? O que acontece com pessoas que esquecem qual o lugar delas? Ela se contraiu diante daquelas palavras. – Morte. – Então, você percebe a situação em que me encontro. Você está ajudando meu filho de maneiras que eu mesmo não consegui, mas precisa perceber que também estou tentando ajudá-lo. Eu o estou


salvando de um perigo que ele próprio desconhece. O problema é que ainda não encontrei um meio de impedir que alguém saia machucado; um jeito de ninguém ter que ser sacrificado. Ele pegou sua caneta novamente e arrumou alguns papéis. O assunto estava encerrado. Haven o observou por um momento antes de se abaixar e pegar o livro no chão.

Pouco tempo depois, a porta atrás de Haven se abriu e DeMarco rosnou. – Carmine Marcello, quantas vezes teremos de discutir essa sua mania de entrar de repente sem pedir permissão? Haven se arrumou na cadeira, olhando para frente e sentindo um arrepio quando Carmine se sentou ao lado dela. – Eu já tinha sua permissão, afinal, foi você quem me chamou aqui. O doutor DeMarco balançou a cabeça em reprovação. – Entregue as chaves do seu carro. Carmine ficou irritado. – O quê? – Mas o que acontece com vocês, crianças, sempre agindo sem pensar? Quero suas chaves agora. – Vai começar com essa merda de novo? – Filho… Carmine retirou as chaves do bolso e atirou o molho sobre a mesa do pai. Elas caíram em cima de uma pilha de papéis. DeMarco as colocou no bolso antes de entregar-lhe outro molho. Confuso, Carmine olhou para o pai. – Mas por que você está me dando as chaves de sua Mercedes? – Porque ela não é sua. – Mas do que você está falando? – Imaginei que preferiria usar o carro de outra pessoa – disse DeMarco –, mas se prefere que ela comece com um Mazda, pegue de volta suas chaves. Carmine chacoalhou a cabeça e retrucou. – Não estou entendendo merda nenhuma do que está dizendo. – Olha como fala, rapaz! – esbravejou DeMarco – Se parasse de agir na defensiva entenderia que estou lhe pedindo que ensine a jovem a dirigir. Carmine arregalou os olhos. – Mas que merda é essa agora? Você está zoando com a minha cara, né? DeMarco rosnou mais uma vez. – Às vezes eu tenho vontade de te dar uma porrada por causa dessa sua boca suja, filho. – Você percebeu que usou um palavrão pra me corrigir porque eu usei um palavrão, certo? Que tipo de modelo você é? – Certamente não o tipo de que você precisa. Faça o que digo, não o que eu faço. Você é bom demais para seguir meus passos. – Bom demais pra ser um médico? – Você sabe muito bem do que estou falando. Uma súbita expressão de tristeza surgiu no rosto de DeMarco e isso deixou Haven surpresa. Até aquele momento, ela nunca fora capaz de sentir nenhuma simpatia por ele. Agora, entretanto, ela conseguia compreendê-lo; entender seus medos. Mas o que mais a deixava assustada era o fato de que ambos desejavam exatamente a mesma coisa. Como seria possível? Ela não fazia ideia.


– Bem, não me parece assim tão ruim. – retrucou Carmine – Veja tudo o que conseguiu na vida. – As aparências enganam, filho. – É você quem diz. – ele resmungou – Mas, afinal, o que estamos fazendo no hospital? Implantando merdas? Fazendo mais testes? Ou, deixe-me adivinhar: é um segredo, certo? A expressão de irritação que Haven testemunhara mais cedo ressurgiu no rosto de DeMarco. – É melhor vocês irem andando. Tenho pacientes que preciso ver. O médico saiu do consultório, deixando Carmine e Haven sozinhos. Ambos ficaram sentados em silêncio por alguns momentos depois que a porta se fechou atrás deles, então Carmine se levantou. – Caramba, fiquei superassustado em ver você sentada aí. Por um momento imaginei que seria necessário dar um soco nele, te agarrar pelo braço e fugir. Aquelas palavras lhe fizeram lembrar de tudo o que DeMarco lhe dissera. Na semana anterior Carmine havia dito que colocaria a segurança dela acima de seus próprios desejos, e agora ela precisaria fazer o mesmo. Haven não queria que ele se machucasse, portanto, se isso significasse ser totalmente leal ao doutor DeMarco, ela o faria por Carmine. Ela preferia sacrificar a si mesma a vê-lo sofrer, por um instante que fosse, por causa dela.

Haven parou na calçada bem ao lado do banco do passageiro. Ambos ficaram ali em silêncio por um segundo antes que ele perguntasse a ela. – Ei, por que está parada aí? Você vai dirigir. – Agora? Ele balançou o chaveiro da Mercedes diante do rosto da jovem. – É, por que não? Haven pegou as chaves. – Mas não faço ideia do que fazer. – Eu te direi o que fazer. Vê esse negócio preto com um botão vermelho? Aperte o… Antes que ele pudesse concluir a frase e dizer o que deveria apertar, a jovem pressionou o botão vermelho. As luzes se acenderam e a buzina disparou. Ele pegou o dispositivo e o desarmou, enquanto ela sorria sem graça. Aquela aventura seria um desastre se eles não pudessem sequer abrir as portas sem disparar o alarme. – Vê a figura de um botão com um cadeado aberto? – Sim. – Então, pressione o filho da puta. – ela o apertou e seu rosto se iluminou quando o carro destravou. Ele sorriu diante da expressão orgulhosa no rosto dela – Muito bem, agora entre no carro, mas não toque em nada. Haven se sentou no banco do motorista e ele, ao lado dela. Carmine sorriu ao perceber o quão longe o assento estava da direção. Ele logo utilizou os controles para ajustar a posição, de maneira que ela conseguisse olhar por sobre o painel e alcançar os pedais. Ela colocou o cinto de segurança e ergueu as sobrancelhas. – Não vai colocar o cinto? – Eu nunca uso cinto. – Tudo bem, mas eu não faço ideia do que estou fazendo. – Dirigir é muito fácil. – ele disse – Você não pode ser tão ruim. – Então tá, farei o que me disser. – Exatamente, você fará o que eu lhe disser. E eu digo: coloque a chave na ignição.


A jovem seguiu a instrução e ele ficou esperando que ela ligasse o carro, o que não aconteceu. – Vai ficar aí parada ou ligar de uma vez esse carro? Nervosa, ela o encarou. – Você não me disse pra ligar. Haven girou a chave e ligou o automóvel, mas continuou a segurá-la naquela posição. – Jesus, solte a chave ou vai queimar o motor de arranque. Ela afastou rapidamente a mão. – Sinto muito. – Tudo bem. – ele disse – Eu deveria ter dito, mas achei que já soubesse. – Posso contar numa única mão o número de vezes que entrei num carro. Não entendo nada sobre eles. – Não pensei nisso. – ele ponderou – Veja, esse pedal aqui é o acelerador; esse outro aqui é o freio; a gente usa pra brecar. Isso aqui é o câmbio; ele é usado pra mudar de marcha: o “R” escrito nele é para dar ré; o “D” é para dirigir, seguir em frente; o “P” é pra parar. Esses são os espelhos laterais e aqui está o retrovisor. Você usará eles para ver o que está ao seu redor, entendeu? – Acho que sim. – ela respondeu – E todos esses sinais aqui? – Pare quando vir aquelas placas vermelhas com a palavra “Pare”. Os demais não são tão importantes. Ah, e se a luz do semáforo estiver vermelha você para. Se estiver verde, você continua. Todo mundo faz isso. – Mas e se estiver no amarelo? – Bem, se estiver no amarelo você acelera pra passar antes que fique vermelho. Detesto esperar. – Muito bem. – Tudo certo, baby. Pode dar ré nessa vadia. Haven colocou a mão no câmbio, acionou a posição “R” e respirou fundo antes de pisar no acelerador. O carro deu um tranco para trás e subiu na calçada. Ela imediatamente pisou no freio e parou de maneira abrupta. Carmine segurou firme no assento. – Caramba, eu disse pra você pisar no acelerador, não pra enfiar o pé nele com toda força. Pressione devagar. Ela recolocou o carro na posição “D” e mais uma vez pressionou o acelerador. Eles então rodaram pelo estacionamento até uma placa de “Pare.” Pela segunda vez ela apertou com força o pedal do freio, dando outro tranco. Ficou parada e ele se tornou impaciente, imaginando por que ela não se mexia. – Ei, se não tem nenhum carro vindo você não precisa ficar parada. Pode seguir. Ela bufou. – E para onde eu devo seguir, Carmine? – Ah, naquela direção. – disse, apontando para a esquerda. Ela olhou para ambos os lados antes de girar o volante e pegar a estrada. Carmine se perguntou por que ela não havia sinalizado, mas logo se lembrou de que não havia explicado isso a ela. Ela se colocou na faixa correta, mas suas mãos tremiam sem parar no volante. Eles se aproximaram de uma luz amarela e ele pensou que ela fosse parar. Porém, ela pisou no acelerador e passou pelo cruzamento depois que ele já havia ficado vermelho. – Você passou pela bosta do sinal vermelho, Haven! Vermelho significa “pare”! – Mas você mesmo disse que eu deveria pressionar o acelerador quando estivesse amarelo. – É, mas só se fosse possível passar antes de ficar vermelho, o que não foi o caso. – E como eu deveria saber? Ele não tinha uma boa resposta, afinal, como ela poderia saber se ele não foi claro com ela? Ele se sentiu sem graça por ter perdido o controle, mas na sequência olhou pelo vidro da frente e percebeu


que ela estava indo direto para cima de uma caixa de correio. – Cacete! Ele levou as mãos ao volante e conseguiu girá-lo a tempo de desviar o carro. Somente o espelho lateral raspou na caixa do correio. Haven pisou no freio e o carro deslizou e parou na lateral da estrada. Ele soltou o volante. – Tudo bem. Vejamos se conseguimos tentar outra vez. Ficarei de boca fechada para não te distrair, e você só presta atenção na estrada, ok? Carmine não a estava ensinando da maneira correta; era difícil para ele ensinar algo que lhe parecia tão natural. O rapaz colocou o cinto de segurança e silenciosamente acenou com a mão para que ela prosseguisse. Haven retornou à pista, mas não dirigiu nem cem metros quando deparou com uma placa que mandava dar preferência aos carros da direita. Ele se lembrou que não havia explicado o significado para ela, mas já era tarde demais. Ela passou pelo cruzamento a toda velocidade, sem parar. Pneus cantaram e Haven deu um grito e pisou no freio, a opção errada quando se fecha outro veículo. Ele mandou que ela voltasse a pisar no acelerador. Ela agarrou o volante com ainda mais força e seus olhos se encheram de lágrimas. – Pare nesse estacionamento à direita. – ele disse, quando os dois se aproximaram de uma mercearia. Haven girou o volante e o carro deslizou, parando completamente torto e ocupando algumas vagas. Uma lágrima escorreu pelo rosto dela. Carmine soltou o cinto e a abraçou. – Eu acho que eu tornei as coisas bem mais complicadas do que precisavam ser. Talvez fosse melhor que outra pessoa te ensinasse a dirigir. – Por que preciso aprender? – Para que possa sair sozinha. – ele disse – Além disso, é uma habilidade importante de se ter. Você irá apreciar quando tentar de novo. – Tentar de novo. – Claro, como se nada tivesse acontecido, a partir do zero. Independentemente do quão difícil lhe parecer. – Você realmente acha que…? – Eu tenho certeza! – Então, eu não quero outra pessoa pra me ensinar. Quero você. Ele riu. – Sua memória deve estar ruim. Já esqueceu o desastre que sou como instrutor? – Nós estamos aprendendo todas as coisas juntos, você lembra? E dirigir não deve ser diferente. – Ok, então. – ele concordou – Vamos tentar mais uma vez. Ah, e pensando melhor, quando vir a luz amarela no semáforo é melhor reduzir a velocidade e parar, tá bom?


Capítulo 27

Haven estava de pé na cozinha, de frente para o refrigerador, pensando no que iria cozinhar. As palavras do doutor DeMarco se infiltraram em sua mente, ecoando como uma música que se repetia sem parar. Ela desejava uma vida ao lado de Carmine, mas ambos teriam de encontrar um meio de garanti-la sem fugir. Seria possível? Ela não tinha certeza. Porém, mesmo sabendo que seria um grande risco, ela desesperadamente esperava que isso acontecesse. Haven deu um gritinho quando sentiu mãos em torno de sua cintura. Ela estava tão perdida nos próprios pensamentos que sequer percebeu a aproximação de Carmine. – Que tal ficarmos bêbados essa noite, tesoro? – Por quê? – Porque é sexta-feira? Alguém precisa de uma razão pra ficar bêbado? Prometo que me comportarei como um gentleman. – ele então se inclinou e deu uma mordidinha no pescoço dela – Bem, talvez não exatamente um perfeito gentleman. Ela sorriu sem se preocupar em lhe dar uma resposta. – Você sabe, nós temos ar-condicionado. – ele disse – A porta dessa geladeira está aberta há tanto tempo que já estava imaginando que estivesse tentando refrigerar a cozinha ou algo assim. – Estou pensando no jantar. – Que ótimo, porque estou faminto. – ele disse, pegando um copo no armário. Ela o tirou da mão dele e ele a olhou confuso, erguendo os ombros. Haven pegou um pote de cerejas e uma garrafa de Coca-Cola e preparou-lhe uma bebida. Ele provou. – Você é boa demais pra mim. – Bem, você pode me retribuir mais tarde. – ela disse em tom de brincadeira. – Se quiser subir agora, eu retribuirei agora mesmo. – O jantar tem de estar pronto às sete, o que significa que só tenho meia hora para preparar alguma coisa. – ela explicou, retirando um pacote de linguiça do freezer. Em seguida ela o colocou para descongelar no microondas, mas Carmine pegou o pacote e o enfiou no freezer novamente. – O que está fazendo? Vai acabar me metendo em encrenca! Ele não respondeu, apenas pegou o celular e procurou o número que desejava. Assim que atenderam, ele pediu que trouxessem pizza no caminho para casa. Encerrou a ligação com um sorriso orgulhoso. Haven revirou os olhos. – Nós ainda não vamos lá pra cima. – Tudo bem, mas ainda quero beber essa noite.

Haven escutou um carro se aproximando e viu o Mazda estacionar na frente da casa. O doutor DeMarco abriu a porta e saiu do carro trazendo consigo algumas caixas de pizza. – Ele chegou. A porta da frente se abriu e Carmine suspirou exasperado, soltando-a. DeMarco caminhou até a cozinha e colocou o jantar sobre o balcão antes de olhar para Carmine, soltando um resmungo quase


inaudível. Haven olhou para Carmine com um sentimento de incerteza enquanto ele tomava sua bebida. Os dois trocaram novamente de chaves e DeMarco seguiu em direção à porta antes que alguém pudesse reagir. Ele foi até o carro, parando ao lado do espelho do passageiro, que ostentava um grande arranhão na pintura brilhante. Virou-se para a casa e olhou para Haven pela janela. Ela temeu que ele fosse retornar à cozinha para puni-la, mas ele apenas entrou no carro e saiu. Haven logo se virou para Carmine e disse. – Acho que agora eu quero ir lá pra cima. – Podemos fazer isso. – ele respondeu, pegando a pizza que estava em cima do balcão – Mas ainda posso aprontar, certo? Ela sorriu diante da expressão infantil em seu rosto: os lábios curvados para baixo formando um biquinho. – Claro que pode. – E você vai beber comigo, não vai? – Se é isso o que deseja, sim. – Quero fazer tudo com você – ele disse –, até coisas que talvez não devêssemos fazer juntos. – Como dirigir, por exemplo? Ele riu. – Sim, vamos nos divertir e esquecer que você quase me matou hoje tentando aprender.

Haven levou seu copo à boca e provou a bebida doce com sabor de fruta. O gosto de álcool pôde ser sentido na garganta, mas não estava tão forte a ponto de modificar o sabor. – Isso é bom. O que é? – Sweet-Tart. Você sabe, refrigerante de laranja, suco em pó da Kool-Aid e Everclear, uma bebida com alta concentração de álcool. – Haven não sabia, mas gostava do sabor mesmo assim, então tomou mais um gole, enquanto Carmine pegou uma garrafa de bebida alcoólica e serviu uma dose para si mesmo. Ele estava sem camisa e Haven ficou impressionada com os músculos de seu abdômen quando se movimentava. Foi então que ele passou a mão áspera sobre a cicatriz que tinha do lado; seus longos dedos atraíram a atenção de Haven. Carmine se abaixou para olhar sob a cama e retirou de lá as caixas de sapato, olhando dentro delas antes de empurrá-las de volta para o lugar onde estavam. Ele encontrou o que estava procurando, um console de jogos e controles. Sem dizer uma palavra, ele ligou o equipamento na TV. – O que é isso? – ela perguntou. – O bom e velho Nintendo. – respondeu. – E você vai jogar agora? – Nós vamos jogar. – ele a corrigiu, pegando um dos jogos e o colocando no console – Ou, pelo menos, vamos tentar. Ele ligou o aparelho e o jogo abriu. Em seguida ele se sentou no chão com as pernas afastadas e bateu com a mão no espaço vazio para que ela também se sentasse ali. Ela o atendeu e logo recebeu um controle nas mãos, assim como algumas explicações sobre como funcionava. Ficou observando enquanto ele navegava pela primeira tela. – Digamos que o Mario é um rito de passagem. Você não é ninguém até que tenha aprendido a jogar. – o tom dele era sério, mas, ao mesmo tempo, jovial e inocente. Isso a fez sorrir – Pegue,


termine essa parte. Ela pegou o controle. – Mas e se eu matar ele? Ele pode morrer, não pode? – Ele sempre volta à vida. Não é como se tivéssemos de planejar um funeral ou coisa assim. Foram três tentativas até que ela tivesse a coordenação necessária para fazer o personagem começar a saltar obstáculos. Carmine pegou as bebidas e voltou a se sentar, puxando o corpo dela em direção ao próprio peito. Durante as próximas horas o ciclo se repetiu algumas vezes. Ela matava o personagem e Carmine completava a fase para que ela pudesse tentar a sorte na próxima. Haven já conseguia sentir o álcool em seu corpo; seus membros estavam meio adormecidos e a cabeça, um pouco zonza. Ela achou delicioso os dois terem a oportunidade de fazer algo tão infantil e tranquilo. Ele estava lhe dando a chance de vivenciar experiências que ela não tivera. Ela estava jogando uma fase em que havia muitas tartarugas, quando Carmine aproximou o nariz de seu pescoço. Distraída, ela deixou que o personagem caísse de uma base e, frustrada, soltou o controle no chão. – O fato de eu beber te incomoda? – perguntou Carmine, antes de tomar um longo gole direto da garrafa de vodca. – Você não bebe o suficiente para que eu me sinta incomodada. – ela respondeu –Você não é um bêbado maldoso como o mestre Michael. – Gostaria de matar aquele sujeito. – Carmine retrucou – Você não faz ideia do quanto eu quero que ele sofra. Ela reprovou com a cabeça. – Você não pode fazer isso. – E por que não? Na boa, você não se preocupa mesmo com aquele sujeito, né? – Não, mas me preocupo com você. E não quero que você machuque as pessoas. Não quero que você seja um matador. Carmine a puxou ainda com mais força, beijando o topo de sua cabeça. – Sabe de uma coisa, eu nunca soube o que queria da vida. Ir para Chicago sempre me pareceu a coisa certa a fazer, mas agora que tenho você na minha vida, começo a ver as coisas de um jeito diferente. O que você quer importa pra mim, portanto, se você não quer que eu me envolva nesse tipo de coisa, então terei de pensar sobre isso. Afinal, será a sua vida também e… bem… você importa muito mais pra mim que qualquer um deles. Ela sorriu enquanto as palavras dele adentravam sua mente. Carmine desconectou o jogo e o guardou novamente na caixa. – Eu estava curiosa para saber o que tinha nessas caixas. – ela disse – Imaginei que fossem mais revistas pornográficas. Ele riu. – É onde eu guardo meu velho eu. Ela se sentou na cama com a bebida nas mãos enquanto ele pegava outra caixa menor e procurava algo dentro dela. Ele retirou de lá um porta-retratos preto e o entregou a Haven, que o pegou com cuidado. Nele havia a foto de uma mulher ruiva, cujos olhos eram da mesma cor que os de Carmine. Haven não conseguia respirar. Era o rosto da mulher que ela vira repetidas vezes em seus sonhos; o anjo vestido de branco, que brilhava sob a luz do sol. Ela ficou emocionada e sussurrou. – Ela é um anjo. Carmine pegou a moldura das mãos dela, porém, em vez de guardá-la novamente na caixa, ele a colocou sobre a escrivaninha. – É, um anjo. – disse em voz baixa – Agora mais do que nunca.


Naquela noite Haven teria vários sonhos. A noite estava escura e não havia nuvens. O brilho da lua iluminava o ambiente em sua mente. Ela estava de volta a Blackburn; era uma garotinha com os cabelos despenteados, tentando ver alguma coisa de dentro do estábulo. – O que está acontecendo, mamãe? – Nada que tenha a ver com você, garotinha. – disse sua mãe em voz baixa, enquanto tentava tranquilizar Haven – Vá se deitar. – Mas não estou com sono. – Haven argumentou – Por favor, mamãe, quero ver. – Não está acontecendo nada. – ela respondeu – Já está tudo acabado. Haven desistiu de tentar sair e, em vez disso, sentou-se no chão e ficou espreitando por entre as pernas. Ela mal conseguia ver o contorno de um automóvel com o porta-malas aberto. No chão havia um corpo, imóvel. – É a senhora Martha! – ela exclamou. – Silêncio. – sua mãe ordenou – Não quer que eles a escutem. – Desculpe, mamãe. – Haven tentou sussurrar, mas não conseguia evitar. Ela observou enquanto a senhora Martha era colocada no porta-malas. Os olhos dela estavam fechados, como se estivesse dormindo. – Aonde a senhora Martha está indo? – Para longe daqui. – respondeu a mãe. – E é muito longe daqui? – Muito. – ela disse – Há um mundo inteiro lá fora. – E a senhora Martha está indo pra esse mundo lá fora? – Não, a senhora Martha está indo para o Paraíso. – O que é Paraíso? A mãe suspirou. – O Paraíso é o melhor lugar que alguém pode imaginar. Lá as pessoas não machucam umas às outras. Lá existe paz. É um lugar lindo e todos são maravilhosos. Haven sorriu, entusiasmada. – E algum dia eu irei para lá? A mãe acenou afirmativamente com a cabeça. – Algum dia um anjo virá para levá-la. De repente a escuridão se transformou em uma forte luminosidade. Haven protegeu os olhos. Ela conseguia sentir o sol queimando seu corpo enquanto corria; o ar frio se chocava com sua pele suada. Ela fingia estar voando, como a senhora Martha fizera em seu caminho para o Paraíso na noite anterior, mas colidiu com algo em seu caminho. Caindo no chão, mal conseguia compreender o que via contra a luz ofuscante. – Você está muito sujinha, garotinha. A visão se tornou mais clara quando a pessoa se ajoelhou e olhou para ela: era a imagem da pura beleza e compaixão; de puro amor. Até aquela ocasião, Haven jamais vira um anjo, mas tinha certeza de que um acabara de se colocar bem à sua frente.


Capítulo 28

O quarto estava totalmente claro quando Carmine acordou. A cabeça dele doía muito e os olhos ardiam. Ele piscou algumas vezes ao se sentar, percebendo que estava sozinho. Esticou-se um pouco, enfiou dois comprimidos de Tylenol goela abaixo para se livrar da ressaca e então saiu do quarto. Assim que chegou ao segundo andar, ele deparou com Haven e o pai, de pé, um ao lado do outro. Os olhos de ambos se encontraram no mesmo momento em que Vincent percebeu a presença do filho. – Estão faltando roupas limpas em seu armário novamente? – perguntou. – Não, por quê? – É a segunda vez seguida que pego você andando pela casa praticamente nu. Carmine olhou para o próprio corpo. – Bem, meus “documentos” estão devidamente cobertos. – Sim, fico feliz que pelo menos isso você tenha aprendido ao longo dos anos. Carmine deu risadas. – O que foi? Acha que é jovem demais para se tornar vovô? – Bem, para falar a verdade, sim, eu acho. – respondeu Vincent – Só tenho quarenta e um anos, afinal. Mas, honestamente, me preocupa tanto a possibilidade de você pegar uma doença quanto de engravidar alguém. Por algum tempo, cada vez que você me perguntava “o que é isso?”, eu temia que você fosse expor seu pênis e me mostrar algo suspeito. Carmine deu risada. – Obrigado pela preocupação, pai, mas te asseguro que o meu pau está em perfeitas condições. Vincent balançou a cabeça, desaprovando, e olhou para Haven. – Pode ir, criança. Tenho certeza de que tem coisas mais importantes a fazer. Ela desceu as escadas feito um raio enquanto Vincent se voltou para Carmine. – Vá se vestir. – Mas por quê? Não estou pelado. – Eu não disse que estava pelado, mas tenho o dia livre, portanto, imaginei que pudéssemos sair para praticar tiro ao alvo, como nos velhos tempos. Carmine o olhou sem acreditar. – Vincent DeMarco achou um espaço livre em sua agenda para passar algum tempo com seu filhinho? Vincent suspirou. – Vá logo antes que eu mude de ideia. Rindo, Carmine subiu até o quarto para se vestir. Ele estava no banheiro escovando os dentes quando Haven entrou. – Você e o doutor DeMarco vão sair? O rapaz acenou confirmando enquanto enxaguava a boca. – Vamos brincar com nossas armas. – Você estará seguro, não é? – Claro, ele não vai atirar em mim ou algo do tipo. – respondeu – Eu já o testei algumas vezes e uma vez ele até apontou pra mim, mas não conseguiu puxar o gatilho. Aquele comentário não a tranquilizou, como agravou a expressão de pânico no rosto da jovem.


– Ele apontou uma arma pra você? – Relaxe, é provável que ele já tenha apontado uma arma pra todo mundo em algum momento. – ele disse, terminando de se arrumar – Vai sentir minha falta, tesoro? – Sempre sinto sua falta quando não está aqui. Carmine vestiu o casaco. – Espere mais alguns meses e já estará de saco cheio de mim. – Nunca. – Ótimo ouvir isso, mas como é mesmo que as pessoas dizem? A distância só aumenta a paixão? Minha saída significa que você me amará ainda mais quando eu retornar.

A área de prática de tiros ficava a alguns quilômetros fora da cidade, em Swannanoa Valley. O campo, que tinha cerca de 350 metros de comprimento, possuía um pavilhão repleto de alvos de tamanhos variados. Eles frequentaram o lugar algumas vezes, mas não haviam retornado desde o incidente envolvendo Nicholas…. Ou seja, desde que Carmine foi embora da cidade. Carmine sempre tivera talento para atirar, entretanto, a mira de Vincent era impecável; sua mão era tão firme quanto a de um atirador profissional. Ele não precisava se esforçar para que suas balas atingissem o que ele quisesse. Vincent recarregou seu rifle M1 Garand, depois de usar todas as balas, e o deu a Carmine. – Gostaria de tentar usá-lo? Carmine pegou a arma do pai e hesitou um pouco antes de entregar a ele sua pistola. Depois de mirar, o jovem atirou uma única vez e sorriu orgulhoso ao atingir o alvo. – Isso foi pura sorte. – disse Vincent, carregando a pistola e atirando. Ele atingiu um alvo que estava ainda mais longe, descarregando todas as balas do tambor. – Seu exibido. – Carmine retrucou, dando outro tiro e mais uma vez atingindo o alvo sobre ele – Viu? Não foi pura sorte. Foi uma demonstração de habilidade. – É, devo admitir que você não é nada mau. – Vincent concordou – Nicholas pode atestar isso. Carmine revirou os olhos enquanto o pai trocava as armas novamente. Ele atirou exatamente no alvo, mas o clima agora estava mais pesado, repleto de palavras não ditas. Vincent disparou mais algumas vezes antes de abaixar a arma e olhar fixamente para frente. Foi então que Carmine percebeu… Aquilo não era apenas um passeio casual. Não era uma oportunidade para que passassem algum tempo juntos. Havia algo na mente de Vincent que seria compartilhado com Carmine antes que ele pudesse retornar para casa. Se é que Carmine teria permissão de voltar para casa. – Era sobre isso que queria falar? – disse Carmine, sabendo que teria que ser o primeiro a dizer algo – Nicholas? – Não. – respondeu Vincent – A menos, é claro, que ele seja a razão para você andar tão bem humorado ultimamente. Carmine olhou para o pai no momento em que ouviu aquelas palavras. Ele sabia. – Não pude evitar. – disse o rapaz, com a voz trêmula por conta do nervosismo – Não é que eu tenha planejado isso. Apenas… aconteceu. Vincent se manteve em silêncio. A falta de uma resposta deixou Carmine ainda mais tenso. – Ok, tudo bem, eu sei que você tem uma opinião formada sobre isso; não precisa ficar calado, pode falar. Me diga o quanto você está enojado pelo fato de o seu próprio filho se rebaixar tanto a ponto de se apaixonar por uma escrav… – ele não conseguiu terminar a frase. – O fato de você pronunciar ou não essa palavra não muda em nada a situação dessa jovem, ou


quem ela é. – disse Vincent. Carmine esperou que o pai completasse. – Isso é tudo o que tem pra me dizer? Eu já te disse que posso suportar. Diga que está errado; que não pode dar certo porque pessoas como nós não se misturam. Diga que ela jamais poderá me amar. – É isso o que você quer ouvir? Carmine estreitou os olhos. – Não. Vincent olhou casualmente para o relógio como se não se sentisse afetado por aquele diálogo. – Por que não vamos almoçar? Carmine ergueu uma sobrancelha. – Seria mais fácil me matar aqui. – Matar você? Que tipo de pessoa você acha que eu sou? – Caralho, eu pensei que você fosse o tipo de pessoa capaz de machucar uma garota inocente. É bom saber que eu estava errado a esse respeito. – Sou um homem que comete erros, e que não espera ser perdoado por eles, mas também sou um homem que espera que seus filhos sejam respeitosos. – disse DeMarco, de maneira afiada – Se quiser discutir a situação usando toda a raiva que existe entre nós, podemos fazê-lo, mas eu sinceramente esperava que pudéssemos conversar como adultos. Carmine hesitou por um momento. – Tudo bem. – Agora, você vai se desculpar por jogar isso na minha cara? O filho retrucou. – Eu me desculparei por dizer quando você se desculpar por ter feito.

Vincent e Carmine se sentaram assim que entraram no restaurante, e ambos pediram a primeira opção no cardápio. Depois que o garçom trouxe a comida, Vincent se virou para o filho. – Quero que me ouça atentamente, Carmine. O que vocês dois têm um pelo outro é inofensivo por enquanto, mas não quero ouvi-lo falar sobre isso. Você pode se importar com ela, mas lembre-se: ela não é sua. É provável que você me odeie por dizer isso, mas eu controlo essa situação. Na primeira vez em que ela não atender uma ordem minha, eu colocarei um ponto final nisso tudo. Carmine contraiu os músculos do maxilar no momento em que sua ira se revelou, mas Vincent levantou a mão e impediu a explosão. – Não vou machucá-la, mas a mandarei embora se forçar a situação. Não vou lhe dar minha bênção, mas também não irei impedi-los. Sou esperto o suficiente para escolher minhas batalhas e, nesse momento, tenho coisas mais urgentes para tratar. O rapaz olhou para o pai. – Parece justo. Vincent se voltou para a comida. – Só fico imaginando se você sabe no que está se metendo. – Bem, digamos que eu esteja na expectativa de que o filho da puta que a possui não pretenda manter ela para sempre. Os olhos de Vincent se concentraram em Carmine. – Bem, essa é sem dúvida uma informação valiosa, mas não foi isso que eu quis dizer. Por que você acha que pedi que você a ensinasse a dirigir, Carmine? Por que acha que eu lhe pedi que a


levasse ao supermercado? – Para tentar nos separar. Aquela resposta irritou Vincent, que soltou o garfo. – Você não ouve nada do que lhe digo? Acha que eu tenho tempo para ficar brincando com as pessoas? Acredita mesmo que sua mãe teria se casado comigo se eu fosse essa pessoa tão má? – Eu não sei. Não tenho ideia do que se passava na cabeça da minha mãe, mas tenho certeza de que ela não ficaria feliz com o que está fazendo com Haven. – Você era muito jovem quando ela se foi e, francamente, sua visão está distorcida. Fiz muitas coisas ao longo dos anos que iriam desapontar sua mãe, mas comprar essa menina não seria uma delas. – Comprar? Acha mesmo que minha mãe aceitaria isso? Você é doente! Vincent deu um murro na mesa. – Quem você pensa que é para falar assim comigo? Olhe a maneira como trata todo mundo! – Tá, e de quem é a culpa? – perguntou Carmine, empurrando a cadeira e se levantando – De quem é a culpa por eu ter me tornado assim? De quem é a culpa pelo fato de eu ter assistido à morte da minha mãe? Vincent olhou para o filho. – Não é minha. Uma voz foi ouvida atrás deles quando o gerente se aproximou. Outras pessoas estavam olhando para eles, desconfortáveis com aquela situação. Vincent tirou algum dinheiro da carteira e o jogou sobre a mesa antes de sair.

Os dois se mantiveram em silêncio durante o trajeto para casa. Quando finalmente chegaram, Carmine tentou descer, mas foi impedido pelo pai. – Eu tive de agir desse modo para que você visse no que estava entrando. Essa jovem esteve afastada de tudo, Carmine. Dentro dessas quatro paredes talvez as coisas pareçam ótimas, mas esse não é o mundo real. Considerando a pequena possibilidade de que você dois ficassem juntos, achei que seria melhor se você experimentasse lidar com a realidade dessa jovem. Isso estará presente a cada passo do seu caminho, porque quando alguém é criado como ela foi, não se tem o conhecimento necessário para viver a vida de outro modo. Tentei ajudá-lo, filho, não machucá-lo. Carmine tentou dizer alguma coisa, mas o pai continuou antes que ele pudesse abrir a boca. – Você acha que sua mãe ficaria desapontada pelo fato de eu ter trazido essa jovem para essa casa? Acho que está enganado. Ela teria gostado? Certamente não. Eu mesmo não gosto. Mas acredito que sua mãe teria ficado muito mais desapontada se eu tivesse soltado essa garota no meio da rua. Ela teria sido engolida viva pela sociedade. E é provável que ainda o seja. Carmine se concentrara em tudo o que o pai fizera de errado, mas jamais considerou que talvez ele estivesse ajudando Haven. – Ela precisa reconhecer o que é ter uma vida normal antes de ser apresentada ao que nós consideramos normal. – Vincent continuou – Você a ama? Muito bem, continue amando. Mas não me contradiga. Não estou brincando, Carmine. Não estou gostando dessa situação, mas estou aceitando e acho que isso já deveria ser o suficiente para merecer seu respeito. Você tem de parar de agir como se fosse todo poderoso e espertalhão, porque não é nenhuma dessas coisas. Você precisa compreender isso, filho, ou acabarei perdendo você como perdi sua mãe. Vincent saiu do carro e bateu a porta tão forte que os vidros vibraram.


Ao entrar no quarto, Carmine viu Haven espalhada bem no meio de sua cama, de barriga para cima. Ele tirou seu casaco, os sapatos e se deitou ao lado dela. A jovem abriu os olhos e piscou algumas vezes, sorrindo ao vê-lo ali. – La mia bela ragazza. – ele disse – Tirando um cochilo no meio da tarde, não é? – Não tinha mais nada pra fazer. – ela explicou – Está tudo limpo e em ordem. Ele deu suspiro. – Quer saber, um cochilo agora parece mesmo uma ótima ideia. Ela o olhou curiosa. – Teve um dia ruim? – Eu diria que foi um pouco confuso, mas não diria que foi ruim. – ele respondeu – Afinal, qualquer dia que envolva deitar ao seu lado, tesoro, não pode ser ruim. Ela passou os dedos nos lábios dele. – Senti sua falta. – Mi sei mancata. – ele disse – Isso significa “senti sua falta” em italiano. – Bem, então, mi sei mancata, também. Ele riu. – Sou homem, portanto você diria mancato. Você sabe, com “o” no lugar do “a”. – Mi sei mancato. – ela repetiu. – Perfeito! E não é que minha namorada está se tornando bilíngue?

Haven estava de joelhos, cantarolando para si mesma enquanto admirava o piso reluzente da cozinha. Ela o esfregara por mais de uma hora, removendo uma a uma as marcas pretas do mármore. DeMarco nunca lhe dissera nada sobre limpeza. Nas raras ocasiões em que esqueceu de fazer alguma coisa, ele não reclamou. Às vezes ela sentia como se estivesse vivendo em outro universo, tamanha a mudança em sua vida. Ela nunca imaginara, por exemplo, que um dia teria a chance de largar a vassoura de lado ou simplesmente deixar para lavar as roupas depois, só para não perder um programa na TV no meio da tarde. Muitas coisas aconteceram sem que ela sequer se desse conta. Antes de vir para a casa dos DeMarco, ela se mantinha constantemente concentrada em suas tarefas para evitar encrencas, mas agora ela podia pensar mais em si mesma. Ela nunca tivera essa chance no passado. Ela se levantou, percebendo a presença de alguém, antes de se virar e deparar com o doutor DeMarco. Ele estava parado à porta, observando-a em silêncio. Era meio-dia e ela não havia percebido que ainda havia alguém na casa. – Está com fome, senhor? Ele acenou afirmativamente com a cabeça. – Pode preparar algo para o almoço, dolcezza. Assistiremos TV enquanto comemos. Ela piscou algumas vezes depois que ele se retirou. Nós? Depois de preparar dois sanduíches de frango e salada e, de modo distraído, servir dois copos de Coca-cola e colocar cerejas, Haven seguiu para a sala de estar. O doutor DeMarco estava recostado em uma poltrona, com as pernas esticadas. O sorriso dele se fechou quando pegou sua bandeja. Ela se sentou no sofá e pegou seu sanduíche enquanto ele experimentava um gole de sua bebida. – Posso lhe fazer uma pergunta, criança?


– Claro, senhor. Ele retirou a cereja de dentro de seu refrigerante. – Você inventou isso por conta própria ou foi o meu filho quem lhe pediu que fizesse assim? – Eu fiz por conta própria. Só queria ser gentil com ele. – Interessante. – Tem algo errado com a bebida? – ela perguntou. – Não, eu só estava curioso. – ele disse – Na verdade, estou curioso em relação a várias coisas. – Como o quê? – Como… De que modo soube que produto usar para limpar as janelas? Ela franziu as sobrancelhas. – Porque estava escrito na embalagem. – Então admite que já conseguia ler no passado? Aquele erro a deixou apreensiva. Com medo de falar, ela apenas assentiu. – Bem, eu já sabia disso na época, mas fiquei surpreso que desse esse fora no primeiro dia. Você não é tão esperta quando acha, mocinha. Ela sentiu um mal-estar e colocou o sanduíche no prato. – Como sabia que eu podia ler? – Descobri isso há vários anos em uma viagem que fiz a Blackburn. Você tinha um livro. Mas mesmo que eu não soubesse, você mesma teria se entregado. No momento em que o fato de você não saber ler foi mencionado, você olhou para a esquerda. Foi isso que a traiu. Quando se esconde alguma coisa, olha-se para o lado esquerdo. Haven não disse nada, apenas se forçou a olhar para frente.


Capítulo 29

Carmine caminhava de um lado para o outro no hall de entrada. O som de seus pés sobre o piso de madeira ecoava por todo o piso térreo. O sol sequer havia nascido e ele já estava impaciente. Depois do que lhe pareceu uma hora, embora só tivessem passado alguns minutos, um carro estacionou em frente à casa. Ele abriu a porta com tamanha violência que quase arrancou-a do batente, com dobradiças e tudo. – Você está atrasada! Dia o empurrou para o lado e entrou na casa. – Você me disse para estar aqui às seis da manhã. São 5h45. Ele franziu a testa. – Ainda não deram seis horas? – Não, ainda não. – ela respondeu, entregando-lhe um pedaço de papel – Relaxe, tudo dará certo. – Tem certeza? Digo, isso é o suficiente, não acha? – Dia ergueu uma sobrancelha e a expressão da moça fez com que o pânico aumentasse em Carmine – Caramba, então eu exagerei, não é? – Ela vai adorar, Carmine. – Nunca fiz nada disso antes. – ele disse – Na verdade, nem sei o que estou fazendo. – Eu sei. E é muito meigo de sua parte. Estou mais que feliz em poder ajudar. – Obrigado. – ele agradeceu – Eu vou tirar algum dinheiro do banco para pagar pelo seu freela. Ela riu. – Não precisa. Essa é por minha conta. Estou mesmo a fim de conhecer ela melhor. – Jura? Você realmente vai tentar fazer amizade com uma garota na minha vida? Dia revirou os olhos. – Bem, a culpa não é minha se você vivia grudado na Lisa-Reclamona, não é?

Sentadas a uma mesa na Crossroads Diner, uma pequena lanchonete no centro da cidade, Haven apreciava sua omelete de queijo e cogumelos enquanto Dia discorria sobre a escola. A jovem de cabelos coloridos acordara Haven uma hora mais cedo que o normal para convidá-la para tomar café. A princípio houve certa resistência. Haven temia deixar a casa sem permissão, mas Dominic ligou para o Dr. DeMarco para assegurar que tudo ficaria bem. Ela não tinha muita certeza do motivo de estar naquele lugar, mas estava grata pelo fato de alguém desejar passar algum tempo ao seu lado. Mesmo que esse alguém fosse ainda um completo mistério para Haven. Depois que Dia terminou de comer suas panquecas, pediu licença para ir ao banheiro. Haven ficou apreensiva quando a garota desapareceu. Estar sozinha num local público, cercada por estranhos, a deixava intimidada. – Mas o que uma gracinha como você está fazendo nessa lanchonete comendo sozinha? Haven ficou ainda mais tensa quando Nicholas se sentou à mesa, de frente para ela. – Estou com a Dia. Ela foi… ela foi a algum lugar. – Legal, será ótimo revê-la. – ele disse – Então, tenho uma pergunta pra você. Ela o olhou preocupada.


– Que pergunta? Ele enfiou a mão no bolso do casaco e retirou de lá uma caixinha rosa com pequenas balas no formato de coraçõezinhos, e pegou algumas com a mão. – Por que o vampiro rompeu com sua namorada? Ela sorriu. Outra piada. – Não sei. Ele colocou algumas balas na boca e completou. – Porque ela não era o seu tipo sanguíneo. Não tinha o mesmo tipo de sangue dele, entendeu? Ah, deixa pra lá. Ela o encarou sem entender o que havia de engraçado naquilo. Dia retornou e se sentou ao lado de Nicholas. – O que faz aqui? Ele ergueu os ombros. – Parei pra tomar café da manhã antes de ir para estação. Tenho trabalho comunitário agendado com o chefe de polícia. Dia franziu a testa. – Mas você não deveria estar na escola nesse horário? – Olha quem fala. O mesmo não se aplica a você? – Eu tirei o dia de folga. – ela respondeu – Eu vou ajudar Haven a se preparar para um encontro mais tarde. Um encontro? Aquelas palavras pegaram Haven de surpresa. Nicholas também pareceu igualmente espantado. – Um encontro? Com quem? – Com o namorado dela, oras. – retrucou Dia enquanto Haven permanecia calada – Você sabe quem é: Carmine. A expressão de Nicholas mudou. – Carmine DeMarco? – E que outro Carmine você conhece? – perguntou Dia – E não fique assim tão chocado. Ele já não é mais a mesma pessoa que você conheceu. – Carmine jamais mudará. – o tom de Nicholas era mordaz – Talvez ele consiga enganar vocês, mas não o vejo como o príncipe encantado que todos enxergam nele. Todos nessa cidade ridícula ainda acham que o sol gira em torno desse moleque; que ele seria incapaz de fazer coisas erradas. Isso chega a ser bizarro. – ele fez uma pausa, brincando com as balas – Bem, tenho que ir. Dia se levantou para que ele pudesse passar e ele colocou uma bala na frente de Haven antes de ir embora. Em seguida, abriu a porta da lanchonete com certa impaciência e saiu sem tomar o café. Haven olhou para a bala laranja em formato de coração e percebeu que nela estavam escritas, de maneira quase ilegível, as palavras “fale comigo”.

Carmine mais uma vez caminhava de um lado para o outro no hall. Vestido com um terno preto, o jovem trazia nas mãos uma linda rosa vermelha. Desde que compartilhou seus planos com Dia, ela batizou a empreitada de “Operação Cinderela”. Para Carmine, entretanto, um melhor codinome seria “Operação Por Favor Não Faça Merda Dessa Vez”. O mais perto que ele chegara de ser um príncipe encantado havia sido rotulado como Principe della Mafia, o que obviamente não tinha nada de romântico.


Sua mente navegava por todas as potenciais catástrofes que poderiam ocorrer, e ele já se preparava para o pior. Talvez ele dissesse algo rude e a ofendesse; ou quem sabe ela ficaria desapontada ou até mesmo assustada por tudo o que ele planejara. O piquenique certamente seria um desastre: acabaria com uma intoxicação alimentar ou uma invasão de formigas. Mas se nada daquilo acontecesse, era bem provável que despencasse uma tempestade, mesmo sabendo que os meteorologistas haviam previsto uma noite clara. Terremoto, tornado, tsunami, ciclone, monção, inundação, granizo, nevasca, qualquer coisa poderia acontecer. Ele sequer sabia se metade daqueles fenômenos seriam possíveis ali, mas os imaginava ocorrendo todos ao mesmo tempo. Finalmente a lata-velha que Dia chamava de carro estacionou na frente da casa. Seu coração bateu mais forte. Ele tentou se lembrar de que era apenas Haven: a garota que, de algum modo, conhecera seu lado mais negro e, mesmo assim, conseguia amá-lo. A porta se abriu e Haven entrou. Ela estava um pouco nervosa. Trajava um vestido branco e seu rosto estava iluminado com uma maquiagem leve; seus cabelos encaracolados estavam puxados para trás, emoldurando seu rosto. – Buon San Velentino. – ele disse, entregando a rosa – Feliz Dia dos Namorados. Sorrindo de um jeito envergonhado, ela pegou a flor da mão do rapaz.

Carmine saiu da rodovia ao chegar em Black Mountain e logo seguiu para um centro de artes na Cherry Street. A placa acima da entrada principal do prédio cinza já anunciava o propósito do local, mas quando Carmine ajudou Haven a sair do carro, tudo o que viu em seu rosto foi uma expressão confusa. – É uma galeria de arte. – ele explicou, sem saber se ela compreendia. – Como um museu? – É, como um museu. Seus olhos brilharam com entusiasmo e, naquele momento, ele teve certeza de que havia feito a escolha certa. Ele pegou na mão dela para conduzi-la até a entrada. O lugar tinha uma iluminação leve e um brilho suave, cuidadosamente colocado acima de cada item exposto. – Venha, tesoro. Ela não se moveu. – Não tem que pagar? – Não. – ele certamente não previra que ela pudesse perguntar aquilo. Agora ele começava a se sentir mal por trazê-la a um lugar gratuito, que não lhe custaria nada. – Esse lugar é realmente de graça? – Sim. – Por quê? Ele jamais pensara sobre aquilo até então. – Por ser uma atração educativa, eu acho. Os artistas são como musicistas e trabalham mais pelo prazer que para ganhar dinheiro. Carmine não fazia ideia se estava ou não dizendo a coisa certa, mas, pelo menos, aquilo soava plausível. Os dois caminharam pela galeria, parando diante de cada peça de arte, entalhes e cerâmicas, esculturas e pinturas, desenhos e fotografias. Aquele não era o tipo de atração que pessoalmente considerava interessante, porém, qualquer atividade se tornava mais divertida ao lado de Haven. Ela


pareceu bastante animada durante todo o tempo, enquanto ele apenas se postava atrás dela, ouvindo abismado enquanto ela analisava e dissecava cada obra de arte. – Você precisa ir para uma faculdade. – ele disse – Você é muito foda para deixar de ir. Ela cerrou os olhos. – Seria apropriado dizer palavrões em uma galeria? Ele riu. – Sei lá, que se foda. Ela balançou a cabeça e perguntou: – Você realmente acha que eu poderia frequentar uma escola? – Claro que sim. E você sabe que eu poderia te ajudar, certo? – Eu sei que poderia tentar. – ela disse, em tom de brincadeira – Agora, se funcionaria ou não é outra história. Eles visitaram o resto da exibição, conversando de modo casual e com as mãos entrelaçadas. Já no final do passeio, Haven parou diante de um desenho feito a lápis. Era a figura de uma mulher vista de costas, com uma esfera de luzes vibrantes pairando no ar ao lado dela. Haven ficou fascinada por aquela imagem. Um sorriso se abriu em seus lábios no momento em que esticou a mão e deslizou os dedos pelo contorno da figura. – Gosto muito desse aqui. Faz com que eu me lembre de mim mesma. – Como assim? – Bem, a jovem… Ela parece presa em uma vida em que não há sabor nem esperança, mas então surge essa figura belíssima ao lado dela e colore sua vida. Cores que ela jamais imaginara ser capaz de ver diante dos olhos. Ele a encarou, abismado, antes de se virar para o desenho. Ele não fazia ideia de como ela conseguira extrair tanto de um simples desenho feito a lápis. – Sabe, talvez um dia você tenha o seu trabalho exposto num lugar como esse. – Você acha mesmo que eu sou tão talentosa? – Claro que sim!

Carmine pegou uma estrada secundária que ladeava as montanhas e logo avistou um pequeno chalé. Era apenas um cômodo com uma cama, uma lareira e um banheiro pequeno. Ele estacionou o carro, e o sol que estava escondido atrás das nuvens logo apareceu, clareando o vale que circundava a construção. Havia alguns veados perambulando entre as árvores; o rapaz olhou para os animais e percebeu que um deles dava alguns passos em sua direção. Carmine se sentiu como se de repente estivesse dentro de um filme da Disney. Mas se um deles começasse a falar, o jovem certamente sairia correndo. – Que lugar é esse? – perguntou Haven no momento em que saiu do carro. Ele retirou a chave do bolso. – Nossa casa pelas próximas vinte e quatro horas. Eu aluguei. Ela o olhou com ceticismo. – Não é de admirar que você tenha me levado a uma exposição gratuita. Isso deve ter custado uma fortuna. Ele sorriu e pegou uma cesta de comida no carro. Em seguida estendeu um cobertor na grama. – Venha, vamos comer. Acho que ainda tenho o suficiente pra te alimentar. Haven olhou surpresa.


– Um piquenique? Ela logo se livrou dos sapatos e se sentou sobre o cobertor, esticando as pernas. Ele se sentou ao lado dela e começou a retirar os recipientes de comida. Haven pegou uma uva do cacho e a enfiou na boca e Carmine removeu a tampa de uma grande garrafa verde. A jovem o observou atentamente à medida que ele servia a bebida borbulhante. Ao pegar o copo que ele lhe ofereceu, a jovem perguntou. – Isso é alcoólico? – Infelizmente não, tesoro. É apenas suco de uva com gás. Essa noite nos manteremos sóbrios. Ela ficou surpresa quando o viu tomar o primeiro gole. Ambos se refestelaram com as comidinhas enquanto jogavam conversa fora e riam. No início foram assuntos triviais, TV, o clima etc., mas, posteriormente, adentraram tópicos mais sérios. Ela lhe contou histórias sobre o que teria sido seu equivalente a uma infância e ele lhe falou a respeito de sua mãe. Carmine voltou a abrir a cesta e pegou duas barras de Toblerone. – Dia me disse que é preciso dar chocolate de presente para a sua namorada nessa data especial: Dia de São Valentino. Haven logo abriu o dela e partiu um triângulo. – Achei que o Dia de São Valentino tivesse a ver com um massacre. Ele engasgou. – Como sabe disso? – Aquele programa de perguntas e respostas, lembra? O massacre do Dia de São Valentino, quando a Cosa Nostra em Chicago matou sete parceiros irlandeses. Carmine ficou curioso para saber se ela percebia alguma conexão entre a família dele e esse tipo de coisa, mas achou melhor não levantar a questão. A última coisa que desejava era manchar sua noite com lembranças do mundo para o qual teriam de retornar. Ambos assistiram ao pôr do sol em silêncio. Aquilo era justamente o que ele mais amava em relação a ela. Haven não sentia a necessidade de preencher o silêncio. De repente algo caiu bem no meio da cabeça dele, que logo olhou para cima. Fechando os olhos instintivamente, o jovem rezou para que não fosse um passarinho mal-intencionado. Em seguida ele sentiu outra gota e começou a rosnar, no mesmo momento em que Haven caiu na risada e disse: – Está chovendo. Ele soltou um suspiro. Claro que o meteorologista iria se enganar em suas previsões. Ambos correram e se acomodaram na varanda do chalé enquanto a chuva caía sem parar, formando uma cortina de água que os isolava do resto do mundo. Haven ficou bem quieta, admirando a tempestade; Carmine pegou seu violão e começou a tocar. – Vai tocar algo pra mim? – ela perguntou. Ele começou a se preparar para responder quando ela o interrompeu – Algo bem bonito, por favor. Ele suspirou. Nada mais de “Sonata ao Luar”. – Claro! Tocarei uma música que me faz pensar em nós dois. – Jura? – É uma canção de verdade de uma banda texana chamada Blue October. – E vai cantar também? Ele olhou para ela um pouco sem graça; sabia que sua voz era ruim o suficiente para furar alguns tímpanos e irritar as pessoas, mas não podia lhe negar o pedido. Não quando ela o olhava daquele jeito. – Tudo bem, mas acho que não vai sair grande coisa. O sorriso dela se expandiu. Carmine tocou as primeiras notas da música 18th Floor Balcony, antes


de começar a cantar a letra. Ele podia sentir o olhar da jovem enquanto dedilhava no violão, mas tentou se manter concentrado para não estragar tudo. Carmine poderia passar o dia todo dizendo a ela o quanto a amava, mas isso significaria abrir seu coração e sair detrás de seu escudo para que ela o visse por completo. Ele olhou para Haven no final da música e seus dedos pararam quando percebeu as lágrimas que escorriam pelo rosto da jovem. Ele se esticou e secou algumas delas. Ela deixou escapar um suspiro trêmulo e colocou a mão sobre a dele. – Podemos entrar? Pela primeira vez os dois entravam no chalé. Ela paralisou ao ver as dezenas de rosas que a esperavam em meio à escuridão. Ele passou por trás dela e ligou o som, procurando uma música adequada. Haven caminhou pelo cômodo, tirou o casaco e o colocou sobre uma cadeira, antes de pegar uma rosa e levá-la ao nariz; ela inalou o perfume doce e se sentou na cama, mordendo levemente o lábio inferior. Carmine, por sua vez, atirou o paletó sobre a mesa e acendeu a lareira antes de caminhar até ela. A expressão da jovem o fez cambalear. – Você está bem, beija-flor? A voz dela saiu um pouco falha. – Perfeitamente bem! – De fato, está perfeito! Ele colocou a mão no rosto dela e a beijou. Haven passou as mãos nos cabelos de Carmine e soltou um gemido quando ele a empurrou e a fez sentar na cama, inclinando-se sobre ela e apoiando as mãos sobre o colchão. Ele interrompeu o beijo para tomar fôlego e então, com o nariz, inclinou a cabeça dela para o lado para poder beijar-lhe o pescoço. – Carmine. – ela suspirou enquanto ele beijava seus ombros – Faça amor comigo. Naquele momento várias emoções fortes e conflitantes surgiram dentro dele: choque e euforia mesclados a uma avalanche de pavor. Foi exatamente isso o que ele sentiu quando os olhos de ambos se encontraram. Ele desejava o mesmo que ela, e como o desejava. Porém, aquele ato jamais poderia ser desfeito. – Haven… – Parece a coisa certa a fazer. – ela disse – Nós somos as pessoas certas um para o outro. Ele sentia o mesmo. Naquele momento eram apenas os dois; não havia mais ninguém por perto. Eles eram tudo o que importava: duas pessoas desesperadamente apaixonadas e querendo demonstrar aquele sentimento. Não havia mestres nem divisão de classes. Não existia a ideia de Principe della Mafia e seu fruto proibido. Nenhum dos dois jamais se sentira daquela maneira, mas era difícil ignorar os rótulos. Em todos os lugares havia coisas que os faziam lembrar constantemente de quem deveriam ser, embora não o desejassem. Entretanto, ali tudo parecia diferente. Ambos estavam longe de tudo que ameaçava separá-los. Não existiam complicações; não havia necessidade de se esconder ou fingir. Carmine não respondeu. Nenhuma palavra se fez necessária. Aquela voz insana em sua cabeça que levantava dúvidas e preconceitos finalmente se calara. Ele olhou para ela, tentando absorver todo o amor antes de se inclinar e capturar seus lábios com delicadeza. Carmine a beijou com ternura enquanto colocava a mão sobre o joelho da jovem e lentamente a escorregava pela parte interna de sua coxa. Ela se contorceu ao sentir aquele toque; um choramingo escapou de sua garganta no momento em que ela colocou as mãos sob a camisa dele, acariciando sua pele e deixando-o completamente arrepiado. Afastando-se por alguns momentos, ele se agachou ao lado da cama e começou a erguer o vestido da jovem, sempre atento a qualquer sinal de desconforto.


– Você pode mudar de ideia quando quiser, beija-flor. – Não vou mudar de ideia. – ela disse com a voz trêmula, levantando os braços e permitindo que ele puxasse o vestido por cima de sua cabeça. Carmine ficou petrificado ao perceber o enorme contraste entre a pele clara de Haven, repleta de cicatrizes, e suas roupas íntimas escuras. Aquela jovem forte e alegre de repente lhe pareceu extremamente frágil. Ele jamais poderia viver consigo mesmo se de algum modo a machucasse. Ela esticou a mão e abriu o primeiro botão da camisa dele, mas ele a deteve. – Relaxe, ok? Quero apenas admirar seu corpo. Os lábios dela se curvaram em um sorriso diante daquelas palavras. Ele então abriu o fecho do sutiã da jovem e o atirou no chão, olhando para ela ao mesmo tempo em que acariciava seus seios. O rosto dela ficou rosado e aquela sensação logo se espalhou por todo o seu corpo. Ela se deitou na cama quando ele terminou de despi-la e agarrou com firmeza o edredom. Gemidos fortes reverberavam pelas paredes do chalé conforme ele deslizava sua língua por cada milímetro daquele corpo nu, que se contorcia intensamente. As pernas da jovem vibravam, derretendo-se por ele. O aroma de Haven era como um néctar doce que ele estava desesperado para consumir. Carmine agora era um homem faminto, que a desejava mais que qualquer outra coisa em sua vida. Ela soltou um grito quando seu corpo explodiu em puro prazer, levando Carmine à loucura. Ele arrancou a camisa e a atirou ao lado das roupas de Haven, antes de beijá-la com paixão. Ela o abraçou forte; sua respiração tornou-se ainda mais ofegante no momento em que ele desabotoou as calças e também as jogou ao chão. – Nós ainda podemos parar… A voz dela era como uma bola de fogo. – Eu não quero parar. Aliviado, sua excitação sobrepujou seus medos. Pairando com o corpo sobre ela, ele beijou o rosto e mordiscou o pescoço; o coração dele pulsava forte ao sentir o calor que irradiava dela. As mãos de Haven sobre a pele dele pareciam eletrificadas quando ela deslizou os dedos por sobre a cicatriz que ele ostentava na lateral do corpo. Ela inclinou a cabeça para trás e ele beijou o seu pescoço, fazendo os lábios se moverem por entre os ombros. Os nervos do rapaz ficaram à flor da pele quando ele se apoiou nos joelhos para se firmar. – Eu irei bem devagar, ok? Haven se agarrou nele, cravando as pontas dos dedos em suas costas e enrijecendo o corpo no momento em que ele a penetrou. Um grito escapou de sua garganta no momento em que ele se manteve imóvel, dando-lhe tempo para ajeitar sua posição. – Tanto gentile e tanto onesta pare la donna mia! – ele sussurrou por entre os lábios as palavras de Dante Alighieri em Vida Nova – quando’ella altrui saluta, che’ogne lingua deven tremando muta, e li occhi no l’ardiscono di guardare.8 À medida que tentava tranquilizá-la, a voz dele se tornava ofegante pela expectativa; enquanto isso, o corpo dela relaxava a cada palavra pronunciada. Foi então que ele a penetrou pela segunda vez e fagulhas se espalharam pelo seu corpo diante daquela sensação indescritível. – Maravilhoso. – ela disse. – O quê, o poema ou a penetração? – ele perguntou, sem pensar antes de pronunciar as palavras – Merda, eu não deveria ter dito isso. – Eu me referia ao poema, mas não posso negar que a outra parte também está perfeita até o momento. – ela respondeu, um pouco envergonhada – E você definitivamente deveria ter dito isso, porque isso é o que você é. – É, bem, na verdade estou tentando ser carinhoso. – ele explicou – Você merece esse tipo de


romantismo. – Não preciso de romance, Carmine. Preciso de você. Os olhos dela se fecharam. Uma corrente elétrica se espalhou pelo seu corpo, a partir do ponto em que estavam conectados; sua pele ficou toda arrepiada e ele sentiu calafrios descendo pela espinha. Ao fazer amor com Haven, finalmente compreendeu o que aquilo significava. Ambos estavam vivenciando uma nova experiência juntos; ele jamais sentira aquela intensidade até então. Cada milímetro do corpo daquela jovem, por dentro e por fora, estava conectado ao dele. – Somente você, Carmine. – ela sussurrou, como se pudesse ler sua mente – Será somente você, sempre. Aquelas palavras o incendiaram por dentro, mexendo com um sentimento de possessão que exigia que ambos pertencessem somente um ao outro, e para sempre. Os dois corpos se moveram juntos, num ritmo perfeito. Os gemidos dela se tornaram mais altos; ele entrelaçou seus dedos aos dela e pressionou com força o colchão. – Eu te amo, Carmine. – ela disse, já quase sem fôlego. Um som escapou de sua garganta quase que involuntariamente; um murmúrio estimulado pela fome que sentia por ela. – Ti amo. Meu deus, como eu te amo, Haven. Um dor forte preencheu seu peito. Ela vinha direto do seu coração. Era a dor de um amor tão intenso, tão transbordante e tão poderoso que lhe tirava a capacidade de respirar. Ele continuou dentro dela, pegou sua outra mão e a ergueu acima da cabeça. O peso do corpo dele repousava sobre o dela, enquanto os joelhos da jovem se erguiam e suas pernas o abraçavam, abrindo ainda mais o caminho. Com o rosto enfiado no pescoço de Haven, ele sentiu o sabor salgado do suor de ambos os corpos que, unidos, deslizavam suavemente. Quando os sentimentos finalmente se acalmaram, ela se aninhou junto a ele e colocou a mão sobre o peito do rapaz, que batia violentamente. Os dois ficaram ali, juntinhos, com as pernas entrelaçadas, saboreando cada sensação que surgia depois daquele ato de amor. Ele queria perguntar se ela conseguia sentir seu coração pulsando forte, mas preferiu apreciar o silêncio. Ali estavam eles, apenas duas crianças; dois jovens unidos e apaixonados. Naquele momento, não havia nada que precisasse ser dito. Aparece gentil e tão honesta minha senhora! Quando nos saúda, cada voz, trêmula, fica muda, e os olhos não ousam mesmo olhar. (N. T.)


Capítulo 30

As semanas que se seguiram à estada no chalé transcorreram normalmente. Meio ano havia se passado desde que Haven fora forçada a abandonar sua mãe. Ela se adaptou ao mundo longe do deserto; pequenas coisas que antes a intimidavam tornaram-se comuns em sua vida. Ainda fazia seu trabalho, cozinhando e limpando todos os dias, mas sempre tinha tempo para descansar. Ela jamais tivera a chance de se divertir, e quanto mais aprendia a apreciar sua liberdade, mais difícil se tornava imaginar a possibilidade de voltar para aquele lugar. Tempo livre. Era assim que Carmine costumava chamar. Aquela escolha de palavras a fazia rir. Desenhar e pintar, ler e fazer artesanato, agora seus dias eram repletos de momentos de criatividade. Ela havia pegado alguns cadernos de Carmine e completado páginas e páginas com palavras, escrevendo ali tudo o que se passava em sua mente. As ideias eram desconexas e as frases, recheadas de erros, mas, afinal, ela não estava escrevendo para ninguém, apenas para si mesma. Achava aquilo libertador, como se uma válvula de escape tivesse sido acionada e a pressão dentro dela estivesse sendo liberada aos poucos. Os pesadelos agora eram menos frequentes, como se, com a força de suas palavras, ela houvesse afastado os monstros que a perseguiam. Ela também se sentia mais confortável para sair da casa. Carmine a levava a todos os lugares que ia e lhe dava dinheiro para que pudesse contá-lo e pagar pelas mercadorias. Ela já fazia seus próprios pedidos nos restaurantes, escolhia os produtos de que precisava e falava por si mesma sempre que a oportunidade se apresentava. A vida não havia apenas mudado para Haven, mas para todos naquela casa. O doutor DeMarco passava todos os finais de semana em Chicago; Dominic já se preparava para entrar na faculdade e em poucos meses viajaria para o outro lado do país com Tess. Até mesmo Dia também estava se formando, mas pretendia ficar por perto, em Charlotte. Haven estava na cozinha logo cedo na véspera do domingo de Páscoa, limpando a mesa do café da manhã. Como de costume, Carmine se encostara no balcão para observar sua namorada. – O que você gostaria de fazer hoje? – ele perguntou. Ela ergueu os ombros e respondeu o mesmo de sempre. – O que você quiser fazer. – Se eu tivesse ideia do que gostaria de fazer, acha mesmo que eu me daria ao trabalho de perguntar? – Sim – ela respondeu, dando risada –, você sempre pede minha opinião. – Bem, e você tem alguma opinião dessa vez? – Nós podemos ficar por aqui mesmo. – Não, passamos tempo demais enfiados nesse buraco. – ele disse, fazendo uma pausa – Então, o que gostaria de fazer? – O que você quiser, Carmine. – Bem, eu esperava que dissesse isso. Segurando sua mão, ele a arrastou até o escritório que ficava sob a escada e digitou o código para destrancar a porta. Ela parou diante da sala, mas se recusou a entrar. – Não tenho permissão para entrar aí. O doutor DeMarco me disse que certas portas ficam trancadas por alguma razão. – É, elas ficam fechadas por alguma razão; e eu tenho o código por alguma razão.


– E qual é? – Porque meu pai nem sempre está em casa e de vez em quando precisamos de umas merdas que ficam guardadas aqui. Ela ficou olhando para ele e avaliando suas palavras, antes de entrar no recinto com certa hesitação. Carmine colocou a mão em seu quadril e beijou a parte de trás de sua cabeça. – Viu, não há nada assustador aqui. – Não é da sala que eu tenho medo. – ela murmurou – Mas, afinal, o que estamos fazendo aqui? – Vou te ensinar a usar uma arma. Ela deu um passo atrás. – Você está brincando, não é? – Eu pareço estar brincando? Não há nada de interessante pra fazer, e eu até que gostaria de atirar em alguma coisa. Além disso, você tem ideia de como ficará sexy atirando com uma arma? Haven não estava muito segura. – Não acho que o seu pai iria querer que eu tocasse numa arma depois que peguei na dele. – Você também pegou a arma de Nunzio. – disse Carmine, tentando provar sua tese – Ele não ficou furioso daquela vez, ficou? – Eu só estava tentando me proteger. – E agora é a mesma coisa. Nunca se sabe quando será preciso atirar para se proteger. Ela deu um suspiro. Tão insistente! – Tudo bem, mas o que estamos fazendo aqui? Carmine puxou o tapete e abriu um alçapão escondido no chão. – Alvos, munição, equipamentos de segurança. E, dependendo do seu estado de humor, talvez até um colete a prova de balas para mim. Ela o encarou e disse. – Eu jamais atiraria em você. – Eu sei. Pelo menos não intencionalmente. Com cautela, a jovem desceu a escada que levava ao porão, segurando na mão de Carmine e tomando cuidado com os degraus estreitos. – Terra di contrabando. – ele disse quando chegaram ao seu destino – Bem-vinda à terra do contrabando. Os olhos da jovem fizeram uma varredura no cômodo de concreto, atentando para as enormes caixas. – Tudo aqui é ilegal? – Não, mas digamos que tudo seja bastante desagradável. – ele respondeu – As caixas da frente são basicamente de bebidas alcoólicas. – E as de trás? – Venha, eu vou te mostrar. Mas não toque em nada. Ela o seguiu, parando quando percebeu as armas. Havia dezenas delas penduradas na parede e colocadas em prateleiras meticulosamente organizadas. – Meu Deus. Carmine cobriu a própria mão com a camisa antes de abrir uma caixa atrás dela. Ele tentou entregar os suprimentos para Haven, mas ela não estava prestando atenção nele, apenas observando as armas de fogo. – O que posso dizer? Meu pai adora armas – Carmine abriu um armário e retirou de lá uma caixa de balas –, mas você já sabia disso, não é? Ela desviou o olhar dos equipamentos. – Sim, é verdade.


– Você não precisa ter medo das armas, mas dos idiotas que colocam o dedo no gatilho. Desde que se mantenha longe deles, não haverá problema. Ela mais uma vez observou as armas. – O que mais tem aqui? – Mais armas, um montão de fichas de cassinos, a masmorra… Ela arregalou os olhos. Masmorra?

Levou mais ou menos uma hora até que chegassem a um lugar ideal escondido na floresta. O solo estava coberto de flores do mato e o local era circundado por pinheiros enormes, como se a natureza deliberadamente tivesse produzido uma cerca. Carmine colocou sua mochila no chão e Haven observou a clareira, com um olhar de surpresa. Depois de preparar um alvo próximo à fileira de árvores, Carmine posicionou o corpo de Haven e pegou sua arma, explicando a ela os itens de segurança e o número de tiros que havia no pente. Ele a instruiu a se manter firme e usar a mira para se concentrar apenas no alvo, bloqueando qualquer outra visão lateral. Depois que ela compreendeu as regras, ele deu a ela protetores auriculares e óculos de segurança. Carmine deu um passo para trás e observou enquanto ela mirava, com as mãos trêmulas enquanto apertava o gatilho. Ele fechou os olhos quando ela deu o primeiro tiro e se assustou com o tranco e com o cartucho que saiu pela lateral. Ela deu um berro e quase soltou a arma enquanto ele olhava para o alvo: ela não havia chegado nem perto. Mais uma vez ele colocou as mãos em sua cintura e a posicionou, segurando a pistola e pedindo que ela pusesse as mãos sobre as dele. Juntos eles deram todos os tiros e então ela relaxou. Depois de recarregar a arma, ele a entregou a ela e se afastou um pouco. O primeiro tiro dessa nova fase passou bem mais próximo do alvo, mas as mãos dela ainda tremiam. Ele recarregou a arma outra vez, sem que nenhuma das balas tivesse atingido o alvo. Ela se aproximava cada vez mais, entretanto. Seus olhos brilhavam entusiasmados toda vez que apertava o gatilho. Carmine tentava imaginar como ela se sentia manuseando algo tão poderoso; pensava na adrenalina que corria por suas veias. Tendo acertado o alvo depois da terceira recarga, Haven deu um grito e se virou para Carmine, esquecendo-se completamente de abaixar a arma. O rapaz se abaixou e ergueu as mãos para se proteger enquanto ela mirava para a cabeça dele. – Olhe o que está fazendo! Ela abaixou a arma. – Sinto muito. Ele soltou os braços. – Nunca aponte uma arma pra ninguém a menos que queira atirar no filho da puta. Haven assentiu com a cabeça, demonstrando que compreendera, e se virou novamente, disparando uma série de tiros que arranharam o alvo. Ela sorriu, tentando controlar sua excitação. Soltando um suspiro, Carmine arrancou seus protetores de ouvido, caminhou até ela e colocou as mãos mais uma vez no quadril da jovem, alinhando-a novamente para o alvo. – Você está se saindo muito bem. Ela girou o corpo com um olhar determinado. Ele sentiu o corpo dela tenso por causa da expectativa; seus músculos firmes e os braços vibrando. Carmine deu um beijo na orelha da jovem sem pensar e ela murmurou. Perdendo completamente o foco, ela apertou o gatilho e descarregou o


pente contra as árvores. – Nossa! – ela exclamou ao ver a revoada dos pássaros a distância. Ele riu e roçou o pescoço dela com o nariz. – Melhor os pássaros que eu.

O caminho de volta foi bem mais difícil do que o de ida. No momento em que a casa pôde ser avistada, o sol já havia desaparecido e Carmine estava exausto. Ambos entraram e seguiram direto para as escadas, mas sequer haviam chegado ao segundo andar quando ouviram alguém bater à porta. Haven seguiu adiante, mas Carmine desceu, desarmou o alarme e abriu a porta, dando de cara com Max na varanda. – E aí, o que está rolando? – Seu pai está em casa? – Não, ele está em Chicago. – Droga. Preciso entregar algo a ele. – disse Max, enfiando a mão no bolso para pegar um envelope. – Pode deixar comigo. – respondeu Carmine, esticando a mão sem questionar sobre o que se tratava. Ele não fazia questão de saber que tipo de negócios Max tinha com seu pai. O sujeito lidava com drogas para juntar dinheiro para a faculdade, o que, aliás, aliviava um pouco a culpa de Carmine quando ele próprio comprava das mãos de Max. Ele sentia como se estivesse fazendo aquilo por uma boa causa; era como participar de uma maratona voluntária para enviar uma criança merecedora para uma boa faculdade. Contudo, a Cosa Nostra sempre evitava o ramo de drogas. – Obrigado, cara. Eu disse a ele que o traria e, bem, não quero me atrasar com o seu pai. Carmine pegou o envelope, se despediu de Max e fechou a porta. Em seguida foi até o escritório sob as escadas e retirou um grande quadro da parede, expondo um cofre. Ele então retirou seu molho do bolso, enfiou uma pequena chave dourada na fechadura e digitou o código de segurança. O cofre se abriu e nesse momento uma pasta escorregou e caiu no chão, espalhando vários documentos. Carmine se ajoelhou para recolhê-los, mas o nome Antonelli em um dos papéis logo chamou a atenção do jovem. Ele ficou petrificado e um arrepio percorreu sua espinha quando viu as palavras Teste Genético no cabeçalho do documento. Sua mente começou a trabalhar de modo incessante enquanto ele pensava no que fazer. O tempo estava passando e logo perderia sua oportunidade. A curiosidade superou a razão e ele pegou o documento com os resultados dos testes. O único nome que aparecia ali era o de Haven, mas o resultado era conclusivo e indicava uma combinação de DNA mitocondrial. Na borda do papel havia alguns rabiscos do seu pai: CODIS combinação parcial confirmada. Carmine esbravejou consigo mesmo por não ter prestado mais atenção às aulas de ciências. Ele enfiou os papéis de volta na pasta e colocou o envelope no cofre, trancando-o antes de subir para o quarto.

Todos foram acordados repentinamente por um forte barulho de portas batendo no piso inferior. Haven se sentou na cama com os olhos arregalados.


– O que foi isso? – Não faço ideia. – respondeu Carmine, olhando para o relógio. Eram três da manhã. Ele saiu da cama e ouviu passos decididos vindo da biblioteca e indo na direção do seu quarto. O rapaz ficou apavorado ao ver a porta ser aberta com violência por Vincent. Mesmo na completa escuridão sua fúria era evidente. – Vá para o seu quarto, menina. – ele ordenou, sem tirar os olhos de Carmine. Haven saiu correndo do quarto – O que há de errado com você? Por acaso tem algum último desejo antes de morrer? Não importava o que Carmine dissesse, ele certamente estaria errado. – Pensei que fosse mais esperto que isso. Você realmente achou que o dia de hoje foi uma boa ideia? Não pode ser tão burro! E sei que já tem alguns planos na cabeça, filho. Eu te conheço, por Deus, mas estou lhe dizendo agora mesmo: seja o que for, não irá funcionar. Carmine permaneceu em silêncio. – Não quero que você entre novamente em meu escritório ou no porão. Você não tem nada a fazer ali. E eu também sei muito bem o que você viu; o que leu. Nem posso imaginar que ideias possam estar passando por essa sua cabeça, mas não ouse tomar nenhuma atitude com base naquilo. Seja o que for, não faça nada. – Vincent fez uma pausa, resmungando consigo mesmo – Se não estivesse prestes a completar dezoito anos, eu o enviaria de volta para aquela escola amanhã mesmo. E já estou praticamente decidido a me livrar da garota. – Você não vai fazer nada com ela. – disse Carmine – Vai deixar ela em paz. – Eu farei o que quiser com ela! Não ouviu uma palavra do que eu disse? Vai acabar sendo morto! Talvez você não se importe com sua vida, mas não posso permitir que a jogue fora. E farei tudo o que estiver ao meu alcance para me assegurar de que isso não aconteça, mesmo que isso implique matá-la. Aquelas palavras eliminaram qualquer lógica que ainda restasse no jovem. Ele cerrou o punho e encarou o pai. – Vá se foder! Eu te mato se machucar ela novamente! – Talvez você o faça mesmo. – respondeu Vincent – De fato, não duvido que o faça, mas pelo menos a alma de sua mãe ainda estará iluminada. Ela jamais iria querer vê-lo envolvido em tudo isso. – Não use a mamãe como desculpa para justificar as merdas que faz! Eu amo a Haven! Aceite isso de uma vez! – Não posso! – disse Vincent, dando um passo em sua direção – Você é apenas uma criança, Carmine. – Eu posso ter dezessete anos, mas não sou uma criança. Aliás, já não sou uma criança desde que recebi um tiro por sua causa! – Não faz ideia do que está falando. Não sabe a devastação que essa garota provocou em minha vida! Olhe para nós! Veja o que ela está provocando! – Ela não está provocando nada; você está! Foi você que nos colocou nessa vida! Você pagou por ela; pagou por uma criança. Agora quer culpar ela por isso? Vincent balançou negativamente a cabeça. – Eu tentei ajudá-la! Fiz tudo que pude por aquela jovem, e nada parece ser o suficiente. Nada nunca é suficiente! É impossível! É inútil! Você não faz a mínima ideia do quanto já sofri por causa dessa vadiazinha. No momento em que aquelas palavras escaparam da boca de Vincent, Carmine perdeu completamente o controle. Seus olhos ganharam um brilho avermelhado e uma fúria sem precedentes tomou conta do rapaz. Ele socou a boca do pai e gritou. – Nunca mais a chame assim! Porém, antes mesmo que Carmine percebesse, seu pai também se atirou contra ele, empurrando-o


contra a parede, segurando firme em seu pescoço e deixando-o sem ar. O jovem mal conseguia respirar quando o pai o atirou contra a escrivaninha, derrubando no chão tudo o que estava nela. Ainda sem ar, Carmine tentava a todo custo se defender. Ao ouvir toda a comoção, Dominic invadiu o quarto e segurou o ombro do pai. Só então Vincent percebeu o que estava fazendo e rapidamente retirou as mãos do pescoço de Carmine. Ele deu um passo atrás e levou a mão à boca ensanguentada. – Por que não pode confiar em mim, Carmine? Por que não me deixa cuidar disso? – Porque você não foi capaz de me dar uma razão para confiar em você? – Mantê-lo em segurança já não é uma boa razão? Carmine não hesitou. – Minha segurança não significa nada se comparada à dela.

De pé na porta do quarto, Haven observou os danos provocados pela briga enquanto Carmine resmungava, abrindo a gaveta de sua escrivaninha e pegando uma garrafa de uísque. Ele fez uma careta ao tomar um gole e chutou a gaveta em vez de fechá-la com a mão. Em seguida, atirou-se numa cadeira e ficou olhando para o chão do quarto ainda escuro. Sem suportar toda aquela tensão, Haven se concentrou em pegar as coisas espalhadas pelo quarto. Ele ligou o relógio de volta e até tentou acertar o horário, mas desistiu. Ao pegar o porta-retratos do chão ela soltou um gemido quando um pequeno pedaço de vidro cortou seu polegar, que começou a sangrar. Ela recolocou a foto sobre a escrivaninha. – Meu Deus, você está sangrando. – disse Carmine, tentando pegar a mão da jovem, mas ela não deixou. – Vocês quebraram a moldura. – E daí? – ele retrucou – Pare de limpar essa merda. Nada disso importa agora. – Importa sim. – ela disse, tentando segurar as lágrimas – É a foto de sua mãe. Ela continuou a recolher as coisas, sem ter ideia do que mais poderia fazer. Frustrado, Carmine pegou novamente a garrafa da escrivaninha e a atirou com tudo na parede. O vasilhame se espatifou; pedaços de vidro e poças de álcool se espalharam por todo o quarto. Haven se contraiu, fechando os olhos enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. Flashes do seu passado retornaram à mente da jovem; aquelas lembranças a feriam tanto ou até mais que punhos reais. A ira de Michael, o vidro estilhaçado e o cheiro horroroso e revoltante de bebida em todos os lugares. Você não presta pra nada! – ele gritava, cuspindo aquelas palavras contra ela – Não faz nada certo, menina! Você é a pior coisa que já fiz na vida! Ela abriu os olhos novamente, percebendo a irritação se dissipar no rosto de Carmine. – Eu não devia ter gritado com você. Nada disso é sua culpa. – É sim. – ela disse em voz baixa – Estou destruindo sua família. Carmine se ajoelhou perto dela, pegando um notebook e o colocando sobre a escrivaninha. – Essa família foi destruída no momento em que minha mãe foi morta, portanto, a menos que queira levar o crédito por isso também, pare com essa besteira.

Mais tarde naquele dia, Haven estava deitada ao lado de Carmine, acariciando as dobras dos dedos inchadas do rapaz e sentindo-se cada vez mais culpada. Não importava o que ele dizia, ela acreditava


ser responsável por tudo aquilo. Ela não dormiu muito. A paz que tivera nas últimas semanas foi maculada pelos surtos de Carmine, que sofria com pesadelos horríveis. Pela manhã, ela desceu as escadas ainda atordoada e começou a preparar as coisas para o jantar de Páscoa. A Mercedes não estava estacionada na vaga e ela logo imaginou se haveria alguma lógica em cozinhar, uma vez que DeMarco havia saído. A manhã transcorreu normalmente, transformando-se em tarde e, em seguida, no início de mais uma noite. Os rapazes estavam no piso térreo e o clima estava bastante pesado na casa. Ela, entretanto, estava exausta demais para lidar com toda aquela tensão. Estava parada diante do fogão, fazendo suas obrigações como de costume, enquanto Carmine a olhava do balcão. Dominic entrou na cozinha e pegou um dos ovos cozidos recheados que a jovem havia preparado. – Está se sentindo bem, Haven? – Ela está no piloto-automático. – respondeu Carmine no lugar dela – Uma feliz Páscoa para todos nós. Ela não disse nada. Um som suave do lado de fora chamou sua atenção. Olhando pela janela, ela viu o carro de DeMarco estacionar na frente da casa. Carmine se levantou imediatamente do balcão e a abraçou com o intuito de protegê-la. A porta da frente se abriu e DeMarco caminhou até eles. Ele parou a apenas meio metro dos dois, dizendo com a voz tensa. – Deixe-me ver sua mão, Carmine. – O quê? – Você com certeza colocou muita pressão sobre os dedos quando me socou essa madrugada. É bem provável que os tenha fraturado. – Vai se foder! Dominic suspirou fundo. – Carmine, apenas deixe que ele olhe sua mão e acabe logo com isso, cara. Carmine ficou imóvel por um momento antes de esticar a mão. A expressão de DeMarco permaneceu indecifrável enquanto examinava a mão do filho. Carmine fez algumas caretas enquanto o pai pressionava os nós dos dedos. – Você ficará bem. Retraindo a mão rapidamente, ele retrucou. – Como já disse, vai se foder!

Haven levou a bandeja de comida até a mesa e já planejava subir para seu quarto quando Carmine a impediu. Puxando uma cadeira à mesa, ele fez um movimento para que ela se sentasse. A tensão se tornou ainda mais palpável. Ninguém queria estar ali; nenhum deles desejava lidar com aquela situação, mas isso já não podia ser evitado: era tarde demais. Dominic foi o primeiro a falar. – Precisamos esclarecer de uma vez essa situação. Vamos fazer uma reunião. DeMarco zombou do filho mais velho. – E o que você sabe sobre reuniões? – Você está certo; faremos então a minha versão de reunião. – retrucou Dominic – E ninguém deixa essa mesa até que algumas respostas sejam fornecidas. – Há algumas respostas que não poderei fornecer. – disse DeMarco. – Muito bem – disse Dominic –, se não puder respondê-las simplesmente diga isso. Isso, aliás, será


uma ótima prática9. O fato é que as coisas não podem continuar assim, pai. Nós costumávamos nos sentir como uma família; talvez sempre tenha sido uma família disfuncional, mas ainda assim uma família. E agora é cada um por si. DeMarco continuou olhando para o prato. – Muito bem, reunião de família. A palavra “família” deixou Haven apreensiva. Ela se levantou. – Posso sair, senhor? DeMarco assentiu, mas Carmine bateu com as mãos na mesa e ordenou. – Sente-se, Haven. Isso também envolve você. Ela ficou congelada, sem saber o que fazer até que DeMarco apontasse para a cadeira. – Sente-se. Ela se sentou e colocou as mãos nos joelhos, mas desejou ter saído dali logo que Dominic começou a falar. – Em primeiro lugar, pai, qual é afinal o seu problema com a Haven? – E por que você acha que tenho um problema com essa menina? – perguntou DeMarco. Carmine disse em tom zombeteiro. – Talvez pelo fato de você ameaçar ela o tempo todo? – Vê se mantém a calma. – retrucou Dominic, apontando para Carmine – Nas minhas reuniões não haverá gritaria. Deixe que eu cuide disso. Carmine resmungou para si mesmo e cruzou os braços. – Assim é melhor. – disse Dominic, voltando-se para o pai – Talvez pelo fato de você ameaçar ela o tempo todo? DeMarco discordou com a cabeça. – Não tenho absolutamente nada contra essa jovem. – Mas o senhor disse… – ela disse, antes de perceber o que estava fazendo, e logo se calou, nervosa por ter interferido. – Eu disse o quê? – perguntou DeMarco erguendo a sobrancelha – Fale de uma vez. – O senhor disse àqueles homens que eu não valia a pena. – Está correta; não retiro uma palavra do que disse. Isso, entretanto, não significa que eu tenha algum problema com você. Carmine se mostrou impaciente, lutando para se manter calado. Dominic, por sua vez, continuou a questionar o pai. – Muito bem, então se o senhor não odeia Haven, qual é o verdadeiro problema em Carmine e ela estarem juntos? – Porque existem complicações que eles não compreendem. – ele respondeu – Eu disse a ele que poderiam ficar juntos por enquanto. Carmine não conseguiu se controlar. – Não consegue ver o quanto isso é injusto? Nós podemos ficar juntos “por enquanto”? O que diabos isso quer dizer? – Quer dizer: até que eu descubra certas coisas. Não posso lhe dar nenhuma garantia em relação ao futuro. – Que coisas? – Carmine perguntou, mas DeMarco não respondeu – Muito bem, eu descobrirei sozinho, apenas me diga de uma vez com quem exatamente ela tem laços sanguíneos. – Não posso. Se eles descobrirem que você sabe, acabará se machucando. Preciso que compreenda isso. – Mas qual é o grande problema? – perguntou Dominic – Ela tem uma família… Isso não é bom? – Não, não é. Ele exigirá que ela seja devolvida e ela não estará segura nas mãos dele.


Haven tentava desesperadamente compreender o que ele estava dizendo. – Ninguém vai tirar ela daqui. – esbravejou Carmine – Eu não permitirei. – Acha que não sei disso? Você irá atrás dela e eu não posso permitir que os dois sejam mortos. Estou tentando encontrar um meio de tirá-lo dessa situação, mas você só está tornando as coisas mais difíceis. – Eu conheço essa pessoa? – perguntou Carmine. – Não posso responder isso. O jovem sorriu. – Vou tomar isso como um sim. – Cuide de sua própria vida! – retrucou DeMarco – Quero que esqueça tudo sobre aquele teste de DNA! – E por que você não pode esquecer isso, pai? – perguntou Dominic – Deixe isso pra lá. Enterre de vez esse assunto. – Porque três pessoas só guardam um segredo se duas delas estiverem mortas. É por isso que não posso. As pessoas sabem. Vocês não fazem ideia do dilema em que me encontro; os problemas que arrumei por tê-la ajudado. Carmine não tem o menor respeito pela própria vida, e mostrou isso novamente ontem à noite. Ameaçá-lo não faz nenhuma diferença, mas se eu ameaçar a jovem ele agirá. Mas não se trata aqui de uma ameaça vazia. Se não houver outra saída, protegerei o sangue do meu sangue. O coração de Haven disparou. Carmine, por sua vez, perdeu o controle. – Você é um idiota em pensar que eu seguiria normalmente com a minha vida se algo acontecesse com ela. – Sei que pensa assim. Carmine retrucou. – Não finja que conhece meus sentimentos! Pare de me tratar como uma criança! DeMarco bateu com o punho sobre a mesa e gritou. – Então cresça! Eu sei como está se sentindo porque já me senti da mesma maneira quando tinha exatamente sua idade! Sei o que seria capaz de arriscar por ela, mas não posso permitir isso. Tenho pelo menos que tentar… pela sua mãe! Os olhos de Carmine se cerraram. – A mamãe não tem nada a ver com isso. – Você está errado. Sua mãe tem tudo a ver com isso! Ela a amava! – disse DeMarco, apontando para a garota. Carmine ficou sem palavras diante daquilo. Ele imediatamente olhou para Haven e, em seguida, para o pai. Ele abriu a boca, mas as palavras não saíam. – Sua mãe era ingênua demais. – continuou DeMarco com a voz sombria – Ela insistiria que haveria algum modo de sairmos dessa encrenca sem que ninguém se machucasse, mas estava enganada. Alguém irá se machucar, e eu sinceramente espero que não seja nenhum de vocês. A tensão voltou a pairar no ambiente com essa reviravolta no diálogo. A voz de Carmine saiu trêmula quando finalmente conseguiu falar. – Quem foi o responsável? – Quem foi o responsável pelo quê? – perguntou DeMarco, sem se importar em erguer a cabeça. – Você sabe o quê. Quem a matou? Estamos esclarecendo as coisas aqui, não é? Eu quero saber quem atirou em mim. – O nome deles não importa. – Então, por que o fizeram? – ele perguntou – O mínimo que pode fazer é me dizer o que provocou tudo aquilo.


– Não há motivo para falarmos sobre isso, Carmine. O que está feito está feito. Carmine sorriu com desdém. – Não faça isso comigo. Eu tenho o direito de saber de quem é a culpa. – Eu não sei. – O que quer dizer com “eu não sei”? – Quero dizer que não sei a quem responsabilizar! – respondeu DeMarco – Sua mãe. Meu Deus, eu a amava tanto, mas ela agiu por trás das minhas costas e fez coisas que ela sabia que não deveria ter feito. – Que coisas? – Carmine perguntou – E por que ela agiu assim? – Por que sua mamãe fazia qualquer coisa? Ela só queria ajudar. – Ajudar a quem? – Não importa, Carmine. – Sim, importa. – ele retrucou – Quero saber quem era essa pessoa tão importante para que ela arriscasse a própria vida para salvar. Quero saber por quem ela atirou a própria vida no lixo! Sua ira aterrorizava Haven. DeMarco olhou para o filho com a expressão indecifrável, mas de um jeito intenso. A fúria no rosto de Carmine diminuiu e ele franziu o cenho, interrompendo o contato visual com o pai. Abaixando a cabeça, o jovem enfiou as duas mãos entre os cabelos e piscou algumas vezes. – Você se parece demais com sua mãe, Carmine. – disse DeMarco em voz baixa – Não posso permitir que a mesma história se repita. De jeito nenhum. Carmine se levantou, atirou o guardanapo sobre a mesa e saiu da sala de jantar sem pedir permissão. – Será que essa nossa reunião acabou? – perguntou DeMarco – Eu detestaria sair no meio dessa agradável discussão. – É, acabou. – disse Dominic – Mas pelo jeito foi um fracasso. DeMarco se colocou de pé, deu um tapinha no ombro do filho e disse: – Estamos saindo vivos e intactos, filho. Nem sempre isso acontece nas reuniões de verdade.

Um turbilhão de emoções passava pela cabeça de Carmine quando ele se trancou em seu quarto. Horror, choque, amor, saudade, gratidão, raiva, remorso. Ele chutou a cama ao passar por ela e puxava com tanta força os cabelos que quase conseguia arrancá-los. A força da verdade pesava uma tonelada sobre seu peito, e aos poucos o estraçalhava. Foi pela Haven. Ela era o motivo pelo qual sua vida fora destruída. Ele começou a atirar tudo ao chão, tentando liberar um pouco da pressão que sentia; seus pensamentos estavam confusos; aos poucos ele foi deixando de lado as acusações e passou a tentar encontrar alguma lógica em tudo aquilo, mas simplesmente não havia. A vida dele deveria ser tão fácil e tranquila, então por que razão tudo parecia tão intrincado? Ele pegou a moldura de cima da escrivaninha e olhou para a imagem de sua mãe; havia um pequeno rastro do sangue de Haven sobre o vidro quebrado. Lágrimas de ressentimento inundaram seus olhos. Nada havia mudado, mas, de repente, tudo parecia tão diferente. Ele atirou o porta-retratos no chão e seguiu para o banheiro, onde encarou o próprio reflexo no espelho; o rapaz estava abatido e confuso. Seus olhos vermelhos e cheios de tristeza o faziam se lembrar ainda mais dela e, naquele momento, o pouco controle que lhe restava se dissipou. Ele esmurrou o espelho, que se quebrou na hora. Cacos de vidro começaram a se espalhar pelo


banheiro à medida que ele continuou socando o que restava do espelho, sem parar até que estivesse completamente destruído e não pudesse mais identificar sua imagem. Tomado pela emoção, ele escorregou no chão e contraiu os joelhos até o peito. Seu ódio deu espaço ao desespero e as lágrimas começaram a rolar. Ele se rendeu àquele sentimento, sem forças para continuar resistindo. Um sentimento de angústia se apossou dele quando abaixou a cabeça. Ele se deixou dominar completamente e entregou-se de vez ao sofrimento por tudo aquilo que havia perdido.

O banheiro já estava escuro quando Carmine recobrou a consciência. Ele se levantou e caminhou até a pia pisando com os pés descalços sobre os cacos de vidro. Os cortes na mão começaram a doer conforme a água escorria sobre ela e limpava o sangue. Depois de pegar uma garrafa de vodca de outro esconderijo no quarto, ele desceu as escadas e viu a luz acesa no escritório do pai. Ele não se preocupou em bater, apenas entrou e chutou a porta atrás de si. Atirando-se na cadeira de couro, o rapaz tomou um gole de sua bebida. – Nunca pretendi lhe contar isso. – disse Vincent – Achei que seria cruel demais. Sua mãe me pediu que a salvasse, mas Frankie Antonelli não abria mão da menina. Então eu disse a ela que esquecesse aquele assunto, mas ela não esqueceu. Ela não podia. Só percebi o que estava fazendo quando já era tarde demais. Eu demorei demais. Tudo aquilo afetou profundamente Carmine e ele piscou rapidamente para se livrar das lágrimas. – Ela descobriu o segredo? Foi por isso que a mataram? – Ela estava no caminho certo; havia inclusive contratado um detetive particular para investigar o caso, mas não acredito que tenha tido tempo suficiente para juntar as peças do quebra-cabeça. Mas teria conseguido. Era apenas uma questão de tempo. – E você culpa Haven por tudo isso. – Não é culpa da menina. – disse Vincent – Ela era apenas uma criança. Carmine sorriu de um jeito amargo. – Acha que eu não sei disso? É claro que não é culpa dela. Mas isso não significa que você não a culpe, não é? Vincent respirou fundo. – Às vezes enfrentamos uma perda e tentamos encontrar um único culpado. É o que se chama de responsabilidade desproporcional. Torna-se mais fácil lidar com a situação quando se encontra um canal; um ponto tangível. – Por favor, pare com essa baboseira científica. O nome disso é bode expiatório. – Bode expiatório. – repetiu Vincent – Você está certo. Eu consegui me conformar, pelo menos na maior parte, e é por isso que achei que seria seguro trazê-la para cá. Mas, a verdade é que ainda há momentos em que volto ao passado e desejo que essa jovem não existisse. Carmine podia sentir o desgosto na voz do pai. – Foi o Frankie que a matou? Vincent confirmou com a cabeça. – Há alguns anos, Sal me contou que Frankie entrou em pânico quando sua mãe começou a fazer perguntas. Ele disse que era porque o filho dos Antonelli era o pai da menina. Ele não queria que aquele segredinho sujo se espalhasse. No mundo em que vivemos, filho, as coisas são simples: mate ou morra. Carmine podia sentir a bebida percorrendo suas veias. Ele passou a mão nos cabelos, se contorcendo ao sentir a dor. O pai franziu a testa.


– Você deve ter socado alguma coisa com muita força. – Só tive uma discussão com o espelho. – Deveria ir até o hospital para tirar um raio-x. Carmine ergueu sua garrafa e disse. – Tenho todo o medicamento de que preciso aqui mesmo. – em seguida tomou mais um gole. – Tenho pena do seu fígado; aos dezessete anos e a caminho de uma cirrose. Isso irá matá-lo se não parar. – Todos nós vamos morrer algum dia, pai. – ele retrucou – Pelo menos quero que isso aconteça por alguém que eu ame. Ele levou a garrafa à boca mais uma vez e quando o líquido escorreu pela sua garganta ele finalmente percebeu o que havia dito. Foi exatamente o que fizera sua mãe. Referência à 5ª Emenda da Constinuição Norte-Americana que, quando evocada, permite que a pessoa se recuse a responder. (N. T.)


Capítulo 31

O sinal tocou na sala de aula e todos os alunos começaram a reunir suas coisas antes de sair. Com certa dificuldade, Carmine fechou seu livro de ciências com a mão esquerda, uma vez que o pulso direito estava enfaixado. Ele o havia torcido no incidente com o espelho na noite anterior. – Não se esqueçam de estudar, pessoal! – disse o professor de biologia, senhor Landon, alertando a turma – Teremos um teste amanhã! Carmine pegou sua mochila antes de caminhar até a mesa do professor. Este apagava a lousa e, no momento em que se virou, ficou surpreso em se deparar com o rapaz. – Há algo em que possa ajudá-lo? – Eu estava imaginando se o senhor poderia me explicar mais sobre DNA mitocondrial. O senhor Landon entortou os lábios e respondeu. – Vimos isso no começo do semestre. – É, eu sei, mas ainda estou um pouco confuso. Na verdade ele não costumava prestar nenhuma atenção às aulas. Apenas contava com a sorte e o bom senso para passar em todas as provas e, na maioria das vezes, tinha as duas qualidades em quantidade suficiente para seguir adiante. – Bem, diferentemente do que acontece no caso do DNA nuclear, o DNA mitocondrial não é único de um ser humano. Cada um de nós o compartilha com a própria mãe. – Então, o meu DNA mitocondrial seria o mesmo que o da minha mãe? – Sim, do mesmo modo como o dela seria o mesmo que o da mãe dela e, por conseguinte, o de sua avó seria igual ao de sua bisavó. – Mas seria possível rastrear um homem por meio desse tipo de teste? Digo, se o meu DNA mitocondrial fosse testado, ele se combinaria com o de quem? – Com o de pessoas relacionadas à sua mãe. Qualquer que seja seu DNA mitocondrial, ele foi herdado diretamente do lado materno. Carmine ficou chocado. Até então ele assumira que o teste estava relacionado ao pai de Haven e suas conexões com a máfia, mas jamais considerou que tivesse a ver com a mãe de Haven. – Há algo mais de que precise? – Sim. – ele hesitou – Bem, na verdade não. O senhor entende alguma coisa sobre GPS? – O que exatamente gostaria de saber? – Há algum jeito de desativar um sinal? – Bem, existem meios de bloqueá-lo. – respondeu – Os chips de GPS precisam manter uma linha direta de visão com o satélite que os rastreiam, portanto, qualquer grande obstrução impedirá que o sinal seja visto. Além disso, materiais refletivos como água e metal podem fazer com que o sinal não atinja o alvo e seja devolvido. – E funciona da mesma maneira quando se rastreia chips em seres humanos? O professor Landon sorriu. – Isso é ficção científica. Chips de rastreamento para pessoas não existem. Baboseira. Só porque não constava dos livros de ciências não significava que eles já não existissem. – Tudo bem, mas, falando de modo hipotético, se uma pessoa tivesse um implantado sob a pele, haveria um jeito de impedir que ela fosse achada?


– Somente se permanecesse em um quarto sem janelas ou aprendesse a respirar debaixo d’água. De outro modo, o chip se conectaria ao satélite assim que o indivíduo deixasse essa proteção. – Então, se tornar um prisioneiro ou se afogar seriam as duas únicas maneiras de bloquear o sinal. – É, acho que sim. Não há como ter certeza, entretanto, uma vez que é algo completamente hipotético… – Obrigado, professor. Ele se virou para sair quando o professor Landon o chamou pelo nome. – Sua curiosidade me faz ter alguma esperança em você, rapaz. Continue assim. Carmine sorriu para si mesmo ao sair da sala. Embora o professor estivesse orgulhoso de seu aluno, Vincent ficaria horrorizado se soubesse que seu filho havia feito aquelas perguntas.

Vincent reduziu a velocidade ao se aproximar da casa de tijolos, fazendo uma curva fechada e estacionando na garagem. Ele parou ao lado de um conversível vermelho, saiu, fechou o carro e acionou o alarme. Aquele bairro de Chicago era bom para se viver; não havia muitos crimes naquela parte da cidade. Ele também não se preocupava com nenhum dos moradores da região, uma vez que seriam tolos em se meter com a propriedade alheia. Todos ali sabiam muito bem que a famiglia controlava aquelas ruas; e todos também estavam cientes da posição de autoridade e do poder de Vincent DeMarco, e o respeitavam por isso. O que não significava que gostassem dele, mas isso não tirava seu sono. No momento em que Vincent pisava naquelas ruas suas emoções deixavam de existir. Ele não tinha nenhuma compaixão, simpatia, empatia ou qualquer remorso. Ele não podia se dar esse luxo. E o fato é que quanto mais tempo ficava em Chicago, mais insensível se tornava. Era uma daquelas noites quentes da primavera de que Maura tanto gostava, quando podia abrir todas as janelas e deixar a brisa entrar pela casa. Vincent costumava reclamar, dizendo que o lugar ficava muito quente. Ele costumava ser temperamental e, muitas vezes, gostaria de poder voltar no tempo e apagar as palavras duras que dissera à sua esposa. Del senno di poi son piene le fosse.10 Agora ele entendia. E se arrependia. Ele caminhou até a porta da frente e tocou a campainha, antes de arregaçar as mangas de sua camisa azul. O som de salto alto ecoou dentro do hall antes que a porta se abrisse. Uma mulher parou de pé à sua frente, com um sorriso enorme em seus lábios vermelhos e brilhantes. – Olá, Vincent. Já faz algum tempo, não é mesmo? Ela logo saiu do caminho para permitir sua entrada. Sem dizer uma única palavra ele seguiu até a sala de estar e se sentou em um sofá de couro preto. Ela se juntou a ele, segurando uma taça de vinho tinto. Ele a pegou e levou próximo ao nariz, inalando o perfume, sentindo o aroma. Maura costumava adorar vinho tinto. – Então, quanto tempo pretende ficar na cidade dessa vez? – ela perguntou, tomando um gole de sua bebida, enquanto ele apenas segurava a dele. DeMarco não bebia mais, e já fazia muito tempo. – Até que esteja liberado. Ela conhecia bem aquele estilo de vida; nascera dentro dele. Era como uma Principessa della Mafia. Ela também sabia que ele não podia falar sobre o que fazia, portanto, o diálogo entre eles era mínimo, livre de ilusões e ideias equivocadas. – Está com fome? – ela perguntou. Ele olhou para ela e seus olhos percorreram seu corpo, admirando seu vestido preto justo e suas meias sensuais. A pele da mulher era bronzeada, seus cabelos tinham um tom marrom escuro e os olhos eram cor de avelã, com pequenas manchas verdes


no interior. Aquele verde o fazia lembrar dos olhos que tanto admirara por vários anos. Ele desviou o olhar e respondeu. – Sim. Os dois jantaram enquanto ela falava e terminava com a garrafa de vinho. Vincent só ouvia e acenava com a cabeça nos momentos certos. Depois do jantar, ele foi até a janela e ficou olhando para fora enquanto ela organizava tudo. A luz das estrelas e da lua iluminava o jardim nos fundos. Mais uma vez ele ouviu o barulho dos saltos. Ela parou bem atrás dele, que logo viu a imagem dela refletida no vidro. Ela sorriu de um jeito provocativo e passou as mãos em suas costas; massageou seus ombros com firmeza. – Você está sempre tão tenso, Vincent. Ele deixou escapar um leve suspiro. – E é por isso que venho até aqui. Você sabe do que preciso. Ela apenas assentiu com a cabeça e enfiou as mãos sob a camisa dele, arranhando levemente sua pele com as unhas longas e bem feitas. Maura nunca tivera unhas compridas; sempre as mastigava até que restassem apenas pequenos tocos. Seus dedos chegavam a sangrar às vezes. Ela desabotoou a camisa e pressionou suavemente os lábios contra o pescoço dele. A respiração daquela mulher era quente; seu beijo, grudento por causa do gloss que usava na boca. – Acho que sei do que você precisa agora.

Sem dizer uma só palavra, Vincent voltou a se vestir cerca de uma hora depois. Era em momentos como esse, em que Vincent supostamente deveria relaxar, que ele sentia sobre o peito todo o peso do mundo em que vivia. Se ele pudesse voltar no passado, tantas coisas seriam tão diferentes. Porém, tudo o que podia fazer agora era seguir em frente e se certificar de que o que acontecera com ele não se repetiria com Carmine. Ele precisava ter certeza de que dali a vinte anos seu próprio filho não estaria em seu lugar, transando com mulheres que nada significavam e cujos nomes não importavam, apenas tentando se manter firme quando o que mais desejava na vida era abandonar tudo. O relógio do carro marcava meia noite quando Vincent saiu da garagem e pegou a rodovia 290. Ele dirigiu por cerca de trinta minutos antes de entrar numa estradinha longa e sinuosa que cortava as montanhas, até parar no portão principal do cemitério Mount Carmel. Ele desligou o carro, saiu e caminhou pela grama, passando pelos túmulos daqueles que haviam vivido sua vida e então morrido. Os Capones estavam enterrados naquela área, assim como dezenas de outros mafiosi. Ele também acabaria ali algum dia, ao lado de sua esposa. Seus passos falharam quando ele localizou o túmulo; seu peito ficou apertado. Ele se ajoelhou e deslizou os dedos sobre o nome gravado na lápide. MAURA DEMARCO ABRIL 1965-OUTUBRO 1996 “AMA, RIDI, SOGNA – E VAI DORMIRE” – Minha doce Maura. – ele disse – Sei que já faz meses desde a última vez, mas não sentia que merecia visitá-la. Você deve estar muito desapontada comigo. Ele então se sentou na grama, olhando para a última frase na lápide. – Ama, ridi, sogna – e vai dormire. – ele repetiu. Sua voz mais parecia um sussurro na escuridão – Ame, ria, sonhe – e vá dormir. – ele traduziu – Foi assim que você viveu toda sua vida e eu estou


tentando seguir seus passos. Eu a peguei, sabe? Finalmente eu a consegui para você, mas você não está mais aqui para vê-la. Ele riu de um jeito cínico conforme as lágrimas deslizavam pelos cantos dos olhos. – Você provavelmente ficou brava comigo quando eu a tranquei no quarto. Aliás, deve ter ficado tão zangada quanto se mostrou naquele dia, há tantos anos, quando eu… quando eu… – ele interrompeu a frase – Você sabe o que eu quase fiz, o que tentei fazer naquela noite… na noite em que os matei. Sei que estava olhando e foi você que me impediu de continuar. É, mesmo morta você ainda a continua protegendo. Eu podia até vê-la ali parada com a testa enrugada, como costumava olhar quando estava muito irritada. Eu detestava desapontá-la. O que eu não daria para poder olhar seu rosto novamente. Ele interrompeu mais uma vez, balançando negativamente a cabeça. – A garota está bem, eu acho. Todos estão bem por enquanto. Estou tentando imaginar um meio de nos mantermos seguros. Ela está crescendo, se transformando numa mulher, e me faz lembrar você. Isso é muito mais difícil do que você poderia imaginar. Ele secou os olhos com as costas das mãos, afastando as lágrimas e permanecendo ali sentado, apreciando o silêncio. Ver o nome dela, algo tangível para lembrá-lo de que sua mulher fora real, o acalmava e, por alguns momentos, ele quase se sentia em paz. Depois de alguns minutos ele se levantou, retirou a grama de suas calças. – Não demorarei tanto para voltar dessa vez. Eu te amo. DeMarco caminhou de volta até seu carro. As lágrimas secaram e seu coração se tornou mais uma vez insensível enquanto retornava para Chicago. No momento em que cruzou os limites da cidade, ele já havia recobrado sua frieza habitual. Provérbio italiano que significa “sabendo o que aconteceu depois”. É usado em um contexto de tomada de decisão, que se revela errônea ou pouco sábia. (N.E.)


Capítulo 32

Haven ficou de pé na porta do quarto, silenciosamente observando Carmine enquanto ele fazia sua lição de casa. Ele estava sentado à escrivaninha com a cabeça apoiada na mão esquerda e olhando fixamente para o notebook. Ele não percebeu sua presença, ou, se percebeu, preferiu não dar atenção a ela. Carmine resmungou. – O que diabos o alfabeto grego tem a ver com matemática? Ela disse de onde estava em voz baixa. – Pi? Ele deu um pulo ao escutar a voz dela. – Você me perguntou se eu quero pizza? – Não, Pi é parte do alfabeto grego e, hum… alguma coisa matemática. Ele a encarou por um momento antes de processar o que havia dito. – Bem, acho que tenho que agradecer ao apresentador do Jeopardy por essa. Você provavelmente poderia fazer toda minha lição de casa e me evitar muitos problemas, sabia? Ela ficou vermelha. – É, mas se eu fizesse, como você iria aprender? – Não me vejo precisando de nenhuma dessas merdas. – ele disse, balançando negativamente a cabeça – Mas, de qualquer modo, você precisa de alguma coisa? – Eu deveria ir à casa de Dia, lembra? Ela não sabia como ele poderia ter esquecido, afinal, aquela fora uma ideia dele. – Ah, sim, claro. – ele respondeu, procurando as chaves do carro na escrivaninha. Haven esperava que ele fosse se levantar e a acompanhar, mas, em vez disso, ele apenas entregou-lhe as chaves. Ela olhou para as chaves. – Você não vai me levar? – Você já sabe dirigir. – ele disse, balançando o chaveiro – Não tenho tempo para bancar o taxista, tesoro. Tenho um monte de lição de casa pra fazer e assuntos urgentes pra resolver. Ela franziu a testa. – E como pretende resolver seus assuntos urgentes sem o seu carro? – Eu vou sair com o Dom. – ele respondeu – Você se lembra de como chegar na casa da Dia, certo? É uma linha reta. Eu te levei lá quando você foi comprar seu vestido. – Ah, sim, mas… – Ah, e na volta, pare no supermercado e compre refrigerante para mim, ok? É na rua paralela. Deve ter dinheiro no porta-luvas. Ela hesitou por um instante. – Mas… seu carro. Eu não sei dirigir ele. Ele bufou impaciente. – E por quê não? – Porque eu só dirigi o carro do seu pai, e você estava comigo daquela vez. – O meu funciona do mesmo jeito. E, se achar melhor, faça de conta que estou no banco do passageiro. Solte alguns palavrões e será como se eu realmente estivesse lá. Ele se virou, encerrando o assunto.


Era meados de maio e aquele dia seria o baile da escola de Durante. Três semanas antes, Carmine comentara isso, dizendo que ela precisava comprar um vestido. Na ocasião, Dia se ofereceu para ir com ela ao shopping, onde Haven adquiriu um vestido azul com detalhes dourados. Aquelas últimas semanas, entretanto, haviam sido confusas para Haven. Havia momentos bons e ruins, mas as mudanças de humor eram às vezes tão abruptas que era praticamente impossível prevêlas. A expectativa e a excitação sempre estavam lá, sob a superfície, mas também existia certo medo; um medo do desconhecido, de mergulhar de cabeça. Nem sempre era ruim. Carmine ainda perdia a paciência com frequência, mas havia também momentos como aquele no quarto, em que ele agia de um jeito totalmente diferente do rapaz que ela conhecera há alguns meses. Ele tinha ciúmes de seu carro, mas ainda assim entregou-lhe as chaves sem pensar duas vezes, mesmo sabendo que ela não tinha uma carteira de motorista.

A família Harper vivia em uma casa de um andar no centro da cidade. Era uma residência modesta, mas grande o suficiente para os quatro. Dia e Tess compartilhavam um quarto, sendo essa proximidade a razão mais frequente das brigas de irmãs. Haven percebeu isso logo que chegou e viu uma fita colorida dividindo o quarto em duas partes. O lado esquerdo era organizado e decorado em tons de rosa, com pôsteres de astros de cinema; o lado direito era uma bagunça, com centenas de fotografia cobrindo as paredes. – Sente. – Dia convidou, apontando para uma cadeira próxima à escrivaninha. Haven sentou-se na beirada da cadeira e olhou para a bagunça, controlando seu ímpeto de fazer uma bela limpeza – E aí, está animada? – Sim, claro. – respondeu Haven, embora sua ansiedade fosse maior que a excitação. Dia olhou para Haven de um jeito peculiar enquanto tentava dar um jeito nos cabelos da jovem, mais alvoroçados do que nunca. – Está nervosa, não é? É que sua resposta me pareceu meio automática. – Estou entusiasmada. – ela disse – É só que nunca fui a um baile na minha vida. – Nem eu. – Dia complementou – Aliás, a única razão para eu ir neste é a foto da turma que vai para o livro da escola. Senão, ficaria em casa. – Você não tem um namorado? Ela balançou negativamente a cabeça. – A administração da escola provavelmente teria um enfarte se eu aparecesse com alguém. – Por quê? Dia olhou surpresa para ela. – Nem todo mundo aceita bem. – E por que eles não te aceitariam bem? – É que não curto meninos. – Dia explicou, sendo cuidadosa com as palavras – Ninguém nunca te disse isso? – Bem, Carmine certa vez disse que não tinha o equipamento certo pra você. – disse Haven, ficando vermelha como um tomate quando percebeu o que ele tentara lhe dizer – Ah, ele quis dizer que… – Eu não curto essas coisas…. Digo… pênis, pinto, pau, ou qualquer outro nome que queira dar. Haven olhou para a porta quando uma voz as interrompeu. Tess entrou no quarto, atirando um cabide com um plástico protetor e abrindo-o para exibir o vestido vermelho-sangue que usaria na festa. Dia revirou os olhos.


– Pura classe. – Só estou sendo eu mesma. – Tess retrucou, tirando a blusa. Haven se afastou um pouco enquanto ela se vestia, então a jovem olhou para sua expressão e riu, parando na frente dela só de calcinha e sutiã. – Ei, não tenho vergonha. Dia soltou uma gargalhada. – Nem modéstia. Tess deu de ombros, sem retrucar dessa vez. Em seguida pegou o vestido e o deslizou pelo corpo, antes de pegar um par de salto alto no armário e calçá-lo. Depois caminhou até o closet e olhou seu reflexo no espelho com vaidade, ajeitando o cabelo e passando batom. Ela fez tudo aquilo de um jeito tão casual, rápido e automático, que Haven ficou admirada. Enquanto isso, Dia continuava a mexer nos cabelos de Haven, puxando e enrolando de todas as maneiras possíveis, mas ela não entendia o que a amiga estava tentando fazer. A mesma dúvida era compartilhada por Tess, que se virou e perguntou. – Ei, o que você está tentando fazer na cabeça dessa pobre menina? – Estou tentando fazer uma trança embutida. – Trança embutida? O quê, acha que ela tem doze anos? – depois de perguntar, Tess pegou uma chapinha e ligou na tomada. Em seguida tirou a irmã do caminho, desfez a tal trança e deslizou o aparelho pelos cabelos de Haven, cacho por cacho, domesticando os fios. Em seguida, desligou o aparelho e voltou para o seu lado do quarto. Dia indicou o banheiro para que Haven pudesse se vestir. Ao olhar-se no espelho, não reconheceu seu próprio reflexo. Seus cabelos jamais estiveram tão lisos e brilhantes. O vestido, por sua vez, apertava nos lugares certos, acentuando suas curvas recém-descobertas. Curvas. Ela beliscou seu quadril admirada, imaginando de onde elas teriam vindo e porque não as havia notado antes. Ela então retornou para o quarto, parando na porta. Tess olhou novamente para o espelho, aplicando mais uma camada de batom, enquanto Dia calçava um par de coturnos. – Você não tem que se vestir? – perguntou Haven ao receber das mãos de Dia um par de sapatilhas douradas. – Estou vestida. Haven calçou os sapatos e observou as roupas usadas por Dia: saia preta, regata azul e meia-calça listrada nas cores do arco-íris. – Está? – Ela está. – confirmou Tess – Para minha irmã isso é um traje de gala.

Os pelos de sua nuca se levantaram quando ela entrou na mercearia sozinha. Sentia como se estivesse sendo observada por todos. Intimidada, ela abaixou a cabeça e seguiu direto para o corredor de bebidas. Ao abaixar para pegar um engradado de Coca-Cola, sentiu alguém se aproximar. Ela ficou arrepiada. – O que foi que o livro de Matemática disse ao livro de História? – Não tenho certeza, Nicholas. – ela respondeu, pegando a caixa de refrigerantes e se virando para ele, surpresa ao encontrá-lo com um terno preto. Era a primeira vez que o via sem que estivesse usando shorts e chinelos. – Não me venha com histórias, pois já estou cheio de problemas. Entendeu? Livro de História…


histórias… Matemática… problemas… No momento em que caiu a ficha ela deu risada. – Essa foi boa. Ele sorriu diante de sua delicadeza. – Boa. Meu tipo de garota. Ela ficou vermelha. – Obrigada. Vejo que está vestido para ir a uma festa. – Claro que estou. Hoje é o baile. – Vai ao baile? Você não frequenta a escola daqui, não é? – Nem você. – Mas fui convidada para acompanhar uma pessoa. Ele suspirou de um jeito dramático. – Sei… Bem, eu também. Talvez eu não seja tão bonitão quanto Carmine, mas ainda consigo atrair algumas garotas. Ah, e falando sobre o seu namorado… – Por favor, não comece. Ele ergueu a mão só para se defender e completou. – Ei, só ia dizer que estou surpreso que ele tenha deixado você sair sozinha em público. – E por que ele não deixaria? Eu posso ir a uma mercearia sozinha. – Pode? – a seriedade no tom da voz do rapaz a deixou nervosa. Será que podia? Considerando que aquela era a primeira vez que o estava fazendo, ela não sabia como responder. – Claro. – ela disse, olhando para ele desconfiada. O coração dela batia forte; ele não podia saber a verdade. Carmine a teria avisado sobre isso. – Que ótimo. – ele falou – Sabe de uma coisa? Acho seu sotaque fascinante. Haven ficou surpresa pela mudança brusca de assunto. – Eu tenho um sotaque? Acho que você tem sotaque. Ele riu. – Eu falo como qualquer pessoa daqui, mas nunca ouvi ninguém com um sotaque como o seu. Onde você cresceu? – Califórnia. – Em que região? Ela hesitou. – No deserto da Califórnia. Ele acenou com a cabeça. – Não me surpreende que jamais o tenha ouvido. Você é a primeira californiana nativa com quem já falei. Você nasceu lá, certo? Ela confirmou, ficando um pouco incomodada com o rumo daquela conversa. – Bem, Haven, já que eu estou enganado e você pode ir aonde quiser sozinha, você deveria me visitar algum dia. Os olhos dela se estreitaram diante daquele convite. – Por que está tão interessado em conversar comigo? – Você parece ser uma garota legal. – ele respondeu – Não há mal nenhum em sermos amigos. – E você quer ser meu amigo para me conhecer melhor ou apenas para irritar Carmine? Porque eu não poderia começar uma amizade com alguém que deseja machucar ele. Ela disse aquelas palavras sem atentar para o que significavam até que fosse tarde demais. Elas já haviam escapado de sua boca e agora pairavam no ar. – Não sou esse tipo de pessoa. – ele disse. – E como eu posso saber?


– Terá de confiar em mim. – Não posso. – ela retrucou – Não confio nas pessoas. – Mas confia em Carmine? – Sim, confio. – respondeu – E nada do que disser mudará isso. – Muito bem, mas isso não significa que não possa confiar em mim também. Ela o encarou. Será que podia mesmo confiar nele? – Eu preciso ir. Ela se afastou, desacelerando brevemente quando ele a chamou pelo nome. – Haven? Você está linda. Carmine pode ser um imbecil, mas é um imbecil sortudo. Ela sorriu. – Obrigada, mas acho que sou eu a sortuda.

Depois de pagar pelo refrigerante, Haven dirigiu de volta para a casa dos DeMarco e encontrou um lindo carro esporte parado à frente. Tendo aberto a porta da frente da casa, estava prestes a chamar Carmine quando ouviu um barulho na cozinha. – Por que diabos demorou tanto? Sem se preocupar em responder, ela deu um suspiro ao olhar para ele. Ela ficou deslumbrada ao vê-lo trajando um terno preto com uma gravata azul e um par de Nike preto. Carmine se virou para ela e seus olhos imediatamente percorreram o corpo da jovem, enquanto ela colocava a caixa de refrigerantes no balcão. Ele a analisou cuidadosamente, sem jamais desviar os olhos. Bastante nervosa, ela se virou para sair da cozinha, mas Carmine agarrou seu braço e a impediu. – Você está deslumbrante. Os olhos dele encararam os lábios da jovem e ele a beijou de um jeito doce e delicado. Ela abriu os lábios, permitindo que ele fosse mais fundo, mas, em vez disso, ele se afastou. Aquilo se tornara comum nas últimas semanas, e decorria de um retorno do rapaz ao velho comportamento. Ele se virou de costas para ela e colocou gelo no copo; ela seguiu para a sala de estar, sentou-se no sofá e colocou as mãos sobre as pernas para esperar por ele. Carmine apareceu depois de um minuto e colocou seu copo na mesa. Ele tinha uma caixinha plástica em sua outra mão e, de dentro dela, retirou uma flor azul e dourada, colocando-a no pulso de Haven. – É um corsage. – É lindo. – ela disse, olhando para o arranjo. A porta da frente se abriu novamente e o doutor DeMarco entrou na sala. – É um belíssimo carro lá fora. – ele disse, sem se lembrar dos cumprimentos. Carmine respirou fundo e respondeu. – Não se preocupe, eu aluguei. Será devolvido amanhã. Dominic e Tess apareceram alguns minutos depois, acompanhados por Dia, que parecia bastante irritada. Todos saíram para tirar algumas fotos. Depois de alguns flashes, Carmine pegou na mão de Haven e a puxou de lado. Ele hesitou um pouco antes de se aproximar do carro, procurando algum defeito antes de seguir para o automóvel alugado. – Sempre quis ter um Vanquish. Eu me sinto como o James Bond dirigindo um desses. – James Bond? – É, você sabe, o agente secreto 007? Ela meneou com cabeça, monstrando que não sabia quem era, e ele suspirou. – É um filme.


– Desculpe – ela disse –, mas nunca assisti. – Não importa. – ele disse, acenando para que ela entrasse. Ela queria acreditar nele, mas sua expressão frustrada lhe dizia que importava. O trajeto até o restaurante foi tranquilo. Os nervos de Haven estavam à flor da pele. Depois de uns trinta minutos, ela já não suportava o silêncio e tentou conversar. – Esse carro é bem bonito. Por que não troca o seu por um desses? Ele riu com indiferença. – Esse carro custa seis vezes mais que o meu Mazda. Meu pai jamais investiria mais que duzentos mil dólares num carro. A única coisa em que aplicaria tanto dinheiro seria numa casa. – ele fez uma pausa – Ou, quem sabe, em você. Afinal não faço ideia de quanto ele pagou pra trazer você pra casa. Aquelas palavras a feriram profundamente. Ela piscou algumas vezes, tentando impedir que sua mágoa se tornasse aparente, então se virou para a janela. – Mas eu acho esse carro bem bonito, se é que se pode chamar um carro assim. Haven não disse mais nada pelo resto do trajeto. Eles chegaram ao restaurante e Carmine a levou até onde os outros os esperavam. Ocasionalmente ele dizia algo indelicado enquanto jantavam, mas alguém logo mudava de assunto para que as coisas não piorassem. Haven não gostava daquela faceta de Carmine. Era uma parte dele que não conhecia muito bem… e que certamente não desejava conhecer. A garçonete sempre retornava à mesa para se certificar que de não faltava nada, mas seus olhos sempre se demoravam mais em Carmine. Ele a ignorava, como sempre fazia, mas Tess não deixou isso passar em branco. – Ela está vendo sua namorada sentada bem ao seu lado. Será que não ela não se toca? Carmine deu de ombros. – Vadias não conseguem controlar isso. Tess olhou para ele surpresa. Aquela não era a resposta que esperava ouvir. – Mas o que há de errado com você? Carmine franziu a testa. – Mas do que você está falando, afinal? – Sua atitude, é óbvio. É vergonhoso também. E eu quase gostei de você por alguns momentos. – Bom, na verdade, eu nunca gostei de você, minha cara. Haven ficou nervosa diante de toda aquela hostilidade, até que Dominic bateu com a mão na mesa. – Chega disso! Não sei qual é o seu problema, Carmine, mas é melhor resolver de uma vez. Está faltando bem pouco para eu te dar uma porrada. Carmine olhou para o irmão. – Mas o que foi que eu fiz? – Não escuta o que fala? Está agindo cada vez mais como o velho Carmine. – Não estou. – retrucou. – Sim, está. – Dominic insistiu – E estou te dizendo agora para dar um jeito nisso. Haven não merece o modo como você a vem tratando. Haven olhou para Carmine com cautela enquanto ele encarava o irmão. A tensão à mesa era visível e ela começou a entrar em pânico. – Desculpe… Eu preciso ir ao banheiro. Ela se levantou e Dia se colocou de pé para mostrar o caminho. A jovem deu um suspiro de alívio quando se viu sozinha, e ficou no toalete até se acalmar. De repente ouviu alguém bater à porta. Haven esperava que fosse Dia do lado de fora, mas deu de cara com Carmine. – Podemos conversar, tesoro? – ela concordou com a cabeça e ambos seguiram até o carro. Carmine colocou a chave na ignição – Eu não percebi que estava sendo um idiota. Estou com muitas


coisas rolando na minha cabeça. – Quer falar sobre isso? Ele respirou fundo, dedilhando no volante. – Não, acho que não. Isso provavelmente me torna mais ainda um idiota, mas eu apenas… Será que podemos começar de novo? Você finalmente tem a chance de vivenciar as coisas normais da vida de uma adolescente, e eu estou estragando tudo. Eu devia estar de joelhos aos seus pés, te agradecendo por me dar essa chance. Você não deveria me amar, mas me ama, e não faz ideia do quanto aprecio ter você em minha vida. Surpresa, ela olhou para ele e disse: – Essa foi a coisa mais bonita que você me disse nos últimos tempos… Talvez desde que nos conhecemos. Também estou feliz por você estar comigo. – Que bom. – ele disse, ligando o carro e vendo Haven colocar o cinto – Ah, e me desculpe por estar usando um Nike. – Eu gosto deles. Ele olhou para a jovem e sorriu. Aquele foi o primeiro sorriso genuíno que ela viu em seus lábios havia um bom tempo.

O ginásio da escola estava decorado nas cores branco e dourado, com luzes brilhantes penduradas por todo o teto. Um arco de balões fora colocado na entrada e havia cordões decorativos e glitter em cima de tudo. Carmine desdenhou da decoração barata, mas Haven ficou hipnotizada com tudo aquilo. – Está lindo! – ela disse. Suas palavras mal podiam ser ouvidas por causa do som alto. Ele riu do entusiasmo da moça. – Quer dançar? – Eu, bem… – ela olhou para a multidão na pista de dança – Eu nunca dancei antes. – Isso não é verdade. – ele disse, empurrando-a para o salão com as mãos no quadril da jovem – Nós dançamos no Halloween, lembra? – Aquilo foi diferente. – ela disse – Você apenas me fez rodar em círculos e, bem, não tinha ninguém olhando. – E ninguém está olhando agora. – ele estava mentindo, uma vez que todos os olhos do ginásio se voltaram para o casal – Além disso, a única maneira de aprender a dançar é dançando, e acho que estou me tornando melhor nesse negócio de ensinar. Eles pararam no limite entre a pista de dança e a multidão e ele a puxou para perto, balançando o corpo ao ritmo da música. Carmine encostou os lábios na orelha dela e cantou com a música, fazendo-a relaxar um pouco. Moveu o quadril da jovem até que ela pegasse o ritmo por si mesma. Ela percebeu os curiosos reparando nos dois, mas o calor do jovem a deixava segura. Dançaram algumas músicas e então ele a levou para uma mesa, para pegar dois copos plásticos e enchê-los com ponche. Eles se misturaram aos colegas por algum tempo. Logo ela percebeu a presença de Nicholas no salão e, para sua surpresa, ele estava de braços dados com Lisa. Haven evitou o contato visual com o rapaz, concentrando-se em Carmine, mas sentia que Nicholas não tirava os olhos dela. Ela acabou se sentindo desconfortável com aquela sensação, então, pediu licença e foi ao banheiro. Haven estava lavando as mãos quando a porta se abriu. Um ar de hostilidade preenchia aquele espaço confinado, e não havia como sair sem passar por Lisa. Haven fechou a torneira, respirou fundo,


secou as mãos e deu alguns passos na direção da moça. – Com licença. – ela disse, esperando que Lisa a deixasse passar sem criar problemas, mas a jovem não se moveu um milímetro – Eu gostaria de sair. – É, eu também gostaria que você saísse. – retrucou Lisa – Que você saísse dessa cidade e deixasse o Carmine em paz. O modo como Lisa falou, sentindo prazer em provocar dor, a fez lembrar-se de Katrina e de todas as vezes que aquela mulher havia se esmerado em feri-la com palavras, mesmo quando Haven já se encontrava em uma situação deplorável. Naquela época não havia nada que pudesse fazer sobre isso, mas agora as coisas haviam mudado. Isso não aconteceria novamente; não aqui, não agora. Ela não abaixaria a cabeça para pessoas que só queriam machucá-la. – Eu estou pedindo licença. – disse Haven, dando mais um passo à frente, mas Lisa ficou parada. Irritada, Haven deu um tranco na jovem e colocou a mão na maçaneta, abriu a porta e estava saindo do banheiro, quando Lisa a pegou pelo ombro. Haven se virou a tempo de ver que ela estava prestes a lhe dar um soco. Porém, antes que Lisa pudesse atacá-la, Haven foi puxada para o lado e Nicholas acabou absorvendo o impacto em seu peito. – Vai com calma, Laila Ali, olha o que está fazendo! Lisa fez uma careta para ele. – Do que você me chamou? – Ela é uma boxeadora. – respondeu Haven – Filha de Muhammad Ali. – E por que você está falando? – Lisa perguntou, dando um passo em direção a ela – Ninguém aqui te perguntou nada. – Ei, vocês duas. – disse Nicholas, tentando se colocar entre ambas. Infelizmente ele não foi rápido o suficiente: Lisa pegou no braço de Haven e arrancou o corsage de seu pulso, atirando-o no chão. Nicholas interveio pela segunda vez e Lisa saiu furiosa. O jovem se abaixou e pegou a pulseira de flores no chão. Ela a segurou com cuidado e ele sorriu, mas algo estava errado na expressão dele, alguma coisa que aumentou a ansiedade de Haven. – Algo errado? – ela perguntou. – Eu já conheço os DeMarco há muito tempo, sabe? – ele disse – Costumávamos ser muito próximos e, quando você passa muito tempo com as pessoas, você aprende coisas sobre elas. Como, por exemplo, algumas coisas que a família faz. Ela franziu a testa. – Não sei do que você está falando, Nicholas. – Não sou idiota, Haven. – ele disse em voz baixa – Não tenho a intenção de morrer em breve, com certeza. Sei manter minha boca fechada, mas não posso segurar isso mais tempo. Você me disse que era da Califórnia, quando há pouco tempo Carmine me falou que você viera de Chicago. E, que saber, eles não são o tipo de gente que convida pessoas para viver na casa deles. Eles não permitem que ninguém se aproxime a menos que possam controlar esse indivíduo de alguma maneira. Eu fico apreensivo só de pensar no que isso pode significar no seu caso. Ela se sentiu constrangida. – O que quer dizer com isso? – Que você não é uma amiga da família. Acho que não teve escolha ao ser trazida para cá. – Eu tive uma escolha. – ela retrucou, lembrando-se das palavras de DeMarco no primeiro dia – Sempre se tem uma escolha. – Escute, não é que eu possa fazer nada a respeito. Sou só um adolescente, e não conheço sua situação. Pelo que sei, você pode ter sido sequestrada e estar sendo mantida como refém à espera do


pagamento de um resgate, ou, quem sabe, talvez esteja se escondendo de alguém. Eu não sei, mas isso não significa que eu não me sinta péssimo em saber que você está presa numa armadilha. Ela estava nervosa em falar sobre aquilo em público. – Eles são muito legais comigo. – Tenho certeza de que sim, mas isso não muda em nada a situação. Fico enjoado com o fato de Carmine tirar vantagem de você. Ela pressionou as unhas contra as palmas das mãos, como se tentasse se controlar sem reagir. – Carmine me ama. – Quer saber, acho muito difícil acreditar que ele consiga amar alguém. – Eu o amo. – Deixe eu adivinhar, ele é a primeira pessoa a tratá-la dessa maneira? Ele sorri pra você e sussurra palavras bonitas nos seus ouvidos. Ele fala italiano e te deixa hipnotizada? Sim, ele já fez isso em algum momento com todas as garotas que estão nesse prédio. É assim que ele age. – Nada vai mudar minha maneira de pensar. – Muito bem, mas, como eu disse, isso não quer dizer que não possamos ser amigos. Se precisar conversar, estarei por perto. – Por que se importa tanto? – Porque alguém deveria. Ela abriu a boca para dizer que Carmine se importava, porém, antes de dizê-lo foi surpreendida pela voz do rapaz bem atrás dos dois. – Deixa ele em paz! – Nicholas só estava me ajudando, Carmine. – Haven interveio imediatamente, sem querer que o namorado tivesse uma impressão equivocada. Carmine colocou o braço na cintura da jovem e olhou para Nicholas. – Te ajudando com o quê? – Lisa encurralou ela, então eu fiz o que qualquer pessoa normal teria feito. – disse Nicholas – Bem, na verdade, acho que a maioria adoraria ver duas garotas se batendo, mas não queria que Lisa acabasse levando um belo chute no traseiro bem na formatura. Ainda tenho planos para essa noite. Carmine olhou para Haven. – Lisa tentou agredir ela? De novo? – Vejo que essa não foi a primeira vez. – disse Nicholas. Haven ergueu o corsage. – Ela o arrancou do meu braço. Carmine o pegou de suas mãos e praguejou em voz baixa, puxando-a dali. Foi então que a voz de Nicholas soou novamente. – Toque, toque? Sentindo-se culpada, ela olhou de volta e completou. – Quem bate? Carmine parou por um momento, nada feliz com aquela interação. – É o obrigado. – disse Nicholas. – Obrigado a quê? – ela perguntou, demorando um pouco para compreender a brincadeira que o jovem tentava fazer. – Ah, entendi… Obrigada, Nicholas. – De nada, Haven. Uma música suave começou a tocar e as pessoas começaram a formar pares. Carmine colocou as mãos no quadril de Haven e a puxou contra ele. – Você está bem, tesoro? Ela não te machucou, não é?


Colocando os braços em torno do pescoço dele, ela o olhou. – Não, Nicholas impediu. – Nicholas. – Carmine retrucou, olhando diretamente para o local onde sabia que iria encontrá-lo – Ele está sempre se envolvendo em confusão. – Bem, estou grata a ele. – disse Haven – Afinal, Lisa acertou o soco nele e não em mim. Aquelas palavras provocaram um sorriso no rosto de Carmine. – Isso é ótimo. Haven fechou os olhos no momento em que Carmine deslizou seus lábios sobre os dela, beijandoa lentamente enquanto a música tocava. O amor cresceu ainda mais dentro dela. Aquele era o Carmine que ela conhecia; aquele que não tinha medo de baixar a guarda e permitir que ela entrasse em seu coração. No meio de um salão lotado, não existia mais ninguém além deles. Ela somente tinha olhos para ele; percebia apenas sua presença, seu rosto, cheiro, calor e amor. De repente ela se viu tão emocionada que lágrimas ameaçaram escorrer de seus olhos. A música diminuiu e os dois ficaram parados no centro da pista, olhando um para o outro. – Será que poderíamos…? – Sim – ele respondeu –, vamos voltar pra casa.

No momento em que os dois chegaram ao terceiro andar da casa, Carmine pressionou firmemente Haven contra o seu corpo e capturou os lábios da jovem com um beijo avassalador. Já fazia algum tempo desde a última vez que ele a beijara daquele jeito, como se, para respirar, ele precisasse sugar todo o ar que a moça trazia nos pulmões. – Carmine, nós deveríamos… – ela disse, trêmula, enquanto os lábios dele deslizaram pelo seu pescoço – Acho realmente que nós deveríamos… – ela soltou um suspiro no momento em que ele mordiscou sua pele – É só que eu… Ela não fazia ideia do que estava dizendo, do que tinha em mente ou do que tentava dizer. Haven não conseguia pensar de maneira clara. Cada célula de seu corpo precisava dele e apreciava o toque de suas mãos, mesmo assim as palavras continuaram tentando escapar de sua boca. – Talvez nós devêssemos apenas, você sabe… Carmine resmungou algo, uma mistura de desejo e frustração. – Eu preciso de você. Era tudo o que ela precisava ouvir. Aquela declaração a fez deixar de lado qualquer hesitação que tivesse em sua mente e substituí-la pela certeza de que sentia o mesmo em relação a ele. – Também preciso de você. – Já faz muito tempo. – ele sussurrou enquanto ambos cruzavam a biblioteca em direção ao quarto – Eu preciso te sentir novamente. Preciso estar com você, em cima de você. Caralho, eu preciso estar dentro de você. Um gemido selvagem vibrou no peito da jovem ao ouvir aquelas palavras; um gemido que ela jamais imaginara ser capaz de produzir. Eles mal tiveram tempo de entrar no quarto e fechar a porta antes que começassem a despir um ao outro. Ela deixou o vestido cair no chão e se livrou dele com os pés enquanto Carmine chutava os tênis para os lados. As roupas foram ficando sobre o carpete e a única luz do quarto era a que brilhava pela janela. Carmine tateou a parede tentando encontrar o interruptor, mas logo desistiu. Haven soltou um grito de surpresa quando ele a segurou pelas coxas e a levantou, colocando as pernas dela ao redor de sua cintura. À medida que ele a pressionava contra seu corpo, arrepios


tomavam conta do corpo dela, dominando seus músculos. Ela segurou no pescoço dele, beijando-o de maneira febril conforme ele caminhava por sobre as peças de roupa. Ela se afastou por um segundo de seus lábios. – Não me deixe cair. – Nunca. – ele disse, quase sem fôlego, no mesmo instante em que a soltou e a derrubou sobre o colchão. Ela deu risada. – Nunca, não é? – Fiz isso de propósito, tesoro. – ele disse em tom de brincadeira, rindo enquanto escorregava por cima dela. Os dois corpos se encaixaram com facilidade, de maneira perfeita, como se sempre tivessem pertencido um ao outro. No momento em que suas almas se encontravam, era possível sentir a eletricidade que se formava; os raios e os trovões que só eles conseguiam ouvir. Tudo ficara para trás quando ambos se entregaram a suas necessidades mais carnais; cada carinho era mais longo, profundo e violento; os gemidos, sussurros e gritos se tornavam cada vez mais altos. Ambos só interromperam os movimentos quando já não tinham mais força para continuar, cobertos de suor e quase sem conseguir respirar. Haven sentou-se sobre ele e colocou a cabeça sobre o peito do rapaz, sentindo o corpo dele debaixo do dela e tentando acalmar a acelerada pulsação. Ele acariciou o corpo da jovem, suas coxas, desenhando com as pontas dos dedos padrões sobre a pele arrepiada. Ela ficou imaginando no que ele estaria pensando; o que estaria desenhando, mas uma parte de Haven tinha medo de perguntar. – Sinto muito. – ele finalmente falou – Tenho me mostrado hesitante e acho que isso não é justo com você. Sei que sou um pé no saco, mas, você, Haven, é a única coisa boa que tenho na vida. – Você não deveria se desculpar. – ela disse. Em seguida ele pediu que ela o perdoasse por algo que ela própria vinha fazendo consigo mesma. Embora ele tivesse dado tudo para ela; a levado em sua formatura, possibilitado que ela vestisse algo belíssimo e dançasse com um cara devastadoramente lindo e soubesse que tudo aquilo era um sonho que ela jamais imaginara poder realizar, ele sabia que, às vezes, ela se sentia inadequada e permitia que suas inseguranças a devorassem por dentro. Mas agora… nesse momento, ela não sentia que isso estivesse ocorrendo. – Carmine, tenho que te contar uma coisa. Ele parou com os dedos sobre o abdômen da jovem. – O quê? – Acho que o Nicholas sabe sobre mim. Carmine sentou-se rapidamente na cama. – Do que você está falando? – Ele sabe que eu sou … que eu sou uma escrav…. Os olhos dele escureceram. – Ele te chamou assim? – Não, ele apenas sabe, ou suspeita que eu… não esteja aqui por vontade própria. – Como? – Não sei. Ele disse que queria que fôssemos amigos, porque achava que eu poderia precisar de um. – Ah, então ele quer ser seu amigo? Tá, é claro. Aquele filho da puta quer tudo o que eu tenho. Ele quer tirar tudo de mim! Não vê isso? Ela ergueu os ombros. Haven já não tinha certeza de nada.


Aquele último mês fora um dos mais complicados na vida de Carmine; o amor e o ódio que sentia o tempo todo estavam sempre em absoluto conflito. Uma batalha épica se desenrolava dentro dele. Ambos os lados lutavam para assumir o controle de seu coração e de sua mente. Tudo o tirava do prumo, e aquilo que Haven lhe dissera não o ajudava a manter a calma. Depois que ela dormiu, ele vestiu uma roupa qualquer e desceu as escadas. A luz do escritório do pai estava acesa, então ele tentou bater à porta, esperando um segundo antes de abri-la. Vincent olhou para ele detrás da escrivaninha. – Você era a última pessoa que esperava ver. – Por quê? – o jovem perguntou, sentando-se de frente para o pai. – Porque você bateu. E isso é uma novidade no seu caso. – É… Bem, acho que não estou me conhecendo mais, então, acho que sou capaz de qualquer coisa nesse momento. O pai balançou a cabeça. – E está conseguindo lidar bem com aquela sua obsessão? – Já superei isso. – Eu não acreditaria nisso nem por um segundo. – retrucou Vincent – Passaram-se anos até que eu conseguisse me conformar com essa situação. – Bem, eu não tenho anos pra me conformar. Aliás, não quero nem pensar mais sobre isso, e muito menos discutir esse assunto. – Muito bem. – disse Vincent, olhando de um jeito peculiar para o filho – E há alguma outra razão para ter descido até aqui? – Sim, é sobre essa noite. Eu… – Como foi o baile? Vocês se divertiram? Carmine bufou, irritado pela interrupção. – Foi tudo ótimo, pai. Agora será que posso terminar a frase? Vincent acenou com a mão. – Nós encontramos com o Nicholas… e ele disse uma coisa. Ele disse que sabia a verdade a respeito de Haven. Carmine percebeu a expressão do pai se transformar. Seu rosto foi encoberto por uma máscara indecifrável. Cada segundo de silêncio deixava o filho mais nervoso. Afinal, por que o pai continuava apenas sentado, imóvel? – É, é possível que ele saiba mais do que deveria. Carmine se inclinou para frente. – Então meus inimigos conhecem a verdade e você nunca se incomodou em me dizer isso? – Ele não é seu inimigo, Carmine. Eu sei o que é um inimigo. Sei exatamente as ameaças que representam. Nicholas não sabe nada a mais do que Tess ou Dia. Não posso matá-lo por isso, do mesmo modo como não posso dar cabo das duas garotas. Ou será que é isso que está sugerindo, que eu me livre de todos que talvez saibam alguma coisa? Não é assim que conseguirá ter um bom começo com essa jovem, filho. Não se pode fugir da verdade. – Mas como podemos confiar nele se ele já me traiu uma vez? – Porque se ele quisesse falar já o teria feito. – respondeu Vincent – Não vou matar um garoto de dezessete anos porque você acha que isso o fará se sentir melhor. Você ainda teria de encarar essa culpa para o resto de sua vida, e já tenho pessoas demais com as quais me preocupar no momento. Carmine olhou para o pai. – Como ele? – Sim, como ele. – Então, ainda não encontrou um meio de resolver essa situação?


– Estou apenas adiando o que é inevitável, e esperando que quando a hora chegar eu consiga fazer a coisa certa… Seja ela qual for. – Sabe, eu provavelmente poderia adivinhar de quem…. – Nem pense nisso, Carmine Marcello. – retrucou o pai – E não vou repetir isso. Carmine acenou com a cabeça, mas não havia jeito de ele parar de pensar a respeito do problema. – É, mas existem bem poucas pessoas de quem você teria medo. Vincent perdeu a paciência e se levantou, empurrando a cadeira para trás e apontando para a porta. – Saia. Mesmo sem querer, Carmine se levantou e saiu, seguindo para o terceiro andar e dando de cara com Haven no topo da escada. – Uau! Aonde estava indo? – Bem, eu não sabia aonde você tinha ido. – ela disse. – Não importa aonde eu fui. O que importa é onde estou agora. – ele disse, olhando-a de cima a baixo. A jovem vestira calças de flanela e uma camiseta de futebol. Eram exatamente as mesmas roupas que ela usara na primeira vez que se encontraram na cozinha. – Sabe de uma coisa, você fica bem com as minhas roupas, mas que tal eu te ajudar a se livrar delas de novo? Ela suspirou quando ele a puxou de volta para o quarto dele. – Bem, bom-dia então. – É, com certeza será uma ótima manhã. – ele disse em tom de brincadeira – E será também uma ótima tarde e, se eu tiver sorte, uma noite fantástica. Os dois passaram a tarde fazendo amor, mas com cuidado para não serem ouvidos. Depois de algum tempo ela espalhou seu corpo ao lado dele, dormindo tranquilamente de bruços. O cobertor mal cobria a parte abaixo de sua cintura, o que deixava suas costas à mostra. Ele olhou para a pele dela, desejando que ela jamais tivesse aquelas cicatrizes; que nunca tivesse experimentado toda aquela dor. Carmine odiava aquelas marcas. Em contrapartida, elas faziam parte de quem ela era e, para ele, não havia nada de feio naquele corpo. Ela merecia muito mais do que tinha, e Carmine mal podia esperar para lhe dar tudo; para lhe oferecer uma vida de verdade, em que ela pudesse ser totalmente livre; em que conseguisse se livrar daquelas algemas imaginárias, daquela dor no coração, do perigo que a rondava. Enfim, apenas se sentir libertada. Com o dedo indicador ele desenhou a palavra livre em cima das cicatrizes. Aquilo era tudo o que importava para ele.


Capítulo 33

– Você vai morrer. Aquelas três palavras interromperam o silêncio que reinava na sala. Vincent controlou seu desejo de responder, mantendo-se calmo. De fato aquilo não era algo em que ele próprio não tivesse pensado dezenas de vezes, mas ouvir aquelas palavras pronunciadas num tom de voz frio e sem qualquer emoção tornava a coisa bem mais real. Ele se virou na direção da voz e se deparou com os olhos de Corrado, tão escuros que era praticamente impossível distinguir entre as pupilas e as íris. Eram os mesmos olhos para os quais muitos já haviam olhado em seus últimos momentos de vida; olhos capazes de destruir até os homens mais fortes e poderosos. Eles pertenciam a um assassino; um homem que poderia enfiar a mão em seu casaco, sacar sua pistola calibre.22 e enfiar uma bala na cabeça de Vincent antes que ele soubesse o que havia acontecido. E, mais importante, eram os olhos de alguém que não hesitaria nem um segundo se achasse aquilo necessário. – Eu sei. – respondeu Vincent, mantendo a voz calma a despeito de sua ansiedade.

Era primeiro de junho e, no dia seguinte, Dominic receberia seu diploma do ensino médio. De tudo que Vincent fizera em sua vida, Dominic parecia ter sido sua maior realização. Apenas o fato de ele ter sobrevivido intacto e estar seguindo por um caminho que em nada se assemelhava ao do pai, já fazia com que Vincent acreditasse que fizera algo de bom em sua existência. Ali estava uma vida que ele não destruíra nem arruinara. Porém, seu momento de orgulho foi interrompido pela lembrança de outro evento importante; algo que o faria quebrar o silêncio. Em apenas dois dias, Carmine completaria dezoito anos. Seu filho mais jovem estava prestes a se tornar um adulto perante a lei, e forças externas ameaçavam sua vida. O Chefe exigiria seu Principe; uma mera marionete a qual pudesse transformar num de seus soldados carniceiros. Sal não pensaria duas vezes antes de se valer da manipulação e Vincent temia o que ele estaria disposto a fazer para atrair seu filho. Corrado e Celia viajaram para a casa dos DeMarco para a formatura de Dominic e a celebração do aniversário de Carmine. Os rapazes haviam acordado de madrugada para passar a tarde em Asheville. Celia optou por ficar no andar de cima e deixar algum espaço aos dois homens. – Ela não se parece com uma Principessa. – disse Corrado. – Pensava exatamente o mesmo. – Mas você tem certeza disso? – Absoluta. – Sempre suspeitei que havia algo a mais sobre essa garota. – disse Corrado – Nunca fez sentido para mim que Frankie Antonelli tivesse assassinado sua esposa porque ela estivesse interessada em adotar a neta dele. É claro que ele tratou a garota de um jeito horrível, mas não teria valido a pena chegar a tal extremo para encobrir um deslize do filho. Mas isso… isso é um motivo bom o suficiente para matar. Vincent contraiu os músculos. Corrado percebeu sua reação e foi se esclarecendo.


– Não estou dizendo que Maura deveria ter morrido. Até hoje ainda me culpo por não ter feito mais para impedir, mas nunca imaginei que os Antonelli pudessem ser tão odiosos. – Ninguém imaginou. Corrado desviou o olhar por um momento. – É difícil acreditar que ela seja uma de nós. Depois de todos esses anos é surreal descobrir que aquela garotinha mantida como escrava seja a neta de Joseph e Federica. Então, o bebê deles sobreviveu e acabou indo parar nas mãos dos Antonelli. Quais as chances de eles terem alguma relação com…? – Salvatore. – disse Vincent. – Então, ele ainda tem pelo menos um membro da família vivo. Tantas pessoas morreram no caos dos anos 1970; muitos corpos sequer foram recuperados. Tudo começara com um único homem fazendo grande alarde sobre aquele estilo de vida, mas acabou tomando uma enorme proporção e se alastrando para o país inteiro. Tudo passou a girar em torno de vingança e derramamento de sangue; homens passaram a ir de encontro a tudo que a organização defendia; e tudo em nome de pura vingança. As mesmas famílias que haviam jurado proteger mulheres e crianças se tornaram cegas pelo ódio e acabaram descontando em inocentes. O corpo de Joseph Russo fora descoberto enterrado em um milharal anos mais tarde. Antonio, que na época era o Chefão, mandou vários homens procurarem Federica, na expectativa de que ela tivesse conseguido se esconder com o bebê. Porém, um pacote fora entregue em sua casa certa noite: ossos humanos embrulhados em um cobertorzinho rosa. Não havia testes de DNA na época, mas todos acreditaram que Federica e a menina estivessem mortas. Estavam errados, entretanto. A criança sobreviveu e, com o nome de Miranda, viveu o tempo todo debaixo do nariz de toda aquela gente. – Eu sabia que você estava escondendo alguma coisa, mas nunca imaginei que pudesse ser algo assim. – disse Corrado – A probabilidade de essa mulher que supostamente ainda vive como escrava no rancho de Michael ser a sobrinha de Sal é praticamente a mesma de Jimmy Hoffa aparecer vivo amanhã, perambulando na esquina da Lincoln com a Orchard. – Estou começando a acreditar que qualquer coisa seja possível agora. – É verdade. – concordou Corrado – Ambos desapareceram na mesma época. Ficarei de olho pra ver se não encontro o Hoffa andando pela vizinhança. O tom de sua voz era tão sério que Vincent não tinha certeza de que estivesse realmente fazendo uma piada. Em geral nunca se podia ter certeza de nada em relação a Corrado, e Vincent não ousaria rir daquilo. – Então, quem quer que os tenha matado entregou o bebê para os Antonelli, e Frankie pegou a criança sabendo exatamente quem ela era. Então, ordenou que a esposa do colega mafioso fosse morta para que o segredo permanecesse guardado, pois sabia que aquilo seria sua sentença de morte. – Corrado concluiu, resumindo em apenas alguns segundos o que havia levado uma hora para Vincent tentar explicar. – E o mesmo teria acontecido comigo. – Claro. – Você compreende a razão para eu ter feito o que fiz, certo? – Vincent perguntou – Entende o motivo pelo qual não pude entregar a garota a ele? – Não estaríamos sentados aqui se pelo menos uma parte de mim não entendesse. – respondeu Corrado – Os efeitos colaterais teriam sido desastrosos. Não apenas você já teria sido morto, mas a vida dela também estaria em perigo. Squint tem certeza de que herdará a posição de Sal, acreditando no fato de que ele é o que de mais próximo o Chefe tem de um ente familiar. Carmine também está em perigo por causa do interesse de Sal por ele. Acrescentar a jovem a essa equação transformaria


ambos em alvos fáceis. – Isso sem mencionar o que tudo isso significaria para a organização. – completou Vincent – Nunca se conseguiu descobrir quem matou Joseph e Federica, ou o que foi feito do corpo dela. Sal certamente decretaria uma caça às bruxas e, nesse momento, já temos problemas suficientes. – Ele iniciaria uma nova guerra. – afirmou Corrado – Todos nós estaríamos em perigo. – Eu sei. Mas não estou preocupado comigo. Só não quero que as crianças sejam penalizadas por tudo isso. – Certo, então você quer que o Principe e a Principessa montem em seus cavalos brancos, partam rumo ao belo pôr do sol e sejam felizes para sempre, como num filme antigo? Não acha que isso é pedir demais? – ele disse, em tom de chacota – Bem, eu detesto lhe dizer isso, Vincent, mas vivemos num mundo real. Tenho uma chance melhor de tirar você dessa enrascada do que de manter esses jovens seguros. Honestamente não sei o que espera de mim. – Não estou lhe pedindo que faça nada. Apenas… Corrado o interrompeu. – Você está amolecendo. Não sei o que aconteceu com você, mas não gosto nada disso. Você diz que não quer me envolver, mas fez isso desde o primeiro dia ao enfiar minha esposa nessa história. – Eu não pretendia… – Claro, tenho certeza de que não pretendia, mas achei que entre todas as pessoas do mundo você fosse o primeiro a entender. Você perdeu sua esposa por causa disso e agora está me colocando na mesma situação! Para alguém que sofreu tanto com essa perda, você não hesitou em me colocar nessa sinuca. Que saber, tudo o que mais quero agora é recusar seu pedido… mas não posso. Tenho que ajudá-lo, mesmo esse ato sendo contrário a tudo aquilo que jurei em minha vida. Até porque, essa é a única maneira de proteger Celia. – Corrado o encarou com seriedade – É melhor que essa menina valha a pena, Vincent. – Ela valia muito para Maura. Frustrado, Corrado esfregou o rosto com as mãos. – As coisas que não fazemos por causa das mulheres. O que deu em você para pensar num teste de DNA, afinal? Você já sabia perfeitamente quem eram os pais dela. Vincent respirou fundo. – Eu precisava de um green card para a menina. – Um green card? – ele perguntou, incrédulo. – Sabia que seria arriscado demais tentar conseguir uma certidão de nascimento para ela, então pensei que seria uma boa ideia conseguir estabelecê-la legalmente aqui. Já que seu pai é um cidadão americano, ela conseguiria facilmente a aprovação, desde que a relação pudesse ser estabelecida. Sei que Michael não conco rdaria facilmente, então imaginei que apresentar-lhe um teste de DNA seria capaz de convencê-lo. – E não podia ter me perguntado? – Eu lhe disse, não queria envolvê-lo. Corrado balançou a cabeça em reprovação. – Acha que Michael Antonelli sabe de quem a menina é parente? – Duvido. Ele não teria concordado tão fácil em abrir mão dela. Com certeza teria pedido muito mais. Também tenho certeza de que ele não soube de nada quando… quando aquilo tudo aconteceu. Corrado o olhou intensamente. – Já se passaram cinco anos, não é? – Exatamente hoje, cinco anos. Primeiro de junho, aniversário do dia em que Vincent DeMarco chegou ao fundo do posso. A maioria das pessoas acreditaria que seu pior momento tivesse sido a morte de sua esposa, ou o ano


seguinte em que sequer conseguira encarar seus próprios filhos, mas o pior viria anos depois… Fechando os olhos ele ainda podia sentir o ar quente soprando em seu rosto, enquanto acelerava por aquela estrada desolada. As mãos dele tremiam, seu corpo precisava urgentemente de descanso, mas não havia como parar. Chegara longe demais para desistir. O celular tocou alto no banco do passageiro; a luz verde iluminando a escuridão. Seu coração bateu mais forte ao ouvir aquele som; a adrenalina fluiu pelo seu corpo. E como fizera nas últimas dez vezes em que o telefone tocara, ele novamente ignorou a chamada. Ele estivera dirigindo por vinte e seis horas, desrespeitando abertamente o código. Naquele momento não se preocupava com o futuro. Ele só queria vingança. Ele estivera na noite anterior na casa em Lincoln Park e ficara de pé diante do homem que controlava sua vida, de quem ouviu as cinco palavras que o impulsionariam ao longo de todo o caminho: Frankie Antonelli foi o responsável. Frankie Antonelli foi o responsável. Quanto mais Vincent se aproximava do rancho escondido no meio do deserto, mais nervoso ficava. Porém, poucos quilômetros antes da entrada que levava à propriedade, viu as luzes de outro carro vindo em sua direção. Vincent diminuiu e observou enquanto o veículo familiar passou. Ele ficou furioso. Frankie Antonelli foi o responsável. Vincent fez a volta e acelerou rapidamente para alcançá-lo. As luzes vermelhas do freio se acenderam quando o motorista do carro da frente percebeu a aproximação. Frankie poderia facilmente ter escapado, mas quando percebeu o que de fato estava acontecendo já era tarde demais. Girando rapidamente o volante, atirou o carro contra o dele, batendo na parte traseira. Ele sentiu um forte impacto no peito com a batida; sua visão ficou turva e ele mal conseguia respirar. O carro de Frankie derrapou e chocou-se contra uma grande pedra que ladeava a estrada, capotando algumas vezes no deserto. Vincent conseguiu girar o volante antes de parar na direção oposta. Seu carro estava praticamente intacto sobre as quatro rodas, mas a fumaça e o pó levantados pela colisão fizeram seus olhos lacrimejarem. Ele esfregou o rosto para tentar clarear a visão e respirou fundo. Pegou a pistola no painel e deixou o carro, caminhando com as pernas trêmulas. Frankie Antonelli foi o responsável. O carro de Frankie estava completamente destruído; a parte da frente já não existia por causa do impacto. Quando Vincent se aproximou, ouviu um barulho vindo do lado do motorista. O vidro estava estilhaçado no chão. As pernas de Frankie estavam esmagadas sob as ferragens; Monica, a esposa dele, estava desfalecida no banco do passageiro, com sangue escorrendo do ouvido. Encarando Frankie, Vincent pôde ver lágrimas em seus olhos, então ele se aproximou e disse com a voz estranhamente calma. – Frankie Antonelli foi o responsável. Frankie ainda tentou se proteger, mas Vincent, tomado pela ira, se abaixou e o espancou violentamente com a coronha de sua arma. Quando recobrou o controle, o corpo no assento do motorista estava completamente irreconhecível e as mãos de Vincent, tingidas de vermelho. Ele respirou algumas vezes, tentando ignorar a dor no peito enquanto retornava ao seu carro. O cheiro de gasolina que vazava dos destroços era forte. Vincent procurou nos bolsos e encontrou um maço amassado com apenas um cigarro dentro dele. Ele o acendeu, deixando que a fumaça queimasse seus pulmões e a nicotina acalmasse seus nervos. Depois de algumas tragadas, ele simplesmente atirou a bituca ainda acesa na direção do carro destruído, incendiando-o na hora. Vincent entrou novamente em seu carro e dirigiu até o rancho dos Antonelli, estacionando na


entrada. O lugar parecia desabitado, mas não estava. Havia pessoas ali, e ele sabia exatamente onde encontrá-las. Sem pensar muito, Vincent foi direto para o estábulo para pegar a garota. Ele o faria por Maura. Salvaria a vida daquela criança, resgatando-a de toda aquela imundície. Ele parou ao vê-la deitada no canto de uma cocheira, sobre um colchão velho e sujo. O cheiro de esterco era forte. Deu alguns passos em direção à menina para olhá-la melhor e viu que ela segurava um livro nos braços. Tão pequena, tão frágil; ela parecia tão indefesa, mas Vincent não se deixou enganar. O desespero voltou a tomar conta dele. Ele levantou a arma e, sem hesitar, apontou para a cabeça da criança e puxou o gatilho. Vincent ficou confuso quando nada aconteceu: nenhum som; nenhum grito; nenhum sangue. Seu revólver Smith & Wesson nunca havia falhado antes. O som da voz de Corrado o trouxe de volta ao presente, afastando-o daquelas lembranças terríveis. – E essa foi a última vez que você matou alguém? Vincent suspirou e respondeu. – Sim. – Bem, desde que perceba que terá de matar novamente, não haverá problemas. – Obrigado. – disse Vincent enquanto Corrado se preparava para sair. – Não me agradeça. Você ainda pode morrer.


Capítulo 34

No momento em que entrou pela porta, Carmine logo percebeu a presença do tio. Corrado olhou para ele, observando-o da cabeça aos pés, como sempre fazia. Haven abaixou a cabeça e se concentrou no piso de madeira. Carmine a protegeu instintivamente, abraçando-a. – Olá, Corrado – disse Carmine, acenando com a cabeça. O tio devolveu o cumprimento. – Olá, Carmine. O rapaz podia sentir a jovem tremendo; sua respiração estava ofegante. Ele suspirou e se inclinou na direção dela, buscando desesperadamente pelas palavras que deveria dizer. O que poderia colocar um fim no medo que surgira após ter sido torturada durante tantos anos e ver diante de si o homem que se abstivera de ajudá-la? – Ele é um cara decente. – disse Carmine – Quer dizer, tirando os assassinatos que tem nas costas. Sim, mas aquele não era o problema. Haven agarrou o braço de Carmine e cravou as unhas em sua pele. – Essa é minha namorada, Haven. – disse Carmine – Não sei se você chegou a conhecê-la. Todos olharam para ele, mas Carmine sentiu Haven mais relaxada em seus braços. A jovem afrouxou assim que Corrado se virou para ela. – Não, ainda não tive o prazer. Haven permaneceu em silêncio por um momento antes de falar, com a voz trêmula: – Prazer em conhecê-lo, senhor. Ela esticou a mão e cumprimentou Corrado. Carmine ficou surpreso ao testemunhar aquele gesto: ela estendera sua mão para o homem que jamais se preocupara em ajudá-la. Corrado pareceu tão atônito quanto Carmine ao retribuir gentilmente o cumprimento. – Digo o mesmo, senhorita. Bem, se vocês me dão licença, vou subir e descansar. Ele subiu as escadas e Carmine sorriu quando Haven olhou para ele. Os olhos dela estavam cheios de curiosidade. – Sua namorada? Ele sabe perfeitamente o que eu sou. Ele balançou negativamente a cabeça. – O que você é, Haven, é minha namorada. – Mas… – Não tem nenhum “mas”. Pare de pensar em si mesma dessa maneira. São apenas detalhes técnicos. – ela sorriu ao ouvi-lo usar aquela palavra – São rótulos que as pessoas nos dão. Mas eles não nos tornam quem somos. Se você é uma escrava, então tudo o que eu sou é um Principe. É isso o que sou pra você? Um Príncipe da Máfia? – Claro que não. – Foi isso o que pensei. – ele disse – Só porque algumas pessoas nos veem dessa maneira, não significa que sejamos assim. Superaremos juntos nossos rótulos. Eles não nos transformam no que não somos; nós nos transformamos no que queremos ser. Quero que todos esses filhos da puta se fodam. Ela riu. – Ei, quando foi que você se tornou assim tão sabido? – Tesoro, eu sempre fui sabido e esperto. – ele brincou – Sou apenas preguiçoso demais para


demonstrar minha inteligência com mais frequência.

O clima estava pesado durante o jantar naquela noite. Haven parecia desconfortável, então Carmine colocou a mão em sua perna e fez um carinho. Ao término do jantar, cada um foi para o seu lado e Haven seguiu para a cozinha para lavar a louça. Celia foi atrás dela. Carmine parou na porta e ficou observando, sem se intrometer. Ele estava encostado no batente, vendo enquanto ela colocava tudo na máquina de lavar, quando ouviu uma voz atrás dele. – Preciso vê-lo em meu escritório. – disse Vincent. Carmine olhou para o pai para se certificar de que não havia feito nada que seu pai lhe dissera para não fazer, mas logo percebeu que esse não era o caso. – Tudo bem, subirei num minuto. Depois de se certificar de que Haven estava bem, subiu as escadas e entrou no escritório do pai. Ele hesitou por um momento na porta ao perceber a presença do tio. – Ele alguma vez bate à porta? – perguntou Corrado. – Digamos que ele está se acostumando aos poucos. – respondeu Vincent. Carmine resmungou ao sentar à mesa. – Vocês me chamaram aqui para me dar uma lição de etiqueta? – Não, mas é importante ter boas maneiras. – retrucou Corrado – Isso me faz lembrar quando minha mãe nos perguntava se havíamos crescido em um estábulo quando esquecíamos nosso lugar. – Certo, mas sabe de uma coisa, sua mãe é uma cadela. – as palavras saíram antes que Carmine as tivesse registrado – Merda, o que eu quis dizer é que algumas pessoas são de fato criadas em estábulos. O que não é exatamente um exemplo de boas maneiras. Corrado o encarou com um olhar tão severo que Carmine começou a suar. Vincent apenas sorriu, se divertindo com a situação. Carmine queria dizer ao pai que não havia nada de engraçado naquela situação, mas não ousou abrir a boca. Era óbvio que era capaz de dizer coisas que não deveria. – Acho que era exatamente isso que estava tentando lhe dizer quando você me interrompeu com esse comentário sobre minha mãe. – disse Corrado – Corrija-me se eu estiver errado, mas a sua namorada é uma daquelas pessoas e, mesmo assim, é mais educada que você. – Você aprende a fingir respeito pelas pessoas quando elas ameaçam sua vida, querendo ou não ser educado. – Carmine retrucou – Eu me arriscaria a dizer que a metade das vezes em que Haven diz “sim, senhor” por dentro ela está gritando “foda-se, seu filho da puta!” – Você quer ser iniciado nessa vida algum dia, Carmine? – Corrado perguntou. A súbita mudança de tópico pegou o rapaz de surpresa. – O que disse? – Protelar é desnecessário. Você reage de maneira impulsiva, então apenas responda. Quer ser iniciado nessa vida? – Eu não penso… Corrado o interrompeu com a voz afiada. – É isso mesmo, você não pensa. E está prestes a despertar para uma realidade bem ruim se pretende se engajar nessa vida, pois tudo o que acabou de dizer sobre ser forçado a respeitar pessoas que preferiria não respeitar por causa do controle que elas exercem sobre sua vida, tudo isso se aplica a todos nós aqui. Se esquecermos nosso lugar levamos uma bala na cabeça. Ponto. Então, se a resposta para a minha pergunta for “sim”, aconselho você a aprender algumas coisas com aquela


jovem que foi criada num estábulo e pelo menos agir de maneira respeitosa diante daqueles por quem não tem nenhum respeito. – Não. – Carmine respondeu. Os olhos de Corrado se estreitaram diante daquela resposta. Ele soava como se estivesse deliberadamente tentando ser duro – Eu quis dizer que a resposta para sua primeira pergunta é não. Corrado caminhou em direção a Vincent. – Agora você continua. Vincent respirou fundo. – Precisamos conversar sobre o que viu no cofre. Carmine não tinha certeza de que queria mesmo ouvir a verdade em voz alta, mas sinalizou para que o pai continuasse. Pelos vinte minutos seguintes, Vincent discorreu sobre as guerras do submundo e todas as vidas que haviam sido destruídas; falou sobre a evidente devastação depois que toda a poeira havia baixado. Embora Carmine não ficasse surpreso, aquelas palavras ainda o deixaram preocupado. – Então, ela faz parte da realeza da Máfia? Vincent confirmou com a cabeça. – Agora você compreende a seriedade da situação? – perguntou Corrado – Embora a intenção de seu pai tenha sido boa, ele está fazendo exatamente o que Frankie fez – mantendo sangue real da Máfia em sua posse. Farei de tudo para abafar isso, mas há uma chance de que a verdade venha à tona. E quando isso acontecer, todos nós estaremos em perigo. Especialmente você e ela. – Por que nós dois especificamente? – Porque seu pai e eu seríamos mortos, Carmine. – explicou Corrado – E vocês dois se tornariam peões num jogo de xadrez. Carmine ficou em silêncio, tentando compreender tudo aquilo. – Algo não faz sentido para mim. Por que Frankie arriscaria a vida dele mantendo aquela criança? E por que ele não vendeu Haven? Ele não ligava pra ela. – Não temos como saber com certeza. – disse Corrado – Mas Monica Antonelli não era uma mulher mentalmente estável. Ela era, ah… – ele gesticulou como se tentasse pensar numa palavra – Fuori come um balcone… completamente pazza, maluca. Foi por essa razão que eles se mudaram para o deserto. Para que ela descansasse, se reabilitasse de seu colapso nervoso. Mas isso jamais aconteceu. Acredito que Frankie tenha se aproveitado dessa situação infeliz para tentar ajudar sua esposa a melhorar. Ninguém jamais suspeitaria, afinal eles viviam tão longe que ela jamais seria vista por alguém que a conhecesse. – Além disso, ninguém mantém bebês como escravos. – Vincent acrescentou. Não se pode colocar uma fedelha de fraldas para lavar pratos ou cozinhar. E justamente por causa disso, ninguém teria considerado que ela tivesse sido vendida em vez de assassinada. Crianças escravas terminam sempre no mesmo lugar. Eles podem ter quebrado as regras de conduta e matado inocentes, mas alguns limites jamais seriam cruzados, por nenhum de nós. Carmine respirou fundo. Havia muito em que pensar. – Isso é tudo? Posso ir agora? Corrado sorriu. – É, ele pode até invadir o lugar sem bater, mas tem bom senso o suficiente para esperar até ser liberado. – Nem sempre. – disse Vincent – Às vezes ele simplesmente se levanta e sai.


Na manhã seguinte, Haven preparava o café da manhã enquanto Carmine a observava a distância. Havia momentos em que ela agia como uma garota normal, rindo e brincando, mas assim que Corrado se aproximava, ela se afastava rapidamente. Aquilo fazia Carmine se lembrar da mãe, o que não servia para melhorar seu humor. Sentindo-se nostálgico, a tristeza e a saudade tomaram conta dele. Aquela não era sua formatura e ele se sentia chateado. O rapaz encheu um frasco de vodca antes de todos irem para a escola. Pouco depois, ele estacionou o Mazda e saiu do carro enquanto Haven olhava nervosa ao seu redor. – Relaxe, beija-flor. Só estamos aqui para ajudar meu irmão a dizer adeus a essa escola. – Só não quero constranger ele. Ele colocou o braço ao redor dela. – Você nunca me constrangiria. – Mas e se eu rolar escala abaixo na frente de todo mundo? – Você não terá de descer nenhuma escada. – Bem, não preciso de escadas. E se eu apenas tropeçar e cair? – Você não vai cair. Eu a segurarei. – E se eu cair e ainda levar você comigo? – Ah, você acha que consegue me derrubar? – ele perguntou brincando – Então acho que vou cair com você. Detesto ter de concordar com você, mas isso também não me deixará sem graça. – Mas e se… Quando Haven finalmente terminou de fazer suposições trágicas, todos já estavam sentados em seus lugares e seguros no fundo do auditório montado no jardim da escola. A cerimônia teve início e a classe que se formava fez sua entrada triunfante. Haven assistiu a tudo com os olhos arregalados. Apesar de tudo aquilo parecer um tanto ridículo para Carmine, soava bastante significativo para a jovem. Ela jamais tivera a oportunidade de frequentar uma escola. Carmine não sabia o que dizer, então, ficou ali sentado ao lado dela, apreciando em silêncio enquanto o diretor Rutledge falava sobre quão orgulhoso estava. Em geral, Carmine não prestava atenção àquilo que ele considerava um monte de baboseiras e cujo intuito era inspirar os formandos. Haven, porém, ouvia com tamanha paixão que isso o fez prestar atenção e ouvir o que ela estava escutando. – Parem por um minuto e imaginem seu futuro. – disse o orador depois de subir ao palco – Imaginem sua vida: seu emprego, sua esposa, seus filhos, mas não pensem apenas no futuro que os aguarda. Esqueçam todas as expectativas e concentrem-se apenas naquilo que vocês querem de verdade. Visualizem a estrada que os levará até lá. Esse é o caminho a seguir. É nele que precisam se focar. Carmine puxou Haven para perto dele, beijando seus cabelos quando ela deitou a cabeça em seu ombro. – Nenhum homem verdadeiramente grandioso chegou ao topo fazendo o que achava que era obrigado a fazer. Se Isaac Newton tivesse se tornado um farmacêutico como queria a mãe dele, ou se Elvis tivesse ouvido o conselho para continuar dirigindo caminhões, hoje não conheceríamos nenhum dos dois. O discurso seguiu em frente e Haven absorveu cada palavra. A turma atirou os capelos para o alto e todos começaram a se dispersar. Haven parou ao lado de Tess e Dia num jardim e Carmine se sentou na mureta que ficava a distância. Ele a observou em silêncio, admirando cada sorriso. Dominic se sentou ao lado dele, ainda vestindo sua beca azul. – Parabéns! – disse Carmine, tomando um longo gole da bebida antes de oferecer o frasco ao


irmão. – Obrigado. – disse Dominic ao aceitar a bebida – Sabe, Haven parece feliz. Carmine concordou com a cabeça, ainda olhando para a jovem. Ela estava rindo de alguma coisa. – É, de fato ela parece feliz. – Ela mudou pra caramba nesses últimos nove meses. Não é mais aquela garota assustada que um dia apareceu em casa. E ela é esperta também. Estou me formando e no outro dia ela me corrigiu quando disse uma palavra errada. Eu disse que me sentia nauseoso e ela se virou e disse que a palavra que eu queria era nauseado. Caramba, mano, eu nem sabia que o sentido era diferente. Carmine sorriu. – É, acho que isso é bem a cara dela. – E ela também não dá mais aqueles pulos e se contrai assustada. – É, eu também detestava quando ela fazia aquilo. Os irmãos revezaram a bebida mais uma vez, antes de Dominic falar novamente. – Foi por causa dela, não foi? – Carmine confirmou com a cabeça e o irmão suspirou, devolvendo o frasco – É, eu imaginei. Você estava com aquela cara durante a nossa reunião de família, como se ela tivesse estraçalhado seu carro ou algo do tipo. Era a única coisa que fazia sentido. Carmine respirou fundo, sentindo-se culpado por tê-la responsabilizado pela morte da mãe. Ainda havia momentos em que a verdade era difícil de ser encarada. Sempre iria doer, mas era uma dor com a qual teria de se acostumar. – Acho que a mamãe teria ficado feliz em ver ela. – comentou Dominic – Digo, para ver o quanto ela mudou. Acho que era exatamente isso que ela queria, e você fez no lugar dela. – Eu não fiz nada. Dominic soltou uma gargalhada. – O caralho que não fez. Acha que tudo isso foi um feito do papai? Ele trouxe ela para cá, mas foi você quem fez a diferença. A mamãe sempre disse que você faria coisas maravilhosas na vida, e hoje eu vejo isso, porque independentemente do que fizer amanhã, Carmine, o que importa é o que fez hoje. Carmine olhou para Haven enquanto pensava sobre as palavras do irmão. Ela parecia tão relaxada, tão confortável, tão normal perto das outras garotas. Só de olhar para ela, rindo e conversando, era difícil imaginar que ela havia passado por tudo o que passou. – Tudo o que eu fiz foi amar Haven. – Já parou pra pensar que talvez fosse disso que ela precisasse? Às vezes a gente não tem que fazer nada especial, apenas sermos nós mesmos e estarmos presentes. Os dois continuaram lá até que a bebida chegasse ao fim. Carmine colocou o frasco no bolso e Dominic se levantou. – Sabe o que é meio engraçado? Bem, não exatamente engraçado, mas talvez irônico? Ela tem vivido com a gente há nove meses, e leva nove meses para se criar uma vida. É como se ela tivesse renascido. Dominic deu alguns passos, então parou e franziu o cenho. – Na verdade, não acho que isso seja irônico. É bem provável que Haven me corrigisse novamente e dissesse que a palavra correta seria “simbólico.” Carmine deu risada. – Ou “metafórico.”


Capítulo 35

Um arrepio correu pelo corpo de Carmine, fazendo com que seus músculos ficassem cada vez mais tensos. Haven o encarou enquanto dormia, observando o movimento no peito do jovem. Ela sentiu algo dentro de si; um calor surgiu em seu peito, o que a assustou e a fez sentir como se estivesse flutuando no ar. Aquilo era esperança. Haven pegou o cobertor e cobriu Carmine antes de sair da cama. Ela se vestiu, olhando para ele uma última vez antes de descer para a cozinha. Retirou do armário todos os ingredientes para preparar um bolo de creme italiano e já estava com a massa pronta quando ouviu passos fora da cozinha. Eles pararam, como se alguém estivesse tentando passar despercebido. Mas Haven percebeu. Suas mãos começaram a tremer conforme ela despejava a massa em fôrmas e tentava ignorar aquela presença. Ela então colocou tudo no forno e ligou o timer. Um calafrio desceu pela espinha da jovem quando Corrado finalmente abriu a boca, falando com a voz tranquila e sem emoção. – Bom dia. – Bom dia, senhor Moretti. – ela disse, virando-se para olhar para ele. Ele estava vestido com um terno preto. O paletó estava aberto e as mãos, no bolso – Posso lhe servir alguma coisa? Ele não se moveu; de fato ele parecia tanto uma estátua que por um momento Haven imaginou se ele estaria respirando. – Não. – ele finalmente respondeu. Aquela palavra ecoou no tenso silêncio que se formara. Ela terminou de preparar a cobertura e ele se moveu em direção a ela. Em uma reação instintiva, a jovem deu um passo para trás. Se Katrina havia lhe ensinado algo, era ficar fora do caminho sempre que possível. Corrado pegou uma garrafa de água e deu um passo para o lado, observando um pouco mais. Nesse momento, o doutor DeMarco entrou e olhou de modo curioso para Corrado, antes de se voltar para Haven e cumprimentá-la: – Bom dia, dolcezza. Ela soltou um suspiro de alívio diante da gentileza em sua voz. – Bom dia, senhor. – Estou surpreso em vê-la de pé tão cedo hoje. – ele comentou – Suponho que Carmine ainda esteja dormindo. – Sim, senhor. O timer do forno tocou e Haven logo retirou as duas formas de bolo do forno. DeMarco mantevese de pé ao lado dela, olhando pela janela com uma expressão ansiosa. O sol já estava nascendo e iluminava a parte da frente da casa, assim como a floresta que cercava a propriedade. – Eles logo estarão aqui. – ele disse, voltando sua atenção para o bolo – Bolo de creme italiano. – Eu preparei para o aniversário de Carmine. Uma expressão de irritação surgiu no rosto de DeMarco. – É fascinante, não é mesmo? – perguntou Corrado – Nunca antes tive uma sensação tão forte de déjà vu. DeMarco cerrou os dentes, voltando-se novamente para fora. – Quando terminar, criança, preciso que se certifique de que Carmine esteja acordado. Eu faria


pessoalmente, mas algo me diz que ele provavelmente não está em trajes decentes. Ele enfatizou a palavra “decentes”, e Haven ficou vermelha. – Sim, senhor. Corrado deu risada. – Tenho certeza de que este é um daqueles momentos aos quais Carmine se referia, Vincent. DeMarco acenou negativamente a cabeça e saiu da cozinha, enquanto Corrado o seguiu lentamente. – Quando acordar Carmine, diga a ele que o padrinho dele logo estará aqui. – ele disse, sussurrando enquanto saía – Tale il padre, tale il figlio. Tal pai, tal filho.

Teresa Capozzi apreciava as coisas boas da vida: os carros importados mais velozes, os casacos de pele mais pesados e os vinhos Dom Perignon das melhores safras. Um ar de pura superioridade exalava de cada um de seus poros; o comportamento dela se baseava em pura ambição. Todos sabiam que a senhora Capozzi só se preocupava com ela mesma e sua próxima bebida. Ninguém gostava dela, nem o seu marido, com quem já estava casada há quarenta anos, mas isso não importava. Teresa Capozzi não queria que ninguém gostasse dela; queria que as pessoas a invejassem. Da janela da cozinha, Haven observou quando a mulher saiu do banco do passageiro do Porsche alugado e ajeitou seu vestido preto apertado. Em seguida, desfilou em direção à casa com seus sapatos de salto alto, ignorando Salvatore quando este tentou lhe dar o braço. Quanto mais Teresa se aproximava, melhor Haven conseguia enxergar a mulher, que mais parecia feita de plástico; o rosto dela não esboçava nenhuma expressão e estava coberto por uma pesada maquiagem. O corpo dela era desproporcional e cada parte dela parecendo ter sido esticada ou preenchida artificialmente. O doutor DeMarco cumprimentou o casal e Celia preparou as bebidas, ignorando Haven quando ela lhe disse que poderia cuidar de tudo. A jovem então preparou uma Coca-Cola com cereja para Carmine, completando o copo com um pouquinho de vodca. Ambas levaram os copos até a sala de estar, com a ansiedade de Haven aumentando à medida que se aproximava das visitas. Ela então esticou a mão trêmula e ofereceu o copo de uísque a Salvatore. – É bom revê-la. – ele disse. – Digo o mesmo, senhor – respondeu, evitando encará-lo. Em seguida ela ofereceu um copo de licor de laranja à esposa dele. – Aqui está, senhora. Teresa o pegou e o levou ao nariz. – Isto aqui não foi feito corretamente. – ela disse, devolvendo o copo à jovem com um tranco e derrubando um pouco do líquido no chão. – Sinto muito. – disse Haven, pegando o copo. Ela então se virou e quase deu de cara com Celia, que imediatamente tomou o copo de sua mão. – Imagine, devo estar perdendo a prática. Pensei que estivesse perfeito. Teresa olhou para Celia e Haven. – Devo ter me enganado. – ela disse, esticando a mão, pegando o copo e tomando um gole – Está perfeito, Celia, como sempre. – Eu imaginei que sim. – Celia respondeu, com um tom de prazer na voz – Todos nos enganamos às vezes, não é? A expressão no rosto de Teresa mostrava que ela não compartilhava da mesma opinião. Celia se sentou do outro lado da sala e Corrado se acomodou no braço da poltrona. Haven


entregou a bebida a Carmine e começou a se afastar, mas ele a puxou e a sentou no seu colo, colocando o braço ao redor da jovem para protegê-la. Teresa tossiu ao engasgar com a bebida. Ela então encarou DeMarco e soltou um riso amargo. – Teresa. – Salvatore alertou, mas ela simplesmente sorriu enquanto ele voltava sua atenção para Carmine – É uma pena que não possamos ficar muito tempo, Principe. Temos um voo marcado; vamos passar as férias na Flórida. Mas não podia deixar de passar aqui para cumprimentá-lo. – Obrigado. – disse Carmine – Não esperava te ver hoje. – Mas não é todo dia que meu afilhado completa dezoito anos. Essa é uma data muito importante. – Não me parece tão importante. Salvatore deu risada. – Mas é. Tem planos para esse verão? Carmine segurou Haven com mais força, mas respondeu com a voz tranquila. – Tenho uma viagem com o time de futebol da escola. Fora isso, acho que vamos apenas curtir um pouco antes de meu irmão viajar. – E depois que o verão terminar? – Bem, acho que o último ano na escola será um pouco puxado. Salvatore ergueu as sobrancelhas. – E depois que terminar a escola? Carmine ficou em silêncio por um momento, então disse. – Acho que vou pra faculdade. O sorriso de Salvatore se tornou mais discreto. Ele olhou para DeMarco como se esperasse que ele dissesse alguma coisa, mas ele permaneceu em silêncio. – E a garota? – perguntou Salvatore, voltando o olhar para Haven – Estou curioso quanto ao que sua família pretende fazer com ela. Considerando a situação, imagino que não pretenda permitir que ela seja vendida. Os olhos de Carmine se estreitaram. – Claro que não. – Claro que não. – Salvatore repetiu – Mas acho que depois que você partir para a faculdade, seu pai não se sentiria confortável em viver aqui sozinho com a jovem. Pense nas fofocas. Tenho certeza de que os rumores e boatos já começaram. DeMarco pigarreou e disse. – Aos poucos eu venho deixando que ela se acostume ao mundo lá fora, para que possa viver nele. – Isso é muito nobre de sua parte, Vincent, mas não tenho certeza de que seja algo inteligente a fazer. – retrucou Salvatore – Ela deve saber de muita coisa. Como poderemos ter certeza de que não sairá por aí falando o que viu e ouviu? DeMarco olhou para a jovem e disse. – Eu respondo por ela. Salvatore respondeu com uma risada maldosa. – Depois do que aconteceu quando… Bem, você sabe… Não acho que sua opinião possa ser considerada neste caso. – A situação é bem diferente. – retrucou DeMarco. – Sim, é verdade, Vincent. Você conhece perfeitamente os perigos e riscos. Você não poderá soltála para o mundo sem que alguém responda pelas ações dela, e não acho que esteja em condições de fazê-lo. Haven sentiu-se nauseada ao ver seu destino sendo discutido como se ela não estivesse presente, mas igualmente chocada pelo fato de o doutor DeMarco pretender deixá-la ir. Ela não compreendia a razão pela qual aquele homem tivera o trabalho de pagar por ela se planejava deixá-la livre.


– Talvez ela pudesse vir comigo. – disse Salvatore – Eu mesmo tomaria conta dela em minha casa. – De jeito nenhum. – retrucou Carmine – Se precisa que alguém responda pelos atos dela, eu mesmo o farei. Salvatore balançou a cabeça, em reprovação. – Você não pode responder por ela, uma vez que não faz parte da organização. Além disso, tenho certeza de que levá-la para minha casa é o melhor a fazer. Todos se encontravam num impasse quando outra voz se pronunciou, calma e firme – Eu o farei. A atenção de todos se voltou para Corrado. – O quê? – perguntou Salvatore. – Eu disse que responderei pela garota. – repetiu. Salvatore o encarou como se um golpe o tivesse acertado. – Tem certeza de que deseja fazer isso? – Não se trata de querer. – respondeu Corrado – Se é algo necessário, eu o farei. Confio em Vincent quando ele diz que ela não falará e, se ela o fizer, eu mesmo cuidarei dela. É tudo muito simples.

As visitas se foram por volta das seis da tarde, e Carmine abriu os presentes que ganhara de sua família. Sentindo-se desconfortável por não ter lhe comprado nada, Haven assistiu enquanto os outros o bombardeavam com uma infinidade de pacotes. Depois disso, todos resolveram assistir a um filme, mas Haven não conseguia se concentrar na tela. Depois de algum tempo, ela disse a Carmine que iria subir e ficar um pouco sozinha. Foi direto para o quarto dela, agarrou um travesseiro e dormiu. Foi acordada mais tarde, quando sentiu um movimento no colchão. Piscou algumas vezes, ajustando os olhos à escuridão. Carmine se deitara ao lado dela. – Oi. – Oi. – ela disse, sonolenta – Que horas são? – Meia-noite. – ele disse, no momento em que ela o abraçou. O corpo dele estava quente e exalava uma mistura de colônia e fumaça – Nós assistimos Scarface. Imagine só. – Legal. – ela disse, embora aquele título soasse como um filme de terror para ela, fazendo-a se lembrar de monstros deformados. Foi então que alguns de seus próprios fantasmas surgiram em sua mente e ela apertou os olhos para fazê-los desaparecer – Eu sinto muito por não ter lhe dado nada de presente de aniversário. – Tenho tudo de que preciso, Haven. Agora nós dois podemos ficar juntos. – Eles realmente quiseram dizer aquilo a meu respeito? Carmine enfiou o rosto nos cabelos da jovem. – Sim. A confirmação mexeu com as emoções de Haven. – Mas é assim tão fácil? Ele suspirou. – Eu não chamaria de fácil. O mais difícil ainda está por vir. Mas, a partir de agora, você poderá fazer o que quiser: frequentar a escola, casar comigo, encher a casa de crianças, se for isso o que desejar, é claro. Você também poderia me dar um chute na bunda, se preferir. Ela ficou surpresa por ele pensar naquilo.


– Eu jamais deixarei você. – É muito bom ouvir isso, beija-flor. Mas só estou dizendo que você poderia, se quisesse. – O que quer dizer quando alguém responde por você? Em princípio ele ficou em silêncio e ela quase caiu no sono imaginando que ele não estava em condições de responder. Mas ele finalmente falou, em voz baixa: – Quer dizer que essa pessoa se coloca como garantia de sua fidelidade. Os escravos não são os únicos que pagam pelos erros dos outros, Haven. Corrado se comprometeu com Salvatore; ele jurou que se você cometesse um erro, ele pagaria por ele com a própria vida. Ela empalideceu. – Mas eu não quero que ninguém se machuque por minha causa. – Corrado sabe o que está fazendo. – ele respondeu – Você pode não confiar neles, mas precisa confiar em mim quando lhe digo que essa é a única saída, doçura. É o único jeito de você poder ser livre. Livre. Certa vez ela olhara o significado daquela palavra no dicionário que Carmine lhe dera de presente, e memorizou os sinônimos que apareciam na página: independente, liberto, solto, autônomo, soberano, anistiado, inocentado, desimpedido, irrestrito… Já os antônimos eram: preso, encarcerado, escravizado… Aquela última palavra definira sua vida até aquele momento, mas agora já não se aplicava mais. Hoje, por causa de Carmine, ela sabia o significado da palavra “livre” e logo, ele percebeu, também saberia como era a sensação de liberdade.


Capítulo 36

Carmine ainda estava tonto quando tentava se arrastar para fora da cama na manhã seguinte. Depois de tomar um banho, ele se olhou no espelho e percebeu que precisava urgentemente cortar o cabelo e fazer a barba. Fora isso, ele se parecia com o Carmine DeMarco de sempre. A mesma pessoa que vira cada dia de sua vida. Entretanto, ele já não se sentia o mesmo. Não que ele tivesse se tornado mais velho ou experiente, longe disso. Era por causa dela. Ele se arrumou, saiu do quarto e sorriu ao se deparar com Haven na biblioteca. Com as pontas dos dedos ela tocava nas lombadas dos livros. Então retirou um deles da estante e franziu a testa ao admirar a capa. Ele riu de sua expressão séria e ela se voltou para ele. – Não ouvi você sair do quarto. – Você não é a única que sabe andar sem fazer barulho, ninja. Ela recolocou o livro na estante. – Hum, bem, talvez eu deva te arrumar um sino. – Ei, pelo menos eu não faço as pessoas quase terem um ataque cardíaco. Você costumava me assustar, sabia? Em algumas ocasiões eu achei que precisaria de respiração boca a boca. Ela ergueu as sobrancelhas. – Não tenha tanta certeza. Você faz meu coração acelerar cada vez que se aproxima. Ele caminhou até onde ela estava e se inclinou para lhe dar um beijo, pressionando a palma da mão contra o peito da jovem. – E como está o coração agora? – Parece que vai explodir. – Mas não vai. – ele disse – Ele é forte; não vai se partir. O sorriso no rosto dela diminuiu. – Você promete? Carmine a encarou, confuso com a repentina mudança em seu comportamento. – Prometo. Farei o que for preciso para que ele continue batendo. – Que bom. – Muito bem, mas o que você está fazendo aqui na biblioteca? Ela se virou e olhou mais uma vez para os livros. – Estava procurando algo para ler. Sinto que deveria aprender alguma coisa. – Eu acabo de sair em férias escolares e você decide que é hora de aprender alguma coisa? Isso não faz sentido. – Eu sei, mas se vou ser uma pessoa livre, não deveria continuar sendo estúpida. – Você não é estúpida, mas não há nada de errado em aprender. E se você quer aprender, tudo bem, estou plenamente a favor. Aliás, sabe de uma coisa? Tenho uma ideia. Ele então pegou na mão dela e a puxou escada abaixo. Já no segundo andar, Carmine hesitou diante do escritório do pai e resolveu bater à porta. Corrado a abriu, saindo da frente para que o casal passasse. Haven ficou tensa ao se sentar à mesa, e olhava nervosa para Carmine enquanto Corrado se movia para o outro lado da sala. – Vocês precisam de alguma coisa? – perguntou Vincent por detrás de sua escrivaninha, com os dedos ainda no teclado do notebook. – Bem, eu estava imaginando se seria muito difícil conseguir um DEG para a Haven.


Vincent se encostou à cadeira, ajeitou os óculos no lugar e perguntou. – Agora? – Bem, não exatamente nesse minuto, mas o quanto antes. – Isso depende de para que você o deseja. – respondeu Vincent – Poderíamos mandar fazer um para ela, mas talvez percebam que é falsificado. – Mas que vantagem isso teria se ela não aprendesse nada? Estou falando em ajudar ela a conseguir tirar um diploma de verdade. – Ah, entendo. Bem, suponho que não seja assim tão difícil. Ela precisará de alguns documentos e uma carteira de motorista como prova de identidade, mas acho que posso mexer uns pauzinhos e conseguir isso para ela. Tudo o que teria de fazer é prepará-la para a prova. – Fala sério? É assim tão simples? Se eu soubesse disso antes. – Não comece a ter ideias mirabolantes, filho. – disse Vincent – Você já chegou até aqui e pode perfeitamente terminar o colégio. Ela não teve essa oportunidade, mas não há razão para não se inscrever para o DEG se quiser. Haven olhou para os dois. – DEG? – Quer dizer Diploma de Educação Geral – explicou Carmine –, ou Diploma de Equivalência Geral. Ah, sei lá. Corrado balançou a cabeça e disse. – Desenvolvimento Educacional Geral. – Ah, isso não importa, poderia significar até Distúrbio Endócrino Generalizado. Vincent soltou uma gargalhada. – É Transtorno Endócrino, filho, e você acabou de desejar que sua namorada sofresse de deficiência hormonal. – Não, não quero isso pra ela. – respondeu Carmine – Eu estou falando de um diploma. Haven ergueu a cabeça. – Um diploma? – Sim. – ele disse – É só um pedaço de papel, mas significa que sabe o suficiente para ir para o ensino médio. Depois você poderá até entrar numa faculdade. Os olhos dela se arregalaram. – E eu posso conseguir um desses diplomas? Esse DEG? – Sim, tesoro. – respondeu o rapaz. – Se quiser ter um – Vincent completou –, a decisão é sua. Os olhos de Haven se encheram de lágrimas. O homem que controlava sua vida, seu mestre, acabara de lhe dizer que a decisão caberia a ela. Ela tentou falar, mas nenhum som saiu de sua boca, então ela apenas acenou afirmativamente. – Então está decidido. – disse Vincent – Tenho certeza de que encontrarão materiais disponíveis online. Mas para ir em frente precisarão aguardar pelos documentos. Vincent voltou a se concentrar no notebook. A conversa estava encerrada. No momento em que os dois pisaram no hall, Haven se atirou para cima do rapaz, que quase perdeu o equilíbrio, mas conseguiu segurá-la firme e erguê-la para que colocasse as pernas ao redor do corpo dele. Haven enfiou o rosto no pescoço do namorado e os dedos por entre os cachos. Carmine ficou surpreso e em silêncio, sem conseguir fazer nada além de ficar ali e abraçá-la.


Quando chegaram à cozinha, Carmine tirou o bolo da geladeira e Haven ficou observando enquanto ele pegava uma fatia. – Então, gostou do bolo? Ele pegou um garfo. – Bolo de creme italiano sempre foi o meu favorito. – É mesmo? Ele sorriu, enfiando uma garfada na boca. – Bem, agora definitivamente é. Haven riu no momento em que Dominic entrou na cozinha. – Ei, não acredito que esteja comendo sozinho. Isso é trapaça. Dando de ombros, Carmine sentou-se no balcão enquanto Domimic cortava uma enorme fatia de bolo para ele. Logo o resto da família se juntou, Corrado e Celia também pegaram suas fatias e se colocaram ao lado. DeMarco foi à geladeira e pegou uma garrafa de água. Ao virar-se, viu que todos estavam comendo e se voltou para o bolo. – Já experimentou, pai? – perguntou Dominic. – Não. Dominic cortou outra fatia e a colocou num pratinho, entregando-o ao pai. – Deveria. – Acho que não. – disse Vincent, olhando para o bolo com certo desgosto. Dominic ergueu os ombros. – Você não sabe o que está perdendo. Este é o melhor bolo que já provei. Ela é uma ótima cozinheira. – É verdade. – disse Carmine – É provável que seja o espírito italiano dentro dela. Ele ficou tenso ao perceber o que havia dito e reparou que seu pai tivera a mesma reação. Vincent abriu sua garrafa de água e tomou um gole, enquanto Carmine tentava achar algo para dizer e mudar de assunto. Porém, antes que encontrasse as palavras, Dominic caiu na risada e disse: – É, só pode ser. Todo mundo aqui sabe o quanto Carmine tem se dedicado a colocar seu espírito italiano dentro dela. Vincent engasgou com a água e começou a tossir. Celia levou a mão à boca tentando conter o riso, mas Dominic não se importou e caiu na gargalhada. Porém, o riso acabou quando Vincent olhou para o filho mais velho com reprovação. Carmine esperou que ele dissesse alguma coisa, mas ele apenas saiu. Depois que ele já havia se afastado, todos começaram a rir novamente. Haven olhou para Carmine, confusa. – Pensei que sua origem fosse parcialmente irlandesa. Carmine tentou abrir a boca para responder, mas a fechou novamente, balançando negativamente a cabeça. Não havia como explicar aquilo sem embaraçá-la na frente de todos.

A noite caiu e a casa ficou tão silenciosa como um cemitério. Vincent estava em seu escritório, olhando para o prato que havia sobre a escrivaninha. A pequena fatia de bolo era suficiente para que ele provasse, mas a ideia de fazê-lo o deixava nauseado. Maura costumava fazer bolo de creme italiano. Era sua sobremesa favorita. Vincent pegou na pequena aliança que trazia pendurada no pescoço; ela não entrava nem até a metade de seu dedo mindinho. O metal estava frio sobre a pele, mas nem tanto quanto ele se sentia


internamente. Depois de olhar para o bolo por mais um minuto ele pegou o prato e o atirou na lixeira, fazendo um barulho seco ao tocar na lata vazia. Vincent não pensou mais naquilo. Voltou a colocar a corrente por dentro da camisa, escondendo a lembrança da esposa, então pegou uma pilha de papéis que estava na escrivaninha. Exames de raio-X, laudos laboratoriais, doenças, alergias, infecções, vírus. Era um diagnóstico ruim atrás do outro, mas Vincent preferia aquilo aos pensamentos que não saíam de sua cabeça. Apesar das tantas vidas que ele destruíra, do número de pessoas que ele vira morrer, também havia muita gente que ele salvara. E, por mais cansado que estivesse, em algum lugar naquela pilha de papéis deveria haver algum paciente que ele pudesse ajudar. Mesmo que temporariamente.


Capítulo 37

O calor suave de junho deu lugar ao verão de julho. Temperaturas elevadas varriam a região, provocando chuvas intermitentes ao longo do dia e algumas tempestades mais fortes. Os vaga-lumes voltaram a aparecer, brilhando no escuro. Uma sensação de felicidade se apossou de Haven. Todas as noites ela caminhava descalça pelo jardim ao lado de Carmine. A jovem subia nas árvores e tentava pegar os insetos; colhia flores e corria por entre os borrifadores de água. Carmine não tirava os olhos dela. O apoio dele se tornara inestimável para Haven, que não conseguia sequer imaginar passar um único dia longe dele. Entretanto, ela teria de aprender, e ambos sabiam disso. – Não vai se atrasar, cara? – perguntou Dominic ao entrar na sala de estar, onde ambos já estavam sentados. Haven suspirou, tendo feito a mesma pergunta há apenas alguns segundos. Ela estivera tentando convencer Carmine a sair pelos últimos trinta minutos, mas ele não se movia. Carmine escorregou no sofá. – Eu não vou. Dominic sorriu. – Está com medinho de se machucar? – Não estou com medo. – retrucou Carmine. – Então pare de choramingar e vá logo. Carmine resmungou algo ininteligível, sem demonstrar a menor intenção de se mover. Ele havia planejado passar uma semana treinando futebol em Chapel Hill. Mostrara-se sempre muito entusiasmado com a ideia e sempre falava sobre o que faria ao chegar lá. Haven ouvira todos os planos dele, embora não entendesse praticamente nada do vocabulário que ele usava quando falava do esporte. Ela apenas ficava feliz por ele compartilhar com ela. Todavia, naquela manhã, quando Haven abriu os olhos, não havia nenhum sorriso nos lábios do namorado. O entusiasmo desaparecera. Tudo o que ela viu foi a própria ansiedade refletida no rosto dele. – Você tem que ir. – ela repetiu. Ele por sua vez continuava a dizer a mesma coisa que estava a dizer desde que havia acordado. – Eu não vou! Foi então que ele começou a fingir estar interessado na TV, mas ela podia perceber seus olhos desviando na direção do relógio. O tempo estava passando. Ele deveria estar na Universidade da Carolina do Norte até as cinco da tarde, para se apresentar ao grupo, e já passava da uma hora da tarde. – Eu ainda estarei aqui quando você voltar. Ele desviou o olhar para ela e disse: – Mas é claro que vai. Onde mais você estaria? Ela suspirou; aquela não era a coisa certa a dizer. – Não se preocupe com ela, cara. – disse Dominic, parando atrás dos dois – Tenho planos para a sua namorada para a semana toda. Ela ficará tão ocupada que nem perceberá que você não está aqui. Haven sorriu, mas Carmine não acreditou naquelas palavras. – Você a colocará em mais enrascadas do que ela conseguiria se meter sozinha. – respondeu Carmine – E talvez seja justamente por isso que eu não deva ir. Dominic riu.


– Bem, se não vai, acho que é porque não deve confiar muito nela. Carmine ficou furioso. – Você não sabe o que está dizendo. – Está com medo de que ela não sobreviva sem você? – Eu sei que ela consegue. – Então, por que não vai? Carmine encarou o irmão, mas não respondeu. De repente a porta da frente se abriu e DeMarco parou no hall de entrada. – Pensei que a essa hora já tivesse partido. – ele disse, concentrando-se em Carmine – Não vai se atrasar? Carmine fez um bico. – Será que vocês podem largar do meu pé? Eu já vou, num minuto. DeMarco saiu da sala e Dominic deu um tapinha no ombro do irmão. – É isso aí, cara! Quanto antes sair, mais rápido eu e Haven começaremos a nos divertir. Carmine esfregou o braço, mas preferiu não responder ao irmão. Dominic saiu da sala e Carmine puxou Haven para perto dele. – Eu a esconderia em minha mochila se pudesse. – Não se preocupe. Vá até lá e faça uns gols bem bonitos e também uns passes corridos e tudo mais. – Eu sou zagueiro, tesoro. Não faço gols. E, aliás, não é passes corridos que se fala, é passes curtos. – Ah, tudo bem, então vá em frente, zagueiro. Ele sorriu e a soltou. – Não deixe que aquele cafone a force a fazer nada que não queira, hein? – Ok. Mas será apenas por uma semana, ficarei bem. – ela não tinha certeza de quem realmente ela estava tentando convencer com aquelas palavras, Carmine ou ela mesma. Ele deslizou as pontas dos dedos sobre o rosto dela e a beijou antes de se levantar. – Vejo você em poucos dias. – Até mais, Carmine. – ela disse, deixando-o ainda mais tenso. Ele então se abaixou, pegou suas coisas e com os passos trêmulos seguiu em direção à porta. Ela imaginou que ele ainda fosse se virar e dizer algo, mas ele apenas acenou com a cabeça. Haven se sentou na sala de estar e o observou enquanto saía. – Você definitivamente irá se atrasar. – comentou DeMarco. – Eu estou indo. Isso já não é o suficiente?

Naquela noite, o quarto de Carmine estava silencioso sem a presença do rapaz. Na ponta dos pés, Haven entrou e surrupiou o travesseiro favorito do rapaz antes de correr de volta para seu quarto, onde pulou na cama. Ela dormiu abraçada com ele, sentindo seu perfume e um pouquinho da presença dele. Haven fechou os olhos e rezou para o sono vir rapidamente. Na manhã seguinte, ela ouviu alguém batendo firme na porta e deu um pulo da cama. Logo ela ouviu a voz entusiasmada de Dominic. – Levante e se anime! A jovem olhou para o relógio. Era pouco mais de sete da manhã. Ela abriu a porta no momento em


que Dominic já se preparava para bater novamente, e ele sorriu feliz, erguendo as sobrancelhas. – Cansada demais pra trocar de roupas ontem à noite? Ela olhou para si mesma e percebeu que ainda vestia as mesmas roupas do dia anterior. – Eu nem me lembrei disso. Por que se levantou tão cedo? – Porque estou faminto! Preciso tomar café. – Quer que eu lhe prepare algo? Ele riu. – Claro que não. Ei, garota, tem certeza de que já acordou? Realmente achou que eu a tiraria da cama pra cozinhar pra mim? Vamos sair pra tomar café… Você e eu.

A lanchonete estava lotada quando eles chegaram e, para o desalento dos que aguardavam na fila, Dominic conseguiu uma mesa imediatamente. Olhando no cardápio, Haven pediu rabanadas, enquanto Dominic listou uma série de itens: ovos, bacon, linguiça, panquecas, frutas e torradas. Ela não ficou surpresa, pois estava acostumada a cozinhar para ele, mas sorriu de qualquer jeito. – O que posso dizer? Estou em fase de crescimento. – Acho que essa fase já passou, Dom. Ele riu, levantando a manga da camisa e flexionando seus músculos modestos. – Preciso de combustível. Essas são as únicas armas que carrego e elas não surgem do nada, maninha. – Maninha. – ela disse, repetindo as palavras do rapaz. – Claro – ele disse –, afinal algum dia você pode tornar isso oficial se casando com o cabeçudo do meu irmão. Ela sorriu imaginando a possibilidade. A garçonete voltou com a bandeja e os dois comeram. A despeito de o lugar estar cheio e tumultuado, um silêncio confortável pairava naquela mesa. – Você alguma vez imaginou que as coisas sairiam assim? – perguntou Dominic depois de alguns minutos. – Assim como? Ele acenou com o garfo na mão, referindo-se a tudo o que havia acontecido. – Dessa maneira: vir pra cá; ter uma vida nova, uma família; conhecer Carmine. Tudo isso. Alguma vez imaginou que isso pudesse acontecer? Ela contemplou a pergunta enquanto ele enfiava mais uma garfada na boca. – Minha mãe dizia que um dia eu acabaria num lugar como esse, mas no fundo eu imaginava que aquela era a vida que me fora dada e, portanto, eu teria de me acostumar com ela. – Eu entendo o que quer dizer. – disse Dominic – Sabia que eu fui adotado? Ela não esperava por aquilo. – Não. – Eu fui. Minha mãe biológica… Bem, não me refiro a Maura, embora Maura tenha sido uma mãe fantástica em todos os aspectos. Mas a mulher que me deu à luz foi estuprada, e daí eu nasci. Haven ficou boquiaberta. – Eu também nasci por causa de um estupro. – Eu imaginei. – ele disse – Viu, afinal não somos assim tão diferentes. No fundo, ninguém é diferente. A única diferença é que minha mãe adotiva tropeçou em mim na hora e no momento certos e me salvou do que poderia ter sido um desastre. Eu fico pensando o tempo todo onde eu estaria se


eles não tivessem me adotado. – Você teve sorte. – Tive sim. – ele concordou – Você e Carmine também não são diferentes. Meu irmãozinho é um garoto mimado, e é por isso que é enjoado. Todo mundo sempre deu tudo o que ele queria. Não estou dizendo que eu tenha sido negligenciado, porque não fui, mas Carmine recebeu o tipo de atenção com a qual nunca tive de lidar. – Que tipo de atenção? – Que tipo de atenção? Bem, atenção dos amigos do meu pai. – ele olhou para os lados para se certificar de que ninguém os estivesse escutando – No meu batizado, quando eu era criança, tinha pouco mais de vinte convidados. Foi uma festa tranquila; um almoço caseiro. O batizado de Carmine aconteceu poucos meses depois do meu, e centenas de pessoas compareceram. O evento teve de acontecer num salão grande, com garçons e coisas do tipo. Haven franziu a testa. – Isso é horrível. – Não, de jeito nenhum. – ele disse – Tenho certeza de que fiquei com ciúmes na época, mas não invejo meu irmão. Antes mesmo de ele saber falar ou andar, as pessoas já planejavam seu futuro. Sou grato por jamais ter sofrido esse tipo de pressão. – E por que ele? – ela perguntou – Por que não você? – Porque ele é filho do meu pai; é um DeMarco, e é isso o que importa: o sangue italiano. – ele fez uma pausa – Ou pelo menos era com isso que eles costumavam se importar. Já não tenho certeza. Mas, de qualquer modo, em relação ao que estava dizendo: Carmine é mimado, mas, lá no fundo, não passa de um garoto aterrorizado, tentando encontrar seu lugar, assim como você. Ambos estão em busca da mesma coisa. – Acha mesmo? – Tenho certeza. – ele respondeu – E minha mãe teria chamado a isso de destino.

Depois de sair da lanchonete, Dominic parou na casa dos Harper para pegar Tess. Ela atirou uma mochila no banco de trás do carro e cruzou os braços no peito, ostentando o bico de sempre ao se sentar no banco de trás, em completo silêncio. Depois que chegaram à casa, Tess jogou uma sacola na mão de Haven. – É um maiô. Haven ficou surpresa. Um presente? – Obrigada, mas não preciso de um. Tess achou graça e retrucou. – Se você vai ao lago comigo, querida, vai precisar de um. – Lago? – Haven perguntou – Que lago? – Vamos passar o dia no Lago Aurora. – respondeu Dominic – Será incrível. Haven olhou para a sacolinha. – E eu devo usar isso? Tess confirmou com a cabeça. – Sim. Haven subiu até o quarto, tirou as roupas e vestiu o maiô preto, prendendo-o atrás do pescoço. O corte da parte de baixo era como shorts. A jovem se arrumou o melhor que pôde, tentando não deixar nada à vista.


O Lago Aurora ficava num vale a dez minutos dos limites de Durante. A comunidade de lá contava com apenas algumas centenas de moradores e todos viviam espalhados pelos quarenta e três quilômetros de sua costa. Embora fosse um lago artificial, a maior parte das terras estava intocada no seu entorno. Haven saiu do carro e pôde avistar a água de longe. Ela quase não conseguia ver o outro lado, mas podia perceber que árvores bem altas o cercavam por todos os lados. Apesar de ser enorme, algo no lugar a deixou tranquila. Um pouco além do gramado onde tinham estacionado havia areia escura, o que lhe lembrou o solo do deserto em que vivera na infância. – Bem-vinda ao paraíso… ou pelo menos ao mais próximo que temos dele por aqui. – disse Dominic, já colocando algumas cadeiras de praia debaixo do braço. Todos caminharam em direção à água, escolhendo um lugar na areia que tivesse alguma sombra. Não havia uma única nuvem no céu e a brisa quente do verão era deliciosa. Dominic logo entrou na água; Tess tirou as roupas que cobriam seu biquíni e correu atrás do namorado. Haven também tirou seus shorts, mas preferiu se sentar e observar as poucas pessoas que se divertiam no lago. Depois de alguns minutos, um grupo começou a jogar vôlei. Dominic e Tess se juntaram aos demais jogadores, enquanto Haven continuou sentada tomando sol. Não demorou muito para que a temperatura subisse e o suor começasse a escorrer de seu rosto. Ela pegou uma garrafa d’água do cooler e tomou um gole. Foi então que ouviu uma voz familiar por perto, fazendo um comentário que a fez tossir e engasgar. – O que disse? – ela esbravejou, se virando e dando de cara com Nicholas. Ela respirou fundo e repetiu – O que foi que você disse? Ele olhou para ela e se sentou na cadeira de Tess, chutando os chinelos e se posicionando confortavelmente. – Eu disse que nunca pensei que Carmine fosse deixar você vir aqui. Ela cerrou os olhos. – Já falamos sobre isso. Ele não me diz o que devo ou não devo fazer. – Ok. – ele disse – Então estou surpreso por você estar aqui, já que ele não pôde vir. Você sabe, pelo fato de ele ter tentado me matar e toda essa história. Aquilo jamais passara por sua mente. – É aqui que você mora? Nicholas apontou para uma casa branca de dois andares a cerca de duzentos metros de distância de onde estavam. – Aquela é a minha casa, portanto, tecnicamente você está no meu quintal. – Ah, ele não tentou te matar. Tudo não passou de um mal-entendido. Ele riu secamente. – Um mal-entendido? Ele com certeza conseguiu confundir seu julgamento. – Não, é o seu julgamento que está confuso. Carmine cometeu erros, mas ele é uma boa pessoa. Não deveria sentar aí e se fingir de inocente. É estúpido de sua parte! Eu não estava lá, mas sei que vocês dois estão agindo de um jeito ridículo… com toda essa rivalidade. Então, acho melhor você superar isso, porque não quero que fale mal dele pra mim. Eu o amo. Ela se levantou e saiu andando. – Haven, espere. – Nicholas a chamou quando ela se dirigiu até a água. Ela o ouviu gritar, mas não deu atenção – Escute, é que é difícil eu acreditar que ele se importe com alguém. Não gosto da ideia de ver ele se aproveitar da sua situação.


Ela o encarou quando ele parou ao lado dela. – Você não sabe nada a respeito da minha situação! Carmine me apoia, então, como você ousa julgar quando ele é mais corajoso do que você jamais será? Nicholas olhou para o lago. – Bem, ah… – Não quero mais falar sobre isso. – ela disse – Não diga mais nada a respeito de Carmine. – Eu não ia falar sobre Carmine. – disse Nicholas – Só ia perguntar se planejava entrar na água. – Ah… Não. – Por que não? – Não sei nadar. – Não precisa saber nadar para molhar os pés. – disse Nicholas, tirando a camiseta e atirando-a na areia. Ele deu alguns passos em direção ao lago e parou para olhar pra ela quando a água já batia em seus joelhos – O que está esperando? – Não sei se devo. – Confie em mim. – ela soltou um riso afiado e cínico no momento em que aquelas palavras saíram da boca dele, e ele imediatamente recuou – Tudo bem, não confie então. Mas acha mesmo que eu seria estúpido o suficiente para deixar que se machucasse? Eu já disse, você é legal e tudo mais, mas não planejo morrer por sua causa. E eu te garanto que se você se afogar, eles me matam. Haven ficou parada por mais alguns segundos até que decidiu dar mais alguns passos em direção ao lago, enfiando seus pés na areia macia. Ela parou antes que a água chegasse à sua cintura. – Então, o que foi que o número zero disse para o número oito? – perguntou Nicholas, desfazendo a tensão. Ela colocou as mãos na superfície da água. – Eu não sei. O quê? – Que bela cinturinha você tem. – ele sorriu – Você entendeu? O oito é como o zero, só que tem cintura. – Eu entendi. – Mas não riu. Você nunca ri. – Não foi uma piada engraçada. Ele suspirou. – O que é preciso para reunir os Beatles? – ela ergueu os ombros e ele mesmo respondeu – Duas balas… É que dois deles já morreram, então… – E matar os outros dois? – Isso! Qual a diferença entre um político e um cachorro atropelado? – mais uma vez ela deu de ombros e ele veio com a resposta – É que pelo menos no cachorro há marcas de freada – ele passou a mão sobre o rosto e disse – É difícil fazer você relaxar, não é? Todo mundo sempre ri das minhas piadas. Eu podia ter lhe perguntado: por que a galinha atravessou a rua? – E por que foi que a galinha atravessou a rua? – Pra chegar do outro lado, é claro – ela finalmente sorriu e ele ergueu os braços para o céu – Não acredito. Você nunca tinha ouvido essa antes? – Não. – Precisa de mais comédia em sua vida. Carmine drenou todo o seu senso de humor. Antes que ela pudesse retrucar, o jovem desapareceu dentro da água e uma pequena onda veio em sua direção. Ele voltou à superfície e ela rosnou. – Isso não foi engraçado. Nicholas saiu da água e pegou a camiseta. – Bem, aparentemente nada do que eu diga ou faça é engraçado.


Haven hesitou, mas foi atrás dele, não querendo ficar sozinha na água. Ambos caminharam até as cadeiras. Ela pegou uma toalha enquanto ele se sentava. – Então, quer dizer que vocês dois estão realmente apaixonados? Digo, não é conversa fiada? – Estamos apaixonados. Nicholas pegou a bolsa de Tess. Haven observou chocada enquanto ele a remexia à procura de algo. Então, pegou uma caneta e um pedaço de papel e escreveu algo. – Aqui está o número do meu telefone. – ele disse, entregando o papel na mão dela – Pode me ligar se em algum momento precisar de alguma coisa. Prometo não dizer mais nada de ruim sobre o seu namorado… Pelo menos, não muito. Ela pegou o papel e leu o número: 5555-0121 – Ok. – Não é crime conversar com as pessoas. – ele disse, pondo-se de pé – A gente se vê por aí, Haven.

Mais uma vez Haven acordou com Dominic batendo à sua porta de modo insistente. Ela se levantou, abriu a porta e se deparou com um sorriso. – Ei, Pé de Valsa. Fico feliz por ter se lembrado de vestir o pijama. As atividades se repetiram durante toda aquela semana: o café da manhã na lanchonete, as tardes passeando com Dominic e Tess. De vez em quando, Dia também aparecia para jogar ou assistir TV. Durante as noites, Haven ficava na biblioteca, lendo sob a luz do luar. Ela estudou sem parar para as provas do DEG, fazendo todos os simulados que Carmine havia imprimido para ela antes de viajar. Ela trabalhou bem pouco naqueles dias; tirando alguns sanduíches no jantar e a lavagem de pratos, praticamente não cozinhou nem limpou a casa. Ela se sentia mal por deixar suas tarefas de lado, mas sempre que tentava fazer alguma coisa, Dominic a arrastava para fazer outra coisa. Ela temia que o doutor DeMarco ficasse bravo, mas ele nem pareceu notar. Era a tarde do sexto dia quando Haven se sentou na sala de estar ao lado de Dominic, olhando para o relógio na parede. Ela contava os segundos, pois sabia que cada um deles significava que Carmine estaria mais perto.

– Merda! Carmine sentiu uma forte dor no pulso e seus dedos ficaram dormentes. Ele abanou a mão, tentando se livrar do formigamento, quando o treinador berrou para ele: – Flexione os dedos, DeMarco! Carmine resmungou, uma vez que já os estava flexionando. O que pareceu que ele estava fazendo? Dizer que a semana fora ruim seria atenuar a verdade. Carmine estava fora de forma, seu pulso estava machucado e metade do time demonstrava algum tipo de ressentimento em relação a ele. Tudo o que queria fazer era jogar futebol e voltar pra casa, mas aquele carma parecia finalmente tê-lo abatido. E carma era pior que Tess Harper. Finalmente o último dia de treinamento havia chegado, e o treinador Woods não largou de seu pé desde o momento em que Carmine pisou no campo. Ele estava a ponto de erguer o dedo do meio e mandar todos para o inferno. Estava à beira de colocar para fora toda sua irritação. Enfim, o apito final soou e Carmine se preparou para pegar a bola. Dando alguns passos para trás,


ele olhou para o grandão que iria recebê-la, mas conseguiu desviá-la antes do atacante, sorrindo diante da perfeita espiral que a bola fez no ar. – Tire esse sorriso da cara, Carmine. Não há espaço pro seu ego dentro do campo. – disse o treinador Woods. A partida foi uma sucessão de erros: bolas perdidas, toques errados e tudo isso por mais vezes do que Carmine conseguia registrar. Ele foi substituído mais de uma vez, sentindo dores irradiarem pelas costas. O treinador não parava de gritar diante da incompetência da equipe. Depois do apito final, que marcava o final do treinamento, o técnico chamou Carmine e deu um tapinha no ombro dele. – Jogou bem hoje, rapaz. Carmine ficou parado sem dizer nada. Ele não esperava escutar aquelas palavras. – Sou duro com você porque conheço seu potencial. – disse o treinador – Talvez não seja apropriado lhe dizer isso, mas os treinadores da Universidade da Carolina do Norte demonstraram algum interesse em você. O rapaz ficou boquiaberto e perguntou. – Tá de zoeira? Que porra é essa? – em vez de chamar a atenção de Carmine pelas palavras grosseiras, o treinador deu risadas – Não estou “de zoeira”, DeMarco, mas aviso desde já que eles não gostam de quem tem pavio curto. Aliás, ninguém gosta disso.

Já era tarde da noite quando Carmine chegou a Durante. Ele estacionou na frente da casa e saiu do carro, alongando as costas doloridas. De repente a porta da frente se abriu e Haven veio correndo, saltando em seus braços a partir da varanda. Os corpos dos jovens colidiram e Carmine quase perdeu o equilíbrio quando ela enterrou seu rosto no peito dele. Ele a abraçou firme, enquanto ela o olhava com verdadeira adoração, ao mesmo tempo que com uma pitada de preocupação nos olhos. – Seu rosto. – ela disse, passando os dedos gentilmente em cima de um hematoma na bochecha – O que aconteceu? Ele deu um sorriso amarelo e respondeu. – Caí. Revirando os olhos, ela ficou na pontinha dos pés e pressionou os lábios contra os dele, colocando as mãos sobre os cabelos do rapaz. Quando ela se afastou para poder respirar, Carmine deu risadas. – Se é assim que serei recebido de volta, acho que vou viajar mais vezes. – De jeito nenhum! Não vou permitir! – Tudo bem, então. – ele disse, pressionando-a com mais força – Como senti sua falta, beija-flor. Haven agarrou seu braço e o puxou para dentro da casa. Carmine passou direto pelo escritório do pai e pelo quarto do irmão, adiando os cumprimentos para o dia seguinte. – E aí, você fez algo interessante enquanto eu estava fora? – ele perguntou, enquanto ajeitava suas coisas no quarto. Ela deu de ombros. – Apenas o normal. O normal. Nunca ele imaginara ouvir aquelas palavras da boca de Haven, nem em seus sonhos mais elaborados. Sentando-se na cama, Carmine esfregou as costas doloridas e Haven o olhou sem entender. Ela tirou a mão do rapaz e passou a massageá-lo, fazendo com que murmurasse involuntariamente ao sentir o toque da jovem.


– Você é boa demais pra mim, tesoro. – Você sempre diz isso, mas tocar seu corpo não é exatamente uma experiência agonizante, sabia? – ela retrucou – E aí, você foi assolado alguma vez? Ele riu. – Assolado? – É, não é assim que se fala quando outro jogador derruba você no solo? – Quando os atacantes são impedidos de passar, eles são obstruídos. Quando os outros jogadores o fazem, eu sou derrubado. São duas coisas diferentes. – ele murmurou quando ela pressionou seus músculos doloridos – Eu me machuquei pra caramba durante toda essa semana, mas consegui impressionar alguns dos treinadores que assistiam. Eles disseram algo sobre eu entrar para o time da universidade depois de me formar no colégio. Não sei se vou querer estudar lá, mas é bom saber que tenho opções. Ela continuou a massageá-lo. – Para onde você deseja ir? – Para onde você quiser ir. – ele respondeu – Essa decisão será sua.


Capítulo 38

Haven estava parada de pé num canto da sala e lutava para segurar as lágrimas que ameaçavam brotar de seus olhos. Todos estavam reunidos no hall e conversavam animadamente. O entusiasmo de Dominic era evidente pelas gargalhadas. Aquele barulho se infiltrava nos ouvidos da jovem e a fazia estremecer. Era uma tarde de domingo em fins de agosto. O verão estava chegando ao fim enquanto, para Haven, era como se tivesse apenas começado. O último mês e meio havia sido bastante movimentado: galerias de arte, museus, aquários e zoológicos. Ela dirigiu pela região e leu bastante; riu e se divertiu; amou e aprendeu. E, na correria da vida, todo o resto se dissipou de sua memória. Carmine de vez em quando tinha treino e a levava com ele. Havia outras pessoas que também acompanhavam, como familiares, amigos e namoradas, todos reunidos em grupos, mas Haven ficava sempre afastada nas arquibancadas, assistindo sozinha. Ele era confiante e agressivo no campo; ela lhe dissera em certa ocasião que ele a deixava orgulhosa, mas ele erguera os ombros, explicando que aquilo não era grande coisa. Mas ela sabia que era; representava o futuro do jovem… o futuro de ambos. Algo que de repente lhe parecia mais real. As malas de Dominic estavam prontas e colocadas no porta-malas da Mercedes. Em algumas horas, ele e Tess pegariam um voo e o doutor DeMarco viajaria com os dois para ajudá-los a se acomodar. Ambos estavam entusiasmados com as mudanças que ocorreriam em suas vidas, mas Haven temia dizer adeus. Com a ajuda de Carmine, ela olhara a localização da Universidade de Notre Dame no mapa e, embora no papel, apenas alguns centímetros separassem Indiana de Durante, ela sabia que na verdade a distância era grande. – Bem, é melhor partirmos de uma vez. – disse DeMarco – Afinal, não queremos perder o avião. Antes mesmo de ouvir as palavras do pai, Dominic agarrou Haven pela cintura, a ergueu e a girou. – Sentirei sua falta, garota. Ela sorriu e o abraçou. – Obrigada por tudo… especialmente por aquele sanduíche. Ele a colocou de volta no chão e enfiou a mão no bolso, retirando de lá seu chaveiro e soltando uma das chaves. Ele a colocou na mão dela, apertando firme. – Mantenha meu carro seguro para mim, ok? Ela olhou para ele. – O quê? – Não posso levar ele comigo, então você pode muito bem dirigir. Todos se despediram e Haven sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto quando saíram pela porta. Apenas alguns segundos depois, Dominic abriu a porta novamente e disse. – Ah, Pé de Valsa, e boa sorte em seu exame amanhã!

Na manhã seguinte, o trajeto até a cidade levou uma hora. Carmine falou sem parar, mas Haven não ouviu nada do que ele disse. Tudo o que conseguia escutar era o batimento acelerado do próprio


coração. Com alguma antecedência, finalmente chegaram ao colégio público local, e Haven entrou sozinha, sua visão se escurecendo à medida que se esforçava para manter a calma. As fortes luzes fluorescentes do teto irritavam seus olhos. Haven ficou de pé à porta, observando as cadeiras plásticas azuis. Ela nunca estivera em uma sala de aula em sua vida. Outras pessoas se chocavam contra ela sem sequer se preocuparem em se desculpar. De um modo hesitante, ela caminhou até a grande mesa que ficava na frente e sorriu educadamente para o instrutor, embora achasse que fosse vomitar. – Sou Haven Antonelli. Ele verificou o nome dela na lista, coletou os documentos e apontou a cadeira em que deveria se sentar. O exame começou às oito da manhã em ponto. Haven terminou rapidamente as cinquenta perguntas sobre gramática e pontuação, mas a segunda parte a deixou preocupada. Apesar de ter praticado muito nos cadernos que tinha em casa, ela jamais havia escrito nada para outra pessoa ler. O instrutor avisou que todos teriam quarenta e cinco minutos, e Haven se concentrou no tema da redação. O QUE É PRECISO PARA SER UM BOM PAI/UMA BOA MÃE? EM SUA REDAÇÃO, DESCREVA AS CARACTERÍSTICAS DE UM BOM PAI/UMA BOA MÃE. UTILIZE SUAS OBSERVAÇÕES PESSOAIS, SUAS EXPERIÊNCIAS E SEU CONHECIMENTO. Os demais alunos logo se puseram a escrever, mas Haven apenas continuou olhando para o tema. O que era preciso? Seu pai era um homem abusivo e maldoso que se recusara a reconhecer a paternidade. Ela sofreu anos de tortura sob o julgo daquele sujeito antes que ele simplesmente a vendesse, sem pensar duas vezes. Se o doutor DeMarco não tivesse aparecido em sua vida, ela acabaria sendo leiloada, vendida como escrava sexual, em troca de dinheiro para comprar uísque e charutos cubanos. O ódio de Haven aumentou e ela mordeu o lábio inferior. Embora a mãe dela tivesse as melhores intenções, nada podia fazer para ajudá-la. Ela a escondia para protegê-la e nunca falhou em manter a única coisa que até mesmo Haven havia perdido ao longo dos anos: esperança. Haven começou a chorar à medida que as memórias do passado tomaram sua mente. Vinte minutos já haviam transcorrido, então, ela respirou fundo e começou a escrever. Foi colocando no papel tudo o que surgiu em sua mente ao pensar em sua mãe, revelando como, em sua opinião, um bom pai e uma boa mãe jamais desistiriam dos filhos e sempre os encorajariam a sonhar. O instrutor encerrou aquela fase no momento em que Haven colocava o ponto final na redação. O restante do teste transcorreu normalmente, e todos foram liberados por volta das três da tarde. O Mazda já a esperava na faixa exclusiva para caminhões de bombeiro e ambulâncias, com o som no volume no máximo. Haven entrou no carro em silêncio. Carmine abaixou o volume e ligou o carro. – E aí, como foi? Ela sorriu suavemente enquanto ele lhe estendeu sua mão. – Tudo bem. Nenhum dos dois disse nada ao longo do trajeto de volta a Durante. Quando chegaram à casa, ela foi direto para a cozinha preparar algo para comer. Carmine se sentou no balcão ao lado do fogão, observando-a enquanto cozinhava. – Está preparando enchiladas? Ela confirmou com a cabeça. – É o prato fav… Minha mãe gostava delas. – Parece muito bom. – comentou Carmine.


– Obrigada. – Podemos comer enquanto assistimos a um filme ou algo assim. – Tudo bem. – Ou quem sabe podemos jogar um jogo. – Tudo bem. – Quer saber, estou cansado, acho que vou direto pra cama. – Tudo bem. – E é provável que eu nem coma nada. – Ok, tudo bem. O local ficou em silêncio e Carmine olhou atentamente para Haven. Sua mudança de comportamento a assustou. – Você está bem? – Eu estou bem. – respondeu – Mas não tenho muita certeza quanto a você. Desde que te peguei na escola você mal falou uma dúzia de palavras, e metade delas foi “tudo bem”. Aconteceu alguma coisa? – Não. – Você não foi bem? – ele perguntou, erguendo as sobrancelhas – Você entrou em pânico ou algo assim? – Não, eu acho que foi tudo bem. – ela respondeu, involuntariamente contraindo os músculos ao repetir a mesma expressão. – Então, o que está errado? – Só estou pensando na minha mãe. – Quer conversar sobre ela? – perguntou, com a voz tranquila e genuinamente interessada; todos os sinais de frustração desapareceram – Não precisa guardar isso para si mesma. – Eu sei disso, mas não sei o que dizer. Sinto falta dela e é provável que jamais veja ela novamente. Nunca tive a oportunidade de me despedir ou dizer que a amava. Machuca pensar sobre isso, porque eu costumava imaginar se nós sequer gostávamos uma da outra, mas hoje eu percebi que a minha mãe me amava de verdade. E eu também a amo, mas nunca disse isso. – Nunca? – Nunca. – ela sussurrou, no momento em que Carmine pulou do balcão para abraçá-la – Eu não deveria estar reclamando disso pra você; afinal, você tem mais razão pra se sentir assim do que eu. Minha mãe está viva; a sua está…. Ele contraiu os músculos antes que pudesse dizer alguma coisa. Ela se afastou dos braços do jovem e tentou se desculpar, mas ele não deixou, colocando o dedo indicador sobre os lábios de Haven. – Minha mãe viveu a vida dela, Haven. Ela era livre para fazer suas escolhas, e foi exatamente isso que ela fez. Ela tomou decisões erradas e estúpidas, e morreu por causa disso. Sua mãe nunca teve a chance de tomar uma decisão, então, eu acho que você tem mais motivo pra sofrer do que eu.

Oaks Manor estava tudo, menos ensolarada naquele dia. Uma tempestade despencava e fortes rajadas de vento faziam com que as árvores se envergassem no entorno da propriedade. Trovões caíam e raios iluminavam o céu escuro daquela tarde, fazendo com que o dia mais parecesse uma noite. Vincent estava de pé no apartamento de sua mãe, olhando para a ambulância estacionada do lado de fora. Os paramédicos, em seus uniformes amarelos, colocavam um corpo na parte de trás. Em


silêncio, ele fez o sinal da cruz e sussurrou uma prece. – Não reze por aquela velha idiota. – alfinetou Gia, de algum modo ouvindo ele rezar, mesmo sem os aparelhos de ouvido – Ela morreu por culpa dela mesma. – Como assim, mãe? O pessoal que trabalha aqui disse que Gertrude morreu dormindo e em paz. – Oras, ela deixou a janela aberta na semana passada. Tentei avisá-la, mas ela não ouvia. Aquele pássaro preto voou para dentro do quarto e tomou conta do lugar. Vincent suspirou. – Não acho que tenha sido o pássaro, mamãe. Gia acenou com a mão. – Ah, você não sabe de nada. – Bem, eu sou médico. – Hum, vocês doutores nunca sabem do que estão falando. – ela retrucou – Vocês sempre querem dar pílulas para as pessoas e tirarem o sangue delas quando é totalmente desnecessário. Deus não comete erros, Vincenzo. As pessoas morrem quando merecem morrer. Você sabe disso. Vincent cerrou o punho ao ouvir aquela provocação em relação a Maura. – E quanto ao papai? Ele também mereceu morrer? – Com o tanto de goomahs que seu pai possuía? Fico surpresa que o coração dele tenha aguentado tantas amantes. Vincent jamais compreenderia a dureza e a falta de simpatia de sua mãe. Às vezes ele se perguntava se devia se incomodar em visitá-la, considerando que obviamente ela não apreciava sua companhia. A ambulância foi embora e Vincent a seguiu com os olhos até a esquina. Seu olhar permaneceu ali ainda por algum momento; então sentiu um frio no estômago ao perceber uma SUV escura parada a menos de um quarteirão. Ele esperava estar apenas imaginando coisas, mas seus instintos lhe diziam que aquilo não era uma coincidência. Ele só brincara ao sugerir que alguém o estivesse observando, mas agora percebia que estava certo. De fato ele estava sendo seguido. – Ei, você está me ouvindo? – Não. – Vincent admitiu, virando-se para a mãe – O que foi que disse? – Não vou repetir o que já disse. – retrucou Gia – Isso apenas sugaria ar dos meus pulmões e reduziria meu tempo de vida. Mas isso é provavelmente o que você deseja, não é? Que eu morra. Daí eu não seria mais um fardo para você carregar. Sua própria mãe… Você me trata como lixo. Vincent respirou fundo. – O que quer de mim, mãe? – Nada, Vincenzo. Não quero nada. Ele então olhou para o relógio, já impaciente. – Tenho de ir. Dominic e Tess estão me esperando. Gia estreitou os olhos. – Quem são eles? – Você sabe quem é Dominic. – ele respondeu, tentando manter a calma, mas já cansado de aguentar aquilo – Ele é seu neto, e Tess é a namorada dele. – Ela é italiana? – Não, é americana. De origem escocesa. – Escocesa? Bem, pelo menos é melhor que irlandesa. E aquele seu outro filho? Ele arrumou uma namorada italiana? Vincent caminhou até a mãe e a beijou na testa. Em seguida saiu sem responder.


A semana passou rapidamente. Haven e Carmine estavam sozinhos, portanto, era fácil para eles se esquecerem dos obstáculos que ainda teriam pela frente. Tudo parecia muito simples e a vida de ambos fluía tranquila dentro daquela casa; porém, do lado de fora o mundo estava se fechando rapidamente ao redor deles. Uma nuvem negra pairava a distância, ameaçando despencar a qualquer momento. O problema é que ninguém sabia nem quando nem onde isso aconteceria, tampouco de que modo. Poderia ser uma garoa inconveniente ou um tornado capaz de destruir tudo que aparecesse pela frente. Não havia como se preparar para algo cuja forma não se podia prever. Era tarde de sexta-feira e os dois estavam em casa assistindo a um filme, abraçados no sofá e com as pernas entrelaçadas. Os lábios dele deslizavam pelo rosto dela e a boca sugava-lhe o pescoço. O som dos murmúrios de Haven foi interrompido abruptamente quando os dois ouviram o som do alarme e a forte batida na porta da frente. Em pânico, Carmine se sentou no momento em que o pai entrou na sala de estar. De modo instintivo, ele colocou seu corpo na frente de Haven, com o objetivo de protegê-la. Vincent cerrou os punhos e gritou: – Para o meu escritório, agora! – Quem? – perguntou Carmine enquanto o pai se afastava. – Você! Carmine ficou de pé e se virou para Haven. – Vá para o seu quarto e fique lá até eu descobrir o que está acontecendo. Haven o seguiu pelas escadas, mas ficou para trás, uma vez que os passos dele eram mais largos. Carmine entrou direto no escritório do pai, escancarando a porta sem bater. Vincent estava olhando para seu notebook, digitando furiosamente. – Eles estão vindo. Carmine franziu as sobrancelhas ao ouvir aquela afirmação vaga. – Quem? – D’Artagnan e o três mosqueteiros. Quem você acha que está vindo? O tom sarcástico o pegou desprevenido. – Os Federais? – Antes fosse. – Vincent balançou negativamente a cabeça – É provável que seja apenas uma questão de tempo até que batam à porta, mas não… Hoje não teremos tanta sorte. Recebi uma ligação há poucos minutos. Parece que Sal pegou um avião e está vindo para cá sem aviso prévio. Não sei por que, e também não faço ideia do que querem. – O que isso quer dizer? – Não sei. – Vincent abriu as gavetas da escrivaninha e remexeu os arquivos – Espero que sejam assuntos inesperados, mas ele também pode estar atrás de um de vocês, portanto, preciso que estejam fora daqui o mais rápido possível. Corrado não acha que vocês deveriam ir a lugar algum sem proteção. – Eu tenho uma arma. – respondeu Carmine. Vincent ergueu a cabeça. – Que vantagem se pode ter sozinho com uma arma? Eles poderiam matá-lo e ninguém ficaria sabendo, a menos que um de nós estivesse ao seu lado. O celular de Vincent vibrou sobre a escrivaninha, e ele ergueu a mão para silenciar Carmine. Ele respondeu a ligação com um tom formal, e a voz mais tranquila possível. – DeMarco falando… Sim, senhor… Estarei lá. – Vincent desligou o aparelho e olhou para o filho de um jeito peculiar – Arrume as malas. Precisamos agir rápido.


Haven andava de um lado para o outro no quarto de Carmine, tentando escutar algo do andar inferior, mas não havia som algum. Nem gritaria, nem berros, nem qualquer tipo de comoção. Aquilo só alimentava sua imaginação, e ela construía diante de seus olhos os piores cenários. As mãos dela tremiam; ela ficou aterrorizada quando ouviu a porta bater no segundo andar. Passos correram pelas escadas; seu coração estava a ponto de explodir. Ela estava tão nervosa que conseguia sentir o sangue correndo pelas veias. A porta se abriu de repente, batendo contra a parede e Carmine invadiu o quarto. Ele foi direto para o armário e começou a atirar coisas para todos os lados. Em seguida jogou duas mochilas sobre a cama. – Pegue algumas roupas. Ela não se moveu. – O quê? – Precisamos sair daqui, Haven. Haven ficou zonza. Ela queria perguntar o que estava acontecendo; precisava desesperadamente que ele lhe explicasse, mas sabia que a resposta a deixaria aterrorizada. Ela cambaleou até a cama e se sentou, enquanto Carmine corria até o quarto dela. As palavras de DeMarco ecoavam em sua mente. Ela prometera que jamais fugiria novamente. Ela jurou que não seguiria Carmine de olhos fechados. – Por que ainda está sentada aí? – perguntou Carmine ao retornar com os braços cheios de roupas. Os pensamentos faziam sua cabeça girar enquanto ele enchia as mochilas. Ele esticou a mão para ela – Vamos! No momento em que aquelas palavras saíram dos lábios dele, ela se decidiu. Não importavam as consequências, ela teria de ir com ele. Ambos correram até o andar térreo e Carmine a puxou para a varanda, sem se preocupar em fechar a porta na correria. Ele destrancou o carro, atirou as mochilas no banco de trás e fez sinal para que ela entrasse. Assim que tudo estava ajeitado, Carmine ligou o carro e saiu cantando pneus, afastando-se da casa. – O que está acontecendo? – Haven perguntou assim que os dois pegaram a rodovia. Sua voz estava falha e seu estômago, revirando – Por que estamos fugindo? Aconteceu alguma coisa? – Precisamos sair daqui antes de eles chegarem. Ela olhou para ele quando os dois pararam no sinal vermelho, já na cidade. – Antes que quem apareça, Carmine? Ele olhou diretamente para frente. – Eles. Sem compreender, Haven desviou os olhos e se deparou com quatro sedãs pretos parados no mesmo sinal no sentido oposto. – Eles são…? – ela começou a frase sem conseguir terminá-la. Ela já havia visto aqueles carros anteriormente. – La Cosa Nostra. – disse Carmine. Embora aquelas palavras em italiano soassem bem, o significado delas provocou calafrios em Haven. Monstros. A luz ficou verde e Carmine seguiu com o carro. – Fique o mais confortável que conseguir, pois a viagem até a Califórnia é longa. Ela ficou nervosa e quase perdeu a respiração. – Califórnia? Ele fez um gesto confirmando. – Somos esperados em Blackburn.


Capítulo 39

Carmine olhou para Haven no banco do passageiro, preocupando-se com o ângulo em que estava o pescoço da jovem. Ela estava torta naquele pequeno espaço e usava o cinto de segurança. Esticando a mão, ele retirou alguns fios de cabelo do rosto dela e os prendeu atrás da orelha. Em seguida deslizou a parte de trás de sua mão por sobre o rosto da jovem, sentindo o inchaço provocado pelo choro intenso. Ela não havia dito nada sobre o lugar para onde estavam indo, mas as lágrimas já diziam tudo. Eles já estavam viajando há três dias, parando ocasionalmente para dormir um pouco, mas passando a maior parte do tempo naquele carro apertado. O céu estava nublado e o tempo piorava a cada quilômetro. A chuva fraca e constante se transformou numa tempestade. Carmine dirigia lentamente no tráfego intenso; seus nervos estavam à flor da pele e ele segurava firme no volante. Haven percebeu seu humor volátil quando acordou e esperou que ele iniciasse alguma conversa. – Estamos quase chegando no estado da Califórnia. – ele disse em voz baixa. Ela olhou pela janela embaçada. – Já esteve alguma vez na Califórnia? – Não que eu me lembre, mas sempre tive vontade de conhecer. – Existem faculdades aqui? – Claro. – Alguma que eu possa frequentar? – Claro que sim. – ele respondeu – E o que você gostaria de estudar? – Artes, talvez. – ela disse – Não sei se sou boa o suficiente para… Ele a interrompeu. – Você é boa o suficiente. E sim, tem inúmeras escolas de arte por aqui. Pela primeira vez em todos aqueles dias, algo além de tristeza e preocupação estampou seus olhos. – Jura? Ele riu. – Juro, mas, me diga uma coisa, por que a Califórnia? Ela ergueu os ombros. – Gosto das palmeiras. O tom sério que ela usou o pegou desprevinido. A maioria das pessoas passava meses analisando onde iriam estudar, escolhendo lugares conforme a proporção de alunos por professor, reputação da entidade, equipes esportivas, mas ela estava escolhendo o lugar por causa do cenário. Ele achou aquilo engraçado, mas não ficou surpreso. As pequenas coisas da vida voltavam a importar. – Elas existem também em Nova York? – Palmeiras? Ela riu. – Não, escolas de arte. – Ah, sim. É claro. Existem escolas de artes em todos os lugares. – Já esteve lá? – Algumas vezes quando era criança. Meu pai costumava viajar para Nova York a negócios. – Eu vi no Jeopardy! É a cidade que nunca dorme. Ele sorriu.


– Algumas pessoas também a apelidam de “a cidade dos sonhos”. Ela olhou para ele. – Talvez pudéssemos ir para lá e seguir nossos sonhos. – Quem sabe. – ele riu – Mas tenho certeza de que lá não existem palmeiras.

A placa que sinalizava o limite da cidade de Blackburn estava velha e desbotada; a tinta verde, já descolorida pela areia, estava agora cinza. Carmine olhou duas vezes quando passaram por ela. – Por acaso aquela placa dizia “população: dezessete habitantes”? – Não achava que fossem tantos. – disse Haven – Eu corri por várias horas. De fato, às margens da estrada não havia nada além de um deserto inabitado e desolado. – Eu acredito. Há quilômetros que não vemos nada nos arredores. Eles dirigiram por mais alguns minutos antes que ele localizasse algo a distância. Reduziu a velocidade, na expectativa de que fosse um posto de gasolina, já que o tanque estava quase vazio. Um hotel também seria uma boa opção; os olhos dele queimavam de sono e cansaço. Porém, à medida que se aproximou das estruturas, perdeu as esperanças. As paredes em ruínas de uma construção abandonada pareciam prestes a cair, mesmo com um sopro suave de vento. Os cabelos em sua nuca ficaram de pé quando eles passaram pelo local; uma sensação estranha tomou conta dos dois. – Essa é uma cidade fantasma. – ele disse – Onde estão todas as pessoas? – Talvez tenham se mudado. Ele sorriu com sarcasmo. – Ou então todos morreram. – Alguns morreram. – ela disse. Sua voz embargada lhe dizia que havia uma história por trás daquelas palavras, mas aquele não era o momento de fazer perguntas. Ela parecia estar à beira de um ataque de nervos e ele não queria arriscar provocá-lo. Carmine continuou a dirigir, passando por outra placa que sinalizava o término da cidade. Eles cruzaram toda a região sem ver uma única alma. A cidade era uma enorme prisão, embora não houvesse barras de ferro ou correntes, tampouco nenhuma restrição física; era apenas uma terra de ninguém desconectada do resto do mundo. Não havia pessoas, carros, lojas, casas… Não havia nenhuma cor no lugar. Era como se o tal lugar não existisse. De repente, a ficha caiu e Carmine pensou. Ela crescera isolada, mas conhecer e ter acesso são duas coisas totalmente distintas. Tudo o que ele queria naquele momento era parar o carro e abraçála. Agora ela se comunicava, dirigia e tinha até feito os exames para começar a estudar. Ela se abrira para o mundo, tendo saído de um lugar onde literalmente não tinha nada. Nada. Na cidade seguinte eles encontraram um pequeno motel. Carmine pagou em dinheiro ao velho recepcionista e pegou a chave, sem muita conversa. Ele se encolheu ao ver as péssimas condições do lugar, mas Haven deu de ombros. – Já estive em lugares bem piores. De fato, e agora ele compreendia aquilo.


Carmine acordou assustado ao ouvir o telefone tocar pela manhã. O barulho fez seu coração disparar. Sentando-se na cama, ele esfregou os olhos e pegou o aparelho do criado-mudo ao lado da cama. – Sim? – ele atendeu sem olhar quem estava estava ligando, imaginando que fosse seu pai com alguma novidade. – Já chegaram? Corrado. – Sim. – Carmine respondeu, bocejando no meio da fala. – Estarei na casa dos Antonelli hoje. – disse Corrado – Temos alguns assuntos para resolver. Pode trazer a jovem? Olhando para o lado na cama, Carmine se deparou com os olhos apreensivos de Haven. – Sim. – Sim? – Corrado repetiu, soltando um suspiro – Essa é a única palavra que conhece? O lado sarcástico de Carmine queria poder responder “sim” novamente, mas sabia que não seria inteligente provocar alguém tão perigoso. – Não, senhor. Corrado passou o endereço dos Antonelli, e Carmine buscou rapidamente algo para escrever. Ele encontrou um lápis numa gaveta e pegou a Bíblia que estava próxima à cabeceira da cama. Ele rasgou uma página. Haven sentou e olhou para ele enquanto tomava nota. – Não acredito que você rasgou uma página da Bíblia, Carmine! Ele revirou os olhos. – Você acha mesmo que alguém que vem aqui está interessado em ler isso? – ele perguntou, segurando a Bíblia – Pessoas que vem aqui estão longe de serem santas. – Nós viemos aqui. – Como eu disse, também estamos longe de ser santos. – ele riu – Mas, não importa. Não rasguei nenhuma página escrita, só aquela que dizia “Bíblia Sagrada”. – Não deixa de ser errado. – ela retrucou. – Talvez, mas eu precisava escrever o endereço dos Antonelli. Ela ficou petrificada; entrou em pânico. – Por quê? Sentando-se perto dela, ele retirou alguns fios de cabelo de seu rosto. Ela parecia tão vulnerável. Tudo o que ele queria era corrigir todos os males e tornar o mundo melhor para a jovem. – Você quer ver sua mãe, não quer? Ela piscou várias vezes. – Eu posso? Ele passou as pontas dos dedos pelo rosto dela. – Eu me certificarei disso. Os olhos dela se encheram de lágrimas e ela se atirou contra ele, derrubando-o sobre o colchão.

Carmine digitou o endereço no sistema de navegação do carro, o que fez com que eles retornassem à mesma estrada desolada da noite anterior. Depois de alguns quilômetros, o sistema indicou um caminho que cortava pelo deserto, e Haven ficou nervosa pouco antes de o GPS anunciar que haviam chegado ao destino. Ela logo reconheceu o lugar, ele percebeu. Ela podia sentir aquilo, mesmo estando no meio do nada.


Haven tremia enquanto eles seguiam pela trilha; o medo dela era tão grande que ele podia senti-lo. O rancho logo apareceu à frente, e ela respirou fundo quando Carmine estacionou atrás do carro alugado de Corrado. – Não sei se consigo fazer isso. – disse Haven, balançando de maneira rápida e negativa a cabeça, deixando-o tonto. Carmine segurou suas mãos. – Ouça e preste atenção, tesoro. Você pode querer correr para o mais longe que puder desse lugar, mas não é possível. Já não dá mais. Você não pode permitir que eles te controlem. Não pode deixar que eles te vençam. Você é forte, Haven. Esses filhos da puta tentaram destruir você, mas isso não aconteceu porque você se reconstruiu. Você é uma força a ser respeitada. Você é durona e apaixonada, portanto, não pode deixar que essa gente afete você. É isso o que eles querem. A ansiedade na expressão da jovem foi substituída por algo diferente; um olhar que Carmine conhecia muito bem: de determinação. – Nós vamos sair desse carro, entrar naquela casa e dizer àquelas pessoas que se ajoelhem diante de nós, porque ninguém ali pode nos tocar. E você vai encontrar sua mãe e dizer a ela que a ama, porque você merece ter essa chance. Depois de dizer tudo o que podia, Carmine saiu do carro. Ele resmungou por causa do calor; o sol forte quase o cegava. Pegando seus óculos escuros, ele os colocou e desabotoou as mangas longas de sua camisa verde. – Puta que pariu, está muito quente. Haven saiu do carro de maneira tímida. – Eu lembro que costumava ser mais quente. – Caramba, estou quase virando uma torrada. – ele disse – Isso aqui é quente como o inferno. – Isso aqui é o inferno Ele olhou para ela surpreso. – Você disse um palavrão. – “Inferno” não é um palavrão. – Claro que é. Ela discordou com a cabeça. – Está na Bíblia, Carmine. Se passasse mais tempo lendo esse livro e menos rasgando as páginas dele, talvez você soubesse disso. Ele riu, mas a batida de uma porta interrompeu o momento. Haven enrijeceu-se enquanto Carmine olhou para o homem de pé na varanda. Aquele tom de marrom escuro já era bastante familiar. – Se isso aqui é o inferno – disse Carmine –, então isso não faz dele o diabo?


Capítulo 40

Michael Antonelli estava de pé na varanda da casa, com um copo de uísque na mão esquerda e um charuto na direita. Ele estava em silêncio; não piscava e até parecia não estar respirando. Haven o encarou, surpresa em ver o quanto ele não havia mudado em nada. Quase um ano havia se passado, mas ver seu velho mestre em suas calças cáqui e camiseta polo, bastante apertada em torno da barriga, a fez sentir como se o tempo não tivesse passado. O silêncio tenso e desconfortável diminuiu quando a porta se abriu atrás de Michael, trazendo-o de volta à vida. Piscando rapidamente, ele saiu do caminho para que Corrado também saísse na varanda. – Carmine, Haven… É bom ver vocês. Estão apreciando a viagem? O modo frio e tranquilo como ele perguntou surpreendeu Haven, mas Carmine não parecia abalado ao responder. – Foi de boa, exceto pelo fato de eu me sentir como se estivesse sendo assado vivo. Haven sorriu sem querer diante de sua reclamação, e Corrado olhou para Michael. – Vai convidá-los para entrar, Antonelli, ou pretende deixar meu sobrinho entrar em combustão? Pensei que ainda se lembrasse de como ser hospitaleiro. – Ah, claro! – Michael enfiou o charuto na boca e abriu a porta de tela – Entrem. Carmine pegou a mão de Haven, levando-a para dentro da casa, e ambos foram seguidos por Corrado até um corredor que levava a um escritório atulhado. Haven hesitou um pouco, observando as paredes cheias. Durante todo o tempo em que vivera naquela propriedade, presa e forçada a trabalhar como escrava, ela nunca havia entrado naquele lugar. Michael dizia que era um espaço privado; seu santuário. Michael entrou e se sentou atrás de uma escrivaninha de mogno; Corrado ficou de pé com os braços cruzados sobre o peito. – Ainda temos de esperar mais uma pessoa. Depois de alguns minutos, alguém bateu na porta da frente e o próprio Corrado foi atender, retornando com outro homem, que trazia consigo uma maleta. Michael ficou nervoso ao olhar para o sujeito, piscando rapidamente. – O que é que…? O que faz o advogado aqui? – Vamos acabar com isso de uma vez. – disse Corrado, ignorando a pergunta. Haven se sentou numa cadeira no canto, evitando chamar a atenção. Michael a encarava do outro lado da sala e um silêncio incômodo tomou conta do ambiente; era como se uma parede invisível ou um campo de força separasse os dois. O advogado discorreu sobre naturalização e cidadania, mas nada daquilo fazia o menor sentido para ela. Ele preencheu a papelada enquanto falava, mas hesitou em um dos documentos, olhando para Haven. – Senhorita, qual sua data de nascimento? O coração dela disparou. – Não tenho certeza. Minha mãe dizia que era no outono. O homem franziu o cenho e se voltou para Michael. – Senhor Antonelli? A data do nascimento da jovem? Michael resmungou, mas não disse nada coerente. Corrado deu uma bufada e respondeu: – 10 de setembro de 1988.


O advogado anotou e Haven olhou para Corrado. Ela se perguntava como ele sabia. De qualquer modo, a data ficou em sua mente: 10 de setembro… faltavam apenas duas semanas. Ao terminar, o advogado entregou a papelada para Corrado, que a colocou sobre a mesa na frente de Michael. – Assine. – ordenou. Com indiferença, Michael assinou tudo e empurrou a pilha de papéis na direção de Haven. Ela podia perceber os olhos dele sobre ela quando pegou a caneta. Ela pegou os documentos sem olhar para ele. Analisando os papéis, localizou as linhas em branco ao lado da assinatura dele. Sua mão estava trêmula quando escreveu seu nome. Por um momento ela imaginou se ele ficara surpreso pelo fato de ela saber escrever. Toma essa, idiota. – É isso. – disse Corrado – Está feito. O que estava feito? Haven não tinha certeza, mas Michael não parecia nada feliz com tudo aquilo.

Haven saiu pela porta da frente em direção à varanda, tentando respirar em meio àquele deserto escaldante. Ela estava enjoada; seus nervos estavam no limite. Necessitava de espaço; tinha de se afastar daquelas pessoas. Ela precisava urgentemente de Carmine. Chamou pelo nome dele, mas um som de comoção a interrompeu antes que pudesse se virar. Surpresa, ela girou lentamente e encontrou a mãe parada do lado da casa, com uma pilha de instrumentos de metal a seus pés. Ao contrário de Michael, ela parecia diferente. Seus cabelos escuros agora tinham fios grisalhos, e havia muitas rugas em seu rosto. Uma camiseta imunda cobria sua estrutura esquelética e um par de shorts expunha as pernas magras. A mãe de Haven sempre fora magricela, mas agora parecia uma sombra do passado. – Haven? O som daquela voz parecia ferro quente marcando o peito da jovem. Ela correu para os braços de sua mãe e as duas se abraçaram e caíram no chão. Apesar da fragilidade, o abraço da mãe era forte e suas mãos acariciaram as costas e os cabelos de Haven. – Minha garotinha! Você está aqui! – Sim. – ela falou – Estou bem aqui. Sua mãe se afastou dela e perguntou: – Mas o que está fazendo aqui? Você tem que ir embora, fugir. – Está tudo bem, mãe. – Haven disse – Ninguém vai me machucar. – Você não pode ter certeza disso! Sabe como eles são! Haven tentou sorrir apesar das lágrimas. – Estou aqui para te ver. As mãos de Miranda exploraram cada milímetro do rosto da filha. – Não entendo. Não faz sentido. – Carmine me trouxe aqui. Ele… ele é o filho do meu mestre. Eu o amo, mamãe. – Você o ama? – ela perguntou com os olhos arregalados e piscando – Isso é ruim. Você não pode deixar que ele descubra! – Pare com isso! – o pânico de sua mãe fazia aumentar sua ansiedade – Ele já sabe, e também me ama. – Como assim? – ela balançou negativamente a cabeça – Haven, ele é…


– Maravilhoso, mamãe. – ela a interrompeu, sabendo que o que quer que a mãe dissesse, estaria errado – Ele me trata como um tesouro, e está me oferecendo uma vida… o tipo de vida que você sempre quis que eu tivesse. Ambas se sentaram no chão por alguns minutos, sem verbalizar nada depois do que havia sido dito. O pânico de sua mãe diminuiu e o olhar com o qual a jovem se acostumara a conviver voltou a brilhar: esperança. Por fim, Haven se levantou e ajudou sua mãe a ficar de pé. – Essas roupas são bonitas. – disse a mãe, dando-lhe uma boa olhada dos pés à cabeça – Espero que não fiquem bravos pelo fato de você ter se sujado. Haven interrompeu as mãos de sua mãe enquanto ela tentava retirar a poeira. – Não importa. Eles são diferentes. Lágrimas encheram os olhos de sua mãe quando ela disse aquilo, mas uma batida na porta interrompeu o diálogo. Michael parou na varanda e olhou para as duas. – Miranda. Nada de bom poderia acontecer depois de ser chamada pelo mestre. Nervosa, a mulher se abaixou e pegou as ferramentas que havia derrubado. – Desculpe, senhor. Eu vou cuidar do jardim. Michael a interrompeu e Haven e a mãe ficaram assustadas diante daquele movimento. – Não me interrompa. A garota está aqui conosco e, ah… ela é uma visita, então o trabalho pode esperar por enquanto. A mãe olhou para a filha depois que Michael entrou. – Visita? Haven sorriu. – Acho que deveria começar pelo começo, certo?

Ambas passaram as horas seguintes caminhando pela propriedade. Haven contou à mãe sobre sua vida na Carolina do Norte. Ela falou sobre a celebração do Natal, os fogos de artifício e o fato de ter ido a um baile. Quanto mais ela falava, mais o rosto de sua mãe se iluminava. A vida parecia ter retornado ao corpo daquela mulher e, pouco a pouco, a culpa de Haven diminuía. Elas estavam ao lado do jardim quando sua mãe chutou um pouco de terra contra os pés descalços da filha, arrancando algumas ervas daninhas do chão. Ela não conseguia parar de trabalhar mesmo quando lhe diziam para não fazê-lo. – Família DeMarco. Esse nome soa familiar. – Eles estiveram aqui antes. – Haven falou – Eu costumava achar que a esposa dele fosse um anjo. A mãe olhou para ela. – Seu anjo? Haven confirmou com a cabeça. – Eu achei que eu mesma tivesse inventado, mas no final ela era real. Os olhos de sua mãe avistaram alguém por sobre o ombro da filha; a jovem se virou e viu Carmine se aproximando. – Falando do diabo. – Ei, achei que tivéssemos dito que o bundão dentro da casa fosse o diabo. – disse Carmine, balançando a cabeça – Caramba, o sujeito é desprezível. Pensei que Corrado fosse me dar um chute na bunda por dizer algumas coisas na cara dele.


Ela suspirou, sabendo que ele não tinha papas na língua. – E o que foi que você disse? – Sei lá, falei um monte. Ele é um inútil, sabia? Ele costuma foder com os que estão abaixo dele, mas não é capaz de enfrentar gente do mesmo nível ou superior. – os olhos dele se arregalaram – Não estou dizendo que você seja menos que ele ou coisa do tipo, ou que eu seja melhor que você, porque não sou. Você é muito melhor que ele. Caralho, você é melhor que eu, e eu digo… Haven colocou o dedo sobre os lábios do rapaz para que ele parasse de tagarelar, e a mãe dela respirou fundo. Olhando para Miranda, Haven retirou a mão da boca de Carmine, como num reflexo, mas ele imediatamente colocou os braços em sua cintura antes que ela pudesse se mover. – Acho que deveria nos apresentar, tesoro. Ela sorriu. – Mamãe, este é Carmine. Carmine, essa é a minha mãe. – Estou feliz em finalmente conhecê-la. – ele disse educadamente, esticando a mão. Miranda hesitou um pouco antes de esticar a dela, olhando diretamente para o rapaz. A voz de Corrado interrompeu a interação quando ele saiu da casa e disse: – O almoço está pronto. Achei que gostariam de saber, já que Carmine não parou de reclamar que iria morrer de fome. Haven revirou os olhos e Carmine sorriu. – O quê? Eu ainda não comi nada hoje. – Vá comer se estiver com fome. – ela disse. – Você não vem? Também não comeu nada ainda. Haven balançou negativamente a cabeça. – Não vou comer, já que ela não pode. A mãe suspirou. – Se eles vão permitir, vá lá e coma, Haven. Eu estarei bem aqui quando você terminar. – Não. Carmine franziu a testa. – E por que ela não pode comer? – O mestre nos alimenta à noite, mas nunca durante o dia… e, com certeza, nunca à mesa com eles. –Ah, eu tinha me esquecido disso. – disse Carmine – Essa baboseira. Você deveria comer quando tem fome, oras. – Está tudo bem. Carmine se afastou de Haven e foi em direção à casa. – Não, não está tudo bem. Esperem aqui. Vou dar um jeito nisso.

Pouco tempo depois a porta voltou a bater e Carmine saiu trazendo dois pratos nas mãos. Haven sorriu ao vê-lo se aproximar. – Você é tão generoso comigo. – Espera aí, essa frase é minha. – ele disse brincando, entregando um prato nas mãos de Haven – E pare de roubar minhas falas, viu? O outro prato ele entregou nas mãos de sua mãe, que não teve coragem de pegá-lo. Haven o pegou em seu lugar. Ela olhou para os sanduíches e percebeu o pão amassado e com marcas de dedos no meio. – Foi você quem preparou?


– Sim. – respondeu Carmine – Eu sei fazer um sanduíche, sabia? Sorrindo orgulhosa, Haven entregou o segundo prato a sua mãe. – Coma, mãe! Miranda o pegou com as mãos trêmulas. – Obrigada. – Não tem de quê. – disse Carmine – Agora sentem em algum lugar e comam. – Haven se sentou exatamente no lugar onde estava, mas Carmine segurou seu braço – Não pode se sentar em um lugar menos sujo? Ignorando o que ele disse, ela se abaixou. – Já estou suja. Carmine balançou a cabeça quando uma pequena nuvem de poeira se espalhou no ar. – Agora você me deixou sujo. – Bem, a menos que você esteja planejando cuidar de sua própria roupa, não tem do que reclamar. Ele riu. – Eu não seria eu mesmo se não reclamasse. Aproveitem seus sanduíches. Foi o melhor que consegui fazer. Sabe, não sei cozinhar, mas uma coisa eu sei: eu te amo. – ele a beijou antes de voltar para casa. Só então a mãe se sentou ao lado da filha. A fragilidade e a exaustão eram evidentes em seu rosto, mas ela parecia em paz.

Carmine estava de pé à janela, observando Haven no quintal enquanto o tempo passava. O sol já se escondia no horizonte e o céu ganhava a cor de carvão. Pelo canto dos olhos, o jovem podia sentir o olhar penetrante e enfadonho de Michael, tragando seu terceiro charuto. O cheiro de fumaça fazia o estômago de Carmine revirar. O sujeito fazia um sibilo cada vez que respirava, como se estivesse constantemente tentando dizer alguma coisa, mas nenhuma palavra saíra de sua boca nas últimas duas horas. Covarde filho da mãe. Corrado caminhou até Carmine e ambos se concentraram na visão do lado de fora. – Você precisa ajudar ela. – disse Carmine, sentindo-se horrível por ter de separá-las novamente. Corrado continuou a olhar para fora. – Lembra-se de quando seu avô faleceu? – Vagamente – ele disse –, só tinha seis anos na época. – Depois do funeral, eu estava de pé do lado de fora da casa e sua mãe se sentou ao meu lado. Maura… Ela jamais gostou de se aproximar de mim, portanto, para que ela o fizesse o assunto era grave. – ele fez uma pausa – Quando finalmente teve coragem de falar, ela disse exatamente essas mesmas palavras: Você precisa ajudá-la. Carmine o olhou espantado: – Haven? Corrado balançou a cabeça, confirmando. – Eu disse à sua mãe que aquilo não cabia a mim, mas eu deveria ter tentado. Eu lhe devia isso. – Você lhe devia isso? – Sim. Mas o motivo não vem ao caso agora. A única coisa que realmente importa é que jamais retribuí o que ela fez por mim. – Isso quer dizer que irá me ajudar? Corrado se virou para o jovem. – Eu disse que responderia por ela, não foi?


– Sim, você disse, mas… – Carmine respondeu, voltando a olhar para Haven – Mas e quanto à mãe dela? Não tem nada que possa fazer por ela? – Não posso ajudar todo mundo. Sempre haverá alguém, em algum lugar, que precisa de ajuda. – Eu sei, mas não se trata de qualquer um. – retrucou Carmine – Essa é a família dela; do mesmo modo como nós formamos uma família. O olhar de Corrado foi intenso. – Ah, agora você pretende se utilizar dos recursos de que dispõe. – Eu, ah… – Carmine hesitou, mas não havia como negar sua intenção – Sim. – E tem certeza de que realmente quer fazer isso? O tom de Corrado fez com que Carmine se questionasse por um momento. Será que ele tinha essa certeza? – Sim, eu tenho. Virando-se novamente para a janela, Corrado acenou a cabeça. – O máximo que posso fazer é permitir que ela viva em minha casa. É um grande risco, mas, honestamente, depois de afirmar que responderia por sua namorada, acho impossível me enfiar em alguma enrascada pior. Se eu morrer, rapaz, será por causa disso. Nada mais importará. – Corrado se voltou para Michael, que ainda estava sentado em silêncio em sua poltrona – Alguma objeção, Antonelli? Michael gaguejou. Ele não prestara atenção na conversa dos dois. – Bem, eu… eu não tenho certeza. Corrado ergueu uma sobrancelha; o olhar dele foi suficiente para que Carmine interferisse. – O que quer dizer com “não tem certeza”? – Quero dizer que… – ele oscilou a cabeça – É claro, sem problemas. Corrado se virou novamente para o rapaz. – Bem, então cuidaremos disso esta noite. Leve Haven de volta para o hotel e retorne aqui. Tudo já estará resolvido quando chegar.

Carmine finalmente saiu da casa. No momento em que Haven o viu, uma sensação de medo se instalou em seu coração. Ele parou e disse. – Eu darei a você mais um minuto. A mãe de Haven a abraçou com firmeza, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. Seus lábios, no entanto, ostentavam um sorriso radiante. – Não faz ideia do que significa para mim ver como está. Minha garotinha, com o mundo todo ao alcance das próprias mãos. Haven a abraçou com força. – Eu te amo, mamãe. – Eu também te amo. Sempre te amei. Quero que siga em frente e viva sua vida. O coração de Haven se apertou ao ter de abandonar a mãe mais uma vez. – Sinto muito a sua falta. – Eu também, mas o mundo se torna melhor com você participando dele. – disse a mãe, afastandose um pouco – Agora saia desse lugar. Estou muito feliz em rever você, mas ficarei ainda mais contente sabendo que está vivendo em segurança. – Mas não posso deixar você aqui, mamãe. Não pela segunda vez. – Silêncio. – ela disse com severidade – Não se preocupe comigo.


Haven ainda tentou dizer alguma coisa, tentando se opor, mas sua mãe não lhe deu te a chance. – Vá. – ela falou – Você encontrou seu lugar no mundo. Não permita que eu te afaste dele. Haven cobriu a boca com as mãos enquanto lágrimas encobriam sua visão. Dando alguns passos para trás, ela olhou pela última vez para a mãe antes de correr em direção ao carro.


Capítulo 41

Já estava totalmente escuro quando Carmine retornou ao rancho naquela noite. O ar do deserto ainda era escaldante. Ele seguiu em direção à casa, irritado e incomodado, mas ficou petrificado ao ver a porta da frente se abrir: Miranda saiu correndo, com os olhos arregalados. Mesmo no escuro Carmine conseguiu identificar a marca de uma mão em sua garganta. – Quem fez isso com você? – Carmine perguntou – Eu vou matar ele. Miranda estampou no rosto uma expressão de pânico. – Por favor, não faça nada. O jovem tentou controlar o temperamento. – Mas isso é errado. – Eu sei, mas… Por favor. – ela saiu para o quintal, extremamente nervosa. Temia que estivesse sendo observada – Eu me lembro de quando sua mãe nos visitou. Ela costumava falar de um mundo lá fora para minha filha. Ela disse que Haven era especial. Ouvir aquelas palavras fez com que Carmine sentisse uma dor no peito, provocada pela saudade. – Ela é. – Significa demais para mim ouvir você dizer essas palavras. Quase não reconheci minha filha, sabia? Ela ainda é a mesma garota doce que eu criei, mas está feliz. Ela está bem melhor afastada de tudo isso. – ela deu alguns passos e então parou – Certa vez ouvi alguém falar sobre lugares seguros para pessoas como nós; sobre a maneira como eles ajudavam pessoas a se tornarem livres. Eram chamados de havens, ou abrigos. Eu dei esse nome à minha filha porque ela era meu porto seguro; meu abrigo. Quando ela nasceu, eu tive uma razão para continuar vivendo. Minha Haven, ou meu porto seguro, precisava de proteção. Já fiz tudo que podia, então lhe peço que cuide dela lá fora. Mantenha Haven distante de pessoas como essas. Pode fazer isso? Carmine ficou surpreso com a confiança que ela depositou nele. – Sim. – Obrigada – ela disse –, agora posso descansar em paz. A porta da frente se abriu e Miranda correu para os estábulos, antes que ele pudesse dizer uma única palavra. Carmine olhou para a varanda e viu Corrado, com as sobrancelhas erguidas. – Contou a ela? – Não, você a assustou antes que eu pudesse contar. Um som alto veio de dentro da casa. Eles ouviram passos no piso da cozinha enquanto a voz de uma mulher ecoava no ar. – O quê? Meu irmão disse que responderia por aquela vadia? Revoltado, Carmine subiu os degraus, mas Corrado o segurou pela camisa para impedi-lo. – Não diga nada! A porta da frente se abriu e Katrina saiu da casa. Ela vacilou ao ver Carmine, mas se controlou e se voltou para o irmão. – Não acredito nisso, Corrado! O que fez meu marido assinar essa manhã? – Ele assinou o que era necessário. – ele respondeu, sem deixar que sua expressão revelasse a fúria que sentia internamente. Katrina soltou um riso ferino. – Necessário? Nada disso é necessário! Você está libertando aquela maldita garota e ainda


querendo levar a mãe dela? O que deu em você? É por causa dela? É por causa dela, não é? Os olhos de Corrado pareciam em chamas e ele perdeu a paciência. – Chega! O coração de Carmine disparou, mas Katrina continuou provocando. – É isso, não é? Está tentando consertar o erro do passado, não é? Mas ele não pode ser consertado! – Não vou repetir, Katrina. – Não tenho medo de você. – ela disse, aproximando-se ainda mais dos dois – Está arruinando minha vida por causa disso! Por que essas pessoas importam tanto? Só porque esses estúpidos DeMarco se… Corrado esticou o braço e segurou a irmã pela garganta, impedindo-a de continuar. Ela começou a sufocar e cravou as unhas bem cuidadas nas costas dele, tentando arrancar suas mãos. Mesmo quando ela o fez sangrar, Corrado não a soltou. – Você já acabou de falar? – ele perguntou, retomando sua frieza habitual. Katrina lutava para conseguir respirar e falar – Queima, não é mesmo? Imagine como elas se sentem quando você as tortura. Pense em como ela se sentiu naquele dia, Kat, quando aqueles sujeitos a sufocaram e a violentaram e você não fez nada para impedi-los. Corrado continuou a olhar para a irmã, sem dar qualquer indicação de que pretendesse soltá-la. Foi então que Michael saiu pela porta e falou: – Pare! Vai matar ela. Os olhos de Corrado se voltaram para Michael. Não havia qualquer expressão nos olhos dele, apenas escuridão. Aquele era o Corrado que Carmine tanto temia. Antes que pudesse raciocinar, um barulho forte veio dos estábulos e os cavalos relinchavam sem parar, assustados com alguma coisa. Corrado soltou Katrina, olhou para Carmine e desceu correndo os degraus. Carmine saltou da varanda e saiu em disparada atrás dele. – Essa mulher não é aquela. – gritou Katrina – Só porque ele está fazendo a mesma coisa que o pai fez não quer dizer que elas sejam a mesma pessoa! Aquelas palavras pegaram Carmine de surpresa. Ele se virou e olhou para Katrina, sem prestar atenção para onde estava indo. De repente ele se chocou contra as costas de Corrado, quando este parou na porta do estábulo. Corrado empurrou Carmine para dentro e ele ficou horrorizado. O rapaz quase parou de respirar e sentiu vontade de vomitar, quando seu peito foi tomado pela amargura. Aquela imagem o deixou transtornado, sufocado e sua visão escureceu, quase o fazendo desmaiar. Flashes de memória espocavam em sua mente; seus joelhos ficaram trêmulos. Os tiros, o sangue, o terror, aquela figura de capuz apontando a arma para ele. Lá estava sua mãe, caída ao chão naquela viela escura, sem vida, depois de gritar apavorada. Corrado o chacoalhou para que voltasse à realidade. – Controle-se, Carmine. Um pequeno banco de madeira estava caído sobre uma pilha de feno, bem à frente dos dois. Um par de pés descalços e sujos balançava a alguns centímetros acima dele. A figura frágil e agora tão familiar estava pendurada como uma boneca de pano, enforcada com uma corda grossa, presa a uma viga de sustentação. Carmine deu um pulo e segurou as pernas de Miranda, gritando por ajuda. Corrado pegou uma tesoura de jardim e cortou a corda. O corpo caiu sobre Carmine e ele se desequilibrou, dando alguns passos para trás. Depois de colocá-la no chão, ele verificou o pulso da mulher, mas não havia nenhum sinal de vida. Katrina e Michael se aproximaram enquanto Carmine aplicava técnicas de ressuscitação, pressionando o peito de Miranda e forçando ar em seus pulmões. O corpo dela ainda estava quente,


como se estivesse dormindo, mas os olhos arregalados e a cor azulada da pele diziam outra coisa. Carmine ouviu Katrina gritar e a voz apressada de Michael, mas o som de sua própria respiração acelerada o impedia de ouvir o que diziam. Pânico. Tudo o que ele sentia era pânico. Nada do que Carmine fez deu resultado. As costelas frágeis estalavam com a força dos movimentos, sem que seu corpo absorvesse nenhum ar. Miranda estava morta no chão. Corrado colocou a mão no ombro do rapaz. – Ela está morta. Carmine ainda tentou continuar. – Não, não está! Temos de salvar ela! – É tarde demais. – Não, não é! – ele gritou histérico enquanto continuava a pressionar o peito da mulher – Por que você fica aí parado? – Não há mais nada a fazer. – Ajude ela! Você me disse que iria ajudar, seu mentiroso! Corrado agarrou o braço do jovem, afastando-o do corpo inerte de Miranda e colocando-o de pé de frente para ele. – Ela está morta! – Como pode saber? A expressão de Corrado era fria. – Eu reconheço um cadáver quando olho para um. Carmine se sentou no chão sujo; seus olhos cheios de lágrimas. Ele então olhou ao seu redor, na expectativa de que tudo aquilo fosse um pesadelo do qual logo acordaria. Foi então que viu um sorriso orgulhoso nos lábios de Katrina. Aquela visão o fez perder o controle. – Isso é tudo culpa de vocês! – ele gritou, olhando para ela e Michael – Vocês a mataram! Vocês a forçaram a fazer isso! – Quem se importa? – retrucou Katrina – Ela era apenas uma escrava! No momento em que aquelas palavras chegaram aos ouvidos de Carmine, qualquer pensamento lógico que ainda restasse em sua mente desapareceu. – Não, ela não era uma escrava! – Carmine! – Corrado alertou. – Ela era uma Principessa! – ele disse, ignorando o tio – E Salvatore irá matar vocês quando descobrir o que fizeram! Pegando a podadeira que estava no chão, Carmine a empunhou contra Katrina, prendendo-a e impedindo-a de escapar. Enlouquecida, ela pegou uma pá e partiu para cima do rapaz, erguendo-a para atingi-lo na cabeça. Corrado reagiu rapidamente, sacando sua arma e atirando sem hesitação na irmã. O som do tiro reverberou no ambiente fechado e Carmine se encolheu ao ouvir o barulho ensurdecedor. Os cavalos relincharam, assustados pelo som da arma. Katrina começou a arfar no momento em que a bala atravessou o seu peito. Ela parou e, mesmo baleada, ainda conseguiu atingir a clavícula de Carmine com a pá. O jovem sentiu uma dor lancinante do lado esquerdo do corpo. Katrina ainda tentava dizer algumas palavras, soltando a pá e levando as mãos ao peito. Foi então que um segundo tiro a acertou bem no meio da cabeça e ela caiu ao chão. Michael soltou um grito desesperado e se jogou para cima de Corrado, que mais uma vez reagiu rápido. Abaixando-se, Carmine tampou os ouvidos quando um terceiro tiro atravessou o crânio do sujeito. Ele caiu morto no chão, bem ao lado da esposa. Carmine quase vomitou novamente quando viu Corrado disparar mais alguns tiros contra os


corpos. Sua frieza demonstrava que aquilo não significava nada para ele. Era como se não fossem pessoas; como se não fossem parte de sua própria família. Furioso, Corrado ergueu Carmine do chão, que cambaleou um pouco antes de conseguir ficar de pé. O jovem se inclinou, tentando de algum modo registrar tudo o que acontecera, mas toda aquela aniquilação o deixara paralisado. Corrado recolocou a arma no casaco e pegou o celular. Carmine sentou-se num pequeno banco, colocou a cabeça entre as pernas e cobriu o rosto com as mãos, respirando fundo. Seus ouvidos zuniam e seu coração batia acelerado. Tentando se acalmar, o rapaz começou a contar até dez, enquanto Corrado friamente falava ao telefone. Um. – Ocorreu um incidente. Dois. – Matei dois, senhor. Três. – A situação saiu de controle. Quatro. – Tive de agir. Cinco. – Minha irmã e o marido dela. Seis. – Assumo total responsabilidade. Sete. – Arrumarei um local apropriado. Oito. – E aceitarei quaisquer que forem as consequências… Nove. – … mesmo que isso signifique retirar o que disse sobre responder pela garota. Dez. Carmine olhou para o tio quando ele desligou. – Retirar o que disse sobre responder por ela? Corrado enfiou o telefone no bolso. – Sim. E é melhor que reze para que Sal esteja disposto a me perdoar, pois acabei de quebrar nosso código de conduta. – Eu, ah… – Não há nada mais a fazer, Carmine. O que está feito, está feito. – Mas, ela… – a irritação no rosto de Corrado o assustou – Ela era sua irmã. Devemos sempre proteger nossa família. – Bem, você é meu sobrinho, correto? – Carmine concordou – E Katrina atacou você, correto? – mais uma vez o rapaz concordou – Isso significa que eu protegi minha família. Minha irmã e meu cunhado cavaram suas próprias sepulturas, e não é culpa de ninguém, exceto deles mesmos, se agora irão repousar dentro delas. Carmine não disse nada, temendo que fosse vomitar se tentasse. Ele jamais imaginara que as coisas pudessem se desenrolar daquela maneira; nunca pensara que aquele dia terminaria com ele coberto de sangue, o mesmo sangue que corria pelas veias de Haven, diante dos corpos das duas pessoas que lhe deram vida. – Está tudo terminado. – disse Corrado, olhando para os corpos – E não cabe a você lidar com isso… É minha responsabilidade. Mas espero que isso lhe ensine uma lição e que finalmente perceba


que não sabe tudo da vida.

Haven acordou de sobressalto no quarto escuro do hotel. Com um vazio no peito e o estômago embrulhado, ela se sentou na cama. A estática na TV ainda ligada iluminava levemente a figura de Carmine, parado à porta. Uma sensação estranha invadiu seu corpo, e ela sentiu um calafrio que irradiava de seu coração. – Carmine? Ele olhou para ela e, pelo brilho da TV, ela percebeu o pânico no rosto do rapaz. Os olhos dele brilhavam com lágrimas de desespero e ela sabia que algo havia saído muito errado. – O que foi que aconteceu? – ela perguntou – Está tudo bem? Carmine deu um passo na direção dela e balançou a cabeça, num movimento lento e negativo. Aquela reação a deixou aterrorizada. Quando ele se aproximou ainda mais da cama ela pôde ver as manchas vermelhas em sua camisa. Ela já havia visto aquilo há vários anos, quando seu vestido azul ficou todo respingado com o sangue da menina que caiu morta ao seu lado. Aquela era a marca da desolação; a marca da morte. – Ah meu Deus, você está bem? Está ferido? – Eu não. – ele sussurrou, com o rosto tomado de agonia – Ela se foi. Ela se foi. Haven conhecia bem aquelas palavras. Ele as dissera para ela em relação à própria mãe. A jovem sentiu o peito se contrair; seus pulmões pareciam ter parado de funcionar; suas entranhas ardiam em chamas. – Não! A voz áspera de Haven ecoou desolada no momento em que ele esticou as mãos para tocá-la. Haven o empurrou o mais que conseguiu. – Pare! Você está enganado. Onde ela está, Carmine? O que aconteceu com a minha mãe? Apesar de lutar para tentar se afastar, Carmine a segurou e a pressionou contra o peito. Ela tentou se soltar, mas ele se manteve firme. – Me solte! Diga onde ela está! Com as lágrimas escorrendo pelo rosto e a voz trêmula, ele a fez parar de falar. – Sinto muito, beija-flor, mas ela não vai voltar. A profunda tristeza do rapaz destruiu qualquer esperança que ela ainda tivesse. Haven começou a chorar e soluçar de maneira incontrolável, enquanto ela se lamentava e gritava que ele não sabia de nada. Cerrando os punhos, ela o golpeou inúmeras vezes nas costas e ele aceitou cada um dos golpes, mantendo-se firme. – Eu sinto muito. – ele disse – Fiz tudo que pude, mas… ela se foi. O pânico da jovem aumentou. Ela choramingava e murmurava a palavra “não” e então gritava de maneira incoerente, dizendo a ele que precisava voltar lá e cuidar da mãe. Ela o culpava, uma vez que ele não lhe oferecia nenhuma explicação. As palavras de conforto do rapaz apenas a machucavam mais. Ele ignorou quando seu telefone tocou, assim como cada palavra dura e grito de dor. Cada “eu te odeio” que ecoava da boca de Haven era seguido de um “eu te amo” proferido pelo jovem. A cada vez que ela implorava para que ele a deixasse, ele assegurava que ficaria ao seu lado para sempre. Seu abraço era forte, seus braços, familiares, mas não conseguiam aplacar a dor da garota. – Ela não sofreu – ele sussurrou. – Foi escolha dela.


Haven quase não disse uma palavra por vários dias. Carmine explicou-lhe exatamente o que acontecera; contou a ela tudo o que sabia, mas ela não reagiu; não disse nada. Eles permaneceram naquele hotel na Califórnia pelo resto da semana, mas no sábado precisavam retornar para a Carolina do Norte. A Máfia já havia ido embora e DeMarco permanecia vivo, depois de conseguir resolver mais uma situação complicada. Na verdade, eles só foram até lá para limpar o porão da casa, preocupados com a atenção da polícia em cima de Vincent. A viagem de volta foi marcada pelo silêncio. Carmine parava várias vezes ao longo do dia para descansar. Quando o final de semana chegou ao fim, eles já estavam chegando aos limites de Durante. Ele estacionou ao lado da Mercedes do pai e saiu do carro, esticando o corpo. Haven entrou direto, sem esperar por ele, que a seguiu mesmo assim. Ele se deparou com o pai logo que entrou no hall. Vincent os olhou retornar com cautela. – Olá, crianças. – Olá. – respondeu Carmine. – Doutor DeMarco – disse Haven –, o senhor me dá licença? – É claro, dolcezza. Nem precisa perguntar. Carmine franziu o cenho, observando enquanto ela desaparecia escada acima. – Acho que vou pra cama. O pai dele suspirou. – Um dia de cada vez, Carmine.


Capítulo 42

As pilhas de livros se tornaram arranha-céus. Caminhando por entre elas, Haven ocasionalmente puxava um volume e examinava a capa e a descrição no verso. Eles já haviam retornado a Durante há alguns dias, pouco antes do início do último ano de Carmine. Ele se dedicou totalmente nas aulas e também na prática de futebol, deixando que Haven preenchesse os próprios dias sozinha. Ela cozinhava, limpava, mas ainda sobravam horas sem nada o que fazer; sem ninguém para conversar. Precisando de alguma distração, ela se voltava para a biblioteca, esperando se perder em algum mundo diferente; ser absorvida por um lugar e um tempo fictício; encarnar a vida de outra pessoa. Ela só queria esquecer tudo o que havia acontecido, evitar pensar nos últimos momentos de vida de sua mãe. Haven se pegou imaginando o que ela estaria pensando. Será que ela ficou com medo? Será que sentiu dor? Será que por um instante sequer ela se arrependeu de sua decisão? Aquela sensação de fracasso a incomodava profundamente. Naquele dia, ela correra desesperada pelo deserto de Blackburn, na expectativa de salvar sua mãe, mas havia esquecido aquilo. Agora era tarde demais. Sua mãe se fora. Haven passou os dedos sobre as lombadas dos livros e encontrou um que não tinha nome. Então puxou a capa de couro e um pedaço de papel caiu no chão. Ela o pegou e desdobrou, franzindo o cenho ao perceber que era uma carta. Ela caminhou até a cadeira próxima à janela, sentou-se com o livro no colo e leu o papel envelhecido. 8 de Outubro de 1997 Cara senhora DeMarco, Depois de avaliar cuidadosamente a situação, decidi que já não posso fazer parte dessa investigação. Na época em que assumi o caso, desconhecia todos os detalhes, do contrário, eu o teria rejeitado. Para toda e qualquer finalidade, Haven Antonelli não existe, e imploro à senhora que esqueça que a encontrou um dia. Juntamente dessa carta, encontrará a devolução total do pagamento que me fez. Considere nosso contrato encerrado, e peço-lhe a gentileza de não voltar a me procurar para falar sobre este assunto. Arthur L. Brannigan Investigador Particular Assustada, Haven olhou mais uma vez para o papel, certa de que não havia compreendido corretamente o conteúdo. Foi então que partes do quebra-cabeça começaram a se juntar, expondo um quadro que a deixaria sem palavras. Seus olhos se encheram de lágrimas, seu estômago revirou quando ela percebeu a data na parte de cima do papel: 8 de outubro de 1997, poucos dias antes de Maura DeMarco ser assassinada.

Vincent batia levemente a caneta sobre a escrivaninha, rodeado por pilhas de arquivos. O trabalho havia se acumulado, mas ele não conseguia se concentrar. Continuava perdendo o foco; seus


pensamentos e olhos se desviavam para a tela que ficava ao lado dele. Duas semanas já haviam se passado desde que Carmine e Haven retornaram de Blackburn, e aqueles dias se provaram os mais longos de toda a vida de DeMarco. O clima na casa estava tenso; o silêncio que se instalara naqueles quinze dias era desconfortável. Sentado à escrivaninha, todas às noites, ele via seu filho caminhar de um lado para outro no hall do segundo andar, a apenas alguns centímetros da porta do escritório do pai, sempre com as mãos nos cabelos, repreendendo e culpando a si mesmo pelo que acontecera. Vincent não podia ouvi-lo, mas sabia exatamente o que o filho estava pensando. DeMarco digitou alguns comandos no teclado e logo passou a ver o que acontecia na biblioteca. Logo ele viu a jovem, encolhida na cadeira com um livro no colo. Era o mesmo lugar em que se acostumara a ficar sentada no escuro, olhando para o jardim. Ela cada vez se fechava mais, mas Vincent estava muito cansado para interferir. Ele estava em apuros com la famiglia. Ele mentira, trapaceara, roubara e matara em nome deles, mas de uma coisa ele sempre se orgulhou: sempre fora fiel. Vincent podia ser um criminoso, mas, pelo menos, costumava se considerar um criminoso honrado. Todavia, a situação mudara nos últimos tempos, e a organização estava ciente de seu comportamento. Aquilo ficara óbvio na última visita que recebera. Todos da Cosa Nostra eram treinados para perceber qualquer ato incorreto… e Vincent estava cansado de ser desonesto. Maura lhe dissera certa vez que, embora nem todos vivessem, todos um dia morreriam, e com a morte viria a libertação. De fato, a morte significava liberdade. Liberdade de todas as coisas que nos mantêm presos e subjugados. Vincent costumava retrucar sempre que ela dizia aquilo, mas agora ele a compreendia. Ele entendia exatamente o que era desejar encontrar a paz, sem entretanto conseguir, porque seu trabalho ainda não estava terminado. Um homem tem de seguir em frente até que tenha cumprido seu propósito. Vincent invejava os que já descansavam em paz. O que ele não daria para tirar todo aquele peso de seus ombros… Mais uma vez ele pressionou o teclado e percebeu que Carmine estava no mesmo lugar, perambulando de um lado para outro enquanto olhava ora para o escritório, ora para as escadas que o levariam ao terceiro andar. Vincent olhou no relógio: já passava das onze da noite. Geralmente Carmine tomava sua decisão antes daquele horário e subia as escadas. A garota, então, saía correndo da biblioteca antes que ele chegasse lá. Essa noite, contudo, as coisas foram diferentes. Quando Carmine seguiu em direção ao escritório, tudo o que Vincent sentiu foi alívio. O Dia do Julgamento havia chegado. Ele estava um passo mais próximo de encontrar a paz. A porta se abriu e Carmine entrou, fechando-a violentamente atrás de si. Feliz pelo filho ter resolvido entrar, Vincent nem o repreendeu por entrar sem bater. – Sente-se. – ele disse, pressionando as teclas e observando mais uma vez a situação na biblioteca. Carmine bufou e se sentou. Seus olhares se encontraram e Vincent percebeu toda a curiosidade e todas as dúvidas que estampavam o rosto do jovem. Havia muito ressentimento escondido ali, mas Vincent não o culpava por isso. – Sua aparência está péssima. Parece que não dorme há anos. – disse Carmine – E, por Deus, você tem se alimentado? Vincent se recostou na cadeira. – Quer discutir meu estado de saúde, Carmine? A expressão do pai era séria. – Claro, você está horrível. – Bem, obrigado pelo elogio, mas algo me diz que você não passou a semana inteira desperdiçando seu tempo do lado de fora do meu escritório só para tomar coragem para intervir na


maneira como estou me cuidando. – Como sa…? – Carmine fez uma pausa – Ah, você estava assistindo pelas câmeras de segurança. – Sim. – respondeu o pai – E já estava começando a me perguntar se você planejava mesmo entrar em algum momento. Carmine soltou um suspiro. – Eu não sabia o que dizer. Não fazia sentindo entrar só pra olhar pra você, já que você parece em frangalhos. – Considerando o fato de você estar aqui agora, isso significa que já sabe o que dizer? – Não, só fiquei cansado de perambular pelo hall. – Ah, então achou melhor olhar para mim do que para aquelas paredes brancas. Que bom, pelo menos isso. Carmine esboçou um sorriso. – Não, mas é bom saber que mais alguém nesta casa ainda se lembra de como fazer uma piada. – Tale il padre, tale il figlio. – disse Vincent, arrependendo-se imediatamente das palavras que deixou escapar. O sorriso de Carmine desapareceu e Vincent sabia exatamente o que o filho desejava saber. Ele temera esse momento por muitos anos. – Quando estávamos em Blackburn, Katrina disse uma coisa. – Carmine começou – Ela disse que só porque estávamos fazendo a mesma coisa, isso não significava que nós fôssemos os mesmos… que Haven não era ela. E não foi só isso. Ela falou outras merdas também. Então, pai, eu gostaria de saber… – Gostaria de saber como conheci sua mãe. – Gostaria de saber a verdade. A verdade. Vincent não poderia mais evitá-la. A tarde estava muito quente quando um jovem parou de pé no jardim da mansão dos Moretti, em Las Vegas. Ele ergueu a mão para bloquear a forte luz do sol enquanto caminhava pela lateral da casa, em busca de alguma sombra. Assim que fez a volta atrás da casa, se deparou com alguém. Soltando os braços, o rapaz piscou algumas vezes para a jovem que estava à sua frente. A pele pálida da moça brilhava sob a luz do sol e contrastava com seus cabelos vermelhos. Aqueles olhos verdes o encararam com cautela, enquanto ele olhava para eles hipnotizado. Ela disse alguma coisa, mas o jovem sequer conseguiu ouvir. De repente seu estômago se contorceu; seu coração disparou. Colpo di fulmine. Foi como um raio direto na cabeça: o rapaz estava apaixonado. – Algum problema? – ela perguntou quando ele a puxou para debaixo de uma sombra. – O único problema é que não sei o seu nome. Ela sorriu e respondeu. – É Maura. Maura. Os cabelos ruivos da jovem escorriam pelos ombros e as sardas decoravam seu nariz. Ela não era italiana, de jeito nenhum. Aliás, nenhum italiano que o rapaz encontrara em toda sua vida tinha olhos daquela cor. Aqueles olhos… Vincent nunca se cansava de olhar para eles. E conforme se concentrava no filho caçula do outro lado da escrivaninha ele via aqueles mesmos olhos verdes, agora observando-o com desconfiança. – Nós nos encontramos na festa de noivado de Celia. – ele respondeu, com o olhar distante. Às vezes ainda era difícil para Vincent falar sobre aquele assunto. – E o que uma garota irlandesa estava fazendo numa festa para dois italianos? Foi exatamente aquilo que Vincent pensara naquela tarde. Ele e Maura se sentaram encostados na parede da casa; ele com as pernas esticadas, se abanando por conta do calor. Os joelhos de Maura estavam recolhidos até o peito, e ela retirava a grama seca


do jardim. Eles ficaram sentados ali quase uma hora. – Não está com calor? – ele perguntou. – Não, mas você pode entrar se quiser. O ar frio dentro da casa o fará sentir-se melhor. – E por acaso você viria comigo? – De jeito nenhum. – ela respondeu – Isso não seria nem um pouco apropriado. O rapaz deu risada. – Então, também não vou; ficarei bem aqui onde estou. – Eles não irão reparar que você sumiu? – Duvido que se lembrem de que estou vivo. – ele respondeu – Mas e quanto a você? Antes que ela pudesse responder, seus olhos se concentraram na figura que aparecera atrás do jovem. Ele se virou e resmungou ao ver Katrina parada ali, olhando para os dois. – Desapareça, sua chata, não estou com saco pra te escutar. – O que diabos pensa que está fazendo? – perguntou Katrina num tom severo. Maura se colocou de pé imediatamente, abaixando os olhos enquanto tremia. – Sinto muito, senhora. Senhora. No momento em que ela pronunciou aquelas palavras, ele descobriu a verdade. – Bem? – Carmine perguntou de modo impaciente, puxando Vincent de seus pensamentos – E o que ela estava fazendo lá? – Ela trabalhava na casa. – Ela trabalhava na casa? – Carmine repetiu as palavras do pai – Como assim, ela era uma empregada? Uma garçonete? Porque na época vocês tinham o quê, quinze anos? Não era idade suficiente para que ela trabalhasse. Não que vocês sigam alguma lei trabalhista ou algo do tipo… Vincent deu um suspiro. – Ela não era empregada, nem ganhava um salário. Carmine lançou o corpo para frente, aumentando o tom da voz. – Isso é verdade? Está falando sério? – Sim. O filho se levantou abruptamente da cadeira, empurrando a mesa contra o pai. Vincent segurou o notebook antes que o aparelho fosse ao chão e continuou ouvindo enquanto Carmine esbravejava. – Como eu pude ser tão estúpido? Eu jamais teria imaginado que ela pudesse ter sido uma… Você teria de… Meu Deus! Vincent empurrou a escrivaninha de volta ao lugar certo. – Você pode pronunciar a palavra. – Eu sei – ele retrucou –, mas e quanto a você? – Claro. É só uma palavra. – Então diga. Pare com essa merda de “ela trabalhava na casa” e diga de uma vez. – Escrava. – Vincent disse – Ou vítima de tráfico de pessoas. Não importa do que o chamemos, é tudo a mesma coisa. Carmine ficou ainda mais nervoso. – E os Moretti eram os donos dela? É por isso que Corrado disse que deve algo a ela? – Isso não cabe a mim responder. Terá de perguntar a ele. – É claro que não cabe a você. – resmungou Carmine, batendo com as duas mãos na escrivaninha – Mais uma vez recorre à velha tática do “isso não cabe a mim responder.” Ninguém quer me dizer nada, então empurram o problema para outra pessoa. Não acredito que você tenha escondido isso de mim! Depois de tudo que aconteceu, como pôde deixar de me contar isso? Vincent empurrou as mãos de Carmine.


– É melhor você se acalmar. Se realmente deseja uma explicação, sente-se agora. Do contrário, saia do meu escritório agora. A escolha é sua, mas não vou ficar aqui e permitir que se dirija a mim como se fosse uma criança. Carmine olhou furioso para o pai, contraindo o maxilar. Vincent sabia que o filho queria gritar alguma coisa, mas Carmine era esperto o suficiente para saber que para conseguir respostas teria de seguir as ordens do pai. Soltando um suspiro, Carmine se sentou. Vincent organizou alguns papéis sobre a mesa e olhou mais uma vez para o computador antes de se voltar para o filho. – Quando você acha que teria sido o momento certo para lhe dizer? Quando tinha dois anos e sequer sabia o significado de escravidão? Quando completou oito anos e acreditava que sua mãe era sua heroína, infalível? Depois que ela morreu, quando já estava machucado demais? Nunca encontrei o momento certo. – Mas não acha que eu tinha o direito de saber o que a minha mãe era? Aquela pergunta fez Vincent perder a paciência. – A sua mãe não era aquilo! Quantas vezes eu o ouvi dizer à sua namorada que a escravidão não a definia como ser humano? Quantas vezes, Carmine? E agora você tem a ousadia de dizer isso para mim? – Eu não tive a intenção… – Não importa qual foi sua intenção. – respondeu Vincent – É por isso que nunca desejei que você soubesse. Maura queria que as pessoas a vissem como uma esposa e mãe; como uma mulher, não como uma vítima. Eu permiti que ela deixasse seu passado para trás e, talvez, isso tenha sido injusto com você, filho, mas era a vida dela. A decisão era dela. Eu amava sua mãe e tivemos de enfrentar um verdadeiro inferno para que pudéssemos permanecer juntos. Tentei tornar tudo o mais fácil possível para você, assim talvez você pudesse aprender com os meus erros. Eu tive de aprender pela tentativa e erro. Perdi a paciência com ela tantas vezes porque eu não a compreendia. Carmine cobriu o rosto com as mãos tentando controlar suas emoções. – Ela sempre pareceu tão bem ajustada. – Essa sempre foi nossa intenção. – disse o pai – Não queríamos estimular sua percepção para as coisas que ela fazia. Se soubesse a verdade, começaria a fazer mais e mais perguntas. As lágrimas inundaram os olhos de Carmine. – Então é por isso que ela estava tão desesperada para ajudar Haven. Vincent sabia que havia abalado os alicerces de Carmine, então ele prosseguiu com cautela. – Maura não nasceu escrava, mas sabia exatamente o que uma criança teria de enfrentar ao crescer. Sua mãe queria salvá-la antes que aquilo se tornasse uma realidade. Quanto maior a idade em que se tira uma pessoa dessa vida, menor a chance de ela se adaptar ao mundo exterior. – É por isso que nunca vemos a vovó? Tinha medo de que ela nos contasse a verdade? Uma gargalhada interrompeu o silêncio e demorou alguns segundos para que Vincent percebesse que partira dele mesmo. – Ah, minha mãe. – ele riu novamente – Digamos apenas que ela tem suas próprias convicções. Ser uma escrava já era ruim o suficiente, mas uma escrava irlandesa era motivo de absoluto repúdio. – Então, ela realmente era de origem irlandesa? Essa parte é verdade? – Sim. O pai dela entrou numa encrenca com a máfia irlandesa. Eles sequestraram Maura como garantia quando ela ainda tinha seis anos. – Ela foi sequestrada? E ninguém procurou por ela? – É claro que as pessoas procuraram por ela. Mas mais de duas mil crianças desaparecem todo dia nesse país. Sua mãe sumiu antes do advento da internet; também não havia agências especializadas em crianças desaparecidas, muito menos alertas de emergência no rádio e na TV para casos desse tipo.


Tudo com o que eles contavam na época era o boca a boca. Depois que todos pararam de falar no assunto, foi como se ela jamais tivesse existido. – Mas e quanto aos pais dela? – Foram assassinados. – ele respondeu – Maura foi vendida algumas vezes e acabou nas mãos de Erika Moretti. – Quem a libertou? Quem assumiu sua tutela e respondeu por ela? – Acho que posso dizer que fui eu. Seu avô me disse que se quisesse algo na vida, seria minha responsabilidade correr atrás e consegui-lo. Foi então que fui iniciado nessa vida, e ainda estou pagando o preço por isso. – ele fez uma pausa – É tudo o que queria saber? Porque estou exausto e não tenho mais energia para esse tipo de conversa. Carmine acenou positivamente, embora Vincent tivesse certeza de que o rapaz queria saber muito mais. – Eu conversarei com seu irmão sobre isso, mas a decisão de contar ou não a Haven é sua. – Acho melhor não. Ela já tem muito na cabeça. – É, imagino que sim. – disse Vincent, olhando novamente para o computador para ver se ele continuava no mesmo lugar – A vida da mãe dela terminou exatamente quando a dela começou. Aliás, falando nisso… – ele prosseguiu, abrindo a gaveta da direita, retirando de lá alguns arquivos e os entregando a Carmine – Aqui está toda a papelada da jovem. Levará algum tempo até que seja feita a partilha de bens, mas ninguém irá contestar a herança. Tecnicamente tudo iria para Corrado, de qualquer modo, mas ele passará tudo para o nome dela quando as coisas estiverem terminadas… Assim como lhe dará a liberdade, é claro. – Esse é o melhor presente que alguém poderia lhe dar. – Não é um presente, Carmine. É apenas algo a que ela sempre teve direito.

A chuva despencava do céu e batia forte contra a janela. Não havia sinal da lua, tampouco das estrelas; não havia nada além de escuridão. Parecia ameaçador, mas apropriado… Era assim que Haven se sentia por dentro. Vazia. Ela talvez estivesse absorvendo oxigênio em seus pulmões e seu coração devia estar enviando sangue para seu corpo, porém, uma parte dela havia deixado de existir. Aquela fora uma morte lenta e torturante, dolorosamente agonizante, principalmente por ela considerar tudo aquilo sua própria culpa. Olhando para o relógio na parede, Haven firmou os olhos para ver os números. Havia luz suficiente para que ela percebesse que já havia passado da meia-noite; um novo dia havia acabado de começar. 10 de setembro. Ela observou a chuva por mais algum tempo, antes que uma sombra se movesse. Carmine estava parado a alguns centímetros de distância, olhando para ela. – Acho que deveríamos ir para a cama. Pegando o livro que estava em seu colo, ela o colocou sobre a mesa e correu para o quarto antes que ele pudesse dizer outra palavra. Carmine a seguiu e fechou a porta, puxando-a para perto de si ao deitar na cama. – Buon compleanno, mia bella ragazza – ele disse – Feliz aniversário.


Capítulo 43

Haven voltou-se para o outro lado do quarto com os olhos ainda embaçados e viu Carmine próximo à porta, segurando um pequeno prato com uma rosca de canela. Uma única vela azul estava colocada sobre ele. Haven soube imediatamente que a rosca havia acabado de sair do forno. O cheiro de queimado também revelava quem o tinha feito. – Você mesmo assou? – ela perguntou, surpresa. Carmine olhou meio encabulado. – Bem, eu não me arriscaria a fazer um bolo de verdade. Essa rosca já foi difícil pra caramba. Levou um tempão até que eu descobrisse como abrir a caixa. Tive que ligar pra Dia e perguntar. Haven sorriu quando ele se aproximou; seu coração estava tão repleto de amor que chegava a doer. Apesar de tudo, ele ainda representava o mundo dela, seu único mundo. Parte dela podia se sentir morta, mas havia outra que vivia exclusivamente para Carmine. – Isso foi tão amável de sua parte. – ela disse, pegando o prato – Não tinha de fazer isso. Eu te disse que… – Eu sei o que você me disse – ele retrucou –, mas não podia ignorar seu aniversário. Você nunca o celebrou antes. É algo muito especial, portanto, sem discussão. É rude reclamar quando as pessoas querem fazer coisas pra você. É como aquele ditado: “Em cavalo dado não se dá um soco…” ou algo assim. Ela riu. – Com cavalo dado, não se olham os dentes. Revirando os olhos, ele procurou no bolso por um isqueiro e acendeu a vela. – É. A caval donato no si guarda in bocca. Quer saber, apenas sorria e acabe logo com isso. – no momento em que ele afastou a mão Haven soprou a vela – Mas que pressa, hein? Você fez o desejo? Ela franziu a testa no momento em que Carmine retirou a vela de cima da rosca. – Um desejo? – Você tem que fazer um pedido antes de apagar a vela. – ele explicou – É pra isso que ela serve. Não importa, pois terá uma segunda chance mais tarde. Ela ficou nervosa. – O quê? – Nós vamos passar a noite em Charlotte, com a Dia, e celebrar seu aniversário. Caramba, você realmente imaginou que se livraria dela? Somos praticamente seus únicos amigos. Ele olhou para a jovem como se implorasse para que ela não discutisse. Haven partiu a rosca em dois pedaços e o compartilhou com Carmine. A parte de baixo estava toda queimada e difícil de mastigar, mas ela não reclamou e logo devorou sua parte. Depois de Carmine terminar a dele, ele pegou uma pilha de papéis e entregou a ela. – O que é isso? – ela perguntou. – Isso, tesoro, é sua vida. Haven olhou para o papel que estava em cima. Era um certificado de cidadania americana. Lágrimas inundaram seus olhos quando ela viu seu nome escrito. Emocionada, começou a folhear o restante da papelada, mas só ficou mais confusa. Testamentos, codicilo, tutoria, remanescente da herança, conta fiduciária… – Mas o que significa tudo isso?


– É sua herança. Levará alguns meses antes que consiga colocar as mãos nela. Na verdade, deveria ter levado alguns meses pra que tudo estivesse pronto, mas de algum modo Corrado conseguiu agilizar as coisas. Provavelmente extorquindo alguém. Ela o encarou. – Herança? – Claro, a propriedade, o dinheiro e essa merda toda. Digo, eu imagino que não vá querer manter a casa, mas você pode vender ela… – O quê? – ela perguntou – Que casa? Ele parou de falar e olhou para ela, surpreso. – Ué, a casa em Blackburn. – Está dizendo que aquela casa me pertence? – ela balançou a cabeça e piscou algumas vezes, tentando absorver a informação – Não quero aquela propriedade. Não quero nada que tenha pertencido àquela gente. Franzindo a testa, Carmine pegou a mão da jovem. – Escute, não pense nisso como se aquelas pessoas estivessem lhe dando nada. Mas, depois de tudo o que passou, você merece. É como uma reparação. Não estou dizendo que qualquer quantia em dinheiro seja capaz de compensar o que te aconteceu, porque não seria. Mas depois de tudo o que perdeu, você pelo menos terá o direito a tudo o que era deles. Você entende o que estou dizendo? – Sim. – E o dinheiro te ajudará com essas coisas. – ele disse, pegando a papelada e reorganizando tudo de modo que o certificado de cidadania ficasse no topo da pilha. – E o que acontece comigo agora? Ainda estou aqui… – Meu pai já me disse que você pode ficar aqui o tempo que quiser, mas não é obrigada. – Mas, para onde eu iria? – Para onde quisesse. – ele respondeu – E já te disse. Para a Califórnia, Nova York, Timbuktu, Egito… ou qualquer outro lugar perdido nesse mundo. Você escolhe e nós vamos. Ou, se preferir, pode ir sozinha. O que te parecer melhor. Lágrimas escorreram de seus olhos e ela agarrou os papéis com as mãos trêmulas. Diante de toda aquela comoção, Carmine a fez sentar na cama e a abraçou firmemente. Impressionada com tudo o que ele dissera, ela nem sabia o que pensar. – Não quero ir a lugar algum sem você, Carmine. Eles olharam um para o outro e os olhos verdes do rapaz estavam repletos de emoção. O jovem secou as lágrimas que escorriam pelo rosto dela, antes de deslizar os dedos sobre os lábios de Haven. Ela soltou um suspiro tremido quando ele a beijou. Todos os documentos se espalharam pelo chão. Ambos se deitaram e ela esfregou as mãos nos cabelos revoltos do namorado. – Ti amo. – ele sussurrou contra a boca da jovem – La mia bella ragazza. Quero que você se case comigo. Ela se assustou. – Me casar com você? – Claro que não estou falando de nos casarmos hoje ou amanhã. Nem precisa ser esse ano ou no próximo. Mas, algum dia, quando estiver pronta, prometa que irá passar o resto de sua vida ao meu lado? – aquelas palavras provocaram um frio na barriga – Olha, eu sei que estou fazendo tudo isso da maneira errada, mas… – Tudo bem. – ela disse com a voz falhada – Sim. Ele ficou parado. – Sim? – É claro que sim, Carmine!


O rosto dele se iluminou. O rapaz a beijou de modo ardente e ela, meio rindo, retribuiu o beijo. O mundo exterior simplesmente desapareceu enquanto as mãos dele percorriam o corpo da jovem; as pontas de seus dedos provocavam fagulhas em sua pele. Saber que estava livre e teria agora uma vida inteira pela frente, e que apesar de tudo o que lhe acontecera no passado aquele rapaz ainda a queria em seu futuro, tudo isso a incendiou por dentro. Ainda não havia escurecido quando Carmine estacionou em frente ao prédio de tijolos encardidos em Charlotte. O velho elevador tremia enquanto os levava ao sexto andar. Chegando lá, os dois seguiram por um corredor até o apartamento 67.

Carmine se preparou para bater, mas a porta se abriu antes disso. Dia estava de pé à frente deles, vestindo um par de jeans surrados e rasgados e uma regata azul; o cabelo dela era uma mistura de camadas pretas e violetas. – Feliz aniversário! Dia os fez entrar e Haven congelou no momento em que entrou no primeiro cômodo. As paredes eram cor de creme, mas era difícil ver a tinta por conta das centenas de fotografias penduradas em todas elas. O resto do apartamento estava decorado em cores vibrantes, e os balões comemorativos praticamente se mesclaram ao fundo. Havia presentes próximos aos enfeites e um pequeno bolo redondo. Gratidão e culpa lutavam para estabelecer o controle. – Você não precisava… – Ah, não. Não seja uma estraga prazeres. – Dia retrucou, puxando-a para a mesa. Haven sentou-se enquanto Carmine se encostou à parede e ficou olhando para ela. Dia colocou as velas sobre o bolo e as acendeu, afastando-se para cantar Parabéns a você. Haven olhou para as luzes tremeluzentes, lembrando-se de fazer um desejo dessa vez. – Por favor, meu Deus. – ela suplicou – Traga minha mãe de volta para mim. Respirando fundo, a jovem apagou as velinhas e observou a fumaça que se formara. Dia as puxou de cima do bolo antes de atirar-lhe um presente nas mãos, pegando-a de surpresa. – Desculpe. – ela disse – É que não vejo a hora de você abrir isso. Haven abriu o embrulho e viu uma pequena caixa de cobre com o tampo de vidro. Dentro dela havia um trevo de quatro folhas, assim como corações vermelhos e continhas prateadas e brilhantes. – É um relicário. – Dia explicou – Você deve guardar aí suas coisas favoritas. Haven sorriu. – Mas não acho que Carmine caberia aqui. – Também não. – disse Carmine, rindo – Nem mesmo o meu pau caberia nessa caixinha.

Outros presentes foram abertos e, em seguida, os três comeram o bolo. Depois disso assistiram a filmes e ouviram música a noite toda. Aquele encontro pareceu mais um dia comum do que uma celebração. Haven se sentia ridícula por toda a ansiedade em relação ao evento, mas grata por ter a possibilidade de relaxar ao lado de amigos. Amigos. Ainda lhe parecia surreal a ideia de existirem pessoas em sua vida às quais ela podia chamar de amigos. – Mas e aí, vocês dois já pensaram no que irão fazer no ano que vem? – Dia perguntou – Imagino


que vocês não pretendam ficar em Durante muito mais tempo. Haven olhou para Carmine, que apenas ergueu os ombros. – Não importa pra mim. Se ela se casar comigo eu irei com ela até os quintos do inferno. Dia estava tomando um refrigerante, mas, ao ouvir aquilo, acabou engasgando e a bebida se espalhou por todo o lugar. Tossindo, ela levantou as mãos para o ar. – Você disse se ela se casar com você? – Disse. – Você a pediu em casamento? – perguntou Dia, dando um pulo e agarrando a mão de Haven – Mas cadê o anel? Carmine resmungou. – Eu não tinha um na hora. – Você pelo menos se ajoelhou antes de pedir? – ela perguntou. Carmine apenas negou com a cabeça, levando um soco da amiga no braço – Mas que tipo de pedido de casamento é esse? – Não foi um pedido formal. – ele respondeu – Eu só perguntei se casaria comigo um dia. – Isso é ainda pior! – Dia tentou socá-lo novamente, mas dessa vez ele se desviou. – Droga, para de me bater. Não foi como se eu tivesse planejado. Apenas saiu. Dia balançou a cabeça. – Todo aquele planejamento mirabolante para o Dia dos Namorados e você estraga justamente o pedido de casamento. Ele abriu a boca para responder, mas Haven interrompeu antes que pudesse. – Não preciso de nada daquilo. Carmine deu um sorriso amarelo. – Viu, Warhol? Eu não estraguei nada. – Você ainda podia ter se ajoelhado. Carmine deu risada. – Bem, eu até que ajoelhei, mas foi ao lado das pernas dela, se é que me entende. Revirando os olhos, Dia apenas se sentou. – Tá, então vocês transaram. Tenho certeza de que foi muito romântico. – Nós não transamos. – retrucou Carmine – Nós fizemos amor.

Durante as duas semanas seguintes a presença de Carmine foi escassa. Na verdade, eles se viam menos do que da última vez. Ele costumava sair cedo para a escola, enquanto Haven ainda dormia, e só retornava na hora do jantar, depois do treino. Depois que comiam, ambos subiam para o quarto. Carmine fazia sua lição de casa e ia para a cama. Eles sequer dormiam juntos na maioria das noites. O embaraço de Haven aumentou com o passar dos dias e o comportamento de ambos mudou, retornando aos velhos padrões. Ele voltou a mostrar um temperamento forte e explosivo. Haven, por sua vez, deixava passar, apesar das palavras grosseiras. Era noite de sexta-feira e o primeiro jogo da temporada para Carmine. As palmas das mãos da jovem estavam suadas quando entrou no carro de Dominic, por volta das sete da noite. É por Carmine, ela disse a si mesma. Não importava quantas pessoas haveria; isso não a impediria de estar lá para lhe dar apoio. Quando chegou à escola, pôde ouvir o barulho que vinha do estádio desde o estacionamento. A voz do apresentador sobrepujava a de todos os presentes. Ela saiu do carro e ficou ali parada, tentando


juntar a coragem necessária para se mover. Foi então que alguém tocou em seu ombro. O coração dela acelerou e ela se virou, já protegendo o rosto. – Ei, calma, sou eu. – disse Nicholas. Ela abaixou as mãos. – E o que você quer? – E eu preciso querer alguma coisa? Achei que seria uma boa acompanhar você até dentro do estádio. – Se está tentando magoar Carmine fazendo com que ele nos veja juntos, por favor vá embora. – Honestamente, isso nem havia passado pela minha cabeça, mas agora que mencionou… – Até logo, Nicholas. – sua frustração foi suficiente para que ela seguisse seu caminho. Porém, antes que fosse muito longe, reparou num grupo de garotas bloqueando a entrada. Lisa estava bem no centro. – Achei que gostaria de uma escolta pra conseguir passar pelo pelotão de fuzilamento. – disse Nicholas, que caminhava bem atrás dela – Mas se prefere ir sozinha… – Não. Soltando um suspiro, ele colocou a mão nas costas da jovem. – Venha, então. Ela continuou a caminhar, olhando para a multidão, então ouviu as risadas quando se aproximaram do estádio. – Está aproveitando os restos que Carmine sempre deixa por aí? – Lisa perguntou – Não tinha percebido que estava assim tão… desesperado. Nicholas balançou a cabeça. – Você deveria ouvir a si mesma, Lisa. Você costumava ser a namorada dele. Se eu estivesse tão desesperado estaria com você, não com ela. Ele puxou Haven em direção à bilheteria e comprou seu ingresso, mas ela ficou ali parada, sem saber o que fazer. Ela não havia considerado que precisaria de dinheiro para entrar. – Eu. Ah… Eu nem me lembrei… Ele franziu as sobrancelhas e pegou a carteira novamente, comprando um segundo ingresso e entregando na mão dela. Ela tentou recusar, sem querer que ele lhe pagasse nada, mas não havia outro jeito de assistir ao jogo. Nicholas a acompanhou até as arquibancadas. Ele mais parecia um guarda-costas: mãos enfiadas nos bolsos, ombros caídos, e boné enfiado na cabeça, escondendo parcialmente seus olhos. Haven parou para observar a multidão e logo encontrou Dia sentada na parte central. Porém, antes mesmo que pudesse agradecer Nicholas, ele já havia desaparecido. Haven então subiu nas arquibancadas e sentou-se ao lado da amiga. Assim que viu Carmine de pé na lateral do campo, acenou para ele, mas ele apenas olhou para ela, sem qualquer expressão. Ela não ficou surpresa. Era apenas seu atual estado de humor, ela imaginou. Aquilo já não era uma novidade. Foi então que o técnico gritou o nome dele, chamando sua atenção para que entrasse em campo. Ele não voltou a olhar para ela depois disso.

O público era tão barulhento quanto Haven se lembrava no ano anterior, mas, dessa vez, ela se sentia mais confortável no meio da multidão. Ela se sentiu entusiasmada quando o jogo chegou ao fim e Carmine correu para o vestiário. As pessoas começaram a descer em direção ao campo. Haven e Dia seguiram até uma elevação no gramado para esperar por ele. Ela parou perto da cerca


de arame e Dia aproveitou para tirar fotos. A jovem ouviu alguém pigarrear atrás dela e viu Nicholas se encostar na cerca, ao lado dela. – Já sei, “você de novo?” Esqueci de te contar uma piada. – Tá, então conte a piada. – Você sabe o que… Antes mesmo que ele pudesse terminar a frase, a voz áspera de Carmine chamou pelo nome de Nicholas. O jovem se aproximava rapidamente. Um frio passou pela espinha de Haven; seu estômago embrulhou quando viu os punhos cerrados dele. Nicholas deu um passo para trás. – Escute, cara, eu não estou procurando encrenca. Carmine sorriu de um jeito amargo, empurrando-o. – Se não quisesse encrenca não estaria aqui. – Eu só estava conversando com ela, cara. – E que direito você tem de fazer isso, hein? Pare de usar ela pra me irritar. Nicholas olhou para ele e disse. – Se alguém a está usando aqui é você! É doentio o que está fazendo! Você a engana fazendo com que acredite que se importa! Naquele momento o punho de Carmine acertou em cheio o maxilar de Nicholas. A cabeça dele se deslocou para o lado com o golpe, e a boca começou a sangrar. Ele limpou o rosto com a parte de trás da mão, enquanto Carmine berrava. – Fique longe dela! Ela é minha, e não vou permitir que você tire ela de mim! – Seu desgraçado possessivo! Se você amasse ela de verdade não diria esse tipo de coisa! Aquilo fez com que Carmine perdesse de vez o controle. Ele deu outro soco e atirou Nicholas contra o solo. Haven se agarrou à cerca e gritou por socorro. Um grupo de rapazes interveio ao perceber a confusão, separando os dois. Dia forçou passagem entre a multidão e olhou para os dois lados. – Mas o que foi que aconteceu? Carmine ignorou a pergunta e se voltou para Haven. – Entre todos os caras do planeta, por que você escolheu justamente ele? Está tentando me magoar? É isso que está tentando fazer? Ela piscou algumas vezes, surpresa pela ira do rapaz. – O quê? – Você me ouviu. Eu te dou espaço, imaginando que é isso o que você quer. E eu te entendo, Haven. Eu juro que te entendo. Você está ferida. Mas, apesar disso, você consegue conversar com ele, sorrir pra ele. O problema sou eu? Não quer ficar mais comigo, então diga logo de uma vez. – Eu quero. – ela disse, apesar de extremamente ressentida pelas palavras do rapaz – Eu te amo! – Mas você tem um jeito muito estranho de demonstrar isso. – ele retrucou – Eu mudei minha vida por sua causa. Eu seria capaz de matar por você. Merda! Eu seria capaz de morrer por você! Me diga o que está errado. Me diga o que fazer. – Não sei. – ela disse, balançando negativamente a cabeça – Não posso. – Não pode? – ele perguntou sem acreditar – Você não entende, não é? Não faz ideia do que eu abri mão para ficar com você. Não sabe o que eu perdi por sua causa. Aquelas palavras afetaram-na profundamente. Ela arfou e sentiu sua vista escurecer ao esticar o braço e dar-lhe um tapa no rosto. Ele levou a mão à face. O choque da reação da jovem acalmou sua raiva. Haven cobriu a boca antes de sair correndo. Ela precisava pensar; precisava se afastar dele para poder compreender o que havia feito. Ela havia batido nele. Nele. Ela sentia que ia vomitar.


Passando por entre as pessoas, ela correu para fora do estádio já procurando pela chave em seu bolso. Haven entrou no carro e saiu com rapidez. Uma buzina a assustou e ela pisou nos freios, quase batendo o carro. As mãos dela tremiam intensamente. As lágrimas obstruíam sua visão enquanto ela pegava a estrada e acelerava o quanto podia pelas ruas cheias. Ela dirigiu diretamente para a casa dos DeMarco, mas estava assustada demais para parar lá. Estava apavorada com a ideia de perdê-lo. Passou pela entrada e seguiu em frente, continuando pela estrada escura. De repente, ela se deu conta de onde aquela estrada iria levá-la. Sentiu-se ainda mais envergonhada quando passou pela placa que dizia “Bem-Vindos ao Lago Aurora”. A jovem estacionou numa pequena área e ficou sentada em silêncio por um momento, lutando para respirar. Era como se ela tivesse sido sugada por um ciclone; o mundo todo girava ao seu redor enquanto ela tremia sem parar. Saiu do carro, imaginando que iria vomitar. Forçando o ar para dentro dos pulmões, saiu caminhando pela areia. Logo chegou a uma doca e caminhou por ela, olhando para o lago, para o reflexo da lua sobre a água negra. Aquela escuridão a deixou mais calma. Ela ouviu passos se aproximando. – Por favor, não pule. Detestaria ter de pular atrás de você. É provável que a água esteja gelada. Ela sorriu diante do jeito despreocupado do rapaz. – Não vou pular. – Ótimo. – ele disse ao parar ao lado dela. O lábio dele tinha um corte e o rosto já tinha algumas marcas roxas. Haven franziu a testa ao olhar para ele. – Sinto muito que ele tenha batido em você por falar comigo. Ele fez um gesto com a mão. – Ele jamais se desculparia, então, não faça isso por ele. Ela ficou em silêncio, olhando para a água. Nicholas deu um suspiro. – Estou surpreso em ver você aqui. – Eu não deveria ter vindo pra cá. – Mas veio. – É, eu vim. – a jovem ficou em silêncio por um momento, imaginando o que dizer – Foi o meu aniversário. – Jura? Bem, então feliz aniversário. Ela esboçou um sorriso triste antes de dizer as palavras que há muito tempo abrigava dentro de si; aquelas mesmas palavras que guardava para si sempre que Carmine estava por perto. – Não há nada de feliz sobre o dia em que nasci.


Capítulo 44

Carmine olhava para a casa escura, com o celular na orelha. Ele imaginara que ela tivesse voltado para casa, mas obviamente estava errado. – Ela não está aqui. Dia soltou um suspiro. – Ela provavelmente está assustada. – Acha que não sei disso? Ela está com medo de mim, Dia. De mim. Ele não conseguia esquecer a imagem que se formara em sua mente, o medo estampado nos olhos dela quando saiu correndo. – Será que ela não percebe que eu sei exatamente como ela se sente? – ele perguntou – Eu também perdi a minha mãe. – É, o problema é que você se torna irracional quando o assunto é a morte de sua mãe. Aquelas palavras o deixaram irritado. – Vaffanculo. – Você só está provando que estou certa. – Dia retrucou – Olha, eu te ligo de volta. Quero checar uma coisa. Ela desligou antes de esperar pela resposta dele. Carmine ficou ali parado até o momento em que Dia retornou a ligação. – Conseguiu alguma coisa? – Ela está segura. Ele sentiu uma sensação tão forte de alívio que quase caiu. – Onde você a encontrou? – Ela está no lago. Ele se deteve, segurando-se no capô do carro ao sentir as pernas falharem. Com certeza, iria cair. – O que quer dizer com “ela está no lago”? – Dia não respondeu, e seu silêncio era tudo de que ele precisava para registrar a verdade – Nicholas. – Acalme-se. – ela disse antes que ele tivesse a oportunidade de ficar mais nervoso. Ela o conhecia bem, o que também queria dizer que suas palavras não iriam funcionar. Carmine perdeu completamente o controle. – Me acalmar? Estou cheio dessa merda. Se é assim que ela quer, eles podem ficar juntos. – Carmine… – É por isso que nunca quis me apaixonar. – Você não quer dizer isso. – Não me diga o que eu quero dizer ou não! – aquela traição alimentou sua ira, e ele atirou o telefone no carro, xingando no momento em que sentiu um nó na garganta. Sua visão ficou desfocada e ele cerrou o punho mais uma vez, mas dessa vez a vítima foi o vidro do passageiro, que se estilhaçou com o choque. Tamanho era o desconsolo do rapaz que ele repetiu o golpe outras vezes, até que seu punho atravessasse o vidro. Os nós dos dedos doíam por causa dos pedaços de vidro cravados em sua pele. Ele respirou fundo e entrou na casa, encontrando o pai no hall. O sorriso no rosto de Vincent desapareceu ao reparar na expressão de Carmine e em sua mão ensanguentada. – O que foi que aconteceu?


– O Nicholas aconteceu. Vincent rosnou. – Quantas vezes teremos de passar por isso, Carmine? – Não importa. O carro levou uma surra maior que o Nicholas. – Seu carro? O que foi que aconteceu esta noite? Onde está a garota? – Eu já te disse. Nicholas atravessou meu caminho. – ele cuspiu as palavras – E o nome dela é Haven. Haven. Use ele às vezes. Vincent o encarou, desconcertado. – E se você quer saber onde Haven está, procure pelo Nicholas. Eles estão em algum lugar no lago. – uma ideia atravessou sua cabeça no instante que disse isso – Você vai buscar ela, não vai? Vincent cutucou a ponta do nariz com os dedos. – Ela tem uma vida própria agora, Carmine. Ela pode ter amigos, e você devia respeitar isso. – Depois do que ele fez comigo você ainda espera que eu respeite ele? Que eu goste dessa situação? – Não disse em nenhum momento que você teria de gostar disso, nem que deveria respeitá-lo, mas precisa respeitar o direito dela de fazer suas próprias escolhas, goste ou não delas. – Eu respeito. – ele disse – Não sou tão idiota assim. Eu digo isso a ela a todo momento, que tome suas próprias decisões. – Bem, então você deveria encarar isso como se ela já o estivesse fazendo. Resmungando, Carmine passou pelo pai, dirigindo-se às escadas. – Por que ninguém está do meu lado nessa história? Vincent deu risada e aquilo deixou Carmine possesso. – Não se trata de escolher lados. Eu lhe disse que algum dia o mundo real chegaria até vocês. – Ah, eu sei disso. – o rapaz respondeu – Eu soube disso no momento em que ela me deu um tapa na cara. Vincent sorriu. – Ela deu um tapa em você? – O que há de tão engraçado nisso? – Estou positivamente surpreso. – ele respondeu – Não, não estou dizendo que ela deveria ter lhe dado um tapa, mas estou chocado pelo fato de ela ter se defendido. No final das contas, acho que ela sobreviverá lá fora.

– Já ouviu falar em Síndrome de Estocolmo? Haven olhou para Nicholas com cautela. As pernas dele balançavam na beirada do cais. As calças estavam enroladas e os pés na água. Ela se sentou de pernas cruzadas ao lado dele, tendo atirado os sapatos sobre a plataforma. – Não, o que é? – É quando alguém se apaixona pela pessoa que a sequestra. Ela soltou um suspiro ao perceber aonde ele queria chegar com aquela conversa. – Eu não fui sequestrada. – Então, quer dizer que o bom doutor DeMarco não recortou letras de revisas e as colou em um pedaço de papel, exigindo um resgate? – Não. – Interessante. – ele disse – Bem, não precisa ser necessariamente um sequestro. Também serve no


caso de um refém que passa a ter sentimentos por quem a mantém prisioneira. – É o mesmo que disse antes. Além disso, Carmine não está me mantendo presa como uma refém. – Mas está presa naquela casa, não está? – Eu não disse isso. – Também não disse o contrário. – ele retrucou – E, às vezes, pessoas nessas situações passam por uma espécie de lavagem cerebral. – Eu não passei por nenhuma lavagem cerebral. – Como sabe? Porque dizer “eu não passei por nenhuma lavagem cerebral” parece algo típico de quem passou por uma. Ela balançou a cabeça. – Você simplesmente se nega a acreditar que Carmine é uma pessoa diferente agora, não é? – Isso – ele disse –, mas pare de mudar de assunto. Estamos falando sobre você ter sido sequestrada. – Eu já te disse: eu não fui sequestrada. – Tá, eu já entendi. Eu tinha certeza de que havia sido. Podia apostar que seus pais a estivessem procurando em todos os lugares. Ela sentiu um aperto no peito ao ouvir aquelas palavras. – Meus pais estão mortos. Ela pôde sentir o olhar intenso do rapaz sobre ela, mas não ousou se virar. Depois de algum tempo ele se virou e voltou a chutar a água. – Minha mãe também morreu, quando eu ainda era novo. Ainda tenho meu pai, mas não nos damos bem. Ele sempre espera o pior de mim, então eu comecei a achar que não valia a pena me esforçar para acertar se ele nunca veria isso. Mas agora tenho dezoito anos, então já posso sair de casa. Começar minha vida em algum outro lugar, onde as pessoas não ouçam o nome Nicholas Barlow e pensem automaticamente num “imbecil degenerado”. – Você acha que as pessoas o veem assim? – Eu sei que elas me veem assim. – ele retrucou – E as coisas só pioraram agora que Carmine… – Agora que Carmine o quê? – ela perguntou quando ele não terminou a frase – Agora que ele mudou? Nicholas não respondeu e isso era o suficiente para ela. Um sorriso surgiu em seus lábios. Talvez houvesse a esperança de uma amizade, afinal. Tudo estava quieto; o único som era da água batendo contra o cais e os grilos a distância. Nicholas limpou a garganta depois de alguns minutos. – Já te contei a da pizza? – Pizza? – Quando compro pizza, dou uma mordida; o Leonardo Da Vinci. – ele disse, olhando para ela. – E o que tem demais em esse tal Leonardo dar vinte mordidas? Balançando a cabeça, ele olhou para longe. – Mesmo que seja a última coisa que eu faça na vida, eu juro que ainda farei você rir de alguma das minhas piadas.

Carmine parou de pé na biblioteca, bem ao lado da janela. Olhou para o jardim e começou a imaginar quais seriam os pensamentos de Haven quando ela se sentava ali todas as noites. Quem sabe a mente da jovem estivesse tão vazia quanto a própria escuridão lá fora. Naquele momento ele


começou a se lembrar dos meses que se seguiram à morte de sua mãe, quando seu coração estava tão partido que tinha de se esforçar muito para conversar. Era como se a vida lhe tivesse sido sugada. Seu corpo tornou-se um poço sem fundo de tristeza e saudade. De repente ele viu o livro que repousava sobre a pequena mesa e o pegou, admirando a capa vazia antes de abri-lo. Ele se deparou com páginas escritas à mão e, no mesmo momento, ficou confuso ao perceber que se tratava de um diário. Seu estômago se contraiu quando ele voltou ao início e viu o nome Maura DeMarco escrito num canto na parte interna da capa. Voltou a fechar o livro e quase perdeu a respiração. Depois de tudo o que fizera para proteger Haven da verdade, ela conseguira encontrá-la. Naquele instante ele saiu correndo da biblioteca, já procurando as chaves do carro no bolso. Ao passar pelo segundo andar, seu pai saiu do escritório, atraído pela correria do jovem. – Carmine, espere! – alertou Vincent indo em direção ao filho, mas Carmine não parou. Ele saiu pela porta da frente e destrancou o automóvel, enquanto via seu pai parado na varanda – Não vá até lá! Carmine ainda hesitou antes de ligar o carro. Haven estava fora há mais de uma hora e de modo algum ele poderia deixar que se passasse sequer um minuto a mais. Acelerando o carro em meio à escuridão, ele prendeu a respiração ao passar pela placa do Lago Aurora, sabendo que havia chegado a um ponto sem volta. Então desviou da estrada principal e pisou nos freios ao ver o familiar Audi de seu irmão. Estacionou ao lado do carro, saiu e seguiu em direção à água. O jovem ficou parado por alguns segundos à procura de algum sinal de Haven, até que os localizou sentados no cais. Os olhos de Nicholas se cruzaram com os de Carmine no momento em que ele se aproximou. Haven também percebeu e se virou para o rapaz, dando um pulo e um salto para trás e se aproximando perigosamente da beirada. O pé dela chegou a escorregar, mas Nicholas a segurou pelo braço antes que ela caísse. – Ei, o que foi que eu te disse, hein? Não vou pular nessa água gelada pra te salvar. Carmine ergueu as mãos. – Não estou aqui pra brigar. Nicholas o olhou desconfiado. – O que faz aqui? Sabe que não tem permissão. – Eu sei. – ele disse – Você pode me denunciar se quiser, mas preciso falar com ela. – Se ela estivesse a fim de falar com você o teria procurado. Não é capaz de dar a Haven um pouco de espaço? Frustrado, Carmine passou as mãos no rosto. – É muito importante. Eu irei embora, sairei daqui o mais rápido possível, mas preciso conversar com ela primeiro. – ele disse, concentrando-se em Haven – Por favor, beija-flor? Ela concordou com a cabeça. – Tudo bem. – Você não tem que ir. – Nicholas disse – Você não é obrigada a fazer nada que não queira. Carmine o encarou, mas se manteve de boca fechada no momento em que Haven respondeu. – Eu sei disso. Nicholas olhou para os dois, tocou gentilmente no braço de Haven e disse. – Tome cuidado. Sabe como me encontrar se precisar. Nervosa depois de se despedir de Nicholas, os olhos de Haven se fixaram nos de Carmine. Foi então que o rapaz caminhou em direção a ela. – Eu já sei o que você encontrou. Uma expressão de puro horror tomou conta do rosto da jovem.


– Meu Deus. Ela parecia disposta a correr dele novamente, então ele se apressou e a pegou pelo braço. – Eu já sabia que era você. Eu soube disso há algum tempo. – E não me disse nada? – Estava tentando te proteger. Não vi razão para te contar. – Sua mãe morreu por minha causa e você não viu razão para me dizer isso? Eu destruí sua vida, Carmine! – Por Deus, Haven, você era somente uma criança. Não fez nada de errado. Lágrimas começaram a escorrer no rosto dela. – Eu afastei sua mãe de você. – Não, você não fez isso. Quem fez foi a pessoa que apertou o gatilho. – Você está enganado. – ela disse, tentando enxugar as lágrimas – Como pode sequer olhar pra mim? Como pode me amar depois de tudo isso? – Como posso não te amar? Eu morreria por você; como poderia culpá-la pelo fato de minha própria mãe sentir o mesmo? – Isso não deveria ter acontecido. – ela disse – Eu não valho tanto assim. – Não diga isso. Não pode se fechar e se afastar de tudo. – Mas você disse… Carmine a interrompeu antes que ela pudesse repetir as coisas que ele lhe havia dito antes. – Eu estava com raiva. Todos nós fazermos merda e dizemos besteiras quando estamos irritados. Já perdi coisas demais, e não quero te perder também. – ela segurou o choro no momento em que ele a puxou para perto dele – Caramba, tesoro. Não faço ideia de como vamos superar tudo isso, mas precisamos encontrar um jeito. Sem você eu não sou nada. Ele a segurou carinhosamente, sentindo-se reconfortado por tê-la novamente em seus braços. Ela se afastou dele quando conseguiu parar de chorar e o encarou. – Eu sinto muito se o magoei ao conversar com o Nicholas. É só que… Independentemente dos motivos, tudo o que ele fez foi tentar me fazer sorrir, dar risada. Enquanto Carmine questionava os motivos de Nicholas, ele percebeu naquele momento que todos estavam corretos. Ele precisava respeitar as decisões de Haven; precisava deixar que cometesse seus próprios erros. – Você sabe que ele me odeia, não é? – Ele está bravo com você, mas não te odeia. Acho que ele sente sua falta. Carmine deu risada. – Ele fala mal de mim o tempo todo. – É, ele fala, mas como você mesmo disse, dizemos coisas que não queremos quando estamos machucados. Vocês dois costumavam ser amigos próximos e agora você tem a mim, mas quem o Nicholas tem como amigo? Eu compreendo o porquê de ele não aceitar que você tenha mudado. É que ele não mudou. Ele não quer acreditar que você já não seja o mesmo, porque isso significaria que ele estaria completamente sozinho. Ele perdeu o único amigo que tinha.

Pilhas de papéis se acumulavam ao redor de Vincent. Há horas ele estava sentado à sua mesa tentando dar conta de tudo aquilo, mas não conseguia se concentrar. Estava exausto e tudo parecia estar prestes a entrar em colapso. De repente, quando Vincent lia pela quinta vez o mesmo parágrafo, a porta do escritório se abriu e


o filho entrou como um furacão. – Você está transformando minha noite em um inferno, Carmine. Tem sorte de não ter sido preso. – Tenho algo a dizer que pode tornar as coisas melhores… Ou, apenas, tornar sua vida um pouco pior. O rapaz colocou um livro sobre a pilha de papéis, fazendo com que Vincent soltasse a caneta e suspirasse. – O que é isso? – Não reconhece o diário da minha mãe? – perguntou – Haven o encontrou na biblioteca. Ele se recostou na cadeira, olhando para o livro como se estivesse hipnotizado. – Suspeitava que sua mãe mantivesse um diário, mas nunca me passou pela cabeça que ele pudesse estar junto dos outros livros, quando Celia empacotou tudo para mim em Chicago. Devo tê-lo enfiado na estante sem perceber o que era. – Bem, era lá que ele estava guardado. Fique com ele. Depois que Carmine saiu, Vincent passou a mão sobre a capa envelhecida antes de abri-lo; sua curiosidade o impelia enquanto folheava o diário. A letra familiar o fez sentir como se alguém tivesse enfiado a mão em seu peito e apertado seu coração com toda a força, esmagando-o. Ao perceber a data de 12 de outubro de 1997, ele se concentrou em uma passagem que fora escrita justamente no dia em que ela morrera. A porta do closet no quarto de Carmine estava emperrada. Tive de forçá-la para conseguir abri-la, e a maçaneta se quebrou. Outro item para acrescentar à lista. O piso do último degrau está solto; as janelas da cozinha não abrem na maioria das vezes; o balanço de pneu despencou da árvore; e a porta da frente precisa desesperadamente de uma nova pintura. Pequenas coisas, uma atrás da outra. Todas parecem tão fáceis de consertar, mas não é assim que me sinto. Na verdade, é como se tudo ao meu redor estivesse se desfazendo; o mundo parece desmoronar enquanto estou aqui, sem fazer nada. Acho que não há mais tempo; não digo para ela, mas para mim. Deparei com uma muralha e agora é tarde demais para recuar. Não que eu pretendesse recuar, mesmo que pudesse. Vincent não compreende ainda, mas um dia verá o mesmo que vejo. Um dia ele compreenderá por que eu não podia abrir mão dela. Talvez quando isso acontecer, ele volte a pendurar o balanço de pneu. Quem sabe as janelas sejam substituídas, o piso fixado e a porta pintada. Dessa vez eu optaria por azul no lugar do vermelho. Estou cansada de tanto vermelho. Talvez aí consigamos alcançar a paz. Quem sabe nessa ocasião ela já esteja livre. Acho que quando isso acontecer, o mundo deixará de desmoronar.

Vincent fechou o diário. O mundo dele ainda estava desmoronando.

Haven estava de pé junto à janela da cozinha, olhando para o Mazda, cujo vidro do passageiro estava destruído. Mesmo daquela distância ela conseguia ver vestígios de sangue do rapaz. – Acordei sozinho. – disse uma voz alegre atrás da jovem, interrompendo imediatamente seus pensamentos. Ela então se virou e viu Carmine parado à porta. – Você parecia tão tranquilo que não quis incomodá-lo. – ela disse. Então ela olhou para a mão do rapaz e viu os ferimentos e as marcas roxas em seus dedos. – Está tudo bem. – ele disse, percebendo para onde ela olhava. Ele flexionou os dedos para provar que dizia a verdade, mas seu maxilar se manteve rígido enquanto tentava evitar uma careta. Era óbvio que a mão dele não estava nada bem, mas ela não discutiu. Ambos se olharam em silêncio. Havia tanto a dizer, mas Haven não tinha ideia de como começar. Tudo aquilo parecia tão avassalador. Os olhos da jovem se encheram de lágrimas e ambos falaram ao mesmo tempo. – Sinto muito. O tom dos dois era de angústia.


Ele franziu a testa. – E por que você sente muito? – Você está machucado. – ela respondeu. – Eu já te disse que está tudo bem com a minha mão. – Não estou falando só de sua mão. – ela retrucou – Você. Eu machuquei você, mas não tive a intenção de isso. – É, você me machucou. – ele disse – Mas eu fiz exatamente o mesmo que você. Seria hipócrita de minha parte culpá-la. Eu podia ter terminado com tudo isso antes mesmo que tivesse começado, mas não o fiz. E é por isso que eu sinto muito. Ela se virou de costas para ele. Aquele pedido de desculpas a fazia sentir-se ainda pior. Ele a estava apoiando quando, na verdade, era ele próprio quem precisava ser confortado. Ele merecia que aquele fardo fosse retirado se seus ombros, porém, de maneira um pouco egoísta, ela preferiu se manter em silêncio, sem encontrar as palavras certas para aliviar sua dor. Com os pés descalços sobre o piso duro e frio, ele caminhou até ela, mas parou diante da janela. – Jesus, olha o meu carro. – Sinto muito. – ela repetiu. – Ei, você tem que parar de se desculpar por tudo. – ele disse, pegando-a de surpresa ao tocar em seu quadril – Tudo bem, aconteceu, foi uma merda, mas já acabou. Ficar discutindo quem feriu quem não vai resolver nada. Não se pode guardar ressentimento das coisas e esperar que tudo melhore, porque isso não acontece. – Foi isso o que você fez? Guardar ressentimentos? – Tenho feito isso há muitos anos, sempre tentando entender por que minha vida era uma merda. Estou cansado de repetir sempre os mesmos erros. É hora de esquecer tudo o que aconteceu e perdoar. Ela ficou surpresa com aquela repentina explosão de maturidade, considerando que há menos de doze horas ele havia perdido o controle e se mostrado tão volátil. Era como se ele estivesse exausto e derrotado em sua batalha, a ponto de não querer mais brigar. – E isso significa perdoar o Nicholas também? Ele se mostrou receoso. – O que ele tem a ver com isso? – Você disse que nada melhoraria enquanto guardasse ressentimentos, então eu imaginei que… – Imaginou errado. Isso é diferente. – De que maneira? – ela perguntou – Você mesmo disse que ficar remoendo o que passou não ajudaria em nada. Aconteceu, mas já passou, então é hora de seguir em frente. Certo? Ele olhou para ela. – Mas ele é um idiota, Haven. Ele destrói tudo o que toca. – É o mesmo que ele diz a seu respeito. Ele está errado, e eu disse isso a ele, mas, talvez, você também esteja. – Não estou. – Ok. Só estou dizendo que talvez vocês dois não sejam assim tão diferentes; e que se você conseguisse deixar isso de lado, vocês dois poderiam… – Eu sei o que você está dizendo, e há muitos “quem sabe” nessa história. Mas isso não irá acontecer, portanto, não vale a pena falar sobre isso. Aliás, não quero nunca mais tocar nesse assunto. Ele parou de falar. O tom de sua voz lhe dissera que o assunto estava encerrado. A tensão voltou a crescer no ambiente, e ela combateu o desejo de se desculpar por tê-lo irritado. – Il tempo guarisce tutti i mali. – disse Carmine, esfregando o peito no local onde aquelas palavras estavam tatuadas e traduzindo-as em seguida – O tempo cura todos os males. Quando mandei


escrever isso eu não acreditava totalmente nessas palavras, mas agora acredito. É possível superar tudo no tempo certo. Não sei quanto irá demorar até que eu consiga deixar isso pra trás, mas tenho todo o tempo do mundo pra você. Carmine colocou os braços ao redor dela e a jovem fechou os olhos ao sentir seu abraço. – Se não acreditava nas palavras, por que as tatuou? – Era algo que minha mãe costumava dizer. – ele respondeu, deixando escapar um riso de curiosidade – O que me faz lembrar de você e sua mania de assistir programas e aprender coisas inúteis. Não sei como demorei tanto a perceber as similaridades. Deveria ter sido óbvio desde o princípio que minha mãe havia crescido como você. Haven se afastou dele. – O que foi que disse? Ele olhou para ela. – Que parte? – Sua mãe era como eu? Você quer dizer… uma escrava? Ele se contraiu ao ouvir aquela palavra, mas confirmou com a cabeça. – Pensei que você soubesse. Você viu o diário dela. Ela fez que não com a cabeça. – Só li um pedaço de papel que caiu de dentro dele, Carmine. Os olhos dele se arregalaram. – Pensei que tivesse lido a coisa toda. Caramba, eu teria lido, mas entreguei ao meu pai para não me sentir tentado a ler. – Então, o doutor DeMarco também sabe? – É claro que sim. – ele disse – Ele sempre soube. Não é uma coincidência que você tenha vindo parar aqui. De repente toda a névoa pareceu desaparecer de seus olhos e tudo se tornava mais claro. A razão para ele tê-la trazido para aquela casa; para que ele a libertasse. Mestres supostamente tiravam a vida das pessoas, porém, ele havia feito tudo em seu poder para lhe dar uma vida nova… e fizera tudo aquilo em nome da mulher que amava. Aquela descoberta fez com que ela se sentisse como se o chão estivesse se movendo sob seus pés.

Haven estava em seu quarto naquela tarde quando Carmine entrou, trazendo consigo um grande envelope branco. – Correspondência pra você, tesoro. Ela olhou para ele com cautela enquanto ele se sentava na beirada da cama e lhe entregava o envelope. O remetente registrado no verso era: Faculdade Comunitária da Carolina do Norte. – Isso aqui é o…? – O resultado das provas. Ela olhou para o envelope e deslizou o dedo sobre a borda lacrada. – Ei, você vai abrir ou não? O entusiasmo na voz de Carmine a deixou preocupada. Aquela fora a primeira vez em que a jovem se expusera para o mundo, e imaginar a possibilidade de ter fracassado a assustava. – Será que poderia abrir pra mim? Ele se negou com a cabeça. – É você quem deve abrir.


Com cuidado, ela rasgou a borda do envelope e retirou de dentro dele um papel. As notas nada significavam para ela, então ela foi direto ao certificado preso ao relatório, onde estavam escritas as seguintes palavras: Diploma de Equivalência ao Curso Fundamental II. No topo havia um selo dourado. – Eu passei? – ela perguntou, tentando controlar a excitação que ameaçava explodir por todos os seus poros, mas a emoção foi mais forte que ela e a jovem se atirou contra Carmine, derrubando-o sobre a cama antes mesmo que ele pudesse dizer uma palavra – Eu passei! – Passou – ele disse –, e não posso dizer que esteja surpreso. Sabia que conseguiria. Ele a beijou de um jeito lento e suave. Pura paixão emanava dos lábios dele. Embora fosse um beijo inocente, significava muito mais. Era um beijo de redenção, de perdão e orgulho. Era um beijo que atestava que, independentemente do que ocorrera no passado, ainda havia esperança para o futuro. Esperança. Aquele era um sentimento do qual ela já não tinha mais medo e que agora só lhe trazia alegria. – Obrigada por acreditar em mim. – ela sussurrou contra os lábios do rapaz. – Não tem que me agradecer. – ele respondeu, afastando-se com um sorriso – E não se preocupe, porque tudo vai dar certo. Estamos um passo mais perto. Você agora já pode ir pra faculdade. – E você? Quando fará o seu teste? – Em breve. – ele respondeu – Na verdade, eu me inscrevi para os exames antes de nós irmos para a Califórnia. – Está entusiasmado? Ele riu. – Eu não diria que a ideia de fazer as provas finais me anime muito, tesoro. Apenas acho que estou pronto para terminar logo com tudo isso. Preciso ainda preencher alguns formulários para as faculdades, portanto precisamos decidir para onde queremos ir, principalmente se eu tiver planos de jogar futebol. Califórnia? Nova York? Camelot? Cidade das Esmeraldas? Você escolhe. Ela não fazia ideia de onde ficava metade dos lugares mencionados. – Eu não sei. – Bem, então comece a pensar sobre isso, ok? Mas não hoje. Porque hoje nós não vamos pensar, apenas celebrar. Pense em onde estava há um ano e onde está agora. Você é uma mulher livre, tem um diploma, estamos apaixonados e vamos superar tudo isso, mesmo que isso nos mate. – ele disse, fazendo uma pausa e franzindo o cenho enquanto ela ria – É, eu sei, o que eu disse não fez o menor sentido, mas acho que você entendeu. Bem, não tivemos nenhum motivo para celebrar nos últimos tempos, então, levante-se, troque de roupa. Vamos esquecer tudo isso por enquanto e viver o momento. Não temos feito isso ultimamente. Ela olhou para as calças pretas e a camiseta do time de futebol da escola de Durante e perguntou. – Mas o que há de errado com as minhas roupas? – De tudo o que eu disse, a única coisa que você entendeu foi que trocasse de roupas? – ele perguntou, achando graça e colocando-a de pé – Eu disse pra você mudar suas roupas, não mudar a si mesma. Não quero que você mude jamais, mas confesso que estou um pouco cansado de olhar pra essa camiseta. – Eu gosto dessa camiseta. – ela disse, em tom defensivo enquanto ele soltava uma gargalhada e saía do quarto.


Capítulo 45

Haven se mantinha ocupada nos dias em que Carmine ficava na escola, mas era difícil para ela pensar em tudo aquilo quando estava sozinha. Um sentimento de culpa ainda continuava a atormentála. No terceiro sábado do mês de setembro, ela acordou no momento em que Carmine saía do banho. Ela permaneceu imóvel na cama enquanto o rapaz se esforçava para não incomodá-la. Ele ficou parado diante do closet e, mesmo no quarto ainda escuro, ela conseguia ver seus músculos bem definidos e as linhas de suas tatuagens. A pele dele brilhava sob a luz suave que vinha da porta do banheiro, deixando-a fascinada. Mesmo a cicatriz que trazia no corpo parecia perfeita enquanto ele a tocava com os dedos sem nem perceber. Se havia uma imagem de Carmine DeMarco que ela jamais desejaria esquecer era aquela: de um homem exposto e vulnerável, se movendo cuidadosamente no escuro em seu próprio quarto. Era algo em que poucas pessoas iriam reparar, mas uma visão que ela não podia se arriscar a perder. A maioria das pessoas conhecia o garoto egoísta, mimado e irresponsável, mas ela tinha a sorte de conhecer quem ele realmente era. No fundo, apesar de um exterior cheio de cicatrizes, ele não passava de uma alma gentil. O contentamento silêncioso que ele exalou quando pensou que ninguém estivesse olhando, tirou o fôlego da jovem. Ela o amava com cada célula de seu corpo, e somente o fato de, depois de tudo o que acontecera, ele ainda conseguira se expor diante de seus olhos como realmente era, já lhe dizia o suficiente sobre ele. Ele soltou um suspiro e vestiu suas roupas antes de pegar um par de Nike no armário. Deu um chute no pé da cama enquanto caminhava, mas, apesar da dor, guardou o palavrão para si mesmo. Haven tentou conter o riso, mas não conseguiu. Ele logo olhou na direção dela quando a ouviu. – Há quanto tempo você está acordada? – perguntou, sentando-se para calçar os tênis. – Só alguns minutos. – Ah, então você estava aí acordada assistindo enquanto eu me vestia? – ele perguntou, cutucando-a suavemente com o cotovelo. Ela ficou vermelha, mas torceu para que ele não conseguisse perceber no escuro. Todavia, nada escapava àqueles olhos – É, você estava, danadinha. – Não pude evitar. Você é bonito demais para eu não olhar. – Tá, e você ainda está meio sonolenta, por isso não sabe o que está dizendo. – ele retrucou, beijando-a ao se levantar – Tenho que ir ou chegarei atrasado nessa maldita prova. – Boa sorte. – Obrigado, tesoro. Nos vemos em algumas horas. Ela escutou seus passos descendo as escadas e, naquele momento, uma sensação estranha a deixou desconfortável. Era como se toda a alegria tivesse sido sugada daquele quarto.

Haven já havia descido para a cozinha e se servido um copo de suco quando ouviu uma porta se fechar em algum lugar do primeiro andar. Ela ficou um pouco tensa ao ouvir passos em sua direção. Relaxe, ela disse a si mesma. É só o doutor DeMarco.


– Bom dia. – ele disse ao entrar na cozinha. Aquelas eram as únicas palavras que ele havia dito a ela em vários dias. – Bom dia, senhor. Ele estava despenteado e seus olhos fundos ostentavam círculos escuros ao redor. Aquele homem estava cansado e envelhecido pela vida. Ao encará-lo com mais cuidado, Haven imaginou quanto daquele estado seria por causa dela. – Estou viajando para Chicago. Precisa de algo antes que eu vá? O Mazda estava na funilaria, então Carmine estava usando o Audi para se locomover. – Não senhor, está tudo bem, obrigada. DeMarco partiu alguns minutos depois. Haven passou a manhã tirando o pó das mesmas coisas que havia limpado todas as manhãs anteriores. Era um pouco depois das onze da manhã, e ela estava organizando a despensa, quando ouviu o som de um carro. Caminhando até a janela, Haven não reconheceu o veículo azul. A porta do motorista se abriu e Jen, a enfermeira do hospital, saiu de dentro do carro. Haven caminhou até o hall, mas o som da campainha por alguma razão a paralisou. Ela sentiu um frio na espinha e aquilo se irradiou pelo resto do corpo. Achou que iria vomitar. Algo não parecia estar certo, e ela podia sentir aquilo. Ela pegou o telefone na sala de estar e hesitou antes de pressionar a tecla que a colocaria em contato com o doutor DeMarco. Em seguida, se encostou à parede e esperou que ele atendesse. – Algo errado por aí? – perguntou DeMarco. Ela jamais ligara para ele até então. Nunca pensou que precisaria fazê-lo – O que está havendo? A campainha tocou novamente, fazendo com que ela se contraísse. – Não tenho certeza, senhor. – Esse barulho foi a campainha? Tem alguém aí? – É a enfermeira que trabalha com o senhor. Eu ia atender, mas… – Não! – ele respondeu com firmeza. Seu tom a deixou assustada e em silêncio. A campainha voltou a tocar mais algumas vezes antes que Jen resolvesse bater à porta – Não atenda, criança. Ligue para Carmine. Não quero você sozinha neste momento. Algo estava definitivamente errado se o próprio doutor DeMarco tinha aquela mesma impressão. – Ligue o alarme. O código é 6-2-3-7-3. Haven já sabia, mas obviamente não iria dizer. Depois de desligar, a jovem colocou o telefone na mesa e caminhou na ponta dos pés até a porta, acionando imediatamente o alarme. Depois de algum tempo, Jen parou de bater e começou a falar com alguém. Haven colocou o ouvido na porta e escutou a voz abafada da enfermeira. – O que quer que eu faça? Ela não atende… Sim, eu tenho certeza de que ela está em casa… DeMarco saiu essa manhã como já era previsto. Houve uma pausa e o coração de Haven disparou. Eles estavam atrás dela. – Não, ela não está com ele. Carmine está fazendo a prova, lembra? – Jen continuou e a aflição em sua voz era alarmante – Eu sei, mas, por favor, não fique bravo! Eu prometo que farei o trabalho. Sei o que significa para você. Os joelhos de Haven quase se dobraram quando Jen voltou a bater. – Olá? Você está aí? Haven correu para o outro lado, escondendo-se num canto enquanto ligava para Carmine, mas a ligação caiu na caixa postal e Haven soltou um suspiro trêmulo. – Vou invadir essa casa se não abrir a porta! – Jen gritou. Ela agora agia de modo diferente, e já não demonstrava aflição, mas raiva – Não pense que eu vou deixá-la arruinar isso pra mim! Jen começou a bater nas janelas e Haven olhou de volta para o telefone. Sem hesitar ela discou o único número que lhe veio à cabeça: 5555-0121.


Ela olhara para aquele papel tantas vezes que o havia decorado. O telefone começou a chamar e foram quatro longos toques antes que alguém o atendesse. – Alô? – Nicholas. – ela falou o mais baixo que conseguiu – É a Haven. – Haven? Você está bem? – Sim. Bem, pelo menos acho que estou, mas preciso de ajuda e não sei mais a quem pedir. O doutor DeMarco me mandou ligar para Carmine, mas o telefone dele está desligado. Acho que está quebrado. – Então, você está me chamando no lugar dele? – Sim. – ela disse. – Para que você encontre ele. – Espera aí, você quer que eu vá atrás do seu namorado? Ela soltou um suspiro. – Sim, eu preciso que ele venha pra casa imediatamente. – E você acha que essa é uma boa ideia? Sem ofensa, mas não estou a fim de outra briga. – Eu sei, mas é importante. Por favor? Ele está fazendo uma prova na escola. – Jesus, então você não quer apenas que eu diga a Carmine o que fazer, mas que invada a escola e o retire à força no meio da prova? Ele vai me matar. É, com certeza, hoje eu morro. – Ele entenderá. – ela disse, enquanto Jen forçava a maçaneta da porta da frente.

Olhando para a prova à sua frente, Carmine lia pela vigésima vez a última questão de matemática, mas não se achava mais perto da resposta que há cinco minutos atrás. Ele resmungou ao se esticar na cadeira de plástico, mudando de posição para se sentir mais confortável. A jovem ao lado olhou para ele incomodada, e ele inclinou a sobrancelha para ela, desafiando-a a reclamar de novo. Ela bufou de um jeito dramático antes de se concentrar novamente no próprio teste. Em seguida ele olhou para ela, sem conseguir lembrar seu nome. Michelle? Mandy? Monique? Não conseguia se recordar. Sentindo o olhar do jovem, ela se virou novamente para ele e perguntou. – O que você quer? – Nada. – ele respondeu, voltando-se para a prova. Ele não estava nem aí pra ela. Aliás, agora ele praticamente não reparava em mais ninguém. Todas aquelas jovens pareciam iguais e nenhuma delas seria capaz de fazer nada por ele. Haven era tudo o que ele desejava; era a razão para ele estar sentado naquela sala fazendo aquela prova ridícula. Só assim ele poderia levá-la daquele lugar e começar uma nova vida. O monitor anunciou que restavam apenas cinco minutos e Carmine suspirou alto ao ler mais uma vez a última pergunta. Ele tentou fazer analogias com outras fórmulas, mas não tinha a menor ideia do que a metade das palavras do enunciado significava. Desistiu e abaixou o lápis, sem se preocupar em responder. A única analogia que importava naquele momento era “a maconha está para o fumo como a boceta está para o sexo.” Afinal, aquelas eram as únicas coisas que acalmariam seus nervos naquele dia. Depois que as provas foram recolhidas, Carmine seguiu a caminho da saída, girando o pescoço para aliviar a tensão. Ele chegou ao estacionamento juntamente de seus colegas e foi atraído pelo som de pneus cantando. Ele olhou para a velha caminhonete e franziu o cenho, confuso diante da situação.


– Não é o Nicholas? Carmine se contraiu ao ouvir Lisa atrás dele. Nicholas parou o carro e saiu rapidamente, olhando para todos os lados como se estivesse com pressa. Ele então olhou na direção de Carmine, murmurando algumas palavras enquanto se aproximava. – Carmine, eu preciso falar com você sobre a Haven. Ela… O rapaz sequer teve tempo de terminar a frase quando Carmine lhe deu um soco. A cabeça de Nicholas quase entortou para o lado por causa do murro. Dando alguns passos para trás, Nicholas o encarou. – Mas o que há de errado com você? Eu disse pra ela que isso aconteceria se eu viesse atrás de você! – Como é que é? – perguntou Carmine, segurando-o pela camisa – E quando foi que você falou com ela? Nicholas conseguiu soltar as mãos e empurrar Carmine. – Há vinte minutos quando ela me ligou. Aquelas palavras levaram Carmine à loucura. – O que quer dizer com “quando ela me ligou”? – Eu quero dizer: trimmmm, trimmmm. Ela me ligou. – ele disse – O que mais “quando ela me ligou” poderia significar? Carmine partiu para cima dele, mas dessa vez Nicholas estava preparado. Ele desviou e devolveu o golpe, acertando Carmine nas costelas, que parou diante da atitude inesperada. E antes que Carmine conseguisse se recuperar, Nicholas também o acertou no nariz. A visão de Carmine ficou embaçada por causa da dor em seu rosto. Sangue começou a escorrer no mesmo instante. Alguém segurou seu braço antes que ele pudesse devolver o golpe e então ele reparou na multidão que se formara. Carmine limpou o rosto com a mão, espalhando sangue por todo o corpo. Ele pegou a barra de sua camisa e pressionou o nariz, tentando parar o sangramento. – Sabe, achei que você demonstraria alguma gratidão. Afinal, eu não tinha que ter vindo aqui. – E por que veio? Está perdendo seu tempo. – Talvez eu esteja mesmo, mas eu vim porque Haven me pediu. Ela não tinha mais ninguém para quem ligar e precisava que você voltasse pra casa. Eu tento fazer um favor pra ela e, em vez de me ouvir, você prefere brigar. – Por que ela te pediu pra vir atrás de mim? – Acho que tinha alguém lá ou algo assim. Carmine ficou assustado. – E como sabe disso? – Sei lá, ouvi a campainha tocando no fundo. Carmine passou correndo por Nicholas em direção ao carro. O pai dele estava deixando a cidade, portanto, não deveria haver ninguém na casa. Ele ligou o carro e acelerou o máximo que pôde, tentando imaginar quem poderia ser. Salvatore? Será que o pessoal da Máfia havia retornado? Quando finalmente chegou à casa, percebeu marcas de derrapagem no solo; pedaços de raízes também estavam sobre a trilha, mas não havia nenhum carro estacionado ali. Parando próximo da varanda, Carmine saiu do carro e olhou para os lados, mas não encontrou nada que levantasse suspeitas. Ele desarmou o alarme e destrancou a porta. O rapaz sentiu um calafrio ao ver o telefone caído no hall. Olhando para os lados, ele logo suspeitou que algo estivesse errado. Tentando manter a calma, subiu as escadas, indo direto para o terceiro andar. Mas não encontrou nenhum sinal de Haven ali, então entrou no seu quarto e pegou a arma que havia guardado no closet. Ele a havia escondido ali antes de levar o carro para ser consertado, imaginando que não seria uma boa ideia carregá-lo no carro do irmão. Depois de checar e ver que a arma estava carregada, colocou


a pistola na cintura e desceu até o térreo. Ele podia ouvir seus próprios passos na casa ao caminhar até a cozinha, parando ao chegar à porta. Haven estava de pé do outro lado da ilha central, com os braços para trás, segurando um rolo de macarrão. De onde ele estava Carmine pôde ver que ela tremia. Se não estivesse tão confuso até poderia ter achado a situação engraçada. – Você está bem, tesoro? Ela fez um sinal afirmativo com a cabeça. – E você? – Claro, por que não estaria? Ela piscou algumas vezes e continuou a encará-lo. – O que houve? – Acho que eu deveria te fazer essa pergunta. – É, mas o seu nariz… Carmine levou a mão ao rosto, fazendo uma careta. Ele se esquecera do ferimento. – Eu e o Nicholas tivemos uma pequena discussão. Ela respirou fundo. – Você não machucou ele, não é? – Não, foi ele quem me pegou dessa vez. – ele disse, sem querer admitir a verdade – Mas por que você o chamou? – Jen esteve aqui. O doutor DeMarco mandou que eu ligasse pra você, mas seu telefone não atendeu. Ela ficou irritada porque eu não abri a porta, então eu liguei para ele. De fato, o celular dele não funcionava desde que ele o atirara contra o próprio carro. – Então, a Jen desistiu? – Não sei. Ela me ameaçou e disse que… – Ela te ameaçou? – Sim, mas depois foi embora, e… – Mas, afinal, o que ela queria? – Não sei. Eu olhei para fora e… – suas palavras falharam quando ouviu um carro se aproximando. Carmine foi até a janela e viu uma caminhonete estacionando na frente da casa. – É o Nicholas. O rapaz seguiu em direção à casa enquanto Carmine abria a porta. – Está tudo bem? – perguntou Nicholas, parando a alguns passos da varanda. – Está tudo bem! – Carmine respondeu – Você já pode ir embora. – Carmine. – disse Haven, repreendendo-o por sua atitude. Em seguida ela olhou para os lados, desceu da varanda e abraçou Nicholas – Obrigada. A maioria das pessoas não teria feito o que você fez por mim. Nicholas ficou paralisado antes de delicadamente dar um tapinha nas costas dela. – Ah, não foi nada demais. – ele disse, embora aquilo tivesse representado muito. Carmine quase se sentiu arrependido por tê-lo agredido, mas o soco que levara no nariz não lhe permitia demonstrá-lo – Bem, então o problema foi resolvido e está tudo bem? – Foi a Jen. – Carmine disse – Meu pai deve ter dado um chute na bunda dela. Sabe como essas vagabundas se comportam quando são deixadas de lado. – Eu não acho que… – Haven tentou interromper. – Ela sempre me pareceu meio suspeita. – comentou Nicholas. – Nunca entendi por que seu pai gostava daquela vagabunda. Nem eu tocaria naquela vadia. – Conversa fiada. – retrucou Carmine – Você transou com ela. – Não, eu não transei.


– Transou sim. Nós estávamos no hospital no ano passado e eu desafiei você a levar ela pra cama. – Você está se esquecendo de que tentou me matar naquele final de semana? Nunca tive a chance de tentar me aproximar dela! – Eu não tentei te matar. Aliás, se eu quisesse te matar, já teria feito. Eu só enlouqueci porque você me enfiou uma faca pelas costas. Nicholas olhou para ele e, quando finalmente falou, disse a última coisa que Carmine esperava ouvir. – É, você tem razão. Carmine ergueu as sobrancelhas. – O que foi que disse? – Eu disse que você está certo. Eu não deveria ter dito o que eu disse, e sinto muito por isso, mas você também me fodeu. Aquela era a primeira vez em que Nicholas reconhecia que havia agido errado com o amigo, e aquilo pegou o rapaz desprevenido. – É, tá certo, eu também não deveria ter ficado com a sua irmã. Sou tão… Ah, merda, deixa pra lá. Haven olhou para os dois em choque. – Uau, vocês estão…? – De qualquer modo. – interrompeu Carmine, antes que ela começasse a achar que tudo voltara ao normal – Está tudo bem agora. Além do mais, Haven podia perfeitamente ter dado conta da situação. Ela tinha um rolo de macarrão na mão e estava prontinha para golpear a cabeça do primeiro idiota que entrasse na casa. Naquele momento o telefone tocou dentro da casa e Carmine entrou para atender a ligação. Ele pegou o aparelho e saiu novamente na varanda. – Alô? – Carmine? – a voz de Vincent estava falhando um pouco – Consegue me ouvir? – Ah, sim. Enquanto isso, Nicholas se voltou para Haven e disse. – Então, tenho uma piada pra você. – Carmine revirou os olhos e ouviu quando seu pai disse algo sobre o aeroporto, mas a ligação estava ruim e a voz de Nicholas o atrapalhou – Por que a roda do trem é de ferro e não de borracha? – Não sei, Nicholas, por quê? Um estampido foi ouvido a distância. Carmine acidentalmente derrubou o telefone e soltou um palavrão, abaixando-se de novo para pegá-lo. Foi então que ouviu um grito agudo. Carmine sentiu os pelos de seus braços se levantarem ao se virar e ver Nicholas caindo de joelhos, com uma mancha vermelha na camisa branca. Segurando o peito, ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não conseguiu. Em segundos, ele estava caído de bruços no chão. Haven gritou novamente, tão alto que os ouvidos de Carmine zuniram. Tudo parecia estar acontecendo em câmera lenta. Ele saltou da varanda e pulou sobre Haven, no momento em que ouro tiro atravessou o jardim. Carmine a segurou no chão, atrás do carro, e o peso do seu corpo forçava todo o ar do peito da jovem. – Preste atenção. – ele disse, segurando o corpo trêmulo da jovem enquanto ela lutava para respirar – Vou contar até três e começar a atirar de volta. Preciso que você corra e entre no carro, entendeu? Ela não conseguia responder e, nesse momento, outro tiro foi disparado na direção deles. Carmine se contraiu quando a bala acertou o carro. – Meu Deus, Haven, você precisa me ouvir. Você tem que fazer o que estou te dizendo, você consegue?


A voz dela tremia tanto quanto seu corpo. – Acho que sim. Carmine ergueu a mão e abriu a porta do passageiro. – Tudo ficará bem. Outro disparo pôde ser ouvido. Ele fechou os olhos com o som alto e respirou fundo. Finalmente percebera que estavam brincando com os dois. Quem quer que fosse já poderia tê-los matado. Ele começou a contar, mas os olhos de Haven se arregalaram no momento em que ela pegou no braço dele. – Espere! – Meu Deus, Haven, não temos tempo a perder. – Eu te amo. – aquelas palavras estavam presas na garganta da jovem e saíram como um choro. Aquilo doeu como se ela o tivesse cravado uma faca no peito. – Não aja como se não fôssemos nos ver daqui a trinta segundos. – ele retrucou, pegando sua arma da cintura – Entre no maldito carro, querida. Três! Carmine se levantou e disparou várias vezes na direção dos tiros. Correndo para o lado do motorista, ele praguejou ao tropeçar no corpo de Nicholas. Ele se sentiu envergonhado e lágrimas se formaram em seus olhos, mas fez de tudo para manter o controle e salvar Haven. Mais balas foram disparadas na direção dele, que conseguiu entrar e se abaixar no banco do motorista. Haven estava encolhida, chorando. Ele então colocou a arma entre os dois e finalmente conseguiu ligar o carro. Carmine pisou fundo no acelerador e saiu com tudo em direção à estrada. Em seguida ele esticou a mão e retirou os cabelos do rosto de Haven, para ver se ela estava bem. Ela se contorceu quando ele a tocou. – Nicholas! Não podemos deixar ele para trás. – Nós precisamos, querida. – disse Carmine – É tarde demais pra ele. Histérica, ela balançou a cabeça sem acreditar. – Mas ele só estava nos ajudando! – Eu sei, beija-flor. – ele respondeu, sem ter mais o que dizer – Eu sei. – Carmine tentava se concentrar na estrada, mas algo chamou sua atenção no espelho retrovisor. Um carro preto acelerava atrás deles – Merda! Haven olhou para trás. – Meu Deus! – Coloque o cinto de segurança. – ele disse. Ela congelou por um segundo, antes de seguir as ordens do rapaz. Carmine queria dizer algo que a confortasse, mas não sabia se alguma palavra seria capaz de fazê-lo. O veículo se aproximava rapidamente e os tiros continuavam, atingindo a parte de trás do carro. De repente o pneu direito traseiro estourou, mas Carmine conseguiu controlar o carro. Entretanto, um minuto depois foi a vez do pneu esquerdo. O barulho da roda tocando direto no chão abafava o som dos projéteis. O jovem entrou em pânico ao perceber que seria impossível escapar. Ele segurou firme o volante para se proteger e olhou para Haven. Seus olhos jamais haviam esboçado tamanha devastação. – Carmine. – ela disse. O som do seu nome nos lábios dela fez com que seu peito se enchesse de amor, apesar do medo. Nada em momento algum seria capaz de ofuscar o que eles sentiam um pelo outro. – Eu também te amo. – ele respondeu, lutando para controlar suas emoções e não assustá-la ainda mais – Sempre. No momento em que ele disse aquela palavra, o sedã preto os atingiu com tudo. Carmine perdeu a direção e o carro rodopiou, indo contra as árvores. O jovem instintivamente esticou os braços para


proteger Haven, sabendo que era tarde demais para conseguir parar. Ele se projetou para a frente e bateu com o peito no volante. A dor intensa se espalhou pelo seu corpo e o ar pareceu desaparecer de seus pulmĂľes. Ele perdeu os sentidos imediatamente.


Capítulo 46

O airbag foi acionado automaticamente, silenciando os gritos de Haven. O cinto de segurança protegeu-a do choque, mas ela sentia dificuldades para respirar até que, por fim, depois de socar o equipamento com as mãos, ele desinflou. Naquele momento, seus olhos se voltaram para o lado do motorista. Ela sentiu seu peito em chamas e logo desatou o cinto que a prendia. O corpo de Carmine estava caído para frente; o airbag do rapaz estava manchado com o sangue que escorria de seu rosto. Haven gritou o nome dele, o chacoalhou, tentando encontrar algum sinal de vida. A jovem só ficou aliviada quando ouviu uma respiração trêmula. Porém, a aproximação de outro carro a deixou apavorada. O sedã preto estava parado na estrada e os quatro homens que estavam dentro dele, todos com máscaras pretas, agora caminhavam na direção dos dois. Ela estava em pânico; sua visão, embaçada. A chegada iminente a deixara aterrorizada e fora de controle. Ela considerou a possibilidade de correr, mas não podia deixar Carmine naquele estado, incapaz de se defender. – Carmine, acorde, eu preciso de você! Por favor! Seu desespero foi aumentando à medida que os homens chegavam mais perto e suas vozes abafavam quaisquer outros sons. Olhando para a parte da frente do carro, ela localizou a arma de Carmine no assoalho. A cabeça da jovem latejava e ela chegou a hesitar por um segundo antes de pegá-la. Alguém apareceu ao lado do motorista e, num reflexo, Haven puxou o gatinho. Aquilo soou como uma explosão naquele espaço confinado, e ela gritou, lembrando-se de manter o controle da arma para que ela não saltasse de sua mão. A bala destruiu o vidro do lado de Carmine e passou raspando pelo rosto do sujeito, atingindo, entretanto, outro membro do grupo, que estava logo atrás, derrubando-o. O primeiro sujeito retirou a máscara e olhou para os lados. Haven gritou ao reconhecer o homem: era Nunzio. Ele ergueu sua pistola e enfiou a mão dentro do carro, segurando Carmine pelo cabelo, puxando a cabeça do rapaz para trás e apontando a arma para sua têmpora. Nesse instante, a porta do passageiro se abriu e outra arma foi pressionada contra a cabeça de Haven. Com um sotaque diferente e bem acentuado, o homem atrás dela disse calmamente. – Solte essa arma, doçura. Ela a soltou imediatamente e o sujeito a agarrou pelo braço, puxando-a para fora do carro e atirando-a ao chão. Em seguida ele pegou a arma e olhou enquanto, com extrema violência, Nunzio batia a cabeça de Carmine contra o volante. – Pelo amor de Deus. – ela gritava, sentindo-se péssima conforme as palavras saíam de sua boca – Por favor, não machuque ele! – Cale a boca. – Nunzio falou. Nesse momento o outro sujeito entregou a ele a arma de Carmine – Então, seu namorado a ensinou a usar isso? Nunca entendi o que Sal via nesse moleque. Principe della Mafia, o futuro da organização. Ele não tem cérebro pra isso. Ele olhou novamente para Haven e um silêncio assustador pairou entre eles. Nunzio guardou a arma do rapaz em seu casaco. – Levante ela. Não temos tempo a perder. O sujeito ergueu Haven e a colocou de pé, empurrando-a até o carro preto. Ela mal conseguia


respirar e tentava desesperadamente encontrar um meio de escapar. – E quanto a ele? – perguntou um terceiro homem, olhando para o companheiro caído ao chão. A voz dele também tinha um sotaque pesado. – Deixe ele aí mesmo. Eu teria matado ele de qualquer jeito. – E o rapaz? DeMarco? O coração de Haven quase parou de bater ao ouvir aquelas palavras; a dor irradiava por cada centímetro de seu corpo. Ela gritou e tentou se soltar, mas o medo fazia seus joelhos tremerem. O homem a soltou e ela caiu ao chão, chorando. – Por favor, não mate ele! Eu irei com vocês, eu irei! Não vou dificultar as coisas! Apenas não mate ele! Haven se sentiu devastada ao ver o homem apontar mais uma vez a arma para a cabeça de Carmine. Ela soltou um grito, e aquele som que partia de sua alma reverberou em seus ouvidos. Ambos os sujeitos que estavam próximos a ela se contraíram ao ouvir aquele clamor e foi então que algo atingiu a parte de trás da cabeça da jovem, silenciando-a. – Cala essa boca! – disse o homem com sotaque pesado, que a golpeou novamente, atirando-a para a frente. – Por favor! – ela ainda conseguiu pronunciar, a despeito da dor, sem se importar com o que aconteceria a ela, desde que não tocassem em Carmine. Ele ainda estava vivo e ela precisava que ele ficasse assim – Eu farei qualquer coisa! Não atire nele! O homem que estava ao lado dela lhe deu um chute e ela se contraiu, tentando recuperar o fôlego. – Chega! – exclamou Nunzio – Precisamos dela viva e inteira. Deixe o moleque aí antes que ela me dê ainda mais dor de cabeça. O sujeito abaixou a arma enquanto Nunzio a colocou de pé, encarando-a de um jeito que fez sua pele ficar arrepiada. Ele então a puxou para si e se inclinou em sua direção, colocando o nariz no rosto da jovem. Ela pôde sentir o cheiro de sangue no rosto dele, quando ele o esfregou no dela. – Ele morrerá logo, de qualquer jeito. Revoltada e aterrorizada, ela prendeu a respiração e caiu no chão. – Coloque-a no carro. – disse Nunzio, saindo do local. Alguém a pegou pela cintura e a arrastou pela estrada. Ela ainda conseguia ver o corpo de Carmine caído sobre o volante. Aquela visão terrível a fez perder as esperanças. Mesmo assim, ela ainda gritou o nome do namorado, na expectativa de que ele a ouvisse e despertasse. O homem tampou sua boca e a silenciou. Em pânico, ela o mordeu, rasgando-lhe a carne e sentindo o gosto repulsivo do sangue do sujeito. Ele se afastou o suficiente para que ela tivesse a chance de se soltar e correr para o carro, mas foi dominada assim que chegou à janela do motorista. – Pensei que iria ser boazinha. – disse Nunzio, arrastando-a de volta para o carro preto. Ele a enfiou no banco de trás enquanto os outros dois se acomodavam. Em seguida, o veículo saiu cantando pneus. Nunzio pegou uma pequena bolsa e abriu o zíper, retirando de lá uma seringa contendo um líquido claro. – É uma pena que eu tenha de fazer isso, docinho. Ela se debateu conforme a mão dele a segurou pela garganta. Haven lutou o quanto pôde, batendo com os punhos no peito dele com toda força que tinha e tentando tirar a seringa da mão do sujeito, mas ele conseguiu aplicar a injeção em sua coxa e a segurou firme por um minuto, até que ela perdesse os sentidos.


– Carmine? O som de alguém pronunciando seu nome finalmente foi registrado pelo jovem, mas a voz, embora familiar, parecia abafada e distante. Ele se forçou a ouvi-la. – Carmine, abra os olhos. Tudo estava escuro e embaçado, como se ele estivesse submerso na água turva ou em meio a uma forte neblina. – Vamos lá. – disse a voz, cada vez mais clara. Ele então reconheceu quem o chamava. Era seu pai, e ele tentou responder, mas não conseguia falar por causa da forte dor no peito. – Acorde, filho. – Vincent disse mais uma vez – É importante. Carmine se forçou a abrir os olhos, mas contorcia o rosto por causa da dor que irradiava a partir de sua cabeça. Ele gemia ao se mover, e sentia como se alguém o estivesse esfaqueando a cada nova tentativa. Sua visão distorcida deixava tudo confuso. Ele ainda estava no carro, cuja parte da frente estava cravada em algumas árvores e totalmente destruída. Fumaça e calor ainda saíam do capô, portanto ele não podia ter estado inconsciente por muito tempo. Ele viu o pai de pé ao lado da porta do motorista e fez uma tentativa de sair, mas Vincent o impediu. – Não deve se mover, filho, você está machucado. – Eu estou bem. – retrucou Carmine, sem muita certeza do que estava falando. Ele saiu e segurou no carro para se equilibrar; suas pernas estavam bambas. Imediatamente se sentiu mal, dobrou-se e vomitou. – Você tem uma concussão séria. – disse Vincent – É provável que algumas costelas estejam fraturadas. Além disso, me parece que seu nariz esteja quebrado e … – Pare de me diagnosticar. – ele disse – Cadê a Haven? – Eu esperava que você pudesse me dizer. Já estava a caminho de casa quando vi o carro fora da estrada. Carmine entrou em pânico. – Eu, ah… Ela estava comigo. Estávamos em casa e alguém começou a atirar na gente. Nicholas foi atingido. – Nicholas? Onde ele está? – Ainda está na casa. Tive de deixar para trás e fugir. – ele explicou, tentando combater o sentimento de culpa, sem saber o que doía mais, a angústia emocional ou seu estado físico – Nós estávamos tentando escapar, mas um carro colidiu com o nosso e aqui estamos nós. Merda, aqui estou eu. Onde está Haven? – Nós a encontraremos. – disse Vincent. Carmine imaginava como ele conseguia se manter calmo e frio naquela situação. Foi então que algo a alguns metros chamou sua atenção. Seu coração bateu mais forte quando percebeu que era uma pessoa. O pai dele olhou na mesma direção. – É Johnny. – Johnny? Quem diabos é o Johnny? – Ninguém importante. Nem tenho certeza de que esse seja o nome dele. Ela faz parte da turma do Giovanni. – Um dos seus? – Ele levou um tiro no abdômen, mas não acho que seja necessariamente fatal. – disse Vincent – A bala não atingiu órgãos vitais, mas algo me diz que chegou à medula. – Não me parece que foi intencional. Pensei que você só atirasse pra matar. – Eu não atirei nele. – disse Vincent, balançando a cabeça – Achei que você pudesse me dizer quem foi.


– Foi você quem o encontrou ali? – perguntou o jovem olhando para o pai, antes de se virar para o carro. A porta do lado do passageiro estava escancarada e o cinto solto sobre o banco, portanto ele não achou que Haven estivesse ferida. Não havia nenhum sangue no lado dela – Talvez ela tenha ido procurar ajuda. – ele disse, atirando as coisas para os lados – Onde está minha arma? No momento em que Carmine disse aquelas palavras, ele também localizou o cartucho calibre 45 no piso do carro. Ele o pegou e saiu novamente do carro, olhando para o pai enquanto este respirava fundo. – Eu tinha um pressentimento de que algo desse tipo pudesse acontecer, mesmo antes de saber sobre o parentesco dela com Sal. Depois de tudo o que já perdi, sabia que salvá-la não seria fácil. Todos sabiam o quanto ela importava para mim. Temi que alguém a levasse para fazer algum tipo de chantagem. Eu deveria ter previsto que seria ele. As pernas de Carmine vacilaram. – Nunzio? Vincent confirmou com a cabeça. – Ninguém ouve falar dele já há alguns dias. Ele foi convocado para uma reunião, mas não apareceu. Essa era justamente a razão pela qual eu estava indo a Chicago neste final de semana. Carmine sentiu-se furioso ao pensar naquela possibilidade. Imaginar que ela pudesse estar em algum lugar nas mãos de Nunzio o fazia querer vomitar novamente. Ele sequer conseguia conjecturar sobre o que ela estaria passando. – Eu vou matar ele. – disse Carmine – Ele vai pagar caro por isso. – É, ele vai. – concordou Vincent – Mas nesse momento precisamos nos preocupar mais em encontrá-la.

A noite estava fria, um temporal se formava a oeste, o que tornava as águas do Lago Aurora ainda mais turbulentas que o normal. Vincent se pôs de pé no cais, a apenas alguns quilômetros da residência dos Barlow, agarrando-se ao casaco e tentando se proteger dos ventos gelados. Vincent conseguia se lembrar claramente do dia em que conheceu Nicholas. Era um dia quente de outono e eles estavam na escola primária. Carmine havia acabado de completar dez anos e era a primeira vez em que o pai conseguia assistir a um jogo do filho. Era difícil para DeMarco dar conta de todas as tarefas no hospital e ainda administrar seu trabalho com a famiglia; sobrava pouco tempo para se dedicar aos filhos. Entretanto, naquele dia específico ela decidira sair mais cedo do trabalho para prestigiar Carmine. Lá pela metade do jogo, um garoto mirrado de pele bronzeada levou um tombo feio e a chuteira de alguém fez um corte em seu rosto. Foi um ferimento superficial, então Vincent pegou sua maleta no carro e fez um curativo ali mesmo, evitando que o menino tivesse de ser levado ao pronto-socorro. – Obrigado, Doc. – ele disse – O que foi que o médico disse quando o homem invisível pediu a ele uma consulta? – Não tenho certeza. – Sinto muito, mas hoje eu não posso ver você. – o menino riu histericamente da própria piada – O senhor entendeu? Não posso ver você? Você sabe, porque era o homem invisível! Vincent sorriu. – Sim, eu entendi. O intervalo começou e o médico terminou o curativo. Foi então que Carmine se aproximou. – Pai! Você veio!


Naquele instante Vincent se sentiu culpado. – É, eu vim. Carmine colocou os braços nos ombros do menino e disse. – Esse é o meu melhor amigo, o Nicholas. Aquelas palavras pegaram Vincent de surpresa. Todos os professores de Carmine costumavam dizer a mesma coisa: ele era fechado e introvertido. Na maioria das vezes era como se nem estivesse na sala. Naquele instante o pager de Vincent tocou e o momento mágico se perdeu. O brilho nos olhos de Carmine se dissipou; aquela criança silenciosa com a qual Vincent se acostumara voltou a reinar, sem que uma palavra fosse dita entre os dois. Mas nem toda a esperança estava perdida, Vincent percebeu, pois Carmine tinha alguém. Uma pessoa com a qual o jovem podia ser ele mesmo: um garoto inocente atormentado por demônios que ninguém mais conseguia ver. Depois de uma discussão, ele viu seu filho pouco a pouco perder totalmente o controle. Ele começara a trilhar os passos do pai e a se aproximar de um destino do qual Vincent o queria longe: Chicago. Foi então que ela surgiu na vida dele. Uma jovem que jamais tivera o controle sobre sua própria vida conseguira ensinar àquele garoto, que já tinha tudo nas mãos, o verdadeiro significado da vida. Mais uma vez, Carmine não estava mais sozinho. Nicholas, em contrapartida, estava só. Vincent jamais esqueceu a singela piada que ele lhe contara naquele primeiro dia, pois Nicholas era muito parecido com um homem invisível. Ele vivia a vida sem ser notado pela maioria das pessoas. Vincent, porém, conseguia vê-lo, mesmo que não pudesse ajudá-lo. E quando parou naquele cais em plena escuridão, ele desejou ter feito mais para ajudar o pobre garoto. DeMarco olhou para a água, fixando-se no exato lugar onde o corpo do rapaz desaparecera minutos antes, e sentiu apenas um profundo desgosto. Ele vira aquele garoto crescer e agora tivera de atirá-lo sem vida dentro da água, assim como já havia feito com vários inimigos. – Oggi uccidiamo, domani moriremo. – ele disse, fazendo o sinal da cruz com a mão enluvada. Hoje matamos, amanhã, morremos. Vincent caminhou até o carro estacionado atrás das árvores e saiu do Lago Aurora sem olhar para trás. Ele já havia limpado a casa, lavado a garagem e espalhado pedras para esconder qualquer traço do incidente, mas agora tinha problemas maiores com os quais teria de lidar.

Logo que Vincent chegou à casa, foi direto para o escritório que ficava sob a escada, descendo em seguida rumo ao porão. O lugar estava limpo; as caixas haviam sido levadas para outro lugar, então era fácil caminhar pelo cômodo. Ele chegou a uma grande estante nos fundos e abriu um painel elétrico feito de metal que estava ao lado dela. Vincent deslizou uma parte desse painel, revelando um pequeno teclado, onde digitou os números 62373. Ele ouviu um clique e, enquanto fechava o painel, a estante deslizou alguns centímetros para o lado. A porta levava a um quarto secreto de segurança, ou àquilo a que seu filho caçula se referia como masmorra. O cômodo, que não era muito maior que uma cela de prisão, possuía paredes reforçadas com aço e camadas de Kevlar, uma fibra à prova de balas. Era o tipo de quarto em que poucos homens entravam, e do qual um número ainda menor saía vivo.


Ele ligou o interruptor que ficava ao lado e luzes fluorescente tomaram o espaço. Ele piscou, tentando bloquear a luz forte com a palma da mão. Murmúrios vinham do canto onde Johnny estava deitado sobre uma mesa de concreto e preso com correntes. – Vincent. – disse uma voz quase inaudível – Me ajude. – Eu o ajudarei – Vincent respondeu –, mas primeiro você irá me ajudar. – Não posso me mover; não consigo mexer as minhas pernas. – É, eu sei. A bala atingiu sua medula. – Uma bala? Estou paralisado! Meu Deus, minhas pernas. Vincent suspirou, irritado. – Comporte-se como um homem! – O que aconteceu? – perguntou Johnny, lutando para se mover – Minhas malditas pernas. – O que aconteceu é que recebi uma ligação e fiquei sabendo que havia alguém em minha casa, então eu voltei para investigar e encontrei meu filho inconsciente e a namorada dele havia desaparecido. Ah, e havia também um jovem inocente morto bem no meu jardim, e você, ferido. Você, bem no meio de uma cena em que uma família foi atacada. Então, que tal você me dizer o que aconteceu? – Eu, ah… Eu não sei… Eu levei um tiro e não sei quem atirou nem como… Vincent se encostou na mesa e cruzou os braços, dizendo: – Eu compreendo como é essa vida. Somos sugados para dentro de situações que fogem ao nosso controle, mas ainda não é tarde demais para consertar a situação. Quero que você me diga o que Nunzio quer com aquela garota. – Não posso. Vincent podia sentir que o homem estava apavorado e tentou se manter calmo para não assustá-lo ainda mais. – Bem, isso deve estar doendo bastante; além disso, precisa que o ferimento seja limpo antes que infeccione. É sua única opção. – Não posso te dizer nada. – ele falou – Eu não sei de nada. – Você está mentindo. – disse Vincent – Não participaria de algo sem saber o porquê. Para onde ele a levou? – Você tem de acreditar em mim, Vincent. Não posso te dizer. – Ah, você pode me dizer, mas não quer! Há uma grande diferença. Aliás, tão grande quanto a que separa a vida da morte. – Por favor! Vincent acenou com a cabeça. – Não implore! Isso é humilhante para você. – Você precisa entender… – Não, é você quem precisa entender. Eles levaram algo importante para mim e não vou parar até encontrá-la. Se quer ter uma pequena chance de sair daqui vivo, você me dirá o que preciso saber. – Se eu te contar qualquer coisa eles me matarão. – E se você não me contar, eu o matarei. – respondeu – E saiba que não terei nenhuma compaixão por você. Cada minuto em que ela estiver longe dessa casa, você irá sofrer aqui dentro, e não vou interromper esse sofrimento até que ela esteja de volta. Compreendeu?

A tensão era tão palpável no ambiente que era quase possível cortá-la com uma faca. Carmine já


ouvira aquela frase muitas vezes, mas, somente naquele momento, sentando naquele veículo branco e imaculado e lutando para suportar a náusea por causa do cheiro de couro fresco, que ele finalmente entendeu o que tudo aquilo significava. Era sufocante; a hostilidade exalada pelo homem ao lado dele era forte demais para suportar. Carmine tinha uma costela fraturada, o nariz quebrado e um pulso levemente torcido, além, é claro de uma concussão. Vincent pedira a ajuda de um colega, que concordou em cuidar do filho sem alarde. Apesar da insistência do filho em dizer que não precisava de cuidados médicos, Vincent exigiu que ele fosse tratado. E quando Vincent DeMarco exigia algo, nem mesmo Carmine se opunha às suas ordens. Então, quando Corrado chegou à cidade, ambos foram até a clínica enquanto seu pai permaneceu na casa para lidar com a confusão. – Você não vai matar o médico que eu vi, vai? – Carmine perguntou, completamente zonzo por causa da alta dose de morfina em seu corpo. Corrado não respondeu nada, e Carmine não tinha certeza se aquilo era um sinal bom ou ruim. – Não acho que deveria. – o rapaz disse – Ele é só um médico. – Carmine? – Sim? – Cale a boca. Naquele momento, Carmine decidiu que se calar provavelmente seria o melhor a fazer. Um pouco desorientado, ele olhou para o relógio no painel e viu que já era meia-noite. Haven estava desaparecida há doze horas, e os minutos continuavam passando, como se nada importasse. Ele deu um suspiro; a tensão naquele carro só aumentava. Carmine se sentiu como se mais uma vez não pudesse respirar quando eles chegaram à casa e se afastaram um do outro. Ele seguiu para dentro de casa e deu de cara com o pai saindo do escritório sob a escada. Corrado também entrou e fechou a porta. – Ele falou? – Não. – respondeu Vincent – Ele não me deu nenhuma informação. Corrado passou por Carmine e olhou para Vincent de um jeito peculiar, antes de desaparecer rumo ao escritório. Vincent resmungou algo em voz baixa, recusando-se a olhar diretamente para Carmine. Este caminhou até as escadas, sentou-se num degrau e colocou a cabeça entre as pernas, balançando para frente e para trás. Em seguida, levantou-se e se pôs a andar de um lado para o outro. À medida que a morfina desaparecia de seu corpo, o mesmo ocorria com sua paciência. Por fim ele ouviu passos e viu que seu pai se aproximara, ao mesmo tempo em que Corrado saía do escritório. Ambos pararam no hall e Carmine olhou para os dois, já quase perdendo o controle. – Por que vocês dois só ficam aí parados? Não tem nada que possam fazer? Qualquer coisa? Pelo amor… Antes que Carmine pudesse verbalizar a última frase, Corrado o pegou pelo colarinho e o empurrou violentamente contra a parede. O rapaz perdeu a respiração no momento em que Corrado enfiou uma arma em cima de sua costela fraturada. – Será que você ainda não aprendeu sua lição? Será que um de nós dois terá de morrer antes que você perceba que isso não é um jogo? Você está colocando nossas vidas em risco e, entenda de uma vez, rapaz, eu não vou mais tolerar que você piore as coisas! E não dou a mínima para quem é o seu pai. O coração de Carmine batia aceleradamente. Ele não tinha a menor dúvida de que tio atiraria nele. – Corrado. – disse Vincent – Solte-o. Corrado liberou Carmine e se virou, apontando a arma para Vincent. O jovem respirou fundo ao testemunhar aquela situação. Vincent se manteve tão imóvel como uma estátua, sem nem piscar, olhando para o tambor do revólver.


– Você continua me arrastando cada vez mais para o fundo, Vincent. – disse Corrado, abaixando a arma. – Eu sei. – respondeu DeMarco. Corrado se virou novamente para Carmine. – Essa sua boca ainda vai acabar matando todos nós. Se não consegue fechá-la por si mesmo, eu a fecharei pra você.

O dia já havia amanhecido quando Carmine subiu até o terceiro andar. Seu peito ficou apertado no momento em que abriu a porta de seu quarto. Ele se sentou na beirada da cama e segurou um travesseiro, abraçando-o com firmeza enquanto lágrimas se formavam em seus olhos. Cada partícula de autocontrole que lhe restava desapareceu no momento em que inalou o perfume de Haven que ainda estava na fronha. A tristeza o engoliu e se recusou a deixá-lo. Já estava no meio da tarde quando seu pai entrou no quarto. – Partiremos para Chicago em pouco tempo. Carmine colocou o travesseiro de lado e secou as lágrimas, olhando para suas roupas rasgadas e ensanguentadas. – Acho que vou me trocar. – Prefiro que fique aqui para o caso de ela voltar. Carmine sorriu de um jeito amargo. – Ela não é um cão perdido. Ela não saiu caminhando pelo jardim e se perdeu no meio da floresta. – Entendo, filho, mas você deveria reconsiderar. É perigoso e… – Eu vou. – disse Carmine, interrompendo o pai – Se não quiser que eu o acompanhe, tudo bem, mas estarei no próximo voo, quer você goste disso ou não. – Muito bem, mas precisará tomar cuidado. Você não pode simplesmente se meter nisso como se fosse um justiceiro. Não poderei me concentrar em trazê-la de volta se você sair por aí fazendo o que lhe der na cabeça e contrariando minhas ações. – Eu sei. Manterei minha boca fechada e deixarei que faça o que tem que fazer. Não sou ingênuo, pai. Sei o que pode estar acontecendo com ela, mas preciso estar lá, de qualquer jeito. Vincent pinçou a ponta do nariz com os dedos, franzindo a testa. – Muito bem. Eu e Corrado vamos acabar o que começamos e então partiremos. Carmine olhou para o pai. – O que começaram? Está falando, ah… Você sabe, sobre aquele sujeito e… Ele não conseguiu concluir seu raciocínio, mas nem precisava. Vincent compreendeu perfeitamente. – Johnny está no porão. Ele não disse muito até agora, mas eu injetei nele uma dose de tiopentato de sódio há alguns minutos. – O quê de sódio? – Tiopentato de sódio. É um barbitúrico. Ele suprime as funções corticais no cérebro; já que mentir é um processo complexo, torna-se mais difícil para ele… – Poderia falar minha língua, por favor? – Soro da verdade. – respondeu Vincent – Pelo menos é assim que as pessoas o chamam. Carmine acenou com a cabeça. – Pai… e o Nicholas? Vincent olhou para o filho. Seu olhar era a única resposta de que Carmine precisava. Mesmo do


outro lado do cômodo, ele percebeu a tristeza no rosto do pai. – Não pude fazer nada por ele.

A manhã já havia nascido e Vincent estava de pé no cômodo lacrado, mais uma vez interrogando Johnny, que sofria. – Diga-me onde ela está e isso acabará. – Não posso. – ele disse, pelo que parecia a centésima vez. Mesmo com o soro da verdade correndo em suas veias, ele ainda jurava que não sabia de nada. Corrado se aproximou. Seus olhos estavam cheios de ódio. Não era algo que Vincent via com frequência, mas um sinal de que alguém estava prestes a morrer. Violentamente. Vincent abriu caminho e Corrado foi direto para o armário na parede. Depois de remexê-lo, retirou de lá algumas facas e alicates, distribuindo-os metodicamente sobre a mesa de aço na lateral. Olhando para Johnny, ele disse: – Bem, enquanto ainda está vivo, vamos brincar de “uni, duni, tê”. Sem estômago para suportar o que estava prestes a acontecer, Vincent saiu do cômodo. Um grito de pavor e agonia ecoou pelo porão antes que ele chegasse à escada. Logo Johnny estaria deixando aquele lugar… em pedaços.

Corrado retornou cerca de uma hora depois, ensopado por causa da chuva e com as roupas imundas de sangue. Ele saíra pela porta externa do porão e, como de costume, sua expressão era indecifrável. – Foram os russos. Aquela única palavra quase fez com que o coração de Vincent parasse de bater. – Ela está com os russos? Por quê? – Porque é uma de nós. Já não é razão suficiente? – Eles sabem? – É possível que tenham descoberto antes de nós. – respondeu Corrado – Isso está saindo fora de controle. Até agora, Vincent, você se sentou no banco de trás, mas isso já não é mais possível. Essa coisa não vai acabar. Vincent sabia disso, mesmo que não quisesse admitir. – Onde eles a estão mantendo? – Joey não soube dizer. Vincent franziu o cenho – Pensei que o nome dele fosse Johnny. – Joey, Johnny… Que diferença faz? – Corrado começou a se afastar – Já cuidei do corpo, agora você limpa a sujeira. Vincent seguiu novamente em direção ao porão, tomando cuidado ao entrar no quarto secreto. O piso de concreto estava ensopado de sangue, mas também havia manchas no teto. Ele não fazia ideia de como Corrado havia conseguido aquela façanha, mas não tinha a intenção de perguntar. Há muito tempo ele aprendera a nunca perguntar pelos detalhes.


A chuva estava tão forte que Carmine mal conseguia enxergar as árvores a apenas algumas centenas de metros da casa. Ele estava tão hipnotizado olhando pela janela da sala de estar que sequer percebeu os passos se aproximando. De repente ele viu o reflexo de Corrado no vidro e levou a mão ao peito, dando um passo para trás. – Caramba, você me assustou. Corrado desabotoou a camisa arruinada. – Você não é muito observador. – E você é muito furtivo, como um ninja. Ninja. No momento em que Carmine disse aquela palavra ele sentiu como se tivesse levado um soco. Lágrimas se formaram novamente em seus olhos, mas ele se conteve para não derramá-las na frente do tio. – Você assiste muito à televisão. – disse Corrado – A marca de um assassino bem-sucedido é o fato de o alvo jamais suspeitar quem o acertou. Carmine olhou para ele. – Não sou um alvo… Ou pelo menos espero que não seja. Corrado curvou os lábios formando um pequeno sorriso enquanto acendia a lareira. Depois que o fogo pegou, ele atirou a camisa e a viu queimar. – Eu me lembro de quando você e sua mãe desapareceram. Alguns de nós estavam em sua casa, e vocês estavam atrasados. Vincent enviou um carro, mas ele voltou vazio. O motorista disse que vocês já haviam saído. Apesar do medo que tomou conta de seu pai naquela noite, ele fez o que tinha de fazer. Ele aprendeu a usar aquela máscara de tranquilidade e frieza muito bem, mas eu o conhecia melhor que ninguém. Ele ainda ficou atiçando o fogo mesmo depois de a camisa já ter desaparecido. – Você e ele são iguaizinhos: demasiadamente emocionais, ligados demais à vida exterior, e isso pode ser perigoso. As pessoas irão explorar essa paixão para exercerem o controle, e você dois compartilham de uma mesma fraqueza. – E qual é? Corrado olhou para ele como se aquela fosse uma pergunta estúpida. – Suas mulheres, Carmine. – Mas esse não é um problema de todo mundo? Corrado discordou com a cabeça. – A maioria é incapaz de amar alguém. As esposas são como os carros que dirigem e as casas que usam. Eles acham que são donos delas, então cuidam delas, as exibem por aí, mas na hora do aperto, eles as entregariam de bandeja para salvar a própria vida. – É assim que você se sente? – perguntou Carmine – Sempre achei que você e a tia Celia… Você sabe… – Eu amo a Celia. – respondeu Corrado – A diferença aqui é que eu não posso ser manipulado. Eles usaram Maura para forçar seu pai a fazer o que eles queriam, assim como Haven será usada para que você faça o que eles desejam. – Você acha que é por isso que eles me deixaram vivo? – Tenho certeza absoluta. Somos peões em um tabuleiro, Carmine, e se não formos cuidadosos, acabaremos nas mãos deles. Exposição não é algo muito bom no mundo em que nós vivemos. Eu espero que, já que você é tão parecido com Vincent, você aprenda a colocar essa máscara. Já o ajudei a enterrar Maura. Não quero passar por isso novamente. – ele se preparou para sair, mas antes se


virou e disse – E faça uma mala, pelo amor de Deus. É suspeito alguém embarcar num avião sem bagagem.

Eles aterrissaram em Chicago quando já começava a escurecer e levaram vinte minutos para chegar à casa dos Moretti. O trajeto foi feito todo em silêncio. Carmine olhava pela janela como se estivesse dopado. Fazia anos que ele não pisava naquela cidade, mas o lugar parecia o mesmo. Eles passaram pela pizzaria de Tarullo e Carmine fechou os olhos, sem conseguir olhar à medida que se aproximaram da viela em que sua vida virou de cabeça para baixo. Corrado estacionou o carro na frente da grande casa de tijolos. Celia parecia desgastada ao esperálo à porta e Corrado quase nem olhou para ela ao entrar. Ela ofereceu um sorriso empático a Vincent. Carmine, por sua vez, tentou passar direto, mas ela o agarrou e o abraçou. Ele se afastou dela. – Isso tudo é minha culpa. Acenando negativamente a cabeça, ela colocou a mão no queixo do jovem e disse: – Você não provocou isso, criança. Você jamais faria nada para machucá-la. Ela é uma de nós… Ela faz parte da família. Nós iremos encontrá-la. – Espero que esteja certa. – ele disse, derrubando sua mala no chão. Então seguiu para a sala de estar e logo viu o irmão sentado ao sofá. Dominic estava com a cabeça abaixada e suas mãos cobriam seu rosto. Tess estava sentada ao lado dele e olhou para Carmine, com os olhos arregalados. Ela cutucou Dominic. – Dom. Dominic ergueu a cabeça, boquiaberto. – Olhe pra você, mano. – Parece pior do que é. – ele mentiu, sentando-se em frente aos dois. A dor era insuportável, tanto dentro como fora – Ela é tudo o que importa nesse momento. Ninguém disse mais nada até que Vincent entrasse na sala e colocasse seu notebook sobre a mesa de café. Ele olhou para Dominic e disse com a voz austera. – Preciso que você a localize para mim, por meio do chip. Carmine empalideceu. – Você mesmo não consegue localizar ela? – Não está conectando. Quando ele saiu, um silêncio desconfortável pairou no ar. Tess respirou fundo e começou a andar de um lado para outro, mexendo nas coisas para se manter ocupada, enquanto Dominic se voltava para o notebook. Seus dedos digitavam furiosamente, sem que nada daquilo fizesse qualquer sentido para Carmine. O som da digitação foi tomando cada vez mais espaço na mente do rapaz. Ele estava à beira de um colapso mental. Já tinham se passado quase quarenta horas sem que ele tivesse pregado os olhos. A cabeça parecia pesada demais sobre o corpo, seus olhos vermelhos queimavam de exaustão. Passando a mão pelos cabelos, ele os puxou com firmeza enquanto se balançava para frente e para trás na poltrona. O tique-taque do relógio se mesclava à digitação rápida de Dominic; tudo parecia tirar o rapaz dos eixos. Cada tique era mais um segundo sem ela, mais um segundo de incerteza. Tess continuava a andar pela sala com seus saltos altos e aquele som repetitivo o estava enlouquecendo. Toc, tique, clique, toc, clique, taque, toc, tique, clique, toc… Carmine estava perdendo o controle de sua própria mente.


Nesse momento, Celia entrou na sala com alguns sanduíches e colocou um prato bem à frente dele. – Você precisa comer alguma coisa, meu querido. – Você acha que ela está comendo? – ele perguntou com a voz falha. Será que ela estava comendo? Será que estavam cuidando bem dela? Será que ela estava aquecida? Jesus, onde ela está? Sua respiração começou a falhar à medida que o pavor foi tomando conta dele. Será que ela ainda está viva? Celia passou a mão nas costas dele, mas ele se afastou da tia ao mesmo tempo em que Tess bufou, demonstrando certa impaciência. – Você tem algo a dizer, Tess? – Carmine perguntou, levantando-se – Há algo que queira jogar na minha cara, Senhorita Perfeitinha? Aquela que sempre sabe mais que qualquer outra pessoa. Você nunca gostou de Haven e provavelmente está feliz pelo fato de ela ter sumido. Tess arfou e cobriu a boca com as mãos. Dominic deu um salto, parecendo querer dar um soco no irmão caçula. Por um momento, Carmine desejou que ele o tivesse feito. – Acho que você precisa dormir. – disse Dominic – Haven é como uma irmã pra mim. Também estou preocupado, então, não aja como se você fosse o único que se importa aqui. Carmine tentou se controlar. – Eu não estou pensando direito. – Sei que não está. – disse Dominic, voltando a se sentar e a se concentrar no notebook – E se acha que conseguirá ajudar em alguma coisa na condição em que se encontra, está errado. Então, coma o seu sanduíche, feche os olhos e descanse.

A construção cinza e igual a todas as demais ficava bem no meio de um bairro abandonado. Ferrugem cobria a porta de ferro preta; pichações elaboradas recobriam toda a parte de fora. O interior do prédio era igualmente negligenciado: o piso de concreto ostentava rachaduras e as paredes eram cobertas de sujeira. Ainda havia eletricidade no lugar, mas as luzes piscavam. Um velho ventilador de metal preso ao teto girava sem parar. No centro da sala havia uma grande mesa de jogos, rodeada de homens sentados em cadeiras dobráveis. Havia milhares de dólares sobre a mesa, além de garrafas vazias de cerveja espalhadas por todos os lados. Cada homem segurava um conjunto de cartas. Todos conversavam animados, discutindo e rindo enquanto o jogo de pôquer adentrava a noite. Aquelas pessoas pareciam nem reparar na jovem encolhida no canto sobre um colchão rasgado e manchado. Haven também não estava interessada neles e respirava superficialmente. O barulho de vez em quando invadia a escuridão em que se encontrava; palavras incoerentes e abafadas eram proferidas por vozes que ela desconhecia. Pouco a pouco, recobrou a consciência e, com ela, veio a dor. O vozerio se tornou mais alto quando ela tentou se sentar. Sua cabeça girava e ela se sentia desorientada. A jovem entrou em pânico quando viu a porta se abrir a distância. Uma mulher entrou no cômodo e caminhou em direção aos homens, mas se deteve ao olhar na direção de Haven. – Por que não me disseram que a garota estava acordada? Ela tinha um sotaque estrangeiro, que pareceu familiar para Haven. Flashes do acidente voltavam à sua cabeça, o que a fez se lembrar do homem que havia apontado uma arma para a cabeça dela. Todos pararam de falar e olharam para Haven. Nesse momento, um par de olhos bem familiares se concentrou nos dela. Aquela visão fez seu estômago revirar. Nunzio deu um sorriso sarcástico antes de se virar para a mesa de jogos; os demais fizeram o mesmo.


A mulher pegou uma garrafa em um grande refrigerador ao lado da mesa e colocou um pouco de água em um copo plástico, antes de atravessar o cômodo e se aproximar dela. Haven pôde finalmente olhar para ela: uma jovem de cabelos grossos e longos, tão claros que eram quase brancos, mas as raízes eram bem escuras. Seus olhos eram grandes e azuis; seu rosto, redondo e rechonchudo. Ela parecia uma boneca de porcelana. – Estou surpresa em vê-la se mover. – ela disse, sendo gentil ao esticar a mão com o copo. Haven resistiu e a mulher sorriu – É só água, minha linda garotinha. Beba. Haven estava confusa; parte dela a alertava para que não confiasse naquela mulher, porém, ela estava desesperada para aceitar a bebida. Depois de alguns instantes de incerteza, ela acabou reconsiderando. O líquido gelado deslizou por sua garganta, aliviando seu peito em chamas. – Achei que ele a havia colocado para dormir para sempre. – ela falou – Eu disse que a dose era alta demais. Não sei por que ele nunca me dá ouvidos. A mulher mexeu na bolsa e pegou um pacote de bolachas. – É melhor você comê-las. Não há como saber quando terá uma nova chance. Embora não confiasse na mulher, Haven não queria que sua teimosia arruinasse sua chance de manter-se forte. Seu estômago roncava, trazendo de volta a lembrança dos dias de fome. Ela pegou o pacote de bolachas e começou a comer. De repente suas pálpebras ficaram pesadas. Ela tentou combater o sono, mas não conseguiu. Sentiu-se leve e voltou a se deitar enquanto a mulher sorria. – Sinto muito – ela disse, com a voz se transformando num sussurro –, mas se estiver dormindo, Nunzio não irá incomodá-la. Quando as dores amenizaram e os sons voltaram a ficar abafados, Haven percebeu que fora drogada novamente.


Capítulo 47

Carmine despertou e ainda estava um pouco tonto ao deslizar os olhos pelo quarto de hóspedes. De repente sua vista alcançou um relógio na parede. Demorou alguns segundos para que ele registrasse o horário: eram quase oito da manhã. Ele deu um pulo da cama e sentiu dores por todo o corpo. Com dificuldades, vestiu-se, saiu do quarto e desceu as escadas. Na sala de estar tudo parecia exatamente como no dia anterior, a despeito de terem se passado quase doze horas. Dominic ainda digitava no notebook e Tess continuava andando de um lado para o outro da sala. Celia saiu da cozinha ao ouvir os passos do sobrinho. Assim como os demais, ela também parecia exausta. – Como está se sentindo hoje, criança? Como ela achava que ele estaria se sentindo? Estava ferido, por dentro e por fora. Toda sua vida se transformara num caos. Será que ele deveria dizer para ela que se sentia como se a morte fosse um alívio? Será que aquilo a faria se sentir melhor? – Me sinto um completo inútil, tia. – ele respondeu, passando a mão nos cabelos – É como se eu estivesse deitado numa cama esperando que o vizinho de cima finalmente atirasse o segundo pé do sapato no chão, mas ele nunca o faz. Odeio essa sensação. Celia abriu a boca para responder, mas uma comoção se deflagrou antes que ela pudesse pronunciar qualquer coisa. Dominic deu um pulo. – Está conectando! Carmine sentiu uma forte dor de cabeça quando a porta no final do corredor se abriu com violência, atingindo a parede. Naquele momento, Carmine imaginou que eles tivessem escutado as palavras de Dominic, mas todas as suas esperanças logo desapareceram quando ele olhou para Corrado, que se concentrava na porta da frente, atrás do rapaz. A pele normalmente bronzeada de seu tio parecia totalmente pálida. Carmine sentiu um forte calafrio. Algo estava terrivelmente errado, mas nem mesmo por um instante ele teria previsto o que estava prestes a acontecer. – FBI! Mandado de busca! Todos para o chão! Agora! A gritaria vinha do lado de fora. Várias vozes falavam ao mesmo tempo. Incrédulo, o jovem se virou para a porta da frente enquanto os federais tentavam arrombá-la. Ele enrijeceu o corpo ao perceber a mesma movimentação nos fundos da casa. Num movimento instintivo, ele cobriu os ouvidos no momento em que uma rajada de tiros ricocheteou no piso sob a escada. As luzes claras o ofuscaram no instante em que as lanternas da polícia invadiram a casa. Vários homens vestidos com uniformes da SWAT entraram pelas portas, ordenando que todos se abaixassem. Tess gritava na sala de estar enquanto Dominic soltava um palavrão, mas as vozes deles pareciam abafadas nos ouvidos de Carmine. Tudo aconteceu rápido demais, e os pés do rapaz pareciam presos ao chão. Celia se deitou no chão e colocou as mãos sobre a cabeça. – Para o chão! – gritou um oficial, apontando a arma diretamente para Carmine, mas ele simplesmente não conseguia se mover; ele sequer conseguia pensar. Celia colocou a mão na perna do rapaz e a chacoalhou. Ele caiu de joelhos e, em seguida, um oficial forçou o rosto do jovem contra o piso e seus braços foram puxados até as costas. Ele gritou, tentando se soltar à medida que eles o


algemavam. – Não resista. – disse Celia – Eles precisam nos algemar para a segurança deles. O jovem relaxou os braços e permitiu que algemas fossem colocadas. O oficial quase cortou sua circulação ao apertá-las. – Vincenzo Roman DeMarco, você está preso sob a acusação de violação da Lei de Combate a Organizações Corruptas e Influenciadas pelo Crime Organizado, Título 18 do Código dos Estados Unidos da América, Seção de 1961. – declarou um oficial ao levar Vincent em direção à porta da frente – Você tem o direito a permanecer calado. Qualquer coisa que disser poderá e será usada contra você no tribunal. Você tem direito de contar com um advogado presente durante os interrogatórios e, se não puder arcar com um, um defensor público será determinado para atendê-lo. Carmine ficou desesperado ao ver que os homens se aproximavam dele. – Pai! – Fique de boca fechada, Carmine. – disse Vincent, sendo levado para fora. Oficiais retiraram Corrado do outro cômodo e o algemaram, enquanto liam os direitos dele. – Chame os advogados, Celia. – disse Corrado, com a voz tranquila – Não quero nenhum deles levando nada sem a presença de um aqui. – Eu chamarei. – ela disse, com a voz um pouco trêmula – Mantenha-se firme. – Não se preocupe comigo. – respondeu Corrado – Eu ficarei bem. Um oficial ajudou Celia a se levantar e a revistou antes de se afastar; outros tiraram Tess e Dominic da sala de estar, enquanto um terceiro grupo colocou Carmine de pé e o empurrou contra a parede, revistando-o de modo veemente e retirando tudo o que o rapaz trazia nos bolsos. Depois que perceberam que ele não estava armado, eles o levaram pela porta da frente. A rua estava bloqueada e coberta por carros da polícia; dezenas de agentes do FBI e oficiais locais lotavam as imediações. Carmine olhou e viu quando colocaram seu pai e seu tio em duas SUVs pretas e não identificadas; suas pernas fraquejaram ao se deparar com a realidade. – Ande. – ordenou o oficial, empurrando-o para frente. Aos trancos, Carmine desceu os degraus e se contorceu no momento em que ele foi violentamente empurrado e colocado ao lado da tia. – Ei, calma aí, caralho! Não tá vendo que estou todo machucado? – Precisa de um médico, filho? – disse um policial mais velho ao caminhar na direção dele. Carmine cerrou os olhos e leu o que estava escrito em letras amarelas no colete do oficial: Agente Especial do Departamento de Justiça dos EUA. – Não sou seu filho. – o rapaz respondeu – E o que eu preciso é que me deixem em paz! – Um pouco de paciência seria ótimo, rapaz. Sou o Agente Especial Donald Cerone, chefe da divisão de crimes organizados. Carmine ergueu uma sobrancelha ao ouvir o sobrenome italiano. – Cerone? Deve ser uma nova gíria pra traidor. O agente sorriu e fez um movimento para que o outro oficial lhe entregasse os pertences de Carmine. Este suspirou ao vê-lo abrir sua carteira, sabendo de antemão o que iriam encontrar. – Ah, mas o que é isso? – ele perguntou – Carmine Marcello DeMarco. Diga-me, filho, em que ano você nasceu? Temos dois documentos diferentes aqui, e com datas diferentes. – Vaffanculo. – Carmine. – Celia o alertou – Pare de provocar o homem. O agente Cerone apenas riu. Uma agente do sexo feminino libertou Celia de suas algemas e deu a ela um telefone celular para que ligasse para os advogados. Eles também lhe entregaram a documentação, explicando o que estavam fazendo. Tess e Dominic foram libertados. Carmine tentou se manter o mais calmo possível,


mas sua paciência estava por um fio. – Ei, não vai tirar as minhas algemas também? – ele perguntou – Isso é pura sacanagem, Cerone. O agente ignorou os pedidos de Carmine e começou a interrogá-lo ali mesmo, mas o rapaz o ignorou, recusando-se a dizer uma só palavra. Com dores, ele mudava constantemente de posição e, ao fazê-lo, vários agentes se mobilizavam, imaginando que ele tentaria escapar. E, se pudesse correr, ele certamente o faria. Os oficiais trouxeram caixas e sacos de dentro da casa, todos etiquetados como evidências. Carmine se apoiou na parede com os cotovelos e passou a olhar para o chão. Logo um agente o puxou e o colocou de pé novamente. O agente Cerone balançou a cabeça e disse: – Leve-o para a central. – Por quê? – Carmine perguntou – Eu não fiz nada, caralho! O mesmo sorriso retornou aos lábios do agente. – Foi um grande prazer, Carmine Marcello DeMarco. Tenho certeza de que voltaremos a nos encontrar.

Quando Haven recobrou a consciência pela segunda vez, ela sentiu a luz do sol passando pelos buracos ao redor do ventilador. Tentou evitar a dor que sentia enquanto olhava para o lado e via a mesma mulher de antes. – Bom dia, minha linda garota. Mais uma vez todos pararam de falar e se voltaram para ela. O coração da jovem acelerou ao identificar Nunzio. Com a luz do dia, ela podia ver que ele tinha um curativo na face. – Ah, então a Bela Adormecida está acordada? – disse um homem ao se levantar de uma das cadeiras. Ele era alto e musculoso; seu rosto tinha linhas bem definidas, como se tivesse sido esculpido numa rocha. Os cabelos eram praticamente grisalhos e seu nariz, grande demais para o rosto. Ele também tinha um forte sotaque. Nunzio deu risada – E nem precisou de um beijo de seu príncipe para acordar. – Como se sente? – perguntou o homem, ignorando o comentário de Nunzio. Ele puxou uma cadeira e se sentou de frente para Haven. Ela pôde ver as rugas em seu rosto – Consegue falar, Princzessa? Ela não compreendeu a palavra e franziu as sobrancelhas. – Ah, está confusa? Sente-se mais confortável com os italianos. Nunzy, qual é a palavra? – Principessa. – Ah, essa você conhece, não é? – ele disse, erguendo as sobrancelhas e esperando alguma resposta. Haven acenou, mas sentiu dores no pescoço – Está sentindo alguma dor? Ei, você pode falar. Somos amigos. Ela o olhou sem acreditar no que dizia, e a mulher deu risada. – Não acho que ela acredite em você, Papa. – É o que parece. – ele respondeu, olhando novamente para ela com curiosidade – Mas também não posso te culpar. Você não deveria mesmo confiar nas pessoas, em especial naquelas com as quais tem andado; eu jamais a enganarei como eles. A voz de Haven parecia rouca. – Do que você está falando?


– Ah, ela fala! – sua expressão dura deu lugar a entusiasmo – O que estou dizendo é que aqueles seus amigos italianos não foram honestos com você, tampouco a trataram com justiça, Principessa. O sujeito a deixou confusa. – Por que você fica me chamando desse jeito? – Você prefere que eu a chame pelo seu nome de escrava? – Eu, ah… – Será que preferia? – Eu não sei. Ele riu. – Não posso acreditar que você ainda não saiba. – Eu te disse. – Nunzio interrompeu – Ela não faz ideia. O homem se inclinou na direção dela e juntou as duas mãos à sua frente. Haven se contraiu o mais que conseguiu, pressionando as costas no canto. A proximidade daquele sujeito era assustadora. – É provável que esteja imaginando o que faz aqui. – ele disse, em tom sério – Eu serei franco com você. Não desejo machucá-la, mas o farei se me forçar; portanto, só lhe peço que coopere. Sei que é uma guerreira, considerando que já feriu meu filho duas vezes. Ela o olhou quando ele se virou para Nunzio. Filho? – Bem, acho que deveria explicar. – ele disse – Meu nome é Ivan Volkov e já conheço os DeMarco há muitos anos. Vincent era uma criança quando nos vimos pela primeira vez. Era um idiota pretensioso, bem parecido com o que ouço dizer sobre seu filho mais novo. Ele riu, assim como Nunzio, e Haven sentiu lágrimas se formarem em seus olhos ao ouvir aquela menção ao nome de Carmine. – Será que toquei no seu ponto fraco, Principessa? – ele perguntou – Ouvi dizer que você se importa bastante com o garoto. Seria uma pena que algo acontecesse a ele, não acha? Então, vamos esperar que não tenhamos de chegar a esse ponto. – Não. – ela sussurrou – Por favor, não… – Não quero machucá-lo. Aliás, se a faz se sentir melhor, não ouvi nada sobre a morte do jovem, portanto, provavelmente ele está bem. A voz dele a assustava e, embora tentasse segurar as lágrimas, aquilo foi demais para Haven. – Ah, não chore. – ele esticou a mão, mas ela se contraiu. O homem abaixou a mão sem tocá-la – Hum, onde é que eu estava mesmo? – Você estava falando do quão idiota e arrogante é o DeMarco. – Nunzio disse. – Ah, claro. Isso foi antes de ele encontrar a esposa, é claro. Uma tragédia o que aconteceu com ela. Acho que deveria me sentir culpado, mas foi culpa dela. – ele balançou afirmativamente a cabeça – Aquela cadela intrometida. – Foi você? Você a matou? – Acho que podemos dizer que conduzi aquela bela sinfonia. – Não entendo. – disse Haven – O que tenho a ver com tudo isso? – Você tem o poder de derrotar meu inimigo, e é exatamente isso o que vai fazer. Ela ficou apreensiva e, de repente, lembrou-se das palavras que Carmine lhe dissera há semanas. Já nasci com inimigos. Só o meu sobrenome já pesa o suficiente. – Eu preparei todo o terreno ao redor de Chicago, assumindo os negócios. – ele continuou – Acabamos com praticamente toda a concorrência, exceto os italianos. As pessoas são leais a eles, e eles já se mostraram poderosos. Não gosto que me digam onde posso ou não entrar. Já consegui me infiltrar aos poucos e trazer alguns deles para o nosso lado, mas preciso de algo maior, de alguém cuja posição seja mais elevada. Preciso chegar até os cabeças, e Nunzy arrumou um jeito. Até agora eles se mantiveram unidos, mas agora as coisas são diferentes. Agora eu tenho você. – Eu? Mas eu sou apenas… Não sou ninguém… – Ah, você definitivamente é alguém. – ele insistiu – Você é o meu bilhete premiado. Se eu tivesse


sequestrado o rapaz, os italianos apareceriam aqui armados até os dentes. Mas com você as coisas mudam. Salvatore não terá problemas em vê-la desaparecer, afinal, as complicações estariam removidas, mas os outros não desistirão. E não há nada que eu aprecie mais que vê-los lutando uns contra os outros. E quando o jovem DeMarco exigir que algo seja feito, alguém finalmente dirá ao padrinho dele a verdade sobre quem você é, imaginando que Salvatore irá querer ajudar. Ivan caiu na gargalhada, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada que já tivesse dito. – Quem sou eu? – ela perguntou, arrependendo-se imediatamente de questionar, mas já era tarde para voltar atrás. – Estou tentando lhe dizer. Você é um tesouro escondido, aquele que Salvatore jamais imaginou que poderia ser encontrado, mas eu a achei. – ele disse, esticando a mão e fazendo um X na testa da jovem com seu dedo áspero. – Quando a poeira abaixar e eles já tiverem se matado uns aos outros, tudo ficará em minhas mãos… inclusive você. Ele finalmente se levantou e se voltou para a mulher loira. – Dê à jovem um pouco de água e algo para comer, Natalia. E a deixe descansar. Você e seu irmão ficarão de vigia esta noite.

Haven se manteve o mais imóvel possível. Seus olhos arregalados acompanharam enquanto todos saíram, deixando-a sozinha com Nunzio. Ele caminhou até ela, se ajoelhou e colocou a mão em seu joelho. Ela tentou controlar o calafrio enquanto a mão dele subia por sua perna, repousando sobre sua coxa. Nunzio a apertou com força, deixa