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Ficha Técnica Título original: Something Reckless Título: Sedução Perigosa Autor: Jess M ichaels Tradução: Carmo Vasconcelos Romão Revisão: Domingas Cruz Capa: Neusa Dias/Oficina do Livro, Lda. ISBN: 9789897261220 CASA DAS LETRAS uma marca da Oficina do Livro – Sociedade Editorial, Lda. uma empresa do grupo LeYa Rua Cidade de Córdova, n.º 2 2610-038 Alfragide – Portugal Tel. (+351) 21 427 22 00 Fax. (+351) 21 427 22 01 © Jesse Petersen, 2008 Publicado com o acordo de Avon, uma chancela de HarperCollins Publishers Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor E-mail: info@casadasletras.leya.com www.casadasletras.leya.com www.leya.pt

Esta edição segue a grafia do novo acordo ortográfico.


Este livro destina-se a todos os leitores que dedicaram parte do seu tempo a dizer-me o que pensavam. Agradeรงo todos os comentรกrios. E para Michael, o meu campeรฃo e melhor amigo


Capítulo 1

1819 – Temos de deter essa mulher. Jeremy Vaughn, duque de Kilgrath, ergueu os olhos do seu cálice de porto, franzindo a testa ao ver o seu amigo Anthony Wharton entrar de rompante na sala privada do Clube Worthington. – Que mulher? – perguntou antes de chupar longamente o charuto. David Forster, marquês de Chartsford, olhou-o admirado. – Valha-me Deus, Kilgrath, como «que mulher»? Estamos a falar de Penelope Norman. Anthony acenou com a cabeça, com uma expressão ainda mais aborrecida. – Exatamente. Essa mulher é uma ameaça demoníaca. Jeremy encolheu os ombros, esmagando os restos do charuto num cinzeiro de prata enquanto imaginava Lady Norman. Com a sua figura flexível, o cabelo loiro comprido e solto e os olhos azul-turquesa, Penelope não seria exatamente uma mulher que um homem com os seus apetites pudesse ignorar. E, mesmo que o pudesse, a sua recente cruzada contra o excesso de sensualidade dos homens da alta sociedade estava a fazer dela o tema de conversa de todos os salões. Mesmo assim, mal podia acreditar que valesse todo aquele alvoroço. Viera ao Worthington encontrar-se com os amigos para evitar aquele tipo de tagarelice idiota. – Que efeito poderá ter uma única mulher? – perguntou com delicadeza. Os outros cinco homens presentes na sala fitaram-no. Eram os seus melhores amigos. Todos homens abastados, exceto Ryan Crawford, cujo pai o deserdara anos antes. Todos eles homens de apetites. Usufruíam de todas as vantagens postas à disposição pelos seus nomes e riqueza. Principalmente quando tinham a ver com mulheres. Designavam-se «os Nunca», um nome idiota sugerido pelo irmão mais novo de Jeremy, Christopher, depois de uma noite de bebedeira em que todo o grupo jurara nunca mudar, hesitar ou amar. Até aí, o irmão de Jeremy fora contra o juramento. Christopher casara seis meses antes e, nessa noite, era o único ausente. Jeremy estremeceu só de pensar. Por fim, Anthony soltou uma ofendida exclamação de desdém. – Que efeito poderá ter? Serás obtuso? Essa mulher roubou-me a amante. Jeremy disfarçou uma gargalhada, mas só porque sabia que o assunto era penoso para


o amigo. – Então, Wharton – disse Ryan Crawford recostando-se numa cadeira de couro. – Exageras um pouco. Ages como se Lady Wharton entrasse de rompante e raptasse Fiona. Ela foi por vontade própria. Nathan Ridgemont, marquês de Dunfield, lançou a cabeça para trás numa gargalhada. – Talvez pensasse que essa tal Penelope a satisfizesse mais. Jeremy teria passado algum tempo a desfrutar da imagem extraordinária que lhe penetrara no espírito ao ouvir tal afirmação, mas foi impossível. Anthony lançou-se furiosamente a Dunfield e a sala explodiu em gritos enquanto separavam os dois. Jeremy agarrou Anthony pelos braços e puxou-o para trás apesar da resistência do amigo. – Wharton – vociferou. – Vá lá, sabes que Dunfield está só a ser estúpido. – E não foste o único afetado – exclamou Chartsford, quando Anthony deixou de se debater para se libertar e alguma calma voltou à reunião. – A minha mulher, que sempre foi tão flexível e nunca se preocupou onde eu ia ou com quem, incomoda-me de dia e de noite exigindo que eu deixe a minha amante. Tudo por causa dessa maldita mulher. Jeremy soltou lentamente Anthony e recuou. Wharton era o mais parecido que tinha com um melhor amigo desde que Christopher o abandonara pelos prazeres da casa e do lar. Jeremy tivera dificuldade em relacionar aquele homem zangado e de rosto corado com o normalmente descuidado cavalheiro a quem chamava amigo. Na verdade, Penelope Norman era mais do que um incómodo para Wharton. Representava a mais profunda humilhação daquele homem. – Que sugerem que façamos com ela? – perguntou o visconde Lockwood do canto em que sossegadamente se sentara, observando a altercação. Fora o único a não interferir na contenda. Chartsford e Anthony trocaram olhares que significavam o que gostariam de fazer a Penelope, mas nada disseram. De facto, foi Dunfield quem avançou. – Somos seis aqui – disse com um sorriso. – Todos com uma certa reputação. Certamente um de nós poderia fazê-la mudar de ideias e pôr fim a essa intromissão. – Como – perguntou bruscamente Wharton com ar aborrecido. – Qual é o teu plano, se é que tens algum? Dunfield encolheu os ombros. – A sedução pode ser uma maneira. Abriria a porta à chantagem ou à denúncia. – Seduzi-la? – berrou Chartsford, abanando violentamente a cabeça. Nada provável. Não é sem razão que lhe chamam a Rainha de Gelo. – Experimentámos com ela e não conseguimos, não é verdade? – perguntou Jeremy, erguendo o copo e bebendo lentamente outro gole de porto. Chartsford olhou-o, mas não o contradisse. Enquanto os outros começaram a debater


o assunto, Jeremy deixou que o seu pensamento deslizasse de novo até Penelope Norman. Nunca concordara que o epíteto de Rainha de Gelo se adequasse. Aparentemente, seria fria e distante, mas, nos últimos dois anos, observara atentamente a jovem. Vira-a a olhar para todos à sua volta. E, por vezes, quando pensava que ninguém estava a ver, percebera-lhe no olhar uma centelha de luxúria. Desejo insatisfeito, mesmo antes de o marido bater a bota no ano anterior. Não, Penelope Norman não era uma rainha de gelo. Ou, se o era, derreter-se-ia com o homem certo. – Então, Kilgrath, tira uma palhinha – exclamou Anthony, afastando-o dos seus pensamentos. Jeremy olhou para o amigo com enorme surpresa. Enquanto estava imerso nos seus pensamentos, o amigo tinha reunido um pequeno feixe de paus de fósforo e segurava-o na mão, ansioso. – Não estás a falar a sério – comentou Jeremy, recuando. Anthony avançou, apertando o punho. – Sim, que diabo! Essa cabra roubou a minha amante e se continuar essa cruzada contra os homens como nós, não seremos só eu e o Chartsford a sofrer. Quero detê-la, seja como for. E somos os únicos com coragem para o fazer. Tira um fósforo. Normalmente, Jeremy teria dito mais qualquer coisa, mas absteve-se pois o amigo parecia tão sério e zangado. Estendeu a mão e puxou um pauzinho. Estremeceu ao ver que era muito curto. Anthony sorriu cinicamente e passou a Dunfield. Todos os homens do círculo puxaram um, todos eles maiores que o de Jeremy. Quando Anthony abriu a mão para mostrar o último, Jeremy já adivinhara o resultado do jogo. Ficou a olhar para o pauzinho que tinha na mão, uma fina lasca de madeira que selara o seu destino. – Não tens de aceitar essa sugestão ridícula de a seduzir – disse Anthony, deixandose cair numa cadeira e bebendo um gole de uísque. – Podes ameaçá-la. Agora que o marido morreu está sozinha neste mundo. Tem apenas um familiar com alguma influência: a irmã, condessa de Rothschild. E ouvi dizer que não se davam desde que Lady Norman faz parte da sociedade londrina. Jeremy aproximou-se da lareira, abanando a cabeça e lançou a lasca de madeira para o lume. – Posso ser muita coisa, cavalheiros, mas nunca desci a ameaçar uma mulher. Não. Tenho a certeza de arranjar um modo mais agradável de convencer a adorável Lady Norman de que deve abandonar a sua cruzada contra a sensualidade ilícita. Ficou a olhar para as chamas enquanto estas devoravam um tronco e a pensar sobre o


que fora escolhido para fazer. Seduzir Penelope Norman para a manipular. Esperou ser invadido pelo medo ou pela fúria. Mas nenhum destes sentimentos surgiu nele. Certamente já teria levado para a cama parceiras mais dispostas, mas não era homem para recusar um desafio. E Penelope Norman era um desafio extraordinário. Por baixo de um exterior formal, adivinhava-se uma mulher hipócrita e sensual. Bastava-lhe revelar essa faceta. Assim que sucumbisse aos seus desejos carnais, seria fácil fazê-la ver que não estava certo meter-se nos assuntos alheios. Ou, na pior das hipóteses, poderia recorrer à chantagem, conforme Dunfield anteriormente sugerira. De qualquer forma, a sedução poderia vir a ser extraordinariamente agradável. Desde o casamento de Christopher, Jeremy sentia-se inquieto, até aborrecido, com a vida que levava. Separara-se de duas amantes nos últimos seis meses e sentia uma evidente falta de interesse pelas cantoras de ópera, bailarinas e viúvas maliciosas que lhe caíam aos pés. Não que não sentisse prazer, mas não era a mesma coisa. Sim, arruinar a reputação de Penelope parecia o ideal para fazer voltar o antigo entusiasmo. – Então, qual é o teu plano, Kilgrath? – perguntou Dunfield, aproximando-se de Jeremy com um novo cálice de porto. – Como tencionas cair nas boas graças da Rainha de Gelo? Jeremy sorriu e bebeu um gole de vinho. – O meu plano é complicado, meus senhores. Vou simplesmente converter-me à causa dela.

Lady Penelope Norman estava no canto do salão de baile, observando um mar de gente balançando ao som da orquestra. Todos pareciam tão felizes em seu redor, tão satisfeitos. Mas ela não. Sentia-se… tensa. Triste. Uma espécie de raridade em exposição. E a sensação era perfeitamente desagradável. – Está a ver, Lorde Billingham desprezou-a! – segredou-lhe a mãe, Dorthea Albright, em voz tão alta que todos a ouviram quinze passos em redor. – É a décima pessoa a fazê-lo esta noite. Penelope suspirou. – Não exagere, mãe – murmurou sem a olhar. A mãe puxou-lhe um braço e Penelope voltou-se. O rosto de Dorthea ruborizara-se de indignação e tinha os olhos azuis, tão parecidos com os de Penelope, muito abertos. – Não é um exagero! Tenho estado a contar – os braços da mãe apertavam-lhe o braço quase a magoando. – O seu comportamento está a expô-la a certos comentários e


a afastá-la de alguns círculos da sociedade. Penelope apertou os lábios. Nem sequer quisera estar presente naquela festa, mas Dorthea insistira, dizendo que o acontecimento era importante para Beatrice e Winifred, as duas irmãs solteiras de Penelope. Infelizmente, nenhuma delas dançava, o que parecia incomodar ainda mais a mãe. – Se não quer pensar em si e na possibilidade de casar de novo, pense nas suas irmãs. A sua pequena cruzada prejudica-as, pois atrai sobre si atenções desagradáveis. – A mãe soltou-a e cruzou os braços. – Os homens gostam que as suas esposas sejam domáveis. Gostam que as suas esposas finjam que não percebem. Não gostam que as suas esposas pronunciem a palavra – aqui a mãe baixou a voz – «amante», muito menos que discutam com eles por terem uma. Penelope… Penelope passou a mão pela testa que subitamente lhe latejava. – Sim, mãe. Estou a ouvi-la e metade da sala também – sussurrou. – Vou beber qualquer coisa. Afastou-se de Dorthea antes que a mãe pudesse dizer o que quer que fosse e abriu caminho entre a multidão. Como diabo tinha dado início àquela cruzada? Era uma pergunta que fazia a si própria pelo menos uma vez por dia. Não tencionara tornar-se a porta-voz contra os excessos sexuais da alta sociedade. Tivera simplesmente uma animada discussão com os membros da Sociedade das Senhoras. Depois mais mulheres tinham querido partilhar com ela as suas ideias acerca do comportamento masculino fora dos laços do matrimónio. E depois ainda mais. De repente, tudo aquilo se transformara numa bola de neve rolando descontrolada até que começaram a chamar-lhe demónio e salvadora, por vezes no mesmo tom. Havia homens da alta que lhe sussurravam e mulheres que lhe apertavam a mão e lhe diziam o muito que lhe agradeciam o seu «trabalho». Penelope abanou a cabeça. Pois bem, não importava como chegara àquele ponto. O facto é que era agora a voz contra a infidelidade e a sexualidade desenfreada. E acreditava na sua causa. Vira certamente e sentira em primeira mão o tipo de poder maldoso que o homem podia exercer com o sexo. A sua vida fora irrevogavelmente alterada por dois homens que o tinham feito. – Boa noite, Lady Norman. Penelope deteve-se, imobilizada pelo som de uma voz que conhecia tão bem, apesar dos esforços para a evitar e ao homem a quem ela pertencia. Transformou a sua expressão numa máscara gelada e encarou Jeremy Vaughn, duque de Kilgrath. Embora contrariada, teve de suster a respiração. Acontecia-lhe sempre que via aquele homem. Era muito belo, não havia outra maneira de o dizer. Com cabelo negro


suave e displicentemente encaracolado na testa, um maxilar severo e forte, lábios sensuais que pareciam esboçar constantemente uma expressão de troça, tudo nele era pua perfeição. Mas eram os olhos que se destacavam nele e que assustavam Penelope até ao âmago, fazendo o seu corpo estremecer com um leve mas inconveniente desejo. As sobrancelhas escuras e as longas pestanas emolduravam uns olhos do verde mais extraordinário que ela alguma vez vira. Tão escuros que eram quase da cor das esmeraldas e cintilavam com uma sensualidade que representava tudo a que ela se opunha. O homem era sexo e pecado num só corpo. E levava uma vida à altura do que sugeriam o seu belo rosto e o seu corpo forte e de formas magníficas. Todos conheciam a sua reputação, até as meninas solteiras que eram geralmente protegidas de tais coisas. Mas quem poderia olhar para ele e não ver que se tratava de um homem de apetites sensuais escaldantes? Um homem que gozava da admiração de inúmeras mulheres. Havia anos que mulheres de todos os níveis e posições se lançavam aos pés dele. Circulavam discretamente histórias acerca de encontros amorosos em salões das traseiras, comportamentos pecaminosos em festas no campo e até uma relação pública num palco de Londres com uma despudorada atriz, depois de terminada a peça em que representava e o público ter ido para casa. Era aquele o seu inimigo. E Penelope estremeceu quando uma nova onda de desejo fez dela uma hipócrita consumada. Pior, Kilgrath sorria como se soubesse exatamente aquilo em que ela estava a pensar. Penelope apertou os lábios. – Boa noite, senhor duque. Ele sorriu ainda mais e a sua expressão maliciosa aumentou enquanto passeava indolentemente o olhar por ela. Penelope conteve a necessidade de cruzar os braços para se proteger e ergueu uma sobrancelha. – Tenho de admitir a minha surpresa por se dirigir a mim, Lorde Kilgrath – disse ríspida. – A maioria dos seus amigos está prestes a atirar-me com fruta podre. O sorriso dele diminuiu um pouco e ele inclinou a cabeça. – Sim, já ouvi falar. Não é frequente uma dama da sua posição encarregar-se de uma causa e muito menos de uma que afete as conquistas de aristocratas. – Talvez devesse acontecer mais vezes – Penelope abanou a cabeça. – Lamento ser indelicada, senhor duque, mas, se veio insultar-me ou ameaçar-me, peço-lhe que se contenha. Já ouvi o suficiente para a vida inteira. Considere que tomei o devido conhecimento do litígio que tem comigo. Dando meia volta, Penelope preparava-se para se ir embora, mas, antes de conseguir


dar um passo, uma mão forte rodeou-lhe o antebraço. Sentiu-se sufocar ao toque de Kilgrath e imediatamente se voltou para ele soltando-se dos seus dedos. – Peço desculpa, minha senhora – disse ele em voz baixa, erguendo as mãos num gesto de rendição. – Mas entendeu mal as minhas intenções. Penelope franziu a testa. Não tinha a mínima confiança naquele homem, embora a sua expressão parecesse perfeitamente sincera. De facto, parecia franco e simpático. Era a primeira vez que, desde que dera início à sua «cruzada», via uma expressão assim no olhar de um homem daquela posição. – Ah sim? – perguntou cautelosa, sem querer ceder no que quer que fosse. Ele acenou com a cabeça. – Podemos falar em particular? Ela susteve a respiração. Ir sozinha com aquele homem era o equivalente a despir-se completamente para dançar nua no meio do salão. E ele sabia-o. – Não sou uma bailarina ingénua que possa seduzir, Kilgrath – ripostou ela com as mãos nas ancas. – Sabe as consequências de ser vista a sair desta sala consigo. Se o seu plano é desacreditar-me, não vai dar resultado. Ele abanou a cabeça. – Não estou a tentar desacreditá-la, Penelope. Ela estremeceu ao ouvir o seu nome nos lábios dele. Fora tão íntimo como tocá-la. Mas, antes de o corrigir, ele continuou. – Estou a tentar dizer-lhe que apoio a sua causa.


Capítulo 2

Jeremy sorriu ao ver que Penelope abria a boca e o olhava com o mais puro espanto. E era uma boca tão bonita. Podia imaginá-la fechada no seu corpo, ou abrindo-se num suspiro de prazer quando lhe tocasse de uma maneira muito íntima. Por fim, ela ergueu uma sobrancelha. – Não acredito. Ele abafou uma gargalhada. Gostava do espírito dela. Sem dúvida mantê-lo-ia em parte, quando Kilgrath por fim a levasse para a cama. Nem podia esperar. – Compreendo, minha senhora – disse ele mantendo o seu tom discreto. – Nunca lhe dei razões para acreditar nas minhas palavras. O meu comportamento nunca foi do tipo que uma senhora possa aprovar. Mas sou um homem mudado. – Com certeza – disse ela num tom eivado de sarcasmo, cruzando os braços e atraindo involuntariamente a atenção dele para a perfeita curvatura dos seus pequenos seios. Ele esforçou-se por se concentrar. – Talvez tenha tido conhecimento do casamento do meu irmão há seis meses? Ela acenou lentamente, quase como se duvidasse que concordar com ele, até numa coisa assim, seria uma espécie de armadilha. – Ver a sua felicidade conjugal alterou a minha vida – prosseguiu Jeremy. As palavras pareciam amargas, talvez porque houvesse nelas alguma verdade. O casamento súbito e feliz de Christopher tinha-o irritado. Afastou o pensamento e continuou a falar. – E, embora tenha tentado continuar o caminho malicioso que me propusera seguir, comecei a achá-lo cada vez menos satisfatório. Ao escutar as suas ideias acerca dos excessos de sensualidade e da fidelidade conjugal, alterei a visão que tinha da vida. Em muitas coisas. A senhora é… – inclinou-se um pouco mais para ela. – A senhora é muito convincente, Lady Norman e nem imagina como. Ela revirou os olhos. – Mesmo assim, o senhor diz que mudou. Está a namoriscar comigo neste preciso momento. Kilgrath não foi capaz de abafar uma gargalhada. – Sim, pode ser. Hábitos antigos, sabe. Mas nunca pensei que houvesse qualquer mal nisso. O rosto dela endureceu.


– Claro que nunca pensou. Mas também nunca conheci um homem que não usasse o sexo como arma. Jeremy recuou um pouco notando o calor do tom de voz de Penelope. Então era isso. No passado fora usada ou magoada por um homem. O marido, talvez? Ou qualquer outro homem? Ou ambos? Teria de lhe extrair esse segredo como parte do seu plano. Inclinou a cabeça em sinal de concordância. – Sabe, minha senhora, preciso da sua ajuda. É exatamente o tipo de opinião que necessito para me transformar num cavalheiro respeitável. Penelope fitou-o com os seus olhos de um azul quase impossível. Durante muito tempo ficou em silêncio, talvez por mais de um minuto. O tempo suficiente para Jeremy perguntar a si próprio se ela não teria ficado muda com o choque. Mas, por fim, Penelope abanou a cabeça. – Não sei qual é o jogo a que se propõe, senhor duque. Mas não vou tomar parte nele. A sua «transformação» é tão autêntica como a cabeleira de Lorde Norwich. – Inclinou a cabeça. – Não tenho tempo para essas tolices. Boa noite. Voltou-lhe as costas pela segunda vez e, com um sorriso, Jeremy permitiu que ela se afastasse. Estava a um passo de distância quando ele disse: – Vou fazer com que mude de ideias a meu respeito, Penelope. Ela lançou-lhe um olhar por cima do ombro e desapareceu por entre a multidão. Jeremy viu-lhe o balançar das ancas com uma onda quente de desejo a apertar-lhe o estômago. Sim ia fazer com que Penelope mudasse de ideias a respeito de muitas coisas. E desfrutar de todo os momentos.

Penelope entrou no quarto soltando um ruidoso suspiro. Quando fechou a porta atrás de si, a criada, Fiona Clifton, surgiu vinda do aposento contíguo. Penelope forçou um sorriso em direção à mulher. Fiona fora uma cortesã. Penelope calculava que tivesse até sido muito procurada como tal. Com o seu brilhante cabelo castanho, pele de porcelana e olhos azul-claros era uma imagem digna de admiração. Só de olhar para ela, Penelope sentia a força sexual de que a sua criada tinha consciência. Fiona sabia exatamente como movimentarse, olhar ou falar para conseguir a admiração masculina. Quase todos os criados de Penelope estavam apaixonados por ela. Porém, Fiona não lhes prestava atenção. Maltratada pelo seu protetor, aceitara de boa vontade um lugar em casa de Penelope depois de se terem encontrado as duas na ópera, quando o irritado amante a abandonara depois de uma discussão particularmente desagradável.


O passado de Fiona, aquilo que lhe acontecera, era uma das razões por que Penelope começara a falar com as amigas acerca dos excessos de sensualidade dos homens da sua esfera social. Nenhuma mulher deveria ser forçada a suportar o que Fiona sofrera, fosse qual fosse a sua posição. – Boa noite, Penelope – disse Fiona avançando para começar a desabotoar o vestido de Penelope. Penelope estremeceu quando a outra mulher a beliscou. Podia ter sido boa amante, mas não era definitivamente uma boa criada. Mas não se pode salvar uma pessoa e criticar as suas capacidades. – Que tal a festa? – perguntou Fiona e Penelope pensou ter ouvido uma leve nostalgia no tom de voz da criada. Penelope olhou para trás mas a jovem estava concentrada na tarefa que tinha entre mãos. Talvez tivesse imaginado a nostalgia. – Queres saber com toda a franqueza? – Penelope suspirou. – Horrível. Mais do que nunca, as pessoas viraram-me as costas. Até aquelas que disfarçadamente dizem que me apoiam, não o fazem em público. Fiona franziu a testa. – Creio que conheço a sensação. Penelope acenou com a cabeça. Calculava que fosse verdade. Fiona aparecera em algumas festas pelo braço do seu protetor, antes de ter fugido dele, e nunca fora aceite. Todos sabiam quem ela era e o que fazia. E castigavam-na por isso. – E o que é pior é que algumas delas estão a querer tomar-me por idiota – disse Penelope enquanto Fiona lhe despia o vestido. Em vez de o dobrar como devia ser, a antiga cortesão atirou-o para o lado. Num silencioso desconsolo, Penelope olhou os metros de seda amarrotados num canto. – Como foi isso? – perguntou Fiona, aproximando-se do banquinho diante do toucador de Penelope e deixando-se cair nele como se a ação de despir a patroa a tivesse deixado completamente exausta. – Fui abordada pelo duque de Kilgrath – admitiu Penelope revirando os olhos. – Jeremy? – perguntou Fiona endireitando-se. – Oh, sempre gostei de Jeremy. Penelope ficou em silêncio. Esquecera-se de que Fiona fizera outrora parte do grupo de Jeremy. De facto, o seu antigo protetor, Anthony Wharton, fora um dos melhores amigos do duque. Apertou os lábios. Fora por isso que Kilgrath se aproximara dela? Tentaria lisonjeá-la e cair nas suas boas graças para poder falar com Fiona? Penelope nunca pensara nele como homem que perdoasse a violência para com uma mulher. Mas talvez não estivesse a agir em nome do amigo. Kilgrath podia simplesmente querer Fiona para si, agora que já não pertencia a Wharton. Penelope ouvira dizer que


os homens que faziam parte do pequeno grupo, que se intitulava Os Nunca, tinham partilhado amantes no passado. – Que intimidade tiveste com Lorde Kilgrath? – perguntou Penelope na esperança de falar em tom descuidado. – Não tanta como gostaria de ter tido – disse Fiona a rir. – É muito atraente, não é verdade? Penelope manteve-se em silêncio. Meu Deus, e era tão atraente. Demasiado atraente. Só de olhar para ele fazia-a pensar em coisas contra as quais lutava. Quando lhe sentia o cheiro limpo e masculino da pele, sentia-se enfraquecer. Quando ele lhe sorria, causava-lhe desejo. Mas também sabia que Kilgrath era um consumado mentiroso. Principalmente quando falara da sua alegada conversão à maneira de pensar de Penelope. – Bonito ou não, está a tentar fazer de mim idiota – disse ela, metendo os dedos por entre o cabelo para desmanchar os caracóis. Normalmente, seria a criada a desempenhar essa tarefa, mas Fiona parecia muito mais interessada em conversar. – Como? Penelope foi atirando os ganchos, um a um, para cima da colcha. – Kilgrath queria que eu acreditasse que já não estava interessado na vida libertina de que há tanto desfruta. Que se sente mudado pelas coisas que digo acerca das consequências dos excessos. Fiona cobriu uma risadinha com a palma da mão. – Jeremy Vaughn? Não, nunca conheci ninguém que gostasse tanto da sua libertinagem. E com boas razões. Consegue tudo o que quer, quando quer, com um simples gesto de um dedo. Porque haveria de querer abandonar essa vida? – Impossível – concordou Penelope. Sentiu um pequeno aperto de desapontamento no estômago. Franziu a testa. Teria querido acreditar nele? Lá muito no fundo, não teria desejado que ele mudasse verdadeiramente e se voltasse para ela em busca de orientação? Como era tola. – Oh, esqueci-me completamente – disse Fiona, levantando-se do banco junto ao toucador e metendo a mão no bolso do seu vestido simples. Retirou de lá uma carta que entregou a Penelope. O envelope estava amachucado pelo modo descuidado como Fiona o guardara. Penelope suspirou. – O que é isto? Fiona encolheu os ombros. – Foi entregue depois da sua saída para o baile. Disse ao Smickens que lho entregaria quando chegasse a casa. Ele ainda me despreza, sabe?


Abanando a cabeça, Penelope pensou no seu rígido mordomo. Para ele, como para o resto da criadagem, fora difícil como sua igual uma ex-dama da noite. Fora difícil, pelo menos, para os que não haviam sido afetados pelos amplos encantos de Fiona. – Vai mudar de opinião, principalmente se melhorares a qualidade das tuas tarefas – disse Penelope enquanto recebia a carta. – De quem será? Só espero que não seja outra ameaça. Quebrou o lacre que prendia as folhas e abriu a carta. Leu rapidamente as palavras e não pôde conter uma exclamação sufocada vinda do fundo do peito. As folhas caíramlhe dos dedos para o chão e ficou a olhá-las com uma mão sobre os lábios. Fiona correu a apanhar a missiva. – O que é? – perguntou em voz baixa voltando as folhas da carta. – Não! – gritou Penelope saltando para diante. Mas Fiona foi mais rápida. Susteve a respiração quando começou a ler em voz alta. – Minha muito querida Lady Norman – leu com os olhos muito abertos. – A senhora não me conhece, mas observo-a de longe há muitos meses. Não posso ficar mais tempo em silêncio. Permita que lhe confesse a minha admiração. Por onde começar? Pelos lábios que um homem poderia facilmente imaginar rodeando o seu pénis duro? Ou pelo pescoço que passaria uma noite a beijar se mo permitisse? Os seus seios que me encheriam as mãos. Se passasse os meus dedos por eles, gritaria? Suspiraria de prazer? Penelope sentiu-se gelar enquanto Fiona lia aquelas palavras lascivas e eróticas que descreviam com grande pormenor o que o autor da carta lhe desejaria fazer. Uma coisa fora lê-la de relance. Outra ouvi-la na voz maliciosa de uma antiga cortesã. – Basta – murmurou, surpreendida com o tom rouco que a sua voz tomara. Estendeu a mão trémula e arrancou a carta dos dedos de Fiona. A criada ficou a olhá-la com os lábios entreabertos. Tinha as faces coradas e os seios erguiam-se quando respirava. – Mas quem escreveu uma coisa destas? Penelope abanou a cabeça. – Alguém que me quer pregar uma partida cruel e de muito mau gosto, sem dúvida. – Dirigiu-se à lareira e segurou na carta junto às chamas. Mas, ao olhá-la, percebeu que não poderia deitá-la no lume. Preferiu fingir que o fazia, mas escondeu-a atrás das costas. Fiona aproximou-se. – Entra em grandes pormenores para ser só uma brincadeira – murmurou. – O homem que a escreveu deve desejá-la muito e tê-la observado de muito perto para entrar em


pormenores tão concupiscentes. O sangue afluiu às faces de Penelope. Desejá-la? Nunca pensara que um homem a desejasse de facto. O marido usara-lhe o corpo, no seu próprio interesse e não porque a desejasse especialmente. Naquele momento, a maioria dos homens da alta sociedade odiava-a e não quereria tocar-lhe, a menos que usando violência. As palavras da carta deveriam tê-la enfurecido. Desagradado. Mas não, tinham-na comovido. Corou quando Fiona inclinou a cabeça e a olhou de perto. – Penelope? Penelope sacudiu a cabeça como se quisesse esquecer o assunto. – Não vou satisfazer esta pessoa respondendo. Agora estou muito cansada. O meu banho está pronto no quarto ao lado? Fiona abriu a boca, para logo a fechar como se quisesse evitar uma resposta. – Ah, sim. Esqueci-me, mas o Smickens recordou-mo. Está pronto. Penelope acenou afirmativamente. – Muito bem. Vou tomar banho sozinha. Podes ir para o teu quarto. – Ob… obrigada – disse Fiona em voz baixa. Depois recuou e entrou no quarto com uma expressão estranha no rosto. Assim que Fiona desapareceu, Penelope entrou no quarto de dormir. Ali, por detrás de um biombo ao lado da cama estava a enorme banheira que os criados tinham enchido com água a ferver. Penelope aproximou-se com um suspiro de antecipação. Fora uma noite penosa e precisava apenas de um banho demorado para recuperar energias. Poisou a carta no prato de prata que continha os sabonetes, despiu a camisa e descalçou as meias. Depois meteu um pé na água quente com um suspiro de contentamento. Sim, era mesmo aquilo que precisava. Encostou-se à parede da banheira deixando que a água lhe cobrisse o corpo até aos seios. Soltou uma exclamação abafada quando a água lhe tocou os mamilos tornando-a consciente da dor que lhe invadira o corpo. Mas quando? Teria sido quando lera a carta? Não, fora antes. Provavelmente, durante a troca de palavras com Kilgrath. Embora humilhante, a troca de palavras com ele provocara no seu corpo um desejo a que nunca se poderia permitir. Na altura, tentara não perceber, mas a conversa fora bastante estimulante. Era uma loucura. Nunca deixaria que as manipulações de um libertino como Kilgrath ou a escrita perversa de um «admirador» anónimo a afastasse da moral que tanto prezava. Pegou no sabonete que se encontrava sobre a saboneteira ao lado da banheira, mas os seus dedos húmidos tocaram na carta. Retirou a mão como se o papel a queimasse e


ficou a olhar para as páginas de papel branco. Quem lhe poderia ter escrito aquelas coisas? E que mais diria aquele desconhecido? Só lera a primeira página que falava dos seus seios, do desejo do misterioso admirador de os ver ao luar, de lhes tocar, de lhe tocar nos mamilos até ela gritar, de lhe lamber as curvas delicadas.… Penelope abanou a cabeça sobressaltada. As palavras escritas pelo desconhecido queimavam-lhe o espírito. Pegou numa toalha macia e limpou lentamente as pontas dos dedos, sem afastar os olhos da carta. Atraía-a, provocava-a. E se a carta lhe desse alguma pista em relação ao autor? E se contivesse informações uteis? Sentir-se-ia negligente se não a lesse mais uma vez. Se não a lesse toda. Porque não? Pegou na carta com os dedos trémulos e afundou-se mais na água da banheira enquanto desdobrava as folhas. Com um olhar furtivo em redor do quarto vazio, começou a ler. As palavras já suas conhecidas da primeira página banhavam-na como a água quente. Demorou-se em cada uma delas, absorvendo todas as descrições. Chegou lentamente à conclusão de que não lia unicamente a carta, mas imaginava em pormenor o que o autor descrevia. Quase conseguia vê-lo. Um homem sem rosto, de tronco forte e pronto a atravessar o quarto para vir ter com ela, olhando-a, olhando-a como aquele desconhecido afirmava fazer havia muitos meses. Gostaria de a ver como estava agora? Com o corpo apenas protegido pela onda límpida da água do banho? Estremeceu com a ideia de um homem poder vê-la assim. Um homem que a desejasse. Imaginava-o tocando-lhe nos seios, conforme descrevera na carta, tomando nas mãos o seu peso húmido, cobrindo-os com os dedos, passando os polegares pelos seus já distendidos mamilos. Escapou-lhe dos lábios uma leve exclamação de prazer, fazendo-a estremecer e afastando-a da sua fantasia. Que se passava com ela? Que estava a fazer, permitindo que um desconhecido usasse palavras ordinárias para a excitar? Contudo, voltou a olhar para a carta que tinha na mão. Passou lentamente a primeira página e leu a segunda, aquela por onde já tinha passado os olhos em busca de um nome. Já sentiu a sua própria excitação, Penelope? Não interiormente ou como uma vaga emoção passageira. Já alguma vez tocou em si própria e sentiu como o seu corpo se altera? Já passou os dedos pela pele e tocou a suave evidência do seu desejo? Já se tocou lá em baixo até sentir um pequeno clítoris escondido dentro de si? Já brincou com ele até o seu corpo sofrer espasmos de prazer


semelhantes à dor? Imagino-a a fazê-lo. Desejo ver como o faz. Penelope inspirou profundamente e atirou a carta para o prato de prata com tanta força que quase fez cair o sabonete. Apesar do calor do banho, estremeceu com aquelas palavras. Acordaram recordações havia muito esquecidas. Sim, já se tocara, já se entregara a esse prazer num passado longínquo. Muito antes de ver onde o desejo podia levar alguém, estivera disposta a essas atividades na escuridão furtiva do seu quarto de dormir. Uma vez ansiara mesmo por experimentar delícias mais sensuais com um futuro marido sem rosto. Mas o seu casamento acabara por fazê-la aperceber-se de que a paixão era uma arma a ser aproveitada. E o prazer não era inevitável, mas podia ser arrancado por capricho. No entanto, a leitura das palavras do seu misterioso admirador não só lhe trouxe recordações como sensações. Sentiu a vagina contrair-se, os mamilos estremecerem e as coxas apertarem-se, o que apenas serviu para lhe aumentar o desejo. Quase por vontade própria a sua mão mergulhou na água e acariciou-lhe intencionalmente a pele. Fechou os olhos e passou os dedos pelos mamilos sentindo o prazer recompensar-lhe a carícia. Meu Deus, passara tanto tempo desde a última vez que se sentira assim. E queria mais, embora soubesse que aquilo a transformava numa hipócrita, pois ia contra a gélida fachada que há tanto tempo apresentava em público. Passou a mão pelo ventre e, por fim, deixou que os dedos lhe deslizassem pela mancha macia de pelos entre as coxas. Por momentos, descansou a mãe sobre essa elevação, com os olhos fechados provocada pelas palavras do desconhecido autor. Já alguma vez tocou em si própria e sentiu como o seu corpo se altera? Já passou os dedos pela pele e tocou a suave evidência do seu desejo? Mergulhou lentamente a mão e tocou a carne inchada entre as suas pernas. Um pequeno gemido escapou-se-lhe por entre os lábios enquanto se acariciou. Sentiu-se húmida, muito mais do que por causa do banho. Tocou-se mais profundamente e encontrou o oculto botão de carne a que aludira o autor da carta. Já se tocou lá em baixo até sentir um pequeno clítoris escondido dentro de si? Clítoris. Nunca ouvira ninguém referir-se assim àquilo. Envolveu com os dedos o pequeno botão duro e soltou uma exclamação sufocada quando uma onda de prazer lhe invadiu o corpo a partir do ponto de contacto. Concentrada e forte, a sensação aumentou, multiplicou-se, até parecer que todo o seu corpo se resumia a um pequeno ponto. Acariciou-se mais, erguendo um pouco as ancas para conseguir maior prazer. Gostou,


mas queria mais. Mais. Tremendo, juntou àquela a outra mão. Aumentou a pressão, voltou a cabeça e mordeu o lábio para calar os gritos que poderiam fazer com que a criadagem viesse investigar. Qualquer coisa ia acontecer. Sentiu erguer-se num crescendo um muro de prazer, mas não conseguia lá chegar. Estava ali, do outro lado. Abriu os olhos, frustrada, e deu por si a olhar de novo para a carta. Algures em Londres havia um homem que afirmava querer vê-la a fazer exatamente o que estava a fazer. A ideia obrigou-a a arquear involuntariamente as ancas e o prazer saltou. Desta vez, quando fechou os olhos, imaginou um homem sem rosto. Na ponta da banheira, inclinando-se para a água, com a respiração ofegante, os braços nus e musculosos tentando controlar-se. Quase conseguia vê-lo a observá-la, à espera que ela explodisse para se lhe juntar. – Oh, oh – não pôde evitar um gemido. Porém, não era o bastante. Pressionou os dedos na carne, ofegante de frustração. O prazer era tão agradável que mais parecia dor. Precisava de alívio. Precisava de mais. Concentrou-se na imagem do homem. E se as mãos dele mergulhassem na água e deslizassem sobre as suas pernas nuas, chegando cada vez mais acima até tocarem nas suas? E as empurrassem? Acariciando fortemente o clítoris, imaginou-o erguendo-lhe as ancas, afastando-lhe as pernas, abrindo-lhe o corpo. Tinha pouca experiência da verdadeira paixão. Porém, não era necessária muita imaginação para saber que o homem lhe acariciaria o clítoris com o polegar tal como ela o fazia agora. E que depois enterraria os dedos nela. Gritou quando fez o que imaginava que o homem faria. Mesmo assim hesitava à beira da plena loucura. Os olhos ardiam-lhe das lágrimas, lágrimas de uma libertação iminente juntamente com uma louca frustração. O homem era a chave. Que outro homem a tomaria com tanta malícia? Brincaria assim, com ela? Precisava de um rosto para o homem sem rosto. Uma voz para as palavras que escrevera. E de súbito um rosto apareceu e uma voz ecoou-lhe aos ouvidos. Kilgrath. No momento em que sobrepôs o belo rosto de Jeremy na face do seu amante imaginário sentiu as ancas agitarem-se-lhe fortemente. A vagina estremeceu descontrolada apertando-lhe os dedos e soltou um gemido de alívio que quebrou o silêncio do quarto. Arqueou as costas, vagamente consciente da água que escorria dela e saltava pela borda da banheira, enquanto gozava de um intenso prazer. Penelope deixou-se cair dentro de água com um último gemido. Sentia-se sem peso, sem energia. Exausta, mas satisfeita. Deixou-se ficar ainda muito tempo dentro da água que arrefecia rapidamente,


sentindo unicamente os efeitos do desejo e da libertação. Depois abriu os olhos lentamente e enfrentou o quarto gelado e vazio. E a realidade do que fizera. A carta que lhe deveria ter sido desagradável levara-a a níveis violentos e fora de controlo. Rendera-se às suas necessidades e desejos básicos, frustrando as suas declarações apaixonadas acerca da necessidade de controlo daqueles que estavam à frente da alta sociedade. E o pior, o pior de tudo, é que o fizera imaginando Jeremy Vaughn, duque de Kilgrath, como seu amante ilícito. Um homem que conhecia pelo facto de ser um sedutor inveterado, que lhe mentira ainda não havia três horas. Que representava tudo o que ela afirmava desprezar. – Que fiz eu? – murmurou, sentando-se muito direita na banheira. Escorreu mais água para fora e ela olhou para o chão. A madeira brilhante estava salpicada de pequenas poças, prova de até onde o desejo a levara. Levantou-se e saiu para o chão molhado. Secou-se rapidamente e limpou a água do chão. Não queria que os criados vissem os resultados da sua apaixonada explosão. Não queria que existisse qualquer prova de que se tinha rendido completamente. Render-se completamente era um luxo a que não se podia entregar. Mesmo que quisesse. E não queria. Só teria de se esforçar para não o esquecer apesar da presença de Jeremy Vaughn e das palavras eróticas do misterioso autor.


Capítulo 3

Jeremy andava de um lado para o outro nos seus aposentos, inquieto e agitado, recordando os acontecimentos do baile dessa noite. Mas não sabia qual a razão. Tudo correra conforme planeara. Conseguira abordar Penelope, captar-lhe o interesse e ver que, sem sombra de dúvida, ela escondia um espírito apaixonado. Afinal, fora uma noite bem sucedida. Então porque sentiria que alguma coisa correra mal? – Que diabo, Kilgrath – disse Anthony Wharton por trás dele, bebendo ruidosamente o quarto cálice de xerez. – Toda a sala te viu com essa cabra. Não se fala de outra coisa, sabes? O libertino e a mulher da cruzada. Jeremy voltou-se para o amigo com uma expressão aborrecida. Wharton seguira-o até casa, praticamente embriagado. E estava a ficar ainda mais, o que era a causa do mau humor de Jeremy. Na última hora, Wharton não parara de falar de Penelope e de como ela «roubara» a amante. – Se todos falam de nós, já fiz o que devia – declarou Jeremy olhando a noite escura. – Quero que fiquem a pensar no que se passará entre mim e Penelope. Assim, quando eu a denunciar como hipócrita, todos ficarão pendentes das minhas palavras. – Como vais denunciá-la se te tornares amigo dela? – perguntou Anthony em voz arrastada. Jeremy deu meia volta, dirigiu-se ao quarto e, arrancando a bebida das mãos do amigo, emborcou-a de um só gole. – Se ela pensar que sou seu amigo, há-de confiar em mim – disse em tom irritado. – Tanto melhor porque cairá na minha armadilha. E já tenho outros planos. Pensou na carta que mandara entregar, antes de partir para o baile daquela noite. A missiva entrava em pormenores acerca do corpo sensual de Penelope e de todas as coisas que gostaria de saber se ela já teria experimentado. Qual seria a reação dela? Tinha esperança que as suas palavras eróticas preparassem Penelope para a sedução final. Que os seus dois assaltos atuassem conjuntamente. De dia, seria o duque de Kilgrath, seu inesperado aliado. De noite, um misterioso amante sem rosto que lhe provocava o desejo na sombra. – Planos? Como? Sedução, conforme sugeriram o Crawford e o Dunfield? – exclamou Anthony quebrando o feitiço das fantasias efémeras de Jeremy. – Ora. Digo-te que ela não mudará de ideias por muitos orgasmos que lhe proporciones. Se é que consegue ter prazer. Frígida.…


Jeremy interrompeu-o de mau modo. – Se a sedução não a fizer mudar de ideias, passo à chantagem. Anthony suspirou. – E se não der resultado, há outros meios de dominar uma mulher como ela. Jeremy inclinou a cabeça, surpreendido pelo brilho repentinamente lúcido e cruel do olhar embriagado do amigo. Aquela expressão tão concentrada era estranha. Mas não. Afastou a ideia. Wharton era um exaltado, nada mais. Falava sem pensar. Aquelas palavras nada queriam dizer. O amigo estava completamente embriagado e precisava de dormir para que a fúria lhe passasse. Jeremy conduziu Anthony à porta. – Confia em mim. A situação está controlada. O meu cocheiro leva-te a casa para que chegues sem te matares. Boa noite. Anthony ainda avançou para ele momentaneamente, mas, por fim, aquiesceu e permitiu que Jeremy o conduzisse até à porta da sala onde se encontrava o criado. Assim que o amigo desapareceu, Jeremy voltou para a sala. Nessa noite dera o primeiro passo para conquistar a bela e problemática Penelope Norman. E não tinha qualquer intenção de falhar.

Penelope ergueu as mãos e levantou a voz para se fazer ouvir acima do burburinho das outras mulheres. – Minhas senhoras, este caos não abona em nosso favor. – A multidão faladora aquietou-se um pouco e algumas senhoras voltaram a cabeça na direção de Penelope. Esta suspirou olhando para o pequeno grupo de cerca de dez mulheres, metade das quais lhe tinha voltado as costas no baile da noite anterior, mas encontravam-se agora na sala para a «apoiar». Mas qual o apoio dado em segredo? – Todas vós tendes força para ajudar a nossa causa – insistiu Penelope, voltando à discussão inicial. – Força? – repetiu Adela Forster, marquesa de Chartsford, com ar de desprezo. – Mas que força? Penelope olhou para a jovem com uma expressão triste. Embora Adela parecesse por vezes altiva e contundente, era uma mulher bela de cabelo escuro e olhos brilhantes, com a pele mais bonita que Penelope alguma vez vira. Porém, a sua invulgar beleza não a protegera de um casamento muito infeliz com um dos melhores amigos de Jeremy. Jeremy. As faces de Penelope ruborizaram-se ao pensar nele. A ideia do que fizera na noite anterior imersa nas suas fantasias acerca dele. Ninguém poderia descobrir aquela vergonha. – Penelope? – repetiu Adela. – Tem resposta para me dar?


Penelope afastou os seus pensamentos com a testa franzida. – Os homens da alta sociedade não mudarão senão quando as suas esposas, mães e irmãs se levantarem para dizer que não mais suportarão o modo como se comportam. Lady Pendergrath, uma mulher mais velha, acenou com a cabeça. – Apesar da sua juventude, Lady Norman é uma senhora avisada. Diz-me a experiência que, geralmente, os homens querem paz no lar. Se não lha proporcionarmos, acabarão por mudar as suas atitudes maliciosas. Adela abanou a cabeça com os olhos cheios de lágrimas, mas que logo afastou com um gesto zangado. – Já declarei ao meu marido aquilo que pensava acerca das… das suas atividades extraconjugais – disse bruscamente. Sabem o que David me disse? Que gostava mais de mim quando eu era mais flexível e não me preocupava com o que ele fazia – fechou os punhos. – Nunca fui flexível nem despreocupada. Unicamente silenciosa. Penelope resistiu à vontade de tocar no ombro de Adela para lhe oferecer conforto. Mas pensou que a senhora não apreciaria o gesto, principalmente diante das outras. Era demasiado orgulhosa. O grupo começou de novo a conversar, dividindo-se em discussões entre as que pensavam que apenas tornariam as coisas piores se se impusessem aos maridos e as que pensavam poder mudar o mundo para melhor. Penelope levou a mão aos olhos e esfregou as têmporas. De que valeria discutir uma coisa se metade dos intervenientes na guerra não se atreviam a vencer uma batalha. Antes de fazer nova tentativa para silenciar de novo o grupo, todas as senhoras se calaram por si mesmas. Fez-se um silêncio pouco natural, pontuado apenas por palavras murmuradas que Penelope não entendia. Baixou lentamente a mão e olhou para a porta. Recuou quando viu Jeremy Vaughn ali, encostado à ombreira, com um sorriso trocista no seu belo rosto. Um sorriso que fez com que Penelope sentisse o estômago apertado e a obrigasse a recordar como se descontrolara na noite anterior. O rubor queimava-lhe as faces e só lhe apetecia fugir. Mas não podia. Avançou então, com as mãos fechadas junto ao corpo. – Lorde Kilgrath – disse ela em voz tensa. – Que faz por aqui? – sussurrou aproximando-se. Ele olhou-a com uma expressão perfeitamente inocente, deploravelmente deslocada num rosto tão perverso. – Soube que tinha uma reunião para expor as suas ideias sobre o comportamento dos homens da alta sociedade. Pensei em vir aqui para ver se poderia oferecer os meus préstimos. As narinas de Penelope estremeceram e abriu as mãos. Continuando a olhar Jeremy com uma expressão de desprezo, disse voltando-se: – Creio que já trabalhámos bastante hoje. Porque não nos juntamos no Rose Terrace


para tomar chá? Na sala, as mulheres puseram-se de pé lentamente. Murmuravam, lançando ainda olhares a Jeremy ao passarem por ele. Quando a última saiu da sala, Kilgrath sorriu a Penelope e ofereceu-lhe o braço. Penelope recuou só à ideia de lhe tocar. Não queria aquele contacto. Conseguiria apenas mais imagens para as suas fantasias obscuras e proibidas. – Que está a fazer? O sorriso dele diminuiu um pouco. – Vou ao Rose Terrace. Apetece-me uma chávena de chá. Penelope abriu a boca, chocada. – Vossa Graça não pode vir connosco. – Significa isso que deseja falar comigo em privado? – perguntou baixando a cabeça aproximando-se. Aproximando-se de maneira a que ela sentisse o bafo embriagador do seu aroma masculino. Uma combinação estonteante de sândalo e de outra coisa que era simplesmente a sua pessoa. – Sim – disse ela. Ele sorriu. – Pensei que uma mulher do seu calibre não poderia arriscar-se a falar comigo a sós. O que foi que me disse ontem à noite? Que a desacreditaria? Contudo, menos de vinte e quatro horas depois, exige ficar sozinha comigo nesta sala. Mudou alguma coisa? Ela apertou os lábios. Maldito. Embora não pudesse saber o que tinha mudado entre a troca de palavras da noite anterior e essa tarde, as suas palavras recordavam-no desse facto. Em poucas horas transformara-se na mais completa hipócrita. – Certamente Vossa Graça não mudou – esperando que o seu tom de voz fosse suficientemente frio embora o seu coração batesse loucamente. – Por isso, deixe de tentar convencer-me de que assim foi. Mostrou intenção de passar por ele, mas Jeremy pegou-lhe num braço e não a deixou seguir. Tal como ela receara, do toque dele surgiu um calor igual ao de uma fornalha que foi instalar-se nos piores lugares possíveis. Ela olhou-o com um nó na garganta seca e o seu espírito traiçoeiro levou-a a lugares a que não se deveria permitir. – Ainda não me autorizou a convencê-la de nada, Lady Norman – disse em voz baixa quando a libertou e deu um passo para trás, como se quisesse provar que não lhe tocava por se sentir atraído por ela. Sentiu o estômago apertar-se à ideia. – Porque deverei acreditar na sua miraculosa mudança? – perguntou ela, esfregando o local em que ele lhe tinha tocado. Parecia… queimado. Marcado a ferro em brasa. Ele inclinou a cabeça.


– Porque prova que a senhora tem razão quando diz que um homem pode mudar. Pense, minha senhora, que eu seria uma bênção para a sua causa. Conheço a minha reputação. Se eu vier para o seu lado apoiá-la, posso mudar a maré do seu movimento. Será assim tão orgulhosa e detestar-me-á tanto que nem sequer possa ter em consideração a minha oferta de ajuda? Os lábios de Penelope abriram-se numa expressão de surpresa. – E... eu não o detesto. Detestá-lo implicaria conhecê-lo ou preocupar-me consigo. E eu não sinto isso. Ele olhou-a em silêncio. Depois encolheu o sombrós. – Gostaria de lhe mostrar como sou. Posso ajudá-la se mo permitir. Se não me conhecer, nem gostar de mim, não poderá conhecer verdadeiramente o meu coração, nem as minhas intenções. Mesmo assim, vai julgar-me? Penelope olhou-o. Maldito. Era tão correto. Se Jeremy tivesse realmente mudado e trabalhasse ao lado dela, as suas palavras teriam um crédito acrescido. Mas como acreditar que ele mudara? – E como tenciona prová-lo? – perguntou em voz lenta. A sugestão de um sorriso brincou nos lábios dele, arrogante, como se soubesse que vencera. – Posso mostrar-lhe exatamente aquilo contra que está a lutar. Secretamente. Anonimamente. Assim, poderá entender melhor os seus inimigos. Ela inclinou a cabeça confusa e intrigada. Mostrar-lhe? Que diabo quereria dizer? – Não sei do que está a falar – disse afastando-se dele e tentando parecer aborrecida com a conversa. Não queria que ele se apercebesse de como ela sentia a sua presença. Da curiosidade que provocava nela acerca daquilo que poderia revelar. Acerca de quem era. Quando o espreitou por cima do ombro, ela sorria de novo, mas desta vez com um sorriso selvagem. Sem querer sentiu um aperto no estômago e os mamilos tensos. Ele olhava-a com tal… desejo. E, embora esse facto provasse apenas que ele mentia acerca das mudanças da sua personalidade, ela não se sentia zangada. Pelo menos não com ele. Dirigia a raiva a si própria por se sentir atraída para ele. – Posso levá-la esta noite a um sítio? – perguntou ele em voz baixa. Ela sobressaltou-se com a pergunta. – Como? – Penso que lhe poderei explicar melhor, mostrando-lhe sem precisar de palavras – aproximou-se mais. Mais um pouco. – Permita que a leve a um sítio e creio que perceberá tudo. Penelope abanou a cabeça. Aquilo não passava de um jogo cujas regras ou objetivo não entendia. Que tentaria ele conseguir?


– Se se trata de uma maneira de se aproximar de mim… – disse ela. Ele fitou-a quase ofendido, como se nunca tivesse pensado em tal e, de novo, Penelope corou. – Por favor – disse ele em voz baixa. Penelope olhou para as suas próprias mãos que fechara num movimento reflexo. Hesitava entre as razões por que deveria recusar e as razões por que deveria aceitar a oferta que ele lhe fazia. Entre os perigos e os benefícios. Principalmente porque queria aceitar a oferta, ver aquilo que ele tinha para lhe mostrar. Ficar sozinha com ele, nem que fosse por um curto espaço de tempo. Talvez, se o fizesse, ele se revelasse o canalha que ela sabia que ele era, apesar dos seus protestos de mudança. Assim, quebraria aquele desejo tolo e daria de novo atenção aos assuntos importantes. Assim como assim, Penelope apaziguá-lo-ia se fizesse o que ele desejava. Talvez o convencesse a deixar de a tomar por tola, principalmente na inconveniente presença de outros. Não se poderia dar ao luxo de um escândalo ou de um mal-entendido que aquele súbito interesse lhe pudesse causar. – Pois sim – murmurou finalmente Penelope, demorando o olhar no rosto dele. Ele sorriu, desta vez um sorriso mais genuíno. – Muito bem. Vou enviar-lhe uma carruagem esta noite, às oito horas. Até lá, Penelope. Com uma breve saudação, saiu da sala. E foi quando Penelope se apercebeu que tinha a respiração alterada e as mãos a tremer.


Capítulo 4

Jeremy recostou-se no assento de cabedal macio da carruagem quando esta se deteve suavemente nas sombras escuras atrás da propriedade de Penelope em Londres. Afastou a cortina e viu-a sair pela porta de serviço a atravessar apressadamente o relvado até à carruagem. O cocheiro fez uma rápida reverência e abriu a porta da carruagem não identificada para lhe permitir que subisse. Jeremy inclinou-se para diante, ofereceu-lhe a mão para a ajudar a entrar. Penelope olhou-o de baixo com os olhos muito abertos, mas, por fim, depois de um longo momento de hesitação, aceitou a ajuda. Quando tocou os dedos dela, Jeremy sentiu invadirem-no centelhas de emoção que o apanharam desprevenido. E pareciam tê-la também apanhado desprevenida, pois Penelope soltou-lhe a mão como se esta a queimasse no instante em que se sentou na frente dele. A porta fechou-se atrás dela e a carruagem pôs-se em movimento. Jeremy observou-a. Embora o vestido não fosse tão revelador como os que ela veria nessa noite, era muito bonito. Azul-escuro, com um decote profundo que lhe mostrava a tentadora curva dos seus seios. Perguntava a si próprio se ela teria consciência do quão provocante era essa curva firme e bela. Mostrar-se-ia assim intencionalmente para provar a sua natureza fogosa? Ou seria tão inocente que não imaginava como era profundamente encantadora? Outro mistério para resolver. – Boa noite – cumprimentou Jeremy. – Pensei que afinal não viesse, por isso estou muito contente por vê-la. Ela ficou em silêncio por momentos, mas depois encolheu os ombros. – Pensei nisso, mas conclui que poderia ir para junto da minha janela lançar pedrinhas até que toda a vizinhança desse pela sua presença, por isso pensei que acompanhá-lo seria um mal menor. – Prefere fazer de facto uma coisa atrevida a que as pessoas pensem que está, de facto, a fazê-la? – perguntou ele observando-lhe o rosto semioculto pelas sombras. Ela olhou-o de frente. – Preferia não ter de escolher. Mas, já que tenho de o fazer, então a reputação é tudo o que tenho. Sim, protegê-la significa muito para mim. Jeremy acenou afirmativamente. Era uma boa informação, pois significava que poderia chantagear Penelope, obrigando-a a calar-se para proteger a reputação que lhe era tão querida, o que para ele era sem dúvida preferível do que expô-la como


hipócrita e arruiná-la sem sombra de dúvida. Mas não queria analisar profundamente o porquê. – Suponho que a um homem como o senhor, isso pareça uma tolice – murmurou, olhando de novo pela janela. – Proteger a sua reputação? – perguntou. Quando ela acenou afirmativamente ele riuse. – Não. Faz todo o sentido. Afinal, tenho também a minha reputação a preservar. – Só que afirma querer mudar essa reputação. Talvez com a minha ajuda. Jeremy observou-a mais uma vez com atenção. Ela não o olhava, mas, mesmo assim, sentia o escrutínio que lhe fazia. Tinha de admitir que Penelope Norman não era tola. Recusava-se a acreditar na sua mudança de caráter, apesar dos seus encantos e só porque ele o afirmava. O que significava que se veria obrigado a prová-lo, mesmo seduzindo-a. Não havia dúvida que tinha diante de si um desafio muito emocionante. – Porque não me diz onde vamos? – perguntou ela, sem esperar resposta ao seu comentário. – E como tenciona manter-me anónima? Jeremy sentou-se muito direito. Sim, chegara o momento para entrar em ação naquela noite. Sem qualquer preâmbulo, saiu do seu lugar e sentou-se ao lado dela. Penelope susteve a respiração, admirada, e olhou-o com os olhos muito abertos. Jeremy não pôde evitar também suster a respiração. Meu Deus, como ela cheirava bem. A canela, um perfume que lhe apertava o estômago e o excitava. Esperava que ela não desse por isso. – O que está a fazer? – suspirou ela, a voz entrecortada por aquilo que Jeremy imediatamente identificou como sendo desejo. Ela queria-o, apesar de tudo. Ele sorriu e retirou uma complicada máscara do bolso de dentro do casaco. Escolhera azul, uma cor turquesa que combinava perfeitamente com os olhos dela. Penas e pequenas pedrarias estavam cosidas no tecido para lhe emoldurar os olhos brilhantes. Colocou-lhe no rosto o cetim macio, primeiro sobre o nariz antes de fazer deslizar os dedos até à nuca. Inclinou-se malicioso enquanto a atava, aproximando-se mais do que o que seria apropriado. Sentia-lhe até a respiração entrecortada e o cabelo dela a tocarlhe o rosto. Penelope enclavinhou os dedos sobre a própria perna e abafou um pequeno som de… bem, ou de aflição ou de desejo. Provavelmente uma combinação de ambos. Jeremy afastou-se e sorriu-lhe. Meu Deus, só lhe apetecia encostá-la ao assento e meter as mãos por baixo das saias dela. Apostava a maior das quantias em que ela já estava húmida e pronta para ele, com as coxas apertadas e frementes.


E poderia ter apostado. No seu estado atual, Penelope provavelmente seria vencida por ele apesar dos protestos e acordado aquilo que dentro de si fazia com que desejasse ser tocada, lambida, fornicada. Ele nunca antes duvidara das suas proezas, não havia razão para começar agora. Mas por muito que o quisesse fazer e acreditasse que conseguia, o seu plano era mais intricado do que uma mera relação dentro de uma carruagem, que ela mais tarde poderia menosprezar. Não, precisava mudar Penelope. Se queria vencer, teria de a fazer questionar todas as suas crenças. Obrigá-la a ver a sua natureza verdadeira e sensual, não apenas numa situação, mas em todos os momentos da sua vida. Seria essa a única maneira de a fazer desistir da sua causa. Assim, em vez de a arrastar de encontro ao seu peito, afastou-se. – Esta noite vamos a um baile de máscaras Cipriano – explicou. Os lábios de Penelope entreabriram-se de surpresa. Com o resto do rosto coberto de cetim azul e renda, a boca sobressaía ainda mais. Como eram tentadores os lábios dela. Cheios e carnudos, um pouco húmidos pois passara a língua por eles. – Não! – exclamou ela, quebrando o feitiço. Deve estar a brincar. Não posso ir a um sítio assim. Jeremy apertou os lábios e passou para o seu lugar na carruagem. Estar tão próximo dela tinha um efeito estranho no seu controlo geralmente sólido. – Disse-lhe que queria mostrar-lhe aquilo contra que luta. Queria ajudá-la a conhecer o seu inimigo. Esta festa é exatamente aquilo que afirma condenar. – E é por isso que não posso lá ir! – repetiu ela no tom que, calculava ele, usaria com um criado pouco inteligente ou com uma criança pequena. Ele ergueu uma sobrancelha. – Quer ver o inimigo, não é verdade? Penelope ficou em silêncio por algum tempo, inclinando a cabeça e olhando-o do assento em frente do veículo. Jeremy sentiu-se pouco à vontade sob o escrutínio dela. Era quase como se conseguisse vê-lo verdadeiramente. Ver mais do que ele era por fora, mais do que a sua persona pública. Vê-lo. – O senhor é o meu inimigo, Jeremy – murmurou ela. Ele poderia ter-se sentido desapontado, poderia ter sentido que não fizera qualquer progresso junto dela, exceto conseguir que ela o tratasse pelo nome próprio. E ouvi-lo dos seus lábios era incrivelmente excitante. Também lhe mostrava que, apesar de todos os seus protestos, começava a confiar nele... mesmo que fosse só um pouco. – Eu era o seu inimigo – disse ele em voz baixa. – Mas já não sou. A carruagem parou, mas nenhum dos criados veio abrir a porta, tal como ele ordenara. Queria que fosse Penelope a decidir entrar. Teria de ser ela a conduzir a sua própria viagem. Se mais tarde pudesse apresentar outra pessoa como catalisador


diminuiria o valor da sua completa rendição ao seu próprio coração. – Entre comigo – disse ele – e veja aquilo contra que luta. Ninguém saberá que lá está. Pensarão que se trata de outra mulher que levo por ser minha amante. Pode ver os homens da alta sociedade em ação e ver o tipo de mulheres que escolhem. Ela engoliu em seco com força suficiente para que ele se apercebesse do movimento da garganta. E era uma garganta delicada, a pele pálida, quase translúcida e muito bela. Penelope olhou para a porta da carruagem e depois mais uma vez para ele. – Muito bem – disse por fim, franzindo a testa. – Vou entrar. Mas não quero que faça seja o que for que leve as pessoas a pensar que somos amantes. Nada de nada de me tocar de um modo que pareça íntimo. Jeremy recuou, mal contendo uma gargalhada. Não se lembrava de que, alguma vez, uma mulher o tivesse recusado. Aquela rejeição fez com que, ainda mais, se dispusesse a obrigá-la a mudar de ideias. E espicaçou-lhe a curiosidade. Que teria acontecido a Penelope Norman para ter ficado tão formal e rígida? Quem a obrigara a recear a sua sensualidade e o pecado em vez de aceitar todos os prazeres? – Prometo que nada mais farei para além de dar-lhe o braço – disse em voz baixa. Pelo menos por enquanto. Ela acenou, com um movimento brusco. – E então entremos. Quero ver esse infame baile Cipriano.

– Apetece-lhe uma bebida? Penelope sobressaltou-se ao ouvir o tom de suave sedução na voz de Jeremy. Tocoulhe os sentidos como cetim sobre a pele. – Se... será seguro ficar aqui sozinha? – perguntou, odiando como a voz lhe tremia. Jeremy olhou em seu redor. Havia meia hora que tinham entrado no baile cipriota. Mas, quando demasiados foliões mascarados o identificaram e quiseram saber quem seria a sua nova companheira, ele conduziu-a a um pequeno terraço privado sobranceiro ao salão de baile. Penelope ficou satisfeita pois entre os convidados sentia-se rodeada, sufocada, exposta. – Aqui ficará em segurança, garanto. E voltarei dentro de breves instantes. – Sorriu e Penelope estremeceu. Sentia-se protegida pela máscara, mas também pela presença de Jeremy, pois sabia que ele impediria que alguém lhe fizesse mal. Embora soubesse que o maior dos males viria dele. Apesar de todas as suas declarações em contrário, continuava a sentir um lado animal e feroz escondido sob a sua aparência. – Muito bem – concordou. – Tenho a garganta seca.


Ele acenou com a cabeça. Penelope regressou lá abaixo ao salão. A casa em que se encontravam era grande e bela, embora não pertencesse a qualquer cavalheiro que conhecesse. Certamente nunca estivera naquele salão com altos pilares decorados com elfo nus e figuras místicas contorcidas com falos inchados. Meu Deus, o que diriam as mulheres das suas relações se vissem tais figuras eróticas. Mas não foi o talhe pecaminoso dos pilares que verdadeiramente a chocou, mas sim o comportamento dos participantes. Ao contrário de um baile aprovado e frequentado por damas da sua esfera social, havia aqui um ambiente de ousada sexualidade a permear o salão. Homens e mulheres dançavam e riam juntos, olhando abertamente e analisando os atributos físicos dos seus parceiros. Todos usavam máscaras, embora parecesse que muitos conheciam as identidades dos pares mesmo sem lhes ver os rostos. Ou, pelo menos, agiam com bastante familiaridade. Tocavam-se indecorosa e ousadamente com as mãos enquanto a música erótica soava pelo salão. As mulheres… ciprianas usavam trajes chocantes. A maioria trazia corpetes com decotes abaixo dos seios, revelando globos de carne pálidos e nus. Outras traziam vestidos com rachas estratégicas dos lados de modo a poderem oferecer aos seus admiradores imagens ofensivas das suas coxas e até mais. Nenhuma mulher parecia envergonhada daquilo que os vestidos revelavam ou embaraçada pela crua apreciação dos homens que as acompanhavam. De facto, pareciam mesmo gostar da atenção. Em comparação, o vestido de Penelope, que era um dos seus mais ousados, parecia desinteressante. Inclinou-se para observar a multidão. À medida que a noite avançava e as bebidas circulavam livremente, o comportamento dos convidados parecia deteriorar-se. Susteve a respiração quando um cavalheiro se inclinou para lamber o mamilo nu da dama com quem dançava, antes de soltar uma gargalhada e a entregar a outro cavalheiro lúbrico que tomou na mão esse mesmo seio e aproximou sugestivamente as suas ancas das da dama. Penelope afastou o olhar para observar um canto da sala escondido por detrás de um biombo de linho branco. Não era visível da pista de dança, mas, do sítio elevado em que se encontrava, via de cima o espaço vazio por trás dele. Tentadoras como eram as imagens sensuais que tinha diante de si, os seus sentidos começavam a ser conquistados pelo evidente erotismo que a rodeava. Conquistados e… excitados. Penelope fechou os olhos com força. Nunca admitiria, a ninguém, mas ver os corpos enlaçados, beijando-se à vista de todos os que os rodeavam, tocando-se… tudo era infinitamente excitante.


Não era correto sentir-se assim. Aquelas mulheres estavam a ser usadas, certamente. Podiam embelezar-se, rir e gemer, mas não teriam outro remédio... ou teriam? Penelope abriu os olhos com um suspiro e descobriu que o casal se ocultara atrás do biombo no canto da sala enquanto ela refletia nas suas próprias reações ao que se passava em seu redor. A mulher era uma dama bonita, de cabelo escuro, envergando um maravilhoso vestido de cetim vermelho com folhos de renda envolvendo-lhe os ombros. Acompanhava-a um cavalheiro bem com uma máscara de touro a condizer com o vermelho do vestido da senhora. Penelope viu-os murmurar durante uns minutos. A dama inclinava-se para o cavalheiro, poisando-lhe as mãos no peito num toque familiar que denunciava uma relação profunda e física. E ao ver que ele lhe passava as mãos pelas costas para lhe massajar suavemente o traseiro através do vestido sedoso, Penelope percebeu que os dois eram amantes e uma sensação maliciosa apoderou-se do seu corpo quando o par começou a beijar-se com apaixonado abandono. Sabia que deveria sair dali. Não era correto assistir àquilo e sentir-se excitada com as atividades que combatia. Contudo, não conseguia conter-se. Era como se estivesse imobilizada, presa de uma força invisível que a obrigava a observar de longe. Olhou em seu redor. Ninguém ali próximo assistia ao seu vergonhoso voyeurismo. E o casal, lá em baixo, não fazia ideia de que estava a ser observado. Talvez nem se importassem, mesmo que estivessem conscientes da sua presença, já que haviam decidido começar os seus jogos amorosos por trás de um fino biombo num baile cheio de gente. Não. Ninguém teria de saber, por isso, Penelope rendeu-se às imagens a que assistia. A dama interrompera os beijos longos e húmidos entre ela e o companheiro para passar os lábios pela parte da frente do casaco dele, baixando-se até ficar de joelhos diante dele. Penelope soltou uma exclamação sufocada ao ver que ambos abriam as calças dele e que a senhora lhe tomava o pénis na mão. Mesmo à distância, Penelope conseguia ver a brusca investida do membro. Depois a mulher inclinou-se e rodeou o companheiro com os seus lábios vermelhos, tomando-o na boca. O cavalheiro encostou-se à parede para se equilibrar, enfiando os dedos no cabelo da companheira para guiar a velocidade e a profundidade da sua boca. Penelope agitou-se enquanto assistia àquelas atividades escandalosas. O calor invadia-a ao observar o modo sensual como a misteriosa dama rodeava com a boca a ereção do companheiro. Uma sensação de desejo e poder obrigaram Penelope a estremecer contra vontade ao ver o homem lançar a cabeça para trás com o pescoço rígido de prazer. O marido nunca quisera aquele ato. Nunca o pedira. Mas Penelope percebia agora o poder que dava a uma mulher. E o prazer que oferecia a um homem.


De súbito, o cavalheiro puxou os braços da companheira e afastou-a da ereção. Meteu os dedos por baixo da máscara dela e arrancou-a e depois fez o mesmo à sua para chegar com a boca à dela. Beijaram-se feroz e apaixonadamente enquanto ele a fazia girar de modo a encostá-la à parede. Segurou-a assim e baixou-lhe o decote do vestido fino até lhe soltar os seios. Baixou a boca e chupou os dois mamilos enquanto a dama se agarrava aos ombros dele, cobertos pelo casaco de lã. Ao mesmo tempo que lhe acariciava os seios, subia-lhe as saias, conseguindo acesso às pernas dela e ao monte nu entre as coxas. Penelope abafou um suspiro ao ver que a mulher não tinha camisa ou qualquer outra roupa interior, mas, antes de poder refazer-se do choque, o casal pusera-se em posição e o cavalheiro investia com as suas ancas. Penelope não conseguia ouvi-los do local onde se encontrava, mas, pelo modo como a dama entreabria os lábios e fechava os olhos, era certo que soltava um longo suspiro de prazer enquanto ele a tomava. O casal manteve-se assim, imóvel, por um longo momento. Depois o cavalheiro recuou e avançou, movimentando as ancas em círculos encostado à companheira que arqueava as costas com o rosto contorcido de silencioso prazer. Penelope agarrava-se com força ao muro do terraço assistindo à cena. Tinha a respiração entrecortada e o seu corpo reagia ao acasalamento com um calor húmido e a sensação apertada de prazer frustrado. Inclinou-se para diante, rangendo os dentes a cada investida e tentando não se imaginar como a mulher que estava a ser tomada. Não queria. Não queria. De súbito, ouviu o ruído de um copo de vidro ao longo do muro do terraço e uma mão masculina colocou junto dela um copo de champanhe. Penelope sobressaltou-se e, voltando-se de repente, encontrou Jeremy observando-a fixamente, concentrando-lhe no rosto à luz das velas os seus brilhantes olhos escuros. Sentiu as faces quentes e cobriu-as com os dedos frios. – O...…olá – gaguejou, recusando-se a olhá-lo nos olhos. Ele arqueou uma sobrancelha. – Sente-se bem? Está muito corada. Ela acenou afirmativamente. Talvez que, quando se aproximara, ele não tivesse visto aquilo para que ela olhara. Talvez não se apercebesse daquilo a que ela assistira. – Uma mulher muito bonita, não é verdade? – perguntou ele, inclinando a cabeça para o casal. Lá se fora a esperança. Sem sequer olhar, Penelope percebeu a que mulher ele se referia. À dama de vermelho que estava a ser tomada com tanta luxúria. Penelope voltou-se ainda mais afogueada e pegou no copo de champanhe. Tremia-lhe


a mão enquanto tomava um longo gole do líquido gasoso. – C... creio que sim. Voltou os olhos para o canto. O casal continuava furiosamente, mas o fim parecia próximo. O pescoço do cavalheiro parecia mais tenso a cada investida e a dama cobrira a boca com a mão para abafar os gemidos de prazer. Por fim, o homem beijou-a com força na boca e ficou rígido, depois tremeram-lhe as pernas quando chegou ao clímax. Separaram-se por um breve instante e depois os seus lábios encontraram-se de novo, desta vez para um beijo suave antes de ele a poisar no chão e a ajudar a alisar o vestido sobre as pernas nuas. Penelope voltou-se. Sem saber porquê, assistir àquela ternura pós-coito parecia-lhe uma maior intromissão do que fora o ter assistido ao ato sexual. – Quem é ela? – conseguiu perguntar. – Chama-se Cecilia Charles. É filha de uma cortesã muito famosa e seguiu os passos da mãe. – Inclinou a cabeça enquanto o casal saía detrás do biombo. – E faz um belo par com Rannoch. Penelope olhou para as costas do cavalheiro que se retirava e para as ancas ondulantes da dama, quando ambos circulavam de novo por entre a multidão. – Aquele é Peter Rannoch? Penelope nem reconhecera o famoso cavalheiro. A sua excitação cegara-a. Jeremy acenou com a cabeça. – O segundo filho do duque de Turnberg. – Aquela mulher não deveria ser obrigada a fazer certas coisas num baile – murmurou Penelope. Mas, ao dizê-lo, lembrou-se da expressão do rosto de Cecilia Charles. Nunca parecera forçada a fazer o que quer que fosse. Jeremy voltou-se e ela sentiu-lhe o olhar no rosto. Não teve outro remédio senão corar mais uma vez. Saberia ele que pensamentos lhe haviam passado pela cabeça enquanto observara o casal? Poderia ler nela como se sentira excitada e ainda se sentia. – Acha que ela foi forçada? – perguntou ele em voz suave. Penelope engoliu em seco, olhando-o, mas não nos olhos. – Não teria de o ser para fazer uma coisa tão ousada, praticamente em público? Ele sorriu, com um breve expressão que o fez parecer muito jovem e inexperiente. – Nunca fez nenhuma maldade? Uma coisa que soubesse que não devia, que poderia ser apanhada a fazer, mas mesmo assim fez? Talvez a ideia de ser apanhada tornasse o ato ainda mais excitante. Penelope ficou sem fôlego. – Quer dizer que… – Não se trata só de sexo, Penelope – disse ele em voz baixa, avançando um passo para junto dela, o suficiente para que ela sentisse a combinação embriagadora de xerez


e hortelã no hálito dele. – Estou a falar de qualquer coisa que soubesse que não devia fazer. Roubar um bolinho à governanta quando a apanhou distraída. Montar a cavalo à homem, às escondidas da sua mãe. Nunca fez nada que envolvesse um pequeno risco? Penelope pensou na sua infância. Na mãe autoritária. No pai muitas vezes ausente e completamente irresponsável. Miranda, irmã mais velha, vira-se frequentemente obrigada a tomar as rédeas e a garantir que as coisas corriam bem. Penelope nunca tivera coragem de fazer uma maldade, pois não queria que a irmã tivesse também de se preocupar com ela. – Não – admitiu por fim em voz baixa. – Fiz sempre o que tinha de fazer e quando tinha de o fazer. Jeremy olhou-a em silêncio por algum tempo. – Então deve ser difícil para si compreender, se eu lhe explicar, a razão pela qual uma dama concorda em fazer uma coisa tão proibida em público. Mas é uma predileção que muitos têm. Penelope apertou as mãos. Sentia-se de novo completamente ingénua. – O senhor está incluído nesse grupo? – No grupo que tem predileção por perseguir as suas conquistas em público? – perguntou, abrindo muito os olhos. – Admito que possa ter-me sentido arrastado algumas vezes pelo momento. Porém, sempre preferi encontrar-me em privado com as minhas amantes, para poder ter mais tempo para saborear a rendição. Penelope humedeceu os lábios subitamente secos e obrigou-se a olhar Jeremy nos olhos. Eram de um verde muito belo, muito sensual e escuro. A boca também lhe chamava a atenção. Quantas mulheres a teriam beijado? Tinha os lábios carnudos, o que a levava a pensar que seria bom beijá-los. Estavam agora tão próximos que seria fácil pôr-se em bicos de pés e entregar-se a esse prazer. E isso seria uma maldade. Um beijo roubado a um dos mais falados libertinos da alta sociedade. Ficaria arrebatado ou quereria saborear o momento, se ela o fizesse? – Mas isso foi antes de me retirar – disse Jeremy e afastou-se dela um longo passo. Penelope abanou a cabeça para clarear o espírito. Meu Deus, mas o que estava a fazer? Ali, no meio de um baile Cipriano, a pensar beijar um homem? – ... julgo que já vi o suficiente – disse ela em voz trémula. – Quero ir para casa. Jeremy acenou afirmativamente. – Sim, provavelmente viu o suficiente por uma noite – hesitou antes de lhe oferecer o braço. – Venha. Vou acompanhá-la a casa. Penelope aceitou o braço, fingindo não perceber a sensação de prazer que a invadiu quando ele lhe tocou. Enquanto voltavam, abrindo caminho através da multidão, Penelope pensava no que Jeremy lhe dissera. Estaria verdadeiramente «retirado»? Ou tê-la-ia acompanhado ali exatamente porque


desejava que ela assistisse Ă quelas cenas excitantes e perturbadoras? E, se assim fosse... Saberia ele o quĂŁo completamente ela caĂ­ra na armadilha que lhe estendera?


Capítulo 5

Jeremy observara Penelope de perto enquanto ela o conduzia à sua sala e dizia umas palavras em voz baixa à criada. Ficara surpreendido quando o convidara a entrar para tomar um chá, mas não estava em posição de recusar. Pelo menos, se queria seguir à risca o seu plano. Porém, talvez nessa noite o seu plano tivesse tido um êxito surpreendente. Quando chegara à varanda do baile Cipriano e vira Penelope a olhar para a frenética relação de Cecilia e Rannoch, com a respiração acelerada, os olhos vidrados de desejo, as pernas inseguras, precisara de toda a sua força de vontade para não a puxar de encontro ao peito e beijá-la até ela não poder respirar. E fora ainda mais difícil de resistir quando ela olhara para a sua boca e lhe fizera perguntas sobre as suas conquistas, para as quais não tinha resposta preparada. Por muito que a desejasse, aquelas coisas não faziam parte dos seus planos. Não. Tinha de ser cuidadoso. Prudente. E não poderia ser Jeremy Vaughn, duque de Kilgrath, a seduzi-la. Se o fosse, ela meter-se-ia na sua concha e rejeitá-lo-ia. Tê-la-ia, mas seria como um admirador misterioso e secreto. Por isso, sempre que estivesse com ela teria de o recordar. Não. Enquanto Jeremy Vaughn teria de fingir ser seu amigo. Alguém em quem ela pudesse confiar. – Posso fazer-lhe uma pergunta? – disse ele, sentando-se junto à lareira. Penelope dirigiu-se inquieta à janela e olhou lá para fora durante muito tempo antes de murmurar. – Que pergunta? – Sempre me pareceu ser uma perfeita dama – começou ele, escolhendo cuidadosamente cada palavra. – Porém, iniciando uma luta pública contra os excessos sexuais, atrai também um excesso de atenção que a maioria das mulheres da sua classe evita. Ela voltou-se lentamente para o olhar. Tinha as faces pálidas e os olhos muito abertos. – Sim. É verdade que o ter enveredado por esta cruzada que me foi imposta alterou a minha vida de muitas maneiras. Amigos que há muitos anos me eram queridos romperam comigo. E pessoas a quem nunca estive ligada sabem agora o meu nome. Fui elogiada e ameaçada por vezes simultaneamente. Jeremy inclinou a cabeça.


– Que lhe foi imposta? Quer dizer que não acredita verdadeiramente nessa causa? Se fosse aquele o caso ainda seria mais fácil terminar a sua intervenção. Penelope olhou-o durante um longo momento e Jeremy apercebeu-se da luta dentro dela. Ainda não confiava nele e ele não podia deixar de a admirar por isso, contudo, lia-se nos olhos dela um desejo de o fazer. Um desejo de lhe contar coisas que talvez não pudesse contar a mais ninguém. Tudo o que teria de fazer seria cultivar-lhe o desejo de um confidente que não a julgasse. Aproximou-se um pouco mais. – Compreendo a sua hesitação. Mas juro que apenas lhe estou a perguntar porque sinto curiosidade em saber como aqui chegou. A expressão dela acalmou um pouco, mas Jeremy não reagiu com uma expressão de triunfo. Tinha-a manipulado dizendo-lhe o que ela precisava de ouvir, mas esse facto parecia-lhe... vazio. Frio. Pela primeira vez, não se sentiu orgulhoso da sua capacidade de fazer reverter a situação em seu benefício. Principalmente por saber qual acabaria por ser o resultado para Penelope. – Apenas disse algumas coisas – respondeu ela em voz baixa. – Apenas falei por raiva e frustração. Depois tudo acabou numa espiral descontrolada. Ele inclinou a cabe��a. – Não compreendo. Ela percorria a sala inquieta. – Foi há alguns meses. Estava prestes a terminar o luto, num chá com algumas amigas. Uma delas estava muito perturbada por ter descoberto que o seu casamento «perfeito» e feliz era uma mentira. O marido mantivera a amante, sem que ela soubesse, e esta esperava um filho ilegítimo. Fiquei furiosa ao ver a minha amiga tão desesperada, tão ofendida, pela ação egoísta do marido. Jeremy manteve-se em silêncio, observando o modo como o rosto dela se iluminava enquanto falava. A cor das faces acentuava-se, o corpo animava-se-lhe, os olhos cintilavam. Se aquilo era raiva, valia a pena provocar-lha. De súbito, era mais do que bonita. Parecia magnífica. – Não sei porque o disse, mas lancei-me numa tirada acerca dos homens da alta sociedade e das suas ações impensadas e egoístas. Assim que comecei, as palavras saíram-me. Falei acerca da sua liberdade sexual e de como nós, mulheres, poderíamos refrear os seus hábitos descontrolados se nos juntássemos – abanou a cabeça. – Foram apenas palavras. Mas as mulheres presentes pareceram completamente fascinadas. Era como se nenhuma delas tivesse alguma vez pensado em comunicar aos maridos o que pensavam acerca de andarem com outras mulheres, muito menos em exigir mais alguma coisa. – Provavelmente, nenhuma delas o tinha feito – disse Jeremy soltando uma


gargalhada. Certamente nunca encontrara uma mulher tão ousada que pensasse poder controlá-lo. – E então tornou-se na defensora dessas mulheres. Ela acenou afirmativamente. – Não sei como, mas as minhas palavras desse dia espalharam-se. De repente, estava a ser abordada por senhoras que me procuravam para que eu repetisse os meus pensamentos. Depois, algumas mulheres começaram a pôr em ação as minhas palavras. Foi aí que os homens começaram a mostrar a sua irritação, a olhar-me, até a insultarme. Jeremy deixou de sorrir. Embora compreendesse a raiva e a frustração dos homens seus amigos que viam as vidas viradas do avesso pela causa de Penelope, a ideia de que algum deles a podia ameaçar não lhe provocava qualquer espécie de prazer. Embora Penelope lhes pudesse causar frustrações, não merecia que lhe fizessem mal. Nem que a assustassem. Sempre acreditara que, se uma dama estivesse zangada com um cavalheiro, era dever deste usar do seu encanto para a apaziguar. Se os amigos eram incapazes de o fazer, o erro era deles. Não de Penelope. – Julga que essas ameaças são verdadeiras? – perguntou subitamente calmo. Se Wharton se mostrara tão irritado com ela, seria razoável que outros homens desejassem detê-la ainda com maior veemência. Julgá-lo-iam necessário. Penelope encolheu os ombros, mas o modo como baixou o queixo e se recusou a olhá-lo nos olhos deu-lhe a perceber que se sentira assustada pelas ameaças. – Creio que a maioria não passa de conversa. Mas não posso fingir que não ofendi alguns homens poderosos. – Não precisa de continuar a sua cruzada – disse Jeremy apalpando terreno. – Se sente que a está a pôr em perigo, pode facilmente terminá-la. Creio que poderá desistir e em breve todos se esquecerão. Penelope respirou fundo e abanou a cabeça. – Não. Agora que comecei, não posso parar. – Porquê? – perguntou ele e aproximou-se mais, mas ela ficou mais tensa ao sentir o movimento e o seu olhar azul-turquesa fixou-se no rosto dele cheio de antecipação e talvez agitação em igual medida. – Porque está tão obstinada nisso? Ela fechou as mãos. – Vi as consequências das ações dos homens – murmurou em tom severo. – Mais do que uma vez. No momento em que as palavras lhe escaparam dos lábios, Penelope afastou o olhar com um suspiro abafado. Jeremy sobressaltou-se. Era a segunda vez que aludia a uma espécie de dor pessoal no seu passado, relacionada com a cruzada. Talvez investigar essa dor fosse a chave para a silenciar.


– Penelope… – começou ele. Mas antes de poder terminar a porta atrás deles abriu-se e uma mulher entrou. – Boa noite, Penelope… A mulher interrompeu o que estava a dizer com uma exclamação abafada e recuou. Penelope levantou a cabeça e ela fitou-o com os olhos enormes, cheios de medo. Jeremy recuou. O que poderia causar uma tal reação? Olhou para a mulher que entrara na sala. Pareceu-lhe que a conhecia, com os seus olhos azul-claros e cabelo castanho. Onde a teria visto? Um momento. Sabia exatamente onde a vira. Embora já não envergasse os ousados vestidos caros e a maquilhagem exagerada que atraíra os homens como moscas para o mel, não escondia o sensual balanço das ancas, nem o franzir dos lábios carnudos. Era Fiona Clifton. A amante que deixara Anthony Wharton, o melhor amigo de Jeremy, devido à intromissão de Penelope. A mulher cuja fuga instigara os amigos a obrigá-lo a deter Penelope. *** Porque teria Fiona entrado na sala? Penelope fechara os punhos aterrorizada. Meu Deus, qualquer outra criada teria perguntado se a senhora tinha alguma visita antes de entrar de rompante na sala para interromper. Mas era esse o problema. Fiona não tinha qualquer experiência dos pequenos matizes que separavam a criada da patroa. E encontrava-se agora numa situação perigosa. Jeremy olhava para ela e era perfeitamente claro que reconhecia a antiga cortesã e sabia que ela fora amante do seu melhor amigo. – Fiona? – gaguejou. – Meu Deus, foi para aqui que fugiu? Embora Fiona fosse uma péssima criada, Penelope tinha de admitir que possuía outros talentos. Apesar do medo que lhe cintilava nos olhos azuis, a jovem não se deu por achada. Avançou simplesmente para Jeremy com um sorriso que apenas se poderia considerar atiradiço e soltou uma gargalhada. – Kilgrath! Francamente, há quanto tempo? E sempre com esse ar diabólico! Penelope apertou os lábios. Aquela mulher podia não aprender a servir o chá com a devida etiqueta, mas não esquecera de modo algum as lições que tomara para ser cortesã. Olhava para Jeremy como se o fosse devorar no meio daquela sala. E o pior é que Jeremy parecia não se importar que tal acontecesse. Mas os pensamentos «devoradores» apenas faziam com que Penelope pensasse na cena pecaminosa a que assistira e emudeceu enquanto um rubor quente lhe cobria as faces. – E como conheceu Lady Norman? – perguntou Jeremy lançando um olhar de soslaio


a Penelope. Fiona sorriu, mas com uma rigidez em redor dos lábios que denunciava o nervosismo que sentia. Penelope escondeu as mãos trémulas atrás das costas. – Lady Norman teve a gentileza de me oferecer um lugar em sua casa – disse Fiona e olhou para Penelope com genuína gratidão. Era aquela gratidão que tornava mais fácil esquecer as outras falhas de Fiona. – É verdade? – perguntou Jeremy, mostrando a sua surpresa na expressão e no tom de voz. Fiona acenou afirmativamente. – Sim. De facto, vim entregar-lhe isto, Penelope. Penelope estremeceu ao ouvir Fiona usar o seu nome próprio. Nunca antes corrigira a jovem, em grande parte porque lhe parecera difícil que a doce e irrefletida rapariga se lembrasse de duas coisas ao mesmo tempo. Mas ouvir o nome de Penelope dos lábios de uma criada fez com que Jeremy erguesse as sobrancelhas. Que diabo, certamente iria fazer perguntas. E, se Penelope queria manter secreta a presença de Fiona, ver-se-ia obrigada a respondê-las. Penelope avançou com a mão estendida. – De que se trata? – perguntou finalmente, já capaz de falar. Fiona entregou-lhe uma folha de papel dobrada. Ao abri-la, Penelope soltou uma exclamação abafada. Tratava-se da caligrafia curva e sensual do misterioso admirador. Que diabo, outra carta dele. – Obrigada – gaguejou enquanto escondia a carta atrás das costas. – Podes ir. Fiona lançou um olhar rápido a Jeremy. – Boa noite, senhor duque. Foi um prazer vê-lo de novo. Jeremy inclinou educadamente a cabeça, mas não havia dúvida de que havia curiosidade e interesse nos seus olhos quando murmurou. – Igualmente, Fiona. Boa noite. Assim que a criada saiu da sala, Jeremy voltou-se para Penelope com uma sobrancelha erguida e ar inquiridor. – Fiona trabalha para si? Penelope endireitou os ombros. – Sim. É minha criada particular. Jeremy acenou lentamente com a cabeça, depois olhou-a com uma sugestão de malícia no olhar. – E é boa no que faz? Penelope abriu muito os olhos surpreendida. Não esperara a pergunta e deu por si a responder bruscamente. – Não muito – cobriu a boca para ocultar uma gargalhadinha nervosa. – Mas está a


tentar aprender. Ele riu, um riso plenamente agradável. Profundo e rico. Sem querer, Penelope ficou a olhar para ele. Todo o seu rosto se alterava quando se ria. Parecia não um homem diabolicamente sensual, mas apenas um homem cujo riso era… afetuoso. Convidativo. Tinha uma covinha no canto do lábio do lado direito do rosto. Penelope pestanejou. Deus do céu, mas em que estava ela a pensar? – Bem, gostaria de lhe pedir que não mencionasse a presença de Fiona aqui – disse ela, tentando manter um tom muito prático. Jeremy deixou de sorrir. – Posso perguntar porquê? Ela hesitou, sentindo voltarem-lhe as dúvidas acerca daquele homem. Fiona contaralhe histórias horríveis da terrível ira e dos abusos de Anthony Wharton. O passado de Fiona era em parte responsável por Penelope ter prosseguido aquela causa, mesmo quando lhe parecera um peso demasiado para suportar. Seria verdadeiramente possível que Jeremy não tivesse conhecimento dos abusos de Wharton? Ou simplesmente nunca o vira como um problema, pois Fiona, afinal, não passava de uma mulher e ainda por cima de uma cortesã. Apertou ao lábios ao pensar que Jeremy seria capaz de ficar a ver outro bater numa mulher. O facto de não ter a certeza daquilo que ele poderia fazer era uma poderosa advertência para que não confiasse nele. – Simplesmente porque não quero que as pessoas que vêm a minha casa a tratem desrespeitosamente devido às suas passadas indiscrições – explicou. – É um favor que lhe peço. Jeremy encolheu os ombros. – Tenho a certeza absoluta que o assunto dos seus criados nunca surgirá numa conversa de circunstância, Penelope. Mas, se assim for, nunca revelarei que Fiona está ao seu serviço ou a natureza da sua vida anterior. – A ninguém? – insistiu. Ele olhou-a e os olhos brilharam-lhe de entendimento. – Ah, está a falar de Andrew Wharton, o antigo protetor de Fiona? Ela acenou lentamente. – Não vejo razão para lhe revelar o paradeiro de Fiona, a menos que ela o queira fazer pessoalmente – declarou ele encolhendo os ombros. Penelope sentiu algum alívio. Agora restava-lhe ter esperança que Jeremy cumprisse a sua palavra. – Ela trouxe-lhe uma carta – lembrou ele, esboçando um pequeno sorriso. – Aquela que escondeu atrás das costas. Penelope olhou-o e apertou a carta com força.


– Não me parece muito educado da sua parte fazer notar uma coisa dessas, sabe? Jeremy riu. – Pois não. Tem de me perdoar. Ainda estou a aprender a ser um homem razoável – hesitou e inclinou-se para o lado, para espreitar a missiva escondida. – É uma carta de amor? Penelope entreabriu os lábios. Seria assim tão óbvio? Só que não lhe chamaria de facto uma carta de amor. O que o homem que lhe escrevera dissera da última vez tinha muito pouco a ver com amor. Desejo sim. Paixão, certamente. Amor… não. – Não. E, mesmo que fosse, não seria da sua conta! – respondeu bruscamente, voltando-lhe as costas. Ele soltou nova gargalhada e Penelope deteve-se abruptamente. Jeremy estava a provocá-la. Como se fossem íntimos. Como se fossem amigos. Mas seriam? Poderiam sê-lo alguma vez? – Muito bem. Perdoe-me – disse Jeremy fazendo uma reverência galante. – Não vou atormentá-la mais. Se deseja manter o sigilo sobre a carta, não a obrigarei a fazer confidências. Esperava apenas descobrir em si alguma fraqueza, minha querida. Se uma pessoa da sua estatura as tiver, ficarei com esperança de um dia vencer as minhas. Penelope olhou para ele. Estaria ainda a brincar ou falaria em parte a sério? Aquele homem confundia-a de tal maneira que não tinha a certeza do que pensar dele em determinada altura. – Tenho as minhas fraquezas, Jeremy – murmurou ela. Ele ocultou o sorriso. – Não seria humana se não as tivesse. Ele estendeu o braço e tomou-lhe a mão antes de ela a poder retirar. Levou-a aos lábios e beijou-lhe ao de leve os nós dos dedos. Ela estremeceu ao sentir o contacto daqueles lábios quentes sobre a sua pele. Invadiu-a uma súbita necessidade de os sentir noutros lugares. Em todo o seu corpo. Arrancou bruscamente a mão e levou-a ao seio subitamente inquieto. – Adeus, Jeremy, senhor duque – gaguejou com as faces em fogo. Ele ergueu as sobrancelhas. – Até depois, Lady Norman. Desfrute da sua carta. Libertou-lhe a mão e saiu da sala. Assim que ele se afastou, Penelope deixou-se cair na cadeira mais próxima. Sentia as pernas a tremer e o estômago apertado. Não importava que aquilo fosse uma perfeita estupidez ou que não tivesse ainda a certeza de poder confiar em Jeremy Vaughn; qualquer coisa nele ainda a abalava. Afetava-a interiormente. Obrigava-a a questionar-se. Tal como a pessoa que escrevia a carta. Penelope tirou a missiva de detrás das costas e olhou para a caligrafia curva. Que lhe escreveria ele naquela noite? Que fantasias


teceria? E teria ela força suficiente para lhes resistir? Conhecia a resposta a essa pergunta ainda antes de quebrar o lacre e abrir as folhas. Não seria muito forte. Sabia perfeitamente que, antes do final da noite, daria voltas sozinha na cama a pensar nas palavras do autor da carta e recordando as coisas maliciosas a que assistira no baile Cipriano.… E sempre imaginando o rosto de Jeremy. Começou a ler com um suspiro: Querida Penelope Se fosse minha, passaria uma eternidade a tocar-lhe simplesmente a pele. E depois passaria outra a sentir todo o seu sabor…


Capítulo 6

Penelope sentou-se na cama, olhando para o pequeno maço de cartas que ali colocara, cuja presença troçava dela, atormentava-a. Eram cartas dele, do seu misterioso admirador que lhe queria fazer coisas tão maliciosas. Todas as noites, durante uma semana, tinham chegado exatamente à mesma hora. De facto, Penelope habituara-se a recebê-las e quando a hora se aproximava, dava por si a olhar para a porta aguardando a missiva seguinte. Sentia-se inquieta e aborrecida até ter entre mãos as folhas dobradas daquele papel caro. Quero tomá-la, Penelope. Com violência e rapidamente. Depois lenta e suavemente...… Cada carta pormenorizava cada vez mais as fantasias do autor a seu respeito. Na verdade, tinham-se também transformado nas suas fantasias. Lera tantas vezes aquelas palavras mordazes, poéticas e, por vezes, pornográficas, que poderia resumir de cor todas as frases sem sequer tentar. E quero que me queira tão desesperadamente como eu a desejo...… Algumas cartas concentravam-se nos pormenores do que o seu admirador lhe desejava fazer. Fora obrigada a pensar nas noites em que aquele homem sem rosto lhe beijara simplesmente cada centímetro do corpo. Nas mãos e nos dedos que lhe haviam acariciado cada curva e invadido cada fenda proibida. E, por fim, do crescendo em que ele a tomava em todas as posições possíveis e imagináveis... algumas que ela nunca pensaria serem possíveis. Render-se-ia se eu a levasse para a cama e a abrisse com as minhas carícias? Já imaginou como eu o faria? Porém, outras eram menos ostensivas acerca das atividades e mais acerca dos encantos dela. Uma carta referira-se inteiramente à beleza erótica do seu cabelo. À fantasia de o soltar, para depois lho passar pelo corpo e o enrolar no seu pénis… Penelope pôs-se de pé e afastou-se das cartas. Não tinha ilusões de que aquelas palavras ardentes não a afetassem, não a arruinassem. Não a transformassem em algo que ela não conseguia compreender. Queimá-las-ia, mas não conseguia ainda fazê-lo. Ofereciam-lhe demasiado prazer pecaminoso. Assombravam-lhe as noites. Desistira da pretensão de resistir à sua atração erótica. Na semana anterior não conseguira dormir nem descansar sem atingir o clímax, sentindo-se, mesmo assim, cada vez menos satisfeita. Agarrou-se à prateleira da lareira. Acordara nela uma fome profunda, que nunca se


permitira sentir anteriormente. Um desejo obscuro que a obrigava a apertar as coxas numa humidade vazia, quando pensava nas cartas ou nas coisas pecaminosas que vira nas viagens de campo que fizera com Jeremy. – Minha senhora? Penelope voltou-se com as faces ruborizadas e deu com um criado que esperava à porta. Recusou olhá-lo de frente, temendo que, quem olhasse para ela, se apercebesse dos seus maliciosos pensamentos. – O que é, Appleton? – O senhor duque de Kilgrath chegou, minha senhora. Aguarda-a na sala ocidental. Penelope sobressaltou-se. Tinha o cérebro tão perturbado, que perdera completamente a noção do tempo e de que Jeremy combinara visitá-la. – Diz-lhe, por favor, que desço imediatamente. O criado retirou-se com uma reverência e Penelope aproximou-se do espelho de corpo inteiro no canto do seu quarto de vestir. Embora fosse provavelmente uma tolice pensar que o criado poderia ler com o olhar os seus escandalosos pensamentos e fantasias, Jeremy era outra coisa. Certamente se aperceberia de alguma coisa pecaminosa na sua expressão se ela não desanuviasse o espírito. Alisou o cabelo e passou as mãos pelo corpete alto do seu belo vestido azul. Parecia uma senhora, por isso podia comportar-se e pensar como tal. Desceu lentamente as escadas até à confortável sala de visitas onde Jeremy a aguardava. Respirou fundo para se acalmar e abriu a porta. Quando entrou, Jeremy não estava sentado, mas sim encostado à parede ao lado da lareira, com um dos livros da biblioteca na mão. Ao vê-lo, prendeu a respiração. O cabelo dele, um pouco comprido de mais, caía-lhe para a testa e os olhos verdes concentravam-se nas palavras que lia. Assim que o viu sentiu os joelhos começarem a tremer. Se as palavras do seu admirador e as imagens pecaminosas a que fora exposta a assombravam, o mesmo se passava com o rosto de Jeremy. Quantas vezes o imaginara enquanto proporcionava prazer a si própria na escuridão furtiva da sua cama vazia? Em quantos sonhos deslizara Kilgrath para baixo das cobertas da sua cama e a acordara com o extenuante prazer que outro homem descrevera com tantos pormenores? – Byron – disse ele, afastando-a dos seus pensamentos enquanto fechava o livro. – Muito sensual para uma mulher que conduz uma luta contra os excessos. Penelope pestanejou. – Sempre pensei em Byron como romântico e não como sensual. Jeremy sorriu, colocando o livro numa mesa e aproximando-se dela. – Sei por experiência que, por vezes, o romance e a sensualidade são quase a mesma


coisa. Penelope engoliu em seco quando ele se deteve a pouca distância dela. Jeremy fitoulhe o rosto e depois inclinou a cabeça. – Sente-se bem? Ela pestanejou. – Claro. – Parece-me… – hesitou, como se procurasse a palavra certa. No breve silêncio, Penelope sentiu-se tensa. Pensou nalgumas palavras que a descrevessem: hipócrita. Libertina. – Cansada – comentou ele. Ela abanou a cabeça. – Não. Estou bem. Simplesmente perdi a noção das horas. Lamento que tenha tido de esperar muito tempo por mim. – De modo nenhum. Mas está agora pronta para partir? Ela recuou. – Partir? Estava-se a meio do dia. Onde quereria ele levá-la àquela hora? Não poderiam estar a realizar-se bailes Ciprianos ou óperas eróticas. De contrário, não tinha a certeza de poder suportá-los no seu estado atual. – Sim – acenou ele com a cabeça. – Quer dar-me a honra de me acompanhar? Venha a minha casa. Penelope recuou um passo. – A sua casa? Não, isso seria completamente impróprio. Se nos encontrassem sozinhos, com a sua reputação... Ele franziu a testa. – Garanto-lhe que ninguém nos verá, Penelope. Eu protejo-a. Penelope respirou fundo. Protegê-la. Nunca conseguiria acreditar que aquele homem pudesse ser seu protetor. E, ao ouvi-lo dizer aquilo, descobriu que era o que ela mais queria no mundo. Nunca tivera um amigo verdadeiro, um confidente, desde, desde... que ela e a irmã se tinham desentendido. E fora por causa de um homem quase exatamente como aquele que se encontrava diante dela. Mesmo assim, agora, olhando para Jeremy, tinha a sensação de poder contar-lhe os seus mais íntimos segredos sem ser censurada. Podia contar-lhe as suas dores e ser consolada. E, por muito que tentasse convencer-se de que essas aparências nada mais eram que uma ilusão, não conseguia afastar-se dele como pensava dever fazê-lo. – Promete-me que ninguém me verá? – murmurou ela. Ele hesitou, mas acabou por acenar afirmativamente.


– Prometo. Ela baixou a cabeça. Sentia-se derrotada pelos seus secretos desejos e por uma solidão que sentia tão intensa quando estava junto àquele homem. – Muito bem. Vou buscar um agasalho e poderemos ir então, se assim quiser.

Jeremy olhou sub-repticiamente para a mão que Penelope lhe colocara sobre o braço depois de ele a ter feito entrar pela porta de serviço da sua opulenta propriedade de Londres. Naquele dia ela parecia extremamente frágil. Trémula e silenciosa na carruagem enquanto se dirigiam à sua propriedade, Penelope mal o olhara durante todo o tempo em que estiveram juntos. Pensou que se deveria orgulhar desse facto. Era perfeitamente evidente que a quebrava de cada vez que a expunha ao erotismo e ela reagia com muda excitação. E as suas cartas anónimas também a afetavam, tinha a certeza. Era agora altura de avançar para a fase final do plano. Contudo, não se sentia orgulhoso. Olhando-a tão pálida e calada, sentindo-a agarrada ao seu braço como se pensasse que ele a apoiaria, sentia-se... culpado. Nunca tinha tido aquela experiência e muito menos associada a uma mulher. A vida era dele. Nunca vivera a pensar muito nos outros. Se não gostavam dele podiam afastarse. Se se sentiam magoados pelas suas ações, o problema era deles e não seu. Mas com Penelope, tudo era… diferente. – Porque me trouxe aqui? – perguntou Penelope. Jeremy sobressaltou-se. Estava tão enredado nos seus pensamentos desagradáveis e confusos que se esquecera do seu objetivo. Bom, não se podia permitir a tal. Não podia consentir que a estranha atração de Penelope o manipulasse obrigando-o a desistir do que jurara fazer. Tinha a sua honra, embora as suas promessas não fossem nada honrosas. – Queria mostrar-lhe uma coisa – disse, soltando-lhe o braço. O melhor seria distanciar-se dela. Afinal, deveria ser um convertido e não um amigo. Ela olhou-o por uns momentos, depois, corada, afastou os olhos e pôs as mãos atrás das costas. – O que é? – Claro que em breve me afastarei destas coisas, mas, antes de o fazer, pensei que gostaria de as ver. Representam tudo aquilo contra o que a senhora luta – disse, parando diante de uma porta. Penelope inclinou a cabeça intrigada, mas antes de poder falar, Jeremy empurrou a porta com força revelando a sua galeria privada. Penelope entrou atrás dele, com a boca entreaberta quando passou para uma sala


grande e soalheira. Jeremy fechou a porta atrás de ambos e encostou-se a ela observando Penelope que olhava espantada para o que se lhe deparava. Jeremy começara a colecionar aquelas peças havia cinco anos, quando um amigo regressara da Índia com algumas estatuetas chocantes que representavam casais entrelaçados em atos evidentes de hedonismo sexual. Comprara um ao amigo e começara imediatamente a procurar mais arte erótica. Pelos anos fora acrescentara quadros, alguns das quais encomendara e outros simplesmente porque lhe haviam chamado a atenção. Cerâmica gravada com cenas de sexo, pratas cujas asas representavam mulheres nuas ou eram de natureza fálica. Em pouco tempo reunira uma das mais extensas coleções daquele tipo de arte em Londres. De vez em quando, permitia até visitas à coleção. Mas esta, com Penelope como única visitante, era a sua preferida. Aquilo que ela via em seu redor seria escandaloso para a maioria das mulheres educadas para serem «sérias» e «recatadas». Certamente a sala não deveria ser mostrada a todos os visitantes. Era necessário ter um certo tipo de personalidade para apreciar verdadeiramente aquela arte. Pensara que Penelope dificilmente poderia olhar para as estátuas e quadros, mas para sua feliz surpresa ela não recuou. Observou tudo abertamente. Ao aproximar-se tinha as mãos fechadas e corpo tenso, mas não conseguia esconder a expressão arrebatada quando avançou para a enorme estátua que era a peça central da sala. Jeremy encomendara a obra havia um ano e fora bastante dispendiosa. Tratava-se de uma mulher de longos cabelos soltos e afastados do rosto em êxtase. O seu corpo nu estava envolvido no de um amante de mármore. Tinha as pernas apertadas em redor da cintura dele, cujos dedos, por sua vez, lhe apertavam uma coxa enquanto a boca estava poisada no seio dela. Era uma estátua ao mesmo tempo bela e excitante. E quer gostasse quer não, era claro que Penelope reagia do mesmo modo que ele. Estava extasiada. Arrepiada, voltou-se para ele, com o rosto em fogo, sem querer poisar nos dele os olhos azuis. – Qual a sua intenção ao mostrar-me estas... estas coisas? – perguntou ela. – Trata-se de um jogo para si? Jeremy disfarçou uma gargalhada. Por vezes, parecia de facto que tudo aquilo não passava de um jogo. De um complicado jogo de xadrez em que ela manobrava e contraatacava, mas nenhum deles ganhava terreno. Porém, Jeremy sentia que as defesas dela vacilavam e que era apenas uma questão de tempo antes de ser ele a fazer xeque-mate. – Claro que não – mentiu, fazendo os possíveis por parecer ofendido. – Quando me aproximei de si, disse-lhe que lhe poderia expor a parte oculta da sociedade contra a qual deseja combater. Vivi nela durante quase toda a vida e estou intimamente ligado a


ela. Concordou que gostaria de vê-la em primeira mão para poder estar mais preparada para a combater. Mudou de ideias? Ela abanou a cabeça, mas havia hesitação nos seus movimentos. Subtil, mas inegável. Penelope começava a questionar a sua luta, a questionar-se a si própria. – Agora não posso mudar de ideias – murmurou, voltando-se para fitar os amantes entrelaçados e o seu apaixonado abraço. – E deseja-o? – perguntou em voz tão baixa como a dela. Penelope olhou-o de soslaio e ele sentiu o estômago apertado. Meu Deus, ela não fazia ideia de como era atraente naquela posição. Finas madeixas de cabelo encaracolavam-se junto às suas faces rosadas, emoldurando-lhe o rosto. O rosto dela seria assim tão rosado se ele entrasse e saísse no seu corpo macio quando a inclinasse sobre a estátua de mármore. Como gostaria de o descobrir. – Não – disse ela, desta vez com mais firmeza. Penelope alisou o vestido e Jeremy teve a sensação de que as dúvidas surgidas nela haviam desaparecido. Ou, pelo menos, disfarçadas pela aparência fria que Penelope mostrava ao mundo em seu redor. – Diga-me, todos os cavalheiros da sua posição têm uma galeria igual a esta? – perguntou ela, afastando-se da estátua e passando a observar os quadros. Jeremy riu-se. – Conheço alguns colecionadores, mas nenhuma coleção tão extensa como esta. Tenho aqui peças que encomendei, bem como obras com milhares de anos. Os olhos dela abriram-se de espanto e olhou-o incrédula. – Milhares? Avançando para uma redoma de vidro junto à parede, Jeremy acenou afirmativamente. – Sim, várias destas peças são muito antigas. Penelope aproximou-se da redoma como de um carrasco, mas por fim resolveu inclinar-se sobre ela. Soltou uma exclamação abafada. Grande parte dos objetos antigos eram peças que poderiam ser usadas em casa. Colheres com imagens maliciosas no cabo, um espelho embaciado com deuses e deusas acasalando na sua moldura rachada e até uma joia feminina representando um diabo de ouro acariciando com a língua uma donzela que se contorcia. – Sensualidade, sexo, deboche – disse Jeremy aproximando-se um pouco mais de Penelope. – Estas coisas não são novas. Foram até celebradas por algumas sociedades. – E quantas dessas sociedades desapareceram? – Penelope continuava a olhar para os objetos com os punhos fechados sobre a tampa da redoma de vidro. – Estas coisas, estas imagens e o que representam podem não ser novas, mas foram perigosas na altura.


Tal como agora são perigosas. – Perigosas? – repetiu Jeremy, surpreendido por ela usar a palavra. Facilmente poderia parecer que ela as achasse perigosas para a sociedade, perigosas para os que se rendiam aos seus desejos básicos, mas havia algo no tom de voz de Penelope e uma tristeza na sua expressão que o levaram a pensar que a sua afirmação era mais pessoal do que uma vaga referência. Jeremy inclinou-se. – Penelope, o que lhe aconteceu? Penelope fincou os dedos no vidro antes de se voltar com o rosto pálido. Não queria olhá-lo nos olhos, mas Jeremy apercebeu-se mesmo assim de fortes e tristes emoções que refletiam uma dor enorme. E, pela primeira vez, preocupou-se de facto com aquela dor. – Alguém de quem eu gostava – soltou um suspiro abafado, como se o mero facto de pronunciar aquelas palavras a magoasse – foi seduzida para me proteger. Jeremy recuou um pouco. Não esperara aquela confissão. A quem se estaria a referir? Susteve a respiração. A irmã dela. Lady Miranda Rothschild fora muito falada, depois do seu agora marido, Ethan Hamon, conde de Rothshild, se ter lançado aos pés dela num baile... espera, fora no baile de noivado de Miranda... ouvira qualquer coisa a esse respeito. Poderia Rothschild ter seduzido Miranda? Jeremy não o considerava impossível. Durante muitos anos, tinha frequentado os mesmos círculos que ele, embora Ethan se afastasse de tudo isso depois do casamento. Muitos amigos de Jeremy haviam dito que a mulher do conde o arruinara, embora ele parecesse extraordinariamente feliz onde quer que Jeremy o encontrasse. Observou o rosto de Penelope. A sua dor não se referia só ao passado da irmã. Afinal, Miranda era agora feliz e nada lhe faltava. Rothschild cobria-a de presentes, de tal forma que as mulheres faziam apostas acerca de que magnífico presente receberia Lady Rothschild. Não. A dor de Penelope era mais profunda, causada por algo que não tivera um final feliz. – O que lhe aconteceu? – insistiu Jeremy, desejando poder cobrir-lhe a mão com os dedos. Mas não se permitiria a tal. Não lhe tocaria, principalmente porque receava que, se o fizesse, não terminaria apenas como consolo. E, se lhe oferecesse mais do que consolo, arruinaria os seus planos. Por fim, Penelope ergueu os olhos para os dele, olhos que brilhavam com as lágrimas contidas e o lábio inferior tremia-lhe ligeiramente. – Ele… ele – começou, mas interrompeu imediatamente o que ia dizer. Afastou-se três passos abanando a cabeça. – Não. Eu nunca deveria ter dito nada. Peço perdão


pela minha falta de decoro. Quero ir para casa. Esta noite assistirei ao baile Trimble e há muito que tenho de fazer. Jeremy poderia ter insistido mais, mas não o fez, em parte porque sentiu que, se instasse com ela, prejudicaria a sua causa. E, em parte, porque estar assim tão perto de Penelope era, para ele, desconcertante. – Muito bem. Acompanho-a a casa. Aproximou-se da porta e Penelope ficou pelo menos dois passos afastada dele enquanto se encaminhavam para o corredor. – Vai estar presente? – perguntou ela num tom de forçada alegria. – No baile Trimble? – perguntou ele. Ela acenou afirmativamente. Ele olhou-a pelo canto do olho. Evidentemente que fora convidado para o baile e tencionara estar presente. Mas agora não tinha a certeza se seria adequado. Penelope estava madura para ser colhida, mas não por ele. Não. Ela não poderia pensar que se tratava de Jeremy Vaughn, duque de Kilgrath, que a seduziria e lhe venceria os sentidos. Penelope precisava do desconhecido anónimo que já a enfraquecera com palavras ofensivas. E Jeremy estava mais do que disposto a representar esse papel. – Receio não poder estar presente – mentiu. – Mas talvez possamos falar amanhã? – Sim – disse Penelope enquanto ele a ajudava a entrar na carruagem. – Seria um prazer vê-la amanhã. E enquanto Jeremy subia e se sentava diante dela, não pôde deixar de sorrir. Quer soubesse quer não, Penelope haveria de o ver naquela noite. E ele vê-la-ia. Toda. Talvez quando a noite terminasse, o seu dever para com os amigos estivesse completo e ele se redimisse da estranha atração que aquela bela jovem exercia sobre ele.


Capítulo 7

Penelope olhou-se no espelho, vendo Fiona alisar-lhe o cabelo com longos movimentos da escova. Pareceu-lhe que a criada olhava para uma estranha, pois não fazia ideia daquilo em que ela se transformara apenas em duas semanas. Desde a morte do marido, desde que começara a falar dos homens da alta sociedade e dos seus vícios, que começara a ver-se de uma maneira especial. Era Lady Penelope Norman, uma mulher que dizia o que pensava, que não se importava com o que os outros poderiam pensar dela. Tinha aceitado que as suas opiniões pouco apreciadas a afastassem da possibilidade de um novo casamento. E o seu código moral impediria que as carícias de um homem lhe satisfizessem os desejos mais básicos. Acreditara ter aceitado todas essas consequências. Mas quanto mais tempo passava com Jeremy Vaughn, mais se apercebia de que essa aceitação não passava de uma bela mentira. Poderia ignorar os seus desejos mais obscuros, secretos e pecaminosos, mas, na verdade, não o conseguira. Eles espreitavam, incomodando-a, enfraquecendo-a. Entre a influência erótica de Jeremy e o autor secreto das cartas que não deixava entregue à imaginação qualquer pormenor do que tencionava fazer ao seu corpo húmido, estava perigosamente à beira do abismo. – Sente-se bem, Penelope? – perguntou Fiona, interrompendo-lhe os pensamentos. – Está tão pálida. Penelope concentrou-se na imagem que o espelho lhe devolvia da outra mulher. – Acerca da tua vida anterior – disse baixinho, ruborizando-se ao ver que Fiona estremecia levemente. – Alguma vez tens saudades da tua vida anterior com Wharton? Fiona colocou ruidosamente a escova no toucador. – Wharton fez-me coisas que nunca esquecerei – disse em voz baixa. – E nunca perdoarei. Penelope acenou afirmativamente. A expressão do rosto pálido de Fiona recordoulhe tudo aquilo em que ela acreditava. Endireitou-se. Poderia combater os seus desejos, lutar contra as suas fraquezas. Quando, no dia seguinte, estivesse com Jeremy, dir-lhe-ia que já não desejava encontrar-se com ele. Que vira o suficiente. Se ele tivesse de facto mudado, a sua negação seria suficiente. E, se assim não fosse, nunca mais faria troça dela. A porta do quarto abriu-se e um criado entrou. – Acaba de chegar uma missiva para a senhora.


Penelope voltou-se para olhar para o criado. Mesmo do outro extremo do quarto conseguia aperceber-se de quem era a carta. Do seu admirador secreto. Do seu vício tentador. Era o primeiro teste à sua recém-tomada resolução. – Trá-la cá – disse, pondo-se de pé com a testa franzida. O jovem entregou a carta. Quando ele saiu, Penelope ficou a olhar a bem conhecida caligrafia. Para o selo de lacre na parte de trás. Mesmo antes de a ler, sentiu o corpo fraco, os seios pesados. Tremeram-lhe as pernas. Os dedos apertaram o papel, amachucando-o enquanto se aproximava silenciosamente do lume. – Que vai fazer? – perguntou Fiona, respirando fundo. – Vou queimá-la – disse Penelope por entre os dentes cerrados, estendendo as folhas para as chamas. O calor aquecia-lhe a mão trémula, mas não conseguia largar a carta, embora soubesse que deveria fazê-lo. Ficou a olhar para o brilho alaranjado das chamas que conferiam ao papel uma estranha cor amarelada. – Penelope – murmurou Fiona. Sufocando um soluço, Penelope recolheu a carta. Não podia fazê-lo. Sentia demasiada curiosidade acerca do que aquele homem diria a seguir. Sabia que se queimasse a carta se sentiria assombrada. – Maldição – murmurou enquanto quebrava o selo com tanta violência que rasgou o papel. Unindo-o leu a mensagem. Penelope, deve saber como vê-la sem a poder tocar é um tormento. Estarei esta noite no baile Trimble. Esperarei por si na primeira sala da ala ocidental da propriedade. Por favor, venha ter comigo à meia-noite. – Que diz ele desta vez? – perguntou Fiona aproximando-se. Penelope apertou a carta de encontro ao peito. Desde que Fiona vira o conteúdo da primeira carta, Penelope não deixara que a criada lesse as outras. Mas não tinha ilusões e sabia que a antiga cortesã teria plena consciência do tipo de coisas pecaminosas que o autor misterioso lhe escrevera nas cartas seguintes. – Quer encontrar-se comigo. Esta noite no baile Trimble – admitiu Penelope, ofegante, amarrotando as folhas. Fiona sorriu com os olhos brilhantes. – Que emocionante! Penelope ficou a olhá-la. Meu Deus, concordava. Era a emoção que lhe fazia inchar o peito e ficar húmida e desejosa. Abanou a cabeça.


– Não! – disse, furiosa consigo mesma. – Isto é completamente descabido, idiota e ofensivo! Fiona recuou ao ouvi-la falar naquele tom furioso. – P… peço desculpa, minha senhora – murmurou. – Não quis ofendê-la. Penelope baixou a cabeça envergonhada. Não estava certo descarregar os seus problemas em Fiona. Ficava assim tão boa como Wharton. – Não. Eu peço desculpa. Estas últimas semanas têm sido difíceis. E estes novos acontecimentos só causam maior confusão. A criada sorriu como se compreendesse os sentimentos de Penelope. – Que vai fazer? Penelope refletiu. – Em parte o meu desejo é esconder-me aqui como uma cobarde e evitar a festa. Fiona avançou abanando a cabeça. – A senhora? Cobarde? Não. É a mulher mais corajosa que conheço. Penelope corou de prazer com o cumprimento. Não tinha a certeza de merecer tamanho elogio quando o seu espírito era tão fraco. – Obrigada. Mas o facto de ser forte ou cobarde não pode ditar esta decisão. Lady Trimble está à minha espera na festa. É uma pessoa influente. Não posso recusar-me. Com um suspiro, Penelope começou a andar de um lado para o outro. – Suponho que possa simplesmente ignorar a carta, como se nunca a tivesse recebido. Nesse caso, esse homem esperar-me-á em vão e tudo terminará. A ideia deu-lhe uma sensação de desânimo que tratou de esmagar dentro de si. – Mas e se ele simplesmente não esperar? – perguntou Fiona. Penelope inclinou a cabeça. – De que estás a falar? – Passei muito tempo com homens atrevidos e sensuais como esse que lhe escreve – explicou a antiga cortesã. – Pode não esperar pela senhora e desaparecer entre a multidão quando perceber que ignora o pedido que lhe fez. Talvez se aproxime e a aborde diante de toda a gente. Penelope engoliu em seco. Deus do céu. Não pensara nessa possibilidade. Se o homem a abordasse em público, exigindo saber por que razão não comparecera a um encontro secreto com ele nas dependências privadas da casa do anfitrião, o escândalo seria terrível. Haveria quem se aproveitasse de qualquer falha do seu caráter. – É verdade. – Penelope andou de um lado para o outro no quarto, imaginando os piores cenários que poderiam resultar de tal coisa. Por fim olhou para Fiona. – Parece-me que não terei outro remédio senão encontrar-me com ele. Posso dizerlhe sem dúvida que já não desejo receber a sua correspondência. Talvez assim acabe com essa loucura.


Fiona avançou e colocou a mão no braço de Penelope com uma expressão preocupada. – Tem a certeza de que ele... não lhe fará mal? Penelope colocou a sua mão sobre a da outra mulher com um sorriso. Claro que Fiona recearia pela sua integridade física depois de tudo por que passara na sua vida trágica. Mas Penelope não se preocupava com isso. O modo como o desconhecido lhe escrevia não era ameaçador ou cruel. Era simplesmente ousado e erótico. Os seus medos estavam antes baseados na sua falta de autodomínio. Mas, talvez, quando visse o homem cuja imagem construíra na sua imaginação já não o desejasse. Talvez ele tivesse maus dentes, fosse calvo e ela o achasse repugnante. – Não me fará mal – prometeu ela. – Não deixarei. Desejava apenas não acabar magoada por si própria quando se encontrasse frente a frente com o homem cujas palavras a tinham assombrado. *** Jeremy ocultou-se nas longas sombras que enchiam a enorme sala escura e vazia de Lorde Trimble. Era uma sala da família e não pública, longe da ruidosa multidão que passava pelo cintilante salão de baile à distância de alguns corredores. Embora não tivesse visto Penelope sabia que ela se encontrava lá. O cocheiro informara-o da chegada dela enquanto esperava numa carruagem não identificada. Jeremy esgueirara-se por uma porta lateral e esperava-a agora. A espera era inevitável. Estava entusiasmado com a ideia. Em apenas... olhou para o relógio de bolso... apenas dez minutos, estaria com ela. Ela não poderia vê-lo na escuridão da sala, mas ele tocar-lhe-ia por fim. Seduzi-la-ia. Não sentia um desejo tão forte desde... de facto não conseguia lembrar-se de quando fora a última vez. Criado como filho mais velho de um poderoso duque, Jeremy habituara-se a ter o que queria, quando queria. Podia contar pelos dedos de uma mão as vezes que lhe haviam sido recusados charutos, cavalos ou mulheres. Na verdade, era extremamente aborrecido, pois não havia qualquer desafio em estalar simplesmente os dedos e ter uma mulher a cair-lhe aos pés. Penelope era um desafio. Persegui-la fora um trabalho difícil, mas nessa noite receberia a sua recompensa. Era um pensamento tão gratificante que sentiu o seu pénis endurecer. O ruído da porta a abrir-se acordou-o do seu devaneio e concentrou-lhe a atenção. Olhou enquanto a barreira era lentamente aberta e uma mão enluvada surgia. Penelope. Ela entrou. O luar despenhava uma longa coluna de luz pela janela e iluminava


perfeitamente a porta. No brilho enevoado, Jeremy via todos os pormenores das formas e do rosto de Penelope, mas ela não conseguia vê-lo na sombra. E Jeremy olhou-a com atenção. Envergava um vestido verde pálido com um elegante decote e mangas curtas de balão. Sobre os antebraços pendia uma echarpe mais escura, cujas borlas tocavam a curva das suas ancas enquanto avançava sala adentro. – Olá – disse em voz rouca e fraca. Apertou os lábios e repetiu-o com maior convicção. Jeremy continuou a olhar fixamente e fascinado para os seus lábios cheios a formarem as palavras. O rosto era quase pálido à luz fraca do luar, os olhos muito abertos e cheios de emoção que não tinha prática de esconder. Estava assustada e ansiosa. E cheia de um desejo que lhe brilhava no olhar com as outras emoções. Uma expressão séria invadiu-lhe o rosto ao não receber qualquer resposta de dentro da sala. Baixou os olhos e corou antes de se preparar para sair. Jeremy afastou a reação inesperada que a presença dela lhe provocou e murmurou: – Penelope. Teve o cuidado de manter a voz em surdina, disfarçando-a assim e com uma rouquidão forçada. Penelope sobressaltou-se ao som do seu nome e deu um salto para trás, afastando-se da luz do luar para ir ter com ele numa escuridão quase completa. – O que…? – começou ela. Ele não a deixou terminar. Avançando, pegou-lhe na mão. Ela sobressaltou-se ao toque, mas não o impediu quando ele a puxou para os seus braços. Ele envolveu-se nela, puxando-lhe o rosto corado para o seu peito, as ancas dela para as suas, as pernas dela também. Como era bom. Um céu inesperado que entrava no seu inferno sedutor. – Por favor – gemeu ela, mas a intenção da sua súplica não era perfeitamente clara. Jeremy não sabia se ela pedia que ele a tocasse ou que não a tocasse. E também ela parecia não saber. Imediatamente tentou empurrá-lo com os punhos, contudo, arqueou subtilmente as ancas junto às dele para se chegar ainda a mais. Com uma pequena gargalhada de prazer, Jeremy aproveitou-se da confusão dela, inclinando a cabeça e colando nos dela os seus lábios. Durante um breve instante, ela ficou completamente imóvel, os punhos de encontro ao peito dele, a boca apertada colada à dele. Mas depois soltou um pequeno gemido e agarrou-se ao casaco dele. Entreabriu os lábios convidando-o a entrar e, quando ele aceitou o convite, a língua húmida recebeu-o com uma febre quente e ávida. Jeremy apertou-a mais, abstendo-se de uma paixão grosseira. Chupou-lhe a língua, acariciou-lhe as costas, subiu-lhe o traseiro para a encostar mais ao seu pénis dorido, balançando-se nela, até a encostar à parede da sala escura.


Penelope gemeu quando se sentiu encostada à superfície dura e ergueu as ancas para as dele numa súplica muda. Valera a pena esperar por aquela doce rendição. Uma verdadeira rendição, não uma simulada como a das cortesãs ou até das viúvas. Jeremy conquistara de facto Penelope, vencera a sua resolução, quebrara-lhe a resistência. De cada vez que soltava um pequeno som de prazer, o seu pénis doía ainda mais. Até ficar quase louco de desejo. Afastando a boca da dela, passou-lhe os lábios pelo queixo, pela curva da garganta. Fez deslizar a sua mão para dentro do decote do belo vestido para lhe sentir o botão do seio, já tenso entre os seus dedos. Fez rolar esse botão entre o polegar e o indicador enquanto a sua boca descia sobre o tecido sedoso do vestido, passando abaixo do estômago, ainda mais para baixo, soprando o hálito quente na junção das coxas dela, desfrutando do modo como erguia as ancas para ir de encontro à boca dele enquanto soltava um grito de prazer. Jeremy não falou, nada perguntou enquanto metia as mãos por entre as camadas de seda do vestido, até revelar a delicada camisa de algodão. Também a afastou e encontrou a fenda das calças de cetim. Inseriu o indicador e passou a ponta dos dedos sobre a fenda húmida e suave escondida lá dentro. – Meu Deus! – gemeu ela, raspando com as unhas o elegante papel de parede que tinha atrás de si. Ele juntou outro dedo, abrindo e provocando as dobras macias, abrindo-a até sentir o aroma do desejo, até este lhe cobrir os dedos com a prova de que ela o desejava tanto como ele a ela. Mesmo sem saber quem ele era. Penelope tentou equilibrar-se junto da parede escorregadia. Tudo estava a acontecer depressa de mais. Tivera toda a intenção de terminar com aquela loucura, de exigir que o admirador misterioso terminasse aquela indesejável correspondência. Afinal, encontrava-se meia nua, com os dedos dele mergulhados no seu húmido canal e arrancando-lhe sensações diferentes de todas as que já antes sentira, até com o toque furtivo das suas próprias mãos. Ele acariciou-a com uma combinação de maliciosas intenções e infinita suavidade. Distendia-lhe o corpo, abria-o para… Ela sabia para quê. Ele tinha todas as intenções de levar aquela tórrida, inesperada e animalesca relação até ao fim. Ia possuí-la de encontro à parede do salão de um dos mais influentes e severos líderes da sociedade londrina. E Penelope nem podia falar para o impedir. Principalmente sentindo os dedos dentro de si e o murmúrio do seu hálito na carne nua. Baixou os olhos e viu avançar a sombra da cabeça dele. Semicerrou-os, mas não conseguiu discernir as feições dele na sala escura e silenciosa. Um amante sombra,


como o fora em todas as suas fantasias. Mas aquilo era real. O toque dos lábios dele na sua anca era real. O modo como puxava a sua roupa, rasgando o fino cetim, até que este caísse inútil junto às suas pernas e erguendo depois a boca para lhe dar o beijo mais íntimo, também era real. Firmou as pernas encostando a cabeça à parede atrás de si enquanto uma estranha sensação a invadia. A língua dele acariciava os lábios exteriores, brincava com o pequeno botão escondido nas dobras do seu sexo, chupava-o até o surdo e quente latejar do desejo subia nela num rápido crescendo, contra o seu desejo, contra a razão, e chegava impudicamente à libertação que tanto queria. A libertação do seu corpo, do seu espírito. A libertação de tudo aquilo por que lutara. Esse pensamento obrigou-a a deter-se. O seu corpo vacilava à beira da loucura e não podia permitir-se a tal. Com um suspiro já não de prazer, Penelope retirou os dedos do cabelo dele e afastou-se da língua maliciosa. – Não – gemeu, voltando-se para a parede e apoiando-se na sua superfície fresca enquanto alisava a saia. – Não, não, não posso. Jeremy olhou para Penelope, desejando poder ver os pormenores do seu rosto na escuridão. Ouvia-lhe apenas a respiração entrecortada, ofegante como a sua. O corpo dela estivera tão próximo da libertação que ele sentira na sua língua as primeiras palpitações. Provara o desejo desesperado da sua carne e sentira o alívio líquido sobre ele. E desejara mais. Nesse momento, não pensara noutra coisa senão em fazê-la soluçar com a libertação. Estremecer de prazer. E fazê-lo várias vezes até a deixar enfraquecida e satisfeita no chão por baixo do seu corpo. Nunca pensara na possibilidade de ela o recusar sem sequer se permitir a ter prazer. Ainda mais depois de ter tão fortemente reagido ao seu beijo, ao seu toque, ao seu calor. Subestimara aparentemente a dedicação dela àquela tola cruzada e ao estranho código moral. Ergueu-se e continuou a observar Penelope na sombra, apoiada à parede de costas para ele. – Penelope – murmurou e desta vez sem o cuidado de o fazer em voz rouca estranha. – Porque me afasta quando as reações do seu corpo me dizem que deseja que eu lhe toque? Ela voltou-se e nas sombras escuras viu-a sacudir a cabeça. – Não posso pensar apenas nos meus desejos. Deve sabê-lo, já que conhece a minha identidade. Não sei porque me escolheu para escrever as suas... Hesitou e ele ouviu-a soltar a respiração num suspiro entrecortado.


– … para escrever as suas cartas. Ele aproximou-se um passo e o corpo dela ficou tenso. – Porque a desejei desde que a vi. – Não – murmurou ela, mas Jeremy apercebeu-se de que ela o dizia para si própria e não para negar as palavras dele. – Não posso. Não posso permitir-lho. Não posso permitir-me. Afastou-se dele e atravessou a sala com passo inseguro até ficar de novo junto à porta, na zona iluminada pela Lua. Encostou a cabeça à ombreira, projetando os ombros para diante. – Por favor, não sei quem o senhor é, nem quero saber. Mas não pode voltar a escrever-me. Não pode procurar-me. Deixe-me... deixe-me em paz. Abriu a porta e saiu imediatamente para o corredor, deixando Jeremy só. Este ficou a olhar para o local onde ela estivera, soltando uma breve imprecação, embora não se sentisse zangado. Não. Havia outra sensação que raramente experimentava. Desapontamento com um pouco de pena. O seu corpo estava tão tenso que sentia dores e sabia que não ficaria satisfeito nessa noite se não procurasse o prazer noutra mulher. Humedeceu os lábios e sentiu na língua a doce ambrosia do corpo de Penelope. Outra mulher satisfá-lo-ia temporariamente. Era Penelope que desejava. Ela fugira naquela noite, correra insatisfeita por entre a multidão, o que não significava que não tivesse mudado de ideias. Mesmo não se permitindo nem a ele a satisfação plena, rendera-se, entregara-se a um homem que existia apenas na sombra. A um desconhecido que a seduzira com palavras. O seu corpo fremente, os gemidos de prazer, haviam sido prova de que a bela Penelope escondia desejos perfeitamente opostos ao rígido código por que se guiava. Jeremy sorriu, lançou um breve olhar ao corredor e dirigiu-se à carruagem que o esperava. Poderia ir para casa naquela noite, excitado e insatisfeito, mas não tinha dúvidas de que com um pouco mais de tempo, um pouco mais de pressão, Penelope seria sua. Primeiro o corpo dela, depois a alma. E a causa a que se dedicava seria esmagada numa onda de prazer em que ele certamente a iniciaria.


Capítulo 8

As pontas rasgadas das calças de Penelope passavam-lhe pelas coxas ainda trémulas por baixo do vestido. O toque suave do tecido atormentava-lhe o corpo sendo uma recordação constante do que fizera e do que mais quisera fazer com um desconhecido cujas intenções não compreendia. Mas nada disso tivera importância no momento em que ele poisara os lábios nos seus. Esquecera toda a hesitação e rendera-se como uma ousada libertina. Corou enquanto recordava as agradáveis sensações que a haviam invadido na escuridão. E não se recordava de ter feito qualquer esforço para deter o desconhecido sem rosto quando ele a tocara. Tremiam-lhe as mãos quando retirou um copo de vinho do tabuleiro que um criado transportava. Enquanto tomava um generoso gole impôs a si própria acalmar-se, mas em vão. Queria ir para casa. Queria esconder-se das suas recordações. E, pior de tudo, queria até falar com Jeremy. Embora duvidasse das intenções dele, embora a presença dele a pusesse nervosa e cheia de desejo, queria vê-lo. Queria contar-lhe o que acontecera e pedir-lhe conselho. Ele não a condenaria. Não pensaria que ela era repugnante. Ele compreenderia. Ou não? – Penelope! Penelope endireitou os ombros ao som agudo da voz de sua mãe vinda do salão de baile atrás de si. Meu Deus, logo naquela noite em que não a queria ver. Passar algum tempo com Dorthea Albright era já uma provação, mesmo quando Penelope não tinha os nervos em franja e um corpo dorido e vazio que a recordava dos seus pecados. Penelope voltou-se com uma careta. A mãe abria caminho por entre a multidão com a irmã mais nova de Penelope, Beatrice, que sorria a seu lado. – Olá, mãe – disse Penelope. – Beatrice, onde está a Winifred? Beatrice cruzou os braços e franziu a testa. – Convidaram-na para dançar, o que não é justo. Sou um ano mais velha que ela. Se um jovem quer dançar com uma Albright, deve escolher-me. Penelope evitou responder. Não valeria a pena fazer notar a Beatrice que, provavelmente, a sua atitude de superioridade e expressão amarga afastavam os jovens do desejo de a cortejar. Beatrice sempre fora a preferida da mãe, criada com uma pretensão de direitos que não se adequavam à sua situação. Era fria e mimada e a sua


atitude afastava tanto os homens como as mulheres. Penelope pensava muitas vezes que a irmã se deveria sentir terrivelmente sozinha na torre de marfim que construíra em seu redor. Mas nada a detinha a ela ou à mãe de encorajarem tal atitude de vaidade e superioridade. – Não se preocupe com a Winifred – declarou Dorthea. – O rapaz com quem ela está é apenas filho de um barão. Certamente não vale o seu tempo. Penelope disfarçou uma exclamação de desagrado. A mãe falara tão alto que certamente várias famílias tinham ouvido o desagradável comentário. – Mãe – murmurou, agarrando o braço da mãe. – Está a dizer o que não deve. – Não estou – insistiu a mãe libertando-se. – Winifred não deveria casar com menos do que um conde, como a irmã. Beatrice acenou afirmativamente. – Sim, Penelope, e a menina não deveria falar. Afinal, tem andado a ver se apanha um duque. Penelope abriu a boca e ficou a olhar para a mãe e para a irmã. – Em primeiro lugar, não somos uma família de titulares e, embora Miranda tenha casado com um conde, não quer dizer que Beatrice e Winifred tenham de casar com um nobre – depois voltou-se para a irmã. – Quanto a eu querer casar com um duque, não faço ideia onde ouviste esse boato, mas não vou casar com pessoa alguma. A mãe sorriu. – Então, a sociedade não fala noutra coisa senão em que a menina e o duque de Kilgrath foram vistos a falar muito chegados. Esse homem tem seis propriedades e pelo menos cinquenta mil libras por ano, Penelope! Vai ficar ainda melhor que a sua irmã Miranda. Sinto-me tão orgulhosa! Penelope engoliu em seco. Sentia a cabeça à roda. Francamente! Estariam as pessoas a dizer tais coisas? Com a mãe era difícil distinguir a diferença entre a verdade e uma ilusão proveniente da esperança. – O duque de Kilgrath interessou-se pelas minhas ideias acerca do comportamento dos homens dos seus círculos – insistiu Penelope. – Não namoramos. Embora fosse uma coisa que de vez em quando tinha de recordar a si própria, como por exemplo nesse mesmo dia, quando ele lhe mostrara a pecaminosa galeria onde guardava a sua arte erótica. O sorriso da mãe desapareceu. – Oh, meu Deus, menina, as suas ideias. Vai estragar tudo se continuar com essa conversa. Minha querida, está a arranjar uma estranha reputação, tão prejudicial como se andasse pelos cantos escuros como uma mulher de virtude fácil. Penelope mordeu o lábio. Fora o que andara a fazer uma hora antes. E não andara só, quase se rendera às carícias pecaminosas de um homem cujo rosto nem chegara a ver.


E gostara, o que a transformava na maior fraude do mundo. – … e quando falar com Miranda e Ethan, espero que o faça – prosseguiu a mãe. Embora Penelope não soubesse sobre que assunto a mãe falava, a menção da irmã e do marido obrigaram-na a prestar atenção. – Falar com a Miranda e o Ethan? – repetiu ela com o coração a saltar-lhe no peito. – Não tenho a mínima intenção de falar com eles. A mãe franziu a testa. – Não entendo por que razão a menina se zangou com a sua irmã. Até ao casamento dela eram unha com carne. É um disparate ter inveja daquilo que ela conseguiu, sabendo que o marido dela pode ser muito influente na sua vida. Penelope sufocou uma gargalhada pouco senhoril. Oh, sim, Ethan Hamon, conde de Rothschild, podia ser muito influente. Ela vira em primeira mão como ele era influente. E se a mãe soubesse como ele «cortejara» Miranda, talvez ele não fosse tão do seu agrado. Infelizmente, a mãe apenas via o dinheiro e a influência que o casamento da filha trouxera à família. Talvez julgasse que os meios justificassem os fins. Mas Penelope não pensava assim. – Estão aqui esta noite e a menina vai falar com a sua irmã! – insistiu Dorthea, fechando bruscamente o leque e batendo com ele na mão. – Esta zanga entre as duas tem de terminar. Penelope soltou uma exclamação ofegante enquanto observava o salão. Claro que a menos de vinte passos de distância encontrava-se Miranda, sua irmã mais velha, com a mão pousada na curva do braço do marido. Encostava-se levemente a ele e olhava-o enquanto lhe murmurava umas palavras. Não era difícil adivinhar o tópico da conversa pelo modo como Rothschild lhe devolvia o sorriso, esboçando outro malicioso. Penelope afastou os olhos. – Vou para casa – disse com os dentes cerrados. – Não vai, não – afirmou bruscamente a mãe estendendo a mão para ela. Penelope esquivou-se ao gesto da mãe. – Vou. Encontrou a irmã pela segunda vez e viu que o casal se dirigia para elas. Do extremo oposto do salão, o olhar de Miranda cruzou-se com o seu. Penelope sentiu o coração apertado. Miranda fora outrora a sua melhor amiga, a sua confidente mais íntima. Ou, pelo menos, pensara que o fossem, mas tudo acabara por ser uma mentira. Mesmo assim, quando olhou Miranda nos olhos, viu a relação íntima que haviam partilhado. Viu o afeto e o amor da sua irmã mais velha. Mas depois olhou para Miranda e Ethan juntos e viu todas as mentiras, todos os enganos. E viu ainda a lembrança de tudo o que nem sequer pudera desejar, muito


menos ter. Era outra recordação vergonhosa de como estivera próximo de descartar as virtudes que enaltecia. – Boa noite – gaguejou antes de se retirar a toda a pressa, com os chamamentos da mãe ainda a soarem-lhe aos ouvidos.

Jeremy andava de um lado para o outro no quarto com o roupão a bater-lhe a cada passo nas coxas nuas. Embora fosse quase meio-dia e quase doze horas se tivessem passado desde que estivera com Penelope, a intensidade daquele extraordinário encontro ainda o perturbava. E as recordações... pois bem, eram perfeitas. Ainda sentia o leve perfume e o calor da pele dela sob a sua. Sentia ainda o sabor daqueles lábios. Uma combinação rude e doce que lhe endurecia o pénis por muito que procurasse a libertação com a sua própria mão. Fizera-o mais do que uma vez desde que ela o deixara, porém, mesmo agora a excitação perturbava-o por baixo do roupão. Permitir que Penelope se fosse, sabendo que a teria convencido a voltar com mais um beijo, mais uma carícia, fora muito difícil. Quase impossível. E perturbava-o. Havia muito que não sentia uma coisa tão forte por uma mulher. O desejo era uma fome que alimentava e depois esquecia. Mas com Penelope era diferente. A imagem dela atormentava-o. E também a certeza de que teria podido cumprir o seu dever na noite anterior. Podia ter combinado para que os dois fossem surpreendidos naquela sala. Qualquer dos seus amigos gostaria de ter levado lá testemunhas respeitáveis a uma hora combinada para que a cena apaixonada fosse interrompida. Se alguém tivesse assistido àquela cena selvagem e erótica, Penelope ficaria arruinada. As damas que tão encantadas estavam com as ideias de Penelope acerca dos males da sociedade libertina não deixariam passar o espetáculo escandaloso dado pela mulher que admiravam. E os seus amigos ficariam completamente satisfeitos com a ruína de Penelope. Mas Jeremy não fizera esses preparativos. Não quisera ser interrompido. Não quisera terminar ali a sua perseguição a Penelope. Apenas quisera tocá-la. E ainda queria. – Senhor duque, Lady Norman espera Vossa Graça na varanda do pôr do Sol. Jeremy sobressaltou-se ao ouvir a voz do mordomo e voltou-se repentinamente para ele. – Lady Norman? – repetiu, ignorando o facto de sentir o seu pénis cada vez mais duro ao pensar que ela estava ali. – Sim, senhor duque – disse o mordomo com um aceno sem tirar os olhos do rosto de


Jeremy. – Veio mais cedo. Não a esperava antes das duas – murmurou mais para consigo do que para o mordomo. – Vossa Graça deseja que lhe diga que não está? – Não! – disse Jeremy com um pouco mais de ênfase do que desejaria. Susteve a respiração. Não havia necessidade de se mostrar ansioso em tudo o que fazia ou dizia. – Não. Por favor, diga-lhe que desço assim que me vestir. E prepare o almoço. Creio que a senhora e eu poderemos almoçar juntos na varanda, pois está um dia muito bonito. Absteve-se de afirmar que desejava ver o sol do princípio da tarde brincar sobre o cabelo loiro de Penelope. – Sim, senhor duque. Vou mandar o Paddington também – disse o mordomo saindo do quarto com uma vénia. Jeremy sorriu e passou para o quarto de vestir enquanto esperava pelo criado. Se Penelope viera a sua casa quase duas horas antes do combinado, só poderia querer dizer que tinha qualquer coisa importante a contar-lhe. E tinha uma leve suspeita que teria a ver com o que se passara na noite anterior.

Não estava vestido. Fora o que o criado de Jeremy declarara antes de se retirar fazendo uma reverência e deixando-a à espera no sol quente daquele dia de verão. Penelope torcia as mãos no colo, sentindo-se bombardeada por pensamentos pecaminosos. Pensamentos do corpo nu de Jeremy. Pensamentos do que Jeremy lhe poderia fazer com aquele corpo nu. Pôs-se de pé de um salto e dirigiu-se ao muro da varanda. Agarrou-se à proteção e olhou para os jardins lá em baixo. Que se passaria com ela? Na noite anterior deixara que um homem completamente desconhecido a beijasse da maneira mais íntima possível e doze horas depois imaginava Jeremy Vaughn a fazer-lhe o mesmo. Os seus princípios esboroavam-se a uma velocidade espantosa. Baixou a cabeça e fechou os olhos, envergonhada. Como deixara as coisas chegarem àquele ponto? Não crescera à espera de um cruzado. Tivera sonhos de paixão e de prazer como qualquer outra jovem. Mas as coisas tinham mudado. Tinham mudado quando Penelope se apercebeu a que ponto chegaria Miranda para proteger a família. Tinham mudado quando Penelope casara e o conceito de paixão do seu marido era muito diferente do dela. Tinham mudado quando fizera alguns comentários frustrados acerca dos excessos pecaminosos dos homens da alta sociedade. Não sabia como, mas tinham-na transformado na mulher que era agora. Porém, parecia uma ilusão. Agora, ali ao sol revelador, no terraço de Jeremy, já não


estava certa de si. E na escuridão da sala, na noite anterior, com um desconhecido que a encostara à parede extraindo-lhe com a língua gemidos dos lábios também não sentira desejos de prosseguir a cruzada. Nem sentira que não o devia fazer. Pelo contrário. Sentira-se viva. Cobriu o rosto e soltou um trémulo suspiro. Já nem tinha a certeza de quem era ou do que queria. Viera a casa de Jeremy Vaughn duas horas antes do combinado, violando as regras sociais e abrindo-se a censuras como as que a mãe insinuara na noite anterior. Mas não se importava. Era como se já não conseguisse controlar o seu próprio coração, o seu próprio corpo, as suas próprias decisões. – Penelope, lamento tê-la deixado à espera. Ela voltou-se e deu de caras com Jeremy que caminhava pela varanda com um largo sorriso. Mas assim que ele lhe viu o rosto, o seu sorriso desvaneceu-se, transformandose num olhar de pura preocupação. Penelope sentiu o coração ainda mais apertado. – Sente-se bem? – perguntou ele, encurtando com alguns passos a distância que os separava. Pegou-lhe nas mãos e puxou-a para si para a olhar nos olhos. – Está tão pálida. Sente-se doente? Quer que mande chamar o médico? Penelope corou enquanto se libertava dos dedos dele. Era-lhe quase impossível pensar quando ele a tocava. – Não. S… sinto-me perfeitamente – gaguejou recuando um passo. – Estou simplesmente cansada. Tive uma noite difícil. Ele franziu a testa. – Suponho que o baile não tenha sido agradável. Houve mais comentários impertinentes da parte de outras pessoas? Foi novamente ameaçada? Ela abanou a cabeça. – Não. Ontem à noite não – esforçou-se por recuperar a compostura. – Mas a minha mãe estava presente. Sabe que parece que há quem tenha lançado o boato de que eu e o senhor namoramos? Jeremy recuou e Penelope não pôde deixar de notar um leve brilho de pânico que lhe escureceu os olhos já escuros. Mesmo que tivesse afirmado alterar o seu comportamento era evidente que não tinha qualquer interesse em se ver ligado apenas a uma única mulher. Ou pelo menos a ela. O que era perfeitamente compreensível, claro. Ainda não tinha a certeza dos motivos daquele homem. Mesmo que andasse à procura de um novo marido, e não andava, Jeremy Vaughn seria o último homem que escolheria. – Foi a sua mãe que lhe disse isso? – perguntou ele. Ela acenou afirmativamente, ele desviou o olhar. Só o falar com ele, calmamente, em voz baixa, parecia aquietar-lhe os nervos. Era estranho que, logo aquele homem, lhe pudesse causar tal reação.


– Não quero ofendê-la – declarou Jeremy com uma gargalhada. – Mas creio que a sua mãe poderia ter os seus motivos para dizer tal coisa. Penelope olhou repentinamente para ele. – Creio que o seu desejo mercenário para que cada uma das filhas se case com homens ricos não é segredo. Certamente o seu comportamento provocará troça em muitos círculos. Jeremy não respondeu e dirigiu-se à cadeira de onde se havia levantado. – Venha sentar-se. Beba qualquer coisa e depois vamos almoçar. Penelope hesitou. Partilhar uma refeição com aquele homem parecia tão civilizado, tão normal, depois de todas as coisas pecaminosas que tinham visto juntos. E, apesar das muitas imagens eróticas que ele lhe mostrara, almoçar com ele parecia ainda mais íntimo. – Por favor – insistiu ele, colocando-lhe uma mão nas costas e conduzindo-a delicadamente ao lugar. – Certamente passou-se mais qualquer coisa do que um mero encontro com a sua mãe. Talvez a possa ajudar? Penelope sentou-se e olhou para a toalha de linho engomada que cobria a mesa que tinha diante de si. As linhas do tecido esbatiam-se enquanto pensava no que haveria de fazer. Precisava de falar com alguém acerca do perturbador encontro da última noite. Penelope não queria que Fiona se recordasse das coisas desagradáveis do seu passado e, certamente, nunca falaria acerca do homem misteriosos que a seduzira com palavras e a excitara com o seu toque estranho e sem rosto. – Preciso de saber uma coisa – murmurou. Olhou para os olhos de Jeremy, procurando a verdade. Procurando nele as intenções e a honra. – Está a brincar comigo?


Capítulo 9

Jeremy sobressaltou-se ao ouvir aquela pergunta. Ao ver a expressão concentrada e sensual dos olhos azuis de Penelope começou por recear que ela tivesse descoberto a identidade do seu amante secreto. Mas ao examinar-lhe a expressão apercebeu-se de que não era assim. Já chegara à conclusão de que Penelope não era capaz de esconder as suas emoções. Por muito que se esforçasse. Mostrava no rosto a dor, o medo, a felicidade e o desejo. Se tivesse adivinhado a verdade, ele tê-lo-ia descoberto no momento em que entrara na varanda. – Brincar consigo? – repetiu ele, deixando que as palavras lhe criassem no espírito imagens sensuais da noite anterior. – O que quer dizer com isso? Penelope franziu a testa e a expressão deu azo a pequenas rugas em redor dos lábios dela, rugas que ele desejou poder apagar com um toque. Na noite anterior deixara de lhe ver claramente o rosto assim que ela saíra da zona iluminada pela Lua. Como seria a sua expressão quando ele lhe tocara? Quando o prazer a cobrira como uma onda. – A sua miraculosa transformação de um homem de vício num homem de honra. Isto será verdade ou uma brincadeira? – perguntou. Jeremy recuou ligeiramente. Embora sempre soubesse que Penelope não acreditava completamente na sua transformação, facto que respeitava, nunca esperara que ela expusesse as suas dúvidas com tanta franqueza. – Pode confiar em mim. Ele olhou-a calmamente. Ao contrário de Penelope, sempre fora capaz de disfarçar as suas emoções. Nunca se sentira culpado por isso. Agora punha de lado aquela desagradável reação. As suas mentiras tinham as melhores intenções. Para os amigos, claro, mas também para a mulher que tinha diante de si. Se conseguisse dar conta daquela situação, poderia vencer a guerra dela contra o pecado com chantagem e não expondo-a. Assim que ela desse por finda a batalha, a sociedade aceitá-la-ia outra vez. A vida de Penelope seria muito mais fácil e certamente segura. Contudo, a culpa continuou a incomodá-lo quando o rosto dela se descontraiu um pouco. Penelope acreditava nele. – Espero que seja verdade – murmurou. – Para o bem de ambos. – Diga-me o que se passa, Penelope – disse estendendo a mão para tomar a dela. – Por favor.


Ela acenou afirmativamente com um movimento brusco. – Recorda-se da carta que recebi quando voltámos do baile Cipriano? Ele inclinou a cabeça. – Sim. – Alvitrou que fosse uma carta de amor – disse ela, engolindo em seco. – Mas não era. Tenho recebido cartas que têm intenções… sedutoras… de um autor que mantêm a sua identidade secreta. Jeremy ergueu uma sobrancelha. Não esperara tanta sinceridade. – Sedutoras. Quer dizer que entram em pormenores… – Sim – interrompeu ela com as faces extremamente coradas. Também o pénis dele endureceu quando imaginou mais uma vez se ela teria corado daquela maneira na noite anterior. – Percebo. Penelope voltou as costas. – Ontem à noite, antes do baile, recebi outra. Desta vez, o autor queria encontrar-se comigo. – E foi ter com ele? – perguntou inclinando-se para diante, interessado. Até onde iria Penelope? Confiar-lhe-ia o que tinha feito? O que sentira quando ele a tocara. Ela acenou afirmativamente, com movimentos lentos, mas bruscos. – E quem era ele? – perguntou Jeremy, afastando-se, como se não estivesse grandemente interessado em saber. – N… não sei – gaguejou Penelope. – Escondeu-se nas sombras. O seu rosto foi sempre um mistério. – Que interessante – comentou ele, observando-lhe o rosto para lhe captar todas as expressões. Ela olhava-o de soslaio, fazendo o mesmo. – Deve ter alguma razão para se manter anónimo. Diga-me, de que falaram? Ela cerrou os punhos de encontro à toalha de mesa. – De nada. Eu tinha todas as intenções de lhe dizer que deixasse de me escrever, mas em vez disso… em vez disso, ele…ele… Jeremy inclinou-se com uma expressão de preocupação. – Ele magoou-a? Obrigou-a a fazer alguma coisa que não quisesse? Ela abanou imediatamente a cabeça e Jeremy sentiu uma estranha sensação de alívio por ela não o acusar de a ter forçado. – Não. Eu... eu gostei que ele me tocasse – cobriu o rosto. – Tudo se descontrolou, não sei o que aconteceu. Fiquei aterrorizada por ter esquecido as minhas boas maneiras, a minha moral. Foi apenas num breve momento de lucidez em que me apercebi que deixaria que me fizesse tudo, mas tudo, que me afastei. Disse-lhe que queria que me deixasse em paz e fugi.


Jeremy engoliu em seco. Estava a ser terrivelmente difícil controlar-se e não afastar a mesa do caminho para atrair Penelope aos seus braços. Ao ouvir dos lábios dela todas aquelas emoções e reações era quase tão erótico como tocá-la. – Deseja então – perguntou com a voz um pouco rouca. – Deseja então que ele deixe de a perseguir? Ela ergueu bruscamente a cabeça e olhou-o de um modo estranho. Depois abanou a cabeça. – Não – admitiu com um soluço. – Não quero que ele me deixe em paz. Jeremy fitou-a. Tinha o rosto tão triste, tão perdido. Fora ele que causara aquela tristeza, arrancando dela a luxúria que escondia dentro de si, a mulher de desejos fogosos que Penelope insistia em ocultar por indevidamente a recear. – Não sabia em quem mais confiar – admitiu, recompondo-se. – Não creio que outra pessoa me pudesse compreender. Mas pensei... oh, deve julgar que eu sou a pior fraude depois de tudo o que lhe disse acerca dos males do desejo e do pecado. Jeremy abanou a cabeça. – Não, Penelope, não creio que seja uma fraude. E agrada-me muito que confie em mim. Jeremy decidiu ignorar o facto de ter jurado trair essa confiança, apesar de, por isso, sentir um aperto no estômago. – Que devo fazer? – perguntou ela. – O senhor está a tentar modificar o seu comportamento, não é verdade? Como hei de ignorar estes sentimentos? Estas coisas que nunca antes senti, que nunca compreendi. De novo Jeremy recuou um pouco. Penelope fora casada. Contudo, agia como se o desejo fosse para ela um conceito estranho. Já antes tinha dado a entender que o casamento fora infeliz. Agora Jeremy perguntava a si próprio até que ponto o teria sido. – Não há muito tempo que falámos do seu passado – disse ele em voz baixa e suave para a acalmar como que a uma égua selvagem. – E fiquei com a impressão que alguém... talvez o seu marido... lhe tivesse causado um desgosto. Penelope fez um gesto brusco e a mão caiu-lhe da mesa para o colo enquanto erguia para ele um olhar zangado. Estava tão pálida que, por instinto, Jeremy estendeu a mão para a acalmar tocando-lhe no braço. – Que aconteceu? – perguntou. Ela olhou para a mão que descansava sobre o seu braço, de novo como um olhar furioso. Jeremy sentiu o seu corpo reagir àquele olhar com enorme excitação e ficou grato à proteção da toalha por não revelar as suas intenções, já que Penelope as tentava constantemente perceber. De contrário, tudo estaria perdido. – Conheceu o meu pai? – perguntou em voz baixa e trémula. Ele acenou afirmativamente.


– Mais ou menos. – Então talvez soubesse um pouco acerca da sua… – hesitou, apertando um pouco os lábios. – Da sua falta de controlo. Jeremy franziu a testa. Muitos anos antes, quando ainda era rapazote, vira de facto várias vezes Thomas Albright em antros de jogo. – Se não o sabia, não era o único – murmurou ela. – Muito poucos tinham conhecimento da extensão dos seus problemas. Até mesmo nós, a sua própria família, o ignorávamos até à sua morte. Apenas quando a minha irmã Miranda tomou conta das finanças da casa nos apercebemos do montante da sua dívida. E apareceram «cavalheiros» a exigir o pagamento – estremeceu. – Alguns exigiam o pagamento em termos muito desagradáveis. Mas Miranda recusou-os a todos. Julgava-a muito forte. Mas sabia que, pelo menos, uma de nós teria de casar acima da nossa classe, apesar de não termos fundos para financiar tal coisa. Porém, de repente, há dois verões, Ethan Hamon, nosso vizinho, ofereceu-nos dinheiro, para uma temporada para mim, bem como para temporadas para as minhas irmãs. Afirmou que tinha uma dívida a pagar ao meu pai e era a maneira de o conseguir fazer. Jeremy franziu a testa. Poderia não se recordar bem de Thomas Albright, mas Ethan Hamon era outra história. O conde de Rothschild fora famoso pelos seus vícios, a maneira como tratava as mulheres, as suas proezas sexuais. Porém, não lhe constava que gostasse de contribuir para obras de caridade. A ideia de ele financiar as temporadas das filhas do vizinho não lhe parecia verdadeira. – Porque o fez? Era íntimo da sua família? Penelope soltou uma gargalhada pouco agradável, rouca e dura como a sua expressão. – Não creio. Mas, afinal... – hesitou, mas o seu olhar ficou preso no dele. – A minha irmã fez um negócio com ele. Ele prometeu pagar as nossas temporadas e ela... ela... Jeremy abriu os olhos de espanto. Então Miranda Albright vendera o corpo para proteger as irmãs. Murmurara-se discretamente acerca da relação dos Rothschild antes do casamento, mas Jeremy considerara essas conversas simples mexericos. Miranda parecia tão decente e não havia dúvida que domara Rothschild no curto espaço de tempo do seu casamento. – Percebo – disse ele erguendo a mão. Queria ouvir como a história afetara Penelope, mas dizer em voz alta o que a irmã tinha feito era-lhe obviamente difícil. – Miranda e eu sempre fomos muito amigas – continuou. – Mas ela nunca me confessou essa maliciosa combinação e fui eu que a descobri quando os encontrei... abraçados... durante o baile em que fui apresentada à sociedade. Jeremy virou a cabeça para olhar para ela. Um abraço? Não. Devia ter sido mais do que isso. Penelope era inocente e não havia dúvida de que amava profundamente a


irmã. Ver Miranda no auge da paixão logo com um homem como Rothschild... percebia como aquilo a podia afetar. – Mais tarde, Miranda confessou-me que, não só fizera o acordo por vontade própria, como gostara. Recusara as propostas de casamento de homens muito corretos, simplesmente porque desejava aquele tipo de paixão – Penelope franziu a testa. – Fiquei tão... zangada. – Zangada? – repetiu Jeremy, genuinamente confundido. Ela acenou afirmativamente. – A nossa família passava por grandes dificuldades, as nossas vidas estavam até em causa e a minha irmã estava disposta a manchar a sua inocência por uma qualquer fantasia da sua cabeça. Nessa noite, jurei fazer eu o sacrifício que ela não quisera e casar com o primeiro homem com título e fortuna que me pedisse a mão, quem quer que ele fosse, para impedir que Miranda cometesse mais erros. Nem que fosse para proteger as minhas irmãs mais novas das consequências da sua ação egoísta. Jeremy olhou-a. Estava sentada tão direita que ele receou que se lhe tocasse ela se partisse. – E foi então que conheceu o visconde Norman – insistiu Jeremy suavemente quando viu que Penelope parecia demasiado perdida nos seus pensamentos. Ela acenou bruscamente com a cabeça. – Ele assistia nessa noite à festa. Quando voltei para a sala depois do meu confronto com Miranda, atirei-me àquilo que considerei ser o meu dever. Nada sentia pelos homens que me rodeavam. E nunca senti nada por George. Mas ele tinha um título e prometeu ajudar a minha família. Assim, quando pediu a minha mão, aceitei. – Mas por fim a sua irmã e Rothschild casaram – disse Jeremy sacudindo a cabeça. – E o conde tem posses e influência que ultrapassam de longe a fortuna de Norman. E, pelo que parece, Ethan iria buscar a lua se a sua irmã lho pedisse, portanto, porque não quebrou o noivado quando foi claro que Rothschild pretendia cumprir o seu dever? Penelope susteve a respiração e foi evidente pela sua expressão que o casamento de Miranda e Ethan fora fonte de muita confusão e até ciúme. Sim, era ciúme que Jeremy via cintilar-lhe nos olhos azul-claros. Interessante. – Eu e a minha irmã trocámos palavras muito ásperas. Depois do que ele fizera, pensei que não poderia confiar em Ethan e certamente não queria acreditar na sua honra, nem desejava viver sob o seu teto – rangeu os dentes. – E admito que fui teimosa. Pensei que a minha vida com George não seria pior, por isso fui em frente com o casamento. Porém, foi... – tomou fôlego. – Foi um erro terrível. Jeremy viu-lhe as lágrimas aos cantos dos olhos e sentiu o peito apertado. Hesitante cobriu-lhe a mão com a sua. – Porquê?


Ela abanou a cabeça. – Eu era um troféu para ele. Uma maneira de provar as suas proezas apesar da sua avançada idade. Mas não gostava mais de mim do que eu dele. A proeza que tentava realizar falhava. Quando não conseguia excitar-se, culpava-me. Dizia – hesitou. – Dizia-me coisas inimagináveis. Palavras que soarão aos meus ouvidos até eu soltar o último suspiro. Jeremy apertou os lábios. Podia imaginar as coisas que Norman teria dito. Nunca gostara do canalha. Agora ainda gostava menos. – Quando o conseguia fazer – prosseguiu ela, permitindo que uma lágrima lhe deslizasse pelo rosto, silenciosa – não se importava com o meu prazer. O meu único consolo era que essas noites eram muito espaçadas e as suas atenções eram de curta duração. A raiva de Jeremy aumentou. A ideia de um homem poder ter aquela deusa na cama e não adorar o corpo dela como era devido era uma terrível tragédia. Que ele pudesse magoá-la era uma ofensa imperdoável. – Via a minha irmã, que tudo sacrificara ao seu prazer, com um casamento feliz – murmurou Penelope em voz rouca. – E ali estava eu, sacrificando-me por todos e a viver num inferno. Parecia-me desesperadamente injusto. O desentendimento entre as duas aumentou, fiquei cada vez mais só. E, quando George morreu, fiquei com uma grande herança, um título respeitável e uma vida vazia. E agora nem sequer tenho vida. Estas semanas mudaram-me, Jeremy – abanou a cabeça. – Já não sei quem sou, o que quero ou o que devo fazer. Este homem misterioso oferece-me prazer e descubro que quero aceitá-lo, apesar de não estar certo. Apesar daquilo que disse vezes sem conta acerca do assunto. Jeremy acenou com a cabeça fingindo refletir antes de lhe responder. Na verdade, estava emocionado por Penelope o desejar, principalmente depois do tormento do seu casamento. Sentia-se ainda mais impelido a dar-lhe um prazer diferente de tudo o que ela imaginara. Para a seduzir e a fazer ver que a sensualidade que combatia não era apenas exploradora e cruel. Mas era triste que tudo o que ela pensava estar a acontecer-lhe ser, na verdade, uma manipulação. Já lhe tinham causado tantos desgostos e ele causar-lhe-ia ainda mais. Jeremy abanou a cabeça. Mas o que estava ele a pensar? Um mês antes não se teria preocupado nem um pouco com a tristeza de Penelope. Ou com o seu passado. Tinha de esquecer o facto de estar a começar a gostar desta mulher e concentrar-se na tarefa que tinha entre mãos. – Quer o meu conselho? – perguntou ele levantando-se e dirigindo-se ao muro da varanda. Encostou-se ao corrimão e olhou para ela. Ela acenou afirmativamente.


– Sim. O senhor tem muito mais experiência do que eu nestas coisas. E afirmou querer melhorar a sua conduta. Diga-me, Jeremy, o que hei de fazer? Como deter esta loucura? Ele inclinou a cabeça. – Não creio que deva fazer qualquer tentativa para a deter. Creio que deve aceitar o prazer que lhe oferecem, Penelope.


Capítulo 10

Penelope olhou para Jeremy, com os olhos enormes como pratos, por muito que tentasse disfarçar que se sentia afetada pela sugestão. – Aceitar o prazer? – repetiu ela, esperando que a imensa confusão e a tentação que a resposta provocara nela não fossem denunciadas pelo seu tom de voz e expressão. – Não está a falar a sério. Ele acenou com a cabeça. – Claro que estou. Esse homem está a oferecer-lhe um presente e creio que seria louca se não o aceitasse. Ela franziu a testa. Pensara que Jeremy lhe diria para lutar contra os seus desejos mais íntimos. Ou até que sentisse ciúmes por ela ter permitido aquelas liberdades a outro homem. Embora não namorassem, por vezes, sentia uma ligação entre eles. Uma fenda de calor escaldante que a atraía. Mas talvez tivesse compreendido mal a situação. Talvez Jeremy não se sentisse atraído por ela. Neste ponto, a sua expressão enfadada e completa falta de emoção eram prova desse facto. – Não compreendo – disse Penelope. – Se me render a esse homem, irei contra tudo aquilo que disse e fiz, contra todos os argumentos que usei para combater os excessos sexuais da nossa classe. Ele acenou com a cabeça. – Percebo porque vê as coisas dessa maneira, mas estou a ver as coisas de um ponto de vista inteiramente diferente. Permita-me que lhe explique. Penelope hesitou. Interrogava-se mais uma vez se não estaria a ser troçada por aquele homem. Jeremy jurara que ela poderia confiar nele, mas agora dizia-lhe que desistisse de todos os seus ideais. – Pois não – murmurou por fim, a curiosidade ultrapassando-lhe a razão. – Penelope, a senhora combate numa guerra – disse ele aproximando-se lentamente. – Também não é uma guerra bonita. Quando fala da falta de moralidade dos homens da alta sociedade, quando encoraja as esposas infelizes a enfrentarem os maridos e a exigirem um melhor tratamento, há nos meus círculos quem o considere uma tática dissimulada. E não se coíbem de responder com pouca consideração por si. E o facto é que a senhora está desarmada. – Desarmada? – repetiu ela, abanando a cabeça confusa. – Que quer dizer com isso? – Quando lhe falei pela primeira vez acerca da minha… – Penelope pensou que ele


hesitava por momentos, mas logo Jeremy prosseguiu sem que o seu rosto mostrasse qualquer incerteza. – Acerca da minha mudança de opinião em relação às minhas atividades passadas, ofereci-me para lhe mostrar um pouco do mundo contra o qual a senhora combatia. Pensei que isso a levaria a conhecer melhor o seu inimigo. Mas, até esta tarde, não me apercebi do pouco equipada que está para o combater. Umas noites escondida nas sombras para ver os excessos sensuais clandestinos não serão o suficiente. Penelope pôs-se de pé. – Continuo a não perceber. – Bem sei que não – suspirou ele. – Sabe, como foi casada parti do princípio que sentira em primeira mão os prazeres do sexo. Que tinha conhecimentos básicos da razão pela qual os pecados da carne atraem as pessoas e que, quando visse o lado obscuro desse prazer, completaria a sua educação. Mas acaba de me dizer que a cama do seu marido nunca foi para si um local de desejo. Nunca um esconderijo afetuoso e agradável. As faces de Penelope estavam muito vermelhas e ela afastou-se, mas Jeremy estendeu o braço para a manter no mesmo lugar. Pegou-lhe no queixo com a outra mão e ergueulhe o rosto para que ela não pudesse evitar o seu olhar perscrutador. – A culpa não foi sua – murmurou. – O que Norman fez não foi por a senhora não ser desejável. Ela susteve a respiração. Sem saber, Jeremy tocara-lhe no medo que há tanto tempo a assombrava e de que nunca falara a ninguém, tal como mantivera em segredo o seu casamento triste e vazio. Mas Jeremy adivinhava-lhe os pensamentos. Jeremy conheciaa sem ter de perguntar. E isso afigurava-se-lhe uma perspetiva terrível. Quereria aquilo dizer também que ele sabia o que era melhor para ela no que dizia respeito ao desconhecido que lhe oferecera sedução e pecado a coberto da escuridão? – Disse que gostou quando esse homem, fosse ele quem fosse, a tocou ontem à noite – continuou. Ela concordou. – Sentiu prazer? – Sim – disse, a palavra saiu-lhe da garganta com alguma dificuldade. – Impedi-o de avançar antes de poder sentir mais, mas foi prazer. Ele engoliu em seco e Penelope viu a maçã de adão de Jeremy subir e descer. – Bom – ela inclinou a cabeça e ele apressou-se a explicar. – Só quero dizer que sentir prazer a pode ajudar. Digo-lhe que se deve render àquilo que esse homem lhe oferece, porque algumas noites sob a sua tutela, compreenderá perfeitamente os desejos que levam outros a excessos sexuais. Penelope soltou-se da mão dele e recuou. Quando ele explicava assim a sua lógica,


quase fazia sentido. Jeremy tinha razão ao dizer que ela nunca compreendera completamente a razão por que as mulheres se rendiam aos homens ou porque os homens procuravam mulheres fora do casamento sem pensar nas consequências. Compreendê-lo dar-lhe-ia força, desde que não se perdesse também. – Mas há muitos riscos – murmurou, mais para si própria do que para ele. Jeremy abanou a cabeça. – Nem por isso. O que esse homem lhe oferece é temporário. É secreto. – Não – disse ela. – É secreto para mim, mas ele conhece a minha identidade. Sabe o meu nome e viu o meu rosto. Pode facilmente trair-me. Jeremy apertou os lábios e pareceu ponderar o assunto. Ela deu por si a inclinar-se, à espera que ele lhe acalmasse aquele medo. Em parte, esperava secretamente que ele encontrasse um modo de lhe permitir aquele prazer. Porque ela desejava-o. Odiava-se por isso, mas desejava-o. – Suponho que ele tenha um qualquer motivo perverso – concordou e Penelope sentiu-se desiludida. – Mas ontem à noite teve todas as oportunidades para a expor e não o fez. Penelope deteve-se. – Sim, é verdade. Se tivesse combinado com alguém para sermos descobertos… – afastou lentamente a ideia com um arrepio. – Teria sido a minha ruína. Mas ele não o fez. – Então talvez não seja essa a intenção da sua sedução – Jeremy voltou-se repentinamente de costas para olhar para as propriedades. – O mais provável será que ele simplesmente a deseje. Penelope suspirou e foi ter com ele para olhar para a relva fresca lá em baixo no jardim. – Pode ter-me desejado ontem à noite, mas eu rejeitei-o. Disse-lhe que me deixasse em paz. É perfeitamente possível que já não queira, mesmo que eu soubesse como contactá-lo. Jeremy voltou-se para ela. Penelope recuou ao sentir a intensidade dos olhos dele que a atraía para a escuridão que neles via. – Seria louco se já não a quisesse – disse ele em voz baixa e sedutora. Penelope entreabriu os lábios. Ali estavam ambos, falando acerca de ela ir para a cama com outro homem, cedendo a uma relação secreta com o único objetivo de compreender o prazer; contudo, tinha uma ligação com Jeremy e o seu corpo traiçoeiro aquecia sob o olhar dele enquanto se sentia húmida e preparada por baixo das saias. Inclinou-se para diante e ergueu as mãos trémulas. Ele observava-lhe todos os movimentos sem se aproximar. Mas exatamente no momento em que Penelope estendia os dedos para agarrar o tecido fino das lapelas do casaco de Jeremy, a porta do terraço


abriu-se para deixar passar uma criada trazendo o tabuleiro. – O almoço, senhor duque – disse a jovem, colocando o tabuleiro atrás deles. Penelope afastou-se bruscamente dele. Ficou a olhar para Jeremy, abismada com a sua falta de controlo. Quisera beijá-lo. E tê-lo-ia provavelmente feito se não tivesse sido interrompida pela criada. – N... não posso ficar – gaguejou, recuando para junto da porta. – Lamento, mas tenho de ir. Antes que ele pudesse reagir, Penelope fugiu, sem se atrever a olhar para trás. Sem se atrever a ver se ele a chamava. Sem se atrever a descobrir se, se assim fosse, seria capaz de resistir.

Jeremy passou os dedos pela superfície de madeira do aparador olhando sem ver para o copo de uísque que acabara de servir a si mesmo. – Uísque tão cedo? – perguntou o irmão atrás dele. – Haverá alguma coisa que queiras discutir? Jeremy voltou-se para o irmão mais novo. Christopher Vaughn estava negligentemente sentado no sofá, com um ar tão dissoluto como o que costumava ter quando os dois percorriam Londres em busca de vício e prazer de todos os tipos. Mas a aparência do irmão não passava de uma ilusão. Casara havia seis meses e não fora um casamento forçado ou falso. Casara porque, segundo afirmava, se apaixonara. E, desde aí, a relação dos dois irmãos não era a mesma. De facto, Jeremy evitava até a companhia do irmão em vez de a procurar. Não sabia simplesmente como lidar com a recém-descoberta fidelidade e paz de Christopher. Todavia, após a fuga de Penelope, sentira necessidade de ir ali ter com o irmão, para falar com ele como antigamente. Porém, as palavras pareciam não querer surgir e um desagradável silêncio preenchia o espaço entre eles. – Jeremy – repetiu o irmão endireitando-se. – Passa-se alguma coisa? Jeremy encolheu os ombros e atirou-se para cima de uma cadeira em frente de Christopher. – Não. Claro que não. O que haveria de se passar? Tenho uma vida perfeita. O irmão ergueu as sobrancelhas, mas, se tinha algum argumento contra, preferiu guardá-lo para si. – Só pergunto porque geralmente evitas a minha companhia, a menos que a mãe esteja na cidade. E como vai ficar no continente pelo menos mais um mês. Jeremy apertou o copo com os dedos. – Não te agrada a minha companhia? – perguntou em voz tensa.


Christopher abanou a cabeça. – Claro que agrada. Sinto a falta do tempo que passávamos juntos. Só não estava à tua espera hoje. E agora que aqui estás, pareces alheado, distante. Sinto que me queres dizer qualquer coisa, mas hesitas. Se te puder ajudar, sabes que o farei. Não importa que as coisas tenham mudado. Continuamos a ser irmãos, Jeremy. Jeremy olhou para o irmão. Christopher tinha menos um ano que Jeremy e este passara toda a juventude a imporlhe o estatuto de irmão mais velho. Mesmo em adultos, Jeremy sempre se sentira mais mundano, com mais experiência. Mas agora Christopher olhava-o como se olha uma criança. E Jeremy sentia que o irmão sabia mais do que ele. Era uma sensação estranha. Poderia contar a Christopher os seus planos em relação a Penelope? Ou as suas interações com ela que o faziam sentir de uma maneira tão estranha? O irmão compreenderia os seus motivos ou ficaria horrorizado ao saber a que Jeremy se prestara apenas para proteger aqueles que haviam sido amigos mútuos? – Duvido que compreendesses – disse Jeremy com um aceno que não refletia de modo algum o seu turbilhão interior. – Porque estou apaixonado? – perguntou Christopher sereno. Tinha um pequeno sorriso conhecedor que não agradava a Jeremy. – Amor – disse com desdém. – Devias experimentar – aconselhou o irmão calmamente. – É um sentimento que tem muito que se lhe diga. Jeremy abanou a cabeça. – Queres dizer ter só uma mulher e mais nenhuma? Ora! Parece uma prisão. Christopher deixou de sorrir e a centelha do seu olhar foi substituída por uma expressão ainda mais irritante. Pena. – Se é assim que de facto vês uma união de almas, então és um infeliz. Espero que um dia encontres uma mulher que te faça mudar de ideias. De contrário, vais levar uma existência vazia, não tenhas dúvidas. – Há pouco tempo também tu levavas uma «existência vazia» – lembrou Jeremy irritado e mais sensível do que desejava parecer. – Sim. E não lhe sinto a falta – disse com um aceno. Jeremy olhou para o irmão. Como poderia ser verdade? Era Christopher quem mais comemorava a sua liberdade. Como poderia sentir-se verdadeiramente satisfeito com a existência de um casamento enfadonho? Como se respondesse a uma deixa, a porta abriu-se e Hannah Vaughn entrou e interrompeu a conversa. Jeremy observou a cunhada enquanto esta andava pela sala. Não se podia negar que a mulher de Christopher era uma beleza. Com uma massa de


caracóis castanho-arruivados a emoldurara-lhe o rosto e a fazer sobressair o verde alegre e brilhante dos seus olhos, era exatamente o tipo de mulher que sempre atraíra o irmão. Só que Christopher não a tinha simplesmente seduzido como a tantas antes dela. Casara com ela. Jeremy levantou-se por delicadeza enquanto com um sorriso enorme a cunhada depositava um beijo na face do marido. – Ora é aqui que estás, meu querido – disse. Depois voltou-se para Jeremy sem a mais leve hesitação no olhar, apesar de este ter falado com ela apenas duas vezes em seis meses. Hannah avançou estendendo-lhe ambas as mãos. – Jeremy que bom ver-te aqui – apertou-lhe as mãos que ele também estendera. – Estou tão contente por teres podido vir. Eu e Christopher pensamos muito em ti. Jeremy sentiu-se pouco à vontade. – M... muito obrigado. Olhou para Hannah enquanto esta se sentava ao lado do irmão. Jeremy nem sempre a vira com bons olhos, mas ali estava ela recebendo-o calorosamente. Denegrira-a por não ser mais do que uma dama, contudo, o seu comportamento elegante envergonhava-o. Era uma mulher da classe de Penelope. E, embora esta última parecesse mais debilitada pelas circunstâncias que lhe relatara umas horas antes, Jeremy sentia uma leve suspeita de que as duas mulheres se entenderiam perfeitamente. Quase imaginava os quatro a tomar chá naquela mesma sala. Afastou bruscamente aquele pensamento perturbador. Meu Deus, deveria estar louco para pensar que tal coisa o pudesse satisfazer. Era o resultado das palavras do irmão e não de um verdadeiro desejo. – Tens sabido da tua mãe? – perguntou Hannah completamente alheia aos pensamentos do cunhado, embora Jeremy pensasse ver em Christopher uma expressão preocupada. Jeremy acenou afirmativamente. – Recebi carta dela há dois dias. – Parece que se está a divertir imenso com a viagem – referiu Hannah, rindo. – Quem diria que se havia de tornar numa aventureira? Jeremy enrugou a testa. A mãe partira de viagem logo a seguir ao casamento do irmão e escrevera-lhe muitas cartas. Mas tal como a que se encontrava naquele momento sobre a sua secretária em casa, a maioria nem tinha sido aberta. A outras lançara apenas uma vista de olhos. Adorava a mãe, mas simplesmente não se interessava pelo que ela fazia. Desde que ela estivesse de saúde, gostava de viver a sua vida e de a deixar viver a dela. Foi o primeiro momento em que se apercebeu de como era egoísta. Deus do céu, será


que sabia onde a mãe estava? Seria em Itália? Ou talvez Espanha. Porque não se preocupara o suficiente para o saber? Viu Christopher estender a mão e poisá-la suavemente no joelho de Hannah. Esta acariciava-lhe distraidamente o cabelo da nuca. Havia algo de tão íntimo nestes gestos, tão fáceis e à vontade. Durante meses, Jeremy sentira a perda da companhia do irmão e culpava Hannah por tê-lo afastado. Mas, vendo-o agora, apercebia-se de que Christopher era feliz. Aquilo fazia surgir no seu espírito uma questão perturbadora. E ele? Seria feliz divertindo-se por Londres? Seria feliz mantendo relações que nada significavam e passando noites indistintas e cheias de álcool? Seria feliz pondo-se às ordens de amigos de quem até nem gostava muito? – Jeremy? – chamou o irmão. Jeremy sobressaltou-se e olhou para ambos. Hannah e Christopher inclinavam-se para diante, olhando-o preocupados. – Desculpem-me – murmurou pondo-se de pé. – Esqueci-me de um compromisso a que não posso faltar. Obrigado por me receberes, Christopher – fez uma vénia desajeitada à cunhada. – Hannah. Boa tarde. Mal ouviu as despedidas enquanto saía da sala, sentindo as chamas do inferno lamberem-lhe os calcanhares a cada passo. O irmão apenas o confundira, mais nada. Jeremy não estava disposto a desistir da vida que levava. Era suficientemente preenchida e exatamente o que ele queria. Tinha razão e prová-lo-ia.


Capítulo 11

Como encontrar um homem sem nome? Um homem sem rosto? Penelope não podia pôr um anúncio no Times descrevendo o toque pecaminoso de um desconhecido, pedindolhe que lhe enviasse outra carta vergonhosa, pois criaria uma agitação escandalosa que seria falada nas décadas seguintes. Penelope andava para cá e para lá no quarto, abrindo e fechando as mãos, com os braços caídos ao longo do corpo. Quando se transformara naquela... naquela oferecida? Não. Não era uma oferecida. Jeremy tivera toda a razão quando lhe dissera que ela precisava experimentar o prazer para compreender o que levava os outros a sacrificarem tudo por ele. Se se ia render às carícias do seu admirador, fá-lo-ia com o objetivo de investigar e nada mais. – Mentirosa – murmurou, abanando a cabeça. Não fora certamente a pesquisa que a levara a querer tocar Jeremy na tarde do dia anterior. Não fora por mera curiosidade que lhe murmurara os seus mais íntimos segredos, embora ainda não tivesse a certeza de poder confiar nele. Tudo fora causado pela sua fraqueza. Nada mais. No entanto, não lamentava nem uma coisa nem outra. Durante muito tempo guardara apenas para si os pormenores do casamento de Miranda e o seu pesadelo. Esses segredos tinham apodrecido dentro dela, envenenando tudo o que dizia e fazia. Agora que os confessara em voz alta, sentia-se… livre. Talvez não tivesse sido intencional, mas fora um presente oferecido por Jeremy. E agora aceitaria novo presente dele. A sua permissão para se render ao desconhecido que lhe escrevia. Se conseguisse encontrar esse homem. Com um suspiro, cobriu o rosto no momento em que a porta se abria. – Não preciso de nada, obrigada – disse Penelope por entre os dedos. – Desculpe, mas recebeu uma carta. Penelope deu meia volta e encontrou Fiona à porta com uma missiva dobrada na mão. Penelope atravessou o quarto em passo apressado e arrancou-lha. Olhou para a caligrafia com o coração aos saltos. Era dele. – Sente-se bem? – perguntou Fiona inclinando a cabeça. Está tão pálida e mal comeu ontem à noite e esta manhã. Penelope olhou para Fiona distraída. – O quê? Não. Estou bem, obrigada. Desculpa mas quero ler a carta.


Fiona hesitou, olhando para as folhas que estremeciam na mão de Penelope. Esta corou. Fiona era a única pessoa que fazia ideia das coisas que diziam as cartas. E era evidente a preocupação da criada. – Eu... eu sei que não sou uma boa criada particular – disse Fiona em voz baixa. – Não sei o que faço, mas tento aprender. E sou uma boa amiga. E compreendo certas coisas, certos impulsos e sentimentos. Penelope agarrou a carta com mais força enquanto olhava surpreendida para Fiona. Nunca pensara que a criada quisesse revisitar antigos impulsos e sentimentos. Certamente lamentaria agora as suas decisões. – Poderá parecer despropositado dizer, mas, se a senhora precisar de falar com alguém, espero que pense em mim – continuou Fiona. Corada, Penelope voltou-lhe as costas. – Muito... muito obrigada, Fiona. Agradeço a oferta. Ouviu a criada murmurar qualquer coisa e depois sair do quarto. Penelope suspirou. Não poderia falar com Fiona mesmo que quisesse. Depois de tudo o que ela passara, depois de Penelope a ter convencido a deixar a vida que levara? Não havia maneira de poder explicar como ela própria se sentia agora atraída pelos prazeres da carne. Tinha a certeza de que uma tal confissão horrorizaria Fiona e com toda a razão. De facto, apenas podia falar com Jeremy sobre o assunto. Depois da sua confissão inicial, hesitava em dar-lhe mais pormenores. Principalmente se a carta que tinha na mão levasse à sedução que ele lhe sugerira permitir. Quebrou o lacre com as mãos trémulas e afundou-se no sofá junto à lareira para ler o que o seu misterioso admirador tinha a dizer. Um gosto, uma carícia não basta. Sei que disse que não podia, mas, Penelope, reconsidere. Permita que lhe proporcione prazer. Um prazer que nunca conheceu. Se me quiser, acenda uma vela esta noite junto à sua janela e deixea aberta para eu entrar. Se não vir a vela, farei o que me pediu e abandonarei toda a esperança. Mas o meu maior desejo é que me deixe entrar. Penelope amachucou a carta não assinada junto ao peito com um gemido estrangulado. Sentia dentro de si os seus desejos em luta com as suas hesitações. Era uma batalha entre as guerras pessoais a que aderira durante tantos anos e os desejos secretos e escaldantes que sempre sufocara. Que deveria fazer. Como poderia aceitar o prazer que aquele homem lhe oferecia, compreendê-lo e manter-se de parte? Seria possível permitir as liberdades desejadas por aquele homem e ficar igual ao que era? Não sabia, mas teria de decidir rapidamente o que fazer, pois dentro de poucas horas


teria de abrir a janela ou fechar para sempre os seus mais profundos desejos.

Jeremy trepou ao pequeno terraço por cima dos jardins de Penelope. Passava da meianoite e a casa estava escura e silenciosa com apenas uma luz a tremeluzir na janela do quarto em frente dele. A janela de Penelope. Fora difícil chegar ao quarto dela, mas valeria a pena. Jeremy sorriu antes de colocar uma máscara escura para proteger a sua verdadeira identidade. Quando a colocou sobre o nariz, não pôde deixar de se recordar de Penelope com a sua máscara elegante no baile Cipriano. Estremeceu de desejo antes de respirar fundo para acalmar os seus nervos em franja. Nessa noite teria de tratar dos seus planos e nada mais. Poria de lado a visita confusa que fizera ao irmão e as suas emoções em conflito em relação às reações de Penelope e às suas dolorosas confissões. Nessa noite iria quebrar nela as barreiras finais. Depois poderia terminar toda aquela charada e regressar à sua vida normal e descuidada. Bateu ao de leve na janela e o vidro abriu-se. Jeremy saltou o parapeito e entrou no quarto escuro e silencioso. Olhou em volta. Excetuando a vela, apenas havia a luz de um lume baixo na lareira no outro extremo do quarto. Diante dela estava Penelope. Jeremy susteve a respiração. Penelope vestia uma camisa de noite de fino algodão. As alças largas cobriam-lhe os ombros delicados e o tecido branco pendia sobre as suas curvas como um saco sem forma. Mas como a luz da lareira atravessava o algodão, ele conseguia ver todas as curvas do corpo de Penelope delineadas numa tentadora sombra. No mesmo instante sentiu o pénis duro como o aço. – Olá, Penelope – murmurou e dessa vez não fez qualquer esforço para que a sua voz enrouquecesse de desejo. Ela voltou-se, certamente sobressaltada pela voz dele. À luz fraca do lume, Jeremy viu a expressão dela descontrair-se de alívio. Pensara que ele não viesse conforme prometera. Graças ao seu passado, a humilhação e o desapontamento tinham sido as suas expetativas. Ao aperceber-se disto, Jeremy sentiu no peito uma desejada empatia. – Vi que não levantou a luz no seu quarto – disse ele em voz baixa, avançando ainda oculto pela sombra. – Não tentou ver o meu rosto. Ela escondeu as mãos atrás das costas. – S... sim – gaguejou. – Quero dizer, não. Penso que seja melhor não conhecer a sua identidade. Quem me dera que também não conhecesse a minha. Ele deixou de se mexer, pois tal como na anterior sentia remorsos. Ela receava que


ele a traísse e agora teria de prometer que não o faria, mas não havia maior mentira. Fá-lo-ia. Tinha de o fazer. – Quer então um amante secreto – ronronou ele, fingindo não perceber os receios dela em vez de lhe dizer a verdade. – Quer uma pessoa que possa fingir que não existe à luz fria do dia. Ela mordeu o lábio inferior e acenou lentamente com a cabeça. – Sim, suponho que seja verdade. Durante o dia não quero que nada mo recorde. Não quero distrações dos atos que tenho de praticar, das coisas que tenho de fazer. – Tenho todo o prazer em fazer como deseja – disse ele, aproximando-se mais e pegando-lhe na mão. Depois, ergueu-a e poisou nela um beijo, passando a língua por entre os dedos. Penelope estremeceu num movimento que a percorreu da cabeça aos pés. – Mas tenho algumas condições – disse ela, ofegante. Jeremy hesitou. Aquilo era inesperado. – Condições? Penelope retirou a mão e levou-a ao peito. – Não posso pôr simplesmente de lado todas as cautelas e responsabilidades. Tenho de manter um determinado nível de domínio. Jeremy ocultou uma gargalhada. Então era aquele o jogo dela. Como seria divertido retirar-lhe tudo o que se parecesse com domínio. – E como se propõe fazê-lo? Penelope endireitou-se e falou em tom prático, apesar das pernas ainda lhe tremerem. – Não quero saber o seu nome nem ver o seu rosto – disse, contando pelos dedos as afirmações. – Vejo que trouxe uma máscara. Peço-lhe que continue a usá-la e manterei o quarto às escuras quando vier ter comigo. Promete não se revelar? Ele concordou com um aceno. Era uma promessa fácil de fazer. Na verdade, não queria que ela soubesse quem era. A menos que fosse estritamente necessário. – Se prometer não me perguntar quem sou, prometo não lho revelar. Penelope não hesitou. – Concordo. Tem também de jurar não me abordar de novo em público. Quando estávamos no baile Trimble, o risco foi demasiado grande. Temos de manter os nossos… os nossos… – Acordos secretos – sugeriu ele, reparando que ela estremecia de novo ao ouvir as palavras. – Sim. – A palavra saiu-lhe num gemido estrangulado. – Temos de manter isto em privado. Ele cruzou os braços. – Concordo.


– E a minha última exigência – disse ela, agitando-se pouco à vontade – é que não quero que entre no meu corpo com o seu. Jeremy ficou tão espantado que nem disfarçou a voz para perguntar. – Como? Penelope inclinou a cabeça e olhou-o com ar interrogativo. Por momentos, Jeremy pensou ter sido descoberto, mas ela dissipou-lhe as dúvidas. – Quero aquilo que o senhor tem para me oferecer – disse. – E desejo-o até mais do que provavelmente devia. Mas não posso ir tão longe. Não devo. Ele apertou os lábios. – Deixe-me ter a certeza de que a entendo. Deseja que eu a toque, mas que não entre no seu corpo. Não quer que a minha língua, os meus dedos, o meu pénis... Ela voltou-se, mas Jeremy não teve a certeza se seria por se sentir embaraçada pela ousadia dele ou porque queria esconder a sua excitação. – Não, quero a sua boca – disse em voz entrecortada. – Quero os seus dedos. Quero tudo menos que ponha o seu... Ela deteve-se e Jeremy engoliu um gemido de frustração. – Não quer que ponha o meu pénis dentro do seu corpo, que é o que mais precisa. É isso? Ela acenou afirmativamente sem se voltar. Ele abanou a cabeça admirado. Pensaria ela que assim ele não conseguiria transformá-la? Que se protegesse o seu corpo como se fosse uma virgem, o resto não contaria? Ele calou-se. Então era assim. Ela pensava que, se permitisse tudo exceto a consumação do ato sexual, poderia manter-se distante da ligação que dois amantes formavam invariavelmente. Que as experiências que ele lhe proporcionaria não seriam tão intensas. Tão significativas. Olhando-a, ponderou as suas opções. Se recusasse os termos frustrantes e difíceis propostos por ela, Penelope poderia recusar completamente a oferta dele, o que seria prejudicial à sua causa. Porém, se aceitasse, teria a oportunidade de provar que ela estava enganada. De provar que não havia maneira de ela se proteger do desejo. De provar que negar-se ao ato sexual completo a faria apenas desejá-lo mais e não menos. – Muito bem – concordou estendendo a mão e pegando-lhe nos cotovelos. Ela não resistiu quando ele a puxou para si e encostou as costas dela ao seu corpo, moldando-a a ele até ela sentir o pénis dele passar por entre os macios globos do seu traseiro. Penelope soltou uma exclamação abafada ao senti-lo junto de si, mas não fugiu. – E tenho também uma exigência – murmurou ele percorrendo-lhe com a língua a concha da orelha.


Ela gemeu e nada disse. – Se eu concordar em não encher a sua vagina com o meu pénis – disse ele, encantado com o sobressalto que as palavras cruas provocavam nela –, tem de me dar acesso completo de todas as outras maneiras. Concorda? Enquanto fazia a pergunta acariciava-lhe os seios, deixando que as suaves elevações lhe enchessem as mãos e as massajava suavemente. – Meu Deus – gemeu ela com os joelhos a cederem um pouco. – Isso é um sim? – perguntou ele bafejando-lhe a nuca com o seu hálito quente. – Sim, sim – exclamou ela enquanto ele lhe transformava os mamilos em cumes duros por baixo do tecido de algodão. Jeremy sufocou o desejo de dar graças a Deus e obrigou Penelope a dar meia volta para ficar de frente para ele. O loiro cabelo dela, antes afastado do rosto, caía-lhe agora sobre as faces em ondas soltas. A luz fraca mostrava como eram grandes os seus olhos azuis. E a sua respiração entrecortada e irregular dava-lhe a conhecer o muito que ela o desejava, ainda mais do que as palavras podiam demonstrar. Com outro profundo gemido de prazer, Jeremy pegou nas alças da camisa enorme e arrancou-lhas dos ombros e a camisa caiu-lhe lentamente e ficou junto aos tornozelos dela, deixando-a instantaneamente exposta. Pela sua reação, Jeremy apercebeu-se que o estado não lhe agradava. Ao contrário das mulheres experimentes que recentemente lhe tinham visitado a cama, Penelope não empinou os seios, não arrulhou nem sorriu para tirar partido da sua imagem. Pelo contrário, cobriu os seios com as mãos e voltou o rosto para o esconder na sombra. Durante um longo momento, Jeremy detestou George Norman com todas as suas forças. Como marido, deveria ter ensinado a Penelope o bela que era. Devia tê-la tornado orgulhosa do poder que lhe tinha sido conferido por ter um corpo tão desejável. Mas o canalha fizera-a tremer não de prazer, mas de medo e humilhação. Porém, o homem misterioso não deveria estar ciente desses factos. Apenas Jeremy, seu amigo e confidente, sabia a verdade do seu passado. Teria de ser cuidadoso para se assegurar de que não revelava que eram uma e a mesma pessoa. – Não desvie os olhos – murmurou ele voltando-lhe o rosto. – Olhe para mim. Ela não lhe obedeceu e manteve o olhar firmemente concentrado nas tábuas do chão por baixo dos seus pés nus. Jeremy cerrou os dentes. – Lembre-se de que me prometeu dar-me tudo o que eu desejasse. Olhe para mim. Penelope não pôde esconder um estremecimento, mas por fim ergueu o queixo. A escuridão era demasiada para que ele percebesse se ela lhe olhava para o rosto, mas não a pressionou. Ainda não chegara o momento. – Sabe que é muito bela – disse ele em voz baixa. – Nem sabe como me enlouquece. Como desejo desesperadamente saboreá-la, tocá-la, como desejo que seja minha. E


consegue-o só por estar aí, de pé. Penelope soltou uma exclamação entrecortada que mais parecia um soluço. Jeremy ignorou o aperto que sentia no coração e pegou-lhe no queixo para conseguir o ângulo desejado. – Agora vou beijá-la – prometeu, aproximando os lábios dos dela. – E depois vou terminar o que começámos no baile. O gemido dela perdeu-se quando ele lhe tomou a boca. Jeremy queria dominá-la com a sua paixão e conseguir igualmente que ela mostrasse a sua. Mas, sem saber porquê, as coisas não correram desse modo. Ele mal lhe tocou nos lábios e arrastou ao de leve a boca sobre a dela, para trás e para a frente num ritmo doce e suave. Só lhe abriu os lábios quando a boca dela soltou um suspiro. Mergulhou então a língua, sentindo o sabor a hortelã e a um qualquer tipo de licor que ela teria provavelmente bebido para conseguir coragem líquida antes de ele chegar. Jeremy sorriu junto à boca de Penelope, percorrendo-lhe a língua com a sua, chupando-a suavemente. Fincou os dedos nos braços do amante sem rosto e sentiu os joelhos a tremer. Como poderia um beijo excitá-la tanto? Torná-la tão fraca? Os beijos do marido nunca a tinham entusiasmado. Mas começava agora a aperceber-se quer pelas conversas com Jeremy e pelo toque deste homem que a sua experiência com George nunca representara tudo o que o pecado e o prazer poderiam ser. Apercebia-se pela primeira vez de que havia muito mais. O desconhecido passou-lhe os braços pela cintura e puxou-a para si, encostando-a ao seu corpo até ela mal poder dizer onde terminava o dele e começava o seu. Ele balançava-se encostado a ela, segurando-lhe as ancas nuas, investindo até ela sentir entre as coxas a presença insistente da uma ereção. Penelope sentiu-se chocada ao aperceber-se que a sua primeira reação àquele toque tão íntimo era um vergonhoso desejo de abrir as pernas e de se lhe oferecer. Apesar da declaração que fizera menos de dez minutos antes para lhe dizer que ele não poderia abrir o corpo dela com o seu. Agora a exigência parecia-lhe uma tolice porque queria render-se completamente, entregar todo o seu corpo àquele homem, para que ele fizesse o que lhe apetecesse. Mas antes de poder fazer qualquer coisa idiota como pedir que o fizesse, ele ergueu-a e depositou-a sobre a cama, cobrindo o corpo dela com o seu sobre a colcha macia, a boca dele procurando a dela pela segunda vez. Penelope agarrou-se a ele, invadida por várias ondas de prazer. Primeiro suaves, mas crescendo em intensidade e fervor. Em breve se sentiria arrebatada. Apertou os olhos com força e rendeu-se às carícias dele. Perdida num mar de prazer, o espírito ditosamente calmo, silencioso, pela primeira vez, durante o que lhe pareciam anos.


Até uma imagem persistente se sobrepor. Uma visão de Jeremy Kilgrath inclinado sobre ela, reclamando a sua boca com a dele. Com um suspiro sufocado, Penelope arrancou os lábios aos do amante. Não! Não podia, não queria pensar em Jeremy. Não naquele momento. – Sonho com o seu sabor há duas noites – murmurou o amante misterioso antes de lhe depositar outro beijo nos lábios. Penelope esforçou-se por se concentrar de novo no homem que se encontrava sobre si, cujo hálito excitava a sua pele com infinita suavidade. Sorria, enquanto o seu espírito se esbatia, mas depois percebeu. Ele não falava do sabor dos beijos dela, mas sim de... – Tão doce – murmurou ele, fazendo deslizar a boca pela sua carne afogueada. – E esta noite vou prová-la de novo. Toda, Penelope, todo o corpo. As mãos dela agarraram a colcha quando arqueou as costas, cheia de desejo à medida que os lábios quentes lhe queimavam a garganta. Jeremy chupava-lhe suavemente o pescoço e ela sentiu-se chocada ao sentir uma humidade quente inundar-lhe as coxas. Meu Deus, o que ele conseguia fazer-lhe apenas ao tocá-la. E prometia que muito mais se seguiria. Os lábios dele desceram até hesitar sobre os seios dela. Penelope olhou para baixo para a sombra húmida do seu corpo. Ele olhava-lhe os seios fazendo-a corar. Jeremy podia não vê-la claramente à pouca luz do lume quase apagado, mas certamente notaria os seus defeitos. George muitas vezes se queixara de que a sua constituição esguia lhe tornava os seios demasiado pequenos. Dissera-lhe que eram feios e pouco femininos e que o corpo dela era a razão que o impedia de desempenhar as suas obrigações. O desconhecido segurou nas mãos enormes os pequenos montes, cobrindo-os completamente. Ela voltou o rosto incapaz de suportar o seu escrutínio ou censura. – Porque afasta os olhos? – perguntou enquanto abria os dedos, fazendo os mamilos saltar entre eles. Penelope corou. – São... não são bonitos. Ele ergueu repentinamente a cabeça. – Quem lhe disse isso? Ela abanou a cabeça. Já fizera a Jeremy confissões humilhantes acerca do seu casamento com George. Não queria repeti-las àquele homem. – Não importa. – Alguém muito estúpido – resmungou ele, baixando a cabeça. – Creio que são perfeitos. Rodeou um mamilo com os lábios e as ancas de Penelope ergueram-se contra o ventre dele com a sensação chocante, apertada e quente que lhe corria do ponto de


contacto, percorrendo-lhe o corpo e instalando-se latejante entre as suas pernas. – Tão sensível – disse o amante sem rosto e Penelope ouviu-lhe o sorriso na voz. – Tão doce. Passou para o outro mamilo e chupou-o, a princípio suavemente, depois aumentando a pressão, até que a ponta se distendesse latejante de prazer, tão pronta que sentiu poder despenhar-se no abismo só ao toque da boca dele. Escutando todos os gemidos ofegantes, sentindo o arquear das ancas de Penelope, Jeremy enlouquecia de desejo. Havia algo de sedutor em dar-lhe prazer. Penelope nunca o sentira antes, pelo menos proporcionado pelo toque de um homem. E era ele que lho proporcionava. Arrastando lentamente as sensações do corpo dela até a enfraquecer por baixo do seu. Nunca se sentira tão disposto a proporcionar aquele tipo de prazer. Certamente nunca fora um amante egoísta. Sabia como fazer uma mulher atingir o orgasmo e orgulhava-se de deixar várias mulheres satisfeitas na sua esteira. Mas havia uma diferença entre ter como certo o prazer de uma amante experiente e proporcionar-lhe a ela sem pensar em si próprio. Tinha consciência da sua ereção, claro. Sentia a necessidade insistente e latejante de tomar Penelope, mesmo tendo ela dito que não o podia permitir. Queria entrar nela e atingir o orgasmo enquanto a sentisse latejante em seu redor, como uma luva quente e húmida. Porém, pela primeira vez esse desejo não era tão forte como o de lhe dar prazer. Ergueu os olhos ao mesmo tempo que lhe soprava o mamilo húmido com o seu hálito quente. No quarto havia apenas a luz alaranjada do lume, mas os olhos de Penelope cintilavam na semiobscuridade. Jeremy apercebeu-se de um brilho branco quando os dentes dela morderam o lábio inferior, ao mesmo tempo que gemia, encorajando-o. Estava perto da beira. Jeremy deslizou, passando-lhe os lábios sobre a barriga nua. Sentia-lhe a pele suave, muito macia, por baixo da língua. Ela estremecia a cada toque, cada carícia obrigava-a a fechar as mãos sobre a colcha cada vez com mais força. Desceu ainda mais, acariciando-lhe com o nariz e a testa a curva da anca. Sentia o cheiro doce do desejo dela e o seu pénis endureceu assim ainda mais. Ela pareceu sufocar quando a boca dele lhe tocou a coxa e todo o seu corpo se retesou como acontecera quando o fizera pela primeira vez dois dias antes. Mas desta vez teria a certeza de que ela não fugiria. Agarrou-lhe as ancas para a manter imóvel enquanto passava o rosto já com alguma barba pela sua pele sensível. Penelope soltou um pequeno grito e abriu instintivamente as pernas. Ele aceitou o que ela não tencionara oferecer, passando-lhe as mãos pelo interior das coxas e abrindo-a ainda mais. Já estava húmida, inchada pelo seu toque, a carne trémula de antecipação do que aconteceria a seguir.


Jeremy sentiu que os dedos lhe tremiam ao agarrar-lhe o sexo e sentir o calor queimar-lhe a pele. Penelope chegou-se mais para ele, incapaz de sufocar o gemido alto e estrangulado que lhe aflorou aos lábios. Jeremy abriu-a lentamente, separando as dobras húmidas para a revelar na semiobscuridade. Ela arqueou as ancas e ele aceitou o convite mudo, colando a boca à carne tensa para saborear a prova do muito que ela o desejava, por mais que tentasse evitá-lo ou se preocupasse com o facto. Acariciou-a, provando a sua doçura de mel, explorando-lhe cada centímetro húmido da fenda. A respiração de Penelope acelerou até parar inteiramente, enquanto tremia ao toque dele. Jeremy foi inexorável levando-a propositadamente à libertação com uma rapidez e intensidade que teria normalmente reservado para uma segunda ou terceira vez que fizesse amor com ela. Mas com Penelope tudo era diferente. Em parte, tratava-se de uma educação. E ele queria que ela sentisse imediatamente como era inútil lutar contra a maré. Depois queria que ela atingisse o orgasmo. Queria ouvi-la gritar de prazer, sentir as ancas dela chocarem contra ele, saborear com a língua o néctar da sua libertação. Queria-o com uma força tal que mais parecia uma obsessão. Com carícias suaves tocou-lhe o botão duro do clítoris, exposto pelos seus dedos. Quando o lambeu, Penelope gritou, deixando cair a cabeça para o lado. Jeremy repetiu o gesto, provocando-a, brincando com ela como um gato com um rato. Ela arqueou o corpo, gemendo de prazer. Ele chupou-lhe o clítoris no mesmo momento que enfiava um dedo na apertada fenda. Penelope soergueu-se, perscrutando a escuridão com gritos mais elevados. Ele mergulhou o dedo nela, dobrando-o de encontro ao feixe de nervos oculto ao mesmo tempo que chupava com força o botão do seu prazer. Ele nem tentava já sufocar os gritos que ecoavam no quarto enquanto ela arqueava as ancas para lhe responder às carícias. O crescendo aproximava-se. O corpo dela, arquejante, revelava-o. Mas, antes do orgasmo, Jeremy humedeceu nela outro dedo e fê-lo deslizar entre os globos do traseiro. Quando Penelope explodiu, inseriu-o nela enchendo-a completamente. Àquele toque proibido, o orgasmo de Penelope intensificou-se. Agitou as ancas junto à boca e às mãos dele e a sua humidade duplicou enquanto estremecia de prazer. Mesmo depois de se deixar cair, extenuada, sobre as almofadas, os tremores continuaram, pequenos tremores de terra de prazer a explodirem na língua dele. Por fim, Jeremy retirou-se, desfrutando o som suave de aflição que Penelope soltou quando ele saiu dela e beijou-a. Ela abriu-se imediatamente para ele que imediatamente percebeu que Penelope lhe queria provar nos lábios a sua própria essência. E não se retirou o que o deixou com a certeza de que sempre tivera razão acerca de Penelope Norman. Tratava-se de uma criatura de sensualidade e pecado, apesar dos


seus protestos em contrário. E teve a certeza de que depois de algumas noites escaldantes passadas com ele, ela mudaria de ideias o suficiente para desistir da sua luta contra os excessos. Talvez nem tivesse de a chantagear. – Gostou? – murmurou acariciando-lhe a orelha com o nariz. Ela rodeou-o com os braços e passou-lhe as unhas pelas costas, por cima da camisa de linho. Jeremy estremeceu com a sensação. – Mais do que deveria – murmurou Penelope. – Isto não está certo. Ainda por cima tendo em conta quem eu sou e o que as pessoas julgam que eu represento. Ele recuou, incapaz de determinar a expressão dela na escuridão. Mas havia na voz dele um tom de resignação que não agradou muito a Jeremy. – Não há nada de errado no prazer, Penelope – disse ele em voz baixa. Queria que ela o compreendesse por várias razões. Que acreditasse. – Certo ou errado – replicou ela apertando os dedos e puxando-o para si. – Quero mais. Jeremy respirou fundo ao ouvir aquela confissão. Que diabo, aquela mulher era uma sedutora natural. Como poderia não saber que o seu toque nas costas dele era irresistível? Que o calor da sua carne lhe trazia desejos de enfiar o pénis dentro dela das formas mais animalescas? Que queria iluminar todo o quarto para lhe ver o corpo em toda a sua glória? Como poderia não compreender que era o tormento em figura de gente? – Dava-lhe tudo – disse ele, deitando-se de costas e puxando-a para que ficasse por cima. Embora Jeremy estivesse completamente vestido, o seu pénis encostou-se imediatamente ao sexo dela. Sentia-a quente, húmida e pronta através do tecido de lã e apertou-a de encontro a si. Ela gemeu com a fricção. – Tudo não – murmurou, inclinando-se para lhe capturar os lábios. – Só quero mais.


Capítulo 12

A primeira luz da manhã começava a entrar no quarto, quando Jeremy se levantou de junto de Penelope e começou a juntar a roupa espalhada perto da cama. Enquanto se vestia não pôde deixar de recordar todos os momentos sensuais. Levara-a mais três vezes ao orgasmo com a boca e os dedos antes de ela cair num sono profundo, exausta e trémula. Mas ele não atingira o orgasmo. Vê-la acordar para o prazer intenso e poderoso fora suficiente. Assim que ela adormecera não quisera completar-se às suas próprias mãos. Por isso ali ficara deitado a vê-la dormir naquela última hora. Ainda ardia de desejo, mas, até certo ponto, sentia-se em paz. Tinha seduzido a mulher a quem os amigos chamavam a Rainha de Gelo. Obrigara-a a erguer-se, a implorar e a vacilar de prazer. Seria muito fácil chantageá-la e terminar aquela loucura. Porém, enquanto apertava as calças, apercebia-se de que não queria terminá-la. Ainda não. Sentia-se no princípio de uma jornada, não no fim. Sentia que havia muito prazer para desfrutar e para ensinar. Não faria mal ter com ela mais algumas noites de prazer. Talvez até a convencesse a implorar o seu pénis. Depois então… ficaria satisfeito. Tinha a certeza. Inclinou-se para lhe beijar o ombro nu e Penelope voltou-se de costas com um suspiro que no mesmo instante o excitou. Tinha os lençóis enrolados nas pernas, os seios ofereciam-se erguidos à luz da madrugada, tão belos que teve de fazer um esforço sobre-humano para não lhe pegar num mamilo e fazê-la gritar de prazer uma vez mais. Mas não. Agora não. Se Penelope acordasse, poderia reconhecê-lo na luz cada vez mais forte e não queria ser descoberto. Por isso preferiu inclinar-se uma vez mais e beijá-la nos lábios. Depois dirigiu-se à janela e retirou-se. Ao descer do parapeito para o ramo da árvore e por fim para a forte treliça, não pôde evitar pensar na noite anterior. Os pormenores da rendição de Penelope, claro, mas mais do que isso. Pensou na sua respiração entrecortada, na súplica da sua voz, no modo como dissera que não estava certo submeter-se às suas carícias embora quisesse mais. Jeremy decidiu que se sentia insatisfeito com os acontecimentos da noite enquanto percorria o caminho atrás da casa de Penelope para se dirigir à carruagem escondida que o aguardara toda a noite. Insatisfeito fisicamente, sim. Instalando-se no assento de pelúcia da carruagem, viu-


se obrigado a admitir que a sua forte ereção era a dura prova de que não conseguira uma rendição total da sua adversária. Mas era mais do que o desejo físico que o inquietava. Penelope, apesar de aquiescer às suas carícias, apesar dos seus gemidos de desejo, dos seus gritos de prazer, ainda se continha. Conseguira completar-se com os seus gestos experientes, mas, no seu espírito, conseguira manter-se separada dele. Não havia dúvida de que necessitava de outra noite com ela. Talvez duas noites para reduzir o que restava da sua resistência. Para a fazer ver, de uma vez por todas, que não era a mulher perfeita e fria que queria que o mundo pensasse que era. Para a fazer sentir libertina, viva e cheia de desejo. Assim que o conseguisse, Penelope seria obrigada a ver-se a uma nova luz. Depois, a sua tarefa final seria facilmente cumprida. Seria fácil convencer Penelope a deixar de insistir para que as suas amigas se levantassem contra os homens. Mesmo com esse reconfortante pensamento no seu espírito exausto, Jeremy ainda não se sentia completamente à vontade quando a carruagem descreveu a curva para o largo caminho que levava à sua propriedade de Londres.

Penelope tocava distraidamente no entremeio de renda da toalha de mesa da mão. A voz de Dorthea ecoava em redor da filha, mas, mesmo assim, Penelope não seria capaz de repetir os temas da incessante conversa da mãe, nem que a sua vida dependesse disso. Estava demasiado distraída pelos seus problemáticos pensamentos dos acontecimentos da noite anterior. Pensamentos acerca do seu amante misterioso a quem se rendera sem hesitação. Bom, uma hesitação. Mantivera a sua exigência de que o homem não a penetrasse com o seu pénis. Não sabia porquê, mas pensara que aquilo tornaria a experiência menos íntima, menos perturbadora. Mas enganara-se. Contudo, não era a recordação das escaldantes carícias do homem sem rosto que a mantinham frustrada e confusa. Era o facto de o belo rosto do duque de Kilgrath ter interferido repetidas vezes no seu espírito exageradamente estimulado. Por muito que tentasse impedi-lo, essa imagem voltava enquanto o amante lhe acariciava maliciosamente o corpo. Imaginar o rosto de Jeremy apenas tornara a experiência mais intensa. De facto, a imagem dele empurrara-a pela beira da libertação não uma mas múltiplas vezes. Não só era hipócrita com o seu corpo, como também o era com o seu espírito. Era uma mulher que se insurgia contra os excessos sexuais, no entanto, deixara que um desconhecido a acariciasse intimamente enquanto tinha fantasias com outro homem.


Infiel até a um desconhecido. Esfregou os olhos numa tentativa de aliviar o latejar da cabeça. – A menina nem me está a ouvir, Penelope! – A mãe bateu com as mãos na mesa diante de Penelope. Esta sobressaltou-se com aquele gesto e ergueu os olhos para a mãe. – Desculpe. Não dormi bem ontem à noite. Mas, francamente, mãe, essa conversa já não é nova! Mesmo sem ter ouvido atentamente o que a mãe dizia, Penelope tinha a certeza do que se tratava. A mãe só falava de três assuntos: o afortunado casamento de Miranda com Ethan Hamon e o seu magnífico rendimento anual; a crença de que as suas filhas ainda solteiras tinham de fazer casamentos equivalentes ou até superiores o mais depressa possível; e o desejo que Penelope voltasse a casar. Já. Nenhum dos tópicos inspirava Penelope. Não partilhava a opinião da mãe em nenhum deles. – Como pode a menina ser tão fria para as suas irmãs? – gemeu a mãe, deixando-se cair numa cadeira ao lado dela. Penelope suspirou. Bom, pelo menos, sabia qual o assunto de que a mãe falava naquela tarde. – Não sei porque insiste que o meu estatuto é igual ao de Beatrice ou de Winifred. Fui casada com um homem respeitável com uma boa fortuna. Sou aceite nos círculos corretos da sociedade. Que mais pode querer de mim? – Já lhe disse que quero que se deixe dessas conversas tolas acerca do comportamento dos homens com quem as suas irmãs podem vir a casar. A mãe abanava a cabeça e, por breves instantes, Penelope viu verdadeira preocupação na expressão muitas vezes vaga de Dorthea. Era uma mulher frívola e mercenária, mas, mesmo assim, Penelope apercebera-se havia muito que as conversas da mãe provinham de crenças mal conduzidas. Simplesmente não podia evitar aquele comportamento. Com uma suspiro, Penelope estendeu a mão e pô-la sobre a mão da mãe. – Nunca foi minha intenção lançar qualquer tipo de campanha com os meus pensamentos, mãe. Na verdade, era só conversa. O facto de que as outras tivessem aproveitado essa causa foi um choque tão grande para mim como para toda a gente – abanou a cabeça. – Mas, mãe, com certeza que não deseja que nenhuma das minhas irmãs case com um homem que ande a exibir as amantes diante dela? Ou que a trate com desprezo exceto quando deseje ter herdeiros e substitutos? A mãe ficaria feliz com isso? A mãe apertou os lábios. – Deve lembrar-se como foi ser pobre, Penelope. Se as suas irmãs tivessem dinheiro


e estabilidade, poderiam aprender a viver com outras desilusões nos seus casamentos. É o que as mulheres fazem. Penelope bateu distraidamente na mão da mãe. Dorthea não nascera nas altas esferas da sociedade, mas entrara nelas logo após o casamento. Penelope recordava vagamente algumas cenas desagradáveis em que a mãe tinha sido desprezada. Deveria tê-la ofendido terrivelmente. Que outras desilusões não teria sofrido nos anos anteriores à morte do marido? Apesar de a família o adorar, Thomas Albright não fora nem de longe um homem perfeito. – Desejaria mais do que isso para elas – murmurou Penelope. – Viver um casamento sem amor, só para ter conforto financeiro... é um mau negócio. Dorthea retirou a mão com ar zangado. – A menina é impossível. Penelope suspirou. – Receio bem que nunca concordaremos sobre este assunto, mãe. – E sobre a Miranda? Sabe que as pessoas falam acerca do vosso afastamento – disse a mãe levantando-se para andar de novo de um lado para o outro da sala com frenética energia. – Mesmo assim, a menina recusa-se a falar com ela. Penelope fechou os olhos. – É um assunto melindroso. – Ah, melindroso! Isso é que era bom. Vai reconciliar-se com ela. A sua irmã vai chegar a qualquer momento e espero que a menina... Penelope pôs-se de pé de um salto com o coração a bater-lhe na garganta. – O quê? A Miranda vem cá hoje? A mãe acenou afirmativamente. – Sim. Já é mais do que tempo que a menina acabe com essa contenda tola. Tem de ultrapassar essa inveja que sente pelo casamento dela – declarou Dorthea em tom definitivo. – Não tenho inveja – afirmou Penelope sufocada. – Nunca fui invejosa. Mas havia uma vozinha na cabeça de Penelope que lhe dizia que não era verdade. Pela primeira vez apercebia-se de que talvez tivesse sentido inveja de Miranda. Afinal, a irmã rendera-se aos seus desejos mais básicos, agira contra todas as regras, fora profundamente egoísta... e acabara com um casamento feliz com um homem que adorava. Enquanto Penelope se sacrificara no altar da responsabilidade familiar, cumprira o seu dever e fora infeliz. Sem se realizar, Penelope murchara durante anos enquanto via Miranda florescer. Talvez a inveja fosse tão culpada do afastamento como a reação de Penelope à cena


apaixonada que surpreendera entre Miranda e Ethan. Como que de propósito, um criado apareceu à porta. – Lady Rothschild. Penelope apertou as mãos atrás das costas quando Miranda entrou na sala de jantar. Trazia um vestido espantoso de cetim azul-pavão com um grande decote que teria sido ofensivo se a massa de renda branca e translúcida que o cobria não acrescentasse alguma modéstia. Os olhos de Miranda brilhavam, em parte pela cor lisonjeira do vestido, em parte pela sua felicidade interior. Penelope mudou de posição, pouco à vontade. Não havia dúvida que a inveja lhe ardia no peito e a sensação amarga e horrível nada tinha a ver com os belos vestidos de Miranda ou com a enorme fortuna de Ethan ou sequer com o título de qualquer outra pessoa. Tinha a ver com o amor. A paixão. A satisfação. A irmã possuía aquilo que Penelope nem sequer poderia fantasiar ter. Os olhos de ambas encontraram-se, uma de cada lado da sala. O olhar de Miranda enterneceu-se, ficou mais doce quando viu Penelope e esta sentiu uma vontade imensa de correr pela sala para abraçar a irmã. De contar os seus segredos a Miranda, como fazia havia poucos anos. De confiar nela, embora Miranda não tivesse confiado a Penelope os seus mais obscuros segredos. Mas, em vez disso, Penelope afastou-se. – N... não posso ficar. – Penelope – exclamou bruscamente a mãe, olhando-a indignada quando ela lhe deu um rápido beijo na face macia. – Tenho coisas a tratar – mentiu. Lançou a Miranda um novo olhar quando, ao dirigirse para a porta, passou por ela. – Adeus. Entrou de rompante no vestíbulo e dirigiu-se ao mordomo para que ele mandasse vir a sua carruagem. Assim que o homem saiu para cumprir a ordem, Penelope ouviu a porta da sala de jantar fechar-se atrás de si. Voltou-se lentamente e viu que Miranda a olhava encostada à ombreira. – Pareces cansada – murmurou a irmã. Penelope fechou os olhos com força, esforçando-se por manter a distância que há tanto as separava. Era quase impossível com a irmã ali tão perto. – Obrigada – conseguiu dizer num tom de voz gelado. – Agradeço o elogio. Miranda ignorou o comentário irónico e avançou. – Não pareces fisicamente cansada. Se possível, estás mais bela que nunca. Mas a tua alma está cansada – a irmã abanou a cabeça. – E tens um olhar tão triste. Penelope susteve a respiração e voltou-se para olhar para a porta sem a ver. Meu


Deus, como Miranda a conhecia bem. Mesmo agora, depois de terem passado dois anos sem que Penelope se permitisse ter com a irmã uma conversa civilizada, Miranda conseguia ver através da sua aparência exterior, como sempre fora o caso. Com exceção do único segredo que Miranda conseguira guardar. Penelope condenara a irmã por mentir acerca de Ethan. Por lhe entregar o corpo em troca do dinheiro e da ajuda dele. Zangara-se. Sentira-se gelada. Mas depois do que sentira na noite anterior, não poderia condenar Miranda por coisa alguma. Não a poderia condenar nunca mais. E, se Miranda a olhasse de perto, aperceber-se-ia. Miranda agarrou-lhe o braço com um toque suave que trouxe as lágrimas aos olhos de Penelope. – Sabes que se precisares de mim… Penelope afastou-a quando a carruagem apareceu à porta. – Tenho de ir. Sem olhar para trás, saiu a correr para o calor da tarde e meteu-se na carruagem sem sequer esperar a ajuda do criado. Quando a porta se fechou atrás de si, atreveu-se a espreitar à janela e viu Miranda voltar para a porta e seguir a carruagem com o olhar enquanto ela se afastava lentamente. Penelope cobriu os olhos. Porque se teria a vida tornado tão complicada? Tão confusa. E porque não teria ninguém no mundo em quem confiar? Ninguém exceto Jeremy. Sabia do homem que lhe escrevera. Sabia que o homem a desejava. E não a condenara por aquela correspondência. Talvez ele pudesse ajudá-la a perceber aquela existência confusa em que agora se encontrava. Um mundo em que os desejos que receava eram subitamente aceitáveis, as escolhas da irmã que afastara de si eram agora compreensíveis e em que queria um homem mas desejava outro.


Capítulo 13

Jeremy respirou fundo enquanto fazia uma pausa à porta da sua sala. Não esperara a chegada de Penelope, mas não tencionava mandá-la embora. Tinha de se assegurar de que ela não desconfiara de nada. Não podia mostrar no rosto o desejo que sentia por ela. Não podia deixá-la adivinhar que era o mesmo homem a quem na noite anterior permitira tais liberdades. Empurrou lentamente a porta e entrou. Penelope estava sentada na beira de um sofá no meio da sala com as mãos apertadas no colo. Quando ouviu a porta, ergueu os olhos e Jeremy recuou. Parecia tão perturbada. Uma mistura de medo, desilusão e tristeza atingiram-no como um murro no estômago. Aquele turbilhão emocional seria por causa dele? Poderia ter conseguido uma tão grande influência sobre ela? Era uma ideia que lhe dava que pensar. – Que se passa? – perguntou ele, aproximando-se. Ela pôs-se de pé hesitante e recuou ao vê-lo, erguendo as mãos como para o afastar. Jeremy deteve-se instantaneamente. Invadir o espaço dela, obrigando-a a delinear fronteiras era próprio do homem misterioso. Durante o dia, Jeremy era um amigo. Por muito que quisesse tocar-lhe, consolá-la se ela aceitasse, não seria o passo certo a dar se queria continuar a delicada e tensa relação que havia entre ambos. Penelope olhou-o durante muito tempo, com o rosto cansado. Várias vezes abriu e fechou a boca, esforçando-se por encontrar as palavras. Jeremy deu por si inclinando-se à espera de uma explicação, perguntando a si próprio o que lhe contaria ela acerca do homem que lhe enviava as cartas. – Não é nada – murmurou Penelope por fim, voltando-lhe as costas. Dirigiu-se à janela e olhou para fora. Interessante. Ele abanou a cabeça. – Está branca como a cal da parede e não há dúvida que se sente perturbada. Deve ter acontecido alguma coisa. Teve outro encontro com o homem que lhe escreve? Ela voltou-se com uma exclamação rouca e sufocada. Agarrava-se com força ao parapeito da janela e olhava-o com os lábios trémulos. De novo ele esperava pela confissão inevitável. Penelope nunca escondera muito bem as suas emoções, os seus segredos. Não estava na sua natureza. Mas naquele dia combatia contra a sua natureza. – N... não é isso – disse ela, baixando o olhar para as tábuas do chão.


– Hmmm – Jeremy inclinou a cabeça. Penelope não tinha intenções de confessar, embora ele já soubesse tanto acerca do suposto desconhecido. Porque quereria ela manter em segredo a noite anterior quando já lhe revelara tanto. A menos que lamentasse o que acontecera na sua cama. Sentiu o estômago apertado com a ideia. – Estive hoje com a minha irmã – murmurou. Jeremy recuou. – Ah sim? – A minha mãe tratou de que nos encontrássemos em casa dela sem me dizer nada. Quer que terminemos o nosso «desentendimento». Não estava tão próximo de Miranda desde… o meu casamento, creio. Há anos – Penelope fechou os olhos e Jeremy teve a sensação de que ela continha as lágrimas. De novo desejou aproximar-se para a consolar, mas dessa vez resolveu conter-se, mais por si do que por ela. A confissão da sua reação emocional ao ver Miranda punhao menos à vontade do que qualquer segredo sexual que ela pudesse contar-lhe. A dor de Penelope era mais íntima do que o relato do seu encontro secreto. – Queria tanto falar com ela – Penelope abriu os olhos. – Queria contar-lhe… – interrompeu o que ia dizer. Jeremy avançou um passo, quase contra a sua vontade. – Porque não o fez? – Não fui capaz. Censurei-a tanto. Se ela falasse comigo uns minutos, veria… Jeremy estendeu-lhe a mão permitindo-se por fim a tocar em Penelope pela primeira vez desde que nessa manhã saíra da sua cama. Ela pareceu tensa, mas não o afastou. Olhou-o então, como um coelhinho apanhado por um lobo. Só que o lobo já estava tão afetado por ela como ela por ele. Jeremy sentia um desejo imenso de a beijar. De a beijar até ela esquecer a dor. De a beijar até que ela lhe permitisse tudo. Até que ela percebesse que era ele o homem a quem entregara o seu corpo na noite anterior. Queria exigir que ela se entregasse ainda mais. – E o que veria? – perguntou ele em voz baixa. Penelope pareceu sobressaltar-se com a pergunta e esquecer o seu transe. Libertou-se da mão dele. – Veria a hipócrita em que me transformei. Jeremy olhou-a. Planeara exatamente fazê-la sentir dúvidas e desprezar-se a si própria quando concordara em detê-la. Quando começara, quisera que Penelope se apercebesse de que era uma charlatã, uma fraude. Mas imaginá-lo e vê-lo na realidade eram duas coisas muito diferentes. Agora vê-la tão perturbada não lhe parecia agradável.


Sentia remorsos. De novo. E não gostava da sensação. – Não deveria ter vindo aqui – murmurou. – Não deveria colocar os meus problemas tolos aos seus pés. Peço desculpa. Encaminhou-se para a porta, mas Jeremy pegou-lhe no braço. – Não – disse não a deixando seguir. – A senhora foi… Hesitou. Ia mentir. Ia manipulá-la. Antes nada daquilo lhe fora difícil, mas agora... Não. Abanou a cabeça. Não poderia desviar Penelope do caminho que traçara para ela. Era a perfeita oportunidade para continuar o seu plano. – Foi uma amiga para mim. O menos que posso fazer é sê-lo também para si – soltoulhe o braço e ela recuou para ficar fora do alcance dele. – Posso levá-la numa das minhas excursões? Penelope franziu a testa. – Agora? Jeremy acenou afirmativamente. – Penso poder mostrar-lhe uma coisa que a poderá ajudar. – Olhou para o relógio sobre a lareira. – Se partirmos já, tenho a certeza. Ela mordeu o lábio por uns momentos e a pele macia e cheia ficou de uma tentadora cor vermelha-escura. Depois concordou. – Muito bem. Ele sorriu e ofereceu-lhe o braço. Nunca antes uma mulher confiara nele daquela maneira. E nunca ele traíra tão completamente aquela confiança. Mas não havia nada a fazer. Agora já não.

– Onde estamos? – perguntou Penelope, espreitando pela janela da carruagem junto da casa enorme e elegante que se erguia diante dela. – Estamos no Palácio do Prazer de John e Arabella Valentine – explicou Jeremy com um sorriso. Penelope olhou-o, sentindo que abria demasiadamente os olhos exatamente quando desejava parecer imperturbável. – O Palácio do Prazer? Ele acenou afirmativamente. – Um clube exclusivo para homens especiais… e mulheres. Meteu a mão no bolso e retirou uma máscara. – Pronto. Tem de usar isto. Podem estar aqui pessoas que a conheçam. E poderá também conhecê-las. Penelope olhou para a máscara. Imediatamente se sentiu perturbada e invadida por


recordações. Recordações da língua dele a percorrer-lhe a carne, dos dedos dele abrindo-a com tanta malícia. – Penelope? Penelope voltou ao presente, ruborizada, e aceitou a máscara com dedos trémulos. Fitou Jeremy e colocou-a no rosto. Ele mal olhava para ela quando a porta da carruagem se abriu e saiu para o caminho. Estendeu a mão para a qual ela olhou durante algum tempo antes de a aceitar para que ele a ajudasse a sair do veículo. Fora a casa de Jeremy com a intenção de lhe confessar as atividades da noite anterior e de lhe implorar conselho acerca da maneira como deveria prosseguir. Mas assim que se viu diante dele, olhando para o belo rosto que lhe povoava os sonhos e as fantasias, sentira-se incapaz de confessar que passara toda uma noite agitada nos braços de outro homem. Nem poderia admitir que não permitira que esse homem fizesse amor com ela, por muito que desejasse esse tipo de intimidade. E certamente não poderia revelar a Jeremy que, enquanto se rendera às caricias de um desconhecido, pensara secretamente no rosto dele. Que pensaria dela se soubesse a verdade? Afinal, quanto mais tempo passava com Jeremy, mais acreditava que ele estivesse de facto a mudar. A ironia era que também ela mudava. Se Jeremy se estava a transformar num cavalheiro respeitável, ela era agora uma libertina. Os papéis invertiam-se. Poderia aquilo significar que Jeremy acabaria por desdenhá-la, tal como ela o desdenhara a ele antes de se conhecerem bem? A ideia fê-la estremecer desagradavelmente, sensação que tentou ocultar enquanto Jeremy a conduzia pela escadaria de mármore até à porta do palacete. Penelope endireitou-se. O que ele pensava dela não deveria ter a mínima importância. – Arabella! – exclamou Jeremy assim que entrou no vestíbulo. Penelope ficou rígida ao ver uma mulher loira que falava com um criado bem vestido voltar-se para olhar para eles. O rosto dela iluminou-se quando se lhes dirigiu. Penelope olhou Jeremy de soslaio. Ele sorria francamente e quem poderia censurá-lo? A mulher era uma beleza. O cabelo caía-lhe sobre os ombros, varrendo-lhe os seios, e tinha os olhos azuis, mas não tão claros como os de Penelope. Eram escuros e profundos como safiras. – Kilgrath – exclamou a mulher com uma gargalhada enquanto beijava Jeremy no rosto. – Há uma eternidade que não o vemos. Seja bem-vindo. O que veio cá fazer tão cedo? Jeremy indicou Penelope com a cabeça e um audacioso piscar de olhos. – Queria que a minha… amiga visse o vosso estabelecimento. Arabella voltou as suas atenções para Penelope que se sentiu sufocada. Talvez a


mulher a reconhecesse, apesar da máscara protetora. Penelope tinha a certeza de que a dona do que parecia ser uma casa de prostituição não seria sua admiradora, já que, no passado, falara publicamente daqueles locais. Mas Arabella não dera qualquer sinal de a ter reconhecido. Limitou-se a sorrir. – Boa noite, minha querida. Seja bem-vinda. Penelope acenou com a cabeça, sem pronunciar palavra, receando que Arabella ou qualquer outra pessoa que entrasse no vestíbulo lhe reconhecessem a voz. Mais uma vez, Arabella não deu qualquer sinal de que Penelope estivesse a ser indelicada ou estranha por se manter em silêncio. – Deixem-me ir buscar Valentine antes de discutirmos o vosso prazer. Tenho a certeza de que ele gostaria de te ver. Tem tido saudades de jogar às cartas contigo – apertou o braço de Jeremy e afastou-se. – Tem saudades de ficar com o meu dinheiro, queres tu dizer – disse Jeremy, soltando uma gargalhada que ecoou ao longe quando ela virou as costas. Penelope agarrou-se ao braço dele e murmurou: – É amigo desta senhora? Jeremy olhou-a com uma expressão de genuína surpresa no olhar. – É impossível não gostar de Arabella. Desafio-a a ficar com ela mais de dez minutos e não sentir uma qualquer afinidade. E o marido dela também é meu amigo. – O marido dela? – Penelope abanou a cabeça. – O que fez ele? Foi buscá-la a uma casa de prostituição? Jeremy soltou uma gargalhada. – Não há dúvida que desconhece completamente o mundo contra o qual luta. Esta casa é de Arabella. Claro que John tem metade. Mas foi Arabell sozinha que montou o estabelecimento. John entrou na vida dela muito depois de ela já possuir todo um império. Penelope admirou-se ao ver Arabella voltar para junto deles pelo braço de um belo cavalheiro de rosto austero. Fora uma mulher a montar aquele estabelecimento? Uma mulher teria assim tanto poder? E sem dúvida alguma riqueza, a julgar pelo mobiliário da casa e pelo vestuário dos que a rodeavam. – John – disse Jeremy, apertando a mão do marido de Arabella. – Que prazer em verte. – Sim – John Valentine olhou para Penelope com um breve sorriso que lhe embelezou muito o rosto sério. Conversaram os três durante algum tempo e Penelope observou-os admirada. Os Valentine eram educados, bem-falantes e tão dedicados um ao outro que ela quase nem conseguia acreditar. Em resumo, não eram nada do que esperava e, mais uma vez, todos os seus


pensamentos e preconceitos caíram por terra. – E agora ao trabalho – disse Arabella enquanto Valentine se afastava com uma vénia. – O que desejas, Kilgrath. Jeremy lançou um olhar rápido a Penelope antes de se aproximar de Arabella para lhe murmurar qualquer coisa ao ouvido. Penelope ficou surpreendida quando uma lâmina áspera e quente de ciúme lhe invadiu o peito ao ver Jeremy segredar ao ouvido de outra mulher. E quando Arabella lhe sorriu com uma expressão conhecedora e sensual, sentiu-se disposta a arrancar os olhos da madame. – Creio que será possível – disse Arabella. – Venham comigo. Seguiram-na até um átrio e depois por uma série de corredores curvos, passando por vários quartos. Penelope corou ao ouvir gritos sensuais ou gemidos guturais de prazer por detrás das portas embora estivessem a meio do dia. Para sua vergonha, Penelope não se sentiu chocada pelos sons, mais sim curiosa. Que fariam aquelas pessoas ali escondidas para dar prazer umas às outras? Por fim, Arabella conduziu-os a um quarto. Era pequeno, arrumado, mas com uma cama enorme no centro, coberta por uma colcha de veludo, escura e convidativa. Penelope desviou o olhar, libertando o braço de Jeremy e percorrendo o quarto. Que teria Jeremy planeado para ela, sozinha num quarto de uma casa de má reputação? – Vão querer examinar aquele quadro – disse Arabella em voz suave, atravessando o quarto. – Desfrutem. Depois saiu e deixou-os sós. Penelope voltou-se para Jeremy com um movimento nervoso. – Isto não está certo. Não deveríamos estar juntos a sós. Ele aproximou-se lentamente. – Tem medo que eu a ataque? Ela engoliu em seco e, quase contra a sua vontade, olhou de novo para a cama. Era demasiado fácil imaginar o corpo de Jeremy sobre o seu, a sua boca na sua pele, o seu pénis entrando na sua fenda desejosa e húmida. – Garanto-lhe – disse ele em voz baixa. – Se quisesse fazê-lo, teria tratado do assunto com toda a facilidade na minha própria cama que é muito mais confortável. Não. Trouxe-a aqui para que visse uma coisa inteiramente diferente. Penelope conseguiu perguntar com a respiração entrecortada. – O quê? Jeremy aproximou-se do quadro por cima da lareira que Arabella havia indicado antes de os deixar. Tratava-se do retrato de uma mulher da cintura para cima. Perfeitamente vulgar se não estivesse nua e segurasse nos seios, oferecendo-os a um amante que não se via. Penelope corou enquanto ele retirava um painel escondido nos olhos da mulher e


insistia para que Penelope o acompanhasse. Ela aproximou-se, reparando que havia um pequeno banco diante da lareira. Com a ajuda de Jeremy colocou-se de modo a poder espreitar pelo painel. Susteve a respiração completamente chocada. O quadro permitia-lhe uma visão perfeita do quarto ao lado e da cama que tinha na sua frente. Mas o quarto não estava vazio. Na cama encontravam-se um homem e uma mulher. O homem reclinado de costas, já com uma ereção, enquanto a mulher nua, de costas para o quadro, lhe esfregava o pénis com a mão. A cada movimento o homem erguia as ancas e soltava um gemido de prazer. Penelope recuou bruscamente e quase caiu do banco. – O que…? Jeremy colocou-lhe a mão na cintura para a segurar e Penelope sentiu aquele toque na pele através de toda a roupa. – Chiu – disse ele em voz baixa. – Veja só. Embora Penelope quisesse voltar-se para dizer a Jeremy que não, que queria sair daquele lugar, sentia-se demasiado atraída, demasiado excitada pelo que vira, para deixar de olhar para o que se passava no quarto ao lado. Agora a mulher nua tomara o membro hirto do amante na boca, do mesmo modo que a outra mulher que Penelope vira no baile Cipriano. A cabeça dela subia e descia e o cabelo escuro dançava-lhe sobre as costas enquanto proporcionava ao amante aquele prazer sensual. As mãos dele agarravam a colcha apertando o tecido a cada movimento dos lábios dela. Penelope olhou fascinada para a tensão e contorção do rosto do homem, à medida que o seu prazer aumentava. De novo pensou no seu próprio amante. Não lhe fizera nada daquilo. Permitira apenas que ele a acariciasse. Como seria tê-lo entre os lábios. Ele gemeria assim se ela lhe proporcionasse aquele prazer. – Volta-te – ordenou o homem com a voz tensa. A mulher olhou-o por breves instantes, mas tomou uma nova posição. Penelope esticou-se para tentar vê-la, mas o cabelo negro cobriu-lhe o rosto como uma cortina enquanto se punha de gatas diante do homem. Ele ajoelhou por trás dela e começou a acariciá-la com a sua enorme ereção, primeiro o traseiro, lentamente, e depois em redor do sexo. Penelope susteve a respiração, aguardando o momento em que ele entrasse na mulher. Por fim, chegou o momento. Com um enorme gemido ele investiu com as ancas e desapareceu dentro do corpo húmido e excitado da amante. As costas da mulher arquearam-se, agarrou os lençóis com força e soltou um impropério poucas vezes ouvido nos lábios de uma mulher. Era evidente que ambos tinham já estado juntos, pois o homem não hesitara. Não


explorou, tomou-a simplesmente, lançando o seu corpo contra o dela com uma intensidade febril que fez a companheira estremecer debaixo dele. Penelope ficou com a boca seca de os ver acasalar furiosamente. Agarrou com força a borda da prateleira por cima da lareira e inclinou-se até o seu nariz quase tocar na tela do retrato. O homem passou a mão pelas costas da mulher sem abrandar o seu ritmo forte. Penelope viu-o enrolar o cabelo dela nos seus dedos e puxar, obrigando-a a erguer-se e a voltar o rosto. Penelope viu então o rosto da mulher quando o longo cabelo deixou de o ocultar. – Valha-me Deus – murmurou e desta vez nem a mão firme de Jeremy evitou que descesse do banco e se afastasse daquela cena escandalosa. – Mas é... mas é Lady Turncroft. Jeremy afastou-se da cena e olhou para ela com uma expressão imperscrutável. Estoica. – Sim. Penelope engoliu em seco. – E aquele não era o marido dela. – Não. Penelope cobriu a boca com a mão enquanto andava pelo quarto, inquieta, ainda excitada pelo que vira e chocada por quem vira envolvida em atividades ilícitas. – M... mas ela é uma das mulheres mais respeitadas da sociedade – gaguejou Penelope. – É presidente de uma associação de caridade, valha-me Deus. Abordou-me ainda não há duas semanas num baile para me dizer ao ouvido que apoiava incontestavelmente a minha «luta». Jeremy ergueu uma sobrancelha. – E, contudo, está aqui. Penelope olhou-o. – O senhor sabia que ela estava naquele quarto – cruzou os braços. – Sabia que ela estava com aquele homem. – Ou com outro – encolheu os ombros. – Ou com dois. Penelope abriu muito os olhos de espanto. – Com dois? – De vez em quanto. Trata-se de uma mulher com certos apetites. – Ela sabe que pode ser vista? – perguntou Penelope apertando as mãos atrás das costas. Embora quisesse fazer todas aquelas perguntas, sentia um estranho desejo de voltar a espreitar o que se passava naquele quarto. Queria ver o final da cena erótica. Obrigou-se a ficar onde estava. – Sabe. Arabella não dá aquele quarto a quem não queira ser observado – Jeremy


olhou para o quadro. – Ficaria surpreendida com os pedidos que há para aquele quarto. E para este. Ver e ser visto são fantasias vulgares. Penelope engoliu em seco só de pensar naquilo, mas ignorou o cometário pelo menos por enquanto. – Mas ela não usa máscara. Qualquer um neste quarto poderá reconhecêla como aconteceu comigo. Não tem medo de ser falada pelo seu comportamento chocante? Jeremy encolheu os ombros. – Há regras neste clube que oferecem aos seus membros um certo nível de proteção. Quem falar do que viu nunca mais cá pode voltar. E, como se não bastasse, apropriar essência deste lugar é a própria proteção. Afinal, o que diriam as pessoas que quisessem revelar o segredo dela? «Estava a fornicar com a minha amante ao mesmo tempo que espiava outra pessoa e vi Lady Turncroft possuída pelos dois lados por dois homens bem constituídos?» Penelope fechou os olhos. Os termos contundentes de Jeremy deveriam tê-la feito desistir, mas tal não aconteceu. Os seus mamilos traiçoeiros endureceram por baixo do tecido fino do seu vestido. – Suponho que não – disse ela, tentando tomar fôlego. – Mas porque me quis mostrar isto? Ele aproximou-se dela e sobressaltou-a. Pensou que não suportaria que ele lhe tocasse naquele momento. Sentia-se excitada, cheia de desejo, enervada. Pronta a implorar a Jeremy uma coisa que não podia exigir. Pelo menos, sem se perder completamente. Estava já muito perto de o fazer. – Hoje estava tão perturbada acusando-se de ser hipócrita – disse ele em voz baixa. – Quis que visse que há muitas mulheres na sociedade com segredos. Segredos muito mais escandalosos do que pode ser qualquer dos seus. Afinal, aquilo era uma consolação até porque Jeremy não sabia até que ponto o seu segredo era escandaloso. – Quer dizer que tentou mostrar-me que o meu inimigo pode muito bem ter o meu próprio rosto. Ele olhou-a claramente admirado com aquela afirmação. Mas não a negou. Limitou-se a inclinar a cabeça em silencioso acordo.


Capítulo 14

Penelope tremia embora o lume la lareira lhe aquecesse o quarto a uma temperatura mais do que agradável. Não, não era o frio que lhe causava o tremor. Sentou-se com um suspiro num dos cadeirões junto da lareira. Era a confusão que tinha dentro de si, nada mais. Sentia-se assim desde que ela e Jeremy tinham ido ao Palácio do Prazer de Arabella e Valentine. As imagens daquilo que espiara repetiam-se vezes sem conta na sua imaginação. – Penelope? Sobressaltada, Penelope olhou para a porta do aposento. Fiona estava à espera com a preocupação estampada nas suas belas feições. – Sim? – perguntou ela, tentando manter uma voz calma. Fiona entrou com alguma hesitação. – Se não deseja mais nada, retiro-me para o meu quarto para ir dormir. Penelope sorriu o mais delicadamente que pôde, pois tinha o espírito muito ocupado. Era quase meia-noite e sabia que a sua noite estava apenas a começar. Pouco dormiria nessa noite. Apenas teria mais prazer. Mais confusão. – Não é preciso mais nada – disse ela acenando à criada que ficara à porta. – Obrigada. Fiona não saiu logo do quarto conforme Penelope pensava. Estava ainda à espera de testa franzida. – Tema a certeza, minha senhora? Um chá? Talvez um copo de leite quente para se acalmar? Alguma coisa para comer? Mal tocou no jantar esta noite. Penelope pôs-se de pé e abanou a cabeça. – Não. Estou bem. – Como a antiga cortesã não parecesse muito convencida, Penelope atravessou o quarto e foi ter com ela. – Estou mesmo muito bem. Pronto. Agora vai para a cama. Fiona abriu a boca como se quisesse dizer alguma coisa, mas, depois, encolheu os ombros e voltou-se para a porta. – Estou apenas preocupada consigo, Penelope – disse antes de sair para o corredor. Tem estado estranha nas últimas semanas. Sei que em parte se deve às visitas frequentes de Jeremy e também ao seu admirador secreto. Mas preocupo-me consigo. Depois a jovem saiu do quarto e fechou a porta atrás de si. Penelope ficou preocupada. – Também eu estou preocupada comigo – murmurou, passando a mão pelos olhos.


– E eu. Penelope voltou-se para ouvir a voz rouca e masculina que subitamente ecoou vinda da janela. O seu coração estremeceu ao ver a sombra escura do amante secreto voltarse para correr o fecho da janela. – Quase fui apanhado quando a sua criada entrou – disse em voz baixa. – Felizmente que estava muito entretida em confessar as preocupações pelo seu bem-estar e não reparou que eu me encontrava no parapeito da janela, à espera para a seduzir completamente. Avançou um longo passo. – Talvez queira fechar a porta à chave, minha senhora. Penelope recuou e deu por si encostada à porta que ele a mandara fechar. O coração bateu-lhe desordenadamente quando ele se aproximou, passo a passo, até ela sentir o aroma masculino do sândalo combinado com o da pele limpa. Uma sugestão de pinheiro com uma forte pincelada de luxúria. Sentiu os joelhos fracos, mesmo tentando ficar imóvel. – Oh, por favor – murmurou, voltando o rosto enquanto ele colocava uma mão na porta junto à cabeça dela. – Não posso, não posso fazer isto. Ele soltou uma gargalhada, um som discreto mas selvagem que imediatamente transformou os protestos dela em gemidos que tentou disfarçar. Sentiu o corpo húmido quando ele a prendeu com o outro braço, impedindo-a de fugir. – Mas quer – disse ele em voz baixa, mergulhando a cabeça para lhe acariciar o pescoço. – Precisa disto. Quase o posso saborear na sua pele – provou-lhe a garganta com a língua. – Sinto-o misturado com o seu perfume. Tão doce. Continuou a acariciá-la com a boca e o nariz, descendo até ao decote em concha do vestido. Os seios dela subiram, os mamilos endureceram ao ligeiro toque. Penelope gemeu ao sentir que o corpo a atraiçoava. E o espírito também. Todos os protestos se perderam quando as sensações foram mais fortes. – Se não me quisesse aqui – continuou o desconhecido passando-lhe os dedos pela pequena fila de botões do corpete. Começou a soltá-los com dedos ágeis. – Não teria poisado o candeeiro tão perto da janela. O lume da sua lareira seria enorme e não tão baixo. Pode não desejar admiti-lo, nem sequer a si própria, mas estava à minha espera esta noite. Penelope apertou os lábios e mordeu a língua para se impedir de gritar quando ele lhe despiu o vestido. Meu Deus, tinha razão. Ela estivera à espera dele. À espera do que se iria passar. – Tão bela – ronronou ele, passando o polegar pelo mamilo duro que investia contra o tecido fino da camisa. Penelope arqueou as costas de encontro à porta enquanto os dedos quentes do prazer a rasgavam numa descontrolada explosão de sensações. Estava vagamente consciente


de que o desconhecido passara o braço por trás dela para dar a volta à chave. Desesperada, ergueu as ancas para ele, o seu corpo húmido obrigando-a a comportar-se de um modo que durante tanto tempo ela censurara publicamente. Ele ignorou-lhe as ancas e concentrou exclusivamente a sua atenção nos seios. Enquanto continuava a acariciar um monte dorido, baixou-lhe as alças da camisa para expor o outro seio. Os seus lábios quentes fecharam-se em redor do mamilo e chupou com tanta força que Penelope estremeceu. Com tanta força que o prazer quase se aproximou do abismo da dor, mas sem o ultrapassar. Penelope deixou de combater contra os seus desejos. Deixou que os seus dedos subissem para se meterem por entre o cabelo dele. Puxou-o mais para si, gemendo enquanto ele lhe acariciava o mamilo e lhe tocava com os dentes, sugando-lhe a carne tenra, até sentir os joelhos fracos e o sexo latejasse loucamente no vazio. Ele soltou um rugido de prazer quando passou a boca para o outro mamilo. Desta vez, baixou ainda mais a camisa, deixando que o tecido macio lhe tocasse a pele sensível, enquanto Penelope se debatia desesperadamente encostada à porta, puxando o cabelo dele, as costas arqueadas reagindo àquele toque pecaminoso. O desconhecido parecia gostar de a atormentar, segurando-lhe os seios com as mãos, erguendo-os, juntando-os para poder lamber languidamente um mamilo e repetir a carícia no outro. Para trás e para a frente, pequenas dentadas, puxões suaves e, por fim, passou a língua pelo vale que criara entre eles. Penelope abriu muito os olhos. Sentia entre as pernas a passagem da língua dele, como se fosse aí que ele repetisse a ação. – Por favor – gemeu, erguendo as ancas para ele. – Por favor! Ele ergueu-lhe o queixo e as bocas quase se tocaram. – Por favor o quê? – murmurou passando o rosto coberto pela barba na face dela. Ela sufocou um grito de frustração. Queria implorar-lhe que entrasse nela. Que a tomasse. Queria esquecer a cautela e os seus limites e deixar que ele lhe abrisse as pernas para entrar nela com o pénis. Era o que queria e ele sabia-o, o canalha. Sabia e estava a experimentá-la, a desfrutar. Mas ela não podia. Seria demasiado. Assim, em vez de lhe pedir aquilo que mais desejava, soltou-lhe o cabelo e baixou as mãos para lhe acariciar o peito, sentindo os músculos duros contraírem-se por baixo da camisa de linho que ele usava. Baixou-as até ao cós de lã das calças dele. E ainda mais até segurar com a mão a extensão dura que sentia sob as camadas de tecido grosso. Foi então a vez de ele suspirar de prazer e de surpresa quando o seu corpo se chegou mais ao dela obrigando-a a rodeá-lo com os dedos. – Não comece nada que não queira acabar – avisou-a chegando-se ainda mais a ela. Desta vez o seu pénis duro empurrava-lhe o casulo dos dedos e encostava-se com força


às pernas dela, fazendo com que o tecido da camisa lhe tocasse no clítoris e obrigandoa a soltar um gritinho de prazer. Penelope hesitou. Vira o modo de levar um homem ao prazer sem permitir que ele lhe entrasse no corpo. E sentia curiosidade por aquele ato proibido. – Quem diz que não acabo? – murmurou, escandalizada com o tom rouco e tentador do seu tom de voz. Parecia uma rameira, uma cortesã, uma mulher de prazer. E gostava. Sem se deter para ponderar esse facto, começou por retirar a camisa ao seu companheiro sem rosto. Foi difícil desabotoá-la no escuro, mas conseguiu fazê-lo com os seus dedos trémulos. Susteve a respiração quando lhe tocou na pele nua. Era um homem muito bem constituído em todos os sentidos. Tinha a pele macia, sobre músculos incrivelmente tonificados e salpicados com uma leve camada de pelos encaracolados. Apertou os dedos sobre a pele dele, apreciando o modo como os músculos se contraíam ao seu toque. O desconhecido não parecia um membro mimado da alta sociedade. Seria um trabalhador rural? Se assim fosse, como poderia tê-la visto e escolhido para sua conquista? De novo as imagens de Jeremy Vaughn invadiam-lhe de novo o espírito enquanto retirava a camisa do homem deixando-a cair no chão. Jeremy tinha um belo corpo e era duque. Uma mulher teria de ser cega para não perceber como ele era esguio e atlético. Portanto, talvez este homem fosse do mesmo género. Penelope fechou os olhos, mesmo no escuro. Tinha de deixar de pensar em Jeremy, principalmente quando outro homem a acariciava. Quando deixava que outro homem a acariciasse. Não estava certo. Enquanto lhe deslizava os dedos pela carne nua, o seu amante sustinha a respiração. Ela sorriu e, seguindo-lhe o atalho de pelos do peito, chegou-lhe ao cós das calças. Desapertou cada colchete com deliberada lentidão, usufruindo do modo que aquele homem, que era obviamente versado em sexo e prazer, sustinha a respiração. O modo como se inclinava para ela, a suplicar mais. O modo como ficava rígido enquanto ela passava os polegares pelo cós das calças e afastava o tecido num movimento lento. Penelope passou as palmas das suas mãos pelas ancas dele enquanto as calças caíam no chão e ambos respiraram fundo. Penelope estremeceu. Meu Deus, era tão duro, como uma estátua de granito em pessoa, para realizar todas as suas fantasias. Todas menos uma. Afastou a ideia e concentrou-se em tocá-lo. Acariciou-lhe as ancas estreitas, sentindo nas palmas das mãos os pelos leves das suas coxas fortes e ocultou um risinho nervoso quando lhe passou as mãos pelo traseiro. – Lembre-se do que lhe disse – gemeu ele, mas num tom de voz muito menos


brincalhão. – Não comece nada que não possa terminar, Penelope. Ela olhou para a escuridão, frustrada por poder apenas imaginar um fantasma das feições do homem. Queria ver o efeito que tinha sobre ele, não ouvi-lo apenas na voz ou sentir-lhe na pele. Queria olhar para os olhos dele enquanto lhe tocava. Mas era impossível. Uma tolice. Só aquilo lhe era permitido. Um amante nas sombras. Mas, enquanto o tinha, tencionava fazer total uso dele. Caiu de joelhos, sem dizer palavra. As roupas no chão faziam uma perfeita almofada. Passou-lhe as mãos pelas pernas e capturou-lhe pela segunda vez com os dedos a ereção dura do pénis. Mas agora não havia qualquer tecido entre eles. Nada senão a pele quente dele sobre a dela. – Penelope… – a voz dele era um aviso, mas ao mesmo tempo havia nela o tremor da antecipação. E era demasiado para resistir. Penelope inclinou-se e encostou ao de leve a face ao corpo dele. A pele do desconhecido era tão quente. Tão dura. Saltava junto à sua pele, estremecendo descontrolada. Ela apenas queria… mais. Por isso afastou os seus velozes pensamentos, limpou o espírito de imagens perturbadoras e permitiu-se ao prazer. Dar e receber. Os joelhos de Jeremy vacilaram quando Penelope passou os lábios pela ponta delicadamente sensível do seu pénis. Sentia na pele o hálito quente, os lábios macios e suaves, suficientemente húmidos para que ele estremecesse de prazer. Geralmente, controlava-se, mas, nesse momento, não conseguia. Queria meter-se na boca dela. Queria sentir a língua dela. Mas, mais que isso, desejava erguê-la, empurrá-la de encontro à porta com o seu peso e mergulhar-lhe no sexo. Queria possuí-la húmida, com força e rapidamente. Embora tudo isso fosse contra o seu próprio plano. Ela deveria suplicar, não ele. Mas ele estava pronto a fazê-lo quando ela entreabriu os lábios e passou nele, brincalhona, a língua ao de leve. Jeremy gemeu e apoiou os braços na porta atrás dela. Quando Penelope repetiu o gesto não foi a brincar. Fez deslizar a boca em redor da cabeça do pénis do desconhecido e chupou, puxando-o centímetro a centímetro, massajando-o com a língua, dando-lhe leves dentadas. Recebeu-o o mais que podia, e a cada investida, segurava-lhe com força a base do pénis. Era uma loucura completa. Nenhuma mulher deveria ser tão talentosa para realizar um ato a que apenas assistira duas vezes. Para nascer com tanta habilidade, para proporcionar um prazer intenso. Uma prostituta de coração. Jeremy estremeceu quando ela se retirou passando a mão pelo caminho húmido que a


sua boca criara ao afastar-se dele. – Cristo – murmurou e a palavra arrastou-se-lhe contra vontade dele quando ela o tomou de novo. Jeremy meteu-lhe os dedos no cabelo e sentiu a tensão do corpo dela. Pensava no que tinha visto naquele dia. Pensava que tinha visto Lady Turncroft a proporcionar prazer ao amante tal como Penelope fazia agora. Pensava na expressão de êxtase no rosto dessa mulher quando o homem lhe passara o cabelo para trás. Jeremy esperou com o pénis latejando de prazer para ver se Penelope se retirava. Talvez confessasse o que vira. Mas, depois de breves segundos, voltou a proporcionarlhe prazer. Se possível, o ritmo dela aumentou e ele esqueceu todos os planos que urdira a respeito dela. Esqueceu todas as confusas emoções que ela lhe causava. E concentrou-se no prazer. Penelope sorria enquanto o seu misterioso amante arqueava as ancas de encontro à sua boca e a pressão dos dedos dele aumentava sobre o seu cabelo. Estava a perder o controlo por causa do que ela fazia. Da boca dela, da língua dela, das mãos dela… que tinham a capacidade de o fazer gemer. De o fazer ficar tenso. De o fazer chegar ao orgasmo. E nunca se sentira tão poderosa em toda a sua vida. Gostava de sentir o pénis dele endurecer na sua boca. Gostava da maneira como ele sustinha a respiração. Excitava-a. Sentia-se tão húmida, tão pronta que cada investida da sua boca aguçava o seu próprio desejo, tornando-o mais definido. Estava à beira do orgasmo quando o seu amante sem rosto soltou um gemido gutural e arrancou o pénis de entre os lábios dela. Ouviu-o gemer de prazer na escuridão e soube o que havia feito. Sentiu uma estranha sensação de desapontamento por ele não se ter completado entre os seus lábios, embora se apercebesse de que a retirada fora um ato cavalheiresco da parte dele. – És uma tentadora – murmurou pegando-lhe nos braços para a pôr de pé. Com a ponta dos dedos arrancou-lhe a camisa deixando-a nua. Ela susteve a respiração chocada. Tinha partido do princípio que ele se retiraria depois de ela lhe ter proporcionado aquele prazer. O marido nunca exprimira qualquer interesse por ela depois de uma libertação. – O que vai… – disse. Ele silenciou-a com um beijo que lhe dissolveu os ossos. Jeremy mergulhou a língua na boca dela, acariciando-a com a sua numa promessa de paixão que quase a faziam sentir dor. – Pensavas que já tinha terminado? – disse em voz surda depois de lhe dar outro beijo violento e cheio de desejo. – Nem penses. Agora que satisfiz o meu desejo posso concentrar-me unicamente em ti.


Penelope espantou-se com a ideia. Então, na noite anterior, a atenção dele não se concentrara unicamente nela? Só de pensar sentia-se sem forças. Que mais poderia ele fazer quando o seu desejo estivesse saciado e o corpo dela fosse a única coisa a distraí-lo? Não teve de esperar muito para saber. Jeremy ergueu-lhe os braços sobre a cabeça e segurou-os junto à porta com uma mão. Depois meteu o joelho entre as coxas dela para as abrir. Penelope soltou uma exclamação estrangulada ao sentir o músculo duro da perna dele encostado aos lábios do seu sexo. A dor surda do desejo subiu imediatamente para um novo nível. Mas por trás havia uma emoção inteiramente diferente. Um receio ansioso e excitado. Estava completamente nua, totalmente à mercê dele, sem poder usar as mãos para o afastar. E ele estava também despido. Se quisesse, poderia levar-lhe a única coisa que prometera deixar. Poderia fazer sexo com ela, sem que ela o pudesse impedir. E a pior parte era que, se ele a levantasse, se a preenchesse com o pénis, Penelope sabia que não o impediria. Debater-se-ia, gemeria e atingiria o orgasmo, mesmo sem querer. – Prometeu – protestou ela em voz fraca, puxando ao de leve as mãos. O corpo dele ficou perfeitamente imóvel para que ela apenas pudesse sentir-lhe o hálito quente sobre o rosto. – Não te possuir? – perguntou arquejante. – E não o farei, por muito que isso me tente. Não forço as mulheres, Penelope. Se alguém o fez no passado à tua pessoa, espero que apodreça no inferno. Foi então a vez de Penelope ficar completamente imóvel. Apenas confessara a uma pessoa a realidade do seu casamento: a Jeremy Vaughn. Contudo, este homem misterioso, que não a conhecia, adivinhara parte da verdade. O corpo dela, as suas reações para com ele, traíam o seu segredo mais profundo, mais doloroso. – Penelope, só tomarei aquilo que me quiseres oferecer – murmurou ele. – Até que me peças mais. Com a sua encontrou de novo a boca dela, mas não houve nada de violento ou forçado no beijo. Foi suave, tranquilizador, tão doce e inesperado que levou as lágrimas aos olhos de Penelope. Quando fora a última vez que sentira ternura? De uma qualquer pessoa, mas, principalmente, de um homem? Encostou-se a ele, descontraída, apesar da posição, sossegando o espírito e sentindo apenas a doce pressão dos lábios dele nos seus. Quando ele se afastou, Penelope sentiu-lhe a respiração calma. Sentiu também a sua. Aquele homem tinha planos para ela, mas o beijo não fazia parte deles. E isso tornava-o ainda mais especial. Já sem medo de que ele tomasse aquilo que ela não lhe oferecera, Penelope rendeu-se


às sensações. O joelho entre as suas pernas subiu mais e mais, até ela levantar os pés do chão e ficar com o sexo aberto sobre a perna dele. – Meu Deus, estás tão molhada. Tão pronta – murmurou ele, mais para consigo do que para ela. Mudou a mão de posição passando-lhe os braços em redor do seu pescoço. Estavam agora frente a frente no escuro e ele poisou-lhe as mãos no traseiro e puxou-a para diante. O resultado foi uma doce fricção. Ela resistiu ao sentir o clítoris de encontro ao músculo duro, picado ao de leve pelos pequenos pelos das pernas dele. Jeremy mudou-a de novo de posição até conseguir que ela se movimentasse por vontade própria pela perna dele. Quase instintivamente todo o seu desejo em suspenso, todo o prazer contra o qual ela lutara nos últimos dois dias, transbordou. Inclinou a cabeça para trás e deixou-se invadir pela onda de paixão. Quando os lábios dele lhe tocaram na garganta foi a última gota. Estremeceu violentamente, movimentando-se sobre a coxa dele enquanto os estremecimentos de prazer rolavam sobre ela. O orgasmo pareceu durar uma eternidade, sem abrandar ou diminuir de intensidade até desfalecer sobre o corpo dele coberto de suor. Jeremy rodeou-a com os braços e desceu-a lentamente até ela tocar com os pés no chão. Sem conseguir firmar-se, Penelope não lhe largou o pescoço, agarrando-se a ele enquanto pequenos estremecimentos agitavam de vez em quando o seu corpo sensível. O desconhecido inclinou a cabeça e encontrou-lhe a boca. Abriu-lha com a língua e explorou-a lentamente, atormentando-a. O fogo que Penelope acabara de extinguir voltou imediatamente e duplicou quando o amante lhe segurou as nádegas e a puxou para si. – Mais? – murmurou ela, enfraquecida, enquanto ele a conduzia para a cama. – Muito mais – prometeu colocando-a sobre as almofadas. Ela estremeceu sentindo o corpo dele empurrá-la para o colchão, moldando-lhe as curvas suaves com o seu desejo inflexível. Penelope olhou para o contorno do homem que lentamente a modificava, mas que ela nunca vira. Quem seria? Como a encontrara? Porque a desejaria? Queria fazer-lhe estas perguntas e outras mais, mas se ele não lhe permitia tempo para pensar, muito menos para falar. Os dedos dele começaram a passar-lhe pela pele, a dançar, a experimentar. Ela arqueou-se ao sentir que as pontas dos dedos dele lhe passavam pelos mamilos e sentia que os seus pensamentos se esvaziavam como água sobre um vidro voltado ao contrário. O desconhecido desceu, tocando-lhe cada centímetro de carne exposta até lhe tocar no sexo e de o abrir com lentas carícias dos dedos. Ela ergueu-se, oferecendo o seu corpo como uma prostituta, esperando que ele a abrisse com os dedos. Mas ele não o fez.


– Quero-te, Penelope – gemeu em voz baixa e rouca por entre a escuridão. Ela arqueou de novo o corpo, obrigando-o a meter a ponta do dedo na fenda húmida. Sufocou um grito ofegante. – Toque-me. – Preferia entrar em ti – murmurou ele. Penelope ficou imóvel. Estaria a pedir-lhe? – Mas não o permitirás – disse antes que ela pudesse reagir. Penelope queria sentir-se satisfeita por isso, mas não. Sabia que, se ele tivesse hesitado mais um momento ela poderia ter-lhe permitido que fizesse amor com ela. Que entrasse nela. – Então a tua boca – disse ele, inclinando-se sobre ela. Jeremy colou os lábios aos dela e Penelope soltou uma exclamação sufocada ao sentir a ereção dele junto ao seu ventre. – Quero a tua boca em mim, mais uma vez. Ela afastou-se. – Já? – murmurou. – Não pensei que... Corada, Penelope não disse mais nada. Deveria parecer uma menina tonta e ingénua. Era óbvio que aquele homem a desejaria num tão curto espaço de tempo. Simplesmente, o marido nunca a desejara depois de se ter servido dela. – Penelope, estou pronto desde uns momentos depois de me terem feito chegar ao orgasmo – encostou de novo a boca à dela. – Sinto-me louco de desejo. Só penso em ti. Mas quero proporcionar-te prazer. Confias em mim para que possamos atingir simultaneamente a libertação? Penelope engoliu em seco. – Como? Ele deitou-se de costas ao lado dela. – Vem para cima de mim de modo que a tua boca fique junto do meu pénis. Deixa que te saboreie enquanto fazes o mesmo comigo. Ela respirou fundo. Nunca ouvira falar de tal coisa, mas o seu corpo latejava de antecipação, ao pensar que a boca do amante misterioso ficaria sobre ela, excitando-a com a sua talentosa língua. Com cuidado, posicionou-se tal e qual ele sugerira. O pénis de Jeremy estava ereto quando ela se inclinou sobre ele e saltou quando o cabelo dela tocou a sua cabeça sensível. Penelope tomou-o na sua mão e levou-o aos lábios pela segunda vez, sentindo o amante estremecer e soltar um suspiro de prazer junto ao seu corpo nu. Depois, a língua de Jeremy entrou nela. Penelope arqueou o corpo, deixando que o pénis dele se lhe soltasse dos lábios enquanto gritava de prazer. Apertou-lhe a ereção enquanto ele a lambia, passando-lhe a língua por todos os recantos, molhando-a com líquidos semelhantes a vinhos finos.


Os gemidos dela tornaram-se mais ruidosos e estrangulados quando ele acrescentou o seu dedo ao tormento. Inseriu-o lentamente na fenda latejante ao mesmo tempo que continuava a morder-lhe e lamber-lhe o clítoris. Penelope tentou controlar a onda de prazer, concentrando-se no pénis dele. Cobriu-o com a boca, fazendo deslizar a língua sobre ele com o mesmo ritmo com que lhe inseria o dedo no corpo. O corpo que já começara a estremecer, preparando-se para a libertação nas sombras do quarto. Penelope desejava-o, tentava alcançá-lo, mas ele parecia não chegar. Porque queria mais. Queria que este homem se erguesse por trás dela e a preenchesse com o seu corpo duro. Queria ser empurrada para o colchão por baixo do seu peso. Queria dar-lhe tudo. O corpo, a rendição. Só que, quando imaginou o homem erguendo-se por trás dela, empurrando-a para a cama enquanto a possuía, o rosto dele pertencia a Jeremy. Ao pensar nele, o seu corpo rugiu de prazer. Estremeceu continuando a chupar e a fazer deslizar os lábios sobre o corpo do seu amante misterioso e as ancas dela bateram na boca dele, enquanto gemia junto ao corpo dele. Penelope sentiu que as pernas dele ficavam hirtas e que ele atingia o orgasmo. Ficou surpreendida pela súbita erupção, mas não achou desagradável. O seu próprio prazer era demasiado para se perturbar. Com um último grito, arqueou-se, soltando o pénis dele da sua boca. Penelope deixou-se cair sobre as pernas do amante, ofegando enquanto o seu corpo estremecia. Ele inclinou-se e ergueu-a, deitando-a depois ao lado dele. Penelope não resistiu. Sentia-se demasiado fraca e sem energia de prazer. Demasiado quente e saciada. – Está a fazer-se tarde – disse ele em voz baixa, dando-lhe um beijo na testa. – Devo ir. Penelope ergueu os olhos para o rosto na sombra. – Muito bem. Ele beijou-a e ela sentiu o sabor da essência do seu próprio prazer nos lábios dele. O seu corpo reagiu imediatamente com uma velocidade escandalosa. Como poderia desejá-lo de novo? Ele afastou-se e ela ouviu-o recolher as roupas e vestir-se no quarto. – Será que... – disse ela, detendo-se, sentindo um rubor invadir-lhe as faces. Felizmente ele não podia vê-la. – O quê? – Será que o verei de novo? – perguntou em voz baixa. Houve um momento de hesitação. – Amanhã à noite.


Penelope sentiu uma onda de alívio. Um alívio perturbador, tendo em conta o perto que havia estado naquela noite de lhe pedir que a possuísse. Teria de ser forte quando ele a visitasse de novo. Talvez devesse fazer que a vez seguinte fosse a última. A ideia perturbou-a. – Deixar-lhe-ei a janela aberta – prometeu. – Boa noite, Penelope – disse ele em voz baixa. – Sonhe comigo. Depois Penelope ouviu a janela abrir-se e ele partiu. Penelope deu uma volta para ficar a olhar para as brasas da lareira, que tão pouca luz tinham oferecido que ela nem sabia quem era o homem que tanto prazer lhe proporcionara. Já se sentia vazia sem ele. Já desejava o seu toque. Parecia-lhe que a satisfação não viria dos dedos ou da língua dele. Apenas ficara com desejos de mais. Desejos daquilo que jurara evitar. E uma ânsia de estar com Jeremy, por muito errado que esse desejo parecesse.


Capítulo 15

Jeremy passou os dedos pelo braço do cadeirão em que estava confortavelmente sentado. Olhou para a sala de Penelope com a testa franzida. Era uma bela sala, muito bonita, com o melhor mobiliário e recheio, embora a decoração tivesse um tom frio. Refletia a máscara pública que Penelope colocava. Porém, não refletia a sua verdadeira natureza que Jeremy tinha começado a perceber como seu amante misterioso. Apertou as mãos. Ser um sedutor sem rosto parecera-lhe à primeira vista um plano perfeito. E não havia dúvida de que funcionara. O seu disfarce anónimo pusera Penelope à vontade. Permitira-lhe soltar os desejos, alguns, se não todos. Mas, mesmo assim, ainda se continha. E Jeremy descobrira que quebrar-lhe as barreiras, oferecer-lhe um prazer secreto, sabendo que ela lhe dava material para que ele a chantageasse e a arruinasse, dava-lhe muito menos prazer do que calculara. De facto, era decididamente frustrante. Jeremy queria estar dentro do corpo dela. Queria sentir que o corpo dela se arqueava enquanto entrava centímetro a centímetro. Queria que ela admitisse que o desejava tanto como ele a ela. E nenhum desses desejos tinha a ver com o plano que traçara. Queria que ela lhe pedisse para fazer amor com ele, não para ser chantageada, mas por qualquer outra razão. Uma coisa que o perturbava e que ele não compreendia e ainda menos sabia dizer o que era. Queria simplesmente que ela o desejasse. A porta abriu-se atrás dele e Jeremy pôs-se de pé quando Penelope entrou na sala. Reparou que ela deixara a porta aberta e lhe lançava um cansado sorriso de boasvindas. Parecia extenuada. Muito mais cansada e confusa do que na tarde anterior. Depois de ele a ter deixado na noite anterior, teria ficado acordada, atormentandose? Ou teria andado de um lado para o outro no quarto pensando nos seus desejos não realizados? – Boa tarde, Penelope – disse ele sorrindo, como se não lhe notasse os olhos vermelhos ou as olheiras. Esperava apenas que ela estivesse distraída e não notasse as dele. – Olá – disse ela em voz baixa, mas sem o olhar de frente. Interessante. Sentiria remorsos do que fizera na escuridão da noite anterior? Ou recearia simplesmente que ele visse a verdade? Afinal, Penelope não sabia que ele era o homem que a fazia gritar durante a noite. Considerava-o apenas um amigo, uma designação que o perturbava de várias maneiras.


– Está pronta para a nossa excursão de hoje? – perguntou ele pondo de lado os seus pensamentos perturbadores e dirigindo-se à porta, atrás de si. Penelope olhou-o durante um longo momento de silêncio. Depois passou por ele e sentou-se na cadeira diante da que ele recentemente ocupara. Olhou para as mãos durante tanto tempo que Jeremy não pôde evitar aproximar-se verdadeiramente preocupado. – Penelope? Ela olhou-o e abanou levemente a cabeça. – Sei que percorreu todo este caminho para que eu o acompanhasse a uma das suas saídas e agradeço o interesse e o tempo que gasta com os seus… ensinamentos. Mas hoje não tenho disposição. Jeremy endireitou-se. – Fiz alguma coisa que lhe desagradasse? Ela abanou imediatamente a cabeça. – Não. Tem sido muito bom para mim, mesmo que eu não o mereça. Jeremy estremeceu. Quando ela descobrisse a verdade sobre aquele engano, odiá-loia. Não deveria preocupar-se mas preocupava-se. – Deseja que a deixe em paz? – perguntou e ficou surpreendido com o nó que se lhe formara no estômago só com a ideia. De facto, desejara poder passar algum tempo com Penelope à luz do dia. De poder olhar para ela, ver as suas reações às delícias sensuais que ele a expusera naquele dia. Ela refletiu por momentos na pergunta dele. – Não. Quer ficar? Ele afastou-se, apanhado de surpresa por aquele inesperado pedido. – Claro – gaguejou, sentando-se de novo diante dela. Ficaram em silêncio até à chegada da criada que poisou o tabuleiro do chá sobre a pequena mesa que os separava. Depois de Penelope mandar a jovem embora com um aceno e começar a servir, voltou a falar. – Julga-me uma completa hipócrita? Jeremy sentiu-se tenso. Pronto. Era a pergunta que esperara que ela lhe fizesse. A que facilmente inverteria tudo na sua guerra contra os excessos. Deveria dizer-lhe que sim. Falar-lhe da sua verdadeira natureza. Usar contra Penelope a confiança que ela depositara nele. Mas agora que o momento chegara e que olhava para a expressão cansada de Penelope, e para os seus olhos pisados, apercebeu-se de que a sua resposta seria diferente. – Não sei. Um hipócrita é uma pessoa que diz uma coisa e faz outra. Ou que acredita noutra de alma e coração. Uma pessoa que nega a verdade do que é em público –


encolheu os ombros pegando na chávena que ela lhe estendia. – E não faço ideia de quais serão as verdades que possa ou não esconder dos outros. Ou até de si própria. Penelope olhou para o líquido fervente da sua chávena e Jeremy apercebeu-se da batalha que ela travava. Susteve a respiração, aguardando que ela confessasse que cedera a obscuras paixões com um homem cujo rosto não conhecia. Mas Penelope não o fez. Por fim, abanou a cabeça. – Deve ter razão. Mas haverá quem diga que as minhas excursões consigo são prova da minha hipocrisia. Haverá quem queira usar esse tempo em meu desfavor, se tiver oportunidade. Para me calar. Jeremy apercebeu-se de que estava estranhamente aborrecido pelo facto de ela não lhe confiar o caso do amante secreto. Mas era uma tolice. Afinal, o que diria ele se ela o confessasse. Revelar-se-ia? Completaria o plano conforme prometera aos amigos. – Jeremy – disse ela em voz baixa. Depois abanou a cabeça com um rumor tão forte que as faces lhe escureceram ficando cor de carmim. – Isto é, senhor duque. Ele sorriu. – Em privado, não vejo qualquer problema em que me chame Jeremy. Afinal, há muito que sou indelicado tratando-a por Penelope e a senhora sempre foi suficientemente bondosa para nunca me corrigir. Ela baixou o rosto. – Somos amigos, não é verdade? E os amigos devem tratar-se pelo nome próprio, pois não será incorreto. Desde que continuemos a usar os títulos diante de outras pessoas. Jeremy franziu a testa. Acontecia de novo. A sua resolução inflexível de cumprir as regras, pelo menos em público. Lutar, aos olhos dos outros, contra aquilo que desejava. – Suponho que sim. Em relação ao que disse acerca de outros que a querem silenciar, é verdade que a senhora criou inimigos com as suas palavras. Mas, se se conhece, se conhece o seu coração, sabe que aquilo que os outros dizem não deve ter importância para si. Ela olhou-o com uma expressão surpreendida. – O senhor conhece-se? Conhece o seu próprio coração? Jeremy mudou de posição, pouco à vontade. Não estava habituado a falar de si. Os seus amigos não lhe exigiam tal abertura e as amantes sabiam que o lugar delas era na cama. Raramente era empurrado para além da confortável distância que decidira manter. – Que quer dizer com isso? – perguntou mais para ganhar tempo. Ela encolheu os ombros. – O seu comportamento era muito diferente. O senhor era conhecido pelos seus excessos, pela sua luxúria pecaminosa. – Jeremy pensou detetar em Penelope um leve


estremecimento quando pronunciara a palavra luxúria, mas não tinha a certeza, pois ela continuou. – Agora afirma estar mudado. O que fez de si o homem que antes era? E o que o transformou no homem que afirma ser agora? Perguntas diretas. E agora que ela as fizera, ele não tinha a certeza de saber as respostas que ela procurava. Era o homem que era. Nunca se detivera para perguntar porquê. Nunca tivera em consideração outro caminho. Até agora. Enquanto tomava chá com a mulher a quem mentia. Agora tinha diante de si a verdade da sua vida. – Sei que fui moldada pela minha família – prosseguiu Penelope antes de ele se ver obrigado a responder àquela pergunta mordaz. Ele soltou um suspiro de alívio, antes de insistir. – Quer dizer, pela sua irmã. Ela acenou mais uma vez e ruborizou-se. – Sim, por Miranda e pelo que descobri acerca da sua verdadeira natureza. Porém, as mentiras de Miranda não foram a minha única influência. Os meus pais tiveram também grande impacto na minha vida. Jeremy não foi capaz de ocultar um estremecimento ao pensar na mãe de Penelope, Dorthea Albright. Toda a alta sociedade tinha consciência da mulher autoritária que parecia completamente alheia a como o seu comportamento ofensivo prejudicava as possibilidades de as filhas mais jovens arranjarem um bom casamento. – Pela sua expressão, vejo que conhece a minha mãe – disse Penelope com um leve sorriso que lhe adoçou a expressão fatigada. – É uma pessoa… difícil, bem sei. Crescer à sombra dos seus humores, das suas críticas, da sua ânsia por mais e mais... certamente influenciou a minha formação. Muito jovem apercebi-me de que se esperava de mim que melhorasse a nossa situação familiar. Por isso não foi apenas o comportamento de Miranda que me levou a casar por interesse financeiro. Jeremy deu por si inclinando-se para ela. Poucas mulheres seriam tão francas. Pelo menos com ele. Mas também duvidava que Penelope tivesse sido tão franca com ele no passado, antes de serem, conforme afirmara, amigos. Poderia ser um amigo falso, mas mesmo assim interessava-se pelo que ela tinha para lhe dizer. – E o seu pai? – perguntou. – Alguma influência deve ter tido sobre si. – Oh, teve – disse em voz ainda mais baixa e uma enorme tristeza no olhar. – Era um homem adorável em muitos aspetos. Acredito que gostasse muito de mim e das minhas irmãs. Era tão bondoso quanto a minha mãe era áspera. Mas vivia num mudo de excessos. Jeremy olhou-a com ar interrogativo. – Quer dizer que…


Ela interrompeu-o. – Não, não excessos sensuais – franziu a testa. – Tanto quanto saiba. Mas jogava, apostava nas corridas, nunca moderou os seus vícios, mesmo quando eles começaram a arruiná-lo e à nossa família. As suas necessidades egoístas tornaram-se mais importantes do que o nosso conforto e até a nossa sobrevivência. Jeremy acenou afirmativamente. Tornava mais compreensiva a sua cruzada contra o comportamento egoísta. Vira e sentira as consequências de um comportamento excessivo. Primeiro do pai, depois da irmã. – E o senhor? – perguntou, recostando-se na cadeira. – Sei alguma coisa acerca da sua família. Deve ter sido influenciado por eles. Jeremy mudou de posição não se mostrando mais à vontade para falar da sua família agora do que quando ela abordara o assunto pela primeira vez. – Suponho que sim, mas nunca pensei muito no assunto. Penelope franziu a testa. – Tem um irmão, não é verdade? Dão-se bem? Jeremy endireitou-se. – Sim, bom, não. Ela soltou uma pequena gargalhada. – Afinal como é? – Das duas maneiras – sorriu, apesar do assunto pouco agradável. – Christopher era praticamente como eu. Como eu era. Desenfreado. Mas depois apaixonou-se e casou – franziu a testa. – E eu fiquei sem saber o que fazer. Ou o que pensar. Creio que fiquei aborrecido com ele. – Porque ele rejeitou a vida que o senhor ainda levava? – perguntou ela em voz baixa. Jeremy ergueu repentinamente o olhar. Deus, ela entendera aquilo que ele negava havia tanto tempo. Christopher obrigara-o a interrogar-se se a sua vida, de que ele sempre gostara, era frívola. Ver a felicidade recém-encontrada do irmão e a sua fidelidade haviam alterado a visão que Jeremy detinha sobre a sua própria existência. – Sim. Suponho que seja verdade – admitiu. – Foi quando comecei a mudar. Franziu o sobrolho. Só que não tinha mudado. Simplesmente, esforçava-se mais para manter a vida que sempre vivera. E esse esforço incluía o acordo para destruir Penelope. – E os seus pais? – insistiu ela. Ele franziu a testa. – O meu pai morreu há quatro anos. – Lamento – murmurou ela. – Eu não – respondeu ele, abanando a cabeça.


Ela recuou e ele leu-lhe a surpresa no olhar. E também ele a sentiu. Nunca o admitira a quem quer que fosse. Nem a Christopher. – Não éramos muito próximos – explicou, pondo-se de pé e começando a andar de um lado para o outro. – Nunca foi cruel, nem sequer negligente. Ensinou-me valiosas lições de vida e sempre o respeitei. Mas faltava qualquer coisa. Nunca soube o que era até que um dia o vi com a sua outra família. – A sua outra família? Ele acenou afirmativamente. – Havia muito tempo que tinha uma amante de quem tinha um filho e uma filha. Um dia vi-o com eles. Era um homem completamente diferente. – Lembrou-se de como o pai lançava a filha pequena ao ar e de como ria. – Afetuoso e amoroso. Penelope levantou-se e foi ter com ele. – Deve ter sido doloroso. – Suponho que até certo ponto o deva ter sido para a minha mãe. Quando morreu tinham uma relação fria. Agora ela viaja e parece muito feliz. Não que ele o soubesse. Outra revelação que o envergonhou. Penelope abanou a cabeça. – Queria dizer que deveria ter sido doloroso para si vê-lo com outra família. Vê-lo oferecer tão facilmente o seu amor, quando não era uma coisa que costumasse fazer consigo ou com o seu irmão. Ele encolheu os ombros. – Não foi doloroso. Foi estranho. Nunca mais olhei para ele da mesma maneira. De certo modo, eu era o seu… negócio de família por assim dizer, tal como o meu irmão. Éramos a maneira de garantir o seu legado, mas ele deixou algures a sua paixão e a sua emoção. – E foi o que decidiu que também haveria de fazer – disse Penelope. Jeremy olhou-a. Um cortejo de mulheres disponíveis, oferecidas, passou por breves instantes diante dos seus olhos. Mulheres que ele levara para a cama, mas mais nada. Gostara até de algumas, mas no momento em que qualquer delas se aproximava demasiado ou exigia mais do que ele estava disposto a oferecer, punha-a de lado. Até Penelope aparecer. – Suponho que sim – admitiu em voz baixa. – Contudo, não seria bom se pudesse ter as duas coisas debaixo do mesmo teto? – perguntou ela com um sorriso melancólico. – Uma mulher que amasse e por quem sentisse paixão. Uma mulher que pudesse ver como companheira e não apenas como uma transação financeira? Ela estava tão bela, ali a olhar para ele. Cheia de esperanças ingénuas. Jeremy desejava poder manter aquela imagem dela para sempre. Porque, por fim, aquela


ingenuidade desapareceria. Ele comprometera-se a acabar com ela. – De novo a sua cruzada? – perguntou com uma pequena gargalhada. – Foi tudo o que eu disse, sabe – suspirou. – No primeiro dia que falei com as minhas amigas. Tudo o que disse foi que não era justo que nos pedissem que ficássemos sentadas em casa enquanto os nossos maridos procuravam algures o amor e a paixão. Que merecíamos mais respeito e consideração. E que a única maneira de o conseguirmos seria exigindo-o – abanou a cabeça. – Devo ter tocado num ponto sensível, pois tudo aquilo se espalhou de um momento para o outro. E agora é contra mim que murmuram, e para mim que olham, porque poderia provocar um tipo qualquer de levantamento. A voz de Penelope tinha um tom triste e saudoso e, pela primeira vez, Jeremy apercebeu-se de como aquela cruzada fora difícil. Fora escolhida, sabia-se lá porquê, para ser a voz dos que não tinham voz. Mas não apreciava a atenção ou o ódio inerentes àquela posição. – Pode acabar com isso quando quiser. – Jeremy avançou um passo e os seus corpos quase se tocaram. – Não é justo que tenha de suportar essa responsabilidade. Penelope soltou uma pequena exclamação sufocada, que pareceu ecoar como uma espingarda de caça na alma de Jeremy, fitou-o com os seus olhos azuis levemente vidrados e humedecendo os lábios. Jeremy sentiu-se invadido pelo desejo que sentira por ela na escuridão do quarto e que lhe ultrapassava a razão, afastando os seus planos. Quando ela lhe olhou para a boca, Jeremy não resistiu. Estendeu a mão e tocou-lhe na face com os dedos trémulos. Pegou-lhe no queixo para lhe erguer o rosto, apreciando o modo como ela estremecia de desejo. Queria que ele a beijasse. Ele, Jeremy. Não um amante sem rosto, não um admirador secreto de que poderia prescindir na luz fria da manhã. Ele. E aquilo fez com que o desejo que no passado sentira por ela parecesse uma pálida sombra do que agora ardia dentro dele. Esforçou-se por controlar os seus sentimentos e, lentamente, atraiu Penelope mais para junto de si. O corpo dela, tão macio, tocou, moldou-se ao seu. E soube-lhe bem. Ela inclinou a cabeça para trás, erguendo os lábios para ele numa oferta silenciosa, as pálpebras trémulas de antecipação. Jeremy inclinou-se o suficiente para sentir o suave sopro do hálito de Penelope nos seus lábios, o suficiente para lhe aspirar na pele o leve perfume a rosas frescas. Tão próximo que a sentiu tremer. Mas não colou os lábios aos dela, porque aquele beijo era diferente de todos os outros. Abrira para ela parte da sua alma, parte da sua alma que ninguém conhecia. E, olhando-a, percebeu que, se a beijasse, não se deteria ali. Seria apenas o começo. Verse-ia obrigado, primeiro a tocar-lhe e depois a possuí-la.


E quando terminasse tudo seria diferente. Não estava disposto a permiti-lo. Abanando a cabeça fez a coisa mais difícil que já se vira obrigado a fazer e recuou. Os olhos de Penelope abriram-se e ela ficou a olhálo. Corou e os olhos refletiram dor e embaraço. Jeremy sentiu um estranho desejo de a consolar, mas não se permitiu a isso. – L... lamento – murmurou, com uma débil desculpa nos lábios. – Lamento. Depois saiu da sala deixando Penelope só, sabendo que a tinha magoado. E, sabendo que, lá no fundo, ao negar-lhe o beijo, magoara-se também a si próprio. Embora permitindo-se a essa emoção fosse uma loucura que apenas o enfraquecia. Subindo para a carruagem que o esperava lá fora, Jeremy passou a mão pelo rosto. A situação estava a ficar completamente fora de controlo. Penelope Norman tecera sobre ele uma espécie de feitiço, mas ele não podia... não lhe permitiria continuar. Nessa noite e pela última vez iria ter com ela como seu amante secreto. E, antes qua a noite terminasse, poria fim a toda aquela loucura. De uma vez por todas.


Capítulo 16

Penelope sentou-se na cama, olhando sem ver a janela aberta no outro extremo do quarto. Dentro de breves instantes um homem sem rosto entraria por ela. Estender-lheia os braços e ela não resistiria. Seduzi-la-ia e ela deixar-se-ia seduzir. Ele desejá-la-ia. Contudo, naquela noite não sentia grande entusiasmo. Sim, estava ansiosa por desfrutar do prazer que se aproximava. O coração batia-lhe acelerado com a ideia de o seu amante misterioso a introduzir a um ainda maior prazer. Mas não conseguia concentrar-se naquela antecipação por causa de Jeremy Vaughn. Por causa do «quase» beijo que haviam partilhado umas horas antes, lá em baixo na sala. Porque ele não a queria. Jeremy não a queria. Tocara-a, puxara-a para si, deixara o seu hálito juntar-se ao dela, mas depois retirara-se sem explicação. E os olhos dele, fundos, horrorizados, confessaram o que os seus lábios haviam silenciado. Penelope sentia o estômago apertado de emoção de cada vez que pensava naquilo. Deveria sentir-se feliz, deveria ter-lhe agradecido a sua prudente reação. Beijaremse teria sido um erro descomunal. A reputação de Jeremy, a amizade que haviam criado, o facto de ela estar ainda desconfiada dos seus verdadeiros motivos, por muito que pensasse confiar nele, tudo isso impedia que ficassem juntos. Já para não mencionar o facto de ela andar a entregar-se, quase completamente a outro homem, durante muitas noites. No entanto, desejava o que poderia ter acontecido. Desejava que Jeremy a tivesse desejado o suficiente para querer tocar com os lábios dele nos seus e que se danassem todas as justificações para se afastar. Penelope suspirou, deixando cair o braço sobre o rosto enquanto se deixava cair sobre as almofadas. – Estás a dormir? Penelope sentou-se imediatamente e viu a figura sombria entrar-lhe pela janela. Olhou para a silhueta enquanto ele corria o fecho atrás de si. Ele desejava-a. Toda. Sem responder à pergunta, Penelope levantou-se da cama e atravessou o quarto. Estendeu-lhe os braços, sentindo os contornos da máscara que ele usava ainda antes de erguer os lábios para os dele. Sentiu uma mistura de vinho do porto com a frescura do mentol. E do desejo. Sempre o desejo.


Gemeu, colando-se mais a ele, puxando-o para si. Sentia-o já excitado de encontro ao seu ventre, prova de que a achava atraente. De que estava disposto a descurar as cautelas só para lhe tocar. E,…oh... como desejava que aquilo apagasse a expressão de Jeremy. A humilhação de que um dos mais famosos libertinos tinha fugido da sua sala como se ela fosse um sapo coberto de verrugas a desejar-lhe os lábios. – Acaricie-me – murmurou entre beijos, pegando-lhe nas mãos e poisando-lhas nas suas ancas, sobre o ventre e, por fim, sobre os seios. – Com todo o prazer – disse ele em voz rouca. Depois ele levou-a pelo quarto, percorrendo-lhe o corpo com a boca escaldante e com as mãos, como se fosse um homem morto de fome que tivesse encontrado um festim. Ela colou-se a ele, encantada por se sentir desejada, bela e erótica. Penelope bateu com as costas na cama e ele deteve-se. Ela mal conseguiu conter um gemido de desagrado quando as mãos dele lhe abandonaram a pele. Mas o gemido transformou-se numa exclamação sufocada, quando o sentiu atar-lhe uma venda sobre os olhos. – O que é isto? – perguntou ela, erguendo a mão para o pano. Ele pegou-lhe no pulso. – Quero vê-la – murmurou. – Preciso ver-te, Penelope. Penelope hesitou na escuridão total, a sombra dos seus corpos punha-os em pé de igualdade. Mas vendada ele ficaria em vantagem e ela ver-se-ia obrigada a confiar nele. Sentiu-se nervosa com a ideia. Não sabia o nome dele, contudo, sabia que ele estava em posição de fazer com ela o que quisesse. Pensou de novo em Jeremy. A confiança que depositara nele conduzira-a a uma rejeição humilhante. A uma onda de dor. Mas este homem não a rejeitaria. – Muito bem – murmurou Penelope, baixando a mão. Ele soltou um suspiro de alívio e Penelope sentiu-o afastar-se, ouviu-o acrescentar troncos ao lume da lareira e acender velas no quarto. Através do tecido opaco, Penelope apercebeu-se de que a luz aumentava. Não pôde deixar de corar quando o seu amante sem rosto se aproximou dela e pegou nas finas alças da sua camisa de noite para as fazer deslizar dos ombros dela, deixando que o tecido lhe caísse aos pés e deixando-a nua. Ouviu-o suster a respiração e ergueu o queixo para que ele não se apercebesse do que aquela exposição era difícil para ela. Antes, só a vira na semiobscuridade. E se não a achasse tão excitante como na escuridão? E se depois já não a quisesse? – És magnífica! – murmurou ele. Penelope deixou que o ar lhe saísse dos pulmões com um suspiro de alívio e, ao ouvir a exclamação dele, afastou lágrimas prestes a surgir. Mas como podia ser tão tola


sentindo-se orgulhosa da admiração de um desconhecido? Ou tão fraca, com a rejeição de um libertino? Abanou a cabeça. Não. Nada de pensar em Jeremy! Não deixaria que o que se passara entre ambos arruinasse aquela noite. E não deixaria que as imagens dele lhe entrassem no espírito enquanto outro homem a tocasse. Outra vez, não. Sobressaltou-se ao ouvir o suave bater de qualquer coisa no chão. – Que está a fazer? – perguntou ela em voz baixa e tímida. – A retirar a máscara – admitiu ele. Penelope avançou e estendeu os dedos. Tocou no peito do amante e susteve a respiração. Ele removera mais do que a máscara. Tocava-lhe com as palmas das mãos na pele nua, quente e macia. Fez deslizar as mãos até lhe chegar ao queixo. Tocou-lhe no rosto lentamente, com delicadeza. Sentiu-lhe a barba nas faces. Tinha os lábios cheios, tal como os sentira quando ele os encostara ao seu corpo. Suspirou ao sentir que ele brincava com os seus dedos usando a ponta da língua. De novo a imagem de Jeremy invadiu-lhe o espírito e ela excluiu-a com violência. Não. Não. Não. – Sentes-te bem? – murmurou o amante. Ela acenou afirmativamente. – Sim. Acaricie-me só. Ele ergueu-a para a sentar na cama alta e ela abriu despudoradamente as pernas para o deixar chegar-se a ela. Sentiu os pelos do peito dele tocarem-lhe as coxas quando o amante lhe ergueu o rosto para lhe encontrar a boca. A língua dele rolou entrelaçandose na dela, investiu com o ritmo certo, tomou-a e explorou-a ternamente. Mas ela desejava ainda mais. Quando as mãos dele lhe tocaram dos lados do corpo nu, gemeu dentro da boca dele. Quando ele lhe segurou os seios, estremeceu de desejo. O seu corpo fraco parecia completamente fora de controlo. Aproximava as ancas num ritmo violento. Puxava-lhe o cabelo com as mãos para aproximar a boca dele da sua pele. A língua dela dançava e aparava a dele quando ele a beijava. E oferecia-lhe despudoradamente os seios enquanto ele passava os lábios pelo corpo dela. Vendada, sabendo-se no escuro enquanto ele a podia ver completamente era uma experiência extraordinariamente excitante e que ela nunca diria desejar se lho perguntassem, mas de que parecia não ter bastante agora que alguém lhe proporcionava esse prazer. A única coisa que destruía a perfeição era o facto de o seu cérebro continuar a divagar, levando-a a locais em que não desejava estar. E que a fazia pensar em Jeremy e em como a boca dele se aproximara da sua. E recordar de como queria a pele dele junto à sua. O seu amante sem rosto puxava-lhe os mamilos com a boca, sobressaltando-lhe o


corpo enquanto o prazer estremecia entre as suas pernas. Envolveu-lhe as costas largas com as pernas e chegou-se ainda mais a ele, mas, mesmo assim, a sua dor não se apazigou. Ele pareceu sentir-lhe o desejo pois afastou as mãos dos seios dela para as colocar entre os corpos de ambos. Insistiu para que ela se deitasse e tocou-lhe no sexo. Penelope gemeu enquanto um tremor de prazer a percorreu como um relâmpago de verão. Ele abriu-a e ela ouviu-o suster a respiração. – Que maravilha – murmurou ele esfregando com o polegar o clítoris excitado e fazendo deslizar outro dedo dentro da sua fenda apertada. Penelope arqueou as costas, agarrando-se à colcha enquanto ele entrava no corpo dela. Ergueu as ancas em resposta aos gestos dele, endurecendo os músculos interiores para prolongar o prazer. Mas não era o suficiente. Sentia-se vazia, pouco realizada. E queria mais. – A s… sua boca – ofegou, sem se preocupar com o que pedia. – Por favor. Ele não quis esclarecer nem questionar o pedido e, quase imediatamente, ela sentiu um hálito quente queimar-lhe o interior da coxa. O olhar dele queimava também a carne revelada. Mesmo com os olhos vendados, Penelope sabia que ele bebia a visão do seu corpo nu que por fim lhe era revelada. Depois a língua do amante roçou-lhe a pele extremamente sensível. Penelope sobressaltou-se ao contacto e nem por mil libras teria podido controlar o grito que lhe saltou dos lábios. Aquele homem despira-a de todas as delicadezas de que ela sempre se orgulhara e deixava-a a debater-se, a implorar-lhe. Porém não se importava. Só queria mais. E ele deu-lhe. Inseriu a língua, chupou-lhe o clítoris, até ela lançar a cabeça para trás e para diante de encontro à colcha enrugada. O prazer nunca fora tão intenso, acompanhando-lhe o ritmo do bater rápido do coração aumentando até quase se transformar em dor e ela querer gritar para se libertar. Mas não conseguia. Desejosa de sentir as ondas de prazer, Penelope fechou os olhos com força e permitiu-se pensar em Jeremy, como fizera nas outras noites em que este homem a acariciara. Imaginou-o entre as suas pernas, acariciando-lhe as coxas, passando a língua pela sua carne húmida, chupando e arrancando-lhe prazer. Mais uma vez o prazer atingiu o cume, mas, mesmo assim, Penelope não conseguiu libertar-se. Nem mesmo incentivada por aquelas fantasias. Apenas uma coisa lhe ofereceria aquilo que desejava. Ali deitada, com a boca maliciosa do amante a percorrê-la a um ritmo veloz, sabia exatamente do que precisava. Precisava de ser possuída. Fodida, como ouvira outros homens murmurarem quando


ela passava. Com força, rapidamente. Lenta e firmemente. Não se importava. Só queria o pénis daquele homem dentro de si. Imediatamente. – Por favor – gemeu, o calor inundando-lhe as faces já afogueadas. – Por favor. Possua-me. A pressão da boca dele diminuiu subitamente e Penelope soltou um gemido de protesto. – O quê? – perguntou ele ofegante numa voz rouca de desejo. – Ouviu bem – disse ela, sufocada erguendo as ancas desesperada. – Dê-me o que deseja. Junte o seu corpo ao meu. Possua-me.

Jeremy olhou-a completamente espantado. Penelope tinha o cabelo num torvelinho em volta dos seios ruborizados, as pernas abertas revelando o monte cintilante do seu sexo, arqueando as costas sem conseguir controlar-se. Não parecia a dama severa que queria pôr de lado a sensualidade de acabar com a luxúria masculina. Por fim, Jeremy derrubara o último obstáculo. Ela queria que ele metesse o pénis dentro dela. Que a tomasse. Aquilo que mais desejara desde a primeira noite em que a acariciara. A barreira final para lhe quebrar a vontade e a chantagear. Pegou na sua dura ereção e aproximou-se dela disposto a sentir a volúpia do corpo dela, fechado no seu, num pulso quente e húmido. Apoiou os braços de ambos os lados da cabeça dela e hesitou, esperando um momento para a olhar. Penelope arqueou as costas e empurrou o corpo para o dele. Com parte do rosto escondido pelo cetim negro da venda que escondia dela a verdade. Porém, os seus lábios cheios estavam tensos de antecipação, as faces afogueadas, a respiração ofegante. Era uma perfeita tentação. A paixão personificada. Jeremy desejava-a mais do que alguma vez desejara uma mulher que levasse para a cama. Contudo, não o podia fazer. Não daquela maneira. Nessa tarde, afastara-se de Penelope, porque estava demasiado próxima. Nessa noite, apercebia-se que tinha de se retirar porque ela não estava suficientemente próxima. Queria «tomá-la» como ela pedira que o fizesse. Mas não queria fazê-lo enquanto ela estivesse de olhos vendados, desconhecendo-lhe o rosto e o nome. Não queria ser um prazer a que se permitia à noite e negava à luz do dia. Um segredo sujo que nunca contaria a ninguém. Não. Percebeu que a rendição que desejava era mais profunda. E nada tinha a ver com a promessa que fizera aos amigos. Queria que Penelope o olhasse nos olhos quando deslizasse para dentro do corpo


dela. Queria que ela murmurasse o nome dele quando a levasse à beira do prazer. Queria que ela corasse quando o voltasse a ver numa festa, por se lembrar da intensidade da sua relação. Queria que ela soubesse exatamente o que estava a fazer e com quem o estava a fazer. Tudo aquilo iria contra os seus planos. Violaria o seu código de manter as mulheres que levava para a cama separadas da sua vida quotidiana. Mas, embora fosse o que desejara, não o faria... não podia aceitar menos. Embora tivesse de se levantar e deixar ali Penelope sem a tomar, sem sentir o corpo dela pulsar em redor do seu. Embora significasse voltar para casa dorido por não se ter realizado. Deveria servir-lhe de emenda. Com algum esforço, Jeremy afastou-se dela e pôs-se de pé para recolher as calças e as vestir rapidamente. Não se preocupou com o resto das coisas, limitando-se a juntálas num monte. Penelope sentou-se e a sua expressão era semelhante à que Jeremy lhe vira no rosto nessa tarde quando lhe negara o beijo. Embora não pudesse ver-lhe os olhos por estarem vendados, sabia que ela se sentia envergonhada. Magoada. – O quê? Porquê…? – murmurava. – Desculpe, Penelope – disse ele em voz baixa aproximando-se da janela, repetindo o gesto que iniciara na sala dela horas antes. – Não me quer? – perguntou ela, falando ainda num tom de voz alterado pela dor. – Lamento – repetiu ele, antes de lançar o resto da roupa pela janela aberta e pisar o parapeito. Uma vez lá fora, voltou-se e viu Penelope de costas para ele, com os ombros curvados. Apertou as mãos. Magoara-a duas vezes naquele dia e odiou-se por isso. Odiou-se por deixar uma pessoa aproximar-se o suficiente para a poder magoar. Odiou-se ao aperceber-se que a dor que ela sentia lhe apertava o peito.

Penelope manteve-se muito tempo em silêncio depois de o amante misterioso ter partido. Só depois ergueu a mão para retirar a venda dos olhos. Ficou a olhar para o pano. Era um lenço preto, mas sem iniciais bordadas no tecido que lhe revelassem a identidade do amante. Franzindo a testa, deixou-o cair no chão ao lado da camisa de dormir. Talvez fosse melhor não o saber. Se o homem fosse alguém das suas relações, não suportaria vê-lo e saber que ele já não a queria. Suspirou, levantou do chão a camisa de dormir e enfiou-a pela cabeça. Durante as


noites em que o seu misterioso amante viera para a sua cama... e até antes, quando não passava de uma série de palavras e descrições eróticas nas cartas que lhe enviava, Penelope gostara de ser desejada. Gostara de ser acariciada e que lhe dissessem que era bela. Ansiara pelo poder que detinha quando, em retribuição, tocava o rosto do desconhecido. E a reação foi mais do que uma experiência. Foi mais do que um estudo da paixão, para que pudesse conhecer o seu «inimigo», como tantas vezes dissera Jeremy. Na verdade, cedera aos seus desejos. Completamente. Para ser recusada no último momento. Abanou a cabeça e foi ao armário buscar um roupão quente para cobrir os ombros. As imagens bombardeavam-na, embora tentasse afastá-las. Eram recordações dos muitos e variados prazeres que experimentara. De como fora acariciada e, por sua vez, acariciara. Compreendia pela primeira vez a razão por que as pessoas se sacrificavam tanto para sentir o que ela sentira. Homens e mulheres. Até o comportamento da irmã começava a fazer sentido agora que o seu próprio desejo começara a ser uma força condutora na sua própria vida. Penelope pensava naquilo dia e noite. Obrigara-a a fazer coisas que nunca pensara fazer. E agora perdera-o não uma, mas duas vezes nesse dia. De dois homens diferentes. A perda magoava-a, cortava-a como se uma faca chegasse à medula da sua alma. Abriu a porta e saiu silenciosamente para o corredor. Queria ir ter com Fiona. Falar com ela. No passado, a criada experimentara o prazer e passara também por um enorme desgosto. Talvez pudesse ajudar Penelope a aclarar as ideias. A lembrar-se de todas as boas razões pelas quais sempre evitara tais paixões. Pelo menos, Fiona entenderia aquilo por que estava a passar, talvez melhor que ninguém. A casa estava em silêncio enquanto Penelope percorria os corredores até aos aposentos dos criados. A maior parte estaria já deitada, a sonhar, completamente alheia ao tormento da patroa. Penelope deteve-se junto à porta do quarto de Fiona e respirou fundo para se acalmar. Sem fazer ruído girou a maçaneta e abriu um pouco a porta, pronta a pedir desculpas por acordar a criada. Mas teve de recuar um passo enquanto erguia a mão para cobrir a boca. Fiona não estava a dormir. E não estava só. Não. A antiga cortesã estava inclinada sobre a cama estreita, completamente nua. A luz das velas derramava-se em cascata sobre a sua carne pálida. Ao lado dela encontrava-se um dos criados de Penelope. Tinha apenas as calças vestidas e batia com a mão no traseiro de Fiona. Penelope abafou uma exclamação de espanto e ficou a olhar. Fiona não parecia


importar-se com a sova, embora tivesse o traseiro rosado como resultado das palmadas. De facto, arqueava o corpo num gemido de luxúria de cada vez que o rapaz lhe tocava. Chocada e sem saber o que fazer, Penelope deu meia volta e fugiu, com o som dos gritos de prazer de Fiona a ecoarem-lhe aos ouvidos enquanto descia as escadas e corria para os seus aposentos. Bateu com a porta e encostou-se à ombreira com a respiração ofegante. Parecia que todo o seu mundo se soltara dos eixos e fora lançado para um sítio diferente. Penelope não se reconhecia, não reconhecia o seu corpo, nem sabia já em que acreditar. Tudo aquilo de que dependia era agora diferente. Quando descobrira Fiona e ouvira a história da antiga cortesã, tivera a certeza de que oferecendo-lhe uma colocação na sua casa a estava a salvar. Porque a criada desejava abandonar a vida de cortesã por não gostar de o ser. Mas, agora, Penelope já não sabia. Não tinha dúvidas de que Fiona desfrutava das atividades escandalosas a que Penelope acabara de assistir. Que significava tudo aquilo? Penelope estaria completamente enganada? Fiona seria infeliz apenas com o homem que era seu protetor e não com a vida que levava? E desejaria secretamente a sua criada regressar à vida decadente que antes levara? Aos dias e noites de erotismo que passara como brinquedo de homens poderosos? Penelope pestanejou ao sentir as lágrimas chegarem-lhe aos olhos quando se atirou para cima da cama. Estremeceu. O cheiro masculino e excitante do seu amante secreto prevalecia na roupa. Tentando-a e excitando-a. Não tinha ninguém com quem falar. Ninguém com quem partilhar a confusão. Ninguém que a aconselhasse. – Jeremy – murmurou, sobressaltando-se com o tom da sua própria voz. Poderia ir ter com ele depois da sua rejeição? Não teria outro remédio. Mesmo que não a quisesse, pelo menos compreendê-la-ia. E ela precisava da sua amizade e orientação pelo menos mais uma vez. Pelo menos a última vez.


Capítulo 17

Jeremy olhava pela janela do Clube Worthington, vendo a elite da alta sociedade percorrer os passeios, vendo e sendo vista no belo tempo de verão. Franziu a testa. Pareciam todos tão felizes. Tão satisfeitos e seguros de si. Enquanto interiormente Jeremy parecia um trapo. – Estás a ouvir-me? Jeremy voltou-se para dar de caras com Anthony Wharton. O amigo andava de um lado para o outro na sala privada. O rosto zangado, vermelho, abrindo e fechando as mãos. Jeremy ergueu uma sobrancelha. Nunca vira o amigo tão irritado. Era evidente que estava a incomodar quem se encontrava na sala pois todos olhavam para ele. – Tiveste tempo suficiente para acabar com essa tolice – queixou-se Wharton. – E Lady Norton continua a ser um problema. Não a humilhaste e as nossas amantes e esposas continuam com a algazarra por causa dessas ideias ridículas. Jeremy apertou os lábios e tentou manter-se calmo. Não havia maneira de poder dizer aos amigos que começara a entender que as ideias de Penelope não eram assim tão ridículas. Ou que eles só tinham de culpar-se a si próprios pelas várias mulheres que mantinham e se sentiam perturbadas. Dunfield soltou uma gargalhada, mas era evidente que apenas queria aligeirar o ambiente da sala. – Valha-me Deus, Wharton, será que isso vale a pena tanta confusão? – Cala a boca, Dunfield – disse Wharton irritado, voltando-se para o conde com mau modo. – Nunca sofreste por causa da língua desta mulher. Eu perdi a minha amante e ainda não encontrei essa cabra. Jeremy olhou para o amigo. Não se apercebera de que Wharton continuasse à procura de Fiona, apesar de ela o ter rejeitado. A sua linguagem e maneira de agir incomodaram Jeremy que, de modo algum, se sentiu disposto a revelar que Fiona era agora criada de Penelope. – Deixa-te disso – aconselhou-o enquanto acendia um charuto e tentava mostrar-se desinteressado. – Porque haverias de querer uma mulher que não te quer? Estremeceu ao perceber o que tinha dito. Ele próprio rejeitara Penelope na noite anterior. Teria ela acreditado que ele não a queria? Que não a desejava quando o oposto era verdade e era demasiado tentadora? – Apostava tudo o que tu quisesses em como Penelope Norman sabe qualquer coisa sobre o assunto – disse Wharton de mau modo. – E, se não vais tratar dela, Kilgrath,


não me deixas outra alternativa se não ser eu a tratar do assunto. Jeremy atirou o charuto ainda aceso de encontro à porta e avançou para Wharton em três passos enormes. Antes que o amigo pudesse reagir agarrou-o pelo pescoço e empurrou-o de encontro à mesa mais próxima. Wharton tentou recuperar o fôlego enquanto Jeremy se inclinava sobre ele, aproximando o rosto do amigo. – Basta, Wharton – vociferou, tentando controlar a raiva. – Talvez queiras apenas dar largas à tua frustração, mas vais parar de dar à língua antes que eu ta arranque. Ninguém vai incomodar Lady Norman. Vou tomar conta da situação e não quero ouvir falar mais do assunto. Fui claro? Wharton empurrou-o e ficou a esfregar o pescoço encarnado. – Perfeitamente – disse em voz rouca. O amigo endireitou-se, afastou-se da mesa e da sala sem que qualquer dos outros homens pronunciasse palavra. O conde de Dunfield ergueu-se do sofá onde preguiçava e suspirou. – Bom, vai queixar-se disto a alguém. Vou atrás dele. O marquês Chartsfield pôs-se também de pé, lançando a Jeremy um olhar de soslaio. – Também vou. Jeremy franziu o sobrolho ao ver os dois homens seguirem Wharton. Como teriam chegado àquele ponto? Eram os seus melhores amigos e agora discutiam como rapazes da escola. Tudo porque Jeremy não conseguira manter a sua promessa. Poderia afirmar o contrário, mas seria mentira. Tivera várias oportunidades de resolver a situação com Penelope. Poderia tê-la denunciado, chantageado, humilhado vezes sem conta. Contudo, não o fizera. Porém, a reação de Wharton, as suas ameaças veladas contra Penelope tinham provocado em Jeremy uma reação protetora que não esperara, tal como não esperara aborrecer os amigos. Ergueu o rosto para ver que Nevers, Ryan Crawford e o visconde John Lockwood tinham ficado na sala e agora olhavam para ele. – Queres discutir o assunto? – perguntou Lockwood recostando-se na cadeira e observando-o com um olhar avaliador. Jeremy hesitou. Como poderia discutir uma coisa que nem conseguia explicar a si próprio. Abanou a cabeça. – Nem por isso. A porta da sala privada abriu-se e um criado, vestido com a libré do clube, apareceu. – Peço perdão, cavalheiros. Lorde Kilgrath, Vossa Graça recebeu uma mensagem. Os seus criados trouxeram-na de vossa casa. Jeremy aproximou-se e pegou na carta que fora colocada numa bandeja de prata. Mandando o criado embora com um aceno, voltou a carta e olhou para o lacre. Um N


enfeitado. Sentiu o coração apertado quando o quebrou e leu o conteúdo. Era de Penelope. Escrevera-a com mão trémula que precisava vê-lo e chegaria a sua casa às duas da tarde. Jeremy olhou para o relógio de caixa do outro lado da sala. Era uma hora. – Tenho de ir – disse, metendo a carta no bolso. – Ah, ali está ele! – exclamou Ryan Crawford. – Ali está quem? – perguntou Jeremy de mau humor ao ouvir o entusiasmo na voz do outro homem. De que estão a falar? – Já nos interrogávamos querendo saber onde tinha ido o lobo – explicou Crawford. Desde que começaste a perseguir Lady Norman que ele tem estado escondido. Mas vi a sua centelha nos teus olhos. Deve ter sido a mulher que te escreveu. Boa caça, meu amigo. Enquanto Lockwood e Crawford soltavam uma gargalhada em uníssono, Jeremy abanou a cabeça e saiu da sala. Certamente não se sentia como um lobo quando pensou encontrar-se com Penelope. Não depois do que acontecera no dia anterior. Sentia-se tudo menos um predador.

Penelope andava de um lado para o outro na recatada sala das traseiras da casa de Jeremy. Tinha as mãos trémulas e transpirava, escondendo-as atrás das costas enquanto tentava acalmar-se. Não o conseguia. O seu espírito rodopiava e sentia o estômago apertado enquanto aguardava a chegada de Jeremy e rezava para que ele não se mostrasse enfadado por encontrá-la ali. A porta da sala abriu-se e Jeremy entrou. Ela ficou a olhá-lo, examinando-lhe o rosto em busca de qualquer reação adversa à sua presença. Mas não. De facto parecia até não reagir. Penelope sentiu-se desanimada. – Está tudo bem? – perguntou Jeremy entrando na sala e conduzindo-a a uma cadeira. – Fiquei preocupado quando recebi a sua missiva. Penelope quis evitar um rubor de prazer. Havia muito tempo que ninguém se preocupava com ela. – Desculpe. Não queria incomodá-lo – disse. – Estou perfeitamente. Só precisava…

Deteve-se. Oh, como era difícil explicar-lhe. Ia parecer tola. Frágil. Oferecida. – Precisava? – insistiu ele em voz suave e tentando incentivá-la. – Só precisava de falar consigo – abanou a cabeça, espantada com a sua própria loucura. – Parece-me que, ultimamente, é a única pessoa para quem me tenho voltado. Talvez em demasia.


Ele franziu a testa. – Ainda bem que veio. Tenho até uma pergunta para lhe fazer. Penelope afundou-se na cadeira que ele lhe indicou e ergueu para ele os olhos muito abertos. Uma pergunta? Pela expressão dele não conseguia perceber o que seria, quase como se ele tivesse propositadamente apagado as emoções. Meu Deus. Já teria conhecimento do comportamento dela? Da sua conduta escandalosa? – De que se trata? – perguntou com a voz entrecortada. – Fiona – disse ele, sentando-se também. – Porque fugiu ela do Wharton? Penelope nem sabia o que dizer. Era a última pergunta que esperara e, embora se sentisse aliviada por Jeremy não ter descoberto as suas atividades por qualquer outra fonte, sentiu-se numa posição estranha. Jeremy era o amigo mais íntimo de Anthony Wharton e seu confidente. Poderia confiar-lhe o segredo de Fiona? Mas afinal estava disposta a confiar-lhe o seu. Talvez ele a compreendesse melhor se soubesse o que a impelira. Penelope aclarou a garganta pouco à vontade. – O seu amigo maltratava-a – respondeu ela olhando-o nos olhos. Jeremy respirou fundo. – Espancava-a antes de eu a conhecer. Uma noite, quando chocámos uma com a outra na ópera, reparei que tinha nódoas negras por baixo da maquilhagem. Conversámos e uma coisa levou a outra. Ofereci-lhe um lugar como minha criada e Fiona aceitou para fugir aos maus tratos de Wharton. E pensei que para escapar à vida de cortesã – franziu a testa ao recordar o comportamento escandaloso de Fiona na noite anterior. – Mas agora já não sei. Talvez fosse tolice pensar que Fiona quisesse ser «salva». Jeremy passou a mão pelo rosto e a sua coloração acinzentada desviou os pensamentos de Penelope dos seus problemas confusos. Parecia fisicamente doente enquanto olhava para o chão distraído. – Como poderia eu não ter percebido? – murmurou mais para si do que para ela. – Terei sido tão cego, tão egoísta que nem pudesse, nem quisesse ver? Penelope entreabriu os olhos surpreendida. – Está a culpar-se pelo comportamento de Wharton? Ele olhou-a como se tivesse momentaneamente esquecido a presença dela ali. – Estive muitas vezes com eles. Deveria ter visto, deveria ter adivinhado. Mas estava demasiado interessado em mim para me aperceber. Ela levantou-se abanando a cabeça. – A culpa não é sua, Jeremy. Fiona disse-me muitas vezes que escondia do mundo o que estava a acontecer-lhe. Ninguém sabia. – Parecia tão zangado – murmurou ele de novo para si próprio. – Pensei que fossem fanfarronadas, mas… – deteve-se e ergueu os olhos para ela.


– Afaste-se dele, Penelope. Ela afligiu-se com a preocupação que lhe leu no rosto. Estava pálido e quase tremia quando se pôs de pé. – Jeremy… – Afaste-se dele – dirigiu-se para a porta. – Preciso de falar com ele. Preciso de ter a certeza de que ele não fará... não fará nada. Penelope ergueu-se de um salto quando Jeremy se aproximou da porta da sala. Estava tão distraído pela revelação da verdadeira natureza do amigo que parecia disposto a partir sem ouvir as verdadeiras razões da sua vinda naquela tarde. E ela poderia não ter outra oportunidade de lhas confessar. – Espere, por favor – disse ela, pegando-lhe num braço. – Jeremy preciso da sua ajuda. Preciso do seu conselho. Não tenho mais ninguém para quem me volte. Ele olhou para os dedos dela, presos no seu braço e olhou-a no rosto. De súbito, houve uma forte chama nos seus olhos. Desejo. Penelope teve a certeza e foi apanhada desprevenida. Ele rejeitara-a! Não a queria... ou queria? – Precisa de mim? – perguntou ele inclinando a cabeça. Ela engoliu em seco, reconhecendo o duplo sentido da pergunta. Preferiu ignorá-lo. – Sim. – Que se passa? – perguntou. Penelope fechou os olhos. O rubor cobriu-lhe as faces, mas esforçou-se por pôr de lado o nervosismo e deixou que as palavras lhe saíssem de rompante. – Falei-lhe de um homem que me escrevia secretamente. Aquele com quem me encontrei naquela noite do baile. Mas nunca lhe contei o resto. Ele tem vindo ter comigo desde aí, Jeremy. E eu tenho-lhe permitido... liberdades. Abriu os olhos para avaliar a reação dele e apercebeu-se de que Jeremy a olhava com muita atenção, mas que não parecia horrorizado, perturbado ou sequer surpreendido. Olhava-a… simplesmente. Como se não pudesse acreditar que ela lhe confessava tal coisa. – Está a querer dizer que deixou que ele fizesse amor consigo – perguntou ele docemente. Ela sacudiu a cabeça e largou-lhe o braço para se afastar. – Não. Outras coisas sim, mas isso não – as palavras eram difíceis de pronunciar, mas também libertadoras. Como se pronunciá-las em voz alta as fizesse perder o poder constrangedor que exerciam sobre ela. – Pensei que poderia distanciar-me se não o deixasse fazer amor comigo. Que poderia manter-me lógica e utilizar o que aconteceu entre nós na minha luta contra os excessos sensuais, conforme o senhor sugeriu. Ele avançou um passo para ela.


– Mas não deu resultado. – Não – suspirou ela. – Por muito que eu tentasse, continuo afetada por tudo aquilo que fizemos. Mais do que devia. Sinto-me tão confusa, Jeremy. Lutei tanto contra essas coisas. Disse a mim própria que poderia viver sem paixão, sem prazer. Mas agora entendo porque tanta gente se perde na luxúria. Eu perdi-me. Cheguei ao ponto de implorar a esse homem que tomasse aquilo que eu originariamente recusara, mas ele... ele não me quis. Houve um momento de silêncio. – É um idiota. Ela abanou a cabeça. – Não. Não é. Talvez tivesse pressentido a fraude que eu era. Que eu pensava em... em outra pessoa enquanto ele me tocava. Penelope cobriu a boca no momento em que as palavras lhe escaparam dos lábios. Não tencionara admitir aquilo. Lentamente ergueu os olhos para Jeremy. Ele olhava-a e, pela primeira vez, uma forte emoção cobria-lhe o rosto. Parecia zangado e o fogo nos seus olhos já não era de desejo mas de fúria. – Quem? – vociferou, avançando de novo para ela. Ela abanou a cabeça. Não poderia confessar-lho por nada deste mundo. Era demasiado. Demasiado difícil. – Quem? – repetiu ele, desta vez mais alto. – Em quem pensava enquanto ele a acariciava? Penelope tinha a respiração acelerada e os olhos marejados de lágrimas. – Em si – murmurou ela. – Pensava em si.

Jeremy deixou de avançar na direção de Penelope tal o choque que sentiu. Pensava compreender cada movimento do corpo e do espírito de Penelope. Pensava quase poder ler-lhe os pensamentos quando lhe tocava. Mas nunca soubera que, enquanto o «desconhecido» a acariciava, era o seu rosto que lhe dançava diante dos olhos. As emoções dela eram fortes e verdadeiras. E fora tão corajosa ao confessá-las quando já pensava que ele a rejeitara. Certamente que ele nunca fora tão ousado ou entregara tanto de si. Sem pensar, tomou-a nos braços e apertou-a de encontro a si. Cobriu com os seus os lábios dela e devorou-lhe a boca como desejara fazer desde que ela entrara na sala. Por momentos, Penelope ficou rígida nos braços de Jeremy, surpreendida. Mas depois ergueu as mãos para o cabelo dele e retribuiu o beijo com um fogo e uma paixão mais profunda e rica do que quando ele fora ter com ela como desconhecido. Recuaram juntos para o sofá e caíram de encontro às almofadas. Sem interromperem


o beijo, Jeremy procurou a linha do decote do seu belo vestido azul e introduziu os dedos, afastando o tecido até encontrar por baixo o mamilo rapidamente endurecido. Ela encostou-se à mão dele com um pequeno grito e chupou-lhe a língua com mais força. Jeremy não a deixou e ela não resistiu quando ele puxou os botões e afastou camadas de tecido para lhe expor inteiramente os seios. De facto, ajudou-o afastando-se para ele lhe poder puxar o vestido e a camisa para a cintura. Jeremy baixou a cabeça para tomar o mamilo distendido, chupando-o até ela sentir o pulso acelerado e soltar um pequeno gemido. Penelope meteu-lhe os dedos no cabelo, puxando-o mais para si e insistindo para que ele tomasse mais, explorasse mais. Que a saboreasse e a tomasse na luz estrondosa da tarde, naquela sala. Penelope não se deteve para analisar ou questionar o que lhe estava a acontecer. Limitava-se a sentir. A sentir as mãos de Jeremy na sua pele. A sentir a pressão da ereção dele, cada vez maior, junto à sua coxa. A sentir o seu hálito ofegante afagar-lhe os seios. Ele desejava-a. Ela desejava-o. E não havia maneira de que isso não acontecesse. Ela despiu-lhe o casaco e atirou-o descuidadamente para trás do sofá. Passou depois à camisa, arrancando os botões até ter revelado uma extensão de carne musculosa e bronzeada. Passando as mãos por baixo, estremeceu com a pele macia e quente que encontrou. Sabia-lhe tão bem. Queria que ele a encostasse às almofadas. Queria que ele lhe penetrasse o corpo com a sua ereção. E não ficaria satisfeita enquanto tal não acontecesse. Puxou-o e caíram para trás, a boca dele sobre a dela pela segunda vez. Os dedos dele começaram a subir-lhe a saia, cada vez mais para cima e mais perto do seu centro até ela não conseguir ouvir mais nada senão o latejar do sangue nos ouvidos. Depois ele tocou-lhe. Ao de leve. Lentamente. Os dedos dele acariciaram-lhe os lábios húmidos do sexo e ela estremeceu com um prazer e uma antecipação mais poderosos que nunca, pois ela sabia que aquelas carícias levariam a uma união mais íntima. E porque desta vez o homem que a acariciava era Jeremy. Ele gemeu de irritação quando o vestido cobriu mais uma vez as pernas de Penelope. Com um puxão levantou-o e à camisa num movimento suave. Ela arqueou o corpo para permitir que ele lhe retirasse o vestido, deixando-lhe apenas as meias e os sapatos. Penelope quis encostar de novo as ancas ao sofá, mas ele não deixou. Segurou-lhe o traseiro com as mãos, mantendo-a erguida e abrindo-lhe as pernas com os ombros. Penelope viu Jeremy segurar-lhe as coxas com as mãos quentes e olhar para ela. O calor inundava-lhe as faces. O seu amante misterioso olhara-a daquela modo, mas ela nunca fora obrigada a olhar. Porém, com Jeremy, via-lhe a tensão do maxilar, as centelhas dos olhos, os lábios entreabertos.


Depois ele ergueu os olhos e ficou preso nos dela. – És tão bela, Penelope – murmurou antes de inclinar a cabeça, para lhe tocar com os lábios no sexo. Ela agarrou as almofadas do sofá com um grito de prazer, mas também de frustração. Já antes fora saboreada. Já encontrara a libertação ao toque dos dedos de um homem, dos seus lábios. Desejava agora uma ligação mais profunda. Uma junção dos dois corpos. Queria ser possuída. Tomada. Que ele lhe proporcionasse uma prazer que ela retribuiria. – Por favor – ofegou, enquanto ele lhe passava a língua pelo botão duro do clítoris. – Não me atormente mais. Ele lançou a cabeça para trás e olhou-a. Depois acenou com a cabeça. Levantandose, despiu o que lhe restava da camisa, descalçou as botas, antes de abrir os fechos das calças. Penelope ergueu-se apoiada nos cotovelos, vendo o tecido de lã cair-lhe até aos tornozelos. Respirou fundo. Nas noites com o seu amante secreto, tateara-o mas nunca lhe pudera ver claramente o corpo. Porém, Jeremy estava diante dela, completamente nu e imperturbável. Excitado, tonificado e orgulhoso enquanto a luz do Sol lhe aquecia a pele. Era perfeito. Os ombros largos encimavam uma cintura estreita e atlética. Tinha pernas fortes que não necessitavam dos ridículos chumaços que alguns cavalheiros ainda usavam para as fazer parecer maiores. E no ponto em que a parte superior e inferior do corpo se encontravam, o seu pénis duro erguia-se de encontro ao ventre. Ela inclinou-se, pondo-se de joelhos no sofá e estendendo o braço para ele. Quando o tomou na mão, estremeceu mesmo contra vontade. Estava tão quente. Tão duro. Não pôde evitar inclinar-se para diante e passar a língua pela veia rígida por baixo da sua ereção. De lamber ao de leve a cabeça sensível e recolher a pequena gota de humidade que aí encontrou. Jeremy lançou a cabeça para trás com um gemido estrangulado. – Pensei que se tinham acabado os tormentos – disse pegando-lhe nos ombros para a deitar no sofá. Ela abriu as pernas para que ele se instalasse entre elas e sentiu a pulsação descontrolada quando ele se colocou sobre ela. Sentiu a ponta dura procurando a sua entrada húmida e macia e, tensa, preparou-se para a invasão que não experimentava havia mais de um ano. A última vez não fora particularmente agradável. – Não vou magoar-te – disse Jeremy em voz baixa. Penelope olhou-o nos olhos, espantada. Seria mesmo capaz de se aperceber tão claramente do seu nervosismo? Ter-se-iam tornado assim tão íntimos em tão pouco tempo? Acenou afirmativamente.


– Confio em ti. Ele estremeceu um pouco ao ouvi-la, mas inclinou-se mais e beijou-a nos lábios. – Olha-me nos olhos Penelope – ordenou. – Não voltes a cara. Penelope hesitou. Estava pronta a render o seu corpo àquele homem. A permitir que ele a reclamasse de um modo antigo e elementar. Contudo, a ideia de o olhar nos olhos parecia demasiado íntima. Mas, por fim, ergueu o olhar para o dele e aí o manteve, perdendo-se nas quentes profundezas verdes. Enquanto a olhava, Jeremy investia lentamente, entrando no corpo dela, húmido e pronto, centímetro a centímetro. Penelope agarrava-lhe os braços à medida que o seu canal se distendia para o acomodar, mas sem nunca deixar de o fitar, nem mesmo quando o prazer aumentou a um nível novo e mais forte. Fora aquilo que lhe faltara nas noites com o seu admirador sem rosto. A sensação de união. De completamento. Mas tinha a forte sensação, enquanto Jeremy entrava completamente no seu corpo, que, se o seu amante a tivesse tomado assim, não teria sido tão forte. Porque conhecia Jeremy. Porque o desejara. Amava Jeremy. Penelope pestanejou e afastou rapidamente o olhar ao aperceber-se. Amá-lo? Seria possível? Nas últimas semanas, tinham-se unido numa intensa relação pessoal, mas poderia amá-lo? Um homem que vivera uma vida inteiramente oposta à sua? Um homem que ela ainda não compreendia totalmente? Um homem que, se o desejasse, a poderia magoar? – Penelope – disse ele com um gemido. – Olha para mim, minha querida. Olha para mim. Ela fez um esforço para o olhar e ele começou a investir, suavemente olhando-a com uma intensidade concentrada que tornou a união ainda melhor e ela viu muito no olhar dele. Emoções entrelaçadas, desgostos escondidos e uma doçura que Jeremy raramente mostrava ao mundo. E sabia que amá-lo não seria uma coisa que pudesse descartar ou fingir que nunca acontecera. Apenas poderia render-se ao inevitável. Agarrou-lhe os braços e ergueu as ancas para ir de encontro aos breves movimentos dele. A cada investida a pélvis de Jeremy tocava-lhe no clítoris sensível formando imediatamente ondas de prazer. Ele não desviava o olhar dela enquanto a tomava, aumentando o ritmo das suas investidas, a sua profundidade, até Penelope não poder conter mais a maré avassaladora de prazer que a invadiu, obrigando-a a gritar enquanto cravava as unhas na pele dele. Mas nunca desviou o olhar. Aproveitou-se da luz, da intensa proximidade dos seus rostos e observou nele cada centelha de prazer, cada tremura do seu forte maxilar.


Soube que ele ia perder o controlo um momento antes. E o saber que o tinha levado a esse ponto catapultou nela outro orgasmo forte e inesperado. Ergueram os corpos juntos, misturando os gemidos e, quando ele ficou hirto, ela sentiu-se inundada pelo calor da sua essência. Jeremy baixou a cabeça e as testas de ambos tocaram-se suavemente. Os hálitos misturaram-se e abrandaram para um ritmo contínuo. Ela sentiu a pulsação de Jeremy acalmar gradualmente para acompanhar o ritmo da sua. Só quando a calma foi completa, ele inclinou a cabeça para o lado para a beijar. Ternamente, docemente. Ela saboreou-se na boca dele. Provou os restos do desejo e ondulou o corpo em redor do dele. Ele soltou uma gargalhada quando rolou para o lado e a abraçou. – Tens de me dar um momento, Penelope. Penelope sorriu e poisou-lhe a cabeça no peito. Sentia o bater firme do coração dele a confortá-la, tal como os braços fortes que a rodeavam. Alguma coisa ali acontecera. Não fora apenas sexo. Fora mais do que ela ter-se apercebido de que o amava. Tinham conseguido uma união. E, embora ela nada soubesse do coração de Jeremy, ele parecia não ter pressa em mandá-la embora. Puxou-a mesmo mais para si. – Da próxima vez quero saborear-te – murmurou-lhe ao ouvido. Ela estremeceu ao ouvir a promessa no seu tom de voz. – Da próxima vez? – Sim. – Poisou um beijo no pescoço de Penelope que se arrepiou. – Planeio passar uma eternidade a tocar simplesmente a tua pele. E outra a sentir todo o teu sabor. Ela sorriu de novo, mas deteve-se. Por que razão aquelas palavras lhe pareceriam familiares? – Quero tomar-te, Penelope, com violência e rapidamente. Depois lenta e suavemente – continuou. Ela sentou-se repentinamente e olhou para ele. Já antes ouvira aquelas palavras. Não. Não as ouvira. Lera-as. Aquelas frases eram suas conhecidas porque as tinha decorado das cartas eróticas do seu amante secreto. Abriu muito os olhos. – Mexeu nas minhas coisas? – perguntou ela com a voz entrecortada pelo impacto do que começava a perceber. Ele abanou a cabeça com uma expressão confusa no rosto. – Claro que não, Penelope. Porque me perguntas isso? Ela pôs-se de pé. – Se não mexeu nas minhas coisas nem leu as minhas cartas, como pode...… Ela deteve-se ao ver o rosto de Jeremy estremecer de emoção. De súbito viu o


quebra-cabeças completar-se. Jeremy sabia o que diziam as cartas porque fora ele que as escrevera. Durante semanas, Penelope pensara ter dois homens na sua vida. Mas agora ao olhar para a expressão culpada e assustada do rosto dele, apercebia-se de como estava enganada. Havia apenas um homem. E tinha desde o princípio andado a troçar dela.


Capítulo 18

– Como foi capaz? Como foi capaz de me fazer uma coisa destas? – perguntou Penelope num murmúrio entrecortado, começando a recolher a sua roupa espalhada pelo chão em redor do sofá. Jeremy pôs-se de pé de um salto e tentou pegar-lhe num braço, mas ela afastou-se dele com um grito que mais parecia de um animal ferido. – Não! Não me toque! – ela olhava-o segurando a camisa de encontro ao peito como se de um fino escudo se tratasse. – É verdade? Não me enganei? Por momentos, Jeremy pensou em fingir ignorância, mas rapidamente desistiu dessa tática. Se havia uma coisa que sabia perfeitamente era que Penelope não era tola. Se ele negasse o que ela já sabia ser verdade, só tornaria as coisas piores. Dobrou-se então para pegar nas calças. Vestiu-as e respirou fundo antes de responder. – Sim – admitiu em voz baixa. – Fui eu que escrevi aquelas cartas. Fui eu que te visitei de noite. O rosto de Penelope desfigurara-se pela dor e pela raiva. Os seus lábios pareciam dolorosamente finos. Mas nada disse, limitou-se a olhar para ele. Jeremy quase preferia que ele reagisse. Que gritasse. Que praguejasse. Tudo menos aquele olhar fixo e penetrante que cortava mais profundamente do que quaisquer palavras duras ou venenosas. – Porquê? – perguntou por fim. Ele baixou a cabeça. Sentia como nunca que deveria ser franco. – Estavas a causar problemas para muitos dos meus conhecidos com essa tua cruzada. E eu… – hesitou. Não sentia qualquer prazer em dizê-lo, pois tinha a certeza de que só serviria para magoar e enfurecer mais Penelope. – O quê? – perguntou ela em voz rouca e baixa. – O que foi que fez? Ele soltou a respiração num suspiro trémulo. – Retirei a palhinha mais curta e fiquei com a incumbência de tratar de ti. Penelope tinha as narinas frementes, na única reação exterior ao que ele acabara de dizer. Em silêncio, enfiou a camisa amachucada pela cabeça e vestiu o vestido. Abotoou-o com dedos trémulos. – Penelope – murmurou ele. – Não me diga mais nada – vociferou ela. – Compreendi perfeitamente. – Não. Não compreendeste – contrapôs Jeremy, aproximando-se dela. Ela recuou três passos apressados.


– Perdeu e viu-se obrigado a «tratar» de mim. Que mais haverá para compreender? – abanou a cabeça. – Que planeava fazer? Seduzir-me e chantagear-me? Ou talvez revelar a toda a gente que eu não era melhor que uma vulgar prostituta? Ou pensou que a sua sedução me alterasse de tal forma a vida que eu terminasse simplesmente a minha infindável conversa e agradecesse a Deus por me ter chamado para a sua cama? Jeremy queria negar as palavras duras e zangadas, mas a verdade é que tinha tido em conta todas aquelas possibilidades. Uma ou todas elas haviam feito parte do seu plano original. Só que à medida que conhecia Penelope, tinha desistido dessas táticas. Restara o desejo por ela e sentimentos mais profundos do que uma mera atração física. Mas não lho poderia dizer enquanto ela o olhasse como um canalha desumano. Penelope aproximou-se dele lentamente quando ele se calou. O corpo dela tremia quando parou diante dele. Jeremy olhou-a. Meu Deus, como desejava tocar-lhe. Puxá-la para os seus braços. Pedir-lhe desculpa. Explicar, mas não havia qualquer explicação. Não havia palavras que retirassem o que fizera. Que retirassem a dor amarga dos seus olhos. Penelope tinha os olhos inundados de lágrimas, que tornavam mais escura a sua cor azul. Depois deu-lhe uma bofetada tão forte que ele sentiu o rosto arder. – Isto é pelo que me fez. Não às escuras, Jeremy. Não enquanto foi o meu amante sem rosto. Nem sequer por hoje quando fez amor comigo... ou talvez deva usar a palavra «fornicar», pois nada houve de amor, apenas manipulação – a voz tremia-lhe tanto como as mãos quando se voltou para se dirigir à porta. – É por ter traído a minha amizade. Depois saiu batendo com a porta atrás de si e deixando Jeremy sozinho no meio da sala. Sem palavras. Uma coisa extraordinária para um homem que raramente ficava sem saber o que dizer. Dirigiu-se silenciosamente para o aparador e serviu-se de uma bebida num copo alto. Bebeu em dois goles, fechando os olhos enquanto ouvia o ranger das pedras sob as rodas da carruagem de Penelope. Ela partira e ele nada fizera para a impedir. Não que desse resultado. Não podia negar nenhuma das acusações, pois todas elas eram verdadeiras. E, certamente, não iria implorar um perdão que não merecia. Ela julgava-o a pior pessoa das suas relações. E, de facto, tinha toda a razão naquilo que pensava.

Penelope andava de um lado para outro na sala ornamentada de Miranda e Ethan. Porque viera? Logo a casa da irmã de quem se afastara? Suspirou e deteve-se para arranjar o cabelo ao espelho por cima da lareira. Sentiu o


peito apertado ao ver a sua aparência descomposta. A recordação de como ficara assim agredia-a com a mesma força com que agredira Jeremy. Com um suspiro desistiu de tentar arranjar-se. Viera aqui por não ter outro sítio para onde ir. Ninguém com quem falar. Miranda seria a única que poderia compreendê-la. E, conhecendo a irmã, esta oferecer-lhe-ia mais amizade e consolo do que Penelope merecia. Pelo menos, esperava que a irmã fosse mais indulgente do que ela. Penelope sentiase agora envergonhada ao lembrar-se de como fora fria e se enfurecera com Miranda, da zanga que mantivera durante tanto tempo. A porta da sala abriu-se e Penelope voltou-se para encarar a irmã. Estava pronta a lançar-se nos braços de Miranda, porém, deteve-se ao ver que ela entrava pelo braço forte do marido, Ethan Hamon, conde de Rothschild. Penelope corou quando Ethan lhe lançou um breve olhar e depois fitou a mulher. Penelope nunca gostara do conde, mesmo antes de saber o que ele fizera à irmã. Na sua juventude, considerara-o frio, distante e dominador. E era incrível como se sentia pouco à vontade diante dele. – Penelope – disse Miranda com um largo sorriso, deixando o braço de Ethan e atravessando a sala para ir ter com ela. Penelope sentiu que Miranda queria abraçá-la, mas continha-se. Doeu-lhe o coração. A hesitação da irmã era culpa sua. Afinal, negara-a tantas vezes e mantivera aquela questão duramente tanto tempo. – Bem-vinda à nossa casa – disse Miranda com um pequeno sorriso. – Sim – disse Ethan, entrando e fechando calmamente a porta atrás de si. – Estamos muito contentes que por fim tenha vindo visitar-nos. Penelope lançou-lhe um olhar desconfiado. Estaria a troçar? Certamente Ethan não deveria querê-la ali depois de tudo o que ela fizera e do que dissera a respeito dele. Mas, quando o olhou nos olhos escuros, apenas encontrou bondade. E, tanto quanto lhe parecia, inesperada e genuína. – O… obrigada – gaguejou, sem saber como proceder. – L…lamento ter demorado tanto a vir visitar-vos. Fiz mal. Miranda olhou-a durante muito tempo e Penelope viu-lhe um breve brilho de lágrimas nos olhos azuis tão parecidos com os seus. – Não precisas de me pedir desculpa – murmurou com a voz trémula de emoção. – Estás aqui e isso é que interessa. Ethan sorriu para as duas. – Apenas vim cumprimentá-la, Penelope. Mas tenho... bem, tenho umas coisas a fazer. Espero que jante connosco. Miranda sorriu ao marido e este retirou-se da sala com uma pequena reverência,


deixando-as sós. – Não tem nada para fazer. Só quer deixar-nos à vontade para podermos conversar. Penelope acenou afirmativamente. – Bem me pareceu. O sorriso da irmã esbateu-se um pouco, quando a conduziu ao sofá junto da lareira. – Vem sentar-te. Vejo nos teus olhos e pela tua aparência que aconteceu alguma coisa. É a única razão de que consigo lembrar-me para vires ter comigo. Porque não me contas o que se passou e talvez eu te possa ajudar. Foi a nossa mãe? Penelope aproximou-se do sofá, mas não se sentou. Cobriu o rosto com as mãos e as lágrimas que havia tanto tempo continha... quase uma eternidade... começaram a cair. – Oh, Miranda. Fiz coisas tão estúpidas. Miranda soltou uma pequena exclamação aflita e Penelope correu para os seus braços. Sentaram-se as duas e Penelope escondeu a cabeça no pescoço da irmã e soluçou. Miranda manteve-se direita, sem falar, sem oferecer outro consolo senão o seu terno abraço e a sua presença doce e apaziguadora. Assim que Penelope secou as lágrimas, a irmã afastou-se e limpou-lhas com as costas da mão. – Conta-me. Com um suspiro entrecortado, Penelope, quase sufocada, começou a contar-lhe toda aquela sórdida história.

Uma hora depois, Miranda, com uma bebida na mão, soltava um assobio. – Valha-me Deus, meteste-te mesmo num belo sarilho. Penelope acenou afirmativamente enquanto bebia aos poucos o uísque forte que Miranda surripiara à coleção particular de Ethan quando a irmã ia a meio da história. O calor escaldante da bebida acalmara-a um pouco, embora não lhe adormecesse as emoções, por muito que ela o desejasse. – Fui odiosa, Miranda. Principalmente para ti. Condenei-te asperamente pelo que havias feito para proteger a nossa família. Perdi tanto tempo com isso. E acabei por fazer uma coisa muito mais escandalosa e por razões muito piores que as tuas – tocou na mão da irmã. – Peço-te perdão, Miranda. Miranda sentou-se na beira do sofá ao lado de Penelope, abanando a cabeça. – Minha querida, quando me viste com Ethan, assustaste-te e ficaste perturbada. Sentiste-te traída e confundida pelos meus atos, bem como pelas minhas explicações. Nunca te culpei por isso. Quem me dera ter podido ajudar-te e aconselhar-te. Penelope riu sem vontade.


– Precisava do teu conselho. Talvez, se tivesse falado contigo desde o princípio, não me tivesse comportado como uma ingénua tontinha no que diz respeito a Jeremy e ao meu «amante secreto». – Penelope baixou a cabeça e as lágrimas ameaçavam voltar a cair. – Ele deve ter rido tanto de mim. Miranda poisou a bebida com uma expressão incrédula. – Pelo que me contaste acerca do vosso encontro desta tarde, duvido que Kilgrath se esteja a rir. Parece-me que está tão confuso como tu. – Oh, não, ele estava muito calmo – Penelope engoliu o resto da bebida. Pensou na expressão de Jeremy quando confessara tudo o que lhe tinha feito. Parecia tão tranquilo, tão forte, tão belo... Meu Deus, era mesmo um caso perdido. Não havia dúvida. – Estava? – perguntou Miranda. – Se ele estava assim tão calmo, porque não te denunciou simplesmente naquela noite no baile, quando te tocou pela primeira vez? Ou depois, quando passaram a noite juntos? Porque não te chantageou como planeava a princípio? Penelope franziu a testa. Ficara tão furiosa quando se apercebera do que Jeremy fizera e porquê que nem parara para pensar nessas questões. – Certamente tinha munições suficientes contra mim e contra a minha cruzada – admitiu aos poucos. – Dei-lhe bastantes com o meu comportamento de oferecida. Miranda abanou a cabeça. – Basta! Nunca te censures pelo que sentiste. Tens todo o direito de experimentar o desejo. E o prazer. E de querer mais do que uma solidão vazia. Essas coisas nunca são erradas. Por vezes, é errado o que as pessoas fazem na sua procura, mas os sentimentos, as necessidades, nunca. Penelope suspirou, cobrindo o rosto com as mãos. – Oh, estou tão confusa. – Bem sei – murmurou a irmã. – Compreendo-te perfeitamente. Penelope espreitou a irmã por entre os dedos, mas, antes que pudesse entender o seu comentário enigmático, a porta abriu-se e Ethan apareceu de novo, olhou para Miranda e pareceu que um mundo de comunicação passou entre eles apenas com um olhar. Ethan atravessou o quarto e Miranda levantou-se para o deixar sentar ao lado de Penelope. Esta baixou as mãos e olhou para o cunhado. Ele retribuiu-lhe com um olhar firme e bondoso antes de lhe tomar ambas as mãos. – Penelope, quem tenho eu de matar por tê-la feito tão infeliz? Penelope soltou uma gargalhada. A primeira verdadeira em várias semanas. O sorriso dele foi a sua recompensa e não pôde deixar de reparar em como Ethan era ridiculamente bonito. Esquecera-o nos anos em que a sua imaginação fizera dele um monstro. Que mais tinha ela descurado com o seu cego preconceito?


– Ninguém – respondeu ela apertando-lhe as mãos. – Receio que tudo isto seja culpa minha. Miranda sorriu, poisando a mão sobre o ombro do marido e olhando para Penelope. – Não tenho a certeza de concordar contigo, mas deixemos isso durante algum tempo. A questão mantém-se: o que devemos fazer? Penelope reparou na facilidade como Miranda e Ethan formavam uma equipa. Havia uma unidade entre eles que ela nunca aceitara. Eram uma boa parceria. Qualquer pessoa perceberia depois de cinco minutos na sua companhia. Contudo, Penelope sabia que essa boa parceria saíra de uma relação algo questionável. Significaria aquilo que havia esperança para ela? Se Miranda tivesse razão e ela tivesse impressionado Jeremy com a mesma intensidade que Jeremy a impressionara a ela, poderiam remediar as mentiras que houvera entre eles? Conseguiria encontrar alguma sinceridade escondida entre as camadas de manipulação que os ligaram? E, sinceramente, desejaria fazê-lo? Cobriu de novo o rosto. – Não sei. Foi Ethan quem respondeu. – Não precisa de saber já. Fique para jantar. Fique o tempo que quiser. E vamos ajudá-la a pensar em alguma coisa. Penelope acenou afirmativamente. – Deixem-me escrever um recado para os criados dizendo-lhes que passo a noite fora. Enquanto Ethan chamava um criado, Penelope suspirou. Por muito reconfortante que fosse estar de novo na companhia da irmã, não tinha ilusões acerca de encontrar naquele dia qualquer tipo de solução para os seus problemas. Ou no dia seguinte. Ou talvez nunca. A dor no seu coração era demasiado profunda para ultrapassar.

A escuridão não reconfortava Jeremy nem o caríssimo uísque escocês que bebia em grandes goles. E que poderiam ser de água pelo prazer que lhe davam. Mas também talvez ele não merecesse qualquer tipo de prazer. Nem sequer, depois do que fizera, o efeito entorpecedor do álcool. Não. Nem tentava já convencer-se de que não fizera qualquer mal. Experimentara-o durante a primeira meia hora após Penelope o ter deixado com uma forte bofetada e ainda mais dolorosas palavras de bem merecida censura. Esforçara-se por se recordar que Penelope pudera recusá-lo a qualquer momento ou ao desconhecido sem rosto. Poderia ter dito que não. Tentara desesperadamente


reclamar aquela capa gelada de distância em que dantes se envolvia. Mas era impossível. Já não lhe servia. Penelope transformara-o demasiado no curto espaço de tempo que haviam passado juntos. Agora estava tudo mal e ele não fazia ideia de como o arranjar. – Lorde Kilgrath? Jeremy nem se preocupou a olhar para trás para o criado que violara o seu santuário. – Não quero interrupções, por favor. Não estou com disposição para visitas. – Nem para a minha? Voltou-se. Christopher estava à porta ao lado do criado. E o irmão parecia preocupado. – Claro. Tu és sempre bem-vindo – disse Jeremy com um suspiro. Assim que o criado saiu, Christopher fechou a porta e dirigiu-se ao aparador. Ergueu a garrafa de uísque já quase vazia com a testa franzida. – Pelo menos, estás a dar cabo de ti com o melhor que há – disse o irmão. – Posso fazer-te companhia? – Enquanto dou cabo de mim? – perguntou Jeremy tomando novo gole da sua bebida. – Estás à vontade. O irmão serviu-se de um pouco e fez girar o líquido no copo enquanto olhava para ele. – Vim aqui porque Anthony Wharton me visitou esta tarde, queixando-se de um certo desentendimento entre vós. Mas tenho algumas dúvidas que o aspeto da tua cara tenha a ver com o assunto. Jeremy apertou os lábios. – Neste momento, não me interessa absolutamente nada o que Wharton pensa. Não é a pessoa que eu pensava que era – olhou em frente. – Nem eu. – Porque não me contas o que se passa? – sugeriu Christopher dirigindo-se às cadeiras diante da enorme janela. Jeremy acenou afirmativamente e sentou-se. Poisou os cotovelos nos joelhos e contou com toda a calma tudo o que fizera. Pareceu-lhe uma confissão, que pouca ou nenhuma penitência ou absolvição mereceria. E, a julgar pela expressão escandalizada no rosto de Christopher, o irmão não estava disposto a dar-lhe qualquer delas. – Depois ela deu-me uma bofetada e foi-se embora – concluiu Jeremy e emborcou as últimas gotas do copo. Christopher sacudiu a cabeça. – Muito bem, a julgar pelo que me contaste, creio que ter-te dado a bofetada foi o melhor que ela podia ter feito. Um joelho nos tomates parecia-me mais adequado. – Obrigado – disse Jeremy secamente, olhando para o irmão. – Francamente, não se trata de uma cortesã ou de uma mulher casada que goste de ter


amantes – disse o irmão. – Penelope Norman é uma dama. E, por muito tola que possas julgar a sua cruzada, deves ter-te apercebido que o que planeavas não estava certo. – Exatamente – disse Jeremy. – Mas não quis saber. E de facto essa parece ser a história da minha vida, não é verdade? Sempre fiz o que me deu na cabeça, sem pensar nas consequências para os outros. Toda a minha vida fui um completo canalha. Christopher abanou a cabeça. – Ora essa! Sabes que isso não é verdade. – Não é? – Jeremy pôs-se de pé de um salto e passou a mão pela cabeça. – Já te apercebeste de que nem sei onde está a mãe? De que nem sequer li as cartas dela? Quando te casaste fiquei ofendido contigo. Não por teres encontrado o amor, não por seres feliz... mas porque o teu casamento tornava a minha vida menos interessante. Cristo, um mês depois de estares casado ainda nem sabia bem o nome da Hannah. Christopher franziu a testa mas não o interrompeu. – Nunca me preocupei em pensar nos outros... nunca. Por isso, claro que não pensei na Penelope. Pelo menos, a princípio. E agora magoei-a muito. Ela considerava-me seu amigo e eu traía-a de todas as maneiras possíveis e imagináveis. – E odeias-te por isso – disse o irmão em voz baixa. Jeremy hesitou. Admiti-lo significava admitir uma coisa muito mais profunda. Mas não podia negá-lo. Nem ao irmão, nem a si próprio. – Sim – disse, servindo-se de outra bebida, que desta vez não levou aos lábios. – Estás apaixonado por ela. Não era uma pergunta. Christopher fizera uma afirmação com uma expressão perfeitamente normal. Jeremy ficou imóvel. Sabia que os seus sentimentos por Penelope se tinham alterado durante o tempo que passara na sua companhia. Não só no tempo que passara no quarto com ela, onde se apercebera de que ela era uma amante apaixonada. Não fora o tempo passado com ela durante o qual ela conhecera a sua face realmente importante. Jeremy apercebera-se de que ela era inteligente e compreensiva e até engraçada. Com o passar das semanas ansiava sempre por estar com ela, por falar com ela, por estar na presença dela e observar as suas reações à medida que o seu mundo se alargava. Chegara até a confessar-lhe os seus mais profundos segredos e nunca se arrependera. Por isso a ideia de que a amava… encaixava. Aterrorizava-o e emocionava-o ao mesmo tempo. E tornava a sua traição ainda mais arrasadora. – Não importa – disse, sufocado. – Dei cabo de tudo. Christopher levantou-se da cadeira, quase a fazendo cair para trás. – Que raio se passa contigo? És o meu irmão mais velho ou foste ultrapassado por uma qualquer força misteriosa? Nunca vi que te rendesses de tão boa vontade. E esta é a luta mais importante da tua vida. Se a amas, se realmente queres estar com ela, vai


procurá-la. Faz tudo o que estiver ao teu alcance para que ela veja que mudaste. Que desistirias de tudo pelo seu amor. Jeremy engoliu em seco e poisou o copo. – Foi isso que fizeste? – Sim – admitiu Christopher. – E nunca me arrependi – dirigiu-se à porta. – Vai. Já. Ou arrepender-te-ás para o resto da vida. Jeremy endireitou os ombros e lançou um meio-sorriso ao irmão. – Recuso-me a ter de me arrepender. Nem que tenha de lutar para o resto da vida, hei de vencer.

– Vou ficar aqui todo o dia à espera até poder falar com a sua patroa – disse Jeremy meia hora depois no átrio da casa de Penelope, olhando para o criado que lhe barrava o caminho para a mulher que amava. – Sei que ela está aqui. – Por acaso não está – disse Fiona que descia lentamente as escadas. Cruzara os braços e, pela expressão dos seus olhos, Jeremy percebeu nela um desejo de proteção que o obrigou a suspirar. Jurara lutar por Penelope. Parecia que teria de o fazer só para falar com ela. – Então onde está? – perguntou ele, fitando duramente a antiga cortesão. Fiona dirigiu-se para a sala com um olhar frio. – Porque não falamos desse assunto em privado? – Muito bem – Jeremy seguiu-a ao aposento. – Diga-me onde está Penelope. Fiona fechou a porta com força e olhou-o de frente. – Não sei o que o senhor lhe fez. Recebi um recado dela há menos de meia hora dizendo que não viria para casa. Mas a caligrafia era muito trémula. Há muito que suspeito que tem andado a enganá-la, fingindo ter-se emendado, mas com que objetivo? O que lhe fez? – Menti-lhe – disse ele rispidamente. – E trocei dela. Fiona abanou a cabeça. – Não tem vergonha, Jeremy Vaughn. Ele riu sem vontade. – É aí que se engana. Só me resta a vergonha. Odeio-me pelo que fiz, mais do que possa imaginar. Fiona recuou e a sua raiva transformou-se em surpresa ao ver como era sincero. – Odeia-se? O senhor? Ele acenou afirmativamente. – Sim. Por várias coisas – aproximou-se dela. – Fi, porque nunca me disse o que Wharton lhe fazia?


Fiona empalideceu de tal forma que Jeremy estendeu a mão para a segurar. – Como – perguntou e a sua voz era um mero sussurro entrecortado. Ele inclinou a cabeça. – Sabe bem o que estou a dizer-lhe. Podia tê-la ajudado. Fiona soltou uma gargalhada. – Por favor. Nunca se preocuparia comigo. Wharton é um dos seus melhores amigos e eu pouco mais era do que uma prostituta aos seus olhos. Ninguém o teria impedido. Jeremy abanou a cabeça. Havia muitas coisas que questionava na vida que levara até então, mas não aquela. – Preocupar-me-ia, Fiona. E teria feito tudo o que estava ao meu alcance para o deter. Tudo. – Talvez o tivesse feito – disse Fiona em voz baixa. – Talvez eu não pensasse que merecia melhor até Penelope intervir. Ela disse-me que eu merecia mais. Que valia mais do que a vida que levava. Mas eu… Calou-se e Jeremy viu-a andar de um lado para o outro, inquieta. – Fiona, ambos temos enganado Penelope. Certamente não comparo o que escondeu dela com o que eu escondi, mas uma mentira é uma mentira. E agora tem de lhe dizer a verdade. Não quer ser criada particular, pois não? Fiona hesitou por uns momentos e depois encolheu os ombros. – Não. Não quero. Mas fiz o melhor possível porque ela foi tão boa para mim – voltou-se para olhar para ele. – E o senhor, o que seria para ela, Jeremy? Ele suspirou. – Seria um homem melhor. Mas não posso compensá-la daquilo que lhe fiz se não a encontrar, não é verdade? A antiga cortesã dirigiu-se para a janela, refletindo nas palavras dele. Por fim voltouse. – Está em casa da irmã. Na propriedade de Lorde Rothschild aqui em Londres. Não faça com que eu me arrependa de lho ter dito. Jeremy deu meia volta e dirigiu-se para a porta. – Vou fazer o meu melhor, Fiona. Boa noite. – Boa sorte – desejou Fiona, atrás dele


Capítulo 19

– Não comeste quase nada – disse Miranda em voz baixa. – Posso arranjar-te uma coisa que te apeteça mais. Penelope ergueu os olhos do prato, sobressaltada. Nem tinha tomado atenção àquilo que a rodeava, muito menos pensava em comer. – Desculpa – disse com um suspiro. – Está tudo maravilhoso. – Mas… não consigo... concentrar-me. – Vou partir-lhe os braços – resmungou Ethan bebendo um gole de vinho. – Juro pelo que há de mais sagrado. Miranda olhou para o marido com o sobrolho franzido. – Então, meu querido. Não creio que Penelope queira um homem incapacitado, por muito interessante que seja a ideia. E não te esqueças que também cometeste os teus erros nesta vida. Como todos nós, afinal. Ethan encolheu os ombros. – Pois, é verdade. Mas é melhor que, por enquanto, ele não nos apareça à porta. Assim que pronunciou estas palavras, um criado entrou na sala. – Peço desculpa, senhor conde, mas o duque de Kilgrath chegou e recusa-se a sair sem uma audiência com Lady Norman. Penelope ergueu-se lentamente e o seu rosto ficou branco como a cal da parede. – O Jeremy? – perguntou agarrando-se à borda da mesa. Miranda ergueu-se e passou-lhe um braço pela cintura. – Não precisas de ir falar com ele. O Ethan pode tratar do assunto. Penelope pestanejou. Sentia a visão turva e falta de equilíbrio. Esperara que Jeremy acabasse por aparecer numa qualquer ocasião, mas nunca tão cedo. E não ali! A ideia de o ver era, ao mesmo tempo, tentadora e terrível. Apesar de todas as mentiras e traições daquele homem, a sua pulsação aumentava quando pensava nele. Era uma reação visceral, desesperada, que desejava em vão evitar com todo o seu ser. O terror era igualmente forte. Não tinha a certeza de conseguir enfrentar Jeremy sem desfalecer. Sem admitir coisas que não queria que ele soubesse. Sem fazer de novo uma triste figura. – Sim, deixe-me tratar do assunto – disse Ethan, atirando o guardanapo para cima da mesa e pondo-se de pé. Penelope olhou primeiro para a irmã e depois para Ethan e fez um aceno brusco com a cabeça. Mas, quando Ethan se voltou para se dirigir ao vestíbulo, disse:


– Espere. O cunhado voltou-se de testa franzida. – Sim? – Não... – hesitou. – Não lhe faça mal. Prometa-me. Ethan soltou uma gargalhada. – Muito bem. Prometo não lhe causar uma incapacidade permanente. Quando Ethan saiu da sala, Penelope voltou-se para a irmã. – Sou muito cobarde, bem sei. Miranda abanou a cabeça. – Não. Estás magoada. E vê-lo-ás quando estiveres disposta a isso. Penelope estremeceu enquanto Miranda a conduziu por uma porta de serviço nas traseiras, para poderem subir discretamente as escadas. Sim. Acabaria por ver Jeremy. Mas por enquanto não se sentia preparada para enfrentar a possibilidade de que apenas a culpa o atraísse para ela e nada mais.

Jeremy pôs-se de pé quando se abriu a porta da sala para onde o haviam conduzido. Mas, em vez de Penelope, foi Ethan Hamon, conde de Rothschild, que entrou. Jeremy avançou mal-humorado. – Quero falar com Penelope. Rothschild cruzou os braços franzindo severa e lentamente a testa morena. – Não me importa aquilo que quer. Aquilo que o senhor quer meteu-o neste sarilho. Agora sente-se antes que seja eu que o faça sentar. Normalmente, Jeremy não aceitaria uma ameaça assim, mas percebeu que Rothschild não tinha intenções de o deixar ver Penelope. Por isso voltou a sentar-se. – Ela não quer ver-me? – perguntou, tentando controlar o tom de voz. Ethan puxou uma cadeira e sentou-se em frente dele. – Não. Uma palavra tão pequena teve o poder de lhe desferir um soco no estômago. Jeremy engoliu em seco sentindo a garganta apertada. – Então está tudo acabado. Era terrível para ele dizer aquelas palavras em voz alta. Nunca merecera Penelope, mas ganhara a sua confiança e obtivera o precioso dom do seu carinho. Porém, perdera as duas coisas por causa da sua estupidez. Ethan encolheu os ombros. – Neste momento, Penelope está muito magoada – olhou para Jeremy. – Muito magoada. Jeremy estremeceu enquanto Rothschild continuava.


– Porém, nunca me atreveria a adivinhar o espírito de uma mulher num tal estado emocional. Se fosse eu, daria algum espaço a Penelope. Jeremy abriu a boca, mas Rothschild abanou a cabeça. – Aceite o conselho de um homem que foi quase tão burro como o senhor. Dê-lhe espaço. Passando a mão pelo rosto, Jeremy dirigiu-se à janela. Nunca fora homem de esperar, de ter paciência. Todo ele era ação e não reação e receava que, naquele momento, ninguém pudesse apoiar a sua causa. – O espaço não fará diferença – gemeu. – Aquilo que eu fiz… foi… – Imperdoável? – sugeriu Rothschild calmamente. Jeremy sentiu um aperto no estômago. – Talvez. – Horrível. Deplorável. Estúpido – continuou o outro. – Obrigado – Jeremy interrompeu-o de mau modo. – Já percebi onde quer chegar. Voltou a sua atenção para os jardins, lá fora. Como um sonho, passava-lhe pelo espírito tudo o que fizera, desde a primeira noite em que abordara Penelope. Das feias mentiras às doces reações do corpo dela. Do modo como lhe tremiam as mãos quando descobrira o que ele fizera, ao som dos seus suspiros ao adormecer. Todas as recordações, as boas e as deploráveis eram as mais importantes da sua vida. Teria de esperar. Só Deus sabia como valia a pena esperar por ela. Mas, enquanto o fazia, teria de agir. Teria de fazer alguma coisa que provasse que era um homem mudado. Verdadeiramente mudado. Não como as mentiras que lhe dissera. E apenas se lembrava de uma coisa que poderia pôr tudo no seu lugar. Voltou-se para Ethan. – Preciso da sua ajuda. Rothschild fez uma pausa. – Está apaixonado por ela, não é verdade? Jeremy acenou afirmativamente. – Sim. Ethan suspirou. – Muito bem. De que precisa?

Penelope descansou a cabeça nas costas do banco do belo roseiral de Miranda. – Estou apaixonada por ele, sabes? – disse suavemente. Admiti-lo em voz alta fora muito menos difícil do que pensara. Mirando riu-se.


– Mas claro que sim, de contrário não estarias tão perturbada. Penelope olhou para a irmã. – Não pensas que sou uma completa idiota por amá-lo mesmo depois de saber tudo o que fez? Todas as mentiras que me disse? – Claro que não – disse Miranda, pegando-lhe na mão. – Eu, por exemplo, acredito que tudo pode ter um fim feliz. Há mulheres que conhecem um belo cavalheiro num baile cheio de gente, são cortejadas como deve ser, apaixonam-se e casam com o príncipe encantado. Conheço algumas que o fizeram. Mas, por vezes, os nossos príncipes estão disfarçados de patifes e encontramo-los no quarto, antes do baile. – Como aconteceu contigo – disse Penelope. A irmã anuiu. – Talvez Ethan e eu tenhamos feito tudo ao contrário. Mas, de facto, o nosso caminho foi aquilo que foi. Poderíamos não nos ter apaixonado um pelo outro ou, pelo menos, ter um caminho muito mais duro a percorrer, se tivéssemos sido perfeitamente corretos. Principalmente Ethan teria dificuldade em cortejar-me desse modo. E Jeremy é muito parecido com Ethan nesses tempos. Penelope riu, mas não se sentiu muito satisfeita. – É estranho como pude censurar tanto um homem e depois apaixonar-me por uma pessoa com uma reputação igualmente deplorável. Miranda encolheu os ombros. – Os patifes dão ótimos maridos. Principalmente quando se apaixonam. – Eu disse que o amava. Não tenho ideia do que sente o coração dele – Penelope desfolhava distraidamente uma rosa. Ouvi-o a falar com Ethan antes de se ir embora – disse Miranda. – Ouviste? Como? A irmã encolheu os ombros com um sorriso malicioso. – Quando fui lá acima dizer que o chá estava pronto, fiquei à escuta. E, se isso te faz sentir melhor, o homem estava um farrapo. Penelope apertou as mãos. – O ele ter vindo aqui dá-me algumas esperanças. Mas como poderei agora confiar no que ele diz? Acreditei nele quando se comportava como meu amigo, ou quando fingia ser o meu amante secreto na escuridão. Mas não passava de uma ilusão. Por isso como saberei agora o que é verdade? – E tens a certeza de que era uma ilusão? – perguntou a irmã. Penelope refletiu. Jeremy desejara-a. Sabia que era verdade. Quanto à amizade, bom. Não estava tão certa. Jeremy tentara manipulá-la levando-a naquela «viagem», porém, os momentos que haviam passado juntos eram outra história. Ela confessara-lhe alguns momentos


dolorosos do seu passado. Coisas que imaginava não serem fáceis de partilhar. E, afinal, ele nunca usara contra ela as suas confissões, os seus desejos, como havia planeado. – Já não sei nada. Miranda tocou-lhe suavemente na mão. – O Jeremy vai voltar. Talvez não seja hoje. Mas não creio que seja aquele tipo de homem que simplesmente desiste. Permite que ele se aproxime. Deixa-o falar. Olha-o nos olhos. Se o fizeres não conseguirá esconder-te a verdade. – E quando eu tiver a verdade? – perguntou Penelope. – Então que faço? – Só tu o podes decidir – disse a irmã. – Mas, por amor de Deus, Penelope não rejeites o amor. Se ele to oferecer, aceita-o. Ninguém merece mais do que tu. Penelope levantou-se. – Tenho muito em que pensar. – Pois tens – concordou a irmã. – Então vai para casa pensar. Se precisares de mim estou aqui. – Bem sei – Penelope abraçou-a com força. – Sempre me apoiaste. Eu é que fui muito teimosa e não queria aceitar o teu amor. Miranda sorriu tristemente, dando o braço a Penelope. – Mas não sejas teimosa e aceita este.

O clube Worthington estava cheio quando Jeremy e Ethan se dirigiram à sala das traseiras. Quando entraram, Jeremy respirou fundo. O que ia fazer era necessário mas não do seu agrado. Por várias razões. Wharton estava sozinho na sala, a fumar um charuto e voltou-se quando os dois homens entraram. – Não esperava ver-te depois daquela cena há uns dias – resmungou. – E o que faz aqui Rothschild? Não decidiu frequentar o Nevers? Rothschild deu uma gargalhada, mas pouco simpática. – Nem por isso. – Viemos falar contigo por causa da Fiona – disse Jeremy por entre dentes. O amigo ergueu lentamente a cabeça e um músculo do seu rosto estremeceu. – Que se passa com essa rameirazinha? – Veja lá o que diz – avisou Rothschild em voz baixa. Jeremy avançou. – Sei bem o que lhe fizeste enquanto esteve sob a tua «proteção», Wharton. – O que é que lhe fiz? – perguntou o amigo com um ar quase inocente. – Queres dizer


que a punha na linha quando fazia das dela? Estava no meu direito, o que te interessa? Jeremy estendeu o braço e pegou no amigo pela gravata. Com uma volta puxou-o para a frente, quase lhe cortando o ar. O charuto caiu no chão e Jeremy pisou-o com o calcanhar. – Escuta, meu canalha – disse Jeremy em voz baixa. – Há coisas que um cavalheiro faz e outras que não faz. Bater numa mulher faz parte da segunda opção. Só um idiota cobarde levanta a mão para quem não se pode defender. Wharton estava roxo de raiva, por isso Jeremy largou-o. O amigo caiu no chão, tentando respirar pela segunda vez em outros tantos dias. Depois levantou os olhos para Jeremy. – Não és um santo, Kilgrath. E, se bem me lembro, o senhor também não, Rothschild. Kilgrath, tu pensavas chantagear a tal Penelope Norman depois de a fornicar. E o senhor, Rothschild, todos perceberam que fez da sua mulher prostituta antes de casar com ela... Não conseguiu acabar a frase antes que Rothschild avançasse e, sem pestanejar, lhe desse um forte pontapé nas costelas. Acocorou-se junto de Wharton enquanto este tentava respirar. – Mais uma palavra acerca da minha mulher e tratamos do assunto à pistola amanhã de manhã. E tenho excelente pontaria. Wharton empalideceu e encolheu-se agarrado às costelas, sem nada dizer. Ethan recuou e empurrou Jeremy para diante com um leve sorriso. Este puxou Wharton para cima, satisfeito por ouvir um gemido de dor escapar-se dos lábios do amigo. – Wharton, és o terceiro filho de um conde. Tens prestígio e deténs algum poder, mas não te podes comparar a Rothschild e a mim. Creio que sabes que posso destruir-te e ele também e que, para isso, basta erguermos um dedo. – Alisou o casaco de Wharton com um breve sorriso. – Por isso, a partir de agora a tua vida vai ser assim: nunca mais olharás para Fiona Clifton. Nunca falarás dela. Certamente não a ameaçarás ou suportarás mais do que todos os atos cobardes que lhe infringiste. Wharton acenou lentamente com a cabeça. – Quanto a Penelope, esquecerás até que alguma vez ouviste o nome dela. Se pronunciares palavra acerca da nossa combinação para a silenciarmos, faço-te coisas tais que desejarias que eu te matasse antes – Jeremy esboçou um leve sorriso. – Percebeste? – Sim – disse Wharton extremamente pálido e tremendo como varas verdes. Jeremy soltou-o. – Quanto a nós, não somos amigos. Não voltaremos a sê-lo. Deixarás de ser recebido neste clube.


– Não podes impedir-me de... – disse Wharton. – Posso sim – interrompeu Jeremy. – E impeço. Agora sai. E, se mais alguma vez ouvir dizer que puseste um dedo em cima de uma mulher, o enxofre do inferno vai parecer-te agradável. Wharton recuou até à porta, depois deu meia volta e fugiu da sala. Jeremy olhou-o com a testa franzida. Terminara. A sua vida anterior terminara. E o futuro era incerto. Ethan poisou-lhe a mão no ombro. – Olhe, o seu amigo deixou uns charutos muito bons. Apetece-lhe um? Jeremy soltou uma gargalhada e olhou para a caixa que Wharton deixara atrás de si. – Sim. Ethan ofereceu-lhe um e sorriu enquanto acendia o seu. – Afinal, Kilgrath, o meu amigo não é assim tão mau. – Acha? – perguntou Jeremy deixando dançar a chama na ponta do charuto. Mas sinto-me em baixo. Ou pelo menos sem saber o que fazer. – Bom, o que fez esta noite apaga um pouco o seu passado – disse Ethan, sentando-se numa das macias cadeiras de couro. Jeremy abanou a cabeça. – Diga isso à Penelope! – deteve-se. – Não. Não lhe diga. Ethan inclinou a cabeça surpreendido. – Não? – Não – suspirou Jeremy. – Não mereço qualquer consideração que ela não me queira dar. Esta noite fiz o que se deve fazer. Não quero que seja um simples espetáculo para que ela volte a falar comigo. Tinha razão quando me disse que ela precisava de tempo. Tirei-lhe tudo o resto. O menos que posso fazer é permitir-lhe esse tempo. Ethan sorriu. – Sente-se. Vamos tomar umas bebidas e jogar às cartas. Se conseguir embriagar-me o suficiente, eu conto-lhe o sarilho que arranjei com a irmã de Penelope. E como, mesmo assim, ela continuou a amar-me. – Porque não? – disse Jeremy com um leve sorriso. – Afinal, não tenho mais nada que fazer.

Penelope sorriu a Fiona. A sua criada particular – a sua antiga criada particular – limpava as lágrimas. – Então não me odeia? – perguntou Fiona a fungar. Penelope abanou a cabeça. – Claro que não. Só gostava que me tivesses dito que não querias mudar de vida, mas apenas deixar o homem com quem estavas.


Fiona limpou os olhos. – Queria ser o que a senhora acreditava que eu podia ser. E que valia mais. Penelope sentiu-se envergonhada. – Oh, Fiona, vales mais do que Wharton, mas nunca quis que pensasses que te desprezava por causa da tua profissão. Fui tonta e estúpida. Fiona apertou-lhe a mão. – Não, Penelope. Nunca foi tonta nem estúpida. Foi sempre boa para mim e nunca o esquecerei. – Sê feliz – disse Penelope quando se separaram. – E vem visitar-me muitas vezes. Fiona recuou surpreendida. – A sério? – Claro. És minha amiga. É uma coisa que nunca muda. Fiona esboçava um triste sorriso quando se abriu a porta da sala. – Minha senhora – disse o mordomo com uma vénia. – Está aqui um cavalheiro para a visitar. O coração de Penelope bateu mais apressado. – Lorde Rothschild, minha senhora – esclareceu o mordomo. Fiona e Penelope trocaram olhares e esta percebeu que a cortesã se apercebera das suas esperanças que fosse Jeremy. – Vou para cima começar a arrumar as minhas coisas – disse Fiona com um sorriso. Penelope acenou com a cabeça. – Mande entrar Lorde Rothschild – ordenou. Levantou-se à chegada de Ethan. Este sorriu quando Fiona abandonou a sala, depois voltou os olhos escuros para Penelope. – As minhas desculpas por esta visita tão tardia. Penelope sorriu. – Não é assim tão tarde. Sente-se, por favor. Ethan instalou-se numa das cadeiras, que imediatamente pareceu pequena de mais. Penelope sentiu-se pouco à vontade sob o olhar perscrutante do cunhado. Embora já não sentisse qualquer animosidade, não tinham grande intimidade e ela não sabia como tratar com ele. – Acabo de deixar o seu Jeremy – disse ele em voz baixa. Penelope sentiu-se nervosa. – E ele mandou-o com um recado? – susteve a respiração, aguardando a resposta de Ethan. – Não. Penelope soltou imediatamente a respiração, desapontada. – Percebo.


O cunhado sorriu delicadamente. – Não. Não creio que tenha percebido. Kilgrath decidiu que não merece a sua consideração. Que, depois de tantas semanas de manipulação, tem de a deixar em paz para que tome as decisões acerca dele e do seu perdão. Penelope olhou-o admirada. – O… oh – gaguejou. – Mas, embora eu admire a determinação do duque – disse Ethan –, também penso que poderá decidir-se mais facilmente, se souber o que ele fez esta noite. – Que fez Jeremy? – perguntou Penelope, sufocada imaginando mil boas e más possibilidades. – Conhece os amigos dele? Creio que se intitulam os Nunca – perguntou Ethan. Ela acenou afirmativamente, sentindo um gosto amargo na boca. – Não conheço bem nenhum deles. Mas creio que foi por eles que Jeremy começou a perseguir-me. Queriam silenciar-me. – Então sabe que sente por eles uma grande amizade e que lhes é leal, principalmente em relação a um chamado Wharton. Penelope mordeu o lábio. Wharton que maltratara Fiona. Jeremy aborrecera-se em relação a esse assunto, quando ela lho contara. – Sim. – Esta noite, Kilgrath tornou bem claro a Wharton que os seus dias de bater em mulheres haviam terminado – Ethan olhou-a com firmeza. – Se a sua amiga estava preocupada com a sua segurança, já pode ficar descansada. Wharton não se atreverá a desafiar Kilgrath depois das ameaças que este lhe fez. Penelope soltou uma exclamação ofegante. – Ameaçou o amigo? – Sim. E aproveitou para cortar relações com ele. E provavelmente com todos os seus amigos Nunca. Penelope pôs-se de pé. – Não! – Sacrificou uma coisa que muito significava para ele, as suas amizades – disse Ethan a sorrir. – Porque deseja voltar a cair nas minhas boas graça? – perguntou Penelope. – Tratase de outra manipulação? – Não – Ethan levantou-se e aproximou-se dela. – Para falar verdade, ele pediu-me que não lhe revelasse o que fizera, receando que a minha cunhada o tomasse como tal. Mas fê-lo apenas por pensar que era o correto. Creio que ele a convenceu uma vez que era um homem mudado, quando não era verdade. Penelope acenou, sentindo na boca um gosto ainda mais amargo.


Ethan tocou-lhe na mão. – Creio que agora deseja de facto mudar, mostrar-lhe, pelas suas ações, que é digno do seu amor, mesmo que não o consiga. Penelope pestanejou ao sentir as lágrimas inundarem-lhe os olhos. – Mas poderá mudar? Verdadeiramente? Será possível que um homem assim se transforme numa pessoa diferente? – Por amor, creio que sim – Ethan dirigiu-se à porta. – Afinal, minha querida cunhada, eu mudei por uma razão muito semelhante. Olhando para o cunhado ali à porta da sua sala, Penelope percebeu que ele tinha razão, que mudara. Ethan transformara-se por amor à mulher. Apostaram os dois no amor e receberam enormes dividendos. Mas poderia ela correr um risco semelhante? – Obrigada, Ethan – murmurou, acompanhando-o ao vestíbulo. – Não por ter vindo aqui esta noite falar-me das ações de Jeremy, mas por amar a minha irmã. O belo rosto do cunhado tornou-se mais doce. – Minha querida cunhada, faço as duas coisas com o maior prazer – beijou-lhe ao de leve a mão. – Boa noite. Penelope viu-o partir e, depois, subiu lentamente a escada. Pensava em tudo o que acontecera, em todos os receios e esperanças que queimavam o seu espírito febril. Nessa noite não poderia conciliar o sono. Não haveria um amante para a distrair. Restar-lhe-ia a companhia dos seus pensamentos. E, ao nascer do dia, esperava ser já capaz de decidir, de uma vez por todas, o que deveria fazer.


Capítulo 20

Jeremy estava sentado à secretária, com a luz da tarde a dançar sobre os papéis que tinha diante de si. Ergueu a folha e leu outra carta de sua mãe. Havia horas que as lia, tendo começado pelas que lhe escrevera havia muitos meses e terminava com a última que lhe caíra sobre a secretária uns dias antes. Era terrível ver o que perdera por estar completamente envolvido em si próprio. E aperceber-se do pouco que conhecia a mãe. Descobria agora que ela era espirituosa, interessante e versada em muitas coisas sobre os locais que visitara. Jeremy estava decidido a escrever-lhe nessa mesma tarde. Não os gatafunhos habituais e sem sentido que nada de importante mencionavam, mas uma carta que a fizesse saber que se interessava por ela. Ergueu os olhos das palavras bem desenhadas. Era estranho observar a própria vida. Mas era o que ele fazia desde... bem, desde que Penelope entrara nela. E, através dos olhos dela, reconhecera como fora egoísta e sem sentido. Mas, quando abordara Penelope, esta acreditara que ele seria capaz de mudar. Permitira cautelosamente que se tornasse seu amigo, depois amante, porque pensava que algures, lá no fundo, ele fosse um homem melhor. Por isso, talvez se ele de facto se tornasse um homem melhor, pudesse reaver o seu amor. Ou pelo menos tentar merecê-lo. – Senhor duque, chegou uma carta para Vossa Graça – disse um criado, aparecendo à porta. Jeremy ergueu os olhos para o homem e mandou-o entrar. Retirou a carta que o criado lhe estendia numa salva de prata e fez-lhe sinal para que se retirasse. Olhou para a caligrafia. Regular, bonita, não a reconhecia. Quando a voltou viu que o lacre que a fechava não tinha marca. Não havia qualquer identificação que lhe permitisse dizer quem era o remetente. Franzindo a testa, quebrou o lacre e desdobrou as folhas. Senhor duque Imaginei durante muito tempo como seria se estivesse aqui comigo. Não como um amante misterioso cujo rosto não posso ver, mas à luz. Sem mentiras entre nós. Sem escuridão que nos cegue. Esta noite vou colocar na janela uma vela para si. Venha ter comigo à meia-noite, se desejar algo mais do que as mentiras que partilhámos no passado.


Jeremy leu três vezes a carta antes de a poisar, admirado. Não estava assinada, mas sabia que era de Penelope. Invadiu-o uma esperança completamente desconhecida. Ela oferecia-lhe uma nova oportunidade. Estendia-lhe a mão. Levantou-se e correu para o vestíbulo. Tinha muito a fazer, se tencionava provar-lhe que a sua ténue fé podia ser recompensada com a verdade e o amor.

Penelope estava diante de um lume enorme que mandara acender na lareira e alisava distraidamente o vestido. Estava tudo preparado, tudo, menos ela. Sentia-se nervosa, ansiosa e tinha muitas dúvidas. E se Jeremy não aparecesse? E se viesse a pensar que podiam meter-se simplesmente na cama? Não. Não poderia pensar em tal. Por muito tentador que fosse, não era esse o seu plano para aquela noite. Para se distrair do nervosismo que sentia, Penelope olhou à sua volta. O quarto nunca estivera tão iluminado. O lume forte e quente, acendera candeeiros e velas por toda a parte, incluindo a que tremeluzia junto à janela. Um farol para trazer Jeremy a casa. Não havia uma sombra no quarto. Nessa noite, o que acontecesse teria de ser à luz, o que era uma ideia aterradora. Mas Penelope endireitou-se e chamou a si todas as suas forças. Não queria viver com interrogações ou remorsos, por isso fora o que resolvera. Ouviu um estalido na janela atrás de si e voltou-se para ver Jeremy saltar o parapeito. Como ela, trazia as suas melhores roupas. Um traje de cerimónia com um colete prateado e uma gravata com um nó impecável. Olhou para si própria com um sorriso. Também ela pusera o seu vestido mais bonito, azul com um fio prateado que condizia perfeitamente com o colete dele. Penelope resolveu considerá-lo um sinal e aproximou-se dele. – Parece que tivemos uma ideia semelhante – disse ela apontando para o vestido, com mão trémula. Jeremy não sorriu, limitando-se a olhar para ela. Penelope corou por estar a ser observada, mas fez um esforço para não desviar os olhos. – Viu o pior de mim – disse ele por fim, olhando-a nos olhos. – Pensei que pelo menos lhe devia que visse o melhor. – Venha sentar-se comigo – pediu ela, apontando para as cadeiras junto à lareira. Penelope não deixou de reparar que o olhar dele se dirigiu por instantes à cama, mas Jeremy seguiu-a sem qualquer comentário. Instalaram-se e ela serviu-lhe um cálice do seu melhor porto, bem como vinho para ela. Ele poisou a bebida, sem lhe tocar e olhoua. – Estou muito contente por me ter convidado a vir aqui esta noite, embora me


surpreendesse – disse. – Principalmente por não ter querido ver-me ontem. Penelope corou. – Estava tão perturbada, tão confusa que não podia enfrentá-lo. – Compreendo – disse Jeremy, baixando o rosto. – Peço-lhe que me perdoe toda a dor que lhe causei. Todas as mentiras que lhe disse. Penelope respirou fundo. Nunca vira Jeremy com um ar tão… triste. Era uma revelação, mas seria verdadeira? Ou apenas mais uma manipulação? – Foi muito difícil manter a minha fé em si – murmurou ela. – Quero acreditar que de facto o lamenta. Que não é mais uma mentira para me fazer curvar ao seu desejo. Porém, continuo a pensar em todas as coisas que me disse e que não eram verdade. Ele acenou afirmativamente, tocando no pé do cálice. – Compreendo, Penelope. Violei a sua confiança. Bem sei que pode passar muito tempo até que a recupere. Talvez isso nunca aconteça. Mas quer tentar? E hei de mudar, hei de mostrar-lhe que mudei. Ela endireitou-se – Mudar? Que quer dizer com isso? Ele franziu a testa – Cortei relações com os Nunca. Ela soltou uma exclamação abafada. – Então Ethan tinha razão. A sua discussão com Wharton acabou com as suas amizades? Ele ergueu os olhos e sacudiu a cabeça. – Já vejo que o seu cunhado falou consigo, apesar de lhe ter pedido que não lhe contasse o que fiz. – Mas contou – admitiu Penelope. – E estou satisfeita por ele me ter contado o seu segredo. Jeremy abanou a cabeça e ela sentiu a frustração que o invadia. – Mas não fui confrontar o Wharton como manipulação para conseguir a sua atenção. Fi-lo porque creio que um homem nunca deve levantar a mão para uma mulher. Ninguém deve ser forçado à vontade de outrem e castigado com violência se não obedecer. Não interessa o que pensa que sabe a meu respeito, Penelope, mas espero que saiba isto. Penelope acenou imediatamente. Nem sempre estivera tão certa, mas agora conhecia melhor o homem que tinha à sua frente. – Eu sei. Uma centelha de alívio adoçou a expressão de Jeremy. – Depois do meu encontro com Wharton, escrevi uma carta aos outros, explicando que teria de deixar de fazer parte do grupo. Certamente que manterei a amizade com


alguns deles. Mas não quero que me associem de novo à reputação que eles têm. Penelope inclinou a cabeça. – Há quanto tempo é amigo desses homens? Jeremy hesitou e ela leu-lhe uma expressão de dor no olhar. – Sou amigo deles de quase toda a vida, minha senhora. – E desistiu dessas amizades, na esperança de que um dia eu possa perceber que, de facto, mudou e lhe perdoe? Ele olhou-a nos olhos. Os dele eram tão escuros que ela poderia perder-se neles. E tristes. Quase insuportavelmente tristes. Era a primeira vez que vira Jeremy revelar tão completamente os seus sentimentos mais íntimos. – Não quero o seu perdão, Penelope – disse com a voz tão rouca, como quando falava com ela como seu amante secreto. – Preciso dele. E farei tudo para o conseguir. E o seu amor. Penelope pôs-se de pé e olhou-o. Ele não se levantou, mas não desviou os olhos. – Quer o meu amor, Jeremy? Ele acenou afirmativamente. – Mais do que tudo. Amo-a, Penelope Norman. Penelope recuou um passo, sufocando um grito de surpresa antes que este lhe saísse dos lábios. Jeremy levantou-se lentamente, mas não se aproximou dela. – Não tem de acreditar já – disse. – Mas deverá saber que tenciono provar-lho. Todos os dias. Para o resto da vida. E aspiro a poder um dia receber o seu amor em troca. Penelope engoliu em seco. Jeremy oferecia-lhe as esperanças e os sonhos que ela guardara dentro de si, mas não exigia que os aceitasse. Mostrara-lhe simplesmente que estavam ali para ela quando os desejasse. Penelope olhou-o nos olhos. Pela primeira vez desde que o conhecera nada pareciam esconder. As suas emoções, obscuras e nobres, eram tão claras como a luz que lhe inundava o quarto. As mãos dela tremiam quando se aproximou dele. Jeremy ficou imóvel, mas não lhe estendeu a mão. Não a puxou para os seus braços, nem a submeteu à sua vontade. Ela agarrou-lhe as lapelas do casaco e a respiração dele parecia entrecortada, mas limitouse a olhá-la à espera. – Aspiremos a merecer o amor um do outro – murmurou ela. – Porque eu amo-o, Jeremy. Amo-o com todo o meu coração. E sei que fiz coisas impensadas e tolas. Sentime triste e zangada com o mundo. Nunca mais quero ser assim. E consigo, não sou. Ergueu-se na ponta dos pés em busca do beijo que desejara desde o momento em que ele entrara pela janela. – Quer arriscar-se a um futuro comigo.


Jeremy rodeou-lhe por fim a cintura e estreitou-a de encontro ao peito. Os corpos moldaram-se e a boca dele aproximou-se. – Não é um risco, Penelope. É uma garantia. – Encostou os lábios aos dela, puxandoa mais para si quando as bocas se juntaram com paixão e amor. – Uma garantia de felicidade – murmurou ele antes de a beijar de novo. – E de prazer – disse acariciando-lhe a nuca e passando-lhe os lábios pela garganta. – E de um ousado abandono para o resto das nossas vidas. Penelope recuou para olhar os olhos do homem que amava. – Aceito essa garantia, senhor duque. Mas creio que devemos selar o contrato com um beijo. Jeremy sorriu e começou a conduzi-la para a cama. – Por onde devo começar, minha senhora? Gostaria de selar o contrato mais do que uma vez esta noite.


Sedução Perigosa vol. 2 - Jess Michaels