Issuu on Google+


REDENÇÃO


REDENÇÃO Jaimie Robert


Copyright © Redenção 2016 Jaimie Roberts

TÍTULO ORIGINAL Deviant

Série Depravado – Livro 2 Editora Bezz Traduzido por Bianca Carvalho Este é um trabalho de ficção. Nomes, personagens, empresas, locais, eventos e acontecimentos são produtos da imaginação da autora ou usados de forma ficcional. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência. [2016] Todos os direitos dessa edição reservados à Editora Bezz LTDA. www.editorabezz.com

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou por qualquer sistema de armazenamento e recuperação de informações, sem a permissão por escrito do autor e editora.


Para Angie, por me proporcionar a inspiração para Redenção. Você vai entender o que estou querendo dizer quando lê-lo, irmãzinha.


Índice Prólogo Capítulo Um Capítulo Dois Capítulo Três Capítulo Quatro Capítulo Cinco Capítulo Seis Capítulo Sete Capítulo Oito Capítulo Nove Capítulo Dez Capítulo Onze Capítulo Doze Capítulo Treze Capítulo Quatorze Capítulo Quinze Capítulo Dezesseis Capítulo Dezessete Capítulo Dezoito Capítulo Dezenove Capítulo Vinte Capítulo Vinte e um Capítulo Vinte e dois Capítulo Vinte e três Capítulo Vinte e quatro Epílogo


Prólogo Eu sempre pensei que enquanto conseguisse viver mantendo meus pés no chão, estaria bem. E foi exatamente assim que vivi minha vida... até esse ponto. Então, o que será que aconteceu? Eu estava me afogando, me debatendo em um mar que ameaçava me engolir por inteira e nunca mais me libertar. Mas que mar maravilhoso para se afogar! E que abençoada onda de ignorância eu estava surfando! E por quê? Bem, tudo começou com um garoto que conheci quando tinha seis anos de idade. Você deve se lembrar dele, não lembra? O garoto com o sorriso atrevido, o cabelo espetado preto e os penetrantes olhos azuis mais incríveis de todos? Sim, ele mesmo. O amor da minha vida, o homem dos meus sonhos... uma porra de um espinho no meu coração. Eu nunca poderia dizer que meu relacionamento com Dean era convencional. Não. Nós éramos as duas pessoas mais fodidas que já conheci. Ele me tirou do eixo quando eu tinha seis anos, me sugou para um mundo onde apenas ele existia, e, então, desapareceu da minha vida. Isso me deixou mágoas das quais eu sei que nunca irei me recuperar. Consegui esconder das outras pessoas, mas estava dolorosamente apaixonada por esse garoto que desapareceu da minha vida. Então, ele voltou e não era mais o meu Dean. Não era o garoto que costumava escalar minha janela quando eu era criança. Não era o garoto que sussurrava ao meu ouvido, que sempre me fazia corar e que fazia com que meu estômago revirasse com um milhão de borboletas. Não. Ele se tornou um homem consumido pelo ódio, pela raiva e pela vingança. Um homem que não descansaria até que eu estivesse destruída. Bem, ele teve sucesso. Eu estava arruinada. Não era mais a mulher que costumava ser. Estava partida em um milhão de pedaços. Minha determinação estava enfraquecida, meu coração estava esmagado, e eu me tornei algo que jamais pensei... fraca. Fui forçada a aceitar ajuda dos meus pais — algo que eu jurei nunca fazer. Também fui forçada a sacar dinheiro do meu Fundo de Pensão mais cedo do que o previsto. Graças aos meus pais e uma cláusula no testamento deles de que se eu me casasse ou engravidasse antes dos meus trinta anos, eu herdaria dois milhões, eu tinha dinheiro... muito. Sentia-me doente todos os dias só de pensar que não conseguia me manter sozinha. Que não poderia decidir meu próprio destino. E por quê? Porque tinha que fugir. Tinha que fugir do homem para quem eu costumava correr. Um homem por quem eu daria tudo. E tudo isso por causa de uma pessoa. Ian. Meu suposto melhor amigo. O garoto com quem eu costumava brincar quando era mais nova. O garoto com quem eu costumava passar minhas férias de verão, com quem compartilhava jantares à base de espaguete à bolonhesa. Estudamos juntos na escola, frequentamos a mesma faculdade... Merda, eu até trabalhei com ele. Ele sempre estava lá para mim. Era minha estabilidade. Sempre pensei que cuidava de mim. Eu o amei como um melhor amigo, mas ele estava apenas esperando nas sombras pelo momento certo de atacar. Eu poderia dizer com segurança que minha vida mudou dramaticamente nos últimos anos. Não havia nada de comum nela. Céus, eu deixei um estranho entrar no meu apartamento e me provocar cruel e constantemente. Isso dificilmente poderia ser considerado comum. Mas por que


deixei que isso acontecesse? Será que inconscientemente eu sabia que era Dean o tempo todo? Bem possível. Na verdade, eu passei a dizer isso para mim mesma para que não pensasse que estava enlouquecendo. Eu estava errada em deixar acontecer, mas, para dizer a verdade, foi a melhor coisa que me aconteceu. Pelo menos senti alguma proximidade. Pelo menos descobri o que Dean se tornou. Finalmente eu poderia me libertar e recomeçar minha vida. Ou isso era o que eu pensava. Depois que fui embora sem olhar para trás, as coisas começaram a correr bem por quatro anos. Eu estava mantendo meus pés no chão. Conseguindo gerenciar minha vida normalmente, levando adiante meu sonho de me tornar uma professora de jardim de infância. Estava conseguindo me virar, focando apenas na única pessoa importante da minha vida. Ele era a razão de eu levantar da cama todas as manhãs e continuar lutando. Ele era minha salvação. Era a pessoa que eu podia abraçar à noite quando me sentia só e assustada com o que minha vida tinha se tornado. Ele era meu tudo, e toda a minha energia se voltava para fazer o melhor com a situação na qual tinha me enfiado. Eu tomava todo o cuidado para não ser encontrada. Fiz um acordo com minha família de como poderia entrar em contato com eles. Nunca podia ligar para a casa deles, nunca telefonava para o celular. Eu contava com um advogado amigo da família para transmitir as mensagens para eles. Isso funcionou por um tempo. Eu sabia que Dean nunca iria desistir; e eu sabia que, mesmo depois de tudo que fez comigo, eu nunca conseguiria me conter para não cair naquele abismo novamente. Na verdade eu ainda estava lá, e vinha me enganando ao pensar que conseguiria rastejar para fora dele. Só precisava ficar o mais longe possível dele, para não ser sugada lá para baixo. E funcionou. Eu estava sobrevivendo. Até que uma coisa fez o meu mundo girar de ponta a cabeça. Naquele momento, tudo mudou.


Capítulo Um Clara O´Shea — Derren, a que horas vamos almoçar hoje? Tenho um compromisso ao meio-dia, e acho que vai durar uma hora. — Esperei para ouvir sua voz, para constatar se ele tinha me ouvido. Quando apareceu no corredor e caminhou em direção a cozinha, sorri e deixei escapar um suspiro. Derren nunca deixava de me maravilhar com o quanto era lindo. Parecia ficar cada vez mais conforme envelhecia. Seus olhos amendoados dançavam pelo meu corpo, fazendo com que meu estômago se contorcesse. Mesmo depois de todos esses anos, ele ainda tinha aquela coisa que fazia com que meus joelhos se enfraquecessem. Todas as garotas o adoravam, mesmo suas alunas, que eram vinte anos mais novas. Ele nunca olhava para elas. Era meu. Só meu. Ele veio em minha direção, depositou um beijo terno em meu rosto e abriu um sorriso malicioso. — Fiz reservas para uma e meia. — Ele se inclinou, me beijou novamente e deixou escapar um sorriso satisfeito. — Já te disse o quanto você está linda hoje? Fechei meus olhos e senti seu cheiro doce. Ele sempre cheirava a mais doce lavanda. — Você me diz isso todos os dias, mas nunca me canso de ouvir. Ele sorriu novamente, virou-se para se servir com um pouco de café e então sentou-se perto de mim. Observei-o enquanto franzia o cenho pouco antes de soprar o líquido em sua caneca. Aquele olhar sempre me deixava aflita. Naquele momento, vi Tyler. Não havia um dia sequer que eu não desejasse tê-la ajudado. Eu nunca poderia expressar o quanto sentia sua falta. Meu coração doía e meus dentes rangiam sempre que eu pensava em Dean e no que ele tinha feito com ela. Eu sempre soube o quanto eles se amavam, mas não sabia o quanto esse amor tinha sido violento. Às vezes Dean agia completamente fora do controle de Tyler. Ela não merecia a vingança que ele buscou. Era uma vítima inocente de uma corrente de mentiras e enganos que um homem provocou. O homem em quem eu sempre confiei. O homem com quem eu pensei que Tyler acabaria ficando. — Você parece tão triste ultimamente, e eu odeio te ver assim. A voz de Derren me arrancou do meu devaneio e me trouxe de volta à realidade. — Eu só não gosto de pensar que ela está sozinha por aí. Odeio o fato de ter sido um homem a obrigá-la a isso. — Eu sabia que ele estava observando cada um de nossos movimentos. Também sabia que tinha grampeado nossos telefones. Sempre éramos cuidadosos, mas odiava o que tínhamos que fazer para manter nossa filha segura. Para proteger seu coração. Inclinando-se para frente, Derren colocou sua mão sobre a minha. — Ela está segura agora. Sem Dean em sua vida, ela pode viver com normalidade. Dean sempre irá trazer o perigo com ele, e não podíamos deixar isso acontecer. Obviamente ele deve ter ficado no lugar do pai, e por mim tudo bem. Mas ao menos ele não vai levar nossa filha com ele para o fundo do poço. — Ele percebeu meus olhos lacrimejando e apertou minha mão gentilmente, sorrindo. — Eles estão a salvo agora, Clara. Permanecerão a salvo contanto que as coisas continuem como estão. Sei que é difícil, mas Tyler tem alguém em sua vida agora que poderá fazê-la feliz. Vamos nos ater a isso. Assenti e enxuguei meus olhos, não querendo estragar minha maquiagem. Odiava


ficar com a maquiagem ou o cabelo desalinhados. — Você está certo, e eu te amo. Derren inclinou-se e gentilmente beijou meus lábios. — Também te amo. Enquanto sorríamos um para o outro, o telefone tocou. Instantaneamente levantei-me e corri, pensando que podia ser meu estagiário. — Alô — cantarolei ao telefone. — Me desculpa. Eu não sabia o que fazer. Meu coração começou a martelar no peito, e a tontura me consumiu. — Tyler? — perguntei, não sabendo o porquê de ter perguntando. Eu sabia que era ela. Só não imaginava que fosse ligar para cá. No mesmo instante, a cadeira de Derren deslizou pelo chão enquanto ele corria em minha direção para colocar uma mão em meu ombro. Olhei em seus olhos e a forma como ele me olhou em retorno traduzia exatamente o que eu estava sentindo... desespero. — Eu sei que não deveria ligar, mas... mas... — Tyler soluçava no telefone, e eu me sentia completa e totalmente impotente. Pânico nem começava a descrever o que estava sentindo. Tyler sabia que nunca deveria ligar para nós, então, algo deve tê-la feito fazer isso. — Tudo bem. Respire fundo. Por favor, querida. Você está me assustando. O que aconteceu? Tyler ficou em silêncio por um momento e fungou um pouco antes de respirar fundo. — Ele está doente, mãe. Estou tão, tão assustada. Não vou conseguir passar por tudo isso outra vez. Inspirei profundamente e agarrei a mão de Derren, olhando bem fundo em seus olhos, enquanto agarrava o telefone. — Estaremos no próximo voo.


Capítulo Dois Dean Redenção não é obter a perfeição. O redimido deve compreender suas imperfeições – John Piper Frustração nem começava a descrever como tinha sido minha vida nos últimos quatro anos. Quatro anos de merda, e eu não descobri nada. Eu já devo ter contratado seis investigadores particulares diferentes porque nenhum deles conseguia desenterrar porra nenhuma. Estava cansado, mas também determinado. Nunca iria desistir até encontrá-la novamente. Não fazia ideia do que faria quando a encontrasse, mas sabia que começaria ficando de joelhos, implorando seu perdão. Eu estava errado e precisava admitir. Nunca tive a intenção de feri-la, mas feri. Mesmo se ela tivesse me traído, eu seria apenas metade do homem que costumava ser. Nada mais parecia importar. Eu tinha construído uma vida cercada por vingança e a promulguei. Não precisava mais continuar com essa fachada. Não precisava alimentar os erros de outras pessoas fazendo-as pagar pelo que fosse necessário. Fiz o que fiz para manter meus negócios sob controle. Vendi alguns empreendimentos para me manter de forma confortável durante minha aposentadoria, passei mais responsabilidades para Humphrey e atenuei minha raiva... tudo isso para poder concentrar minhas energias em encontrar Tyler. Eu sabia que o dia de encontrá-la chegaria, mas não pensava que se passariam quatro anos sem nenhum sinal dela. Depois de mais ou menos seis meses, voltei a usar mulheres como uma ferramenta para me desligar, mas sempre imaginava Tyler quando fazia isso. No final das contas, desisti. Eu era um porco fodido. Usava e abusava de mulheres só para tentar me curar, mas nunca dava certo. Só me deixava mais irritado comigo mesmo e o nível de nojo por mim mesmo apenas crescia. Só havia uma pessoa que podia me trazer a salvação. Só uma pessoa podia me tornar um homem melhor. No dia em que descobri que ela nunca tinha me traído, como pensei ter feito durante tantos anos, meu coração negro subitamente tornou-se vermelho. Sua primeira batida foi para ela, porque era a única mulher para mim. Eu só precisava encontrá-la. Não havia outra maneira, nenhuma outra opção. Ela era minha e sempre seria. Já tinha gastado muito dinheiro para encontrar minha Rosey, e pagaria muito mais só para vê-la de novo. Perdê-la nunca seria uma opção para mim. Mesmo quando eu a persegui, a espreitei e brinquei com suas emoções durante todos aqueles anos, sabia que ela jamais escaparia. Com um balançar de cabeça, pensei em tudo que fiz a ela. Até paguei uma boa quantia para um ex-maquiador de cinema para que eu me tornasse um mestre do disfarce para que ela não me reconhecesse. Parece ridículo, mas é a verdade. Eu poderia ser Dillon, o rapaz que roubou sua virgindade; Andrew Walker, seu chefe; um homem qualquer que caminhava na porra da rua. Ela nem teria notado. Paguei pelo melhor, e consegui o melhor. Ela nem suspeitou... pelo menos por um tempo. Respirando fundo, comecei meu treino no saco de areia. Isso era algo que eu nunca deixava de fazer. Sempre me mantinha em forma, sempre descontava minha frustração, mantendo a esperança de que iria me sentir melhor, por mais que durasse apenas alguns minutos. Alimentavame de endorfinas, como se fossem a única droga na qual podia confiar.


Socava e socava, até que meus músculos choramingavam de dor. Eu me sentia como uma rocha agora, mais forte do que nunca. Esse era o único conforto que tinha, uma vez que Tyler estava fora da minha vida. Enquanto socava o saco mais uma vez, parei e olhei no espelho. Não estava mais morando na minha mansão. Já não a tinha mais, assim como não tinha as lembranças de quem costumava ser. Eu estava em minha cobertura, que era meu santuário, contendo retratos e memórias de Tyler. Um lembrete de algo bom e puro que tive na vida. Ela era a única coisa que me fazia sorrir. Na verdade, meus únicos sorrisos surgiam quando pensava nela. Enquanto olhava para mim mesmo, observava as minhas mais novas tatuagens que fiz assim que Tyler foi embora. Uma era um retrato de Tyler quando tinha oito anos. Eu estava de pé, no parque onde brincávamos às vezes, e estava com meu braço ao redor dela. Mesmo naquela época, ela olhava para a câmera com tanta intensidade, que era capaz de me deixar sem fôlego. Seu cabelo costumava ser uma massa de ondas loiras naquela época, mas tornou-se mais liso com o tempo. Suas faces estavam rosadas como sempre, e seus olhos possuíam, e ainda possuem, o mais belo tom de verde turquesa. Sempre que olhava dentro daqueles olhos, me sentia como se estivesse em uma ilha tropical, onde a areia era branca, e o mar possuía o mais belo e límpido verde que já vi. Tyler era a minha ilha tropical. O único lugar que podia chamar de lar e ser quem já fui uma vez. A outra tatuagem era um lembrete do que fiz com ela. Ela me torturava dia após dia, porque eu precisava disso para ver o que tinha feito a ela. Nunca me curei daquele dia. Sempre soube que carregaria a culpa pelo resto da minha vida. E eu merecia isso. Merecia cada porra de letra gravada no meu peito. Algo que me olharia de volta no espelho a cada manhã. Algo que nunca me permitiria escapar. Aquela tatuagem tinha um nome, um nome apenas... JEREMY. Era algo que se destacava e que seria um constante lembrete do que eu tinha feito. O monstro que tinha me tornado... e do que tinha perdido. Nunca conheci aquele garoto, mas gostaria de tê-lo conhecido. Se as coisas tivessem sido diferentes, eu e Tyler poderíamos tê-lo criado. Eu ficaria satisfeito por fazer qualquer coisa para deixá-la feliz. Porém, eu não sabia disso, agora sei... Bem, arrependimento é uma coisa maravilhosa. Você não ama essa palavra? Ela não te excitaalgumas vezes? Você não gostaria de pegar os arrependimentos, chutar suas bolas e enfiá-los na bunda? Mas não tenho ninguém para culpar. Fiz o que fiz e tenho que pagar. Ferrei com a única pessoa que poderia me fazer verdadeiramente feliz. E, em troca, ela me ferrou também. Mereci tudo o que aconteceu comigo. Eu era o único culpado nisso tudo. E nada iria me impedir até que resolvesse as coisas. Nada nem ninguém me impediria de demonstrar para Tyler o quanto eu a amava, o quando eu queria torná-la minha e o quão arrependido eu estava pelo que fiz com ela. Fechando meus olhos, respirei fundo e me dirigi ao chuveiro. Dentro de algumas horas eu precisaria me encontrar com Jimmy para almoçar, então, eu precisava começar a me arrumar. Enquanto saía do chuveiro, ouvi meu interfone tocar. Franzi o cenho porque não estava esperando ninguém. Quem quer que fosse, obviamente estava tocando freneticamente, sem parar. Pegando a toalha, enrolei-a em minha cintura, então, caminhei em direção ao interfone. Peguei-o e vi o rosto de Jimmy surgindo no monitor. — Jimmy, que merda você quer? Está tão ansioso para me ver que não pode nem esperar por algumas horas? — deixei escapar uma risada, mas ele não abriu um sorriso.


— Tenho tentado te ligar há meia hora. Onde você esteve? Dei de ombros. — Estava malhando. Acabei de sair do chuveiro. O que houve, seu babaca? Jimmy sorriu cheio de malícia para a câmera. — Acho que você vai preferir que eu entre antes. É uma coisa que tenho que te falar cara a cara. Assenti e apertei o botão para deixá-lo entrar. Não demorou muito para que ele saísse do elevador, olhando para mim com aquela porra de sorriso no rosto. — O que está te fazendo parecer tão arrogante? Pela forma como me olhou antes, pensei que queria me dar um soco. Jimmy balançou a cabeça e cruzou os braços. — Eu só estava irritado porque não conseguia te encontrar para te contar a novidade. Fiquei ali parado por alguns segundos, mas sabia que ele não iria entregar a verdade tão facilmente. — Qual é a merda da notícia, Jimmy? Me diga! Jimmy gargalhou. — Você me deve muito por isso, parceiro. O amor de sua vida ligou para os pais dela. Meu coração começou a martelar descontroladamente dentro do meu peito. Mal podia acreditar que finalmente tinha descoberto algo. Mas logo percebi uma coisa. Ela nunca ligaria para seus pais. Alguma coisa estava errada. — Ela está bem? Por que ela ligou para eles? Ela nunca liga para eles. O sorriso de Jimmy desapareceu e foi substituído por uma carranca. — Eu não sei. Tudo que sei é que ela disse que ele está doente, e agora a mãe e o pai de Tyler estão se preparando para viajar e encontrar com ela. Eu quase soquei a parede. — Merda! Tenho que descobrir para onde eles estão indo, Jimmy. Preciso rastrear cada um de seus movimentos. Jimmy sorriu novamente. — Já estou trabalhando nisso. Eles agendaram um voo para Washington e comprei uma passagem para mim no mesmo voo. Você está no voo seguinte. Já cuidei de tudo, cara. Eu queria abraçar Jimmy naquele momento. Durante os últimos quatro anos vinha contando para ele sobre minha história com Tyler. Ele sempre me ouvia com atenção, dizendo que era um azar de merda, então, me ofereceu a ajuda que eu precisava para encontrá-la. Aparentemente, ele era tarado por uma história de amor, apesar de ser o gigante que gostava de torturar pessoas como um hobby. — Porra, cara. Obrigado. Você não sabe o quanto isso significa para mim. Jimmy estava radiante. — Acho que essa é a primeira vez que você me elogia. Posso me acostumar com isso. Soquei seu braço de forma divertida. — Não vai se acostumando com isso, seu babaca. Eu não me entrego assim tão facilmente. Jimmy ficou me olhando, percebendo minha falta de roupas. — Você não acha melhor começar a fazer as malas? Na verdade, meu avião sai em


quatro horas, então, eu preciso ir. — Ele pegou um pedaço de papel do bolso e o entregou para mim. — Aqui. Estes são os detalhes que você precisa. Peguei-o da mão dele. — Obrigado, Jimmy. Ele sorriu e caminhou em direção ao elevador, virando-se para me cumprimentar. — Disponha, cara. Te vejo nos States.


Capítulo Três Tyler Não sei por que fui pegar o telefone e ligar para meus pais. Mal conseguia decidir se era estúpida ou se só estava completamente desesperada. Provavelmente um pouco dos dois. Tudo que sei era que estava completamente sozinha. Desesperada e imperdoavelmente sozinha. Pela segunda vez na minha vida, precisava da minha mãe e do meu pai. Precisava de seu conforto e seu apoio para a dor imensurável que estava sentindo. Tinha sido colocada em uma situação que me proporcionava pesadelos. Meu Jeremy. O menino de quem eu nunca esqueceria, que nunca iria superar, e que sempre me seria querido no coração. Ele me deu força para continuar durante todo esse tempo. Ele era o motivo que me fazia abraçar a vida, valorizando cada um de seus momentos... e aceitando até o amor por Twiglets[1]. O pesadelo que suportei naquele hospital quatro anos atrás nunca me abandonava. Mesmo depois de todo esse tempo, às vezes acordava no meio da noite, suando, por causa de outro sonho ruim relacionado àquele dia. Eu nunca iria superar, nunca iria deixar tudo para trás. Foi por isso que me vi sentindo uma dor inimaginável. E acabei agindo por impulso. Agi pensando no terror que aquele dia agora representava. Minha única desculpa para ligar para meus pais era minha própria tentativa desesperada de encontrá-los. Mas o problema era que, com isso, tinha colocado a mim e meu filho em perigo. Dean provavelmente iria me encontrar por causa da minha decisão estúpida. Dean atraía o perigo. Ele o perseguia por toda parte. Não podia permitir que ele se arrastasse por sob a minha pele. Não podia permitir que ele voltasse à minha vida, trazendo consigo o perigo que representava. Havia outra pessoa em quem eu deveria pensar, e sua segurança era minha prioridade número um. — Mamãe, não estou me sentindo muito bem. Segurei sua mão pequenina bem forte e olhei para aqueles olhos azuis penetrantes que ele tinha. Os olhos de Dean. Era fácil dizer quem era seu pai. Ele tinha meu cabelo loiro, mas os olhos não deixavam nenhuma dúvida. — Eu sei, querido. Você vai se sentir melhor logo, logo. O médico já te medicou e disse que se você melhorar vai poder ir para casa amanhã. Seus lindos olhos arregalaram um pouco. — Não quero que você me deixe, mamãe. Sorri. — Não vou deixar, querido. Estarei aqui do seu lado. Sua vovó e seu vovô estarão aqui em algumas horas. Você vai gostar de vê-los, não vai? Ele assentiu, com um sorriso evidenciando suas covinhas. Era fácil dizer que ele não estava bem, mas ainda tinha os olhos mais lindos do mundo e as covinhas mais atrevidas que já tinha visto. — Ah, Jeremy. Você já acordou. Virando-me na direção da voz, vimos Evan — meu novo namorado —, ao pé da cama, com um enorme sorriso no rosto e segurando um enorme urso de pelúcia nos braços. — Trouxe algo para você abraçar durante a noite. Tenho certeza que ele vai te


fazer se sentir melhor. — Ele sorriu novamente e entregou o urso a Jeremy. — Obrigado, Evan — Jeremy disse, educadamente. Evan bagunçou seu cabelo carinhosamente e segurou seu queixo. — Está tudo bem, amigão. Só se concentre em ficar melhor. — Evan virou-se para mim e inclinou-se para um beijo. — O Dr. Foster já passou aqui? — Eu assenti. — O que ele disse? — Ele disse que acha que Jeremy já vai poder voltar para casa amanhã. Ele só quer mantê-lo aqui esta noite por causa do fluido nos pulmões. Evan franziu o cenho. — Pneumonia nunca é algo agradável, mas é altamente tratável hoje em dia. Ele está em boas mãos. Assenti com um sorriso e peguei sua mão. — Eu sei. Além disso, ajuda muito ter você aqui, já que também é médico. Sei que será honesto comigo. Conheci Evan na época em que vinha ao hospital para minhas consultas pré-natais. Esbarrei nele nos corredores e começamos a conversar. Logo ele ficou sabendo da minha situação e, progressivamente, fez com que eu soubesse que queria fazer parte da minha vida. Meus pais ficaram eufóricos quando lhes contei que ele era um cirurgião cardiovascular. Aparentemente, de acordo com as mensagens que recebi de minha mãe, eu deveria arrebatá-lo rápido. Evan era um bom homem, com um bom coração. Já tinha me pedido em casamento três vezes, mas eu neguei em cada uma delas. Ele sabia que eu tinha um passado conturbado, que envolvia o pai de Jeremy, mas não conhecia todo o cenário. Eu nunca consegui chegar a esse ponto com ele. Evan inclinou-se, pegou minha mão e beijou meus dedos com ternura. — Eu sempre estarei aqui. Você sabe disso, não sabe? Só queria ficar com vocês dois esta noite. Balancei a cabeça com um sorriso. — Não se preocupe. Jeremy está em boas mãos. Você precisa trabalhar e tem vidas para salvar. Eu e Jeremy ficaremos bem sozinhos. Vamos ficar, não vamos, Jeremy? — Olhei para meu garotinho, e ele assentiu, apertando seu ursinho com força. Sorri e voltei-me para Evan. — Além disso, meu pai e minha mãe estarão aqui em breve. Os olhos de Evan ficaram arregalados. Ele nunca os tinha conhecido. — Eles estão vindo? Pensei que tinha dito que... — ele parou e olhou para Jeremy. Eu sabia o que ele estava querendo dizer. Estava na ponta de sua língua. — Eu sei. Entrei em pânico. Não sabia o que fazer. Tive que voltar ao hospital, depois de todos esses anos, e senti que precisava deles. — Comecei a chorar. As últimas horas estavam começando a cobrar seu preço. Evan colocou seus braços ao meu redor e beijou minha cabeça. — Eu compreendi. Por favor, não chore. Com os olhos arregalados, Jeremy olhou para mim. — Mamãe, não chore. Estou melhor agora. Afastei-me de Evan e olhei para Jeremy com um sorriso. Ri em meio às lágrimas e segurei sua mão. — Estou feliz que esteja, querido. Mamãe só ficou um pouco assustada por um momento, mas estou bem agora. Estou chorando porque estou feliz por te ver melhorando. — Não gosto de te ver chorando, mamãe. Seu rosto parecia triste, o que tornava ainda mais difícil não começar a soluçar como


um bebê. Jeremy derretia meu coração das melhores e piores formas possíveis. ​— Também não gosto de chorar. Prometo que vou parar agora. Evan me entregou um lenço, e eu sequei meus olhos. — Viu só? Já passou ​— disse, depois de secar todas as minhas lágrimas. Jeremy assentiu de forma triunfante e piscou preguiçosamente. — Estou cansado agora. Assenti. — Bem, se está cansado, melhor ir dormir. É o seu corpo dizendo que você precisa descansar para melhorar. Evan caminhou em direção a Jeremy e depositou um beijo em sua testa. — Você vai melhorar, amigão. Vou ficar no hospital pelas próximas horas, então, vou tentar vir aqui para te ver o quanto puder. Jeremy assentiu e virou-se de lado. Não demorou muito para que adormecesse. — Você vai ficar bem? Voltei-me para Evan com um sorriso. — Ficarei bem. De verdade. Ajoelhando-se novamente, Evan pegou minha mão. — Você vai me contar finalmente o que está acontecendo? Por que seus pais estão vindo para ver vocês assim tão de repente? Suspirei. Eu realmente não queria entrar naquele assunto com ele, mas tinha que lhe dizer algo. Ele estava preocupado. — Eu realmente não sei, mas vou tentar descobrir. Enquanto isso, só quero me certificar que Jeremy esteja bem. Evan me olhava com seus delicados olhos castanhos. Ele não tinha aquele tipo de beleza capaz de deixar alguém de pernas bambas. Era bonito, sim, mas parecia um tipo comum para mim. Era uma estranha analogia, mas uma que lhe caía perfeitamente bem. Era um homem alto e bem constituído, com cabelos loiros e suaves olhos castanhos. Por causa do trabalho, ele nunca tinha tempo para malhar, mas, ainda assim, era esbelto. Vivia para o trabalho, para mim e para Jeremy. Era um grande homem que, por alguma razão desconhecida, me amava profundamente. A boa notícia era que ele amava Jeremy também. Era o homem perfeito para se casar. Então, por que eu tive tanta dificuldade em lhe dizer sim quando ele me pediu em casamento um ano atrás? Por que lhe neguei uma segunda e uma terceira vez há alguns meses? Por que não conseguia amá-lo da mesma forma como ele me amava? Às vezes me sentia egoísta pela forma como me comportava. Eu era mãe e precisava me comportar como tal. Jeremy merecia e precisava de um pai, mas eu continuava me esquivando. Precisava permitir que meu coração aceitasse o único homem que poderia me dar tudo. Tudo, exceto a única coisa que eu nunca poderia ter. A única coisa que eu desejava dia após dia. — Por favor, seja sincera comigo. — Evan olhava para mim com olhos suplicantes. — Você e Jeremy estão em perigo? Vocês precisam se mudar? Porque eu vou com vocês, se for preciso. Balancei minha cabeça. — Não, é claro que não. Dean jamais nos machucaria. Os olhos de Evan se arregalaram. — É a primeira vez que menciona o nome dele. — Evan se levantou, parecendo pesaroso. — Então é por isso que o nome do meio de Jeremy é Dean. Você o batizou como o pai,


mesmo depois de tudo que ele te fez passar? Abaixei a cabeça, cheia de vergonha. O nome do meu filho era Jeremy Dean Florentino. Batizei-o de Jeremy, em honra de sua memória, mas também o batizei de Dean, porque ele, apesar de tudo que foi feito e dito, me fazia lembrar do homem da minha vida. Eu nunca poderia superar isso. Eu nunca poderia negar que... não importava o quanto dissesse a mim mesma que uma vida com ele não era uma opção. Estava tão obcecada por ele agora quanto já fui um dia. Não haveria nenhuma mudança. Nem mesmo por causa do homem maravilhoso que estava à minha frente. — Me desculpe. — Eu nem sabia por que estava me desculpando, mas parecia a única coisa certa a fazer naquele momento. Evan passou a mão pelo cabelo e ajoelhou-se à minha frente novamente. Pegando minha mão, olhou em meus olhos. — Por que você não me fala sobre ele? Por que não pode se abrir e confiar em mim, me contando algo que obviamente fez parte de sua vida? As lágrimas me inundaram mais uma vez, mas eu não podia me descontrolar de novo. Não podia correr o risco de Jeremy acordar e me ver chorando novamente. — Não posso. — Apesar do que eu tinha dito, eu sempre o amaria. Como poderia explicar isso? Evan fechou os olhos em frustração. Eu não conseguia entender por que ele me aturava. — Já se passaram quatro anos, Jessica. Você precisa seguir em frente. E, para ser honesto, eu estava esperando que isso acontecesse por minha causa. — Ele parecia acanhado, enquanto segurava minha mão na dele. — Eu sei que não é a hora certa nem o lugar. Eu só queria que você me desse um raio de esperança... algo, qualquer coisa. Abri minha boca para falar, mas nada saiu. Era como se minha língua estivesse presa em minha boca. Como poderia dizer qualquer coisa sem esmagar o mundo ao redor de Evan? Eu não tinha coragem de agir como uma vaca. Evan deve ter percebido minha hesitação, e a dor surgiu em meus olhos. — Tudo bem. Você não precisa me responder agora. Conversamos sobre isso outra hora. — Ele olhou para mim, e eu assenti. Evan deixou escapar um suspiro e inclinou-se para me beijar demoradamente. Eu podia sentir o desejo e o calor que emanava dele. Ele nunca precisava demonstrar seus sentimentos através de palavras. Eu sempre podia senti-los com seu toque. Ele era um homem gentil, o amante perfeito. Então, por que será que eu sentia como se algo estivesse faltando? — Você é tão linda. — Evan acariciou meu rosto e sorriu para mim. Corei um pouco, o que era sempre uma reação instantânea para qualquer elogio que ele me fazia. Evan sorriu e fez uma trilha com seu dedo por todo o meu pescoço. — Veja só essas bochechas rosadas. Eu congelei e senti o ar fugir dos meus pulmões. Percebendo meu pânico, Evan recuou um pouco. — Qual o problema? Você está bem? — Assenti vigorosamente, mas ainda não conseguia respirar. — Eu disse algo errado? Jessica, fale comigo! Finalmente me senti capaz de respirar, enquanto Evan acariciava meu braço. — Está tudo bem. Ninguém vai te machucar. Respire lenta e profundamente. Assim... Eu sabia que Evan estava agindo como um médico agora, e gostava disso. Pelo menos


eu não tinha que responder as perguntas que obviamente estavam queimando em sua mente. — Você vai me dizer o que aconteceu? Tentando me acalmar, respirei lenta e profundamente. Eu não sabia o que tinha acontecido. Naquele momento, Dean me irritou mais do que nunca. Por que eu não conseguia superá-lo? Por que ainda tinha que viver e respirar por ele todos os dias, apesar de ele ter me magoado da pior forma possível? Sentia como se estivesse doente. Como poderia fugir do homem em quem pensava constantemente? Por que ainda estava pensando em formas de me livrar dele, por mais que soubesse que ele acabaria me encontrando agora? Por que estava planejando em minha cabeça como lidar com os eventos futuros? Era um comportamento incompreensível e totalmente anormal. Não conseguia me compreender e nem escapar de meus pensamentos. Era minha vida agora. Eu tinha me reduzido a isso. — Não posso. Não agora. Me desculpe, Evan. Não sei mais o que dizer. Não posso lidar com isso agora, com Jeremy no hospital. — Olhei em seus olhos e me senti como uma vadia sem coração de merda. Queria amar Evan desesperadamente. Queria lhe dar tudo, porque era o que ele merecia. Era tão bom para mim. De alguma forma, eu acho que esse era o problema. Evan respirou bem fundo e sorriu desanimadamente para mim. Eu sabia que o estava magoando por não me abrir, mas também sabia que ele me daria tempo. Um tempo que eu não merecia. — Tudo bem, Jessica. Assim que as coisas tiverem se acertado um pouco, vamos conversar. — Eu assenti, e ele sorriu um pouco mais. — Que horas seus pais vão chegar? Olhei para meu relógio e vi que tinha passado um pouco das sete da noite. — Eles estarão aqui por volta das nove. O avião vai pousar às sete e meia. Evan acariciou meu cabelo e então levantou-se. — Vou passar aqui assim que puder depois desse horário. Tenho uma cirurgia para daqui a quinze minutos, então, preciso ir. Vou adorar conhecê-los, aliás. Sorri de volta. — Estou ansiosa por isso, também. Evan beijou o topo da minha cabeça e deu a volta para deixar um beijinho na bochecha de Jeremy. O menino se remexeu um pouco, tossiu e adormeceu novamente. — Eu te amo, Jessica. Te vejo daqui a pouco. Sorri e assenti novamente, enquanto ele saía do quarto. Evan nem esperou para me ouvir dizendo que também o amava. Como poderia dizer se não era verdade? Evan sabia que eu não o amava dessa forma, mas ainda insistia em ficar comigo. Nunca entendi isso e acho que nunca seria capaz de entender. *** Eu devo ter adormecido, porque um toque gentil em meu ombro me acordou. Abri meus olhos e tentei ajustá-los à parca luz do quarto antes de me virar e ver minha mãe bem ali. Levantando-me rapidamente de minha cadeira, abracei minha mãe como se minha vida dependesse disso. Lágrimas rapidamente surgiram quando senti os braços do meu pai ao meu redor também. Já fazia tanto tempo. — Me desculpe por ter ligado, mas não sabia mais o que fazer. Quando o médico me disse que era pneumonia, entrei em pânico. Meu pai acariciou meu cabelo e sorriu.


— Tudo bem, Tyler. Você não tem que se explicar. Nós entendemos. Teremos que conversar sobre isso depois, mas uma coisa de cada vez. Como está Jeremy? Saí do abraço da minha mãe e vi que ela também tinha lágrimas em seus olhos. Sorri e voltei minha atenção para a figura pequena e adormecida de Jeremy. Precisei de toda a minha força de vontade para não pegá-lo em meus braços. — Ele está melhorando. Está tomando antibióticos agora e, com sorte, deve estar pronto para ir para casa amanhã. Primeiro eles querem drenar o fluido de seus pulmões. Quando disseram isso, quase tive um ataque de pânico. Minha mãe acariciou meu braço e me ofereceu um sorriso preocupado. — Queria que você não tivesse que passar por tudo isso sozinha. Sorri de volta. — Está tudo bem. Depois eu me acalmei um pouco, esperei e liguei para Evan. Não gosto de ligar para ele quando está de plantão, mas não sabia mais o que fazer. É claro que Evan, sendo como é, reclamou por eu não ter ligado antes. Depois disso, conseguiu me acalmar. Meu pai depositou um beijo suave na testa de Jeremy e acariciou sua cabecinha. — Onde está Evan agora? — ele perguntou. — Está em cirurgia. Ele disse que mal pode esperar para conhecê-los. Vai tentar passar aqui depois que terminar. Minha mãe sorriu e me observou por um tempo. — Tyler, já faz tanto tempo. Você não mudou nada, mas está mais magra. Você tinha umas curvas adoráveis nos lugares certos. Está cuidando de si mesma? Era a primeira vez que via meus pais desde a noite em que Ian morreu. Eles viam Jeremy com constância, porque minha irmã o levava para ficar com ela às vezes. Eu sempre quis que Jeremy conhecesse sua família. Eu só não arriscava ir com ele, pois temia que Dean seguisse meus pais até a casa da minha irmã. Não era fácil, mas foi um arranjo que funcionou por um tempo. — Estou bem, mãe. Por favor, não se preocupe comigo. Eu e Jeremy estamos bem. Minha mãe se sentou na cama e olhou para mim, com uma expressão preocupada em seu rosto. — O que você vai fazer agora? Você deve saber que Dean provavelmente nos seguiu até aqui. Assim que ele te encontrar, vai encontrar Jeremy. Eu choraminguei. Sabia que Dean nunca me deixaria para trás, mas se ele descobrisse sobre Jeremy, seria dez vezes pior. Precisava convencê-lo de que uma vida comigo não era mais uma opção. E tinha que fazer isso sem Jeremy, não importava o quanto isso iria me destruir. Nunca tinha ficado longe de Jeremy quando este ficava doente. Nunca. — Eu ia mesmo falar com vocês sobre isso. Vocês poderiam tomar conta de Jeremy por alguns dias? Até que as coisas tenham se resolvido. Minha mãe bufou. — Tyler, será um prazer. Você nunca nos pediu isso. Ficaremos muito felizes em ajudar. Olhei para meu pai, e ele assentiu. — Seja lá o que for que precise de nós, só peça. Não precisa nem perguntar, Abobrinha. Ri um pouco quando ele me chamou por meu apelido. Costumava me incomodar quando eu era mais nova, mas ouvi-lo agora me fez perceber o quanto precisava disso.


— Obrigada. Realmente não sei o que faria sem vocês. Minha mãe riu. — Tyler, isso foi uma coisa que nós sempre desejamos que acontecesse. Já te falamos várias vezes que você sempre terá nosso apoio. Só precisa pedir e estaremos onde quiser. Estou muito feliz que finalmente aceitou nossa oferta de ajuda. Você sempre foi tão independente, e isso sempre me preocupou. Todos nós precisamos de alguém em quem nos apoiar de vez em quando. Sorri para minha mãe, e então meu pai deu um passo à frente e gentilmente segurou meu braço. — O que você precisa de nós? Suspirei. — Se eu bem conheço Dean, ele ou alguma outra pessoa já deve estar vigiando este hospital. Se todos nós sairmos com Jeremy, ele vai saber. Não posso arriscar. Venho pensando nisso por horas, e não importa o quanto parta o meu coração, deixar Jeremy com vocês é minha única opção. Não quero deixá-lo enquanto está doente, mas se o médico liberá-lo amanhã de manhã, ele vai melhorar mais a cada dia. E eu sei que posso confiar em vocês para cuidar dele o melhor possível em minha ausência. Meu pai assentiu. — É claro, isso você nem precisa pedir. Mas como você quer fazer isso? Olhei para meu pai. — Onde vocês estão planejando se hospedar? — Fizemos reserva no Marriott antes mesmo de embarcarmos. Estamos na cobertura, então, tem espaço suficiente para Jeremy. Vamos mimá-lo até estragá-lo. Sorri. Eu não tinha nenhuma dúvida quanto a isso. Jeremy sempre era mimado por meus pais. Ele não se importaria nem um pouco de ficar com eles. Avós sempre acabavam se tornando heróis de crianças. Acho que é porque só se veem de vez em quando. Isso torna o tempo que passam juntos ainda mais precioso. — Preciso pegar algumas coisas de Jeremy, mas não posso me arriscar saindo do hospital. Meu pai se empertigou. — Posso pegar tudo que você precisa. Só me dê as chaves. Sorri e peguei um molho de chaves. Fiz uma lista de onde tudo estava e entreguei para meu pai. — Amanhã de manhã vou sair pela saída da frente, então, quem quer que esteja me vigiando vai poder me ver. Vou pedir que Evan os guie até a saída dos fundos, e ele pode levá-los até o hotel. Me desculpe por fazer com que passem por isso. Só queria não ter entrado em pânico. Minha mãe colocou seu braço ao meu redor. — Tyler, a forma como agiu foi totalmente normal. O que aconteceu hoje deve ter te proporcionado algumas memórias difíceis. É claro que você iria entrar em pânico e buscar a primeira pessoa em quem sabe que pode confiar. Qualquer um de nós faria isso. Pare de se martirizar por causa disso. Para ser honesta com você, estávamos sentindo tanto sua falta... Foi uma ótima desculpa para vermos você. Sorri, mas ainda me sentia um pouco estúpida. — Obrigada, também senti saudade de vocês. — Suspirei, e então me lembrei de outra coisa. — Ah, antes que eu me esqueça. Vocês vão ter que começar a me chamar de Jessica na frente de Evan e Jeremy. Se me chamarem de Tyler, vão começar a perguntar.


Minha mãe assentiu. — É claro. Vai ser difícil, mas vamos tentar lembrar. De repente, uma vozinha foi ouvida: — Vovó? Vovô? Olhando para trás, vi Jeremy esfregando seus olhos e tossindo um pouco. Todas as vezes que ele fazia isso, meu coração ia à boca. — Jeremy, meu garoto precioso. Como está se sentindo? — meu pai murmurou, e eu não pude conter um sorriso. Aquela era a primeira vez em que estávamos todos juntos, e era tão bom. Parecia o certo. Exatamente como deveria ser. — Meu peito está doendo e tem uma “bobô” na minha mão — Jeremy ergueu sua mãozinha para mostrar onde a agulha de borboleta estava localizada. Meu pai pegou sua mãozinha e a beijou. — Vai passar. — Ele bagunçou seu cabelo, e Jeremy abriu um enorme sorriso para ele. — Jeremy, temos uma coisa para você. — Minha mãe se colocou ao lado dele, enquanto pegava sua bolsa. Assim que a abriu, ela tirou de lá um pacote de Twiglets. O rosto de Jeremy se iluminou, e ele começou a bater palmas. Não pude evitar uma risada em meio às lágrimas. — Obrigado! — ele continuou aplaudindo, até tossir um pouco. — Mamãe costumava comer isso quando eu estava na barriga dela. Minha mãe beijou Jeremy na bochecha e passou os dedos por seu cabelo macio. — Sei disso. Era a única coisa que ela conseguia comer. Ela olhou para mim com um sorriso que eu já conhecia, me fazendo suspirar um pouco. Jeremy descobriu sobre meu amor por Twiglets quando me perguntou, meses atrás, sobre como foi tê-lo em minha barriga. Eu lhe falei sobre os Twiglets, e ele disse que queria provar. Pedi que minha mãe enviasse alguns, mas não achei que Jeremy fosse gostar. Eles são do tipo ame ou odeie. Quando ele colocou um em sua boca pela primeira vez, pensei que iria engasgar e cuspir. Ao invés disso, ele comeu um segundo, depois um terceiro, até que todo o conteúdo do pacote foi devorado. Ele até lambeu os dedos depois! — Vocês vão ficar na casa da mamãe? — Jeremy olhava para meus pais enquanto brincava com seu pacote de Twiglets. Minha mãe olhou para mim, então, chegou bem perto de Jeremy em sua cama. — Mamãe vai ficar aqui com você esta noite e amanhã; se o médico disser que você está bem, vai passar um tempo conosco. O que acha disso? Jeremy sorriu, mas olhou para mim. — A mamãe vai vir também? Minha mãe balançou a cabeça. — Mamãe tem uma coisa importante para fazer, mas só por alguns dias. Jeremy olhou novamente para minha mãe, com uma expressão ansiosa. — Podemos tomar sorvete? Todos riram. — É claro que podemos, Jeremy. Contanto que sua mãe não se importe. Todas as cabeças se viraram para mim, e eu sorri. — Claro que podem. — Eba! — Jeremy gritou.


— Bem, acho que alguém parece estar melhor. Todos nós nos viramos e encontramos Evan parado à soleira da porta. Ele deu um passo à frente, fechando a porta e caminhou na direção da minha mãe. Ele a beijou em ambas as faces. — Sra. O’Shea, é um prazer finalmente conhecê-la. Ela sorriu e olhou para mim. — Mamãe, papai, este é Evan. Meu pai tomou a dianteira e apertou sua mão. — É um prazer conhecê-lo, filho. — Meu pai deu um tapinha nas costas dele, e minha mãe ficou ali, admirando-o. — Ouvi tantas coisas sobre vocês dois... Estou feliz por poder ligar rostos aos nomes agora. Jeremy sempre fala de vocês. Não é, amigão? Jeremy assentiu. Minha mãe corou e sorriu para Evan. Ah, Deus. Parece que ela já foi arrebatada. Nada como o charme americano para tirar minha mãe do eixo. — Vou ficar com o vovô e a vovó amanhã. Evan franziu o cenho e olhou para mim. — Sério? — Eu assenti. — Bem, tenho certeza que vocês vão se divertir muito — respondeu, voltando sua atenção para Jeremy. Senti uma súbita urgência de mudar de assunto. — Como foi a cirurgia? Minha mãe e meu pai olharam para Evan, esperando por sua resposta. Ele suspirou. — Foi como esperado. Era só um simples reparo. — Ele se virou rapidamente na direção dos meus pais, depois para mim, apontando para a porta. — Posso falar com você por um segundo? Suspirei por dentro. Eu meio que já sabia o que iria acontecer. — Claro. Levantei-me e segui Evan até o corredor. Assim que viu que a porta foi fechada, ele me encarou. — Acredito que o fato de Jeremy ficar com os seus pais tem a ver com Dean? — Assenti, e ele suspirou, passando os dedos pelo meu cabelo. — Não gosto disso, Jessica. Olha, sei que já tivemos essa discussão antes, mas por que não vamos morar juntos? Poderia ser nosso próximo grande passo. Talvez, se Dean souber que você está em um relacionamento sério, ele te deixe em paz. Isso, assumindo que ele está mesmo por aqui. Sorri de forma sarcástica. — Ah, ele já está aqui com certeza. Apostaria dinheiro nisso. — Então, você não acha que é uma boa ideia que fiquemos juntos? Eu poderia te proteger. Sorri, sabendo que não era com a minha segurança que estava preocupada. Não havia nenhuma dúvida de que Dean teria algo a dizer sobre o novo homem em minha vida. E por que diabos isso me excitava? — Evan, ele nunca me machucaria. Sei que não. Eu só fugi porque ele vive cercado por perigo. É um homem perigoso para outras pessoas, mas nunca me machucaria fisicamente. — Emocionalmente... bem, isso era uma outra história. — Não gosto que fique naquela casa sozinha. Posso passar por lá quando sair do


trabalho amanhã de manhã? Pelo menos até ter que voltar ao trabalho à noite. Sorri e assenti. Ao menos eu podia lhe dar isso. — Claro. Vou gostar disso. Mas, honestamente, estou bem sozinha. E havia uma razão para isso. Só iria confundir Jeremy se Evan ficasse conosco em caráter permanente. Sim, ele precisava de estabilidade, mas tê-la por um curto espaço de tempo iria machucá-lo ainda mais. Se nós acabássemos terminando, o fato de Evan viver conosco, apenas traria uma dor desnecessária. Eu tinha que tentar e evitar isso a todo custo. Evan suspirou e olhou para mim com o cenho franzido e preocupado. — Eu me preocupo com você. Não pode culpar um homem por se importar. Só gostaria de poder fazer mais. Peguei sua mão e sorri para ele. — Evan, você é o homem mais doce, mais gentil e bondoso que já conheci. Você faz muito mais do que o suficiente por mim. E por Jeremy. Evan sorriu e beijou minha cabeça. — Eu te amo e faria qualquer coisa por você. — Ele suspirou de encontro ao meu cabelo e resmungou ao olhar para o relógio. — Ouça, preciso voltar ao trabalho, mas devo estar liberado às seis. Tem mais alguma coisa que eu possa fazer? Assenti. — Meus pais virão pegar Jeremy de manhã. Você pode tirá-los daqui pela saída dos fundos e levá-los até o hotel? Vou sair pela saída da frente. Assim que deixá-los lá, pode vir para minha casa. — Beijei sua mão e sorri para ele de forma atrevida. — Como posso dizer não quando você sorri assim e me faz uma oferta que não posso recusar? Ergui minha sobrancelha. — Tenho certeza que vai valer a pena. Evan gemeu e me puxou para ele. — Tenho certeza que vai. Você sempre sabe como me agradar. — Ele se inclinou, colando seus lábios nos meus. Introduziu sua língua em minha boca, buscando a minha. Evan sempre beijou bem. Nunca cheguei, porém, ao estágio de ouvir fogos de artifício dentro da minha cabeça. Aquele beijo capaz de fazer seu coração parar e de te deixar sem ar. Nunca aconteceu. E, para ser honesta, não achava que era um problema de Evan. Nenhum homem seria capaz de arrancar uma reação dessas de mim novamente. O som de alguém pigarreando interrompeu nosso contato. — Ora, ora, ora. O que temos aqui? Um médico e uma moça qualquer dando uns amassos no corredor? O que será que a gerência vai dizer? Erguendo os olhos, vi Tara, uma das enfermeiras e uma amiga muito querida, balançando a cabeça em zombaria, com um enorme sorriso no rosto. Ela foi outra pessoa que conheci quando estava grávida. Um dia, ela me viu nos corredores, entrando em pânico porque achei ter visto Dean. Então, me deu um copo d´água, sentou-se comigo e, naquele momento, conteilhe minha história. Era uma estranha qualquer para quem despejei todo o meu coração. Não me senti culpada porque ela também me contou um segredo. Desde então nos tornamos boas amigas. O segredo dela, na verdade, era ainda pior que o meu. De alguma forma, era até similar, porque teve que fugir de alguém anos atrás. Estava casada com um homem que abusava dela fisicamente. Até me conhecer, não tinha contado para ninguém. Mesmo agora, às vezes compartilhávamos um olhar ou sorriso cúmplice, mas nunca mencionamos aquela conversa


novamente. Tara era apenas dois anos mais velha do que eu, com uma pele morena clara e um cabelo castanho escuro, que ela sempre usava em coque. Tinha os mais lindos olhos castanhos e uma pele perfeita. Eu sempre brincava com ela a respeito de seus produtos de beleza e onde ela os comprava, porque estava sempre maravilhosa. — Oi, Tara — sorri, colocando meu braço ao redor da cintura de Evan. — Olá para vocês também. Como está Jeremy? Fiquei sabendo e sinto muito. Falei com o Dr. Foster, que disse que ele já deve receber alta pela manhã. Assenti. — Sim, é isso mesmo. Dedos cruzados. Tara aproximou-se. — Que tal uma noite de diversão quando ele melhorar? Ouvi falar de um novo bar no centro da cidade que parece ser sensacional. Evan mudou sua postura. — Espera um segundo. Isso por acaso envolve bebida, dança e um bando de homens solteiros? Tara bufou. — Eu sinceramente espero que sim! — Ela riu, e eu não pude conter uma risada para acompanhá-la. — Não seja um estraga prazeres, Evan. Jessica sabe cuidar de si mesma. Já a vi em ação. — Ela piscou para mim, e eu ri outra vez. — Sim, mas esse incidente do qual estão falando deixou um homem no hospital com um dedo quebrado, ameaçando processar Jessica por agressão. Tentei refrear a gargalhada, mas não consegui. Logo, eu e Tara estávamos fazendo bastante barulho no corredor. Assim que parei, voltei-me para Evan: — Bem, ele não deveria ter apertado meu traseiro. Evan olhou para mim com um sorriso. Ele nunca conseguia resistir quando eu falava traseiro ao invés de bunda. — Não tenho certeza se é seguro deixar vocês duas saírem juntas. Algo sempre acontece. Vocês se lembram da última noite de Halloween, quando colocaram fogo na cerca do vizinho? Até hoje eu me desculpo em nome de vocês, mesmo depois de seis meses. Na verdade, eles acham que fui eu, considerando que as duas saíram correndo e só voltaram uma hora depois. Enterrando minha cabeça no peito de Evan, tentei com todas as minhas forças reprimir minha risada, mas era difícil demais... especialmente com Tara fingindo que caía no chão. — Bem — ela disse, depois de se acalmar um pouco —, você é sempre nosso herói para essas coisas. Tenho certeza que Jessica demonstra constantemente o quanto somos eternamente gratas. — Tara deu uma piscadinha e olhou para Evan com um sorriso cúmplice. Naquela noite, Evan reclamou por uma boa meia-hora, depois que o deixamos em apuros. Assim que a brigada de incêndio foi embora, e Evan se desculpou pela centésima vez, fui eu que tive que lamber as feridas. Precisei de um bom tempo para que ele me perdoasse, mas a promessa de um strip tease e um boquete foi suficiente para que ele comesse na minha mão. Acho que Ian estava certo em muitas formas, apesar de ser o pior melhor amigo do mundo e um saco de bosta do tamanho do universo. Nós, mulheres, conseguíamos facilmente o que queríamos usando o que Deus nos deu. Precisava admitir que fazia isso de tempos em tempos. Ainda pensava em Ian de vez em quando. Até cheguei a chorar por tê-lo perdido, mas não porque tinha morrido. Por causa da traição e do que nossa amizade tinha obviamente representado por quase trinta anos. Não era algo que se superasse facilmente.


— Então, o que acha, garota? Tara olhava para mim como uma criança ansiosa. Ainda agia como uma garota solteira, e gostava disso. É claro que conhecia homens, mas sempre em um nível casual. Ela admitia que achava difícil confiar em qualquer um depois do que tinha lhe acontecido. Isso partia meu coração, porque nem todos os homens eram como seu ex, mas, ao mesmo tempo, eu compreendia totalmente o que se passava por sua cabeça. — Estou dentro! — Nós duas rimos, e Evan me apertou um pouco mais em seus braços. — Ah, vamos lá, Evan. Não vai ser assim tão ruim — sorri para Tara, e ela deu uma piscadinha em retribuição. — Acho melhor me avisarem quando forem, para que eu possa deixar meu celular ligado a noite inteira. Pode ser que seja uma boa ideia também deixar meu extintor de incêndio ao lado da cama. Rimos novamente, e, então, Tara checou seu relógio. — Preciso ir. Tenho muito o que fazer. Vou tentar aparecer mais tarde. Sorri enquanto Tara se inclinava para me beijar no rosto. — Tenha um bom dia — pisquei para ela, e ela piscou para mim. Quando ela estava fora do meu campo de visão, Evan olhou para mim com um olhar cálido. — Onde estávamos? Aproximei-me de sua boca e olhei para ela por alguns momentos. — Estávamos bem aqui. — Pressionei meus lábios aos de Evan, enquanto ele gemia dentro da minha boca. O beijo se tornou mais feroz conforme o aperto de suas mãos em minha cintura se intensificou. Mas, tão rápido quanto começou, Evan me afastou dele. — Se eu não for agora, vou acabar te levando para o armário mais próximo para fazer uma coisa que um médico não deveria fazer no trabalho. A ideia subitamente me excitou. Aquilo era uma novidade em se tratando de Evan. — Por que não faz isso? — Era um desafio, porque eu sabia que não iríamos fazer isso. Eu tinha Jeremy para pensar. Mas não fazia nenhum mal provocar um pouquinho. Evan resmungou. — Jessica, não me tente. Sorri. — Me desculpe, Dr. Carter. Vou me comportar agora. Evan afundou seu nariz em meu cabelo. — Alguém já te falou que você é muito provocadora? Olhei para ele com minha melhor imitação de olhar ofendido. — Eu? Não! Evan sorriu e então checou seu relógio. — Merda, tenho que ir. Só vou dar uma passada para dizer adeus aos seus pais. Assenti, e nós dois retornamos ao quarto de Jeremy. Este parecia um pouco mais animado com minha mãe sentada ao seu lado na cama, segurando sua mão. Suas faces estavam um pouco mais rosadas, o que era ótimo, considerando que vinha parecendo tão pálido. — Tenho que voltar ao trabalho. Mais uma vez, foi ótimo conhecer vocês. Minha mãe e meu pai sorriram e disseram: — Igualmente. Então, Evan beijou Jeremy na cabeça e saiu.


— Bem, ele parece ótimo. — Minha mãe sorriu, mas acho que ela podia imaginar o que aquilo significava para mim. Por hora, ela sabia que eu não estava bem. — Mamãe não quer se casar com Evan porque ele não é meu papai. Olhei para Jeremy em choque. Eu nunca tinha falado nada parecido para ele. É claro que ele sabia que Evan não era seu pai. Parecia errado não lhe dizer a verdade sobre isso, mas nunca disse a Jeremy que não queria me casar com Evan. Minha mãe percebeu minha expressão chocada e pigarreou. — Acho que sua mamãe só quer cuidar de você, Jeremy. Jeremy subitamente pareceu triste. — Mas eu quero um papai. Eles te levam ao parque e jogam bola com você. Eles te cobrem à noite e contam histórias. Vão aos jogos da escola e compram sorvete. Foi o que Brandon me disse. Meu coração ficou dolorido. Eu não fazia ideia que Jeremy se sentia daquela forma, mas devia ser difícil passar por tudo aquilo quando se era uma criança. A maioria das crianças que Jeremy conhecia tinha mamães e papais. Era natural que ele quisesse o mesmo. E eu andava cega a respeito disso. — Eu não sabia que você se sentia assim, Jeremy. Meu pai percebeu a tristeza em meus olhos, e sua carranca se tornou um sorriso enquanto encarava Jeremy. — Sua mãe faz tudo isso por você, Jeremy. Você tem muitas pessoas que te amam. — Ele caminhou na direção de Jeremy, fazendo-lhe cosquinhas. Jeremy riu, mas a única coisa que eu conseguia fazer era ficar ali, olhando para minha mãe. Acho que ela sabia o que eu estava pensando. Por mais que eu fizesse tudo aquilo por ele, não era o mesmo que ter um pai. De repente Jeremy começou a tossir, e meu pai parou. — Me desculpe, Jeremy. Jeremy sorriu. — Estou bem. Sou forte como o Super-Homem. Todos nós rimos, mas eu não conseguia tirar o que Jeremy tinha dito da cabeça. Sempre pensei que o que dava para ele seria suficiente, mas fui burra pensando assim. Ele precisava do pai, e eu o vinha mantendo longe de Jeremy aquele tempo todo. A culpa de repente começou a me inundar. Jeremy tinha perguntado sobre o pai umas duas vezes. Era natural que quisesse saber. Sempre o enrolei dizendo que seu pai vivia tão longe que tínhamos perdido o contato. Era uma desculpa terrível, mas que outra alternativa eu tinha? Dizer que estava morto? Eu não podia fazer isso porque era uma mentira. Tive que lhe contar uma parte da verdade. Jeremy merecia ao menos isso. Enquanto eu pensava em tudo isso, imaginava o que Dean pensaria de Jeremy e viceversa. Eles eram parecidos em muitos aspectos, era quase sobrenatural. Era doloroso ver o rosto de Dean em Jeremy, mas, ao mesmo tempo, fazia com que eu me lembrasse do menino que um dia ele foi. Eu tinha um grande carinho por essas memórias. Apesar do que Dean tinha feito, elas nunca foram manchadas. Eram minhas lembranças e sempre seriam. Vi minha mãe bocejar, o que fez com que me sentisse culpada. — Por que não voltam para o hotel para dormir um pouco? O corpo de vocês acha que já passa da uma da manhã. Vou ficar bem com Jeremy até amanhã. — Tentando ser o máximo discreta para não confundir Jeremy, contei a eles o plano. Minha mãe e meu pai concordaram, e depois de muitos abraços e beijos, eles saíram.


Jeremy ficou animado por mais um tempo, mas sentia que estava começando a ficar cansado novamente. Depois de cinco minutos quieto, enquanto eu acariciava seu cabelo, ele adormeceu. Aconchegada nele, não demorou muito para que eu fizesse o mesmo.


Capítulo Quatro Dean O inferno é você mesmo, e a única redenção acontece quando uma pessoa se coloca de lado por um sentimento profundo por outra pessoa. Tennessee Williams No momento em que pousei em Dulles, peguei uma BMW X3 de uma locadora de carros e, depois, telefonei para Jimmy. Nas quatro horas em que já estava na cidade, ele tinha conseguido localizar o hospital e seguiu o pai e a mãe de Tyler até uma casa em McLean. Depois, ele descobriu que a casa pertencia a Jessica Florentino. Tive que sorrir, porque sabia que se tratava de Tyler. Tinha quase certeza que ela tinha escolhido aquele nome por causa da flor de lótus. Jimmy ficou observando a casa pelos dez minutos em que ficaram lá. Então, eles saíram com uma mala e voltaram ao hospital. — Ainda estão lá? — Sim — ele fez uma pausa. — Na verdade, espere um pouco... Estão saindo. Quer que eu os siga? — Imagino que Tyler não esteja com eles... — Não. Eles ainda estão com a mala, mas estão entrando em um carro agora. Eu não queria perder os pais de Tyler, mas agora que tinha um endereço para procurá-la, as coisas ficavam mais fáceis. — Não precisa segui-los. Pode me passar o endereço da casa onde foram mais cedo? Se você não se importar em ficar por aí por mais algumas horas... — Não se preocupe. Estou dentro. Agradeci, e Jimmy me passou o endereço. Digitei-o no meu GPS e percorri os quarenta minutos, ou mais, até a casa. Quando cheguei lá, fui tomado de surpresa. Era bem impressionante do lado de fora. Tinha um estilo colonial, com grandes janelas de sacada e um grande jardim. Tyler sem dúvida vivia bem. Isso me fez pensar em como ela tinha conseguido o dinheiro, uma vez que eu sabia que era uma garota independente. Magoava meu coração pensar que ela provavelmente teve que pedir ajuda aos pais para escapar de mim. Merda, eu realmente a tinha ferido. Era o maior babaca da face da terra, mas mais babaca ainda por persegui-la dessa forma. Era óbvio que ela tinha seguido em frente, mas eu não podia ignorar o fato de que não era o meu caso. Chame de egoísmo da minha parte, mas eu não poderia superar a não ser que ela estivesse ao meu lado. Mas quanto mais eu olhava para aquela casa, mais sentia uma certeza se aproximar, esmurrando e espancando-me até a morte. Por que ela precisava de uma casa tão grande? Será que tinha uma família agora? Tinha se casado? O pensamento fez minhas mãos agarrarem o volante com mais força do que nunca. Eu precisava saber. Mas também precisava ser paciente. Já tinha esperado quatro anos por isso. Podia esperar mais algumas horas. Mas assim que uma hora tornou-se duas, Jimmy me ligou para dizer que não houve nenhuma movimentação no hospital.


— Você quer que eu entre, Dean? Tive que sorrir perante sua lealdade. — Não, tudo bem. Sei que hospitais te assustam. — Posso lidar com isso. — Não. Vá descansar um pouco. Se Tyler sair, só vai poder vir para cá mesmo, e eu estou cobrindo por aqui. Me ligue de manhã. Se ela não tiver aparecido por aqui, volte para o hospital e espere mais um pouco. Jimmy suspirou. — Com certeza. Desliguei e permaneci sentado no carro, esperando mais um pouco, até pensar que era hora de dar entrada em um hotel. Podia descansar por algumas horas e, então, voltar. Dirigi até o Marriot e tentei me hospedar na cobertura, mas já estava ocupada, então, reservei o segundo melhor quarto. No momento em que entrei lá, tomei banho e fui direto para a cama. Acionei meu alarme para as cinco da manhã seguinte, e então desmaiei. *** Já estava de pé antes mesmo de o alarme tocar. Pulei de volta para dentro do chuveiro e vesti um jeans folgado e uma camiseta azul marinho. No momento em que saí, para ir para a casa de Tyler, o sol estava começando a nascer. Não havia movimento quando cheguei lá. Nenhuma luz, nenhum carro, nada. Estava tudo exatamente como deixei na noite passada. A única conclusão que surgiu foi que ela tinha ficado no hospital a noite inteira, mas por quê? Ela disse “ele está doente”. Quem seria? Eu tinha um palpite, mas não queria nem pensar nisso sem constatar por mim mesmo. Para mim, parecia estranho ela ficar a noite inteira em um hospital a não ser que a pessoa significasse mais do que eu queria compreender. Só de pensar me sentia fisicamente doente. Depois de algumas horas sentado ali, Jimmy ligou para dizer que estava outra vez no hospital. Não demorou muito para que ele ligasse novamente para dizer que Tyler, parecendo cansada e chateada, estava deixando o hospital sozinha. Ela olhava de um lado para o outro, como se soubesse que alguém a estava observando. — Está entrando em um carro. Minha frequência cardíaca aumentou. — Siga-a, Jimmy. Se ela vier para cá, você pode ir embora, mas me informe se mudar o caminho e for para algum outro lugar. — Pode deixar. Jimmy desligou, e eu fiquei ali esperando. Tudo que podia fazer era esperar sentado, torcendo para que ela chegasse e para que morasse sozinha. Horas se passaram até que eu vi um Jipe estacionar na frente de sua casa. Então ela saltou e entrou. Nesses breves segundos eu a vi, e meu coração parou. Parecia estar mais magra do que antes, e isso me entristeceu. Eu amava as curvas de Tyler, mas ela as tinha perdido. Uma súbita imagem apareceu em minha mente, dela sentada em meu colo, enquanto eu a alimentava com besteiras até que explodisse. O pensamento fez com que meu pau ficasse rígido dentro do jeans. Nem precisei de muito esforço para que ele voltasse à porra da vida novamente. Por um tempo, pensei que o tinha perdido. Pouco depois de ela entrar na casa, meu telefone tocou. Peguei-o.


— Jimmy, obrigado. — De nada. Presumo que ela esteja em casa agora, certo? — Sim, acabou de entrar. — Olhei por cima do ombro para a casa, e tudo ainda estava quieto por lá. — Precisa de mim para mais alguma coisa? — Não, parceiro. Está tudo sob controle. Você já fez muito por mim, Jimmy. Vá para casa e descanse. Está merecendo. Jimmy riu. — Porra, duas vezes? Vai começar a pegar mais leve comigo? Rangi os dentes. — Não gaste sua sorte, Jimmy. Sei onde você mora. Jimmy riu novamente. — Me desculpe, chefe. Vou esperar que me ligue, então. Boa sorte. Suspirei. — Obrigado, Jimmy. Vou precisar. Desligamos, e eu passei os quinze minutos seguintes, ou mais, pensando no que fazer. Tinha passado os últimos quatro anos desesperado para encontrar Tyler, e agora que a tinha encontrado, sinto-me preso à porra do banco do carro. Balançando a cabeça, disse a mim mesmo para parar de ser um idiota. Mas quando estava prestes a me mexer para abrir a porta, vi, pelo retrovisor, um carro se aproximando. Observei e esperei, enquanto o sedan passava por mim e estacionava em frente à casa de Tyler. Um imbecil usando uma calça cáqui e camisa branca saltou e bateu na porta da frente. Senti meu sangue começar a ferver, mas o fato de ele estar esperando para entrar fez me sentir melhor. Aquele merda não morava ali. Tyler, parecendo mais linda do que nunca, com seus cabelos longos balançando e usando um vestido colado ao corpo, abriu a porta. Ela se inclinou, beijou-o nos lábios, e os dois entraram. Eu tinha que ir embora. Se não fosse, acabaria entrando por aquela porta para jogar o merdinha pela janela. Quanto mais pensava nisso, mais irritado ficava, e sabia que não poderia entrar lá do jeito que estava. Tyler nunca me perdoaria. Eu já nem sabia se ela me perdoaria pelo que lhe fiz no passado, mas agir como um babaca não ajudaria em nada. Então, fiz algo que pensei que jamais faria. Fui embora. Dei a volta e voltei para o hotel. Ficaria lá por um tempo e voltaria mais tarde. E quando isso acontecesse, era melhor que o merdinha já tivesse ido embora.


Capítulo Cinco Tyler Evan estava sobre mim, movimentando-se, gemendo e suando, enquanto eu mantinha a imagem de Dean em minha mente. Sim, eu sabia que era a porra de uma vadia, mas não podia evitar. Quanto mais pensava nele, mais sentia o orgasmo crescendo dentro de mim. Então, o que podia fazer? Só deixar acontecer. Fechei meus olhos e me lembrei do momento naquela boate, na noite de Halloween. Na noite em que Dean me puxou para perto e me masturbou até que eu me despedaçasse. Na noite em que ele me levou para o depósito, deu alguns tapas na minha bunda e me fodeu muito forte e duro sobre uma mesa. Depois de me lembrar disso, não demorei muito para me deixar levar, e Evan fez o mesmo. Em seguida, ficou deitado sobre mim por um tempo, respirando ofegante em meu ouvido. Sentia-me culpada, suja e constrangida por sempre fazer aquilo. Queria gostar dele da mesma forma como ele obviamente gostava de mim, mas era muito difícil. Mesmo depois de todo esse tempo, não conseguia seguir em frente. Parte de mim queria a família que Evan desejava. Eu queria estabilidade, pelo bem de Jeremy. Mas outra parte de mim ansiava por algo que me fazia uma dolorosa falta. — Eu te amo — Evan apenas sussurrou, mas eu o ouvi. Tudo que pude fazer foi sorrir e beijá-lo. Então, ele se afastou de mim, virando-se de costas, e fechou os olhos. — Você parece exausto. Descanse um pouco. Vou dar um pulo no hospital e ler para as crianças. Estou ansiosa para saber o que vai acontecer com Jemima Puddle-Duck[2] e seu ninho secreto. Evan sorriu. — Aquelas crianças te adoram. Sempre perguntam quando você vai voltar. Sorri. — Isso é bom. Fico feliz em saber. Levantei-me e fui tomar um banho. Estava ansiosa por minha tarefa. Sempre que podia, ia ao hospital ler para as crianças. Eu me divertia e era como a terapia que precisava. Estar com elas me fazia lembrar o quanto precisava valorizar cada coisa e cada pessoa ao meu redor. A vida era preciosa, e eu precisava agarrá-la com unhas e dentes. Se não fizesse isso, ela passaria e, antes que pudesse perceber, já teria acabado, deixando arrependimentos para trás. Assim que me vesti com uma roupa bem básica, deixei Evan dormindo e apenas entrei no carro e dirigi até o hospital. Enquanto caminhava em direção ao quarto, uma enfermeira chamada Tina me cumprimentou. — Oi, Jessica. Como você está hoje? Eu sorri. — Estou bem, obrigada. Preciso me certificar de que a terrível raposa de O conto de Jemima Puddle-duck vai receber seu castigo. Tina riu. — Eu posso te contar, se você quiser. Balancei meu dedo em sua direção.


— Nada disso. Preciso descobrir por mim mesma. Odeio spoilers. — Suspirei um pouco e olhei para dentro do quarto. — Como eles estão hoje? Tina sorriu. — David foi para casa ontem. Quase engasguei. — Isso é ótimo. Fico muito feliz. — Achei mesmo que você ficaria. Eu era muito próxima a David porque ele tinha leucemia. Não era tão agressiva, mas, ainda assim, estava muito doente. Eu sabia que estava melhorando com o tratamento, então, ouvir que tinha recebido alta fazia com que meu coração inchasse de felicidade. Toquei o ombro de Tina. — Vou entrar. Tina assentiu e abriu a porta para mim. Assim que entrei, Katie se manifestou. Ela tinha apenas oito anos, mas seu cabelo já rareava por causa da quimioterapia. Felizmente, o tratamento estava ajudando, então, era alguma coisa. Quando ela chegou, tinha um lindo e longo cabelo castanho, mas agora estava caindo e sem vida. Era triste de se ver, mas eu estava determinada a não demonstrar. — Como está o Jeremy? — Ela sorriu, fazendo com que eu me derretesse por dentro. Sentei-me ao lado de sua cama. — Está um pouco doente, mas os avós estão tomando conta dele. Vão mimá-lo até estragá-lo. — Sorri, mas senti um aperto no coração só de pensar no meu filho. Já sentia saudade de Jeremy. — Ele vai ficar bem. — Ela pousou sua mão na minha, e eu não pude evitar ficar admirada com aquela garotinha. Ali estava ela, uma criança bem doente, mas ainda tinha forças para me confortar. — Sei que vai. Obrigada, Katie. Ela sorriu. — Não precisa agradecer. — Ela se deitou novamente. — Então, você vai ler o resto da história? Quero muito saber o que vai acontecer com a Jemima Puddle-Duck, mas não quero que mais ninguém leia para mim. — Ela sorriu, e meu coração se iluminou. — Muito bem! Então precisamos começar. *** Li a história e descobri que Kep, o cachorro Collie, veio ao resgate no final. Foi um lindo momento cheio de pelos, mas eu e Katie o encaramos muito bem. Depois disso, fiquei lá por mais umas duas horas, lendo e conversando com todas as outras crianças. Conversei com umas enfermeiras também e me situei nas fofocas. Depois de me despedir, fui ao mercado local para comprar algo para o jantar. Quando concluí todas as minhas tarefas já eram duas da tarde. Voltando para casa, guardei as compras e liguei para os meus pais. Jeremy estava bem e, aparentemente, aconchegado na cama, tomando sorvete e assistindo Procurando Nemo na TV. Era bom saber que ele estava melhorando, mas ainda sentia sua falta. Depois de desligar o telefone, liguei a TV e também comecei a assistir Procurando Nemo. Era como se eu estivesse assistindo com ele.


Mais tarde, fui nadar um pouco. Depois, tomei banho e comecei a preparar algo para comer. Considerando que o tempo estava quente, fiz uma salada com frango, presunto e queijo. Evan era completamente viciado em queijo. — Hummm, tem alguma coisa cheirando maravilhosamente bem. Acho que eu poderia me acostumar com isso. Virei em sua direção e o vi descendo as escadas. Seu cabelo estava completamente molhado e bagunçado do banho, e ele estava usando aquelas calças cáqui novamente. — Estou fazendo frango com salada e muito queijo. Evan me abraçou por trás e mordiscou minha orelha. — Você foi maravilhosa esta manhã. Nunca tinha se entregado daquela forma antes. Foi incrível. Fechei meus olhos, sentindo-me instantaneamente culpada. — Você é que foi maravilhoso. — Odiava mentir, mas não podia dizer nada. Deus, eu era a pior namorada do mundo! — Eu te pegaria de novo, se não estivesse com tanta fome. Acho que poderia comer um cavalo. Virando-me, sorri para Evan e o beijei. — Vá se sentar. Vou levar a comida até a mesa. Sentamo-nos e jantamos enquanto ele me contava sobre seu turno na noite anterior, e eu lhe contei que agora já sabia o que tinha acontecido com Jemima Puddle-Duck. Depois do jantar, coloquei tudo no lava-louças e fui até a geladeira para pegar uma garrafa de vinho. Servi uma taça para mim e tomei um gole, enquanto observava a piscina. Evan se colocou atrás de mim, passando o nariz em meu pescoço. Logo o senti enrijecer enquanto me virava para beijá-lo. — Eu te quero outra vez — ele sussurrou contra minha boca. — Uma de minhas fomes foi saciada, e agora preciso dar um jeito na outra. Você sabe como cuidar de mim, Jessica. — Ele me beijou vorazmente e me ergueu do chão para me colocar sentada no balcão da cozinha. Puxou meus quadris para frente e gemeu contra minha boca. — Porra, eu te amo, Jessica. Amo a sensação da sua pele, o gosto de seus lábios, o toque de suas mãos no meu corpo. Amo tudo em você. — Evan subiu meu vestido e arrancou minhas calcinhas. Não sei como eu podia ter coragem de fazer aquilo de novo, mas também não tinha coragem de pará-lo. Evan voltou ao meu pescoço e começou a me beijar lenta e deliberadamente. — Quero muito estar dentro de você. — Ele começou a tirar suas calças, mas assim que se preparou para desabotoá-las, seu bipe soou. Salva pelo gongo. — Merda! — exclamou irritado. Eu sabia que só podia ser uma emergência de trabalho, e Evan não podia ignorar uma emergência. Ele pegou o bipe e olhou para o aparelho. — Merda. Tenho um bypass de emergência. Sinto muito. Tentei parecer desolada, enquanto tocava seus lábios com os meus. — Não sinta. É seu trabalho. Eu odiaria pensar que você não salvou alguém porque estava muito ocupado transando comigo. Evan sorriu. — Transando com você? Eu gargalhei e pulei do balcão. — Sim. Transando. Agora vá se arrumar. Você tem uma vida para salvar. — Sorri


com ternura, e ele me beijou rapidamente no rosto antes de abotoar as calças e correr para a porta. Senti que agia como uma idiota. Também me sentia a pior mulher da face da terra. Como é que eu tinha conseguido enganar a mim mesma todo aquele tempo, pensando que poderia deixar Evan entrar em meu coração? Acho que algumas pessoas ficam com outras porque, em suas cabeças, é o certo a se fazer. E acham que, com o tempo, podem acabar aprendendo a amá-las e serem pessoas melhores por causa disso. Mas isso não significa tentar forçar uma mudança em si mesmo? Não significa nunca se render ao que o seu coração realmente quer? Naquele momento, eu não sabia em que merda pensar. Minha cabeça e meu coração estavam confusos, e eu sabia que tinha a ver com Dean. Em meu coração, eu sabia que ele estava por perto. Sabia que estava novamente me observando. Era a mesma sensação de quando me perseguiu por três anos. Será que me viu esta manhã? Será que viu Evan? Se ele realmente tivesse visto Evan, o que será que estaria pensando agora? Essas perguntas ficavam girando tanto na minha mente que minha cabeça já começava a doer. Naquele momento, eu não sabia que merda estava fazendo. Por que estava me torturando mantendo Jeremy longe quando estava sentindo tanto a sua falta? Era estúpido, eu sei. Chame de instinto materno, chame de proteção para meu coração, chame de qualquer coisa que explique minhas ações naquele momento. Sentindo-me exausta, peguei minha taça de vinho e sentei-me na frente da TV por um tempo. Isso não me ajudou a relaxar, então, decidi tomar um banho longo e gelado. Peguei minhas provisões: morangos, calda de chocolate, garrafa de espumante... e subi as escadas até o banheiro. Assim que terminei, estava estufada com tantos morangos que comi, embriagada com o espumante e mais limpa do que estive em muito tempo. Liguei mais uma vez para meus pais, que me disseram que Jeremy estava dormindo tranquilamente, então, decidi fazer o mesmo. Vesti minha camisola, acendi a luminária ao lado da minha cama e deslizei para debaixo dos lençóis. Depois de desligar a luminária, girei de lado e fechei meus olhos quando ouvi algo que me fez sobressaltar. Apenas fiquei deitada ali, pensando se estava ou não enlouquecendo. Com certeza aquele som não tinha nada a ver com... Então ouvi de novo. Uma leve pancada. O que diabos significava aquela pancada? Jogando os lençóis longe, virei na direção da minha janela e, com certeza, pequenas pedrinhas estavam atingindo o vidro. Meu coração deu um salto, meus joelhos ficaram fracos e meu corpo começou a estremecer. Eu sabia exatamente quem era sem nem mesmo precisar olhar. Sabia que tinha que ir até a janela, mas, por algum motivo, meus pés não se moviam. Estava enraizada no local onde estava, como se meu coração palpitasse na velocidade de mil quilômetros por hora. Respirando fundo, comecei a andar pé ante pé. Estava assustada, excitada, nervosa e triste. Todas as minhas emoções pareciam emaranhadas umas nas outras, conforme minha adrenalina subia a um altíssimo patamar. Por alguma razão, não conseguia olhar pela janela. Ao invés disso, a abri o máximo que consegui e afastei-me dela o quanto pude. Precisava ficar perto da porta para o caso de ter que fugir. Eu nem sabia por que o estava deixando entrar. Tudo dentro de mim estava gritando que deveria me proteger, mas não era minha vida que eu precisava proteger. Era meu corpo, coração, mente e alma. Tudo que sempre pertenceu a Dean.


Sobressaltei-me quando ouvi que alguém escalava a janela. E então ele surgiu. Escalou com facilidade, exatamente como costumava fazer anos atrás, e ficou ali, perto da janela, olhando para mim. A única coisa que iluminava o quarto era a lua e as luzes da rua, mas eu conseguia ver o suficiente para saber que definitivamente era ele, que parecia tão deslumbrante sob aquela iluminação quanto à fria luz do dia. Todas as vezes em que o via, sentia que perdia mais um pouco do meu fôlego. Não importava para onde fugisse, nunca conseguiria escapar de tudo que ele me fazia sentir. Mas aquilo não era desculpa para o que ele fez. Não era desculpa para o enorme vazio no meu coração. — Tyler... Não pude evitar fechar meus olhos ao som da sua voz. Aquela voz ainda me assombrava, ainda cantarolava em sua mente e ainda me proporcionava os melhores orgasmos que já tive em minha vida. — Lótus... — Eu não podia deixar que ele me visse de verdade. Não podia permitir que visse que estava tão partida agora quanto estive no passado. Porém, mais do que tudo, não podia deixar que percebesse que não importava quanto tempo passasse, eu ainda seria tão apaixonada por ele quanto sempre fui. Não havia como negar isso. — Por favor, não me chame assim. De repente, eu explodi de raiva. — E por que não? Era assim que você chamava a si mesmo quatro anos atrás. — Não é quem eu sou agora. Lótus está morto, Tyler. Morto e esquecido. É Dean quem está aqui agora. Ignorando-o, apontei para a janela. — Por que fez isso? Por que escalou minha janela? Dean suspirou. — Porque queria que você soubesse que seu Dean está aqui. Estou aqui, Tyler, e quero minha Rosadinha de volta. Meus olhos se encheram de lágrimas com suas palavras, e a traição ainda recente corria por minhas veias. — Não sou mais sua Rosadinha, Dean. Ela também está morta. Ele deu um passo à frente. — Me recuso a acreditar nisso. Ergui minha mão. — Acredite. Eu percorri milhares de quilômetros, mudei minha identidade e forjei minha própria morte só para fugir de você. Será que isso não te diz nada? — Por que fez isso? — Sua voz estava repleta de dor e partiu meu coração mais uma vez. — Porque você é muito perigoso. Você é perigoso para a minha mente, meu corpo, meu coração. Não entendeu isso? Não compreende o que fez comigo? Como acha que posso me recuperar de algo assim? — Comecei a arquejar. Era como se estivesse tendo um pequeno ataque de pânico. Dean se aproximou e ergueu as palmas das mãos para mim. — Eu sei, Tyler. Eu sei. Sou o pior filho da puta do universo e não mereço você. Meus olhos se arregalaram. — Então por que está aqui? — Porque sou egoísta! — Sua voz soou tão alta e autoritária que me fez


sobressaltar. — Porque estou despedaçado. Porque não posso viver sem você. Me recuso a acreditar que você seguiu em frente sem mim, Tyler. Me recuso a acreditar que você não me quer mais, e sabe por quê? Porque ainda está usando aquela correntinha no pescoço. — Por instinto, coloquei a mão sobre as asas de anjo. — Você ainda está olhando para mim como se eu fosse o único homem existente. Seu corpo ainda reage cada vez que me vê, e sua respiração ainda fica mais pesada quando olha para mim com esses lindos olhos verdes. Você sempre foi minha, Tyler. Desde o momento em que nos conhecemos, quando você tinha seis anos, você se tornou minha. Lembra-se disso, Tyler? Você se lembra que a conexão era tão forte, apesar de sermos tão jovens? Deixei escapar um pequeno soluço, ameaçando revelar meus sentimentos. — Por favor, pare. Não quero ouvir. Dean deu um passo à frente outra vez. — Você não pode continuar negando para si mesma, Tyler. Não pode continuar negando que é minha Rosadinha. — Não me chame mais assim, Dean. Você não tem o direito. O garoto que costumava me chamar assim era doce, gentil, divertido, carinhoso e venerava o chão onde eu pisava. E você sabe como sei disso? Porque eu me sentia venerada. Eu me sentia viva sempre que ele estava comigo. Me sentia como a filha da puta mais sortuda do universo porque aquele Dean sempre soube como fazer com que eu me sentisse especial, e eu valorizava cada segundo com ele. Esperei por ele, porque ele sempre estava esperando por mim. Se ele pedisse, eu teria viajado até os confins do universo ao seu lado, porque era isso que eu queria. — Posso ser ele novamente. — Não querendo ouvi-lo, balancei a cabeça. — Já sou ele novamente, Tyler. Por favor, não me afaste. Por favor, me deixe entrar. Não posso viver minha vida sem você. Abaixei minha cabeça. — Por favor, pare — sussurrei. — Tyler... Não quis erguer os olhos, porque eu sabia que ele estava ali. Podia sentir seu cheiro. O mesmo cheiro almiscarado que eu amava quando ele visitava meu apartamento. Meu Deus, eu sentia falta daquele cheiro. Sentia falta de tudo que estava relacionado a ele. — Tyler... — Ele me tocou. Era apenas um toque suave em meus braços, mas foi o suficiente para me fazer encolher, o suficiente para me deixar fraca, o suficiente para deixar meus mamilos intumescidos, e mais do que suficiente para que Dean percebesse tudo isso. — Seu corpo nunca trai a si mesmo — ele sussurrou, deslizando sua mão em direção ao meu rosto. A essa altura, eu já tinha desistido. Sem pensar, fechei meus olhos e me derreti com seu toque. Absorvi o momento para sentir que respirava um oxigênio de verdade novamente. Era confortador e me proporcionava alívio. Acima de tudo, era libertador. Absorvi o momento e o aproveitei, porque, por mais que cada célula em meu corpo estivesse gritando por isso, não diminuía a dor. Não fazia com que ela desaparecesse, nem a traição. — Eu te amo, Rosadinha — ele sussurrou novamente contra meus lábios, enquanto eu sentia sua testa encostando na minha. Seus lábios gentilmente tocaram os meus, enviando milhões de calafrios para todo o meu corpo. Nos quatro anos em que estava com Evan, eu nunca tinha sentido nada parecido com aquilo. Evan era um homem muito doce e merecia alguém muito melhor do que eu. E foi exatamente isso que me fez enxergar. Foi exatamente isso que me libertou do


poderoso feitiço de Dean. Podia ser muitas coisas, mas não era uma traidora. Então, por mais que meu corpo estivesse pulsando de desejo, empurrei Dean, me dando um segundo para me recompor. — Você não pode aparecer aqui, quatro anos depois, e esperar que esteja tudo bem. Você não pode aparecer aqui e esperar que possamos continuar de onde paramos dezessete anos atrás. Não é assim que funciona. Dean assentiu. — Eu sei, Tyler. Não esperava que fosse. Eu sei que tenho que batalhar muito por nós, mas você merece cada segundo de agonia. Nós merecemos isso. Vou lutar por nós. Não vou deixar que ninguém se intrometa. Não vou deixar que ninguém fique em nosso caminho. Foi sua voz autoritária que me disse tudo que eu precisava saber. Ele sabia. — Eu segui em frente. Estou com outra pessoa. Dean deixou escapar uma gargalhada. — Você quer dizer o homem da calça cáqui? Ele parece uma mistura de Ted Bundy e Shaggy, do Scooby-Doo. — Ele riu um pouco mais, e eu me encolhi. — Não zombe dele. Ele é mais homem do que você nunca será. Ele nunca me magoou como você fez, Dean. Nunca partiu meu coração. É carinhoso, atencioso e... — E o quê, Tyler? Ele te faz gritar quando trepa com você? Ele te faz estremecer quando te toca? Ele faz com que se sinta venerada? Você gosta dos momentos que passa com ele? Senti lágrimas chegando. Não as queria, mas Dean as provocava o tempo todo. Por que ele tinha que vir até aqui e virar minha vida de cabeça para baixo outra vez? Por que tinha que dizer as palavras que eu tanto queria ouvir? Por que tinha o dom de sempre me fazer levar de volta à minha infância, quando eu era desesperada e devastadoramente apaixonada por ele? Não importava o quão distante ficássemos um do outro, isso nunca iria mudar. — Não me faça dizer coisas que você não quer ouvir, Dean. Não me pressione. Você não pode escalar a porra da minha janela e achar que, poof, cada coisa que fez irá simplesmente desaparecer. Você não leu a carta que enviei? As palavras não entraram na sua cabeça? Você me magoou, Dean. Você me deixou em pedaços e espalhou devastação por toda parte. Você não foi apenas o amor da minha vida, era meu melhor amigo. Alguém que eu podia procurar sempre que estava me sentindo mal. Alguém com quem podia contar nos momentos difíceis. Alguém que nunca, jamais, me magoaria. Sequei minhas lágrimas e fiquei ali, apenas olhando para ele. Estava determinada a me manter firme. Estava determinada a permanecer focada e não permitir que entrasse em meu coração outra vez... não importava o quanto eu o desejava. Enquanto isso, nossos olhos prenderam-se uns nos outros. Eu já tinha visto o suficiente para saber que seu olhar era apenas um reflexo do meu. Ele parecia tão devastado quanto eu. — Sei que você quer nos consertar, mas não se pode consertar algo que está quebrado em um milhão de pedaços. Você não pode eliminar a dor agonizante que sinto diariamente por saber que as duas pessoas que significavam tudo para mim, as únicas em quem acreditei, me traíram. Gostaria que você pudesse nos consertar, Dean. Puta merda, eu realmente gostaria. Mas você não pode desfazer o que já está feito. Ele balançou a cabeça, e eu vi a agonia em seus olhos. — Não posso acreditar que não vou conseguir te curar, Tyler. Eu vou te curar. Vou recolher cada pedacinho de merda e vou colá-los novamente. Eu prometo. Prometo que nunca vou te magoar novamente. Prometo que vou fazer com que se sinta a mulher mais venerada novamente, porque é isso que você merece, Tyler. Você merece a porra do mundo. Vou te dar tudo


que me pedir, mas a única coisa com a qual não posso concordar é perder você. A única coisa que não pode me pedir. — Ele deu um passo à frente e depositou um longo beijo em minha cabeça, antes de se dirigir à janela. — É melhor você dizer ao “Senhor cáqui” para calçar as luvas, Tyler... porque ele está em uma porra de uma boa luta. E foi assim que Dean desapareceu. E foi assim que eu fiquei lá de pé, parada. *** Eu não sabia o que esperar dos dias seguintes. Sabia que Dean ia se mostrar de alguma forma, mas não sabia como. Descobri quando fui visitar Evan no dia seguinte, mais tarde. Depois de receber uma ligação de Tara, me implorando para sair com ela, Evan me enviou uma mensagem de texto me avisando que estava acordado e que queria me ver, então, eu fui. Quem me recebeu foi Clarissa, sua faxineira, cozinheira, passadeira e etc. Ela era basicamente uma mãe, porque ele mal tinha tempo de cuidar de si mesmo. — Jessica, que bom te ver. Entre. — Sorri calorosamente e entrei pela porta. Ela trabalhava duro e era uma ótima garota. Era chinesa, muito pequena e tinha um cabelo negro sedoso, além de olhos castanho escuros. Seus pais tinham se mudado para a América quando era pequena. Seu pai era um técnico nuclear de alguma coisa e foi contratado por uma firma em Washington D.C.. Ela adorava morar aqui, e, para ser franca, eu também. Eu compreendia por que minha irmã tinha se apaixonado por este país. — Como está seu marido? — Na última vez em que conversamos, ela me disse que ele estava vomitando e com diarreia. — Está bem agora. Foi uma daquelas viroses de vinte e quatro horas. Estava um pouco fraco ontem, mas já melhorou bastante. Obrigada por perguntar. E como está Jeremy? Sorri. — Está bem melhor, obrigada. Está com meus pais, e eles o estão mimando, então, não está com a menor pressa de voltar para casa. — Eu ri, mas senti aquele aperto no estômago. Estava com muita saudade. — Jessica, você está linda. Evan desceu as escadas, vestindo novamente sua calça cáqui. Era cruel da minha parte, mas não consegui reprimir um sorriso. Abaixei a cabeça para olhar para minha calça capri azul marinho e ergui a sobrancelha. — Sério? Usando essa coisa velha? Evan balançou a cabeça e se aproximou para me beijar. — Você fica linda com qualquer coisa. — Vou deixar vocês dois sozinhos — disse Clarissa, sorrindo. O telefone tocou, ela correu para atender. — Como está se sentindo hoje? Senti sua falta quando vim para casa de manhã. Queria te visitar e terminar o que começamos ontem, mas não quis te acordar. — Ele beijou minha mão, e eu sorri para ele. Era estranho estar com Evan depois do meu encontro com Dean na noite passada. Não conseguia tirá-lo da minha cabeça. — Estou bem, Evan. Estava sã e salva, encolhida na cama. Dormi como um bebê. Evan fechou os olhos e silenciosamente murmurou: — Que pena que perdi isso.


Clarisse surgiu apressada. — Er... me desculpe por interromper, Dr. Connor, mas o Sr. Bundy, do hospital, ligou. Ele disse que você precisava ir para lá o mais rápido possível. Tinha algo a ver com uma confusão que algumas crianças aprontaram. — Ela franziu o cenho. Depois do choque inicial, tentei com todas as forças não rir. Não tinha a menor dúvida de que Dean estava me seguindo outra vez e sabia que eu estava aqui. Acho que ele nunca mais iria me deixar ficar sozinha com Evan. Evan olhou para mim, com uma expressão confusa no rosto. — Não faço ideia do que possa ser, então, acho melhor eu ir checar. Você vai estar livre esta noite? Quero conversar com você. Acho que podíamos sair para jantar. Balancei a cabeça. — Não posso. Vou sair com Tara. — Sorri, mas Evan pareceu desapontado. — Que tal amanhã à noite? Vou reservar uma mesa no Loretto. — Parece ótimo. Adoro o Loretto. Evan sorriu e me beijou. — Sei que adora. Vou sentir sua falta até lá. Você pode dar uma passada aqui antes de sair? Balancei a cabeça. — Estou um pouco ocupada hoje. Me desculpe. — Era uma mentira, mas, por alguma razão, não queria ficar sozinha com Evan, tanto quanto Dean também não queria. Evan suspirou e quase fez um biquinho. — Tudo bem, eu acho. Vou ter que guardar tudo para amanhã à noite. — Ele sorriu maliciosamente e me beijou novamente. — Vamos até o carro comigo? Assenti. — Claro. — Virei-me rapidamente e gritei: — Tchau, Clarissa. — Então caminhamos até a porta. Não a vi, mas a ouvi gritar em retorno. Caminhamos em direção ao sol quente, que nos atingiu em cheio. Parecia que o verão ia ser um inferno naquele ano. Virei-me na direção de Evan, beijei-o e entrei no meu carro, começando a dirigir. Enquanto dirigia, reparei um BMW preto, com vidros escuros, mantendo-se a alguns carros de distância de mim. Podia jurar que tinha visto o mesmo carro quando fui à casa de Evan também. Assim que estacionei em frente à minha casa, vi o mesmo carro um pouco mais longe na rua. Eu queria beijá-lo e socá-lo ao mesmo tempo. Precisava fazer com que soubesse o quanto estava irritada. Então, sem perder tempo, caminhei na direção do carro e vi as janelas sendo abertas. Com certeza era Dean. — Por que está me seguindo? — Coloquei as mãos nos quadris. Dean, por sua vez, me olhou de cima a baixo lentamente. — Você está muito bonita, Rosadinha. Essa cor combina com você. Mas tenho que te avisar que não vou aguentar por muito tempo. Você não tem noção do que tem feito comigo. Mantendo as mãos nos quadris, apontei para ele. — Eu sei o que você fez, Dean. Foi uma coisa muito cruel. Dean sorriu. — Não sei do que você está falando. Bufei. — Você sabe sim. Adivinha quem está indo trabalhar agora quando não precisaria?


Dean olhou para mim cheio de inocência e deu de ombros. — Você não o impediu, impediu? Eu disse que ia lutar por você, Tyler. Isso é só o começo. Senti um calor entre minhas pernas. Suas palavras, combinadas com o quanto ele estava atraente com aquela blusa polo, não estavam ajudando. Dava para ver seus músculos implorando para escapar. — Estou tão puta com você! Dean abriu a porta do carro lentamente e saltou. Cada parte de mim começou a cantarolar e ficou em alerta no momento em que ele a fechou. Eu não sabia o que ele ia fazer, mas no momento em que começou a se aproximar, comecei a me afastar. — O que está fazendo? Dean olhou para mim cheio de desejo. — Eu te disse para não fazer isso. Eu avisei. Balancei a cabeça enquanto o sangue começava a correr pelas minhas veias. — Não, não faça isso, Dean. Não ouse! Dean me olhou com um sorriso atrevido, que era sua marca registrada. — Eu adoro quando você grita comigo, Tyler. Você não sabe quais botões pressiona em mim? Vamos lá... Me dê mais alguma coisa. Me dê só mais uma desculpa. Continuei caminhando e balancei a cabeça. — Não ouse me tocar. Ele ergueu a sobrancelha e sorriu para mim daquele jeito que sempre me dizia que eu estava encrencada. Virei-me e corri. Era inútil, é claro. Dean me pegou pela cintura, me virou e me ergueu em seus braços para me beijar de forma alucinante. No momento em que pressionou seus lábios contra os meus, eu me perdi. Senti-lo, sentir seu calor, seu cheiro, era demais para suportar. Sua língua tinha um gosto delicioso, enquanto dançava com a minha. Eu nunca tinha me sentido tão excitada quanto naquele momento. Assim que nos afastamos, nós dois estávamos ofegantes. — Me deixa entrar, Tyler. Balancei a cabeça. — Não. Dean pressionou sua virilha contra a minha, me fazendo gemer. — Tyler, me deixa entrar. — Não — sussurrei contra seus lábios. Não podia deixá-lo entrar, porque eu sabia o que aconteceria em seguida e não poderia viver com isso. — Tyler, se você não me deixar entrar, eu juro que vou arrombar a porta com você ainda nos meus braços. Não vou te soltar. — Ele me beijou de forma tão sedutora e tão lentamente, que eu juro que desmaiei por um momento. Tudo relacionado a ele me deixava fraca. Eu estava prestes a responder quando o som de alguém pigarreando me livrou do feitiço de Dean. Olhei timidamente para a minha direita e vi que era uma das minhas vizinhas, a mais fofoqueira do mundo, Belinda. Por um segundo, enterrei minha cabeça no peito de Dean. — Puta merda! — sussurrei, e então percebi que minhas pernas estavam enroscadas em sua cintura. O que diabos aquilo parecia? E como diabos tinha acontecido? Nem me lembro de ter feito isso! Descendo de seu colo, olhei para cima e percebi que ele sorria como o Gato de


Cheshire. — Não é engraçado, Dean — sussurrei para ele e depois me virei para Belinda. — Jessica, que bom ver você. Quem é o seu amigo? — Ela olhou para Dean de cima a baixo, da forma mais pervertida possível. Ela praticamente fez amor com ele com os olhos. Vaca! Pigarreei. — Belinda, esse é um velho amigo meu, Dean Scozzari. Dean, esta é Belinda Mahoney. Ela mora um pouco mais abaixo na rua. Belinda sorriu e estendeu a mão. — No número cinco mil quinhentos e vinte... se quiser dar uma passada para me visitar... — Ela praticamente ronronou as palavras. Dean pegou sua mão e a apertou rapidamente. — Obrigado pelo convite, Belinda, mas só tem uma garota aqui que eu quero visitar. As bochechas de Belinda ficaram coradas. Eu sabia que ela estava irritada, mas também sabia que tinha ficado excitada com a voz dele. Tudo que ele tinha que fazer era abrir a boca e toda a população feminina abria as pernas. — Bem — ela disse, balançando a mão. — Se você mudar de ideia... — Então virouse para mim. — Como anda Evan? Pensei tê-lo visto saindo da sua casa há alguns dias. Ele dormiu aqui, não dormiu? Se eu achava que ela não conseguia ser mais vadia, estava enganada. O problema era que eu merecia. Eu tinha namorado, mas estava quase transando com outro homem em plena luz do dia, na frente da minha casa. Imediatamente Dean empertigou-se atrás de mim. — Ele está no trabalho. Belinda assentiu com um sorriso malicioso. — Pobre Evan. Sempre trabalha tanto. Mande lembranças a ele, tudo bem? Assenti. — Claro. Belinda piscou para Dean e então se virou, continuando seu caminho até sua casa. Assim que ela ficou fora de alcance, Dean começou a rir. — Não tem graça. Ela é a maior fofoqueira na cidade. Não tenho a menor dúvida de que a porra do bairro inteiro vai ficar sabendo o que aconteceu, e então vai chegar aos ouvidos de Evan. Dean deu de ombros. — Bom. Ele precisa saber, Tyler. É justo. Você não deveria manipulá-lo. Irritada, fechei meus olhos por um momento. — Não tente me fazer de estúpida, Dean. Depois do que fez comigo, você não pode me passar um sermão! Seu sorriso desapareceu, enquanto ele balançava a cabeça. — Eu sei. Me desculpe. Só não consigo me controlar quando estou perto de você. Suspirei, caminhei em direção a minha porta e a destranquei. — Por favor, me deixe sozinha, Dean. E pare de me seguir. — Fechei a porta, enquanto ouvia a palavra nunca sendo proferida lá fora.


*** Mais tarde, à noite, depois de falar com Jeremy no telefone, estava me aprontando para sair com Tara. Estava passando gloss quando meu telefone tocou. — Jessica, como você está, amor? Era Evan. A culpa me atingiu novamente assim que lembrei do que tinha acontecido mais cedo. Não tinha a menor dúvida de que Belinda iria contar para ele. Então, eu tinha que fazer isso primeiro. Era melhor que ele ouvisse de mim. Eu lhe devia isso. — Estou bem, Evan. E você? Evan respirou fundo. — Tem umas coisas estranhas acontecendo hoje. Você sabe aquele telefonema que recebi? — Sim? — Ah, eu sabia muito bem. — Bem, acabou que não era nada. Ninguém sabia quem era o Sr. Bundy, mas essa não é a parte mais estranha. Assim que cheguei lá, me disseram que tinha um pacote para mim. Quando abri, era um livro intitulado Os dez piores serial killers da história. Não havia remetente, nem endereço de retorno. Você não sabe nada sobre isso, sabe? Coloquei a mão na boca e balancei a cabeça. Dean estava determinado a fazê-lo suar. — Com certeza não fui eu, Evan. Não tenho motivos para te enviar um livro assim. Eu o ouvi suspirar. — Foi o que pensei. Só que pareceu estranho um tal Sr. Bundy me ligar e logo depois eu receber um livro assim. Um dos assassinos do livro é Ted Bundy. Reprimi uma gargalhada e fechei meus olhos. — Parece mesmo estranho. Mas eu não me preocuparia muito. — Você sabe de Dean? Só estou perguntando. Pode ser ele fazendo isso? É ele mesmo que está fazendo isso, pensei. Só não tinha coragem de lhe contar. Não assim. Era até bom que saíssemos para jantar no dia seguinte. Eu precisava colocar tudo em pratos limpos. Tirar o peso do meu peito. — Não, nada ainda. — Fiz uma pausa por um momento, e então suspirei. — Ouça, Evan, Tara vai chegar em alguns minutos, então, tenho que me arrumar. Falo com você amanhã. — Ok. Vou sentir sua falta. Cuide-se esta noite. Ri. — Vou me cuidar. Depois de desligar, vesti um vestido preto colado e coloquei sapatos de salto alto vermelhos. Terminei de passar gloss nos meus lábios e já estava pronta quando a campainha tocou. Tara estava deslumbrante com um vestido de dois tons. — Uau, garota. Olhe só para você. Está pronta? Tara balançou a cabeça. — Garota, faz meses que não tem nenhuma emoção na minha vida. Estou mais pronta do que jamais estive. Nós duas começamos a rir, enquanto eu a convidava para entrar. Chamei um táxi e nos sentamos bebericando uma taça de vinho enquanto o esperávamos. Tara estava ávida, detonando a taça inteira nos dez minutos em que o táxi demorou para chegar. Ela percebeu a forma como olhei para ela e franziu o cenho.


— Garota, quando foi a última vez que bebemos até cair? Eu tive que sorrir. Aquela era Tara... e eu a amava por isso. Com o táxi parado na porta, pegamos nossas coisas e saímos para o ar quente da noite. O calor ia nos deixar pegajosas, mas, para nossa sorte, entramos logo no carro com ar condicionado. Não demorou muito para que chegássemos no novo barzinho em Georgetown. Tara e eu entramos e agradecemos ao motorista antipático. O bar já estava lotado, e as vozes preenchiam o ambiente. Tara entrelaçou seu braço no meu. — Vamos? Assenti, e nós duas entramos. Algumas cabeças viraram em nossa direção, e alguns homens ficaram nos olhando por um bom tempo. — Por que me sinto exposta de repente? — sussurrei para Tara. — Vamos lá, garota. Você não pode usar um vestido desses e esperar que os homens não te notem. Já deu uma olhada nos seus peitos? Eu mesma quero apertá-los. Nós duas rimos e pedimos nossos drinques no bar. — Então, como estão você e Evan? — Me encolhi um pouco. É claro que ela reparou. — O que aconteceu? Acho que eu não conseguiria mentir para ela. Era a única amiga por aqui que sabia de tudo que tinha acontecido. — Dean aconteceu. Seus olhos se arregalaram. — O quê? Como? Fechei meus olhos. — Liguei para meus pais em pânico, e ele descobriu onde eu estava. Na noite passada, ele escalou minha janela, cheio de confiança. Então me encontrou hoje mais cedo do lado de fora da minha casa. Tara colocou a mão no meu braço. — Ah, querida, sinto muito. O que aconteceu na noite passada? Olhei para ela timidamente e suspirei: — Ele me quer de volta. Disse que vai fazer tudo que puder para resolver nossos problemas. Disse também que me ama e que não pode viver sem mim. Tara franziu o cenho por um momento. — E o que você disse? As bebidas chegaram, e eu dei uma golada na minha. Deixei a quentura do rum deslizar pela minha garganta antes de falar. — Disse a ele que já tinha me magoado demais. Que ele não podia resolver nada, porque estamos devastados demais. Tara também provou de seu rum. — Merda, Jessica. O que ele respondeu? Fechei meus olhos por um momento, lembrando da sensação de tê-lo tão perto. Ele sempre dominava tudo, por mais que eu tentasse evitar. — Ele disse que vai fazer tudo que puder. Que vai recolher cada pedaço partido e nos curar para que fiquemos juntos novamente. Então, ele foi embora me dizendo que Evan precisava tomar cuidado, porque tinha uma luta nas mãos. Os olhos de Tara ficaram arregalados.


— Merda. Assenti. — É exatamente assim que me sinto. Tara franziu o cenho e suspirou. — Tenho que ser honesta com você, Jessica. Estou confusa. Nós duas nos tornamos amigas íntimas e sua felicidade é tudo o que desejo. Mas... eu já trabalho com Evan há muito tempo. Ele é um cara legal e não quero que se machuque. Meus olhos se encheram de lágrimas. — Eu sei. Talvez eu não devesse ter te contado. Me desculpa. Não quero te colocar em uma situação desconfortável. Tara colocou a mão sobre a minha. — Querida, você sempre vai precisar de uma amiga e sempre terá uma em mim. Não quero ver nem você nem Evan sofrendo. Se realmente ama Evan, deve ficar com ele e dizer a Dean que não quer vê-lo nunca mais. Mas se, por um único segundo, duvidou de seus sentimentos por Evan, ou acha que não pode esquecer Dean, está sendo injusta com Evan. Ele vai precisar saber para que possa seguir em frente, e vice-versa. Assenti com lágrimas nos olhos. — Eu sei. Obrigada. Tara me abraçou e quando se afastou, me ofereceu um meio sorriso. — Então... posso te perguntar como se sente? Eu ri. — Ah, meu Deus, Tara. Vamos precisar de mais drinques se começarmos a falar sobre isso. Tara bateu no balcão do bar. — Bem, se é assim, mais duas doses de rum com gelo aqui, por favor! — ela gritou. *** Depois de uma hora e mais três doses de rum, Tara e eu já estávamos começando a ficar alegres. Estávamos prestes a pedir mais bebidas quando dois homens se aproximaram de nós no bar. Ambos eram bonitos, com cabelos escuros, um com eles penteados para trás, e o outro, com os fios espetados. Pareciam ter vinte e poucos anos, um pouco jovens demais para mim. Ver que éramos duas mulheres mais velhas não os impediu em nada. Dava para ver o que eles eram só pela forma como olhavam para nós. — Olá. — O de cabelo espetado aproximou-se de mim, enquanto o outro cara se aproximava de Tara. — Oi — ela cantarolou. — Meu nome é Nick, e este — ele apontou para o cara parado ao meu lado — é Joe. Podemos pagar outro drinque para vocês? Balancei a cabeça. — Acabamos de pedir, obrigada. Joe olhou direto para meus seios e lambeu os lábios. Deus, que cara ridículo. — Alguém já te falou que você tem os olhos mais lindos? — Ele ainda estava olhando para meus seios quando disse isso. — Ok. De que cor são?


Joe se sobressaltou e ergueu os olhos até os meus. — Verdes. Inclinei-me na direção de Tara e sussurrei: — Este aqui é um babaca. Espero que o seu seja melhor. Ela balançou a cabeça. — Não, nem um pouco. — Então, qual o seu nome? — Joe estava olhando para o meu peito novamente. — Idi — respondi. Isso chamou sua atenção. Ele franziu o cenho para mim. — Idi? Que raio de nome é esse? Sorri, prestes a responder, quando uma voz atrás dele disse: — Ela disse Idi, está te chamando de idiota. Agora dê o fora daqui. — Dean já estava ao lado dele, não parecendo nem um pouco feliz. — Ouça, cara, eu estava conversando com essa garota. Cheguei primeiro, então, sugiro que você dê o fora. Ah, meu Deus. Grande erro. Dean agarrou a mão do cara. Eu sabia o que ele iria fazer no minuto em que percebi seu olhar agonizante. — Para, Dean. Não aqui. Não se atreva. De repente o outro cara, Nick, aproximou-se. — Ei, mas que merda está acontecendo aqui? Um cara enorme de cabelos loiros e músculos tão impressionantes quanto os de Dean também se aproximou. Colocou a palma da mão no peito de Nick. — Eu não me intrometeria se fosse você, parceiro. Dean ainda estava segurando a mão de Joe. — Agora, eu sugiro que vocês dois sumam daqui antes que alguém se machuque. Entenderam? Ambos os homens assentiram e se afastaram, enquanto Joe murmurava: — Elas não valiam a pena, mesmo. Dean movimentou-se, mas eu agarrei seu braço. — Não, Dean. Eles realmente não valem a pena. Olhei para Tara, para ver se estava bem, mas nem precisava me preocupar. Ela estava praticamente babando pelo cara com quem Dean estava. — Você está bem, Tara? Ela assentiu, com a boca bem aberta, enquanto passeava seus olhos pelo rapaz, que também estava sorrindo para ela. — Oi — ele disse, ronronando as palavras. Do nada, Tara segurou minha mão e a apertou. Era quase uma conversa silenciosa, mas uma que eu conseguia ouvir em alto e bom som. Ela o considerava sexy, sexy, sexy. E eu tinha que concordar com ela. Era tão impressionante quanto Dean. Falando nele... Virei-me em sua direção. — O que está fazendo aqui? — Eu e Jimmy resolvemos vir tomar um drinque, não foi, Jimmy? — Jimmy assentiu com um sorriso, não tirando os olhos de Tara. — Este é Jimmy, aliás. Bufei.


— Eu meio que já tinha entendido isso. Tara finalmente perdeu sua expressão maliciosa. — Espera um segundo. Você é o Dean? Dean sorriu e lhe ofereceu sua mão. — Ele mesmo. E você é...? Tara pegou sua mão e a apertou. ​— Tara. Sou uma amiga íntima de Jessica. Dean franziu o cenho com um sorriso divertido. — Bem, prazer em conhecê-la, Tara. — Ele piscou e Tara corou. Nunca a tinha visto fazer isso. Pelo visto o charme de Dean funcionava com qualquer uma. — É um enorme prazer conhecê-la, Tara — Jimmy sorriu. Era um daqueles sorrisos que poderia te deixar encrencada em um único minuto. — Digo o mesmo. — Ela estendeu a mão na direção de Jimmy, e ele se inclinou, beijando-a delicadamente. Tara sorriu. — Você está linda — Dean sussurrou em meu ouvido, fazendo-me estremecer. — Todos os homens aqui estão te fodendo com os olhos. Se eu pudesse, arrancaria os olhos de todos eles para lhes ensinar a nunca mais olharem para você. Ninguém pode te olhar assim, Tyler. Ninguém. Imediatamente eu fiquei excitada. Deveria estar irritadíssima com ele por ter me seguido e estragado minha noite, mas só conseguia pensar no quanto o queria dentro de mim. Além disso, acho que Tara estava se divertindo. Podia ouvi-la gargalhar ao meu lado. Antes que pudesse responder a Dean, Tara cutucou o meu braço. — Er... Jessica, será que você pode ir comigo ao banheiro? Preciso te falar um negócio. Olhei para ela e assenti. — Com licença — falei para Dean, enquanto deslizava para sair do meu banco. Ele me ajudou e, subitamente, vi que estávamos perto demais. Sorriu para mim cheio de luxúria. — Senhoritas — Jimmy disse enquanto nos afastávamos. Assim que chegamos no banheiro, Tara arfou. — Porra, Jessica. Você nunca disse que Dean era assim tão gostoso. E você, com certeza, nunca me falou sobre aquele amigo dele extremamente gato. Todos os homens são assim na Inglaterra? Balancei a cabeça com um sorriso: — Eu não conhecia Jimmy. Ele meio que é um gato mesmo. Tara ergueu a sobrancelha. — Ele meio que é um gato? Garota, você precisa de óculos. Aquele homem é maravilhoso. Você viu a porra daquela bunda? Porra! Balancei a cabeça novamente. — Não tive tempo de verificar a bunda dele. Tara assentiu. — Bem, você precisa dar uma olhada... sem compromisso. — Ela colocou as mãos na pia e balançou a cabeça. — Me desculpe. Fiquei tão ocupada babando por Jimmy que nem me toquei que ele está aqui. Como você está lidando com isso? Ri. — Eu mal consigo... pensar. Ele sempre consegue fazer com que eu esqueça de tudo.


Quando está por perto, só consigo pensar nele. Tara fechou os olhos por um momento. — Garota, se é assim que se sente, acho que é melhor pensar bem sobre o que realmente quer. Quer voltar para o Dean? — Não! — respondi um pouco rápido demais. — Ah, eu não sei. Ele me confunde. Me magoou muito, Tara. Tara aproximou-se e fez carinho nos meus braços. — Eu sei. Acho que você só precisa descobrir se consegue ou não perdoá-lo por isso. Então, pode seguir em frente e ver se seu coração realmente pertence a ele. E eu acho que precisa fazer isso logo... pelo bem de Evan. Assenti com um sorriso. — Sim, você está certa. Não quero magoar Evan, Tara. Não quero mesmo. Tara assentiu e apertou meu braço com carinho. — Eu sei que não quer. Você tem um bom coração. Só precisa ouvi-lo de vez em quando. Você nunca magoaria alguém intencionalmente. Posso sentir isso, mas tentar esconder o que realmente sente pode acabar ferindo outras pessoas. Consegue entender onde quero chegar? Assenti com um sorriso. — Sim, entendo. Obrigada. Ela deu alguns tapinhas no meu braço. — Não precisa agradecer. — Ela foi em direção ao espelho para dar uma checada em seu visual. — Agora, seja honesta. Você me levaria para casa hoje se fosse Jimmy? Assenti com uma risada. — Com certeza. Ela piscou para o espelho. — Também acho. Agora, vamos balançar essas penas, que tal? Gargalhei, não sabendo o que ela queria dizer com aquilo, mas assenti. — Vou jogar seu jogo. Assim que saímos do banheiro, um homem enorme e corpulento estava olhando para nós. — Vocês, mulheres, precisam ir embora da boate. Franzi o cenho e olhei para Tara. Ela parecia tão confusa quanto eu. — Por quê? — Porque vocês desrespeitaram meus clientes. — Ele apontou na direção de Nick e Joe. — Você só pode estar brincando! Eles é que nos desrespeitaram e não o contrário. Além disso, não pode nos expulsar. — Olhei para ele. Ele se dirigiu a uma placa que dizia: O proprietário tem o direito de se recusar a atender qualquer um. — Sim, eu posso. — Babaca! — Tara gritou. O cara agarrou o punho de Tara. — Será que vou ter que te colocar para fora? Gritei: — Não se atreva a tocar nela. — Depois, pulei em seu pescoço. Ele tentou me derrubar, mas Tara mordeu sua mão. Enquanto eu colocava o braço ao


redor de seu pescoço, ele gritou: — Suas vadias de merda! Saiam de cima de mim! Tara o chutou nas bolas. — Se nos chamar de vadias de novo, vou te deixar todo fodido! Ele se curvou, segurando sua própria virilha. Aproveitei a oportunidade para pular de suas costas, segurar a mão de Tara e puxá-la pelo corredor. Mas ele era rápido. Agarrando meu cabelo, puxou-me para trás, me fazendo ir de encontro à sua barriga. Gritei, e ele colocou a mão sobre minha boca. Tara veio correndo e pulou em suas costas. — Solta ela, seu filho da puta! Eu podia ouvi-lo resmungar enquanto me segurava com mais força. Quanto mais tentava se livrar de Tara, mais avançávamos no corredor. Precisávamos nos aproximar mais da multidão para que as pessoas vissem aquele homem louco nos atacando. Esticando meu braço, soquei-o com meu cotovelo, atingindo a lateral do seu corpo o mais forte que pude. O cara barbado me soltou e começou a segurar Tara. Gritei, mandando que a soltasse e comecei a puxar o cabelo longo dele. Foi quando tudo desabou. Estávamos na área do bar e as pessoas repararam o que estava acontecendo. Nick e Joe vieram tentar ajudar quem quer que aquele babaca fosse. As pessoas começaram a gritar e, rapidamente, Dean e Jimmy surgiram, derrubando o barbudo no chão. Nick e Joe voaram em Dean e em Jimmy, fazendo com que pulássemos em suas costas. — Rosadinha, saia de cima dele. Vou resolver isso. Estou ansioso para dar uma porrada nesse cara desde que cheguei aqui. Antes que eu pudesse reagir, senti meu cabelo sendo puxado. Afastei-me e olhei ao meu redor. Uma ruiva com olhos como trovões estava pronta para me socar. Consegui me esquivar enquanto ela gritava: — Ninguém machuca Joe Hardman! Eu estava completamente confusa. Quem era Joe Hardman? Antes que eu pudesse tentar descobrir, ela veio para cima de mim como uma louca, me arranhando e puxando meu cabelo. Tudo ao nosso redor tornou-se caos. Podia-se ouvir vidro quebrando, gritos e resmungos preenchendo o ambiente. Dean estava batendo em Joe, e Jimmy estava dando uma boa canseira em Nick. Tara rangia os dentes enquanto ela puxava o cabelo da outra mulher. Eu sabia que isso precisava acabar, porque provavelmente a polícia já tinha sido chamada. Assim que pensei nisso, ouvi as sirenes à distância. Era necessário acabar com aquilo muito rápido, então, tomei distância e soquei a ruiva bem no olho. Ela gritou e caiu no chão. — Dean, Jimmy, Tara... precisamos ir! — Todos eles olharam para mim e assentiram. Agarrando minha mão com um sorriso, Dean nos guiou para os fundos do bar e depois para um beco. Ainda podia ouvir o caos lá dentro, enquanto fugíamos para o mais longe possível. Assim que chegamos a um local calmo, paramos um pouco para recuperar o fôlego. Tara começou a rir. — Porra! Eu nunca me diverti tanto na vida. Mas que merda foi aquela? Balancei a cabeça. — Não faço ideia. A ruiva maluca começou a gritar algo sobre não machucar Joe Hardman. Os olhos de Tara se arregalaram. — Merda! Acho que ele é o zagueiro dos Washington Redskins.


Eu ri. — Sério? Aquele babaca é jogador de futebol profissional? Tara gargalhou. — Ah, sim, querida. Você acabou de bater em um cara famoso. Virei-me e vi Dean com os maxilares cerrados. — Estou feliz por ter dado uma porrada naquele merda. — Seus punhos ainda estavam fechados. — O que aconteceu? — Jimmy olhou para Tara e para mim. Tara deu de ombros. — Nós só fomos ao banheiro e quando saímos encontramos aquele cara enorme e barbado nos dizendo que precisávamos ir embora, porque estávamos desrespeitando seus clientes. É claro que eu e Jessica reagimos. — Ela olhou para mim e deu uma piscadinha. — Fizemos uma reclamação. Acho que o dono do bar nos ouviu em alto e bom som. — Nós duas gargalhamos, mas Dean ainda parecia muito nervoso. — Você quer que eu volte lá e dê umas porradas nele por você? Aproximei-me de Dean e coloquei a mão em seu peito. Ele respirou fundo, mas logo pareceu relaxar. — Não precisa. — Porra, cara! Eu não participo de uma boa e velha briga assim há séculos. Você tem que admitir, foi divertido. — Jimmy olhou para Dean, e eu vi seus lábios se curvarem em um sorriso de parar o coração. — Sim, foi divertido, seu sequelado. — Bichinha. — Seu bosta. — Insignificante. Dean começou a rir. — Nossa, você foi longe com essa. Jimmy deu de ombros. — O que posso dizer? Às vezes minha imaginação é muito fértil. — Ele olhou para Tara, com um sorriso malicioso no rosto. — Já vi algumas brigas de mulheres antes, mas aquela foi de longe a mais emocionante de todas. Onde você esteve durante toda a minha vida? Tara começou a rir. — Uns mil e quinhentos quilômetros de distância, pelo que parece. — Ela deu várias piscadinhas de forma charmosa. Jimmy sorriu. — Bem, até mesmo a distância que nos separa neste momento parece muito grande. Revirei os olhos. — Ah, por favor. Jimmy ergueu uma sobrancelha para mim. — Eu não faria isso se fosse você, Tyler. Não foi você que ficou ouvindo todas as histórias de amor desse cara aqui. — Ele apontou para Dean. De repente, Tara caminhou até Dean e ergueu um dedo na direção de seu peito. — Acho bom que não a machuque. Tyler é uma pessoa diferente agora. Sei disso porque eu mesma ouvi essas historias. Se estragar tudo, Tara Trovão irá te dar um belo chute na bunda. Você me ouviu?


Jimmy olhou para Tara de cima a baixo enquanto lambia os lábios. Ele com certeza gostava daquele lado agressivo. Mas eu não podia culpá-lo. Ela era uma mulher e tanto. — Eu realmente não quero que isso aconteça, Tara Trovão, então, prometo que serei um bom rapaz. Tyler é o amor da minha vida. Vou protegê-la até o fim dos tempos. — Ele olhou para mim enquanto dizia isso. Como sempre, seus olhos azuis penetraram os meus. Tara apontou seu dedo uma última vez para ele. — Bem, assim está bom. Fico feliz em ouvir isso. — Então, ela caminhou na direção de Jimmy, estendeu a mão e disse: — Olá. Meu nome é Tara Becksworth, sou enfermeira em um hospital local em Fairfax. Tenho trinta e seis anos, sou divorciada e sem filhos. — Eles apertaram as mãos. — Ah, e eu gosto muito de chocolate. Na verdade, eu amo. Compre-me chocolates, e eu serei sua para o resto da vida. — Ela piscou para Jimmy, e eu o vi piscar de volta. Ele olhou para Dean e depois para mim. — Acho que já estou apaixonado. Comecei a rir. — É muito fácil se apaixonar por Tara. — Olhei para ela, que sorriu para mim. — Então, Jimmy, qual é a sua história? Jimmy olhou para Dean e virou-se para mim mais uma vez. — Meu nome é Jimmy Taylor. Tenho trinta e sete anos e sou... meio que um freelancer. Ergui a sobrancelha. — De quê exatamente? Dean aproximou-se de mim, colocando um braço ao redor da minha cintura. — Por que não procuramos outro bar longe daqui? Não podemos ficar neste beco por muito tempo. Podemos ser pegos. Eu o ignorei. — Freelancer de quê, Jimmy? Dean suspirou. — Olha, Jimmy às vezes faz alguns trabalhos para mim. Olhei para ele. — Tipo o quê? Ele balançou a cabeça. — Você não vai querer saber. Balancei o dedo para ele. — Nada disso. Eu quero saber. Preciso saber. Dean suspirou novamente e passou os dedos por seu cabelo. — Às vezes ele recolhe dinheiro de pessoas. Bufei. — E também faz o resto, eu suponho... — Seu silêncio me disse tudo. — Então ele é como um caçador de recompensas? Alguém que não se importa em sujar as mãos quando é preciso? — Tara olhou para Jimmy cheia de expectativa. — Tara, você não pode perguntar isso a ele. Ela olhou para mim de forma inquiridora. — Por que não? Não precisamos embelezar as coisas. Não sou inocente. Dei de ombros. Ela provavelmente estava certa. Ela olhou para Jimmy, que sorriu: — Acho que posso responder que sim.


Os olhos de Tara se estreitaram, como se ela estivesse excitada. — Mmmm... isso é meio que sexy. Jimmy sorriu, e meus olhos se arregalaram. — Tara Becksworth, qual é o seu problema? Tara sorriu para mim. — Acho que pode ter sido o rum. Ou pode ser Jimmy Taylor. Com certeza um dos dois. Ou talvez ambos. Balancei a cabeça. — Meu Deus, é como assistir duas pessoas fazerem sexo ainda vestidas. Tara balançou seu dedo em minha direção: — Não se faça de santinha comigo, Senhorita “Eu deixei um desconhecido entrar em meu apartamento por anos”. Jimmy riu. — Acho que ela te pegou. Dei de ombros. Acho que ela tinha mesmo me pegado. Ainda me sentia constrangida por isso. Meu rosto corou com a vergonha. — Não dê bola para eles, Rosadinha. Estou aqui. — Dean passou um braço ao redor dos meus ombros e beijou minha cabeça. — Ah, estamos só brincando. — Jimmy protestou. Então deu uma boa olhada no local onde estávamos. — Você está certo, aliás. Não acho uma boa ideia ficarmos aqui. Vamos pegar um táxi? Meu estômago subitamente revirou. — Não acho que seja uma boa ideia. Eu deveria ir para casa. Tara olhou para mim. — Por quê? Olhei para Dean rapidamente. — Não quero ficar na rua muito tempo. — Voltei meus olhos para Dean, e acho que ele compreendeu a mensagem. — Ok, já entendi. — Ela se aproximou e me abraçou. Sussurrando em meu ouvido, disse: — Não se esqueça de seguir seu coração. — Tara se afastou, olhando para mim, e eu sorri. Então, virou-se e aproximou-se de Jimmy, enganchando seu braço no dele. — Jimmy, eu conheço um barzinho bem legal perto da minha casa. Quer tomar um drinque comigo? Jimmy sorriu para ela. — Como posso recusar um convite desse? Ele olhou para Dean, e Dean assentiu, antes de falar: — Vou levar Tyler para casa em segurança. Tara olhou para mim, como se perguntasse se estava tudo bem. Assenti. — Foi um prazer te conhecer, Dean. Cuide dela para mim. Ela é preciosa. Dean sorriu. — Não precisa me dizer isso. Tara sorriu e puxou o braço de Jimmy para que ele a seguisse. Logo eles desapareceram, deixando eu e Dean sozinhos no beco. Subitamente me senti sufocada. — Preciso ir para casa. Dean colocou-se de frente para mim. — Espere. Preciso falar com você.


Suspirei. — O que mais temos a dizer? Pensei que já tínhamos deixado tudo claro. Você não é mais a pessoa que conheci. — De repente compreendi, mais do que nunca. Eu não era idiota para não perceber que Dean era um homem perigoso, mas ouvir o que ele fazia cimentou algo dentro de mim. Precisava pensar em Jeremy, e ele sempre seria minha prioridade. Sua segurança era primordial. — E eu vou continuar lhe dizendo que sou. Meus sentimentos por você nunca mudaram. Era difícil me manter sã perto dele. No exato momento em que ficávamos sozinhos, todo o resto desaparecia. Porém, não podia permitir que entrasse em meu coração. Precisava lutar contra isso. — Ouça, Dean, estou cansada, um pouco bêbada, minha mão está doendo e meus sapatos estão me matando. Preciso ir para casa. Dean pegou minha mão. — Vem cá. Deixe-me dar uma olhada. Puxei-a de volta. — Não, Dean. Eu. Quero. Ir. Para. Casa. — Não podia ficar sozinha com ele. Tudo estava caindo sobre minha cabeça novamente. Sua presença, seu cheiro, seus olhos azuis hipnóticos... Se ele me tocasse só uma vez, eu me renderia. Forcei-me a olhar para ele, e o que vi quase me matou. Dean parecia triste e perdido. Respirando fundo, ele suspirou. — Ok, mas vamos pegar um táxi até a sua casa. Preciso me certificar de que vai chegar em casa em segurança. Não vou aceitar um não como resposta. Assenti, resignada com o fato de que era apenas Dean agindo como sempre. Era sempre muito protetor em relação a mim. Em silêncio, ele chamou um táxi e passamos o caminho inteiro sem dizer uma única palavra. Não era típico de nosso comportamento não dizermos nada, então, era uma situação completamente inquietante e atípica. Assim que estacionamos em frente à minha casa, preparei-me para pagar o táxi, mas Dean me impediu. — Deixa comigo. Entre e descanse. Sorri timidamente para ele e assenti. — Obrigada. Abri a porta do carro e estava prestes a saltar quando ouvi um sussurro atrás de mim. — Eu te amo, Tyler O’Shea. Nunca se esqueça disso. Parei por um momento com os olhos cheios de lágrimas. Não olhei para trás, porque sabia que não conseguiria deixá-lo sozinho. Ao invés disso, saltei do táxi, caminhei em direção a porta e entrei, sem me virar na direção dele. Assim que entrei, encostei-me na porta e deslizei lentamente em direção ao chão.


Capítulo Seis Dean É a capacidade de autoaperfeiçoamento e autorredenção que distingue um homem de um mero brutamontes. Aung San Suu Kyi Observei enquanto Tyler abria a porta e entrava sem nem olhar para trás. Isso me matou. Informei ao taxista o endereço de onde estava hospedado e encostei-me no banco, afundando a cabeça nas mãos. — Noite difícil? Afastei as mãos do rosto e vi um par de olhos me fitando pelo espelho retrovisor. — Sim, mais ou menos isso. — Sempre tem uma mulher assim, não é? Franzi o cenho, sem saber onde ele estava querendo chegar. — O que você quer dizer com isso? Vi seus olhos formarem um sorriso. — Aquela que gruda em você, não importa como. Aquela que nunca sai da sua cabeça, por mais que se passem os anos. Ri silenciosamente, pensando o quanto ele era perceptivo. Estava mais certo do que poderia imaginar. — Você entendeu tudo. — Posso te perguntar uma coisa? Ri. — Pode tentar. — Ela vale a pena? Foi como se meu coração tivesse sido arrancado do peito. Talvez eu nunca compreendesse o quanto ela valia a pena. — Ela definitivamente vale a pena. Merece tudo e muito mais. O taxista deu de ombros. — Então acho que você precisa dizer isso a si mesmo. Erguendo minha sobrancelha, perguntei-me onde ele queria chegar com aquela conversa. — Como assim? Ele olhou para mim através do espelho. — Precisamos lutar pelo que realmente vale a pena. *** O taxista me deixou no hotel, e suas palavras ainda martelavam em minha cabeça. Não fazia ideia de quem diabos ele era, mas algo me dizia que era como uma voz da razão. Alguém que estava destinado a esbarrar comigo para me transmitir uma mensagem que eu precisava ouvir. Quando Tyler saltou do táxi, não soube o que pensar. Senti como se a estivesse


perdendo de novo porque ela parecia muito desolada. Depois da briga, pensei que as coisas iriam mudar entre nós e que teria minha Tyler de volta. Então, algo ficou pesado quando Tara e Jimmy foram embora. Seu ar divertido e expressões suaves de repente se tornaram mais duros. Ela ergueu suas barreiras novamente tão firmes que mal consegui penetrá-las. Só queria saber que merda ela estava pensando. Ela sempre me fascinou quando éramos crianças, mas agora que estávamos crescidos e as coisas tinham mudado, ela me frustrava pra cacete. Eu precisava saber o que ela sentia. Se soubesse que havia uma chance de ela me deixar entrar, eu voltaria à sua casa como um foguete, só para implorar que me aceitasse de volta. Mas obviamente ela precisava de um tempo, e eu queria que percebesse que eu era o tipo de homem que sempre lhe daria qualquer coisa que precisasse. Não seria egoísta a ponto de implorar seu tempo e seu amor, não importava o quanto me matasse não fazer isso. Precisei me esforçar muito para não estender a mão e tocá-la. Tyler era como um ímã para mim, que me atraía como uma força invisível. Era a mesma força que tinha me arrastado até ela de forma tão violenta quando eu tinha oito anos de idade. Nunca diminuiu, nunca cessou. Na verdade, só pareceu se tornar ainda mais poderosa com o tempo. Quando voltei ao hotel, tudo estava silencioso. Obviamente Jimmy ainda estava com Tara, e eu com certeza não deveria esperar que voltasse. Nunca vi Jimmy agir daquela forma com uma mulher. Tara parecia ser uma boa garota. Qualquer um que amasse e protegesse Tyler sempre seria um amigo para mim. Quando abri a geladeira para pegar uma garrafa d’água, percebi que já passavam das duas da manhã. Com certeza tinha sido uma noite e tanto. Pensar nisso me fazia sorrir. Tyler estava pegando fogo. Pensar nela brigando com todos aqueles homens enormes no bar fazia com que meu pau pulsasse. Sempre foi um pouco atrevida, mas nunca a tinha visto em ação daquela forma. Era sexy pra caralho. Não sei como ela podia pensar que eu sequer cogitava a hipótese de me afastar. Nem agora, nem nunca. Precisamos lutar pelo que realmente vale a pena. Entornei uma garrafa d’água garganta abaixo, joguei-a na lixeira e apaguei as luzes, indo direto para a cama. Tyler merecia que eu lutasse por ela, e eu com certeza ainda estava muito longe do último round.


Capítulo Sete Tyler Estava ficando cada vez mais difícil reprimir meus sentimentos por Dean. Era difícil, tão fodidamente complexo, que chegava a me matar por dentro. Eu o desejava tanto que chegava a doer, e isso não podia ser ignorado. Também estava se tornando difícil ficar longe de Jeremy. Sentia tanto a falta dele, mas depois do que aconteceu na noite passada, estava determinada a não expô-lo ao pai. Ele não precisava de um pai como aquele em sua vida, então, precisava protegê-lo. Fechei meus olhos por um segundo, mas logo os abri para me olhar no espelho. Eram sete horas da noite seguinte, e eu já estava me aprontando para minha noite com Evan. Ele iria me buscar dali a uma hora e eu ainda precisava escolher uma roupa. Às vezes era tão fácil escolher algo para vestir, mas, em outras, parecia extremamente difícil. Aquela era uma dessas noites difíceis. Nada em meu armário parecia combinar quando eu experimentava. Estava prestes a mudar outro traje quando ouvi meu telefone tocando. Quando o chequei, vi que era Tara e o atendi o mais rápido que pude. — Tara, onde diabos você esteve? Estou tentando te ligar o dia inteiro. Estava preocupada. — Me desculpa, querida. Estava ocupada com Jimmy, e a bateria do meu celular descarregou. Acabei de chegar em casa e a coloquei para carregar. Estava um pouco irritada, mas logo me acalmei ao saber que ela estava bem. — O que aconteceu depois que vocês saíram? — Ah, meu Deus, Jessica! Eu não sei de onde diabos esse Jimmy surgiu, mas, UAU. Ele é como um sonho realizado. Quando deixamos vocês, pulamos em um táxi e fomos para o Toni, aqui perto. Acho que ficamos lá até quatro da manhã. Tudo que fizemos foi conversar, e foi fácil, sabe? Não precisamos ficar pensando no que diríamos em seguida. A conversa fluiu naturalmente. Ele é doce, divertido e gentil. Em nenhum momento tentou forçar uma situação e nem fez nenhum comentário rude. Foi um perfeito cavalheiro. Ela estava radiante. E era fofo sentir isso. Fez com que minha raiva desaparecesse completamente. — Então, você não transou com ele? — Ah, eu transei com ele, sim. Você não olhou para ele? Puta merda! Nós duas começamos a gargalhar. — Então, eu posso concluir que você se divertiu? — Era uma insinuação, e eu sabia que ela tinha percebido. — Foi o melhor sexo que já fiz na vida. E aquela língua... Coloquei um dedo no ouvido. — La, La, La, La, La, La... Eu a ouvi gargalhar. — Ok, vou parar. Ri. — Obrigada. — Parei por um momento, e disse: — Você vai vê-lo novamente? — Ah, sim — ela ronronou. — Hoje, aliás.


Sorri. — Isso é ótimo. Divirta-se. — Obrigada. Você vai sair com Evan? Suspirei. — Sim. Parece tão difícil, mas não sei exatamente por quê. Tara ficou em silêncio por um momento. — Ter Dean aqui deve estar te confundindo demais. Eu não seria tão dura comigo mesma. Jimmy me contou algumas coisas sobre Dean na noite passada. Apesar de alguns problemas, ele parece ser um cara ótimo. Posso entender completamente o quanto isso deve ser difícil para você. Talvez você deva pedir um tempo para Evan. Fechei meus olhos. — Pode ser. Não sei. — Talvez esta noite te ajude a tomar uma decisão. — Ela fez uma pausa por um momento. — Ouça, não posso dizer o que você deve fazer, mas seja qual for sua decisão, estarei do seu lado. De verdade. Meus olhos ficaram um pouco molhados. — Obrigada, Tara. Isso significa tudo para mim. Você é uma grande amiga. — Eu queria acreditar que podia confiar em Tara, mas era difícil. Eu a amava, mas nunca me entreguei à nossa amizade do fundo do coração. Eu queria muito, mas era difícil demais. — Sei que algumas pessoas te decepcionaram, mas eu nunca farei isso. É uma promessa. E era sempre assim. Ela sabia exatamente o que estava passando pela minha cabeça e traduziu tudo em apenas uma frase. — Obrigada. Te digo o mesmo. Sem hesitar. — Você passou por muitas coisas, Jessica. Precisa ter pessoas ao seu redor em quem possa confiar. Todo mundo precisa. — Ela suspirou. — Sabe, é muito estranho te chamar de Jessica quando todo mundo te chama de Tyler. Você quer que eu te chame de Tyler? Afinal, é o seu verdadeiro nome. Sorri. — Não, tudo bem. Você vem me chamando de Jessica há quatro anos. Seria um hábito difícil de mudar. — Ok. Chequei meu relógio e vi que tinha vinte e cinco minutos para me arrumar. — Ouça, tenho que ir. Evan vai passar aqui para me pegar em menos de meia hora, e eu nem escolhi um vestido ainda. Tara riu. — Ok, garota. Vá lá. Tenho que me arrumar para meu encontro também. Divirta-se e me ligue se precisar de mim. Sei que estarei em um encontro, mas largarei qualquer coisa se você precisar. Tive que sorrir novamente. Eu tinha sorte de tê-la. Não a perturbaria naquela noite, não importava quais fossem as circunstâncias, mas me sentia abençoada por saber que ela estaria disponível para mim a qualquer momento. — Sou uma vadia de sorte por ter você. — Gargalhei no telefone. — Ah, amigos são para essas coisas. Para estarmos juntos até o fim do mundo. Arfei.


— Tara, isso foi muito poético. Estou impressionada e emocionada ao mesmo tempo. — Às vezes é difícil ser eu mesma. Nós duas começamos a rir, então, eu suspirei. — Tenha uma ótima noite, Tara. E peça a Jimmy para tomar conta da minha garota. — Pedirei. Nós duas desligamos o telefone, e depois de avaliar meu guarda-roupa por mais quinze minutos, eu finalmente encontrei algo confortável. Era um vestido longo, preto, com uma fenda em uma das laterais. Parecia chique e sexy ao mesmo tempo. Eu o valorizei com um par de saltos altos, e quando me olhei no espelho suspirei. Meu cabelo estava solto e liso, e minha maquiagem estava suave e clara. Não gostava de me maquiar demais. Estava dando uma olhada na minha bolsa, certificando-me de que tinha guardado tudo, quando ouvi uma buzina lá fora. Dei uma espiada e vi que era Evan. Pegando minhas chaves, apressei-me e saí, encontrando-me com Evan, que estava do lado de fora do carro. Ele olhou para mim de cima a baixo e sorriu. — Você está maravilhosa esta noite, Jessica. Senti minhas faces corarem. — Obrigada. Evan deu a volta no carro. — Está pronta? Assenti, e ele abriu a porta para mim. Parou bem na minha frente e respirou fundo. — Você está muito cheirosa. Inclinou-se para me beijar, e eu imediatamente fiquei rígida. Odiava o fato de Dean ser o responsável por isso. Por que ele tinha sempre que estragar tudo? Então, apesar de meus receios, deixei Evan me beijar. Deixei que sua língua explorasse minha boca e que sua mão deslizasse pelo meu corpo porque não queria estragar aquela noite para ele. Eu sabia que tinha que ceder em algum ponto, mas sentia que era o momento errado. Chegamos ao restaurante pontualmente para nossa reserva de oito e meia. Evan tinha solicitado uma mesa do lado de fora, então, pegamos a única que estava vaga. — Boa noite. Meu nome é Vincenzo e irei atendê-los esta noite. Gostariam de pedir suas bebidas? Evan pediu uma garrafa de Prosecco, porque ele sabia que eu adorava. Foi minha mãe quem me fez aprender a gostar. O garçom não demorou a retornar com o vinho, e nós pedimos nossos pratos. Então, fomos deixados sozinhos. Evan pegou minha mão e a segurou. — Como você está? Ando preocupado com você. Deve estar sentindo falta de Jeremy. Só ouvir o nome dele já fazia com que meu estômago revirasse. — Sim, estou. Penso nele o tempo todo. Evan suspirou. — Não gosto do que ele está fazendo com você. Não gosto que ele te reduza a isso. Odeio essa merda de situação. Meus olhos se arregalaram quando olhei para Evan. Não era comum vê-lo usar palavrões. Pensar nisso me fazia sentir ainda mais culpada. Ele não merecia alguém como eu. — Evan, eu estou bem. Por favor, não se preocupe comigo.


Ele parecia triste. — Mas eu me preocupo. Preocupo-me com você o tempo todo. Penso em você o tempo todo. Tudo que quero é que fiquemos juntos, como uma família. Já quero isso há alguns anos. Acho que você já entendeu isso. Fechei meus olhos e assenti. Eu sabia que ele chegaria a esse ponto, mas não pensei que fosse tão rápido, sem mal ter começado a noite. — Eu sei, Evan. Sei o que sente por mim. Por nós. Só vamos aproveitar a noite sem pensar nisso. Prometo que conversaremos quando chegarmos em casa. Ok? Evan assentiu com a cabeça. — Ok. Nossos pratos chegaram logo em seguida e começamos a conversar de forma leve sobre nosso relacionamento e minhas façanhas com Tara. Não lhe contei o que aconteceu na noite passada. Acho que ele acabaria tendo um ataque do coração. E isso não seria nada bom, considerando que era um cirurgião cardiovascular. A noite foi relaxante, e ele não me pressionou. Eu sabia que isso não duraria muito, mas decidi aproveitar o máximo de tempo possível. Mas só durou até nossos pratos serem retirados da mesa. Estávamos sentados, bebendo nosso vinho, quando cinco homens, que pareciam ter pouco mais de vinte anos, aproximaram-se de nossa mesa. Dois deles seguravam suas guitarras, e todos sorriam, olhando para nós. De repente, um dos caras fez um acorde. — Tenho um pedido especial para Evan esta noite. Eu e Evan nos entreolhamos, como se disséssemos: Que merda é essa?. Mas eu logo descobri do que se tratava quando eles começaram a cantar Steal my Girl, do One Direction. Ah, merda! Duas vezes merda! Eu não podia acreditar em que nível Dean tinha chegado. Durante o tempo todo em que estiveram tocando, tudo o que quis foi esconder minha cara nas mãos. Chocado, Evan só ficava ali, com a boca aberta. Eu mal podia culpá-lo. Dean, seu merdinha! Assim que terminaram, todos no local aplaudiram, e eles foram embora. Eu não sabia o que fazer, então, apenas permaneci sentada, olhando para Evan. Ele parecia confuso, mas dava para perceber que havia algo de errado pela forma como me olhava. — Acho que precisamos ir para casa para termos aquela conversa. Assenti resignada. Nós nos levantamos e pagamos o jantar. Logo estávamos no carro de Evan, dirigindo até minha casa. Não falamos nada durante o caminho, mas eu sabia que Evan estava nervoso. Seus ombros estavam tensos, e ele apertava o maxilar de tempos em tempos. Odiava deixá-lo assim. Assim que estávamos na minha casa, nos dirigimos ao sofá e nos sentamos. Evan suspirou. — Você sabe o que aconteceu hoje à noite, não sabe? — Assenti. — Você precisa me dizer o que está acontecendo. Então, eu contei. Contei o que vinha acontecendo nos últimos dias. Até confessei o beijo que eu e Dean trocamos do lado de fora da minha casa no dia anterior. Dizer que Evan ficou chateado era um eufemismo, mas ele precisava saber. Precisava saber o tipo de mulher com quem vinha namorando há quatro anos. — Não vou te culpar se decidir me odiar, Evan. Eu mesma me odeio.


Evan encostou-se no sofá e coçou o queixo antes de olhar para mim. — Eu nunca poderia odiá-la. Estou chateado por você considerar tão pouco o nosso relacionamento, mas sempre enganei a mim mesmo com isso. Eu estava com você, mas você nunca esteve comigo. Sempre foi uma via de mão única. Para ser honesto, eu sempre soube, mas me agarrei ao fato de que um dia você o esqueceria e aprenderia a amar novamente. Mas nunca vai ser assim, vai? Fechei meus olhos porque eu sabia que precisava confessar a verdade. Ele precisava saber. Então, balancei a cabeça. — Não, Evan. Não vai. Evan suspirou resignado, e seus olhos se encheram de lágrimas. — Foi minha culpa. Eu não deveria ter mantido a esperança de que algum dia teríamos um relacionamento. Acho que amo tanto você que aceitaria qualquer coisa que quisesse me dar. Sei que parece patético, mas é a verdade. Eu me sentia enojada. Odiava ter que colocá-lo naquela situação. Odiava saber que estava partindo seu coração. Principalmente, odiava a mim mesma mais do que nunca. — Me desculpe. — Era tudo que podia lhe oferecer naquele momento. Não iria começar com aquela bobagem de que ele iria conhecer alguém melhor do que eu, et Cetera, et Cetera. Isso só adicionaria sal às suas feridas. Evan inclinou-se e pegou minha mão. — Não se desculpe. Você nunca me prometeu nada, Jessica. Sempre foi sincera a respeito de seus sentimentos por mim. Eu só deixei que as coisas durassem mais do que deveriam ter durado. Peguei sua mão. — Você vai ficar bem? Evan sorriu. — Vou ficar, sim. Eu conserto corações, esqueceu? Só lamento nunca ter conseguido consertar o seu. — Uma lágrima deslizou por meu rosto e Evan a secou. — Agora a pergunta é: você vai ficar bem? Assenti com um sorriso. — Você me conhece. Sempre estou bem. Evan bufou com uma risadinha. — Veja bem, esse é o seu problema. Você está sempre somente bem. Ninguém deveria se contentar com estar bem. Você precisa estar radiante. Até se sentir assim, vai se sentir apenas bem para o resto da vida. Sorri para Evan enquanto mais uma lágrima deslizava pelo meu rosto. — Você é o homem mais maravilhoso que já conheci, Evan. Ele riu. — Espero que alguém perceba isso algum dia. Já sei que não vai ser você. Puxei Evan para um último abraço. Eu sabia que era um adeus. Nunca quis que terminasse assim, mas era o melhor a fazer. Evan estava apenas perdendo tempo comigo, quando poderia estar procurando pela mulher certa. A mulher que seria maravilhosa para ele. Qualquer mulher teria sorte em tê-lo. Só que essa mulher não seria eu. Nunca poderia ser. Evan me afastou e se levantou, enquanto segurava minha mão. — Por favor, cuide-se. E isso aqui — ele colocou a mão no meu coração — é precioso, você só tem um. — Ele riu de sua própria piada e foi em direção a porta.


Assim que Evan saiu da casa, inclinei-me e depositei um beijo em seus lábios. Ele o prolongou, mas eu me afastei, não querendo dificultar as coisas mais ainda. — Eu te amo, Evan. Lá estava. Finalmente disse as palavras, e elas eram verdadeiras. Eu realmente o amava. Sempre o amei. Só não conseguia amá-lo como ele queria ser amado. Mas precisava que ele soubesse. Precisava que percebesse que eu realmente o amava pela pessoa que era. Evan piscou por entre suas lágrimas e sorriu enquanto beijava minha mão. — Eu também te amo. Então, ele se virou e caminhou em direção ao carro. Observei enquanto ia embora, e em seguida fechei a porta atrás de mim.


Capítulo Oito Dean A redenção vem para aqueles que esperam. Perdoar é a chave para ela. Tom Petty. Eu lamentava pelo pobre babaca. Qualquer um que tivesse algum contato com Tyler acabaria naturalmente se apaixonando por ela. Era assim que ela era. Odiava o que eu estava fazendo, mas nunca disse que iria jogar limpo. Avisei Tyler que iria lutar por ela a qualquer custo. Sentia-me mal por ter que partir o coração de Evan, mas ela nunca lhe pertenceu, na verdade. Ninguém nunca a amaria ou cuidaria dela como eu. Ela precisava entender isso. Esperei nas sombras por cinco minutos depois que Evan partiu. Queria dar a Tyler um pouco de tempo para se acalmar, depois de tudo pelo que ela deve ter passado. As coisas não tinham acontecido da forma como planejei. Não era uma brincadeira de criança. Envolvia corações e mentes de pessoas. Eu não era uma pessoa ruim. Só não conseguia jogar limpo quando envolvia minha Tyler. Bati na porta e não precisei esperar muito para que ela atendesse. Parecia triste e um pouco resignada com alguma coisa, mas eu não sabia o que era. Seria o final de um relacionamento ou o começo de outro? Esperava que fossem as duas coisas, mas não ia tirar conclusões apressadas. Se ela me quisesse em seu coração, eu teria que lhe contar meu segredo. Nunca poderíamos seguir em frente se não fizesse isso. Não queria carregar esse fardo em meus ombros pelo resto da minha vida. Precisava exorcizar minha culpa. Precisava que ela deixasse tudo para trás e me aceitasse em seus braços como o Dean que fui um dia, que era agora e que seria no futuro. Eu tinha que ser honesto e dizer a verdade para ela. Somente assim conseguiríamos seguir adiante. — Espero que esteja feliz consigo mesmo. Ela parecia um pouco irritada enquanto se afastava da porta e caminhava na direção da sala de estar. Também estava absolutamente linda com seus cabelos longos e esvoaçantes, usando aquele vestido preto com uma fenda na perna. O que eu não daria para deslizar minha mão por sua coxa naquele momento e possuí-la exatamente como ela gostava? Eu podia ser gentil ou selvagem, era só ela pedir. Seu prazer sempre foi o meu. Fechei a porta e a segui até a sala. — Para ser honesto com você, Tyler, não me diverti com o que aconteceu aqui. Evan parece ser um bom homem e me sinto mal por ele. Não planejei magoá-lo intencionalmente, mas você tem que ser honesta consigo mesma e comigo. Você o amava? Tyler suspirou e se sentou no sofá. — Não. Não da forma como ele gostaria. Suspirei aliviado e me sentei ao lado dela. — Vai ser difícil para ele por um tempo. Porra, eu bem sei como é. Mas ele vai superar e vai seguir em frente, mas eu nunca vou superar e nem seguir em frente, e essa é a grande diferença, Tyler. Você enxerga isso? Ela assentiu e fechou os olhos. — Não posso esconder o que sinto por você, Dean. Acho que você sabe que sempre


esteve em meu coração... Eu a interrompi. — Por que será que sinto que haverá um “mas” em sua próxima frase? — Ela olhou para mim com timidez, e eu suspirei. — Tyler, o que está te fazendo hesitar? Por favor, me diga, e vou resolver. Farei qualquer coisa que me pedir. Só preciso que me diga para que eu saiba o que devo fazer. Ela ergueu os olhos para mim por um momento, e imediatamente me senti perdido neles. Nunca me cansava de observá-los. Se a eternidade estivesse em algum lugar dentro deles, eu mergulharia de cabeça. — Não sei como confiar em você novamente. Não sei como confiar em ninguém depois do que você fez. Tudo isso me afetou de tal forma que ainda não consegui me curar, e nem sei se vou conseguir algum dia. Aproximei-me dela e peguei sua mão. — Tyler, eu sei que preciso me esforçar muito para conquistar sua confiança novamente. Sei que estraguei tudo da pior forma possível, mas estou determinado a consertar tudo. Você pelo menos acredita que não estou aqui para te machucar? Que estou aqui porque te quero de volta? Ela assentiu. — Sim, acredito nisso. Apertei sua mão. — Então, me deixe entrar e vou te mostrar o quanto será bom se deixar levar. Vou te mostrar que me amar é a melhor coisa do mundo. Vou te mostrar o quanto posso te fazer sentir venerada. Você está aqui — ergui minha mão bem alto — e eu estou bem abaixo — coloquei minha mão em uma altura bem mais baixa. — Sempre vai ser assim, e você sabe por quê? — Ela balançou a cabeça. — Porque só a sua presença já me coloca de joelhos. Sempre será assim, porque eu venero o chão onde você pisa e cada passo que dá. Ela sorriu para mim de forma divertida. — Você tirou isso de uma certa letra de música? Sorri, me lembrando da noite de Halloween, quando toquei Every Breath You Take, do The Police, para ela. Eu não tinha a intenção de dizer aquelas palavras. Elas simplesmente saíram. — Não. Não estou copiando letras de música. Isso já acabou, Tyler. Lotus nunca mais vai voltar. Vi um vislumbre de desapontamento em seus olhos. Isso me surpreendeu. Talvez ela sentisse falta de Lotus, o cara que entrava em seu quarto sorrateiramente à noite. O desapontamento desapareceu e foi substituído por um olhar de reprovação. — One Direction? Sério? Comecei a rir. — Não sou fã de boy bands, mas acho que dá para você entender o porquê de eu gostar daquela em particular. Parece que a letra da música foi feita para mim. Você pertence a mim, Tyler, simples assim. Há muitas outras garotas por aí para tipos como Evan, mas esta aqui na minha frente — coloquei a mão em seu rosto — sempre será minha. Não há ninguém para mim, Tyler. Só você. Sempre foi você. Tyler fechou os olhos e inclinou a cabeça em direção ao meu toque. Sua respiração ficou mais pesada quando beijou minha mão e esfregou seu rosto nela. Meu pau instantaneamente enrijeceu dentro da minha cueca. Eu queria muito estar dentro de seu corpo. Precisava fazer amor


com ela. Precisava fazer com que soubesse que ser amada por mim era tudo que ela queria e necessitava. Tinha meu amor e a mim. Por inteiro. Mas da mesma forma que o momento começou, desapareceu. Tyler pareceu ser expulsa dele, pois seus olhos se arregalaram, e ela se afastou. — Você é perigoso, Dean. Traz o perigo com você. Como posso acreditar que sempre estaremos seguros? Eu sabia que isso era um problema para ela. Tornava-se óbvio pela maneira como seu humor mudara rapidamente no momento em que Jimmy revelou nossa relação de trabalho. — Estou desistindo. Vou desistir de tudo e me mudar para cá com você. Estarei onde você quiser que eu esteja. Na verdade, já tenho um negócio legítimo em Miami. Posso expandi-lo e comprar um escritório por aqui. Você poderia me ajudar a tocá-lo, se quiser. Ela sorriu e balançou a cabeça. — Sou professora de jardim de infância. Já faz três anos. Agora não estou trabalhando porque estamos nas férias de verão. Sorri, e meu coração se encheu de orgulho. — Você sempre quis ser professora. Ela assentiu, mas logo franziu o cenho. — O que aconteceu com o London Daily? — Vendi. Acho que não havia nenhuma razão para mantê-lo depois que você foi embora. Você sempre foi a razão de eu tê-lo comprado. Eu tinha a maior parte das ações. Então, ofereci minha parte aos meus dois sócios, que aceitaram. A mansão também já foi vendida. Deixei Humphrey cuidando de tudo. Ele sempre gostou de ser o cara mau. — Ri um pouco pensando nele. Não ligava para Humphrey há uns dois dias. Precisava remediar isso. — Humphrey é seu tio, não é? Aquele que recebeu o nome por causa de Bogart? — Assenti. — Ele estava lá na noite em que fui até a mansão? Assenti novamente. — Sim. Foi ele que atendeu a porta. É aquele que se parece com Terry-Thomas, com seu bigode pontudo. Vi que ela se lembrou e depois sorriu. — Gostaria de tê-lo conhecido apropriadamente. Novamente me senti mal. Sempre me sentia assim quando me lembrava do passado e do que tinha feito a ela. — Você poderá conhecê-lo apropriadamente. Quero que o conheça. É um cara legal. O problema é que tem sangue Scozzari correndo em suas veias. Gosta de viver a vida a qual foi acostumado. Mas eu? Só fiz o que fiz porque fui estúpido. Deixei minha cabeça comandar tudo, porque pensei, por um segundo idiota, que você tinha me decepcionado. Como poderei consertar tudo está além da minha compreensão, mas tenha certeza que vou tentar. Vou continuar tentando e tentando, até que um dia você vai ficar tão farta de mim que vai acabar desistindo. Não posso te perder, Tyler. Farei o que for preciso. Se quiser que eu desista da minha vida de antes, farei isso. Desistirei de tudo, porque você é a única coisa que importa. Só me diga o que preciso fazer. Você tem meu futuro em suas mãos, porque meu futuro é seu. Aproximando-me de Tyler, coloquei um dedo sob seu queixo. Ela olhou em meus olhos, e, naquele momento, quis beijá-la desesperadamente. — Eu te amo, Tyler. Sempre te amei. Só me diga o que quer. Diga o que preciso fazer.


Ela respirou fundo, colocando uma mão em meu braço. — Beije-me. Eu quero e preciso que me beije. Não hesitei. Dei o que queria e o que precisava de mim, porque era o que eu também queria e precisava. Era como se fôssemos o ar um do outro. Eu mal conseguia respirar sem ela. Criando uma trilha por seu lábio, mordisquei-o antes de deslizar minha língua para dentro. Tyler gemeu, o que fez com que meu pau ficasse rígido dentro da cueca novamente. Ele buscava o calor que ela oferecia, sua umidade, e a carne macia e rosada que o envolveria. Eu precisava dela. Ansiava por ela. Tudo parecia ficar pálido e insignificante sempre que estávamos juntos. Tyler pegou minha mão e colocou-a em seus seios. Apertei-os um pouco e esfreguei meu polegar em seu mamilo. Ela gemeu novamente. — Preciso que você me foda. Não me importa como, contanto que te sinta dentro de mim. Quero você, Dean. Sempre quis. — Ela respirou profundamente dentro da minha boca, e eu a capturei, tentando prová-la. Precisava dela agora. Mas não importava o quanto essa necessidade me tomasse, precisava lhe contar algo primeiro. Só assim poderia começar a me redimir. Só assim poderia seguir em frente e implorar por seu perdão. Só assim poderia começar a esperar que tivéssemos um futuro juntos. Então, eu a afastei. Deixei-a ofegante e cheia de lascívia, porque precisava confessar meus pecados primeiro. — Tyler, preciso te contar uma coisa antes. Ela aproximou-se para me beijar novamente. — Depois. Preciso de você primeiro. Ela colocou uma mão na minha nuca e tentou me puxar para ela, mas eu agarrei seu braço e a afastei. Odiava ter que fazer isso. Normalmente eu nunca a rejeitaria. Mas precisava que ela soubesse, antes que pudéssemos seguir em frente. — Não podemos esperar. Tem que ser agora, Tyler. É importante. Ela suspirou, mas deu um passo para trás. — Ok. O que é? Fechei meus olhos bem fechados, odiando o que estava prestes a fazer. Mas ela precisava saber. Tinha que saber que tipo de monstro eu tinha me tornado. — Quando eu estava arquitetando minha vingança contra você, descobri uma coisa. — Fiz uma pausa por um momento, enquanto a observava, olhando para mim, com uma expressão confusa no rosto. — Descobri sobre Jeremy. — Hesitei antes de lhe contar a verdade, que eu sabia que iria magoá-la novamente. — Fui eu que mandei aqueles repórteres. Fui eu que fiz com que acreditasse que tinha sido você a contar sobre ele. Fui eu, e nem sei como explicar o quanto estou arrependido. Tyler levantou-se. — Você o matou! — Ela olhou para mim com uma tempestade em seus olhos. Encolhi-me novamente. — Sei disso. Mas eu precisava te contar, Tyler. Você precisava saber. Preciso que confie em mim novamente, e a única maneira de fazer isso acontecer é te dizendo a verdade. — A verdade? — Ela gritou as palavras tão alto que soaram como um guincho. Estava desolada. E eu era o culpado novamente. — A verdade? Você acha que pode me contar algo assim e tudo vai ficar bem? Eu estava te aceitando novamente. — Ela balançou a cabeça em


desalento. — Não posso acreditar que estava realmente te aceitando em meu coração só para que você o partisse outra vez. Como pôde, Dean? Como pôde ter feito isso com ele? Ele só tinha dezesseis anos quando morreu. Um menino! — Ela começou a chorar, e eu me levantei para confortá-la. — Não. Fique longe de mim. Não quero que chegue perto. Está me ouvindo? Fique longe. — Ela olhou para mim com maldade nos olhos. — Você é um veneno, Dean. Tudo que vem de você é venenoso. Saia daqui. Nunca mais quero te ver. — Não me mexi por um segundo. Não conseguia. — Saia... daqui! Eu não queria ir, mas sabia que não havia sentido em ficar. Ela estava brava comigo, mas como culpá-la? Não havia nenhuma maneira de consertar isso agora. Feridas recentes precisavam de um tempo para serem curadas, e era isso que eu precisava dar a ela. Ao me virar, fui em direção a porta e girei a maçaneta. Ao pisar lá fora, virei-me e a vi, desolada. — Me desculpe, Tyler. Eu precisava te contar para que você soubesse o quão arrependido eu estou. De verdade. Não posso mudar o que aconteceu, mas quero que saiba que jamais irei me perdoar. — Fechei meus olhos por um momento, antes de também fechar a porta. Eu não tinha nem uma porra de uma ideia do que iria acontecer conosco, mas ela precisava saber. Só esperava que ela encontrasse uma forma de me perdoar.


Capítulo Nove Tyler Lá estava eu, exatamente no mesmo ponto onde estive quatro anos atrás. Aquelas feridas que mal tinham começado a serem curadas estavam sendo dilaceradas novamente. Assim que Dean saiu, eu fui para a cama e chorei até dormir pelo menino que pensei que tinha ferido da pior maneira possível, quando, na verdade, fora Dean quem o magoara. Durante todo aquele tempo, tinha sido Dean. No dia seguinte, tomei um banho e entrei na Internet para comprar uma passagem. Então, coloquei algumas coisas em uma mala. Assim que terminei, liguei para minha mãe. — Tyler, como você está? Suspirei. — Gostaria de dizer que estou bem, mas seria uma mentira. Como está Jeremy? — Está bem. Está ficando mais forte a cada dia. Hoje de manhã o peguei pulando na cama e comendo Twiglets. Acho que sua energia voltou com toda força. — Ela riu um pouco, mas parou abruptamente. — Preciso te contar uma coisa, Tyler. Ontem descobri que Dean está hospedado no mesmo hotel que nós. Descemos para comprar algo para beber e o vimos sair. Foi o suficiente para fazer com que corrêssemos para o quarto. Desde então estamos aqui dentro. Imediatamente me senti mal por fazê-los ficarem prisioneiros, mas estava determinada a acabar com tudo isso e fazer com que Dean parasse. — Sinto muito por tudo, mãe, mas vou me esforçar para que acabe logo. Acho que Dean não será mais um problema. — Suspirei. — Sei que já estou pedindo muito, mas posso pedir mais um favor? — É claro, querida. Qualquer coisa. — Ouvi um tom de preocupação em sua voz. — Vocês podem tomar conta de Jeremy por mais alguns dias? Preciso visitar uma pessoa que não vejo há algum tempo. — É claro, Tyler. O tempo que precisar. Jeremy está bem conosco. Prometo. Uma única lágrima deslizou pelo meu rosto. — Sinto muita falta dele. — Sei que sente, e ele também sente a sua. Mas você precisa fazer isso, Tyler. Seja lá o que for, você precisa. Faça e acabe com tudo. Só assim você e Jeremy poderão seguir em frente. Sorri. — Obrigada, mãe. Eu te amo. — Eu também te amo. Quer falar com Jeremy? O maior sorriso de todos surgiu no meu rosto. — Adoraria. *** Pousei às sete horas da manhã seguinte e fui direto ao endereço que tinha em mente. Nem me preocupei em passar antes no hotel. Só ficaria até o dia seguinte, então, carregava uma bagagem pequena. Além disso, não tinha muito tempo. Voei a noite inteira, precisava de um cochilo,


mas tinha coisas a fazer primeiro. Tinha planos de ir a um lugar específico depois, então, tempo era essencial. Saindo do táxi, paguei ao motorista e cruzei a pequena distância até a porta. Fazia anos que não visitava este lugar, então, tudo parecia surreal para mim naquele momento. Não sabia qual reação receberia assim que a porta fosse aberta, mas precisava pedir desculpas. Era o mínimo que podia fazer. Toquei a campainha e esperei. Não ouvi nada a princípio e quase pensei que não houvesse ninguém em casa. Toquei novamente e ouvi a voz dela: — Ok, ok. Estou indo! Comecei a rir e só parei quando abriu a porta. E ela ficou lá parada, boquiaberta, olhando para mim. — Oi, Louisa. — Era tudo o que eu conseguia dizer naquele momento. — Tyler? — Assenti enquanto vi lágrimas em seus olhos. — Tyler, é você mesmo? Porque se não for, é uma piada de muito mau gosto. — A lágrima deslizou por seu rosto. Tudo que eu queria era poder secá-la. Era uma péssima amiga. — Não é uma piada. Sou eu mesma. Quando ela absorveu a verdade, aproximou-se e se jogou em meus braços. Chorou em meu ombro antes de me afastar para olhar para mim. — Pensei que estava morta. Todo mundo pensou isso. Olhei para ela com constrangimento. — Eu sei. Tenho algumas explicações a dar, Louisa. Preciso que saiba da história toda. Ela assentiu. — Entre. Vou colocar a chaleira no fogo. Suspirei aliviada, entrei e fechei a porta atrás de mim. Seu apartamento estava do jeito que eu me lembrava, apenas algumas fotografias tinham sido adicionadas à parede. Duas delas eram de Louisa comigo, em uma festa de confraternização de Natal do trabalho, alguns anos atrás, mas algumas eram novas, com um homem que eu nunca tinha visto antes. — Este é Thomas. Vamos nos casar em Agosto. Eu o conheci cinco meses depois de... Ela fez uma pausa por um minuto, e eu assenti. Caminhamos por sua sala de estar, e eu vi algumas caixas empilhadas. — Vou me mudar assim que nos casarmos. Compramos uma casa juntos um pouco distante de Londres. Louisa afastou-se para pegar o chá, e eu me sentei. Assim que ela voltou, me entregou uma caneca e sentou-se de frente para mim. — Basicamente você já sabe o que aconteceu comigo, mas o que aconteceu com você? Suspirei e comecei a contar minha história. Eu sabia que ia levar um tempo para contar tudo, mas ela me deixou falar, só me interrompendo quando percebeu que o nome misterioso de meu amante era Dean. A única parte que não mencionei foi que Dean tinha matado Ian. Não havia contado a ninguém o que tinha acontecido naquela noite. Todos — incluindo meus pais — achavam que ele tinha fugido depois de me atacar. — Oh, Tyler. Sinto muito mesmo pelo que aconteceu com você. Queria ter sabido. Queria que tivesse entrado em contato comigo. Assenti. — Eu sei. E eu quis, muitas vezes. Na verdade, peguei o telefone e quase disquei o


seu número algumas vezes, mas eu sabia que Dean acabaria me encontrando assim. Eu sabia que Dean iria descobrir sobre nosso filho. Precisava manter Jeremy a salvo a qualquer custo. Louisa sorriu, assentindo. Ela parecia ainda mais deslumbrante do que há quatro anos. Seu cabelo estava mais longo, e ela tinha ganhado alguns quilos, mas, apesar disso, era a mesma mulher. — Entendo por que fez isso. Inclinei-me e peguei sua mão. — Me desculpa por ter feito isso com você. Nunca me perdoei por ter te deixado de lado, sem saber o que estava acontecendo. Vim aqui porque queria te ver, mas também porque precisava dizer o quanto estou arrependida. Não sei se vai me perdoar algum dia, mas precisava vir e ver se seria possível. Louisa apertou minha mão com um sorriso. — Não vou amenizar as coisas, Tyler. Eu sofri quando você partiu. Pensei que tinha perdido minha melhor amiga. Mas, ao mesmo tempo, entendo por que você fez o que fez. Você é mãe agora, e seu filho sempre será prioridade acima de tudo e todos. — Ela sorriu e soltou minha mão. — Você tem uma foto de Jeremy? Gostaria de vê-lo. — Assenti, abrindo minha bolsa e pegando uma foto que sempre levava comigo. — Ele tem o seu cabelo. Ri. — Eu sei. É a única coisa que herdou de mim. Ela olhou para a fotografia, com uma expressão sonhadora no rosto. — Ele é muito lindo. O pai deve ser um espetáculo. — Ela piscou e me devolveu a foto. Ri. — Ele é. Sempre soube como me enfeitiçar. — Sorri, mas um sorriso triste. Ainda sentia falta dele, não importava o que tinha feito. Mas estava irritada ainda. Muito, muito irritada. — Então, onde você está trabalhando agora? — perguntei para mudar de assunto. Louisa revirou os olhos. — Ainda estou no Daily. Temos um novo chefe agora, mas ele parece legal. Melhor do que Andrew Walker. — Seus olhos se arregalaram. — Me desculpe. Mal posso acreditar que ele e Dean eram a mesma pessoa. Como eu poderia perceber? Nem mesmo Ian notou. Balancei a cabeça, como se eu mesma não conseguisse entender. — É claro que ele contratou um ótimo maquiador, porque eu nunca o reconheci até visitá-lo em seu escritório naquela noite, depois que todo mundo foi embora. Ian com certeza também não sabia de nada, porque nunca me disse. — Encolhi-me um pouco, pensando nele. — Sempre achei que havia algo de errado com Ian, sabe? — Olhei para ela, surpresa com seu comentário. — Às vezes eu o via olhando para você de uma forma que um melhor amigo nunca deveria olhar para uma amiga. Eu sabia que ele era apaixonado por você, mas não fazia ideia do nível desse amor. Gostaria de ter te avisado. Talvez as coisas tivessem sido diferentes. Não sei. Acho que pensei que ele diria quando encontrasse o momento certo. Só não pensei que acabaria te atacando. Ri de forma sarcástica e balancei a cabeça. — Ele me surpreendeu mais do que poderia imaginar, mas não acho que se você tivesse me dito, as coisas seriam diferentes, então, por favor, não se martirize por isso. — Tomei um gole do meu chá e coloquei a caneca novamente no porta copos. — Espero que possamos reconstruir nossa amizade novamente, Louisa. Seria muito importante para mim se conseguíssemos.


Espero que, com o tempo, você possa me perdoar e que aprenda a confiar em mim novamente. Louisa suspirou e olhou para mim por um momento. Então, curvou um dos cantos de seus lábios em um sorriso. — Eu vou te perdoar, mas só com uma condição. Inclinei-me. — É só dizer. Louisa inclinou-se para frente também. — Que você venha ao meu casamento em Agosto. Ri e assenti, pensando que era o mínimo que eu poderia fazer. Isso significaria ter que voltar ao mesmo lugar do qual fugi anos atrás, mas eu não poderia dizer não. Não importava o preço. — Eu não o perderia por nada nesse mundo. *** Fiquei com ela por mais uma hora e passei para Louisa os detalhes de onde estava morando agora. Trocamos abraços e choro, e ela disse que ficaria em contato para me falar do casamento. Depois de lhe dizer que eles eram bem-vindos para me visitar a qualquer hora, fui embora e me dirigi ao hotel para aquele cochilo mais do que necessário. Acordei por volta das quatro da tarde e me aprontei para minha próxima visita. Coloquei uma saia na altura dos joelhos, uma blusa e saltos altos. Pensava que já que tinha que encontrá-lo, precisava ao menos me esforçar. Pedi que a recepção do hotel chamasse um táxi para mim, que chegou dez minutos depois. O caminho foi rápido, apesar de ainda ser horário escolar. O dia estava nublado, exatamente como meu humor. Prometi a mim mesma, antes de chegar ao local, que não iria chorar. Não iria me sentir despedaçada. Estava apenas visitando um amigo. Um amigo muito querido e íntimo, que era como um irmão para mim. — São quinze libras, docinho. — O motorista do táxi virou-se e olhou para mim. — Trouxe um guarda-chuva? Parece que vai chover. Balancei a cabeça e lhe entreguei uma nota de vinte. — Não, mas ficarei bem. Fique com o troco. Ele assentiu, agradeceu e me sorriu com gentileza. Acho que ele sabia que eu não estava indo ao cemitério apenas para passear. Saltei do táxi e ele deu a partida, me deixando do lado de fora dos portões. O local estava exatamente como quando o vi pela última vez. O dia em que meu coração foi partido em dois. Caminhei por uns dois minutos em direção ao local onde Jeremy repousava. Enquanto me aproximava, vi algumas flores pousadas gentilmente no túmulo. Ainda pareciam frescas, então, fiquei feliz em saber que alguém o visitava. Enquanto eu me ajoelhava em frente à sua sepultura, peguei um bilhete que estava bem ao lado dela. A chuva começava a cair, pingando no papel que eu agora tinha em mãos. Gostaria de ter te conhecido. J. Sorri, sabendo que deveria ser de Julie. Era bom saber que ao menos ela o estava visitando sempre que podia. Enquanto pensava nisso, me sentava no chão. Meus joelhos ficaram sujos e meu cabelo estava ficando cada vez mais molhado, mas eu não me importava. Naquele momento, meu mundo pareceu desabar ao meu redor. A culpa me inundava como uma torneira sem fim, ameaçando me


afogar em seu caminho. — Jeremy, me desculpe. — As palavras ficaram presas, formando um caroço do tamanho de uma bola de golfe na minha garganta. Não importava o quanto eu tentasse segurar as lágrimas, elas continuavam surgindo e surgindo, e com elas veio um dilúvio de culpa por tê-lo deixado. — Sinto como se o tivesse decepcionado e sei que poderia tê-lo protegido mais. Eu deveria tê-lo protegido mais. Mas o abandonei. Por quatro anos. Não vim visitá-lo e, por causa disso, me sinto uma merda. Não sei se você irá me perdoar algum dia, mas precisei ir embora. Espero que me compreenda do fundo do coração. Respirei fundo enquanto soluços causavam estragos em meu peito. Eu só precisava colocar para fora. Se houvesse vida após a morte, e se Jeremy estivesse próximo a mim naquele momento, eu tinha que fazer com que soubesse o quanto era importante para mim. — Deus, eu sinto tanto a sua falta. Enquanto lágrimas deslizavam sem parar pelo meu rosto, passei a mão por seu nome gravado no túmulo. Pensei que já tinha superado, mas ir ao cemitério só fez com que tudo viesse à tona novamente. O tempo podia ter passado, mas as feridas ainda doíam tanto quanto antes. — Amo você mais do que possa imaginar. Sinto muito por nunca ter lhe dito isso antes de sua morte. Me desculpe por não ter me esforçado mais para te ajudar. Eu... Eu... — Eu nem conseguia colocar as palavras para fora. As lágrimas vinham em cascata e com elas veio um soluço de partir o coração que não poderia ter saído da minha boca, mas saiu. Encolhi-me ainda mais e chorei. Tudo que eu podia fazer era segurar minha cabeça e lamentar a perda de um rapaz maravilhoso, que roubou meu coração quatro anos atrás. Durante o meu descontrole, senti uma jaqueta ser colocada ao redor dos meus ombros, e então um par de braços me cercaram. Por um momento, fiquei ali sentada, sentindo seu cheiro suave. Deixei que me confortasse, porque uma parte doentia de mim queria aceitá-lo novamente. Eu queria que me consolasse. Queria seu amor. Então, tudo ficou claro e a raiva veio à tona. Meu corpo inteiro começou a tremer, e quanto mais eu tremia, mais os braços de Dean se apertavam ao meu redor. Mas não importava o quanto eu desejava aquele conforto, nada disso poderia mudar o que ele fez. Nenhuma quantidade de amor que me oferecesse poderia compensar sua traição. Balançando a cabeça, empurrei-o para fazer com que me soltasse. Ele o fez, e imediatamente eu me levantei para encará-lo. Parecia despedaçado e tão magoado quanto eu estava, mas não podia deixá-lo se aproximar. Estava muito irritada. Mas instantaneamente me arrependi das primeiras palavras que saíram da minha boca em seguida. — Era você quem deveria estar ali, não Jeremy! Jeremy não fez nada contra você. Era um garoto doce e inocente, que não merecia sua ira. — Eu me encolhi, sentindo a culpa me inundar, mas o ódio era ainda mais forte. Minha raiva em relação a Dean estava vencendo. Dean aproximou-se de mim, mas eu ergui minhas mãos. Ele parou, parecendo triste, com a boca aberta, pronto para falar. — Eu sei, Tyler. Eu sei. Sou o pior filho da puta do universo. Deveria mesmo ser eu naquela sepultura. Concordo com você de todo o coração. Nunca vou me perdoar pelo que fiz. — Ele deu mais um passo à frente, mas eu recuei novamente. — Não se aproxime. Eu te odeio, Dean. Odeio o que fez, odeio o que você se tornou e odeio o que está fazendo comigo agora. Por que veio aqui? Por que não pode me deixar em paz? — Solucei novamente, sentindo o gosto da mistura da chuva e das lágrimas na minha boca. Eu não queria me humilhar dessa forma, mas ele novamente tinha vencido. Meus sentimentos


estavam uma completa bagunça, e tudo por causa de um garotinho perdido que eu amava de todo coração. Meu Dean. Meu tudo. — Eu te amo, Tyler. Sempre amei e sempre vou amar. Não posso te esquecer, porque você é a única pessoa que pode levar oxigênio aos meus pulmões, ao meu sangue e ao meu coração, além de pensamentos ao meu cérebro. Eu vivo por você, Tyler. Não consegue ver isso? Você está destinada a ser minha. Balancei a cabeça por entre minhas lágrimas. Não podia permitir que visse o quanto suas palavras me afetavam. Eram as únicas palavras que eu sempre quis ouvir. As palavras com as quais eu sonhei. Mas não assim. Não depois do que ele fez. — Você perdeu esse direito quando começou a me perseguir, a brincar comigo e quando tirou de mim todos os que eu amava. — Tyler, por favor... — Ele deu mais um passo à frente, e eu novamente recuei. — Não venha com esse “Tyler, por favor”. Você é um babaca de merda, Dean. Eu te odeio. Te odeio! — Solucei novamente, quase desabando de joelhos. Dean aproximou-se e me segurou em seus braços. Deixei que fizesse isso e comecei a chorar em seu peito. Deixei que me segurasse, me consumisse e confortasse, porque eu precisava disso desesperadamente. Precisava de Dean desesperadamente para fazer com que tudo desaparecesse. Mas ele nunca seria capaz de fazer isso, porque, naquele momento, eu me lembrei. Então, o afastei e o soquei com toda minha força. Usei meus punhos em seu peito, e Dean apenas ficou ali, deixando que eu lhe batesse, sem me soltar. — Me solta! — eu gritei, mas era um esforço em vão. Dean estava determinado a me segurar. Determinado a nunca me soltar. — Eu nunca vou te deixar. Aquelas palavras foram definitivas. Eu me deixei derreter por ele e chorei todas as minhas lágrimas. Chorei por Jeremy. Chorei por todas as pessoas que perdi. Mas, principalmente, chorei pelo melhor amigo que já tive. Aquele que conheci, com quem queria passar o resto da minha vida. Ele estava me confortando, mas não era mais a mesma pessoa de antes. Não era o meu Dean. Eu o tinha perdido no dia em que ele decidiu me magoar. No dia em que decidiu partir o meu coração em dois. — Me desculpe, Tyler. Estou tão arrependido. Quero passar o resto da minha vida dizendo isso e compensando tudo que fiz. Eu te amo tanto. — Ele me afastou e segurou meu rosto com ambas as mãos. Naquele instante, fui cativada por seus olhos azuis penetrantes. Aqueles que me assombraram em meus sonhos e invadiram meus pensamentos. Agora ele me tinha. E eu o odiava e o amava ainda mais por isso. — Eu te amo, Tyler O’Shea. Eu te amo. Sem nem pensar, eu o agarrei e o puxei na direção dos meus lábios. Fogos de artifício começaram subitamente a cercar minha cabeça. Eu estava novamente caindo no seu feitiço e não me importava com isso. Forcei minha língua dentro de sua boca e Dean a aceitou sem reservas, gemendo. Minha pulsação acelerou e minhas entranhas pareceram voltar à vida pela primeira vez em quatro anos. Se eu achava que não poderia piorar, Dean me segurou com mais força contra seu corpo e eu o senti enrijecer no meio das pernas, algo que eu amava. Enquanto ele me beijava,


acariciava meu rosto com carinho, mas agarrava minha cintura com uma força bruta que provocava um incêndio dentro de mim. Meu Dean estava aqui, mas também estava o meu Lotus. Minha fantasia derradeira, meu amor derradeiro... meu pesadelo derradeiro. Ele estava lá, e era tudo que eu sempre imaginei que seria. É claro que eu não podia fazer isso. É claro que não poderia aceitá-lo quando era exatamente a pessoa que tinha causado toda a destruição ao meu redor. Seu feitiço era forte e me cercava com seu calor mortal. Eu precisava escapar antes que fosse tarde demais. Precisava escapar antes que ele me dominasse por completo. Não sei como recuperei minha força, mas me afastei, só então percebendo que estava chorando. Ele olhava para mim com uma mistura de choque, esperança e desejo, que sempre provocavam a mesma reação em mim. Mas eu não podia deixar que me dominassem de novo. — Não posso fazer isso. — Balancei a cabeça e me afastei dele. Precisava escapar antes que ele me aprisionasse em sua teia. Eu tinha que ser mais forte. — Tyler... — Sua voz pareceu desesperada enquanto estendia a mão para mim. — Não posso fazer isso — disse novamente. Corri para os portões de saída e desci a rua mais próxima. A chuva ainda caía em mim, mas era bem-vinda. Cada gota parecia lavar meus terríveis pecados e, apesar de saber que isso não iria acontecer, eu esperava que ela também lavasse Dean de mim. Conforme eu me aproximava da entrada do beco, senti uma mão se fechar ao redor do meu braço, enquanto era puxada de volta. Antes que eu percebesse, Dean me encurralou contra uma parede. Por um momento, nós ficamos apenas olhando um para o outro, com a respiração pesada, com nossos cabelos e roupas encharcados. Eu mal conseguia me mover e, naquele instante, não queria. — Você me destruiu, Dean. Eu te amo. Faria qualquer coisa por você. Mas você pegou esse amor e transformou em algo horrível. Você se tornou algo horrível. — Balancei minha cabeça, molhada pela chuva e pelas lágrimas, observando seus olhos tristonhos. — Eu faria qualquer coisa para ter o meu Dean de volta. — Ergui minha mão para acariciar seu rosto. Fechando os olhos, ele se inclinou, recebendo meu toque. — O menino que costumava escalar minha janela quase todos os dias. O menino que faria qualquer coisa para evitar me beijar ou me tocar porque estava me esperando. O menino que, no meu décimo segundo aniversário, colocou um anel de biscoito de cebola no meu dedo, que eu não tirei por dois dias, pois estava desesperadamente apaixonada por ele. O menino que faria qualquer coisa para me ver feliz. Os olhos de Dean se abriram e me observaram por um segundo antes de encostar sua testa na minha. — Posso ser esse menino de novo. Se você permitir, vou te tornar a mulher mais feliz do universo. — Dean cerrou seus olhos com força, só para abri-los em seguida. — Vou fazer o que for preciso, Tyler. Qualquer coisa para te fazer feliz. Mas, por favor, não me peça para te esquecer, porque eu não posso. Não posso te perder novamente. Fechando meus olhos, balancei a cabeça, ainda encostada na dele. — Dean, eu não posso... Ele colocou um dedo nos meus lábios. — Shh, não diga isso, Tyler. Não diga as merdas de palavras que me machucam. Não diga as palavras que irão destruir o meu mundo. — Dean suspirou e fechou os olhos antes de olhar para mim novamente. — Não me peça para desistir de algo que sempre foi uma parte de


mim. Vai me matar, Tyler. Por favor. Não posso viver sem você. Inclinei minha cabeça para trás e olhei fundo em seus olhos desesperados. Não podia aceitá-lo de volta, mas também não podia magoá-lo. Não importava o que tinha feito comigo, eu sempre me lembraria do menino que um dia ele foi. O homem que foi. Não podia dizer as palavras que precisava dizer, pois, por mais que tivesse me ferido, ainda me importava com ele. Ainda o amava. Meu Deus, eu o amava. Tudo em relação a ele me sugava. Cada vez que eu respirava e cada batida do meu coração eram para ele. Como eu poderia superar isso? Por que não conseguia esquecer? Por que não conseguia esquecê-lo? Eu era como uma prateleira, sendo que ele era o único capaz de preenchê-la. Estava apenas me enganando quando pensei que poderia amar outro homem. Ele sempre seria para mim... ...O final da estrada. — Dean... — Seu nome saiu como um suspiro ofegante. Dean ergueu a cabeça e eu não sei o que ele viu, mas algo mudou em seu olhar. Tornou-se predatório, como se houvesse fogo dançando em seus olhos. — Eu preciso demais de você. Porra, eu te quero muito. Preciso te sentir, Tyler. Não posso viver sem te sentir. Esperei muito tempo para estar dentro de você. Esperei muito tempo para te fazer minha novamente. — Seu nariz traçou uma linha desde a base do meu pescoço até o meu maxilar. Sibilei, sentindo o mesmo desejo explodir como nunca tinha explodido antes. Afastando-me, ele me prendeu naqueles braços e rapidamente me ergueu do chão contra a parede. Um pequeno suspiro escapou de meus lábios, enquanto meu corpo era completamente dominado. — Dean — sussurrei novamente, incapaz de esconder meu desejo por ele. Minha raiva e desespero tinham se tornado algo mais primitivo. Eu o queria demais naquele momento. Provavelmente mais do que algum dia já o quis. As emoções pareciam ativar uma descarga elétrica dentro de mim. E ela parecia me guiar a uma única emoção: Desejo. Como se sentisse isso, Dean colou sua boca na minha em um beijo feroz. Reivindicou meus lábios novamente, mas de uma forma distinta. Não tinha nada a ver com o beijo gentil e terno do cemitério. Era um tanto quanto diferente. Era bruto. Era passional. Desesperado. Enquanto sua língua explorava a minha, Dean agarrava minhas mãos e as colocava sobre minha cabeça, enquanto deslizava a outra, livre, pelos meus braços e por toda a extensão do meu corpo. Um leve gemido escapou da minha boca, enquanto ele erguia minha saia com ambas as mãos e arrancava a calcinha do meu corpo. Minha cabeça ficou tonta de luxúria. Eu não imaginava que pudesse desejar alguém tanto assim, mas desejava. Isso sobrepujava cada pensamento, cada ferida, cada dor do meu coração. Sobrepujava tudo que ele já tinha feito contra mim. Eu pertencia completa e totalmente a ele. Com uma mão, Dean abriu seu cinto e desabotoou seu jeans. Ele parecia frenético, mas tudo isso apenas aumentava meu desejo. Ele estava tão desesperado quanto eu estava. Assim que se libertou das roupas, Dean me ergueu e me segurou contra a parede. Manteve-me assim por um momento, olhando profundamente em meus olhos. Uma lágrima deslizou por meu rosto, e Dean a beijou. — Quero beijar todas as suas lágrimas, Tyler. Antes que eu tivesse um momento para processar o que disse, ele me penetrou. Dean choramingou, e eu fechei meus olhos, enquanto outro soluço escapava de meus lábios. Eu não sabia


por que estava chorando naquele momento, já que era tudo com que sempre sonhei. O alívio de senti-lo novamente estava me esmagando. Dean parou e olhou em meus olhos, com um olhar agonizante. — Me desculpe, Tyler. Me desculpe. Fechando meus olhos, capturei seus lábios com os meus e respirei fundo contra sua boca. — Por favor, Dean. Não pare. Dean grunhiu e se movimentou dentro de mim, fazendo meu coração martelar em meus ouvidos. Sentia-me como se tivesse estado longe de casa por muito tempo e estivesse finalmente retornando. Tudo em relação a isso era tão errado, mas era como se eu estivesse exatamente onde deveria estar. Exatamente onde estava destinada a ficar. — Tyler! — ele gritou enquanto pulsava dentro de mim várias vezes. Meus joelhos estavam começando a tremer. Meu mundo estava começando a tremer. Era exatamente como eu me lembrava, e ainda melhor. — Porra, Tyler, eu senti muito a sua falta. Nunca mais fuja de mim. É aqui que você pertence. Bem. Aqui. Comigo. — Ele seguiu o ritmo de cada palavra, estocando dentro de mim, e com cada palavra eu senti o orgasmo se formar. Com cada palavra, ele atingia um ponto que apenas Dean era capaz de alcançar. Ele estava me dominando novamente, e tudo que eu podia fazer naquele momento era sentir. Apenas sinta, Tyler. E foi o que fiz. Deixei que seu feitiço me cercasse com seu brilho cálido. Deixei que ele me fodesse com força contra a parede, porque era exatamente o que eu queria. — Porra, Tyler, você precisa gozar logo. Não sei por mais quanto tempo vou... Com isso, eu gritei. Berrei seu nome e gozei violentamente. Mal conseguia ver nada ao meu redor. Suas palavras e seu toque eram o que eu precisava para ver estrelas. — Tyler! — Dean empurrou mais uma vez, com uma explosão violenta, deixando seu gozo se derramar dentro de mim. Ele me segurou em seus braços enquanto descansava a cabeça no vão do meu pescoço. Com apenas uma mão, acariciei seus cabelos, enquanto sentia um súbito soluço escapar de seus lábios. Dean estava chorando e era o som mais arrasador que já tinha ouvido na vida. Eu nunca o tinha visto chorar e só de pensar nisso me sentia dilacerada. Dean estava devastado e a parte de mim que o amava desesperadamente queria curá-lo. Mas como? Não achava que eu tinha o suficiente para curar a nós dois outra vez. O que ele fez deixou uma cicatriz permanente, que sempre seria visível. Ele quis me ferir, e conseguiu, mas parecia que suas ações o tinham ferido também. E a parte mais doentia de tudo isso? Eu queria curá-lo. Queria desesperadamente fazer com que aquela dor desaparecesse. Não sei o que nosso futuro nos reservaria e pensar em aceitá-lo de volta me enchia de dor. Eu não era mais quem ele pensava que eu fosse, e isso me dilacerava mais do que poderia expressar. Só podia lhe oferecer o agora. Ao menos isso. Inclinando sua cabeça para trás, Dean me encarou com uma expressão triste em seu rosto. — Me desculpe, Tyler. Eu quero consertar tudo. Quero consertar a nós dois. Sorri, pensando que era como se ele tivesse lido meus pensamentos. Segurei seu rosto em minhas mãos e senti a chuva fria e suas lágrimas quentes em contato com minha pele. — Eu te amo, Dean. Sempre amei e sempre vou amar. Dean manteve seus olhos fechados por um momento, antes de encontrar os meus.


— Por que parece que há um “mas” para essa frase? Suspirei, me perguntando como ele conseguia me compreender tão facilmente. Mas eu não podia fazer isso com ele. Não agora. Não hoje. — Você vem comigo? Vi esperança brilhar em seus olhos por um segundo, antes de ele se inclinar e me beijar carinhosamente nos lábios. — Tyler, eu irei aonde for com você, porque não pertenço a nenhum outro lugar onde você não esteja. Beijei-o de volta e ele saiu de dentro de mim gentilmente, permitindo que meus pés tocassem o chão. Abaixei minha saia, enquanto Dean vestia seu jeans. — Eu não usei camisinha. — Dean olhou para mim como se pedisse desculpas, e eu balancei a cabeça. — Tudo bem, Dean. — Eu sei que sim, mas e se você ficar grávida? Estremeci. Dean ainda não sabia sobre o presente maravilhoso que tinha me dado quatro anos atrás. — Não vou engravidar. Está tudo bem. Eu não queria lhe explicar o porquê, mas depois que dei à luz a Jeremy, inseri um DIU Mirena. Era algo que sempre quis fazer, mas tinham me dito que poderia ser bastante doloroso para alguém que nunca tinha tido filhos. Depois de ter Jeremy, pareceu a coisa mais lógica a fazer. Era um contraceptivo que mantinha minha menstruação tão leve que eu quase não sangrava. Uma bênção. Dean assentiu com um sorriso e olhou para mim. — Você vai pegar um resfriado se ficar aqui por muito mais tempo. Vamos embora. Estou de carro e posso te levar para onde quiser. Sorri com gentileza, enquanto ele estendia a mão para mim. Entrelacei meus dedos nos dele e, pela primeira vez em muito tempo, senti como se tivesse voltado atrás em dezesseis anos. Naquele momento, deixei a paixão me cercar. Precisava dela tanto quanto ele. Precisava me sentir feliz novamente. Enquanto nos aproximávamos da saída do beco, Dean colocou um braço protetor ao meu redor. Não muito longe de nós estava um Dodge Challenger, do qual Dean rapidamente abriu a porta. — Um carro enorme e cheio de músculos — provoquei, com um brilho divertido em meus olhos. Dean sorriu. — Você não poderia esperar algo diferente de mim, poderia? Balancei a cabeça, entrando no carro. Dean gentilmente fechou a porta e eu observei enquanto ele corria para o outro lado. Eu estava encharcada e começando a sentir frio, mas não iria deixar que isso arruinasse meu momento. Nada poderia arruiná-lo. Dean entrou do outro lado e deu a partida. — Para onde? — Four Seasons. Dean sorriu e assentiu, enquanto dava ré. Um pouco adiante, na estrada, pegou minha mão possessivamente e a segurou sobre a marcha. Com cada mudança, sentia que ele a apertava mais, mas era gostoso. Por um momento, pensei que estava acompanhada pelo antigo


Dean. O menino que sempre segurava minha mão e fazia com que eu me sentisse a mulher mais preciosa do mundo. Assim que estacionamos e entramos na minha suíte, nos despimos em silêncio e fomos tomar banho juntos. Não havia nada de sexual no ato. Era mais do que isso, na verdade. Com cada carícia, eu me sentia mais venerada do que já me senti em toda a minha vida. Nós nunca tínhamos nos tocado de forma tão íntima. Estávamos apenas apreciando um ao outro. Ah, Deus, e Dean tinha O corpo. Por alguma razão ele parecia mais musculoso e forte do que eu me lembrava. Suas tatuagens se destacavam e, por um momento, fiquei ali, olhando para cada uma delas. Foi nesse momento que reparei em três que eram novas. Ou eu nunca tinha reparado nelas. — Dean, você me tem no seu peito e no seu ombro. É uma foto minha de quando eu era mais nova. Ele beijou minha mão e assentiu: — Você estará sempre comigo, Tyler. Isso nunca irá mudar. Essa aqui no ombro eu fiz quando tinha dezoito anos. Voltei naquele dia para te mostrar. — Ele estremeceu, provavelmente se perguntando se tinha cometido um erro ao mencionar aquilo. — Me desculpe. Sorri calorosamente, mas ainda não tinha conseguido me livrar do choque de ver a tatuagem que parecia se destacar mais do que as outras. — Jeremy — sussurrei, acariciando o nome em seu peito. — Eu precisava fazê-la. — Ele olhou para baixo, envergonhado, e eu acabei pensando no quanto aquele nome era importante para ele, sem que ele nem soubesse. Então, compreendi que aquela era a forma que Dean tinha encontrado de se torturar todos os dias. Eu sabia que ele se sentia mal pelo que tinha feito. Sabia que ele faria tudo que pudesse para mudar o passado. E eu sabia que ele dizia a verdade quando me falava que seria capaz de passar o resto da vida me compensando por seus erros. Erguendo minha mão até o seu rosto, gentilmente levantei seu queixo para que ele olhasse para mim. — Eu sei — sussurrei, olhando para seus olhos cheios de culpa, capturando seu olhar para que ele soubesse que eu dizia a verdade. Nunca poderia banalizar sua culpa. Sabia que ele sofria. E eu sabia que poderia livrá-lo disso pelo resto de sua vida. Mas, de alguma forma, não mudaria nada. Não consertaria seus erros. No final das contas, ele fez uma escolha. E essa escolha me destruiu completamente. Mas por que então eu estava ali com ele, me deleitando em sua glória? Por que estava determinada a, só por um dia, ver através de seus olhos? Porque, para ser totalmente honesta, eu era egoísta. Eu o estava aceitando, porque parte de mim queria sentir tudo isso. Precisava sentir. O pequeno diabinho dentro de mim estava gritando eu, eu, eu, e eu não podia ignorá-lo. Por algumas poucas horas, precisava sentir essa conexão com Dean. Precisava ficar perto do menino que um dia ele foi. E, meu Deus, senti tanto a falta dele que só de pensar nisso minhas entranhas queimavam. Eu não podia deixá-lo ir, não agora. — Venha comigo para a cama. — Olhei nos olhos de Dean, e ele assentiu, me beijando carinhosamente nos lábios. Ele desligou o chuveiro, me ajudou a sair do box e nos secou gentilmente antes de me levar para a cama. E, então, eu vivi meu momento. Eu me via como uma Tyler mais jovem, buscando seu herói. Buscando o homem que poderia lhe dar tudo que ela queria. Eu não iria impedi-lo por nada


neste mundo. Meus desejos egoístas estavam vencendo qualquer outra coisa. Eu não poderia desistir desse momento. Na cama, Dean segurou meu rosto em suas mãos. Com um beijo gentil, ele fechou os olhos e suspirou: — Vou apagar toda a sua dor. E, por algumas breves horas, ele conseguiu.


Capítulo Dez Dean Aquilo que redime, consome. Pete Abrams. Estava me sentindo tão esperançoso e alegre por ter finalmente conseguido minha Tyler de volta que, por um momento, me refestelei nesse sentimento. Eu não queria que nada o estragasse. Estava deitado na cama na manhã seguinte e não conseguia reprimir um sorriso, me lembrando de tudo que tinha acontecido na noite passada. Depois do banho, fiz amor com Tyler pela primeira vez. Não foi selvagem como antes. Foi terno e gentil. Queria agradá-la de todas as formas. Queria que visse o verdadeiro Dean que esteve escondido atrás de um monstro o tempo todo. Ela precisava saber que eu ainda estava ali. Precisava saber que eu não era apenas uma memória. Mas eu também sabia que aquilo não era um “final feliz”. Tyler estava comigo, mas, por alguma razão, eu sabia que não seria assim. Ainda não a tinha ganhado por completo. E foi por isso que mantive meus olhos fechados. Não ousava abri-los, pois sabia o que iria ver assim que a luz do dia se revelasse. Uma cama vazia ao meu lado. Tyler não estaria lá. Tyler teria ido embora. Tyler estaria fora da minha vida para sempre. Naquele momento, meus olhos pareceram estar colados. Para me proteger da dor agonizante que iria me engolir, ele simplesmente não abriam. Então, fiquei deitado por mais alguns minutos, me lembrando de Tyler sob mim, sobre mim, ao meu lado. Precisava me agarrar a essas lembranças o máximo possível, para que ela nunca me deixasse de verdade. Mas quanto mais eu ficava ali deitado, mais eu sabia que não poderia ficar daquele jeito para sempre. A parte mais dura da minha personalidade estava gritando que eu deveria parar de ser um viadinho e abrir a porra dos meus olhos. Então foi o que eu fiz. *** Duas semanas se passaram sem nenhuma notícia de Tyler. Eu sabia que ela tinha voltado para a nova vida que criara para si mesma. Ficava irado só de pensar que ela poderia ter voltado para aquele projeto fodido de homem, que achava que podia lhe dar tudo que ela precisava. Tyler era uma mulher que precisava de um homem de verdade. Alguém que andaria sobre as águas por ela, mas que não aceitaria qualquer merda de qualquer um. Alguém que a protegeria até os confins do universo. Alguém que morreria por ela. Sentei-me, com as pernas descansando sobre um banquinho, enquanto tomava meu


nono Bourbon da noite. Estava derrotado, mas não o suficiente para não perceber que o barman estava me olhando “daquela forma” há quinze minutos. Aquele olhar que me dizia que ele estava prestes a ligar para Jimmy. Na verdade, eu podia apostar que já tinha feito isso. Então, para ferrar com ele, ataquei meu nono Bourbon e devolvi o copo vazio a ele. — Mais um, por favor, Graham. Graham olhou para o copo, depois para mim, com uma expressão preocupada. — Você não acha que é suficiente, Dean? Talvez você deva ir lá fora pegar um ar. Uma gargalhada ondulante escapou de mim enquanto pensava o quanto aquilo era ridículo. — Ei, eu não preciso de merda nenhuma de ar. — Gesticulei para enfatizar o que tinha dito e quase cambaleei. Um par de mãos me segurou e me estabilizou no banco. Virei-me, mas já sabia quem era. — Jimmy! Como você está, meu cavaleiro andante? Jimmy sorriu, assentindo para Graham, virando-se novamente para mim. — Estou bem, Dean, mas posso apostar que sua cabeça não estará tão bem amanhã de manhã. — Ele se sentou no banco ao meu lado e segurou meu ombro. — Quantas vezes você veio aqui esta semana? — Cinco! — Graham gritou. Olhei para ele. — Ok, parceiro, não precisa contar. Droga! — Balancei a cabeça e olhei de volta para Jimmy. — Quem precisa de um barman contador, Jimmy? Tudo que quero é outra porcaria de drinque. Será que estou pedindo muito? Quer dizer, acho que é para isso que barmen existem, não é? Jimmy resmungou e olhou para meu copo vazio. — Mas a quantidade que você quer vai acabar te matando, Dean. Eu ri. — Isso não importa. Já estou morto. Jimmy suspirou e olhou para mim por um momento. — O que você acha que Tyler diria se pudesse te ver agora? Você acha mesmo que ela te quer assim? — Eu estou pouco me fodendo para isso — resmunguei. Os olhos de Jimmy se arregalaram. — Ah, se importa sim. Você está se fodendo muito para isso, e é esse o seu problema. Você está tentando se esconder atrás da pessoa que um dia foi. Isso não funciona comigo, Dean, e com certeza não funcionaria com a Tyler. O que aconteceu com o homem que iria lutar até o fim do mundo para reconquistá-la? Bufei. — Ela não o quer. Simples assim. Ela não disse essas palavras, mas sua mensagem foi dada em alto e bom som na manhã em que me deixou naquele quarto de hotel. Jimmy suspirou. — Você alguma vez já parou para pensar que talvez ela precisasse de tempo? O que você fez a ela foi terrível, cara. É preciso muito esforço para superar algo assim. Senti minhas narinas se dilatarem conforme a raiva surgia. — Você não acha que eu sei dessa porra? Merda, Jimmy, o que você está fazendo aqui? — Estou tentando te ajudar, seu estúpido de merda.


Olhei para Jimmy por um momento, e a raiva de antes subitamente desapareceu. Jimmy sorriu e então a gargalhada veio. — Seu fodido inútil. — Bosta de pombo. — Viado. — Cuzão. — Pedaço de merda. — Retardado. — Rumpleforeskin[3]. Isso me fez parar e franzir o cenho para Jimmy. — Sério? — Balancei a cabeça com uma gargalhada. Jimmy deu de ombros. — Eu só estava testando. — Ele ergueu as sobrancelhas e deu um tapinha no meu ombro. — Sempre gostei de você, cara, mas acho que gosto ainda mais desde que soube de Tyler. Não a conheço bem, mas você sabe que a segui bastante por aí. Ela parece uma boa garota, mas sei ver quando alguém sente falta de algo na vida. E ela tinha um olhar assim. A mesma porra de olhar que vejo em você todos os dias. Você precisa mudar o olhar dela, Dean, e só você pode fazer isso. Só você pode implorar por perdão até que ela ceda. Apesar de meu cérebro estar enevoado, balancei a cabeça. — Ela não me quer, Jimmy. Eu a magoei muito. Acho que ela nunca vai me perdoar. Jimmy suspirou e colocou a mão no meu ombro. — Deixe que eu julgue isso. — Ele se empertigou e franziu um pouco o cenho. — Tenho um plano. Confia em mim? Você vai ter que me dar algum dinheiro. Dei uma olhada no bar ao meu redor por um momento antes de olhar nos olhos de Jimmy. — Não sei, Jimmy. Não sei se vou conseguir confiar em alguém algum dia. — Olha, cara, você quer Tyler de volta ou não? Bufei. — Porra, é claro que eu quero. Faria qualquer coisa se soubesse que há alguma esperança de ela me perdoar. Jimmy se inclinou um pouco. — Bem, então, você vai ter que afrouxar as rédeas e confiar um pouco em mim. Sorri e balancei a cabeça. — Por que quer me ajudar? Jimmy inclinou-se novamente e suspirou. — Vocês dois pertencem um ao outro. Além disso, sei o quanto dói perder alguém que se ama. É de matar. Não quero que isso aconteça com você e Tyler. Franzi o cenho por um momento ao perceber esse lado de Jimmy que não conhecia. Ele era sempre tão misterioso. Um pouco como eu, acredito. Nunca soube nada sobre ele. — Por que você não vai atrás da mulher que perdeu? Jimmy balançou a cabeça, com um olhar cheio de pesar. — Se eu tivesse tentado um pouco mais, ela não estaria morta. Estremeci com aquela novidade e pensei que morreria se o mesmo acontecesse com Tyler. Jimmy viu a expressão em meu rosto e assentiu.


— Viu? É isso que não quero que aconteça com você. — O que aconteceu? Jimmy deixou escapar um suspiro e virou seu corpo na intenção de observar o bar. — Vou precisar de uma boa dose de bebida para te contar isso. Não contei a ninguém, então, não deixe que o assunto saia daqui. Olhei para ele. — Jimmy, você sabe tudo sobre mim e Tyler agora. Gostaria que tivesse o mesmo respeito e consideração que está pedindo a mim. Embora nem precisasse pedir. Jimmy assentiu e gesticulou para que Graham se aproximasse. Ele olhou para meu copo vazio e ergueu uma sobrancelha. — Você quer outro? Balancei a cabeça. — Não, acho que estou bem. Jimmy assentiu com um sorriso e pediu um Bourbon duplo com gelo. Quando Graham serviu o drinque, Jimmy rapidamente o pegou, virou-o inteiro e pediu outro. Assim que foi servido, ele ficou olhando para o copo com uma expressão triste. — Foi há cinco anos, no final de Fevereiro. O nome dela era Grace. Sempre a chamei de “Minha Graça de Deus”. — Ele riu um pouco ao lembrar. — Estávamos juntos há alguns anos e eu estava prestes a pedi-la em casamento. Só que ela tinha um amigo que era um babaca. — Ele me olhou de forma inquisitiva. — Parece familiar para você? — Assenti, bufando. — Bem, ela saiu com alguns colegas uma noite para beber. Eu estava em casa, esperando-a, mas não conseguia me acalmar. Eu sabia que aquele merda estaria lá e sabia que ele estava tentando fazer de tudo para tirá-la de mim. — Jimmy parou por um momento e deu um gole em sua bebida. — O que você fez? — Quando estava perto das onze horas, não consegui mais esperar. Fui até o bar onde ela estava e o vi beijando-a. Entrei que nem uma tempestade, espancando-o o máximo que pude, acusando-a de me trair pelas minhas costas e acabei sendo preso. Balancei a cabeça. — Merda, Jimmy! Sinto muito, cara. Ele balançou a cabeça. — Eu também. Eu a constrangi na frente de todo mundo. Depois descobri que aquele merda, chamado Brandon, a atacou. Grace não pôde fazer nada. Na verdade, seus colegas disseram que ele estava se tornando um pé no saco e estavam prestes a lhe contar isso, antes de eu chegar e arruinar a noite. — Jimmy suspirou e tomou outro gole. — Seja como for, Grace disse que ia me deixar porque queria estar com alguém que confiasse nela cem por cento. Implorei que não me abandonasse. Ela disse que precisava de algum tempo, então, fez as malas. Continuei me humilhando, mas, no fim das contas, achei que era melhor lhe dar espaço. Três semanas depois, ela me mandou uma mensagem dizendo que estava se mudando para a Escócia. Pedi que não fosse, porque eu a amava e queria me casar com ela. Disse que estava arrependido e que faria qualquer coisa para tê-la de volta. Ela me disse que era tarde demais e que já estava na estrada. — Jimmy fechou os olhos bem apertados, como se estivesse tentando bloquear o que sabia que viria a seguir. — O tempo estava péssimo naquele Fevereiro. Nevava muito e as estradas estavam traiçoeiras. O carro dela perdeu o controle e colidiu com um caminhão. Ela não teve chance. Sobreviveu por um tempo. Seu corpo ficou ligado a aparelhos por algumas semanas, até que o médico sugeriu que fossem desligados. Seu cérebro estava morto. O médico disse que era o melhor


a fazer. — Jimmy bateu com o punho no balcão do bar. — Merda! Erguendo meu braço, apertei seu ombro. — Sinto muito, Jimmy. — Foi então que compreendi algo. — É por isso que você odeia hospitais, não é? — Ele assentiu. — Mas que merda, Jimmy. Por que nunca me disse nada? Eu teria entendido. Jimmy deu de ombros. — Só estou te contando agora para que veja o quanto é importante nunca desistir de uma boa luta. Jimmy suspirou novamente. — Ela foi encontrada abraçando uma foto nossa. Descobri pela melhor amiga que ela nunca quis ir embora. Só esperava que eu lutasse um pouco mais por nós. Pensei que estava fazendo o certo lhe dando um tempo para pensar, mas a decisão acabou se tornando a pior que tomei na vida. — Jimmy olhou para mim com lágrimas nos olhos. — Agora você vê por que é tão importante que lute por Tyler? Quando se ama alguém como você a ama, e como eu amava Grace, nunca se deve desistir de lutar e de ter esperança. Mais do que isso, você nunca deve parar de dizer o quanto essa pessoa é importante para você, pois, um dia, pode perder a chance para sempre. E quando esse para sempre acontece, não há volta. — Jimmy virou a cabeça para o outro lado e a balançou um pouco. Dava para ver que estava desolado. Teria que viver com aquilo pelo resto da vida. Enquanto eu estava sentado ali, com a cabeça perdendo o foco por causa do álcool, compreendi uma coisa. Se Tyler realmente quisesse que eu lutasse por ela, eu lutaria. Não seria outro Jimmy. Estava determinado a não deixar que isso acontecesse. Ia conquistá-la novamente, mesmo que isso me matasse. Gesticulando para Graham, pedi que enchesse o copo de Jimmy novamente. Com um sorriso, ele obedeceu e depois se afastou. Virei-me para Jimmy. — Ok, Jimmy, vamos fazer isso. Confio em você, cara. Confio mesmo. Jimmy virou a cabeça na minha direção com um sorriso sem graça. — Obrigado, Cérebro Pequeno. Isso significa muito para mim. Balancei a cabeça com um sorriso. — Não me teste, seu bosta. Jimmy riu, e a tristeza que tinha se apoderado de seu rosto suavizou um pouco. — Vamos pagar a conta e limpar essa bagunça. Temos muito a fazer. Assenti, coloquei algumas notas de vinte sobre o balcão e gesticulei para Graham. — Obrigado, cara. Graham nos cumprimentou com dois dedos. — Sem problemas. Te vejo por aí. Eu e Jimmy saímos, recebendo o ar fresco do verão no rosto. O tempo inglês andava muito agradável. A rua estava lotada, mas era sempre assim àquela hora da noite. Não havia sinal de perdedores, como eu, que andassem bebendo para esquecer seus problemas. Enquanto esperávamos para chamar um táxi, um pequeno problema se aproximou de mim. Antonio Jr. tinha agora dezenove anos e agia exatamente da mesma forma como o merda do seu pai. Era alto, mas não tão alto quanto eu. Tinha cabelos loiros, que tinham sido obviamente pintados. Era italiano, então, cabelos loiros nunca fizeram parte de sua família. — Fiquei sabendo que alguém perdeu uma garota e agora está agindo como um


viadinho. — Seu rosto presunçoso se iluminou quando passou por mim. Eu estava prestes a partir para cima dele quando Jimmy me segurou. — Ele não vale a pena, Dean. Só está querendo tirar onda com a sua cara. Antonio Jr. riu. — Já vi que você tem seu cachorrinho, o Jimmy. É você que controla o filho da puta, não é? — Ele gargalhou e então ergueu a mão. — Ei, eu ouvi dizer que Tyler é uma máquina de sexo. É uma pena que não esteja aqui. Eu poderia lhe mostrar como um homem de verdade fode. Virando-me para Jimmy, olhei para ele. — Ah, merda, não. Jimmy me soltou. — Acho melhor você dar um soco nesse merda antes que eu faça isso, Dean. Isso era tudo que eu precisava. Então me virei, caminhei na direção dele e lhe dei um soco bem no meio da cara. Ouvi seu nariz quebrar quando ele caiu, e o sangue veio em seguida. Antonio Jr. gemeu enquanto as pessoas se reuniam ao nosso redor para olhar o que estava acontecendo. Eu ainda não tinha terminado. Estava tão puto da vida que poderia ter matado o merdinha. Na verdade, acho que realmente queria matá-lo. Devo tê-lo chutado e socado muitas vezes até sentir os braços de Jimmy ao meu redor. — Acho que é suficiente, Dean. Não vá acabar na cadeia. Ele não vale a pena. Deixei Jimmy me afastar enquanto eu cuspia no chão, perto do filho da puta. — Você ainda acha que sou uma porra de um viado? Acha? Antonio Jr. secou seu nariz e gemeu um pouco mais antes de fazer uma careta na minha direção. — Você matou o meu pai, seu punheteiro! Algumas pessoas arfaram, e eu balancei a cabeça. — Antonio, seu pai era um fodido de merda que fez muitos inimigos. Trepou com esposas de outros homens, fez pactos com o demônio e chantageou metade dos advogados de Londres. Não me diga que ele não fez alguns inimigos pelo caminho. Se toca. Afastei-me, mas obviamente Antonio não tinha terminado. Enquanto eu e Jimmy entrávamos em um táxi, ele gritou: — Eu sei que foi você! Vai me pagar por isso, Dean. Não se esqueça disso! Jimmy abriu a porta com força, atingindo novamente o nariz do babaca e o táxi partiu. Jimmy riu um pouco e virou-se para mim. — Bem! Foi uma noite e tanto. — Ele sorriu e nós dois começamos a rir. Concordei com ele cem por cento, já estava começando a me acostumar com essa concordância. *** Alguns dias se passaram sem que eu soubesse nada de Jimmy. Dei a ele dez mil para que fizesse o que precisava fazer, mas pensei que iria me dar notícias mais rápido. Não sei onde estava ou que merda estava fazendo. Era quase final da manhã. Terminei de malhar, tomei banho e estava tomando café. Estava no limite. Sentia-me assim todos os dias, esperando por alguma notícia. Cinco minutos depois de comer, recebi uma ligação. Corri para o telefone e o atendi.


— Sim? — bufei. — Isso não é forma de cumprimentar alguém no telefone. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. — Jimmy! Onde diabos você esteve? — Só cale a boca e escute. Você tem que vir para cá, Dean. Suspirei. — Para onde? Onde diabos você está? — Na Virginia, é claro. — Jimmy suspirou um pouco. — Ouça, eu sei que ela está sentindo muito a sua falta. Parece que levou um soco na cara de tão... — Ei, olha lá como fala dela. Jimmy riu. — Me desculpe, cara. Seja como for, você precisa vir e ver por si mesmo. Mas tem outra razão pela qual você precisa vir. Eu tentava entender o que estava acontecendo ali. — Ela não voltou para aquele babaca, voltou? Jimmy gargalhou. — Não. Não é nada disso... — Então, mas que merda está acontecendo? — interrompi. — Não posso te contar algo assim por telefone. É uma coisa que você tem que ver por si mesmo. Eu odiava quando Jimmy ficava misterioso daquela forma. — Ótimo! Vou pegar o próximo voo. — Beleza. Me envie uma mensagem e vou te pegar no aeroporto. — Claro. Obrigado, Jimmy. — Sem problemas. Desliguei e entrei na Internet para reservar o voo. Assim que fiz isso, enviei uma mensagem de texto para Jimmy com os detalhes e fiz uma mala. Não sei por quanto tempo ficaria por lá, então, peguei coisas suficientes para uma longa estadia. Daquela vez, eu não iria voltar sem ela. Era tudo ou nada. Assim que cheguei ao aeroporto, sentei-me na sala da primeira classe e tive tempo para pensar no que Jimmy estava pensando. Tudo em que eu pensava era péssimo, então, fiz o meu melhor para não pensar em nada. Podia ser importante, ou podia não ser nada. Eu não devia ficar ruminando uma coisa que eu não fazia ideia do que era. Durante o voo, tentei dormir, mas não havia como. Queria tentar ficar em alerta para me ajustar ao fuso horário o mais rápido possível. Precisava estar focado, mas minha mente tinha outras ideias. Estava agitado demais para sequer pensar em descansar. Assim que pousamos e que o longo e árduo processo de passar pelo controle de imigração terminou, minha mala e eu nos dirigimos à liberdade. Jimmy estava lá, segurando uma porra de placa com Dean Fellatio escrito nela. — Nem um pouco engraçado, cuzão. Jimmy sorriu. — É muito bom te ver também. Balancei a cabeça, e Jimmy jogou a placa no lixo. — Então, para onde vai me levar? — Primeiro de tudo, aluguei uma casa a vinte minutos de distância de onde Tyler


mora. Assenti. — Bem pensado. Jimmy sorriu. — Obrigado. O único problema é que agora vou ter que dividi-la com um cara que é um pé no saco. Fechei meus olhos e suspirei em frustração. — Você sabe que está levando essa nossa amizade a um outro nível. Deveria saber o seu lugar, Jimmy. Ainda trabalha para mim. — Olhei para ele com um sorriso, enquanto ele pegava minha mala e a levava até um Ford Focus. — Por favor, não me diga que vai dirigir esse pedaço de merda. Jimmy deu de ombros. — São carros duráveis, Dean. Balancei a cabeça. — Eu estou pouco me importando se ele vai durar até eu ter oitenta anos. Não vou dirigir essa coisa. Jimmy balançou a cabeça. — Você leva seus carros um pouco sério demais. — Ele abriu a porta e gesticulou para que eu entrasse. — Venha. Vou te levar até uma locadora. Tenho certeza que conseguirá escolher algum que lhe agrade. Sorri. — Ah, agora estamos falando a minha língua. Ele dirigiu os cinco minutos até a locadora de carros, onde pedi pelo melhor que tivessem. Eles me ofereceram um Ford Mustang, mas eu recusei por um Cadillac CTS. Tinha vidros escuros, o que era sempre bom para espionar pessoas. Eu sabia bem disso. Já era um expert nisso. Pedi um GPS para que eu soubesse para onde diabos estava indo, assinei alguns formulários e paguei ao atendente, que me entregou as chaves. Não sei por quanto tempo precisaria do carro, então, o aluguei por duas semanas. Não precisaria me preocupar em devolver o carro nos dois dias seguintes. Tinha coisas mais importantes nas quais dedicar minha energia. — Sei que vai ser difícil, Dean, mas tente me seguir sem acelerar e sem dirigir como a porra de um maníaco. Bufei e abri a porta. — Só entre na porra do carro, Jimmy. — Balancei a cabeça e o vi rindo. Ele tinha alguma carta na manga e eu seria um babaca se não quisesse arrancar isso dele. Mas eu era paciente. Segui Jimmy e nós chegamos a uma rua sem saída em Reston. Jimmy abriu a porta da garagem, e nós dois entramos. Essa era uma coisa que eu adorava na América. Tudo parecia maior. Não havia escassez de espaço para nada. Enquanto eu entrava no carro, Jimmy abriu a janela e parou ao meu lado. — Então, o que você acha? Mantive a porta fechada. — Você fez bem. Como a encontrou? — Eu estava hospedado em um hotel em D.C., mas era longe demais. Fui até um bar em Georgetown e esbarrei em algumas moradoras locais. — Vi um brilho malicioso em seus olhos, então, eu meio que soube o que aconteceu depois. — Elas estavam... muito ansiosas para me ajudar. Uma delas tem uma irmã que vai ficar em Paris por seis meses e me avisou que este local


estava vazio. Ofereci o preço certo, então, ela entrou em contato com a irmã e o resto é história. É claro que a irmã, Kimberly, gosta de aparecer de tempos em tempos para ter certeza de que estou bem. — Ele sorriu. Sorri de volta. — Aposto que ela vem. Ela te traz muffins? Jimmy riu. — Ela adora quando eu como aquelas porras de muffins. Eles têm o gosto e a textura certos. Balancei a mão na minha frente. — Não quero saber de nada, Jimmy. Merda! Ele riu. — Não tenho nenhum muffin na casa para você, mas posso te oferecer um cachorro quente. Talvez você queira comer um. Meus punhos se cerraram enquanto eu olhava para ele com um sorriso nada satisfeito. Jimmy correu em direção a casa e eu o segui. — Me desculpe, cara. Não pude resistir. — Ele estava sentado em um dos sofás macios da sala de estar, gargalhando. Dava para dizer que uma mulher morava aqui. Tudo estava pintado com cores de rosa e lilás. As almofadas do sofá tinham imagens de gatos, e acima da lareira havia um quadro enorme com uma fotografia provocativa de uma mulher, que eu imaginei que fosse a dona do local. Era morena, com longos cílios, lábios carnudos e seios fartos. Era atraente, mas não era páreo para Tyler. Ninguém era. — Eu sei. Ela é uma gata. Já toquei uma punheta umas cinco vezes olhando para essa foto. — Jimmy sorriu, e eu balancei a cabeça. — Você é um fodido nojento, sabia disso? Jimmy deu de ombros. — Sou homem, Dean. Não posso evitar achar o sexo oposto atraente, e com certeza não posso rejeitá-las quando elas se jogam em cima de mim. Ou melhor, que diabos! Se eu soubesse o quanto essas americanas são cheias de tesão, eu teria me mudado para cá há anos. Ri um pouco, mas não disse mais nada. Eu sabia que Jimmy estava naquele momento como eu estive meses atrás. Sempre havia mulheres com quem você podia transar para tentar fazer a dor desaparecer. Nunca funcionava, e isso só me deixava mais deprimido e insatisfeito do que nunca. Contudo, Jimmy precisava entender isso por si mesmo. Eu tinha certeza que ele entenderia em algum momento, se é que já não tinha entendido. Ainda poderia estar em negação. Demorou um tempo para que eu percebesse. — Você não tem se encontrado com Tara, aquela garota que conhecemos no bar? Jimmy sorriu cheio de malícia. — Sim, eu tenho, na verdade. Inventei toda essa merda sobre Kimberly. Eu só tenho comido os muffins de Tara. — Ele piscou para mim, e eu quis jogar uma daquelas almofadas na cabeça dele. — Você é um merda de um cabeça oca, sabia disso? Jimmy riu. — Na verdade, eu conheci uma pessoa em um bar, mas foi um cara. Esta — ele apontou para a foto — é a irmã dele. Balancei a cabeça, mas dei uma olhada no relógio sobre a lareira.


— Já são quase cinco horas, Jimmy. Preciso saber o que está acontecendo. Ele pigarreou e se sentou. — Merda. Não tinha percebido que era tão tarde. Você precisa ir à casa dela. Quer que eu vá com você? — Balancei a cabeça. — Não vá bater na porta dela agora. Apenas sentese e espere até as cinco e meia. Você vai ver o que está acontecendo. Franzi o cenho, mas concordei. Eu estava determinado a descobrir de que merda ele estava falando. Com minhas chaves em mãos, agradeci a Jimmy e me encaminhei ao carro. Dei a partida e saí da garagem. Tive que rir, porque estava fazendo exatamente o que Tyler costumava fazer quando estacionava. Eu nunca estacionava de frente. Sempre com a traseira, mas tinha simplesmente entrado e estacionado. Acho que ela estava me afetando muito mais do que eu pensava. Peguei a estrada, mas o trânsito estava começando a ficar mais intenso. Levou mais tempo do que pensei, mas me vi do lado de fora da casa dela às cinco e vinte. Não sabia por que tinha que esperar. Precisei de toda a minha força de vontade para não sair do carro e bater na porta dela. Porém, eu confiava em Jimmy e tinha que descobrir por mim mesmo de que diabos ele estava falando. Um pouco depois de cinco e meia, um carro estacionou em frente à casa. Uma mulher saiu e então eu vi Tyler abrir a porta da frente. Ela sorriu, abriu os braços e ajoelhou-se. A outra mulher abriu a porta do passageiro, enquanto eu quase quebrava o pescoço, desesperado para saber quem estava saindo do veículo. E então aconteceu. Um garotinho, com não mais do que quatro anos de idade, pulou do carro e correu para os braços de Tyler. Arfei, incapaz de respirar. Ela tinha um filho? A confirmação surgiu quando o menininho gritou: — Mamãe! — Ele a abraçou pelo pescoço bem apertado. — Como foi a festa, Jeremy? O garotinho olhou para a moça que o levou até em casa e sorriu. — Foi ótima. Eles tinham um palhaço e tudo o mais. Tyler arfou. — Tinham? O garotinho assentiu e Tyler olhou para a outra mulher. Falou com ela, mas eu não conseguia entender o que estavam dizendo. O menino saiu dos braços de Tyler e correu até a caixa de correio. Ele parou ao chegar lá e olhou na minha direção. Meu coração parou. No minuto em que seus olhos se fixaram nos meus, eu soube. Ele não podia ser filho de mais ninguém. Tinha meus olhos, definitivamente. Tinha o cabelo de Tyler, mas não havia nenhum engano, aqueles olhos azuis eram herança da minha família. Ele era lindo. Enquanto ainda sentia meu coração na boca, Jeremy sorriu e tirou alguns itens da caixa de correio. Ele voltou para perto de Tyler enquanto ela dizia adeus à outra moça. Tyler entrou, segurando a mão de Jeremy, enquanto a outra mulher ia embora. Assim que eles fecharam a porta, fui deixado com minha mente completamente deslumbrada. Eu não sabia o que fazer. Estava grudado no banco do carro como se minha vida dependesse disso. Ela tinha um filho e nunca me contou? Por quê? Por que faria algo assim comigo? Mal conseguia acreditar em uma merda como aquelas. Por que eu nunca tinha visto Jeremy antes? Nada disso encaixava. Meu telefone tocou. Eu o peguei, sentindo Jimmy suspirar do outro lado da linha.


— Acho que você já sabe agora, não sabe? Afundei minha cabeça nas mãos. — Como ela pôde esconder que tinha um filho? — Não é só isso, Dean. Você o viu? Nem se ele tentasse pareceria mais com você do que já parece. A única semelhança com Tyler é o cabelo. Eu sabia que era verdade, mas ouvir Jimmy confirmando me deixou desesperado. — Merda! — Dei uma porrada no volante. — Não perca a cabeça, Dean. Sei que você está chocado, mas não faça algo que possa se arrepender depois. Balancei a cabeça, encontrando um pouco de clareza nos meus pensamentos. — Não vou, Jimmy, não vou. Ele suspirou. — Ok. Vou deixar isso com você. Boa sorte, cara. Estarei esperando por você. Esfreguei minha mão em meu rosto. — Obrigado. Ele finalizou a ligação, e eu fiquei ali, me sentindo tonto. Como ela podia ter um filho e não ter me contado nada? Onde diabos ele esteve durante todo o tempo em que estive perseguindo Tyler? Que merda eu iria fazer agora? Merda, eu não sabia.Tudo que eu sabia era que precisava sair do carro e olhar bem nos olhos daquele garotinho. Precisava ter certeza de que ele era meu. Então, e só então, eu poderia começar a questionar o porquê. O pensamento de que ela tinha tido um filho meu sozinha, sem minha ajuda ou apoio, me matava. Isso me magoava mais do que saber que tinha escondido a verdade de mim. Sempre sonhei em ter filhos com Tyler um dia, mas não assim. Sonhava em estar com ela em cada etapa. Em todos os enjoos, dores e, principalmente, no primeiro ultrassom. Eu queria ter estado com ela quando Tyler percebesse que o bebê estava chutando. Queria poder colocar minha mão em sua barriga e sentir o pé do meu filho, ou filha, contra minha mão. Eu queria todas essas coisas. Porém, ser privado de tudo isso era um castigo que eu merecia. Tyler, por sua vez, não merecia. Nada disso. Fechando meus olhos, suspirei antes de abrir a porta do carro e saltar. Eu sabia que tinha que vê-lo por mim mesmo. Precisava saber se ele era mesmo meu. Se estivesse certo sobre sua idade, fora concebido exatamente na época em que eu e Tyler estávamos juntos. Enquanto me aproximava da porta, ouvi uma risada vinda de dentro da casa. O som era tão hipnótico que fez com que parasse meus passos e ficasse ouvindo por um momento. Era o som da risada de Jeremy. Enquanto eu me aproximava da casa, olhei através das rachaduras de uma cerca de madeira. Jeremy estava dirigindo um carro de brinquedo. Era uma Ferrari, é claro. Isso me fez sorrir um pouco, mas não pude sorrir ao olhar para a cerca. Ela precisava ser substituída o mais rápido possível. Quando me aproximei, Jeremy olhou para mim pelas frestas da cerca. Pensei que ele iria gritar por Tyler. Mas, ao invés disso, saiu do carrinho e veio correndo até a cerca para olhar para mim. Mantive a distância, mas ajoelhei-me e sorri para ele. — Oi — Jeremy disse com um sotaque americano fofo. — Ei você. Como você está, amiguinho? Jeremy enrugou seu nariz pequeno. — Não sou mais tão pequeno para ser chamado de amiguinho. Já tenho quase


quatro anos. Meus olhos se arregalaram. — Sério? Você é grande. Quando fará quatro? — Em quatro de Setembro. Era difícil tentar manter minha calma ao ouvi-lo revelando isso. Fiz uma conta rápida de cabeça, e não foi difícil compreender quando tinha sido concebido. Merda, eu agi como um babaca. Observei aquele menino maravilhado. Como alguém podia ser tão lindo tendo sido concebido em uma situação tão feia? Como pude ter feito algo assim com ela? — Você é o cara do carro preto brilhante. Assenti. — Sim, eu sou. — Gosto de carros. Comecei a rir. — Eu também. Muito. Jeremy franziu o cenho. — Você é amigo da mamãe? Você fala que nem ela. Franzi o cenho, depois percebi que ele se referia ao sotaque. — Sim. Sua mamãe e eu nos conhecemos desde que éramos pequenos. Na verdade, eu e sua mãe éramos um pouquinho mais velhos que você quando nos conhecemos. Jeremy aproximou-se e olhou para mim. Seus olhos eram completamente hipnóticos. Ele era deslumbrante. — Qual o seu nome? — Jeremy, o que está fazendo? — Tyler saiu pela porta e me viu ali. Ficou inerte e colocou a mão no peito. Estava maravilhosa com seu cabelo longo e loiro, os olhos verdes, usando um vestido floral de verão. Parecia totalmente com a jovem mãe que eu sempre imaginei que ela seria. Por um momento nada foi dito. Olhamos um para o outro, Tyler com a boca aberta, enquanto Jeremy olhava para nós dois. Depois, ela engoliu em seco e olhou para Jeremy por um momento, antes que nossos olhos se encontrassem novamente. — O que está fazendo aqui? — Ela não parecia irritada, nem triste. Ao menos era alguma coisa. — Mamãe, seu amigo tem um carro bonito e brilhante como o meu. — Jeremy sorriu, e eu não pude evitar que uma pequena gargalhada escapasse de meus lábios. — Isso é ótimo, querido. Ouça, pode fazer um favor para a mamãe e levar seus brinquedos para a sala de estar? Vou preparar algo para comermos logo, logo. Jeremy suspirou. — Mas eu quero falar com seu amigo. Os olhos de Tyler se arregalaram. — Jeremy, por favor. Eu preciso conversar com meu... com meu amigo por um momento. Jeremy bufou, contraiu os lábios e entrou na casa como uma tempestade. Tyler se aproximou da cerca. — Por que você voltou? — Eu precisava. Não pertenço a nenhum lugar onde você não esteja.


Tyler fechou os olhos por um momento. Parecia sofrer, e eu odiava ser o causador de sua dor. — Pensei que tinha sido clara. Fiquei rígido. — Eu também. — Ficamos em silêncio por um momento, só olhando um para o outro. Eu sabia que ela queria dizer algumas coisas, mas as palavras pareciam presas em sua boca. — Posso entrar? Ela balançou a cabeça. — Não acho que seja uma boa ideia. Suspirei. — Tyler, você está brincando comigo? Está ignorando o fato óbvio de que você teve um filho e não me contou? Acho que tenho o direito de receber uma explicação. — Suspirei novamente e passei meus dedos por meu cabelo. — Não me exclua. Eu sei que o que fiz foi errado, mas isso — apontei para a casa — é algo que preciso saber. Quero, pelo menos, que você me dê esse direito. Tyler cobriu os olhos com a mão, e então, olhou para mim novamente. — Ok — ela suspirou. — Dê a volta que te deixarei entrar. Tyler desapareceu, e eu rapidamente a segui até a porta da frente. Ela a abriu, e um Jeremy muito ansioso aproximou-se dela. — Você quer ver os meus bonecos? Ri novamente. Ele com certeza era um garoto alegre. Eu adorava isso. — Claro que quero, garotão. Me mostra. Jeremy gargalhou. — Garotão? Assenti. — Você é um garoto grande agora, não é, Jeremy? Um garotão? Jeremy balançou a cabeça. Era a coisa mais engraçada que eu já tinha visto. — Você é bobo — ele afirmou, pegando minha mão e me guiando até a sala. Assim que chegamos lá, Jeremy sentou-se, e eu me sentei com ele. Tyler suspirou. — Você quer uma cerveja? Tenho algumas na geladeira. Olhei para ela e sorri. — Uma cerveja seria bom. Tyler assentiu e desapareceu no corredor. Nesses breves segundos, dei uma boa olhada em sua condição de vida. O local era limpo, claro e espaçoso. Ao menos ela estava vivendo como merecia. Também não precisava ser um gênio para entender que Jeremy tinha tudo que queria. Ele era muito sortudo por ter uma mãe como Tyler. — Tenho três bonecos. Olha. Jeremy me entregou seus três bonecos e sorriu. — Você gosta de bonecos? — Jeremy assentiu. — E também gosta de carros? — Ele assentiu novamente. — E soldados? Gosta de soldados? — Os olhos de Jeremy se iluminaram, e ele correu na direção de uma caixa no canto da sala. Ficou lá por alguns segundos e pegou alguns soldadinhos pequenos. Isso me fez sorrir. Eles pareciam muito com uns que eu costumava brincar quando era criança. — Eu tenho esses aqui.


Sorri. — Uau, garotão. Você tem tudo. Jeremy gargalhou novamente. — Gosto de você. Você é engraçado. Meu coração se despedaçou de forma desconhecida. Era uma emoção que nunca tinha sentido na vida. Naquele momento, quis chorar, e eu dificilmente chorava. Pigarreei e tentei sorrir. — Também gosto de você, Jeremy. Muito. — Qual é o seu nome? — Ele pegou os soldadinhos da minha mão, mas em nenhum momento tirou os olhos de mim. — Dean. Os olhos de Jeremy se arregalaram. — Esse é o meu nome do meio. De todas as coisas que eu esperava, aquela definitivamente não era uma delas. Jeremy sentouse perto da mesa de café e começou a brincar com seus brinquedos, enquanto eu me sentava, completamente em choque. — Aqui está sua cerveja. Ergui minha cabeça e vi Tyler olhando para mim, com uma preocupação em seus olhos. — Podemos conversar? — Olhei para Jeremy e vi Tyler fazer o mesmo. — Jeremy, você quer dar um mergulho na piscina? Ele deu alguns pulinhos. — Sim! Tyler gesticulou. — Então venha. Vamos trocar sua roupa para irmos lá para fora. — O Dean pode ir comigo? — Ele parecia olhar de mim para Tyler, cheio de expectativas. Balancei a cabeça, sentindo-me mal por não poder acompanhá-lo. Eu adoraria. — Eu adoraria, mas não tenho nenhuma sunga comigo, garotão. Jeremy pareceu triste por um momento, mas logo se animou um pouco. — Talvez em uma próxima vez. Jeremy saiu correndo, e eu fui deixado ali, preso no local onde estava sentado. Tyler também ficou ali por um momento, olhando para mim, e então o seguiu para o segundo andar. Eu realmente esperava que ela permitisse que houvesse uma próxima oportunidade. Senti-me instantaneamente conectado com Jeremy e não iria aceitar uma vida sem ele sem lutar. Agora havia duas pessoas por quem batalhar, e eu não gostava de perder. Uns cinco minutos depois, Tyler e Jeremy surgiram lá de cima, e Tyler gesticulou para mim para que eu os seguisse. No momento em que pisei lá fora, o calor me atingiu. Parecia ficar mais e mais quente a cada dia. Tyler pediu que eu me sentasse a uma mesa na sombra, enquanto se inclinava para colocar as boias em Jeremy. Era difícil não olhar. Tyler estava mais linda do que já esteve em qualquer momento, mas observá-la com Jeremy era ainda melhor. Nem podia começar a descrever isso. Se eu pensava que aquela cena não iria ficar ainda mais intensa, Tyler bagunçou a cabelo de Jeremy e o beijou antes de mandá-lo entrar na piscina. — Não corra, Jeremy! — Ela sorriu de forma amável para ele, mas no momento em que se virou para mim, o sorriso desapareceu. Senti falta dele instantaneamente. Era um sorriso que ela costumava reservar para mim há muito tempo.


Tyler se sentou em uma cadeira perto de mim enquanto nós dois observávamos Jeremy pular na piscina. — Acho que não preciso te dizer que é o pai dele. Tudo sempre acaba se direcionando a uma única pessoa. — Ela olhou para baixo por um momento, antes de erguer os olhos para olhar para Jeremy. — Não. — Por um momento era tudo o que eu podia dizer. Minha língua estava seca e meu coração batia muito rápido. Engoli em seco e finalmente encontrei minha voz: — Por que não me contou? Tyler fechou os olhos. — Porque você nunca me deixaria ir. Uni minhas mãos. Queria tocá-la, mas sabia que não era a hora nem o local certos. — Eu nunca te deixaria ir, de uma forma ou de outra. — Era importante que ela compreendesse isso. Acho que ela já tinha entendido, aliás. Tyler abaixou a cabeça novamente. — Eu sei. Enquanto absorvia suas palavras, meu coração saltava de novo no peito. Precisava conseguir as respostas desesperadamente. Estava tão assustado com medo de não gostar delas, mas precisava saber. — O que vai acontecer agora? Tyler suspirou e deu de ombros, com os olhos cheios de lágrimas. — Eu não sei — ela sussurrou. Por instinto, estendi a mão, mas ela recuou. — Por favor. Não. Por mais que todos os meus instintos gritassem que eu deveria confortá-la, fiz o que ela pediu. Tyler fungou um pouco, secou seus olhos e respirou fundo. — Por que você não está irritado comigo? Sua pergunta me chocou um pouco. Estava esperando que fosse o contrário. — Eu estou irritado. — Ela assentiu, aceitando, e abaixou a cabeça novamente. — Estou irritado comigo mesmo por ter te colocado em uma situação assim. Estou irritado por ter te obrigado a viver sua vida assim. Estou muito puto, e nunca irei me perdoar, mas nunca poderia ficar irritado com você, Tyler. Eu fiz isso com você. Fiz isso conosco. Ela ergueu os olhos, arregalados como se fossem dois pratos. — Você não está nem um pouco irritado comigo? Eu dei à luz a um filho seu e nunca te contei nada. Na verdade, eu o escondi de você quando percebi que viria atrás de mim, que tinha me encontrado. Que tipo de pessoa isso me torna, Dean? Busquei em seus olhos inchados e tudo que encontrei foi um coração partido. Eu deveria estar chateado por ela ter escondido a verdade de mim, mas só conseguia pensar que era minha culpa. Virando-me em direção a ela, toquei sua mão. Desta vez, ela permitiu. — Isso te torna uma pessoa que foi ferida profundamente por alguém que confiava de todo coração. Essa pessoa andaria sobre brasas por você se fosse preciso. Mas acontece que ele é um babaca, não conseguia ver nada debaixo de seu nariz. Tyler fungou um pouco e assentiu com um sorriso. Estava tão linda naquele momento. Sempre esteve, mas era como se cada vez que eu olhava para ela, descobrisse algo diferente. Ela era a pessoa mais linda e fascinante que já conheci. — Você fez mamãe chorar? Viramos nossas cabeças na direção de Jeremy e vimos que ele estava parado ali, olhando para nossas mãos. Tyler tirou as dela de dentro das minhas e se levantou para ajoelhar-se perto dele.


— Estou chorando porque estou feliz, Jeremy. Ele franziu o cenho, e eu estava encantado por ele ser tão protetor em relação a Tyler. Não podia culpá-lo. Nem um pouco. Acho que as maçãs nunca caem muito longe de seus galhos. — Como você pode chorar quando está feliz? — Ele olhou para Tyler e depois para mim. Sorri para ele, mas a preocupação em seu rosto não desapareceu. — Sabe, Jeremy, adultos choram quando estão felizes. No momento em que você nasceu e eu te segurei nos meus braços pela primeira vez, chorei como um bebê. Estava muito feliz por ter dado à luz a um menino maravilhoso, saudável e lindo. Não pude evitar. Meu coração chegou quase à garganta. Pensar que Tyler esteve sozinha enquanto dava à luz me enchia de pavor. Eu deveria ter estado lá, segurando sua mão e compartilhando daquela alegria. — Então Dean está te fazendo chorar de alegria? — Ele olhou nos olhos de Tyler com uma expressão ansiosa. Tyler assentiu. — Eu e Dean não nos encontrávamos há muito tempo. Estou feliz por vê-lo novamente. — Ela olhou para mim e sorriu. Fiquei contente por ela estar me salvando. Eu sabia que suas palavras não eram verdadeiras, mas estava me salvando da raiva do meu filho, fazendo com que me apaixonasse novamente por ela. — Você vai se casar com a minha mamãe? — Os olhos de Tyler voltaram-se para mim. Aquilo me pegou completamente de surpresa. A sinceridade das crianças não era uma delícia? Às vezes ela funcionava, mas às vezes, como naquele momento, vinha na pior hora possível. Eu queria me casar com Tyler desesperadamente, mas como poderia dizer aquilo para Jeremy? Não parecia correto. Depois de perceber meu desespero, Tyler olhou para Jeremy. — Jeremy, você não pode fazer perguntas assim às pessoas. Ele deu de ombros. — Por que não? Tyler suspirou. — Porque não é apropriado. Vamos esquecer isso. Você quer nachos? Jeremy ficou parado por um tempo, olhando para mim. Parecia que ele ainda não tinha terminado. — Se você quiser casar com a mamãe, vai ter que me pedir primeiro. — Jeremy! — Tyler afundou o rosto nas mãos. Minha reação? Não consegui parar de rir. Ele era perfeito demais para explicar. Inclinando-me um pouco para frente, ofereci minha mão e uma piscadinha. — Combinado, garotão. Jeremy gargalhou e apertou minha mão. — Minha mãe fica vermelha muito fácil. Gosto quando ela fica vermelha. Sorri e olhei para Tyler. — Rosadinha. — Apesar de seu constrangimento, ela sorriu. Era a primeira vez em muito tempo que eu sentia que tinha um pedaço da minha Tyler de volta. Jeremy cutucou meu ombro. — O que é Rosadinha? Sorri para ele. — É o apelido que sempre chamei sua mãe. Ela costumava ficar vermelha quando éramos


crianças. Suas bochechas ficam rosadas constantemente. Jeremy sorriu, mas não era um sorriso normal. Era um daqueles atrevidos e cheios de malícia. Fez com que eu me perguntasse o que estaria aprontando. — O Dean pode ficar para o jantar, Rosadinha? Ri, e Tyler revirou os olhos. — Jeremy Dean Florentino, você é o patife mais insolente e travesso que já conheci. Jeremy gargalhou novamente. — Ele pode? O sorriso de Tyler desapareceu, e ela ficou me olhando por um momento. Assenti, fazendo com que soubesse que eu queria muito ficar. Na verdade, não queria mais ir embora. — Ok. O Dean pode ficar, se quiser. Jeremy olhou para mim. — Você vai ficar? Assenti e baguncei seu cabelo. — Não há nenhum outro lugar melhor do que aqui. Jeremy comemorou e correu para pular na piscina, espalhando água para tudo que é lado. Eu e Tyler ficamos ali sentados, observando-o por um tempo, antes que ela falasse novamente. — Ele gosta de você. — Sorri para ela, antes que virasse para olhar para Jeremy novamente. — Mas acho que estava destinado a se apaixonar instantaneamente pelo pai. Como não estaria, se foi o que aconteceu com a mãe dele vinte e oito anos atrás? Como ela tinha coragem de dizer aquelas palavras e não esperar que eu me aproximasse e a tomasse em meus braços? Precisei fazer todo esforço do mundo para não fazer exatamente isso. Eu estava desesperado para saber. Desesperado para ouvir as respostas de Tyler que vinha esperando há anos. Mas mordi minha língua. Segurei as perguntas porque não queria pressioná-la. — Ele é lindo. Como a mãe. — Tyler olhou na minha direção brevemente e sorriu, antes de virar a cabeça novamente. — Obrigado por trazer nosso filho ao mundo. Nunca encontrarei palavras suficientes para expressar o quanto estou orgulhoso de você. Os olhos de Tyler se arregalaram um pouco. — Pare com isso, Dean. Sorri. — Parar com o quê? Tyler virou-se e me prendeu em seus lindos olhos verdes. — Pare de tornar impossível que eu o odeie. — Ela sorriu, e eu deixei escapar uma gargalhada. — Essa sempre será minha intenção. — Ergui uma sobrancelha e sorri. — Você sempre será minha Rosadinha. Sabe disso, não sabe? Tyler assentiu. — Sim, mas muitas coisas mudaram desde então. Muitos anos se passaram. Não sou mais a mesma pessoa de antes. Eu cresci, e você também. Inclinei-me para frente um pouco, ganhando sua atenção. — Você está certa em relação a isso, Tyler, mas os sentimentos não mudaram. Os meus nunca mudaram. Amar é uma coisa que não envelhece. Não funciona assim. Tyler sorriu e olhou para Jeremy, que pulava dentro d’água. — Sei que não. Jeremy saiu da piscina e correu novamente na nossa direção.


— Estou com fome. Podemos comer agora? Tyler assentiu. — Ok. O que você acha de Dean te ajudar a se secar enquanto eu preparo o jantar? Jeremy assentiu e estendeu a mão para mim. — Posso te mostrar onde eu guardo todos os meus outros bonecos. Peguei sua mão enquanto Tyler me entregava a toalha. — As roupas dele estão em cima da cama. Assenti e deixei que Jeremy me guiasse até o andar de cima, para o seu quarto. Era exatamente como eu imaginava, com pôsteres do Homem-Aranha e Super-Homem na parede. Ele tinha caixas de brinquedos no canto, que poderiam mantê-lo entretido o dia inteiro. Na cama, onde suas roupas estavam, eu me sentei e estendi a toalha. — Vamos secar você. Ele sorriu e veio em minha direção. — Você ama minha mamãe? Sua pergunta me surpreendeu um pouco, mas também me fez sorrir. — Eu a amo muito. Ela é a melhor pessoa do mundo. Também é a melhor mamãe que um garotinho poderia ter. Jeremy assentiu, mas não disse mais nada. Ele me deixou que eu o secasse, e quando foi o momento de se trocar, fechei meus olhos para proteger sua dignidade e o ajudei com as calças. Assim que colocamos a blusa, sequei seu cabelo um pouco mais. — Acho que você está pronto, garotão. Vamos descer para ajudar sua mamãe com os pratos e as outras coisas? Jeremy sorriu cheio de atrevimento e estendeu a mão. — Estou pronto. Assim que chegamos lá embaixo, Tyler estava na cozinha, mexendo algo que parecia espaguete com molho. — O espaguete à Bolonhesa da mamãe é uma delícia. — Jeremy esfregou a barriga e lambeu os lábios. Sorri. — Mal posso esperar para provar. — Todos prontos? — Tyler olhou para nós com um sorriso. Jeremy assentiu e olhou para mim. — Você pode me ajudar com os garfos e as facas? — É claro. Só me mostre onde estão, garotão. Jeremy gargalhou e me puxou em direção a gaveta. Ele tinha um enorme sorriso no rosto, o que me fazia acreditar que estava aprontando alguma coisa. Assim que voltamos à mesa, descobri o que era. Quando Jeremy se aproximou do lugar de Tyler na mesa, colocou um garfo e uma faca de bebê, olhou para mim e gargalhou, pondo o dedo nos lábios. Se eu achava que ainda não estava apaixonado por ele antes, agora estava completamente. Meu filho tinha a audácia dos Scozzari. Não havia dúvidas a respeito disso. Pisquei em retribuição e coloquei um dedo no lábio também. Assim que Tyler voltou, lhe servi uma taça de vinho, servindo um pouco para mim também, e esperei que ela reparasse. Ela serviu um pouco de espaguete para si mesma, colocou um pouco de molho sobre ele, e então, se sentou para pegar seu garfo. Hesitou por um minuto, sorriu e olhou para Jeremy. É claro que, àquela


altura, Jeremy estava tentando esconder sua gargalhada desesperadamente, mas não conseguia. — Jeremy Dean Florentino, o que vou fazer com você? — Ela balançou a cabeça com um sorriso, levantou-se da mesa e foi até a cozinha. Assim que ela estava fora de alcance, inclinei-me para frente. — Você quer saber outra coisa que deixa sua mamãe irritada? — Ele balançou a cabeça, e eu contei a ele meu segredinho. Jeremy deu uma risadinha enquanto Tyler entrava. — Do que você está rindo? Olhei para o meu prato e o cheiro da Bolonhesa me atingiu em cheio. Era um cheiro familiar que eu costumava adorar, do tempo em que Tyler vivia em Londres. Sempre me perguntei como seria essa Bolonhesa e agora estava prestes a prov​á-la. Dei a primeira garfada e meus olhos se arregalaram. — Porr... — eu quase disse, mas segurei a língua. — Isso aqui está delicioso. — Sorri com timidez, mas Tyler não estava gostando nada daquilo. — Mamãe, Dean tem a boca suja. Tyler assentiu em concordância. — Com certeza ele tem. Jeremy sorriu e eu revirei os olhos. — Ah, vamos, eu nem cheguei a dizer a palavra. — Não, mas estava prestes. — Tyler tentou parecer irritada, mas não estava funcionando. — Você tem que sentar no cantinho do pensamento. Sempre que eu falo uma palavra feia ou faço algo que não deveria, tenho que me sentar lá. — Jeremy olhou para Tyler, que sorriu. — Você está certo, Jeremy. É mais do que justo que Dean se sente no cantinho do pensamento. Você quer levá-lo até lá? Eu assenti, mal podendo acreditar. — Você não está falando sério, está? Tyler sorriu. — Ah, sim. Você foi um mau menino, Dean. Meninos malvados têm que se sentar no cantinho do pensamento. Ergui minhas sobrancelhas. — E por quanto tempo tenho que ficar lá? Tyler olhou para Jeremy. — O que você acha, Jeremy? Cinco minutos está bom? Ele gargalhou e assentiu. — Sim. Cinco minutos. Vou contar o tempo, mamãe. Tyler sorriu. — Ok, você conta e deixa Dean sair quando achar que ele já aprendeu a lição. Eu não podia acreditar. Jeremy levantou-se, estendeu a mão para mim, e eu a peguei com um sorriso no rosto. Balancei a cabeça para Tyler, que apenas deu de ombros. — Não toleramos bocas sujas nesta casa. — Ela piscou e aquele pequeno gesto quase me deixou de joelhos. Será que ela não percebia o que fazia comigo? — Meu Deus, você é linda — eu disse, enquanto era guiado pelo corredor. Só tive tempo de olhar para seu rosto deslumbrante antes de Jeremy me colocar de frente para as escadas. — Você tem que ficar aí até eu te dizer para sair. Entendeu? Eu sorri, sentei-me e assenti.


— Entendi, mas acho que é muito injusto. Eu não cheguei a dizer a palavra. — Sorri de forma maliciosa e Jeremy gargalhou novamente. Eu amava suas gargalhadas. Pisquei para ele e me inclinei para frente. — Lembra do que eu disse? Jeremy assentiu com um sorriso e voltou para a sala de jantar. Depois de alguns minutos, olhei para meu relógio e suspirei. — Sabe? Isso é muito injusto. Estou faminto aqui. Vocês vão me deixar com fome? Ouvi Jeremy gargalhar novamente, e então Tyler gritou: — Talvez, na próxima vez você se lembre disso antes de usar palavras feias. Ainda tem mais três minutos. Fiquei sentado ali, sentindo meu coração bater de forma selvagem contra meu peito. Será que iria mesmo haver uma próxima vez? Eu esperava que sim. Depois de passados os três minutos, Jeremy surgiu na porta com um enorme sorriso. — Você está arrependido por ter falado uma palavra feia? Assenti e abaixei a cabeça. — Estou muito arrependido, Jeremy. Você pode me perdoar? — Ele disse que está arrependido, mamãe. — Jeremy ficou ali, balançando-se e com as mãos nas costas. — Ok, então. Ele pode voltar para a mesa agora. Jeremy estendeu a mão e eu a peguei. Adorava o fato de ele parecer tão confortável perto de mim, mas não sabia se ele sentia a mesma conexão que eu. Se sim, ele provavelmente não a compreendia ainda, mas eu esperava que isso acontecesse um dia. Eu queria que Jeremy soubesse que tinha um pai agora. Assim que voltei à mesa, devorei o Bolonhesa em cinco minutos. Tyler me passou um sermão sobre comer rápido demais, o que achei sexy. Não que precisasse de muito para eu achar isso, mas, por alguma razão, vê-la agindo como uma mãe fazia com que meu pau pulsasse. Mas eu sabia que precisava acalmá-lo. Jeremy estava ali, e não importava o quanto eu quisesse agarrar Tyler, precisava lembrar que meu filho estava conosco. Não queria chateá-lo. Ele precisava de tempo para entender tudo. Só esperava que Tyler me desse esse tempo. Aceitaria qualquer coisa que ela quisesse me dar. Depois do jantar, ajudei com a louça, e então me sentei e joguei cartas. Estava tentando ensinar Jeremy como jogar Twos and Eights. Lembrava-me de como Tyler e eu costumávamos jogar juntos. Olhei para ela, que me deu um sorriso de parar o coração. Quando mais ela ficava gentil comigo, mais meu coração voava e minhas esperanças se elevavam. Quando eram quase nove da noite, Tyler pediu que Jeremy se preparasse para ir para cama. Ele reclamou e então virou-se para mim. — Você leria uma história para mim? Os olhos de Tyler se arregalaram. Eu não entendi o significado por trás disso, mas estava determinado a descobrir mais tarde. Olhei para baixo com um sorriso e ofereci a ele minha mão. — É claro, garotão. Jeremy riu novamente e me guiou até o segundo andar. Tyler ainda parecia um pouco sem chão, e eu esperava que não estivesse chateada com algo, menos ainda comigo. Assim que cheguei no segundo andar, Jeremy colocou o dedo na boca, fazendo sinal de silêncio, e entrou no que parecia ser o quarto de Tyler. Ele ficou lá por alguns segundos e então saiu, gargalhando mais do que nunca. — Você fez o que eu estou pensando? — Jeremy assentiu. — Ah, garotão, você vai


ficar muito encrencado. Jeremy riu e correu para seu quarto, mergulhando na cama. — Você pode ler O Grúfalo para mim? Sorri e me sentei na cama, ao lado dele. — Claro. Adoro essa história. — Eu também. Mamãe lê uma história para mim todas as noites, mas essa é a minha favorita. Jeremy pegou o livro de seu criado-mudo e o entregou para mim. Assim que percebi que ele estava pronto, comecei a ler. Tentei ao máximo fazer a melhor voz de Grúfalo possível, mas não sei se estava lhe fazendo justiça. Porém, Jeremy ria todas as vezes que eu a fazia, então, acho que estava tudo certo. Assim que terminei, entreguei o livro a Jeremy, e ele o colocou no local onde estivera antes. — Você é engraçado. Vai vir nos visitar de novo? Mordi meu lábio porque não sabia como responder isso. Estava tudo nas mãos de Tyler agora. — Não sei, Jeremy. Mas espero poder voltar logo. Jeremy puxou os lençóis para se cobrir. — Eu também. Boa noite, Dean. Inclinei-me, beijei sua cabeça e me levantei. — Boa noite, garotão. Esperei até que ele se virasse e fechasse os olhos antes de voltar para o andar de baixo. Sabia que eu e Tyler precisávamos conversar, mas também sabia que ela precisava de espaço. Agora que Jeremy estava em jogo, as coisas seriam diferentes. Eu precisava agir com mais cuidado. Assim que entrei na sala de estar, Tyler me entregou outra cerveja. — Quer ficar um pouco lá fora comigo? Sorri. — Claro. Assim que nos sentamos, virei-me para ela. — Por que você ficou tão chocada quando Jeremy me pediu para ler uma história para ele? Tyler endireitou-se em sua cadeira e pigarreou. — Normalmente ele não deixa que ninguém leia nada para ele, exceto eu. Mesmo depois de tantos anos conhecendo Evan, ele nunca lhe pediu. Depois do chute nas entranhas que recebi, pela menção do cara da calça cáqui, pensei sobre o que ela tinha acabado de dizer e sorri. Tyler olhou para mim e me cutucou. — Não precisa ficar assim todo presunçoso, Dean. Dei de ombros e sorri para ela de modo atrevido. — Não consigo evitar. Ele é meu filho. O sorriso de Tyler desapareceu, e ela olhou para mim com seriedade. — Sim, ele é. E como você se sente em relação a isso? Suspirei. — Bem, não vou negar que foi um choque, mas você e eu sempre estivemos


destinados a nos casar e ter filhos. As coisas não funcionaram como desejamos, mas merdas acontecem, eu acho. Tyler deu um gole em sua taça de vinho e inclinou-se para trás na cadeira. — Eu estava tomando pílula. Não sei se você se lembra, mas passei mal do estômago, tomei uns antibióticos e fiquei afastada do trabalho. A obstetra disse que foi nessa época. — Ela suspirou um pouco e olhou para mim. — É engraçado, na verdade. Assim que me livrei do choque inicial, me senti feliz. Eu sabia que iria sentir sua falta, então, descobrir que teria uma parte de você sempre comigo fez com que me sentisse melhor. Não sei se faz sentido. Eu me lembro daquela época. Também me lembro de ter gritado com ela no escritório por causa daquele afastamento e de estar frustrado por não saber o que estava acontecendo. Não sabia sobre Jeremy, e isso me incomodava. Eu nunca conseguiria superar toda a merda que causei a ela. — Faz todo sentido. Qualquer parte de você que queira me dar, aceitarei de braços abertos. Mas acho que você já sabe disso. — Dei um gole na minha cerveja e esperei que ela dissesse alguma coisa. — Você sabe que eu nunca soube exatamente o que fazer? Não consigo pensar, minha cabeça está confusa. Não esperava que fosse voltar depois... — Ela parou e era fácil perceber que estava achando tudo aquilo muito difícil. Coloquei minha mão em seu ombro e ela olhou para mim. — Tyler, não estou esperando respostas assim, direto. Não vou te forçar a pensar sobre o que realmente quer. Mas estou aqui. E estarei aqui pelo tempo que me quiser. Mas uma coisa que te peço é que não afaste Jeremy de mim agora que o encontrei. Ele precisa de mim. Sou o pai dele. Tyler assentiu vigorosamente. — Sei disso. Eu nunca faria isso. Mas você tem que entender uma coisa. Mantive Jeremy afastado porque tenho medo por ele. Você continuou o negócio dos seus pais. Se ligou a pessoas que são perigosas, Dean. Não posso ter essas coisas próximas do meu filho. Também não posso ter você colocando sua vida em risco o tempo todo. O que aconteceria se nos aproximássemos e recebêssemos uma ligação avisando que você foi morto? O que isso faria comigo? O que faria com Jeremy? Pousando minha mão sobre a dela, a fiz parar. — Já te disse, Tyler. Vou desistir de tudo isso. Jeremy é mais importante do que toda essa merda. Você é mais importante. Irei aonde quer que você vá. Tyler sorriu. — Você sempre vai me seguir. Ela estava fazendo uma piada em relação ao fato de que eu sempre a perseguia. Acho justo. — Você sabe que é verdade. Ao menos não pode dizer que desisto fácil. Não quando realmente importa. Tyler balançou a cabeça. — Não, acho que não. — Ela olhou para baixo por um momento, e então ergueu os olhos para mim novamente. — Parte de mim quer te aceitar de novo, mas a outra parte está muito assustada, Dean. Não sei o que esperar. Ainda estou magoada e ferida por tudo que aconteceu. Como posso seguir em frente? Merda, como se ouvir isso também não me ferisse. Eu queria lhe dar todas as


respostas que precisava, mas como começar a compensá-la pelos meus erros? Como começar a tentar livrá-la da dor que causei? — Não posso mentir para você e dizer que tenho todas as respostas, Tyler. Porra, eu realmente gostaria de tê-las, mas não tenho. Tudo que posso dizer é que farei qualquer coisa para nunca te magoar novamente. E é uma promessa. Levo minhas promessas muito a sério, e nunca vou prometer nada a não ser que possa cumprir. Tyler sorriu com relutância e suspirou. — Acredito em você. Segurei sua mão e olhei-a nos olhos. — Vai levar algum tempo, mas um dia você vai saber ao invés de acreditar. Peguei minha cerveja, tomei-a em um gole só e me levantei. Estava pronto para ir embora, o que deixou Tyler um pouco chocada. — Não posso ficar mais, Tyler. Se ficar, vou te tomar nos meus braços e nunca mais vou te soltar. Não quero confundir Jeremy agora. Ele precisa me conhecer mais. Ele precisa saber que não sou apenas um visitante ocasional. Tyler assentiu e levantou-se com lágrimas nos olhos. — Quando você era criança, esperou por mim. Agora que é adulto, está esperando por seu filho. Obrigada por compreender. Dei um passo na direção dela e coloquei a mão em seu rosto. Tal como antes, ela se inclinou, fechando os olhos. Inclinei-me também e a beijei suavemente nos lábios. Senti que Tyler queria aprofundar o beijo, mas não permiti que fosse mais longe. Se fizesse isso, estaria perdido. Tinha que ser forte. Havia mais uma pessoa em quem pensar. A respiração de Tyler tornou-se incerta, e foi difícil para diabo me afastar. Já fazia muito tempo desde a última vez em que estive dentro dela. — Preciso ir. — Respirei contra sua boca. Tyler inclinou a cabeça para tocar a minha e assentiu. Cada parte de mim estava gritando que não deveria deixá-la, mas ela também precisava ver o tipo de pessoa que eu poderia ser. A pessoa por quem ela se apaixonou anos atrás. Peguei a mão dela na minha e caminhei em direção a porta da frente. Assim que a abri, virei-me para ela. — Posso te ver amanhã? Tyler sorriu e assentiu. — Vou gostar disso. Acho que Jeremy nunca iria me perdoar se eu dissesse que não. Por que não chama Jimmy também? Acho que vai estar uns dez graus mais quente amanhã. Podemos ficar na piscina e fazer um churrasco. Vou ver se Tara quer vir também. Sorri. — Parece ótimo. O que acha de à uma da tarde? Tyler assentiu. — Perfeito. Caminhei alguns passos e então me virei. — Ligue o alarme quando entrar. — Dei uma olhada na casa e depois olhei para Tyler. — Essa casa guarda muitas coisas preciosas para mim. — Pisquei para ela, que ficou ali, parada, com um enorme sorriso no rosto. Era difícil, mas eu estava orgulhoso de mim mesmo por não ceder à tentação que Tyler sempre era para mim. Minha linda e sexy bruxa de saltos altos.


Capítulo Onze Tyler Como era possível que Dean sempre me fizesse querê-lo mais do que o próprio ar que eu respirava? Ele me esperou quando eu era mais nova e o amava. Mas agora estava esperando por causa do nosso filho e... ah, meu Deus... isso me excitava! Eu o queria tanto que a dor tornava-se um constante pulsar. A única coisa que a acalmou um pouco foi quando subi para tirar minha maquiagem. O que vi fez todos os tipos de raiva se incendiarem dentro de mim. — Ah, meu Deus! Ouvi uma gargalhada, então, me apressei pelo corredor, chegando a tempo de ver meu filho correndo de volta para seu quarto. Corri atrás dele e assim que chegamos, Jeremy se escondeu debaixo das cobertas, gargalhando tanto que não pude evitar um sorriso. — Você tem alguma coisa a ver com isso? — Segurei o papel higiênico que consegui pegar do suporte pouco antes de correr atrás de Jeremy. Apesar dos tremores por causa de sua gargalhada, ele não se mexeu. — Jeremy, olhe para mim enquanto estou falando com você. Bem devagar, ele tirou as cobertas do rosto e olhou para mim, só com um olho. O outro olho ainda estava escondido sob as cobertas, em segurança. Porém, isso não iria salvá-lo. Peguei o papel higiênico. — Você virou meu papel higiênico para o lado errado? — E aquele era o lado errado. Ele precisava saber disso. Jeremy virou-se para mim com seu melhor olhar de: O quê? Eu? Era perito nisso. — Foi Dean que te deu a ideia? — Jeremy fechou os lábios, tentando esconder um sorriso. Ele balançou a cabeça. — Não minta para mim, Jeremy. — Não sei do que você está falando. E foi isso. Corri na direção dele, joguei o papel no chão e comecei a lhe fazer cócegas. Jeremy gritava e se encolhia, gargalhando. Ele sempre gargalhava, e eu amava quando fazia isso. Fazia com que eu sentisse que era uma criança feliz. Assim que nos acalmamos um pouco, baguncei seu cabelo. — Não faça isso novamente. — Cara, Dean ia levar um baita sermão no dia seguinte. — Foi engraçado, mamãe. — Ele sorriu radiante e meu peito se apertou. Como eu podia brigar com ele quando sorria para mim daquele jeito? — Bem, estou feliz por te entreter. Jeremy gargalhou novamente e deitou-se na cama. — Você vai se encontrar com Dean outra vez? Assenti com um sorriso. — Sim, vamos nos ver amanhã. Acho que você vai conhecer o amigo dele também, o Jimmy. Vou ligar para Tara e ver se ela quer vir. Jeremy sorriu. — Legal. Gosto do Dean. Você gosta do Dean, mamãe? Sorri e baguncei seu cabelo. — Sim, eu gosto do Dean. Gosto muito dele.


*** No dia seguinte, a campainha tocou. Jeremy pulou, pensando que era Dean, mas tive que pedir que fosse paciente. Ainda faltavam três horas para que chegassem. Quando liguei para Tara convidando-a, ela ficou animada. Pelo que parecia, ela e Jimmy tinham retomado o romance desde que ele voltou. Dei uma olhada pelo olho mágico, e alguém estava do lado de fora segurando um enorme buquê de flores. — Quem é, mamãe? Abri a porta. Um homem de óculos me cumprimentou com um enorme sorriso. — Tenho uma entrega para a Srta. Florentino. Assenti. — Sou eu. Ele estendeu uma prancheta na minha direção. — Pode assinar aqui? — Fiz o que pediu, e ele me entregou as flores. — Tenha um bom dia, senhorita. — Obrigada. Você também. — Fechei a porta e procurei dentro do enorme buquê, encontrando um bilhete. — Quem mandou, mamãe? Sentei-me no sofá. — Não tenho certeza. Acho que vamos descobrir logo, não vamos? — Eu tinha um palpite de quem as teria mandado, então, abri logo o cartão. É claro que eram de Dean. Tyler, Eu sempre disse que você é o tipo de garota que merece flores todos os dias, então, vamos lá. Pense neste como o primeiro dia do resto da sua vida. Se você me aceitar, prometo torná-la a mulher mais feliz do mundo. Mal posso esperar para me encontrar com você e com Jeremy mais tarde. Diga isso a ele por mim. Com todo o meu amor, Dean. Tentei ao máximo não chorar, mas era difícil. Jeremy ainda estava olhando para mim com expectativa. — São do Dean. Ele pediu que eu te dissesse que está ansioso para te encontrar mais tarde. — Você está chorando de novo, mamãe? Eu não estava, mas por pouco. — Estou bem, querido. Não se preocupe. Jeremy deu de ombros. — Não vou me preocupar se forem lágrimas de alegria. São de alegria? Assenti. — Sim, são. — O Dean quer se casar com você? Porque só maridos enviam flores para as


esposas. Eu ri. — Bem, isso não é exatamente verdade, Jeremy. Às vezes as pessoas compram flores para as outras para agradecê-las por algo, para dizer que as amam, ou até mesmo para lamentar por uma perda. A testa de Jeremy se enrugou um pouco. — Então, por que Dean te mandou flores? Bem, essa era uma pergunta embaraçosa. — Er... Acho que é porque nos conhecemos há muito tempo. Ele sempre foi muito especial para mim. Jeremy começou a balançar sua perna para frente e para trás. — Você o ama? Não podia mentir para ele. O amor podia existir de muitas formas e ter muitos significados. — Sim, eu o amo. Sempre fomos muito próximos. — Você não vai afastá-lo como fez com Evan, vai? Senti uma pontada de culpa. Já tinha conversado com Jeremy sobre Evan. Expliquei que ainda éramos amigos, mas que não nos veríamos mais como antes. Ele entendeu, por mais que Evan tivesse feito parte de toda a sua vida. Porém, ouvir o que ele tinha acabado de dizer me fez pensar que esteve escondendo seus verdadeiros sentimentos. — Eu sei que já te perguntei isso antes, mas você está triste por Evan não passar mais tempo com a gente? Jeremy deu de ombros. — Gosto de Evan. Ele é legal, mas não é meu pai. Assenti. Sempre quis que ele soubesse disso. — Sim, você está certo. Ele não é seu pai. — Gosto de Dean. Ele é divertido. — Gargalhou novamente, como se estivesse lembrando de algo. — Quando é que ele vai chegar? Olhei para o relógio. — Só daqui a três horas. Temos que ir ao mercado para comprar carne para o churrasco. — Posso comer hambúrger? Assenti. — Claro que sim. — E cachorros-quentes? Assenti outra vez. — Podemos comer várias coisas. Jeremy saiu correndo, fingindo que era um avião, então, peguei um vaso para colocar as flores na água e me arrumei para ir ao mercado. Jeremy estava ansioso para ir, porque eu sabia que ele me fazia pegar mais coisas do que precisávamos. Desde que tive Jeremy minhas compras dobraram. Ele era um menino faminto, mas era saudável e feliz. Era isso que importava... tudo que eu poderia pedir. Assim que voltamos das compras, fiz com que Jeremy me ajudasse a guardar as coisas. Depois disso nós nos sentamos e jogamos um de seus jogos de aprendizado favoritos. Considerando que ele ainda não estava na escola, eu queria educar sua mente, mas também


queria tornar esse processo o mais divertido possível. Os cérebros das crianças eram como esponjas naquela idade. Absorviam tudo e guardavam. Eu só queria me certificar de que ele estaria o mais pronto possível para quando começasse a escola. Depois, peguei todas as carnes, pratos, talheres, e deixamos tudo pronto e arrumado no balcão da cozinha. Quando já era quase uma da tarde, ouvi a campainha tocar. Jeremy deu um pulo e correu na direção da porta. — Vá com calma, Jeremy. Precisamos ver quem é primeiro. De repente, a voz de Dean ecoou através da porta, me fazendo pular. — Ela está certa, garotão. Nunca abra a porta sem ver quem é primeiro. Jeremy gargalhou, dando pulinhos. Seu entusiasmo era contagioso. Assim que abri a porta, nós três ficamos ali parados. Dean se inclinou na direção de Jeremy e bagunçou seu cabelo. — E nunca atenda a porta sozinho, ok? Mamãe precisa estar com você todas as vezes. É importante para a sua segurança. Jeremy assentiu, mas viu que Dean continuava ali, parado, segurando algo nas costas. — O que você tem aí atrás? Dean ergueu uma sobrancelha. — Ah, você está se referindo a isso aqui? — Ele jogou o braço para frente, e em sua mão havia um boneco que tinha sido lançado recentemente e que Jeremy vinha insistindo para que eu comprasse há duas semanas. Jeremy deu um gritinho e alguns pulinhos, agarrando o boneco em seguida. — Como se diz, Jeremy? Ele olhou para mim, com seus olhos azuis brilhantes, antes de olhar para Dean. — Obrigado! — Ele se jogou nos braços de Dean e lhe deu um enorme abraço. Foi difícil impedir as lágrimas. Depois disso eu os guiei para dentro. Jimmy me deu um beijo no rosto, e Tara fez o mesmo. — Obrigado por nos convidar. Alguém me disse que faremos um churrasco? — Jimmy ficou ali parado, com a sobrancelha arqueada. — Sim, é verdade. Jimmy assentiu. — Se você não se importar, eu e Dean podemos fazê-lo. Assim, vocês, moças, podem ficar fofocando na piscina, com uma taça de vinho. Tenho certeza que têm muito o que conversar. — Ele abriu um sorriso malicioso na direção de Tara. Tara riu e colocou sua mão de forma afetuosa no peito de Jimmy. — Acho melhor você aceitar a oferta, Tyler. Não se fazem mais homens assim. Eu ri e assenti. — Ok, assim será perfeito. Obrigada. Jimmy puxou Tara para um abraço e piscou para mim. — Não há de quê. Só me mostre o caminho. Ele começou a caminhar na direção do quintal. Olhei para Dean, que estava animado com Jeremy, que, por sua vez, estava animado com seu novo brinquedo. Assim que entramos na cozinha, Tara colocou uma garrafa de Prosecco sobre o balcão. — É o meu favorito. Dean ergueu os olhos, sorriu, mas logo voltou seu foco para Jeremy. — Eu sei. Por isso comprei para você.


— Obrigada. Vou abrir a garrafa. Jimmy, a churrasqueira fica logo atrás essas portas. Jimmy beijou o topo da cabeça de Tara, arregaçou suas mangas imaginárias e foi em direção a porta dos fundos. — Achei. Tara deu uma olhada em Dean e Jeremy, depois voltou os olhos para mim. Jeremy gargalhava com algo que Dean tinha dito, então, Tara se inclinou para sussurrar: — Jeremy parece estar se dando bem com Dean. Assenti. — Ele se apaixonou instantaneamente. Mas não posso culpá-lo. Tara olhou para mim com uma expressão preocupada. — Como você está lidando com isso? Sei que as coisas andaram meio difíceis para você ultimamente. — Foi difícil, mas acho que preciso lidar com tudo dia após dia. Foi um choque ver Dean novamente, mas eu não deveria ter esperado algo diferente. Tara olhou para eles, e depois voltou-se para mim. — Dá para ver que ele te ama. Eu sorri e assenti, pensando que era melhor mudar de assunto. — Vou passar a viver um dia de cada vez. É tudo que posso fazer. — Suspirei e sorri para ela cheia de malícia. — Mas como vão as coisas com o namoradinho? Vocês parecem dois irmãos siameses desde que ele voltou semanas atrás. Tara olhou para ele à distância, com uma expressão sonhadora no rosto. Jimmy estava sem camisa. Seus olhos se arregalaram. — Como não querer passar cada momento do dia com um homem assim? Você já viu aqueles músculos? Tenho andado por aí com as pernas como se fosse John Wayne nas duas últimas semanas. Ele é completamente insaciável. Comecei a rir, e Dean olhou para mim com um sorriso. O que eu não daria para passar alguns momentos a sós com meu John Wayne também. Lembrava-me do quanto era bom ser fodida por Dean, mas também me lembrava de como me senti quando ele fez amor comigo. Eu queria me sentir assim mais do que qualquer coisa. Não ajudava em nada o fato de ele estar me olhando com aqueles olhos azuis penetrantes e sorrindo daquele jeito que só ele sabia sorrir. Sempre parecia como se fosse a primeira vez. Lá quando eu tinha seis anos. Tara me cutucou. — Pare de babar — ela sussurrou com uma gargalhada. Fiquei boquiaberta. — Não estou babando. Tara balançou a cabeça. — Garota, você está babando muito, mas eu também estaria se fosse você. — Ela olhou para Dean com um sorriso e logo depois piscou para mim. Gargalhei. — Vamos lá, Tara. Vamos pegar sol. — Olhei para Jeremy, que ainda estava brincando com seu novo boneco. — Jeremy, vamos nos trocar? Jeremy olhou para mim. — Quero que Dean me troque. Olhei para Dean, para ver se estava tudo bem, mas ele assentiu.


— Ok. A sunga dele está em cima da cama. Dean assentiu e pegou a mão de Jeremy. Logo eles desapareceram no andar de cima. — Acho que fiquei em segundo plano. — Revirei os olhos para Tara. — Oh, alguém está ficando com ciúmes? Você deveria estar feliz. Ele é pai do menino. Caminhamos juntas e Tara assobiou para Jimmy, que veio correndo e deu-lhe um tapa em seu bumbum. Tara deu um gritinho e nós duas seguimos para a piscina, deitando-nos nas cadeiras. — É estranho, Tara. Jeremy conhece Dean há apenas vinte e quatro horas e já foi conquistado. Tara balançou as pernas na cadeira. — Percebi. Eu sempre o vi com Evan, mas nunca assim. — Ela olhou para mim e franziu o cenho. — Você tem falado com Evan, aliás? Abaixei a cabeça e a balancei em negativa. — Não. Continuo achando que devo lhe dar espaço. Se fosse comigo, eu não iria querer meu ex me ligando e me lembrando que ainda existe todo santo dia. — Olhei para Tara, que assentiu. — Você o tem visto no hospital? Tara suspirou. — Ocasionalmente, mas não muito. Ele tem trabalhado bastante ultimamente. Quando eu o vejo, ele parece um pouco triste, mas posso dizer que está superando. Com certeza não afetou seu trabalho. Fechei meus olhos com um suspiro. — Bem, isso é alguma coisa, pelo menos. Também não tenho ido muito ao hospital. Só umas duas vezes desde que aconteceu, mas tenho medo de esbarrar nele. Sei que parece egoísta. Tara balançou a cabeça. — Você não pode se achar egoísta. É uma mulher ocupada, que está criando seu filho sozinha. Sei que está de férias no trabalho, mas isso não quer dizer que não esteja ocupada. Não seja tão dura consigo mesma. Vá quando puder. Tara olhou para mim com severidade e eu assenti com um sorriso. — Sim, Senhorita Tara. — Pisquei para ela, que sorriu de volta. Jeremy logo surgiu, com Dean a segui-lo. Usava apenas um calção de banho de surfista e, puta merda, estava um gato. Não consegui não lamber os lábios ao olhar para ele. — Porra! — Tara proferiu quase sem fôlego. — Como você consegue se concentrar? — Ela olhou para Jeremy e riu. — É o meu aniversário ou algo assim? Quando é que a música vai começar a tocar e eles vão tirar a roupa? Comecei a rir. — Eles já não estão vestindo muita coisa. Tara balançou a cabeça, enquanto dava uma olhada em Jimmy. — Melhor assim. Gargalhei enquanto Jeremy vinha correndo em minha direção. — Mamãe! Mamãe! Dean tem o meu nome no corpo dele. — Ele agarrou Dean pela mão e o arrastou na minha direção. — Olha! Olhei para Dean enquanto ele dava de ombros. Inclinei-me para frente e apertei a bochecha de Jeremy.


— Eu sei. É porque você é um menino especial, e todos sabem disso. Jeremy olhou para Dean e depois para Jimmy. — Dean disse que são tatuagens. Gosto de tatuagens. Até Jimmy tem tatuagens. Posso fazer uma? Todos riram. — Não é assim que funciona, querido — eu disse. Jeremy franziu o cenho. — Por que não? ​— Porque tatuagens são para adultos. Você não pode fazer uma antes dos dezoito anos, porque elas serão uma marca permanente em sua pele. Vai ficar para sempre. Jeremy pareceu animado. — Então, o Dean vai ter o meu nome no corpo dele para sempre? Assenti. — Sim. — Olhei para Dean com um sorriso. — Ele vai sim. Jeremy arfou. — Uau, que legal. Dean tem tatuagens de dragões nas costas. Estão lutando, mas o Dean disse que o dragão bom ganha, porque é assim que tem que ser. Olhei para Dean, erguendo uma sobrancelha. Lembrei-me daquela noite, alguns anos atrás. A noite em que ele me disse que o dragão cruel sempre ganhava. — É assim que deve ser. — Dean continuou olhando para mim e minha pulsação se elevou. Por um breve momento, abaixei o olhar e vi a flor de lótus em seu ombro. Foi quando me lembrei. — Obrigada pelas flores. Dean sorriu. — De nada. Começamos novamente a nos olhar. Uau, acho que eu nunca me cansaria disso. Jeremy deu um tapinha no meu ombro. — Posso ir para a piscina agora? Saí do meu devaneio e olhei para Jeremy. — Claro que sim, mas você tem que passar protetor solar. — Já passei nele. — Dean olhou para mim com um sorriso. — Você vem comigo? — Jeremy olhou para Dean com expectativa. Dean bagunçou seu cabelo. — É claro, garotão, mas eu tenho que fazer uma coisa primeiro. Você me ajuda? Olhei para Tara, com o cenho franzido e ela deu de ombros. Mas eu não tive que esperar muito. Antes que eu percebesse, Dean inclinou-se e me ergueu em seus braços. Tara e Jimmy começaram a rir e Jeremy, a gargalhar. — Me ponha no chão! — protestei. Dean olhou para Jeremy. — O que você acha, garotão? Devemos jogá-la? Jeremy ergueu os braços. — Sim! — Jeremy, que traidor! — Olhei para ele e sorri. — Você vai me ajudar a levar a mamãe até a piscina? Ela é um pouco pesada.


Dei um tapa no ombro de Dean. — Ei! Cuidado com o que diz. Dean piscou para mim e se inclinou em direção ao meu ouvido. — Vou tomar bastante cuidado mais tarde. Minha vagina pegou fogo de ansiedade. Se não houvesse uma pessoinha observando, eu o teria beijado. Queria muito sentir aqueles lábios nos meus. Eu estava tão presa por seu olhar que nem notei que Dean já estava bem na borda da piscina. — Você está pronto, garotão? — Jeremy assentiu. — Não ouse! Ainda não tirei o vestido! — gritei, mas não adiantou de nada. Jeremy também me segurou e Dean começou a me balançar. — Um, dois... três! Eles me jogaram dentro da piscina e eu caí lá dentro espalhando água para tudo que é lado. Gritei, mas isso só fez com que Jeremy risse ainda mais alto. Na verdade, todos estavam rindo. Tirei meu cabelo molhado dos olhos. A água estava fria, mas isso era ótimo por causa do calor que estava fazendo. — Isso não foi engraçado, pessoal. Jeremy gargalhou ainda mais e correu em direção a piscina. — Gerônimo! — Ele pulou do meu lado e a água se espalhou por todo lado. Logo Dean se juntou a nós, jogando água em mim. A bagunça e as gargalhadas pararam, enquanto eu olhava para todos com um olhar nada satisfeito. Dean olhou para Jeremy por um momento. — Sua mãe fica linda quando está molhada, não fica? — Ele olhou de volta para mim, dando uma piscadinha atrevida e eu logo entendi sobre que tipo de umidade ele falava. Balancei a cabeça e revirei os olhos. — Vou matar você. Dean olhou para mim de forma desafiadora. — Mal posso esperar para que isso aconteça. — Dean, você vai me jogar também? Dean olhou para Jeremy e assentiu. Considerei aquilo como minha deixa para sair da piscina. — Não fique jogando ele por muito tempo, Dean. Vai ficar enjoado. Ele assentiu com uma piscadela. — Sim, mamãe. Bufei, jogando água nele e Jeremy gargalhou novamente. Assim que saí da piscina, meu vestido começou a pingar água por toda parte. Olhei para Tara, que balançou a cabeça. — Garotos! Tara riu. — Não dá para viver perto deles. — Seria entediante demais — Jimmy gritou com uma piscadela. — Amém — ela ergueu sua taça de Prosecco, como em um brinde. — Quando foi que você se serviu? Tara piscou. — Jimmy foi lá dentro e pegou a garrafa para nós enquanto a bagunça acontecia.


Caminhei em direção a mesa e cadeiras e peguei minha taça. — Obrigada, Jimmy. Ele se virou, ainda de frente para a churrasqueira, e me cumprimentou. — Não há de quê. — Então colocou algumas carnes na churrasqueira. — Está tudo bem por aí? Jimmy se virou novamente. — Estou com a minha cerveja — ele a mostrou para mim. — E peguei essas coisas para virar o churrasco. Tudo sob controle. Eu ri. — São pinças, Jimmy. Ele ergueu os pinças e bateu uma contra a outra. — Essas aqui. A não ser que você esteja falando das de Tara. Ela tem umas que eu adoro usar. — Jimmy piscou para Tara e ela riu. — Como está o meu Johnson, Jimmy? — Tara gritou. Eu não fazia ideia do que eles poderiam estar falando. Jimmy virou-se e piscou para ela novamente. — Ah, ele está bem depois do que aconteceu hoje de manhã. Tara gargalhou e eu logo compreendi. Revirei meus olhos. — Ah, Deus... Aproximei-me de Tara e ela se afastou. — Será que você pode ficar longe de mim? Está me molhando toda. — Você é encantadora. — Balancei a cabeça e tirei meu vestido. Que sorte que estava usando um biquíni sob ele. — Uau, garota. Você tem malhado? Olhei para Tara e assenti. — Um pouco. Só parei por um tempo depois de ter Jeremy. — Coloquei meu vestido sobre uma cadeira próxima a nós para que secasse e me sentei. — Você está ótima. — Obrigada. — Encostei-me e olhei para a piscina. Foi quando percebi que Dean estava olhando para mim, cheio de desejo nos olhos. — Ele não consegue tirar os olhos de você. Dean jogou Jeremy para o alto algumas vezes e Jeremy apenas dava gritinhos de felicidade. Era estranho viver uma situação como aquela com Dean. Era quase como se tivéssemos imediatamente nos adaptado a uma vida de família. Eu não sabia se aquilo me deixava feliz ou confusa. Olhei para Tara. — É difícil tirar os olhos deles — precisei admitir. Era inútil esconder meus sentimentos. — Você já o perdoou? Tomei um gole do meu Prosecco e o coloquei de volta na mesa. — Eu realmente não sei, Tara. Parte de mim quer muito isso. — Gesticulei, apontando para a cena à nossa frente. — Eu sempre sonhei com isso. Você não sabe quantas vezes me sentei aqui e imaginei um momento exatamente como este. Eu e Dean até chegamos a conversar sobre isso quando éramos crianças. Tara ergueu uma sobrancelha. — Conversaram?


Assenti. — Sim. Às vezes nós conversávamos sobre o futuro. Uma vez, Dean me disse o que ele queria para o dele, e eu lhe contei o que queria para o meu. Era mais ou menos a mesma coisa. Tara deu um gole no vinho. — Quais eram as diferenças? — Bem, eu queria uma casa grande o suficiente para nós e para nossos dois filhos. Eu seria jornalista ou professora de jardim de infância. E queria que Dean dormisse abraçado comigo toda a noite. — Eu sorri, pensando sobre isso. — Que graça. O que Dean queria? — Ah, você sabe... uma casa grande com centenas de carros estacionados na garagem. — Comecei a gargalhar. — E ele disse que queria cinco filhos. Os olhos de Tara se arregalaram. — Cinco filhos? — Assenti. — Uau, vocês teriam que praticar muito para fazer isso tudo. Balancei a cabeça. — Nem pensar, Tara. Nunca teria tantos filhos. Acho que dois seriam o suficiente para ajudar na superpopulação mundial, não acha? Tara me analisou por um momento. — Hummm, mas ele queria o abraço à noite? Não são muitos homens que gostam de dormir de conchinha. Um lampejo de memórias surgiu de repente, me fazendo sorrir. — Eu e Dean costumávamos dormir muito de conchinha. Nunca por muito tempo, porque ele dizia que era difícil fazer isso quando não podia me tocar. Ele escalava minha janela, jogávamos cartas e outras coisas. Mas, às vezes, nos sentávamos e assistíamos a um filme. Eram meus momentos favoritos, porque eu podia ficar abraçada a ele, bem perto, sentindo seu cheiro. — Olhei para o lado oposto ao de Tara, constrangida com minha própria confissão. — Uau, você realmente o amava, não é? Suspirei, olhando para Jeremy e Dean, que brincavam na piscina juntos. — Sim. Tara sorriu e deu alguns tapinhas em minha mão, enquanto Jimmy gritou. — O almoço está quase pronto! Eu pulei da minha cadeira. — É melhor arrumar a mesa. Tara levantou-se comigo. — Só me mostre o que tenho que fazer e vou te ajudar. Nós rapidamente juntamos os pratos, a salada e guardanapos. Pegamos mais cerveja para Dean e Jimmy e, logo em seguida, nos sentamos para comer. Depois de morder minha carne de hamburguer, caminhei em direção a Jimmy. — Está delicioso. Ele piscou para mim. — Eu te disse. Sou o rei do churrasco — Você é o rei de muitas outras coisas — Tara murmurou. Jimmy sorriu para Tara, que sorriu de volta. — Então, Dean, Jessica me disse que vocês se conhecem desde que ela tinha seis


anos. Aposto que têm muitas histórias para contar. Jeremy ficou cheio de expectativa ao ouvir isso, só olhando para Dean. Este sorriu e olhou para mim. — Sim, com certeza nós temos uma ou duas histórias para contar. Quando nos conhecemos, eu dei um soco em um garoto que foi grosseiro com ela. Os olhos de Jeremy arregalaram. — Você fez isso? — Dean assentiu. — Ninguém magoa minha mamãe — ele fez um beicinho. Dean estendeu a mão. — É isso aí, garotão. — Eles se cumprimentaram em um high-five, e Jeremy gargalhou. Eles pareciam dar tão certo juntos. Era quase irreal. — Nós costumávamos jogar vários jogos quando éramos pequenos — Dean prosseguiu. Jeremy se remexeu na cadeira. — Tipo quais? Dean olhou para Jeremy. — Como aquele jogo de cartas que te mostrei ontem. E também Verdade ou Consequência. — O que é Verdade e Consequência? Dean franziu o cenho. — Você não conhece, garotão? — Jeremy balançou a cabeça. — Mamãe, como você pôde não ensinar Jeremy a jogar Verdade ou Consequência. — Ele se inclinou em direção a Jeremy e sussurrou: — Ela costumava adorar jogar esse jogo comigo. — Ele piscou para mim e sorriu. — Me mostra! Me mostra! Quero brincar! — Jeremy dava pulinhos, e todo mundo começou a rir enquanto continuávamos a comer. Dean olhou para mim por um momento. — Ok. Vou começar. Mamãe, você primeiro. Verdade ou Consequência? Eu o repreendi com os olhos por ter começado tal brincadeira. — Verdade. Dean sorriu para mim de forma maliciosa. — Alguma vez você já tocou a campainha de alguém e saiu correndo? — Ele ergueu uma sobrancelha e Jeremy olhou para mim, esperando por uma resposta. Fechei meus olhos por um momento, sabendo exatamente onde ele queria chegar. — Sim, já. Quando era mais nova, costumava tocar a campainha da Sra. Baxter. A forma como ela gritava meu nome era engraçada. Jeremy riu. — Você é uma mamãe malvada. — Sua vez, mamãe — Dean olhou para mim, e eu olhei para ele. — Ok, Dean. Esta é para você. Verdade ou Consequência? Dean sorriu. — Consequência. — Ele se remexeu em sua cadeira, esperando. — Te desafio a vestir uma cueca por cima do short e correr pela rua da frente, gritando: Eu sou o Super-Homem. Os olhos de Dean se arregalaram, e todos gargalharam. — Não posso fazer isso.


Ergui uma sobrancelha. — Você está se esquivando do desafio? Dean colocou o hamburguer no prato. — Não, de forma alguma. Fiz um gesto com as mãos. — Então, é melhor que se mexa. — Pisquei, e ele sorriu. — Você nunca vai se livrar dessa. Inclinei-me para frente e sussurrei: — Acho que acabei de fazer isso. Dean balançou a cabeça e levantou-se de sua cadeira. Todos o seguiram, rindo. — Eu tenho que ver isso — Jimmy gritou. Todos nós fomos até a casa, e Dean desapareceu no andar de cima. Quando reapareceu, estava usando uma cueca Calvin Klein branca por cima do short. Se o visse usando apenas a cueca, acho que teria morrido, mas, naquele momento, ele estava hilário. Ele balançou a cabeça. — Não consigo acreditar que fez isso comigo. Coloquei minha mão em seu peito e dei alguns tapinhas. — Ah, não aja como uma garotinha. Jeremy riu bem alto, dando seus pulinhos. — Vai, vai, vai! — ele começou a cantar sem parar. Dean passou a mão pelo cabelo dele e abriu a porta. Então, correu lá para fora, com os braços abertos, gritando: Eu sou o Super-Homem várias vezes. Todos nós ficamos na porta, rindo. Eu mal conseguia me lembrar quando tinha sido a última vez em que me diverti tanto. A sorte de Dean foi que ninguém estava passando por ali, mas aposto que algumas pessoas tinham saído às janelas para olhar. — O que acha disso, Jeremy, meu garoto? — Jimmy olhou para ele. — Acho que ele parece um bobo engraçado. — Jeremy gargalhou novamente, e Jimmy tocou sua mão em um high-five. Era bom ver Jeremy tão feliz. Ele precisava de pessoas como aquelas ao seu redor. Eu só podia apreciar aquele momento. De repente, Dean parou de correr. — Já é suficiente? Sorri. Será que eu era assim tão cruel? — Sim, acho que você já contou a muitas pessoas quem é o Super-Homem. Ou talvez não. Dean passou por mim e balançou a cabeça. Havia um brilho em seus olhos. O tipo de brilho cheio de promessas. Se aquilo não me deixava molhada... Dean foi até o segundo andar e, depois de alguns minutos, juntou-se a nós à mesa, sem a cueca. — Foi tão engraçado — Tara gritou. — Não consigo me lembrar de quando foi a última vez que ri tanto. Olhei para ela. — Você é a próxima. Quem vai escolher? Tara engoliu sua colherada de salada e apontou um dedo para Jimmy. — Verdade ou consequência?


Jimmy ergueu uma sobrancelha com uma expressão desafiadora. — Consequência. Tara sorriu e remexeu-se na cadeira. — Você sabe, Jeremy, que Jimmy me contou uma coisa alguns dias atrás. Sabia que ele sabe fazer acrobacias? — Jeremy balançou a cabeça com um sorriso. — Bem, essa é nossa chance de vê-lo em ação. — Ela se virou para Jimmy. — Eu te desafio a dar uma cambalhota na piscina. Jimmy deu de ombros e foi em direção a piscina. Ele ficou parado na borda, com as costas viradas para a água, e deu um impulso bem alto. Ele girou uma vez e então caiu na água espalhando-a por toda parte. Jeremy pulou de sua cadeira e começou a bater palmas sem parar. Todos nós rimos e batemos palmas com ele. Dean balançou a cabeça para Jimmy, enquanto ele saía da piscina. — Uau, foi muito impressionante. Jimmy tirou água de seu cabelo, jogando-a na direção de Jeremy enquanto ele gargalhava. — Obrigado, cara. Era assim que eu me mantinha em forma quando era mais novo. — Jimmy sentou-se perto de Tara. — Acho que sou o próximo. — Dean assentiu, e Jimmy olhou para Tara. — Verdade ou consequência? Tara sorriu. — Verdade. Jimmy também sorriu. — Qual foi a coisa mais constrangedora que você já fez em público? Tara olhou para mim por um momento e ergueu a sobrancelha. Eu ri. — Er... acho que posso dizer que aconteceu quando eu tinha dez anos e gostava muito de um menino da minha classe, que se chamava Jake. Nós sorríamos um para o outro às vezes e dizíamos oi, mas nunca passávamos disso. Então, um dia, ouvi rumores de que ele ia me convidar para sair. Estava tão empolgada que fiquei dando pulinhos o dia inteiro. Então, quando chegou a hora de ir para casa, eu corri para o banheiro antes de passar no meu armário. Estava com tanta pressa que não percebi que meu vestido estava preso em minha meia-calça e que havia papel higiênico ali também. Jake veio até mim, e eu estava ali parada, esperando, enquanto as pessoas apontavam e riam. Quando olhei na direção para onde eles apontavam, quase morri. Peguei o papel higiênico, soltei o meu vestido e corri para casa chorando. — Ela balançou a cabeça, sorrindo. Aposto que não achou tão engraçado na época. — Parece péssimo. — Olhei para Tara com simpatia, mas Jeremy começou a rir. — Jeremy, pare de rir. Não tem graça. — Eu o repreendi, e ele afundou a cabeça nas mãos com um sorriso. — O que aconteceu depois? O garoto Jake nunca mais te chamou para sair? — Dean olhou para Tara, e todos nós viramos a cabeça na direção dela. — Ah, ele chamou sim. Não pensei que fosse, mas ele chamou no dia seguinte. — Tara assentiu com a cabeça, triunfante, e nós rimos. — Acho que ele não pôde resistir a um pouco de papel higiênico colado na parte mais doce do meu corpo. — Tara riu e Jeremy começou a gargalhar novamente. — Ok, Jeremy. Você é o próximo. — Olhei para ele por cima da mesa, e ele fixou


seus olhos à distância. De repente, ele se virou para Dean. — Eu escolho o Dean. Verdade ou consequência? Dean balançou a cabeça com um sorriso. — Bem, com certeza eu não vou escolher consequência outra vez, então, vou de verdade. Jeremy assentiu, balançando a cabeça suavemente. — Você ama minha mamãe? O ar ficou subitamente mais pesado, assim como o silêncio que nos cercava. Tudo ficou quieto, tudo que podíamos ouvir era o suave farfalhar das folhas das árvores. Aturdido, Dean olhou para mim antes de olhar novamente para Jeremy. — Sim, eu amo a sua mãe. — Ele olhou para mim. — Eu amo sua mamãe mais do que ela imagina.


Capítulo Doze Dean Compreensão e ternura irão surgir ao nosso redor Não importa o quanto as coisas pareçam péssimas E nós encontraremos redenção nos mesmos lugares Que um dia já nos feriram Lin Jenson O resto da tarde até o anoitecer foi tranquilo. Na verdade, o dia inteiro entrou para a lista dos meus favoritos. Mas, novamente, qualquer momento passado com Tyler se tornava meu favorito. Nós ficamos ali sentados, comemos até ficarmos cheios e conversamos sobre coisas que fizemos quando éramos pequenos. Eu também descobri várias coisas sobre Jimmy que não sabia, como sobre ele ter sido escoteiro quando menino e que foi vocalista de uma banda chamada “Os Corvos” quando tinha dezessete anos. Isso fez com que Tara implorasse para que ele cantasse para nós. Ele acabou cedendo e cantando uma música chamada “Perdendo você”. Era uma das músicas da banda e até que era boa — não que eu fosse dizer isso para ele algum dia. Mais tarde naquela noite, eu e Jimmy brincamos com Jeremy na piscina um pouco mais. Ele adorava ser jogado para cima, mas eu sabia que não podia fazer isso muitas vezes porque não queria que ficasse enjoado. Porém, era difícil dizer não a qualquer pedido dele. Eu queria lhe dar tudo que pudesse. Já tinha perdido muitas etapas de sua vida, então, qualquer momento era precioso. Ajudava muito o fato de ele ter uma das personalidades mais legais possíveis para um menino daquela idade. Eu só queria ficar por perto porque isso me deixava feliz. Eu tinha me tornado o pai mais orgulhoso do mundo, mas também o mais triste porque ele não sabia a verdade. Não estive ao seu lado quando precisou. Se tivesse estado, teria testemunhado seus primeiros passos, ouvido suas primeiras palavras, me sentiria maravilhado na primeira vez em que me chamasse de papai. Daria qualquer coisa para ter essas oportunidades de volta. Mas como poderia ficar chateado com isso? Não tinha o direito de estar. Não depois do que fiz. Por volta das oito, Jeremy desmaiou no sofá. Eu e Jimmy provavelmente o deixamos exausto com tantos pulos na piscina. Tyler ia pegá-lo no colo, mas eu me ofereci, e ela sorriu. Acho que sabia que eu precisava desses momentos. Precisava compensar por todas as vezes que não carreguei meu filho para a cama. E era o melhor sentimento do mundo. Meu pai estava certo sobre valorizar cada momento. Você nunca sabe quando pode ser o último. Depois de colocá-lo na cama, beijei sua testa e fiquei olhando para ele por um tempo, antes de voltar para o primeiro andar. Jimmy e Tara ficaram por mais algumas horas, e ficamos lá fora, conversando. Tara estava deitada em uma cadeira com Jimmy, e eu estava em outra com Tyler. Adorei esse detalhe, pois pude abraçá-la e sentir o cheiro do seu cabelo. Em mais de uma ocasião, fiquei de pau duro, mas precisei reprimir meu desejo por ela. Não ajudava em nada o fato de ela ter passado praticamente o dia inteiro desfilando de biquíni. Será que sabia o quanto era sexy? Assim que Jimmy e Tara saíram, eu fiquei na cozinha, não sabendo o que fazer. Quando olhei para Tyler, cada parte de mim gritava que deveria tomá-la em meus braços. Queria


abraçá-la, queria arrebatá-la, agradá-la, mas não queria agir dessa forma. Não queria pressioná-la, principalmente com Jeremy no andar de cima. Era a experiência mais frustrante da minha vida. Tyler ficou parada em frente ao balcão, parecendo inquieta ao olhar para mim. Ela mordeu o lábio e meu pau instantaneamente pulsou dentro do meu short. Estávamos completamente vestidos agora, mas parte de mim queria que não estivéssemos. Parte de mim queria arrancar aquele vestido do corpo dela. Porém, talvez eu não fizesse isso, porque ela estava linda demais nele. Fazia com que a cor de seus olhos se destacasse ainda mais. O silêncio se prolongou entre nós, enquanto olhávamos um para o outro de forma calorosa. Meu pênis já estava pulsando, o que não era uma coisa boa quando se estava usando short. É claro que Tyler reparou e olhou para baixo antes de lamber os lábios. Foi a minha deixa. Eu não poderia recuar. Correndo na direção dela, agarrei-a em meus braços e ataquei sua boca. Eu queria me afundar dentro dela de todas as formas que pudesse. Minha boca, minha língua, meus dedos, meu pau... Eu só queria me perder dentro dela. Tyler gemeu e eu não pude evitar esfregar nossas virilhas. Eu precisava muito dela, chegava a doer. Ofegante, afastei-me, enquanto minha lógica parecia me dominar. — Tyler, não podemos. E Jeremy? E se ele acordar? Tyler gemeu e segurou meu pescoço para aprofundar nosso beijo. Eu me perdi novamente, quase chegando ao limite. Se ela fosse mais longe, eu não iria suportar. — No banheiro. — O quê? — perguntei, ofegante. — No banheiro, Dean. Leve-me para o banheiro. — Comecei a protestar, mas ela me impediu. — Então me ajude, Dean. Se você não me levar ao banheiro e me foder até o meu cérebro explodir, vou te matar. Entendeu isso? Puta merda, isso era sexy. Tyler já era sexy de qualquer forma, mas quando estava nervosa? Merda, eu quase gozava nas calças. Então, eu consenti. Levantei-a em meus braços e a carreguei para o banheiro do andar de baixo. — Na pia — ela ordenou. Pousei seu belo traseiro na beira da pia, enquanto me enfiava dentro de suas pernas abertas. Beijei-a e ela me beijou de volta, vorazmente. Afastando-me, ela grunhiu. — Sem preliminares, Dean. Quero que me foda agora. Bem forte. Gemi. — Tyler, se você continuar falando essas coisas, não vou conseguir te foder. Estou prestes a chegar no limite. — Ela não tinha ideia do que fazia comigo. — Só. Faça. Isso. Eu gemi contra sua boca, enquanto baixava meu short e erguia o vestido de Tyler. Ela não estava usando calcinha, então, introduzi meu dedo dentro de sua fenda e senti seu calor. Estava completamente molhada para mim. — Dean... — ela arfou quando coloquei meu dedo em seu clitóris. Enquanto tocava seu pequeno botão, Tyler deu de ombros e choramingou. — Dean, quero seu pau dentro de mim. Agora! Não perdi meu tempo. Posicionei meu pênis em sua fenda e o empurrei com facilidade. Senti que Tyler se apertava ao meu redor e eu precisei de um momento para me


recompor. — Me agarre, Dean. Aperte minha bunda. Se eu não estivesse tão chocado, eu teria rido. — Mas que merda, Tyler! — Eu tinha esquecido o quão deliciosa minha bruxinha era. Então, não a desapontei. Investi dentro dela várias vezes... com mais força, mais rápido, mais duro. Tyler mordeu meu ombro, sem dúvida tentando abafar seus gritos enquanto eu me perdia dentro dela. Estava tão gostosa que eu queria desacelerar um pouco, mas se minha Tyler queria ser fodida com força e rápido, então, era isso que eu iria lhe dar. Agarrei seus quadris com ambas as mãos e usei-as para ajudar nas minhas investidas. O rosto de Tyler se contorceu em uma linda agonia. Era difícil não olhar para aquele rosto que era tão sexy, mas eu sabia que se fizesse isso por muito tempo iria gozar. — Dean! — ela choramingou, enquanto eu agarrava seu cabelo e a puxava para um beijo profundo. Tyler choramingou bem alto e senti quando se apertou ainda mais ao redor do meu pau. Ainda bem que ela estava prestes a gozar, porque eu sabia que não seria capaz de segurar por muito tempo. Tyler me puxou ainda mais e mordeu meu pescoço enquanto eu investia meu pau dentro dela mais uma vez antes de gozar. Por um tempo ficamos imóveis, um pouco desorientados, enquanto tentávamos estabilizar nossas respirações. Assim que percebi que não podíamos ficar ali por muito tempo, saí de dentro dela e me abaixei para pegar meu short. Quando estendi minha mão para ajudar Tyler a descer, ouvi um som de rangido na parede e só consegui agarrar Tyler antes que a pia caísse no chão. Água começou a se espalhar por toda parte. Tyler gritou, e eu corri para abrir a porta do banheiro. — Onde estão suas ferramentas? Tyler apontou para a pia da cozinha e eu corri até lá para pegar uma chave de boca. Voltei e fechei o registro assim que pude, mas não antes de ensopar o chão e a nós. Fiquei ali, parado, olhando para Tyler. Ela começou a rir sem conseguir parar. Tive que rir também. — Se nos casássemos, nada iria funcionar nessa casa, tem noção disso? Nunca poderíamos lavar, cozinhar, nada. Não depois do que você me fez fazer. Tyler arfou. — O que eu te fiz fazer? — Ela olhou para mim cheia de inocência, como se eu tivesse magoado seus sentimentos. Tudo que pude fazer foi balançar a cabeça. — Você acha que Jeremy ouviu? Tyler olhou para cima, na direção das escadas. — Normalmente, quando ele está cansado assim nada é capaz de acordá-lo. Por que você não vai dar uma olhada nele enquanto eu seco o chão? Podemos tomar um banho e eu vou secar nossas roupas. Tomar um banho com Tyler parecia ótimo. Assenti e caminhei até o quarto de Jeremy. Parei diante da porta, com medo de acordá-lo. Abri e entrei. Estava exatamente onde o tinha deixado, completamente adormecido. Parecia tão pacífico que eu poderia ficar ali, observando-o por horas. Gentilmente fechei a porta e fui até o quarto de Tyler. Joguei minhas roupas molhadas no chão do banheiro. Sorrindo, não pude ignorar a ansiedade dentro de mim. Alguns minutos depois, Tyler entrou, ficando com os olhos arregalados ao ver que eu


estava nu. Seu olhar logo se dirigiu ao papel higiênico. Ela correu em direção a ele e o puxou. — Seu merdinha! Tem noção de que Jeremy está fazendo isso agora? Comecei a rir e a puxei para mim. — Você fica tão sexy quando fica nervosa. Tyler me afastou e foi ajeitar o papel higiênico no suporte. — Não faça isso, Dean. — Ela olhou para mim, com aquelas sobrancelhas sensuais erguidas, e abriu o chuveiro. Então, tirou o vestido por cima da cabeça e desamarrou o sutiã do biquíni. Depois ficou ali, completamente nua, e tudo que pude fazer foi olhar para ela. Era tão linda que eu mal podia explicar. — Você vai se juntar a mim ou vai ficar aí parado me olhando o dia inteiro. Olhei bem dentro de seus olhos e sorri. — Acho que vou fazer as duas coisas. Eu entrei e fizemos sexo mais uma vez. Desta vez foi mais íntimo. Pude demorar mais, e Tyler permitiu que eu fizesse isso. Minha Rosadinha precisava ser venerada, e eu sabia exatamente do que ela gostava. Estava determinado a não desapontá-la. Depois do banho nos secamos, e Tyler vestiu um short e uma camiseta com os dizeres Tentei ser normal uma vez. Foram os piores dois minutos da minha vida. Não consegui deixar de rir disso. Era verdade para nós dois. Já que eu não tinha nada para vestir, continuei com a toalha amarrada na minha cintura. Tyler tentou, pelo menos, encontrar uma camiseta para mim, mas não achou nada. Quando desistiu, fomos até o andar de baixo, e Tyler colocou nossas roupas na secadora. Então, virou-se e olhou para mim. — Posso te pedir uma coisa? Inspirei e expirei profundamente. — Qualquer coisa. — Você dormiria de conchinha comigo? Sabe? Como costumávamos dormir quando éramos mais novos. Eu sorri, pensando que não havia nada que eu quisesse fazer mais do que isso. Ela pegou minha mão e me guiou em direção ao enorme sofá. Tyler se esticou, então, e tive que pulá-la. Ela se aproximou e colocou a cabeça no meu peito. Seu cheiro veio em direção às minhas narinas, eu tive que fechar os olhos por um tempo, tentando imaginar se era apenas um sonho. Com certeza não era real. É claro que depois de tudo que aconteceu, eu não podia estar aqui deitado com Tyler em meus braços. Senti quando ela me apertou um pouco e meus olhos se abriram. Não. Eu não estava sonhando. E, naquele momento, eu era a porra do homem mais feliz do planeta. *** Senti algo cutucando meu braço. Minha cabeça estava zonza de sono, então, não prestei muita atenção a isso. Até que senti novamente e meus olhos se abriram. Jeremy estava olhando para mim com um sorriso. — O que você está fazendo dormindo no sofá? A mamãe sempre diz que nunca se deve dormir no sofá. Não faz bem. Olhei para Tyler ao meu lado e vi que ainda estava dormindo, com um sorriso no


rosto. Perguntei a mim mesmo se ela poderia estar sonhando. E, se sim, será que estava sonhando comigo? Fiz um gesto com o dedo para que Jeremy ficasse quieto. — Nós pegamos no sono, mas não pretendíamos dormir. — Sentia-me estranho por ter que me defender para o meu próprio filho, mas não queria que ele ficasse chateado pelo que viu. Jeremy inclinou-se e sussurrou: — Panquecas. — O quê? — sussurrei também. — Quero panquecas. Você pode fazer para mim? Assenti com uma piscadinha. — Acho que posso, se você me mostrar onde estão as coisas, garotão. Jeremy gargalhou um pouco. Da forma mais gentil que consegui, tentei me movimentar, afastando Tyler de mim. Ela me abraçava com força e eu odiava ter que soltá-la, mas o dever me chamava. Meu filho queria panquecas. Quando tirei meu braço de debaixo dela, Tyler gemeu um pouco, mas caiu novamente no sono. Levantei-me do sofá, e foi então que percebi que ainda estava com uma toalha amarrada na cintura, vestindo nada mais do que isso. Corri para a lavanderia e abri a porta da secadora. Peguei minha camisa polo e a vesti, junto com meu short. Assim que saí de lá, Jeremy estava apontando para o chão do banheiro com a boca aberta. — O que a pia está fazendo no chão? Ah, merda. Fiquei inerte por um momento, não sabendo o que dizer. Mas minha boca reagiu antes do meu cérebro. — Jimmy entrou aí na noite passada e disse que estava com coceira na perna. Então, ele sentou na pia para poder coçá-la e ela caiu no chão. — Eu não fazia ideia de onde tinha vindo aquela mentira, mas me deixei levar. — O tio Jimmy é malvado. — Tio Jimmy? Jeremy assentiu e escalou o banco para sentar-se nele. — Ele me disse que é como um irmão para você, então, isso faz com que ele seja meu tio. Ele é grandão que nem você. Fiquei ali parado, sentindo-me abismado. Eu sabia que Jeremy não iria entender o significado por trás do que Jimmy tinha dito, o que, aliás, ele não deveria ter dito. Agora eu não me sentia mais tão mal por ter culpado Jimmy pela pia. Decidi mudar de assunto. — Então, onde está a mistura para panqueca? Jeremy apontou para o armário sobre a pia. — Ali. Você tem que misturar com ovos e leite. É assim que a mamãe faz. Assenti e comecei a trabalhar nas panquecas. Parecia surreal. Eu tinha me adequado a uma vida doméstica rapidamente, tinha ganhado um filho em menos de dois dias e estava fazendo panquecas para o café da manhã. E estava adorando cada segundo.


Assim que terminei de preparar tudo, Tyler levantou-se do sofá, sexy como o inferno, com o cabelo todo bagunçado, esfregando os olhos sonolentos. Se não fosse por Jeremy, ela já estaria sendo colocada sobre a pia da cozinha. — Bom dia, linda. — Sorri e gesticulei para que ela se sentasse. Por um momento ela olhou para mim, e então para Jeremy. Dava para ler seus pensamentos só de olhar para ela. Estava achando aquela cena completamente irreal, mas eu esperava que fosse de uma forma positiva. — Você quer panquecas? Ela balançou a cabeça. — Café. Preciso de café. Ela caminhou na direção da cafeteira, mas eu a impedi. — Pode se sentar. Vou cuidar de tudo. Vou até fazer panquecas para você. — Olhei para ela. — Você parece estar precisando comer algumas. Tyler ergueu uma sobrancelha para mim. — Você acha mesmo? — Ela foi até Jeremy, beijou sua testa e sentou-se. — Tio Jimmy grandão foi malvado. Tyler franziu o cenho. — Por qu... — Porque ele quebrou a pia — interrompi. Olhei para Tyler, pedindo para que ela entrasse na mentira, e ela assentiu. — Sim, ele foi malvado. Respirei fundo de alívio e voltei a fazer panquecas. — Se Jimmy é meu tio, o que Dean é meu? Funguei. Não sabendo o que fazer ou dizer, virei meu rosto na direção de uma Tyler completamente chocada. Ela gaguejou, não fazendo ideia de como responder. — Posso ser o que você quiser que eu seja, garotão. — Sorri divertidamente e dei uma piscadinha para ele. Tyler visivelmente relaxou e me sorriu em agradecimento. Jeremy deu de ombros. — Ok. E foi isso. Ainda bem. Eu não tinha certeza se Jeremy já estava preparado para a grande revelação. Não sei por quanto tempo Tyler iria querer esperar para contar a ele, mas provavelmente pensava que ainda era cedo demais. Eu só precisava esperar até que ela decidisse que era o momento correto. Nosso futuro era incerto e eu sabia que não podia ficar ali sem tomar uma decisão permanente na minha vida. Uma que iria afetar a todos nós. Se Tyler me aceitasse de volta, eu não iria hesitar. Iria para casa, colocaria tudo numa mala e mexeria o traseiro. Nem me importava o quanto ia me custar. Assim que as panquecas ficaram prontas, fiz com que Tyler comesse uma, e Jeremy comeu três. Eu não sabia onde ele guardava tudo que comia, mas era gostoso assisti-lo comer. Fazia muita bagunça, mas qual garoto de quatro anos não fazia? Quando terminamos de tomar o café, tomei um banho e vesti as mesmas roupas do dia anterior. Senti como se estivesse em um limbo, pois não tinha muita certeza sobre o que Tyler queria. O que deveria fazer? Ficar? Ou ir embora? — Devo ligar para Jimmy para ver se ele pode me ajudar a encontrar e instalar uma nova pia para você? Tyler estava sentada à mesa da cozinha, com o café nas mãos, lendo o jornal. Jeremy


estava na sala, brincando com seus brinquedos. — Não quero te dar trabalho, Dean. Sentei-me perto dela e peguei sua mão. — Nunca é trabalho quando faço algo para você. Quero fazer isso porque te amo. Quero fazer isso porque preciso encontrar uma desculpa para passar mais tempo com você e com Jeremy. Quero fazer tudo isso. Tyler sorriu e entrelaçou os dedos nos meus. Ficou, então, olhando para eles por um momento. — Já faz muitos anos que não damos as mãos assim. Houve um tempo em que pensei que nunca voltaríamos a fazer isso. Olhei para ela com tristeza. — Eu sei. Tyler suspirou, ainda olhando para nossas mãos. — Você é o pai do nosso filho. Se quiser nos ver com mais frequência, não posso te impedir. Não vou te impedir. — Ela ergueu os olhos para que nossos olhos se encontrassem. — Além disso, quero você aqui também. Se quiser ficar. Meu coração explodiu de esperança naquele momento. Eu queria gritar a plenos pulmões para mostrar o quanto aquela porra de frase tinha me deixado feliz. Ela queria que eu ficasse. Eu não sabia se queria isso de vez, mas era um grande começo. Não pude conter o sorriso que chegou aos meus lábios. — Isso significa que você quer ficar? — Tyler olhou para mim com timidez. — Rosadinha, eu vou ficar por quanto tempo você e Jeremy quiserem que eu fique. Se quiser que eu fique, nem cavalos selvagens vão me obrigar a sair. Tyler se inclinou para frente e encostou a testa na minha. — Não sei o que acontecerá com o nosso futuro, Dean. Ainda não posso tomar decisões definitivas. Tenho que pensar em Jeremy. Assenti. — Claro que tem. Ele é sua prioridade número um, assim como vocês dois são a minha. Tyler se inclinou para trás e sorriu. — Obrigada. Só me dê um tempo. Se puder ficar por perto enquanto isso, vai ser bom ver aonde as coisas irão nos levar. Assenti com um sorriso. — É tudo que posso pedir. Tyler suspirou sorrindo. — Bom. — Então ela se virou na direção do corredor que levava até a sala de estar. — Jeremy nos viu juntos no sofá de manhã? — Assenti, e ela franziu o cenho parecendo preocupada. — O que ele disse? Sorri. — Ele disse que você tinha falado para ele que dormir no sofá era ruim. — Ela começou a gargalhar. —Disse a ele que nós caímos no sono sem nem percebermos, e tudo que ele fez foi pedir por panquecas. Tyler ergueu uma sobrancelha. — Panquecas, hein? Você me obrigou a comer uma. Por que isso?


Levantei do banco e me coloquei entre suas pernas. Passei meu nariz por seu pescoço e tracei o caminho até sua orelha. — Você costumava ter tantas curvas. Eu adorava suas curvas, Tyler. Você não percebe que os garotos gostam de um pouco mais de carne para abraçar à noite? — Afastei-me para ver sua reação. Tyler gargalhou. — Você anda mesmo curtindo essas músicas pop, não? Inclinei minha cabeça um pouco. — Apesar de ter mais de trinta, ainda gosto de me manter atualizado. Tyler riu. — Ah é? Puxei Tyler de encontro à rigidez entre minhas pernas. Ela arfou e eu sorri. — Sim, também quero te lamber de cima a baixo até que me peça para parar. Ela ergueu uma sobrancelha. — Sério? — Assenti. — E o que te faz pensar que vou pedir que pare? Vou é dizer: “me lamba direito”. — Ela respirou pesadamente contra minha boca e eu não pude esperar mais nem um minuto. Colei meus lábios nos dela e senti o calor deles em mim. Dava para sentir o gosto de café que ela tinha bebido e o cheiro do perfume que usava. Meus sentidos estavam trabalhando no limite. Eu a desejava novamente. Eu a queria a porra do tempo todo. Acho que era ainda pior por saber que precisava me conter por causa de Jeremy. Por saber que não podia chegar mais longe, mais eu a queria. De repente, como se estivesse lendo minha mente, Tyler me afastou e começou a gargalhar. — O que é tão engraçado? — Meu sorriso imitou o dela. — É que parecemos dois adolescentes. É como se a vida nos estivesse fazendo reviver o que perdemos anos atrás. Será que faz algum sentido? Fazia total sentido. — Bem, não tenho muita certeza se chegaríamos a quebrar a pia da casa de nossos pais. Tyler se acabou de rir e logo ficou vermelha. — É... Sim, bem, eu me perdi no momento. Já faz tanto tempo. Balancei a cabeça e esfreguei meu pau nela. — Rosadinha, você pode se perder no momento sempre que quiser. Tudo que tem que fazer é pedir, e eu estarei aqui. Tyler ergueu uma sobrancelha. — É uma promessa? Ela estava sorrindo, mas eu sabia que havia um vislumbre de algo por trás disso. Seria uma dúvida? Preocupação? Incerteza? Esperança? Eu não poderia me intrometer, mas me matava que ela estivesse me olhando daquela forma. Queria que confiasse novamente em mim, então, estava disposto a dar o meu melhor para que isso acontecesse. — Tyler, eu te prometeria o mundo se pudesse, mas se tem uma coisa da qual você nunca pode duvidar é de como me sinto em relação a você. Te prometo de todo coração, alma e corpo que sempre estarei por perto, contanto que você queira. Tudo que tenho é seu. Tyler suspirou com um sorriso resoluto e assentiu.


— Acredito em você. — Ela segurou minha mão e beijou-a antes de pousar sua face sobre ela. Senti sua pele macia contra a minha e só aquele toque suave já fazia com que meu pau começasse a pulsar. Fechei meus olhos, tentando lutar contra a urgência de agarrá-la e puxá-la para o banheiro novamente. Talvez quebrássemos a privada dessa vez, mas não com o Jeremy por perto. Suspirei, beijei o topo de sua cabeça e tirei meu telefone do bolso. Tyler ergueu a sobrancelha com uma expressão questionadora. — Vou mandar uma mensagem para Jimmy. Enviei a mensagem para que viesse assim que pudesse. Ele respondeu alguns segundos depois. Vou agora, porque a Tara está trabalhando e eu estou entediado para caralho. Vinte minutos depois, Jimmy estava batendo na porta e, como sempre, Jeremy ficou ansioso para ver quem estava do outro lado. Assim que a porta se abriu, Jeremy começou a pular e bater palmas. — O grande tio Jimmy está aqui! Tyler inclinou-se e beijou Jimmy no rosto. — Oi, Jimmy. A Tara está trabalhando hoje? Ele assentiu com uma carranca. — Sim, e isso é uma mer... — Ele cobriu a boca rapidamente e olhou para Jeremy. — Me desculpe, Jeremy. Como está o meu garotão? Jeremy gargalhou e apontou para as escadas. — Você foi malvado. Tem que sentar no cantinho do pensamento agora por ter quebrado a pia da mamãe. Jeremy franziu o cenho. — Mas eu não... — Você não se lembra que sentou na pia na noite passada e ela quebrou? Jimmy olhou para mim como se eu tivesse ficado maluco. Olhei para ele e então para Jeremy. De repente, um sorriso começou a aparecer em seu rosto. — Ah, querido, eu esqueci. Me desculpe mesmo por isso. Jeremy agarrou a mão dele e o guiou até as escadas. Vi Tyler murmurar um pedido de desculpas, enquanto Jeremy fazia com que ele sentasse no degrau. — Você tem que ficar aí por cinco minutos. Entendeu? — Jeremy apontava para Jimmy e era a coisa mais cômica que eu já tinha visto na vida. Jimmy parecia surpreso. — Ok. Como vou saber quando posso sair? — Quando eu disser que pode. — Jeremy balançou a cabeça e se afastou. — Me desculpe — Tyler sussurrou, afastando-se com um enorme sorriso. — Mas que merda é essa? — Jimmy sibilou com um sussurro. — Dean! — A vozinha estridente de Jeremy foi ouvida. — O Jimmy tem que ficar aí sozinho! Inclinei a cabeça e gritei: — Já vou! — Inclinei-me para a frente e sussurrei rapidamente. — Eu e Tyler quebramos a pia ontem à noite, e eu disse a Jeremy que tinha sido você. Me desculpe, cara. — Dei alguns tapinhas em seu ombro, virei-me e afastei-me. — Ah, seu merdinha.


Por alguma estranha razĂŁo, o tempo de Jimmy excedeu os cinco minutos.


Capítulo Treze Tyler Os dias seguintes passaram como um furacão e eu me sentia feliz como há muito tempo não sentia. As flores continuaram chegando... exatamente como Dean tinha prometido. Acordávamos todos os dias juntos. Saímos para comprar uma pia nova, e Dean e Jimmy consertaram para mim. Dean comprou uma guitarra para Jimmy, para se desculpar pelo incidente da pia. Ele ficou um pouco irritado, depois de passar dez minutos sentado na escada, mas a guitarra e as promessas de Dean por cervejas o colocaram nos eixos. Eu gostava de Jimmy. Embora soubesse que havia um elemento perigoso em relação a ele, parecia haver um gigante gentil por trás da fachada de durão. Dava para entender o porquê de Tara ter se apaixonado. Era lindo, mas tinha também aquela rudeza. Acabamos ficando próximos um do outro e isso me deu a sensação de uma família de verdade. Eu e Dean agíamos como pais durante o dia, e à noite? Bem, vamos dizer que os animais que existiam em nós vinham à tona. Acho que isso acontecia porque sabíamos que precisávamos nos comportar perto de Jeremy. Sempre que podíamos trocávamos beijos roubados e aproveitávamos oportunidades para abraços, então, à noite, terminávamos com o que só posso descrever como um sexo nervoso. Não sei por que, mas eu me tornava completamente selvagem com Dean. Ele derrubava minhas barreiras. Eu me permitia ser quem realmente queria ser. Sentia-me confortável perto dele, era fácil. As coisas costumavam ser diferentes quando era com Evan. Eu o conhecia há quatro anos, mas nunca no mesmo nível de intimidade que tinha com Dean. Como superar um amor de infância? Como esquecer o primeiro amor de sua vida? Aquele que vinha para ficar. Aquele cheio de promessas e esperança. Eu sempre soube que ficaria perdida sem ele. E essa era a parte que mais me assustava. Ele tinha me magoado muito e isso nunca iria mudar, mas o amor que sentia era mais forte do que qualquer outra emoção. Comandava todo o resto. Meu coração, meu corpo e alma. Dean me tinha por inteiro, e isso me apavorava. Eu não poderia permitir que Dean soubesse como me sentia enquanto aquele sentimento incômodo ainda me consumisse. Ainda me sentia magoada. Ainda ficava irritada quando me lembrava do meu amigo Jeremy e a vida preciosa que foi perdida. Ainda sentia aquela dor na boca do estômago por saber que Dean feriu nosso relacionamento da pior forma possível. Jeremy morreu pensando que eu tinha feito a coisa mais hedionda que se pode imaginar. Ele morreu pensando que eu o tinha desapontado... e era tudo culpa de Dean. Ainda era difícil esquecer isso. Era difícil demais deixar para trás. Na verdade, às vezes, eu ficava irritada com Dean só pelo fato de ele não poder consertar isso. Eu sei que era ilógico pensar dessa forma, mas eu pensava. Minhas emoções estavam espalhadas por toda parte. Às vezes me pegava olhando para Dean e pensando como ele pôde ter feito tudo aquilo comigo? Então, ficava irritada e frustrada, sentindo meu sangue ferver. Mas era só ele se virar, fixar aqueles olhos nos meus e sorrir para mim. Só esses pequenos gestos eram capazes de afastar tudo de ruim. E era nesses momentos que eu sentia que podia aceitá-lo de volta. Que sentia que podia amá-lo como sabia que ele me amava. Podia acreditar que ele queria estar comigo pelos motivos certos. Acreditar que ele me amava. Que amava Jeremy. Às vezes, o animal dentro de você acaba vencendo. Ou você cria laços, ou não. Com nosso filho e com Dean


foi fácil. Um respirava através do outro. Eu podia ver e sentir isso. Jeremy estava ligado a ele agora, então, eu sabia que não era mais uma opção afastar Dean de nós. Nosso filho escolheu nosso caminho. Dean sempre seria uma parte de nossas vidas. Era Sábado e, como sempre, Dean e Jimmy já tinham chegado. Tara só teria que trabalhar até as seis, mas uma emergência médica surgiu, então, ela precisou ficar até mais tarde. Dean me contou que Jimmy não precisaria mais estar na cidade, já que tinham me encontrado, mas eu sentia que ele queria ficar porque estava apaixonando-se secretamente por Tara. Pensar nisso me fazia sorrir. Tara precisava de alguém legal em sua vida e, por alguma razão, eu sabia que era Jimmy. Ela já tinha passado por muita coisa em seu relacionamento anterior, com o marido, por isso, merecia ter alguma felicidade. Então, sempre que Tara estava trabalhando, convidávamos Jimmy para vir para minha casa. Ele estava rapidamente se tornando parte da vida de Jeremy, assim como Dean. Ele o chamava de Grande Tio Jimmy o tempo todo e, nos últimos dias, Dean tinha se tornado P.D.. Jeremy não explicava o motivo, e sempre que eu perguntava, ele colocava o dedo na boca como se a fechasse com um zíper enquanto balançava a cabeça. — É um segredo — ele dizia. Às vezes as crianças sabiam como ser frustrantes! Passava um pouco das sete, os meninos estavam na piscina e eu decidi preparar o jantar. Grelhei alguns frangos, fiz uma salada e coloquei batatas no forno. O dia estava quente outra vez, então, eu sempre dava boas-vindas à leve brisa gelada que entrava pelas portas da cozinha. — Sabe, eu poderia ficar te olhando o dia inteiro, enquanto está aí, encarnando a deusa doméstica que você é. Ao erguer os olhos, vi Dean parado na porta, com gotas de água caindo de seu corpo em direção ao chão. Ele tinha acabado de me chamar de deusa, mas, ali, parado na minha frente, ele também tinha uma aparência de deus. Seus músculos enormes estavam retesados e seu bronzeado impressionante fazia com que suas tatuagens se destacassem. Eu nunca pensei que fosse ficar excitada por um homem de tatuagens, mas ver Dean com todas aquelas ali me fazia estremecer. Era curioso como uma coisa tão pequena conseguia me deixar tão excitada. Alguns fios de cabelo molhado caíam em sua testa e sua pele brilhava conforme o sol tocava seu corpo. Enquanto ele segurava a porta com a mão, seu músculos se flexionavam, e todas as minhas entranhas começaram a revirar. Como uma única pessoa conseguia ser capaz de me reduzir a uma poça de desejo daquela forma? Eu conhecia Dean desde sempre e o efeito era sempre o mesmo. Fosse pessoalmente ou em pensamentos, ele nunca falhava em me deixar de joelhos. — Deusa doméstica, é? Não comece com essas ideias de colocar um avental em mim e me amarrar à pia da cozinha. Dean ergueu a sobrancelha e começou a se aproximar. Comecei a rir e tentei correr, mas ele rapidamente me agarrou e me manteve ali. Eu estava prestes a protestar, mas a forma como me olhou me deixou sem fala. Seus olhos pararam nos meus e depois foram em direção aos meus lábios. Ele parecia estar fazendo amor com cada centímetro do meu rosto. — Eu adoraria te amarrar à pia da cozinha, mas por motivos bem diferentes dos que está imaginando — ele grunhiu. Então me apertou com mais força em seus braços, quase me deixando sem fôlego. Deu uma olhada pela cozinha, depois voltou os olhos para mim com um sorriso brincalhão. — Aliás, onde estão seus aventais? Balancei a cabeça. — Ah, não, não, não, Dean, meu garoto. Não aqui. Não agora.


Dean inclinou-se em direção ao meu pescoço e o cheirou. — Você sabe que meu tio Humphrey me chama de Dean, meu garoto. Eu ri. — Me parece um bom apelido para você quando não está agindo como um bom menino. Aposto que ele te chama assim pelos mesmos motivos que estou chamando agora. Ele se afastou um pouco e franziu o cenho. — Eu nunca quis amarrar meu tio à pia da cozinha, mas se fizesse isso, seria por motivos completamente diferentes. Com você, tudo que quero é deixá-la indefesa. Gosto de vê-la amarrada e à minha mercê. Gosto do fato de poder fazer com você qualquer coisa que eu quiser. Completamente indefesa. Completamente submissa. Completamente minha. Minhas pernas de repente cederam e de meus lábios escapou um gemido torturado. Dean me apertou com mais força ainda, enquanto deixava escapar um grunhido. — Você não tem a menor noção do que faz comigo, não é, Tyler? A forma como me olha, como me toca, cada gemido que solta, são como preliminares maravilhosas para mim. Preciso estar dentro de você agora. Dean olhou para mim com voracidade, mas eu balancei a cabeça. Meu corpo estava gritando comigo, avisando que era isso que eu queria, mas não podíamos. Não agora. — Jeremy e Jimmy... — Jeremy e Jimmy estão bem. Jimmy me viu olhando para você e disse que nos concederia alguns minutos. Ergui uma sobrancelha. — Só alguns minutos? Dean deu uma gargalhada gostosa e olhou para meus lábios novamente. — Vai ter que ser rápido, o que significa que vai ser forte, rápido, selvagem... e tem que ser agora. Sem hesitar, peguei a mão de Dean e corremos pelas escadas. Tudo que ele precisou fazer foi me prometer um sexo maravilhoso e selvagem para me deixar em suas mãos. Assim que chegamos lá em cima, arrastei Dean para o banheiro e fechei a porta. A janela estava um pouco aberta, então, a fechei o mais rápido que pude. Os sons lá de fora estavam abafados, mas eu ainda conseguia ouvir as risadas de Jeremy e de Jimmy, assim como os sons da água. Então, acho que estávamos bem. Dean ergueu meu vestido. — Lamento não termos muito mais tempo. Tenho que possuir você. Preciso possuir você, Tyler. Sempre quero estar dentro de você. Você não sabe o quanto me mata ter que esperar. Meu Deus, me excitava ouvi-lo falar assim. O fogo se alastrava, mas, ao invés de lhe dar boas-vindas, o sentimento me frustrava ainda mais. Agarrando seu pescoço, fixei meu olhar no dele. ​— Dean. — Sim? — Só cale a boca e me foda. Dean sorriu. — Sim, senhora. Sabendo que eu precisava ser possuída com força, virei-me, fazendo com que Dean soubesse o que eu queria. Sem hesitar, ele puxou meu vestido até minha cintura e colocou os dedos dentro de mim. Eu sabia que ele estava verificando se eu estava molhada o suficiente, mas ele nem


precisava se preocupar. Eu sempre ficava molhada para ele. Tirando-os, Dean gentilmente massageou meu clitóris, me fazendo contorcer. — Porra, Tyler. Você é tão sexy que chega a ser surreal. Eu sabia que Dean queria me preparar um pouco mais, mas eu já estava pronta. — Dean, por favor! — Eu quase não consegui sussurrar, conforme minha respiração ficava mais e mais incerta. Eu o senti abaixar o short e, com apenas uma investida rápida, Dean já estava dentro de mim. — Porra! — ele sibilou, enquanto se mantinha ali por um segundo. Era tão grande e delicioso. Eu estava desesperada para que ele começasse a se mexer, então, me movimentei um pouco. Dean riu, mas a risada logo desapareceu quando começou a pulsar dentro de mim. Só Deus sabia onde ele arrumava tanta energia para se mover tão rápido, mas era assim mesmo. Com certeza não estava brincando quando disse que seria rápido e selvagem. E, puxa vida, eu estava adorando cada segundo. — Agarre meu cabelo, Dean. Preciso que me domine. — Nem sei de onde surgiu isso, mas eu estava perdida no momento. Dean grunhiu, mas concedeu meu desejo e agarrou meu cabelo. Gemi quando uma onda de prazer atingiu meu corpo inteiro. Eu estava prestes a gozar. Na verdade, já estava quase gozando desde o momento em que Dean começou com as preliminares verbais lá no andar de baixo. — Porra, Tyler. Você está tão gostosa. Nunca vou me cansar dessa sua boceta doce e apertada. Ele me penetrou com mais força, atingindo o ponto mais doce, que sempre me proporcionava os melhores orgasmos. Eu queria gritar, agarrei a mão de Dean, tirando-a do meu cabelo e mordi-a com toda a minha força. Dean grunhiu, mas deixou que eu liberasse meu orgasmo. — Porra, Tyler. Eu vou... Senti seu sêmen quente explodindo dentro de mim e a sensação não podia ser comparada a nenhuma outra. Todas as vezes que ele gozava dentro de mim, eu sentia que meu orgasmo era ainda mais intenso. Era um êxtase puro. Senti Dean respirando pesadamente perto de mim, enquanto eu inclinava minha cabeça e a encostava na parede do banheiro. Sempre aproveitava ao máximo aqueles nossos momentos juntos. Não eram longos, mas mesmo assim gostava de valorizá-los. Eu estava prestes a me virar para beijar Dean quando um alarme começou a soar por toda a casa. Dean me afastou rapidamente e vestiu seu short. Ele chegou à porta antes que eu tivesse tempo de perceber que tinha saído. Puxei meu vestido para baixo e corri pelas escadas. Quando cheguei no primeiro andar, havia fumaça por todo lado, enquanto Dean tirava o frango do grill. Jimmy e Jeremy já estavam lá, perplexos. — Mamãe queimou o frango novamente — Jeremy gargalhou. Arfei. — Como assim, outra vez? — Olhei para Jimmy e ele piscou para mim com um olhar de quem sabia demais. Eu corei. Dean logo dissipou a fumaça e o alarme parou.


— Você não se lembra quando a Sra. Carlson veio aqui procurando por leite e vocês ficaram conversando por tanto tempo que esqueceu o frango? Jeremy sorriu para mim e eu mordi o lábio. Merda, eu tinha esquecido disso. Olhei tanto para Dean quanto para Jimmy, que estavam com a mesma expressão de divertimento em seus rostos. — Bem, ela realmente fala muito. — Revirei os olhos e fui em direção a cozinha queimada. Quando olhei para trás, todos estavam rindo muito. No final das contas, acho que acabei me juntando a eles. Quando nos acalmamos, Jimmy foi até o telefone. — Vou pedir comida chinesa. Jeremy se alegrou e começou a gritar: — Pato crocante! Pato crocante! Virei-me para Dean e sussurrei: — Você tem noção de que foi tudo sua culpa, não tem? — Ergui uma sobrancelha e Dean sorriu. — E você tem noção de que foi você quem começou, não tem? Se não fosse tão sexy o tempo todo, eu não sentiria essa necessidade de te possuir. Na verdade, só de olhar para esse seu cabelo bagunçado, já estou com vontade de te pegar de novo. Meus olhos arregalaram e eu me inclinei para olhar meu reflexo na porta do forno. Arfei. Meu cabelo estava mais do que bagunçado. Parecia que eu tinha sido arrastada por um longo caminho. Aí estava a explicação dos sorrisos de Jimmy para mim. Rapidamente passei os dedos pelo cabelo, deixando-o um pouco mais sob controle. Dean só ficou ali, rindo. — Ah, cale a boca! — grunhi enquanto passava por ele. Mas não pude conter o sorriso que surgiu no meu rosto. *** Assim que a comida chinesa chegou, comemos direto das caixinhas, o que não costumávamos fazer na Inglaterra. E era maravilhoso comer daquele jeito, pois fazia com que o gosto ficasse ainda melhor. Eu queria mais e mais. Sem dúvida tinha encontrado meu apetite de novo. Já passavam das nove agora. Jeremy já estava confortavelmente dormindo em sua cama e eu ainda não tinha notícias de Tara. Reparei que Jimmy não parava de verificar seu telefone a cada cinco minutos com uma carranca. Parecia preocupado, e se eu também não estivesse preocupada acharia uma gracinha. No final das contas, acabei lhe mandando uma mensagem de texto. Onde você está, querida? Sua cara metade está ficando cada vez mais pálido. Por favor, salve-o do desespero. Bjs. Vinte minutos se passaram e eu ainda não tinha notícias dela. Naquele momento, Jimmy já estava roendo suas unhas. Depois de algum tempo, eu me levantei e coloquei as mãos em seu ombro. — Vou ligar para ela — ele expirou e sorriu em agradecimento. Caminhei em direção ao telefone, prestes a pegá-lo, mas ele tocou. — Talvez seja ela! — Eu praticamente dancei pelo resto do caminho, fazendo tanto


Dean quanto Jimmy sorrirem. — Alô, aqui é do Hospício. Senhora Louca falando. — Olhei para os homens e pisquei. Ouvi um sussurro e um soluço. — Jessica... Meu coração foi à minha boca enquanto meu sorriso desaparecia. — Tara? Tara, é você? — A urgência em minha voz fez com que tanto Dean quanto Jimmy se levantassem imediatamente. Ela disse alguma coisa, mas eu não consegui entender. Tudo que eu conseguia ouvir era sua respiração. — Tara, não consigo te ouvir. Qual é o problema? Me diga... — Ela disse algo novamente, mas não consegui ouvir. Ela parecia tão assustada. — Tara, por favor... — Ele está aqui — ela sibilou no telefone. — Jessica, ele está aqui. Está na minha casa. Mark me encontrou. Meu rosto perdeu a cor, enquanto ouvi um baque seguido por um grito estrangulado. — Com quem você está falando, piranha? — Tara gritou novamente, e o telefone foi desligado. Agarrei o telefone com força, sentindo que tremia violentamente. Olhei na direção de Jimmy e seu rosto era uma mistura de terror e raiva. — Preciso ligar para a polícia. O ex-marido da Tara a encontrou. — Tremia enquanto discava o número. Jimmy me impediu. — Não envolva a polícia. Vou cuidar disso. — Assenti. Seu rosto estava sombrio como uma tempestade enquanto ele seguia em direção a porta. Dean olhou para mim. — Preciso ir com ele, Tyler. Eu não queria que ele fosse, mas eu sabia que Dean não se sentiria bem se não o acompanhasse. Então, apenas assenti. — Por favor, tenha cuidado. Dean sorriu e beijou minha cabeça. — Eu prometo. Volto rápido. — Com um beijo nos meus lábios, ele se virou e saiu pela porta.


Capítulo Quatorze Jimmy Tara nunca me falou muito sobre seu ex-marido, mas o que eu sabia sobre ele já era o suficiente para fazer meu sangue ferver. A mera menção ao seu nome fazia com que ela se encolhesse. Nenhuma mulher deveria passar por um relacionamento abusivo. Nunca. Ouvir que uma mulher tinha sido violada já ligava meu radar, mas quando era alguém que eu amava? Era melhor que o filho da puta se escondesse, porque eu faria bem mais do que apenas chutar seu traseiro. E era exatamente isso que eu queria fazer com Mark. No momento em que percebi que era Tara no telefone, soube que ela estava em apuros. Quando ouvi seu grito, cheguei ao limite. Perdi a cabeça. Dean veio correndo atrás de mim enquanto eu saía da casa o mais rápido que conseguia. No minuto em que entrei no carro e acionei o motor, virei-me para ele, que estava abrindo a porta do carona. — Você não precisa vir comigo, Dean. Vou resolver isso. Não preciso da sua ajuda. Dean entrou no carro e colocou a mão no meu ombro. — Tara é parte da nossa família agora. Se alguém machuca minha família, essa pessoa tem que pagar, Jimmy. Simples assim. Você já me ajudou muito. Agora é minha vez de te ajudar. Em circunstâncias normais, eu teria sorrido e lhe agradecido, mas tudo que consegui fazer foi assentir e dar a partida, saindo do estacionamento, enquanto os pneus cantavam conforme eu dirigia. — Você tem um plano? Agarrei o volante com força. Quanto mais eu pensava em Tara lá sozinha com aquele monstro, mais eu queria explodir. — Não — eu disse entre dentes. — Eu só quero que ele morra. Mas quero que sofra primeiro. Dean sorriu e assentiu. — Isso é bom, porque eu pensei em algo para ele, Jimmy. E acho que você vai gostar. Ele não disse mais nada e eu não perguntei. Sabia que Dean estava tão ansioso para encontrá-lo quanto eu. Quanto mais eu dirigia, quanto mais pensava, mais acreditava que era melhor que ele estivesse comigo. Dean era bem mais calculista. Ele conseguia planejar as coisas até o último detalhe. Se eu estivesse sozinho, provavelmente o mataria e colocaria um ponto final. Pelo menos Dean podia me controlar um pouco, criar algum plano para o filho da puta. E eu com certeza iria me divertir. Levamos por volta de quinze minutos para chegar e foram os piores quinze minutos da minha vida. A última vez em que me senti assim foi quando soube que Grace tinha sofrido o acidente de carro. Prometi que nunca mais ia me importar com alguém ao ponto de me ver novamente nesta situação, mas Tara mudou tudo. Na primeira vez em que a vi naquele bar, meu mundo desmoronou — de uma forma positiva. Nunca acreditei em amor à primeira vista, mas soube que algumas faíscas tinham se soltado entre nós. Senti que ela era mais do que apenas uma boa trepada. Não me entenda mal. Eu queria fodê-la, mas queria mais do que isso. Queria estar


com ela. Aquela noite no bar foi uma das melhores noites que já tive. Nunca me esquecerei dos segredos que compartilhamos, enquanto ela derramava seu coração a respeito do merda do exmarido. Enquanto ela falava sobre ele, meus punhos se mantiveram cerrados, prontos para atingirem o filho da puta. Como ele ousava pensar que podia voltar e tirá-la de mim? Como ousava sequer tentar? Cantei pneu novamente para estacionar em frente à casa e nem me importei em fechar o carro quando saltei para sair correndo até a porta que estava entreaberta. Então, entrei e gritei o nome de Tara. Não ouvi nada a princípio, mas algo chamou minha atenção quando olhei para o lado de soslaio. Virei-me e vi Tara no chão, com as roupas rasgadas, o rosto inchado e com sangue pingando de seus lábios. Eu estava prestes a correr para ela, quando uma figura apareceu na outra extremidade da casa, correndo em direção à porta dos fundos. Dean agarrou meu ombro. — Vou cuidar disso, Jimmy. Vá ver Tara. Assenti e Dean desapareceu. Eu não tinha a menor dúvida de que ele iria pegar o filho da puta. Já tinha visto Dean em ação, e, na ocasião, ele me surpreendeu. Corri para Tara, ajoelhei-me e segurei seu rosto em minhas mãos. — Está tudo bem agora, Tara. Estou aqui. Não vou deixar que ele te machuque novamente. Entendeu? — Ela assentiu e deixou escapar um soluço de partir o coração. — Você precisa ir para o hospital? — Ela balançou a cabeça. — Onde ele te machucou? — Tara apontou para o rosto e então para o coração. Merda, eu queria matar o filho da puta. Apressei-me em direção à geladeira, peguei gelo, um tecido para enrolá-lo e outro para o machucado em seu lábio. Corri de volta para ela e gentilmente pressionei o gelo em seu olho. Tara gemeu, mas sorriu para mim. Meu coração e meu corpo começaram a doer. Eu queria matar seu ex-marido agora, mas Tara já tinha testemunhado violência demais por uma noite. Olhei para suas roupas rasgadas e depois em seus olhos. — Ele não... Tara balançou a cabeça. — Não. Falei para ele que tinha alguém chegando e ele só me bateu. Suspirei aliviado, mas isso não diminuiu o ódio que eu sentia. Assim que Dean o encontrasse, eu lhe daria uma lição. Afastei o cabelo de Tara do rosto e a embalei em meus braços. Ela parecia me segurar como se eu fosse desaparecer a qualquer momento, mas eu não iria a lugar nenhum. Enquanto eu pensava sobre o que deveria fazer, o celular de Tara tocou com o toque familiar de “Bump and Grind”, do R. Kelly. Ela olhou para mim e começou a se mexer, mas eu estendi a mão para ela. — Fique aí. Vou ver quem é. Tara assentiu, enquanto eu caminhava em direção ao telefone. O nome “Jessica” estava piscando na tela, então, eu atendi. — Tyler. — Jimmy, graças a Deus. Já estava enlouquecendo. A Tara está bem? Suspirei, pensando nos “e se”. Isso me deixava ainda mais puto a cada minuto que passava. — Ela está bem. O filho da puta bateu nela, mas ela está bem. Tyler arfou. — Ela precisa ir ao hospital?


Olhei para Tara, enquanto ela inclinava a cabeça para trás, encostando-a no braço do sofá. — Ela disse que não quer ir. — Então traga-a para cá. Vou cuidar dela. Diga que não vou aceitar uma porra de não como resposta. Entendido? Se a situação não fosse tão séria, eu teria rido. Tyler combinava com Dean. Um era mais obstinado do que o outro. — Entendi. Vou levá-la logo. Tyler suspirou. — Bom. Te vejo em breve. Desliguei e voltei para Tara. — Ouça, Tyler disse que quer que você fique com ela. Tenho que te levar, porque temo pelas minhas bolas se não formos. Tara gargalhou, mas também gemeu de dor. Onde diabos estava Dean? Assim que pensei nele, ele surgiu... sozinho. Olhei para ele, com um olhar questionador. Dean apontou em direção à porta mais próxima e fez um sinal de positivo. — Tyler ligou. Ela quer que eu leve Tara para a casa dela. Dean sorriu. — Vá. Posso cuidar das coisas por aqui. Não se preocupe. Vou mantê-lo quente para você — Dean piscou. Sorri e balancei a cabeça. Dean usou a mesma frase que usei anos atrás quando ele conseguiu sua vingança contra aquele babaca do Pinzano. Olhando para Tara, grunhi, sentindo a raiva vindo à tona novamente. Eu estava me coçando para ensinar uma lição àquele merda, mas precisava me certificar de que Tara estava bem, então, precisava cuidar dela primeiro. Erguendo-a em meus braços, saí da casa. — Você não precisa me carregar. Ainda posso usar minhas pernas. Tara sorriu, mas dava para perceber que estava sentindo dor. Seu lábio estava cortado e o inchaço estava ficando maior. — Mantenha o gelo no rosto, Tara. Vai ajudar com o inchaço. — Abri a porta do carro com meu pé e a coloquei no chão. Ela gemeu novamente. — O que foi? Tara tentou sorrir e balançou a cabeça. — Não foi nada, Jimmy. Estou bem. Não acreditei nela. Coloquei minha mão na barra de sua camisa e a ergui. Ela tinha hematomas espalhados pelas costelas. — Filho da puta! — Preparei-me para voltar à casa. Àquela altura, estava tão consumido pela ira que seria capaz de apenas quebrar o pescoço dele. Tara rapidamente agarrou meu punho. — Pare. Por favor, não me deixe. Merda, eu estava dividido. Queria ficar ali com Tara, mas também queria arrancar o coração do peito daquele merda. Eu sabia que precisava ficar firme por ela. Precisava imitar a paciência de Dean para esperar, não importava o quanto eu quisesse correr para lá e colocar minhas mãos no pescoço daquele lixo. Ele precisava aprender uma lição. Precisava entender as consequências por ter ousado colocar as mãos em Tara. Por ter ousado machucá-la. Suspirando, ajoelhei-me e acariciei seu rosto.


— Não vou te deixar, Tara. E prometo que ele nunca mais vai te machucar. Entendeu? Tara olhou para mim por um momento. Acho que ela conseguiu enxergar a pessoa dentro de mim. A pessoa que vivia fazendo justiça com as próprias mãos. A pessoa que era o juiz, o júri e o executor. Eu já tinha dado dicas sobre minha vida para ela, mas nunca tinha explicado em voz alta. Vi uma lágrima deslizar por seu rosto. Ela assentiu resolutamente. — Entendi. Beijei-a com ternura na cabeça. Queria beijar seus lábios, mas estava com medo de machucá-la. E isso apenas me deixou mais irritado. Fechando a porta do passageiro, corri para o outro lado. Não queria perder mais tempo. Quanto mais isso durasse, teríamos menos escuridão como vantagem. E eu tinha planos para que aquela noite fosse longa. Entrei no carro e dirigi o mais rápido que pude. Durante todo o caminho, agarrei o volante com força, mas nem percebi isso até que Tara colocasse uma mão carinhosa em meu braço. Relaxei imediatamente e olhei para seu lindo rosto. Aquele que ele tinha marcado. Aquele que ele ousou marcar. Sorri, mas voltei a olhar para a estrada. Peguei sua mão na minha e a segurei com força. Era o único conforto que poderia lhe oferecer agora. Queria ficar com ela e protegê-la esta noite, mas precisava fazer o que tinha que ser feito. Eu sabia que Tyler a amava e se importava com ela, e, precisava admitir, eu também. Nunca pensei que poderia amar alguém depois de Grace. Ela foi a mulher com quem pretendia passar minha vida inteira. Aquela com quem eu iria me casar e ter filhos. Eu teria cuidado de Grace. Teria amado e a protegido com todo meu ser. Mas, sentado ali com Tara, não podia mais negar o que sentia por ela. Não podia negar que na primeira noite em que me olhou, senti uma esperança florescer dentro de mim pela primeira vez em muito tempo. Senti coisas que nunca senti por Grace. Pela primeira vez, senti como se eu e Grace não estivéssemos destinados um ao outro. Só estive enganando a mim mesmo aquele tempo todo, pensando que não poderia haver mais ninguém na minha vida. Agora eu tinha percebido isso. Não podia perder Tara. Não podia perdê-la agora que a tinha encontrado. Não queria que a vida levasse mais alguém de mim. Eu me recusava a deixar acontecer. Recusava a permitir que Tara vivesse sob as sombras. Agora eu percebia isso. Eu a amava. Ao chegar na casa de Tyler, estacionei o carro e desliguei o motor. Antes que eu pudesse sair do carro, olhei para Tara, apertei sua mão gentilmente e dei a volta até o seu lado do carro. Ela já estava prestes a sair, segurando-se no veículo. — Tara, espere. Me deixe te ajudar. De repente, Tyler abriu a porta da frente e saiu correndo. Seus olhos se encheram d’água no momento em que viu a amiga e ela gentilmente colocou a mão no rosto de Tara. — Que tipo de pessoa faz isso a outro ser humano? — Tyler olhou para mim. Embora nada tivesse sido dito, eu compreendi cada palavra. Tara colocou a mão no braço de Tyler, olhando para ela. — Estou bem. Está pior do que parece. — Entre, Tara. Precisamos te limpar e te deixar confortável. Com meu braço ao redor dela, entramos na casa. Assim que a porta foi fechada, ajudei Tara a sentar-se no sofá e tirei suas sandálias. Ergui seus pés, colocando-os sobre o assento, para que ela pudesse se deitar, e Tyler apareceu com dois comprimidos e um copo d’água.


— Para a dor e o inchaço. Tara assentiu e tomou os comprimidos, fechando os olhos. — Me desculpe. Eu estava prestes a dizer alguma coisa, mas Tyler me interrompeu. — Não ouse pedir desculpas, Tara. Nós te amamos e nos preocupamos com você; faríamos qualquer coisa. Nunca se desculpe por isso. E nunca se desculpe pelo que aquele babaca fez com você. — De repente, Tyler virou-se para mim. — Tara vai ficar bem comigo. Vou cuidar dela, Jimmy. Eu prometo. Vá fazer o que tem que fazer. — Ela colocou uma mão no meu braço, apertando-o com gentileza. Com isso, recebi a mensagem em alto e bom som. Assenti. Virei-me para Tara e peguei seu rosto entre as mãos. — Preciso ir agora, mas quando voltar, iremos conversar, ok? Preciso te segurar nos meus braços e te dizer uma coisa. Uma coisa que você precisa saber. Ela sorriu e assentiu. — Onde você vai? E quando vai voltar? Suspirei. Odiava ter que deixá-la, mas ela precisava perceber que eu estava fazendo isso por ela e em nome de todas as mulheres que tinham a infelicidade de cruzar com homens como aquele. — Vou me certificar de que ele nunca mais vai te machucar. Vou me certificar de que você estará a salvo. Não tenho certeza de quanto tempo vai demorar, então, só relaxe e concentre-se em melhorar. — Olhei bem fundo em seus olhos, tentando passar a mensagem. Ela buscou algo em meus olhos por um momento e assentiu. — Vou estar esperando por você. Respirei fundo de alívio e sorri para ela. Beijei sua cabeça e levantei-me. Tyler sorriu e assentiu, enquanto eu caminhava em direção a porta, com ela a me seguir. Assim que pisei do lado de fora, virei-me para encará-la. — Vou colocar a Tara no quarto à direita do banheiro. Quando terminar lá, volte e fique com ela. Dean tem as chaves. Só faça com que vocês dois voltem bem, ok? — Ela pegou minha mão e a apertou. Sorri e assenti. — Não se preocupe. Ele vai voltar. Dean tem sorte de ter você. Tyler sorriu. — E Tara tem sorte de ter você. — Ela soltou minha mão e colocou seus braços ao meu redor. — Por favor, tenha cuidado. Assenti, me afastei e apertei sua mão mais vez. — Não se preocupe. Pode levar um tempo, mas estarei de volta antes que Jeremy peça suas panquecas de manhã. Tyler riu, e então me viu olhar para trás, para a casa. — Não se preocupe. Ela vai ficar bem. Vou cuidar bem dela até que você volte. Eu sorri. — Eu sei. Não quero deixá-la, mas preciso... — Eu sei — ela me interrompeu. — Sei que precisa. Só faça com que vocês dois voltem. Soltei sua mão e assenti. Já estava no meio do caminho para o carro quando Tyler falou: — Diga a Dean que eu também estarei esperando por ele.


Olhei para trás e assenti. Então, ela se virou e entrou na casa. Eu sabia que estava indo cuidar de Tara. Eu só queria poder fazer isso. Balancei a cabeça e entrei no carro. Cuidar de Tara deveria ficar para depois. Primeiro eu tinha que lidar com uma inconveniência. Algo que não deveria nem estar respirando o mesmo ar que nós. Voltei à casa dela em vinte minutos. Assim que Dean abriu a porta, me guiou até o quarto onde estava mantendo aquele merda. Ele estava amarrado, amordaçado e gelado. Parecia que Dean já tinha batido nele algumas vezes. Já estava sangrando e cheio de hematomas. — O que você fez com ele? — Olhei para Dean, que sorriu. — Bem, sempre que ele acordava, eu o colocava para dormir de novo. Acho que ele precisa descansar por enquanto, porque vai precisar de toda a disposição para mais tarde. — Ele piscou para mim, então, seu sorriso desapareceu. — Como está Tara? — Não muito bem, mas vai se curar. Tyler está cuidando dela. — Dean sorriu cheio de afeto com a menção do nome dela. — Tyler é uma garota incrível. Dean assentiu. — Eu sei. — Ela me disse para você se apressar em ir para casa. Acho que está preocupada. Os olhos de Dean brilharam. Foi a primeira vez que o vi assim. — Quando ela diz que devo correr para casa... acho que não tem noção do que isso significa para mim. O ex de Tara se remexeu, eu o chutei. Porra, foi muito bom. — Você acha que ela finalmente está te aceitando de volta? O ex de Tara grunhiu e se movimentou um pouco. Dean rapidamente o socou, fazendo-o apagar novamente. — Espero que sim. Não sei o que vou fazer se ela me afastar outra vez. Pensei que estava desolado antes, mas sei que isso me destruiria completamente. — Ele olhou para o chão e suspirou. — Acho melhor começarmos antes de ele acordar. — Para onde vamos levá-lo? Dean sorriu maliciosamente para mim. — Conheço um lugar. E, Jimmy, meu amigo, acho que você vai adorar. Tirei o carro da garagem e jogamos o filho da puta no porta-malas. Dean dirigiu por mais ou menos meia hora por uma floresta densa. Logo, paramos do lado de fora de um galpão. Ficava no meio do nada, estava completamente deserto. — Porra, como é que você encontrou esse lugar? Dean sorriu. — Eu sempre procuro lugares, Jimmy, para o caso de haver uma necessidade. Você nunca sabe quando vai precisar de algo em um momento de pressa. — Ele piscou, e eu balancei a cabeça. — Você é inacreditável, sabia disso? Dean riu. — Para ser totalmente honesto, vim aqui uns dias atrás para procurar por uma cerca para consertar a do jardim de Tyler. No primeiro dia em que fui à casa dela, percebi que não era muito segura. Encomendei uma por aqui. Conheci o dono e começamos a conversar. Ele me contou sobre seus ratos. Ergui a sobrancelha.


— Ratos? Dean sorriu. — Sim, ele cria ratos. Alguns deles têm o tamanho de gatos. Ele me mostrou alguns no escritório. Grandes pra caralho. Olhei para Dean e rapidamente compreendi o que ele estava dizendo. — Gosto do seu estilo, cara. Dean riu. — Eu sabia que você ia adorar. Esse lugar é fodidamente perfeito. Ele também deixou escapar que tem uma fazenda de porcos a um quilômetro daqui. Isso chamou minha atenção. Eu sabia que Dean tinha uma grande afeição por porcos. Ele os adorava porque limpavam as evidências. Comiam tudo... até mesmo os ossos. Dean abriu o bagageiro e um par de olhos apavorados nos saudou. Ele era um pouco mais velho do que Tara e, juro por Deus, não conseguia entender como tinha coragem de bater em mulheres. Olhar para ele naquele estado fazia com que parecesse a criatura mais patética de todas. Era tão magricelo, que suas inseguranças provavelmente o faziam agir daquela forma. Aposto que nunca se sentiu no controle, então, decidiu descontar na esposa. Agora era o momento de fazê-lo sentir um pouco do que Tara sentiu. Agora era o momento de fazê-lo suar. Tanto Dean quanto eu pegamos as extremidades de seu corpo e o tiramos do bagageiro. Ele se debateu e grunhiu, mas isso só me fez apertá-lo com mais força. — Pare de lutar, babaca. Você só está gastando energia. Chegamos à porta, mas havia um cadeado fechado de forma muito segura. — O que vai fazer? Se quebrar essa coisa o dono vai saber que alguém esteve aqui. Dean colocou o homem no chão e pegou uma chave de fenda. Sorriu, abaixou-se e começou a trabalhar para abrir o cadeado. Olhei ao redor e me certifiquei de que ninguém estava vindo. Ninguém. Logo ouvi um clique e Dean olhou para cima. — Viu? Não foi preciso quebrá-lo. — Ele se inclinou novamente e pegou as pernas para erguer o prisioneiro, então, eu me abaixei e coloquei meus braços por debaixo dos dele também. Entramos e tive cuidado ao fechar a porta. Lá dentro havia máquinas de todo tipo, para todo os lados. Era um galpão de um metalúrgico e eu entendi totalmente o porquê de Dean ter escolhido este lugar. Era o ambiente perfeito para executar nossa tortura. — Fique aqui, vou dar uma olhara por aí. Temos que nos preparar e temos que ser rápidos. O ex de Tara estava grunhindo, murmurando algo através da mordaça. Eu o chutei. — Cale a porra da boca, seu punheteiro. — Inclinei-me e agarrei seu pescoço. Seus olhos arregalados olhavam direto para mim. — Tara é minha garota agora, entendeu? Qualquer um que machucar o que é meu deve pagar. Você cometeu o maior erro de sua vida no dia em que levantou a mão na direção dela. Não vejo com bons olhos homens que machucam mulheres, mas, especialmente, não gosto nada de homens que machucam algo que é meu. — Apertei seu pescoço com mais força. — Vou mostrar a Tara como é ser amada por alguém que vai cuidar dela. Alguém que nunca irá feri-la. Vou mostrar a ela que amar alguém não tem nada a ver com dor. E vou começar a fazer isso me certificando de que ela nunca mais terá que se preocupar com um merda


como você. Você vai se arrepender da porra do dia em que levantou a mão para ela. — Eu o joguei no chão. Precisava sair de perto por um momento, porque sentia que ia perder o controle muito em breve. Eu sabia que Dean ia fazê-lo sofrer com uma morte lenta e agonizante, e eu precisava disso. Logo em seguida, Dean surgiu com um maçarico e com uma gaiola com os dois maiores ratos que já tinha visto na vida. — Porra. Com o quê esses dois estão sendo alimentados? Dean riu. — Eu já vi uns maiores, mas esses são grandes, não são? Balancei a cabeça me sentindo animado. Ele olhou ao redor. Ao encontrar um caixote de madeira, o pegou. — Precisamos que ele deite, para que suas costas fiquem fora do chão. Precisamos serrar um buraco nele por onde os ratos possam escapar. Olhei para o babaca e vi seus olhos arregalados. Ele olhou para mim como quem pede por piedade. Não tinha nenhuma chance de eu ajudá-lo. Estava pedindo à pessoa errada. Olhei para Dean com uma expressão interrogativa e sorri, antes de voltar minha atenção novamente para o filho da puta. — Acho que ele sabe o que vamos fazer. Dean assentiu. — Acho que ele mexeu com a mulher errada, não é, Jimmy? Franzi o cenho. — Sim, ele mexeu. O filho da puta gemeu através da mordaça. Dean olhou para mim. — Acho que ele quer dizer alguma coisa. Será que devemos lhe conceder esse direito antes de os ratos começarem a brincar? Assenti. Não tinha nenhuma dúvida de que ele iria implorar por sua vida. Era algo que me divertiria muito. Dean abaixou-se e tirou a mordaça. O filho da puta respirou fundo e olhou para nós dois. — Olha, cara, me desculpe. Eu prometo ir embora e nunca mais voltar. Tara nunca mais vai me ver. Fiz uma carranca. — Você está certo. Vou cuidar disso. Ele balançou a cabeça. — Eu não queria. É que eu fico tão irritado. Cerrei meus punhos. — Isso não é uma porra de desculpa. — Eu sei. Eu sei. Mas ela matou nosso bebê. Ela já te contou isso? Estava grávida do nosso filho e o matou. Que tipo de mulher faz isso? Seus olhos estavam arregalados e cheios de ódio. A revelação me chocou, mas eu sabia que Tara devia ter tido uma boa razão para fazer aquilo. Ele provavelmente pensou que ia me chocar e me deixar irritado. Estava certo, mas era com ele que eu estava puto. Não com Tara. Nunca poderia ficar irritado com Tara. Então, me abaixei e agarrei sua camisa. — Provavelmente ela estava salvando a criança de um futuro miserável com um pai


escroto como você. Seus olhos se estreitaram. — Mas matando? Nenhuma criança merece ser morta. Eu fui criado em uma família a favor da vida. Tara sabia disso, e sabia que isso iria me matar. Ela me queria de volta e tentou da maneira mais cruel possível. Como alguém poderia perdoar algo assim? Eu não podia suportar mais aquela merda. Tara nunca me contou nada sobre o bebê, mas eu sabia que tipo de coração ela tinha e confiava que a decisão sobre abortar o bebê devia ter surgido em um momento difícil. Também acreditava que ela devia ter tomado tal decisão porque sentiu que era a coisa certa a fazer. Pensar no que podia tê-la levado a isso fazia minha cabeça explodir. O saco de merda me queria como aliado, mas tudo que conseguiu foi me deixar ainda mais puto. Ele foi o responsável por ela ter tomado aquela decisão, provavelmente deixando-a de coração partido. Mas ele foi o culpado. Sem hesitar, coloquei a mordaça de volta em sua boca, fazendo-o gritar contra ela, e virei-me para Dean. — Não quero mais ouvi-lo falar, Dean. Vamos acabar logo com isso. Já perdemos muito tempo com ele. Dean assentiu e começou a trabalhar, fazendo um buraco no caixote de madeira. Com um suspiro, deitamos as costas de Mark sobre o buraco. Dean encontrou uma malha e formou uma jaula sem topo e sem base. Pegou uma faca dentro de seu bolso e a entregou para mim. — Faça uma incisão entre as costelas. Os ratos vão fazer o resto. Sorri de volta para ele. — Vai ser um prazer. Ajoelhei-me e comecei a ouvir os gritos abafados do merdinha. Eu não iria ajudá-lo. Ele selou seu destino no dia em que voltou para procurar minha Tara. Pressionei a faca e fiz um corte no meio de seu torso. O sangue começou a pingar ao mesmo tempo em que seus gritos se intensificaram. Eu sabia que ele estava sentindo dor, mas não me importei. Também deveria estar preocupado por estar curtindo o momento. Sempre torturei pessoas, mas nunca senti tanto prazer assim. Era apenas um trabalho, puro e simples, mas aqui era pessoal. Este homem precisava pagar por ter feito Tara sofrer por todos aqueles anos. Não era apenas o abuso físico que ela teve que suportar. Era a tortura diária com a qual conviveu, imaginando se ele iria encontrá-la. Era uma tortura noturna, sempre que ela gritava em seus sonhos pedindo que alguém a ajudasse, que a salvasse de um homem de quem jamais conseguiria se libertar. Eu iria libertá-la. Devolveria a vida à minha Tara. Ela nunca mais precisaria se preocupar se ele iria ou não encontrá-la. Eu me certificaria disso. Assim que fiz a incisão, Dean tirou os ratos da gaiola e os colocou sobre o torso dele. Não perderam tempo. Começaram a roer suas entranhas no momento em que sentiram cheiro de sangue. O filho da puta gritou de agonia e eu soube que ele iria desmaiar de dor muito rápido. Era apenas uma questão de tempo. — Aqui, não deixe os ratos escaparem. — Coloquei minhas mãos ao redor da tela, que agora aprisionava os ratos, e olhei para Dean, que estava segurando o maçarico que tinha encontrado em algum lugar dali. Colocou as baterias no aparelho e o aproximou da tela. Afastei minha mão e coloquei-a por cima. Ele olhou para mim. — Isso vai acelerar o processo. Os ratos vai ficar com calor e sua única rota de saída será... — Ele me mostrou com seu dedo. Essa era a razão para haver um buraco no fundo.


— Não sei quanto tempo vai levar. Mas ele vai estar morto logo. Precisamos esperar algumas horas para ver como vai progredir. — Assenti e observei conforme Dean amarrava o maçarico no topo da tela. — Não vou colocar quente demais. Só o suficiente para fazer com que os ratos trabalhem mais rápido. Dean começou a trabalhar. Isso fez com que eu percebesse o quanto a situação era estranha. Normalmente era eu quem capturava e torturava pessoas para Dean, não o contrário. Normalmente eu era muito bem pago para isso também. Porém, Dean não estava pedindo nada e eu sabia que não pediria. Estava fazendo aquilo para ajudar um amigo, algo que nos tornamos. É claro que já nos conhecíamos há muitos anos e, apesar das brincadeiras estranhas que fazíamos um com o outro, sempre mantivemos uma relação estritamente profissional. Na verdade, uma vez ele me revelou que não gostava de se aproximar muito das pessoas. Se deixasse alguém se aproximar, suas fraquezas logo seriam reveladas, tornando-o vulnerável. Quando me disse isso, entendi seu lado, mas também sabia que não precisava mais ser assim. Não era quem ele era de verdade. Fora o grande desentendimento com Tyler o que o tornou aquele homem. Dia após dia, eu percebia que Tyler estava resgatando o menino que ela um dia conheceu e que ele foi. E, dia após dia, Dean estava permitindo que ela fizesse isso. Era algo que eu estava gostando de testemunhar. Era por isso que eu sabia que o que estávamos fazendo naquele momento era uma coisa importante. Ao ajudar um amigo, ele estava novamente agindo como o homem de quem andava fugindo. Eu sabia que estava exigindo muito dele e que ele estava preocupado com o que Tyler iria pensar assim que retornasse. Porque não importava o quanto Dean fugisse ou se escondesse, suas raízes sempre iriam fazer parte de sua alma. — Você quer café? Sei de um restaurante vinte e quatro horas onde poderíamos ir. A voz de Dean me arrancou de meus pensamentos. — Porra, cara, agora você conhece tudo por aqui? Está parecendo uma porra de GPS. Dean sorriu e então franziu o cenho, irritado com os gritos do babaca, abafados pela mordaça. — GPS é melhor do que ser chamado de retardado. — Ele sorriu. — Vamos lá. Esse pedaço de merda está me dando dor de cabeça. Dean virou-se e eu o segui até o carro. — Você não fica preocupado de alguém vir aqui enquanto estivermos fora? Dean balançou a cabeça. — Se alguém vier, ele já estará morto, e nós não estaremos aqui. Vamos voltar mais tarde. Não se preocupe. Vou ser cuidadoso quando voltarmos. Tenho certeza de que as luzes dos carros de polícia vão nos avisar primeiro. Assenti e entramos no carro. Enquanto estávamos dirigindo pela estrada suja pela qual viemos, olhei para Dean. — Obrigado por hoje, Dean. Sei que exigiu muito de você... por causa de Tyler e tudo o mais. Dean pareceu preocupado por um momento, mas balançou a cabeça com um sorriso. — É para isso que servem os amigos, não é? Hesitei por um momento, enquanto uma pergunta se revirava dentro da minha cabeça. Perguntei a mim mesmo se deveria ou não fazê-la, então, apenas a deixei escapar. — Quando foi a primeira vez que você viu um cadáver?


Dean riu. — Merda, Jimmy, você vai fundo na coisa, não é? Dei de ombros. — Só estou curioso, eu acho. Dean suspirou e olhou através da janela. — Eu venho de uma longa linhagem da família Scozzari. Todos os membros são criminosos. Era a vida que levavam. Mas quando meus pais me tiveram, eles queriam tentar mudar. Nos mudamos quando eu tinha oito anos e tentamos nos estabelecer em uma área melhor. Pouco a pouco, eles tentaram se encaixar em empregos, mas os laços eram muito fortes. Como você sabe, nós tínhamos inimigos. — Ele olhou para mim por um segundo antes de focar novamente na estrada. — Os Pinzanos. Dean assentiu. — Os Pinzanos. Eles eram uma família rival que queria chegar ao topo. Queriam controlar tudo, mas primeiro queriam devorar. Ficaram sabendo que minha família estava tentando se afastar daquela vida, mas ao invés de ficarem felizes com isso, quiseram que fôssemos erradicados. Queriam eliminar até o último Scozzari para que não houvesse nenhuma chance de voltarmos e assumirmos o controle no futuro. “Com minha família sempre houve um último trabalho a ser feito. Sempre houve algo que precisavam tirar do caminho.” — Ele respirou fundo, e eu pude ver em seus olhos que havia algo mais pesado para contar. — Quando eu tinha dezesseis anos, meus pais me levaram à boate do meu tio. Não era lá grande coisa, pois eu sempre ia com eles. Na maioria das vezes, eu só me sentava, bebia minha Coca-cola e balançava a cabeça no ritmo da música. Porém, naquela noite em particular, fiquei curioso. Eu sabia que minha mãe e meu pai tinham desaparecido no porão do meu tio, então, me levantei e desci lá. Queria saber o que estavam fazendo. Queria saber quem meus pais realmente eram. Foi, então, que vi Dean segurar o volante com mais força e ranger os dentes. — Acho que você descobriu. Dean deixou escapar um suspiro, mas seu corpo ainda estava rígido. — Meu pai estava torturando alguém, enquanto minha mãe, meu tio e seus comparsas apenas observavam. Na verdade, minha mãe estava lixando as unhas como se estivesse entediada. Você consegue acreditar nisso? — Ele balançou a cabeça. — Mas, então, algo foi dito e a postura da minha mãe mudou. Foi quando eu soube que ela não estava entediada. Estava apenas escondendo sua dor. Porra! — Dean socou o volante. — Me desculpe, Jimmy. É a primeira vez que penso nisso... Ergui minhas mãos. — Não fale nisso, Dean. Não precisa me contar mais nada. Dean deixou escapar um suspiro exasperado. — Está tudo bem. Já cheguei até aqui. — Ele olhou para mim com um sorriso tenso. — Não descobri a história inteira até que perguntei ao meu pai depois, mas o que consegui entender daquela noite foi que ele estava torturando o homem que tinha estuprado a minha mãe. Dean fechou seus olhos por um momento antes de olhar para a estrada novamente. Mesmo depois de todo esse tempo, não podia culpá-lo por ainda ficar irritado. Eu me sentiria da mesma forma se estivesse em seu lugar.


— Um dos homens do meu pai o traiu. Contou a eles que o irmão de Antonio Pinzano queria encontrá-los para uma trégua, mas queria falar apenas com a minha mãe, porque sabia que meu pai era cabeça quente. Mas era tudo uma armadilha. O homem do meu pai, aquele que ele enviou para protegê-la, estava trabalhando em segredo para os rivais. O merda do irmão do Pinzano a agarrou, a amarrou e a estuprou repetidamente. Ele a enviou para casa tão machucada que ela não conseguiu caminhar por semanas. Gemi. — Porra, sinto muito, cara. Dean suspirou. — Isso aconteceu e, infelizmente, não há como voltar atrás. Eu sempre me esquivei do que meus pais faziam. Sempre pensei que aquele lado deles era feio. Mas quando soube o que fizeram com minha mãe, a única coisa que consegui pensar foi que eu queria estar lá torturando aquele filho da puta. Queria estar segurando a lâmina que o cortava. Queria que fossem meus punhos a amassar aquela cara. Naquela noite percebi que eu era mesmo um Scozzari. Era o sangue que corria por minha veias, e não havia nada que eu pudesse fazer a respeito disso. Tinha que aceitar como sendo meu destino. Ele parou por um minuto e sorriu. — Mas a única coisa que me manteve são, a única pureza que eu conhecia, era Tyler. No dia seguinte, fui até ela. Estava cansado e muito puto. Mas sabia que só de olhar para ela tudo iria desaparecer. Sabia que sua inocência iria dissipar toda a feiura que inevitavelmente crescia dentro de mim. — Ele riu um pouco. — Ela perguntou onde eu estive, então, contei que tinha estado na boate do meu tio. Só de lembrar disso já me sentia destruído. Mas aí, ela ficou com ciúme de pensar em mim flertando com as meninas na boate. Você acredita nisso? — Dean balançou a cabeça. — Se ela soubesse... Dean ficou em silêncio por um momento e balançou a cabeça, rindo novamente. — Então, não me importei com mais nada, só com ela. Ela estava apenas com ciúme de outras garotas, sem saber de metade do que tinha acontecido. Sua inocência e sua beleza me deixavam estupefato. Eu estava destruído naquele momento. Queria me afogar nela e enterrar a nós dois, mas também sabia que aquele lado que eu escondia iria surgir um dia. Não sabia que merda iria fazer quando isso acontecesse, mas o meu lado mais egoísta a queria. Precisava de sua pureza para me manter com a cabeça no lugar. Para me manter são. — Ele balançou a cabeça com uma risada. — Não sei se está fazendo sentido, mas... — Está — interrompi. — Está fazendo total sentido. Por que você acha que eu chamava Grace de “minha Graça de Deus”? Ela sempre me mantinha controlado. Eu sempre podia contar com isso no fim do meu dia de merda. Ela estava sempre lá para mim, como meu farol. Era só seguir sua luz para chegar em casa. Dean riu, assentindo. — Olha só para nós... dois bichos desajustados. Meus lábios se curvaram em um sorriso. — Eu sei. Eu podia passar o dia inteiro torturando pessoas e nem pensar no assunto. Estava acostumado a isso quando saí do Serviço Secreto. Não tinha mais sensibilidade. O único motivo que me fez abandonar tudo foi que o dinheiro para torturar civis era muito mais rentável. Era um trabalho, puro e simples. Mas no final do dia eu sempre voltava para casa, para um par de braços carinhosos; e no momento em que ela me tocava, podia pedir qualquer coisa que eu lhe daria. Grace era minha tortura. Era minha doce tortura. — Fiquei em silêncio por um momento,


curtindo as memórias. — E agora? O que me diz de agora, Jimmy? Sobre Tara? Com certeza você não está fazendo tudo isso só porque gosta dela. Está apaixonado, não está? Assenti. — E você quer saber a parte mais doentia disso tudo? — Dean deu de ombros e olhou para mim por um momento. — Esta noite teve que acontecer para que eu percebesse isso. Precisou que o ex-marido dela a encontrasse e a espancasse para que eu percebesse o quanto a amo. O quão doentio isso te parece, Dean? O quão fodido eu sou para ter ficado cego por tanto tempo? Acho que estive lutando contra o que sentia por ela, porque, lá no fundo, pensei que estava manchando a memória de Grace, como se a estivesse traindo, quando estava apenas enganando a mim mesmo. Com certeza sou doente da cabeça. — Balancei a cabeça por causa da ironia de tudo isso. — Você não é doente, Jimmy. É humano. Grace nunca vai desaparecer. Ela sempre será uma parte de você. Mas precisa entender que ela ter morrido não significa que você tem que deixar sua felicidade ir com ela. Ela sempre vai ter um lugar especial em seu coração, mas alguém precisa pegar a maior parte dele. Tara é uma garota legal, Jimmy. Vocês são bons um para o outro. O que fez por ela esta noite demonstra o quanto se importa. E se foi isso que te mostrou o que realmente sente por ela, o que há de errado? Às vezes coisas boas surgem de situações ruins. Não pense que é um sinal de que você é doente. Pense nisso como um alerta. Você esteve sonhando esse tempo todo, mantendo Grace na sua mente. É hora de acordar, Jimmy. É hora de abrir os olhos. Ri um pouco por causa de sua analogia. — Você está mesmo falando essas coisas profundas para mim, Dean? Dean riu. — Não, você é idiota demais para isso. Inclinei minha cabeça para trás. — Se eu sou um idiota, você é um pentelho fodido. — Punheteiro. — Saco de merda. — Boca de sapo. — Babaquinha. Dean jogou a cabeça para trás e riu. — Eu poderia te encher de pancada até te matar por isso, mas está engraçado demais. — Baaaa — Não pude evitar uma risada. Ele olhou para mim com uma sobrancelha erguida e balançou a cabeça. — A Tara sabe que toda essa merda sai da sua boca? Ergui minha sobrancelha e fingi desacreditar. — E a Tyler? Sabe? Dean balançou a cabeça com uma risada. — Touché, seu merda. Ele estacionou na frente do pequeno restaurante. — Adoro esses apelidos que você usa para mim. Faz com que eu me sinta muito querido. Dean riu e saltou do carro. Eu o segui e fechamos as portas.


— Não pressione, Jimmy. — Ele balançou a cabeça, enquanto eu o seguia até o restaurante. *** Uma hora depois estávamos de volta à estrada. Já eram quase três horas, então, sabíamos que precisávamos nos apressar. Já estava quase amanhecendo. Quando voltamos ao galpão, ele estava morto e os ratos já tinham comido metade de seu peito. O cheiro era horrível, mas eu já tinha me acostumado a ele. Suportei-o, considerando que Tara nunca mais precisaria se preocupar. Tivemos trabalho para tirar os ratos e para queimar a madeira, que estava ensopada de sangue. Enrolamos um lençol ao redor do corpo e limpamos tudo para parecer que nunca estivemos ali. Dean colocou os ratos de barriga cheia dentro da gaiola e jogamos os restos do filho da puta no bagageiro. Viajamos por mais de um quilômetro pela estrada até a fazenda dos porcos. Para a nossa sorte, a casa principal ficava longe do chiqueiro, então, conseguimos deixar o corpo para os porcos sem sermos notados. Não senti nada quando o joguei ali. Se senti algo, foi alívio. Alívio por saber que aquele saco de merda nunca seria capaz de ferir Tara novamente. Tanto Dean quanto eu estávamos cansados e nossas roupas estavam manchadas de sangue, mas sabíamos que tínhamos conquistado algo naquela noite que poderia fazer uma enorme diferença na vida de uma mulher. Uma mulher por quem eu estava desesperadoramente apaixonado. A jornada para casa foi silenciosa, mas acho que nós dois abençoamos o lugar quando chegamos. Eu estava ansioso para ver como Tara estava. Queria me certificar de que estava bem e que ela ainda me receberia depois de saber que tinha matado seu ex-marido. Parte de mim se preocupava, mas a outra parte não se importava. Não me importava o que pensava de mim, já que ela nunca mais teria que sentir medo. Era algo que me traria felicidade para sempre. Assim que estacionei na frente da casa, saltamos do carro e caminhamos em direção a entrada. Dean abriu a porta e rapidamente ligou o alarme. Com isso, balançou a cabeça e sussurrou: — Merda! A Tyler não ligou o alarme. — Ele novamente balançou a cabeça com descrença e marchou até a lavanderia. — Me dê suas roupas para que eu possa lavá-las. Sei que você deve estar desesperado para ver Tara. — Sorriu para mim. Segui suas instruções e tirei toda a roupa, até ficar só de cueca, entregando em seguida as roupas para Dean. Então, hesitei. Ele me viu hesitando e sorriu. — Vá. Agora. — Ele me cutucou e balançou a cabeça, mas não perdi mais tempo. Corri pelas escadas o mais rápido que minhas pernas permitiam e cheguei à sua porta. Respirei fundo e a abri para ver a silhueta de Tara. Pensei que ela estava dormindo, até que falou: — Jimmy, você está bem? Balancei a cabeça com um sorriso e fechei a porta atrás de mim. — Você está sofrendo, mas pergunta se eu estou bem? Tara, isso me assusta. Ouvi seu suspiro enquanto a buscava na escuridão. Afastei os lençóis e deitei na cama. Gentilmente coloquei meu braço ao redor dela e a abracei com gentileza. Durante a noite inteira sonhei em fazer isso. Era só o que eu queria fazer a partir de agora. — Eu sei, me desculpe.


Suspirei. — Nunca peça desculpas. Você está bem? Está com dor? Precisa que eu pegue algo para você? Ela riu. — Não, você estar aqui é tudo que eu preciso. Tyler cuidou mesmo muito bem de mim esta noite. Cuidou do meus machucados, me deu um banho e me serviu uma taça de Prosecco enquanto me ouvia falar. É a melhor amiga que eu poderia desejar. Se saiu melhor como enfermeira do que eu. — Senti que ela ria contra meu peito, e eu a puxei mais para perto, enquanto sentia seu cheiro delicioso e suspirava. — Duvido muito disso. — Respirei fundo. — Aliás, enfermeiras às vezes também precisam de cuidados. Eu só queria que tivesse sido eu a cuidar de você esta noite. Tara passou um dedo pelo meu braço, me fazendo estremecer. — O que aconteceu hoje à noite, Jimmy? Fiquei tenso e sei que ela sentiu isso. — Não posso te contar. — Tinha que protegê-la. Se fôssemos pegos pelo que fizemos, precisava ter certeza de que Tara estaria segura. E para mantê-la em segurança, precisava deixá-la na ignorância. Só podia lhe contar o que ela precisava saber. — Mas o que posso contar é isso. Você nunca mais vai precisar se preocupar com ele novamente. — Beijei sua cabeça e acariciei seu rosto com carinho. — Juro que você está em segurança. Entendeu, Tara? Senti que ela encostava a cabeça em mim. — Entendi, Jimmy. Perfeitamente. — Ela suspirou e eu odiava o fato de não poder ver seu rosto. Ela começou a passar o dedo pelo meu braço e eu soube que estava tudo bem. — Então, o que você queria me dizer? Estou em seus braços agora, Jimmy. Você queria me dizer algo, então, pode soltar. Ri um pouco e passei meu nariz na base de seu pescoço. Adorava aquele cheiro. Ela sempre cheirava a limpeza e frescor. — Eu queria que você soubesse que preciso tê-la em meus braços para sempre, Tara. Quero cuidar e proteger você de tudo. Por quê? Porque eu te amo. Nunca pensei que iria dizer essas palavras novamente, mas é verdade. Eu te amo tanto que chega a doer, Tara Becksworth. Por um momento ela ficou em silêncio, e eu fiquei deitado ali, respirando com violência. Esperar por sua resposta era agonizante. Por um momento, pensei que ela não fosse dizer nada, ou que iria me dar um gelo. Mas foi quando a ouvi fungar um pouco, enquanto apertava minha mão. — Eu também te amo, Jimmy. Aquilo era música para a porra dos meus ouvidos.


Capítulo Quinze Dean Como você sabe que o que procura é redenção e não uma vingança justa? Pete Abrams Coloquei minhas roupas e as do Jimmy na lavanderia. Estava exausto, fodidamente cansado, e a única coisa que me mantinha em alerta era saber que Tyler estava lá em cima. Sozinha. Provavelmente nua. E possivelmente desapontada com seu Dean. O Dean que ela sempre conheceu como seu porto seguro. O Dean que ela rapidamente descobriu não ser o menino que ela sempre pensou que fosse. Não sei se Tyler iria me mandar embora. Ela já deveria saber que a maçã nunca cai muito longe da árvore, mas eu não podia evitar. Considerava Jimmy como família e quando ele se machucava, eu me machucava também. Foi puro instinto o que me guiou esta noite, me fazendo acompanhar Jimmy e colocar em prática os planos que eram necessários. Se Jimmy tivesse ido sozinho, tudo teria resultado em muitos gritos, muita porrada e um assassinato, e então, a polícia levaria Jimmy embora em seu carro. Não podia deixá-lo ir sozinho sabendo que seus sentimentos em relação a Tara iriam levá-lo a uma queda. Ele precisava de alguém que o vigiasse. Alguém que o controlasse e que o fizesse saber que perder a cabeça nunca levava a um bom resultado. Eu queria vingança tanto quanto ele. O cara era um filho da puta. Batia em mulheres. Acima de tudo, isso nunca deveria ser tolerado, mas a forma como Jimmy teria resolvido o teria levado à cadeia. Nunca poderia deixar que isso acontecesse. Então, com as roupas na lavadora e meu rabo entre as pernas, subi e silenciosamente entrei no quarto de Tyler. Olhei para onde ela estava deitada e contemplei sua beleza por um momento. Estava deitada de lado, com a mão debaixo do travesseiro, enquanto suspiros escapavam de seus lábios. Seu cabelo caía em cascata por suas costas, expondo seus ombros esculpidos que faziam minhas mãos doerem de vontade de tocá-los. Vontade de beijá-los. Porra, eu era louco por ela. Era louco por Tyler, como Jimmy era louco por Tara, mas eu sabia de algo que contradizia totalmente o que eu tinha dito a Jimmy naquela noite. Jimmy achava que tinha encontrado sua alma gêmea em Grace, mas depois conheceu Tara. Para mim, Tyler era meu único amor. Sempre foi. Se Tyler deixasse de existir, nada mais no mundo importaria. Era um fato simples que eu nunca poderia ignorar. Tyler sempre foi e sempre seria minha escolhida. Suspirando, eu relutei, me virei e entrei no chuveiro da suíte. Tinha sangue nas mãos. Uma evidência que eu precisava fazer com que desaparecesse. Tyler era minha pureza. Sua inocência dissipava todos os meus pecados. Precisava me certificar de que ela nunca veria aquele meu lado. O lado que tanto a assustava. E quem poderia culpá-la? Agora ela tinha Jeremy, e ele sempre seria uma prioridade acima de mim. Eu aceitava isso, porque ele era meu filho. Jeremy primeiro, eu depois. Não podia fazê-la escolher algo que não estava em jogo. Nosso filho era sua escolha. E eu não aceitaria se fosse de outra forma. Entrei no banheiro, fechei a porta e abri o chuveiro. Tirei minha cueca, enquanto esperava que a água esquentasse. Assim que percebi que estava quente o suficiente, entrei e deixei que a água lavasse todo o sangue. O chão rapidamente começou a se tornar vermelho,


enquanto eu observava aquela cor desaparecer pelo ralo. De repente, senti os braços de Tyler ao meu redor, enquanto as evidências ainda desciam pelo meu corpo em direção ao chão do chuveiro. Imediatamente funguei enquanto a observava olhar para o sangue. Encolhi-me, sabendo o que estava prestes a acontecer. Não era esse lado meu que ela queria. Ela tinha me pedido para mudar e eu prometi que mudaria. Naquela noite, tinha quebrado a promessa. Prendi a respiração, esperando que ela me pedisse para ir embora. Estava esperando que sua voz cheia de raiva ecoasse pelo meu cérebro. Preparei-me para isso. Por instinto, tentei protegê-la de ver toda a maldade que agora manchava o chão. Ao invés disso, ela me chocou, apertando ainda mais os braços ao meu redor. — Está feito? — ela simplesmente sussurrou contra o meu peito. Eu não sabia o que fazer. Não sabia se devia respirar, me mover ou dizer a ela que estava fodidamente arrependido. Apenas congelei por um momento. — Sim. — De repente respirei fundo e apertei meus braços ao redor dela, com medo de que fosse tirada de mim. Tyler suspirou e meu coração ficou dolorido. — Bom — ela simplesmente respondeu e eu não pude acreditar no que estava ouvindo. Ela não me odiava? Não estava achando que eu a tinha traído novamente? Ela Não achava que eu estava agindo contra tudo que ela tinha me pedido? — Tyler... Ela ergueu o dedo até meus lábios para me impedir, enquanto olhava nos meus olhos. — Não diga nada, Dean. Por favor. Não precisa explicar. — Tyler trocou o dedo por seus lábios suaves e quentes, e então eu me perdi. Será que ela tinha mesmo me perdoado pelas coisas que sabia que eu tinha feito esta noite? Será que tinha perdoado aquele meu lado? O lado que ela queria que ficasse fora da sua vida pelo bem de Jeremy? E eu concordava com isso de todo coração. Realmente acreditava que meus pais decidiram ter uma vida normal por minha causa, mas eles nunca se esforçaram totalmente para isso. E agora eu estava agindo da mesma forma. Eu tinha um filho que queria proteger dessa parte da minha vida. Queria mantê-lo a salvo a qualquer custo, mas o que aconteceu foi que me tornei a mesma pessoa que tinha odiado em meus pais anos atrás, e por quê? Porque foi necessário, importante, e fora vital para manter Tara a salvo. Foi isso que me impulsionou esta noite. Foi isso que me fez seguir em frente. Eu precisava me certificar de que a justiça seria feita. E sabe qual era a porra da ironia de tudo isso? Em meu desejo por justiça, tinha sugado Tyler para o meu mundo. No momento em que seus lábios tocaram os meus, soube que ela aceitou o fato de que eu tinha matado alguém naquela noite. Tinha tirado a vida de uma pessoa, e Tyler achou totalmente aceitável. Será que eu deveria estar irritado? Deveria perguntar a ela o porquê? Não sabia. Isso fodia com a minha mente e me deixava imaginando o que estava certo e o que estava errado. Por alguma razão, de repente, me afastei. — Tyler... — Eu não sabia o que dizer. Como poderia me esconder dela? Como poderia protegê-la de mim mesmo? Nunca quis que ela conhecesse esse meu lado. — Pare de se esconder de mim, Dean. Não esconda esse seu lado. Não sou mais uma garotinha. Você não pode me proteger dos horrores do mundo. Não sou tão estúpida a ponto de pensar que coisas ruins não acontecem a pessoas boas e que pessoas más não merecem a mesma sorte quando fazem algo ruim.


Segurei seu rosto em minhas mãos e suspirei. Fiz isso com amor. Tracei meu polegar por seus lábios, enquanto ela se encolhia. Como é que eu, o cara que menos merecia aquela bela mulher diante de mim, era capaz de fazê-la estremecer com o meu toque? — Como você me suporta, Tyler? Como pode olhar para mim quando sabe o tipo de homem que sou? — Uma única lágrima deslizou por seu rosto e eu me apressei para capturá-la com minha boca. Disse a ela que iria beijar cada uma de suas lágrimas e estava falando sério. Tyler sorriu. — Por isso. Meu coração acelerou dentro do meu peito. Como duas palavras tão insignificantes podiam me deixar tão indefeso? Tão sem fala? Completamente enfeitiçado? Eu não sabia que ela me amava tanto assim. Só queria acreditar nisso. — O que isso significa, Tyler? — precisei perguntar. Precisava saber o que ela estava pensando. Ela olhou para mim com muita adoração e muito temor nos olhos, mas eu tinha me tornado um monstro. Era isso que eu era, era disso que estava tentando fugir, mas nunca conseguiria realmente escapar. Tyler diminuiu a distância entre nós e colocou as mãos nos meus braços. Encostou o nariz no meu pescoço e o cheirou, como se estivesse tentando memorizar meu aroma. Finalmente, ela olhou para mim com um sorriso tão terno que quase me deixou sem fôlego. — Isso significa que quero que esteja aqui comigo. Significa que eu preciso que esteja aqui comigo. Já te perdi uma vez, Dean. Não posso te perder novamente. Venho negando isso a mim mesmo por muito tempo. Sem você, eu não existo. Não é a vida que quero viver. Não é uma vida que eu possa suportar. Seus olhos verdes se encheram de lágrimas, fazendo a cor deles se destacarem, de forma mais brilhante do que uma estrela cintilante. Ela era tão linda. E era minha. — Nunca vou te deixar. Ela assentiu e respirou fundo. — Eu sei, Dean. Eu sei. E, pela primeira vez, posso admitir que não quero que me deixe. Puxei-a para meus braços e a abracei ferozmente. Não queria possuí-la, apesar do fato de ter encostado minha ereção em sua barriga. Eu queria senti-la perto de mim por um momento. Dar banho nela, venerá-la como eu sabia que merecia ser venerada. — Isso significa que vou acordar com você nos meus braços amanhã? Isso significa que vou acordar perto do nosso filho e fazer panquecas para ele enquanto você fica deitada na cama? Senti Tyler rindo de encontro ao meu pescoço. — Sim — ela simplesmente sussurrou. — Eu adoraria isso. Então, eu lhe dei banho, e ela deu banho em mim. Passamos um tempo um com o outro, fui para a cama com Tyler nos meus braços. Fizemos amor naquela noite. Não foi o sexo nervoso que eu sabia que Tyler adorava às vezes. Daquela vez, eu sabia que ela queria que aproveitássemos cada momento. Ela queria a paixão lenta e agonizante, que fervia mais do que qualquer coisa. No momento em que terminamos, Tyler adormeceu rapidamente. A manhã já estava sobre nós e eu podia ouvir o som de passinhos enquanto a maçaneta do quarto de Tyler era girada. Em um primeiro momento, meu coração foi à minha boca porque não sabia como Jeremy iria reagir por eu estar no quarto de Tyler, em sua cama, com ela adormecida do meu


lado. Com um dedo nos meus lábios, peguei minha blusa que estava ao lado da cama e a coloquei por cima da minha cabeça. Jeremy ficou ali em pé, com seu pijama do Homem Aranha. Seu cabelo loiro estava bagunçado do sono, enquanto inclinava a cabeça para um lado, me observando. Não dava para ler em seus olhos como se sentia por me ver ali. Já tinha passado a noite antes, mas sempre para fazer sexo com Tyler e depois ir dormir no quarto de hóspedes. Mas era onde Jimmy e Tara estavam agora. Estava com uma desculpa na ponta da língua, mas será que ela funcionaria com meu filho? Pegando sua mão, levei-o para fora do quarto e gentilmente fechei a porta. Estava exausto depois da noite anterior, mas prometi a Tyler que faria panquecas para o menino de manhã. Estava se tornando um ritual diário. Assim que chegamos no andar de baixo, tirei Jeremy do chão e o coloquei sentado na mesa da cozinha. Sorri para ele e baguncei seu cabelo. — O que vai querer esta manhã, garotão, ou nem preciso perguntar? Jeremy ficou sentado ali, balançando as perninhas por um minuto antes de falar. — Você estava na cama da mamãe. Merda. Pensei que já tínhamos superado isso. — Er... sim. É que Tara sofreu um acidente na noite passada e ficou dormindo no quarto de hóspedes com o Grande Tio Jimmy. Jeremy arfou um pouco. — O que aconteceu com Tara? Peguei seu rosto nas minhas mãos. — Não se preocupe com Tara. Ela está bem. Sua mamãe e Jimmy cuidaram dela na noite passada. Ela caiu e se machucou, mas vai melhorar. Eu odiava mentir. Usei a mesma porcaria de desculpa que as mulheres usavam para proteger os maridos que as espancavam, mas Jeremy precisava ser protegido do lado feio do mundo. Agora, tudo que ele precisava saber era que estava cercado por pessoas que o amavam, e que Papai Noel sempre o visitava no Natal. E eu mal podia esperar para estar presente no Natal. — Não gosto de cair nem de me machucar. Eu ganho um boo-boo e dói para diabo. Ergui minha sobrancelha para ele. — Você acabou de falar uma palavra feia? Jeremy gargalhou, balançou a cabeça assentindo, e eu lhe fiz cócegas. Ele gargalhou ainda mais, com braços e pernas balançando violentamente, mas eu o segurei e o estabilizei, até que o ouvi tentando recuperar o fôlego. Parei e Jeremy riu um pouco mais. Assim que ele se acalmou, olhou para mim por um momento. — Você vai se casar com a mamãe agora? Arregalei os olhos e dei um passo para trás. Casar com Tyler era tudo que eu sempre quis fazer desde que era um garotinho esquelético. Sorri e balancei a cabeça. — Não posso me casar com sua mãe assim, desse jeito. Jeremy franziu o cenho e uma pequena ruga se formou no topo de sua cabeça, fazendo-o parecer muito com Tyler. Isso fez com que meu coração acelerasse e meu estômago revirasse. Cara, eu estava me tornando uma porra de uma garotinha. Qual era o meu problema?


— Por que não? Sorri para Jeremy e apertei seu nariz. — Bem, você sabe. Preciso pedir a uma pessoa primeiro antes de me casar com sua mãe. Recebi instruções muito bem definidas. Vi Jeremy se preparar para dizer alguma coisa quando algo chamou sua atenção. Virei-me e vi Tyler esfregando seus olhos sonolentos enquanto desfilava suas pernas longas e sedosas pela cozinha. Ela era perita em me fazer desejá-la cada vez mais. Só fazia algumas horas desde que estive entre suas pernas, mas já a estava desejando novamente. Precisava dela novamente. E não ajudava em nada o fato de estarmos no verão, porque ela estava usando apenas um top e um short bem curto. Era como uma porra de um ímã. Eu era o polo negativo, e ela, o positivo. — O que estão cochichando? — Ela sorriu ao ver a cena, e era fácil ver que seu sorriso era de pura felicidade. Adorava que parecêssemos uma família e eu faria tudo para lhe dar qualquer coisa que quisesse. — Tara caiu e está com um machucado. Não gosto de machucados, mamãe. Você deu um beijinho no boo-boo de Tara? Ela riu, mas pude sentir que havia um pouco de tristeza naquela risada. O que aconteceu na noite passada afetou a todos nós. — Beijei, mas ela ainda vai ficar machucada por um tempo. Tudo bem para você se ela ficar aqui até melhorar, não é? — Ela olhou para mim brevemente antes de voltar seus olhos para Jeremy. — Tara é enfermeira e enfermeiras ajudam as pessoas a melhorarem. Tyler assentiu. — Correto. — Então, Tara precisa que alguém cuide dela agora. Ela está sempre ajudando as pessoas. Agora é a vez dela. Eu já me sentia tão orgulhoso de chamar Jeremy de meu filho, mas estava mais ainda agora. Para alguém que ainda ia fazer quatro anos, ele era muito sábio. Era meu pequeno campeão. Tyler estava com lágrimas nos olhos enquanto assentia com um sorriso. — Sim, é isso mesmo. Tara precisa que alguém cuide dela por um tempo. Jeremy assentiu. — Então, Tara pode ficar e se curar. — Todos nós sorrimos por um momento, então, Jeremy franziu o cenho. — Isso significa que o Grande Tio Jimmy pode ficar também? — Seus olhos de repente se iluminaram. Acho que não havia dúvidas de que ele gostava de ter Jimmy por perto. Tyler assentiu. — Jimmy cuida muito bem de Tara, então, acho que ele vai querer ficar. É justo. Jeremy jogou as mãos para o alto e comemorou. — Vou ter duas mamães e dois papais. Em choque, eu e Tyler olhamos um para o outro. Acho que sabíamos que o momento de contar para ele a verdade estava prestes a chegar, mas nós também sabíamos o quanto seria difícil. E se isso fizesse com que ele me odiasse? Não poderia viver com isso. Ele poderia me culpar por não estar por perto o tempo todo, e eu teria que concordar com ele. As circunstâncias estavam fora do meu controle, mas não havia maneira de explicar isso para Jeremy. A situação inteira era


escrota. Assim que o choque passou, Tyler deslizou a mão no cabelo de Jeremy e sorriu: — Acho que está certo. Você não é muito sortudo? — Ela piscou para Jeremy e ele gargalhou. — Posso comer panquecas agora? Nós dois rimos. — Já vão sair, garotão. — Pisquei para ele e fui logo fazer as panquecas. Era engraçado pensar que algo tão pequeno pudesse me tornar a porra do homem mais feliz do mundo.


Capítulo Dezesseis Tyler É engraçado pensar no alívio que sentimos quando simplesmente nos deixamos levar. Era como me sentia desde que tinha percebido que não importava o que acontecesse, não poderia deixar Dean para trás. E isso foi provado com a preocupação da noite passada. Fiquei me revirando na cama, em uma espera agonizante, e só senti alívio quando ouvi Dean abrindo o chuveiro ao chegar. Ele tentou fazer tudo em silêncio para não me acordar, mas como eu poderia dormir quando ele estava em algum lugar, fazendo o que sei que estava fazendo? Eu não era cega. Não sabia os detalhes e não queria saber. Só me senti aliviada por Tara, aliviada por tê-lo de volta e imensamente aliviada por aceitá-lo de uma vez por todas. Quando o vi no chuveiro, com a cabeça baixa, tudo que quis foi colocar meus braços ao seu redor. Quando fiz isso, vi o sangue. Dean tentou escondê-lo de mim. Mesmo depois de todo esse tempo, ele ainda tentava me proteger do lado feio do mundo. Isso me deixava frustrada. Ao mesmo tempo me fazia sorrir. Principalmente, me fazia amá-lo ainda mais. Eu deveria ficar chocada ao ver o sangue, mas sabia que não era de Dean, então, ao invés de ficar chocada, a única emoção que senti foi alívio por saber que Tara estava finalmente livre e que ela nunca mais teria que sentir medo. Naquela noite, depois de jantarmos, nos sentamos em círculo com taças de vinho. Jeremy tinha sido muito atencioso com Tara o dia inteiro. Depois do choque inicial de ver seus machucados, ele beijou cada um deles e não saiu do lado dela. Estava agindo como o enfermeiro que Tara era todos os dias. Deixou-me muito orgulhosa, e dava para perceber que Dean também estava orgulhoso. Agora Dean estava correndo atrás de Jeremy pela sala de estar. Ele tinha acabado de tomar banho e era hora de ir para cama. Ao invés disso, Dean o estava jogando para o alto e eu achava que ele nunca iria se acalmar assim. Todos aqueles gritinhos, as gargalhadas e barulhos estavam rasgando meus ouvidos. Foi quando encontrei Dean deitado no chão, com as pernas para cima, segurando um Jeremy voador nelas, que tive que intervir. — Crianças, vocês não vão parar com essa baderna? — Coloquei a mão no quadril para parecer convincente. Dean piscou e me presenteou com seu sorriso digno de um desmaio. Filho da mãe! — Não seja uma estraga prazeres. Estamos nos divertindo. — Sim. Não seja uma estraga prazeres, mamãe — Jeremy gargalhou, e eu bufei. Virei-me para Dean. — Ele comeu há pouco tempo. Você vai fazer com que ele... — E foi então que aconteceu. Jeremy vomitou em cima do pescoço e do peito de Dean. Eu poderia ter gritado: “Eu avisei’, mas Jeremy fez um beicinho e correu para o andar de cima. Estava prestes a segui-lo quando Dean me impediu. — Vou cuidar disso. Foi minha culpa. Me desculpe. Ele parecia mesmo muito arrependido. Não pude nem ficar irritada com ele. Ao invés disso, corri para o banheiro, molhei uma toalha e voltei correndo a tempo de ver Dean tirando a camisa. Era totalmente inapropriado que eu ficasse boquiaberta com seu peitoral torneado


naquele momento, mas não podia evitar. Eu era uma porcaria de uma viciada sempre que o assunto era Dean. — Obrigado. — Ele olhou para mim e, então, começou a se limpar. Assim que terminou, entregou-me a toalha de volta. Não disse uma única palavra, mas, às vezes, seus olhares pareciam berrar. Dean pigarreou. — Vou subir e cuidar de Jeremy. Desço assim que puder. Assenti e observei enquanto ele subia as escadas. Assim que voltei para a cozinha, peguei Jimmy acariciando o rosto de Tara cheio de ternura. Tara ficou toda tímida e arfou quando percebeu que tinha sido pega. — Own, não é uma gracinha? — Fiz um biquinho, que nem uma garotinha, e imitei sons de beijos. — Hum-hum, Tyler. Não comece, minha amiga. — Ela jogou as mãos para o ar e gritou: — Oh, Dean, me beije. Oh, Dean, agarre minha bunda. Oh, Dean, puxe meu cabelo. Oh, Dean, me beije, seu filho da puta! Agora era minha vez de arfar. — Mas que diabos...? — Tentei pensar quando ela poderia ter me escutado. A única vez que conseguia me lembrar era de uma noite na semana passada quando Jeremy foi a uma festa, e por mais que Jimmy e Tara estivessem ali, eu e Dean não conseguimos tirar as mãos um do outro. Afundei a cabeça nas mãos e Tara riu. — Ah, ela lembrou. — Ah, meu Deus! Jimmy começou a rir. — Não se preocupe com isso, Tyler. Seu segredo está a salvo conosco. Ergui os olhos e sorri para ele, mas ainda me sentia completamente mortificada. Eu realmente precisava aprender a me controlar, mas como fazer isso quando o homem dos meus sonhos estava satisfazendo todas as minhas fantasias? Estava totalmente fora do meu controle. Mordi o lábio enquanto me sentava. — Não percebi que estava falando tão alto. Tara bufou e olhou para mim. — Er... estava. Ela riu um pouco e eu olhei para ela. Estava se curando bem, mas ainda podia ler em seus olhos o quanto era difícil pensar que o monstro que ela pensava ser o amor de sua vida a tinha espancado. ​— Como está se sentindo, Tara? Ela suspirou e olhou para Jimmy com um sorriso. — Estou bem. Vou superar, eu acho. Eu ainda conseguia ver sua dor. Ela a escondia bem, mas sob aquela fachada resistente havia uma mulher que só queria ser amada. E ela era. Quando Jimmy deixou Tara comigo naquela noite, lhe dei um banho e ela me contou sobre a gravidez. Eu não sabia nada sobre isso até então. Seu ex-marido queria um filho, mas Tara não estava pronta. Foi quando as coisas se tornaram complicadas entre eles. O marido que um dia foi amoroso começou a espancála, escondeu seus anticoncepcionais, a manteve trancada no quarto por três semanas e a estuprou constantemente. Por um lado, ela esperava que não estivesse grávida. Por outro, queria estar, porque sabia que ele ia continuar fazendo aquilo se não estivesse. Assim que o inevitável aconteceu, precisou fingir que estava feliz. Depois de algumas semanas, conseguiu convencê-lo de


que estava doente. Ele acreditou e a deixou em paz, até passando a cuidar dela, mas já era tarde. Tara já não queria que uma vida fosse gerada no meio de violência. Não queria trazer uma nova vida para aquele seu mundo. Não seria justo com o bebê. Ela chorou e eu a confortei. Sentia-se mal por ter feito o que fez. Sentia como se tivesse cometido assassinato, mas eram apenas as palavras de seu ex-marido que estavam flutuando em sua cabeça. Tara fez suas escolhas por um motivo e eu realmente esperava que um dia ela pudesse ter tudo que merecia e ainda mais. Esperava que Jimmy pudesse ser parte disso, mas se estivessem destinados um ao outro, seria assim. Tara pigarreou. — Eu estava pensando em ir para casa amanhã. Não quero abusar da hospitalidade. Colocando minha mão em seu braço, balancei a cabeça. — Não, você não está abusando, Tara. Não quero ouvir essas besteiras. Quero que fique aqui até estar pronta. — Olhei para Jimmy. — Não é mesmo, Jimmy? — Ele sorriu e assentiu. Tara apenas suspirou. — Olha, eu gosto de ter vocês dois aqui, e o mesmo acontece com Jeremy e Dean. Não tenho dúvidas de que Jeremy logo estará te chamando de Tia Tara. — Gargalhei, pensando no quanto Jeremy era doce. Se ele realmente gostava de alguém, sempre se referia à pessoa como tio ou tia... com exceção de Dean, é claro. Não sei de onde ele tirou aquele P.D.. — Nunca fui uma tia antes, então, eu iria adorar. Você tem sorte de tê-lo, Jessica. Aposto que está muito orgulhosa. Sorri e assenti. — Definitivamente estou. Foi então que ouvi alguém bater na porta. Empertiguei-me enquanto olhava em direção a porta e depois olhei para Tara e para Jimmy. Encolhi-me e Jimmy imediatamente ficou tenso, correndo em direção a porta. Corri atrás dele e tentei observar por cima de seu ombro enquanto ele gentilmente puxava a cortina para o lado. Assim que Jimmy viu o que queria, colocou a cortina no lugar e olhou para mim com um sorriso. — Quem é, Jimmy? Me diga! Ele começou a rir. — Vou gostar disso. — O quê? Jimmy não disse nada, então, voei em sua direção e abri a porta. Gostaria de não ter feito isso. Cara, gostaria muito. — Tyler, por que não está atendendo minhas ligações? Fique sabendo sobre você e Evan. Por favor, não me diga que é por causa dele. Ah, merda. Eu sabia que teria que encarar aquela situação um dia, mas ainda não estava pronta. Meus pais ficariam loucos quando descobrissem que Dean estava ali e que era parte da minha vida agora. Suspirei e abri mais a porta, então, minha mãe e meu pai entraram. Quando eles entraram, repararam que eu tinha companhia. — Boa noite, Sr. e Sra. O’Shea. Pigarreei. — Mãe, pai, este é Jimmy. E acho que vocês já conhecem a Tara. Os dois sorriram. — Sim, lembro de você, Tara. Você é enfermeira no hospital. Minha querida, o que foi


que aconteceu? — Minha mãe foi na direção de Tara e colocou a mão em seu braço. Tara sorriu com timidez. — É uma longa história, mas estou bem. — Ela olhou para mim e depois novamente para a minha mãe. — Acho que é melhor dar a vocês um pouco de privacidade. — Tara saiu de lá, mas Jimmy ainda ficou, com um enorme sorriso no rosto. — Jimmy! Jimmy sobressaltou-se, o que era engraçado de ver, considerando seu tamanho. Eu sabia que ele queria ficar, mas não podia permitir que pegasse pipoca e ficasse para assistir “O show O’Shea”. Tara gritou seu nome outra vez e Jimmy suspirou. — O dever me chama. Vou deixar vocês. — Ele sorriu e, com relutância, saiu dali. — Venha cá, Abobrinha. — Meu pai se apressou e me tomou em seus braços. — Por que você está nos evitando? — ele sussurrou em meu ouvido. Funguei e olhei para minha mãe, mas ela estava com os olhos fixos em outra coisa... ou alguém. — Aí está o porquê. — Ela rangeu os dentes e olhou para Dean enquanto ele descia as escadas. Minha mãe estava prestes a gritar, mas Dean ergueu as mãos. — Por favor, eu acabei de colocar Jeremy para dormir. Eu sei que você... — O quê? Sabe o quê? — Minha mãe estava fora de si. Virou-se, então, para mim. — O que é isso, Tyler? Explique-se. Eu sabia que estava em uma situação de merda. — Er... — Em um primeiro momento não soube o que dizer. Minha língua parecia toda enrolada dentro da minha boca. Eu sabia que essa conversa iria acontecer, mas não esperava que fosse agora. Percebendo minha insegurança, Dean apressou-se e colocou um braço ao redor do meu ombro. As narinas da minha mãe se alargaram, o que provavelmente não era um bom sinal, mas saber que Dean estava ali para me dar apoio, me fortalecia. — Eu sei que vocês devem estar irritados... — comecei. — Irritados? — minha mãe cuspiu. — Por que diabos eu estaria irritada, Tyler? Este homem, que está com um braço ao redor dos seus ombros, te perseguiu por anos, invadiu sua casa e te assustou a ponto de você ter que fingir sua própria morte e fugir para muito longe. Por que estaríamos irritados com algo assim? Dean estendeu a mão para tentar acalmá-la. — Sra. O’Shea, eu sei que é muito para absorver, mas eu nunca iria machucar sua filha. Ela é minha prioridade número um. Sempre será. Minha mãe bufou. — Você está ouvindo isso, Derren? Aparentemente, o cara que deixou nossa filha morta de medo e que a separou de sua família está nos dizendo que Tyler é sua prioridade número um. Não é uma gracinha? Meu pai estava prestes a responder, mas Dean o interrompeu. — Eu estraguei tudo, mas vou fazer o que puder para compensar. Minha mãe cerrou os punhos. — Você é perigoso, Dean. Sempre foi. Sempre seguiu os passos dos seus pais, e agora está trazendo tudo isso até a porta da minha filha. Como ousa? Dean olhou para o meu pai por um momento. Ele não estava dizendo nada, o que


significava que não estava tão irritado quanto minha mãe. Esperava ter um aliado nele, mas não tinha muita certeza. — Já saí dessa vida, Sra. O’Shea. Eu nunca quis nascer no meio daquilo tudo. Não pude evitar ser filho de quem sou. Minha mãe balançou a cabeça desanimada. — Não, mas você poderia ter evitado a forma como tratou Tyler. Poderia ter sido corajoso e agido bem sozinho. Dean assentiu. — Você está certa, Sra. O’Shea. Você está certa. Mas tem uma coisa errada nisso. Eu amo Tyler. Não posso respirar sem ela. Não consegue ver isso? Não via quando éramos crianças? A forma como eu a olhava? Era como se eu não pudesse enxergar a não ser que meus olhos encontrassem os dela. Não importava, não é? Meus pais sempre estariam no meu caminho, porque eles selaram meu destino. Não importava o que fizesse, sua escolha era sempre Ian. Olha o que ele fez a ela. Minha mãe inspirou pesadamente. — Não ouse trazê-lo para esta conversa, Dean. Posso admitir que estava errada em relação a Ian, e que empurrei Tyler para ele ao invés de empurrar para você, mas só porque pensei que ele realmente a amava. Só porque pensei que você levaria o perigo até ela. Não sou estúpida. Sei que ela sempre preferiu você a ele, mas agi pelo bem da minha filha. Sempre agi e sempre vou agir. Só porque ela é adulta não quer dizer que não vou ser sua mãe. Sua voz falhou um pouco e eu soube que era minha hora de intervir. Pegando sua mão, apertei-a um pouco. — Durante toda a minha vida você tentou fazer escolhas por mim. — Minha mãe abriu a boca para falar, mas eu apertei sua mão novamente. — Está tudo bem, mãe. Sei o motivo e eu realmente a amo por isso. Mas você precisa entender uma coisa. Eu me sentia miserável quando você tentava me empurrar para o Ian e meu coração se partiu quando Dean foi embora. Apaixonei-me no momento em que o conheci. E isso nunca mudou. Nunca vai mudar. Sei que fica irritada por eu me sentir assim. Está com raiva porque Dean foi o motivo por eu ter fugido, mas eu estava fugindo dos meus sentimentos. Dean nunca me deixou, mãe. Ele sempre esteve aqui. — Coloquei sua mão em meu coração. — Ele nunca me deixou. E pedir que eu fique sem ele é como pedir para que eu abandone as coisas fundamentais que me deixam viva. Apesar de tudo que ele fez, eu o amo. — Olhei para Dean e sorri por entre as lágrimas. — Eu o amo. — Olhamos um para o outro por alguns segundos, e fiquei perdida naqueles olhos azuis profundos. De repente minha mãe desmoronou, jogando as mãos para o alto. Logo as deixou cair, batendo-as contra os quadris enquanto balançava a cabeça. Ela se afastou e sentou-se no sofá. Meu pai juntou-se a ela, pegou em sua mão e olhou para nós. — Você tem que entender o quanto isso afeta a sua mãe, Tyler. Todos os dias, ela tortura a si mesma imaginando se você está a salvo... imaginando se você está feliz. Suspirei e me senti uma merda. Eu sabia que minha mãe se importava profundamente comigo e eu sabia que meus pais fariam qualquer coisa para mim. Era plenamente agradecida por isso, mas eles precisavam entender uma coisa. — Me desculpem. Sei que estão apenas agindo como pais e eu sempre serei grata por tudo que fizeram por mim, mas tenho que ser honesta. Nunca fui feliz. Não fui feliz desde os dezesseis anos. Estou feliz agora. Agora que consegui deixar o passado para trás, me sinto eufórica. Não sei aonde o hoje, o amanhã ou os próximos dias me levarão, mas se Dean estiver


comigo, é tudo que importa. — Vi uma certa determinação nos olhos dos meus pais. Odiava dizer isso, mas precisava ser sincera. Precisava que eles soubessem. — Quando Dean foi embora, chorei no meu travesseiro todas as noites por um ano. — Minha mãe olhou para mim com lágrimas nos olhos. — Nunca contei a ninguém como me sentia porque sabia que estava sozinha. Não podia falar com ninguém. — Senti que Dean apertava meu ombro enquanto me oferecia um sorriso gentil. Isso o estava afetando, mas ele precisava ouvir também. Precisava ver que sempre fui a garota por quem ele se apaixonou. Aquela parte de mim nunca tinha mudado. — Cada vez que o telefone tocava, sentia meu coração na boca, esperando que fosse Dean. Cada vez que a campainha tocava, uma carta chegava ou ouvia um barulho contra minha janela, sempre tinha esperança e rezava para que fosse Dean. Meu pai soltou: — Eu sabia que algo duvidoso acontecia no seu quarto. Ops, deixei escapar. Suspirei. — Sim, Dean costumava escalar minha janela, mas era só para ficar comigo. Ele nunca... — desviei os olhos por um momento, sentindo minhas faces corarem — me tocou. Sempre esperou por mim. Minha mãe colocou as mãos no rosto e balançou a cabeça. — Isso é um pesadelo. — Ela olhou para cima. — Entrei num pesadelo. Dean deu um passo à frente. — Sra. O’Shea, eu nunca machucarei sua filha. Prometo. Minha mãe bufou. — Tarde demais, Dean. Você já fez isso. E o que aconteceu com Ian? Não acredito nem por um segundo que ele fugiu para nunca mais voltar. Não soubemos nada dele desde aquela noite. Vi as narinas de Dean se alargarem. — E por que você se importa? Você tem noção do que ele fez para Tyler? Tem noção do tipo de monstro que era? Minha mãe olhou para ele. — E suponho que você seja melhor, Dean? Ele franziu os lábios por um momento, respirando fundo. — Nunca fingi ser alguém que não sou. Não tenho orgulho de quem me tornei, e com certeza não tenho orgulho de ter magoado Tyler. Minhas intenções com ela sempre foram honradas. Foram as mentiras que Ian contou que me fizeram acreditar que ela tinha me traído. Eu estava errado. Foi uma atitude patética, e eu estarei arrependido para o resto da minha vida pelo que fiz. Sempre vou amá-la e prometo protegê-la todos os dias até meu último suspiro. Nunca vou permitir que nada aconteça a Tyler. Ela é meu mundo e nada irá tirar isso de mim. O olhar da minha mãe estava cheio de determinação. ​— O que aconteceu com Ian, Dean? — Ela olhou para mim e eu rapidamente evitei seus olhos. — O que... aconteceu? Dean suspirou. — Ian se foi e nunca mais terá a chance de magoar Tyler novamente. Posso te prometer isso. Minha mãe suspirou. — Você o matou. — Eu estava prestes a intervir quando ela olhou para mim. — E


você quer ficar com um homem que vive a vida assim? Quer trazer Jeremy para esse tipo de situação? Pensei que tinha fugido exatamente disso. Dean inspirou profundamente e estava prestes a responder quando coloquei a mão em seu braço. — Eu fugi por causa disso, mas não posso mudar a forma como me sinto. Não posso mudar o fato de que durante toda a minha vida, Dean foi o único homem em primeiro plano. — Olhei para meu pai e sorri. — A não ser você, papai. Ele sorriu de volta, mas minha mãe ainda não estava satisfeita. — Você não entende que estar com ele coloca a todos nós em perigo? Dean deu um passo à frente. — Eu entendo completamente suas preocupações, Sra. O’Shea, mas já desisti daquela vida. Tyler e Jeremy são minhas prioridades agora. Estou deixando aquela vida de lado e não vou voltar atrás. Minha mãe deu de ombros. — Então, você vai empacotar tudo que tem na Inglaterra e se mudar para cá com Tyler e Jeremy? Dean assentiu. — Sim. Vou para qualquer lugar com Tyler. Sempre irei. — Dean sorriu e colocou um braço ao meu redor. — Não brinque com essas coisas, Dean. Isso ainda não muda o fato de que você magoou minha filha profundamente. Você não viu a dor que eu tive que testemunhar na noite em que ela veio até mim para contar o que aconteceu. Você tirou minha filha de mim. Tirou de mim a chance de ver meu neto crescer dia após dia. Você sempre foi a causa de muita destruição e dor. — Minha mãe abaixou a cabeça de tristeza. Dean apertou um pouco o meu ombro. Não tinha certeza se era para me confortar ou se a confissão da minha mãe o estava afetando. — Sei que não vai acreditar em mim, mas todos os dias, desde aquela noite, venho me punindo constantemente. Viver com o que eu fiz é insuportável. Nunca vou me perdoar por ter tratado Tyler da forma como fiz, então, eu entendo completamente a forma como se sente. A única coisa que posso dizer em minha defesa é que amo Tyler e Jeremy. Vou protegê-los até meu último suspiro, e não acho que você encontrará algum homem que sinta por eles o que eu sinto. Eles são minha vida. Jeremy é sangue do meu sangue e eu vou fazer o que for preciso para manter os dois a salvo. Meu pai suspirou. — Não há dúvidas quanto a isso, Dean. Sei o quanto ama Tyler. Via isso em seu rosto desde que era um menino, mas você precisa entender nossas dúvidas. Precisa entender que nos preocupamos com nossa filha... e com nosso neto. Dean assentiu. — Isso vocês nem precisam dizer, Sr. O’Shea. Para ser franco, eu nem queria que fosse diferente. Mas como disse para Tyler há algum tempo, vou fazer qualquer coisa que ela me pedir. Vou consentir toda e qualquer coisa que vocês pedirem... menos deixá-la. Não posso deixar de amá-la e vou me condenar se a deixar novamente. Tyler é meu oxigênio. Não posso viver sem ela. Meu pai olhou para Dean por um momento e, então, olhou para mim. — Você se sente da mesma forma?


Assenti. — É claro. Sempre senti, papai. Tenho noção de que vai levar um tempo para que tudo se ajuste, mas não vou conseguir me curar sem ele. Só espero que vocês também enxerguem isso. Meu pai assentiu com determinação. Ele parecia triste e eu odiava ver isso. — Então, não há nada mais a ser discutido aqui. — Ele olhou para minha mãe. — Clara, acho que já temos nossas respostas. Não há nada mais que possa ser feito. Minha mãe olhou para ele em choque. — Mas... mas... como você pode dizer isso? Ele traz perigo à sua família. Perigo a todos nós! Ele perseguiu nossa filha, a perturbou por anos, e só Deus sabe como a engravidou! Desviei o olhar. Eu nunca poderia explicar a eles as circunstâncias da concepção de Jeremy. Parecia um pouco sórdido para mim. Como poderia explicar o que tinha acontecido entre nós anos atrás? — Mãe, por favor, não fique nervosa. Sou uma mulher crescida agora. Preciso tomar minhas próprias decisões. Minha mãe estava prestes a falar, mas meu pai a interrompeu. — Ela está certa, Clara. Tyler é uma mulher crescida, com uma família para cuidar. Tem que tomar suas próprias decisões e precisamos confiar que esteja fazendo o melhor possível. Minha mãe suspirou, levantou-se e balançou a cabeça. — Não acredito nisso. ​— Ela se apressou em direção a porta sem olhar para trás. — Obrigado. — Dean sorriu para o meu pai. Meu pai olhou para trás, na direção dele, com uma expressão severa. — Isso não significa que eu esteja contente com isso, Dean. Se você faz minha filha feliz, quem sou eu para tentar tirar isso dela? Mas, pelo diabo, eu juro que se algum dia levá-la a seguir o caminho errado, vou caçar você e matá-lo. Entendido? Meus olhos se arregalaram em choque. Nunca tinha visto meu pai agir assim antes. E também era a primeira vez que o ouvia blasfemar. — Mensagem recebida em alto e bom som, Sr. O’Shea. Prometo que nunca vai precisar se preocupar. Eu venero o chão que sua filha pisa. Meu pai assentiu. — Bem, então continue assim. Dean assentiu e meu pai virou-se para mim. — Agora, tenho que controlar outros problemas. — Ele sorriu para mim e virou-se na direção da porta. Assim que ele chegou lá, eu o impedi de sair. — Sei que isso é difícil para você, mas estou mais feliz agora do que estive em muito tempo. Meu pai colocou gentilmente seu dedo sob meu queixo e sorriu para mim com tristeza. — Sei que está, Abobrinha. Só não quero vê-la magoada. Sorri de volta. — Eu sei, e lamento muito por tê-lo colocado nessa situação. — Desviei o olhar. — Ei. — Meu pai puxou minha cabeça para que eu olhasse para ele. — Como pode lamentar por estar apaixonada? Não pode forçar seus sentimentos, Tyler. Só lamento que tudo tenha acontecido da forma como aconteceu. Talvez se não a tivéssemos pressionado... — Não comece, papai. — Eu gargalhei e ele riu também. — Podemos ficar dizendo


“e se”, mas isso nunca vai resolver nada. Nunca vai mudar o que sinto por Dean. Ele assentiu com um sorriso. — Eu entendo. De repente percebi que não fazia ideia de quando eles tinham chegado ou por quanto tempo iam ficar. — Quanto tempo vão ficar por aqui? Meu pai suspirou. — Ainda nem decidimos isso. Acho que sua mãe quer ver Emily antes de voltarmos. — Assenti com um sorriso triste. — Ei, não se preocupe, Tyler. Deixe passar algum tempo. Ela só precisa se acostumar. Acho que nós dois precisamos. Assenti novamente e me aproximei para um abraço. — Obrigada, pai. Senti sua falta e pensei em você o tempo todo. — Inspirei o cheiro de seu peito e aconcheguei meu rosto no vão de seu pescoço. Sempre fui a menininha do papai. Meu pai beijou minha testa e se afastou. — Também senti sua falta e também pensei em você o tempo todo. Cuide-se, Tyler. Vamos nos falando. — Ele sorriu para mim e olhou para Dean. Cumprimentou-o rapidamente com a cabeça e saiu porta afora. Assim que fechei a porta atrás de mim, me encostei nela e suspirei. Fechei meus olhos por um momento antes de olhar para Dean. — Me desculpe. Dean riu um pouco. — Tyler, isso tinha que ser feito. Só lamento não ter assumido a responsabilidade há dezessete anos. Ergui minhas sobrancelhas. — Assumido a responsabilidade? Dean balançou a cabeça com um sorriso. — Você sabe o que eu quis dizer. Suspirei e coloquei meus braços ao redor dele, fechando meus olhos. — O que está feito, está feito. Estamos aqui agora, e estamos juntos. Tudo está como deveria estar. Dean apertou os braços ao meu redor. — Está, mas não chegamos lá ainda. Abismada, afastei-o e olhei para ele. — O que quer dizer com isso? Dean sorriu e piscou para mim. — Estou trabalhando nisso, Tyler, mas vamos aproveitar o que temos por enquanto. — Ele percebeu minha expressão e balançou a cabeça. — Não olhe para mim com esse olhar de filhote de cachorro. Não vou te dizer, então, é melhor desistir. Eu estava prestes a dizer a ele que era um babaca, quando Tara e Jimmy surgiram timidamente. — Está tudo bem? — Tara perguntou. Sorri. — Está tudo bem. Acho que precisamos de um tempo, mas tenho certeza que vamos chegar lá. Jimmy se empertigou.


— Então, seus pais não castraram o homem aqui? Eu ri. — Não. Jimmy balançou a cabeça. — É uma porra de uma pena. Dean respirou fundo. — Cuidado com o que fala, pinto pequeno. Jimmy sorriu também. — Imbecil. — Cara de bunda. — Boqueteiro. — Sem cérebro. — Inútil. — Viado. Joguei as mãos para o ar. — Vocês podem parar com isso? — Suspirei e balancei a cabeça olhando para Tara. Dean e Jimmy apenas riam. — Homens! — Tara gritou. — Às vezes eles não crescem. — Ela riu e eu assenti. Jimmy colocou-se atrás de Tara, passou braço ao redor dela e beijou seu pescoço. — Sim, mas o que vocês fariam sem nós, amor? Tara lhe deu um tapinha de brincadeira, mas bem dado. Parecia irritada com Jimmy. Eu riria disso, mas estava feliz por ela ter encontrado alguém que eu sabia que cuidaria dela e que a faria feliz. Tara precisava disso. Já tinha passado por muita coisa. Sorri na direção deles, então me virei para Dean. — Como estava Jeremy? Dean sorriu. — Um pouco chateado pelo vômito, mas eu disse a ele que estava tudo bem e que sentia muito por ter exagerado na brincadeira. — O que ele disse? O sorriso de Dean ficou ainda mais radiante. — Ele me disse que se diverte comigo e que adora quando estou por perto. Suspirei, sentindo a felicidade me consumir. Eu não estava mentindo quando disse que aceitar tudo aquilo estava me deixando eufórica. Tudo parecia perfeito e eu estava amando cada minuto. *** Mais tarde naquela noite, depois de conversarmos por algumas horas lá fora, fomos para a cama. Era bom ter a casa cheia. Adorava saber que nunca estava sozinha. Sempre havia alguém por perto quando precisava. Fazia com que eu me sentisse querida. — O que está fazendo? Olhei pelo espelho do banheiro para Dean, que estava olhando para minha pasta de dentes. Fiquei confusa. — Em relação a quê? Ele apontou para o tubo na minha mão.


— Você não o aperta pelo meio, aperta? Não compreendendo de primeira, olhei para ele. — Mas de que merda você está falando? Dean suspirou. — Você está apertando o tubo de pasta de dente pelo meio ao invés de apertar pelo final. Eu ri. — Sim. Qual o problema? Dean balançou a cabeça. — Não é a forma correta de apertar o tubo de pasta de dente. Agora era a minha vez de gargalhar. Ele estava falando sério? — Não é a forma correta de apertar o tubo de pasta de dente? Ele balançou a cabeça. — Não. Você deveria apertar pelo final. Só para fazer pirraça, apertei ainda mais pelo meio. Dean resmungou. — Ah, por favor, Tyler. Você está agindo como uma boba. Arfei. — Agindo como uma boba? Eu? — gritei. — Você sabe quantas vezes tive que mudar a direção do rolo de papel higiênico na minha própria casa? — Não sei. Quantas? Franzi o cenho. — Não sei, mas foram muitas! E agora você tem a coragem de tentar me ensinar como apertar minha própria pasta de dente? Dean veio até o banheiro e virou o rolo de papel higiênico para o lado errado, então, eu fui até ele e apertei o tubo, fazendo cair pasta de dente em seu peito. Dean suspirou. — Está se sentindo melhor agora? Dei a volta nele e coloquei o papel higiênico do lado certo antes de olhar para ele. — Agora, sim. Com uma sobrancelha erguida, Dean caminhou na minha direção. Com um dedo, ele pegou um pouco da pasta de dente que estava no seu peito e colocou na boca. Então, pegou o resto e espalhou pela parte do meu peito que estava exposta. Eu não sabia por que estar com pasta de dente espalhada pelo meu corpo me excitava tanto, mas aqui estava eu, com os joelhos tremendo de necessidade. Não me importava mais com o papel higiênico, muito menos com a pasta de dente. Só queria Dean. Inclinando-se, Dean colocou a língua para fora e lambeu desde o meu peito até minha boca. Minha respiração ficou pesada, enquanto sua língua sedutoramente lambia o contorno dos meus lábios. Eu podia sentir o gosto e o cheiro de menta de seu hálito, enquanto sua língua continuava com o assalto agonizante. Eu sabia o poder que aquela língua possuía e, de repente, senti a dolorosa necessidade de tê-la em mim inteira. — Você não tem noção do quanto é sexy, Tyler. Mas quando age com insubordinação, preciso de todo o controle para não colocá-la sobre meus joelhos e espancá-la como a garotinha que está sendo agora. Senti minhas narinas se alargarem um pouco.


— Insubordinada? Eu? — Recuei alguns passos, mas Dean colocou um dedo dentro da minha blusa e me puxou de volta. — Onde diabos você pensa que está indo? — Seus olhos viajaram pelo meu rosto inteiro antes de pararem novamente nos meus olhos. Minhas pernas ficaram moles sob seu olhar intenso e longo. Como é que ele conseguia me deixar rendida, incapaz de falar, com apenas um olhar? Ou melhor, incapaz de qualquer coisa. Tudo em relação a Dean tinha a ver com poder. Ele era dominador. Embora eu tentasse ao máximo ser uma mulher da qual qualquer uma outra poderia se orgulhar, falhava miseravelmente quando tinha a ver com Dean. — Você está agindo como um babaca. — Sim, bem, ninguém poderia dizer que eu merecia pontos por originalidade. Dean ergueu uma sobrancelha. — Um babaca? Cruzei meus braços como uma criança. — Sim. Um babaca. Dean agarrou meus braços e os descruzou. — Nunca mais coloque barreiras na frente do que é meu, Tyler. Eu sempre vou ganhar. Meus olhos se arregalaram. — Seu... Ele colocou um dedo nos meus lábios. — Nunca diga algo que te fará se arrepender mais tarde. Eu odiaria vê-la tendo que se sentar sobre os joelhos por causa de uma dor no bumbum. Colocando minha mão em seu peito, empurrei Dean contra a parede. — Não brinque comigo, Dean, porque não acho que vai gostar das consequências. Ele olhou para mim com aqueles olhos sensuais e perigosos que tinha. — Hummm, que agressiva. Dei um passo para trás. — Agressiva? Eu? — Dean assentiu com um sorriso, então, eu agarrei uma toalha e me limpei, marchando até o quarto. Dean me observou, enquanto eu abria meu guarda-roupas. — O que você está fazendo? — Tenha paciência. Comecei a procurar pelas minhas coisas, mas todas as minhas roupas de verão estavam por cima. Eu sabia o que estava procurando, mas é claro que não lembrava onde tinha guardado. Jogando todas as minhas coisas no chão em uma pilha, finalmente encontrei. Sorrindo, peguei-o e o vesti. Dean ficou ali, com um sorriso espalhado por seu rosto. Coloquei o capuz e apontei para a cama. — Deite-se na cama. Barriga para cima. Não ouse olhar para mim ou vou te punir — disse, com a voz mais profunda que consegui criar. Àquela altura, Dean já estava gargalhando. Então, parou de repente e olhou para mim. Eu sabia o que ele estava planejando. Em apenas um movimento, dei a volta na cama. — Não, não faça isso! — gritei, pulando na cama só para ir para o outro lado, enquanto Dean me perseguia. Não tinha nenhuma dúvida de que ele me pegaria em uma fração de segundo.


Sem demora, Dean me agarrou, me puxando de encontro a ele. Eu ri e virei meu rosto em sua direção. Com a mão livre, espalhei ainda mais o resto de pasta de dente que ainda estava em seu peito. Dean olhou para baixo e depois novamente para mim. Lambeu os lábios e me olhou com reprovação. — Tyler, Tyler, Tyler... Você adora ser punida, não adora? Com apenas um puxão, ele tirou o capuz da minha cabeça e me colocou sobre seus joelhos como se eu tivesse cinco anos de idade. Senti sua mão aproximar-se e, com um movimento veloz, estapeou minha bunda. Eu deveria me sentir irritada e degradada, mas eu me chamava Tyler O’Shea, a mulher que convidou um estranho para entrar na sua casa e o deixou espancá-la e fodê-la em um momento de sua vida. — Você vai se desculpar para mim, Tyler? Tentei agir com pirraça, mas minha vagina pulsava mais do que nunca. Por que ele tinha que me espancar daquela forma? Conhecia minhas fraquezas e as estava usando em sua vantagem. — Eu só queria ter mais pasta de dente. Ele me espancou novamente, me fazendo gemer. — Resposta errada, Tyler. Suspirei. — Sabe, o mercado local está com uma promoção de pasta de dente. Talvez eu deva aproveitar amanhã. — Ele me bateu novamente. Tudo que podia fazer era fechar meus olhos e aproveitar o momento que ele estava me dando. Eu me sentia uma devassa. — Tyler, minha paciência está acabando. Você vai se desculpar ou vou ter que te ensinar boas maneiras de uma forma mais severa? Fechei meus olhos. Dean sabia exatamente qual era a resposta para aquela pergunta. Eu aceitaria o castigo e ainda um pouco mais. — E eu acho que essa pasta em promoção é aquela que tem branqueamento. Você sabe de qual estou falando. Senti sua mão espalmar meu traseiro novamente, antes que ele me virasse e me jogasse na cama. Ficou de pé ali por um momento, enquanto eu o observava. Sua expressão parecia um misto de raiva e tesão. Uma combinação e tanto. Só precisava me olhar. Só um olhar. Com minhas mãos na cama, me arrastei para cima, para mais longe de Dean. — Cara, você parece irritado — provoquei. Dean inspirou e seu peito se estufou, implorando para ser tocado. E ele dizia que eu era sexy? — Você não faz a menor ideia, Tyler. — Ele me olhou de cima a baixo, então fez a coisa que mais me excitava. Lambeu os lábios. — Hora do seu próximo castigo. Ergui minha sobrancelha para ele, acariciando minha própria perna, traçando um caminho até chegar aos meus seios. — Sério? E qual seria e... Dean lançou-se sobre mim. Agarrando meus punhos, ele me prendeu à cama e esfregou sua virilha em mim. Eu não pude evitar. Gemi alto e arqueei as costas. — Você nunca conseguiu esconder, não é, Tyler? O quanto me deseja está escrito em seu rosto. Mostrei a língua para ele.


— Seu babaca fodido. Dean ergueu uma sobrancelha para mim. — Hummm... Sem aviso, Dean me virou, abaixou o short do meu pijama e começou a chupar meu ânus. Isso normalmente seria esquisito, mas não quando se tratava de nós dois. Eu nunca imaginei o quanto seria excitante tê-lo me chupando ali. — Dean, o que está fazendo? — Tentei agir com a cabeça fresca, mas não conseguia controlar minha respiração. Ele ergueu a cabeça e sorriu para mim daquele jeito que me tirava o fôlego. — Estou chupando seu ânus. Eu chupo bem, Tyler? Será que deveria chupar mais alguma coisa? Antes que eu pudesse responder, Dean tirou meu short completamente e me virou de frente para ele. Ficou olhando para mim por um momento, com os olhos enevoados e completamente sensuais. Com um puxão de suas mãos, minhas pernas ficaram totalmente abertas. — Isso — ele disse, agarrando meu top — precisa ser tirado. Arqueei minhas sobrancelhas para ele. — Então, o que está esperando? Dean sorriu e balançou a cabeça. Inclinando-se para frente, ele agarrou minha blusa e a tirou por sobre minha cabeça. Por um momento, ficou olhando para meus seios. Meus mamilos estavam duros como pedra. Não havia nenhuma dúvida de que Dean sabia o quanto eu estava excitada. — Hummm... tão sexy. — Ele se inclinou sobre mim, em direção ao meu mamilo. Colocando a língua para fora, ele sedutoramente a passou pela minha carne rosada. Não pude evitar. Arqueei as costas, lhe dando total acesso aos meus seios. Ele não me desapontou, sugando cada um deles. Estava demorando docemente e me levando ao frenesi total. — Dean, por favor. Preciso de você dentro de mim. Ele olhou para mim e me beijou com ternura nos lábios. — Paciência, Tyler. — Ele me beijou novamente e depois trilhou beijos desde o meu pescoço até a minha barriga. — Paciência — ele sussurrou contra minha pele. Não pude controlar um gemido de prazer. Ele estava indo devagar e eu sabia que isso me irritava e me enlouquecia ao mesmo tempo. Enquanto ele beijava minha pele sensível, sua língua começou a lamber ao redor do meu umbigo e foi descendo até minhas coxas. Arqueei o corpo novamente e gemi. Era uma tortura divina. Seu rosto estava bem ali, olhando para o local que eu queria que ele tocasse. O único lugar que eu queria que sua boca tocasse. Como se sentisse minha urgência, Dean olhou para cima com um sorriso travesso. — Onde você quer que eu coloque a boca agora, Tyler? Fechei meus olhos por um momento. — Se você precisa perguntar, então temos um problema sério. O sorriso de Dean ficou ainda maior. — Sério? — Ele olhou para baixo, na direção da minha vagina, então, desviou os olhos para minha perna. Inclinando-se, lambeu a parte de dentro da minha coxa esquerda. — Aqui? — ele perguntou, traçando beijos pela minha pele.


— Dean, por favor... Você está me enlouquecendo! Rindo, ele acariciou minha perna e começou a beijar e lamber a parte de dentro de minha coxa direita. — Ou aqui? Será que sua voz tinha que ser tão sexy? Só ela já era capaz de me fazer chegar ao orgasmo. Eu estava perigosamente perto de entrar em combustão, e não estava nem perto do lugar onde eu sabia que ele queria que eu chegasse. — Dean! — eu estava gemendo como uma garotinha. Estava perto de dar a ele tudo que ele queria, contanto que sentisse sua língua em mim, que o sentisse dentro de mim... inteiro! Ele murmurou algo contra minha coxa e eu me senti estremecer. Novamente, ele estava passando os dedos pelas minhas pernas até que um deles começou a circular minha vagina. Esperando que ele se aproximasse, arqueei meu corpo. Precisava desesperadamente que ele me tocasse ali. Tanto que chegava a doer. Inspirando, Dean fechou seus olhos. — Consigo sentir o cheiro do seu prazer a quilômetros de distância, Rosadinha. Você quer que eu sinta o gosto também? — Ele beijou toda a extensão da parte de dentro das minhas penas. Estava muito próximo, mas sem me tocar onde eu queria. Eu estava praticamente chorando de desejo por ele agora. — Sim! — gritei, sem fôlego. Ele passou o nariz pela minha coxa, me fazendo me contorcer. — Sim o quê? Movimentei meus quadris em direção ao seu rosto. — Quero me que prove, Dean. Ele sorriu e olhou para baixo. — Você está inchada de prazer, Tyler. — Ele colocou um dedo dentro de mim, fazendo com que eu erguesse meus quadris para que ele o afundasse ainda mais. Dean gemeu e olhou para meu clitóris. — Você. É. Muito. Sexy. E, então, ele estava lá. Sua cabeça afundando mais e mais e, sem conseguir me controlar, prendi a respiração, esperando pelo primeiro toque de sua língua. Eu sabia que no minuto em que ele me tocasse, eu quase chegaria lá. Estava tão excitada que me perderia a qualquer minuto. Olhando para baixo, vi Dean colocando a língua para fora. Prendi a respiração conforme ele se aproximava do meu clitóris inchado. Com um movimento de sua língua, ele me lambeu, e o ar escapou de meus pulmões de uma vez só. Agarrando seu cabelo, gemi e ergui os quadris para me aproximar ainda mais dele. Dean gemeu novamente, lambendo as laterais da minha vagina e voltando ao meu clitóris. — O melhor gosto do mundo. — Dean, por favor — implorei novamente. Precisava gozar desesperadamente, estava se tornando doloroso. Agarrando meus quadris, Dean enfiou sua língua na minha vagina. Gemi novamente, conforme ela chicoteava dentro de mim. Eu podia sentir a ascensão do meu orgasmo. Cada parte do meu corpo estava tensa, desde a ponta dos meus dedos dos pés até o topo da minha cabeça. Eu estava prestes a gozar e sabia que seria violento.


Na verdade, eu já estava lá. Com mais algumas lambidas de sua língua maravilhosa, comecei a gritar seu nome. Ele lambeu o clitóris mais algumas vezes, murmurando contra mim. E foi isso. Agarrei seu cabelo em minhas mãos. — Dean, eu vou... Ele se afastou. — Eu sei. — Olhou para mim com um sorriso endiabrado. O filho da puta parecia um gato que conseguiu roubar comida. — O que você pensa que está fazendo? — Eu estava puta da vida. Quando estava prestes a gozar, Dean parou. — Eu disse que iria te punir. Está pronta para pedir desculpas agora? Senti meu rosto ferver de raiva. Se ao menos eu conseguisse me esfregar nele, conseguiria me liberar. Precisava disso urgentemente. — Vá se foder, Dean. Vou ao banheiro para me masturbar. Então, você vai ter que lidar com isso. — Apontei para sua óbvia ereção e ergui minha sobrancelha. Tentei sair da cama, mas Dean agarrou meus tornozelos e me puxou para a borda. — Ainda não terminei com você. Bufei. — Terminou, sim. — E, então, uma faísca engenhosa surgiu em mim. — Não importa o quanto me torture, não vai me fazer gozar. Vou fazer com que isso aconteça. Ele olhou para mim com uma sobrancelha erguida. — Sério? Assenti. — Sim, sério. Na verdade, onde está minha lixa de unha? Acho que vou lixar minhas unhas agora. Você está me entediando. Dean deixou escapar um som gutural de sua garganta, enquanto seus olhos perfuravam os meus. Fixei meus olhos nos dele e quando ele percebeu que eu não estava blefando, tirou seu short, puxou meus quadris para a borda da cama e me penetrou. Com força. Tentei não emitir nenhum som. Até mordi meu lábio para abafar meus gemidos, mas eu precisava disso. Precisava gozar. E rápido. Dean se afastou e investiu novamente. Meus olhos quase foram parar do outro lado da minha cabeça. — Não importa o quanto você tente, Tyler. Vai acontecer. Vou fazer com que você goze no meu pau e vou ouvi-la gritando o meu nome. Eu sabia muito bem disso, mas continuei na brincadeira. — Isso... — Ele se afastou e investiu novamente, ainda mais fundo. — Não... — Fez o mesmo outra vez. — Arghhhh... — Ele penetrou seu pau novamente em mim, e eu já sentia minhas pernas tremendo. — Acontecer! — gritei, enquanto ele investia em mim várias vezes. Ainda tentei não demonstrar o quanto amava cada movimento que ele fazia. Mordi meu lábio, determinada a segurar meus gritos, mas estava quase chegando lá. Podia sentir o orgasmo ascendendo novamente, mas daquela vez estava mais rápido e mais forte do que nunca. — Diga isso de novo, Tyler. Eu sabia que ele sentia que eu estava perto, e sabia que ele estava determinado a me fazer chegar lá. Com certeza não iria impedi-lo. Fechando meus olhos por um momento, deixei que ascendesse. Senti meus mamilos intumescerem de antecipação e meu corpo inteiro ficou rígido. Agarrando os lençóis com o máximo


de força que consegui, me deixei levar. Meu corpo celebrou o orgasmo, enquanto ele se agitava dentro de mim. Arqueei minhas costas e choraminguei enquanto Dean investia com mais violência do que nunca. Eu sabia que ele também estava perto, mas queria que provasse de seu próprio remédio. — Tyler! — ele gemeu, com sua respiração ficando mais ofegante e incerta. Eu sabia que ele estava no limite, então, não havia tempo a perder. Assim que percebi que estava prestes a gozar, saí de dentro dele. Dean grunhiu e olhou para mim com uma expressão severa. — Mas que merda foi essa? — Nós dois sabemos jogar o mesmo jogo, Dean, meu garoto. — Pisquei para ele e tentei sair da cama, o que foi um pouco difícil, considerando que meu orgasmo ainda estava fazendo festa dentro de mim. Dean cerrou os punhos, enquanto seu pau pulsava exigindo atenção. Parecia sólido e nervoso. Eu não tinha dúvidas de que a dor por não ter gozado era imensa, mas ele precisava saber o quanto era enlouquecedor estar tão perto de algo e essa coisa ser tirada de você. Eu sabia que ele iria me perseguir e sabia que não havia escapatória. Não era estúpida de pensar que aquilo não iria acabar com ele dentro de mim. Corri para o banheiro e, sem hesitar, Dean me perseguiu. Ele me agarrou pelos quadris, me girou e me encurralou contra a parede ao lado da porta do banheiro. Agarrando meus punhos, ele me segurou ali, beijando meu pescoço. — Não há como escapar de mim, Rosadinha. Não importa o quanto corra, sempre vou te perseguir. Entendeu? Fechando meus olhos, eu gemi e me encolhi com seu toque. Ele soltou meus punhos e me ergueu contra a parede. — Tente fugir agora. Bela tentativa, Tyler, mas eu te disse que sempre ganho. Sorri e o beijei. — E por saber disso, eu te falei que você não conseguiria me fazer gozar. Ele sorriu com malícia, antes de me penetrar novamente. Posicionou a cabeça contra meu ombro e me mordeu, enquanto investia várias vezes dentro de mim. — Minha! — ele grunhiu enquanto pulsava dentro de mim. Mordeu-me com um pouco mais de força e gemeu. Eu sabia que ele estava quase lá novamente. Sua respiração tornou-se frenética, enquanto acelerava o ritmo. Agarrou meus quadris e me puxou ainda mais de encontro a ele com violência, uma última vez antes de gozar. — Porra, Tyler! — ele choramingou enquanto me segurava contra a parede. Ficou dentro de mim por um tempo, com a testa descansando no meu ombro enquanto tentava recuperar o fôlego. Eu também estava ofegante, considerando que ele estava praticamente me esmagando contra a parede. — Você não acha que fizemos muito barulho, acha? — ele sussurrou contra minha pele. Ri, enquanto ele jogava a cabeça para trás e olhava para mim. — O que é tão engraçado? Inclinei-me e o beijei gentilmente. — Você se adaptando à vida de pai. Está preocupado que tenhamos acordado Jeremy. Isso é fofo. Dean sorriu. — Bem, sim. Eu não me importo nem um pouco se Tara e Jimmy nos ouvirem. Na verdade, se Jeremy não estivesse aqui, eu te faria gritar ainda muitas vezes. — Revirei os olhos e


Dean me cutucou. — Ei, por que isso? — ele perguntou com um sorriso. Dei de ombros. — Bem, eu não sei. Por que você não bate no peito, agarra meu cabelo e me arrasta até sua caverna? Dean inclinou-se e mordeu minha orelha. — Isso é bem tentador, Tyler. Para mim também, eu pensei. *** No dia seguinte, levei Jeremy ao hospital para visitar as crianças. Já fazia algum tempo que eu queria vê-las. Dean disse que iria ficar em casa porque queria preparar algo. Quando perguntei a ele o que seria, ele sorriu e me disse que eu veria quando chegasse em casa. Estava no meio da leitura de O Grúfalo para Katie. Jeremy estava sentado em meu joelho, envolvido pela história. Aquele era um conto que sempre atraía a atenção das crianças. Eu tinha acabado de terminar de ler a última linha quando olhei e vi que Katie estava olhando para algo, por cima da minha cabeça. Ouvi alguém pigarrear, então, olhei para trás. — Evan! — Jeremy gritou, enquanto saía do meu colo e corria para ele. Evan sorriu e bagunçou o cabelo do menino. — Ei, amiguinho. Como você está? Jeremy sorriu ainda mais. — Estou ótimo. Dean está cuidando da casa, enquanto mamãe está lendo uma história para Katie. Meu estômago revirou. O problema com crianças era que sua inocência às vezes ia longe demais. Elas diziam coisas sem pensar, mas que afetavam pessoas. Olhei para Evan e vi dor em seus olhos. Senti como se eu fosse uma vadia. Nunca tive a intenção de magoá-lo. Sabia que ele era apaixonado por mim e permiti isso porque era egoísta. Estava sozinha e foi por isso que deixei que o relacionamento continuasse. Evan mascarava minha dor. Ele nunca a fez desaparecer, mas a diminuiu por estar por perto. Ele olhou para mim por um momento, mas logo voltou seus olhos para Jeremy. Tentou sorrir para ele, mas percebi que era forçado. — Que ótimo. E que história vocês estão ouvindo? — O Grúfalo. — Eu e Jeremy respondemos juntos. Acho que meu nervosismo era notável. Evan olhou para mim com um meio sorriso. — Como você está? Sorri de volta, tentando não deixar a situação estranha. De repente, o quarto pareceu encolher e eu desejei poder escapar. — Bem, obrigada. E você? — Intimamente revirei os olhos. Eu já sabia a resposta, mas foi uma reação automática. Ele pigarreou e se remexeu um pouco. Estava obviamente nervoso. — Estou indo bem. Estou aqui para ver Bobby. Ele vai fazer uma cirurgia mais tarde. Olhei para o outro lado do quarto. Bobby tinha chegado dois dias atrás porque andou tendo problemas cardíacos. Precisava de um transplante e já estava na lista há meses. Finalmente um compatível apareceu.


Assenti. — Fiquei sabendo. É uma pena, mas sei que ele está em boas mãos. — Sorri para ele, e Evan só ficou olhando para mim por um momento. Olhou para meus lábios, e, então, para meus olhos, antes de pigarrear de novo. — Er... obrigado. É melhor eu ir. Tenho coisas para... — Ele apontou para algum lugar atrás dele e eu assenti enquanto ele se virava. — Tudo bem, Evan. Foi bom te ver. Vou estar pensando em vocês mais tarde, quando estiverem na cirurgia. Tenho certeza de que vai dar tudo certo. — Eu sabia o quanto ele ficava nervoso quando tinha que operar uma criança, então, quis lhe mostrar que ainda tinha meu apoio. Só porque não estávamos mais juntos não significava que não me importava mais. Evan assentiu. — Obrigado. — Ele cumprimentou Katie e Jeremy e foi na direção da cama de Bobby. Observei-o e virei-me para Jeremy e para Katie. — Ele ama você — Katie observou. — Ele ficou todo nervoso, como acontece nos livros às vezes. Ficou se remexendo e agindo de forma engraçada. Balancei a cabeça com um sorriso. — Acho que você tem lido muitas histórias, Katie. Ela apenas deu de ombros. — Só estou dizendo o que vejo. Não insisti mais, embora soubesse que ela estava certa. Era um pouco difícil conversar tendo Jeremy sentado no meu colo. — É verdade que você vai poder ir logo para casa? — Sorri, e Katie sorriu também. — Sim, mal posso esperar. Já estou me sentindo muito melhor. O Dr. Kendall disse que estou em remi... remi... — Remissão. — Isso mesmo! — ela gritou, fazendo com que todos nós gargalhássemos. — E como você tem andado, Jeremy? Fiquei sabendo que tem umas pessoas ficando na sua casa. Jeremy sorriu. — Tem o Dean, Grande Tio Jimmy e a Tia Tara. Tem sido divertido. Dean e Jimmy ficam me jogando na piscina. Gosto quando eles me jogam na piscina. Bem, Tara já tinha subido de cargo. Eu sabia que não ia demorar muito para isso acontecer. — Parece legal. Eu adoraria que algum dia alguém ficasse me jogando na piscina. Coloquei minha mão sobre a dela. — Bem, quando você melhorar, está mais do que convidada para ir à nossa casa e pular na nossa piscina quantas vezes quiser. Não é, Jeremy? Jeremy sorriu e assentiu. — Que legal. Obrigada. Seu enorme sorriso aqueceu meu coração. — Você será muito bem-vinda, Katie. *** Saímos do hospital e fomos até o shopping. Jeremy estava precisando de sapatos e roupas novas. Era como se estivesse gastando um par de tênis por semana. Ele sempre os


desgastava na primeira hora em que os usava e eu nunca descobri como conseguia fazer isso. Além disso, estava crescendo rápido. O sol do verão parecia tê-lo feito espichar. Ele seria alto, assim como o pai, o que me fez sorrir. Infelizmente, a loja não tinha o tamanho de Jeremy em estoque. O vendedor me disse que receberiam outro carregamento no dia seguinte. Acho que teríamos que voltar ao shopping na manhã seguinte. — Podemos tomar um sorvete, mamãe? Tínhamos acabado de sair de uma loja de roupas, depois de gastar quase cem dólares em roupas para Jeremy. Ele fora bonzinho durante todo o tempo em que ficamos lá, então, acho que sorvete seria sua recompensa. — Sim. — Eu sorri. — Por que não? — Eba! — ele sorriu, pegando minha mão e praticamente me arrastando até as escadas rolantes. Assim que chegamos no primeiro piso, caminhamos em direção a sorveteria e pedimos sorvete de chocolate para Jeremy e frozen iogurte para mim. Pagamos e encontramos uma mesa para nos sentarmos. Larguei todas as bolsas em uma cadeira e suspirei de alívio. Eu gostava de fazer compras, como qualquer outra mulher, mas me cansava. Jeremy colocou uma boa porção de sorvete dentro da boca e ficou cheio de chocolate nos lábios. Eu ri, peguei alguns guardanapos e limpei-o. Balancei a cabeça. — Não sei por que estou fazendo isso. Você vai ficar cheio de chocolate na boca de novo na próxima mordida. — Nós dois rimos e foi quando reparamos em um homem na mesa ao lado, olhando para nós. Bem, estava mais para um garoto, já que não parecia ter saído das fraldas há muito tempo. Devia ter apenas vinte e um anos no máximo, mas parecia muito inteligente com seu terno cinza e sua gravata. Devia ter dinheiro, a julgar por seus cabelos loiros perfeitamente penteados. Sorri de volta cheia de nervosismo e desviei os olhos. Vi, com o canto dos olhos, que ele estava se mexendo e o olhei de novo. Seu sorriso tornou-se ainda maior. — Perdoe-me por olhar. É que é lindo ver um momento de carinho entre mãe e filho. Percebi seu sotaque inglês e ri. — Bem, que pena que não vemos muitos por aí. O cara riu e se inclinou para a frente. — Meu nome é Charlie. Sorri. — Tyler. — Vi que ele olhava para Jeremy. — E este é Jeremy. — Como vai, Jeremy? Está gostando do sorvete? Jeremy assentiu, e eu ri. — Ele está comendo. Você não vai conseguir conversar muito com ele enquanto está tomando sorvete. Ele adora essa coisa. Charlie piscou para Jeremy. — Eu também. É um dos meus pontos fracos. Acabei de tomar três casquinhas. Sorri e desviei meus olhos em direção a Jeremy. — Então, de onde vocês são na Inglaterra? Dá para ver que não são daqui. Olhei para ele novamente e sorri. — Não. Me mudei há alguns anos. Sou de Londres. Charlie balançou a cabeça. — Não brinca. Eu também.


— O que te trouxe aqui? Ele abriu um dos lados de seu paletó. — Infelizmente estou aqui a negócios. Cheguei há alguns dias e precisei tirar uma folga das reuniões intermináveis e entediantes das quais tive que participar. A sorte é que só tenho mais uma, então, volto para casa. — Bem, ao menos será a última. Ele assentiu com um sorriso. — Sim. — Ele cruzou as pernas e olhou para Jeremy. — Então, Jeremy, seu papai está esperando em casa? Será que meus ouvidos estavam me traindo? Ele não podia estar investigando se eu era solteira. Jeremy balançou a cabeça. — Não tenho papai. Charlie franziu o cenho e quase afundei a cabeça nas mãos. Ele olhou para minha mão esquerda. Agora estava óbvio que estava investigando se eu era ou não solteira. Não sabia se me sentia lisonjeada ou irritada. — É uma pena. Fiquei feliz por ele não ter insistido naquela coisa de papai. Já estava estranho o suficiente. Não havia dúvidas de que teríamos que ter aquela séria conversa com Jeremy, mas eu andava ocupada demais me divertindo com Dean. — Mamãe, posso pegar um pouco de calda? Olhei para Jeremy. — Você não disse que não queria? Ele deu de ombros. — Mudei de ideia. Comecei a me levantar. — Ok, então. Jeremy me impediu. — Já sou crescido. Posso escolher sozinho. — Jeremy franziu o cenho e eu me sentei novamente. Como se me rendesse, ergui minhas mãos. — Ok. Vá lá e escolha. Observei enquanto Jeremy levantava e caminhava em direção ao balcão. — Acho que ele já está com uma veia independente. Olhei em direção a Charlie e revirei os olhos. — Nem me fale. Ele se inclinou para frente. — E a mãe dele? Ela também tem uma veia independente? Ótimo! Agora ele estava flertando comigo. Dava para perceber pela forma como sua sobrancelha se arqueava, enquanto se inclinava ainda mais na minha direção. — Acho que sim. Charlie sorriu de forma travessa. — Então, não há nenhum Sr. Tyler te esperando em casa? Balancei a cabeça. — Bem, não, mas...


— Isso é ótimo, porque eu gostei muito da mãe do Jeremy. Adoraria levá-la para sair antes de voltar para casa. Bem, isso definitivamente confirmava tudo para mim. — Por que você está interessado? Sou uma mãe, bem mais velha que você. Na verdade, eu poderia ser sua mãe. — Você é linda. Por que não iria querer te levar para sair? O fato de ser um pouco mais velha do que eu nem deveria ser um fator. Idade é apenas um número. — Ele piscou para mim e eu não pude conter um sorriso. — Você tem um sorriso cativante e suas faces ficam rosadas quando alguém te elogia. Como alguém poderia resistir a isso? Tudo isso estava me deixando um pouco agitada. Não porque tinha gostado dele, mas porque ele estava me elogiando e me convidando para sair, mesmo sabendo que eu era uma mulher mais velha com um filho. — Posso não ser casada, Charlie, mas sou comprometida. Ele colocou a mão sobre o coração, fingindo sentir dor. — Ah, Deus. Isso dói mais do que achei que doeria. Como alguém como você não estaria comprometida? Eu com certeza não te deixaria escapar se estivesse comigo. Sorri e olhei para Jeremy, que estava voltando com a calda. — É muita gentileza sua. Jeremy sentou-se e sorriu. — Olha o que eu peguei, mamãe. Olhei para tudo que ele tinha escolhido. Parecia que tinha pedido tudo que tinha direito. — Hummm — ponderei. — Acho que eu deveria ter ido com você, Jeremy. Você vai ficar doente com tudo isso. Jeremy sorriu e tudo que vi foi chocolate cobrindo seu dente perfeitamente. — Muito bom — Jeremy gargalhou e voltou a comer seu sorvete. Com o canto do olho, percebi que Charlie se levantava. — Bem, é melhor eu ir. Foi legal conhecer vocês dois. — Assenti e Jeremy acenou. — Se você mudar de ideia, aqui está meu cartão. Ficarei aqui por mais alguns dias. Olhei para o cartão na minha frente e o peguei com um sorriso. Não queria ser rude. — Obrigada. Charlie assentiu e se afastou. — Espero te ver em breve. Tchau. — Ele acenou e se misturou à multidão. — O que ele te deu, mamãe? Olhei para o cartão e o li. Seu nome era Charlie Wilkings, e ele era corretor da bolsa. Não era de se admirar que suas reuniões fossem entediantes. Balancei a cabeça. — Nada, Jeremy. Só um cartão.


Capítulo Dezessete Dean As pessoas encontram sentido e redenção Nas conexões humanas menos usuais. Khaled Hosseini Tudo estava pronto. Troquei aquela cerca de madeira estúpida por uma de aço. No minuto em que a coloquei, me senti melhor. Saber que Tyler e Jeremy estariam seguros em sua casa era tudo que importava para mim. Ainda havia muitas coisas a serem feitas, incluindo o fato de o alarme estar um pouco ultrapassado. Essa era minha próxima prioridade. Nenhum gasto era supérfluo quando se tratava da segurança da minha família. Inspirei profundamente, de maneira eufórica. Agora eu tinha uma família pronta, e ela me preenchia com uma nova sensação de esperança. Eu estava até feliz por Tyler ter mudado de país, facilitando minha decisão de deixar meu passado para trás. Conversei com Humprey pela manhã e contei a ele sobre meus planos. Ele me chamou de mariquinha, mas depois disse que estava feliz por mim. Eu sabia que precisaria ir para casa em algum momento, já que tinha muitas coisas para resolver, mas estava relutante em deixar Tyler, agora que a tinha encontrado. Queria pedir-lhe que viesse comigo, mas não sabia como ela responderia a isso. No exato momento em que estava ruminando esses pensamentos, ouvi o carro dela estacionando na garagem e a voz esganiçada e feliz de Jeremy. Ele era uma criança tão feliz que chegava a ser contagioso. A palavra orgulho nem conseguia começar a explicar como me sentia em relação a eles dois. — Temos uma cerca nova, mamãe! — ele gritou enquanto corria em direção a porta. Tyler olhou para mim, e eu sorri. — Sim, acho que temos. — Ela franziu o cenho. — O que havia de errado com a antiga? Ela precisava mesmo perguntar? — Não era segura, Tyler. E você sabe como eu me sinto em relação a... — Entendi. Entendi. — Ela gesticulou na minha frente. — Material precioso, hein. — Ela sorriu para mim e, puta merda, só isso já fez com que eu a desejasse. Sorri de forma travessa para ela. — Isso aí. Jeremy correu para mim com os braços abertos, e eu me preparei para pegá-lo. — P.D. — ele gritou, e isso derreteu meu coração. Estávamos afastados há apenas algumas horas e saber que ele estava feliz em me ver fazia meu coração inchar. Jeremy entrelaçou as pernas ao redor da minha cintura e eu encostei o nariz em seu pescoço, fazendo-o gargalhar. Beijei sua cabeça e olhei para Tyler. Estava com lágrimas nos olhos. Tudo que eu queria era correr em direção a ela, mas sabia que iria piorar as coisas. Virando-me para Jeremy, sorri: — Então, como foi seu dia, garotão? Jeremy começou a brincar com a corrente dourada que estava no meu pescoço. — Foi bom. Fomos ao hospital para ler para Katie. Então, Evan apareceu para dar


um oi. Depois disso, fomos tomar sorvete, e um homem chamado Charlie deu um cartão para a mamãe. Meu corpo inteiro ficou rígido quando olhei para Tyler. Ela parecia constrangida e mordeu o lábio. Tudo que senti foi puro e total ódio pelo babaca de calças cáqui ter falado com a minha Tyler. Não queria que ele chegasse perto dela, quanto mais falar com ela. E quem diabos era Charlie? — Então... Você viu Evan? Tyler podia sentir o tom grave da minha voz. Ela sabia que eu estava irritado. Então, mordeu o lábio por um momento. — Sim, eu estava lendo e ele apareceu para dar um oi. Jeremy puxou minha corrente um pouco. — Katie disse que ele ainda ama a mamãe. Tyler suspirou. — Jeremy, por favor. Você não está ajudando. Eu, por minha vez, pensava o contrário. — Jeremy, você pode me contar tudo. — Ele estava visitando um menininho chamado Bobby. Vão cortar o coração dele. Ugh! — Ele se encolheu no meu colo e eu o segurei com mais força. De repente me senti enjoado. Odiava Evan de forma vingativa, porque ele queria o que era meu, mas não podia odiá-lo, porque, no final das contas, ele salvava vidas. Era um sentimento muito contraditório com o qual tinha que lidar. — E esse tal de Charlie... Quero dizer, o cara do cartão? Tyler suspirou. — Não foi nada. Eu e Jeremy nos sentamos para tomar sorvete e esse cara estava sentado na outra mesa. Ele achou legal a cena de mãe e filho. E depois de conversarmos um pouco... Ergui minha mão para interrompê-la. — Me desculpe. Depois de conversarmos um pouco? — Por que, de repente, eu sentia a súbita urgência de ir ao shopping, encontrar o filho da puta e arrancar o coração dele? Talvez o cara da calça cáqui ficasse tão ocupado tentando costurá-lo que não teria tempo para tentar roubar minha garota. Tyler suspirou novamente, no mesmo momento em que Jeremy começou a se soltar do meu abraço. Deixei-o descer e ele correu em direção as escadas. — Onde você está indo, Jeremy? — Tyler pareceu assustada por um momento. — Vou brincar com meus bonecos. — Ele começou a se afastar de nossas vistas. — Não por muito tempo, Jeremy. Vamos cair na piscina daqui a pouco. Ele gritou: — Ok. — E então bateu a porta. Tyler sobressaltou-se e olhou para mim, assim que Jimmy apareceu na sala. Ele estava prestes a dizer algo, mas eu o impedi erguendo minha mão. — Agora não, Jimmy. Ele deu de ombros, olhou para Tyler com um sorriso e se afastou. Aproveitei a oportunidade para diminuir a distância entre nós. Em segundos, Tyler estava imprensada contra a parede da sala de estar. Era puro ciúme. Somente isso. Por esse motivo sentia a súbita urgência de marcá-la o máximo que pudesse para que o mundo soubesse que era minha e de mais ninguém.


— O que você estava dizendo? — Passei um dedo pela lateral do seu rosto, fazendo-a estremecer. Eu sabia que Tyler nunca iria me trair, mas isso ainda não amenizava a raiva por saber que outros homens a queriam, a desejavam. Por isso, queria estar dentro dela. E isso me deixava selvagem. Era algo que sentia desde pequeno e que nunca desapareceria. A respiração de Tyler ficou incerta, enquanto olhava para meus lábios. — Não... não foi nada. Ele só disse que eu era bonita e que queria me levar para jantar. Eu grunhi de repente. Não sabia de onde tinha vindo aquele som, mas sentia-me pronto para socar uma parede. — E disse isso sabendo que você tem um filho? Disse isso na frente do Jeremy? Tyler mordeu o lábio. — Jeremy tinha ido colocar calda no sorvete. Foi quando ele falou. Ele reparou que eu não usava aliança, mas eu lhe disse que era comprometida. Merda! — Isso é algo que precisa ser remediado muito em breve. — Olhei para ela de cima a baixo. — Onde está o cartão? Tyler riu. — Não seja bobo, Dean. — Onde está a porra do cartão? — Eu já estava pronto para caçar o filho da puta. — Onde acha que está, Dean? Na lixeira, é claro. Assim que ele saiu, eu joguei fora. Não confia em mim? Senti-me como um babaca, mas não conseguia evitar quando se tratava de Tyler. — Eu confio em você, Tyler. O meu problema é com os outros filhos da puta que acham que podem te tirar de mim. Tyler colocou uma mão tranquilizadora em meu peito e se inclinou para me beijar. Senti seus lábios quentes e convidativos, e quase me perdi. Ela se afastou de repente e a perda do contato foi violenta. — Sempre serei sua, Dean. Não importa o que os outros digam, sou sua. Sempre serei. Fechei meus olhos e inclinei a cabeça, encostando minha testa na dela. — Estou sendo um babaca. — Toquei o nariz dela com o meu. — Me desculpe. Tyler riu e eu abri meus olhos para olhar para ela. — Você sempre foi tão ciumento... mesmo quando éramos crianças. — Tyler suspirou e acariciou meu rosto. — Eu te amo, Dean, com suas verrugas e tudo. — Ela riu novamente e não pude evitar o sorriso que surgiu no meu rosto. — Verrugas? Na última vez que chequei, eu não tinha nenhuma. — Era impressionante a capacidade que Tyler tinha de me acalmar de cem a zero em uma fração de segundo. Um minuto atrás, eu estava pronto para destruir o mundo. Agora, tudo que eu queria era fazer amor com minha mulher. Estava totalmente em suas mãos delicadas. — Você sabe o que eu quero dizer — ela gargalhou. — Além disso, é meio que sexy quando você age que nem um homem das cavernas. Ergui minhas sobrancelhas. — Sério? Mesmo com aquela coisa de puxar de cabelo? De bater no peito? Tyler agarrou minha mão e segurou meu dedo do meio. Abrindo sua boca, ela o sugou, murmurando enquanto o fazia. Jesus, será que ela sabia o que fazia comigo?


— Tyler, acho melhor você parar, ou sua pia nova vai ser destruída. Tyler parou e tirou meu dedo da sua boca. De repente, eu senti uma instantânea sensação de perda e desejei voltar atrás no que tinha dito. Desejei estar perto dela de qualquer forma. Era como uma droga para mim. — Me desculpe — ela fez beicinho. — Não consigo me controlar quando estou com você. Balancei a cabeça com um sorriso. — Tyler, você não faz a menor ideia. Atrás de nós, ouvi alguém pigarrear. — É seguro entrar agora? Revirei os olhos. — Jimmy. Sempre com o timing perfeito, seu babaca. — Virei-me e o vi sorrindo para nós. — Me desculpe, saco de merda, mas Tara fez uma coisa para comermos. — Ele olhou para Tyler. — Ela achou que você estaria com fome depois de fazer compras. Tyler sorriu. — É muito gentil da parte dela, Jimmy. Obrigada. — Ela olhou para mim e eu imediatamente a desejei novamente. Adorava a Tyler safadinha, assim como ela adorava o Dean safado. Fomos até a cozinha e o cheiro de macarrão à carbonara preenchia o local. Tara sorriu. — Ei, Tyler. Como foi a jornada pelo shopping? — Foi... — ela olhou para mim — agitada. Vou ter que voltar lá amanhã para comprar um tênis para Jeremy. Não tinham o tamanho dele no estoque. Jimmy riu. — Não há dúvidas de que ele cresce a cada semana. Não estou aqui há muito tempo e já notei o quanto ele cresceu. Tyler pareceu desanimada. — Eu sei. E isso é um pouco assustador. Antes que eu consiga perceber, ele já vai ter crescido, estará namorando e indo para a faculdade. Os olhos de Tara se arregalaram. — Tyler, ele não tem nem quatro anos. — Ela começou a rir. Tyler parecia realmente chateada. — Eu sei. É que às vezes isso me faz lembrar da minha própria mortalidade, se é que faz algum sentido. Quando ele crescer, vou me sentir velha. Neste momento, ele é tão pequeno que faz com que eu me sinta jovem. Estiquei a mão e peguei a dela. Queria espantar todos os seus medos. — Não se preocupe, Tyler. Assim que nos casarmos, vamos nos empenhar para criarmos novos Jeremys. — Pisquei para ela com um sorriso. Seus olhos se arregalaram. — Em quantos Jeremys você está pensando? Dando de ombros, tentei parecer indiferente. — Não sei. Talvez metade de um time de futebol? Tyler arfou. — Você deve estar brincando comigo! Dean, por favor, diga que está brincando.


Comecei a rir e todos, com exceção de Tyler, se juntaram a mim. — Não se preocupe com isso, Tyler. Há gêmeos na minha família. Talvez, se tivermos sorte, conseguiremos pares deles. Isso vai ajudar a acelerar as coisas. — Tyler parecia pronta para me matar. Deus, eu a desejava naquele momento. Ela franziu o cenho para mim. — Não sou uma máquina de fazer bebês, Dean. Tire isso da sua cabeça agora mesmo. Jimmy riu. — Isso daria um excelente nome de música. Tyler fez uma careta. — Qual? Máquina de fazer bebês? — Ei, eu não posso fazer bebês. Tyler apertou minha mão. — Ah, então por você tudo bem que eu fique parindo sem parar só para sua conveniência? — Ela bufou um pouco e isso fez com que eu desejasse encurralá-la contra a parede. Dei de ombros. — Ouvi dizer que é como parir uma ervilha. Tyler praticamente gritou: — Ervilha? Uma ervilha? Você tem noção de quanta dor eu senti ao ter Jeremy? Minhas entranhas se reviraram. Naquele momento senti ainda mais vontade de tomála nos meus braços. Tyler percebeu minha expressão tornar-se mais desanimada e seu próprio sorriso desapareceu. Ela pegou minha mão. — Me desculpe, eu não queria que soasse dessa forma. Balancei a cabeça. — Você nunca precisa se desculpar, Tyler. Eu só gostaria de ter estado lá. Se tivermos mais filhos no futuro, quero estar com você para segurar sua mão o tempo todo. Jimmy riu. — Acho que você estará fazendo mais do que apenas segurando a mão dela, Dean. Sorri para Jimmy. — Cala a boca, cara de merda. Ele assentiu, sorrindo de volta. — Não, cérebro de bosta. — Limpador de cu. — Seu fodido. — Nazista. — Hálito de muco. Franzi o cenho para ele. — Mas que porra é... — Ok, meninos. Já chega. — Tyler balançou a cabeça para Tara, e, então, me encarou. — Continuem assim e vou ter que colocar os dois no cantinho do pensamento. — Ela olhou para Jimmy por um momento e ele estava balançando a cabeça. Eu teria rido se não fosse pelo fato de Tyler estar falando sério. — Vocês querem isso? Jimmy continuou balançando a cabeça, mas eu tinha outras ideias.


— Posso optar por outro tipo de castigo? Tyler tentou não rir, mas falhou miseravelmente. — E o que você tem em mente? Eu estava prestes a dizer, quando Tara colocou os dedos nos ouvidos. — La, la, la, la, la... não quero ouvir. Jeremy, hora do almoço! — Ela olhou novamente para nós. — Isso vai acabar com essa conversinha pervertida de vocês. — Ela assentiu triunfantemente enquanto ouvíamos o som de passinhos descendo as escadas.


Capítulo Dezoito Tyler No dia seguinte, depois de um mergulho na piscina, decidi ir comprar o tênis de Jeremy. Ele foi comigo porque eu precisava ter certeza de que caberiam. Assim que terminamos de nos arrumar já eram duas da tarde, e o sol estava a pino. Ao menos tínhamos o ar condicionado do carro. Já na loja, Jeremy experimentou o tênis que escolheu. Era branco, do Homem-Aranha, que acendiam sempre que ele dava um passo. Jeremy ficou louco enquanto caminhava pela loja. Todas as vezes que pisava e a luz acendia, ele gargalhava tão alto, que quase toda a loja virava para olhá-lo e ria junto com ele. Essa era uma característica de Jeremy. Sua gargalhada era tão adorável e contagiosa que as pessoas não conseguiam não imitá-lo. Ele não queria tirá-los, então, paguei por eles e coloquei os velhos em uma bolsa que me foi providenciada. Saí de lá com um sorriso. Estava muito satisfeita com a minha vida. Ainda tinha muitas coisas para resolver, levando em consideração que meus pais estavam preocupados, mas tinha certeza que isso viria com o tempo. Por enquanto, eu estava muito feliz por finalmente ter a família com que eu e Dean sempre sonhamos. Quando estava a caminho do carro, peguei a mão de Jeremy e sorri, enquanto ele permanecia em silêncio. Ele estava ocupado demais observando seu tênis conforme a luz acendia. Enquanto caminhávamos, Jeremy soltou minha mão e começou a correr para o carro. — Olha, mamãe! Meus sapatos estão loucos! Comecei a sentir pânico conforme ele se afastava de mim. — Jeremy, devagar! Tentei correr atrás dele, mas, do nada, uma van estacionou na frente dele. Um homem, que eu reconheci instantaneamente, saltou. Ele me sorriu com crueldade, agarrou Jeremy e pulou novamente para dentro da van. Jeremy gritava enquanto eu corria atrás deles, mas era tarde demais. No momento em que alcancei a van, ela acelerou e cantou pneus dando a volta. Tentei memorizar a placa, mas meu cérebro não conseguia trabalhar. Senti bile subindo pela minha garganta enquanto eu ficava inerte por um segundo, antes de vasculhar minha bolsa buscando meu celular. Com as mãos trêmulas, tentei discar 911, mas meus dedos não obedeciam. Depois de errar várias vezes, consegui. — 911. Qual é a sua emergência? — Por favor, ele pegou meu filho. Estou no Shopping Finchey, no estacionamento do primeiro piso. Ele pegou meu filho e saiu numa van. — Você sabe quem pegou seu filho? — Não! — gritei. — Ele estava no shopping ontem e com certeza vem me seguindo. — Quantos anos tem seu filho? — Só três. Por favor — eu choraminguei. — Por favor, me ajude. — Você pode nos passar alguma informação sobre a van... tipo, cor, placa? — A van era azul. — Disse a ela o quanto me lembrava da placa, e ela me


agradeceu, dizendo que iria enviar um oficial até onde eu estava o mais rápido possível. Assim que desliguei, tentei ligar para o meu telefone de casa três vezes antes de realmente conseguir. Eu estava tremendo tanto, meu olhos estavam tão encharcados de lágrimas, que eu não conseguia discar os números. Dean atendeu depois de dois toques. — Dean! — Eu mal conseguia respirar ou funcionar direito. Olhei ao redor, enquanto Dean gritava meu nome no telefone. — Ele pegou o Jeremy. Ele pegou nosso bebê! — Meus joelhos falhavam enquanto eu tentava recuperar o fôlego. — Preciso encontrá-lo. Preciso... — Tyler, quem pegou Jeremy? — Eu podia ouvir o pânico em sua voz. — O homem de ontem. Aquele Charlie. Ele tinha um sotaque londrino. ​— Merda, Tyler! Como ele era? Tentei lembrar de seu rosto. — Era jovem. Acho que tinha pouco mais de vinte anos, se não fosse mais jovem. Tinha cabelos loiros, olhos escuros. Seu sorriso era tão cruel, Dean. Quem é ele, e por que pegou nosso filho? Dean ficou em silêncio por um momento. Naquele instante, eu entendi exatamente o que estava acontecendo. — Você o trouxe para cá, não foi, Dean? — Lágrimas começaram a deslizar pelo meu rosto, enquanto minha respiração falhava. — Tyler, eu nunca vou deixar ninguém machucá-lo. Eu juro. Vou pegá-lo de volta, nem que seja a última coisa que eu faça. — Quem é ele? — gemi. — Antonio Pinzano Jr. O nome me era familiar, mas não conseguia me lembrar onde o tinha ouvido. Tentei vasculhar meu cérebro, mas quanto mais pensava, mais aquele filho da puta se afastava com meu filho. — O que ele quer, Dean? Dean suspirou. — Ele quer a mim, Tyler. Ele acha que eu matei o pai dele. — E matou? — Tyler... — Não venha foder comigo, Dean. Matou o pai dele? Dean suspirou. — Sim. Ele matou os meus pais. Não tive escolha. — Não teve escolha? — eu gritei. — Você tinha uma escolha, e agora sua decisão resultou em nosso filho estar em perigo. Era isso que você queria? Valeu a pena? — Desliguei, não querendo ouvir a resposta. Estava irritada com ele e queria encontrar Jeremy desesperadamente. Quanto mais eu ficava ali esperando, mais tempo era perdido. Em pânico, olhei ao meu redor e vi o carro de polícia à distância. Corri em direção a ele com toda a energia que tinha em mim. O policial que dirigia me viu em pânico e parou abruptamente. Corri até a porta do passageiro, ao mesmo tempo em que seu parceiro saía do carro. Naquele momento, as lágrimas já molhavam meu rosto inteiro. — Por favor. Meu filho... — Agarrei-o e comecei a soluçar em seu peito, antes de segurar seu colarinho. — Você precisa encontrar o meu filho. O policial segurou meus ombros com gentileza.


— Ok, senhora. Você precisa respirar fundo e me contar tudo o que aconteceu. Ele estava tentando parecer o mais calmo possível, mas eu estava longe de estar calma. Pensava que minha cabeça iria explodir. Em uma tentativa de me esforçar para me lembrar de tudo, respirei fundo e assenti. — Eu estava no shopping comprando um tênis do Homem-Aranha para ele. Você sabe, aquele que a luz acende quando se caminha? Ele assentiu, enquanto olhava para o outro policial que estava anotando tudo em um bloco. — Bom. Pode me dizer o que aconteceu depois? Respirei fundo novamente. — Nós pegamos a escada rolante para cá. Eu estacionei bem ali. — Apontei para minha Land Rover Evoke estacionada dois corredores à frente. — Assim que saímos da escada rolante, Jeremy começou a correr. Queria me mostrar como a luz do tênis acendia rápido quando ele corria. — Então, ele estava usando o tênis do Homem-Aranha? Assenti com um soluço. Eu compraria para ele todos os tênis do mundo se pudesse têlo em meus braços novamente. — Ele correu metade do caminho até o carro, e foi quando a van azul apareceu do nada. Um homem que conheci ontem saltou, agarrou Jeremy e voltou para a van. Eles aceleraram e foi quando liguei para vocês. O oficial assentiu com um sorriso reconfortante. — Até onde eu sei a senhora passou a placa para a atendente do 911.— Assenti. — Já temos pessoas rastreando-a agora. Você pode nos contar um pouco mais sobre o homem que pegou Jeremy? Estremeci um pouco. Eu sabia que teria que colocar Dean na história, mas não me importava. Só queria meu filho de volta. — Aparentemente seu nome é Antonio Pinzano Jr. Ou é assim que ele diz se chamar. Quando o encontrei ontem, ele me disse que se chamava Charlie. Me passou um cartão e me convidou para sair. Disse que estava aqui a negócios e que ficaria por alguns dias. O cartão dizia que ele é corretor da bolsa. O policial franziu o cenho. — Então, o que te faz pensar que ele não é quem diz ser? Suspirei, sabendo que não tinha muito a dizer. — Meu companheiro, o pai de Jeremy, acredita que ele seja Antonio Pinzano Jr. Esse homem odeia o pai de Jeremy e eu acho que foi ele que o pegou. — E quem é o pai de Jeremy? — Seu nome é Dean Scozzari. Ele está na minha casa agora, eu acho. Olha, será que nós não deveríamos estar procurando por ele? Não posso ficar aqui o dia inteiro. Vou enlouquecer. O policial estendeu a mão em um gesto para me acalmar. — Tudo a seu tempo, senhora. Primeiro de tudo, precisamos de mais detalhes. Vou precisar do seu nome completo, endereço, nome completo do Jeremy, data de nascimento e descrição da roupa que ele está usando. Você tem uma foto recente dele? Vasculhei minha bolsa, peguei uma foto dele de dois meses atrás e entreguei ao policial. Contei a ele todos os detalhes que me pediu, incluindo meu nome de agora, mas eu queria acabar com aquilo e descobrir que diabos estava acontecendo.


O policial com quem falei aproximou-se do outro oficial, falou algo para ele, e este começou a falar algo no rádio. — Preciso ir para casa — disse, enquanto ele voltava para perto de mim. — Precisa que a levemos? Balancei a cabeça. — Estou de carro. Ele não pareceu convencido. — Tem certeza que pode dirigir? Assenti. — Vou ficar bem. O policial assentiu com um sorriso. — Vamos segui-la até em casa para que possamos pegar mais detalhes e conversar com seu companheiro. Assenti e, com as pernas trêmulas, comecei a caminhar até o meu quarto. Atrapalheime com as chaves, mas quando finalmente consegui colocá-las na ignição, dei a partida e saí da vaga. Desde aquela noite em que tive que fugir de Dean, comecei a estacionar de ré. Ainda bem, porque agora eu conseguia sair facilmente. Com um aceno de cabeça para os policiais, saí do estacionamento e segui meu caminho para casa. Durante todo o tempo, só conseguia pensar em Jeremy e no quanto ele deveria estar assustado. Todas as vezes que esse pensamento surgia na minha cabeça, eu chorava um pouco mais. Estava desesperada. Eu realmente não deveria estar dirigindo, mas precisava do carro, caso tivesse que usá-lo para buscar Jeremy. Rezava para Deus para que esse momento não demorasse. No momento em que estacionei o carro na frente da minha casa, Tara surgiu, com lágrimas nos olhos, enquanto eu saltava do carro. — Jessica, estou aqui para você, querida. — Ela segurou minha cabeça com delicadeza e me puxou em direção a ela. Ergui os olhos e vi que Jimmy estava ali, parecendo abatido. Estava prestes a perguntar a ele onde Dean estava quando os dois policiais que estavam me seguindo saltaram do carro. — Você é Dean Scozzari? Jimmy balançou a cabeça. — Não, sou um amigo da família. Dean não está aqui. Ele foi procurar por Jeremy. — Ele olhou para mim por um momento antes de olhar para os policiais novamente. — É uma pena. Precisamos muito falar com ele. Tem alguma forma de entrarmos em contato por telefone? Jimmy deu de ombros. — Bem, ele quer manter a linha desocupada, caso o cara que pegou Jeremy tente ligar. O policial deu um passo a frente. — E ele já ligou? Jimmy balançou a cabeça. — Não que eu saiba. Tenho certeza que Dean vai ligar no momento em que qualquer ligação ou pedido for feito. O policial balançou a cabeça. — Não acho que seja uma boa ideia o Sr. Scozzari estar agindo sozinho nisso.


Alguém pode se machucar. Jimmy deu um passo para fora da casa. — Jeremy é filho dele. Ele vai fazer tudo que puder para tê-lo de volta. Você deve entender isso. Tem filhos? O policial assentiu. — Sim, tenho. Jimmy sorriu para ele com desânimo. — Não faria qualquer coisa que pudesse para ter seus filhos de volta, se estivesse nessa situação? Ficaria satisfeito esperando em casa? Ele balançou a cabeça. — É claro que não. Eu entendo. Só não acho que seja seguro para ele ir sozinho. Precisa deixar a cargo da polícia. Jimmy deixou escapar uma risada sarcástica. — Você obviamente não conhece Dean. Ele é a pessoa mais teimosa que conheço. Ele precisa disso. — Jimmy olhou para mim. — Ele queria que você soubesse que promete fazer tudo que puder para pegar Jeremy de volta. Assenti com um sorriso desanimado. Eu não fazia objeções, desde que o problema fosse resolvido. Eu sabia que Dean iria fazer tudo que pudesse. Eu só queria que não tivéssemos chegado a esse ponto. Eu estava irritada com Dean, e eu acho que ele já tinha percebido isso. Mas não importava o quão irritada eu estivesse, isso ainda não mudava o fato de que ele estava colocando a própria vida em perigo. Eu queria os dois de volta inteiros. O problema era que a dor em meu estômago estava me dizendo o contrário. Suspirei e olhei nos olhos de Tara. — Só quero que ele volte para casa. — Agarrei sua camisa, enquanto lágrimas começavam a cair novamente. Tara acariciou meu rosto, secando minhas lágrimas. — Eu sei, Jessica — ela suspirou. — Eu sei. Olhei para os policiais. — Vocês querem entrar? Um policial sorriu. — Precisamos fazer algo aqui primeiro. Vamos entrar assim que terminarmos.. Assenti e entrei na casa, acompanhada por Tara e Jimmy. Assim que a porta foi fechada, Jimmy passou a mão pelo cabelo. — Merda! — Ele olhou para mim como se estivesse se desculpando. — Me desculpe, Tyler. Franzi o cenho. — Por que está pedindo desculpas? Você não fez nada. Jimmy balançou a cabeça, bufando. — Sou tão culpado disso quanto Dean. Pinzano Jr. andou ansioso para pegar Dean. Ele quer ver Dean morto, então, duvido muito que façam mal a Jeremy. Estremeci enquanto meu coração chegava à boca. — Isso não me faz sentir melhor, Jimmy. Ele grunhiu. — Eu sei. Sinto muito. Sei que nada vai fazer com que se sinta melhor agora. Só não sei que diabos dizer ou fazer para melhorar as coisas.


Joguei-me no sofá e coloquei a cabeça nas mãos. Senti o braço de Tara ao redor de meus ombros. Olhei para Jimmy. ​— Onde está Dean, Jimmy? Jimmy inspirou. — Eu disse a verdade quando falei que ele estava procurando por Pinzano. Ele sabia que você ia ligar para a polícia e não quis que o impedissem de ir buscar Jeremy. Ele está fazendo o que acha ser o melhor. Vai ligar quando precisar de mim. No momento, ele quer manter a linha desocupada. Sabe que Pinzano vai ligar em algum momento. Acho que ele quer fazer Dean suar um pouco. Fechei meus olhos. — Ele não é o único que está suando. — Encostei-me no sofá e suspirei. Queria sair de casa. Queria pegar meu bebê, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Não sabia nem como começar. Por enquanto, precisava confiar que Dean faria o que fosse melhor. Só esperava que ele não quebrasse a promessa.


Capítulo Dezenove Dean O amor é um assunto poderoso, Porque surge de várias formas e tamanhos Tem a ver com momento, destino, falhas e redenção. Jim Sturgess Eu estava endemoniado. Pensei que já tivesse sentido toda a raiva que poderia sentir na vida, mas estava errado. Estava a um segundo de perder o controle. Estava puto. Puto com Pinzano, puto com seu filho e puto comigo por não ter pressionado Tyler a me falar mais sobre o merda do Charlie do shopping. No minuto em que Tyler desligou o telefone, eu soube o que tinha que fazer. Pinzano Jr. me queria morto. Sabia disso. E eu sacrificaria minha vida sem nenhum problema por Jeremy. Tudo que ele precisava fazer era pedir. E eu sabia que ele pediria, porque era seu objetivo principal. Ele me queria morto e fora do caminho para que pudesse se vingar pelo pai. Não lhe importava que eu não quisesse mais saber dos negócios. Ele queria continuar com a competição. Eu duvidava que tivesse algo a ver com eu ter matado seu pai, também. Era apenas uma desculpa para que se certificar do meu desaparecimento. Quando estava vivo, o pai nunca dava a mínima para o filho, então, eu duvidava muito que tivesse a ver com vingança. Mas o que eu imaginava era que estava fazendo tudo aquilo só para manter a farsa. Só de pensar nele tocando em Jeremy, meu sangue já fervia. Eu queria cortar as mãos daquele filho da puta fora. Se eu tivesse uma chance esta noite, eu o mataria com minhas próprias mãos. Nem me preocupava se isso me levasse à prisão. Nunca ouse machucar minha família. Nunca. E ele precisava saber disso o mais rápido possível. Dirigi por um tempo, tentando encontrar áreas onde ele pudesse se esconder. Até tentei ligar para ele em um número que salvei há alguns meses. Porém, caiu na caixa postal. Ele provavelmente sabia que era eu, mas estava tentando arrastar a situação pelo máximo de tempo possível. O babaquinha era um doente perturbado. O mais rápido que eu conseguisse enterrá-lo ao lado de seu pai, melhor. Parei o carro no estacionamento de um restaurante, entrei, pedi café e pensei se deveria ligar para Tyler. Eu sabia que ela estava irritada comigo, e não podia culpá-la. Isso só provava sua teoria de que eu carregava o perigo comigo. Provava, na verdade, a teoria da família inteira. Eles nunca me perdoariam por isso, e eu não podia culpá-los. Eu mesmo nunca me perdoaria. Então, a verdadeira razão de eu ter fugido depois de Tyler ter ligado? Eu era um covarde. Não queria que ela olhasse para mim com aqueles olhos desapontados. Não queria ver que tinha perdido seu amor, porque tinha provado ser exatamente a pessoa de quem ela tinha fugido em primeiro lugar. Me matava saber que tinha levado o perigo à sua porta, mas me mataria ainda mais ver dor em seus olhos. Aquele olhar que me mostraria que eu tinha falhado em proteger nosso filho. O menino que era sangue do meu sangue estava em algum lugar, com um filho da puta que achava que podia fazer isso com a minha família para me tirar de cena. Era por isso que eu afastava as pessoas. Era por isso que eu me afundava mais e mais no meu próprio mundo sombrio e não


permitia que ninguém entrasse nele. Amar te deixa fraco. E, agora, eu estava mais fraco do que bosta. Meus tempos de gangster já tinham passado, aquele tempo em que eu pensava que poderia controlar tudo e todos ao meu redor. Eu era um pai agora. Um pai que faria qualquer coisa para ter seu filho de volta e mantê-lo a salvo. Isso era o que mais importava agora, tudo que importaria até o meu último suspiro. Enquanto bebia meu café, fiquei olhando para o telefone. Passei meu dedo pela tela, torcendo para que ele tocasse. Desejando que Tyler ligasse ou que fosse aquele filho da puta para me dizer onde eu deveria encontrá-lo. Era apenas uma questão de tempo, e eu estava pronto. Se ele me quisesse, eu estava pronto. Depois de dez minutos, meu telefone começou a tocar. Eu sabia que era ele. Não era seu número, mas eu sabia que era ele. — Sim. Ouvi sua risada. — Ora, ora, ora. Se não é o infame Dean Scozzari. Acho que vamos entrar em um acordo hoje, não vamos? Minha raiva começou a ferver. — Eu juro. Se você machucá-lo, vou pessoalmente quebrar cada porra de osso em seu corpo com minhas próprias mãos. — Hum-hum. Não vai precisar disso, Dean. Somos todos amigos aqui. Só quero o que foi tirado de mim. Bufei. — Ninguém tirou nada de você, seu merdinha. Você nunca teve nada, em primeiro lugar. — Você tirou o meu pai de mim! O que acha de eu tirar o seu filho de você e ficarmos quites? Agarrei o telefone com mais força. Eu queria gritar desesperadamente, tanto que meus pulmões choraram em protesto. — Não ouse tocar em um fio de cabelo dele — grunhi. — Isso não tem nada a ver com Jeremy. Tem a ver com você querendo toda a glória. Você pode ficar com Londres inteira, eu estou pouco me fodendo. Estou de saco cheio daquela merda. Pinzano riu. — Você me desaponta, Dean. Pensei que iria lutar um pouco mais. Acho que se tornar um pai fez de você uma bichinha. Será que Jeremy sabe quem é o pai dele? — Fiquei em silêncio. — Ah, ele não sabe, não é? Ele não faz ideia de quem você seja. Talvez eu devesse lhe contar? Devo colocá-lo no telefone para falar com seu papai? — Seu pedaço de merda. Deixe Jeremy em paz e me diga onde e quando. Estarei lá. Ele riu novamente. — Tudo no momento certo. — Ouvi um som abafado, mas a linha ficou clara novamente. — Jeremy, você quer falar com o seu papai? Ouvi gritá-lo meu nome, e meu mundo inteiro parou. Naquele momento, nunca me senti mais desesperado ou sozinho em minha vida inteira. Queria que Jeremy soubesse sobre mim, mas não daquela forma. — Não faça isso com ele, Pinzano. Você pode ser um homem melhor do que seu pai foi. — Não se atreva a falar assim sobre meu pai. Você não tem o direito. — Eu o ouvi respirando no telefone. — Jeremy, venha aqui falar com seu papai. Cada músculo do meu corpo se retesou. O filho da puta sabia o que estava fazendo. Queria me fazer sofrer.


Ouvi os choramingos de Jeremy na linha. — P.D.? Senti um soluço rasgar o meu peito ao ouvir sua voz chorosa. — Ei, garotão. Como você está? Não está machucado, está? Ouvi mais um choramingo, que quase arrancou meu coração fora. — Não, mas não quero mais ficar aqui. Não gosto desse lugar. Tentei ficar o mais calmo possível. A última coisa que Jeremy precisava era que eu perdesse a cabeça. — Jeremy, me ouça, por favor. Estou indo te buscar e vou resolver isso. Só me espere que vou te buscar. Jeremy fungou. — Você promete? Fechei meus olhos por um momento. Como eu poderia não prometer isso a ele? Eu sabia o que precisava fazer e sabia que precisava manter a promessa. — Prometo. Vou te buscar e vou te levar para sua mamãe, ok? Ouvi outro soluço e soube que ele estava sofrendo. — Ok. Porra, que difícil. Cada osso no meu corpo parecia pesar uma tonelada. Eu queria destruir as paredes, gritar o mais alto que podia e socar alguma coisa até não conseguir sentir mais nada. Aquela era a experiência mais agonizante da minha vida. Não podia perder Jeremy agora. Não quando tinha acabado de encontrá-lo. — Isso foi uma gracinha. Grunhi quando ouvi a voz do filho da puta na linha novamente. — Você já deu seu recado. Agora vamos lá. Onde e quando? Ele fingiu um suspiro. O que eu não daria para enfiar minha mão pelo telefone e rasgar a garganta dele. — Muito ansioso, não é? Tem certeza que quer me encontrar com tanta pressa? Suspirei. — Só quero acabar logo com isso, mas quero que me prometa uma coisa. Ele riu novamente. — Não acho que você esteja em posição de me pedir nada, não acha? Suspirei novamente. — Só me ouça, Pinzano. Você me quer até o final do dia, não é? Isso não tem nada a ver com Jeremy, então, te proponho um acordo. Vou te encontrar por vontade própria. Sozinho... sem armas, sem revólveres, sem nada. Vou fazer tudo isso se me prometer devolver Jeremy para a mãe dele. Vou concordar com tudo em cem por cento. Mas, Pinzano, se você não concordar e tiver a intenção de manter Jeremy com você, te prometo uma coisa. Vou te caçar, te matar e fazer o mesmo com todos os seus homens, te deixando por último. Vou demorar bastante com você, mas prometo que só vai resultar na sua morte. Fui claro? Silêncio. Eu me perguntava se tinha ido longe demais. Se ele machucasse Jeremy, Tyler nunca iria me perdoar. E eu nem sabia se ela já iria, de qualquer forma. — Tudo bem. Concordo com isso. Venha você, e só você. Grampeei seu telefone, então, saberei se você ligar para alguém. E não traga ninguém para lhe dar cobertura, Dean, porque eu vou saber também. Se fizer tudo direito, tem minha palavra de que Jeremy será devolvido em segurança para sua mãe. Vou te enviar instruções por mensagem de texto.


Depois que desligamos, levantei-me, joguei algumas notas na mesa e corri para um orelhão. Liguei para Jimmy e ele atendeu no primeiro toque. — Ele entrou em contato. Jimmy suspirou. — O que você precisa que eu faça? Cocei a ponta do nariz. — Suponho que a polícia esteja aí. Ele ficou em silêncio por um momento. — Sim. — E Tyler? Ele suspirou novamente. — Acho que você pode imaginar como ela está. Eu sabia que o momento era crítico para Tyler, mas ela precisava saber. — Diga a ela algo para mim. Diga a ela que prometo, de todo coração, que vou recuperar nosso filho. Estou indo para lá. Ele me disse que grampeou meu telefone e que vai saber se eu levar alguém comigo. Jimmy respirou pesadamente. — Você tem o que precisa e sabe o que fazer. Onde está? — Estou no restaurante Half Moon, na Avenida Sterling. Estou saindo daqui. — Ótimo. Deixe as “migalhas” ao longo do caminho e vou te encontrar. Vou te cobrir, Dean. Sempre irei. Fechei meus olhos e rezei para que tudo ficasse bem. — Obrigado, Jimmy. Só quero que me prometa uma coisa. — Qualquer coisa. — Não quero que faça nada até que Jeremy esteja a salvo com Tyler. Está me ouvindo, Jimmy? Me prometa. — Prometo. Inspirei profundamente. — Obrigado. Deseje-me sorte. — Bufei com uma risada. — Você não precisa disso. Você é o Dean-fodástico-Scozzari. Você sempre faz o melhor. Não pude conter um sorriso, mas, bem lá no fundo, eu sabia que isso não ia acabar bem. Acima de qualquer coisa, eu só queria que Jeremy e Tyler ficassem a salvo. — Agradeço tudo que fez por mim, Jimmy. Sei que estou pedindo muito, mas preciso que me prometa uma última coisa. — Diga. — Se alguma coisa acontecer comigo, cuide de Tyler e Jeremy. — Ah, cara, não fale assim. Você vai sair dessa. Vai ficar bem. Não fale como se nunca mais fosse voltar. Rangi os dentes. — Isso pode acontecer, Jimmy. Tenho que ser realista aqui. Pinzano não quer me encontrar para tomar um chá e discutir o clima. Ele me quer morto. Nós dois sabemos que há uma boa chance de eu não sair dessa vivo. Ouvi Jimmy xingar bem baixinho. — Ok, Dean. Ouvi você e prometo qualquer coisa que você quiser, mas precisa me prometer uma coisa em troca.


Sorri. — O quê? Ouvi um som abafado, então, ele sussurrou. — Não ouse desistir. Se tiver uma chance, arranque o coração daquele fodido e dê ao animal faminto mais próximo que encontrar. Ri um pouco. — Nem preciso prometer isso, Jimmy. Isso é uma certeza. Ele suspirou. — Ótimo. Agora vá pegar seu filho, e nos veremos em breve, cabeça de bagre. — Não se eu vê-lo primeiro, lambedor de pau. Desliguei e rapidamente corri em direção ao meu carro alugado. Tinha tudo que precisava comigo e, para minha sorte, estava começando a escurecer. Isso facilitava o que eu tinha que fazer. Mesmo assim precisava ser cuidadoso. Precisava me certificar de que ninguém estava vigiando. Assim que entrei no carro, peguei meu telefone e já estava lá a mensagem de texto com as instruções sobre onde eu deveria ir. Fiz uma nota mental, coloquei o telefone no painel e dei a partida. Enquanto dirigia em direção a saída, fiz minha primeira marca. Era uma porra de uma tragédia estragar o carro assim, mas precisava ser feito. Não me importava o quanto ia custar no final das contas. Só precisava me certificar que Jeremy estaria a salvo. Peguei a direita e dirigi por um quilômetro antes de virar à esquerda na junção. Novamente, deixei uma marca antes de virar. Durante todo o caminho, agarrei o volante com tanta força que minhas articulações começaram a ficar brancas. A jornada durou mais ou menos meia hora. Na última volta, me livrei das evidências e dirigi por mais meio quilômetro por uma estrada longa e suja. Ficava no meio de uma floresta, no meio do nada. Eu não podia esperar algo diferente. Assim que cheguei em uma casa grande no final da estrada, fui recebido por dois homens armados. Desliguei o motor do carro. Um deles abriu a porta com uma mão, enquanto apontava a arma para mim com a outra. Ambos estavam desconfiados. Acho que minha reputação me precedia. — Cavalheiros. Como vocês estão esta noite? O cara que apontava a arma para mim de repente começou a movimentá-la. Ele já estava suando. Não era um bom sinal. — Coloque as porras das mãos para cima e saia do carro! Eu ri, mas obedeci ao comando. — Uau, rapazes. Fiquem calmos. Não precisam fazer uma cena. Vou ficar numa boa. O outro cara revistou o carro, enquanto eu ficava ali parado com as mãos para cima. Assim que ele ficou satisfeito, pegou meu telefone e o entregou para o cara que estava suando na minha frente. — Reviste-o. Suspirei, mas deixei o cara fazer seu trabalho. Só queria entrar na casa o mais rápido e humanamente possível. Precisava ver se Jeremy estava bem. Assim que o cara ficou satisfeito por eu não estar carregando nenhum fio ou arma, o suarento dirigiu-se à casa com sua arma. Eu estava ansioso demais para fazer o que ele instruiu. Só houve dois momentos da minha vida em que tive medo. Uma vez foi quando pensei que tinha perdido


Tyler para sempre... e agora. Não porque eu temesse por minha própria vida, mas porque preocupava-me com a segurança de um menino que roubou meu coração. Eu só me arrependia de nunca ter tido a chance de lhe dizer isso. Enquanto entrava pela porta, com minhas mãos ainda erguidas, vi Jeremy sentado na poltrona no meio da sala. Seus olhos estavam inchados e vermelhos de chorar, e suas faces estavam rosadas, com certeza de tanto esfregá-las para secar as lágrimas. Jeremy ergueu os olhos e, provavelmente pela primeira vez naquela manhã, seu rosto se iluminou. Ele deu um pulo e veio correndo na minha direção. — Dean! — ele gritou, jogando-se em meus braços. Peguei-o no colo e o beijei no rosto. — Você está bem, garotão? Ele assentiu. — Agora estou. — Ele encostou a cabeça no meu pescoço, e eu inspirei fundo, como se fosse minha última respiração. — Ora, não é lindo de se ver? Que gracinha ver um pai e um filho em um momento de carinho. Virei a cabeça para ver Pinzano sorrindo. Se não fosse pelo fato de eu estar segurando Jeremy nos braços, eu teria corrido até ele. Mas ele provavelmente sabia disso e, sem dúvida, estaria pronto para o meu ataque. Estava no controle agora, e sabia disso. — Mantive minha palavra na barganha. Agora, espero que mantenha a sua. Ele assentiu e se colocou no meio dos outros dois homens. — Sim, sou um homem de palavra. Jeremy será entregue para sua mãe em segurança, contanto que você coopere totalmente. Assenti em concordância. — É claro. Nem precisa dizer. Pinzano sorriu para mim. — Muito bem, então. — Ele gesticulou para um de seus homens, que veio em nossa direção e tentou tirar Jeremy dos meus braços. — Não! — ele gritou, segurando-se em mim o mais forte que pôde. — Não vou sair sem você. Não agora que te encontrei. Não me faça ir embora. Você tem que vir comigo. Você precisa. O homem se esforçou para tirá-lo de mim, mas só fez com que Jeremy gritasse mais alto. — Deixe-o em paz! — gritei. E foi tão alto, que até mesmo Jeremy parou de lutar. A sala inteira tornou-se mortalmente silenciosa. Respirando fundo duas vezes, olhei para o homem. — Deixe que eu faço isso. O homem olhou para Pinzano, e este assentiu. Assim que o vi concordar, o outro recuou para me dar espaço. Ajoelhando-me, coloquei Jeremy de pé e tentei afastá-lo de mim. Quando ele percebeu que precisava me soltar, segurei sua cabeça nas minhas mãos e limpei suas lágrimas. — Não posso ir com você, Jeremy. — Ele abriu a boca para falar. — Jeremy, você precisa voltar para sua mãe. Ela está muito preocupada com você. — Mas não quero te deixar. — Ele disse isso com uma vozinha tão doce que eu quase desmoronei. — Eu sei, Jeremy, mas você precisa ir. Sua mamãe está te esperando e você tem que chegar a ela em segurança. Jeremy franziu o cenho. — E quando você vai voltar para casa?


— Não... Ergui minha mão para impedir que Pinzano falasse qualquer outra coisa. Rangi os dentes e olhei para ele antes de olhar novamente para Jeremy. — Vou fazer o que puder para voltar para você, mas não poderei fazer isso a não ser que você esteja com sua mamãe, ok? Jeremy assentiu e eu sequei a última lágrima em seu rosto. — Agora, você precisa ir com esse homem, e ele vai te levar para sua mamãe. Vou ficar bem aqui, Jeremy. Não se preocupe comigo. — Sorri com carinho e beijei sua mão antes de o homem dar um passo à frente e arrancá-lo de mim. Ele se dirigiu à porta, enquanto dois homens me colocavam algemas. — E outra coisa. — O homem parou e virou-se para que Jeremy pudesse olhar para mim. — Estou feliz por você ter me encontrado, garotão. — Com provavelmente o último sorriso que daria na vida, pisquei para ele. Eu sabia que no minuto em que a porta se fechasse, minha vida estaria se fechando com ela. Só um milagre poderia me salvar agora.


Capítulo Vinte Jimmy Eu estava sentado na casa de Tyler, me remexendo mais do nunca. Estava no limite e sabia que aquela merda estava prestes a desmoronar. A cada minuto que passava, a morte de Dean ficava mais próxima. Eu sabia que ele estava indo em direção a uma armadilha, mas era para salvar seu filho. Que pai não faria isso? Tara tentava acariciar minhas costas para me acalmar, mas quanto mais eu olhava para o rosto angustiado de Tyler, mais eu queria entrar em ação. Me sentiria culpado se deixasse Jeremy sem pai, logo agora que eles tinham se encontrado. Já fazia uma hora desde que tinha falado com Dean no telefone. Uma porra de uma hora agonizante de espera. Eu sabia o que tinha que fazer assim que recebesse a ligação. Também sabia que a polícia iria me seguir. Não era estúpido de pensar que me deixariam ir sozinho. Mas talvez fosse uma coisa boa no final das contas. O telefone de Tyler começou a tocar e ela correu para atendê-lo. A polícia estava lá, ouvindo a conversa. — Alô?... Sim, aqui é Tyler. — Ela agarrava a gola do próprio vestido com tanta força, que pensei que fosse rasgá-lo. — Onde?... Vou te encontrar lá. — Ela desligou o telefone e rapidamente pegou as chaves. — Senhora, não pode ir sozinha — disse um dos policiais. Os olhos de Tyler se arregalaram. — Você ouviu o que ele disse. Não vou assumir riscos. Você quer ser responsável pela morte do meu filho? O policial gaguejou. — Não, mas... — Eles não vão me seguir. Quero pegar meu filho. Por favor. — Ela olhou para ele como se implorasse, e os ombros do policial cederam. Vasculhando seu bolso, ele pegou um telefone. — Então, por favor, leve isto. Vamos poder rastreá-la. No minuto em que estiver com Jeremy, quero que dirija para o mais longe possível e ligue para nós. Ok? Ela assentiu e olhou para mim. Também assenti em silêncio. Era esse sinal que me dizia o que eu tinha que fazer e eu me sentiria muito culpado se não tentasse o meu melhor para consertar as coisas. Com um sorriso desanimado, Tyler saiu, deixando Tara e eu, agarrados um ao outro. Ela estava perturbada, e eu tentava confortá-la, mas também estava tenso de ansiedade. Olhei para o policial que tinha entregado o telefone a Tyler. Seu nome era Sargento Phil Shaw, e pelo que tinha visto até agora, parecia um cara legal. Ele sabia que estávamos desesperados para que Jeremy voltasse para casa em segurança. Eles tinham perguntado por que, mas lhes disse que os Pinzanos queriam ver a família de Dean morta há anos. Se eles vasculhassem, veriam que eu estava falando a verdade. — Assim que soubermos que Jeremy está com Jessica, preciso ir. Vou saber onde encontrá-lo. — O nome falso de Tyler parecia completamente estranho saindo da minha boca.


O policial Shaw franziu o cenho para mim. — Como assim? Sorri. — Você já ouviu falar de João e Maria, não é? — O policial assentiu. — Migalhas de pão. Dean me deixou migalhas de pão. — Sorri para o policial novamente, e então sorri para Tara. Queria fazê-la acreditar que tudo estava bem, mas quanto mais o tempo passava, mais minha coragem desaparecia. Depois de meia hora de espera, finalmente recebemos a ligação de Tyler. Jeremy tinha sido entregue em segurança para ela e eles estavam a caminho de casa. Ela estava escoltada pela polícia, então, eu sabia que era hora de agir. Levantando do sofá, peguei minhas chaves e me virei para Tara. Ela parecia em pânico. — Por favor, volta pra mim. Uma única lágrima deslizou por seu rosto, e eu a beijei com gentileza. — Estarei em casa antes que você perceba. — Pisquei para ela e lhe ofereci um sorriso reconfortante. Não sei se minhas palavras eram verdadeiras, mas precisava lhe dar alguma coisa. — Eu te amo, linda. — Beijei sua mão, e ela sorriu. — Também te amo. Com um último sorriso, virei-me para o policial. — Preciso ir. Me deem cobertura se acharem necessário, mas não temos tempo a perder. O policial Shaw assentiu. — Vamos manter uma distância de cinco carros. Assenti e, então, corremos para nossos carros. No minuto em que entrei no meu, dei a partida e comecei a dirigir em direção ao restaurante. Liguei o GPS e acionei suas coordenadas. Depois de vinte minutos dirigindo, vi o restaurante e imediatamente vi a marca de spray na saída. Tinha aprendido essa técnica nos meus tempos de exército, há muitos anos. Sabendo que eu não poderia rastreá-lo usando tecnologia, pensei que a melhor coisa a fazer seria lhe entregar uma lata de spray amarelo e instruí-lo a fazer um buraco na parte lateral do carro. A pintura era de uma cor que se destacaria facilmente. A cada curva, Dean teria que marcar a estrada e apontar para onde iria em seguida. Agora eu só tinha que encontrá-lo. E eu o encontraria. O mais rápido que pude, saí do restaurante. Avistei o carro do policial um pouco mais longe na estrada. Acenei para ele e peguei uma direita na estrada principal. Dirigi por mais um quilômetro antes de avistar a próxima marca. Quanto mais me afastava, mais a floresta me cercava. Um esconderijo perfeito para se torturar e matar alguém, pensei. Só esperava que não fosse tarde demais. Conforme me aproximava da última volta, percebi a lata de spray jogada perto de uma árvore e soube que era o destino final. Deixei o carro estacionado de forma mais escondida possível e segui o resto do caminho a pé. Estava puto da vida por não ter uma arma, mas tinha sido treinado para lutar sem uma, então, mal podia reclamar. Segui o mais rápido que pude, de forma silenciosa, pelo caminho que levava a algumas luzes à distância. Não fazia ideia se a polícia ainda estava me seguindo, mas não podia parar para descobrir. Já tinha chegado até aqui e não iria recuar. Corri mais um pouco até enxergar uma casa. Vi um homem com uma arma explorando


o perímetro, então, me escondi atrás de uma árvore e olhei ao meu redor, buscando sinais de vida. Nada. Abaixando-me o máximo possível, corri para trás do homem. Sabia que podia matálo — mas isso me causaria muitos problemas com a polícia que estava atrás de mim —, então, por sorte, eu conhecia alguns pontos de pressão que o deixariam inconsciente. Deixaria que a polícia cuidasse dele depois. Bati em seu ombro. Ele girou a tempo de me ver sorrindo para ele. Então, atingi seu pescoço. Ele desabou em uma fração de segundo. Sorrindo, peguei a arma dele e me aproximei da casa. Olhando ao meu redor, conseguia ver outros quatro caras lá dentro, todos com armas, patrulhando os arredores. Suspirei, sabendo que recuperar Dean demoraria mais do que pensei. Mas precisava fazer isso e tinha que ser cuidadoso. Um por um, cuidei de cada homem e fiz a mesma coisa, recolhendo suas armas conforme os apagava. No momento em que abati o quinto homem, o policial Shaw me alcançou, com uma expressão abismada no rosto. — Você é das forças especiais ou algo assim? Sorri para ele. — Eu era. — Olhei para as armas e as entreguei para ele. — Aqui. Fique com essas. Preciso entrar. Você pode me dar cobertura. Shaw, ainda abismado, pegou as armas de mim e só ficou observando. No momento em que estava prestes a entrar, percebi que havia vários policiais cercando a casa. Isso era bom. Ao menos eu tinha alguém para me dar cobertura. Corri em direção a casa e espiei pela janela da frente. Ergui meu corpo um pouco para olhar e vi dois homens lá dentro, ambos com armas. Fiz um sinal para o policial, avisando que havia dois homens na sala, ambos armados. Engatinhei até a outra janela e olhei a cozinha. Não havia ninguém ali. Gesticulei, avisando que estava tudo limpo. Um outro policial me avisou que iriam dar a volta, até os fundos da casa. Assenti e engatinhei até chegar à porta da frente. Senti um tapinha no meu ombro e me virei. — Assumimos daqui — o oficial sussurrou. — Não há necessidade de você ir mais longe. É muito perigoso. Suspirei, sabendo que tinha ido o máximo que pude. Eu meio que sabia que eles não deixariam um civil comandar o show, mas valia a pena tentar. Assenti e gesticulei para que eles passassem a minha frente. Afastei-me e deixei que eles entrassem na casa. Eu meio que tinha uma ideia de onde Dean poderia estar, então, fui até os fundos da casa para ver se encontrava outra entrada. Tiros começaram a soar. — Merda! — Olhei ao meu redor freneticamente e me virei para ver uma corda jogada no chão. Sem perder tempo, puxei a corda e encontrei a porta de um alçapão, com uma escada que descia. Dei cada passo o mais rápido que pude, deixando a porta escancarada para que a polícia a visse. A primeira coisa que reparei foi o quanto estava frio lá embaixo. Então, senti o cheiro. Era um cheiro de mofo, de coisa antiga, que eu imaginava que ficava ainda pior nos meses de inverno. Vi uma luz fraca vindo de uma porta à distância e sons abafados vindos de trás dela. Ouvi um grunhido, e no minuto que o som chegou a mim, fiquei em alerta. Se Dean ainda estivesse vivo, precisava agir rápido. Cheguei à porta, reparei que estava entreaberta e a abri o mais devagar e


silenciosamente possível. Meu coração estava batendo descontrolado no meu peito e a adrenalina corria pelas minhas veias. Não fazia ideia do que iria encontrar, mas precisava ver. A morte poderia chegar muito rápido para mim, mas precisava tentar salvar Dean. O que vi assim que a porta se abriu me chocou. Não sei por que, já que estava acostumado a esse tipo de coisa, mas se tratava de alguém que eu gostava sendo torturado. Dean mal parecia estar vivo. Seus braços estavam sobre a cabeça, os punhos amarrados com uma corda. Era a única coisa que o mantinha de pé. Havia sangue por todo lado, pingando dos múltiplos cortes em seu corpo. Ele também tinha marcas de queimadura, três delas formavam as letras A, P e J em seu peito. Não havia dúvidas de que Pinzano estava tentando se divertir. Mas eu com certeza não estava rindo. Vi um chicote estalar e Dean ergueu a cabeça com a dor. Podia ver que ele estava fazendo um esforço enorme para não gemer. Eu sabia que ele nunca daria essa satisfação ao filho da puta. — Vou fazer você gritar, nem que seja a última coisa que eu faça. Há um limite que o homem consegue aguentar, Dean. Talvez eu devesse ter sequestrado a sua mulher e ter me divertido um pouco com ela, com você observando. Você teria gritado, não teria? — Vá se foder — ele grunhiu, com os dentes cerrados. Era um homem despedaçado, mas seu espírito não desistia. Dei mais um passo à frente, tentando ver quem mais estava no local. Dean ergueu a cabeça, tentando olhar para mim com os olhos inchados. Era como se o Mike Tyson tivesse estado no local e estivesse no vigésimo round lutando com ele. Isso só fez com que minha raiva ficasse mais latente. Dean podia ser meu chefe, mas nos últimos anos tínhamos nos tornado próximos. E tudo isso por causa de uma mulher, que nunca fez com que ele perdesse a esperança. Eu não podia ficar ali muito mais tempo, assistindo enquanto ele era torturado. Ele tinha que ver Tyler novamente. Eu precisava salvá-lo. Precisava me certificar de que ele teria seu final feliz. Sem hesitar, entrei no local, tendo apenas um segundo para agir. Além de Pinzano, havia outros dois homens na sala. Ambos tinham armas, e ambos as apontaram para mim. Foram rápidos, mas eu fui mais. — Mas que merda é essa? — Pinzano gritou. Coloquei-me atrás de um homem o mais rápido que pude. Tiros foram dados, e o homem do qual eu me coloquei atrás foi acertado em cheio. Em um instante, ergui a arma da cabeça dele e atirei novamente no outro. Este também caiu em um instante. Depois fiquei cara a cara com Pinzano. Eu tinha uma arma, mas ele também. — Por que demorou tanto? — Dean murmurou, rindo, em uma tentativa de me dizer que estava tudo bem. — Me desculpa. Me atrasei, querido. O trânsito estava caótico. — Sorri para ele. — Cale a porra da boca! — Pinzano gritou. Suspirei. — É tarde demais. Seu tempo acabou. A polícia está aqui e não vai demorar muito para que nos encontrem. Ele grunhiu e murmurou algo bem baixinho. — O que foi isso, docinho? Não entendi. — Virei-me para Dean. — Acho que ele está com certa dificuldade para falar. Neste momento, ouvimos gritos sobre nós. Pinzano olhou para cima e eu me aproximei de Dean, tentando desamarrar pelo menos uma de suas mãos, enquanto ainda apontava a arma


para Pinzano. Ele voltou seus olhos para mim, assim que consegui afrouxar a corda. — Deixe ele aí! — ele grunhiu, mas, apesar de estar tentando parecer cruel, sua voz estava instável. Até mesmo suas mãos começavam a tremer um pouco. Emiti um som de desaprovação. — Acho que você não entendeu, Pinzano. Está em desvantagem. Neste momento, todos os seus homens estão mortos ou presos. Você é o último verme que eles precisam recolher dessa sujeira toda. Tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Dean conseguiu se desamarrar no momento em que a polícia entrou correndo. Pinzano rugiu, correndo em direção a Dean. Eu agi rápido, atirando em sua mão e fazendo a arma cair, mas Pinzano se virou e esfaqueou Dean bem no peito, com o que parecia um picador de gelo. Tiros começaram a soar enquanto Pinzano e Dean caíam no chão. Em pânico, corri na direção de Dean, segurando sua mão, enquanto a polícia chamava uma ambulância. Amaldiçoando a mim mesmo por não ter ficado mais alerta, fechei meus olhos por um momento antes de olhar para Dean. — Se segure aí, Dean. Estamos chamando ajuda. Ele sorriu desanimado. — Acho que estamos ficando velhos, Jimmy. Estamos os dois um pouco lentos. Eu ri. — Meus reflexos já não são os mesmos. — Seja honesto comigo. — Eu assenti. — Você acha que a Tyler vai gostar das minhas novas tatuagens? — Ele sorriu novamente e gemeu de dor. Olhei para suas marcas. — Provavelmente, não. Eu pegaria o dinheiro de volta se fosse você. Uma das letras está toda tremida. Dean tentou rir, mas inspirou profundamente. Acalmando-se olhou para mim. — Você acha que vou ser aceito? Confuso, pensei que ele estava delirando. — Aceito onde, Dean? Ele gemeu de dor. — Nos portões do céu. Você acha que meus pecados vão ser perdoados agora que Jeremy está a salvo? Por favor, me diga que eles estão a salvo. Assenti, pela segunda vez na minha vida, senti lágrimas em meus olhos. — Eles estão a salvo, Dean, mas você não vai passar pelos portões do céu ainda. Você está me ouvindo? Você tem que lutar, Dean. Lutar por Tyler. Lutar por seu filho. — Ele fechou os olhos, e eu apertei sua mão. — Não vá dormir, Dean. Fique acordado. — É engraçado. Acho que eu deveria estar sentindo frio, mas não estou. Talvez esteja indo para o inferno. Seus olhos começaram a revirar, então, eu sacudi sua mão. — Ouça, seu merdinha. Você não vai a lugar algum, a não ser para o hospital. Você tem muitas pessoas que se importam com você. Não ouse desistir. Dean sorriu. — Você se importa comigo, Jimmy? Sempre achei que você era apaixonado por mim. Eu ri. — Não fique se achando tanto. Você nem é assim tão bonito.


Olhei para um dos policiais, que assentiu para mim. — A ambulância está chegando. Olhei para o picador de gelo no peito de Dean. Eu não ousaria tirá-lo do lugar porque ele precisava ser visto por um médico. Ouvi um barulho alto na porta do outro lado do local. Logo ela foi aberta e mais policiais entraram. Fiquei feliz por haver outra saída, pois seria mais fácil tirar Dean por ali. Agarrei sua mão. — Aguente firme, cara. A ajuda já está chegando. — Está muito ruim? — Sua respiração estava ficando cada vez mais incerta. — Já te vi melhor, Dean, mas você está bem. Vai se curar. Dean mexeu a cabeça para os dois lados e seus olhos estavam ficando cada vez mais fora de foco. — Diga ao garotão que o pai dele o ama e que ele precisa cuidar da mamãe dele. Balancei a cabeça. — Você mesmo pode dizer isso, seu babaca. Dean, porra, não ouse morrer aqui. Sua respiração falhou outra vez. — Diga a Tyler que eu a amo e que sinto muito. — Merda! Não faça isso comigo, Dean. Não me faça dizer isso. Você precisa ficar vivo para dizer a eles. Viva, pelo amor de Deus. Só viva. Ele lutou para respirar e, então, olhou nos meus olhos. — Obrigado, viadinho. — Ele sorriu e fechou os olhos. — Não, não, não, Dean! — Ergui os olhos. — Onde está a porra da ambulância? Um policial se aproximou: — Estão vindo agora. Olhei para Dean e apertei sua mão mais uma vez. — Ouça aqui, cara de bunda. Você não chegou até aqui, fazendo com que Tyler te aceitasse de volta, só para desistir. Você tem um filho agora. Precisa viver por ele. Precisa vê-lo crescer. Se não fizer o que estou mandando, eu mesmo vou matá-lo. Eu sabia que era a coisa errada a se dizer, mas estava puto. Odiava que ele tivesse tido tanto trabalho para encontrar as pessoas que amava, só para ser arrancado delas. Novamente. Dois paramédicos surgiram carregando uma maca. Soltei a mão de Dean e os deixei trabalhar. Eles o posicionaram na maca e o ligaram a uma intravenosa. Checaram sua pressão arterial, que eu vi que estava muito baixa. Seu pulso também estava fraco, mas ao menos ainda estava conosco. — Temos que levá-lo ao hospital. Não sabemos o quanto essa ferida está próxima de uma de suas artérias. Ele perdeu muito sangue. O policial assentiu para o paramédico. — Para onde vão levá-lo? Os paramédicos ergueram a maca e começaram a carregá-lo. — Hospital Hampton. Reconheci o nome, porque era onde Tara trabalhava. O que eu ia dizer quando voltasse para casa? Tyler deveria estar enlouquecendo àquela altura. Um tapinha no meu ombro me fez girar. Era o policial Shaw. — Precisamos de seu depoimento.


Assenti. — Vou lhe dar tudo que quiser, mas preciso ir para o hospital e ligar para a namorada do Dean. Shaw sorriu, assentindo, e saímos daquele local. Reparei que a ambulância já tinha ido embora e que quatro dos homens de Pinzano ainda estavam vivos. Esfregando meu rosto com ambas as mãos, olhei para Shaw, que estava olhando para mim. — Você pode me seguir. Só há um lugar para onde quero ir agora. — Tudo bem. Você não vai ser preso, mas precisamos de seu depoimento. Assenti e entrei no meu carro. Antes de ligar o motor, peguei meu telefone do bolso e procurei o número de Tyler. Fiquei olhando para ele por um momento, incapaz de me mover. O que eu iria dizer a ela? O que eu poderia dizer para tornar o que aconteceu um pouco mais fácil? Seu mundo estava prestes a desmoronar novamente, e eu iria provocar isso. Odiava dar más notícias. Odiava ser o responsável por partir o coração de alguém em dois, mas era preciso. Ele não era tão invencível quanto pensávamos que fosse. Tyler precisava saber que Dean estava gravemente ferido. E, daquela vez, ele poderia não sair vivo.


Capítulo Vinte e um Tyler Quando recebi a ligação de Jimmy, pensei que meu mundo iria acabar. Sim, eu fiquei puta da vida com Dean por ter levado à minha porta o perigo do qual eu vinha fugindo há tempos. Mas ele fez a promessa de que salvaria Jeremy, e a manteve. E agora que eu estava lidando com o fato de que poderia perdê-lo, só havia uma coisa a fazer. Perdoá-lo. E eu já tinha perdoado. Perdoaria várias vezes, porque nada mais importava, Dean era minha fraqueza. Não podia viver sem ele. Depois da ligação de Jimmy, desmaiei nos braços de Tara e ela me segurou como tinha feito nas últimas doze horas, que tinham sido como um redemoinho. Assim que me confortou e secou meus olhos, Tara me disse para ir ao hospital, que ela ficaria cuidando de Jeremy. Completamente exausto, ele tinha caído no sono pouco depois de chegarmos em casa. Fiquei irritada com Dean por ter feito nosso filho passar por isso, mas quando Jeremy olhou para mim com aqueles olhos azuis e disse “eu o encontrei”, pouco antes de adormecer, eu soube. Não era mais por minha causa. Éramos uma família, e uma família toma decisões unida. Não podia mais mandar Dean embora, porque Jeremy não o deixaria ir. Ele precisava ser forte. Precisava lutar. Precisávamos permanecer como uma família. Somente assim conseguiríamos superar tudo isso. Mas primeiro, Dean precisava ficar vivo. Precisava ficar forte. Eu queria lhe dizer isso, mas, infelizmente, eu fiquei sentada no hospital por três horas, esperando e ansiando por notícias da condição de Dean. Ele tinha ido direto para uma cirurgia no momento em que chegou e ainda não tínhamos notícias. Jimmy estava comigo. Ele era minha rocha. Segurando minha mão, me perguntando se eu queria café, conversando sobre qualquer outra coisa. Não era de espantar que Tara o amasse tanto. Acho que eu mesma estava me apaixonando por ele. Agora ele era parte da família. Grande Tio Jimmy. Pensar nisso me fez sorrir. — Por que está sorrindo? Olhei para o rosto cansado mas ansioso de Jimmy. Ele também estava sorrindo. Era um sorriso genuíno, mas duro. Um sorriso que escondia o que ele estava realmente sentindo. — Só estava pensando no seu apelido, cortesia do nosso malandrinho. Jimmy riu. — Está falando da miniatura do Dean? Eles se parecem tanto. — Assenti, e Jimmy voltou a sentar do meu lado. — Ele vai sair dessa. Disse a ele que o mataria se não saísse. Comecei a rir. — Vocês dois são uma comédia. Jimmy ergueu uma sobrancelha. — Ele me chamou de viadinho antes de apagar. Comecei a rir ainda mais. — Mesmo sob essas circunstâncias, vocês ainda xingam um ao outro. Jimmy deu de ombros. — Acho que estava muito sentimental. Ele só tentou me trazer de volta à realidade. Acho que me chamar de viadinho foi a única forma que ele encontrou pra isso. — Jimmy se contorceu levemente, como se houvesse mais coisas que ele não estava me contando. Mas eu não


queria saber. Qualquer coisa que Dean quisesse dizer, poderia me dizer ele mesmo, assim que saísse do perigo. Ele tinha que sair. — Cara, eu odeio hospitais. — Jimmy levantou-se novamente e começou a andar de um lado para o outro antes de se sentar novamente. Fiquei me sentindo mal por ele. — Por que não volta para casa para ficar com Tara? Ligo para vocês se tiver novidades. Ele balançou a cabeça. — Não quero te deixar sozinha. Além disso, quero saber no minuto em que ele sair da cirurgia. Assenti, sem dizer mais nada. Se ele queria ficar, não ia argumentar com ele. — Na última vez em que fiquei esperando num hospital, foi quando minha namorada morreu. O local estava tão silencioso que você conseguia sentir a tensão como se estivesse segurando uma faca. Jimmy estava inclinado para trás em seu assento, olhando para o teto com lágrimas nos olhos. Era algo estranho de se ver, considerando que ele sempre parecia tão durão. Por dentro era apenas um ursão de pelúcia. — Lamento muito por saber disso. Quantos anos ela tinha? Jimmy suspirou e olhou para mim. — Vinte e dois. Queria ser parteira. — Ele riu. — Está vendo? Acho que não consigo me controlar quando vejo uma garota de uniforme. — Ele riu novamente e logo voltou a olhar para o teto. — Ela adorava bebês. Eu teria lhe dado vinte, se ela quisesse. Só queria fazê-la feliz, mas então tivemos uma briga séria, e eu lhe dei um tempo para esfriar a cabeça. Pior erro da minha vida. Foi por isso que me vi determinado a ajudar Dean a lutar por você. Não quero que nenhum de vocês dois termine como eu. Jimmy continuou a me contar coisas sobre Grace e sobre o que tinha acontecido. Ao terminar, ele suspirou, fechando os olhos, e eu coloquei minha mão sobre a dele, apertando-a com carinho. Seus olhos se abriram e ele olhou para mim com um sorriso. — Estou feliz que Tara tenha te conhecido. Jimmy sorriu. — Eu a amo. Assenti. — Sei que ama. E também sei que ela ama você. O sorriso em seu rosto iluminou todas as suas feições. Ele estava apaixonado e não se importava que todos soubessem. Tive que sorrir de volta, porque era difícil não fazê-lo. — Você e Dean... Tem tanta história juntos. Ele me contou sobre quando vocês eram crianças. Disse que estava esperando para que pudessem ficar juntos. Sabendo de tudo que sei agora, é como ler uma história de amor trágica. Você deveria escrever um livro. Comecei a rir. — Nossa história é um pouco extraordinária. Jimmy empertigou-se. — Ah, mas onde estaria a graça se não fosse? — Ele piscou para mim, me fazendo rir. — Não pode acabar agora, Jimmy. Não quando finalmente nos reencontramos. Não depois de ele ter voltado para a minha vida. — Senti lágrimas se acumulando enquanto Jimmy apertava minha mão.


— Eu sei, Tyler. Não há como fechar esse livro agora. A história ainda não acabou para vocês dois. Só está começando. Suspirei, sentindo as lágrimas correrem. — Só espero que seja verdade, Jimmy. Sei como é viver sem ele, e é uma merda. Não conseguiria novamente. Jimmy viu a dor em meus olhos e gemeu. — Eu amei Grace com paixão e ela sempre vai ter um espaço especial no meu coração. Mas tenho Tara agora, e sinto que posso viver novamente. Agora eu entendo. Não estou dizendo isso para fazer com que você perceba que há vida depois de Dean, porque eu sei que, com vocês dois, não há outra pessoa. É por isso que eu sei que ele vai lutar uma última vez. Ele tem que lutar por sua família. Sorri e assenti, mas seu último comentário me fez lembrar de uma coisa. — O tio dele... Não deveríamos avisá-lo? Jimmy xingou e levantou-se. — Sim, você está certa. Vou ligar para ele. Assenti e fiquei observando enquanto Jimmy saía da sala. Foi naquele momento, sentada, sozinha, que soube que Jimmy estava certo sobre estar aqui comigo. Durante aqueles poucos minutos em que ele ficou usando o telefone, me senti completamente só. Em sua ausência, tive tempo para pensar em tudo que aconteceu e no futuro incerto que havia diante de nós. Em um momento de fraqueza, me curvei quando uma dor esmagadora se cauterizou em minhas entranhas. Lágrimas começaram a cair quando visões de uma possível vida sem Dean começaram a passar pela minha mente. Será que a vida seria assim tão cruel comigo? Será que eu tinha lhe dado aquela chance só para que ele fosse arrancado de mim novamente? Era irônico como momentos assim fazem com que questionemos algumas coisas. Eu me sentia egoísta porque só conseguia pensar em como isso iria me afetar e como conseguiria viver sem ele. Queria gritar a plenos pulmões o quanto o universo era cruel por ter me dado um gostinho, que foi tudo que eu tive. Um gostinho de como seria a vida com Dean. Tudo que tive foi um mero pedaço dele, e me sentia traída. Sentia a injustiça de ter me permitido amar alguém que eu poderia nunca mais ver. Enquanto estava vivendo meu desespero, agarrando meu próprio estômago, foi que senti uma presença no local. Alguém estava me observando. Erguendo a cabeça, vi um par de olhos buscando os meus, uma mão sendo estendida em minha direção. Sabendo que tinha sido apanhado, ele recuou. Reparei que ele ainda estava de uniforme, o que significava apenas uma coisa para mim. Senti o terror ascender, e, por instinto, cobri meus ouvidos e fechei os olhos, me fechando para o mundo, para que não tivesse que ouvir. Mas precisava ser forte. Eu precisava saber. — Ele está... — Não conseguia pronunciar a palavra. Parecia um alienígena na minha boca. Como se o fato de pronunciá-la a tornasse real. — Não. Ouvir aquela palavra normalmente não me deixava feliz. “Não” era uma palavra negativa. “Não” normalmente significava que você não teria as coisas que queria. Mas, naquele momento, “não” era a palavra mais linda do mundo. Significava que Dean ainda estava vivo. Ainda estava respirando. Ainda era meu.


Soltando a respiração que nem percebi que estava prendendo, olhei para Evan. Ele parecia em conflito. Era quase como se estivesse lutando para manter a ética de um relacionamento entre médico e membro da família, ou simplesmente agir como meu amigo. Naquele momento eu precisava de ambos. Precisava da informação e precisava de conforto. Precisava que ele me dissesse que tudo ficaria bem. — Você... você o operou? Evan assentiu. — O picador de gelo estava muito próximo da artéria coronária principal. Precisei estar lá para a remoção. Ele tinha outros ferimentos, incluindo algumas costelas quebradas, um nariz deslocado e queimaduras de segundo grau, mas a principal causa de preocupação era o ferimento no peito. Ele também estava com hemorragia interna. Seus pulmões estavam cheios de sangue e tivemos que colocar um tubo em seu peito. Em um certo momento, a pressão sanguínea caiu perigosamente, e tivemos que reanimá-lo. Ele é forte e sobreviveu, mas as próximas vinte e quatro, quarenta e oito horas serão críticas. Assenti, me sentindo um pouco aliviada. Foi então que reparei que Jimmy estava parado na porta. — Você ouviu isso? — Ele assentiu, e eu olhei para Evan. — Obrigada por salvar a vida dele. — Eu queria perguntar se tinha sido difícil para ele, considerando nosso passado, mas achei que não era apropriado. Que ironia, meu ex-namorado salvando a vida do amor da minha vida. Evan sorriu com timidez. — Eu só estava fazendo o meu trabalho. Acho que lá estava minha resposta. Ele estava apenas fazendo seu trabalho. Aquele era Evan, definitivamente. Era sempre comprometido com seu trabalho, não importava a situação. Eu o admirava por isso. — Quando vou poder vê-lo? Evan suspirou. — Ele foi levado para a UTI. Normalmente eu não permito que amigos visitem pacientes na UTI, mas eu te conheço e vou abrir uma exceção. Assenti com um sorriso. — Obrigada, Evan. Posso me responsabilizar por Jimmy também. Ele é como da família. — Sorri para Jimmy e o vi sorrir de volta. Era orgulho o que eu via em seu sorriso? Evan de repente olhou na direção de Jimmy e depois voltou-se para mim. Era quase como se ele quisesse me dizer algo, mas não quisesse com Jimmy no local. Jimmy percebeu e apontou para a porta. — Er... eu vou esperar lá fora. Assenti e me virei para Evan. — Você parece cansada, Jessica. Quando foi a última vez que dormiu ou comeu alguma coisa? Tive que sorrir. Esse era o Evan, sempre pensando nos outros. — Acho que posso dizer com segurança que hoje foi o pior dia da minha vida... e acredite em mim. Eu tive vários durante minha existência. — Ri um pouco. — Como está Jeremy? Meu sorriso desapareceu e imediatamente senti lágrimas caindo. — Ele está bem — respondi.


Evan estendeu os braços para mim. — Vem cá. Fui em direção ao seu abraço. Senti quando ele suspirou contra minha cabeça, que estava encostada em seu peito. Evan sempre foi bom em confortar pessoas. Não tinha dúvidas de que ele daria um marido fantástico para alguém. Talvez em outra vida eu pudesse ter amado Evan com a paixão que ele precisava. Isso nunca aconteceria com Dean em minha vida. — Há tantas coisas que eu gostaria de dizer, mas não tenho mais o direito de dizêlas a você. Mas me dói te ver sofrendo assim. Eu gostaria de poder te livrar dessa dor. Eu gostaria... Eu não sei. Só gostaria. — Ele suspirou novamente. Olhei para ele enquanto lágrimas caíam. — Sinto muito, Evan. E eu sentia mesmo. Sentia por não poder dar a ele o que precisava de mim. Sentia por não poder aceitar seu conforto e oferecer o meu em troca. Sentia por não poder ser a mulher que ele queria desesperadamente. E sentia muito por não poder amá-la da forma como ele obviamente me amava. Eu realmente quis amá-lo no início. Em um certo estágio do nosso relacionamento, não havia nada que eu quisesse mais do que aceitar Evan no meu coração. Mas Dean sempre esteve determinado a ser o único homem da minha vida. Ele só precisou piscar para mim quando tínhamos seis anos. Só uma única piscada e meu destino foi escrito em uma pedra. Nenhum outro homem poderia chegar aos pés de Dean... e ele fez com que isso acontecesse. — Você não precisa se desculpar, Jessica. Eu entendo. Não gosto disso, preciso admitir, mas eu entendo. — Assenti, e ele franziu o cenho. — Posso te fazer uma pergunta? — Qualquer uma. Evan desviou o olhar, como se estivesse desconfortável. Ele logo conseguiu se acalmar e olhou novamente para mim. — Isso... isso muda alguma coisa? Quero dizer, o que aconteceu agora? Eu estava quase certa de que compreendia o que ele estava querendo dizer. Acho que as coisas deveriam sim mudar, mas desde que Dean me encontrou semanas atrás, tudo só ficou mais concreto. E seria assim, pura e simplesmente. — Acho que as coisas deveriam mudar, mas não vão. Não posso... não vou... — Meu Deus, como era difícil. Como dizer a Evan, sem magoá-lo muito, que eu amava Dean? Evan sorriu e me salvou. — Eu sei. Gostaria que não fosse assim, mas eu sei. — Ele desviou o olhar e se soltou de nosso abraço. — Eu... eu preciso voltar ao trabalho. — Apontou para a porta e sorriu. Estava hesitando, mas eu sabia o porquê. Acho que ele sabia que não deveria ficar. Só era muito difícil para nós dois. — Eu sei. Você tem outras vidas para salvar. — Sorri de forma radiante e observei enquanto ele saía. — Adeus, Evan. — Com sua mão na porta, Evan parou abruptamente. Fiquei olhando para ele, enquanto inclinava a cabeça antes de respirar bem fundo. Com um baque da porta, ele desapareceu. Odiava ser a responsável por partir seu coração. Odiava ter que arrancar o BandAid de forma violenta. Mas precisava ser feito, para o bem de nós dois. Assim que ele saiu porta afora, Jimmy a abriu com um sorriso. — Está pronta? Suspirei.


— Mais do que nunca. Passei por ele, mas Jimmy tocou meu ombro. — Ele não te magoou, magoou? Balancei a cabeça. — Não. Evan jamais poderia me magoar. Nós dois dissemos coisas que precisavam ser ditas. Jimmy suspirou e pareceu confuso. — Não quero que pense que estou perguntando por causa de Dean. Acho que só estou... — Cuidando de mim? — terminei a frase por ele. Ele sorriu de forma radiante. — Sim, exatamente. Estendi a mão. — Vamos, Jimmy. Vamos ver nosso chato. Ele riu, mas pegou minha mão. — Estou ansioso para isso. — Começamos a caminhar, e então ele olhou para mim com um brilho de divertimento nos olhos. — É bom te ver usando o bom humor novamente. Estava começando a ficar preocupado. Suspirei. — Se eu não rir, vou desmoronar. Não posso fazer isso. Não agora. Preciso ser forte por Jeremy e por Dean. — O que você vai dizer ao Jeremy? Suspirei novamente. — Ele já sabe quem Dean é. Ainda não tive a chance de conversar propriamente com ele. Estou preocupada com sua reação quando descobrir que Dean está aqui, mas, ao mesmo tempo, não posso mentir para ele, Jimmy. Acho que já menti demais. Preciso começar a ser uma mãe e aceitar o fato de que tenho a responsabilidade de fazer o que é certo para meu filho. Entramos na UTI, e Jimmy apertou minha mão. — Eu entendo. Foi nesse momento que fechei meus olhos. Na última vez em que visitei uma UTI foi quando perdi uma pessoa que considerava um irmão. Precisava admitir que estava fodidamente assustada. Não queria que isso estivesse acontecendo uma segunda vez. Já tinha sido difícil antes, mas seria insuportável para mim agora. Como se percebesse minha angústia, Jimmy colocou a mão no meu ombro. — Você consegue fazer isso. Sei que consegue. Ouvir Jimmy dizer aquelas palavras me fez sorrir. Não foram suficientes para espantar o meu medo, mas suficientes para me fazer continuar. Suficientes para me forçar a ver Dean. Para minha sorte, olhei pela janela e vi uma enfermeira que já conhecia, mas cujo nome não me recordava. Ela olhou para mim e sorriu quando acenei para ela. Ela veio em minha direção e abriu a porta. — Oi, Jessica. O Evan me falou que você viria. — Ele disse? Que bom. — Eu a vi olhar para Jimmy de cima a baixo. Não era um flerte óbvio, mas, ainda assim, um flerte. — Este é Jimmy, um amigo muito querido. Ela estendeu a mão.


— Oi, eu sou a Chelsea. Chelsea! Como é que pude esquecer o nome dela, sendo que morei perto de Chelsea, em Londres, por anos? Jimmy lhe ofereceu aquele sorriso “vou te colocar em apuros no minuto em que olhar para mim” e a cumprimentou. — Prazer em conhecê-la, Chelsea. Não dava para dizer que Jimmy estava flertando com ela, mas acho que era um jeito natural dele. Chelsea, com certeza, parecia pronta para estender o encontro. — Posso entrar? — Achei que era a hora certa de quebrar o feitiço. Jimmy já estava comprometido, e isso iria acabar desapontando a moça quando ela descobrisse. Ela virou a cabeça para mim e pigarreou. — Claro — ela disse, entrando no quarto. Preparei-me para entrar, mas Jimmy agarrou meu braço. — Vou ficar aqui fora por um momento. Quero te deixar sozinha com ele por um tempo. Me chame quando estiver pronta. Assenti, percebendo o quanto ele estava ansioso para ver o amigo. — Claro. — Sorri, e ele soltou o meu braço. Chelsea fechou a porta e me guiou até a cama. Não estava esperando minha própria reação, mas senti que a enfermeira me segurava. Eu sabia que quase tinha desmaiado. — Me desculpe — murmurei. Dean não parecia nem metade do homem que eu sabia que ele era. Seu rosto estava quase irreconhecível. Seus dois olhos estavam inchados, fechados e feridos. Suas faces também estavam inchadas e cheias de hematomas. Precisei de toda minha força para continuar de pé. — Você está bem? Não tinha percebido antes, mas minha mão estava agarrada ao meu peito. Talvez eu estivesse tentando segurar meu coração no lugar. Só de olhá-lo, me sentia despedaçada novamente. Ele não podia morrer. Eu não iria permitir. — Estou bem — menti. — Só não esperava ver... ver... — Não consegui falar mais nada. Se proferisse mais uma palavra, acho que desabaria. Chelsea deu alguns tapinhas no meu ombro. — Vai levar algum tempo, mas ele chegou até aqui. Sorri, sabendo que era o máximo que ela podia me oferecer. Sabia que não podia me prometer que ele ficaria bem, que tudo iria terminar de forma positiva. Tempo era tudo que tínhamos agora. — Sente-se perto dele. Converse. Faça com que ele saiba que você está aqui. Assenti enquanto ela se afastava. Sentando-me perto da cama, coloquei minha mão sobre a dele, mas estava com medo de parti-lo ao meio. Não consegui não rir com essa analogia. Dean era inquebrável, então, como eu poderia me preocupar se deveria ou não segurar sua mão? Parecia algo sem fundamento, mas foi o que pensei quando olhei para ele. Agora, eu o considerava uma boneca de porcelana. Cada toque precisava ser suave, o mais gentil possível. Uni nossas mãos, reparando o quanto a minha parecia frágil comparada com a dele. Com um pequeno movimento, ele poderia quebrar meu dedo. Bem devagar, trilhei meus dedos para cima e para baixo, nas costas de sua mão. Ainda sentindo que precisava ser o mais gentil possível.


Ergui os olhos para olhar melhor para ele. Estava conectado a todos os tipos existentes de máquinas. Seu coração estava sendo monitorado, tinha um tubo respiratório inserido e ataduras cobriam seu peito e ombros. Senti uma dor no peito quando me lembrei do que Evan tinha falado sobre marcas de queimadura em sua pele. Como uma pessoa podia fazer isso a outra? E o que tornava tudo pior era saber que Dean tinha suportado tudo isso. Ele foi até lá, provavelmente sabendo que seria torturado, mas foi mesmo assim. Fez isso para salvar nosso filho. — Dean... — suspirei. Era difícil colocar as palavras para fora, mas eu precisava fazer isso. — Na última vez em que estive em um lugar assim, foi um dos piores dias da minha vida. Achava que já tinha sentido dor antes, mas nada se compara a hoje. Nada se compara a te ver assim. Perdi um dos meus melhores amigos naquele dia. Por favor, não me faça perder outro. Não posso aguentar muito mais. Não quero mais isso, Dean. Não quero continuar a viver a vida pensando se vou te perder novamente. Você precisa lutar, precisa ficar vivo, e precisa fazer isso por mim. Por Jeremy. — As lágrimas deslizaram por meu rosto, e eu tentei secá-las com apenas uma mão. Não ousaria de forma alguma usar a outra e ter que soltá-lo. — Além disso — eu disse, rindo um pouco — você ainda tem que me bajular muito para eu te perdoar. — Ri um pouco mais, mas logo fiquei triste quando fui confrontada pelo som das máquinas que o mantinham vivo. — Sabe no outro dia, quando fui ao shopping com Jeremy? Bem, no caminho para lá, uma música começou a tocar no rádio e algo fez com que eu prestasse atenção em cada palavra da letra. Quando ela terminou, foi que percebi que tinha sido feita para mim. Era minha música para você. É por isso que você ainda não pode me deixar, Dean. Nossa música ainda não terminou. Não vai terminar nem em um milhão de anos. Peguei minha bolsa e procurei meu telefone dentro dela. — Assim que descobri quem cantava, fiz o download para meu telefone para que um dia, no momento certo, pudesse tocá-la para você. Acho que agora é um bom momento. — Olhei para baixo, na direção do telefone e procurei nas minhas músicas. Não demorou muito para que eu chegasse àquela que queria. Com um suspiro, abaixei o volume um pouco e pressionei PLAY. Fechei meus olhos, quando a bela voz de Ella Henderson começou a cantar. Fiquei ali sentada, ouvindo, com lágrimas deslizando pelo meu rosto. Inclinando-me, beijei as costas da mão de Dean. — A música se chama “Yours”. Acho que você vai perceber o porquê de ela ser minha música para você. Sou sua, Dean. Sempre fui e sempre serei. Você me pediu várias vezes para não ignorar esse fato e te aceitar em meu coração. Já o aceitei. Aceitei você, porque sou sua. Nunca houve outra pessoa além de você. — Senti um soluço rasgar o meu peito ao pensar que poderia nunca ter a chance de dizer isso a ele. — Você veio até aqui para me encontrar, Dean. Bem, agora você me tem. Não ouse desistir de mim. Você precisa acordar para que eu possa te dizer durante todos os dias das nossas vidas que eu sou sua. Você precisa ficar e ouvir isso. Preciso que fique. — Agarrei os lençóis ao lado da cabeça dele, enquanto minha respiração ficava mais pesada. — Por favor, Dean. Você não pode desistir. Precisa ficar aqui por mim. Por nosso filho. Ele precisa de você. Ele te ama. Não podemos viver sem você. Respirei fundo algumas vezes e apertei sua mão. — Jimmy está esperando lá fora. Ele quer te ver, mas também queria que tivéssemos alguns momentos a sós. Acho que ele está esperando que eu ameace sua vida caso ouse me deixar, então, se prepare, pois ele vai dizer o mesmo quando entrar. — Ri novamente só de pensar.


— Não vou ameaçar sua vida, mas quero que saiba uma coisa. Se você não lutar por ela, Dean, vai acabar partindo meu coração novamente. Você quer isso? Quer me ver despedaçada novamente? Porque é isso que vai acontecer se você me deixar. Você prometeu que me daria o mundo se pudesse, mas eu não quero o mundo. Só quero você. Se há alguma coisa que queira me dar, que seja você. — Inspirei fundo e tentei ao máximo expirar com calma. Era difícil despejar meu coração assim, e era exaustivo também. Só queria que ele estivesse acordado para me ouvir. Depois de alguns minutos tentando me acalmar, beijei sua mão, sorri e me levantei. — É melhor eu ir e trazer Jimmy. Ele deve estar andando de um lado para o outro lá fora. — Parei por um momento e fechei meus olhos. — Eu te amo, Dean... mais do que posso expressar. *** Não houve nenhuma mudança no dia seguinte. Era de partir o coração, mas eu continuava dizendo a mim mesma que nenhuma mudança significava que ele estava vivo. Ainda estava respirando. Desde o dia anterior, fui em casa muito rápido para ficar um pouco com Jeremy. Eu estava despedaçada. Jeremy precisava de mim, mas, ao mesmo tempo, eu precisava ficar no hospital com Dean. Surpreendentemente, Jeremy estava muito calmo depois de seu sequestro. Na verdade, estava brigando comigo porque queria ver Dean. Eu daria qualquer coisa para deixá-lo ver o pai, mas não agora. Não quando ele estava tão mal. Até eu ficava assustada ao olhar para ele, imagina como não seria para nosso filho de três anos? No final das contas, precisei dizer a Jeremy que crianças abaixo de doze anos não eram permitidas na UTI, e que ele precisava esperar até Dean estar bem o suficiente para ir para o quarto. Depois de passar algum tempo em casa, voltei para o hospital, prometendo a Jeremy que voltaria assim que pudesse. Assim que cheguei lá, encontrei Jimmy saindo da UTI. Ele apontou lá para dentro. — O tio dele acabou de chegar. Deixei-o com Dean por alguns minutos. Assenti. — Ok. E você, Jimmy? Por que não vai para casa, come alguma coisa e descansa? Jeremy está sentindo sua falta. — Sorri para ele, que sorriu de volta. — Está? Assenti com uma risada. — Foi o que ele me disse. Jimmy passou a mão por seus cabelos loiros. — Acho que é melhor eu dar uma olhada no nosso amiguinho, então. — Ele piscou para mim. — Não deixe que ele te ouça falando assim. Você sabe como ele fica quando alguém se refere a ele no diminutivo. Ele riu. — Como ele está? Suspirei. — Ele está lidando com tudo surpreendentemente bem, considerando os fatos. Ele não para de me importunar para trazê-lo ao hospital. Está desesperado para ver Dean. Jimmy sorriu levemente para mim.


— Acho que ele deve estar muito confuso no momento. Ele disse alguma coisa? Balancei a cabeça. — Não, nada. Nem mencionou o fato de que sabe que Dean é pai dele. Não mencionou nada. Só continua dizendo que quer ver P.D.. E também não me contou o que isso significa. — Balancei a cabeça novamente, confusa. Jimmy riu. — Tenho certeza que ele vai revelar um dia. Se não, acho que Dean e eu vamos ter que enchê-lo de cosquinhas. Gargalhei. — O problema é que eu acho que Jeremy adora isso. Jimmy sorriu. — Bem, você sabe... dizem que cosquinha é uma forma de tortura. Tenho certeza que vamos acabar conseguindo arrancar isso dele. — Ele me viu estremecer e rangeu os dentes. — Merda. Me desculpe. Não estava pensando. Coloquei minha mão em seu ombro. — Tudo bem, Jimmy. É sério, estou bem. Ele balançou a cabeça. — Merda. Acho que é melhor que eu vá embora antes que saia outra merda dessas da minha boca. Dei alguns tapinhas em suas costas. — Não se preocupe com isso, Jimmy. É sério. Vá descansar. Ele olhou para mim com ansiedade. — Se houver qualquer notícia... — Prometo ligar para você. Não se preocupe com nada. Vou cuidar das coisas por aqui. — Jimmy me deu um beijo no rosto e saiu. — Ah, Jimmy? — Ele se virou. — Sei que já falei isso para Tara, mas pode dizer a ela o quanto estou grata por ela estar cuidando de Jeremy para mim? Jimmy sorriu. — Eu sei, mas tenho certeza que ela não está se incomodando nem um pouco com isso, Tyler. Somos família agora, cuidamos uns dos outros. Família fica unida. — Ele piscou, acenou com a mão e saiu. Assim que Jimmy ficou fora do meu campo de visão, sentei-me, dando tempo suficiente para Humphrey ficar com o sobrinho. Eu não sabia o que esperar assim que ele saísse pela porta. Será que ele me reconheceria? Será que me trataria bem? Ele surgiu, então, parecendo exatamente como eu me lembrava, com seu cabelo prateado e seu bigode pontudo. Parecia muito inteligente, mas casual, vestindo calças bege e uma blusa com os primeiros botões abertos. No minuto em que seus olhos pousaram em mim, eu soltei: — Finalmente nos conhecemos, Alfred Pennyworth. — Por que falei uma coisa assim? Fiquei me perguntando se ele iria gritar comigo, me agredir ou algo assim. Ao invés disso, seu bigode curvou-se nas pontas, formando um enorme sorriso. — Sim. Só acho que o Mestre Wayne não está podendo cumprir com suas tarefas de Batman no momento. Soltei a respiração que estava prendendo e sorri para ele. Humphrey estendeu a mão.


— Humphrey Scozzari, ao seu dispor, minha senhora. Ergui minha mão e Humphrey delicadamente segurou meus dedos. Inclinando-se, ele depositou um beijo ali. — Não me admira que Dean tenha perdido a cabeça por você. — Ele piscou, e eu me vi corando. — Ah, e agora estou conhecendo a Rosadinha. É um prazer conhecê-la também. Eu ri. — Alguma vez Dean já te disse que você é um conquistador ultrajante? Humphrey riu. — Sim, mas é assim que nós, Scozzari, somos. Sabemos como apreciar uma linda mulher. Ergui minha sobrancelha. — Hummm... você não acha que Dean ia ficar um pouco irritado se soubesse que está apreciando a mulher dele? Humphrey sorriu abertamente. — Sim. Me pergunto como ele reagiria se soubesse. — Humphrey piscou para mim novamente, e eu compreendi que tipo de relação ele e o tio tinham. — Então, Srta. O’Shea, você se considera mulher de Dean? — Ele ergueu a sobrancelha para mim. Senti minhas faces corarem. — Será que algum dia deixei de ser? — Imaginei que Humphrey conhecesse nossa história. Humphrey sorriu. — Acho que não. Suspirei. — Bem, é bom conhecê-lo finalmente. Embora eu preferisse que estivéssemos em circunstâncias diferentes. Humphrey assentiu e pareceu um pouco triste. — Sim. Não são as melhores circunstâncias. — Ele olhou para a porta da UTI e apontou. — Você quer entrar? Tenho certeza que deve querer vê-lo, e, para ser honesto, gostaria de conversar um pouco mais com você. Assenti. — Claro. Entramos e fomos recebidos por uma enfermeira diferente daquela vez. Eu a reconhecia, mas não me lembrava de seu nome. Quando nos colocamos ao lado da cama de Dean, ele estava exatamente como eu o tinha deixado. Partido. Machucado. Eu só esperava que se seu corpo se curasse, acontecesse o mesmo com sua mente. Humphrey gesticulou para que eu me sentasse. — Para ser honesto, já venho querendo conversar com você há algum tempo. Ergui minha sobrancelha. — É mesmo? Ele se apoiou no parapeito da janela. Olhando para ele, vi que parecia mesmo com o gângster que provavelmente era. Apesar de sua idade, dava para ver que se cuidava. Obviamente tinha um coração jovem... mesmo com aquele bigode. Ele olhou pela janela por um momento, mas eu tive um vislumbre de seu rosto. Parecia em conflito, até mesmo magoado. Eu só esperava que ele estivesse tentando lidar com o fato de que seu sobrinho talvez não sobrevivesse.


Depois de algum tempo, ele suspirou e olhou para mim. — Quero me desculpar com você. Meus olhos se arregalaram. — Desculpar? Por quê? Ele começou a mexer nos próprios dedos. — Por tudo que aconteceu, senhorita O’Shea. Pisquei rapidamente, sentindo minha pulsação acelerar. — Não acho que haja nada para ser desculpado, e também acho que você pode parar de me chamar de senhorita O’Shea. Meu nome é Tyler. Humphrey suspirou e fechou os olhos. — Eu sei. E é isso que me dói. O nome Tyler, por muitos anos, foi uma fonte de ódio desnecessária em minha casa. O nome é uma lembrança de algo imperdoável que aconteceu. Não sei como você consegue suportar o nome Scozzari. Por um momento fiquei olhando para ele, incapaz de dizer uma única palavra. — Eu o amo. — As palavras escaparam como se fossem o único argumento contra o que Humphrey estava dizendo. Eu sabia que Dean estava arrependido, e dava para ver que seu tio também. Humphrey suspirou e assentiu, olhando através da janela novamente. — Eu sei. Sei, tanto quanto sei que Dean te ama. Sempre foi apaixonado por você, mesmo quando acreditava que você o tinha traído. Observei-o por um tempo, conforme um sentimento inquietante entrava pela boca do meu estômago. — Mas, então, por que você parece tão infeliz? Sendo tio dele, será que a felicidade de Dean não significa alguma coisa para você? Ele virou a cabeça na minha direção. — É claro que significa. Só acho que ele foi longe demais com você. Avisei isso a ele, mas o babaca teimoso nunca me ouvia. Relaxei um pouco e sorri. — Talvez ele comece a te ouvir mais no futuro, quem sabe? Humphrey sorriu de volta. — Não tenho certeza se estou na melhor posição para aconselhar alguém. Mas é que eu estava vendo de fora. Eu sabia que ele estava indo longe demais, e quanto mais longe ia, mais eu sentia que o perdia. Você sabe, Dean é inteligente e tem uma mente sagaz quando não se preocupa com ninguém. Ele avançou rapidamente vários degraus simplesmente porque era bom no que fazia. Era muito melhor que os pais, e eu acho que isso tem a ver com o fato de que não se importava com ninguém. Não havia ninguém para enfraquecê-lo. No minuto em que ele começou a brincar com fogo e envolver você, foi o momento em que tudo mudou para ele. Não fazia mais escolhas certas. Nada terminava da forma como ele previa. Tentei dizer isso a ele, mas você acha que ele me ouvia? — Humphrey ergueu as mãos em frustração. Ele olhou para Dean por um momento, e então voltou-se para mim. — Você realmente o perdoou por tudo que ele fez? Olhei para Dean e depois me virei para Humphrey. — Sim... sim. Perdoei. Humphrey suspirou e se inclinou na minha direção. Pegou minha mão na dele e a apertou. — Você acha que poderia fazer o mesmo favor a um velho como eu?


Ele sorriu, e eu ri. — Nem precisa pedir, Humphrey. Ele deu alguns tapinhas na minha mão. — Ótimo. Você é uma mulher melhor do que Dean descreve, e sempre será protegida, até os confins do universo, pelos homens da família Scozzari. Posso te prometer isso. — Ele olhou para Dean novamente. — Será que eu consigo te roubar de Dean antes que ele acorde? Posso ser um pouco mais velho do que você, mas ainda consigo me mexer como os melhores. — Humphrey piscou para mim e olhou novamente para Dean. Eu ri. Se falar comigo desta forma fizesse Dean acordar, eu aceitaria. *** Uma semana depois, eles permitiram que Dean saísse da UTI. Ainda estava inconsciente, mas parecia melhor a cada dia. Seus sinais vitais estavam ficando mais fortes, e seu rosto não estava mais tão inchado ou ferido. Todos nós respiramos aliviados com a notícia. Com isso, eu pude levar Jeremy para ver o pai. Por mais que Dean já estivesse muito melhor, o estresse pelo qual Jeremy passou somado ao estado de Dean podiam levá-lo ao limite. Eu estava nervosa, me remexendo e tremendo durante a manhã inteira. Estava tentando fazer um bom café da manhã, mas minhas mãos não paravam de tremer. Tara teve que assumir o controle. — Vai ficar tudo bem. Pare de se preocupar tanto. Suspirei, inclinando-me na direção do balcão. — Não consigo evitar. Estou muito preocupada com a forma como Jeremy está levando as coisas. — Sua risada de repente soou no quarto ao lado, onde Jimmy estava brincando com ele. — Só acho que está lidando com tudo muito bem. Ele foi sequestrado, pelo amor de Deus. Não tem nem quatro anos de idade, mas está gargalhando no outro quarto. As sobrancelhas de Tara se ergueram, enquanto ela pegava uma faca na gaveta. — Você estaria se sentindo melhor se ele estivesse chorando e gritando pelos cantos? Deixei escapar um suspiro frustrado. — Não, é claro que não, mas queria ao menos ver que ele sente algo. Só estou com medo que ele sinta, mas que não esteja me contando. Tara colocou a faca sobre um prato e se aproximou de mim. Colocou as mãos nos meus braços e os acariciou gentilmente. — Talvez Jeremy só seja forte, como sua mamãe e seu papai são. Já pensou nisso? Ele não é de guardar as coisas para si, Jessica. Se tivesse algo a dizer, já teria dito. — Ela ergueu uma sobrancelha. — Você não lembra que quando ele viu uma moça grávida na semana passada, apontou para ela e disse: “Sei o que você fez”? Ou na outra vez, quando ele foi ao restaurante e, no final do jantar, agarrou uma das notas de cinco que deixamos de gorjeta, colocou no decote da garçonete e disse: “Aqui está, Wendy. Vá comprar algo bonito para você” e simplesmente saiu? — Ela balançou a cabeça com um sorriso. — Esse menino não tem medo de dizer o que pensa. Nós duas começamos a rir, e eu me senti estremecer um pouco. — Sim, eu acho que você está certa. Ela assentiu e continuou a passar manteiga na torrada. — Quando estiver pronto, ele vai falar, e você vai ter que lidar com isso como sempre lida com as coisas. Ele é seu filho. Vai ser natural. — Tara sorriu e desviou o olhar, para continuar a preparar o café da manhã.


Era engraçado pensar no quanto você cresce quando se torna mãe. Por anos, eu sempre precisei pensar apenas em mim mesma. Agora eu tinha mais alguém em quem pensar. Na verdade, sempre pensava mais em Jeremy. Ele me dominou completamente no momento em que nasceu. *** Assim que terminamos de tomar o café, eu e Jeremy saímos para o hospital. Humphrey tinha me enviado uma mensagem bem cedo de manhã avisando que estava lá. Eu estava feliz por tê-lo por perto, porque comigo, Jimmy e Humphrey, sempre tinha alguém para ficar com Dean. Ele podia estar fora de perigo, mas ainda estava se recuperando da cirurgia. Logo que chegamos na enfermaria, Jeremy soltou minha mão e correu para o quarto de Dean, mas parou, mortificado, quando viu Humphrey e franziu o cenho. — Mamãe, tem um homem com cabelo muito engraçado na cara sentado ao lado do P.D.. Humphrey riu e olhou para mim. — Imagino que este seja Jeremy. — Assenti. — É um prazer te conhecer, Jeremy. Sou Humphrey, tio de Dean. Jeremy foi em direção a ele e apertou sua mão, mas logo seus olhos se voltaram para Dean. Ficou parado por um momento, estudando Dean com uma carranca. Então, foi em direção a cama e estendeu as mãos para mim, para que eu o erguesse. Fiz isso, mas pedi que tivesse cuidado. Observei enquanto Jeremy tocava o rosto de Dean. — Foi o homem mau que fez isso? Meus olhos se arregalaram um pouco, porque era a primeira vez que Jeremy fazia qualquer referência ao que tinha acontecido. — Sim. — Não podia mentir para ele. O que diria? Que ele tinha caído da escada? — O homem mau já foi embora? Assenti novamente, sorrindo. — Sim. Ele não vai machucar ninguém nunca mais. Jeremy assentiu. — Que bom. — Ele olhou para Dean mais uma vez, antes de acariciá-lo um pouco. — P.D., acorde para que você possa brincar comigo. Comecei a rir. — Jeremy, ele está descansando. Não vai te ouvir, porque ele precisa dormir. Isso é muito importante para que ele se cure. Jeremy inclinou a cabeça um pouco, enquanto continuava a observar. — Ele disse que ia tentar voltar para casa. Disse que estava feliz por eu ter encontrado ele. Senti lágrimas nos meus olhos. — Ele está mais do que feliz por causa disso, Jeremy. Jeremy olhou para Humphrey. — P.D. me chama de garotão. Humphrey sorriu. — Gosto disso. Você é mesmo um garoto grande para seus... Quantos anos tem


mesmo? Vinte e seis? Jeremy gargalhou. — Não, seu bobo. Tenho quase quatro. Humphrey arfou. — Quatro? Uau! Você é mesmo um garotão. — Ele olhou para mim, e depois para Jeremy. — Então, agora que sabemos o seu apelido, poderia nos dizer o que significa P.D.? Virei minha cabeça na direção de Jeremy, esperando, me perguntando se ele iria revelar o segredo. Por um momento, ficou em silêncio, só olhando para Dean. — Papai Dean.


Capítulo Vinte e dois Dean Tentar esquecer torna o exílio ainda mais longo; O segredo da redenção está nas nossas lembranças. Richard Von Weizsaecker

Em algumas ocasiões, eu estava consciente. Ao menos achava que estava. Lutava para abrir os olhos, mas a escuridão esmagadora me dominava e eu voltava para o nada. Às vezes eu tinha consciência de que Jeremy estava lá. Ouvi quando me chamou de papai, e foi o melhor sentimento no mundo, mas também o pior. Eu estava ali por uma razão, porque tinha colocado minha família em perigo. Eu. Isso me dilacerava. Tyler tinha fugido de tudo isso e eu a persegui sem cessar. Recompensei-a colocando ela e Jeremy em perigo. Às vezes, quando a escuridão surgia, eu lhe dava boas-vindas, pois me dava tempo para pensar. Ganhava tempo para refletir sobre tudo que tinha acontecido e para me afundar na culpa que me consumia a cada momento. Eu tinha falhado como pai e companheiro. A única coisa que eu pensava que sempre poderia fazer, ser um pai e um marido protetor, não consegui. Eu era patético. Eu era uma farsa. Eu estava envergonhado. Envergonhado de mim mesmo, envergonhado por ter falhado no que realmente importava. Como poderia prometer o mundo para Tyler agora? Por várias vezes, a única coisa que provei a ela foi que não era capaz de manter minha palavra. Eu sabia que Jimmy estivera aqui três vezes, e meu tio, também. Ouvi seu tom zombeteiro quando Tyler estava aqui. Ouvi quando flertou com ela, e eu soube que estava tentando me provocar. Na verdade, eu o ouvi falando o quanto ela era linda e que se algum dia cansasse de mim, sabia onde ele estava. Queria gritar com ele. Queria mandar que tirasse aquelas mãos sujas dela, mas estava inerte. Por saber que ela estava no quarto, ficava inerte. Então, me deixei desabar novamente. No momento seguinte em que acordei, lentamente abri os olhos e vi Humphrey sentado à janela, olhando lá para fora. Tentando o meu máximo, sussurrei: — Se flertar com Tyler mais uma vez, eu juro que vou arrancar sua língua, seu velho. A cabeça de Humphrey virou na minha direção, e ele olhou para mim com um sorriso. — Ah, então você estava mesmo ouvindo. Precisei dizer alguma coisa para te fazer acordar. Quanto tempo mais estava planejando ficar aí? Você não está de férias, seu pedaço de merda preguiçoso. Tentei erguer meu corpo, mas era doloroso. No entanto, não pude evitar rir para ele. Aquele era mesmo Humphrey. — Eu também te amo. — Você acabou de se desencontrar de Tyler. Ela tem vindo todos os dias. Até se


sente culpada todas as vezes que tem que ir embora para cuidar de Jeremy. Não sei por que ela ainda gosta de você. Eu sabia que ele estava brincando comigo, mas suas palavras me atingiram mais do que eu esperava. — Sei disso. — Também conheci meu pequeno sobrinho-neto. Mas eu não ousaria chamá-lo de pequeno. Acho que ele sabe ser tão assustador quanto o pai dele. Sorri. Acho que ele era mesmo um pouco assustador às vezes. Várias vezes, eu e Jimmy tivemos que sentar no cantinho do pensamento, porque falamos, acidentalmente, um palavrão ou fizemos algo que ele considerou errado. E a cada vez, não importava o que tinha acontecido, eu e Jimmy tínhamos que fazer o que ele mandava. — Ele tem uma baita energia, não tem? Humphrey balançou a cabeça. — O que piora tudo é que não há nenhuma dúvida sobre ele ser seu filho. Fora o cabelo, é uma réplica sua. Seus olhos, seu nariz, sua boca... a mesma expressão severa que você tem sempre que está pensando em matar alguém. Bufei. — Duvido muito que Jeremy pense em coisas assim. Humphrey também bufou. — Ele é filho do pai dele, então, quem sabe? Aquele pequeno cérebro poderia estar planejando o próximo grande assalto a banco. Tentei rir novamente, mas meu peito doeu. — Bem, não estou planejando fazer com que ele siga os passos do pai, de forma alguma. Humphrey pigarreou. — Tyler fez um belo trabalho com ele. Sorri. — Fez sim. E, então, eu chego e estrago tudo. Humphrey levantou-se. — Devo ligar para ela? Ela saiu não tem muito tempo. Tenho certeza que não vai hesitar em voltar e... Balancei a cabeça com veemência. — Não. Não quero falar com Tyler agora. Quero que encontre o cirurgião que me operou. Os olhos de Humphrey se arregalaram. — Você quer dizer o ex da Tyler? Fiquei sabendo disso. Dou o maior apoio para você bater no ex dela, mas tem certeza que quer fazer isso com quem salvou sua vida? Ergui minha mão. — Porra, eu não vou bater nele, Humphrey. Você reparou que estou incapacitado no momento? Só preciso conversar com ele sobre uma coisa. E preciso que resolva algumas coisas para mim, por favor. Os olhos de Humphrey se arregalaram novamente. — Porra, deve ser sério. O garoto pediu até por favor. Balancei minha cabeça com um sorriso.


— Não brinque comigo, velho. Tomei uma decisão, e acredite em mim quando eu digo que é a decisão mais difícil que já tomei na vida. O sorriso de Humphrey desapareceu, enquanto olhava para mim com uma expressão séria. — Ok, Dean, farei qualquer coisa que precisar. Vou buscar o médico para você.


Capítulo Vinte e três Tyler Duas semanas tinham se passado, e as coisas começaram a ficar estranhas. Eu continuava indo visitar Dean no hospital, mas ele continuava inconsciente. Humphrey andava muito quieto e, às vezes, eu o via olhar para mim com um olhar sombrio. Às vezes desaparecia, mas não conseguia relaxar. Ontem, quando o visitei, Humphrey me abraçou quando eu saí e pediu que eu cuidasse muito bem de mim. Franzi o cenho e perguntei por que ele estava pedindo isso, mas ele apenas deu de ombros e disse que precisava comer e dormir um pouco mais. Ele até brincou que Dean não merecia todo o estresse e que fugir com ele seria a melhor opção. Nós rimos, mas não tirou de mim o sentimento de que algo estava errado. Na verdade, eu achava que estava tudo tão errado, que estava me arrumando para ir vê-lo muito mais rápido do que o normal. Jeremy queria ir, mas algo estava me dizendo para não levá-lo. No final das contas, dei uma desculpa de que Jimmy queria brincar com ele na piscina, então, podíamos ir ao hospital mais tarde. Ele pareceu bem satisfeito com isso. Corri para o hospital o mais rápido que pude e peguei o elevador para o segundo andar. Assim que cheguei lá, corri para o quarto de Dean, mas quanto mais me aproximava, mais aquele sentimento estranho se apoderava de mim. Assim que cheguei na porta, respirei fundo e a abri. Entrei e vi a cama vazia. Não havia ninguém ali. Não havia nada que sugerisse que alguém esteve ali. A cama já estava até feita com novos lençóis. Ouvi um barulho atrás de mim e quando me virei, vi Evan ali parado, parecendo envergonhado. Meu pânico aumentou. — Evan? — Meus olhos se encheram de lágrimas. — Por favor, não me diga que ele... Ele balançou a cabeça. — Não. Ele... er... — Ele colocou a mão na nuca, e foi quando eu vi que tinha uma carta nas mãos. — Ele saiu esta manhã com o tio. Voltaram para a Inglaterra. Meus olhos se arregalaram, enquanto lágrimas caíam. — Mas ele está doente. Não pode voltar. — Disse a ele que precisava ficar por mais duas semanas, e depois disso ele foi considerado apto para voar. Vai receber mais cuidados quando chegar em casa. Balancei a cabeça, perguntando a mim mesma se tinha ouvido corretamente. — Me desculpe? Ele disse isso há duas semanas? Todas as vezes que vim visitá-lo ele estava inconsciente. Evan mordeu o lábio e olhou para baixo. — Ele recuperou a consciência umas duas semanas atrás. Só estava esperando o momento de voltar para Londres. Cambaleei um pouco e me segurei na cama. Sentei-me na beirada dela e só olhei para o nada. Como ele podia ter feito isso comigo? Pensava que era isso que Dean queria. Ele me perseguiu, pelo amor de Deus! Não foi o contrário. Voltou para mim só para partir meu coração de novo... e agora dava o fora? Aquele bastardo!


Fora do meu campo de visão, vi Evan gesticulando com sua mão. Ergui os olhos e pude ver que ele estava segurando uma carta. — Ele me pediu para te entregar isso. Assenti e peguei-a dele. Não queria dizer nada, porque não queria me arrepender. Estava irritada com ele. Estava irritada com Humphrey. Mas, principalmente, estava irritada com Dean por ser um covarde e ter fugido. Ele deveria ter ficado e me enfrentado. Ao invés disso, ele usou Evan e Humphrey para lhe dar cobertura para que pudesse planejar sua fuga. Sim, não dizer nada era a melhor ideia. Assim que peguei a carta das mãos de Evan, ele ficou ali parado por um momento, me observando. Já que eu não disse nada, ele pigarreou. — Acho melhor que eu volte ao trabalho. Ele saiu pela porta, me deixando com a carta nas mãos. Parei por um momento e tirei a carta do envelope. Então, a abri e comecei a ler. Tyler, Agora você já deve saber que me recuperei o suficiente para ir para casa. Sei que deve estar irritada com Evan por ter mantido segredo, mas, por favor, não fique. Ele quer o que é melhor para você, tanto quanto eu, e foi por isso que decidi ir embora. Falhei com você e com Jeremy, e nada neste mundo vai compensar as mágoas que causei, o perigo que proporcionei e a inimaginável dor que você sentiu quando aquele filho da puta sequestrou nosso filho. Sei que te decepcionei da pior forma, e estou muito arrependido. Se ao menos tivesse uma varinha mágica que pudesse fazer com que tudo fosse desfeito, eu faria qualquer coisa... mas não posso. Sou um homem egoísta, Tyler. Persegui você sem cessar, porque pensei em minhas próprias necessidades, esquecendo as dos outros. Foi esse egoísmo que levou o perigo até você, o que, para mim, não tem desculpa. Nunca vou me perdoar pelo que fiz a você, e pelo que fiz a Jeremy. Vocês ficarão melhor sem mim. Na verdade, já estavam melhor sem mim. Você criou um menino lindo e inteligente, e estou extremamente orgulhoso disso. Nunca vai faltar nada ao nosso filho, e eu posso ir embora sabendo que ele tem a melhor mamãe do mundo. Vou ajudar você, Tyler. Prometo isso. Vou mandar dinheiro uma vez por mês para que você tenha tudo que precisa para criar nosso filho. Tudo que você precisar, é só me pedir que conseguirei para você. Isso, pelo menos, eu posso prover. Você queria que eu fosse embora porque temia por nosso filho, e você estava certa em sentir medo. Estava certa em me afastar. Prometo que dessa vez irei embora e você nunca terá que temer novamente. Poderá viver uma vida despreocupada com Jeremy, sem preocupações constantes. Você pode aprender a amar novamente e ter um homem que cuidará de você, da forma como merece ser cuidada. E, Tyler, você precisa se certificar de que ele te merece. Se não, eu terei que caçá-lo e quebrar as pernas dele! Vou sentir sua falta, Rosadinha. Vou sentir tanto que chega a doer... mas você precisa entender tanto quanto eu que o certo é que fiquemos separados. Só vou te trazer dor. Sofrimento. Perigo. Gostaria que estivesse errado, mas nós dois sabemos que não estou. Me desculpe. Diga ao garotão que tenho orgulho dele e o quanto o Papai Dean dele o ama. Seja feliz, minha preciosa Rosadinha. D.


Fiquei sentada na cama, com lágrimas correndo por meu rosto. Estava chocada e magoada, mas, principalmente, estava irritada. Na verdade, quanto mais tempo passava, mais a raiva crescia. Então, amassei a carta e me levantei. — Você acha que pode tentar fugir para não agir como um homem e me falar tudo isso cara a cara, Dean? Acho que você vai ter uma surpresa!


Capítulo Vinte e quatro Dean Não acredito que um mundo é um lugar particularmente bonito. Mas acredito na redenção. Colum McCann Três semanas depois Pensei que ficar sem Tyler fosse ficar mais fácil com o tempo, mas estava apenas me enganando. Quando é que ficaria menos difícil? Várias vezes durante as últimas três semanas, já tinha quase reservado um voo para voltar para ela para implorar seu perdão, mas uma parte egoísta de mim queria o que eu não podia ter. Escrever aquela carta quase me matou. Eu me senti morrer por lhe dar permissão para amar outro homem. E me levou quase ao limite quando pedi a Evan que tomasse conta dela. Dei permissão para que cuidasse do que é meu. Ela sempre seria minha, não importavam as circunstâncias. Eu me culpava por pedir a ele para fazer aquilo sob os analgésicos. Cerrando os punhos, sorri ao pensar que ela poderia estar com ele agora. Cada parte de mim ainda sentia dor por causa da tortura física que sofri pelas mãos daquele merdinha do Pinzano, mas nada disso chegava perto do tsunami emocional que me derrubava a cada porra de dia por saber que não poderia ficar com ela. Lembranças de nós dois, antigas e novas, me consumiam. Na verdade, eu andava pensando muito em nossa infância. Cheguei a ir ao parque onde costumávamos ir, em Buckinghamshire. Estava exatamente como eu me lembrava, mas algumas mudanças tinham sido feitas. O parque infantil estava um pouco enfeitado e parecia que havia mais plantas e flores do que eu me lembrava. Era agosto, e fazia um belo dia de sol. Pais estavam lá com seus filhos, brincando nos balanços e eu estava sozinho. Observando. Pensando. Lembrando. Caminhei na direção de um enorme lago, no qual eu me lembro que joguei pedras quando era criança. Por instinto, pequei uma e fiz exatamente isso. Observei enquanto ela quicava na água até desaparecer. — Você perdeu a prática. Girei minha cabeça só para ver Tyler ali parada, em um lindo vestido floral. Ela estava fantástica, mas sempre foi. Seu cabelo loiro estava cheio de ondas, levemente despenteado, daquele jeito sexy que eu sempre adorei. Porra, como eu senti falta dela. Gaguejei antes de dizer qualquer coisa, mas ela me impediu. De repente, pareceu muito irritada. — Acho que precisamos ter a porra de uma conversa. — Tyler, eu... Ela começou a caminhar na minha direção, com o dedo apontado para mim. — Não venha com essa merda de “Tyler, eu”, seu babaca. Como ousa me deixar? Como ousa voltar, dizer que me ama novamente e dar o fora? Como ousa...


Enquanto ela me passava um sermão, eu só conseguia pensar no quanto ela era linda, no quanto parecia sexy. Tyler era sempre sexy como o inferno, mas quando estava irritada? Porra, só me dava vontade de jogá-la contra o objeto mais próximo e arrancar suas roupas. Então, sem pensar, diminuí a distância entre nós, e ela recuou. — Conheço esse olhar. Não ouse, Dean. Sorri para ela. — Que olhar? Ela balançou o dedo na minha direção e eu grunhi. — Aquele olhar de quando você está prestes a me agarrar. Ainda estou irritada com você. — Rosadinha, pode apontar esse dedo na minha direção mais uma vez. Só quero que me dê mais um motivo. Vamos lá, amor. Só mais um motivo. Ela se afastou mais, mas eu continuei avançando. — Estou te avisando, Dean. — Porra, será que você não vê o quanto é sexy? Ela mordeu os lábios. — Dean! — ela grunhiu. Lambi os meus. — Estou esperando, Tyler. Estou esperando por uma coisa que sei que pode me dar. Só. Mais. Um. Motivo. — Se me tocar, Dean, eu vou gritar. — Seus olhos se arregalaram, enquanto ela se encostava em uma árvore. Ergui minha sobrancelha e me juntei a ela. — Está exatamente onde eu te queria. Capturei seus lábios com os meus, saboreando seu gosto, sentindo seu cheiro, consumindo sua alma. Eu estava como um animal faminto que tinha ficado sem comida por semanas. Precisava dela tanto quanto precisava de comida. Como tive coragem de deixá-la? Tyler gemeu, afundando as unhas nas minhas costas. Arqueei, mas aquele pequeno movimento causou um pouco de dor no meu peito. Gemi, e ela parou abruptamente. — Me desculpe. — Sua respiração estava pesada, enquanto buscava em meus olhos sinais de que tinha me machucado. Mas ela nunca poderia me machucar. Não daquela forma. Pousei minha testa na dela e balancei a cabeça. — Você nunca precisa se desculpar, Tyler. Eu preciso. Me desculpe por tudo. Ela colocou o dedo em meus lábios. — A única coisa pela qual deve se desculpar é por ter nos deixado para trás. Você realmente achou que poderia se tornar uma parte de nossas vidas para depois ir embora sem nem olhar para trás? Você realmente achou que eu deixaria você ir embora... ou que Jeremy deixaria? Gemi e olhei ao meu redor. — Como ele está? Onde está? — Está no parque, com Tara e Jimmy. Está bem. Sorri. — Jimmy e Tara estão com você? Ela assentiu. — Louisa vai se casar amanhã, então, eu tinha que vir para isso. Tara queria


conhecer a Inglaterra, e Jimmy precisava resolver a questão de seu visto para os EUA. Acho que ele está planejando ficar por lá por um tempo... embora não esteja lá muito contente com você. E nem Jeremy. Acho que o cantinho do pensamento está esperando por você. — Ela sorriu. — Estou muito contente que ele já tenha escolhido seu castigo. Com certeza ela estava. — Ele me odeia? — sussurrei. Tyler pareceu ficar triste, mas balançou a cabeça. — Não, ele não te odeia, Dean, mas está confuso. Não entende por que você foi embora. Está um pouco magoado, mas a necessidade de te ver compensa todo o resto. Suspirei, me sentindo como um pedaço de merda. Claro que eu o tinha magoado. Era isso que eu fazia sempre. — Posso vê-lo? Tyler ergueu as sobrancelhas. — Isso depende. Você vai fugir de nós novamente? — Mas como você pode me... Ela acariciou meu rosto, impedindo que eu continuasse a falar. — Com suas verrugas e tudo o mais. Lembra? Ela sorriu, e meu coração se acelerou. Só havia uma resposta para dar a ela. — Então, eu nunca mais vou sair do seu lado. Prometo. Tyler sorriu. Vi um rastro de lágrimas em seus olhos, mas ela parecia determinada a não mostrá-las para mim. — Então, está resolvido. Você é uma porra de um babaca, mas eu vou te castigar merecidamente. Por enquanto, acho que podemos fingir que está tudo bem para que você possa ver o seu filho. Estou ansiosa por isso. Meu pau imediatamente voltou à vida. A Tyler malvada era sexy demais. E conseguia ler meus pensamentos também. — Não olhe para mim assim. Você ainda está na minha lista negra. Inclinei-me e mordi sua orelha. — Tem certeza que não posso fazer nada para te compensar? Ela estremeceu levemente. Seu corpo sempre a traía. — Não sei. Vou ter que pensar a respeito. Olhei para ela e ergui minha sobrancelha. Eu não tinha dúvidas que ela realmente pensaria. — Leve o tempo que precisar, Rosadinha. Pense com calma e bastante sobre isso. — Ela beijou meu ombro. — Ei, por que isso? Ela bufou. — Você sabe. — Ela conseguiu escapar dos meus braços e murmurou: — Babaca imundo. — Ei, eu ouvi isso. Ela virou o rosto para mim. — Quem disse que eu estava tentando esconder? — Ela pegou a bolsa e o telefone. Pressionando um botão, ela esperou. — Pode trazê-lo. — Pressionou o botão novamente e olhou para mim. — Você está chamando reforços para me dar uma lição? Ela ergueu a sobrancelha.


— Pior. Seu filho. — Acho que eu preferia os reforços — murmurei. Tyler olhou para mim. — Não me tente. Deus, ela estava acabando comigo. — Tem certeza que não temos um tempinho antes de ele chegar? Seus olhos se arregalaram. — Tempo para quê? Eu ri. — Será que tenho que soletrar? Você e eu, naquela árvore... O que acha? Tyler riu. — Em seus sonhos, Dean. Sorri. — Sim, você sempre está neles. Ficamos olhando um para o outro por um tempo. Novamente, era um daqueles olhares que diziam tudo. Tyler e eu raramente precisávamos dizer qualquer coisa quando queríamos nos compreender. Só um olhar era tudo que precisávamos. — P.D.! Desviei os olhos de Tyler e vi Tara à distância. Jeremy estava correndo na minha direção, então, eu me ajoelhei e estendi os braços para pegá-lo. — Garotão! — gritei para ele, enquanto seu sorriso ficava maior do que nunca. Como pude convencer a mim mesmo que conseguiria viver sem isso? Minha família. Meu filho. Jeremy bateu de encontro ao meu peito com força, tirando o meu ar. Senti que ele ficou tenso. — Me desculpa — ele sussurrou no meu ouvido. — Você nunca precisa pedir desculpas para mim, garotão. Eu que tenho que pedir. Me desculpa. Por favor. — Senti minhas barreiras se quebrando e lágrimas começaram a preencher meus olhos. — Senti muito a sua falta. Jeremy se afastou de mim com um sorriso e começou a brincar com a corrente de ouro no meu pescoço. — Mamãe disse que você tinha que vir para a Inglaterra para melhorar. Virei a cabeça para olhar para Tyler, que sorria para mim. Não sei se deveria agradecê-la por ter me salvado da ira do meu filho ou se deveria espancá-la por ter me feito acreditar que ele sabia que eu tinha fugido. Hummm... talvez fizesse as duas coisas mais tarde. Pisquei para ela e olhei para Jeremy, que estava nos meus braços. — Estou melhor agora, Jeremy. Voltei para cá e os médicos me consertaram. Jeremy sorriu. — Isso significa que você já pode voltar para casa? Olhei para Tyler e percebi que ela olhava para mim. De repente, senti que devia dizer: Acho melhor eu voltar, pois sinto que sua mãe vai dar um chute nas minhas bolas se eu não fizer isso, mas me segurei. Ao invés disso, eu assenti. — Sim, já posso voltar para casa. — Seu sorriso se alargou, e eu senti meu coração machucado começar a se curar. — Você gostou da Inglaterra? — Não havia dúvidas de que era a primeira vez que ele visitava o local de nascimento de seus pais.


Seus olhos de repente se arregalaram, como se tivesse se lembrado de alguma coisa. De repente, ele colocou as mãos no bolso e tirou de lá um pacote pela metade de Hula Hoops de cebolas fritas com queijo. — A mamãe me comprou um desses quando saímos do avião grandão. Eu gostei do avião grandão, mas gostei muito mais disso aqui. Eu ri, mas compartilhei um olhar com Tyler. Hula Hoops sempre teve um lugar especial no meu coração. — Então, garotão... Como estão as coisas em casa? — Se ele me dissesse que Evan andava aparecendo, eu iria pessoalmente até a casa dele para dar um tiro nos joelhos dele. Meus pensamentos a respeito de Evan eram muito conflituosos. Ele tinha salvado minha vida, o que me deixava muito agradecido, mas queria odiá-lo. Queria dar um belo soco nele, mas que tipo de monstro eu seria se fizesse isso? — Mamãe andava meio triste, e Jimmy e Tara continuam chupando a cara um do outro. Minha risada saiu naturalmente quando ouvi a parte de Jimmy e Tara, mas não gostei de ter ouvido que Tyler andava triste. Olhei para ela com um sorriso e logo me voltei para Jeremy. Coloquei meu dedo sob seu queixo e olhei em seus olhos. Iguais aos meus. — Bem, não podemos fazer nada em relação a Jimmy e Tara, mas espero poder ajudar sua mamãe a não ficar mais triste. Você gostaria disso? — Eu tinha um plano, e quanto mais pensava nisso, mais meu coração acelerava. Era como um farol me iluminando, e eu não podia ignorar. Não podia trair o destino, e, bem no meio das mãozinhas de Jeremy, estava meu destino. Meu sinal de que tinha que agir agora. Jeremy assentiu. — Eu quero que a mamãe fique feliz de novo. Olhei para Tyler e vi que ela estava com lágrimas nos olhos. Também queria vê-la feliz, e sabia que podia resolver isso. Sabia que eu a fazia feliz, então, por que esperar mais? Decidindo que era agora ou nunca, inclinei-me para sussurrar no ouvido de Jeremy. Não queria que Tyler ouvisse essa parte da conversa. Isso era entre nós. Pai e filho. — Jeremy, posso te fazer uma pergunta? — Senti quando ele assentiu com a cabeça. — Lembra quando você me disse que eu tinha que pedir sua permissão para casar com sua mãe? — Ele assentiu novamente, e meus nervos começaram a dar um nó. Não iria suportar se ele dissesse que não. — Bem, eu quero muito me casar com a sua mamãe. Sempre quis isso. Você pode me dar permissão para pedir a ela? Afastei meu rosto de seu ouvido para poder ver sua reação. Ele estava franzindo o cenho, como se estivesse pensando profundamente. Havia uma pequena ruga na ponta de seu nariz, que era uma gracinha. Me deu vontade de beijá-lo. Mas não podia fazer isso agora. Estava mais do que assustado com seu silêncio. Será que ele ia mesmo dizer que não? De repente, sua carranca virou um sorriso, e ele gargalhou e assentiu. — Sim — ele sussurrou e eu senti meu coração explodir de amor por esse menino. Com um enorme sorriso, olhei para Tyler e vi que ela também estava com o cenho franzido. Estava desconfiada com nossa conversa privada, mas tudo bem. Eu queria o elemento surpresa. Voltando minha atenção novamente para Jeremy, apontei para os anéis de cebolas. — Posso pegar uma das suas cebolas emprestadas, Jeremy? Jeremy balançou a cabeça e abriu o pacote. Com sua mãozinha, vasculhou lá dentro e pegou uma de suas Hula Hoops redondas. Entregou para mim com um sorriso e, naquele


momento, nunca tive mais certeza de algo na vida. Eu não sabia se Tyler iria me aceitar, mas tinha que fazer isso. Precisava ver se ela queria iniciar aquela jornada comigo. Precisava fazer com que acreditasse que eu nunca mais iria sair de perto dela. Dean e Tyler juntos... para sempre. Peguei a Hula Hoop de Jeremy e gentilmente o soltei. — Se você me dá licença, Jeremy. Tenho uma coisa para perguntar à sua mãe — sussurrei. Pisquei para ele, e ele tentou piscar de volta. Seria hilário em qualquer outro momento, mas agora? Agora eu estava prestes a fazer a pergunta mais importante da minha vida, e se ela não me desse a resposta que eu queria, estaria acabado. Levantei-me e encarei Tyler, com a Hula Hoop na minha mão. Seus olhos estavam fixos nos meus e na Hula Hoop. Assim que ela a viu, seus olhos se arregalaram. Acho que já sabia o que ia acontecer. Ajoelhei-me em frente a ela e estendi a mão em sua direção. Tyler imediatamente colocou-a na boca, tentando abafar o pequeno soluço que escapou de seus lábios. Por um momento, pensei que ela não fosse me entregar sua mão, mas lentamente ela colocou-a sobre a minha. Deixei escapar um suspiro que vinha segurando e olhei em seus olhos. Aqueles lindos olhos verdes que me capturaram quando eu era apenas um menino. Aqueles mesmos olhos que via em meus sonhos. — Tyler — comecei. — Acho que você sempre soube que este dia iria chegar. Acho que nós dois pensamos que nunca chegaríamos aqui, mas como poderíamos evitar o inevitável? Eu venho te amando com paixão há vinte e oito anos. Isso nunca mudou. Na verdade, esse amor só fica cada vez mais forte a cada dia. Não sei como isso pode ser possível, mas é a verdade. Você é tudo para mim, Tyler. Sempre foi. Não sei como posso te demonstrar, mas acho que isso é um começo. — Ergui a Hula Hoop, e Tyler olhou para ela com uma lágrima nos olhos. “No seu décimo segundo aniversário, eu prometi que te daria um anel um dia, mas, por ora, vamos ter que usar um desses novamente. Sei que não é um gesto muito romântico, mas não posso esperar mais, Tyler. Estou ansioso por isso. — Vi mais uma lágrima deslizar por seu rosto, e não pude não reparar no quão lindos seus olhos estavam. Eu poderia me perder neles. Segurando seu dedo anelar, gentilmente coloquei a Hula Hoop na ponta e suspirei. Sentia minhas entranhas queimando de nervoso. — Tyler, quando estou com você, sinto que posso respirar novamente. Você nunca saiu daqui — apontei para minha cabeça. — Nem daqui — coloquei a mesma mão sobre o meu coração. — Você pertence a mim, do mesmo jeito que pertenço a você, e quero provar isso te fazendo uma pergunta. E se você me der a resposta certa, vai me tornar o homem mais feliz do universo, porque é você que me faz feliz, Tyler. Sempre fez e sempre fará. — Respirei fundo. — Quer se casar comigo? Tyler sorriu enquanto lágrimas deslizavam pelo seu rosto. Vi que ela olhou rapidamente para Jeremy antes de voltar sua atenção para mim. — Sim — ela sussurrou, e meu coração explodiu de felicidade. Não hesitei com o anel falso. Empurrei-o por seu dedo o máximo que consegui. Ela já não tinha mais doze anos, mas precisava fazer isso até chegarmos em casa para colocar o verdadeiro. Aquele que vinha guardando desde que tinha dezoito anos. Levantei-me e puxei Tyler para os meus braços. — Prometo que nunca vou te deixar. Prometo te amar com todo meu amor. Prometo o mundo a você, Tyler. Acredita em mim? — Ela assentiu, e eu capturei seus lábios nos meus.


Por um momento, ficamos perdidos um no outro, esquecendo do público. — Ugh! Estão chupando a cara um do outro. Não gosto disso. Eu e Tyler nos afastamos e começamos a rir. Nós dois voltamos nossas atenções para nosso filho e sorrimos enquanto o puxávamos para nossos braços. — Então, garotão, o que acha disso? Você se importa se eu ficar por perto... para sempre? Jeremy sorriu e balançou a cabeça. — Quero meu P.D. de volta. — Bem, você o tem agora, garotão. Agora que nos encontramos, nunca vou te abandonar. — Jeremy assentiu com um sorriso, assim que Jimmy e Tara apareceram. — Então, estamos resolvidos agora? — Tara perguntou. Tyler mostrou o dedo. — Acho que podemos dizer isso. Tara arfou. — Vocês vão se casar? Dei de ombros e sorri. — Bem, Jeremy disse que por ele tudo bem. Tyler também arfou. — Era sobre isso que estavam cochichando? Assenti e a puxei para bem perto de mim. Eu tinha tudo que precisava em meus braços; era o homem mais feliz do mundo. Tara nos abraçou, e Jimmy deu um tapa bem forte nas minhas costas. Babaca de merda. Tara olhou para todos nós e, então, olhou para Jeremy. — Jeremy, por que não vamos brincar nos balanços? — Ela estendeu a mão para ele, e eu senti quando ele tentou se livrar dos meus braços. Com relutância, deixei que ele fosse e observei enquanto ele corria na direção de Tara, pegando sua mão. Logo eles sumiram de nossas vistas, — Então — Jimmy começou. — Você finalmente voltou ao juízo normal, seu babaquinha? Tyler revirou os olhos, e eu sorri para Jimmy. Eu sabia que ele ia encontrar sua própria maneira de dizer que eu era um idiota fodido. Eu até que concordava com ele, mas com certeza não iria deixá-lo me xingar sem revidar. — Acho que sim, imbecil. Jimmy sorriu. — Pentelho. Sorri de volta. — Pinto mole. — Cuzão. — Retardado. — Cérebro de merda. Tyler começou a abanar as mãos. — Ok, já chega. — Ela colocou as mãos nos quadris, o que, em minha opinião, era o mesmo que abanar uma bandeira vermelha na frente de um touro. Ergui minha sobrancelha, e ela olhou para mim. Ah, as coisas que eu faria se Jimmy


não estivesse aqui. ​— Por que vocês dois não se abraçam e se beijam? Eu ri e olhei para Jimmy por um momento. — Nós estamos nos abraçando e beijando. É assim que fazemos isso. Tyler balançou a cabeça e revirou os olhos. — Homens! — Ela ergueu as mãos para o céu. — Eu também te amo, Rosadinha. — Pisquei para ela, e ela me olhou. Estava tentando desesperadamente esconder o sorriso, mas não estava conseguindo. — Ah, cale a boca! — Ela saiu como uma tempestade, mas eu consegui ver um enorme sorriso em seu rosto. Virei-me para Jimmy. — Sim. Ela me ama. Jimmy balançou a cabeça. — E ainda dizem que não existe mais romance. Observei enquanto Tyler se afastava cada vez mais, com seus quadris sensuais se movendo conforme ela caminhava. Não pude conter um suspiro. — Ainda vai existir por um milhão de anos, Jimmy. — Então, esse é o início do resto da sua vida? Sorri. Estava tão feliz. — Sim — respondi. — Eu mal posso esperar.


Epílogo Dean Cinco anos depois — Dean. — Eu a ouvi gritar. — Eu vou te matar. Virei-me para Jeremy e puxei a manga de sua camisa. Ele estava mesmo ficando grande para um menino de apenas nove anos. — Acho que estamos encrencados, Jeremy. Será que devemos fugir? Jeremy sorriu para mim. — Sim. A mamãe fica assustadora quando está grávida. Pisquei para ele, e nós dois nos preparamos para correr, mas era tarde demais. — Onde vocês pensam que vão? — Ao lado dela, a pequena Isabella gargalhava, agarrada ao vestido de Tyler. Ela era meu pequeno raio de sol. Com apenas quatro anos de idade, Isabella era tão geniosa e linda quanto Tyler. Tinha os cabelos e os olhos da mãe. Com o tempo, o cabelo de Jeremy começou a escurecer, mas eu esperava que o de Isabella jamais perdesse aquela cor. Eu o adorava com suas ondas douradas, que caíam em cascatas por seu rostinho rosado. Isabella gargalhou ainda mais. — Mamãe descobriu o rolo de papel higiênico. — Ela apontou para mim. — Você está encrencado, papai. — E gargalhou de novo. — E você acha isso engraçado? Isabella, estou desapontado com você. Tenha um pouco de amor pelo seu pai. Ela gargalhou de novo, e Tyler bufou. Cara, ela estava puta da vida... e sexy. Estava grávida de cinco meses de nosso terceiro filho. Um menino. Eu queria tentar outra menina, depois que este nascesse, mas Tyler ameaçou cortar meu pau fora. Eu meio que cedi depois disso. — Isabella sabe que você foi malvado, Dean. Não comece a tentar virar a situação contra mim ou vou torcer o que você tem entre as pernas. — Ela olhou para mim. Quase coloquei a mão no meu pau. Inclinei-me e sussurrei no ouvido de Jeremy: — O que eu devo fazer? Jeremy virou sua cabeça para mim, com os olhos arregalados. — Peça desculpas. Peça desculpas... rápido. Empertiguei-me e olhei para Tyler. ​— Me desculpe, Rosadinha. Você pode me perdoar? — Dei a ela minha melhor expressão facial de desculpas e cutuquei Jeremy. — E aí? Como foi? — sussurrei. — Ótimo, pai. — Ele sorriu. — Não pense que não consigo ouvir você. — Tyler sorriu e colocou as mãos nos quadris. Minha sobrancelha se ergueu. Ela sabia exatamente o que fazia comigo. Eu já tinha lhe mostrado várias vezes. — Jeremy, você se importaria de levar sua irmã para o quarto dela por um


momento? Preciso conversar com sua mãe. Jeremy sorriu e balançou a cabeça. — Não me importo. — Ele me deu alguns tapinhas no ombro. — Boa sorte — sussurrou antes de pegar a mão de Isabella e guiá-la até o segundo andar. Assim que eu percebi que eles já estavam fora de nossas vistas, fui à caça. Tyler recuou, mas suas costas logo colidiram com a parede. — Hummm... você está exatamente onde eu queria. — Não me toque, Dean. Ainda estou irritada com você. Passei um dedo por seu rosto e a vi estremecer. Saber que eu tinha esse efeito sobre ela mesmo depois de tantos anos me fazia sorrir. — Tenho certeza de que posso te convencer do contrário. — Mordi sua orelha e ouvi sua respiração acelerar. — Eu te odeio às vezes — ela sussurrou. — E eu te amo sempre. — Beijei seu pescoço com ternura e gentilmente passei meu polegar em seu mamilo. Estava rígido, esperando que minha boca o encontrasse. Eu queria agradá-lo, mas não com nosso filho e nossa filha a poucos metros de nós. — Dean, você não está jogando limpo — ela gemeu quando segurei seu seio em minha mão e apertei seu mamilo. — Em relação a você, Tyler, eu nunca vou jogar limpo. Você já deveria saber disso a essa altura. — Passei o polegar por seu mamilo novamente, e ela estremeceu. — Por favor, Dean. Não faça isso comigo. Você sabe que meus hormônios estão queimando no momento. Só mais um toque, e eu mesma vou te arrastar para o banheiro. Aquela pia nova ainda não quebrou. — Ela ergueu a sobrancelha para mim como um desafio. Eu aceitaria aquela porra de desafio em qualquer dia da semana. Eu já estava prestes a responder, quando a campainha tocou. Coloquei a mão no ombro dela e grunhi. — Ah, merda. Esqueci que eles estavam chegando. Tyler me deu um tapa. — Seja legal com eles, Dean. Você sabe que eles ainda estão magoados. Meus olhos se arregalaram. — Tyler, já se passaram dez anos e já temos quase três filhos! Acho que eles já devem ter encontrado uma forma de me perdoar a essa altura — grunhi novamente. — Me faça encarar um Pinzano, mas não me faça encara isso. Por favor, Tyler. — Peguei a mão dela. — Te dou qualquer coisa que pedir. Ela olhou para mim, balançando a cabeça. — Não brinque com isso, Dean. Não tem graça. Eu quase fiz beicinho. Logo eu? Fazendo uma porra de um beicinho? Devo estar ficando velho e molenga. — Me desculpe, Rosadinha. — Sorri para ela de uma forma que eu sabia que me livrava de qualquer coisa. Ela tinha uma quedinha pelos meus sorrisos. Seus lábios se curvaram para cima, e eu soube que tinha vencido. — Ok, ok, mas vá lá abrir a porta. — Ela se afastou, e sua mão deslizou pelo meu pau. Grunhi novamente, mas fiz o que minha adorada esposa me pediu. Abri a porta da frente, e o alívio logo me inundou.


— Jimmy, ainda bem. Pensei que fosse a Bruxa Malvada do... — Jimmy se movimentou, saindo do caminho, e meu coração parou de bater. Porra! — Sra. O’Shea, como é bom vê-la novamente. — Acho que minhas bolas se encolheram e tinham morrido. Só foi necessário que ela me olhasse uma vez. Não ajudava em nada o fato de Jimmy estar com aquele sorriso no rosto. O que eu não daria para lhe dar um soco agora. — Tenho certeza que sim — ela grunhiu. — Vai nos deixar entrar? Como se surgissem do nada, Derren e uma Tara muito grávida surgiram. Como foi que aquilo aconteceu? Será que Jimmy escondeu todos eles de mim de propósito? Íamos ter uma conversinha muito séria mais tarde. Saí do caminho. — Claro, entrem. — Assim que me movi, ouvi as risadas de Isabella, enquanto ela descia as escadas. — Abobrinha! — Derren gritou. Fui salvo pelo meu raio de sol. Ainda bem que a pressão não estava mais em mim. Talvez fosse um bom momento para me esconder em algum canto, enquanto a mãe de Tyler preparava sua nova poção em seu caldeirão. Acho que agora eu teria que me esforçar por mais dez anos. Ótimo. Que ótimo. — Vovô! — Isabella gritou. Vislumbrei o enorme sorriso de Derren. Ele era tão louco pelas mulheres O’Shea quanto eu. Olhei para Clara e a vi fazer uma carranca. Bem, talvez nem todas as mulheres O’Shea. Isabella correu para seus braços enquanto Jeremy descia as escadas. Olhei para ele pedindo ajuda, mas tudo que fez foi balançar a cabeça. Será que eu não tinha aliados em minha própria casa? Enquanto eu pensava nisso, Tyler apareceu e colocou uma mão gentil em meu ombro. Imediatamente relaxei ao ver o seu sorriso. Ela estava linda. — Aha! — Derren exclamou. — Minha outra abobrinha. Como você está, querida? Tyler sorriu de forma radiante e deu um abraço em Derren e em Clara. — Bem, obrigada. Ficando maior a cada dia, mas estou bem. — Ela deu uma olhada em Tara. — Tara, olha só para você. Tara balançou a cabeça. — Por favor, nem mencione isso. Me sinto como uma casa. Só quero que eles saiam de dentro de mim. Jimmy esqueceu de me contar que sua avó era gêmea. — Ela olhou para ele, e Jimmy quase se encolheu. Ergui minha sobrancelha para ele como se dissesse, É, você está ferrado. Mas onde estaríamos sem aquelas mulheres? — Vocês trouxeram presentes? — Isabella perguntou, excitada. — Isabella, não seja rude. Eles acabaram de chegar. — Tyler riu e balançou a cabeça. — Tudo bem. — Ela se inclinou para pegar a mão de Isabella. — Mas por que teríamos que trazer presentes? Isabella balançou os quadris para frente e para trás, fazendo seu vestidinho balançar. Ela era toda feminina. Sempre queria o que estava na moda... sapatos, vestidos, qualquer coisa. Estava me custando uma boa fortuna, mas valia cada centavo.


— É meu aniversário! — choramingou. Clara arfou. — Não! É mesmo? Isabella deu pulinhos. — É sim! É sim! Pelo canto do olho, vi Derren sair pela porta para pegar algo e depois voltar. — Ainda bem, então, que trouxemos estes aqui. — Em sua mão havia pelo menos uns seis presentes. Eram tão grandes que ele mal conseguia passar pela porta. Todos nós estávamos nas mãos de Isabella. Isabella deu um gritinho e bateu palmas. ​— Sim!!! Papai... papai... veja! Ela estava tão animada que não pude evitar um sorriso. — Eu sei, Bella. Você é uma menina de sorte. — Dei uma piscadinha, mas ela logo voltou a atenção para os presentes. Derren os colocou no chão para ela, mas Isabella hesitou. — Está tudo bem, abobrinha. Pode abri-los agora. — Derren sorriu, mas Isabella estava empenhada em sua tarefa. O único som na sala passou a ser o de papéis de presente sendo rasgados. Ela os estava destruindo. — Como estão os negócios, Dean? Sorri para Derren. Ele me tratava com cordialidade agora. Eu não sabia o quanto disso era apenas tolerância, ou se ele estava realmente começando a gostar de mim. — Vão bem, obrigado. Estamos expandindo para a costa oeste, então, não estamos indo nada mal. Derren sorriu e parecia genuíno. — Que boas notícias. Minha empresa de imóveis, de alguma forma, decolou. Acho que o mercado em recuperação ajudou. Eu e Scott Cooper encontramos uma mina de ouro. Não que eu precisasse. Depois que vendi todos os meus investimentos na Inglaterra, eu e Tyler estávamos seguros pela vida inteira. Não havia necessidade de nenhum de nós trabalhar. Tyler ainda trabalhava, apesar disso. Era devotada ao seu trabalho como professora de jardim de infância. Isso funcionava muito bem para nós, porque ela trabalhava no horário em que as crianças estavam na escola. Acho que, apesar do fato de não termos que trabalhar, nós dois precisávamos fazer isso. Deixei Humphrey tomando conta do resto porque sentia que lhe devia alguma coisa, mas eu e Tyler nunca precisaríamos nos preocupar com nada. Nossos filhos também não. — E, Tyler... como está o trabalho? Tyler sorriu. — Bem, papai. — Ela estava prestes a elaborar mais a resposta, mas Isabella deu um gritinho. — Mamãe! Papai! Vejam! — Ela segurava a mais nova Barbie lançada, que tinha uma bolsinha. Ela sempre quis essa boneca, mas era difícil de conseguir. De acordo com Tyler, ela não achava em lugar nenhum. Tyler parecia chocada. — Como é que você... Derren fez um sinal de silêncio e deu uma piscadinha. — Um avô nunca revela seus segredos.


*** Mais tarde naquela mesma noite, Tyler estava dentro da casa com Jeremy, Isabella, Tara e seus pais, e eu estava lá fora com Jimmy tomando uma cerveja. Tomei um gole. — Então, como está a gravidez de Tara? Jimmy suspirou com um sorriso. — Está foda, cara. Cada vez que eu toco nela, ela praticamente ruge para mim. É meio assustador. Ri, pensando no quanto Tyler e Tara eram parecidas. Acho que eu tinha sorte, porque a minha ainda estava no segundo trimestre e não me deixava em paz. Merda, como eu poderia reclamar de algo assim? Mas eu sabia que isso não iria durar. Conforme ela fosse ficando mais pesada, tudo se tornaria mais desconfortável. Porém, eu estaria do lado dela. Tudo que podia fazer era segurar a mão dela e rezar para que não cortasse meu pau fora. Só de pensar nisso eu já me sentia estremecer. — Mas o que aconteceu com você? Dei de ombros. — Só tive um pensamento desagradável. Jimmy riu. — Mulheres são assustadoras, não são? Me dê um babaca qualquer que eu dou uma lição nele, mas enfrentar Tara? — Jimmy deu de ombros. Eu ri. — Falei uma coisa parecida para Tyler pouco depois de você bater na porta, mas foi sobre os pais dela. — O que tem os pais de Tyler? — Tara estava bem na porta, com Tyler atrás dela. As duas pareciam ansiosas por uma resposta. Empertiguei-me. — Nada. Tyler saiu e veio se sentar em meu colo. Tara fez o mesmo com Jimmy. Ela colocou os braços ao meu redor, encostou a cabeça no meu pescoço e me mordeu. Merda, ela era uma pequena megera. E, como sempre, meu pau reagiu. Tyler obviamente reparou isso, pois sua sobrancelha se ergueu. Ela estaria encrencada mais tarde. E, para ser honesto, eu não mudaria nada. A vida estava exatamente como deveria ser. — Não foi o que você me disse mais cedo. — Jimmy ergueu uma sobrancelha. Eu iria matá-lo. Na verdade, se Tyler não estivesse em meu colo, e Tara no dele, eu teria colocado minhas mãos ao redor daquele pescoço. Olhei para ele, que deu de ombros. — Ei, se eu vou me ferrar, vou levar você comigo. Tara o olhou. — O que isso quer dizer? Ri e pisquei para Jimmy. Ele estava morto. Jimmy fez um som de beijinho para Tara. — Nada, querida. E te amo. Tara colocou a mão no rosto dele e lhe deu um tapinha.


— Por favor. Ri ainda mais. — Seu cara de merda. — Viado. — Lambedor de cu. — Trepador. — Chupador de pau. — Bandido. Tyler cobriu minha boca e suspirou. — Vocês dois parem com isso! Todos nós rimos, enquanto eu encostava a cabeça no pescoço da minha Rosadinha. Eu era o homem mais feliz do mundo. Sim, eu pensei enquanto suspirava cheio de contentamento. Minha vida estava definitivamente como deveria estar. Capítulo Bônus Jimmy Ontem eu fui até Dulles. Prometi a Dean que faria qualquer coisa para ajudá-lo a recuperar Tyler. Apesar disso, eu estava tenso. Desde que voltei à Inglaterra venho pensando em Tara. Não consigo tirar as imagens da minha cabeça. Seus olhos se fechando quando a tocava, a forma como seus lábios sensuais se abriam quando eu atingia o ponto mais doce de seu corpo e a forma como ela gritava meu nome quando gozava sob mim. Não conseguia parar de pensar em seus olhos castanhos suaves e na forma como eles pareciam penetrar minha alma. Ela tinha os olhos mais fascinantes, assim como o corpo. Merda, não queria nem começar a pensar em seu corpo. Sua pele era tão macia e suave, que eu poderia facilmente me perder dentro dela. Seus gemidos me faziam perder a cabeça a todo momento. Apesar de tudo isso, pensei que poderia ir para casa e continuar a vida normalmente. Eu e Tara acordávamos todos os dias juntos quando eu estava nos Estados Unidos, mas nós dois sabíamos que não ia durar. E como poderia, se vivíamos tão longe um do outro? Mas, ainda assim, lá estava eu, parado do lado de fora de sua porta como um filhote de cachorro, perguntando a mim mesmo se deveria bater. Já estava ali há cinco minutos. Estava surpreso por ninguém ter gritado comigo ou chamado a polícia. Era uma bobeira da minha parte ter vindo aqui, mas não pude evitar. Quando fui embora, tanto eu quanto Tara concordamos que nosso relacionamento era apenas diversão. Gostamos de ficar juntos, não conseguimos tirar as mãos um do outro, então, por que não? Qual era o problema? Bem, o problema, pelo visto, era perceber que eu poderia estar perdendo algo muito bom. O problema era tentar enganar a mim mesmo que eu poderia ficar longe dela. Fiquei ali, rindo de mim mesmo. Era até engraçado, na verdade. Sempre fui gentil e cortês com mulheres. Até porque, eram elas que nos davam a vida, nos faziam felizes e possuíam uma coisa capaz de colocar um homem de joelhos. Mas eu não me comprometia. Disse uma vez, a uma moça com quem tive um caso, que eu não era uma coisa certa. Se aceitassem isso, que viessem com tudo. Se quisessem mais, seria um “Prazer em conhecê-la, mas estou fora”. Nunca prometi nada mais do que eu daria. Era transparente, mas isso só me mantinha livre de encrencas. E acabei me acostumando a esse tipo de vida.


Ninguém para amar, ninguém para me causar dor. Ninguém para arrancar meu coração do peito quando desaparecesse da minha vida. Eu vinha sendo feliz assim há anos. Era selvagem, livre, solteiro e nunca precisava dar satisfações a ninguém. Podia ir a qualquer lugar que quisesse. Ficar fora de casa pelo tempo que quisesse. Funcionava para mim. Mas onde estava a verdade por trás de tudo isso? Odiava voltar para uma casa vazia. Odiava acordar sem sentir uma mulher ao meu lado. Tinha perdido minha “Graça de Deus” e, desde então, me tornei a criatura mais solitária e patética do mundo. Sempre pensei que eu e Grace iríamos ficar juntos, que iríamos nos casar e ter filhos. Sempre pensei que ela era única para mim e que jamais haveria comparações. Até que conheci Tara. De repente, ela apareceu como um farol de luz para mim. Era um sopro de ar fresco. Eu já tinha conhecido boas garotas, mas nenhuma como Tara. Ela tinha uma energia que gritava vida, coragem e equilíbrio. Ao mesmo tempo, havia uma vulnerabilidade que implorava para ser alimentada. E cada parte de mim queria atender aos seus desejos. Mas ali, do lado de fora de sua casa, não conseguia não pensar em como me sentia, não mudava o fato de que tínhamos concordado em nunca mais nos vermos. Não importava o quanto eu queria vê-la, Tara podia não querer o mesmo. E foi esse pensamento que me fez virar e começar a andar em direção ao meu carro. Foi esse pensamento também que fez com que eu estendesse a mão para abrir a porta do veículo. — Jimmy? Congelei, ficando incapaz de me mover. Era a voz dela. Aquela voz me fez fechar os olhos por um momento e saboreá-la, como se fosse a última palavra que eu ouviria na vida. — Jimmy? — ela chamou novamente e eu soube que não podia ficar ali parado para sempre. Virei-me e olhei para o rosto que vinha perseguindo meus sonhos nas últimas três semanas. Ela estava maravilhosa. Usava um vestido azul de chiffon, que parecia ter sido feito para ela. Estava mais linda do que eu me lembrava. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo, que destacava seus olhos de chocolate perfeitos e a cor caramelo de sua pele. Cada parte de mim queria tocar aquela pele naquele momento, mas me segurei. Ela poderia não me querer ali. Completamente paralisada, ela também ficou ali. Então, depois de se recompor, colocou as mãos nos quadris. — Então você voou uns mil quilômetros só para ficar parado na minha porta por cinco minutos e ir embora? Não pude evitar. Meu pau logo reagiu. Recuperando minha voz, sorri. — Não sabia se você queria me ver outra vez. Você sabe, depois daquela conversa. Ela balançou a cabeça. — Isso não importa. Por que está aqui? — Ela deu um passo à frente, esperando por minha resposta. Na verdade, parecia muito ansiosa para saber. Provavelmente porque pensava que eu estava com Dean e estava preocupada com Tyler. Eu podia compreender, considerando o quanto eram amigas. — Não vou mentir para você, Tara. Estou aqui a negócios, mas queria te ver. A sobrancelha de Tara ergueu-se. — Negócios? Que negócios? Sorri.


— Não posso dizer. Ela cruzou os braços contra o peito. — Hummm... contanto que Dean não esteja com você. Balancei a cabeça. — Não. Dean está na Inglaterra. Já está lá há três semanas. Tara suspirou com um sorriso. — Então, você está aqui a negócios, mas quis me ver? Vi um leve brilho em seus olhos e, puta merda, isso fez com que eu desejasse tomá-la em meus braços. — Quer outra verdade? — Ela assentiu. — Não consegui parar de pensar em você. O sorriso de Tara ficou ainda maior, e meu coração começou a martelar contra o peito. De repente, seu sorriso desapareceu. — Você quer saber a verdade? — Assenti, mas não tinha muita certeza se queria ouvir. — Nem eu. — Ela riu, e eu balancei a cabeça com um sorriso. Sem nem pensar duas vezes, corri até ela e a tomei nos meus braços. Tara gargalhou alto e foi como música para os meus ouvidos. — Então, o que acha de me deixar entrar, Tara? Foi uma longa jornada e eu e meu cavalo estamos muito cansados. Tara riu novamente. — Você e seu cavalo. Sei que eu disse que transava como um, mas não pensei que fosse levar isso a sério. — Ela balançou a cabeça. Eu ri. — Acredite, quando uma mulher diz isso a um homem, ele leva muito a sério. Tara sorriu, mas baixou os olhos até meus lábios. Seu sorriso desapareceu, sendo substituído por um olhar caloroso. No momento em que ela começou a me olhar daquela forma, colei meus lábios aos dela. Ela tinha o mesmo gosto do qual eu me lembrava, mas quanto mais eu provava de seus lábios, mais eu desejava todo o resto. — Senti sua falta — sussurrei, me afastando com relutância. — Sinto falta de te beijar inteira. Tara gemeu. — Jimmy, você sabe mesmo como fazer uma entrada triunfal, não sabe? Ergui minha sobrancelha. ​— Eu quero muito fazer uma entrada, mas não tenho certeza se vou querer sair. Tara riu. — Continue falando sobre me beijar inteira, e vou com certeza te deixar entrar. Não esperei mais. Ergui Tara do chão em meus braços e ela logo entrelaçou as pernas ao redor da minha cintura. Assim que entramos, fechei a porta com o meu pé e fomos até o quarto dela. Ao pé da cama, Tara agarrou meu pescoço e me puxou para um beijo. Nossas línguas dançaram e seu corpo estremeceu quando passei os dedos por suas costas. Senti meu pau pulsar. Já fazia algum tempo que não o colocava dentro de uma mulher. Na verdade, Tara tinha sido a última mulher com quem fiz amor. Estava faminto por ela. Deitando-a na cama, afastei-me de seus lábios para trilhar beijos desde seu pescoço até seus ombros, depois em seu peito. Com uma mão, afastei uma alça do vestido e reparei que


ela não estava usando sutiã. Porra! Morri e fui para o céu. Seu seio era firme, e seu mamilo estava rígido. Não pude evitar contemplá-lo por um segundo, antes de sentir Tara tocar meu rosto. Usando a língua, provoquei-a um pouco antes de colocar o mamilo inteiro na minha boca. Tara gemeu e eu o suguei, conforme sua respiração ficava mais pesada. Sob mim, ela estava gemendo e tentando desesperadamente esfregar sua virilha na minha. Estava desesperada para gozar. Eu sabia que sim, porque eu também estava. Com minha outra mão, puxei o outro lado do seu vestido para baixo e o deslizei, até tirá-lo por inteiro. Agora ela estava nua. Sem calcinha. Sem nenhuma barreira entre nós. Era quase como se soubesse que eu estava chegando e estivesse esperando por mim. — Porra, você é linda. Contemplei sua nudez, sua pele maravilhosa e vi as queimaduras que o filho da puta do ex-marido lhe fez. Como sempre fiz, inclinei-me para beijar aquelas marcas, porque, não importava que ela me dissesse várias vezes que eram feias, eram parte dela. Cada pedaço daquela mulher era lindo. Ele tinha tentado arruinar sua beleza, mas não conseguiu. Ela era de tirar o fôlego. — Jimmy... — ela sussurrou, enquanto eu beijava sua barriga e começava a descer em direção aos seus quadris. — Cada parte de você... — Beijei seus quadris. — Me deixa... — Beijei a parte de dentro de sua coxa. — De... — Beijei a outra coxa, enquanto afastava suas pernas uma da outra. — Joelhos. Inclinei-me e penetrei um dedo em sua entrada. Logo senti que ela estava molhada, mas precisava senti-la. Precisava prová-la. Assim que coloquei o dedo dentro dela, Tara gemeu e ergueu os quadris, indo de encontro a mim. Não a desapontei. Lambi seu clitóris, enquanto enfiava o dedo mais fundo. — Ah, meu Deus, Jimmy. Isso é bom. Não pude conter um sorriso. — Mais? Vi que ela assentia, mantendo os olhos fechados. Lambeu os lábios e movimentou os quadris, me fazendo explodir. — Sim. Mais. Por favor. Ela estava implorando, então, eu não iria deixá-la esperando. Voltei a lamber sua deliciosa boceta. Era exatamente como eu me lembrava. — Porra, senti falta desse seu gosto. Não consigo enjoar dele. — Eu já estava mais do que perdido naquele momento, então, troquei um dedo por dois, fazendo-a erguer o quadril. — Porra, Jimmy. Você vai me fazer gozar muito rápido se continuar... Ah, merda! Ignorei sua súplica, porque meu lado egoísta queria que ela gozasse logo antes que eu explodisse. Precisava estar dentro dela desesperadamente, minhas bolas estavam quase brigando uma com a outra. Merda, era até doloroso. Sentia meu braço flexionando, enquanto eu penetrava sua vagina molhada com meus dedos. Seu pequeno botão, que eu não conseguia parar de lamber, estava duro como pedra agora. Girei e fiz minha língua dançar ao redor dele, certificando-me que sua boceta recebesse o máximo de atenção. Os gemidos e choramingos dela me faziam perder o controle o tempo todo, especialmente quando ela gozava. Seus gritos eram algo sublime.


Investi mais uma vez, sentindo Tara ficar tensa sob mim. Seu orgasmo era iminente e eu não pretendia parar. Continuei lambendo e sugando aquele botão rígido dela. — Merda, Jimmy, eu vou... — Ela gritou meu nome várias vezes, enquanto eu dançava com minha língua gentilmente. Sua boceta se fechou ao redor dos meus dedos, e eu quase entrei em colapso só de senti-la. Logo, ela começou a se acalmar, e eu fiquei observando enquanto ela murchava e gemia sob mim. Meu Deus, ela estava maravilhosa. Quando sua respiração se acalmou um pouco, tirei meus dedos de dentro dela e beijei sua boceta com carinho. — Tara, você é maravilhosa. Tara abriu seus olhos e sorriu para mim. — Posso dizer o mesmo de você. — Sentando-se, ela apontou para minha calça jeans. — Agora é sua vez. Não hesitei. Levantei-me, desabotoei meu jeans, tirei-o e senti um alívio quando meu garoto foi libertado. Ele ficou muito grato. Pude sentir isso. Tirei meu tênis e joguei meu jeans longe. Olhei para Tara, e vi que ela contemplava meu Johnson. — O Johnson parece nervoso. — Tara sorriu para mim maliciosamente. Na segunda vez em que fizemos sexo, eu meio que deixei escapar que o chamava assim. — Johnson está muito feliz de te ver. Ele já não te vê há muito tempo e quer ser recompensado por isso. Tara me chamou com seu dedo. — Bem, acho melhor o Johnson vir até aqui. Grunhi e praticamente pulei sobre ela. Estava tão excitado que tudo que eu queria era estar dentro dela. Sem nem perguntar se podia, coloquei Tara sob mim e afundei meu pau bem dentro dela. Tara soltou um gemido e eu não pude conter um que também saiu dos meus lábios. Ela estava tão quente, tão apertada, tão fodidamente perfeita. — Jimmy, o que acha de uma camisinha? Fiquei dentro dela e beijei sua boca gentilmente. — Sem barreiras. Quero sentir você. Preciso sentir você. Tudo bem? Tara sorriu e assentiu. Eu sabia que era egoísta da minha parte fazer isso sem antes perguntar, mas eu perdi o controle. Era sempre assim quando estava perto dela, mas estava ainda pior, porque tinha passado as últimas três semanas em abstinência. No minuto em que a vi assentir, comecei a me movimentar, com cuidado para não machucá-la. Mas ela estava tão gostosa. Gostosa demais. Colocando as pernas ao meu redor, Tara também começou a se movimentar, elevando os quadris. Era o ângulo perfeito para ir mais fundo. Porra, era glorioso. — Jimmy...? — ela sussurrou. — Sim? — Foi com esforço que consegui proferir a palavra. Estava tão fundo dentro dela que até mesmo as palavras me escapavam. — Quero ficar por cima. Parei abruptamente e olhei para ela. Não queria sair de onde estava naquele momento, mas se minha garota queria ficar por cima, então, eu permitiria que ela ficasse por cima. Quando a fiz girar, Tara gemeu, e eu ri. Estava determinado a ficar dentro dela... a todo custo.


Assim que estávamos em nossas posições, Tara se inclinou e correu as mãos pelo meu peito. Um grunhido vibrou dentro de mim enquanto Tara segurava os próprios seios. — Linda... muito linda. Tara sorriu e começou a mover os quadris. Fechei meus olhos por um segundo e me deixei sentir a delícia de tê-la sobre mim. Gostava de manter o controle, mas podia me acostumar facilmente a isso. Cada movimento de seus quadris era como uma porra de uma doce tortura. Assim que ela acelerou e começou a gemer, agarrei seus quadris e a puxei de encontro a mim várias vezes. Podia sentir minhas bolas se comprimindo. Olhar para ela se movendo sobre meu pau, com seus seios magníficos dançando para cima e para baixo, era algo de outro mundo, mas o fato de sua boceta ser como nenhuma outra fazia com que eu me perdesse. — Tara, porra, você vai me fazer gozar. Agarrei seus quadris com força e praticamente bati seu corpo contra o meu várias vezes. As sensações se avolumavam em mim, e eu sentia minhas bolas ficarem mais pesadas conforme meu pau pulsava, ansioso para gozar. Tara gemeu meu nome, e eu senti suas paredes apertando meu pau. Era o meu fim. Explodi dentro dela como uma porra de um maremoto. — Tara! — gritei enquanto a puxava de encontro a mim mais uma vez antes de ela cair sobre o meu peito. Sexo nunca enjoava, mas sexo com Tara fazia com que eu sentisse como se tivesse sido criado apenas para o prazer dela. Seu prazer era meu prazer. Agora eu compreendia isso. Entendia o que era sentir a felicidade crescendo dentro de você, sabendo que tinha feito a pessoa de quem gosta feliz. E eu gostava de Tara. Gostava dela mais do que podia imaginar. — Uau — ela sussurrou, passando o nariz pelo meu peito. Sorri. — Totalmente uau. Se eu soubesse que faríamos uma dessas, teria voltado antes. Ela olhou para mim. — Por que não voltou? Sorri, soltando seu cabelo do rabo de cavalo e fazendo-o cair em cascata por seus ombros. Ela me deixava sem fôlego. — Você sabe... medo da rejeição, não querer fazer papel de idiota... esse tipo de coisa. — Ei! — ela reclamou, beliscando minha costela enquanto eu ria. Tirei um fio de cabelo de seu rosto. — Quer a verdade? — Ela assentiu. — Eu estava com medo. Decidimos nunca mais nos vermos, então, eu não sabia se você iria me mandar embora. Tara considerou minha resposta por um momento. — Bem, preciso admitir que fiquei surpresa em te ver. — Ficou? — Tinha que pressionar um pouco mais. Tara não era de admitir seus sentimentos tão fácil. — Sim. E quer saber a verdade? — Assenti. — Fiquei feliz quando olhei pela janela e te vi ali. Sorri e puxei-a para outro beijo. Depois disso, Tara suspirou e encostou a cabeça no meu peito. Lambi os lábios, ainda sentindo seu gosto doce. Isso fez com que eu ficasse faminto por ela novamente. — Você sabia que você tem o melhor gosto do mundo inteiro?


Tara riu. — Sério? Assenti. — Porra, com certeza. Tara riu, mas ficamos em silêncio por um momento. — Então — ela parou, passando um dedo pelo meu peito. — Por quanto tempo pretende ficar sentindo o meu gosto desta vez? — Ela gargalhou novamente, mas eu sabia que, debaixo daquele jeito brincalhão, havia um tom de incerteza. Será que ela me queria por perto? Com meu braço ao redor dela, comecei a mexer no seu cabelo. — Eu meio que estava pensando em ficar por quanto tempo você me quiser. Tara ficou mortalmente silenciosa, enquanto eu me perguntava se eu tinha agido de forma muito intensa, rápido demais. Perguntava a mim mesmo também se deveria dizer mais alguma coisa, ou se deveria demonstrar que estava apenas brincando. Então, ela suspirou e passou o dedo pelo meu peito novamente. — Eu gostaria que você ficasse. Sentindo-me como o gato que comeu o canário, puxei Tara mais para perto, enquanto um sorriso surgia no meu rosto. Tara encostou o rosto no meu peito novamente e, por um momento, não consegui tirar um pensamento da cabeça. Será que a eternidade era assim? Agradecimentos Uau! Que jornada! Depravado era para ser o único livro sobre essa história, mas vocês, suas sirigaitas (vocês sabem quem são), não me deixaram descansar até que surgisse uma continuação. Fui ameaçada de violência e até de morte a não ser que escrevesse outro livro! Claro que foi uma brincadeira, mas estou feliz por vocês terem me dado a ideia, do contrário, eu nunca teria conseguido. Só espero ter criado um final que deixe as pessoas felizes. Para ser honesta com vocês, estava um pouco preocupada. Eu nunca poderia trazer aquele elemento sombrio e misterioso do livro um para o livro dois. Dizer que estou nervosa com este lançamento é uma certeza. Só espero deixar a maioria de vocês feliz. Então, em relação aos agradecimentos, por onde devo começar? Bem, em primeiro lugar, quero agradecer ao meu marido e meus dois filhos por me aturarem! Posso ser bem chata às vezes. Quero agradecer à minha editora, Kim Young, que nunca deixa de me maravilhar com o quanto é brilhante. Sei que sempre digo isso, mas, minha nossa! Quero agradecer à minha linda menina, Sabine, que está comigo desde que leu Until I met you. Sabine, você tem sido uma constante em minha vida há um ano, e sou muito grata por ter aparecido na minha vida. Amo você, garota! Também quero agradecer a Line F. Nielsen e Serena Kett por me fazerem rir, e por também estarem comigo quando desanimei. Amo vocês, garotas. Quero agradecer a Give Me Books por terem conseguido resenhas e por cuidarem dos meus e-mails! Kylie, você tem sido de grande ajuda. Quero agradecer a Debra Cameron por divulgar minhas capas e teasers quase todos os dias. Você é uma estrela absoluta, Debs! Muito obrigada por todo o seu ótimo trabalho. E, por fim, quero agradecer a todos os blogueiros por aí, que divulgam autores. Vocês são muitos para serem mencionados, mas todos têm um espaço especial no meu coração.


Quero agradecer a todos pelos esforços e por fazerem com que meus livros chegassem lá. Os mais ousados são: Our Bookstars, Devilishly Dirty Book Blog e Ladies Night in Blog. Você são diabinhas muito malvadas (vocês sabem o porquê!), mas amo vocês. Biografia da Autora: Jaimie Roberts nasceu em Londres, mas mudou-se para Gibraltar em 2001. É casada e tem dois filhos, e nas horas vagas, escreve. Em Junho de 2013, Jaimie publicou seu primeiro livro, Take a Breath, tendo lançado o segundo em Novembro de 2013. Com as resenhas, Jaimie começou a aprender a ser uma escritora melhor. Ela se diverte muito escrevendo, e mais ainda com os feedbacks que recebe. Se você quiser mandar uma mensagem para Jaimie, por favor, visite sua página no Facebook: https://www.facebook.com/AuthorJaimieRoberts.

[1] Twiglets é um biscoito à base de trigo, que tem uma forma bem peculiar, semelhante a um pequeno ramo. [2] Personagem de livros infantis da autora Beatrix Potter. [3] Trata-se de um personagem mítico, de aparência enrugada e capacidade de tecer ouro de seu próprio cabelo púbico.


Redenção vol. 2 - Jaimie Roberts