Issuu on Google+


MONSTER In his EYES

J. M. DARHOWER


Sinopse Ignazio Vitale não é um bom homem. Eu suspeito disso, a primeira vez que o vejo, sinto o ar de perigo que o rodeia. Ele tem uma maneira de chamar atenção, de assumir o controle, de saber o que eu estou pensando antes até que eu saiba. É alarmante e sedutor. É sombrio e mortal. É tudo que eu sempre quis, mas a última coisa que eu realmente preciso. Obsessão. Não demorou muito para ele me atrair para sua teia, encantando-me para a sua cama e me prendendo em sua vida, uma vida sobre a qual eu não sei absolutamente nada até que é tarde demais. Ele tem segredos, segredos que não consigo entender, segredos que fazem com que eu não possa ir embora, não importa o quanto eu implore a ele para me deixar ir. As vezes vejo em seus olhos, uma escuridão que é ao mesmo tempo aterrorizante e emocionante. Ele é um monstro, embrulhado em um pacote bonito, e o que encontro quando o desmascaro muda tudo. Eu quero odiá-lo. Às vezes, odeio. Mas isso não me impede de amá-lo, também.


Prólogo Um único dedo traça lentamente a curvatura da minha espinha, deixando um rastro de arrepios. Apesar da minha melhor tentativa de fingir estar dormindo, eu tremo com o toque leve, incapaz de conter minha reação. Minha respiração engata. Por que ele faz isso comigo? Eu me odeio por isso, quase tanto quanto eu o odeio. E eu o odeio... Cara, eu o odeio. Nunca odiei algo ou alguém tanto na minha vida antes. Odeio seu cabelo, seu sorriso, seus olhos. Odeio as palavras que ele diz para mim e o tom de sua voz rouca. Odeio as coisas que ele faz, o homem que ele é. Odeio a maneira como ele me trata, o jeito que ele me afeta, a forma como suas mãos provocam o pior tipo de dor antes de acender um fogo dentro de mim. Queimo de paixão crua e desejo, misturado com a agonia mais pura. Eu odeio isso. Eu odeio isso. Eu fodidamente odeio isso. Quando ele atinge o fim das minhas costas, seu dedo faz uma pausa, antes de traçar a linha ao longo do cós da minha calcinha. Sinto meu corpo ganhar vida, aquecendo, como se ele estivesse habilmente acendendo um fogo, aquele que só ele sabe como acender. Quero me encharcar de gasolina e me transformar em chamas, derretendo nelas apenas para escapar desses sentimentos, mas eu sei que é inútil. Mesmo em forma de um monte de cinzas, eu


nunca vou fugir. Ele é uma força da natureza. O vento me levaria exatamente de volta para ele. O ar parece pesado, como se estivesse preenchido com a fumaça mais escura, ou talvez meus pulmões estejam rígidos demais, tensos, juntamente com todos os músculos do meu corpo. Eu quero gritar. Eu quero me afastar. Eu quero fugir. Mas eu não vou, porque sei que ele vai me pegar se eu o fizer. Ele já fez isso antes. E ele vai fazer novamente. Mantenho meus olhos fechados enquanto seu dedo trilha pela minha coluna novamente, desejando não sentir nada. Isso não existe, digo a mim mesma. Estou dormindo. Ele está dormindo. Isto nada mais é do que um sonho. Ou é um pesadelo? Ele não está realmente me tocando. Só que ele está... Eu sei que ele está. Cada célula traidora dentro do meu corpo está ganhando vida com o seu toque, todas as terminações nervosas brilhando como fios desencapados. Se isso não é real, nada é. Eu quase me pergunto se isso seria preferível. Seu dedo atinge a minha nuca e mais uma vez faz uma pausa, desta vez por mais tempo. Cinco, dez, quinze... Eu conto os segundos na minha cabeça, à espera de sua próxima jogada, tentando pensar no futuro, como se este fosse um jogo de xadrez e eu pudesse planejar um contra-ataque. É inútil, mesmo pensar. Ele já capturou meu rei. Xeque-mate. Mais uma vez, seu dedo segue o caminho da minha coluna, chegando até a metade antes de se desviar. Ele explora o resto das


minhas costas, indo para todas as direções, desenhando formas e formando padrões na minha pele quente, como se eu fosse uma tela viva e ele um artista. Apesar de tudo, a curiosidade toma conta de mim, e me pergunto o que ele está desenhando. Parece aleatório, sem sentido, mas conheço este homem. Tudo que ele faz é por uma razão. Há sempre uma lógica para sua loucura, ou seja, por trás de cada palavra, existe um motivo para suas ações. E, geralmente, nunca é bom. Aperto meus olhos fechados, tentando entender o movimento do seu dedo, que parece dançar ao longo das minhas costas. Será que ele está tentando me mostrar uma imagem bonita da vida que ele me prometeu, tentando fazer com que as mentiras se infiltrem em minha pele? Ele poderia estar escrevendo uma carta de amor, jurando fazer melhor? Ou talvez seja mais como um pedido de resgate. Gostaria que ele desenhasse uma corda para que eu pudesse puxá-la da minha carne e enforcá-lo com ela. Tenho certeza que ele merece. Eu me concentro no padrão eventualmente, percebendo o dedo seguindo a mesma trilha contínua, girando e curvando. Eu visualizo conforme ele o faz, percebendo depois de um tempo que ele está soletrando uma palavra solitária em letra cursiva. Vitale. Seu nome completo é Ignazio Vitale, embora uma vez, não há muito tempo, ele me pediu para chamá-lo de Naz. E foi Naz que me encantou, que me conquistou e me fez derreter. Foi só depois que eu comecei a conhecer o verdadeiro Ignazio, e quando conheci o Vitale, percebi que era tarde demais para simplesmente ir embora.


Se ĂŠ que algum dia eu pudesse...


Capítulo Um "Ugh, é isso." Um livro fechado bate na minha frente, tão forte que a mesa inteira treme. "Não aguento mais. Desisto." Não olho para cima, meus olhos examinando uma seção do texto, apenas vagamente absorvendo as palavras. Eu o encarei mais de uma dúzia de vezes, o livro colado ao meu lado nos últimos dias, como se a informação fosse ser absorvida por osmose. "Isto

é

apenas

complicado

demais,"

a

voz

continua,

interrompendo o pouco foco que eu estou lutando para manter. "Metade disso não faz o menor sentido." Viro a página do meu livro e murmuro, "Às vezes as perguntas são complicadas e as respostas são simples." "Quem disse isso? Pluto? Estou lhe dizendo, Karissa, essa merda nem mesmo está no meu livro!" Essas palavras chamam minha atenção para longe do meu trabalho. Dou uma olhada em toda a pequena mesa redonda para a minha amiga, Melody Carmichael, quando ela equilibra a cadeira de madeira nas pernas traseiras em frustração. "É Platão, não Pluto." Ela encara, fazendo cara de ‗oh, quem fodidamente se importa.‘ "Qual é a diferença?" "Um é filósofo, o outro é um cão dos desenhos animados." Se ela não consegue se concentrar nisso, ela está ferrada com o tempo de teste em, digamos, oh... 30 minutos.


"Sim, bem, estou inclinada a acreditar que o maldito cão faz mais sentido do que o antigo bastardo planeta-y," diz ela, movendo-se atrás de sua espessa pilha de notas. Filosofia, nossa última aula do dia, a nossa última prova como calouras na Universidade de Nova York, e ela chegou a seu ponto de ruptura. Típico. "Quero dizer, ouça essa merda,‖ diz ela, lendo suas anotações. "Muitos homens são amados por seus inimigos, e odiados por seus amigos, e são amigos de seus inimigos, e inimigos de seus amigos. O que isso quer dizer?" Dou de ombros. "Significa que as pessoas são pessoas, eu acho." Meu olhar volta para o meu livro, meus olhos examinando o texto novamente. "E não foi Platão, a propósito," eu digo, respondendo a sua pergunta anterior. "Foi Dr. Seuss." "Sério?" Ela pergunta. "Você está citando Dr. Seuss agora?" "Ele foi uma espécie de filósofo," eu digo. "A maior parte de seu trabalho lidava com lógica e razão, da sociedade e da natureza humana. Você pode aprender muito com seus livros." "Sim, bem, eu prefiro um doutor filosófico diferente," ela contraria, colocando sua cadeira de volta no chão, o baque alto ecoa através do pequeno café. "Eu acho que Dre1 explicou isso melhor quando disse que as cadelas não são uma merda, mas vadias e prostitutas." Seu tom de voz grave e sério me faz rir. "E eu que pensei que você venerava o altar de Tupac Shakur2." "Agora aquele homem humilhou Pluto," diz ela. Abstenho-me 1 2

A autora faz menção ao rapper Dr. Dre e sua música “Bitches ain’t shit.” Rapper americano.


de corrigi-la desta vez, não tenho certeza se ela realmente não conseguiu se lembrar de qual é qual, ou se ela está apenas sendo irônica neste momento. "Um covarde morre mil mortes... Um soldado morre apenas uma vez. Isso é profundo." "Isso é Shakespeare," eu indico. "Retirado diretamente de Júlio César." "De jeito nenhum." "Sim, senhora." Os olhos de Melody atiram punhais em mim quando ela exageradamente reabre seu livro. Apesar de declarar que desistiria, ela volta a trabalhar fazendo alguns estudos de ultima hora. Ela está bem perto de reprovar em filosofia e precisa tirar uma boa nota para conseguir aprovação. Menos do que um C e ela estará a caminho da liberdade condicional, em linha reta em direção à suspensão. Eu? Embora eu não esteja em perigo de falhar, a minha bolsa é uma história diferente. Nem todos nós saímos das costas de ricos banqueiros de Wall Street como Melody, que podem se dar ao luxo da boa vida. Minha mãe não está em posição de me ajudar, de forma que não tenho certeza de como ela está sobrevivendo sozinha. E meu pai, bem... Nem todos nós temos um desses. Se a minha nota média baixar, estou por conta própria. E se estou por conta própria, eu estou fodida. Algo me diz que NYU não vai tomar um IOU3 como pagamento das mensalidades. "De quem foi a ideia brilhante de fazer esta aula, afinal?" Murmura Melody, folheando as páginas dramaticamente. "Sua", eu respondo. "Você disse que seria fácil." 3

Abreviação do termo “I owe you”, que significa uma promessa de pagamento ou um documento assinado especificando o valor da dívida.


"Era supostamente para ser fácil," ela argumenta. "É filosofia, é como opiniões. Não há respostas erradas quando é a opinião de alguém, certo? Eu quero dizer... É supostamente ser racional e lógico, coisas que fazem sentido, não esta besteira de ciência existencial." "Ah, não é tão ruim." Na verdade, eu gosto de filosofia, deixando toda a besteira de lado. Se não fosse por nosso professor, eu poderia até amar. "Não é tão ruim assim? Precisa pensar demais." Revirando os olhos, eu fecho meu livro e recosto na minha cadeira. As palavras estão todas misturadas em um mar de nada, atolando meus pensamentos e oprimindo as coisas que eu me lembro. Olho em volta do café, tentando limpar minha mente enquanto pego o meu chá de menta e chocolate. Ainda está quente, apesar de ter sentado aqui por mais de uma hora, ignorando-o. "Só você, Karissa," Melody diz, balançando a cabeça. "Estamos em uma aberração de dia de vinte e dois graus em março e você ainda pede chocolate quente e usa um lenço maldito." Dando de ombros, eu tomo um gole da minha bebida, saboreando

o

sabor

rico

do

chocolate

cremoso.

Eu

combino

normalmente, com o meu traje normal, de jeans e blusa skinny e botas de cano alto. Não é minha culpa chegarmos num dia quente e todo mundo agir como se fosse verão no Caribe. O plano pessoal de Melody parece ser para ver o quão pouco de roupa ela pode usar sem ficar presa indecência pública. Ela está atualmente segue a linha de um minúsculo shorts e um top cropped. Eu me sinto obscena só de olhar para ela. "O que há de errado com meu lenço?" Eu pergunto, correndo a mão ao longo do material macio. É o meu favorito.


"É tudo rosa e listrado." Ela me encara com desdém fazendo uma careta. "Tenho certeza que é o que Aristóteles estava querendo dizer quando ele falou: 'Quão horrível é a verdade quando não há como ajudá-la,‘ porque não há dúvida nenhuma de que é impossível ajudar esse lenço." Comecei a rir tão alto que perturbei as pessoas que estavam tentando estudar perto de nós. Lancei-lhes olhares apologéticos quando eu corrigi Melody. "Sófocles4 disse isso." Ou algo próximo a isso, de qualquer maneira. Como o conhecimento da verdade pode ser terrível quando não há ajuda, na verdade... "Você tem certeza?" "Positivo." Melody gemeu, batendo seu livro fechado pela segunda vez e jogando as mãos para cima. "Eu vou falhar nessa maldita prova."

Dezesseis questões de múltipla escolha, cinco problemas de respostas curtas, e uma dissertativa de duas páginas, tudo dentro de uma hora. Eu estou no inferno. Figurativamente, é claro, embora pareça bastante literal cada vez que olho da minha prova para a frente da sala, meus olhos vagueando para o cartaz pendurado acima do quadro antigo da escola.

4

Sófocles (em grego: Σοφοκλῆς, Sophoklês; 497 ou 496 a.C.- inverno de 406 ou 405 a.C ) foi um dramaturgo grego, um dos mais importantes escritores de tragédia ao lado de Ésquilo e Eurípedes, dentre aqueles cujo trabalho sobreviveu. Suas peças retratam personagens nobres e da realeza.


Percam a esperança, vós todos que entrais aqui.5 É uma citação de Dante Alighieri6, a inscrição encontrada nos portões do inferno em A Divina Comédia. Professor Santino claramente pensa que é engraçado, mas confirma minhas suspeitas... O homem é Satanás. Eu vagueio através da dissertação e termino alguns minutos antes do tempo se esgotar. Viro a prova, deixando-a sobre a mesa, e relaxo na minha cadeira. Santino tem uma política de "manter seus traseiros em seu lugar até que todo mundo tenha acabado," como se fossemos crianças aprendendo a seguir regras pela primeira vez. Movendo-me lentamente para não ser notada, coloco a mão no bolso da frente da minha mochila e puxo meu celular. Escondo-o no meu colo e encontro algum jogo estúpido para passar o resto do tempo. Mal eu abri, e ouço a voz rouca ecoar pela sala, surpreendentemente alta depois do silêncio, além de suspiros de lamento, nos últimos 45 minutos. "Reed." No começo acho que Santino está nos ordenando a ler alguma coisa, quando olho para cima e encaro seus pequenos olhos castanhos, me olhando com um par de óculos de lentes grossas. Apesar de estar sentada na fileira de trás, em uma classe com quase uma centena de alunos, percebo que ele está falando diretamente para mim — Karissa Reed. Ah Merda. "Senhor?" "Guarde isso agora," ele adverte, "antes que eu o tome." 5

Essa frase de Dante foi traduzida de várias formas para o português, acreditamos que a mais correta seria: Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança! Contudo a mais famosa é: Percam todas as esperanças. Estamos todos no Inferno. 6 Dante Alighieri (Florença, 25 de maio de 1265 — Ravena, 13 ou 14 de setembro de 1321) foi um escritor, poeta e político italiano. É considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como il sommo poeta ("o sumo poeta").


Ele não precisa me dizer duas vezes. Eu imediatamente guardo o telefone na minha mochila, sem quebrar o contato visual. Ele acena com rigidez, satisfeito com o meu respeito, e olha para o lado para avisar o fim do tempo da prova. Assim que os papéis são coletados me levanto, agarrando minha bolsa e correndo para a saída mais próxima. Melody me espera no corredor, sua expressão vazia, como se não houvesse nada dentro dela para oferecer. Espanta-me como a busca da sabedoria tende a transformar as pessoas em conchas do que costumavam ser. "Como você foi?" pergunto. "Eu fiz acontecer, assim como Dante fez com Bernadette." "Beatrice." Ela acena para o meu caminho. "Bem, esta é a sua resposta." Nós caminhamos para fora do prédio e para a tarde brilhante de Manhattan. A expressão de Melody muda, uma vez que está fora, o olhar chocado desaparece assim que ela deixa isso pra trás. Admiro sua capacidade de deixar as coisas irem. Inclinando a cabeça para trás, ela fecha os olhos e sorri, banhando-se no sol quente. "Eu preciso de uma bebida. Timbers7 hoje à noite?" Eu torço o nariz. Melody reabre os olhos, pegando minha expressão. "Oh, vamos lá!" Diz ela. "Vai ser legal." "Tipo, totalmente," eu zombo. "Amordace-me com uma colher." Melody ri, dando-me uma cotovelada. "Estou falando sério, 7

Balada ou Bar.


temos que ir." "Por quê?" "Porque é anos oitenta esta noite!" "E daí? Você não havia nem nascido." "Mais uma razão para ir." Ignorando-a, tiro a mochila das costas. Eu olho dentro dela, tirando os livros do caminho, a procura do meu celular para telefonar para minha mãe e ver como ela está. Ela queria que eu a visitasse este fim de semana, mas eu não estou com humor para fazer esta longa viagem... Sem mencionar a falta de dinheiro para a passagem de ônibus. Abro os pequenos bolsos, procurando, e meu estômago revira quando não encontro meu telefone em lugar nenhum. "Merda... Merda... Merda..." "O que está errado?" Melody pergunta, parando quando eu paro, deixo cair a mochila na calçada para revirar tudo. "Perdeu algo?" "O meu telefone." Eu gemo. "Santino gritou comigo por usá-lo, então eu joguei na minha mochila, mas não está aqui." "Ele não caiu, não é?" Melody pergunta, olhando para trás, no mesmo quarteirão em direção ao prédio. "Talvez você o deixou na sala de aula." "Talvez", eu digo, fechando a minha mochila e colocando nos ombros. "Vou voltar para procurar por ele. Encontro você no quarto." Saio antes que ela possa responder, fazendo o mesmo caminho que fizemos. Mantenho meus olhos abertos para o chão em caso dele ter caído durante a caminhada. Entro de volta no prédio, navegando pelos corredores no meu caminho para a sala de aula. Aproximo-me, prestes a virar o corredor para a sala, quando a voz de Santino ressoa. "Eu sei pelo que você está aqui."


Franzo a testa, atravesso a porta, as palavras na ponta da minha língua. Ele está com o meu telefone? Ele está sentado à sua mesa, a pilha de provas amontoadas em torno dele, a caneta na mão, enquanto ele olha para baixo para a prova de algum bastardo azarado, agredindo-a com tinta vermelha. Por favor, que não seja a minha. Eu começo a falar, mas quando as palavras "meu telefone‖ escorregam dos meus lábios, outra voz corta a sala de aula. "Bom, porque eu não estou com humor para ter meu tempo perdido." A voz é masculina, profunda e rouca, do tipo que chama a atenção, cada um e cada sílaba escorrendo frieza. Silencio-me imediatamente, meu olhar varrendo a sala de aula, buscando a fonte. Um homem se espreita próximo ao canto na parte de trás, não muito longe da única outra entrada. Tudo nele corresponde à rouquidão — alto, seus ombros largos, não volumosos, mas, sem dúvida, sólidos, com um tronco grosso, resistente como uma árvore de sequoia linda, vestindo um terno preto perfeitamente abraçando seu corpo. Embora formidável, há um tipo de tranquilidade para a sua posição. Ele não apenas soa confiante. Ele sabe que está no controle. Dou um passo para fora, esgueirando de volta para o corredor quando os passos calculados do homem começam a se movimentar pela sala de aula, em direção a onde Santino se senta. Penso em sair, talvez voltar mais tarde, não querendo interromper seja o que for isso, mas cara... Eu realmente preciso do meu telefone. E maldição se a curiosidade não leva a melhor de mim. O que esse homem quer? "Eu não tenho isso," Santino diz, sua voz casual, como se o homem intimidante, afinal, não o afetasse. "Eu não coloquei minhas mãos nele ainda."


"Essa não é a resposta que eu queria ouvir." Antes que Santino possa responder, um zumbido suave ecoa pela sala silenciosa, vibrando no chão. Meu olhar encara o meu telefone sob a mesa que eu me sentei para fazer a prova. Sinto uma rajada de alívio me atravessar quando o vejo, Rapidamente substituído por uma onda de ansiedade. O homem vira a cabeça em direção ao som, dandome um breve vislumbre de seu perfil. Ele parece pausar por um momento, ouvindo o zumbido do meu telefone, antes de se virar completamente de cara para a porta. Para me encarar. Eu saio de vista, não querendo ser pega espionando. O silêncio tenso ecoou quando meu telefone parou de tocar. "Eu voltarei para buscar," diz o homem depois de um momento. "Eu sei." A voz de Santino é tão baixa que eu mal posso ouvilo. "Eu sei que você vai." Os passos recomeçam pela sala novamente, em minha direção. Em pânico, eu viro, tentando pisar levemente enquanto corro pelo corredor, virando a esquina e parando. Contemplando, encosto contra a parede, curvando-me para minha mochila, fingindo estar ocupada com alguma coisa. Ouço-o quando ele faz o seu caminho pelo corredor em direção a mim, em direção às portas da frente, meu coração batendo forte no peito ao som de seus passos calculados. Ele vagarosamente vira a esquina ao meu lado. Meus olhos se deslocam para ele, olhando para seus brilhantes sapatos pretos, meu estômago revira quando eles diminuem antes de parar mortalmente em minha frente. "Seu?"


Olho para cima, um vislumbre de seu rosto pela primeira vez. Puta merda, não é o que eu esperava, mas é tudo que eu sempre imaginei de alguém tão marcante. Ele é mais velho, trinta pelo menos, talvez beirando os quarenta, mas sua pele tem um brilho juvenil. Há uma camada de cabelo ao longo de sua mandíbula como se ele não se preocupasse em fazer a barba por alguns dias. Seu cabelo castanho não é curto, mas não é muito longo também, um emaranhado de onda rebelde empurrado para trás em sua cabeça. Ele passou um bom tempo aperfeiçoando, ou ele apenas saiu da cama assim. De qualquer maneira, estou impressionada. Apesar de, possivelmente (mas espero que não) ser muito mais velho que eu, tenho que admitir que ele é lindo de morrer. Tão lindo, na verdade, que mal posso me impedir de cobiçá-lo, e meus olhos encontram os seus azuis brilhantes depois de um longo tempo o fodendo com os olhos de todas as maneiras imagináveis. Ele ergue uma sobrancelha para mim. Provavelmente seria cômico se não fosse assim tão sexy. "Seu?" Ele diz novamente. Somente quando ele repete a pergunta é que eu percebo que ele está segurando alguma coisa. Eu congelo, encarando um celular familiar, com capinha rosa reluzente, na palma de sua mão. Sua mão segura o telefone, os dedos fortes e resistentes, as pontas calejadas, a pele cicatrizada. Eu não sei o que esse homem faz, mas ele usa as mãos. E muito. "Oh, uh, sim." Estendo a mão para o meu telefone, hesitando antes de pegar dele. "Como é que você—?" Eu não termino a minha pergunta, e ele não a responde. Em vez disso, um pequeno sorriso puxa os cantos de seus lábios, revelando


um conjunto de covinhas profundas enquanto ele deixa cair sua mão. Ele fica lá por um momento, olhando para baixo como ele se ergue sobre mim, pelo menos, quinze centímetros mais alto que eu. Ele está me olhando atentamente, como se estivesse estudando para algum tipo de prova. Ele poderia ter me ignorado, tão intensamente como ele está olhando. Balançando a cabeça, o homem se vira e vai embora, sem dizer uma palavra.

"Ei, sou eu," eu suspiro para o telefone após o bip. Provavelmente, minha mãe é a última pessoa da terra com uma secretária eletrônica com gravação em fita cassete. "Estou apenas ligando para você de volta. Então, uh, ligue-me quando você conseguir. Amo você!" Melody ri quando desligo. Ela está de pé em frente ao espelho, ajeitando o cabelo, já vestida para a noite no Timbers, eu, tecnicamente, ainda não concordei. Ela parece ridícula, coberta de neon, e com uma headband na cabeça, parecendo que acabou de sair de um clipe musical da Olivia Newton John8. "Como está Mamãe Reed?" Dou de ombros, jogando meu telefone na minha mesa. Era ela quem estava me ligando quando meu telefone estava na sala de aula. Melody não espera qualquer tipo de explicação, virando-se para mim mudando de assunto. "O que você está vestindo?" "Uh..." Eu olho para mim mesma. "Roupas." 8

Atriz famosa por interpreter Sandy Oisson no filme “Grease – Nos tempos da brilhantina.”


"Não agora. Quero dizer hoje à noite." "Roupas,"

repito.

Que

diabos

mais

eu

poderia

usar?

"Provavelmente um jeans e —‖ "Jeans?" Ela engasga, interrompendo-me. "Oh não, não... Isso não vai funcionar." Ela vai direto para o meu armário, abrindo a porta para vasculhar através das minhas roupas. Não há muito lá dentro — pelo menos, não se comparado ao seu lado. Eu tenho que lavar roupa a cada duas semanas ou eu fico nua, enquanto eu tenho certeza que ela tem enfiado em seu armário roupas suficientes para durar todo o ano. A roupa suja em torno dela parece confirmar isso. Menos de 10 pés separa sua cama da minha, toda a sua metade do quarto se resume a uma montanha de pertences espalhados a esmo onde houver espaço, ao passo que a minha metade tende a ser pouco mais do que uma trilha aberta levando até a porta. Não é possível para nós sermos tão diferentes. Melody é um tornado de grau 5, e eu facilmente me consagrei em ser a Guarda Nacional e limpar sua bagunça. É difícil de acreditar que nós apenas nos conhecemos há poucos meses. Nós nos mudamos no início do ano como calouras, completamente estranhas, conformando-nos em viver juntas em um closet virtual. Melody fez isso para a construção de personalidade, diz ela. Eu fiz isso porque eu não tinha outra escolha. Onde mais eu poderia encontrar um lugar para morar em Manhattan por quatro mil dolares por semestre? Nenhum outro lugar. "Você tem, tipo, nada aqui," reclama Melody, passando do meu armário para a minha cômoda. Para sua decepção, há menos ainda lá. Desistindo, ela se retira de volta para o seu lado, abre seu próprio armário para lutar contra a avalanche de tecido. "Sorte a sua


que nós usamos o mesmo tamanho." Eu tenho um pouco mais de bunda e coxas, mas ela zomba quando eu falo nisso, como se eu estivesse me gabando. Melody tem o cabelo loiro elegante absolutamente lindo e os olhos anormalmente verdes. Ela parece que pertence a uma passarela da Victoria Secrets. Quando ela não se parece com a Barbie Neon, isso é. Ela puxa roupas e as arremessa por toda a sala para mim. Faço uma careta. Lycra. "Você está preparada para tudo, não é?" "Você tem que estar," diz ela, focando o espelho novamente. "Você nunca sabe o que a vida vai atirar em você." Aquelas palavras me levaram de volta para uma hora atrás, com o pedaço de homem que tinha encontrado na sala de aula de filosofia. Não mencionei a Melody. Não sei por que. Talvez porque ele não era nada. Ou talvez porque eu desejava que pudesse ter sido algo. De qualquer maneira, eu o mantive trancado em minha cabeça, selado dentro de mim, onde era só meu. Falar sobre isso significava racionalizar, quando, ao invés disso, eu prefiro deixar fervendo. A realidade nunca é tão fascinante quanto a fantasia. Horas mais tarde, estou de pé em frente ao espelho, vestindo um body preto de lycra colado na pele que me faz sentir como uma salsicha empurrada para dentro de um pacote. Por cima dele, eu estou vestindo uma camisa rosa grande, caindo em um ombro, a roupa é completada com um par de polainas azuis. Poderia ir para a academia com essa roupa se eu não estivesse usando saltos pretos pontudos, meu cabelo castanho ondulado solto como uma cascata, e meu rosto coberto de maquiagem.


"Pareço com o Bozo, o palhaço," choramingo, olhando meu reflexo no espelho. A sombra azul brilhante e o batom rosa quente não combinam muito, não importa o que Cyndi Lauper possa ter pensado em 1983. "Você está quente," Melody diz, batendo na minha bunda enquanto ela anda em direção à porta. Ela se trocou de novo, provavelmente, pela quinta vez, vestindo agora o que parece ser um vestido de baile com babados azul. "Vamos lá, a festa nos espera!" Eu pego minhas coisas, colocando tudo em meu sutiã já que não tenho bolsos, e saio atrás de Melody antes que eu tenha tempo para mudar de ideia. Timbers é apenas a uma quadra dos dormitórios, a alguns minutos de cambalear para casa às quatro da manhã. Está escuro lá fora agora, o ar começando a esfriar com o sol se pondo, a temperatura mais típica de março chegando. Não parece perturbar Melody, mas eu tremo. Meus passos param. "Eu deveria pegar meu cachecol." "Por favor," Melody diz, deslizando o braço ao redor do meu para me levar adiante. "Ele não combina com essa roupa." "Nada combina com essa roupa," eu indico. Ela ri, lançando-me um olhar divertido enquanto nós passeamos pela rua. Música atravessa a porta do Timbers, já bombando as nove e quinze. Nós entramos na fila, esperando ao longo do edifício de tijolo sujo enquanto Melody arruma seu cabelo, preso em um arco gigantesco que ela está usando como uma tiara. Quando é a nossa vez, puxo minha identidade para fora do meu sutiã e entrego para o segurança na porta, um sujeito corpulento com um forte sotaque de Long Island. Ele olha para ela, e olha para mim, antes de entregá-lo de volta. Quando coloco de volta em seu lugar, o homem tira um


marcador permanente e puxa a tampa com os dentes. O cheiro forte de tinta queima minhas narinas quando ele o aproxima, e eu levanto minhas mãos para que ele possa marcar um X preto grande na minha pele. Encaro-o quando passo para o lado. Melody, por outro lado, recebe uma pulseira verde limão. Ela sorri, levantando seu braço para mostrar para mim. Ela tem apenas dezenove anos, não muito mais velha do que eu, mas sua identidade falsa a coloca com idade mais velha, com vinte e um anos. Mostro minha língua para ela enquanto ela ri, deslizando o braço ao redor dos meus novamente e me arrastando para dentro. O bar é decorado com móveis dos anos 80, cartazes de filmes colados nas paredes enquanto The Breakfast Club9 é transmitido no mudo em uma televisão gigante. Nós fazemos o nosso caminho para a pista de dança, onde New Kids on the Block10 toca dos alto-falantes. Nós nos perdemos em um mar de cor, cabelo crespo e jaquetas de couro, cercadas por presunçosas princesas pop e babacas de óculos escuros. A música muda e continua enquanto nós nos infiltramos no meio da multidão para dançar. De Vanilla Ice para MC Hammer, Madonna para Poison, o baixo corre através de minhas veias como se fosse sangue, cheio de adrenalina conforme a letra me envolve, sendo gritada animadamente pela multidão louca universitária não-nascidanos-anos-80-mas-que-ama-essa-época. É como voltar no tempo, de volta para outra década, e deixar a nossa marca em um momento que nunca chegamos a tocar antes. Melody pega bebidas — bebida após bebida após bebida — 9

Filme lançado em 1985. Conta a história de cinco adolescentes que ficam detidos na escola em um sábado inteiro por terem se comportado mal. 10 Boy band de música pop americana.


algumas pagas, outras compradas para ela por caras no clube esperando que a noite não acabasse ali. Não tenho certeza de onde metade delas vem, ou até mesmo o que elas são, para ser honesta, mas tenho certeza que não paguei por elas, então não me importo. Roubo goles quando ninguém está olhando, precisando de um impulso enquanto danço com meu coração, girando e pulando, rindo e tentando ficar em meus próprios pés, com o álcool se infiltrando. Sou uma bagunça suada, meus pés em chamas, os sapatos beliscando meus dedos quando finalmente perco minha amiga. A última vez que a vi, ela estava conversando com um pseudo-Maverick11, saído de Top Gun, os dois quentes e bêbados, a meio caminho da zona de perigo. Fico lá por um momento, respirando com dificuldade, e limpo minha testa suada com a palma da mão. As marcas negras ainda estão fortes, nem mesmo borradas, mas eu já desisti a muito tempo da fachada de não beber, um copo meio cheio de alguma coisa na minha mão, comprado e pago por Maverick. Ele não parecia feliz quando eu tomei o copo da minha amiga. Olho em volta, enquanto tomo um gole, movendo-me por entre a multidão, procurando o vestido de baile com babados azul, mas ela está longe de ser vista. Ela não está na pista de dança, e nem no bar, e nem na fila do banheiro. O ar está denso e abafado, e sinto-me tonta, como se eu não estivesse recebendo oxigênio suficiente. Suspirando, eu engulo o resto da bebida e atiro o copo, fazendo o meu caminho para a saída, passando por várias pessoas, tentando alcançar o lado de fora. Respiro fundo assim que estou na calçada, o ar da noite tão frio que parece como pequenas agulhas sendo fincadas na minha pele enquanto meu corpo se ajusta à mudança brusca de temperatura. É 11

A autora faz uma comparação com o personagem Peter “Maverick” Mitchell, interpretado por Tom Cruise no filme “Top Gun.”


tarde... Uma, talvez duas da manhã pelo que posso dizer, as ruas ainda vivas, mas a fila para entrar com poucas pessoas. Melody não está aqui fora, também. O segurança me olha peculiarmente nos olhos. Dou um passo para longe da porta, longe dele, e levo a mão em meu sutiã para pegar meu telefone para ligar para Melody. Ele desliza da minha mão, junto com minha identidade, ambos caindo no chão. Eu prendo a respiração quando o telefone atinge a calçada com um estalo alto. "Não, não, não," eu repito, agachando-me para pegá-lo de volta. Olho para a tela, fazendo uma careta pelo longo arranhão irregular bem no meio dela. "Ah, merda." Franzindo a testa, alcanço minha identidade, mas antes que eu possa agarrá-la, outra pessoa chega a ela primeiro. Olho para cima, esperando que fosse o segurança intrometido. O que vejo quase me derruba de bunda. É ele. Ele, todos os dois metros e algo mais de seu glorioso corpo, ainda vestido com seu traje todo preto, olhando-me exatamente como ele tinha me olhado horas atrás. Eu deveria ficar assustada, mas só sinto um ligeiro formigamento atravessar minha espinha, um vago sentimento de consciência de que em uma cidade de quase dois milhões de pessoas, as chances de encontrá-lo duas vezes são quase nulas, muito menos duas vezes em um dia. Talvez seja o destino. Ou talvez eu esteja em apuros... Ele fica lá, olhando para a minha identidade, antes de seus olhos azuis me encararem. Levanto-me de novo, balançando, minha cabeça nadando, tudo ao meu redor girando. É difícil pensar direito, o


álcool protestando. Eu já fiquei bêbada antes, mas esse... Esse não é a bebedeira que eu estou acostumada. Estou tonta, e suada, e caramba, eu sinto como se eu fosse vomitar. Por favor, não vomite. "Essa é uma foto terrível," murmuro enquanto seus olhos mudam mais uma vez de mim para a identidade. Ele olha para ela por um momento — um momento que parece uma eternidade enquanto eu tento não passar mal na calçada — antes dele entregá-la para mim. "Não há nada de errado com a foto, Karissa." Pego a identidade de sua mão, para colocá-la de volta no lugar quando o alarme finalmente soa. "Como é que você—?" Eu balancei minha cabeça, o movimento me deixando ainda mais tonta. Minha visão escurece por um segundo, um segundo em que eu temo que ela não vá voltar. "Como você sabe o meu nome?" Minha voz sai como um resmungo tenso, e mesmo com a visão embaçada, eu o vejo franzir a testa em confusão. "Na sua identidade." Oh. Eu queria dizer isso em voz alta, mas não consigo fazer meus lábios trabalharem. Eu pisco rapidamente, tentando tomar uma respiração profunda, mas é em vão. Nenhuma quantidade de ar vai me ajudar,

pois

eu

estou

desaparecendo no escuro. BAM

caindo.

Meus

joelhos

falham,

tudo


Capitulo 2 Almíscar. Isso me envolve, infiltrando meus sentidos enquanto rastejo em direção à consciência. Tem cheiro de terra, bosque e águ, todo masculino com apenas um toque de doçura. Pareço flutuar em torno de uma ligeira brisa que sinto em minha pele, quente e perfumada, e... Oh Deus, é colônia. Meus olhos se abrem quando esse pensamento me atinge, o cheiro mais forte quando começo a acordar. Piscando algumas vezes, olho para um teto branco estranho. Um ventilador gira em cima de mim, tão lento que meus olhos podem seguir as lâminas, o ar soprando no meu rosto. O quarto está escuro, com pouca iluminação entrando através de uma janela. Perto do amanhecer, eu presumo, por conta do brilho laranja suave que banha parte do chão. Ou é anoitecer? Meu coração dispara em meu peito, cada batida dolorosa, como se reverberasse pelo meu corpo. Estou dolorida, minha cabeça batendo no ritmo das batidas do meu coração. Sinto meu intestino borbulhar e tento ignorar, mas não adianta. Não tenho nenhuma ideia de onde estou, não tenho ideia de como cheguei aqui, ou quanto tempo estive neste lugar. Estou confusa, dolorida, desorientada... E minha bexiga parece que está prestes a explodir. Lentamente, sento-me na cama. É digna de um rei — maior do que qualquer cama que eu já havia tido. O colchão é como nuvens


macias e tem um perfume inebriante nos travesseiros e lençóis. Tudo é branco brilhante, nítido e limpo, e eu achava que fosse um quarto de hotel, com a forma como ele parece impessoal, se não fosse pelo fato de que não há banheiro no maldito cômodo. Esforço meus ouvidos para escutar algo, mas não ouço nada, apenas silêncio, exceto pelo som suave do ar do ventilador. Meu pânico alivia um pouco quando eu vejo que ainda estou totalmente vestida, com as roupas horríveis dos anos oitenta da noite passada. Isso foi ontem à noite, certo? Ao contemplar o que fazer, ouço passos a distância, calculados e exagerados à medida que se aproximam. Prendo a respiração quando a maçaneta vira e a porta se abre. Oh Merda. Oh Merda. Oh Merda. Onde que eu fui me meter? No momento em que eu o vejo, memórias começam a aparecer. O bar, dançar, beber, sair para procurar Melody, mas de alguma forma encontrá-lo lá em vez disso. Lembro-me de olhar para ele, falar com ele, e então não há nada. Minha mente em branco. Ele está usando exatamente a mesma coisa como da última vez que o vi, ainda não tendo mudado. Ou talvez ternos pretos sejam tudo o que ele possui. Ele hesita na porta quando me vê sentada, sua mão ainda segurando a maçaneta, mas depois de um momento ele dá alguns passos em direção a mim. Instintivamente, pego o cobertor e o puxo para cima, protegendo-me, apesar do fato de ainda estar vestida.


O ato faz com que ele hesite uma segunda vez. Ele faz uma pausa, e me olha, mas não fala nada. Não tenho certeza do que fazer, ou dizer, ou como eu deveria me sentir ou mesmo que porra pensar, então apenas olho de volta. Embaraçoso. Depois de um momento, os cantos dos seus lábios tremem, revelando uma covinha. "Você está acordada." "Eu estou." Ugh, minha voz soa como uma lixa e parece tão áspera quanto. "Eu estava preocupado," diz ele. "Você esteve desmaiada por um tempo." "Que lugar é esse?" Eu olho ao redor do quarto, ansiosa. "Onde estamos?" "Na minha casa." Sua casa. Oh, Deus... "Como é que eu—?" "Você estava drogada." Aquelas palavras me param e meu estômago revira. Olho de boca aberta para ele. Drogada? Eu estava drogada? O pânico volta tão rapidamente que posso sentir crescendo brutalmente, a bile queimando minha garganta. "Você me drogou?" Sua expressão muda, toda a diversão morrendo com a minha pergunta. Sua mandíbula aperta, seus olhos estreitam e suas narinas dilatam enquanto ele me olha com uma raiva que faz meu sangue correr frio. "Eu não fiz nada para você." "Eu, uh... Eu não quis dizer...". Puxando as pernas para cima, tento me encolher em mim mesma, fugindo de seu tom. "Eu não sabia."


"Você estava balbuciando e lutando para ficar de pé quando corri para ajudar você," diz ele. "Sua respiração estava superficial, seus olhos estavam distantes e você estava confusa, não tinha domínio de nada. Você ficou inconsciente na calçada, e seu pulso estava lento. Você estava praticamente segurando uma placa, querida. Drogada." A palavra 'querida' escorrega de seus lábios com facilidade, mas há pouco calor nela. O tom frio me dá um arrepio na espinha. O homem é intenso. "Então, você, uh, trouxe-me para a sua casa?" pergunto, incrédula. "Quando você viu que eu estava drogada?" "O que mais eu poderia fazer?" Pergunta ele, arqueando uma sobrancelha em questionamento. "Levá-la para o hospital, para a polícia, depois que você tinha bebido... Menor de idade, nada menos que isso." "Você poderia ter me levado para casa." "Eu poderia... Se eu soubesse onde era. Você estava sozinha, e sua identidade informa uma caixa postal no norte do estado. Eu não poderia deixá-la na estação de correios em Syracuse12, poderia?" "Não," digo. Não pensei sobre isso. Nunca me preocupei em mudar meu endereço no documento. Não vivo em Syracuse desde que tirei a carteira de motorista, aos dezesseis anos. "Então, trouxe você para cá," continua ele, "porque eu não poderia, em sã consciência, deixá-la na rua." Encaro-o quando suas palavras me atingem. Ignorando o fato de que estou na casa de um estranho, na cama de um estranho, sem memória de como cheguei aqui, sinto um alívio peculiar. Se o que ele diz é verdade, isso faz dele meu salvador... O meu cavaleiro de 12

Cidade localizada no estado americano de Nova York, no condado de Onondaga. Está localizada às margens do rio Onondaga e possui cerca de 145 mil habitantes.


armadura brilhante, mesmo que eu me recuse a ser a donzela em perigo. "Obrigada," eu digo. "Eu sou, uh... Eu sou Karissa." Ele sabe o meu nome, mas parece que a coisa certa a fazer é me apresentar. Talvez seja um pouco menos estranho se ele não for um completo estranho para mim. "Meu nome é Ignazio." Minha testa franze em confusão com seu nome tão diferente e minha reação quebra sua expressão dura. Ele sorri novamente, desta vez deixando escapar um riso leve. "Você pode me chamar de Naz, se você preferir," diz ele. "Naz". O nome soa estranho na minha língua. "Nunca conheci um Naz antes." "Gosto de pensar que sou exclusivo." Ele olha para mim, e mais uma vez, não sei o que dizer. Sintome como uma tola, apenas sentada aqui, embrulhada em seus lençóis com cheiro tão masculino, como imagino que ele cheira se eu chegar perto o suficiente para sentir. Embora meu coração tenha se acalmado, ainda me sinto ansiosa e minha cabeça dói como uma filha da puta. Isso para não mencionar que eu ainda preciso fazer xixi. "Eu, uh..." Sinto meu rosto queimar. "Você tem um banheiro que eu possa usar?" Ele balança a cabeça, quebrando o contato visual, e se vira para a porta aberta atrás dele. "No final do corredor, última porta à esquerda." Eu saio da cama, minhas pernas bambas quando me levanto. Nossa, quanto tempo eu estive dormindo? Abaixando a cabeça, incapaz de olhar para Naz, corro por ele, até o fim do corredor. O banheiro é


enorme, tudo branco e brilhante, exatamente como o quarto, o chão frio de mármore sob os meus pés descalços. A luz queima meus olhos quando entro, e aperto os olhos, tentando ajustar a luminosidade. Resolvo meu problema, gemendo quando vejo meu reflexo no espelho. Pareço como a morte. Meus olhos estão vermelhos, a maquiagem toda borrada pelo meu rosto, uma grande mancha de cor estraga minha pele. Meu cabelo está parecendo pior que um ninho de ratos emaranhado em cima da minha cabeça e, eu ainda estou usando a maldita lycra. Fazendo uma careta, tento melhorar meu aspecto, jogando água no meu rosto e correndo os dedos pelo meu cabelo, mas pouco adianta. Desistindo, sigo de volta, meus passos sem pressa. Não estou com pressa para enfrentá-lo novamente, sabendo como estou parecendo. Ele ainda está de pé na soleira da porta do quarto, com as mãos no bolso, sua postura relaxada. Ele não parece se sentir desconfortável tendo uma garota estranha em sua casa... Em seu quarto. Alguma coisa o incomoda? Ele se vira, pegando meu olhar quando me aproximo da porta, mas paro por aí, não vou voltar para aquele quarto. "Não costumo parecer desta forma," eu digo, apontando para mim, sentindo a necessidade de explicar o meu desastre. Ele sorri novamente. Ele tem um sorriso agradável e quente, mas não excessivamente. É genuíno, nada forçado. Ele sorri como se quisesse fazer isso. Não sei muito sobre este homem, mas ele não parece ser do tipo que faz o que não quer. "Imaginei," diz ele, seus olhos me encarando, fazendo minhas


bochechas queimarem novamente. "Noite dos anos oitenta." "Sim." "Como um homem desta época, posso lhe dizer que a maioria das pessoas não se vestia dessa maneira." "Ugh, eu sei. Jeans manchados e ombreiras era a moda, certo?" "Sim." Eu olho para ele, tentando novamente adivinhar sua idade. Quando ele sorri, seus olhos dobram, mas eu não detecto eventuais rugas. "Então, você se lembra dos anos oitenta bem?" "Bem o suficiente." "Quantos anos você tinha na época?" Isso é mais agradável do que perguntar quantos anos ele tem agora, certo? Um olhar de diversão aparece em seu rosto e algo me diz que ele vai jogar comigo. "Quantos anos você acha que eu tinha?" Hesito. "Um adolescente?" "Perto." Meu estômago revira. Ugh. "Mais velho?" "Mais novo." Ufa. "Então isso significa que você está prestes..." Eu tento fazer as contas na minha cabeça, mas ainda parece que há uma névoa sobre mim. "Você está nos quarenta?" Jesus, ele tem quarenta. "Eu farei trinta e sete anos."


Trinta e seis, então. Isso faz dele 18 anos mais velho que eu. Ugh, dezoito anos. Ele tem o dobro da minha idade. "Bem, obrigada, Naz," digo baixinho, sentindo-me inadequada. Ele é todo homem, e eu sou provavelmente nada mais do que uma menina tola, impotente para ele. "Realmente, eu agradeço." Ele apenas balança a cabeça. Olho para longe dele, em seguida, olho ao redor da sala, procurando os pertences que eu senti falta, mas eles estão longe de serem vistos. A sala ficou significativamente clara nos últimos minutos, deixando tudo com um brilho suave. Ainda é cedo, mas Melody já deve ter sentindo a minha falta. "Você sabe onde está o meu telefone?" Eu pergunto. Ele balança a cabeça, puxando-o do bolso. "Você parece ter um hábito de perdê-lo." "Sim, acho que tenho," eu digo, pegando o telefone dele. "Como você sabia que era meu, afinal?" "Ele estava com você." "Não, antes disso," eu digo. "Na sala de aula do professor Santino." "Ah. Eu ouvi você perguntar por ele." "Você me ouviu?" "Sim, ouvi," ele confirma. "Você entrou pela porta e disse 'meu telefone'." Olho para ele, incrédula, agarrando meu telefone, correndo o polegar ao longo da tela. Espero que ele ainda funcione, porque não posso pagar por outro. Mal posso me dar ao luxo de pagar a conta desse


maldito. "Você deve ter uma ótima audição." "Eu tenho," diz ele, andando na minha direção. Ainda estou de pé quando ele passa por mim, encostando seu braço contra o meu, a colônia familiar flutua em minha volta, agarrada a ele da mesma forma que está marcada em sua cama. "Quase nada escapa de mim, Karissa." Ele vai embora, e vejo quando ele desaparece pelo corredor e desce um lance de escadas. Olhando para o meu telefone, eu tento ligálo, mas ele está morto, a tela ficando preta. Com um suspiro, eu olho para longe, não tendo nenhuma escolha senão seguir Naz até lá embaixo. A casa de dois andares é grande e principalmente vazia, totalmente mobiliada, mas mal decorada. Meus olhos examinam os quartos quando eu passo por eles. Eu encontro meus sapatos na sala de estar e o calço. Agora tudo que eu preciso é da minha identidade. "Aqui," diz Naz, pegando meu documento em cima de uma mesa e segurando em direção a mim, como se tivesse lido minha mente. "Eu acho que isso é tudo o que tinha com você." "Era," confirmo, pegando. "Eu, uh... Eu deveria ir." Nervosamente me volto para a porta quando ele limpa a garganta. "Você quer uma carona?" Hesito. "Uma carona?" Não percebo até este momento, que eu poderia estar em qualquer lugar. "Sim," diz ele. "Eu posso levá-la de volta para a cidade." Jesus, eu não estou nem mesmo em Manhattan? "Uh, sim, com certeza. Tudo bem." Acontece que estamos no Brooklyn, um bairro de classe alta


no canto sudoeste do município. A casa de Naz é maior do que a maioria das outras na rua. Pergunto-me o que ele faz para ganhar a vida para ser capaz de pagar por ela. Não pergunto a ele, no entanto. Já me sinto fora de lugar o bastante sem saber se o meu príncipe encantado é um herdeiro real de algum tipo de trono. A elegante Mercedes preta está estacionada na garagem, e ruge quando Naz aperta um botão em suas chaves. Ele se encaixa no carro muito bem, de uma forma impressionante e absolutamente linda. Sinto-me ainda menor sentada no banco do passageiro, calada enquanto ele nos leva através do Brooklyn. "Está com fome?" Ele pergunta, afinal, não me dando tempo para responder antes de entrar com o carro em um drive-thru do Starbucks. "O que você quer?" Quero dizer nada, mas meu estômago está rasgando de fome, e tenho certeza que ele pode ouvir. Soa como engrenagens rangendo. "O mesmo que você pedir, eu acho." Ele ergue uma sobrancelha para mim. "E se eu não pedir nada?" "Então me dê qualquer coisa... Algo de chocolate." Ele ri, baixando sua janela para encomendar dois cafés, carregados com creme e açúcar, e um muffin de chocolate. Agradeço a ele quando me entrega, mas ele dá de ombros como se não fosse nada. "Então, onde eu estou levando você?" Ele pergunta quando retorna para o trânsito. "NYU," eu digo. "Eu fico nos dormitórios." Fica a vinte minutos de onde estamos, na parte baixa de Manhattan. Pego meu muffin e saboreio minha bebida, tentando pensar em alguma coisa — qualquer coisa — exceto na realidade em que eu tinha me metido.


No momento em que chegamos lá, estou me sentindo insignificante, algo como um caso de caridade que foi pega nas ruas. Ele para a Mercedes ao virar a esquina, em uma garagem ao lado, parando lá e bloqueando a entrada. "Obrigada mais uma vez," eu digo, nervosa, tirando o cinto de segurança e estendendo a mão para a maçaneta da porta. "De verdade." Não lhe dou tempo para responder... Isso é desconfortável o suficiente sem que ainda haja conversa forçada. Saio, agarrando o meu café, e batendo a porta atrás de mim. Mas antes que eu possa ir embora, a janela abaixa, e sua voz grita. "Karissa." Eu me viro, perguntando por que ele simplesmente não pode fazer isso fácil para mim, e congelo quando eu vejo o objeto cor-de-rosa em sua mão estendida. Meu telefone. Sério? Suspirando, volto e pego através da janela aberta. Tento me afastar, mas ele agarra minha mão, apertando com força. Não me machuca, mas me prende no lugar, sua pele quente e áspera. "Um conselho?" Diz ele. "Tenha cuidado com quem você confia. Não haverá sempre alguém lá para te salvar." "Eu, uh..." Essas palavras são de arrepiar. Não tenho a menor ideia do que dizer. "Ok." Ele me deixa ir, sua mão segurando a alavanca de câmbio para dar marcha ré no carro. Eu me afasto do carro. "Ligue-me algum dia," diz ele. "Seria bom saber como você se parece sem essas roupas."


―Karissa, é sua mãe... Desculpe, eu perdi a sua chamada..." "Ei, garota, me ligue de volta quando você puder!" "Faz algumas horas que eu não tenho notícias suas, querida. Eu espero que tudo esteja bem. Ligue-me." "Karissa, eu estou começando a me preocupar... Liga-me, por favor." "Eu juro por Deus, Karissa Maria, se você não me ligar de volta agora..." "É isso aí. Você está de castigo. Para sempre." Suspirando, desligo e olho para a tela do meu telefone. Ele ainda funciona, felizmente, uma vez que eu consegui carregar e ligá-lo. Ele ganhou vida com trinta e duas chamadas perdidas – algumas de Melody, perguntando onde eu estava, mas a maioria da minha mãe. Ela passou de perguntar, a implorar, a ameaçar, tudo dentro de um intervalo de poucas horas. Estou surpresa que ela não tenha chamado a polícia para comunicar o meu desaparecimento. Pensando bem, ela provavelmente chamou. Se um dia eles dessem um prêmio para a mãe superprotetora do ano, Carrie Reed iria ganhar. Por 18 anos ela me manteve sob proteção, sempre a dois segundos de distância de uma ruptura mental quando eu ficava fora de sua vista por muito tempo. Eu estava embrulhada em plástico de bolha e marcada com 'frágil'— não dobrem, não quebrem. Nós nos mudamos tanto que era difícil para eu manter amigos. Ela era inquieta, sempre sentindo a necessidade de mudar alguma coisa — uma nova cidade, um novo hobby, e novas pessoas — enquanto eu só queria nada mais do que ter um lugar que eu pudesse chamar de lar.


Apesar de mudar e começar de novo praticamente todos os anos, estudei em casa nos vários lugares que moramos, a minha candidatura para a faculdade e os exames foram o suficiente para me colocar na lista de espera da NYU. Achei que fosse impossível, e quase desisti, quando no último minuto, uma vaga ficou disponível e me foi oferecido a admissão. Ela chorou quando disse a ela. Pensei que ela ficaria feliz, mas ela chorou e implorou, pedindo-me para reconsiderar me mudar para New York City. Eu disse a ela que eu tinha que seguir meu coração, seguir os meus sonhos. Ela finalmente recuou, mas nunca aceitou completamente minha saída. Problemas de abandono, eu acho. Meu pai a abandonou quando ela estava grávida, e eu não acho que ela tenha sido a mesma desde então. Só me lembro de vagamente ver uma fotografia, uma vez, um flash de um cara de bigode, tirada com uma velha Polaroid, um nome rabiscado no fundo: John. Isso não me incomodava — não posso sentir falta de alguém que eu nunca tive, não se posso lamentar por alguém que eu não conheço — mas sei que ela sente a perda. Eu sei disso, porque já a ouvi chorar, murmurando para ele quando ela estava em seu quarto, como se ele pudesse ouvi-la onde quer que esteja. Ela não pôde ficar com ele, então ela compensava comigo. Deitei-me na minha cama, exausta demais para fazer qualquer coisa. Minha cama cheira vagamente como sabão em pó, mas eu cheiro como ele. O cheiro perdura na minha roupa de dormir enrolada nos lençóis. É metade do motivo de eu não ter me incomodado em tomar banho, ou me trocado... A outra metade é porque eu mal posso pensar direito em qualquer coisa. Mensagens da minha mãe já estão escorregando da minha mente e as palavras de Naz rastejam de volta, repetindo uma e outra vez, como um CD arranhado.


Seria bom ver como você se parece sem essas roupas. Eu só fiquei de boca aberta no carro quando ele me trouxe para casa, desaparecendo no tráfego. Ele tinha me visto usando algo diferente desse traje ridículo dos anos oitenta... A primeira vez que ele me viu eu estava vestida normalmente. Apenas quando entrei no elevador, indo para o meu quarto no décimo terceiro andar, que o duplo significado por trás dessas palavras me bateu. Seria bom ver como você se parece sem essas roupas. Puta merda, ele quis dizer nua? Eu estava tão chocada que deixei cair meu telefone. Claro. Suspirando, tentando tirá-lo de meus pensamentos, eu volto para o meu telefone e percorro meus contatos. Preciso ligar para minha mãe antes que ela realmente chame a polícia. Deslizo até o nome dela, Mãe, quando meu dedo hesita, meus olhos olhando para o nome logo abaixo dela. Naz. Fico olhando para ele. Ele colocou o seu número em meu telefone em algum momento ontem. Não me lembro disso acontecer, mas isso não é surpreendente, considerando que eu não me lembro de quase nada da noite passada. Eu me perguntava como eu deveria ligar para ele e deixar tudo o que havia acontecido de lado, mas agora algo se agitou dentro de mim, a ansiedade, misturando-se com emoção. Borboletas rasgam meu estômago. Eu quero gritar, e gritar, e vomitar. Antes, era um flerte inofensivo, mas agora... Jesus, agora eu posso ligar para ele. Oh Deus, não... Eu não posso. Eu não posso ligar. Eu posso? Estou travada em um debate interno, tentando racionalizar esses sentimentos, quando o meu telefone começa a tocar, o nome de minha mãe aparece antes que eu possa pressionar o botão para chamá-


la. Eu atendo, trazendo o telefone para meu ouvido. "Ei, mamãe, eu estava prestes a te ligar." "Karissa, onde você esteve? Eu estive preocupada!" "Sinto muito. Eu, uh..." Eu saí para beber na noite passada, fui drogada e acordei na cama de um cara estranho com um inferno de uma ressaca. Você sabe, todas aquelas coisas que você sempre se preocupou que fosse acontecer comigo quando me mudei para Nova York, mas eu disse que só acontecia nos filmes. "Deixei cair meu telefone ontem e havia quebrado. Eu acabei de conseguir fazê-lo funcionar de novo." Isso é verdade, pelo menos. "Pensei que algo havia acontecido com você!" "Estou bem, mãe", eu digo. "Falei com você antes de ontem... Ou um dia antes disso. Nada vai acontecer comigo." Ela solta um suspiro profundo. Ela não discute com as minhas palavras, mas sei que isso não a tranquiliza. Mudando de assunto, pergunto-lhe como tudo está em Watertown e como as coisas estão funcionando na floricultura que ela abriu. Watertown é onde nós vivemos mais tempo, o lugar em que ela finalmente começou a se sentir em casa. Nós mudamos para lá de Syracuse, logo após o meu aniversário de dezesseis anos, e ela ainda não foi embora. Ainda. Ela está divagando sobre como a primavera está chegando e as flores vão florescer em breve, e estou tentando prestar atenção, mas as palavras estão desaparecendo em um nevoeiro. A porta abre depois de alguns minutos, enquanto estou sussurrando em reconhecimento a algo que minha mãe diz, Melody entra pela porta. Ela se assusta quando me vê, os olhos arregalados. Eu posso ver as perguntas escritas por todo o rosto e sei que em cerca de vinte segundos, um interrogatório


está chegando. "Mãe, eu preciso desligar," eu digo, não querendo estar no telefone quando isso acontecer. "Eu te ligo mais tarde, ok?" "Tudo bem," diz ela, hesitando como se não quisesse desligar. "Eu te amo, Karissa." "Também te amo." Desligo com o dedo ainda tocando na tela quando perguntas começam a inundar o quarto. "O que aconteceu com você? Onde você foi? Onde você estava? Por que você não ligou? E por que diabos você ainda está usando isso?" Revirando os olhos, eu sento. Minha cabeça ainda está latejando, apesar do punhado de pílulas que tomei quando cheguei ao quarto. Eu tive ressacas antes, mas esta é a pior. É uma sensação que não consigo tirar de mim. "Você primeiro," eu digo. "O que aconteceu com você na Timbers?" "Eu conheci um cara. É a sua vez." Melody olha para mim, esperando algum tipo de resposta quando eu tento juntar meus pensamentos e decidir o quanto dizer a ela. "O mesmo,‖ eu respondo. "Eu conheci um cara, também." Seus olhos se arregalam. "Sério? Quem?" "Ele não é ninguém," eu digo, não acreditando nisso nem mesmo quando as palavras deixam meus lábios. Esse homem é indiscutivelmente alguém. "E você saiu com o idiota que estava com a roupa de astronauta ou o quê?" Ela me olhou por um momento em silêncio, como se precisasse de mais informações, mas ela felizmente deixou passar.


"Sim. O nome dele é Pat ou Pete ou algo assim, não me lembro. Talvez seja Parker? Nós transamos, e em seguida, desmaiei." "O mesmo," eu digo novamente. "Exceto sobre o transar." "Então, você foi para casa com um cara e... Desmaiou?" "Praticamente." "Bem, isso é decepcionante." Deixei escapar um riso leve enquanto me levantava e espreguiçava, fixando meu telefone na tomada para deixá-lo terminar o carregamento. "Sim, isso se transformou em um inferno de uma manhã constrangedora. Então me diga sobre Pat-Pete-Parker - o que quer que seja." Ela muda o assunto, voltando a falar sobre o que quer que seu nome seja, enquanto eu reúno algumas roupas para tomar um banho. Não menciono Naz novamente. Ela vai ter mais perguntas – perguntas para as quais não tenho resposta. "Ugh, eu tenho um inferno de uma ressaca," Melody diz eventualmente. "Como você está se sentindo?" "Como o inferno," eu digo. "Eu acho que havia algo em uma das bebidas na noite passada... Um roofie13 ou algo assim. Eu não sei. Estou confusa." Ela olha para mim, horrorizada. "Isso é assustador. Você tem certeza?" "Bastante certeza." Hesito. "Eu acho que foi a última... A que você ganhou do sei lá qual nome dele." "De jeito nenhum," diz ela. "Ele era totalmente um cavalheiro. Deve ter sido outra." 13

Flunitrazepan – remédio que induz o sono de forma rápida e intensa. Reduz os reflexos e a atenção e também causa amnésia (lapso de memória). Esse medicamento tem sido utilizado em golpes como ‘Boa noite Cinderela’ ou em festas para fazer as vítimas de crimes ficarem sonolentas.


"Sim," eu murmuro. "Talvez, mas tenha cuidado... VocĂŞ sabe... Apenas no caso."


Capitulo 3 ―Tem certeza que não pode vir?‖ Pergunta Melody, franzindo exageradamente as sobrancelhas enquanto se senta à minha frente, com as roupas empilhadas em volta dela – desta vez de propósito. Uma mala vazia está aos pés dela no chão, à espera de ser preenchida. ―Tenho certeza,‖ digo. ―Se pudesse, eu iria, mas não posso.‖ ―Se é por causa de dinheiro, eu—‖ Antes mesmo que ela consiga completar a frase, meus olhos se estreitam e a corto. ―Eu não posso ir.‖ Ela faz uma careta, algo entre aborrecimento e piedade. Eu sei que ela sente ambos. É domingo, e amanhã começam, oficialmente, as férias dos exames semestrais. Com os exames semestrais para trás, não temos nada com que nos preocuparmos até as aulas começarem de novo na próxima semana. Melody está de partida para Aruba com velhas amigas da escola — garotas que eu conheci, mas não reconheceria se cruzasse com elas na rua. Melody é a única do seu grupo que ficou em Nova Iorque para a faculdade. Por isso enquanto ela está na praia, celebrando a liberdade e aproveitando o sol, eu estarei aqui sozinha. É por causa do dinheiro, sim… Eu nunca poderia acompanhar o seu estilo de vida, mesmo que ela insista em me incluir sempre que possível. Sou grata quando ela me paga o jantar, ou me arrasta para uma noite na cidade, mas estabeleço um limite com as férias no Caribe. Há uma linha tênue entre aceitar ajuda e ser um caso de caridade, uma linha que me senti ultrapassar mais cedo esta semana. Mas é mais do que isso também.


Eu não posso ir. ―Eu disse que não tenho passaporte.‖ ―Bem, eu disse que poderíamos ir para a Flórida ao invés disso.‖ ―E eu disse que não vou te deixar mudar seus planos por minha causa,‖ digo. ―Então vá, se divirta. Vou ficar por aqui, talvez arranjar um bico, você sabe, ganhar algum dinheiro.‖ Ela ri enquanto começa a arremessar roupas em sua mala. ―Você não quer ir visitar sua mãe?‖ ―Não, vou vê-la daqui a algumas semanas na Páscoa.‖ Melody termina de fazer as malas, amontoando mais roupas nelas do que acho que tenho, antes de se levantar e saltar para a minha cama, ao meu lado. Ela deixa sair um suspiro profundo e teatral, enrolando seus braços à minha volta. ―Eu vou sentir sua falta, Kissimmee! Não se divirta demais sem mim.‖ Rio do apelido. Ela ouviu minha mãe me chamar assim um dia e passou a usá-lo sempre. ―Vou tentar. Talvez seja difícil, no entanto, com toda a agitação por aqui. Você sabe… Corredores vazios, salas de aula desertas e livrarias fechadas.‖ ―Parece o céu,‖ diz ela. ―Uma pena que não posso ficar.‖ ―Sim, infelizmente. Vai perder toda a diversão.‖ Melody me dá um beijo desleixado na bochecha antes de colocar suas coisas em ordem, empurrando umas coisas de ultima hora na mala. Ela fica pronta justo quando seu telefone toca, alertando-a que um carro a espera no meio-fio para levá-la ao aeroporto. ―Vou ligar para você todos os dais,‖ ela diz. ―A cada hora.‖ ―Por favor, não telefone,‖ respondo. ―Minha mãe já faz isso.‖


Com uma risada, ela sai pela porta, puxando a bagagem com ela. Para ser honesta, eu nem sequer espero que ela telefone. Uma vez que ela sai, a porta fazendo click ao fechar atrás dela, coloco meu livro de lado e me deito na cama. Uma semana inteira. Sete dias de nada. Melody não saiu há um minuto e eu já estou mais do que entediada. Limpo, leio, e limpo mais um pouco, e leio mais um pouco, antes do meu estômago começar a roncar. Pego um pacote de miojo Ramen no armário do quarto, e vou para a pequena cozinha que todos no dormitório compartilham. A maior parte do edifício está vazio, tirando alguns estudantes teimosos como eu que ficaram para trás. Encho uma panela com água e a coloco no fogão. Enquanto espero que a água ferva, puxo meu telefone e rolo para telefonar para minha mãe. Não atende. Suspirando, deixo uma mensagem rápida. Para alguém que enlouquece quando não atendo, ela com certeza deixa muitas das minhas chamadas irem para a secretária. Desligando, inclino-me contra o balcão e fico olhando para o visor, meu olhar deslizando para o nome debaixo do dela. Naz. Eu poderia ligar para ele. Quer dizer, ele colocou seu número e disse-me para ligar. Ele não faria isso, se ele, realmente, não quisesse que lhe telefonasse, certo? Mas o que eu iria dizer? Oi, se lembra de mim, a garota que pegou na calçada, bêbada como um gambá, fora de si, mesmo sem saber? Você sabe, aquela que você se sentiu obrigado a levar com você


para casa porque não havia mais nenhum lugar para a levar? Sim, ela, aquela que você comprou o café da manhã na manhã seguinte, aquela que não se ofereceu para pagar seu próprio café da manhã porque não tinha um centavo no bolso? Lembra-se dela? Lamento, lamento muito se você se lembra. Gemendo, viro os olhos para a panela de água. Só tem algumas pequenas bolhas no fundo. Precisa ir mais rápido. Meu olhar volta para o telefone, de volta ao seu nome. Seria rude não telefonar, no entanto, não seria? Afinal de contas, ele me ajudou. Outro olhar para a panela. Ainda não está fervendo. Droga. Quando volto a olhar para o telefone de novo, meu dedo atinge seu nome. Aperto o botão de ligar antes de me convencer a desistir, porque eu sei que desistirei, se for dada a chance. Levo o telefone ao ouvido e ouço. O primeiro toque parece exagerado, como o som do eco através do meu corpo, torcendo minhas entranhas em nós. Eu sinto que vou vomitar e preciso me sentar, meus olhos passam em torno da cozinha, mas a cadeira que costuma estar aqui desapareceu. Malditos ladrões. Estou tremendo, nervosa, e quase desligando quando a linha estala, parando o toque no meio. Há uma pausa de silêncio que parece se arrastar para sempre antes de sua voz a quebrar. ―Olá.‖ Oh Deus, oh Deus, oh Deus… Em que eu estava pensando? ―Hum, ei… É, hum…‖ ―Karissa.‖


Meu nome parece o céu dito pelos seus lábios enquanto ele o diz no seu tom baixo e rouco. Quero pedir para dizê-lo de novo, e de novo, e de novo. ―Você se lembra.‖ ―Sim,‖ ele diz. ―Como você está?‖ ―Melhor.‖ Muito melhor do que na última vez que ele me viu. ―Eu queria apenas, você sabe, agradecer.‖ ―Fico contente por você ter ligado. Pensei que talvez tivesse perdido seu telefone de novo.‖ ―Não, ainda o tenho,‖ eu digo. ―Por enquanto, pelo menos.‖ Ele deixa sair uma gargalhada, o som me faz sorrir, libertando um pouco da minha ansiedade. ―Ainda bem.‖ ―Por isso, ah, como eu disse, eu queria te agradecer de novo, por tudo que fez… Você sabe, no clube, a carona e meu telefone. Eu agradeço realmente, e se eu puder recompensá-lo, eu—‖ ―Você pode.‖ Eu paro com essas palavras. ―Eu posso?‖ ―Sim,‖ ele confirma. ―Hum, quanto?‖ eu pergunto. ―Não tenho muito dinheiro.‖ Ele ri de novo, desta vez um pouco mais alto. ―Eu não quero seu dinheiro, Karissa. Eu já tenho muito.‖ ―Então o que você quer?‖ ―Você.‖ Ele diz a palavra solitária tão confiante que eu fico apenas olhando para frente, incapaz de processar. ―Eu?‖ ―Deixe-me levá-la para jantar," ele diz. ―Assim ficaremos


quites.‖ ―Eu… Eu não sei o que dizer.‖ ―Diz que estará pronta em trinta minutos.‖ ―Agora?‖ Pergunto incrédula. Ele quer me levar para jantar agora mesmo? ―Porque não?‖ Ele pergunta. ―Não há momento melhor do que o presente.‖ Posso nomear muitos momentos melhores do que agora… Momentos que não incluem eu usar um pijama do Oscar, o Grouch14 e chinelos felpudos cor-de-rosa, meu cabelo estando em uma bola desgrenhada no topo da cabeça. ―Eu não sei.‖ ―Façamos assim,‖ ele diz. ―Daqui a meia hora, eu estacionarei na entrada da garagem de estacionamento, no lugar em que a deixei. Se você estiver ali, eu a levo onde você quiser ir. Se não estiver, irei embora.‖ Antes que eu possa responder, a linha cai, meu telefone apitando. Chamada terminada. Fico ali, hesitante, contemplando, antes de me virar. Novamente, não me dou a chance de me convencer a desistir. Desligo o fogão, deixando a panela de água fervida no fogão, enquanto saio correndo da cozinha para o meu quarto. Trinta minutos. É tudo o que tenho. Procuro no meu armário, atirando as roupas para fora, enquanto procuro algo para vestir, tirando camisas dos cabides e colocando-as em frente ao espelho, antes de colocá-las de lado. Passo por tudo o que tenho, demolindo meu lado do quarto em menos de cinco minutos, deixando a bagunça de Melody com vergonha. Mudo do meu armário para o de Melody, respirando fundo 14

Personagem da Vila Sésamo.


antes de mergulhar. As roupas dela estão mais na moda do que as minhas, são mais reveladoras… Mais ela e um inferno menos de mim. Desloco-me através do que está pendurado antes de vasculhar suas gavetas, mudando algumas vezes antes de me decidir por um vestido preto solto de mangas compridas que pesco do fundo do armário. Vai ter que servir, porque tenho que descer em quinze minutos. Solto meu cabelo, passando os dedos por ele. Está ondulado por estar preso no alto todo o dia, mas não há nada que eu possa fazer para endireitá-lo. Eu passo gloss nos lábios e coloco rímel, mal tendo tempo de passar perfume antes de colocar minhas botas. Sentada na cama, olho para o relógio e fico tensa. O tempo já acabou. Saio praticamente voando, pego o elevador e corro para fora, respirando pesadamente quando viro a esquina para o estacionamento. Meus passos vacilam, e paro quando meus olhos entram em contato com a Mercedes preta brilhante parada. Algo dentro de mim cresce, as borboletas levantam voo, como se tivessem descoberto, pela primeira vez, que têm asas. Meus pés se movem de novo enquanto a porta do lado do motorista se abre e Naz sai. Ele veste outro terno, todo preto com uma gravata vermelhosangue, meus olhos descem para a cor no seu peito largo. Naz vem para o lado do passageiro e abre a porta para mim. As histórias acertaram, pelo que vejo. O Príncipe Encantado tem maneiras. Ofereço-lhe um sorriso tentando me controlar enquanto deslizo no banco, respirando fundo, enquanto ele caminha de volta para entrar no carro. Ele hesita, a mão sobre a marcha, enquanto seu olhar me percorre. Posso sentir meu corpo corar pela atenção e amaldiçoo minha falta de maquiagem... Sei que o meu nervosismo está estampado


no rosto. Ele encontra meus olhos, os seus azuis claros, brilhando de satisfação. Ele não diz nada sobre isso, no entanto, virando-se para colocar o carro no sentido inverso. ―Para onde você quer ir?‖ Ele pergunta, voltando para o tráfego. ―Qualquer lugar,‖ eu digo. ―Para onde você quiser.‖ ―Você parece indecisa.‖ ―Acho que sim.‖ Minha resposta o faz rir. ―Apenas não tenho preferência,‖ explico. ―Ia comer miojo Ramen esta noite, por isso qualquer coisa é uma melhoria.‖ ―Por que ia comer isso?‖ ―Porque era tudo o que tinha no quarto,‖ digo. ―Além disso, não é muito ruim. Eles custam, tipo, cinquenta centavos. Você pode certamente sobreviver deles com um dólar por dia.‖ Ele vira os olhos para mim, não parecendo tão impressionado com isso quanto eu estou. ―Já experimentou?‖ Eu pergunto curiosa. ―Não,‖ ele diz. ―Não posso dizer que alguma vez tive o prazer.‖ ―Tenho que fazer para você, então.‖ Ele levanta a sobrancelha, olhando-me de forma peculiar. ―Vou cobrar isso, mas não esta noite. Vou levar você para jantar fora, em vez disso. Você pode me dar seu miojo gourmet em uma outra vez.‖ Estou tão envergonhada que posso sentir minha cara queimar. O que há de errado comigo, balbuciando para este homem sobre o maldito miojo? Eu quero sair correndo, desaparecer no banco


de couro e nunca mais voltar. ―Só me ignore. Sou uma idiota.‖ ―Não, não é. Você está apenas nervosa.‖ ―É assim tão óbvio?‖ ―Sou bom em ler as pessoas. É uma coisa que vem com o território.‖ ―Que território?‖ ―Trabalho.‖ ―E qual é seu trabalho?‖ ―Um pouco disto, um pouco daquilo,‖ ele responde. ―Sou freelancer.‖ Olho fixamente para ele. Isso não responde minha pergunta em tudo. Ele volta os olhos para mim de novo e minha confusão deve ser fácil de ver… Ou talvez ele seja bom mesmo em ler as pessoas… Porque ele decide elaborar para mim. ―Digamos que uma companhia precisa que algo seja feito… Como, por exemplo, eles estão fazendo cortes e precisam despedir pessoas. Algumas delas optam trazer outra pessoa para fazer isso, para que elas mesmas não precisem fazer o trabalho sujo. Gostam de manter as mãos limpas. Por isso contratam um empresário independente, alguém com conhecimento, para lidar com isso para eles.‖ ―E qual é o seu conhecimento?‖ ―Lidar com pessoas,‖ ele diz. ―Encontrar coisas.‖ Assim que ele diz isso, leva-me de volta para a aula de Santino e as palavras que eu ouvi naquela tarde. “Eu sei por que você está aqui.” ―O que você queria do meu professor de filosofia?‖ Um olhar de surpresa legítima atravessa seu rosto, o qual ele


apaga quase de imediato. Ele não responde, balançando sua cabeça depois de um momento enquanto seu foco se mantém na estrada. ―Eu não posso falar do meu trabalho.‖ É justo. Ele me leva para um restaurante perto do Central Park, o tipo que tem de fazer reserva com semanas de antecedência. Nunca estive nele — eu acho que nem mesmo Melody tenha estado, a atmosfera é muito rica mesmo para os seus gostos sofisticado — mas já ouvi falar desse lugar. Naz estaciona o carro e eu saio, olhando nervosamente ao redor, sentindo-me severamente mal vestida, mesmo num vestido. Eu começo a dizer a Naz que nunca conseguiremos uma mesa aqui, quando ele me conduz para dentro, passando por casais à espera. A anfitriã olha para cima. ―Tem reserva, senhor?‖ ―Não.‖ ―Estamos completamente cheios esta noite,‖ ela diz, virando a página do seu livro de reservas para confirmar. ―O resto da semana, também.‖ ―Faça-me um favor,‖ ele diz. ―Corra e diga ao chefe que Vitale manda seus cumprimentos.‖ A anfitriã olha como se quisesse dizer não, mas é difícil discutir

com

alguém

que

soa

tão

confiante.

Ela

se

desculpa

relutantemente, desaparecendo na cozinha. Menos de um minuto passa antes dela voltar, pegando dois cardápios e mostrando um sorriso forçado para Naz. ―Foi um erro. Temos uma mesa para você.‖ ―Imaginei que sim,‖ diz Naz, pressionando sua mão nas minhas costas e acenando para seguir a anfitriã. Obedeço, não querendo fazer mais nenhuma cena além da que causamos, todo mundo que estava esperando nos olhando como se tivéssemos vindo


com bombas apertadas em nossos peitos. Eu deslizo para a cadeira que a anfitriã puxa enquanto Naz se senta à minha frente. Eu fico de boca aberta quando ela vai embora. ―Como você fez isso?‖ ―Fiz o quê?‖ ―Arranjar uma mesa tão rapidamente?‖ ―Telefonei antes.‖ ―E?‖ ―E eu conheço o chefe,‖ ele responde. ―Cobrei um favor.‖ Fico calada por um momento, enquanto o garçom aparece, perguntando o que queremos beber. Eu murmuro ―água‖ sob a minha respiração enquanto Naz interrompe. ―Traga-nos uma garrafa do seu melhor champanhe.‖ O empregado olha para nós dois, e estou apenas esperando que ele peça minha identidade, mas ele não o faz. Em vez disso, ele sai correndo, indo pegar o pedido de Naz. É fascinante, observar as pessoas reagindo a ele, enquanto ao mesmo tempo, é alarmante. Há alguma coisa que este homem não consiga se safar? ―Como fez isso?‖ eu pergunto. ―Sério.‖ ―Eu acabei de falar.‖ ―Como você telefonou antes? Eu não vi.‖ ―Telefonei antes de ir busca-la.‖ Balanço minha cabeça. ―Mas você não sabia onde eu ia querer ir.‖ ―Não?‖ Ele levanta as sobrancelhas interrogativamente. ―Eu lhe disse, Karissa. Eu leio as pessoas. Você tem a tendência de apenas


ir com a corrente e ver para onde o vento sopra, por isso eu escolhi um local decente para você ir.‖ Estou atônita enquanto ele pega seu cardápio e casualmente relaxa na cadeira, sua atenção virada para ele. Eu mal sei alguma coisa sobre esse homem, e, no entanto ele parece me conhecer de uma forma que nenhuma outra pessoa conseguiu, prevendo o que farei antes mesmo de mim. O garçom volta com uma garrafa de champanhe e tenta encher nossos copos, mas Naz a pega e insiste em servir. Pego meu cardápio de novo, olhando de relance para ele, meu estômago apertando enquanto passo os olhos pela lista. Não sei o que é metade dessa merda. Ainda estou olhando para ele, quando o garçom volta uma segunda vez, pronto para receber nosso pedido. Naz olha para mim do outro lado da mesa, seus lábios se torcendo com divertimento. Ele pega o cardápio da minha mão e entrega-o ao garçom juntamente como o seu. ―Vamos optar pelo prato de degustação.‖ ―O dele e dela?‖ ―Não,‖ ele diz. ―Não me interessa qual, mas assegure-se que não haja diferença nos pratos. Eu prefiro que o chefe não saiba qual é o meu.‖ O empregado assente e desaparece enquanto olho para Naz, curiosamente. ―Porque não você quer que o chefe saiba qual é o seu?‖ ―Porque se ele souber qual é o meu, ele talvez vá envenená-lo.‖ Eu solto uma gargalhada. ―Um pouco paranoico?‖ ―Paranoico não,‖ ele responde enquanto pega seu copo de champanhe e toma um gole. ―Apenas cauteloso, o que você também deveria ser. Não pode confiar nas pessoas, Karissa. Ainda não aprendeu


isso?‖ ―No entanto, você quer que eu confie em você?‖ ―Eu nunca pedi sua confiança.‖ Ele sorri afetadamente. ―Eu só pedi que viesse jantar comigo.‖ O jantar é uma refeição de quatro pratos de frutos do mar e filé, salada e outras coisas que nem sequer sei o nome. Tem até caviar na mesa. Nojento. Eu já estou cheia no terceiro prato, mas não rejeito a sobremesa, saboreando um soufflé rico de chocolate. Naz ignora a sua, em vez disso dá um pequeno gole em seu champanhe. Quase acabamos com toda a garrafa. Naz manteve nossos copos cheios. Minha cabeça está confusa e meu corpo parece feito de ar. Estou flutuando nas nuvens. Eu não quero voltar à terra de novo. ―É bom?‖ Ele pergunta, observando-me atentamente. Estou bêbada demais pela atenção para me perturbar mais. ―Fabuloso.‖ Eu digo. ―O melhor suflé que já comi.‖ ―Já comeu muitos?‖ ―Nããão. Nunca.‖ Ele sorri, empurrando o seu pela mesa para mim. ―Pode comer o meu, também.‖ ―Não, obrigada.‖ ―Cheia?‖ ―Mais provável é que esteja envenenado.‖ Estou brincando, claro, mas ele encolhe os ombros como se realmente pensasse que é uma possibilidade. Eu abaixo minha colher, incapaz de comer mais. A conta vem e ele a vira, olhando-a enquanto puxa sua carteira para pagar. Espio


enquanto tomo um gole, quase engasgando com o champanhe. A conta passa dos mil e duzentos dólares. Impossível. Engasgo-me enquanto ele puxa um maço de notas, pagando apenas com notas de cem dólares, não parecendo sequer afetado pelo valor. ―Isso é loucura.‖ Eu resmungo. ―Eu poderia comer por um ano com esse dinheiro todo.‖ ―Três anos, se só comesse miojo,‖ ele aponta. ―Sério. Porque é tão caro?‖ ―A boa comida normalmente é.‖ Eu zombo. ―Poderia ter me levado ao Taco Bell. E estaria feliz e teria poupado mil dólares.‖ ―Todas as pessoas deviam experimentar pelo menos uma vez,‖ ele diz. ―Você gostou, não gostou?‖ ―Sim.‖ ―Então valeu a pena.‖ Nem sequer sei o que dizer. Pego meu copo de champanhe, determinada a beber até à última gota, considerando que a garrafa foi quase metade da conta. Naz se serve com um pouco antes de virar o resto no meu copo para que eu beba. Está cheio até à borda de novo. Tomo um gole. ―Se eu não soubesse de nada, eu diria que você está tentando me deixar bêbada.‖ ―E porque eu faria isso?‖ ―Não sei,‖ digo. ―Honestamente, eu não sei muito sobre você.‖ ―Falei com você mais sobre mim do que você me falou sobre você.‖ Eu rolo meus olhos. ―Você sabe todos os detalhes sobre mim.‖ ―Eu não sei nem o que você estuda na universidade.‖


―Bem, se você descobrir, diga-me, porque eu mesma ainda estou no escuro sobre isso.‖ ―Ah, bem. Você ainda é jovem. Tem bastante tempo.‖ ―Isso é o que minha mãe diz.‖ ―Sua mãe.‖ Ele me olha com curiosidade. ―Você é próxima da sua família?‖ ―Da minha mãe eu sou,‖ digo. ―Ela é realmente a única família que tenho… A única família que alguma vez terei. Sou filha única de uma mãe solteira.‖ As sobrancelhas dele se juntam. ―Sem pai?‖ ―Não,‖ eu digo. ―Ele nos abandonou antes de eu nascer. Minha mãe não gosta de falar sobre isso, então não sei o porquê.‖ ―Só há uma razão para ele fazer isso.‖ ―Por quê?‖ ―Porque ele é um covarde.‖ Sua voz é fria como pedra. ―Um homem de verdade nunca abandonaria sua família.‖ ―Sim,‖ digo. ―Você provavelmente tem razão.‖ ―Mas, sabe, eles não são os únicos que interessam,‖ ele continua. ―A família em que nascemos é importante, claro, mas eles não são tudo que temos. Eles não são tudo o que somos. Uma parte da vida é construir a nossa própria família. Essa é a beleza de tudo.‖ Eu sorrio suavemente. ―Tem uma família grande?‖ ―Tenho,‖ ele diz, ―mas a maior parte de nós não tem relação de sangue.‖ Há algo de refrescante sobre a forma como ele pensa, a forma como olha para o mundo. Ele não aceita apenas a mão que lhe dão. Depois de um momento, ele aponta para o meu copo. ―Beba.‖


Inclino-me desleixadamente, na minha cadeira, bebericando meu champanhe. ―Sim, definitivamente, você está tentando me deixar bêbada.‖ ―Estou,‖ ele admite, inclinando-se sobre a mesa, para mais perto de mim. ―De que outra forma vou a convencer a ir para casa comigo?‖ Essas palavras enviam arrepios para a minha espinha. Não tenho certeza se é de excitação ou apreensão. ―Você pode apenas perguntar.‖ Ele olha fixamente para mim, os olhos vigiando meu rosto enquanto sua expressão fica séria, sua voz ficando mais baixa. ―Venha para casa comigo, Karissa.‖ Minha respiração falha. ―Isso não é uma pergunta.‖ ―Não interessa,‖ ele diz. ―Venha para casa comigo, de qualquer forma.‖


Capitulo 4 Eu vou para casa com ele. Tudo me diz para não ir, até o senso comum. Até mesmo as palavras anteriores de Naz sobre não confiar nas pessoas, deveriam ter me feito dar a volta. Mas mesmo assim, eu vou para casa com ele. O que posso dizer? Os avisos são um grito ao vento, engolidos pela atmosfera. Ele é atraente e cortês, lindo e generoso, e eu estou embriagada e preciso desesperadamente de algo... Algo que ele desperta, algo forte, e primitivo. Ele desperta o animal dentro de mim. Mas não é nada comparado com o que vejo em seus olhos. Ele vira para mim assim que estamos sozinhos em sua casa. O ar está pesado, e seus olhos estão escuros, o azul como a meia-noite na iluminação fraca. É como o ver pela primeira vez novamente, mas sendo cumprimentada por uma criatura completamente diferente. Ele é uma besta. Um monstro. E parece que ele quer me devorar. Ele avança para mim. Sua voz baixa e rouca. ―Alguma vez você esteve com um homem, Karissa?‖ O meu coração bate fortemente no peito enquanto assinto. ―Eu já tive relações sexuais antes.‖ ―Não foi isso que lhe perguntei,‖ ele diz, parando bem na


minha frente, a ponta dos seus sapatos tocando os meus enquanto ele olha para baixo, para mim. ―Eu não me importo com esses rapazes que podem ter se atrapalhado entre as suas pernas uma vez ou duas. Eu quero saber se você alguma vez já esteve com um homem.‖ Hesito antes de engolir e balançar minha cabeça. Se ele é um homem, se isto é o que é estar com um homem, eu nunca estive com um. Fiquei com rapazes nas festas, até tive um namorado por um tempo em Watertown que me tirou a virgindade no banco traseiro de um Chevrolet enferrujado. Mas o que quer que seja que esteja acontecendo neste momento entre nós é algo que nunca senti antes. É eletricidade. Ele segura meu queixo com a mão, inclinando minha cabeça de forma que eu não tenho outra escolha senão olhar em seus olhos. Seu polegar varre meu lábio inferior, e deixo sair a respiração enquanto ele se aproxima. Inclinando a cabeça como se fosse me beijar, mas em vez disso, ele para. Seu olhar queima através de mim, penetrando na minha alma, segurando-me como uma prisioneira. Sou uma prisioneira de boa vontade. ―Você não tem que ter medo,‖ ele diz. ―Eu não vou te machucar.‖ Então, ele me beija. Seus lábios são suaves — tão, tão suaves, como veludo, um contraste forte com a aspereza do resto dele. Seu beijo é gentil, pouco mais do que uma respiração contra os meus lábios que eu inspiro faminta, tomando-o. Deixo um gemido suave sair, quase não percebendo quando ele sussurra, ―a menos que você queira que eu o faça.‖ A sugestão de um sorriso cobre seu rosto quando ele se afasta. Eu deveria estar alarmada. Eu deveria sair direto pela porta da frente e correr para longe, muito longe, mas não posso. Não posso fazer


nada que não seja ficar ali tremendo quando ele me deixa, dando um passo para trás. Ele olha para mim por um momento, os olhos passeando pelo meu corpo enquanto seu sorriso cresce. Ele é uma criança com um novo brinquedo, e apenas espero que ele não me quebre assim que eu sair da embalagem. E então ele está em mim, suas mãos me procurando enquanto seus lábios mais uma vez encontram os meus. Nada da delicadeza de minutos atrás em seu toque. Ele me agarra, puxando-me para o seu domínio, tirando-me o fôlego com o seu beijo duro. Suspiro enquanto ele me levanta, suas mãos apertando meus quadris. Agarro-me nele, enrolando minhas pernas em volta da sua cintura, meus braços em volta do seu pescoço, segurando-me à minha preciosa vida. Ele é forte — Jesus, ele é mais forte do que eu esperava, pegando-me como se eu não pesasse nada, enquanto me leva para o andar de cima para o seu quarto. Assim que estamos lá dentro, ele chuta a porta para fechá-la e me empurra para a cama, com seus lábios ainda nos meus. Ele me deita em cima dos lençóis brancos, com ele em cima, seu peso pressionando-me para baixo, contraindo meu peito. Meus pulmões

ardem,

as

borboletas

no

meu

estômago

voam

descontroladamente, prontas para levantar voo. Um estranho arrepio me atravessa quando ele se move da minha boca, seus lábios traçando a linha do meu queixo, encontrando meu pescoço. Ele beija e lambe, seus dentes passeando pela minha pele, enquanto suas mãos levantam meu vestido, empurrando-o para a minha cintura. Mal tenho tempo para pensar, para agonizar sobre o fato de que tenho certeza que estou usando minha calcinha de algodão branco que provavelmente não é nada sexy, quando suas mãos deslizam por baixo do tecido fino, a ponta dos dedos passeando pelo meu clitóris.


Minhas costas saltam involuntariamente enquanto um suspiro escapa da minha garganta, o choque de prazer rasgando minhas entranhas, o primeiro relâmpago de uma tempestade que se aproxima. Sou pega em um furacão. Não há outra forma de descrevê-lo, não há forma de explicá-lo, exceto que fui varrida tão rapidamente que já não consigo sequer ver o chão. Suas mãos estão todas sobre mim, arrancando as roupas, enquanto seus lábios procuram cada ponto de pele exposta. O vestido é arrancado e voa pelo quarto, mal tocando o chão antes de ele deixar um rastro escaldante de beijos pelo meu estômago abaixo. Deslizando as mãos por baixo de mim, ele rapidamente se livra do meu sutiã, tirando-o. Ele pega na lateral das minhas calcinhas e me levanto instintivamente quando ele as puxa para baixo. Meus joelhos se encontram, atraindo-se como imas, enquanto minhas mãos cobrem meus seios, timidamente protegendo meu corpo nu da sua vista enquanto ele se senta para trás. Ele me olha, cautelosamente, parecendo hesitar por uma fração de segundo quando ele vê como eu estou ali deitada, mas não o detém de tirar a camisa. Suas mãos encarregam-se para sua calça, soltando o cinto e abrindo o fecho, o som parecendo ecoar através do quarto silencioso. Isso faz meu coração bater mais rápido do que antes, tão freneticamente que minha visão se turva quando ele as tira junto com sua boxer, deixando-o tão nu como eu. Eu não posso olhar. Eu não posso olhar. Não consigo evitar. Eu olho. Eu tenho que olhar.


Ele afasta minhas pernas e se encaixa no espaço entre elas. Meus olhos são atraídos para o seu peito largo, seguindo o rastro da sombra de pelos ao longo do seu estômago tonificado, diretamente para o seu pau. Meus olhos se arregalam quando o vejo. Ele planeja que aquela coisa caiba dentro de mim? Tenho apenas um breve vislumbre, uma silhueta sombria na escuridão, enquanto ele agarra seu pau e o acaricia, antes de o sentir pressionar contra mim. Meus olhos se fecham enquanto ele esfrega a ponta dele contra o meu clitóris, enviando aqueles pequenos raios de eletricidade através de mim. ―Eu irei devagar com você,‖ ele diz, enquanto empurra para dentro de mim pela primeira vez, movendo-se devagar, cobrindo meu corpo com o dele. Não, uma parte de mim grita, o animal dentro de mim tentando encontrar a saída, mas engulo a palavra, quase aterrorizada de verbalizá-la. Não sei o que ele quer dizer, e já estou muito, muito fora da minha mente. Sinto-me como uma virgem de novo, exceto que eu não estava tão nervosa naquela época. Eu estava só entregando meu corpo, depois o deixando acariciar minha pele, mas eu tenho a impressão que este homem planeja ir muito mais fundo do que isso comigo. Ele se retira antes de empurrar de novo, movendo-se agonizantemente devagar, deixando meu corpo ajustar-se, mas não penso que isso seja possível. Não acho que alguma vez eu possa me acostumar a ele. ―Se você quiser que eu pare, fale.‖ Ele diz, ―E eu paro.‖ ―Devíamos…‖ A minha voz é um sussurro tenso. ―Quer dizer, eu preciso de uma palavra segura ou algo?‖ Eu vi filmes, li livros e não tenho a certeza do quão pervertido


este homem fica. Ele para no meio do impulso, recuando para olhar para mim, sua sobrancelha curvada. Posso ver o brilho em seus olhos, diversão, o monstro intrigado pela minha pergunta. ―Você quer uma?‖ ―Eu… Hum… Eu preciso de uma?‖ Ele parece considerar isso por um momento, metade dele dentro de mim, antes de abanar a cabeça e empurrar em mim, um pouco mais forte desta vez, fazendo minha respiração engatar. ―Não desta vez,‖ ele diz, combatendo um sorriso. ―Apenas relaxe, Karissa.‖ Eu tento. Droga, eu tento. Mas assim que começo a relaxar, Naz encontra seu ritmo, levantando minhas pernas para me preencher profundamente. Eu arfo, minhas

mãos

passando

pelo

seu

cabelo,

os

leves

cachos

surpreendentemente suaves, enquanto ele se inclina para me beijar. Com seus lábios em mim, ele empurra mais forte, tão forte que quase me tira o ar dos pulmões. Ruídos anormais escapam da minha garganta, que ele avidamente engole com seus beijos, aumentando o ritmo, provocando mais desses sons em mim. De novo. E de novo. E de novo. Eu suspeitei desde sua pergunta anterior, mas só quando ele está dentro de mim, martelando contra mim, seus braços enrolados à minha volta, segurando-me tão apertado que quase não consigo respirar, fodendo-me tão forte que quase não consigo pensar, que percebo o quanto eu tenho perdido. Tudo antes deste momento foi uma


brincadeira de criança, mas este homem é de uma classe superior. Ele me fode como se quisesse, como se ele precisasse, como se estar dentro de mim seja mais importante do que qualquer outra coisa dentro dele, e cada célula do meu corpo chama por ele, ansiando por mais. Suas mãos fazem mágica na minha pele, deslizando entre nós para roçar meu clitóris. O mero toque envia raios por mim. Ele esfrega círculos à sua volta, enquanto o meu corpo fica mais tenso. Eu posso senti-lo, construindo e construindo, a pressão preenchendo-me, até que estou quase explodindo. O prazer explode dentro de mim, como nada que eu tenha experimentado antes. Aperto meus olhos fechados. É como se houvesse uma explosão de foguetes à minha volta, quando tudo que vi até agora foram meras faíscas. Eu grito, arqueando minhas costas, meus seios empurrando contra o seu peito. Posso sentir-me convulsionando à sua volta, apertando seu pau por um segundo, antes dele desaparecer. Ele puxa para fora, para fora de mim, enquanto eu começo a gozar. Fico momentaneamente espantada pela ausência de tudo – eu só sinto frio, todo o ar á nossa volta. Sem calor. Sem ele. Sem nada. Meu orgasmo desvanece tão rápido quanto me atingiu, os foguetes uma faísca que fracassa e desaparece no céu noturno. Oh, Deus. Não. Não. Não. Não me faça isto. Meus olhos abrem-se enquanto a cama balança, e quase não tenho tempo de olhar quando ele afasta ainda mais as minhas pernas, sua língua passeando suavemente pelo meu clitóris. Oh, Deus. Espera. Sim. Sim. Sim. Ele lambe e chupa, empurrando seus dedos dentro de mim,


sua cabeça entre as minhas coxas. Ofegando, passo minhas mãos pelo seu cabelo, agarrando seus cachos, enquanto me arrepio. Demora alguns segundos para que o prazer que tinha desaparecido volte para mim, de alguma forma ainda mais intenso, deixando todo o meu corpo em fogo. O orgasmo me atinge, e deixo sair um grito, arqueando as costas enquanto convulsiono. Ele não deixa, não para, sua língua fazendo círculos pelo meu clitóris antes de sugá-lo, seus dedos enterrados profundamente em mim. Relaxo de novo na cama, ofegando quando a sensação diminui, mas não tenho tempo para recuperar o fôlego. Ele está dentro de mim de novo, empurrando fundo, enquanto seus lábios encontram os meus. Eu não quero sequer pensar sobre isso, não hesito, beijando-o profundamente enquanto ele ri contra a minha boca. ―Gosta disso?‖ Ele pergunta, sua voz tensa, como se não conseguisse recuperar o fôlego. ―Consegue sentir seu próprio gosto?‖ Fico envergonhada por um segundo, tempo suficiente para o meu rosto aquecer, enquanto ele me beija de novo, e de novo. Eu posso me provar, mas não tenho tempo de me acostumar com isso, porque ele está me fodendo tão freneticamente como antes. Seu quadril bate contra o meu, barulhos escapam da minha garganta enquanto ele continua a me asfixiar com o seu beijo. Consigo sentir sua respiração saindo

em

arfadas,

enquanto

ele

empurra

impiedosamente,

desesperadamente. E então ele está fora de mim de novo, puxando para fora. Desta vez ele se senta de joelhos e acaricia seu pau, acariciando-o enquanto inclina sua cabeça para trás, olhos fechados. Olho para ele à luz do luar, atordoada com a visão dele se masturbando, um misto de agonia e prazer parecendo distorcer seu rosto enquanto ele geme. Ele diminui seus golpes, parando a mão, e fica lá, com o peito subindo e


descendo, enquanto respira profundamente. É lindo. Eu não sei outra forma de descrevê-lo. Naz é uma obra de arte, confiante em todos os aspectos e é certamente garantido. Eu apenas fico ali deitada, meu corpo feito geleia, enquanto ele olha de cima para mim, como uma fortaleza de aço. Estou subitamente fraca, abandonada e um pouco vulnerável à sua mercê, à sua disposição, e ele não está nem sequer um pouco afetado. Estou fodida. Literalmente. Figurativamente. O homem me fodeu em todos os sentidos da palavra.

Deixei de ser um caso de caridade. Sou uma prostituta de luxo. O álcool está desaparecendo do meu sistema. Estou suada e pegajosa, uma dor entre as minhas pernas intensificando enquanto a sobriedade entra. Cada célula do meu corpo ansiavas por isto mais cedo, ansiava por ele, exceto aquelas da minha cabeça. Estúpidas células cerebrais. Elas têm estado perdidas numa neblina induzida pelo champanhe, mas agora querem voltar e dar um puxão ao meu momento com o seu maldito bom senso. Ansiedade alimenta um toque de enjoo, enjoo que eu tento


engolir, mas queima na parte de trás da minha garganta, o gosto amargo e acobreado na minha boca, como se eu estivesse presa até o fim de uma bateria. Ácido. Puro ácido. Quero expulsá-lo do meu sistema. É tarde, muito depois da meia-noite, assumo. Não tenho certeza. Além de não ter banheiro aqui, Naz também não tem um maldito relógio. Parece que estive deitada nesta cama por muitas horas, muito nervosa para dormir, enrolada nos lençóis. Ele está ao meu lado, mas não está me tocando, não mais de quinze centímetros de espaço separam os nossos corpos nus, mas o homem subitamente parece estar a quilômetros de mim. Estou agonizando sobre o que fazer, o que pensar, repassando cada momento que passei com Naz, quando um toque peculiar ecoa pelo quarto. É abafado, uma série de beeps que quase parecem código morse. De imediato, Naz desliza para fora, saindo da cama e procurando por suas calças no chão. Ele puxa seu telefone, dando uma breve olhada na tela antes de responder com um curto, ―Olá.‖ Ele vai até a porta com quem quer que seja que esteja na linha falando com ele, e deixa sair um suspiro enquanto segue para o corredor. ―Não, eu ainda não o consegui, mas estou cuidando disso.‖ Não ouço mais nada, incapaz de entender suas palavras enquanto ele anda ao longo do corredor às escuras, para longe do meu alcance auditivo. Não que eu esteja tentando ouvir ou algo do gênero. Mas ele volta depois de um momento, voltando para o quarto de novo e casualmente atira seu telefone de volta para a sua pilha de roupas. A cama balança quando ele sobe de novo para o meu lado. Suas mãos me procuram desta vez, enrolando-se à minha volta, puxando-me de novo contra ele. De novo, sua força me espanta enquanto ele me puxa para seus braços como se eu fosse feita de nada. Eu me sinto quase como uma boneca de pano sendo manipulada.


Colocando meu cabelo para o lado, ele beija o lado do meu pescoço, e isso de alguma forma alivia meu nervosismo. Sinto-me segura, muito estranhamente, como uma lagarta enrolada num casulo, à espera de criar asas. ―Estou

surpreso

por

ainda

estar

acordada.‖

Ele

diz

calmamente. ―Talvez eu não devesse ter pegado leve com você.‖ Apesar de tudo, sorrio com isso. Não posso imaginar esse sendo Naz, quando ele está relaxado. Desenfreado, o homem ia me derrubar até a próxima semana. ―Que horas são?‖ Eu pergunto. ―Duas horas.‖ Ugh. ―Eu devia ir.‖ ―Por quê?‖ ―Porque é tarde.‖ ―E?‖ ―E…‖ E, eu não sei. ―Eu apenas pensei…‖ Ele murmura em meu ouvido, sua mão deslizando lentamente pelo meu tronco para a dor entre as minhas pernas. ―Menos pensamento, mais sentimento.‖ Suspirando, fecho meus olhos. Ele me deixa sem palavras. Suas mãos acariciam minha pele, acariciando meu clitóris, enquanto me fixa contra ele. Leva apenas alguns segundos para minha respiração sair com gemidos. ―Isso,‖ ele sussurra. ―Apenas sinta.‖ Sentir, eu sinto… Eu o sinto em mim, a pressão crescendo até eu não conseguir aguentar mais. ―Por favor. Não pare.‖


―O que você quiser.‖ ―Oh, Deus, sim. Sim. Não…‖ Minha respiração enfraquece, a minha voz tensa enquanto o sinto crescer atras de mim. ―Pare.‖ ―Pare?‖ Ele para. Ele fodidamente para. ―Não,

não,

não,‖

eu

canto,

levantando

meus

quadris,

desesperada pela fricção antes que desapareça. ―Não, pare. Por favor.‖ Ele ri na minha orelha enquanto sua mão se move novamente, acariciando-me. Seus lábios encontram meu pescoço, enquanto meu corpo fica tenso com a liberação de prazer. Suspiro, palavras incoerentes escorrem dos meus lábios. Um momento depois, o prazer desaparece, enquanto ele para, de verdade desta vez, sua mão acalmando, cobrindo o ponto entre as minhas coxas. ―Gosto quando a minha mulher sabe o que quer,‖ ele diz, sua mão à deriva de novo se movendo devagar pelo meu peito, antes de atingir meu rosto. Estou espantada com suas palavras, até mais chocada quando sua mão encontra minha boca. A ponta dos seus dedos acaricia meu lábio inferior antes do seu indicador escovar minha língua. ―Eu também gosto quando ela tem o sabor como o Céu.‖ Eu me arrepio quando ele beija meu pescoço até meu ombro, pausando enquanto pressiona um beijo na minha omoplata. Sua língua passeia por ali enquanto ele puxa sua mão para longe da minha boca. ―Fique.‖ Ele diz. ―Levo você em casa de manhã. Tenho que ir para aquele lado, de qualquer forma.‖ ―Está bem,‖ eu sussurro, mas ele não espera pela minha resposta. Suas mãos deixam minha pele, o vazio pairando sobre mim quando ele se afasta, virando-se na cama para dormir.


Se eu não sou uma prostituta de luxo, eu não sei o que é ser uma.

O sono foge de mim, mas eu finalmente o alcanço. Quando eu acordo, o quarto está significativamente mais claro enquanto a luz solar flui através das janelas. Mais uma vez, eu não tenho ideia de que horas são, mas há uma coisa que eu sei. Estou sozinha. Ainda dorida, nojenta e completamente nua. Mas sozinha. Esfregando meus olhos, saio da cama e busco minhas roupas de ontem à noite, ainda misturadas com as dele no chão. Coloco meu sutiã e visto minha calcinha antes de pegar o vestido. Coloco-o de lado, tentando arrumá-lo, quando algo nele me chama a atenção. Está rasgado. Parece que suas mãos passaram por ele e o rasgou, o tecido solto e na bainha. Estou olhando fixamente para ele, horrorizada. ―Oh Deus.‖ ―Algum problema?‖ A voz me assusta tanto que quase salto, gritando, e quase deixo cair o vestido. Virando-me para a porta, vejo Naz ali de pé, seu cabelo escuro úmido, com gotas de água caindo pelo seu peito nu. Dáme uma vontade súbita de lambê-lo. Ugh, se acalmem, hormônios.


Ele não está usando nada além de uma boxer justa, tendo acabado de sair do banho. Estou momentaneamente espantada e sem fala enquanto o examino, dando o meu primeiro bom olhar nele fora de um terno. Agora ele está igualmente deslumbrante, mas há mais nele, coisas notáveis, coisas que não pude ver na noite passada. Ele está coberto por velhas feridas, cicatrizes de batalha, cortes que brilham na luz prata e desaparecem na escuridão, como segredos sussurrados. Não é desanimador, mas é um pouco enervante. Imagino o que este homem passou. Parece que esteve na guerra. ―Problema?‖ Ele pergunta de novo quando eu não digo nada, sua voz um pouco mais alta, afastando a atenção do seu peito. ―Sim,‖ consciente,

murmuro,

graças

à

colocando

minha

o

vestido,

sobriedade,

que

completamente

minhas

calcinhas

definitivamente não são sexys. ―Minhas roupas meio que rasgaram na noite passada.‖ Seus olhos passam por mim, fixando-se no rasgão quando mostro a ele, ―Não queria estragar seu vestido.‖ ―Tecnicamente, o vestido da minha colega de quarto,‖ digo, passando os dedos pelo meu cabelo, tentando me ajeitar. ―Peguei emprestado do seu armário.‖ ―Ah, bem, eu irei recompensá-la.‖ ―Como?‖ Ele encolhe os ombros, afastando-se da porta caminhando para mais perto. ―De alguma forma.‖ Passando por mim, ele se dirige ao seu armário. Está cheio de roupas, muito mais do que apenas ternos pretos, mas sem surpresas é isso que ele pega. Observo-o, espantada pela forma fácil como ele se arruma. Para minha diversão, seu cabelo seca rapidamente, ficando perfeito mesmo sem ele precisar o tocar. Bastardo sortudo.


Ele vira para mim quando termina, endireitando sua gravata escura, prendendo o nó. ―Diga-me, porque é que você está usando o vestido da sua colega de quarto?‖ Olho para ele. ―Porque fica bem em mim.‖ ―Fica,‖ ele diz, ―mas o que há de errado com as suas roupas?‖ ―Nada, mas você ia me levar para jantar fora, então eu precisava de algo para usar.‖ ―Você não tem nada que possa usar para ir jantar?‖ ―Nada com que possa comer um jantar de mais de mil dólares.‖ Ele assente, pegando seu casaco do cabide. ―Mas você não sabia que eu ia te levar para um lugar assim.‖ ―Talvez soubesse… Talvez eu também seja boa em ler as pessoas.‖ ―Você não sabia.‖ Ele sorri, enquanto balança a cabeça, como se estivesse reagindo a uma piada que apenas ele entende. Ele deixa sair um riso abafado, o som me fazendo sentir como se talvez eu fosse a piada. ―E, você é péssima lendo as pessoas, Karissa. Péssima.‖ Ele veste o casaco, abotoa-o, antes de se voltar para mim de novo. ―No entanto, estava linda nele,‖ ele diz. ―Estou contente por têlo usado.‖ ―Eu, ah… Obrigada.‖ Anarquia reina dentro de mim, enquanto engulo em seco. Ele me chamou de linda. Subitamente, sinto-e como uma menina pequena, corando pelo elogio. ―Eu queria apenas estar bonita.‖ ―Por quê?‖


Por quê? Que tipo de pergunta é essa? As palavras ‗por causa do jantar‘ estão na ponta da minha língua, mas não soam legal. Elas têm uma ponta de mentira amarga, apenas ligeiramente temperada para esconder o que está por trás. Não era para o jantar que eu queria estar bonita. Era para ele. Não respondo, mas pelo olhar dele, é óbvio que ele sabe a resposta. Há alguma coisa que este homem não saiba? Ele se aproxima de mim, estendendo a mão e esfregando ligeiramente o meu bíceps. ―Bem, como disse, você estava linda nele. É uma pena que ele esteja arruinado, mas vou substituí-lo.‖ ―Não tem que fazer isso,‖ eu digo. ―Nem sequer sei onde ela o comprou, ou há quanto tempo o tem… Ou se ela sequer se lembra de que tem ele, honestamente.‖ Ele ignora, não dando atenção para a minha rejeição, enquanto se encaminha para a porta. ―Vamos, vou levar você para casa agora. Tenho que estar na cidade daqui a pouco.‖ Ele sai, deixando-me ali em pé. Eu calço minhas botas, olhando em volta para me certificar que não me esqueci de nada, antes de ir atrás dele. Ele já tem as chaves e a porta da frente está aberta com ele ali, esperando. O caminho de volta para Manhattan é estranho. Quero saltar da minha própria pele. Não sei o que dizer, ou o que pensar, ou o que fazer com tudo isso, e ele não me deu nenhuma indicação sobre o que está pensando. O que é que estamos fazendo aqui afinal? Este homem escavou seu caminho até o meu mundo,


arrasando com tudo que eu sempre pensei, senti, ou acreditei, deixando-me com os destroços para juntar, peça por peça, e tentar colocar tudo de pé de novo. É como se tivesse pisado na luz do sol pela primeira vez, e ele está me levando de volta para as sombras. Será que nunca vou sentir a luz do sol de novo? Eu não quero que isto acabe, mas a pergunta permanece: o que diabos é isso? ―Você está bem?‖ Naz pergunta quando vira na rua que leva ao meu dormitório. ―Estou bem,‖ eu respondo, forçando um sorriso. ―Por quê?‖ ―Você parece triste.‖ ―Não, eu só estou... Pensando.‖ ―Hum.‖ Ele não diz mais nada. Hum. É isso. Que merda ―hum‖ significa? Meu estômago está cheio de nós, quando ele passa o meu edifício e, mais uma vez, encosta na entrada da garagem. Alcanço a porta antes mesmo que ele pare por completo, achando que é melhor sair do meu tormento, quando ele se aproxima e agarra meu pulso. Não machuca, mas seu aperto é firme, segurando-me ali. ―O que eu disse sobre pensar demais?‖ Olho fixamente para ele. Pensar menos, sentir mais. ―Eu sei, mas não consigo evitar. Eu apenas… Eu não sei o que pensar.‖ Porque isso faz sentido, Karissa. ―Então não pense,‖ ele diz. ―Não pense sobre isso. Apenas desfrute pelo o que isso é.‖ ―O que é isso?‘‖


Ele encolhe os ombros. É isso. Ele dá de ombros. Seu aperto relaxa ainda mais, seus dedos deslizando pela minha pele enquanto ele se afasta, sua mão descansa sobre o câmbio novamente. Tomo isso como um sinal para ir embora. Abrindo a porta, saio, batendo-a atrás de mim. Dou alguns passos para longe do carro quando ouço a janela descer, sua voz chamando. ―Karissa.‖ Meus passos vacilam, enquanto fecho meus olhos. Ele está brincando comigo agora. Tem que estar. Viro-me, sabendo muito bem que não me esqueci do meu telefone dessa vez, considerando que não me lembrei sequer de trazer a maldita coisa. ―Sim?‖ ―Jantar hoje à noite?‖ Ele pergunta. Fico olhando fixamente para ele. ―O quê?‖ ―Jantar,‖ ele diz. ―Oito e meia, está bom para você?‖ Meus olhos se arregalam enquanto digo de novo. ―O quê?‖ Diversão toca seus lábios, mas ele não responde, em vez disso, coloca o carro em sentido inverso, afastando-se. Eu observo enquanto o carro desaparece no trânsito, pasma. Esse homem é sério?


Capitulo 5 Minha mãe deixou meia dúzia de mensagens durante a noite. Telefono para ela de volta, não querendo preocupá-la, ouvindo-a apenas vagamente balbuciar sobre a loja de flores. Desligo assim que posso sem chateá-la e atiro meu telefone para baixo, olhando para o relógio. Ainda nem é meio-dia. Isso quer dizer que eu tenho oito horas e meia para agonizar, para me convencer que isto é real, que não é uma ficção da minha imaginação. Oito horas e meia para ganhar coragem. Oito horas e meia para encontrar algo para vestir. São às oito horas e meia mais longa da minha vida. Tomo banho e me preparo, hoje tendo tempo para arrumar o cabelo e colocar maquiagem. Atrapalho-me com as roupas de novo, contentando-me com um par de jeans skinny rosa e um top preto folgado. Não é extravagante, mas pelo menos é meu. Não serve para uma refeição de mais de mil dólares, mas talvez metade disso. Ou metade da metade. Eu continuo olhando para o espelho enquanto ando pelo quarto, olhando para o relógio e esperando, não querendo descer muito cedo, mas não querendo chegar atrasada. Quando dá oito e meia, sou um pouco mais do que um feixe de nervos em frangalhos, convencida


que não estou vestida nem sequer para uma refeição do preço de fastfood. Deixando para trás a ansiedade intensificada, asseguro-me de me lembrar do telefone dessa vez e saio. Meu coração martela forte enquanto desço no elevador, respirando fundo quando chego à portaria. Caminho com a cabeça para baixo, quando viro para o estacionamento, esperando ver a Mercedes, mas paro quando ela não está lá. Em vez disso, encostado contra a parede de tijolos em frente a mim, está Naz, mãos nos bolsos, numa postura relaxada. Pisco algumas vezes, pega desprevenida. ―Hum, oi.‖ ―Olá,‖ ele diz, afastando-se da parede para se aproximar. ―Ainda vamos, uh… Jantar?‖ ―Eu certamente espero que sim,‖ ele diz. ―Estou com fome e lembro perfeitamente de ter sido prometido ontem que você cozinharia para mim.‖ Eu rio enquanto suas palavras me atingem, mas o meu divertimento morre quando noto sua expressão séria. ―Você está brincando.‖ ―Pareço que estou brincando?‖ Não, não parece. Lembrando-me do que se passou, admito a contragosto que suas palavras foram que ele voltaria para jantar, não que ele me levaria a algum lugar. Sinto-me estranhamente manipulada, mas é culpa minha de ter interpretado mal. ―Na sua casa, então?‖ ―Fomos lá ontem à noite,‖ ele diz. ―Além disso, desculpe-me se estiver errado, mas você tem o miojo. Então pensei, uma vez que já estamos aqui…‖ Ele aponta em direção aos dormitórios. Ele quer ir lá em cima?


Meu primeiro instinto é recusar, mas estou muito deslocada para encontrar desculpas. Além do mais, suspeito que vá entrar por um ouvido e sair pelo outro. Algo me diz que, eventualmente, ele irá fazer seu caminho para dentro. Movo-me para trás, dando um passo para o lado. ―Depois de você.‖ De alguma forma estou mais nervosa do que há um momento atrás, enquanto conduzo Naz para os antigos dormitórios. Este é o meu território, a minha casa… Ou o que tenho de mais parecido com casa. Mas, no entanto, sinto-me deslocada, uma estranha na minha própria pele, como se eu estivesse invadindo minha própria intimidade ao convidá-lo para entrar. Naz, por outro lado, parece à vontade. Não há nada mais intimidante do que um homem que não parece se abalar com nada. Entramos no elevador e ele se inclina contra um dos lados, observando enquanto eu pressiono o botão número treze. ―Décimo terceiro andar,‖ ele brinca. ―Bom que você não seja supersticiosa.‖ ―Não é? Especialmente porque eu também fico no quarto treze.‖ Ele não diz nada enquanto subimos, mas ri quando chegamos ao meu quarto, no canto do final do corredor: 1313. Eu pego minha chave e abro a porta, deixando-a aberta para ele entrar. É um maldito desastre. ―Isto é agradável,‖ diz ele, olhando em volta enquanto faz uma pausa a poucos metros da porta. Ele parece genuíno, mas não posso imaginar o que Sr. Apartamento de um Rei possa encontrar de bom sobre um glorificado armário com duas pequenas camas. ―É apertado.‖ Eu digo.


Ele balança a cabeça. ―É acolhedor.‖ ―É, mas é uma bagunça enorme.‖ ―Sim, não vou discutir isso.‖ Ele olha entre o meu lado do quarto e o da Melody, como se estivesse os comparando. Ele não espera que eu lhe diga qual é o meu. Em segundos, ele vai para o meu lado, seus olhos passando pelas minhas coisas. Eu fico junto à porta, apertando minhas mãos juntas. Eu não tenho muito, mas o que tenho é importante para mim. Tivemos rela��ões sexuais ontem à noite, e não importa o quanto eu tenha estado nervosa com ele dentro de mim, não é nada comparado a isso. Isso é ele dando uma espiada no que está por baixo da minha pele. E se ele não achar isso lindo? ―Você pode se sentar, ou o que quiser,‖ eu balbucio. ―Sinta-se à vontade, eu acho.‖ Ele levanta uma sobrancelha. ―Você acha?‖ ―Sim, bem, quer dizer, não sei o que estamos fazendo aqui ou o que você realmente quer ou…‖ Ou o que eu estou dizendo. Ele me tem confusa. ―Eu o retribui ontem à noite, você sabe… Retribui você por tudo, como você disse, mas…‖ ―Mas?‖ ―Mas eu não sei.‖ ―Você não sabe o que pensar.‖ Eu aceno com a cabeça. Ele deixa sair um riso de descrença enquanto se dirige para mim. ―Isso é tudo que foi para você, Karissa? Compensação? Alguma forma de presente de agradecimento? Para me apaziguar-me, jogando-


me um osso, porque você pensou que me devia? Você se sentia em divida comigo?‖ Abro a minha boca para responder — para dizer o quê, eu não sei — mas ele não me deixa falar. Ele levanta a mão, colocando a ponta do dedo contra o meu lábio. Ele é gentil ao fazê-lo, mal me tocando com a ponta do dedo, mas a ação me silencia antes mesmo de eu começar. ―Porque se isso é tudo que foi para você, eu vou embora,‖ ele continua. ―Saio por aquela porta agora mesmo. Não fodo mulheres porque elas estão em dívida comigo… Eu o faço porque quero, porque preciso, porque elas precisam de mim. E não posso dizer que de forma dissimulada eu paguei o jantar para ter você nua, trocando favores como se isso fosse um Instinto Básico. Eu não pago para ser reembolsado, para ter você na minha cama. Mas se isso foi tudo o que pareceu para você, alguma forma torcida de um arranjo de negócios que está obrigada a prosseguir, eu vou embora.‖ ―Não.‖ Eu digo rapidamente enquanto ele se vira. ―Não vá embora. Eu apenas, eu não sei.‖ ―Não sabe o quê?‖ ―Por quê?‖ ―Por que o quê?‖ ―Por que eu?‖ Ele olha para mim por um momento. ―Porque não você?‖ Sua resposta não responde à minha pergunta, mas suprime um pouco da minha ansiedade, como se ele talvez não pudesse ver os defeitos que eu vejo. Talvez o que vejo no espelho, a menina que a minha mãe criou em casas pequenas, isolada e superprotegida, não seja a mesma mulher que ele está olhando. Talvez um de nós não esteja me vendo claramente aqui, e talvez seja ele…


Ou talvez seja eu… ―Então você quer miojo?‖ Eu pergunto, mudando de assunto. ―Sério, honestamente, você quer que eu o faça?‖ ―Quero,‖ ele diz. Suspirando,

dirijo-me

ao

armário

que

eu

e

Melody

partilhamos, abrindo-o para olhar para a comida. Não há muita coisa. Há semanas que nenhuma de nós vai às compras. ―Que sabor?‖ ―Qualquer sabor que tenha.‖ ―Há diferentes sabores.‖ Eu seguro algumas embalagens, mostrando-lhe. ―Carne, galinha, camarão…‖ Ele faz uma careta. ―Dê-me seu sabor favorito.‖ Apanho a embalagem rosa. Camarão. Eu o levo para fora do quarto em direção à pequena cozinha. Minha panela de ontem ainda está no fogão, ainda cheia de água, a embalagem de macarrão chinês abandonada no balcão. Eu a jogo fora, limpando a panela e enchendo-a com água fresca antes de a colocar de novo no fogão para ferver. Não há nada aqui, exceto um velho forno, uma pia e uma geladeira quase vazia, algumas panelas e frigideiras no armário que têm sido coletivamente doadas. Espero que ele comente sobre isso, mas ele não o faz, em vez disso, ele se encosta contra o balcão e cruza os braços sobre o peito. Posso senti-lo me observando enquanto espero que a água ferva, sentido seus olhos colados em mim, enquanto os meus estão colados na panela. Conheço o ditado – uma panela vigiada não ferve – mas eu não consigo olhar para nenhum outro lugar a não ser ali. Assim que começa a ferver, eu coloco o miojo dentro, sentindo-me tonta enquanto limpo a garganta. Sério que estou fazendo isso? ―Só temos de


ferver o macarrão por alguns minutos.‖ ―Huh.‖ Ele se afasta do balcão e coloca-se atrás de mim, tão perto que consigo sentir sua respiração na minha pele, enquanto ele espia por cima do ombro para a panela. ―E de onde é que vem o sabor?‖ ―Disso,‖ eu digo, segurando o pacote de prata quadrado de temperos. Ele o tira de mim. ―E porque parece com um preservativo?‖ ―Boa pergunta.‖ Eu digo, mexendo o miojo. ―Não sei.‖ ―Então o que há aqui?‖ Ele pergunta, virando o pacote e olhando, mas não diz nada exceto ‗sabor camarão‘. ―Você ao menos sabe o que tem nisso?‖ ―Muito sódio. E a mesma quantia de Glutamato de sódio15.‖ Ele olha entre mim e a embalagem. ―Agora, acho que talvez você esteja tentando me envenenar.‖ ―Um pouco de sal não vai te matar.‖ ―Sou um homem velho, Karissa. Pode matar.‖ ―Você não é assim tão velho.‖ Eu digo, virando-me para encará-lo, vendo a diversão preenchendo seus olhos. ―Quero dizer, sim, você é mais velho, mas não é velho. Não é como se você tivesse direito ao desconto para idoso. Mal tem idade para ser meu pai.‖ Assim que eu digo isso, sua expressão muda. É como se ele tivesse sido mergulhado em gasolina, lavando todos os bits de humor enquanto o fogo dispara dentro dele. Posso ver isso em seus olhos, o tom azul brilhante escurecendo, enquanto se estreitam, tornando-se nublado e escuro, como se uma tempestade estivesse se formando. Meus músculos ficam tensos enquanto ele dá um passo súbito para 15

É o sal sódico do ácido glutâmico, um dos aminoácidos não essenciais mais abundantes que ocorrem na natureza. É reconhecido geralmente como seguro e um aditivo alimentar, assim como um realçador de sabor.


mim. Eu, instintivamente, quero dar um passo para trás, mas já posso sentir o calor do fogão subindo pela minha espinha. Não quero me queimar. ―Seu pai?‖ Ele pergunta, sua voz baixa. ―É isso que você vê quando olha para mim?‖ ―O quê? Não, claro que não.‖ Faço uma careta, percebendo de como deve ter soado. Nojento. ―Estou apenas dizendo, você sabe, que você tem o dobro da minha idade… Não que isso seja uma coisa ruim. Você é apenas… Um pouco mais velho.‖ Fico olhando para aqueles olhos, amaldiçoando-me por chateá-lo. Ele não diz nada, apenas olha de volta, sua expressão tão dura como pedra. Os segundos passam, segundos que parecem durar uma vida inteira, antes de um movimento na entrada da porta me chamar a atenção. Olho para lá enquanto uma garota entra… Reconheço-a vagamente por encontrá-la nos corredores, breves viagens no elevador, mas não me lembro de alguma vez falar com ela. Ela olha para cima, uma lata de sopa na mão, e deixa sair um suspiro de surpresa quando nos vê. ―Merda, desculpa, eu não pensei que houvesse alguém aqui.‖ Meu estômago se aperta de nervoso, meu coração martelando forte no peito. Sinto-me como se tivesse sido apanhada numa posição comprometedora, como se esta garota tivesse tropeçado em algo que ela não deveria ter visto, que ela agora sabe coisas que não deveria saber sobre mim. É idiota, mas depois de passar toda a minha vida tendo minha mãe ensinando o conceito de privacidade em mim, sinto-me exposta, sua proximidade é tão intoxicante que parece que acabo de ser apanhada com uma agulha no meu braço. Ele é uma droga, uma viciante, e eu não tenho a certeza se é um hábito que posso deixar. Tudo que foi preciso foi uma tragada. Um


tragada forte, eufórica, e eu estava viciada. Naz fica ali, em minha frente, não reagindo por um momento. O fogo no seu olhar desaparece, relaxando sua postura. ―Eu volto mais tarde,‖ diz a garota. ―Desculpem.‖ Ela foi embora antes mesmo de eu pensar em dizer que estava tudo bem. O que aconteceu com meus modos? Viro as costas para Naz, olhando de novo para o fogão, e desligando o macarrão chinês, antes que vire papa. Suspirando, apanho o pacote de tempero enquanto ele o segura para mim. ―Está zangado?‖ Pergunto para ele enquanto mexo o tempero na panela. Ele está muito calado. Preocupo-me que o tenha ofendido. ―Não,‖ ele diz suavemente. ―Estou me perguntando se é errado eu estar aqui.‖ ―Tenho autorização para ter visitas,‖ respondo. É verdade que eu deveria tê-lo identificado no lobby e tê-lo registrado, mas mesmo assim... Ele estar aqui não é errado. ―Não foi isso que quis dizer.‖ Pego duas tigelas e divido o macarrão chinês antes de me virar para ele. Toda a fúria desapareceu, mas ele está genuinamente em conflito. ―Incomoda-o que eu seja tão nova?‖ Ele olha para mim incrédulo. ―Se me incomodasse, não estaria aqui.‖ ―Está bem, então,‖ eu digo. ―Não há nada de errado.‖ Ele não parece tranquilizado, mas não insiste no assunto. Depois de fazer uma pequena limpeza, esvaziamos a cozinha e voltamos para o meu quarto, com as tigelas de macarrão chinês na mão. Dou-lhe


um garfo de plástico antes de pegar um para mim e me sentar na ponta da minha cama. Espero que ele se sente ao meu lado, ou pelo menos na cadeira da minha pequena secretária, mas em vez disso ele encosta em meu armário, elevando-se sobre mim. Dou algumas dentadas, muito esfomeada para ignorar minha comida, enquanto ele mexe o macarrão chinês com o garfo. Observo-o enquanto como, sorrindo para mim mesma quando ele dá a sua primeira dentada. É pequena e experimental, seu nariz torcendo enquanto ele mastiga e engole. Seus olhos estão focados na tigela enquanto ele dá outra dentada, forçando-se a engolir. Ele não come mais. Depois de mexer seu miojo durante mais alguns minutos, dando-me tempo para comer, ele coloca a tigela no móvel atrás dele, seus olhos procurando por mim. Ele vem até mim e tira a tigela vazia da minha mão, colocando-a na mesa. Pegando no meu queixo, ele levanta meu rosto para eu olhar para ele. Seu polegar roça meu lábio inferior, e ele fica em silêncio por um minuto antes de sussurrar ―Só um tolo ficaria incomodado por estar com você.‖ Essas palavras fazem meu coração saltar uma batida. Suspiro, tremendo enquanto ele se inclina para baixo e me beija, suave e docemente, uma e outra vez. Ele se afasta depois de um momento, ainda me mantendo no lugar, mas não estou pronta para o momento acabar. Instintivamente, minhas mãos se movem para a sua cabeça, os dedos passando pelo seu cabelo, enquanto o forço de volta para mim. Ele ri, não me impedindo, e me beija mais profundamente. Suave e doce torna-se forte e enlouquecido, o beijo antes leve como penas agora brutalizando meus lábios. Não sei de que forma eu


prefiro. Uma faz o meu coração flutuar, a outra deixa o meu peito em chamas. Precisando de ar, afasto-me por um segundo para respirar fundo, abrindo meus olhos. Olho para ele, vendo um sorriso afetado tocando seus lábios, quando sua voz sai. ―Seus vizinhos estão em casa?‖ ―Ah, não. Bem, exceto por aquela garota que vimos, mas ela está no outro lado do corredor.‖ ―Bom.‖ ―Por quê?‖ Eu pergunto, enquanto ele me beija de novo. ―Porque,‖ ele diz, ―Eu quero ter certeza de que ninguém vai te ouvir.‖ Um arrepio atravessa minha espinha. Estou tremendo por causa disso, quando ele ataca, empurrando-me de volta para uma pilha de roupas limpas descartadas que deixei na minha cama, seu corpo cobrindo o meu. Seus beijos me tiram o ar dos pulmões, enquanto sua rigidez pressiona contra mim. Suas mãos são ásperas enquanto despedaçam minhas roupas. Terei sorte se ele não rasgar estas, também. Ele me deixa nua, atirando o material em volta, puxando suas próprias também, apressadamente. Agarrando-me pela cintura, ele me coloca de volta na cama pequena, não me dando qualquer momento para ajustar, quando ele se instala entre as minhas coxas e empurra para dentro. A estocada é tão dura, tão funda, que a dor apunhala meu estômago. Parece que fui empalada. Eu arfo, arranhando suas costas, minhas unhas aprofundando-se na sua pele. Ele pausa quando eu grito, mas apenas por uns poucos segundos antes de estocar de novo. E de novo.


E de novo. Não dói tanto como a primeira, mas não é suave, de modo nenhum. Seu corpo é pesado, seu aperto forte, suas mãos rudes enquanto acariciam minha carne. Ele está me sufocando, cobrindo-me, assim não sinto nada, não vejo nada, não vivo a não ser para ele, existindo só no momento em que ele se enterra dentro de mim. Eu sequer registro que a luz está acesa. O homem é uma bola de demolição, batendo em mim, e eu me desfaço em pedaços quase instantaneamente. Ele se retira para terminar, chegando perto do meu umbigo, apenas alguns centímetros de onde eu anseio que ele fique. ―Eu tomo pílula.‖ As palavras estão tensas quando saem dos meus lábios. Respiro pesadamente. Meu coração está acelerado. Ele se senta sobre os joelhos, e de repente eu me sinto exposta. ―Já há algum tempo.‖ Ele olha para mim, acenando a cabeça de novo em reconhecimento enquanto ele agarra seu pau, acariciando-o. Meus olhos são atraídos para ele, e estou hipnotizada observando-o se tocar. Meus dedos formigam com o desejo de estender a mão e tocá-lo, sentilo, dar-lhe o prazer que ele está dando a si mesmo, mas não tenho a chance. Em um piscar de olhos, ele está de volta entre as minhas pernas, empurrando lentamente dentro de mim novamente. Meus olhos se fecham, enquanto ele, mais uma vez, cobre meu corpo com o seu, retomando exatamente de onde ele parou instantes atrás. Ele demora mais desta vez, cada golpe beirando o impiedoso, essa agonia me esfaqueando uma e outra vez. Deixo escapar pequenos gritos, incapaz de me impedir, gritos estrangulados de dor prazerosa ecoando pelo quarto. Parece provocar alguma coisa nele, despertando algo dentro de Naz. Toda vez que eu grito, ele solta um gemido gutural, o som picando minha pele. Ele está gostando disso.


Ele se retira de novo quando acaba. Eu não sei se é intencional, ou se é instintivo, mas ele goza no meu estômago em vez de dentro de mim. Meu corpo é uma bola de formigueiro, minhas pernas fracas, como se ele tivesse retirado meus ossos. Naz enrola seus braços à minha volta, enquanto nos muda em torno da cama, apertando-se atrás de mim. Não há lugar para ele se afastar de mim aqui, não há espaço suficiente para sentir qualquer distância entre nós. Isso não parece o incomodar, no entanto, enquanto ele fuça meu pescoço, sua mão descansando no meu estômago nu. E assim, eu adormeço.

O quarto está escuro quando acordo muito mais tarde, a luz desligada em algum momento enquanto eu estava adormecida. Ainda estou nua, mas um lençol me cobre… Um que eu raramente uso… Um que permanecia guardado no armário. A

cama

parece

vazia,

nenhum

corpo

ao

meu

lado.

Instantaneamente, sinto o vazio. Sento-me, apertando o lençol à minha volta, e salto quando avisto uma forma nas sombras. Naz ainda está aqui. Ele está de pé na frente da minha cômoda, completamente vestido, segurando uma fotografia em uma moldura, que pegou de lá. É uma foto da minha mãe e eu no dia em que terminei o ensino médio. É difícil de acreditar que foi há menos de um ano atrás. Sua cabeça gira para mim enquanto ele coloca a moldura de volta na cômoda. ―Você está acordada.‖


―Você também.‖ Eu digo. ―O que você está fazendo?‖ ―O que não devia.‖ ―E o que seria?‖ ―Pensar.‖ Eu rio ligeiramente, enrolando o cobertor mais apertado no meu corpo, enquanto eu observo seu rosto na escuridão. ―Em que você está pensando?‖ ―Estou pensando que gosto de você, e isso é um problema para mim.‖ O seu tom sério me assusta. ―Porque é um problema?‖ ―Porque não gosto de pessoas,‖ ele diz abruptamente. ―Eu lido com pessoas. É o que eu faço. Mas, raramente, eu gosto de alguém… Gostar delas o suficiente para querer lidar com elas de uma forma que não seja trabalho para mim.‖ ―Não percebo porque isso é um problema.‖ ―Porque não era suposto eu gostar de você, Karissa.‖ Estou perplexa, sem saber o que pensar disso. ―Quando você diz que gostas de mim, quer dizer...?‖ ―Eu gosto de você,‖ diz de novo, como se isso respondesse à minha pergunta. Ele faz uma pausa por um momento, olhando para a moldura na minha cômoda. ―Há alguma coisa em você... Uma coisa que procurei durante muito tempo. É uma coisa que sempre quis. E agora que encontrei, eu não sei se posso afastar." ―Então, não deixe,‖ eu digo. ―Você não sabe o que está pedindo,‖ ele responde. ―Não sou um homem que apenas desiste no meio de algo. Se eu for mais longe, se não me afastar agora, eu serei incapaz de me afastar.‖


―Eu não quero que você se afaste,‖ eu digo. ―Eu também gosto de você.‖ ―Você nem sequer me conhece.‖ Sua voz tem uma pontada de fúria por trás, um pouco de amargura que faz meu estômago dar um nó. ―Você também não me conhece,‖ eu digo. ―Você nem sequer sabe qual a minha cor favorita.‖ ―Rosa,‖ ele diz. ―Você sempre tinha alguma coisa rosa todas as vezes que te vi… A capa do seu telefone é rosa… Assim como seus lençóis.‖ Talvez essa tivesse sido fácil demais. ―A minha comida preferida.‖ ―Provavelmente diria miojo. Você aceita o que acha que merece, mas merece muito mais, quer você admita ou não. Você quer desfrutar. Você gosta de ceder aos desejos. É por isso que sua comida favorita é o chocolate.‖ ―Que tipo de chocolate?‖ ―Qualquer tipo de chocolate que consiga colocar as mãos.‖ Ok, ele está certo... Eu gosto de chocolate. ―Que tal o meu filme favorito?‖ ―Peter Pan.‖ Ele responde sem qualquer hesitação. Eu apenas fico olhando para ele espantada. ―Como é que você pode saber isso?‖ ―Facilmente. você ainda se vê como uma criança, e não uma adulta, como se acreditasse que nunca irá crescer.‖ Ele pausa, olhandome peculiarmente. ―Isso sem mencionar que você deixou um estranho te levar com promessas de magia, e ele teve você flutuando em um estado de euforia durante toda a noite.‖


―Eu, ah…‖ Que merda? ―Como…?‖ Antes de conseguir ter um pensamento coerente, ele ri e continua. ―Você tem uma cópia do desenho na sua prateleira. Há um pôster da Sininho ao lado da sua cama. Não foi um palpite difícil.‖ Eu me sinto pateta e estou imediatamente agradecida que o quarto esteja tão escuro que ele não consiga me ver corar. ―Bem, e que tal—‖ ―Não interessa.‖ Ele me corta enquanto se move para frente, perto da cama. ―Poderíamos jogar esse jogo toda a noite, Karissa, mas essas coisas não querem dizer nada. Minha cor favorita é preta, minha comida favorita é bife e se eu tivesse que escolher um filme seria Doze homens e uma sentença, mas isso não te diz quem eu sou.‖ ―Quem é você, então?‖ Ele dá outro passo para frente, tão perto que posso ver o azul dos seus olhos agora. Ele fica olhando para mim na cama, sua expressão séria. ―Alguém de quem você deveria ficar afastada.‖ Essas palavras me fazem tremer. Acredito nele — ele tem uma forma de fazer alguém acreditar no que quer que ele diga — mas, mesmo assim, elas não conseguem parar os sentimentos traiçoeiros. Talvez eu deva ficar afastada dele, mas eu não quero. Eu não acho que consigo. Em vez de responder, tento alcançá-lo, passando minha mão pela sua coxa. A necessidade de o tocar ainda perdura em mim. Seu reflexo é surpreendentemente rápido quando agarra minha mão, parando-a na sua perna, seu aperto forte. ―Estou lhe dizendo,‖ ele diz, sua voz tensa. ―Estou lhe avisando. Não sou um homem bom, Karissa, e eu nunca serei. Por isso não pense que pode me consertar, ou que alguma vez mudarei, porque


não vou mudar. Eu não posso. Você tem que saber, se isso for mais longe, se me pedir para ficar, eu não vou conseguir deixar você ir.‖ Ele larga minha mão. Eu hesito. São apenas alguns segundos — segundos de pensamentos, algo que passei toda a minha vida fazendo, antes de me permitir sentir, a única coisa que me trouxe mais prazer do que nunca. Os segundos parecem uma eternidade enquanto ele olha para mim, nossos olhares presos, como se ele estivesse me desafiando. Ele está à espera da minha decisão, esperando para ouvir o veredito, como se eu fosse aqueles doze homens zangados com a sua vida em minhas mãos. Minha mão passa pela sua coxa de novo e arranha sua virilha, entregando o veredicto final — ele não está condenado, mas talvez eu esteja. Seus olhos derivam fechados, um suave suspiro escapa de seus lábios entreabertos, e eu sei, então, enquanto eu sinto seu pau através do material de suas calças, endurecendo contra a palma da minha mão, que eu assinei na linha pontilhada. Estou dentro. Não é necessário, mas eu falo de qualquer forma. ―Fique.‖ Seus olhos reabrem, um sorriso escapando no canto dos seus lábios. ―Vermelho.‖ Meus olhos se arregalam. ―O quê?‖ ―Se alguma vez você precisar que eu pare, apenas diga vermelho.‖ ―Vermelho,‖ eu sussurro, arrepios passando pelos meus braços. Seu sorriso desaparece ao ouvir a palavra. ―Não a diga ao menos que precise. Se precisar que eu apenas me afaste, que vá mais devagar, que seja mais gentil com você, diga amarelo. Funciona como um semáforo. Entendeu?‖


Aceno com a cabeça, meu coração na garganta. Eu não tenho medo, mas droga, se ele não me deixa um pouco nervosa. Ele só me deu palavras de segurança. ―Você não vai, tipo, me bater, vai?‖ ―Não,‖ ele diz de imediato, sua voz forte. ―Eu nunca lhe baterei. E nunca lhe magoarei, a menos que você queira que o faça.‖ Não consigo imaginar alguma vez querer isso, mas a dor entre as minhas pernas, a memória da forma como me machucou antes, quando estava dentro de mim, envia um diferente arrepio pela minha espinha. ―São apenas uma segurança,‖ ele diz. ―No caso de eu ficar muito rude, no caso de me perder e você já ter tido o suficiente. Melhor prevenir, do que remediar, certo?‖ ―Certo,‖ eu balbucio, alcançando seu zíper. Começo a puxá-lo para baixo, quando ele pega na minha mão de novo, e a afasta rindo. ―Não esta noite.‖ Ele diz enquanto segura na minha mão. ―Preciso ir.‖ Arqueio as sobrancelhas. ―Você vai embora?‖ ―Sim,‖ ele diz. ―Tenho trabalho para fazer.‖ O meu olhar se desloca para o meu despertador. Uma hora da manhã. ―Agora?‖ ―Sim,‖ ele diz de novo, levantando minha mão e dando-lhe um beijo leve na palma. Ele continua com um leve selinho nos meus lábios antes de me deixar e se virar. Não diz mais nada. Eu

fico

olhando,

desaparece pela porta.

observando

incrédula,

enquanto

ele


Capitulo 6 Os dias passam. Dias de nada. A dor de nosso encontro desaparece do meu corpo e outra dor se infiltra — a dor de não sentir o seu toque em dias. É uma espada de dois gumes, uma sensação estranha que eu nunca lidei antes. Eu me sinto tão vazia. É uma loucura. Eu sei. Eu sou louca. Ele está me deixando louca. Naz entrou de surpresa em minha vida e, em seguida, caminhou para longe no meio da noite, me oferecendo nada mais do que um doce beijo de despedida. Eu não sei o que fazer sobre isso. Eu não sei o que fazer comigo mesma. Passo os dias alternando entre me esconder no meu quarto e me aventurar na cidade, voltando para o meu mundo de solidão e comida barata. E afundo na miséria. Eu afundo. Ugh, eu sou patética. Isso não sou eu. Eu não desmorono por caras. Eu não lamento, e me estresso, e afundo.


Então por que estou fazendo isso? Depois de olhar para o meu telefone, provavelmente, pela centésima vez, esperando o bastardo tocar, lanço-o para o lado com um gemido. Eu poderia chamá-lo; Eu deveria chamá-lo. Mas continuo esperando que ele me chame. Estou me tornando uma daquelas meninas. Estou me transformando em Melody. Falando de Melody, ela volta amanhã, e não tive notícias dela nenhuma vez. Eu sei que ela está ocupada, em férias com os amigos que ela conhece há anos, então não estou surpresa, mas admito que dói perceber que estou tão sozinha. Não quero dizer no sentido de que não tem ninguém no lugar. Quero dizer no sentido de que ―eu poderia desaparecer e ninguém notaria.” Um toque estridente ecoa pela sala. Eu pulo, meu coração acalma poucos segundos antes de olhar para a tela. Por favor, seja Naz. Por favor, seja Naz. Por favor, seja Naz. É minha mãe. Corte isso. Alguém iria notar. Ela notaria. Suspirando, caio na minha cama enquanto atendo. "Hey, mãe." "Hey, Kissimmee! Como você está?" "Ótima. E você?" Ela soa bem, confirmando quando ela se lança em histórias de Watertown, fofocando sobre as pessoas em torno da cidade. Vagamente me lembro da maioria deles, mas escuto e, ocasionalmente, falo. Eu me preocupei em deixá-la sozinha quando me mudei para a cidade, mas ela


parece estar se saindo bem. Atrevo-me a dizer melhor do que eu hoje? "Você tem certeza de que está bem, querida?" Ela diz depois de um momento. "Você está muito quieta." "Sim, eu estou bem. Só... Entediada." E sozinha. E com fome. Eu sou uma bagunça. "Você devia ter me visitado esta semana," diz ela. "Nós poderíamos ter passado algum tempo juntas." "Eu sei... Vou ver você em breve, apesar de tudo." "Mal posso esperar," diz ela. "De qualquer forma, eu deveria ir. Ligo para você mais tarde, ok?" Nós desligamos. Lanço meu telefone para baixo, esperando que ele toque de novo. Isso não acontece. Eu finalmente desço as escadas, pegando algo para comer na sala de jantar, enquanto ela está aberta. Há pouca coisa, alguns alunos rondam o prédio. O sol ainda está brilhando quando volto para cima. Abro meu livro de filosofia, tentando chegar à frente sobre ele, mas acabo caindo no sono com o livro sobre meu peito. Sou despertada muito mais tarde por um ruído. O quarto está envolto em escuridão, um brilho suave está em minha mesa ao lado da cama. Meu telefone. Alcançando-o, eu o pego e olho para a tela quando ele toca. Naz. Eu respondo provisoriamente. "Olá?"


"Você estava linda hoje." Sem olá. Sem saudação alguma. Estou atordoada. Linda? De onde é que isso veio? Meus olhos são atraídos para baixo, para mim. Eu nem sequer mudei meus velhos pijamas surrados em, talvez, dois dias. "Como você sabe?" "Eu vi você." Meu estômago está em nós. Ele me viu? "Onde?" "Em meus sonhos." No momento em que ele diz, um sorriso ilumina meu rosto. "Você estava fodendo comigo?" "Não, mas eu gostaria de estar fodendo você." Eu rio drasticamente. Meu corpo se aquece com essas palavras. Como ele faz isso, suas respostas tão escorregadias, tão rápido? "No entanto, sei que você estava linda hoje," ele diz. "Não estava mentindo." "Como?" "Porque você sempre está." Não tenho certeza de como responder a isso. Começo a gaguejar. Trinta segundos no telefone e já me transformei em uma tola chorando por causa deste homem. Ele ri, genuinamente divertido. "Boa noite, Karissa." Antes que eu possa responder, ele desliga. Fico olhando para o telefone, mordendo meu lábio inferior, enquanto eu sussurro, "boa noite", no quarto silencioso. Por mais bobo que seja, eu me sinto um pouco melhor.


Pelo menos ele não se esqueceu de mim.

Domingo à tarde se arrasta, cada minuto como uma hora, cada maldita hora perto de mais um dia inteiro. O dormitório ganha vida no meio da tarde quando as pessoas estão voltando. Posso ouvir nossos companheiros através das paredes finas, retornando de onde quer que tenham ido. Eu não sei. Realmente não me importo com qualquer um. Sou uma péssima vizinha. Estou sentada na minha cama, com os joelhos puxados para cima, olhando para o livro apoiado contra minhas pernas, quando a porta voa aberta. Melody entra, trazendo suas malas junto, e solta um gemido, em vez de uma saudação. Olho para cima, enquanto ela descarta suas coisas pela porta e entra em colapso em sua cama. "Oh Deus, estou exausta!" Diz ela. "Você parece revigorada," eu indico. Na verdade, ela parece diferente, um sol deu brilho para ela. Seu cabelo está quase loiro platinado, branqueado dos raios do sol, enquanto sua pele agora está com um bronzeado profundo. É incrível o quanto alguém pode mudar em uma semana. "Revigorada?" Ela rola para o lado para olhar para mim. "Eu me sinto como se tivesse sido espancada!" "Você foi?" Pergunta válida com Melody, que ela responde com um sorriso


malicioso. "Uma dama nunca conta." Rindo, fecho meu livro e me sento. "Ainda bem que você não é uma dama, então." Melody dá a língua antes de começar a soltar detalhes de sua viagem. Pensei que eu iria sentir uma pontada de ciúme, ouvindo tudo sobre suas aventuras, mas estou me divertido mais do que qualquer coisa. Porque nada do que ela diz, não importa o quão exótico, bate o meu erótico. Você nadou com golfinhos? Você fez mergulho? Você tomou banho de sol de topless em uma praia linda? Bem, eu comi no melhor restaurante da cidade, bebi champanhe de mil dólares, e tive o meu cérebro fodido pelo homem dos meus sonhos. Deveria dizer a ela. Ela é minha amiga, talvez minha melhor amiga, sem dúvida, a minha única amiga. Eu deveria contar a ela sobre ele. Ela está sempre me dizendo sobre suas aventuras, e raramente tenho alguma coisa para compartilhar em troca. Eu vou dizer a ela. Eu vou. Eu vou. "Então, o que você fez essa semana?" Ela pergunta. Mas não agora. Talvez mais tarde. "Você sabe, pouco disto, pouco daquilo." Muito daquilo. Ela enruga seu nariz com a minha resposta fraca e lança-se de volta para suas histórias. Estou vagamente ouvindo, sua semana de Girls Gone Wild16, quando ela começa a falar sobre alguém chamado

16

Referência a música da cantora Madonna.


Paul. "Quem é Paul?" Eu pergunto, interrompendo. "Oh, você conhece Paul," diz ela, abanando a mão. Paul Newman? Paul Bunyan? Peter, Paul e Mary? Eu não conheço ninguém chamado Paul. "Refresque minha memória." Melody revira os olhos, um leve rubor de seu rosto enquanto ela rola sobre sua barriga em sua cama para olhar para mim do outro lado da sala. "Ele é o cara da Timbers. Lembra? Sr. Top Gun?" "Eu pensei que ele fosse Pat," eu digo, "ou Pete." "Sim, eu também, mas não... É Paul. Ele é tão legal. Ele é apenas... Ele é tudo. Eu nunca conheci alguém como ele." Minha testa franze. Eu não tenho certeza do que ele tem a ver com a viagem. "Ele não ficou no seu resort ou algo assim, não é?" "O quê? Não, claro que não. Isso seria louco se um cara apenas aparecesse onde quer que eu fosse. Perseguidor." Conte-me sobre isso. "Ele me ligou, embora," ela continua. "Disse a ele que depois daquela noite na Timbers, eu realmente não esperava ouvir dele. Mas ele ligou, e nós conversamos, e ele é incrível. Nós temos muito em comum." "Isso é ótimo." Ele me incomodou, e não confio nele depois do incidente com a bebida, mas minhas advertências caíram em ouvidos surdos para ela. Ela parece feliz, e acho que isso é o que importa. "Então, você vai vê-lo de novo?" "Claro que sim!" Antes que eu possa questioná-la mais, seu telefone toca. Melody sai da cama, todos os vestígios de exaustão foram


embora enquanto ela se lança para sua bagagem e a revira. Ela pega seu telefone, olhando para ele, e guincha. "Ele me mandou um texto que diz: 'Ei, sexy, você chegou?' Você ouviu isso? Ele me chamou de sexy?!" Ela ri enquanto se joga de volta em sua cama, sua atenção fixa no telefone quando ela responde a ele. Meus olhos derivam da minha companheira de quarto para o meu próprio telefone, silencioso e imóvel na mesa ao meu lado. Eu ficaria com linda ao invés de sexy qualquer dia.

"Felicidade." Santino fica na frente da sala, segurando seu bastão de madeira favorito. É longo e grosso, sem dúvida, maior do que ele, com uma ponta de metal afiada como um punhal. Acho que ele está compensando algo. Ele a bate contra o grande quadro-negro, acertando a palavra escrita em letra maiúscula. FELICIDADE. Estou prestando atenção vagamente, minha mente deriva, enquanto Melody senta na cadeira ao meu lado, rabiscando nas margens do seu caderno. Espio seu lado, revirando os olhos quando vejo que ela está desenhando corações ao redor do nome Paul. "Quem quer levantar e me dizer o que felicidade significa?" Santino pergunta, examinando a sala de aula por voluntários. Mãos atiram para cima, os puxa sacos que se ofereceriam para engraxar os sapatos do homem, se ele deixasse entender que estavam sujos, seguido por alguns outros voluntários hesitantes. As


respostas são esperadas a partir deste grupo, um monte de besteira idealista dobrada com algum materialismo. O cara do outro lado da sala grita algo vulgar, fazendo a classe rir, enquanto Santino aponta seu bastão para ele com reprovação. "Sair do inferno desta classe," diz Melody baixinho. "Essa é a minha felicidade." "Nem me diga," murmuro. "Hora mais longa de sempre." "Ah, senhorita Reed," Santino diz, balançando em nossa direção, seus olhos vem a meu encontro através do mar de estudantes, como se ele tivesse um radar que está sintonizado diretamente para mim. "Isso foi a sua voz que eu ouvi? Você gostaria de dialogar com a sua resposta?" "Uh, a verdadeira felicidade é ter uma profunda sensação de bem-estar, paz, e vitalidade," eu digo, lembrando-me de ler no material. "É estar grato por estar vivo." "Isso é verdade," diz ele, "mas não é isso que eu lhe perguntei.‖ Estou momentaneamente pega de surpresa pela sua resposta afiada. "Você vê, se eu quisesse a definição do livro, eu o teria lido", continua ele, batendo o livro em sua mesa com o bastão. "A questão era a sua definição. Preste atenção na próxima vez em que fofocar com a senhorita Carmichael." "Desculpe, senhor." Ele olha para mim, erguendo as sobrancelhas. "Bem? Sua definição?" "Eu, uh..." Eu posso sentir o olhar dos meus colegas queimando através de mim, esperando. "Eu não sei."


"Você não sabe", ele ecoa. "Você não sabe o que faz você feliz?" "Bem, com certeza, mas a felicidade não é realmente uma coisa," eu digo. "É um estado de espírito." Ele não parece nem um pouco entretido. "Um estado de espírito ou um estado de ser?" Hesito antes de me repetir. "Um estado de espírito. É apenas a maneira como você olha as coisas." O canto de seu lábio se contrai, mas não com diversão. Ele parece que pode ter uma explosão de vasos sanguíneos se eu continuar falando. "Você pegou toda sua visão filosófica do reino da narrativa infantil, senhorita Reed, ou apenas seus pontos de vista sobre a felicidade?" Eu empalideço, ouvindo a onda de fluxo de risos pela sala. Começo a balbuciar uma resposta quando ele vira as costas, apontando para o quadro-negro, um sinal que diz que ele acabou com a minha merda. "Albert Einstein disse que uma mesa, uma cadeira, uma tigela de frutas, e um violino eram felicidade para ele. É claro que todo mundo define de forma diferente... Alguns de nós não pode definir, de qualquer maneira." Eu escorrego para baixo em minha cadeira envergonhada, enquanto Melody se inclina para mim, sussurrando: "Por favor, diga-me que você não estava citando Seuss novamente." "Walt Disney," murmuro tão silenciosamente como posso ser, mas com base na maneira como o olhar de Santino veio para mim novamente, suspeito que ele saiba que eu estava falando. A aula acabou poucos minutos depois. Estou fora do meu assento quando Santino grita, "Duas páginas sobre o conceito de verdadeira felicidade na quinta-feira! Vou ter suas notas intermediárias baseadas neles."


A classe geme atrás de nós. Melody anda do meu lado, suspirando enquanto ela desliza sua bolsa. "Você não poderia ser normal e dizer orgasmos?" Rio, balançando a cabeça. Não podia dizer isso, mas é claro, não irei contrariá-la. A simples menção da palavra provoca um formigamento dentro de mim, a memória do caminho que Naz fez com seus dedos quando eu gozei para ele. Essa é, sem dúvida, a felicidade. Isso era o céu. Eu poderia escrever o próximo grande romance americano sobre ele. "Você me conhece," eu digo. "Gosto de manter as coisas interessantes." "Sim, bem, você deve ser cuidadosa," diz ela. "Você sabe que ele gosta de torturar os alunos. É, tipo, preliminares para ele, e se você continuar assim, você pode acabar sendo a única fodida." Parece que eu já estou nesse caminho, e tem sido desde o primeiro dia em que pisei em sua sala de aula. Ele tinha ido para baixo na lista, fazendo sua primeira e única votação nominal, reconhecendo cada um de nós individualmente. Tática do susto, Melody disse... Nada mais terrível do que ter Satanás falando seu nome. Ele tinha alcançado o meu nome nesse dia e hesitou, procurando-me. Os outros ele simplesmente assentiu com a cabeça antes de passar, mas ele me encarou naquela tarde com um olhar que ele sabia que eu não pertencia àquele lugar. Nós fazemos o nosso caminho para o dormitório, caminhando sem pressa, a viagem de dez minutos durado o dobro disso. Assim que chegamos ao nosso quarto, Melody cai em sua cama, enquanto os meus olhos são atraídos para o telefone do quarto, o pequeno botão sobre ele


piscando em vermelho. Nós nunca o usamos, sempre apenas lembrando que está lá quando a escola chama. Eu pego o receptor e pressiono o botão para ouvir a mensagem automática. "Por favor, venha até o prédio de centro de recursos esta tarde para pegar um pacote. Obrigado." Suspirando, eu desligo o telefone e vou para a porta. "Eu estarei de volta." "Aonde você vai?" "Há um pacote ou algo esperando lá embaixo." Desço de volta para o lobby, esperando a minha vez no guichê do centro de recursos para pegar o que foi deixado lá. Assim que é a minha vez, vou até a mulher da recepção e seguro minha identificação da faculdade para ela. "Recebi uma mensagem para pegar alguma coisa." Ela soca em seu computador. "Ah, sim, 1313." Inclino-me para trás contra a parede ao lado do guichê, esperando-a pegar o pacote, quando ela me dá um vaso cintilante cheio de rosas de caule longo no balcão. "Aqui está," diz ela, sorrindo docemente. "Karissa Reed." Meus olhos se arregalam quando olho para as flores. Elas estão em tons vibrantes de rosa, três dúzias delas do que eu posso ver. Estou pensando que deve haver algum tipo de engano, uma espécie de mistura. "Tem certeza que estas são para mim?" "Uh, sim," diz ela. "Positivo." Lentamente, pego o cartão de onde se destaca no centro do arranjo. Puxo-o para fora do pequeno envelope e abro, vendo que é, inegavelmente, a letra de um homem.


Uma dúzia para cada noite que você passou comigo. -Naz

Estou atordoada. Só olho para o cartão por um momento antes de olhar de volta para as rosas. A senhora da recepção está me olhando com cautela, como se ela estivesse com medo que eu possa pegar o vaso e lançá-lo em sua cabeça. Murmuro meus agradecimentos, agarrando o vaso para sair. É mais pesado do que eu esperava. Eu

o

levo

para

cima,

atordoada,

apenas

sorrindo

educadamente quando uma garota faz comentários no elevador sobre elas. Quando eu chego ao quarto, Melody está de pé na frente de sua cama, segurando um vestido preto familiar. "Ei, você sabe o que aconteceu com meu—?" Ela não termina sua pergunta, mas sei o que ela está perguntando. Eu arruinei. Ou Naz fez. Minhas bochechas ficam vermelhas. Ah merda. Os olhos de Melody me procuram, e ela fica tensa quando ela olha para as flores ostensivas em minha mão. "Merda, não é seu aniversário ainda, não é? Por favor, me diga que não esqueci seu aniversário." "Não," eu sussurro, tirando as coisas para fora do caminho pelo quarto para colocá-las na minha mesa ao lado da minha cama. "Apenas um presente." Melody me assiste incrédula, deixando cair o vestido em uma pilha de roupas sujas, esquecendo tudo sobre ele. "A vantagem de ter uma mãe que é dona de uma loja de flores, né?" Eu dou de ombros sem me comprometer.


Não a corrijo. Sou uma amiga terrível. Seus olhos se voltam para as flores na minha mesa, e ela está em silêncio por um momento. Espero por ela para me questionar mais, mas ela não faz, um sorriso levantando seus lábios. "Vadia sortuda." Eu rio. Sorte? Pode Ser. Naz certamente me faz sentir assim. Melody deita em sua cama novamente, abraçando-se com seu travesseiro para tirar uma soneca depois de uma manhã cheia de aulas. Sento-me com o meu livro de filosofia, na esperança de ter um começo do meu artigo sobre a felicidade, querendo impressionar Santino após a aula desastre que acabo de ter. Tento me concentrar — tento, e tento, e tento — mas minha atenção se mantém nas flores. A fragrância doce no ar em torno de mim, fazendo cócegas em minhas narinas sempre que respiro. Meus lábios se mantém contraindo enquanto luto contra um sorriso. Sinto que a verdade está estampada em meu rosto, brilhando como um sinal de néon no rubor das minhas bochechas. O ronco suave de Melody enche o quarto de tranquilidade depois de um tempo. Olho para ela, certificando-me de que ela está dormindo, e contemplo por um momento antes de pegar meu telefone. Meu dedo paira sobre o nome de Naz em meus contatos. Pressiono, meu coração batendo freneticamente enquanto trago para o meu ouvido. Ele toca. E toca. E toca. Estou perto de desligar quando a linha clica e ele me


cumprimenta com um suspiro exagerado. "Bem, olá." Sua voz é mais áspera do que o habitual. "Eu não o acordei, não é?" "Você acordou," ele confirma. "Sinto muito," digo. "Não sabia. Recebi suas flores e queria lhe agradecer." "Ah." Posso ouvi-lo bocejar através da linha. "Então, elas foram entregues?" "Sim." Espreito através do quarto, certificando-me de que Melody ainda está adormecida antes de continuar. "Nós realmente só passamos duas noites juntos, apesar de tudo." "Você está se esquecendo da primeira noite," diz ele. "Não é de estranhar, porém, desde que você estava apagada." "Mas nós não..." Minha voz cai ainda mais baixa. "Você sabe." Ele exala novamente, em voz alta, mas desta vez não é de sua exaustão. É frustração. "Eu não as enviei por dormir comigo, Karissa. Não se degrade pensando que você vale isso. Enviei porque sou grato." "Grato pelo que?" "Por você." "Bem, obrigada" digo. "Então como deixei passar que eu gostava de flores? Será que eu vesti uma camisa florida ou cheirei a rosas ou algo assim em algum dia?" Ele ri. "Não, foi apenas um palpite dessa vez. A maioria das mulheres gosta de flores." "Eu provavelmente gosto delas mais do que a maioria," digo. "Minha mãe cultiva flores para viver." "É mesmo?" Ele parece genuinamente interessado. Há muita


coisa sobre os homens que acho atraente, mas um homem que realmente escuta está em uma liga completamente diferente. "Sim, então eu meio que tenho um fraquinho por elas, eu acho. Deixa-me um pouco com saudades de casa." "E onde está sua casa, afinal? A estação de correios em Syracuse?" Eu rio, empurrando meu livro de filosofia de lado para me deitar. "Perto o suficiente. A casa é... Bem, eu não sei. Mudamos-nos muito quando eu estava crescendo, por isso não é realmente um lugar para mim. São mais as pessoas. Ou a pessoa, de qualquer maneira." "Sua mãe," ele adivinha. "A florista." "Sim." "Eu vou ter que manter isso em mente," diz ele. "Estou feliz que você goste das flores." "Elas foram uma agradável surpresa." Fico olhando para elas na minha mesa. "Estava começando a pensar que talvez você tivesse se esquecido de mim." "Por que você acha isso?" "Eu não ouvi de você," eu digo. "Ainda não vi você." "Isso não é por falta de lembrança," diz ele. "Estive ocupado com o trabalho, mas você esteve na minha mente. E você pode me ver a hora que quiser, Karissa. A qualquer momento. Basta dizer a palavra e sou seu." "Hoje à noite?" Sussurro. "Que tal agora?" Ele sugere. "Posso estar aí em uma hora." Meus olhos vão para Melody, ainda dormindo em sua cama. "Você pode fazer isso em duas?"


"O que você quiser," diz ele. "Vejo você depois, então." Ele termina a chamada, e eu coloco o meu telefone de volta para baixo, incapaz de lutar contra o sorriso desta vez. Ele está se acumulando dentro de mim ao ponto de sentir que vou explodir. Soltei um grito silencioso, chutando minhas pernas na minha cama e cerrando os punhos, incapaz de contê-los. Eu salto e faço a varredura do quarto ansiosamente, agarrando o meu roupão antes de correr para o banheiro, com cuidado para não acordar Melody. Tomo banho, depilo-me e me estresso, a vertigem me deixando nervosa. Eu fico sob o jato quente até meus dedos ficarem que nem ameixas. Saio, entupo-me de hidratante, deixando cada centímetro do meu corpo suave como seda, revestido com um toque de fragrância. Voltando para o quarto, de roupão, toalha na minha cabeça, encontro Melody sentada em sua cama, acordada de novo, procurando através de sua mala. "Hey," diz ela, sem sequer olhar para mim. "Paul ligou, quer me encontrar. Nossas próximas aulas estão lado a lado." "Sério?" "Sim, não é alguma coisa?" Diz ela, sorrindo. "Então, nós vamos a pé para a aula juntos e, em seguida, ter algum jantar mais tarde." "Legal." "Você quer vir?" Ela levanta as sobrancelhas quando lança os olhos para mim. "Seria bom para conseguir algo que não seja de uma lata ou da sala de jantar." "Sim, eu vou passar," digo. "Obrigada, entretanto." "Tem certeza?" "Sim. Você e Paul se divirtam."


Ela se levanta, pegando suas coisas e as juntando. "Bem, deixe-me saber se você mudar de ideia e vamos nos encontrar em algum lugar, certo?" "Ok." Não vou mudar minha mente, mas não digo a ela, aliviada que não vou ter que tentar explicar por que estou me vestindo para sair no meio da tarde. Eu sei que deveria lhe dizer a verdade — estou quebrando todas as regras que a minha mãe sempre me ensinou e violando o código de amizade me esgueirando desse jeito. Certifique-se que alguém sempre saiba com quem você está e o que você está fazendo, como eles podem encontrá-lo, e nunca — jamais — vá a algum lugar sem que um amigo saiba. É um pacto silencioso, que eu já violei de novo e de novo, e nem sei por quê. Mas eu não posso dizer nada. Não estou pronta para contar a ninguém. Há algo emocionante, algo arrepiante, sobre ter algo que é todo meu. Vivi uma vida de sigilo desde que nasci, uma vida de incerteza por causa das maneiras peculiares da minha mãe, mas isso é outro nível. Não consigo nem explicar. É como entrar em um mundo diferente, em um mundo muito diferente do meu — um mundo onde eu não sou apenas outra pessoa... Eu sou um tesouro. Ele me faz sentir como o sol, o mundo girando em torno de mim, e eu não estou pronta para convidar todos os outros para o nosso universo. Naz é o meu próprio cavaleiro, destemido e generoso, embora eu suspeite de que sua armadura brilhante pode estar escondendo um pouco de escuridão. Em vez de me colocar em guarda, o pensamento me intriga. Visto um jeans e um suéter rosa claro, pegando um lenço para


completar a roupa, e tiro um tempo para arrumar meu cabelo, deixando-o para baixo e ondulado. Coloco maquiagem, passando batom do mesmo tom que a minha blusa. Uma vez que estou pronta, pego minha bolsa, certificando-me que tenho as minhas chaves, identidade e telefone antes de sair. Mantenho a minha cabeça para baixo, não querendo correr e estar adiantada. Saio, andando até a esquina da garagem do estacionamento, quando a Mercedes preta chega. Timing perfeito. Não lhe dou tempo para sair e abrir a porta para mim, subindo ao lado dele de imediato. Ele está vestido como de costume, terno preto, gravata escura, o cabelo uma onda sexy. Ele não fez a barba, a barba mais espessa hoje do que eu já vi antes. O perfume masculino de sua colônia enche o carro. "Você está bonita," diz ele, virando os olhos para mim enquanto ele puxa de volta para o tráfego. "Está com fome?" "Um pouco," admito. "Você não tem que me levar a qualquer lugar, embora." "Bobagem. Preciso comer também. O que você quer comer?" Antes que eu possa dar uma resposta, ele corta de novo. "E não diga ‗qualquer coisa‘ ou ‗tanto faz' ou 'não importa' porque essas não são respostas." "Uh, eu não sei." "Isso não é uma resposta, também." "Tudo bem. Pizza." "Entrega, para viagem, ou comer lá?" Eu rio. "Comer lá, eu acho." Ele balança a cabeça uma vez, entendendo-me, em seguida,


dirige em silêncio. Olho pela janela lateral como a cidade voa, observando enquanto ele me leva direto através da ponte no Brooklyn. Ele dirige por dentro do bairro para uma seção que eu só estou familiarizada com a reputação, um bairro agitado e confuso. Pichações velhas cobrem a parte externa de alguns edifícios enquanto ele segue por uma rua lateral e para no meio do quarteirão, na frente de um edifício de tijolo velho. Parece muito como todos os outros lugares próximo, mas as pessoas do lado de fora na frente dele se amontoam em bancos, conversando enquanto esperam por perto. Naz estaciona no outro lado da rua, junto ao meio-fio debaixo de uma árvore. Fico olhando para o local, observando o pequeno sinal que indica que é uma pizzaria. Não esperava nada extravagante, mas isso... Isso não parece ser um lugar que Naz gostaria de frequentar. Ele me surpreende, no entanto. Ele me ajuda a sair do carro, pressionando a palma da mão nas minhas costas enquanto me leva para o outro lado da rua em direção à pizzaria. Percebo, quando nos aproximamos, que as pessoas sentadas do lado de fora estão à espera de mesas, mas Naz dá de ombros quando mostro para ele. Entrando na pizzaria, ele faz uma pausa e olha em volta. O local está cheio, cheio de clientes. O interior é uma diferença gritante do lado de fora, um tesouro escondido em um bairro decadente. Não sofisticado, mas não desleixado como imaginei do outro lado da rua. Leva apenas alguns segundos para Naz ser reconhecido. Um homem próximo olha para o nosso lado, fazendo uma dupla piscada, seus passos parando. "Vitale." Naz acena. "Você precisa de uma mesa?" Outro aceno de cabeça. "Chegando, meu amigo."


Estou espantada. Nem sequer tive a chance de dizer nada sobre isso antes de sermos levados através do restaurante, para uma pequena mesa que acabou de ser liberada. Ficamos ali por um segundo enquanto se apressam para limpar a área, antes de Naz puxar uma cadeira para mim. Deslizo para a mesa, olhando-o peculiarmente quando ele se senta em frente a mim. Ele pega um cardápio, com o olhar totalmente focado nele, mas o canto do lábio se transforma em um sorriso, mostrando a covinha para mim. Eu nunca vi alguém parecer tão francamente arrogante antes. Por que isso é tão quente para mim? "Então você ligou com antecedência de novo?" Pergunto, pegando meu cardápio. "Cobrou outro favor?" Ele ri com a minha pergunta. "Não, não desta vez." "Então, como você fez isso?" "Fiz o que?" "Você sabe o que," eu digo. "Você nem sequer disse uma palavra

para

o

homem

e

ele

arranjou

uma

mesa

para

você

imediatamente." "Ele me conhece." "Eu imaginei isso, Vitale." Ele se encolhe quando digo seu sobrenome, sua expressão caindo enquanto seu olhar abandona o cardápio para pairar sobre mim em vez disso. "Não me chame assim." Seu tom não é ácido, mas não é tolerante, definitivamente. Não é um debate, nem um pedido. É uma exigência. Minha pele se arrepia, esse olhar em seus olhos ressurgindo enquanto ele me fita silenciosamente antes de virar para o seu cardápio novamente. Posso


dizer que ele não está lendo. Ele está olhando para ele como se estivesse vendo através dele. Depois de um momento, ele volta para meus olhos novamente, o olhar escuro desaparecendo. "Eles são amigos da família. Nada mais. Ter uma família grande vem com regalias. Não acontece apenas em restaurantes, também. É todo lugar que vou. Acostume-se, querida." "É apenas estranho," murmuro, pegando meu cardápio. "Não sei se eu poderia me acostumar com isso." "Você vai," diz ele. "Porque isso vai começar a acontecer com você também." Eu ri disso. "Sim, claro." "Estou falando sério," diz ele. "Apenas espere." Revirando os olhos, olho para o cardápio, procurando algo para comer. Ao contrário da última vez que ele me levou para jantar, isso eu consigo ler. O garçom para enquanto ainda estou decidindo e Naz o cumprimenta rapidamente, pedindo uma garrafa de Paolo Bea Santa Chiara 2008. Eu não tenho ideia do que seja, mas do jeito que o garçom corre para pegá-lo, sinto-me com uma estranha sensação de déjà vu. "Você está tentando me embebedar de novo?" "Eu gosto de beber também, Karissa," ele responde. "Você se embriagar e se soltar é apenas um bônus." Rindo, brinco de chutá-lo por baixo da mesa. Ele sorri para mim, fechando o cardápio quando o garçom volta com a garrafa de vinho. Ele destampa e Naz assume, derramando para cada um pequeno copo antes de colocar a garrafa de lado. Nós pedimos uma pizza marguerita para dividir. O vinho é uma cor pêssego translúcido estranho e tem um leve sabor de laranja, descendo suavemente.


Naz me olha, seus olhos passam pelo meu rosto enquanto outro homem se aproxima de nossa mesa. Ele é mais velho, de cabelos preto penteado para trás e um bigode espesso, curto e atarracado. Ele sorri largamente, balançando a cabeça enquanto cumprimenta Naz pelo nome. Sobrenome. "Vitale." Naz não parece perturbado quando todo mundo faz isso. "Signore Andretti." Isso é tudo que eu entendo. Os homens lançam-se em uma conversa, as palavras saem fluentemente, mas cada pedacinho dela é estranho aos meus ouvidos. Italiano, presumo, a partir do tom suave e enunciações românticas. Ambos estão sorrindo, o ar ao redor deles é amigável. Naz ri depois de um momento que os movimentos do homem são para mim. Estou no meio da minha bebida, quase engasgando com o vinho quando sua atenção se desloca. "Si," diz Naz. Isso eu sei. Sim. "Ela é." A expressão do homem ilumina quando ele me olha, despejando algo tão rápido que as palavras se tornam um borrão juntas. Ele chega mais perto, segurando minha mão e dando um beijo na palma. "Sei incantevole!" Com os olhos arregalados, olho-o com cuidado. O homem deixa minha mão cair e se vira para Naz, dando-lhe um polegar antes de correr para longe. "Você fala italiano?" Pergunto, surpresa. Naz pega seu vinho. "Eu tenho um conhecimento básico." "Bem, o que foi que ele disse?" "Ele disse que você é linda." Estou surpresa. "E o que foi que você disse?" "Muita coisa," diz ele. "Agradeci-lhe a mesa e elogiei o vinho.


Ele é o proprietário, como você vê. Ele me perguntou como eu estava e quem era você. Eu lhe disse que estava ótimo e que você era alguém especial." Fico olhando para ele, essas palavras afundando. "Especial?" "Sim, especial," diz ele. "Não fique tão surpresa." "É simplesmente surreal. Continuo esperando que isso tudo seja um sonho." Ele toma um gole de vinho antes de colocar o copo na mesa e se inclinar mais perto, seu olhar intenso. "Quando coloquei os olhos em você, pensei a mesma coisa. Como eu poderia ter a sorte de encontrar você, em uma cidade tão grande? Pensei que eu tinha que estar sonhando." "Por causa de mim?" Posso sentir meu rosto ruborizar. "Mas eu sou apenas... Eu." "Você é especial, Karissa. Quero dizer isso." Nossa comida vem e dou uma mordida na pizza, a crosta não é muito fina, o queijo é apenas rico o suficiente e o molho suculento. É surpreendentemente delicioso por ter vindo de uma espécie de buraco na parede, e agora eu entendo porque Naz viria aqui. Eu a devoro enquanto Naz está em uma fatia, conversando, brincalhão, assim o vinho parece evaporar magicamente. POOF. Antes do jantar acabar, minha cabeça está confusa, meu corpo formiga, o ar entre nós está zumbindo como uma corrente elétrica. "Você está pronta para sair daqui?" Ele pergunta, enquanto coloca para fora o dinheiro para pagar a conta. Dou uma espiada no que ele faz, curiosa e estou aliviada ao ver que não é muito como a última vez que ele me levou para jantar.


"Claro." Engulo o resto do meu vinho antes de colocar o copo de lado. Ele se levanta e pega meu braço, balançando a cabeça em saudação ao garçom quando nós caminhamos para a porta. As pessoas são persistentes lá fora, reunindo-se em grupos, à espera de mesas. "Para onde estamos indo?" Ele vira os olhos para mim quando atravessa a rua em direção à Mercedes. O céu começa a escurecer, um tom rosado brilhando sobre tudo. "Aonde você quer ir?" "A qualquer lugar." "Isso não é uma resposta." "A qualquer lugar com você." Ele sorri. "Isso é um pouco melhor." Não é novidade, vamos para sua casa. Esperava que ele me levasse lá para cima, puxando-me direto para o quarto como da última vez que estivemos aqui, mas ao invés disso, ele ascende a luz para se instalarem no andar de baixo. "Você quer assistir a um filme?" "Uh, com certeza." "Há alguns DVDs na sala de descanso," diz ele, apontando para uma porta na sala de estar. "Vá em frente e escolha um." Caminhando na direção que ele aponta, eu passo pela sala de estar, meus passos vacilando bem na entrada da sala de descanso. É iluminada somente pelas janelas, mas eu tenho luz suficiente para ver tudo. A sala é enorme, possivelmente, até mesmo maior do que toda a casa que dividia com minha mãe em Watertown. Ao contrário do resto do seu lugar, que parece tão moderno e esterilizado, a sala de descanso é bem aconchegante. Ele gasta todo o seu tempo aqui, percebo. O mobiliário é de couro preto e bem desgastado, as mesas de


madeira combinando com os painéis das paredes. Parece haver uma linha divisória no meio, um tapete longo em tons de bordô e preto até a porta de entrada para a parede mais distante, dividindo-a em dois espaços diferentes. De um lado, há uma lareira com meia dúzia de estantes que revestem a parede, cada uma lotada com livros, uma mesa bem no centro rodeada por cadeiras. É um escritório e biblioteca em um lugar só. Mas do outro lado da divisória é um centro de entretenimento, um dos mais elaborados que eu já vi, com uma enorme televisão e com o que parece ser mais DVDs do que livros. É como uma sala de cinema, criada em frente de uma variedade de móveis cobertos de almofadas, aconchegante e acolhedor. Meus olhos saltam entre as seções da sala. Sinto como se eu tivesse dando uma espiada na alma de Naz. É muito mais complexo do que eu esperava. Faço o meu caminho para o centro de entretenimento e leio os títulos de filmes. Reconheço alguns, mas a maioria nunca ouviu falar. Ele tem um monte de filmes estrangeiros, um monte de filmes preto e branco, com alguns clássicos cult. Não é a ação típica que eu esperava ver, não é Duro de Matar ou Máquina Mortífera, não é O Exterminador ou Rambo. Pelo mesmo motivo, não há qualquer filme romântico, tampouco. E eles estão todos em ordem alfabética. Estranho. Estou

instantaneamente

curiosa

sobre

seus

livros,

perguntando-me o que um homem como ele lê, quando ouço seus passos atrás de mim, entrando na sala. Viro-me para encará-lo enquanto ele desamarra a gravata e a retira, jogando-a no final da mesa ao lado do sofá de couro preto. O paletó já se foi, sua camisa já não está mais dobrada, os sapatos faltando. Ele desabotoa seus dois botões de cima antes de fazer o trabalho em seus punhos e empurra as mangas


até os cotovelos. Jesus, ele parece sexy, ainda elegante, mesmo com a barba por fazer e despenteado. Bagunçado fisicamente, mesmo que nada possa deixá-lo dessa forma mentalmente. "Encontrou alguma coisa?" Ele pergunta quando se aproxima. Volto para os filmes, suspirando. "Não tem Uma Linda Mulher?" "Não." Posso ouvir o sorriso em sua voz. "Receio que não." Examino os títulos novamente quando ele anda atrás de mim, serpenteando o braço em volta da minha cintura e me puxando de volta para ele. Relaxo em seu toque, agarrando seu braço enquanto ele se inclina e beija o meu pescoço. Meus olhos se fecham trêmulos, os lábios macios e quentes contra a minha pele, enviando arrepios na espinha. "Basta escolher alguma coisa," ele sussurra. "Não acho que nós vamos prestar muita atenção, de qualquer maneira." Suas palavras levam-me a pegar o primeiro filme que vejo. Nem sequer olho para o nome. Naz o coloca e aperta o play enquanto sento no sofá e tiro meus sapatos. Ele se senta ao meu lado, relaxando, e envolve seus braços em volta de mim. Ele está certo. Eu não presto atenção no filme, e não sei se ele presta, porque eu fico lá e caio dormindo em seus braços.

Escuridão cobre o quarto quando acordo, exceto pelo suave brilho da televisão brilhando para mim. Está silenciosa, o filme acabou. A manta preta me cobre, suave e felpuda, dobrada em torno


de mim como uma criança escondida na cama. Minha cabeça está descansando em uma das almofadas do sofá, mas não há nenhum Naz em qualquer lugar para ser visto. Bocejo, sento-me e espreguiço, olhando ao redor, perguntando para onde ele foi e quanto tempo eu estive dormindo. Não há relógio aqui que eu já tenha visto. Como é que este homem controla o tempo? Alcanço a minha bolsa, procurando dentro dela e tiro meu telefone. Meia-noite. Tenho duas mensagens de texto de Melody, perguntando onde eu estou, e uma chamada não atendida de algumas horas atrás da minha mãe. Respondo a Melody para que ela não se preocupe, dizendolhe que estou com um velho amigo e para não me esperar, antes de colocar o telefone longe e ficar em pé. Estou nervosa quando saio pela porta, esperando que ele não se importe que eu vá para outro lugar em sua casa. Ele não está na sala de estar, e nem na cozinha. Eu subo as escadas, forçando meus ouvidos para ouvir sons, mas não ouço nada. Rastejo pelo corredor escuro, em direção ao banheiro, passando por portas fechadas. Não existem luzes acesas, nenhum sinal dele em qualquer lugar até aqui. Paro no corredor, suspiro e começo a me virar quando um movimento me assusta. Eu grito, pulo, quando alguém me agarra por trás. Alguém respira contra minha bochecha, com risos suaves no meu ouvido. "Eu a assustei?" Não consigo nem responder. Engulo grosso, agarrando meu peito, quando Naz me balança em torno dele. Através da escuridão, posso ver um pouco de seu rosto, seu corpo é uma mera sombra no corredor. Ele trocou de roupa, sem camisa e descalço, vestindo nada mais do que um par de calças de moletom escuro. "Uh, sim," gaguejo, meus olhos atraídos para seu peito nu. "Acordei e você não estava lá, e está ficando tarde, então pensei que...


uh, eu pensei..." Jesus, mal posso pensar olhando para ele. Agora que eu sei que elas estão lá, meus olhos são atraídos para sua pequena quantidade de cicatrizes, apenas ligeiramente visíveis, dispersas e veladas como estrelas em um céu nublado. Ele agarra as presilhas do meu cinto, enganchando seus polegares neles, puxando-me para ele e me levando para o seu quarto. "Você achou que deveríamos ir para a cama?" "Eu pensei que, uh..." Olho para o seu rosto, vendo a expressão séria. "Pensei que eu deveria ir." "Você deveria," diz ele, puxando-me contra ele, tão perto que posso sentir o calor de seu corpo esquentando minha pele "Mas você quer?" Não. Não, eu não quero. Seu sorriso arrogante me diz que não tenho que sequer verbalizar essa resposta. Não ofereço resistência quando ele me puxa através de seu quarto, despindo-me com as mãos de forma rápida e sem problemas, deixando-me ainda mais nua do que ele quando me leva para cama. Gritando, deixo escapar uma risada quando ele me pega e me coloca no centro de sua cama, sem perder tempo antes de se estabelecer em cima de mim. Ele beija a minha boca, meu rosto, meu queixo, os lábios no meu pescoço e no meu peito. Suspiro, minhas mãos correndo pelo cabelo macio quando sua boca encontra meus seios, seus lábios envolvem um mamilo e chupa. Seus dentes passam pela carne sensível enquanto arqueio com a sensação. Suas mãos agarram meus quadris, prendendo-me em cima da cama enquanto ele faz o seu caminho pelo meu estômago, beliscando e


lambendo, pequenos arrepios ricocheteando na minha pele quando ele suga com tanta força que eu tenho certeza que vai deixar uma marca. Eu não me importo se ele deixar. Uma parte de mim espera que ele deixe.


Capitulo 7 A felicidade é uma condição humana em que... ... O que acontece quando as pessoas decidem... ... Um estado de espírito se nós apenas... ... Besteira.

Felicidade é uma merda. Assim como esta dissertação estúpida. Suspirando, risco a linha e rasgo o papel do caderno, amassando-o e jogando de lado. Tenho trabalhado na dissertação por uma hora, tentando escrevê-la, já que é para entregar amanhã à tarde, mas isso é o melhor que eu posso fazer. E eu nem acredito nisso. É uma e meia, e ainda estou vestindo as roupas de ontem, tendo chegado aqui por volta de meio-dia. Eu deveria tomar banho e mudar de roupa, mas o pensamento de lavar o cheiro de Naz não me atrai. Estou exausta de não ter dormido e dolorida do sexo violento, e eu não quero nada mais do que voltar algumas horas e voltar para a escuridão e reviver aqueles momentos de novo e de novo. Isso era a felicidade. Felicidade é ser fodida tão forte que você mal consegue respirar, mal pode falar, não pode fazer nada, mas guincha como um porco enquanto ele lhe martela mais e mais, empurrando para


dentro de você tão forte, tão profundo, que você pode sentir o homem não só com seu corpo, mas também com a sua alma. Felicidade é acordar na manhã seguinte, mal capaz de se lembrar do seu próprio nome, porque o único que importava em horas era o dele, gritando tão alto que a sua garganta está dolorosamente em carne viva, como se o nome tivesse sangrado dos seus lábios. Algo me diz que Santino não vai gostar muito disso. Eu arranco essa página, também, e lanço-a no lixo, junto com a dúzia de outros rascunhos absurdos. Meus olhos se dirigem para o relógio, não porque eu não sei o tempo, mas porque estou desejando que fosse diminuir o ritmo, cada instante levando-me para mais perto a volta de Melody da aula para casa. Melody, que me mandou mensagem a noite toda e a manhã toda, preocupada, apesar de lhe dizer para não se preocupar. Melody, que definitivamente vai me torturar, como se ela fosse a GESTAPO17 e eu fosse culpada de traição. Estava preocupada com isso antes, quando Naz me levou para casa. Ele perguntou o que estava errado, de alguma forma sendo capaz de dizer. Eu disse que estava preocupada em como ia me explicar para Melody, e ele apenas deu de ombros e disse: 'diga a ela ou não diga a ela, o que você quiser.’ Eu não tenho muita escolha, honestamente. Ele não me deu muita escolha. A mordida de amor na minha garganta ordena tudo para fora. A felicidade é ter seu primeiro chupão, colocado lá por um conjunto de lábios macios que falam as palavras mais suaves que soam como música para seus ouvidos e sussurros para sua alma. Sim, a felicidade faz você falar em enigmas ridículos e criar

17

Nome da Policia secreta na Alemanha Nazista.


poesias pior do que William McGonagall18. Eu lanço o notebook de lado e deito na cama, deixando escapar um suspiro exagerado. Mal posso fechar meus olhos e a porta arremessa aberta. Melody caminha enquanto olho sua expressão cheia de alarme quando ela me olha cautelosa. "Jesus, Kissimmee, onde diabos você esteve?" "Eu estive... Fora." "Não me diga," diz ela, deixando cair sua bolsa antes de se jogar ao meu lado na minha cama. "Eu percebi quando você não estava aqui." "Eu lhe disse para não se preocupar." "Sim, bem, você não pode desaparecer durante toda a noite, sem esperar que eu não me preocupe. Você nem sequer voltou a tempo para a sua aula das oito horas!" "Como você sabe?" Eu pergunto. "Sua bunda preguiçosa não acorda até que eu esteja de volta de qualquer maneira." Ela revira os olhos, cutucando-me quando eu rio. Sua expressão

mostra

seu

divertimento

por

um

segundo

antes

de

desaparecer, com os olhos arregalados. "Isso é um chupão no pescoço? Oh meu Deus, é!" Ela tenta dar uma olhada melhor, mas eu bloqueio, empurrando suas mãos curiosas para longe. "Então, se for?" "O que você fez na noite passada?" Ela pergunta. "Não, risque isso. Com quem foi que você fez?" "Não é nada," eu digo, as palavras como uma mentira amarga na minha língua. "Ele é só um cara."

18

Poeta escocês que ganhou notoriedade como um poeta de baixa qualidade que não mostrava qualquer preocupação pela opinião negativa do seu trabalho. Escreveu cerca de 200 poemas.


"Só um cara?" Ela grita para mim. "Um cara sobre o qual você não me contou!" "Na verdade, eu lhe disse sobre ele. Você se lembra daquele cara da noite na Timbers? O que eu fui para casa?" Seus olhos se arregalam. "Então você dormiu com ele?" "Não." Hesito. "Bem, sim, mas não naquela noite." "Mas, depois daquela noite." "Sim." Ela parece dividida entre me abraçar e me bater, sua expressão vacilante. Ela finalmente cede e sorri, perfurando meu braço. "Sua puta!" Eu rio enquanto me movo para longe dela, chutando com minha perna e batendo-a no lado com ela. "Guarde o julgamento, vagabunda." Segurando as mãos para cima, ela ri. "Tudo bem. Então, ele é um aluno aqui ou algo assim?" "Ele é, uh... Ele não é um aluno. Ele é só um cara." "Eu, pelo menos posso ter um nome?" "Naz". Sua testa franze quando aceno. "Ele é mais velho que eu, vive no Brooklyn e é um administrator independente. Qualquer outra coisa que você precisa saber?" "Uh, sim." Ela me olha sério. "Quão grande ele é?" Eu a chuto novamente quando ela ri e se levanta, voltando para seu lado do quarto. Esperava mais perguntas, e posso ver que ela tem mais o que quer perguntar, mas ela as mantém para si mesma. Estou instantaneamente grata em tê-la como minha amiga. "Contanto que você esteja segura," diz ela, "e que eu saiba


onde você está." "Sim, mamãe." Ela pega um travesseiro e o joga em mim, prontamente o pedindo de volta, mas me recuso, aconchegando-me com ele na minha cama em vez disso. Com preguiça de recuperá-lo, ela dá de ombros e se deita, agarrando seu telefone do bolso. "Paul e eu estamos indo jantar hoje à noite. Você vai vir dessa vez?" "Depende," eu digo. "Aonde você vai?" "Eu não sei," diz ela. "Em algum lugar para comer uma pizza... Talvez em um dos outros bairros. Você sabe, sair da cidade um pouco. Você vai?" "Claro," eu digo, encolhendo os ombros. "Na verdade, eu conheço um lugar que você gostará." "Você conhece um lugar?" Ela pergunta incrédula. Eu rio. "Sim."

Paul

é

muito

mais

atraente

quando

não

se

veste

intencionalmente como um babaca dos anos oitenta, mas um ar de arrogância o rodeia, um sorriso de satisfação constantemente em seus lábios. Ele possui um Jeep Wrangler19, que parece como uma armadilha de morte, e dirige com a capota abaixada, meu cabelo soprando em todo o lugar no banco de trás enquanto ele acelera pelas ruas, entrando e saindo do tráfego, no nosso caminho para o Brooklyn. Eu temo pela minha vida, cada segundo da viagem me fazendo 19

Modelo de carro.


desejar que eu tivesse ficado para trás. Pelo menos não estou correndo em direção a uma morte ardente. "Eu ouvi falar desse lugar," Paul grita sobre o som do vento soprando ao nosso redor. "Eles dizem que é uma merda para conseguir uma mesa." "Sim,‖ eu respondo. "Mas vale a pena, porém." Nós vamos para a mesma pizzaria que Naz me levou ontem à noite, tendo que estacionar na rua debaixo. Paul caminha à frente de nós, enquanto Melody fofoca em minha orelha. Algumas pessoas esperam do lado de fora por mesas, mas não está tão ruim quanto da última vez. Damos um passo para dentro, solicitando uma mesa da jovem anfitriã. Paul fala com ela — flertando com ela, bem na frente de Melody — e ela anota nossos nomes para uma mesa para três. "Vai ser cerca de trinta, quarenta minutos," diz ela. "Irei chamá-lo quando a sua mesa estiver pronta." Caminhamos para fora para esperar em um dos bancos. Um homem abre a porta para nós, segurando-a, seu olhar se encontra com o meu. Eu o reconheço... O proprietário... O homem que Naz falou quando estivemos aqui. Eu sorrio educadamente, passando por ele, quando sua testa franze. Ele fala algo em italiano, algo que eu não entendo, antes de ele fazer um gesto para a recepcionista vir. Ele lhe diz alguma coisa, algo que eu novamente não compreendo, até que ele atinja a última palavra. "Vitale." A anfitriã me olha. "Ele diz que você é amiga especial de Vitale, que você estava aqui com ele." Eu posso sentir o rubor preencher meu rosto enquanto aceno. "Sim." O homem sorri largamente com a confirmação, agarrando minha mão e pressionando um beijo. Ele divaga por um momento antes


de se virar para a anfitriã, jorrando para fora outra coisa. Ela balança a cabeça, e ele caminha para longe. A anfitriã pega três cardápios, fazendo sinal para nós a seguirmos. Melody olha para mim com surpresa, mas eu simplesmente dou de ombros, enquanto nós três somos levados direto para uma mesa que está apenas sendo esvaziada. Sento-me em frente à Melody e Paul quando a anfitriã coloca os cardápios para baixo, sorrindo para mim. "Mr. Andretti disse para enviar a Vitale seus cumprimentos," diz ela. "Para garantir que ele cuidou muito bem de você." "Uh, tudo bem," eu digo. "Eu irei." Naz não está aqui, ele não está em nenhum lugar da vizinhança, e ainda assim sua presença pode ser sentida. Ela vai embora, e olho para cima, pegando os olhos da minha amiga. Melody olha pasma. "Como você fez isso?" "Eu não fiz," murmuro, balançando a cabeça. "Naz fez." Somos servidos durante todo o jantar, a espera foi rápida e regada com comida extra. Uma garrafa de vinho é trazida para a mesa, apesar de nenhum de nós ter pedido, sem perguntas sobre a idade de ninguém. Paul se esbanja com a atenção, mas posso sentir o questionamento de Melody. Quando terminamos, Paul pede a conta enquanto Melody tira sua carteira. Sinto-me culpada, percebendo que ela é a pessoa a pagar por todos nós. O garçom balança a cabeça, sorrindo enquanto ele começa a limpar nossos pratos. "A conta já foi paga." Melody pergunta para ele. "Por quem?" O garçom diz que o pagador prefere manter o anonimato, mas eu não estou enganada. Um sorriso puxa meus lábios quando eu giro um pouco do vinho em meu copo, bebendo minhas últimas gotas. Eu


sei exatamente quem fez isso. Depois que saímos, eu paro na calçada perto da entrada. "Vocês vão em frente. Eu tenho outro lugar para ir." A testa de Melody franze e ela começa a me questionar, mas Paul lança seu braço por cima do ombro dela e a puxa para longe. "Legal. Vejo você mais tarde." Melody olha para trás, gritando que ela vai me ver de volta no quarto, quando retiro meu telefone e chamo um táxi. Ele leva um momento para aparecer, o passeio até a casa de Naz dura apenas alguns minutos. É preciso cada centavo no bolso para pagar a passagem. Vou até a porta da frente, batendo. É perto do crepúsculo, sua Mercedes estacionada na garagem. A porta se abre e ele aparece na minha frente, sua expressão em branco. Ele olha para mim, seus olhos mudando para a rua quando o táxi se afasta, antes dele encontrar meus olhos novamente. Ele está quieto por um momento, apenas olhando para mim, antes de finalmente falar. "Você teve jantar com um outro homem. Estou ofendido." "Você não pode estar muito ofendido," eu digo, "considerando que você pagou a conta." Ele sorri, não admitindo ou negando que foi ele, quando fica de lado para me deixar entrar. "Vou precisar de uma carona de volta para a cidade," murmuro, franzindo a testa, notando que ele já está sem o seu terno, vestindo o que eu chamaria de pijama, só que eu sei que ele não dorme neles... Naz dorme nu. Não tinha pensado exatamente nisso. "Você sabe, se você puder, se você não se importar... Se não vai ser uma longa caminhada." "Vou levá-la na parte da manhã."


"De manhã?" "Sim," diz ele, alcançando-me e cobrindo meu rosto, sua voz brincalhona quando ele acrescenta, "Você tem um jantar para me pagar esta noite."

"Disney World." Meus

passos

vacilam

no

meio

da

calçada,

perto

de

Washington Square, a uma quadra da sala de aula de Santino. "Sério?" Melody para de andar e se vira para mim. "Sim." "Você escreveu sobre Disney World?" Pergunto, precisando de alguns esclarecimentos. "Sim," ela diz. "Você sabe com Mickey Mouse e Pato Donald e Platão, o cachorro." Eu pisco algumas vezes. "Por favor, me diga que você não o chamou de Platão." "Claro que não." Ela ri. "Eu escrevi sobre as princesas, ou seja, Cinderela, e todo o conceito de viver felizes para sempre. Quero dizer, é uma espécie de culpa sua, já que você citou Walt Disney na última vez. Ele ficou preso na minha cabeça. E, além disso, lá é o lugar mais feliz na Terra, certo? Isso é o que dizem.‖ "Certo," eu digo, começando a andar novamente. "Isso é o que eles dizem." "Por que, o que você escreveu?" Definitivamente não sobre Disney World. "Eu falei sobre filósofos como Aristóteles e seus pontos de vista sobre a felicidade."


Eu posso me lembrar exatamente de como eu o comecei: A felicidade não é tangível. É imensurável, não lucrativo, muitas vezes impraticável, e alguns argumentam indescritível. Você não pode ver a felicidade, ou sentir o cheiro, ou prová-la, ou ouvi-la, ou senti-la... Ou pode? Pensei que era muito brilhante, eu mesma, mas o que eu sei? Ela sopra um suspiro exagerado, fazendo uma careta. "Onde está a diversão nisso?" "Não é suposto ser divertido," eu indico. "É filosofia." "Que seja," diz Melody. "Não se tem diversão se os manos não podem ter nada. Falando nisso, Paul teve aula com Santino ano passado e ele disse que—" Eu não ouço qualquer outra coisa que ela diz, suas palavras caem em ouvidos surdos. Olho para cima, enquanto nos aproximamos do prédio de filosofia e meu coração faz uma batida antes de chutar em alta velocidade, batendo tão ferozmente que minha visão embaça em torno das bordas, obscurecendo tudo dentro de um quadro de escuridão. As borboletas estão tentando desesperadamente alçar voo. Minhas mãos estão tremendo, meus dedos formigando quando agarro as alças da minha mochila ao redor dos meus ombros. Saindo do prédio, a menos de cem metros a minha frente, é o homem que me deixou apenas algumas horas atrás, o homem que vejo, mesmo quando fecho meus olhos, impecavelmente vestido, como sempre. Naz. Ele anda alguns passos na minha direção e faz uma pausa, os olhos piscando para mim, mas sua expressão não mostra nada do reconhecimento que eu sinto por dentro.


Nada de emoção. Nada de vertigem. Minhas mãos começam a suar, meus joelhos tremem. Continuo caminhando ao lado Melody, tentando ouvir enquanto ela balbucia mais e mais, mas a sua presença súbita é chocante. Fico olhando para ele; esperando por ele para me ver. Seus olhos cintilam no meu caminho algumas vezes, caindo direto no meu rosto, mas ainda assim, ele não oferece nenhuma confirmação. Nenhum piscar de olhos. Nenhum sorriso. Nem mesmo um rosto se contorcendo. Meu estômago revira. Eu não tenho certeza o que fazer, o que dizer, o que pensar. No momento, eu não tenho certeza de nada. Ele só fica lá casualmente, cinquenta... Quarenta... Trinta metros na minha frente, e, eventualmente, se afasta, sua atenção vai para o edifício para o qual estamos caminhando na direção. Olho na mesma direção, vendo Santino perto da entrada, parecendo tão tenso como sempre, e segurando seu bastão como uma bengala. Olho entre eles curiosamente quando me aproximo, em última análise, olhando para longe de Naz, muito nervosa para encontrar seu olhar. Estou tão perto que eu posso sentir o aroma de seu perfume na brisa da tarde. Passo por ele, saboreando o pequeno momento em que eu inalo a essência do homem, quando sou sacudida em uma parada brusca. Ele agarra meu braço, balançando para encará-lo. Eu tropeço, piscando rapidamente, pega desprevenida enquanto encontro seus olhos. Um sorriso levanta seus lábios. "Você não vai nem dizer oi?" "Eu, uh... Eu..."


Eu não falo nada além de uma gagueira tola antes de suas mãos agarrarem minha cabeça, segurando meu rosto em suas mãos. Ele me beija, de repente, brutalmente, seus lábios com força, o beijo cheio de paixão. Suspiro quando o beijo de volta, surpreendida pela intensidade. Ele dura para sempre, mas pouco tempo antes de ele se afastar, ainda segurando meu rosto, seus olhos brilham com diversão. "Oi," eu sussurro, sem fôlego. Ele ri sobre sua respiração, os olhos me examinando e se inclina novamente para pressionar um beijo casto em meus lábios. Suas mãos derivam para baixo, esfregando o polegar numa marca fresca visível no meu pescoço. Ele parece admirá-la por um momento antes de soltar, virando-se para ir embora sem dizer mais nada. "Mas que porra?" Melody assobia no meu ouvido enquanto caminha ao meu lado. "Que diabos foi isso?" "Aquele era ele." "Ele? Tipo, ele?" Eu o observo atravessar a rua para a Mercedes, estacionada junto ao meio-fio, antes de me virar para minha amiga. "Aquele é Naz." "Jesus, Kissimmee, você não me disse que ele era o sexo com pernas." Reviro os olhos, incapaz de parar de corar, enquanto me afasto dela. "Vamos lá, estamos atrasadas para a aula." Olho para cima, enquanto nos aproximamos da porta do prédio, meu estômago caindo quando vejo Santino ainda de pé lá. Seu olhar está fixo no outro lado da rua. Ele muda sua atenção para mim, nada além de puro desdém em seus olhos. "Senhorita Reed." "Senhor." Ele se vira para Melody. "Senhorita Carmichael. Espero que as


senhoras tenham suas dissertações prontas." "Claro, senhor," Melody diz docemente enquanto avançamos. O homem está em uma forma excepcional hoje, batendo com o bastão contra sua mesa e me chamando tantas vezes que perco a conta. Logo antes da aula acabar ele passa nossas provas de volta para nós, parando em frente à minha mesa por um segundo. Estou olhando para o meu livro, começando nosso próximo artigo, mas eu posso sentir seu olhar no meu rosto. Eu lanço uma espiada, encontrando seus olhos enquanto ele desliza meu papel em cima do meu livro. "Eu espero que você saiba o que está fazendo," diz ele. "Eu também," resmungo, pegando meu exame enquanto ele se move. Eu fico olhando para baixo, para a folha, encolhendo-me. C-


Capitulo 8 Os livros de Naz são tão diversos quanto a sua coleção de filmes. Estou no canto, inspecionando sua vasta estante, correndo meus dedos ao longo das prateleiras enquanto leio os títulos. Ele tem de tudo, desde Shakespeare até autoajuda, Edgar Allen Poe até poesia. É estranho. O homem ainda tem livros sobre filosofia. Eu paro, meus dedos traçando a coluna de A Arte da Guerra. ―Você leu todos esses livros?" Naz está sentado em sua mesa. Não tenho certeza do por que, já que ele está me observando. Eu o olho e ele concorda. ―A maioria deles.‖ ―Você foi para a faculdade?‖ Ele franze a testa com a minha pergunta. ―Sim.‖ ―Em que você graduou?‖ Tinha a opção de administrador independente? ―Nada,‖ ele diz. ―Eu abandonei antes de ter que escolher uma opção,‖ ―Porque você desistiu?‖ ―Eu precisei.‖ ―Por quê?‖ ―Porque aconteceram coisas que me fizeram desistir.‖ Eu o


olho com curiosidade, querendo saber o que aconteceu, mas ele faz um gesto para que eu chegue perto antes que eu possa perguntar mais. Dou um passo em sua direção e ele vira na cadeira, puxando-me entre as pernas, mãos nos meus quadris enquanto ele me pressiona entre ele e a mesa. ―Está escrevendo um livro sobre minha vida, Karissa?‖ ―Não.‖ Coloco minhas mãos em seus ombros enquanto olho para ele e passo meus dedos pelo seu pescoço até sua orelha. ―Apenas curiosa.‖ ―Cuidado com o que você perguntar,‖ ele diz em voz baixa, com as mãos em torno de mim. ―As respostas nem sempre são bonitas.‖ Ele se inclina e eu o beijo suavemente e sussurro contra sua boca, ―Só quero saber sobre você.‖ Ele se afasta, inclinando-se para trás na cadeira e me olha. Ele está tão calmo e começo a sentir meu rosto queimar com a intensidade de seu olhar, ouço-o soltar um suspiro exagerado. Vejo como ele arranca a gravata, puxando-a e a atirando sobre a mesa ao lado. A jaqueta havia sido descartada logo que entramos em sua casa há uma hora. Lentamente, ele desabotoa a camisa com os olhos fixos nos meus enquanto ele a abre. Tento não olhar para seu corpo e manter meus olhos fixos nos dele, mas não consigo evitar. Meus olhos são atraídos para seu peito enquanto ele puxa a gola da sua camisa o máximo que consegue. Reparo em sua pele bronzeada salpicada de cicatrizes antigas, minha mão direita passeia em seus cabelos e pescoço. Hesito antes de passear com meus dedos ao longo de suas cicatrizes, ligando os pontos de suas velhas feridas e que talvez pudessem me contar sua história. Ele permanece quieto enquanto eu desenho em sua pele e então ele agarra meu pulso, paralisando meus movimentos. Encontro seus olhos e me assusto com seu forte aperto e


ao ver aquele olhar. Aquele olhar. Ele me dá um frio na espinha. Ele não diz nada enquanto olha para mim. Nada sobre o que ele acabou de fazer, mas de alguma forma eu o entendo. O que aconteceu com ele foi ruim... Ruim o suficiente para parar a sua vida e enviá-lo para um caminho totalmente diferente. ―O que você seria,‖ eu pergunto: ―se isso não tivesse acontecido?‖ ―Eu não sei.‖ Ele solta meu pulso e pressiono minha mão aberta contra seu peito, sentindo levemente sua pulsação firme. ―Isso é quem eu sou agora. Quase não lembro mais daquele homem.‖ Ele empurra a cadeira para trás, e solta minha mão que está em seu peito. É minha deixa para me afastar quando ele começa a abotoar a camisa novamente. Volto em direção a estante examinando sua coleção de livros didáticos. ―Você gostava de filosofia na faculdade ou algo assim? Você tem um monte de livros sobre o assunto.‖ Ele zomba. ―Eu odiava. Fui reprovado.‖ ―Engraçado, eu também. Provavelmente não reprovaria se meu professor não fosse tão babaca, entretanto.‖ "Ah, Daniel Santino." Naz ri para si mesmo. "Ele sempre foi um pouco idiota." Viro-me para Naz curiosamente, imaginando o quanto posso questioná-lo antes que ele se feche novamente. "Como você o conhece?" "Ele conhecia minha—" Ele faz uma pausa. "Minha família." Eu não sei que resposta eu esperava, mas não era isso. "Então vocês são amigos?"


Esse pensamento me assusta. "Dificilmente," diz ele. "Eu só o vejo profissionalmente." "Graças a Deus," murmuro. "Eu não sei como eu me sentiria sobre você ser amigo do diabo." "Diabo?" "Santino... Eu tenho certeza que ele é o diabo." "Bobagem," diz ele. "O homem não é mais que uma barata desagradável." "Sim, bem, nesse caso, eu gostaria que alguém o esmagasse." Naz ri. "Tenha cuidado com o que deseja, querida." Ele se levanta e pega a gravata, colocando-a em volta do pescoço, não se preocupando em acertá-la. "Você está com fome?" "Uh, sim, mas eu realmente tenho que ir," digo, pegando meu telefone para ver as horas. "Eu posso simplesmente pegar algo na volta aos dormitórios." "Eu te levo.‖ "Não precisa." "Bobagem." Bobagem. Eu acho que pode ser a sua palavra favorita. "Mas —" "Mas o quê?" Ele me corta antes que eu possa responder. "Você não quer me incomodar? Gastar meu tempo? Minha gasolina? Não quer que eu tenha que sair do meu caminho? Você não quer ser um incômodo?" "Bem... Sim." "O que foi que eu disse naquela noite no seu quarto? Eu disse


que não havia como voltar atrás. Por isso, não comece a querer me afastar agora. Eu sou seu, Karissa, a qualquer hora do dia ou da noite." "Eu não estou afastando você." "Mas você está pensando e não sentindo. Você está pensando demais." Eu realmente não posso discutir com isso. Culpada. "Deixe-me levá-la para o dormitório," diz ele. "É o mínimo que posso fazer." Ele me leva de volta para Manhattan. Apesar do que disse anteriormente, ele para e me compra jantar no caminho. Nada extravagante, nada do que ele comeria, mas é definitivamente mais a minha cara. Estou bebendo um milk-shake de chocolate quando ele estaciona o carro ao lado do meu dormitório para me deixar. Agradeço a ele, inclinando-me e beijando seu rosto. Estou prestes a sair do carro quando ele diz meu nome, chamando minha atenção para ele. "Eu tenho uma festa para ir neste fim de semana," diz ele. "Venha comigo." Meus olhos se arregalaram. "Uma festa? Como, com pessoas e dança?" "É mais um jantar, mas sim, pode haver alguma dança." "Uma festa com jantar," repito. "Como com... Um jantar?" Eu não tenho nenhuma ideia de que tipo de jantar seria esse, mas eu assisto TV. Assisto Real House Wifes20 e como diabos elas são hoje em dia. E eu vi o que elas chamam de festa. 20

Reality show americano que mostra o dia-a-dia de mulheres ricas, com edições em diversos locais dos Estados Unidos.


"Sim, com o jantar," diz ele com uma risada. "Não é algo que eu faça sempre, mas são negócios, e eu prefiro não ir sozinho, se eu tenho alguém para me acompanhar.‖ "Uh ... Eu realmente não tenho nada para vestir para um jantar." "Não se preocupe com isso. Eu vou providenciar algo para você. Seu tamanho é 36?" Caio na gargalhada enquanto beberico meu milk-shake. ―Talvez nesse tamanho caiba uma das minhas nádegas.‖ Ele sorri. ―Basta dizer que você vai comigo e eu me viro com o resto.‖ Paro e penso por um momento, querendo dizer não por causa dos meus nervos. Como posso negá-lo quando ele tem sido tão bom para mim? ―Sim, claro, com certeza.‖ ―Ótimo,‖ ele diz. ―Eu entro em contato.‖

Recebo outro C- pelo meu artigo sobre a felicidade. Está tudo marcado, muito vermelho estragando o papel branco imaculado de tinta preta. Santino criticou cada linha até o ponto em que eu consigo ouvir a sua voz ridicularizando quando leio seus comentários. No topo da página ele sublinhou meia dúzia de vezes a palavra PRETENSIOSA. Pretensiosa. Eu. Um homem ridículo e superficial me chamou de pretensiosa. Estou atordoada. Chateada. Tão chateada e furiosa que Melody nem tenta me contar o quão animada ela está com seu papel na Disney


World. Ela conseguiu um B+. Eu dei uma espiada quando ele lhe entregou de volta e não vi quase nada de vermelho rabiscado no dela, tão pouco, na verdade, que ele fez o que estava escrito se destacar ainda mais. REFRESCANTE. Cito Walt Disney em sala e ele zomba de mim. Ela escreve um artigo inteiro sobre o assunto e ele a chama de refrescante. Como se eu não pudesse ficar mais chateada. Caminho direto para o prédio, passando minha carteira de estudante para entrar. Melody está logo atrás de mim, pisando levemente. Caminhamos até o elevador e meu telefone começa a tocar. Considero nem mesmo olhar para ele, estou sem a menor vontade de falar com a minha mãe, mas eu o pego para colocar no silencioso e vejo o nome dele na tela e atendo. "Olá?" Respondo, hesitante. "Você está ocupada?" "Não." "Ótimo, porque há um carro esperando lá embaixo para levála a Quinta Avenida.‖ "Agora mesmo?" "Sim, neste momento," diz ele. "Você precisa de um vestido, não é?" "Uh, sim." ―E leve sua companheira de quarto,‖ ele diz. ―Eu me lembro de dever um vestido a ela também.‖ Não sei o que dizer, mas isso não importa, porque ele não


espera eu responder de qualquer maneira. Encosto-me do lado do elevador, esperando, e parece que estamos parando de andar em andar. No momento em que estamos chegando ao décimo terceiro andar, Melody e eu somos as únicas no elevador. Melody começa a sair, mas eu a seguro e a puxo de volta pressionando o botão do lobby. Ela franze a testa e olha para mim. ―Para onde estamos indo?‖ "Eu não sei," eu admito. "Em algum lugar da Quinta Avenida." "Por quê?" "Eu acho que nós estamos indo fazer compras." Ela parece dividida entre a confusão e emoção, como se quisesse pular, mas ela não tem ideia do inferno que podemos enfrentar por ir às compras enquanto estamos vivendo de macarrão a semana toda. Não lhe explico, ainda estou chateada, e ela amassa seu papel e joga na bolsa. Ela cerra os olhos para mim, franzindo a testa. "Eu não sei por que o homem implica com você. Você é muito melhor nessa porcaria que eu. Você deveria receber muitos As.‖ Eu dou de ombros sem ter ideia de como responder e com passos largos estou fora do elevador a caminho da saída. Eu observo em seguida, que um carro preto lustroso com um homem encostado nele está estacionado junto ao meio-fio, esperando. Ele olha para cima, se desencostando quando nos vê. "Senhorita Reed?" "Sim." Ele sorri educadamente, abrindo a porta para entrarmos. Eu hesito, mas Melody me empurra para dentro, subindo no banco de trás. Sento-me próxima a ela e o motorista fecha a porta e se senta na frente. Melody está falando sem parar, animada, mesmo não tendo ideia de onde ou do que estamos fazendo. Inferno, nem eu mesma sei.


Tudo que eu sei é que preciso de um vestido. O motorista nos leva até a Quinta Avenida, em Midtown West e nos deixa na frente de uma loja de luxo. Eu fico parada no meio fio olhando através das portas de vidro e vejo o carro se afastar, desaparecendo no tráfego e nos deixado lá. Os olhos arregalados de Melody demonstram a mesma emoção de quando estava no carro, mas ainda com certa hesitação. "E agora?" Ela pergunta. "Eu acho que nós vamos entrar." Ela encolhe os ombros, agarrando o meu braço e me puxando para dentro da loja. Ela é encoberta com um brilho suave e toca uma música clássica levemente. A loja é organizada por cor e esquema, com seções de diferentes designers, as roupas ao longo das paredes, enquanto a parte do meio é cheia com móveis como se estivéssemos na casa de alguém. Não é nem de longe como as lojas que estou acostumada, com prateleiras abarrotadas com todos os tamanhos e distribuído para quem quiser. Trata-se de uma loja onde você prende a respiração e escolhe um vestido com a esperança que ele entre em você. Fico parada do lado da porta olhando ao redor, até que a vendedora aparece. Ela nos observa com as sobrancelhas levantadas como se estivesse se aproximando de animais selvagens que podem morder. Quase deixo escapar que se trata de um erro e que estou, definitivamente, no lugar errado, quando ela diz meu nome. ―Karissa Reed?‖ Eu engasgo ao responder. ―Eu.‖ ―Sr. Vitale disse que lhe enviaria essa tarde,‖ diz ela, dandome o que eu suponho ser seu sorriso mais simpático, embora pareça congelada. ―Ele deixou instruções, traje de noite para você e um vestido


para sua amiga... Para substituir um que foi danificado?‖ ―Um vestido danificado?‖ Melody olha para mim. ―Você quer dizer o meu vestido? O preto?‖ Concordo com a cabeça lentamente. "Sim, nós meio que... Quero dizer, ele meio que..." Ela levanta as mãos para me impedir. "Disse o suficiente." Eu rio nervosamente, olhando para a vendedora enquanto ela nos observa com aquele mesmo olhar gelado de antes. Ela limpa a garganta drasticamente andando pela loja. ―Bem, sirvam-se de qualquer coisa da loja. Os vestiários são para lá.‖ Ela aponta para a parte traseira. ―Eu estou aqui para ajudar, caso precisem.‖ ―Obrigada,‖ murmuro enquanto ela se afasta. Viro-me para Melody prestes a dizer algo quando ela solta um grito, soltando a bolsa no chão da loja e pegando minha mão para me puxar para uma arara de roupas. Ela está correndo quase que subindo e descendo pela loja pegando vestidos e mantendo-os no braço, correndo para o espelho mais próximo e girando ao redor. A garota é uma máquina de fazer compras. Procuro algumas peças e noto que nenhuma peça tem preço. ―Como vou saber o quanto elas custam?‖ Ouço aquela voz gélida. ―Sr. Vitale disse que é para escolher o que você gostar e não o que achar que pode pagar.‖ "Isso soa como ele," murmuro, pegando um vestido preto elegante e colocando em frente ao corpo antes de colocar de volta na prateleira. Duvido que eu consiga espremer uma coxa nessa coisa. Melody está com uma dúzia de vestidos que ela quer provar e me empurrando alguns ao longo do caminho. Eu rio enquanto ela os prova. Alguns chamativos e reveladores, nada que eu usaria. Eu encontro um vestido preto simples do meu tamanho e o pego, indo em


direção ao provador quando outro me chama a atenção. Está em uma arara de vestidos de rosa a roxo, mas a cor vai em algum lugar no meio, como framboesa. Vou até ele, passando minha mão ao longo do material. O vestido é macio com um bordado de sobreposição transparente, dando a ilusão de ser sem alça, mas com mangas três quartos. Eu não sei muito sobre moda, além de não conhecer o nome do designer ou saber do que ele é feito — mas sei que é absolutamente lindo. E é do meu tamanho. Eu o levo para o vestiário, esquecendo tudo sobre o vestido preto, e começo a colocar o vestido. Eu luto fechando-o até a parte de trás e saio do vestiário, encontrando Melody se admirando em um espelho de corpo inteiro. Ela está usando um vestido preto que parece feito de couro e renda, corte baixo e apertado. Seu olhar me encontra e ela congela. ―Você pode me ajudar a fechar?‖ Pergunto, virando-me para ela. Assim que o faço, avisto alguém familiar vindo da rua. Naz. Ele entra na loja. A vendedora o cumprimenta calorosamente — diferentemente de como ela nos cumprimentou — mas seus olhos estão fixos unicamente em mim enquanto Melody fecha o zíper. O vestido é confortável, apertado em volta do peito, mas é suportável. E, caramba, é lindo. Naz caminha em nossa direção, ignorando a vendedora enquanto ela tenta iniciar uma conversa. Seus olhos brilhando quando ele se aproxima, mas assim que ele está perto, ele se concentra em Melody. Ele segura sua mão. ―Eu não tive o prazer de conhecê-la ainda. Melody Carmichael, eu presumo?" Franzo minha testa. Definitivamente não lhe disse o nome dela completo, mas por algum motivo não estou surpresa que ele saiba


disso. Melody está desorientada, piscando várias vezes enquanto segura sua mão. ―Ignazio Vitale,‖ diz ele, dando um beijo em sua mão. ―Eu ouvi muito sobre você, Senhorita Carmichael." "Eu, uh... Você também." Ele ri, soltando a mão e se vira para mim. ―Eu duvido disso.‖ Seus olhos fixam em mim, demorando-se nos meus seios antes de descer pela minha barriga seguindo a curva dos meus quadris e todo o caminho até meus pés. Um ligeiro sorriso toca seus lábios, apenas o suficiente para aparecer uma covinha. ―Vestido legal.‖ ―Você acha?‖ Pergunto olhando para baixo. ―Sim,‖ ele diz. ―Ficou ótimo em você.‖ O olhar de Melody muda entre nós enquanto ela abana as mãos. ―Não é, tipo, contra as regras? Você não deveria ver o vestido antes.‖ ―Isso é só quando você se casa,‖ murmuro, apertando o vestido onde ele começa a ficar mais solto em meus quadris e rodopio um pouco. ―Nós não estamos nesse ponto,‖ diz Naz, fazendo uma pausa antes de oferecer um tranquilo ―ainda‖ que me atinge com tanta força que perco a cor. Ele não está olhando para mim, no entanto, vejo que ele está à procura da vendedora. Ele acena e ela vem com um sorriso no rosto enquanto se aproxima. Naz vem em minha direção. ―Quanto é?‖ A mulher me olha. "O Monique Lhuillier é onze." Eu suspiro. ―Mil e cem dólares?‖ Os olhos da mulher me fuzilam. ―Onze mil.‖


No momento em que ela disse isso mal consigo respirar, o vestido, de repente, fica muito apertado, comprimindo meu fluxo de ar. Estou à beira de entrar em pânico quando Naz acena em direção a Melody. ―E o da Srta. Carmichael?‖ "O Stella McCartney está em promoção por oitocentos e cinquenta.‖ "Oitocentos e cinquenta o quê?" Eu exijo. "Dólares," diz a mulher. ―Oh.‖ Olho o vestido de Melody. Ainda é caro e isso é um inferno, mas é muito melhor. ―Posso ter um desses em vez disso?‖ Antes que a mulher possa falar, Naz interrompe, dizendo que vai levar os dois vestidos. E se vira para mim, uma pitada de diversão em sua expressão. ―Escolha uns sapatos para ir com ele.‖ Começo a dizer que não preciso de sapatos, assim como não preciso de um vestido de onze mil dólares, mas Melody agarra meu braço para me arrastar para longe antes que eu possa argumentar. Eu cambaleio, quase tropeçando na parte inferior do vestido. ―Eu não sei como diabos você agarrou aquele homem, Kissimmee, mas mantenha-o! Esta me ouvindo? Qualquer homem que se oferece para comprar sapatos novos para combinar com seu vestido novo, precisa ser mantido. Você não pode o deixar ir por nada.‖ Dou risada, incrédula. Sinto como se estivesse presa num turbilhão enquanto sento em uma daquelas cadeiras confortáveis, deslizando meus pés em sapatos que Melody me empurra. Ela pega um par de bege metálico e diz que ficará perfeito com o vestido, e não retruco ou pergunto quanto custam. Tenho medo de saber. Naz paga com seu cartão American Express. É a primeira vez


que eu o vejo usar qualquer coisa que não seja dinheiro. Menciono tranquilamente e não tenho certeza se ele estava prestando atenção, mas sua risada suave me diz que ele ouviu. Depois de assinar o recibo, tudo pago, ele se vira para mim. Seus olhos passeiam pela loja, vendo Melody enquanto ela olhava todos os manequins pela porta da frente. ―Não é sempre que eu gasto tanto que eu não tenho o dinheiro em mãos.‖ ―Por que você carrega tanto dinheiro?‖ Eu pergunto, tentando não pensar no fato de que ele gastou muito comigo. ―Você não tem medo de alguém roubar você?‖ Ele solta uma risada alta como se fosse a coisa mais absurda que já ouviu. ―Quem é que vai me roubar, Karissa?‖ ―Alguém,‖ eu digo, encolhendo os ombros. ―A cidade é perigosa. Existem pessoas más por todo o lugar aqui. Quero dizer, talvez seja seguro em outros lugares, mas não na cidade de New York. Não é seguro para ninguém aqui." Ele estende a mão e pega no meu braço quando tento me afastar, deixando-me presa no lugar. Sua expressão é séria, os olhos mais uma vez varrem a loja até se fixar em mim novamente. ―Quem lhe disse isso? Sua mãe?‖ ―Sim. Ela está apavorada que vou ser assaltada ou estuprada ou morta. Ela pensa que está prestes a acontecer quanto mais tempo eu ficar aqui.‖ ―Bobagem,‖ diz ele de imediato. ―Esta é a maior cidade e a mais segura do país. Não estou dizendo que não há pessoas más lá fora. Eu sei que há. Mas não tenho medo e não quero que você tenha medo também.‖ Eu não sei o que dizer, então apenas concordo com ele. Ele pega nossas coisas, os vestidos e os sapatos, e caminha até a saída


comigo ao lado dele. Melody, a contragosto, nos segue loja afora depois de pegar nossas mochilas escolares, franzindo a testa enquanto olha em volta para as janelas com saudade. ―Eu poderia viver naquele lugar.‖ ―Eu não,‖ digo. ―Um vestido e um par de sapatos mais tarde e já me sinto como Vivian em Uma linda mulher.‖ ―Não há comparação,‖ Naz interrompe. ―Além disso, você ainda não viu o colar.‖


Capitulo 9 Eu pensei que ele tinha brincado. Eu esperava que ele estivesse brincando. Ele já tinha feito muito por mim. Mas enquanto estou na sua sala de estar, olhando para a grande caixa de veludo preto em sua mão, percebo que ele quis dizer isso. O homem me comprou joias. Eu não sei como reagir, ali de pé no vestido colorido longo framboesa, meus joelhos fracos enquanto eu tento me equilibrar no par dos mais altos dos saltos altos. Fazem-me quase tão alta quanto ele, nós dois ao nível dos olhos pela primeira vez. E em seus olhos eu vejo que existe escuridão, a escuridão que descubro sempre que sua máscara desliza. Isso provavelmente deveria me aterrorizar, mas eu sinto só um leve arrepio. À primeira vista, pensei que ele estava vestido normalmente, mas uma inspeção mais minuciosa me diz outra coisa. Ele está vestindo um terno de três peças, o colete o fazendo parecer mais forte do que nunca, a gravata tão escura como o resto. Abotoaduras brilhantes acentuam sua camisa branca — diamantes, eu acho. Algo me diz que o homem não quis usar nada falso. Seus sapatos estão engraxados, seu terno ajustado, e o lenço no bolso do paletó é o mesmo branco imaculado da sua camisa. Parece que ele acabou de sair de uma passarela de desfile direto para a minha direção. Sua idade aparece na dobra em torno de


seus olhos, a sombra do cabelo em seu rosto que ele nunca parece barbear totalmente, mas ele parece muito bem. Ele não me faz sentir tão jovem quanto eu sou, ou tão jovem quanto ele provavelmente deveria me fazer sentir. Quando ele olha para mim, não me sinto como uma garota de dezoito anos de idade, caloura da Universidade de Nova York, ainda tentando encontrar seu caminho. Quando ele olha para mim, sinto-me como uma mulher, uma mulher digna do olhar que ele dá, digna de sua admiração, digna de um vestido de designer e um jantar, e o que quer que seja o inferno que está na caixa em sua mão. Eu abro sem dizer uma palavra. Meus olhos deixam o seu olhar. É simples, relativamente falando, nada como o que Edward deu a Vivian, mas aquele era um filme e isso é a vida real, e eu estou começando a me perguntar se eu mereço tudo isso. O colar é lindo, a corrente de ouro brilhando sob as luzes suaves. Há um pequeno pingente no final do mesmo, completamente redondo, uma pedra de cristal cercada por ouro. Algo está escrito ao longo do metal brilhante, mas não posso ler de onde estou, e quero chegar mais perto, para ver o que é, mas não posso me mover. Tenho medo de cair de bunda nestes saltos. Ele puxa o colar para fora e deixa a caixa de lado quando ele anda para trás de mim. Meu cabelo já está puxado para cima e preso — trabalho de Melody — por isso é fácil para ele colocar e fechar. Ele se inclina para baixo, beijando minha nuca, quando pego o pingente para olhá-lo. Carpe Diem. Aproveite o dia. "Por que eu?" Sussurro quando ele caminha ao redor e para bem em frente de mim. É uma pergunta que fiz antes, mas eu simplesmente não consigo entender. De todas as mulheres do mundo,


por que ele me escolheu? Ele responde da mesma maneira que ele fez da outra vez. "Por que não você?" Sorrindo, solto o pingente e encontro seus olhos. "Você está me mimando, você sabe." "Não, não estou. Não o suficiente, de qualquer maneira." Ele estende a mão e segura meu queixo, tornando impossível desviar o olhar. "Poderia ser assim o tempo todo, Karissa, cada momento de cada dia. Eu posso lhe dar o melhor de tudo. Você só tem que me deixar." "Por que você faria isso?" Eu pergunto. "O que você ganha com isso?" Ele se inclina para frente e levemente beija meus lábios. "Eu ganho você." "Você age como se eu fosse um tesouro." "E você não é?" Ele pergunta. "Na minha opinião, eu ganhei na loteria." Eu rio. "Eu sou mais como uma raspadinha do que a loteria de milhões." "Você simplesmente não sabe seu próprio valor." Seu telefone toca, quebrando o momento. Puxando-o do bolso, ele olha para a tela. "Hora de ir. O carro está aqui." "Você não está dirigindo?" Eu pergunto. "Não," diz ele. "Dirigir alcoolizado é imprudente e estúpido." "Você já dirigiu antes depois que bebeu." "Eu não bebi o suficiente para embebedar-me antes." Eu zombo. "Nós compartilhamos uma garrafa inteira."


"Compartilhamos?" Ele pergunta. "Porque eu me lembro de você beber três quartos por conta própria em ambas às vezes." Meu rosto resplendece. "De jeito nenhum." Ele balança a cabeça. "Ugh." Eu faço uma careta. "Então, o que, você vai beber a sua parte esta noite?" "Eu vou beber mais do que a minha parte," diz ele. "Já que eu paguei por estes ingressos, tenho a intenção de beber cada gota de álcool que têm no lugar." Meus olhos se limitam a essas palavras. "Ingressos? Que tipo de jantar é esse?" "É mais uma festa beneficente, mas eu imaginei que chamá-la de festa seria mais atraente para você." "Arrecadação de Fundos? Que tipo?" "O tipo político." Estou atordoada, e gaguejo um pouco, mas não tenho ideia do que dizer. Ele está me levando para um evento de arrecadação de fundos político? Estou imaginando discursos e smokings formais e homens velhos arrumadinhos com jovens esposas amargas querendo bombardear outros países e atropelar as liberdades civis. É esse o tipo de pessoas que Naz tem por perto? É esse tipo de pessoa que deveríamos ser? Mas isso não é para mim, e nunca será, e não tenho tanta certeza de que algum dia possa ser para ele. Estou imaginando uma sala cheia de Santinos, julgando, ridicularizando e apontando seus bastões para as pessoas que eles acham que não pertencem. "Eu não acho que posso fazer isso." "Acho que você pode," diz Naz, pegando minha mão quando


ele me leva para fora. Lá, estacionado em frente à sua casa, está uma limusine. O motorista abre a porta traseira e Naz me leva para dentro. Os assentos de couro são legais, o ar moderado, uma garrafa de champanhe em um balde de gelo na minha frente. "Isso é um absurdo." Naz apenas ri quando ele derrama uma taça de champanhe e entrega para mim. "Beba. Relaxe." Eu pego o copo e saboreio quando ele derrama outro. "Eu tenho apenas dezoito anos, você sabe, no caso de você não lembrar." "Eu não me esqueci." "Eu não posso beber." Ao contrário das minhas palavras, tomo meu champanhe, engolindo tão rápido que ele me serve uma segunda vez antes de ele tomar o primeiro gole. "Eu não sou velha o suficiente." "Não se preocupe com isso," diz ele, relaxando para trás e colocando o braço em volta de mim como se fosse nada. "Está tudo bem." "É ilegal." "Isso te incomoda?" "O quê?" "Quebrar a lei," diz ele. "Você sente remorso? Você quer fazer penitência? Pedir perdão? Jura que nunca mais vai fazer isso de novo, que você vai ser uma boa menina para sempre, que você nunca vai aprontar ou correr ou roubar Wi-Fi ou atravessar fora da faixa ou fazer xixi fora de novo?" Eu rio. "Eu nunca fiz xixi fora." "Mas você fez todo o resto?" "Sim."


"Tudo ilegal," diz ele. "Não é grande coisa." "É fácil para você dizer." "É," ele admite, batendo seu copo com o meu. "Estou praticamente ajudando e sendo cúmplice de uma criminosa agora." "Mas—" Ele me corta. "Não vivo minha vida por regras de outra pessoa. Sou meu próprio chefe, meu próprio juiz e júri, a minha própria autoridade. O governo o chama de um adulto, e espera você para pagar impostos, mas não deixa você apreciar um copo de vinho para relaxar? Eu não concordo. Não me importo com o que dizem." "No entanto, você não vai beber e dirigir." "Isso não é porque é ilegal," diz ele. "É porque eu gostaria de viver para ver amanhã, para que eu possa tirar o máximo proveito de outro dia. Tenho motivos puramente egoístas. Sou um homem egoísta." "Você não parece muito egoísta para mim." "Ah, mas eu sou. Eu sou egoísta e possessivo, e tenho uma tendência a ser um pouco controlador... E impaciente... E sou um pouco como uma aberração pura." "Eu percebi — o último, pelo menos. Não sei sobre o resto, mas você definitivamente é uma aberração pura. Sua casa é impecável. Quantas vezes você tem alguém limpando?" "Nunca," diz ele. "Eu limpo." Isso me surpreende, e acho que ele tem que estar brincando, mas sua expressão é séria. Simplesmente não consigo imaginá-lo sob suas mãos e joelhos, esfregando o chão da cozinha uma vez por semana. "Por quê?" "Não gosto que pessoas entrem em minha casa. Não confio nelas."


O caminho até Manhattan voa, como o champanhe, mais uma vez parece evaporar diante dos meus olhos. No momento em que chegamos para a festa, estou um pouco tonta, e suas mãos já estão fazendo coisas malucas em mim. Apenas um simples toque no meu braço, seu polegar acariciando a pele coberta, parece deixar todo o meu corpo em chamas. A festa é em um hotel chique no Park Avenue. A limusine nos deixa e Naz coloca o braço em volta de mim, puxando-me para perto dele. Eu sinto um beijo no meu cabelo antes de ele sussurrar, "você vai se sair incrível." Espero que ele esteja falando a verdade. Ele entrega os ingressos e no segundo que atravessamos completamente a porta, o rosto de Naz ilumina, suas covinhas para fora com força total, conforme ele cumprimenta as pessoas pelo nome. Ele me apresenta como simplesmente "Karissa," enquanto fazemos o nosso caminho através de um mar de grandes mesas redondas para uma no centro da sala. Os nomes estão colocados em todos os assentos, e eu encontro o dele facilmente. Ignazio Vitale. Ao lado dela, o cartão também tem o seu nome com a palavra 'convidado' abaixo dela. Ele puxa a cadeira para mim, e eu me sento, olhando para as outras cartas na nossa mesa, mas não reconheço qualquer um dos nomes. Os bancos se enchem de gente que Naz parece conhecer. Ele me apresenta a eles, mas eles não me dão nenhuma atenção, muitos absortos em conversar com o meu encontro. Meu encontro. Parece tão estranho. Um garçom enche meu copo com champanhe quando ele chega à nossa mesa, não perguntando a minha idade, nem mesmo hesitando quando ele olha para mim. Eu pego meu copo e saboreio


imediatamente, ganhando uma risada de Naz. Ele coloca o braço em volta de mim, e se inclina para mais perto, aninhando no meu pescoço, beijando a concha do meu ouvido quando ele sussurra, "minha linda pequena passarinha engaiolada." Embora me surpreenda, ninguém mexe um cílio em sua exibição divertida de afeto. Pergunto-me se é porque ele faz isso muitas vezes, se ele traz mulheres e as mostra para essas pessoas, até eu perceber que ninguém está olhando. Ninguém está olhando, seus olhos estão em todos os lugares, menos sobre nós dois, como se eles estivessem propositalmente dando-lhe privacidade. Uma arrecadação de fundos políticos é tudo o que eu pensei que seria, mas nada como eu esperava. Há smoking e discursos, e algumas pessoas esnobes que eu reconheço como políticos, mas a maioria da multidão é descontraída. A comida é extravagante, o champanhe caro, e as pessoas cativantes. A atmosfera parece fluir em ondas: o primeiro discurso foi apropriado, um pouco depois o segundo mais relaxado, o terceiro casual, e no seguinte todos estão conversando e rindo como velhos amigos. Ou talvez todos já estivessem bêbados até então. "Dança comigo," diz Naz, jogando o guardanapo em cima da mesa enquanto se levanta. A banda está tocando algum tipo de melodia lenta em um palco em frente ao salão, o chão na frente deles vazio de mesas com casais dançando a noite toda. Eu balancei minha cabeça, mas ele não percebe, ou então ele não se importa, quando ele me puxa em meus pés e me conduz dessa forma. "Eu não acho que isso seja uma boa ideia," digo assim que estamos na pista de dança. "Venha." Ele me puxa para seus braços. "Não me diga que você não sabe dançar."


"Oh, eu sei dançar," eu digo. "Eu só não sei dançar isso." Soa como música de elevador. Ele ri, colocando as mãos nos meus quadris para me aproximar ainda mais dele. "Basta seguir minha condução." Envolvo meus braços em volta de seu pescoço enquanto meus dedos mexem com os cachos rebeldes em sua nuca. É fácil, sem sentido, como realmente ficar ali e balançar. Ele dura um bom minuto antes que eu deixe escapar um suspiro profundo. "Ok, isso é chato." Assim que eu digo isso, a música muda, o ritmo acelerando. Naz me balança ao redor, girando-me, e eu quase caio de bunda sem um aviso. Cada passo que ele dá me faz tropeçar, mas ele não pareceu se importar, e eu estou muito bêbada para importar com o que os outros pensam... Ninguém, exceto para ele. Ele é tudo o que importa. Eu estou balançando e girando, cambaleando e rindo, tropeçando em seus pés e ele apenas ri junto comigo. Ele me mergulha uma vez, mergulha-me tão baixo que meus pés saem de debaixo de mim e eu pouso de costas. Ele se abaixa, sorrindo quando ele me puxa para os meus pés de novo, quando uma voz masculina corta a música atrás de mim. "Se importa se eu interromper?" A voz é áspera, não áspera de uma maneira sexy, mas mais como esfregar lixa contra a pele sensível.. Viro-me rapidamente, vejo um homem vagamente familiar, um homem que eu nunca conheci antes, mas eu o vi em fotos e na televisão. No noticiário, principalmente. Na primeira página do jornal. Colocado na seção de crimes dia após dia. Seu nome é uma advertência por escrito, com o rosto


sinônimo de ‗perigoso‘. Crescendo, minha mãe nunca falou sobre o bicho-papão no armário ou a criatura se escondendo debaixo da cama. Ela me contou sobre monstros reais, e isso inclui o que está na minha frente. Raymond Angelo. A pergunta do homem é claramente destinada a Naz, embora seus olhos frios estejam em mim. Ele está em meados dos sessenta anos, grisalho, alto e corpulento. Ele se parece com couro e cheira como charutos. Sou grata por Naz dizer que era possessivo, porque acho que não há nenhuma maneira no inferno que ele me entregaria a um homem como Raymond. Meu coração bate duro quando Naz hesita por um momento, antes de ele zombar. "Você não saberia o que fazer com ela, se você a tivesse, meu velho." Raymond ergue uma sobrancelha. "Talvez não, mas eu tenho certeza que quero tentar." Os dois homens riem. Eles riem. Meu coração bate, de alguma forma, ainda mais duro com isso. Naz acena em direção a Raymond, nos apresentando como Ray e Karissa. O homem me fita estranhamente antes de seus olhos irem para Naz, segurando seu olhar, como se estivessem tendo uma conversa silenciosa que termina com um aceno de cabeça. Raymond olha para mim de novo. "É um prazer conhecê-la, Karissa. Desculpe-me interromper, mas eu só preciso pegar emprestado Vitale aqui por um momento." "Uh, tudo bem." Eu não sei mais o que dizer. Naz beija minha


bochecha, sussurrando que ele estará de volta, quando segue Raymond para a borda da pista de dança. Eles conversam calmamente antes de se abraçarem e se separarem. Naz volta para mim, seus olhos examinando meu rosto. Ele me puxa de volta para os seus braços, agindo como se nós não tivéssemos sido interrompidos. "Você sabe quem é aquele homem?" Eu pergunto, incapaz de evitar eu mesma. Mantenho minha voz baixa, não querendo que ninguém me ouça, especialmente Raymond Angelo. Ele é notório. Ele é perigoso. Como Naz pode não saber? Ele se inclina para trás para olhar para mim. "A melhor pergunta seria você sabe quem ele é." "Claro," eu sussurro. "Ele é um gangster." Naz faz uma careta para a minha escolha de palavras. "Ele é um oportunista. Um homem de negócios." "Ele é um criminoso." "Diz a minha perdição." "Eu não sou nada como ele. Eu bebo, com certeza, tudo bem, mas ele..." "Ele o quê?" Naz pergunta. "O que ele faz?" "Ele machuca as pessoas." "Ele machuca," Naz admite. "Mas ele também é da família." Eu paro de me mover. "Você está relacionado com ele?" "Nem toda a família é de sangue, Karissa. Lembra-se?" Olho para ele quando essas palavras afundam. Acho que há uma razão para ele não temer ninguém na cidade. As pessoas que todo


mundo têm pavor são as mesmas que ele chama de família. "Você está bem?" Ele pergunta, aquele olhar frio de volta em seus olhos quando ele me observa. "Diga-me se você não estiver." Estou bem? Jesus, eu não sei. Provavelmente não deveria estar, sabendo o que sei, lembrando o que minha mãe me disse, mas eu estou mais surpresa do que qualquer coisa. Depois de um momento, aceno com a cabeça e ele me puxa para perto para um beijo. A sensação de seus lábios me relaxa, um zumbido rastejando pela minha espinha. É um beijo de garantia, um beijo me dizendo que eu vou ficar bem. Escolho acreditar. Não quero pensar o contrário. Sorrio quando ele me puxa para trás, correndo o dedo indicador em meu lábio inferior. "Eu reservei um quarto no andar de cima. Que tal a gente aproveitar o máximo esta noite?"

O quarto é modesto, os móveis desatualizados e antigos, mas tem um certo charme nele, como se eu tivesse voltado meio século. Naz muda a lâmpada de cabeceira para a configuração mais baixa, um brilho suave preenche a sala. Ele adiciona um tom dourado para as luminárias

douradas,

iluminando

o

tapete

bege

e

colchas

combinando. Passeio pelo quarto, até a grande janela. Estamos no alto, me dando uma visão ampla da cidade, as luzes cintilantes no meio da noite. Sinto como se estivesse em outro lugar, vivendo outra existência, respirando algum outro tipo de ar enquanto estou aqui, olhando o mundo de um ponto de vista diferente.


É difícil de acreditar, cinco quilômetros de distância, minha vida espera por mim para voltar para ela de manhã. Eu sou a Cinderela, me perguntando se estou destinada a um final feliz depois disso. Naz puxa o paletó e o coloca de lado enquanto passeia e fica atrás de mim. Meu olhar se desloca da linha do horizonte ao seu reflexo distorcido no vidro quando ele chega para o zíper do meu vestido e o puxa. O som parece ampliado no silêncio enquanto ele puxa todo o caminho, os nós dos dedos ásperos raspando minha espinha. Ele envia um arrepio através de mim. Ele empurra o vestido para frente dos meus ombros e meus braços, deixando-o cair no chão como se fosse nada. Eu fico lá, vestida apenas com uma calcinha laçada, quase o tom exato com o meu tom de pele. A mulher refletida de volta para mim no vidro frio parece completamente nua, completamente exposta e nua para ele. É estranho me ver assim. Eu não tenho o hábito de me verificar, mas conforme eu o vejo acariciar meus braços nus e beijar meu ombro, eu realmente acho bonito o que está diante de mim. Virando-me para encará-lo, dou um passo para longe do vestido e tiro os saltos, lamentando perder os centímetros extras quando eu tenho que ficar na ponta dos pés para alcançar seus lábios. Eu o beijo suavemente, passando os braços em volta do pescoço. É um beijo doce, lento e suave. Meus dedos tremem contra sua pele. Ele puxa para trás, examinando-me. "Você tem certeza que está bem?" Concordo com a cabeça lentamente. "Por que não estaria?" Ele oferece um ligeiro encolher de ombros enquanto seu olhar deixa o meu rosto e segue pelo meu corpo. "Você quer brincar um


pouco?" "Sim." Eu respondo de imediato, nem mesmo paro para pensar o que isso pode significar até que ele sorri para mim. Há uma leve puxão sinistro nisso, como um predador observando sua presa a distância. Beijo o canto de sua boca, e tento acabar com o meu surto de ansiedade, quando ele me puxa para longe da janela até a cama. Corro minhas mãos pelo seu peito, alcançando os botões do seu colete, mas ele agarra meus pulsos. "Uh-uh, eu te disse para fazer isso?" "Você não me disse que não." Ele puxa minhas mãos enquanto se inclina para baixo, sussurrando, "Não." A palavra solitária é pouco mais do que o hálito quente contra a minha pele, atiçando as chamas do meu desejo, acendendo o fogo dentro de mim. Exalo trêmula, mas antes que eu possa falar, ele me empurra para longe dele e me gira ao redor. Eu suspiro quando ele me pega e me joga na cama de bruços, separando minhas pernas e me fixando lá. "Espere," eu digo, meu coração acelerado. Seu peso pressiona em mim enquanto ele puxa minha calcinha, rasgando-a fora. "Espere um segundo, Naz." "Eu não tenho um botão de pausa, querida." Sua voz é arrepiante, um sentimento de desapego a ele. "Se você não quer jogar, você sabe como me parar. Tudo que você tem que fazer é dizer a palavra." "Pare." "Não é essa." Ele não para, e eu não estou surpresa. Eu sabia que não era a


palavra certa, mas eu não posso dizê-la. Eu não posso usar uma palavra segura. Nem agora, nem por isso. Eu não posso gritar "vermelho" ou mesmo "amarelo", quando tudo que eu quero é verde. Quando tudo que eu quero é senti-lo dentro de mim, para que ele me consuma, para ser o ar que respiro e a única coisa que ele precisa. Minha cabeça está nebulosa e seu corpo é comprimido, seu peso acolhedor conforme ele pressiona em cima de mim, uma mão pesadamente no centro das minhas costas enquanto eu o ouço se atrapalhar com o cinto com a outra. Tento olhar, tento ver, minha bochecha plana contra a cama enquanto eu estico meu pescoço para obter apenas uma espiada, mas é apenas um vislumbre, um flash de terno escuro na iluminação fraca. Ele não se despe, nem sequer tira os sapatos, apenas desafivela suas calças o suficiente para se desfazer de suas restrições. Ele está entre as minhas pernas, forçando-as à parte e empurrando contra mim, empurrando mais ou menos dentro de mim. Grito conforme ele me preenche, esticando-me para encaixar em torno dele. Não machuca, meu corpo reage no segundo que ele encosta um dedo em mim. "Porra, você está tão molhada," diz ele, se abaixando em mim, seu pesado terno esfregando contra a minha pele nua. Os botões são frios contra as minhas costas. "Você gosta desse jeito, não é?" Ele empurra algumas vezes, duro, e eu mordo meu lábio inferior para não gritar, mas ele não aceita o meu silêncio. "Eu lhe fiz uma pergunta," ele rosna. "Sim," eu suspiro, fechando os olhos. "Eu amo isso." "Eu sei que você ama." Sua voz é um murmúrio movido a luxúria no meu ouvido enquanto suas mãos vão se enroscando em volta da minha barriga, deslizando para baixo, as pontas dos dedos


procurando o meu clitóris enquanto seus fortes braços me envolvem contra ele mais apertado, dobrando minha bunda para que ele possa bater em mim mais profundo. "Você é um pouco como uma boneca de pano, não é? Você quer ser lançada ao redor. Você quer que eu a use de qualquer maneira que eu achar melhor. Porque você sabe... Você sabe porra..." Ele empurra tão forte que a dor apunhala meu estômago. "Você é meu brinquedo favorito." Não deveria achar suas palavras tão quentes como eu acho, mas ele desncadeiam algo dentro de mim, um formigamento engolindo todo o meu corpo, a partir do topo da cabeça até as pontas dos meus dedos. É emocional, uma honestidade esmagadora, que não consigo impedir de sair dos meus lábios. "Eu quero ser." "Você é," diz ele, acariciando meu clitóris enquanto me fode mais forte... E mais forte... E mais forte com cada impulso de seus quadris. "Eu soube na primeira vez que vi aquele sorriso tímido e aqueles grandes olhos inocentes. Era errado... Porra, era tão errado da minha parte querer isso, querer você, mas eu não pude resistir." Sua voz é tensa, as palavras saindo com uma respiração ofegante. "Eu pensei que eu pudesse jogar um pouco com você, e deixála ir, mas quando eu tive você, Karissa, eu tinha que mantê-la. Eu não podia ir embora." "Então, não vá," eu sussurro, não tendo certeza se é alto o suficiente para ele me ouvir, mas ele me aperta mais forte contra ele, acariciando meu clitóris mais rápido, fodendo-me mais profundo, quando ele sussurra em meu ouvido. "Eu não vou," diz ele. "Eu não posso. Você é minha agora." Seus dedos trabalham sua mágica. Eu gozo em seus braços, presa em seu abraço, aprisionada debaixo dele, mas nunca me senti tão


livre antes como me sinto nesse momento, quando o prazer varre através de mim, tendo cada partícula de ansiedade, toda preocupação e insegurança que já tive, e as levando embora. Ele me desarma e, em seguida, faz-me inteira, enchendo-me com tudo o que ele diz, e faz, fazendo-me crer no que ele acredita. Eu sou bonita. Eu sou especial. Eu sou sua. Ele

não

diz mais nada, retardando seus movimentos,

permitindo que o orgasmo me preencha e desapareça antes que a mudança aconteça de novo. Tudo de uma vez, ele se transforma de homem para besta, arranhando-me, devastando cada centímetro do meu corpo que ele possa alcançar. Ele me fode sem piedade, ao ponto que eu não posso pensar. Não posso fazer nada, mas tomá-lo, absorver o impacto, minha voz nada mais que ruídos incoerentes conjurados de seus feitos animalescos. As palavras estão ali durante todo o tempo; "amarelo" está na ponta da minha língua, tão perto que salta para frente sempre que ele fica tão áspero Não posso respirar, mas eu o engulo novamente e novamente com um suspiro de ar. Não quero que ele pare; Não quero que desacelere. Não quero que ele se contenha comigo. Quero tudo o que ele me dá. Suas mãos são fortes, o seu corpo como aço, mas conforme ele bate em mim, eu acho que talvez seja o que está dentro que é mais pesado. Ele está limpando sua alma, e tão assustador como eu acho que as partes mais profundas dele possa ser, eu quero tudo. Eu quero vê-lo. Ele puxa para fora para terminar e fica lá de joelhos,


recuperando o fôlego, antes de se mover de cima de mim. Não posso me mover, não posso fazer nada além de ficar lá. Acho que agora sou uma parte da cama, nada mais do que um segmento que começou a se desfazer. Ele está quieto enquanto se senta lá, e apesar dos meus olhos estarem fechados, eu sei que ele está me observando. Eu posso sentir seu olhar. Depois de um momento, ele chega mais perto, seu toque leve como pena, quando ele passa as pontas dos dedos ao longo das minhas costas. Sardas preenche minha pele, uma herança do meu pai... A única coisa que aquele homem já me deu. Naz as traça, assim como eu fiz uma vez com as cicatrizes em seu peito, como se ele estivesse ligando os pontos para formar uma imagem. Meus olhos estão abertos, mas não se movem, não querendo interromper o que ele está fazendo. É reconfortante. "O que você está desenhando?" Eu pergunto silenciosamente. "O futuro." Eu sorrio para mim mesma. "O que lhe parece?" "Ainda não tenho certeza," diz ele. "Ele ainda está se unindo para mim." Ele parece indiferente, relaxado, ainda totalmente vestido e agora escondido, não como alguém que apenas me fodeu sem piedade. Ele é um gigante gentil, inocente e suave, como um ursinho de pelúcia. Exceto que no fundo, eu sei que ele não é. E quando seus olhos atravessam o meu caminho, e eu vejo a escuridão na superfície, lembro-me que esse homem sai com monstros. E um talvez possa existir dentro dele.


Capitulo 10 Eu estou fazendo beicinho. Ciente dos olhos de cachorrinho, lábios franzidos e puxados para baixo em uma espécie de beicinho com testa franzida. Ugh, patético. Muito para a mulher forte como eu senti ontem à noite, ganhando sua sexualidade e tendo o que ela quer do mundo. Eu retrocedi cerca de uma década, para a temperamental pré-adolescente que deu a sua mãe um ataque por se recusar a deixá-la ficar de fora de seu passado escuro para que ela pudesse ir para uma escola de dança. "É tão injusto," murmuro, relaxando no banco de couro fresco. O vestido de noite berrante parece um absurdo esta manhã, grande, vistoso e pesado contra a minha pele. Naz ri ao meu lado. Ele tem os pés em seu terno metade preso, a gravata amarrada frouxamente, o terno e o colete descansando ao lado dele no banco. Seus olhos estão em seu telefone, fazendo o que quer que ele faça. Eu não sei. "Você não tem ninguém para culpar além de si mesma," diz ele. "Eu disse a você, você é bem-vinda para vir para casa comigo." "Mas você tem coisas para fazer, e eu ainda estou usando este vestido, e realmente preciso de um banho, e tenho aula de manhã, então eu deveria voltar para o dormitório, você sabe, por causa de tudo isso." "Isso eu já ouvi."


É a terceira vez que corro com todas as minhas desculpas sobre por que preciso ir, mas eu não soo mais confiante do que fiz na primeira vez. Cada pedaço disso é verdade, claro, mas estou temendo dizer adeus a esse homem. Então, eu amuo um pouco mais. "Você sabe que eu tenho água quente," diz ele, "e roupas limpas." "Roupas de mulheres?" Ele ri novamente. "Receio que não, mas tenho certeza que eu tenho algo que você possa caber." "Eu aposto que eu pareceria grande em um de seus ternos." Isso chama a sua atenção. Seus olhos me encaram por um segundo quando ele levanta uma sobrancelha, um olhar de curiosidade no rosto. "Huh." Huh. Isso é tudo o que ele diz, antes de voltar para seu telefone. "Eu ainda tenho aula amanhã," eu indico. "Eu posso deixá-la na parte da manhã," diz ele. "Mas você não tem coisas para fazer?" Eu pergunto. "Eu não quero incomodá-lo." "Sim, mas você não estaria me incomodando." Ele

tem

uma

resposta

para

tudo,

mas

ainda

assim,

simplesmente sento na parte de trás do carro e balanço a cabeça enquanto o motorista dirige através de Greenwich Village, em linha reta em direção a NYU. O carro encosta na calçada quando chegamos, o motorista sai. Naz coloca seu telefone para baixo, com a mão cobrindo meu rosto enquanto ele se inclina para me beijar.


Não sei o que dizer, imaginando que já disse tudo quando eu o agradeci meia dúzia de vezes pela grande noite, então não digo nada, saindo quando o motorista abre a porta para mim. Faço a caminhada para dentro descalça, carregando meus sapatos, e cavo minha identidade na bolsa para liberar minha entrada. Eu posso sentir os olhos em mim enquanto passo pelo saguão, sinto-os em mim enquanto eu espero o elevador, sinto-os em mim durante a viagem no andar de cima, muito consciente de que estou fazendo a caminhada da vergonha mais óbvia de todos os tempos. Mas eu não tenho vergonha, nem um pouco. Passeio pelo corredor quando chego ao décimo terceiro andar, direto para o meu quarto, no canto. Música alta flui de lá, sacudindo as paredes. Minha mão segura a maçaneta e vira, assim que eu chego lá, grata por Melody nunca trancar a maldita porta, porque eu não acho que tenho a minha chave. Assim que eu começo a abrir, eu ouço sua voz. "Oh Deus, oh sim!" Ela chora. "Assim mesmo!" O tum-tum- de sua cama batendo na parede soa como uma britadeira. Paro instantaneamente, não querendo ver o que está acontecendo lá dentro. Minha mão está fora da maçaneta novamente, a porta fechando, nenhum deles sequer me ouviu da forma como ela grita. "Oh, Paul, baby, você é tão bom!" Encolhendo-me, vou embora, balançando a cabeça. Idiota. No meu caminho de volta para o elevador, puxo meu telefone, deixando escapar um suspiro de resignação, enquanto digito o número. Eu pressiono a seta para baixo, assim que ele responde. Naz renuncia qualquer tipo de saudação, apenas dizendo: "Estou esperando aqui embaixo."


Ele está. O carro ainda está estacionado ali, exatamente onde estava quando saí, o motorista esperando no meio-fio. Ele abre a porta para mim, e eu deslizo, vendo Naz ainda focado em seu telefone, parecendo tão casual. Seus olhos cortam para mim quando a porta se fecha. "Huh." "Huh," repito. "O que ‗huh‘ significa?" É a sua segunda coisa favorita de dizer, além de 'absurdo'. "Isso significa que não levou tanto tempo como eu imaginei que levaria para mudar de ideia. Eu esperava que você, pelo menos se trocasse antes de você começar a se lamentar." "E então, você iria apenas ficar sentado aqui?" Eu pergunto. "Quanto tempo você iria esperar?" "O tempo que fosse." "E se eu não mudasse de ideia?" "Você teria," diz ele, enfatizando. "Você gosta de mim." "Eu gosto de você?" "Sim." Eu rio, mas não o contesto porque sim, eu gosto dele. Eu gosto muito dele, tanto que tenho pavor de admitir até que ponto eu gosto deste homem. E do modo como seus olhos voam para mim, e o sorriso que toca seus lábios, suspeito que ele possa conhecer o meu dilema, pode saber o quão ruim é. "Está tudo bem, no entanto," diz ele, "porque eu gosto de você também." Sua casa está fria quando chegamos lá. Posso ver a minha respiração sempre que eu expiro, uma nuvem de neblina no ar em torno de mim. Eu tremo, passando os braços em volta de mim, mas o frio não


parece incomodar Naz. Ele coloca seu casaco e colete para baixo no sofá da sala enquanto me observa. "Você sabe onde é o banheiro," diz ele. "Vá em frente e tome um banho quente. Eu vou aquecer o lugar enquanto você faz isso." Hesito. "Eu tenho que colocar o vestido de volta?" "Não, eu vou deixar alguma coisa na minha cama para você usar." Faço o meu caminho lá para cima sozinha. Está escuro aqui, apesar do sol estar brilhando lá fora, como se a metade de cima de sua casa estivesse sempre nas sombras. Vou direto para o banheiro me trancando dentro, ligo a água quente para tentar aquecer o ar. Alcanço atrás de mim, lutando para desabotoar o vestido por conta própria e saio dele, sem saber o que fazer com a coisa, então eu apenas o deixo no canto. Passo sob a água, vacilo quando queima, mas não me atrevo a baixar a temperatura. O quarto está muito frio. Permaneço sob o jato até a minha pele ficar rosa e enrugada, absorvendo o máximo de calor que puder, saboreando a sensação da água batendo contra mim. A pressão parece como mãos massageando os músculos tensos, levando a dor para longe. Contusões fracas mancham minha pele em alguns lugares, resultado de seu aperto forte, lembranças do jeito que ele possuiu o meu corpo, que pertencia somente a ele. Passe um pouco de sabão e até mesmo um pouco de seu xampu, saindo cheirando como verão irlandês. Arrepios surgem ao longo da minha carne, assim que o ar me atinge. Eu me seco, envolvendo uma toalha branca grossa em torno de mim quando eu corro do banheiro. Assim como Naz disse, as roupas estão na cama, um par de calças de moletom preto e uma camiseta branca simples. Eu deixo cair


a toalha e os puxo, fazendo uma carranca para minha falta de calcinha e sutiã. Tenho que enrolar a calça algumas vezes na cintura para que ela fique para cima, ainda arrastando em meus pés. Volto para o andar de baixo, os braços cruzados sobre o meu peito enquanto procuro Naz, perguntando onde ele foi. Vou para a sala enquanto não o encontro em nenhum outro lugar, e ouço sua voz quando me aproximo da porta. "Sim, você está certo, é mais complicado do que eu esperava." Paro a poucos metros da porta, percebendo que ele está no telefone e não querendo interromper. Eu sei que deveria caminhar de volta para longe, para dar-lhe um pouco de privacidade, mas eu apenas fico no lugar. Chame isso de curiosidade. "Eu não mudei minha mente," diz ele, "e eu não vou mudar. Você sabe muito bem que eu não desisto no meio do caminho, especialmente algo como isso. Eu estive esperando por este momento por muito tempo, Ray. Tanto quanto você." Eu tremo. Eu não tenho certeza se é o frio ou o nome que o provoca. "Santino tem enrolado," diz ele. "Eu vou lhe fazer outra visita esta semana e acender um fogo sob a sua bunda para obter o arquivo." Um arquivo? Isso é o que ele quer? "Não, eu não quero fazer isso se eu não precisar. Eu lhe disse, as coisas mudaram... É complicado. Santino vai passar. Ele está apenas com medo de furar o pescoço, você sabe, e acabar ficando com a cabeça cortada. Ele pensou que não teria de me ver novamente depois que ele pagou, mas ele deve saber que nem todas as dívidas podem ser perdoadas apenas com dinheiro."


Ele faz uma pausa por um momento, o silêncio ensurdecedor. Meu coração está batendo tão forte que tenho medo que ele pode ouvilo, que ele vai saber que estou aqui. Mas depois de um momento, ele solta uma gargalhada. "Ah, vamos lá, Ray, você me conhece. Você sabe que eu gosto de brincar com fogo. É uma das minhas especialidades." Mais palavras são trocadas, mas eu não as ouço. Volto para longe da porta, correndo de volta para cima onde quer que seja seguro e não acho que ele vá ouvir meus passos. Volto para o banheiro e pego meu vestido, levando-o para o quarto, onde a toalha ainda está no chão. Eu pego, também, e olho em volta, à procura de um cesto, mas não há nada aqui. Virando-me, estou prestes a partir em busca de um quando quase esbarro com o corpo bloqueando a porta. Isso me assusta tanto que eu grito, um grito alto, quando meus joelhos quase cedem. Naz está ali de pé, olhando-me com cautela, enquanto seguro o vestido com força em meu peito. Eu não o ouvi chegar aqui em cima. "Você se assusta facilmente," diz ele. "Só estava vindo para ver você. Você se foi há um tempo." "Sim, eu, uh... Quer dizer, eu tomei um longo banho, e eu não queria sair porque, você sabe, estava bom e está frio... E por que está tão frio?" Eu sou uma péssima mentirosa. Eu sei. Ele está olhando para mim como se ele soubesse disso, também. "Eu me esqueci de ligar o aquecedor ontem antes de sairmos," diz ele. "A temperatura caiu durante a noite. Acendi a lareira na sala, por isso está quente lá em baixo." "Oh, ótimo," eu digo, segurando as coisas em meus braços.


"Eu estava indo para colocar isto em algum lugar... Onde quer que seja." Ele pega de mim, e balança a cabeça para que eu o siga. Passo por ele, andando de volta para baixo com ele em meus calcanhares. Ele vira à direita para um quarto que eu nunca estive — a lavanderia. Ele deixa as coisas e me segue até a sala. Está quente aqui, e eu gosto da sensação que eu sigo em frente para a fonte, sentindo as chamas a partir de alguns metros de distância, levando o frio, mas não fazendo nada para livrar minha pele dos arrepios. "Que tal um filme?" Ele sugere. "Claro," eu digo. "Você escolhe dessa vez." "Você já viu Doze homens e uma sentença?" Seu filme favorito, eu me lembro. Balanço minha cabeça, nunca nem sequer ouvi falar dele, e um olhar de perturbação cruza seu rosto. "Huh. Nós vamos ter que corrigir isso." Ele coloca o filme enquanto eu sento no sofá. Um velho filme em preto-e-branco, ao que parece. Naz se instala ao meu lado, colocando o braço sobre meu ombro e me puxando para ele. Suspirando, eu me aconchego ao seu lado. Ele está quieto, concentrado no filme, sua mão distraidamente acariciando meu braço, fazendo cócegas em minha pele e me distraindo do filme. Depois de algum tempo ele se inclina para baixo, pressionando um beijo no topo da minha cabeça. "Você cheira a mim." "Eu usei o seu shampoo," eu digo. "E o seu sabonete. Espero que você não se importe. Eu provavelmente deveria ter perguntado primeiro." "Eu disse para você se sentir em casa,‖ diz ele. "Não quero que


você sinta que têm que andar nas pontas dos pés, com medo de fazer algo errado ou algo que não deva, como ouvir conversas telefônicas." Meu sangue corre frio ao ouvir essas palavras. Posso sentir seus olhos em mim e não na tela. "Eu, uh..." Não sei o que dizer. "Está tudo bem," diz ele, essas palavras me silenciam. Ele beija o topo da minha cabeça de novo, assunto terminado conforme ele volta para o filme. Alguns minutos se passam antes de Naz soltar uma risada leve. "Então, me diga uma coisa... Você pelo menos pesquisou sobre mim no google?" Eu fico tensa. "O quê?" "Vamos lá," diz ele, mudando em torno de seu assento conforme eu sento. "Não me diga que você não fez a sua investigação." Eu zombo. É claro que pesquisei sobre ele. Fiz isso depois de acordar em sua cama naquela manhã, logo após de saber seu nome. Eu não sou uma idiota. Que mulher não faria? "Então, sim, ok... Eu fiz. Mas você pode me culpar?" "Claro que não," diz ele. "Será que você encontrou alguma coisa?" "Não," eu resmungo. "Nada." "Decepcionante," diz ele, brincando. "Mas, se serve de consolo, eu tive tanta sorte com você." "Você me pesquisou?" "É claro," diz ele. "Você nunca pode ser muito cuidadoso. Tinha que ter certeza de que você era quem você disse que era."


Capitulo 11 Mudanças não acontecem de uma noite para outra. Não há nenhum botão que é pressionado para alterar magicamente tudo. Mudança acontece pouco a pouco. Dia a dia. De hora em hora. É

o

tique-taque

de

uma

segunda

mão,

movendo-se

cuidadosamente, conforme faz o seu caminho em torno do relógio. Você não percebe isso até que já acabou, o minuto foi para sempre, enquanto você é impulsionado para o próximo, o tempo ainda passando, quer você queira ou não. Pouco tempo depois você tem dificuldade em lembrar o mundo como ele foi uma vez, a pessoa que você era, então, muito focada no mundo à sua volta em vez disso. Um mundo cheio de promessas. Um mundo cheio de emoção. Um mundo cheio de Naz. Não posso imaginar um mundo de outra maneira. Não tenho certeza de quando isso aconteceu, que minuto foi que me levou para o limite, empurrando-me sobre a borda e fazendo-me sentir como se eu pudesse voar sem asas. A demora transformou em muito mais conforme o homem se tornou a batida do meu coração e o sangue em minhas veias, roubando o pequeno pedaço da minha alma


que eu sempre mantive escondida. Ele atravessou minhas defesas e derrubou minhas paredes, e tudo o que tinha estava passando em segundos, um após o outro, lentamente alterando tudo. "Você mudou." Eu olho através do quarto para Melody, quando ela diz isso, o controle remoto da televisão na minha mão. Estive mudando de canal nos últimos dez minutos, mudando tão rápido que está começando a parecer com um piscar de luz estroboscópica. Ela está encolhida na cama, livro de filosofia aberto no colo. "O quê?" "Você mudou," ela repete. Eu só olho para ela. "Nós temos uma porra de teste em uma hora sobre Confúcio21, e eu não acho que você já abriu o seu livro durante toda a manhã. Normalmente, você é a única a estudar até o último segundo, mas parece que você não dá a mínima para nada. Você tá de boa e relaxada. Confúcio diz que sua bunda mudou." Deixo escapar uma risada. "É inútil. Eu poderia obter cada resposta certa sobre o teste e o bastardo apenas tiraria pontos, porque eu não pontuei um 'i' ou algo assim." "Então, o que, você está desistindo?" "O

conhecimento real

é

saber

a extensão

da

própria

ignorância." Sua testa franze. "Você está drogada?" "Não," eu rio. "É Confúcio. Isso significa que não importa se eu abrir o meu livro ou não, Melody. Nunca vou saber de tudo, Nunca vou ter tudo certo de qualquer forma, tanto faz... Eu estou bem com isso." Ela parece atordoada. "Você mudou mais do que Biggie 21

Foi um filósofo e pensador chinês do período das primaveras e outonos.


Smalls22." Minha testa franze. "Ele mudou?" "Ele passou de cinza, para desagradável, para elegante, não foi23?" Eu rio enquanto ela recita uma de suas canções e me inclino para trás contra a parede, estendendo minhas pernas para fora da cama. "Sim, bem, você mudou, também. Eu não acho que eu já vi você estudar tanto por algo antes. O que há com você?" "Eu só quero tentar ir bem," diz ela, batendo seu livro fechado. "Paul tirou um B na classe de Santino ano passado, então eu realmente quero ter um também, para que ele n��o ache que eu sou uma idiota ou algo assim." "Você não deve mudar quem você é por um cara." "Ha, olha quem está falando! Você passou de botas sem salto para Jimmy Choos de novecentos dólares." "Isso é de um rapper?" "Não, isso foi tudo eu. Muito bom, hein?" Ok, talvez ela não tenha mudado muito. "Independentemente disso, eu ainda sou eu," eu digo. "Apenas eu com mais coisas." Muito mais coisas. Meus olhos exploram o quarto com a menção do mesmo. Meu lado está começando a se parecer com o de Melody, o nosso espaço de vida inteiramente pequeno demais para encher muito mais. Uma coisa que aprendi rapidamente é que Naz é um doador, nunca hesitando em 22

Mais conhecido pelo apelido The Notorious Big, Biggie Smalls foi um rapper americano. É considerado, junto com tupac, um dos maiores rappers da história do Hip Hop. 23 Do original – I went from ashy to nasty to classy, a autora usa a frase de um dos raps de Big Smalls.


gastar com o melhor de tudo. Sapatos. Roupas. Flores. Orgasmos. Orgasmos para caralho. As coisas materiais eu posso ficar sem, e eu o digo isso, de novo e de novo, mas só um tolo recusaria um orgasmo dele. "A questão é," digo, voltando-me para Melody "você não deve se sentir como se você tivesse que trabalhar para impressionar Paul. Se ele já não está impressionado, se ele já não acha que você é brilhante, então, que se dane ele." Ela fecha a cara para mim, mas não responde, porque ela sabe que estou certa. Lançando o livro de lado, ela se levanta, alongando, enquanto vai até o espelho para colocar mais gloss. Eu começo a passear pelos canais novamente. Estou tão pronta tanto quanto estaria, vestindo jeans, um suéter e meu cachecol favorito. Tudo o que tenho a fazer é colocar minhas botas sem salto acima mencionados. "Você ainda não contou a sua mãe?" Melody pergunta. "Contei o quê?" "Sobre o seu velho rico." Eu rolo meus olhos e encolho, não tendo certeza da resposta que merece. "Primeiro de tudo, ele não é meu velho rico, ele é meu..." "Seu o quê?" Porra se eu sei. Namorado parece tão bobo. Isso não começa a abranger a força da natureza que é Naz. Ele é demais para enfiar em uma caixa com uma bonita etiqueta. "Ele é simplesmente... Meu." "Bem, você disse a sua mãe sobre o seu tanto faz o que ele é?" Eu zombo. "Claro que não. Ela vai perder a cabeça." "Você acha?"


"Eu sei que sim. Esta é uma mulher que tentou me impedir de ir ao baile porque ela estava apavorada. Tentei explicar que não haveria acompanhantes, mas isso apenas a assustou mais. Ela quase chorou quando eu insisti em ir, dizendo-me que não era seguro, que tive que prometer a ela que eu não iria deixar a dança, que eu não iria a lugar nenhum sozinha com qualquer pessoa sem que ela soubesse. Estou surpresa que ela não sentou no estacionamento e assistiu o tempo todo." Faço uma pausa. "Na verdade, ela deve ter feito isso. Mas o ponto é que ela é suscetível de ter um acidente vascular cerebral, quando eu contar a ela sobre Naz." "Você vai ter que dizer a ela uma hora." "Eu vou," eu digo. "Mas tenho que passar o próximo fim de semana com ela, e prefiro que isso não seja um longo surto onde tento explicar algo para ela que eu mal consigo entender por mim mesma, você sabe?" "Não invejo você," murmura Melody, seu foco em seu reflexo. "Na verdade, estou mentindo. Eu invejo. Invejo aqueles novos Louboutin pretos bombásticos que você tem. Eles ficam muito bem com o vestido que vou vestir esta noite." "Você pode pegá-los emprestados," digo. Ela gira de frente para mim. "Sério?" "Sim, por que não? Você me deixa pegar suas roupas o tempo todo." Mais como ela me força para elas, mas perto o suficiente. Ela grita, correndo para me atacar com um abraço, mas eu a espanto para longe para que possa colocar minhas botas. Depois de reunir minhas coisas, jogo minha bolsa nas costas. "Você vai nisso?" Melody pergunta. "Toda Suéter e cachecol?"


Eu rolo meus olhos. "É apenas um teste. Tenho que voltar aqui para tomar banho para hoje à noite, de qualquer maneira. Quem se importa com o que eu pareço?" Melody dá de ombros, pegando suas coisas e seguindo para fora da porta. A caminhada até o prédio de filosofia leva cerca de vinte minutos hoje, as calçadas congestionadas conforme as pessoas correm ao redor. Melody tagarelando sem parar, como de costume, ainda falado de uma tempestade quando entramos na sala de aula. Santino está sentado à sua mesa, as mãos cruzadas na frente dele, os olhos examinando a multidão enquanto tomamos nossos lugares. Sentamo-nos em nossos lugares habituais no fundo, mas mesmo daqui eu posso dizer que ele se parece como o inferno, óculos torto e cabelo despenteado. "Parece que Satanás não dormiu," diz Melody. "Muito ocupado torturando pobres almas para um momento de descanso." Ele não perde tempo, passando os testes antes que todo mundo ao menos tenha sentado. Folheio assim que pego o meu, avaliando o dano potencial. Principalmente de múltipla escolha, mas mesmo as poucas de preencher os espaços em branco e parágrafos de resposta parecem bastante fácil. Se eu não passar neste, nós temos um problema. Posso ouvir Melody bufando ao meu lado enquanto eu passo através do teste. Termino em 15 minutos, o restante da classe não muito depois. Melody é a última, com 20 minutos para acabar. Santino recolhe os testes, mas em vez de nos dispensar cedo, ele pega um pedaço de giz e escreve uma única palavra em letra maiúscula por todo o quadro-negro. ASSASSINATO. Há um fluxo de murmúrios através da sala de aula que ele


silencia quando pega seu maldito bastão e bate contra sua mesa com tanta força que estou surpresa que não quebre. "Levante a mão," diz ele. "Quem acha que assassinato é errado?" Todos de uma vez, todas as mãos na sala de aula vão para cima. Seus olhos passam por nós. "Por quê?" Tão rápido, quase todas as mãos caem de volta. Santino verifica quem está à esquerda, apontando para um menino na primeira fila. "Porque é ilegal." Santino fica olhando para ele como se ele fosse um idiota antes de passar, apontando para uma menina ao lado. "É imoral," diz ela. "É errado tirar a vida de alguém." Ele se move para a direita, chamando outros, que dão muito das mesmas respostas. Depois de todos os que se ofereceram falaram, ele examina nossos rostos novamente e balança a cabeça. "Por que é que todos vocês acham que o assassinato é errado, mas não podem dizer por que é errado, exceto que ele só é errado porque é ilegal? É ilegal porque é errado, é errado porque é imoral, é imoral, porque isso é errado. Mas por quê?" O silêncio é ensurdecedor. "Levante a mão," diz ele novamente. "Quem acredita em pena de morte?" A maioria da classe levanta as mãos, Melody incluída. Vacilo, mas eventualmente levanto a minha, não tanto como cinismo, apenas não querendo que ele me chame para essa conversa. Ele sorri, todo intimidante, conforme ele examina nossas mãos. "Ah, então vocês não


acham que o assassinato é errado?" Mãos lentamente caem. "Se definirmos o homicídio como um assassinato premeditado de outro ser humano, não é um assassinato colocar alguém para morrer? O que faz uma situação certa e a outra errada?" "Porque as pessoas no corredor da morte são assassinos," o mesmo cara de antes diz, sem se preocupar em levantar a mão neste momento. "Então, não há problema em matar alguém, se ele também já assassinou?" Santino pergunta. "Igualdade de Justiça? Olho por um olho?" "Sim," diz o menino. "Mas isso não é assassinato. Assassinato é matar alguém inocente." "Você sabia," diz Santino, batendo seu bastão contra o chão, "que desde que a pena de morte foi restabelecida, 139 pessoas marcadas para morte foram absolvidas e libertadas? Nesse mesmo tempo, nós já executamos mais de mil e duzentos. Quantos deles vocês acham que eram inocentes? Talvez nenhum, mas se teve ao menos um, não torna isso um assassinato? Afinal, você matou um homem inocente." Ninguém sabe o que dizer... Exceto o mesmo maldito menino. "É uma pena que eles tinham que morrer, mas é para o bem maior." "E isso é precisamente o que um monte de assassinos diria sobre suas vítimas," diz Santino. "Então, novamente, levante a mão. Quem acredita em pena de morte?" Apenas algumas almas corajosas levantam a mão desta vez. "Duas páginas sobre o tema assassinato," diz ele, afastando-se de nós com um aceno de mão, dispensando a classe. "Para terça-feira."


Um gemido coletivo ecoa pela sala. É um final de semana de feriado — Páscoa. Levanto-me e pego minha bolsa, indo para a porta com Melody ao meu lado. Nós andamos pelo edifício e olho para cima, assim que nós saímos, meus passos parando quando fico cara a cara com Naz. Ele está estacionado em frente, encostado ao lado de sua Mercedes, com os olhos focados em mim. "Uh, oi," eu digo, quando ele anda em direção a mim, de repente, desejando que eu tivesse feito um pouco mais para ficar pronta, depois de tudo. "Oi." Ele beija o canto da minha boca antes de virar para Melody. "Olá de novo." "Ei você aí," diz ela, sorrindo calorosamente para ele, antes de seus olhos se voltarem para mim. "Encontro você no quarto, Kissimmee." A

testa

de

Naz

franze

enquanto

Melody

vai

embora.

"Kissimmee?" "É como minha mãe me chama," eu digo, encolhendo os ombros. "Brinca com meu nome ou algo assim, eu acho." "Kissimmee," diz ele novamente. "Como a cidade na Flórida?" "Sim," eu digo. "Então o que você está fazendo aqui? Pensei que nos encontraríamos mais tarde?" "Nós iremos," diz ele. "Na verdade, estou aqui a negócios." "Ah." Eu o olho peculiarmente. "Acho que vou deixar você chegar lá, então. Vejo você mais tarde?" "Não perderia por nada no mundo." Ele me beija novamente antes de caminhar para longe, entrando, agora que quase todo mundo já saiu do edifício. Fico olhando para a porta por um momento, e estaria mentindo se dissesse que não


estava tentada a segui-lo para dentro, para observá-lo, para ver o que ele está fazendo, mas não vou. Ele me pegou todas as outras vezes e sei que se o seguir, ele vai me pegar de novo. Suspirando, viro-me e faço a caminhada de volta para o dormitório. Quando vejo Naz novamente, horas mais tarde, ele parece estar em um humor peculiar. Ele nem sequer olha para mim quando escorrego para o banco do passageiro da Mercedes, nem sequer tenta sair para abrir minha porta. Não espero isso, ou preciso, mas quando geralmente ele é cavalheiresco, isso me chama atenção. Assim que fecho meu cinto de segurança no lugar, ele sai com o carro e se funde com o tráfego, sem dizer uma palavra. Seus olhos estão focados na estrada, correndo entre o para-brisa e o espelho retrovisor, nenhuma uma vez virando para o meu lado. Estabeleço-me no assento, deixando-o em seu silêncio conforme nós dirigimos através de Manhattan em direção à ponte. Nós deveríamos ir jantar. Não tenho certeza de onde, mas me vesti para isso, até mesmo coloquei um par dos novos saltos que ele me comprou. Mas fica claro quando ele dirige em direção ao seu bairro que estamos indo direto para sua casa, em vez disso. Viro-me para ele, confusa, e começo a falar, quando seus olhos encontram os meus finalmente. O olhar que ele me dá me faz engolir de volta a minha pergunta, a escuridão me dizendo que seu mau humor é mais profundo do que apenas sobre a superfície. Acho que prefiro o silêncio sobre o que poderia vir de seus lábios. Em vez disso, viro-me para longe, olhando pela janela do lado, conforme as casas passam, familiar agora de vir aqui tantas vezes. Ele ainda não fala quando chegamos, sai e fica de pé ao lado do carro,


esperando por mim para andar na frente dele. Ele abre a porta, conduzindo-me para dentro. O clique da trava atrás de mim é ampliado no silêncio gélido quando ele fecha a porta imediatamente. Hesito involuntariamente com o som, observandoo. "Está tudo bem?" Questiono, incapaz de conter a pergunta por mais tempo. Faz um tempo desde que me senti nervosa em torno dele. Eu me acostumei a ele, mas é uma sensação diferente agora. Ele parece diferente. Estou acostumada ao meu relaxado, playboy presunçoso, charmoso e intenso, e não este tenso, enervante homem na minha frente. Ele balança a cabeça, tirando seu terno antes de se virar para mim. "Por quê?" "Você parece... Nervoso." "Tem sido um longo dia," diz ele. "Você está bem em encomendar o jantar?" "Claro." Ele caminha até a cozinha, acendendo a luz conforme ele vai. Sigo logo atrás, parando na porta para olhar ao redor. Eu não gasto o tempo todo aqui, e ele não parece, tampouco, embora seja impecável, tudo polido e brilhante e parecendo ainda novinho em folha. Naz pega um cardápio para viagem de uma gaveta ao lado da geladeira e pega o telefone, discando o número. Um lugar italiano, ao que parece. Ele ordena uma grande pizza de pepperoni e hesita, virando-se para mim, enquanto ele ainda está no telefone. "Você tem alguma coisa de chocolate? Sim, chocolate, algum tipo de sobremesa." Ele fica quieto por um segundo antes de cortar, erguendo a voz. "Eu


disse chocolate. Eu não sei o universo em que vive, mas pannacotta24 com frutas vermelhas não é chocolate. Você quer me tratar como um idiota, como se eu não soubesse que porra pannacotta é, e eu vou lhe mostrar um idiota." Fico tensa, olhando para ele com choque com sua raiva aparente. Ele joga o cardápio de volta na gaveta e fecha antes de falar novamente. "Dê-me as duas coisas. Sim. E apresse-se." Ele desliga, lançando seu telefone no balcão sem cuidado, e passa direto por mim sem falar. Fico olhando para o seu telefone descartado, meu estômago apertando, enquanto ele sobe as escadas. Eu não o sigo. Em vez disso, faço o meu caminho para a sala de descanso, não acendendo a luz ou tocando em nada. Sento-me no sofá e tiro meu próprio telefone, mexo um pouco nele para me distrair. Mando mensagem para Melody, mas ela está no caminho para conhecer os pais de Paul para passar a Páscoa com eles, e não quero sobrecarregá-la. Leva um tempo para Naz voltar. Eu não o ouço, nunca ouço, mas ele aparece na sala, acendendo a luz quando entra. Meus olhos continuam colados ao meu telefone enquanto estalo passarinhos coloridos em toda a tela, mas posso sentir seus olhos. Agora ele está olhando para mim. Sua voz é calma, mais calma, quando ele pergunta, "O que você está fazendo?" "Matando porcos." Ele solta uma risada seca. "O meu passatempo favorito." Viro meus olhos para ele. "Você joga Angry Birds?"

24

A panacota ou panna cotta é uma sobremesa típica da região italiana do Piemonte, elaborada a partir de nata de leite, açúcar, gelatina e especiarias, especialmente canela.


Não posso imaginá-lo jogando jogos como este. "Claro, seja qual for." Ele senta no braço do sofá ao meu lado e oferece um pequeno sorriso. A visão disso, embora tensa, clareia o ar. Ele pode ser louco, mas ele não está com raiva de mim. "Você está linda esta noite. Sinto-me mal por não levá-la para jantar. Eu deveria estar exibindo você." "Está tudo bem." Deixo o meu telefone de lado e mudo meu corpo para encará-lo. "Não me importo de ficar. Gosto de estar aqui." "Bom, porque eu gosto de você aqui." Ele estende a mão e segura meu queixo, correndo o polegar sobre meu lábio inferior. Acho que ele vai me beijar, e minha respiração para com antecipação, mas ele muda o foco em seu lugar. "Então, como vai a faculdade?" "Uh, tudo bem." Nós mencionamos a faculdade antes, mas é a primeira vez que ele aparentemente me perguntou sobre isso assim. "A maioria das minhas aulas estão indo bem." "Como está em filosofia?" "Terrível." "Huh." Ele puxa a mão dele do meu rosto. "Se ficar muito ruim, deixe-me saber e vou cuidar disso." "Você vai fazer meus testes para mim? Fazer o meu dever de casa?" "Tudo o que você quiser que eu faça." Um sinal sonoro alto ecoa através da casa, e de repente ele fica tenso novamente, com as costas rígidas e os ombros retos. Ele senta assustadoramente parado, como se tivesse sido transformado em pedra pelo olhar de Medusa, quando o sinal ecoa mais uma vez. "Tenho quase certeza que provavelmente é o cara da pizza na porta," digo.


Ele vira os olhos para mim enquanto se levanta, murmurando um ‗fique aqui,‘ antes de ir para fora. Fico onde estou, girando meus polegares, até que ele volta com a comida. Ele põe a caixa de pizza sobre a mesa com dois recipientes menores em cima dela. Xereta, eu as abro, vendo que é mousse de chocolate e tiramisu. "Você gosta de chocolate," diz ele, acenando em direção a elas como se explicasse. Ele pediu para mim. "Sirva-se. Eu preciso fazer algumas chamadas e lidar com algumas coisas." "Você não vai comer?" "Não agora." "Medo de estar envenenado? Porque do jeito que você falou com o cara no telefone, eu poderia estar um pouco preocupada, também." Ele ri quando liga a TV, aumentando o volume, antes de deixar cair o controle remoto sobre o sofá ao meu lado. "É seguro. Volto daqui a pouco." Ele sai, deixando-me na sala sozinha novamente. Como e passo pelos canais, como um pouco mais e mudo mais um pouco, indo uma e outra vez até que eu estou cheia e já passei por cada show algumas vezes, deixando em algum reality show, não estou realmente prestando atenção. Mexo no meu telefone um pouco mais antes de me levantar e caminhar ao redor da sala, mais uma vez indo para suas estantes de livros. Não sei quanto tempo passou — quinze minutos, talvez trinta — antes de ele entrar, pegando-me enquanto eu puxo um velho, desgastado livro da prateleira. Crime & Castigo. "Bom livro," diz ele, sentando-se em sua cadeira atrás de sua mesa, colocando seu telefone em frente a ele. "Já leu?"


"Não." De repente estou lamentando tudo o que disse a Melody no início desta tarde. Quero ler o livro maldito apenas para que eu não pareça uma idiota para ele. "Huh." Devolvo o livro à prateleira, meus dedos deslizando sobre a lombada dos livros perto dele. "Você tem bastante livro de filosofia. Acho que você provavelmente poderia fazer meu trabalho para mim." "É um assunto interessante," diz ele. "Quando você não pensa demais, de qualquer maneira." Viro-me para ele com curiosidade. "Você acredita em pena de morte?" "Sim." Ele não tem que sequer pensar nisso. "Você acha que o assassinato é errado?" Espero outra resposta enfática, um sim, mas desta vez ele hesita. "Isso é muito amplo para uma pergunta. Você está excluindo homicídio justificável?" "Matar é alguma vez justificável?" "Claro que é." Ele olha para mim, e parece que ele quer dizer mais, mas ele hesita novamente. "Você já ouviu falar do Conselho de Carneades25? Santino explicou isso a você?‖ "Não." "Vamos dizer que estamos náufragos, e nós dois vemos uma prancha flutuando na água, mas é grande o suficiente apenas para manter um de nós." "Isso soa estranhamente como o fim de Titanic." 25

Do original Plank of Carneades – Trata-se de uma proposta de exploração do conceito de autodefesa em relação ao assassinato.


Ele ri e continua. "Você vai para a prancha primeiro, mas sabendo que vou me afogar se não fizer alguma coisa, eu empurro você e a roubo para mim. Por isso, você morre. Isso foi assassinato?" "Sim." "Você tem certeza?" Sua pergunta me faz uma pausa. "Você me matou pela prancha." "Ou será que eu só defendi a minha própria vida?" Ele pergunta. "É matar ou ser morto, então sim, Karissa, às vezes matar é justificável." "Mas eu não estava ameaçando." "Talvez não, mas você ainda era uma ameaça." Ele me olha incisivamente. Não sei o que dizer sobre isso. Não sei o que pensar. "É irrelevante neste caso, porém," ele diz. "Eu daria a prancha para você." "Por que você não pode matar?" "Porque eu não poderia matar você." Essas

palavras

deveriam

me

assustar,

e

sinto

um

formigamento na minha espinha, mas tenho uma emoção estranha ao protecionismo em sua voz. Toda garota quer seu próprio Jack Dawson26. Lentamente, vou até ele e subo em seu colo, montando-o na cadeira. Envolvo meus braços em volta do seu pescoço, olhando em seus olhos, absorvendo a insinuação de emoção que encontro. Ele é um turbilhão de escuridão, e me sinto sendo sugada 26

Personagem principal de Titanic.


mais e mais para as profundezas do seu abismo. Estou me afogando nele. Suas mãos correm até minhas costas enquanto ele me puxa para um beijo. Eu posso senti-lo endurecer, forçando a virilha de suas calças, calor correndo por mim com a sensação. Saber que tenho o mesmo efeito sobre ele que ele tem em mim é inebriante. Meus dedos formigam com a vontade de tocá-lo. Minhas mãos derivam para baixo entre nós. Estendo a mão para seu cinto, atrapalhando-me com a fivela um segundo antes dele me impedir. Eu puxo para trás e começo a fazer beicinho quando ele desfaz o cinto, fazendo trabalhando em seu botão e zíper, antes de me puxar de volta para ele para outro beijo. Eu não perco minha chance. O segundo em que ele me solta, minha mão desliza em suas calças e envolve em torno de seu pau. Arrasto entre nós, acariciando-o enquanto o beijo de volta com tudo em mim. Ele é quente, tão malditamente quente. Posso senti-lo crescendo na minha mão, endurecendo como concreto. Meu polegar roça na cabeça, sentindo a gota de umidade. De repente, quero proválo, passar a minha língua ao longo da fenda e levá-lo na minha boca, mas ele não me dá a chance. Ele agarra meus quadris, puxando-me em direção a ele, se esfregando contra mim. "Deixe-me dentro de você." As palavras me fazem tremer. Eu não tiro a roupa, deslizando para o lado o tecido miserável da minha calcinha, grata por estar usando esse vestido maldito, depois de tudo. Levanto e afundo nele, meus olhos rolando na parte de trás da minha cabeça. Movo meus quadris, beijando-o profundamente, saboreando


cada segundo que ele está dentro de mim. É diferente de qualquer outro momento, um momento roubado de paixão, sem apressar para a linha de chegada ou desesperadamente saltando obstáculos, apenas gostando de estar na corrida. Minhas mãos procuram as suas, nossos dedos se entrelaçando, conforme ele pressiona-os contra o seu peito. É a coisa mais íntima que já experimentei. Completamente vestida, de alguma forma me sinto completamente exposta, cortada aberta e vulnerável, mas tão, tão valiosa. O homem poderia me agarrar como um galho, mas ele me agarra como se eu fosse a forte prancha, como se eu fosse a tábua de salvação na água, seus meios de sobrevivência, sua única chance de resgate. Ele segura minha mão com tanta força que meus dedos doem, mas seu rosto parece relaxado, como se ele não estivesse preocupado com tudo a deriva. Ele quebra o beijo enquanto inclina a cabeça para trás, os olhos fechados, seus lábios se separaram quando ele solta um suspiro. Eu beijo sua boca, seu rosto, o queixo desalinhado, meus lábios viajam por todo o rosto, explorando sua pele. Ele não se move, não faz nada, mas esmaga minhas mãos mais apertado, pressionando contra ele mais forte. É como se ele estivesse me puxando para dentro dele, e eu posso sentir seu pulso, seu forte batimento cardíaco, batendo em seu peito. Ele é um furacão de emoções que não posso começar a entender, mas amo isso. Eu o amo. E eu sei disso quando olho para ele, vendo tal serenidade em sua expressão. Quero cada célula dele em todas as minhas células, porque quando ele está dentro de mim, eu me sinto bonita. Eu me sinto forte. Sinto que eu sei o que significa o amor. Amar significa ver a beleza no feio, a luz no escuro, aceitar que, mesmo se as luzes estão apagadas, e eu não posso ver o que está na minha frente, haverá alguma coisa lá para guiar o meu caminho. Amar significa transformar-se de dentro para fora, entregando-se mais para outra pessoa, e confiando nele... Confiando nele para tocar em


você, para lidar com você, para dobrar você, mas nunca, nunca quebrar o que você lhe dá. E eu o amo. Foda-se, eu o amo. "Eu amo você." As palavras caem dos meus lábios como um sussurro tenso, um suspiro trêmulo forçado de mim, enquanto as borboletas tomam o voo no meu estômago, comprimindo meu peito até que não posso fodidamente respirar. Seus olhos lentamente abrem para encontrar o meu olhar. Ele não se move — não reage — encara-me com tanta força que parece como se ele estivesse fodendo minha alma, como se talvez pensasse que me ouviu, mas não poderia possivelmente ter sido assim. Então digo isso de novo. "Eu amo você." A segunda vez surge uma reação, sua expressão tensa como se ele estivesse lutando contra um vacilo. Antes que eu possa fazer qualquer outra coisa, ele fala em voz baixa. "Não diga isso, a menos que você queira dizer." "Eu amo você," eu digo, pela terceira vez. "Eu am—" Eu sou cortada no meio da palavra. Naz sai da cadeira comigo agarrada a ele em choque. Ele asperamente me deixa cair em sua mesa, as coisas cavando em minhas costas. Ficando entre as minhas pernas, uma mão agarra meu quadril para me manter no lugar enquanto a outra mão se instala no meu pescoço. Ele empurra para dentro de mim duro, e suspiro, o ruído cortado quando a mão em volta da minha garganta aperta. Meu peito violentamente queima quando tento inspirar, pressão crescendo dentro de mim. Ele ferozmente empurra para dentro de mim de novo e de novo, não deixando de lado o meu pescoço. Minha visão embaça, o tempo para, enquanto seus dedos calejados pressionam


contra minha jugular. Eu não posso respirar. Eu não posso respirar. Eu não posso respirar. A pressão aumenta, e aumenta e aumenta, até que eu sinto que estou indo para estourar. Ambas as mãos agarra-lhe o braço, segurando tão firmemente quanto ele está pressionando contra o meu pescoço, terror como eu nunca senti me dominando. Eu agarro na pele de seu braço, tentando puxá-lo para fora, mas ele é forte. Tão forte. Muito forte. Segundos parecem horas. É só um pouco, não mais do que dez. Dez segundos que duram uma eternidade conforme ele me sufoca. A pressão se acumula até que não tem mais para onde ir, a escuridão salpica a minha visão enquanto eu explodo. É terrível, o modo como meu corpo parece ter pegado fogo, a bomba explodindo dentro de mim, destruindo-me no centro. Respiro acentuadamente, meus pulmões avidamente inchando conforme o peso no meu pescoço diminui quando ele solta o seu aperto. Meu corpo convulsiona, um som estridente me escapando, primitivo, desumano. Eu sou a porra de um animal. Orgasmo me derruba, formigando meu couro cabeludo e enrolando meus dedos dos pés. Tento desesperadamente recuperar o fôlego, mas cada espasmo muscular bate de volta para fora de mim quando eu suspiro... E suspiro... E suspiro para mais ar. Parece que vai durar para sempre, o prazer tão intenso, e alto, tão alto que antes mesmo de se dissipar eu me sinto como se tivesse batido no chão. "Amarelo," eu grito, a palavra estrangulada. De uma vez só, a


mão de Naz deixa meu pescoço inteiramente enquanto ele retarda seus movimentos. Ele não para, não puxa para fora, inclinando-se mais sobre a mesa para olhar para mim. Seus olhos encontram os meus, preocupado. Lágrimas obscurecem minha visão, uma escorrendo pela minha bochecha que ele enxuga. Ele me puxa para cima, me deslocando para a beirada da mesa, seus braços envolvendo em torno de mim. Seus movimentos são medidos, suas mãos suaves. Uma estranha espécie de euforia se instala através de mim conforme o meu corpo relaxa, um formigamento persistente em meus membros enquanto ele me segura contra seu peito. Nunca na minha vida me senti com tanta força. Nunca tinha sido tão grata apenas por respirar. Eu nunca me senti tão viva. Isto é doente. Talvez eu esteja doente. Mas eu estou quase tentada a pedir-lhe para fazê-lo novamente. Eu não faço, apesar de tudo. Eu não faço nada. Eu não digo nada. Ele acaba não muito tempo depois. Ele não puxa para fora desta vez. Eu posso senti-lo vir para dentro de mim, convulsionando, enchendo tudo de mim com tudo dele pela primeira vez. Ele para em seguida, sua respiração abatida, enquanto ele sussurra em meu cabelo, "Eu também amo você."

Estou sozinha. Eu sinto isso assim que abro meus olhos.


O quarto está escuro como breu. É o meio da noite, embora eu não tenha certeza da hora ou quanto tempo eu estive dormindo. Eu estou completamente nua, mas embrulhada nos lençóis de Naz, o cheiro dele agarrado a mim. Eu rolo para o meu lado, enquanto espanto o sono. Atingindo mais, passo a mão ao longo dos lençóis brancos. O lado da cama de Naz está muito frio. Ele esteve fora por um tempo. Contemplo fechando os olhos novamente, imaginando que ele estará de volta, em breve, mas curiosidade leva o melhor de mim. Onde ele poderia estar? Saindo da cama, pego a camisa de botão de Naz do chão e visto, prendendo alguns dos botões no meu caminho para fora da porta. Eu desço as escadas, ouvindo um som fraco sibilante quando eu chego ao final das escadas. Uma luz brilha da lavanderia. Indo naquela direção, eu agarro a maçaneta e abro a porta, encolhendo-me com brilho quando eu olho para dentro. A sala está vazia, completamente, exceto pelo farfalhar da máquina de lavar. Ele está fazendo a lavanderia? Agora? Tem que ser, pelo menos, três horas da manhã, talvez quatro. Nós não fomos para a cama antes da meia-noite, fazendo amor mais uma vez antes de adormecer. A segunda vez não tinha sido nada além de suave, nenhuma agressão presente, como se tivesse sido removido na sala. A lembrança disso faz o cabelo na minha nuca arrepiar. Ele não pediu desculpas por isso. Não tenho certeza se quero que ele se desculpe, de qualquer maneira. Afastando-me da lavanderia, passeio pelo resto da casa, e não o encontro em qualquer um dos locais habituais. Tudo está escuro e


frio, arrepios revestindo minha pele conforme eu passo meus braços em volta do peito. Vou da cozinha para a sala de descanso e para a sala de estar, meus passos hesitantes enquanto olho para a porta da frente. Fico olhando para ela na escuridão, percebendo de imediato que está entreaberta. A trava está virada para cima, o bloqueio da porta pendurado. Caminhando até lá, agarro a maçaneta e abro, tremendo com explosão de ar fresco. Meus olhos exploram o bairro escuro enquanto espreito para fora, certificando-me de que ninguém está por perto, antes de pisar meio-vestida para a porta e enrijecer. A Mercedes não está onde ele estacionou mais cedo. Fico olhando para a entrada de automóveis vago e passo para a varanda, meus olhos percorrendo em torno da rua, mas está longe de ser vista. "O que você está fazendo?" A baixa voz atrás de mim me faz saltar enquanto giro ao redor, apertando meu peito. Meu coração está batendo como um tambor, ecoando nos meus ouvidos quando vejo Naz em pé dentro da casa, perto da porta. "Você me assustou!" Ele está vestindo um par de calças escuras, com os pés descalços, peito nu, parcialmente envolto em sombras que desaparecem quando ele avança para frente. Ele levanta uma sobrancelha, sua expressão séria quando ele pergunta novamente, "O que você está fazendo?" "Eu acordei e você tinha ido embora," digo, passando os braços apertados em torno de mim assim que outra rajada de ar frio sopra, fazendo-me tremer. Antes que eu possa dizer qualquer outra coisa, Naz agarra meu braço, puxando-me de volta para dentro da casa.


Ele

fecha

a

porta,

fazendo

uma

pausa

para

travá-la

novamente, antes de falar. "Eu não conseguia dormir." "Onde você foi?" "A nenhum lugar." "Mas o seu carro sumiu." "Está na garagem." "Por quê?" "Porque é lá que eu o coloco." Suas respostas despertam mais perguntas, que eu não chego a fazer. Ele vem para mim, pressionando sua palma da mão contra a minha bochecha, antes de sua mão ir para o meu pescoço. Inclino minha cabeça para trás, esperando que ele continue, mas ele faz uma pausa, as pontas dos dedos pressionando contra o ponto de pulso. "Seu coração está acelerado." "Isso é normal perto de você." Sua mão se move mais para baixo, o polegar roçando a curva na minha garganta enquanto eu engulo duramente. "Eu assustei você?" "Acabei de dizer que você assustou." "Não foi isso que eu quis dizer," diz ele, seus olhos deixando os meus para olhar para sua mão em volta da minha garganta. Oh. Aquilo. Lentamente,

aceno

quando

ele

encontra

meus

olhos

novamente. "Você gostou?" Hesito antes de acenar novamente. O canto de seu lábio contrai quando a mão dele deriva para


baixo, pelo meu peito, antes dele se afastar. "O carro está na garagem porque eu o limpei. Como eu disse, eu não conseguia dormir." "O que tinha lá para limpar?" Eu pergunto. "Seu carro está sempre impecável." "Você ainda não viu o porta-malas." Eu rio. "O que está no porta-malas?" "Nada agora." Ele dá um passo em minha direção, envolvendo um braço em volta de mim, enquanto ele beija o topo da minha cabeça. "Eu tenho trabalho a fazer. Você deve ir lá para cima." Ele começa a se afastar, mas pego seu braço para detê-lo, não querendo ir lá para cima sem ele. Ele para, olhando para onde eu o estou tocando. Meus olhos seguem a mesma direção, e eu hesito, vendo as marcas de unhas em seu braço. "Eu fiz isso em você?" Ele não responde, apenas se inclina para mim, pressionando um beijo suave nos meus lábios antes de sair do meu alcance. "Vá dormir um pouco, Karissa. Vou subir daqui a pouco." Naz sai da sala, deixando-me ali de pé sozinha enquanto se dirige para a porta além da cozinha, que leva para a garagem, suponho, quando ouço o motor da Mercedes rugindo segundos mais tarde. Suspirando, afasto-me e volto lá para cima, sem me preocupar em tirar a camisa quando subo de volta para a cama.

Naz está acordado antes de mim na manhã seguinte... Se é que ele até mesmo dormiu.


Quando saio da cama e me aventuro no andar de baixo, ele já tomou banho e está vestido de pé na cozinha lavando os pratos. É uma visão especial, que me faz parar para apreciar. Seu terno está no balcão atrás dele, as mangas arregaçadas até os cotovelos, com as mãos submersas nas espumas de sabão quente. Ele esfrega um copo com uma intensidade que é quase sem comparação, como alguém livrando uma parede de tijolos de graffiti. Estou surpresa por não quebrar em suas mãos. O cheiro de produtos químicos se agarra à cozinha, uma estranha mistura de água sanitária e limão nocivo. O chão brilha, tudo dentro da visão está polido. Eu não me aventurei mais longe na casa, mas algo me diz que os outros quartos estão tão impecáveis. Vendo como Naz não cozinha muito, ele não tem muitos pratos para lavar. Ele termina os copos antes de passar para uma faca, lavando-a com tanta força com um pano, que me preocupo que ele vá se cortar. Ele joga tudo em uma máquina de lavar louça quando termina, liga para lavá-los mais uma vez, antes de se virar para mim. "Boa tarde." Minha expressão cai. "Tarde?" "Sim," diz ele, olhando no balcão ao lado dele para onde o relógio está. "São 12:15." Meus olhos se arregalam. "Preciso me apressar ou vou perder meu ônibus!" "Seu ônibus?" "Ônibus para casa! Você sabe, para a Páscoa? Disse que estava indo para casa no fim de semana. Tenho que pegar o ônibus às 13:30."


Ele puxa a tampa da água na pia enquanto se vira para mim. "Esqueci ou eu teria acordado você." "Deveria ter lembrado você," eu digo, franzindo a testa. Isso escorregou da minha mente ontem à noite para lhe pedir para certificar de que eu acordasse. "Posso simplesmente levá-la," diz ele enquanto pega uma toalha para secar as mãos. "Não há necessidade de se preocupar com qualquer ônibus." "Isso é loucura," eu digo, balançando a cabeça. "Levaria o dia todo para ir e voltar." "É apenas quatro horas até Syracuse." "Nós não vivemos em Syracuse," eu digo. "Vivemos cerca de uma hora do lado de fora dela." "Não é um problema," diz ele. "Mas eu só... Eu não posso lhe pedir para fazer isso," eu digo. "E minha mãe, ela não iria gostar. Ela não gosta de estar perto de pessoas, e eu não disse exatamente a ela... Quer dizer, ela não sabe..." "Ela não sabe que você está vendo alguém," ele adivinha, fixando as mangas. "Sim," eu digo. "Eu vou dizer a ela, eu vou. É só que..." "Ela não vai entender," ele adivinha novamente. "Sim," eu digo. "Agradeço a oferta, no entanto. Realmente. E vou dizer a ela, mas apenas não agora. Se eu voltar para a cidade em breve, posso chegar a tempo para o ônibus." Ele pega seu casaco e coloca-o, arrumando o colarinho. "Se vista então, e eu levarei você lá." Assim como ele diz, ele me leva de volta a Manhattan no


tempo, mesmo tendo um minuto livre para tomar um café no caminho. Eu o beijo, oferecendo um sorriso tímido antes de beijá-lo novamente. E mais uma vez. E mais uma vez. "Eu vou sentir sua falta neste fim de semana," eu admito, sussurrando as palavras contra seus lábios. "Eu vou estar aqui quando você voltar," diz ele. "Vá, antes que você perca a sua chance." Eu o beijo mais uma vez a contragosto antes de sair do carro, observando-o ir embora, uma sensação de peso no meu peito que eu não posso explicar. Ele é minha lufada de ar fresco, e sinto que não posso mais respirar quando ele não está por perto.


Capitulo 12 Minha mãe é uma senhora louca, igual aquelas cheias de gatos, só que sem todos os gatos. Ela tem um cachorro em seu lugar. Killer é um pequeno vira-lata que ela pegou do lado da estrada quando eu tinha dezesseis anos, no dia em que se mudou para Watertown. Não sei com o que ele é misturado, sua pele é uma mistura confusa de ouro e branco escuro, suas orelhas de abano e olhos anormalmente grandes. Ele é tão passivo como um cão pode ser — sentimental e amoroso, totalmente preguiçoso quando se trata dele. Seu nome é irônico, considerando que ele não faria mal a uma mosca. Literalmente. Não vai nem machucar as moscas. Apesar da falta de gatos, minha mãe mostra todos os sintomas clássicos de uma mulher um pouco neurótica, sem amigos e se afogando em paranoia, uma eremita peculiar tirada direto das páginas sobre algo que Tim Burton sonhou. Seu cabelo é um emaranhado de ondas selvagens que ela deixa cair solto, seus olhos castanhos protegidos por um par de óculos com armação preta grossa. Sua loja de flores não é muito longe da estação de ônibus em Watertown, cerca de um quilômetro de caminhada próximo ao pôr do sol. Eu arrasto minha bolsa atrás de mim enquanto ando, querendo surpreendê-la. A loja é um pequeno prédio em forma de celeiro com um sinal acima pintado a mão escrito "flores". Ela nunca deu um nome ao lugar. Não sei como ela consegue qualquer negócio. Surpreende-me


que ela ganha dinheiro suficiente para pagar as contas. Um sino acima da porta toca quando entro, tudo bem iluminado e cheirando a doce. Arranjos de flores estão decorados em todos os lados, a caixa registradora antiga no balcão bem em frente de mim com ninguém mexendo. Killer esta enrolado no chão mastigando uma bola de tênis. Ele levanta a cabeça ao mesmo tempo em que um par de olhos espreita para fora da sala dos fundos. "Kissimmee!" Minha mãe salta para fora, correndo direto para mim, e passa malditamente perto do cão. Ela envolve seus braços em volta de mim enquanto Killer salta para cima e para baixo em torno de nós, latindo animadamente. "Ei, mãe," eu digo, abraçando-a de volta, antes de me inclinar para esfregar a cabeça do Killer. "Ei, amigo." Killer lambe minha mão em saudação. "Você andou até aqui?" Minha mãe pergunta, erguendo minha bolsa da minha mão e colocando de lado, avaliando-me, alisando meu cabelo e analisando as minhas roupas, totalmente agitada sobre mim até que empurro as mãos dela. "Você deveria ter me dito. Eu buscaria você!" "Está tudo bem," eu digo. "Não é tão longe." "Ainda assim, querida, está ficando tarde, então você não deveria estar andando sozinha. Você nunca sabe o que—" "Mãe," digo incisivamente, cortando-a antes que ela possa lançar sua palestra usual sobre segurança. "Estou bem. Realmente. Ainda tenho todos os meus dedos das mãos e pés, minha cabeça continua sobre os meus ombros, e não tenho nenhum osso quebrado. Nenhum dano feito." Ela me olha com ceticismo, sua expressão suavizando enquanto ela sorri. Ela me puxa para um abraço. "Eu senti sua falta.


Por quanto tempo você vai ficar aqui?" "Apenas o fim de semana," eu digo. "Eu tenho que estar de volta para a aula na terça-feira, mas eu sou todo sua, até então." "Ótimo, ótimo." Ela se afasta e começa a guardar as coisas da loja. "Assim que eu limpar, vamos sair daqui." Killer corre e pega sua bola, trazendo-a para mim. Ele cutuca a minha mão, olhando para mim. Eu arranco a bola de sua boca enquanto me movo para a porta. "Nós vamos esperar lá fora." Ela começa a se opor, mas a ignoro, abrindo a porta para o cachorro correr para fora. Manchas de grama cercam a loja, então eu levo Killer do lado do prédio, atirando a bola para o fundo do terreno para ele buscá-la. Ele late com entusiasmo, trazendo-a de volta para mim uma e outra vez. Minha mãe leva apenas alguns minutos para sair, abrindo a porta enquanto arrasta minha bolsa com ela "Vamos, pessoal!" Ela dirige um Jeep Grand Wagoneer batido, o único carro que eu já soube que ela possuiu. É mais velho que eu, grande e barulhento, um monstro de um veículo cheio até a borda com as memórias. Minhas coisas foram encaixotadas e amontoadas na parte de trás pelo menos uma dúzia de vezes, rotineiramente me levando para uma nova vida, um novo começo em outra cidade, tanto que eu estou surpresa que eu mesmo sei quem eu sou. Minha mãe joga minha bolsa no banco de trás, e Killer salta com ela, conforme vamos à frente. Ela vive a dez minutos do Watertown, fora dos limites da cidade, em um pequeno lugar chamado Dexter. A casa está escondida no meio de algumas árvores no meio do nada, ao longo de um rio, a terra invadida por flores e plantas. Estive aqui há alguns meses para o Natal, mas tenho uma sensação diferente agora — menor, mais isolada, não tão alegre quanto


me lembro que era. A pintura está lascada, flocos brancos cobrindo a varanda da frente. Ela tem mais fechaduras na porta da frente agora, tantas que ela leva uma boa hora para abrir. Preocupação desperta dentro de mim enquanto espero por ela para abrir a porta, mas não digo nada. Eu penso, entretanto. Ela está ficando ruim novamente. Os sinais estão lá, os sinais de que me lembro de quando era mais jovem. Portas fortemente trancada e janelas gradeadas, noites sem dormir, enquanto ela anda por aí, ouvindo o uivo do vento e pensando que é para buscá-la. Ela ficaria bem por semanas ou meses, às vezes até um ano, antes dela começar a agir como se as paredes estivessem se fechando sobre ela, o mundo pressionando em cima dela. Eu esperava que ela finalmente encontrasse um lugar onde se sentisse em paz, onde se sentisse em casa, mas todos esses bloqueios me dão arrepios. Os bloqueios são supostamente para mantê-la segura. Fechaduras, com ela, é um sinal de vulnerabilidade. O meu antigo quarto está exatamente como deixei, menor do que até mesmo o dormitório. É sufocante. Eu largo minha bolsa dentro do quarto antes de me aventurar na cozinha enquanto minha mãe começa a fazer o jantar. Faço uma pausa junto à janela e olho para fora para o vasto quintal com vegetação, vendo como Killer percorre as árvores na distância. Ele não vai longe. Ele nunca vai. Acho que é por isso que minha mãe valoriza muito ele. Ele nunca a deixa, nunca vagueia longe do seu lado por muito tempo. Quando ele estatela-se no quintal, meu olhar muda do painel de vidro até o parapeito da janela, observando os pregos grossos saindo da madeira velha, indiscriminadamente marteladas. Ela pregou as janelas fechadas recentemente.


"Tudo vai bem aqui, mamãe?" "Claro," diz ela. "O mesmo de sempre." Ela não parece muito convincente. A noite voa enquanto nos atualizamos. Ela parece relaxada, até mesmo feliz. Tranquiliza minhas preocupações um pouco. Talvez eu esteja exagerando.

Assassinato é matança premeditada de inocente... ... Errado, porque apenas não é certo matar... ... Considerado imoral pela sociedade por que... ... O que parece que estou fazendo para essa porra de dissertação.

Eu a estou matando. Suspirando, rabisco as palavras no papel. Inclino-me para trás na velha cadeira de madeira, meus pés apoiados no balcão conforme sento atrás do registro na loja de flores. Minha mãe está explorando através das plantas, cheirando os buquês e fixando os arranjos. Ela teve um total de dois clientes durante todo o dia, fazendo um colossal trinta dólares. Eu não sei quanto tempo ela pode continuar assim. Ela não parece incomodada ou preocupada em tudo. Killer está no chão perto dos meus pés, olhando para ela. É fim de tarde de sábado, e tanto quanto eu amo minha mãe e sou grata por ter a chance


de passar algum tempo com ela, já estou uma merda entediada neste lugar. Pergunto-me como Naz está indo. Quero chamá-lo, ouvir a sua voz, para ver o que ele está fazendo, mas resisto à vontade. Minha mão distraidamente deriva até o colar no meu pescoço, e eu mexo no pequeno pingente que ele me deu. Pergunto-me se ele está pensando em mim também. Pergunto-me se ele já sente minha falta. "Isso é novo?" A voz da minha mãe me chama a atenção de volta para ela. Ela está me observando. "Uh, sim." "É lindo," diz ela, dando um passo mais perto. Ela agarra o colar, olhando para ele. "Onde você conseguiu isso?" "Foi um presente de um amigo." Seus olhos estreitam conforme ela lê a inscrição. "Carpe Diem." "Sim, é um ditado latino." Levantando-me, mudo de assunto. "Eu estou com fome. aquela barraca de cachorro quente ainda é ao virar da esquina? Posso nos trazer algum almoço." "Sim," ela murmura. "Que tal eu ir com você? Vou fechar um pouco mais cedo hoje." Espero que ela termine o que está fazendo, amassando o meu início patético de dissertação e jogo em sua lata de lixo. Nós saímos, passeando pela calçada, Killer anda bem atrás de nós. Minha mãe parece no limite agora, os olhos correndo ao redor nervosamente. No meio do caminho, ela para abruptamente, ombros enrijecidos, corpo tenso quando ela verifica o tráfego fluindo pela rua principal. "Mãe?" Eu agarro o braço dela. "Você está bem?" Ela pisca algumas vezes, virando-se para mim, e força um


sorriso. "Sim, eu estive pensando... Esta cidade está ficando tão grande recentemente. Tantas pessoas novas. Nada como ela costumava ser." "Parece a mesma para mim." Menor até, talvez. "Eu não sei," diz ela, hesitante. "Eu acho que talvez seja hora de seguir em frente agora." "Mas você ama aqui," eu digo. "E você tem a loja." "Eu posso abrir uma loja em qualquer lugar," diz ela. "Talvez para o oeste. Finalmente ficar longe de Nova York para sempre. Você sempre quis ver a Califórnia." "Sim, mas..." Eu não sei o que dizer. "Nós podemos ter uma pequena casa perto da água," diz ela. "Killer vai adorar a praia. É perfeito. Vai ser como nos velhos tempos, você e eu na estrada aberta, começar de novo em algum lugar. O que você diz, Kissimmee?" "Mãe, eu não posso mudar para a Califórnia." "Por que não?" "Porque eu tenho faculdade," eu digo. "Tenho uma vida na cidade." "Você pode ter uma vida em qualquer lugar." Sua atitude blasé sobre isso me frustra a tal ponto que quase dói. Ela nunca vai entender a minha necessidade de estabilidade? Minha necessidade de um lugar para chamar de lar, finalmente? "Gosto da minha vida aqui," eu digo. "Pela primeira vez, tenho amigos, amigos que realmente me conhecem, amigos que quero manter. Não quero deixá-los."


Ela balança a cabeça, parecendo perturbada, como se ela não tivesse previsto que eu fosse resistir. Era diferente quando eu era mais jovem. Quando ela dizia para ir, eu tinha que ir. Mas agora estou crescida. Agora estou por mim mesma. "Você não entende," diz ela. "A cidade é tão perigosa." "Não é... Não mais perigosa do que em qualquer outro lugar. É a minha casa. Eu não posso simplesmente me mudar novamente. Estou feliz onde estou." Ela não diz mais nada sobre isso. Ela não diz absolutamente nada, para ser franca. Ela caminha comigo para pegar o almoço, caminha comigo de volta para a loja, e nos leva para casa em Dexter sem proferir uma única palavra para mim. A noite é tensa. Vou para a cama cedo, encontrando-me no pequeno quarto e olhando para o teto. A culpa está me corroendo. Eu a escuto andando pela casa, resmungando, palavras que eu mal posso decifrar me fazendo ter medo de ouvir. As palavras 'Carpe Diem' vêm de seus lábios como se ela fosse quebrar, pulando, e eu seguro o pingente do meu colar com força, lutando contra as lágrimas. Porque sei que ela está falando com ele, apelando para um homem invisível chamado John, aquele que a abandonou quando eu nasci. Eu sei que não é culpa minha. Não é minha culpa que ela é desse jeito. Não é minha culpa que ele a deixou. Mas foda-se, se eu não me sinto culpada de qualquer maneira. Minha porta arrasta aberta enquanto eu permaneço deitada. A trava dela nunca funcionou, tornando mais fácil para Killer entrar. Ele pula em cima da cama, se ajeitando perto dos meus pés, enroscando-se perto de mim.


O serviço é de má qualidade por aqui, o sinal no meu celular oscilando entre uma e duas barras, forçando apenas o suficiente para me fazer uma chamada. Disco o número de Naz, segurando o telefone na minha orelha, e coloco meu outro braço sobre meus olhos enquanto ouço a chamada. Não sei por que estou ligando para ele, e eu me sinto boba quando o seu correio de voz pega. É uma mensagem automática. Nem sequer começo a ouvir a sua voz. Suspirando, desligo sem deixar uma mensagem e deixo o meu telefone de lado enquanto fecho meus olhos, tentando dormir um pouco. Acordo cedo domingo de manhã, a luz do sol entrando pelas janelas. Começo a sair da cama, ouvindo minha mãe se movendo ao redor da casa, quando meu telefone toca sobre mim. Eu o pego, olhando para a tela. Uma chamada perdida. Naz. Ele não deixou uma mensagem, também. Domingo é melhor, enquanto minha mãe mergulha em todas as coisas de Páscoa, lírios frescos na mesa e uma grande variedade de comida para comer. Nós assistimos a filmes e falamos sobre boas lembranças, nenhuma de nós duas mencionamos algo de ruim. Mas na segunda de manhã, quando acordo e arrumo minhas coisas para ir embora, a vergonha me atinge como um trem de carga no peito. Nós voltamos alguns meses, de volta ao mês de agosto passado, quando a deixei pela primeira vez, tudo de novo. Ela tem lágrimas nos olhos quando me leva até a estação de ônibus. "Prometa-me que você está tendo cuidado. Prometa-me que vai ficar a salvo." "Eu prometo, mãe." Por um segundo me pergunto se menti para ela, perguntando


o que ela vai achar se eu disser a ela sobre Naz agora. Ela provavelmente me sequestraria. "Eu amo você, Kissimmee," ela diz. "Eu ligo para você, ok?" Dou-lhe um abraço, acariciando Killer enquanto ele enfia a cabeça para cima do banco de trás, e saio do carro antes de fazer o pior. Não quero ficar. Não posso ficar. Minha culpa vai me fazer querer ficar. Mas todas as outras parte de mim precisa ir.


Capitulo 13 Meu trabalho sobre assassinato está apenas metade escrito, rabiscado em papel num caderno no ônibus no caminho de volta para a cidade. Eu estava muito cansada quando cheguei aos dormitórios para terminar, distraída demais para me preocupar em fazer durante todo o dia. Minha mãe não está atendendo ao telefone. Ou eu a perturbei e ela está me evitando, ou ela está mergulhada no meio da mudança. De qualquer maneira, isso faz minha culpa aumentar, e eu passo toda a manhã deixando mensagens, desejando que ela me ligue de volta. Karma. Antes que eu perceba, Melody estava me apressando para fora da porta, gritando que íamos nos atrasar para a aula, se não nos apressássemos. Para onde o tempo foi? Estou tranquila enquanto nos dirigimos para o edifício, perdida em pensamentos, até Melody rir baixinho. "Bem, olhe para isso..." Eu olho, por pura curiosidade, e meus passos vacilam. A familiar Mercedes preta está estacionada em frente ao prédio de filosofia. Naz se inclina contra o lado dela, uma mão no bolso, levanta a outra segurando um único botão vermelho sangue, girando a flor enquanto ele olha fixamente para ela. Minha respiração engata com a visão dele, meu estômago dá voltas e fica se debatendo, enquanto estou de repente sentindo


vertigens. Hesitante, vou até ele enquanto Melody faz o seu caminho para dentro do prédio, não querendo chegar atrasada. Santino faz um espetáculo com alunos atrasados. "Tem um encontro quente com um professor de filosofia?" Pergunto, parando na frente dele. Ele sorri, seus olhos mudando da flor para mim. "Na verdade, estou esperando para pegar uma de suas alunas." Sorrio enquanto ele se afasta do carro, pisando em cima da calçada, mas o meu humor morre quando ele passa por mim, bem no caminho de uma menina loira pequena. Eu não a conheço, mas seu rosto é reconhecível. Ela está na aula de filosofia comigo. "Para você," diz ele, segurando a rosa. "Uma flor bonita para uma menina bonita." Ela a pega, corando, enquanto corre para dentro do prédio, quase correndo direto para a porta. Naz ri para si mesmo, como se fosse a coisa mais divertida da vida, uma jovem perturbada por seu charme, mas eu sinto apenas lava derretida no meu intestino. E queima. "Por que você fez isso?" "Parecia que ela precisava de uma animação," diz ele, virandose para mim, erguendo as sobrancelhas com minha expressão. "Você não está com ciúmes, está?" É ridículo, eu acho... Talvez eu seja boba, ou estúpida, ou ingênua, mas é a primeira vez que parei para pensar que poderia não ser a única. Claro, eu o vejo muito, mas há horas, às vezes dias, quando não estamos juntos e não sei o que ele está fazendo durante esse tempo. Ele trabalha, é claro... Ele diz que trabalha muito... Mas ele não tem o costume de se manter nesse tipo de programação.


Poderia haver outras quando não estou por perto. Odeio ser insegura. "Você está, não está?" O humor desapareceu de sua voz. "Você está realmente com ciúmes." "Existem outras?" Pergunto silenciosamente. "Não existem, certo?" "Outras o quê?" "Outras meninas." Ele olha para mim, nenhuma diversão em sua expressão enquanto se inclina mais perto. "Não há outras meninas. Eu não mexo com as meninas. Elas não têm nada a me oferecer. Preciso de uma mulher. E se você está me perguntando se eu estou vendo mais alguém, se estou transando com outra mulher, a resposta é não. Eu não estou interessado em qualquer outra pessoa, Karissa." Sua resposta me alivia, ao mesmo tempo me deixando fora de ordem, assustada com a paixão em sua voz. "Eu disse a você que a amava," disse ele. "O que eu vou ter que fazer para que você acredite?" "Eu, uh..." Eu gaguejo, esperando que ele tenha feito uma pergunta retórica, mas sua expressão me diz que ele realmente quer saber. "Eu não sei." "Não lhe mostrei o suficiente?" Ele pergunta. "Se você precisar de alguma coisa de mim, se você precisa de algo mais, diga-me e vou dar para você. Vou lhe dar o mundo. Eu só preciso saber o que você precisa." "Eu não preciso de nada," eu digo. Ele hesita, sua voz caindo ainda mais baixa. "Eu já lhe dei razão para não confiar em mim?"


"Não." "Então confie em mim," diz ele. "Estou pedindo a sua confiança agora. Se você quiser que eu vá até aquela sala e tome aquela flor de volta daquela menina, se é isso que vai ajudar, eu tomo. Eu vou arrancá-la de suas mãos e dá-la a você." "Não, não quero que você faça isso," eu digo. "Eu só... Eu não sei." "Bem, agora você sabe," diz ele, pressionando a palma da mão contra a minha bochecha. Ele se inclina para frente, pressionando o mais leve beijo em meus lábios. "Eu amo você." Aquelas palavras me fazem derreter. Se não fosse pelo fato de que ele está me tocando, beijando-me, segurando-me, juro que eu não seria nada, além de uma poça a seus pés. Ele beija meus lábios e, em seguida, minha testa, envolvendo seus braços firmemente em torno de mim num abraço, antes de — finalmente — hesitantemente se afastar. "Você deveria ir para a aula. Você está atrasada agora." "Ugh, eu estou," eu digo de cara feia enquanto volto para o prédio. "Eu vou levá-la,‖ ele oferece, apertando a mão na parte inferior das minhas costas para me movimentar. Eu abaixo a cabeça com ele ao meu lado, sem pressa enquanto nós passeamos em direção à porta da sala de aula. Eu posso ouvir Santino falando, já no meio de uma palestra. Eu caminho a contragosto para dentro e tento deslizar na mesa vazia ao lado de Melody sem ser notada, mas é inútil. No segundo em que Santino vira em minha direção, ele pega meus olhos, e para no meio da frase. Silêncio tenso sufoca a sala, todo mundo esperando que ele continue, mas ele parece ter esquecido o que estava falando. "Ah, senhorita Reed, que gentil de você nos agraciar com sua


presença," diz ele, fazendo com que mais de uma centena de pares de olhos virassem para mim. "Por favor, sente-se, fique à vontade. Sinta-se em casa. Eu vou esperar." Ele espera. O bastardo espera. Todo mundo olha enquanto me sento, colocando minha bolsa ao meu lado no chão. "Desculpe o atraso, senhor." "Oh, não, eu sinto muito," diz ele. "Espero que vir assim para a aula não tenha sido nenhum problema. Odiaria ser um inconveniente ou ocupar muito do seu precioso tempo. Sei que tem coisas muito melhores para fazer do que filosofia. Suas notas certamente refletem essa noção." Ouch. Murmúrios incômodos fluem através da sala. Eles morrem quando Santino lança de volta para sua palestra, ainda falando sobre o tema do assassinato. Suspirando, eu olho em volta, observando alguns pares de olhos ainda persistentes em meu caminho, enquanto o meu olhar seguiu o dele que voltou para a porta. Uma explosão de humilhação corre através de mim, fazendo minhas bochechas corarem. Naz ainda está de pé no corredor, em frente à porta. Ele ouviu cada palavra. Ele não olha para mim, seu olhar segue Santino na parte da frente da sala. Ele se esconde ali por um momento antes de dar um passo para trás, balançando a cabeça enquanto se afasta. Volto e puxo meu caderno e lápis, determinada a prestar atenção e tomar notas, mas já estou a dois passos atrás e antes que eu consiga recuperar o atraso, a aula terminou. Estou saindo do assento, colocando tudo na minha bolsa, quando a voz de Santino surge na sala de aula. "Senhorita Reed, se você puder poupar um minuto, preciso falar com você." Melody me lança um olhar de simpatia, soltando um "boa


sorte" enquanto se dirige para a porta sem mim. Não a culpo. Não iria ficar por aqui também. Levo o meu tempo, esperando que a maioria dos meus colegas saia, antes de passar para frente da sala. Santino apaga o quadro e não me reconhece por um momento, até mesmo depois de olhar para trás e me ver ali de pé. "Senhor?" Eu digo. "Há algum problema?" Ele coloca o apagador para baixo e se vira, olhando para mim através de seus óculos de lentes grossas. Ele não olha com raiva ou hostilidade, como eu esperava. Ele parece desapontado. Sem falar, ele chega a sua pasta e tira um papel, segurando-o para mim. Eu vejo o rabisco vermelho sobre todo ele, meu nome escrito na parte superior. Meu teste sobre Confúcio, completo com um grande, gordo D no canto superior. Eu tiro isso dele. "Eu não entendo. Eu sabia essas coisas." "Não é uma questão de conhecê-lo," diz ele, puxando a cadeira e sentando-se em sua mesa. "É uma questão de aplicá-la. Você pode me dizer o que o homem disse, mas você não consegue ligá-lo ao mundo real. Isso me traz para suas dissertações... Mesmo problema. Você pode definir a felicidade, mas você não pode aplicá-la. Você me diz o que Aristóteles e Sócrates pensaram sobre a felicidade, mas nunca, em todo o trabalho, contou-me o que faz você feliz." Eu fico olhando para o teste na minha mão, pasma. "Não ganhando D's". "Lá vai você," diz ele. "Eu daria, pelo menos, um B por isso se o tivesse aplicado a si mesma." Franzindo a testa, abro minha mochila e jogo o teste no interior, à beira das lágrimas de frustração. Não há nenhuma maneira que eu possa dar a volta a esta altura, não tenho como acabar essa matéria a menos que eu gabarite completamente o exame final, e com a


média que eu tenho? Impossível. "Você está devendo uma dissertação hoje," diz ele. "Você fez isso pra mim?" A contragosto, puxo o papel da minha bolsa, tentada a não entregá-lo. Ele olha para a folha quando a seguro para fora e tira de mim, o aprofundamento do olhar decepcionado. Ele coloca para baixo em cima de uma pilha de outros enquanto ele balança a cabeça. "Vejo você na quinta-feira, senhorita Reed. E não se atrase." "Eu não vou, senhor." Atirando minha mochila nas costas, saio da sala de aula, sentindo-me como se um peso estivesse pressionando em cima de mim. Saio e olho para cima, parando quando vejo a Mercedes ainda estacionada no meio-fio. Uma rápida olhada em volta de mim diz que Naz não está em qualquer lugar à vista, então pego meu telefone e ligo para ele, caindo em seu correio de voz. Encolhendo-me, imaginando se ele andava em algum lugar, ou estava trabalhando no bairro, vou em direção ao dormitório, com pressa para chegar lá. Leva-me toda a caminhada para ignorar meu humor solene, tentando forçar um sorriso no meu rosto, para agir como se ele não estivesse me incomodando antes de enfrentar minha amiga. Quando chego lá e empurro a porta, sou imediatamente recebida pelo rosto de Paul. O namorado de Melody está estendido em sua pequena cama, controle remoto na mão, assistindo ESPN, enquanto Melody está sentada em sua mesa, cavando através de sua mochila. Ela olha para cima, dando-me o olhar que eu esperava. Pena. "O que ele disse?" "Ele disse que não sirvo para a filosofia." Largo minha bolsa no chão e jogo para baixo na minha cama. "Ele disse que falo um monte


de merda, mas não sei o que qualquer daquelas coisas significa." "Ele disse isso?" "Em muitas palavras, sim," murmuro, fechando os olhos. "E ainda por cima de tudo isso, depois ele disse que eu deixei um trabalho inacabado, provando exatamente o que ele disse — não sirvo para isso." "Não acredito nisso," diz ela. "Isso é loucura." "Você está falhando na classe de Santino?" Paul faz coro com descrença. "Não achei que isso fosse possível." "Não vou falhar," eu digo na defensiva. "Eu só não estou passando." Paul ri. "Qual é a diferença?" "A diferença é que eu estou sobrevivendo e sobrevivendo por triz, mas isso não é bom o suficiente para manter o meu GPA onde eu preciso que ele esteja." "Aguente firme," diz Paul. "Sério, porém, a classe de Santino é uma brisa. Fiz muita merda durante a aula e ainda tive um B." Suas palavras não me fazem sentir melhor. Na verdade, elas me irritam ainda mais. Meu telefone toca enquanto estou deitada lá. Puxo-o para fora, olhando para a tela para ver o nome de Naz. Suspirando, respondo, murmurando um calmo, "Sim?" Ele fica em silêncio por um momento. "Você está bem, querida?" "Sim, por quê?" "Você me ligou." "Oh, sim... Eu vi que seu carro ainda estava lá, então liguei para ver o que você estava fazendo."


"Ah, eu estava apenas tratando de alguns negócios. Você voltou ao seu dormitório?" "Sim, acabei de chegar aqui." "Você quer ir jantar?" "Eu realmente não estou com fome." "Você quer vir para a minha casa?" "Realmente não deveria. Tenho aula no início da manhã, e ainda tenho algum trabalho a fazer. E provavelmente vai ser uma longa noite como parece." "Isso não foi o que eu perguntei. Quero saber como você se sente não o que você pensa. Não importa se você deve vir. Eu perguntei se você queria." Hesito. "Eu quero." "Então vou buscá-la em cinco minutos. Traga o seu dever de casa. Vou lhe ajudar com isso." Começo

a

discutir,

mas

ele

desliga

na

minha

cara.

Levantando-me, pego minha bolsa, acenando para Melody enquanto eu vou para a porta. "Vocês crianças loucas, se divirtam. Vou para Naz." "Você vai estar de volta para a aula de manhã?" "Sim," eu digo. "Só não me espere qualquer hora mais cedo." Ela ri, desejando-me uma boa noite. Paul não diz nada. Não acho que ele goste tanto de mim também, e isso é bom. Ele observa a televisão e joga as meias sujas no meu chão e come meu macarrão Ramen e a cereja no topo do sorvete é que ele tem uma melhor nota em filosofia do que eu. Estou começando a gostar cada vez menos dele. Naz está estacionado em pista dupla à direita em frente ao


dormitório, parecendo não dar a mínima quando as pessoas buzinam, irritados por ele está bloqueando o tráfego. Rio quando subo no banco do passageiro, ao ver que ele está olhando para o telefone, sem prestar atenção ao que está acontecendo do lado de fora do carro. Ele vive em seu pequeno mundo, onde ele é o rei, e estou mais do que feliz em ser sua serva... Embora, quando ele olha para mim, piscando com aquela covinha, sinto-me como nada menos do que a sua rainha. Ele puxa para o tráfego e vai direto para o Brooklyn. Ele tira o terno e afrouxa a gravata quando chegamos à sua casa, jogando as chaves sobre a mesa da sala de estar. "Você tem certeza que não está com fome?" Ele pergunta. "Posso fazer alguma coisa para você." "Você? Fazer alguma coisa?" Ele ri. "Acho que tenho algo que você pode fazer sozinha." "Obrigada, mas estou bem. Eu só quero começar este trabalho para que possa tentar relaxar." Sento na sala de descanso, abro meu livro de matemática para terminar alguns problemas. Naz me distrai mais do que tudo, sentado ao meu lado no sofá. Ele é péssimo em matemática, fodendo a multiplicação básica quando tenta ajudar. Até o pego contando nos dedos algumas vezes. Simplesmente sorrio, tendo que fazer alguns dos problemas mais uma vez, mas não me importo muito, mesmo que tome o dobro do tempo. Isso não parece como um trabalho com Naz envolvido. Estou terminando o último problema enquanto ele gira uma mecha do meu cabelo em torno de seu dedo. É o típico problema besta, dois trens indo muito malditamente rápido e, eventualmente, cruzando-


se, mas ninguém dá a mínima para quando. Naz me observa enquanto eu tento resolver com isso, seu mero olhar de distração. "Eu tenho um problema para você," diz ele. "Eu estou ouvindo." "Se Naz renuncia ao sono, e Karissa fica nua, quantos orgasmos ele pode dar a ela antes do sol subir?" "Hmm, eu não tenho certeza," digo, tentando não sorrir, mas um surge no meu rosto. "Não tenho certeza se você tem dedos suficientes para contar tantos." "Oh, eu sei que não tenho," diz ele. "Além disso, meus dedos estarão ocupados fazendo outras coisas esta noite."


Capitulo 14 Estou pasma. Santino fica na frente da sala de aula, monótono e falando sobre alguma coisa. Eu não sei. Sua voz é pouco mais que um murmúrio sem graça enquanto olho para o papel na minha mesa. Eu esperava um F nessa dissertação. Está incompleta, impessoal e tudo que Santino não queria. Então porque é que há um A escrito na parte superior? Não há mais nada em vermelho. Sem comentários, sem correções. Nenhuma explicação. É a primeira vez que isso já me aconteceu. Não sei o que pensar. Meus olhos se deslocam da minha mesa para Melody, perguntando se ele pegou leve com todos desta vez, mas ela conseguiu seu cobiçado B, sua dissertação toda marcada. Não fazia sentido. Fiquei quieta, durante a palestra, não levantando minha mão, sem dizer um pio. Quando ele nos libera pelo resto do dia, levanto-me e pego minha bolsa, segurando o meu papel. "Vou encontrá-la de volta no quarto," digo a Melody. "Tenho que perguntar algo ao Santino." Ela me olha como se tivesse brotado uma segunda cabeça, como se eu tivesse acabado de dizer que o mundo ia acabar. Ela olha para mim como se eu fosse comprovadamente insana. Inferno, talvez eu seja. Mas tenho que perguntar a ele. Não entendi.


Espero até que a maior parte dos meus colegas tenham ido embora antes de me aproximar de sua mesa. Ele olha para mim, sua expressão em branco, e não fala. Ele aparenta que sou a última pessoa com quem ele quer falar. "Senhor, eu só tenho uma pergunta sobre o meu trabalho." Ele levanta uma sobrancelha. "Bem, é só isso, não tive a chance de concluí-lo, ou digitá-lo como eu deveria. Não tinha acabado quando o entreguei." "Eu percebi," diz ele. "Sim, então eu só estou curiosa... Por que o A?" Ele olha para mim. Rígido. Como se ele olhasse mais duramente, ele poderia telepaticamente me soprar para longe, fazendome sumir bem na frente de seus olhos. Quando ele fala, sua voz é gelada. "Não é bom o suficiente para você?" "Não, não é isso," eu digo rapidamente. "Eu só não esperava..." Ele solta um latido agudo de riso, não parecendo se divertir nem um pouco. "Tenho certeza que você não o fez." Minha testa franze. "Olha, senhorita Reed, não sei o que você quer que eu diga. Se você preferir ter o F que o papel merece, vou alegremente dar a você. Mas estou bem certo, que sobre o tema, você é bem versada sobre matéria, mesmo que você não coloque esforço para mostrar isso." Sinto-me como uma idiota. O homem me dá um A e estou questionando o porquê em vez de comemorar. Quer se trate de merecido ou não, ele me jogou uma tábua de salvação, dando-me uma chance de passar de raspão por este semestre. "Obrigada," eu digo, agarrando o papel enquanto dou uns passos para trás.


"Não mencione isso," ele responde, olhando para longe de mim. "Nunca mais." Concordo com a cabeça, virando-me e rapidamente saindo de lá. O ar está quente quando saio, a primavera bem em cima de nós. Está tão quente que até sinto o calor, e empurro as mangas da minha camisa de mangas compridas até os cotovelos enquanto tiro meu cachecol. É a última semana de abril, e em apenas duas semanas as aulas estarão acabadas para o semestre. Tenho um monte de trabalho a fazer até lá, mas eu me sinto calma, como se talvez eu não fosse estragar tudo, afinal. Apenas duas semanas mais, e eu posso dizer adeus ao professor conhecido como Satanás, nunca ter que pisar naquela maldita sala de aula novamente. Duas semanas. Eu posso fazer duas semanas.

Eu estou no inferno. Está com aparência bonita para parecer uma universidade privada de renome, mas não se deixe enganar — isso é o inferno. Tenho estado

presa

no poço

mais

profundo

por

14

dias, o

mundo

pressionando sobre mim até que eu mal seja capaz de respirar. A nuvem tóxica de fumaça do inferno feroz escapa para fora das portas da sala de aula de Santino e encobrindo tudo, sufocando todos em seu caminho. O dia do julgamento está chegando, e está chegando rápido. Exames Finais. Estou sendo dramática, mas é difícil de ver o mundo claramente quando você não teve uma noite de sono completa em duas


semanas. Tudo está se afogando em uma névoa de notas e testes práticos. "Tudo bem, que tal esta?" Melody diz, segurando um cartão de impresso com algo em latim escrito nele: modus tollens. "Modus Tollens," eu digo em voz alta, não tenho certeza nem se eu tinha pronunciado essa direito. "É, uh, uma das pessoas de Voldemort em Harry Potter." Ela ri, jorrando para fora uma definição que faz tão pouco sentido para mim como as próprias palavras. Aceno, fazendo sinal para ela me mostrar o próximo. Probabilidade. "Oh, essa é fácil," eu digo. "É, se algo é, tipo, provável." Outra risada. Outro cartão impresso. Outra resposta errada. "Eu cansei," digo, caindo de costas na cama e cobrindo meus olhos com os braços, sentindo um cheiro de algo estragado assim que eu faço. "Ugh, o que está fedendo?" "Isso seria você," Melody diz, soltando os cartões. "Indelicada." Eu faço careta, a contragosto rolando para fora da cama e buscando uma toalha limpa. "Vou tomar banho." "Por favor, faça isso," diz ela. "Afunde o fedor para longe." Eu a mostro meu dedo do meio enquanto marcho para o banheiro. Ligo a água no quente, esperando que o vapor e o calor soltem um pouco a tensão dos meus músculos. Fico sob o spray e fecho os olhos enquanto a água me lava até que eu esteja perto de adormecer. Balançando,

quase

escorregando,

pisco

algumas

vezes


enquanto alcanço os botões para alterar a temperatura. No momento em que a água fria me bate, eu sobressalto acordada, um arrepio me rasgando. Lavo-me rapidamente antes de sair, não tendo energia para ficar lá. Seco-me rapidamente e enrolo a toalha rosa antiga em torno de mim enquanto marcho de volta para o quarto. Assim que abro a porta e entro, fico cara a cara com Paul. Ele está no meio do quarto, meio do meu lado, meio no de Melody, jogando uma de suas camisas sujas para o ar. Ele se vira para mim enquanto congelo, e espero que ele desvie o olhar, vendo o quanto estou muito perto de estar nua, mas seus olhos passeiam pelo meu corpo ao em vez disso. Grosseiro. Melody geme quando ele finalmente olha para o lado, mas ele só solta uma gargalhada quando joga sua camisa perto do seu cesto de roupas transbordando, como se fosse uma bola de basquete. Ele recua de volta para o lado de sua namorada, se jogando na cama, colocando a cabeça em seu colo. Melody cobre os olhos com as mãos, atirando-me um olhar de desculpas. Ignoro, pegando algumas roupas do meu armário e voltando para o banheiro para me trocar em paz. Quando volto para o quarto, os dois estão se beijando. Ela não dá nenhuma desculpa para isso. Melody é uma grande amiga, e está sempre disposta a ouvir, mas quando se trata de compartilhar um espaço de vida, decidi que ela é uma terrível companheira de quarto. Eu os bloqueio o melhor que posso, enquanto arrumo meu cabelo e tento me recompor, sem me incomodar com maquiagem ou muito mais do que um rabo de cavalo. Meus olhos mudam para o relógio. É quase meio-dia. Temos cerca de duas horas, até a hora do exame. Reunindo minhas coisas e pegando os cartões do chão ao lado da cama de Melody, vou para a porta. Melody se afasta de Paul quando


percebe. "Você já está indo?" "Sim, vou descer e pegar uma xícara de café." Faço uma pausa. "Ou um pote inteiro." "Oh, bem, vou encontrá-la lá em baixo quando for a hora de ir." Saio, fechando a porta atrás de mim, e desço as escadas para o salão de jantar em anexo na parte de trás do prédio. Ele está cheio, surpreendentemente, dado que uma grande quantidade de exames finais já tinham terminado, alguns alunos já saindo para o verão. Estou no meu último dia, o meu último exame, antes das férias. O resto tenho ido bem, mas a filosofia será o meu sucesso ou meu fracasso. Eu uso o pouco que resta de dinheiro no meu cartão de refeição para comprar o maior café que eles têm, afogando o líquido amargo com grandes quantidades de açúcar, o suficiente para me deixar subindo pelas paredes por horas. Acho uma pequena mesa no canto e me sento, espalhando os cartões de resposta a minha volta. Examino os termos na frente antes de virá-los, tentando memorizar as definições na parte de trás, mas tudo parece estar flutuando na minha cabeça e não gravo. Eu sei mais do que forçar no último segundo. Isso nunca funciona. Mas faço isso de qualquer maneira. Passo por cima deles de novo e de novo, reabastecendo meu café duas vezes. No momento em que Melody aparece, deslizando numa cadeira em minha frente, estou nervosa e frenética e pronta para acabar com isso. "Você parece uma viciada em crack que precisa de sua dose," Melody diz, agarrando meu café e tomando um gole. "Ugh, quanto açúcar tem nessa coisa?"


"O suficiente," digo, enquanto olho sobre a mesa. Seu cabelo está desgrenhado, mas não de maneira intencional. "Você parece como se tivesse sido muito fodida." Ela toma outro gole, sorrindo, sua expressão me dizendo que sim, que é precisamente o que ela tem sido. Faço uma careta quando ela segura o café, oferecendo o resto para mim. "Sim, não, vou passar. Eu sei onde esses lábios foram." Revirando os olhos, ela toma o resto antes de jogá-lo na lixeira mais próxima. "Bem, vamos lá, companheira pecadora. Satanás espera, e você sabe como ele se sente sobre as pessoas em atraso." Nós chegamos cedo hoje, as primeiras na sala de aula. Santino está sentado em sua cadeira, revirando seu bastão em volta de sua mesa. Ele olha para cima, nos ouvindo, seus olhos encontram os meus enquanto vou ao meu lugar de costume. Parece que ele quer dizer alguma coisa, mas permanece em silêncio enquanto o restante dos alunos chega. Exatamente às duas horas, quando todos os assentos foram preenchidos, ele se levanta e pega uma pilha de papéis. Sem dizer nada, ele os distribui, esperando até que todos tenham um antes de limpar a garganta. "Eu só sei de uma coisa, e isso é que eu não sei nada. Vamos esperar que todos vocês saibam apenas um pouco mais do que Sócrates hoje, senhoras e senhores. Não há limite de tempo. Entreguem quando vocês terminarem." Ele retoma o seu lugar, indo direto para mexer em seu bastão. Observo-o por um momento antes de tomar uma respiração profunda e olhar para o meu teste, lendo a primeira pergunta.

Explique a equação universal do modus tollens usando exemplos de situações da vida real.


Estou fodida. Levo bem mais de uma hora para chegar ao final de todas as cinco páginas do exame. Minha mão está com câimbras, minha cabeça está latejando, e um impulso irracional de raiva flui através do meu corpo de cafeína com privação de sono sempre que alguém se levanta para entregar seu teste finalizado. Como se atrevem a já ter acabado? Eu viro a página para a parte de trás, pronta para acabar com isso, e leio a última pergunta.

Thales disse que "a coisa mais difícil na vida é conhecer a si mesmo." Quem é você?

Tento conter, tento engolir, mas um riso amargo me escapa perturbando os que me rodeiam. Posso sentir seus olhos, mas eu não olho para cima, meu olhar colado ao papel. Que porcaria de pergunta é essa? Olho para a folha, e olho, e olho um pouco mais, antes de virar a cabeça para espiar Melody sutilmente. Ela também está na última pergunta, toda a parte de trás do papel cheio, como se ela apenas tivesse escrito sua autobiografia para ele. Ela guarda o lápis enquanto estou olhando, um sorriso toca seus lábios enquanto se levanta para entregar. Quase lhe dou uma rasteira. Penso sobre isso. Considero isso. Minha perna balança em antecipação de se arremessarem em seu caminho, impeço-a de andar até lá em cima. É infantil, e irracional,


mas ela parece tão malditamente confiante, enquanto estou lutando para terminar. Suspirando, eu volto ao meu papel e olho a pergunta um pouco mais. Melody retorna e guarda suas coisas, murmurando que vai me ver de volta no quarto. Apenas aceno, batendo meu lápis contra o lado da mesa enquanto ouço os outros se moverem. A sala está esvaziando rapidamente. Não gosto disto. Quem sou eu? Alguém que não gosta mais de filosofia. Considero a questão por mais um momento, antes de finalmente escrever a minha resposta. Eu não sei. Levantando-me, marcho para frente da sala, teste na mão. Santino olha para mim quando me aproximo. Entrego meu papel para ele, virado para cima, mas ele o vira quando ele pega. Seus olhos mudam da minha patética resposta de três palavras para mim, e pela primeira vez por todo o semestre, seus lábios se curvam. Ele está sorrindo. Para mim. Bizarro. Não digo nada, nem devolvo o sorriso, simplesmente vou embora. Pego minhas coisas e corro para a porta, sentindo uma sensação de alívio na caminhada de volta para o dormitório. Nunca mais vou confiar em Melody quando ela me disser para fazer uma aula, quando ela disser que é fácil. Quero ir direto para o quarto, mas tenho uma reunião com minha orientadora que já estou atrasada. Considero faltar, dizendo


foda-se, mas ela vai reagendar e vou ser forçada a voltar de qualquer forma. Suspirando, faço o meu caminho para o outro prédio e vou direto para dentro, estatelando-me numa cadeira do lado de fora de seu escritório. Ela me viu da porta aberta e acena para eu entrar, lançando uma conversa fiada. Entra por um ouvido e sai pelo outro. O

som

de

unhas

acrílicas

batendo

contra

teclas

do

computador ecoa pelo pequeno escritório. A mulher parece uma galinha bicando as letras, demorando um longo tempo para digitar as minhas informações no sistema. Ela faz uma pausa a cada poucos segundos para hmm, huh e Huff, os sons acabando com meus nervos. Podemos simplesmente acabar com isso? Já tinha registrado para todas as minhas aulas para o próximo semestre, um curso completo de matéria, e já tinha entregado toda a minha papelada. A conselheira quer apenas ter certeza que não está faltando alguma coisa, um processo que deveria ter tomado 30 segundos, mas estamos em cinco minutos até agora. "Parece que tudo está em ordem," diz ela finalmente. "A maioria de suas notas finais já foram postadas... Estamos apenas esperando filosofia. Contanto que você passe, pelo menos, com um B-, o seu GPA vai ser alto o suficiente para manter sua bolsa de estudos, não há problema." Ela faz isso parecer tão simples. Tudo que preciso é um B. Vou ter uma sorte do inferno se eu sequer chegar perto disso. Mas preciso de um GPA em 3,5 se quero as minhas mensalidades pagas no ano que vem, assim que tem que ser um B. Querido Deus, por favor, deixe-me ter conseguido um B. "Ótimo," eu digo. "É isso?"


"Sim, é isso." Estou fora da cadeira, murmurando meus agradecimentos enquanto fecho a porta. Provavelmente pareço rude, mas estou exausta demais para me importar. Meus pensamentos são uma enxurrada de equações matemáticas e percentagens, faço meu caminho de volta para o dormitório. Cheguei à conclusão de que para obter o meu B, eu preciso tirar 89 no exame final. Quando chego ao quarto, Paul não está por perto. Graças a Deus. Melody está colocando batom, balbuciando algo sobre sair com ele para comemorar, mas mal ouço. Largo minha bolsa no chão e tiro minhas calças, nem mesmo me preocupo em colocar algo mais enquanto caio direto na cama.


Capitulo 15 Algo me assusta e acordo. Sento-me na cama, desorientada, como se tivesse sido arrancada de um sonho que não consigo voltar. O quarto é uma névoa de breu confusa. Está tarde. Realmente tarde. Uma olhada para o relógio me diz que é uma hora da manhã. Uma olhada sobre a cama vazia de Melody me diz que ela ainda não está em casa. Esfregando os olhos, levanto-me e cambaleio até o banheiro. Enquanto estou lavando as mãos, ouço a porta do meu quarto e passos silenciosos ao longo no chão. Suspirando, fecho a água e seco as mãos. Acho que não estou mais sozinha. Só espero que ela não tenha trazido Paul para casa com ela. A última coisa que quero é encontrar um cara lá. Desligo a luz do banheiro e volto para o quarto, piscando, tentando ajustar-me à escuridão, surpreendida por ela não ter acendido a luz. Olho para a cama de Melody e paro, franzindo a testa. Ela ainda está vazia. Ouço um ruído à minha direita, um passo em minha direção. Meu coração para, deixando-me imóvel, antes de freneticamente bater tão forte que parece como uma metralhadora no meu peito. Eu começo a virar na direção quando braços me agarram bruscamente, puxandome em direção a eles nas sombras. Um grito quase sai de dentro de mim, quase estourando para fora, quando uma grande mão com luvas aperta minha boca,


silenciando-me imediatamente. Eu estou presa. Oh merda. Oh merda. Oh merda. Meus joelhos estão desistindo de mim, minha visão está embaçada com lágrimas, e se já não tivesse ido ao banheiro eu estaria me mijando agora. Tento me lembrar de tudo que aprendi sobre autodefesa, mas minha mente está confusa. Eu estou fodida. Luto contra os braços, gritando na palma da mão, quando ouço uma risada suave. "Relaxe, querida." Quase caio no chão quando cedo com alívio. Naz. Ele solta seu aperto o suficiente para me virar e o encarar, encontrando seus olhos na escuridão. Meu coração ainda está batendo, meu estômago revirando com a descarga de adrenalina e medo. Preciso tirá-lo do meu sistema antes que eu vomite. Eu o ataco, meus punhos batendo no peito, perfurando-o com força. Ele ri, ainda divertido quando segura minhas mãos. Ele está vestindo um par de luvas de couro pretas. "Ou não." Tento me empurrar para longe dele, mas ele envolve seus braços em minha volta, rindo ainda mais forte. "Você me assustou!" Eu rosno. "Jesus, Naz, você não pode fazer isso comigo!" "Eu peço desculpas," ele sussurra, "mas não sinto muito. Gosto quando você luta de volta." "Eu só... Meu Deus!" Saio de seus braços e agarro meu peito, desejando que meu coração se acalme. "Como diabos você entrou aqui?"


"Apenas entrei. Sua segurança por aqui não é muito confiável, Karissa. A garota no lobby olhou diretamente para mim e não disse uma palavra. E para não mencionar o fato de que você deixou sua porta aberta. O lugar praticamente tem uma placa com os dizeres 'entre', então eu pensei em entrar, e talvez..." Ele estende a mão, roçando pela minha bochecha antes de passar o dedo ao longo do meu lábio inferior. "...vir para dentro." Revirando os olhos, bato em sua mão. Ele ri mais uma vez, sussurrando, "mal-humorada". Queria estar louca. Queria estar furiosa. Ele só entrou no meu quarto e assustou a vida fora de mim. Mas não posso ficar com raiva quando tudo que sinto é exaltação ao som de seu riso, o som de sua felicidade. "Você é um idiota," murmuro. "Não posso acreditar que você fez isso comigo." Ele dá de ombros, passando por mim para passear pelo quarto enquanto ele tira suas luvas. Assisto incrédula quando ele se senta na minha cama. "O que posso dizer? Você estava ocupada, e senti sua falta." Tenho estado ocupada. Não o vi muito nas duas últimas semanas, e merda se eu não senti sua falta, também. Dou um passo em direção a ele, parando na sua frente. Um pouco da luz do luar passa através da janela próxima, iluminando onde eu estou. De repente, estou ciente do fato de que não estou usando nenhuma calça. Por que ele sempre me pega quando estou vestindo a calcinha brochante? Eu dou um puxão na barra da minha camisa, tentando cobri-las. Sua expressão muda, a diversão desaparecendo quando ele pega a minha mão. "Vamos lá, não seja assim. Não se esconda de mim."


Ele se inclina na cama e me puxa para ele enquanto tira seus sapatos. Ouço o baque quando atingem o chão. Ele me puxa para o seu colo, e eu sento com uma perna de cada lado dele, meus braços em volta de seu pescoço enquanto ele lentamente começa a desabotoar sua camisa. Meu coração está acelerado novamente, batendo no meu peito, mas desta vez não é o medo que causa isso. Assisto pela iluminação fraca quando ele tira sua camisa antes de encontrar meu olhar. Posso ver o desejo em seus olhos; o mesmo anseio crescendo no meu estômago. Beijo sua boca, seu rosto, queixo, antes de trabalhar meu caminho ainda mais para baixo. Ele se inclina para trás enquanto chego ao seu peito. Eu posso sentir os cumes de suas cicatrizes enquanto eu beijo as velhas feridas, acariciando a pele com meus lábios. "O que aconteceu com você, Naz?" Coloco um último beijo na maior cicatriz, não muito longe do seu coração, antes de encontrar seus olhos de novo. "Eu perdi a minha vida," diz ele em voz baixa. "E então eu quase morri." Quero perguntar-lhe qual é a diferença, se o seu coração ainda está batendo como que sua vida foi tirada dele, mas o olhar que ele me dá me detém, silenciando minhas palavras antes que eu possa dizer muito. Nunca o vi tão vulnerável. Aqueles olhos tão escuros, tão fodidamente escuros, são como um furacão crescendo dentro dele. Gostaria de saber como ele sobrevive a tal tumulto. Não pergunto. Não acho que ele tem uma resposta. Eu só envolvo meus braços em torno dele enquanto ele me beija. Naz me puxa para baixo em cima da cama, mudando de modo que eu estou deitada ao lado dele. É doce, com as mãos suaves enquanto elas tiram minhas


roupas, explorando minha carne nua com as pontas dos dedos. A tristeza sutil parece cobrir cada movimento. A súbita vontade de fazê-lo se sentir bem me preenche. Quero aquele riso de volta. Quero fazê-lo feliz. Quero que ele seja feliz comigo. "Diga-me como você gosta," eu sussurro, tentando manter meus nervos de aparecerem na minha voz. "Você pode ser áspero. Eu vou lutar de volta." Ele dá um sorriso com isso, enquanto se livra do resto de suas roupas, mudando nossos corpos novamente então ele está em cima de mim. "Da próxima vez," diz ele. "Esta noite não é para jogar.‖ "Para o que é?" "Amar." Ele empurra para dentro de mim lentamente, seus lábios encontrando os meus novamente enquanto seu peso pressiona sobre mim. É lento e doce. É todo prazer e sem uma pontada de dor. Ele está fazendo amor comigo. Minhas pernas envolvem em torno de sua cintura enquanto ele empurra, enchendo-me profundamente antes de se puxar para fora, mais e mais. Ele me prende a ele, pele suada deslizando junto enquanto ele me dá tudo dele, cerrando os dentes e gemendo contra meu pescoço enquanto goza dentro de mim. Ficamos ali depois, eu em seus braços, minha cabeça em seu peito. Ele me segura contra ele como se eu fosse delicada, uma mão espalmada para fora nas minhas costas, a outra descansando em minha cabeça enquanto ele acaricia meu cabelo. Eu não disse uma


palavra. Não tenho certeza que existem quaisquer palavras para dizer. Estou com medo de falar sobre isso e estragar tudo, racionalizar algo que deve apenas ser sentido em seu lugar. Menos pensamento, mais sentimento. Estou começando a entendê-lo agora. Ele está tão quieto. Se não fosse o jeito que ele está me tocando, eu acharia que ele estivesse dormindo. Fiquei ali, começando a cochilar, quando sua voz suave quebra o silêncio. "Foi uma espingarda de 12 milímetros. Eles passaram horas tirando todo o chumbo grosso do meu peito, mas isso não importa, porque o meu coração foi quebrado." "Literalmente?" Eu pergunto silenciosamente. Não consigo entender isso. Um tiro de espingarda no peito. Quem faria uma coisa dessas com ele? Ele suspira, segurando-me com mais força, sua voz quase um sussurro. "Poderia muito bem ter sido."

Melody está em casa. Eu a vejo — ou melhor, escuto — assim que abro meus olhos. Os roncos chacoalhando seu peito, prolongados e desagradáveis, tão alto que me assusto e acordo pela segunda vez. O braço em minha volta é pesado, o corpo pressionado firmemente contra o meu quente. Não sei por que estou tão surpresa que ele ainda está aqui. Quase esperei que ontem à noite fosse uma invenção da minha imaginação. Sua mão acaricia suavemente a pele abaixo do meu estômago, ao redor do meu umbigo, mergulhando


ligeiramente mais para baixo em minhas partes sensíveis quando me mexo. "Bom dia." "Bom dia," eu sussurro, minha voz rouca de sono. "Há quanto tempo você está acordado?" "A noite toda," diz ele. Acho que ele está brincando, mas quando mudo de posição, para que eu possa virar a cabeça e ver seu rosto, a primeira coisa que noto é o cansaço. Ele parece comigo em alguns momentos nas duas últimas semanas. Eu o alcanço, querendo suavizar as bolsas sob os olhos. "Não conseguiu dormir?" "Normalmente não consigo," diz ele. "E se você está se perguntando, Darth Vader ali cambaleou cerca de uma hora atrás e foi direto dormir." A vergonha desperta dentro de mim. "Oh Deus, estamos nus." "Ela não percebeu," diz ele. "Ela nem sequer olhou para cá." "Ela poderia ter olhado." "Então?" Ele retira a mão do meu estômago para escovar meu cabelo desgrenhado de lado. Sinto os lábios contra meu pescoço, macio e quente, formigamento fluindo pela minha espinha com a sensação. "Você não pode me dizer que o pensamento não excita você." "Que pensamento?" "O pensamento de ser visto," diz ele. "A emoção de talvez ser pega. De alguém a observando quando você fica saciada, desejando que fossem você, ou que eles fossem o cara lhe fodendo, afogando-se em ciúme, porque eles sabem que nunca vão ter a mesma sorte. Nunca. Eles nunca vão ter você, Karissa... Nunca serão você. Porque você é minha — minha e só minha." Seu braço serpenteia em torno de mim novamente, puxando


de volta com mais força contra ele. Eu tremo quando sinto sua ereção pressionando contra mim por trás, a mão viajando para o local entre as minhas coxas. Meus olhos ficam fechados enquanto ele acaricia meu clitóris, os lábios ainda no meu pescoço, chupando e mordendo seu caminho para o meu ombro. Calor me preenche, meu corpo ruboriza enquanto me esfrego contra seu pênis. Ele geme, acariciando mais rápido, esfregando mais forte, enquanto gemidos suaves escapam da minha garganta. É errado. É errado. Oh Deus, é tão errado. Então, por que diabos parece tão certo? Os roncos de Melody estão altos o suficiente para esconder meus gemidos. Eu deveria impedi-lo, deveria me afastar enquanto minhas mãos agarram seu braço, mas não posso. Eu não vou. Eu não quero que ele pare de me tocar. Posso sentir a tensão crescendo, a sensação afiada correndo em direção a onde ele está esfregando. Minha respiração muda em expectativa e estou perto... Tão perto... Perto para caralho. Meus dedos se contorcem, todo o meu corpo se enrola como uma serpentina apertada pronta para saltar livre, quando um conjunto fraco de bips ecoam, através da sala. De repente Naz para o que está fazendo. Meus olhos se abrem, a sensação desaparecendo à medida que ele se afasta e se senta. "Não, não, não," eu digo, esfregando minhas coxas juntas, desesperada por atrito. Viro em minhas costas, meu olhar procura-o. "Por favor." É uma tortura, a dor se espalhando através de mim. Naz olha para mim enquanto ele traz o seu telefone no ouvido, respondendo à chamada com um tranquilo, "Olá."


Começo a fazer beicinho quando ele enfia seu telefone na curva do pescoço dele, ouvindo quem está na linha. Ele aperta um único dedo nos lábios, calando-me, enquanto sua outra mão desliza sob a manta apenas parcialmente me cobrindo. Meus seios estão expostos, mas não me importo. Não posso me conter. Não quando ele me toca mais uma vez, a mão livre esfregando círculos em volta do meu clitóris dolorido. Meus olhos rolam na parte de trás da minha cabeça, e não demora muito para o meu corpo ficar tenso novamente, a sensação voltando. "Sim, estou lidando com isso," diz ele, com a voz tranquila e fria como pedra, o tom violento, insensível me empurrando ainda mais em direção ao limite. Eu posso sentir isso subindo em mim e agarro os lençóis, dedos enrolando novamente. "Eu vou estar lá neste fim de semana." Oh Deus. Oh Deus. Oh meu Deus, porra. Meus lábios abrem, minha respiração engata, um grito silencioso queimando meu peito enquanto me esforço para me manter sem fazer qualquer barulho. Prazer varre através de mim, meu corpo em convulsão. "Não acho que eu vou estar sozinho," diz ele. "Tenho certeza que ela vai estar mais do que feliz, em... Vir27." Ele tenta esconder a diversão em sua voz, mas ri levemente. Olho para ele enquanto a tensão recua, meu corpo relaxando contra a cama. Ele olha para mim, o olhar em seus olhos quase me fazendo gozar de novo. Sua mão deixa esse ponto, subindo para o meu estômago e 27

A autora faz um jogo de palavras com a palavra Come em inglês que significa vir e gozar.


para o meu peito. Ele espalma um seio, varrendo seu polegar sobre o mamilo ereto. "Sim, eu sei," diz ele. "Vejo você depois, então." Ele desliga, jogando o telefone em cima da cama, e se inclina para me beijar. Seus lábios são duros contra os meus, frenéticos. Estendo a mão para ele, minha mão serpenteando por baixo do cobertor, envolvendo em torno de seu pênis. Eu o esfrego uma vez, duas vezes, antes de ele se afasta e segurar meu pulso, parando-me. Seus olhos me encaram com curiosidade, um sorriso lentamente se transformando seus lábios. "Huh." "Huh o quê?" "Você é boa em ficar quieta." "Não queria interromper sua ligação," sussurro. "Ou, você sabe, acordar Melody." Ele curva uma sobrancelha. "Huh." Huh. Mais uma vez. Ele e essa maldita palavra que não é nem mesmo uma palavra real. "O quê?" "Nós teremos que testar isso um pouco mais," diz ele, beijando-me de novo, suavemente desta vez, antes de se levantar da cama. Olho para ele incrédula enquanto ele fica no meio da sala, completamente nu. Seus movimentos são sem pressa enquanto ele reúne suas roupas. "Agora não, no entanto. Adoraria ficar, mas você sabe..." Puxo o cobertor em torno de mim, cobrindo meu corpo, enquanto me sento e o vejo se vestir. Ele se arruma com facilidade, passando as mãos pelos cabelos para domar os cachos, antes de se sentar na beirada da cama ao meu lado. "Venha comigo neste fim de semana," diz ele, deslizando em


seus sapatos. Não é uma pergunta. É um pedido. Tenho notado isso a respeito dele. Ele pede coisas de mim sem nunca realmente perguntar. É legal, e confiante, como se ele já soubesse as minhas respostas então ele não se incomoda em falar besteira. "Onde?" "Para longe," diz ele. Outra coisa que notei. Ele nunca parece responder às minhas perguntas, tampouco. Eu balanço minha cabeça. "Eu não deveria." "Mas você quer." Claro que sim. "Por quê?" "Por que não?" Rio quando ele se levanta e arruma o colarinho da camisa. "Eu não sei." "Suas aulas acabaram, não acabaram?" "Sim. Fiz o meu último exame ontem." "Você passou?" Eu dou de ombros. "Espero." "Tenho certeza que você passou," diz ele. "Então, por que você não pode ir comigo?" "Bem, Melody e eu conversamos sobre sair no sábado para comemorar." "Para comemorar que as aulas acabaram?" "Não," digo baixinho, puxando meus joelhos até meu peito enquanto envolvo meus braços em torno deles. "Para celebrar o meu aniversário."


Ele congela enquanto olha fixamente para mim, um olhar de surpresa passando em seu rosto. É a primeira vez que o pego desprevenido, a primeira vez que ele não parece estar passos à frente de mim. Ele balança a cabeça depois de um segundo, aproximando-se, e se inclinando para baixo enquanto me beijar de novo. Olho em seus olhos quando ele faz uma pausa. "Venha comigo neste fim de semana," diz ele novamente. "Vou lhe mostrar o momento da sua vida." "Você já deu," eu sussurro. "Algumas vezes." "Querida, você não viu nada ainda." Seu beijo, quando finalmente chega a meus lábios, nada mais é do que um selinho, um toque macio, antes dele se levantar. Ele não fala mais nada, e não espera para ouvir minha resposta. O bastardo arrogante apenas sai. Sento-me ali por um momento, segurando o cobertor em torno de mim, antes de começar a rir. Só rio, balançando a cabeça, enquanto olho para a porta. Ele me vira de cabeça para baixo, fazendo com que todo o sangue suba à minha cabeça, e então ele só me deixa sentada lá, tonta e embriagada pela essência dele. Levantando-me,

pego

uma

toalha

e

algumas

roupas,

arrastando o cobertor comigo até o banheiro para tomar um banho, esperando para lavar a culpa persistente que sinto quando passo bem ao lado de minha companheira de quarto, roncando e sem nenhuma ideia. Já mencionei que sou uma amiga terrível? Eu me lavo e me recomponho, preparando-me para um dia em que não tenho nada planejado. Vou fazer algumas malas, talvez, dormir um pouco, definitivamente e provavelmente só me afogar na televisão estúpida toda a tarde. Realmente deveria encontrar um emprego,


encontrar outro lugar para ficar, visto que tenho que estar fora do dormitório em sete dias. Férias de verão. Estava ansiosa por isso meses atrás, contando as horas até que o semestre acabasse, mas agora estou com medo até de pensar sobre isso. Eu tinha previsto voltar para Watertown para passar o verão com a minha mãe, mas depois da visita de algumas semanas atrás, não tenho certeza quão plausível isso é. Nem tenho certeza de quanto tempo ela estará lá, para ser honesta, ou se ela já se foi. Tento não pensar sobre isso, tento limpar minha cabeça enquanto fico sob a água quente, mas isso se esconde no fundo da minha mente, um prenuncio de algo ruim a distancia. Meu futuro é tão nebuloso como uma nuvem de tempestade. Gostaria de saber se Naz desenhou outra imagem do futuro, se seria claro para ele ainda. Não disse a Naz. Não sei como ele vai levar um relacionamento de longa distância, mesmo que seja apenas por dois meses. Não sei como eu vou lidar isso. Ele se foi há 20 minutos agora, e já sinto tanto a falta do seu toque. Volto para o quarto depois que estou limpa, e troco de roupa, sentindo-me bem acordada, mas não quero perturbar Melody. Então pego o controle remoto, ligando a televisão baixinho, e olho para ela na luz da manhã. Talk shows. Drama de pai do bebê. Namorados traidores. Celebridades em clínicas de reabilitação.


Perco-me

no

drama

de

todos

os

outros,

esquecendo

momentaneamente meus próprios problemas. Melody mexe na cama algumas horas mais tarde, quando o relógio começa a se aproximar do meio-dia, e esfrega os olhos. "Oh Deus, eu me sinto como um lixo." "Longa noite?" Pergunto, mudando de canal para encontrar mais entretenimento estúpido. Programas de tribunais. "E manhã," ela murmura, sentando-se. Ela ainda está usando as mesmas roupas de ontem, maquiagem velha espalhada em seu rosto cansado. "Não a acordei quando cheguei em casa, não é? Tentei ser quieta, mas eu estava bêbada como merda." "Não," eu digo. "Não me incomodou em nada." Ela fica de pé e cambaleia em direção ao banheiro. Mudo de canal novamente, não prestando muita atenção, encontrando algo menos dramático. Programa de jogos.

"Acorde, acorde, acorde!" A voz grita ao lado da minha orelha, despertando-me de um sono profundo. Eu gemo, segurando minhas mãos defensivamente enquanto alguém me sacode. Desorientada, eu abro meus olhos para ver o rosto embaçado de Melody bem na minha frente, sorrindo como uma maníaca. "O quê?" "Acorde!" Ela diz novamente, puxando-me para me sentar. Gemendo, eu a afasto e pisco rapidamente. "Estou acordada, estou acordada... Ugh, por que estou acordada?"


"Eu consegui," diz ela, pulando para cima e para baixo na minha frente. "Eu consegui a minha nota B em Filosofia!" Leva um momento para suas palavras me atingirem. De repente bem acordada, olho para ela, a ansiedade crescendo em meu estômago. "Espere, as notas estão lançadas?" "Sim!" Diz ela, animada. "Você pode acreditar nisso?" "Uh, isso é maravilhoso," eu digo, esfregando os olhos. Eu estou tentando ficar calma, mas é sem sentido. A ansiedade me faz querer vomitar. Levantando-me, empurro-a para puxar meu laptop, faço o login em minha conta da escola para verificar as minhas notas. Meu coração bate rapidamente em antecipação, mas assim que a página carrega, tudo em minha volta para. Meu estômago dá uma guinada, meu coração quase para. Filosofia: C "Não, não, não," eu canto, percorrendo a página, voltando a olhar para minha nota no final. 88. Oitenta e oito. Oitenta e oito, porra. "Isso não pode estar acontecendo," digo, balançando a cabeça. Bile queima minha garganta, e tento engolir de volta. "Eu perdi por um ponto." Estou pasma. Não sei o que pensar, ou sentir, meio dormindo meio acordada enquanto rolo de volta para as minhas notas finais. Melody balbucia atrás de mim, mas suas palavras passam por cima da minha cabeça. Não a ouço, nem que meu telefone está tocando. O som me escapa até Melody empurrar o objeto gritando na minha cara. Meus

olhos

se

mudam

para

a

tela

enquanto

engulo

fortemente, empurrando meus sentimentos para baixo. Não entre em


pânico, digo a mim mesma. Você vai pensar em alguma coisa. Eu fecho o navegador no laptop antes de atender ao telefone. "Oi." Minha voz soa suave. Limpo minha garganta e repito, mas Naz interrompe antes que eu possa terminar a palavra. "O que está acontecendo?" "Nada. Eu, uh... Nada." Um momento de silêncio. "O que está errado?" Começo a dizer ‗nada‘ quando ele continua. "E não diga nada." Deixei escapar um suspiro profundo. "Consegui um C em Filosofia." "Você passou!" Ele parece genuinamente entusiasmado. "Isso é ótimo." "Não, não é. Eu precisava de um B para manter a minha bolsa. Não entendo por que não consegui! Estudei para caramba para essa final. Perdi a meta por um ponto... Um ponto. É isso aí." As palavras derramam para fora de mim, as lágrimas ardendo meus olhos. Um ponto do caralho. É inacreditável. Estou me chutando por não ter respondido à pergunta no final do exame à sério. Teria escrito toda a minha história de vida se soubesse que eu precisaria de apenas mais um ponto maldito. "Ah," diz ele. "Eu entendo." A indiferença de sua voz me torce em nós, raiva fervendo dentro de mim. Não é culpa de Naz — não é culpa de ninguém, apenas minha — mas estou muito chateada parar ficar calma sobre isso. Deixei escapar um gemido profundo, empurrando minha cadeira para trás para me levantar. "Quer saber? Foda-se isso. Estou indo falar com Santino para ver se há alguma coisa que eu possa fazer para mudar


isso." Ouço Melody inalar profundamente, não é uma fã do meu plano. "Você quer que eu lide com isso?" Naz pergunta. "Não, eu faço isso," digo. "É o meu problema." Ele me deseja boa sorte, dizendo-me para deixá-lo saber quando eu sair de lá. Desligando, visto algumas roupas e deslizo meus pés em um par de sapatos antes de me dirigir para a porta. Ando para a sala de aula de filosofia, meus nervos uma bagunça trêmula, enquanto silenciosamente imploro a qualquer que seja o Deus que está me ouvindo um chance. Apenas me dê isso, por favor. A sala de aula está aberta, as luzes acesas. Espero encontrá-lo em seu pequeno escritório na parte de trás do prédio, mas em vez disso ele está sentado lá, papéis e livros espalhados na frente dele. Seus óculos estão baixos em seu nariz enquanto ele estuda um livro, toma notas a partir dele. Cuidadosamente, eu entro na sala de aula, batendo no batente da porta para conseguir a atenção dele. "Professor Santino?" Ele olha para mim por cima dos óculos antes de voltar para o seu livro. "Senhorita Reed, o que posso fazer por você?" "Eu, uh... Eu queria falar com você sobre a minha nota." "O que tem ela?" "Por que eu recebi um C?" "Você deveria estar se perguntando isso, não a mim." "Mas eu fiz tudo que pude." "Você fez?"


"Sim. Eu precisava de um B. Eu estava a apenas um." Ele termina de escrever o que quer que ele esteja escrevendo e coloca a sua caneta para baixo, inclinando-se para trás na cadeira. Ele olha para mim peculiarmente por um momento, pegando o bastão para mexer com ele. Ele o usa para apontar em direção a primeira fila de mesas, sem dizer uma palavra para que eu pegue um assento. Nervosamente obrigo-me, sentando na frente dele. Sua expressão é dura, sem compaixão, ou compreensão, antes de seus olhos voarem ao redor da sala. "Esta sala de aula tem duas saídas. Para que você acha isso?" Ugh. Pensei que tinha acabado isso de ele me chamando para responder perguntas absurdas. É um crédito extra para o meu ponto extra? "Porque a sala de aula é muito grande, e recebe muitos estudantes, que é lógico ter mais do que uma saída em caso de emergência," digo. "Há provavelmente algo no Legislação contra incêndio sobre isso, sobre ter certo número de saídas por sei lá quantas pessoas ocuparem a sala, portanto, quem o projetou teve de incluí-los. Isso comporta 100 alunos assim estou supondo que 50 pessoas por saída?" Ele levanta as sobrancelhas. "É essa a sua resposta final?" Hesito. "Sim." "É porque é mais seguro, senhorita Reed." Minha testa franze. "Isso foi o que eu disse." "Não, não foi. Você referencia códigos de incêndio hipotéticos e equações matemáticas. Você disse que era lógico, não que era mais seguro. E isso, senhorita Reed, é a diferença entre um B e um C. Você sempre complica as coisas e perde o ponto inteiro."


"Mas foi isso que eu quis dizer," eu digo. "Talvez sim, mas deixe que isso seja uma lição para escolher suas palavras cuidadosamente, porque as pessoas vão levá-la pela primeira impressão e considera-la pelo o que você diz e não o que você quer dizer." "Mas eu—" Antes que eu possa conseguir dizer algo, ele pega a caneta e volta ao seu trabalho, cortando-me. "Bom dia, senhorita Reed." Empurrando a cadeira para trás, levanto-me. Eu deveria saber que vir aqui seria inútil. Saio furiosa para fora da sala, com lágrimas ardendo em meus olhos novamente, desta vez teimosamente caindo pelo meu rosto. Enxugo-as com a palma da minha mão enquanto eu puxo o meu telefone, discando o número de Naz. Ele toca duas vezes antes de atender. "Eu o odeio," eu digo imediatamente, saindo. "Ele é um idiota." "Assumo que apelar por sua compaixão não funcionou." "Não, isso não aconteceu, porque ele é insensível. Ele me trata como se eu fosse ignorante... Como se eu fosse apenas esta garotinha idiota que não entende nada." Minha voz racha enquanto tento segurar as lágrimas. A linha fica em um silêncio gelado por um segundo antes de sua voz calma continuar como . "Você está chorando." "Não, eu não estou." "Não minta para mim." É estúpido chorar. Sinto-me ridícula. Limpo as lágrimas mais teimosas, tentando me recompor. "Eu estou bem. Eu só... Ugh, ele me deixa louca. Ele é tão presunçoso e age como se soubesse tudo e eu só gostaria que alguém pudesse derrubá-lo um pouco."


Ele deixa escapar um suspiro. "Não se preocupe com isso, Karissa." "Mas eu não sei o que fazer com tudo isso." "Isso vai se resolver," diz ele. "O que você precisa é de algum tempo longe, de algum tempo para limpar a cabeça e não pensar em tudo. Venha comigo neste fim de semana." Eu rolo meus olhos. Ele soa tão malditamente relaxado, nada o incomodando. Gostaria de ter a sua confiança. "Você sabe que eu vou."


Capítulo 16 O carro está parado ao longo do meio-fio em frente ao dormitório, o motorista em pé ao lado dele esperando por mim. Eu paro uns poucos passos de distância, minha bolsa arrastando pela calçada, um novo vestido vermelho ainda no plástico e no cabide, caído sobre meu braço. Estou uma bagunça, suada e cansada, usando uma calça legging preta e uma camisa branca maior que meu tamanho, o traje completo por um par de chinelos. Não consegui colocar meus sapatos. Minhas unhas do pé estão molhadas, pintadas de vermelho para combinar com meu vestido. Ainda estava fazendo as unhas quando Naz me ligou, informando-me que o carro estava esperando lá embaixo. Ele não me deu muita atenção. Tive que correr pelo lugar na última hora pegando todas as minhas coisas. O motorista pega as minhas coisas e as coloca no portamalas. Não o espero abrir a porta para mim, eu mesma a abro. Naz está sentado lá, celular na orelha, vestido como sempre. Ele dá uma olhada para mim assim que sento ao lado dele, falando com sei lá quem do outro lado da linha. ―Estamos saindo de Greenwich agora,‖ ele diz. ―Devemos chegar em Jersey em meia hora." Minha sobrancelha levanta. Ele está me levando para Nova Jersey? Ele desliga sem nem se despedir, jogando o celular longe, ele se inclina para mim e beija meus lábios rapidamente. O motorista entra


no carro e dá partida pela estrada, pelo tráfego. ―Então, o que tem em Nova Jersey?‖ Pergunto curiosamente. ―Um monte de coisas,‖ ele diz. ―Posto de gasolina com serviço completo, caramelo Sea Water28, os Jersey Devils29, Palisades Park30... Atlantic City, Jersey Shore31... e Snooki32 claro.‖ "Snooki?" ―Ah, e os Sopranos.33‖ Ele levanta a sobrancelha. ―Você assiste?‖ ―Uh, eu assisti alguns episódios.‖ ―Ótimo programa,‖ ele diz. ―Puramente fictício, é claro.‖ Eu rio, sacudindo minha cabeça. ―Então é por isso que estamos indo para Jersey? Por causa de programas de TV e postos de gasolina?" ―Claro que não.‖ "Então por que estamos indo?‖ ―Você verá.‖ Não muito tempo depois que cruzamos a linha do estado, o carro vai direto para um pequeno aeroporto. Assim que vejo a placa, olho direto para Naz. ―Não estamos realmente indo para Jersey, estamos?‖ ―Claro que não,‖ ele diz. ―Não tem nada em Jersey.‖ Rolando meus olhos, olho para fora da janela assim que nos aproximamos do jato particular estacionado ao lado, o carro parando 28

Caramelo tipo puxa-puxa feito de óleo vegetal ou manteiga e corante. Apesar do nome desse doce ser Salt Water — água salgada —não está presente em sua composição. 29 Lenda de um animal que se diz ter habitado a floresta de Pine Barrens, ao sul de Nova Jersey. 30 Distrito localilzado em Nova Jersey. 31 Reality Americano que segue oito pessoas que moram em uma mesma casa, seguindo seu dia a dia. 32 Personagem do reality the Jersey Shore. 33 Seriado americano de drama.


bem próximo. Um grupo de pessoas aguarda ao lado dele, conversando enquanto outros carros descarregam bagagens, seus pertences sendo carregados na aeronave. A maioria dos rostos são desconhecidos para mim, um homem de meia idade e algumas mulheres, talvez uma dúzia no total. Mas no centro da multidão, reconheço Raymond Angelo. Ele sorri como uma líder de torcida, seu braço em volta de uma loira não muito mais velha do que eu. Todos estão vestidos impecavelmente — ternos e vestidos, nem um fio de cabelo fora do lugar. Eles combinam com Naz, em seu terno preto caro, mas eu não. Não pertenço a esse lugar. Não sou como estas pessoas. Eles são lagostas e caviar, garrafas de vinho de milhares de dólares. Estou mais para alguma coisa que você pede em um drivetru. Alcanço e agarro o braço de Naz quando o carro para. Ele hesita, dando-me um olhar estranho, quando o motorista abre a porta. ―Nos dê um momento.‖ Naz diz. ―Vá em frente e carregue nossas coisas.‖ ―Sim senhor.‖ Uma vez que estamos sozinhos, Naz vira-se e fica de frente para mim. ―O que está errado, querida?‖ ―Não posso fazer isso.‖ ―Por quê?‖ Ele pergunta. ―Medo de voar?‖ ―Não.‖ Sussurro, embora agora que ele mencionou, sinto a ansiedade borbulhando no meu estômago. ―Quero dizer, eu nunca voei antes, mas não é isso. Eu só... Não me encaixo.‖ ―Eu sei que você não se encaixa.‖ Acho que esperava que ele me contradissesse, porque ter ele concordando comigo me pegou desprevenida.


―O que?‖ ―Eu sei que você não se encaixa Karissa, mas essa é uma das minhas coisas favoritas sobre você. Você se destaca.‖ ―Mas e se eles não acharem isso?‖ ―Então é uma coisa boa eu não me importar com o que eles pensam.‖ Ele diz isso com tanta franqueza, que qualquer opinião diferente parece errada. ―Confie em mim nisto,‖ ele diz, alcançando meu queixo com uma das mãos. ―Vai ser o melhor fim de semana da sua vida. E se alguém aqui arruinar isso para você de qualquer maneira, terei certeza de que irão pagar por isso.‖ Ele sai do carro sem esperar nenhuma resposta, e meu peito se aperta. Alguma coisa me diz que ‗o pagar por isso‘ não será monetariamente. Tomo uma respiração profunda quando Naz abre minha porta, e antes que eu fuja, saio do carro e me junto a ele. Olhos mudam em nossa direção, posso senti-los em mim, encontro olhares curiosos assim que faço a varredura da multidão. Os olhares não são tão hostis quando estão intrigados enquanto me olham. As mulheres especialmente, olham-me com ceticismo. Elas são como lindas pinturas, obras de arte de Picasso, enquanto me sinto mais como um dos seus esboços. Raymond sai do meio, caminhando em nossa direção. ―Ah, Vitale, timing perfeito.‖ Naz acena concordando com isso, mas Raymond não está olhando para ele. Não, Raymond está olhando para mim. Ele pega minha mão, beijando as costas dela, ―Estou honrado


que se juntará a nós, Karissa.‖ Quero dizer que não é intencional, que não tinha a menor ideia de que estaria me juntando a ele, mas mantenho minha boca fechada, apenas sorrindo laconicamente para não dizer nada. Minha mãe me ensinou o suficiente para saber que ele não é o tipo de homem que aceita gentilmente ser ofendido. Naz não demora, pressionando sua mão numa pequena parte das minhas costas, ele me conduz até a multidão e entra no avião. O interior parece bem maior do que do lado de fora, todo cor de creme e painéis de madeira, com assentos mais do que suficientes para acomodar a todos. Naz para no centro do avião e se senta no final de um longo sofá, em duas poltronas separadas do resto. Eu sento ao lado dele nervosa, mas ele tira essa ansiedade facilmente ao colocar seu braço em volta do meu ombro e me puxando mais próxima. Ele pressiona um beijo no meu cabelo, sua colônia suavizando meus sentidos, fazendo-me ter vertigens, assim que todos entram no avião. Raymond decide sentar-se ao meu lado, nada mais do que um braço de poltrona me separando do homem infame. A loira senta com ele assim que os outros entram. Dou uma olhada nela, incapaz de entender o que ela vê nele. Eu sei que Naz é mais velho que eu, e talvez as pessoas vejam nossa diferença de idade como um extremo, mas ele ainda é bem jovem, magnífico e incrivelmente sexy. Há uma atração nele que não posso negar — não que eu queira negar. Mas Raymond é muito mais velho, talvez tenha idade suficiente para ser o avô daquela mulher, e não tem um pingo de apelo sexual nele. De fato, para mim ele até parece um pouco com o Shrek.


Sento-me quieta, enfiada ao lado de Naz, meu coração batendo freneticamente em meu peito, cada baque ecoando nos meus ouvidos, num ritmo ansioso que sinto que todos a minha volta podem ouvir. Todos se acomodam em seus lugares, conversando, mas nenhuma dessas conversas significa alguma coisa para mim. Sinto-me invisível, e por isso sou grata. O avião decola após todos estarem afivelados. Meu coração vem na minha boca ao subirmos, meu punho alcança o paletó do Naz. Meu ouvido entope, meu estômago aperta por causa da altitude. Ninguém parece se incomodar com isso. Na verdade, ninguém parece se incomodar com nada. Assim que estamos no ar, todos retornam de onde estavam, voltando a conversar de onde pararam, como se nada estivesse acontecendo. Minha mão solta o tecido do paletó de Naz, mas não o deixo. Eu não vou soltá-lo. A presença dele é a única coisa que está me impedindo de surtar. Ao meu lado, Raymond está contando uma história, rindo de suas próprias piadas, como se todos a nossa volta estivessem ouvindo atentamente. Ele claramente é o centro do mundinho deles, o sol desses homens que orbitam em volta. Todos, exceto para Naz. Ele parece não estar prestando muita atenção. Ele inclina a cabeça para mim, sua respiração abanando contra minha bochecha quando ele sussurra, "Você está bem?" Concordo com a cabeça. ―Você reconhece todos aqui?‖ Com minhas sobrancelhas enrugadas, balanço minha cabeça. Como eu poderia? Só conheço Raymond, mas não me atrevo a dizer em voz alta. Ele está sentado muito próximo a mim para me ouvir dizer seu


nome. ―Huh.‖ Eu olho para Naz, seu rosto alguns centímetros de distancia. ―O quê?‖ ―Só estou surpreso.‖ ―Você? Surpreso?‖ Ele sorri. ―Acontece de vez em quando. Só achei que você conheceria estas pessoas desde que você reconheceu Ray.‖ Como eu suspeitava, Raymond nos olha ao som do seu nome. Ele para no meio de uma história, mudando sua atenção. ―Ela me reconheceu?‖ ―Sim.‖ Naz confirma. ―Bom saber que minha reputação ainda me precede,‖ ele diz. ―Sempre irá, chefe.‖ Um cara em nossa frente diz. Chefe. A palavra brilha como se fosse um flash de neon no escuro. ―Enquanto tiver Vitale por perto para garantir isso, de qualquer forma.‖ Eu sinto Naz tenso, seu corpo virando pedra, seu braço em volta do meu ombro de repente ficou mais pesado. Olho para ele, vendo que está olhando para o homem que acabou de falar. Todos os outros também parecem perceber. Algumas gargantas sendo clareadas e um pouco de um silêncio constrangedor por alguns segundo, as conversas continuam para longe de nós. Naz ainda está tenso. Ele não relaxa. Não sei o que o homem quis dizer com aquilo, como Naz afeta a reputação de Raymond, mas é claro que Naz não gostou nadinha disso.


É um voo de 5 horas – cinco longas horas, horas enormes, eu olho incessantemente para o relógio de Naz contando os minutos. Nem ao aterrissar descubro para onde estamos indo. Pergunto para Naz algumas vezes, mas ele só resmunga, deixando-me no escuro, até que as rodas do avião tocam o chão novamente. Os braços de Naz ainda estão ao meu redor, ainda tão pesado quanto antes... Ele não fala há um tempo. Os outros conversam animadamente sobre isso ou aquilo, então Naz me puxa mais próxima dele. ―Bem vinda a Las Vegas.‖ Eu viro para encará-lo, levantando minhas sobrancelhas com surpresa. ―Vegas?‖ Ele concorda. ―O que estamos fazendo aqui?‖ ―O que mais fazemos na Cidade do Pecado?‖ Ele pergunta. Antes que eu possa responder, ele levanta sua mão e agarra meu queixo, segurando-me lá enquanto se inclina. A ponta do nariz escova contra o meu antes de inclinar sua cabeça e me beijar – suavemente, carinhosamente, quase não tocando meus lábios, então ele sussurra, ―pecado.‖ Estou corando diante desta demonstração pública de afeto, mas ninguém nota. Eles não estão olhando intencionalmente, pelo jeito todos estão evitando até fazer contato visual com Naz agora. Isso me lembra sobre a arrecadação de fundos, como, mesmo quando está abarrotado de pessoas, Naz tem uma bolha em torno dele. Ele está em seu próprio universo. Existem limusines esperando nossa chegada. Desço do avião e fico na pista, meu corpo está rígido e a cabeça nebulosa por ficar no ar durante toda a tarde. O sol está se pondo só agora aqui, banhando o céu em um brilho alaranjado, lançando tudo que nos cerca em sombras. Está quente, quase sufocante, mas ainda assim eu tremo


quando Naz para atrás de mim, com a mão apoiada no meu quadril. As pessoas fluem em torno de nós como se fossemos pedras em um rio correndo, descarregando malas e levando para os carros que estão aguardando. Eu não estou surpresa quando Raymond para ao nosso lado. Ele parece estar concentrado em nossa direção, sua linguagem corporal desinteressada, mas sua voz é séria quando fala. ―Não faça isso.‖ Minha sobrancelha sobe. Olho para ele, vendo que ele está olhando para frente, como se não tivesse falado nada. A mão de Naz no meu quadril se aperta, ―Eu não vou... Por enquanto.‖ ―Isso é tudo o que peço,‖ Raymond diz. A conversa deles não faz nenhum sentido para mim, e tão rápida como começou, Raymond caminha para longe para onde a loira que está com ele o espera. Vejo quando minha bolsa e vestido são colocados no último carro, junto com a bagagem de Naz. Assim que o porta-malas é fechado, tudo no lugar, o motorista abre a porta da limusine. Naz me empurra suavemente. "Vamos lá querida." Não resisto, ando e entro no carro. É tão nova quanto a última que andamos, impecavelmente limpa, o cheiro de couro novo, como se ninguém tivesse colocado os pés dentro dela, como se ninguém tivesse respirado este ar ou sentado nesses bancos. Naz desliza ao meu lado e o motorista fecha a porta, indo pela estrada uma vez que os outros carros começam a andar. Viro-me para Naz curiosa. ―Não fazer o que?‖ Ele levanta as sobrancelhas. ―O que?‖ ―Raymond falou para você não fazer alguma coisa.‖


―O que?‖ ―Isso é o que estou perguntando a você.‖ Ele me encara por um momento ao começarmos a trafegar, como se estivesse pensando numa resposta. Dando de ombros ele olha para o outro lado. ―Não importa. Não vou fazer mesmo.‖ ―Por enquanto?‖ Seus lábios se curvam involuntariamente. ―Por enquanto.‖ ―Você vai me dizer se fizer?‖ ―Você quer que eu fale?‖ Eu hesito. A pergunta dele é prosaica e não tenho certeza do que dizer. Meu instinto diz que é para dizer sim, claro, mas eu quero mesmo? Algo me diz que é melhor deixar que algumas coisas fiquem desconhecidas. ―Não tenho certeza.‖ Ele concorda e é a única resposta que consigo. Nunca estive em Vagas antes, nunca pensei que teria a chance de estar. É surreal, enquanto encaro a janela, assistindo as luzes da cidade aparecendo. O céu está escurecendo, o sol se escondendo mais e mais a cada segundo, mas as ruas não mostram nenhum sinal de se acalmar. Parece que o mundo está voltando a vida só agora, luzes piscando assim como pessoas se aglomerando nas ruas. A limusine passa por hotéis, nomes que reconheço – Venetian, Caesar's Palace, Flamingo e o Bellagio – antes de estacionar direto no MGM Grand. Encaro o hotel com meus olhos arregalados, o vasto edifício verde brilhante, o nome queima em amarelo na escuridão. Olho para ele enquanto desço da limusine. Sinto como se estivesse pisando em outro mundo. Naz sai do carro, parando ao meu lado. Ele olha bem menos


impressionado, como se este fosse só mais um lugar no mapa, uma parada na estrada da vida, mas para mim é a vida alterando. Alguém carrega nossas malas enquanto andamos diretamente para uma entrada remota, a mão de Naz pressionada nas minhas costas, guiandome, não me deixando ficar para trás, A recepção privada que somos levados é elegante, isolada da entrada principal, o tipo de lugar que esperava que Naz ficasse – descolado na superfície, tranquilo, enquanto um mundo de agitação está apenas alguns passos de distancia.. Tudo se move na velocidade da luz ao meu redor. Somos levados para longe da recepção, para os elevadores, onde o homem que está carregando nossa bagagem aperta o botão do ultimo andar. A cobertura. Um homem – acabou que era o concierge – nos acompanha pelas escadas e abre a porta da nossa suíte. Assim que entramos meus olhos enlouquecem. O espaço vasto na minha frente é diferente de tudo o que já vi antes. Olho tudo a meu redor em choque enquanto Naz conversa com o homem na porta. A suíte é rival da casa de Naz até no estilo. Tem uma sala de jantar, uma pequena cozinha, uma sala de estar, e até um espaço com uma mesa de sinuca. O chão branco e preto encerado destaca-se contra os tons de marrom escuro e amarelo de todo o resto que vejo ao redor, vou com passos vacilantes quando chego perto da parede de vidro. Eu dou uma olhada, e fico petrificada ao ver que tem uma piscina aqui em cima. O concierge afasta quando Naz recusa um tour pela suíte, nos deixando sozinhos. Viro-me para Naz, encostando minhas costas contra o vidro gelado e o espiando enquanto ele passeia por ali, tirando seu casaco. ―Gostou?‖ ―Se eu gostei? É incrível.‖


―É legal,‖ ele concorda, pendurando seu casaco nas costas de uma cadeira. ―O andar de cima é ainda melhor.‖ Eu o encaro. ―Andar de cima?‖ ―Claro,‖ ele diz, apontando para um conjunto de escadas ao lado. ―Onde você acha que o quarto fica?‖ Não espero que ele diga mais nada, passo voando por ele, subindo de dois em dois degraus. Paro quando chego ao topo, ofegando tão alto que Naz me escuta lá de baixo, baseado no som da risada dele. ―Eu falei para você,‖ ele grita. O andar de cima é elegante, com dois quartos e o maior banheiro que já vi na vida. Eu poderia me afogar na banheira de hidromassagem, o chuveiro fica num box de vidro imenso que fica bem perto de ser maior do que o dormitório da NYU. Entro, virando em círculos, completamente perplexa. Posso ver as luzes da cidade pela janela do banheiro, posso ver o primeiro andar. Quando saio do banheiro, Naz está no quarto principal, vasculhando por suas coisas. Paro na porta, balançando minha cabeça. ―Quem mais está ficando aqui?‖ ―Ninguém,‖ ele diz. ―Só nós.‖ ―Tem três malditas camas aqui. Por que precisamos de três camas?‖ ―Não precisamos,‖ ele diz, prendendo seus olhos em mim. ―Apesar de que podemos experimentar todas antes que o fim de semana termine.‖ Sorrio. Gosto deste plano. Ele está tirando as roupas e as guardando no closet, colocando as coisas como se ele estivesse se mudando para cá. Deixo tudo nas minhas malas, não tenho nem certeza do que eu empacotei,


mas tenho certeza de que não vale a pena ser pendurado num closet deste calibre. Ele me olha quando pego uma pequena pasta do suporte da cabeceira da cama e começo a folheá-lo. Serviço de quarto. ―Está com fome?‖ Ele pergunta. ―Ah, sim, um pouco.‖ Não consigo me lembrar da última vez que comi. ―Podemos pedir alguma coisa?‖ ―Podemos,‖ ele diz, ―mas que tal irmos a algum lugar ao invés disso?‖ ―Onde?‖ ―Qualquer lugar que você queira ir.‖ Ele termina o que está fazendo e seu telefone começa a tocar. Ele puxa para fora do bolso, mal olhando a tela antes de responder estoicamente, a conversa é curta e com nada mais do que ‗sins‘ e ‗nãos‘. Desligando, ele o guarda novamente e se vira para mim. ―Tenho que resolver um problema... Não levará mais do que alguns minutos. Por que você não toma um banho e se arruma, e vamos conhecer a cidade?‖ ―Tudo bem,‖ digo, olhando em volta do quarto, meus olhos caem para a minha mala. ―Devo usar o vestido?‖ ―Não, guarde-o para amanhã.‖ ―O que tem amanhã?‖ Minha pergunta arranca um sorriso dele enquanto ele caminha até mim, segurando meu queixo, escovando seu dedão nos meus lábios. ―Por que não focamos em hoje a noite antes de você começar a se preocupar com o amanhã? Nós desperdiçamos muito tempo olhando pelo que está por vir e não apreciando o que temos no agora. E o agora, o que temos, tem incontáveis oportunidades. O céu não é o limite no meu mundo Karissa. Não existem limites. Você quer?


Você tem. O que quer que seja.‖ ―Qualquer coisa?‖ ―Qualquer coisa,‖ ele jura. ―É só dizer.‖ ―Um x-bacon.‖ Ele ri. ―Um x-bacon?‖ ―Sim.‖ ―Ok então.‖ Inclinando para frente, ele me beija antes de se virar. ―Banho, e vamos pela cidade procurar por x-bacon.‖ Naz sai, e eu vasculho pela minha mala, hesitando. Se soubesse que estávamos vindo para Vegas, teria pegado algumas roupas de Melody. Acabo me decidindo por uma calça preta e um top pink, nada fora do comum para mim, mas pelo menos não é jeans. Vou até o banheiro e tiro minhas roupas, colocando o chuveiro no morno. Entro no box de vidro, soltando um grande suspiro de contentamento. Água bate em mim de todos os ângulos, o spray pulsante parece como uma massagem. Ensaboei-me dos pés a cabeça com o sabão mais cremoso e cheiroso que há. Fechando meus olhos, fico lá parada, deixando a cascata ao meu redor levar a espuma, deixando o vidro todo embaçado. Depois de um minuto abro meus olhos novamente e olho em volta, congelando quando avisto algo no térreo. Naz está parado lá, encarando-me. Um arrepio sobe pela minha espinha. Posso sentir o seu olhar. Devia ficar nervosa por ele estar me olhando, mas sinto um toque de excitação. Talvez eu goste da ideia de ser pega. Hesitando, contemplando, dou um passo até a parede de vidro e o olho enquanto corro minhas mãos do meu estômago até meu peito, espalmando meus seios. Um sorriso se espalha pelo rosto de Naz


lentamente enquanto ele chacoalha sua cabeça e vai embora. Volto para a água e termino meu banho, saindo quando já estou bem limpa. Arrumo-me, colocando minhas roupas e adicionando um pouquinho de maquiagem, fazendo o meu máximo para arrumar meu cabelo, quando ouço um movimento no andar de baixo novamente. Naz volta, entrando no banheiro enquanto eu aplico gloss nos lábios na frente do espelho. Ele dá a volta, parando atrás de mim, com a mão no meu quadril enquanto ele se inclina e beija o meu pescoço. "Você é uma raposa." "E você é um espreitador." Ele ri. ―Culpado.‖ Ele já está pronto, claro, sem precisar se trocar, parecendo e cheirando tão fresco quanto estava quando me pegou nos dormitórios. Não sei como o homem faz isso, sempre parecendo uma obra de arte. Escorrego em meus sapatos e pego a mão dele enquanto ele me leva pela suíte. Um homem está parado em nossa porta. Naz acena a cabeça ao passarmos, mas não diz uma palavra. Olho para ele com curiosidade, ainda mais surpresa quando vejo que existe outro esperando por nós nos elevadores. O homem aperta o botão e a porta abre automaticamente. Sem ter que dizer uma palavra, o homem entra no elevador junto com a gente e aperta o botão para o térreo. Assim que chegamos, Naz acena novamente. Começamos

a

andar,

caminhando

para

o

cassino

movimentado, quando me viro para Naz. "É meio estranho como eles servem você." Ele parece divertido com a minha avaliação. "O serviço deles é de alto nível. Qualquer coisa que você pedir, eles farão acontecer." "Qualquer coisa?"


"Sim, qualquer coisa," diz ele. "Mesmo x-bacons." Ele me leva direto para um restaurante... Um tipo de renome mundial do alto escalão, com um nome que não consigo pronunciar, dirigido por um homem com um sotaque que assumo ser francês. Só é preciso Naz dizer seu sobrenome, Vitale, e somos levados direto para dentro, a uma pequena mesa vazia na parte de trás, bem na hora que o garçom está servindo a nossa comida. Minha testa franze enquanto deslizo no assento que Naz puxa, atordoada quando um hambúrguer é colocado na minha frente. Estranho quando ele se senta, e no seu lugar tem um prato idêntico ao meu. ―Você já tinha feito o pedido?‖ ―Eu mencionei ao concierge34 que você queria x-bacon,‖ ele responde, ―então ele fez acontecer.‖ É incompreensível para mim, sendo uma pessoa que não costuma ser servida, mas eu não digo nada enquanto o garçom traz as bebidas — o tipo não alcoólico. Pego o hambúrguer para dar uma mordida. Ele tem um sabor peculiar, amargo como o vinagre balsâmico, e é coberto com algo verde que me faz lembrar de espinafre. Eu mastigo lentamente enquanto abro o lanche e só vejo toda a merda verde. Meu olhar se desloca ao redor da mesa enquanto franzo a testa. ―O que está errado?‖ Naz pergunta. Encontro o olhar dele, vendo que ele me assiste enquanto morde seu hambúrguer. Ele parece gostar, considerando que ele dá uma segunda mordida logo em seguida. ―Não tem ketchup na mesa.‖ ―Normalmente não tem num lugar como esse.‖ ―É por isso que eu gosto de lugares que não são como esse.‖ Eu murmuro, ―porque eles têm ketchup na mesa.‖

34

Responsável por atender quaisquer pedidos que os hóspedes tenham.


Ele chama o garçom, que faz seu caminho direto para nós. Naz diz a ele para trazer um pouco de ketchup e o homem concorda, correndo e retornando um momento depois com uma molheira cheia com o que eu acho que é o que eles pensem ser ketchup, mas parece um inferno de tomates cozidos pela forma como é volumoso. Eu mergulho a ponta do meu dedo para provar, avaliando. Lá está o gosto do vinagre balsâmico mais uma vez. ―O que está errado?‖ Naz pergunta de novo. Sua voz tem um leve tom impaciente. Balanço minha cabeça, empurrando o ketchup de lado, fecho o lanche e dou outra mordida. Posso sentir os olhos de Naz, suas perguntas vagando sobre a mesa, minha recusa não é o suficiente para ele. ―Karissa, o que está errado?‖ ―Nada,‖ eu digo, oferecendo uma tentativa de sorriso. ―Está bom.‖ ―Você não está usando seu ketchup.‖ ―Ah, é... Se você pode chamar assim.‖ Ele alcança a molheira, fazendo exatamente o que eu acabei de fazer – mergulha seu dedo para provar. Ele não faz cara nenhuma, nenhum som, mas assim que o garçom passa pela nossa mesa ele a pega e empurra para ele. O garçom congela, os olhos se apavoram, e ele pega a molheira. ―Algum problema senhor?‖ ―Ketchup,‖ Naz diz, sua voz é neutra. ―Eu pedi por ketchup.‖ ―Sim, isso—‖ ―Não é ketchup,‖ Naz diz, terminando a frase dele. ―Heinz 57 é ketchup. Isso não é ketchup. Eu não sei o que inferno é isso, mas eu pedi por ketchup, então espero receber ketchup.‖ O garçom corre mais uma vez enquanto olho para Naz. Ele


continua a comer, sem se afetar, enquanto o garçom volta momentos depois com uma nova vasilha com o que é sem dúvidas ketchup desta vez. Eu agradeço a ele, encarando a vasilha, hesitando, enquanto Naz solta um suspiro exasperado. ―O que tem de errado agora?‖ ―É só que, se alguém algum dia fosse envenenar sua comida, esse seria o momento,‖ eu digo, encarando o ketchup. ―Você acha que está envenenado?‖ ―Ou tem um belo de um cuspe nele.‖ Estou preocupada de estar agravando a situação, não tentando ser difícil. Pego meu hambúrguer para dar outra mordida, determinada a somente forçá-lo para dentro porque estou com muita fome para essa merda, quando Naz solta uma risada – alta e genuína. Ele empurra sua cadeira e fica de pé, estendendo sua mão para mim. ―Vamos.‖ Eu alcanço a mão dele antes de encontrar seus olhos. ―Onde estamos indo?‖ ―Conseguir o que você realmente quer.‖ Coloco

o

hambúrguer

na

mesa

e

pego

sua

mão,

acompanhando-o para fora do restaurante, passando por um garçom muito confuso pela porta. Nós passeamos, passando por dúzias de restaurantes, alguns com nomes de chefs famosos, antes de Naz parar em um bar esportivo lotado. Este lugar é um mundo de diferença do outro, como dia e noite. O bar é um caos organizado, alto e brilhante, com pessoas usando jeans e bonés de beisebol, bebendo cerveja e gritando com a TV. O cheiro de comida gordurosa flutua pelo ar, fazendo meu estômago roncar.


Naz pega uma mesa no centro do lugar, onde uma garçonete aparece com o cardápio. Eu peço uma Coca, praticamente me jogando no meu assento, enquanto Naz devolve o cardápio. ―Uma cerveja. Não importa qual, só traga numa garrafa e mantenha sempre fechada. E dois x-bacons.‖ A mulher anota os pedidos e sai com um sorriso. Quando nossas bebidas chegam, dou um gole na minha Coca enquanto ele puxa as chaves dele, usando um abridor de garrafas para abrir a cerveja. Ele toma um gole. Seu rosto se contorce em desgosto, sua expressão me fazendo rir. ―Não é boa?‖ ―Cerveja nunca é,‖ ele diz, segurando sua garrafa para mim, oferecendo-me. Eu hesito. ―Tem certeza?‖ ―É seu aniversário.‖ ―Amanhã.‖ ―Perto o bastante.‖ ―Eu ainda não vou ter vinte e um.‖ Seus lábios se curvam em animação enquanto ele a segura mais próxima de mim. ―Sinto como se já tivéssemos tido esta conversa antes. Minha perdição está tendo duvidas sobre pecar na Cidade do Pecado comigo?‖ ―Claro que não.‖ ―Então beba.‖ Eu pego a cerveja da mão dele e bebo. É horrível, mas dou um segundo gole e devolvo para ele na mesa antes que alguém me flagre. A comida vem rápido – um suculento hambúrguer num pão fresquinho, gordura pingando quando eu dou uma mordida. É tão bom


que gemo, rolo meus olhos dramaticamente para trás da minha cabeça. ―Isso sim é um x-bacon.‖ A conversa é amigável enquanto me empanturro, no entanto ele come só metade do seu hambúrguer e se enche com álcool. Tomo o bastante da garrafa dele para ficar um pouco alegre, minha cabeça está um pouco confusa e meu corpo um pouco leve demais de forma que eu passe a desafiar a gravidade e voar para o céu. Ele está bebendo sua quarta cerveja quando me inclino no encosto da cadeira e o observo silenciosamente. Ele é lindo, numa maneira bem sombria, o tipo de beleza que é natural. Ele não tenta, e acho que isso é o que mais amo nele, ele apenas é. Naz com seu sorriso sombrio e rédeas curtas, é pura paixão e genuíno espirito indomável, o tipo que faz os pelos do meu braço se arrepiarem enquanto minha espinha formiga instantaneamente. Ele pode ser assustador, mas ele é igualmente fascinante. Eu nunca estive com alguém que exercesse tanta influência. Como alguém que é cercado por um ar perigo pode me fazer sentir tão segura? ―Você está quieta,‖ ele diz, levantando uma sobrancelha ao me encarar de volta. ―No que você está pensando?‖ ―Estou só pensando em quão bonito você é,‖ admito. Ele ri enquanto coloca sua cerveja na mesa, passando-a pela mesa para oferecer a mim o último gole. Eu pego, tomando um gole, fazendo uma careta ao sentir o gosto amargo e morno. Naz puxa sua carteira e joga um maço de dinheiro, não se incomodando em esperar a conta — nossa garçonete está tão ocupada que já faz um tempo que não a vemos — mas é mais do que suficiente para cobrir o que devemos. Ele fica de pé, ajeitando sua gravata. Eu acompanho a deixa dele, jogando meu braço em volta dele enquanto começamos a andar


para a saída, mas virando e entrando direto no andar do cassino. ―Você sabe jogar Blackjack?‖ Ele pergunta. ―Não.‖ ―É bem básico,‖ ele diz. ―Você soma o valor das cartas. Próximo de vinte e um você para sem ultrapassá-lo. Entendeu?‖ ―Ah, claro.‖ Eu digo, olhando para ele peculiarmente. Eu realmente não entendi. ―Por quê?‖ ―Porque nós vamos ganhar muito dinheiro jogando.‖ Olho para ele, e começo a argumentar que não tenho idade legal para jogar em Vegas, mas novamente não tem um ponto nisso. Ele ignora todas as mesas ao redor da pista principal, levando-me a uma outra parte do hotel — um cassino dentro de um cassino. Este lugar é luxuoso e exclusivo, tanto que temos que ser escoltados para dentro. Estamos ficando com a sala dos fundos, onde tem algumas mesas de blackjack privadas. Assim que colocamos os pés lá dentro reconheço uma voz, olhando em volta vejo alguns rostos vagamente familiares. Todos do avião estão aqui, rindo e se divertindo, apostando noite toda. Naz pega um lugar em uma mesa ao lado de Raymond. Assim que ele se senta, um homem que estava trabalhando se aproxima hesitante, e com um pouco de medo em seus olhos gagueja. ―Senhor, uh, Vitale, senhor... Sua amiga...‖ ―Namorada,‖ Naz diz. A palavra me põe em alerta, meu coração batendo tão forte que me dá até tontura. Namorada. É a primeira vez que ele me chama de qualquer coisa parecida com isso. Um silêncio estranho toma conta da sala, vozes sussurrando. Dou uma olhada ao redor para os homens, vendo os rostos curiosos. Eles parecem tão afetados pela palavra quanto eu. ―Estou ciente de que ela não tem idade suficiente para um lugar de apostas, mas ela é meu amuleto da sorte, então se você for


negar a presença dela, serei forçado a levar meu dinheiro para outro lugar.‖ ―Sem problemas,‖ o homem diz, recuando perante a ameaça. ―Ficaremos felizes em acomodá-los.‖ Eu paro atrás de Naz, seguindo nervosamente conforme os outros. Algumas mulheres permanecem na sala. A loira de Raymond atrás dele, esfregando seus os ombros para chamar a atenção, enquanto ele parece mal se lembrar que ela está lá. Naz agarra meu braço, porém, puxando-me para ele. Pisco algumas vezes, assustada, quando ele me puxa para o seu colo. Eu me ajeito na cadeira com ele, recostando-me contra ele, tentando mudar de posição para que eu não bloqueie a visão do que ele está fazendo. Alguns dos rapazes lançam para ele olhares estranhos, mas ninguém diz nada enquanto ele se ajeita. Apesar de ele me dizer as regras do jogo, tenho dificuldade em acompanhar o que está acontecendo. Esses homens são profissionais, movendo tudo rapidamente, fichas brancas, amarelas e marrons, atiradas ao redor que valem milhares de dólares, muito pouca conversa na maneira de jogar. Eles falam coisas sem sentido, usando as mãos para sinalizar como eles querem jogar. Assisto Naz, tentando contar suas cartas, mas ele me distrai, sua respiração batendo contra minha bochecha, seus lábios encontrando meu pescoço periodicamente entre as apostas. Eu não sei como diabos ele consegue se concentrar. Drinques fluem aos homens. Naz me oferece alguns goles do dele, e ninguém diz uma palavra. Eles jogam e jogam, fazendo piadas, jogando fora milhares de dólares, que nenhum deles parece sentir falta, num piscar de olhos. A noite passa enquanto ele me dá algumas dicas, ou perguntando o que fazer algumas vezes. Sei que ele sabe mais do que eu. Mas jogo junto, dando a ele minha opinião. Ele ouve toda vez,


rindo quando eu o faço perder tudo, como se isso o divertisse. O álcool me atinge um tempo depois, minha bunda está quadrada por ficar sentada. Pareço estar pesada no colo de Naz, então levanto-me. Naz joga um olhar interrogativo para mim no meio do jogo. ―Preciso esticar minhas pernas,‖ digo, dando uma olhada em volta. ―Onde fica o banheiro?‖ ―Ah, no fim do corredor,‖ Naz diz, apontando para a porta. ―Eu mostro a ela,‖ a loira se prontifica, os olhos buscando os meus enquanto ela sorri. ―Mostro pra você.‖ Naz dá as costas ao jogo dele. ―Ela vai mostrar para você.‖ Sigo a mulher para fora da sala em direção ao banheiro no fim do corredor, assim como Naz disse. Poderia achar facilmente. A mulher entra no banheiro, checando sua maquiagem e afofando seu cabelo. Estou tentando fazer xixi enquanto ela tenta puxar conversa através da porta. ―Então, você e Vitale, hein? Isso é interessante.‖ ―É... Por que é interessante?‖ ―Não sei, só é.‖ Ela diz. ―Ele não costuma trazer mulheres… Nunca trouxe. Já estou com Ray faz cinco anos agora e nunca o vi com ninguém.‖ Gosto de pensar que estou acima de fofocas, mas meu interesse ganha essa. Ando até a pia para lavar as mãos. ―É que Naz é uma pessoa muito reservada.‖ Os olhos dela ficam loucos. ―Naz?‖ ―Sim, Naz,‖ eu digo. ―Não é assim que todos o chamam?‖ Ela balança a cabeça, como se eu fosse louca. ―É sempre Vitale… Ou Ignazio, se são próximos. Nunca Naz.‖ Minhas sobrancelhas enrugam. ―Tem certeza?‖


―Positivo.‖ Ela diz. ―As vezes Ray o chama assim quando estamos a sós, um velho hábito, sabe? Mas não na frente de Vitale. É uma espécie de ferida aberta, eu acho, que eles pisam levemente. Não estava por perto nessa época, quando isso aconteceu..." As palavras dela só me confundem mais. ―Quando o que aconteceu?‖ ―Quando ele perdeu sua família.‖ Só a encaro, não tendo nenhuma ideia do que ela está falando, e parece que isso fica claro para ela. Ela empalidece, dando um passo para trás da pia enquanto força um sorriso nos lábios cor de cereja. ―Acho que nós devemos voltar.‖ Eu quero perguntar mais coisas para ela, perguntar o que diabos ela quis dizer com isso, por que isso ainda é uma ferida tão crua e o que aconteceu com a família dele — uma família da qual ele nunca fala a respeito — mas eu sei que ela está certa. Nós devemos voltar. E Naz não ia gostar que ela estivesse falando sobre isso, o que quer que seja... Estamos caminhando de volta para a sala quando ela me oferece mais um sorriso. ―Sou Brandy, aliás.‖ ―Karissa,‖ eu digo. ―Então você e Raymond são casados há cinco anos?‖ Ela ri. ―Oh, não somos casados. Mas estamos juntos todo esse tempo.‖ ―Oh… Eu achei que ele fosse casado.‖ Ela para na entrada da sala quando somos recebidas de volta, lançando-me um olhar estranho. ―Ele é. Eu sou só a namorada dele.‖ Brandy se senta novamente na cadeira de Raymond, suas mãos no ombro dele. Ela inclina, colocando um beijo suave na


bochecha dele, mas ele limpa, muito focado nas cartas do jogo para prestar qualquer atenção nela. Hesito por um momento, assistindo-os, meu estômago dando um nó quando me dou conta que essa garota é a amante dele. Ela parece legal, e não sou ninguém para julgar, mas me preocupa. Muito. Meu olhar desloca-se para Naz. Penso em o que ser ‗namorada dele’ significa. Como se ele pudesse sentir meu olhar, sua cabeça vira em minha

direção.

Suas

sobrancelhas

enrugam

ao

me

encarar,

questionando com o olhar. Sorrio e caminho até ele, deixando de lado minha preocupação, mas ele já notou que meu humor mudou. Colocando as cartas para baixo, ele fica de pé. ―Estou fora.‖ ―Mas já?‖ Raymond pergunta, surpreso. ―Já perdi mais de trinta mil,‖ Naz diz. ―Isso provavelmente é um sinal.‖ ―Um sinal de que seu talismã da sorte não é tão bom quanto você pensou?‖ Um cara brincalhão grita, um cara que reconheço do avião, o mesmo que o aborreceu no caminho para cá. Naz não cai na provocação com uma resposta enquanto ele conta o dinheiro. Ele joga seu dinheiro, não se incomodando com despedidas. Naz está na metade do caminho para mim quando Raymond ri secamente. ―Strike Dois.35‖ Isso faz com que a expressão de Naz suavize um pouco. Ele me alcança, pegando minha mão, e me puxando com ele até a saída. Ele não diz nada até que estamos no corredor sozinhos, 35

Alusão ao jogo de Basebol no qual o arremessador consegue uma bola boa. Aqui Raymond quer dizer que o cara implicou acertando o Naz pela segunda vez;


longe dos olhos curiosos. Ele para, virando-se para mim, levantando suas sobrancelhas. Sua expressão é tão séria que eu congelo. ―O que ela falou para você?‖ ―Quê?‖ ―Você estava olhando para mim como se não me conhecesse,‖ ele diz, ―O que aquela garota disse para você?‖ Petrifica-me como tão fácil ele me lê. Eu fico congelada por um momento até que ele levanta meu rosto com as duas mãos me forçando a olhar para ele. ―Diga-me.‖ ―Nada realmente. Ela só disse que ninguém lhe chama de Naz, não desde que… Você perdeu sua família.‖ Eu espero raiva — direcionada a ela, ou a mim, ou alguém. Ao invés disso, o que vejo é dor, um leve vacilo antes que seus olhos se fechem, como se o que falei o machucasse tanto, que ele nem sequer consegue olhar para mim. Ele fica dessa forma por um tempo, mas desvanece quando ele abre os olhos. Ele solta meu rosto e agarra minha mão, levando-as a pressionar seu peito. ―Eu contei a você o que aconteceu.‖ As cicatrizes. Meu peito se aperta com suas palavras. Culpa me come por dentro por trazer este assunto à tona. Começo a me desculpar, começo a mudar de assunto, mas ele silencia minhas palavras ao se inclinar e beijar meus lábios. É macio e suave, sem pressa quando sua língua encontra meu lábio inferior e encontra-se com a minha. Gemo na sua boca, ganhando uma risada suave quando ele finalmente se afasta.


Capítulo 17 Naz está tranquilo enquanto subimos para o quarto, tão perto que posso cheirar seu perfume, mas ele parece estar a milhares de quilômetros de distância. Ele está perdido em sua mente, consumido por pensamentos que não posso começar a entender. Quando chegamos até a suíte, há morangos cobertos de chocolate em cima da mesa e uma garrafa de champanhe em um novo balde de gelo. Ele, obviamente tinha planejado algo, mas está descartado quando ele caminha e sobe. Sem dizer nada, eu o sigo, mantendo minha distância para dar-lhe algum espaço, mas, eventualmente, encontramo-nos no quarto principal. Ele dá um passo em minha direção, tranquilo quando ele fala. "Você me ama?" "Você sabe que eu amo." "Diga isso," diz ele, com a voz baixinha. "Diga-me que me ama." "Eu te amo." Ele coloca as mãos em minhas bochechas. "Diga isso de novo." "Eu te amo." Suas mãos escorregam mais baixo, envolvendo em torno de minha garganta. "Mais uma vez." "Eu te amo." Ele aperta levemente, não dolorosamente, apenas o suficiente


para me fazer suspirar. "Mais uma vez." Minha voz é apenas um sussurro quando as palavras derramam para fora de mim. "Eu te amo, Ignazio." Sua expressão endurece quando digo o nome dele, seus olhos escurecendo. O monstro está espreitando, olhando para mim por trás de sua máscara. Ele quer sair. Ele quer que eu jogue com ele. Ele não diz nada, no entanto, abre a mão do meu pescoço. Sua mão deriva para baixo, pelo meu peito e entre meus seios. Ele tateia através do tecido antes de alcançar para baixo e agarrar a parte inferior de meu topper, puxando para cima. Eu levanto as mãos no ar, deixando-o retirá-la. Ele desabotoa minha calça, puxando para baixo o zíper, e eu saio dela, quando ele puxa para fora de mim. Lentamente, seus olhos me exploram, desde o topo da cabeça até a ponta dos meus dedos dos pés antes de arrastar de volta para cima novamente. Ele encontra o meu olhar quando dá mais um passo para frente, bem de frente a mim. Eu posso sentir o calor que emana dele, sua inebriante colônia. Isso me deixa tonta. "Se você pudesse ler minha mente..." Ele faz uma pausa, rindo sombriamente. "Você estaria tremendo." Quase tremo com a insinuação. "O que você está pensando?" Ele dá um passo em volta de mim, parando atrás de mim, e varre meu cabelo para fora do caminho. A mão segura meu quadril, puxando-me para trás de encontro a ele, quando ele se inclina para beijar meu pescoço. "Eu estou pensando que a única maneira que você poderia ser mais perfeita neste momento," diz ele contra a minha pele "seria se eu estivesse fodendo você tão duro que as pessoas no lobby poderiam ouvir seus gritos."


Eu tremo, mas ele ainda não acabou. "Eu quero empurrá-la para os seus limites, Karissa. Empurrála tão duro, tão longe, que você me odiaria por isso." "Eu nunca poderia odiá-lo." Assim que digo isso, sua mão está no meu pescoço de novo, puxando minha cabeça para cima, forçando-me a olhar para ele. "Não diga a menos que você queira dizer isso." "Eu quero dizer," eu sussurro. "Eu te amo." Ele olha para mim por um momento antes de se inclinar para beijar meus lábios, puxando-me para trás na medida que é quase doloroso ele poder chegar a minha boca. "Eu também te amo. Prometame que você vai se lembrar disso." "Eu prometo." "Bom," diz ele. "Porque estou a ponto de foder você como eu não deveria." Minha voz é pouco mais que um suspiro trêmulo. "Ok." "Lembre-se de suas palavras de segurança." "Eu vou." Ele vai para minha garganta, mas me solta quando dá um passo atrás. Ainda estou de pé, tentando não tremer, e espreito por cima do ombro para o ver desatando o nó da gravata escura. "E se você me ama de verdade," diz ele, tirando a gravata antes de olhar para mim de novo. Ele parece furioso. A visão da sua ira, o tom gelado de sua voz, faz meus joelhos fracos. Definitivamente estou tremendo agora. "Se você quer dizer isso, você vai lutar de volta." Meus lábios se separam, a resposta na ponta da língua bate dentro de mim. Suspiro, alarmada, quando Naz bruscamente me agarra


e me arrasta para a cama, empurrando-me sobre meu estômago. Não há nada gentil sobre seu aperto, nada de amor, ou agradável, sobre o homem me tocando. Ele força meus braços atrás das costas, envolvendo a gravata firmemente em torno de meus pulsos, atando-os juntos. Luto quando ele me restringe, mas ele é muito forte, muito rápido para eu detê-lo fisicamente. No momento em que meus braços estão presos, ouço-o atrapalhar-se com o cinto, o meu coração disparado com o click da fivela. Ele não vai me machucar. Eu sei isso. Ele me ama. Eu me lembro. Mas é difícil pensar, difícil de ceder, quando você tem um homem com o dobro do seu tamanho, uma besta, uma porra de um monstro, prendendo-a para baixo. Então, eu não penso. Eu sinto. E eu sinto que eu preciso lutar com ele. Eu chuto com minhas pernas, resistindo e gritando para que ele saia de mim. Não funciona. É claro que isso não acontece. Entra por um ouvido e sai pelo outro. Seu aperto fica mais forte, mais áspero. Eu sou o seu brinquedo favorito, eu sei disso, e ele está prestes a ver o que é preciso para me quebrar. Eu não vou deixá-lo, no entanto. Eu não posso. Ele não vai me quebrar. Viro-me para rolar sobre minhas costas, minhas mãos debaixo


de mim, e empurro para cima, sentando antes que ele possa pensar em me parar. Estou prestes a me levantar quando ele arranca o cinto, deixando-me tensa. Fazendo-me estremecer. Minha reação o briga a fazer uma pausa por uma fração de segundo, apenas o tempo suficiente para eu notar, antes que ele venha para mim novamente. Ele não oscila, não me golpeia, em vez disso força-me de volta para o meu estômago, o cinto jogado de lado, descartado. Ele me prende com seu peso corporal, dominando-me. "O que diabos está errado com você?" Pergunto, um rugido na minha voz que surpreende até a mim. Ele não responde. Ele não fala. Um olhar meio frio, ele nem sequer me reconhece. Seu corpo é pesado quando remexo em meus quadris, lutando contra ele. Ele puxa minha calcinha para baixo, sem se preocupar em tirá-la, o tecido em volta dos meus joelhos, tornando mais difícil para chutar. Um braço desliza em volta da minha cintura, puxando bruscamente meus quadris para fora da cama, forçando-me de joelhos com a minha bunda para cima no ar. "Fique longe de mim," eu rosno, lutando em seus braços e empurrando para escapar, mas ele aperta. Ele se atrapalha com as roupas, não se despindo, apenas puxando-se do confinamento de suas calças. "Obrigue-me." "Vai se foder." As palavras mal saem dos meus lábios quando ele empurra para dentro de mim, tão duro, tão profundo, tão abrupto, que eu choro por causa disso. Meu rosto é forçado no colchão repetidamente, abafando os meus gritos, quando ele bate em mim. Um braço permanece firmemente em torno de mim para me travar no lugar, sua outra mão pressionando em minhas costas, entre as minhas omoplatas.


Estou presa, mas eu oscilo, mudo meus quadris, lutando com ele, até que ele empurra profundamente e puxa muito para trás, deslizando para fora de mim. Lamento logo que isso acontece, sentindo o vazio, a dor já está crescendo, mas reajo instintivamente. É lutar ou fugir, e o combate não está funcionando. Seu domínio afrouxa, sua mão deixando minhas costas enquanto ele se agarra para empurrar para dentro. Antes que ele possa fazer isso, eu vou embora. Deslizo por debaixo dele, ofegante, e me forçando a levantar, mas não acho que posso. Porra. Estou fodida. Não posso correr. Mal posso me por em ordem, tomando apenas alguns passos antes de quase cair. Grito quando tropeço, mas Naz me agarra, jogando-me de volta na cama antes que eu possa bater no chão, de cara. Ele ri, forçando-me de volta na posição. "Você realmente acha que poderia ficar longe de mim tão facilmente?" Ele está zombando de mim, com minhas tentativas de fuga fracas, como sou fraca, como se eu não tivesse acabado executado toda a minha energia para fazer o que fiz. Ele pode não me machucar fisicamente, mas foda-se se isso não doeu. Adrenalina surge dentro de mim, minha raiva e embaraço esmagador. Ele quer uma luta? Vou dar-lhe uma. Eu luto com tudo em mim, sua gravata ardendo quando esfrega em meus pulsos, os nós não afrouxando nem um pouco. "Desamarre-me," exijo quando ele empurra para dentro de mim novamente. Quero dizer mais, mas a sensação me deixa


momentaneamente sem palavras. Foda-se, isso é tão bom... "Desamarre você mesma." "Estou tentando." Eu mexo contra o nó um pouco mais. "Por favor? Basta soltar os nós." Ele ri novamente. Ri. Do mesmo jeito que é bom quando ele está dentro de mim, ele está começando a me irritar. "Você sabe, ok, que seja," eu rosno. "Você acha que é tão forte? Você não pode sequer lutar limpo. Você é o único fraco aqui. Covarde do caralho. Patético." Não sei de onde a explosão veio, mas funciona. Naz agarra meus braços bruscamente, puxando a gravata quando ele desata meus pulsos. Assim que minhas mãos estão livres, ele me vira de modo que eu estou em minhas costas e ele está em cima de mim. Encontro seus olhos. Ansiedade cresce dentro de mim, misturando com um toque de emoção. Sua expressão é aterrorizante. Ele não diz nada, mas está escrito em todo o seu rosto. Ele vai me fazer comer minhas palavras. Minhas pernas são levantadas sobre seus ombros largos quando ele implacavelmente martela minhas entranhas, batendo e batendo. Sua mão está sobre minha garganta, pressionando contra a minha jugular, deixando-me tonta enquanto ele brutalmente me fode. E me fode. E me fode. Seu aperto é tão forte que acho que ainda vou sentir isso amanhã, marcas incorporadas em minha carne em tons profundos de preto e azul, conforme ele arrebata meu corpo, destruindo minhas entranhas. Luto com ele, tentando soltar minhas pernas, cada impulso dolorosamente profundo. Agarro sua mão, empurrando contra seu


corpo, lutando com suas mãos. Minhas unhas cavam em sua pele, deixando marcas em sua armadura, tirando sangue que não o afeta em nada. Pareço estar mais nervosa por isso do que ele. Não importa o que eu faço ele me domina, muito mais forte, muito mais duro. Eu não posso dominá-lo. Eu não posso vencer. Minha frustração eleva nessa realização até eu enrolar minhas mãos em punhos e socar seu peito com tudo em mim. Bato-lhe com tanta força que eu ouço, bato-lhe com tanta força que meus dedos machucam. Assim que meu punho se conecta, a força parece ricochetear através de nossos corpos, enrijecendo meus músculos. Ah Merda. Ele agarra minha mão quando se inclina para mim, tão perto que nossos narizes tocam. Meu coração dispara. Estou esperando veneno. Em vez disso, ele me surpreende com um beijo. "É isso aí, meu bem," diz ele contra os meus lábios. "Lute comigo antes que eu lhe foda até a morte." Acho que ele pode ser capaz disso, mas fui longe demais para admitir isso em voz alta. Estou trabalhado, em sobrecarga emocional. "Você não é homem o suficiente." Ele geme, beija-me novamente, seus lábios tão brutos como o resto do corpo. Jesus, ele gosta disso. Ele me enerva por um segundo. Sexo com ele é sempre apaixonado, mas isso? Isto é intenso. Ele está em controle completo do meu corpo, mas posso dizer que ele perdeu o controle de si mesmo. Este não é Naz. Este é o monstro, totalmente para fora. Este é Ignazio Vitale.


Ele me ama. Ainda assim, tento me lembrar. Não quero nunca mais esquecer. Mas este homem batendo o meu corpo, agarrando minha garganta, fodendo-me como se me odiasse, como se a minha vida estivesse em suas mãos. Como se ele não tivesse nenhum receio de acabar comigo se ele considerar oportuno. É traiçoeiro. É aterrorizante. Então por que estou gostando tanto? "Oh Deus," eu sussurro, minha voz tensa, a minha visão borrando. Posso sentir as lágrimas chegando e a pressão crescendo... Sinto-me como se estivesse prestes a explodir embaixo dele. Sou um fio vivo, inflamando em todos os lugares que ele toca. É eletrizante. Minhas mãos encontram seu caminho para seu cabelo, agarrando os cachos, prendendo neles. Eu não sei se para empurrar ou puxar, implorar-lhe para ficar longe de mim ou me dar ainda mais. Fechando meus olhos, arqueio minhas costas, empurrando meus seios contra seu peito conforme as convulsões violentamente rasgam através de mim. Minha voz escapa em um grito estridente, estrangulada pela mão na minha garganta, mas alto o suficiente para fazer minhas orelhas arderem. Ele não se afeta, embora — não diminui, não vai com calma. O orgasmo tira tudo longe de mim, pegando minha apreensão, minha ansiedade e minha vontade de lutar. Eu me afasto em uma nuvem

de

êxtase,

minha

mente

longe,

meu

corpo

finalmente

sucumbindo a ele. Eu não luto mais, mesmo que ele ainda esteja áspero, mesmo que ele esteja pedindo fisicamente para isso. Oh Deus, ele me quebrou. Ele me quebrou.


Mas eu não tinha ideia que ser quebrada poderia ser tão bom. Lágrimas escapam do canto dos meus olhos, que ele beija quando sussurra as palavras "Lembre-se." Sei que poderia fazê-lo parar com apenas uma palavra, e talvez por isso eu não a diga. Não quero que ele pare. Quero dele. Quero ser seu tudo. Quero que ele me leve, tomeme, use-me e abuse de mim, porque ele acha que ele tem o controle e agora eu sei que é o que ele almeja. Quero jogar o seu jogo com ele, porque sei que uma mera palavra dos meus lábios vai fazê-lo parar, e se isso não é o poder real, eu não sei o que é. Horas ou dias. Minutos ou segundos. Eu não sei quanto tempo ele mantém isso, quanto tempo ele joga este jogo. Eu só me lembro de existir nesse momento até que o mundo se desvanece em torno de mim, o sono me afastando. E então eu estou acordando. O quarto está assustadoramente escuro, banhado em uma espécie de brilho de néon, com as luzes brilhando através da janela, as cortinas deixadas abertas. Sento-me, estremecendo com a pontada de dor. Meu corpo está dolorido e com dores; estou nua e suja. Sinto como se tivesse corrido uma maratona e cai direto em uma cama. Eu nem tenho certeza de que posso mais andar. A porra das minhas pernas estão dormentes. Do outro lado da sala, banhado de luz verde e dourada do brilho do edifício, está Naz, olhando pela janela, completamente vestido. Será que ele mesmo se despiu? Ele está completamente imóvel, como se ele fosse um dispositivo elétrico da sala. O único sinal de vida é a subida e descida do seu peito, respiração sutil, inata. Ele não está fazendo isso. Está só acontecendo.


Na verdade, ele não está fazendo nada. Pensei que ele houvesse me quebrado no momento, mas estava errada. Acho que ele me acordou em vez disso, para como a minha vida até agora tem sido apenas um sonho monótono, ele me mostrou como é realmente abrir os olhos. Eu nunca me senti tão viva. Mas quebrado é o que vejo quando olho para ele. É como se um fio fosse cortado, alguma coisa cortada desligando o homem que eu conheço do corpo na minha frente. O monstro saiu. Eu o vi. Eu brinquei com ele. Saudei-o para dentro de mim, e não o afastei. Acho que, olhando para Naz, o monstro decidiu ficar. "Naz?" Eu chamo, mas ele não reage, como se ele não tivesse me escutado. Minha voz cai mais baixo, um sussurro em causa. "Ignazio?" Ele se move. Sua cabeça se vira, seus olhos sobre mim do outro lado da sala. Depois de uma rápida olhada para trás para fora da janela, ele caminha para a cama. Ele não fala, desabotoando lentamente sua camisa quando ele se aproxima. Vejo quando ele se aproxima, e abre o tecido, as insinuações de sangue em listras nas mangas. Olho para ele quando puxa sua camisa, vendo os talhos profundos e marcas de minhas unhas em seus braços fortes. Estou alarmada. Acho que eu poderia tê-lo machucado mais do que ele me machucou. Ele se despe em silêncio antes de subir na cama ao meu lado, deslocando seu corpo de modo que ele está em cima de mim. Ele fuça meu pescoço, estabelecendo-se entre as minhas coxas. Nem uma palavra falada, ele desliza para dentro de mim. Os primeiros traços são suaves, acompanhados por um


profundo incômodo. Suspiro, minha voz tensa quando o agarro e solto, "amarelo." Ele retarda suas estocadas até que ele mal está se movendo, cobrindo meu corpo com o seu, fazendo amor comigo. Sinto em cada célula do meu corpo, ouvindo quando ele geme em meu pescoço, seu hálito quente ventilando contra a minha pele. Ele é normalmente calmo durante o sexo, a não ser que esteja me provocando, mas ouvi-lo agora... escutar seus suspiros trêmulos e gemidos tensos. Envolvo meus braços em torno dele com força, girando os cachos macios em sua nuca em torno de meus dedos. É doce, doce... Doce pra caralho... Conforme ele trilha beijos ao longo do meu queixo antes de puxar para trás o suficiente para olhar para mim. Ele ainda não diz nada, mas a curva de seus lábios, o sorriso suave que ele oferece na escuridão, ilumina o ar entre nós. É lindo. Tão bonito. É tudo. Ele é tudo. Ele termina dentro de mim, ainda olhando para mim, com uma expressão de êxtase que atravessa seu rosto que me deixa maravilhada. Seus lábios se separam, pálpebras caídas, quando o sussurro suave de um gemido escapa sob a forma do meu nome. "Karissa." Depois nós ficamos lá, eu no meu estômago ao lado dele na cama, o cobertor envolto em torno de mim. Estou meio dormindo, exausta e satisfeita, quando sinto o seu toque nas minhas costas, as pontas dos dedos fazendo cócegas enquanto ele acaricia minha pele. Meus olhos se fecham, a sensação fazendo com que os meus dedos enrolem quando mordo meu lábio inferior, forçando de volta uma risadinha.


Ele está desenhando alguma coisa, ou escrevendo sobre mim... O que, eu não sei. Eu tento seguir o padrão, dar sentido a seus movimentos, quando ele passa sobre minha carne causando arrepios. "O que você está fazendo?" Sussurro, nem um pouco surpresa quando ele não responde minha pergunta. Ele mantém os padrões de desenho por alguns minutos, quase me embalando para dormir, antes de se inclinar e pressionando um beijo suave entre as minhas omoplatas. Ele envolve seus braços em volta de mim, puxando-me para o meu lado em direção a ele, apertando-me de volta contra o seu peito quente. "Eu estava ligando os pontos," diz ele em voz baixa. "Suas sardas são como estrelas. Elas contam uma história, dependendo de como você as conecta." Eu sorrio para mim mesma enquanto ele pega a minha mão, entrelaçando nossos dedos. "O que elas dizem?" "Elas me disseram que você é linda," diz ele. "E eu sou um sortudo filho da puta por ter você só para mim."


Capítulo 18 Fico de frente para o longo espelho, puxando meu vestido, tentando ajeitá-lo no meu corpo. Ele parece mais apertado do que me lembrava, mostrando mais pele do que costumo mostrar. Estou pronta, cabelo preso e maquiagem, meus lábios a mesma tonalidade vermelha que minha roupa. Esta luz, faz minha pele parecer pálida como porcelana. Pegando meu pó compacto, coloco um pouco mais de maquiagem em volta do meu pescoço, nervosamente cobrindo o tom leve preto e azulado. Não dói, e isso não me incomoda muito, mas me preocupo com os outros. Eu sei como isso se parece. Eu sei o que todo mundo vai pensar. Estou perdida em meus pensamentos, minha mente à deriva voltando para ontem à noite, quando pego um vislumbre da forma que aparece na porta atrás de mim. Minha atenção é atraída para o reflexo de Naz no espelho, e estou momentaneamente zonza. Eu nunca o vi tão casual antes. Calça jeans escura, larga e um cinto, camisa branca e um blazer azul escuro, em seu corpo tonificado. Ele não fez a barba, e talvez seja a minha imaginação, mas o seu cabelo parece mais fora de lugar do que o habitual. Enquanto esse pensamento passa pela minha mente, ele passa a mão através dos cabelos confirmando minhas suspeitas. Ele está desgrenhado. É sexy.


Malditamente sexy. Mas não é o que estou acostumada. Ele sempre carrega um ar de perfeição, tudo em ordem e sob controle. Este homem a minha frente é um caos organizado, que se infiltrou através das rachaduras quando sua armadura rachou. Fico olhando para ele por um momento, meus nervos queimando. Ele sumiu a maior parte do dia, deixando-me para me entreter. Não tenho certeza onde ele foi, nem por que, mas estava feliz por ele ter voltado. As coisas são muito mais calmas quando ele não está por perto. "Ignazio." Ele entra no banheiro, olhando fixamente para o meu reflexo no espelho. "Existe uma razão para você está me chamando assim?" "É o seu nome," digo, enquanto coloco meus brincos. "É como todo mundo te chama." "Eles costumam me chamar de Vitale." Ele faz uma pausa atrás de mim. "E você não é todo mundo." Ele chega próximo a mim, sua mão vem para descansar na base da minha garganta enquanto ele esfrega gentilmente seu polegar sobre os hematomas no meu pescoço. Ele não diz nada, mas as palavras estão escritas em seus olhos escuros e profundos, a carranca em seus lábios. Eu nunca vi isso nele antes, mas ele parece quase arrependido. Ele não pede desculpas, no entanto. Ele deixa escapar um suspiro, pressionando seu rosto no meu cabelo enquanto relaxo apoiando nele. Eu vejo seu reflexo enquanto ele fecha os olhos, segurando-me. É peculiarmente íntimo. Ele parece tão vulnerável.


Fico

parada,

apenas

olhando

para

ele,

ficando

mais

apaixonada a cada segundo que passa. "Vamos, aniversariante," diz ele eventualmente. "A noite espera." Dezenove não é muito diferente que dezoito anos para mim. Não que eu esperasse, mas é estranho. Isso não se parece com meu aniversário. Acho que cada dia é uma ocasião especial quando estou com este homem. Naz me leva para dentro do cassino, segurando minha mão enquanto andamos. Não posso tirar meus olhos dele, e ele percebe, rindo depois de alguns minutos e me cutucando. "O que há com você hoje à noite?" "Nada, eu estou apenas... Estou surpresa." "Por que?" "Você," eu digo. "Estou acostumada com os trajes casuais." "Sim, bem, os ternos são para os negócios." "E jeans são para o que... Prazer?" Ele sorri. "Algo como isso, embora roupa tende a ser opcional, nesse caso." Somos levados de volta pela mesma área que ele apostou na noite anterior, até um vasto pátio em torno de uma mansão elaborada. Parece uma vila italiana, como se tivéssemos sido arrancados direto de Vegas e empurrados para Sob o Sol da Toscana36. O perfume das flores tem um toque de limão que se apega ao ar na propriedade fechada por um vidro. É de tirar o fôlego. Sinto o sol da tarde no meu rosto enquanto estamos sentados no pátio. Vai escurecer em breve, as luzes já brilham no edifício, mas 36

É um filme de comédia americana baseado no livro homônimo de Frances Mayes.


estou aproveitando com o que sobrou do calor enquanto eu puder. Naz se senta a minha frente, pedindo para nós uma garrafa de vinho. Ninguém aqui o questiona. Talvez dezenove anos seja diferente. Talvez eu pareça ter idade suficiente para beber esta noite. Ou talvez ele seja apenas muito intimidante para sequer prever quando ele pede alguma coisa. Nós bebemos e comemos, falamos e rimos, o ar ao redor da mesa está calmo. Há outras pessoas ao redor, tenho certeza, mas não consigo ver nenhuma, nem ouvi-las. Estamos escondidos em um espaço isolado, onde nada mais parece existir. "Eu sempre sonhei em ir à Itália," digo, inclinando-me para trás em minha cadeira enquanto olho em volta. Posso sentir o álcool fervendo na minha corrente sanguínea, relaxando o meu corpo e me deixando à vontade. Sua voz é calma quando ele distraidamente sussurra, "Eu sei." Quase pergunto como ele poderia saber isso, mas é inútil. O que este homem não sabe? "Alguma vez você já foi?" Ele balança a cabeça, tomando um gole de sua bebida. "Eles fizeram um trabalho decente ao recriá-la, mas nada se compara a coisa real." "Aposto que é como o céu." "É," ele diz. "Vou levá-la lá algum dia." "Para o céu?" Ele sorri. "Onde quer que você queira ir." Posso dizer que ele esta sendo sincero pela sua voz genuína. "Eu não poderia pedir-lhe para fazer isso."


"Eu sei," diz ele. "É por isso que me ofereci em seu lugar." Naz acena para o garçom quando o homem esta saindo e diz para nos trazer o que quer que tenha de chocolate no cardápio de sobremesas. Poucos minutos depois, alguma coisa com chocolate é colocado em cima da mesa a minha frente. Não tenho ideia do que seja, mas é cremosa e deliciosa, uma das melhores coisas que já provei. Estou colocando em minha boca quando Naz fala baixinho. "Estou apaixonado por você, Karissa." Congelo com a colher a meio caminho da minha boca e olho para ele do outro lado da mesa. "Eu também te amo." "Não, eu não apenas te amo," diz ele. "Estou apaixonado por você." Sua voz é tão séria que a minha carne se reveste com arrepios. "Existe uma diferença?" "Sim," diz ele. "Quando você ama uma pessoa, você quer o que é melhor para ela... Mas quando você está apaixonado por ela, você a quer para si mesmo. E isso não é sempre a mesma coisa. Só porque eu quero você, não significa que sou a melhor coisa para você... Porque não sou. Sei que não sou. Não é fácil conciliar. Porque sei que eu deveria deixar você ir, devia deixá-la se afastar de mim agora, mas não posso fazer isso. Não posso. Sou egoísta, e estou apaixonado por você, e não quero nada mais do que mantê-la para mim mesmo." "Eu não quero me afastar de você. Nunca vou querer." "Não diga isso, você não sabe o que esta dizendo." "Eu juro," digo. "Eu quis dizer isso quando lhe pedi para ficar naquela noite, e quero dizer isso agora. Estou apaixonada por você, também." "Você sempre pensa sobre o futuro?" Ele pergunta.


"O tempo todo." "O que você vê?" "Não tenho certeza," admito, girando minha colher no chocolate, ou seja lá o que isso for. "Não tenho certeza do que me espera em Nova York. Se não tenho a minha bolsa, nem sequer tenho mais faculdade." "Não se preocupe com isso." "Como não?" Pergunto. "Não tenho certeza sobre mais nada... Nada, exceto você, de qualquer maneira. Você é a única coisa na minha vida sobre o que eu tenho certeza. Sei que quero você... Preciso de você. Eu sei que te amo. Nada mais realmente faz qualquer sentido." "Não diga isso a menos que—." "A menos que eu queira dizer," murmuro, interrompendo-o. "Acredite em mim, eu quero dizer isso." "Você quer saber que futuro eu vejo? O que vejo para você?" Encontro seus olhos. "O quê?" "Eu vejo que você terá tudo que você sempre quis," diz ele. "Tudo que você sempre sonhou. Roupas, sapatos, casas, carros... Barcos." Eu rio. "Barcos?" Ele dá de ombros. "Você pode querer um barco, você sabe, descer o canal em Veneza quando for visitar a Itália um dia." "Ok, entendi seu ponto de vista," digo. "Mas realmente não preciso de tudo isso, no entanto." "Mas você ainda pode tê-lo," diz ele. "Qualquer coisa que você queira da vida. Você pode terminar a faculdade e construir uma vida do jeito que você quer que seja. Família, filhos... O que você quiser. Vejo


isso para você." Sorrio. "Parece maravilhoso." "Pode ser," diz ele em voz baixa. "Se Deus quiser, será." "Será que essa vida inclui você?" "Você quer isso?" "É claro. Eu daria todas as outras coisas se isso significasse que poderia continuar com você." Ele olha para mim em silêncio por um momento, não respondendo ao que eu disse, antes de pegar lentamente seu casaco. Ele pega uma caixinha de veludo, e todos os músculos dentro de mim se contraem ao vê-lo. Meu coração dispara novamente, batendo freneticamente em meu peito. Ah Merda. Ah Merda. Ah Merda. Sem dizer uma palavra ele abre caixa, os instantes finais de luz solar atinge o diamante de forma oval no meio do anel. Fico embasbacada enquanto ele brilha na luz. Não sei nada sobre joias, não podia adivinhar o quilate para salvar a minha vida, mas sei o suficiente para dizer que é extravagante. Ele não diz nada. Eu não digo nada. Ele olha para baixo, para a caixa na sua mão, puxando o anel dela depois de um momento, segurando-o na frente dele. Não há nenhuma maneira que ele esteja fazendo o que acho que ele esteja fazendo. É simplesmente impossível.


Seus olhos levantam para olhar os meus novamente, e vejo a verdade ali, à espreita na escuridão. "Você realmente quer dizer isso?" Lentamente aceno. "Eu não diria isso se não quisesse." Isso tem que ser um sonho. É um sonho. Estou dormindo, ou em coma. Talvez ele tenha me sufocado a noite passada até cair inconsciente, ou talvez eu esteja morta, ou talvez apenas esteja brincando comigo. Talvez eu esteja enganada. Talvez algu��m esteja fazendo uma brincadeira cruel. Alguma coisa, qualquer coisa... Mas apenas não há nenhuma maneira disso ser real. Não há nenhuma maneira disso significar o que acho que isso significa, que ele queira dizer o que eu acho que está dizendo. Não há nenhuma maneira que ele esteja prestes a dizer— "Case comigo." Essas duas palavras sugam o oxigênio do pátio. Meu peito queima, meus olhos borram. Inalo acentuadamente. Não posso respirar porra. Piscando rapidamente, meu olhar salta entre ele e o anel. Meu cérebro está gritando em protesto, gritando para fora tudo o que está errado sobre essa coisa toda. A lista tem um quilômetro de comprimento. Eu o conheço apenas alguns meses. Há tantas coisas sobre ele que é um mistério para mim. Eu sou jovem, e talvez seja ingênua, e ele é misterioso, e talvez ele seja um pouco perigoso. Eu apenas vagamente conheço sua história, e minha mãe nem sabe que ele existe. Tantas coisas erradas, então por que essas palavras me parecem tão certas? Case comigo. Ele não perguntou.


Não é uma pergunta. Ele sabe. Ele fodidamente me conhece. Minha voz me trai quando tento falar. Meus lábios abrem, mas não sai nada além de uma exalação trêmula. Naz olha para mim, um sorriso lentamente se espalhando por todo o seu rosto, mostrando aquelas covinhas profundas. Ele segura o anel para fora, levantando uma sobrancelha. Estendo a minha mão sobre a mesa, tremendo quando ele o desliza no meu dedo. Solto um grito antes, gaguejando incoerentemente, mas as minhas palavras são cortadas quando ele se levanta e se inclina sobre a mesa, silenciando-me com um beijo. Eu o beijo de volta quando ele solta as minhas mãos, e estico, passando os braços em volta do seu pescoço. É um beijo ardente, cheio de toda paixão de Naz. Ele vibra através do meu corpo, afagando minha alma com seus lábios e pele, e as palavras para sempre me mudando. Como eu poderia negar algo assim que me consome toda? Como eu poderia dizer não para alguém que significa tanto para mim? É uma louco, estúpido e absolutamente esmagador, mas como alguma vez vou voar se eu estou apavorada demais para dar o primeiro salto? "Eu vou," sussurro contra sua boca. "Eu vou me casar com você."


Capítulo 19 O ar está elétrico. Posso sentir o zumbido ao longo de minha pele, os pelos dos meus braços se arrepiando enquanto a corrente flui através do meu corpo. Cada centímetro de mim arrepia. A arena é barulhenta... Tão barulhenta que mal posso ouvir meus pensamentos. Milhares e milhares de pessoas andando pela grande sala, agrupadas em assentos, gritando e pisoteando. O ruído parece bater através do meu crânio, alimentando a eletricidade. É um pandemônio. Naz me leva direto para a primeira fila, em torno de um grande ringue de boxe. Assim que chegamos lá, vejo os dois lugares vazios no meio, a maior parte da fila cheia com rostos familiares. Naz me leva a um, e eu nervosamente me sento ao lado da menina que conheci ontem à noite, Brandy. Ela está encostada em Raymond, seu braço envolto em torno dela, enquanto ele nos olha curiosamente, o olhar mudando de mim para Naz. "Vitale." "Ray." Os olhos de Raymond flutuam de volta para mim mais uma vez, encontrando os meus, antes de me olhar de cima a baixo. Seu olhar se instala diretamente sobre o anel no meu dedo, como se soubesse ao olhar para ele. Um riso explode dele quando ele balança a cabeça. "Você fez isso." "Sim," diz Naz. "Apenas um momento atrás." "O que?" Brandy pergunta. "O que aconteceu?"


Raymond aponta para minha mão, e eu a deslizo para o assento ao meu lado, mas não sou rápida o suficiente. Os olhos de Brandy arregalam quando ela segura minha mão. "Não acredito! Você ficou noiva?" Posso sentir o calor correndo pelo o meu rosto. A fila inteira parece silenciar como uma dúzia de pares de olhos tensos olhando em nossa direção. "Sim ficamos," diz Naz. O silêncio é quebrado por murmúrios tranquilos, poucos parabéns, mas ainda mais choque. Brandy aperta minha mão com força, admirando o anel na luz, quando o riso masculino corta o ar. Naz fica tenso ao ouvir o som quando ele ecoa do cara que o irritou a noite passada. "Nunca pensei que veria o dia," diz o cara. "Vitale casando de novo." Minha expressão cai ante essas palavras. Vitale casando de novo. De novo. Os outros se calam, mais uma vez, desviando o olhar. Viro-me para Naz, confusa, e vejo que ele está olhando para frente para o anel, nenhum toque de emoção em seu rosto. Ele é uma estátua de pedra fria. É como se ele não tivesse ouvido... Ele está aqui, mas ele se foi. "Strike

três,"

resmunga

Raymond,

as

palavras

quase

inaudíveis sobre o rugido da multidão. "Você está fora." Naz senta de volta em seu lugar depois de um momento, jogando o braço por cima do meu ombro e me puxando em direção a ele. Tenho um milhão de perguntas (como o que diabos ele quis dizer com de novo?). Mas sei que agora não é o momento de perguntar isso.


Naz pressiona um beijo no topo da minha cabeça e não diz uma palavra quando a arena irrompe em caos. Não sei o que está acontecendo, quem é quem ou o que é, mas todos ao nosso redor estão imersos em nosso ambiente. Dois homens andam em direção ao ringue, música estridente enquanto as pessoas gritam. Um está com calção azul, o outro em vermelho, com nomes que não posso pronunciar e rostos que não reconheço. A brutalidade começa com o soar do sino. Ainda sentada em meu lugar, nos braços de Naz, enquanto os homens no ringue ferozmente se batem, rodada após rodada. Nós estamos tão perto que posso ver o sangue, suor e lágrimas, ouvir os golpes repugnantes, os grunhidos e gritos. É bárbaro. Estou chocada. Um rápido olhar sobre Naz me diz que ele está encantado. Ele observa a luta com brutal fascínio. Os outros ao nosso redor torcem e vaiam, gritando e pulando fora de seus assentos, mas Naz

fica

em

seu

lugar

olhando

atentamente

seu

polegar

distraidamente acariciando meu braço. Os lutadores parecem estar em pé de igualdade enquanto se confrontam. Naz aperta-me mais forte depois de algumas rodadas. "Para quem você está torcendo?" "O cara de short azul." "Cara de short azul," ele ecoa com uma risada. "Existe uma razão?" Não tem, mas não vou admitir isso. O cara com o short azul tem um design em seu cabelo raspado na lateral da cabeça. É fascinante. Em vez disso, dou de ombros. Realmente não me importo


quem ganha. A luta continua e continua. Cada soco envia a multidão à loucura. Ouço seus gritos frenéticos, senti o chão vibrar debaixo dos meus pés, balançando o ar em torno de mim. O Naz não disse mais nada, assistindo, sua expressão escurecendo quando ele olha para o ringue. Na última rodada, o local irrompe em comoção quando o short vermelho bate o de azul tão forte que ouço o estalo e sinto o baque quando ele atinge o solo. Ele está fora. Acabou. Metade da arena elogia, enquanto um baixo som de vaias parece subjacente à celebração. Naz finalmente puxa os olhos longe do ringue quando eu franzo a testa. "Acho que o de short vermelho ganhou." "Acho que sim," diz ele. "Boa coisa, também." "Por quê?" "Porque eu tinha um quarto de milhão apostado em cima dele." Olho para ele enquanto ele se levanta. Ele me oferece sua mão, e a pego. Nós não dizemos adeus, não comemoramos, nem sequer esperamos o anúncio oficial do vencedor. Deixamos a arena, voltando para o cassino, e vamos de volta até a suíte. Deixei que ele ficasse em silêncio durante a viagem, mas uma vez que estamos de volta a suíte, não aguento mais. Minha cabeça é uma mistura frenética de pensamentos, peças do quebra cabeça que não posso encaixar perfeitamente em conjunto. Ele se vira para mim no interior da porta, com uma expressão séria. Está escuro, a luz tão fraca que ele se parece com pouco mais que uma forma sombria misteriosa. Mal posso olhar em seus olhos. Quero lhe fazer perguntas, mas as palavras estão coagidas.


Ele me conhece, no entanto. Eu sei que ele conhece. "Fui casado uma vez," diz ele em voz baixa, respondendo o que eu desejava perguntar. "Foi há muito tempo — há muito, muito tempo atrás. Sinto como se fosse em uma outra vida. Eu era uma pessoa diferente, então, um homem diferente. Eu não tinha muito, mas eu tinha ela... E então eu não a tinha mais. " Meus sentimentos estão em desacordo com o outro. Não tenho certeza o que dizer. "O que aconteceu?" "Eu lhe disse o que aconteceu," diz ele, e assim que ouço essas palavras, eu sei. Ele perdeu sua família. "Ela tinha apenas dezoito anos. Ela não merecia o que aconteceu com ela. Ela deveria ter sobrevivido... Eles deveriam ter sobrevivido." "Eles?" Ele hesita por um momento, como se talvez não fosse responder, mas a resposta finalmente deixa os lábios em um sussurro. "Ela estava grávida." Não posso respirar de novo, e não é por causa de uma mão em volta da minha garganta. É o nó de emoção que não consigo engolir que bloqueia o ar entre meus pulmões. Um bebê. Ele solta um suspiro exagerado. "Eles morreram, e eu sobrevivi. Eu era mais jovem do que você é agora... Jovem e burro, não achava que essas coisas poderiam acontecer comigo. Mas não era ingênuo de qualquer forma, Karissa. Não vou perder outra. Não vou cometer esses erros novamente." "Quem poderia fazer uma coisa dessas?" "Um covarde," diz ele. "Um tolo. Ele merecia ser punido, mas as autoridades o deixaram livre. Eles o deixaram ir embora. Então jurei


que um dia o faria pagar." "E você o fez?" Eu pergunto silenciosamente. "Não," diz ele, dando um passo em minha direção. "Ainda não." Posso vê-lo melhor agora que está mais perto, posso ver a tristeza à espreita em seus olhos. Não penso duas vezes antes de estender a mão e colocá-la em seu rosto, sentindo-o áspero, cabelos eriçados contra a palma da minha mão. Naz não gosta muito de ser tocado... Ele prefere fazer o toque, ser o único no controle, mesmo que seja apenas para mostrar. Posso não saber tudo sobre a sua história, mas isso é algo que eu sei. É algo que aprendi por estar com ele. Então, espero-o se afastar, para segurar minha mão, para se deslocar de meu alcance ou desviar minha atenção, mas ao invés disso ele só fica lá, olhando para mim, deixando meus dedos trilharem ao longo de sua mandíbula e explorar seu rosto. "Eu não vou deixar isso acontecer de novo," ele repete. "Você é especial para mim, Karissa. Não esperava que você fosse." "O que você esperava?" "Não sei o que esperava," diz ele, "mas não esperava sua inocência." "Eu não sou tão inocente." Sua expressão suaviza. "Você é um gatinho pequeno bonito." Eu rolo meus olhos. "Eu não sou." "Você é," diz ele. "Você pode rosnar, chiar e miar, e talvez às vezes você traz para fora aquelas garras, mas sei como fazê-la ronronar. Sou o rei da selva. Sou o predador." "Isso faz de mim a sua presa?"


Ele balança a cabeça. "Isso faz de você minha rainha." Acaricio seu rosto antes de enfiar os dedos pelo seu cabelo. "Você me faz sentir como uma." Ele não diz nada em resposta, e não digo mais nada, quando ele finalmente puxa minhas mãos para longe dele, ligando seus dedos com os meus para me puxar em direção às escadas. Ele me leva até o segundo andar, para o quarto principal, onde lentamente e com cuidado me tira das minhas roupas. Eu nervosamente fico à frente dele nua enquanto seus olhos examinam meu corpo. Depois de um momento, ele se vira e se afasta. Minha testa franze. Ouço-o no armário, e ele retorna segurando uma de suas gravatas. Ainda estou de pé quando ele anda atrás de mim. Estou esperando que tente amarrar meus pulsos juntos novamente, pensando que talvez ele vá para os tornozelos, até mesmo me preparando para ele envolvê-lo em volta do meu pescoço, mas deixo escapar um suspiro suave quando ele desliza em torno de meus olhos em vez disso. O quarto está envolto em trevas enquanto ele me venda os olhos, amarrando firmemente no lugar. Um grito escapa da minha garganta quando subitamente sou arremessada, levantada no ar. Naz me pega, embalando-me em seus braços, e eu cegamente chego perto dele, agarrando-me a ele. Ele me coloca na cama, sussurrando para eu relaxar. Meu instinto é para lutar contra isso, debater. É alarmante estar no escuro. Tento relaxar, mas meu corpo é enrolado como uma mola. Cada toque é como um choque, as sensações intensificadas pela antecipação. Fechando os olhos, sucumbo à escuridão, fico lá enquanto ele faz do seu jeito comigo. Ele me beija e acaricia cada centímetro de pele, levando-me ao limite de novo e de novo. Ele é lento e suave, doce e


genuíno, enquanto sussurra o quanto me ama enquanto faz amor comigo. Toco nele agarrando-me a ele, beijando e mordendo qualquer pele que minha boca possa alcançar. Não tenho ideia se é seu peito, queixo, ou sua bochecha. Não importa, no entanto. É ele, e ele é tudo. Cada parte dele. Ele continua e continua até que nós dois estamos suados e saciados. Naz puxa a venda dos meus olhos enquanto ele paira em cima de mim, ainda dentro de mim. Pisco na escuridão, ajustando-me a pouca iluminação do quarto, e vejo como seus lábios sorriem. "Você é minha para sempre," ele sussurra. Devolvo seu sorriso. "Eu sou sua." "Nunca esqueça." "Eu não vou." Ele sai de mim, puxando-me para ele na cama. Não demora muito para que o sono me afaste dele. Durmo profundamente, acordo no meio da noite para me encontrar sozinha na cama. Chamo seu nome, mas não recebo resposta. Suas roupas estão desaparecidas do chão do quarto, os sapatos não estão aqui, e nem sua carteira. Ele não está mais na suíte. Vago entre as salas um pouco antes de fazer o caminho de volta para o quarto. Eu me enrolo no lençol, arrebatando o travesseiro de Naz do seu lado da cama. É gelado ao toque, cheiro muito parecido com o dele. Durmo novamente. Algo me acorda muito mais tarde, a luz do sol que entrava pela janela, banhando a cama em um brilho quente. Abrindo os olhos, vejo Naz quando ele pisa no quarto. Roupas de ontem


penduradas de sua estrutura, ligeiramente despenteado. Ele parece exausto. "Ei," murmuro, sentada na cama e segurando o lençol em volta de mim. Ele puxa a camisa dele. "Bom dia." Naz as tira bem em frente de mim e não diz mais nada antes de desaparecer pelo quarto. O som fraco de água corrente atinge meus ouvidos depois de um momento, o chuveiro no banheiro. Curiosa, escorrego para fora da cama e me junto a ele. Naz está sob o spray no chuveiro, cabeça inclinada para trás e os olhos fechados, com água caindo sobre ele em todos os ângulos. Paro somente fora do alcance do spray, tomando um momento para admirálo. A água corre para baixo em sua forte estrutura enquanto vapor o rodeia como um nevoeiro. Seu queixo esculpido acentua uma expressão severa. Apesar de sua exaustão, sua excitação é óbvia, o seu pau duro se contorcendo como se ele pudesse facilmente gozar doze rodadas comigo, aqui, agora. Algo me diz que, pelo olhar em seus olhos quando ele olha para mim, que uma luta com ele hoje seria tão implacável quanto a brutalidade a que assistimos no ringue de boxe. Ele muda de posição, fazendo um gesto com a cabeça para eu chegar mais perto. Passo sob o spray, fujo da água escaldante, quando ele envolve seus braços em volta de mim. "Onde você foi ontem à noite?" Pergunto tranquilamente. "Trabalho," diz ele. "Algumas coisas para cuidar." Ele alcança sobre mim para pegar um pouco de shampoo. É o pequeno frasco fornecido pelo hotel, mas posso dizer que não é uma merda barata que fui submetida nos hotéis baratos que fiquei ao logo


dos anos entre mudanças com a minha mãe. Ele aperta um pouco sobre a palma da mão antes de colocá-lo de lado. Começo a me afastar dele, não querendo entrar no meio do seu banho, quando ele passa as mãos pelo meu cabelo. Congelo, parada no lugar pela sensação, enquanto ele ensaboa o shampoo no meu cabelo. Seu toque é firme, enviando arrepios na minha espinha, conforme ele massageia meu couro cabeludo. Meus olhos se fecham, um suave gemido escapando dos meus lábios. Ele não para por aí. Não posso fazer nada, mas fico lá enquanto o homem me lava da cabeça aos pés, ensaboando cada centímetro do meu corpo antes de enxaguá-lo. Ele não diz uma palavra, nem sequer me olha nos olhos de novo ao acabar. Seus olhos trilham ao longo da minha pele, uma vez que estou limpa, demorando-se sobre as contusões sumindo ao longo do meu pescoço. Estendendo a mão, ele esfrega as pontas dos dedos ao longo delas, mas ele ainda não faz nenhum comentário. Em vez disso, ele se afasta. "Nosso avião sai em duas horas," diz ele. "Nós vamos ter que sair em breve." É uma sensação estranha, como uma dispensa brusca, sua postura não fazendo nada para aquecer suas palavras. Murmuro, "tudo bem", sob a minha respiração quando saio do chuveiro, pegando uma toalha no caminho. Seco-me, envolvendo-a em torno de mim, quando volto para o quarto. Meus olhos são atraídos para suas roupas no chão, mas as deixo lá, concentrando minha atenção em minhas próprias coisas. Visto-me rapidamente amarrando meu cabelo em um rabo de cavalo, antes de fazer o meu caminho até o primeiro andar da suíte. Posso ouvir o chuveiro desligar, ouço Naz fazendo suas coisas


no andar de cima, enquanto ando para as amplas janelas e olho para fora. Nós estivemos aqui por dois dias, mas parece que acabamos de chegar horas atrás. Há tanta coisa que não fiz, tanto que não vi, partes da suíte que ainda nem sequer me aventurei ainda. Naz desce, vestido novamente em um terno preto. Ele está distraído enquanto estamos fazendo nosso check-out, distraído no caminho para o aeroporto na limusine. Os outros já estão lá na pista, pertences sendo carregados no avião quando nós chegamos. Naz ignora todos eles, levando-me direto para o avião. Sentamos nos mesmos lugares de antes. Os outros pegam seus mesmos lugares, também. Eles estão mais deprimidos hoje, ninguém diz muita coisa conforme estamos nos preparando para a viagem para casa. Olho em volta para os seus rostos, meu olhar para na cadeira em frente a mim. Estamos voltando para casa com uma pessoa a menos do que fomos para Vegas.


Capítulo 20 Você não pode pisar no mesmo rio duas vezes. No primeiro dia de aula de filosofia, Professor Santino permaneceu na frente da sala de aula e proferiu essas palavras, citando o filósofo Heráclito. Ele disse isso com tanta convicção, que fez muito sentido na teoria, até que ele nos pediu para explicar o que significava. Eu não levantei minha mão. Houve algumas respostas, mas sempre foi ao longo de duas linhas — ambas sendo porque você mudou, ou porque o rio mudou. O debate durou quase uma hora inteira. No final da aula, alguém perguntou a Santino para nos dizer qual lado estava certo. O homem encolheu os ombros, distraidamente batendo o bastão contra o chão duro. "Ninguém sabe. Talvez seja as duas coisas." De pé em meu dormitório tantos meses depois, cercada por todas as minhas coisas e me sentindo fora do lugar, acho que finalmente compreendo. Não sou a mesma pessoa que saiu daqui a 48 horas atrás. E quando Melody entra, com os olhos arregalados e frenéticos, pareço instintivamente saber: este lugar não é o mesmo, também. Minutos, horas, dias se passaram... O tempo que me mudou, tempo que nunca conseguirei de volta ou experimentarei aqui. Tempo que não estava procurando. Tempo perdido. Isso muda tudo. Melody respira com dificuldade, olhando para mim como uma


mulher louca. Congelo na frente do meu armário, uma pilha de cabides em minha mão quando me preparo para embalá-las em uma caixa de papelão. Seus olhos contam que ela está desesperada para falar, mas posso dizer por sua expressão que isso pode não ser o que quero ouvir. "Você já ouviu falar?" Ela pergunta, seus olhos cintilando em direção a minha mesa, onde Naz tranquilamente empilha meus livros, de costas para nós. "O quê?" "Satan," diz ela, fechando a porta. "Ele está morto!" Pisco rapidamente. "Hã?" "Satan," diz ela novamente. "Santino! Ele está morto!" Meu estômago revira, tudo dentro de mim enrola, mal seguro a onda de náusea. Tenho um milhão de perguntas, mas tudo o que tremula fora são meras sílabas. "O quê? Quando? Como?" "Aconteceu na quinta-feira ou sexta-feira... Eu não sei. Mas alguém o matou! Eles o esfaquearam ou algo assim... Matando-o." Sua voz fica baixa, rachando enquanto ela anda na minha direção. "Eles disseram que foi seu bastão, que ele foi enfiado em seu peito! Você pode acreditar nisso?" Não posso. Suas palavras me atingem, vindo a tona, recusando-me a entender. Como ele pode estar morto? "Quem fez isso? Quem o matou?" "Não sei," diz ela. "A polícia está investigando, mas não acho que prenderam alguém. É só que... Wow. Alguém o matou." "Quem faria uma coisa dessas?" Olho para Naz, que está arrumando meus livros em silêncio. "Naz?" Ele se vira ao som de seu nome, erguendo as sobrancelhas. "Sim?"


"Professor Santino... Ele está morto!" Sua expressão é estoica. "Eu ouvi." "Você pode acreditar nisso?" "Sim," ele diz, sua resposta curta me pega desprevenida. "Só estou espantado que não aconteceu mais cedo." "O quê? O que você quer dizer?" "Daniel não tinha muitos amigos, Karissa," diz ele. "Foi apenas uma questão de tempo antes que ele apertasse o botão errado." Fico olhando para ele. Como ele pode ser tão inatingível? Claro, Santino não era bom, mas Naz conhecia o homem. Melody limpa a garganta, chamando minha atenção de volta para ela. Ela lança teorias da conspiração, quem poderia ter feito, o que, por que e como, como se isto fosse um jogo e ela pudesse adivinhálo com as peças do jogo certas. Eu a ouço, minha atenção constantemente mudando para Naz. Ele constantemente embala, mas posso dizer que ele está ouvindo. "É tão louco," Melody diz depois de um momento. "Graças a Deus estamos nos mudando esta semana. Não sei se me sinto segura aqui agora, sabe? É assustador." "Eu sei," sussurro. "Minha mãe sempre disse que Nova Iorque era muito perigosa." Uma pancada forte ecoa pela sala. Vacilo enquanto Melody suspira. Meus olhos se viram para Naz em choque quando ele se abaixa e pega um livro que caiu. Sem dizer nada, ele o coloca na caixa, continuando com os outros, como se ele não tivesse interrompido. "Então você está fazendo as malas agora," diz Melody. "Você está indo para casa para o verão?" Antes que eu possa responder, Naz interrompe. "Para sempre."


"O quê?" Melody pergunta. "Ela vai para casa para sempre," Naz esclarece. O olhar de Melody desloca entre nós. "Espera, o quê? Você está voltando a morar com a sua mãe?" "Não," digo em voz baixa. "Estou indo morar com Naz." Eram coisas que não tinha pensado muito na noite passada. Na verdade, ele realmente não tinha me pedido até que desembarcamos em Nova Jersey e Naz me disse que ia me ajudar a pegar minhas coisas para me mudar. Disse a ele que era uma loucura; eu não poderia viver com ele. Ele me disse que seria loucura não morar, considerando que estávamos noivos. Melody olha para mim em choque, e eu quase me sinto culpada. A menina não sabe da missa a metade ainda. "Vocês vão morar juntos?" Ela engasga. "Já?" "Uh, sim." "Você está pronta para tudo isso?" Uma pergunta tão carregada, que nem sei a resposta. Antes que possa soltar uma resposta, Naz cantarola, colocando tudo em cima da mesa. "Eu certamente espero que ela esteja pronta, considerando que ela concordou em se casar-se comigo." Melody parece que levou uma bofetada, de tão arregalado que seus olhos estão, estou surpresa que não saltaram para fora. Ela só olha para mim, e sorrio timidamente, levantando minha mão para mostrar-lhe o anel. Esperava que ela ficasse confusa. Talvez até com raiva.


Mas não esperava sua excitação. Ela solta um grito mais alto quando pega minha mão, pulando com prazer, gritando comigo para derramar todos os detalhes. Explico o que posso, o que me lembro. Não é muito uma história, mas o olhar sonhador que ela traz em seus olhos me diz que é o suficiente para fazêla desmaiar. Naz permanece quieto durante toda a minha história. Ele ainda está embalando como se fosse a única coisa que importasse. Melody está parada quando uma série de sinais sonoros familiares ressoa na sala, interrompendo sua linha de pensamento. Naz puxa seu telefone, olhando para ele, e se vira para mim. "Tenho que ir. Tem algo para lidar no trabalho." "Ok." "Virei lhe buscar." "Eu, uh ... Prefiro ficar aqui esta noite." Um olhar de mágoa passa em seu rosto, orgulho ferido, como se eu o tivesse rejeitado. "Você quer dormir aqui?" "Sim. Quero dizer, se você não se importar. Tenho que terminar de embalar as coisas, e isso me dará uma chance de me atualizar com Melody." Naz parece que vai argumentar, mas seu telefone toca novamente. Suspirando, ele beija o lado da minha cabeça e com passos largos vai em direção à porta. "Estarei de volta amanhã de manhã." Ele sai sem esperar por mim para acompanhá-lo. O que eles vão fazer? Expulsar-me? Certamente não é a primeira vez que ele anda por estes corredores sozinho. Viro-me para Melody quando ela senta em sua cama, olhando


para o espaço, em estado de choque. "Você está noiva." "Estou." Seu olhar cético se vira para mim. "Você já contou a sua mãe?" "Não," sussurro. "Ainda não." Melody solta uma gargalhada alta, como se fosse a coisa mais engraçada que já ouviu. Sorrio para o absurdo, apesar de minhas entranhas estarem amarradas com força, tanto que eu mal posso respirar. Minha mãe não vai levar isso na esportiva. Ela vai pensar que a cidade me corrompeu. E talvez ela tenha, mas estou feliz assim. Não posso pisar no mesmo rio duas vezes, mas tudo bem, porque há mais rios lá fora, a água inexplorada e, eu vou começar a explorar com o homem dos meus sonhos.

O céu ainda está escuro. É tão cedo que mal parece 'amanhã' ou 'manhã' quando Naz reaparece no dormitório. Ele mais uma vez sobe para o meu quarto sem que ninguém o libere, passando direto pela segurança frágil do dormitório, lembrando-me quão inseguro um lugar como este pode ser. A morte de Santino permanece na minha mente, sabendo que há um assassino perambulando me colocando no limite. Talvez morar com Naz seja a melhor ideia. Pelo menos com ele estou segura. Ninguém é estúpido o suficiente para mexer com ele. Ele bate na porta do quarto do dormitório antes do


amanhecer, despertando tanto Melody quanto eu. Nós trancamos a porta ontem à noite, provavelmente, a primeira vez em todo o semestre. Melody simplesmente vira, jogando o cobertor sobre a sua cabeça com um gemido quando acendo a luz e abro a porta. Naz entra, vestido como de costume, um par de luvas pretas em suas mãos. Grogue, esfrego meus olhos enquanto o examino. "Está frio ou algo assim?" Ele levanta uma sobrancelha questionando. "Por quê?" "Você está usando luvas," aponto. "Não," ele diz, olhando para suas mãos, antes de se virar para longe de mim e inspecionando minhas coisas. Terminei de arrumar a noite passada, tudo dentro de caixas exceto meu travesseiro e cobertor. "Isso tudo deve caber no carro, mas se não couber, podemos voltar mais tarde." "Ok." Deito de volta na minha cama, bocejando, e vendo como ele empilha as caixas e as pega, dirigindo-se a porta. Ele leva menos de dez minutos por conta própria para levar tudo lá embaixo para a Mercedes, estacionada em um lugar cobiçado ao longo do meio-fio. Ele tem tudo pronto e carregado antes mesmo de eu mesma conseguir calçar os meus sapatos. Digo-lhe que vou encontrá-lo no carro quando puxo o cobertor da cabeça de Melody e a puxo para sentar. "O quê?" ela geme, meio dormindo. Ela me cotovela enquanto tenta agarrar o cobertor. "Estou indo embora," eu digo. "Queria dizer adeus." "Até logo, prostituta," diz ela. "É até logo, não adeus." "Até logo," digo, jogando o cobertor por cima de sua cabeça.


Levanto-me e sigo para a porta. "Então, basta relaxar," ela grita. "'Até o próximo episódio." Revirando os olhos, eu saio, encontrando Naz esperando lá embaixo com a porta do passageiro aberta para mim. Entro, alguma ansiedade se formando no meu estômago quando ele entra ao meu lado. "Você está pronta para ir para casa?" Ele pergunta quando liga o carro. Casa. Uma palavra tão simples, mas a conotação faz algo soar dentro de mim. Realmente nunca senti como se estivesse pisando em solo estável, como se houvesse algum lugar que eu poderia chamar de casa

permanentemente.

Minha

vida

sempre

foi

uma

série

de

temporários: cidades novas, pessoas novas, escolas novas e casas novas. Tudo novo. O mundo à minha volta flutuou, tantas variáveis que meu problema na vida sempre foi descobrir a resposta de quem eu sou. Mas Naz é minha nova constante. Meu permanente. Ele faz com que seja mais fácil encontrar minha resposta, a encontrar o meu lugar. Minha casa. "Sim," digo, oferecendo-lhe um pequeno sorriso. "Estou pronta." Estou quieta na viagem até o Brooklyn, quieta quando chegamos em casa, quieta quando entramos. Descarregamos minhas coisas, levando-as para o seu quarto... Nosso quarto... Para eu desempacotar. "Eu deveria...?" Hesito, olhando para a cômoda pesada. "Posso...?" "O que você quiser," diz ele, respondendo minhas perguntas


não formuladas. "O que é meu é seu, Karissa." Há um armário extra aqui, metade das gavetas de sua cômoda está vazia, como se tudo estivesse a minha espera todo o tempo. Naz paira no quarto enquanto desempacoto antes de pedir desculpas quando seu telefone toca. Ele volta alguns minutos depois, parando na porta. "Tenho trabalho para cuidar... Estarei de volta ao meio-dia. Acomode-se, fique à vontade..." "Eu vou." Ele se aproxima, beijando-me, um sorriso puxando seus lábios. "Estou feliz que você esteja aqui." "Estou feliz por estar aqui," sussurro, mas ele já foi embora antes que as palavras saíssem dos meus lábios. Termino de desempacotar, quase tudo o que tenho de pertence no quarto, antes de ir ao térreo. Levo os poucos DVDs e livros que possuo e os coloco em suas prateleiras, misturados com os dele. Quando termino, olho para o horário. São dez horas da manhã. Tenho pelo menos duas horas até Naz voltar, então faço o que qualquer mulher que se preze faria quando deixada sozinha com os pertences de seu homem pela primeira vez. Bisbilhotar. Vi o que Naz tem na superfície, mas vou mais fundo, quero ver mais do homem, as partes dele que estão escondidas. Olho através das prateleiras e armários, até mesmo buscando em sua gaveta de tralhas na cozinha, antes de voltar para o quarto e me voltar para as suas coisas. Você pode dizer muito sobre uma pessoa pelo o que eles mantém escondido em sua gaveta de roupas íntimas. É o seu lugar privado, o único lugar que não esperam que ninguém toque por decência. É onde sempre escondi minhas cartas de amor, o meu


controle de natalidade quando cheguei aos dezesseis anos sem o consentimento da minha mãe, o vibrador que eu comprei no meu aniversário de dezoito anos... Mas a gaveta de Naz é uma cidade fantasma. Que decepção. Fecho a gaveta, olhando nas outras para encontrar nada fora do comum, antes de ir para o seu armário. Conto uma dúzia de ternos pretos, não incluindo o que ele está vestindo e todos que estão sujos, mas ele tem um bom bocado de outras roupas. Gostaria que ele usasse os outros com mais frequência. Estou verificando a sua coleção de gravata, a maioria de cores sólidas, quando meus olhos se dirigem para a prateleira na parte superior do armário. A caixa de metal prata, do tamanho de uma caixa de sapatos, fica no canto. Curiosa, fico na ponta dos pés e a puxo para baixo, quase a soltando assim que coloco minhas mãos nela. É pesada. Posso ouvir coisas tinindo dentro. Há um bloqueio na caixa, mas não encontrei nenhuma chave durante a minha busca que abriria. Carrancuda, agito a caixa, tentando descobrir o que tem dentro, antes de esticar os braços para empurrá-la de volta na prateleira. Outra decepção. Desistindo, saio do quarto, olhando em armários e salas mobilhadas, antes de voltar para baixo. Cada sala é exatamente como o esperado... Nada, além de coisas de lavanderia na lavanderia, uma sala de aparelhos de ginástica, e a garagem está cheia de ferramentas, velhas manchas desbotada no concreto. Encontro uma porta que leva para baixo que eu assumo ser o porão, um almiscarado odor úmido flutuando fora dele. Não há nenhum interruptor de luz, e as escadas são frágeis, o pouco de luz que filtra


para baixo por trás me iluminando toneladas de teias de aranha, por isso não me atrevo a descer até lá. Não, obrigada. São doze horas em ponto quando ouço a porta da frente abrir. Estou sentada no sofá da sala de descanso, meus pés enfiados debaixo de mim enquanto passo por canais de televisão. Naz entra, deixando escapar um suspiro profundo enquanto senta ao meu lado. Ele parece mais velho do que quando saiu apenas algumas horas atrás, as bolsas sob os olhos mais pesadas, um cansaço em seu rosto, que aponta para o esgotamento. "Você parece cansado," digo, deixando em algum programa de culinária. "Estou," diz ele. "Sinto que poderia dormir por uma semana." "Tire uma soneca." "Não sou criança." Dou de ombros. "Eu tiro cochilos." "Sim, bem, é sono de beleza para a bela," diz ele, olhando para mim "mas não há descanso para os cruéis." Viro meus olhos. "Não me chamaria de bonita." "Eu chamo." "Não o chamaria de cruel, também." "Eu chamaria." "Independente," digo, "se você está cansado, você deveria dormir." "Sim, eu deveria," ele admite, embora não faça nenhum movimento para ir lá para cima, fixando no sofá quando chuta os sapatos. "Você encontrou alguma coisa interessante hoje?"


Minha testa franze. "Quando?" "Quando você mexeu em minhas coisas." Meu coração parece parar por um segundo enquanto olho para ele. "Por que você acha que olhei suas coisas?" "Porque você é humana," diz ele. "É normal ser curiosa, e você é uma mulher inteligente... Esperaria nada menos." Não tenho certeza do que dizer. Ele não parece nenhum pouco chateado, mas seu tom indiferente pontuando minhas ações desde o começo como se ele me conhecesse melhor do que eu me conheço, ainda me enerva. "Não, eu não encontrei nada." "Imaginei que você não encontraria," disse ele. "Longe de ser tão interessante quanto o que encontrei em suas gavetas no dormitório." Agora meu coração para. Meus olhos se arregalaram. "Você olhou minhas coisas?" "É claro. Eu sou humano, também." "O que...? Quando?" "Quando você estava dormindo naquela primeira noite. Você acordou e me pegou." Sei de quando ele está se referindo... Ele estava olhando para o quadro de fotos no meu armário quando acordei. "Então é isso que você estava fazendo." "Sim," diz ele. "Embora, tenha que dizer, fiquei surpreso que você só tinha um vibrador. Isso está em desacordo com a tigresa que você se transforma quando a deixo nua." O sangue corre direto para o meu rosto. Posso sentir meu rosto em chamas de vergonha. Olho para longe dele, cobrindo o rosto com as mãos, quando ele solta uma gargalhada. Antes que eu possa


pensar em algo para dizer ele me agarra, deitando no sofá e me puxando para seus braços. Aconchego-me contra ele, minha cabeça em seu peito. "Ah, estou tão envergonhada." "Não fique." Ele beija o topo da minha cabeça. "Você o usa com frequência?" "Oh Deus," gemo, fechando os olhos. "Você não está me ajudando a não ficar constrangida, Naz." "Não há nada para se envergonhar... Estou apenas curioso." "Não," sussurro. "Não é mais assim, de qualquer maneira. Não desde você." Ugh, estamos realmente falando sobre isso? "Bom." Posso ouvir o sono em sua voz. "Estou feliz." "Você está?" "Sim," diz ele. "Gosto de saber que posso mantê-la satisfeita."


Capítulo 21 Eles dizem que o que vai, volta. Faça aos outros, o que gostaria que fizessem a você. É a Regra de Ouro. Sempre tentei segui-la, para ser uma boa pessoa, mas o carma me pegou. Dezenas de chamadas. Assim como muitas mensagens. Eu não ouvi sobre minha mãe em semanas. Estou lamentando todas as vezes que a enviei para o meu correio de voz, lamentando as chamadas não atendidas e os dias em que não respondi às suas mensagens. Toda vez que sua secretária eletrônica clica, fico um pouco mais preocupada, deixando ainda outra mensagem que ela não vai responder. "Mãe, sou eu... Liga-me." "Estou preocupada, mãe... Onde você está?" "Por que você não está me ligando?" "Por favor, deixe-me saber que está tudo bem." Estou na sala, onde Naz passa a maior parte do seu tempo quando está em casa, esparramada no sofá de pijama. Já estou aqui há sete dias agora, e ainda parece surreal, como se eu estivesse só de visita, embora Naz aja como se eu vivesse aqui todo o tempo. Sua guarda caiu facilmente, rapidamente, a fachada de perfeição que ele sempre carregava derreteu agora que mudei. Hoje ele está sentado em sua mesa, ainda vestindo um terno preto, mas ele não se incomodou em colocar uma gravata e seus pés ainda estão descalços. A gola de sua camisa tem alguns botões desfeitos, as mangas empurradas até os cotovelos, a barra para fora.


Seu laptop está aberto na sua frente enquanto ele digita a distância. Ele está fazendo o que quer que seja que ele faça, eu não estou totalmente certa. Eu perguntei e ele disse "lidando com as pessoas". Para alguém que lida com as pessoas todos os dias, raramente vejo outra alma viva vindo ao redor dele. Ele trabalha em horários estranhos, saindo ocasionalmente num impulso, escapando no meio da noite e voltando antes que eu acorde. Tenho minhas suspeitas sobre o tipo de negócio que ele faz, mas não vou trazê-lo até ele. Talvez porque não acho que ele vá admitir isso. Ou talvez porque tenho medo que ele vá. Suspirando, abro os contatos no meu telefone e encontro o nome da minha mãe, aperto o botão de ligar para ela. Trazendo o telefone ao meu ouvido, escuto enquanto ele toca duas vezes. Espero por sua máquina, a monótona ‗deixe uma mensagem‘, mas ao invés disso, uma série de bipes me cumprimenta antes da linha morrer. Eu chamo de volta imediatamente, esperando que seja um golpe de sorte, mais uma vez recebendo os sinais sonoros. Meu estômago cai. A fita está cheia. Não sei o que fazer, o que pensar, mas um enjoo cresce dentro de mim com essa percepção. Ela não ouviu as minhas mensagens. "Você acha que eu deveria chamar a polícia?" A digitação cessa instantaneamente, quando os olhos de Naz param feito dardos sobre a parte superior do computador, encontrando o meu olhar. "Como?" "Não consigo encontrar a minha mãe pelo telefone," digo. "Não tenho notícias dela há semanas, assim estou querendo saber se eu deveria chamar a polícia, você sabe, para tê-los indo ver como ela está."


Ele olha para mim por um momento. "As pessoas ficam semanas sem falar com seus pais. Isso não é nada fora do normal. Não falo com os meus em meses." Suas palavras me distraem da preocupação. "Você tem pais?" "É claro," diz ele. "Não me criei sozinho." Rolo meus olhos. "Eu sei disso. Só não sabia que eles ainda estavam por perto. Você nunca falou sobre eles." "Nós não somos próximos," diz ele. "Ray é mais um pai para mim do que meu próprio pai sempre foi." Minha curiosidade é aguçada. Ele abriu a porta, então coloco meu pé dentro, vendo o quão longe no assunto eu posso ir. "Você conhece Raymond há muito tempo?" "Desde que eu tinha a sua idade," diz ele enquanto balança a cabeça. "Adolescência, na verdade. Eu tinha dezesseis anos." "Como você o conheceu?" Ele está quieto, e eu acho que está prestes a encerrar, mudar de assunto, quando ele solta um suspiro profundo e fecha seu laptop, sentando-se para trás na cadeira. "Eu roubei dele." Essa não era a resposta que eu esperava. "Você o roubou?" "Eu roubei," ele admite. "Ele era dono de uma loja naquela época... Uma pequena loja da esquina, mas era uma fachada para este círculo de jogo. Costumava passar por ela no meu caminho da escola para casa. Entrei um dia, peguei um refrigerante, e paguei por isso com uma nota de cinco dólares. Assim que o rapaz abriu o registro, alguém na parte de trás chamou por ele. Quando ele não estava olhando, eu cheguei ao balcão, roubei o dinheiro do registro, e sai." "Será que você foi pego?" "É claro," diz ele, rindo de si mesmo. "Mal cheguei à esquina.


Estava prestes a atravessar a rua quando um carro me cortou. Ray saiu, disse que queria seu dinheiro de volta. Dei a ele, claro. Eu sabia quem ele era. Ele contou enquanto fiquei ali, perguntou-me por que eu fiz isso. Dei alguma resposta espertinha sobre como era sua culpa por empregar idiotas que largam o dinheiro assim, pensei que se ele ia me machucar, eu poderia também fazer minhas ironias enquanto podia." "Ele machucou você?" Pergunto hesitante. "Sim, mas não tão ruim como poderia ter sido," diz ele. "Eu levei a surra como um homem, lambi minhas feridas e fui para casa. Meu orgulho foi ferido mais do que qualquer coisa. Não estava bravo por ele ter me pego, ou por ter me batido... Estava bravo porque ele me roubou. Você vê, antes de ele sair, ele pegou meus cinco dólares." Eu posso ver onde isso vai dar. "Estou supondo que você fez alguma coisa sobre isso." Ele sorri. "Eu fui até a loja e quis meu dinheiro de volta." "Será que ele deu a você?" "Não," diz ele. "Ele me deu outra coisa em seu lugar." "O quê?" "Um trabalho." Hesito enquanto essas palavras afundam. "E você trabalha para ele desde então?" Ele olha para mim, e posso ver a porta se fechando, afastando-me para fora. Ele não responde, mas sua falta de negação é tudo que preciso. Seu silêncio soa como confirmação. Ele olha para o lado depois de um momento, de pé. "Se você está preocupada com a sua mãe, Karissa, vai ver como ela está." "Eu realmente não posso pagar—" Ele me corta com uma risada aguda de descrença. "Você está


enganada, meu amor. O que é meu é seu." Ele sempre faz tudo parecer tão fácil, tão curto e seco, preto e branco, quando o mundo é muito confuso para ser categorizado de forma tão simples. "Além disso, você não precisa de nenhum dinheiro para ir ver a sua mãe," diz ele. "Eu vou levá-la." Meus olhos se arregalaram. "Você vai?" "Sim," diz ele. "Se vista e nós vamos."

A noite caiu quando chegamos em Watertown. Estou meio dormindo no banco de passageiro após o passeio de cinco horas e meia, a única coisa que me mantém acordada é a minha preocupação. E o fato de Naz realmente não ter ideia de onde estamos indo. Não percebi, até quando ele partiu para o norte da estrada, que tudo o que eu lhe disse foi que era uma hora distante de Syracuse. Watertown parece morta mesmo sendo tão cedo, apenas alguns carros fora de casa, a maior parte dos lugares fechados para a noite. Dou instruções a Naz para a floricultura, não ficando surpresa quando estacionamos na frente e o lugar estar escuro. Sei que ela não está lá, o carro dela em nenhum lugar por perto. Está muito escuro para eu ver alguma coisa, para saber se ela ao menos esteve aqui recentemente. Suspiro, mexendo com o meu cinto de segurança. "A casa é em Dexter. É a poucos quilômetros fora da cidade." Dou-lhe as direções, e ele sai para a estrada com nenhuma


queixa, quieto quando segue a estrada para fora da cidade. Nós dirigimos pelas estradas na escuridão, meu estômago caindo quando chegamos a estrada que conduz até a casa. O carro dela não está aqui, também. A casa está escura. Ele estaciona a Mercedes na frente perto da varanda velha e desliga o motor. Não faço nenhum movimento para sair. Ela não está em qualquer lugar por perto. Não estou mais perto de respostas do que eu estava há algumas horas no Brooklyn. "Ela não está aqui." "Você tem certeza?" "Positivo." "Vamos lá," diz Naz. "Vamos dar uma olhada de qualquer maneira." Não discuto, saio do carro e sigo até a varanda. Ele faz uma pausa e bate na porta, e apesar de ser bobagem, porque já lhe disse que ela não estava aqui, sou tocada pelo respeito que mostra. Ele espera, batendo até eu ficar impaciente, empurrando-o e estendendo a mão para a maçaneta. Acho que é sem sentido, considerando que ela mantém uma dúzia de bloqueios em sua porta, por isso estou surpresa quando o botão gira suavemente. Aporta range, uma vez que se abre, o som me percorrendo, transformando minha preocupação em medo. Ela não iria deixar a porta de casa destrancada como está, não intencionalmente, a não ser que ela não tivesse outra escolha. Meu coração está batendo forte, batendo dolorosamente no meu peito, e borrando minha visão. Bile queima minha garganta que eu engulo de volta enquanto sussurro, "Algo não está certo." Na verdade, está terrivelmente errado.


Naz não diz nada, dando um passo atrás de mim na casa. Ele passeia pelo corredor à minha frente, seus passos pesados contra a madeira velha. Eu o sigo, acendendo luzes quando vou para dar uma olhada melhor. Tudo parece no lugar, exatamente como me lembro da última vez que estive aqui. Não há nenhum sinal de luta, nenhum sinal de qualquer tipo de jogo sujo, e apesar de que isso deve aliviar a minha preocupação, faz pouco para me ajudar. É como se ela tivesse desaparecido no ar. "Killer?" Eu chamo, perguntando-me se ele está por perto em qualquer lugar. "Killer!" Os passos de Naz param abruptamente quando ele se vira para mim. "Matar quem?" "É o nosso cão... Killer." "Ah." Ele olha ao redor. "Parece que o cão se foi, também." Eu verifico os outros quartos eventualmente indo para o quarto da minha mãe, enrijecendo quando abro a porta e encontro o primeiro sinal de desordem. As coisas estão espalhadas ao redor, gavetas deixadas em aberto e roupas rasgadas de cabides. Suas malas — malas que eu vi lotadas com pertences mais de uma dúzia de vezes na minha vida — no fundo do seu armário, onde ela sempre as guardou. Ela se foi. E ela saiu com pressa. "Ela fugiu." Viro-me para Naz na porta quando ele fala. "O quê?" "Parece que ela correu para fora daqui," diz ele. "Como se ela estivesse fugindo de alguma coisa." "Ou alguém," eu digo, balançando a cabeça.


"Por que você diz isso?" "Ela tem corrido toda a minha vida, de alguém, ou para alguém... Eu não sei. É como se ela estivesse perseguindo um fantasma." "Ou um fantasma está a perseguindo." "Sim," eu sussurro. "Acho que ele a pegou de novo." Caminho

pelo

quarto,

olhando

através

das

gavetas,

vasculhando as coisas que ela deixou para trás quando Naz sai. Pelo corredor, ouço a secretária eletrônica quando Naz pressiona o botão para ouvir as mensagens. Minha voz ecoa pela casa, mensagem após mensagem, ficando mais preocupada em cada uma. Abro a gaveta de cima da cômoda. Está quase vazia, mas há algumas coisas que foram esquecidas. Vasculho, encontrando uma foto Polaroid, e a pego. É velha e desbotada, uma versão mais jovem da minha mãe que parece surpreendentemente com a mulher que vejo quando olho no espelho. É estranho, vendo-a desse jeito, tão acostumada com a mulher estressada que me criou, idade mostrando no rosto, cabelo prematuramente cinza. Claramente obtive minha aparência dela, apesar de tudo. Ela está com outra mulher na foto, uma morena deslumbrante com pele cor de oliva. As palavras ‗melhores amigas para sempre‘ estão rabiscadas no fundo, em uma caligrafia desconhecida. Eu não conheço a mulher, nunca vi a foto dela antes. Surpreendo-me, vendo a minha mãe tão normal. Ela teve uma melhor amiga. "Será que você encontrou alguma coisa?" Naz está de volta à porta, assustando-me quando ele fala. Balanço minha cabeça, jogando a Polaroid para baixo em cima da cômoda. "Apenas uma foto antiga."


Eu sento em sua cama fria desfeita. Gostaria de saber quanto tempo tem sido desde que ela foi usada. Dias? Semanas? Desde a última vez que estive aqui? Naz caminha pelo quarto, parando em frente à penteadeira, enquanto ele olha para a foto. Ele olha para ela por um minuto em silêncio. "Sinto muito," digo em voz baixa. Ele não se vira, com os ombros tensos no meu pedido de desculpas. "Por quê?" "Por perder o seu tempo," digo. "Por ter feito você dirigir todo o caminho até aqui para nada." "Não foi por nada," diz ele, virando-se. "Pelo menos sabemos agora." Deixo Naz lá para ir para o meu quarto, pegar alguns dos meus pertences. Não sei quando, ou se, minha mãe vai voltar aqui, e não quero simplesmente abandonar tudo. Naz aparece, carregando minhas coisas para o carro. Dou uma última olhada ao redor da casa, fechando a porta quando saio, sentindo-me mal por ter deixado tanta coisa para trás, mas não posso levar tudo comigo. Naz está tranquilo na viagem para casa. Parece muito mais longa do que a viagem para cá. Ele disse que pelo menos sabemos agora, mas ele está errado. Sinto que eu entendo menos do que entendia horas atrás. "Ela virá atrás de você." Minha testa franze quando olho para Naz, mal enxergando sua expressão na escuridão. Estamos nos aproximando do Brooklyn novamente. Nenhum de nós disse uma palavra em horas. "O quê?" "Sua mãe," diz ele. "Ela virá para você."


"Como você sabe?" "Porque eu disse a você, somente um covarde deixa sua família."


Capítulo 22 O café está tranquilo com as férias, os alunos que frequentam a área dia após dia se foram para o verão. Sento-me no lugar de costume onde estudava semanalmente, tomando meu chá de chocolate com menta. Tem gosto de folha de menta, rica e cremosa, algo que sempre fez Melody se encolher. Com o pensamento na minha amiga, olho para o relógio e suspiro. Ela está atrasada, sem surpresa. Nem tenho certeza se ela ainda virá. Não tive notícias dela durante todo o dia. Naz está trabalhando, então eu vim para a cidade por conta própria, fazendo planos para passar algum tempo com minha amiga. Ele me deixou algum dinheiro, um monte de dinheiro, e as minhas próprias chaves da casa para que eu possa ir e vir. Acho que isso o torna oficialmente o meu lugar agora, também. Estranho. Tomo outra bebida, saboreando-a, quando ouço a voz de Melody atrás de mim. "Bem, acho que algumas coisas nunca mudam." Viro-me, arregalando os olhos quando olho para ela. Seu cabelo loiro habitual agora é de um platino brilhante, listras vermelhas e pretas fortes caem em camada por ele. "Você gosta?" Ela pergunta, afofando os cabelos. "Ficando diferente de vocês cadelas comuns." Rio, balançando a cabeça. "É muito você." "Não é? Pensei assim também." Ela pede um café e se joga à minha frente, saboreando antes que ela se lança em sua conversa de


costume, falando e falando sobre o que ela já fez neste verão (até demais) e como as coisas com Paul estão (melhor do que ela esperava, mas cara, ele precisa conseguir um emprego), antes de ela virar o assunto direto para mim. "Então, como está a nova vida?" "Tudo bem," eu digo, encolhendo os ombros. "Tudo bem," ela ecoa. "É isso? Tudo bem?" Dou de ombros. "Sim, tudo bem." Ela revira os olhos com a minha resposta, lançando em uma dúzia de perguntas: Quando é o casamento? Onde? Você tem um vestido? Estamos convidados? Posso ver o anel de novo? Eu rio dela, embora não tenha dado muita atenção para esses pensamentos. "Então o que você vai fazer no próximo ano?" Ela pergunta. "Você sabe, uma vez que o sua média não foi alta o suficiente para manter sua bolsa de estudos." Acho que eu preferia falar do casamento a isso. Deixei escapar um suspiro, encolhendo os ombros. Tentei não pensar sobre isso, mas ficou persistente lá, no fundo da minha mente. Tenho despesas de mensalidade chegando que nunca poderia pagar. Sei que Naz diz que o que é dele é meu, mas como posso pedir por milhões para pagar minhas aulas? "Eu vou descobrir isso." "É bom," diz ela. "Estamos totalmente precisando tomar esta classe juntas — Ética e Sociedade." "Inferno, não," digo. "Nem ferrando. Merda nenhuma. Não há mais aulas de filosofia." Ela ri. "Vamos lá, vai ser fácil." Amasso um guardanapo e jogo nela. "Negativo." Ela encolhe os ombros, terminando seu café. "Vai perder." Ela não pode ficar muito tempo, tem de encontrar seus pais


para o almoço na cidade. Dou tchau, fazendo planos para nos encontrarmos novamente na próxima semana, e ela começa a se afastar, mas faz uma pausa depois de alguns passos. "Oh, eu quase esqueci! Isso veio para você no outro dia... Foi enviado para o dormitório." Ela joga um envelope em cima da mesa. Olho para ele, não vendo nenhum endereço de retorno, mas a caligrafia me parece familiar... Da minha mãe. Termino a minha bebida e jogo fora antes de me dirigir para a porta. Rasgo abrindo o envelope, arrancando a única folha de papel de caderno, e a desdobro. Foi rabiscado às pressas, sem cumprimento doce ou conversa fiada, direto ao ponto.

Desculpe se preocupei você. Eu posso ser encontrada no número abaixo. Chame-me o mais rápido possível. Eu te amo.

Eu fico olhando para o número, o código de área 201 me atingindo. Ela está em Nova Jersey? Reli as palavras algumas vezes, passando por cima dos números em minha mente. Empurro minha confusão de lado, grata por ter alguma coisa. Não tenho nenhuma resposta, mas pelo menos ela está bem. Ela está lá fora, e tenho uma maneira de encontra-la. Dobro a carta e a coloco de volta no envelope, empurrando-a no bolso. Faço a viagem de volta ao Brooklyn e sou abordada na porta da frente de casa quando alguém fala. "Karissa Reed?" Eu paro e me viro, arregalando os olhos ao ouvir o som do meu nome na boca de um estranho. Ele não é alguém que já tenha visto


antes, um homem mais velho com cabelos grisalhos, vestindo um terno azul mal ajustado. Outro homem mais jovem permanece na calçada, tentando agir casualmente, as mãos nos quadris, empurrando seu casaco fora do caminho e expondo um crachá de ouro brilhante preso ao cinto. Policia. "Uh, sim," digo, hesitante, olhando para o crachá por um momento antes de virar para a pessoa que se dirigiu a mim. "Posso ajudar?" "Nós esperamos que sim," diz ele. "Queríamos fazer-lhe algumas perguntas." "Sobre?" "Sobre Daniel Santino." Minha testa franze. Professor Santino? "O que tem ele?" "Você se importaria de vir até a delegacia com a gente?" Ele pergunta, sorrindo laconicamente. Não escapou do meu conhecimento que ele evitou responder a minha pergunta. "Só vai demorar alguns minutos." Eu olho entre os dois homens e o carro estacionado perto deles, claramente, um carro da polícia sem identificação. "Eu não sei." O segundo oficial estreita para mim, sua expressão dura. Assisto programas de televisão estúpidos o suficiente para saber quem é o policial bom/policial mau, e este, obviamente, é o último. "Você pode vir conosco agora voluntariamente ou podemos buscá-la e levá-la mais tarde ao centro, quer você goste ou não." Franzindo a testa, obedeço, subindo no banco traseiro quando o oficial mais velho abre a porta para mim. Ele é amável, tentando ser simpático e conversando enquanto dirige em direção à delegacia.


Detetive Jameson com a Unidade de Homicídios. Seu parceiro, Detetive Andrews, é claramente um imbecil. Ele se senta no banco do passageiro, em silêncio, carrancudo. Quando chegamos, sou levada a uma pequena sala monótona com nada além de uma mesa e algumas cadeiras, as paredes cinza, uma placa na porta que diz ‗Interrogatório‘. Nervosamente me sento em uma cadeira com os homens de frente para mim. Eles me oferecem algo para beber, mas estou muito ansiosa para aceitar. As perguntas parecem simples na superfície: Quando foi a última vez que falou com Daniel Santino? O que você falou? Por que você estava lá? Eles me perguntam de novo e de novo, as mesmas perguntas tediosas em um espiral, apenas feitas um pouco diferente de cada vez, como se eles esperassem que cometesse algum deslize e desse outra resposta eventualmente. Fui a última pessoa vista com ele. Seu tempo estimado de morte coincidiu com a minha visita. "Espere, você não acha que... Quero dizer, vocês realmente não acham que eu tenho algo a ver com isso, certo?" Ambos os homens apenas olham para mim. "Ele estava vivo quando o deixei," digo, em choque total que estejam insinuando que eu poderia estar envolvida. "Nunca faria mal a alguém, muito menos matá-lo. Não faria isso... Não poderia. Verifique as câmeras de segurança. Vocês vão ver!" "As câmeras naquele edifício não estavam gravando," diz Detetive Andrews. "Elas reciclam em um circuito de 24 horas. No momento em que ele foi descoberto, a filmagem tinha sido apagada." "Bem, juro que ele estava vivo. Ele estava! Eu nunca faria algo assim. Não sou esse tipo de pessoa!"


"Eu acredito em você," diz o detetive Jameson. "Nós estamos apenas tentando montar uma linha do tempo daquela tarde." Ele parece genuíno, mas suas palavras estão em desacordo com a atitude do Detetive Andrews. Ele está me tratando como uma criminosa descuidada. Sua expressão está endurecida, sua voz gélida quando entra na conversa. "Há quanto tempo você está envolvida com Ignazio Vitale?" O nome de Naz me pega desprevenida. "Desculpe?" "Ignazio Vitale," diz ele. "Há quanto tempo você dois—?" "Eu não vejo como isso é da sua conta," eu digo, deslizando minhas mãos da mesa para o meu colo, quando a atenção do homem se desloca para o anel no meu dedo. "Você está ciente de sua reputação, eu presumo? Não é uma área muito longa—" "Naz é um bom homem," digo na defensiva, interrompendo-o. "Ele não tem nada a ver com isso." "Você tem certeza disso?" "É claro," eu digo. "Não me importo com a reputação que você acha que ele tem. Ele não fez nada de errado, e nem eu... Eu não fiz nada. Só fui falar com ele sobre a minha nota, e depois eu saí, e ele ainda estava vivo." "E onde estava Ignazio naquela hora?" Minha testa franze. Antes que eu possa responder, a porta da sala de interrogatório abre, outro homem enfiando a cabeça para dentro. É evidente que é o seu superior, com base na forma como os homens endireitam as costas, dando-lhe a sua atenção. Ele se escora para dentro, os olhos me observando, quando ele balança a cabeça. "Você está livre para ir, senhorita Reed."


Detetive Andrews balança a cabeça em desacordo. "Nós ainda temos mais algumas perguntas." "Impossível," diz o homem. "Ela está com advogado." Meus olhos se arregalaram. Eu estava com o que? Detetive Andrews está tão surpreso quanto eu, virando-se para mim. "Não ouvi você pedir um advogado." Não sabia que precisava de um. Detetive Jameson, por outro lado, se levanta e recolhe suas coisas. Ele pega um cartão de visita, deslizando-o sobre a mesa com um sorriso. "Se você quiser falar, a minha porta está sempre aberta." Ele sai, passando por seu superior. Estou esfregando as palmas das mãos suadas nas pernas da minha calça e deslizo o cartão no bolso com a carta da minha mãe quando olho entre os homens. "Então posso ir?" "É claro," diz o homem, acenando laconicamente. "Obrigado por ter vindo." "Claro," murmuro, minha cabeça baixa conforme ando para fora da sala de interrogatório. Ouço os oficiais sussurrando atrás de mim, sua conversa aquecida, quando vou para o saguão. Olhando para cima, meus passos param quando fico cara a cara com a última pessoa que eu esperava ver aqui. "Naz." O canto de seus de lábio se mexem. "Você está bem, minha perdição?" Concordo com a cabeça. "Bom." Todo humor se desvanece de sua expressão, os olhos escurecendo de raiva quando ele vira seu foco para os oficiais reunidos atrás de mim. Seu olhar desloca-se entre eles, absorvendo-os, hostilidade pura flutuando dele, o suficiente para fazer os cabelos em


meu braço ficarem em pé. "Se os senhores precisarem de qualquer outra coisa, meu advogado está mais do que feliz em responder aos seus pedidos, que vocês estão bem cientes. É para isso que eu o pago, afinal." "Nós não tínhamos perguntas para você," diz o detetive Jameson. "Tínhamos apenas algumas para Srta. Reed." "A qual é a minha noiva, que vocês estão cientes agora," diz Naz. "Assediar uma jovem mulher é bastante inconveniente de você, Jameson. Pensei que sua mãe tivesse lhe ensinado melhor do que isso." Naz não espera o oficial responder. Ele faz um gesto com a cabeça para eu ir com ele. Passo por ele, e ele aperta a mão nas minhas costas, levando-me para fora da delegacia. Seu carro nos espera no meio-fio. Deslizo nele nervosamente, enjoo crescendo na boca do meu estômago. Naz puxa para o tráfego, em direção ao Brooklyn, antes de relaxar. Ele relaxa no banco, deixando escapar um suspiro profundo. Não tenho certeza se de alívio ou de exasperação. "Como você sabia que eu estava lá?" Pergunto tranquilamente. "Um associado me deu uma ligação de cortesia, quando viu você chegando. Cheguei lá o mais rápido que pude." "Obrigada," eu digo. "Estou feliz que você apareceu." Ele olha para mim. Esticando sua mão, ele a coloca em minha bochecha, acariciando a pele com o polegar. "Eu sempre vou aparecer." "Você promete?" "Eu prometo."


Estou sentada na cama, o bilhete da minha mãe esparramado em meu colo. Meu olhar se desloca através dos números várias vezes, recitando-os na memória. Estou enrolando, eu sei disso, e talvez seja sem sentido, mas estou quase com medo de ligar para ela. Ela vai ter perguntas. Muitas das quais eu tenho para ela. O que você está fazendo? Onde você está ficando? Por quê? Minhas respostas são provavelmente mais escandalosas do que as dela. Suspirando, pego meu telefone e disco o número, trazendo-o para minha orelha enquanto ele toca. Espero, quase desejando algum tipo de secretária eletrônica para me cumprimentar, quando a linha é atendida. "Olá?" Esta não é a minha mãe. Esta voz é do sexo masculino, áspera, com uma espécie de sotaque carregado. Sento-me em silêncio por um momento, sem saber o que dizer ou como reagir, quando ele diz de novo, impaciente. "Olá?" "Eu, uh... Posso falar com Carrie?" "Quem?" Meu estômago cai quando olho para o papel. Sei que eu tenho os números certos. "Carrie," digo. "Carrie Reed?" "Ah, sim, espere." Ouço barulho, em seguida, sua voz abafada ressoa no fundo. "Carmela! Eu acho que é ela!" Minha testa franze. Carmela? Há

mais

sussurros

antes

de

uma

voz

fraca

atender.


"Kissimmee? É você?" "Uh, sim. O que está acontecendo, mãe? Quem é esse cara? Por que ele chamou você de Carmela?" "Não importa agora," diz ela com desdém. "Estou feliz que você está bem." "Eu? Eu estou bem. Onde você estava? Estava preocupada!" "Eu precisava me mudar, querida. Disse-lhe quando você visitou. Era a hora." "Você disse que estava pensando sobre isso," digo. "Eu não esperava que você pegasse e deixasse tudo para trás. Fui verificar você e—" "Você foi para a casa? Estava saqueada?" "Uh, não... Por que estaria?" "Nenhuma razão," diz ela. "Olha, não posso realmente falar sobre isso no telefone. Vou explicar tudo, eu vou... Só preciso que você venha me ver. Você pode fazer isso, Kissimmee? É importante." "Imagino." "Venha sozinha," diz ela. "Tudo bem? É importante que ninguém mais saiba onde estou. Entendeu?" Entendo, tudo bem. Ela fala abruptamente. Todos esses anos correndo de memórias e fantasmas perseguindo a pegou, e ela perdeu o pouco de sanidade que lhe restava. Há uma diferença entre ser louco e ser insano, e tenho pavor que ela esteja na ponta dos pés sobre esse limite nas últimas semanas. "Eu vou sozinha. Só me diga onde você está." Ela cospe fora um endereço, e eu vasculho as gavetas até encontrar uma caneta para rabiscar. Ela mais uma vez reitera a minha necessidade de ir sozinha antes de desligar, sem perguntar nenhuma


vez como estou ou onde fui ou o que venho fazendo. Jogo meu telefone na cama ao meu lado enquanto olho para o endereço. New Jersey. Não seria preciso de muito tempo, metade de um dia para chegar lá, pegar minhas respostas, e voltar aqui para o Brooklyn. Talvez eu possa convencê-la a voltar comigo, obter algum tipo de ajuda, porque o que ela está fazendo não é normal. "O que você tem aí?" Olho para cima quando Naz entra na sala. "É, uh... um recado que a Melody me deu," digo, encolhendo os ombros enquanto o dobro e empurro de volta no bolso. "Tomei um café com ela hoje, você sabe, antes da coisa toda de interrogatório." Diria a ele se ele perguntasse, iria dizer a verdade sobre a carta, em falar com a minha mãe, mas ele não leva o assunto adiante. Ele faz uma pausa na minha frente, segurando meu queixo e puxando meu rosto para olhar para ele. Ele se inclina para me beijar, seus lábios suaves e doces. Só é preciso um simples toque deste homem e eu derreto. Sua presença sempre faz com que o mau não pareça tão ruim, o bom apenas muito melhor, o mundo em torno de mim tão lindo e novo. Ele me faz sentir especial e segura, como se o universo pudesse estar se desintegrando, mas ele manteria o chão sob meus pés seguro. Ele lava minhas preocupações a distância. Eu vou lidar com a minha mãe amanhã. Hoje à noite, eu só o quero. Com as mãos trêmulas, chego e começo a desabotoar sua camisa. Ele me permite, nunca quebrando o beijo, as mãos segurando minha cabeça. Ele se afasta quando precisa, deixando suas roupas caírem no chão, deixando-o nu na minha frente.


Feixes de luz invadem vindos de fora, o suficiente para que eu possa admirar cada contorno de seu corpo. Quero rastrear cada linha, acariciar todos os recantos, saborear sua carne com a minha língua, e mostrar a ele o quanto eu o amo com meus lábios. Ele se senta na cama e chega para mim de novo, mas eu escapo de suas mãos e caio de joelhos no chão. Sua expressão é tensa quando olha para mim. Envolvo minha mão em torno do eixo rígido e esfrego algumas vezes, observando-o, antes de abaixar a minha cabeça em seu colo. Coloco minha língua para fora, saboreando sua ponta. Um gemido anormal vibra em seu peito. Suas mãos acariciaram meu cabelo quando o levo em minha boca. Não posso ter tudo dele, mal posso tomar a metade dele. Nunca tentei satisfazer um homem como Naz, então apenas faço isso e espero o melhor. Não dura muito tempo antes de me parar. Agarrando meus braços, ele me puxa para cima da cama com ele, sussurrando, "Isso é o suficiente, Karissa." "Não foi bom?" Pergunto nervosamente. "Foi muito bom," diz ele em voz baixa. "Mas você não deve nunca se ajoelham diante de mim." Não tenho certeza se estou lisonjeada ou ofendida, mas ele me dá pouca chance de ser qualquer uma. Ele assume o comando, despindo-me enquanto me empurra ao longo da cama com ele. Ele se inclina para trás, deixando-me subir em cima dele. Afundo sobre ele, levando-o para dentro de mim, um arrepio corre pela minha espinha quando o ouço gemer novamente. O som é tão primordial, sem restrições. Eu monto-o, moendo contra ele, arqueando as costas e


levando-o até onde ele pode ir. Suas mãos estão em meus quadris, mas ele não me guia, pela primeira vez desde que estamos juntos, ele está me deixando fazer o trabalho. Posso dizer quando ele está chegando perto. Minhas mãos estão em seu peito, cobrindo suas cicatrizes, sentindo sua pulsação contra minha palma. Está acelerado, embora ele pareça relaxado, seus músculos do estômago apertam enquanto seus olhos se fecham. Posso sentir isso quando ele goza, enchendo-me com tudo dele. Ele geme novamente, desta vez mais alto, o controle sobre meus quadris mais apertado. Quando ele relaxa, paro de me mover, e ele abre os olhos para olhar para mim. Ofereço-lhe um sorriso hesitante, mas ele não devolve, tirando o meu do rosto quando me puxa para fora dele, para cima da cama, e se instala sobre mim. Eu sou pega de surpresa, quando ele fuça meu pescoço, beliscando a pele. "Isso não foi fácil para mim." Ele empurra para dentro de mim, o impulso profundo, fazendo-me ofegar. Ele está mais duro agora do que estava antes mesmo de gozar. "Eu sei." Ele é uma máquina, em curso conforme a noite cai, não parando até que meu corpo esteja cansado, ambos cobertos de suor dos pés à cabeça. Eu estava em seus braços, minha cabeça em seu peito. Nós dois estamos tranquilos enquanto recuperamos o fôlego, seus batimentos cardíacos se acomodam em um ritmo normal constante. Eu acho que o meu coração nunca vai bater do mesmo jeito. "Você está bem?" Ele pergunta baixinho depois de um tempo. "Sim", sussurro. "Por que eu não estaria?" "Você foi levada para a delegacia de polícia hoje. Isso tem que ser perturbador."


"Foi," admito. "Eles pensam que eu... Quer dizer, eles pensavam que eu tinha algo a ver com o que aconteceu com Santino." "Não, eles não pensam," diz ele. "Eles não acham isso." "Mas eles disseram—" "Só porque eles disseram, não significa que seja verdade," diz ele. "Eles não acham que você matou Santino." "Então por que eles disseram isso?" "Porque eles pensam que eu fiz." Eu fico tensa. "Isso é uma loucura." Eu espero que ele concorde, ria, mas ele não diz nada. Ele não faz barulho. O silêncio que sufoca o quarto é ensurdecedor, assustador, e não sei o que dizer depois disso. Fiquei ali, olhando para a escuridão, quando a mão de Naz esfrega meu lado nu, segurando-me firmemente como se nunca fosse me deixar ir.

Pego o trem para Manhattan, e depois outro trem para New Jersey, chamo um táxi do lado de fora da estação de trem em Newark. O motorista olha para mim estranhamente quando leio o endereço, fazendo nenhum movimento para se afastar. "Você tem certeza que o endereço está certo?" Ele pergunta, olhando-me no espelho retrovisor. "Uh ..." Eu olho para o papel. "Sim." "Ok, então." Ele vai para a estrada. Newark me faz lembrar de uma


pequena

cidade

de

Nova

York,

com

os

arranha-céus

e

ruas

movimentadas. Estou admirando quando nós dirigimos através da cidade, enrijeço um pouco quando ele começa a se afastar. Ele passa por bairros, cada um ficando mais desigual, até que começamos a nos aproximar do que se parece com favelas. Janelas estão destruídas e tapadas, pichações cobrindo as laterais de prédios em ruínas, lixo cobrindo as calçadas. Por favor, continue. Por favor, continue. Ele para. O táxi para na frente de uma casa velha de tijolo. A outra ligada a ela está abandonada, completamente destruída, mas a outra parece habitável. Quase. O carro da minha mãe está longe de ser visto. Não vejo sinais de vida em torno dela, não há luzes no interior e sem móveis na pequena varanda. Estou prestes a dizer ao motorista para seguir em frente, para me levar de volta, porque tem que haver algum engano, quando a cortina na sala da frente se mexe. Alguém está lá dentro. Pago o motorista e saio, indo em direção a casa. Passo na varanda e bato, meu coração batendo no peito enquanto espero. Minha mãe não pode ficar aqui, nesta casa, neste bairro. Não é seguro. A porta abre, um par de olhos castanhos profundos encontra os meus. Eles pertencem a um homem com cabelos negros, divididos para o lado e para trás com estilo, brilhante pela quantidade de produto no mesmo. Ele tem um bigode, mas o resto do seu rosto está barbeado. Ele está vestindo calça cinza escuro e um colete, com um botão pequeno de baixo da camisa. Um charuto apagado está entre os lábios. Ele não se parece com alguém que vive em favelas. "Estou à procura de Carrie," eu digo.


"Eu sei," ele responde, o sotaque me golpeando. O mesmo cara da chamada. Ele dá um passo para o lado, fazendo sinal para que eu entre. Hesitante, vou para dentro, vendo que a casa está quase vazia. Ele fica na porta por mais um momento, seu olhar varrendo ao longo da rua. "Você veio sozinha?" "Claro." Satisfeito, ele fecha a porta. Ele passa por mim, um balanço peculiar em sua caminhada, estranho que ele não consegue dobrar um dos joelhos. "Sua mãe não está aqui." Eu fico olhando para ele, tensa enquanto ele se dirige para a sala e se senta no velho sofá — o único móvel na sala. "Onde ela está?" "Sente-se," diz ele casualmente, apontando para a almofada suja e rasgada ao lado dele. "Onde ela está?" Pergunto novamente, fazendo nenhum movimento para chegar mais perto. Meus olhos se deslocam até a porta, certificando-me que está desbloqueada no caso de precisar fazer uma saída apressada, antes de eu olhar para ele. Ele está me observando, seus lábios curvando-se com diversão conforme ele acende um fósforo e acende o charuto. Ele joga o fósforo no chão de madeira, pisando nele com seus brilhantes sapatos pretos. "Eu não vou prejudicá-la, menina." Eu tento pela terceira vez. "Onde ela está?" Ele senta no sofá, descansando o braço ao longo das costas dele enquanto se estende para fora, seu olhar ainda firmemente em mim. "Ela deu uma saída." "Por quê? Para onde ela foi?" "Ela pensou que seria melhor se ela não estivesse aqui, quando eu explicar isso para você."


"Explicar o quê?" Ele dá uma tragada em seu charuto e fica quieto por um momento, sacudindo suas cinzas em linha reta no chão. "Por que eu deixei vocês." Fico olhando para ele, cada grama de força que eu tentei construir, colocando-me em alerta, desaparece em uma onda de choque. De jeito nenhum. Olho em descrença, essas palavras afundando, meus olhos vagando em seu rosto. Mesmo a esta distância, as sardas que pontilham sua pele se destacam como pequenas balizas, exibindo a verdade antes mesmo que ele tenha que dizer. Não tenho sido capaz de obter notícias da minha mãe em semanas, porque ela tem estado com o meu pai, o homem que nos abandonou, que foi para longe de nós. A culpa é dele que ela é da maneira que é, por culpa dele que ela estava constantemente caçando fantasmas, a perseguindo-o... E ela o encontrou. Ela o encontrou, porra. E ela está, obviamente, ainda pior por ter feito isso. "Eu sei por que você deixou," digo, dando um passo para trás. Há alguns metros entre nós, mas de repente me sentindo muito perto. "Você deixou porque você é um covarde de merda." "Kissimmee..." "Não," digo, balançando a cabeça, o som desse apelido vindo dele me deixando com raiva. "Não se atreva a me chamar assim! O que lhe dá o direito?" "Considerando que eu lhe dei o apelido, digo que tenho bastante direito," ele diz. "Eu chamei você assim quando ela estava grávida, minha bebezinha Kissimmee. Você foi feita lá, você sabe, lá em Kissimmee. Então é isso que me dá o direito." "Você não tem nem o direto de falar comigo. Você não é


ninguém para mim. Nada. Você perdeu todos os direitos quando você foi embora. Eu não precisei de você. Eu não preciso de você. Mas ela o amava." "Eu a amava também. Eu ainda a amo. Ela sabe disso, ela sempre soube." "Você está errado," digo. "Ela era uma bagunça, nunca podia se estabelecer ou confiar, sempre correndo por sua causa." Ele se levanta. Sua presença parece imponente, intimidante. Dou mais um passo para trás quando ele começa a vir em minha direção. "Não era eu o motivo de sua fuga." "O que quer que seja que o ajude a dormir à noite, amigo," digo. "Você não estava lá. Você não viu isso. Você não viveu isso. Eu não me importo com a merda das suas desculpas... Ir para longe de nós é imperdoável, e se ela pensou que explicar isso para mim iria torná-lo melhor, ela está muito enganada." "Não aja dessa forma," diz ele. "Eu mereço ser ouvido. Eu sou seu pai." "Você não é nada," eu digo. "John Reed é ninguém para mim." Cuspo as palavras com o máximo de hostilidade que consigo, ou seja, com tudo de mim, mas em vez de vacilar, em vez de estar ferido, ele ri. Seu riso é alto e divertido, golpeando-me mais forte do que os punhos. "John Reed," diz ele, balançando a cabeça. "Você está certa — não é ninguém. Ele não é nada. Ele não existe mesmo. Mas eu sou seu pai, Johnny Rita, e você é minha filha, e sua mãe... Sua mãe minha esposa. Carmela Rita." "O nome dela é Carrie Reed."


Ele balança a cabeça, seu tom de zombaria, quando ele diz, "Tudo o que a ajudar a dormir à noite, garota." "Eu não sou uma garota, sou uma mulher. E eu não me importo com o que você tem a dizer. Estou cansada de falar com você." Saio igual uma tempestade de lá, batendo a porta atrás de mim. Meio que esperava que ele viesse atrás de mim, mas ele não o faz. Claro. Os meus olhos ardem quando ando longe da casa, tentando colocar espaço entre mim e o homem. Não é até que estou a poucos quarteirões de distância, com lágrimas escorrendo em meu rosto que percebo a situação em que estou. Frustrada, exausta, sento no meio-fio da rua em um canto e puxo o meu telefone para chamar um táxi. Levam insuportáveis vinte minutos para chegar até mim. Ele me deixa na estação de trem em Newark, e compro um bilhete de volta para casa. Está escurecendo quando volto para casa no Brooklyn. O sol está se pondo, tudo parecendo como eu deixei, a entrada de garagem vaga do carro de Naz. Estou em transe, meu estômago em nós. Sintome como se tivesse sido drenada, e eu não tenho certeza de qual caminho é para cima. John Reed. Johnny Rita. Carrie Reed. Carmela Rita. Quem são eles? Quem sou eu? Eu achava que sabia, mas agora não tenho certeza. Estou me afogando em um rio de segredos, vivendo em um mundo construído sobre mentiras. Será que Karissa Reed ainda existe? Ou eu sou Karissa Rita?


Quem diabos é ela? Lágrimas nadam em meus olhos novamente quando abro a porta e entro na casa escura. As coisas fazem ainda menos sentido agora. O que era real? O que era uma mentira? Fecho a porta e tranco novamente, virando-me para ir direto para as escadas, quando uma voz aguda na escuridão me para no caminho. "Onde você foi?" Pulando, viro-me e fico cara a cara com Naz na sala de estar. Seguro meu peito, assustada. "Você me assustou. Não sabia que você estava em casa. O seu carro não está na vaga." "Está na garagem," diz ele, dando um passo em minha direção, com as mãos nos bolsos. "Onde você foi?" "Eu, uh... Eu fui ver a minha mãe." "Você a achou?" "Mais como ela me encontrou," murmuro, alcançando meu bolso e tirando o bilhete amassado. "Melody me deu isso ontem... Liguei para o número, e minha mãe me deu um endereço, disse-me para ir vêla." Ele dá um passo mais perto, estendendo a mão, em silêncio, pedindo para ver o bilhete. Entrego a ele e ele o lê, se encolhendo. "Você foi a este lugar sozinha?" "Ela me disse para ir. Disse que era importante." Ele dobra o bilhete e o devolve para mim, quando encontra meus olhos. Ele olha duro e estica as mãos até minha bochecha. "Você esteve chorando." "Foi um longo dia." "Você a viu?" Ele pergunta. "Você falou com ela?"


"Não, ela não estava lá." Seus olhos se estreitam, desconfiado. "Havia outra pessoa?" Concordo com a cabeça. "Meu pai, você pode acreditar nisso." Mal posso acreditar eu mesma. A expressão de Naz endurece. Ele fica tão parado que não tenho certeza se está respirando. "O que ele disse para você?" "Muito," murmuro. "Mas nada realmente. Tudo mentira, ou talvez seja toda a verdade. Eu não sei. Descobri quem ele era e fui embora." "O que ele queria?" "Explicar por que ele foi embora." "E ele explicou?" "Não, eu não lhe dei a oportunidade." O polegar de Naz esfrega meu rosto enquanto ele deixa escapar um profundo suspiro. "Talvez você devesse." Minha testa franze. "Você acha?" "Sim," ele diz. "Eu estou interessado em ouvir o que ele tem a dizer."

A viagem a Jersey é mais rápida com Naz na condução. Sintome melhor agora o tendo comigo, como em vez de estar no campo de defesa, talvez eu esteja na ofensiva neste momento. Ele segura a minha mão no console central, o polegar suavemente acariciando a minha pele.


Ele não tem nenhum problema em encontrar a casa, dirigindo-nos pelas ruas de Newark como se conhecesse bem a vizinhança acabada. O carro da minha mãe está lá agora, estacionado em frente. Naz puxa a Mercedes a uma parada atrás dele, desligando o motor e sai sem uma palavra. Ele abre a porta para mim e eu saio, dando alguns passos na direção da casa quando Naz agarra meu pulso, fazendo-me parar. Eu olho para ele peculiarmente, e ele balança a cabeça. "Espere aqui." Minha testa franze. "Por quê?" "Apenas confie em mim." Eu encolho, voltando para Naz e parando bem na frente dele, meus olhos sobre a casa. Está completamente escura, iluminada apenas pela luz da rua. É nove da noite, talvez um pouco mais tarde. "Talvez eles estejam dormindo." "Eles não dormem aqui." Minha testa franze. "Como você sabe?" "Eu só sei," diz ele. "Posso dizer de olhar para ela." Antes que eu possa lhe perguntar mais, a cortina na sala de estar se move. A porta abre, minha mãe aparecendo, os olhos arregalados. Ela parece louca. "Karissa," ela grita, sua voz estridente, cheia de pânico. "Oh Deus. Afaste-se dele, querida." Pisco algumas vezes, pega de surpresa, quando Naz desliza seus braços em volta de mim, puxando-me para perto dele. Um braço envolve minha cintura enquanto o outro se instala ao longo do meu peito, a mão levantando, descansando na base da minha garganta. Ele está me segurando protetoramente, minha armadura contra o mundo


exterior brutal, mas minha mãe o vê de forma diferente. Ela solta um barulho em pânico quando corre para frente, descendo os pequenos degraus da varanda, vacilando no quintal. "Está tudo bem," eu digo. "Está tudo bem, mãe." "Por favor, deixe-a ir," ela implora, ignorando-me, seu foco em Naz. "Eu estou lhe implorando. Deixe-a ir, Vitale." Meu sangue corre frio quando ela diz o nome dele... Seu último nome... o nome que aquelas pessoas usam para ele. Isso não está certo. Ela não sabe dele. Eles não se conhecem. Eles não podem. "Eu não vou machucá-la, Carmela, mas não vou deixá-la ir." Meus joelhos quase desabam em baixo de mim. Ele a chamou de Carmela. Se não fosse pelo forte aperto de Naz, eu cairia no chão. Viro a cabeça, vendo a expressão séria de Naz, seus olhos tão escuros como a noite em torno de nós. "Naz," eu sussurro. "O que está acontecendo?" "O que está acontecendo é que a sua mãe não está feliz em vêla perto de mim." "Por quê?" Eu pergunto, minha voz tremendo. "Quem é você?" "Você sabe quem eu sou," diz ele. "A pergunta que você deve estar se fazendo é quem são eles." "Mãe," chamo. "Mãe, o que está acontecendo? Como você conhece Naz?" Ela não olha para mim, mas sei que ela ouve as minhas palavras. Seu alarme cresce quando eu o chamo de Naz. Ela implora mais. "Por favor, ela é minha filha... A minha menina. Ela já sofreu o suficiente. Não faça isso com ela." "Eu não fiz nada para ela," diz Naz, sua mão deslocando mais


para cima, apertando minha garganta. Suspiro quando ele se inclina para baixo, beijando meu templo. "Nada que ela não queria que eu fizesse." Minha mãe está prestes a hiperventilar. "Basta deixá-la ir e vamos conversar sobre isso. Eu vou lhe dar o que você quiser, seja o que for. Leve-me, mas a deixe sozinha. Por favor, eu estou lhe implorando. Eu vou fazer qualquer coisa." Naz

afrouxa

seu

aperto,

e

eu

respiro

profundamente,

desorientada. "Johnny está aqui?" "Não." "Aposto que ele saiu pela porta de trás, quando me viu, não foi?" Minha mãe não responde essa pergunta, que parece responder o suficiente para Naz. Ele ri amargamente. "Uma vez um covarde, sempre um covarde." "Diga-me o que posso fazer," diz ela. "Só... Seja o que for. Apenas me diga." "Você sabe o que quero. Você fica fora do meu caminho, e eu não vou lhe machucar, Carmela. É simples assim. Não quero feri-la — por causa dela, espero que eu não tenha. Mas nada vai me impedir de conseguir o que quero." "Eu entendo," diz ela, dando mais um passo em nossa direção. "Apenas deixe Karissa ir. Por favor." "Eu não posso fazer isso," diz Naz. Minha mãe faz um barulho estranho com sua negação. Estou atordoada demais para reagir. Um dos braços de Naz me deixa ir quando ele se aproxima da porta do carro. "Entre." Meus olhos se arregalam quando olho para ele. "O quê?" Seus olhos encontram os meus. "Entre no carro."


A voz na parte de trás da minha cabeça grita para eu me afastar dele, para correr para a minha mãe, mas sua expressão perturbada é o suficiente para fazer meus pés se moverem em direção ao carro. Deslizo no banco do passageiro, e ele bate à porta, ficando ali de pé por um longo momento. Ele me ama, eu me lembro. Não há nenhuma razão para ter medo. Mas este não é o meu Naz, o Naz que eu caí de amor, e Ignazio Vitale assusta o inferno fora de mim. Através da janela, eu posso ouvir minha mãe suplicando-lhe um pouco mais, a voz casual quando ele dá de ombros para suas preocupações. Meu coração está em minha garganta, meu estômago enjoado quando Naz entra. Ele não diz nada, liga o carro e acelera para longe. Ele nunca olha para mim, nunca me aborda durante a viagem. Sua mão não tenta segurar a minha. As coisas estão tão tensas que acho que eu poderia explodir. Tudo continua passando em minha mente como um furacão, suas palavras e suas ações, tudo o que aconteceu hoje passando uma e outra vez. Eu não tenho certeza o que pensar sobre qualquer coisa. Nós chegamos em casa, e enrolo meus braços em volta do meu peito enquanto estou na sala de estar, tentando combater a onda de náusea quando a realidade bate em mim. "Eu não entendo." Naz afrouxa a gravata. "O que você não entende, Karissa?" "Tudo isso." Ele fica quieto por um momento enquanto tira seu casaco. "Eu disse que um dia iria encontrá-lo."


"O quê? Quem?" "O homem que roubou minha vida de mim." Meus olhos se arregalam quando isso me atinge. "Foi ele? O meu pai?" "Johnny Rita e eu éramos praticamente da família. Ele era meu melhor amigo. E isso não significou nada para ele. Ele matou minha esposa e filho bem na minha frente." "Você sabia?" Eu sussurro. "Você sabia quem eu era o tempo todo?" Sua expressão não oferece desculpas. Acho que vou ficar doente. Passo por ele, correndo para a cozinha, e caio de joelhos na frente da lata de lixo, colocando tudo o que está no meu estômago. Naz segue, parando na porta atrás de mim. "Você sabia," eu digo, minha visão ficou turva. "Você me usou todo esse tempo apenas para tentar encontrar o meu pai... Só para você matá-lo!" "Isso não é verdade," diz ele. "Eu sabia quem você era, Karissa, mas não a usei para que pudesse matá-lo. Nunca foi a minha intenção matar Johnny. Eu disse que queria fazê-lo pagar." "Como?" "Ele matou a minha família," diz Naz. "Então, eu ia matar a dele." Oh Deus. Eu sucumbo de novo, vomitando tudo até que meu corpo não tem mais nada para oferecer. Ouço Naz se aproximar, sinto sua mão pressionando contra minhas costas. Tremendo, afasto-me, rastejando pelo chão e pressionando as costas contra os armários enquanto puxo meus joelhos até meu peito, tentando sumir. Fico olhando para ele,


horrorizada. Ele estava planejando me matar. Oh Deus, ele vai me matar. "Você prometeu," eu choro. "Você prometeu que não iria me machucar." Ele se agacha na minha frente. "E não vou machucar. Eu não posso mentir para você, Karissa. Eu nunca menti para você." Eu zombo. Sua expressão endurece. "Diga uma vez que eu menti para você." "Você mentiu sobre tudo!" "Não, tudo o que eu lhe disse era verdade. Só porque não lhe disse tudo isso não significa que menti. Todo mundo tem segredos." "Eu não." "Você tinha," diz ele. "Eu fui o seu segredo. Nós mantemos as partes mais escuras de nós para nós mesmos até que achamos que os outros estão prontos para vê-los. Às vezes isso nunca acontece, mas eu sabia que esta noite... Sabia que era hora de você me ver." "Ver você? Você é um monstro!" "Eu sou," ele admite, "mas não finja estar surpresa. Você sabia isso sobre mim o tempo todo." "Eu não." "Ah, não menti para você, por isso, pelo menos me dê o mesmo respeito em troca," ele diz. "As peças estavam todas lá desde o início, cada uma delas. Só porque você se recusou a colocá-las juntas, a olhar para o panorama geral, não significa que você não sabia o que era. Eu disse que não era um bom homem. Eu disse que nunca seria.


Essa é a realidade querida, e você ainda me pediu para ficar." Ele chega para mim, passando as costas de sua mão ao longo de meu rosto e no meu pescoço, em meu peito. "Você entregou o seu corpo com tanta boa vontade, como se ele já pertencesse a mim." Eu bato na mão dele, o estalo alto ecoando através da cozinha em silêncio enquanto tento ir para mais longe. "Há algo errado com você." "Há um monte de coisa errada comigo," diz ele. "Tem sido desde que o seu pai apontou uma arma para o meu peito e puxou o gatilho." "Por quê?" A palavra é quase inaudível, enquanto as lágrimas transbordam no canto dos meus olhos. "Por que ele fez isso? Por que ele faria?" "Vingança." "Por quê?" Pergunto novamente. "O que você fez com ele?" "Nada," diz ele. "Não era de mim que ele queria vingança. Ele fez isso para se vingar do pai da minha esposa." "O pai dela?" Ele balança a cabeça. "Ray." Pisco rapidamente. Eu apenas olho para ele em choque. Sua esposa era filha de Raymond Ângelo? "Eu fui pego no meio, condenado a morrer nas mãos de alguém próximo a mim, alguém que deveria me amar. Deus me poupou, mas você vê, ninguém teria poupado você, não quando eu tivesse acabado com você, então você é sortuda... Você é fodidamente sortuda ... Eu me apaixonei por você. " Minha voz é fraca quando sussurro, "Você não me ama."


"Ah, mas eu amo," diz ele. "Porque, se eu não a amasse? Você já estaria morta." Deixo escapar um gemido involuntário com o som de sua voz, tão decidido, sem nenhum sinal de arrependimento em suas palavras. Ele teria me matado... Ele tão facilmente poderia ter, por muitas vezes. Se é amor que me manteve viva, o que significa isso agora? O que significa para o meu futuro? "Nada mudou," diz ele, como se pudesse ler a minha mente. "Eu ainda sou o homem de duas horas atrás, o mesmo homem que eu era há duas semanas, há dois meses... Há dois anos. Eu sou o mesmo homem que você se entregou, o mesmo homem que você se apaixonou. Nada mudou." Ele diz como se quisesse dizer isso, como se ele realmente acreditasse nisso, mas olhando para ele, não vejo mais aquele homem. Vejo um homem que não só poderia terminar com minha vida, mas um homem que acho que algum dia irá. "Não vou lhe machucar," diz ele em voz baixa, e fecho meus olhos, incapaz de lidar com a expressão de seu rosto, o olhar que quer que eu acredite, que quase me faz acreditar. Fico quieta, minha respiração engatando quando o sinto tocar meu rosto, acariciando, dedos passando em meus lábios enquanto exalo trêmula. Posso dizer que ele se inclina mais perto, seu perfume mais forte, o calor de seu corpo flutuando através de minha pele, aquecendome do lado de fora, mas eu estou tão, tão fria por dentro. Ele transformou meu sangue em gelo, parou o meu coração de bombear por medo de que, se isso acontecer, ainda pode bater por ele. "Diga-me o que você está pensando," diz ele, os lábios perto do meu. Ele beija o canto da minha boca. "Diga algo." Seus lábios encontram os meus suavemente. Eu não o beijo


de volta, em vez disso sussurro uma palavra solitária. "Vermelho." Vermelho. Seus lábios deixam os meus rapidamente, sua mão cai do meu rosto. Abro os olhos a tempo o suficiente para vê-lo se levantar. Ele olha para mim por um momento em silêncio. Ele tem a audácia de parecer triste, como se eu o estivesse ferindo, como se a palavra o machucasse mais do que ele jamais poderia me machucar. Sinto como se uma eternidade passasse em torno de mim quando olho para ele com olhos lacrimejantes, tentando impedir minhas lágrimas de caírem, antes que ele olhe para o lado, dando as costas para sair da sala. Sento-me lá por um tempo, não tenho energia para me mover, antes de me forçar a levantar. Meus joelhos estão fracos, querendo desistir quando saio da cozinha. Meus olhos vão para a porta da frente, e por um breve segundo penso em ficar sem ele, mas onde posso ir? A quem posso recorrer? Quem vai acreditar em mim? O que ele faria? Em vez disso, vou lá para cima. Subo na cama com minhas roupas, nem mesmo me preocupo em tirar os sapatos. Estou à beira das lágrimas, mas o choque de tudo isso as mantém à distância. A cidade é perigosa, minha mãe me disse repetidamente. Há pessoas que se lançarão sobre mim, que vão me corromper, que vão me usar e abusar de mim. Eu tenho que estar de guarda, alerta, mantendo sempre os olhos abertos para os perigos do mundo, porque eles são reais, e eles vão me destruir. Eu escutei isso várias vezes. Tantas vezes.


Quem teria esperado que eu me apaixonaria cegamente pela maior ameaรงa de todas?


Capítulo 23 O mundo continua girando. Eu continuo me movendo. A vida ao meu redor continua seguindo em frente. Naz age como se nada tivesse mudado. Ele falava sério quando disse isso, realmente acreditava nisso, mas é diferente para mim agora. É tudo diferente. A verdade penetrou em meus ossos, infiltrou nos meus músculos, como uma grande parte de mim agora, como o sangue em minhas veias. O sangue que ainda parece muito pesado no meu peito, fazendo com que cada batida do meu coração seja dolorosa. A sala de descanso está tranquila. A televisão está ligada, mas no silencioso, reprises de Real Housewives passando na tela. Naz não está assistindo, ao invés disso está sentado à sua mesa com um livro. Ele está lendo. Lendo. Não acho que nada que Raymond Angelo lhe paga para fazer exige que ele olhe em um livro. Estou de pé do lado de fora da porta, olhando para dentro. Eu sei que a TV está ligada para mim. Ele faz isso todos os dias, ele liga em algo que me viu assistir antes, como se estivesse tentando me persuadir a ir para a sala com ele. Eu ainda não fui. Faz uma semana. Ele não deixou a casa. Todos os dias a mesma coisa, a mesma rotina. Ele deita ao meu lado durante a noite, mas não acho que qualquer um de nós consegue dormir, encarando a escuridão, perdidos


no silêncio penetrante. Ele não me tocou... Não tentou me tocar... Desde que eu falei a palavra de segurança na cozinha. Nem mesmo roçou seu braço contra o meu em sete dias. Estou grata. Estou aliviada. Mas eu sofro. Lamento a perda de seu toque. O que há de errado comigo? Ele me rasgou em duas — metade de mim continua apegada a quem eu achava que ele era, enquanto a outra metade está destruída pelo homem que ele acabou sendo. Eu o amo. Eu o odeio. Se eu nunca visse o rosto dele novamente, eu estaria melhor. Mas ainda assim fico na porta, sem olhar para a televisão silenciosa, em vez disso, olho para ele. Pergunto-me o que ele está pensando, o que ele está lendo, o que ele diria para mim se eu falasse com ele. Pergunto-me se ele sabe como me sinto sobre ele agora, se é assim que ele se sentia sobre mim o tempo todo. Ele decidiu me destruir, mas se apaixonou por mim em vez disso. Eu me apaixonei por ele, e isso é o que me destruiu no final. Ele diz que nunca iria me machucar, mas ele não percebe que ele já me machucou. Ele me machucou por me amar. Por ser quem ele é. Porque eu ser quem sou. Fico olhando para ele como costumava olhar para o meu livro de filosofia, como se todas as respostas fossem magicamente se transferir para o meu cérebro, então eu saberei o que eu deveria saber,


então entenderei o que até agora me escapou. Meu estômago dá um nó, comprimindo o voo das borboletas que ele produz em mim, até que seu olhar vira em minha direção. Ele não se move nada, exceto seus olhos quando se conecta comigo cuidadosamente. Eu me sinto como uma criança sendo vigiada, mas ele ainda olha para mim como se eu fosse uma mulher. Ele olha para mim como se ele precisasse de mim mais do que do ar que respira. Meus pulmões não conseguem trabalhar quando ele olha para mim desse jeito. Meu peito arde, meu estômago se agita, minha visão fica nebulosa e meus joelhos fraquejam, ao mesmo tempo que as duas metades de mim gritam no topo de seus pulmões. Eu o amo. Eu o odeio. Ele é tudo o que é bom. Ele é o pior de tudo. Ele dá significado a minha vida. Ele vai tirar minha vida um dia. Meu príncipe encantado acabou por ser o vilão do meu conto de fadas, e parte de mim pensa que está tudo bem, porque, eventualmente, tudo vai desaparecer, de qualquer maneira. Nada dura para sempre. Felizes para sempre, eu acho, não existe. Naz arqueia uma sobrancelha, questionando, mas permanece em silêncio. Hesito por um momento antes de me virar e ir embora. Não há nada a fazer. Estupidamente dou voltas ao redor da casa, sentando em uma sala um pouco antes passar para a próxima, nunca indo para a sala de descanso. Eu penso em ligar para o número que minha mãe me deu, mas isso pareceria uma traição a Naz, e não sei o que dizer a ela, também. O fato de que ela não tem me ligado fica bastante óbvio.


Mando mensagem para Melody e ajo como se nada estivesse errado. Clico em passarinhos por toda a tela e aniquilo os porcos para ocupar o meu tempo. Eu até mesmo vou lá fora e caminho ao redor do quintal. Não há nada aqui fora, com exceção de árvores e grama, um cortador de grama que precisa desesperadamente ser usado e algumas roseiras que parecem que já morreram há muito tempo. Encontro a entrada do lado de fora que presumo ser o porão, e considero ir lá por causa do tédio, até eu pegar Naz me observando da janela da sala de descanso. Seu olhar queima através de mim, então volto para dentro, só para fugir dele, indo para cima e caio na cama, sucumbindo à exaustão e, tirando uma soneca. Quando acordo, o quarto está escuro. É bem após o anoitecer. Minha garganta está seca. Meu estômago ronca ferozmente. Esfregando-o, vou para o andar de baixo novamente. A luz na sala de descanso é a única que está acesa. Eu me dirijo para a cozinha, meus passos vacilam quando encontro uma caixa de comida chinesa colocada no balcão ao lado da geladeira. Ainda está quente quando a pego, e abro a tampa, vejo que é carne Lo Mein sem legumes. Ele pediu isso para mim. É o que eu peço quando ele encomenda comida chinesa. Pego um garfo e começo a comer, a curiosidade me alimentando enquanto ando em direção a sala de descanso. Mais uma vez, faço uma pausa perto da porta e olho para dentro. A televisão ainda está ligada, o canal mudou para alguma competição culinária. Naz está sentado à sua mesa, com os pés para


cima agora. Ele se trocou, vestindo um par de calças de moletom, o que significa que ele veio ao andar de cima, enquanto eu estava dormindo. Seus olhos derivam em minha direção. Eu não fiz qualquer barulho, mas ele parece saber sempre quando estou lá. Ele olha para mim, seu olhar mudando para a comida na minha mão, antes dele se voltar para o seu livro. Parece que uma hora se passou. Poderia ter sido apenas um minuto. O silêncio está me incomodando. Não usei a minha voz durante toda a semana, por isso estou surpresa que ainda funciona quando abro minha boca. "O que você está lendo?" Ele não reage. Ele não parece surpreso que eu falei. Seus olhos ficam colados ao livro até que ele vira a página. "O Príncipe." "O que é isso?" "É Maquiaveli." "Maquiavel." Eu me inclino contra o batente da porta. "Como Tupac?" Risos escapam de sua boca — risos reais — o som alivia o ar da sala. Eu sei quem Maquiavel é, mas não tinha certeza o que mais dizer. Ele tira os olhos do livro, aquelas covinhas profundas em pleno vigor. "Você já leu?" Lentamente, eu balanço minha cabeça. "Todos

veem

o

que

aparenta

ser,"

diz

ele,

"poucos

experimentam o que você realmente é." Eu dou uma mordida na comida. Eu sei que ele está citando O Príncipe, mas maldição se não parece como se ele estivesse falando


aquilo diretamente para mim. "Será que ele tem algum conselho para o que alguém deveria fazer quando veem o que você realmente é e isso o assusta?" Ele fica quieto por um momento, seus olhos se estreitam, como se pensasse antes de responder. "Nunca nada grandioso foi alcançado sem perigo." Eu não digo nada para isso. Fico lá por um tempo, comendo enquanto ele volta para a leitura. Meus pés se cansam eventualmente, e sem sequer pensar, eu entro na sala de descanso e sento à beira do sofá.


Capítulo 24 Naz está dormindo. Ele está de lado, de costas para mim, abraçando um travesseiro enquanto ronca suavemente. É a primeira vez em uma semana que me levantei antes dele. Movo-me silenciosamente ao redor do quarto, colocando a roupa e calçando os sapatos, meus olhos mudando periodicamente para ele para me certificar de que ainda está dormindo. Pego meu celular, jogando-o na minha bolsa, e sigo em direção a porta, quando ouço sua voz. "Indo a algum lugar?" Viro-me para ele, vendo que seus olhos estão abertos agora, olhando-me com desconfiança. "Vou me encontrar com Melody para o café." "É mesmo?" "Sim," eu digo. "Ou, na verdade, para o chá... Chá de menta e chocolate, no café que sempre fomos." "Em Manhattan." "Sim." Ele se senta. "Vou levá-la para a cidade." "Não," digo, levantando a minha mão para detê-lo antes que ele possa sair da cama. "Posso pegar o metrô lá, não há problema. Já fiz isso antes." A verdade é que preciso de um pouco de espaço para respirar, para pensar, sem o cheiro de seu perfume me rodeando, sem a sua


presença ameaçadora na sala ao lado. Ele olha para mim. Duro. É como se ele estivesse tentando decidir se deve ou não confiar em mim, como se eu tivesse lhe dado alguma razão para não. Não dei, porém, e ele parece aceitar isso depois de um momento. "Tenha cuidado, Karissa." "Eu terei," digo, hesitante, olhando para ele enquanto ele se senta lá e me observa. Depois de um momento, afasto-me, caminhando para porta. Chego à cidade alguns minutos mais cedo e entro no café, surpresa em encontrar Paul atrás do balcão. Ele olha para mim, sorrindo. Isso me dá arrepios. "Não sabia que você trabalhava aqui," digo. "Comecei há pouco tempo," diz ele. "O que posso fazer por você?" Peço e pego o meu lugar de costume, mas não toco em minha bebida. Assusta-me um pouco que Paul a tenha feito. A última vez que bebi algo que suas mãos tocaram, acabei caindo na calçada no meio da noite, drogada. Melody chega às dez horas em ponto, levando alguns minutos para flertar com seu namorado antes de se juntar a mim. Ela se senta com um café, e antes que eu possa até dizer olá, ela abre a bolsa e tira um envelope. "Ah, antes que eu esqueça, você tem outra dessas cartas." Eu olho para ela com surpresa, pegando dela. "Quando chegou?" "Ontem." Rasgo o envelope enquanto Melody começa a divagar. Eu retiro o único pedaço de papel e abro, vendo a escrita rabiscada como a última.


Sexta à noite. Meia noite. Encontre na entrada da Washington Square Park. Você tem que ficar longe dele. Deixe tudo para trás. Eu amo você.

"Bem?" Melody diz, estalando os dedos na minha cara. "Você está ouvindo?" Olho para cima, empurrando a carta de volta no envelope. Sexta à noite. Meia noite. Eu não sei como eu poderei sair aquela hora. "Não, desculpe, o que foi que você disse?" Ela repete o que disse, algo sobre Paul. Eu não sei. Ainda não ouço. Minha mente está presa no bilhete, meu estômago em nós. Ainda não sei o que fazer, o que pensar. Nós ficamos aqui por uma hora quando Paul faz uma pausa e se espreme em nossa mesa. Suspirando, olho para longe deles quando eles começam a ficar melosos, meu olhar mudando para a janela. Minha expressão cai, meus músculos tencionam, quando vejo a familiar Mercedes estacionada do outro lado da rua. O filho da puta me seguiu. Eu deveria saber. Estou mais exasperada do que chocada com isso. Agora que sei o seu segredo, ele não vai me deixar fora de sua vista. Ele não vai correr o risco. Ele nem sequer está respirando o mesmo ar que eu, mas de repente sinto como se estivesse sufocando. Eu posso sentir suas mãos em volta da minha garganta, pouco a pouco, tirando a vida de mim. Melody pede licença para usar o banheiro. Assim que ela se afasta, eu me volto para Paul. Eu tenho uma chance de escapar, e preciso encontrar uma maneira de fazê-lo... pelo menos ouvi-los, ouvir o seu lado da história.


É a minha mãe, apesar de tudo. Devo-lhe muito. Talvez a minha vida tenha sido construída em cima de mentiras, mas não há como negar que ela me criou sozinha por 18 anos. O lado de mim que está quebrado, está muito nervoso por esta oportunidade, enquanto a outra metade já está de luto pela perda de um homem que está esperando lá fora. "Eu preciso de uma coisa," eu digo a Paul, minha voz quase um sussurro. "Algo para fazer alguém dormir por um tempo." Seus olhos se arregalam. "Como Valium?" "Mais forte." Ele olha para mim. "Eu não posso conseguir qualquer coisa assim." Dou uma rápida olhada ao redor antes de me concentrar nele novamente. "A primeira noite que Melody lhe conheceu, você lhe comprou uma bebida... Uma bebida que eu bebi... Uma bebida que me nocauteou por metade de um dia. Eu quero o que quer que seja que você colocou nela." "Eu não sei o que—" "Corte a merda, Paul. Não tenho tempo para isso. Você pode conseguir isso?" Ele balança a cabeça lentamente. "Quando?" "Hoje à noite," ele diz. "Eu posso conseguir com um amigo meu." "Eu vou estar de volta esta semana para isso." Ele começa a balbuciar sobre como ele não costuma fazer esse


tipo de coisas, como ele sabe que cometeu um erro, como ele ama Melody e não quer que nada arruíne isso. Não respondo, e ele se cala quando ela retorna do banheiro e retoma seu assento. Levanto-me para jogar a minha bebida fora. Hesitando, retiro a carta e a rasgo em um monte de pequenos pedaços e jogo fora, também. Digo adeus a Melody e Paul, mas eles não me ouvem, muito ocupados se beijando. Considero fingir que não vi o carro de Naz, mas é inútil. Em vez disso, atravesso a rua, dando a volta e subindo direto no banco do passageiro. Ele olha para mim. Não há nenhum pedido de desculpas em sua expressão. "Eu disse que não precisava de uma carona para a cidade." "Eu sei," diz ele. "Mas você não disse nada sobre não precisar de uma para a volta para casa." Semântica.

A noite está caindo, lançando a maior parte da casa em sombras. É triste lá fora, frio e úmido, uma leve chuva caindo, o tempo combinando com sentimentos que se agitam dentro de mim. Estive para lá e para cá o dia todo, no limite enquanto vago pela casa. Não posso ficar parada. Não posso fazer muita coisa. É sexta-feira. Parece que demorou uma eternidade para chegar aqui, mas, ainda assim, chegou cedo demais. Eu não estou pronta.


Não sei se eu alguma vez estarei. "Está com fome?" Naz pergunta, entrando pela porta da cozinha enquanto fico de frente para pia, olhando para o quintal. Ele ainda não me deixou fora de sua vista, mas ele está tentando conversar agora, uma aparência de normalidade. "Eu posso pedir algo." "Na verdade," digo, virando-me para ele, "Eu acho que prefiro cozinhar." Isso o pegou desprevenido. Sinto uma estranha emoção em surpreendê-lo. "Você? Cozinhar?" "Ei, agora," eu digo na defensiva. "Eu posso cozinhar." "Desde quando?" "Só porque não faço isso não significa que eu não possa. Minha mãe me ensinou um pouco." Não é até que as palavras já estejam fora, que percebo o que eu disse. Meus olhos se arregalam, lamentando o fato de que trouxe a minha mãe, como se não falar sobre ela pudesse fazer com que Naz esquecesse que ela existe. Como se a ausência de seu nome em meus lábios pudesse, de alguma forma, salvar vidas. Ele me observa com curiosidade enquanto caminha ainda mais para a cozinha, com as mãos nos bolsos. "Lembro-me de culinária de Carmela," diz ele casualmente. "Ela era boa... Muito melhor do que Maria. Maria poderia queimar uma panela de água com mais nada nela." Maria... Sua esposa? Estou surpresa com a facilidade de suas palavras. Eu não tenho certeza de como responder, como reagir, apenas sussurro, "Ah, é?"


"Tivemos um jantar com eles naquela noite, você sabe," diz ele. "Sua mãe fez lasanha." Eu sempre amei a lasanha dela. Era a minha coisa favorita que ela fazia. Sorrio para isso, mas isso desaparece com a constatação de como a história de Naz vai acabar. "Nós fomos para casa depois, e sua mãe não enviou nenhuma sobra. Penso muito sobre isso nos dias de hoje. Ela sempre enviava as sobras quando jantávamos lá. Mas ela não enviou naquela noite." Ele faz uma pausa a poucos metros a minha frente, olhos fixos nos meus. "Faz-me perguntar se ela não se incomodou porque ela achou que estaríamos mortos pela manhã, de qualquer maneira." Suas palavras enviam um frio por minha espinha. Não quero pensar nisso, não quero acreditar. É tão contraditório com a mulher que me criou para ser gentil, carinhosa e compassiva. "Então, sim," diz ele, "você pode cozinhar, se quiser, mas se é macarrão Ramen, não posso prometer que vou comê-lo." Ele me oferece um sorriso brincalhão antes de sair. Se eu não tivesse confusa antes, tenho certeza que estaria agora. Não faço Ramen. Em vez disso, eu faço macarrão e almôndegas. Não é nada extravagante, nem mesmo caseiro, tudo préembalado. Ok, eu não sou tão boa cozinheira. Coloco dois pratos quando termino, olhando cuidadosamente ao redor para me certificar de que não vou ser pega, antes de tirar da minha bolsa o pequeno frasco de pó branco que Paul me deu. Eu polvilho sobre um dos pratos e descarto as provas antes de misturá-lo com o molho. Ele dissolve-se facilmente. É invisível, sem gosto, e indetectável até que seja tarde demais.


Eu sei disso por experiência. Levando os pratos para a mesa, eu coloco o envenenado na frente do meu assento. Eu conheço Naz. Descobri suas peculiaridades. Ele coloca suas próprias bebidas e ele raramente confia nos alimentos. É um risco, tentando prever o que ele vai fazer, porque se eu estiver errada, eu estou completamente ferrada. Naz se junta à mesa, tomando o seu lugar, enquanto dou uma pequena mordida no spaghetti envenenado, não o suficiente para me nocautear. Ele me olha antes de olhar para baixo, para seu próprio prato com cautela. Ele não diz isso, mas eu sei o que ele está pensando. Pode estar envenenado. Seus olhos encontram os meus novamente, desconfiado, e eu sei que o peguei. Ele chega do outro lado da mesa e agarra meu prato, trocando-os de lugar, apenas no caso. Ele me viu dar uma mordida daquele, então ele sabe que é seguro. Como de costume, ele não oferece desculpas. Eu não espero uma. Semanas atrás, teria rido dele, pensando que era uma brincadeira, que ele estava paranoico, mas entendo agora. Eu sou a filha do homem que assassinou sua família, a filha do homem que quase o matou. Ele pode me amar, mas não acho que ele poderia realmente confiar em mim cem por cento. Não posso dizer que a culpa é dele. Eu não mereço isso. Cada mordida que ele dá, prova isso mais e mais. Não é o suficiente para causar-lhe danos. Apenas o suficiente para fazê-lo dormir para que eu possa sair.


Nós bebemos vinho por minha sugestão. Eu preciso de coragem líquida, e espero que a intoxicação mascare o aparecimento da droga em seu sistema. Certifico-me que ele tenha a sua parcela. Preciso estar lucida o suficiente para ir embora. Ele está sentindo isso, quer ele perceba ou não. O homem que sorri para mim do outro lado da mesa, que fala brincando,

que

me

chama

de

sua

perdição,

lembra-me

surpreendentemente do homem que eu me apaixonei. No entanto quando ele se despe de todas as pretensões, e bloqueia toda a dor e raiva, ele é o que existe lá no fundo. O monstro apenas o ofusca. Quando ele termina, levo os nossos pratos para a cozinha. A culpa está incomodando em meu peito. Já é depois das dez horas. O tempo está passando rápido demais. Eu não estou pronta. Eu não estou pronta. Eu não estou pronta. Enxugo as palmas das minhas mãos suadas e distraidamente arrumo meu vestido. Vesti um dos favoritos de Naz — o vestido vermelho de Vegas. Encho a pia com água e sabão para lavar a louça para passar o tempo quando Naz entra na cozinha. Ele anda por trás de mim, parando rente a mim, sua mão colocada sobre meu quadril enquanto ele me puxa para trás em direção a ele. É mais do que ele me tocou há algum tempo, desde o dia em que eu disse a palavra de segurança bem aqui onde estou. Sua outra mão afasta meu cabelo, e tremo quando sinto sua respiração no meu pescoço. Ele beija a pele enquanto sua mão no meu quadril vagueia para frente, por baixo do vestido, deslizando dentro da minha calcinha.


Não posso evitar. Choramingo com seu toque. Quase sucumbo no primeiro toque leve de seus dedos. Tão gentil, tão natural, sua carícia tão atenciosa. É como se nenhuma das duas últimas semanas tivesse acontecido, e ele esqueceu que alguma vez eu o odiei. Fechando os olhos, tento esquecer, também. Sinto o início de um orgasmo, meus joelhos estão fracos, minha respiração ofegante enquanto aperto a beirada da pia. Ele esfrega, e esfrega, esfrega e um pouco mais, se atrapalhando com o cinto atrás de mim, desafivelando suas calças. A voz na minha cabeça está me dizendo para parar isto, para detê-lo, mas eu não posso. Eu não vou. Talvez eu precise disso tanto quanto ele. Talvez eu precise de mais. Talvez, a outra metade de mim grita, eu só preciso dele. Ele puxa o meu vestido para cima, empurrando minha calcinha de lado. Tão logo que o orgasmo me atinge, prazer explodindo sob minha pele, ele me inclina apenas o suficiente para empurrar para dentro de mim por trás. Eu grito enquanto ele me preenche. Faz tanto tempo. Muito tempo. Ele não é brutal, ele não está jogando um jogo, mas há urgência em suas investidas enquanto ele me golpeia por trás. Um braço envolve minha cintura, a outra mão busca a base da minha garganta, da mesma forma que ele me segurou na rua em Nova Jersey.


O aperto diz "você é minha; você pertence a mim; você sempre pertencerá." Isso diz que eu posso tentar esquecer, mas meu corpo sempre se recordará deste toque. Isso dói. Isso dói. Oh Deus, isso dói pra caralho. Não fisicamente. A ferida é mais profunda, uma cicatriz emocional. Acho que nunca vai se curar, não importa quanto tempo eu dê. Ele toca meu corpo, mas ele rasga a minha alma, arrancando pedaços de mim que agora são dele e só dele. Ele não leva muito tempo antes que eu sinta seus músculos tencionarem.

As

últimas

estocadas

são

profundas,

agonizando,

enquanto ele geme no meu cabelo e goza dentro de mim. Quando ele finalmente acalma seus movimentos, seu corpo cede contra o meu, pesado e saciado, sua respiração ofegante. Estou tremendo, meu corpo treme da cabeça aos pés. Lágrimas picam meus olhos quando ele puxa para fora. Espero que ele ache que é por causa do prazer, e não porque estou tentando desesperadamente não chorar na frente dele. "Você está bem?" Ele pergunta, ajustando as calças enquanto deito contra o balcão da pia, protegendo meu rosto. O Naz confiante soa quase inseguro nos dias de hoje. Não olho para ele enquanto aceno. Eu estou bem, ou eu estarei, eu acho. Ele se inclina sobre mim, beijando meu pescoço mais uma vez enquanto ele puxa meu vestido de volta para baixo, antes de recuar. As lágrimas caem, logo que ele sai da cozinha. Levo uns bons vinte minutos para me recompor. Eu limpo meus olhos e arrumo minhas roupas, cuidadosamente enquanto vou em direção ao escritório.


Ele está sentado à sua mesa, com a cabeça baixa em cima de seu livro. Ele ainda está lendo O Príncipe. Lentamente, passo por ele. Ele já está dormindo. Olho para ele, meus dedos roçando seu queixo, sentindo a nuca, antes de passar meus dedos pelos cabelos. Ele nem sequer se mexe. Espero que ele esteja sonhando, que ele esteja feliz e em paz, mesmo que apenas por um momento, porque quando ele acordar, eu sei que ele vai ficar furioso. "Eu te amo," eu sussurro, embora eu saiba que ele não pode me ouvir. "Eu não deveria... Mas maldito seja, se eu não te amo, de qualquer maneira." Puxando o anel de noivado do meu dedo, eu o coloco sobre a mesa ao lado dele antes de me virar e sair.

Doze horas em ponto. Eu permaneço na entrada do parque, perto do arco enorme, tremendo no ar da noite úmida. Estou me chutando por não trocar de roupa, por não colocar calças. Mas o cheiro de Naz se agarra a essas, a memória de seu toque se misturando no tecido, e eu não estou pronta para deixar isso ir ainda. Meus olhos cuidadosamente examinam o bairro, em estado de alerta, esperando. Um minuto passa. Em seguida, outro. E outro.


Dez minutos vem e vão, em seguida quinze. Começo a entrar em pânico. E se tudo isso foi para nada? Cerca de 20 minutos se passam antes de um carro aparecer na rua, se movendo lentamente até parar bem em frente de mim. É uma BMW preta, cara e nova. A janela do passageiro desce enquanto meu coração dispara. Eu vejo seu rosto. John Reed. Johnny Rita. "Entre," diz ele. Hesito, perguntando-me se cometi um erro, mas não posso saber isso, não até eu ouvir o que eles têm a dizer. Suspirando, subo no carro, recusando-me a olhar para ele. "Você está atrasado." "Sim, bem, eu tinha que ter certeza de que você estava sozinha," diz ele, se afastando. "Não é possível confiar nas pessoas nos dias de hoje." "Nem me fale," murmuro, tentando aplacar a ira que flui através de mim. Este homem poderia ser meu pai, mas isso não faz dele a minha família. Ele é um estranho, e eu não confio nele. "Onde está minha mãe?" "Esperando," diz ele. "Ela estava com medo que você não viria." "Porque a minha vida inteira era uma mentira? Porque não confio em você?" Ele olha para mim. "Porque ela não achou que você fosse capaz de escapar." Ele faz parecer que eu era uma prisioneira, como se eu estivesse presa contra a minha vontade, como se eu não tivesse recebido com satisfação Naz no meu mundo. "Você não sabe nada sobre o que eu tenho com ele. Nenhum de vocês sabe." "Eu sei mais do que você. Você não passa de um meio para


um fim para ele, algo para ele brincar. Ele não é estúpido. Ele está passando o tempo, e você facilita isso para ele. Isso é tudo o que é." Raiva fermenta dentro de mim. Quero pedir que ele pare o carro, que ele me deixe sair, que ele nunca olhe ou fale comigo, mas onde isso me deixa? No frio e sozinha, sem ter para onde ir, e não há mais respostas do que eu descobri. Então, só olho para ele por um momento antes de me virar. "Eu sei o que você está pensando," diz ele. Eu zombo. "Você não sabe nada." "Talvez eu não saiba a pessoa que você é, mas eu sei o que você nasceu para ser," diz ele. "Conheço o seu sangue, menina. Está em minhas veias, também. E eu sei que você está pensando que talvez ele seja um bom homem, que talvez você possa ajudá-lo." Eu não sou um homem bom, Karissa, e eu nunca vou ser. Então, não ache que você possa me corrigir, ou que eu vou mudar, porque eu não vou. Eu não posso "Você está errado," digo em voz baixa. "Ele não pode ser corrigido." "Então por que você estava com ele?" "Porque eu pensei que talvez ele não precise ser." "Ele está fodido, Karissa. Sua cabeça não funciona direito." "Sim, bem, por que você acha isso? Hein? Poderia ter sido a bala que ele tomou no peito?" Ele agarra o volante com força. Ele não gosta que eu retruque para ele. "Há dois lados para cada história." "Então, por favor, por todos os meios, diga-me o seu. Estou morrendo de vontade de ouvir o que lhe compeliu a assassinar uma mulher grávida e quase matar o seu melhor amigo, porque eu tenho


certeza que há uma explicação perfeitamente razoável para isso." Ele

freia

mais

forte

do

que

o

necessário,

o

carro

sobressaltando até parar em um sinal vermelho. Seus olhos se concentram em mim. Ele tem um temperamento, um que eu posso sentir crescendo no carro. Ele me dá arrepios, levantando bandeiras vermelhas que me imploram para fechar meus lábios. Não é inteligente irritar o motorista do carro em que você está. "Ninguém é inocente," diz ele. "Ninguém. Nem eu, nem ele, nem ela, nem sua mãe... Nem mesmo você. Eu fiz o que tinha de fazer para sobreviver no jogo, e, depois disso, eu fiz o que tinha que fazer para você e sua mãe vivessem." "Você nos deixou." "Eu tinha um alvo nas minhas costas, menina. O que diabos você esperava que eu fizesse?" "Não colocasse um alvo em suas costas, em primeiro lugar." Ele ri amargamente, mas não responde a isso. Eu não digo mais nada, olhando para fora da janela. É a mais longa distancia de carro da minha vida, ainda mais do que a viagem para Waterford com Naz, mais de uma hora presa neste carro com este homem enquanto ele nos leva a algum lugar em New Jersey. Em algum lugar que eu nunca estive antes. A casa é modesta, mas muito longe do cortiço que estavam da última vez. É um lar – o lar de alguém, com folhas aparadas e uma cerca branca. Sigo John para dentro nervosamente, encontrando minha mãe sentada em um luxuoso sofá cor de vinho na sala de estar, Killer dormindo no chão perto dela. A televisão está ligada, algum filme está passando, mas tudo que ouço é a voz frenética da minha mãe enquanto ela corre em minha direção. Suas mãos me agarram, seus olhos selvagens. "Você está bem, Kissimmee? Por favor, diga-me que você


está. Por favor, diga-me que ele não te machucou." Ela está à beira das lágrimas. Eu balanço minha cabeça, atordoada, tentando me ajustar ao ambiente. "Não, claro que não. Ele não me machucou. Ele não faria isso." John ri amargamente novamente. "Você tem certeza?" Ela pergunta. "Você pode me dizer se ele fez." "Eu estou bem, mãe. Eu só..." Eu olho além dela, ao redor da sala. É uma boa residência, o perfume das flores que se une ao ar a partir de uma vela acesa. "Quem mora aqui?" "Eu moro," diz John. Viro-me para ele, franzindo a testa. "Há quanto tempo você mora aqui?" Ele parece considerar isso por um momento, assustando-me quando ele enfia a mão no casaco e saca uma arma. Cada músculo do meu corpo congela com a visão, mas ele se vira e a coloca em cima do manto sobre sua lareira apagada antes de se virar para mim. "Quantos anos você tem nos dias de hoje?" "Dezenove." "Cerca de 19 anos, então." Eu pisco rapidamente. "Você viveu aqui o tempo todo? O tempo todo em que estivemos nos mudando, fugindo, você esteve aqui?" "Sim." "Você não vê como fodido é isso?" Ele dá de ombros. Antes que eu possa perder a cabeça completamente, minha


mãe agarra meu braço e me puxa para baixo no sofá com ela. "Eu sei que é difícil de entender..." "Não, é muito fácil, na verdade," digo a ela, levantando a voz tão alto que Killer se anima, levantando a cabeça para olhar para mim. "Você passou anos em fuga por causa de algo que ele fez, e isso não o afetou em nada. Ele tem uma casa, um lar, algo que eu queria toda a minha vida, mas eu não pude ter... Ele tinha. Ele tem isso.‖ Ela lança os olhos para John enquanto ele permanece na sala, transmitindo alguma mensagem silenciosa para ele que eu não entendo. Nada do ódio que quero ver nela está presente quando ela olha para ele. Não, eu vejo alguma coisa em seu lugar. Compaixão. Isso alimenta o meu ódio ainda mais. Ele pede licença em seguida, dando-nos um pouco de privacidade. Assim que ele se vai, ela se vira para mim novamente. "Só porque ele está em um lugar não significa que ele não tenha sido afetado. Ele perdeu sua família." "Ele?" Eu pergunto, incrédula. "Ele perdeu sua família? Ele matou a família de Naz!" "Eu sei," diz ela, suas palavras me golpeiam duramente. Nunca duvidei disso, mas a confirmação é uma pílula difícil de engolir. "Ele matou." "Você sabia?" Minha voz é incerta. Tenho medo de sua resposta. "Você sabia o que ele estava indo fazer, o que ele estava planejando...?" "Claro que não," diz ela, as lágrimas nos olhos irrompendo e escorrendo pelo rosto. "Maria era minha melhor amiga. Se eu soubesse... Se tivesse me dito... Eu o teria parado. Eu teria feito qualquer coisa que eu pudesse fazer a fim de impedi-lo. Mas eu não sabia até que fosse tarde demais, até que tudo estava acabado, até que


ele chegou em casa..." Ela fecha os olhos enquanto se encolhe com a lembrança. "Então, por que você está aqui agora?" Pergunto, minha voz baixa e acusatória. Estou tentando manter a calma, mas não entendo como ela pode se sentar nesta sala, nesta casa com ele. Como ela pode correr para ele depois do que ele fez. "Por que você está perto dele?" "Ele não tinha escolha," diz ela. "Ele teve que... Ele tinha que fazer alguma coisa." "Assim, ele matou uma mulher," eu digo com descrença. "Essa era a sua solução? Ele atirou no melhor amigo. Naz me contou tudo sobre ele, como ele sorriu na cara dele, agiu como se nada estivesse errado, e, em seguida, tentou matá-lo naquela noite." "Vitale

lhe

disse

isso?"

Ela

levanta

as

sobrancelhas,

questionando. "Ele lhe disse que ele estava planejando matar John durante todo o tempo?" "Você não sabe o que você está falando." "Não, você não sabe," diz ela incisivamente. "Vitale pode jogar de vítima na coisa toda, e ele era uma vítima... Ele era... Mas ele não era o único." "Isso não desculpa nada," eu digo. "Você está certa — isso não desculpa. Foi o que aconteceu, e não há nada que se possa fazer para mudar isso. Mas houve mortes suficientes. Muitas mortes. Em vez deles virem em John, depois disso, eles vieram para sua família. Então, ele nos deixou, assim nós poderíamos nos esconder, porque talvez se eles achassem que ele não se importava conosco, eles não se incomodariam de nos matar. Mas não deu certo. É claro que não deu certo. Porque ele nos encontrou." Ela faz uma pausa, olhando para mim. "Ele achou você."


Apenas a encaro. Sempre achei que a minha mãe estava desequilibrada, que ela era desnecessariamente paranoica, mas ela apenas estava tentando ficar dois passos à frente do monstro... Um monstro que eu, sem saber, corri direto no momento em que a deixei. Apesar de suas advertências, fui direto para a cova do leão, servindo-me em um prato, a refeição que ele sempre esteve procurando. Há algo sobre você... Algo que eu tenho procurado por um tempo muito longo. Algo que eu sempre quis. E agora que encontrei, não sei se posso deixá-la ir. Fechando os olhos, abaixo minha cabeça, cobrindo o rosto com as mãos. A verdade estava lá desde o início. É muito para começar a lidar. Minha cabeça está martelando ferozmente. Meu peito parece como se pudesse estourar. Killer aparece em minhas pernas, cutucando-me com o nariz enquanto chora. Envolvo meus braços em volta dele, colocando a minha cabeça contra o topo da sua. Ele nunca mentiu para mim. Ele nunca pensou em me matar. No momento, ele é o único que não pareço odiar. "Eu preciso de algum tempo para pensar," digo. "Algum tempo para processar." Ela esfrega minhas costas suavemente. "Há um quarto de hóspedes no andar de cima. Nós vamos superar este fim de semana e depois vamos." "Ir para onde?" "Tão longe daqui quanto pudermos ir." Essas palavras não fazem nada para me fazer sentir melhor. Ir, eu penso, pode me matar mais do que ficar.


Eu não sou um homem que apenas desiste no meio de alguma coisa. Se eu for mais longe, se eu não for embora agora, eu não vou ser capaz de ir. O quarto é decentemente grande, os móveis de carvalho claro parecem não utilizados. Sem entalhes, sem cortes, sem arranhões na madeira, e se eu tivesse energia suficiente para olhar, apostaria que todas as gavetas da cômoda estão vazias, os lençóis ásperos certamente nunca usados antes. Não consegui elaborar muito no escuro, minha cabeça dói muito para acender a luz quando subo na cama. Apesar da minha exaustão, não consigo dormir, bem desperta enquanto as palavras de Naz rolam repetidamente pela minha mente esgotada. Eu sei que eu deveria deixar você ir, deveria deixá-la se afastar de mim agora, mas eu não posso fazer isso. Eu não posso. O sol nasceu há algumas horas, embora não brilhe, uma cobertura espessa de nuvem cobrindo o céu. A chuva bate contra a janela. Deito na cama, olhando para o teto, ouvindo os ruídos sutis de alguém que se desloca pelo andar de baixo. Meu estômago está roncando. Meu peito está doendo. Eu não consigo tirar a porra da voz dele da minha cabeça. Eu perdi o suficiente, Karissa. Eu não vou perder você também. Faz 12 horas desde que saí de casa. Ele estaria acordado agora, os efeitos da droga há muito tempo fora de seu sistema. Pergunto-me o que ele pensou quando acordou.


Pergunto-me como ele está se sentindo. Pergunto-me o que ele vai fazer comigo. Ouço um leve zumbido enquanto estou deitada. Eu o ignoro no início até parecer que é o meu telefone. Suspirando, pego minha bolsa no chão, vasculhando-a. Olhando para a tela, o meu sangue congela. Naz. Ele está me ligando. Olho para o seu nome até que ele para de tocar. Estou prestes a lançar o telefone de volta na minha bolsa quando vibra novamente. Correio de voz. Sinto-me doente enquanto olho para o aviso. Meus dentes mordem meu lábio nervosamente até que eu não aguento mais. Por mais que me assuste, tenho que escutar. Eu sou masoquista e almejo o som de sua voz. Eu tenho que saber com quanta raiva ele está, o quanto ele me odeia agora ... Tenho que saber que ele está bem. Pressionando o botão, eu trago o telefone na minha orelha. O silêncio me cumprimenta, silêncio tenso, antes que ele exala em alto e bom som e a linha cai. Ele não me oferece nenhuma palavra, apenas uma única respiração. Suspirando, atiro o telefone de lado. Ainda posso ouvir o barulho no andar de baixo. Não estou mais perto de descobrir como me sinto sobre eles do que eu estava ontem à noite, mas não posso mais ficar neste quarto. Arrasto-me lá para baixo, ouvindo alguém se mover na cozinha, o cheiro de bacon flutuando pelo caminho.


Minha mãe está cozinhando. John, por outro lado, está sentado no seu sofá, brincando com a arma. Ele não afasta o olhar enquanto me cumprimenta. "Bom dia." Não há nada de bom sobre esta manhã. O céu está chorando e algo dentro de mim está morrendo. Sem dizer nada, sento em uma cadeira, sem olhar para John. "Nada a dizer, menina?" Eu não tenho nada a dizer a ele. Minha mãe, ao ouvir a voz dele, sai da cozinha. "Oh, bom dia, querida." "Dia." Ainda há nada de bom sobre ele. O dia é um torpor. Tomo o café da manhã, almoço, sacio a atenção da minha mãe, respondo algumas de suas perguntas, e tento fingir que John não está em nenhum lugar próximo. Eu penso sobre Naz. E penso sobre ele. E penso sobre ele um pouco mais. Eu penso sobre ele até que minha cabeça começa a martelar de novo, e meu coração parecer que foi esmagado. "Eu vou para a cama," murmuro, levantando-me. Minha mãe está fazendo o jantar agora e tenta me parar, mas digo que não estou com fome enquanto vou para as escadas. Ela está fazendo lasanha. John pediu. Gostaria de saber se qualquer um deles lembra que é o que eles comeram naquela noite fatídica. Eles agem como se nada estivesse errado, como se fossemos alguma família feliz que tem jantares regulares e conversas normais.


O universo está fodendo comigo. Subo na cama e fecho bem os olhos, esperando que o sono me tire da realidade por um tempo. Esperando

que,

enquanto

eu

estiver

inconsciente,

as

respostas venham a mim.

Algo me puxa para fora de um sono profundo de forma tão abrupta que fico desorientada. Por um segundo, eu esqueço onde estou, a escuridão grossa e pesada no quarto, sufocando tudo. Tap Pisco

algumas

vezes,

tentando

me

ajustar

no

escuro,

enquanto os pelos no meu braço se arrepiam com o barulho. Deito completamente imóvel, forçando meus ouvidos. Eu acho que pode ser Killer, ou estou ouvindo coisas? Tap Eu ouço novamente. Não soa como o cão. Meus músculos ficam tensos. Está ficando cada vez mais alto, crescendo mais perto, contido e metódico. Tap Isso me atinge como uma rachadura no rosto. Passo a Passo. Tap Sento-me ereta, o coração acelerado. Estou em guarda, os olhos

correndo

freneticamente

pela

escuridão,

enquanto

inalo

bruscamente. Mal tenho tempo para piscar quando um perfil está bem na minha frente, como uma sombra negra que paira ameaçadora ao


lado da cama. Um grito borbulha do meu peito, libertando-se, quando a escuridão se desloca. O grito mal perfura o silêncio quando a figura me empurra, sobe em cima de mim para me segurar, uma mão com luva cobrindo minha boca rudemente. Tremendo, pisco os olhos cheios de lágrimas, meu peito queimando enquanto inalo. Um rosto embaçado aparece bem na minha frente,

olhos

escuros

penetrantes

como

punhais,

a

expressão

aterrorizante. Naz. Ignazio. Meu coração está batendo tão forte que tenho certeza que ele pode sentir isso quando me prende na cama. Estou prestes a hiperventilar, apavorada, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Ele só está lá, restringindo-me, olhando com tanta força que nem sequer acho que ele pisca. Algo marca sua pele, uma pequena faixa em seu queixo, com pequenas manchas ao redor de seu pescoço. Quando ele se aproxima, vejo que é sangue. Sangue. Tem a porra de sangue em seu rosto. Soluço na palma de sua mão enquanto a ponta de seu nariz roça no meu. Ele está aqui. Ele me encontrou. Oh Deus, como é que ele me encontrou? "Se eu lhe soltar, você não pode gritar," diz ele, com a voz decidida e sem emoção. "Você entende?" Eu tento acenar. "Eu quero dizer isso," avisa. "A última coisa que você quer


fazer é acordar sua mãe." Minha mãe... Está dormindo. Não está morta. Não está sangrando. Ele puxa lentamente a mão, seu aperto se soltando. Não me movo. Sequer respiro muito alto. Meu Naz está muito longe. O monstro acordou do cochilo movido a drogas. "Você vai se levantar, o mais silenciosamente possível, você vai me seguir lá para fora," diz ele, de fato. "Contanto que sua mãe continue dormindo, vou deixá-la em paz, mas se ela acordar..." Ele não termina esse pensamento. Ele não precisa. O sangue dela será o próximo derramado. Não posso deixar que isso aconteça. Ele me solta quando decide que eu entendi. Estou surpresa que minhas pernas funcionem quando me levanto. Meu corpo treme enquanto tateio no escuro, tentando pegar minhas coisas, toda trêmula e com a língua presa. Estou fodidamente apavorada. Ele me ama, eu digo a mim mesma em silêncio, tentando manter a calma. Ele não vai me machucar. Ele prometeu. A voz está confiante, mas o meu bom senso grita mais alto. Pessoas

se

desapaixonam.

Nem

todo

mundo

cumpre

as

suas

promessas. Coloco os meus sapatos e pego minha bolsa. Ainda estou usando o que eu tinha comigo quando o deixei 24 horas atrás. Um dia inteiro, isso foi tudo que tive, tudo o que tive para ele vir para mim. Eu sempre vou aparecer.


Quando me viro para ele, vejo que ele está me olhando com cautela. Qualquer quantidade de confiança que ganhei por amá-lo esmoreceu enquanto ele dormia na noite passada. Ele está furioso, tudo bem, e eu sou a única que ele vai cobrar por isso. Seus olhos estão cheios de desconfiança. Ele é um comandante, e ele acredita que eu desertei. Qual é a punição para um traidor nos dias de hoje? "Vá," diz ele, apontando para a porta. "Nas pontas do pé." Eu piso levemente, prendendo a respiração enquanto vou para as escadas. Assim que chego a elas, uma outra porta range, se abrindo um pouco. Giro nessa direção, apavorada, e vejo a cabeça de Killer espreitar para fora da outra sala. Ele vê Naz antes de me ver e começa a rosnar. "Killer," eu sussurro freneticamente, chamando por ele, meu coração acelerado. "Está tudo bem, garoto." O cão olha na minha direção, silenciando. Seu olhar salta entre Naz e eu, Killer normalmente passivo está em estado de alerta, como se pudesse perceber que algo está errado. "Karissa, é você?" Quase grito ao som da voz de minha mãe me chamando do quarto. Viro-me para Naz, de olhos arregalados, tentando manter minha voz firme enquanto digo, "Está tudo bem, mãe. Peguei um pouco de água. Volte a dormir." Fico olhando para Naz, meus olhos suplicando-lhe, enquanto Killer caminha de volta para a sala, decidindo que não há nenhuma ameaça. "Boa noite, meu bem," diz ela de volta. "Doces sonhos." "Você, também, mãe."


Espero Naz dar o próximo passo enquanto a cabeça dele se volta para a entrada escura. Depois de um momento, ele se vira para mim, apontando para as escadas. Alívio quase me paralisa quando me viro e volto a andar. Ela está bem. Minha mãe ainda está bem. Está escuro aqui, tão escuro quanto lá em cima. Eu pisco, ainda tentando me ajustar a ele, meus olhos atraídos para a sala de estar quando chego ao primeiro andar. De repente, o ar deixa meus pulmões em uma lufada e eu quase desmorono. Há sangue por toda parte. Mal posso compreender isso na escuridão, um lago de uma gosma preta no chão, um corpo imóvel no centro dela, alguma coisa projetando-se do seu peito. Uma faca. John. Morto. Choro antes que possa me parar. Os braços de Naz me rodeiam por trás, a mão me alcançando, a palma da mão pressionando meu pescoço enquanto seus dedos fortes agarram meu queixo, forçando-me a olhar para longe da confusão. Sua respiração sopra contra mim enquanto ele sussurra, "Não." Não olhe. Não pense. Não respire. Não. Entoo isso na minha cabeça, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto enquanto ele me leva direto para porta da frente. Seu carro está estacionado nas proximidades. Nós não encontramos outra alma viva, e sou grata por isso.


Algo me diz que uma testemunha esta noite não viveria para ver o amanhã. Choro silenciosamente durante todo caminho até o Brooklyn, meu corpo tremendo e dentes batendo. Aperto meu queixo para não fazer qualquer barulho. A bile queima meu peito, minha garganta, queimando minhas entranhas, deixando-me em chamas. Eu quase sucumbo algumas vezes no carro, e Naz não diz nada, a mão enluvada estendendo e segurando a parte de trás do meu pescoço. Seu toque é firme enquanto os dedos massageiam os músculos. Isso alivia a minha dor de cabeça e acalma o fogo ardente dentro de mim, mas eu só choro mais. Por que o seu toque me afeta dessa maneira? Aquelas mãos vingativas mataram um homem esta noite, elas tomaram a vida do outro, e ainda assim elas me acalmam como nada o fez antes. Eu me odeio por isso. Quando chegamos em casa, ele aperta um botão no visor, e a porta da garagem se abre. Ele estaciona o carro antes de fechar a porta novamente, desligando o motor. Ele fica lá, olhando diretamente para fora do para-brisa, com a voz neutra. "Eu deveria matar você." Apesar da minha tentativa de permanecer em silêncio, eu choramingo com essas palavras. "Eu deveria colocar minhas mãos em seu pescoço e roubar o seu último suspiro," ele diz. "Tirar seu sangue, drená-lo até a última gota do sangue imundo de Rita. Você me drogou... traiu-me... Assim você pôde fugir, colocar-se em risco. Você mentiu para mim, quando não fiz nada... Nada... Para feri-la! " Sua voz levanta, raiva se infiltrando nas palavras. "Eu deveria matá-la," diz ele novamente, abrindo a porta.


"Porra, eu desejaria ter coragem para fazer isso." Ele sai, batendo a porta do carro atrás dele, e vai direto para dentro, sem esperar por mim. Eu desmorono assim que ele se vai, soluçando alto e forte, ofegando enquanto tento recuperar o fôlego. Isso corre para fora de mim, purgando como uma inundação, enquanto as lágrimas caem até que meu peito cede à pressão e resta mais nada dentro de mim. Absolutamente nada. Eu me curvo, enroscando-me no assento, perdendo-me na escuridão, em silêncio, até que meus olhos secam por conta própria e os meus músculos param de lutar contra a rigidez, sucumbindo à angústia. Uma hora passa. Ou duas. Talvez seja três. Sinto como se tivesse sido espancada, os meus ossos frágeis e à beira de quebrar quando finalmente saio do carro. Vou para dentro. Não há luzes acesas na casa, e não o ouço, mas pareço saber instintivamente que ele está na sala de descanso. Ele sempre está. Considero subir as escadas, ir a outro lugar, qualquer lugar, mas sou fraca. Eu sou fraca, e estou com medo, mas não sou uma covarde. Posso ter o sangue de Rita em mim, mas isso não é tudo o que eu sou. Sou filha do homem, mas não sou ele. E talvez isso me faça mais forte do que penso. Caminho naquela direção e espio. Não o encontro em sua mesa, como eu esperava. Ele está sentado no sofá, com a cabeça para


baixo, embalada em suas mãos, as luvas descartáveis na almofada ao lado dele, onde se encontra uma pequena pistola preta. Nunca vi isso antes, nem sabia que ele possuía uma arma. Exausta, e aterrorizada, deslizo no chão ali mesmo na porta aberta, recostando-me no batente da porta. Estou à sua mercê agora. "Como

você

soube?"

Minha

voz

é

áspera,

mas

surpreendentemente ainda funciona. "Como é que você me encontrou?" "O seu telefone." Encaro-o na escuridão. "O meu telefone?" "Segui seu telefone. Eu sabia que era só uma questão de tempo antes que você me levasse direto para eles." "Você me usou." Não sei por que dói tanto, mas desperta a minha culpa, como se fosse minha culpa que tudo isso aconteceu. "Você me usou para encontrá-los." "Eu tentei não envolvê-la," diz ele. "Fiz tudo o que podia para não arrastá-la para isso." "Como você pode dizer isso?" "Porque é verdade." Seu tom duro, a insinuação de raiva, está de volta em sua voz, enquanto ele levanta a cabeça para olhar para mim. "Teria sido tão simples forçá-la a me levar a sua mãe, e teria sido fácil me livrar de vocês duas. Poderia ter terminado isto em um dia. Mas então vi você, observei você, e eu percebi..." "Percebeu o quê?" "Que você não tinha ideia de quem você era," diz ele. "Você não tinha ideia de onde você veio. E eu não deveria ter me importado... Não deveria importar... Mas você me fez lembrar de outra pessoa, alguém que morreu por causa de quem seu pai era."


"É por isso que você não pode me matar," eu sussurro, minha voz tremendo. "Eu o lembro dela." "Não, eu não poderia machucá-la, porque você me lembra ela," ele diz. "Eu ainda a teria matado... mas você nunca teria visto isto chegando. Você não teria sofrido, não como ela sofreu. Então fiz tudo o que não pude para envolvê-la, então você nunca saberia. Mandei Santino roubar seus arquivos da escola, eu a segui, procurei endereços, mas sua mãe era inteligente. Se você não tivesse se mudado para cá, se não entrasse na sala de aula de Santino, parecendo exatamente como uma mulher que todos nós costumávamos conhecer, eu provavelmente nunca teria pego o rastro dela." A culpa de um momento atrás acumula até que se torna difícil respirar. "Então por que você não me matou?" "Você sabe por quê." "Porque você se apaixonou por mim." Minha voz é tão baixa que estou surpresa que ele ouve. "Você ainda obteve a sua vingança." "Não, eu não obtive. Eu o puni, em vez disso." "Qual é a diferença?" "Depende para quem você perguntar." "Estou perguntando para você." "Ele não sofreu," diz Naz. "Não tanto quanto eu sofri." Quero dizer a ele que não acho que ele teria sofrido de uma ou outra maneira, mas não acho que vale a pena o esforço. Matar-nos não teria afetado John tanto quanto eu acho que Naz acredita. Nem todos os homens têm os que amam por perto. Se o meu pai pôde tão facilmente ir embora, pôde viver sua vida rodeado por cercas brancas em subúrbios, sabendo que sua família estava lutando para viver, removendo a carga de nós de seu mundo teria sido apenas uma bênção.


Naz sabe disso lá no fundo. Ele mesmo me disse — somente um covarde deixa sua família. Ninguém era mais importante para John que ele próprio. Talvez seja isso que parou Naz, a verdade que meu pai realmente não se importava comigo. Talvez não foi o amor que me salvou. Talvez tenha sido a falta dele. Eu não sei. "Eu odeio você," sussurro. Sinto isso nas minhas entranhas, e não posso negar. Não posso ignorar isso. Estou tão irritada, tão magoada, tão consumida que o ódio parece como lava, estabelecendo-se na boca do estômago. Meu mundo era um céu ensolarado antes dele, uma imagem bonita que minha mãe pintou para mim, e ele pintou tudo de preto com a verdade, salpicando-a com vermelho do derramamento de sangue. Eu odeio isso. Eu o odeio. "Eu sei," diz ele em voz baixa. "Você disse que não iria... Você disse que queria dizer isso... Mas eu sei que você faz." "Mas eu também amo você... Não sei como eu ainda posso. Eu odeio você, mas ainda amo você de alguma forma. É só que... Como eu posso sentir as duas coisas?" "Facilmente," diz ele. "O oposto do amor não é o ódio, Karissa. É indiferença. Você é uma pessoa apaixonada, e ama e odeia... Não é um trecho muito longo de um para o outro. Ambos possuem paixão, alguém ficando sob a pele e a consumindo. E eu a devorei viva, querida. Você nunca teve uma chance." Um arrepio percorre minha espinha quando ele se levanta. Olho-o com cautela quando ele vira para mim, vendo a escuridão à espreita em seus olhos. "O que é que eu vou fazer agora?"


Ele dá um passo em minha direção, enfiando a mão no bolso e puxando alguma coisa. Eu assisto incrédula quando ele joga isso no meu colo, passando por cima de mim como se fosse nada. Eu olho para baixo, piscando com surpresa quando vejo que é o meu anel de noivado. "Você define uma data para o casamento," diz ele. "Isso é o que você faz."


Epílogo Vitale. Ele traça o nome de novo e de novo, a textura áspera de suas mãos deslizando ao longo das minhas costas. É como se ele estivesse me marcando com seu toque, reivindicando-me como sua com a assinatura de seus dedos, um contrato férrea forjado com sangue, suor e lágrimas. Minhas lágrimas, geralmente. Foi quase o meu sangue, também. De acordo com a mitologia grega, as pessoas foram criadas originalmente com quatro braços, quatro pernas e uma cabeça com duas faces. Quatro mãos para tocar com ela. Duas bocas para falar. Temendo o seu poder, Zeus os dividiu em dois seres separados, condenando-os a passar a vida em busca de sua outra metade. Aprendi isso com Banquete de Platão durante o meu tempo na classe de Santino. É um conceito bonito: sua alma gêmea, uma parte de você existente no mundo dentro de outro corpo. As pessoas passam a vida inteira procurando, o único que possa completá-los, mas eu nunca tive que olhar. A minha começou a me perseguir antes de eu nascer. Uma vez pensei que a realidade não poderia ser tão fascinante como a fantasia, mas eu estava errada. Então, muito errada. Pode ser o caso de outras pessoas, mas eles não conhecem Ignazio Vitale. Eles não o encontraram. Eles não viram o que eu vejo em seus olhos. Ele é a minha outra metade.


Talvez as histórias entenderam errado, eu acho. Talvez Cinderela não vive um feliz para sempre. Talvez, quando a meia-noite vem, ela queira fugir. Talvez seu príncipe não fosse deixá-la. O meu não fez. Vitale. Tão logo descobri o que ele está escrevendo ao longo das minhas costas, sua mão deixa a minha carne, a cama movendo quando ele rola, finalmente se afastando de mim. Solto um profundo suspiro de alívio, mas não dura muito tempo. No momento em que ele se afasta, começo a sentir falta do seu toque. Para tanto quanto eu o odeio, eu também o amo. Eu o amo. Eu o amo. E eu odeio isso também. Ele é um monstro, embrulhado em um pacote bonito. Mas me pergunto em momentos como este, quando sinto a distância entre nós, se talvez em seus olhos, o verdadeiro monstro sou eu.


Monster in His Eyes vol. 1 (revisado) - J. M. Darhower