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Obsidiana Título original OBSIDIAN Copyright © 2011 by Jennifer L. Armentrout Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, localidades e incidentes são produtos da imaginação do autor ou foram usados de forma ficcional. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou não, acontecimentos e locais, é mera coincidência.

Digitalização


Para a minha famĂ­lia e amigos. Amo-os como eu amo bolo.


1 Eu olhei para a pilha de caixas no meu quarto novo, desejando que a Internet estivesse ligada. Não ser capaz de fazer qualquer coisa com o meu blog desde que me mudei para cá era como perder um braço ou uma perna. De acordo com a minha mãe “A louca obsessão da Katy", era a minha vida inteira. Não totalmente, mas era importante para mim. Ela não ligava para os livros da maneira que eu fazia. Eu suspirei. Fazia dois dias que estávamos aqui, e ainda havia tanta coisa para desempacotar. Eu odiava a ideia de caixas ao redor. Até mais do que eu odiava estar aqui. Pelo menos eu finalmente parei de pular com cada rangido desde que eu me mudei para Virginia "por Deus" do Oeste e esta casa que parecia algo saído de um filme de terror. Ela ainda tinha uma torre – uma maldita torre. O que eu deveria fazer com isso? Ketterman era sem personalidade jurídica, ou seja, não era uma cidade real. O lugar mais próximo era Petersburgo - uma cidade de dois ou três semáforos, próxima a algumas outras cidades que provavelmente não tinham um Starbucks. Nós não recebíamos correios em nossa casa. Tínhamos que dirigir até Petersburgo para receber nossa correspondência. Bárbaro. Como um chute na cara, isso me bateu. Flórida se foi – comida pelas milhas que tínhamos viajado em uma corrida louca para minha mãe começar de novo. Não é que eu sentia falta de Gainesville, do clima, da minha antiga escola, ou até mesmo do nosso apartamento. Encostada na parede, eu esfregava a palma da minha mão sobre a testa. Eu sentia falta do meu pai. E Flórida era o meu pai. Foi onde ele nasceu, onde conheceu minha mãe, e onde tudo tinha sido perfeito... Até que tudo se desfez. Meus olhos ardiam, mas eu me recusei a chorar. Chorar não mudaria o passado, e meu pai teria odiado saber que eu ainda estava chorando, três anos depois. Mas eu sentia falta da minha mãe, também. A mãe de antes de meu pai morrer, a que costumava enrolar-se no sofá ao meu lado e ler um de seus romances inúteis. Parecia uma vida atrás. Certamente era metade de um país atrás. Desde que meu pai morreu, mamãe tinha começado a trabalhar mais e mais. Antes ela costumava querer estar em casa. Então pareceu que ela queria estar o mais longe possível. Ela finalmente tinha desistido dessa opção e decidimos que precisávamos dirigir para longe. Pelo menos desde que tínhamos chegado aqui, mesmo que ela ainda estivesse trabalhando como um demônio, ela estava determinada a estar mais na minha vida. Eu tinha decidido ignorar a minha linha interna compulsiva e deixar as malditas caixas hoje, quando o cheiro de algo familiar fez cócegas no meu nariz. Mamãe estava cozinhando. Isso não era nada bom. Corri lá embaixo. Ela estava no fogão, vestida com uma roupa velha de bolinhas. Só ela podia usar um chapéu horroroso de bolinhas e ainda conseguir uma boa aparência. Mamãe tinha um cabelo loiro glorioso de corte reto e olhos castanhos brilhantes. Mesmo com bolinhas ela fazia com que eu parecesse


tediosa com os meus olhos castanhos e cabelo castanho claro. E de alguma forma acabei mais... Torneada do que ela. Quadris curvilíneos, lábios inchados, e enormes olhos que a mamãe amava, mas que me faziam parecer uma boneca kewpie demente. Ela virou-se e acenou com uma espátula de madeira para mim, os ovos meio cozidos respingando sobre o fogão. — Bom dia, querida. Olhei para a bagunça e me perguntei qual a melhor forma de resolver esse fiasco que ela fez, sem ferir seus sentimentos. Ela estava tentando fazer a mãe faz tudo. Este era um enorme progresso. — Você está em casa mais cedo. — Eu trabalhei quase um turno duplo entre ontem e hoje. Estou trabalhando de quarta-feira a sábado, das onze até as nove horas, isso me deixa com três dias de folga. Estou pensando em um ou outro trabalho por meio período em uma das clínicas por aqui ou, eventualmente, em Winchester. — Ela colocou os ovos em dois pratos e deixou a parte meio queimada na minha frente. Delicia. Acho que já era tarde demais para uma intervenção, então eu vi uma caixa apoiada no balcão agora marcada com “Pratarias & Coisas”. — Você sabe como eu não gosto de não ter nada para fazer, então eu vou dar uma olhada nelas em breve. Sim, eu sei. E a maioria dos pais provavelmente tiraria seu braço esquerdo fora antes de pensar em deixar uma adolescente sozinha em casa o tempo todo, mas não a minha. Ela confiava em mim, porque eu nunca lhe dei razão para não confiar. Não foi por falta de tentativa. Bem, ok, talvez fosse. Eu era meio chata. No meu antigo grupo de amigos na Flórida, eu não era a silenciosa, mas eu nunca ignorei a aula, mantinha um 4.0, e era muito bonita, uma boa menina. Não porque eu estava com medo de fazer algo imprudente ou selvagem, eu não queria acrescentar mais aos problemas da mamãe. Não na época... Agarrando dois copos, os enchi com o suco de laranja que mamãe deve ter pegado a caminho de casa. — Você quer que eu faça as compras hoje? Nós não temos nada. Ela balançou a cabeça e falou com a boca cheia de ovos. — Você pensa em tudo. Uma ida ao supermercado seria perfeito. — Ela pegou sua bolsa em cima da mesa, tirando dinheiro. — Isso deve ser o suficiente. Eu guardei o dinheiro em minha calça jeans, sem olhar para a quantidade, ela sempre me deu muito em primeiro lugar. — Obrigada — Eu murmurei. Ela se inclinou para frente, com um brilho nos olhos. — Então... Hoje de manhã eu vi uma coisa interessante. Só Deus sabe como ela é. Eu sorri. — O quê? — Você já reparou que existem dois jovens da sua idade na porta ao lado? Meu interior se revirou e os meus ouvidos se animaram. — Sério? — Você não esteve do lado de fora, não é? — Ela sorriu. — Eu tinha certeza de que você estaria sobre todo esse canteiro de flores nojento até agora.


— Estou pensando sobre isso, mas as caixas não irão se desempacotar sozinhas. — Eu dei-lhe um olhar aguçado. Eu amava essa mulher, mas ela às vezes de alguma forma, me fazia esquecer essa parte. — Enfim, de volta para os vizinhos. — Bem, uma é uma garota que se parece com a sua idade, e tem um menino. — Ela sorriu enquanto se levantava. — Ele é um gato. Um pequeno pedaço de ovo ficou preso na minha garganta. Era seriamente grosseiro ouvir a mamãe conversar sobre os meninos da minha idade. — Gato? Mãe, isso é tão estranho. Mamãe se empurrou para fora do balcão, pegou o prato da mesa, e dirigiu-se para a pia. — Querida, eu posso ser velha, mas meus olhos ainda estão funcionando bem. E eles realmente estavam funcionando mais cedo. Eu me encolhi. Dupla grosseria. — Você está se transformando em algum tipo de puma1? Isso é algum tipo de crise de meia idade que eu precise ficar preocupada? Enxaguando o prato, ela olhou por cima do ombro. — Katy, eu espero que você faça algum esforço para conhecê-los. Eu acho que seria bom para você fazer amigos antes da escola começar. — Fazendo uma pausa, ela bocejou. — Eles podem lhe mostrar os arredores, não é? Recusei-me a pensar sobre o primeiro dia de escola, garota nova e tudo mais. Joguei meus ovos não consumidos no lixo. — Sim, seria bom. Mas eu não quero ir batendo em sua porta, implorando para serem meus amigos. — Não estaria implorando. Se você se colocar em um desses vestidos bonitos que você usava na Flórida, em vez disso. — Ela puxou a barra da minha camisa. — Estaria paquerando. Olhei para baixo. Isso dizia MEU BLOG É MELHOR DO QUE SEU VLOG. Não havia nada de errado com isso. — E se eu aparecer na minha calcinha? Ela bateu o queixo, pensativa. — Isso com certeza causaria uma impressão. — Mamãe! — Eu ri. — Você deveria gritar comigo e me dizer que não é uma boa ideia! — Baby, eu não me preocupo com você fazendo nada de estúpido. Mas, falando sério, faça um esforço. Eu não tinha certeza de como "fazer um esforço". Ela bocejou novamente. — Bem, querida, eu vou pegar no sono. — Tudo bem, eu vou pegar algumas coisas boas no supermercado. — E talvez palha e plantas. O canteiro de flores do lado de fora estava horrível. — Katy? — Mamãe tinha parado na porta, franzindo a testa. — Sim? Uma sombra cintilou em seu rosto, escurecendo os seus olhos. — Eu sei que esta mudança é difícil para você, especialmente antes de seu último ano, mas foi a melhor coisa que nós fizemos. Ficar ali, naquele apartamento, sem ele... É hora de começarmos a viver novamente. Seu pai teria desejado isso. — O nó na minha garganta que eu pensei que tivesse


deixado na Flórida estava de volta. — Eu sei, mãe. Eu estou bem. — Você está? — Seus dedos se enrolaram em um punho. A luz do sol que entrava pela janela refletia a banda de ouro em seu dedo anelar. Eu balancei a cabeça rapidamente, necessitando tranquilizá-la. — Eu estou bem. E eu vou na porta ao lado. Talvez eles possam me dizer onde é o supermercado. Você sabe, fazer um esforço. — Excelente! Se precisar de algo, me ligue. Ok? — Os olhos da mamãe lacrimejaram em outro longo bocejo. — Eu te amo, querida. Eu comecei a dizer a ela que eu a amava muito, mas ela desapareceu no andar de cima antes que as palavras saíssem da minha boca. Pelo menos ela estava tentando mudar, e eu estava determinada a pelo menos tentar me encaixar aqui. Não me esconder no meu quarto, no meu laptop durante todo o dia como mamãe tinha medo que eu fizesse. Mas, misturar-me com adolescentes que eu não conhecia não era a minha praia. Eu prefiro ler um livro e perseguir meus comentários do blog. Mordi o lábio. Eu podia ouvir a voz do meu pai, a sua frase favorita me incentivando: "Vamos lá, Kittycat, não seja uma espectadora". Eu inclinei meus ombros. Meu pai nunca deixou a vida passar por ele... E perguntar sobre o supermercado mais próximo era uma razão inocente o suficiente para me apresentar. Se a mamãe estivesse certa e eles tivessem a minha idade, talvez isso não fosse um fracasso épico de movimento. Isso era estúpido, mas eu estava fazendo isso. Eu corri pelo gramado e em frente à entrada me acovardei. Esperando na ampla varanda, abri a porta de tela e bati, em seguida, dei um passo para trás e alisei as rugas da minha camisa. Eu sou legal. Eu consigo fazer isso. Não há nada de estranho em pedir direções. Passos pesados vieram do outro lado e, em seguida, a porta estava se abrindo e eu estava olhando para um peito muito largo, bronzeado e musculoso. Um peito nu. Meu olhar caiu e minha respiração tipo... Parou. Jeans pendurado baixo em seus quadris, revelando uma linha fina de cabelo escuro que se formava abaixo do seu umbigo e desaparecia sob a banda dos jeans. Seu estômago era rasgado. Perfeito. Totalmente palpável. Não é o tipo de estômago que eu esperava em um rapaz de dezessete anos de idade, que é quantos anos eu suspeitava que ele tivesse, mas sim, eu não estava reclamando. Eu também não estava falando. E eu estava olhando. Meu olhar, finalmente, viajou para o norte novamente, notei grossos cílios abanando as pontas de suas bochechas altas e escondendo a cor de seus olhos quando ele olhou para mim. Eu precisava saber qual era a cor de seus olhos. — Posso ajudar? — Lábios cheios, beijáveis, expressavam aborrecimento. Sua voz era profunda e firme. O tipo de voz acostumada a ouvir as pessoas e a ser obedecida sem questionar. Seus cílios levantaram, revelando olhos tão verdes e brilhantes que não poderiam ser reais. Eles eram de uma cor esmeralda intensa que se destacava no contraste vibrante contra sua pele bronzeada. — Olá? — Ele disse de novo, colocando uma mão no batente da porta quando ele se inclinou para frente. — É capaz de falar? Eu respirei fundo e dei um passo para trás. Uma onda de vergonha aqueceu meu rosto.


O menino ergueu um braço, afastando uma mecha de cabelo ondulado em sua testa. Ele olhou por cima do ombro, depois de volta para mim. — Dou-lhe um... Até o momento que eu encontrei a minha voz, eu queria morrer. — Eu... Eu queria saber se você sabe onde é o supermercado mais próximo. Meu nome é Katy. Me mudei para a casa ao lado. — Fiz um gesto para minha casa, falando como uma idiota. — A dois dias atrás— Eu sei. Ooooo-kay. — Bem, eu estava esperando que alguém soubesse o caminho mais rápido para o supermercado e, talvez, um lugar que venda plantas. — Plantas? Por alguma razão, ele não soava como se ele estivesse me fazendo uma pergunta, mas eu corri para responder de qualquer maneira. — Sim, veja, há este canteiro em frenteEle não disse nada, apenas levantou uma sobrancelha com desdém. — Ok. O constrangimento foi desaparecendo, sendo substituído por uma onda crescente de raiva. — Bem, veja, eu preciso ir comprar plantas— Para o canteiro de flores. Eu entendi isso. — Ele inclinou seu quadril contra o batente da porta e cruzou os braços. Algo brilhou em seus olhos verdes. Não raiva, mas outra coisa. Eu tomei uma respiração profunda. Esse cara me cortou mais uma vez... Minha voz assumiu o tom que minha mãe costumava usar quando eu era mais jovem e estava brincando com objetos cortantes. — Eu gostaria de encontrar uma loja onde eu possa comprar mantimentos e plantas. — Você está ciente que esta cidade tem apenas um semáforo, certo? — Ambas as sobrancelhas foram levantadas para o seu couro cabeludo agora, como se estivesse questionando como eu podia ser tão idiota, e foi aí que eu percebi o que eu vi brilhando em seus olhos. Ele estava rindo de mim com uma saudável dose de condescendência. Por um momento, tudo o que eu podia fazer era olhar para ele. Ele era, provavelmente, o cara mais gostoso que eu já vi na vida real, e ele era um total idiota. Vai entender. — Você sabe, tudo o que eu queria eram direções. Esse é obviamente um momento ruim. — Um lado de seus lábios se enrolou. — Sempre é um momento ruim para você vir bater na minha porta, criança. — Criança? — Eu repeti, com os olhos arregalados. Uma sobrancelha escura, zombeteira arqueou novamente. Eu estava começando a odiar aquela sobrancelha. — Eu não sou uma criança. Tenho dezessete anos. — É isso mesmo? — Ele piscou. — Parece que você tem doze anos. Não. Talvez treze anos, mas minha irmã tem essa boneca que meio que me lembra você. Toda de olhos grandes e vazios. Eu o lembrava uma boneca? Uma boneca vazia? O calor ardia em meu peito, espalhando-se em minha garganta. — Sim, uau. Desculpe por incomodá-lo. Eu não baterei na sua porta novamente. Confie em mim. — Eu comecei a virar, antes que eu cedesse ao desejo desenfreado de bater os punhos em seu rosto.


Ou chorar. — Ei! — Ele gritou. Parei no último degrau, mas recusei-me a virar e deixá-lo ver como eu estava chateada. — O quê? — Você pega a Rota 2 e vira na U.S. 220 Norte, não Sul. Leva você para Petersburgo. — Ele soltou um suspiro irritado, como se estivesse me fazendo um grande favor. — O Foodland é à direita na cidade. Não tem como se perder. Bem, talvez você consiga. Há uma loja de ferragens ao lado, eu acho. Eles devem ter coisas que servem para o solo. — Obrigada. — Eu murmurei e acrescentei baixinho — Babaca. Ele riu, profundo e gutural. — Agora, isso não é muito elegante, Kittycat. Eu me virei. — Nunca mais me chame assim! — Eu atirei. — É melhor do que chamar alguém de babaca, não é? — Ele se empurrou para fora da porta. — Esta foi uma visita estimulante. Eu vou amar isso por um longo tempo. Ok. Era isso. — Sabe, você está certo. Foi errado da minha parte chamá-lo de babaca. Porque a palavra babaca é muito agradável para você. — eu disse, sorrindo docemente. — Você é um idiota. — Um idiota? — Ele repetiu. — Que encantador. Eu me virei para ele. Ele riu de novo e abaixou a cabeça. A confusão de ondas caiu para frente, quase obscurecendo seus intensos olhos verdes. — Muito civilizada, Gatinha. Tenho certeza de que você tem uma variedade selvagem de nomes interessantes e gestos para mim, mas não estou interessado. — Eu tinha muito mais que eu poderia dizer e fazer, mas eu juntei a minha dignidade, girei, e pisei de volta para a minha casa, não lhe dando o prazer de ver como eu estava realmente chateada. Eu sempre evitei o confronto no passado, mas esse cara estava ligando meu interruptor de cadela como nada mais. Quando cheguei ao meu carro, eu puxei para abrir a porta. — Vejo você mais tarde, Gatinha! — Ele gritou, rindo enquanto batia a porta da frente. Lágrimas de raiva e embaraço queimaram meus olhos. Enfiei as chaves na ignição e coloquei o carro em marcha ré. ‘Faça um esforço’, mamãe tinha dito. Isso é o que acontece quando você faz um esforço.


2 Levou toda a viagem até Petersburgo para me acalmar. Mesmo assim, ainda havia uma mistura quente de raiva e humilhação turbilhando dentro de mim. Que diabos havia de errado com ele? Pensei que as pessoas em cidades pequenas fossem agradáveis, e não agissem como o filho de Satanás. Eu encontrei o Main Street sem nenhum problema, que literalmente parecia ser a rua principal. Havia o Grant County Library em Mount View, e eu me lembrei que eu precisava obter um cartão de biblioteca. Opções de supermercado eram limitadas. Foodland, que realmente se lia FOO LAND, mostrado a você pela letra D faltando, era onde o Babaca havia dito que seria. As janelas da frente estavam repletas de uma imagem de uma pessoa desaparecida, uma menina da minha idade com longos cabelos escuros e olhos risonhos. Os dados abaixo diziam que ela tinha sido vista a mais de um ano atrás. Havia uma recompensa, mas depois de ter desaparecido há tanto tempo, eu duvidava que a recompensa jamais fosse reclamada. Entristecida por esse pensamento, eu fui para dentro. Eu era uma cliente rápida, sem perder tempo passeando pelos corredores. Jogando itens no carrinho, eu percebi que eu precisaria de mais do que eu pensava, uma vez que só tinha as necessidades básicas em casa. Logo, meu carrinho estava cheio até a borda. — Katy? Perdida em pensamentos, eu pulei com a voz feminina suave e deixei cair uma caixa de ovos no chão. — Merda. — Oh! Sinto muito! Eu a assustei. Eu faço muito isso. — Braços bronzeados dispararam e ela pegou a caixa e colocou-a de volta na prateleira. Ela pegou outra e segurou em suas mãos esguias. — Estes não estão quebrados. — Eu levantei o meu olhar da carnificina, as gemas dos ovos escorrendo lentamente pelo brilhante piso de linóleo e fiquei momentaneamente atordoada. Minha primeira impressão da moça era de que ela era muito bonita para estar de pé em um supermercado com uma caixa de ovos na mão. Ela se destacava como um girassol em um campo de trigo. Todo o resto era uma comparação pálida. Seu cabelo escuro era crespo e maior do que o meu, atingindo a cintura. Ela era alta, magra, e seus traços quase perfeitos traziam certa inocência. Ela me fez lembrar de alguém, especialmente aqueles olhos verdes surpreendentes. Eu cerrei os dentes. Quais são as chances? Ela sorriu. — Eu sou a irmã de Daemon. Meu nome é Dee. — Ela colocou a embalagem intacta de ovos no meu carrinho. — Novos ovos! — Ela sorriu. — Daemon? Dee fez um gesto para uma bolsa rosa choque na frente de seu carrinho. Um telefone celular estava deitado em cima dela. — Você falou com ele a cerca de trinta minutos atrás. Você parou para... Pedir direções?


Então, o idiota tinha um nome. Daemon, parecia adequado. E, claro, sua irmã seria tão atraente quanto ele. Por que não? Bem-vindo a Virginia do Oeste, a terra de modelos perdidos. Eu estava começando a duvidar de que eu conseguiria me adequar aqui. — Sinto muito. Eu não estava esperando que alguém chamasse o meu nome. — Fiz uma pausa. — Ele te ligou? — Sim. — Ela habilmente puxou o carrinho para fora do caminho de uma criança que corria através do corredor estreito. — De qualquer forma, eu vi vocês se mudando, e eu imaginei passar por lá, e quando ele disse que você estava aqui, bem, eu estava tão animada para conhecê-la que eu corri. Ele me disse como você era. — Eu só podia imaginar esta descrição. Curiosidade encheu seu rosto enquanto ela me olhava com seus intensos olhos verdes. — Embora, você não se pareça em nada com o que ele disse, mas de qualquer maneira, eu sabia quem você era. É difícil não conhecer a cara de todos por aqui. — Eu vi um garotinho sujo subir na prateleira do pão. — Eu não penso que o seu irmão goste de mim. Suas sobrancelhas franziram. — O quê? — Seu irmão, eu não acho que ele goste de mim. — Voltei para o carrinho, brincando com um pacote de carne. — Ele não foi de muita... Ajuda. — Oh, não! — ela disse, e então riu. Eu olhei para ela bruscamente. — Sinto muito. Meu irmão é mal-humorado. Não brinca. — Eu tenho certeza que foi mais do que ser mal-humorado. Ela balançou a cabeça. — Ele estava tendo um dia ruim. Ele é pior do que uma menina, confie em mim. Ele não te odeia. Nós somos gêmeos. Até eu penso em matá-lo todos os dias. De qualquer forma, Daemon é do tipo áspero em torno das bordas. Ele não se dá bem com... Pessoas. Eu ri. — Você acha? — Bem, eu estou feliz que eu encontrei você aqui! — ela exclamou, mudando de assunto mais uma vez. — Eu não tinha certeza se eu estaria incomodando você, em aparecer assim, com você se organizando e tudo. — Não, isso não teria sido um incômodo. — Eu tentei manter a conversa. Ela passou de um tema para o próximo como alguém com grande necessidade de Ritalina. — Você deveria ter me visto quando Daemon disse que você era da nossa idade. Eu quase corri para casa para abraçá-lo. — Ela se moveu animadamente. — Se eu soubesse que ele seria tão rude com você, eu teria provavelmente o socado em seu lugar. — Eu posso imaginar. — Eu sorri. — Eu queria dar um soco nele, também. — Imagine ser a única garota no bairro e presa com seu irmão chato na maioria das vezes. — Ela olhou por cima do ombro, as sobrancelhas delicadas se enrugando. Eu segui seu olhar. O menino tinha agora uma caixa de leite em cada mão, o que me lembrou que eu precisava de leite. — Volto já. — Eu fui até a seção de refrigeração. Finalmente, a mãe da criança tinha dobrado a esquina, gritando:


— Timothy Roberts, você coloque isso de volta agora! O que você está-? O garoto mostrou a língua. Às vezes, estar perto de crianças era o programa de abstinência perfeito. Então, novamente, não como se eu precisava do programa. Eu carreguei o meu leite de volta para onde Dee esperava, olhando para o chão. Seus dedos torcidos sobre a alça de seu carrinho, apertando até que os nós dos dedos ficassem brancos. — Timothy, volte aqui neste instante! — A mãe agarrou seu braço gordinho. Mechas de cabelo haviam escapado de seu coque severo. — O que foi que eu disse? — ela sussurrou. — Você não vai pra perto deles. — Deles? Eu esperava ver alguém. Só que era Dee e... Eu. Confusa, olhei para a mulher. Fiquei chocada ao ver seus olhos escuros cheios de desgosto. Repulsa pura, e por trás disso, na forma de seus lábios pressionados em uma linha dura e trêmula, havia também o medo. E ela estava olhando para Dee. Em seguida, ela reuniu o menino se contorcendo em seus braços e saiu correndo, deixando o carrinho no meio do corredor. Virei-me para Dee. — Que diabos foi isso? Dee sorriu, mas era frágil. — Cidade pequena. Os habitantes são estranhos por aqui. Não preste atenção a eles. De qualquer forma, você deve estar tão entediada de tanto desembalar e fazer compras de supermercado. É como as duas das piores coisas de sempre. Quero dizer, o inferno pode ser concebido dessas duas coisas. Pense em uma eternidade de desembalar as caixas e fazer compras de supermercado? — Eu não podia deixar de sorrir enquanto eu lutava para manter a conversa sem parar de Dee enquanto terminava de carregar os nossos carrinhos. Normalmente, alguém assim me desgastava em cinco segundos, mas a emoção em seus olhos e a forma como ela continuava balançando-se sobre os calcanhares era uma espécie de contagio. — Você tem mais coisas para pegar? — ela perguntou. — Eu praticamente acabei. Eu realmente vim te pegar e fui sugada pelo corredor de sorvete. Ele me chama. Eu ri e olhei para o meu carrinho cheio. — Sim, espero que eu tenha acabado. — Vamos lá então. Podemos verificar juntas. Enquanto esperávamos no corredor do check-out, Dee não parou de falar, e eu esqueci o incidente estranho no corredor do leite. Dee acreditava que Petersburgo precisava de outra loja de supermercado – porque esta não tinha alimentos orgânicos – e ela queria frango orgânico para o que ela estava fazendo para Daemon no jantar. Depois de alguns minutos, eu tinha superado a dificuldade de manter-me com ela e realmente comecei a relaxar. Ela não era borbulhante, apenas era... Viva. Eu esperava que ela passasse isso para mim. A fila do caixa andava mais rápido do que em cidades maiores. Uma vez fora, ela parou ao lado de um novo Volkswagen e abriu o porta-malas. — Carro bonito. — eu comentei. Eles tinham dinheiro, obviamente, ou Dee tinha um trabalho. — Eu amo isso. — Ela deu um tapinha no para-choque traseiro. — É o meu bebê. Enfiei os mantimentos na parte de trás do meu sedan. — Katy? — Sim? — Eu rodopiava as chaves ao redor do meu dedo, deixando o pé na bunda de seu irmão de lado, ela queria sair mais tarde. Não havia como dizer quão tarde mamãe ia dormir.


— Eu deveria pedir desculpas pelo meu irmão. Conhecendo-o, tenho certeza que ele não foi muito bom. Eu meio que senti pena dela, por ela estar relacionada com tal ferramenta. — Não é culpa sua. Seus dedos se torceram em torno do anel da chave, e seus olhos encararam os meus. — Ele é muito superprotetor, por isso ele não se dá bem com estranhos. Como um cão? Eu quase sorri, mas seus olhos estavam arregalados e ela parecia realmente com medo de que eu não fosse perdoá-la. Ter um irmão como ele deve ser um saco. — Não é grande coisa. Talvez ele estivesse apenas tendo um dia ruim. — Talvez. — Ela sorriu, mas pareceu forçado. — Sério, não se preocupe. Estamos bem. — eu disse. — Obrigada! Não sou totalmente uma perseguidora. Eu juro. — Ela piscou. — Mas eu adoraria sair esta tarde. Tem algum plano? — Na verdade, eu estava pensando em trabalhar no canteiro de flores na frente. Quer ajudar? — Ter companhia pode ser divertido. — Oh, isso parece ótimo. Deixe-me levar estes mantimentos em casa, e eu vou dirigir em linha reta de novo. — disse ela. — Eu estou realmente animada pelo jardim! Eu nunca fiz isso. Antes que eu pudesse perguntar que tipo de infância não incluía pelo menos o tomateiro obrigatório, ela disparou para o carro dela e voou para fora do estacionamento. Eu empurrei meu para-choques e me dirigi para o lado do motorista. Eu abri a porta do carro e estava prestes a subir, quando a sensação de ser observada se arrastou por cima de mim. Meus olhos corriam ao redor do parque de estacionamento, mas só havia um homem em um terno preto e óculos escuros olhando para a foto de uma pessoa desaparecida em um quadro de cortiça da comunidade. Tudo o que eu conseguia pensar era em Homens de Preto. A única coisa que ele precisava era aquele pequeno dispositivo de memória e um cão falante. Eu teria rido, exceto que nada sobre o homem era engraçado... Especialmente desde que ele agora estava olhando de volta para mim.

Um pouco mais tarde, Dee bateu na porta da frente. Quando saí, encontrei-a em pé a alguns passos, rolando para trás nos saltos de suas sandálias. Não é o que eu considero como traje de "jardinagem". O sol lançou um halo em torno de sua cabeça escura e ela tinha um sorriso maroto no rosto. Nesse momento, ela me lembrou de uma princesa dos contos de fadas. Ou talvez a Sininho, considerando como hiperativa ela era. — Hey! — Saí para a varanda, fechando a porta silenciosamente atrás de mim. — Minha mãe está dormindo. — Eu espero que eu não tenha acordado sua mãe. — ela sussurrou me imitando. Eu balancei minha cabeça. — Nah, ela dormiria durante um furacão. Já aconteceu, na verdade. Dee sorriu quando ela se sentou no balanço. Ela parecia tímida, abraçando os cotovelos.


— Assim que eu cheguei em casa com os mantimentos, Daemon comeu metade de um saco de batata fritas, dois dos meus sacos de pipoca, em seguida, metade do pote de manteiga de amendoim. Eu comecei a rir. — Uau. Como ele consegue ficar tão... — Quente. — Magro? — Isso é incrível. — Ela puxou as pernas para cima e colocou os braços ao redor delas. — Ele come tanto que geralmente temos que fazer 2, ou 3 viagens em uma semana para o mercado. — Ela olhou para mim com um brilho malicioso nos olhos. — Claro, podemos comer lá em casa ou se preferir podemos sair para comer. Eu acho que já falei demais. Minha inveja era quase dolorosa. Eu não fui abençoada com um metabolismo rápido. Meus quadris e bumbum podiam atestar isso. Eu não estava acima do peso, mas eu realmente odiava quando a mamãe se referia a mim como "cheia de curvas". — Isso é tão injusto. Eu como um saco de batatas fritas e ganho cinco quilos. — Nós temos sorte. — Seu sorriso fácil parecia apertado. — De qualquer forma, você precisa me contar tudo sobre a Flórida. Nunca estive lá. Apoiei-me no parapeito da varanda. — Pense em shoppings que não fecham e estacionamentos lotados. Oh, fora as praias. Sim, vale a pena ir para as praias. — Eu amava o calor do sol em minha pele, meus dedos se espremendo na areia molhada. — Uau! — disse Dee, seu olhar correndo ao redor, como se estivesse esperando por alguém. — Vai demorar muito para você se acostumar a viver aqui. A adaptação pode ser... Difícil quando você está fora do seu elemento. Eu dei de ombros. — Eu não sei. Não parece tão ruim assim. É claro que quando eu me vi aqui pela primeira vez, eu era como, ‘você tem que estar brincando comigo’. Eu nem sabia que esse lugar existia. Dee riu. — Sim, um monte de gente não conhece. Ficamos chocados quando chegamos aqui. — Ah, então vocês não são daqui também? A risada dela morreu quando seu olhar desviou para longe dos meus. — Não, nós não somos daqui. — Seus pais se mudarem para cá para trabalhar? — Embora eu não tivesse ideia de que tipo de empregos havia em torno deste lugar. — Sim, eles trabalham na cidade. Nós não os vemos muito. Tive a nítida impressão de que havia mais do que isso. — Isso deve ser difícil. Mas... Muita liberdade, eu acho. Minha mãe está raramente aqui também. — Eu acho que você entende, então. — Um estranho, olhar triste encheu os seus olhos. — Nós meio que decidimos nossas próprias vidas. — E você achava que as suas vidas seriam mais emocionantes do que são, certo? Ela olhou pensativa. — Alguma vez você já ouviu falar em, ter cuidado com o que deseja? Eu costumava pensar assim. — Ela mexeu o balanço para trás e para frente, nenhuma de nós se apressou para preencher o silêncio que se seguiu. Eu sabia exatamente o que ela queria dizer. Não me lembro quantas vezes eu tinha ficado acordada durante a noite e esperava que mamãe iria sair dessa e seguir em frente – e bem-vindos a Virginia do Oeste. Nuvens escuras pareciam rolar para fora do nada, lançando uma sombra em todo o quintal. Dee


franziu a testa. — Oh, não! Parece que teremos uma das nossas famosas chuvas da tarde. Elas costumam durar um par de horas. — Isso é muito ruim. Eu acho que é melhor deixarmos para mexer no jardim amanhã. Você está disponível? — Claro que sim. — Dee estremeceu no ar de repente com frio. — Gostaria de saber de onde esta tempestade veio. Parece vir do nada, não é? — Perguntei. Dee pulou do balanço, enxugando as mãos em suas calças. — Parece que sim. Bem, eu acho que sua mãe está acordada, e eu preciso acordar Daemon. — Dormindo? Está um pouco tarde. — Ele é estranho. — disse Dee. — Eu vou estar de volta amanhã, e podemos ir para a loja de jardinagem. Rindo, eu deslizei para fora do corrimão. — Parece bom. — Ótimo! — Ela pulou para baixo e girou ao redor. — Eu vou dizer a Daemon que você disse oi! Eu senti minhas bochechas virarem um vermelho ardente. — Uh, isso não será necessário. — Confie em mim, isso será! — Ela riu e, em seguida, correu para a casa ao lado. Alegre. Mamãe estava na cozinha, café na mão. Quando ela me enfrentou, fumegante líquido marrom espirrando sob o balcão. O olhar inocente no rosto tinha ido embora. Agarrando uma toalha, fui até o balcão. — Ela mora ao lado, seu nome é Dee, e eu a encontrei, enquanto estava no supermercado. — Eu passei a toalha sobre as manchas de café. — Ela tem um irmão. Seu nome é Daemon. Eles são gêmeos. — Gêmeos? Interessante. — Ela sorriu. — Dee é legal, querida? Eu suspirei. — Sim, mamãe, ela é muito legal. — Estou muito feliz. É hora de você sair da sua concha. Eu não sabia que eu estava em uma concha. Mamãe se acalmou e, em seguida, tomou um gole, olhando-me por cima da borda. — Vocês fizeram planos para sair amanhã? — Você sabe. Você estava ouvindo. — É claro. — Ela piscou. — Eu sou sua mãe. Isso é o que nós fazemos. — Escutar as conversas através das portas? — Sim. De que outra forma eu deveria saber o que está acontecendo? — ela perguntou inocentemente. Revirei os olhos e me virei para voltar para a sala de estar. — Privacidade, mãe. — Querida, — ela chamou da cozinha. — privacidade não existe.


3 O dia em que minha internet foi ligada foi melhor do que ter um cara quente conferindo minha bunda e pedindo o número do meu telefone. Como era quarta-feira, eu tinha digitado um rápido post "Esperando pela quarta-feira" para o meu blog com este livro YA sobre um menino quente com um toque assassino – ali não tinha erro – pedi desculpas por minha ausência prolongada, respondi aos comentários, e segui alguns outros blogs que eu amava. Era como voltar para casa. — Katy? — Mamãe gritou subindo as escadas. — Sua amiga Dee está aqui. — Estou indo — eu gritei de volta e fechei a tampa do meu laptop. Eu pulei descendo as escadas, e Dee e eu fomos para a loja de ferragens, que não era em qualquer lugar próximo ao FOO LAND como Daemon tinha dito. Eles tinham tudo o necessário para corrigir esse canteiro grotesco de flores lá na frente. De volta para casa, cada uma de nós pegou um lado de um saco e puxou-o para fora do meu porta mala. Os sacos eram ridiculamente pesados e pelo tempo que tínhamos levado para tirar eles para fora do carro, o suor já havia derramado para fora de nós. — Quer beber alguma coisa antes de arrastar os sacos até os canteiros das flores? — Eu ofereci, os braços doendo. Ela limpou as mãos umas contra as outras e assentiu. — Eu preciso levantar pesos. Carregar coisas é uma merda. Fomos para dentro e peguei chá gelado. — Lembre-me de me juntar à academia local, — Eu brinquei, esfregando meus braços insignificantes. Dee riu e torceu o cabelo dela encharcado de suor do seu pescoço. Ela ainda parecia linda, mesmo com o rosto vermelho e cansada. Tenho certeza de que eu parecia uma assassina em série. Pelo menos agora sabia que eu estava fraca demais para fazer qualquer dano real. — Hum. Ketterman2. Nossa ideia de academia é arrastar sua lata de lixo até o fim de uma estrada de terra ou carregar feno. — Eu desenterrei um laço de cabelo dela, brincando sobre as coisas não legais da minha nova vida de cidade pequena. Só tínhamos estado lá dentro cerca de dez minutos, no máximo, mas quando voltei, todos os sacos de terra e adubo estavam empilhados ao lado da varanda. Olhei para ela, surpresa. — Como eles chegaram até aqui? Caindo de joelhos, ela começou a puxar as ervas daninhas. — Provavelmente o meu irmão. — Daemon? Ela assentiu com a cabeça. — Ele é sempre o herói ingrato. — Herói ingrato. — eu murmurei. Não é provável. Prefiro acreditar que os sacos levitaram para cá por conta própria. Dee e eu atacamos os matos com mais energia do que eu pensava que tínhamos. Eu sempre senti


que arrancar ervas daninhas era uma ótima maneira de desabafar, e se os movimentos bruscos de Dee eram alguma indicação disso, ela tinha muito sobre o que estar frustrada. Com um irmão como o dela, eu não estava surpresa. Mais tarde, Dee olhou para as unhas lascadas. — Bem, lá se foi a minha manicure. Eu sorri. — Eu disse a você, você deveria ter usado luvas. — Mas você não está usando. — ressaltou. Levantando minhas mãos manchadas de sujeira, eu estremeci. Minhas unhas eram geralmente lascadas. — Sim, mas eu estou acostumada com isso. Dee deu de ombros e foi até lá e pegou um ancinho. Ela parecia engraçada em sua saia e sandálias, que ela insistiu que estavam a altura do trabalho de jardinagem, e arrastou o ancinho para mim. — Isso é divertido, apesar de tudo. — Melhor do que fazer compras? — Eu brinquei. Ela parecia considerar seriamente, franzindo o nariz. — Sim, é mais... Relaxante. — É. Eu não penso quando eu estou fazendo coisas como isto. — Isso é o que há de bom nisso. — Ela começou a espalhar o estrume que desaparecia na terra. — Você faz isso para evitar pensar? Sentando, eu rasguei outro saco de adubo. Eu não tinha certeza de como responder a essa pergunta. — Meu pai... Ele adorava fazer coisas como esta. Ele tinha um polegar verde. No nosso antigo apartamento, que não tinha um quintal ou qualquer coisa, mas tínhamos uma varanda. Fizemos um jardim ali, juntos. — O que aconteceu com seu pai? Seus pais se divorciaram? Eu pressionei meus lábios. Falar sobre ele não era algo que eu fazia. Como sempre. Ele tinha sido um bom homem, um grande pai. Ele não merecia o que aconteceu com ele. Dee fez uma pausa. — Sinto muito. Não é da minha conta. — Não. Está tudo bem. — Eu estava de pé, escovando a sujeira da minha camisa. Quando olhei para cima, ela estava inclinando o ancinho contra a varanda. Todo o seu braço esquerdo turvou. Eu podia ver o corrimão branco através dele. Eu pisquei. Seu braço estava sólido novamente. — Katy? Você está bem? Coração batendo forte, eu arrastei meus olhos para o seu rosto e, em seguida, de volta para o braço dela. Estava todo perfeito. Eu balancei minha cabeça. — Sim, eu estou bem. Hum... O meu pai, ele ficou doente. Câncer. Era terminal e no cérebro. Ele foi ficando com dores de cabeça, vendo coisas. — Engoli em seco, desviando o olhar. Vendo coisas como eu vi? — Mas apesar disso, ele tinha estado bom até o diagnóstico. Eles começaram a quimio e radioterapia com ele, mas tudo... Ficou uma merda tão rapidamente. Ele morreu cerca de dois meses mais tarde. — Oh, meu Deus, Katy, eu sinto muito. — Seu rosto estava pálido, sua voz suave. — Isso é terrível. — Está tudo bem. — Forcei um sorriso que eu não sentia. — Foi a cerca de três anos atrás. É por


isso que a minha mãe queria se mudar. Um novo começo e todo esse barulho. Na luz do sol, os olhos dela brilhavam. — Eu posso entender isso. Perder alguém não fica mais fácil com tempo, não é? — Não. — Até o som disso, ela sabia o que sentia, mas antes que eu pudesse perguntar, a porta de sua casa se abriu. Nós se formaram no meu estômago. — Oh, não... — Eu sussurrei. Dee virou-se, deixando escapar um suspiro. — Olha quem está de volta. Já passava da uma da tarde, e Daemon parecia como se tivesse acabado de sair da cama. Seus jeans estavam amarrotados, cabelos despenteados e em todo o lugar. Ele estava ao telefone, falando com alguém quando ele esfregou uma mão ao longo de sua mandíbula. E ele estava sem camisa. — Será que ele não possui uma camisa? — Eu perguntei, pegando uma pá. — Infelizmente, eu acho que não. Nem mesmo no inverno. Ele está sempre correndo seminu. — Ela gemeu. — É perturbador que eu tenha que ver tanto de sua... Pele. Eca. Eca para ela. E maldição quente para mim. Comecei a cavar vários buracos em lugares estratégicos. Minha garganta estava seca. Belo rosto. Corpo bonito. Atitude horrível. Era a santa trindade dos meninos quentes. Daemon ficou no telefone por cerca de 30 minutos, e sua presença tinha um efeito inundador. Não havia como ignorá-lo, nem mesmo quando tinha vontade de dar as costas para ele, eu podia senti-lo observando. Meu ombro vibrou sob o seu olhar pesado. Uma vez que eu olhei, ele tinha ido embora, só para voltar segundos depois com uma camisa. Droga. Eu meio que perdi a vista. Eu estava batendo a nova terra para baixo quando o arrogante Daemon apareceu, deixando cair um braço pesado sobre o ombro de sua irmã. Ela tentou se libertar, mas ele a abraçou. — Hey, Irmãzinha. Ela revirou os olhos, mas ela estava sorrindo. Um olhar de adoração ao herói encheu seus olhos quando ela olhou para ele. — Obrigada por trazer os sacos para nós. — Não fui eu. Dee revirou os olhos. — Seja como for, Babaca. — Isso não foi legal. — Ele andou para mais perto, sorrindo, sorrindo muito, e era uma boa visão dele. Ele deve experimentar isso com mais frequência. Então ele olhou para mim e seus olhos se estreitaram, como se ele só percebeu agora que eu estivesse lá, no meu quintal. O sorriso desapareceu completamente. — O que você está fazendo? — Olhei para mim mesma. Parecia bastante óbvio, considerando que eu estava coberta de sujeira e havia várias plantas espalhadas em volta de mim. — Eu estou preparando— Eu não estava perguntando a você. — Ele se virou para sua irmã com o rosto vermelho. — O que você está fazendo? Eu não ia deixá-lo fazer isso comigo novamente. Dei de ombros e peguei um vaso de planta. Arrancando a planta fora de seu recipiente, eu arranquei as raízes junto com ele. — Eu vou ajudá-la com o canteiro de flores. É legal. — Dee deu um soco no estômago dele antes de se soltar. — Olhe o que fizemos. Acho que tenho um talento escondido.


Daemon virou os olhos em minha obra-prima de paisagismo. Se eu tivesse que escolher um emprego dos sonhos agora, estaria trabalhando com paisagismo e ao ar livre. Sim, eu chupava bunda no deserto, mas eu estava no meu melhor com as minhas mãos mergulhadas na sujeira. Eu amava tudo sobre isso. O entorpecente exercício, a forma como tudo cheirava a terra e riqueza, e como um pouco de água e solo fresco podem trazer a vida de volta a algo que estava desbotado e morto. E eu era boa nisso. Eu assisti a todos os shows no TLC. Eu sabia onde colocar as plantas que necessitavam de mais sol e aquelas que prosperavam nas sombras. Havia um efeito de camadas, mais altas e com folhas, plantas mais resistente atrás e flores na frente. Tudo o que eu tinha que fazer era colocar para baixo do solo e voila! Daemon arqueou uma sobrancelha. Minhas entranhas se apertaram. — O quê? Ele deu de ombros. — Está bonito. Eu acho. — Bonito? — Dee soava tão ofendida quanto eu me sentia. — Está melhor do que bonito. Nós arrasamos neste projeto. Bem, Katy arrasou. Eu meio que lhe entreguei o material. — É isso que você faz com seu tempo livre? — Ele me perguntou, ignorando sua irmã. — O que? Você decidiu falar comigo agora? — Sorrindo com força, peguei um punhado de adubo e despejei. Enxágue e repita. — Sim, é uma espécie de hobby. Qual é o seu? Chutar cachorros? — Eu não tenho certeza se eu deveria dizer na frente da minha irmã. — Respondeu ele, sua expressão se transformando em lobo. — Ew. — Dee fez uma careta. As imagens que eu tinha dele eram totalmente impróprias para menores, e eu poderia dizer pela sua expressão presunçosa que ele sabia disso. Eu peguei mais adubo. — Mas não é tão tedioso quanto isto. — Ele acrescentou. Eu congelei. Pedaços de cedro vermelhos flutuavam dos meus dedos. — Por que isto é tedioso? Seu olhar dizia eu realmente preciso explicar? E sim, jardinagem não era o melhor das coisas legais. Eu sabia disso. Mas não era tedioso. Porque eu gostava de Dee, eu apertei minha boca e comecei a espalhar o adubo. Dee empurrou seu irmão, mas ele não se mexeu. — Não seja um idiota. Por favor? — Eu não estou sendo um idiota. — Ele negou. Eu levantei minhas sobrancelhas. — O que é isso? — Disse Daemon. — Você tem algo a dizer, Gatinha? — Que eu gostaria que você nunca mais me chamasse de gatinha? Não. — Eu espalhei o adubo, então, me levantei, admirando nosso trabalho. Jogando a Dee uma olhada, eu sorri. — Acho que fizemos um bom trabalho. — Sim. — Ela empurrou o irmão novamente, na direção de sua casa. Ele ainda não se mexeu. — Fizemos bem, com tédio e tudo mais. E você sabe o quê? Eu meio que gosto de ser tediosa. Daemon olhou para as flores recém plantadas, quase como se estivesse dissecando-as para um experimento científico. — E eu acho que nós precisamos espalhar a nossa tediosidade ao canteiro de flores na frente da


nossa casa. — Continuou ela, os olhos cheios de emoção. — Podemos ir até a loja, pegar algumas outras coisas e você pode— Ela não é bem-vinda em nossa casa. — Daemon retrucou, virando-se para a irmã. — Sério. Surpresa com o veneno em suas palavras, eu dei um passo para trás. Dee, no entanto, não o fez. Suas mãos delicadas se fecharam em punhos. — Eu estava pensando que poderíamos trabalhar no canteiro de flores, que está do lado de fora – não do lado de dentro – da última vez que verifiquei. — Eu não me importo. Eu não a quero lá. — Daemon, não faça isso. — Dee murmurou, com os olhos cheios de lágrimas. — Por favor. Eu gosto dela. O notável aconteceu. Seu rosto se suavizou. — Dee... — Por favor? — Ela perguntou novamente, saltando como uma garotinha pedindo seu brinquedo favorito, o que era estranho de se ver dado o quão alta ela era. Eu queria chutar Daemon por transformar sua irmã em alguém claramente faminta por amizades. Ele amaldiçoou sob sua respiração, cruzando os braços. — Dee, você tem amigos. — Não é o mesmo, e você sabe disso. — Seus movimentos imitaram o seu. — É diferente. Daemon olhou para mim, seus lábios se curvaram. Se eu ainda tivesse a pá, eu poderia ter a atirado em sua cabeça. — Eles são seus amigos, Dee. Eles são como você. Você não precisa ser amiga de alguém... Alguém como ela. — Eu tinha ficado calada até aquele ponto, porque eu não tinha ideia do que estava acontecendo e eu não queria dizer nada que pudesse perturbar Dee. O idiota era o irmão dela, afinal de contas, mas isso, isso tinha ido muito além. — O que você quer dizer com, alguém como eu? — Ele inclinou a cabeça para o lado e soltou um longo suspiro. Os olhos de sua irmã correram de mim para ele nervosamente. — Ele não quis dizer nada com isso. — Besteira. — Ele murmurou. Agora minhas mãos estavam apertadas em punhos. — Que diabos é o seu problema? Daemon me enfrentou. Havia uma expressão estranha no rosto. — Você. — Eu sou o seu problema? — Eu dei um passo para frente. — Eu não te conheço. E você não me conhece. — Vocês são tudo a mesma coisa. — Um músculo bateu em sua mandíbula — Eu não preciso conhecê-la. Ou querer conhecê-la. Eu joguei minhas mãos para cima, frustrada. — Isso funciona perfeitamente para mim, amigo, porque eu não quero chegar a te conhecer também. — Daemon, — Dee disse, agarrando seu braço. — Pare com isso. Ele sorriu quando me olhou. — Eu não gosto que você seja amiga da minha irmã.


Eu disse a primeira coisa que me veio à mente. Provavelmente não era a mais inteligente e, normalmente, eu não era o tipo de pessoa que respondia de volta, mas esse cara ficava sob a minha pele e me fazia ver tudo vermelho. — E eu não dou duas merdas para o que você gosta. — Um segundo ele estava em pé ao lado de Dee e no próximo ele estava bem na minha frente. E eu quero dizer, bem na minha frente. Ele não poderia ter se mexido tão rápido. Era impossível. Mas lá estava ele, elevando-se sobre mim e olhando para baixo. — Como... Como você se moveu...? — Eu dei um passo para trás, as palavras falhando. A intensidade em seus olhos enviava arrepios aos meus braços. Caramba... — Ouça com atenção. — Disse ele, dando um passo à frente. Dei um passo atrás, e ele acompanhou os meus passos até que as minhas costas batessem em uma das árvores altas. Daemon inclinou a cabeça para baixo, seus olhos verdes não naturais ocupando meu mundo inteiro. Calor rolava de seu corpo. — Eu só vou dizer isto uma vez. Se acontecer alguma coisa à minha irmã, então me ajudeEle parou, respirando fundo enquanto seu olhar caiu para meus lábios entreabertos. Minha respiração ficou presa. Algo brilhou em seus olhos, mas se estreitaram novamente, escondendo o que tinha estado ali. As imagens estavam de volta. Dois de nós. Quente e suado. Mordi o lábio e tentei fazer a minha expressão ficar em branco, mas mais uma vez eu sabia que ele poderia dizer o que eu estava pensando quando sua expressão tornou-se irritantemente presunçosa. Além de irritante. — Você é meio suja, Gatinha. Eu pisquei. Negue. Negue. Negue. — O que você disse? — Suja. — Ele repetiu, a voz tão baixa que eu sabia que Dee não podia ouvi-lo. — Você está coberta de sujeira. O que você achou que eu quis dizer? — Nada. — Eu disse, desejando que o inferno se abrisse atrás dele. Estar tão perto de Daemon não era exatamente reconfortante. — Estou jardinando. Você fica sujo quando você faz isso. Seus lábios tremeram. — Há um monte de formas mais divertidas para conseguir se... Sujar. Não que eu algum dia vá te mostrar. Eu tinha a sensação de que ele conhecia cada forma minha intimamente. Um rubor subiu sobre meu rosto e desceu pela minha garganta. — Eu prefiro rolar no estrume a dormir com você. Daemon arqueou uma sobrancelha e, em seguida, virou-se. — Você precisa ligar para Matthew. — Ele disse para sua irmã. — Agora e não daqui a cinco minutos. Eu fiquei contra a árvore, olhos arregalados e imóvel, até que ele desapareceu de volta para sua casa, a porta se fechando atrás dele. Engoli em seco, olhando para uma Dee perturbada. — Ok. — Eu disse. — Isso foi intenso. Dee caiu nos degraus, com as mãos no rosto dela. — Eu realmente amo ele, eu amo. Ele é meu irmão, o único... — Ela parou, erguendo a cabeça. — Mas ele é um idiota. Eu sei que ele é. Ele não foi sempre assim. — Sem fala, eu olhei para ela. Meu coração ainda estava disparado, bombeando sangue de maneira muito rápida. Eu não tinha certeza se


era medo ou adrenalina que estava me deixando tonta quando finalmente me afastei da árvore e me aproximei dela. E se eu não tinha medo, eu meio que me perguntava se eu deveria ter. — É difícil ter amigos com ele por perto. — Ela murmurou, olhando para as mãos. — Ele coloca todos pra correr. — Puxa, eu me pergunto o porquê. — Na verdade, eu me pergunto o porquê. Sua possessividade parecia um pouco fora de lógica. Minhas mãos ainda estavam tremendo, e mesmo ele tendo ido embora, eu ainda podia senti-lo, o calor que ele jogou para fora. Isso tinha sido... Emocionante. Infelizmente. — Eu sinto muito, muito mesmo. — Ela levantou-se dos degraus, abrindo e fechando as mãos. — É que ele é superprotetor. — Eu peguei isso, mas não é como se eu fosse um cara tentando te molestar ou qualquer coisa. Um sorriso apareceu. — Eu sei, mas ele se preocupa muito. Eu sei que ele vai... Se acalmar, uma vez que ele comece a conhecer você. Eu duvidava disso. — Por favor, diga-me que ele não te colocou para correr também. — Ela deu um passo a minha frente, as sobrancelhas franzidas. — Eu sei que você provavelmente acha que sair comigo não vale a pena— Não. Está tudo bem. — Eu passei a mão sobre a minha testa. — Ele não me botou pra correr, ele não vai. Ela parecia tão aliviada que eu pensei que ela iria entrar em colapso. — Bem. Eu tenho que ir, mas vou corrigir isso. Eu prometo. Eu dei de ombros. — Não há nada para se corrigir. Ele não é problema seu. Um olhar estranho cruzou seu rosto. — Mas ele meio que é. Eu vou falar com você mais tarde, ok? Assentindo, voltei meu olhar de volta para a casa dela. Eu agarrei os sacos vazios. Que diabos foi tudo isso? Nunca na minha vida tinha conhecido alguém que não gostava de mim tão fortemente. Balançando a cabeça, eu larguei os sacos no lixo. Daemon era quente, mas ele era um idiota. Um valentão. E eu quis dizer o que eu disse a Dee. Ele não ia me assustar e evitar que eu fosse amiga de sua irmã. Ele só tem que lidar com isso. Eu estava aqui para ficar.


4 Eu pulei a postagem no meu blog na segunda-feira, principalmente porque era geralmente o tipo de coisa "O que você está lendo" e eu não estava lendo nada de novo no momento. Eu decidi que meu pobre carro precisava de um banho em seu lugar. Mamãe ficaria orgulhosa se ela tivesse estado lá, vendo que eu estava do lado de fora durante o verão e não acorrentada ao meu laptop. Diferentemente do cargo ocasional de jardinagem, eu estava tipicamente me fechando. O céu estava claro e o ar carregava um cheiro almiscarado de luz misturado com pinho. Logo depois que comecei a limpeza do interior do meu carro, eu fiquei surpresa com quantas canetas e laços de cabelo que eu achei. Ver minha mochila no banco de trás me fez estremecer. Em um par de semanas eu estaria começando uma nova escola, e eu sabia que Dee estaria cercada por amigos – amigos que Daemon provavelmente aprovava, que não eram eu, porque ele obviamente pensava que eu era uma traficante de crack. Em seguida, peguei um balde e uma mangueira e ensaboei mais o carro, mas quando cheguei no teto, tudo o que eu fazia era molhar e derrubar a esponja uma dúzia de vezes. Não importa de que lado eu tentasse atacar o teto, não estava funcionando, xingando comecei a tirar os pedaços de saibro e grama da esponja. Eu queria lançá-la na próxima floresta. Frustrada, acabei jogando a esponja no balde. — Você parece que precisa de alguma ajuda. Eu pulei. Daemon estava a poucos metros de mim, com as mãos nos bolsos da frente da calça jeans desbotada. Seus olhos brilhantes, brilhavam sob a luz do sol. Sua súbita aparição tinha me assustado. Eu não tinha sequer o ouvido. Como alguém poderia se mover tão malditamente em silêncio, especialmente tão alto como ele era? E ei, ele tinha uma camisa. Eu não tinha certeza se eu deveria estar grata ou decepcionada. Bocas a parte, ele era digno de se babar. Eu estalei para fora do transe, me preparando para o inevitável tapa na cara verbal. Ele não estava sorrindo, mas pelo menos ele não parecia que queria me matar dessa vez. Se alguma coisa, sua expressão assumiu uma máscara de aceitação relutante, provavelmente como eu parecia, quando tinha que dar a um livro que eu estava empolgada um comentário menos que estelar. — Você parecia que ia jogar isso de novo. — Ele apontou para o balde com seu cotovelo, a esponja flutuava acima da espuma. — Eu imaginei que deveria fazer minha boa ação do dia e intervir antes de qualquer esponja inocente perder a sua vida. — Eu tirei alguns fios de cabelo úmido dos meus olhos, sem saber o que dizer. Daemon se inclinou rapidamente e pegou a esponja, espremendo para fora o excesso de água. — Parece que você tomou mais banho do que o carro. Eu nunca pensei que lavar um carro fosse tão difícil, mas depois de ver você nos últimos quinze minutos, eu estou convencido de que deveria ser um esporte olímpico. — Você estava me olhando? — Tipo assustador. Tipo quente. Não! Não quente. Ele deu de ombros. — Você sempre pode levar o carro para o lava jato. Seria muito mais fácil. — Lava jatos são um desperdício de dinheiro.


— É verdade. — disse ele lentamente. Ajoelhou-se e começou a limpar a mancha que eu tinha perdido no para-choque ao redor do pneu antes de abordar o teto do carro. — Você precisa de pneus novos. Estes estão carecas e o inverno é louco por aqui. — Eu não me importava com os meus pneus. Eu não conseguia entender por que ele estava aqui, falando comigo, quando a última vez que tinha falado, ele agiu como se eu fosse o anticristo e praticamente me tinha presa a uma árvore, falando sobre maneiras de ficar suja. E por que eu não tinha escovado meu cabelo hoje de manhã? — De qualquer forma, estou feliz que você estivesse por aqui. — Ele terminou com o teto em tempo recorde e pegou a mangueira. Ele deu um meio sorriso para mim e começou a pulverizar o carro com a água, a espuma escorrendo os lados, como um copo transbordando. — Eu acho que eu tenho que me desculpar. — Você acha que você deveria? Daemon me encarou, os olhos apertados contra o sol brilhante, e eu quase não desviei do spray de água que ele jogou do lado oposto do carro. — Sim, de acordo com Dee eu precisava trazer a minha bunda aqui e fazer bonito. Algo sobre eu matar suas chances de ter uma amiga 'normal'. — Uma amiga normal? Que tipo de amigos ela tem? — Anormais. — respondeu ele. Ele prefere amigos "anormais" para a sua irmã? — Bem, desculpar-se não significa que entendeu o objetivo de se pedir desculpas. Ele fez um barulho afirmativo. — É verdade. Olhei para ele. — Você está falando sério? — Sim. — Ele arrastou a palavra, trabalhando o seu caminho ao redor do carro enquanto ele continuava a enxaguar a espuma do sabão. — Na verdade, eu não tenho escolha. Eu tenho que fazer bonito. — Você não parece ser uma pessoa que faz qualquer coisa que não queira fazer. — Normalmente eu não sou. — Ele se moveu ao redor da parte de trás do carro. — Mas a minha irmã tomou as chaves do meu carro e até eu fazer bonito, eu não as terei de volta. É também extremamente irritante obter substitutos. Eu tentei segurar, mas eu ri. — Ela pegou suas chaves? Ele fez uma careta, retornando para meu lado. — Não é engraçado. — Você está certo. — Eu ri. — É enlouquecidamente hilário. Daemon me lançou um olhar sujo. Eu cruzei os braços. — Eu sinto muito, no entanto. Eu não vou aceitar o seu não tão sincero pedido de desculpas. — Nem mesmo quando eu estou limpando seu carro? — Não. — Sorri para a maneira como seus olhos se estreitaram. — Você nunca poderá ter as chaves de novo. — Oh, droga, lá se foi o meu plano. — Um sorriso relutante brincou com os cantos de sua boca. — Eu imaginei que se eu realmente não me sentisse mal, então pelo menos eu poderia fazer isso.


Parte de mim estava irritada, mas havia outra parte de mim que estava se divertindo – relutantemente se divertindo. — Você normalmente é quente e brilhante? Ele passou por mim e jogou a água fora. — Sempre. Você costuma encarar os caras quando você para pedir por direções? — Você sempre atende a porta seminu? — Sempre. E você não respondeu minha pergunta. Você sempre encara? Calor infundiu minhas bochechas. — Eu não estava encarando. — Sério? — Perguntou ele. Esse meio sorriso estava lá novamente, insinuando covinhas. — De qualquer forma, você me acordou. Eu não sou uma pessoa da manhã. — Não era tão cedo. — Eu apontei. — Eu durmo muito. E é verão, você sabe. Você não dorme? Eu empurrei para trás uma mecha de cabelo que tinha escapado do meu rabo de cavalo. — Não. Eu sempre me levanto cedo. Ele gemeu. — Você soa exatamente como minha irmã. Não é à toa que ela te ame tanto já. — Dee tem bom gosto... Ao contrário de alguns... — Eu disse. Seus lábios tremeram. — E ela é ótima. Eu realmente gosto dela, então se você está aqui para jogar bonito, irmão mau, simplesmente esqueça isso. — Não é por isso que estou aqui. — Ele recolheu o balde e vários sprays e produtos de limpeza. Eu provavelmente deveria tê-lo ajudado a recolher as coisas, mas era fascinante vê-lo assumir o comando do meu pequeno projeto de limpeza. Embora ele mantivesse o meio sorriso estranho, eu poderia dizer que esta pequena troca era estranha para ele. Bom. — Então por que você está aqui, se não é para fazer uma porcaria de pedido de desculpas? — Eu não conseguia parar de olhar para sua boca quando ele falou. Eu aposto que ele sabia como beijar. Beijos perfeitos também, aqueles que não eram molhados e brutais, mas o tipo que enrolava os dedos. Eu precisava parar de olhar para ele de um modo geral. Daemon colocou todos os utensílios nos degraus da varanda e se endireitou. Esticando os braços sobre a cabeça, sua camisa subiu, revelando uma pequena amostra dos músculos. Seu olhar permanecia em meu rosto, e calor floresceu na minha barriga. — Talvez eu esteja apenas curioso em saber o porquê dela estar tão apaixonada. Dee se dá bem com estranhos. Nenhum de nós se dá. — Eu tive um cachorro uma vez que não se dava bem com estranhos. Daemon olhou para mim por um momento, depois riu. Era um retumbante som profundo. Bonito. Sexy. Oh Deus, eu desviei o olhar. Ele era o tipo de garoto que quebrava corações e deixava uma longa lista deles quebrados atrás dele. Ele era um problema. Talvez um tipo divertido de problemas, mas ele também era um idiota. E eu não faria movimentos bruscos. Não que eu tivesse feito. Limpei a garganta. — Bem, obrigada pela coisa com o carro. — De repente, ele estava bem na minha frente novamente. Tão perto que seus dedos dos pés quase tocaram os meus. Puxei uma respiração afiada, querendo fazer backup. Ele precisava parar de fazer isso. — Como é que você se move tão rápido?


Ele ignorou a pergunta. — Minha irmãzinha parece gostar de você. — disse ele, como se ele não conseguisse descobrir o porquê. Eu me irritei e inclinei a cabeça para trás, mas focando meu olhar por cima do ombro. — Irmãzinha? Vocês são gêmeos. — Eu nasci quatro minutos e trinta segundos antes dela. — Vangloriou-se, seus olhos encontrando os meus. — Tecnicamente, ela é minha irmãzinha. Minha garganta estava seca. — Ela é o bebê na família? — É, portanto, eu sou o único carente de atenção. — Acho que isso explica sua má atitude, então. — Retruquei. — Talvez, mas a maioria das pessoas me acha charmoso. Comecei a responder, mas cometi o erro de olhar em seus olhos. Eu estava imediatamente enlaçada pela cor natural, lembrava das mais puras, as partes mais profundas dos Everglades3. — Eu tenho... Grande dificuldade em acreditar nisso. — Seus lábios se curvaram ligeiramente. — Você não deve, Kat. — Ele pegou uma seção de cabelos soltos que haviam escapado do meu clipe, girando o cabelo em torno de seu dedo. — Que tipo de cor é essa? Não é castanho ou loiro. — Meu rosto ardia com o calor. Puxei meu cabelo para trás. — É chamado de castanho claro. — Hmm... — Disse ele, balançando a cabeça. — Você e eu temos planos a fazer. — O quê? — Eu evitei seu grande corpo, arrastando uma respiração profunda quando eu ganhei alguma distância. Meu coração estava batendo. — Nós não temos planos para fazer. Daemon sentou-se nos degraus, esticando suas longas pernas e inclinando-se para trás em seus cotovelos. — Confortável? — Eu rebati. — Muito. — Ele piscou para mim. — Sobre esses planos... Eu estava a poucos metros dele. — O que você está falando? — Você se lembra de toda a coisa sobre 'trazer a minha bunda aqui e jogar bonito’, certo? Isto também envolve ter as chaves do meu carro? — Ele cruzou os tornozelos enquanto seu olhar deslizou sobre as árvores. — Esses planos envolvem eu recebendo as chaves do carro de volta. — Você precisa me dar um pouco mais de uma explicação do que isso. — É claro. — Ele suspirou. — Dee escondeu as chaves. Ela é boa em esconder as coisas, também. Eu já revirei a casa toda, e eu não consigo encontrá-las. — Então, faça-a dizer onde elas estão. — Graças a Deus que eu não tenho quaisquer irmãos. — Oh, eu o faria, se ela estivesse aqui. Mas ela deixou a cidade e não vai estar de volta até o domingo. — O quê? — Ela nunca mencionou sair da cidade. Ou parentes próximos. — Eu não sabia disso. — Foi uma coisa de última hora. — Ele descruzou os tornozelos e um pé começou a tocar em um ritmo desconhecido. — E a única maneira dela me dizer onde as chaves estão escondidas é se eu ganhar pontos extras. Veja, minha irmã tem essa coisa de pontos extras, desde a escola primária. Eu comecei a sorrir. — Tudo bem...?


— Eu tenho que ganhar pontos extras para pegar minhas chaves de volta. — Ele explicou. — A única maneira que eu posso ganhar os pontos é fazendo algo de bom para você. Eu comecei a rir de novo. O olhar em seu rosto era incrível. — Me desculpe, mas isso é engraçado. Daemon soltou um profundo suspiro de desgosto. — Sim, é muito engraçado. Minha risada desapareceu. — O que você tem que fazer? — Eu tenho que levá-la para nadar amanhã. Se eu fizer isso, então ela vai me dizer onde estão escondidas as minhas chaves. E eu tenho que ser bonzinho. Ele tinha que estar brincando, mas quanto mais eu olhava para ele, mais percebia que ele estava falando sério. Minha boca caiu aberta. — Portanto, a única maneira de você obter as chaves de volta é se me levar para nadar e ser agradável comigo? — Uau. Você é rápida. Eu comecei a rir novamente. — Sim, bem, você pode dar o beijo de adeus as suas chaves. Surpresa brilhou em seu rosto. — Por quê? — Porque eu não vou a lugar nenhum com você. — Eu disse a ele. — Nós não temos uma escolha. — Não. Você não tem escolha, mas eu tenho. — Olhei para a porta fechada atrás dele, me perguntando se mamãe estava em algum lugar tentando ouvir lá dentro. — Não sou eu que estou com as chaves desaparecidas. Daemon me observou por um momento, e então ele sorriu. — Você não quer sair comigo? — Uh, não. — Por que não? Revirei os olhos. — Para começar, você é um idiota. Ele acenou com a cabeça. — Eu posso ser. — E eu não vou passar meu tempo com um cara que está sendo forçado a fazê-lo por sua irmã. Eu não estou desesperada. — Você não está? Raiva bateu em mim, e eu dei um passo para frente. — Saia da minha varanda. Ele parecia considerá-lo. — Não. — O quê? — Eu gaguejei. — O que quer dizer com não? — Eu não vou sair até que concorde em ir nadar comigo. Vapor deve estar saindo dos meus ouvidos. — Tudo bem. Você pode sentar aí, porque eu prefiro comer vidro a passar algum tempo com você.


Ele riu. — Isso soa tão drástico. — Nem de longe! — eu respondi, subindo as escadas. Daemon virou, pegando meu tornozelo. Seu aperto era frouxo, sua mão incrivelmente quente. Olhei para ele, e ele sorriu para mim, tão inocente quanto um anjo. — Eu vou ficar aqui todo o dia e noite. Eu vou acampar em sua varanda. E eu não vou ir embora. Temos toda a semana, Gatinha. Quer acabar com isso e amanhã sair comigo, ou eu vou ficar aqui até você concordar. Você não será capaz de sair de casa. Eu fiquei boquiaberta. — Você não pode estar falando sério. — Oh, eu posso. — Apenas diga a ela que fomos e que eu tive um grande momento. — Eu tentei puxar meu pé livre, mas ele o segurou. — Minta. — Ela vai saber se eu estiver mentindo. Nós somos gêmeos. Sabemos estas coisas. — Ele fez uma pausa. — Ou você está muito tímida para ir nadar comigo? A ideia de ficar quase nua em torno de mim te incomoda? Eu agarrei o corrimão e puxei meu pé. O babaca apenas o segurava levemente, mas meu pé não se mexia. — Eu sou da Flórida, idiota. Passei metade da minha vida em um maiô. — Qual é o problema? — Eu não gosto de você. — Eu parei de puxar e fiquei lá. Sua mão parecia cantarolar ao redor da minha pele. Era a sensação mais estranha que nunca. — Solte o meu tornozelo. Muito lentamente, ele ergueu cada dedo, segurando meu olhar. — Eu não vou ir embora, Gatinha. Você está pedindo por isso. Minha boca se abriu quando a porta atrás de nós se abriu. Meu estômago caindo, eu me virei para ver a mamãe ali com toda a sua glória em seu pijama de coelho-velho. Oh, pelo amor de Deus. Seus olhos foram de mim para Daemon, interpretando tudo completamente errado. A alegria em seus olhos me fazia querer vomitar na cabeça de Daemon. — Você vive na casa ao lado? Daemon virou e sorriu. Ele tinha dentes retos, brancos e perfeitos. — Meu nome é Daemon Black. A mamãe sorriu. — Kellie Swartz. Prazer em conhecê-lo. — Ela olhou para mim. — Vocês dois podem entrar se quiserem. Você não tem que sentar aí com o calor. — Isso é muito legal da sua parte. — Ele se levantou e me deu uma cotovelada, e não muito gentilmente. — Talvez devêssemos entrar e terminar de falar sobre nossos planos. — Não. — Eu disse, olhando para ele. — Isso não será necessário. — Quais planos? — Perguntou mamãe, sorrindo. — Eu apoio planos. — Eu estou tentando levar a sua linda filha para ir nadar comigo amanhã, mas acho que ela está preocupada que você não goste da ideia. — Ele bateu ligeiramente no meu braço e eu quase caí na grade. — E eu acho que ela é tímida. — O quê? — Mamãe balançou a cabeça. — Não tenho nenhum problema com ela indo nadar com você. Eu acho que é uma ótima ideia. Eu tenho dito que ela precisa sair. Sair com sua irmã é ótimo,


mas— Mãe. — Apertei os olhos para ela. — Isso realmente não é— Eu estava apenas aqui dizendo a Katy a mesma coisa. — Daemon deixou cair o braço sobre meus ombros. — Minha irmã está fora da cidade pela próxima semana. Eu pensei em sair com a Katy. Minha mãe sorriu, satisfeita. — Isso é tão doce de você. Envolvi meu braço em torno de sua cintura estreita, cavando meus dedos em seu lado. — Sim, isso é doce de você, Daemon. Ele chupou em uma respiração afiada e a soltou lentamente. — Você sabe o que dizem sobre os meninos ao lado... — Bem, eu sei que Katy não tem planos para amanhã. — Ela olhou para mim, e eu praticamente podia vê-la prevendo Daemon e meus futuros filhos. Minha mãe não era normal. — Ela está livre para nadar. Eu deixei cair meu braço e balancei para fora debaixo de Daemon. — Mamãe... — Está tudo bem, querida. — Ela começou a voltar para dentro, dando a Daemon uma piscadela. — Foi bom finalmente conhecê-lo. Daemon sorriu. — Você também. No momento em que minha mãe fechou a porta atrás dela, eu girei e empurrei Daemon, mas ele era como uma parede de tijolos. — Seu idiota. Sorrindo, ele recuou os passos. — Te vejo ao meio-dia, Gatinha. — Eu te odeio, — eu assobiei. — O sentimento é mútuo. — Ele olhou por cima de seu ombro. — Vinte dólares que você usa um maiô de peça única. Ele era insuportável.


5 Quando os primeiros raios de luz apareceram através das janelas, eu rolei para o meu lado, ainda meio dormindo. Eu gemia. Eu teria que sair hoje com o Daemon. E eu tinha me jogado e virado a noite toda, sonhando com um menino com chocantes olhos verdes e um biquíni que continuava se desfazendo. Agarrando o mais recente romance que eu estava relendo da minha mesa de cabeceira, passei a manhã descansando na cama e lendo, desesperadamente tentando pensar em tudo menos na nossa próxima aventura. Quando o sol estava quase no alto do céu, coloquei o livro de lado, joguei fora as cobertas, e me dirigi ao chuveiro. Poucos minutos depois, eu estava em uma toalha e olhando para minhas opções de maiô. Horror me preencheu. Daemon tinha razão. A ideia de estar seminua em volta dele quase me faz querer vomitar minhas batatas. Mesmo que eu não pudesse suportá-lo, e eu realmente acho que ele pode ser a primeira pessoa que eu odeio, ele era... Ele era um deus. Quem diria que tipo de garotas ele estava acostumado a ver em trajes de banho. Mesmo que eu não fosse tocá-lo por todo o dinheiro do mundo, eu era madura o suficiente para admitir que havia uma parte de mim que queria que ele me quisesse. Eu só tinha três trajes de banho que poderiam ser considerados aceitáveis: um Razorback peçaúnica. Simples e chato. Um duas-peças que era um top de biquíni e shorts, e um terceiro que era um biquíni vermelho de duas-peças. Eu poderia ter escolhido uma barraca e eu ainda me sentiria desconfortável. Jogando a peça única de volta para o armário, eu levantei os outros dois. Meu reflexo olhou para mim, um conjunto de cada lado, e eu lancei um duro olhar para mim mesma. O cabelo castanho claro caía no meio das minhas costas, e eu estava mais nervosa do que nunca em cortá-lo. Meus olhos eram de um tom cinza claro – não magnéticos ou convincentes como os de Dee são. Meus lábios estavam cheios, mas não eram tão expressivos como os da minha mãe. Joguei um olhar para o conjunto vermelho. Eu era sempre reservada, mais cautelosa do que minha mãe jamais seria. O maiô vermelho era qualquer coisa, menos cauteloso. Isso era flertar, sexy mesmo. Algo que eu claramente não era e, bem, isso me incomodou. Reservada, a prática Katy era segura e chata. Isso era quem eu era. Porquê minha mãe se sentia bem para me deixar em paz o tempo todo, porque eu nunca faria nada que pudesse fazê-la piscar duas vezes. O tipo de garota que Daemon esperava era a que ele pudesse facilmente mandar ao redor e intimidar. Ele provavelmente esperava que eu usasse um maiô de peça única e mantivesse meus shorts e top desde que ele me provocou. O que ele disse quando ele me conheceu? Que eu parecia uma garota de treze anos? A sensação de calor acendeu dentro de mim. Dane-se ele. Eu queria estar emocionante e ousada. Talvez eu até quisesse chocar Daemon, provar que ele estava errado. Sem pensar duas vezes, eu joguei o conjunto claro para o canto e coloquei o vermelho


na minha pequena mesa. Minha decisão foi tomada. Eu coloquei as pequenas partes em tempo recorde, e um par de shorts jeans e uma regata que tinha bastante flores por cima para esconder a minha audácia. Uma vez que eu encontrei meu tênis, peguei uma toalha e desci as escadas. Minha mãe estava demorando na cozinha, a xícara de café padrão na mão. — Você dormiu até tarde. Dormiu bem ontem à noite? — ela perguntou com expectativa. Às vezes eu me perguntava se minha mãe era médium. Encolhendo os ombros, eu passei por ela e peguei o suco de laranja. Eu me concentrei muito para poder tomar um gole, enquanto ela continuava a olhar para as minhas costas. — Eu estava lendo. — Katy? — Ela disse, depois do que pareceu uma eternidade. Minha mão tremeu um pouco quando passei manteiga em minha torrada. — Sim? — É... Está tudo funcionando para você aqui? Você gostou? Eu balancei a cabeça. — Sim, é bom. — Bom. — Ela tomou uma respiração profunda. — Você está animada sobre hoje? Meu estômago caiu quando eu a encarei. Parte de mim queria estrangulá-la por ajudar na armadilha que Daemon planejou, mas ela não sabia de nada. Eu sabia que ela estava preocupada, eu estava odiando que ela tinha me tirado de tudo o que eu amava e insistido para nós nos mudarmos para cá. — Sim, acho que sim. — Eu menti. — Eu acho que você vai ter um bom tempo — Disse ela. — Basta ter cuidado. Eu atirei-lhe um olhar de cumplicidade. — Eu duvido que eu tenha qualquer dificuldade com natação. — Onde vocês estão indo? — Eu não sei. Ele não disse. Em algum lugar próximo, tenho certeza. Minha mãe fez o seu caminho até a porta. — Você sabe o que quero dizer. Ele é um rapaz de boa aparência. — Então ela me deu o olhar Eu já tive sua idade, então não tente nada, antes de sair. Respirando um suspiro de alívio, lavei a xícara de café. Eu não acho que eu poderia aguentar outra conversa sobre pássaros e abelhas, especialmente não agora. A primeira tinha sido bastante traumática. Estremeci com a memória. Eu estava tão envolvida revivendo aquele horrível momento de ligação entre mãe e filha, que pulei quando alguém bateu contra a porta da frente. Meu coração capotou enquanto eu olhei para o relógio. 11:46 am. Depois de tomar uma calma respiração, eu tropecei nos meus próprios pés para chegar até a porta. Daemon estava com uma toalha jogada casualmente sobre o ombro. — Eu estou um pouco adiantado. — Eu posso ver. — Eu disse, a voz plana. — Mudou de ideia? Você pode sempre tentar mentir. Ele arqueou uma sobrancelha. — Eu não sou um mentiroso.


Olhei para ele. — Só me dê um segundo para pegar minhas coisas. — Eu não esperei por sua resposta. Eu balancei a porta aberta e a fechei na sua cara. Era infantil, mas eu senti como se tivesse marcado uma pequena vitória. Eu fui para a cozinha e peguei meu tênis e outras coisas antes de voltar e abrir a porta novamente. Daemon estava exatamente onde eu tinha o deixado. Excitação nervosa vibrou na minha barriga enquanto eu trancava a porta da frente e segui Daemon até a garagem. — Ok, então onde você está me levando? — Que graça teria se você soubesse? — Ele perguntou. — Você não vai se surpreender, então. — Eu sou nova na cidade, lembra? Todos os lugares vão ser uma surpresa para mim. — Então por que pergunta? — Ele levantou uma sobrancelha, presunçoso. Revirei os olhos. — Nós não estamos dirigindo? Daemon riu. — Não. Onde estamos indo você não pode dirigir. Não é um local bem conhecido. A maioria dos moradores nem sequer sabem sobre isso. — Oh, eu sou especial, então. — Você sabe o que eu acho, Kat? Olhei para ele e o peguei me olhando com tanta intensidade que eu corei. — Eu tenho certeza que eu não quero saber. — Eu acho que a minha irmã acha você muito especial. Estou começando a me perguntar se ela está no caminho certo. Eu sorri. — Mas então há todos os tipos de especial agora, não é, Daemon. Ele pareceu surpreso ao ouvir o seu nome. Depois de uma batida a intensidade foi embora, e ele me levou para baixo na estrada e do outro lado da estrada principal. Ele tinha me deixado curiosa quando entramos na linha das árvores densas do outro lado da estrada. — Você está me levando para a floresta como um truque? — Eu perguntei, meio séria. Ele olhou por cima do ombro, os cílios escondendo seus olhos. — E o que eu faço aqui com você, gatinha? Eu tremi. — As possibilidades são infinitas. — Não são? — Ele fez o seu caminho facilmente por toda a moita densa e cipós entrelaçados no chão da floresta. Eu estava tendo um inferno de um tempo para não quebrar o pescoço nas muitas raízes expostas e rochas cobertas de musgo. — Nós não podemos fingir que fizemos isso? — Confie em mim, eu não quero fazer isso também. — Ele pulou de uma árvore caída. — Mas reclamar sobre isso não vai torná-lo mais fácil. — Virando-se, ele me ofereceu sua mão. — É um prazer conversar com você. — Eu considerei brevemente ignorá-lo, mas eu coloquei minha mão na sua. Estática passou de sua pele para minha. Mordi meu lábio quando ele me ajudou a passar sobre a árvore caída antes de soltar a minha mão. — Obrigada. Daemon olhou para longe e continuou andando.


— Você está animada sobre a escola? O quê? Como se ele se importasse? — Não é emocionante ser a novata. Você sabe, aparecendo como um polegar dolorido. Não é divertido. — Eu posso ver isso. — Você pode? — Sim, eu posso. Nós só temos que andar mais um pouco. Eu queria interrogá-lo ainda mais, mas por que colocar esforço nisso? Ele me daria outra resposta vaga ou uma insinuação. — Um pouco? Quanto tempo temos andado? — Cerca de vinte minutos, talvez um pouco mais. Eu lhe disse que era bastante escondido. Seguindo-o sobre outra árvore arrancada, eu vi uma clareira à frente para além das árvores. — Bem-vinda ao nosso pequeno pedaço do paraíso. — Havia um toque irônico nos lábios. Ignorando-o, entrei na clareira. Fiquei espantada. — Uau. Este lugar é lindo. — É. — Ele ficou ao meu lado, com uma mão protegendo os olhos contra o brilho do sol saltando para fora da superfície lisa da água. Eu poderia dizer que a partir do conjunto rígido de seus ombros, este lugar era especial para ele. Apenas saber esse tipo de coisa fez o meu estômago vibrar. Eu subi e coloquei minha mão em seu braço, e ele se virou para mim. — Obrigada por me trazer. — Antes que Daemon pudesse abrir a boca e estragar o momento, eu deixei cair a minha mão e deliberadamente olhei para longe. Um riacho dividia a clareira, expandindo em um pequeno lago natural. Ele ondulava na brisa suave. Rochas irrompiam a partir do meio, planas e lisas à frente. De alguma forma, a terra tinha sido limpa em um perfeito círculo em torno da água. Grandes manchas horizontais, terreno gramado e flores silvestres floresciam em pleno sol. Era tranquilo. Eu fui até a beira da água. — Quão profunda é? — Cerca de 3 metros na maior parte, 6 metros do outro lado das rochas. — Ele estava bem atrás de mim, fazendo a coisa assustadora, andando quieto. — Dee amava aqui. Antes de você chegar, ela passava a maior parte de seus dias aqui. Para Daemon, minha chegada foi o começo do fim. O apocalipse. Kat-mageddon. — Você sabe, eu não vou colocar a sua irmã em apuros. — Nós vamos ver. — Eu não sou uma má influência. — Eu tentei novamente. As coisas seriam muito mais fáceis se pudéssemos conviver. — Eu não estou, nem nunca me meti em problemas antes. Ele deslizou em torno de mim, os olhos nas águas tranquilas. — Ela não precisa de uma amiga como você. — Não há nada de errado comigo. — Eu respondi. — Você sabe o quê? Esqueça isso. Ele suspirou. — Por que você jardina? Parei, com as mãos apertando. — O quê?


— Por que você jardina? — Ele perguntou de novo, ainda olhando para o lago. — Dee disse que você o faz para não pensar. Sobre o que você quer evitar pensar? Este era aquele momento cuidar e compartilhar? — Não é da sua conta. Daemon encolheu os ombros. — Então vamos nadar. Nadar era a última coisa que eu queria fazer. Afogá-lo? Talvez. Mas então ele começou a tirar seu tênis e tirou os jeans fora. Por baixo, ele tinha um calção de banho. Em seguida, ele puxou a camisa em um movimento rápido. Maldição Eu já tinha visto homens sem suas camisas antes. Eu vivia na Flórida, onde cada homem sentia a necessidade de andar seminu. Inferno, eu já tinha visto esse cara seminu antes. Isto não deveria ser um grande negócio. Mas garota, eu estava tão errada. Ele tinha uma grande obra, não muito grande, mas mais músculos do que qualquer menino de sua idade deveria ter. Daemon se movia com uma graça fluida na água, flexionando seus músculos e se alongando a cada passo. Eu não tinha certeza de quanto tempo fiquei olhando para ele antes que ele finalmente mergulhasse na água. Minhas bochechas estavam quentes. Eu exalei, percebendo que eu estava segurando a minha respiração. Eu precisava ir com calma. Ou ter uma câmera para imortalizar este momento, porque eu aposto que eu poderia ganhar dinheiro com um vídeo dele. Eu poderia fazer uma fortuna... Contanto que ele nunca abrisse a boca. Daemon quebrou a superfície vários metros de distância de onde ele tinha mergulhado, água brilhando em seus cabelos e nas pontas dos seus cílios. Seu cabelo escuro estava penteado para trás, dando mais foco aos seus estranhos olhos verdes. — Você vem? Recordando o biquíni vermelho que eu decidi usar, eu gostaria de correr para longe. Minha confiança de antes tinha evaporado. Eu tirei os meus sapatos devagar, com movimentos lentos e deliberados, fingindo apreciar a paisagem, enquanto o meu próprio coração se jogava contra minhas costelas. Ele me observou por alguns instantes, curioso. — Tem certeza que você não é tímida, gatinha? Eu parei. — Por que você me chama assim? — Porque isso faz o seu cabelo ficar em pé, como uma gatinha. — Daemon estava rindo de mim. Ele nadou mais um pouco, a água batendo em seu peito. — Então? Você está entrando? Meu Deus, ele não ia se virar, nem nada. E havia um desafio em seu olhar, como se ele esperasse eu me acovardar. Talvez fosse que ele quisesse ou esperasse. Não havia nenhuma dúvida em minha mente de que ele sabia que tinha um efeito sobre as garotas. A prática, chata Katy teria ido para o lago completamente vestida. Eu não queria ser ela. Esse era o objetivo do biquíni vermelho. Eu queria provar para ele que eu não era facilmente intimidada. Eu estava determinada a vencer nesta rodada. Daemon olhou entediado. — Eu vou te dar um minuto para chegar aqui. Eu resisti à vontade de virar-me novamente e respirei fundo. Não era como se eu fosse ficar nua,


não realmente. — Ou o quê? Ele aproximou-se da margem do lago. — Ou eu vou te buscar. Fiz uma careta para ele. — Eu gostaria de ver você tentando isso. — Quarenta segundos. — Ele me olhou com um intenso e penetrante olhar enquanto ele se aproximava. Esfregando a mão no meu rosto, eu suspirei. — Trinta segundos. — Ele zombou de uma distância ainda menor. — Jesus. — Eu murmurei, puxando a minha camisa. Pensei duas vezes antes de jogá-la em sua cabeça. Corri para tirar meu shorts quando ele chamou a última provocação. Dei um passo em direção à borda com as minhas mãos em meus quadris. — Feliz? Daemon perdeu o sorriso e arregalou os olhos. — Eu nunca estou feliz ao seu redor. — O que você disse? — Meus olhos se estreitaram na sua expressão em branco. Ele não disse o que eu acho que ele disse. — Nada. É melhor entrar antes que seu rubor atinja os dedos dos pés. Corando ainda mais sob seu olhar examinador, virei-me e caminhei em direção à margem do lago, onde a caída não era tão íngreme. A água me fazia sentir muito bem, aliviando o calor desconfortável do formigamento em minha pele. Eu falhei por não saber o que dizer. — É lindo aqui fora. Ele me olhou por um momento e, em seguida, felizmente, desapareceu sob a água. A água escorria de seu rosto quando ele apareceu de volta. Precisando esfriar meu rosto, eu fui para baixo. A corrida fria era revigorante, limpando meus pensamentos. Ressurgindo na superfície, eu empurrei os longos tufos de cabelo do meu rosto. Daemon olhou-me de alguns metros de distância, suas faces acima da linha d'água e sua respiração soprando bolhas ocasionalmente para quebrar a tensão superficial. Algo em seu olhar me chamou para mais perto. — O quê? — Eu perguntei depois de um trecho de silêncio. — Por que você não vem aqui? Não havia nenhuma maneira de que eu fosse para perto dele. Nem mesmo se ele segurasse um biscoito em sua mão. Confiança e seu nome não andavam juntos. Eu me virei, mergulhando sob a água, indo para as pedras que eu tinha visto no meio do lago. Eu as alcancei com algumas braçadas fortes e me puxei para fora da água, para a quente e dura superfície. Eu comecei a espremer a água para fora do meu cabelo. Ele jogou água no meio do lago. — Você parece desapontado. — Daemon não respondeu. Um curioso, olhar quase confuso atravessou seu rosto. — Bem... O que temos aqui? Eu balançava os pés na água e fiz uma careta para ele. — O que você está falando agora?


— Nada. — Ele nadou para perto de mim. — Você disse alguma coisa. —Eu disse, não disse? — Você é estranho. — Você não é o que eu esperava. — Disse ele em voz baixa. — O que isso significa? — Eu perguntei quando ele tentou agarrar meu pé, e tirei a minha perna para fora de seu alcance. — Eu não sou boa o suficiente para ser amiga de sua irmã? — Você não tem nada em comum com ela. — Como você sabe? — Mudei de novo quando ele estendeu a mão para a outra perna. — Eu sei. — Nós temos muito em comum. E eu gosto dela. Ela é legal e ela é divertida. — Eu fugi de novo, completamente fora de seu alcance. — E você deve deixar de ser um babaca e parar de espantar os amigos dela. Daemon estava quieto, e então ele riu. — Você não é como eles. — Como quem? Outro momento longo passou. A água batia nos seus ombros, pequenas ondulações ecoando a partir de seu peito enquanto ele empurrou. Balançando a cabeça, eu o assisti desaparecer sob a água novamente. Eu me inclinei para trás e fechei os olhos. A forma como o calor do sol caía contra meu rosto virado para cima, e a forma como o calor da rocha atravessava a minha pele, me fazia lembrar dos cochilos na praia. Água fria fazia cócegas em meus pés. Eu poderia ficar aqui o dia todo, aquecendo-me ao sol. Tirando Daemon, seria perfeito. Eu não tinha ideia do que ele quis dizer com toda coisa de não ser como eles ou que não precisa de uma amiga como eu. Tinha que haver mais do que ele sendo um irmão superprotetor psicopata. Me empurrando para cima, eu esperava vê-lo flutuando em suas costas, mas ele tinha desaparecido. Eu não o via em qualquer lugar. Levantei-me, com cuidado na rocha inclinada, e esquadrinhei o lago, estudando a superfície cintilante por uma massa de cabelos negros e ondulados. Eu fiz outra volta sobre a rocha, com um mal-estar no meu estômago. Será que ele me deixou aqui como uma piada? Mas eu não deveria tê-lo ouvido? Eu esperei, pensando que a qualquer momento ele iria sair da água, os pulmões ofegantes por ar, mas segundos se transformaram em um minuto, e depois outro. Eu continuei procurando a superfície calma por qualquer sinal de Daemon, cada vez mais frenética a cada varredura de meus olhos. Eu arrastei o meu cabelo atrás das orelhas, colocando minha mão contra o sol forte. Não havia nenhuma maneira que ele poderia ter prendido a respiração por tanto tempo. De jeito nenhum. Minha respiração engatou, em seguida, se transformou em gelo no meu peito apertado. Isso estava errado. Subi na rocha e olhei para baixo ainda na água. E se ele se machucou de alguma forma? — Daemon! — Eu gritei. Não houve resposta.


6 — Daemon! Uma centena de pensamentos corriam pela minha cabeça. Quanto tempo ele tem ficado embaixo d'água? Onde eu tinha visto ele pela última vez? Quanto tempo seria necessário para pedir ajuda? Eu não gostava de Daemon, e sim, eu poderia ter brevemente considerado a ideia de afogar ele, mas eu realmente não queria o cara morto. — Oh meu Deus, — eu sussurrei. — Isso não pode estar acontecendo. Eu não podia dar ao luxo de pensar. Eu tinha que fazer alguma coisa. Assim quando eu dei um pequeno passo para mergulhar na água, a superfície se elevou e Daemon apareceu na água. Surpresa e alívio correram através de mim, seguido pelo desejo intenso de vomitar. E, em seguida, bater nele. Ele próprio subiu na rocha, os músculos de seus braços surgindo a partir da pressão. — Você está bem? Você parece um pouco assustada. Repentinamente, agarrei seus ombros escorregadios, em um esforço para garantir ao meu estômago enjoado que ele estava vivo e que o cérebro não estava danificado por falta de oxigênio. — Você está bem? O que aconteceu? — Então eu bati em seu braço. Forte. — Você não faça isso de novo! Daemon jogou as mãos para cima. — Calma aí, qual o seu problema? — Você estava sob a água por muito tempo. Eu pensei que você tivesse se afogado! Por que você fez isso? Por que você me assustou desse jeito? — Eu pulei para os meus pés, arrastando uma respiração profunda. — Você estava sob a água como se para sempre. Ele franziu a testa. — Eu não fiquei lá por muito tempo. Eu estava nadando. — Não, Daemon, você ficou lá por muito tempo. Por pelo menos dez minutos! Procurei por você, chamei por você. Eu... Eu pensei que você estivesse morto. Ele subiu para seus pés. — Não posso ter ficado dez minutos. Isso não é possível. Ninguém pode manter sua respiração por muito tempo. Engoli em seco. — Você, aparentemente, pode. Os olhos de Daemon procuraram os meus. — Você estava realmente preocupada, não é? — Não brinca! Que parte de 'Eu pensei que você se afogou' você não compreendeu? — Eu estava tremendo. — Kat, eu voltei. Você não deve ter me visto. Eu vim e fui de volta para baixo. Ele estava mentindo. Eu conhecia isso com cada osso do meu corpo. Ele era apenas capaz de prender a respiração por um tempo extremamente longo? Mas se fosse esse o caso, por que ele não disse isso? — Isso acontece muitas vezes? — Ele perguntou.


Meu olhar estalou de volta ao seu. — O quê? — Imaginando coisas. — Ele acenou com a mão. — Ou você tem um problema horrível com contar o tempo. — Eu não estava imaginando nada! E eu sei como contar o tempo, seu idiota. — Então eu não sei o que te dizer. — Ele deu um passo para frente, o que não foi muito longe da rocha. — Não sou eu que estava imaginando que eu estava debaixo d'água por dez minutos quando na verdade eram dois minutos. Você sabe, talvez eu te compre um relógio na próxima vez que eu estiver na cidade, quando eu tiver as minhas chaves de volta. Por algum motivo estúpido, que eu provavelmente nunca saberei, eu tinha esquecido o motivo pelo qual estávamos aqui. Em algum lugar entre vê-lo seminu e, em seguida, pensando que ele estivesse morto, eu tinha perdido minha cabeça. — Bem, certifique-se de dizer a Dee que tivemos um momento maravilhoso para que você possa obter as estúpidas chaves de volta. — eu disse, encontrando seus olhos. — Então, não vamos precisar de uma repetição de hoje. O sorriso de satisfação estava estampado em seu rosto. — Isso é com você, Gatinha. Tenho certeza que ela vai te ligar mais tarde e perguntar. — Você vai ter suas chaves. Eu estou pronta- — Meu pé escorregou sobre a rocha molhada. Me deixando sem equilíbrio, o meus braços se agitaram no ar. Movendo muito rápido, sua mão disparou e agarrou a minha, me puxando para frente. A próxima coisa que eu sabia era que eu estava contra o seu calor, seu peito molhado e seu braço estava em volta da minha cintura. — Cuidado aí, Gatinha. Dee ficaria chateada comigo se você acabar quebrando a cabeça e se afogando. Compreensível. Ela provavelmente acha que ele faria isso de propósito. Comecei a responder, mas não conseguia. Não havia muito separando nossa pele em termos de vestuário. Meu sangue estava bombeando muito rápido. Devia ser por todo o incidente quase-afogamento. Um nervosismo estranho me inundou enquanto olhávamos um para o outro, o ligeiro vento escovou junto à pele molhada que não estava pressionada contra o outro, fazendo com que as peças do conjunto parecessem ainda mais quentes. Nenhum de nós falou. Seu peito subia e descia, o fundo verde-garrafa dos seus olhos mudando aos poucos. Foi uma poderosa, quase sensação elétrica que me percorria – respondendo alguma coisa para ele? Bem, isso era estranho, tolo, e ilógico. Ele me odiava. Então Daemon soltou minha cintura e deu um passo para trás. Ele limpou a garganta, sua voz grossa. — Eu acho que é hora de voltarmos. Eu balancei a cabeça, decepcionada e nem sei por que eu estava desapontada. Suas mudanças de humor me faziam sentir como se eu estivesse em uma daquelas rodas que giram malucas que nunca acabam, mas ali... Ali havia algo sobre ele. Nós não nos falamos enquanto nos secamos e nos vestimos. Começamos a voltar para casa em silêncio. Parecia que nenhum de nós tinha algo a dizer, o que era realmente bom. Eu gostava mais dele quando ele perdia a capacidade de falar.


Mas quando chegamos à calçada, ele amaldiçoou sob sua respiração. Parecia que uma explosão de ar ártico tinha passado entre nós. Eu segui seu olhar perturbado. Havia um carro estranho em sua garagem, um desses Audis caros que custam o salário da minha mãe. Eu me perguntava se eram seus pais, e se isso ia se transformar em Kat-mageddon segundo round. A mandíbula de Daemon flexionou. — Kat, euA porta se abriu e se fechou, batendo do lado de fora da casa. Um homem na casa dos trinta e poucos anos saiu para a varanda. Seu cabelo castanho claro não correspondia aos de Daemon e as ondas escuras de Dee. Quem quer que fosse, era bonito e bem vestido. E ele também parecia chateado. O homem desceu os degraus de dois em dois. Ele nem sequer olhou para mim. Nem uma vez. — O que está acontecendo aqui? — Absolutamente nada. — Daemon cruzou os braços. — Desde que minha irmã não está em casa, estou curioso para saber por que você está na minha casa? Okay. Definitivamente não é da família. — Eu me deixei entrar. — Ele respondeu. — Eu não sabia que seria um problema. — Isso é agora, Matthew. Matthew. Eu reconheci o nome do telefonema que Dee deveria fazer. Finalmente, o olhar de aço do homem se concentrou em mim. Seus olhos se arregalaram um pouco. Eles eram de um azul surpreendentemente brilhante. Seus lábios se curvaram quando ele me olhou de cima a baixo. Não verificando meu tipo físico, de qualquer maneira, mas ele estava me avaliando. — De todas as pessoas, eu achei que você era o que melhor entenderia, Daemon. Oh inferno, aqui vamos nós de novo. Eu estava começando a me perguntar se eu estava balançando a bandeira da aberração. O ar estava cheio de tensão, e tudo por minha causa. Isso não fazia qualquer sentido. Eu nem sabia quem era esse cara. Os olhos de Daemon se estreitaram. ��� Matthew, se você valoriza a capacidade de andar, eu não chegaria tão longe. Bizarrice ao máximo, dei um passo para o lado. — Eu acho que eu deveria ir. — Eu estou pensando que Matthew deveria ir. — Daemon disse, dando um passo à minha frente. — A menos que ele tenha outra finalidade que não seja meter o nariz onde não é chamado. Mesmo Daemon não poderia bloquear a repulsa no olhar do homem. — Sinto muito. — Eu disse, voz vacilando. — Mas eu não sei o que está acontecendo aqui. Nós estávamos nadando. O olhar de Matthew girou para Daemon, que enquadrou os ombros. — Não é o que você está pensando. Dê-me algum crédito. Dee escondeu minhas chaves, forçou-me a sair com ela para tê-las de volta. Uma onda de calor varreu em mim. Será que ele realmente precisa dizer a um cara que eu era um encontro de pena? E então o homem riu. — Portanto, esta é a pequena amiga de Dee. — Esta seria eu. — Eu disse, cruzando os braços. — Eu pensei que você tivesse tudo sob controle. — Ele fez um gesto em direção a mim, soando


como se eu fosse uma homicida palhaça em pé ao lado de Daemon. — Que você faria sua irmã entender. — Sim, bem, por que você não tenta fazê-la entender? — Daemon replicou. — Até agora, eu não estou tendo muita sorte. Os lábios de Matthew se diluíram. — Ambos deviam entender melhor. Um trovão me assustou quando ele caiu um atrás do outro. Um relâmpago riscado acima, momentaneamente cegando. Uma vez que a luz diminuiu, nuvens escuras se tumultuaram. Energia crepitava em torno de mim, picando na minha pele. Então, Matthew se virou, lançando outro olhar sombrio em minha direção antes de ir para dentro da casa de Daemon. No momento em que a porta se fechou atrás dele, as nuvens se abriram. Eu encarei Daemon, a boca entreaberta. — O que... O que aconteceu? — Perguntei. Ele já estava entrando na casa, a porta batendo fora do portal, uma vez mais como um tiro em um canhão. Eu estava lá, e não sei o que aconteceu. Eu olhei para o céu claro. Nenhum vestígio da violenta tempestade. Eu vi isso acontecer uma centena de vezes, na Flórida, mas o que ocorreu parecia demasiadamente bizarro. E pensando de volta no lago, eu não tinha certeza do que tinha acontecido, mas eu sabia que Daemon tinha ficado debaixo d'água por muito tempo. Eu também sabia que havia algo que não era normal nele. Sobre todos eles.


7 Dee ligou naquela noite, e embora eu quisesse dizer a ela que o tempo que eu passei com Damon não foi rosas e arco-íris, eu menti. Eu disse que ele foi muito bacana. Ele conseguiu suas chaves de volta, caso contrário ela poderia fazê-lo me levar a outro encontro. Eu quase me senti mal por ter mentido pra ela, quando ela parecia estar tão feliz. A semana seguinte demorou a passar. Eu tive uma infinidade de tempo para pensar que falta apenas uma semana e meia para o início das aulas. Dee ainda não voltou das ''férias'' que tirou pra visitar a família, ou o que quer que estivesse fazendo. Sozinha e completamente entediada, eu voltei a me readaptar intimamente com a internet. Era início de sábado à noite quando Daemon inesperadamente apareceu na porta da minha casa, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans. Estava de costas pra mim e com a cabeça inclinada pra trás, enquanto olhava para o céu azul sem nuvens. Algumas estrelas estavam começando a aparecer, mas o sol só iria verdadeiramente se pôr em algumas horas. Surpresa em vê-lo, eu saí. Sua cabeça virou tão rápido que eu pensei que ele tinha estourado um músculo. — O que você está fazendo aqui? — Eu perguntei. Suas sobrancelhas se inclinaram para baixo, alguns segundos se passaram e em seguida seus lábios se inclinaram no canto da boca. Ele limpou a garganta. — Eu gosto de olhar para o céu. Tem algo nele. — Seu olhar se voltou para o céu. — É infinito, sabe. Daemon quase soava profundo. — Algum cara maluco vai sair da sua casa e gritar com você por estar conversando comigo? — Agora não, mas há sempre o mais tarde. — Eu não tinha certeza se ele estava falando sério ou não. — Eu prefiro passar o ‘mais tarde’. — Sim. Ocupada? — Além de mexer no meu blog, não. — Você tem um blog? — Ele me encarou, encostando-se contra o poste, escárnio beliscando suas feições. Ele disse 'um blog' como se fosse um vício em crack. — Sim, eu tenho um blog. — Qual é o nome do seu blog? — Não é da sua conta. — Eu respondi, sorrindo docemente. — Nome interessante. — Ele devolveu meu sorriso com um meio sorriso. — Então, sobre o que você escreve? Tricô? Quebra-cabeças? Ser solitária? — Ha. Ha. Espertinho. — Eu suspirei — Eu faço resenhas de livros. — Você é paga pra fazer isso? — Eu ri alto depois dessa. — Não, não mesmo. Daemon parecia estar confuso. — Então você faz resenhas dos livros e não é paga quando alguém compra um livro baseado na


sua opinião? — Eu não faço resenha com a intenção de receber pagamentos ou qualquer coisa assim. — Embora seria incrível, o que me lembra que eu preciso conseguir um cartão da livraria. — Eu faço porque eu gosto. Eu amo ler, e eu gosto de falar sobre livros que leio. — Que tipo de livro você lê? — Todos os tipos. — Eu encostei no poste oposto ao dele, esticando o pescoço para trás para encontrar seu olhar firme. — Eu prefiro principalmente os paranormais. — Vampiros e lobisomens? Cara, quantas perguntas mais ele poderia fazer? — Sim. — Fantasmas e alienígenas? — Histórias de fantasmas são legais, mas eu não sei sobre aliens. E.T não faz o meu tipo e o de muitos leitores. Ele levantou apenas uma sobrancelha. — O que isso quer dizer? — Nada de criaturas do espaço verdes e viscosas. — Eu respondi. — De qualquer forma, eu também aprecio romances gráficos, e coisas históricas— Você lê romances gráficos? — Descrença colorindo seu tom — Sério? Eu confirmei com a cabeça. — Sim, e daí? Garotas não deveriam gostar de romances gráficos e quadrinhos? Ele me encarou por um longo momento, e então apontou o queixo em direção a floresta. — Quer ir dar uma caminhada? — Você sabe que eu não sou muito boa com esse lance de caminhada. — Eu o relembrei. Um sorriso apareceu, havia um ponto sobre isto. Áspero, sexy. — Eu não vou levá-la até as rochas. Apenas uma pequena e inofensiva trilha. Tenho certeza que você aguenta. — A Dee não te disse onde estão suas chaves? — Eu perguntei desconfiada. — Sim, ela me disse. — Então por que você está aqui? Daemon suspirou. — Eu não tenho um motivo. Eu pensei em apenas passar por aqui, mas se você for questionar tudo, então esquece. — Eu o olhei descer os degraus enquanto mordia o meu lábio. Isso é maluco. Eu já estava morrendo de tédio há dias. Revirando meus olhos eu gritei. — Tudo bem, vamos lá. — Tem certeza? — Eu concordei com uma boa quantidade de trepidação. — Por que estamos indo por trás da minha casa? — eu perguntei quando era evidente pra onde ele estava me levando. — As Rochas do Seneca são pra lá. Eu pensei que a maioria das trilhas começasse por ali. — eu apontei para a frente da minha casa, onde as pontas das monstruosas estruturas de arenito pairavam sobre tudo. — Sim, mas há trilhas por aqui que vão te levar pra lá, e é mais rápido. — Ele explicou — A maioria das pessoas daqui sabem que todas as trilhas principais são lotadas. Nos dias entediantes por aqui, eu encontrei um par delas, fora da pista principal.


Eu fiz uma careta. — Quão longe desta trilha estamos falando? Ele riu. — Não muito longe. — Então é uma trilha pequena? Aposto que isso vai ser entediante pra você. — Toda vez que eu saio para caminhar é bom. Além disso, não é como se estivéssemos indo caminhar até o Smoke Hole Canyon. É uma longa caminhada daqui, então não se preocupe, Ok? — Tudo bem, me mostre o caminho. Nós paramos na casa do Daemon para pegar duas garrafas d'água, e em seguida fomos. Nós caminhamos em silêncio por alguns minutos e então ele disse: — Você é muito confiante Gatinha. — Pare de me chamar assim. — Era um pouco difícil de acompanhar o ritmo das longas pernas dele, então eu fiquei alguns passos atrás. Ele olhou por cima do ombro, sem um deslize. — Ninguém nunca te chamou assim antes? — Eu passei em torno de um grande arbusto espinhoso. — Sim, as pessoas me chamam de Gatinha o tempo todo. Mas você faz isso parecer tão... — Suas sobrancelhas se ergueram. — Parecer tão o que? — Eu não sei, como se fosse um insulto. — Ele diminuiu a velocidade, e agora eu estava caminhando ao lado dele. — Ou algo sexualmente depravado. — Ele virou a cabeça rindo. O som tenciona meus músculos — Por que você está sempre rindo de mim? Balançando a cabeça ele sorri pra mim. — Eu não sei, você meio que me faz rir. — eu chutei uma pequena pedra. — Que seja. Qual é a desse tal de Matthew? Ele agiu como se me odiasse ou algo assim. — Ele não te odeia, ele não confia em você. — Ele murmurou as últimas palavras. Eu balancei minha cabeça desconcertada. — Confiar em mim com o que? Sua virtude? — Ele soltou uma gargalhada e demorou alguns segundos para responder. — Sim. Ele não é fã de lindas meninas que tem tesão por mim. — O que? — Eu tropecei em uma raiz exposta. Daemon me pegou com facilidade, me colocando de pé no minuto em que eu estava firme. O breve contato fez com que minha pele formigasse através das minhas roupas. Suas mãos permaneceram por apenas alguns segundos na minha cintura antes de ele deixá-las cair. — Você está brincando, certo? — Sobre qual parte? — Tudo! — Qual é. Por favor, não me diga que você não se acha bonita. — ele considerou meu silêncio. — Nenhum cara te disse que você é bonita? Ele não era a primeira pessoa a dizer isso sobre mim, mas eu acho que nunca me importei antes. Meus namorados anteriores diziam que eu era bonita, mas eu nunca considerei isso ser a razão para alguém não gostar de mim. Desviando o olhar eu dou de ombros. — É claro. — Ou... Talvez você não esteja ciente disso? Dou de ombro novamente, enquanto me foco no tronco das árvores velhas, prestes a mudar de assunto e negar a outra parte de sua declaração. Eu definitivamente não tenho tesão por esse cara


arrogante. — Sabe no que eu sempre acreditei? — Ele disse suavemente. Nós ainda estávamos em pé no caminho, apenas o som de alguns pássaros ecoavam em torno de nós. Minha voz carregada em uma brisa leve. — Não. — Eu sempre achei que as pessoas mais bonitas, verdadeiramente bonitas por dentro e por fora, são as únicas que silenciosamente desconhecem seu efeito. — Seus olhos procuram os meus atentamente, e por um momento ficamos ali, de igual para igual — Aqueles que vangloriam-se de sua beleza, não valorizam o que tem? Sua beleza está apenas de passagem. É apenas uma concha escondendo nada além de sombras e um vazio. Eu faço a coisa mais inapropriada possível. Eu rio. — Desculpa, mas essa foi a coisa mais profunda que eu já ouvi você dizer. Que nave alienígena levou o Daemon que eu conheço pra longe daqui, e eu posso pedir para eles ficarem com ele? Ele fez uma careta. — Eu estava sendo honesto. — Eu sei, mas é que foi realmente... Uau. — E aqui estou, arruinando provavelmente a coisa mais legal que ele já disse pra mim. Ele dá de ombros, me levando para trilha novamente. — Nós não vamos muito longe. — Ele diz depois de alguns minutos. — Então você gosta de história? — Sim, eu sei que isso faz de mim uma nerd. — Eu também estava grata pela mudança de assunto. Seus lábios tremem depois da minha resposta. — Você sabia que essa trilha já foi percorrida pelos índios Seneca? Eu estremeço. — Por favor, não me diga que estamos andando em um cemitério? — Bem... Eu tenho certeza que existem cemitérios aqui em algum lugar. Embora eles tenham apenas viajado por esta área, não quer dizer que alguns não tenham morrido neste exato lugar e— Daemon, eu não preciso saber dessa parte. — eu lhe dei um leve empurrão no braço. Com aquele olhar estranho novamente, ele balançou a cabeça. — Ok, eu vou te contar uma história e vou deixar alguns dos fatos mais assustadores, porém verdadeiros, de fora. — Um longo galho estendia-se pelo caminho e Daemon ergue-o para eu passar por baixo, meu ombro roçando em seu peito quando eu passei, até ele deixá-lo cair e assumir a liderança do nosso caminho novamente. — Que história? — Você vai ver. Agora preste atenção... Há muito tempo esta terra era só florestas e montanhas, o que não é muito diferente dos tempos de hoje, com a exceção de algumas cidades pequenas. — Seus dedos flutuaram sobre os galhos pendurados enquanto passávamos, puxando-os para o lado para eu passar. — Mas imagine este lugar tão pouco povoado, que poderia levar dias, até mesmo semanas até conseguir chegar ao seu vizinho mais próximo. Eu tremi. — Isso parece ser solitário. — Mas você tem que entender que esse era o modo de vida, centenas de anos atrás. Agricultores e homens das montanhas viviam alguns quilômetros de distância uns dos outros. Mas a distância era percorrida toda a pé ou a cavalo, não era geralmente a forma mais segura de se viajar.


— Eu posso imaginar. — Eu respondi baixinho. — A tribo indígena Seneca viajou parte do leste dos Estados Unidos, e em algum ponto eles caminharam neste exato caminho em direção as rochas do Seneca. — Seu olhar encontrou o meu. — Você sabia que esse pequeno caminho atrás da sua casa leva direto para a base delas? — Não. Parece tão distante que eu nunca pensei que estivessem tão próximas. — Se você for por este exato caminho e andar mais alguns quilômetros você irá encontrar a base delas. É um caminho muito rochoso e até mesmo os escaladores mais experientes evitam. Veja, as Rochas do Seneca vão do Grant até o Pendleton County, com o ponto maior sendo o Spruce Knob e um afloramento perto de Seneca chamado Champe Rockes. Agora, eles são um pouco mais difíceis de chegar, uma vez que geralmente envolve invadir a propriedade de alguém. Mas pode valer a pena se você conseguir escalar quase trezentos metros de altura. — Ele terminou melancolicamente. — Isso parece divertido. — Não. Eu não consegui manter o sarcasmo da minha voz, então eu ofereci um sorriso triste. Eu não queria estragar o clima. Acho que essa foi a conversa mais longa que eu já tive com Daemon da qual nenhuma de suas declarações mereceu meu dedo do meio. — E é, se você não tiver medo de escorregar. — Ele riu da minha expressão — De qualquer forma, as rochas do Seneca são feitas de quartzito, do qual parte é arenito. Por isso ás vezes elas têm uma tonalidade rosada. Quartzito é considerado um quartzo beta. Pessoas que acreditam em... Poderes anormais, ou poderes... Da natureza, como muitas das tribos indígenas acreditavam naquela época, acreditavam que qualquer forma de quartzo beta permite que a energia seja armazenada e transformada, até mesmo manipulada. Pode queimar objetos eletrônicos ou outras coisas – até mesmo escondê-los. — Ooookay. — Ele me lançou um olhar severo, então eu decidi não interrompê-lo mais. — Possivelmente foi o quartzo beta que trouxe a tribo Seneca para esta área. Ninguém sabe como, já que eles não eram nativos de Virginia do Oeste. Ninguém sabe quanto tempo eles ficaram acampados por aqui, negociando ou guerreando. — Ele pausou por algum momento, examinando o terreno, como se pudesse vê-los lá, sombras do passado. — Mas eles têm uma lenda muito romântica. — Romântica? — Eu perguntei, enquanto ele me levou em torno de um pequeno riacho. Eu não conseguia imaginar nada romântico a 300 metros de altura. — Veja, havia uma linda princesa indígena chamada Snowbird. Ela pediu sete dos mais fortes guerreiros da tribo para provar seu amor, fazendo algo que somente ela tinha sido capaz de fazer. Muitos homens a queriam por sua beleza e sua posição na tribo. Mas ela queria um igual. Quando chegou o dia para ela escolher seu marido, ela estabeleceu um desafio do qual somente o guerreiro mais valente e mais dedicado ganharia sua mão. Ela pediu aos seus pretendentes que escalassem a rocha mais alta com ela. — ele continuou suavemente, diminuindo a velocidade, assim estávamos caminhando lado a lado nesse agora estreito caminho. — Todos começaram, mas conforme foi ficando difícil, três voltaram. O quarto ficou cansado e o quinto quase morreu de exaustão. Apenas dois permaneceram, e a linda Snowbird continuava na liderança do caminho. Finalmente ela alcançou o ponto mais alto e se virou para ver quem foi o mais valente e forte de todos os guerreiros. Apenas um permaneceu a alguns metros atrás dela e enquanto ela assistia, ele começou a escorregar... — Eu estava rapidamente entretida na lenda. A ideia de fazer sete homens lutar e provavelmente enfrentar a morte para ganhar a mão de alguém era inimaginável pra mim. — Snowbird parou por apenas alguns segundos pensando que esse bravo guerreiro era obviamente


o mais forte, mas ele não era igual a ela. Ela poderia salvá-lo ou deixá-lo cair. Ele era corajoso, mas ele ainda tinha que chegar ao ponto mais alto, assim como ela tinha. — Mas ele estava bem atrás dela? Como ela poderia deixá-lo cair? — Eu decidi que essa história seria uma merda se a Snowbird deixasse o cara cair. — O que você faria? — Ele me perguntou curiosamente — Eu nunca iria pedir a um grupo de homens para provarem seu amor fazendo algo extremamente perigoso e estúpido como isso, mas se eu me encontrasse em uma situação como essa, o que é muito improvável— Kat? — Ele repreendeu. — Eu iria alcançá-lo e salvá-lo, é claro. Eu não poderia deixá-lo morrer. — Mas ele não conseguiu se provar. — Isso não importa. — Eu argumentei — Ele estava bem atrás dela, e quão bonita você realmente poderia ser se você deixasse um homem cair para a morte apenas porque ele escorregou? Como você pode até mesmo ser capaz de amar, ou ser digno dele, por assim dizer, se você deixar isso acontecer? — Ele acenou com a cabeça. — Bem, Snowbird pensou como você. — aliviada eu sorri. Se ela não tivesse essa teria sido uma péssima história romântica. — Bom. — Snowbird decidiu que o guerreiro era igual a ela e com isso sua decisão havia sido tomada. Ela agarrou o homem antes que ele pudesse cair. O chefe encontrou com eles e ficou muito satisfeito com a escolha de sua filha. Ele concedeu o casamento e fez do guerreiro seu sucessor. — Então é por isso que as rochas são chamadas de Rochas Seneca? Depois dos indígenas e Snowbird? Ele concorda com a cabeça. — Isso é o que diz a lenda. — É uma linda história, mas eu acho que todo esse lance de escalar centenas de metros para provar seu amor é um pouco excessivo. Ele riu. — Eu tenho que concordar com você. — Eu esperava que sim, ou então hoje em dia você teria que brincar com carros em uma interestadual para provar seu amor. — eu queria morder minha língua no minuto que as palavras saíram da minha boca. Eu esperava que ele não achasse que eu quis dizer isso em relação a mim. Ele me deu um olhar duro. — Eu não prevejo isso acontecendo. — Você consegue chegar aonde os índios chegaram daqui? — eu perguntei curiosamente. Ele balançou a cabeça. — Você pode chegar ao desfiladeiro, mas essa é uma séria caminhada. Não é algo que eu sugiro que você faça sozinha. Eu ri. — Eu não acho que você precisa se preocupar com isso. Eu me pergunto por que os índios vieram pra cá. Eles estavam procurando alguma coisa? — eu pisei em torno de uma grande pedra. — É difícil de acreditar que um monte de pedra os trouxe aqui. — Nunca se sabe... — Seus lábios franziram e ele ficou quieto por um momento antes de falar


novamente. — As pessoas tendem a olhar para as crenças do passado como sendo primitivo e pouco inteligente, mas ainda assim estamos vendo mais verdade no passado todos os dias. Eu olhei para ele, tentando avaliar se ele estava falando sério. Ele parecia mais maduro do que qualquer garoto da nossa idade. — O que é mesmo que fez dessas rochas tão importantes? Ele olha pra mim. — É o tipo de rocha... — Seus olhos se arregalam de repente — Gatinha? — Você poderia parar de me chamar de— Fica quieta. — Ele sussurrou, olhar fixo sobre o meu ombro. Ele colocou a mão no meu braço. — Me promete que você não vai surtar? — Por que eu iria surtar? — Eu sussurrei. Me puxando em direção à ele, ele me pegou desprevenida. Eu coloquei minhas mãos em seu peito para parar de cair sobre ele. Seu peito parecia... Bater sob minhas mãos. — Você já viu um urso? — Temor atravessou minha calma e floresceu. — O que? Tem um urso-? — Me libertei de seu aperto e virei. Oh sim, havia um urso. Não mais do que quinze metros de distância de nós. Um grande urso preto e peludo, farejando o ar com seu longo focinho bigodudo. Suas orelhas se contraíram ao som de nossa respiração. Por um momento eu fiquei meio atordoada. Eu nunca tinha visto um urso, não na vida real. Havia algo de majestoso sobre essa criatura. A maneira como seus músculos se moviam sob o pesado casaco de pele, como seus olhos escuros nos observavam atentamente, enquanto nós o observávamos. O animal se aproximou, pisando sob os raios de luz que atravessavam a sobrecarga de ramos. A pele tinha virado um preto brilhante à luz do sol. — Não corra. — Ele sussurrou. Como se eu pudesse me mover, mesmo se eu quisesse. O urso fez um meio latido meio grunhido, enquanto se levantava sobre as patas traseiras, de pé ele tinha pelo menos um metro e meio de altura. O próximo rugido, honestamente, por Deus, enviou arrepios pelo meu corpo. Isso não é nada bom. Daemon começou a gritar e balançar os braços, mas não intimidou o urso. O animal caiu sobre suas quatro patas, seus enormes ombros balançando. O urso correu em nossa direção. Incapaz de respirar por conta da bola de medo me sufocando, eu fechei meus olhos. Ser comida viva por um urso parecia tão errado. Eu ouvi Daemon xingar e mesmo meus olhos estando fechado, um clarão de luz perfurou minhas finas pálpebras. Então uma explosão de calor acompanhada de luz soprou meu cabelo pra trás. E então o clarão veio novamente, mas acompanhado de uma escuridão, que me engoliu por completo.


8 Quando abri os olhos novamente, havia um gosto metálico estranho na minha boca. Chuva batia lá fora no telhado e trovões rolavam ao longe. Um raio caiu em algum lugar próximo, enchendo o ar com uma corrente fina de eletricidade. Quando começou a chover? O céu estava claro, azul, e perfeito da última vez que me lembrava. Eu puxei uma respiração baixa, confusa. Meu ombro estava pressionado contra algo quente e duro. Virando a cabeça, eu senti o objeto subir bruscamente e depois lentamente, facilmente de volta para baixo. Levei um segundo para perceber que era um peito em que meu rosto estava pressionado. Estávamos no balanço, o braço em volta da minha cintura me mantendo firmemente presa ao seu lado. Eu não ousei me mover. Cada centímetro do meu corpo tornou-se consciente dele. Como sua coxa estava moldada na minha. As profundas, respirações planas movendo seu estômago sob a minha mão. Com a mão curvada em torno da minha cintura, seu polegar movendo preguiçosos círculos suaves na barra da minha camisa. Cada círculo o material avançava um pouco, expondo minha pele até que seu polegar estava contra a curva da minha cintura. Carne contra carne. Eu estava com calor e calafrios. Uma sensação que eu tinha pouca experiência. Sua mão parou. Levantando, olhei em um par de olhos verdes surpreendentes. — O que... O que aconteceu? — Você desmaiou. — ele disse, retirando o braço da minha cintura. — Eu fiz? — Eu deslizei de volta, colocando distância entre nós, eu escovei meus cabelos emaranhados da minha cara. O gosto metálico ainda estava no céu da minha boca. Ele concordou. — Eu acho que o urso assustou você. Eu tive que trazê-la de volta. — Todo o caminho? — Droga. Eu perdi isso? — O que... O que aconteceu com o urso? — A tempestade o assustou. Raios, eu acho. — Ele franziu a testa enquanto me observava. — Você está se sentindo bem? De repente, um raio de luz brilhante nos cegou por um momento. Momentos depois, o barulho do trovão encobriu o barulho da chuva. A expressão de Daemon estava fundida nas sombras. Eu balancei minha cabeça. — O urso estava com medo de uma tempestade? — Eu acho que sim. — Nós tivemos sorte então. — Eu sussurrei, olhando para baixo. Eu estava encharcada assim como Daemon. A chuva caía ainda mais, tornando difícil de ver mais do que um par de metros fora da varanda, dando a sensação que estávamos em nosso próprio mundo privado. — Chove aqui como na Flórida. — Eu não sabia mais o que dizer. Meu cérebro parecia frito. Daemon cutucou meu joelho com o seu. — Eu acho que talvez você vá ficar presa comigo por mais alguns minutos.


— Tenho certeza que eu pareço um gato afogado. — Você parece bem. O aspecto molhado funciona para você. Eu fiz uma carranca. — Agora eu sei que você está mentindo. Ele se mexeu ao meu lado, e sem dizer uma palavra, eu senti seus dedos levantar meu queixo em direção a ele. Um sorriso torto levantou seus lábios cheios. — Eu não iria mentir sobre o que eu penso. Eu gostaria de ter algo inteligente para dizer, talvez até um pouco de flerte, mas seu olhar intenso enviou qualquer dispersão de pensamento coerente. Confusão brilhou em seus olhos quando ele se inclinou para frente, seus lábios se separaram um pouco. — Eu acho que eu entendo agora. — Entende o quê? — Eu sussurrei. — Eu gostaria de ver você corar. — Sua voz quase um murmúrio, com o polegar traçou círculos na minha bochecha. Ele baixou a cabeça, apoiando a testa contra a minha. Sentamos assim, nós dois, presos em algo que não estava lá antes. Acho que parei de respirar. Meu coração parecia dar vários passos e gaguejar e depois congelar, a antecipação brotando dentro de mim, ameaçando transbordar em qualquer segundo. E eu nem sequer gostava dele. Ele não gostava de mim. Isto era insano, mas era o que estava acontecendo. Um raio caiu novamente, desta vez muito mais perto. O seguinte estalo do trovão nem sequer nos assustou. Estávamos em nosso próprio mundo. E em seguida, seu sorriso torto escorregou de seu rosto. Seus olhos estavam confusos e desesperados, e continuavam procurando os meus. O tempo parecia lento, cada segundo alongava diante de mim, atormentando e torturando cada respiração que eu tomava. Esperando, querendo mostrar a ele o que ele estava procurando, seus olhos escureceram para um verde profundo. Seu rosto tenso, como se estivesse travando uma batalha interna. Algo em seus olhos me fez sentir muito insegura. Eu sabia no segundo em que ele tomou uma decisão. Ele respirou fundo e seus belos olhos fecharam. Eu senti sua respiração no meu rosto, movendo-se lentamente para os meus lábios. Eu sabia que devia me empurrar para trás. Ele era ruim, uma má notícia. Mas minha respiração ficou presa na minha garganta. Seus lábios estavam tão perto dos meus, eu desesperadamente queria encontra-lo pela metade, para correr para frente e testar se seus lábios eram como travesseiro macio tanto quanto parecia. — Hey Pessoal! — Dee chamou. Daemon recuou, deslizando em um movimento fluido e colocando uma distância saudável entre nós no balanço. Eu suguei uma respiração afiada, surpresa e decepção agitaram no meu estômago. Meu corpo ainda estava formigando como se tivesse sido privado de oxigênio. Nós tínhamos estado tão absorvidos um no outro, que nenhum de nós tinha notado que a chuva tinha parado. Dee subiu os degraus, seu sorriso desaparecendo, seu olhar passou de seu irmão para mim. Ela piscou os olhos. Eu tinha certeza de que meu rosto estava vermelho sangue, tornando-se óbvio que


ela tinha interrompido alguma coisa. Mas ela só olhou para o irmão dela, os lábios formando um perfeito, O. Ele sorriu para ela. O mesmo sorriso torto que dava a impressão de que ele estava secretamente rindo. — Ei, Aqui, mana. O que está acontecendo? — Nada. — Ela disse, estreitando os olhos. — O que você está fazendo? — Nada. — Ele respondeu, saltando do balanço. Ele olhou para mim sobre o ombro largo. — Só ganhando bônus. Suas palavras chicotearam através da neblina agradável quando ele pulou fora para a varanda e andou relaxadamente em direção a sua própria casa. Olhei para Dee, querendo correr atrás de Daemon e lhe dar uma voadora. — Esse quase beijo era uma parte do acordo para obter as suas chaves de volta ou para manter você feliz? — Minha voz era firme. Minha pele ferida. Dee sentou ao meu lado no balanço. — Não. Isso nunca foi uma parte do acordo. — Ela piscou lentamente. — Ele estava prestes a beijá-la? Eu senti minhas bochechas queimarem ainda mais forte. — Eu não sei. — Uau. — Ela murmurou, com os olhos arregalados. — Isso foi inesperado. E isso foi estranho. Eu não queria nem pensar no que teria acontecido se ela não tivesse aparecido, e definitivamente não enquanto ela estava sentada aqui. — Uh, você foi visitar a família? — Sim, eu fui antes do início das aulas. Desculpe, eu não tive a chance de te dizer. É que tipo aconteceu de repente. — Dee pausou. — O que você e Daemon estavam fazendo mais cedo... Antes da parte quase-beijo? — Fomos a uma caminhada. Isso é tudo. — Isso é estranho... — Ela continuou, me observando de perto. — Eu tive que roubar suas chaves, mas já devolvi. Meu rosto franziu. — Sim, obrigado por isso, de qualquer maneira. Não há nada como um menino que está sendo chantageado para sair com você para aumentar a sua autoestima. — Oh, não! Não foi assim em tudo! Eu pensei que ele precisava... De motivação para ser mais agradável. — Ele deve realmente valorizar o seu carro. — Eu murmurei. — É... Ele faz. Será que ele passou muito tempo com você enquanto eu estava fora? — Nós não passamos muito tempo juntos. Fomos para o lago um dia e depois hoje. Isso é tudo. Um olhar curioso cruzou no seu rosto, e então ela sorriu. — Vocês tiveram um bom tempo juntos? Sem saber como responder, eu dei de ombros. — Sim, ele foi realmente muito decente. Quero dizer, ele tem seus momentos, mas não foi de todo ruim. — Se eu não contava o fato de que ele estava sendo forçado a passar o tempo comigo, que quase me beijou para obter bônus. — Daemon pode ser bom quando ele quer. — Dee se empurrou para trás no balanço, com um pé


no chão para mantê-lo em movimento. — Onde é que vocês foram caminhar? — Seguimos uma das trilhas e conversamos, mas depois vimos um urso. — Um urso? — Seus olhos se arregalaram. — Santa merda, o que aconteceu? — Uh, eu meio que desmaiei ou algo assim. Dee olhou para mim. — Você desmaiou? Eu corei. — Sim, Daemon me trouxe de volta para a varanda e sim, bem, o resto o que seja. Ela estava me observando de perto mais uma vez, curiosa. Depois ela balançou sua cabeça. Mudando de assunto, ela perguntou se tinha perdido qualquer outra coisa enquanto ela estava fora. Eu a preenchi com os assuntos enquanto minha mente estava completamente em outro lugar. Dee mencionou algo sobre assistir um filme mais tarde antes de sair. Eu acho que eu concordei. Muito tempo depois que eu tinha ido para dentro e colocado um par de moletons antigos, eu ainda estava confusa sobre Daemon. Ele parecia quase simpático durante a nossa caminhada antes de piscar de volta ao Super Idiota. Corando e frustrada, eu caí na cama e olhei para o teto. Havia uma rede de pequenas rachaduras no reboco. Meu olhar viajou por elas enquanto minha mente repassava os acontecimentos que levaram ao "quase beijo". Meu estômago revirou ao pensar o quão perto os seus lábios tinha estado perto dos meus. Pior ainda foi o conhecimento que eu queria que ele me beijasse. Gostar e desejo não devem ter nada em comum.

- Deixe-me ver se entendi. — Dee franziu a testa de onde ela tinha se empoleirado na antiga cadeira em necessidade desesperada de ser estofada. — Você não tem ideia de onde você quer ir para a faculdade? Eu gemi. — Você parece a minha mãe. — Sim, bem, você está entrando em seu último ano. ��� Dee parou por um segundo. — Vocês não começam a se inscrever assim que as aulas começam? Dee e eu estávamos sentadas na minha sala de estar folheando revistas quando minha mãe tinha ohtão-casualmente entrado e deixado cair uma pilha de folhetos universitários na mesa de café. Obrigada, mãe. — Você não deveria estar se inscrevendo? Você é uma de 'nós', também. O interesse que tinha estado brilhando em seus olhos desapareceu. — Sim, mas estamos falando de você. Revirei os olhos e ri. — Ainda não decidi o que eu quero fazer. Então, eu não vejo a necessidade de escolher uma escola. — Mas cada escola oferece a mesma coisa. Você poderia escolher um lugar, qualquer lugar que você queira ir. Califórnia, Nova York, Colorado... Oh, você pode até mesmo ir para o exterior! Isso


seria fantástico. Isso é o que eu faria. Eu iria para algum lugar na Inglaterra. — Você pode. — Lembrei ela. Dee baixou os olhos. Ela encolheu os ombros. — Não, eu não posso. — Por que não? — Eu puxei minhas pernas para cima e cruzei-as. Não parecia como se o dinheiro fosse um problema para eles, não quando você olhava para os carros que dirigiam ou as roupas que usavam. Eu perguntei se ela tinha um emprego, e ela disse que tinha uma mesada que a mantinha confortável. Os seus pais tinham remorso em sempre ficar na cidade para o trabalho e tudo mais. Um bom arranjo, se você pode entender. Mamãe era excelente em me dar dinheiro se eu precisasse, mas eu sinceramente duvidava que ela desembolsasse trezentos dólares por mês para divertimento, e carro novo para mim. Não. Eu tenho que continuar amando meu pequeno sedan, com ferrugem e tudo. Do ponto A ao ponto B, eu sempre me lembrava. — Você pode ir onde quiser Dee. — O sorriso de Dee era tingido com tristeza. — Eu provavelmente vou ficar aqui quando eu me formar. Talvez me inscreva em uma dessas universidades on-line. No começo eu pensei que ela estava brincando. — Você está falando sério? — Sim, eu estou tipo presa aqui. Fiquei intrigada com a ideia de alguém estar preso em qualquer lugar. — O que está prendendo você? — Minha família está aqui. — Ela disse baixinho, olhando para cima. — De qualquer forma, esse filme que nós assistimos ontem à noite me deu pesadelos. Eu odeio a ideia de uma casa assombrada com fantasmas nela, vendo você dormir. Sua rápida mudança de assunto não passou por mim. — Sim, esse filme era muito assustador. Dee fez uma careta. — Isso me lembra de Daemon. Ele costumava ficar em cima de mim quando eu estava dormindo, porque ele pensava que era engraçado. — Seus ombros delicados estremeceram. — Eu ficava tão brava com ele! Não importava o quão profundo de um sono que eu estava, eu ainda podia senti-lo olhando para mim e acordava. Ele zombava e ria de mim. Eu sorri com a imagem de Daemon como um menino brincando com sua irmã gêmea. Essa imagem foi completamente substituída pelo Daemon adulto. Eu suspirei além de frustrada, e fechei a revista. Eu não o tinha visto desde a noite na minha varanda, que tinha sido na segunda-feira. Dois dias sem vê-lo parecia banal. E não era como se eu quisesse vê-lo. Olhando para cima, assisti Dee virar para a parte de trás de sua revista. Ela sempre faz isso, indo para os horóscopos na parte de trás. Ela segurou sua mão direita contra o queixo, tocando seus lábios com uma unha roxa pintada. O dedo embaçando, quase desaparecendo. Ar ao seu redor parecia cantarolar. Pisquei várias vezes. O dedo ainda estava lá. Ótimo. Eu estava tendo alucinações novamente. Eu joguei a revista de lado. — Eu preciso ir à biblioteca. Preciso de novos livros para ler. — Podemos planejar uma viagem e ir comprar livros. — Ela pulou em sua cadeira, se animando


novamente. — Eu quero dar uma olhada no livro que você comentou em seu blog na semana antes de se mudar para cá. Aquele com as crianças com superpoderes. Meu coração fez uma dança feliz. Ela tinha lido o meu blog. Eu nem sequer me lembro de lhe dizer o nome. — Isso seria divertido, mas eu estava pensando em ir para a biblioteca esta noite. Eu não posso resistir quando é grátis. Você quer vir comigo? — Hoje a noite? — ela perguntou, com os olhos arregalados. — Eu não posso esta noite, mas posso ir amanhã à noite. — Não é grande coisa, se você não pode ir. Eu estive pensando em ir por um par de dias, mas eu continuo adiando, e eu preciso de doces para o cérebro antes de ter que ler alguma coisa da escola. O seu cabelo escuro virou no seu rosto travesso quando ela balançou a cabeça. — Oh, isso não é grande coisa. Eu não me importo de ir com você. Eu não posso ir esta noite. Tenho planos. Se eu não tivesse, eu iria. — Está tudo bem, Dee. Eu posso ir para a biblioteca sozinha, e então nós podemos ir às compras depois. Eu sei muito bem o meu caminho em torno da cidade agora. Não é como se eu fosse me perder, nem nada. É só apenas... Cinco quarteirões. Fiz uma pausa, e então rapidamente questionando sobre seus planos para a noite, tentando mudar de assunto. Os lábios de Dee eram firmes. — Nada, apenas amigos que estão de volta na cidade. Minha pergunta inocente, obviamente a colocou no lugar, e ela pareceu relutante em dizer o que estaria realmente fazendo. Ela se mexeu na cadeira, com foco em suas unhas. Eu senti como se tivesse bisbilhotando, mas eu não entendia como essa pergunta poderia ter feito ela se sentir desconfortável. Houve também uma parte de mim magoada e desapontada que eu não estava incluída. — Eu espero que vocês se divirtam hoje à noite. — Eu menti. Bem, não é uma mentira real. Mas pelo menos metade de uma mentira. Eu não tenho orgulho disso, mas aí está. Certo ou errado, eu me senti deixada de fora. Dee se contorceu em seu assento enquanto ela me observava. Seus olhos envesgaram, assim como eles fizeram no dia na varanda. — Eu acho que você deve esperar até que eu possa ir com você. Houve um par de meninas que já desapareceram recentemente. Estava indo para a biblioteca não estava indo para uma casa que cozinha metanfetamina, mas lembrei-me do cartaz de desaparecidos que eu tinha visto no outro dia e dei de ombros. — Ok, eu vou pensar. Dee permaneceu até que estava quase na hora da minha mãe ir ao trabalho. Na saída, ela parou na beira da varanda. — Realmente, se você puder esperar até amanhã à noite, eu vou para a biblioteca com você. Concordei mais uma vez e lhe dei um abraço rápido. Eu senti saudade dela no momento em que ela saiu. A casa era muito quieta sem ela.


9 Depois de jantar com a minha mãe, eu decidi sair. Não demorou muito tempo para ir até a vila e encontrar a biblioteca novamente. As ruas, que durante as poucas vezes em que estive na cidade estavam sempre povoadas, agora estavam quase desertas. Enquanto eu dirigia, o céu começou a ficar nublado, dando a toda cidade um aspecto de uma misteriosa cidade fantasma. Apesar das coisas estranhas na minha vida e agora o sentimento persistente de que Dee tinha vergonha de mim para não me convidar para sair com seus amigos, eu sorri enquanto caminhava até a biblioteca. Os pensamentos dos gêmeos e tudo o mais desapareceu enquanto eu dobrava a esquina da tranquila biblioteca e via as prateleiras de livros enchendo as paredes. Tal como acontece com jardinagem, na calma da biblioteca, me senti em paz. Parando em uma das mesas vazias, deixei escapar um pequeno suspiro de felicidade. Eu sempre era capaz de me perder na leitura. Os livros eram uma fuga necessária sempre que eu queria parar de pensar. O tempo passou mais rápido do que eu pensava, e a biblioteca adquiriu uma aura sombria. Bibliotecas eram sempre escuras quando a luz acabava, mas o natural escurecimento do céu acrescentava uma sensação horripilante. Eu não sabia que era tão tarde até que a bibliotecária apagasse a maioria das luzes, eu estava tendo problemas para fazer o caminho de volta para a recepção. Agora, eu mal podia esperar para estar fora desse lugar solitário e assustador. Um relâmpago iluminou as estantes e os trovões eram visíveis através das janelas. Eu tinha a esperança de entrar no meu carro antes de começar a chover. Pressionando os livros contra meu peito, me apressei para a recepção. Cheguei em tempo recorde, justamente antes que a bibliotecária desse a volta para fechar a biblioteca. — Bem a tempo — Eu murmurei baixinho. A iminente tempestade tinha transformado o entardecer em noite, fazendo parecer muito mais tarde do que era. Lá fora, as ruas ainda estavam desertas. Olhei para trás, pensando em ficar até que a chuva passasse, mas a luz da biblioteca estava apagada. Eu cerrei os dentes e guardei meus livros na minha mochila antes de sair. Assim que pisei na calçada, o céu se abriu em uma chuva torrencial, me molhando toda em segundos. Eu fiz o meu melhor para manter minha mochila seca enquanto procurava as chaves enquanto cambaleava para frente e para trás. A chuva estava me congelando! — Desculpe-me, senhorita? — A voz rouca interrompeu minha procura. — Você poderia me ajudar? Na tentativa de abrir a porta para que os livros não se molhassem, não ouvi ninguém se aproximar. Eu coloquei minha mochila no carro e apertei a alça da minha bolsa quando me virei em direção à voz. Um homem saiu das sombras e ficou parado embaixo do farol. A chuva escorria do seu cabelo claro esmagando os fios de sua cabeça. Seus óculos deslizaram para a ponta do seu nariz torto, enquanto abraçava a si mesmo, seu corpo magro tremia ligeiramente. — Meu carro está lá — apontou para trás dele, gritando um pouco para ser ouvido acima do barulho da chuva. — Tem um pneu furado. Esperava que você tivesse uma chave de roda.


Eu tenho uma, mas cada fibra do meu corpo me dizia para dizer não. Embora o homem parecesse ser um covarde. — Eu não tenho certeza. — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. Eu empurrei o meu cabelo molhado e limpei a garganta. Eu gritei de volta: — Eu não sei se eu tenho ou não. O homem me deu um sorriso cansado. — Eu não poderia escolher um melhor momento, hein? — Não. — Eu mudei de um pé para o outro. Uma parte de mim queria deixá-lo ali com um pedido de desculpas, mas havia outra parte de mim – uma grande parte de mim, que nunca foi boa em dizer não para as pessoas. Mordi o lábio enquanto dava a volta para a porta. Eu não podia deixá-lo na chuva. O pobre homem parecia prestes a ruir. A pena por ele pareceu expulsar o sentimento de medo que sempre vem quando você enfrenta o desconhecido. Eu não podia deixá-lo na chuva, não quando eu poderia ajudar. Pelo menos a chuva começava a diminuir. Eu tomei uma decisão, forcei um sorriso fraco. — Eu posso verificar. Provavelmente tenha uma. O homem sorriu. — Seria minha salvadora se encontrasse. Ele ficou onde estava, não se aproximando, provavelmente sentindo a minha desconfiança inicial. A chuva começou a ceder, mas aquelas nuvens tão escuras me faziam pensar que talvez nós estivéssemos no meio de um furacão. Fechei a porta do lado do motorista e fui para a parte traseira do carro. Abri a parte traseira e passei a mão sobre o tapete, olhando para a chave de roda perto do pneu sobressalente. — Acredito que tenho uma, para ser honesta. — Eu simplesmente me distraí por alguns segundos quando senti uma corrente de ar frio mover o cabelo da minha nuca. A adrenalina correu pelas minhas veias, meu coração batia forte contra as minhas costelas e meu estômago se revirou. — Os seres humanos são tão estúpido, tão crédulos. — Sua voz era tão fria como o vento no meu pescoço. Antes que meu cérebro pudesse registrar suas palavras, uma mão gelada e úmida se fechou sobre a minha em um aperto doloroso. Sua respiração era pegajosa contra a minha nuca. Nem sequer tive a chance de responder. Usando minha mão, ele me obrigou a me virar. Um grito escapou da minha garganta quando a dor se espalhou pelo meu braço. Eu estava cara a cara com ele agora, e ele não parecia tão fraco como antes. Na verdade, ele parecia ser mais alto. — Se... Se você quer dinheiro você pode levar tudo que eu tenho. — Eu queria jogar minha bolsa para que ele fosse embora. O estranho sorriu e me empurrou. Forte. O forte impacto do asfalto retirou o ar do meu corpo e eu segurei meu pulso pela queimação da dor. Com a mão boa, peguei minha bolsa e ofereci. — Por favor — Eu implorei. — Basta levá-la. Eu não vou dizer nada. Basta levá-la. Eu prometo. Meu atacante se agachou na minha frente, seus lábios se curvaram em um sorriso quando ele pegou minha bolsa. — Seu dinheiro? Eu não preciso do seu dinheiro. — Ele jogou a bolsa de lado.


Olhei para ele enquanto pequenos ofegos entravam e saíam de meus pulmões. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Se ele não ia me roubar, então o que queria? Minha mente reduzia as possibilidades, e tornou-se instantaneamente um eco de terror: Não, não, não. Eu não conseguia pensar direito com o fluxo de pensamentos e imagens que me assolavam. Mas meu corpo estava se movendo, e eu queria ficar longe dele, rastejando na calçada. O medo tomou conta de mim. Eu sabia que precisava gritar. Senti as palavras na minha garganta. Eu abri minha boca. — Não grite! — Advertiu, sua voz era um comando. Senti os músculos de minhas pernas apertarem. Movi-me, levantando meus joelhos ficando pronta para correr. Eu poderia fazer isso. Ele não esperava. Eu poderia fazer. Agora! Seus braços se moveram em um borrão, agarrando minhas duas pernas e puxando-as. Meu braço esquerdo e o lado do meu rosto bateram no chão, minha pele arranhando contra concreto áspero me fez ficar cega de dor. Meus olhos começaram a inchar em segundos e o sangue escorria pelo meu braço. Meu estômago se revirou. Tentei liberar as pernas de suas garras, chutei. Ele gemeu, mas manteve o aperto. — Por favor! Deixe-me ir. — Eu tentei novamente chutá-lo com a minha perna livre. O cimento raspando meus braços, só fiquei com mais dores. A raiva me atravessou, afastando meu medo, tentei lutar. A combinação me colocou em ação. Eu chutei e empurrei de novo e de novo, mas nada parecia movê-lo. Nem um centímetro. — Me solte! — Gritei desta vez, o som dilacerador de minha garganta foi cru. Ele moveu-se rapidamente, com o rosto sumindo e voltando ao normal como eu tinha visto a mão de Dee fazer. E então ele estava em cima de mim, com a mão cobrindo minha boca. Seu peso era insuportável, embora ele parecesse pequeno antes, tão fraco. Eu não conseguia respirar, não conseguia me mover. Foi esmagador, mas o pensamento do que vinha a seguir quase me destruiu. Alguém tinha que me ajudar. Essa era a minha única esperança. Ele abaixou a cabeça, cheirando meu cabelo. Um tremor de repulsa passou por mim. Ele sussurrou: — Eu estava certo. Tem seu rastro. — Ele moveu a mão da minha boca e agarrou meus ombros — Onde estão eles? — Eu... Eu não entendo — Disse, gaguejando. — Claro que não. — Seu rosto se contorceu com nojo. — Você é apenas uma tola mamífera. Não vale a pena. Eu fechei meus olhos. Não queria olhá-lo. Não queria ver seu rosto. Queria ir para casa. Por favor… — Olhe para mim! — Quando não obedeci, minha cabeça bateu contra o chão. Uma nova dor fresca me sobressaltou e meu único olho bom se abriu contra a minha vontade. Ele pegou meu queixo com sua mão gelada. Meu olhar se refletiu em seu rosto e finalmente se deteve em seus olhos. Eram enormes e vazios. Nunca tinha visto nada igual. E naqueles olhos, vi algo pior. Pior do que ser assaltada, pior que ser humilhada e abusada. Eu vi a morte – a minha morte, sem um pingo de remorso. — Diga-me onde eles estão. — Cada palavra foi cuspida. Sua voz soava abafada, como se ele estivesse falando sob a água, ou talvez fosse a minha


imaginação. Talvez eu estivesse me afogando. — Bem — Retrucou. — Você pode precisar de um pouco de ajuda. Em um segundo, suas mãos estavam em volta do meu pescoço e apertaram. Antes que eu tivesse a chance, minha respiração foi interrompida. Pânico arranhou meu peito enquanto eu tentava tirar seus dedos, minhas pernas chutavam em uma vã tentativa de me libertar. Seu aperto aumentou na minha frágil traqueia. — Você está pronta para falar? — Desafiou. — Ou não? Eu não sabia do que ele estava falando. Meu pulso parecia não doer mais, os arranhões nos meus braços e no rosto não pareciam arder como antes, porque uma nova dor substituiu à velha. Eu não tinha ar, nada de ar. Meu coração batia forte em meu peito, exigindo oxigênio. A pressão na minha cabeça estava insuportável. Minhas pernas estavam dormentes. Pequenas luzes atravessavam minha visão. Eu ia morrer. Eu nunca iria ver minha mãe novamente. Oh Deus, ela ficaria arrasada. Eu não podia morrer assim, por qualquer motivo. Roguei em silêncio, rezei para que alguém me encontrasse antes que fosse muito tarde, mas tudo estava desaparecendo. Eu deslizei em um abismo escuro. A pressão não era tão ruim agora. A dor na minha garganta parecia mais fraca. A dor estava indo embora. Eu estava indo embora, desaparecendo na escuridão. Repentinamente, suas mãos se foram, e houve um som de um corpo batendo contra o chão. Sentiame como se estivesse no fundo de um poço profundo e o ruído viesse de muito longe. Mas eu podia respirar de novo. Avidamente comia cada respiração, aproveitando o belo ar, a dor na minha garganta, alimentando meu corpo faminto. Comecei a tossir enquanto respirava. Alguém gritou em uma linguagem suave e musical que eu nunca ouvi falar antes, e, em seguida, houve outra maldição e um golpe sendo lançado. Um corpo caiu ao meu lado, e rolou um pouco. A dor me fez estremecer, mas era bem-vinda. Isso significava que eu estava viva. Eles estavam lutando nas sombras. Um deles – um homem pegou o outro, segurando-o alguns centímetros no ar. Sua força era impressionante, brutal. Desumano. Impossível. Rolando, fui atingida por uma nova rodada de tosse. Eu me inclinei para frente, colocando o peso no meu pulso, e gritei. — Droga! — Gritou uma voz profunda. Houve um flash intenso de luz amarela. Os postes de luzes na rua explodiram, deixando a quadra na escuridão total. Ajoelhei-me. O cascalho rangia e passos de botas se aproximaram. Acariciei meu braço machucado. — Fique calma. Ele se foi. Você está bem? — Uma mão delicada estava no meu ombro me firmando. Uma parte distante do meu cérebro pensou que sua voz soava familiar. — Basta ficar parada. — Eu tentei levantar minha cabeça, mas a tontura quase me levou a parar de respirar. Minha visão estava turva, clareando lentamente. Meu olho esquerdo estava inchado e pulsando com cada aceleração do meu pulso. — Tudo vai ficar bem. Um calor começou no meu ombro, passou pelo meu braço e parou em meu pulso, aliviando a dor muscular e me relaxando. Lembrei-me daqueles dias, eu caída nas praias de areia branca, aproveitando o sol. — Obrigada... — Minhas palavras sumiram quando eu reconheci a face de meu salvador. Maçãs do rosto altas, nariz reto e lábios carnudos que eu conhecia bem. Um rosto que era surpreendente e


tão frio que não podia lhe pertencer ou mesmo o calor que lentamente entrava por todo meu corpo. Os vibrantes olhos verdes encontraram os meus. — Kat. — disse Daemon. A preocupação estava estampada na sua face. — Você ainda está comigo? — Você... — Eu sussurrei enquanto minha cabeça se inclinava. Vagamente eu notei que não estava mais chovendo. Ele arqueou uma sobrancelha negra como carvão. — Sim, sou eu. Atordoada, olhei para onde ele segurava meu pulso. Não estava mais doendo, mas seu toque estava fazendo outra coisa. Eu puxei meu braço para trás, confusa. — Eu posso ajudar. — Ele insistiu, estendendo o braço para mim. — Não! — Gritei. — Isso dói. Ele pensou por um momento, depois abaixou a mão, seus olhos olhavam para o meu pulso. — Como queira. Vou chamar a polícia. Eu tentei não ouvir, enquanto ele falava com a polícia no telefone. Eventualmente, fui capaz de recuperar o fôlego. — Obrigada. — Minha voz estava rouca, e doía falar. — Não me agradeça. — Ele passou os dedos pelo seu cabelo. — Caramba, isso é culpa minha. Como isso poderia ser por causa dele? Meu cérebro não estava funcionando corretamente, porque não tinha muito sentido. Eu me inclinei para trás com cuidado, olhei para cima e imediatamente desejei que eu não tivesse feito. Ele parecia feroz. E protetor. — Vê algo que você gosta, Gatinha? Baixei os olhos... Suas mãos em punhos. Seus dedos não tinham um arranhão. — Luz... Eu vi a luz. — Bem, eles dizem que há uma luz no fim do túnel. Afastei o aviso de que quase tinha morrido esta noite. Daemon se abaixou. — Caramba, desculpe. Isso foi imprudente. Suas feridas são graves? — ... Minha garganta dói. — Ele me tocou gentilmente e estremeci. — O mesmo vale para o meu pulso. Não tenho... Certeza se está quebrado. Ele levantou meu braço gentilmente. Estava inchado e também já estava roxo e azul. — Mas houve um flash... De luz. Ele estudou meu braço. — Pode estar quebrado ou torcido. Isso é tudo? — Tudo? O homem... Ele tentou me matar. Seus olhos se estreitaram. — Eu entendo isso. Eu estava esperando que ele não tivesse quebrado nada importante. — Parou por um segundo, pensando. — E sua cabeça? — Não... Eu estou bem. Ele suspirou. — Bem, bem. — Levantou-se e olhou em volta. — Por que você estava aqui, afinal? — Eu... Eu saía da biblioteca. — Eu tive que parar porque minha garganta ainda doía. Não era


tão… Tarde. — Não estamos... Em uma cidade com alto índice de criminalidade. Ele disse que precisava de ajuda... Um pneu furado. Seus olhos se arregalaram em descrença. — Um estranho vem pedir ajuda em um estacionamento escuro e você o ajuda? É uma das coisas mais descuidadas que já ouvi na minha vida. — Ele cruzou os braços e olhou para mim. — Eu aposto que você acha que eu sempre faço coisas como essa, certo? Que aceito doces de estranhos e entro em caminhonetes que têm um letreiro que diz “gatinhos grátis”? Comecei a me levantar. — Desculpe, não fui de muita ajuda, não é? Eu ignorei a última declaração. — Então por que você está aqui? — Minha garganta estava finalmente um pouco melhor. Ainda dói como o inferno, mas pelo menos não doía com cada palavra. Daemon fez uma pausa e passou a mão sobre o peito, sobre seu coração. — Só de passagem. — Puxa, eu pensei que os homens deveriam ser agradáveis e encantadores. Ele franziu a testa. — Que homens? — Você sabe, os cavalheiros de armadura brilhante que salvam as donzelas em perigo. — Eu parei naquele ponto. Devo ter batido com a cabeça. — Eu não sou o seu cavalheiro. — Tudo bem... — Eu sussurrei. Lentamente, eu levantei meus joelhos e descansei a cabeça sobre eles. Tudo doía, mas não tanto como quando o homem estava com as mãos em volta do meu pescoço. Estremeci com o pensamento. — Onde ele está agora? — Ele se foi. Por agora — Disse Daemon. — Kat...? Eu levantei minha cabeça. Seu corpo pairava sobre mim quando ele me viu. Seu olhar era enervante, penetrante. Não sabia o que dizer. Eu não gostava do corpo que Daemon projetava com o luar. Eu fiz um movimento para tentar me levantar. — Não acho que você deveria se levantar. — Ele se ajoelhou novamente. — A ambulância e a polícia deverão estar aqui a qualquer minuto. Eu não quero que você se machuque. — Nada vai acontecer... — Neguei, finalmente ouvindo as sirenes. — Não quero ter que carregá-la se você desmaiar. — Examinou seus dedos por alguns instantes. — Ele disse alguma coisa? Eu não queria engolir saliva, machucava demais. — Ele disse… Que havia um rastro em mim. E não deixava de perguntar… ‘Onde eles estão’? Não sei por quê. Ele desviou os olhos, respirando com dificuldade. — Soa como um lunático. — Sim, mas o que ele queria? Daemon virou-se para mim, franzindo a testa. — Uma menina estúpida para ajudar um maníaco homicida com seu pneu, talvez? Meus lábios se apertaram em uma linha dura. — Você é um idiota. Alguém... Nunca te disseram isso? Ele deu uma verdadeira risada engraçada.


— Oh, Gatinha, todos os abençoados dias da minha vida. Olhei-o com incredulidade novamente. — Eu nem sei o que dizer. — Como já me agradeceu, eu acho que nada é a melhor maneira de proceder neste momento. — Levantou-se com uma graça fluida. — Só não se mova. Isso é tudo que eu peço. Fique quieta e tente não causar mais problemas. Eu fiz uma careta para ele e isso doeu. Meu não tão encantador cavalheiro ficou sobre mim, as pernas abertas e os braços ao lado do corpo como se estivesse pronto para me proteger novamente. E se o homem voltasse? Isso deve ter deixado Daemon preocupado. Meus ombros começaram a tremer, meus dentes rapidamente o seguiram. Daemon tirou sua camisa e passou o algodão quente sobre minha cabeça, com cuidado para que o tecido não tocasse as áreas machucadas do meu rosto. Seu aroma me envolveu, e pela primeira vez depois do ataque, senti-me segura. Com o Daemon. Quem imaginaria? Como se meu corpo reconhecesse que não tinha que lutar mais, comecei a cair para um lado, e sabia que ia ter meu outro olho negro quando minha cabeça bateu no chão, estava certamente prestes a desmaiar pela segunda vez em apenas alguns dias. Por um breve momento eu me perguntava se eu estava condenada a parecer sempre fraca em frente à Daemon, e então eu me dobrei no chão como um saco de papel.


10 Eu não tinha o costume de frequentar hospitais. Eu odiava tanto quanto eu odiava música country. Em minha opinião, cheirava a morte e desinfetante. Lembrava-me do meu pai, e do tempo em que ele passou enquanto o câncer escurecia seus olhos e a quimioterapia acabava com seu corpo. Este hospital não era nada diferente, mas a visita era um pouco mais complexa. Ela envolvia a polícia, a mãe desesperada, e meu salvador sombrio e escuro, que se mantinha perto do quarto onde eu estava. Fiz o meu melhor para ignorá-lo, tão rude e ingrato como parecia. Minha mãe, que tinha voltado ao hospital no momento em que a ambulância tinha me levado com a polícia de escolta, seguia estirando a mão e acariciando meu braço ou meu rosto – a parte boa, pelo menos. Como se esse movimento a lembrasse que eu ainda estava respirando, e que só tinha hematomas. Começava a me incomodar, e me odiava por isso. Estava experimentando o mais alto nível de irritação. Minha cabeça e costas doíam muito, mas a dor no meu pulso e braço eram os piores. Depois de muitos toques, punções, e meia dúzia de raios-X, chegaram à conclusão de que nada estava quebrado. Eu tinha um pulso torcido, um tendão rasgado no meu braço e numerosas contusões e cortes. A braçadeira já estava envolvendo minha mão esquerda e antebraço. Houve também uma promessa ilusória de medicação para a dor que nunca chegava. Os oficiais de polícia eram amáveis, mas um pouco bruscos, e perguntaram todo tipo de perguntas que pudessem imaginar. Eu sabia que era importante dizer-lhes tudo o que eu lembrava, mas o choque começou a desvanecer-se e a adrenalina há muito já tinha me abandonado. Tudo que eu queria era ir para casa. Eles pensaram que era uma tentativa de assalto que deu errada, até que eu disse a eles que ele não pediu nenhum dinheiro. Então eu disse a eles o que ele tinha dito, acreditaram que talvez ele estivesse doente ou possivelmente era um viciado em drogas e que estava terminando o efeito. Quando a polícia terminou de me fazer perguntas, voltou-se para o Daemon. Pareciam estarem agradecidos com ele. Inclusive, alguém lhe deu até tapinha nas costas e sorriu. Eles eram amigos. Que doce. Eu não tive a oportunidade de ouvir o que ele disse, porque a minha mãe assumiu o interrogatório. Eu queria que todo mundo fosse embora e me deixassem em paz. — Senhorita Swartz? Surpresa ao ouvir meu nome, fui tirada dos meus pensamentos. Um dos oficiais mais jovens estava ao lado de minha cama novamente. Eu não conseguia lembrar o nome dele, e estava muito cansada para olhar sua identificação. — Sim? — Acredito que já terminamos por esta noite. Se você se lembrar de algo mais, ligue-nos imediatamente, por favor. Eu balancei a cabeça e desejei não ter feito. Fiz uma careta quando a dor atravessou minha cabeça. — Querida, você está bem? — Mamãe perguntou, preocupada.


— Minha cabeça dói. Ela se levantou. — Vou chamar o médico para te medicar. — Sorriu gentilmente. — Então você não vai sentir nada. Isso era o que eu precisava, o que eu adoraria. O oficial se virou para sair, mas parou novamente. — Não acredito que tenha nada do que se preocupar. Eu… O chamado do seu rádio interrompeu o que ele ia dizer. A voz do locutor se ouviu sobre a estática: — Todas as unidades disponíveis, temos código 18 em Well Springs Rode. A vítima é uma mulher de cerca de dezesseis ou dezessete anos. Possível DOA4. Paramédicos no local. Uau. Quais eram as chances de que eu tivesse sido atacada na mesma noite em que uma adolescente morre em uma cidade tão pequena? Devia ser uma coincidência. Olhei para Daemon, seus olhos se encontravam semicerrados, ele também tinha ouvido. 5 Termo médico usado quando o paciente morre antes ter os serviços médicos. — Jesus — disse o oficial, em seguida apertou o botão do rádio. — Unidade 414 saindo do hospital e a caminho. — Ele virou-se, ainda falando no rádio e se foi. A sala estava vazia, exceto por Daemon encostado na parede ao lado da cortina. Ele levantou uma sobrancelha para mim. Mordi o lábio e virei à cabeça, fazendo com que outra explosão de dor me atravessasse de um lado para o outro. Eu fiquei lá até minha mãe correr de volta para a minha cama com o médico. — Querida, Dr. Michaels tem uma boa notícia. Como você sabe, você não tem ossos quebrados e também parece que não tem concussão. Ele vai lhe dar alta e você pode ir para casa e descansar. — Ela disse, acariciando a área onde manchas de cor cinza apareciam em seu cabelo. Daemon olhou antes de se concentrar em mim, novamente. — Agora, se você começar a sentir problemas de visão, náusea ou vertigem, ou perda de memória, nós vamos te trazer novamente imediatamente. — Concordo. — Eu disse, olhando para os comprimidos. Neste ponto, aceitaria qualquer coisa. Depois que o médico saiu, a minha mãe ficou chocada quando eu lhe tirei o pequeno copo de plástico e os comprimidos e os engoli rapidamente. Nem me importava com o que fossem. À beira das lágrimas novamente, estirei e procurei a mão de mamãe, mas fui interrompida por uma exaltada voz no corredor. Dee entrou no quarto, com o rosto pálido e preocupado. — Oh, não, Katy. Você está bem? — Sim. Só um pouco machucada. — Estiquei o meu braço e dei-lhe um sorriso fraco. — Eu não posso acreditar que isso aconteceu. — Ela se virou para o irmão. — Como isso pôde acontecer? Eu pensei que você... — Dee... — Daemon avisou. Ela se afastou de seu irmão e inclinou-se para o lado da minha cama. — Eu sinto muito por isso. — Não é culpa sua. Ela acenou com a cabeça, mas eu poderia dizer que ela estava se afogando em culpa. O nome da minha mãe foi chamado pelos alto-falantes. Ela pediu desculpas e prometeu voltar em poucos segundos.


— Você pode ir logo? — Dee perguntou. Eu arrastei minha atenção de volta para ela. — Eu acho. — Eu parei. — Assim que a minha mãe voltar. Ela acenou com a cabeça. — Você viu... O cara que te atacou? — Sim. — Disse — Foi uma coisa muito louca. — Fechei os olhos, e parecia que me custaria muito deixá-los abertos novamente. — Disse algo sobre ‘encontrá-los’. Eu não sei. — Eu me mexi na cama dura, as contusões doeram. — Foi estranho. Dee empalideceu. — Eu espero que você possa ir em breve. Eu odeio hospitais. — Eu também. Ela torceu o nariz. — Eles têm... Um cheiro tão estranho. — Isso é o que eu sempre digo a minha mãe, mas ela acha que invento. Dee balançou a cabeça. — Não, não é só você. Eles têm esse cheiro... Mofado. Minhas pálpebras se abriram novamente e se concentraram em Daemon. Seus olhos estavam fechados, sua cabeça inclinada contra a parede, mas eu sabia que estava ouvindo tudo. Dee falou sobre me levar para casa se minha mãe não pudesse sair. Fiquei impressionada novamente com os gêmeos. Daemon e Dee não pertenciam a este lugar, mas eu sim. Eles poderiam facilmente se perder entre as paredes brancas e cortinas verdes pálidas. Eu era como linóleo, mas estes dois pareciam iluminar a sala com sua beleza impecável e presença impotente. Ah, o remédio começou a fazer efeito. Agora estava poética. E drogada. Em êxtase. Dee se moveu, bloqueando minha visão de Daemon. Imediatamente senti o pânico chegar, e me movi desconfortável até que pude vê-lo de novo. Meu pulso se acalmou no momento em que meus olhos encontraram os dele. Ele não me enganava. Tentava agir como se estivesse relaxado, encostado na parede e com os olhos fechados e tudo mais, mas sua mandíbula estava tensa e sabia que se encontrava como no início da primavera, vibrante de energia. — Você está se comportando bem. Eu estaria completamente aterrorizada, me balançando em uma esquina por aí. — Dee sorriu. — Eu ficarei. — Sussurrei. — Dê-me tempo. Eu não tinha certeza de quanto tempo se passou antes que minha mãe voltasse com uma expressão irritada no rosto bonito. — Querida, me perdoe por ter deixado você. — Disse rapidamente. — Houve um acidente muito grave, e estão trazendo muitas vítimas. Você vai ter que ficar aqui por um tempo. Eu tenho que ficar, pelo menos até que determinemos se terão que movê-los para um hospital maior. Muitos enfermeiros não estão aqui, e o hospital não é treinado para este tipo de crise. Eu olhei para ela, incrédula. Eu senti o desconforto me invadir novamente. Foda-se todos os outros. Eu quase morri hoje, e queria a minha mãe. — Sra. Swartz, podemos levá-la para casa. — disse Dee. — Tenho certeza que ela quer ir embora. Eu sei que eu iria querer, e não será problema para nós levá-la. Eu implorei com os olhos a minha mãe para que ela mesma me levasse para casa. — Eu me sentiria melhor se ela estivesse aqui, caso tenha uma concussão e, bem, não quero que


nada mais aconteça. — Nunca deixaria que nada acontecesse. — O olhar de Dee era constante. — Nós a levaremos direto para casa e ficaremos com ela. Eu prometo. Pude notar como mamãe lutava com a necessidade de me manter perto e se responsabilizar por aqueles machucados no acidente. Eu me senti mal por colocá-la nesta posição, de escolher. Além disso, eu aqui no hospital devia ser uma lembrança dolorosa do papai. Meus olhos voaram para Daemon, e aborrecimento evaporou dos meus ombros. Ofereci um sorriso fraco para a mãe. — Está tudo bem, mãe. Estou me sentindo muito melhor, e eu tenho certeza que nada está errado. Não quero ficar aqui. Mamãe suspirou, levantando as mãos. — Eu não posso acreditar que isso aconteceu hoje à noite, precisamente. — Seu nome foi chamado pelos alto-falantes novamente. Ela fez algo que não é muito característico, amaldiçoou. — Demônios! Dee pulou imediatamente. — Podemos levá-la, Sra. Swartz. Mamãe olhou para mim e depois para a porta. — Ok, mas se ocorrer algo incomum — virou-se para mim. — Ou se sua cabeça começar a doer demais, me ligue imediatamente. Não! Ligue para o 192. — Eu vou. — Garanti a ela. Ela se inclinou e me beijou suavemente no rosto. — Descanse um pouco. Eu te amo. — Então, ela estava correndo pelo corredor. Dee sorriu largamente. — Obrigada — Eu disse. — Mas não tem que ficar comigo. Ela franziu a testa. — Sim, eu vou. Não há argumentos. — Ela saiu do meu lado. — Vou ver o que posso fazer para tirar você desse lugar. Eu pisquei e ela se foi, Daemon se moveu para mais perto. Sua expressão era estoica e parou ao pé da minha cama. Fechei os olhos. — Você vai me insultar de novo? Porque eu não estou disposta a... Tolerar isso. — Eu acho que você se refere a suportar. — Tolerar, suportar. Como seja. — Eu abri meus olhos e encontrei-o me olhando. — Você está realmente bem? — Eu estou muito bem. — Bocejei de forma audível. — Sua irmã está agindo como se a culpa fosse dela. — Ela não gosta quando as pessoas se machucam. — Disse suavemente. — E as pessoas tendem a se machucar ao nosso redor. Um frio passou pelo meu interior. Mesmo que sua expressão fosse séria, suas palavras estavam impregnadas de dor. — O que significa isso? Nenhuma resposta. Dee depois voltou com um grande sorriso no rosto. — Estamos prontas para ir, com as ordens do médico e tudo. — Venha, vamos te levar para casa. — Daemon se moveu ao lado de minha cama e, surpreendentemente, me ajudou a me sentar e, em seguida, a me levantar.


Eu tropecei dando alguns passos, tendo que parar. — Uau, me sinto pronta para dormir. O rosto de Dee tornou-se simpático. — Eu acho que as pílulas já estão fazendo efeito. — Já estou... Falando besteira? — Perguntei. — Nem um pouco. — Ela riu. Eu suspirei, exausta, a ponto de quase cair. Meu corpo estava no ar inclinando-se no peito de Daemon antes de ser depositado delicadamente em uma cadeira de rodas. — Regras do hospital. — Explicou Daemon e depois empurrou a cadeira, parando apenas para me permitir assinar um formulário antes de me levar para o estacionamento. Ajudou-me a entrar no carro de Dee. Cuidando do meu braço, me puxou e me colocou no banco. — Eu posso caminhar, sabe. — Eu sei. — Ele contornou o carro e sentou-se ao meu lado. Tentei ficar do meu lado do assento com a cabeça erguida, porque duvidava que ele apreciasse que eu me atirasse em cima dele, mas uma vez que Daemon se sentou junto a mim, minha cabeça simplesmente caiu em seu peito. Ele ficou tenso por um momento, mas depois colocou um braço em volta dos meus ombros. O calor rapidamente penetrou em meus os ossos. Senti-me bem nesta hora, encostada contra ele. Eu me senti segura, e me lembrei como eram quentes suas mãos. Afundei a parte sã do meu rosto contra o suave tecido de sua camisa e acreditei sentir seu braço apertando-se ao meu redor, mas isso pode ter sido o efeito das pílulas. No momento em que o carro começou a andar eu estava dormindo, pensando em uma coisa e outra, sem muito sentido. Eu não tinha certeza se eu sonhei ou não, quando Dee começou a falar, sua voz baixa e distante. — Eu disse para ela não ir. — Eu sei. — Houve uma pausa. — Não se preocupe. Eu não vou deixar nada acontecer desta vez. Eu juro. O silêncio foi seguido por sussurros mais silenciosos. — Você fez alguma coisa, certo? — Ela perguntou. — Está mais forte agora. — Não foi... Minha intenção. — Daemon moveu-se ligeiramente, empurrando meu cabelo do meu rosto. — Simplesmente aconteceu. Merda. Longos minutos se passaram, e eu me esforcei para ficar acordada. Mas os acontecimentos da noite faziam um monte de peso sobre mim, e eu finalmente sucumbi ao calor de Daemon e à sorte da noite. Quando abri os olhos novamente, luz do dia abria seu caminho através da espessa cortina do quarto, captando pequenas partículas de pó que faziam desenhos disformes sobre a pacífica cabeça de Dee. Ela estava a poucos passos de distância, curvada em um sono profundo. Suas mãos pequenas foram acomodadas sob seu queixo, e sua boca estava ligeiramente aberta. Parecia mais uma boneca de porcelana do que uma pessoa real. Eu sorri e imediatamente fiz uma careta. Uma faísca de dor tomou conta da minha cabeça, e o medo da noite anterior encheu minhas veias de água gelada. Eu fiquei ali por um momento, respirando profundamente para me acalmar e assim ganhar o controle das minhas loucas emoções. Eu estava viva – graças a Daemon, que aparentemente também estava sendo meu travesseiro. Minha cabeça estava em suas pernas, e uma de suas mãos descansando na curva do meu quadril.


Meu coração disparou. Ele não poderia estar confortável, sentado a noite toda. Daemon se esticou. — Está tudo bem, Gatinha? — Daemon? — Eu murmurei, tentando controlar minhas emoções. — Eu... Sinto muito. Não queria dormir em cima de você. — Tudo bem. — Ajudou-me a sentar. O quarto girou um pouco. — Você se sente bem? — Perguntou novamente. — Sim. Você ficou aqui a noite toda? — Sim. — foi tudo que ele disse. Lembrei-me de Dee se oferecendo, mas ele não. Acordar com a minha cabeça entre as suas pernas era a última coisa que eu esperava. — Você se lembra de alguma coisa? — Perguntou em voz baixa. Meu peito se apertou. Eu balancei a cabeça, esperando que doesse. — Eu fui atacada ontem à noite. — Alguém tentou te roubar. — Disse. — Não, não foi assim. Lembro-me de um homem pegando minha bolsa, depois jogando fora, mas ele não queria o meu dinheiro. Não estava tentando me assaltar. — Kat... — Não. — Eu tentei levantar, mas seu braço estava ao meu redor, formando uma corrente de ferro que não podia quebrar. — Ele não queria o meu dinheiro, Daemon. Queria eles. Daemon se esticou. — Isso não faz qualquer sentido. — Sério? — Eu fiz uma careta ao mover meu braço e perceber que a tala pesava. — Mas ficava perguntando onde eles estavam e sob um rastro. — Aquele cara era louco. — Ele disse calmamente. — Você percebe isto, certo? Que não era bom da cabeça. Que nada do que ele disse significa alguma coisa. — Não sei. Ele não parecia louco. — Não é louco o suficiente para tentar acertar uma garota até a morte? — Sua sobrancelha se levantou. — Eu tenho curiosidade de saber o que é louco para você. — Não é o que quero dizer. — Então, o que você quer dizer? — Ele se moveu, com cuidado para não me machucar, o que me surpreendeu. — Era um lunático qualquer, mas você está indo para torná-lo maior do que realmente é, né? — Eu não estou fazendo nada. — Eu inalei para me acalmar. — Daemon, ele não era um lunático normal. — Oh, você é expert em loucos agora? — Um mês com você e eu sinto que sou uma mestra no assunto. — Falei. Olhei para ele com raiva e me virei. Minha cabeça doía. — Você está bem? — Ele perguntou colocando a mão no meu braço bom. — Kat? Eu apertei sua mão. — Sim, eu estou bem. Seus ombros se esticaram, e olhou para frente.


— Eu sei que você provavelmente está afetada pelo que aconteceu ontem à noite, mas não vamos transformar isso em algo que não é. — Daemon... — Eu não quero que Dee fique preocupada porque tem um idiota lá fora atacando garotas. — Seu olhar era tenso. Frio. — Você entendeu? Meu lábio tremeu. Parte de mim queria chorar. Outra parte queria bater nele. Então, toda essa preocupação era com a sua irmã? Como sou boba. Nossos olhos se encontraram. Havia tanta intensidade em seus olhos, como se ele estivesse tentando me fazer entender. Dee bocejou de forma audível. Eu me afastei, quebrando o primeiro contato. Naturalmente, o primeiro ponto era de Daemon. — Bom dia! — Dee falou enquanto jogava suas pernas no chão, parecendo surpreendentemente forte para alguém tão magra quanto ela. — Estão acordados há muito tempo? Outro suspiro veio dos lábios de Daemon, mais audível e irritante do que o primeiro. — Não, Dee, acabamos de acordar e estávamos apenas conversando. Roncava tão alto que não conseguíamos mais dormir. Dee bufou. — Duvido. Katy, você se sente... Bem esta manhã? — Sim, eu estou um pouco dolorida e tensa, mas no geral estou bem. Ela sorriu, mas seus olhos ainda estavam cobertos com culpa. O que não fazia sentido. Ela tentou alisar seus cachos, mas eles saltaram em desordem assim que ela tirou as mãos. — Acho que vou fazer um café da manhã. — Antes que eu pudesse responder, ela correu para a cozinha e eu podia ouvir muitas portas sendo abertas e fechadas, bem como utensílios de cozinha e panelas batendo. — Certo. Daemon levantou-se e espreguiçou-se, os músculos das costas sob a camisa me tentando. Eu desviei o olhar. — Minha irmã é mais importante para mim do que qualquer outra coisa no universo. — Ele disse suavemente. Cada palavra dita com determinação. — Eu faço qualquer coisa por ela, sempre me certifico de que ela esteja feliz e segura. Por favor, não a preocupe com histórias loucas. Eu me senti infinitamente pequena. — Você é um idiota, mas eu não vou dizer nada. — Quando olhei para cima, demorei a me concentrar, seus olhos brilhavam muito. — Certo? Está contente? Algo surgiu em seu rosto, e foi tão rápido quanto veio. Raiva? Remorso? — Na verdade não. Nem um pouco. De novo nos olhamos fixamente. O ar era tenso, palpável. — Daemon! — Dee chamou da cozinha. — Preciso de sua ajuda! — Devemos ir ver o que ela está fazendo antes que ela destrua sua cozinha. — Ele esfregou o rosto com as mãos. — O que é bem possível. Mantendo-me em silêncio, eu o segui pelo corredor onde a luz entrava pela porta aberta. Estremeci com a claridade e de repente me lembrei que eu não tinha penteado os cabelos e nem escovado os dentes ainda. Eu pulei para longe de Daemon. — Eu acho que eu tenho que... Ir.


Ele levantou uma sobrancelha. — Ir... Onde? Senti meu rosto esquentando. — Preciso de um banho. Surpreendentemente, a porta foi deixada aberta e não foi fechada. Ele acenou com a cabeça e desapareceu na cozinha. Na beira da escada, meus dedos foram inconscientemente aos meus lábios e um arrepio percorreu meu corpo. Quão perto estive de morrer ontem à noite? — Ela realmente vai ficar bem? — Ouvi Dee perguntar. — Sim, ela vai ficar bem. — Daemon respondeu, pacientemente. — Você não tem nada para se preocupar. Nada vai acontecer. Tudo estava arrumado quando voltei. Eu estava perto das escadas. — Não ponha essa cara. Nada vai acontecer com você. — Daemon exalou com evidente frustração. — Ou a ela, ok? — Eles ficaram em silêncio por um tempo mais longo. — Nós deveríamos ter esperado por isso. — Você acha? — Dee perguntou irritada. — Porque eu tentei não pensar sobre isso, eu estava esperando que talvez a gente pudesse ter um amigo, um de verdade, sem que eles... Seu tom de voz diminuiu, tornando-se ininteligível. Falavam de mim? Eles tinham que estar falando sobre mim, mas isso não fazia sentido. Eu fiquei ali totalmente confusa, tentando descobrir o que poderiam estar falando. A voz de Daemon aumentou de volume. — Quem sabe, Dee? Vamos ver como as coisas vão ficar. — Ele fez uma pausa e depois riu. — Eu acho que você está queimando os ovos. Venha, dê-me. Antes de me mover de lugar, ouvi um pouco mais. Sem aviso, outra conversa me veio à mente. Ontem à noite, no carro, enquanto estava entrando e saindo do meu estado inconsciente, ouvi murmúrios de preocupações que eu não consegui entender. Eu queria afastar a sensação constante de que eles estavam escondendo algo. Não tinha esquecido a aversão de Dee para mim, quando falei que fui à biblioteca. Ou a estranha luz que tinha visto na biblioteca que me lembrou tanto a luz na floresta quando eu vi o urso e desmaiei, algo que nunca tinha feito em toda a minha vida. E então houve o dia no lago, onde Daemon se tornou Aquaman. Caminhei intumescida até meu banheiro e acendi a luz, para ver meu rosto arruinado. Eu balancei a cabeça de um lado para outro, e um suspiro escapou da minha garganta. Eu sabia que meu rosto tinha sido rasgado na noite passada. Lembro-me da dor e dos meus olhos inchados que não conseguia abrir. Mas agora, meu olho estava apenas um pouco roxo, e minha pele do rosto estava apenas vermelha, como se ela já tivesse começado a cicatrizar. Meu olhar viajou para o meu pescoço. As contusões estavam quase invisíveis, como se o acidente tivesse acontecido dias atrás, e não na noite passada. — Mas que diabos? — Eu murmurei. Minhas feridas estavam quase curadas, com exceção do meu braço... Mas isso também estava quase bom. Outra lembrança passou pela minha mente, Daemon inclinando-se sobre mim com as mãos quentes. Suas mãos tinham…? Não podia ser. Eu balancei minha cabeça. Mas enquanto examinava a mim mesma eu não conseguia afastar a sensação de que me dizia que algo estava acontecendo aqui, e os gêmeos sabiam.


Nada fazia sentido.


11 No domingo, antes da escola começar, Dee me levou à cidade para comprar meus livros, enquanto substituía quase todos os seus itens escolares. Nós só teríamos três dias de aula e, em seguida seria o Dia do Trabalho. Eu estava ansiando por ele. Antes de voltar para casa, Dee estava faminta como sempre, e paramos em um de seus lugares favoritos. — É um restaurante pitoresco... — Eu disse. Dee sorriu, o salto de sua sandália constantemente batendo no chão. — Pitoresco? É singular para uma garota da cidade como você, mas aqui é o mais popular. Dei outra olhada rápida ao redor. The Hole Smoke não era tão ruim, na verdade de fato era um lugar com cores de terra e eu gostei dos grupos de rochas e pedras que se sobressaíam das beiradas das mesas. — É muito mais cheio na parte da tarde e depois da escola. — Ela falou. — Tornando-se quase impossível conseguir um lugar. — Você vem sempre aqui? — Eu achei um pouco difícil imaginar a bela Dee aqui, comendo um sanduíche de peru e shakes. Mas ela estava aqui com seu segundo sanduíche de peru e seu terceiro shake. Desde que eu conheci Dee, ficava constantemente surpresa com a quantidade de alimentos consumidos de uma só vez. Na verdade, era um pouco preocupante. — Daemon e eu viemos aqui pelo menos uma vez por semana pela lasanha. É de morrer! — Seus olhos brilharam com uma mistura de emoção e nostalgia. Eu ri. — Você gosta de qualquer refeição, mas obrigada por me convidar para sair hoje. Estou feliz em sair de casa sem mamãe. Ela passa cada segundo sobre mim. — Ela está preocupada. Eu balancei a cabeça, brincando com a colher. — Especialmente depois de ouvir sobre a garota que morreu na mesma noite. — Será que você a conhecia? Dee olhou para o seu prato, sacudindo a cabeça. — Não muito. Ela estava em grau menor do que nós, mas muitas pessoas a conheciam. Cidade pequena e tudo isso. Acho que eu li que eles não têm certeza de que ela foi assassinada, parece ter sido um ataque cardíaco. — Ela parou, seus lábios franzidos enquanto olhava por cima do meu ombro. — Que estranho. — O quê? — Eu perguntei, virando-me para ver o que ela estava olhando e virando meu rosto assim que pude. Era Daemon. Dee inclinou a cabeça, seu cabelo escuro caiu descuidadamente ao redor. — Eu não sabia que ele viria aqui. — Oh, parece que ele apenas quer ser identificado. Dee deu uma risada, amando a atenção de todos na sala. — Ah, isso foi divertido.


Eu afundei no meu assento. Depois da manhã quando ele e sua irmã me prepararam o café da manhã, ele me evitou e isso estava bem para mim. No entanto, eu queria agradecê-lo por salvar minha vida. Uma apreciação adequada não termina em insultos, mas as poucas vezes que eu fui capaz de vê-lo, ele parava tempo suficiente para me avisar com seus olhos de que não queria que eu me aproximasse. Daemon era o homem mais fisicamente perfeito que eu já tinha visto – seu rosto era algo que um artista morreria por uma chance de desenhar, nada parecia estar errado. Mas também era o maior idiota do planeta. — Ele não vai se sentar aqui, certo? — Sussurrei para Dee que parecia estar se divertindo muito. — Olá, Dee. — Não faça isso. — Fez uma pausa, passando a mão pelos seus cabelos negros. — Seu rosto parece muito melhor. Inconscientemente coloquei uma mão em minha bochecha. — Bem... Obrigada, eu acho... — Olhei para Dee com incredulidade e murmurei para ela as palavras meu rosto? Ela lançou um olhar divertido para mim, antes de voltar à atenção para o irmão. — Você vai se juntar a nós? Estávamos terminando. Era a vez de Daemon bufar. — Não, obrigado. Eu brincava com a comida no meu prato. Como se a ideia de comer com a gente fosse à coisa mais absurda. — Bem, isso é tão triste. — Dee não se ofendeu absolutamente. — Daemon, que bom que você já está aqui! Eu olhei para quem falou e vi uma menina muito animada. A loira bonitinha acenou da porta. Daemon devolveu a saudação, não muito feliz, e vi como ela praticamente saltou para cima de nossa mesa. Quando ela estava diante de Daemon, beijou rapidamente ele no rosto antes de abraçá-lo possessivamente. A desagradável sensação de queimação no meu estômago se propagou. Será que ele tem uma namorada? Olhei para Dee. Sua irmã não parecia feliz. A menina finalmente prestou atenção à nossa mesa. — Olá, Dee, como tem passado? Dee sorriu de volta em um tom muito contido. — Ótima, Ash, e você? — Excelente. — Ela cutucou Daemon como se estivesse falando de uma piada entre eles. Eu não conseguia respirar. — Você não tinha ido embora? — Dee perguntou, seus olhos geralmente quentes se tornaram frios. — Os seus irmãos decidiram retornar antes do início das aulas? — Mudaram de opinião. — Levantou o olhar para o Daemon novamente, que estava começando a ficar desconfortável. — Hmm, interessante. — Respondeu Dee, sua expressão assumiu uma máscara felina. — Oh, que grosseira minha. Ash, essa é Katy. — Apontou para mim. — É nova em nosso excitante povoado. Forcei um sorriso para a garota. Não há razão para ter ciúmes ou ficar chateada, mas caramba,


essa menina é muito bonita. O sorriso de Ash desapareceu. Ela deu um passo para trás. — Esta é ela? Meus olhos foram para Dee. — Eu não posso fazer isso, Daemon. Talvez vocês concordem, mas eu não. — Ash balançou seu cabelo loiro com uma mão. — Isso é um erro. Daemon suspirou. — Ash... Seus lábios se franziram. — Não. — Ash, você nem sequer a conhece. — Dee ficou de pé. — Não seja ridícula. As pessoas que jantavam literalmente pararam. Todos olhavam para nós. Senti um calor, uma mistura de vergonha e raiva, passando pelo meu rosto enquanto olhava para Ash. — Desculpe, eu fiz alguma coisa pra você? Os extraordinariamente olhos azuis brilharam fixos em mim. — Sim, o que você acha de respirar para começar? — Desculpa? — Eu disse. — Você me ouviu. — Ash respondeu. Então ela se virou para Daemon. — É por isso que tudo o que conseguimos irá para o inferno? É por isso que meus irmãos tinham de se mover por todo o país...? — Chega. — Daemon agarrou o braço de Ash. — Há um McDonald na rua de baixo. Vamos pegar o seu McLanche Feliz. Talvez faça você se acalmar. — O que é isso tudo? — Exigi. O impulso de me levantar e arrastá-la pelo cabelo era difícil de ignorar. O olhar quente de Ash era como dois feixes de laser. — Que tudo vá à merda. — Bem, isso foi divertido. — Daemon levantou uma sobrancelha para sua irmã. — Te vejo em casa. Eu assisti eles irem embora, fervendo de raiva. No entanto, me senti magoada. Dee caiu em sua cadeira. — Oh, meu Deus, eu sinto muito. É uma completa cadela. Eu vi como minhas mãos tremiam. — Por que ela disse aquelas coisas sobre mim? — Não sei. Ela parecia estar com ciúmes. — Dee brincava com o seu garfo, mas evitou meus olhos. — Ash tem algo com Daemon, sempre teve. Eles costumavam sair antes. Meu cérebro estava preso nas palavras "Eles costumavam sair" por um segundo. — De qualquer forma, ela soube que ele te salvou na outra noite. Claro que ela ia te odiar. — Sério? — Não acreditava. — Tudo isso porque Daemon me salvou de ser morta? — Frustrada, eu bati minha raiva em cima da mesa e fiz uma careta. — Mas Daemon me trata como uma terrorista. É ridículo. — Ele não odeia você. — respondeu calmamente. — Eu acho que ele quer, para ser honesta. Mas não pode. Por isso age assim.


Isso não fazia sentido para mim. — Por que ele quer me odiar? — Não quero odiá-lo, mas isso não torna mais fácil para mim. Dee olhou para cima, seus olhos cheios de lágrimas. — Kat, sinto muito. Minha família é estranha. Assim é esta cidade. Assim é Ash. Sua família é... É amiga da nossa. E todos nós temos muito em comum. Olhei para ela esperando que explicasse o que em comum ela poderia ter com essa cadela da Ash. — Eles são trigêmeos, sabe? — Dee encostou as costas, olhando com indiferença seu prato. — Ela tem dois irmãos, Adam e Andrew. — Espere. — eu olhei boquiaberta. — Você está dizendo que há trigêmeos aqui e vocês são gêmeos? Ela franziu a testa enquanto assentia. — Em uma cidade com quinhentas pessoas? — Eu sei que é estranho. — Disse ela, olhando para mim. — Mas temos coisas em comum e somos todos muito próximos. E cidades pequenas não gostam de estranhos. E eu estou namorando seu irmão Adam. Eu abri minha boca. — Você tem namorado? — Quando ela acenou com a cabeça, eu balancei minha cabeça. — Você nunca mencionou antes. Ela deu de ombros, olhando para longe. — Não é algo que eu goste de contar. Não nos vemos muito Fechei minha boca de repente. Que garota não fala sobre o namorado dela? Se eu tivesse um, falaria sobre isso, pelo menos mencioná-lo uma vez. Talvez duas. Olhei para Dee com novos olhos, me perguntando quanto mais ela não estava me dizendo. Jogando-me para trás, o meu olhar se desviou de Dee, e foi como se um interruptor se acendesse. Eu comecei a perceber coisas, pequenas coisas. Por exemplo, como a garçonete ruiva com um lápis preso em seu penteado não deixava de me olhar e tocava uma brilhante pedra negra de seu colar. Depois, havia o velho sentado no bar, a comida intocada, e como ele murmurava baixinho e nos olhava. Ele parecia um pouco louco. Meus olhos percorreram a sala. Uma mulher em trajes de negócios chamou minha atenção. Ela disse alguma coisa e voltou sua atenção para o seu companheiro. Ele olhou por cima do ombro, e seu rosto empalideceu. Rapidamente, eu me virei para Dee. Que parecia alheia a tudo isso, ou talvez ela estivesse tentando fortemente ignorá-los. A tensão cortava o ar. Era como se uma linha invisível se desenhasse e deveríamos saltar sobre ela. Eu podia sentir todos eles, dezenas de olhos olhando para mim. Todos os olhos cheios de suspeita e uma emoção muito pior. Medo.

A última coisa que eu queria usar no meu primeiro dia em uma nova escola era um gesso, mas


dado que a minha mãe insistiu que esperasse até amanhã para tirar, eu o estou usando no meu primeiro dia e fiquei presa entre sussurros, “Olhe, uma garota nova!” quando entrei nos corredores escolares. E adicione isso também, “Olhe, a garota nova que foi assaltada!” Todos olharam para mim como se eu fosse uma alienígena com duas cabeças andando pela escola. Eu não tinha certeza se deveria me sentir como uma celebridade ou um paciente que escapou de um asilo. Ninguém falou comigo. Felizmente, a escola era pequena e foi fácil encontrar as salas. Eu estava acostumada a escolas com pelo menos quatro andares, com várias salas, e campos abertos. A escola tinha somente um andar. Eu encontrei a minha sala de aula facilmente e sentei-me ignorando os olhares curiosos e um par de sorrisos gentis. Não vi meus vizinhos até o segundo período, vi Daemon andando nos corredores antes que tocassem o sino, com um sorriso nos lábios. As conversas tinham praticamente parado. Várias garotas ao meu redor deixaram inclusive de rabiscar em seus cadernos. Daemon era uma espécie de estrela do rock, entrava com uma arrogância mortal. Tinha a atenção de todo mundo, especialmente quando trocou seu livro de trigonometria de uma mão para outra, e passou seus dedos entre seu alvoroçado cabelo, deixando-o cair de volta na sua testa. Seus jeans se penduravam em seus quadris, quando ele levantou o braço, uma linha de pele dourada tornou a matemática muito mais interessante. Uma menina de cabelo avermelhado suspirou para mim e disse baixinho: — Deus, o que eu não daria por um pedaço disso. Um sanduíche de Daemon deveria estar no menu. Outra menina riu. — Isso seria incrível. — Junto com os gêmeos Thompson como prato principal. — A ruiva respondeu, corando quando ele se aproximou. — Lesa, você é uma idiota. — Disse rindo a morena. Apressei-me a ignorá-lo observando meu caderno, mas eu sabia que ele estava sentado atrás de mim. Minha costa inteira formigava. Um segundo depois, senti uma coceira nas minhas costas. Mordendo meu lábio, eu olhei por cima do meu ombro. Seu sorriso era torto. — Como está o seu braço, Kittykat? A excitação e medo lutaram dentro de mim. Será que ele escreveu nas minhas costas? Não me surpreenderia se o fizesse. Senti meu rosto corar, uma reação devido ao brilho dos seus olhos. — Bem. — Eu disse, jogando o meu cabelo para trás. — Tirarei o gesso amanhã, eu acho. Daemon colocou sua caneta sobre a borda da mesa. — Isso ajuda. — Ajuda com o quê? Ele brincava com a caneta, aparentemente ignorando a minha confusão. — Com isso que você tem aí. Meus olhos se estreitaram. Eu não sabia ao que ele estava se referindo. Não havia nada de errado com meus jeans ou minha blusa. Parecia igual a que todo mundo usava na sala de aula, exceto os rapazes que tinham suas camisas por dentro das calças. Eu não tinha visto um chapéu de cowboy ou


sotaques estranhos. Esses rapazes pareciam os rapazes da Flórida, só que com menor potencial de câncer de pele. Lesa e sua amiga pararam de falar, olhando de Daemon para mim com a boca aberta. Pedi a Deus para que Daemon não falasse nada estúpido, porque eu iria bater nele. Meu gesso era pesado o suficiente para machucar. Inclinando-se para frente, seu hálito quente dançou ao longo do meu rosto quando ele falou: — Menos pessoas olhariam, se você não tivesse o gesso, é tudo que eu estou dizendo. Eu não acreditei por um segundo que isso é tudo o que ele estava falando. Além disso, com ele estando tão perto do meu rosto, todo mundo estava nos observando. E nós não estávamos desviando o olhar um do outro. Fomos pegos em uma luta épica de olhares que eu me recusava a perder. Alguma coisa aconteceu entre nós, me lembrando a estranha corrente que tinha sentido com ele. O cara do outro lado de Daemon assobiou. — Ash vai chutar o seu traseiro, Daemon. Daemon sorriu com superioridade. — Não, ela gosta muito da minha bunda para machucá-la. O rapaz riu. Com os olhos fixos nos meus, ele se aproximou. — Adivinha o quê? — O quê? — Eu verifiquei o seu blog. OH. Querido. Jesus. Como o encontrou? Espera. Mais importante que o fato de que o tinha encontrado. Ele procurou meu blog no Google? Era como jogar mais sal na ferida. — Me assediando novamente, eu vejo. Eu preciso conseguir uma ordem de restrição? — Em seus sonhos, Gatinha. — Ele sorriu. — Oh, espera, já sou o protagonista deles, certo? Revirei os olhos. — Pesadelos, Daemon. Pesadelos. Ele sorriu, seus olhos brilhando, e quase sorri de volta, mas, felizmente, o professor começou a chamar nossa atenção, forçando terminar a nossa conversa, bem, o que seja que estivesse acontecendo entre nós. Virei-me para o meu lugar, deixando escapar uma respiração lenta. Daemon riu suavemente. Quando a campainha tocou, sinalizando o final da aula, eu saí o mais rápido que pude. Eu não olhei para trás para ver o que Daemon estava fazendo. Matemática seria muito mais difícil do que o normal, se ele iria se sentar atrás de mim em todas as aulas, todos os dias. No corredor, Lesa e sua amiga me alcançaram. — Você é nova aqui. — Disse a morena. Que observadora. Lesa revirou os olhos escuros. — Isso é óbvio, Carissa. Carissa ignorou sua amiga, empurrando os óculos sobre o nariz, enquanto abria caminho pelo corredor lotado. — Como conhece o Daemon Black tão bem? Dado que essas meninas só falaram comigo porque eu estava conversando com Daemon, eu não estava emocionada. — Mudei-me para a casa ao lado, em meados de junho.


— Oh, eu estou com ciúmes. — Lesa franziu os lábios. — Metade da população da escola gostaria de trocar de lugar com você. Eu trocaria de lugar com eles. — Eu me chamo Carissa e ela é Lesa, se por acaso não sabia ainda. Moramos aqui toda nossa vida. — Carissa esperou. — Meu nome é Katy Swartz, Flórida. — Curiosamente, elas não tinham o forte sotaque que eu esperava. — Você veio para Virginia do Oeste, da Florida? — Os olhos de Lesa se arregalaram. — Você está louca? Eu sorri. — Minha mãe está. — O que aconteceu com seu braço? — perguntou Carissa enquanto me seguiam pelas escadas. Havia tantas pessoas nas escadas que eu não poderia falar sobre o que aconteceu, mas aparentemente Lesa sabia. — Ela que foi agredida na cidade, lembra? — Ela deu uma batidinha em Carissa com um quadril. — Na mesma noite que Sarah Butler morreu. — Oh, sim. — disse Carissa, franzindo a testa. — Farão amanhã uma homenagem durante o evento de boas-vindas. É tão triste. Não muito segura do que responder, assenti. Lesa sorriu quando chegamos ao segundo andar. Eu tinha Inglês agora e minha sala ficava no final do corredor e eu tinha certeza que iria dividir a classe com Dee. — Bem, foi um prazer conhecê-la. Não vemos muitas pessoas novas aqui. — Não. — Carissa concordou. — Não há novas caras desde que os trigêmeos chegaram aqui no primeiro ano. — Você quer dizer Ash e seus irmãos? — Eu perguntei, confusa. — E os Black. — respondeu Lesa. — Os seis chegaram aqui com alguns dias de intervalo. A escola inteira foi à loucura. — Espere. — Eu parei no meio do corredor ganhando alguns olhares desagradáveis de algumas pessoas que se chocaram comigo. — O que quer dizer com os seis? E todos chegaram aqui ao mesmo tempo? — Bem, foi isso — disse Carissa, levantando seus óculos. — E Lesa não está brincando. Foi uma loucura nos meses seguintes. Dá para acreditar? Lesa parou na porta de uma sala de aula, com a testa enrugada. — Oh! Você não sabia que eram três Blacks? Sentindo-me ainda mais confusa, eu balancei minha cabeça. — Não. São apenas Daemon e Dee, certo? O sino soou, e Lesa e Carissa olharam para a sala que começou a encher. Foi Lesa quem me explicou: — Eram trigêmeos, também. Dee e seus dois irmãos, Daemon e Dawson. Eram completamente idênticos, como os meninos Thompson. Não poderia distingui-los nem que sua vida dependesse disso. Eu olhei para elas, parecia que meus pés tinham plantado raízes no solo. Carissa sorriu tristemente.


— É muito triste. Um deles, Dawson, desapareceu um ano atrás. Quase todo mundo acredita que ele está morto.


12 Eu estava atrasada para a aula, então não tive tempo de perguntar a Dee sobre seu outro irmão na aula de Inglês Avançado. E eu ainda estava muito ferida para tocar nesse assunto com ela. Eu não podia acreditar que ela tinha outro irmão e não tinha mencionado uma vez sequer. Nem tinha mencionado os seus pais, seu namorado, ou o que estavam fazendo quando eles se foram por um ou dois dias. Ele tinha desaparecido? Estava Morto? Meu coração se afundou por eles, embora, obviamente, não tinham me contado tudo. Eu sabia o que era perder alguém. E ainda por cima, havia algo muito estranho no fato de que duas famílias diferentes, com trigêmeos, haviam se mudado para a mesma cidade em questão de dias, mas Dee havia dito que a família Thompson eram amigos. Talvez tenha sido planejado. Depois da aula, Dee foi detida por Ash e um rapaz de cabelos dourados com cara de modelo. Não era necessário nem um pouco de esforço e imaginação para me dar conta de que era um de seus irmãos. E quando eles saíram, antes de irmos correndo para a nossa próxima aula, tudo o que Dee pôde dizer foi que nos encontraríamos na hora do almoço. Minha próxima aula era Biologia, e Lesa estava lá. Ela sentou-se à mesa na minha frente, sorrindo. — Como vão as coisas em seu primeiro dia? — Bem. Normal. — Exceto o que eu ouvi. — E a sua? — Aborrecido e solitário. — Respondeu. — Eu mal posso esperar para que este ano letivo termine. Estou pronta para sair daqui e ser uma pessoa normal. — Como assim uma pessoa normal? — Eu sorri. Lesa se inclinou para trás, apoiando os braços sobre a mesa. — Esta cidade é o epicentro da raridade. Algumas pessoas aqui, bem... Simplesmente não funcionam corretamente. Veio à minha mente um camponês de três dedos, mas de alguma forma eu duvidava de que era isso que ela estava se referindo. — Dee disse que algumas pessoas aqui não são simpáticas. Ela riu. — Ela disse. Eu fiz uma careta. — O que é que isso quer dizer? Seus olhos se arregalaram e ela sacudiu a cabeça. — Eu não quero dizer que são de uma forma ruim, mas alguns dos rapazes daqui e as famílias das pessoas não são amigáveis com os outros como ela. — Os outros como ela… — Disse lentamente. — Eu não tenho certeza se eu sei o que isso significa. — Nem eu. — Ela deu de ombros. — Como eu disse, as pessoas são estranhas por aqui. A cidade é estranha. As pessoas estão sempre dizendo que vêm homens em ternos pretos correndo, e não são atores. Eu acho que eles são do governo. Na verdade, eu mesma os vi. Há também outras coisas que


as pessoas afirmam ter visto. Lembrei-me do cara no supermercado. — O quê? Sorrindo, Lesa olhou para frente da sala. O professor ainda não tinha chegado. Ela se aconchegou mais perto e abaixou a voz para um sussurro. — Ok, isso vai soar louco, e vou esclarecer uma coisa. Eu não acredito em nada dessa merda, ok? Parecia suculento. — De acordo. Seus olhos se estreitaram. — As pessoas por aqui afirmam terem visto algumas luzes lá em cima, nas montanhas perto do Seneca. Como uma luz... em forma de pessoas. Alguns acreditam que eles são fantasmas, ou alienígenas. — Extraterrestres? — Eu comecei a rir, atraindo alguns olhares. — Desculpe, mas você está falando sério? — Muito sério. — Repetiu, sorrindo. — Eu não penso assim, mas na verdade, tivemos por aqui pessoas procurando provas. Sem brincadeira. Somos como em Point Pleasant5 por aqui. — Oh, você vai ter que me contar isso. — Você nunca ouviu falar do Homem Traça? — Ela riu ao ver minha cara. — É outra coisa estranha sobre uma criatura gigante que voa e avisa as pessoas antes que algo ruim aconteça. Lá em Point Pleasant, algumas pessoas relataram terem visto antes da ponte ter desabado e matado um monte de gente. E dias antes disso relataram terem visto homens de terno andando por ali. Abri a boca para responder, mas o nosso professor entrou. No começo eu não o reconheci. Seu cabelo castanho claro estava amarrado para trás, e a camisa polo se apegava a seu corpo, nada da camisa gasta e os jeans desbotados em que o tinha visto na última vez. Matthew era o Sr. Garrison, meu professor de biologia. O mesmo cara que tinha estado na casa de Daemon quando retornamos do lago. Ele recolheu os papéis sobre a mesa e olhou para cima, olhando a classe. Seus olhos caíram sobre mim, e eu senti o sangue abandonar o meu rosto. — Você está bem? — Lesa sussurrou. O Sr. Garrison segurou meu olhar por um segundo e depois abandonou. Eu deixei o ar que estava segurando sair. — Sim, — eu sussurrei, engolindo seco. — Eu estou bem. Sentei-me em minha cadeira, olhando para frente distraidamente enquanto o Sr. Garrison começava sua aula falando sobre a matéria que cursaríamos e os laboratórios que iríamos participar. A autópsia de animais obrigatória já tinha data, para minha má sorte. A ideia de cortar animais, vivos ou mortos, dava-me calafrio. Mas não era tão ruim como o calafrio que o Sr. Garrison me provocava. Durante a aula eu podia sentir seu olhar fixo em mim, e era como se viesse diretamente de dentro de mim. Que diabos estava acontecendo aqui?


O refeitório da escola ficava perto do ginásio, uma sala comprida e retangular que cheirava a comida e desinfetante. Mesas brancas ocupavam o lugar, e a maioria dos lugares já estavam ocupados no momento em que eu entrei. Reconheci a Carissa na fila. Primeiro, ela virou-se, me viu e sorriu. — Há espaguete no menu, ou ao menos o que eles consideram espaguete. Fazendo uma careta, eu coloquei um pouco na minha bandeja. — Não parece tão ruim. — Não depois que você já tenha visto o bolo de carne. — Ela disse acrescentando macarrão no prato, junto com um pouco de salada. Em seguida, escolheu sua bebida. — Eu sei disso. Leite com chocolate e macarrão não andam juntos. — Não, não andam. — Sorri, pegando uma garrafa de água. — Eles permitem que comamos fora do campus? — Não, mas não nos param quando o fazemos. — Carissa entregou alguns dólares para pagar o almoço, em seguida, virou-se para mim. — Você tem alguém com quem se sentar? Tirando meu dinheiro, assenti. — Sim, estou com Dee. E você? — O quê? — Ela disse. Eu olhei para cima. Carissa estava me olhando com a boca aberta. — Vou sentar com Dee. Tenho certeza que você também pode. — Não, eu não posso. — Carissa pegou meu braço e me puxou para fora da fila. Eu arqueei uma sobrancelha. — Sério? Por quê? São leprosos sociais ou algo assim? Ela ajeitou os óculos no nariz e revirou os olhos. — Não. Eles são muito legais e tudo, mas a última garota que almoçou com eles, simplesmente... Desapareceu. Um nó se formou no meu estômago, e eu deixei escapar uma risada nervosa. — Você está brincando, certo? — Não. — Disse solenemente. — Ela desapareceu na mesma época que o irmão deles. Eu não podia acreditar. O que mais eu iria ficar sabendo? Extraterrestres? Homens de preto? Homem traça? Será que a fada dos dentes seria real também? Carissa olhou para uma mesa cheia de amigos. Alguns lugares estavam livres. — O nome dela era Bethany Williams. Foi transferida para esta escola no meio do seu segundo ano, pouco depois que eu cheguei aqui. — Ela inclinou a cabeça para a parte de trás do refeitório. — Envolveu-se em uma relação com Dawson, e ambos desapareceram no início do terceiro ano. Por que esse nome me soava familiar? Será que isso importava? Havia muitas coisas que ela não sabia sobre Dee. — Em todo o caso, você quer se juntar a nós? — Perguntou Carissa. Eu balancei minha cabeça, me sentindo mal por rejeitar sua oferta. — Eu prometi a Dee que me sentaria com ela. Carissa sorriu fracamente. — Bem, então, talvez amanhã?


— Sim. — Eu sorri. — Amanhã com certeza. Ajeitando minha bolsa, peguei o meu prato de comida e fui para a parte de trás da cafeteria. Imediatamente eu vi Dee. Ela estava conversando com um dos irmãos Thompson, enquanto enrolava seu cabelo escuro em torno de seu dedo. De frente para o rapaz de cabelos dourados estava outro, meio em cima da mesa, de costas para mim. Perguntava-me qual era o ‘mais ou menos’ noivo de Dee. A mesa tinha apenas duas vagas. Então eu vi o cabelo loiro ultra brilhante de Ash em frente ao cara na mesa. Estranhamente, ela estava mais alta do que todos os outros. Um momento depois, eu percebi o porquê. Ela estava sentada no colo de Daemon. Seus braços em volta dela e eu vi o seu peito pressionando contra ele, rindo do que ele disse. Ele não tinha tentado me beijar na varanda? Eu tinha certeza que eu não tinha imaginado isso. Daemon era um idiota dos grandes. — Katy! — Dee disse. Todos na mesa me olharam. Até mesmo um dos gêmeos se virou em sua cadeira. Seus olhos azulceleste se abriram para mim. O outro gêmeo se inclinou para trás, cruzando os braços. Sua carranca era uma obra de arte. — Sente-se. — disse Dee, apontando o lado da mesa em frente a ela. — Nós estávamos falando sobre... — Espere. — disse Ash. Seus lábios vermelhos se contorceram em uma careta. — Você a convidou para sentar com a gente? Você está falando sério? Os nós retornaram a toda velocidade, me deixando sem fala. — Cale a boca, Ash. — Murmurou o gêmeo que tinha se virado. — Você está prestes a fazer uma cena. — Eu não estou fazendo nada. — Seu braço se apertou ao redor de Daemon. — Não há necessidade dela se sentar com a gente. Dee suspirou. — Ash, deixa de ser uma cadela. Ela não está tentando roubar Daemon. Minhas bochechas estavam vermelhas enquanto eu estava lá em pé, desconfortável. A ira de Ash viajou em ondas ao redor da mesa se chocando contra mim. — Não é com isso que eu me preocupo. — Ash resmungou, olhou para mim e franziu os lábios. — De verdade. Quanto mais tempo eu ficava lá, mais eu me sentia estúpida. Meus olhos saltaram de Dee para Daemon, mas seu olhar estava fixo no ombro de Ash. — Sente-se. — Disse Dee, me indicando que me aproximasse. — Isso vai passar. Eu comecei a colocar meu prato sobre a mesa. Daemon murmurou algo e Ash lhe deu um soco no braço. Bastante forte, de fato. Ele enterrou o rosto em seu cabelo, e aquele escuro e indesejado sentimento abriu seu caminho dentro de mim. Tirei o olhar deles, e me concentrei em Dee. — Não sei se eu deveria. — Você não deveria. — Falou Ash. — Cale a boca. — Dee disse, em seguida, virou-se para mim com uma voz suave. — Desculpe-me por conhecer essa cadela tão insuportável. Eu quase sorri, mas havia um calor em meu corpo que subia até minha garganta, descendo por


minhas costas. — Você tem certeza? — Eu me ouvi dizer. Daemon olhou para o pescoço de Ash e me deu um olhar confuso. — Eu acho que é óbvio, seja você bem-vinda aqui ou não. — Daemon! — Dee sussurrou, o rosto corando. Ela se virou para mim com lágrimas nos olhos. — Ele não está falando sério. — Você está falando sério, Daemon? — Ash virou-se em suas pernas, a cabeça inclinada para um lado. Meu coração pulou no meu peito e no momento em que seus olhos encontraram os meus. Seu olhar era escuro. — Na verdade, sim, eu estava falando sério. — Ele se inclinou sobre a mesa, olhando para mim através de seus espessos cílios. — Você não é bem vinda aqui. Dee falou de novo, mas eu não conseguia ouvir mais nada. Senti meu rosto como se estivesse em chamas. As pessoas ao nosso redor estavam começando a olharem, um dos rapazes Thompson sorria, enquanto o outro parecia como se quisesse arrastar-se debaixo da mesa por mim. O resto dos rapazes na mesa olhavam para seus pratos. Um deles riu. Nunca na minha vida tinha me sentido tão humilhada. Daemon virou-se e concentrou-se no ombro de Ash novamente. — Você pode ir. — Falou Ash, agitando os dedos esqueléticos e longos para mim. Todos aqueles rostos me olhando com olhares de piedade e tristeza misturados entre outros, tudo aquilo me levaram de volta a três anos atrás. Ao primeiro dia de volta à escola depois da morte de meu pai. Eu me quebrei na aula de Inglês quando eu descobri que íamos ler Um Conto de Duas Cidades, o livro favorito de papai. Todos olharam para mim. Alguns olhares eram ruins. Outros envergonhados. Fez-me lembrar daqueles olhares que os policiais e os enfermeiros me deram no hospital na noite em que me atacaram me lembrando de como eu era impotente. Eu odiei aqueles olhares naquele momento. E odiava agora. Não há desculpa para o que fiz a seguir, exceto que era o que eu queria, o que eu precisava fazer... Minhas mãos se apertaram em torno da bandeja de plástico, inclinei-me sobre a mesa e derramei meu prato sobre as cabeças de Daemon e Ash. Pedaços de macarrão e molho de macarrão caíram. A maior parte do molho vermelho caiu em Ash, enquanto macarrão adornava os ombros largos de Daemon. Um longo e pastoso macarrão caiu sobre sua orelha, ficando pendurado e se balançando lá. Houve um suspiro alto das mesas próximas. A mão de Dee voou para sua boca, seus enormes olhos cheios de uma risada mal contida. Ash saltou das pernas de Daemon, e levou suas mãos para cima, com as palmas abertas. Qualquer um pensaria que tinha jogado sangue em cima dela pela expressão de horror em seu rosto. — Você... Você... — Cuspiu, enxugando as costas de sua mão em uma de suas bochechas cheias de molho. Daemon pegou alguns macarrões de sua orelha e os inspecionou antes de atirá-los ao chão. Então fez a coisa mais estranha que ele poderia ter feito.


Ele riu. Uma verdadeira risada. Um riso profundo vindo de seu estômago, que atingiu até os olhos e os relaxou, fazendo com que brilhassem como os de sua irmã. Ash abaixou as mãos, fechando-as em punhos. — Eu vou matar você. Daemon saltou, passando o braço em volta da cintura fina da garota. Qualquer traço de diversão no rosto desapareceu completamente. — Acalme-se. — Ordenou em voz baixa. — Estou falando sério. Acalme-se. Ash foi pressionada contra Daemon, mas não muito forte. — Juro por todas as estrelas e sóis que eu vou te matar. — O que significa isso? Você está vendo muitos desenhos animados de novo? — Eu já estava tão cansada dessa vadia. Eu inspecionei o peso do meu braço e eu considerava seriamente bater em alguém pela primeira vez na minha vida. Por um segundo, eu poderia jurar que seus olhos mudaram para um brilho âmbar ao redor da íris. E então, do nada o Sr. Garrison, estava de pé ao lado da mesa. — Acho que isso é o suficiente. Como se estivesse na tomada, Ash se sentou em sua cadeira. A sua raiva se dissipou, enquanto olhava para mim e pegou um punhado de guardanapos da mesa. Daemon lentamente pegou um pouco de macarrão de seus ombros e jogou no prato, sem dizer uma palavra. Fiquei esperando que fosse explodir em mim, mas como sua irmã, parecia estar tentando não rir de novo. — Acho que você deveria procurar outro lugar para comer. — Disse o Sr. Garrison em uma voz tão baixa que apenas as pessoas na nossa mesa podiam ouvir. — Vá agora. Surpresa, eu peguei minha bolsa e esperei que me mandasse ao escritório do diretor ou a sala de professores para falar com ele, mas isso nunca veio. O Sr. Garrison estava olhando para mim. Esperando. E então eu entendi. Ele me esperava sair. Assim como os outros. Balançando a cabeça em silêncio, eu me virei e saí do refeitório. Todos os olhos me seguiram, mas eu mantive a calma. Eu não me quebrei quando ouvi Dee me chamar. E não me quebrei quando passei ao lado de umas muitas surpreendidas Lesa e Carissa. Eu não ia me quebrar. Não mais. Eu estava cansada dessa merda e... Bem, o que quer que eu tivesse com Daemon estava acabado. Eu não tinha feito nada de errado para ele me tratar dessa forma. A ingênua Katy havia acabado.


13 Eu tinha feito um nome para mim até o final do dia. Me tornei a 'Garota que largou comida sobre eles." Eu esperava uma reação em cada corredor e classe, especialmente quando vi um dos garotos Thompson na minha aula de história ou uma recém vestida Ash de mau humor pelo seu armário. Nunca veio. Dee se desculpou um monte antes da aula de educação física começar, e em seguida me abraçou pelo que fiz. Ela tentou falar comigo enquanto estávamos alinhadas para voleibol, mas eu estava... Dormente. Não havia como negar o fato de que Ash me odiava. Por quê? Não podia ser por causa de Daemon. Era mais do que isso. Eu não sabia o que. Depois da escola dirigi para casa, tentando descobrir tudo o que tinha acontecido desde que me mudei para cá. O primeiro dia eu senti algo na varanda e na casa. O dia no lago, em que Daemon havia brotado guelras. O flash de luz com o urso e na biblioteca tinha que ser o mesmo. E todo esse lixo que Lesa tinha dito. Uma vez que cheguei em casa, no entanto, e vi vários pacotes na minha varanda, toda a merda do dia desapareceu. Alguns tinham carinhas sorridentes neles. Chiando, peguei as caixas. Livros estavam dentro, novos lançamentos de livros que eu tinha encomendado a semanas. Corri para cima e liguei meu laptop. Eu chequei sobre a crítica que eu tinha postado ontem à noite. Sem comentários. Pessoas são uma droga. Mas eu ganhei cinco novos seguidores. Pessoas abalam. Eu fechei a página antes de começar a reformular tudo. Então eu pesquisei "Pessoas da luz" e depois de resultados iniciais me deu um monte de grupos de estudos Bíblicos, eu digitei "Homem Traça". Oh. Querido. Senhor. Os moradores de Virgínia do Oeste eram loucos. Na Flórida, de vez em quando alguém dizia ver o pé grande no Glades ou o chupacabra, mas não um gigante voador seja o que for. Parecia uma enorme borboleta satânica. Por que diabos eu estava olhando para isso? Isto era insano. Eu parei antes de começar a procurar alienígenas em Virginia do Oeste. Logo que desci, houve uma batida na minha porta. Era Dee. — Hey. — Ela disse. — Podemos conversar? — Certo? — Eu fechei a porta atrás de mim e saí. — Minha mãe ainda está dormindo. Ela acenou com a cabeça quando me sentei no balanço. — Katy, eu estou tão, tão triste por causa de hoje. Ash é uma completa vadia às vezes. — Não é sua culpa que ela agiu assim. — Eu disse, significava isso. — Mas o que eu não entendo é por que ela e Daemon agem assim. — Eu parei, sentindo uma estupida queima na minha garganta. — Eu não deveria ter jogado a minha comida sobre eles, mas eu nunca estive mais envergonhada na minha vida. Dee sentou ao meu lado, cruzando os tornozelos. — Eu acho que na verdade foi engraçado, o que você fez e não o que eles fizeram. Se eu soubesse que eles iriam ser tão terríveis sobre tudo, eu teria feito certeza que eles não seriam. — Já tinha acontecido e nada mais poderia ser feito sobre isso, eu pensei.


Ela tomou uma respiração profunda. — Ash não é a namorada de Daemon. Ela quer ser, mas ela não é. — Essa não é a forma que se parece para mim. — Bem, eles saem... Juntos. — Ele está usando ela? — Desgostosa, eu balancei minha cabeça. — Que idiota. — Penso que é recíproco de ambos os lados. Honestamente, eles quase namoraram no ano passado por um tempo, mas depois esfriou. Hoje foi o máximo que eu tinha o visto prestar atenção a ela nos últimos meses. — Ela me odeia. — Eu disse depois de alguns minutos, suspirando. — Eu não me importo com isso agora. Eu queria te perguntar uma coisa. — Ok. Mordi o lábio. — Nós somos amigas, certo? — É claro! — Ela olhou para mim com os olhos arregalados. — Honestamente, Daemon assusta todo mundo e você durou mais tempo, e, bem, eu acho que você é como minha melhor amiga. Fiquei aliviada ao ouvir isso. Não sobre a parte que eu durei mais tempo, porque isso soou estranho. Como se eles quebrassem os seus amigos ou algo assim. — O mesmo aqui. Ela sorriu abertamente. — Bom, porque eu me sentiria estúpida por falar se você decidisse que não queria ser mais minha amiga. A sinceridade em sua voz atingiu um acorde em mim. De repente, eu não tinha certeza se queria questionar ela. Talvez fosse algo que ela não queria falar porque era muito doloroso. No curto tempo que nos conhecíamos, eu já não queria magoá-la. — Por que você não pergunta? — Ela estimulou. Coloquei meu cabelo para trás, olhando para o chão. — Por que você nunca me contou sobre Dawson? Dee congelou. Eu acho que ela nem respirava, para ser honesta. Depois ela passou a mão para cima e para baixo no braço, engoliu. — Eu acho que alguém lhe disse sobre ele na escola? — Sim, eles me disseram que ele desapareceu com uma garota. Pressionando os lábios juntos, ela assentiu. — Eu sei que você provavelmente acha que é estranho que eu nunca tenha mencionado ele, mas eu não gosto de falar sobre ele. Eu tento não pensar sobre ele. — Ela olhou para mim, os olhos brilhando com lágrimas. — Isso faz de mim uma pessoa má? — Não. — Eu disse ferozmente. — Eu tento não pensar sobre o meu pai, porque dói demais às vezes. — Nós éramos muito unidos, eu e Dawson. — Ela passou a mão em seu rosto. — Daemon era sempre o tranquilo, fazia as coisas por conta própria, mas Dawson e eu éramos muito próximos. Fazíamos tudo juntos. Ele era mais que um irmão. Ele era meu melhor amigo. Eu não sabia o que dizer. Mas certamente explicava a quase desesperada condição de amizade de Dee, e esse comum sentimento que nós reconhecíamos uma na outra. Solidão. — Sinto muito. Eu não devia ter falado nisso. Eu não entendia e... — E eu era uma vadia


intrometida. — Não. Está tudo bem. — Ela girou em direção a mim. — Eu ficaria curiosa, também. Eu totalmente entendo. E eu deveria ter te contado. Eu sou uma porcaria de amiga, já que você descobriu sobre o meu outro irmão a partir de colegas da escola. — Eu estava confusa. Tem havido muito... — Eu parei, balançando minha cabeça. — Nada. Quando você estiver pronta para falar sobre ele, eu estou aqui. Ok? Dee balançou a cabeça. — Tem havido muito o quê? Falar com ela sobre toda a merda estranha não seria bom. E eu tinha prometido a Daemon não falar sobre o ataque. Eu forcei um sorriso. — Não é nada. Então você acha que eu tenho que ter cuidado com a minha volta agora? Ir para o Programa de Proteção à Testemunha? — Ela soltou uma risada trêmula. — Bem, eu não iria tentar falar com Ash em breve. Deduzi bastante. — E sobre Daemon? — Boa pergunta. — Disse ela, olhando para longe. — Eu não tenho ideia do que ele vai fazer.

No dia seguinte, eu estava temendo o segundo período. Meu estômago se contorceu, e eu tinha sido incapaz de tomar o café da manhã sem querer vomitar. Não havia nenhuma dúvida em minha mente que Daemon acreditava que vingança é um prato que se serve na minha cara. Assim que Lesa e Carissa chegaram à aula, elas exigiram saber o que me possuiu para despejar meu prato de espaguete na cabeça de Daemon e de Ash. Eu dei de ombros. — Ash estava sendo uma vadia. — Tinha certeza de que parecia muito mais confiante do que eu me sentia. Na verdade eu queria voltar atrás no que eu tinha feito. Claro, Ash estava sendo rude e me envergonhando, mas eu não tinha feito o mesmo com ela? Se eu fui a garota que jogou espaguete sobre eles, então ela foi o deposito o que é muito mais embaraçoso. Fiquei envergonhada. Eu nunca tinha feito nada para fazer alguém se sentir mal antes. Era como se a personalidade desagradável de Daemon estivesse passando para mim, e eu não gostava nada disso. Eu decidi que seria melhor para todos se eu ficasse bem longe dele a partir de agora. Com os olhos arregalados, Lesa inclinou-se sobre o assento. — E Daemon? — Ele sempre é um burro. — Eu disse a elas. Carissa tirou os óculos e deu uma risadinha. — Eu honestamente desejava saber que você iria fazer isso. Eu teria filmado. Pensando sobre isso estar no Youtube, eu me encolhi enquanto eu observava a porta. — O boato em torno da escola é que você e Daemon ficaram durante o verão. — Lesa parecia estar esperando por mim para confirmar o boato. Não nesta vida.


— As pessoas são ridículas. Eu segurei seus olhares até Carissa que tossiu e perguntou: — Você vai se sentar com a gente hoje? — Ela colocou seus óculos de volta com um empurrão na ponta. Surpresa, eu pisquei para ela. — Você ainda quer que eu me sente com você depois de ontem? — Eu estava imaginando que eu estaria comendo meu almoço no banheiro para o resto do ano. Lesa assentiu. — Você está brincando? Nós achamos você incrível. Nós não temos nenhum problema com eles, mas eu tenho certeza que havia alguns alunos que queriam fazer isso. — E foi muito foda. — Carissa acrescentou, sorrindo. — Você foi como um ninja da comida. Eu ri, aliviada. — Eu adoraria, mas eu só estou aqui até o quarto período. Eu vou tirar o gesso hoje. — Oh, você vai perder o Rally pep. — Disse Lesa. — Pobrezinha. Você vai para o jogo de hoje à noite? — Não. O futebol não é coisa minha. — Também não é nossa, mas você ainda deveria ir. — Lesa estourou em sua cadeira, seus cachos saltando ao redor do rosto em forma de coração. — Carissa e eu costumamos ir apenas para sair e fazer alguma coisa. Não há muito que se fazer por aqui. — Bem, há festas após os jogos. — Carissa empurrou a franja de seus óculos. — Lesa sempre me arrasta para elas. Lesa revirou os olhos. — Carissa não bebe. — E daí? — Carissa disse. — E ela não fuma, não tem relações sexuais, ou faz qualquer coisa interessante. — Lesa desviou do caminho da mão balançando de Carissa. — Entediante. — Me desculpe se tenho padrões. — Seus olhos se estreitaram em Lesa. — Ao contrário de alguns. — Eu tenho padrões. — Lesa me encarou, com um leve sorriso no rosto. — Mas por aqui, você meio que tem que reduzi-los. Eu comecei a rir. E então Daemon entrou na classe. Eu afundei em minha cadeira, mordendo meu lábio. — Oh Deus. Sabiamente, as meninas pararam de falar. Peguei minha caneta, fingindo estar entretida nas notas que eu tinha tomado ontem. Acabei que, eu não tinha tomado muitas notas, então eu escrevi a data no meu caderno muito lentamente. Daemon assumiu a cadeira atrás de mim, e meu estômago saltou com vida em minha garganta. Eu ia vomitar. Aqui mesmo, na sala de aula, na frenteEle cutucou minhas costas com a caneta. Eu congelei. Ele e a maldita caneta. Cutucou novamente, desta vez com um pouco mais de força. Eu me virei, os olhos apertados. — O quê? Daemon sorriu.


Todo mundo ao redor de nós estava olhando. Era como uma repetição do almoço. Aposto que eles estavam se perguntando se eu iria despejar minha mochila na cabeça dele. Dependendo do que ele ia dizer, havia uma boa chance de que poderia acontecer. Eu duvidava que eu escaparia disso desta vez, no entanto. Derrubando o queixo para baixo, ele olhou para mim através de seus longos cílios maliciosamente. — Você me deve uma camisa nova. — Meu queixo caiu no fundo da minha cadeira. — Vamos ver... — Continuou ele suavemente. — Molho de espaguete nem sempre vem em roupas. De algum modo eu encontrei a minha habilidade de falar. — Tenho certeza de que você tem muitas camisas. — Eu tenho, mas aquela era a minha favorita. — Você tem uma camisa favorita? — Eu arquei uma sobrancelha. — E eu acho que você arruinou a blusa favorita de Ash também. — Ele começou a sorrir novamente, mostrando uma covinha no fundo de uma bochecha. — Bem, eu tenho certeza que você estava lá para confortá-la durante essa situação tão traumática. — Eu não tenho certeza se ela vai se recuperar. — Ele respondeu. Revirei os olhos, sabendo que eu deveria pedir desculpas pelo o que eu tinha feito, mas eu não poderia encontrar isso em mim. Sim, eu estava me tornando uma pessoa terrível. Eu comecei a me virar. — Você me deve. Mais uma vez. Olhei para ele por um longo momento. O sinal soou, mas parecia longe. Meu peito balançou. — Eu não devo nada a você. — Eu disse baixo o suficiente para apenas nós escutarmos. — Eu tenho que discordar. — Inclinando para mais perto, ele inclinou a borda da mesa para baixo. Havia apenas alguns centímetros entre nossas bocas. Totalmente inadequado a quantidade de espaço, realmente, uma vez que estávamos em aula e ele tinha uma menina em seu colo ontem. — Você não é nada como eu esperava. — O que você esperava? — Eu estava um pouco impressionada com o fato de que tinha surpreendido ele. Estranho. Meus olhos caíram para lábios poéticos. Tal desperdício de boca. — Você e eu temos que conversar. — Não temos nada para falar. Seu olhar caiu, e o ar de repente parecia cheio de vapor. Insuportável. — Sim. — Disse ele, a voz baixa. — Nós vamos. Hoje à noite. Parte de mim queria dizer a ele para esquecer toda essa coisa de conversar, mas eu cerrei os dentes e assenti. Nós precisávamos conversar, pelo menos para ele dizer que nós nunca deveríamos conversar novamente. Eu queria encontrar a bela Katy que ele tinha amordaçado e colocado no canto. O professor pigarreou. Piscando com força, vi que tínhamos toda a classe paralisada. Corando até as raízes do meu cabelo, eu me virei e agarrei as bordas da minha mesa. A aula começou, mas o calor no ar ainda estava lá, minha pele revestida em antecipação. Eu podia sentir Daemon atrás de mim, com os olhos em mim. Eu não ousava me mover. Não até que Lesa se esticou ao meu lado e deixou cair uma nota dobrada na minha mesa. Antes que o professor pegasse, eu abri o bilhete e o coloquei sob o meu livro. Quando ele se virou para o quadro-negro, eu levantei a ponta do meu livro. Quente. Santa química, Batman! Olhei para ela, balançando a cabeça. Mas havia uma vibração no fundo do meu peito, uma falta de


ar que não deveria estar lá. Eu não gostava dele. Ele era um idiota. Ranzinza. Mas houve breves momentos que eu passei com ele – como um nano segundo – que pensei que poderia ter visto o verdadeiro Daemon. Pelo menos um Daemon melhor. E essa parte me deixava curiosa. E o outro lado, o idiota, sim, essa parte não me deixava curiosa. Meio que me excitava.


14 Eu tentei prestar atenção nas minhas aulas, mas minha mente estava em Daemon e no que ele queria falar comigo esta noite. Felizmente, eu tinha apenas que me esforçar pela metade de um dia antes que fosse a hora de ter minha tala removida. Como esperado, o meu braço estava completamente bom. No caminho para casa, parei na estação de correios. Havia uma tonelada de lixo em nossa caixa, mas também alguns envelopes amarelos, o que trouxe um sorriso grande na minha cara. Media Mail6 estava estampada em todos eles. Reunindo meus presentes, eu fui para casa ficar de bobeira. Energia ansiosa se sacudiu pelo meu sistema como se eu tivesse bebido uma dessas bebidas energéticas baratas. Eu me troquei várias vezes, escolhendo por fim um pequeno vestido de verão, depois de passar pelo meu armário e não encontrar nada que eu queria vestir. Trocar de roupa não me livrou da sensação de ansiedade. O que Daemon queria falar? Eu terminei reorganizando todo o design do meu blog tentando passar o tempo. E apenas me deixou mais ansiosa ainda, porque eu tinha certeza que estraguei meu cabeçalho e o banner na parte inferior. Somente quando o dispositivo da contagem regressiva de um lançamento de livro tinha desaparecido completamente, perdido para o reino da Internet, eu me forcei para longe do computador. Acabou que eu tive um tempo agradável para esperar e ver. Era depois das oito horas quando Daemon apareceu na minha porta, poucos minutos depois que minha mãe saiu para Winchester. Ele estava encostado no corrimão, olhando para o céu como de costume. Com o luar cortando mais da metade de seu rosto e lançando o resto nas mais profundas sombras, ele não parecia real. Quando Daemon se concentrou em mim, seu olhar deslizou sobre o meu vestido e então de volta para cima. Parecia que ele estava prestes a falar mais pensou duas vezes. Reunindo toda a minha coragem, eu andei e parei ao lado dele. — Dee está em casa? — Não. — Ele voltou a olhar para o céu noturno. Havia milhares de estrelas cintilantes. — Ela foi para o jogo com Ash, mas eu duvido que ela vá ficar por muito tempo. — Daemon pausou, olhando para mim. — Eu disse a ela que ia sair com você esta noite. Eu acho que ela vai voltar para casa em breve para ter certeza de que um não matou o outro. Desviando o olhar, eu escondi o meu sorriso. — Bem, se você não me matar, eu tenho certeza que Ash estará mais do que feliz em fazê-lo. — Por causa do espaguete ou algo mais? — Ele perguntou. Atirei nele um olhar de lado. — Você parecia muito confortável com ela em seu colo ontem. — Ah, Eu entendi... — Ele se empurrou para fora do corrimão, vindo para ficar ao meu lado. — Faz sentido agora. — Faz? — Eu me segurei no meu lugar. Seus olhos brilhavam no escuro.


— Você está com ciúmes. — Vai nessa! — Eu forcei uma risada. — Por que eu iria ter ciúmes? Daemon seguiu meus passos até que estávamos na minha garagem. — Porque nós passamos um tempo juntos. — Passar um tempo juntos não é razão para se ter ciúmes, especialmente quando você foi forçado a sair comigo. — Eu percebi que eu estava numa espécie de ciúmes. Ugh. — É sobre isso que nós precisamos conversar? Ele encolheu os ombros. — Vamos lá. Vamos dar um passeio. Assistindo ele, eu alisei minhas mãos sobre meu vestido. — É um pouco tarde, não acha? — Eu acho que eu falo melhor quando eu ando. — Ele estendeu a mão para mim. — Se não, eu ligo o Daemon idiota que você não é muito afeiçoada. — Ha. Ha. — Eu olhei para a mão dele. Houve uma vibração no meu estômago. — Sim, eu não vou segurar sua mão. — Porque não? — Porque eu não vou ficar de mãos dadas com você quando eu nem mesmo gosto de você. — Ouch. — Daemon pôs a mão sobre o peito, estremecendo. — Isso foi duro. Sim, ele precisava melhorar suas aulas de atuação. — Você não vai me levar no bosque e me deixar lá, não é? — Soa como um caso de ataque vingativo, mas eu não faria isso. Eu duvido que você fosse durar muito tempo sem alguém para salva-la. — Obrigada pelo voto de confiança. Ele me lançou um breve sorriso, e nós caminhamos em silêncio por alguns minutos, cruzando a estrada de acesso principal. O ar da noite estava definitivamente frio em comparação com quando eu coloquei o vestido, e estava começando a desejar que eu tivesse colocado mais roupas, também. Outono estava bem a caminho. Logo entramos mais fundo no bosque, onde o luar se esforçava através das grossas árvores. Daemon enfiou a mão no bolso de trás e puxou uma lanterna elétrica fina que emitia uma quantidade surpreendentemente grande de luz. Cada célula do meu corpo parecia estar ciente de quão perto ele estava quando entramos num casulo de trevas, a luz saltava à nossa frente a cada passo. Eu odiava intensamente cada uma das minhas células traidoras. — Ash não é minha namorada. — Ele disse finalmente. — Nós costumávamos namorar, mas agora somos amigos. E antes que você pergunte, nós não somos esse tipo de amigos, mesmo que ela estivesse sentada no meu colo. Eu nem sei explicar por que ela estava fazendo isso. — Por que você deixou? — Eu perguntei, querendo me bater depois. Não era o meu negócio e eu não me importava. — Eu não sei, honestamente. Ser um cara não é razão boa-suficiente? — Não realmente. — Eu disse, olhando para o chão. Eu mal conseguia ver meus pés. — Não penso assim. — Ele respondeu. Eu não podia ver a expressão dele e eu precisava, porque eu nunca poderia dizer no que ele estava pensando e algumas vezes, bem, seus olhos estava em guerra com suas palavras. — De qualquer maneira, Eu estou... Eu sinto muito sobre toda essa coisa no almoço.


Surpresa que ele pediu desculpas, eu tropecei em uma pedra. Ele me pegou facilmente, seu hálito quente em meu rosto antes dele recuar. Minha pele se arrepiou, mas eu me arrastei de volta. Daemon se desculpando pelo fracasso do almoço era como ser encharcada com água fria. Eu não sabia o que era pior: ele não saber que ele estava sedo um idiota ou totalmente consciente do que ele estava fazendo para mim. — Kat? — Ele disse suavemente. Olhei para ele. — Você me envergonhou. — Eu sei— Não, eu não acho que você sabe. — Eu comecei a andar, abraçando meus cotovelos. — E você me deixou puta da vida. Eu não consigo entender você. Um minuto você não é mal e depois, você é o maior burro do planeta. — Mas eu tenho bônus. — Ele me acompanhou, a luz sempre brilhando muito à frente de mim para que eu pudesse facilmente distinguir as raízes expostas e pedras. — Eu ganhei, certo? Os bônus do lago e nossa caminhada? Será que eu não recebo nenhum por salvar você naquela noite? — Você tem um monte de bônus para sua irmã. — Eu balancei minha cabeça. — Não comigo. E se eles eram os meus bônus, você perdeu a maioria deles por agora. Ele ficou em silêncio por alguns instantes. — Que golpe. Realmente. Eu parei. — Por que estamos conversando? — Olha, eu sinto muito sobre isso. Eu estou... — Ele soltou um longo suspiro. — Você não mereceu a forma como agimos. Eu não sabia o que dizer sobre isso. Ele parecia genuíno e quase triste, mas não era como se ele não tivesse uma escolha na forma como agiu. Procurando algo a dizer, eu estabeleci no que provavelmente não ia levar a nada também. — Eu sinto muito pelo seu irmão, Daemon. — Ele chegou a dar uma parada completa, quase escondido nas sombras. Houve um longo intervalo em silêncio que eu não tinha certeza de que ele já respondeu. — Você não tem ideia do que aconteceu com o meu irmão. Minhas entranhas estavam apertando. — Tudo o que sei é que ele desapareceuA mão de Daemon abriu e fechou a seu lado, a outra balançando a lanterna para baixo. — Isso foi algum tempo atrás. — Foi no ano passado. — Eu apontei gentilmente. — Certo? — Oh, sim, você está certa. Apenas parece mais tempo do que isso. — Ele desviou o olhar, metade de seu rosto saindo das sombras. — Então como você ficou sabendo sobre ele? Tremi no ar gelado. — As meninas estavam falando sobre ele na escola. Eu estava curiosa por que ninguém nunca mencionou sobre ele ou aquela garota. — Nós deveríamos? — Perguntou ele. Olhando para ele, eu tentei avaliar sua expressão, mas estava muito escuro. — Eu não sei. Parece ser um negócio muito grande para as pessoas falarem sobre. Daemon começou a andar novamente.


— Não é algo que gostamos de falar, Kat. Isso era compreensível, eu suponho. Eu lutava para me manter com ele. — Eu não queria me intrometer— Você não? — Sua voz era apertada, movimentos duros. — Meu irmão está desaparecido. A família de uma pobre garota provavelmente nunca vai ver sua filha novamente e você quer saber por que ninguém te contou? — Mordi o lábio, me sentindo como uma idiota. — Sinto muito. É só que todo mundo é tão... Misterioso. Tipo, eu não sei nada sobre sua família. Eu nunca vi seus pais, Daemon. E Ash me odeia sem razão. É esquisito que existem dois grupos de trigêmeos que se mudam ao mesmo tempo. Joguei comida na sua cabeça ontem, e eu não quero ficar com problemas. Isso é muito estranho. Dee tinha um namorado que ela nunca mencionou. A cidade é bizarra. As pessoas olham para Dee como se ela fosse uma princesa ou como se estivessem com medo dela. As pessoas olham fixamente para mim. E— Você fala como se essas coisas estivessem relacionadas. Eu mal podia acompanhar ele. Estávamos nos movendo mais adentro no bosque, quase perto do lago até agora. — Será que não estão? — Por que estariam? — Sua voz era baixa e tensa com frustração. — Talvez você esteja se sentindo um pouco paranoica. Se eu tivesse sido atacado eu estaria me mudando para uma nova cidade. — Vê, você está fazendo isso agora! — Eu apontei. — Ficando todo nervoso porque eu estou fazendo uma pergunta, e Dee faz a mesma coisa. — Você não acha que talvez seja porque nós sabemos que você já passou por muita coisa e nós não queremos adicionar mais? — Mas como você pode adicionar mais? Ele diminuiu a velocidade no seu passo. — Eu não sei. Nós não podemos. Eu balancei minha cabeça quando ele parou perto da borda do lago e apagou a lanterna. Durante a noite, a água brilhava como um ônix. Umas centenas de estrelas refletiam na superfície como o céu da noite, mas menos infinito. Era como se eu pudesse estender a mão e tocá-los. — O dia no lago. — Daemon disse após alguns momentos. — Houve alguns minutos que eu estava me divertindo. Minha respiração ficou presa ouvindo isso. Houve alguns minutos que eu gostei, também. Coloquei meu cabelo para trás. — Antes de você se transformar no Aquaman? Daemon estava quieto, com os ombros estranhamente tensos. — O estresse fez isso, fez você pensar em coisas que estão acontecendo, mas que realmente não estão. Olhando para ele, suas características marcantes iluminadas pelo luar, ele não parecia real. Os olhos exóticos, a curva de sua mandíbula, tudo isso parecia mais definido aqui. Daemon olhou para o céu escuro, um olhar melancólico e pensativo em seu rosto. — Não, não... — Eu disse finalmente. — Há algo... Estranho aqui. — Além de você? — Ele disse. Várias respostas arranjadas, mas eu deixei pra lá. Discutir com ele no meio do mato durante a


noite não estava no topo da minha lista de coisas para fazer. — Por que você quer conversar, Daemon? Ele apertou a mão sobre a parte de trás do seu pescoço. — O que aconteceu ontem na hora do almoço só vai piorar. Você não pode ser amiga de Dee, não o tipo de amiga que você quer ser. Uma onda de calor rastejou pelas minhas bochechas, espalhando por cima do meu pescoço. — Você está falando sério? Daemon baixou a mão. — Eu não estou dizendo que você tem que parar de falar com ela, mas afaste-se. Você ainda pode continuar sendo legal para ela, falar com ela na escola, mas não ficar no seu caminho. Você só vai tornar mais difícil para ela e para si mesma. Cada fio de cabelo no meu corpo subiu de uma vez. — Você está me ameaçando, Daemon? Nossos olhos se encontraram. Os seus estavam cheios de... O quê? De arrependimento? — Não. Estou dizendo como é que vai ser. Devemos voltar. — Não. — Eu parei, olhando para ele. — Por quê? Por que é tão errado eu ser amiga de sua irmã? Um segundo se passou, e sua mandíbula ficou tensa. — Você não deveria estar aqui comigo. — Ele respirou fundo, os olhos arregalados. Ele deu um passo para frente. Uma brisa quente passou, espalhando as folhas caídas e jogando meu cabelo para trás. A rajada parecia vir de trás de Daemon, quase como se fosse alimentada pela sua raiva. — Você não é como nós. Você não é nada como nós. Dee merece coisa melhor do que você, pessoas que são como ela. Então me deixe em paz. Deixei minha família em paz. Foi como um tapa na cara, só que pior. De tudo o que eu estava esperando que ele dissesse, ele partiu para o bizarro. Eu puxei uma respiração profunda, mas ficou presa na minha garganta. Eu dei um passo para trás, piscando para longe a corrida de lágrimas de raiva. Daemon não tirava os olhos de mim. — Você queria saber o motivo. É por isso. Eu engoli em seco. — Por que... Por que você me odeia tanto? Por um breve segundo, a máscara quebrou e dor contorceu suas feições. Foi tão rápido, eu não podia ter certeza se eu realmente vi. Ele não respondeu. As lágrimas que se construíram nos meus olhos estavam prestes a derramar pelo meu rosto. Me recusava a chorar na frente dele, para dar a ele esse tipo de poder. — Você sabe o quê? Vá se ferrar, Daemon. Ele desviou o olhar. — Kat, você não pode— Cale a boca! — Eu sibilei. — Apenas cale a boca. — Desviei de Daemon e comecei a andar. Minha pele estava quente e fria, minhas entranhas ardiam com fogo e gelo. Eu ia chorar. Eu sabia. Era o sentimento de asfixia que estava na parte de trás da minha garganta. — Kat. — Daemon chamou. — Por favor, espere. Aumentei meu ritmo até que estava quase correndo. — Vamos lá, Kat, não ande tão longe. Você vai se perder. Pelo menos leve a lanterna! Como se ele se importasse. Eu queria me livrar dele antes de me perder. Havia uma boa chance de


eu bater nele. Ou chorar, porque se eu gostava dele ou não, o que ele tinha dito machucou. Como se houvesse algo de errado comigo. Eu tropecei em alguns galhos e pedras no chão que eu não podia ver, mas eu sabia que eu poderia encontrar meu caminho de volta para a estrada. Eu podia ouvir ele atrás de mim, seus pés estalando nos galhos enquanto ele se mantinha comigo. Dor crua abriu no meu peito. Eu pisoteei na frente, precisando chegar em casa, para ligar para mamãe e de alguma maneira convencê-la de que precisávamos nos mudar, tipo, amanhã. Fugir. Minhas mãos se fecharam em punhos. Por que eu deveria fugir? Eu não tinha feito nada de errado! Zangada e revoltada comigo mesmo, eu tropecei em uma raiz saindo do chão. Eu quase caí de cara no chão. Eu resmunguei. — Kat! — Daemon amaldiçoou por trás de mim. Eu retomei meu equilíbrio e corri para frente, aliviada ao ver a estrada à frente. Eu quase quebrei em uma corrida mortal. Eu podia ouvir seus passos agora, ecoando à distância. Alcançando à estrada escura, limpando a parte de trás das minhas mãos sobre meu rosto. Merda. Eu estava chorando. Daemon gritou, mas sua voz foi abafada por dois faróis de um caminhão vindo em minha direção, não mais do que 15 metros de distância. Eu estava chocada demais para me mover. Ele ia bater em mim.


15 Um alto estrondo de trovão – só que mais forte – reverberou pelo vale. Foi como uma explosão sonora que me sacudiu até o âmago. Não havia tempo para o motorista me ver ou parar. Eu joguei meus braços, como se pudesse de alguma forma me proteger. O rugido alto do caminhão encheu meus ouvidos. Eu me preparei para o impacto de estilhaçar meus ossos, meu último pensamento foi da minha mãe e o que o meu corpo mutilado ia fazer com ela, mas o impacto não veio. Eu poderia ter beijado o para-choque; de tão perto que estava. Minhas mãos a meros centímetros da grade quente. Lentamente, eu levantei minha cabeça. O motorista ficou imóvel atrás do volante, os olhos arregalados e vazios. Ele não se moveu, nem piscou. Eu nem tinha certeza se ele estava respirando. Uma xícara de café estava em sua mão direita, congelada a meio caminho de sua boca. Congelado – tudo estava congelado. Um sabor metálico encheu os cantos da minha boca. Minha mente empacou. O motor ainda estava correndo, rugindo na minha cara. Eu me virei a partir do motorista congelado para ver Daemon. Ele parecia estar se concentrando, sua respiração pesada e suas mãos estavam cerradas ao lado do seu corpo. E seus belos olhos estavam diferentes. Errado. Eu dei outro passo para trás, agora fora do caminho do caminhão, minhas mãos na minha frente, como se para afastar ele de chegar perto de mim. — Oh meu Deus... — Sussurrei, meu coração já batendo hesitante por uma mera batida. Os olhos de Daemon brilhavam iridescente no escuro, iluminados por dentro. A luz parecia estar cada vez mais intensa, e os seus punhos começaram a tremer, o tremor movendo os braços até que todo o seu corpo parecia estar reverberando em pequenas, ondas minúsculas. E então Daemon começou a desaparecer, o seu corpo, junto com suas roupas, desaparecendo e sendo substituído por uma intensa luz amarela avermelhada que o engoliu todo. Pessoas feitas de luz. Caramba... O tempo pareceu parar. Não, o tempo já tinha parado. De algum modo, ele evitou o caminhão de me atropelar. Parou um caminhão de sete toneladas, que certamente quebraria todos os ossos do meu corpo com o quê? Uma palavra? O pensamento? Tanto Poder. Ele fez com que o ar não natural vibrasse em torno de nós. O chão tremeu sob sua completa força. Eu sabia que se tentasse bastante eu poderia estender a mão e senti-la tremer. Na distância eu escutei Dee, confusão derramava em sua voz, chamando para nós. Como ela tinha nos encontrado? Certo. Daemon estava iluminando toda a rua – ele era tão brilhante. Eu olhei de volta para o caminhão e vi que não só ele estava tremendo, mas o motorista estava, também. Ele estava tentando quebrar a barreira invisível que parecia mantê-lo congelado no tempo. A besta de metal estremeceu e o motor gritou, o pé do motorista ainda no pedal do acelerador. Eu corri, não para fora da estrada, mas para além dela. Eu vagamente ouvi o uivo do caminhão


passando por mim. Corri até a estrada sinuosa que levava a nossas casas, aninhada na boca do nada. Eu vi rapidamente Dee correndo até mim antes que me esquivasse dela. Eu apenas sabia que ela é como ele. O que eles eram? Eles não podiam ser humanos. O que eu vi não era possível. Nenhum ser humano poderia fazer isso. Nenhum ser humano poderia parar um caminhão com uma ordem, ficar submerso por vários minutos, ou surgir e sair. Todas as coisas estranhas que eu estava percebendo pareciam fazer sentido agora. Eu continuei a correr, passando pela minha garagem, sem ter ideia para onde eu estava correndo ou por quê. Meu cérebro não estava funcionando. Instinto tinha assumido. Galhos enroscaram no meu cabelo e no lindo vestido que eu estava usando. Eu tropecei em uma grande pedra, mas me empurrei de joelhos para manter em movimento. De repente, ouvi passos correndo atrás de mim. Alguém me chamou, mas eu não parei, empurrando mais rápido na floresta escura à minha frente. Eu não estava pensando neste momento. Eu só queria fugir. Uma maldição soou logo atrás, e então um corpo duro colidiu em mim. Eu desci, cercada de calor. De alguma maneira, ele conseguiu amortecer o impacto da queda com o seu próprio corpo girando no ar. Então ele me rolou para debaixo dele, me prendendo. Eu empurrei o seu peito e tentei chutá-lo. Nada disso funcionou. Fechei os olhos, com muito medo de ver se seus olhos ainda tinham aquele brilho estranho. — Sai fora! Daemon agarrou meus ombros, me balançando gentilmente. — Pare com isso! — Fique longe de mim! — Eu gritei para ele, tentando manter distância, mas ele me segurou. — Kat, pare com isso! — Ele gritou de novo. — Eu não vou te machucar! Como eu poderia acreditar nele? Uma pequena parte do meu cérebro que ainda estava pensando me lembrou que ele tinha salvado a minha vida. Parei de me debater. Daemon parou em cima de mim. — Eu não vou te machucar, Kat. — Seu tom de voz era suave, mas ainda atado com fúria enquanto ele tentava me controlar, sem fazer qualquer dano real. — Eu nunca poderia machucar você. Suas palavras fizeram meu estômago tremer. Algo dentro de mim respondeu, acreditando nele mesmo quando minha mente se rebelava contra a ideia. Eu não sabia que uma parte de mim era tão tola, mas parecia ser a parte vencedora. Com minha respiração ainda difícil, eu tentei me acalmar. Ele afrouxou o controle sobre mim, mas ele ainda pairava acima. Sua respiração era irregular contra a minha bochecha. Afastando, Daemon colocou um dedo embaixo do meu queixo para virar a cabeça para encará-lo. — Olhe para mim, Kat. Você precisa olhar para mim agora. — Eu mantive meus olhos fechados. Eu não queria saber se os seus olhos ainda estavam estranhos. Daemon se deslocou, movendo as mãos dos meus ombros para as minhas bochechas. Eu deveria ter feito a minha fuga em seguida, mas o momento em que suas mãos quentes tocaram meu rosto, eu não podia me mover. Cuidadosamente, seus dedos acariciaram meu rosto. — Por favor. — Sua voz perdeu o tom furioso.


Soltando um suspiro, eu abri meus olhos. Seu olhar procurou o meu. Seus olhos ainda eram estranhos, um verde intenso, mas eram dele. Não os que eu tinha visto minutos antes. A pálida luz da lua rompeu as árvores acima, lentamente deslizando sobre suas maçãs do rosto altas, saltando fora de seus lábios entreabertos. — Eu não vou te machucar. — Ele repetiu suavemente. — Eu quero falar com você. Eu preciso falar com você, você entendeu? Eu concordei, incapaz de fazer a minha garganta trabalhar. Ele fechou os olhos por um instante, um suspiro de cortar a alma escapou de seus lábios. — Ok. Eu vou soltar você, mas, por favor, me prometa que não vai correr. Eu não me sinto bem em persegui-la agora. Esse último pequeno truque quase me exterminou. — Ele pausou, esperando pela minha resposta. O rosto dele parecia apertado com fadiga. — Diga. Kat. Me prometa que não vai correr. Eu não posso deixá-la correr aqui fora sozinha. Você entendeu? — Sim. — Ele lentamente me soltou e se inclinou para trás, com a mão esquerda descendo na minha bochecha em um pequeno gesto que parecia inconsciente. Eu fiquei congelada no chão até que ele se agachou em seus calcanhares. Sob o seu olhar cansado, eu me afastei até que minhas costas estavam contra uma árvore. Uma vez que ele parecia satisfeito que eu não iria fugir, ele se sentou na minha frente. — Por que você entrou na frente do caminhão? — Ele perguntou, mas não esperou por uma resposta. — Eu estava tentando de tudo para mantê-la longe disso tudo, mas você tinha que ir e arruinar todo o meu trabalho duro. — Eu não fiz isso de propósito. — Eu levantei a mão tremendo na minha testa. — Mas você fez. — Ele balançou a cabeça. — Por que você veio aqui, Kat? Por quê? Eu, nós estávamos indo bem e então você aparece e tudo é jogado para o inferno. Você não tem ideia. Merda. Eu pensei que nós teríamos sorte e que você iria embora. — Me desculpe, eu ainda estou aqui. — Puxando minhas pernas para longe dele, eu as coloquei contra o meu peito. — Eu estou sempre deixando isso pior. — Ele balançou a cabeça, olhando como se ele quisesse amaldiçoar novamente. — Nós somos diferentes. Eu acho que você já percebe isso agora. Eu descansei minha testa contra os meus joelhos. Eu levei um momento para reunir o que restava dos meus pensamentos e levantei minha cabeça. — Daemon, o que você é? Ele sorriu com tristeza e esfregou sua cabeça com a palma da mão. — Isto é difícil de explicar. — Por favor, me conte. Você precisa me contar, porque eu estou prestes a perder o controle de novo. — Eu avisei. Eu não estava mentindo. O controle que eu tinha obtido começou a deslizar no momento em que ele ficou em silêncio. O olhar de Daemon era intenso enquanto falava. — Eu não acho que você queira saber, Kat. Sua expressão, sua voz era tão sincera que me encheu de uma profunda sensação de pavor. Eu sabia que o que quer ele fosse me dizer ia mudar a minha vida para sempre. Uma vez que eu soubesse o que ele e sua família eram, não teria volta, nunca mais. Eu seria inexplicavelmente mudada. Mesmo sabendo de tudo isso, eu já tinha passado do ponto de não retornar. A velha Katy estaria correndo novamente. Eu tinha certeza disso. Ela preferiria fingir que nada disso aconteceu. Mas eu era


diferente agora, e eu tinha que saber. — Você é... Humano? — A risada curta de Daemon estava sem humor. — Nós não somos daqui. — Você acha? Suas sobrancelhas subiram. — Sim, eu suponho que você provavelmente já descobriu que não somos humanos. Eu tomei uma respiração trêmula. — Eu estava esperando que eu estivesse errada. Ele riu de novo, mas havia muito pouco humor em sua voz. — Não. Somos de longe, muito longe. Meu estômago caiu aos meus pés, e os meus braços apertaram em volta das minhas pernas. — O que você quer dizer com ‘muito, muito longe’? Porque eu estou de repente tendo visões do começo de Star Wars. Daemon me olhou intensamente. — Nós não somos deste planeta. Ok. Além. Ele disse o que eu tinha praticamente percebido que era a verdade, mas isso não me disse nada. — O que você é? Um vampiro? Ele rolou os olhos. — Você está falando sério? — O que? — Frustração chicoteou por mim. — Você diz que não é humano, o que limita o número do que você pode ser! Você parou um caminhão sem tocá-lo. — Você lê muito. — Daemon exalou lentamente. — Nós não somos lobisomens ou bruxas. Zumbis ou o que quer que seja. — Bem, eu estou contente com a coisa zumbi. Gosto de pensar que o que sobrou do meu cérebro está seguro. — Eu murmurei. — E eu não leio muito. Essas coisas não existem. Mas Aliens também não existem. Daemon se inclinou rapidamente, colocando as mãos sobre os meus joelhos dobrados. Eu gelei ao seu toque, os meus sentidos correram quente e frio ao mesmo tempo. Seu olhar me penetrou, me prendeu em cima dele. — Neste vasto universo sem fim, você acha que a Terra, esse lugar, é o único planeta com vida? — N-não, — Eu gaguejei. — Então, esse tipo de coisa... É normal para o seu... Inferno, do que chamam a si mesmos? Ele inclinou a cabeça para trás enquanto os segundos pulavam, e meu coração dobrou suas batidas à espera de sua resposta. Ele parecia estar lutando com o quanto podia me dizer, e eu tinha certeza de que o quer que fosse, eu não ia gostar...


16 Este foi um daqueles momentos na minha vida que eu não sabia se devia rir, chorar ou fugir o mais rápido possível. Daemon sorriu firmemente. — Eu posso dizer o que você está pensando. Não que eu possa ler sua mente, mas está escrito em todo o seu rosto. Você acha que eu sou perigoso. E um idiota... E sexy, mas eu não iria admitir isso. E uma forma de vida alienígena? Eu balancei minha cabeça. — Isso é loucura, mas eu não tenho medo de você. — Você não tem? — Não. — Eu ri, mas parecia um pouco louco, totalmente convincente. — Você não parece um alien! — Parecia importante ressaltar isso. Ele arqueou uma sobrancelha. — E como os aliens se parecem? — Não... Não como você. — Balbuciei. — Eles não são lindos de morrer. — Você me acha lindo? — Ele sorriu. Eu atirei um olhar sombrio. — Cale a boca. Como se você não soubesse que todos no planeta acham que você é bonito. — Eu fiz uma careta, chocada de até mesmo estar tendo essa conversa. — Se aliens existissem, seriam homenzinhos verdes com olhos grandes e braços magros ou... Ou insetos gigantes ou algo parecido com uma criatura pequena e estranha. Daemon soltou uma gargalhada. — ET? — Sim! Como o ET, idiota. Estou tão feliz que você ache isto engraçado. Que você quer ferrar com minha cabeça mais do que você já fez. Talvez eu bati com a cabeça ou algo assim. — Eu comecei a me levantar. — Sente-se, Kat — Não me diga o que fazer! Ele ficou ereto, braços para os lados. Esse brilho assustador encheu seus olhos, como duas órbitas de pura luz. — Sente. Me sentei. Com um aceno de um dedo, é claro. Ele pode estar compartilhando sua estranheza comigo agora, Sr. Alien, mas eu instintivamente sabia que ele não iria me machucar. — Você vai me mostrar como você realmente se parece? Você brilha, não é? E, por favor, não me diga que eu quase beijei um inseto gigante comedor de cérebros, porque sério, eu vou— Kat! — Desculpe. — Eu murmurei. Daemon fechou os olhos e respirou. Uma luz apareceu no centro de seu peito, e como no meio da estrada, ele começou a vibrar e, em seguida, desaparecer até que nada além dessa luz brilhante amarela avermelhada o rodeava. Em seguida, a luz tomou forma. Duas pernas, um tronco, braços e


uma cabeça feita de nada além de luz. Uma luz tão intensa que iluminou tudo ao nosso redor, transformando a noite em dia. Eu protegi meus olhos com as mãos trêmulas. — Puta merda. E quando ele falou, não foi em voz alta. Ele estava na minha cabeça. Isso é como parecia. Nós somos seres de luz. Mesmo em forma humana, podemos dobrar a luz à nossa vontade. Houve uma pausa. Como você pode ver, não me pareço um inseto gigante. Eu... Brilho. Mesmo na minha cabeça, eu podia ouvir o desgosto nessa última frase. — Não. — Eu sussurrei. Nos livros paranormais que eu tinha lido e comentado, ninguém brilhava assim. Alguns brilhavam na luz. Outros tinham asas. Ninguém era um maldito sol gigante. Ou uma pequena criatura estranha, o que eu acho desagradável, alias. Um braço feito de luz se estendeu para mim. A mão e os dedos formados, abrindo a palma para cima. Você pode me tocar. Não vai doer. Eu imagino que seja agradável para os seres humanos. Para os seres humanos? Oh. Meu. Deus. Engolindo nervosamente, eu levantei uma mão. Parte de mim não queria tocá-lo, mas ver isso, estar ao lado de algo tão... Tão, bem, fora deste mundo, eu tinha que fazer. Meus dedos roçaram os dele, e um choque de eletricidade dançou sobre minha mão, meu braço. A luz cantarolava ao longo da minha pele. Eu respirei fundo. Daemon tinha razão. Não doeu. Seu toque era quente, inebriante. Era como tocar a superfície do sol sem ser queimada. Eu enrolei meus dedos em torno dele, observando como a luz crescia até que eu já não podia ver minha mão. Pequenas faixas de luz acenderam de sua mão, lambendo meu pulso e antebraço. Achei que você ia gostar. Ele puxou sua mão livre e recuou. Sua luz desvaneceu-se lentamente e, em seguida, Daemon estava em pé na minha frente – Daemon humano. Eu senti a perda de seu calor imediatamente. — Kat. — Disse ele, desta vez em voz alta. Tudo o que eu podia fazer era olhar para ele. Eu queria a verdade, mas ouvir – e ver de verdade – era totalmente diferente. Daemon parecia ler minha expressão, porque ele lentamente se sentou. Ele parecia relaxado, mas eu sabia que ele era mais como um animal selvagem, enrolado e pronto para saltar no caso de eu fazer o movimento errado. — Kat? — Você é um alienígena. — Minha voz estava fraca. — Sim, isso é o que eu venho tentando lhe dizer. — Oh... Oh, uau. — Eu enrolei minha mão de volta para o meu peito, olhando-o cegamente. — Então, de onde você é? Marte? Ele riu. — Nem de perto. — Ele fechou os olhos por alguns instantes. — Eu vou contar uma história. Ok? — Você vai me contar uma história? Balançando a cabeça, ele passou os dedos pelo cabelo despenteado. — Tudo isso vai parecer loucura para você, mas tente lembrar do que viu. O que você sabe. Você me viu fazer coisas que são impossíveis. Agora, para você, nada é impossível. — Ele fez uma pausa, parecia se recompor. — Nós viemos de um lugar além de Abell.


— Abell? — É a galáxia mais distante da sua, cerca de treze bilhões de anos luz daqui. E nós ficamos a mais outros dez bilhões ou mais. Não há telescópio ou ônibus espacial poderoso o suficiente para viajar para a nossa casa. Nunca haverá. Ele olhou para as mãos abertas, com a testa abaixada. — Não que isso importe se o fizessem. Nosso planeta não existe mais. Foi destruído quando éramos crianças. É por isso que tivemos que sair, encontrar um lugar que era compatível ao nosso planeta em termos de comida e atmosfera. Não que precisemos respirar oxigênio, mas não faz mal. Respiramos por força do hábito, mais do que qualquer coisa. Outra lembrança pareceu deixá-lo perdido. — Então, você não precisa respirar? — Não, não realmente. — Ele parecia um pouco tímido. — Nós fazemos por força do hábito, mas tem vezes que nos esquecemos. Como quando estamos nadando. Bem, isso explicava como Daemon tinha ficado debaixo d'água por tanto tempo. — Continue. Ele ficou me olhando por alguns momentos, depois assentiu. — Nós éramos muito jovens para saber qual o nome da nossa galáxia. Ou mesmo se a nossa espécie sentia a necessidade de citar essas coisas, mas eu lembro o nome do nosso planeta. Era chamado Lux. E nós somos chamados Luxen. — Lux... — Eu sussurrei, lembrando de uma das minhas aulas de caloura. — Isso é Latim para Luz. Ele deu de ombros. — Chegamos aqui em uma chuva de meteoritos, há quinze anos, com outros como nós. Mas muitos vieram antes de nós, provavelmente pelos últimos mil anos. Nem todos da nossa espécie vieram para este planeta. Alguns foram mais longe na galáxia. Outros devem ter ido para planetas que não poderiam sobreviver, mas quando perceberam que a Terra era perfeita para nós, mais vieram para cá. Está acompanhando? — Olhei fixamente. — Acho que sim. Você está dizendo que há mais como você. Os Thompsons são como você? Daemon assentiu. — Nós todos estamos juntos desde então. Isso explicava a natureza territorial de Ash, eu imaginei. — Quantos de vocês estão aqui? — Aqui? Pelo menos algumas centenas. — Centenas... — Eu repeti. Então me lembrei dos olhares estranhos na cidade, as pessoas no almoço e da maneira que eles olharam para mim... Porque eu estava com Dee, uma alienígena. — Por que aqui? — Nós... Ficamos em grupos grandes. Não é... Bem, isso não importa agora. — Você disse que veio durante uma chuva de meteoritos? Onde está a sua nave espacial? — Eu me sentia estúpida só por dizer isso. Ele levantou uma sobrancelha para mim, parecendo o Daemon que eu conhecia. — Nós não precisamos de coisas como navios para viajar. Somos luz, podemos viajar com a luz, como pegar uma carona. — Mas se você é de um planeta de milhões de anos-luz de distância e viajou na velocidade da


luz... Você levou milhões de anos para chegar até aqui? — Meu velho professor de física ficaria orgulhoso. — Não. Da mesma forma que eu te salvei do caminhão, nós somos capazes de dobrar o espaço e tempo. Eu não sou um cientista, então eu não sei como funciona, só que podemos. Alguns melhor do que outros. O que ele disse não parecia sensato de jeito nenhum, mas eu não o impedi. Como ele argumentou, o que eu vi antes não fazia nenhum sentido, então talvez eu não pudesse mais julgar o que fazia sentido. — Podemos envelhecer como um ser humano, o que nos permite nos misturar normalmente. Quando cheguei aqui, nós escolhemos a nossa... Pele. — Ele percebeu meu estremecimento com outro encolher de ombros. — Eu não sei de que outra forma explicar sem assustar você, mas nem todos nós podemos mudar nossa aparência. A que nós escolhemos quando chegamos aqui é a que permanecemos presos a ela. — Bem, você escolheu bem, então. Os cantos de seus lábios se contraíram enquanto corria os dedos sobre a grama na frente dele. — Nós copiamos o que vimos. Isso só parece funcionar uma vez para a maioria de nós. E como nós crescemos para ficar parecidos, bem, o nosso DNA deve ter tomado conta do resto. Há sempre três de nós nascidos ao mesmo tempo, caso você esteja se perguntando. Sempre foi assim. — Ele fez uma pausa, levantando seu olhar. — Para a maioria, nós somos como seres humanos. — Com a exceção de ser uma bola de luz que eu posso tocar? — Deixei escapar um baixo fôlego, encantada. Seus lábios tremeram novamente. — Sim, isso, e nós somos muito mais avançados do que seres humanos. — Quanto avançados é ‘muito’? — Eu perguntei em voz baixa. Ele sorriu um pouco, em seguida, passando as mãos sobre a grama novamente. — Vamos dizer que se entrássemos em guerra com os humanos, vocês não iriam ganhar. Nem em um bilhão de anos. Meu coração bateu mais forte e eu dei um passo para frente, nem mesmo percebendo que eu estava me inclinando para frente, em direção a ele. — O que você pode fazer? Os olhos de Daemon travaram nos meus brevemente. — Quanto menos você souber, provavelmente, é melhor. Eu balancei minha cabeça. — Não. Você não pode me dizer algo assim e não me contar tudo. Você... Você deve isso a mim. — Da forma como eu vejo, você que me deve. Três vezes. — Ele respondeu. — Como três vezes? — A noite em que foi atacada, agora, e quando você decidiu que Ash precisava vestir espaguete. — Ele contou em seus dedos. — Melhor não ter uma quarta vez. — Você salvou a minha vida com Ash? — Ah, sim, quando ela disse que poderia acabar com você, ela disse a verdade. — Ele suspirou, inclinando a cabeça para trás e fechando os olhos. — Droga. Por que não? Não é como se você ainda não soubesse. Todos nós podemos controlar a luz. Nós podemos manipulá-la de modo que não somos vistos, se não quisermos. Nós podemos dissipar as sombras, o que quisermos. Não só isso, mas podemos aproveitar a luz e usá-la. E confie em mim quando digo que você não quer nunca ser


atingida com algo parecido. Eu duvido que um humano poderia sobreviver. — Tudo bem... — Eu quase não respirava. — Espere. Quando vimos o urso, eu vi um clarão de Luz. — Isso fui eu. Antes que você pergunte, eu não matei o urso. Eu o assustei. Eu só não sei por que você desmaiou. Você estava perto da minha luz. Eu acho que teve um efeito em você. Enfim, todos nós temos algum tipo de propriedades curativas, mas nem todos são bons nisso. — Continuou ele, abaixando o queixo. — Eu sou bom nisso, mas Adam, um dos meninos Thompson, consegue curar praticamente qualquer coisa desde que ainda esteja um pouco vivo. E nós somos praticamente indestrutíveis. Nossa única fraqueza é se você nos pegar na nossa verdadeira forma. Ou talvez cortar nossas cabeças fora em forma humana. Eu acho que isso funcionaria. — Sim, cortar cabeças normalmente resolve. — Minha mente estava ficando completamente em branco, só era capaz de processar o que ele estava me dizendo e cerca de uma linha de pensamento coerente a cada minuto ou algo assim. Minhas mãos deslizaram na minha cara e eu fiquei ali, segurando minha cabeça. — Você é um alienígena. Ele ergueu as sobrancelhas para mim. — Há muita coisa que podemos fazer, mas não até que atingimos a puberdade, e mesmo assim temos dificuldade em controlá-las. Às vezes, as coisas que podemos fazer podem causar alguns problemas. — Isso deve ser... Difícil. — Sim, é. Baixei as mãos, enrolando-as acima do meu peito. — O que mais você pode fazer? Ele me observava atentamente enquanto falava. — Prometa que não vai sair correndo de novo. — Sim. — eu concordei, imaginando o que seria. Não que eu pudesse ficar mais assustada. — Nós podemos manipular objetos. Qualquer objeto pode ser movido, animado ou não. Mas podemos fazer mais do que isso. — Ele pegou uma folha caída e segurou-a entre nós. — Observe. Fumaça imediatamente começou a flutuar dela... Chamas alaranjadas brilhantes irromperam das pontas dos dedos, enrolados sobre a folha. Em poucos segundos, tinha sumido, mas suas chamas ainda crepitavam sobre seus dedos. Eu avancei para frente, colocando os dedos perto do fogo. Calor explodiu de seus dedos. Eu puxei minha mão para trás, olhando para ele. — O fogo não te machuca? — Como algo que é uma parte de mim pode me machucar? — Ele trouxe seus dedos flamejantes sobre a terra. Cinzas voaram de sua mão, mas o chão permaneceu intocado pelo fogo. Ele apertou sua mão. — Veja. Sumiu. — Com olhos enormes, eu me aproximei mais. — O que mais você pode fazer? Daemon sorriu e então ele se foi. Me virando, olhei em volta. Ele estava encostado na árvore a vários metros de distância. — Como... No mundo... Espera! Você já fez isso antes. A assustadora, silenciosa, coisa de se deslocar. Mas não é que você seja silencioso. — Me sentei contra a árvore, atordoada. — Você se move assim tão rápido.


— Rápido como a velocidade da luz, Gatinha. — Ele reapareceu na minha frente e lentamente se sentou. — Alguns de nós podem manipular nossos corpos além da forma que escolhemos originalmente. Como a mudança em qualquer coisa viva, pessoa ou criatura. Olhei para ele. — É por isso que Dee desaparece, às vezes? Ele piscou. — Você viu isso? — Sim, mas eu achei que estava vendo coisas. — Estiquei minhas pernas um pouco. — Ela costuma fazer isso quando está se sentindo confortável, eu acho. Apenas a mão ou o contorno de seu corpo começa a desaparecer. Daemon assentiu. — Nem todos de nós temos controle sobre o que podemos fazer. Alguns lutam contra suas habilidades. — Mas você controla? — Eu sou apenas incrível assim. Revirei os olhos, mas depois me endireitei. — E quanto a seus pais? Vocês disseram que eles trabalham na cidade, mas eu nunca os vi. Seu olhar caiu no chão novamente. — Nossos pais nunca chegaram até aqui. Uma dor por ele e Dee encheu meu peito. — Eu... Eu sinto muito. — Não se preocupe. Foi há muito tempo. Nem sequer me lembro deles. Isso parecia triste. Mesmo que minhas memórias de meu pai parecessem desgastadas ao longo dos anos, eu ainda as tinha. E eu tinha muitas perguntas sobre como eles sobreviveram sem seus pais, alguém cuidando deles quando eles eram pequenos. — Deus, eu me sinto tão estúpida. Você sabe, eu pensei que eles trabalhavam fora da cidade. — Você não é estúpida, Kat. Você viu o que eu queria que você visse. Somos muito bons nisso. — Ele suspirou. — Bem, aparentemente não bons o suficiente. Aliens... Uau, essas pessoas loucas que Lesa estava falando estavam certas. Eles provavelmente tinham visto um deles. Talvez o Homem Traça fosse real. E o chupacabra realmente estava sugando o sangue de cabras. Os olhos estranhos de Daemon brilharam por um momento, e então eles se estabeleceram no meu rosto. — Você está lidando com isso melhor do que eu esperava. — Bem, eu tenho certeza que vou ter tempo de sobra para entrar em pânico e ter um mini colapso mais tarde. Eu provavelmente vou pensar que perdi a cabeça. — Depois que eu falei, algo me ocorreu. — Vocês... Todos podem controlar o que os outros pensam? Ler mentes? Ele balançou a cabeça. — Não. Nossos poderes estão enraizados no que somos. Talvez se o nosso poder, a luz, for manipulado através de algo, quem sabe. Qualquer coisa poderia ser possível. Enquanto eu olhava para ele, raiva e descrença guerrearam dentro de mim. — Esse tempo todo eu pensava que estava enlouquecendo. Por isso, você me dizia que eu estava vendo coisas ou fazendo merda. É como se você tivesse me dado uma lobotomia alienígena. Muito agradável.


Seus olhos se abriram, um brilho de raiva provocada por eles junto com alguma outra coisa que eu não conseguia decifrar. — Eu tive que fazer. — Ele insistiu. — Nós não podemos deixar ninguém saber sobre nós. Deus sabe o que iria acontecer com a gente, então. Deixando-me levar pelo momento, eu perguntei: — Quantos seres humanos... Sabem sobre vocês? — Há alguns moradores que pensam que somos só Deus sabe o que. — Disse ele. — Há um ramo do governo que sabe sobre nós, dentro do Departamento de Defesa, mas isso é tudo. Eles não sabem sobre os nossos poderes. Eles não podem... — Ele quase rosnou, encontrando meus olhos. — O DOD pensa que nós somos malucos inofensivos. Contanto que nós sigamos suas regras, eles nos dão dinheiro, os nossos lares, e nos deixam em paz. Assim, quando qualquer um de nós fica louco com seus poderes é uma má notícia por várias razões. Tentamos não usar nossos poderes, especialmente em torno dos seres humanos. — Porque iria expor o que você é. — Isso e... — Ele esfregou o queixo. — Toda vez que usamos a nossa energia em torno de um humano, bem, deixa um rastro sobre essa pessoa, nos permite ver que eles têm estado perto de outro como nós. Então, nós tentamos não usar sempre as nossas capacidades em torno de seres humanos, mas... Bem, as coisas nunca ocorrem conforme o planejado, com você. — Quando você parou o caminhão, deixou um... Rastro em mim? Ele piscou e olhou para longe. — E quando você assustou o urso? Isso pode ser rastreado por outros como você? — Eu engoli o caroço frio do medo. — Assim, os Thompsons e qualquer outro alienígena por aqui, sabem que eu tenho sido exposta ao seu... Feitiço alienígena? — Sim. — Disse ele. — E eles não estão exatamente felizes com isso. — Então por que você parou o caminhão? Eu sou, obviamente, uma enorme responsabilidade para você. Daemon lentamente se virou para mim. Seus olhos estavam fechados. Novamente, ele não respondeu. Eu tomei uma respiração profunda, pronta para correr, lutar. — O que você vai fazer comigo? Quando ele falou, sua voz vacilou. — O que eu vou fazer com você? — Já que eu sei o que você é, isso faz de mim um risco para todos. Você... Pode me atear fogo ou só Deus sabe o que mais. — Por que eu te diria tudo, se eu fosse fazer alguma coisa para você? Bom argumento. — Eu não sei. Ele se moveu para frente, e quando eu recuei longe dele, ele parou de me tocar. — Eu não vou fazer nada para você. Ok? Mordi o lábio. — Como você pode confiar em mim? Ele parou novamente e, finalmente, estendeu a mão para pegar meu queixo na mão. — Eu não sei. Eu só confio. E, honestamente, ninguém iria acreditar em você. E se você fizer alguma confusão, se você trazer o DOD, e você não quer isso, eles vão fazer de tudo para garantir que a população humana não tenha conhecimento de nós.


Fiquei quieta e silenciosa enquanto Daemon ainda me segurava em sua mão macia. Várias emoções passaram por mim. Olhando para ele agora, com sua presença me cercando, era muito fácil cair em algo que eu sabia que eu provavelmente nunca iria sair. Eu me afastei. — Então é por isso que você disse todas essas coisas mais cedo? Você não me odeia? Daemon olhou para a mão ainda estendida. Ele a abaixou. — Eu não odeio você, Kat. — E é por isso que você não quer que eu seja amiga de Dee, porque você tinha medo de que eu descobrisse a verdade? — Isso, e o fato de você ser um ser humano. Os seres humanos são fracos. Eles não nos trazem nada além de problemas. Meus olhos se estreitaram. — Nós não somos fracos. E você está no nosso planeta. Que tal um pouco de respeito, amigo. Diversão brilhou em seus olhos cor de esmeralda. — Provou seu argumento. — Ele fez uma pausa, os seus olhos vagando sobre o meu rosto. — Como você está lidando com tudo isso? — Eu estou processando tudo. Eu não sei. Eu não acho que vou pirar mais. Daemon se levantou. — Bem, então, vamos levá-la de volta antes que Dee ache que eu matei você. — Será que ela realmente acha isso? Um olhar sombrio se apoderou de seu rosto. — Eu sou capaz de qualquer coisa, Gatinha. Matar para proteger a minha família não é algo com que eu hesitaria, mas isso não é o que você tem que se preocupar. — Bem, isso é bom saber. Ele inclinou a cabeça para o lado. — Há outras pessoas lá fora que irão fazer qualquer coisa para ter os poderes que os Luxen têm, especialmente o meu. E eles farão qualquer coisa para chegar a mim e à minha espécie. Ansiedade arranhou seu caminho de volta para o meu peito. — E o que isso tem a ver comigo? Daemon se agachou diante de mim, seu olhar vagando pela floresta densa que nos rodeava. — O rastro que eu deixei em você por parar o caminhão pode ser rastreado. E você está iluminada como o quatro de julho agora. — Minha respiração ficou presa. — Eles vão usá-la para chegar até mim. — Daemon estendeu a mão, puxando uma folha do meu cabelo. Sua mão demorou perto do meu rosto por um segundo antes de cair para o joelho. — E, se conseguirem chegar até você... A morte seria um alívio.


17 A luz brilhante entrava através das janelas, perfurando a escuridão em que eu estava tão confortável. Eu gemi e empurrei minha cabeça no travesseiro macio. Minha boca estava seca e minha cabeça latejava violentamente. Eu não quero acordar ainda. Eu não conseguia lembrar exatamente, por isso pensei que era melhor ficar dormindo pelo maior tempo possível, mas eu sabia que devia haver uma boa razão. Meus músculos doíam quando eu rolei e abri meus olhos. Dois vibrantes olhos verdes olharam fixamente para os meus. Engasguei com um grito e pulei de surpresa. No meu choque, minhas pernas enroscaram no cobertor e eu tropecei para fora da cama. — Santo Cristo... — Eu resmunguei. Dee me pegou, me segurando em pé enquanto eu desembaraçava minhas pernas. — Desculpe, eu não queria assustá-la. Eu empurrei o cobertor até que pararam em uma poça confusa aos meus pés. Minhas pernas estavam nuas. E a camisa de grandes dimensões não era minha. Minhas bochechas coraram quando me lembrei de Daemon jogando a camisa para dentro do quarto. Ela tinha seu cheiro, uma mistura exuberante de especiarias e ar livre. — O que você está fazendo aqui, Dee? As pontas de suas faces coraram enquanto ela se sentou na espreguiçadeira em frente à cama. — Eu estava observando você dormir. Eu fiz uma careta. — Ok, isso é assustador. Ela parecia ainda mais envergonhada. — Não era como se eu estivesse vendo você, observando você. Era mais como estar esperando você acordar. — Ela empurrou seu cabelo despenteado. — Eu queria falar com você. Eu precisava falar com você. Me sentei na cama. Dee parecia cansada, quase como se não tivesse dormido a noite toda. Havia manchas escuras sob os olhos e os braços pendiam sem vida em seus lados. — Ainda assim, foi um pouco inesperado. — Fiz uma pausa. — E ainda assim assustador. Dee esfregou seus olhos. — Eu queria falar com você... — Ela parou. — Ok, eu... Preciso de um momento. Ela assentiu e recostou a cabeça contra as almofadas pálidas, fechando seus olhos. Depois de uma rápida olhada no quarto de visitas deles, eu fui para o banheiro. Eu encontrei minha escova de dentes, além de outras coisas pessoais na pia que eu tinha pego da minha casa quando Daemon tinha me trazido de volta. Liguei a água, até que foi abafando todo o som ao meu redor. Eu terminei de escovar os dentes e comecei a lavar meu rosto. Um olhar no espelho me disse que eu não parecia mais descansada do que Dee parecia. Eu parecia o inferno. Meu cabelo estava uma bagunça. Havia uma linha vermelha gravada em toda a minha bochecha,


como uma pequena cicatriz. Eu coloquei minhas mãos sob a água quente, espirrando em meu rosto. O arranhão queimou. Engraçado como uma pequena faísca de dor desencadeou algo mais poderoso do que a dor passageira que causou. Memórias da noite passada caíram por mim. Eu me lembrava de tudo. E me senti tonta. — Oh meu Deus. — Segurei o mármore frio da pia até que meus dedos latejavam. — Minha melhor amiga é um extraterrestre. — Girando, eu me joguei para abrir a porta. Dee estava do outro lado, suas mãos cruzadas atrás das costas. — Você é um alienígena. Ela assentiu com a cabeça lentamente. Olhei para ela. Talvez eu devesse sentir medo ou mais confusão, mas não foi o que queimou dentro de mim. Curiosidade. Intriga. Dei um passo para frente. — Faça. — Fazer o quê? — A coisa estranha da luz. — Eu disse. Os lábios de Dee se abriram em um largo sorriso. — Você não tem medo de mim? Eu balancei minha cabeça. Como eu poderia ter medo de Dee? — Não. Quer dizer, eu estou um pouco encantada com tudo, mas você é uma alienígena. Isso é legal. Esquisito, mas definitivamente no lado legal das coisas. Seu lábio tremeu. Lágrimas transformaram seus olhos em joias brilhantes. — Você não me odeia? Eu gosto de você, e eu não quero que você me odeie ou tenha medo de mim. — Eu não te odeio. Dee se moveu para frente, se mexendo mais rápido do que os olhos humanos podiam registrar. Ela me deu um abraço surpreendentemente forte e me puxou para trás, fungando. — Eu estava tão preocupada durante toda a noite, especialmente por Daemon se recusar a me deixar falar com você. Tudo em que eu conseguia pensar era que eu tinha perdido minha melhor amiga. — Ela ainda era a mesma Dee, alienígena ou não. — Você não me perdeu. Eu não vou a lugar nenhum. Um segundo depois, ela me apertou forte. — Okay. Eu estou morrendo de fome. Se troque e eu vou fazer café da manhã para nós. Ela desapareceu do quarto em um piscar de olhos. Isso levaria algum tempo para eu me acostumar. Eu agarrei a muda de roupa que trouxe ontem à noite depois de dizer a minha mãe que iria dormir na casa de Dee. Troquei-me rapidamente e em seguida, desci as escadas. Dee já estava fazendo café da manhã e conversando em seu telefone celular. O tinido das panelas e a atração suave de água corrente abafava a maior parte do que ela estava dizendo. Fechando o telefone, ela se virou. Então, ela estava em frente a mim, me puxando para a mesa da cozinha. — Quando tudo aconteceu ontem à noite, tudo que eu conseguia pensar é que você devia achar que somos um bando de malucos. — Bem... — Eu comecei. — Você com certeza não é normal. Ela deu uma risadinha. — Sim, mas normal é tão chato às vezes. Eu me encolhi com sua escolha de palavras e fui puxar a cadeira. Esta se moveu antes que eu


pudesse tocá-la, deslizando para trás alguns centímetros. Assustada, olhei para cima. — Você? Dee sorriu. — Bem, isso foi muito útil. — Me sentei devagar, esperando que ela não se movesse novamente. — Então você é tão rápida quanto a luz? — Acho que nós podemos ser um pouco mais rápidos. — Ela apareceu no fogão, colocou a mão sobre a frigideira que imediatamente começou a crepitar sob a palma da sua mão. Por cima do ombro, ela sorriu. O fogão não estava ligado, mas o cheiro de bacon cozido encheu o ar. Eu me inclinei para frente. — Como você está fazendo isso? — Calor. — Disse ela. — É mais rápido dessa forma. Leva segundos para que eu frite o bacon. E realmente foram apenas alguns minutos até ela me entregar um prato de ovos e bacon. Entre a movimentação super-rápida e a ajuda do micro-ondas, eu estava começando a ter um caso sério de inveja alienígena. — Então o que Daemon contou ontem à noite? — Ela se sentou, uma montanha de ovos em seu prato. — Ele me mostrou alguns dos seus truques legais de alienígenas. — A comida cheirava deliciosa e eu estava morrendo de fome. — Obrigada pelo café da manhã, alias. — De nada. — Ela puxou o cabelo para cima em um coque bagunçado. — Você não tem ideia de quão difícil tem sido fingir ser algo que não somos. É uma das razões pelas quais não temos um monte de amigos que são... Humanos. É por isso que Daemon é todo ‘humano é igual a nenhum amigo’ ou qualquer outra coisa assim. Eu brinquei com o garfo enquanto ela devorava metade do seu prato em segundos. — Bem, agora você não tem que fingir. Os olhos dela se levantaram, brilhando. — Quer saber de uma coisa legal? Vindo dela, eu só podia imaginar o que seria. — Sim. — Nós podemos ver coisas que humanos não podem. Como a energia de tudo o que você coloca ao seu redor. Acho que as pessoas de idade chamam de auras ou qualquer outra coisa. Ela representa a sua energia, ou alguns podem chamá-la de força vital. Isso muda quando suas emoções mudam ou se estão se sentindo doentes. Meu garfo parou a meio caminho da minha boca. — Você pode ver a minha agora? Ela balançou a cabeça. — Você tem um rastro em torno de você agora. Eu não posso ver sua energia, mas era um rosa pálido quando te conheci, o que parece normal. Costumava ficar realmente vermelha quando você falava com Daemon. — Vermelho provavelmente representava raiva. Ou luxúria. — Mas eu não sou boa em lê-las. Alguns poderes vêm mais facilmente para outros, mas Matthew é o melhor em leitura de energias. — O quê? — Eu deixei cair o meu garfo. — Nosso professor de biologia é um alienígena? Merda... Tudo em que eu posso pensar é no filme Prova Final. — Mas fazia sentido, a forma que ele


agiu quando viu Daemon e eu juntos, os olhares estranhos em sala de aula. Dee engasgou com o suco de laranja. — Nós não dissecamos corpos. Eu esperava que não. — Uau. Então, vocês têm tarefas normais. — Sim. — Saltando de sua cadeira, ela olhou para a porta. — Quer ver no que eu sou boa? Quando eu balancei a cabeça, ela se mudou de volta da mesa e fechou os olhos. O ar ao seu redor parecia cantarolar baixinho. Um segundo depois, ela passou de adolescente a uma forma feita de luz e, em seguida, um lobo. — Hum... — Eu limpei minha garganta. — Eu acho que eu descobri como a lenda dos lobisomens começou. Ela caminhou até mim e cutucou a minha mão com o nariz quente. Insegura do que eu deveria fazer, eu afaguei o topo de sua cabeça peluda. O lobo soltou um latido que parecia mais uma risadinha e depois recuou. Alguns segundos depois era Dee novamente. — E isso não é tudo. Olhe. — Ela balançou seus braços. — Não se desespere. — Tudo bem. — Eu apertei o meu copo de suco. Fechando os olhos, seu corpo desapareceu na luz e, em seguida, ela se tornou alguém totalmente diferente. Cabelo castanho claro caiu dos ombros e seu rosto estava um pouco pálido. Sobrancelhas arqueadas sobre grandes olhos de corça, e seu lábios cor de rosa formaram um meio sorriso. Era mais baixa, com uma aparência um pouco mais normal. — Eu? — Eu rangia. Eu estava olhando para mim. — Ei. — Dee-como-eu me disse. — Você pode nos diferenciar? Coração batendo forte, eu comecei a me levantar, mas não fiz isso. Minha boca se movia, mas as palavras não saíam. — Isso é... Estranho. — Eu olhava. — O meu nariz realmente é assim? Vire-se. — Ela fez. Eu dei de ombros. — Meu bumbum não parece ruim. A réplica exata de mim riu e, em seguida, desapareceu. Por um momento eu pude ver o contorno de um corpo, mas eu podia ver a luz do centro. Um segundo depois, ela era Dee. Ela sentou-se novamente. — Eu posso parecer com qualquer um exceto o meu irmão. Quero dizer, eu posso parecer como ele, mas isso seria nojento. — Ela estremeceu. — Todos nós podemos mudar, mas eu posso manter a forma por uma eternidade. A maioria de nós só pode imitar por alguns minutos no máximo. Seu peito se encheu de orgulho. — Vocês já fizeram isso? Ser alguém diferente perto de mim? Ela balançou a cabeça. — Daemon teria um ataque se ele soubesse que eu fiz isso. Não deixa um enorme rastro em você, mas você tem todos os tipos agora, por isso não importa. — Então Daemon pode fazer isso também? Se transformar em um canguru se ele quisesse? Dee riu. — Daemon pode fazer qualquer coisa. Ele é um dos mais poderosos de nós. A maioria de nós pode fazer uma ou duas coisas facilmente, o resto é uma luta. Tudo é fácil para ele. — Ele é tão incrível. — Eu murmurei. — Uma vez ele realmente mudou a casa um pouco. — Disse Dee, torcendo o nariz. — Ele quebrou


totalmente a fundação. Oh Jesus... Eu tomei um gole do meu suco. — E o governo não sabe que você pode fazer qualquer uma dessas coisas? — Não. Pelo menos, não acho que eles saibam. — disse Dee. — Nós sempre escondemos nossas habilidades. Sabemos que iria assustar os humanos saber que podemos fazer essas coisas. E também sabemos que as pessoas iriam tirar proveito disso. Portanto, tente não se expor. Eu estava absorta tomando outro gole. Meu cérebro parecia a dois segundos de explodir. — Então, por que vocês vieram aqui? Daemon disse que algo aconteceu com seu planeta. — Sim, algo aconteceu. — Dee pegou os pratos e os levou para a pia. Ela estava de costas rígida enquanto ela limpava os pratos. — Nosso planeta foi destruído pelos Arum. — Os Arum? — Então, eu entendi. — Escuros? Certo? São aquelas pessoas que saem por aí para roubar suas habilidades? — Sim. — Ela olhou por cima do ombro, balançando a cabeça. — Eles são nossos inimigos. Praticamente os únicos inimigos dos Luxen além de seres humanos, se eles decidirem parar de ser amigáveis com a gente por estarmos aqui, eu acho. Os Arum são como nós, só que o oposto, vindo de nosso planeta irmão. Eles destruíram nossa casa. Minha mãe costumava me contar uma história de ninar que, quando o universo foi formado foi preenchido com a mais pura luz, brilhando tão brilhantemente que deixou as sombras invejosas. Os Arum são os filhos das sombras, ciumentos e determinados a sufocar toda a luz do universo, sem perceber que para um existir o outro também deve existir. Muitos Luxen sentem que cada vez que um Arum é morto, uma luz se apaga no universo. É a única coisa que me lembro sobre minha mãe. — E os seus pais morreram nesta guerra? — Eu perguntei, então imediatamente me arrependi de perguntar. — Sinto muito. Eu não deveria ter perguntado isso. Dee parou de lavar os pratos. — Não, está tudo bem. Você deve saber, mas eu não quero assustar você. Eu não sabia como a morte de seus pais poderia me assustar, mas eu tinha começado a me sentir alarmada com o que eu poderia descobrir. — Existem Arum aqui. O governo acha que eles são Luxen. Temos que deixar assim ou há uma chance de o DOD descobrir nossos poderes através dos Arum. — Dee me enfrentou, colocando as mãos na borda da pia. — E agora, você é como um farol para eles. Sem apetite, eu empurrei o meu prato. — Existe alguma maneira de tirar o rastro? — Isso vai desaparecer ao longo do tempo. — Dee forçou um sorriso. — Até então, seria bom ficar perto de nós, especialmente de Daemon. Não era a melhor das ideias. Mas poderia ser pior. — Ok, então desaparece... Eventualmente. Eu posso lidar com isso, se esse é meu único problema. — Não é. — Disse ela. — Precisamos ter certeza de que o governo não saiba que você sabe a verdade. Seu trabalho é ter certeza de que não está nos expondo. Você pode imaginar o que aconteceria se a população humana souber que existimos? Imagens de tumultos e saques brilharam na minha cabeça, que era como nós reagíamos a tudo a que não entendemos. — E eles vão fazer de tudo para ter certeza de que permaneçamos em segredo. — Olhos de Dee


bloquearam os meus. — Você nunca pode contar a ninguém, Katy. — Eu não faria isso. Eu nunca faria isso. — As palavras correram de mim. — Eu nunca trairia qualquer um de vocês assim. — E eu quis dizer isso. Dee era como uma irmã para mim. E Daemon era... Bem, ele era o que era, mas eu nunca iria trai-los. Não depois de confiarem em mim com algo tão incrível. — Eu não vou dizer a ninguém. Dee se ajoelhou ao meu lado e ela colocou a mão sobre a minha. — Confio em você, mas não podemos deixar o DOD descobrir sobre você, porque se eles descobrirem, então você vai desaparecer.


18 — Katy, você tem estado tão quieta hoje. No que está pensando? Eu estremeci, desejando que minha mãe não me conhecesse tão bem. — Eu só estou cansada. — Eu forcei um sorriso por ela. — Você tem certeza que isso é tudo? Culpa correu por mim. Eu raramente passo um tempo com a minha mãe, e eu desejei que eu não estivesse distraída. — Sinto muito, mamãe. Acho que estou um pouco fora do ar hoje. Ela começou a lavar os pratos do jantar. — Como estão as coisas com o Daemon e Dee? Nós passamos o dia todo sem falar sobre eles. — Eles estão indo muito bem. Eu acho que vou assistir a um filme com eles mais tarde. Ela sorriu. — Você vai sair com os dois? Eu estreitei meus olhos. — Mãe, por favor. — Querida, eu sou sua mãe. Eu tenho o direito de perguntar. — Eu não tenho certeza, realmente. Eu nem sei se iremos. Foi só uma ideia. — Eu peguei uma maçã da fruteira e dei uma mordida. — O que você irá fazer essa noite, mamãe? Ela tentou parecer indiferente. — Eu vou sair e tomar um café com o Sr. Michaels hoje à noite. — Sr. Michaels? E quem é ele? — Eu perguntei entre mordidas. — Espere. É aquele médico bonito do hospital? — Sim, o primeiro e único. — É um encontro? — Me encostei no balcão, sorrindo atrás da maçã. — Vai Mãe. Minha mãe corou e ruborizou. — É apenas um café. Não é um encontro. Isso explicava por que ela estava escolhendo vestidos hoje, indo tão longe como me fazer escolher pelo menos duas das coisas bonitas de seu armário. — Bem, eu espero que você se divirta no seu não-encontro, mas que soa como um encontro. — Sorrindo, ela continuou tagarelando sobre seus planos para a noite e, em seguida, sobre um paciente que teve ontem. Antes de sair para se arrumar, ela me trouxe um par de vestidos que ela tinha encontrado na parte de trás de seu armário. — Bem, se você sair hoje à noite, por que não usa um desses? Você vai parecer muito bem neles. Eles sempre pareceram muito jovens para que eu vestisse. Meu nariz amassou. — Mãe, não sou eu quem tem um encontro hoje à noite. Ela zombou. — Eu também não. — Que seja! — Eu gritei enquanto corria pelas escadas.


Não demorou muito tempo para ela se arrumar e sair. Como não era tecnicamente um encontro, ela foi encontrá-lo em um pequeno restaurante na cidade. Eu esperava que ela se divertisse, ela merecia. Desde que meu pai tinha falecido, eu não acho que ela tinha sequer olhado duas vezes para um cara. O que significava que o Sr. Michaels devia ser especial. Além de Dee mencionar que nós deveríamos ficar juntos, não havia quaisquer planos para a noite. Eu sabia que Daemon estava de olho em mim o dia todo, mas eu me recusei a deixá-lo passar na minha casa. Eles haviam me contado que os Arum eram mais fortes durante a noite e preferiam atacar em seguida. Eu me senti muito segura durante o dia. Eu queria passar um dia normal de leitura e blogando e ficar com a minha mãe. Mas era estranho fazer coisas normais depois de saber um grande segredo. Senti como se eles devessem estar lá fora parando acidentes, curando a fome no mundo e salvando gatinhos presos em árvores. Jogando o resto da maçã no lixo, eu brincava com o anel no meu dedo quando eu olhei os vestidos em cima da mesa. Eu não iria usá-los em algum momento em breve. Uma batida forte na porta dos fundos me tirou dos meus pensamentos. Eu abri a porta e Daemon estava parado ali. Mesmo vestido com jeans casual e uma camisa branca que estava apertada contra seu corpo superior, ele parecia totalmente magnífico. Era inquietante. E o que era ainda mais irritante era a maneira que ele estava lá e olhava para mim. Seu olhar de jade brilhante era intenso e desejoso. — Ei. — Eu disse. Ele acenou com a cabeça, me dando nenhuma pista de seu tipo de humor. Oh cara. — Hum, você quer entrar? Ele balançou a cabeça. — Não, eu pensei que talvez pudéssemos fazer algo. — Fazer alguma coisa? Diversão brilhou em seus olhos. — Sim. A menos que você tenha uma resenha para publicar ou um jardim que precise de cuidados. — Ha. Ha. — Eu comecei a fechar a porta na cara dele. Ele jogou a mão, facilmente interrompendo sem tocá-la. — Certo. Me deixe tentar novamente. Gostaria de fazer alguma coisa comigo? Não de verdade, mas eu estava curiosa. E uma parte de mim estava começando a compreender porque Daemon era tão distante. Talvez, apenas talvez, nós poderíamos fazer isso sem querer matar um ao outro. — O que você tem em mente? Daemon se afastou da casa e deu de ombros. — Vamos para o lago. — Vou olhar a estrada antes de atravessar desta vez. — Eu o segui, evitando o seu olhar divertido. Enfiei as mãos nos bolsos da minha bermuda e decidi não brigar. — Você não está me levando à floresta porque mudou de ideia e decidiu que seu segredo não está seguro comigo, está? Daemon explodiu em gargalhadas. — Você é muito paranoica. Eu bufei. — Ok, isso vindo de um alienígena que aparentemente pode me jogar ao céu sem me tocar


— Você não se trancou em algum quarto ou ficou balançando em algum canto, né? Revirei os olhos e comecei a andar novamente. — Não Daemon, mas obrigada por ter certeza de que eu sou mentalmente sã e tudo mais. — Ei. — Ele ergueu as mãos. — Eu preciso ter certeza que você não vai enlouquecer e potencialmente contar a toda a cidade o que somos. — Eu não acho que você precise se preocupar com isso por várias razões. — Eu respondi secamente. Daemon me deu um olhar aguçado. — Você sabe quantas pessoas temos tido perto? Quero dizer, realmente perto? — Eu fiz uma careta. Não era difícil imaginar o que ele quis dizer. Estranhamente, eu achei que não gostaria dessas imagens. Sua risada era profunda e gutural. — Então, uma menina vai e nos expõe. Você pode ver como é difícil para mim... Confiar? — Eu não sou uma menina, mas se eu pudesse voltar no tempo e fazer tudo de novo eu não teria pisado na frente daquele caminhão. — Bem, isso é bom saber. — Ele respondeu. — Mas eu não me arrependo de descobrir a verdade. Isso explica muito. Espere, você pode voltar no tempo? — Eu perguntei a sério. A possibilidade não passou pela minha cabeça antes, mas agora eu sinceramente me perguntei. Daemon suspirou e balançou a cabeça. — Nós podemos manipular o tempo, sim. Mas não é algo que nós fazemos, e só vai para frente. Pelo menos eu nunca ouvi falar de alguém ser capaz de dobrar o tempo para o passado. Meus olhos pareciam como se fossem sair da cabeça. — Jesus, vocês fazem Superman parecer estúpido. Ele sorriu quando baixou a cabeça para evitar um galho baixo. — Bem, eu não vou contar qual a nossa criptonita. — Posso te fazer uma pergunta? — Eu perguntei depois de alguns minutos de caminhada ao longo da trilha coberta de folhas. Quando ele acenou com a cabeça, respirei fundo. — A garota Bethany que desapareceu, ela estava envolvida com Dawson, certo? Ele me cortou com um forte olhar de soslaio. — Sim. — E ela descobriu sobre vocês? Vários segundos se passaram antes que ele respondesse. — Sim. Olhei para ele novamente. Seu rosto estava impassível, enquanto olhava para frente. — E é por isso que ela desapareceu? Novamente, se passou um intervalo de silêncio. — Sim. Ok. Ele só ia me dar respostas de uma só palavra. Ótimo. — Ela contou a alguém? Quero dizer, por que ela... Teve que desaparecer? Daemon suspirou profundamente. — É complicado, Kat. Complicado significava um monte de coisas. — Ela está... Morta?


Ele não respondeu. Eu parei, tirando uma pedra de forma estranha da minha sandália. — Você simplesmente não vai me contar? Ele sorriu para mim com irritante facilidade. — Então, por que você quis vir aqui? — Eu balancei a rocha e coloquei minha sandália de volta. — Porque é divertido para você ser tão evasivo? — Bem, é divertido ver seu rosto ficar todo rosa quando você está frustrada. Eu olhei para ele. Daemon sorriu e começou a andar novamente. Nós não conversamos mais até chegarmos ao lago. Ele foi até a borda e olhou para trás, onde eu parei alguns metros atrás dele. — Além do fato de que eu goste de observar você ficar irritada, achei que teria mais perguntas. — Bem, era doente que ele gostasse de me irritar. Ainda mais doente é que eu gostava de vê-lo irritado, também. — Eu tenho. — Algumas eu não vou responder. Algumas eu vou. — Daemon fez uma pausa, parecendo pensativo. — Podemos muito bem tirar todas as suas dúvidas. Então, nós não teremos nenhum motivo para falar sobre isso de novo, mas você vai ter que trabalhar nessas perguntas. Nunca falar sobre o fato de que eles eram alienígenas? Ha. Certo. — O que eu tenho que fazer? — Me encontre sobre a rocha. — Ele voltou para o lago e tirou seus sapatos. — O quê? Eu não estou usando um maiô. — Então? — Ele se virou, sorrindo. — Você quase podia se despir— Não vai acontecer. — Eu cruzei os braços. — Percebi. — Respondeu ele. — Você nunca nadou sem roupas antes? Sim. Quem não? Mas não estava tão quente. — Por que temos que ir nadar para que eu faça as perguntas? Daemon olhou para mim um momento, depois baixou os cílios, abanando suas bochechas. — Não é para você, mas para mim. Parece uma coisa normal a fazer. — As pontas de suas maçãs do rosto ficaram rosa no sol. — O dia em que fomos nadar? — Sim. — Eu disse, dando um passo à frente. Ele olhou para cima, seus olhos encontrando os meus. O verde agitando lentamente, dando a ele uma aparência de vulnerabilidade. — Você se divertiu? — Quando você não estava sendo um idiota e se eu ignorar o fato de que você foi obrigado, então sim. Um sorriso puxou seus lábios enquanto ele desviou o olhar. — Eu me diverti mais naquele dia do que eu posso me lembrar. Eu sei que soa estúpido, mas— Não é estúpido. — Meu coração balançou. Ao mesmo tempo, eu meio que entendia melhor. Debaixo de tudo, acho que ele queria ser normal. — Ok. Vamos fazer isso. Só não mergulhe embaixo d'água por cinco minutos. Daemon riu. — Feito. Tirei minhas sandálias, enquanto ele tirava a camisa. Tentei não olhar para ele, especialmente


porque ele estava me observando como se ele esperasse que eu mudasse de ideia. Lançando lhe um rápido sorriso, eu pisei até na beira da água e mergulhei meus dedos dentro. — Oh meu Deus, a água está fria! Ele piscou para mim. — Observe. — Seus olhos assumiram um brilho estranho, todo o seu corpo vibrando e quebrando em uma bola de fogo de luz... Que voou para o céu e mergulhou em linha reta, iluminando o lago como uma piscina de luz. Ela voou pelas pedras até o centro, pelo menos uma dúzia de vezes em alguns segundos. Exibido. — Poderes alienígenas? — Eu perguntei, meus dentes batendo. Água saiu de seu cabelo enquanto ele se inclinava sobre a borda da rocha, estendendo a mão. — Venha, está um pouco mais quente agora. Rangendo os dentes, em preparação para entrar na água gelada, fiquei chocada ao descobrir que sua temperatura não estava tão ruim. Não estava quente, mas não estava mais gelada. Pisando em todo o caminho, eu caminhei até as rochas. — Qualquer outro poder legal? — Eu posso fazer isso de um jeito que você não possa nem mesmo me ver fazendo. Peguei a mão dele, e ele me puxou para dentro da água e na rocha, roupas molhadas e tudo o mais. Ele soltou, realizando manobras de volta. Tremendo, recebi o calor da rocha ensolarada. — Como você pode fazer as coisas sem que eu veja? Me recostando nos cotovelos, ele parecia afetado pelo mergulho frio. — Nós somos feitos de luz. Podemos manipular os diferentes espectros em torno de nós e usá-los. É como se estivéssemos quebrando a luz, se isso faz algum sentido. — Na verdade não. — Eu precisava prestar mais atenção na aula de ciências. — Você já viu me transformar em meu estado natural, não é? — Quando eu balancei a cabeça, ele foi adiante. — E eu meio que vibro até que eu quebre em pequenas partículas de luz. Bem, eu posso seletivamente eliminar a luz, o que nos permite ser transparente. Eu puxei meus joelhos para o meu peito. — Esse é bem legal, Daemon. Ele sorriu para mim, mostrando uma covinha na bochecha antes que ele voltasse à rocha, cruzando as mãos atrás da cabeça. — Eu sei que você tem perguntas. Pergunte. Eu tinha tantas perguntas que eu não tinha certeza por qual começar. — Vocês acreditam em Deus? — Ele parece ser um cara legal. Eu pisquei, não tendo certeza se ria ou não. — Vocês têm um Deus? — Lembro-me de que havia algo como uma igreja, mas isso é tudo. Os mais velhos não falam sobre qualquer religião. — Disse ele. — Então, de novo, não vemos mais os velhos. — O que você quer dizer com "velhos"? — A mesma coisa que você quer dizer. Uma pessoa idosa. — Eu fiz uma careta para ele. Ele sorriu. — Próxima pergunta? — Por que você é tão idiota? — As palavras saíram antes que eu pudesse pensar duas vezes. — Todo mundo tem que se destacar em alguma coisa, né?


— Bem, você está fazendo um ótimo trabalho. Seus olhos se abriram, encontrando os meus por um segundo antes de fechar. — Você não gosta de mim, não é? Eu hesitei. — Não é que eu não goste de você, Daemon. Você é difícil... De gostar. É difícil entender você. — Você também, — Disse ele, com os olhos fechados, o rosto relaxado. — Você aceitou o impossível. Você é gentil com a minha irmã e para mim, apesar de eu admitir que tenho sido um idiota com você. Você poderia ter corrido direto para sua casa ontem e contar ao mundo sobre nós, mas você não fez. E você não aceita nenhuma das minhas merdas. — Acrescentou com uma risada suave. — Eu gosto disso em você. Uau. Espere. — Você gosta de mim? — Próxima pergunta? — Disse. — Vocês estão autorizados a namorar humanos? Ele deu de ombros. — ‘Autorizados’ é uma palavra estranha. Isso acontece? Sim. É aconselhado? Não. Então, podemos, mas qual seria a vantagem? Não é como se nós pudéssemos ter uma relação duradoura quando temos que esconder o que somos. — Então, vocês são como nós em outros, uh, departamentos? Daemon se sentou, arqueando uma sobrancelha. — O que? Senti meu rosto corar. — Você sabe, como sexo? Quero dizer, vocês são brilhantes e outras coisas. Eu não vejo como certas coisas iriam funcionar. Os lábios de Daemon se curvaram em um meio sorriso, o que foi a única advertência que ele deu. Se movendo incrivelmente rápido, eu estava deitada e ele estava acima de mim em um flash. — Você está perguntando se eu fico atraído por garotas humanas? — Ele perguntou. Ondas molhadas de cabelo escuro dele caíram para frente. Gotículas de água caíram nos lados, espirrando contra minha bochecha. — Ou você está perguntando se eu estou atraído por você? Usando as mãos, ele se abaixou lentamente. Não havia um centímetro de espaço entre nossos corpos. Ar fugiu de meus pulmões com o contato de seu corpo contra o meu. Ele era do sexo masculino e mais forte em todos os lugares onde eu era suave. Estar tão perto dele era surpreendente, causando uma série de sensações através de mim. Eu estremeci. Não por causa do frio, mas de quão sexy e maravilhoso ele parecia. Eu podia sentir cada respiração que ele tomou, e quando ele mexeu seus quadris, meus olhos se alargaram e eu engasguei. Ah, sim, certas coisas definitivamente funcionavam. Daemon rolou de cima de mim, de costas ao meu lado. — Próxima pergunta? — Ele perguntou, a voz profunda e grossa. Eu não me mexi. Olhei com os olhos arregalados para o céu azul. — Você poderia ter apenas me dito, sabe? — Eu olhei para ele. — Você não tem que me mostrar. — E que graça haveria em dizer a você? — Ele virou a cabeça para mim. — Próxima pergunta, Gatinha? — Por que você me chama assim?


— Você me lembra um gatinho felpudo, cheio de garras, mas não morde. — Ok, isso não faz sentido. Ele deu de ombros. Eu juntei meus pensamentos dispersos para outra pergunta. Eu tinha tantas, mas ele tinha totalmente queimado minha linha de pensamento em pedacinhos. — Você acha que existem mais Arum por aí? Só uma simples sugestão de emoção cruzou seu rosto. Ele inclinou a cabeça para trás, me estudando. — Eles estão sempre por perto. — E eles estão caçando vocês? — É a única coisa que lhes interessa. — Ele voltou a olhar para o céu. — Sem os nossos poderes, eles são como seres humanos... Mas cruéis e imorais. Eles são a destruição final e tudo mais. Engoli em seco. — Você já lutou... Com um monte deles? — Sim. — Ele se virou para o lado, usando sua mão para sustentar a cabeça. Uma mecha de cabelo caiu sobre o olho. — Eu já perdi a conta de quantos eu enfrentei e matei. E com você iluminada como está, mais virão. Meus dedos coçaram para tirar a mecha de cabelo para trás. — Então por que você parou o caminhão? — Você teria preferido que eu te deixasse virar panqueca? Eu não me incomodei nem mesmo a responder isso. — Por que você fez? Um músculo bateu em seu queixo enquanto seu olhar vagou sobre o meu rosto virado para cima. — Honestamente? — Sim. — Você vai me dar pontos de bônus? — Ele perguntou em voz baixa. Segurando minha respiração, eu subi e afastei a mecha de cabelo. Meus dedos mal roçaram sua pele, mas ele deu uma respiração afiada e fechou seus olhos. Eu puxei minha mão, não sabendo por que eu tinha feito isso. — Depende de como você responder a pergunta. Daemon abriu os olhos. As pupilas estavam brancas, estranhamente belas. Ele deitou de costas novamente, com o braço contra o meu. — Próxima pergunta? Juntei minhas mãos, por cima do meu estômago. — Por que usar os poderes deixa um rastro? — Os seres humanos são como camisetas brilhantes no escuro para nós. Quando usamos nossas habilidades em torno de voc��s, vocês absorvem a nossa luz. Eventualmente, o brilho vai se desvanecer, mas quanto mais fazemos, mais energia usamos, mais brilhante fica o rastro. Dee sumindo não deixa muita coisa. O incidente do caminhão e quando eu assustei o urso, isso deixa uma marca visível. Algo mais poderoso, como alguém se curar, deixa um longo rastro. Um fraco, não tão grande pelo que me disseram, mas permanece por mais tempo por algum motivo. Eu deveria ter sido mais cuidadoso em torno de você. — Ele continuou. — Quando eu assustei o urso eu usei uma explosão de luz, que é como uma espécie de laser. Ele deixou um rastro grande o suficiente em você


para o Arum vê-lo. — Você quer dizer a noite em que fui atacada? — Eu sussurrei, minha voz rouca. — Sim. — Ele passou a mão pelo rosto. — Os Arum não aparecem muito por aqui, porque não acham que qualquer Luxen esteja aqui. O quartzo beta nas rochas joga fora a nossa assinatura energética, nos esconde. Essa é uma das razões pelas quais há muitos de nós aqui. Mas deve ter havido um enxergando através das rochas. Ele viu o seu rastro e sabia que tinha que ser um de nós nas proximidades. Foi minha culpa. — Não foi culpa sua. Não foi você quem me atacou. — Mas eu, basicamente, o levei até você. — Disse ele, a voz firme. No começo eu não conseguia falar. Havia essa horrível sensação de soco-no-estômago que se espalhou para as pontas dos meus dedos e nos dedos do pé. Eu senti o sangue escorrer do meu rosto tão rápido que me deixou tonta. De repente, o que aquele homem dissera fazia sentido. Onde eles estão? Ele tinha ido procurá-los. — Onde ele está agora? Ele ainda está aí? Será que ele vai voltar? O queA mão de Daemon encontrou a minha e apertou. — Gatinha, se acalme. Você vai ter um ataque cardíaco. Meus olhos caíram para nossas mãos. Ele não se afastou. — Eu não vou ter um ataque cardíaco. — Você tem certeza? — Sim. — Eu revirei os olhos. — Ele não é mais um problema. — Disse ele depois de alguns segundos. — Você... Você o matou? — Bem, eu meio que fiz isso. — Você meio que fez? Eu não sabia que existia matar alguém ‘mais ou menos’. — Ok, sim, eu o matei. — Não havia um único pingo de dúvida ou remorso em sua voz, como matar alguém nem mesmo o perturbasse. Eu deveria estar com medo, muito medo dele. Daemon suspirou. — Nós somos inimigos, Gatinha. Ele teria matado eu e minha família depois de absorver nossas habilidades se eu não o parasse. Não só isso, ele teria trazido mais aqui. Outros como nós teriam estado em perigo. Você já esteve em perigo. — E o caminhão? Estou brilhando mais forte agora. — Eu ignorei o aperto em meu estômago. — Haverá outro? — Espero que não haja nenhum por perto. E logo o rastro em você deve desaparecer. Você estará segura. Ele estava guiando o polegar na minha mão em um alfabeto silencioso. Era uma espécie de calmante, reconfortante. — E se não desaparecer? — Então eu vou matá-los também. — Ele não hesitou. — Por algum tempo, você vai precisar ficar perto de mim, até que desapareça o rastro. — Dee disse algo assim. — Mordi o lábio. — Então você não quer que eu fique longe de vocês mais? — Não importa o que eu quero. — Ele olhou para a mão dele. — Mas se fosse do meu jeito, você não ficaria em qualquer lugar perto de nós. Eu respirei fundo, puxando a minha mão livre.


— Puxa, não seja honesto ou qualquer coisa. — Você não entende. — Respondeu Daemon. — Neste momento, você pode levar um Arum direto para minha irmã. E eu tenho que protegê-la. Ela é tudo que me resta. E eu tenho que proteger os outros aqui. Eu sou o mais forte. Isso é o que eu faço. E enquanto você estiver carregando o rastro, eu não quero que você vá a lugar nenhum com Dee se eu não estiver com vocês. Sentando-me, olhei em direção à margem. — Eu acho que é hora de voltar. Seus dedos se apertaram em volta do meu braço. A pele se arrepiou. — Agora você não pode ficar sozinha. Eu preciso estar com você até que o rastro desapareça. — Eu não preciso de você para ser babá. — Meu queixo doía de quão duro eu estava cerrando-o. A coisa toda de ficar longe de Dee me irritava, mas eu entendia. Não significa que as suas palavras não doíam. — Eu vou ficar longe de Dee até que desapareça. — Você ainda não está entendendo. — O aperto não doía, mas eu tinha a sensação de que ele queria me machucar mesmo que eu soubesse que ele nunca faria isso. — Se um Arum pegar você, eles não vão te matar. Aquele na biblioteca, ele estava brincando com você. Ele iria deixá-la de um jeito que você implorasse pela sua vida e, em seguida, a forçaria a levá-lo até um de nós. Eu engoli. — Daemon— Você não tem escolha. Agora, você é um grande risco com o rastro. Você é um perigo para a minha irmã. Eu não vou deixar nada acontecer com ela. Seu amor por sua irmã era admirável, mas não fez nada para parar o fluxo de raiva correndo em minhas veias. — E depois que o rastro desvaneça? Então o quê? — Eu prefiro que você fique bem longe de todos nós, mas eu duvido que isso vá acontecer. E minha irmã se importa com você. — Ele soltou o meu braço e se recostou, se apoiando nos cotovelos. — Contanto que você não acabe com outro rastro, então eu não tenho nenhum problema em você ser amiga dela. Minhas mãos se fecharam em punhos. — Sou muito grata por ter a sua aprovação. Seu meio sorriso não alcançou seus olhos. Seus sorrisos raramente faziam. — Eu já perdi um irmão por causa de como ele se sentia por um ser humano. Eu não vou perder outro. A raiva ainda estava latente em mim, mas suas palavras me chamaram a atenção. — Você está falando sobre seu irmão e Bethany. Houve uma pausa e, em seguida. — Meu irmão se apaixonou por um ser humano... E agora os dois estão mortos.


19 Como se ele tivesse desligado o meu interruptor de cadela, tudo o que eu podia fazer era olhar para ele. Lá estava aquela sensação no meu estomago, que me dizia que eu já sabia essas coisas, mas não queria reconhecer. Deus, ele era um idiota, mas minha raiva acalmou, diminuindo e deixando a incerteza em seu lugar. — O que aconteceu? — Perguntei. Ele estava olhando por cima do ombro, com foco nas árvores atrás de mim. — Dawson conheceu Bethany, e eu te juro, foi como amor à primeira vista. Tudo para ele era sobre ela. Matthew, o Sr. Garrison, o alertou. Eu avisei a ele que não ia dar certo. Não tinha jeito de podermos ter um relacionamento com um ser humano. — Apertando os lábios, ele levou um momento. — Você não sabe o quão difícil é, Kat. Nós temos que esconder o que somos o tempo todo, e mesmo entre a nossa própria espécie, temos de ser cuidadosos. Existem muitas regras. O DOD e os Luxen não gostam da ideia de nos envolvermos com seres humanos. — Ele fez uma pausa, sacudindo a cabeça. — É como se eles pensassem que somos animais, abaixo deles. — Mas vocês não são animais. — Eu disse. Eles definitivamente não eram como nós, mas eles não estavam abaixo de nós. — Sabia que todos os cadastros que fazemos são controlados pelo Departamento de Defesa? — Ele olhou para mim, os olhos perturbados. Zangados. — Carteira de motorista, eles sabem. Se mandarmos aplicação para a faculdade, eles veem. Licença de casamento com um ser humano? Esqueça. Nós até temos um registro que temos que fazer se quisermos nos mudar. Eu pisquei. — Eles podem fazer isso? Ele riu sem graça. — Este é o seu planeta, não nosso. Você mesma disse isso. E eles nos mantém no local através do financiamento de nossas vidas. Nós temos que nos apresentar a eles às vezes, por isso não podemos nos esconder, nem nada. Já que eles sabem que estamos aqui, é isso. Não tendo certeza do que dizer, preferi ficar quieta. Tudo sobre a sua vida parecia controlado. Era assustador e triste. — E isso não é tudo. Espera-se que encontremos outro Luxen, e fiquemos com ele. Alarme percorreu pelo meu sistema. Ele era obrigado a ficar com Ash? Parecia a hora errada para perguntar. E parecia ainda mais errado que eu quisesse perguntar. — Isso não parece justo. — Não é. — Daemon se sentou em um movimento fluido, deixando cair os braços sobre os joelhos dobrados. — É fácil se sentir humano. Eu sei que eu não sou, mas eu quero as mesmas coisas que todos os seres humanos querem. — Ele parou, sacudindo a cabeça. — De qualquer forma, algo aconteceu entre Dawson e Bethany. Eu não sei o quê. Ele nunca me disse. Eles saíram caminhando um sábado e ele voltou tarde, suas roupas rasgadas e cobertas de sangue. Eles estavam mais próximos do que nunca. Se Matt e os Thompsons não suspeitavam antes, eles descobriram então. No fim de semana seguinte, Dawson e Bethany saíram para o cinema. Eles nunca mais voltaram.


Eu fechei meus olhos. — O DOD os encontrou no dia seguinte em Moorefield, seus corpos foram jogados em um campo como lixo. — Sua voz era baixa, áspera. — Eu não consegui dizer adeus. Eles levaram seu corpo antes que eu pudesse vê-lo, por causa do risco de exposição. Quando morremos ou nos machucamos, voltamos à nossa verdadeira forma. Eu sofria por isso – por ele e Dee. — Você tem certeza de que ele está morto... Mesmo, já que você nunca viu o seu corpo? — Eu imagino que um Arum o pegou. Drenou suas habilidades e matou-o. Se ele ainda estivesse vivo, teria encontrado uma maneira de entrar em contato conosco. Ambos os corpos, dele e de Bethany, foram retirados antes que alguém pudesse ver. Seus pais nunca vão saber o que aconteceu com ela. E tudo o que sabemos é que ele deve ter feito alguma coisa que deixou um rastro nela, permitindo que o Arum o encontrasse. Essa é a única maneira. Eles não podem nos sentir aqui. Ele tinha que ter feito algo maior. Meu peito apertou. Eu não poderia imaginar o que ele e Dee tinham sentido. A morte de meu pai tinha sido esperada. Doía saber como sua doença e morte estavam o matando, mas ele não tinha sido assassinado. — Sinto muito. — Eu sussurrei. — Eu sei que não há nada que eu possa dizer. Estou tão triste. Ele se mexeu um pouco, levantando a cabeça para o céu. Em um segundo, a máscara que ele usava escorregou. E lá estava o verdadeiro Daemon. Ainda arrogante, mas havia dor nele, uma vulnerabilidade nas linhas de seu rosto que eu duvidava que alguém já tivesse visto. E, de repente, eu senti como se estivesse invadindo por testemunhar este momento. Ser eu, de todas as pessoas, a ver por baixo das camadas de atitude não pareceu certo. Deveria ter sido alguém que ele se preocupava, alguém importante para ele. — Eu... Eu sinto falta do idiota. — Disse ele asperamente. Meu coração se apertou. A dor em sua voz me desarmou. Sem pensar, eu me virei e estendi a mão, passando os braços ao redor de todo seu corpo muito rígido. Eu o abracei, apertando-o tão firmemente quanto pude. E então eu o deixei ir antes que ele exagerasse e me jogasse para fora da rocha. Daemon ainda não se mexeu. Ele olhou para mim, os olhos arregalados, como se nunca tivesse sido abraçado antes. Talvez os Luxen não acreditassem em abraços. Baixei meu olhar. — Eu sinto falta do meu pai, também. E não fica mais fácil. Sua respiração saiu asperamente. — Dee disse que ele estava doente, mas não o que estava errado com ele. Eu sinto muito... Pela sua perda. A doença não é algo com que estou acostumado. O que foi? Eu contei a ele sobre o câncer do meu pai, o que foi surpreendentemente fácil. E então eu contei sobre coisas melhores, coisas que meu pai e eu compartilhamos antes que ele ficasse doente. Como eu costumava cuidar do jardim com ele e como passávamos as manhãs de sábado procurando por novas plantas e flores na primavera. E ele compartilhou lembranças de Dawson. A primeira vez que subiu as rochas do Seneca e a vez em que Dawson havia se transformado em outra pessoa e não conseguia descobrir como mudar de volta. Ficamos lá, de alguma forma encontrando uma paz em falar sobre eles até que o sol começou a desvanecer e a pedra perdeu seu calor. E era só eu e ele, na penumbra, olhando para as estrelas enchendo o céu.


Eu estava relutante em sair, não porque a água estaria fria, mas porque eu sabia, eu sabia, que este pequeno pedaço do mundo que criamos, onde nós não estávamos discutindo ou odiando um ao outro, não iria durar. Parecia que Daemon... Precisava de alguém para conversar, e aconteceu de eu estar aqui. Fiz as perguntas certas. E foi o mesmo para mim. Ele estava aqui. Pelo menos, isso é o que eu estava dizendo a mim mesma, porque eu sabia que amanhã não seria diferente da semana anterior. Tínhamos que voltar para o mundo real. E Daemon desejando que nunca tivesse me conhecido. Nenhum de nós falou até que já estávamos na minha varanda. A luz estava acesa na sala de estar, por isso, quando eu falei, mantive minha voz baixa. — O que acontece agora? As mãos de Daemon eram punhos ao seu lado enquanto ele desviou o olhar, sem responder. Comecei a me virar, mas no tempo que levou para eu piscar os olhos, Daemon já tinha ido embora.

— Você não fez nada no Dia do Trabalho? — Lesa apontou para Carissa atrás dela. — Você vive uma vida tão emocionante quanto Carissa. Carissa revirou os olhos quando ela endireitou os óculos. — Nem todos nós temos pais que nos levam para um rápido fim de semana na Carolina do Norte. Nós não somos tão legais quanto você. Não era como se eu pudesse contar que tive um fim de semana emocionante, que envolvia quase ser atropelada por um caminhão e provar a existência da vida extraterrestre, então eu dei de ombros e rabisquei no meu caderno. — Só fiquei em casa. — Eu posso ver o porquê. — Lesa inclinou o queixo para a frente da sala de aula. — Eu ficaria também se eu morasse ao lado daquilo. — Você deveria ter nascido homem. — Carissa observou, e eu escondi um sorriso. Aquelas duas eram um tumulto, uma tão reprimida quanto a outra era corajosa. Eu sempre me sentia como se estivesse assistindo a um jogo de tênis insano entre o anjo no meu ombro esquerdo e o diabo no meu ombro direito. Mas eu não precisava olhar para cima para ver que elas estavam falando de Daemon. Eu mal consegui dormir na última noite. A única coisa que eu tinha certeza de que aconteceria na terça de manhã, é que eu não agiria diferente. Eu o ignorei, que era o que eu fazia antes de descobrir que ele era de longe, muito longe. E funcionou direito até que ele se sentou atrás de mim e eu senti sua caneta cutucando as minhas costas. Lentamente, eu soltei a minha caneta e casualmente me virei. — Sim? Os cílios baixaram, mas não antes que eu visse o brilho nos seus olhos. — Minha casa. Depois da escola. A ingestão audível da respiração de Lesa foi um pouco embaraçosa. Eu sabia que tinha que sair com Daemon até que esse maldito rastro desaparecesse, mas eu não


tinha que receber ordens. — Eu tenho planos. Sua cabeça se moveu um centímetro para o lado. — Me desculpe? Uma parte pequena, a parte malvada de mim se deleitava com a sua surpresa. — Eu disse que eu tenho planos. Um segundo de silêncio se passou, e então ele sorriu. Não foi tão devastador quanto eu esperava, mas bem perto. — Você não tem planos. — Como você sabe? — Eu sei. — Bem, você está errado. — Ele não estava. Eu não tenho nenhum plano. Seu olhar deslizou para as meninas. — Ela vai sair com alguma de vocês depois da escola? Carissa abriu a boca, mas Lesa cortou. — Não. Alguns amigos. — Talvez eu não fosse sair com elas. Daemon inclinou a mesa para frente, fechando o espaço entre nós. — Além delas e Dee, que outros amigos você tem? Dei-lhe um olhar de morte. — Tenho outros amigos. — Sim, fale um. Caramba. Ele percebeu minha mentira. — Ok. Que seja. Ele me deu um sorriso sexy e se recostou na cadeira, batendo sua caneta na mesa. Dando-lhe mais um olhar de puro ódio, eu me virei de volta. Sim, nada havia mudado.

Daemon me seguiu até em casa depois da escola. Literalmente. Ele me seguiu em sua nova SUV Infiniti. Meu velho Camry, com seu escapamento furado e alto silenciador, não era páreo para as velocidades que ele queria ir. Eu o freei várias vezes. Ele tinha explodido sua buzina. Isso me fez sentir quente e furiosa por dentro. Assim que saí do meu carro, ele estava bem na frente do lado do motorista. — Jesus! — Eu esfreguei meu peito. — Você poderia, por favor, parar com isso? — Por quê? — Ele inclinou a cabeça para baixo. — Você sabe sobre nós agora.


— Sim, mas isso não significa que você não pode andar como um ser humano normal. E se a minha mãe te visse? Ele sorriu. — Eu iria fazê-la acreditar que estava vendo coisas. Eu desviei dele. — Vou jantar com a minha mãe. Daemon apareceu na minha frente, me fazendo gritar. Eu balancei até ele, mas ele se mudou para o lado. — Deus! Eu acho que você gosta de fazer isso para me irritar. — Quem? Eu? — Seus olhos estavam arregalados com inocência. — Que horas é o jantar? — Seis. — Eu subi os degraus. — E você não está convidado. — Como se eu quisesse jantar com você... — Ele respondeu. Eu virei sem olhar para trás. — Você tem até 06:30 para estar na casa ao lado, ou eu vou vir atrás de você. — Sim. Sim. — Entrei sem olhar para trás. Mamãe estava em pé ao lado da janela da sala, segurando um retrato que ela estava espanando. Era a sua foto favorita de nós. Ela parou um adolescente aleatório e pediu-lhe para tirar uma foto nossa quando estávamos na praia. Um simples sorriso dela e o garoto não pôde deixar de obedecer. Eu lembrei da vergonha por ela ter parado o menino. Parecia mal-humorada ao lado dela, deslocada e frustrada. Eu odiava essa foto. — Há quanto tempo está aí? — Apenas o tempo suficiente para vê-la dar a Daemon o dedo do meio. — Ele mereceu. — Resmunguei, derrubando a minha mochila no chão. — Eu vou lá depois do jantar. Ela torceu o nariz. — Algo que eu queira saber? Eu suspirei. — Nem em um milhão de anos.

Quando apareci na casa ao lado, às 06:34, parecia que a III Guerra Mundial tinha irrompido na casa. Eu me convidei a entrar, já que ninguém respondeu a maldita porta. — Eu não consigo acreditar que você comeu todo o sorvete, Daemon! Eu me encolhi e parei dentro da sala de jantar. Não tinha jeito de entrar naquela cozinha. — Eu não comi tudo isso. — Ah, então ele comeu a si mesmo? — Dee gritou tão alto que eu pensei ter ouvido as vigas do teto tremendo. — Será que a colher comeu? Oh, espere, eu sei. A embalagem comeu. — Na verdade, eu acho que o congelador comeu. — Daemon respondeu secamente. Sorri quando ouvi o que parecia ser o recipiente vazio batendo no que eu desconfiei que fosse


Daemon. Virando-me, voltei para a sala e olhei em volta até que ouvi passos atrás de mim. Daemon descansava contra o marco da porta que levava da sala de jantar até a sala. Eu o observei lentamente. Seu cabelo caia descuidadamente e a fraca luz da lâmpada ressaltava as maçãs do rosto. Seus lábios curvaram em um meio sorriso, e mesmo com a camisa simples e calça jeans, ele parecia... bem, além das palavras. Sua presença preenchia a sala toda, e ele não estava nem na mesma. Uma sobrancelha levantou enquanto ele esperava. — Kat? Mentalmente me chutando, eu desviei o olhar. — Será que você foi atingido por uma caixa de sorvete? — Sim. — Droga. E eu perdi isso! — Tenho certeza de que Dee adoraria fazer um replay para você. Eu sorri um pouco com isso. — Oh, você acha que isso é engraçado. — Dee entrou na sala de estar, as chaves do carro na mão. — Eu deveria estar fazendo você ir até o mercado para me comprar Rocky Road, mas como eu gosto de Katy e valorizo o bem-estar dela, vou buscar eu mesma. Isso significaria que eu seria deixada sozinha... Oh inferno que não. — Daemon não pode ir? Daemon sorriu para mim. — Não. Se o Arum estiver por aí, ele só vai ver o seu rastro. — Dee pegou sua bolsa. — Você precisa ficar com Daemon. Ele é mais forte do que eu. Meus ombros caíram. — Não posso ficar na minha casa? — Você percebe que o rastro pode ser visto do lado de fora? — Daemon se empurrou para fora da porta. — É o seu funeral, apesar de tudo. — Daemon! — Dee estalou. — Isso é tudo culpa sua. Meu sorvete não é seu sorvete. — Sorvete deve ser muito importante. — Eu disse. — É a minha vida. — Dee bateu a bolsa no Daemon, mas perdeu. — E você pegou de mim. Daemon revirou os olhos. — Vá logo e volte direto para casa. — Sim, senhor! — Ela saudou. — Vocês querem alguma coisa? Eu balancei minha cabeça. Daemon fez a coisa de piscar e reaparecer em seguida. Ele estava agora ao lado de Dee e puxou-a para um abraço rápido. — Tenha cuidado. Não havia nenhuma dúvida em minha mente que Daemon amava e adorava sua querida irmã. Ele ficaria feliz em dar a sua vida por ela. A maneira como ele estava sempre cuidando dela era mais do que admirável. Não havia uma palavra boa o suficiente para ele. E isso me fez desejar que eu tivesse um irmão. — Como sempre. — Ela sorriu, me deu um aceno rápido, e correu para a porta. — Uau. Lembre-me de nunca comer o sorvete dela.


— Se você fizer isso, nem mesmo eu seria capaz de salvá-la. — Ele deu um sorriso irônico. — Então, Gatinha, se eu vou ser sua babá durante a noite, o que eu ganho? Meus olhos imediatamente se estreitaram. — Primeiro, eu não te pedi para ser minha babá. E você que me fez vir aqui. E não me chame de Gatinha. Daemon inclinou a cabeça para trás e riu. O som causou arrepios através de mim, me lembrando de acordar com ele, minha cabeça em seu colo. — Você não está de bom humor hoje? — Você não viu nada ainda. Ainda rindo, ele se virou em direção à cozinha. — Eu posso acreditar nisso. Nunca um momento chato com você por perto. — Ele fez uma pausa. — Você vem ou não? Eu respirei fundo e exalei lentamente. — Ir para onde? Ele abriu a porta da cozinha. — Eu estou com fome. — Você não acabou de comer todo o sorvete? — Sim, mas ainda estou com fome. — Meu Deus, aliens conseguem comer. — Eu fiquei parada. Daemon olhou por sobre o ombro largo. — Eu tenho essa forte sensação que eu preciso manter um olho em você. Onde eu for você vai. — Ele esperou que eu me mexesse, e quando eu não o fiz, seu sorriso virou diabólico. — Ou eu posso levar você à força. Eu tinha certeza de que não queria saber como ele planejava fazer isso. — Tudo bem, vamos. — Eu me arrastei por ele e sentei em uma cadeira. Daemon pegou um prato de restos de frango. — Quer um pouco? Eu balancei minha cabeça. Ao contrário deles, eu não comia dez refeições por dia. Ele ficou em silêncio enquanto se movia pela cozinha. Desde a noite sobre a rocha, nós não tínhamos estado na garganta um do outro. Não era como se estivéssemos nos dando bem, mas parecia que uma trégua não declarada existia. Eu não tinha ideia do que fazer com ele, já que não estávamos provocando um ao outro. Descansando a minha bochecha na minha palma, eu tive dificuldade em tirar os olhos dele. Ele era largo e alto, mas se movia como um dançarino. Cada passo era suave e flexível. Mesmo o movimento mais simples parecia uma forma de arte. Em seguida, tinha o rosto. Naquele momento, ele olhou por cima de seu prato. — Então, como você está? Eu tirei meus olhos dele e me concentrei no prato de comida que já estava metade comido. Quanto tempo eu tinha estado olhando para ele? Isso estava ficando ridículo. Será que o rastro me transformava em um hormônio ambulante? — Eu estou bem. Ele mordeu um pedaço de frango e mastigou lentamente.


— Você está. Você aceitou tudo isso. Estou surpreso... — O que você achava que eu faria? Daemon encolheu os ombros. — Com os seres humanos, as possibilidades são infinitas. Mordi o lábio. — Você acha que nós somos de alguma forma, mais fracos do que vocês, por sermos humanos? — Não é que eu acho que você é fraca, eu sei que você é. — Ele me olhou por cima do copo de leite. — Eu não estou tentando ser desagradável dizendo isso. Vocês são mais fracos do que nós. — Talvez não fisicamente, mas mentalmente e moralmente... — Retruquei. — Moralmente? — Ele parecia confuso. — Sim, tipo, eu não vou contar ao mundo sobre vocês para conseguir dinheiro. E se eu fosse capturada por um Arum, eu não iria trazê-los de volta para todos vocês. — Você não iria? Ofendida, eu me inclinei para trás e cruzei os braços. — Não. Eu não faria isso. — Mesmo que a sua vida estivesse ameaçada? — Descrença coloriu seu tom. Balançando a cabeça, eu ri. — Só porque eu sou humana não significa que sou uma covarde ou antiética. Eu nunca faria nada que pudesse colocar Dee em perigo. Por que a minha vida iria ser mais valiosa do que a dela? Agora a sua... É discutível. Mas não Dee. — Ele olhou para mim por alguns segundos, em seguida, voltou para a sua comida. Se eu estava esperando um pedido de desculpas eu não iria conseguir um. Grande surpresa. — Então, quanto tempo vai demorar para este rastro desaparecer? — Meus olhos se voltaram para ele. Muito chato. Os olhos de Daemon eram intensos e brilhantes, a tonalidade verde parecendo queimar através de mim. Ele tomou um longo e saudável gole. Engoli em seco, minha garganta seca. — Provavelmente uma ou duas semanas, talvez menos. — disse ele, apertando os olhos. — Ele já está começando a desaparecer. Era estranho ouvi-lo falar sobre esta luz em torno de mim que eu não podia ver. — Com o que eu pareço? Uma ampola gigante ou algo assim? Ele riu, balançando a cabeça. — É um brilho branco suave que está em torno de seu corpo, como uma espécie de aura. — Oh, bem, isso não é tão ruim. Você terminou? — Quando ele acenou com a cabeça, peguei seu prato por hábito. Para não jogar em cima dele, mas, principalmente, para ter algo para fazer. — Pelo menos eu não pareço uma árvore de Natal. — Você se parece com a estrela no topo da árvore. — Sua respiração agitou o cabelo em volta da minha bochecha. Ofegante, eu me virei. Daemon estava diretamente atrás de mim. Nossos corpos separados apenas por trinta ou sessenta centímetros. Colocando minhas mãos na borda do balcão, eu respirei fundo. — Eu odeio quando você faz essa coisa de super velocidade alienígena. Sorrindo, ele inclinou a cabeça para o lado.


— Gatinha, o que vamos fazer? Milhares de imagens passaram pela minha cabeça. Graças a Deus, ler pensamentos não era um de seus poderes estranhos. Esta densidade estranha invadiu o ar em torno de mim, e uma vontade irresistível de dentro saltou para a vida. — Por que não me entregou ao DOD? — Eu soltei. Daemon deu um passo para trás, surpreso. — O quê? Eu desejei que eu não tivesse falado, mas eu fiz, e não havia nenhum jeito de voltar atrás. — Não teria sido mais fácil para você se você me entregasse ao DOD? Então você não teria de se preocupar com Dee ou qualquer coisa... Daemon ficou em silêncio. A cor de seus olhos subiu um tom, tornando-se mais brilhante. Eu queria dar um passo atrás, mas não havia para onde ir. Voz baixa, ele disse: — Eu não sei, Gatinha. — Você não sabe? Você arriscaria tudo e você não sabe por quê? — Isso é o que eu disse. Olhei para ele, perplexa com o fato de que ele arriscou tudo e parecia não ter ideia do porquê. Isso era uma loucura para mim. Absurdo. Na verdade, era irritante, porque isso podia significar muitas coisas. Coisas que eu não ousava reconhecer. Seus braços se mexeram rapidamente, caindo pesadamente contra o balcão. Quilos de músculo criaram uma armadilha muito bem sucedida, me prendendo no lugar, sem nem mesmo me tocar. Ele abaixou a cabeça e ondas escuras de cabelo caíram sobre seus olhos. — Ok. Eu sei por quê. — No começo eu não tinha ideia do que ele estava falando. — Você sabe? Daemon assentiu. — Você não iria sobreviver um dia sem nós. — Você não sabe disso. — Oh, eu sei. — Ele inclinou a cabeça para o lado. — Você sabe quantos Arum eu já enfrentei? Centenas. E houve momentos em que eu mal escapei. Um humano não tem chance contra eles ou o DOD. — Tudo bem. Que seja. Você pode se mover? Continuando em sua posição, Daemon sorriu. Deus, ele era irritante. Eu poderia ficar aqui, olhando para ele como uma idiota, ou poderia passar por ele. Eu optei pela última. Meu plano era afastá-lo para passar por ele o mais rápido possível. Não que eu cheguei muito longe. Ele era como uma parede de tijolos que apenas um trem de carga poderia tirar do caminho. O sorriso dele ficou maior, entretido com a minha falta de progresso. — Idiota. — Eu murmurei. Daemon riu. — Você tem uma boca e tanto. Você beija meninos com essa coisa? Minhas bochechas aqueceram. — Você beija Ash com a sua? — Ash? — Seu sorriso desapareceu e seus olhos eram de repente obscuros, menos limpos. —


Você gostaria de provar, não é? Uma faísca irracional de ciúmes queimou em mim, mas eu empurrei-a de lado. Eu sorri. — Não, obrigado. Daemon inclinou-se ainda mais. Seu aroma picante e terroso me rodeava. — Você não é uma boa mentirosa, Gatinha. Suas bochechas ficam vermelhas quando você mente. Elas ficavam? Ah, inferno. Tentei empurrar ele novamente, mas ele estendeu a mão, segurando meu braço. Não era um controle apertado, mas eu ainda o sentia até meus ossos. Sua mão cantarolava. O formigamento era forte e surpreendente, mas agradável. Eu não queria olhar para ele, mas eu não era capaz de parar de olhar. Estávamos muito perto e havia muita tensão entre nós. Seu olhar queimava no meu. Ele abaixou a cabeça, e eu esqueci como respirar. Fascinada, eu observei seus lábios lentamente se curvarem em um sorriso. Foi difícil prestar atenção às suas palavras, quando ele falou, mas de alguma forma conseguiram passar através da névoa estranha nublando meu cérebro. — Eu tenho uma estranha ideia de que eu deveria testar isso. — Testar o quê? — Meus olhos caíram para seus lábios. Senti-me balançar. — Eu acho que você gostaria de saber. — Ele se aproximou, sua mão deslizando no meu braço e descansando cuidadosamente na minha nuca. — Você tem o cabelo bonito. — O quê? — Nada. — Seus dedos se espalharam ao longo da parte de trás do meu pescoço, tecendo lentamente através dos fios de cabelo solto. Seus dedos ágeis se moveram contra a base do meu crânio. Meus lábios se separaram, e eu esperei. Ele baixou a mão e a estendeu novamente enquanto eu estava lá, ansiosa – talvez ansiosa demais – para descobrir se ele sentia a mesma dor inesperada. Se ele estava ao menos um pouco afetado como eu estava. Em vez disso, Daemon tirou uma garrafa de água do balcão. Eu caí contra o balcão. Que merda. Seus olhos dançaram com risadas quando ele voltou para a mesa. — O que foi que você estava perguntando, Gatinha? — Pare de me chamar assim. Ele tomou um gole. — Será que Dee pegou um filme ou algo assim? Eu balancei a cabeça. — Sim, ela mencionou antes em sala de aula. — Bem, vamos lá. Vamos assistir a um filme. Eu me afastei do balcão e segui atrás dele. Fiquei na porta enquanto ele segurava o DVD e franzia a testa. — De quem foi essa ideia? Dei de ombros e, em seguida, vi suas sobrancelhas subir ao ler a sinopse na parte de trás. — Tanto faz. — Ele murmurou. Limpando minha garganta, eu dei um passo e olhei a sala. — Daemon, você não tem que se sentar e assistir a um filme comigo. Se você tem outras coisas que queira fazer, eu tenho certeza que vou ficar bem.


Ele olhou para cima do filme e depois deu de ombros. — Não tenho nada para fazer. — Tudo bem. — Eu ainda não tinha certeza. Imaginá-lo desfrutar de uma noite de cinema comigo era mais absurda do que a ideia de alienígenas vivendo entre humanos. Arrastei-me pela sala e sentei no sofá enquanto ele brincava com o filme. Depois de colocar o disco, ele se aproximou do sofá e se sentou no outro lado. Em seguida, ligou a televisão, e eu poderia jurar que ele tinha deixado o controle remoto perto da TV. Era provavelmente uma boa coisa que eu não tivesse esse poder. Eu estaria além de ser preguiçosa. Ele olhou para mim, e eu imediatamente enfrentei a televisão. — Se você cair no sono durante o filme, você me paga. Virei-me para ele com uma careta. — Por quê? Daemon me encarou com um sorriso de lobo. — Basta ver o filme. Eu fiz uma careta, mas fiquei em silêncio. Daemon mudou. O sofá afundou e a distância entre nós ficou menor. Eu segurei minha respiração até que eu precisei de ar. Ele não pareceu notar que os créditos rolaram pela tela. Olhei para o seu perfil e me perguntei pela centésima vez o que ele estaria pensando e, como sempre, não percebi nada. Mais que frustrada, me voltei para o filme e decidi que a estranha atração que sentia por ele tinha que ser minha imaginação. Não podia ser nada mais. Tensa e incerta do que eu estava sentindo, eu contava os minutos para que Dee chegasse.


20 Daemon estava surpreendentemente controlado em matemática na quarta-feira. A inevitável cutucada com a caneta só aconteceu uma vez, e foi para me lembrar que os únicos planos que eu tinha depois da escola eram com ele. Sim, que seja! Como se eu pudesse esquecer. Em biologia, como no dia anterior, o olhar aguçado do Sr. Garrison continuou voltando-se para mim. Eu sabia que ele via o rastro, e não tinha ideia do que ele estava pensando. Daemon não mencionou se ele e Dee tinham contado alguma coisa para outros Luxen. Durante toda a aula de ontem, vários professores tinham me dado um olhar estranho. Hoje, um dos treinadores que passava no caminho para o refeitório parou no meio do corredor e me olhou de cima abaixo. Ou ele era um pervertido ou um alienígena. Ou as duas coisas, o que seria uma combinação vencedora. Enquanto estava na fila do almoço, eu fiz tudo ao meu alcance para não olhar em direção à parte de trás da cafeteria. Olhando para a comida, eu dei um passo à frente e quase bati em uma montanha viva. Simon Cutters virou-se e, em seguida, olhou para baixo. Ele sorriu quando ele me viu. — Ei você aí, Katy. Eu entreguei o meu dinheiro para a senhora da cantina, e me virei para Simon. — Desculpe por isso. — Não tem problema. — Ele esperou por mim no final da fila, o prato cheio de comida. Ele comia quase tanto quanto Dee. — Você tem alguma ideia do que Monroe estava falando em trigonometria? Eu juro que foi uma língua diferente. Considerando que eu tinha passado a maior parte da aula ignorando o garoto atrás de mim... — Eu não tenho ideia. Eu estou esperando que alguém tenha feito anotações. — Mudei meu prato de mão. — Nós temos um teste na próxima semana, certo? Simon assentiu. — Logo antes do jogo, também. Acho que Monroe faz issoAlguém chegou para pegar uma bebida, nos obrigando a dar um passo para trás, o que não era necessário, pois qualquer um poderia ter facilmente caminhado em volta de nós. Quando inalei o aroma fresco, percebi quem era. Daemon pegou uma caixa de leite fora do carrinho e a arremessou. Me dando um olhar indecifrável, ele se virou para Simon. Ambos eram da mesma altura, mas Simon era muito mais largo. Ainda assim, Daemon exalava uma vibração mais arrogante. — Como está indo, Simon? — Ele perguntou, girando a caixa novamente. Piscando quando ele recuou, Simon limpou a garganta. — Bem – fazendo o bem. Indo para minha-uh, minha mesa. — Ele olhou para mim nervosamente. — Nos vemos em aula, Katy. Franzindo a testa, eu observei Simon tropeçar nos próprios pés para chegar à sua mesa. Me voltei para Daemon. — Tudo bem?


— Você está pensando em sentar com Simon? — Ele perguntou, cruzando um braço sobre seu peito. — O quê? Não. — Eu ri. — Eu estava pensando em sentar com Lesa e Carissa, — Eu também. — Dee entrou na conversa, vindo do nada. Ela equilibrava uma prato numa mão e duas bebidas na outra. — Isto é, você acha que eu seria bem-vinda? — Eu tenho certeza que você vai ser. — Olhei para Daemon, mas ele já estava voltando para sua mesa. Eu fiquei lá por um momento, confusa. O que tinha sido isso? Havia os gêmeos Thompson e Ash, amontoados. Alguns dos outros garotos estavam conversando. Eu não tinha ideia se eram alienígenas ou não. Daemon sentou-se ao lado deles, pegou um livro, e começou a folheá-lo. Ash olhou para cima e não pareceu muito emocionada. — Você acha que alguém vai se importar? — Eu perguntei finalmente. — Não. Eu odiei que eu não sentei com você ontem. E eu acho que é hora de uma mudança. — Dee parecia tão esperançosa que eu não podia discordar. — Certo? Lesa e Carissa ficaram chocadas em um silêncio atordoado por cerca de cinco minutos após Dee se juntar a mim na mesa, mas ela as conquistou e todo mundo relaxou muito rapidamente. Todos, menos eu. Metade da lanchonete me observava, provavelmente esperando por mim para entrar em outra luta de comida épica com a loira. Tinha passado uma semana, e ainda todos me consideravam a ninja da comida. De vez em quando, Ash olhava para a nossa mesa, uma profunda carranca em seu belo rosto. Ela estava com um top azul choque que combinava com seus olhos. A camisa branca que ela usava estava um pouco desabotoada, revelando que ela tinha um corpo ótimo. Deus, o que acontecia com o DNA alienígena? Eu sei que eles eram de outro mundo, mas Jesus, isso incluía seios perfeitos, também? Dee me cutucou com o cotovelo enquanto Carissa e Lesa conversavam com um menino sardento no fim da mesa. — O quê? — Perguntei. Ela se inclinou em meu ombro, falando de um jeito que só eu pudesse ouvir. — O que está acontecendo com você e meu irmão? Eu dei uma mordida da minha pizza, ponderando sobre como responder a isso. — Nada, você sabe, o mesmo de sempre. Dee arqueou uma sobrancelha perfeitamente delineada. — Sim, ele ficou fora o domingo inteiro. E você também. E enquanto ele estava fora, um certo alguém veio procurando por ele. Minha fatia caiu da minha mão. Ela pegou a bebida, sorrindo ligeiramente. — Eu não cheguei a contar para você ontem já que ele ficou conosco, mas você não pode me dizer que você não tenha notado Ash nos olhando. — Eu notei. — Lesa cortou, estatelando os cotovelos sobre a mesa. — Ela parece que está desejando que você morra. Eu fiz uma careta. — Caramba. Isso é bom. — E você não tem ideia do porquê? — Perguntou Dee, inclinando o corpo para que suas costas ficassem contra a mesa deles. — Finja que você está olhando para mim. Agora. — Eu estou olhando para você agora. — Eu indiquei, dando outra mordida da minha pizza.


Lesa riu. — Olhe por cima do ombro, gênio. Em direção à mesa deles. Revirando os olhos, eu fiz como elas pediram. Em primeiro lugar, eu notei que um dos meninos loiros tinha mudado de lugar, conversando com um garoto da mesa da frente. Então eu mudei meu olhar, e meus olhos se encontraram com os de Daemon. Apesar de várias mesas nos separando, minha respiração ficou presa. Havia algo... Intenso naqueles olhos cor de esmeralda. Desejoso. Eu não pude desviar o olhar, e ele também não. A distância entre nós parecia evaporar. Um segundo depois, ele sorriu e se virou, concentrando-se sobre o que Ash estava lhe contando. Tomando uma respiração superficial, me concentrei em meus amigos. — Sim. — Lesa murmurou sonhadora. — é por isso. — Eu... Não há nenhuma razão. — Meu rosto estava pegando fogo. — Você o viu? Ele está fazendo um beicinho para mim. — Essa coisa de beicinho é sexy. — Lesa olhou para Dee. — Sinto muito. Eu sei que ele é seu irmão e tudo mais. — Está tudo bem. Eu estou acostumada com isso. — Dee apoiou o queixo na mão. — Lembra-se do dia na varanda? Apertei os olhos para ela. — O que aconteceu na varanda? — Lesa perguntou, tão curiosa que seus olhos escuros brilharam. — Nada. — Eu disse. — Eles estavam perto assim. — Dee levantou seu dedo e seu polegar para demonstrar que havia apenas um centímetro entre os dois. — E eu tenho certeza que eles chegaram mais perto. Minha boca caiu aberta. — Nós não temos nada, Dee. Nós nem sequer gostamos um do outro, como em um nível básico. Carissa tirou os óculos e soprou sobre eles. — O que está acontecendo? Lesa contou para ela, muito para o meu horror. — Oh, sim. — Carissa assentiu. — Eles estavam bem animados na sala de aula na sexta-feira. Foi muito na cara, a coisa toda de ‘eu não estou nem aí para você’ com os olhos. Eu engasguei com a minha bebida. — Isso não era o que estávamos fazendo. Nós estávamos conversando! — Katy, você estava tão fazendo isso. — Lesa pegou um guardanapo e começou a rolar. — Não há nada para se envergonhar. Eu faria isso com ele também. Olhei para ela um segundo, então explodimos em gargalhadas. — Vocês são loucas. Não tem nada acontecendo. — Eu olhei para Dee. — E você deveria saber disso. — Eu sei de um monte de coisas. — disse ela inocentemente. Minhas sobrancelhas franzidas. — O que é que isso quer dizer? Ela encolheu os ombros e apontou para minha segunda fatia. — Você vai comer isso? — Eu peguei e entreguei a ela. Ela ignorou meu olhar enquanto ela devorava feliz minha fatia extra de pizza. — Oh, vocês ouviram sobre Sarah? — Carissa fechou o celular dela, olhando para cima. — Eu


quase me esqueci. — Não. — Lesa olhou para mim. — O irmão mais velho de Carissa, Ben é amigo do irmão de Sarah. Eles vão para WVU juntos. — Oh. — Eu virei a minha bebida e comecei a descascar o rótulo. Quando eu pensava em Sarah, eu pensava no hospital e como eu tinha ouvido falar da morte dela. E eu pensei no Arum, e como eles estavam por perto. — Robbie disse a Ben que a polícia não acha que foi um ataque cardíaco ou uma causa natural. — Carissa olhou ao redor da mesa, baixando a voz. — Ou pelo menos nenhuma causa natural que eles conheçam. Dee baixou a pizza de sua boca. Foi assim que eu soube que isso era sério. — O que você quer dizer? — Aparentemente, houve tantos danos ao seu coração que não havia nenhum jeito que isso pudesse acontecer, independentemente dela ter algum problema cardíaco. — Carissa explicou. Dee deu de ombros. — Eu sei, mas o que mais poderia ser? Olhei para Dee, tendo uma ideia do que poderia ter sido. Depois do almoço, arrastei-a para o lado. — Foi um deles? — Eu perguntei. — Um dos Arum? Dee mordeu o lábio e, em seguida, ela me puxou para longe das portas da cafeteria e de seu irmão, que estava saindo da sala. No final do corredor, ela parou. — Foi, mas Daemon cuidou dele. Eu hesitei. — Foi o mesmo que me atacou? — Foi. — Dee olhou para trás, os lábios finos. — Daemon acha que foi puramente coincidência, que o Arum deparou com ela. Ela não nos conhecia. Eu juro. Isso não faz nenhum sentido para mim. — Então, por quê? Dee encontrou meu olhar. — Eles não precisam de uma razão, Katy. Os Arum são maus. Eles nos matam pelos nossos poderes. — Ela fez uma pausa, empalidecendo. — E eles matam seres humanos para o divertimento deles.


21 Surpreendentemente, as coisas estavam mais ou menos... normais agora. Meu rastro se apagou em uma semana e meia. Daemon agiu como se tivesse sido liberado de uma pena de prisão de vinte anos, e ele nunca mais estava por perto quando eu estava com Dee. Setembro e outubro passaram sem nada acontecer. Mamãe continuou a trabalhar em ambos os trabalhos, e ela teve mais um par de encontros com o Sr. Michaels. Ela gostava dele, e eu estava feliz por ela. Fazia tanto tempo desde que eu tinha visto o seu sorriso não tingido com tristeza. Carissa e Lesa tinham vindo a minha casa, e muitas vezes nós íamos ao cinema ou ao shopping em Cumberland com Dee. Mesmo que eu tivesse me aproximado das duas meninas humanas e tivesse um pouco mais em comum com elas, eu me aproximei mais de Dee. Fazíamos tudo juntas, tudo, exceto falar sobre Daemon. Ela tentou, várias vezes. — Eu sei que ele gosta de você. — Ela disse uma vez, enquanto estávamos supostamente estudando. — Eu vejo a maneira como ele olha para você. Ele fica tenso, até mesmo se eu falo disso. Eu suspirei e fechei meu caderno. — Dee, eu acho que a razão pela qual ele olha para mim é porque ele está pensando em maneiras de me matar e esconder o meu corpo. — Esse não é o olhar que ele lhe dá. — Então qual é o olhar, Dee? Ela bateu seu livro para fora da cama e subiu até os joelhos, colocando as mãos sobre o peito. — É o olhar 'eu te odeio, mas eu quero você’. Eu ri. — Isso foi terrível. — É verdade. — Ela baixou as mãos. — Podemos namorar seres humanos, se quisermos, você sabe. É meio inútil, mas nós podemos. E ele nunca prestou atenção em qualquer outro ser humano. — Ele foi forçado a prestar atenção em mim, Dee. — Eu caí de costas na minha cama. Meu estômago se apertou com o pensamento de Daemon secretamente querendo ficar comigo. Eu sabia que ele estava atraído por mim. Eu sentia, mas a luxúria não tem nada a ver com isso. — E quanto a você? O que aconteceu com Adam? — Absolutamente nada. Eu não sei como Ash fica atraída por Daemon. Nós crescemos com eles, e Andrew é como um irmão para mim. Eu não acho que ele se sinta de forma diferente, também. — Ela fez uma pausa, o lábio inferior tremendo. — Eu não gosto de ninguém da minha espécie. — Existe um... Garoto humano que você gosta? Ela balançou a cabeça. — Não. Mas se houvesse, eu não teria medo de gostar dele. Eu tenho o direito de ser feliz. Não devia importar se é um de sua espécie ou da nossa. — Eu concordo plenamente. Dee tinha deitado ao meu lado, se aconchegando. — Daemon iria pirar se eu me apaixonasse por um ser humano. Eu quase sorri, mas depois me lembrei de seu irmão. Com certeza, Daemon iria enlouquecer.


Talvez justamente por isso, porque se seu irmão não tivesse se apaixonado por um ser humano, ele ainda estaria vivo. Eu esperava que pelo bem de Dee que ela nunca se apaixonasse por um. Daemon definitivamente ficaria maluco. Quando se aproximava o fim de outubro, parecia que tínhamos retrocedido no tempo. Eu queria encontrar a caneta dele e destruí-la. Eu perdi a conta de quantas muitas vezes fui cutucada nas costas por muito tempo após o rastro ter desaparecido de mim. Parecia que ele vivia para me irritar. E havia uma parte de mim que ansiava por isso, só porque era divertido... Até que um de nós seriamente se irritou, especialmente quando ele estava sendo totalmente antissocial. Como na aula de sexta-feira, Simon perguntou se eu queria estudar para a nossa prova de trigonometria. Antes que eu pudesse responder, a mochila de Simon tinha voado para fora de sua mesa, espalhando seu conteúdo pelo chão como se alguém tivesse varrido o braço por sobre a mesa. Com o rosto vermelho e confuso, Simon tinha sido distraído com sucesso pela classe rindo enquanto ele recolhia seus cadernos e lápis dispersos. Eu olhei para trás por cima do meu ombro para Daemon, suspeitando que ele estava por trás da mochila voando, mas tudo que ele fez foi sorrir preguiçosamente para mim. — Qual é o seu problema? — Eu perguntei no corredor depois da aula. — Eu sei que você fez isso. Ele deu de ombros. — E daí? Então? Eu parei no meu armário, surpresa ao descobrir que Daemon tinha me seguido até lá. — Isso foi rude, Daemon. Você o envergonhou. — Então eu abaixei minha voz para um sussurro: — E eu pensei que usar seus... Suas coisas os atrairiam aqui. — Isso foi apenas um pontinho no mapa. Isso não deixou um rastro em ninguém. — Ele abaixou a cabeça até que as bordas de seus cachos escuros caíram em minha bochecha. Eu fui pega entre a vontade de rastejar em meu armário e rastejar para ele. — Além disso, eu estava fazendo um favor. Eu ri. — E como que isso foi um favor? Daemon sorriu para mim e, em seguida, baixou o olhar para que seus grossos cílios escuros protegessem seus olhos. — Estudar matemática não era o que ele tinha em mente. Isso parecia discutível, mas eu decidi jogar também. Eu não iria recuar com ele, nem mesmo que ele pudesse me jogar na parede com um único pensamento. — E se esse for o caso? — Você gosta do Simon? — Seu queixo se ergueu, raiva piscando em seus olhos cor de esmeralda. — Você não pode gostar dele. Eu hesitei. — Você está com ciúmes? Daemon olhou para longe. E aproveitei a oportunidade para, finalmente, ter uma coisa para esfregar na cara dele e dei um passo à frente. Ele não se moveu ou respirou. — Você está com ciúmes do Simon? — Eu abaixei minha voz. — De um ser humano? Que vergonha, Daemon.


Ele puxou uma respiração afiada. — Eu não estou com ciúmes. Tudo o que eu estou tentando fazer é ajudá-la. Caras como Simon querem ficar entre suas pernas. Corei enquanto olhava para ele. — Por quê? Você acha que essa é a única razão pela qual um homem pode gostar de mim? Daemon sorriu conscientemente enquanto ele lentamente se virava. — Só estou dizendo. Ele saiu depois disso, desaparecendo no corredor lotado. O que era bom, porque se ele tivesse ficado mais um pouco eu teria batido nele. Quando eu me virei, vi Ash de pé do lado de sua sala. Seu olhar podia muito bem ter me fritado na hora. Ninguém estava falando sobre Sarah. Não que a escola tinha esquecido ela. Eles apenas seguiram em frente, como a maioria fazia. Saber como e por que ela morreu era algo que eu tentei não pensar. Quando eu pensava, meu estômago azedava como leite coalhado. Ela morreu porque Daemon me salvou e o Arum precisava de alguém em quem descontar sua raiva. E à noite, eu sonhava com o estacionamento atrás da biblioteca. Via o rosto dele, a frieza e raiva em seus olhos quando ele tentava tirar a minha vida. Naquelas noites, eu acordava com um grito preso na minha garganta, coberta de suor. Além dos pesadelos e a opressão ocasional da parte de Daemon, não havia mais nada fora do normal. Era como viver junto a adolescentes normais. Adolescentes que não precisavam se levantar para mudar o canal de televisão e que ficavam tensos após uma chuva de meteoritos. Dee tinha explicado que o Arum usava esses acontecimentos atmosféricos como um jeito de descer para a Terra sem ser detectado pelo governo. Eu não entendia como, e ela não explicou, mas por alguns dias após a chuva ou até mesmo uma estrela cadente, os irmãos ficavam no limite. Eles também poderiam desaparecer, às vezes levando um fim de semana de três dias, ou faltar uma quartafeira, sem qualquer aviso. Dee, eventualmente, explicava que eles tinham ido à inspeção do DOD. Eles continuaram a me dizer que os Arum não eram um problema, mas eu não acreditava neles. Não quando eles evitavam tanto discutir o assunto. Mas Dee estava em vantagem por um motivo totalmente diferente em sala de aula na quinta-feira. O baile era no próximo fim de semana e ela não tinha encontrado um vestido. Ela tinha um encontro com Andrew. Ou era Adam? Eu não podia distinguir a dupla incrível de loiros. Todo mundo estava animado com o baile, ao que parecia. Flâmulas penduradas dos corredores. Banners anunciavam o jogo contra outra escola e o evento. Os ingressos eram vendidos aqui e ali. Lesa e Carissa também tinham pares. Nenhuma das duas tinham vestidos, pelo que eu ouvi na conversa do almoço. Eu, por outro lado, não tinha um par. Elas tentaram me convencer ontem que ir sozinha não era um desastre social, e eu sabia disso, mas ficar de pé junto à parede a noite toda ou sendo vela de algum casal não era legal. Todos se conheciam em uma escola tão pequena quanto PHS. Casais ficavam juntos por toda a sua passagem pelo ensino médio. Amigos estavam marcando para se encontrarem no baile. E eu, não tendo nenhuma conexão real com qualquer pessoa, parecia sem jeito. Matando totalmente minha autoestima. Depois de passar a aula de matemática ignorando as tentativas de Daemon de me irritar, Simon apareceu no meu armário enquanto eu trocava um livro pesado e inútil por outro livro inútil e pesado.


— Ei. — Eu disse, sorrindo. Eu esperava que Daemon não estivesse por perto, porque só Deus sabe o que ele faria. — Você parecia que estava dormindo na sala de aula hoje. Ele riu. — Eu meio que estava. E eu estava sonhando com equações. Era tudo muito assustador. Eu ri, empurrando o livro em minha mochila enquanto eu fechava a porta do meu armário com o quadril. — Eu posso imaginar. Simon não era feio. Não se você gostasse de atletas musculosos e grandes que pareciam arremessar fardos de feno durante o verão. Ele tinha os braços do tamanho de troncos de árvores e um sorriso encantador o suficiente. Lindos olhos azuis, também, e quando ele sorria, a pele ao redor desses olhos de bebê enrugava. Mas os olhos dele não eram verdes, seus lábios não eram poéticos. — Eu nunca vi você em qualquer um dos nossos jogos. — Disse ele, sua pele fazendo a coisa de enrugar de novo. — Não é uma fã de futebol? Simon era o zagueiro ou Lineback. Honestamente, eu não tinha ideia do que isso significava. — Eu fui a um jogo. — Eu disse a ele. E eu tinha saído no intervalo com Dee. Nós duas tínhamos ficado mais do que entediadas. — O futebol não é coisa minha. Eu esperava que ele saísse depois disso, porque o futebol é como uma religião por aqui, mas ele se inclinou contra o armário ao meu lado, cruzando os braços sobre o peito. — Então, eu estava me perguntando se você tinha planos no próximo sábado. Meus olhos foram até a faixa vermelha e preta acima de sua cabeça. No próximo sábado era baile. Minha garganta secou como um animal encurralado, e meus olhos ficaram enormes. — Não. Sem planos. — Você não vai para o baile? — Ele perguntou. Digo que eu não tenho um par ou iria soar muito estupido? Eu resolvi balançando a cabeça. Simon pareceu aliviado. — Você gostaria de ir? Juntos? Meu primeiro pensamento foi em dizer não. Eu mal conhecia o cara, e eu pensava que ele estivesse namorando uma das líderes de torcida ágeis, e eu não estava interessada nele. Mas ir com Simon não quer dizer que eu ia me casar com ele. Ou até mesmo namorá-lo. Eu estaria indo a um baile com ele. E um pensamento horrível apareceu na minha cabeça. Eu mal podia esperar para ver a cara de Daemon quando ele souber que eu tinha um par. Eu disse que sim, e nós trocamos números e foi isso. Eu iria para o baile, e agora eu também precisava de um vestido. Minha mãe ficaria emocionada com isso. Na hora do almoço, eu contei a notícia para Dee, pensando que ela ficaria animada. — Simon, convidou você para o baile? — A boca de Dee caiu aberta. Ela até mesmo parou de comer por cinco segundos inteiros. — Você disse sim? Eu balancei a cabeça. — Sim, e daí? — Simon tem uma reputação. — Carissa disse, me olhando por cima da borda de seu prato. — Como ele quer ser a bicicleta do PHS. — Ele quer dar um passeio em todas. — Lesa esclareceu com um encolher de ombros. — Mas ele é bonito. Eu gosto de seus braços. — Só porque ele tem uma reputação, isso não significa que eu irei me adicionar à lista. — Eu


coloquei a salada no meu prato. Bolo de carne era o menu de hoje. Portanto, não estava enfrentando isso. — E foi fofo quando ele perguntou. — Ele e Kimmy terminaram há uma semana ou mais atrás. — Disse Carissa. — Supostamente, ele a estava traindo com Tammy. Ah, Kimmy. Esse era o nome da líder de torcida. — Será que ele tem uma coisa por garotas com nomes que terminam em Y? Lesa bufou. — Ah, como você. É uma combinação perfeita. Revirei os olhos. — Bem, que seja. Você tem um par. Agora todas nós podemos comprar vestidos este fim de semana. — Carissa bateu palmas. — Oh! E talvez possamos ir juntas. Parece divertido, certo? O que você acha, Dee? — Huh? — Dee piscou. Carissa repetiu a pergunta, e Dee concordou com um olhar distante em seus olhos. — Tenho certeza de que Adam estaria bem com isso. Fizemos planos para ir para Cumberland, no sábado, e Lesa e Carissa estavam praticamente pulando de animação. Dee não parecia animada. Ela nem parecia feliz. E mais estranho de tudo, ela não terminou o seu almoço ou comeu metade do meu.

Quando eu saí da escola naquele dia, tive que andar todo o caminho até a parte de trás do estacionamento já que tinha me atrasado naquela manhã. O terreno alinhado com a pista e o campo de futebol estava vazio. Eu era uma cadela total por estacionar lá. Um vento soprava das montanhas, explodindo em toda essa área de cascalho. — Katy! Eu me virei, reconhecendo a voz profunda. Meu coração pulou na minha garganta. Eu não senti o vento mais. Espremendo a alça da minha bolsa, eu esperei por ele me alcançar. Daemon parou na minha frente e estendeu a mão, arrumando a alça torcida de minha bolsa. — Você sabe como escolher um lugar para estacionar. Pega de surpresa com o gesto, eu levei um momento para responder. — Eu sei. Andamos para o meu carro, e enquanto eu jogava minha bolsa no banco de trás, Daemon esperou do meu lado, as mãos enfiadas nos bolsos. Havia uma escuridão em seu olhar, um aperto em seus lábios. Meu estômago caiu um pouco. — Está tudo bem? Não está...? — Não. — Daemon passou a mão pelo cabelo. — Nada... Uh, relacionado aos cosmos. — Ótimo. — Eu dei um suspiro de alívio, encostando no carro ao lado dele. — Você me assustou por um segundo. Ele virou para mim, e assim, havia apenas alguns centímetros entre nós.


— Ouvi dizer que você vai com Simon Cutters para o baile. Eu empurrei para trás uma mecha de cabelo que bateu no meu rosto. O vento a trouxe de volta. — As notícias correm rápido. — Sim, acontece por aqui. — Ele estendeu a mão novamente, mas desta vez ele pegou o pedaço de cabelo e colocou-o de volta atrás da minha orelha. Seus dedos roçaram contra minha bochecha. O leve toque trouxe aquele formigamento estranho, juntamente com um arrepio que não tinha nada a ver com o frio. — Eu pensei que você não gostava dele. — Ele não é ruim. — Eu disse. Os alunos estavam entrando na pista, se alongando e se preparando para correr. — Ele é bem legal, e ele me convidou. — Você vai com ele porque ele te convidou? Não é assim que as coisas funcionavam? Eu acenei com a cabeça. Ele não respondeu imediatamente enquanto eu brincava com as minhas chaves do carro. — Você vai para o baile? Daemon se aproximou, seu joelho encostando em minha coxa. — Será que isso importa? Eu mordi de volta uma série de maldições. — Não é verdade. Seu corpo inclinado em direção a mim. — Você não deveria ir com alguém só porque ele te convidou. Olhei para as chaves, me perguntando se eu poderia esfaquear alguém no globo ocular com elas. — Eu não vejo por que isso tem algo a ver com você. — Você é amiga da minha irmã, e, portanto, tem algo a ver comigo. Eu fiquei boquiaberta. — Essa é a pior lógica que eu já ouvi. — Eu comecei a dar a volta no carro, mas parei no capô. — Você não deveria estar mais preocupado com o que Ash está fazendo? — Ash e eu não estamos juntos. Uma parte estúpida de mim gostou da ideia de eles não estarem juntos. Balançando a cabeça, eu fui para a porta do motorista. — Poupe-se, Daemon. Eu não vou voltar atrás porque você tem um problema com ele. Xingando baixinho, ele me seguiu. — Eu não quero ver você entrar em qualquer tipo de problema. — Que tipo de problema? — Eu escancarei a porta do carro. Ele pegou a porta. Uma sobrancelha escura se arqueou. — Conhecendo você, eu não posso nem mesmo começar a imaginar em quantos problemas você pode entrar — Ah, sim, porque Simon vai deixar um rastro em mim que vai atrair vacas assassinas ao invés de aliens assassinos. Deixe-me sair com o carro. — Você é tão frustrante! — Ele retrucou, os olhos queimando com irritação. — Ele tem uma reputação, Kat. Eu quero que você seja cuidadosa. Olhei para ele por um momento. Será que Daemon estava genuinamente preocupado com o meu bem-estar? Assim que esse pensamento surgiu na minha cabeça eu empurrei-o para longe. — Nada vai acontecer, Daemon. Eu posso cuidar de mim mesma. — Tudo bem. — Ele soltou a porta tão rápido que eu puxei de volta. — KatMuito tarde. A porta pegou meus dedos. Eu gritei com a dor na minha mão e meu braço.


— Ouch! — Eu balancei minha mão, tentando aliviar a dor nos meus dedos. O dedo indicador estava sangrando. O resto estaria definitivamente machucado e se parecendo com salsichas até amanhã. As lágrimas já escorriam pelo meu rosto. — Cristo! Isso dói. Sem aviso ou dizer uma palavra, sua mão disparou, envolvendo em torno de minha palma. Um flash de calor passou pela minha mão, formigamento se espalhando para as pontas dos meus dedos palpitantes e até o meu cotovelo. Em um instante, a dor foi embora. Minha boca caiu aberta. — Daemon? Nossos olhos se encontraram. Ele largou a minha mão como se eu o tivesse queimado. — Merda... — Será que você... Deixou outro rastro em mim? — Eu limpei o sangue do meu dedo. A pele estava cor de rosa, mas já estava curada. — Putz. Ele engoliu em seco. — É fraco. Eu não acho que vai ser um problema. Eu mal posso vê-lo, mas você pode— Não! É fraco. Ninguém vai vê-lo. Eu estou bem. Sem mais babá. — Eu puxei uma respiração superficial. Nós se formaram na minha barriga. — Eu posso cuidar de mim mesma. Daemon me observou por um momento. — Você está certa. Obviamente, você pode contanto que não envolva portas de automóveis. Você já durou mais do que qualquer ser humano que sabia sobre nós.

As palavras de despedida de Daemon pairavam sobre mim como uma densa nuvem de presságio o resto da noite e no sábado. Eu durei mais do que qualquer outra pessoa que sabia a verdade sobre eles. Eu não podia evitar, mas me perguntei quanto tempo mais eu duraria. Saí com Dee, e peguei as meninas depois do almoço. Não demorou muito para chegarmos a Cumberland e encontrar a loja de roupas que queríamos ir. Eu esperava que não houvesse mais nada para escolher quando entramos no Vestido Barn, mas suas prateleiras estavam cheias. Carissa e Lesa já tinham uma ideia do que elas queriam: algo apertado. Dee parecia navegar em direção ao rosa e babados. Eu queria um vestido que não parecesse que tivesse sido feito por uma avó ou engolido por uma fábrica de laços. Dee acabou escolhendo para mim um vestido estilo grego vermelho que caia sob a cintura e ficava solto em volta de meus quadris e pernas. Ele tinha um decote um pouco ousado, mas nada como os que Lesa e Carissa escolheram. — O que eu não faria por um peito assim... — Lesa murmurou, olhando enojada enquanto olhava para o peito de Carissa saltando de seu vestido. — Não é justo. Eu tenho bunda e não peitos. Carissa se olhou no espelho de parede, enquanto Dee tentava entrar em um vestido rosa que tinha encontrado. Torcendo o cabelo para cima de seus ombros, Carissa sorriu para seu reflexo. — O que vocês acham? — Você está sexy. — Disse a ela. E ela estava. Ela tinha a forma perfeita de uma ampulheta.


Dee saiu, parecendo absolutamente deslumbrante na cor rosa. O vestido tinha alças pequenas e abraçava sua estrutura esbelta. Ela deu uma olhada em si mesma, assentindo com a cabeça e voltou para se trocar. Troquei um sorriso com Lesa. — Nossa opinião não era necessária. — Sim, porque não há nada neste mundo que não fique bom em Dee. — Ela revirou os olhos, agarrando o vestido para experimentar. Quando chegou a minha vez de tentar o meu vestido, eu tive que ceder a Dee. Ela tinha um olho notável para estilos. O vestido coube em meu corpo como se tivesse sido feito para mim. Com seu sutiã embutido, também me fazia sentir como se eu pudesse ficar ao lado de Carissa e não me sentir como uma garotinha. Virei-me na frente do espelho, verificando a parte de trás. Nada mal. — Você deve puxar seu cabelo para cima. — Disse Dee, aparecendo ao meu lado. Ela estendeu a mão, artisticamente torcendo meu cabelo comprido em cima de minha cabeça. — Você tem um pescoço longo. Mostre-o. Eu posso fazer isso para você, se você quiser e sua maquiagem também. Eu assenti com a cabeça, pensando que seria divertido. — Obrigada. Eu nunca pensei que eu ficaria bonita neste vestido. — Você ficaria bem em qualquer um desses vestidos. — Dee soltou meu cabelo. — Agora você precisa de sapatos. — Ela assentiu com a cabeça sobre as sapateiras. — Qualquer coisa vermelha ou clara irá funcionar. Quanto mais tiras, melhor. Eu olhei os sapatos, pensando em um par de saltos com tiras que eu tinha em casa. Deus sabe que o vestido ia custar até o último centavo que a minha mãe alegremente me entregou esta manhã. Peguei um par de saltos vermelhos, no entanto. Eram divinos. Um sentimento pervertido correu sobre mim enquanto eu estava lá. Olhei em volta. As meninas estavam na parte de trás, olhando para as unhas, e o funcionário estava atrás do balcão. A porta se abriu, fazendo um carrilhão de vento de som. Não havia ninguém lá. O funcionário olhou para cima, franzindo a testa. Balançando a cabeça, ela voltou para a leitura de sua revista. Eu tremia quando o meu olhar se arrastou pela porta até as janelas na parte da frente da loja. Além dos manequins vestidos, um homem estava na calçada, olhando para dentro. Seu cabelo escuro estava penteado para trás de seu rosto pálido. A maior parte do seu rosto estava coberto com um par de óculos de sol grandes, que pareciam fora do lugar em um dia nublado como hoje. Ele estava vestindo calça jeans escura e uma jaqueta de couro. E ele me deu arrepios. Fui até a parte de trás dos bastidores e fingi estar verificando outro vestido. Causalmente, eu levantei minha cabeça e olhei por cima da prateleira. Ele ainda estava lá. — Que diabos? — Eu murmurei. Ou ele estava esperando por alguém aqui ou ele era totalmente esquisito. Ou um Arum. Recusei-me a considerar a última. Olhando ao redor da loja quase vazia, eu decidi que era um estranho. — O que você está fazendo? — Lesa saiu, puxando o zíper de um vestido rosa que deu curvas à sua forma de menina. — Se escondendo atrás prateleiras? Eu comecei a apontar o perseguidor, mas quando olhei para a janela, ele tinha sumido. — Nada. — Eu limpei minha garganta. — Vocês estão prontas?


Ela assentiu com a cabeça, e eu corri de volta para o vestiário e me troquei rapidamente. Todo o tempo em que embalamos as compras, eu fiquei olhando para a janela. Aquele estranho sentimento ainda estava lá, me seguindo até onde Dee tinha estacionado. Eu esperei que o cara saltasse de algum lugar e me assustasse do nada, a qualquer momento. Nós dobramos nossos vestidos com cuidado e os colocamos no porta-malas enquanto Carissa e Lesa subiam no banco traseiro. Fechando a porta, Dee voltou para mim. Um pequeno sorriso estava em seu rosto. — Eu não disse antes, porque eu tenho certeza que você teria mudado de ideia sobre o vestido. — O quê? — Eu fiz uma careta. — Faz minha bunda parecer grande? Ela riu. — Não. Você estava deslumbrante nele. — Então qual é o problema? Seu sorriso se tornou francamente maliciosa. — Oh, nada de mais, só que vermelho é a cor favorita de Daemon.


22 Na noite do baile eu estava nervosa. Uma grande parte de mim queria chamar Simon e implorar para desistirmos, especialmente porque ele vetou a ideia de irmos todos juntos, mas minha mãe tinha comprado o vestido e Dee tinha feito um excelente trabalho me fazendo ficar bonita. Meu cabelo estava enrolado e torcido para cima, expondo meu pescoço. Alguns cachos estrategicamente arrumados pairavam sobre minhas têmporas e descansavam em meu ombro nu. Ela ainda tinha pulverizado um material brilhante com aroma de baunilha no meu cabelo, então quando me virei, meu cabelo brilhava. Meus olhos eram de um marrom quente, devido à sombra que ela colocou. Eu também tinha certeza que ela tinha colocado cílios postiços, porque meus cílios nunca tinham estado tão longos. Seu último toque antes dela correr para se encontrar com Lesa foi o gloss que ela passou em meus lábios, deixando-os com um tom perfeito de rubi. Eu me olhei no espelho antes de descer lá embaixo. Era como olhar para uma estranha. Eu fiz uma nota mental para usar maquiagem com mais frequência. Mamãe começou a chorar no momento em que me viu. — Oh meu Deus, querida, você está tão bonita. — Ela foi me abraçar, mas parou. — Eu não quero estragar nada. Vou pegar minha câmera. Mesmo eu não a invejava neste momento. Eu esperei até que ela voltasse e tirasse uma dúzia de fotos. Vestida com seu uniforme de enfermeira, ela parecia um pouco engraçada tirando fotos. — Agora esse cara, o Simon... — Ela começou, franzindo a testa. — Você nunca falou sobre ele. Oh Senhor. — Somos amigos. Nada mais, então você não tem nada para se preocupar. Ela me deu um olhar maternal. — O que aconteceu com o menino da casa ao lado, o Daemon? Você saiu com ele um par de vezes, certo? Eu dei de ombros. Essa era uma conversa que eu não podia sequer começar a abordar com a minha mãe. — Uh, somos inimigos. — O quê? — Suas sobrancelhas enrugaram. — Nada. — Eu suspirei, olhando para a minha mão. Não havia uma única marca nos meus dedos. Ele disse que deixou um rastro fraco, porém, duradouro. — Somos amigos. — Bem, isso é uma vergonha. — Ela estendeu a mão, alisando uma onda errante. — Ele parecia um menino tão bom. Daemon? Bom menino? Hum, não. Um motor alto roncou lá fora e terminou nossa conversa. Fui até a janela, olhando para fora. Bom Deus. A caminhonete de Simon era do tamanho de um submarino. — Por que vocês dois não foram jantar como Dee estava falando? — Minha mãe perguntou, preparando a câmera para mais uma rodada de fotos. Já que Simon havia vetado a ideia de nos encontrarmos lá, eu vetei o jantar. Simon me encontrou aqui, com o que eu não estava muito entusiasmada, mas nos encontrar no baile parecia estúpido. Sem mencionar que ele estava com os ingressos.


Eu não respondi quando eu fui até a porta e a abri. Simon ficou ali, vestido com um smoking. Eu fiquei um pouco surpresa que ele achou um que coubesse nele. Seus olhos, que pareciam um pouco turvos, me olharam de uma forma que deixou minha pela da cor do meu vestido. — Você está sexy! — Disse ele, empurrando um corsage que foi em volta do meu pulso. Eu estremeci, ouvindo minha mãe limpar a garganta. Pegando o corsage, eu pisei de lado e deixei Simon entrar. — Mãe, este é Simon. Simon deu um passo adiante, apertando a mão estendida da minha mãe. — Agora eu vejo de onde Katy herdou a beleza. Minha mãe arqueou uma sobrancelha, tornando-se a Rainha do Gelo. Simon não tinha feito uma fã. — Você é tão gentil. Eu furtivamente saí de lado, enquanto colocava o corsage, grata que não era um que tinha que ser fixado. Simon levou o fato de ter que tirar várias fotos com bom humor, envolvendo seu braço em volta da minha cintura e sorrindo para a câmara. — Oh. Eu quase me esqueci. — Minha mãe desapareceu na sala de estar, retornando com um xale preto rendado. Ela colocou sobre meus ombros. — Isso vai mantê-la aquecida. — Obrigada. — Eu disse, abraçando-o mais perto, mais grata pela cobertura do que ela jamais poderia imaginar. O vestido parecia bom mais cedo, mas agora com Simon praticamente babando no meu decote eu me senti desconfortável expondo muita pele. Mamãe me puxou de lado enquanto Simon esperou do lado de fora. — Lembre-se de me ligar quando chegar em casa. Se acontecer alguma coisa, me ligue. Ok? Vou trabalhar em Winchester esta noite. — Ela olhou para a porta, franzindo a testa. — Mas eu posso sair se precisar. — Mãe, eu vou ficar bem. — Me inclinei, beijando a bochecha dela. — Eu te amo. — Eu também te amo. — Ela me levou até a porta. — Você está linda. Antes que as lágrimas pudessem encher meus olhos de novo, eu fugi de casa. Entrar na caminhonete exigiu uma escalada estratégica. Fiquei surpresa que eu não precisei de escada. — Cara, você está gostosa. — Simon jogou uma bala de menta em sua boca antes que saísse para o longo caminho. Eu esperava que ele não estivesse planejando usar as balas de menta mais tarde. — Obrigada. Você está bonito, também. Essa foi a nossa conversa. Acontece que Simon não era um conversador espirituoso. Chocante. A viagem para a escola foi longa e difícil, e eu estava segurando as bordas do meu xale como se não houvesse amanhã. Várias vezes ele olhou, sorriu e colocou outra bala na boca. Eu mal podia esperar para chegar ao baile. Quando chegamos ao estacionamento, eu descobri por que ele estava chupando tantas balas de menta. Simon puxou um frasco de prata do interior do seu smoking e tomou um longo gole. Ele me ofereceu de lado. Ele estava bebendo. Isso já estava começando muito bem. Recusei a oferta, já fazendo planos para encontrar outra carona para casa. Beber não me incomodava. Terminar com um motorista bêbado sim. Parecendo não se importar, ele empurrou de volta em sua jaqueta. — Espere um pouco. Eu vou te ajudar a descer. Bem, isso foi legal da parte dele, porque eu estava querendo saber como no mundo que eu era iria descer. Ele abriu a porta e eu sorri.


— Obrigada. — Você quer deixar sua bolsa aqui? — Ele perguntou. Oh, o inferno não. Eu balancei minha cabeça e deixei a pequena bolsa balançando no meu pulso. Simon pegou minha mão e me ajudou a descer da caminhonete. Ele me apertou um pouco demais, e eu tropecei em seu peito. — Você está bem? — Ele perguntou, sorrindo. Eu balancei a cabeça, tentando ignorar a sensação de nojo crescendo no meu estômago. Lá fora, eu podia ouvir o barulho constante de música no ginásio. Nós paramos diante das portas enevoadas, e Simon me puxou em direção a ele em um abraço desajeitado. — Estou feliz que você veio ao baile comigo. — Ele disse, sua respiração mentolada e tingida com o cheiro áspero de licor. — O mesmo para mim. — Eu disse, tentando sentir isso. Eu coloquei minhas mãos em seu peito musculoso e o empurrei para trás. — Devemos entrar. Sorrindo, ele deslizou seus braços para longe. Uma de suas mãos deslizou pelas minhas costas, sobre a curva do meu quadril. Eu endureci e eu disse a mim mesma que foi um acidente. Tinha que ser. Ele certamente não queria algo assim. Nós nem dançamos ainda. O ginásio tinha sido convertido em um salão de baile com o tema outono. Laços caíam pendurados do teto e cobriam as portas. Haviam abóboras e vasos em forma de chifres cheios de folhas, amontoados nos cantos e na pista. Logo que entramos, fomos cercados pelos amigos de Simon. Alguns deles me olharam e deram um comprimento para Simon nada discreto ou batendo palmas nas costas dele. Era como se agora que eles perceberam que eu tinha seios, eu era legal de repente. Os meninos poderiam ser tão infantis. Enquanto eles passavam adiante o frasco que Simon havia trazido, eu troquei saudações tensas com os pares dos caras. Elas eram todas líderes de torcida. Entediante. Olhei para a multidão, procurando por Lesa e seu par. — Eu já volto. — Antes que Simon pudesse me parar, eu corri em direção a ela. Ela se virou quando o seu par balançou a cabeça em minha direção. Eu sorri. — Você está linda. — Eu tive que gritar para ser ouvida sobre a música. — Assim como você. — Ela me deu um abraço rápido e, em seguida, me puxou de volta. — Ele está se comportando? — Até agora. Você se importa? — Eu coloquei meu xale e bolsa em sua mesa quando ela balançou a cabeça. — Eles fizeram um bom trabalho na decoração. Lesa assentiu. — Ainda é um ginásio, apesar de tudo. — Ela riu. — Ele tem esse cheiro... Isso era verdade. Carissa se juntou a nós rapidamente, puxando ambas para a pista de dança sem os caras. Eu não me importava. Dançamos umas com as outras, rindo e sendo simples bobas. Lesa dançava como uma dupla articulação como uma prostituta, e eu acho que Carissa fez o homem correndo em um ponto. Eu peguei um vislumbre de Dee conversando com Adam perto do palco. Dando as meninas uma olhada rápida, eu fui até eles. — Dee! — Ela se virou para mim, com os olhos brilhando sob as luzes ofuscantes. — Ei. — Parei, meus olhos saltando entre eles. Adam me deu um sorriso apertado antes de se juntar a multidão de dançarinos. — Está tudo bem? — Eu peguei a mão dela, apertando-a. — Você está chorando?


— Não. Não! — Ela enxugou seus olhos com a mão livre, usando seu dedo mindinho. — É só que... Eu não acho que Adam queria vir comigo, e eu não tenho certeza se quero estar aqui. E é... — Ela balançou a cabeça e puxou sua mão livre. — De qualquer forma, você está ótima! Esse vestido é de morrer! Meu coração caiu por ela. Não parecia justo que ela fosse limitada com quem ela pudesse sair. Especialmente considerando que cada Luxen homem que eu conheci era um idiota. Já que eles todos cresceram juntos, devia ser como ir ao baile com seu irmão. — Ei. — Eu disse, tendo uma ideia. — Podemos sair daqui, se você quiser. Vamos buscar filmes e comer sorvete em nossos vestidos bonitos. Parece divertido, certo? Nós podemos alugar Coração valente. Você ama esse filme. Dee riu, olhos lacrimejando quando ela me puxou para um abraço apertado. — Não. Nós vamos desfrutar isso aqui. Como está o seu encontro? Olhei em volta, não o encontrando. — Provavelmente bêbado em algum lugar. — Oh, não. — Ela tirou uma mecha de cabelo para trás. Ela usava o cabelo solto e o arrumou para que ele caísse sobre os ombros como uma onda de água escura. — Ruim? — Ainda não, mas eu queria saber se poderia pegar uma carona com vocês? — É claro. — Ela começou a me puxar para a pista de dança. — Nós provavelmente vamos para a fogueira depois. Você pode vir conosco ou podemos deixá-la em casa. Simon não tinha mencionado uma festa. Talvez eu tenha sorte e ele esqueça de mim. Dee e eu contornamos a beira da pista, de mãos dadas. Eu quase tinha encontrado Lesa na bagunça, mas depois acabei completamente paralisada. Tinha uma pequena vela coberta de vidro sobre uma mesa branca. Ela enviava um brilho suave bruxuleante nas maçãs altas do rosto de Daemon e lábios carnudos. Ash não estava à vista, e honestamente eu não me importava onde ela estava. O olhar de Daemon estava tão concentrado que dei um passo involuntário para trás, mas nós não quebramos o contato visual. A ânsia chegou ao fundo do meu estômago passando por mim como um raio quente, e era o tipo de sensação que eu não podia forçar, não podia nem imitar se você quisesse. E, em seguida, Simon estava em frente de mim, pegando a minha mão e me puxando para longe de Dee e para a pista de dança. Não era uma dança lenta, mas ele colocou seu braço musculoso ao redor da minha cintura e me puxou contra seu peito de qualquer maneira. A borda dura de seu aperto cortava em minhas costelas. — Você fugiu de mim. — Ele disse, seus lábios roçando meu ouvido, encharcando meu pescoço com bafos de álcool. — Eu pensei que você tinha me deixado. — Não, eu vi amigos. — Eu tentei puxar de volta, mas eu estava preso a ele. — Onde estão seus amigos? — Huh? — Ele gritou, incapaz de me ouvir quando a música aumentou. — Há uma festa hoje à noite no Campo. Todo mundo está indo. — Uma de suas mãos foi para baixo nas minhas costas, o dedo descansando sobre o alargamento do meu bumbum. — Nós deveríamos ir. Caramba. — Eu não sei. Toque de recolher. — Eu gritei de volta, tentando manobrar sua mão do meu traseiro. — Então? É o baile. É hora de festa.


Eu não me incomodei em responder. Eu estava muito ocupada evitando suas mãos, que estavam em todos os lugares. Dançamos uma música antes que eu pudesse tirar as mãos dele com sucesso, e a única razão pela qual eu consegui é que Carissa me salvou. Casais estavam espalhados por todo o lugar. Então avistei Ash sentada à mesa, parecendo chateada enquanto Daemon olhava para o chão. Várias pausas para o banheiro e danças mais tarde, acabei voltando para Simon. Para um ser humano, ele com certeza sabia como ir para cima de alguém. Ele não tinha cheiro de álcool, desta vez, mas caramba, suas mãos estavam muito maldosas quando fomos até um círculo apertado. Eu podia sentir cada centímetro dele, e ele não parecia se importar. Eu estava começando a suar quando uma de suas mãos caíram do meu ombro, evitando por pouco o meu peito. Eu empurrei para trás, olhando para ele. — Simon! — O quê? — Ele parecia inocente. — Sinto muito. Minha mão escorregou. Sua mão deslizou pelo meu bumbum avermelhado. Eu desviei o olhar, debatendo o que fazer. Eu precisava desaparecer. Rápido. — Se importa se eu interromper? — Uma voz profunda perguntou atrás de mim. Os olhos azuis de Simon se arregalaram quando eu virei. Daemon estava ali, um olhar duro em seu rosto. Ele não estava olhando para mim. Seus olhos estavam focados em Simon em desafio. Como se desafiasse o menino a dizer não. Depois de um segundo, Simon me liberou. — Timing perfeito. Eu precisava de uma bebida de qualquer maneira. Ele levantou uma sobrancelha para Simon e, em seguida, olhou para mim. — Dança comigo? Não tendo nenhuma ideia do que ele estava fazendo, eu cautelosamente coloquei minhas mãos em seus ombros. — Isso é uma surpresa. Ele não disse nada quando ele passou um braço em volta da minha cintura e estendeu a mão, tomando conta de uma das minhas mãos. A música desacelerou até que parecia se arrastar em uma melodia assombrosa sobre amor perdido e encontrado novamente. Eu olhei para aqueles olhos extraordinários, atordoada que ele pudesse me segurar com tanta... Ternura. Meu coração bateu conforme o sangue corria para cada ponto do meu corpo. Tinha que ser a dança, a maneira como ele preenchia seu smoking. Ele me puxou para mais perto. Excitação e medo guerreavam dentro de mim. As luzes refletiam em seu cabelo meia-noite deslumbrante. — Você está se divertindo com... Ash? — Você está se divertindo com o Mãos Felizes? Mordi o lábio. — Tão espertinho. Ele riu no meu ouvido, provocando arrepios através de mim. — Nós três viemos juntos, Ash, Andrew e eu. — Sua mão repousava em cima do meu quadril, tendo um impacto totalmente diferente em mim. Minha pele se arrepiou debaixo do vestido. Daemon limpou a garganta quando ele desviou o olhar.


— Você... Você está linda, alias. Realmente muito boa para estar com aquele idiota. — Um rubor roubou a cor da minha pele, e eu abaixei meu olhar. — Você está bêbado? — Infelizmente, não, não estou. No entanto, estou curioso por que você iria perguntar. — Você nunca diz nada de bom para mim. — Bom ponto. — Ele suspirou. Daemon se moveu um pouco mais e virou a cabeça ligeiramente. Sua mandíbula roçou minha bochecha e eu pulei. — Eu não vou morder você. Ou te apalpar. Você pode relaxar. Minha réplica espirituosa morreu em meus lábios quando ele moveu a mão do meu quadril e guiou minha cabeça até seu ombro. No momento em que meu rosto tocou o ombro coberto pelo smoking, houve uma corrida vertiginosa de sensações. Sua mão terminou em minhas costas novamente e se moviam lentamente com a música. Depois de algum tempo, ele começou a cantarolar baixinho, e eu fechei os olhos. Isso... Não era bom. Era emocionante. — Sério, como é que o seu encontro está indo? — Perguntou ele. Eu sorri. — Ele é meio safado. — Isso é o que eu pensava. — Ele virou a cabeça, e por um momento o queixo descansou contra o meu cabelo, então ele levantou a cabeça. — Eu avisei sobre ele. — Daemon. — Eu disse baixinho, querendo que ele não estragasse o clima. Havia algo tranquilo sobre isso, embalando. — Tenho tudo sob controle. Ele bufou. — Claro que tem, Gatinha. Suas mãos estavam se movendo tão rápido que eu estava começando a questionar se ele era humano ou não. Eu endureci, meus olhos abrindo. Contei até dez. Eu fiz isso até três antes de ele falar novamente. — Você devia fugir daqui e ir para casa, enquanto ele estiver distraído. — Sua mão apertou a minha. — Eu posso até fazer com que Dee se transforme em você, se precisar. Chocada que ele iria a esse extremo, eu me afastei e olhei para ele. — Está tudo bem se ele ficar pegando na sua irmã? — Eu sei que ela pode cuidar de si mesma. Você está fora de seu alcance com esse cara. Nós paramos de dançar, ignorando os outros casais. Descrença passou através de mim. — Desculpe-me? Eu estou fora do meu alcance? — Olha, eu dirigi aqui. Eu posso deixar que Dee pegue uma carona com Andrew e levá-la para casa. — Parecia que ele tinha tudo planejado. Então seus olhos estreitaram. — Você está realmente pensando em ir à festa com aquele idiota? — Você vai? — Eu perguntei, puxando minha mão da dele. Minha outra mão estava ainda em seu peito e seu braço ainda circulava minha cintura. — Não importa o que estou fazendo. — Frustração pontuava cada uma de suas palavras. — Você não vai a essa festa. — Você não pode me dizer o que fazer, Daemon. Seus olhos se estreitaram, mas eu podia ver o estranho brilho começando a se formar em seus olhos, escurecendo suas pupilas. — Dee vai levar você para casa. E eu juro, se eu tiver que jogá-la por cima do meu ombro e levála para fora daqui, eu vou.


Minha mão enrolou em um punho inútil contra seu peito. — Eu gostaria de ver você tentar. Ele sorriu, os olhos começando a brilhar na escuridão. — Eu aposto que você gostaria. — Que seja. — Eu disse, ignorando os olhares que estavam começando a vir de todos. Por cima do ombro, vi o Sr. Garrison nos observando, o que trabalhava para meu benefício. — Você é o único que vai causar uma cena se me levar para fora daqui. — Daemon fez um barulho que realmente soou como um grunhido. Qualquer pessoa em sã consciência teria ficado apavorada, e eu deveria ter ficado, considerando que sabia do que ele era capaz. Eu não estava. — Porque nosso professor alienígena está nos observando enquanto falamos. O que você acha que ele vai fazer quando você me atirar sobre o seu ombro, amigo? — Cada centímetro dele enrijeceu. Eu sorri como o gato que comeu um aquário todo cheio de peixes. — Pensei que fosse isso. Surpreendentemente, ele devolveu o sorriso. — Eu continuo subestimando você, Gatinha. Simon apareceu antes que eu tivesse a chance de tripudiar sobre essa grande vitória. — Você está pronta? — Perguntou Simon, olhando entre Daemon e eu. — Todo mundo está indo para a festa. O olhar de Damon me desafiou a não ouvi-lo, e isso foi muito bom porque eu aceitei o desafio. Ele não controlava a minha vida. Eu controlava.


23 O campo ficava a cerca de dois quilômetros fora de Petersburgo, indo na direção oposta da minha casa. Era literalmente um gigantesco milharal. Enormes fardos de feno cobriam a paisagem, até onde eu podia ver, iluminando tudo em laranja e vermelho. Eu não pude evitar, mas acho que a combinação de feno seco e fogo não iria acabar bem. Alguém trouxe um barril. Correção: a combinação de feno, fogo e cerveja barata não poderia acabar bem. Simon manteve suas mãos para si mesmo todo no caminho até aqui, então eu estava me sentindo muito bem sobre a minha decisão com exceção do previsível problema acima. Ele me guiou através dos pés de milho pisoteados em direção ao fogo. — As meninas estão lá. — Ele apontou para o outro lado do fogo onde várias meninas estavam agrupadas juntas, compartilhando copos plásticos vermelhos. — Você deve ir dizer oi. Se misturar um pouco. Eu balancei a cabeça, não tendo nenhuma intenção de ir lá. — Vou pegar uma bebida. — Ele se inclinou, apertando meus ombros antes de sair. No momento em que chegou o barril, ele deu um comprimento a outro cara corpulento e soltou um sonoro: — Woo-hoo! Uma multidão se reunia ao redor do fogo, empurrando nele pedaços de madeira que tinha em volta. Alguém tinha trazido uma caminhonete, ligado o rádio, e deixado as portas abertas, o que tornava quase impossível ouvir qualquer coisa. Segurando o xale em volta dos meus ombros, eu fui até à borda, procurando um rosto familiar. Aliviada, vi Dee de pé com os trigêmeos Thompson. Ao lado deles, Carissa e Lesa compartilhavam um cobertor. Daemon estava longe de ser visto. — Dee! — Eu chamei, fazendo meu caminho ao lado uma menina balançando em saltos altos. — Dee! Ela se virou e, segundos depois, ela acenou com a mão loucamente. Dei um passo na direção dela, e Simon apareceu do nada, com dois copos na mão. — Oh meu Deus! — Eu disse, dando um passo para trás. — Você me assustou. Simon riu, me entregando um copo. — Eu não vejo como. Eu estava chamando o seu nome. — Sinto muito. — Eu tomei a bebida, franzindo o nariz com o cheiro distinto. Tomando um gole, eu aprendi que o gosto era tão ruim quanto cheirava. — É meio difícil ouvir com todo o barulho. — Eu sei. E nós não tivemos a oportunidade de falar com todos. — Simon passou o braço sobre o meu ombro, tropeçando um pouco. — E isso é uma merda. Eu queria falar com você a noite toda. Você gostou do corsage? — É lindo. Obrigada mais uma vez. — Era bonito, uma combinação de rosa cor de rosa e rosas vermelhas. — Você conseguiu isso na cidade? Ele acenou com a cabeça e, em seguida, bebeu o conteúdo do seu copo quando se afastou da


caminhonete. — Minha mãe trabalha em uma floricultura local. Ela fez isso. — Uau. Isso é muito legal. — Eu mexi nele, com cuidado para não derramar cerveja. — O seu pai trabalha na cidade? — Não, ele vai todos os dias para Virginia. — Ele jogou o copo para o lado e tirou o frasco. — Ele é advogado. — Vangloriou-se, desapertando a tampa com uma mão. — Trata danos pessoais. Mas seu irmão é médico na cidade. — Minha mãe, ela é enfermeira e trabalha em Virginia, também. — Todos os movimentos dele estavam puxando o xale. Ele estava no meio dos meus ombros. — Você já sabe onde irá fazer faculdade? — Eu perguntei, lutando para ter algo para dizer. Tirando a mão boba, ele era legal. — Vou para a WVU com os caras. — Ele franziu a testa para a minha própria bebida intocada. — Você não bebe? — Oh, não, eu bebo. — Eu tomei um gole para provar isso. Ele sorriu e olhou para fora, falando sobre qual dos seus amigos estavam pensando em ir para Marshall, em vez de WVU. Quando ele não estava olhando, eu joguei a metade do conteúdo do copo fora. Simon continuou a fazer perguntas, sendo interrompido a cada poucos minutos quando um de seus amigos passavam por ele. Joguei a maioria da minha bebida fora, e ganhei várias recargas. Simon me disse para ficar onde estávamos quando ele ia e voltava do barril. Pelo meu terceiro copo, Simon provavelmente estava pensando que eu já estava alta, mas pelo menos ele estava fazendo um ótimo exercício. Antes que eu percebesse, estávamos a uma boa distância da fogueira, entre os primeiros grupos de árvores. Cada passo ficava mais difícil. Em parte devido ao terreno irregular e meus calcanhares, e até mesmo um pouquinho do peso de Simon era difícil de suportar. Simon se endireitou e puxou o braço dos meus ombros, levando o xale junto com ele. Ele voou em algum lugar atrás de mim, misturando rapidamente com o chão sombrio e a vegetação densa. — Merda. — Eu disse, virando-me, apertando os olhos. — O quê? — Ele balbuciou um pouco. — Eu deixei cair meu xale. — Eu tomei alguns passos para trás em direção à fogueira — Mmm, você está melhor sem ele. — Disse ele. — Que vestido... Porra! Eu atirei um olhar irritado por cima do ombro antes de voltar a olhar... Tudo parecia preto. — Sim, bem, ele pertence à minha mãe, e ela vai me matar se eu perdê-lo. — Nós vamos encontrá-lo. Não se preocupe com isso agora. De repente, o braço dele estava em volta da minha cintura, me puxando para trás. Assustada, eu derramei o copo de cerveja e deixei sair um riso nervoso quando me torci para fora de seu toque. — Eu acho que preciso encontrá-lo agora. — Não pode esperar? — Simon deu um passo mais perto de mim, e eu dei uma volta. Ele estava em pé na minha frente, e eu percebi que estava presa entre ele e uma árvore. — Nós estávamos conversando, e há essa coisa que eu queria fazer. Olhei para a fogueira. Parecia muito longe agora. — O quê? Ele colocou a mão enorme no meu ombro, e seu aperto era firme. A sensação que se apoderou de mim era mais do que apenas o fator nojo. Foi outra coisa. Era mais poderoso, deixando um gosto estranho no céu da minha boca, como quando o Arum tinha falado comigo do lado de fora da


biblioteca. Ele se inclinou, me levando com ele e ao mesmo tempo, mergulhando sua cabeça. Eu congelei por um segundo, e isso era tudo o que tinha. Sua boca estava na minha, provando o gosto de cerveja e menta. Ele fez um som e empurrou para frente. Minhas costas foram contra uma árvore antes que eu pudesse empurrá-lo de volta, e ele ainda continuou empurrando para frente, beijando meus lábios firmemente fechados. Eu não conseguia respirar. Colocando minhas mãos em seu peito, eu empurrei até que eu fui capaz de arrancar minha boca livre. — Calma lá, Simon, isso é demais. — Eu disse, ansiosa no ar. Tentei me mexer livre, mas ele era inabalável. — Ah vamos lá, não é muito. — Sua mão trabalhou seu caminho entre mim e a árvore, até que estavam contra as minhas costas, me segurando no lugar. Eu empurrei novamente contra seu peito, com raiva. — Eu não vim aqui para isso! Simon riu. — Todo mundo vem aqui para isso. Olha, nós dois estamos bebendo, ambos nos divertindo. Não há nada de errado com isso. Eu não vou nem contar a ninguém se você não quiser. Todo mundo sabe que você fez isso com Daemon no verão. — O quê? — Eu gritei. — Simon, me deixa! Seus lábios escorregadios e molhados cortaram minhas palavras. Sua língua entrou em minha boca, e eu queria vomitar. Minha frequência cardíaca triplicou e, em um instante, eu gostaria de ter escutado Daemon, que eu tivesse aceitado sua oferta de ir para casa, porque isto estava fora do meu alcance. Eu consegui minha cabeça livre. — Simon, pare! E, em seguida, Simon parou. Eu caí contra a árvore, atordoada e sem fôlego. Houve o som de alguém batendo no chão e depois um choro ferido. Alguém estava debruçado sobre um Simon estatelado, descendo e o levantando pelo cangote. — Você tem um problema com a compreensão de inglês simples? Eu reconheci aquele tom masculino, profundo. Era a mesma voz que Daemon tinha usado no dia em que eu estava arrumando o jardim. Calma mortal, perigosamente baixa. Ele estava respirando pesadamente enquanto olhava para o menino encolhido. — Cara, eu sinto muito. — Simon arrastou, agarrando o pulso de Daemon. — Eu pensei que ela— Você pensou o quê? — Daemon levantou-o em seus pés. — Isso não significa sim? — Não! Sim! Eu pensei queDaemon levantou a mão, e Simon só... Simplesmente parou. Braços levantados, mãos espalmadas para fora no ar na frente de seu rosto. O sangue que tinha estado escorrendo do nariz, parou em sua boca aberta. Olhos arregalados e sem pestanejar. Um olhar de medo e confusão bêbado estava congelado em seu rosto. Daemon tinha congelado Simon. Literalmente. Dei um passo para frente. — Daemon, o que... O que você fez? Ele não olhou para mim, seus olhos focados em Simon. — Era isso ou eu matava ele. Não havia nenhuma dúvida pra mim que ele era capaz de matá-lo. Eu cutuquei o braço de Simon.


Era real, mas duro. Como um cadáver. Engoli em seco. — Ele está vivo? — Ele deveria estar? — Ele perguntou. Um olhar passou entre nós, pesado com a compreensão e arrependimento. A mandíbula de Daemon ficou tensa. — Ele está bem. Agora, é como se ele estivesse dormindo. Simon parecia uma estátua, uma estátua bêbada e pervertida. — Deus, isso é uma bagunça. — Eu voltei, passando os braços em volta de mim. — Quanto tempo ele vai ficar assim? — Tanto quanto eu quiser. — Respondeu ele. — Eu poderia deixá-lo aqui. Deixar o cervo mijar em cima dele e os corvos cagarem em cima dele. — Você não pode... Fazer isso, você sabe disso? Certo? — Daemon encolheu os ombros. — É preciso transformá-lo de volta, mas em primeiro lugar, eu gostaria de fazer uma coisa. Daemon arqueou uma sobrancelha com curiosidade. Dando uma respiração profunda, que ainda tinha gosto de cerveja barata, balas e a língua de Simon, eu o chutei direto entre as pernas dele. Simon não reagiu, mas ele sentiria mais tarde. — Uau. — Daemon soltou uma risada estrangulada. — Talvez eu devesse ter matado ele. — Ele franziu a testa quando viu a expressão no meu rosto. Ele se virou para trás para Simon e acenou com a mão. O menino dobrou, colocando as mãos entre as pernas. — Merda! Daemon empurrou Simon para trás. — Sai da minha frente, e eu juro que se eu ver você olhando para ela novamente, vai ser a última coisa que você vai fazer. Simon estava com três tons brancos quando ele passou a mão sobre seu nariz sangrando. Seus olhos corriam de mim para Daemon. — Katy, eu sinto muito. — Sai. Fora. Daqui. ��� Daemon rosnou, dando um passo ameaçador para frente. Simon se virou e saiu, tropeçando e mancando sobre arbustos. Um silêncio morto caiu entre nós. Até mesmo a música parecia ter ficado muda. Daemon virou-se lentamente e saiu. Eu fiquei lá, tremendo. Daemon ia me deixar aqui. Eu não o culpo. Ele me avisou várias vezes, e eu não tinha escutado. Lágrimas de raiva e frustração queimaram em meus olhos. Mas depois ele voltou, segurando meu xale nas mãos. Ele me entregou, xingando baixinho. Agitando as mãos, peguei o xale dele e vi que seus olhos estavam brilhando. Quanto tempo eles estavam assim? Eu poderia sentir seus olhos em mim, pesados e intensos. — Eu sei. — Eu sussurrei, apertando o xale para frente do meu vestido rasgado. — Por favor, não diga. — Dizer o quê? Que eu te avisei? — Ele parecia revoltado. — Mesmo eu não sou tão idiota. Você está bem? Eu balancei a cabeça e respirei fundo. — Obrigada. Daemon amaldiçoou novamente e, em seguida, ele foi se aproximando, jogando algo quente que cheirava a ele sobre meus ombros. — Aqui. — Ele disse rispidamente. — Coloque isso. Ele vai... Cobrir tudo.


Olhei para baixo. O xale rendado não fez nada para esconder o sutiã rasgado do meu vestido. Ruborizando, eu coloquei meus braços em sua jaqueta smoking. Lágrimas estavam obstruindo minha garganta agora. Eu estava com raiva de Simon – de mim – e estava envergonhada. Já que eu tinha o casaco, eu abracei o xale perto. Daemon nunca iria me deixar esquecer dessa. Agora ele pode não estar jogando no meu rosto, mas haveria sempre um amanhã. Os dedos de Daemon roçaram minha bochecha, colocando uma mecha de cabelo que tinha caído solto atrás da minha orelha. — Vamos lá. — Ele sussurrou. Eu levantei a minha cabeça. Havia uma suavidade inesperada em seus olhos. Eu engoli o nó na minha garganta. Agora, ele é gentil? — Eu vou te levar para casa. Desta vez não era um comando arrogante ou suposição. Eram apenas simples palavras. Eu balancei a cabeça. Após o desastre que aconteceu e o fato de que eu percebi que tinha outro rastro em mim, eu não ia discutir. Então ele me surpreendeu. — Espere. Parecia que ele estava pronto para vir através de sua ameaça anterior e me jogar sobre os ombros. — Kat. — Simon não terá um rastro nele, como eu? Se o pensamento passou por sua mente, não pareceu incomodá-lo. — Ele tem. — Mas... Daemon estava em meu rosto em um piscar de olhos. — Agora não é exatamente o meu problema. — Então ele pegou meu braço. Seu aperto não era apertado, mas foi firme. Nós não falamos quando ele me levou pelo ar da noite para seu SUV estacionado perto da estrada principal. Vários dos carros que passávamos estavam embaçados. Alguns estavam se movendo. Toda vez que eu olhava para ele, seus olhos estavam estreitos e a mandíbula cerrada. Culpa mastigou minhas entranhas como o ácido. E se o Arum ainda estava por perto, e eles virem o rastro em Simon? Sim, ele quase era um estuprador, mas o que o Arum faria com ele? Não podia deixá-lo por aí, perambulando com um rastro em cima dele. Ele soltou o meu braço e abriu a porta do passageiro de seu SUV. Eu entrei, tirando a alça da bolsa de meu pulso e a colocando ao lado. Eu o observei dando a volta no carro, mandando mensagens em seu telefone. Daemon subiu no banco do motorista, me dando um olhar abrigado. — Eu avisei Dee que estava levando você para casa. Quando cheguei aqui, ela disse que te viu, mas não conseguia encontrá-la. Acenando com a cabeça, comecei a puxar cinto de segurança, mas não me mexi. Toda a minha frustração apareceu, e eu puxei com força. — Droga! Daemon se inclinou sobre mim e arrancou de meus dedos. Em um espaço tão pequeno, não havia muito espaço para se movimentar e antes que eu pudesse protestar, ele já estava puxando o cinto de segurança. Sua mandíbula roçou minha bochecha e, em seguida, os lábios. Havia toques rápidos, todos acidentais, mas eu achei difícil respirar, no entanto. Daemon conseguiu tirar o cinto de segurança e quando ele passou pela minha barriga, a parte de trás de seus dedos roçou sobre a frente do meu vestido. Eu me empurrei no assento.


Ele levantou a cabeça, assustado. E eu estava tão surpresa. Nossas bocas estavam quase se tocando. Sua respiração era quente e doce. Inebriante. Seu olhar caiu para os meus lábios, e meu coração começou a fazer todos os tipos de coisas loucas no meu peito. Nenhum de nós se moveu pelo o que pareceu uma eternidade. E então ele clicou o cinto e voltou ao seu lugar, respirando com dificuldade. Ele agarrou o volante por alguns minutos tensos enquanto eu tentava me lembrar como respirar normalmente e não dando goles de ar. Sem dizer uma palavra, ele saiu para a estrada. Houve um silêncio tenso no carro. A volta para casa foi quase uma tortura. Eu queria agradecê-lo novamente e perguntar sobre o que ele planejava fazer com Simon, mas eu tinha a sensação de que não iria mais além. Eu acabei descansando minha cabeça contra o assento, fingindo dormir. — Kat? — Disse ele, a meio caminho de casa. Fingi que não o ouvi. Infantil, eu sei, mas eu não sabia o que dizer. Ele era um completo mistério para mim. Tudo que ele fazia entrava em contradição com outra coisa que eu fazia. Eu podia sentir seus olhos em mim, e era difícil ignorar isso. Tão difícil quanto era a ignorar tudo o que havia entre nós. — Merda! — Daemon explodiu, batendo nos freios. Meus olhos se abriram, chocados ao encontrar um homem no meio da estrada. A SUV derrapou até parar, me jogando para frente e, em seguida, o cinto de segurança dolorosamente mordeu meu ombro e me puxou para trás. Em seguida, o carro simplesmente desligou, motor, luzes, tudo. Daemon falou em uma língua que era suave e musical. Eu tinha ouvido antes, quando o Arum atacou na biblioteca. Eu reconheci o homem na frente do nosso carro. Ele usava as mesmas calças jeans escuras, óculos de sol, e uma jaqueta de couro que eu tinha visto no dia do lado de fora da loja de roupas. E, em seguida, outro homem apareceu, quase idêntico a ele. Eu não poderia nem mesmo ver de onde ele veio. Ele era como uma sombra, deslizando para fora das árvores. Em seguida, um terceiro apareceu, juntando-se a outro para ficar atrás do primeiro cara. Eles não se mexeram. — Daemon... — Eu sussurrei, meu coração pulando em minha garganta. — Quem são eles? Uma luz forte, cegando branco, iluminou em seus olhos. — Arum.


24 O medo aumentou tão rapidamente que me deixou tonta, quase entorpecida. E como eu poderia estar tão entorpecida quando certamente eu deveria estar sentindo uma dúzia de emoções? Daemon se abaixou e puxou a perna da calça. Houve um som de algo rasgando, como um velcro. Ele segurava algo longo, escuro e brilhante. Só quando empurrou para as minhas mãos trêmulas que eu percebi que era algum tipo de vidro preto moldado em uma adaga afiada com uma ponta fina em uma extremidade e um revestimento de couro no outro. — Isto é vidro de obsidiana vulcânica. A borda é muito afiada e vai cortar através de qualquer coisa. — Explicou rapidamente. — É a única coisa neste planeta, além de nós, que pode matar os Arum. Esta é a criptonita deles. Eu olhei para ele enquanto meus dedos se fechavam em volta da bainha de couro. — Vamos lá, garoto bonito! — Gritou o Arum na frente, sua voz afiada como navalhas e gutural. Ele tinha um forte sotaque de estrangeiro. — Vem aqui fora brincar! Daemon ignorou e agarrou meu rosto, suas mãos firmes e fortes. — Ouça, Kat. Quando eu disser para você correr, você corre e não olha para trás, não importa o quê. Se algum deles, qualquer um, persegui-la, tudo que você tem a fazer é apunhalá-los em qualquer lugar com a obsidiana. — Daemon— Não. Você corre quando eu disser para correr, Kat. Diga que você entende. Havia três deles e apenas um Daemon. As chances não eram boas. — Por favor, não faça isso! Corra comigo! — Eu não posso. Dee está na festa. — Seus olhos encontraram os meus por um segundo. — Corra quando eu te disser. E então ele se virou, deixando escapar um suspiro de resignação, e abrindo a porta do carro. Os ombros de Daemon se endireitaram, e sua arrogância era cheia de confiança. Aquele sorriso arrogante, o que eu queria bater fora de seu rosto, muitas vezes, apareceu em seus lábios. — Uau! — Disse Daemon. — Vocês são mais feios como seres humanos do que em sua verdadeira forma. Não achei que isso fosse possível. Parece que vocês estiveram vivendo sob uma rocha. Vendo muito o sol? Aquele na frente, provavelmente seu líder, rosnou. — Você é arrogante agora, como todos os Luxen. Mas para onde vai a sua arrogância quando absorvermos seus poderes? — No mesmo lugar em que o meu pé irá. — Respondeu Daemon, formando punhos com as mãos. O líder parecia confuso. — Você sabe, na sua bunda. — Daemon sorriu e os dois Arum assobiaram. — Espere. Vocês me parecem familiar. Sim, eu sei. Eu matei um de seus irmãos. Desculpe por isso. Qual era o nome dele? Vocês todos parecem iguais para mim. — As formas começaram a vacilar dentro e para fora, se transformando de humano para sombra e humano novamente. Estendi a mão para a maçaneta da porta, apertando o punhal na mão. Sangue bombeando pelo meu corpo tão rápido, tudo abrandou.


— Eu vou rasgar a sua essência de seu corpo. — O Arum rosnou. — E você vai implorar por misericórdia. — Como seu irmão fez? — Respondeu Daemon, voz baixa e fria. — Porque ele pediu, ele chorou como uma menina antes de eu acabar com sua existência. E foi isso. O Arum gritou em uníssono, o som dos ventos uivantes e morte. Minha respiração ficou presa na minha garganta. Daemon levantou as mãos e um grande rugido começou debaixo do carro, sacudindo a estrada, e as árvores para fora. Um estalo alto soou, como uma explosão de um trovão, seguido rapidamente por vários outros em sucessão. A terra parecia tremer e rugir. Virei-me para a janela e suspirei. As árvores estavam sendo arrancadas do chão, suas raízes grossas e retorcidas pingando pedaços de terra úmida. Um cheiro de terra enchia o ar. Oh meu Deus, Daemon estava arrancando árvores. Um tapa acertou nas costas de um Arum, levando-o a vários metros abaixo da estrada. Árvores tombaram. Algumas caíram na estrada, cortando o potencial de qualquer motorista inocente entrar em cena. Galhos apareceram, voando pelo ar como adagas. Os outros dois Arum desviaram, piscando e saindo à medida que avançavam em Daemon, os ramos atirando através da sua forma de sombra, sem resistência. O chão tremeu sob a SUV. Ao longo de todo o lado da estrada, pedaços das árvores caiam na estrada. Enormes partes de asfalto giravam no ar, ficando de um laranja brilhante, como se aquecidas a partir de dentro, e voaram diretamente para o Arum. Meu Deus, eu com certeza pensaria duas vezes antes irritar Daemon da próxima vez. O Arum se esquivou do asfalto e das árvores, jogando para trás o que pareciam pingos de óleo. Onde o material sombrio pousou, a estrada queimou. Cheiro de asfalto queimado encheu o ar. Então Daemon era nada além de uma luz branca ofuscante, um ser que não era humano, mas de outro mundo, belo e assustador ao mesmo tempo. O brilho aumentando em volta de suas pernas estendidas, formando uma bola de energia que estalou. Luz pingou sobre a estrada. Linhas de energia estalaram e depois explodiram. O Arum piscou, mas suas sombras não conseguiam se esconder da luz do Daemon. Eu podia vê-los se movendo em direção a ele ainda. Um correu para o lado, correndo dele. Daemon juntou as mãos e o que se seguiu à explosão sacudiu o carro. Luz irrompeu dele, indo direto para o mais próximo, o que enviou o Arum girando no ar, onde por um momento ele estava em forma humana. Óculos escuros quebrados. Pedaços flutuavam no ar, suspensos. Outro estrondo seguiu e o Arum explodiu em uma série de luzes ofuscantes que caiu como milhares de estrelas cintilantes. Daemon jogou seu braço, e o outro Arum voou vários metros, girando e caindo pelo ar, mas ele caiu de joelhos. Corra. A voz veio na minha cabeça. Corra agora, Kat. Não olhe para trás. Corra! Eu joguei a porta do carro aberta e saí cambaleando. Caindo de joelhos, eu desci a vala, estremecendo ao som dos uivos dos Arum. Eu cheguei até a primeira árvore que ainda estava de pé e parei. O instinto me disse para continuar correndo, como Daemon tinha instruído, mas eu não podia deixá-lo lá. Eu não podia fugir. Com o meu coração pulando em minha garganta, eu me virei. Os dois Arum restantes estavam rodeando ele, desaparecendo em sombras e, em seguida, voltando em formas mais altas e imponentes.


Pingos grossos de óleo da meia-noite passaram por Daemon, quase tocando a aura de luz em torno dele. Uma das correntes escuras se chocou contra uma árvore no outro lado da estrada, dividindo-a em duas. Daemon retaliou lançando bolas de luz para eles, mais rápidas e mortais. Elas passaram zunindo pelo ar, formando paredes de chamas que fracassavam quando elas não atingiram nenhum dos Arum. Os Arum não eram tão rápidos quanto Daemon, mas conseguiam desviam de cada um de seus mísseis. Depois de cerca de trinta bolas arremessadas, eu conseguia ver que a forma de Daemon estava abrandando, o tempo entre as bombas ficando maior. Me lembrei do que ele tinha dito quando ele parou o caminhão. Usar seus poderes o esgotava. Ele não podia continuar assim. Terror escorria através de mim quando eu os vi fechar sobre Daemon, sua escuridão quase envolvendo sua luz. Uma bola de chamas vermelhas brilhantes formou e disparou em direção ao Arum, mas Daemon errou. A bola de fogo derrapou do outro lado da estrada, efervescendo sem causar danos. Um dos Arum apagou completamente, enquanto o outro continuou jogando bombas oleosas em Daemon mais e mais, nunca diminuindo. Daemon piscou, reaparecendo a poucos metros de distância de um dos projéteis. Ele estava se movendo rápido, toda a cena começou a parecer como se eu estivesse assistindo a um show de luzes. Daemon focou em um dos Arum arremessando bombas de óleo e ele não viu o outro reaparecendo atrás dele. Os braços de sombra pegaram o que parecia ser a cabeça de Daemon, deixando-o de joelhos ao lado da estrada. Eu gritei, mas o som estava perdido na risada do Arum. — Pronto para implorar? — O Arum na frente dele provocava, assumindo forma humana. — Por favor, faça isso. Significaria muito ouvir a palavra 'por favor' sair de seus lábios enquanto eu tiro tudo de você. Daemon não respondeu, mas sua luz era quente e intensa. — Silencioso até o fim, hein? Assim seja. — O Arum adiantou, levantando a cabeça. — Baruck, esta na hora. Baruck forçou Daemon a ficar de pé. — Faça isso agora, Sarefeth! Uma parte do meu cérebro desligou. Eu estava me movendo sem pensar, correndo em direção a mesma coisa que Daemon tinha me obrigado a fugir. A obsidiana ficou quente na minha mão enquanto eu corria para cima do barranco, queimando como brasa. Um salto no meu sapato quebrou quando ficou enroscado nos galhos caídos, mas eu continuei. Eu não era corajosa. Eu estava desesperada. Sarefeth se transformou em uma sombra, empurrando o braço para frente, para o centro do peito de Daemon. O grito de Daemon rasgou através de mim, aumentando o meu medo, me lançando em raiva e desespero. A luz de Daemon queimou, cegando e se concentrando. O chão tremeu com um tremor gigante. Apenas alguns metros atrás de Sarefeth agora, eu joguei meu braço para trás, a obsidiana de lado, e saltei para frente e o trouxe para baixo com toda a força que eu tinha. Eu esperava encontrar resistência, de carne e osso, mas a obsidiana cortou através da sombra, como se Sarefeth fosse feito de nada mais do que fumaça e de ar, e eu tropecei de joelhos. Sarefeth empurrou de volta, puxando o braço livre da luz de Daemon. Ele girou, seus braços sombrios chegando para mim. Eu me desequilibrei para trás, caindo para baixo. A obsidiana brilhou


na minha mão, vibrando com energia. E então Sarefeth parou. Pedaços dele se libertaram de sua forma, se juntaram à escuridão à deriva no céu, obscurecendo as estrelas até que tudo dele que estava lá a um minuto atrás estivesse flutuando para longe. Baruck soltou Daemon, dando um passo para trás. Por um momento ele estava em sua forma humana, jeans escuros e uma jaqueta, sua expressão horrorizada, olhar fixo na obsidiana brilhante em meu aperto. Seus olhos encontraram os meus por apenas um segundo. A vingança havia sido prometida naquele olhar. E então ele era uma Sombra, puxando a escuridão dentro dele, fugindo em direção ao outro lado da estrada como uma serpente enrolada e desaparecendo na noite. Eu afundei sobre ramos e na estrada rachada em uma louca corrida para alcançar Daemon. Ele ainda não era nada mais do que luz, e eu não tinha ideia de onde tocá-lo ou o quanto ele estava machucado. — Daemon... — Eu sussurrei, caindo, com meus joelhos sangrando, na frente dele. Meus lábios e mãos tremiam. — Daemon, por favor, diga alguma coisa. Sua luz brilhou, jogando fora uma onda de calor, mas ele não fez nenhum som ou movimento, nem mesmo um sussurro de palavras em meus pensamentos. E se alguém viesse? Como eu poderia explicar tudo isso? E se ele estivesse ferido, morrendo? Um soluço subiu na minha garganta. Meu celular! Eu poderia ligar para Dee. Ela saberia o que fazer. Ela tinha que saber. Eu comecei a me levantar quando eu senti uma mão no meu braço. Eu me virei e lá estava Daemon, em forma humana, ajoelhando-se no chão, com a cabeça baixa, mas com o aperto forte. — Daemon, oh Deus, você está bem? — Ajoelhei-me, colocando minha mão em seu rosto quente. — Por favor, me diga que você está bem? Por favor! Ele lentamente levantou a cabeça, colocando a outra mão sobre a minha. — Me lembre... — Ele fez uma pausa, atraindo um suspiro gaguejado. — De nunca te chatear novamente. Cristo, você é secretamente uma ninja? Eu ri e chorei ao mesmo tempo. Então eu joguei meus braços em torno dele, quase derrubando-o de costas no chão. Eu enterrei meu rosto em seu pescoço, inalando o cheiro de terra. Ele não tinha escolha a não ser me abraçar de volta. Seus braços arrastaram em minhas costas, aprofundando a mão no interior de meus cachos que tinham caído soltos. — Você não me ouviu. — Ele murmurou contra o meu ombro. — Eu nunca ouço. — Eu o apertei com força. Engolindo em seco, me afastei um pouco, procurando seu rosto cansado, mas bonito. — Você se machucou? Existe alguma coisa que eu posso fazer? — Você já fez o suficiente, Gatinha. — Ele se levantou, me levando junto com ele. Respirando, ele olhou em volta. — Nós precisamos sair antes que alguém venha. Eu não tinha certeza de como isso iria ajudar. Parecia que um tornado havia passado por aqui, mas depois Daemon recuou e acenou com a mão. Tudo abaixo da estrada, as árvores foram retiradas para fora da estrada e rolaram para os lados, abrindo caminho. A ação quase não o incomodou. — Vamos lá. — Disse Daemon. No caminho de volta para o carro, eu me lembrei que ainda tinha a obsidiana na minha mão. O carro ligou logo que Daemon virou a chave, para nosso alivio mútuo. — Você está bem? Se machucou de alguma maneira? — Ele perguntou.


— Eu estou bem. — Eu estava tremendo. — É só que... Foi muita coisa, sabe? Ele deu uma risada curta, mas, em seguida, ele bateu no volante com o punho. — Eu deveria saber que haveria mais por perto. Eles viajam em grupos de quatro. Maldição! Eu segurei sua obsidiana mais perto, olhando para frente. A adrenalina estava sumindo e eu estava tentando processar tudo o que aconteceu esta noite. — Havia apenas três deles. — Sim, porque eu matei o primeiro. — Ele puxou o celular do bolso. —E eu tenho certeza que eles estavam putos com isso. Tínhamos matado mais dois, então eu percebi que isso significava que o que restou estaria realmente chateado. Alien com raiva. Uma pequena risada histérica borbulhava, e eu fechei minha boca com pressa. Ele ligou para a irmã, e então, mandou que Dee fosse embora com os Thompsons e ficasse com o Sr. Garrison até que fosse luz do dia. Considerando que os Arum eram mais fortes de noite, usando a escuridão para passar despercebido e se alimentando nas sombras, os Luxen eram o oposto, mais fortes durante o dia. Daemon contou detalhes do que tinha acontecido, e eu o ouvi dizer a Dee que eu estava bem. — Kat, você está bem? Sério? — Perguntou ele depois que desligou, preocupado. Eu balancei a cabeça. Eu estava viva. Ele estava vivo. Estávamos bem. Mas eu não conseguia parar de tremer, não conseguindo esquecer o som do grito de Daemon.

Daemon queria que eu passasse a noite na casa dele. Sua maneira de pensar estava certa. Havia outro lá fora, e até que soubéssemos onde o Arum estava, era mais seguro estar com ele. Pela segunda vez naquela noite, eu não discuti. Eu não me enganei que o convite era por preocupação comigo. Era mais por necessidade. Depois liguei para minha mãe e contei que ia passar a noite com Dee, ela protestou, mas acabou cedendo e Daemon me levou até o quarto de hóspedes onde eu acordei na manhã depois de descobrir sobre eles. Parecia uma vida atrás. Daemon tinha estado tranquilo desde que chegou em sua casa, seus pensamentos a um milhão de quilômetros de distância. Ele me deixou no quarto de hóspedes com um par de calças de pijama gastas de flanela e uma camisa que parecia que pertencia a Dee. No banheiro, eu rapidamente tirei o vestido arruinado, enrolando-o e jogando na lixeira. Eu nunca queria vê-lo novamente. A água quente não conseguiu aliviar a dor em mim. Eu nunca me senti do jeito que eu me sentia agora. Cada músculo gritou, e minha mente estava esgotada. Eu saí do chuveiro, minhas pernas tremendo, e até mesmo no calor do banheiro cheio de vapor eu sentia frio. Eu lentamente limpei o vapor do espelho, chocada com o reflexo que olhou para mim. Meus olhos estavam arregalados. Minhas bochechas estavam medonhamente pálidas e puxei um aperto em minhas bochechas. Eu parecia mais alien do que os meus amigos. Eu ri e logo em seguida me encolhi. Parecia sufocada e feia, chocada no quarto silencioso. Baruck


voltaria. Não foi por isso que Daemon estava tão tranquilo? Sabendo que o Arum iria buscar vingança contra a sua família, não havia nada que ele pudesse fazer. Ou eu poderia mesmo esperar fazer. — Você está bem aí? — Daemon chamou atrás da porta fechada. — Sim. — Corri meus dedos pelo meu cabelo úmido, empurrando grossas mechas do meu rosto. — Sim... — Eu sussurrei de novo. Vesti a roupa que ele me trouxe, e estava quente, cheirando levemente a detergente e a folhas crespas. Ele estava sentado na beira da cama, quando voltei, parecendo cansado e jovem. Ele já tinha se trocado em um par de calças de moletom e uma camisa. — Você está bem? — Perguntei. Ele acenou com a cabeça. — Sempre que nós usamos os nossos poderes, é como... Perder uma parte de nós mesmos. Demora um pouco para recarregar. Logo que o sol nascer, eu vou ficar bem. — Ele fez uma pausa, encontrando meus olhos. — Eu sinto muito que você teve que passar por tudo isso. Eu parei na frente dele. Desculpa não era algo que estava em seu vocabulário muitas vezes. Nem eram palavras dele, eu suspeitava. — Eu não disse obrigado. — Disse ele, olhando para mim. — Você deveria ter corrido, Kat. Eles teriam matado você... Sem pensar duas vezes. Mas você salvou minha vida. Obrigado. Palavras pararam em minha respiração. Olhei para ele. — Você vai ficar comigo esta noite? — Esfreguei meus braços. — Eu não estou dando em cima de você. Você não precisa, mas... — Eu sei. — Ele se levantou, a testa enrugada. — Me deixe verificar a casa de novo, e eu volto. Eu subi na cama, puxando as cobertas até o queixo enquanto eu olhava para o teto. Fechando os olhos, contei silenciosamente até que ouvi os passos de Daemon. Quando abri os olhos, ele estava de pé na soleira da porta, me observando. Eu me afastei para a borda mais distante da cama, deixando muito espaço para ele. Um pensamento estranho passou pela minha cabeça quando o vi me observando. Ele já esteve em uma cama com uma garota humana? Parecia uma coisa tão estúpida até mesmo de pensar. Relações com os seres humanos não eram proibidas. Eles só faziam pouco sentido. E depois de tudo o que aconteceu, por que eu estava pensando sobre isso? Daemon trancou a porta, verificou as grandes janelas, e depois sem palavras deitou na cama, com os braços cruzados sobre o peito, assim como eu. Nós ficamos ali, olhando para o teto. E meu coração estava acelerado. Poderia ser tudo o que aconteceu ou o fato de que Daemon estava ali, tão perto e vivo, mas eu estava hiper-consciente de tudo. De sua lenta e constante respiração. O calor que irradiava de seu corpo. E a minha própria necessidade de ser envolvida nesse calor. Um silêncio tenso desceu enquanto eu corria meus dedos sobre a borda do cobertor. Depois, contra a minha vontade, eu olhei para ele. Daemon olhou de volta, um sorriso torto no rosto. Uma risada borbulhou dentro de mim. — Isso... Isso é tão estranho. A pele ao redor dos olhos dele enrugaram quando seu sorriso se espalhou. — Isso é, não é? — Sim. — Eu ofegava, rindo. Parecia errado rir depois de tudo o que tinha acontecido, mas eu não podia evitar. Depois que eu comecei, não conseguia parar. Eu enfrentei um possível estuprador como


par e uma horda alienígena sugando a essência de Daemon. Loucura. Sua risada se juntou a minha até pequenas lágrimas rolarem pelo meu rosto. O som de seu riso desapareceu quando ele estendeu a mão, perseguindo as gotas com seu dedo. Eu parei, olhando para ele. Seus dedos deixaram meu rosto, mas seu olhar permaneceu trancado em mim. — O que você fez lá? Foi incrível. — Ele murmurou. A emoção doce me sacudiu. — Tem certeza que você não está machucado? O sorriso torto de Damon retornou. — Não. Eu estou bem, graças a você. — Ele mudou de posição, desligou o abajur do lado da cama antes de deitar novamente. Procurei alguma coisa para dizer no escuro. — Estou brilhando? — Como uma árvore de Natal. — Não apenas a estrela? A cama se moveu um pouco, e eu senti a mão dele escovando meu braço. — Não. Você está super brilhante. É como olhar para o sol. Isso que era estranho. Eu levantei minha mão, levemente capaz de ver o meu contorno na escuridão. — Vai ser difícil para você dormir, então. — Na verdade, é uma espécie de consolo. Me faz lembrar do meu próprio povo. Virei a cabeça, e ele estava deitado de lado, olhando para mim. A vibração formando no meu peito. — A coisa toda da obsidiana? Você nunca me contou sobre isso. — Eu não achei que seria necessário. Ou pelo menos eu esperava que não fosse. — Pode te machucar? — Não. E antes que você pergunte o que pode, nós não temos o hábito de contar a seres humanos o que pode nos matar. — Ele respondeu calmamente. — Nem mesmo o DOD sabe o que é mortal para nós. Mas a obsidiana anula os pontos fortes dos Arum. Assim como o beta quartzo nas rochas joga fora uma grande quantidade de energia que exalamos, mas com a obsidiana, tudo o que tem é um pouco e... Bem, você sabe. É a coisa toda da luz, o jeito com que a obsidiana os machuca. — Todos os cristais são prejudiciais para os Arum? — Não, apenas deste tipo. Eu acho que tem algo a ver com o aquecimento e a refrigeração. Matthew me explicou uma vez. Honestamente, eu não estava prestando atenção. Eu sei que isso pode matá-los. Nós carregámos conosco, sempre que saímos, geralmente escondido. Dee carrega uma em sua bolsa. Eu estremeci. — Eu não consigo acreditar que eu matei alguém. — Você não matou alguém. Você matou um alien que teria matado você, sem pensar duas vezes. Que ia me matar. — Acrescentou como um adendo, distraidamente esfregando seu peito. — Você salvou a minha vida, Gatinha. Ainda assim, saber que o cara tinha sido mal não mudava a forma como eu me sentia em meu estômago. — Você foi como Snowbird. — Daemon disse finalmente. Seus olhos estavam fechados, o rosto relaxado. Foi possivelmente a primeira vez que eu tinha visto ele estar tão... Aberto.


— Por que você acha isso? Um pequeno sorriso brincou em seus lábios. — Você poderia ter me deixado lá e corrido, como eu disse. Mas, em vez disso você voltou e me ajudou. Você não tinha que fazer isso. — Eu... Eu não podia deixá-lo lá. — Desviei o meu olhar. — Não teria sido certo. E eu nunca teria sido capaz de me perdoar. — Eu sei. Durma um pouco, Gatinha. Eu estava cansada, exausta, mas parecia que o bicho-papão estava esperando do lado de fora da porta. — Mas e se o último voltar? — Fiz uma pausa, percebendo um novo medo. — Dee está com o Sr. Garrison. Ele sabe que eu estava com você quando eles atacaram. — E se ele me entregar? E se o DOD— Shh... — Daemon murmurou, sua mão encontrando a minha. Seus dedos roçaram o topo da minha. Foi um toque simples, mas eu senti por todo o caminho até os dedos dos pés. — Ele não vai voltar, ainda não. E eu não vou deixar Matthew entregar você. — Mas— Kat, eu não vou deixar. Ok? Eu prometo a você. Eu não vou deixar nada acontecer com você. A vibração estava lá novamente, mas agora parecia que tinha uma dúzia de borboletas levantando voo de uma só vez. Tentei pisar sobre o sentimento. Negócios aliens de lado, Daemon e eu... Bem, nós éramos como ímãs que repeliam um ao outro. Sentir nada além de aborrecimento por ele não era possível, mas que aquele maldito tremor estava lá. Eu não vou deixar nada acontecer com você. Meu peito inchou. Seu toque me queimou. Aquelas palavras me encheram de uma saudade que era avassaladora, inesperada. E era bom estar ao lado dele. Meu corpo relaxou. Segundos, talvez minutos depois, adormeci ao lado de um garoto que eu não podia suportar. Pouco antes do sono me levar, meu último pensamento era se eu iria acordar na parte da manhã ao lado deste Daemon ou do Daemon idiota.


25 Quando acordei na manhã seguinte, o sol já alcançava o topo das montanhas em volta do vale. Eu realmente não estava mais do meu lado da cama. Inferno, eu não estava na cama. Metade do meu corpo estava deitado sobre o peito de Daemon. Nossas pernas estavam entrelaçadas sob o edredom. Um de seus braços estava em volta da minha cintura como uma tira de aço. Minha mão estava na barriga dele. Eu conseguia sentir seu coração batendo em meu rosto, firme e forte. Eu estava lá, minha respiração em minha garganta. Havia algo de íntimo sobre estar enrolada em outra pessoa em uma cama. Como amantes. Um doce, quente fogo tomou conta de minha pele, e eu fechei meus olhos. Cada centímetro de mim estava consciente dele. De como meu corpo se encaixava contra o dele, a maneira como suas coxas estavam pressionadas contra as minhas, a dureza de seu abdômen sob minha mão. Meus hormônios chutaram com a força de um chute no estômago. Choques passavam pelas minhas veias. Por um momento, eu fingi. Não que nós não fossemos de duas espécies diferentes, porque eu não via dessa forma, mas que realmente gostássemos um do outro. E então ele se moveu e rolou. Eu fiquei de costas, e ele ainda não se mexia. Seu rosto se enterrou no espaço entre o meu pescoço e o meu ombro, se aninhando. Jesus... A respiração quente dançou sobre a minha pele, enviando arrepios pelo meu corpo. Seu braço estava pesado contra a minha barriga, a perna dele entre a minha, empurrando para cima. Ar queimou pelos meus pulmões. Daemon murmurou numa língua que eu não conseguia entender. Fosse o que fosse, soava bonito e macio. Mágico. Celeste. Eu poderia tê-lo acordado, mas por algum motivo não o fiz. A emoção dele me tocando era muito mais forte do que qualquer outra coisa. A mão dele estava na borda da camisa emprestada, seus longos dedos na tira de carne exposta entre a bainha da camisa e da barra do desgastado pijama. E sua mão subiu debaixo da camisa, em toda a minha barriga, onde diminuiu ligeiramente. Meu pulso entrou em território cardíaco. As pontas de seus dedos roçaram minhas costelas. Seu corpo se movia, seu joelho pressionado contra mim. Engoli em seco. Daemon parou. Ninguém se mexeu. O relógio na parede bateu. E eu me encolhi. Ele levantou a cabeça. Olhos, como piscinas de grama líquido olharam para mim em confusão. Eles rapidamente se apagaram, porém, voltando a ficar nítidos e duros dentro de segundos. — Bom dia? — Eu rangi. Usando seus braços poderosos, ele se levantou. Seus olhos nunca deixaram os meus. Daemon parecia arrastar uma respiração profunda. Eu não tinha certeza se ele respirou. Algo se passou entre nós, não dito e pesado. Seus olhos se estreitaram. Eu tinha a sensação engraçada de que ele estava avaliando a situação e de alguma forma eu era a culpada por suas sonolentas embora muito, muito boas... Carícias. Como se tivesse sido culpa minha.


Sem dizer uma palavra, ele desapareceu por cima de mim. A porta se abriu e se fechou atrás dele, sem eu sequer ter um vislumbre dele. Eu fiquei ali, olhando para o teto, o coração batendo. Bochechas coradas, meu corpo quente, muito quente. Não tinha certeza de quanto tempo passou, mas a porta se abriu novamente, com uma velocidade de humano normal. A cabeça de Dee apareceu na porta, com os olhos arregalados. — Vocês dois fizeram...? Engraçado que de tudo o que tinha acontecido nas últimas vinte e quatro horas, essa foi a primeira pergunta que ela fez. — Não. — Eu disse, mal reconhecendo minha própria voz. Limpei a garganta. — Quero dizer, dormimos juntos, mas não dormimos juntos. Eu rolei, enterrando meu rosto em um travesseiro. Cheirava a ele – crespo e quente. Como folhas de outono. Eu gemi.

Eu tinha certeza de que, se alguém tivesse me dito que eu iria me encontrar sentada em uma sala com meia dúzia de alienígenas em uma tarde de sábado, eu diria a eles para largar as drogas. No entanto, ali estava eu, sentada em uma poltrona, pernas dobradas debaixo de mim, mas pronta para correr para a porta, se necessário. Daemon estava sentado no braço da poltrona, braços cruzados sobre o peito. O mesmo peito em que eu acordei. Um rubor subiu minha garganta. Nós não tínhamos nos falado. Nem uma única palavra, o que estava tudo bem pra mim. Mas sua posição atual foi devidamente observada por todos. Dee parecia estranhamente presunçosa. Uma profunda, implacável carranca tinha se estabelecido nos rostos de Ash e Andrew, mas o fato de que eu estava aqui ofuscava qualquer motivo que Daemon tivesse por bancar o cão de guarda. Sr. Garrison começou a falar. — O que ela está fazendo aqui? — Ela está iluminada como uma maldita bola de discoteca. — Ash disse acusadora. — Eu poderia provavelmente vê-la de Virginia. De alguma forma, ela fez a coisa toda de brilhar parecer como se eu estivesse coberta de tumores em vez de luz. Eu olhei para ela abertamente. — Ela estava comigo na noite passada, quando o Arum atacou. — respondeu Daemon, calmo. — Você sabe disso. As coisas ficaram um pouco... Explosivas. Não havia nenhum jeito que eu pudesse encobrir o que aconteceu. O Sr. Garrison passou a mão pelo cabelo castanho. — Daemon, de todas as pessoas, eu esperava que você soubesse melhor, ser mais cuidadoso. — Que diabos eu deveria fazer exatamente? Atirá-la para fora antes que o Arum atacasse? Ash arqueou uma sobrancelha. O olhar em seu rosto dizia que não era uma má ideia.


— Katy sabe sobre nós desde o início da escola. — Disse Daemon. — E acredite em mim quando eu digo que eu fiz tudo possível para evitar que ela soubesse. Um dos meninos Thompson respirou fundo. — Ela sabe esse tempo todo? Como você pode permitir isso, Daemon? Todas as nossas vidas têm estado nas mãos de um ser humano? Dee revirou os olhos. — Obviamente, ela não disse uma palavra, Andrew. Se acalme. — Me acalmar? — Andrew fez uma careta que combinava perfeitamente com a de Ash. E agora eu sabia quem era Andrew, eu conseguia distingui-los. Andrew tinha um brinco na orelha esquerda. Adam, que estava quieto, não. — Ela é uma estúpida— Tenha cuidado com o que vai dizer em seguida. — A voz de Daemon era baixa, mas pesada. — Porque o que você não sabe e o que você não pode entender vai dar a você um raio de luz em seu rosto. Meus olhos se arregalaram, assim como praticamente todo mundo na sala. Ash engoliu em seco e virou o rosto, deixando seu cabelo loiro cobrir seu rosto. — Daemon. — Disse Garrison, dando um passo à frente. — Ameaçar um dos seus por ela? Eu não esperava isso de você. Seus ombros se enrijeceram. — Não é assim. Eu tomei uma respiração profunda. — Eu não vou contar a ninguém sobre vocês. Eu conheço os riscos para vocês e para mim, se eu fizer. Vocês todos não têm nada com que se preocupar sobre isso. — E quem é você para que possamos confiar? — Perguntou o Sr. Garrison, seus olhos se estreitaram em mim. — Não me entenda mal. Tenho certeza de que você é uma ótima garota. Você é inteligente e parece ter a cabeça no lugar, mas isso é questão de vida ou morte para nós. Nossa liberdade. Confiar em um ser humano não é algo que podemos arriscar. — Ela salvou minha vida na noite passada. — Disse Daemon. Andrew riu. — Oh, vamos lá, Daemon. O Arum deve ter te dado uma surra. Não tem jeito de um ser humano salvar qualquer um de nós. — O que há com você? — Eu rebati, incapaz de parar. — Você age como se fossemos incapazes de fazer qualquer coisa. Claro, vocês são o que são, mas isso não significa que somos organismos unicelulares. Um riso abafado veio de Adam. — Ela salvou minha vida. — Daemon levantou, chamando a atenção de todos. — Havia três Arum me atacando, os irmãos de um que eu matei. Eu consegui destruir um, mas os dois me dominaram. Eles tinham me pegado e já tinham começado a alcançar meus poderes. Eu era um caso perdido. — Daemon! — Disse Dee, empalidecendo. — Você não nos contou nada disso. Sr. Garrison ainda parecia duvidoso. — Eu não vejo como ela poderia ter ajudado. Ela é um ser humano. O Arum são poderosos, imorais e viciosos. Como pode uma garota ir contra eles? — Eu tinha dado a ela a lâmina de obsidiana que eu carregava e lhe disse para correr. — Você deu a ela a lâmina quando você poderia ter usado isso? — Ash parecia atordoada. — Por


quê? — Seus olhos corriam para mim. — Você não gosta dela. — Esse pode ser o caso, mas eu não ia deixá-la morrer, porque eu não gosto dela. Eu vacilei. Maldição. Uma dor começou no meu peito, como uma brasa viva, mesmo eu não me importando. — Mas você poderia ter se machucado! — Ash protestou. Medo engrossou a voz. — Você poderia ter sido morto porque você deu sua melhor defesa para ela. Daemon suspirou, se sentando no braço da cadeira. — Ainda tenho outras maneiras de me defender. Ela não tinha. Ela não correu como eu disse a ela. Em vez disso, ela voltou e matou o Arum que estava prestes a acabar comigo. Orgulho relutante brilhou nos olhos do meu professor de biologia. — Isso é... Admirável. Revirei os olhos, começando a ter uma dor de cabeça. — Foi muito mais do que admirável! — Dee interrompeu, olhando para mim. — Ela não tinha que fazer isso. Isso tem que ser mais do que admirável. — É corajoso. — Adam disse baixinho, olhando para o tapete. — É o que qualquer um de nós teria feito. — Mas isso não muda o fato de que ela sabe sobre nós. — Andrew atirou de volta, lançando a seu irmão gêmeo um olhar de desprezo. — E nós estamos proibidos de contar para qualquer ser humano. — Nós não contamos a ela. — Disse Dee, mexendo sem parar. — Meio que aconteceu. — Oh, como aconteceu da última vez. — Andrew revirou os olhos quando ele se virou para o Sr. Garrison. — Isso é inacreditável. Sr. Garrison balançou a cabeça. — Depois do fim de semana do Dia do Trabalho, você me disse que algo aconteceu, mas que você cuidou do assunto. — O que aconteceu? — Ash perguntou, óbvio que esta foi a primeira vez que ela tinha ouvido falar disso. — Você está falando sobre a primeira vez que ela ficou brilhante? Eu era como um pirilampo, aparentemente. — O que aconteceu? — Perguntou Adam, parecendo curioso. — Entrei na frente de um caminhão. — Esperei pelo inevitável olhar "duh", que eu receberia. Ash olhou para Daemon, seus olhos azuis crescendo de um tamanho de pires. — Você parou o caminhão? Ele acenou com a cabeça. Um olhar cabisbaixo apareceu em seu rosto quando ela olhou para longe. — Obviamente isso não poderia ser explicado. Ela sabe desde então? Eu percebi que não era o momento de falar que eu tinha minhas suspeitas antes disso. — Ela não surtou. — Disse Dee. — Ela nos ouviu, compreendeu por que é importante, e é isso. Até ontem à noite, o que somos nem sequer era um problema. — Mas você mentiu para mim, tanto quanto você. — Sr. Garrison encostou-se à parede, em um espaço entre a TV e uma estante abarrotada. — Como vou confiar em você agora? Uma pontada de dor correu atrás dos meus olhos. — Olha, eu entendo o risco. Mais do que qualquer um de vocês na sala. — Daemon disse, esfregando seu peito, onde o Arum havia enfiado a mão sombria. — Mas o que está feito, está feito. Precisamos seguir em frente.


— Como entrar em contato com o Departamento de Defesa? — perguntou Andrew. — Tenho certeza de que eles sabem o que fazer com ela. — Eu gostaria de ver você tentar isso, Andrew. Realmente eu gostaria, porque mesmo depois da noite passada, e ainda não estando totalmente recarregado, eu ainda posso acabar com você. Sr. Garrison pigarreou. — Daemon, as ameaças não são necessárias. — Não são? — Perguntou Daemon. Um pesado silêncio caiu na sala. Eu acho que Adam estava do nosso lado, mas era claro que Andrew e Ash não estavam. Quando o Sr. Garrison finalmente falou, eu tinha dificuldade em encontrar o seu olhar. — Eu não acho que isso seja sábio. — Disse ele. — Não com o que... Com o que aconteceu antes, mas eu não vou te entregar. A não ser que você me dê razão para isto. E talvez você não vá. Eu não sei. Os seres humanos são... Criaturas inconstantes. O que somos, o que podemos fazer, tem que ser protegido a todo custo. Eu acho que você entende isso. — Ele fez uma pausa, limpando a garganta. — Você está segura, mas nós não. Andrew e Ash pareciam menos que animados pela decisão do Sr. Garrison, mas não responderam. Além de trocar olhares um com o outro, eles mudaram de assunto para como lidar com o último Arum. — Ele não vai esperar. Eles não são conhecidos por serem pacientes. — Disse o Sr. Garrison, se sentando no sofá. — Eu poderia entrar em contato com outros Luxen, mas não tenho certeza se isso seria inteligente. Onde podemos estar mais confiantes nela, eles não vão estar. — E há o problema de que ela é uma lâmpada megawatt agora. — Ash adicionou. — Não importa se não dissermos nada. No momento em que ela for para qualquer lugar na cidade, eles vão saber que algo grande aconteceu de novo. Fiz uma careta para ela. — Bem, não sei o que eu deveria fazer em relação a isso. — Alguma sugestão? — Disse Daemon. — Porque quanto mais cedo ela não estiver carregando um rastro, melhor será. Sim, porque eu aposto que ele estava ansioso para ser babá novamente. — Quem se importa? — Andrew disse, revirando os olhos. — Temos a questão do Arum para nos preocupar. Ele vai vê-la, não importa onde a coloquemos. Todos nós, agora, estamos em perigo. Qualquer um de nós perto dela está em perigo. Nós não podemos esperar. Temos de encontrar o último Arum. Dee balançou a cabeça. — Se conseguirmos tirar o rastro dela, então isso vai nos dar tempo para encontrá-lo. Nos livrar do rastro deve ser a primeira prioridade. — Eu digo que devemos levá-la para o meio do nada e deixá-la lá. — Andrew murmurou. — Obrigada. — Eu disse, esfregando as têmporas. — Você é muito prestativo com tudo isso. Ele sorriu para mim. — Ei, apenas oferecendo minhas sugestões. — Cale a boca, Andrew! — Disse Daemon. Andrew revirou os olhos. — Logo que tirarmos o rastro dela, ela estará segura. — Dee insistiu e colocou o cabelo para trás,


o rosto comprimido. — Os Arum mexem com os seres humanos, realmente. Sarah... Ela estava no lugar errado na hora errada. — Eles se lançaram em outra discussão sobre o que era mais importante: me levar para algum lugar, o que não fazia sentido, porque a minha luz podia ser vista através de qualquer coisa, ou tentar descobrir uma maneira de fazer o rastro desaparecer além de ter que me matar. E eu pensava seriamente que Andrew acreditava que essa era uma opção a ser considerada. Idiota. — Eu tenho uma ideia. — Disse Adam. Todos olharam para ele. — A luz ao seu redor é um subproduto de nós usando nosso poder, certo? E o nosso poder é energia concentrada. E nós enfraquecemos quando usamos os nossos poderes e gastamos mais energia. Sr. Garrison piscou, seus olhos faiscando com interesse. — Eu acho que estou entendendo. — Eu não... — Eu murmurei. — Nossos poderes desaparecem quanto mais usamos, mais energia exercemos. — Adam se virou para Daemon. — Deve funcionar do mesmo jeito com os rastros, pois o rastro é apenas energia residual que estamos deixando em alguém. Nós temos que fazê-la usar sua própria energia, que deve desaparecer o que está ao seu redor. Talvez não completamente, mas fazê-lo até níveis que não vá trazer cada Arum na Terra para nós. Isso dificilmente fazia sentido para mim, mas o Sr. Garrison estava balançando a cabeça. — Deve funcionar. Daemon coçou o peito, sua expressão duvidosa. — E como vamos fazer com que ela exerça a própria energia? Andrew sorriu do outro lado da sala. — Nós poderíamos levá-la a um campo e persegui-la com nossos carros. Isso soa divertido. — Oh, merdA risada de Daemon me cortou. — Eu não acho que seja uma boa ideia. Engraçado, mas não uma boa ideia. Os seres humanos são frágeis. — Que tal eu enfiar meu pé frágil na sua bunda? — Eu disse, irritada. Minha cabeça estava batendo, e eu não achava nenhum deles engraçado. Eu empurrei Daemon para fora do braço da cadeira e me levantei. — Eu vou pegar uma bebida. Me avisem quando vierem com alguma coisa que não vai me matar no processo. — A conversa continuou enquanto eu corria da sala. Eu não estava com sede. Eu só tinha que sair de lá, longe deles. Meus nervos estavam horríveis. Entrando na cozinha, eu corri minhas mãos pelo meu cabelo. Um silencio abençoado acalmou a martelada na minha cabeça. Eu fechei meus olhos até que pequenas manchas dançaram atrás das minhas pálpebras fechadas. — Eu achei que você estaria se escondendo na cozinha. Eu gritei com o som da voz calma de Ash. — Desculpe. — Disse ela, inclinando-se contra o balcão. — Eu não queria assustá-la. Não tinha certeza se eu acreditava nisso. — Tudo bem. De perto, Ash era o tipo de beleza que me fazia desejar que eu pudesse pegar vinte libras e correr para o departamento de maquiagem mais próximo. Ela sabia disso, também. Havia confiança na inclinação do queixo.


— Isto deve ser muita coisa para você lidar, saber de tudo e, em seguida, enfrentar o que você enfrentou na noite passada. — Eu olhei-a com cautela. Mesmo que ela não estivesse tentando tirar a minha cabeça, eu não iria relaxar. — Tem sido diferente. — Um leve sorriso cruzou os lábios carnudos. — O que aquele programa de TV dizia? 'A verdade está lá fora’. — Arquivo X. — Eu disse a ela. — Eu queria assistir Contatos Imediatos do Terceiro Grau desde que eu descobri. Parece ser o mais realista de todos os filmes de alienígenas. Outro pequeno sorriso e então ela olhou para cima, encontrando meus olhos. — Eu não vou fingir que seremos melhores amigas ou que eu confio em você. Eu não confio. Você jogou espaguete na minha cabeça. — Estremeci com isso, mas ela foi adiante. — E sim, talvez eu estivesse sendo uma cadela, mas você não entende. Eles são tudo o que tenho. Eu vou fazer de tudo para mantê-los seguros. — Eu nunca faria nada para colocá-los em perigo. Ela se aproximou, e eu lutei contra todos os meus instintos de me afastar. Eu insisti na minha posição. — Mas você já fez isso. Quantas vezes Daemon interveio em seu nome, correndo o risco de expor o que somos e o que podemos fazer? Você estar aqui é colocar cada um de nós em risco. Raiva rasgou através de mim como um fogo. — Eu não estou fazendo nada. E ontem à noite— Na noite passada, você salvou a vida de Daemon. Ótimo. Bom para você. — Ela colocou o cabelo atrás da orelha. — Claro, a vida de Daemon não teria sido necessária ser salva se você não tivesse levado o Arum direto para ele. E o que você acha que você tem com Daemon, você não tem. Oh, pelo amor dos bebês em todos os lugares. — Eu não tenho nada com Daemon. — Você gosta de Daemon, não é? Sorrindo, peguei uma garrafa de água do balcão. — Não é verdade. Ash inclinou a cabeça para o lado. — Ele gosta de você. Meu coração deu um salto estúpido no meu peito. — Ele não gosta de mim. Você mesma disse isso. — Eu estava errada. — Ela cruzou os braços finos enquanto me estudava atentamente. — Ele está curioso sobre você. Você é diferente. Nova. Brilhante. Garotos, até mesmo da nossa espécie, adoram novos brinquedos brilhantes. Tomei um gole da água. — Bem, este é um brinquedo com quem ele não tem intenção de brincar. — Quando ele estava acordado era assim. — E realmente, o Arum... — O Arum vai acabar matando-o. — Seu tom não mudou nem um pouco. Ele se manteve estável, sem emoção. — Por causa de você, humanazinha. Ele vai se matar para protegê-la.


26 — Querida, você tem certeza que você está se sentindo bem? — Minha mãe pairou sobre o sofá, franzindo a testa. Ela está assim o dia todo desde que eu tinha acordado. — Você precisa de alguma coisa? Uma canja de galinha. Abraços? Beijos? Eu ri. — Mãe, eu estou bem. — Tem certeza? — Ela perguntou, puxando a manta sobre meus ombros. — Algo aconteceu no baile? — Não. Não aconteceu nada. — Nada se eu não contar o bilhão de mensagens de texto que Simon me enviou, pedindo desculpas pela forma como ele agiu, e o ataque dos aliens assassinos depois. Não... Absolutamente nada. — Eu estou bem. — Eu estava cansada depois de passar a maior parte do sábado em uma casa cheia de aliens discutindo. Dois deles não confiavam em mim. Um deles achava que eu ia ser a morte de Daemon. Adam não parecia me odiar, mas ele não era excessivamente amigável. Eu tinha escapado pouco antes da pizza que eles pediram chegar. Ash tinha razão. Eles eram uma família. Todos eles, e eu não cabia nela. Quando a minha mãe saiu para o trabalho, eu me aconcheguei no sofá e tentei assistir a um filme de Syfy7, mas acabou por ser sobre uma invasão alienígena. Seus aliens não eram seres de luz, mas sim insetos gigantes que comiam seres humanos. Troquei de canal. Chovia lá fora, tão forte que eu mal conseguia ouvir o filme. Eu sabia que Daemon estaria nas proximidades, especialmente até que eles descobrissem como fazer para que eu gastasse energia suficiente para enfraquecer o rastro. Todas as sugestões envolviam ar livre e esforço físico extremo, o que não iria acontecer hoje. O som da chuva foi acalmando. Depois de algum tempo, meus olhos ficaram muito pesadas para mantê-los abertos. Como eu estava prestes a cochilar, uma batida na porta me acordou. Eu joguei a manta no sofá e caminhei até a porta. Duvidando que um Arum fosse bater, eu abri a porta. Daemon estava ali, pouco molhado mesmo que a chuva estivesse caindo nas folhas atrás dele. Havia alguns pontos mais escuros de cinza sobre os ombros da camisa de mangas compridas dele. Aposto que ele usou velocidade super-alienígena. Quem precisava de um guarda-chuva? E por que diabos ele estava usando calças de corrida? — Como vai? — Você vai me convidar para entrar? — Ele perguntou. Pressionando os lábios, eu pisei de lado e o deixei entrar. Ele passou por mim, escaneando os cômodos. — O que você está procurando? — Sua mãe não está em casa, certo? Eu fechei a porta. — O carro dela não está lá fora. Seus olhos se estreitaram.


— Precisamos fazer com que seu rastro suma. — Está chovendo lá fora. — Eu passei por ele, pegando o controle remoto para desligar a TV. Daemon chegou antes de mim. A coisa desligou antes que eu apertasse o botão. — Exibido... — Eu murmurei. — Já fui chamado de pior. — Ele franziu a testa e depois riu. — O que você esta vestindo? Olhei para baixo, o rosto em chamas. Uma coisa que eu não estava usando era um sutiã. Cristo, como eu pude esquecer? — Cale a boca. Ele riu de novo. — O que são eles? Elfos Keebler8? — Não! Eles são elfos do Papai Noel. Eu amo essas calças de pijama. Meu pai as deu para mim. Seu sorriso maroto diminuiu um pouco. — Você as usa, porque elas te lembram ele? Eu balancei a cabeça. Ele não disse nada. Em vez disso, ele enfiou as mãos nos bolsos da frente de seus jeans. — Meu povo acredita que quando morremos, a nossa essência é o que acende as estrelas no universo. Parece estúpido acreditar em algo assim, mas quando eu olho para o céu à noite eu gosto de pensar que pelo menos duas das estrelas que estão lá fora, são meus pais. E que uma é o Dawson. — Isso não é estúpido. — Parei, surpresa por quão tocante essa crença realmente era. Não era a mesma que a nossa, acreditar que nossos entes queridos estavam no céu olhando por nós? — Talvez uma delas seja o meu pai. Seus olhos encontraram os meus, então voaram para longe. — Bem, de qualquer maneira, os elfos são sexy. E um momento profundo efetivamente deu em nada. — Vocês acharam outra maneira de enfraquecer o rastro? — Não de verdade. — Você está pensando em me fazer malhar, não é? — Sim, essa é uma das maneiras de fazê-lo. Me sentei no sofá, ficando rapidamente irritada. — Bem, não há muito que podemos fazer hoje. — Você tem um problema de sair na chuva? — Quando está quase no final de outubro e frio, sim, eu tenho. — Eu peguei a manta e coloquei no meu colo. — Eu não vou lá fora para correr hoje. Daemon suspirou. — Nós não podemos esperar, Kat. Baruck ainda está lá fora e quanto mais esperarmos, mais perigoso ele é. Eu sabia que ele tinha razão, mas ainda assim, correr na chuva fria? — E sobre Simon? Você contou aos outros sobre ele? — Andrew está de olho nele. Já que ele teve um jogo ontem, a maior parte de seu rastro se foi. Está muito fraco agora. O que prova que é essa a ideia que temos que seguir. Eu dei uma olhada para ele. Em vez de ver a expressão estoica, eu vi aquela que vi ontem de manhã. O olhar em seus olhos antes que ele percebesse que estava na cama comigo. Meu corpo quente. Hormônios estúpidos.


Ele chegou por trás dele e tirou a lâmina de obsidiana. — Esta é outra razão porque eu vim aqui. — A obsidiana era brilhante, um brilho preto quando ele a pôs sobre a mesa do café. Ela não estava brilhando um vermelho manchado como tinha sido quando estava perto do Arum. — Eu quero que você fique com esta com você, para garantir. Coloque-a em sua mochila, bolsa, ou qualquer outra coisa que você carrega. Olhei para ele por um momento. — Sério? Daemon evitou meus olhos. — Sim, mesmo se conseguirmos diminuir o rastro, fique com isso até que acabemos com Baruck. — Mas você não precisa mais do que eu? Dee? — Não se preocupe com a gente. Mais fácil dizer do que fazer. Eu olhei para a obsidiana, imaginando como no mundo eu iria esconder essa coisa na minha bolsa. — Você acha que Baruck ainda está aqui? — Ele ainda está por perto sim. — Afirmou. — O quartzo beta esconde nossa presença, mas ele sabe que estamos aqui. Ele sabe que eu estou aqui. — Você acha que ele vai vir atrás de você? — Por alguma razão, o meu estômago ficou embriagado com esse pensamento. — Eu matei dois de seus irmãos e dei-lhe os meios de matar o terceiro. — Ele estava totalmente à vontade discutindo o fato de que havia um estranho demente querendo matá-lo. Ele tinha coragem. Eu gostava disso nele. — Arum são criaturas vingativas, Gatinha. Ele não vai parar até que ele me tiver. E ele vai usá-la para me encontrar, especialmente desde que você voltou. Eles já estiveram na Terra tempo suficiente para reconhecer o que isso pode significar. Que seria uma fraqueza para mim. — Eu não sou uma fraqueza. Eu posso cuidar de mim mesma. Ele não respondeu, mas a intensidade em seu olhar me queimava por dentro. Minha confiança desmoronou pedaço por pedaço. Para ele eu era uma fraqueza, e talvez até mesmo Dee acreditava nisso. O resto dos Luxen com certeza. Mas eu matei um Arum... Enquanto estava de costas para mim. Não é como se eu tivesse me encaixado na descrição de ninja. — Chega de falar. Nós temos coisas para fazer agora. — Disse ele, olhando ao redor. — Eu não sei o que podemos fazer aqui que vai fazer uma diferença mínima. Talvez polichinelos? Polichinelos sem sutiã não ia acontecer de jeito nenhum. Ignorando ele, eu abri meu laptop na mesa de café e chequei meu último post. Eu filmei um ‘Na minha caixa de correio’ ontem quando voltei, precisando do conforto de livros e do meu blog para me lembrar o que é ser "normal" novamente. Foi curto já que eu só tinha dois livros. E eu parecia uma porcaria. O que tinha me possuído para usar tranças? — O que você está olhando? — Ele perguntou. — Nada. — Eu tentei fechar a tampa, mas ela não se moveu. — Pare de usar o seu maldito poder no meu laptop. Você vai quebrá-lo. Ele levantou uma sobrancelha divertida e sentou-se ao meu lado. Eu ainda não conseguia fechá-lo. E o mouse não se movia. Eu não conseguia nem fechar o maldito site. Inclinado para frente, Daemon inclinou a cabeça para o lado. — É você?


— O que parece? — Eu assobiei. Um lento sorriso surgiu em seu rosto. — Você filma a si mesma? Eu respirei fundo e lentamente. — Você faz parecer que eu estou fazendo show ao vivo para um pervertido ou algo assim. Daemon fez um som na parte de trás de sua garganta. — É isso que você está fazendo? — Essa foi uma pergunta estúpida. Por favor, posso fechá-lo agora? — Eu quero ver. — Não! — A ideia dele me observando como nerd, falando sobre os livros que eu tinha comprado na última semana me horrorizava. Sem chance nenhuma ele entenderia. Daemon me lançou um olhar de soslaio. Meus olhos se estreitaram quando me virei de volta para tela. A pequena seta se movia sobre a página e clicava no botão de reproduzir. — Eu odeio você e seus poderes alienígenas esquisitos. — Eu murmurei. Poucos segundos depois, o vídeo começou e lá estava eu, em toda a minha glória nerd, mostrando meus livros de capa a capa na frente da minha webcam de baixa qualidade. Alguns marca páginas passaram. E eu ainda mostrei um produto totalmente legal para substituir a Diet Pepsi. Graças a Deus eu não estava cantando neste vídeo. Fiquei ali, de braços cruzados, e esperei os comentários espertinhos. Nunca na minha vida eu odiei Daemon mais do que naquele momento. Ninguém que eu conhecia na vida real prestava atenção ao meu blog. Os livros eram uma paixão que eu compartilhava com amigos virtuais. Não Daemon. Me irritava saber que ele assistiu isso. O vídeo terminou. Voz baixa, ele disse: — Você está brilhando até no vídeo. Boca fechada, eu assenti. E eu esperei. — Você realmente tem uma queda por livros. — Quando eu não respondi, ele fechou o laptop sem tocá-lo. — É bonito. Minha cabeça virou para ele. — Bonito? — Sim, é bonito. Sua animação... — Disse ele, encolhendo os ombros. — Foi bonito. — Acho que o meu queixo caiu no tapete. — Mas, não importa o quão bonita você fica de tranças, isso não vai fazer qualquer coisa para desaparecer o rastro em você. — Ele se levantou e se espreguiçou. Claro que a camisa tinha que subir um pouco, tirando minha atenção. — Precisamos tirar esse rastro de você. Eu ainda estava atordoada sobre o fato de que ele não tinha rido de mim, sem fala, chocada até o fundo. Ele acabou de ganhar alguns pontos de bônus. — Quanto mais cedo o rastro estiver fora de você, menos tempo temos que gastar juntos. E lá se foram os pontos. — Sabe, se você odeia a ideia de ficar perto de mim, por que um dos outros não vem aqui e faz isso? Na verdade, eu preferia qualquer um deles a você, até mesmo Ash. — Você não é problema deles. — Seus olhos se encontraram com os meus. — Você é o meu problema. Minha risada era dura.


— Eu não sou o seu problema. — Mas você é. — Argumentou ele corajosamente. — Se eu tivesse conseguido convencer Dee a não chegar tão perto de você, nada disso teria acontecido. Revirei os olhos. — Bem, eu não sei o que te dizer. Não há muito que pode se fazer aqui que vá fazer a diferença, por isso pode muito bem contar hoje como uma perda e poupar nós dois a dor de respirar o mesmo ar. Ele me lançou um olhar brando. — Oh, sim, me lembrei. Você não precisa respirar oxigênio. Erro meu. — Eu me levantei, ansiosa por ele estar fora da minha casa. — Você não pode simplesmente voltar quando parar de chover? — Não. — Daemon se encostou na parede, cruzando os braços. — Eu quero acabar com isso logo. Me preocupar com você e os Arum não é divertido, Gatinha. Precisamos fazer algo sobre isso agora. Há coisas que podemos fazer. Minhas mãos se enrolaram em punhos. — Como o quê? — Bem, os polichinelos por... Uma hora ou mais deve resolver. — Seu olhar caiu. Algo brilhou em seus olhos. — Você pode querer se trocar primeiro. A vontade de me cobrir era forte, mas eu resisti. Eu não ia me acovardar diante dele. — Eu não vou fazer polichinelos por uma hora. — Então você pode correr ao redor da casa, subir e descer as escadas. — Ele fez uma pausa, seu sorriso maroto transformando ímpios e seus olhos encontraram os meus. — Nós poderíamos sempre fazer sexo. Ouvi dizer que consome muita energia. Minha boca caiu aberta. Parte de mim queria rir na cara dele. Havia uma parte de mim ofendida que ele iria sugerir algo tão ridículo, mas havia outra parte que gostou da ideia. O que era tão, tão errado e nem um pouco engraçado. Daemon esperou. — Isso não vai acontecer nem em um milhão de anos, amigo. — Eu dei um passo para frente, levantando o dedo indicador para ele. — Nem mesmo se você fosse o último, espere, eu nem posso dizer o último homem na face da Terra. — Gatinha... — Ele murmurou preguiçosamente. Um aviso claro em seus olhos. Eu ignorei. — Nem mesmo se você fosse a última coisa que se parecesse com um ser humano na face da Terra. Entendeu? Capiche? Ele inclinou a cabeça para o lado, e várias mechas de cabelo deslizaram sobre sua testa. Daemon sorriu, uma riqueza de perigo na inclinação de sua boca, mas eu estava sem freio agora. — Eu não nem estou atraída por você. — Mentira. Ding! Ding! Mentira. — Nem um pouco. Você éDaemon estava na minha frente em um flash, nem um centímetro do meu rosto. — Eu sou o quê? — Ignorante. — Eu disse, dando um passo para trás. Ele acompanhou o meu passo. — Arrogante. Controlador. — Eu dei outro passo para trás, mas ele ainda estava no meu espaço pessoal e, em seguida, mais alguns. — E você é... Você é um idiota. — Oh, eu tenho certeza que você pode fazer melhor do que isso, Gatinha. — Sua voz era baixa


enquanto ele avançava. Eu mal o ouvia sobre a chuva que caía e o bater do meu coração. — Porque eu duvido seriamente que você não esteja atraída por mim. Eu forcei uma risada. — Eu não estou nem um pouco atraída por você. Outro passo de Daemon para frente, e minhas costas estavam contra a parede. — Você está mentindo. — E você está muito confiante. — Eu inalei, mas tudo o que eu cheirava era ele, o que fazia coisas engraçadas para o meu estômago. — Você sabe, essa coisa toda de ser arrogante que eu mencionei. Não é atraente. Daemon colocou as mãos em cada lado da minha cabeça e se inclinou. Uma lâmpada estava de um lado de mim e a TV no outro. Eu estava presa. E quando ele falou, sua respiração dançou sobre os meus lábios. — Cada vez que você mente, seu rosto fica vermelho. — Nuh-uh. — Não é a coisa mais eloquente que eu já disse, mas foi o melhor que eu pude fazer. Suas mãos deslizaram para baixo na parede, parando ao lado de meus quadris. — Eu aposto que você pensa em mim o tempo todo. Sem parar. — Você é louco. — Eu pressionei contra a parede, sem fôlego. — Você provavelmente ainda sonha comigo. — Seu olhar baixou à minha boca. Senti meus lábios se abrirem. — Eu aposto que você até mesmo escreve meu nome em seus cadernos, várias vezes, com um pouco de corações desenhados em volta. Eu ri. — Em seus sonhos, Daemon. Você é a última pessoa que eu acho queDaemon me beijou. Não houve um momento de hesitação. Sua boca estava na minha, e eu parei de respirar. Ele tremeu e houve um som na parte de trás de sua garganta, meio grunhido, meio gemido. Pequenos arrepios de prazer e pânico passaram através de mim quando ele aprofundou o beijo, abrindo meus lábios. Eu parei de pensar. Eu o empurrei para fora da parede, selando o pequeno espaço entre nós, me pressionando contra ele, cavando meus dedos em seu cabelo. Era macio, sedoso. Nada mais sobre ele tinha sentido. Eu me senti viva, meu coração se encheu ao ponto de quase estourar. A corrida de sensações rastejando em meu corpo era de enlouquecer. Assustador. Emocionante. Suas mãos estavam em meus quadris, e ele me levantou como se eu fosse feita de ar. Minhas pernas em volta de sua cintura, e nos mudamos para a direita, batendo em um abajur. Ele tombou, mas eu não poupei-lhe outro pensamento. Uma luz bateu em algum lugar da casa. A TV ligou, desligou, e então ligou de novo. Nossos lábios permaneceram selados. Era como se nós não conseguíssemos o suficiente um do outro. Nós fomos devorando um ao outro, nos afogando no outro. Nós tínhamos guardado isso por meses, e oh meu Deus, valeu a pena esperar. E eu queria mais. Baixando minhas mãos, eu puxava sua camisa, mas estava presa sob minhas pernas. Eu me mexi para baixo até que meus pés estavam no chão. Então eu consegui pegar sua camisa e a puxei. Ele se afastou tempo suficiente para puxá-la por cima da cabeça e lançá-la de lado. Suas mãos deslizaram em torno de minha cabeça, puxando-me de volta à boca. Houve barulho de rachaduras na casa. A fissura de energia elétrica atravessou o quarto. Algo queimava. Mas eu não me importei. Nós estávamos nos movendo para trás. Suas mãos estavam se movendo para baixo, sob a


minha camisa, seus dedos deslizando sobre a minha pele, enviando uma onda de sangue para todas as partes do meu corpo. E as minhas mãos foram para baixo. Seu estômago estava duro, ondulado em todos os lugares certos. E então minha camisa se juntou à dele no chão. Pele contra pele. Seu gemido transbordava cheio de energia. Corri meus dedos pelo seu peito, para o botão de suas calças de brim. A parte de trás das minhas pernas bateu no sofá e fomos para baixo, um emaranhado de pernas e mãos em movimento, explorando. Nossos quadris foram moldados juntos e movidos um contra o outro. Acho que sussurrei o nome dele, e, em seguida, seus braços se apertaram em torno de mim, me esmagando contra seu peito e suas mãos deslizaram entre as minhas pernas. E eu estava nadando em sensações cruas. — Tão linda... — ele murmurou contra meus lábios inchados. E então ele estava me beijando novamente. O tipo profundo de beijos que deixavam pouco espaço para o pensamento. Não só estava sentindo e querendo. Isso era tudo. Eu envolvi minhas pernas em torno de seus quadris, puxando-o para mais perto, dizendo o que eu queria com meus gemidos. Nossos beijos diminuíram, tornando-se suaves e infinitamente mais. Era como se nós estivéssemos começando a conhecer um ao outro em um nível íntimo. Eu estava sem fôlego e atordoada, despreparada para tudo isso, mas o meu corpo ansiava por mais do que apenas beijos e por tocar mais a pele dele. E eu sabia que ele queria, também. Seu poderoso corpo tremia como o meu. Era fácil se perder nele, se perder neste contexto entre nós. O mundo, o universo deixou de existir. E então Daemon acalmou, sua respiração saindo em suspiros ásperos quando ele puxou para trás, levantando a cabeça. Meus olhos se abriram lentamente, aturdida. Suas pupilas eram brancas, brilhando por dentro. Daemon respirou fundo. Uma eternidade pareceu passar enquanto ele olhava para mim, os olhos arregalados, e então ele se recompôs novamente. A luz se apagou. Sua mandíbula se endureceu. A máscara caiu sobre seu rosto. O arrogante meio sorriso que eu não gostava apareceu em um canto de seus lábios inchados. — Você quase não está brilhando agora.


27 Eu odiava Daemon Black – se esse fosse mesmo o seu nome verdadeiro – com um ódio que se igualava ao poder de mil sóis. Você quase não está brilhando mais agora. Ele saiu depois disso, agarrando sua camisa do chão e passeando para fora da minha casa. O filho da puta explodiu meu laptop. Isso era o que tinha sido queimado. Sua sensualidade alienígena, aparentemente, tem um grande efeito sobre a maioria das luzes e aparelhos eletrônicos. Agora eu tinha que confiar nos computadores da escola para atualizar meu blog. Ugh. E eu passei uma boa hora depois que me forcei a sair do sofá, substituindo as lâmpadas na casa. Felizmente, a TV não tinha sido queimada. Mas meu cérebro tinha. O que eu estava pensando? Fazendo? Tinha que ter sido só discussões entre nós. Essa era a única explicação para o motivo de ter havido uma explosão tão grande de uma sessão de amassos pesado. E ele estava tão tranquilo como se tivesse fingido. Ninguém podia fingir isso. Meu brilho desvaneceu a um pequeno rastro, espantando todos. Imagine tentar explicar como isso aconteceu. E eu tenho certeza que ele mal podia esperar para compartilhar a informação. Eu o odiava. Não apenas pelo fato de que ele tinha provado ser um mentiroso, ou que agora eu tinha que esperar até o meu aniversário para um novo laptop, ou o fato de que Dee estava altamente suspeitando de como o meu brilho desapareceu, mas por causa do que ele me fez sentir, por me fazer admitir em voz alta, também. E se ele me cutucar nas costas mais uma vez com aquela maldita caneta, eu iria jogá-lo na frente de um Arum. Meu celular tocou na minha mochila enquanto eu caminhava para o meu carro, me fazendo agachar para baixo contra o vento implacável varrendo para baixo das rochas. Sem olhar, eu sabia que era outra mensagem de Simon. Durante a última semana, ele tinha mandado mensagens de texto se desculpando repetidas vezes. Ele não se atreveu a falar comigo em classe ou público, não com a ameaça de Daemon pairando sobre sua cabeça. Eu não iria perdoá-lo tão cedo. Bêbado ou não, isso não era uma desculpa para ser um idiota arrogante que não entendia a palavra "não". — Katy! Eu pulei ao som da voz de Dee. Arrumando minha bolsa, me virei e esperei. Como sempre, Dee parecia incrivelmente bonita. Hoje, ela tinha usado um jeans escuro e uma camiseta leve. Com seu cabelo preto brilhante e olhos brilhantes, ela estava deslumbrante. Seu sorriso era largo e simpático, mas se desvaneceu rapidamente enquanto ela se aproximava. — Ei, eu não achei que você fosse parar. — Disse ela. — Sinto muito. Eu estava perdida em meus pensamentos. — Eu comecei a andar de novo, espiando o meu carro. — O que está acontecendo? — Dee pigarreou. — Você está me evitando, Katy? Eu estava evitando todos eles, o que era difícil. Eles moravam na casa ao lado. Eles estavam em minhas aulas. Eles se sentavam comigo na hora do almoço. E eu sentia falta de Dee. — Não.


— Realmente, porque você não está muito falante desde sábado. — ela apontou. — Na segunda você nem sequer se sentou com a gente na hora do almoço, alegando que tinha que estudar para um teste. Ontem, eu não acho que você disse duas palavras para mim. Culpa torceu minhas entranhas. — Eu estive... Ocupada. — É muito, não é? O que nós somos? — Sua voz era pequena, infantil. — Eu estava com medo de que isso fosse acontecer. Nós somos grandes aberrações— Vocês não são aberrações. — Disse eu, falando a verdade. — Vocês são... Mais humanos dos que vocês acham. Dee parecia aliviada ao ouvir isso. Ela correu na minha frente. — Os meninos, eles ainda estão procurando Baruck. Eu me esquivei e abri a porta do carro. A lâmina de obsidiana pulou dentro do compartimento do lado da porta. Carregá-la na minha mochila me fazia sentir como se eu estivesse indo para esfaquear um estudante ou algo assim. Então, ficava no meu carro. — Isso é bom. Ela assentiu com a cabeça. — Os meninos vão continuar a procurar e manter um olho nas coisas, e você e Simon quase não têm qualquer vestígio agora. — Dee parou. — Eu ainda gostaria de saber como isso aconteceu tão rapidamente. Meu estômago revirou. — Uh, sim, foi muita... Atividade física. Suas sobrancelhas se arquearam. — Katy... — De qualquer forma, isso é bom. — Eu disse rapidamente — O rastro ter desvanecido de Simon, especialmente já que ele não tem nenhuma pista sobre nada disso, por isso estou feliz, tirando o fator assustador da história. — Você está divagando. — Disse ela, sorrindo. — Sim, um pouco. — Então, o que você vai fazer amanhã? — Ela perguntou, esperançosa. — É sábado e Halloween. Eu pensei que talvez pudéssemos alugar um monte de filmes de terror. Eu balancei minha cabeça. — Eu prometi a Lesa que daria doces com ela. Ela mora em um bairro distante, então... — Dor cintilou no rosto de Dee. O que eu estava fazendo? Sacaneando uma amiga por causa de seu irmão idiota? Essa não era eu. — Eu posso ir depois, e podemos assistir aos filmes, se você quiser? — Se você quiser. — Ela sussurrou. Me inclinei, abracei seus ombros magros. — É claro que eu quero. Só faça uma tonelada de pipoca e doces. Essas são minhas exigências. Dee devolveu o abraço. — Isso eu posso fazer. Me afastei, sorrindo. — Ok. Vejo você amanhã à noite, então? — Espere. — Ela agarrou meu braço, os dedos frios. — O que aconteceu entre você e Daemon? Meu rosto ficou branco.


— Nada aconteceu, Dee. Seus olhos se estreitaram. — Eu vejo, Katy. Você teria que fazer grandes corridas para queimar o rastro em uma tarde. — Dee— E Daemon está mais mal-humorado do que o normal. Algo aconteceu entre vocês dois. — Ela escovou o cabelo de seu rosto, mas os cachos surgiram de volta. — Eu sei que você disse que vocês não fizeram nada aquela vez, mas... — Sério, não aconteceu nada. Eu juro. — Eu subi no meu carro, forçando um sorriso. — Vejo você amanhã à noite. Ela não acreditou em mim. Eu não acreditei em mim mesma, mas o que eu poderia dizer? Admitir que aconteceu algo entre Daemon e eu não era algo que eu queria compartilhar com sua irmã.

Todo Halloween eu sentia falta de ser uma criança, de me fantasiar e de comer toneladas de doces. A única coisa que eu tinha para fazer agora era... Comer toneladas de doces. Nem tão ruim. Lesa riu quando eu peguei outra caixa de Nerds. — O quê? — Eu dei uma cotovelada nela. — Eu adoro essas coisas. — E mini-barras de chocolate, Kit Kats, chicletes, Starbursts— Olha quem está falando! — Fiz um gesto para a pilha de doces nos degraus ao lado seus pés. — Você é um monstro dos doces. Paramos enquanto uma criança pequena se arrastava, vestida como um membro do Kiss. Escolha estranha de fantasia. — Doçura ou travessura! — O menino chorou. Lesa brincou com ele e deu-lhe várias peças de doces. — Você com certeza não está aqui pelas crianças. — Disse ela, observando o menino correr de volta para os seus pais. Eu joguei um pedaço de caramelo na minha boca. — O que lhe deu essa ideia? — Você acha que aquele menino era bonito? — Ela moveu a taça longe de mim. Eu dei de ombros. — Acho que sim. Quero dizer, ele meio que cheirava... Eu não sei. Criança. Lesa e eu explodimos em gargalhadas. — Você gosta de crianças? — As crianças me assustam. — Uma múmia e um vampiro se aproximaram de nós. Lesa balbuciou algo para eles até que saíram correndo. — Especialmente os mais pequenos. — Eu continuei, fazendo careta quando eu vi que não havia nenhum Nerds sobrando. — Eles tagarelam e outras coisas, e eu não tenho ideia do que estão dizendo, mas seu irmão é super fofo. — Meu irmão mais novo faz coco em si mesmo. Eu ri.


— Bem, talvez seja porque ele tem, tipo, um ano só? — Seja como for, ainda é nojento. — Ela entregou alguns doces para um cowboy com uma flecha na cabeça. Legal. — Então, qual é o seu problema? — Meu problema? — Como uma ninja, minha mão disparou e agarrou um rolo de Smarties. — Não tenho um problema. — Você é tão cheia de si. — Estava tão escuro, que eu não conseguia ver seus olhos. O bairro dela não acreditava em lâmpadas de rua. — Você tem sido uma adolescente angustiada, como nos livros que lê toda a semana. — Revirei os olhos. — Não tenho. Ela me empurrou com o joelho. — Você não está falando com ninguém, especialmente Dee. E isso é estranho, porque vocês sempre foram próximas. — Nós ainda somos próximas. — Eu suspirei, olhando para a escuridão invasora. As silhuetas de pais e seus filhos caminhavam ao lado das ruas. — Eu não estou brava com ela ou qualquer coisa. Eu vou para a casa dela depois que eu sair daqui. Lesa pegou a tigela de doces. — Mas? — Mas algo aconteceu com seu irmão. — Eu disse, cedendo à necessidade de falar com alguém sobre o que aconteceu. — Eu sabia! — Ela gritou. — Oh meu Deus, você tem que me contar tudo! Vocês dois se beijaram? Espere. Vocês fizeram sexo? Um pai de uma fada lançou lhe um olhar sujo quando ele apressou sua filha para ir embora da varanda. — Lesa, sério, se acalme. — Que seja. Você tem que me contar. Eu vou te odiar para sempre se você fez e não me contou. Como ele cheira? — Cheiro? — Eu amassei meu rosto. — Você sabe, parece que ele tem um cheiro bom. — Oh. — Fechei os olhos. — Sim, ele cheira bem. Lesa suspirou sonhadora. — Detalhes. Agora. — Não é grande coisa. — Eu peguei uma folha caída, girando-a. Meus lábios formigavam, pensando sobre seu beijo. — Ele veio no último domingo e nos beijamos. — Isso é tudo? — Ela parecia decepcionada. — Eu não dormi com ele. Jesus! Mas... Foi muito pesado. — Larguei a folha e passei a mão pelo meu cabelo, puxando-o de volta. — Nós estávamos discutindo e a próxima coisa que eu sei, BAM. Estávamos beijando. — Nossa, isso é... Isso é quente. Eu suspirei. — Sim, foi. Mas, então, ele saiu abruptamente. — Claro, porque vocês têm essa paixão ardente que explode, e ele não conseguiu aguentar o calor. Eu dei um olhar brando. — Nós não temos nada.


Lesa me ignorou. — Eu estava me perguntando quanto tempo duraria com vocês dois, um provocando o outro. — Eu não provoco ele! — Eu murmurei. — Sobre o que vocês discutem? Como eu poderia explicar? Que só tinha incitado o outro a fazer alguma coisa, porque eu disse que eu não estava atraída por ele e ele precisava desvanecer o meu brilho? Sim, não ia acontecer. — Katy? — Eu não acho que ele quis me beijar. — Eu disse finalmente. — O quê? Será que ele escorregou e caiu em sua boca? Essas coisas acontecem. Eu ri. — Não. É só que ele parecia chateado sobre isso depois. Não, ele estava chateado. — Você mordeu a língua dele ou algo assim? — Lesa colocou o cabelo para trás, franzindo a testa. — Tem que haver uma razão pela qual ele enlouqueceu depois. Já que estava ficando tarde e os pequenos estavam vindo em menor quantidade, eu peguei a tigela dela e dedilhei sobre o que sobrou de doces. — Eu não sei. Eu quero dizer, nós não conversamos sobre isso. Ele literalmente saiu depois, e tudo o que ele tem feito desde então, é me cutucar com a caneta. — Provavelmente porque ele quer cutucar você com outra coisa. — disse ela secamente. Meus olhos saltaram. — Eu não acredito que você disse isso. — Que seja. — Ela acenou com a mão no ar. — Ele não voltou com Ash, certo? Eu quero dizer, os dois são— Vai e volta, eu sei. Acho que não. Não importa. — Eu coloquei um pedaço de doce na minha boca. A este ritmo, eu ia sair rolando da casa de Lesa. — É só que... — Você gosta dele. — Ela terminou para mim. Dei de ombros, pegando uma barra de Snickers. Será que eu gosto dele? Talvez. Eu estava atraída por ele? Obviamente. Eu estava a segundos de distância de ficar nua com ele. — É a maior bagunça possível. Ninguém neste planeta me irrita mais do que ele, mas... Ah, eu não quero falar sobre isso. — Eu arrebatei o saco de Skittles de volta. — De qualquer forma, como estão as coisas com o Chad? — Você está mudando de assunto. Eu não vou ser enganada. Sem olhar para cima, eu me enraizei em volta da tigela. — Vocês saíram ontem à noite, certo? Ele te beijou? Ele cheira bem? — Chad não cheira bem, na verdade. Eu acho que ele usa uma versão mais recente do Old Spice. Não é o tipo que meu pai usa, porque isso seria nojento. Eu ri. Nós conversamos um pouco, então eu saí e fui para casa. Dee tinha a casa toda enfeitada em abóboras esculpidas que não estavam lá quando eu saí mais cedo. Ela me puxou para dentro, um cheiro estranho no ar. — O que é isso? — Eu torci o nariz. — Eu estou torrando as sementes de abóbora. — exclamou ela. — Você já experimentou? Eu balancei minha cabeça. — Não. Tem gosto de quê? — De abóbora.


É claro que ela estava realmente as torrando. As sementes pálidas estavam em uma fôrma, mas Dee estava fazendo o cozimento com as mãos e não com o fogão. Entranhas de abóbora estavam espalhadas por toda a mesa coberta de jornal. — Eu vou emprestar suas mãos durante o inverno, quando o gelo estiver endurecido no meu parabrisa. Dee riu. — Não tenho nenhum problema com isso. Sorrindo, eu me arrastei até a pilha de filmes sobre o balcão. Examinei os títulos, rindo. — Oh meu Deus, Dee, esses filmes são ótimos. — Eu pensei que você gostaria da combinação da série Pânico e Todo Mundo em Pânico. — Ela moveu as mãos sobre a assadeira. As sementes apareceram e pularam. Canela encheu o ar. — Vamos deixar os filmes do Dia das Bruxas para mais tarde. Olhei para a porta. — Hum, Daemon está aqui? — Não. — Ela pegou a forma, jogando as sementes em uma bola decorada de morcegos e caveiras. — Ele está com os caras, vendo se conseguem fazer que Baruck se mostre. Levando nossos lanches e filmes para a sala, eu pensei sobre o que disse ela. — Eles estão propositalmente tentando fazer que ele se mostre? Como se eles quisessem lutar com ele? Um DVD voou da pilha para sua mão. Ela assentiu com a cabeça. — Não se preocupe. Daemon e Adam estão verificando em volta da cidade. Matthew e Andrew estão fora do estado. Eles vão ficar bem. Desconforto virou meu estômago. — Você tem certeza? Dee sorriu. — Esta não é a primeira vez que fazem algo assim. Eles sabem o que estão fazendo. Vai ficar tudo bem. Sentada contra o sofá, eu tentei não me preocupar. Foi difícil, especialmente porque eu tinha visto o olhar nos olhos de Baruck. Dee se sentou perto de mim, e eu experimentei algumas sementes de abóbora. Nada mal. Nós tínhamos feito isso durante o primeiro filme do Pânico quando o celular dela tocou. Erguendo a mão, Dee fez um movimento e o celular voou para fora da mesa e caiu em sua mão. Ela respondeu com um rolar de seus olhos. — É melhor que seja bom, Daemon, porquê... — Seus olhos se arregalaram. Ela levantou em seus pés, seu aperto de mão livre. — O que você quer dizer? — Meu estômago derreteu enquanto eu olhava para borda ao redor da mesa do café. — Katy está comigo, mas seu rastro é quase imperceptível! — Outra pausa e em seguida, seu rosto empalideceu. — Ok. Tenha cuidado. Eu te amo. Assim que ela jogou o telefone para a cadeira, eu estava pedindo. — O que está acontecendo? Dee me enfrentou. — Eles avistaram Baruck. Ele está vindo para cá.


28 É claro que isso não quer dizer que ele estava vindo aqui, mas por acaso, havia uma grande chance, que ele estivesse. O suficiente para que Dee andasse pela sala de estar como um tigre enjaulado. Ela não tinha medo, estava pronta para a batalha. — Se Baruck vier aqui, você pode lutar com ele? — Eu perguntei. Dee me deu um olhar de aço. Ela era uma pessoa totalmente diferente, transformada em uma princesa guerreira. Como é que eu nunca tinha visto esse lado dela? — Eu não sou tão rápida ou tão poderosa quanto o Daemon, mas eu vou ser capaz de segurar a luta até que Daemon chegue aqui. O meu estômago caiu. Segurar a luta não era suficiente. E se Daemon não chegasse a tempo? Dee parou em frente à janela, os ombros magros quadrados. Eu percebi então tudo de uma vez. A preocupação de Daemon estava se tornando realidade. Eu era uma fraqueza, uma responsabilidade para Dee. Eu não podia – Eu não deixaria isso acontecer. — O meu rastro é forte o suficiente para que ele me veja dentro de sua casa? Ela fez uma pausa. — Não muito. — E da estrada principal? A floresta? Houve uma pausa. — Eu não sei, Katy, mas eu vou pará-lo antes que ele chegue até você. — Não. Eu tenho uma ideia. — Eu dei passo à frente, quase derrubando a pilha de DVDs. — É uma espécie de loucura, mas pode funcionar. Seus olhos se estreitaram. — O quê? — Se você fizer o meu rastro ficar mais forte, eu posso definitivamente levá-lo daqui. Então ele não vai vir aqui e Daemon— Absolutamente não! — Disse ela, girando ao redor. — Você está louca? — Talvez... — Eu disse, mordendo meu lábio. — Olha, é melhor do que ficar aqui comigo quando eu poderia muito bem trazê-lo direto para sua casa! E então ele vai saber onde vocês vivem! E depois? Você nunca vai estar segura. Preciso atraí-lo para longe de sua casa. — Não. — Dee balançou a cabeça. — Eu não posso fazer isso. Eu posso lutar— Não há nada mais que eu possa fazer! Eu não posso lutar contra ele. E se ele escapar? E se ele contar aos outros onde vocês moram? — As palavras de Daemon voltaram para mim. Você seria uma fraqueza para mim. Só que eu não seria fraqueza dele, eu seria a de Dee. Eu não poderia viver com isso. — E eu vou ser uma desvantagem. Baruck saberá disso. Você tem que ficar aqui. Se Baruck nos encontrar juntas, ele vai me usar para destruí-la. O melhor plano é eu atrair o Arum para longe e deixar que os caras me encontrem no campo para derrubá-lo juntos. — Katy— Eu não vou aceitar um não como resposta! Nós não temos muito tempo. — Caminhei até a porta, pegando minhas chaves e celular. — Se acenda. Faça aquela coisa louca com as bolas de luz. Isso


parece que resolveu da última vez. Eu vou... Vou para onde a festa no campo aconteceu! Diga a Daemon que é onde eu vou. — Quando ela ficou parada ali, olhando para mim, eu gritei: — Faça isso! — Isso é loucura. — Dee balançou a cabeça, mas se afastou e começou a se mexer. Um segundo depois, ela estava em sua verdadeira forma, uma bela silhueta de luz. Isto é uma loucura, sua voz sussurrou em meus pensamentos. Eu tinha parado de pensar. — Depressa. Duas bolas de luz crepitantes se formaram em seus braços estendidos. Eles atiraram ao redor da sala, soprando as luzes e a TV, mas acabaram quicando nas paredes sem causar danos. Os cabelos no meu corpo se arrepiaram com a estática que encheu o ar. — Estou brilhando? — Perguntei. Como o sol. Bem, isso funcionou. Respirando fundo, eu assenti. — Ligue para Daemon e diga a ele para onde eu vou. Tenha cuidado. Por favor. A luz dela começou a desaparecer. — Você também. Eu me virei e corri para fora da casa em direção ao meu carro antes que eu pudesse pensar duas vezes sobre o que estava fazendo. Porque isto era absolutamente insano – a coisa mais louca que eu já tinha feito. Pior do que dar um comentário de uma estrela, mais assustador do que pedir uma entrevista com um autor a quem eu daria o meu primogênito por um almoço, mais estúpido do que beijar Daemon. Mas isso era tudo que eu podia fazer. Minhas mãos tremiam quando coloquei a chave na ignição e dirigi para fora da garagem, quase batendo no Volkswagen de Dee. Eu bati no acelerador, guinchando para a estrada principal. Eu estava apertando o volante como uma avó, mas dirigindo como se eu estivesse tentando entrar para NASCAR. Eu não parava de olhar no espelho retrovisor enquanto voava pela estrada, esperando encontrar um Arum me perseguindo. Mas toda vez que eu olhava, a estrada estava vazia. Talvez dessa vez não tenha funcionado? Oh Deus, o que acontecerá se Baruck chegar até a casa e encontrar Dee? Meu coração pulou na minha garganta. Essa foi uma estúpida, estúpida ideia. Meu pé vacilou no pedal do acelerador. Pelo menos ele não seria capaz de me usar para chegar até Dee. Meu celular tocou no assento do passageiro. Desconhecido? Agora? Eu quase ignorei, mas eu o agarrei e respondi de qualquer maneira. — Alô? — Você enlouqueceu? — Daemon gritou ao telefone. Eu estremeci. — Isso tem que ser a coisa mais estúpida— Cale a boca, Daemon! — Eu gritei. Os pneus desviaram um pouco para a outra pista. — Está feito. Ok? Dee está bem? — Sim, Dee está bem. Mas você não está! Perdemos ele, e desde que Dee disse que você está brilhando como a maldita lua cheia agora, eu estou apostando que ele está atrás você. Medo cravou em meu ritmo cardíaco. — Bem, esse era o plano.


— Eu juro por cada estrela no céu, eu vou te estrangular quando conseguir por minhas mãos em você. — Daemon parou, sua respiração pesada no telefone. — Onde você está? Olhei para fora da janela. — Estou quase chegando ao campo. Eu não o vejo. — Claro que você não o vê. — Ele parecia revoltado. — Ele é feito de sombras, Kat. Você não vai vê-lo até que ele queira. Oh. Bem. Merda. — Eu não consigo acreditar que você fez isso! — Disse ele. Meu temperamento estalou sob o medo. — Nem comece! Você disse que eu era uma fraqueza. E eu era uma desvantagem estando com Dee. E se ele chegasse lá? Você mesmo disse que ele ia me usar contra ela. Este foi o melhor que eu pude fazer! Então pare de ser um maldito idiota! Houve uma lacuna tão grande de silêncio, que pensei que ele tinha desligado na minha cara, mas quando ele falou, sua voz era tensa. — Eu não quis dizer para você fazer isso, Kat. Nunca algo como isso. Sua voz causou arrepios em mim. Meus olhos dispararam sobre as formas borradas de árvores. Eu tomei uma respiração profunda, mas ela ficou presa. — Você não me obrigou a fazer isto. — Sim, eu obriguei. — Daemon— Sinto muito. Eu não quero machucar você, Kat. Eu não posso, eu não posso viver com isso. — Outro trecho de silêncio se passou enquanto eu compreendia suas palavras e, em seguida: — Fique no telefone. Eu vou encontrar um lugar para largar o carro e eu vou encontrá-la lá. Não vai demorar mais do que alguns minutos para chegar lá. Não saia do carro ou qualquer coisa. Eu balancei a cabeça enquanto puxei o carro para uma parada dentro do campo. A lua rolou por trás de uma nuvem, deixando tudo escuro como breu. Eu não conseguia ver nada. Uma sensação de mal estar terrível se estabeleceu em meu estômago. Abaixando a mão, eu agarrei a lâmina de obsidiana e segurei-a firmemente. — Ok. Talvez esta não tenha sido uma boa ideia. Daemon soltou uma risada curta e dura. — Não me diga. Meus lábios tremeram quando eu olhei no espelho retrovisor. — Então, hum, o que não vive com o seuHavia uma sombra lá que parecia... Mais sólida do que o resto. Movia-se através do ar, espesso como óleo, deslizando sobre as árvores, espalhando-se ao longo do chão. Mechas atingiram a parte traseira do carro, deslizando sobre o porta-malas. Minha garganta ficou seca, os lábios entreabertos. A lâmina esquentou na minha mão. — Daemon? — O quê? Meu coração bateu. — Eu acho queOs bloqueios automáticos da porta se abriram e agora a porta do motorista se abriu. Um grito saiu. Um segundo eu estava segurando o telefone e o seguinte eu estava voando para o chão, meus dedos


quase perdendo o controle sobre a lâmina. Dor atravessou meu braço e no lado que eu escondia a lâmina atrás de mim. Eu levantei meus olhos. Meu olhar viajou para um par calças pretas e as bordas de uma jaqueta de couro. A cara pálida. Mandíbula forte e um par de óculos de sol cobriam os olhos embora fosse noite. Baruck sorriu. — Nós nos encontramos de novo. — Merda! — Eu sussurrei. — Me conte! — Disse ele, curvando-se e levantando uma mecha do meu cabelo. Sua cabeça girou para o lado enquanto ele falava, se movendo para trás e para frente como um pássaro. — Onde ele está? Eu engoli em seco quando me mexi para o outro lado do terreno. — Quem? — Você vai se fazer de desentendida comigo? — Ele deu um passo para frente e removeu os óculos de sol, colocando-os dentro de sua jaqueta. Seus olhos eram círculos negros. — Ou todos os seres humanos são estúpidos assim? Meu peito subia e descia rapidamente. A lâmina só era boa em sua verdadeira forma. E ela estava queimando através do couro, picando minha mão. — Eu quero a pessoa que matou meus irmãos. Daemon. Meu corpo inteiro estava tremendo. Abri a boca, mas nada saiu. — E você... você matou um deles, protegendo-o. — Ele piscou para fora. Lá estava a minha chance, mas antes que pudesse se mover, ele solidificou na minha frente. — Me leve até ele ou eu vou fazer que você implore para morrer. Eu balancei a cabeça, apertando a minha mão. — Foda-se! Ele desapareceu, tornando-se uma massa de sombras escuras e torcidas. Me esforçando para ficar em pé, eu soltei um grito de batalha e balancei meu braço, com o objetivo de acertar o centro da viscosidade preta. A lâmina queimou brilhante, a cor quente de carvão. Meu golpe nunca acertou. Uma mão esfumaçada pegou meu braço. O toque era assustadoramente frio. Sua voz era um sussurro insidioso entre os meus pensamentos, como uma cobra rastejando dentro da minha cabeça. Você acha que eu ia cair nessa? Por favor... Ele torceu. Eu ouvi o CRACK antes que eu sentisse a dor. Meus dedos tremeram e a lâmina caiu no chão, quebrando-se em uma dúzia de pedaços, como nada mais do que o vidro frágil. Eu gritei como uma onda de dor me aleijava. Isso foi pelo meu irmão. Um mão sombria circulou meu pescoço e me levantou no ar. E isso é por me irritar. Baruck me jogou para trás. Eu caí duramente no chão e, em seguida, deslizei vários metros pelo milho pisado. Atordoada, eu olhei para o céu da noite totalmente escura. Diga-me onde ele está. Com falta de ar, eu virei e parti para o lado das árvores. Eu corri. Segurando meu braço protetoramente contra o meu peito, eu corri o mais rápido que pude, meu tênis batendo contra o chão duro, cheio de grama esmagada e folhas caídas. Eu não olhei para trás. Olhar para trás, seria um


anúncio. Eu rasguei através da floresta, batendo nos galhos baixos. Déjà vu passou através de mim, quando eu tropecei em raízes expostas e no terreno irregular. Baruck veio do nada, se movendo em um borrão de sombras. Ele se solidificou em frente de mim, me jogando fora. Eu derrapei até parar, rodando. Ele também estava lá, e me derrubou no chão. — Você já entendeu? — Um sorriso cruel se formou em seus lábios pálidos. — Ou você deseja correr mais? Eu me arrastei pela terra enquanto tentava respirar o melhor que podia. O horror tornava difícil ganhar algum senso de controle. Meu tempo estava acabando. Baruck atacou. Seu braço não me bateu, mas eu fui jogada para trás e aterrissei com um baque surdo no chão. O ar fugiu de meus pulmões. Pequenas pedras escavaram dolorosamente através do meu jeans. Ele estendeu a mão, afundando a mão no meu cabelo e enrolando-o em volta de seu punho. Eu mordi os lábios para parar de gritar enquanto ele me arrastava atrás de si. O pano em volta dos meus joelhos se rasgou. Dor irradiou através de mim, ameaçando me consumir. Eu tinha certeza que ele iria puxar cada fio de meu cabelo ao rasgar a pele de meus joelhos. Ele deu outro puxão doloroso, e eu gritei. — Oops. — Ele parou. — Eu sempre esqueço o quão dolorosamente frágil é o seu tipo. Eu não quero arrancar acidentalmente a sua cabeça. — Ele então riu de sua própria observação. — Ainda não, pelo menos. Agarrei os braços com a minha mão boa, tentando diminuir a força, mas não foi de muita ajuda. Ele me levou para o caminho de galhos, raízes e pedras. Meus músculos gritavam em protesto, e eu curvei, começando a me sentir tonta e momentos perto de sucumbir à dor. — Como você está indo aí? — Ele perguntou em tom de conversa. Baruck abruptamente puxou minha cabeça para cima. Dor aguda atirou em meu pescoço e costas. — Indo bem, pelo que eu vejo. — Ele parou, e eu caí na pequena distância do chão. Estávamos perto da borda da floresta novamente. Ele pairava sobre mim. — Me diga onde ele está. Eu coloquei minha mão esfolada no chão, ofegante. — Não. Sua bota se ergueu, batendo no meu lado. Eu sabia que algo se quebrou. Algo muito, muito ruim, porque havia um calor úmido de algo correndo pela minha camisa. Me diga. Estremecendo, eu me enrolei. A frieza de sua verdadeira forma refrigerava minha alma. Ele chegou mais perto. Há coisas pioresss que a dor físiiiica. Talveeeez isso vá motivar você. Baruck me agarrou pela garganta mais uma vez, me levantando para as pontas dos meus dedos. Ele se inclinou e aproximadamente me puxou contra ele. Seu rosto estava a centímetros do meu, consumindo o meu mundo. Eu posso pegar a sua essência; drenar você até que seu coração pareee. Não acontece nada comigo, mas imagine a dor interminável e lentaaa. Me conte onde ele está. Eu não era corajosa, mas eu não ia entregar Daemon para ele. Se Baruck o derrotasse, ele iria atrás de Dee em seguida. Eu nunca seria capaz de viver comigo mesma. Eu não era uma pessoa tão fraca. Eu não era uma fraqueza aqui. Eu não disse nada. Ele se afastou e enfiou a mão na minha barriga. Eu podia sentir isso, seu lado sombrio dentro de mim, deixando cada célula fria. O pequeno espaço de ar entre nós estava apertado e puxado. O ar em meus pulmões saiu em uma corrida dolorosa.


Simples assim, eu não conseguia mais respirar. Meus pulmões incharam quando não consegui mais puxar o ar. A queimação na minha garganta e pulmões se transformara rapidamente em um fogo abrasador com a forte dor que irradiava de mim ao longo de cada membro. Cada célula do meu corpo gritou, pediu socorro em protesto quando o meu coração gaguejou anormal. Não era precioso o oxigênio que ele roubou de mim, mas sim a própria energia que me mantinha viva. Eu estava perdendo a força rapidamente, e o pânico que estava me consumindo não ajudava. Minhas mãos estavam dormentes e meu braço bom pendurado inerte ao meu lado. Tudo diminuiu e a dor entorpeceu um pouco. Eu vagamente senti a mão dele sair da minha garganta, mas eu não podia me mover. Seus poderes tinham me ligado a ele enquanto ele se alimentava. Ele disse alguma coisa, mas eu não conseguia mais distinguir as palavras. Eu estava tão cansada, e somente a dor ardente tão pesada na boca do meu estômago me impedia de desmaiar. Meus olhos se fecharam por sua própria vontade, e senti ele tomando outra inspiração pesada e a dor explodindo novamente. Algo se rompeu dentro de mim, como um cabo muito fino esticado. Ele quebrou e recuou com velocidade implacável. Um flash de luz brilhante azul pálido explodiu atrás das minhas pálpebras fechadas, e fiquei momentaneamente cega. Um rugido invadiu meus ouvidos. A morte havia chegado para mim. A morte soou dolorosa, irritada, e desesperada. Não pacífica. Eu pensei que isso foi injusto. Depois de tudo que tinha acontecido, não poderia a morte me acolher com braços quentes e visões de meu pai esperando por mim? Sem aviso, uma figura se chocou contra nós, e me enviou em uma espiral ao chão em uma queda confusa. Com um esforço intenso, eu abri meus olhos e o vi agachado em frente a mim como um animal. Daemon rosnou em fúria quando se levantou, de pé em cima de mim como um anjo vingador, envolto em luz.


29 O riso louco de Baruck ecoou e saltou ao redor do meu crânio. — Você veio para morrer com ela? Perfeito. Isso torna tudo muito mais fácil, porque eu talvez tenha a quebrado. Daemon fez sombra nos movimentos selvagens de Baruck, desaparecendo e voltando em sua forma verdadeira, a forma em que ele poderia ser morto. — Ela tinha um gosto bom, também. Diferente de certa forma. — ele zombou. — Não é como um Luxen, mas ainda assim valeu a pena no final. Lançando-se em Baruck, Daemon o jogou a vários metros de distância com uma poderosa explosão de luz vinda de seu braço estendido. — Eu vou te matar. — Baruck rolou de costas, quase engasgando com o riso. — Você acha que pode comigo, Luxen? Eu devorava mais fortes do que você. Um uivo de raiva de Daemon abafou qualquer outra coisa que Baruck possa ter dito, e mandou outra explosão de luz para ele. Eu senti o chão debaixo de mim tremer quando consegui me levantar pelos meus cotovelos. Cada movimento, não importava quão pequeno, enviava picadas afiadas através de mim. Eu podia sentir meus batimentos cardíacos, a luta por trás dele. Raios da luz dançavam dentro da escuridão do Arum. Eles trocaram golpes sem sequer tocar um no outro. Bolas alaranjadas brilhantes de fogo se formaram nas pontas das mãos de Daemon. Eles dispararam em Baruck, que desviou antes que elas batessem nas árvores. O mundo virou âmbar e ouro. Calor soprou em mim. Cinzas estalavam no ar, desaparecendo antes de bater no chão. Cada golpe causava tremores no chão, me jogando de volta no chão, de cara na grama úmida com um grunhido. Empurrando-me para cima, vi uma faixa de luz se movendo sobre o campo, bem como uma estrela cadente, mas que vinha do solo a uma velocidade vertiginosa. A luz dos golpes entre Daemon e Baruck, chiou quando me alcançou. Mãos quentes agarraram meus ombros e me levantou. — Katy, fale comigo! — Dee implorou. — Por favor, fale comigo! Nada aconteceu quando eu tentei falar. As palavras não saíam. — Oh meu Deus! — Dee estava chorando, lágrimas caindo de seu rosto bonito e pousando no meu peito quase em silêncio. Ela me puxou para seus braços finos quando ela gritou pelo seu irmão gêmeo. Daemon voltou do campo de batalha ao mesmo tempo que Baruck voltou. Com um olhar, um raio de escuridão disparou em linha reta para nós, batendo nas costas de Dee. Ela gritou de dor e rolou para seus joelhos. Ela olhou para cima, com os olhos brilhando de um branco intenso. Ela subiu para um agachamento, sua forma humana sumindo em uma luz crepitante. Daemon contraatacou com mais força, e o chão tremeu. Baruck esquivou do ataque e Daemon foi atrás de Dee. Gritando em fúria, ela correu para o Baruck. Ele a pegou novamente. Por um segundo, a escuridão a engoliu, e então ela desmoronou no chão em um monte contorcido. Daemon acertou Baruck, lutando com ele no chão com uma raiva que era tão potente que alimentou tudo em volta dele. Dos ramos que abalaram, das folhas mortas que caíam como chuva macabra, para o chão abaixo de mim. O ar estalava cheio com o poder.


Eu sentia em meus ossos. Gemendo, eu cambaleei para os meus pés e chupei uma respiração. Eu não iria por este caminho. Meus amigos não iriam ficar assim. Dee estava em seus pés, piscando. O sangue escorria de seu nariz. Ela balançou a cabeça e tropeçou para frente. Eu vi o que ia acontecer a seguir através de uma lente muito estreita. As coisas pareciam acontecer em câmera lenta. Corri para frente quando Daemon olhou por cima do ombro para sua irmã. Baruck puxou o braço para trás, preparando outro fluxo de matéria. A imagem da árvore sendo cortada pela metade ao longo da estrada passou diante de mim. Me apressando para frente, eu colidi com a luz que era Dee no momento em que Baruck lançou a explosão de energia. A escuridão me cercou, e ouvi um grito, um grito lancinante que não era meu. E então eu estava voando, realmente voando. O céu estava rolando, as estrelas e as trevas, mais e mais. A totalidade do mundo brilhava. Eu bati no chão, já sabendo que era tarde demais. Um corpo caiu ao lado do meu. Um braço fino mole caiu contra o meu. Dee. Eu não havia sido rápida o suficiente. O braço aquecido contra o meu, ficando menos... Sólido. Sua luz estava se jogando em cima de mim. Tristeza me cortou como mil lâminas de dois gumes. Ela não estava se movendo, mas eu podia ver o peito se mexendo, lenta e superficial. Distraído, Daemon se virou e cometeu um erro fatal. Você vai acabar fazendo com que ele morra, Ash tinha dito. Baruck empinou seu braço para trás e sua explosão pegou Daemon nas costas. Ele subiu, em espiral pelo ar, piscando em forma humana. Ele desembarcou a apenas um metro longe de nós. Baruck riu e mudou para sua forma sombria. Três por um. Lágrimas queimaram meus olhos enquanto meu rosto se aninhava contra a grama úmida. Daemon tentou se sentar, mas ele caiu de costas, com o rosto se contorcendo de dor. Acabouuu. Todos vocês vão morrer. Baruck avançou. Daemon virou a cabeça para mim. Nossos olhos se encontraram. Havia tanta dor em seu olhar. Seu rosto se desvaneceu, borrado e irreconhecível. Ele não conseguia segurar sua forma humana. Segundos depois, e ele estava em sua verdadeira forma. A forma de um homem envolto em luz intensa e bela. Um braço estendeu na minha direção, formando dedos. De cortar o coração, estendi mão e meus dedos desapareceram em sua luz. O calor envolveu meus dedos, a menor pressão da mão de Daemon apertando em volta da minha. Ele apertou, como se para me tranquilizar, e um soluço ficou preso na minha garganta. A luz de Daemon piscou, mas continuou subindo no meu braço, me envolvendo em seu calor intenso. Como o dia do primeiro ataque Arum, na esteira de seu calor, meu corpo começou a se recompor. Daemon estava usando a última de suas forças para me salvar. — Não! — Eu gritei, mas saiu nada além de um sussurro rouco. Tentei puxar minha mão, mas Daemon recusou-se a deixar ir. E ele não sabia como eu estava... Eu estava muito ferida para ser salva. Ele deveria ter tomado a última de sua força para se salvar. Ou salvar Dee... Implorei a ele com meus olhos, mas ele apertou minha mão mais forte. Isso não era justo. Ele não estava certo. Eles não mereciam isso. Eu não merecia isto. Dor e ódio brotaram em mim. Eu iria morrer, meus amigos morreriam, minha mãe estaria perdida, e Daemon... Eu não podia sequer entender o propósito por trás de tudo isso. A ganância do Arum por poder? Valia a pena acabar com todas essas vidas? A injustiça de tudo isso rasgou para mim e uma onda de energia que veio de


dentro de mim, sacudindo pelo meu corpo. Eu não iria morrer assim. Nem iriam Daemon e Dee, não em um campo qualquer em Virginia do Oeste. Usando a força que Daemon tinha me dado, eu me empurrei e me sentei no braço quente de Dee, ainda segurando Daemon, desejando que eles se levantassem, desejando que eles lutassem. Baruck moveu em direção à luz de Daemon. Claro que ele ia acabar com ele antes – primeiro o mais poderoso. Ele teria terminado comigo há horas. Eu não era nem um pontinho em seu radar neste momento. A mão de Daemon balançou e sua luz brilhou quando a sombra de Baruck ondulava sobre ele. E alguma coisa, algo inesperado aconteceu. Um pulso de luz passou por ele, brilhando tão forte que eu estremeci. Ele arqueou no ar, virou e cuspiu. Ele encontrou a sua outra metade, reconhecendo a forma do meu lado. O mesmo acontecia com a luz de Dee, embora ela estivesse inconsciente. Sua luz brilhou, conectada com Daemon. A sombra de Baruck interrompeu. O arco de luz pulsou acima e atirou para baixo, para a direita no centro do meu peito. O impacto me enviou profundamente no solo, mas... Eu me levantei do chão, o cabelo voando ao meu redor. Poder exalava entre nós três. Faiscava, e com o canto do meu olho eu vi os dois voltando à forma humana. Dee caiu no chão, gemendo baixinho, empurrando Daemon com os joelhos, se voltando para mim. Mas eu... Eu estava pairando. Pelo menos, foi assim que me senti. Eu não me concentrei nisso ou mesmo no que Daemon estava fazendo. Era só Baruck e eu. Eu queria que ele fosse embora, que desaparecesse. Eu queria a terra limpa da sua presença. Eu desejei por isso mais do que qualquer coisa que eu já tinha desejado. Cada fibra do meu ser estava centrada nele. Tirei tudo dentro de mim: todos os medos, todas as lágrimas que eu derramei pelo meu pai, e cada momento da minha vida onde eu estive alheia. Poder enrolado dentro de mim, envolto pela minha essência. Com uma batalha selvagem, eu deixei ir. O cabo quebrou, e recuou para fora de mim. O céu acima de nós entrou em erupção em um raio branco. Eu senti sair, e eu ouvi as velhas árvores que nos rodeavam ranger e gemer quando ele correu sobre eles. Um forte carvalho, sem lugar para se esconder, inclinou-se para o seu poder. O flash de luz seguiu fiel à sua meta, passando através de Daemon e Dee, e bateu em Baruck no peito. Sua forma de sombra se dobrou. Houve um estalo alto, e a luz explodiu mais uma vez, envolvendoo completamente. Daemon tropeçou para trás e se protegeu da explosão. A luz acendeu, depois recuou rapidamente, e sem uma única palavra, Baruck tinha sumido. Daemon lentamente baixou o braço e olhou fixamente para o vazio que havia ficado. Ele se virou para mim. Sua voz era apenas um sussurro. — Kat? — Eu estava caída antes que percebesse. O céu escuro acima começou a se confundir. Eu não sabia o que aconteceu ou o que eu fiz, mas eu podia sentir o poder saindo de mim, e junto com ele, algo mais importante. Não senti nada, e soltei um suspiro cansado. Houve um som de chocalho que eu sabia que deveria me preocupar, mas eu não pensei em me importar. Havia esta escuridão novamente, um tipo diferente do que a do Arum. Esta foi mais suave, um entorpecido Daemon caiu de joelhos ao meu lado, me puxando para os seus braços fortes, sólidos. — Kat, diga algo insultante. Vamos. — Ao longe eu podia ouvir Dee se agitando e se levantando, o pânico enchendo sua voz. Sem olhar para trás, Daemon moveu gentilmente seus dedos sobre meu


rosto e falou. — Dee, volte para a casa agora. Traga Adam. Ele está lá fora em algum lugar. Os braços de Dee estavam envolvidos em torno de sua cintura, e ela estava inclinada em um ângulo que parecia que ela tinha uma costela quebrada ou duas. — Eu não quero ir embora. Ela está sangrando! Nós temos que levá-la a um hospital. Eu estava sangrando? Huh. Eu não sabia. Eu senti a umidade na minha cara: debaixo dos meus lábios, meu nariz, e havia uma estranha umidade em torno de meus olhos, mas não doeu. Eu estava chorando? Era sangue? Eu podia sentir Daemon em volta de mim, mas tudo parecia muito distante. — Volte para casa agora! — Daemon gritou e seu aperto em torno de mim ficou mais forte, mas sua voz se suavizou. — Por favor. Nos deixe aqui. Vá. Ela está bem. Ela... Ela só precisa de um minuto. Tão mentiroso. Eu não estava bem. Daemon virou-se de costas para ela, empurrando as ondas emaranhadas de cabelo fora do meu rosto. Só depois que ela saiu, ele falou baixinho para mim. — Kat, você não vai morrer. Não se mova ou faça qualquer coisa. Basta relaxar e confiar em mim. Não lute com o que está prestes a acontecer. — Eu vi como Daemon abaixou a cabeça. Ele descansou sua testa contra a minha. Sua forma desapareceu e ele entrou em seu verdadeiro corpo. Meus olhos se fecharam contra a intensidade de sua luz. O calor era quase demais. Eu estava muito próxima a ele. Aguente um pouco. Não vá. Sua voz veio na minha cabeça. Aguente um pouco. Me senti afundar, e sua mão segurou a minha cabeça. Daemon exalou longo e constante contra meus lábios. O calor espalhou-se dele para mim, lentamente descendo minha garganta e em meus pulmões, enchendo-me com um calor glorioso que eu sabia que não havia melhor maneira de morrer do que isso. Como um balão que estava lentamente sendo inflado, comecei a subir. Meus pulmões cheios com o seu calor, que se espalhou por todas as veias e meus dedos começaram a formigar. A pressão na minha cabeça diminuiu. Nadei na sensação inebriante que me inundou. Meus sentidos começaram a processar as coisas em torno de mim mais uma vez, e eu não estava mais neste mundo insensível e fraco. Ele continuou até que eu fui capaz de me mover em seus braços. Eu me levantei, segurando seus braços, seguindo-o para fora do abismo escuro. Estendi a mão para ele cegamente. Meus lábios roçaram os dele e meu mundo explodiu em sentimento. Eles moveram até que eu era capaz de compreender e dar sentido a algumas palavras. E elas não eram minhas, não inteiramente. O que estou fazendo? Se eles descobrirem o que eu fiz... Mas eu não posso perdê-la. Eu não posso. Engoli em seco para o ar, pavimentado pelo conhecimento que eu estava ouvindo os pensamentos de Daemon. Ele estava falando para mim, não como antes, quando ele estava em sua verdadeira forma. Isto foi diferente, como seus pensamentos e sentimentos estavam dançando nos meus. O medo bateu em mim, assim como algo mais suave, ainda mais poderoso do que o medo. Por favor. Por favor. Eu não posso te perder. Por favor, abra seus olhos. Por favor, não me deixe. Eu estou aqui. Abri os olhos. Eu estou aqui. Daemon recuou, a luz se desvanecendo lentamente, escorregando para fora de mim, sobre a minha pele e de volta para ele. — Kat... — Ele sussurrou, enviando arrepios através de mim. Ele sentou-se comigo ainda aninhada em seu peito. Eu senti seu coração trovejar violentamente, batendo no mesmo ritmo que o meu, em perfeita sincronia. Tudo ao nosso redor parecia... Mais claro.


— Daemon, o que você fez? — Você precisa descansar. — Ele fez uma pausa, com a voz rouca, cansada. — Você não está cem por cento. Vai levar um par de minutos. Eu acho. Eu nunca curei nada a este nível antes. — Você fez na biblioteca... — Eu murmurei. — E, no carro... Ele abaixou sua cabeça contra a minha. — Aquilo foi apenas para ajudar com uma torção e contusões. Não era nada como hoje. O braço que havia sido quebrado nem sequer doeu quando eu levantei. Virei a cabeça na direção dele, minha bochecha tocando a dele. Olhei com espanto para as árvores tortas que estavam dobradas em volta de nós em um círculo perfeito. Meu olhar caiu no chão e parou para o espaço onde o Baruck ficava. O único vestígio dele era a terra arrasada que ele deixou para trás. — Como é que eu fiz isso? — Eu sussurrei. — Eu não entendo. Ele enterrou a cabeça na curva do meu pescoço, respirando profundamente. — Eu devo ter feito alguma coisa para você, quando eu te curei. Eu não sei o quê. Não faz sentido, mas algo aconteceu quando as nossas energias se juntaram. Não deveria ter afetado você. Você é humana. Eu estava começando a me perguntar sobre isso. — Como você está se sentindo? — Perguntou ele. — Bem. Sonolenta. E você? — O mesmo. Eu assisti em silêncio enquanto seus olhos curiosos seguiram o seu polegar sobre meu queixo, e ele traçou ao longo do meu lábio inferior. — Eu acho que, por enquanto, seria melhor se mantivéssemos isto entre nós mesmos, a coisa toda da cura e o que você fez lá atrás. Ok? Eu acenei com a cabeça, mas parei com as suas mãos vagando no meu rosto, removendo as manchas que nossa batalha tinha deixado para trás. Ondas negras caíram sobre sua testa e um sorriso se alargou em seu rosto, atingindo seus olhos, aprofundando-os a um verde brilhante. Seus dedos espalhados por todo meu rosto, sua cabeça inclinada, e eu não pude evitar em pensar no que tinha ouvido enquanto sua boca roçava a minha. Havia uma característica infinitamente mais macia de seu beijo suave. Bateu fundo em meu coração Era inocente, íntimo. A minha alma queimando quando ele inclinou a cabeça para trás e explorou meus lábios como se fosse a primeira vez que tínhamos beijado. E talvez fosse, um beijo de verdade. Quando ele finalmente se afastou, ele riu vacilante. — Eu estava preocupado que ele tivesse quebrado você. — Não é bem assim. — Meu olhar se moveu sobre cada centímetro de seu rosto cansado. — Você se quebrou? Ele bufou. — Quase. Eu tomei uma respiração, ainda um pouco tonta. — E agora? Um sorriso lento e cansado se estendeu em seus lábios. — Nós vamos para casa.


30 Literalmente me machucou profundamente não poder fazer meu post ‘Esperando pela Quartafeira’, mas ainda faltavam várias semanas para o meu aniversário. E mesmo que Dee fosse me emprestar seu computador, eu não queria usá-lo para isso. Fazendo beicinho, eu peguei a lata de refrigerante do freezer de Dee e voltei para a sala de estar. Aliens podiam com certeza comer um monte de comida. — Você quer mais pizza? — Dee ofereceu, olhando para a última fatia com tanta ansiedade que eu estava começando a pensar que ela e Adam precisavam reavaliar seu relacionamento. Eu balancei minha cabeça. Dee tinha comido o suficiente para alimentar uma pequena vila faminta e, francamente, eu não estava com fome. Comer enquanto Dee e Adam olhavam para mim estava ficando tedioso e desconfortável. Dee não percebeu que eu notei, e Adam estava se preparando para fazer outra pergunta sobre o que aconteceu naquela noite com Baruck. O que todos eles sabiam, era que Daemon tinha matado Baruck e eu não tinha sido ferida tão mal como Dee pensava. De alguma forma Daemon tinha convencido a ela que eu só estava atordoada. Olhei para eles. Mas tinha sido eu a matar alguém. Novamente. Surpreendentemente, o pensamento não me encheu com a mesma quantidade de medo e doença, como geralmente acontecia. Ao longo dos últimos dois dias, eu tinha chegado a certa compreensão com minhas ações. Foi um nível de aceitação instável que tornou mais fácil de engolir, mesmo que eu nunca fosse esquecer. Era ele ou eu e meus amigos. O idiota alienígena tinha que ir. Todo mundo ainda estava olhando. Adorável. Dee se sentou ao meu lado e tomou um gole de refrigerante. Convencida ou não, Dee sabia que algo havia acontecido quando voltei com Daemon naquela manhã... E o que era. Ela cutucou minha perna com a dela, ganhando minha atenção. — Você está se sentindo bem? Se eu ganhasse um dólar por cada vez que ela fizesse essa pergunta, eu já teria um novo laptop. Não era como se eu não soubesse que tinha sorte de estar viva, e que deveria estar sofrendo de estresse pós-traumático, mas eu me sentia bem. Eu nunca me senti fisicamente melhor, para ser honesta. Eu sentia como se pudesse sair e correr uma maratona ou escalar uma montanha. Eu não queria olhar para a razão para isso muito de perto. Muitas coisas já tinham me assustado com sucesso. Alguém pigarreou, me sacudindo para fora dos meus pensamentos. Olhei para cima para ver Dee e Adam olhando para mim com expectativa. Eu não conseguia lembrar o que eles queriam. — O quê? Dee sorriu um pouco animada. — Nós estávamos nos perguntando em como você esta lidando com as coisas? Se você está preocupada com a existência de mais Arum. — Oh, você acha que haverá mais? — Eu imediatamente respondi. — Não. — Adam me tranquilizou. Desde a batalha com Baruck, ele começou a falar comigo. Foi


uma boa mudança nas coisas. Ash e Andrew eram uma história diferente. — Nós achamos que não. Eu me mexi desconfortavelmente e minha pele coçava. Eu não tinha certeza de quanto tempo mais eu poderia me sentar aqui com eles me olhando como se eu fosse um experimento que deu errado. — Eu pensei que você tinha dito que Daemon estaria de volta em breve. — Adam se reclinou na cadeira. Os olhos de Dee passaram de Adam para mim. — Daemon deve chegar a qualquer minuto. Eu não tinha visto Daemon desde aquela manhã. Eu perguntei várias vezes para Dee aonde ele tinha ido, mas ela nunca me respondeu. Eventualmente, eu desisti de incomodá-la. Os dois começaram a conversar, a fazer planos para o feriado de Ação de Graças que chegaria em algumas semanas. Minha mente foi para outro lugar, como eu vinha fazendo nos três últimos dias. Era estranho. Eu não conseguia me concentrar. Eu me sentia fora, como se estivesse faltando uma parte de mim. O calor passou sobre a minha pele, como uma brisa quente. Ele veio do nada. Eu olhei para cima, vendo se alguém notou o que eu sentia. Eles ainda estavam conversando. Eu me mexi no sofá quando o sentimento aumentou. A porta da frente da casa de Dee se abriu, e minha respiração ficou presa na minha garganta. Em poucos segundos, Daemon entrou na sala. Seu cabelo estava despenteado e havia sombras sob seus olhos. Sem dizer uma palavra, ele caiu sobre o sofá, seu pesado cílios escondendo seus olhos, mas eu podia sentir seu olhar. — Onde você estava? — Eu perguntei em uma voz que soava estridente para os meus próprios ouvidos. Fez-se silêncio enquanto mais dois pares de olhos bem estranhos me encaravam. Senti minhas bochechas ficando quentes e eu me inclinei para trás, sentindo-me como um idiota. Dobrei minhas mãos e mantive meus olhos presos a eles. Que jeito de chamar a atenção para mim. — Bem Olá, querida, eu estive fora bebendo e me prostituindo. Eu sei, as minhas prioridades estão bastante fora de eixo. Meus lábios se apertaram em sua resposta sarcástica. — Idiota! — Eu murmurei. Dee gemeu. — Daemon, não seja um idiota. — Sim, mamãe. Eu estive com outro grupo, procurando por todo o maldito estado para me certificar de que não há qualquer Arum que nós não estejamos cientes. — Daemon disse, a voz profunda acalmando uma dor estranha dentro de mim ao mesmo tempo em que queria batê-lo na cabeça. Adam se inclinou para frente. — Não há nenhum, certo? Porque nós dissemos a Katy que não tinha nada para se preocupar. Seus olhos me deixaram por alguns instantes. — Nós não vimos nenhum. Dee piou alegremente e bateu palmas. Ela se virou para mim, seu sorriso genuíno desta vez. — Veja, não há nada para se preocupar. Tudo acabou. Eu sorri de volta para ela. — Isso é um alívio. Ouvi Adam conversando com Daemon sobre sua viagem, mas era difícil prestar atenção. Fechei os olhos. Cada célula do meu corpo estava consciente dele, como naquele dia na minha sala, mas em um nível diferente.


— Katy? Você está mesmo aqui, agora? — Eu acho que sim. — Forcei um sorriso por causa de Dee. — Vocês já tentaram deixá-la louca? — Perguntou Daemon, suspirando. — Bombardeando-a com um milhão de perguntas? — Nunca! — gritou Dee. Em seguida, ela riu. — Bem... Talvez. — Imaginei que sim. — Daemon murmurou, estendendo as longas pernas. Incapaz de me parar, eu me virei para ele. Nossos olhos se encontraram. O ar entre nós parecia se estender com calor e eletricidade. A última vez que eu o vi, estávamos nos beijando. E eu não tinha ideia de onde isso nos deixava. Dee passou ao meu lado, limpando a garganta. — Eu ainda estou com fome, Adam. Ele riu. — Você é pior do que eu. — É verdade. — Dee pulou. — Vamos ao Smoke Hole. Eu acho que hoje é dia de bolo de carne caseiro. — Ela passou por mim, inclinou-se, e deu a Daemon um beijo na bochecha. — Fico feliz que você está de volta. Eu senti sua falta. Daemon sorriu para a irmã. — Senti sua falta também. Quando a porta se fechou atrás de Dee e Adam, eu soltei a respiração que eu tinha estado segurando. — Está realmente tudo bem? — Eu perguntei. — A maior parte sim. — Ele estendeu a mão para mim, correndo os dedos sobre minha bochecha. Daemon deu uma respiração afiada. — Inferno. — O quê? Ele se sentou e se aproximou, sua perna pressionando contra a minha. — Eu tenho algo para você. Não é o que eu estava esperando. — É algo que vai explodir na minha cara? Inclinando-se para trás, ele riu e enfiou a mão no bolso da frente da calça jeans. Ele tirou uma pequena bolsa de couro e me entregou. Curiosa, eu puxei a pequena corda e cuidadosamente esvaziei a bolsa na minha palma da mão. Olhei para cima, e quando ele sorriu, eu senti meu coração vibrar. Era um pedaço de obsidiana com cerca de três centímetros de comprimento, polida e moldada em um pingente. O vidro era preto brilhante. Parecia cantarolar contra a minha pele, fria ao toque. A corrente de prata que pendia era delicada, espiralando sobre a parte superior do dente. A outra ponta estava afiada em um ponto. — Acredite ou não. — Disse Daemon. — Mesmo algo tão pequeno como isso pode realmente perfurar a pele e matar um Arum. Quando ficar muito quente você vai saber que um Arum está próximo, mesmo se você não vê-lo. — Ele cuidadosamente pegou a corrente, segurando os grampos. — Levei uma eternidade para encontrar uma peça como esta já que a lâmina se quebrou inteira. Eu não quero que você tire isso, ok? Pelo menos quando... Bem, a maior parte do tempo. Chocada, eu puxei meu cabelo para fora do caminho e me virei, deixando-o colocar o colar no meu pescoço. Uma vez que estava colocado, eu o encarei. — Obrigada. Quero dizer, por tudo.


— Não é grande coisa. Ninguém perguntou sobre o seu rastro? Eu balancei minha cabeça. — Eu acho que eles estavam esperando ver um por causa da luta. Daemon assentiu. — Inferno, você está brilhante como um cometa agora. Isso terá que desaparecer ou estaremos de volta à estaca zero. Um calor lento construído dentro de mim. Não do tipo bom. — E qual seria a estaca zero, exatamente? — Você sabe, nós sendo presos juntos... Até que o maldito rastro desapareça. — Seu olhar piscou a distância. Presos juntos? Meus dedos cravaram em meus joelhos por sobre o tecido. — Depois de tudo que eu fiz, estaremos presos juntos de novo? — Daemon encolheu os ombros. —Você sabe o quê? Foda-se, amigo. Por causa de mim, Baruck não encontrou sua irmã. Por causa do que eu fiz, eu quase morri. Você me curou. Isso é porque eu tenho um rastro. Nada disso é culpa minha. — E é minha? Eu deveria ter deixado você morrer? — Seus olhos ardiam agora, como piscinas de esmeralda. — É isso que você queria? — Essa é uma pergunta estúpida! Eu não me arrependo de que você me curou, mas eu não vou lidar mais com essas suas malditas mudanças de humor. — Eu não acredito que você proteste tanto com toda parte de gostar de mim. — Um sorriso irônico torceu seus lábios. — Alguém parece que está tentando convencer a si mesma. Eu respirei fundo e soltei o ar lentamente. Por mais que me incomode dizer isso, porque havia uma parte de mim que queria, eu fiz. — Eu acho que seria melhor se você ficar longe de mim. — Não posso fazer isso. — Qualquer um dos outros Luxen pode cuidar de mim ou que seja. — Eu protestei. — Não tem que ser você. Seus olhos encontraram os meus. — Você é minha responsabilidade. — Eu não sou nada para você. — Você é definitivamente algo. Minhas mãos coçavam para irem de encontro ao rosto dele em um tapa. — Eu não gosto de você. — Não. Você não gosta. — Certo. Precisamos tirar esse rastro de cima de mim. Agora. Um sorriso perverso chegou em seus lábios. — Talvez a gente pode tentar uns amassos de novo. Vejamos o que vai fazer com este rastro. Pareceu funcionar da última vez. Meu corpo gostou da ideia. Eu, no entanto, não gostei. — Sim, isso não vai acontecer de novo. — Foi apenas uma sugestão. — Uma que nunca vai. Acontecer... — Eu mordi a cada palavra deliberadamente. — De novo. — Não aja como se você não tivesse gostadoEu bati no peito duro dele. Ele apenas riu, e eu comecei a empurrar, mas... Espere. Eu apertei


minha mão contra seu peito enquanto olhava para ele. Daemon arqueou uma sobrancelha. — Você está me apalpando, Kat? Estou gostando de onde isto está indo. Eu estava – peito e tudo mais – mas esse não era o ponto. Seu coração batia contra a palma da minha mão, um forte ritmo que estava um pouco acelerado. Thump. Thump, Thump. Thump. Eu coloquei minha mão contra o meu próprio peito. Thump. Thump, thump. Thump. Comecei a me sentir tonta. — Nossos batimentos cardíacos... Eles são a mesma coisa. — Ambos nossos corações estavam correndo agora, totalmente sincronizados. — Oh meu Deus, como isso é possível? Daemon começou a parecer pálido. — Oh merda. Meus cílios levantaram. Nossos olhos se encontraram. O ar pareceu despertar em torno de nós, cheios de tensão. Oh merda, realmente. Ele colocou sua mão sobre a minha e apertou. — Mas não é tão ruim. Quero dizer, eu tenho certeza que você se transformou em alguma coisa e essa coisa toda do coração prova que nós devemos estar conectados. — Ele sorriu. — Poderia ser pior. — O que poderia ser pior, exatamente? — Eu perguntei, atordoada. — Nós estamos juntos. — Ele encolheu os ombros. — Poderia ser pior. Parte de mim não tinha certeza se eu tinha ouvido direito. — Espere um segundo. Você acha que devemos ficar juntos por que alguma coisa alienígena nos conectou? Mas dois minutos atrás você estava reclamando de estar preso comigo? — Sim, bem, eu não estava reclamando. Eu estava lembrando que estamos presos juntos. Isso é diferente... E você está atraída por mim. Meus olhos se estreitaram. — Eu vou voltar para essa última afirmação em um segundo, mas você quer estar comigo, porque agora você se sente... Forçado? — Eu não diria exatamente forçado, mas... Mas eu gosto de você. Olhei para ele. Foi tudo muito fácil de lembrar o que eu tinha ouvido quando ele tinha me curado. Parte de mim pensou que talvez o que ele sentia era real, mas talvez tenha sido o produto de tudo o que diabos ele tinha feito. Isso fazia sentido considerando o que ele estava dizendo. Daemon franziu a testa. — Oh não, eu conheço esse olhar. O que você está pensando? — Essa é a declaração mais ridícula de atração que eu já ouvi. — Eu disse, me levantando. — Isso é tão ridículo, Daemon. Você quer estar comigo, porque uma coisa louca aconteceu? Ele revirou os olhos enquanto se levantava. — Nós gostamos um do outro. Nós gostamos. É estúpido tentar negar — Oh, isso vindo do cara que me deixou no sofá de topless? — Eu balancei minha cabeça. — Nós não gostamos um do outro. — Bem... Eu provavelmente deveria pedir desculpas por isso. Sinto muito. — Daemon deu um passo para frente. — Nós estávamos atraídos um pelo outro antes de eu te curar. Você não pode dizer que não é verdade, porque eu sempre... Fui atraído por você.


Eu tomei um passo para trás. — Estar atraído por mim é uma razão ridícula para ficar comigo, como o fato de que estamos presos juntos agora. — Oh, você sabe que é mais do que isso. — Ele fez uma pausa. — Eu sabia que você ia ser um problema desde o início, a partir do momento que você bateu na minha porta. Eu ri secamente. — Esse pensamento é definitivamente mútuo, mas isso não é desculpa para a coisa da dupla personalidade que você tem. — Bem, eu estava meio que esperando que fosse, mas, obviamente, não. — Ele deu um rápido sorriso. — Kat, eu sei que você está atraída por mim. Eu sei que você gosta— Estar atraída por você, não é suficiente. — disse eu. — Nós nos damos bem. — Eu dei a ele um olhar brando. Tive outra visão de seus dentes enquanto seus lábios se abriam. — Às vezes nos damos bem. — Não temos nada em comum. — Eu protestei. — Temos mais em comum do que você imagina. — Que seja. Daemon pegou um pedaço do meu cabelo e envolveu-o em torno de seu dedo. — Você sabe que você quer. A memória do doce beijo que tínhamos compartilhado no campo retornou. Frustrada, puxei meu cabelo para trás e me foquei no assunto. — Você não sabe o que eu quero. Você não tem ideia. Eu quero um cara que quer ficar comigo porque ele realmente quer estar. Não que ele seja forçado a ficar comigo por algum tipo de senso de responsabilidade. — Kat— Não! — Eu o interrompi, deixando minhas mãos em punhos. Vamos, Kittycat, não fique só olhando. Eu não ia mais ser uma espectadora, o que significava não cair por Daemon. Não quando seus motivos para me querer eram tão ridículos que eles faziam parte da lista dos dez piores. — Não. Desculpe. Você passou meses sendo o maior idiota para mim. Você não começa a decidir que gosta de mim um dia e acha que vou esquecer tudo isso. Eu quero alguém para cuidar de mim como o meu pai cuidou da minha mãe. E você não é ele. — Como você pode saber? — Seus olhos brilharam, transformando-se em joias brilhantes. Balançando a cabeça, me virei para a porta dos fundos. Daemon apareceu na frente dela, bloqueando a minha saída. — Deus, eu odeio quando você faz isso! Ele não riu ou sorriu como geralmente fazia. Seus olhos estavam arregalados e brilhantes, desejosos. — Você não pode continuar fingindo que você não quer estar comigo. Eu podia, eu iria tentar, mesmo que lá no fundo, eu queria estar com ele. Mas eu queria que ele me quisesse, não porque ficamos presos juntos ou porque de alguma forma estávamos ligados. Eu sempre gostei dos lampejos do verdadeiro Daemon. Um Daemon com quem eu poderia estar, poderia amar. Mas esse Daemon nunca ficou por muito tempo, empurrado pelo seu dever sem fim à sua família e da sua fuga. Triste com isso, eu pressionei meus lábios. — Eu não estou fingindo. — Disse eu.


Seus olhos procuraram os meus. — Você está mentindo. — Daemon. Ele colocou as mãos em meus quadris e me puxou para frente com cuidado. Sua respiração agitou o cabelo em volta do meu rosto. — Se eu quisesse ficar com... — Ele começou, com as mãos apertando. — Se eu quisesse ficar com você, você iria tornar mais difícil não é? Eu levantei minha cabeça. — Você não quer estar comigo. Seus lábios se contraíram em um sorriso. — Eu acho que eu meio que quero. Partes do meu corpo gostavam disso. Meu peito inchou. — Querer e meio que querer não são a mesma coisa, se quer saber. — Não, não é, mas é alguma coisa. — Seus cílios abaixaram, protegendo os olhos. — Não é? Eu pensei novamente no amor que a minha mãe e meu pai tiveram. Eu me afastei, balançando a cabeça. — Não é o suficiente. Os olhos de Daemon encontraram os meus e ele suspirou. — Você vai deixar isso mais difícil. Eu não disse nada. Meu coração estava batendo quando eu me esquivei dele e me dirigi para a porta da frente. — Kat? Respirando fundo, eu o enfrentei. — O quê? Um sorriso entreabriu os lábios. — Você percebe que eu adoro um desafio? Eu ri baixinho e voltei para a porta da frente, dando a ele a saudação de um dedo. — Assim como eu, Daemon. Assim como eu.


EXTRA Cenas do Ponto de vista de Daemon. "Uh-oh espaguete de Daemon"

No momento em que entrei na sala de aula de trigonometria, eu vi Kat. Meio difícil de perder com aquele brilho esbranquiçado em torno dela. Vi um par de lugares vazios no outro lado da classe e soube onde eu deveria ir. Em vez disso, eu mudei meu caderno de lado e fui direto para o corredor onde ela estava sentada. Ela manteve os olhos colados ao seu caderno, mas eu sabia que ela estava ciente de mim... O leve rubor ao longo das suas bochechas a denunciava. Eu sorri. Mas, então, o meu olhar deslizou para o gesso cobrindo seu braço fino e meu sorriso desapareceu. Raiva potente varreu em mim com a lembrança de quão perto ela ficou de se tornar um brinquedinho de um Arum. Meus dentes rangeram juntos quando eu passei por ela e caí no assento atrás dela. Imagens me agrediram de como ela parecia depois do ataque do Arum, abalada, aterrorizada, e tão pequena em minha camisa, enquanto esperávamos pela polícia inútil aparecer. Se alguma coisa, isso deveria ter servido como um lembrete para tirar minha bunda dali e me mudar para um lugar diferente. Tirei uma caneta fora da espiral do meu caderno e cutuquei-a nas costas. Kat olhou por cima do ombro, mordendo o lábio. — Como está o braço? — Perguntei. Suas feições comprimiram, e em seguida, seus cílios varreram para cima, seus olhos claros encontrando meu olhar. — Bom. — disse ela, brincando com seu cabelo. — Eu tiro a tala amanhã, eu acho. Bati minha caneta para fora da borda da mesa. — Isso deve ajudar. — Ajudar com o quê? — Cautela coloria seu tom. Usando a caneta, fiz um gesto para o rastro em torno dela. — Com isso que você tem aí. Seus olhos se estreitaram, e eu me lembrei que ela não podia ver como ela estava iluminada como uma árvore de Natal. Eu deveria ter esclarecido as coisas, mas era muito divertido provocá-la. Quando parecia que ela estava a dois segundos de me bater na cabeça com a tala, eu não pude evitar. Eu me inclinei para frente, olhando-a olhos. — Menos pessoas vão olhar sem a tala é tudo que eu estou dizendo. Seus lábios se apertaram em descrença, mas ela não desviou o olhar. Kat encontrou meu olhar e segurou. Não recuou, nunca recuava. Respeito relutante continuou a crescer dentro de mim, mas por


baixo disso, outra coisa estava em desenvolvimento. Eu estava a dois segundos de beijar aquele olhar irritado do rosto dela. Me perguntei o que ela faria. Bater em mim? Me beijar de volta? Eu estava apostando em bater. Billy Crump soltou um assobio baixo de algum lugar longe para o nosso lado. — Ash vai chutar o seu traseiro, Daemon. Os olhos de Kat se estreitaram com o que se parecia muito com ciúme. Eu sorri. Eu poderia sempre mudar a minha aposta. — Não, ela gosta da minha bunda demais para isso. Billy riu. Eu derrubei minha mesa para baixo, trazendo nossas bocas para o mesmo espaço de respiração. Um flash de calor passou por seus olhos, e eu então eu a tinha. — Adivinha o quê? — O quê? — Ela murmurou, seu olhar caiu para a minha boca. — Eu verifiquei o seu blog. Seus olhos se atiraram de volta ao meu. Por um segundo, eles estavam arregalados com o choque, mas ela foi rápida para suavizar sua expressão. — Me perseguindo de novo, eu vejo. Eu vou precisar conseguir uma ordem de restrição? — Em seus sonhos, Gatinha. — Eu sorri. — Oh, espere, eu já estou estrelando eles, não é? Ela revirou os olhos. — Pesadelos, Daemon. Pesadelos! Eu sorri, e seus lábios tremeram. Droga, se eu não soubesse melhor, eu acho que ela gostava de nossas pequenas brigas também. O professor começou a chamar atenção, e Kat voltou à sua mesa. Me sentei, rindo baixinho. Vários alunos ainda estavam nos observando, o que trouxe de novo o sentido para mim. Não que eu estivesse fazendo algo de errado. Provocá-la não iria trazer o Arum para nós ou colocá-la em perigo, ou a minha irmã. Quando a campainha tocou, Kat fugiu da classe. Balançando a cabeça, peguei meu caderno e me dirigi para a multidão de estudantes. Durante uma troca de aulas uma hora mais tarde, eu encontrei com Adam, que começou a andar ao meu lado. — Vamos ter uma conversa. Eu arqueei uma sobrancelha. — Conversar sobre o quê? Como todo mundo sempre dirige uma caminhonete por aqui? Ou como derrubar vacas é realmente um passatempo? Ou como a minha irmã nunca, nunca vai ficar séria com você? Adam suspirou. — Estamos falando de Katy, espertinho. Usando minhas habilidades aprendidas, eu olhava para frente enquanto procurava pela sala lotada. Ambos éramos mais ou menos uma cabeça mais altos do que a maioria. Nós éramos como gigantes na terra dos humanos. — Billy Crump está na sua— Aula de trigonometria? Sim, eu sei quem é. — Ele estava falando em História sobre você flertando com a garota nova. — disse Adam, deslizando por um grupo de meninas que estavam abertamente olhando para nós. — Ash ouviu ele.


— A cada segundo que passava, meu aborrecimento aumentava. — Eu sei que você e Ash não estão mais juntos. — Sim. — Eu cerrei os dentes. — Mas você sabe como ela fica... — Adam continuou rapidamente. — É melhor ser cuidadoso com a sua pequena humana. Eu parei no meio do salão, a dois segundos de jogar Adam através de uma parede. Os alunos passavam por nós quando eu comecei a falar em um pouco mais que um sussurro. — Ela não é minha pequena humana. O olhar de Adam foi inflexível. — Tudo bem. Que seja. Longe de todos, eu não me importo se você levá-la para o vestiário e fazer com ela, mas ela está brilhando... e também estão os seus olhos. E tudo isso é familiar. Merda. Lutando com uma paciência pela qual eu não era conhecido ter, eu comecei a andar, deixando Adam para trás. Eu precisava ficar bem longe de Kat. E isso seria mantê-la longe do resto dos Luxen, nomeadamente Ash. Quando foi o momento que Katy se tornou diferente do resto dos seres humanos? Alguém que eu quisesse conhecer? E Adam estava certo. Tudo isso era familiar, exceto que tivemos essa conversa com Dawson sobre Bethany. Caramba. Isso não estava acontecendo. Eu deslizei através do resto das minhas aulas, entediado até a morte. Muitas vezes no ano passado, eu tentei convencer Matthew a conseguir um diploma forjado para mim. Não tive essa sorte. O DOD provavelmente pensava que a escola era um privilégio para nós, mas o que eles ensinavam não poderia manter o meu interesse. Aprendemos a uma taxa acelerada, deixando a maioria dos seres humanos no pó. E o DOD teria que aprovar o meu pedido para ir para a faculdade, se isso for o que eu quiser. Inferno, eu não tinha certeza que eu queria ir para a faculdade. Eu prefiro encontrar um trabalho onde eu tivesse que trabalhar fora, algo que não incluísse quatro pequenas paredes. Quando a hora do almoço chegou, eu estava meio tentado a terminar o dia. A escola não era a mesma sem Dawson. Sua exuberância para tudo, até mesmo as coisas mundanas, era contagiosa. Sem fome, eu peguei uma garrafa de água e me dirigi para a mesa. Sentei ao lado de Ash e me recostei, pegando no rótulo da garrafa. — Você sabe. — Ash disse, inclinando-se contra o meu braço. — Eles dizem que o que você está fazendo é um sinal de frustração sexual. Eu pisquei para ela. Ela sorriu e, em seguida, virou-se para seu irmão. Essa era a coisa sobre Ash. Mesmo que tivéssemos namorado algumas vezes, ela poderia ser legal... Quando ela queria ser. Nenhum de nós realmente estava afim do outro, não da maneira que Dawson tinha sido com Bethany ou como deveríamos ser. Levantando os olhos, logo encontrei Kat na fila do almoço. Ela estava conversando com Carissa – a mais quieta das duas meninas em trigonometria. Meu olhar caiu nas sandálias dela e lentamente fiz meu caminho de volta para cima. Eu acho que eu adorava aqueles jeans. Apertado em todos os lugares certos. Era incrível realmente, quão longas as pernas de Kat pareciam para alguém tão baixa. Eu não conseguia entender por que parecia desse jeito.


A mão de Ash caiu na minha coxa, puxando a minha atenção. Sinos de alerta dispararam. Ela estava tramando algo. — O quê? — Perguntei. Seus olhos brilhantes fixos nos meus. — O que você está olhando? — Nada. — Concentrei-me nela, qualquer coisa para manter o seu interesse fora de Kat. Não importa o quão mal-humorada a gatinha era, ela absolutamente não era párea para Ash. Coloquei a garrafa de lado, balançando as pernas em direção a ela. — Você está bonita hoje. — Não é? — Ash sorriu. — Assim como você. Mas você é sempre fantástico de se olhar. Olhando por cima do seu ombro, ela então se virou e se sentou no meu colo mais rapidamente do que ela devia em público. Alguns dos meninos em uma mesa vizinha pareciam que teriam negociado suas mães para estarem na minha posição. — O que você está tentando fazer? — Eu mantive minha mãos para mim. — Por que você acha que eu estou tentando algo? — Ela apertou o peito contra o meu, falando no meu ouvido. — Eu sinto sua falta. Eu sorri. — Não, você não sente. Fazendo beicinho, ela bateu no meu ombro, brincando. — Bem... Há algumas coisas de que eu sinto falta. Prestes a dizer a ela que eu tinha uma boa ideia do que essa coisa era, o grito jubiloso de Dee me cortou. — Katy! — Ela gritou. Xingando baixinho, senti Ash endurecer contra mim. — Sente-se. — Disse Dee, batendo na mesa. — Nós estávamos falando sobre— Espere. — Ash virou. Eu podia imaginar a expressão no seu rosto. Lábios para baixo, os olhos apertados. Tudo isso junto era ruim, muito ruim. — Você convidou ela para se sentar com a gente? Sério? Eu me concentrei na pintura do mascote do PHS - um Viking vermelho e preto, completo com os chifres. Por favor, não se sente. — Cale a boca, Ash! — disse Adam. — Você vai fazer uma cena. — Eu não 'vou fazer' qualquer coisa acontecer. — O braço de Ash se apertou em torno do meu pescoço como uma jiboia. — Ela não precisa se sentar com a gente. Dee suspirou. — Ash, deixe de ser uma cadela. Ela não está tentando roubar Daemon de você. Minhas sobrancelhas se ergueram, mas eu continuei a oração. Por favor, não se sente. Minha mandíbula travou. Por favor, não se sente aqui. Se ela se sentasse, Ash iria comê-la viva só pelo prazer disso. Eu nunca iria entender as meninas. Ash não me queria mais, não de verdade, mas coitado de alguém que me quisesse. O corpo de Ash começou a vibrar suavemente. — Isso não é com o que eu estou preocupada. De verdade. — Sente-se. — Dee disse a Katy, sua voz apertada com exasperação. — Ela vai superar. — Seja legal. — Eu sussurrei no ouvido de Ash, baixo o suficiente para só ela ouvir. Ash bateu


duro no meu braço. Isso iria deixar um hematoma. Eu pressionei meu rosto em seu pescoço. — Eu falei sério. — Eu vou fazer o que eu quiser. — Ela sussurrou de volta. E ela faria, mesmo. Pior do que o que ela estava fazendo agora. — Eu não sei se eu deveria. — Kat disse, soando incrivelmente pequena e insegura. Cada estúpido, pensamento idiota na minha cabeça exigia que eu despejasse Ash do meu colo e tirasse Kat daqui, longe do que certamente ia acabar sendo horrível. — Você não deve. — Ash agarrou. — Cala a boca! — Disse Dee. — Me desculpe, eu sei como é essa cadela. — Você tem certeza? — Perguntou Kat. O corpo de Ash tremeu e ficou quente. Sua pele estaria quente demais para um humano tocar sem perceber que algo estava diferente, errado mesmo. Eu podia sentir seu controle se esvaindo. Se expor não era provável, mas ela parecia brava o suficiente para fazer alguns danos. Virei a cabeça para olhar para Kat, pela primeira vez desde que eu a tinha visto na fila. E eu já sabia que ia me odiar pelo que eu estava prestes a dizer, porque ela não merecia isso. — Eu acho que é óbvio se você é querida aqui ou não. — Daemon! — Os olhos da minha irmã se encheram de lágrimas, e agora era oficial. Eu era irrevogavelmente um idiota. — Ele não está falando sério. — Você está falando sério, Daemon? — Ash virou na minha direção. Meu olhar segurou o de Kat, e eu reprimi tudo. Ela precisava sair antes que algo ruim acontecesse. — Na verdade, eu estava falando sério. Você não é bem vinda aqui. Kat abriu a boca, mas ela não disse nada. Suas bochechas tinham estado rosa do jeito que eu gostava, mas a cor desbotava rapidamente. Raiva e constrangimento encheram seus olhos cinzentos. Eles brilhavam sob as luzes duras da cafeteria. Uma pontada cortou em meu peito, e eu tive que olhar para longe, porque eu tinha colocado aquele olhar em seus olhos. Apertando minha mandíbula, me concentrei sobre o ombro de Ash, naquele mascote estúpido novamente. Naquele momento, eu queria me dar um soco no rosto. — Saia daqui! — Disse Ash. Algumas risadinhas soaram e raiva chicoteou por mim, aquecendo a minha pele. Era ridículo que eu estava chateado que outras pessoas estavam rindo quando eu a envergonhei, a machuquei mais do que ninguém. O silêncio caiu sobre a mesa, e o alívio era iminente. Ela tinha que estar saindo agora. Não havia jeito – Um material frio, molhado, e pegajoso pulou em cima da minha cabeça. Eu congelei, consciente o suficiente para não abrir a boca a não ser que eu quisesse comer... espaguete? Ela...? Molho de macarrão deslizou pelo meu rosto, pousando no meu ombro. Um macarrão pendurado fora da minha orelha, esmagado contra o meu pescoço. Puta merda. Eu estava pasmo quando lentamente me virei para olhar para ela. Uma parte de mim estava, na verdade... espantado. Ash saltou do meu colo, gritando quando ela empurrou as mãos para fora. — Você... Você... Eu arranquei um macarrão da minha orelha e joguei sobre a mesa quando olhei para Kat debaixo de meus cílios. A risada veio antes que eu pudesse segurar. Bom para ela. Ash abaixou suas mãos.


— Eu vou acabar com você. Meu humor desapareceu. Pulando para cima, eu joguei um braço ao redor da cintura de Ash. — Se acalme. Eu falo sério. Se acalme. Ela puxou contra mim. — Juro por todas as estrelas e sóis, eu vou destruí-la. — O que significa isso? — Kat fechou as mãos, olhando para a menina mais alta como se não tivesse nem um pouco de medo dela, apesar de que ela deveria ter. A pele de Ash estava muito quente, vibrando logo abaixo da superfície. Naquele momento, eu realmente comecei a duvidar de que ela não faria algo estúpido e nos revelar em público. — Você está assistindo muitos desenhos animados de novo? — Matthew caminhou até a nossa mesa, seus olhos se conectando com os meus por um momento. Eu vou ouvir sobre isso mais tarde. — Eu acredito que isso é o suficiente. — Disse ele. Sabendo que não podia discutir com Matthew, Ash se sentou em seu próprio assento e agarrou um punhado de guardanapos. Ela tentou limpar a bagunça, mas foi inútil. Eu quase ri novamente quando ela começou a bater a sua camisa. Me sentando, bati uma moita de macarrão do meu ombro. — Eu acho que você deve encontrar outro lugar para comer. — Matthew disse a Katy, a voz baixa o suficiente para que apenas as pessoas na nossa mesa pudessem ouvir. — Agora. Olhando para cima, vi Kat pegar sua mochila. Ela hesitou, e então ela acenou com a cabeça como se estivesse em transe. Voltando rigidamente, ela saiu do refeitório. Meu olhos a seguiram o caminho todo, e ela manteve a cabeça erguida. Matthew se afastou da mesa, provavelmente saiu para fazer algum controle de danos. Eu limpei a palma da minha mão no meu rosto pegajoso, incapaz de parar de rir baixinho. Ash me bateu novamente. — Isso não é engraçado! — Ela se levantou, as mãos tremendo. — Eu não consigo acreditar que você acha que foi engraçado. — Foi. — Eu dei de ombros, agarrando minha garrafa de água. Não é como se nós não merecemos. Olhando para baixo na mesa, eu encontrei a minha irmã me encarando. — Dee... Lágrimas enchiam seus olhos quando ela se levantou. — Eu não posso acreditar que você fez isso. — O que você esperava? — Andrew exigiu. Ela lançou lhe um olhar mortal e, em seguida, virou aqueles olhos em mim. — Você não presta. Você realmente é um idiota, Daemon. Eu abri minha boca, mas o que eu poderia dizer? Eu era um idiota. Eu agi como um idiota, e não era como se eu pudesse me defender disso. Dee tinha que entender que era para o melhor, mas quando eu fechei meus olhos, vi a dor nos olhos de Kat e eu não tinha tanta certeza de que tinha feito a coisa certa... Pelo menos a coisa certa por ela.

“A manhã seguinte”


Eu não tinha certeza se estava sonhando, mas se eu estivesse, eu não queria acordar. O aroma de pêssego e baunilha brincou comigo, me invadiu. Kat. Só ela tinha um cheiro maravilhoso, de verão e todas as coisas que eu poderia querer e nunca ter. O comprimento de seu corpo estava pressionado contra o meu, com a sua mão sobre minha barriga. O constante movimento de seu peito tornou-se todo o meu mundo, e neste sonho, porque tinha que ser um sonho, eu senti meu próprio peito combinando suas respirações. Cada célula do meu corpo despertou e queimou. Se eu estivesse acordado, eu certamente estaria na minha verdadeira forma. Meu corpo estava em chamas. Apenas um sonho, mas era real. Eu não pude resistir deslizar minha perna por cima dela, enterrando a cabeça entre o pescoço e ombro dela, e inalar profundamente. Divino. Perfeito. Humano. A respiração tornou-se mais difícil do que eu imaginava. Luxuria rodou através de mim, inebriante e desejosa. Eu provei sua pele num leve roçar de lábios, um movimento da minha língua. Ela parecia perfeita debaixo de mim; suave em todos os lugares em que eu era duro. Movendo-se sobre ela, contra ela, eu adorava o som que ela fez – um gemido macio, totalmente feminino, que queimou cada pedaço de mim. — Você é perfeita para mim... — sussurrei em meu próprio idioma. Ela se mexeu, e eu sonhei que ela respondia, me querendo em vez de me odiar. Eu pressionei para baixo, deslizando minha mão sob sua camisa. Sua pele parecia de cetim sob meus dedos. Preciosa. Valorizada. Se ela fosse minha, eu acalentaria cada centímetro dela. E eu queria. Agora. Minha mão subiu, subiu, subiu. Kat engasgou. A nuvem de sonho dissipou com o som que eu senti por todo o caminho através de mim. Cada músculo travou. Muito lentamente, eu obriguei meus olhos a se abrirem. Seu delgado, gracioso pescoço estava inclinado diante de mim. A seção de pele era cor de rosa do aperto do meu queixo... O relógio na parede bateu. Merda. Eu a senti, no meu sono. Ergui a cabeça e olhei para ela. Kat me observava, seus olhos de um maravilhoso cinza com dúvidas. Duas vezes merda. — Bom dia. — Disse ela, com a voz ainda áspera com o sono. Usando o meu braço, me empurrei para cima e, mesmo assim, sabendo que nada daquilo tinha sido um sonho, eu não conseguia desviar o olhar dela, não queria. Uma necessidade infinita estava nela, em mim. Exigindo que eu me ajoelhasse para ela, e eu queria também. Merda, eu sempre quis. A única coisa que me acordou, que limpou as camadas de luxúria e a estupidez da minha cabeça, era o rastro brilhando ao redor dela. Ela parecia como a estrela mais brilhante. Ela estava em perigo. Ela era um perigo para nós. Com um último olhar, eu saí do quarto com uma velocidade desumana, batendo a porta atrás de mim. Cada passo longe desse ambiente, daquela cama, era doloroso e duro. Dobrando a esquina, eu quase corri para minha irmã. Dee me estudou, os olhos apertados.


— Cala a boca! — Eu murmurei, indo além dela. — Eu não disse nada, idiota. — Diversão traiu suas palavras. Uma vez dentro do meu quarto, eu rapidamente me troquei para um par de calças de corrida e escorreguei nos meu tênis. Encontrar minha irmã tinha me acalmado um pouco, mas meus nervos estavam me matando, eu precisava sair dessa casa, ficar longe dela. Nem sequer me preocupei em trocar a minha camisa, eu peguei velocidade, disparando através da casa e saindo pela porta da frente. No momento em que pisei na varanda, aumentei a velocidade e corri para a floresta em uma explosão de velocidade. Em cima o céu estava cinza e sombrio. Suor pingava pelo meu rosto como mil agulhas minúsculas. Grato por isso, me forcei a ir mais fundo na floresta. Então eu saí de minha pele humana, assumindo minha verdadeira forma quando me atirei entre as árvores, me movendo até que eu não era nada mais do que um raio de luz. Isso foi errado. Pense em Dawson. Olhe o que aconteceu com ele. Será que eu queria correr o mesmo risco? Deixar Dee sozinha? Mas eu ainda podia sentir sua pele, seu gosto – doce e açucarado. Ouvir aquele som maravilhoso que ela fazia vez ou outra, assombrando cada milha que eu coloquei entre nós. Uma ideia começou a se formar – uma que Dee iria odiar, mas eu não vejo outra opção. Eu poderia ir para o DOD e solicitar uma mudança para uma das outras comunidades. Iriamos deixar a nossa casa, deixar os nossos amigos para trás e Matthew, mas seria o melhor. Era a coisa certa a fazer. Dee estaria segura. Manteria Kat segura. Porque Dee não podia ficar longe dela e nem eu poderia. Mas não importava onde eu fosse, o que eu estava fugindo ainda viria comigo – Kat. Ela não estava apenas na casa, na cama. Ela estava comigo agora, dentro de mim. E não havia como fugir disso.


SOBRE A AUTORA

JENNIFER L. ARMENTROUT, vive em West Virginia. Nenhum dos boatos que você ouviu sobre o seu estado é verdadeiro. Bem, quase nenhum. Quando ela não está empenhada em seu trabalho como escritora, ela passa seu tempo lendo, fazendo exercício físico, vendo filmes de zombies e fingindo escrever. Ela partilha sua casa com seu marido, o parceiro K-9 dele chamado Diesel, e seu hiperativo Jack Russel Loki. Seus sonhos de se tornar uma autora começaram na aula de álgebra, onde ela passava o tempo escrevendo contos... explicando, portanto, as suas tristes notas a matemática. Jennifer escreve Fantasia Urbana e Romance para Adultos e Jovens. www.jenniferarmentrout.com/j-lynn


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SAGA LUX OBSIDIANA ÔNIX OPALA ORIGEM SOMBRAS: Préludio OPOSIÇÃO Livros Separados Obsessão: SAGA ARUM


NOTAS {1}

Do original cougar: mulher mais velha que gosta de homens mais jovens. {2} Comunidade no remoto Smoke Hole Canyon, em Pendleton, West Virginia, EUA. {3} Região pantanosa no sul da Flórida (E.U.A.). {4} Termo médico usado quando o paciente morre antes ter os serviços médicos. {5} Série de TV adolescente, com tema paranormal. {6} É uma forma mais barata de envio de livros, CDs, DVDs ou música impressa. {7} Ficção científica. {8} Uma pequena família de elfos que vivem em uma árvore e criam todos os tipos de engenhocas complexas apenas para que possam obter os biscoitos perfeitos.


Obsidiana vol. 1 - Jennifer L. Armentrout