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Copyright © The Smalley Publishing Group, LLC, e Karen Kingsbury, 2003. Edição em língua portuguesa © 2016 por Editora Planeta do Brasil com a permissão de Tyndale House Publishers, Inc. Copyright © Editora Planeta do Brasil, 2016 Todos os direitos reservados. Título original: Redemption Series #2: Remember Coordenação de produção editorial: Ana Paula Felippe Preparação: Cláudia Renata C. Colognori Revisão: Alessandra Abramo Felix Diagramação: Agwm produções editoriais Capa: Adaptada do projeto gráfico original Fotografia da capa: © Klaus Lahnstein/GettyImages, 2002 Ilustração de capa: © David Henderson, 2002 Adaptação para eBook: Hondana Copyright da foto de Karen Kingsbury: © 2009 por dandansphotography.com. Copyright da foto de Gary Smalley: © 2001 por Jim Lersch. Todos os direitos reservados. Todas as citações das Escrituras, a menos se diferentemente indicado, foram extraídas da Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. NIV®. Copyright © 2001, 2005 da Sociedade Bíblica Internacional. Este romance é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos são frutos da imaginação dos autores ou usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com a vida real – acontecimentos, lugares, organizações ou pessoas, vivas ou mortas – é mera coincidência e vai além da intenção dos autores ou da editora.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ Kingsbury, Karen Lembranças / Karen Kingsbury, Gary Smaley; [tradução Valéria Lamim]. - 1. ed. - São Paulo : Planeta, 2016. Tradução de: Remember ISBN 978-85-422-0688-3 1. Romance americano. I. Smaley, Gary. II. Lamim, Valéria. III. Título. CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

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2016 Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA PLANETA DO BRASIL LTDA. Rua Padre João Manoel, 100 – 21º andar


Edifício Horsa II – Cerqueira César 01411-000 – São Paulo – SP www.planetadelivros.com.br atendimento@editoraplaneta.com.br


SUMÁRIO CAPÍTULO 1 CAPÍTULO 2 CAPÍTULO 3 CAPÍTULO 4 CAPÍTULO 5 CAPÍTULO 6 CAPÍTULO 7 CAPÍTULO 8 CAPÍTULO 9 CAPÍTULO 10 CAPÍTULO 11 CAPÍTULO 12 CAPÍTULO 13 CAPÍTULO 14 CAPÍTULO 15 CAPÍTULO 16 CAPÍTULO 17 CAPÍTULO 18 CAPÍTULO 19 CAPÍTULO 20 CAPÍTULO 21 CAPÍTULO 22 CAPÍTULO 23 CAPÍTULO 24 CAPÍTULO 25 CAPÍTULO 26 CAPÍTULO 27 CAPÍTULO 28 CAPÍTULO 29


CAPÍTULO 30 CAPÍTULO 31 CAPÍTULO 32 CAPÍTULO 33 CAPÍTULO 34 CAPÍTULO 35 CAPÍTULO 36


PARA NOSSAS PRECIOSAS FAMÍLIAS, que nos trazem lembranças incríveis e inúmeras chances para nos lembrar. E AO AUTOR DA VIDA, que, por ora, tem nos abençoado com estas coisas.


NOTA DOS AUTORES A série Redenção se passa, principalmente, em Bloomington, Indiana. Alguns dos pontos de referência – a Universidade de Indiana, por exemplo – apresentam-se precisamente em seus verdadeiros cenários. Outros edifícios, parques e estabelecimentos não serão mais que invenções de nossa imaginação. Esperamos que aqueles que conhecem Bloomington e seus arredores se divirtam fazendo a distinção entre os dois. Os cenários de Nova York combinam a observação real com a recriação imaginativa.


AGRADECIMENTOS Além de nossas famílias e maravilhosas equipes de apoio, gostaría mos de agradecer ao bom pessoal da Tyndale House Publishers por compartilhar nosso sonho e visão e ajudar-nos a tornar a série Redenção uma realidade. Agradecimentos especiais a Ron Beers, Ken Petersen e Lynn Vanderzalm pela determinação de ver esta série como tudo o que ela poderia ser e a Anne Christian Buchanan pela colaboração editorial como freelance. Agradecimentos também ao nosso agente, Greg Johnson, da Alive Communications. Greg, você é um construtor de sonhos, um homem talentoso que se permite ser usado por Deus em todas as situações. Esta série não teria acontecido se você não a tivesse apresentado. Obrigada mais de um milhão de vezes. Um agradecimento especial aos homens e às mulheres corajosos do Corpo de Bombeiros de Nova York (FDNY) e do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD), assim como aos inúmeros voluntários que responderam às perguntas no Marco Zero e ajudaram a dar credibilidade a esta história. Sofremos com vocês; oramos com vocês. Sempre faremos isso. Finalmente, agradecimentos a Sherri Reed por permitir-nos passar dezenas e dezenas de horas com pacientes com Alzheimer e por apresentar-nos um mundo de pesquisas e teorias que antes desconhecíamos totalmente. O tempo investido com essas pessoas nos transformou para sempre. Obrigada por seu coração generoso e seu incrível dom para com aqueles que são esquecidos em nosso meio. Oramos para que este livro lance luz sobre as lutas e os problemas enfrentados pelos idosos, especialmente aqueles com Alzheimer.


CAPÍTULO 1 O Dr. John Baxter recebeu as notícias sobre o incêndio no momento em que chegou ao Hospital St. Anne aquela tarde. Uma enfermeira do pronto-socorro sinalizou para ele voltar da ronda; seu rosto estava machucado. — Fique por perto; nós podemos precisar de você. Um bloco de apartamentos está pegando fogo até o chão. Algumas famílias estão presas do lado de dentro. No mínimo, dois mortos. E já estamos com pouco pessoal disponível. John sentiu a agitação familiar da adrenalina, que vinha com o fato de ele trabalhar perto de desastres. Ele trabalhava na sala de emergência apenas esporadicamente – nos verões em que não tinha aulas para dar ou quando um desastre de algum tipo exigisse pessoal extra. Mas, para John, as emoções de uma sala de emergência nunca diminuíam. Era tudo tão agitado e desgastante agora como sempre foi. Ele deu uma olhada para os outros fazendo preparações e então se voltou para a enfermeira. — O que aconteceu? — As sirenes berravam por toda a Bloomington. A enfermeira fez que não com a cabeça. — Ninguém sabe ao certo. Ainda estão trabalhando no incêndio. Eles perderam o contato com dois bombeiros. — Ela fez uma pausa. — Todos temem o pior. Bombeiros? O coração de John foi parar no estômago. Ele a seguiu até os fundos, onde um grupo de pessoal médico estava se preparando para a primeira vítima. — Eles conseguiram os nomes? Dos homens perdidos? A enfermeira parou e se virou. — São do caminhão 211. Isso é tudo o que sabemos até agora. John sentia o sangue lhe fugindo da face enquanto se lançava em uma fervorosa oração silenciosa. Ele orou pelas pessoas que estavam combatendo o fogo e pelas famílias presas no prédio. E pelos homens do caminhão 211 que estavam sumidos. Criou na cabeça a imagem deles, perdidos em um inferno, arriscando a vida para salvar mães, pais e crianças. Ele os imaginou soterrados sob escombros chamejantes ou tendo cortada a comunicação com seus superiores. Então, ele orou por um dos homens do caminhão 211 em particular. Um jovem robusto que amava


Ashley, sua filha do meio, quando os dois eram adolescentes. *** O dinheiro estava acabando. Essa era a razão principal por que Ashley Baxter estava procurando emprego naquela bela manhã de verão – um dia com céu azulado e flores desabrochando, perfeito para a arte criativa. O pagamento acertado no acidente que envolveu seu carro quatro anos atrás estava quase no fim e, mesmo que tivesse pagado a casa à vista, ela e o pequeno Cole ainda precisavam de dinheiro para viver – pelo menos, até que suas pinturas começassem a vender. Ashley suspirou e passou os dedos pelos curtos cabelos escuros. Analisou o anúncio no jornal mais uma vez: “Funcionário para asilo. De preferência com treinamento médico. Salário e benefícios.” Por mais baixo que parecesse, podia ser justamente o trabalho que ela procurava. Ashley ficou sabendo pelo pai que o salário das pessoas que trabalhavam em asilo era, em geral, um pouco mais do que o mínimo. Ela trabalharia principalmente com pacientes com Alzheimer, demência senil ou outras doenças da idade; pessoas incapazes de viver por si mesmas. Ela teria de tomar conta de alguns corpos enrugados, limpar queixos cabeludos e, especialmente, trocar fraldas. O trabalho não era nada glamuroso. Mas Ashley não ligava. Tinha motivos para querer o trabalho. Desde que havia voltado de Paris, tudo em sua vida havia mudado. Ela só tinha 25 anos, mas sentia-se mais velha, exausta e cética. Raramente ria, e não era o tipo de mãe de que Cole precisava. Apesar dos fãs que possuía, a imagem que tinha de si mesma não era boa. Imaginava-se acabada – até mesmo, feia. Paris era parcialmente responsável pela pessoa na qual ela havia se tornado. Mas muita coisa se devia a toda correria desde que havia voltado. A fuga, pelo ponto de vista dos pais, de sua religião cansativa, de suas tentativas de fazer com que ela fosse a mulher que jamais poderia ser. E a fuga de Landon Blake: de suas investidas sutis, mas persistentes, e do previsível estilo de vida que seria forçada a assumir se algum dia se apaixonasse por ele. Qualquer que fosse a razão, Ashley tinha consciência de que algo trágico havia acontecido com seu coração nos últimos quatro anos depois da Europa. Tornou-se frio – mais frio que o vento que açoitava Bloomington, Indiana, em meados de janeiro. E isso, por sua vez, estava afetando sua única verdadeira paixão: sua habilidade para pintar. Continuava trabalhando nisso, continuava pintando algumas telas; no entanto, há muitos anos ela não fazia algo realmente memorável.


Ashley pôs seu capuchino de lado e começou a procurar o endereço do asilo. Além de pôr dinheiro dentro de casa, trabalhar com idosos poderia espantar o profundo frio dentro dela – poderia, até mesmo, derreter o gelo que se acumulou em redor de sua alma ao longo desses anos. Ela sempre sentiu alguma empatia por pessoas de idade, uma quase compreensão. De alguma forma, elas mexiam com um lugar em seu coração de um modo que nada mais conseguia tocar. Ela se lembrou de que estava dirigindo pela cidade uma semana atrás e viu duas senhoras de idade – corcundas, mulheres idosas enrugadas, provavelmente com seus noventa anos – andando de braços dados pela calçada. Elas davam passos cuidadosos e medidos; quando uma começava a escorregar, a outra a segurava. Ashley parou naquela tarde e examinou as duas idosas à distância, pensando que elas dariam um bom tema para sua próxima pintura. Quem eram elas? O que haviam visto em sua vida tão longa? Elas se lembravam da tragédia do Titanic? Será que haviam perdido filhos na Segunda Guerra Mundial – ou teriam, elas mesmas, servido no conflito? As pessoas que elas amavam ainda estavam vivas? Ou viviam próximas o suficiente para irem visitá-las? Elas foram bonitas, indo de um evento social a outro com muitos caras chamando por elas? E choraram por terem se tornado invisíveis, agora que a sociedade já não reparava nelas? Ashley observou as mulheres atravessarem cuidadosamente um cruzamento e, em seguida, congelarem de medo quando o sinal abriu e elas estavam no meio do caminho. Um motorista impaciente apertou a buzina. A expressão no rosto das mulheres ficou nervosa e, em seguida, angustiada. Elas se apressaram, arrastando os pés de tal modo que quase caíram. Quando chegaram ao outro lado, pararam para recuperar o fôlego, e novamente Ashley ficou ali imaginando. Era só isso que restava a essas senhoras: motoristas irritados, impacientes com o passo lento delas e com suas dificuldades físicas? Era essa toda a atenção que elas receberiam naquele dia? O fato mais chocante sobre a lembrança era que, enquanto as perguntas vinham, o rosto de Ashley ia ficando mais molhado. Ela abaixou o retrovisor e contemplou seu reflexo. Algo estava acontecendo com ela, algo que há meses não acontecia. Na verdade, há anos. Ela estava chorando. E foi então que ela percebeu a profundidade de seu problema. O fato era que suas experiências a haviam tornado cética. E, se queria criar uma obra de arte inesquecível, ela precisava de algo mais do que uma tela e um pincel: precisava de um coração terno e quebrantado, capaz de sentir as coisas de maneiras esquecidas por ela há muito tempo. Naquela tarde, enquanto observava as duas idosas, um pensamento ocorreu a Ashley Baxter.


Talvez ela tivesse inadvertidamente tropeçado em um modo de recuperar a suavidade que há muito havia morrido dentro dela. Se queria um coração transformado, talvez precisasse apenas passar um tempo com os idosos. Era por isso que o anúncio no jornal da manhã lhe tinha um apelo tão grande. Ela dirigiu lentamente, olhando o número das casas, até que encontrou a que estava procurando. Faltavam cinco minutos para sua entrevista. Ela parou na calçada, tomando tempo para estudar o lado de fora do prédio. “Casa de Repouso para Adultos Sunset Hills”, dizia a placa. O prédio era na maior parte de tijolo, com algumas seções pequenas de tapume bege e um telhado bastante desgastado e arqueado. O caminho de grama na frente estava bem-cuidado, sombreado nas laterais por um par de macieiras novas. Um amontoado de roseiras lutava para produzir algumas flores vermelhas e amarelas na frente de uma ampla janela à direita da porta. Uma mulher de cabelos grisalhos duros e crespos, com pele flácida, olhou para ela através do vidro empoeirado com olhos nervosos e vazios. Ashley respirou fundo e inspecionou o local mais uma vez. Parecia bom o suficiente, o tipo de instalação que atraía pouca ou nenhuma atenção e servia bem ao seu propósito. Como seu pai chamava casas como esta? Ela pensou por um momento, e o nome lhe veio: Salas de espera do céu. Sirenes soaram à distância, muitas delas. Sirenes normalmente significavam uma coisa: que seria um dia agitado para seu pai. E, talvez, para Landon Blake. Ashley esqueceu o som e se olhou no espelho. Até ela podia ver a semelhança de gêmeas entre ela e Kari, sua irmã mais velha. Fora os olhos de Kari, que eram castanhos enquanto os seus eram azuis, elas eram quase idênticas. Mas as semelhanças paravam aí. Kari era boa, pura e estoica, e mesmo agora, cinco meses após a morte do marido, com uma bebê de dois meses de idade para cuidar sozinha, poderia facilmente encontrar uma razão para sorrir, para acreditar no melhor sobre a vida e o amor. E Deus, claro. Sempre Deus! Ashley mordeu os lábios e abriu a porta do carro. A determinação misturava-se ao ar úmido do verão quando ela pegou a bolsa e se dirigiu até a entrada. A cada passo, ela pensava mais uma vez naquelas duas senhoras de idade, em como ela havia chorado pela condição solitária, isolada e esquecida delas. Quando Ashley chegou à porta da frente, um pensamento lhe ocorreu. A razão pela qual as mulheres tinham sido capazes de aquecer os lugares frios de seu coração, de repente, estava clara. Em todos os sentidos que importavam, ela era como elas.


*** Não havia modo de sair. Landon Blake estava preso no segundo andar em algum lugar no meio do prédio de apartamentos em chamas. Paredes incandescentes queimavam de cada lado dele e, pela primeira vez desde que havia se tornado bombeiro, Landon havia perdido a noção das saídas. Cada porta e cada janela havia sido alcançada pelo fogo. Seu parceiro tinha de estar em algum lugar ali por perto, pois eles se separaram para verificar os cômodos mais rapidamente. Agora, o fogo havia se tornado tão intenso que ele não tinha certeza de que conseguiria encontrar o companheiro a tempo. Landon pegou o rádio do bolso da jaqueta e colocou-o perto de sua máscara de ar. Então, ele virou uma válvula para que suas palavras fossem entendidas. — Socorro! Socorro! Ele colocou o rádio perto do ouvido e esperou, mas só havia o crepitar da estática como resposta. Alguns segundos se passaram, e a voz de seu capitão soou no rádio. —Tenente Blake, relate seu paradeiro. A esperança brilhou no coração de Landon. Ele colocou o rádio perto da válvula na máscara mais uma vez. —Tenente Blake pedindo socorro, senhor. Não consigo encontrar a saída daqui. Houve uma pausa. — Tenente Blake, relate seu paradeiro. O estômago de Landon se contorceu. — Eu estou no segundo andar, senhor. O senhor está me ouvindo? — Tenente Blake, aqui é seu capitão. Informe seu paradeiro imediatamente! — Uma breve hesitação se seguiu. Então, o tom de voz do capitão se tornou urgente. — EIR, entrar no prédio agora! Informar sobre o segundo andar. Repito, EIR, informar sobre o segundo andar. EIR? Landon se esforçou para respirar normalmente. EIR era a Equipa de Intervenção Rápida, os dois bombeiros que aguardavam em estado de alerta em qualquer trabalho para o caso de alguém do pelotão se perder no incêndio. A ordem só podia significar uma coisa: o rádio de Landon não estava funcionando. Seu capitão não tinha ideia de que ele tinha se separado do parceiro ou por onde começar a procurá-lo. Landon passou pelo corredor enfumaçado e ouviu o rádio voltar à vida. Ele o segurou perto do ouvido.


— Isto é um alerta. Temos dois homens presos no segundo andar, e o rádio deles não está funcionando. Unidades de apoio estão a caminho, mas até lá eu preciso de todos no prédio. Vamos! Ele tinha razão: os rádios não estavam funcionando. Deus amado, nos ajude… Landon lutou contra uma onda de medo. Ele havia sido treinado para, em situações como esta, fazer a varredura do ambiente para encontrar vítimas e, em seguida, abrir caminho para fora do prédio. Deveria escolher o lugar mais provável para uma saída e abrir caminho em meio às chamas e aos vidros quebrados. Fazer o que fosse preciso para sair do edifício. Mas Landon havia voltado para dentro do prédio por uma razão: encontrar um menino de cinco anos em um dos apartamentos. Ele iria encontrar a criança, viva ou morta, e tirá-la de lá. Havia prometido isso à mãe desesperada do menino, e ele não tinha a intenção de quebrar a promessa. A fumaça tornou-se mais densa, reduzindo a visibilidade a quase nenhuma. Landon caiu de joelhos e se arrastou pelo chão. As chamas rugiam por todos os lados, enchendo os seus sentidos de calor intenso e fumaça. Não pense nos rádios quebrados. Eles vão me encontrar a qualquer momento. A ajuda está a caminho. Por favor, Deus. Ele ainda tinha seu sistema pessoal de segurança, uma caixa em seu equipamento de respiração que emitia um som agudo no momento em que ele parasse de se mover. Se o sinal funcionasse, ainda havia uma boa chance de seu pelotão localizá-lo. Mas eles teriam de chegar rápido. Se esperassem demais, as vigas do teto começariam a ruir. E então… Landon deu uma olhada pela fumaça com o corpo arfante por causa do calor insuportável e do peso do equipamento. Deus, me ajude. Ele passou rastejando por uma porta do corredor em chamas. Preciso de um milagre. Mostre-me o menino. Bem à sua frente ele viu algo caído no chão – algo pequeno, do tamanho de uma placa de forro ou talvez de um pedaço de parede. Ou uma criança. Landon cambaleou para frente e lá, no fundo de um armário, encontrou o menino e colocou-o nas costas. Ele pôs a luva contra o peito do menino e sentiu que ele subia e descia levemente. A criança estava viva! Landon arrancou a máscara de ar do rosto e apertou-a no rosto do menino. Mudou a máscara de demanda para pressão positiva, forçando uma rajada de ar sobre o rosto da criança. O menino provavelmente se escondeu no armário quando o fogo começou, e agora ali estavam eles – ambos presos. Landon tossiu muito e tentou respirar dentro da jaqueta ao sentir a fumaça acre invadir seus pulmões. Então, ele ouviu o som de coisas desmoronando à sua volta e olhou para cima. Não, Deus, não


agora. Pedaços em chamas do teto começaram a cair! Ele permaneceu sobre a criança e usou o corpo para protegê-la. A centímetros do rosto do menino, ele ficou impressionado com a semelhança. O menino parecia uma versão ligeiramente mais velha de Cole, filho de Ashley. — Aguente aí, amigo! — Landon gritou por cima do barulho do fogo. Ele tirou a máscara do menino por um instante e segurou o nariz da criança, enquanto respirava profundamente o ar precioso. Então, ele rapidamente recolocou a máscara no rosto do menino. — Eles estão vindo buscar a gente. Ele ouviu um som tão alto e violento de algo quebrando que abalou o quarto. Antes que Landon pudesse se mover, um pedaço de teto caiu do telhado e bateu-lhe na parte de trás das pernas. Ele sentiu alguma coisa rompendo profundamente dentro da coxa direita, e a dor se espalhou por seu corpo. Mexa-se!, ele ordenou a si mesmo. Fez um grande esforço e tentou empurrar a viga que estava sobre sua perna. Mas, por mais que tentasse, não conseguia se libertar. Suas pernas estavam presas pela madeira em chamas. — Deus! — A dor se intensificou e ele jogou a cabeça para trás e apertou a mandíbula. — Nos ajude! O bombeiro lutou para permanecer consciente ao abaixar-se sobre o menino mais uma vez. Seu treinamento o havia ensinado a limitar as inspirações, mas seus pulmões gritavam por ar, e ele inspirava de modo profundo. A fumaça estava sufocando-o, enchendo seu corpo de fumaças e gases venenosos que iriam matá-lo em questão de minutos – se os destroços não o sepultassem primeiro. Seu tanque de ar ainda estava meio cheio, então o menino provavelmente estaria respirando bem – enquanto Landon permanecesse consciente o suficiente para compartilhá-lo com ele. O calor era sufocante. O visor do capacete era projetado para derreter com 180 graus – um aviso de que o bombeiro estava em uma situação perigosa. Landon olhou para cima e viu um gotejamento lento e constante de plástico vindo de logo acima da testa. É isso. Não há saída. Ele se sentia desmaiando, caindo no sono. Pegou a máscara mais uma vez, engoliu mais uma lufada de ar e, em seguida, colocou firmemente a máscara de volta no rosto da criança. Mantenha-me acordado, Deus… por favor. Ele quis dizer as palavras em voz alta, mas sua boca não cooperava. Aos poucos, a dor, o ruído e o calor ao seu redor começaram a se turvar. Estou morrendo, ele pensou. Nós dois vamos morrer. E nas sombras de sua mente, ele pensou sobre as coisas de que sentiria falta. Ser marido, um dia,


e pai. Envelhecer ao lado de uma mulher que o amasse, permanecendo ao lado dela ao longo dos anos, vendo os filhos crescerem. Uma lembrança doce e clara lhe veio à mente. Sua mãe, franzindo a testa quando soube de sua intenção de combater incêndios. “Eu me preocupo com você, Landon. Tenha cuidado.” Ele sorriu e beijou a testa dela. “Deus quer que eu seja bombeiro, mãe. Ele vai me guardar em segurança. Além disso, ele sabe o número dos meus dias. Não é isso que você sempre diz?” A lembrança desapareceu quando a fumaça desceu queimando sua garganta novamente. Uma dormência sombria pairou sobre a mente de Landon, e ele foi atingido por uma grande tristeza. Prendeu a respiração enquanto a fumaça sufocava o pouco de vida que restava nele. Ele já não tinha mais forças para forçar nem mesmo uma tossida, para tentar respirar um ar limpo pelo menos mais uma vez. Então é isso, Deus. É isso. Sua morte iminente o encheu, não de medo, mas de uma paz meio amarga. Ele sempre soube dos riscos de ser bombeiro. Aceitou de bom grado todos os dias que pôde vestir o uniforme. Se este incêndio significava que seus dias findaram, então Landon não tinha arrependimento nenhum. Exceto um. Ele não teve a chance de dar adeus a Ashley Baxter.


CAPÍTULO 2 O lugar cheirava à urina e à naftalina. Ashley fechou a porta cuidadosamente ao entrar e olhou ao redor. A porta da frente dava em uma sala muito grande que alinhava quatro poltronas reclináveis desbotadas, três delas ocupadas por mulheres enrugadas de cabelos brancos. A casa era quente, muito quente, mas cada uma das mulheres estava enfiada debaixo de, pelo menos, um cobertor de crochê feito à mão. Ashley viu um velho aparelho de televisão no canto da sala. Uma relíquia, como qualquer outra coisa, pensou. O som seco do diálogo de um programa de entrevistas da manhã agitava os altofalantes cobertos por um tecido. Sobre a TV, um videocassete barato com algumas caixas de fitas de vídeo maltratadas empilhadas ao lado dele. Apenas uma das moradoras estava acordada. Soaram passos, e Ashley se virou e viu uma mulher esbelta de cabelos grisalhos bem arrumados surgir bem perto dela. – Ashley Baxter? Ashley endireitou-se e deu um sorriso. – Sim. – Meu nome é Lu. – A mulher estendeu a mão. O suor pontilhava o lábio superior, e ela estava sem fôlego, como se tivesse passado a manhã correndo de um lado para outro da casa. Os cantos da boca de Lu se levantaram, mas não chega ram a um sorriso. – Sou a dona desse lugar. Falamos ao telefone. – Olhou-a rapidamente de cima a baixo, reparando em seu jeans escuro, na jaqueta de tecido sintético um pouco comprida e nos acessórios bem coloridos. – Você é pontual. Eu gosto disso. – Virou-se e fez sinal para que Ashley a acompanhasse pelo longo corredor. – Esta é a terceira vez que tentamos preencher esta vaga neste ano. – Suspirou, e o som do suspiro foi se arrastando atrás dela como se fossem tragadas. Definitivamente sobrecarregada. Entraram em um escritório nos fundos da casa. Uma mulher robusta de 40 e poucos anos esparramou-se em uma cadeira de plástico laranja. – Esta é Belinda; ela é gerente do escritório. – Lu não pa-rou para apresentá-la, mas avançou pelo escritório até chegar a uma pequena mesa de madeira compensada. A superfície estava repleta de documentos, uma dezena de tamanhos e cores diferentes.


Belinda usava uma calça justa azul-clara e uma camiseta onde se lia: “Nem vá até lá!”. Cruzou os braços e fitou Lu. – Seu anúncio deveria dizer: “Não aceitamos meninas bonitas”. Ashley sentou-se na única cadeira disponível e estreitou os olhos para Belinda. Talvez isso não tenha sido uma boa ideia. – Ah, pare com isso. – Lu estalou a língua no céu da boca. – Dê uma chance para a moça. – As bonitinhas nunca duram. – Belinda debochou olhan-do na direção de Ashley. – Muito peso para levantar. – Uma risada sem nenhum senso de humor veio de sua garganta. – Vamos acabar logo com isso. – Bem. – Ashley começou a se levantar. – Talvez eu deva ir embora. – Bobagem. – Lu balançou as mãos no ar como se esti-vesse espantando um enxame de abelhas. – Não ligue para a Belinda. Ela precisa de férias. Ela precisa de mais do que isso, Ashley pensou. Contudo, manteve-se em silêncio e sentou-se um pouco tensa na cadeira. Lu tirou os óculos bifocais da gaveta da mesa e colocou-os na ponta do nariz. Em seguida, revirou a papelada até que encontrou a ficha de Ashley. – Hummm. – Lu examinou o pedaço de papel. – Sem experiência. – Não, senhora. – Ashley tirou os olhos de Belinda. A entrevista estava indo de mal a pior. Ela não conseguia se imaginar trabalhando para uma infeliz como Belinda. Não é de admirar que elas tenham dificuldade para manter pessoas para ajudar. – Você entende os deveres do trabalho? – Lu entregou a Ashley uma lista impressa. – Os pacientes com Alzheimer, às vezes, deliram. Na Sunset Hills, é nosso trabalho mantê-los com os pés no chão. Em outras palavras, fazemos todo o possível para fazê-los viver no aqui e agora. Ashley deu uma olhada para a lista de dicas e sugestões sobre como trabalhar com pacientes com Alzheimer: Use frases simples. Faça com que se lembrem de onde estão e quem são. Pergunte se eles precisam usar o banheiro. Sugira cochilos diurnos quando eles estiverem... – Você é...? – Lu levantou os olhos para Ashley. – Pintora, certo? A lista caiu no colo de Ashley. Sua paciência estava mais curta que pavio de pólvora. – Sou uma artista. – Ela hesitou. – Na verdade, é mais como um hobby, por enquanto. Belinda riu baixinho. – O que ela quer dizer é que pintura não paga as contas. – Espere um minuto. – Ashley lançou um olhar firme para a mulher intransigente. Era inútil ser


educada. Se o trabalho não fosse dar certo, era melhor que elas já abrissem o jogo. – Você administra esta casa aqui, certo? – Por dez anos seguidos. – Belinda levantou o queixo. Ashley olhou para Lu. – Ela não quer trabalhar comigo. Nós estamos perdendo nosso tempo. – A decisão não é dela. – Lu fitou Belinda. – Sou eu quem contrata... – Olhe – interrompeu Belinda. Cruzou os braços e levan-tou um pouquinho as sobrancelhas. – As pessoas chegam aqui pensando que vão passar o dia assando biscoitos e vendo novelas com a vovó. Não é assim. – Lançou um olhar desdenhoso para Ashley. – A Bonitinha precisa saber dos fatos; só isso. Ashley e Belinda ficaram se encarando, e Ashley levantou-se devagar da cadeira. Então, sem piscar, ela se jogou no chão e fez trinta flexões com determinação. Pelo canto do olho, viu Lu piscar para Belinda. A mulher corpulenta não pôde fazer nada, a não ser olhar para Ashley, de queixo caído. Quando terminou, Ashley se levantou, limpou as mãos na calça e se sentou na cadeira novamente. Não era a primeira vez que seus exercícios matinais compensavam. – Algumas de nós, as bonitinhas – mal havia perdido o fôlego –, são mais fortes do que parecem. Belinda não disse nada, mas Lu pegou a ficha de Ashley e a bateu na mesa. – Quando você pode começar? A raiva queimava ao atravessar as veias de Ashley. Ela mudou sua atenção para Lu. – Eu não disse que iria aceitar o trabalho. – Ótimo. – Lu lançou outro olhar de desdém para sua gerente. – Pense nisso hoje e me dê uma resposta amanhã. Eu gostaria de você aqui cinco dias por semana, das 7h às 15h. – Lu apertou a mão de Ashley e pediu licença. Antes que Ashley pudesse sair, Belinda limpou a garganta. – Olhe, eu... hummm, sinto muito. Precisávamos de al-guém para ontem e... bem, não achei que você pudesse fazer o trabalho. – Deu de ombros. – Vai ver que eu estava errada. Lembranças de todas as outras vezes em que Ashley não correspondeu às expectativas gritaram para ela. Ela queria cuspir na mulher e dizer o que ela poderia fazer com o pedido de desculpas. Calma, Ashley... calma. Apertou os lábios e respirou fundo. – Não se preocupe com isso. Ashley saiu da sala sem se despedir. Ela estava a meio caminho que levava à sala principal quando uma voz rouca de uma das poltronas reclináveis a chamou.


– Querida? Você está indo embora? Ashley parou e se virou. Uma das mulheres de cabelos brancos estava mais aprumada na poltrona, sorrindo para Ashley, chamando-a para se aproximar. As imagens do rosto debochado de Belinda vinham à sua mente, e Ashley hesitou. Eu tenho de sair daqui. Ela atravessou a sala e parou diante da idosa. – Sim. – Um leve sorriso levantou os cantos da boca de Ashley. – Estou indo embora. A mulher estendeu a mão e segurou a de Ashley. Gentilmente, com uma força que tomou emprestada do passado, a mulher puxou-a para perto. A pele de seu rosto estava translúcida, formando pregas delicadas. Seus olhos pareciam vagos devido aos anos, mas seu olhar era direto. – Obrigada pela visita, querida. Venha nos visitar outra vez. As palavras fizeram coisas inesperadas no coração de Ashley. – Sim. – Passou o polegar na mão enrugada da idosa. – Sim, virei. – Meu nome é Irvel. – Oi, Irvel. Eu sou Ashley. – Meu Deus. – Irvel ficou olhando para Ashley e levou a mão trêmula ao seu rosto. Com um toque leve como uma pluma, ela correu os dedos por uma mecha de cabelo de Ashley. – Você tem cabelos muito bonitos. Já disseram isso para você? Ashley sorriu. – Ultimamente, não. – Bem, é verdade. – Irvel esticou-se para olhar para fora, por cima dos ombros de Ashley. – Hank está pescando lá fora. Ele vai chegar a qualquer momento. – Hank? – Meu marido. – Irvel forçou os lábios cansados a darem um sorriso. – Ele me traz aqui para tomar chá. Chá de menta. – Ela conseguiu dar uma piscadela. – Ele gosta de pescar com os meninos. Ele tem muitas histórias de peixe para contar quando volta. Ashley caiu de joelhos e tentou não parecer confusa. – É mesmo? – Ele está mais atrasado do que de costume. – O medo caiu como um véu sobre o rosto de Irvel. – Você não acha que ele se meteu em problemas, acha? – Não, ainda é cedo. A que horas ele costuma... Belinda aproximou-se e colocou as mãos nas coxas dela. – Contando histórias de novo, Irvel?


O sangue de Ashley gelou. O tom de Belinda não era cruel nem mesmo indelicado. Era condescendente, como se ela fosse a mãe e Irvel, a criança distraída. Antes que Ashley pudesse defender a mulher, Irvel sorriu, e uma risadinha nervosa saiu de sua garganta. – Nós só estávamos falando sobre Hank. – Os cantos de sua boca voltaram ao lugar de antes. – Ele está... ele está mais atrasado do que de costume. Belinda baixou o queixo e ergueu as sobrancelhas. Dando tapinhas nas costas de Irvel, disse: – É hora de seu cochilo, mocinha. Ashley percebeu os músculos tensos na mandíbula de Irvel. – Ela não parece cansada. – Ashley desviou os olhos de Belinda e olhou para Irvel. – Nós estávamos tendo uma conversa agradável, não é verdade? – Sim – disse Irvel batendo de levinho na mão de Ashley. Seu rosto relaxou um pouco, e ela parecia grata por ter Ashley como aliada. – Nós estávamos falando sobre as histórias de peixe de Hank, certo? – Certo. – Ashley inclinou a cabeça e sorriu para a mu-lher mais velha. De alguma forma, em seus poucos minutos juntas, Ashley sentiu uma ligação com Irvel, o tipo que tinha esperança de encontrar em cada um dos residentes se estivesse disposta a aceitar o emprego. Ashley lançou um olhar de advertência para Belinda, mas manteve seu tom de voz inalterado. – Eu quero ouvir tudo sobre Hank. – Sim, bem... – Belinda bufou e revirou os olhos de um modo não completamente maldoso. Em seguida, baixou o rosto de maneira que ficasse a poucos centímetros de Irvel. – Faz quinze anos que Hank morreu, Irvel. Lembra? O coração de Ashley foi ao chão. Hank estava morto? A ficha caiu. É claro! Esses eram pacientes com Alzheimer. Ashley queria chorar. Teria feito qualquer coisa para proteger a mulher preciosa ao seu lado do lembrete cruel de Belinda. – Não. Não... isso não é verdade. – Os olhos de Irvel se encheram de terror, e ela começou a fazer que não com a cabeça em movimentos pequenos e irregulares. – Hank está pescando. Ele me disse hoje de manhã. Antes do chá. Os olhos de Belinda se arregalaram, o tom de voz enfastiado e levemente sarcástico, como se ela e Irvel tivessem essa conversa todas as manhãs. – Não tem chá nenhum, Irvel. Você vive em uma casa de repouso e faz quinze anos que Hank morreu.


O pânico juntou-se às emoções que devastavam a expressão de Irvel. – Mas... – Ela olhou para Ashley, desesperada para obter ajuda. – Minha amiga e eu acabamos de tomar chá juntas. Hank sempre me leva para tomar chá com minhas amigas quando ele vai pescar. – Seus olhos imploravam pela ajuda de Ashley. – Não é verdade, querida? Ashley passou a olhar para Belinda quando as palavras de Lu voltaram à sua mente. Fazemos todo o possível para fazê-los viver no aqui e agora. Os olhos de Belinda desafiavam Ashley a encontrar uma resposta aceitável para a idosa. Ashley encarou Irvel novamente. – O chá estava maravilhoso. Devemos fazer isso de novo qualquer dia destes. – Sim. – A paz inundou os olhos de Irvel, suavizando as rugas em sua testa. – Isso seria ótimo. – Tanto faz. – Belinda deu uma risadinha sem graça entre os dentes e saiu em direção à cozinha. Irvel tocou nos cabelos de Ashley novamente. – Alguém já disse para você, querida, que tem cabelos muito bonitos? Curtos, mas muito bonitos. – Obrigada, Irvel. – Ashley apertou de leve a mão da mu-lher. – Agora, se você me dá licença, tenho de cuidar de alguns assuntos. Irvel acomodou-se na poltrona e fez que sim com a cabeça, prendendo o olhar de Ashley. Um sorriso de satisfação se formou em seu rosto. A mulher parecia tirar forças de Ashley. – Tudo vai ficar bem, não é? – Sim, Irvel. – Ashley olhou para a alma de Irvel por trás das cataratas esbranquiçadas. – Tudo vai ficar bem. Completamente à vontade mais uma vez, Irvel voltou sua atenção para a TV. À sua volta, as outras mulheres continuavam a dormir em paz. No momento em que a situação parecia estável, Ashley entrou na cozinha ao lado e encontrou Belinda esfregando uma panela. – Preciso falar com você. – Ashley apontou para o corredor. Belinda revirou os olhos, mas secou as mãos em um pano de prato e seguiu Ashley até um lugar onde Irvel e as outras não pudessem ouvi-las. – Onde está Lu? – Ashley cruzou os braços. – Ela está ocupada. – Belinda foi prática, faltando pouco para ser grossa. – Diga a ela que aceito o emprego. – A velha Irvel sensibilizou você, hein? – Faltava pouco para a expressão de Belinda ser um sorriso de escárnio. – Bem. Aceite o trabalho. Mas, não apareça aqui toda arrogante, achando que vai socorrer Irvel. – Belinda baixou o queixo, o sarcasmo desapareceu. – Às vezes, a vida é difícil. Descobri isso no dia em que meu marido me abandonou. E daí? Esqueça. Não pude estudar muito


quando era jovem, por isso, trabalho aqui. Difícil, né? Ralo todos os dias para ganhar a vida. A vida é assim. Fez uma pausa, o olhar firme. – Já ouviu falar de Vicodin? Ashley fez que não com a cabeça. Por que Belinda estava lhe dizendo isso? Para compensar sua atitude de antes? – Vicodin acaba com a dor. Tenho de tomar dia sim, dia não, só para sobreviver. Esse foi o resultado por trabalhar com esses velhinhos queridos e doces. Ter de levantá-los na hora do banho, colocá-los sentados em uma cadeira, pegá-los no chão. Isso vai matá-la aos poucos. – Ela prendeu uma respiração rápida. – Então, não pense que você vai ser uma espécie de salvadora. Pessoas como o velho Hank morrem. A vida é assim. Quanto mais os pacientes aqui entenderem isso, melhor para todos nós. E é por isso que Irvel e as amigas dela precisam ter os pés no chão no momento. É o que as famílias delas desejam e isso faz parte do trabalho. Se você não gosta, talvez deva pensar em outro tipo de emprego. Ashley pôde pensar em uma dezena de respostas inteligentes, mas não estava com vontade de discutir. – Vou me lembrar disso. Belinda deu um passo para trás. – Direi à Lu para ligar para você com o cronograma. Ashley sentiu os músculos do rosto relaxarem. Assim que Belinda se virou e voltou para a cozinha, Ashley percebeu que não estava mais com raiva da grandalhona. Teve pena dela. E, em algum lugar nos becos de sua alma, embora não orasse com frequência, Ashley implorou a Deus para que os pacientes da Sunset Hills a ajudassem a se lembrar do que era importante na vida. Para que eles não endurecessem seu coração como haviam feito com o de Belinda. Mas, em vez disso, que pudessem revivê-lo.


CAPÍTULO 3 As chances de sobrevivência de Landon Blake quase não existiam. Pouco antes do meio-dia, ele foi levado à sala de emergência, o corpo musculoso e alongado imóvel na maca. Estava inconsciente, sofrendo de sérios problemas por inalação de fumaça, uma perna fraturada e as costas queimadas. Uma linha fina ao longo da calça do uniforme derreteu-se na parte posterior de sua coxa. John Baxter estava esperando por ele no pronto-socorro. – Deus, nos ajude – sussurrou quando viu o nível de oxigê-nio no sangue de Landon. – Vamos precisar de um milagre. Paramédicos, amigos de Landon, levaram-no para uma sala de tratamento e cuidadosamente levantaram-no para colocá-lo em uma cama. John rapidamente deu ordens enquanto a equipe médica começava a se movimentar. – Tirem o uniforme dele, mas tenham cuidado. O tanque de oxigênio estava pronto, e John colocou uma máscara no rosto de Landon. – Aguente firme, Landon. Vamos lá. Não era comum atualmente um bombeiro sofrer por causa de problemas sérios de inalação de fumaça. Afinal, Landon provavelmente tinha o equipamento de respiração. A menos que, por algum motivo, não o tivesse usado. O tratamento foi administrado por meio de um ventilador mecânico que bombeava ar para Landon, introduzindo ar limpo e úmido misturado com remédios em seus pulmões em uma tentativa de limpar a fumaça e os produtos químicos. Mas, danos causados por um incêndio, muitas vezes, eram gravíssimos para que o tratamento surtisse efeito. A primeira hora era crucial. Os números vermelhos brilhavam em um monitor. Minutos depois do resgate, o nível de oxigênio no sangue de Landon era de 70% – praticamente insuficiente para sobreviver. Os paramédicos entubaram-no imediatamente, mas, mesmo naquele momento, o nível de oxigênio era perigosamente baixo. Ele teve queimaduras leves na garganta, mas, milagrosamente, seus exames de sangue não mostraram grave intoxicação por monóxido de carbono. Um paramédico jovem e robusto aproximou-se de John e fitou Landon. – Nós... nós não podemos perdê-lo, doutor. Ele é o melhor naquilo que faz.


John observou o médico e viu medo no rosto dele. Por um instante, manteve os olhos parados; em seguida, voltou a olhar para o corpo ainda imóvel de Landon. Cruzou os braços com firmeza sobre o peito. – Conheço Landon Blake desde que ele era um menino. – John apertou os lábios, o queixo trêmulo. – Não vou perdê-lo. Houve silêncio por um instante, e o paramédico tossiu. – Como está o menino? O que chegou antes de Landon? – Ele está bem. – John olhou para o monitor de oxigênio. Oitenta e nove... oitenta e oito... Vamos lá, Landon, respire! – O menino sofreu uns danos por causa da fumaça, mas nada grave. – John lançou um olhar para o paramédico. – É incrível, de verdade. Ele ficou no meio do fogo durante o mesmo tempo que Landon. Uma fumaça assim normalmente mata primeiro as crianças. – Então, você não sabe? John inclinou-se sobre a cama de Landon. – Não sabe o quê? – Foi Landon. Ele deu a máscara de ar que estava usando para o menino. Ele salvou a vida do menino. – O paramédico soltou um suspiro forte. – Quando os bombeiros encontraram os dois, Landon estava inconsciente, desfalecido sobre o menino como se fosse um escudo. Ele tinha coberto a própria boca com a gola do uniforme. Ao que tudo indica, foi isso que salvou a vida dele. De algum modo, ele conseguiu usar o peso do braço para manter a máscara de ar no rosto do menino. A descoberta caiu sobre John como um bálsamo. Enquanto o menino respirava com o tanque de ar de Landon, ele respirava fumaça – uma fumaça espessa, venenosa e mortal. John olhou para o monitor novamente. Noventa... oitenta e nove...seria preciso um milagre. – E o outro bombeiro, o que estava com Landon? – Ele saiu sem um arranhão. – Bom. – John fez um pequeno sim com a cabeça. – A próxima hora será crítica. O paramédico concordou, muito emocionado para conseguir falar. Segurou a mão de Landon e a apertou. – Respire, amigo. – Engoliu em seco, o queixo trêmulo. – Nós precisamos de você. Durante muito tempo depois que o paramédico saiu, John ficou ao lado de Landon, monitorando o nível de oxigênio e certificando-se de que as queimaduras do bombeiro estavam sendo cuidadas. Elas não estavam tão ruins quanto havia imaginado a princípio – provavelmente eram mais


queimaduras provocadas pela fumaça do que qualquer outra coisa. O material à prova de fogo de que eram feitas as calças do uniforme de Landon só deve ter derretido nos últimos segundos. Havia queimaduras apenas em uma pequena região na parte posterior das coxas e algumas manchas na parte mais baixa da coluna. Elas podiam até cicatrizar sem enxertos de pele. Landon precisaria de uma cirurgia para reparar a perna quebrada, mas era uma fratura simples. Poderia ter sido pior. Além disso, não eram as queimaduras nem a perna quebrada de Landon que preocupavam John. Eram os pulmões comprometidos. No final da primeira hora, o oxigênio de Landon havia atingido os 90% – não era o que John queria, mas estava melhor do que antes. Pelo menos, Landon estava vivo. Assim que pôde se afastar, John ligou para casa e contou à esposa o que havia acontecido. – Ah, John... não! – A preocupação na voz de Elizabeth era a mesma que sentiria se a notícia tivesse sido sobre um de seus próprios filhos. – Ele vai escapar, não é? – É muito cedo para dizer. – John estava ansioso para vol-tar para o lado de Landon. – Vai contar para Ashley? Ela precisa saber. Naquela altura dos acontecimentos, os pais de Landon, seus parentes distantes e seis bombeiros haviam chegado ao hospital. Um por um, eles vinham visitá-lo, orar por ele, incentivá-lo a aguentar firme. John esperava que Ashley recebesse logo a notícia. Tinha a impressão de que a presença dela poderia significar mais para o jovem do que todas as outras visitas juntas. Duas horas se passaram, depois três, sem nenhum sinal de Ashley. John examinava Landon sempre que podia, e, por volta das 16 horas, o medidor de oxigênio mostrava 93%. Ainda não estava bom, mas estava melhor. No final do turno de John, um repórter do jornal local telefonou. – Soubemos que o bombeiro ferido deu a máscara de ar que estava usando para uma criança, certo? – Sim. A criança está bem e terá alta pela manhã. – John firmou a voz. – O estado do bombeiro é crítico. Saberemos mais amanhã. – Então, o bombeiro é um herói. – Sim. – John sentiu um nó na garganta. – Não havia dúvi-das disso. Seus esforços altruístas salvaram a vida do menino. No momento em que a entrevista terminou, John dirigiu-se para seu carro. Tinha de encontrar Ashley. O nível de oxigênio de Landon estava muito baixo para manter o cérebro vivo, muito baixo para manter a consciência, especialmente diante do fato de que ele estava em um respirador. Com a


ajuda mecânica, os números de Landon deveriam ter chegado quase aos 100%. Se não melhorassem logo, talvez Landon não passasse daquela noite. E se passasse... John estremeceu ao pensar em Landon confinado a uma cama, vivendo o resto dos dias com o cérebro danificado, em estado vegetativo. Onde quer que estivesse Ashley, ela precisava ir ao hospital. Precisava deixar que Landon ouvisse sua voz, precisava dizer que estava torcendo por ele, cuidando dele. Ou, pelo menos, dar-lhe adeus antes que o tempo acabasse para ambos. *** Kari Baxter Jacobs, a segunda filha de John e Elizabeth, estava sentada no canto da sala dos Baxter, balançando a filha, Jessie. Ela e a bebê tinham ido visitar uma amiga, e fazia uma hora que Kari não tinha notícias de Landon Blake. Assim que chegou à casa dos pais em Clear Creek, ao sul de Bloomington, a casa estava cheia de pessoas orando para que Landon sobrevivesse. A irmã mais nova de Kari, Erin Hogan, o irmão delas, Luke, e a namorada dele, Reagan Decker, estavam sentados na sala, silenciosos e tristes. Todos pensando nos lugares onde pudessem encontrar Ashley. Kari tirou os olhos da bebê e se voltou para sua mãe. – Ela deixou Cole com você hoje de manhã. Ela não disse a que horas voltaria? Um suspiro escapou dos lábios de Elizabeth. – Era para a entrevista acabar ao meio-dia. Eu pensei que ela viesse direto para casa. – É a cara de Ashley – disse Luke, sentando-se no chão e encostando as costas nos joelhos de Reagan. Kari tinha visto os dois ficarem próximos nesses últimos meses e tinha conversado com Luke sobre as intenções dele. Não havia dúvida sobre isso: Luke estava apaixonado. E Kari estava convencida de que Reagan se sentia da mesma forma. Luke ainda estava aborrecido com a ausência de Ashley. – Tadinho do Cole lá em cima, brincando sozinho, e você aí presa, cuidando dele o dia todo. De novo – esbravejou ele. – Falando sério, qual é, mãe? Ela podia, pelo menos, ter ligado. – Eu tenho certeza de que ela tem um motivo. – Claro, Ashley sempre tem um motivo. Especialmente quando... Kari deixou de dar atenção aos dois. Não interessava onde Ashley estava nem por que ainda não havia chegado em casa. O que interessava era Landon Blake lutando pela vida, a cada suspiro, uma


incerteza. Kari passou o dedo na pequena testa de Jessie, com a cabeça longe, pensando em outro momento em que esperava notícias de alguém ferido que estava deitado em uma cama de hospital. Os anos se passaram, mas Kari podia ouvir o jogo de futebol na TV nesta mesma sala, ouvir a voz de seu pai chamando por ela. Kari, rápido! Ryan está muito machucado. Suas palavras eram tão nítidas agora quanto foram todos aqueles anos em que Ryan Taylor ficou quase paralisado. Ela estava apaixonada por ele na época e ainda podia imaginá-lo deitado no campo de futebol, e ainda ver a mãe dele perturbada no hospital, mais tarde, naquela noite. Esta lembrança desapareceu e outra mais recente ocupou seu lugar. A lembrança dela e de Ryan no ano passado no lago Monroe, onde, pela primeira vez, ela entendeu a verdade sobre o que havia acontecido muito tempo atrás, depois que ele se feriu. Kari piscou. Desde que o marido, Tim, havia sido assassinado, ela fez todo o possível para não pensar em Ryan Taylor. Simplesmente não era o momento. Ela ainda estava se recuperando da sequência inacreditável de acontecimentos. Primeiro, a notícia bombástica sobre Tim: o caso com uma estudante universitária. Em seguida, descobrir que ela e Tim estavam esperando um bebê. Depois disso, Tim se recusar a conversar com Kari ou a buscar aconselhamento, o que a levou a reacender sua proximidade com Ryan Taylor. E, finalmente, a sua decisão, e a de Tim, de fazer o que era necessário para que o casamento deles desse certo. Ela se lembraria para sempre do rosto de Tim, de seu carinho por ela na última manhã de sua vida. Eles realmente conseguiram se aproximar de novo, depois de toda a dor. Quem teria imaginado que tudo acabaria de forma tão trágica, tão sem sentido? Um admirador obsessivo. Um garoto fanático da faculdade, usuário de esteroides, que estava decidido a se casar com a amante de Tim. Como ele pôde atirar em Tim do lado de fora do apartamento dela, quando a única razão pela qual Tim tinha passado lá era para dizer a ela que não poderia mais vê-la, para afirmar que estava apaixonado por Kari e sempre estaria? Não houve horas de tensão no hospital à espera de notícias sobre Tim. Ele nunca teve a chance; chegou morto. Jessie mexeu-se e deixou a mãozinha cair sobre o braço de Kari. – Tudo bem, querida. Mamãe está aqui. – Kari olhou para a filha, admirada com a forma como a bebezinha em seus braços a havia ajudado a passar por tudo aquilo ao longo dos últimos meses.


Ela sabia que não devia insistir nas lembranças terríveis da morte de Tim nem deixar por muito tempo seus pensamentos às margens de tudo o que havia compartilhado com Ryan Taylor. Como sempre, em se tratando de Ryan, o momento não era oportuno. Ryan estava em Nova York, como técnico do Giants, realizando um sonho de longa data. E ela estava aqui, em Bloomington, uma viúva de luto aprendendo a ser uma mãe sozinha. Mas, agora, com Landon no hospital, Kari não podia deixar de lembrar. E talvez não houvesse problema algum nisso. Se nunca superasse o passado, nunca permitisse que as feridas de seu coração se curassem, ela nunca seria capaz de seguir em frente. A porta da frente rangeu. O pai de Kari apareceu rapidamente e observou a sala. – Onde ela está? – Ashley ficou o dia todo fora. – Elizabeth levantou-se, e Kari viu quando os pais se abraçaram. – Como ele está? O olhar de seu pai foi desolador. Quando ele olhou para cima, Kari podia ver o cansaço em sua alma. – Talvez ele não consiga passar dessa noite. O nível de oxigênio está... Antes que ele pudesse entrar em detalhes, todos ouviram a porta da frente se abrir novamente. Dessa vez, era Ashley. Kari viu os olhos da irmã se arregalarem quando ela parou de repente e entrou na casa. Ela não faz a menor ideia do que aconteceu, pensou Kari. Em seguida, sem hesitar, Kari percebeu uma oração nos corredores de sua mente. Aconteça o que acontecer com Landon, use isso, Deus, por favor. Use isso para ajudar Ashley a crer em ti novamente. Ashley tirou a jaqueta devagar. – O que está acontecendo? Olhou ao redor da sala, e seus olhos pararam no rosto angustiado do pai. Luke moveu-se para frente, equilibrando-se na beira do sofá. Mesmo irritado, ele parecia bonito. Lembrava Robert Redford quando era jovem, só que mais alto. Mas, tinha poucas coisas boas para falar sobre Ashley desde que a irmã tinha voltado de Paris para casa. – Que legal você perguntar. Ashley virou-se e olhou para Luke, com uma expressão que era mais de surpresa do que de raiva. – O que você quis dizer com isso? Elizabeth colocou a mão no ombro de Ashley. – Estamos esperando você há horas, querida. Eu estava preocupada. Por um instante, a boca de Ashley ficou aberta.


– Eu disse que não sabia a que horas voltaria. – Sim – concordou a mãe. – Mas você disse que a entre-vista acabaria ao meio-dia. – Sim, por isso fui resolver umas coisas. – Ashley gesticulou para os outros que estavam espalhados pela sala. – O que é isso? Algum tipo de intervenção à louca e irresponsável da Ashley? Seu pai limpou a garganta e deu um passo para frente, segurando os ombros de Ashley com as mãos. – Landon está ferido. Ele ficou preso em um incêndio hoje pela manhã. – Sua voz estava cheia de emoção. – Ele inalou muita fumaça. Nós não... não temos certeza se ele vai conseguir sair dessa. Desde que eram adolescentes, Kari ficava imaginando quais eram os sentimentos de Ashley por Landon Blake. O pobre rapaz andava atrás de Ashley ano após ano, e tudo o que conseguia com seus esforços era apenas uma amizade. Quando ele voltou para casa depois da faculdade, nada havia mudado. Ele ainda estava determinado a amá-la, e ela estava igualmente determinada a ficar longe dele. Toda vez que Kari perguntava sobre Landon, Ashley negava sentir alguma coisa por ele. – Ele é muito previsível, dizia ela. – Muito parecido com mamãe e papai. Mas, agora, depois de ouvir a notícia de que ele estava ferido, os verdadeiros sentimentos de Ashley estavam mais cristalinos que a água. Ela o amava. A profundidade do medo e do desespero em seus olhos diziam muita coisa a Kari. Ashley passou os dedos nos cabelos e se mexeu, agitada. – Eu pensei que eles usassem máscaras de ar. – Ele deu a dele para um menino. Ele salvou a vida da criança. Por um instante, ela pareceu paralisada. Então, como se tivesse despertado para a realidade, ela recuou. – Eu tenho que ir até lá. – Ashley pegou a jaqueta nova-mente. – Posso vê-lo? – Ele está na UTI; vou ligar e pedir que deixem você entrar. – Ele se inclinou para frente e abraçou Ashley firmemente por um instante. – Ele precisa de você, Ash. Os olhos de Ashley brilhavam quando ela olhou ao redor da sala. – Orem por ele, tá? – Engoliu em seco, as mãos trêmulas. – Ele... ele ama muito a Deus. Deus vai ajudá-lo. Eu sei que vai. – Diga ao Cole que o vejo mais tarde – disse ao se virar para a mãe. – Vou ficar lá até quando permitirem. Elizabeth fez que sim com a cabeça. – Ligue para nós.


– Ashley... – O rosto de seu pai disfarçava a grande preo-cupação.– Corra, querida. Por favor, corra.


CAPÍTULO 4 Ashley sentia o coração na garganta até chegar ao quarto de Landon. Então, era como se não sentisse mais o coração. Havia tubos pelos braços de Landon, e uma máscara quase cobria o rosto dele. A perna estava enfaixada e tinha quase o dobro do tamanho normal, e ele estava apoiado em um dos lados para evitar pressão nas coxas e nas costas queimadas. Uma máquina fazia sons de respiração ritmados, forçando o ar a entrar em seus pulmões. Ashley fez uma careta para o sobe-e-desce mecânico do peito de Landon. Fora isso, ele estava deitado imóvel em meio aos bipes e ao zumbido de máquinas. Ela se sentou em uma cadeira que já estava ao lado da cama e ficou olhando para ele. Como isso tinha acontecido? Nunca houve incêndios perigosos em Bloomington. Nem uma única vez Ashley cogitou a possibilidade de que o trabalho de Landon pudesse realmente prejudicá-lo de alguma forma, muito menos custar a vida dele. Vamos, Landon. Acorde. Olhou para ele, desejando que ele se movesse. Durante todo o tempo que conhecia Landon, ela havia segurado a mão dele apenas duas vezes. A última vez tinha sido há séculos, muito antes de ela ir para Paris. Mas, aqui, nesse momento, Ashley sentiu que ele precisava de seu toque tanto quanto ela, do dele. Hesitante, estendeu a mão e segurou os dedos inertes da mão direita de Landon nos seus, com cuidado para não mexer no dispositivo intravenoso. Lágrimas caíam de seus olhos, e a imagem de Landon ficou embaçada. Ela se levantou da cadeira para aproximar mais o rosto do dele. Ao falar, sua voz foi um pouco mais alta que o zumbido suave das máquinas que o mantinham vivo. – Eu sempre achei que você estivesse bem seguro. – Correu o polegar sobre a mão de Landon. – Você foi louco. Olhe para você agora. Algo pareceu se mexer no pé da cama. Era o pé de Landon? Ashley ficou olhando fixamente para os dedos dos pés dele salientes debaixo do cobertor. Um minuto se passou, depois dois, mas nada. Seu pai tinha razão; Landon estava inconsciente. Se não começasse a respirar sem a ajuda dos aparelhos, se os níveis de oxigênio não melhorassem, talvez ele não conseguisse sobreviver. E se ele morresse? E se ela nunca mais conseguisse conversar ou rir com ele? Durante toda a sua vida adulta, ela soube que Landon era apaixonado por ela, que esperava por ela, mesmo quando ela se esforçava ao máximo para manter a distância entre eles. Ela se lembrou de quando ele foi à casa


de seus pais uma semana antes de sua viagem para Paris. Naquela noite, quando ele se despediu, os dois ficaram por um bom tempo sob o céu iluminado pela lua. – Vou sentir sua falta. – Landon encostou-se em sua Blazer e colocou as mãos nos bolsos, olhando para Ashley com um sorriso torto. Ashley não planejava uma cena sentimental com Landon. Afinal de contas, ele iria para a faculdade nas próximas semanas. Ela queria partir sem nenhum envolvimento romântico em Bloomington, nada que pudesse impedi-la de conhecer a vida em uma cidade que respirava criatividade. Apesar dos dias que tinham compartilhado no ensino médio, eles estavam em busca de sonhos distintos. Ela fitava o cascalho enquanto fazia pequenos círculos com a ponta do tênis antes de responder para ele. – Ei, você vai ficar bem. As palavras de Landon perturbavam seu coração enquanto ela tentava ignorá-las. – Além disso, você estará ocupado com todas aquelas meninas da faculdade. Por um bom tempo, Landon só a observou, como se estivesse tentando memorizar seus olhos, seu rosto. Quando finalmente falou, ele disse algo de que Ashley se lembrava claramente até esse dia. Apenas uma vez, disse ele lhe dando um sorriso triste, apenas uma vez, eu gostaria que você olhasse para mim como se me amasse. Mesmo assim, Ashley se recusou a deixar seu coração se levar, se recusou a reconhecer os sentimentos que sempre teve por Landon. Sentimentos que não eram exatamente amor, mas, é claro, mais profundos que uma amizade comum. Sentimentos de ligação, que a assustavam mais que qualquer paixão. Mas, em vez de deixar que seus olhos refletissem suas emoções mais profundas, em vez de beijá-lo como já tinha feito uma vez, ela fazia uma piada. Empurrava-o, fazia-lhe cócegas ou chutava o pé dele – Ashley não conseguia se lembrar do quê. Mas, em questão de segundos, o clima mudou, e eles voltaram a ficar mais à vontade, brincando, rindo e desejando o melhor um para o outro antes de se despedirem. Uma enfermeira entrou no quarto, e Ashley deu um salto. Constrangida, soltou a mão de Landon e recostou-se na cadeira. A enfermeira cumprimentou-a e checou os monitores colocados em volta da cabeceira da cama de Landon. Ashley acompanhou cada movimento dela, tentando descobrir, pela expressão no rosto da enfermeira, se Landon estava melhorando. – Como ele está? A enfermeira olhou para a prancheta em suas mãos. – Quase a mesma coisa. Precisamos ver uma evolução no nível de oxigênio no sangue antes de


amanhecer. – Seus olhos se levantaram e encontraram os de Ashley. – Você é a namorada dele? – Não. – A resposta de Ashley foi rápida, e, imediatamente, ela se arrependeu. E se Landon pudesse ouvi-las? Ela deu uma risada rápida. – Eu conheço Landon desde que me entendo por gente. Nós somos... nós sempre fomos próximos. – Pode ficar mais dez minutos – disse a enfermeira en-quanto mexia na bolsa intravenosa. – Depois disso, os pais dele querem entrar para vê-lo novamente. – Tudo bem – concordou Ashley. – Posso ficar na sala de espera? Eu quero estar aqui... quando ele acordar. A enfermeira sorriu. – Claro. Quando ela se foi, Ashley se inclinou para frente e segurou a mão de Landon mais uma vez. Ainda não sabia o que sentia por este homem forte e bonito que, de alguma forma, sempre a fazia se sentir sufocada. Se ele estivesse acordado, ela não teria mais promessas para ele agora do que naquela noite de verão antes de ir para Paris. Mas, aqui, vendo-o lutar pela vida, sem ter certeza se teria a chance de falar com ele novamente, Ashley tinha certeza de uma coisa. Ela amava Landon Blake. Amava-o com uma força que lhe tirava o fôlego. O estranho disso tudo era que admitir que o adorava não mudava nada. Não mesmo. Era estranho poder se preocupar tanto com alguém e, ainda assim, ter certeza de que essa pessoa era completamente errada para você. E, no entanto, a ideia de perdê-lo... Ashley prendeu a respiração. Talvez isso evitasse os soluços que se formavam em seu coração. Durante toda a sua vida, as pessoas machucaram-na, ignoraram-na ou interpretaram-na mal. Mas, Landon, não. Ele a amava de forma decidida, acreditou nela muito tempo depois de ela ter deixado de acreditar em si mesma. Mas, apesar de toda a bondade dele, de todas as vezes em que ele se afastou quando ela precisou de espaço ou sorriu quando ela mereceu seu desprezo, tudo o que ela sempre lhe deu foi tristeza. Lágrimas deslizaram por seu rosto, e ela deixou a cabeça se apoiar na grade da cama. Seu tempo estava quase acabando, e Ashley sabia que talvez não tivesse outra chance. Fechou bem os olhos e levantou a cabeça, esperando que, quando os abrisse, Landon estivesse acordado, sorrindo para ela, prometendo-lhe que ele iria sobreviver. Em vez disso, ele continuou parado como uma pedra, o peito ainda se levantando de acordo com o ritmo da máquina. Ela deu um suspiro hesitante e curvou-se para perto do ouvido dele.


– Landon, sou eu, Ashley. – Três pequenos soluços tenta-ram escapar, e ela hesitou, esperando até que tivesse o controle mais uma vez. – Fico pensando em todas as vezes que você me fez sorrir. Quando você me levou aquelas histórias em quadrinhos bobas na escola e me levou para passear de barco. Quando você apareceu na apresentação de Cole e quando ficava me observando em todos os lugares, como naquela lanchonete ou no supermercado. Outras lágrimas queimaram suas bochechas. Respirou duas vezes rapidamente e tentou achar a voz. – Lembra quando você disse que queria que eu olhasse para você como se o amasse? Ashley engoliu outros soluços com a manga da jaqueta na boca. – Desculpe... Desculpe por nunca ter dito isso antes. – Firmou a voz. Ele merecia saber a intensidade de seus sentimentos. As palavras que ele queria ouvir tinham de ser ditas. Agora. Caso ele não conseguisse sobreviver. Caso ele nunca... Ela não conseguiu terminar o pensamento. – Eu amo você, Landon. Sempre amei. – Deu outro sus-piro. – Eu ainda não... – Queria acrescentar que ainda não queria nenhum romance com ele, mas se conteve. De que adiantaria? Ele estava inconsciente mesmo. Mas, caso ele pudesse ouvi-la, ela queria que ele soubesse que ela se importava. – É só isso. – Outro soluço apertou-lhe a garganta, e ela esperou que ele passasse. – Eu queria dizer isso para você antes que mais um minuto se passasse. Assim que as palavras saíram de sua boca, Ashley sentiu como se seu coração tivesse criado asas. Não, ela não estava apaixonada por Landon. Mas, se fosse possível medir o amor pelo quanto uma pessoa se importava, então, na verdade, ela amava Landon profundamente, e ter dito isso a ele tirou um peso terrível de cima de seus ombros. Tudo relacionado a quem ela era e ao modo como apreciava este homem, de repente, viveu e irrompeu dentro dela, como se ela estivesse, de alguma forma, presa e, agora, estivesse finalmente livre. Era um sentimento tão maravilhoso e delicioso como uma manhã de Natal. E, em meio à confusão da UTI, nos momentos que lhe restavam com Landon, ela teve a súbita certeza de que ele iria sobreviver. Ela pensou em Irvel e no trabalho na Sunset Hills. No modo como seu coração já estava mais leve. Sim, ambos iriam sobreviver. – Todo mundo está orando por você, Landon. – Ela fun-gou duas vezes. – O garoto que você procurou no incêndio está muito bem. Você salvou a vida dele. – Levou a mão de Landon aos lábios e a beijou. – Você vai sair dessa, Landon. Eu sei. – Ela apertou a mão dele com ternura. – Eu vou estar


aqui quando isso acontecer. *** A enfermeira-chefe da UTI de plantão naquela noite estava preenchendo o prontuário de um paciente na mesa quando uma bela jovem se aproximou dela. Quando ela se aproximou mais, a enfermeira pôde ver que ela estava chorando. – Eu sou Ashley Baxter. Filha do Dr. Baxter. – A mulher bonita apontou para o corredor. – Eu estava com Landon Blake. A família pode vê-lo agora. Acho que eles estão em alguma sala privada por aí. – Ela batia levemente o dedo na mesa. – Por favor... se houver qualquer mudança, vou estar na sala de espera. A enfermeira fez que sim com a cabeça. – Vou chamá-la. – Ela mordeu o lábio. Se essa era a filha do médico, então ela já sabia que seu amigo bombeiro estava em um grave perigo. – Seu amigo tem o melhor médico de Bloomington. Ashley Baxter conseguiu dar um breve sorriso. – Obrigada. Quando a visitante se foi, a enfermeira pegou o prontuário de Landon e voltou rapidamente ao quarto dele. A última vez que ela havia checado, seu nível de oxigênio no sangue ainda estava pouco mais de 90%. O respirador estava ajudando, mas era claro que os pulmões dele estavam lesados. Talvez de forma irremediável. A enfermeira entrou no quarto e parou de repente, com a boca aberta. O homem estava mexendo os dedos da mão direita. Ele estava saindo do coma! Isso só podia significar uma coisa. Ela lançou os olhos no monitor perto da cama. O nível de oxigênio estava nos 97%. Noventa e sete! De algum modo, seu corpo encontrou a força para inspirar muito mais ar do que antes. Ela ficou olhando para o número e viu quando ele subiu para 98%. Não conseguia se lembrar de outra ocasião na qual tinha visto um paciente se recuperar tão rapidamente. O que a filha do médico disse ou fez enquanto esteve aqui? Sem esperar mais, a enfermeira correu para encontrar a família de Landon e dar a notícia. Em seguida, procurou Ashley Baxter. Ao encontrá-la, ela percebeu o medo natural nos olhos da jovem. – Ele está... ele está pior? A enfermeira-chefe sorriu. – Não. O nível de oxigênio subiu. Ele está acordando.


O medo desapareceu, e, em seu lugar, ela viu a esperança, a alegria e o alívio diante de um cenário de algo radiante, agradável e inegável. Algo que falava de honra e de uma vida de lembranças. Algo que já tinha visto o suficiente para poder reconhecer. E, nesse instante, a enfermeira-chefe soube por que a presença dessa mulher tinha afetado de modo tão profundo o homem ferido. Era claro que ele sentia algo por ela, sentia coisas profundas o suficiente para que a voz dela tirasse os pés dele da porta da morte. Qualquer que fosse o relacionamento deles, os olhos da mulher contavam, pelo menos, metade da história. A filha do Dr. Baxter estava apaixonada por Landon Blake.


CAPÍTULO 5 Ashley espalhou a última camada de glacê sobre o bolo de aniversário de Erin e tentou controlar suas emoções. Não era hora de se entregar ao desespero. Seus pais dariam uma festa para Erin, e toda a família estaria aqui. Ashley mordeu o lábio e colocou uma fileira de velas no bolo. A casa dos Baxter era o último lugar onde ela queria estar. Se tivesse um pingo de juízo, ela teria ficado em casa essa noite, sentada perto da janela e revendo seus sentimentos ou feito uma pequena pintura. Em toda a sua vida, não conseguia se lembrar de um momento mais esgotante emocionalmente que as últimas 48 horas. Mas, tinha prometido à sua mãe que ajudaria na organização da festa e não iria deixá-la na mão agora. Respirou fundo e colocou o bolo no centro da bancada. Cole ainda estava tirando uma soneca, e a casa estava silenciosa. Os outros só chegariam em uma hora ou pouco mais que isso. Ela simplesmente teria de pensar aqui. Como as coisas entre ela e Landon tinham ficado tão tensas? Ashley tirou uma pilha de pratos do armário e começou a arrumar a mesa. Em um minuto, havia a terrível possibilidade de perdê-lo, a ideia de que nunca mais poderia vê-lo. No minuto seguinte, ela havia sentido a maravilhosa alegria de estar em pé ao lado da cama de Landon, rodeada pela família dele, segurando a mão do bombeiro enquanto o pai dele agradecia a Deus pelo fato de ele ter sobrevivido. E, em algum momento desde então, os muros que há tanto tempo protegiam seu coração em relação a ele ficaram mais altos e mais impenetráveis do que nunca. Às vezes, ela não queria nada mais que se sentar com Landon, incentivá-lo sobre seu restabelecimento e recuperar os velhos tempos. Mas, em outras, queria desesperadamente fugir. Desde que Landon havia recuperado a consciência, Ashley sentia uma obrigação subentendida. Como se, de alguma forma, no tempo que ele levou para abrir os olhos e começar a falar, ela tivesse se tornado, indiscutivelmente, sua namorada. Tudo tinha sido tão simples naquela primeira noite. Ela o amava, e não houve perguntas. E ela não tinha do que se arrepender por expressar seus sentimentos para ele naquele hospital. Como teria sido terrível para ele morrer sem saber como ela se sentia! Contudo, esses sentimentos não mudavam as coisas entre eles. Agora que ele estava acordado, os problemas que sempre existiram entre eles pareciam mais terríveis do que nunca. Eles eram muito diferentes, com pontos de vista sobre a vida, a fé e a família


muito distintos para que pudessem, um dia, ser um casal. Além disso, Ashley tinha um emprego novo. Na segunda-feira, ela se apresentaria para o serviço e começaria a trabalhar com Irvel e as amigas na Sunset Hills. Ao mesmo tempo, Ashley pretendia aprender algo sobre o coração humano, sobre as emoções que havia enviado para o exílio enquanto esteve em Paris. Quando não estava trabalhando, ela precisava cuidar de Cole, mesmo que, às vezes, pensasse que ele preferia ficar com seus pais. E, então, havia suas pinturas. Se quisesse, um dia, deixar sua marca como uma artista séria – algo que tinha toda a intenção de fazer –, ela precisava dedicar mais tempo à sua arte. Tudo isso significava que ela não tinha espaço em sua vida para Landon Blake, ainda que todos os outros parecessem pensar o contrário. Especialmente sua irmã Kari, que sempre acreditou na força do amor – mesmo agora, nesses últimos cinco meses em que seu marido infiel jazia morto no túmulo. Mas, por que Kari não deveria acreditar no amor? Ela havia perdido o marido, mas tinha Ryan Taylor à mão, quisesse acreditar nisso ou não. Ele podia viver a mil quilômetros de distância, mas estava esperando – Ashley não tinha dúvida disso. Mesmo depois de tudo o que havia acontecido com Kari, saber que Ryan estaria ao seu lado e que os dois eram perfeitos um para o outro, com certeza, tornaria as coisas mais fáceis. Com certeza, iria incentivá-la a seguir em frente com a vida, pois Ryan Taylor era, definitivamente, um homem por quem valia a pena seguir em frente. Ashley pensou no dia em que ela e Ryan passaram o dia juntos em dezembro passado. A saída para almoçar, a conversa que tiveram. O beijo. Por melhor que aquela tarde tivesse parecido na época, foi um erro. Ryan não a amava; ele amava Kari. Isso ficou óbvio pelo modo como o dia acabou. Ashley respirou fundo. A despedida rápida de Ryan naquela noite fez a temperatura do coração dela despencar dez graus, mesmo sabendo que ele estava certo em ir embora. Ela nunca contou a ninguém o que tinha acontecido. Como pôde? Kari era a única de suas três irmãs que ainda se importava com ela. As outras meninas Baxter – Brooke e Erin – poderiam estar em outro planeta, apesar de toda a proximidade que tinham com Ashley. E Luke era pior. Por mais que tivessem sido próximos na infância, o tempo de Ashley em Paris havia mudado todas as coisas entre eles. Agora, seu irmão era pouco mais que um estranho – um estranho malvado e crítico. Seu mundo antes girava em torno desta casa de campo espaçosa, de seus pais e do irmão e irmãs com quem tinha crescido, mas, agora, Ashley sentia pouca ligação com qualquer um deles. Todos eles queriam que ela fosse como Kari, mesmo que nunca tivessem manifestado isso. Queriam que ela


desistisse da pintura e seguisse com a vida – do modo como eles achavam que sua vida deveria ser. O que, naturalmente, significava frequentar a igreja, ser voluntária na Associação de Pais e Mestres, fazer pão como a mãe, ser uma mãe muito melhor do que era no momento. Além disso, se pudesse dar um jeito, voltar a estudar e conseguir um emprego de prestígio e com bom salário na área médica, como o de Brooke, ou um glamoroso, como o de Kari como modelo. Tudo isso, além de um casamento gratificante com alguém como Landon Blake. A verdade era que eles queriam que ela visse Landon como o restante deles via: um homem com o mais profundo senso de integridade e compromisso, um homem que poderia ser um pai para o pequeno Cole se ela, ao menos, permitisse, um homem que era disputado por todas as mulheres solteiras de Bloomington, mas que só tinha olhos para Ashley. Eles simplesmente não conseguiam ver o que Ashley via: que Landon Blake não era o homem certo para ela. Apesar de seu trabalho, ele era muito seguro, muito previsível. Bom demais. A vida com ele não seria outra coisa senão infelicidade para ambos. Além disso, a própria ideia de passar sua vida com Landon – ou com qualquer outro homem, na verdade – era suficiente para fazer seu coração disparar de ansiedade. O acidente de Landon a tinha ajudado a expressar seus sentimentos para ele, mas isso não mudou os fatos. Embora adorasse Landon, ela não era apaixonada por ele. Não mesmo. Não do modo como ele queria que ela fosse. Ashley conferiu o congelador para ter certeza de que havia oito litros de sorvete para a festa. Os potes estavam lá, claro. Sua mãe não se esqueceria de um único detalhe. Aniversários eram eventos especiais na família Baxter. Até mesmo o de Ashley. Eles podiam não concordar com sua decisão de abandonar os estudos para trabalhar em tempo integral, com sua falta de fé ou com o tempo que ela passava longe do filho, mas ainda assim comemoravam seu aniversário. Ashley voltou devagar para a cozinha e tirou uma dúzia de copos do armário. Foi tomada por uma sensação de medo quando pensou em visitar Landon mais tarde. O clima entre os dois agora parecia denso, carregado de tensão. Quase forçado. Assim como parecia ser quando ela estava no último ano do ensino médio e Landon a convidou para sair. Na época, a ideia de ter um namorado firme e de um futuro previsível começou a sufocá-la. Só havia uma explicação possível para o súbito mal-estar entre eles: Landon tinha ouvido o que ela disse naquela noite em que estava em tratamento intensivo. Se isso fosse verdade, se ele pudesse facilmente se lembrar de cada palavra que ela disse, então, talvez estivesse esperando que dissesse de novo, agora que ele estava acordado. Talvez ele não


tivesse entendido o tipo de amor a que ela se referiu. Nesse caso, o silêncio de Ashley sobre o assunto deve tê-lo confundido. Claro que se ela pôde fazer uma declaração de amor enquanto ele estava à beira da morte, ela poderia fazê-la agora que ele estava se recuperando, certo? Pelo menos, talvez fosse assim que Landon estivesse vendo as coisas. Da frente de casa, Ashley ouviu vozes e deixou de lado seus pensamentos sobre Landon. Além disso, ela não era a única filha Baxter que parecia com dificuldades. Kari já tinha derramado sua parcela de lágrimas no ano passado. E, ultimamente, Erin não estava sendo a pessoa que era também. Ela estava mais calma, mais retraída. Talvez Erin e Sam precisassem de férias agora que as aulas tinham acabado. Erin era professora de jardim de infância. Depois de um ano inteiro, ela deveria estar deprimida por ter de se despedir de seus alunos. Especialmente por não poder ter filhos. Um período de férias poderia dar a Erin uma perspectiva completamente nova. Qualquer que fosse o problema, Ashley queria que a festa de aniversário de Erin fosse divertida. E, enquanto as pessoas chegavam e começavam a encher a casa, Ashley resolveu ocultar suas preocupações sobre Landon. Esse não era o momento de examinar o quebra-cabeça de suas emoções à procura de peças que se encaixassem. Ela iria ao hospital depois do jantar. Mas, essa era a noite de Erin. Os sentimentos de Ashley por Landon, quaisquer que fossem, teriam de esperar até o fim da festa. *** Kari entrou na cozinha e jogou a bolsa sobre a mesa. – Ei, Ash. – Arregaçou as mangas. – Precisa de ajuda? – Claro. – Os braços de Ashley estavam cheios quando ela apontou o queixo para a bancada. – Pegue aqueles guardanapos, tá? Kari fez o que lhe foi dito e seguiu Ashley para a sala de jantar. – Onde está a mamãe? – Ela subiu para dar uma olhada em Cole. Eu estava indo fazer isso, mas ele provavelmente iria querer que ela estivesse por lá. Kari ignorou o tom defensivo da irmã. Pôs os guardanapos na mesa. – Algum sinal de Erin e Sam? – Ainda não. – Hummm. – Kari continuou a andar atrás de Ashley ao redor da mesa, colocando os guardanapos


em cada lugar. – Estou preocupada com ela. – Eu também. – Ashley arrumou os copos em frente dos dois últimos pratos. – Ela está diferente. Uma vez que a mesa estava pronta, Kari deu uma olhada rápida no timer do fogão. Sua mãe tinha feito frango assado com abóbora, e Kari mal teve tempo suficiente para preparar a mamadeira de Jessie antes do jantar. Qual era o problema com Erin? Ela estava grávida? Essa era a razão de sua recente mudança de humor? Ou será que ela e Sam estavam tendo problemas? Qualquer que fosse o problema, Kari esperava descobrir essa noite. Mediu o leite em pó e acrescentou água morna, agitando a mamadeira enquanto ia para a sala. Passava um jogo de beisebol na TV, e seu pai segurava Jessie no colo. – Posso dar mamadeira para ela? Kari sorriu diante da cena de seu pai e filha juntos. John Baxter era um médico realizado, respeitado por seus pacientes e colegas, mas, sentado ali com Jessie, parecia um menino implorando centavos numa loja de doces. – Sim, pai. – Kari entregou-lhe a mamadeira. – Mas o estô-mago dela não está bom. – Kari arreganhou os dentes. – Não diga que eu não avisei. Ele levantou Jessie e encostou o nariz no dela. – O vovô não tem medo de caca na barriga, né? – Deu uma olhada para Kari. – Além disso, se eu pude dar mamadeira para você, posso dar para ela. Você ainda tem o recorde das sujeiras nessa idade. – Ah sim, os bons e velhos tempos. – Sua mãe entrou na sala, segurando Cole, sonolento, pela mão. Cole se espremia na lateral da perna de sua avó, claramente ainda indisposto para conversar. Kari bagunçou o cabelo dele, e ele respondeu com um sorrisinho. – Você poderia fazer a salada, Kari? – Sua mãe sorriu en-quanto se sentava e colocava Cole no colo. – Já que o vovô e a vovó estão ocupados com assuntos mais importantes. Kari riu tanto que parecia sentir cócegas em sua garganta, e ela se divertiu com a sensação boa que isso causou. De forma muito lenta e irregular, ela estava recuperando o sentido da vida, do amor e do riso. Lembrou-se de um versículo que o pastor Mark tinha citado em um sermão recentemente: A alegria do Senhor é a vossa força (Neemias 8.10). Era verdade; ela era a prova viva. Quanto maior a alegria que surgia em seu coração, mais forte ela se sentia. E quanto mais pudesse acreditar, ela, de alguma forma, sobreviveria, a despeito de todas as coisas que haviam acontecido e da confusão e anestesia emocional que ainda pareciam escurecer a maior parte de seus dias.


Em questão de minutos, o jantar estava pronto, e toda a família Baxter se reuniu em torno da velha mesa de carvalho. Ao longo dos anos, seus pais acrescentaram duas pranchas de madeira para que ela ficasse longa o suficiente para acomodar a família que estava aumentando. Brooke e o marido, Peter, sentaram-se em uma das pontas com as filhas Maddie, de 4 anos, e Hayley, de 2 anos. Do outro lado da mesa estavam Luke e Reagan e, ao lado deles, Erin e Sam. Ashley e Cole sentaram-se na outra ponta com Kari. E, no meio, juntos como sempre, estavam seus pais. Ao terminar a oração, o pai virou-se para Ashley. – Landon está indo muito bem. Uma das enfermeiras me disse que você tem aparecido por lá todos os dias para vê-lo. Ashley olhou para o monte de abóbora em seu prato e concordou com a cabeça. John, rapidamente, pôs os outros a par do estado de Landon. – Sinceramente, não pensei que ele passasse daquela pri-meira noite. Nunca vi ninguém sobreviver àquele tipo de lesão nos pulmões. Kari ficou observando Ashley e sentiu a dor de sua irmã. Naquela manhã, mais cedo, elas falaram sobre os sentimentos dela por Landon. De algum modo, na confusão de sentimentos em que queria que ele sobrevivesse, Ashley temia que, sem querer, tivesse dado a ele a impressão de que estava apaixonada por ele. – Coitadinha – disse-lhe Kari. – O quê? Não é comigo que estou preocupada; é com Landon. Ele precisa se concentrar em melhorar, não se preocupar com alguém que o machuca desde a adolescência. – Não é isso que quis dizer. Kari sorriu carinhosamente para ela. Ashley piscou. – Não entendi. – Você não vê – disse Kari. – Ver o quê? A conversa tinha acontecido na casa de Kari. Ashley estava sentada no chão e abraçava os joelhos junto ao corpo. – Você deu a Landon a impressão de que está apaixonada por ele porque você está. Ashley negou com todas as suas forças. Mas, Kari estava convencida do contrário. O momento não era oportuno, isso era certo. Ashley ainda estava tentando descobrir quem ela era. Mas Kari não tinha dúvidas de que, quando Ashley deixasse de lutar contra os sentimentos dela,


a verdade seria óbvia. E que, um dia, Landon Blake ocuparia outra cadeira em volta da mesa de jantar dos Baxter. Mas, agora, com os outros observando a reação de Ashley, esperando que ela compartilhasse algo sobre Landon, Kari sentia pena dela. Passou o braço em volta dos ombros da irmã e sorriu. – Ashley tem um emprego novo. Vocês já sabem? A conversa começou com os idosos da Casa de Repouso Sunset Hills, passou para as escapadas de Maddie, Hayley e Cole e chegou às frustrações compartilhadas pelos médicos da família de que o banco de sangue estava com o menor nível de todos os tempos. Quando o jantar estava quase no fim, Erin olhou para Sam e deu-lhe um sorriso rápido. Como se fosse uma deixa, ele limpou a garganta e empurrou a cadeira para longe da mesa. Segurando a mão de Erin, ele examinou os olhares dos que estavam à sua volta. – Erin e eu temos um anúncio para fazer. Imediatamente, Kari sentiu uma agitação. Um anúncio de Erin e Sam só poderia significar uma coisa: eles iriam ter um bebê! Isso explicaria as recentes mudanças de humor de Erin. Ela provavelmente estava tendo enjoos matinais. Sim, só podia ser isso. Kari examinou a irmã mais nova. Outro bebê na família! Como isso seria maravilhoso! Sam estava praticamente radiante, mas... Kari voltou sua atenção para Erin. Se ela conhecia bem a irmã, não havia alegria nos olhos de Erin. Havia dor e tristeza, do tipo que não poderia estar associado à gravidez. Kari ficou ansiosa. Uma vez que todos ficaram na expectativa, Sam continuou. – Recebi uma oferta de emprego no Texas. – Ele mal podia conter o entusiasmo. – Em Round Rock, nos arredores de Austin. Vou gerenciar uma divisão duas vezes maior que a que gerencio hoje. A grana é boa, e a gente vai poder comprar a casa que sempre quis. – Ele sorriu rapidamente para Erin. Seu sorriso ficou um pouco amarelo quando percebeu que o entusiasmo dela não era recíproco. – A gente... eu queria que vocês fossem os primeiros a saber. Por um instante, ninguém disse nada. Sam provavelmente está se perguntando o que há de errado com a gente, pensou Kari. Uma família normal estaria animada dando os parabéns. Mas, o marido de Erin não conhecia muito bem os Baxter se pensasse que levar Erin para o outro lado do país iria deixá-los eufóricos. Lágrimas encheram os olhos de Erin e ela deu de ombros. – E aí? – Um som que mais parecia uma risada que choro saiu por entre os lábios dela. – Vocês não vão dizer nada?


Elizabeth foi a primeira a se recuperar. Os cantos de sua boca se levantaram até o meio do caminho, e ela pôs o guardanapo no prato. – Isso é maravilhoso, Sam. Texas é um bom lugar para se viver. – Sim. – O pai levantou-se e estendeu a mão por cima da mesa para apertar a de Sam. – Você tem um futuro muito brilhante pela frente, Sam. A gente sempre soube disso. – Uau! – Ashley passou a mão na do pequeno Cole. – Quando vocês partem? – Não vai demorar muito. – Sam foi rápido para respon-der. – Nesse outono, provavelmente. – Ele sorriu, algo que Erin não tinha feito desde o anúncio. – A gente vai visitar a região no verão para procurar uma casa, mas a mudança só vai acontecer no final do outubro, pelo menos. Discretamente, Kari olhou para os irmãos ao redor. Brooke estava com os olhos fixos no próprio prato, fincando o garfo em um pedaço de frango. Luke inclinou-se para frente, os antebraços apoiados na mesa enquanto examinava Erin. Mas, a reação de Ashley foi mais reveladora. Durante anos, Ashley fingiu ser um membro à parte da família. Ela brincava dizendo que era a ovelha negra, a criança Baxter cujo lugar entre eles era mais tolerado do que bem-vindo. Toda vez que Ashley falava assim, Kari a corrigia. Mas, Ashley parecia mais propensa à indiferença, determinada a ser menos ligada aos outros. Agora, porém, seus olhos expressavam uma tristeza inconfundível. Ashley se preocupava mais com eles do que jamais teve coragem de admitir. Ela nem sempre conseguia se adaptar, mas, mesmo assim, ali era o seu lugar. Kari imaginou Erin e Sam arrumando as coisas e partindo para o Texas. Não é de admirar que todos estivessem tendo dificuldade para se animar. Os Baxter nunca tinham se separado, não para valer. Foram seis meses que Kari passou na cidade de Nova York como modelo e Ashley, um ano em Paris. Contudo, nenhum deles tinha, de fato, se mudado para sempre. O telefone tocou, e Luke saltou de seu lugar na mesa a fim de atendê-lo. – Alô? – Seus olhos brilharam, e ele fez sinal para Kari. – Sim, ela está aqui... Ah-ham... Muito melhor. Ele ainda está no hospital, mas já saiu da UTI e está respirando sem a ajuda dos aparelhos e tal... É, todo mundo está bem... Tudo bem, vou passar para ela. Kari observava, confusa. Quem ligaria para ela aqui, na casa de seus pais? Alguém da igreja? A conversa em volta da mesa parou quando Luke passou o telefone para Kari e disse as palavras que fizeram o coração dela bater duas vezes mais forte. – É Ryan.


CAPÍTULO 6 Kari precisava de um lugar tranquilo para conversar. Ela agradeceu a Luke, pegou o telefone e subiu até seu antigo quarto, o lugar onde ficou tantas vezes no ano passado. Quando estava sozinha, ela expirou e segurou o telefone junto à orelha. – Alô? – Oi. – A voz de Ryan chegou ao coração dela, amenizando as rugas que tinha ganhado ao longo do dia. – Te peguei em um momento ruim? – Não. – Ela se sentou na cama e fechou os olhos. – Está-vamos terminando o jantar. É aniversário de Erin. – Liguei para sua casa primeiro. – Ele fez uma pausa, e Kari pôde perceber a preocupação na voz dele. – Minha mãe me contou sobre Landon Blake. Luke disse que ele está melhor. – Muito melhor, graças a Deus. – Kari encostou-se em uma pilha de travesseiros. – Papai diz que foi um milagre. Ele nem vai precisar de enxertos de pele nas queimaduras. – Ashley foi vê-lo? Kari imaginou Ryan sentado em um apartamento em Nova York, preocupado com as pessoas em Bloomington. O irmão mais velho de Landon terminou o ensino médio no mesmo ano que Ryan. E todos que conheciam Landon sabiam do bonde que ele arrastava por Ashley. – Ela praticamente montou acampamento no hospital. Eu acho que tem sido bom para ela. Isso a tem ajudado a fazer um balanço de prioridades, sabe? – Sei. – A voz de Ryan estava tranquila. – Nada como um hospital para fazer isso. Algo em seu tom dizia a Kari que ele tinha ligado não apenas para ter notícias de Landon Blake. Será que ele estava sentindo sua falta, desejando que não tivesse aceitado o emprego em Nova York? Ou será que a imagem de Landon no hospital era um jeito de fazer Ryan voltar àqueles dias após sua lesão no futebol? Da mesma forma que a tinha trazido de volta? O que quer que fosse que ele estava pensando, Kari não estava disposta a adivinhar. Não fazia sentido entrar em uma conversa profunda com Ryan agora. Ele estava muito longe, e ela ainda estava juntando os cacos de sua vida. Além disso, toda vez que pensava em Ryan, ela se sentia mal, culpada, como se estivesse traindo Tim, o casamento e todas as coisas que tinham compartilhado juntos. Toda vez que Ryan ligava, Kari tinha o cuidado de manter as coisas em um tom informal. Notícias


sobre Jessie, sobre os treinos, esse tipo de coisa. – Então – perguntou ela de maneira despreocupada – e aí? Ryan soltou um suspiro cansado. – Reuniões, reuniões e mais reuniões. Kari riu. – Pronto para o treinamento, né? – Daqui a duas semanas, contando os dias. Abrimos no dia 26 de julho, e todos devem comparecer. Não há prorrogação. A pré-temporada começa um mês depois, na Nova Inglaterra. – Ele riu baixinho. – Entre orientar as personalidades do time e fazer malabarismos com as escalações, quase não vou ter tempo para treinar. – Você fará um ótimo trabalho. – A risada permaneceu na voz de Kari, mas principalmente porque era o que Ryan esperava. A verdade era que ela achava a agenda ocupada que ele tinha pela frente um pouco assustadora. Embora quisesse ser independente, fazer um pé-de-meia para ela e para Jessie, Kari tinha de admitir que esperava, ansiosa, as ligações de Ryan. Ela gostava do modo como ele perguntava a respeito de Jessie, querendo saber sobre os eventos importantes da menina e comemorando quando ela sorria ou dormia a noite toda. Conversar com ele era diferente de conversar com sua família sobre essas coisas. Mas, com o início da temporada, ele não teria tempo para ligar – ou, claro, não com a mesma frequência de antes. Essa era outra razão pela qual ela tentava não depender dele desde a morte de Tim. Ryan tinha sua própria vida em Nova York. Qualquer coisa poderia acontecer uma vez que ele começasse a viajar com o time e a treinar os jogadores. Ele poderia perder o contato com ela ou conhecer outra pessoa e se apaixonar. Kari não poderia culpá-lo se isso acontecesse. Ela não lhe tinha dado nenhum motivo para insistir. Ryan quebrou o silêncio. – E como está Jessie? Kari pôde ouvir o sorriso na voz dele. – Bem. Crescendo muito rápido. – Deixando a mãe dormir um pouco? – Claro que não. Tenho fralda para trocar à meia-noite, mamadas às 3 horas e discussões expressivas às 5 horas. – Kari afundou-se mais nos travesseiros. Estava mais cansada do que imaginava. – Dormir é uma coisa do passado.


– Sabe o que eu queria? – A voz de Ryan ficou mais suave. Ele fez uma pausa por um instante. – Eu queria estar aí para ajudar. Assumir o turno da meia-noite às 5 horas, de vez em quando. O tom de voz de Ryan foi tão claro, tão real, que ele poderia muito bem estar sentado ao lado dela. – Que lindo! Mas nós estamos bem. – Sério, Kari? – Seu tom era suave como o veludo. – Você está? – Sim. – Ela se sentou ereta. – Jessie e eu precisamos des-se tempo juntas. Imaginar para onde vamos daqui para frente, sabe? Dar um jeito nas lembranças. – Você está trabalhando muito? – Alguns dias por mês. – Kari levantou-se, segurando o telefone com o ombro enquanto ia até a janela. O sol de final de tarde do verão inundou seu rosto. Ela trabalhava como modelo desde que tinha terminado o ensino médio, e, nos últimos anos, tinha feito muitos trabalhos de catálogo, mas, quando seu casamento se desfez, ela deu um tempo. Agora que Jessie estava dormindo durante a noite, ela estava voltando aos poucos para o trabalho. O dinheiro do seguro de Tim não duraria para sempre, e ela precisava de um salário. Mas, não era divertido como antes, e Kari entendia por quê. A morte de Tim havia criado um vazio em sua vida que os trabalhos como modelo não preenchiam. – Não sei por quanto tempo mais vai ser assim. – Por quê? – A vida é muito curta. Quero que o tempo que passo lon-ge de Jessie seja mais importante que fotos bonitas. Eles ficaram em silêncio por um instante. Ela se debruçou no parapeito da janela e ficou olhando para as antigas fazendas à distância. Nunca se cansava dessa vista, das árvores atrás da casa de seus pais que pareciam ainda mais vivas no verão. Kari mordeu o lábio. Queria perguntar a Ryan o que ele estava fazendo, como passava o tempo livre. Mas, ela não conseguiu. Doeria muito saber que ele estava namorando, saber que tinha seguido com sua vida desde o tempo em que estiveram juntos no outono passado. É claro que também doeria saber que ele estava esperando por ela, como tinha feito tantas vezes antes. Porque uma parte de seu coração – a parte que estava apta para o amor, os relacionamentos e a intimidade – estava paralisada desde que Tim morreu. Não havia como dizer quando ela voltaria ao normal, ou se voltaria um dia. Kari viu dois azulões dançando no ar do lado de fora da janela. – Então, você está para ficar ocupado feito louco.


– Eu estou agora. – Verdade. Reuniões e, você sabe, qualquer outra coisa. – Mais uma vez, Kari resistiu à vontade de fazer perguntas. Quando ela ficou em silêncio, Ryan falou, lendo seu coração com a mesma facilidade com que sempre pôde fazer. – O que você quis dizer com isso? – Nada. – Percebeu que sua resposta foi muito rápida. – Que bom que você está ocupado. Só isso. – Kari... – Ele deu uma risada silenciosa. – Vamos, é só perguntar. Ela tentou parecer indignada. – Perguntar o quê? – Está bem. Não pergunte. – Mais uma vez, ela pôde per-ceber o sorriso de Ryan, ver o brilho nos olhos dele, apesar da distância. – Não estou saindo com ninguém, ok? É isso que você está pensando? Kari deu um giro e deixou-se cair na cama mais uma vez. – Ryan Taylor, não era isso que eu estava pensando. A provocação desapareceu da voz de Ryan. – Sério? – Sério. – Ela fechou os olhos por alguns instantes. Men-tir nunca foi fácil para ela, mas ela não tinha escolha agora. Aonde quer que seus devaneios a tivessem levado, foi contra sua vontade. Não era justo deixar que Ryan soubesse que ela estava curiosa para saber o que ele fazia nas horas vagas. Não quando ela ainda estava de luto pela morte de Tim, ainda pensando que seu coração estaria partido para sempre. – Tudo bem. – Seu tom de voz tinha um quê de decepção. – Mas, só para constar, eu não estou namorando ninguém. Kari olhou para o quadro de avisos todo marcado perto da porta, no qual fotos dela e de Ryan na adolescência ficaram penduradas por tantos anos. – Você não precisa me dizer isso. – Eu sei. – Ele respirou lentamente. – Eu quis. Eles estavam entrando em um território perigoso, e Kari resistia a uma sensação de ansiedade. Agora não era hora de atiçar fogo em tudo o que ela já havia sentido por Ryan Taylor. Sua vida estava totalmente dedicada à maternidade e a aprender a viver sem o marido. Ela não podia ver o que havia além desta fase solitária. Bem, ainda não.


Perceber a emoção na voz de Ryan serviu apenas para confundi-la, deixá-la desesperada por sua presença, pelos braços dele ao seu redor. Seu beijo. E isso fez com que se sentisse como uma mulher má e infiel que trairia um marido morto nem mesmo há seis meses. – Ei – disse ela enquanto massageava as sobrancelhas com o polegar e o indicador. – Obrigada por ligar. – Hesitou. – Vou entender se você demorar para dar notícias. Assim que os treinos começarem, você não vai ter tempo nem para comer. – Karin sentia dores de tanta saudade dele e odiava-se por trair a memória de Tim. – Posso não ter tempo para comer. – Ele esperou um minuto. – Mas, enquanto tiver fôlego, vou encontrar tempo para ligar. A alma de Kari foi tomada por uma sensação de alívio antes que ela pudesse detê-la. – Está bem. – Deixou escapar uma risada mais solta. – Você sabe onde me encontrar. Ao desligar o telefone, Kari levantou-se e apoiou-se no parapeito da janela novamente, olhando para o céu azul-claro. Ela estava louca? Sua conversa com Ryan foi cheia de um significado mais profundo e insinuações. Aqui estava ela, presa na dor de perder Tim e convencida de que sofrer a perda dele era algo que ela precisava fazer sozinha. No entanto, não conseguia passar um dia sem pensar em Ryan Taylor. Respirou lentamente e estreitou os olhos, forçando-se a se concentrar na presença de Deus, a ouvir a voz dele acima do calor das emoções que lutavam para ocupar um lugar em seu coração. Senhor, toda esta confusão poderia ter sido evitada se tivesses deixado Tim vivo. A tristeza sobreveio-lhe como uma terrível sensação de frio. Jessie nunca iria conhecê-lo, nunca seguraria a mão dele, nunca correria para os braços dele. É tão injusto, Deus. Seus joelhos amoleceram, mas, quase ao mesmo tempo, ela sentiu que estava sendo colocada em pé, sendo sustentada por mãos invisíveis. Eu estou com você, filha. Agora mesmo. Conheço os planos que tenho para você. A voz era calma, um mero sussurro em sua alma. Mas, as palavras eram familiares; elas a tinham sustentado ao longo do ano anterior. E Kari tinha certeza de que eram verdadeiras. Deus estava com ela; ele tinha grandes planos para ela. Mas, e Tim? Por que Deus não estava com ele quando ele foi ao apartamento daquela mulher? Se Deus tivesse guardado Tim, ela não estaria aqui pensando em Ryan, sonhando com o momento em que poderia vê-lo de novo e se sentindo culpada por todos esses momentos.


Kari abriu a boca. As palavras quase silenciosas que saíram estavam impregnadas de dor. – Tu poderias tê-lo guardado, Senhor. – Ela apertou os olhos fechados. – Era para nós... era para sermos uma família. Voltou à sua mente um versículo da Bíblia que estava no meio de uma dezena de cartões de condolências que ela recebeu depois da morte de Tim, um que parecia estar em sermões e devoções, pelo menos, uma vez por semana desde a ocasião. Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Eram palavras que ela havia ouvido durante toda a vida, mas pareciam vazias e batidas depois do assassinato de Tim. Que bem poderia resultar da perda do marido – e apenas meses depois dos dois terem sobrevivido ao maior teste do casamento? Que bem havia em ver uma garotinha crescer sem o pai? Por mais difíceis que os últimos cinco meses tivessem sido, ela havia se recuperado, pelo menos o suficiente para acreditar que as coisas iriam melhorar. De algum modo... algum dia. O que foi que sua mãe tinha dito? A beleza que vem das cinzas. Sim, foi isso. Deus honraria as verdades apresentadas na Bíblia, verdades nas quais Kari acreditava plenamente, mesmo que não parecessem fazer sentido. Mas, ainda assim, sua fé não aliviaria a dor da vida diária, a incerteza do que o amanhã reservava. Não, ela não se debateu imaginando se Deus cumpriria a promessa dele de fazer algo belo a partir dos restos estilhaçados de sua vida. A questão era quando.


CAPÍTULO 7 Ashley nunca ficava nervosa. Mas enquanto atravessava o saguão do hospital e subia de elevador ao terceiro andar, ela mal conseguia controlar as mãos trêmulas. Era hora de conversar com Landon, hora de descobrir o que o estava corroendo e por que as sementes da tensão haviam sido plantadas entre eles nos últimos dias. Hora de descobrir se o que ela imaginava era verdade. Foi difícil sair do jantar na casa de seus pais. As conversas sobre a mudança de Erin se misturaram às conversas sobre Luke e Reagan, as quais levaram à outra discussão sobre o banco de sangue do Hospital St. Anne. Ao que parecia, era o menor nível em uma década, e Brooke, a mais velha dos cinco, estava disposta a abraçar a causa. Ashley encostou-se na parede do elevador. Claro que Brooke estava disposta a fazer isso. Afinal de contas, ela e Peter eram médicos. Ao encabeçarem uma campanha para doação de sangue, eles deixariam o poderoso John Baxter feliz. Eles estariam no mesmo barco, seguindo os passos dele, merecendo os elogios do doutor, mesmo não indo à igreja nem crendo em Deus. Normalmente, em uma reunião familiar, Ashley teria ficado ansiosa para ir embora. Mas, nessa noite, ela havia aguentado bem, analisando as pessoas que faziam parte de sua família, imaginando por que não se encaixava, por que não era como todas elas. Antes de sair, a conversa voltou-se para a doença de Alzheimer. Ela lhes contou o conselho de Lu sobre manter os pacientes no aqui e agora. Contudo, Brooke discordou. – Isso, às vezes, dá certo, mas os médicos hoje estão falan-do mais sobre distração. Esse é o tratamento preferido agora. – Distração? – Ashley estava pronta para ir embora, mas, se Brooke soubesse de algo que pudesse ajudá-la no trabalho, ela estava interessada. – Sim – concordou Brooke e depois acrescentou com sua voz oficial de médica. – No momento em que o paciente com Alzheimer se desvia do curso da normalidade razoável, distraia-o. Mude de assunto, introduza uma ideia ou uma atividade, qualquer coisa para impedi-lo de continuar na ilusão. A ideia parecia melhor que discutir com os idosos. – Por que não posso simplesmente concordar com eles, deixar que pensem que o marido está vivo ou que estão fazendo uma visita de algumas horas, em vez de confinados, a uma casa para pessoas doentes?


– Isso nunca funcionaria. – A risada de Brooke fez Ashley se sentir uma idiota. – Seria como derramar gasolina nas chamas da demência. Ashley murchou e cruzou os braços. Se existia alguém que deveria sair da cidade, era ela. Com certeza, nenhum deles ficaria angustiado com isso como tinha ficado com a partida de Erin e Sam. Isso era outra história. Ashley tinha realmente ficado triste com a notícia da irmã. Sentiria falta de ver Erin uma vez por semana nos jantares de família. Erin sempre foi a Baxter mais quieta, a mais simples e a mais transparente. Contudo, Erin era genuína como um pôr de sol no verão, seu sorriso era suficiente para iluminar a sala. Algumas vezes, Ashley tinha visitado a escola do jardim de infância em que trabalhava e ficado surpresa com as decorações feitas à mão em todas as paredes da sala de aula, com a atenção aos detalhes no ambiente de aprendizagem que a doce irmã tinha criado para os alunos. De fato, Erin era uma força de equilíbrio. Parecia a mãe deles, agia como tal e tinha o mesmo comportamento calmo. A vida de Erin – mesmo quando era mais jovem – nunca foi nada além de boa e normal. Pelo menos, sempre pareceu assim. A presença de Erin na vida deles era algo que Ashley sempre tinha como natural. Da mesma forma ela se sentia em relação a Landon Blake. Ashley fechou os olhos por um instante. Talvez estivesse errada sobre ele. Talvez ele não estivesse chateado com sua falta de emoção. Talvez estivesse apaixonado por outra pessoa ou tivesse planos que não estava disposto a compartilhar – talvez esse fosse o motivo pelo qual ele estava agindo de forma tão rígida com ela. Qualquer que fosse a razão, Ashley sabia que não podia esperar mais tempo para descobrir. Saiu do elevador e cumprimentou a enfermeira de plantão. A essa altura, todos a conheciam – a filha do Dr. Baxter, a que não conseguia ficar longe do bombeiro ferido. Ashley tinha certeza de que as enfermeiras haviam criado na imaginação uma linda história de amor, casando os dois antes do Natal. Isso era bom. As pessoas podiam acreditar no que bem quisessem. Ela e Landon sabiam a verdade. Apesar da história dos dois e apesar da atração que sentiam um pelo outro, um romance entre eles nunca daria certo. Não poderia. Eles eram simplesmente muito diferentes. Apesar da forma como as coisas pareciam para sua família e amigos ou até mesmo para as enfermeiras do Hospital St. Anne. Ashley atravessou o corredor e entrou no quarto 312. Landon estava cuidadosamente sentado na cama, mantendo o peso longe das ataduras que cobriam suas queimaduras e com os olhos fixos no


monitor da TV preso perto do teto. Passava baixinho um jogo de beisebol na tela. – Oi. – Ela sorriu para ele, segurando a bolsa de crochê que ia até sua cintura. Sentou-se na cadeira ao lado da cama. – Ei, não pensei que você viesse. – Seus olhos foram de encontro aos dela e ali ficaram. O que era que ela podia ver ali? Arrependimento? Raiva? Incerteza? Ashley não tinha certeza, mas algo, com certeza, estava errado. – Foi aniversário de Erin. – Ashley encostou-se na cadeira e colocou a bolsa no chão. – Os jantares dos Baxter podem ir até tarde. O sorriso de Landon não apagava a distância que havia em seus olhos. – Sei bem como é. Ashley examinou-o. – Você parece bem. – Havia mais cor no rosto dele. – Quanto tempo falta para que deixem você ir embora? – Não sei ao certo. Não precisei de enxertos de pele, então essa é uma boa notícia. Eles querem que meus pulmões funcionem melhor. – Ele deu um sorriso largo. – Eu tenho um médico rigoroso. – É você que está dizendo. – Ashley revirou os olhos, um sorriso esticando seus lábios. –Eu cresci com ele. Os dois ficaram em silêncio, e Ashley olhou para a televisão novamente. Esse era o momento, sua chance de perguntar o que ele estava pensando. Mas, antes que ela pudesse encontrar as palavras, Landon quebrou o silêncio. – Ash, por quê? Seus olhos voltaram a fitá-lo. – Por quê? O quê? – Por que você está aqui? Ela mudou de posição, o coração batendo contra a parede do peito. Não podia desistir agora. – Eu estou preocupada com você. – Entendo. – Ele fez um gesto na direção de seus moni-tores. – Mas não estou correndo perigo agora. Faz 24 horas que não estou. – Ele olhou para ela, o olhar fixo penetrando a alma de Ashley. – Então, por que você está aqui? O que ela deveria dizer a ele? Se tinha ouvido o que ela disse quando ele estava quase morrendo no outro dia? Ele estava esperando que ela repetisse as palavras agora, em sua cara? Ela mordeu o lábio por dentro e procurou desesperadamente as respostas.


– Eu sou sua amiga, Landon. Eu me importo. É por isso. Landon deixou a cabeça cair para trás contra o travesseiro. Por um momento, voltou a assistir ao jogo, os olhos fixos na tela enquanto um jogador troncudo perdia dois arremessos e conseguia chegar à terceira base. Ashley assistia também, sem saber ao certo o que dizer. Quando o jogo foi interrompido por um comercial, Landon usou o controle remoto e apertou o botão para desligar a TV. A tela ficou preta. Mais uma vez, Landon voltou sua atenção para ela. – Eu ouvi você. Ashley sentiu o sangue fugir de seu rosto. – O quê? – Na primeira noite, quando eu estava inconsciente. – Landon examinou-a com os olhos carregados de emoção. – Eu ouvi tudo. – Você... você não podia nem respirar. Como assim você ouviu tudo? – Olhe, Ashley, até onde eu me lembro, tentei entender você. – Deixou as mãos caírem, os olhos movendo-se rapidamente pelo quarto à procura de respostas que há muito lhe escapavam. – Do que Ashley gostaria? O que Ashley acharia? Por que Ashley não me quer? – Seu olhar foi ao encontro do dela novamente. – Deus me deu tudo o que desejei Ashley. Tudo... menos você. O calor no rosto de Ashley parecia forte o suficiente para aquecer todo o quarto. Ele a tinha ouvido, assim como temia. E agora ambos estavam muito confusos para saber como agir, o que dizer, como seguir em frente daquele ponto em diante. O tom de voz de Ashley foi suave. – O que você ouviu, Landon? – Não, Ashley. – Ele tensionou os músculos do queixo. – Diga você. Diga a mesma coisa que você me disse naquela noite. Depois, me diga o que você queria dizer com isso, para que eu possa ter algum tipo de lucidez. – Por favor, Landon. – Ashley queria gritar, mas, em vez disso, insistiu com ele, pedindo que entendesse. – Eu pensei que você estivesse morrendo. A única risada contrariada veio dos lábios de Landon. – Enquanto eu viver, acho que nunca vou entender você, Ashley Baxter. Por que deixei que você me impressionasse durante todos esses anos, nunca vou saber. – Sua expressão ficou mais amena, mais séria. – Diga, Ashley. Repita o que você me disse quando achou que eu estivesse morrendo. Não! Ela não podia dizer!


Uma centena de pensamentos fervilhava na cabeça de Ashley. O amor entre ela e Landon jamais poderia dar certo, jamais passaria de sofrimento para ambos. Ele precisava de uma esposa cristã e meiga – alguém que ficasse sentada em casa esperando que ele voltasse do corpo de bombeiros, alguém que orasse por ele todas as vezes que as sirenes tocassem por Bloomington. Uma pessoa diferente, meiga e conservadora. Ashley não era nada disso. Especialmente depois de Paris. Ela só poderia amar um homem se tivesse liberdade para contar-lhe o que havia acontecido naquele ano na França. E, se havia uma pessoa para quem ela nunca poderia dizer, essa pessoa era Landon Blake. De modo algum. Ele tinha princípios e era justo, um homem do mais alto nível – um herói, nada menos que isso. Ela não poderia suportar a ideia de que ele a considerasse suja e fácil. De que adiantaria amá-lo agora? Ashley piscou. No entanto, foi isso que ela lhe disse, não foi? Que o amava. Landon tossiu duas vezes e tomou um gole de água. Então, olhou para ela novamente. – Eu já sei, Ashley. Diga. Como uma avalanche, Ashley sentiu as paredes de seu orgulho cederem. Seu ombro caiu para frente, e, quando ela falou, foi sem a independência impetuosa que normalmente ressoava em sua voz. Fixou os olhos em Landon e contou a verdade, o modo como se sentia tranquila, mesmo sendo a sensação mais louca de todo o mundo. – Eu... eu disse que amo você. – Ela se inclinou para frente, a voz quase inaudível sobre o tiquetaque do relógio. – Não quero que você morra sem saber. – Foi isso que imaginei que você tivesse dito. – Os olhos de Landon se arregalaram e o rosto se desfigurou em uma careta confusa. – Mas não pude acreditar. Não até agora. Não até que ouvi de sua própria boca. – Ele examinou o rosto dela. – Por que é tão difícil para você, Ashley? Dizer o que sente? Quando você sabe como sempre me senti em relação a você? – Porque... – Era como se Ashley estivesse caindo de um penhasco. – Eu não quero que você tenha a ideia errada. Landon inclinou-se para frente, rijo, como se alguém tivesse jogado um cubo de gelo por dentro de seu camisolão. – Eu... – Ashley cruzou os braços e cravou os punhos no estômago. – Eu não quero que você tenha a ideia errada, Landon. Você sabe, como se eu quisesse algo entre nós. Um relacionamento ou algo assim. A dor refletida nos olhos de Landon deixou-a arrasada. Mas desapareceu quase no mesmo


instante, voltando para um armário no coração de Landon onde ela claramente não tinha permissão para entrar. Ele riu baixinho e fez que não com a cabeça. – Claro que não, Ash. Lá se foi a intimidade de um momento atrás, e, em seu lugar, havia o verniz da cautela, a amizade casual com a qual ela havia se acostumado. Com a qual se sentia mais à vontade. – Eu nunca imaginaria isso. Não da parte da misteriosa Ashley Baxter. – Landon... – Ashley queria ficar zangada consigo mesma. Tudo estava dando errado. Sim, ela sentia algo por Landon. Mas, aonde eles poderiam chegar? – Eu não quis dizer aquilo; é só... Landon levantou a mão. – Está tudo bem. – Renúncia era o que estava escrito em seu rosto. – Eu entendo. – Ele respirou fundo e estendeu a mão para ela. Ela estendeu a mão e segurou a dele, permitindo que ele entrelaçasse os dedos nos seus. – Eu tenho algo para contar para você. Ashley queria pensar direito, mas a sensação da mão de Landon na dela era algo que ela quase não conseguia suportar. Fez força para se concentrar. – O quê? – perguntou ela. – Vou me mudar. – Passou o polegar nas costas da mão dela. – Eu estava procurando uma oportunidade para contar para você antes de me ferir. Ashley não pôde respirar por um momento. Landon estava brincando, mentindo. Tentando se vingar dela por não amá-lo como ele a amava. De repente, sentiu-se estranha segurando a mão dele. Seus dedos soltaram-se, e ela cruzou os braços novamente. – Para onde? – Nova York. – Landon encheu-se de paz e se encostou no travesseiro mais uma vez. – Jalen está lá. Falei para você sobre ele, né? Jalen? O nome era vagamente familiar. A mente de Ashley disparou. Ela se deu conta do quanto realmente prestou pouca atenção em Landon desde que tinha voltado de Paris. Estava tão determinada a não se apaixonar por ele que mal o ouvia. – Vagamente. Landon sorriu. – Jalen e eu nos conhecemos na Universidade do Texas quando éramos calouros. Foi ele que me convenceu a entrar para o departamento de bombeiros voluntários desta cidadezinha perto de Austin. Quando terminamos a faculdade, ele foi para Nova York. Voltei para Bloomington a fim de fazer o


treinamento e ficar no departamento aqui. Ashley sentiu uma dor no estômago. – Mas, Nova York, Landon? Isso não é meio... sei lá...precipitado? – Não, de verdade. Faz tempo que estou pensando nisso. – Ele encolheu os ombros. – Jalen e eu nos falamos uma vez por mês ou algo assim, e ele sempre está onde as coisas acontecem. Salvando pessoas, correndo para edifícios em chamas, esse tipo de coisa. Em Nova York, o combate a incêndios é uma paixão. Aqui em Bloomington, é mais um passatempo. – Então, você está se mudando para Nova York para com-bater incêndios com Jalen porque não há muita emoção aqui? É isso? – Ashley fez sinal para a atadura na perna de Landon, as bandagens nas costas e coxas. – Você já não teve emoção suficiente por um tempo? – Não é emoção, exatamente. Tem a ver com fazer minha vida valer a pena. – Ele ficou olhando para ela e, por um instante, permitiu que suas emoções viessem à tona como antes. – Depois de ouvir sua voz, quando me trouxeram para cá, eu realmente tive dúvidas quanto a me mudar. É por isso que... sei lá... – Por isso você estava tão quieto! – Tudo fazia sentido, finalmente – sua falta de jeito, a estranha inquietação entre eles. Landon iria se mudar. Ele estava procurando uma maneira de dizer a ela, mas, então, se feriu. E, enquanto ficou deitado ali, quase morto, as palavras de amor de Ashley fizeram-no se perguntar se a mudança era um erro. Ele fez que sim com a cabeça. – Exatamente. – Eu sinto muito, Landon. – Ela segurou a mão dele nova-mente. – Eu não fazia a menor ideia. – Eu sei. Está tudo bem. Eu não deveria ter imaginado tan-ta coisa a respeito do que você disse. Foi só... quando você me disse que me amava, eu tinha de saber se você estava falando sério. Porque, se sim, se você estivesse falando sério do modo como eu esperava, eu jamais poderia ir embora. Começou de novo. Os verdadeiros sentimentos de Landon expostos diante dela como um presente aberto. Se, ao menos, ela pudesse amá-lo como ele a amava. – Às vezes, eu queria ser normal. Como as outras meninas. Landon riu e inclinou-se, passando levemente os dedos na testa dela. – Você nunca poderia ser como as outras meninas, Ashley. Seria um erro tentar. – Você tem emprego lá? Em Nova York, quero dizer?


– Fui de avião para lá há um mês para fazer uma entrevis-ta. Eles me submeteram a uma semana de testes e exercícios. – Ele deu de ombros. – Passei por uma seleção. Era para eu começar no dia 1º- de agosto. Ashley olhou novamente para a atadura e as bandagens. – Daqui a três semanas. – Eu sei. Liguei para eles hoje de manhã. – Ele fez uma careta. – Eles remarcaram meu início para novembro. Assim, já estarei sem ataduras e terei tempo para colocar minha perna em forma de novo. Uma onda de aceitação atravessou o coração de Ashley. – Então você vai mesmo se mudar para Nova York? – Sim. Seremos Jalen e eu, combatendo incêndios e sal-vando vidas bem no coração da Big Apple. Ação e mais ação todos os dias em que estivermos de serviço. Ashley fez que sim com a cabeça, subitamente interessada. – Quanto tempo você vai ficar lá? Ela não tinha o direito de perguntar. Mas, ainda assim, queria saber. – Talvez um ano, talvez para sempre. – Landon deu-lhe um sorriso torto. – Jalen diz que combater incêndios em Nova York é algo que passa a fazer parte de você. Faz com que você nunca queira ir embora. Ashley sentiu uma pontada de medo. Lembrou-se de quando Landon foi embora para estudar na Universidade do Texas. De alguma forma, ela sempre soube que ele voltaria para Bloomington. Mas, desta vez... desta vez, talvez ele não voltasse nunca mais. Ela piscou para conter as lágrimas. – Eu sei que sou estranha. Sobre relacionamentos e outras coisas. Mas, não se esqueça de uma coisa enquanto você estiver lá combatendo incêndios com Jalen. – Do quê? – Landon segurou a mão dela novamente e levou-a aos lábios, beijando-lhe os dedos, com o sorriso iluminado e fácil, a seriedade dissipada de sua expressão. Ashley deslizou até a beira da cadeira e falou coisas que esperava que criassem raízes no coração de Landon. – Eu amo você, Landon. Talvez não do jeito que você quei-ra. Talvez não do jeito que eu deveria. Mas, eu amo você. Eu sempre amei. Ashley levantou-se e debruçou-se um pouco sobre ele. Deu-lhe um abraço apertado, agarrando-se a ele, vagamente consciente de um efeito novo e curiosamente inebriante que o corpo dele teve sobre


o seu. – Você vai conseguir se lembrar disso quando estiver lá em Nova York? – Sempre, Ashley. – Landon esfregou o nariz no rosto dela e sussurrou-lhe no ouvido. – Sempre.


CAPÍTULO 8 A ideia ocorreu-lhe pouco antes da meia-noite. Depois de conversar com Ryan na casa de seus pais, Kari foi para casa com Jessie e passou a noite orando, pedindo a Deus para lhe mostrar um pouquinho do bem que poderia resultar da tristeza em sua vida. E, nesse momento, de repente, seu curso de ação foi claro. Durante anos, ela teve o sonho de ajudar casais – orando com eles, aconselhando-os, trabalhando com eles para que não se tornassem mais um número nas estatísticas. Mas, quando Tim foi morar com a amante, Kari viu que qualquer sonho de ajudar pessoas casadas tinha sido destruído com seus votos conjugais. É verdade que, no final, ela e Tim tinham confiado em Deus e encontraram uma maneira de fazer o casamento dar certo. Mas, a história deles não foi realmente marcada pelo sucesso. Por fim, o caso de Tim ainda lhe custou toda oportunidade de ter um final feliz. Custou-lhe a vida, afinal. Mas enquanto estava sentada no escuro olhando para o poste de luz pela janela, Karin percebeu algo que não havia percebido antes. Com a ajuda de Deus, ela sobreviveu, primeiro, ao caso de Tim e, depois, à morte do marido. Quantas mulheres da igreja da comunidade de Clear Creek estavam enfrentando situações semelhantes? Talvez o marido não tivesse ido morar com uma amante nem sido assassinado. Mas, se Deus a fez passar por aquelas provações, ele poderia fazer o mesmo com outras mulheres magoadas em suas provações, quaisquer que fossem elas. Melhor ainda, talvez Kari pudesse fazer parte desse processo de cura. A imagem começou a se formar na mente de Kari. Quanto mais tempo ficava sentada ali, mais nítida ficava. Ela poderia começar um ministério para mulheres feridas que continuavam na luta, para as mulheres que pensavam que o casamento delas tinha acabado, que não tinham ideia de qual seria o próximo passo para salvar o relacionamento ou recuperar a sanidade. Mulheres assim como ela. Fazia semanas que o pastor Mark Atteberry estava lhe dizendo que Deus tinha um plano especial para ela. Durante todo o tempo, Kari se perguntava lá no fundo se esse plano poderia ser um relacionamento com Ryan Taylor. Ela se sentia muito mal por pensar isso, mas pensava mesmo assim. Não que o pastor Mark tivesse se referido a isso. Ele estava apenas compartilhando sua impressão


com ela. Ao orar por ela, ele teve a forte sensação de que Deus tinha algo grande em mente. Como Kari tinha uma visão limitada ao pensar que isso pudesse envolver Ryan! O grande plano que o pastor Mark deve ter percebido era essa visão que Karin tinha agora, a que de tão real parecia ser paupável. Um ministério para outras mulheres sofridas, mulheres que se encontrariam individualmente com Kari para estudar a Bíblia e receber conforto. O ambiente seria particular, protegendo a identidade das mulheres que aparecessem. Kari poderia se encontrar com uma mulher diferente a cada dia da semana, se necessário. Kari começou a sentir um entusiasmo que inundou seu coração. Lá atrás, antes de saber do caso de Tim, ela havia imaginado os dois trabalhando nesse ministério juntos. Encontrando-se com casais, orientando-os, ajudando-os a alcançar um nível mais alto no casamento. Mas, é claro que não era para ser assim. Este ministério, o que Deus havia colocado em seu coração agora, daria à sua vida um novo propósito e direção. A corda salva-vidas que a tiraria desta fase de dor e de perda e a colocaria em um tempo de graça e de esperança para mulheres cujo relacionamento ainda tinha uma chance. Kari abriu a Bíblia e examinou as palavras que havia lido naquela manhã, mais cedo. Eram de Romanos 12: O amor deve ser sincero. Odeiem o que é mau; apeguem-se ao que é bom. Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios. Nunca lhes falte o zelo, sejam fervorosos no espírito, sirvam ao Senhor. Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração. Compartilhem o que vocês têm com os santos em suas necessidades. Pratiquem a hospitalidade.

Ao ler as palavras antes, elas pareceram bem óbvias. Uma lista de instruções sobre como tratar as pessoas. Certamente, nada extraordinário nem capaz de transformar a vida. Mas, agora, à luz da visão que Deus lhe tinha dado, elas pareciam vigorosamente vivas. Um novo tipo de amor ressoou dentro de Kari, um amor por mulheres que sofriam no casamento. Era um amor tão sincero quanto qualquer coisa que ela já tinha sentido. Ela odiava o mal do adultério, odiava-o o suficiente para orar com mulheres que tinham sido vítimas dele, odiava-o o suficiente para orar com aquelas determinadas a se apegar ao que havia de bom no casamento e confiar que Deus iria renová-lo. Então, vinha a parte da alegria. Alegrem-se na esperança... Não era esse o sentimento que agitava as janelas de seu coração nesse momento? Alegria? Depois de meses sem sentir uma pontinha de alegria, Kari não tinha dúvida de que era ela. A ideia de ajudar outras mulheres a restaurarem o


casamento encheu-a de alegria mais do que ela imaginava ser possível. É óbvio que a única maneira pela qual ela poderia responder a esse chamado de Deus era sendo paciente, orando, compartilhando e praticando a hospitalidade entre as mulheres que precisavam de seu apoio, assim como instruíam esses versículos. Mas, a parte do texto que parecia ter sido escrita somente para ela era a da honra. Na verdade, tudo se resumia a isso. Tim honrou-a ao deixar a amante, ao arrepender-se e ao prometer se empenhar no casamento deles. Ryan honrou-a ao afastar-se, ao deixar que ela amasse Tim como ela sabia que deveria. Agora era sua vez de honrar as mulheres de sua igreja que precisavam de seu apoio, usando as lembranças de tudo o que havia acontecido em sua própria vida como uma forma de dar esperança aos outros. O choro tímido de Jessie veio do outro quarto, e Kari fechou a Bíblia. Ao fazer isso, percebeu lágrimas em seu rosto. Lágrimas que brotaram de um lugar em seu coração que antes estava anestesiado e seco naquela noite. Um lugar que, de algum modo, nas últimas horas, havia revivido.


CAPÍTULO 9 Ashley ficou imaginando se, algum dia, se acostumaria com o cheiro. Era seu primeiro dia de trabalho, e, mesmo depois de uma hora com Irvel e as amigas naquela manhã, o odor irritante impregnado nas paredes e móveis ainda era suficiente para causar-lhe ânsia. Lu disse que não havia nada que se pudesse fazer para deixar a casa com um cheiro melhor. – A casa é limpa – ela disse a Ashley quando conversaram ao telefone após a entrevista de Ashley. – Só tem vestígios do cheiro de morte. Ashley teria de se acostumar com ele se quisesse trabalhar lá por um bom tempo. Ela se sentou à mesa do café e sorriu para os rostos à sua volta. À cabeceira da mesa sentava-se Irvel, que se designou assistente social. Ao seu lado direito estava Edith, uma mulher quieta que se servia e falava pouco. À frente de Edith estava Helen, a mais espalhafatosa do trio, sem dúvida. Laura Jo estava deitada no fim do corredor, confinada a uma cama e provavelmente a poucas semanas da morte. E, então, havia Bert, o único homem no grupo. Lu havia advertido Ashley sobre ele. – Leve as refeições ao quarto dele. – Lu estalou a língua. – Bert é um caso à parte. Levanta de manhã e fica andando em volta da cama. O dia todo. – Andando em volta da cama? Ashley não tinha entendido. – Depois que ele levantar, você vai arrumar a cama e es-tender o roupão de banho dele. Assim que ele termina de comer, começa a dar voltas. Começa na cabeceira da cama, fazendo círculos com as mãos ao longo do edredom, círculos lentos e cuidadosos. Ele chega ao pé da cama e volta para a cabeceira do outro lado. Então, ele começa de novo. Todo santo dia é a mesma coisa. Até agora, Lu estava certa. Antes de dar comida às três moradoras mais ágeis, Ashley levou um café da manhã que só havia líquidos para Laura Jo, que não abriu os olhos. Em seguida, levou uma bandeja para Bert. Ele se sentou na cadeira de balanço e comeu enquanto ela estendeu as roupas dele e arrumou a cama. Como um relógio, no instante em que ela pegou a bandeja, ele vestiu lentamente o roupão, foi arrastando os pés até a cabeceira da cama e começou a fazer círculos no edredom. Pobre doidinho, pensou Ashley. Essas mulheres, as que ficavam ao redor da mesa, eram mais divertidas. Eram o motivo pelo qual ela havia aceitado o trabalho. Irvel, Edith e Helen – as meninas, como Irvel as chamava.


– Bem, meninas... – Irvel se afastou da mesa. Ela comeu metade de uma torrada e um ovo. – Hank está pescando, então tenho o dia todo. Helen fez uma careta para seu prato. – Eu pensei que a gente ia comer lasanha. Cadê a lasa-nha? – Bateu o garfo no prato três vezes. – Cadê a lasanha? – Sabe – disse Irvel balançando um dedo na direção de Ashley –, aquela menina tem um cabelo muito bonito. – Ela inclinou a cabeça. – Alguém já lhe disse isso, querida? – Obrigada, Irvel. Eu agradeço. – Eu disse...! – Helen bateu na mesa. Lu advertiu a moça sobre isso também. Helen estava sempre batendo em alguma coisa, batendo em uma parede ou batendo o punho na mesa para expressar sua opinião. – Cadê a lasanha? – Hummm, Helen... – Ashley limpou a garganta. – Temos ovos e torradas hoje de manhã. Helen encarou-a. – Eu estava comendo lasanha. Irvel fez um sinal de cabeça na direção de Ashley, tentando manter o controle da situação. – Sim, querida, eu acho que ela estava comendo lasanha. Isso é o que ela diz. – Ovos e torradas. – A voz de Edith foi calma em meio aos pios de Irvel e a voz estrondosa de Helen. Ainda assim, Helen ouviu e bateu o garfo no prato novamente. – Lasanha. Minha mãe faz lasanha para mim todos os do-mingos, e hoje é domingo. Irvel pôs a mão delicada no braço de Helen. – Querida, eu acho que hoje é quarta. – Aaaaaaaah, meu Deus! – Ashley murmurou as palavras e deu um suspiro curto e firme. Será que todas as manhãs de segunda eram sempre assim? Ela se levantou e colocou as mãos nos quadris, lembrando-se do conselho de Brooke sobre distração. – Como é que você gostaria de suas rosquinhas de canela, Helen? – Ashley sorriu para a mulher rechonchuda. – Elas estão bem frescas para comer. – Rosquinhas de canela com lasanha? – Helen cuspiu algo da boca no prato. Ashley não teve coragem de olhar para ele. – Eu quero mais lasanha. Irvel olhou para Ashley, com os olhos arregalados. Então, sorriu e encolheu os ombros do modo delicado como Ashley sempre viu. – A menina quer lasanha – disse a idosa. – Bem. – Ashley trouxe a bandeja de rosquinhas de canela da cozinha e a estendeu para as três


mulheres mais velhas. – Acabou a lasanha. Só temos agora rosquinhas de canela. – O quê? – Helen encostou-se lentamente na cadeira, com uma expressão desfigurada de tristeza e decepção. – Acabou, Helen. – Sério? – Lágrimas de raiva pareciam brotar em seus olhos. – Acabou a lasanha? – Sim. – Ashley forçou um tom inflexível. – Acabou tudo. Helen pensou por um instante. – Ótimo. – Bufou com a boca endurecida. – Vou comer uma rosquinha de canela. – Ia pegando uma da bandeja, mas parou a mão no ar. – Espere um minuto. Rapidamente ela se virou e olhou para Ashley. – Você já foi revistada? Ashley olhou para a pele de seus braços, suas mãos. Como é que é? – Revistada? – Eles têm de revistar todo mundo. Com muito cuidado. – Bons. – Edith levou cuidadosamente uma garfada de ovos aos lábios. – Bons, bons ovos. – Sim. – Irvel cruzou as mãos delicadamente sobre a mesa. Um olhar sério surgiu em seu rosto enquanto ela dava uma olhada ao redor. – Todas nós fomos revistadas. Né, Ingrid? Helen disparou um olhar impaciente para Irvel. – Meu nome é Helen! – Foi isso que eu disse, querida. – Irvel revirou rapida-mente os olhos para Ashley, como se quisesse dizer que Helen muito possivelmente tinha um parafuso solto. Ashley sorriu e passou a bandeja para Irvel. – Uma rosquinha de canela? – Ora, sim, querida. – Irvel usou as pontas dos dedos para pegar uma única rosquinha. Edith hesitou por um instante, tirando os olhos de seu prato cheio de ovos, olhando para a rosquinha e voltando a olhar para o prato. – Eu gosto dos ovos. Por enquanto, Helen estava esquecida. – Você gostaria de uma rosquinha de canela, Edith? Você pode pegar duas, se quiser. – Ela já foi revistada – vociferou Helen. – Dê para ela. – Eu gosto dos ovos. – Edith baixou a sobrancelha e começou a tremer, nervosa e perplexa com a assustadora tarefa de decidir se deveria ou não pegar uma rosquinha de canela.


Pobrezinha. Ashley inclinou a cabeça e deu a Edith um sorriso compreensivo. – Coma os ovos, Edith. Tudo bem. Você pode comer uma rosquinha mais tarde. Ashley pôs a bandeja no meio da mesa, a alguns centímetros do prato de Helen. – Sirva-se. – É isso aí! – Helen olhou para suas amigas e jogou as mãos para o ar. – Alguém já revistou a menina? Ela não deveria estar aqui se não foi revistada. – Helen baixou a cabeça como se essa próxima parte não fosse para os ouvidos de Ashley. – E se ela for uma espiã? A mão de Edith tremia tanto que o garfo batia contra o prato. Ashley lançou um olhar preocupado em sua direção. O montinho de ovos mexidos estava só um pouquinho menor que antes. – Tem... tem mais ovos? – Claro. – Ashley acariciou a mão de Edith. – Assim que você terminar esses aí, eu dou mais um pouco para você. Edith examinou seu prato. A pele ao redor de seus olhos dobrava-se de forma curiosa. – Eu já acabei. – Levantou os olhos para Ashley; medo e confusão estampavam pouco a pouco seu rosto. – Alguém me deu mais. Não tem problema se eu comer? Tinha de existir uma maneira melhor. Ashley baixou o queixo. – Não, Edith. Pode comer. – Querida... – Irvel juntou os dedos ao redor da boca e lançou um comentário reservado de preocupação para Ashley. – Edith está ficando um pouco esquecida. – Certo – sussurrou Ashley. – Está tudo bem. – Sim. – Irvel torceu o nariz educadamente e fez que sim com a cabeça. – Eu também achei. – Irvel parou de repente e encarou Ashley. – Meu Deus, querida, você tem um cabelo bonito. Alguém já lhe disse como seu cabelo é bonito? Ashley lançou um sorriso paciente para Irvel. – Sim, isso foi muito gentil. Obrigada por... – Isso é ridículo. – Helen pôs o punho na coxa e se assustou com o contato. – Será que alguém vai responder para mim? – Empurrou a cadeira para trás e fez um gesto para Ashley. – A menina precisa ser revistada. Não podemos deixar espiões nesse lugar. – Helen – Ashley respondeu com a cabeça com convicção – Eu fui totalmente revistada. – Levantou as mãos em sinal de rendição. – Está tudo bem. Eu não sou uma espiã. – Bem! – Helen deu um tapa no joelho para chamar a atenção. – Tem a ver com a hora. O som de uma porta se abrindo interrompeu a conversa. Ashley olhou para o relógio. Eram 9


horas. Hora de começar o turno de Belinda. Belinda trabalhava das 9 às 17 horas e, de acordo com Lu, passava a maior parte do dia no escritório dos fundos cuidando da papelada, pedindo medicamentos e lidando com fornecedores que mantinham a casa abastecida. Belinda ajudava a dar banhos depois do café da manhã, mas, normalmente, Ashley fazia isso sozinha. – Ah, não! – A voz de Irvel se reduziu a um sussurro. – É aquela mulher. De repente, Helen fez um sinal com a cabeça do lado de Ashley. – Ela é espiã? Irvel afundou na cadeira e olhou para Helen. – Eu acho que sim. Edith lambiscava a comida de seu prato. Seus dedos tremiam mais que antes. – Eu gosto dos ovos. A frequência cardíaca de Ashley acelerou. O que era essa súbita tensão com a chegada de Belinda? O que a supervisora tinha dito ou feito para deixá-las tão nervosas? Belinda entrou na cozinha pisando duro, tirou a bolsa do ombro e encarou Ashley. – São 9 horas. – Sim. – Ashley encostou-se na cadeira. – Algumas de nós, as garotas bonitas, sabem olhar as horas. – Começamos os banhos às 9 horas. – Ela fez sinal com a mão na direção das mulheres mais velhas. – Por que elas ainda estão comendo? – Bem... – Ashley levantou a sobrancelha, tomando cuidado para manter o tom de voz calmo e delicado. Pôs a mão sobre a de Edith. – Edith não terminou de comer os ovos. – Ashley apontou para Irvel e Helen. – E as outras estão comendo as rosquinhas de canela. Belinda franziu a testa. – Por que estão demorando tanto? – Senhora... – Irvel limpou a garganta. – Se eu puder expli-car... – Lá se foi a assistente social que estava radiante de alegria com o modo como ela e as meninas iriam passar o dia. Em vez disso, a voz de Irvel tremia de incerteza. Espantada, Ashley ficou olhando para a mulher de cabelos brancos. A pobrezinha estava morrendo de medo, mas, ainda assim, se importou o suficiente com Ashley para tomar uma posição. O gesto tocou o coração de Ashley mais do que ela poderia entender. Belinda revirou os olhos na direção de Irvel. – Fale rápido. – Bem – Irvel alisou as pregas de seu vestido –, nós está-vamos conversando, nos conhecendo.


– Olhe, Irvel. – A gargalhada saiu da garganta de Belinda, e ela deu àquela idosa um sorriso debochado. – Se vocês, meninas, não se conheceram até agora, podem parar de tentar. – Sim, mas... – Irvel engoliu em seco, olhando para Ashley à procura de ajuda. – Hank me deixou aqui há uma hora, e as meninas e eu estávamos conversando. Talvez tomemos um pouco de chá de menta. – Isso mesmo. – Ashley levantou-se e começou a tirar os pratos da mesa. De onde estava, perto da pia da cozinha – fora da vista de Irvel –, Ashley lançou um olhar para Belinda. – Não tem mal algum em ficar uns minutos conversando. – Sua voz continuou agradável, mas ela cuidou para que seus olhos deixassem isso claro. – Tem? – Sim. – A voz de Irvel recuperou parte da confiança de antes. Ashley voltou para a sala de jantar e parou perto de Irvel de maneira protetora. A mulher estendeu a mão e segurou a de Ashley. – Conversar é bom. Pelo menos, até Hank vir me buscar. – Irvel sorriu para Belinda. – O cabelo desta menina não é bonito? Nunca vi um cabelo tão bonito. – Já chega! – Belinda caminhou até elas e puxou a cadei-ra de Irvel para trás a fim de tirá-la da mesa. Em seguida, baixou o rosto para que ficasse a poucos centímetros do de Irvel. – Hank morreu, Irvel. Faz quinze anos. Você vive com essas outras velhas em uma casa de repouso para pessoas com Alzheimer. – Seu tom de voz era alto e rude, como se ela estivesse falando com uma criança problemática de 5 anos. Ashley estava chocada demais para fazer outra coisa que não observar. Belinda respirou rapidamente. – Não há um saquinho de chá na casa e nunca houve. Ninguém vai conhecer ninguém e Hank nunca vai voltar para buscar você. Ele morreu. É a hora do banho, por isso não diga mais uma palavra. Pegue sua bengala e me siga. – S-s-sim, senhora. – Os ombros de Irvel começaram a tre-mer quando Belinda se virou e seguiu curvada pelo corredor. – Ah, Irvel. – Ashley foi para o lado dela e viu lágrimas nas bochechas flácidas e enrugadas da idosa. – Sinto muito. – Eu p-p-preciso de um banho. – Irvel se esforçou para ficar em pé com a ajuda de Ashley. Ao redor da mesa, houve silêncio. Edith abaixou o garfo e apoiou-se no encosto da cadeira. Seus olhos estavam fechados, mas a cabeça fazia um sinal sutil, e os lábios se moviam em um padrão repetitivo. Quando Ashley se inclinou para se aproximar, pôde ouvir a voz de Edith, o sussurro mais silencioso, dizendo:


– Não... não... não... não... – Edith, você está bem? – Ashley deu alguns passos em direção à mulher quieta. – Banho. – Ela empurrou a cadeira para trás da mesa, fez força para ficar em pé e foi devagarinho para o banheiro. – Eu preciso de um banho... preciso de um banho... Ashley, Irvel e Helen ficaram olhando para ela. – A senhora sempre deixa Edith nervosa – disse Irvel, estalando a língua. – Pobre Edith. – Eu disse para você. – Helen agarrou seus cotovelos, a testa marcada por linhas profundas de preocupação. – Essa mulher é uma espiã. Ela sempre foi uma espiã. De repente, o grito mais alto e mais agudo que Ashley já tinha ouvido atravessou o ar. Vinha do banheiro onde Edith provavelmente estava esperando alguém para ajudá-la com o banho. Ashley correu para lá quando mais um dos avisos de Lu veio à sua mente. Edith gosta de gritar. Ninguém sabe por quê. Contornando outra parede, Ashley entrou correndo no banheiro onde Edith estava parada em um lugar, os olhos arregalados, a boca aberta, gritando como se tivesse testemunhado um assassinato. – Edith... Edith, está tudo bem. Os braços e as pernas da mulher estavam tão rígidos quanto vigas de aço. Antes que Ashley pudesse fazer qualquer outra tentativa para acalmar a mulher, Belinda entrou de supetão no banheiro e gritou com Ashley: – Edith não pode tomar banho sozinha. A Lu não disse para você? Era impossível falar mais alto que os gritos de Edith. Antes que Ashley pudesse pensar no que fazer em seguida, Belinda colocou-se atrás de Edith e, usando a força, conduziu-a por um corredor até um quarto. Ashley ficou observando as duas, horrorizada. Era assim que as pessoas morriam – com medo e sozinhas? Humilhadas? Ela voltou para a sala de jantar, quase sem perceber seus passos. Irvel e Helen não se moveram e, nesse momento, as duas estavam em silêncio, com os olhos cheios de pavor. Em três minutos, os gritos de Edith pararam, e Belinda passou por elas batendo os pés em direção ao outro banheiro, murmurando algo sobre incompetência, o rosto desfigurado de irritação. – Ela é uma espiã – disse Helen como um assobio. Ashley não fazia a menor ideia do que fazer ou por onde começar. Queria ver Edith, mas Irvel e Helen precisavam dela também. Será que era assim que Belinda sempre tratava essas pessoas? Com


hostilidade, irritação e sem respeito? Gritando com as coitadinhas e mandando de lá para cá? Se sim, Ashley teria de fazer algo sobre isso. – Irvel! – A voz de Belinda veio se propagando pelo corre-dor. – Venha aqui. Seu banho está pronto. Irvel foi deslizando os pés para frente, primeiro um, depois o outro, enquanto Ashley andava ao seu lado sem poder fazer nada. Ela era muito nova ali para mudar a rotina. Além disso, Belinda era a responsável e já havia deixado claro que, se não seguisse o protocolo, Ashley estaria no olho da rua. Agora, depois de passar algum tempo com Irvel, Edith e Helen, Ashley estava mais certa do que nunca de que queria ficar e ajudar, queria deixar que elas mexessem com seu coração e o amolecessem novamente. Na metade do corredor, Irvel parou. – Hank... não se foi, de verdade. – Virou-se devagar e fi-cou de frente para Ashley. – Foi? Os olhos de Irvel imploravam pela resposta que ela queria ouvir. Por um instante, Ashley não disse nada, pois não queria piorar as coisas. Então, veio à sua mente uma imagem de Landon deitado na cama do hospital, dizendo-lhe que ele estava se mudando para a cidade de Nova York. Ela não iria vê-lo novamente – não por um ano, pelo menos, e talvez para sempre. Mas isso não mudava o modo como o amava. – Não, Irvel. – A imagem de Landon desapareceu, e Ashley usou delicadamente as mãos para segurar os ombros de Irvel. – Enquanto você o amar, ele nunca irá embora. – Eu amo Hank. – As palavras de Irvel foram lentas, es-pontâneas, e a emoção em seus olhos era tão crua que quase doía. – Você não sabe o quanto eu amo Hank. – Bem, então... – A voz de Ashley estava embargada, e ela sentiu as lágrimas queimarem. – Ele não se foi, né? – Não. – Irvel endireitou-se um pouco e fez que não com a cabeça. Um sorriso cheio de gratidão foi levantando as bochechas caídas. – Ele não se foi mesmo. Ele está pescando...como sempre. As duas ouviram um som agudo. – Irvel? A voz de Belinda ecoou nas placas de gesso das paredes, e a senhora frágil deu um salto. Ashley piscou para Irvel e respondeu com uma voz agradável: – Ela está indo.


Seria inútil discutir com Belinda agora. Isso só deixaria Irvel e as amigas mais chateadas. Irvel levou a cabeça para perto da de Ashley; sua voz foi um sussurro. – Você é muito gentil, querida. Eu realmente espero que possamos tomar um chá um dia. – Irvel deu mais alguns passos e parou. Levantou um único dedo e apontou para Ashley. – Sabe de uma coisa? Você tem um cabelo muito bonito... Ashley passou o resto do dia dedicada a várias outras tarefas. Supervisionou o almoço e ajudou as mulheres a se acomodarem nas cadeiras para um cochilo à tarde. Deu uma olhada em Laura Jo e Edith, mas as duas estavam dormindo. Na mesa de Belinda no escritório, ao lado da ficha de Edith, Ashley notou um frasco de remédio. Sedativos – obviamente essa era a maneira de Belinda fazer Edith parar de gritar. Passou várias vezes no quarto de Bert. Lu tinha razão. Quando não estava comendo ou dormindo, ele ficava dando voltas e mais voltas na cama, alisando as rugas do edredom com um cuidado meticuloso. – Bert? – Ashley se aproximou dele e tocou-lhe no braço. – Bert, meu nome é Ashley. Eu sou nova aqui. Bert não disse nada. Não parou nem ergueu os olhos. Em vez disso, fez uma manobra estranha para passar por Ashley, as mãos se movendo em constantes círculos o tempo todo. – Tudo bem, então, Bert. Estarei no quarto ao lado se você precisar de alguma coisa. Enquanto saía, Ashley notou uma foto em preto-e-branco emoldurada sobre a cômoda de Bert. Era a foto de um homem bonito e robusto e uma jovem vistosa, um ao lado do outro, montados em cavalos. Ashley olhou por cima do ombro para Bert, que ainda estava dando voltas na cama. – Eu estou aqui do lado, Bert. Me chame se você precisar de mim. Naquela tarde, a sobrinha de Irvel apareceu. Lu havia explicado sobre os visitantes regulares, e a sobrinha de Irvel era um deles. Ela vinha todas as segundas à tarde e lia a Bíblia em voz alta para a tia. Quando ela terminava, elas recitavam o salmo 23 juntas e, em seguida, cantavam o hino favorito de Irvel. Ashley ficou observando a cena do corredor. As duas mulheres estavam de braços dados, cantando de uma forma que estava longe de ser perfeita, mas muito mais bonita. Tu és fiel, Senhor; tu és fiel, Senhor... A canção aumentou e, depois, chegou ao fim. Irvel era educada e gostava da companhia, mas é óbvio que não reconhecia a sobrinha. Não se lembrava de quase nada sobre sua vida, a não ser de algumas coisas preferidas: seu nome, seu Hank, seu hino favorito.


E de cada palavra do salmo 23. Quando sua sobrinha estava de saída, Irvel a abraçou e sorriu. – Eu sou Irvel, querida. Prazer em conhecê-la. Vamos tomar um chá algum dia. Chá de menta. – Eu amo você, tia Irvel – disse-lhe a mulher. – Jesus a ama também. – Sim, querida. – Os olhos de Irvel brilharam como se ela tivesse 20 anos novamente. – O Senhor é o meu pastor. Isso não é maravilhoso? Enquanto voltava do trabalho para casa, Ashley não conseguia parar de pensar na idosa e em seu jeito doce de acolher os que a cercavam. Antes de buscar Cole na casa de seus pais, onde ele ficava enquanto trabalhava, Ashley parou e comprou uma coisa que não podia faltar nem mais um dia na Casa de Repouso Sunset Hills. Uma caixa de saquinhos de chá de menta.


CAPÍTULO 10 Você colhe aquilo que planta. Essa era a única maneira pela qual Luke Baxter podia achar sentido na vida boa que estava vivendo recentemente. Não apenas na escola e na igreja, mas com Reagan – principalmente, com ela. Eles estavam a pouco mais de nove mil metros de altitude a caminho da cidade de Nova York. A viagem tinha sido ideia de Reagan – uma oportunidade de passar uma semana com Luke antes do início das aulas e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de Luke conhecer os pais dela. Luke deu uma olhada para a namorada, que dormia com a cabeça encostada na janela, e, em silêncio, fez uma oração de agradecimento a Deus por ela. Reagan era tudo o que ele sempre quis em uma garota. Tudo. A moça tinha pernas que não acabavam mais, muito longas, e um cabelo dourado. Mais de uma vez, as pessoas já tinham dito que ela parecia a bela tenista profissional, Anna Kournikova, só que mais alta e com pernas mais compridas. Luke achava que elas estavam erradas. Reagan era muito mais bonita que Kournikova. Ele tinha 1,87 metro de altura e Reagan tinha 1,82 metro quando estava de salto. Ela chamava a atenção onde quer que fosse. E, ainda por cima, era engraçada e meiga e adorava um bom jogo de softbol. Mais importante, ela estava comprometida com Deus, assim como Luke. Todos concordavam que ela era perfeita para ele. Ele também achava. Reagan despertou e endireitou-se no assento. – Que horas são? – Quase 1 da tarde. Mais meia hora e a gente chega. – Bom. – Ela se aconchegou no ombro dele, a voz sonolen-ta. – Mal posso esperar para que eles conheçam você. – Tem certeza de que eles vão gostar de mim? – Seu bobo! – Ela lhe deu um sorriso largo e mexeu na ponta do nariz dele com o dedo. – O que a gente pode não gostar em você? Ela se afastou novamente, e Luke pensou no que ela havia dito. Era isso, não era? Ele tentou viver toda a sua vida de uma forma que honrasse a Deus. E, consequentemente, sua vida estava sendo como deveria ser. Não como Ashley, que havia fugido para Paris e engravidado – e sabe-se lá mais o quê? – antes


de se arrastar de volta para casa. Ela havia sido criada com os mesmos princípios morais, as mesmas crenças que ele. Mas jogou tudo fora, e sua vida virou uma bagunça desde então. Pior ainda, suas escolhas envergonharam a família. E o que dizer de Tim, marido de Kari, que não só a traiu, mas, na verdade, foi morar com uma das alunas? Ele não apenas desonrou a família, mas morreu ao longo do ocorrido! Antes, é claro, Tim voltou para casa e tentou fazer com que as coisas com Kari dessem certo, e, para Luke, isso era uma coisa boa. Mas, por que Kari não evitou Tim, em primeiro lugar? O cara não tinha nada a ver com ela, era muito velho e acadêmico. Especialmente quando um cara tão incrível como Ryan Taylor a amava durante toda a vida. Luke recostou-se no assento. Ele ainda não tinha certeza do que pensar sobre o assassinato de Tim. Foi trágico, é claro. Mas, no final, Tim colheu o que plantou também. Luke não podia deixar de pensar que Kari estava melhor agora, por mais difícil que tivesse sido. Luke bocejou. Às vezes, quando pensava nas coisas dessa maneira, ele ficava imaginando se estava sendo insensível ou crítico. Ashley certamente achava que sim. Mas não era isso, não mesmo. Ele só se preocupava em obedecer a Deus e fazer a coisa certa. Defender a honra da família. E o incomodava quando as pessoas de sua própria família não se importavam com isso. Não que ele fosse perfeito. Ele sabia que era um pecador – todos eram. Contudo, ele se esforçava para viver como deveria, como tinha sido criado. Orava. Ia à igreja. Sempre teve por princípio não beber nem viver em baladas e fazia o possível para evitar situações tentadoras com as moças. Ele achava que devia isso a Deus e à família. A si mesmo, na verdade. E agora todos os seus esforços estavam valendo a pena – isso era claro. Ele estava colhendo o que tinha plantado. Esta viagem para Nova York era apenas mais uma prova. *** Era como se Luke estivesse voando – a vista do 89º- andar da torre norte do World Trade Center era simplesmente incrível. O pai de Reagan, Tom Decker, conduzia o passeio pelo prédio, e Luke e Reagan seguiam a poucos metros atrás dele. – Não dá para acreditar nisso – sussurrou Luke para Reagan. Ela deu uma risadinha, a voz quase inaudível.


– Espere até ver o escritório dele. Reagan tinha razão. Seu pai levou-os até uma sala com painéis de madeira, e Luke teve de se segurar para não soltar um “uau” alto. A vista era além de qualquer coisa que Luke pudesse ter imaginado. Mas ele não queria que o Sr. Decker pensasse que ele estava se sentindo um peixe fora d’água. Afinal, em um futuro próximo, ele estaria formado e teria um escritório muito parecido com esse. Pelo menos, era o que ele imaginava. – Isso é uma beleza, senhor. – Luke foi até a janela e ficou olhando lá para baixo. Ver a cidade do 89º- andar era surreal, quase como olhar para baixo de um avião. – Eu gosto disso. – O Sr. Decker sorriu. – A maioria das pessoas fica bem surpresa quando vem aqui em cima pela primeira vez. – Eu sei que eu fiquei. – Reagan enroscou o braço no do pai. – Só a subida de elevador já é suficiente para me deixar enjoada. O telefone na mesa do Sr. Decker tocou, e, por um instante, ele ficou ocupado em uma conversa. Luke olhou para Reagan e levantou as sobrancelhas. – Legal. – Luke movimentou os lábios para dar a impres-são de que estava falando a palavra. Ela se soltou do braço do pai e se juntou a Luke perto da janela. Reagan ficou olhando para baixo, a testa encostada no vidro. – Parece um cartão-postal. – Eu sempre pensei que não sairia de Indiana. – Ele desli-zou um pouco a mão para baixo na janela para colocá-la sobre a dela. – Mas agora, aqui em Nova York, sei lá. Há algo que vicia nesse lugar. Uma emoção, uma energia. – Ele atraiu a atenção dela. – Como se eu não pudesse realmente conquistar o mundo dos negócios a menos que fizesse isso aqui. Reagan deu um sorriso largo. – Você ainda é muito jovem para conquistar alguma coisa. – Ei. – Luke cutucou-a com o cotovelo. – Dê uma chance para o rapaz. Atrás deles, o Sr. Decker desligou o telefone. – Estão precisando de mim no fim do corredor para uma reunião rápida. Não deve demorar mais de dez minutos, se vocês quiserem esperar. – Ele deu um tapinha no relógio. – Eu gostaria de leválos para almoçar no topo, se vocês tiverem tempo. – Claro. – Reagan levantou um ombro. – Temos o dia todo, certo? – Ela olhou para Luke. – Certo. – E nós vamos ver Riverdance hoje à noite. É isso que está na programação?


– É. – Reagan baixou o queixo e advertiu Luke com o olhar. – E não quero nenhum mimimi de vocês, tá, meninos? Luke reprimiu um sorriso e levantou as mãos. – De minha parte, nenhum. – Luke gosta de homens com meias-calças. – O Sr. Decker deu-lhe um soquinho no braço ao dar a volta na mesa. – Especialmente as irlandesas. Eles ainda podiam ouvir as risadas do pai de Reagan enquanto ele fechava a porta do escritório e seguia pelo corredor. Luke ficou olhando para Reagan. – Dá para imaginar isso? – O quê? – Seus olhos dançaram. Ela se encostou na janela, de frente para ele. – Eu. Em um escritório como esse. – Ele apontou para a enorme cadeira de couro atrás da mesa. – Trabalhando ao lado de seu pai. – Acho que sim. – Uma risada soou em seus lábios. Luke acabou com a distância entre eles. Reagan era tão linda e parecia tão feliz passando essa última semana com os pais. Na verdade, esses últimos dias com Reagan e a família dela haviam sido suficientes para convencê-lo. Um dia, talvez em breve, ele pediria a mão de Reagan em casamento. Eles poderiam ter uma vida maravilhosa juntos, talvez aqui mesmo em Nova York. E, independentemente dos tempos difíceis que pudessem vir, a vida de fé que compartilhariam juntos não seria outra coisa senão um mar de rosas. Dia após dia, ano após ano. Ele queria beijá-la, carregá-la nos braços e puxá-la para perto do jeito que desejava desde que tinham saído de Bloomington juntos. Mas, a proximidade constante dela o estava afetando. Se ele quisesse manter seus pensamentos puros, eles precisavam de espaço entre eles – sempre que possível. Ele deu alguns passos para trás e se jogou na cadeira do pai dela. Colocando os pés no canto da mesa, ele entrelaçou os dedos atrás da cabeça e abriu um sorriso largo para ela. – Sabe o que eu quero? Ela apoiou as costas contra a janela e inclinou a cabeça para o lado. – Um par de meias-calças irlandesas? – Depois disso. Dessa vez, ela deixou a cabeça cair para trás, dando uma risada delicada como se fosse uma


música. – Certo. – Ela fez uma pausa. – Diga. – Eu quero uma posição nesta empresa aqui... e um escri-tório no fim do corredor, perto de seu pai. Assim – ele fez uma voz envaidecida –, posso sustentar a filha dele do modo como ela está acostumada. Reagan piscou os olhos. – Ah, é? – É isso ou o sapatinho de cristal. – Luke deu outro sorriso largo para ela. Fazia menos de um ano que eles estavam namorando, e suas discussões sobre o futuro nunca eram muito sérias. Mas ele estava para cruzar o limite aqui. – Você sabe das coisas, Reagan. De um jeito ou de outro, eu quero você em minha vida. – Sério? – Ela estava brincando com ele, sondando-o. – Sério. – Ele estendeu a mão, e ela, prontamente, veio para perto dele. Quando ela estava perto o suficiente, ele a puxou para seu colo e tocou o nariz no dela. – Você gosta de Nova York, né? – Eu gosto de sapatinho de cristal também. De repente, chegou o momento, e as palavras de Luke ficaram presas na garganta. Ele entrelaçou os dedos no cabelo dela e a beijou até que eles ouviram passos no corredor do lado de fora. – Ele está vindo! – Reagan sussurrou o sinal de advertên-cia colada ao rosto de Luke e deu um pulo para voltar aonde estava junto à janela. Ao mesmo tempo, Luke saiu voando da cadeira e tentou encontrar uma posição descontraída a poucos metros de distância. Ambos estavam ofegantes quando a porta se abriu. – Reuniões! – O Sr. Decker deu uma rápida olhada para cada um deles e foi para trás de sua mesa novamente. Colocou uma pasta sobre a mesa e bateu as mãos. – Certo... Os dois estão com fome? Luke deu uma olhada para Reagan. O homem não fazia ideia. Virou-se de costas para o Sr. Decker e deu de ombros. – Com certeza. – Tudo bem, então. Windows on the World, lá vamos nós. Quando passaram pelo escritório ao lado do Sr. Decker, Luke apontou para a placa na porta, deu uma olhada para Reagan e mexeu os lábios sem falar em voz alta: – Luke Baxter. E, nesse momento, ele não teve dúvidas de que, um dia, isso seria verdade. Não apenas o nome na placa, mas todas as coisas: o trabalho, o casamento, o lugar na cidade de Nova York.


AtĂŠ mesmo o sapatinho de cristal.


CAPÍTULO 11 Deus a estava honrando. Quando Kari foi ao escritório do pastor Mark Atteberry naquela terça-feira à tarde, ela não tinha outra maneira de explicar seus sentimentos. Fazia dias que tinha ficado acordada até tarde da noite, sonhando em como usar sua dolorosa experiência para ajudar outras mulheres. E, desde então, seu coração estava mais leve a cada dia. Nas semanas depois do nascimento de Jessie, houve momentos em que Kari chorou de alegria e outros em que o medo e a solidão pareciam enormes. Seu marido estava morto, e, de alguma forma, ela teria de sobreviver. Mesmo com sua fé, mesmo com sua família por perto, havia dias inteiros em que a tarefa parecia assustadora – ou pior. E seus sentimentos por Ryan Taylor complicavam as coisas. Era bom que ele estivesse morando em Nova York. Nessa fase da vida de Kari, teria sido insuportável vê-lo com frequência, carregar a constante lembrança de tudo o que ela e Ryan tinham compartilhado antes. O simples fato de pensar nele fazia com que ela se sentisse infiel, como se estivesse traindo a memória de Tim. Mas agora que Deus tinha plantado um novo propósito em sua vida, Kari poderia conversar com Ryan e desfrutar desses momentos. Ela já não dependia de uma ligação dele no final do dia para aliviar o fardo do sofrimento de cuidar de uma filha sem pai. Na verdade, Deus a tinha levado para um lugar à parte, um lugar longe da dor e da angústia. Longe, até mesmo, dos breves lampejos de prazer que ela sentia quando falava com Ryan. Seu lugar agora era claro, íntimo e constante, como se Deus a tivesse atraído para seu próprio ser. Ela havia lido nas Escrituras que o Senhor era uma poderosa fortaleza, uma torre, um esconderijo. Mas só agora estava percebendo essas verdades em sua própria vida. Ela estava lá agora, segura em um lugar que desejava encontrar desde que era uma menina. No entanto, nunca teria imaginado que o preço para chegar lá seria tão alto. Kari virou no corredor da igreja e seguiu com Jessie no bebê conforto, cuidando para não perturbar o sono da filhinha. Jessie estava com quase três meses agora, e Kari podia notar uma rotina se desenvolvendo nos padrões de sono da menina. Se a rotina persistisse, Jessie só acordaria dali a uma hora. A porta do pastor Mark estava aberta. – Entre, Kari. – Ele se levantou e abraçou-a enquanto se posicionava atrás do bebê conforto de


Jessie. – Vamos dar uma olhada nessa menininha. Kari sorriu, deixando os olhos acompanharem os do pastor. – Ela é uma graça, não é? – Ah, meu Deus. – O sussurro veio dos lábios de Mark. – Ela é linda. Sem dúvida, ela é a cara da mãe. O sorriso de Kari suavizou um pouco. – E os olhos do pai – disse ela. – Sim. – O pastor Mark concordou, apertando os ombros de Kari mais uma vez. – Eu ia dizer isso. – Ele deu uma olhada para ela. – Tudo bem com você? – É por isso que estou aqui. – Kari foi até um peque-no sofá a poucos metros de distância e sentou-se. Colocou o bebê conforto de Jessie no chão, perto dela, e começou a balançá-lo suavemente. – Então... – o pastor Mark voltou para sua cadeira e in-clinou-se para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. – Como está sua família? – Bem. – Kari sorriu, lembrando-se de ser paciente. Sabia que a conversa não seria rápida. – Minha mãe recebeu um bom diagnóstico do médico dela na semana passada. Até agora sem câncer. Já faz quase dez anos agora. – Isso é maravilhoso. Ainda não falei com seu pai. Ele estava preocupado. – Estava? – Seu pai não tinha dito nada sobre estar apreen-sivo com o exame de sua mãe. O pastor Mark deu de ombros. – Ele sempre fica preocupado quando sua mãe faz exames. Toda vez que alguém luta contra um câncer, há uma chance de ter de lutar contra ele de novo. – Bem... – Kari afastou o pensamento da cabeça. – Os médicos dizem que ela parece ótima. – Bom. – O pastor cruzou as pernas. – E os outros? Brooke, Erin, Ashley, Luke? – Eles estão bem. A menina de Brooke ainda fica muito doente, e Erin e Sam estão de mudança neste outono. Ashley arrumou um trabalho na Sunset Hills, aquela pequena casa de repouso perto de South Walnut. – Sim, alguns membros da igreja vão parar lá de vez em quando. – Sala de espera do céu, diz meu pai. – Kari inclinou a cabeça. – Pessoas doces, pelo que diz Ashley. – Ela deve estar feliz por saber que Landon está bem.


– Sim – suspirou Kari. – Eu acho que Deus tem algo espe-cial planejado para aqueles dois. O pastor lançou-lhe um olhar curioso. – Então, ela finalmente decidiu deixar que ele a fisgasse? – Ashley? – Kari riu baixinho. Parou de balançar Jessie e inclinou-se para trás. – Não a minha irmã Ashley. Ela vai fazer tudo da maneira mais difícil, inclusive se apaixonar. Ela se importa com Landon, mas seria a última a admitir que há qualquer tipo de romance. – E Luke? – O pastor Mark coçou o queixo. – Faz semanas que não o vejo por aí. – Ele está em Nova York visitando a família de Reagan. – Reagan? – O pastor levantou uma sobrancelha. – Então é sério, hein? Kari deu um sorriso largo, imaginando seu irmão e Reagan. – Eles formam um belo casal. Eles estudam, riem e oram. Os dois fazem com que todos os que olham para eles se lembrem de que o amor ainda é uma coisa boa. – Ela fez que sim com a cabeça. – Eu diria que é sério. – Então, ela é de Nova York? – As conversas com o pas-tor Mark eram sempre assim: vários minutos de notícias dos Baxter antes que qualquer coisa séria pudesse ser discutida. Não era conversa fiada para o pastor. Era dar notícias para o homem que realmente se preocupava, como se ele também fizesse parte da família Baxter. – Os pais dela já vivem lá há um bom tempo; depois, eles se mudaram para a Carolina do Norte. No ano passado, o pai foi contratado por uma grande empresa de contabilidade da cidade. Ele trabalha nas nuvens, é o que diz Luke. Quase no topo do World Trade Center. – Deve ser uma vista incrível. – O pastor Mark sorriu. – Nada que se compare com alguma coisa aqui em Bloomington, infelizmente. – Luke está conhecendo o prédio inteiro nesta semana. – Ela sorriu. – Outra noite, minhas irmãs e eu ficamos imaginando toda a cena. Luke vai se formar, casar com Reagan, e os dois vão se mudar para Nova York. Então, Luke poderá ter um escritório lá no alto, ao lado do pai de Reagan. – Pode acontecer. – O pastor piscou e respirou lentamen-te. – Mas não acho que foi isso que você veio me contar. – Seus olhos ficaram mais penetrantes, mais atentos. – Pareceu importante quando você me ligou outro dia. – É. – Kari pôde sentir seus olhos ganharem vida. Ela que-ria falar sobre isso desde aquela noite. – Certo. – Ela estendeu as mãos. – Eu sei o que Deus quer que eu faça com o resto de minha vida. – Bem – a risada gostosa do pastor encheu a sala –, a maioria de nós não pode dizer isso. – Seus olhos se estreitaram de um modo sério. – Fale-me a respeito.


Kari tentou conter seu entusiasmo. Ela precisaria ficar calma e ser concisa para poder dar ao pastor Mark uma ideia clara de sua visão. – Eu pensei que há outras pessoas como eu na igreja. Quero dizer, pessoas que estão sofrendo. Pessoas que estão feridas, mas ainda continuam na luta. Estou certa? Não sou a única, sou? Um sorriso triste surgiu na expressão do pastor. – Você anda grampeando minhas ligações? – Ele se inclinou um pouco para trás na cadeira e ergueu a sobrancelha. – Há mais gente ferida do que se imagina. Kari mordeu o lábio. – Foi o que pensei. – Ela respirou firme. – Antes de Tim morrer... antes que ele me contasse que estava tendo um caso... imaginei nós dois trabalhando com casais, pessoas que estivessem lutando para fazer o casamento dar certo. – Ela deu uma risada triste. – Pessoas como Tim e eu, eu acho. É óbvio que não deu certo. Jessie murmurou baixinho e estendeu um punho pequeno. Kari inclinou-se para frente e voltou a balançar o bebê conforto levemente. – Enfim, na semana passada eu praticamente senti Deus dar tapinhas em meu ombro e dizer que ainda há algo que Ele quer que eu faça. As mulheres que estão sofrendo, quero dizer, sofrendo de verdade, não necessariamente procuram ajuda em um estudo bíblico semanal. – Ela fitou os olhos do pastor Mark. – Elas precisam, bem, de uma espécie de mentora. Alguém que possa se reunir individualmente com elas, estudar as Escrituras com elas, chorar com elas e ouvir seus desabafos. Um tipo de amiga anônima que possa guardar seus segredos. Alguém que possa olhar diretamente nos olhos delas e dizer: “Eu passei pelo fogo, e você também pode”. Sabe, diminuir a distância entre a dor e o progresso. Kari abriu a mão sobre o peito, com a voz suave, mas cheia de uma paixão sagrada. – Alguém como eu. O pastor Mark concordou. – Hummm. – Seus olhos encheram-se de compreensão. – Gente presa na própria dor, você quer dizer? Uma espécie de forma anônima de encontrar ajuda e apoio. – Sim. – O coração de Kari acelerou. – De alguém que já passou por isso. Pelo menos, de um jeito ou de outro. O pastor pegou uma caneta e papel da mesa e começou a anotar algo. – Posso pensar em uma mulher neste exato momento que aceitaria a oportunidade de se encontrar com você. O marido dela está quase tendo um caso. Ele já está falando em divórcio. Ela é uma


pessoa muito reservada. Não quer que ninguém na igreja saiba. – Ele ficou batendo a caneta no joelho enquanto olhava para suas anotações. – Enquanto isso, ela está se definhando espiritualmente. Se eu ligar para ela e falar sobre sua proposta, tenho certeza de que ela ficaria interessada. – Em seguida, pôs a caneta na mesa e se virou na direção de Kari. – Mas, algo me diz que é um pouco cedo. – Cedo? – Ela respirou profundamente. – Meus senti-mentos são recentes o bastante para fazer a diferença. – Mas talvez sejam recentes demais. Eu acho que você precisa de um pouco mais de tempo para curar as feridas antes de começar a aconselhar alguém. O entusiasmo escapou do coração de Kari como o ar de um pneu furado. Ela se jogou no sofá. – A cura leva tempo, Kari. É preciso se lembrar, examinar as peças de seu passado e apreciar o que era bom, identificar o que não era. Dessa forma, você honra seu passado. Depois disso – ele sorriu –, tenho a sensação de que Deus irá usá-la para ajudar mais pessoas do que você pode imaginar. – Você acha isso mesmo? – A esperança despertou dentro dela. – Com certeza. Mas, é importante que você não apresse as coisas, Kari. Você e Deus têm muita coisa para resolver antes de você poder assumir um ministério. Ao final de uma hora, o pastor Mark escreveu uma lista de livros que Kari poderia ler, estudos sobre cura e aprendizado com as lembranças de um momento doloroso ou de uma perda difícil. Eles oraram juntos, entregando o sonho de Kari a Deus e pedindo a direção dele nos próximos meses. Kari saiu do escritório do pastor com uma paz renovada e um propósito que a preencheu dos pés à cabeça. Talvez esse não fosse o momento de começar a ajudar outras mulheres. Mas, esse momento viria. Como Tim teria ficado feliz ao ver para onde Deus a estava levando – primeiro, passando pelas lembranças que faziam parte de seu passado e, depois, para um futuro no qual todas as suas lembranças ajudariam a vida de outras mulheres. Se ao menos você soubesse, Tim. Deus é tão bom; ele está me dando uma nova chance na vida. No caminho para casa, em vez de virar à direita, ela virou à esquerda e foi parar no cemitério. O dia estava colorido de tons de azul-claro e verde vibrante. A luz do sol atravessava as árvores e salpicava brilho sobre o mar calmo da morte. Kari ficou olhando pelo campo. Em um dia de verão como esse, as fileiras de lápides de cimento cinza quase pareciam acolhedoras. Ela pegou a mamadeira de Jessie, tirou a bebê que estava dormindo na cadeirinha no carro e a embalou junto ao seu corpo.


– Vamos lá, menininha. – Aninhou o rosto junto ao da filha. – Vamos conversar com o papai. Kari já tinha ido lá várias outras vezes desde que Tim morreu. Na maioria das vezes, sofria seu luto em casa, com a Bíblia em uma das mãos e uma caixa de lenços na outra. Mas, às vezes, ela só precisava lembrar, precisava se conectar mais uma vez com tudo o que nunca mais existiria. Respirou fundo e atravessou o estacionamento. Dê-me forças, Deus. Com cuidado, ela conseguiu passar por túmulos de diferentes formas e tamanhos até encontrar um que parecia mais novo que os demais. Em volta de sua base, a grama verde se enfiava por entre os cascalhos – um sinal de que a vida lutava para continuar. O túmulo era simples, tradicional, mas expressava como Kari se sentia em relação a Tim. Como ela ainda se sentia: “Timothy Allen Jacobs. Marido e pai amoroso”. Era verdade, apesar do que as pessoas diziam. Tim havia cometido alguns erros terríveis, e, sim, ela estava zangada com ele – zangada o suficiente para odiá-lo, às vezes. Mas ele também tinha recobrado o juízo. Tinha voltado para casa e se comprometido com uma série completa de sessões de aconselhamento junto com Kari. Nos meses que antecederam seu assassinato, os dois tinham ficado mais próximos do que Kari tinha imaginado ser possível. E, durante aqueles meses valiosos, ela teve um vislumbre do tipo de pai que Tim teria sido. Ele colocava a cabeça na barriga dela e cantava músicas para a filha que ainda não tinha nascido. Pouco antes de ser morto, ele levou para casa uma pequena águia de pelúcia, branca e felpuda. O primeiro brinquedo de Jessie, o que Kari colocava nos pés do berço de sua filha todas as noites. Kari olhou para o túmulo. Como você pode ter ido embora? Olhou rapidamente para as duas datas gravadas sob o nome dele; não havia um número de anos suficiente entre elas. Ele era tão jovem – tinha somente 34 anos. Ainda era difícil de acreditar. Ele estava deitado lá embaixo da terra, enquanto seu assassino estava sentado atrás das grades na cadeia local, conseguindo protelar o julgamento vez após outra. O promotor havia dito que o assassino de Tim talvez só enfrentasse um júri na primavera ou depois disso. A pequena Jessie começou a se mexer, e Kari encostou-se em uma árvore. Colocou a mamadeira na boca da filha, enquanto uma brisa levantava e balançava as folhas de uma árvore próxima. Tu estás aqui, não estás, Deus? Kari levantou a cabeça e fechou os olhos, deixando o ar fresco passar por seu rosto. O murmúrio das folhas parecia ser uma resposta. Sempre... sempre... sempre. Uma passagem bíblica de um sermão recente passou pela mente de Kari assim como tantos outros raios de sol: As suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se a cada manhã.


Kari abriu os olhos e ficou olhando para Jessie. Sim, Senhor, elas são. A cada manhã. Moveu os olhos mais uma vez na direção da lápide de Tim. – Está acontecendo, Tim. – Ela deu uma risada silenciosa. – Quando pensei que nunca aconteceria. – Fez uma pausa. – Estou aprendendo a viver. Jessie estava mais desperta agora, o som do leite sendo sugado estava mais forte. Kari engoliu em seco, procurando a voz. – Estou orando para que Deus permita que você saiba de algo. – Lágrimas queimaram no canto de seus olhos, e um soluço baixinho e alegre brotou de algum lugar de sua alma. – Ele me deu uma maneira de ajudar... uma... uma maneira de compartilhar o que aprendi com você. – Uma única lágrima escorreu por seu nariz. Kari secou-a com a manga da roupa antes que ela pudesse cair em Jessie. Fungou duas vezes. – Eu vou ficar bem, Tim. Jessie afastou-se da mamadeira, resmungou suavemente e deu a Kari um sorriso encantador. Kari devolveu o sorriso, beijando a testa da filha. – Nós duas vamos ficar bem, não vamos, Jess? A brisa abrandou, e um silêncio pairou sobre o local onde Tim estava enterrado. – Bem... – Kari voltou a olhar para o túmulo. – Temos de ir agora. Jessie precisa ir para casa. – Sentiu, de repente, um nó na garganta. – Eu... eu gostaria que você pudesse vê-la, Tim. Ela é tão linda. Você teria sido o pai mais orgulhoso do mundo. Novamente, Kari fungou e, nesse momento, se levantou, os olhos fixos no céu azul. Senhor, ajudame a seguir em frente. Por favor. Em seguida, com uma força que não era sua, Kari agarrou-se mais ainda a Jessie e caminhou em direção ao carro. Um passo de cada vez, distanciando-se da tristeza e do sofrimento que dominaram sua vida durante muitos meses. E seguindo em direção a um futuro no qual só conseguiu acreditar nessa semana.


CAPÍTULO 12 Landon já não era o inimigo. Agora que Ashley tinha sido honesta e explicado como seu amor por ele não tinha nada a ver com compromisso, casamento ou até mesmo namoro, tudo relacionado a Landon, de repente, não era nem um pouco ruim. Era quase divertido. Ele ainda estava afastado do trabalho, esperando a cura da perna e das queimaduras. Ashley começou a levar Cole à casa dele aos sábados para ajudá-lo a matar o tempo. Eles passavam a tarde assistindo à TV ou brincando com jogos. Sempre, nessas visitas, o clima entre Ashley e Landon era leve e alegre – e até mesmo festivo. Nada dos olhares profundos nem dos tons sérios que afetaram aquela noite memorável no hospital. Nem mesmo o jogo desconfortável da busca que marcou os encontros deles antes disso. Landon era maravilhoso com Cole, deixava o menino desenhar com lápis em sua atadura, brincava de joguinhos com ele e ensinava-lhe a diferença entre as jogadas, se os Cubs estivessem na TV. Mais tarde, enquanto Cole se entretinha colorindo desenhos ou brincando sozinho, Ashley contava a Landon tudo sobre a casa de repouso: a saudade que Irvel sentia do marido, os gritos de Edith e a insistência de Helen de que todos que entravam na Sunset Hills eram possíveis espiões. Landon era um ouvinte paciente. Parecia interessado em tudo o que ela dizia, e não apenas porque era público cativo. Na verdade, ele era a pessoa perfeita para ouvir suas ideias, e falar com ele a ajudava a processar sua experiência na Sunset Hills. Às vezes, Ashley se pegava olhando para Landon um pouco mais do que o necessário, divertindose mais do que pretendia. Mas, no final, ela sempre mantinha o foco. Afinal de contas, todas as razões pelas quais eles não estavam juntos ainda eram válidas – e, além disso, Landon estava de mudança para Nova York. Essas talvez fossem as últimas vezes em que estariam juntos, os últimos dias de uma amizade que criou raízes quando eles eram praticamente crianças. Eles estavam em um terreno seguro. Landon não falava nada sobre os sentimentos que tinha ouvido no hospital. Ashley preferia acreditar que ele, finalmente, tinha colocado uma pedra no assunto, que tinha ensinado a si mesmo a não pensar nela daquela maneira. Em uma tarde de sexta-feira, quatro semanas após o acidente de Landon, ele ligou para Ashley no


trabalho, ansioso por algo para se distrair. – Cole pode vir aqui brincar? – Não faça isso comigo! – riu Ashley. – Eu preciso ter cer-teza de que o mundo fora destas paredes ainda é sadio. – Desculpe. – Landon meio que riu, meio que lamentou. – Eu estou tão entediado, sentado aqui nesta armadura, e minha perna está coçando muito. Diga que você vai trazer meu garotinho favorito amanhã. – Bem… – Ashley levou o telefone sem fio para a sala. Edith, Irvel e Helen estavam roncando sossegadamente enquanto passava Matlock na velha TV. – Eu tenho de limpar minha garagem. E, depois, deixe-me pensar... ah, sim. Eu tenho de arrumar minha estante. – Ocupada, hein? – Você sabe. – Ela abafou uma risadinha e se encostou na parede da sala. – Nada de tédio. – Como está a gritadeira? – O humor de Landon ainda era leve, mas seu tom de voz estava mais suave. Ele se interessava pelas pessoas da Sunset Hills. Quanto mais Ashley falava sobre elas, mais conectado com elas ele parecia ficar. – Ela gritou, como era de esperar, coitada. No minuto em que chegou ao banheiro. – Será que Belinda a dopou de novo? – Não. – Ashley pôs os olhos em Edith. – Belinda estava fora resolvendo umas coisas. – E aí? O que você fez? – Conversei com ela, sentei com ela. – Ashley ficou olhan-do para fora da janela. Era mais um belo dia de verão, do tipo que a deixava com vontade de pintar. – Levei meia hora, mas, por fim, ela se acalmou. Ela disse uma coisa muito estranha. – O quê? – Ela disse que viu uma bruxa. Uma bruxa que queria matá-la. Landon assoviou baixinho. – Não é para menos que ela tenha gritado. – Sim, é isso que eu estava pensando. – Ashley olhou para Edith novamente. A mulher estava completamente em paz nesse momento, sem nenhuma lembrança do que tinha visto antes. – Talvez seja espiritual, Ashley. Talvez ela realmente esteja vendo alguma coisa. – Qual é, Landon! – Ashley resistiu à vontade de rir alto. – Você não acredita nisso, acredita? – Bem... – O tom de Landon era invariável. Em se tratando de assuntos de fé, ele nunca pregava para ela. Sabia da posição dela e não tentava mudar o modo como ela pensava. – Na verdade, eu


acredito. Vou lhe dizer uma coisa. Vou fazer uma promessa para você. – O quê? – Ashley baixou os olhos e ficou desenhando tipos invisíveis de flor em cima da mesa com a ponta do dedo. Por que ela ficava tão sem jeito quando ele falava sobre as coisas de Deus? – De hoje em diante, vou orar pelos gritos de Edith até acontecer alguma coisa, está bem? – Está bem. – Ashley manteve sua voz suave. – O que deixar você feliz. Houve uma pausa, e Ashley ficou imaginando se ele estava decepcionado com ela. Depois de um minuto, ela ouviu um som de algo sendo mastigado. – Minha mãe trouxe pipoca com caramelo feita em casa. – Ele mastigou mais um pouco. – Cole iria adorar. Ela deu risada. Bom. Louco ele não era. – Você acha que minha estante pode esperar? É isso o que você está dizendo? – Eu estou dizendo o seguinte: a que horas você pode trazer aquele menino para brincar? Ela riu. – Está bem. Ótimo. Nós vamos depois que ele acordar do cochilo. Lá pelas 3 horas, tudo bem? – Da manhã? – Landon parecia esperançoso, mais pareci-do com o filho de quatro anos dela do que com um bombeiro forte, austero. – Só se for em seus sonhos. – Ashley deu outra risada silenciosa. Era reconfortante conhecer os dois lados desse homem. Reconfortante e só um pouquinho perigoso. Ele não faz seu tipo, lembrou Ashley. Ele iria querer que você fizesse um prato para levar para a igreja em um piscar de olhos. Além disso, ele está se mudando para Nova York. Não complique. – Bem, senhorita Ashley, você se acha. – O tom de Landon era de provocação. Ela quase podia ver o brilho nos olhos dele. – Eu estava falando de Cole. Ele podia passar a noite aqui. Podíamos fazer uma barraca, brincar de polícia e ladrão e levar um papo de homem. Você sabe, comer pipoca com caramelo a noite toda e não limpar as migalhas, esse tipo de coisa. Seria demais. Vamos, mamãe. O sorriso de Ashley desapareceu um pouco. Um vento triste bateu em sua consciência. Dormir em uma barraca na sala, brincar de polícia e ladrão, levar um papo de homem – todas as coisas que Cole estava perdendo por não ter um pai. Ela engoliu em seco, deixando bem fechado o coração aquecido. – Muito engraçado. Nós estaremos aí às 3... da tarde. – Ela deu uma olhada no relógio. Tinha coisas para fazer e precisava checar Bert e Laura Jo antes que seu turno acabasse. – Vejo você, então. ***


Ashley deixou Cole dormir bastante na tarde de sábado. Enquanto ele dormia, ela começou a pintar um novo quadro – um retrato de Irvel com um bule de chá. Ashley registrou a imagem em uma foto tirada na semana anterior. Absorta nos traços da pintura e na composição do plano de fundo, ela não viu o tempo passar. Eram 16h30 quando eles, finalmente, pegaram duas pizzas e percorreram a curta distância até a casa de Landon. Ele foi encontrá-los à porta, com as muletas debaixo dos braços e a perna totalmente imobilizada esticada à sua frente. – Ei, pizza e meu garotinho favorito de uma só vez na mes-ma tarde! – Seu sorriso provocou uma descarga de adrenalina no coração de Ashley. Ele não disse nada sobre o atraso dela. – Entre, gente. – Adivinha? – Cole saltou para o lado de Landon e ergueu os olhos arregalados. – A gente trouxe a de queijo! – Não! – Landon dobrou a cintura. Não pareceria mais surpreso nem se Ed McMahon passasse por ali para dizer que ele tinha ganhado um milhão de dólares. – A de queijo? – É. – Cole ficou balançando a cabeça para cima e para baixo. – Quer comer agora? Landon deu uma olhada para Ashley. – Vocês querem? – Não, nós não. – Ashley deu uma olhada certeira para Cole. – Você já comeu uma maçã no caminho. – Tá bom. – Cole olhou para a casa atrás de Landon. – Quer jogar alguma coisa? – Claro. Com certeza. – Em um movimento gracioso, Lan-don girou com as muletas e seguiu para a sala. Sua casa era pequena e simples em um bairro mais antigo, não muito longe da universidade. Algo na casa fazia Ashley se sentir segura. Ou talvez fosse Landon que a fizesse se sentir dessa forma. Landon pegou um baralho de cartas do jogo Uno, acomodou-se no sofá e deu um tapinha no joelho. – Você será meu parceiro, tá? – Oba! – Cole correu na direção de Landon. – Cuidado, rapazinho. – Ashley fez uma careta. – Ele está com uma perna machucada, lembra? – Eu sei. – Cole subiu no colo de Landon e acomodou-se no peito dele. – Eu tive cuidado. O jogo de cartas começou, mas Ashley estava tendo dificuldade para se concentrar. Ficou olhando às escondidas por cima de suas cartas, vendo o modo como Landon aproximava o rosto do de Cole enquanto eles discutiam que carta deveriam jogar. Ele era o homem mais paciente que ela


conhecia. Ela queria montar seu cavalete e recriar na tela a imagem que eles formavam juntos. Homem e menino – seu filho nos braços de um homem jovem que o amava. O tipo de momento que havia acontecido só algumas vezes na vida de Cole – e, a maioria, no mês passado. Observar Cole e Landon juntos provocava coisas estranhas no coração de Ashley, coisas que ela não entendia. Houve momentos em que ela quis se juntar aos dois no sofá e implorar a Landon para ficar, prometer que seu coração descobriria uma maneira de cuidar dele mais do que um amigo. Mas, também houve momentos de alívio em saber que esta cena íntima de família não poderia se tornar algo mais sério. Não quando Landon estaria partindo em alguns meses. Ashley tentou se concentrar em suas cartas. Mas, por mais que tentasse, seus pensamentos não seguiam um curso linear. Será que é errado estar aqui, injusto para Cole e Landon? Talvez não fosse errado; talvez ela devesse falar com Landon para nunca ir embora de Bloomington. Talvez ela precisasse de ajuda profissional. A tarde passou rapidamente: o jogo de Uno, depois pizza de queijo e, então, o final de um jogo de futebol na televisão. Às 19h30, Cole começou a bocejar. – Hora de levar você para casa, mocinho. – Ashley levan-tou e se espreguiçou. Então, viu que Landon estava olhando e aproveitou: – Obrigada. Nós nos divertimos muito. Landon estendeu a mão, e Ashley a segurou, ajudando-o a ficar em pé. Ela lhe entregou as muletas, e ele se equilibrou apoiando as mãos nos ombros de Cole. – Volte na próxima semana, tá, rapazinho? Cole sorriu. – Da próxima vez, eu vou trazer minhas figurinhas de beisebol. – Beleza. – Landon estendeu a mão para Cole bater nela. – Quem sabe, a gente possa trocar algumas. – Sério? – Claro. Eu tenho figurinhas ótimas. – Legal. – Ele abraçou as pernas compridas de Landon e correu em direção à porta da frente. Jogou-se no chão e começou a calçar as sandálias. Ashley olhou para Landon e deu de ombros. – É só o que eu posso fazer para acompanhar o ritmo. – Nem me fale! – Landon deu um sorriso largo. – Ei... – Olhou para o relógio. – Você acha que seus pais vão pegar Cole hoje à noite?


A determinação de Ashley foi por água abaixo. Seus momentos com Landon tinham sido seguramente platônicos na companhia de Cole. Mas este convite para que voltasse sem ele era algo novo. – Hoje à noite? – Sim. – A voz de Landon foi cuidadosa, natural. Deixou Ashley à vontade. – Nós poderíamos assistir a um vídeo ou jogar mais uma rodada de Uno. – Ele apontou na direção da cozinha com o ombro e lhe deu um sorriso torto. – Sobrou pizza. – Verdade. – Ashley riu. Examinou sua lista de razões e não conseguiu encontrar uma única que justificasse a resposta negativa, especialmente quando a ideia parecia tão atraente. – Na verdade, meus pais estão em casa hoje à noite. Eles provavelmente vão ficar felizes em vê-lo. – Fitou seu filho, que ainda lutava com a segunda sandália, e deu um sorrisinho malicioso. – Por que não? Ele praticamente mora lá mesmo. Às vezes, eu acho que a casa dele realmente é lá e eu sou apenas a babá. Landon preferiu não responder à dor na voz de Ashley. – Então, você vai voltar? – Sim. Mas nada de polícia e ladrão, tudo bem? – Tudo bem. – Landon abriu um grande sorriso enquanto seguiu mancando ao lado dela em direção à porta da frente. – Tudo bem. – Ela segurou a mão de Cole e acenou. – Até daqui a pouco. – Até. Uma hora depois, ela estava de volta na entrada da casa de Landon. Tinha razão em relação aos seus pais. Eles adoravam passar tempo com Cole. Em alguns sentidos, eles eram a família que seu filho não tinha. É claro que o irmão de Ashley nunca via as coisas por esse ângulo. Luke achava que Ashley se aproveitava dos pais. Às vezes, Ashley se perguntava se ele tinha razão. Ela nunca soube ao certo se amava Cole como deveria. E, em alguns dias, podia sentir Cole distante, como se a criança pudesse sentir sua incerteza, sua ambivalência na questão da maternidade. Sua incerteza com relação a qualquer tipo de amor. Tirou esses pensamentos ruins da cabeça e ficou olhando para a porta da frente da casa de Landon. O convite dele tinha sido tão inocente quanto parecia? Por um instante, fechou os olhos e ouviu a voz dele como no hospital naquela noite, dias depois de ele ter se ferido. Eu estou de mudança, Ashley... Seremos eu e Jalen, combatendo incêndios e salvando vidas ali no coração da cidade de Nova York.


Não, Ashley tinha certeza de que Landon não tinha segundas intenções nessa noite. Eles eram apenas dois velhos amigos que preferiam passar o tempo juntos a ficar sozinhos. Ela deu uma olhada rápida no espelho retrovisor e passou os dedos na raiz do cabelo. Ao sair do carro, deixou um rastro de jasmim para trás. *** Apesar da perna quebrada, Landon não perdeu tempo e atravessou rapidamente a sala com as muletas ao ouvir o som do carro de Ashley à entrada de sua casa. Durante uma hora, ficou se perguntando se tinha sido prudente convidá-la para voltar. O que ele esperava ganhar com isso, de verdade? Eles estavam desfrutando de seu tempo juntos nas últimas semanas, mas Ashley era sua amiga. Nada mais. Naquela noite no hospital, ela havia deixado seus sentimentos dolorosamente claros. Desde então, ele se esforçava para aceitar o modo como ela se sentia em relação a ele. Ashley tinha razão. Os dois nunca poderiam se amar da maneira como Landon queria. Ela não era a mulher com quem ele poderia se casar ou passar toda a vida. Ele queria uma mulher que tivesse sua fé, seus sentimentos. Seu futuro. Alguém que fosse sua outra metade – não perfeita, mas perfeitamente apaixonada por ele. E isso ia além do que Ashley poderia dar. Além do que ela era capaz de dar. Depois de tantos anos, Landon finalmente entendeu isso. De algum modo, algum dia, Deus traria a mulher certa para sua vida, e esses anos em que amou Ashley se transformariam em lembranças de infância. Certo? Afinal de contas, ele estava prestes a entrar em uma fase completamente nova em sua vida, uma mudança que poderia levá-lo para longe de Bloomington para sempre. Uma mudança que Landon abraçava com todas as forças. Mas, então, por que tinha convidado Ashley para voltar nessa noite? Landon abriu a porta e a observou, linda e sem fôlego na escada à frente de sua casa. O sorriso nos olhos dela era tão familiar como seu próprio nome. Nossa, de fato! – Você veio. – Vovô e vovó ficaram empolgados. – Ashley entrou e deu um sorriso largo por cima do ombro. – Além disso, minha estante só precisa de uma faxina na semana que vem. Ele atravessou a sala mancando, enquanto ela seguiu para a cozinha.


– Quer um pouco de água? – perguntou ela. – Seria ótimo. – Landon foi para o sofá, colocou as muletas no chão e se acomodou, atento aos curativos nas costas. – Eu é que deveria servir você. – Bem… Ashley apareceu na sala, trazendo dois copos de água gelada. – Quando você tirar a atadura, pode me compensar. – Colocou os copos em cima de uma revista e se jogou ao lado dele. – Combinado? – Combinado. – Os cantos de seus lábios pararam de su-bir antes de formarem um sorriso largo. Assim que tirasse a atadura, ele voltaria a trabalhar e estaria se preparando para a mudança. Haveria pouco tempo, se é que haveria algum, para Ashley e ele dividirem momentos como esse. – Ei. – Ashley inclinou o rosto. Seus olhos azuis intensos brilharam, sinceros. – Obrigada por brincar com Cole. – Encostou a cabeça na almofada do sofá atrás e ficou olhando para o teto. – Ele adora vir aqui. Por um instante, Landon quis gritar com ela: Você não vê, Ashley? Eu, você e Cole pertencemos um ao outro. Em vez disso, ele se esforçou para pôr um sorriso no rosto e riu. Jogue limpo, Landon. Jogue limpo. – O sentimento é mútuo. De repente, ele entendeu por que tinha convidado Ashley para voltar à noite, por que as palavras tinham transbordado de seu coração. Um versículo da Bíblia que ele tinha aprendido quando era menino veio à sua mente: A boca fala do que está cheio o coração. Sua boca fez o convite por um único motivo: por mais que ele tentasse se convencer do contrário, e apesar de suas melhores intenções de seguir em frente com sua vida, seu coração ainda transbordava de sentimentos por uma sonhadora inocente que dançava conforme a própria música. Uma menina que despertava suas emoções e o fazia se sentir inteiro e vivo. Uma garota chamada Ashley Baxter.


CAPÍTULO 13 A tardinha passou entre nuvens. Ashley e Landon estavam falando sobre a Sunset Hills novamente, sobre Irvel e Edith, e Helen e os outros. Passavam programas rurais na TV, mas, desde que Ashley tinha chegado, elas não achavam tempo para assistir a um filme. Ela estava feliz. Conversar era mais divertido. – Então ele dá volta na cama o dia todo? – Landon apoiou--se no braço do sofá para que pudesse ficar de frente para ela e aliviar um pouco da pressão das queimaduras nas costas. – Não entendo. – Esse é o problema. – Ashley apoiou os cotovelos nos joelhos. Entrelaçou os dedos e deixou o queixo descansar em cima deles. – Ninguém entende. O coitadinho do Bert fica lá no quarto dele fazendo círculos no edredom durante o dia todo e, por enquanto, a família dele não está disposta a aparecer por lá. – Dá para imaginar por quê. – Landon inclinou a cabeça. Seus olhos brilhavam como raios de sol em uma aquarela. Ergueu a mão e começou a fazer pequenos círculos no ar. – Se eu fizer círculos o dia todo, é claro que, quando eu ficar mais velho, você vai vir me visitar, certo, Ash? Ela riu. – Certo, Bert. – Aposto que o velho tem suas razões. – Eu sei. – Ashley sentou-se novamente. – Se eu ao menos pudesse descobrir quais são. – Quem sabe, se ele erguesse os olhos por um minuto e visse você, parasse de dar voltas. O queixo de Ashley caiu. – Não entendi. – Você sabe, se ele realmente olhasse para você. – Landon reprimiu um sorriso. – Como é que isso faria o homem... – Pare! – Os olhos de Landon, de repente, arregalaram-se, com o tom de voz atemorizado. – O quê? – Ashley olhou por cima do ombro. – Não faça isso comigo, Landon. Você me assustou. – Desculpe. – Ele se aproximou um pouquinho, esten-dendo a mão na direção do rosto dela. – Mas, meu Deus, querida. Você tem um cabelo muito bonito. – Ele mexeu com os dedos na franja curta dela. Então, seus olhos encontraram os dela. – Alguém já lhe disse isso? A ficha caiu, e Ashley pôde sentir um sorriso escancarado em seu rosto. – Muito engraçado. – Pegou a almofada do sofá que estava ao seu lado e, com um movimento


rápido, bateu-a na cabeça de Landon. – Ei, isso não é justo. – Landon agitou os braços para se defender. – Eu estou estropiado, lembra? Ashley inclinou-se para frente, com a almofada na mão, pronta para outro ataque. – Tudo o que Bert precisa é dar uma olhada em meu cabelo, é isso, é? – Bem – novamente Landon jogou as mãos para cima como se tivesse se rendendo –, parece que Irvel também acha. – É isso aí. – Ashley ajoelhou-se e diminuiu a distância entre eles. Segurou a almofada por cima dele e bateu no braço agitado dele três vezes antes que ele segurasse seus pulsos com uma das mãos. – Tudo bem, foi você que pediu. – Eles estavam de frente um para o outro, e ele começou a fazer cócegas nela, cutucando-a nas costelas enquanto ela fazia força para se soltar. – Socorro! – Ela ria tão alto que era impossível entender suas palavras. – Eu... eu não consigo... respirar. Era verdade. Mas não eram apenas as cócegas de Landon que a deixavam com dificuldade para respirar. Havia outra coisa, uma sensação que ela nunca tinha tido perto de Landon Blake. Algo relacionado à proximidade dele, ao toque das mãos dele, ao seu corpo roçando no dele enquanto brincavam. Pôde sentir o rosto ficando quente. Por que eu estou aqui? Por que estamos fazendo isso? O que está acontecendo? Ashley ignorou suas perguntas. De nada adiantava fazê-las. Quaisquer que fossem as respostas, ela não se afastaria. Não tanto porque ela não podia, mas porque não queria. – Me solta! – Ela conseguiu soltar uma das mãos e o cutu-cou na lateral com o dedo. Os músculos de Landon enrijeceram em resposta. – Não sou só eu que tenho cócegas! – Não. – Em um movimento, ele prendeu as mãos dela novamente, dessa vez, atrás das costas. – Mas, sou só eu que estou fazendo cócegas. Ele tinha a risada mais maravilhosa. O som dela causava coisas misteriosas no coração de Ashley. Ela estava respirando com dificuldade, o corpo tremia. A luta era violenta e divertida, mas ela precisava de um tempo. Deixou o corpo ficar mole. – Tudo bem, eu desisto. – Ela riu novamente. – Chega! Landon ainda prendia as mãos dela, mas, nesse momento, as soltou delicadamente. Ao fazer isso, ela perdeu o equilíbrio e caiu sentada no joelho de sua perna boa. Subitamente desajeitada, Ashley começou a se levantar. Contudo, Landon colocou os braços ao redor da cintura dela e entrelaçou os dedos. Seus olhos brilhavam, mas Ashley não sabia dizer se ele estava brincando ou prolongando o momento. Ele a


apertou e sorriu. – Posso confiar em você? – Landon! – Ashley ainda respirava com dificuldade. Ela se virou parcialmente, ainda equilibrada no joelho dele, mas pronta para saltar dali no momento em que ele a soltasse. Tentou agir séria, mas era impossível. Ela estava se divertindo muito. – Me solta! A provocação no rosto de Landon desapareceu e, pouco a pouco, ele afrouxou os braços em torno dela. Os olhos dos dois se encontraram, e tudo sobre aquele momento mudou. Foram-se a provocação, as cócegas, a competição. Em vez disso, houve um silêncio entre eles, um silêncio carregado de emoções sobre as quais nenhum deles estava pronto para falar. Depois de uma eternidade, Landon atentou para a alma dela e falou com uma voz que Ashley mal pôde ouvir. – Eu soltei você. – Eu sei. – Houve uma atração entre eles, uma atração que não poderia ter sido mais forte ainda que ela fosse um ímã e ele, um pedaço de aço. Lenta e imperceptivelmente, Ashley se mexeu para que ambos ficassem de frente um para o outro novamente. Os olhos dos dois se encontraram, e o coração de Ashley começou a falar antes que a razão pudesse interferir. – Me abrace de novo, Landon. Por favor. – Ashley... – Era mais uma dúvida do que qualquer outra coisa. Mas, o nome dela parecia doce em seus lábios. Eles estavam equilibrados em uma linha que não podiam cruzar desde que eram crianças. Se cruzassem-na agora, tudo seria diferente. – Me abrace. – Sua voz era quase um sussurro. Ela colocou os braços ao redor do pescoço dele e deixou a testa encostar na dele. Seus olhos se fecharam assim que ele, finalmente, colocou os braços em volta dela mais uma vez. Seu coração batia forte no peito. Sentiu o hálito doce de Landon no rosto, o aroma almiscarado da colônia que ele estava usando. Ele passou levemente as mãos ao longo das costas dela e a soltou de novo. Antes que pudesse imaginar o que ele estava fazendo, Ashley sentiu os dedos dele em seu rosto, no queixo. – Ashley, olhe para mim. Ela piscou os olhos e afastou-se o suficiente para olhar nos olhos dele. Neles, pôde ver o coração de Landon, um coração mais profundo do que ela quis explorar algum dia. Passou um único dedo na testa e ao longo do lábio inferior dele. – Landon...


De uma forma que nenhum deles pôde evitar, eles se aproximaram. O beijo fez o tempo parar, fez Ashley duvidar de toda crença que já tinha tido, de toda suposição que já tinha feito a respeito do homem carinhoso em sua frente. Ashley recuou primeiro, os lábios abertos. Esse não era um jogo despreocupado que havia fugido ao controle. Era algo totalmente diferente – algo que ela queria desde aquela noite no hospital. – Eu amo você, Ashley. – Ele foi dando beijinhos ao longo da sobrancelha dela e depois na têmpora em direção à orelha. – Por mais que eu tente, eu não consigo deixar de amar você. A razão tinha algo a dizer, mas Ashley se recusou a ouvir. Roçou a ponta do nariz no dele. – Eu quis beijar você desde... desde que vi você no hospital, inconsciente. – Apoiou as mãos nos ombros dele. – Quando você disse que estava se mexendo, eu não sabia se teria a chance. Ela saiu de cima do joelho de Landon e se aninhou ao lado dele, acomodando-se de modo que o rosto dele ficasse um pouco acima do seu. – Você já se sentiu assim? Quero dizer, quem teria imagi-nado que nós teríamos esta chance... – Shhh. – Ele levou o dedo aos lábios dela. Ashley iria se lembrar da expressão de seu rosto para sempre, aonde quer que a vida levasse os dois depois disso. Em parte desejo, em parte contentamento, como se ele nunca tivesse sentido que isso era certo em toda a vida. Como se nunca fosse sentir de novo. – Você fala muito para uma menina que quer manter distância. Ao perceber um sorriso se formando, Ashley mordeu o lábio. Antes que ela pudesse dizer outra coisa, Landon pôs o braço ao redor do pescoço dela e puxou-a para perto dele. Dessa vez, o beijo foi mais longo, mais intenso. Os sentimentos que invadiam Ashley eram tão novos que lhe tiraram o fôlego. Paris era uma coisa, mas isso... isso era algo que Ashley nunca tinha sentido antes na vida. Era amor, o tipo de amor que Landon sempre quis que ela sentisse por ele? Eles fizeram uma pausa e, então, os lábios se uniram mais uma vez, dizendo coisas que nenhum deles estava pronto para expressar. Foi Landon que se afastou primeiro. Aninhou o rosto no dela, abraçando-a apertado, deixando que ela sentisse seu coração batendo contra o peito dela. – Diga uma coisa, Ashley. – Hummm. – Ela levou os lábios ao rosto dele e sentiu a barba de um dia pinicar o rosto. – Dizer o quê? – Sobre Paris.


Um balde de água fria não poderia tê-la arrancado mais rapidamente da magia do momento. Ela se reclinou um pouco e olhou para ele, intrigada. – O que tem Paris? A expressão de Landon permaneceu inalterada. A emoção impulsiva que havia sentido segundos antes ainda estava em seu rosto. Ele passou levemente o dedo ao longo do queixo dela. Quando ficou claro para ele que a resposta de Ashley não seria fácil, ele se inclinou para trás e segurou a mão dela. – Quando foi para Paris, você era jovem e bonita. – Ele inclinou a cabeça de um lado para o outro. – Um pouco impulsiva, um pouco rebelde. Determinada a ver a vida pelas lentes gastas de sua imaginação. Mas com um coração tão transparente quanto o ar entre nós. Ashley ouvia, lembrando-se de respirar. As lentes gastas de sua imaginação? Quando foi que Landon Blake se tornou um poeta? E o que ele sabia sobre Paris? Seu coração começou a bater mais forte e ganhou um ritmo estranho. Ela esperou que ele continuasse. – Quando voltou, você estava completamente impulsiva e rebelde. – Um sorriso triste surgiu nos cantos de sua boca. Mais uma vez, ele atentou para a alma dela. – Toda linda. Mas algo muito errado aconteceu, algo que aparecia em seus olhos. Estava lá todas as vezes que nos encontramos depois disso. Ashley fez que não com a cabeça. Não, ele não tinha o direito de falar sobre isso. Não agora, não quando eles estavam encontrando algo que nunca tinham sentido antes. Landon nunca descobriria o que tinha acontecido em Paris. Ele não podia. E, certamente, ele ainda não sabia; isso era impossível. – Eu... eu não sei do que você está falando. – Sim, você sabe. – Ele apertou de leve os ombros dela, sem tirar os olhos dela em nenhum momento. – Alguém conquistou seu coração em Paris, mas, seja lá quem for, essa pessoa o trancou e o colocou em uma prisão, um calabouço escuro. – Suas palavras eram demoradas e calmas, impregnadas de bondade. – Um calabouço com paredes tão altas e espessas que, mesmo agora, você preferiria deixar seu coração lá a encontrar o caminho doloroso da fuga. A cabeça de Ashley estava girando. Como ele podia saber disso? Como, depois de passar tão pouco tempo com ela nesses últimos quatro anos, ele ainda podia saber a condição exata de seu coração? Ela abriu a boca, mas não saiu nada. Em vez disso, lágrimas encheram seus olhos, e ela fez que não com a cabeça, incapaz de falar. Landon inclinou-se e beijou-lhe a testa.


– Não chore, Ash. – Pôs levemente o polegar debaixo de um dos olhos de Ashley e pegou uma lágrima quando ela caiu. – Você não precisa me dizer nada. Dois soluços rápidos saíram da garganta de Ashley, e ela fungou, balançando a cabeça rapidamente. – Eu... eu não posso, Landon. – Baixou o rosto para que somente seus olhos pudessem se erguer na direção dele. – Eu não posso. Landon levou os lábios primeiro a um dos olhos dela e, depois, ao outro. – Eu amo você, Ashley. Sabia disso? Ela fez que sim, engolindo outra série de soluços. Ele respirou longa e lentamente. – Eu estou de mudança, e você vai continuar com sua vida. Você não quer um relacionamento; você deixou isso claro. Mas, queira ou não, essa é a última vez que estaremos juntos... – Ele a beijou novamente. – Juntos assim, ou seja... eu quero que você saiba de uma coisa. – Outro beijo. – Nada, nada que você possa ter feito em Paris mudaria o que eu sinto por você. Nunca. Uma represa considerada segura havia anos se rompeu, e lágrimas rolaram por seu rosto. – Eu sou... eu sou uma idiota. – Ei, o que é isso agora? – Segurou outra das lágrimas dela com o dedo. – Não diga isso. Ela fungou. – Mas eu sou. – Ele ainda estava com o braço em volta de seus ombros e ainda segurava firme sua mão. – Por que eu simplesmente não me apaixonei por você depois do ensino médio como qualquer menina normal? – Contorceu o rosto, desesperada por uma resposta. – Eu nunca deveria ter ido para Paris. – Eu não sei exatamente o que aconteceu lá. – O tom de voz de Landon estava mais suave do que antes e seu olhar fixo, mais direto. – Mas eu sei que você voltou para casa com Cole. E, por causa disso – hesitou, emocionado demais para terminar o que tinha começado até que recuperou o controle –, por causa disso, eu acredito que Deus agiu em todas as coisas para o bem, Ashley. Seja lá o que tenha acontecido. Ela fechou os olhos novamente. Landon não só a amava de várias maneiras que desafiavam a razão, como também amava seu filho. Então, por que ela não conseguia retribuir esse amor, pedir que ele não fosse embora, prometer ficar ao lado dele para sempre? A razão estava tão perto que a deixou apavorada. Ele só pensava que poderia entender o que tinha acontecido em Paris. Uma vez que soubesse a


verdade, ele nunca iria vê-la da mesma forma, não conseguiria ter carinho por ela do modo como tinha agora. Nunca mais olharia para ela como tinha olhado nessa noite, não se soubesse sobre Paris. – Você pode me dizer, Ashley. – A determinação em seus olhos era inflexível. – Seja o que for, isso só vai me fazer amar mais você. – Ele se inclinou e a beijou por um bom tempo antes de se afastar novamente. – Por que... por que você me amaria mais? – Por mais que tentasse, ela nunca iria entendê-lo, nunca saberia por que um homem como Landon Blake perderia tempo com alguém tão difícil. Ele entrelaçou os dedos nos dela. – Por confiar em mim a ponto de me contar. Não havia nada que ela pudesse dizer, nenhuma promessa que pudesse fazer. Ela acreditava em Landon, mas a ideia de contar-lhe sobre Paris era tão impossível quanto mover uma montanha com as próprias mãos. Uma vez que ela ficou em silêncio, ele voltou a atenção para a televisão. – Acho que a gente podia ver esse filme, hein? – Ele a puxou para mais perto. – Está ficando tarde. Eles assistiram à comédia, algo que permitiu a Ashley desfrutar da proximidade de Landon sem ter de insistir na conversa que não tiveram sobre seu passado. Quando o filme acabou, Landon fez força para ficar em pé e a ajudou a se levantar. – Já passa da meia-noite. Ela bocejou, desesperada para esconder sua frustração. Como poderia ir embora quando tudo o que queria era beijá-lo novamente? Ela se esticou, soltando a mão dele pela primeira vez depois de horas. A realidade entrou sem pedir licença, deixando a porta aberta e permitindo que os ventos da incerteza esfriassem a proximidade entre eles. A noite acabou, e Ashley duvidava que haveria outra como essa. Afinal de contas, os dois estavam trilhando caminhos separados. Com toda a probabilidade, essa noite estranhamente maravilhosa seria a última vez que eles estariam juntos assim, se beijando, se tocando, admitindo sentimentos que normalmente escondiam tão bem. Ele atravessou a sala com ela. Quando chegaram à porta, ele apoiou suas muletas na parede e a segurou nos braços. Seus lábios encontraram-se novamente, e a paixão que havia estado ali antes pegou fogo em um minuto. Quando Landon recuou, Ashley sentiu as chamas do desejo mais quentes do que qualquer coisa que já tinha sentido. Ela sabia que ele estava sentindo o mesmo, porque ele estava tremendo. Ambos estavam.


– Eu nunca vou me esquecer disso. – Landon prendeu uma respiração rápida e respirou fundo. – Nunca. – Eu também não. Enquanto Ashley seguia em direção ao carro, Landon a chamou mais uma vez. – Ei, Ash. Outras lágrimas brotaram em seus olhos, e ela se virou, esperando que ele não as pudesse ver. – Sim? – Você tem um cabelo muito bonito! Alguém já lhe disse isso? Ela foi embora rindo, não querendo outra coisa senão fazer a volta e encontrá-lo novamente. Ficar a noite toda, o fim de semana todo. Para sempre. Mas esse não era o tipo de amor que Landon queria. Ele esperava o pacote completo: casamento, família, um compromisso para a vida toda. Ashley respirou fundo. Poderia pensar em um milhão de razões pelas quais isso não daria certo. Ficou imaginando se Landon poderia ver pelas rachaduras de sua armadura o lugar onde seu coração estava tumultuado. Porque ele estava. Enquanto atravessava Bloomington, as lágrimas que escorriam por seu rosto enfatizavam o fato. Apesar de sua convicção de permanecer distante e alegre com seu amigo Landon Blake, ela passou a noite aos beijos com ele. Ele era profundo, maravilhoso, encantador e ligado à sua alma como nenhum outro homem. Certamente, ele podia ver que seus sentimentos por ele estavam mudando – que ela finalmente estava apaixonada por ele. Contudo, ela não podia deixar isso acontecer, não quando sabia que ele deixaria de amá-la no momento em que soubesse a verdade sobre seu passado. Ashley agarrou o volante. Talvez devesse contar a ele, mesmo assim. Então, ele poderia se mudar para Nova York com a consciência limpa, sabendo que nunca poderia ter existido qualquer coisa duradoura entre eles. As lágrimas foram ficando mais difíceis à medida que ela se imaginava dizendo as palavras, contando uma história que nunca tinha contado a ninguém, muito menos ao único homem que realmente a amou algum dia. Imaginou o rosto dele, imaginou o que ele diria. Ele seria bondoso, é claro, ouviria com paciência, iria abraçá-la quando ela chorasse. Diria todas as coisas certas. Mas, no final, saberia que ela jamais poderia ser o tipo de mulher que ele queria e merecia. Nunca. E quando isso ficasse claro na mente dele, ele se afastaria e nunca mais olharia para trás. A imagem partiu o coração de Ashley e deixou-a com um nó na garganta. Havia apenas uma coisa mais assustadora do que a ideia de se apaixonar por Landon: vê-lo ir embora uma vez que soubesse a verdade.


CAPÍTULO 14 O trabalho era a solução. Os sentimentos de Ashley estavam muito confusos para ficarem claros em um dia ou dois, por isso, quando chegou a segunda-feira, ela apenas os enrolou, colocou-os no bolso de trás de seu coração e começou a fazer o trabalho que passaria a amar: tornar a vida mais suportável para Irvel e as amigas. As mulheres estavam em seus lugares à mesa, almoçando, quando a campainha tocou. O rosto de Irvel iluminou-se. – Será que é Hank? Ashley foi para a porta quando Helen gritou: – Seja quem for, não se esqueça de fazer a revista. Nós não precisamos de mais espiões por aqui. – Sim, Helen – respondeu Ashley por cima do ombro –, eu vou fazer isso. – Um sorriso levantou os cantos da boca de Ashley quando abriu a porta. Em pé na varanda estava uma mulher com uma bolsa nas mãos. Ela parecia ter seus 50 e tantos anos. Quando viu Ashley, ela hesitou, as linhas e rugas em seu rosto se intensificaram. – Olá. Você deve ser nova. – Sim. – Ashley estava curiosa. – E você é...? – Eu sou Sue Brown. Filha de Helen Wells. Helen tinha uma filha? Ninguém havia mencionado nada. – Desculpe. – Ashley afastou-se e abriu a porta da frente. – Entre. Quando a porta se fechou atrás delas, a mulher baixou os olhos. – Infelizmente, eu... eu não venho com muita frequência. – Ela ergueu os olhos, e Ashley viu a dor neles. – Mamãe não se lembra de mim. A revelação acertou Ashley como um golpe no estômago. Essa pobre mulher era filha de Helen, mas Helen não se lembrava mais dela. Como isso deveria ser horrível! Ashley pensou em sua própria mãe, saudável, viva e cheia de vigor. Será que chegaria um momento em que os olhos delas se encontrariam sem a faísca do amor e do reconhecimento? Ashley recusou-se a perder tempo com a possibilidade. – Ninguém me falou sobre você. A mulher deu de ombros. Ela praticamente não parecia suportar o peso do medo.


– Como eu disse, não venho com frequência. – Desculpe. – Ashley seguiu na frente até a sala de jantar. Sue ficou logo atrás. – Tudo bem. É assim há anos. No momento em que dobraram o corredor, Helen ergueu os olhos e viu a filha. – Ela voltou! – Helen gesticulou para Sue e, em seguida, deu uma olhada na direção de Irvel. – Ela é uma espiã também. Ashley ficou horrorizada. Não era de admirar que Sue não viesse com muita frequência. – Helen. – Ashley deu a volta na mesa e colocou leve-mente a mão no ombro da mulher. – Ela não é espiã. Essa é sua filha, Sue. Você se lembra dela? – Não. – Os olhos de Helen se arregalaram e ela fez um não com a cabeça, lentamente, a princípio, mas, depois, com mais velocidade. Fitou Ashley. – Foi isso que ela disse? Sue entrou na sala em silêncio e pegou uma cadeira. É claro que não queria fazer uma cena. – Está tudo bem, mamãe. – A voz de Sue estava calma, frustrada. – Eu fui revistada. – O quê? – Helen pareceu assustada. – Eu não sou sua mãe. Minha filha é... é outra pessoa. Eu não a vejo há anos. – Helen balançou a mão na direção de Sue. – O que você fez com ela? Você é uma espiã! Você sequestrou minha filha! Edith fechou os olhos e começou a balançar. Ao lado dela, pela primeira vez desde que Ashley começou a trabalhar na Sunset Hills, Irvel não tinha nada a dizer. Ela apenas observava a conversa, os olhos arregalados e confusos. – Helen... – Ashley estava desesperada para ajudar Sue. – Você quase acabou de comer. Vamos para a outra sala receber a visita. Helen bateu o punho com força na mesa. – Nada disso, se você ainda não revistou essa mulher. – Fez um sinal na direção de Sue novamente. – Essa mulher roubou minha filha! – Essa mulher é sua filha, Helen. – Ashley esforçou-se para manter o mesmo tom de voz. Helen hesitou, um olhar zangado embaixo da testa. – Não, ela não é! – Ela é, Helen. De verdade. Helen hesitou por um bom tempo, a carranca finalmente desaparecendo um pouco. – Ótimo. Ashley ajudou Helen a ir para a outra sala, enquanto Sue as seguia em silêncio. Quando elas


estavam acomodadas, Ashley lançou um olhar impotente para Sue. – Posso fazer alguma coisa? – Não. – Sue sorriu de uma forma que não correspondia com seus olhos. – É assim todas as vezes. Helen instalou-se em sua poltrona e olhou para Sue. – O que você fez com minha filha? Havia uma cadeira de balanço por perto. Sue puxou-a e sentou-se ao lado da mãe. – Eu sou sua filha, mãe. Estou aqui porque eu amo você. – Você não é minha filha! – A raiva desapareceu do rosto de Helen. Em seu lugar estava uma expressão de terror natural e pura. – Cadê minha filha? – Helen lançou um olhar para Ashley. – Socorro, por favor! Eu quero minha filha. Eu... eu sinto tanta saudade dela. Sue levantou-se e engoliu em seco, os olhos úmidos e distantes. Do outro lado da sala, Ashley pôde sentir seu coração partir por essa mulher, essa filha. Sem esperar mais um minuto, Sue acariciou a mão da mãe e sorriu em meio às lágrimas. – Venho te ver de novo, tá? Eu amo você, mãe. A respiração de Helen estava rápida e forte e seus olhos, agitados enquanto percorriam a sala. – Faz essa moça ir embora! Eu não sou a mãe dela. Por favor! Sue enxugou as lágrimas e fez um sinal de cabeça na direção de Ashley. – Obrigada. Antes que Ashley pudesse pensar em alguma maneira para resolver aquela situação, Sue saiu pela porta da frente e, em silêncio, a fechou atrás dela. – Socorro! – Helen começou a tatear à procura de alguma coisa. Ashley ficou olhando para o espaço à frente da idosa. Não havia nada lá. – Socorro! Socorro! Socorro! Os gritos de Helen ficavam mais altos a cada pedido de ajuda. Da sala ao lado, Irvel gritou, a voz cheia de pânico. – Alguém a ajude, por favor. Ela precisa de ajuda! Ashley estava ao lado de Helen quando Belinda dobrou o corredor. – O que está acontecendo? – Com as mãos no quadril, fitou Ashley. – A fi... – Não havia por que perturbar ainda mais Helen. – Sue Brown veio fazer uma visita. – Socorro! Socorro! Socorro! – Helen começou a sacudir os braços por cima da cabeça. Belinda segurou o ombro de Helen e lhe deu uma sacudida forte. – Pare de gritar!


– Socorro! – Helen bateu os punhos no lugar onde Belinda a segurou. – Ótimo. – Belinda saiu da sala pisando duro. Durante o tempo todo em que ela não estava mais ali, Ashley tentou pensar em algo para fazer. Helen, muitas vezes, dizia coisas que eram frutos da imaginação, mas nunca tinha feito isso, nunca teve um ataque de histeria, gritando as mesmas palavras repetidas vezes. Quando voltou, Belinda tinha uma pílula na palma de uma das mãos e um copo de água na outra. – Abra a boca, velhinha. – Socorro! – Helen disparou um olhar desesperado para Ashley. – Socorro! Belinda apertou os lados da boca de Helen e forçou a pílula a ficar na língua dela. Em seguida, levou a água aos lábios dela e a virou até que finalmente, como em um ato de misericórdia, os gritos pararam e Helen bebeu. Quando ela deu o último gole, agitou os braços novamente. – Socorro! Socorro! – Da próxima vez que a filha dela aparecer, fale comigo primeiro, entendeu? – Belinda gritou por cima do barulho e deu uma olhada para o relógio. – Ela vai apagar em um minuto ou mais ou menos isso. Belinda virou-se e desapareceu no corredor em direção ao escritório. Ashley caminhou nervosamente na direção a Helen e, quando estava perto o suficiente, pôs a mão no ombro da idosa. Os olhos de Helen começaram a se fechar e, pouco a pouco, os gritos foram diminuindo e, então, cessaram completamente quando ela caiu em um sono pesado. Ashley voltou para Irvel e Edith e ajudou-as no banheiro e, depois, as colocou nas poltronas em cada um dos lados de Helen. Quando todas dormiram, Ashley pegou sua agenda e sentou-se na cadeira de balanço. Pobrezinha da Helen, assustada ao ver a própria filha! Será que ela se sentiria assim em relação a Cole um dia? O pensamento provocou arrepios na espinha de Ashley e a fez sentir náuseas. Se ao menos houvesse algo que ela pudesse fazer, alguma forma pela qual pudesse diminuir a distância para as pessoas da Sunset Hills. Uma maneira de ajudá-las a se lembrarem. Ashley abriu sua agenda e ficou olhando para as páginas com informações rabiscadas nela. Há uma semana, ela havia participado de um seminário de um dia na universidade para trabalhadores em casas de repouso. O curso era patrocinado por um grupo médico, e Lu exigia que todos os novos funcionários na Sunset Hills o fizessem. – Informações atualizadas – disse-lhe Lu. – Você vai ter uma ideia muito melhor de como lidar


com nossos residentes depois do curso. Ashley, na verdade, havia aguardado ansiosamente por ele. Mas, em vez de dar informações novas, o instrutor simplesmente reforçou as velhas. Ashley passou os olhos em suas anotações: •

Nunca discuta com pacientes com Alzheimer, mas sempre faça com que se lembrem da realidade da situação em que se encontram.

Faça com que eles vivam no mundo de hoje.

Corrija-os delicadamente quando eles falarem coisas que não fazem sentido.

Ashley entendeu o raciocínio que estava por trás dessa filosofia. Se o cérebro pudesse ser lembrado do que era real e certo, então, talvez o conhecimento retardasse o desgaste inevitável da memória. Mas, ela havia visto Irvel sofrer uma crise emocional várias vezes quando forçada a considerar a ideia de que seu querido Hank estava morto. Deu uma olhada para Helen. Lembrá-la da realidade era quase como jogá-la do telhado. Ashley ficou olhando pela janela da frente para as árvores no quintal. Bordos, muito parecidos com a grande árvore que sombreava a janela de Landon. Por um instante, ela se permitiu voltar 48 horas para o modo como se sentiu nos braços de Landon. Deliciou-se com a magia da lembrança e com o quanto era bom revivê-la no silêncio da tarde. Mesmo que ela e Landon fossem completamente errados um para o outro... mesmo que nunca mais tivessem outro momento como esse, a lembrança sempre seria boa. Como ela se sentiria se tivesse expressado seus pensamentos em voz alta e alguém tivesse gritado para ela ficar quieta ou lhe dito que Landon tinha ido embora, que ela já não estava mais nos braços dele, mas em uma casa de repouso? Ashley olhou para suas anotações e, de repente, viu uma ligação. Se uma única lembrança tinha provocado essa luz brilhante em seu dia, por que as pessoas da Sunset Hills não podiam ter esse mesmo luxo? Afinal, qual era o problema de viver no passado? Lembrar parecia algo bom, desde que a lembrança fosse feliz. Que mal havia em deixar as pessoas permanecerem lá? Helen deu um ronco alto, e suas mãos tremeram por um instante antes de ela voltar a dormir. Ashley tentou se imaginar confinada a uma casa como esta, trancada e esperando o momento propício até que a morte, por misericórdia, a levasse. É claro que seria mais agradável viver no passado! Ela virou a página de sua agenda e viu o endereço de um site. O instrutor havia passado vários sites para serem explorados na internet, lugares onde outras pesquisas sobre o cuidado com pacientes


com Alzheimer poderiam ser feitas. Silenciosamente, para não acordar Helen e as outras, Ashley foi dar uma olhada em Bert e Laura Jo. Então, sentou-se ao computador. Ele ficava em um quartinho adjacente à sala, destinado ao uso dos moradores. É claro que nenhum deles fazia a menor ideia de como usar um computador ou mesmo de que existia a internet. Ashley conectou-se e digitou o endereço do site. Imagens de idosos começaram a aparecer na tela. “Cuidando de pacientes com Alzheimer: uma visão alternativa”, dizia a página inicial. Ela rolou para baixo uma lista de links até que viu um que lhe chamou a atenção: “Passado-presente: uma perspectiva cristã”. Hesitou. A ideia “passado-presente” intrigou-a, mas a parte “cristã” deixou-a nervosa. Ela normalmente achava que as pessoas religiosas eram tendenciosas – sofriam uma lavagem cerebral, na verdade. Era difícil imaginar que elas pudessem ter algo proveitoso para dizer sobre o que claramente não era uma questão de fé. Ainda assim, ela clicou no link, e um artigo apareceu na tela. Ela leu a introdução: Se você já cuidou de um paciente com Alzheimer, fez a pergunta: “Por que não podemos deixá-los viver no passado, onde eles se sentem à vontade?”. A resposta normalmente é previsível: os médicos acreditam que encorajar tais fantasias sobre o passado é perigoso para as vítimas do mal de Alzheimer. Na verdade, estudos provaram que pacientes com Alzheimer que têm permissão para viver no passado morrem mais rapidamente que aqueles que sempre são lembrados da realidade atual.

Ashley continuou a ler. As palavras de um pastor de Michigan foram citadas: A memória distante é a maneira misericordiosa que Deus usa para nos ajudar a sobreviver a uma doença como o mal de Alzheimer. Ainda que viver no passado acelere o processo da doença, aqueles de nós que cuidam dos idosos não devem privá-los da chance de se lembrarem do passado.

A chance de se lembrarem do passado. Essa última linha voltou à mente de Ashley. Que melhor forma de usar o tempo poderia haver para pessoas como Irvel, Edith e Helen senão a lembrança – da infância, da família, dos tempos em que eram casadas? Esse era o tempo em que elas poderiam se lembrar de cada momento, vivê-lo novamente, atravessá-lo, reler cada página do livro de suas vidas. Mesmo que toda a experiência fosse uma ilusão, que mal havia nisso? Ashley foi descendo a página e estava lendo outra seção do artigo quando ouviu passos. Ela se


virou e viu Belinda olhando de cara feia para ela, os olhos fixos na tela do computador. – Era para você estar limpando. – Eu estou estudando. – Ashley levantou a agenda na mão. – Lu me pediu para fazer um curso na semana passada. Belinda riu. – Isso não serve para nada. – É claro que serve. – Ashley sentiu um nó de raiva no es-tômago. Apontou para o computador. – Há outras maneiras, você sabe, de tratá-los além de como crianças. O rosto de Belinda se fechou. – Não me venha falar de maneiras diferentes. – Ela se aproximou de Ashley e desligou o monitor. – Sou eu que tomo as decisões por aqui. – Eu só estou dizendo que talvez haja outra... – Ouça. – O tom de Belinda foi baixo e ameaçador. – Você vai fazer seu trabalho e não vai me criar problemas. Caso contrário, você está fora. Ela se virou e deixou Ashley morrendo de raiva. Será que era tão difícil pensar fora dos padrões, tentar novos métodos que pudessem ajudar as pessoas da Sunset Hills a serem felizes e mais serenas? Ela suspirou. Não havia como lidar com alguém como Belinda, uma pessoa tão reprimida e irritada a ponto de espirrar sua infelicidade em todos os que chegavam a ter contato com ela. Ashley terminou a limpeza e estava preparando um lanche quando Helen se aproximou dela. Helen se locomovia melhor que os outros da Sunset Hills, mas cada passo ainda era lento, calculado. Apertava algo no peito, e, ao se aproximar, Ashley viu que era uma moldura. – Oi, Helen. O que você tem aí? – Você foi revistada, né? – A voz de Helen soava rouca, e é claro que era por causa do episódio dos gritos mais cedo. – Sim, Helen. Eu fui revistada. Helen fez que sim com a cabeça, satisfeita. – Eu quero mostrar uma coisa para você. Movendo-se com o maior cuidado, Helen abaixou a moldura para que Ashley pudesse ver uma foto colorida de uma bela adolescente. Mesmo com o penteado da década de 1960 e as cores desbotadas, não havia dúvida de que a garota na foto era uma versão mais jovem de Sue Brown, a mulher que tinha feito uma visita mais cedo. – Ah, Helen, ela é linda.


– Essa é Sue. – As linhas ao redor da boca de Helen sua-vizaram. – Minha filha. As palavras do pastor no artigo da internet voltaram: Aqueles de nós que cuidam dos idosos não devem privá-los da chance de se lembrarem do passado. Ashley limpou a garganta. – Você deve ter muito orgulho dela. – Eu tenho. – Helen inclinou a cabeça e, saudosa, ficou olhando para a menina na foto. Os cantos de sua boca encontraram uma forma de se levantar em meio aos vincos de sua pele do rosto. Era a primeira vez que Ashley via Helen sorrir. – Você tem outros filhos, Helen? – Ashley não sabia ao cer-to se esse era o momento oportuno para perguntar ou mesmo se Helen se lembraria de outros filhos, caso os tivesse. Mas ela queria fazer o momento durar o maior tempo possível. – Não. – Helen franziu a testa e pensou por vários segun-dos. – Eu acho que não. – Olhou para a foto novamente e tocou na imagem do rosto de Sue com a ponta dos dedos. – Somente Sue. – Bem, ela é muito bonita. Os olhos de Helen se levantaram, e ela olhou para os de Ashley. – Você a viu? – Já faz algum tempo. – Ashley pensou rapidamente. – E você? Lágrimas acumularam-se nos olhos cansados de Helen, e ela embalou a foto perto do coração. – Sue está desaparecida. Alguém a tirou de mim. – Eu sinto muito, Helen. – Ashley sentiu a garganta aper-tar. – Eu não sabia. Helen fez que sim com a cabeça, apertando a foto emoldurada até os nós dos dedos ficarem brancos. Lágrimas escorreram por seu rosto e pingaram no chão. – Eu... eu acho que ela não vai voltar. Ashley lembrou-se do rosto angustiado de Sue Brown. Ela provavelmente se sente da mesma maneira com relação à mãe. Com cuidado, Ashley pôs o braço ao redor dos ombros de Helen. – Se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar você encontrar Sue, eu vou fazer. – Ashley piscou para conter as lágrimas. – Eu prometo isso para você, Helen. – Obrigada. Ninguém nunca quis me ajudar a encon-trá-la antes. E... eu sinto tanta saudade dela. – Com isso, os ombros de Helen curvaram-se para frente, e ela começou a chorar. Soluços desesperados sacudiram seu corpo, e ela desabou sobre Ashley, muito fraca para se mover. Foram-se os gritos estridentes do começo daquela tarde. No lugar deles havia soluços baixinhos e comedidos de uma mãe que sofria por sua única filha, uma filha que nunca, jamais, seria encontrada novamente. Enquanto segurava Helen, Ashley, de repente, viu-se desesperada para absorver tudo o que


pudesse da vida. Afinal de contas, eram desses dias que ela se lembraria quando estivesse velha, e o que Ashley tinha para mostrar? Cole, sim – ele, certamente. Mas o menino era mais próximo de seus pais do que dela. Seu relacionamento com Cole nunca tinha sido ideal para nenhum dos dois. E a razão era óbvia. Depois do ano que Ashley passou em Paris, tinha acontecido tudo com seu coração, menos morrer para o amor. Certamente, para o amor de um homem que não lhe tinha mostrado outra coisa senão respeito e compaixão todas as vezes em que estiveram juntos. E até mesmo para o amor de seu único filho. Não importava o que qualquer um deles fizesse, ela não conseguia responder de forma espontânea. Ela sempre, no final, se afastava. Nesse momento, com Helen chorando em seu ombro, Ashley só sabia uma maneira de superar os terríveis segredos que a mantinham cativa nesses últimos quatro anos. Ela precisava acreditar na palavra de Landon e confiar nele, contar-lhe as coisas que tinha pavor de dizer, as coisas que se colocariam entre eles até que ela encontrasse coragem para abrir o jogo. Ashley respirou lentamente. Ali, naquele momento, ela tomou a decisão. Da próxima vez que estivesse a sós com Landon, ela lhe contaria a verdade. O que quer que acontecesse depois disso, pelo menos ela não passaria os melhores anos de sua vida escondendo seu coração atrás dos muros do medo. Somente então, pensou Ashley, ela poderia ter o que Helen tinha. Algo para lembrar. Algo que valesse a pena lembrar. Algo tão bonito e real que, um dia, se ela tivesse muita sorte, poderia até fazê-la chorar.


CAPÍTULO 15 O piquenique aconteceu em um daqueles belos dias, do tipo cuja lembrança aqueceria uma manhã de inverno durante anos no futuro. John Baxter segurou a mão da esposa e ficou olhando para o outro lado do lago Monroe. A luz do sol reluzia na água e banhava a margem do lago onde John e toda a família de Elizabeth estavam reunidos. – Outro piquenique maravilhoso – John fitou as crianças brincando de pega-pega à beira da água. – Sim – suspirou Elizabeth. – Mais um verão que passou. John passou o polegar nas costas da mão da esposa. – Você sempre adorou o verão. – Sempre. – Ela sorriu e protegeu os olhos. – Os progra-mas, a escola e até mesmo o tempo param no verão. Todos os anos, desde o nascimento de Brooke, John e Elizabeth passavam o Dia do Trabalho aqui no lago Monroe. Às vezes, eles fritavam e comiam peixe no piquenique. Em outros, faziam churrasco. Mas sempre passavam parte do dia na água, absorvendo ao máximo a luz do sol para poderem atravessar o inverno. Com o tempo, a reunião da família Baxter no fim do verão aumentou. John observou a praia e sorriu quando percebeu cada um de seus entes queridos. Brooke e Peter brincavam na beira do lago, perto das crianças, Maddie, Hayley e Cole. Ashley e Kari estavam sentadas ali perto em cadeiras de praia, com a pequena Jessie embalada no colo de Kari. Erin e Sam jogavam frisbee com Luke e sua namorada, Reagan. John viu quando a pequena Maddie se separou do grupo e subiu a areia inclinada em direção a eles. – Vovó – chamou ela. Sua voz baixinha quase se perdeu na brisa. – Sim, querida, o que foi? – Elizabeth estava em pé e foi ao encontro da netinha loura no meio do caminho. As duas se viraram e terminaram o restante da caminhada de mãos dadas até chegarem às mesas de piquenique onde as cadeiras de John e de Elizabeth estavam montadas. – Eu não estou bem. – As bochechas de Maddie estavam vermelhas. – Venha aqui, querida; deixa o vovô pôr a mão em sua testa. – John tocou a testa dela. – Hummm. Não está muito quente. – Bateu com uma toalha na cadeira ao seu lado. – Por que você não vem se


deitar um pouquinho? Um pouquinho de descanso vai ajudar você a se sentir melhor. Maddie fez o que ele disse e se esparramou ao lado dele. Elizabeth cobriu-a com uma toalha limpa que tirou de uma pilha na mesa. – Isso, querida. Descanse um pouquinho antes do jantar. O vovô vai fazer os famosos hambúrgueres dele, tá? – Tá. – Maddie sorriu, e isso levou a um bocejo. Ela apagou antes de Elizabeth voltar para sua cadeira. – Pobrezinha. – Ela sorriu para a criança adormecida. – Deve estar exausta. Houve um silêncio agradável entre eles, e John segurou mais uma vez a mão da esposa. – Temos tanto para agradecer. Elizabeth sorriu. – Especialmente nesta semana. – Ela deu a John um meio sorriso. – Eu estava mais preocupada com os exames do que aparentei. – Eu também. – John apertou os dedos dela. Era algo com que eles tinham de conviver, o fato de que Elizabeth tinha sobrevivido ao câncer anos atrás. Naquela época, os médicos dela foram honestos: eles não tinham acabado com todas as células ruins dos nódulos linfáticos dela. A questão não era se o câncer voltaria. Era uma questão de tempo. Por isso, toda vez que ela fazia exames, havia sempre uma chance de as notícias serem ruins. Ultimamente, Elizabeth estava mais cansada do que o habitual, e John estava particularmente preocupado. Mas a boa notícia chegou na tarde de sexta-feira. – Olhe para eles. – John estreitou os olhos, observando a maneira como eles, sua família, brincavam, amavam e riam juntos. – Você não diz que eles tiveram problemas no mundo. – Kari está indo bem com Jessie. – Elizabeth tinha uma expres-são melancólica. – Eu sempre soube que ela seria uma boa mãe. – Ela sente falta de Tim. – E de Ryan. – Elizabeth inclinou a cabeça e deu um olhar astuto para John. – Ela não me enganou com toda aquela conversa de que precisa aprender a estar sozinha. – É uma parte importante do processo de sofrimento, você não acha? – John mexeu o queixo. – Ela precisa aceitar que perdeu Tim. – Eu sei. – Elizabeth sorriu. – Mas ainda há um lugar no coração dela que bate por Ryan Taylor, mesmo ele estando a mais de mil e quinhentos quilômetros de distância. John observou suas filhas do meio. Pelas costas, as duas quase pareciam gêmeas. O cabelo de


Ashley era mais curto, é claro, e até mais escuro que o de Kari, mas elas tinham os mesmos traços delicados. E agora que ambas eram mães, elas tinham mais em comum do que nunca. – Eu gostaria de saber o que ela e Ashley tanto conversam. – Landon Blake. John riu. – Até parece que você sabe. Elizabeth deu um sorriso largo. – Eu sei. – Bem... – John ergueu a cabeça por um instante. – Ashley e Landon têm andado muito juntos ultimamente. – Ele está voltando para o trabalho agora e vai se mudar para Nova York. Ashley contou para você? – Elizabeth inclinou-se para frente na cadeira e apoiou os cotovelos nos joelhos. – Ele quer combater incêndios com um amigo lá. John franziu os lábios. – Isso é muito ruim. Eu sempre achei que ele e Ashley poderiam acabar juntos um dia. – Ele vai voltar. – Elizabeth levantou-se e passou na frente dele. Abaixou-se para sentir a testa de Maddie. – Ela parece mais fria. A pobrezinha, pelo jeito, só precisava descansar. John cruzou os braços. – O que quer dizer com “ele vai voltar”? – Meu amorzinho... – Elizabeth lançou-lhe um sorriso astuto. – O rapaz é louco por Ashley desde o dia em que eles se conheceram na escola. Nada poderá afastá-lo dela, e claro que não serão alguns incêndios em Nova York. – Ashley disse que talvez ele passe por aqui mais tarde. – John olhou para o estacionamento atrás dele. – Tiraram a atadura dele na semana passada. – Fiquei sabendo. John fez um movimento negativo com a cabeça. – As queimaduras sararam bem também, muito mais rá-pido do que eu esperava. É um milagre esse rapaz estar vivo. – Tudo isso faz parte do plano de Deus. – Elizabeth virou--se para que pudesse ficar de frente para John. – Plano? – John apoiou-se em um dos cotovelos. Ele ado-rava momentos como esse, as tardes em que todos os que ele amava estavam bem, felizes e juntos em um só lugar. Momentos em que ele e


Elizabeth podiam fazer uma lista de todas as coisas pelas quais tinham de agradecer. – O plano pelo qual eu oro todas as noites. – Os olhos de Elizabeth se fixaram em Ashley. – Que Ashley, um dia, se lembre da verdade na qual acreditava quando era criança: que Jesus a ama. – Ah, você quer dizer o plano pelo qual nós dois oramos. – Ele sorriu. – E você acha que Landon faz parte do plano, né? – Eu acho que ele poderia ser. – Elizabeth inclinou a ca-beça. – Deus tem alguma surpresa preparada. – Ele sempre tem. – O mesmo serve para Luke e Reagan. John deixou seus olhos percorrerem a praia até o lugar onde seu filho estava balançando Reagan perto da água, ameaçando jogá-la no lago. – Eles parecem muito afetuosos. Elizabeth ficou quieta. Ele se virou para ela, percebendo a incerteza nos olhos da esposa. O coração dos dois era tão conectado que ele sempre podia perceber o sorriso dela antes mesmo de a boca de Elizabeth ter tempo para expressá-lo. Com isso não foi diferente. – O que foi? – Ela não vai ficar em Bloomington para sempre. – Ela é muito apegada à família. – Assim que terminar os estudos, ela vai se mudar para a cidade de Nova York. – Os olhos de Elizabeth se estreitaram. – E não vou ficar surpresa se ela levar Luke com ela. John ficou olhando para o filho. – Ele ainda está falando sobre o pai de Reagan. – E sobre o escritório dele no World Trade Center. John olhou para o céu. Como será que deveria ser trabalhar a quase noventa andares do chão, com os olhos no nível das nuvens? Ver toda a cidade de Nova York e o porto de uma janela de escritório. – Reagan disse que Luke e o pai dela se deram muito bem. – John sorriu. – Você acha que ele poderia arrumar um emprego para Luke? Elizabeth suspirou levemente. – Pelo que parece, ele praticamente contratou Luke na hora. – Isso preocupa você? – John analisou a esposa, impressio-nado, como sempre, com os traços


delicados e o cabelo ainda escuro dela. A cada ano ele ficava mais apaixonado por ela. – Eu gostaria de mantê-lo por perto. – Elizabeth deu um sorriso triste. – Mas Erin logo vai se mudar e, um dia, a gente, com certeza, vai se espalhar. É a vida. – Ah, querida, ouça o que você disse. – John passou os dedos no braço dela. – Você acha que Deus lhe deu um projeto para a pró-xima década. Luke e Reagan não vão se mudar na semana que vem. – Ele é nosso único filho, John. – Ela estreitou os olhos, que se fixaram em Luke brincando perto da água. – Aonde quer que ele for, eu vou sentir saudade dele. – Ela voltou a olhar para ele, com o sorriso melancólico. – A vida é tão incerta. – Com uma única exceção, meu amor. – O quê? – esperou ela. Não havia medo nem preocupa-ção nesta conversa, apenas o desejo de uma mãe ter por perto esses filhos que passaram a vida toda amando. – Aonde quer que for, Luke levará Deus com ele. – John passou suavemente os dedos ao longo do pescoço da esposa. – Sim. – O sorriso de Elizabeth se abriu ainda mais no ros-to, como se o pensamento lhe desse um grande consolo. – Ele ama o Senhor, não ama? – De todo o coração. Em minha opinião, nada poderia aba-lar a fé desse menino. – John levantouse e espreguiçou-se. – Nem mesmo um trabalho com vista para a cidade de Nova York. *** Kari recostou-se na cadeira de praia e esticou Jessie em suas pernas. O ar ainda estava quente, mas estava esfriando um pouco, e ela não queria que a filha ficasse resfriada. – Consegue pegar um cobertor na bolsa da nenê, Ash? – Claro. – Ashley pegou o cobertor rosa e branco e o pas-sou para Kari. Enquanto fazia isso, avistou Landon Blake vindo do estacionamento na direção delas. Cole gritou o nome de Landon e saiu correndo na direção dele. Em silêncio, Kari e Ashley ficaram observando o menino pular nos braços de Landon. Landon jogou-o para o alto e o abraçou apertado. Em seguida, colocou o menino no chão, pegou a mão dele e começou a andar na direção a Ashley. – Cole é louco por Landon. – Kari manteve o tom sem qualquer vestígio de insinuação. A afirmação era apenas uma observação que qualquer um poderia ter feito. – Eu sei. – Ashley desviou o olhar. Pegou uma pedra que estava perto de seus pés e jogou-a em


direção à água. – Não fique com raiva de mim por dizer isso... Ashley observou o olhar atento da irmã. – Dizer o quê? – Eu não acho que Cole seja o único. Landon e Cole estavam a apenas alguns metros de distância quando Ashley acenou, ignorando o comentário de Kari. – Você não está mancando. – Eu me sinto ótimo. – Ele acenou para Kari e depois veio para perto de Ashley. – Como se tivesse ficado livre. – Landon quer dar uma volta. – Cole pulou algumas vezes. – Vem com a gente, mamãe. Por favor! Ashley colocou Cole em seu colo e beijou a bochecha do filho. – Como é que eu poderia dizer não para os dois melhores homens do mundo? – Ela riu e se levantou, colocando Cole no chão ao seu lado e limpando a areia de seu shorts. – Vamos ver quem consegue achar a pedra mais bonita. – Tá bom! – Os olhos de Cole se iluminaram. Colocou uma das mãos na de Landon e a outra, na de Ashley. – Vamos antes que os hambúrgueres do vovô fiquem prontos. Kari viu-os se afastarem, caminhando em direção ao sol poente. Passou levemente o dedo na testa macia de Jessie. Ashley estaria louca se deixasse Landon ir embora agora, depois de os dois terem claramente encontrado algo que outras pessoas esperavam a vida toda para encontrar. Um suspiro pesado passou por entre os lábios de Kari enquanto ela contemplava o lago. Essa era a primeira vez que voltava ao lago desde aquele dia de outono em que ela e Ryan estiveram ali. Já fazia quase um ano? Kari deixou a mente vagar sem rumo pelas estradas empoeiradas do passado até aquela tarde de novembro em que o tempo parou. Apesar do frio, eles pescaram durante horas e fizeram uma fogueira. Então, fizeram algo que deveriam ter feito anos antes. Conversaram sobre o motivo pelo qual – depois de uma vida inteira gostando um do outro – deixaram o relacionamento esfriar. A resposta parecia tão dolorosa e inacreditável agora quanto naquele dia de novembro. Uma série de mal-entendidos levaram-na a acreditar que Ryan estava apaixonado por outra pessoa. Consequentemente, Kari fez todo o possível para seguir com sua vida, até mesmo se casando com Tim Jacobs. Jessie agitou-se, e Kari arrumou o cobertor para proteger o rosto da filha. Toda a sua vida, ao que


parecia, foi uma série de acontecimentos desencontrados. Naquela noite de novembro, ela se sentiu mais só do que nunca. Tim admitiu o caso que estava tendo e foi morar com a estudante que era sua amante. E, apesar de Kari estar determinada a lutar por seu casamento, estar a sós com Ryan neste lago foi um teste para sua determinação. Ela precisava de toda a força possível para não fugir com ele e nunca mais falar com o marido. Contudo, só foi preciso um beijo, um momento de saudade pelo que poderia ter sido, para trazer Kari de volta à realidade. Ela ainda podia ver a compreensão nos olhos de Ryan quando lhe disse que não podia – não podia beijá-lo, não podia se apaixonar por ele –, por mais que quisesse. Não quando o futuro de seu casamento era incerto. Para Ryan, aquele dia com ela levou a um momento de exame de consciência. No final, ele decidiu que, se ela quisesse fazer as coisas darem certo com Tim, ele não ficaria no caminho; seu amor por ela não permitiria isso. Na verdade, sua decisão de amá-la o levou a aceitar o emprego de técnico em Nova York. Quem teria imaginado que três meses depois Tim seria morto? E, agora, aqui estava ela, sozinha novamente – ela e Jessie. Olhou para o rosto de seus familiares pela praia. Poderia ser pior. Como ela teria sobrevivido sem seus pais e os outros, especialmente Ashley? Sua irmã mais nova foi o membro da família que mais ficou frustrado com sua decisão de continuar casada com Tim. Mas, agora que ele se foi, Ashley era a que mais a apoiava, a mais solidária. Talvez fosse porque Ashley também entendia a solidão. – Venha pegá-los! – A voz do pai ecoou, e Kari sorriu. Quan-tos Dias do Trabalho eles se reuniram neste mesmo local, brincaram nesta mesma praia e ouviram o pai dizer estas mesmas palavras? Não, ela não estava nem um pouco sozinha. Além disso, Kari tinha Deus, a presença dele, a Palavra viva Dele em seu íntimo. Isso era mais do que ela podia dizer para a pobre Ashley. – Guarde um pouco para mim, vovô! – Cole saiu correndo de detrás de algumas árvores. Kari seguia em direção às mesas de piquenique quando Landon e Ashley apareceram, de mãos dadas e rindo. Landon faz parte de seu plano, não é, Senhor? Kari acenou na direção deles. Do outro lado do lago, os outros vinham para a churrasqueira. Luke teve o cuidado de manter Reagan longe de Ashley. Suas diferenças com a irmã não diminuíram com o tempo; isso era muito claro.


Kari foi a última a chegar às mesas. Enquanto vinha da praia, apoiando Jessie no ombro, ela observou Ashley e Landon – a forma como os olhos de Ashley brilhavam quando ele falava, o modo como ele parecia em sintonia com tudo o que ela dizia, todo movimento que ela fazia. Finalmente, estava acontecendo. Landon havia descoberto uma maneira de entrar no coração de Ashley. Sim, Landon fazia parte do plano de Deus para Ashley – Kari tinha certeza disso. E, se as coisas acontecessem como ela esperava que acontecessem para a irmã, muito em breve, Ashley acolheria mais do que Landon Blake em seu coração. Ela acolheria o próprio Deus.


CAPÍTULO 16 Era chegada a hora. Ashley soube no momento em que viu Landon caminhar em sua direção naquela tarde. Ela havia tomado a decisão de contar a verdade para ele, de compartilhar todos os segredos que havia planejado guardar para sempre. E, se ele nunca mais olhasse para ela com desejo e amor depois dessa noite, que assim fosse. Pelo menos, ela não estaria resignada a viver com medo pelo resto da vida. Durante o churrasco, com uma dezena de conversas acontecendo ao mesmo tempo, Ashley foi parar ao lado da mãe e se espremeu ao lado dela. – Você pode levar Cole com você quando terminarmos? – Ela manteve a voz baixa. A última coisa que precisava era que Luke a ouvisse. Ele provavelmente faria algum comentário sobre a frequência com que Ashley deixava Cole com os pais. – Claro. – Sua mãe passou levemente o guardanapo na boca e se virou para poder ver Ashley. – O que está acontecendo? – Nada. – A resposta de Ashley foi rápida. Ela não queria que a mãe tivesse a ideia errada. Não havia nada sério entre ela e Landon, e, depois dessa noite, bem, depois dessa noite não poderia haver nada entre eles. – Landon e eu vamos ficar um pouco mais. Só isso. – Só isso? – Um sorriso largo se formou nos cantos da boca de Elizabeth. – Sim, mãe, só isso. – Ashley deu uma risada curta. – Ele não vai me pedir em casamento ou algo assim. Nós somos apenas amigos, lembra? Elizabeth levantou uma sobrancelha e discretamente voltou o olhar na direção de Landon. Ashley fez o mesmo. Alto e forte, ele estava sentado a uma mesa próxima, conversando com Cole e ajudando o menino a espalhar ketchup no pão de hambúrguer. – Eu diria que eles são bons amigos. – Ótimo! – Ashley suspirou. Por mais longe que ela e Landon tivessem ido, ela ainda odiava essa parte, essa lupa dos Baxter, essa oportunidade de todos os virem juntos e imaginar o que estava acontecendo. – A questão é que nós precisamos conversar. Sem Cole. Sua mãe afastou-se um pouco da mesa e pôs a mão no joelho de Ashley. – Eu não queria chateá-la. – Ela deu um sorriso para Ashley como se estivesse pedindo desculpas. – Eu gosto muito de Landon.


– Eu sei. – Havia resignação no tom de Ashley. – Eu também. – É claro que eu levo Cole. – Sua mãe voltou à posição anterior à mesa. Ashley voltou para seu lugar e falou sobre a oferta dos pais para Landon. – Você pode ficar mais um tempo? Aqui no lago, quero dizer? – Claro. – A testa de Landon se levantou apenas o sufi-ciente para mostrar sua surpresa. – Você parece séria. – Eu... eu tenho uma coisa para contar para você. – Opa! – Landon abriu um sorriso largo para ela que não escondia muito a preocupação em seus olhos. – Não deve ser coisa boa. – Não. – Ashley desviou os olhos e pegou um pedaço de melancia de seu prato. – Talvez, não. A hora passou rapidamente, com mais conversas e, depois do jantar, marshmallow assado na churrasqueira. Luke tinha levado seu violão e, enquanto tocava, o grupo cantou uma série das canções favoritas da família de artistas como Garth Brooks, Eagles, George Strait e Skip Ewing. Ashley e Landon sentaram-se lado a lado, longe dos outros. Cole estava no joelho de Luke, cantando o quanto podia, a voz desafinada entremeando a voz limpa e forte de Luke. – Qual o problema entre você e Luke? – Ele não gosta de mim. – Essa resposta sussurrada de Ashley foi a primeira coisa em que ela pôde pensar. Normalmente ela faria algum comentário sobre como os dois tinham opiniões diferentes ou como ele tinha se tornado um conservador crítico e dono da verdade. Mas talvez essas declarações fossem apenas disfarces, formas de esconder a dor, pois a distância entre eles doía mais do que ela queria admitir. Luke continuou a tocar enquanto Landon franziu a testa. Ele manteve a voz baixa para que nenhum dos outros mais próximos da fogueira pudesse ouvi-lo. – É claro que ele gosta de você. Vocês dois eram os melho-res amigos um do outro quando eram crianças. Ashley sentiu as lágrimas e piscou para contê-las. – Até eu voltar de Paris. Landon não disse nada. Em vez disso, acomodou-se na cadeira e voltou a atenção para Luke. Mas, dessa vez, de uma forma que suavizou as feridas doloridas no coração de Ashley, ele estendeu a mão e discretamente segurou a dela. Ela se deliciou com a sensação dos dedos dele contra os seus. O toque de Landon parecia tão bom que ela teve vontade de chorar. Mesmo quando ninguém mais podia entender, Landon entendia.


Por que ela estava percebendo isso só agora, quando já era tarde demais? Quando ele estava pronto para seguir em frente com a vida e deixá-la para trás? E, afinal de contas, por que ela estava segurando a mão dele – deixando que ele se aproximasse do modo como ela sempre jurou que ele nunca chegaria? De nada adiantava, independentemente do que Landon sentia por ela agora. Depois dessa noite, não haveria mãos dadas nem troca de intimidades. Uma vez que soubesse quem ela realmente era, ele faria as malas para a cidade de Nova York e nunca mais olharia para trás. Quando Luke terminou de tocar, o grupo foi seguindo, pouco a pouco, para os carros. Ashley e Landon se juntaram a eles, prometendo visitar Erin e Sam em breve e se despedindo de Cole, de Kari e dos outros. Finalmente, eles ficaram sozinhos. Quando o último dos carros da família se afastou, Landon virou-se e a puxou em sua direção. Eles se abraçaram por um longo momento. – Você ficou estranha durante a noite toda, Ashley. – Ele se afastou o suficiente para ver o rosto dela. – O que foi? O que está consumindo você? O sol se pôs, e apenas algumas faixas fracas de luz permaneceram no céu. Exceto o brilho da fogueira e a luz da lua, a praia estava escura. Ashley mordeu o lábio por dentro. – Vamos sentar. A noite estava fria depois do dia de sol quente, e a brisa do lago estava um pouco mais forte. Eles deixaram as cadeiras de lado, e Landon estendeu uma manta perto da churrasqueira. Ali, eles se sentaram juntos, os ombros se tocando. Depois de um minuto de silêncio, Ashley respirou fundo. Não havia uma maneira fácil de começar. Dobrou os joelhos junto ao peito e inclinou o rosto para que pudesse vê-lo. – Eu quero falar sobre Paris. – É disso que se trata? – Seu tom de voz estava cheio de compaixão, e ele passou o braço em volta dos ombros dela. – Não, Ashley. – Ela pôde perceber que ele fazia um não com a cabeça. – Você não tem de me dizer nada. – Eu quero. – Ela ficou olhando para frente, os olhos fixos nas brasas que se apagavam. – Eu pensei que pudesse enterrar o passado. Apenas seguir em frente como se ele nunca tivesse acontecido. – Fez uma pausa. – Mas não posso. – Não. – Sua voz misturou-se com a brisa e tocou suave-mente a mente dela. – A vida não funciona assim. – Você estava certo na outra noite. – Ela ficou quieta, de-sesperada para evitar o que tinha pela


frente, mas, ainda assim, determinada a continuar. – A única maneira de derrubar os muros é falar sobre o que aconteceu. Com as mãos suaves, ele segurou o rosto dela. – Mas você está com muito medo, Ashley. Dá para ver isso em seus olhos. – Sim. – Ela falou a palavra, mas o som não veio. – Eu não sei o que você sente por mim, Ash; se seus senti-mentos aumentaram nos últimos dias. – Ele examinou o rosto dela e beijou-lhe suavemente a testa. – Mas nada que você possa me dizer mudará o que sinto por você. Ashley fez que sim. Ele pensa isso agora. – Eu queria fazer só uma coisa em Paris... Landon estava quieto, dando-lhe o espaço para falar. Manteve o braço ao redor dela, mas se mexeu um pouco, erguendo a perna boa. – Pintar. – Ela olhou para o céu. – Eu queria viver a vida sozinha e pintar. – Com isso, a história começou a verter de seu coração. – Antes de partir, montei um esquema para trabalhar em uma galeria de arte... A galeria estava localizada no coração de Montmartre, uma parte de Paris conhecida por seus artistas. Um dos instrutores de Ashley em Indiana havia dado as dicas. Uma vez que sua partida para Paris se aproximava, Ashley pôs mais do que roupas nas malas. Ela levou uma segunda mala com suas quatro melhores telas. No dia seguinte à sua chegada a Montmartre, ela colocou uma saia preta simples e uma jaqueta, embalou algumas peças de arte e foi para seu compromisso. – Quando a diretora da galeria viu meu trabalho, ela ba-teu de levinho em meu braço e me disse para manter meus projetos longe do local. – Ashley revirou os olhos. – Como se fossem lixo ou algo assim! Como se diminuíssem a qualidade da galeria apenas ao olhar para eles. Landon retraiu-se. – Sim. – A única risada triste veio de Ashley. – Foi assim que eu me senti. Ashley continuou a história. Disseram para ela que a maioria das galerias permitia que aspirantes a artistas trabalhassem em uma de suas salas ou estúdios dos fundos. Mas é evidente que elas queriam que Ashley atendesse telefonemas e recebesse turistas de língua inglesa, em vez de pintar. Quando ela não estivesse trabalhando, o gerente iria querê-la longe de lá. Contudo, isso mudou no primeiro fim de semana, quando a galeria abriu uma exposição de arte apresentando um dos novos artistas mais fascinantes da região, Jean-Claude Pierre. O homem era um


impressionista contemporâneo e seu trabalho estava na moda. As pessoas estavam falando dele como se fosse uma lenda. Ashley viu o trabalho e a fotografia dele. Ambos deixaram-na sem fôlego. Ela estava emocionada só com a chance de conhecê-lo. É claro que ela pôde ir à exposição só porque estava sendo paga. Seu trabalho era andar pelo espaço à procura de clientes de língua inglesa e responder a quaisquer perguntas que pudesse. Outra pessoa cuidaria da clientela local. Ela não se importou. Ela teria feito qualquer coisa por uma oportunidade de conhecer JeanClaude Pierre. A galeria havia contratado um grupo de músicos eruditos e providenciado champanhe e foie gras para o evento. A noite estava para começar quando um homem com seus trinta e tantos anos passou rapidamente pela porta. Ashley deu uma olhada para ele e sentiu a força da presença dele como se fosse um golpe físico. Naquele momento, ele parecia tudo o que ela sempre quis em um homem: um visual sombrio, mistério e um dom incrível de colocar na tela aquilo que estava dentro dele. Havia apenas um problema. Na mão esquerda, ele usava uma aliança. E de braço dado com ele estava uma loura mignon, mais ou menos da mesma idade. Mesmo do outro lado do salão, Ashley podia ver que Jean-Claude estava entediado com a mulher, mas não havia dúvida de que ela era a esposa dele. O anel de diamante da loura iluminava a galeria. Fazia só alguns minutos que Jean-Claude estava ali quando viu Ashley. Ele estava conversando com a companheira, gesticulando para o gerente sobre a exibição, quando, de repente, seus olhos encontraram os de Ashley do outro lado da sala. Por um breve instante, ele fez uma pausa no meio da frase e simplesmente olhou para ela. Em seguida, os cantos de seus lábios se levantaram ligeiramente, e ele lhe fez um aceno educado. Ashley fez o mesmo e desviou o olhar. Seu rosto queimou com o fato de que ele havia surpreendido seu olhar fixo, observando-o com um olhar que possivelmente não escondia a atração que sentiu por ele. O restante da noite passou sem que os dois se falassem. Jean-Claude e a esposa circularam pelo salão, cumprimentando todas as pessoas certas e conversando elegantemente com compradores que faziam cheques e levavam para casa peças de seu trabalho naquela noite. Às 22 horas, os convi dados começaram a sair, e, com o canto do olho, Ashley viu Jean-Claude beijar a esposa no rosto. Em seguida, ele fez sinal para um motorista do lado de fora e deu boa-noite à esposa. Dez minutos depois, Ashley estava juntando os recibos da noite quando ele apareceu ao seu lado.


– Você é nova aqui, né? Ela se virou e se deparou com o olhar fixo dele. Pare, Ashley. Vá embora. Ele é casado. Tudo o que seus pais lhe tinham ensinado gritava para que ela fosse educada, mas distante. Nada de bom poderia resultar de uma paixão por um homem casado. Em vez disso, ela o fitou e sorriu. – Sim. Sou dos Estados Unidos. – Eu sabia. – Sua voz foi suave, sensual, com um toque de humor. – Eu gosto de norte-americanas, disse ele. – Tão ousadas, mas tão... intocáveis. Espero que você esteja feliz aqui. – Ele segurou a mão dela com uma graça e elegância que Ashley só tinha imaginado em sonho e levou-a aos lábios. As pontas de seus dedos tocaram levemente a palma da mão dela ao deixar perto do pulso um beijo suave. O gerente da galeria estava no escritório dos fundos, e eles estavam sozinhos no térreo. Ashley não sabia o que dizer. O inglês de Jean-Claude não era perfeito nem o francês dela. Mas não havia como confundir as intenções dele quando aproximou o rosto do dela, a voz como um sussurro. – Você tem de vir comigo, chérie. Quero lhe mostrar minha cidade. *** Ashley inclinou-se para trás, fitando o manto de estrelas que havia se espalhado pelo céu. – Se ao menos eu tivesse dito não. – Você saiu com ele? – O tom de Landon era de curiosi-dade, nada mais. – Sim. – Ela deu uma olhada para Landon e viu que ele estava ouvindo atentamente, mas com os olhos arregalados. Se a história o estava deixando com ciúmes ou com raiva, ele não estava deixando transparecer. Dê tempo para ele, pensou Ashley. Isso é só o começo. Ela respirou calmamente e estreitou os olhos quando as lembranças vieram mais uma vez. – Eu só cheguei em casa às 2 da manhã... Jean-Claude levou-a a uma dezena de pontos famosos naquela noite, lugares onde compartilharam um café, uma conversa e, finalmente, um conhaque. Ashley e seus amigos de arte bebiam de vez em quando em Bloomington. Mas o efeito não era nada comparado com o conhaque francês que aqueceu seu íntimo na presença de um homem tão interessante quanto Jean-Claude Pierre. Quando ele a levou de volta para o pequeno apartamento alugado dela, levou-a até a porta e beijou-a, primeiro lentamente, depois com mais paixão, até que ela ficou louca de desejo. Ela estava para convidá-lo a entrar quando ele a beijou no ouvido e sussurrou: – Amanhã, chérie?


Ashley não conseguiu dizer outra coisa senão o que ele queria ouvir. – Sim... amanhã. E assim começou uma rotina. Depois de passar o dia longe um do outro, eles se encontravam na galeria e passavam a noite juntos. Na quinta noite, Ashley examinou Jean-Claude por cima de um copo de vinho. – Você é casado. Não era uma pergunta nem uma acusação, apenas uma observação. Um fato do qual Ashley queria que ele soubesse que ela estava ciente. – Sim. Ele levantou um ombro. – Minha Gabrielle, ela não gosta muito da vida noturna. Ashley queria perguntar a Jean-Claude se a esposa dele gostava de que ele passasse um tempo com outra mulher, uma mulher com metade da idade dela. Uma vez que as palavras não vinham, JeanClaude alcançou o outro lado da mesa e ergueu seu queixo. – A França é diferente dos Estados Unidos. – Diferente? – Os homens –, ele fez pinceladas invisíveis no ar en-quanto buscava as palavras certas, – os homens podem... como vocês dizem?... se expressar. – Ele segurou as mãos dela nas suas. – A paixão não é uma coisa ruim. – Ele sorriu, e Ashley ficou impressionada com o sofrimento que isso causou em seu coração. – De que outra forma eu poderia pintar se não pudesse me expressar? Minha esposa, ela entende isso. Ela quer que eu faça um bom trabalho. Ashley ficou atordoada durante o resto da noite, o corpo fisicamente agredido pela proximidade dele, pelo feitiço que ele tinha lançado nela. O que ela estava fazendo? Ela se fez a pergunta várias vezes enquanto as horas passavam. Mas, quando ele a acompanhou até o alto da escada naquela noite, ela não teve dúvida do que aconteceria. Ou de que ela queria o mesmo. Abriu a porta e deixou-o entrar. E, lá, em seu sofá-cama, nos braços de um artista casado com o dobro de sua idade, Ashley matou uma vida de convicção. Mesmo sendo uma adolescente rebelde, ela havia conseguido, de algum modo, ter incorporado o que seus pais lhe haviam ensinado sobre esperar até o casamento. Mas isso era Paris, e ela estava apaixonada. Não queria esperar. Naquela noite, Jean-Claude tocou-lhe de uma forma que silenciou completamente sua consciência e deixou-a ávida por mais. Quando eles se despediram, o sol estava nascendo. ***


Ashley fez uma pausa. Não tinha contado todos os detalhes a Landon. Eles só serviriam para machucá-lo, machucar os dois. Ela apoiou a testa nos joelhos. – Isso é mais difícil do que pensei. – Você era jovem, Ashley. Estava completamente sozinha em outro país. – Landon afrouxou a mão nos ombros de Ashley e passou um dedo no lado do rosto dela. – Espere. – Ashley fez que não com a cabeça. – Tem mais. Já que tinha chegado até aqui com a história, ela poderia muito bem terminá-la. Então, tudo estaria às claras. O que quer que acontecesse depois disso, ao menos eles não teriam mais segredos entre eles. Ashley levantou a cabeça e deixou-a cair no ombro de Landon. Independentemente do que ele pensasse dela no final, ela precisava de seu apoio. Precisava saber que ele não se levantaria de repente e fugiria, deixando-a na lama suja de suas próprias lembranças. Fechou os olhos brevemente e continuou. Depois de sua primeira noite com Jean-Claude Pierre, Ashley soube que haveria outras. Não se tratava de algo combinado. Era algo que simplesmente acontecia. Eles tinham uma química que viciava tanto que não havia como voltar atrás. Durante quase um mês, eles ficaram juntos todas as noites. Então, uma noite, ele apareceu no apartamento dela com um amigo. – Angelo também é um artista –, explicou Jean-Claude. – Ele quer que você pose para ele. Ainda hoje Ashley se lembrava do frio na barriga que sentiu enquanto os homens estavam lá, com os olhos fixos nela. – Agora? – Ashley deu um passo para atrás, confusa. Jean-Claude e o amigo riram. – Não, chérie, agora não. Amanhã. – Por que... por que ele está aqui agora? – Ele quer ver você. – Me ver? – Alguma coisa no sorriso de Jean-Claude fez o estômago de Ashley virar. – Sim, chérie. Você todinha. Ashley deu mais um passo para trás. – Não! – Ela examinou o rosto de Jean-Claude, deses-perada por qualquer sinal de humor. Não havia nenhum. E percebeu que era a norte-americana toda provinciana e ingênua que desesperadamente não queria ser.


Desapontados, Jean-Claude e o homem foram embora. Depois disso, as visitas de Jean-Claude foram menos frequentes. Então, uma noite, ele apareceu na galeria quase no fim do expediente. Mal falou com ela, simplesmente achou que ela iria com ele. E ela foi. Eles caminharam pelas ruas de Paris por uma hora ou algo assim. E, depois, ele a levou para um lugar que nunca a tinha levado antes: ao seu estúdio de arte particular. Era um lugar bonito, com tetos altos e claraboias de um lado ao outro. Havia pinturas de JeanClaude penduradas nas paredes e encostadas nos cantos. Ashley mal podia acreditar que ele a tinha levado para lá. – Eu pensei que ele me pediria para pintar com ele, talvez compartilhar alguma técnica comigo. – Ashley deu de ombros, e os olhos encontraram os de Landon. – Eu deveria ter sido mais esperta. Em vez disso, Jean-Claude apontou para uma área perto da janela onde um cavalete estava a poucos metros de um sofá de couro. – Tire suas roupas e deite no sofá. – Jean-Claude tocou o queixo dela, mas não havia carinho algum em seus olhos. – Eu quero pintar você. Ashley não se moveu. – Eu sou uma artista. – Ela conseguiu sorrir. – Não uma modelo, Jean-Claude. Lágrimas juntaram-se nos olhos de Ashley ao se lembrar do que aconteceu em seguida. Ela desviou o olhar, incapaz de olhar para Landon nesta próxima parte. – E, então, ele... ele riu de mim. Ele... ele me disse que tinha visto meu trabalho e que... não valia nada. Não valia nada... norte-americano... lixo. Ao seu lado, Landon gemeu. – Ah, Ashley, ele estava errado. Você não acreditou nele, né? Ela ergueu os olhos e olhou para ele mais uma vez, a voz cheia de uma rejeição que nunca desapareceu. – O que eu deveria pensar? O expert era ele. – Ela fungou, e sua voz se acalmou novamente. – Ele me disse que a única coisa artística em mim era... meu corpo. – Sua voz engasgou. – Ele me disse que por isso eu precisava... posar para ele. Porque minha carne era a mais bela forma de arte. Os olhos de Landon brilharam de raiva. – Ele nunca viu seu coração... ou o modo como você o envolve em seu trabalho. – Landon estendeu a mão para trás, pegou uma ponta da manta e usou-a para enxugar as lágrimas do rosto de


Ashley. – Obrigada. – A vergonha quase a sufocou. Ela fungou novamente, pôs os braços ao redor dos joelhos e, de alguma forma, encontrou forças para continuar. – Eu queria correr, deixá-lo lá com seu cavalete. Mas, eu era como uma adolescente vulnerável. Ela olhou para os olhos de Landon. – Cheguei a perguntar se ele me amava. – A risada triste misturou-se aos soluços. – Isso não é louco? Landon não disse nada; apenas fazia círculos ao longo das costas dela. Seu apoio silencioso dava-lhe força para continuar. – Ele riu de mim e disse que não; é claro que ele não me amava. Ele disse que eu era um passatempo, uma forma de ele “explorar suas paixões”. Então, lá estava eu. Humilhada como artista, como mulher. E eu fiquei. Eu poderia ter ido embora e nunca mais olhado para trás, mas não fiz isso. Novamente, Landon ficou quieto, incentivando-a com sua presença. Ela deu um suspiro trêmulo. – Ele me fez... tirar a roupa e posar naquele sofá. Tirou algumas fotos; disse que eram um trabalho de preparação. Pegou uma tela nova e desenhou por um tempo. Depois, se aproximou de mim e... Ashley não conseguiu terminar. Anos de angústia reprimida vieram à tona e a estremeceram até que seus dentes começaram a bater. – Eu me senti... tão suja, Landon. Ele não se importava nem um pouco comigo. Mas eu ainda não conseguia ir embora. Os soluços estavam diminuindo nesse momento. Ela fungou e fez que não com a cabeça. – Ele nem sequer me levou para casa naquela noite. Tive de pegar o metrô. E, durante toda a volta, eu só conseguia pensar em minha família... e em você... e em Deus. – Ela se esforçava para recuperar o fôlego. – Em como... desapontei você. E em como... – o tom da voz ficou amargo – e ainda voltaria ao estúdio dele se ele me pedisse. – Ashley. – Landon pôs os braços em volta dela e a abra-çou forte, acariciando-lhe as costas. Passaram-se minutos enquanto ela tentava controlar suas emoções. Ela não merecia a compreensão de Landon, mas, mesmo assim, ele estava sendo compreensivo. Por que ele não fugia? Como podia ficar sentado ali com ela agora que sabia a verdade? Quando os soluços diminuíram um pouco, ela terminou a história. – E voltei. Toda vez que Jean-Claude pedia, eu estava lá, não importava o que ele quisesse. E, então... – Sua voz assumiu um tom monótono. – Descobri que estava grávida. Da próxima vez que Jean-Claude voltou à galeria de arte, Ashley disse que eles precisavam


conversar. Jean-Claude pareceu irritado. Ele tinha planos para aquela noite, disse ele. Entretanto, levou-a a um estúdio particular nos fundos da galeria. – O que é que você queria dizer? – Já não havia mais a conversa doce e romântica. Ashley mexeu os dedos. Onde estava a atração que ela sentia por ele antes? Agora ela se sentia barata, suja, usada. – Eu estou... – Ela não conseguia encarar o olhar impa-ciente de Jean-Claude. – Não aja como uma criança. – Jean-Claude olhou para o relógio. – Eu estou aqui agora. Fale. O pânico reprimiu sua capacidade de pensar. Sem esperar outro minuto, ela respirou rapidamente e fechou os olhos. – Eu fiz um teste. Eu estou... grávida. Assim que Ashley abriu os olhos, ela sabia que era o fim. A expressão no rosto de Jean-Claude disse-lhe que seria a última conversa que ela teria com ele. Ela ainda se lembrava da reação dele. A notícia mudou o semblante de Jean-Claude em questão de segundos. Então, ele deu um passo para trás e balançou o dedo na direção dela. – Isso é problema seu, chérie. Não meu. – Uma risada amarga saiu de sua garganta. – É preciso se precaver quando se está brincando. Ele se virou para sair, e Ashley gritou: – Espere! – Ela correu na direção dele e agarrando a cami-sa dele. – Eu vou posar para você de novo. Vou fazer qualquer coisa, Jean-Claude. Apenas fique comigo. Me ajude... Ele puxou abruptamente o braço e se afastou. – Volte. Esse filho não é meu. – Levantou o queixo e lan-çou-lhe um olhar altivo, um olhar que a fez se sentir como a última das mulheres. – Eu sou um homem casado. – Antes de sair, ele destilou o último veneno. – Tem uma clínica no fim da rua. Pode ser que eles te ajudem. Duas noites depois, Ashley estava saindo da galeria de arte quando viu Jean-Claude de braços dados com uma jovem esbelta. Atordoada, Ashley viu quando eles atravessaram a rua e entraram em uma lanchonete, o mesmo lugar aonde ele a tinha levado quando o relacionamento entre eles começou. Foi quando a ficha caiu para Ashley. Ela não tinha tido um relacionamento com Jean-Claude. Não tinha tido nem um caso. Ele era um homem casado com charme suficiente para conseguir qualquer mulher, ou homem, que quisesse. As meninas como Ashley eram apenas diversão para Jean-Claude, uma forma de diversão que até mesmo a esposa dele considerava aceitável. Ashley ficou arrasada com a constatação. Voltou para seu pequeno apartamento e vomitou durante


toda a noite. Pela manhã, foi à clínica que Jean-Claude tinha mencionado. Uma mulher gentil na recepção assegurou-lhe que o aborto era confidencial e rápido. Demorava quinze minutos, no máximo. Bom, pensou Ashley. Em uma hora, vou estar livre de tudo o que possa me fazer lembrar de Jean-Claude Pierre. *** Ashley baixou a cabeça novamente e começou a tremer. – Ei, tudo bem. – Landon abraçou-a apertado, protegen-do-a como se ela fosse uma garotinha. – Está tudo bem. Ela ainda tremia, mas o calor do corpo de Landon permeava sua alma. O que era esse sentimento, esse desejo por um homem que ela se esforçou tanto para evitar? E como ela poderia se apaixonar por ele agora, quando a verdade deveria mudar os sentimentos dele por ela? – É óbvio que você não foi até o fim. – A voz de Landon soou baixinha perto do rosto dela. – Não. – Ela enxugou uma lágrima isolada. – Durante todo o tempo em que esperei, pensei em meus pais e em tudo o que eles me ensinaram. Se eu fosse adiante com o aborto, não haveria como voltar atrás. E... e... Sua voz falhou, e ela estremeceu. Como ela tinha estado perto de perder Cole. – Eu fiquei pensando, mesmo que eu não fosse uma mãe muito boa... a culpa não era do bebê. Landon acariciou as costas dela novamente. Mais uma vez, seu toque deu-lhe força para continuar. – Quando eles chamaram meu nome, dei meia-volta e corri. O mais rápido, para o mais longe e com toda a força possível. – Alguns soluços em silêncio balançaram seus ombros novamente. – Vim para casa alguns meses depois e... e não pude contar a ninguém o que aconteceu. Foi horrível. Ashley recuou um pouco e examinou o rosto de Landon. – Quer saber qual foi a pior parte? É claro que Landon sabia o que ela ia dizer, mas esperou. – Voltar para casa. – Outras lágrimas encheram seus olhos. – Eu sempre fui um pouco diferente antes. Você sabe! Landon deu um sorriso torto. – Eu sei. Ashley tinha o olhar dele fixo nela.


– Mas, quando cheguei em casa, tudo estava pior. Eu não era só a menina que deu mais preocupação que sossego para os pais. Eu era a ovelha negra. Ninguém sabia o que fazer comigo. Pobre Ashley. Seu tom tornou-se calmamente sarcástico. Fugiu para Paris e voltou para casa grávida. O que vamos fazer com ela? Ashley abriu os dedos sobre o peito. – Tudo o que eles diziam só fazia com que eu me sentisse pior. Como se nenhum deles jamais pudesse me aceitar, me amar ou se preocupar comigo de novo. Especialmente Luke. Ela mordeu o lábio. – Ele foi o pior. – Eu sinto muito, Ashley. – Landon segurou o rosto dela com a mão. – Aqui – ela cerrou o punho e apertou-o no coração – eu ainda era só uma menina, Landon. Uma menina que teve seu sonho de pintar despedaçado por um dos novos artistas mais populares de Paris. Mas quando cheguei em casa e percebi o que cada um pensava de mim, o que eu pensava de mim, soube que minha vida nunca mais seria a mesma. Porque... – Ela cobriu o rosto com as mãos quando outra onda de lágrimas veio. Mais uma vez, Landon pôs os braços em volta dela. – Por que o quê? – Porque... – Ela ergueu os olhos para a imagem borra-da do rosto dele. – Eu não valia nada. Nada como artista ou como pessoa. Não valia mais a pena me amar. – Usou a manta para enxugar as lágrimas novamente. – Pronto. – Ela se endireitou. – Agora você sabe. – Ah, Ashley. – Landon segurou as mãos dela nas suas. – Você nem imagina o quanto você vale a pena. – E Landon... – Ashley tinha algo mais a dizer, e a dor di-lacerou seu coração. Ela lhe disse a verdade. Agora era hora de deixá-lo ir, de dispensá-lo de qualquer obrigação que ele pudesse achar que devia a ela. – Você pode esquecer seus sonhos bobos em relação a mim, porque eu não sou nada do que você pensava que eu era. Ela engoliu um nó na garganta. Não adiantava chorar. Afinal, os dois nunca teriam dado certo. Landon era puro, íntegro e bom, e ela era... Ela fungou novamente. – Você merece alguém melhor que eu. – Ashley, não... Ela apertou e soltou as mãos dele, cruzando os braços firmemente contra o corpo. – Não se preocupe, Landon. Eu não espero que você me ligue ou venha me ver. Apenas faça seus


planos e vá para Nova York. Faça sua vida, o tipo de vida que você merece. Ashley piscou para que pudesse ver mais nitidamente. – Mas quando você se lembrar de mim... lembre-se da pessoa que você pensava que eu era, tá, Landon? Não isso. – Apontou para si mesma. – Isso não é a verdade. Os olhos de Landon arregalaram-se, e ele fez que não com a cabeça. – Não diga isso. – Sua voz foi intensa, cheia de convicção. – Eu estou aqui, Ashley. Eu sei a verdade sobre você e não estou fugindo. Eu nunca vou fugir. Ela baixou a cabeça, e, com os dedos macios, ele ergueu o queixo dela. – Não. – Ela fechou os olhos e virou a cabeça. – Não. – O que é isso, Ashley! – Passou o polegar no queixo dela. – Olhe para mim. – Eu não posso. – O coração de Ashley disparou. Por que ele não a deixava em paz? Tudo nela era errado para ele. Ela estava para se levantar e fugir quando, de repente, percebeu o que ele tinha acabado de dizer. Eu estou aqui, Ashley. Estou aqui. A constatação surgiu em seu coração. Era verdade, não era? Ele se importou o suficiente para perguntar sobre Paris na outra noite. E se importou o suficiente para estar aqui agora, enquanto ela lhe dizia a verdade. Como teria sido fácil para ele dar um tapinha nas costas e se desculpar, depois se despedir dela e seguir o próprio caminho. Em vez disso, ele estava aqui. Mesmo sabendo das coisas mais feias sobre ela, ele estava aqui. Devagar, ela virou o rosto para ele e abriu os olhos. Ele deu um sorriso torto. – Obrigado. – Sua expressão relaxou, e ele parecia mais calmo do que antes. – O que aconteceu com você em Paris poderia ter acontecido com qualquer um. Você era jovem. Você tinha um sonho. Pode ser que você não tenha feito as melhores escolhas, mas eu acredito que Deus redime até mesmo o... – Isso é outra coisa. – Ela o examinou. – Me disseram que Deus me amava, que Deus tinha um plano para mim. – Ashley nunca tinha expressado estes pensamentos antes. – Mas, os planos de Deus deveriam ser bons. E não houve nada de bom como consequência daquela época em minha vida. Nada. – Isso não é verdade, Ashley. – Landon levantou a outra mão para que pudesse acariciar o rosto com seus dedos quentes. – Deus ama você. Ele tem planos para sua vida. E, mesmo desses piores dias, ele lhe deu uma coisa maravilhosa. – O quê? – Ashley agarrou as mãos de Landon. – Que coisa boa Deus me deu?


A voz de Landon foi baixa o suficiente para ser ouvida. – Ele lhe deu Cole. Sua resposta foi como um choque, como se a perspectiva de Ashley fosse, em um piscar de olhos, alterada para sempre. Claro. Cole era a coisa boa que tinha resultado de Paris. Seu menininho lindo e bondoso. Durante todos esses anos, ela pensou nele como uma vergonha para sua família, uma inconsequência. Ela o amava, com certeza. Mas, também tinha pena dele: o menino sem pai, o menino com uma mãe que, muitas vezes, estava ausente, muitas vezes preocupada demais com a própria culpa e com vergonha de ver que, bem ali, dormindo em um quarto no corredor, estava uma criança que a amava mais que a vida. Ele era mais que um lembrete doloroso de tudo o que tinha acontecido com ela em Paris. Ele era uma criança preciosa, um tesouro do próprio Deus. – Ah, Landon – Ashley exclamou alto. Levantou-se e deu três passos em direção ao lago. Em seguida, baixou a cabeça quando veio à sua mente um milhão de lembranças dos momentos em que ela não conseguiu ver Cole como o presente que ele realmente era. Ele levava para ela uma pedra, uma pena ou algum outro prêmio. Aqui, mamãe, é para você. Seu sorriso iluminava a sala. Mas ela não pensava em seu amor por Cole nem no quanto tinha sorte de ser a mãe dele. Ela pensava que, um dia, ele saberia a verdade sobre como ele veio a existir. E, então, ele iria odiá-la, como Luke. É claro que ninguém a odiava tanto quanto ela mesma. E realmente por isso ela não conseguia receber o amor de Cole. Não conseguia receber o amor de ninguém, nem mesmo de Landon. Especialmente o de Landon. Ashley rangeu os dentes. Quantos anos ela havia desperdiçado ao não se permitir estar perto de Cole? Ou de outra pessoa? Lágrimas caíram de seus olhos na praia. Landon esperou, dando-lhe tempo para lamentar. Depois de vários minutos, ela o percebeu atrás dela. Ele pôs os braços ao redor da cintura dela e puxou-a em sua direção. – Você pensou que eu não amaria você se soubesse sobre Paris? É isso? – Quem poderia culpá-lo? – Ela deixou a cabeça cair para trás contra o peito dele. Ambos estavam de frente para o lago, olhando para frente. – Você achava que eu era como Kari, Erin ou Brooke. Uma menina Baxter. Mas não sou assim; nunca fui. – Ela suspirou, cansada de chorar. Era tarde demais para as lágrimas. Tudo o que havia moldado sua vida já tinha acontecido. – Eu não sou


a pessoa que você pensou que eu era, Landon. Com cuidado, ele a virou para que ficasse de frente para ele, mantendo os braços ao redor da cintura dela. – Sim, você é. As mãos de Ashley caíram para os lados. Ela baixou a testa. O que ele estava dizendo? Ela enxugou as lágrimas debaixo de seus olhos. – Eu... eu não entendo. – Desde que conheci você, eu soube quem você é, Ashley, independente e ousada, apaixonada e emotiva. Uma menina com coragem de ir para Paris sozinha e ir atrás de seu sonho. Não, você não é como suas irmãs. Eu nunca pensei que fosse. Dentro de você bate um coração mais forte do que o de qualquer outra mulher que eu conheça. – Ele examinou os olhos dela. – Paris não mudou isso. A cabeça de Ashley começou a girar. Por que ele estava dizendo isso agora? Como ele poderia dizer essas coisas carinhosas depois de tudo o que ela havia acabado de contar? Essa era a parte em que ele deveria dizer adeus e se livrar dela. – Você não precisa dizer isso. – Olhe – Landon respirou firme –, eu estou dizendo a verdade. Saber as coisas que esse homem fez para você me mata. Mas seu passado não importa para mim. Tudo o que importa é que você está aqui agora, segura, bem e pronta para me deixar ver seu coração. – Seus traços suavizaram. – Ainda que só um pouquinho. Ashley olhou bem dentro dos olhos de Landon. Será que ele realmente a amava tanto assim? Lá, nos lugares mais secretos do coração dele? Tanto que nem mesmo a verdade sobre seu passado poderia abalar o que ele sentia por ela? – Landon, eu... Eu não sei o que dizer. Os olhos de Landon dançaram. – Você não vê, Ashley? – O quê? – Durante anos orei por este momento. Você já me disse exatamente o que eu queria ouvir. – Eu disse? – Seu tom era mais suave do que antes. – Sim. – Landon se inclinou e beijou-a. Não com um beijo lento e hesitante da atração como os que tinham trocado na outra noite em sua casa, mas um beijo de desejo que fazia desaparecer uma montanha de dúvidas e não deixava nada por dizer. Quando tentou respirar, ele estava sem fôlego. – Ashley, minha doce Ashley... você me confiou seu passado. – Passou levemente os lábios pela maçã


do rosto dela em direção à orelha, a voz como um sussurro. – E a confiança é a única maneira pela qual vamos descobrir o que o amanhã nos reserva. Eles se aproximaram mais uma vez, e o beijo foi mais longo, quase desesperado. O sentimento era mais maravilhoso do que qualquer coisa que Ashley podia imaginar: estar envolvida nos braços de Landon, acreditando que ele a amava. Não apenas seu exterior ou algo imaginário em seu íntimo, mas sua pessoa como um todo. Cada beco sujo de seu coração. Ambos estavam tremendo quando Landon finalmente se afastou. – Certo. – Ele segurou a mão dela. – Eu preciso de uma pausa. – Franziu os lábios e respirou fundo. – Vamos dar uma volta. Ashley riu, e o som de seu riso dançou em sua mente. Nunca tinha imaginado que esta noite terminaria assim: ela e Landon se beijando, rindo, de mãos dadas enquanto caminhavam pela praia. Mesmo que Landon mudasse de ideia em relação a ela depois dessa noite, ela nunca se arrependeria de ter dito a verdade a ele. Não depois do que isso lhe tinha ensinado sobre ele, sobre si mesma. E sobre Cole. Eles estavam na metade da descida em direção ao lago quando viram uma estrela atravessar o céu de Indiana. Ao vê-la, os dois pararam onde estavam. – Faça um pedido. – Landon apertou a mão dela. – Tá bom. – Ashley fechou os olhos. Pediu que, um dia, quando Landon parasse de combater incêndios em Nova York, eles pudessem ter mais uma noite como esta. Apenas mais uma noite. Ela piscou os olhos abertos e parou de olhar para as estrelas para ver o contorno marcante do rosto dele à luz do luar. – Sua vez. Landon olhou para ela por um bom tempo, com os olhos brilhando de sinceridade. – Eu já fiz o meu. Eles caminharam mais um pouco, pegaram as cadeiras de praia e voltaram para o estacionamento. Naquela noite, Ashley deixou Cole ficar em sua cama. Muito tempo depois de ele estar adormecido, as palavras de Landon sobre seu filho ainda estavam em sua mente. Pouco antes da meia-noite, ela se apoiou no cotovelo e ficou olhando para Cole, seus pequenos traços e a franja loura de fios finos. Então, ela fez algo que nunca tinha feito desde o dia em que soube que estava grávida. Ela agradeceu a Deus por seu filho e orou para que nunca mais pensasse nele como outra coisa que não fosse o que ele era: o presente mais precioso e valioso que Deus já tinha lhe dado.


CAPÍTULO 17 A discussão não estava dando em nada. Era o dia 10 de setembro, minutos antes das 20 horas, e ninguém sabia o que isso significava: a temporada de futebol estava para começar. O primeiro jogo da temporada do Monday Night Football estaria passando na televisão naquela noite, e Luke não queria perdê-lo. O problema era que ele tinha aceitado jogar uma última partida de softbol com Reagan e seus amigos. – Futebol, Luke? – Eles estavam do lado de fora do apar-tamento dela. Reagan sorriu para ele e encostou em seu carro. Ela trazia uma mochila de lona pendurada no ombro. – A equipe precisa de você. Nós nunca temos gente suficiente. Luke passou os dedos pelo cabelo. O jogo estava marcado para começar em alguns minutos. – Olhe, Reagan. Você não entende. Essa é a estreia de Ryan Taylor como técnico. O primeiro jogo regular do Giants da temporada. Eles estão em Denver, e tudo pode acontecer. – Ele hesitou e dobrou a perna, levantando-a um pouco do chão. – Eu falei da dor em meu tornozelo? – Luke! – Reagan jogou seu boné nele. – Fala sério. – Não, é verdade. Eu torci o tornozelo jogando basquete. – Luke... – Tudo bem. Vou dizer uma coisa. – Luke tentou um acor-do. – Prometo jogar os próximos cinco jogos. Fique hoje à noite e veja o jogo comigo. Além disso, está escuro. Ninguém joga softbol tarde assim. – Ele lhe deu seu melhor sorriso. – Por favor? – O Giants? – Sim! – Luke deu dois passos para trás em direção ao prédio. Não havia nada que o fizesse perder este jogo. – Os melhores de Nova York! – Bem... – Reagan provocava, brincava com ele, e, de re-pente, Luke teve certeza de que tinha ganhado. – O Giants é o time favorito de meu pai. Desde que minha turma voltou para Nova York, ele liga para mim depois de todo jogo. – Exatamente. – Luke acenou com uma das mãos. – Como você vai ter uma conversa legal com seu pai sobre seu time se você perder o jogo? – Tudo bem. – Reagan riu. Deixou a mochila escorregar do ombro e, então, jogou-a para Luke. Reagan era uma atleta em todo o sentido da palavra. Ela veio da Carolina do Norte para a Universidade de Indiana com uma bolsa de voleibol. Mas, ela poderia facilmente ter feito isso com


seu talento para o softbol. – Os próximos cinco jogos? Promete? – Com certeza. Ele levantou a mochila de Reagan, segurou a mão dela e empurrou-a levemente escada acima; eles atravessaram o corredor e entraram no apartamento dela. De repente, ele gelou ao se lembrar da colega de quarto de Reagan. – Wendy está em casa? Reagan fez que não com a cabeça. – Ela só volta na quarta-feira. Está em uma reunião de família na Califórnia. – Bom. – Luke pôs a mochila no chão e ligou a televisão. – Ela não gosta de mim. – Ela gosta, sim. – Reagan empurrou-o; sua voz era leve e brincalhona. – Ela só não gosta de caras no apartamento. Os narradores estavam acabando de apresentar a formação do time. – Sim! – Luke jogou-se no sofá velho de Reagan. – Não começou. – Às vezes, é assustador – Reagan jogou seu boné de bei-sebol na bancada e sentou-se ao lado dele – o quanto você e meu pai têm em comum. – Ele é um bom homem. – Luke manteve os olhos na tela. – Ei, olhe! – Ele estava em pé, apontando para a imagem. – Lá está Ryan. Veja... logo atrás daquele cara com a prancheta! – De cabelo escuro? – Reagan tinha apenas ouvido falar de Ryan. Ela só o viu agora. – É ele. – Luke voltou a se sentar. – Ele é tão legal. Um cristão convicto, realmente ama a Deus. Antes de se machucar, ele tinha as melhores mãos da liga. – Hummm. – Reagan deu um sorriso largo. – Nada mau também. – Ele já tem dona. – Luke deu uma cotovelada nas coste-las dela. – Ryan Taylor nunca vai amar outra pessoa além de minha irmã Kari. Azar seu. – Ei... – Reagan enroscou o braço no pescoço de Luke e o beijou na bochecha. – Eu estou brincando. Além disso, por que eu me interessaria por um treinador de futebol quando eu tenho você? Luke virou a cabeça na direção dela e levou os lábios aos dela. Por um instante, o jogo de futebol ficou de lado. Então, Luke soltou-se do abraço e apontou para a tela. – Qual é, Reagan! – Ele deu uma cotovelada nela nova-mente. – Não me distraia. – Tudo bem. – Um suspiro escapou de seus lábios. – Vou fazer uns lanches. Ela se levantou e foi para a cozinha. Quando ela saiu, Luke percebeu uma coisa. Eles estavam quebrando um combinado que tinham.


Como uma forma de evitar a tentação, ele e Reagan decidiram nunca ficar sozinhos no apartamento dela por mais de alguns minutos, e, definitivamente, não à noite. Normalmente, com a colega de quarto de Reagan, era fácil cumprir a regra. Mas, essa noite... bem, essa noite ele teria de tomar muito cuidado. O beijo dela era um forte lembrete dos motivos. Ele se recostou no sofá e pensou por um momento. Por que estava preocupado? Isso era diferente, não era? Eles não estavam ali para ficarem sozinhos. Na verdade, ele teria ido para casa para assistir ao jogo se não tivesse ficado tão tarde. Mas, assim que chegasse a Clear Creek, onde morava com os pais, o primeiro quarto já estaria na metade. Não, nada aconteceria entre eles essa noite. Ele simplesmente assistiria ao jogo e tomaria seu rumo. Deus era fiel. Ele não deixaria que os dois fossem tentados em uma noite como essa, uma noite em que as intenções dos dois eram completamente inocentes. A primeira metade foi rápida, com o Giants atrás no placar, catorze a sete no primeiro tempo. A essa altura, eles tinham comido os lanches. Luke sentou-se em uma ponta do sofá, enquanto Reagan estava esticada nele, assistindo ao jogo. Ela usava moletom e uma camiseta, o cabelo amarrado em um rabo-de-cavalo. Luke dava uma olhada para ela de vez em quando, admirando as pernas compridas e a cintura fina da namorada. Havia algo muito real nela. Tinha uma aparência atlética, mas, ao mesmo tempo, ficava mais bonita em um vestido. A combinação deixava-o louco, e, apesar de Luke ter namorado várias meninas antes dela, ele não estava brincando naquele dia no escritório do pai dela. Com certeza, podia ver esse relacionamento como algo duradouro. Eles tinham o mesmo ponto de vista sobre todos os assuntos que eram importantes, incluindo a fé. Todos os dias em que Luke passava com Reagan, ele acabava mais apaixonado. Quando entraram os comerciais, Reagan mudou de posição e apoiou os pés no colo de Luke. – Estou cansada. – Dá para ver. – Ele deu uma olhada estranha para ela e bateu de levinho nos pés dela. – Você está confortável? – Mmm, sim. – Um sorriso formou-se no rosto de Reagan, e ela fechou os olhos. – Que bom que não fomos jogar hoje. Eu não teria aguentado três entradas. – Eu acho que não. – Ele fez cócegas nos pés dela. – Mas isso não significa que você pode ocupar o sofá todo e me deixar esmagado na ponta. – Ei! – Ela o chutou, dando risadinhas com dificuldade. Sentando-se, ela estendeu a mão e o


puxou para seu lado. – Nós podemos dividi-lo – Finalmente! – Ele riu quando ela escorregou para a bei-ra do sofá, deixando espaço para ele se esticar atrás dela. Os narradores voltaram, interrompendo o jogo e analisando como o Giants poderia empatar o placar. Deitado ali atrás dela, era tudo o que Luke podia fazer para se concentrar. Tudo bem assim, não é, Senhor? As palavras que passavam pela cabeça de Luke não eram tão confortantes. Fuja! Dê o fora! Vá logo para casa! Luke esqueceu-se delas. Não conseguia pensar em um motivo pelo qual ele e Reagan não poderiam passar uma hora esticados no sofá assistindo a um jogo de futebol. Qual é, Baxter! Um suspiro sufocado passou por entre seus dentes cerrados. Concentre-se no jogo. Baixou a testa e tentou se concentrar nos comentários do primeiro tempo. Contudo, ele só conseguia pensar no modo como seus pés pareciam envolvidos nos dela, na forma como o corpo dela suavemente subia e descia a cada respiração. Ele queria saber se ela estava sentindo o mesmo. Quando o jogo recomeçou, Luke soube que não poderia ficar deitado ali nem mais um minuto. Empurrando Reagan suavemente para frente, ele saltou do sofá, pegou um copo de água da cozinha e voltou a se sentar na ponta. Reagan deu-lhe um sorriso largo. – Não diga que eu não ofereci. – Tudo bem. – Ele pôs os pés dela de volta em seu colo. – Não tem problema ser esmagado. O Giants empatou o jogo aos catorze minutos do terceiro quarto. – Eu sabia que esse era o ano deles! Eu estou falando, é o Ryan! Ele é a diferença! – Luke gritou, ficou pulando e quase derrubou Reagan no chão. – Vai, Giants! – disse Luke erguendo o punho no ar. – Cuidado, Super Bowl! – O jogo está empatado. – Reagan olhou para a televisão. – Se eu fosse você, não comemoraria ainda. Reagan provou que estava certa. O Broncos fez dezessete pontos sem levar outros, e, no meio do último quarto, uma vitória do Giants parecia improvável. A essa altura, Reagan tinha cochilado e Luke estava sentado no chão, com as costas apoiadas no sofá. Ele olhou para o relógio. Era mais tarde do que ele pensava. Tenho de ir para casa. Ele se virou, ficou de frente para Reagan e tirou uma mecha de cabelo do rosto dela. Apenas desligue a televisão, dê um beijo de boa-noite em Reagan e vá embora.


Mas, então, o que dizer do Giants? Eles ainda tinham tempo de passar à frente, não? Luke levantou-se e espreguiçou-se. O chão era muito mais duro que o sofá. Além disso, Reagan não se importaria se ele se juntasse a ela. Afinal, ela estava dormindo. O que poderia acontecer? Com cuidado para não acordar a namorada, ele passou por cima dela e se esticou atrás dela novamente no sofá. O movimento foi suficiente para fazer Reagan se mexer. Ela falou alguma coisa que não fez muito sentido; então, com um movimento gracioso, ela rolou para o lado e ficou de frente para Luke. O coração dele começou a bater em um ritmo estranho. – Reagan – sussurrou –, é melhor você ir para a cama. O Giants está perdendo mesmo. – Hummmm. – Reagan deu algumas piscadelas lentas e, então, olhou para ele com os olhos meio fechados. – Você ainda está vendo o jogo? – Humm. – Ainda vendo o jogo? Ele mal podia se lembrar de respirar. – Estou tentando. – Sabe de uma coisa? – Sua voz era sonolenta. Luke nun-ca a tinha visto assim, naquele estado meio adormecido, distraído. Algo deixava-a incrivelmente atraente. – O quê? – Ele passou o dedo ao longo do queixo dela. – Você é muito bonita. – Ah, sim. – Era como se Luke estivesse sendo dividido ao meio. Parte dele queria sair às pressas do sofá, pegar as chaves e ir para casa antes que fizesse alguma besteira. A outra metade queria apenas acabar com aqueles centímetros de distância que os separavam e beijá-la do modo como ele estava morrendo de vontade de fazer. – Você também não é nada mau. – Eu meio que gosto disso. Sabe, ficar deitada aqui com você. Pronto. Luke não conseguia falar, não conseguia pensar. Não conseguia pensar em uma única razão para deixar de beijá-la. Afinal, eles estavam apaixonados um pelo outro. Que mal um beijo poderia fazer? Ele passou o braço em volta da cintura de Reagan e, com pouco esforço, puxou-a para mais perto. Ela se deitou com a barriga para cima, deixando o rosto de Luke sobre o dela. Quando os lábios dos dois se encontraram, o sentimento lançou fogo ao corpo de Luke. – Luke... – Ela o empurrou de volta para o sofá, sepa-rando-os por um instante. Seus olhos procuraram os dele, assustados, inseguros. – Nós não podemos. – Tudo bem, Reagan. – Ele olhou para a televisão. – O jogo está quase no fim. Eu vou para casa, então.


Luke soube que era mentira assim que as palavras saíram de sua boca. Mas, ainda assim, eles continuaram a se beijar, ultrapassando limites, até que nenhum deles percebeu o fim do jogo. Eles mal perceberam, cinco minutos depois, que o telefone tocou. A essa altura, as coisas estavam fora de controle. Luke não poderia ter parado mesmo que quisesse. E, com certeza, ele não queria. A secretária eletrônica atendeu, e a voz de Tom Decker surgiu. – Reagan? Querida, você está em casa? – Houve uma pausa. – Amanhã... – Reagan beijou Luke novamente. Ela estava sem fôlego, envolvida com o momento. – Amanhã eu ligo para ele. A voz na secretária continuou. – Ah, bem. Só liguei para sofrer com você pela triste derrota de hoje. Mas, ei, não pense que o Giants está fora. Sabe, eu estava pensando... um desses fins de semana, sua mãe e eu vamos pegar o avião e fazer uma visita para você. Nós três poderíamos alugar bicicletas ou bater perna pelas lojas. Vamos combinar, tá? –, ele riu. – Enfim, me ligue amanhã. Amo você, querida. Houve um sinal sonoro do bipe e a máquina desligou. – Reagan. – A voz de Luke era um sussurro. Ele pensou em se levantar e fugir antes que fizessem algo de que se arrependessem. O telefonema chamou o rapaz de volta à consciência. Ele não tinha dúvidas quanto ao rumo que estavam tomando. Se não parassem, não haveria como voltar atrás. – Eu tenho de ir. Mas, antes que ele pudesse tentar, ela o beijou novamente, passando o rosto ao lado do dele, puxando-o para mais perto. – Ainda não. Fique só mais um pouquinho. Luke fechou os olhos. Era como se estivesse caindo de um penhasco. Me ajude aqui, meu Deus! Agora é sua chance, filho. Corra! Fuja! Luke ouviu a voz tranquila ecoar nos corredores de sua alma. – Bom. – Ele pronunciou a palavra enquanto beijava o lado do rosto de Reagan, o pescoço. – Só mais uns minutos. Mas, esses minutos se tornaram dez, que se tornaram trinta. Era quase meia-noite quando Luke se vestiu e saiu do apartamento. Ele estava aturdido com o que tinha acontecido, chocado. Mas, enquanto saía do estacionamento, ele não estava pensando em Reagan ou nas consequências da noite dos dois juntos. Ele estava pensando em sua irmã Ashley.


Os dois tinham compartilhado tantas coisas quando eram crianรงas. Mas tudo mudou quando Ashley chegou em casa de Paris, grรกvida e hostil. Ela levou em conta tudo o que seus pais tinham ensinado a eles, o que a Palavra de Deus ensinava. E, consequentemente, Luke perdeu todo o respeito por ela. Mas, agora, enquanto ele ia para casa, com lรกgrimas escorrendo pelo rosto, Luke entendia sua irmรฃ. Mais uma vez, eles tinham tudo em comum, assim como quando eram crianรงas. Pois, em uma hora imprudente, ele fez o mesmo que Ashley tinha feito. Na verdade, ele se tornou exatamente igual a ela.


CAPÍTULO 18 Ashley trabalhou no turno da noite. Nessa segunda-feira, ela aceitou substituir outra pessoa, e agora que Irvel e as outras estavam dormindo, Ashley estava feliz por ter feito isso. As horas de silêncio sozinha lhe dariam tempo para mexer em seus arquivos. Ao longo das últimas semanas, ela havia criado um arquivo especial para cada um dos pacientes da Sunset Hills. Seu objetivo era simples: conhecer a história de vida deles – as pessoas que amavam, as atividades de que gostavam, os trabalhos que realizavam. Talvez, se soubesse mais sobre eles, pudesse encontrar algo que lhe desse uma luz para entender o comportamento de cada um deles. Já havia passado horas entrevistando membros da família e amigos. Qualquer visita era um alvo legítimo, e ela já havia feito uma série de telefonemas também. Ashley fazia perguntas para eles, alfinetava-os e incentivava-os a se lembrarem de coisas. Cada detalhe que descobria era adicionado ao arquivo da pessoa apropriada. E, de pedacinho em pedacinho de papéis coloridos, Ashley juntou partes suficientes para fazer uma radiografia da vida de cada residente. Até esse momento, os arquivos eram fascinantes. Ashley examinou um por um, procurando temas e tentando entender o que tinha acontecido em décadas passadas. O arquivo de Edith contava a história de uma jovem solitária e isolada. Criada em uma família rica, Edith era conhecida por seu espírito bondoso e sua beleza. Na semana passada, uma de suas netas deu a Ashley uma fotografia feita no aniversário de 18 anos de Edith – o mesmo ano em que ela foi coroada rainha da Feira Estadual de Ohio. Ashley examinou a fotografia. Não havia dúvida de que a jovem Edith era uma das meninas mais lindas que Ashley já tinha visto. Infelizmente, a vida de Edith, mais tarde, foi menos bonita. Ela se casou com um famoso agente de modelos e lhe deu dois filhos. Dez anos mais tarde, ele fugiu com uma mulher mais jovem, deixando-a sozinha para criar os meninos. Mesmo na época, a aparência de Edith era seu maior trunfo. Ela apareceu em capas de uma dezena de revistas e participou de vários anúncios para pagar as contas. Não faltaram homens ao longo dos anos, homens que quisessem socorrê-la, deslumbrá-la e dar-lhe a vida que achavam que ela desejava. Mas depois da traição de seu primeiro marido, Edith, ao que parecia, não teve vontade de se casar novamente. Seu coração havia se partido. Não estava em condições de ser dado a outro homem.


Anos se passaram, e os filhos de Edith cresceram, casaram-se com belas moças e se mudaram; um foi para a Califórnia e o outro, para Washington. Eles a visitavam em de vez em quando, mas, de modo geral, Edith vivia sozinha. O mal de Alzheimer apareceu cedo para Edith, não muito tempo depois de aniversário de 60 anos. Aos 64 anos ela já era, de longe, a residente mais jovem da Sunset Hills. Ashley telefonou para os filhos de Edith que estavam longe para obter grande parte das informações. Uma neta que morava na região a visitava de vez em quando. Mas nenhum deles conseguia descobrir por que Edith gritava. Ashley examinou o arquivo novamente, tentando entender o mistério. A resposta tinha de estar em algum lugar no passado de Edith. Mas onde? Será que um de seus amigos havia feito mal a ela ou abusado dela? Será que ela havia testemunhado um crime terrível ou sofrido uma dor dramática decorrente de uma má notícia? O que quer que fosse, ela parecia se lembrar disso só no banheiro. E o que dizer de sua alegação de ter visto uma bruxa? Como tudo isso se encaixava? Ashley passou para o próximo arquivo. O de Helen era bastante objetivo. A mulher tinha uma beleza simples e visual cafona, e um casamento funcional com o pai de Sue, um homem rude que não era de falar muito. Mas, sem dúvida, o mundo de Helen girava em torno de sua única filha. As duas compartilhavam seus sonhos mais profundos, ficavam até tarde da noite lendo ou jogando cartas e, várias vezes por ano, viajavam juntas – todas as coisas que o marido de Helen não tinha interesse em fazer. O dia mais difícil da vida de Helen foi quando Sue aceitou uma proposta de casamento de um homem da Marinha. Em menos de um ano, Sue casou-se e mudou-se para o Havaí. Sem saber o que fazer sem sua filha, Helen voltou para a escola e se tornou bibliotecária. Esperava ansiosamente as visitas ocasionais de Sue e trabalhou em uma biblioteca até se aposentar vinte anos mais tarde. A essa altura, Sue e o marido mudaram-se para Indiana novamente. Mas, já era tarde demais. Helen já se esquecia de como chegar em casa depois de um dia de compras, já não conseguia se lembrar de um almoço que tinha combinado com Sue quando a filha telefonava. A doença avançou rapidamente no caso de Helen. Um ano depois de Sue ter se mudado para casa, Helen foi internada na Sunset Hills. Ashley repassou suas anotações sobre Helen mais uma vez. Ainda não havia explicação para as explosões de raiva da mulher, o modo como ela batia portas e batia os punhos. E não havia como entender por que Helen tinha reconhecido uma foto antiga de sua filha, mas não a mulher que Sue tinha se tornado.


O arquivo sobre Bert continha apenas os detalhes básicos de sua vida. Seu único filho vivo dirigia uma fazenda em Wisconsin e, ao que parecia, não tinha problemas para pagar o custo mensal para manter Bert na Sunset Hills. Ashley telefonou para ele, mas o homem estava ocupado demais para entrar em uma conversa mais detalhada. – Seu pai se lembra de você? –, perguntou Ashley ao homem e escreveu a resposta dele na parte de trás do arquivo de Bert. – Eu não faço a menor ideia se meu pai se lembra de mim ou não. Quando vou visitá-lo, ele não diz uma palavra, não olha para mim, não percebe nem que eu estou no quarto. Para dizer a verdade, senhora, para mim ele está morto há anos. Os fatos sobre a vida passada de Bert estavam incompletos. Ele cresceu em uma fazenda, casouse com uma garota que conhecia a vida toda e passou sua vida adulta trabalhando com cavalos. Até dez anos atrás, o filho de Bert tinha sido seu braço direito. Depois que Bert desenvolveu o mal de Alzheimer, seu filho levou-o para uma casa de repouso em Wisconsin. Então, a irmã de Bert, que vivia em Bloomington, recomendou a Sunset Hills. Ela prometeu visitá-lo várias vezes por semana, uma promessa que cumpriu até três anos atrás, quando morreu, de repente, enquanto dormia. Não muito tempo depois, Bert começou a andar em círculos. Ashley abriu o arquivo de Laura Jo. Continha, pelo menos, informação sobre tudo. O comentário com o qual Ashley se sentiu melhor era da neta dela. – A vovó está descansando agora, terminou tudo o que Deus lhe deu nesta vida. Ela amou muito e perdeu muito. Ela está em paz com seu Salvador; está pronta para ir para casa. Laura Jo era a única moradora da Sunset Hills que não era um mistério. As palavras de sua neta disseram tudo. Ashley guardou o arquivo de Irvel para o final. Ele contava a história de uma jovem feliz que era a queridinha dos pais. Sempre rodeada de amigos, Irvel foi social desde o momento em que começou a escola em Ann Arbor, Michigan. Mesmo tendo namorado outros rapazes, ela se encantou no penúltimo ano por Hank Heidenreich. Mais velho, louro e de olhos azuis, Hank se mudou para a região onde ela morava naquele ano e, imediatamente, se tornou popular com as meninas. Mas isso não importava muito para ele. A partir do momento em que conheceu Irvel, ele só teve olhos para ela. Os dois rapidamente se tornaram “unha e carne” e permaneceram inseparáveis até que a Segunda Guerra Mundial os colocou em continentes diferentes. Ele voltou para casa de muletas, com uma bala alojada no joelho. Na primavera seguinte, ele e


Irvel se casaram. Até onde Ashley podia dizer, a vida de Irvel e de Hank juntos era a mais plena que se poderia ter. Década após década, o amor deles ficou mais forte até parecer que poderia continuar assim para sempre. Então, três filhos e 45 anos de casados, os médicos detectaram uma mancha escura em um raio X do pulmão de Hank. Nove meses depois, ele morreu. Ashley não precisava de parentes nem de um arquivo para entender o que motivava Irvel. Hank era tudo para ela, assim como ele sempre foi, por mais que aquele tempo tivesse passado. Irvel estava presa em algum lugar daqueles dias do passado em que seu querido marido era jovem e vigoroso, em que ele pescava com os rapazes e passava as noites contando suas aventuras para ela. Com o mal de Alzheimer, Irvel vivia todas as horas perdida no passado, revivendo os momentos felizes. E por que não? Será que era realmente melhor e mais saudável para Irvel estar constantemente ciente de seu verdadeiro lugar e posição? Ser despertada todos os dias para a realidade da ausência de Hank iria torná-la mais feliz nesses dias, em seus últimos dias? Ashley tinha certeza de que não. Nisso, pelo menos, tinha de concordar com o pastor citado no artigo da internet. As lembranças distantes eram uma maneira usada por Deus de ser misericordioso com os que sofriam do mal de Alzheimer. No entanto, Belinda ainda estava determinada a seguir o protocolo, ainda estava inclinada a perturbar Irvel e enfiar a verdade na cabeça dela. Hank morreu, Irvel, faz quinze anos agora. Bola para frente. Ashley encolheu-se diante da lembrança. Toda vez que Belinda fazia Irvel se lembrar, a idosa reagia como se estivesse ouvindo a notícia pela primeira vez. Coitadinha. A parte favorita de Ashley no arquivo de Irvel era a seção de comentários no verso, o lugar onde ela havia feito observações, em vez de escrever fatos – coisas especiais que os visitantes haviam notado. Ashley leu a lista de Irvel lentamente: •

Irvel e Hank eram como as mãos de uma pessoa. A ligação entre eles era tão grande que você simplesmente sabia que eles eram feitos um para o outro.

O amor de Hank e Irvel era raro mesmo naquela época. Eles eram uma definição viva de como o casamento deveria ser.

Todo mundo tinha inveja daquela coisa especial que Irvel e Hank compartilhavam. Quando um brigava, o outro fazia as pazes.


A maioria das pessoas que eu conheço sofreu por Irvel no dia em que Hank morreu. Quando o coração dele parou, a maioria de nós ficou surpresa ao ver que o dela continuou a bater. Eles eram muito próximos.

Ashley suspirou. Como seria conhecer esse tipo de amor – vivê-lo todos os dias pelo resto da vida? Ela se levantou e colocou novamente os arquivos no devido lugar no armário do corredor. Era difícil acreditar que, um dia, ela seria velha como Irvel e as amigas dela, talvez incapaz de se lembrar de décadas inteiras de seu passado. Ela gritaria como Edith ou bateria o punho como Helen? Ela se definharia em uma casa de repouso, esperando a morte, ou adquiriria um hábito estranho como o de Bert? Ashley esperava ser como Irvel, reconfortando-se ao longo de seus últimos anos com o combustível de um amor cujo poder não conhecia limites. Agradável, social e feliz com a vida – pelo menos, com as partes das quais podia se lembrar. Seria possível que, em algum lugar no túnel do tempo, alguém faria um arquivo sobre a vida de Ashley? Se sim, ele incluiria Cole, seus pais e suas pinturas. E, talvez, apenas talvez, o nome de um bombeiro cuja profundidade do amor ela estava apenas começando a entender. Um homem que a honrou de um modo que fez Paris parecer que tinha ficado um milhão de anos para trás. Um homem chamado Landon Blake.


CAPÍTULO 19 Na manhã de 11 de setembro, Kari acordou e seguiu sua rotina habitual. Deu de comer a Jessie, colocou-a em um cobertor e fez seu estudo bíblico. A passagem das Escrituras naquela manhã era uma conhecida de 1 João: Aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo. Kari pensou em todas as vezes que este versículo se aplicou à sua vida – sempre que lutava entre escolher os caminhos de Deus ou os seus, e, certamente, quando se sentia desanimada. Entretanto, este versículo tinha se tornado particularmente precioso ao longo do último ano, quando o mal parecia cercá-la – primeiro o caso de Tim, depois o assassinato dele e até mesmo a tentação de estar com Ryan naquela época. Não havia dúvida de que, às vezes, o mal parecia ser vitorioso na batalha da vida de Kari. Que bom era, portanto, recorrer à promessa de Deus de que ele era maior que o maior mal. Perceber, como sempre dizia o pastor Mark, que Deus vence. Ponto. Às vezes, quando a dor de Kari parecia insuportável, a mensagem do versículo de 1 João era uma âncora que não se movia. Deus era maior, por piores que ficassem as coisas, por mais horríveis, diabólicas ou assustadoras que fossem. Deus vence. Era simples assim. Kari resolveu as dúvidas no estudo. Finalmente, às 8h50, fechou a Bíblia e olhou para Jessie, que tinha adormecido no chão. Kari não se surpreendeu; os cochilos pela manhã normalmente começavam mais ou menos nessa hora. – Tudo bem, pequenina. – Kari pôs a Bíblia de lado e se espreguiçou. – Vamos colocar você na cama. – Embalou Jessie junto ao peito, atravessou o corredor em silêncio com ela e colocou-a no berço. – Jesus ama você, Jessie – sussurrou sobre a filha adormecida. – Nunca se esqueça disso. Normalmente, Kari teria começado a lavar a roupa e arrumar a casa. Mas o programa de esportes da CNN estava para começar, e ela estava morrendo de vontade de ver os comentários sobre o jogo do Giants da noite passada. Ela o tinha visto na casa de seus pais e, várias vezes, teve relances de Ryan na lateral do campo. Era a primeira vez que ela o via desde o nascimento de Jessie e, agora, apesar de suas tarefas, ela não conseguia parar de pensar nele. Será que algum dia ficaremos juntos de novo? Kari cogitou a ideia enquanto voltava para a sala e ligava a TV. Faltavam alguns minutos para as 9 horas, e um programa de entrevistas estava no final. Um rápido resumo das notícias recentes viria


em seguida e, então, o programa de esportes. De vez em quando, os repórteres entrevistavam os assistentes dos treinadores, por isso havia boas chances de que Ryan pudesse aparecer nesta manhã. De qualquer maneira, Kari queria ouvir a avaliação deles sobre a derrota do Giants. Kari pegou um copo de água e acomodou-se no sofá de couro que ela e Tim tinham comprado três anos atrás. Parecia bom para relaxar. Seus olhos estavam no mesmo nível da TV. De repente, a tela ficou branca e apareceu uma faixa de um lado ao outro da imagem com as palavras Notícias especiais. O que era isso? Kari sentou-se um pouco mais ereta e ficou esperando. No mesmo instante, a imagem mudou para um repórter confuso em um telhado da cidade de Nova York. A respiração de Kari parou na garganta, e ela engasgou. Atrás do repórter, à distância, estavam as famosas Torres Gêmeas do World Trade Center, e uma delas estava em chamas. Ela aumentou o volume. – Temos notícias não confirmadas de que cerca de dez minutos atrás um avião da American Airlines se chocou contra a torre norte do World Trade Center. – Os olhos do repórter estavam arregalados, a voz tensa de medo. – Este edifício, onde milhares de pessoas trabalham, é visitado todos os dias. Não temos notícias ainda sobre o número de andares envolvidos ou qual pode ser o número de mortos e feridos. Kari ficou olhando para a tela, boquiaberta. O pai de Reagan trabalhava em uma dessas torres. Em algum lugar perto do topo, pelo que Luke tinha dito. – Querido Deus – sussurrou Kari –, ajude essas pessoas. Por favor. O repórter ainda estava dando detalhes, revelando-os com a mesma rapidez com que chegavam aos seus fones de ouvido. O avião havia decolado do Logan International Airport, de Boston, com mais de cem pessoas a bordo. O piloto não havia relatado problemas mecânicos. Dezenas de unidades de bombeiros estavam seguindo para a cena do acidente. Kari mal podia respirar. As chamas tragaram vários andares perto da parte superior do edifício. O que poderia ter levado um avião a mergulhar do céu e voar em direção a um prédio? Era o acidente mais terrível que Kari já tinha visto. E ela não podia fazer nada, a não ser assistir. Não, Deus. É muito horrível. Ondas espessas de fumaça preta espiralavam pelo lado da torre, contrastando fortemente com o céu azul radiante da cidade. As chamas não consistiam simplesmente em línguas de fogo, mas em uma fornalha vermelha incandescente que crescia a cada segundo. Kari pensou em telefonar para a casa de seus pais e ver se eles estavam assistindo quando, ao lado direito da tela, outro avião entrou na cena e voou direto para a segunda torre. A enorme


explosão sacudiu o edifício quando uma bola de fogo saiu com ímpeto em direção ao céu. – Um segundo avião! –, gritou o repórter, com a voz frenética. – Um segundo avião atingiu o World Trade Center, desta vez a torre sul. – Ele fez uma pausa e pressionou a orelha esquerda. – Segundo as informações agora, talvez não seja um acidente, mas algum tipo de atentado. Toda a cena era surreal, como se fosse um filme cheio de fortes efeitos especiais. Não era possível. Dois aviões cheios de pessoas não poderiam ter se chocado por acidente nas Torres Gêmeas com diferença de minutos. E, se fosse um atentado, quem estaria por trás dele e o que poderia acontecer em seguida? Kari continuou com os olhos fixos na tela, a boca ainda aberta. Senhor, por favor... não deixe que isso aconteça. A câmera aproximou a imagem, capturando os escombros, os vidros e os pedaços do prédio caindo pelas ruas de Nova York. – Oh, não! – O repórter gritou, alarmado. Kari viu quando várias pessoas caíram ou se jogaram dos andares em chamas e mergulharam em direção ao chão. O repórter estava tão chocado quanto todos os que estavam assistindo. Suas palavras eram agitadas e tomadas de pânico. – Este é... este deve ser o pior desastre que a cidade de Nova York já viu. Centenas de bombeiros aglomeram-se, mas as chamas estão no 80º-, 90º- andar. As pessoas estão, obviamente, desesperadas. É difícil... difícil acreditar que alguém em qualquer um dos aviões possa ter sobrevivido. Qualquer um dos aviões? Os batimentos cardíacos de Kari hesitaram. Ryan estaria voando nesta manhã de Denver para Nova York. E se ele estivesse no segundo avião? Seu coração começou a bater novamente com uma batida dupla e, em seguida, duas vezes mais que o ritmo normal. Ela correu para o telefone na cozinha. Sua mãe respondeu no primeiro toque. – Alô? – É Kari. Vocês estão vendo TV? Dá para acreditar que isso esteja acontecendo? – Eu liguei a TV há poucos minutos. Seu pai ligou do hos-pital. Todo mundo está dizendo que são terroristas. – A voz da mãe era estridente, desesperada. – O pai de Reagan deve estar lá no meio desse acidente. – Eu estou... eu estou... – Kari estava tão assustada que mal conseguia encontrar as palavras. Suas mãos e braços tremiam. Ela foi para perto da televisão, apavorada demais para se sentar. – Ryan estava voando para casa hoje de manhã. – Ah, Kari... não. Há centenas de aviões no céu. – Sua mãe tentou tranquilizá-la, mas Kari podia


ouvir o tremor na voz dela. O repórter disse que, ao que parece, quase trezentas pessoas estavam nesses aviões. E se um deles era Ryan? – Eu tenho de ir, mãe. Tenho de encontrá-lo. – O que posso fazer? Kari fechou os olhos e forçou-se a pensar. – Ore. – Sua voz rompeu e ela piscou, fixando os olhos nas imagens terríveis que apareciam na tela. – Ore, não pare de orar. Assim que desligou o telefone, Kari ligou para Ryan. Talvez ele tivesse chegado em casa mais cedo naquela manhã, pegado um voo noturno para fugir da hora do rush. Nesse caso, ele já poderia estar de volta ao seu apartamento. A cada toque, o medo de Kari dobrava. Onde ele estava? Vamos, Ryan... atenda! No quarto toque, alguém atendeu. – Alô? Era a voz de Ryan, e a sensação de alívio foi forte o suficiente para levar Kari a ficar de joelhos. – Você está aí! – Ele estava vivo. Das inúmeras pessoas que estariam sofrendo uma perda pessoal hoje, ela não estaria entre elas. Lágrimas arderam em seus olhos. Obrigada, Senhor... obrigada... obrigada. – Ryan, graças a Deus que você está bem. Kari, o que foi? Você parece apavorada. – Você não sabe? – Não sei o quê? Acabei de sair do banho. – O World Trade Center foi atingido. As duas torres. – Então, ela se lembrou. Ryan tinha lhe dito que podia ver as torres da janela de seu apartamento. – Olhe para fora. Estou falando sério. Ela ouviu o som das persianas sendo levantadas. E, então, o suspiro de Ryan. – O que... o que aconteceu? – Ligue no noticiário. Dois aviões se chocaram contra as torres em questão de minutos de diferença. – Ela estava agradecida por ele estar vivo, mas o horror do momento ainda era mais do que ela podia acreditar. Sua televisão agora mostrava filas de caminhões de bombeiros correndo para a base dos edifícios. – Eu pensei... tive medo de que você estivesse em um dos aviões. – Não... ah, querida, desculpe. – Ele suspirou como se finalmente tivesse entendido a preocupação dela. – Nós fretamos um avião mais cedo. Faz meia hora que cheguei e fui direto para o chuveiro. Kari respirou fundo.


– Eu estava com tanto medo, Ryan. – Espere um minuto. Eu estou ligando a televisão. – Ficou quieto. – Dá para ver tudo de minha janela, Kari. É pior do que as imagens. A fumaça está tomando o céu inteiro. – Você se lembra de Reagan, a namorada de Luke? – Kari olhou para a tela. Ryan tinha razão; o fogo estava saindo pelas torres. Olhou para suas mãos. Seus dedos estavam tremendo novamente. – Sim, acho que sim. Você falou sobre ela. – Ela... O pai dela trabalha em um dos últimos andares. Ryan gemeu. – Alguém está saindo? Eles falaram alguma coisa sobre o resgate? – Está uma loucura. As pessoas estão usando as escadas, mas estão dizendo que ainda há milhares de pessoas lá dentro. – Kari agarrou o telefone com mais força. – Ore por Reagan, está bem? Pelo pai dela. – E Landon Blake? Ele não aceitou o emprego no Corpo de Bombeiros de Nova York? – Ele só começa a trabalhar no dia 1º- de novembro. Mas, seu melhor amigo está lá, provavelmente no local agora. Ela precisava ligar para sua família e ver se alguém sabia alguma coisa sobre o pai de Reagan. – Escute, eu tenho de desligar, Ryan. Me ligue mais tarde.– Está bem. Estarei orando. Kari desligou o telefone. Querido Deus, ajude-nos... ajude-nos. Tantas pessoas estão no meio daquele fogo, Senhor. Por favor... Quase em resposta, seu versículo das Escrituras daquela manhã lhe veio à mente: Aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo. Kari cerrou os dentes. Que seja verdade, Deus. Mesmo em um dia como este... por favor. Sua próxima chamada foi para Ashley. Os residentes tinham acabado de tomar banho na Sunset Hills quando o telefone tocou. – Casa de Repouso Sunset Hills. – Ashley apoiou o tele-fone no ombro. – Você est�� vendo o noticiário? – Era Kari. Seu tom era tenso. – Não. Por quê? O que está acontecendo? – Ashley estava gostando do som de sua própria voz nesses dias: leve e otimista, como Kari costumava falar. – Ligue a televisão, Ashley. Estamos sendo atacados por terroristas. Dois aviões se chocaram contra o World Trade Center. Ashley respirou rápido. – Como assim? – Ela acabou de ajudar Irvel a se acomodar na poltrona. As três mulheres estavam


encolhidas nas poltronas, aconchegadas debaixo de cobertores e prontas para seus programas matinais. Ashley ligou a televisão, e, imediatamente, as imagens das Torres Gêmeas em chamas encheram a tela. – Como é que...? Parecia que Kari estava chorando. – Estou preocupada com Reagan. Então, Ashley se lembrou. – O pai dela trabalha no topo de um desses edifícios, não é? – Sim. Vou ligar para a mamãe e ver se ela sabe de alguma coisa. Ligo de volta para você. – Está bem. – Ore, Ashley. Isso é horrível. – Vou orar. – A resposta de Ashley veio antes que ela tivesse tempo para pensar. Desligou o telefone e pôs uma cadeira de balanço vazia ao lado de Irvel, a poucos metros da televisão. – É um filme, querida? – Irvel gesticulou em direção à tela. – Hank não gosta que eu veja filmes violentos. Me dá pesadelos. – Não, Irvel. – Ashley virou-se e acariciou a mão da idosa. – Não é um filme. – Parece King Kong – gritou Helen, apontando para a televisão. – O King Kong estava naquele edifício da última vez. – King Kong – murmurou Edith. Ela estava com os olhos fixos na tela. – Sim, eu acho que você tem razão. – Irvel apontou para Helen e sorriu. – King Kong fez isso em um daqueles filmes violentos. É isso aí. A câmera mudou para um repórter em pé em uma rua da cidade de Nova York. – Temos notícias agora de que a Autoridade Portuária de Nova York e de Nova Jersey fechou o acesso a todas as pontes e túneis de entrada e saída da cidade. Centros de triagem estão sendo montados em vários locais ao redor das Torres Gêmeas. Segundo os bombeiros, estimam-se que centenas de pessoas possam estar feridas. Não há nenhuma notícia ainda sobre mortos e feridos. Pelo canto do olho, Ashley podia ver Irvel com os olhos fixos nela. – Sabe, querida, você tem um cabelo muito... Ashley deixou de dar atenção e acariciou a mão de Irvel novamente. Era só o que ela podia fazer para ouvir a notícia, mas teve medo de aumentar o volume. As mulheres já estavam no limite. – Centenas de bombeiros estão no local, mas, segundo as notícias, o calor é muito intenso para que consigam chegar aos andares superiores. Milhares de pessoas podem estar presas dentro e...


Bombeiros? Ashley ficou ansiosa. Era 11 de setembro. Se Landon não tivesse se machucado, ele estaria lá nesse momento. Bem no meio da loucura, entrando às pressas em um prédio em chamas com mais de cem andares. Ela tomou fôlego e olhou fixamente para a tela. Landon estava seguro, mas e o amigo dele? Landon não tinha lhe dito que o posto de Jalen ficava ao sul de Manhattan, perto do World Trade Center? Certamente ele estaria trabalhando agora. Irvel inclinou-se na cadeira e olhou para as outras mulheres. – Alguém sabe quando Hank vai voltar? Eu não gosto quando ele passa muito tempo fora. – Espiões. – Helen bateu a mão no braço de sua poltrona. – Hank não é espião, querida. – Irvel deu um sorrisinho para Helen. – Ele já foi revistado. Helen apontou para a tela da televisão. – Espiões. King Kong tem um exército inteiro de espiões. Nenhum deles foi revistado. Um som começou a vir de Edith. Sua cadeira estava na ponta da sala, porque ela nem sempre participava das conversas entre Irvel e Helen. – Não... não... não... não... não... – As palavras eram mur-muradas de forma variável, mas eram altas o suficiente para ser entendidas. Ashley levantou-se e atravessou a sala. – Está tudo bem, Edith. Está tudo bem. Edith mexia a cabeça para trás e para frente em movimentos pequenos e curtos. Levantou a mão trêmula e apontou para a televisão. – Não... não... não... – Você gostaria de dar um cochilo, Edith? A mulher emudeceu e depois concordou. Tinha os olhos de uma criança assustada quando segurou a mão de Ashley e seguiu-a pelo corredor para seu quarto. – Tudo bem, Edith. Durma um pouco. Ashley voltou para a sala o mais rápido possível. Helen e Irvel ainda estavam debatendo se King Kong tinha colocado o fogo e, se sim, se havia espiões envolvidos. Enquanto isso, as notícias continuavam a chegar. Outro repórter estava atualizando o público, dizendo que o presidente Bush tinha anunciado que o país estava sob um aparente ataque terrorista. Todos os aeroportos nos Estados Unidos foram fechados. Do país? Isso significava que outra coisa estava para acontecer? Algo pior? Ashley cruzou os braços com força sobre o peito e os apertou. Seu estômago doía. E se o pai de Reagan ainda estivesse em um desses edifícios?


Ashley sentiu um tapinha no braço. – Desculpe, querida. Meu nome é Irvel. Meu marido está pescando com os amigos. Você pode me dizer quando ele estará em casa? Ashley suspirou. – Ele não vai demorar, Irvel. Está tudo bem. – E o King Kong? – Helen agarrou as beiras de sua cadeira e deslizou para a frente. Balançou irritada uma das mãos para a televisão. – Olhe essa bagunça. Quem é que vai revistar essa gente? Ashley ignorou a pergunta. Concentrou sua atenção nos fragmentos de notícias que conseguia ouvir: – ...pelo que dizem, o fogo está fora de controle em ambos os edifícios... centenas de bombeiros estão correndo para o local... postos de comando foram montados no 70º- andar... – Desculpe de novo. – Irvel colocou suavemente a mão em Ashley. – Hank não deveria estar na pesca hoje. Eu estou preocupada com ele. – Ele está bem, Irvel. Está tudo bem. – Ashley estava de-sesperada para conversar com Landon, mas não era sua esposa e não ligaria para ele no trabalho. A voz do repórter mudou de tom e ficou mais alto. – Acabamos de saber que outro avião chocouse com o Pentágono. As autoridades estão evacuando a Casa Branca. Imagens ao vivo com um repórter no local. Os olhos de Ashley se arregalaram quando a imagem mudou. O enorme complexo do Pentágono, em Washington, D.C., estava encoberto por nuvens espessas de fumaça preta. Uma seção inteira do edifício desapareceu, e bolas de fogo irrompiam na direção do céu. As mulheres da Sunset Hills ficaram em silêncio por um instante, olhando para a tela. – Parece violento para mim, querida. – Irvel fez que não com a cabeça. – Veja! – Helen bateu o punho na coxa. – É o King Kong! Eu sabia. Minha mãe me disse para tomar cuidado com o King Kong. – Hank não quer que eu veja filmes violentos. – Irvel fez o som de uma tosse delicada e bateu no braço de Ashley mais uma vez. – É um filme, querida? Ashley pôs a mão sobre a de Irvel. – Não, Irvel. Não é. – Ah! – Irvel conseguiu dar um sorrisinho. – Bem, então... – Ela hesitou. – Sabe, eu não acredito que já nos conhecemos. Eu sou Irvel. ***


Hoje não era um dia de trabalho como de costume. Isso foi rapidamente ficando claro no consultório médico do Dr. John Baxter, onde pacientes e funcionários igualmente estavam com os olhos colados na televisão do saguão e pouquíssimo do trabalho clínico estava sendo feito. John Baxter decidiu simplesmente atender os pacientes que estavam lá e cancelar o restante de seus compromissos do dia. Ele estava dando instruções ao administrador do consultório quando Brooke irrompeu pelas portas de vidro do consultório. – Pai, você viu? – Brooke raramente era emotiva. Inteligente e autossuficiente, ela normalmente lidava com seus sentimentos com o mesmo cuidado preciso com que antes lidava com os estudos. Mas, aqui, à luz do que estava acontecendo em Nova York e Washington, D.C., ela segurou as mãos dele, o rosto paralisado de medo. – Eles atingiram o Pentágono também. – Eu sei. – Ele a abraçou e acariciou as costas dela. – Precisamos orar. – Eu estou orando feito louca. Surpreso, John resistiu ao impulso de agir. Brooke e o marido, Peter, eram médicos. Embora fossem de famílias nas quais a fé era a base, nenhum deles era apegado a essas crenças. Pelo menos, não até hoje. John levou Brooke à sala dos funcionários, onde dois de seus colegas e várias enfermeiras estavam reunidos em torno da televisão. Em toda a sua vida, John nunca tinha visto tal horror. Centenas de pessoas estavam mortas. Milhares mais, ao que tudo indicava, estavam feridas. Os Estados Unidos estavam sob ataque. Mas, mesmo agora, John estava certo de que Deus não os tinha abandonado. O Senhor estava ali naqueles prédios em chamas, assim como estava ali ao lado deles. Deus reinava até mesmo em um momento como esse, e todas as coisas cooperariam para o bem daqueles que o amavam. No processo, ele faria com que toda a nação se lembrasse do que era importante na vida – o que realmente era importante. Brooke virou a cabeça na direção do pai. – Você já sabe como está o quadro no hospital? – Não. O que está acontecendo? – Os telefones não param de tocar. John mudou de posição, confuso. – Por que estão ligando para o hospital? Brooke olhou dentro dos olhos dele. – Estão procurando um lugar para doar sangue.


*** A segunda companhia de Bombeiros de Bloomington estava tomada de tensão. Landon e outros cinco bombeiros estavam sentados em um círculo apertado em volta de uma pequena televisão no refeitório. Eles estavam ali havia quase cinquenta minutos, desde que uma das esposas telefonou para dar a notícia. Landon era o mais quieto de todos, não porque não tivesse nada a dizer, mas porque não conseguia parar de orar por Jalen. Ele não tinha dúvidas de que, em algum lugar em um daqueles infernos imponentes, seu melhor amigo estava tentando salvar vidas. – Quantos bombeiros você acha que estão naqueles edifí-cios? – perguntou um dos homens do círculo. – Devem ser centenas. – Ei, Landon, você não tem um amigo no Corpo de Bom-beiros de Nova York? – Sim. – A boca de Landon estava seca. Não havia nada mais que ele pudesse dizer. Ficou olhando para a tela, sem piscar. Tinha conversado com Jalen alguns dias atrás. Esse era o turno dele, Landon tinha certeza, e o posto ficava nas proximidades. Depressa, Jalen. A conversa à sua volta continuou. – Você tem ideia da temperatura à que queima o combus-tível de um avião? Aquele lugar está um forno a essa altura. – O prédio todo deve estar assim. O som das vozes aumentou, vozes cheias de um medo cúmplice pelos colegas. Vamos, Jalen... saia. Um edifício tão quente assim não era seguro. Landon estava pensando nisso desde o acidente com o primeiro avião. À certa temperatura, a integridade do aço ficaria comprometida, e, se isso acontecesse... Saia daí, Jalen. Vamos, colega... saia! – Olhem para eles. – Um dos rapazes levantou-se. – Os bombeiros ainda estão entrando no prédio. Deve haver uns cinquenta postos a essa altura. – O que estão fazendo? – Um dos outros bateu com o punho na mesa, apontando para a tela. – Alguém tire esses homens daí! A voz de um repórter interrompeu o diálogo deles. – Estamos recebendo informações de que a torre sul está balançando. As janelas do nível inferior estão quebrando por causa do movimento. – Vamos lá, gente! – O bombeiro ao lado de Landon em-purrou a cadeira para trás e praguejou em voz alta para o aparelho de televisão. – A estrutura toda vai vir abaixo! Saiam! Vamos! Saiam! Adrenalina corria pelas veias de Landon. Jalen estava em algum lugar em um desses edifícios.


Ele podia sentir isso. Mas, não havia nada que ele pudesse fazer para ajudar. Saia, Jalen! Deus, faça com que ele saia daí. Nesse momento, houve um som estranho de tremor e, em questão de segundos, a torre sul desapareceu no meio de uma nuvem de fumaça, poeira e escombros do tamanho de um vulcão. Landon podia sentir o sangue fugindo de seu rosto enquanto assistia, incrédulo. Uma centena de andares de aço e vidro, toneladas de equipamentos de escritório e pessoas – tudo se foi. Foi-se completamente. – A torre sul acabou de desabar! –, o repórter gritou a no-tícia à frente de um pano de fundo de pessoas gritando, todas lutando pela própria vida, tentando fugir da explosão. – Eu repito, a torre sul do World Trade Center foi para o chão. Não restou nada em pé. – Jalen! – Landon estava em pé. Levantou os braços e cra-vou os dedos nos cabelos. A cena era uma verdadeira loucura. Uma onda de náusea passou por seu estômago. O que eles tinham acabado de testemunhar? Centenas de pessoas, talvez milhares, mortas diante dos olhos deles. Quantas delas eram bombeiros, que subiam correndo as escadas enquanto todos os demais corriam para descê-las? Não restava um único sobrevivente no edifício após a força do colapso. Não, não é possível. Se Jalen estava no prédio no momento do desabamento... Landon fechou os olhos e fez a única oração em que pôde pensar: Deus, cuide de meu amigo. E, o que quer que aconteça, por favor... não permita que ele sofra. *** Luke estava no meio de uma aula de economia de noventa minutos quando um estudante irrompeu na sala de aula e gritou alguma coisa sobre um atentado terrorista. Imediatamente, o professor ligou a televisão. Desde então, Luke e os colegas não desgrudaram os olhos da tela em nenhum momento. Todos os estudantes ao redor dele começaram a sussurrar, falando sobre a tragédia, comentando sobre a situação. Entretanto, Luke estava totalmente calado, absorto em um momento de oração tão profundo e intenso que mal conseguia se concentrar no fluxo constante de notícias. Durante trinta minutos, ele implorou a Deus que guardasse a vida do pai de Reagan. O senhor trabalhava no 89º- andar da torre norte. Ao que parece, o avião havia atingido um andar inferior a esse. Será que Tom Decker conseguiria passar pelos destroços em chamas? E Reagan? Onde quer que estivesse, ela já devia saber a essa altura.


Luke lembrou-se do telefonema que o pai de sua namorada tinha feito na noite passada e sentiu pontadas no estômago. Ela não o atendeu porque eles estavam... Por favor, Deus. Eu nunca lhe pedi nada como isso antes. Por favor, guarde-o com vida... por favor. Quanto mais ele orava, pior o fogo parecia ficar. Houve notícias de que os prédios estavam balançando, cedendo. E, em seguida, em um único movimento surreal, a torre sul desabou, mergulhando no chão. Os alunos ficaram sem fôlego, e um silêncio estranho invadiu a sala. A princípio, Luke não sabia ao certo qual prédio tinha caído. Ele ficou na expectativa enquanto os repórteres davam a notícia aos gritos. A torre sul desabou. Algumas pessoas ficaram presas; outras estavam fugindo do local. Todos os edifícios de escritórios federais em Washington, D.C., estavam sendo evacuados. A notícia era terrível. Mas, Luke não conseguia ter a sensação de alívio inundando seu corpo. O edifício em que o pai de Reagan trabalhava estava em pé. Ele ainda tinha uma chance. Eu lhe peço, Deus, que não deixe que aconteça o mesmo com a torre norte também. Por favor, Deus. Faça o pai de Reagan sair. Ela não teve a chance de conversar com ele ontem, porque... Desculpe, Deus. A culpa foi minha. Por favor, não castigue Reagan por causa de um erro meu. Luke estava se sentindo péssimo desde o momento em que tinha saído do apartamento de Reagan umas dez horas atrás. Muito antes da notícia dos ataques, ele estava se sentindo muito mal com o que tinha acontecido entre eles. Como as coisas tinham fugido tanto ao controle? E o que ela pensava a respeito dele agora? Os dois estavam decididos a esperar, certos de que nunca cairiam em tentação como acontecia com outras pessoas. Afinal, eles só estavam assistindo a um jogo de futebol. Mas, agora, como Reagan se sentiria se algo acontecesse com seu pai, se ela perdesse a última chance de falar com ele porque estava violando com Luke a diretriz mais importante que Deus já tinha estabelecido em se tratando de relacionamentos? E aí? Luke não conseguia imaginar como ela provavelmente estava se sentindo. Dan Rather, abalado, apareceu na tela. Ele deu uma olhada para uma pilha de bilhetes. – Temos notícias agora de que a torre norte do World Trade Center está instável. A preocupação é de que ela possa cair também. A polícia está evacuando todo mundo, exceto médicos e bombeiros, do local, e... A torre norte? Não! Deus, não permita que ela caia. Sem esperar mais um instante, Luke pegou suas coisas e saiu correndo da sala de aula. O que quer que acontecesse em seguida, ele precisava encontrar Reagan, mesmo que tivesse de revirar todo o campus para isso.


*** Landon e os colegas não se moveram. Permaneceram com os olhos fixos na televisão, ouvindo os repórteres falarem de dezenas de bombeiros presos no prédio em ruínas. Um sentimento de impotência pairava sobre eles, e, na maior parte do tempo, eles não falaram mais. O único som ao redor da mesa era um grunhido ocasional de descrença ou choque. O que eles poderiam dizer? Não havia nada que qualquer um deles pudesse fazer para ajudar, e o desastre piorava a cada minuto. Landon tentava acreditar que Jalen estivesse na torre norte, que, de alguma forma, tivesse evitado a infortunada torre sul e pudesse ainda ter tempo para sair. Mas, assim que esses pensamentos passaram por sua cabeça, a parte superior da torre norte se despregou, enviando toda a estrutura imponente para o chão. Em um minuto, ela estava em pé entre os edifícios da cidade; no minuto seguinte, estava reduzida a uma enorme pilha de escombros, envolta em uma névoa negra de destroços ainda mais densa que antes. Landon mal podia respirar. Olhou para o relógio do refeitório: 10h28. O fogo na torre norte já durava noventa minutos, tempo suficiente para os bombeiros entrarem, fazerem o resgate e saírem. Certamente, alguns bombeiros tinham saído. Mas, será que Jalen foi um deles? Deus, esteja com ele. Seja misericordioso. Se houver uma chance de ele sair de lá, ajude-o. Por favor, Deus... Quinze minutos depois veio a notícia de que outro avião havia caído na área rural da Pensilvânia. Para os repórteres, o acidente provavelmente estava ligado aos ataques. O padrão de voo indicava que o avião estava indo para a área de Washington, D.C. Talvez até a Casa Branca. Durante a hora seguinte, vários colegas de Landon deram uma pausa ao horror que ia se revelando pouco a pouco. Apenas Landon não conseguia sair de onde estava sentado. Ele estava desesperado por notícias sobre os bombeiros de Nova York. Algum deles tinha conseguido sair a tempo ou a maioria estava presa sob os escombros? Quantos estavam desaparecidos? Ele continuava assistindo quando a notícia que ele mais temia foi dada. Nada mais e nada menos que cem bombeiros estavam desaparecidos, talvez mais. Companhias inteiras, carros de bombeiros e tudo desapareceram quando as torres desabaram. Landon ouviu a notícia e apertou o queixo, movendo-o para um lado e depois para o outro. Queria chorar, queria dar um murro em algo ou correr até que não pudesse mais respirar. A ideia de assistir a tudo de braços cruzados enquanto Jalen talvez estivesse sufocado sob toneladas de escombros era mais do que ele podia suportar.


Só havia uma coisa que ele podia fazer, uma forma pela qual podia ajudar seu melhor amigo agora. Ele empurrou sua cadeira para trás e olhou para os outros dois bombeiros à mesa. Não se tratava de uma escolha. – Caras... – Ele pegou o boné e seguiu em direção à porta. – Eu vou para Nova York.


CAPÍTULO 20 Luke atravessou o campus correndo como um louco. Por que não conseguia se lembrar do horário de Reagan? Ela estava na aula de física nesta manhã ou na de jornalismo? Verificou três salas de aula, correu noventa metros até o outro prédio e verificou outras duas antes de se lembrar. Era terça-feira. Às terças, sua primeira aula só começava às 11 horas. Correu para o estacionamento dos alunos, achou seu carro e voou para o apartamento de Reagan. Fazia só doze horas que tinha estado com ela, tentando decidir se deveria ficar, tentando ignorar a forma como Deus praticamente gritou com ele para ir para casa? Como tudo tinha mudado em tão pouco tempo? Subiu a escada como um foguete e bateu na porta. Uma vez que não houve resposta, ele tentou a maçaneta. Estava destrancada. Ele abriu a porta com um leve empurrão e com cuidado para não assustá-la. – Reagan? – Ele ouviu um bipe distante. – Reagan, você está aqui? Nenhuma resposta. Luke passou pela porta de entrada e parou de repente quando chegou à sala. Lá estava ela, sentada no mesmo sofá em que tinham perdido o controle na noite anterior. Seus olhos estavam arregalados, o rosto paralisado com um olhar de choque e horror que cortou o coração de Luke. Ela fitava a tela da televisão, ignorando o telefone fora do gancho ao seu lado. Luke acompanhou o olhar da namorada. A TV mostrava fumaça, fuligem e um verdadeiro caos. Entretanto, por mais espessa e escura que fosse a nuvem de escombros, a verdade era simples para todos. A torre norte tinha caído. Onde antes ficava o World Trade Center, agora não havia nada. – Ela...? – Luke não conseguiu terminar a pergunta. Reagan olhou para ele, os movimentos lentos e estranhos. – Ela se foi. O prédio do papai caiu. – Não. Reagan, não caiu. – Luke estava ao lado dela em um piscar de olhos. – Diga que não é verdade. – Ele se sentou ao lado de Reagan. Mas, quando tentou colocar o braço em volta dela, ela levantou a mão. – Não! – Seu tom foi alto e nítido. Ela deslizou no sofá, aper-tando o telefone na mão. – Eu preciso ligar para minha mãe. Luke sentiu como se tivesse levado um tapa. Reagan estava em choque; não dava para ser de


outro jeito. Ela nunca tinha falado com ele dessa forma. Ele olhou para o aparelho, depois para Reagan. – Está fora do gancho. – Não fale comigo! – Ela olhou para o telefone como se o estivesse vendo pela primeira vez. Em seguida, apertou uma série de botões, segurou-o junto à orelha e esperou. Luke observou. Não havia nada que pudesse fazer para ajudar. Uma vez que a ligação não completou, Reagan deixou o telefone cair ao seu lado. Ainda havia sinal de ocupado. Luke manteve distância, mas estendeu a mão. – Deixe-me tentar, tudo bem? O momentinho de discórdia de Reagan fracassou. Ela passou o telefone para ele sem a menor mudança na expressão. Luke levou o aparelho à orelha, viu que havia sinal na linha e apertou o botão redial. Ouviu uma gravação. – Todas as linhas estão ocupadas. Por favor, tente novamente. Todas as linhas estão ocupadas. Por favor, tente no... Luke desligou e pôs o telefone sobre a mesa de centro à sua frente. – Vamos tentar daqui a pouco. Reagan cruzou os braços sobre o peito. – Você acha que ele conseguiu sair, não acha? Meu pai, eu quero dizer? – Ela engoliu em seco duas vezes. – Ele está vindo para Bloomington com minha mãe. Nós vamos visitar a cidade juntos. Seu rosto estava completamente inexpressivo. – Eles vêm hoje? Reagan não piscou. Luke examinou-a, com o coração acelerado. E se ela não estivesse bem? E se ela desmaiasse ou fizesse alguma loucura? Ele nunca tinha visto ninguém agir assim. Ela estava esperando uma resposta, examinando freneticamente o rosto dele à procura de algo à que pudesse se agarrar. – Eu não sei, Reagan. Ela deu uma olhada para a televisão. – Mas ele conseguiu sair, não é? – Sim. – A palavra ficou presa na boca de Luke. Ele estava desesperado por um copo de água. – Eu acho que ele pode estar bem. A cabeça de Reagan balançava para cima e para baixo de forma irregular. – Certo. Está tudo bem. Ele provavelmente ficou em casa hoje porque não se sentiu bem ou... – Ela piscou pesadamente, os olhos correndo pela sala como se ela estivesse procurando uma forma de fugir. – Ou... ele estava viajando a negócios... ou na rua fazendo algum serviço ou... tomando um café


no final da rua. – Ela olhou firmemente para ele mais uma vez. – Certo, Luke. Pode ser isso, não pode? – Vou tentar falar com sua mãe de novo. – Ele pegou o telefone e apertou o botão redial mais uma vez. Dessa vez, o telefone tocou, e a mãe de Reagan atendeu quase imediatamente. – Reagan? – A Sra. Decker parecia tão ansiosa quanto à filha. – Estou tentando falar com você durante a última meia hora. Sua linha estava ocupada. – Aqui é Luke. Reagan está aqui ao meu lado. – Ele aper-tou a ponta do nariz. – Tem notícias de seu marido? – Eu estou... eu estou completamente sozinha aqui, Luke. Não sei o que fazer. Luke queria gritar. Não sabia o que fazer também. Era apenas um jovem universitário, longe demais para ajudar, ainda que pudesse. Em vez disso, olhou para a namorada, ainda sentada imóvel à sua frente e forçou-se a ficar calmo. – Reagan está muito angustiada. A senhora já... telefonou para ele? A mãe de Reagan respirou, e Luke podia dizer que ela estava chorando. – Ele me ligou depois do acidente com o primeiro avião. Foi... foi no prédio dele. O escritório ficava logo abaixo do fogo. Luke pôde imaginar o escritório do Sr. Decker, a postura do homem em sua cadeira de couro com toda a cidade de Nova York espalhada atrás dele. Como deve ter sido terrível ver aquele avião voando em direção ao edifício, saber que, em alguns andares acima, a visão era a do inferno. Luke estremeceu e tentou pensar no que dizer em seguida. – Quem sabe ele conseguiu sair. – Deu uma olhada rá-pida para Reagan. Ao que parecia, ela não estava ouvindo a conversa. – Há notícias de pessoas escapando daquela altura. Se ele conseguiu chegar à escada a tempo, talvez esteja no hospital ou procurando um jeito de ligar para casa. As linhas estavam ocupadas quando tentei ligar alguns minutos atrás, então, quem sabe... – Luke, pare. – A mulher estava chorando mais agora. – Ele me ligou de novo. Ele... ele disse que estava ajudando os bombeiros a resgatarem as pessoas que não conseguiam se mover muito rápido. Ele queria que eu soubesse que eles tinham feito tudo o que era possível e que ele estava para descer as escadas. Ele disse que... me amava e amava Reagan e que ele ficaria bem. Que me veria em algumas horas. Luke não teve coragem de respirar. – Cinco minutos depois de desligarmos... o prédio veio abaixo. – Ela soluçava em voz alta, um gemido, um choro angustiante como nenhum que ele já tivesse ouvido. – Luke, ele se foi. Não há


como ter sobrevivido a isso. Reagan ainda não tinha se movido, não tinha piscado até onde Luke podia dizer. Deus, que haja um milagre aqui, por favor. Não é possível que isso esteja acontecendo. Eu não sei o que fazer. Ele respirou lentamente. – Mas, você não tem certeza. Talvez ele tenha conseguido... – Luke. – O modo como ela disse o nome dele o fez parar no meio da frase. – Eu preciso falar com minha filha. Por favor. – Sim, senhora. – Luke encolheu-se e passou o telefone para Reagan. – Ela quer falar com você. Reagan pegou o telefone, os movimentos ainda mais lentos que antes. – Alô? Por um longo tempo, houve silêncio. Finalmente, Reagan fez que sim com a cabeça. – Eu estarei aí o mais rápido possível. Dessa vez, ela desligou o telefone e ficou sentada ali com os olhos fixos na secretária eletrônica. Então, apertou o botão para ouvir a mensagem. Lá veio a voz de seu pai. – Reagan? Querida, você está em casa?... Ah, bem. Só li-guei para sofrer com você pela triste derrota de hoje. Mas, ei, não pense que o Giants está fora. Sabe, eu estava pensando... um desses finais de semana, sua mãe e eu vamos pegar o avião e fazer uma visita para você. Nós três poderíamos alugar bicicletas ou bater perna pelas lojas. Vamos combinar, tá? – A risada dele soou pelo alto-falante da máquina exatamente como tinha sido na noite passada. – Enfim, me ligue amanhã. Amo você, querida. Ela esperou um breve momento; então, apertou novamente o botão. – Reagan? Querida, você está em casa?... Devagar, Luke foi em direção a ela quando a mensagem chegou ao fim. Ele estava com medo de tocá-la, com medo de mostrar-lhe qualquer conforto. O que ele poderia dizer? Por causa dele, ela perdeu a última conversa com o pai. O telefone tocou antes que Reagan pudesse ouvir a mensagem novamente. Ela saltou para trás como se a máquina tivesse vida. Então, passou o telefone para Luke. – Eu... eu não posso falar. – Alô? – É a sua mãe de novo. – A Sra. Decker parecia mais cal-ma. Ela explicou que o irmão de Reagan, Bryan, estava indo para lá de carona da faculdade. Era importante que Reagan fosse também. – Eu fiz uma reserva para ela no ônibus das 16 horas em Bloomington. Você pode cuidar para que ela


chegue lá? – Com certeza. – Luke terminou a conversa e desligou o telefone mais uma vez. No momento em que ele fez isso, Reagan foi com o dedo na direção do botão para ouvir a mensagem novamente. Dessa vez, Luke levantou a mão delicadamente e impediu Reagan. – Reagan, não. Ela empurrou a mão de Luke e olhou com raiva para ele, as sobrancelhas louras unidas de um modo furioso que surpreendeu Luke. – Me deixe em paz. Eu vou ouvir essa gravação quantas vezes quiser. – Isso não vai ajudar. – Ele manteve o tom paciente, gen-til. O toque de seus dedos no cotovelo dela foi o único apoio que ele se sentiu à vontade em fazer. Não havia nada que ele pudesse fazer? Seu coração ansiava por uma forma de ajudá-la, mas estava claro que ela não queria nada com ele. Não era para menos depois do que aconteceu na noite passada. Ele limpou a garganta. – Sua mãe quer que você faça as malas. Ela fez uma re-serva de ônibus. – Ele levantou as mãos alguns centímetros e deixou-as cair do lado novamente. – Você viaja hoje às 16 horas. Reagan afastou-se da secretária eletrônica, os ombros caídos para a frente, derrotada. – Eu... eu não atendi a ligação dele. – Escorregou para sair do sofá, pôs-se lentamente de joelhos e sentou-se sobre os calcanhares, o corpo curvado. – Luke! – Gritou o nome dele, e algo nele rompeu. Não importava se ela o empurrasse. Ele caiu no chão ao lado de Reagan e colocou o braço ao redor dela, abraçando-a. – Eu sinto muito, Reagan. Eu sinto muito. – Por quê? – Ela olhou para ele, o rosto contorcido de dor. – O que nós fizemos? – Nós não queríamos, Reagan. Simplesmente aconteceu. Reagan chorou outra vez e se entregou a um surto de soluços que fez seu corpo sacudir até que ela mal podia respirar. – A culpa... a culpa é minha, Luke. Se eu tivesse atendido a ligação dele... Era o mesmo que Luke estava pensando. Se ao menos ela tivesse atendido a ligação dele. Reagan e o pai teriam conversado sobre o Giants, e o Sr. Decker teria dado as notícias mais recentes sobre a família. Eles teriam falado sobre uma visita a Bloomington e como estavam indo as novas aulas de Reagan. Ela teria dito que o amava. E, quando ela desligasse, o momento de paixão com que ele e Reagan estavam envolvidos teria passado. Eles teriam dito “que noite!”, talvez brincado sobre a ligação naquela hora e prometido nunca


mais se colocar naquela situação. Por nenhum motivo, nem que fosse um jogo do Giants. Se ao menos ela tivesse atendido a ligação dele. Luke limpou a palma de sua mão livre em sua calça. – Você não sabia. – Deus! – Ela disse o nome gemendo, deixando a dor vir à tona. Sua cabeça caiu para trás, e ela ficou olhando para o teto. Era quase impossível entender o que ela dizia em meio ao choro. – Por quê? Ela se virou para Luke e estendeu as mãos como se fosse uma criança machucada. – Me ajude! Ele pôs os braços em volta dela dessa vez, abraçando-a enquanto ela desmoronava nele. – Eu estou aqui, Reagan. Estou aqui. – Que tipo de cristã que eu sou? – Sua voz estava corta-da, exausta. Luke não podia dizer o que mais a machucava: a morte do pai ou o fato de ela, intencionalmente, não ter tido uma última conversa com ele. – Meu pai sempre me disse... ele sabia que eu ia esperar o casamento. – Ela fechou os olhos, as lágrimas jorravam impetuosamente. – Ele... ele me disse que eu era uma em um milhão. Luke sentiu-se péssimo, como se estivessem lhe arrancando as entranhas. Reagan não só tinha perdido o pai. Ela o tinha perdido horas depois de fazer algo que teria partido o coração dele. E tudo era culpa de Luke. Ele esfregou a mão desajeitadamente na parte inferior das costas dela. – Nós não planejamos isso, Reagan. Foi um acidente. Os ombros de Reagan balançaram novamente. – É... não importa se foi um acidente. – Ela engoliu uma série de pequenos soluços. Seus olhos mostravam a mesma carga de dor e de culpa. – Você não percebe, Luke? Eu não consegui dizer adeus. – Você não pode pensar assim. Os olhos de Reagan estavam vagos. Ela não está me ouvindo. Vasculhou a mente, desesperado por algo para dizer, algo para fazer. Ele deveria orar. Era isso que os crentes faziam em um momento como esse. Mas, de que adiantaria orar agora? A oração não traria o pai de Reagan de volta nem restauraria as Torres Gêmeas. A realidade disso deixou Luke exaurido, desesperado e de mãos atadas. Ele não tinha para onde ir nem ninguém a quem recorrer. Mexeu os músculos do queixo. Não, pela primeira vez na vida, ele não tinha vontade de orar. Ele


não tinha nada a dizer a Deus. Absolutamente nada. *** A fila de doadores de sangue ultrapassava calçada e chegava à rua. Depois de sair do consultório, John Baxter trabalhou ao lado de Brooke e Peter no hospital durante a maior parte do dia, ajudando a supervisionar a iniciativa. A Cruz Vermelha tinha muitos voluntários com quem contar, e seus funcionários tomaram uma providência rápida com a equipe do St. Anne, citando o hospital como um local alternativo para as pessoas que quisessem doar sangue. Por mais ocupado que estivesse naquele dia, de vez em quando John dava uma olhada no noticiário. Às 13 horas, o presidente Bush apareceu na televisão e prometeu que os Estados Unidos iriam “caçar e punir os responsáveis por esses atos covardes”. Segundo ele, vários dos principais aeroportos foram evacuados por motivos de precaução. Ao todo, quatro aviões caíram no que parecia ser o maior ataque terrorista de todos os tempos. John ia de mesa em mesa na lanchonete do hospital, onde o banco de sangue temporário tinha sido montado. Nunca tinha visto nada parecido. Havia pessoas na fila de todos os estilos: jovens universitários, idosos, clérigos, mulheres jovens. Toda a equipe de futebol da universidade apareceu de uniforme para doar sangue. Vários deles seguravam bandeiras norte-americanas. – Você já viu a fila lá fora? – Brooke encontrou-o em uma das mesas. Seu cabelo escuro liso estava molhado, e a testa brilhava por causa do esforço para passar pela fila de pessoas. John animou-se quando olhou pela janela. O rio de doadores estava ainda mais comprido do que antes. Deus estava planejando algo incrível agora mesmo, em uma hora envolta em trevas. Sua garganta, de repente, se fechou, e ele se esforçou para encontrar a voz. – Esses terroristas queriam destruir o país hoje. – John engoliu em seco e fez que não com a cabeça. – Mas, sabe de uma coisa? – Sim. – Brooke deu-lhe um sorriso triste com um quê de esperança. – Isso nos fez lembrar de tudo o que é importante na vida. Em todos os nossos dias, nunca estivemos tão unidos. *** Ashley estava na cozinha da Sunset Hills, a dez minutos de encerrar o dia de trabalho quando a campainha tocou.


Laura Jo e Bert estavam dando um cochilo, cada um em seu quarto, Edith estava dormindo em sua cadeira e Helen e Irvel estavam vendo A noviça rebelde em vídeo. Ashley tinha colocado uma pequena televisão na cozinha para ficar a par das notícias sobre os ataques. Não tinha por que perturbar os residentes. Os filmes antigos faziam parte da rotina deles. Assim, mesmo em um dia que poderia mudar o curso da história, as meninas assistiam a Julie Andrews e continuariam sem entender o que estava acontecendo lá fora. Nenhum dos residentes estava esperando visitas, mas, por outro lado, nada naquele dia tinha sido normal. Ela ficou tentada a telefonar para Landon, mas a ideia a deixou muito desconfortável. Nunca tinha telefonado para ele no trabalho. E hoje, especialmente, ele com certeza estava envolvido com a tragédia que estava acontecendo. Ele provavelmente estava morto de preocupação com Jalen. De acordo com as notícias daquela tarde, a maioria dos bombeiros que haviam atendido ao chamado logo cedo estava soterrada nos escombros das Torres Gêmeas. A menos que Jalen estivesse de folga hoje ou a menos que seu posto não tivesse sido chamado ao local do desastre, a notícia não podia ser boa. A campainha tocou novamente. Ashley secou as mãos e se dirigiu à porta. – Querida... – Irvel acenou para ela da cadeira e fez um sinal em direção à porta. – Eu acho que é Hank. – Espere! – Helen encarou a porta, com a sobrancelha abaixada. – Hank foi revistado, né? Ashley deu um sorriso na direção de Irvel enquanto abria a porta. – Vamos ver quem é primeiro. Ela abriu a porta e viu Landon, ainda com a calça preta de uniforme de bombeiro e uma camisa branca convencional. Os olhos dele estavam vermelhos e inchados, e sua expressão era de desespero. Ele não se moveu nem falou uma palavra quando Ashley se aproximou, abraçando-o. – Eu queria telefonar para você. – Ela falou de forma sus-surrada. – Você soube de alguma coisa? Ele roçou o rosto no dela. – Eu conversei com a mãe dele. – Ele limpou a garganta, o tom monótono, fraco. – Jalen estava trabalhando hoje. Sua companhia foi uma das primeiras a chegar ao local. Ashley sentiu o drama. – Não, Landon. Ele levantou a cabeça e colocou as mãos nos ombros dela. – Eu preciso que você me leve à rodoviária. – Rodoviária?


– Eu vou para lá, Ashley. Eu não posso deixá-lo debaixo dos prédios. – E... e seu trabalho? – Eu já estava quase de mudança mesmo. Quanto antes eu chegar a Nova York, melhor. Ashley poderia pensar em uma dezena de razões rápidas pelas quais Landon deveria esperar. Deveria haver um número suficiente de pessoas ajudando na tentativa de resgate. Ainda era muito cedo após os ataques. E se a enorme pilha de escombros não estivesse estável? Landon poderia se machucar ou morrer se se metesse no meio do caos em Nova York. Mas a razão mais urgente era esta: ela ainda não estava pronta para a partida dele. Eles não teriam um longo adeus nem uma última semana, um último dia ou um último momento juntos, como ela havia imaginado. De dentro da casa, Irvel gritou: – Querida, é Hank? – Não, Irvel. – Ashley piscou. – Não é ele. Landon fez sinal para entrar. – Posso esperar aqui até o fim de seu expediente? – Claro. – Ela deu um passo para dentro da casa, e ele entrou. Uma vez lá dentro, ele pôs as mãos nos bolsos da calça. – Estou com minhas coisas no banco do passageiro. Você poderia me seguir até em casa para eu poder deixar o carro lá e depois me dar uma carona até a rodoviária. O ônibus sai às 16 horas. – Claro. – Eu já me despedi de meus pais. – Ele observou o olhar fixo dela. – Eu disse a eles que queria que você me levasse. Irvel estava acenando para Ashley novamente. – Olá, querida. Eu sou Irvel. – Seu sorriso passou de Ashley para Landon. – E olá para você também. E não é que você é um homem jovem e bonito! A despeito da tragédia do dia, da incerteza com relação ao bem-estar de Jalen e das perdas alarmantes que ainda estavam sendo noticiadas, tanto Ashley como Landon sorriram. Durou apenas um segundo ou dois, mas a pausa na tristeza pareceu maravilhosa. Landon fez um sinal de cabeça na direção de Irvel. – Obrigado, senhora. Ele já tinha ido a Sunset Hills uma outra vez. Depois de ouvir sobre Irvel e as amigas dela, ele queria conhecê-las. Agora, apenas algumas semanas depois, estava claro, pela expressão nos rostos,


que nem Irvel nem Helen se lembravam de sua visita. – Eu já vi você em algum lugar. – Irvel levantou um único dedo enquanto examinava o rosto de Landon. – Você é um dos amigos de pesca de Hank, certo? – Não, senhora. Eu nunca pesquei com Hank. Irvel fez que não com a cabeça. – Eu acho que não. Os amigos de Hank são um pouco mais velhos que você. – Ele é legal. – Helen gritou de sua cadeira a poucos me-tros de distância. – Ele não é um espião. Ashley sorriu e pegou a mão de Landon. – Não, Helen, ele não é um espião. Ela entrelaçou os dedos nos dele. Será que ele conseguia sentir a mão trêmula dela? Tudo estava acontecendo muito rápido. Em uma hora, Landon estaria em um ônibus para Nova York. Quem sabia quando ela poderia vê-lo novamente? Ou será que o veria algum dia? A incerteza fazia seu estômago doer. Ela se forçou a se concentrar. Helen estava falando sobre as pessoas da Sunset Hills que foram revistadas. Ela deu uma olhada para Landon. – Você já ouviu falar do King Kong? Landon olhou para Ashley, com a expressão confusa. – King Kong? – É uma longa história. – Ashley deu-lhe um sorriso torto. – Eu conto para você mais tarde. – Por falar nisso, querida – Irvel mudou sua atenção para Ashley –, você tem um cabelo muito bonito. Alguém já lhe disse isso? Um sorriso triste levantou os cantos do rosto de Landon quando ele deu uma cotovelada em Ashley. – Sim. – Ashley concordou. – Obrigada, Irvel. É muito gentil de sua parte notar. A porta se abriu e entrou Krista, a assistente social do próximo turno. – Desculpe o atraso. O dia foi longo. – Ela fechou a porta assim que entrou e encostou-se na parede. Havia uma expressão aterrorizada em seu rosto. – A prima de minha melhor amiga estava em um dos aviões. Eu a conheci no ano passado. – Krista baixou a cabeça por um minuto antes de erguer os olhos. – A moça tinha 24 anos. Ashley soltou a mão de Landon, atravessou a sala e abraçou Krista. – Sinto muito. Krista era uma jovem universitária corpulenta e de fala mansa que não era outra coisa senão


carinhosa com os residentes da Sunset Hills. Ela e Ashley não tinham tido muitas oportunidades de conversar, mas, em suas conversas breves, elas concordaram que o tratamento ríspido que Belinda dava a Irvel e aos outros era impróprio. Krista deu uma olhada rápida para Landon e notou os olhos molhados dele. – Eu acho que todos nós fomos afetados de uma forma ou de outra. Landon concordou. – Bem. – Irvel cruzou as mãos delicadamente sobre o colo. – Parece que todos estão aqui. É hora do chá de menta. Ashley fez um gesto para Krista de que ela e Landon tinham de sair. Krista fez que sim com a cabeça e foi para o lado de Irvel. O chá fazia parte regular da tarde desde a chegada de Ashley. Ela, Irvel e Helen tomavam chá de menta após o almoço e, às vezes, de novo antes do fim do turno de Ashley. Krista tinha começado a incluir o chá como parte de sua rotina à noite também. Para Belinda, o chá era uma perda de tempo, mas ela não o proibia. E, como ela estava fora do escritório hoje, isso não fazia diferença. Krista deu tapinhas nas mãos de Irvel. – Eu acho que só seremos nós hoje, Irvel. Ashley pegou sua bolsa e as chaves. Acenou para Helen e Edith e beijou o rosto de Irvel. – Até amanhã, Irvel. A incerteza brilhou nos olhos de Irvel enquanto ela examinava Ashley. Nada de filmes violentos amanhã, está bem, querida? – King Kong está solto – interrompeu Helen e deu um tapa no braço de sua cadeira. – Alguém tem de pegá-lo. – Está bem, Irvel. – Ashley engoliu um nó de tristeza. – Só filmes alegres amanhã. – Sim. – Os traços de Irvel relaxaram. – Só os alegres. Cinco minutos depois, Ashley estacionou atrás do carro de Landon em frente à casa dele. Ele pegou suas coisas – duas mochilas enormes de lona – e sentou-se ao lado dela. Um de seus amigos do Corpo de Bombeiros de Bloomington tinha intenção de alugar a casa de Landon enquanto ele estivesse fora. A princípio, ele tinha planejado ficar com Jalen uma vez que se mudasse para Nova York. Landon não disse nada sobre esses planos ou qualquer outra coisa enquanto estavam no carro. Ele simplesmente se aproximou e segurou a mão de Ashley, movendo os dedos suavemente entre os dela. Quando chegaram à rodoviária, eram 15h40.


Ashley estacionou e, por um minuto, os dois ficaram sentados ali, imóveis. – A que horas você chega em Nova York? – Amanhã às 7 da manhã. Ela se debruçou sobre o volante e examinou-o. O medo que estava surgindo dentro dela era tão real que ela podia ouvi-lo na voz. – Durma um pouco, se puder. Landon fez que sim. – Ashley... – Seus lábios se abriram, e um suspiro escapou. Ele se virou para ela. – Esse verão... As palavras de Landon desapareceram, e ela mordeu o lábio. – Eu sei. Foi ótimo. – Foi mais que isso. Foi... – Ele estreitou os olhos e olhou para frente. Ela viu os músculos do queixo dele se mexerem; em seguida, ele voltou a atenção para ela. – Eu nunca vou esquecer um minuto dele. – Nem eu. – Ela segurou a mão dele, a voz embargada por causa dos sentimentos. Landon deu uma olhada para o relógio. – Você vai entrar? Ashley fez que sim com a cabeça, a garganta apertada para falar. De mãos dadas, eles foram ao guichê e, depois, ao portão de embarque. Os dois ficaram ali por um tempo, perdidos em um abraço que dizia mais que as palavras. Por fim, ele deu um passo para trás. – É melhor eu ir. Ela queria agradecer-lhe por ser honesto com ela naquele dia, em julho passado, em que ele estava deitado na cama do hospital, agradecer-lhe por amar Cole, agradecer-lhe por arrumar tempo para ouvir sobre Paris. Agradecer-lhe por amá-la mesmo quando ela não lhe tinha feito nenhuma promessa, quando não havia nada a que se agarrar em troca. Mas, não havia tempo. Então, ela colocou os braços em volta do pescoço dele e levou os lábios aos dele. Foi um único beijo que ela esperava que dissesse a ele todas as coisas que suas palavras não podiam. Quando se afastou, ela examinou o rosto de Landon, os olhos dele. Viu a bondade ali. Abriu a boca, mas levou um minuto para fazer a voz sufocada sair. – Boa viagem. – Você pode fazer uma coisa por mim? – Seus dedos pas-saram pelas laterais do rosto dela. – Qualquer coisa, Landon. Você sabe disso.


– Ore por mim. Ore para que eu encontre Jalen. – Seus olhos encheram-se de lágrimas. – Ore para que eu ainda seja a mesma pessoa depois de tudo isso. Ashley tentou esconder seu alívio. Por um momento, ela ficou imaginando se ele pediria que esperasse por ele. Era a única coisa que ela não poderia prometer. Não seria justo com ele. Ele precisava ir para Nova York sem nada que o prendesse, lembrando-se dela e do verão que compartilharam como algo que, no final, levaria a uma amizade maravilhosa. O que mais poderia ser? Não, Ashley não podia se oferecer para esperar por ele, mas podia concordar com a oração. Sentiu um sorriso surgindo parcialmente no rosto. – Sim, Landon. Vou orar por você. Eu prometo. Um sorriso sereno preencheu o rosto dele. – Isso significa muito para mim, Ashley. – Passou o pole-gar no lábio dela, o toque tão leve que ela mal pôde senti-lo. – Obrigado. Ela fez um sinal rápido com a cabeça, piscando para conter as lágrimas. Orar não era uma coisa em que ela pensasse muito. Não, desde Paris. Ela já não acreditava que houvesse qualquer utilidade em se falar com Deus. Mas cumpriria a promessa que fez a Landon. Era o mínimo que podia fazer. Em questão de horas, a vida deles estaria cheia de tristeza e incerteza. Uma vez que Landon estivesse viajando para o coração do campo de batalha, ela conseguiria fazer uma oração ou duas. Mesmo que só servisse para deixar Landon feliz. – Adeus, Ash. – Seus olhos encontraram os dela novamente. – Adeus. – Eu ligo para você. Não diga isso. Não me faça promessas, não quando não tenho nada para oferecer em troca. Ela o abraçou mais uma vez. – Encontre Jalen. Ele fez que sim com a cabeça e afastou-se, levando uma mochila em cada ombro. Os olhos deles demoraram mais um instante; então, ele se virou e atravessou a porta dupla. Adeus, Landon. Que Deus esteja com você. Lágrimas encheram seus olhos quando ela se virou para ir embora. Ao fazer isso, o fôlego ficou preso na garganta. Lá, em um cantinho meio escondido, estava seu irmão, Luke. Ele estava falando em voz baixa com Reagan, e ambos pareciam chateados. O que eles estavam fazendo aqui? Então, sua ficha caiu.


Reagan provavelmente tomaria o mesmo ônibus que Landon para estar com a família em Nova York. Ashley tinha conversado com Kari no meio do dia, mas nenhuma delas tinha notícias de Luke sobre o pai de Reagan. Ashley enxugou as lágrimas, encontrou um lugar para se sentar fora de vista e esperou. Depois de um tempo, viu Reagan entrar no ônibus. Em seguida, o ônibus se afastou, e, um minuto depois, Luke virou a esquina. Ele estava chorando. O irmãozinho que tinha sido seu amigo mais próximo quando eram crianças estava andando sem rumo em direção à saída, com lágrimas escorrendo pelo rosto. A princípio, ele não a viu, mas, quando estava a poucos metros de distância, Ashley se levantou. No momento em que os olhos dos dois se encontraram, Luke congelou. A barreira entre eles ficou mais alta no mesmo instante. Com cuidado, ela olhou para o irmão, para a dor nos olhos dele, a desolação no rosto de Luke. Qualquer que fosse a notícia sobre o pai de Reagan, não era boa. Eles ficaram se olhando por mais um minuto interminável, atordoados com o que estava acontecendo. A despeito de todas as suas diferenças, aqui estavam eles, na mesma rodoviária, dando adeus às pessoas a quem amavam como consequência de um dos dias mais horríveis que os Estados Unidos já enfrentaram. Uma vez que os dois se deram conta disso, a barreira começou a ruir, vindo abaixo com a mesma força que as Torres Gêmeas. Só que esta queda não deixou uma montanha de escombros, mas, sim, irmão e irmã com os corações dilacerados e escancarados, precisando um do outro de uma forma que fazia suas diferenças parecerem mesquinhas e insignificantes. Ashley deu o primeiro passo, e ele correspondeu. Em um instante, eles estavam nos braços um do outro, abraçando-se, chorando. – Como... como isso pôde acontecer? – As palavras de Luke eram um sussurro cansado que vinha do mais profundo de sua alma. Ashley não tinha percebido o quanto ele tinha crescido nos últimos anos. Mas, agora, mesmo tendo o corpo levemente sacudido pelos soluços do irmão, ela se sentiu pequena e segura nos braços dele. Ele não disse mais nada, mas tudo bem. Ontem talvez Ashley tivesse precisado de desculpas ou explicações antes de sentir amor por Luke. Mas, hoje não. Não depois das perdas com as quais ambos tinham lidado. Não depois de tudo o que tinha acontecido. Aqui, agora, Ashley não precisava de palavras. A sensação dos braços do irmão à sua volta já era um pedido de desculpa suficiente.


CAPÍTULO 21 Eles se encontraram na casa dos Baxter. O local onde a família se reunia para comemorar e marcar a passagem das estações. O lugar onde vinham para se lamentar. E a noite de 11 de setembro não foi exceção. Embora estivesse cansado devido a um dia cheio, John Baxter estava grato pela presença de sua família. Muitas pessoas naquela noite estariam perdendo alguém, esperando um telefonema, desesperadas por notícias da equipe de salvamento dizendo que o filho, a filha, o pai, a mãe ou um cônjuge tinha sido encontrado. Naquela noite, o sofrimento em toda a nação era muito grande para ser compreendido. Passava das 21 horas, e, ainda assim, eles permaneciam reunidos em volta da televisão, falando em voz baixa sobre as últimas notícias e o que o presidente Bush iria fazer. Agora mesmo, o presidente declarou que os atentados terroristas eram um ato de guerra. Acreditava-se que o número de mortos fosse de milhares, com centenas de bombeiros e policiais sob os escombros. Rudy Giuliani, o prefeito de Nova York, já tinha inventado uma expressão para o local desolado onde antes havia o World Trade Center: Marco Zero. As tentativas de resgate estavam em pleno andamento, mas, até agora, ninguém tinha sido retirado com vida. – Eu não vejo como podemos nos mudar para o Texas em um momento como esse. – Erin cruzou as pernas e encostou-se firmemente no braço do velho sofá da família. Kari, Brooke e Peter estavam sentados no chão, apoiando as costas no mesmo sofá. Os netos estavam dormindo no andar de cima, e Brooke ainda estava falando sobre a campanha de doação de sangue no St. Anne naquele dia. No outro sofá em frente deles estavam Luke e Ashley. John deu uma olhada para eles, surpreso. Era a primeira vez em anos que eles estavam sentados juntos no mesmo lado da sala, que dirá um ao lado do outro. Ashley mencionou que os dois se encontraram por acidente na rodoviária. Entretanto, era óbvio que ela e Luke tinham tido mais que um encontro casual. Eles tiveram um encontro do coração – um encontro pelo qual John e Elizabeth tinham orado durante muito tempo. – Alguma novidade? – Elizabeth parecia cansada como o restante deles quando entrou na sala e sentou-se ao lado de John. Ela deslizou a mão em cima da dele, lançou um olhar em direção a Ashley


e Luke e apertou os dedos do marido. – Ainda não há sobreviventes. – John apertou os dedos dela. – Eles disseram que as pessoas estão fazendo ligações com o celular de algum lugar nos escombros. – Isso é horrível. – Kari encostou os joelhos no peito, os olhos arregalados enquanto a tela mostrava centenas de trabalhadores em cima de um monte de escombros. – Eu não consigo acreditar que eles vão encontrar alguém vivo nisso. – Brooke fez que não com a cabeça. – O combustível do avião ainda está queimando lá embaixo. Se as temperaturas não mataram essas pessoas ainda, a fumaça matará. – Tem razão – suspirou Peter. – Mas, eles têm de tentar. Elizabeth olhou para Luke, e John acompanhou o olhar dela. Como ele está lidando com esta conversa? O pai de Reagan era um dos soterrados naquele enorme emaranhado de cimento e aço. É claro que Luke não queria ouvir sua família acabando com toda a esperança de que o homem fosse encontrado com vida. – Luke, você está bem? – A voz de Elizabeth era calma, meiga. Era uma das coisas que John adorava nela. Toda vez que a vida estava de pernas para o ar, suas palavras e tom pareciam ministrar cura ao coração deles, ainda que ela estivesse morrendo por dentro. Ela mostraria sua própria dor mais tarde, quando os dois estivessem sozinhos. Mas aqui, na frente dos filhos, ela era o retrato da calma, a personificação da verdade de Deus de que, de algum modo, tudo daria certo. De que Ele ainda estava no controle. – Eu estou bem. – Com os olhos ainda fixos na TV, a res-posta de Luke foi curta. – Você teve mais notícias da mãe de Reagan? Luke fez que não com a cabeça. Em seguida, deu uma olhada por cima do ombro para Brooke. – Eles vão encontrar sobreviventes. – Ele voltou a olhar para a tela. – O pai de Reagan não vai desistir de lutar. Brooke ergueu as sobrancelhas na direção de Peter e lhe deu um olhar que reconhecia que ela havia se esquecido do quanto o resgate era algo pessoal para Luke. Ela limpou a garganta. – Você está certo, Luke. Eu não estava tentando dizer que não haverá sobreviventes. Apenas que... – Deixe para lá. – Luke se levantou e foi em direção à es-cada. – Vou para a cama. – Evitou os olhos de todos enquanto saía da sala. Sem ação, Brooke franziu as sobrancelhas na direção de seus pais e só movimentou a boca com a palavra Desculpe. – Tudo bem. – John manteve a voz em forma de um sus-surro. – Você não estava pensando no pai


de Reagan. Nem eu. E fui eu que puxei o assunto. – Espero que ele consiga dormir. – Elizabeth deparou-se com os olhos de Brooke e ficou olhando para ela. – Vai ser uma semana difícil. – Ela se virou para Kari. – Alguma notícia de Ryan? – Ele e um grupo de rapazes da equipe vão descer amanhã para distribuir alimentos e água, tudo o que puderem fazer pelas equipes de resgate. – Kari olhou para Ashley. – Quando Landon acha que vai chegar lá? – Ele conversou com alguém da sede do Corpo de Bom-beiros de Nova York. – O medo cobriu o rosto de Ashley como um véu. John entendeu. Trabalhar em cima de uma centena de andares de um edifício em ruínas deveria ser perigoso, talvez até mesmo fatal. Ashley mordeu o canto do lábio. – Eles estão esperando por ele amanhã por volta do meio-dia. – Imagino que ele vai topar com Ryan. – Kari voltou-se para a televisão. A conversa parou, substituída por uma série de notícias e atualizações. Às 23 horas, todos reuniram seus filhos e foram para casa. Todos, menos Luke, é claro. Durante toda a noite, a preocupação com o filho ficou martelando a cabeça de John. Luke raramente ficava mal-humorado, raramente era antissocial. Grande parte das reuniões de família era marcada por suas palhaçadas idiotas ou provocações constantes. Somente perto de Ashley era que ele normalmente não ficava tão alegre. Mas, hoje, a questão não era Ashley. E John tinha aquela sensação de pai de que não tinha nada a ver com Reagan também. Algo estava errado com seu único filho homem, algo que ia além da dor, do medo e da incerteza. O que quer que fosse, John tinha a intenção de descobrir. Ele calmamente subiu as escadas até o quarto de Luke. De fora, no corredor, ele pôde ouvir as notícias na pequena televisão de Luke. John bateu levemente antes de abrir a porta. – Podemos conversar? Luke estava esticado na cama com as pernas cruzadas nos tornozelos. Ele ergueu os olhos por um breve momento e se moveu. – Claro. Lá estava de novo aquela estranha frieza na voz de Luke. John entrou no quarto e sentou-se na beira da cama. – Você está bem? Luke apoiou-se nos cotovelos e se voltou para os olhos do pai. – Na verdade, não. – Foi o que pensei. – John estava impressionado com a frieza na expressão de Luke. – Você


parece louco da vida. – Bem. – Luke bufou. – Eu sou meio louco. – Todos nós somos. – John segurou a ponta do pé de Luke. – Nada agora à noite está como estava pela manhã. – Não é só isso. – Luke deu de ombros e deu uma risada firme. – Tudo bem. – John respirou. Luke não estava facilitando as coisas. – Então, por que você está zangado? – Eu estava com Reagan... na segunda à noite. – Luke baixou os olhos e examinou o desenho de sua colcha. Quando ergueu os olhos, a culpa era, obviamente, uma das emoções estampadas em seu rosto. Suas próximas palavras vieram rapidamente. – Nós estávamos vendo o Giants, sabe, envolvidos com o jogo. – Ele cruzou os braços. – O pai dela ligou, e Reagan ignorou a ligação. Ele deixou uma mensagem, mas Reagan... ela disse que ligaria para ele na noite seguinte. John fechou os olhos e gemeu. Não é de admirar que Luke se sentisse culpado. Ele e Reagan estavam se divertindo muito com o futebol para ela ter de parar e atender a ligação do pai. E agora era tarde demais. Ele piscou os olhos. – Sinto muito, meu filho. – Assim que eu vi a notícia na escola hoje pela manhã, comecei a orar, pedindo a Deus para salvar o pai dela. – Luke inclinou a cabeça. – E sabe de uma coisa? Até conversar com a mãe de Reagan, eu achava de verdade que Deus iria responder à minha oração. Deus sempre responde às nossas orações. As palavras quase saíram da boca de John quando ele as segurou. Luke não precisava de uma lição teológica. Ele precisava ser ouvido. Luke aprumou-se, encostando-se na cabeceira para que os dois pudessem se olhar no mesmo nível. – Durante toda a minha vida, Deus respondeu às minhas orações, pai. Se eu orasse, se eu cresse, mais cedo ou mais tarde, a coisa acontecia. Deus e eu éramos assim. – Ele cruzou os dedos e os levantou. – Mas, quando eu descobri que o Sr. Decker não tinha conseguido sair do prédio... A voz de Luke falhou, e sua cabeça caiu por um momento. John sentou-se mais perto e pôs a mão no ombro de Luke. Era hora de uma lição teológica. – Filho, Deus ouve suas orações. Cada uma delas. Se o pai de Reagan não conseguiu sair, então hoje era a hora dele. A vida é assim. Nós nunca sabemos quando vai ser nosso último dia. Depois de um tempo, Luke fungou e ergueu os olhos. Lágrimas de raiva ainda brotavam em seus olhos.


– Bem. Mas, aqui está o que eu quero saber... John esperou. A raiva que fervia na expressão de Luke era assustadora. – Para que serve a oração? Se Deus tem tudo planejado, en-tão, por que se preocupar em falar com Ele? Que diferença faz? John engoliu sua surpresa. – Faz toda a diferença. Deus não é um gênio, Luke. Você sabe disso. Ele não faz truques de acordo com nossas ordens. Mas Ele responde às nossas orações, de uma forma ou de outra. Ele curou sua mãe, não curou? – Eu achava que sim. – Os olhos de Luke se estreitaram. – Eu orei para que o câncer dela desaparecesse, e ele desapareceu. Mas, talvez ele tivesse desaparecido sozinho. Ou talvez não tenha desaparecido de verdade. Talvez a oração não tivesse nada a ver com isso. – A oração teve tudo a ver com isso. – John manteve a voz equilibrada. – Tudo bem, então, e o que acontece com os Estados Uni-dos? Terra dos livres, lar dos bravos. Deus deveria ser nosso grande protetor, certo? Em Deus nós confiamos. – Ele apontou para a televisão. – Isso não é verdade hoje. Então, talvez Deus tenha se cansado dos Estados Unidos. Talvez Ele tenha lavado as mãos. – Luke estreitou os olhos. – Mas, não venha me dizer que a oração fez a diferença hoje. Ela não fez para aquelas pessoas no World Trade Center. – Coisas ruins acontecem, Luke. Isso é verdade desde o início dos tempos. – Ele apertou o ombro de Luke. – Os Estados Unidos não são exceção. – Mas, por que Deus não estava lá para ajudar aquelas pessoas, pai? – O tom de Luke foi alto, sua raiva enchia o quarto. John não se apressou para formular uma resposta. Esperou até que Luke parecesse ter controle novamente. – Filho, Deus estava ao lado de cada uma daquelas pessoas. – John deixou a mão cair do ombro de Luke. – Quando a vida não segue como nós queremos, Ele ainda está ao nosso lado, mesmo em um dia como esse. Confortando-nos, dando-nos a paz de que precisamos, a paz sobre a qual o mundo nada sabe. – Sim, bem... – Luke voltou a olhar para as imagens na televisão. – Hoje eu precisava que o pai de Reagan estivesse vivo, não debaixo de um prédio de cem andares. Havia uma tensão entre eles, algo que John nunca tinha sentido antes. Não com Luke, de forma alguma. Será que ele deveria dar boa-noite ao filho, deixá-lo sanar suas dúvidas durante o sono? Ou será


que ele deveria continuar a conversar, tentar ajustar a fé de Luke ao que ela era apenas 24 horas atrás? Ele não decidiu fazer uma coisa nem outra. – Vamos orar. Essa é a única maneira pela qual nós sobre-viveremos. Luke desligou-se da televisão, mas John podia ver que as ações do filho eram mais uma consequência de obediência e respeito do que qualquer desejo de orar. – Tanto faz. Tanto faz? Mais uma vez, o medo percorreu as veias de John. Deus, ajude meu filho. Não deixe que este dia terrível crie uma brecha entre ele e o Senhor. Entre mim e ele. O versículo que Kari leu mais cedo naquele dia, o que ela compartilhou quando ele chegou em casa do trabalho, passou por sua cabeça: Aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo. Era uma promessa à qual John queria se apegar nos dias que estavam por vir. Ele fechou os olhos, voltou a pôr a mão no ombro de Luke e orou em voz alta. – Deus, tantas vezes não entendemos. E, sinceramente, Se-nhor, essa é uma delas. – John respirou lentamente. – Tudo o que podemos fazer é confiar em Sua verdade e crer nela. O Senhor é um Deus bom, o autor da vida. O mal que aconteceu hoje aflige seu coração também. Tantas vidas, Pai. Tantas. Senhor, se o pai de Reagan estiver entre os que voltaram para o lar para estar com o Senhor hoje, ajude-nos a aceitar isso. Ajude-nos a ser gratos porque, se ele não estiver mais neste mundo, ele estará nesse momento se regozijando com o Senhor. John fez uma pausa. – E, por favor, ajude Luke. Ajude-o a se apegar à fé dele e perseverar, não importa o que as tempestades de amanhã tragam. Que ele saiba que o Senhor ouve as orações dele, que o Senhor o ama e se preocupa com ele. Esteja com Reagan e a família dela, e conforte-os com a realidade de suas promessas. Em nome de Jesus, amém. Inúmeras vezes, quando Luke era adolescente, John se encontrava com ele aqui, e os dois oravam juntos. Luke sempre ficava em paz depois, com os olhos cheios da certeza de que Deus estava no controle, qualquer que fosse o problema. Desta vez, no entanto, o rosto de Luke estava tão zangado e rígido quanto estava antes. No momento em que a oração acabou, os olhos de Luke voltaram para a tela da televisão. Não houve nenhum Obrigado por orar, pai, nenhuma palavra de incentivo ou sinal reconfortante de que Luke estava ouvindo durante a oração. Eu não posso forçar nada, Deus. Eu o estou entregando ao Senhor. John deu um tapinha nas


costas de Luke e se levantou para sair. – Não abandone sua fé, meu filho. Você precisa dela agora mais do que nunca. Silêncio. – Ótimo. Bem... boa noite, Luke. Eu amo você. John virou-se para sair e Luke só respondeu quando o pai já estava quase na porta. – Boa noite. Enquanto atravessava o corredor em direção ao quarto que dividia com Elizabeth, John sofria com a cena que tinha acabado de acontecer. E com o fato de que, pela primeira vez, desde que ele podia se lembrar, seu filho não tinha lhe dito que o amava. *** A manhã de 12 de setembro amanheceu clara e ensolarada, sem que o tempo desse algum indício de que a nação estava de luto. Quando John acordou, sua esposa já estava sentada na cadeira perto da cama, lendo a Bíblia. No momento em que ele se sentou e esfregou os olhos, ela lhe deu um olhar intencional. – Tem alguma coisa errada com Luke. Era mais uma afirmação do que uma pergunta, mas John sabia que ela queria uma resposta de qualquer modo. Ele se espreguiçou e se encostou na cabeceira. Não queria preocupá-la agora, não quando Luke provavelmente acordaria naquela manhã e se sentiria culpado por duvidar de Deus. – Ele está chateado. Elizabeth baixou o queixo. – Ele está mais do que chateado. – Ele está louco da vida. – John saiu da cama e colocou seu roupão felpudo. – Ele pediu a Deus para poupar o pai de Reagan. – John caminhou em direção à porta do quarto. – É a primeira vez que Deus respondeu às orações do menino com um poderoso não. – Você está preocupado? – A Bíblia de Elizabeth ainda estava aberta em seu colo. John parou na porta. Esperava que a esposa sentisse sua confiança do outro lado do quarto. – Sim. Mas, eu o entreguei a Deus. Tenho certeza de que Luke terá uma atitude melhor hoje. – Aonde você vai? – Eu tenho de fazer algo. – Ele lhe deu um sorriso parcial. – Eu volto logo. Enquanto atravessou toda a casa, desceu a escada e foi para a garagem, John não pôde deixar de pensar no que Luke tinha dito na noite anterior. Talvez Deus não quisesse mais saber dos Estados


Unidos, talvez estivesse cansado desse país. John encontrou a caixa que estava procurando e abriu-a. Com cuidado, removeu a bandeira pesada e costurada à mão da família. Levou-a para o poste na frente da casa, prendeu-a a um cordão de náilon forte e levantou-a cerca de três metros do chão. Em seguida, deu três passos para trás e ficou olhando para ela. O vermelho, o branco e o azul agitavam-se majestosamente na brisa da manhã. John ficou ali por um tempo, examinando a bandeira e lembrando-se da liberdade que ela representava. Levantá-la hoje foi um pequeno gesto, mas, de alguma forma, fez com que ele se sentisse mais forte, mais esperançoso. Por pior que parecesse a situação, independentemente do que as pessoas pudessem pensar, a despeito da incerteza deste momento na história da nação, John estava convencido de duas coisas. Deus ainda queria saber dos Estados Unidos. E Ele queria saber de Luke também.


CAPÍTULO 22 Dois dias se passaram desde os ataques terroristas, e a Liga Nacional de Futebol Americano (NFL) tomou sua decisão. Pela primeira vez em sua história, não haveria futebol nesse domingo. Os jogos foram cancelados como uma forma de homenagear as milhares de pessoas mortas e desaparecidas. Ryan Taylor ficou agradecido. Outras equipes talvez estivessem aptas para jogar futebol cinco dias após a tragédia de 11 de Setembro, mas as equipes de Nova York e de Washington, D.C., certamente não estariam. Era tudo o que Ryan e os outros treinadores podiam fazer para manter o Giants focado em um treinamento leve. Na maioria dos casos, nenhum dos membros da equipe queria jogar futebol. Eles queriam estar nas ruas distribuindo garrafas de água para os bombeiros, entregando lanches, removendo os escombros – o que pudessem fazer para ajudar. O trabalho de resgate ia além de qualquer coisa que Ryan já tinha visto. Uma fumaça espessa e irritante pairava sobre a cidade, e cinzas cobriam cada centímetro. No entanto, a área em torno do Marco Zero rapidamente se tornou o cenário de um grande esforço coordenado enquanto o processo penoso de remover, separar e descartar camada por camada de entulho estava em andamento. Enquanto procuraram por sobreviventes, bombeiros e voluntários se deparavam com a horrível tarefa de encontrar os restos mortais de vítimas, dentre elas amigos ou colegas de trabalho. Ryan e um punhado de jogadores tiveram permissão para passar pela segurança e ir a uma estação de água e alimento a quase cinquenta metros do Marco Zero. O que ele viu mesmo àquela distância era inacreditável. Ao lado do local principal do desastre, em meio a escombros, havia uma cruz perfeita, formada por uma seção de vigas de aço que tinham caído longe do restante da estrutura. A cruz tinha quase cinco metros de altura e ficou estranhamente intacta em meio às ruínas instáveis. Naquela tarde, enquanto Ryan distribuía garrafas de água e trocava palavras tristes com equipes de resgate cansadas, ele notou a cruz novamente. Ela havia se tornado uma espécie de santuário. Flores foram colocadas perto de sua base, e pequenos bilhetes estavam presos ao longo da viga vertical. Dezenas de capelães circulavam pelos voluntários. A qualquer momento naquela tarde em que Ryan erguesse os olhos, ele via pessoas orando juntas, abraçando-se, paradas no meio do trabalho de resgate para se consolar e convencer umas às outras de que a vida continuaria.


Muitas vezes, ele se viu com os olhos fixos no buraco no céu, o lugar onde estavam as Torres Gêmeas. Viveu em Nova York por pouco tempo, mas rapidamente usava o World Trade Center como um ponto de referência; seus destinos dentro da cidade eram de um lado das torres ou do outro. Agora, porém, nada além do céu azul profundo marcava o local. Os edifícios eram tão inerentes ao horizonte de Nova York que era impossível olhar para cima e não ver as torres ainda em pé, ainda que apenas em sua lembrança. Ele ligaria para Kari nesta noite e contaria como era estar ali embaixo. Desde os ataques, ela estava ainda mais em seu pensamento, se é que isso era possível. A vida era curta, e a morte quase sempre rápida e sem sentido. O assassinato de Tim havia lhes ensinado isso muito bem, e agora isso... Os noticiários falavam de novos ataques, guerra biológica, armas químicas, ameaças nucleares. Não havia garantias de que qualquer um deles viveria para ver a manhã. No entanto, aqui estava ele em Nova York, dedicando sua vida a um jogo – um jogo que não tinha feito outra coisa senão se tornado um obstáculo à vida que ele poderia ter compartilhado com Kari. O que ele estava fazendo aqui quando a única mulher a quem já tinha amado estava sozinha em Bloomington? Que sentido havia nisso? Ryan não tinha respostas para si mesmo, exceto o fato de que havia assumido um compromisso com o Giants e precisava cumpri-lo. Ele se curvou e tirou uma camada de cinzas de cima de um engradado fechado de garrafas de água. Enquanto fazia isso, lembrou-se das palavras de seu pai, um conselho que ele lhe tinha dado quando Ryan estava no último ano do ensino médio, procurando um emprego de meio período. Honre seus compromissos, filho. Se conseguir um trabalho, dê o melhor. Um homem que honra a Deus nas pequenas coisas irá honrá-lo por toda a vida. Não havia dúvida de que Ryan honraria o compromisso que havia assumido com o Giants. Não apenas porque era a coisa certa a ser feita. Afinal, ele amava seu trabalho. Ser técnico da NFL tinha sido seu sonho desde que pendurou a chuteira. Mas, de alguma forma, os acontecimentos da semana passada mudaram seus sonhos, fizeram com que eles parecessem superficiais e sem importância. Na verdade, deixaram dolorosamente claro que seu coração não estava sequer em Nova York. Estava a mais de mil e quinhentos quilômetros de distância, em Bloomington, Indiana. Ryan deslizou o polegar por baixo de uma camada de plástico e tirou as garrafas do engradado. Tossiu muito e olhou para cima. A fumaça estava mais espessa que antes. – Ei, moço. – Ryan sentiu um tapinha no ombro e se virou para ver Landon Blake. – Landon... – Ryan não sabia ao certo o que dizer. O ho-mem estava coberto de cinzas, com o suor


escorrendo da testa. A dor em seus olhos era intensa. Dizia a Ryan que, por pior que o Marco Zero parecesse à distância, a visão de perto era indescritivelmente pior. Ryan estendeu a mão e apertou a de Landon. – Kari me disse que você estaria aqui. Eu meio que duvi-dei de que a gente fosse se encontrar. Landon fez um gesto em direção à estação improvisada onde Ryan estava trabalhando. – Todo mundo sabe que é aqui que o Giants está dando uma força. – Enxugou a testa, espalhando cinza ao longo dela. – Eu imaginei que você estaria aqui. Ryan deu-lhe uma garrafa de água. – Você e eu somos homens de oração. – Ele olhou fixa-mente para a cena do desastre do outro lado e, então, para Landon novamente. – Mas, neste momento, é difícil saber por onde começar. – Eu sei. – Landon pôs seu coturno em uma cadeira pró-xima e apoiou-se sobre o joelho. – O cheiro de morte e de enxofre é horrível. Sufocante. Como o próprio inferno. Houve uma pausa, e Landon levantou a garrafa de água, inclinou-a para trás e virou-a. Ryan pegou na mesa um sanduíche embrulhado em papel e entregou-o a ele. – Eu sinto muito por seu amigo. Landon fez um sinal com a cabeça. – Obrigado. – Pegou o sanduíche, tirou o papel e comeu quase metade em uma única mordida. Apesar da fumaça, o sol brilhava a essa hora da tarde, e Landon olhou com os olhos meio fechados para o trabalho de resgate. – Ainda há uma chance, sabe. Jalen é forte. – Ele cerrou o queixo. – Se alguém pode sobreviver a isso, ele pode. Ryan ficou olhando para as cinzas debaixo de seus pés. O que ele poderia dizer? E quanto tempo levaria para que os bombeiros que estavam trabalhando no Marco Zero se conformassem com a probabilidade de que estavam procurando restos mortais e não sobreviventes? Ryan puxou o ar com força pelo nariz e olhou para os olhos de Landon. – Há alguma coisa que eu possa fazer? Landon jogou a garrafa vazia e o papel do sanduíche fora e deu um passo para trás em direção ao trabalho de resgate. – Ore por um milagre. – Ele acenou e começou a se afastar. – Espere. – Ryan correu os poucos passos que os separa-vam. – Jalen era crente? Landon hesitou. – Eu não tenho certeza. Ele conhecia o Senhor. – Vamos orar agora. Pode ser?


– Sim. – Landon tirou o capacete. – Obrigado. Ryan pôs a mão no ombro de Landon, e os dois homens curvaram a cabeça. Ali, com equipes de resgate entrando e saindo das estações de apoio, com guindastes e caminhões basculantes passando pelas cavernas cobertas de cinzas de Manhattan, com o mau cheiro de cinzas e fumaça como um lembrete constante da devastação ao redor deles, eles oraram por Jalen. Eles oraram por um milagre, de uma forma ou de outra. Que as equipes de resgate o encontrassem salvo em meio aos escombros. E, se não, que Jesus o encontrasse. Salvo em meio às ruas do céu. *** Pela primeira vez naquele outono, o professor Hicks dizia algo que fazia sentido. Desde o início do semestre, Luke tinha medo de sua aula de comunicação avançada. O professor, muitas vezes, usava o tempo para expressar suas opiniões sobre uma série de seus temas preferidos – qualquer coisa desde os males do comércio aos perigos do “fanatismo religioso”. A princípio, Luke, na verdade, concordou com algumas das coisas que o professor disse. O comércio poderia, às vezes, ser a causa de uma sociedade conturbada. E o extremismo religioso, sem dúvida, causou sofrimento e mal-entendido ao longo da história. Mas, à medida que o semestre avançava, Luke começou rapidamente a entender que, para o professor, comércio significava qualquer tipo de negócio corporativo e fanático religioso referia-se principalmente a qualquer cristão conservador. O professor Hicks nunca tinha dito isso. Na verdade, ele tinha por princípio não dizer aos alunos exatamente o que pensava; ele dizia que era importante manter a “objetividade”. No entanto, ele revelava suas opiniões por meio de observações espontâneas e cutucões astutos, até mesmo por meio dos comentários sarcásticos que havia escrito às margens do primeiro projeto que Luke preparou para a aula. Na verdade, o professor parecia tão obviamente tendencioso, e seus pontos de vista tão diferentes dos de Luke, que o rapaz já esperava que toda aula fosse uma briga. Até esse momento. Agora, enquanto Luke ouvia sentado, as palavras do professor pareciam se alinhar com as ideias que Luke nem mesmo sabia que tinha. À luz do que aconteceu no dia 11 de setembro, o professor Hicks apresentou uma tarefa que duraria o semestre: organizar duplas e desenvolver uma apresentação em sala de aula em favor da existência de Deus ou contra ela. Era segunda-feira, quase uma semana depois dos ataques, e o professor andava à frente da sala, explicando suas razões para a tarefa.


– Vocês devem ter percebido o quanto a bandeira norte--americana se tornou popular na semana passada. – Ele chegou a um dos lados da sala, fez uma pausa e sorriu na direção dos alunos. – Muitas pessoas querem dizer que Deus está unindo nosso país, unindo-nos em nosso maior momento de necessidade. Ele riu e, com tristeza, fez um não com a cabeça. – Tudo bem, ótimo. Esta é uma classe de comunicação, o que significa que vamos aprender métodos para reunir informações e apresentar ideias de uma forma persuasiva. Vamos usar essas habilidades para descobrir o que realmente está acontecendo. Ele parou de andar e cruzou as mãos nas costas, inclinando-se ligeiramente para frente. – Agora, eu percebo que essa não é uma aula de filosofia, por isso não estou exigindo que vocês usem a lógica formal. E essa não é uma aula de ciências, por isso não estou preocupado com o método científico rigoroso. Eu estou falando de ideias, de motivação, de pensar com clareza e persuasão sobre algo que faz diferença em nosso mundo. – Isso é uma coisa importante, pessoal! – O tom de sua voz aumentou, e ele apontava o dedo para cima para dar ênfase. – Deus é mesmo o único que está agindo em todo o país hoje? Ou as respostas positivas que estamos testemunhando podem ser atribuídas à outra coisa? Luke se ajeitou na cadeira com a caneta sobre um pedaço de papel em branco. O professor caminhou na direção oposta, acenando a mão acima da cabeça, como se estivesse pegando os pensamentos em uma unidade de armazenamento invisível. – Números recordes de pessoas fazem filas para doar san-gue. Milhares se inscrevem nas Forças Armadas. Um número incontável envia milhões de dólares para as vítimas. Voluntários jorram de todas as cidades dos Estados Unidos. – Deus? Talvez. – Ele parou de andar e encarou a classe de frente. – Talvez não. Luke mexeu-se na cadeira. Antes do dia 11 de setembro, uma discussão como essa o deixaria furioso, pronto para pegar a mochila e sair da sala batendo os pés. Mas, agora... agora, pelo menos, parecia valer a pena ouvir. No alto do bloco de anotações, ele rabiscou a palavra Deus e, ao lado dela, colocou a lápis um enorme ponto de interrogação. O professor deu de ombros e continuou a andar. – Acredito que esta tarefa irá instigá-los a pensar em sua visão de mundo e a comunicá-la de forma coerente. Exigirá pesquisa; é preciso que os fatos sejam fatores de comunicação eficazes. Também exigirá argumentos persuasivos, outra habilidade vital. E exigirá um compromisso com a realidade, porque, com a realidade que temos diante de nós nesses dias, não temos um alicerce no


qual nos apoiar. Ele fez uma pausa. – Eu quero que vocês pensem... pensem de verdade. – Ele sorriu para eles por cima do ombro. – Existe uma visão de mundo que explica adequadamente o modo como a sociedade realmente funciona, boa ou ruim? Será que ela gira em torno da crença em algum ser maior invisível chamado Deus, o que chamamos de “visão de mundo teísta”? – Aqui, ele fechou a mão para enfatizar a expressão. – Ou existem outros fatores em ação, ideias que explicam adequadamente a existência humana sem recorrer à crença em um poder superior? Resumindo, existe um Deus ou não? Luke rabiscou as palavras visão de mundo teísta. – Seja como for que vocês optarem por responder à per-gunta – continuou o professor –, vocês devem usar fatos e lógica para respaldar seus argumentos. – O professor caminhou em direção ao quadro branco, pegou um marcador e escreveu em letras maiúsculas a palavra humanismo. Deu um passo para trás do quadro. – Se vocês optarem por argumentar contra a visão teísta, podem fazer isso apoiando uma visão alternativa. – Ele sorriu. – Digamos, por exemplo, a visão de mundo do humanismo. Ele apontou para a palavra. – Humanismo, senhoras e senhores, é a filosofia do momento para muitas pessoas. Enquanto o teísmo baseia-se no pressuposto de que toda a bondade origina-se de um ser superior, o humanismo coloca a confiança no poder da inteligência humana e do espírito humano para vencer o mal com atos de bondade. Luke escondeu o sorriso. Chega de objetividade. O tom do homem deixava claro que ele não tinha escolhido o humanismo como uma visão alternativa casual. – Vocês, é claro, vão formar suas próprias opiniões no de-correr dessa tarefa – disse o professor. Ele deu alguns passos lentos e, então, fez uma pausa para olhar para eles mais uma vez. – Mas, já vou avisá-los: analisem ambos os lados. E não baseiem seus argumentos em seu próprio preconceito ou educação, mas na preponderância das evidências. Uma menina de cabelos escuros ao lado de Luke se inclinou e sussurrou: – Parece interessante. Luke deu uma olhada rápida para ela e concordou. Ela se sentava ao lado dele desde o início do semestre, mas ele realmente não a tinha notado antes. A duas fileiras da frente, um rapaz levantou a mão. – E se nossas evidências nos levarem a concluir que existe um Deus?


O professor Hicks levantou as sobrancelhas de forma levemente divertida. – Boa sorte para você, desde que você tenha respaldo ade-quado para essa conclusão. – Ele dirigiu sua atenção para o restante da sala. – Eu não estou dizendo para vocês como pensar aqui, pessoal. Eu estou simplesmente sugerindo que nunca tivemos melhor oportunidade de fazer parte do que está acontecendo ao nosso redor, e, no processo, aprender lições valiosas sobre comunicação. Seu olhar voltou para o aluno na segunda fila. – Cuidado. Seu papel não deve se basear em ilusões ou no trabalho de propaganda dos pais. Vocês devem evitar argumentos batidos ou baseados em emoções. – Continuou a falar sobre as especificações da tarefa, a documentação necessária, o prazo da apresentação oral, a importância de se trabalhar com um colega. – Devemos concluir antes do Dia de Ação de Graças. Luke anotou a maior parte do que o professor tinha dito e olhou para suas anotações. Seria possível? Sua própria fé não tinha sido nada além de um trabalho de propaganda de seus pais? Ele tinha simplesmente aceitado um mito que não tinha nenhuma relação com a realidade? Ele não teria pensado nisso antes dos ataques terroristas. Mas, agora... Todas as noites, desde que Reagan partiu, ele tentava ligar para a casa dos pais dela. Na maioria das vezes, ninguém atendia. Quando alguém respondia, era sempre um amigo ou parente. E todos eles diziam a mesma coisa: Reagan não pode falar agora. Reagan não está atendendo ligações. Reagan não podia atender o telefone. Será que ela não sabia que ele estava morrendo sem ela, que a lembrança daquela noite de segunda-feira era suficiente para fazê-lo se odiar pelo que tinha acontecido? A família dele não estava ajudando nem um pouco. Eles estavam envolvidos em um frenesi de patriotismo e fé cega que, em vista dos ataques terroristas, parecia completamente infundado. Na verdade, toda a cidade parecia estar na mesma condição. O número de presentes na igreja ontem dobrou facilmente em comparação ao que era antes da tragédia. Normalmente, Luke e seus pais teriam se sentado perto de Erin, Sam e Kari. Mas ontem Brooke, Peter e até Ashley estavam lá – a primeira vez que eles estavam juntos em um culto na igreja desde o casamento de Erin. Mamãe e papai debulharam-se em lágrimas quando o pastor Mark lembrou que o bem pode resultar do mal e que Deus tinha planos para os Estados Unidos. Mas que bons planos Deus poderia ter? O pai de Reagan estava morto. Ela não atendia o telefone. E, juntos, eles fizeram algo que tinham prometido nunca fazer. Luke voltou a pensar naquela noite no estacionamento, quando sua maior preocupação era se eles


jogariam softbol ou assistiriam a um jogo de futebol. O bem que resulta do mal? A única coisa boa que Deus poderia fazer neste momento era voltar o relógio para o dia 10 de setembro e dar-lhes uma chance de fazer tudo mais uma vez. Luke assistiria ao jogo de futebol em casa e Reagan falaria com o pai dela e o alertaria para não ir trabalhar no dia seguinte, fosse o que fosse. Fora isso, Luke não poderia imaginar nenhum bem como resultado dos ataques. O professor Hicks passou para outro tópico, mas Luke não conseguia parar de pensar em Reagan e no pai dela. Toda vez que ligava para a casa de Reagan, Luke perguntava sobre o Sr. Decker. A notícia nunca era boa. Não havia nenhum sinal do pai de Reagan, nenhum sinal de qualquer sobrevivente na enorme pilha de escombros. As duas últimas vítimas encontradas vivas foram tiradas dos escombros dias atrás. A essa altura, toda a nação estava começando a compreender a enormidade da perda de vidas com o desastre. Mesmo antes da queda dos edifícios, acreditava-se que o calor no interior das Torres Gêmeas havia chegado a quase duas vezes mais que o da maioria dos crematórios. As pessoas envolvidas no resgate não só não encontrariam os desaparecidos; elas provavelmente não encontrariam os corpos também. Independentemente ao que a família de Reagan se apegava, a verdade era óbvia: Tom Decker não voltaria para casa. Luke desenhou linhas onduladas nas laterais de suas anotações e pensou na teoria do professor. Nada de Deus; somente o poder do espírito humano. Pessoas que eram boas, pessoas que eram más. Contudo, como mostrava a manifestação de apoio após os ataques terroristas, um punhado de pessoas más sempre seria derrotado por uma nação de pessoas boas. Era só isso que existia, então? O espírito humano e nada mais? Era difícil imaginar a existência fora da realidade de Deus. O que a teoria humanista dizia sobre a morte? Que não havia nada depois dela? Que as pessoas deveriam ser boas o máximo possível só para passarem a eternidade apodrecendo em um caixão? Luke saiu da nuvem de pensamentos aleatórios que o rodeava e concentrou-se em Deus, no que ele sabia de Deus. No que ele se lembrava. Todas as evidências reunidas no mundo não provariam ou refutariam um Deus onisciente e invisível. Somente uma coisa poderia fazer isso. Senhor, nunca estive mais confuso em minha vida. Ele ficou olhando para o papel enquanto batia a caneta calmamente. Por que tudo está tão louco? Por... por que o Senhor deixou isso acontecer? Ele rabiscou as palavras por que no alto do papel. Se o Senhor estiver aí, se puder me ouvir, faça


com que as coisas se acertem entre mim e Reagan. Por favor, Deus. É só dessa prova que eu preciso. Ele levantou os olhos e viu a turma saindo em fila. A aula tinha acabado. Luke colocou o caderno dentro da mochila e estava caminhando em direção à porta quando uma garota de cabelos escuros apareceu ao seu lado. – Oi. – Ela lhe deu um sorriso confiante. – Nós nunca nos apresentamos de verdade. Meu nome é Lori Callahan. Ele estendeu a mão. – Luke Baxter. – Prazer em conhecê-lo. – Ela olhou para ele e apertou a mão dele de forma rápida e amigável. Algo nela era refinado e atraente com um quê de inteligência. – Olha só – disse ela –, eu tive uma ideia. – Diga. – Luke não estava ouvindo inteiramente. Ele queria terminar as aulas e ir para casa para tentar falar com Reagan novamente. – Vamos fazer o trabalho juntos. Sabe, aquele sobre argu-mentar a favor de Deus ou contra Ele. – Ela sorriu. – Meu pai advoga pelas liberdades civis. Os colegas dele acham que ele é um pouco parcial. – Ela piscou. – Mas, ele tem mais provas contra Deus do que qualquer pessoa que eu conheça. Os dois estavam do lado de fora agora, e Luke parou no meio do fluxo de pessoas. Ele a encarou. Prova contra Deus? Quem era essa menina? E por que ela, do nada, estava interessada nele? Ele piscou. Ela estava praticamente lendo a mente dele. – Humm... – Ele começou a andar novamente e deu de ombros. – Por que não? – Legal. – Ela colocou um pedacinho de papel no bolso da mochila dele. – Aqui está meu número de telefone. Ligue para mim para que a gente possa se encontrar. – Tá bom. – Ei, Luke... – O quê? – Eu queria falar com você desde o primeiro dia de aula. – Sério? Ela fez que sim com a cabeça. – Eu queria convidar você para uma de nossas reuniões. Luke piscou. O que ele estava fazendo aqui? Ele nem conhecia a garota.


– Que reunião? – A Aliança do Livre-Pensamento de Indiana. – Ela en-colheu os ombros, e algo tímido brilhou em seus olhos verdes. Isso a deixou mais atraente do que antes. – Sabe, um movimento que se dedica a promover o livre-pensamento, o ceticismo, o secularismo, o não teísmo e o humanismo. – Ela revirou os olhos e sorriu: – Enfim, esse é nosso mantra. – Certo. – Do que ela estava falando? Luke deu uma risa-da superficial. – Claro. – E aí? Você quer? – O quê? – Aparecer em uma reunião? – Ela chutou de brincadeira a ponta do tênis dele. – Ah, talvez, um dia. Não essa semana, tá? – Tá. – Ela hesitou. – Ligue para a gente fazer a tarefa. – Certo. – Ele deu alguns passos para trás. – A gente se vê. Ela acenou e seguiu na direção oposta. Luke atravessou o campus para assistir à próxima aula, perguntando-se durante todo o tempo sobre a menina e a certeza dela de que, entre ela e o pai, eles poderiam apresentar provas suficientes para refutar a existência de Deus. De todas as pessoas, por que ela o tinha escolhido? Lá estava ele, orando para que as coisas dessem certo com Reagan, pedindo a Deus provas de que Ele estava ali. E, em menos de dois segundos, ele é abordado por uma menina que era claramente tudo o que Reagan não era. Luke bufou enquanto seguia a passos largos para a próxima aula. Figuras. A menina era apenas o tipo de resposta que suas orações estavam colhendo nesses dias. O tipo que funcionaria bem como evidência em sua tarefa de comunicação. Não as evidências que todos que conheciam Luke esperariam que ele encontrasse – em defesa de Deus. Mas, em vez disso, evidências contra Ele. *** Era cada vez mais difícil se agarrar à esperança. Seis dias se passaram desde os ataques terroristas, e a existência de Landon tornou-se quase mecânica: comer, dormir, trabalhar no Marco Zero. De vez em quando, ele pensava em Ashley. Mas, de alguma forma, tudo o que tinha acontecido antes de sua chegada a Nova York parecia parte de um sonho, como se os escombros, a fuligem e a


morte fossem a única realidade no momento. Por duas vezes, segurou o telefone do hotel para ligar para ela, mas o que diria? Suas emoções estavam enterradas de forma tão profunda quanto às vítimas das Torres Gêmeas. A essa altura, as equipes de resgate haviam adquirido uma rotina automática, uma linha de montagem comum, na qual a sujeira de uma escavadeira era despejada aos pés dos supervisores e, em seguida, vasculhada, um balde de cada vez. Uma vez que não fossem encontrados restos mortais, o balde descia por um fio até um caminhão basculante à espera, esvaziado e enviado de volta ao topo pelo fio. Baldes e mais baldes e mais baldes. Quando o caminhão estava cheio, ele saía em direção à área de resíduos adequada, e outro caminhão ocupava seu lugar. Se vítimas ou partes das vítimas fossem encontradas, no entanto... – Achamos um corpo! – gritou uma voz à frente do fio. Landon ergueu os olhos, cansado. Sua garganta tinha o gosto estranho de cinzas barrentas, cinzas que todos sabiam que eram mais que cimento triturado e escombros. Eram também restos humanos. Ele tossiu e fitou o lugar onde o movimento estava interrompido. Dois dos trabalhadores do necrotério aproximaram-se com um saco para cadáveres e uma maca portátil. Landon viu quando uma parte pequena – mão ou pé – foi colocada dentro do saco. Um capelão apareceu e pôs os dedos sobre a maca. Enquanto o saco era trazido para baixo, capacetes eram removidos e cabeças baixavam. Landon estava muito longe para ouvir a oração. Mas, quando ela chegou ao fim, o saco foi colocado na maca e levado para um necrotério improvisado na parte de trás de um caminhão frigorífico. No momento em que a parte do corpo era adequadamente removida, os trabalhadores voltavam a escavar, vasculhar e transportar o balde. Era assim há dias, hora após hora após hora. Raramente eles encontravam um corpo inteiro. Quando isso acontecia, normalmente era um bombeiro. Os homens falavam sobre isso enquanto tomavam café e comiam lanches e eram unânimes quando diziam que o equipamento de proteção havia ajudado a preservar o corpo desses bombeiros contra o calor. Além disso, muitos deles estavam nas escadas, o que significava que tiveram menos chance de serem esmagados entre dois andares. Até agora, no entanto, não havia sinal de Jalen. A despeito do tempo passado, nenhum dos trabalhadores ou voluntários queria se referir a essa operação como nada menos que uma tentativa de resgate. Eles falavam da possibilidade de pessoas vivas estarem presas, de bolsas de ar e de cavidades onde as vítimas poderiam viver por semanas.


Especialmente porque tinha chovido. A água podia ter escorrido para áreas onde pessoas esperavam pelo resgate. A umidade podia ter enchido pequenas fendas e bolsas de ar e dado às vítimas algo para beber, uma maneira de sobreviver. Mas, pessoalmente, Landon achava difícil acreditar nessas especulações. Como algum deles poderia pensar que havia sobreviventes nas ruínas fumegantes? A verdade era algo que nenhum deles queria admitir: eles já não estavam trabalhando por um resgate. Eles estavam trabalhando por uma recuperação. Ah, o ritmo ainda era rápido e frenético, como se cada minuto contasse e, em algum lugar, de alguma forma, eles fossem encontrar pessoas vivas. Mas, com o passar das horas, a realidade vinha à tona, e, agora, quase uma semana depois dos ataques, Landon perdeu toda a esperança de encontrar alguém vivo, até mesmo Jalen. Não que isso importasse. Mortos ou vivos, Jalen e os outros mereciam ser encontrados. Na verdade, quando o corpo de um bombeiro ou de um policial era encontrado, a cerimônia em cima dos escombros mudava um pouco. O saco para corpo era colocado em uma maca, como sempre, mas, então, era coberto com uma bandeira norte-americana – um tributo apropriado. – Ei. – O trabalhador ao lado de Landon lhe deu uma coto-velada. – Quanto tempo você acha que um homem conseguiria viver preso lá embaixo? Digamos que ele tivesse ar e água. Landon olhou por cima do ombro. O homem ao seu lado era um bombeiro aposentado com trinta anos de experiência. Landon tinha conversado com ele mais cedo naquele dia. Seu nome era Chuck e, como a maioria deles, ele tinha visto os ataques e a queda das torres pela televisão. Entretanto, os dois filhos de Chuck, jovens pais com seus 20 e poucos anos, faziam parte do Corpo de Bombeiros de Nova York. Ambos estavam soterrados em algum lugar. Landon ficou olhando para o monte de entulho na frente deles. Os filhos do homem estavam mortos, como todos os outros quatrocentos bombeiros desaparecidos. – Duas semanas. – Landon mordeu o lábio, com o tom confiante. – Três, talvez. Chuck fungou e baixou a testa. Fez um rápido sinal com a cabeça. – Foi o que pensei. Três semanas. Deus, dê-lhe forças. Dê-nos força a todos. Eu nunca deixarei você, nunca abandonarei você. As palavras fizeram-no se lembrar de uma passagem bíblica à que havia se apegado antes, uma que Deus lhe trouxe à mente nos dias depois de ter ficado preso no conjunto de apartamentos em


chamas em Bloomington. Agora, as palavras eram sussurradas em um lugar no fundo de sua alma, um lugar que estava protegido do horror da tarefa em questão. Landon estava agradecido. Lembrar-se de Deus aqui, no meio da morte e do desespero total, era como receber um bocado de ar fresco e agradável. Contudo, era algo que acontecia com menos frequência a cada dia que passava. – Espere um minuto. Levantem! – O homem que estava à frente ordenou em voz alta, e as equipes de resgate ficaram paralisadas, dando-lhe total atenção. – Temos uma bandeira. – O homem deu três passos para cima da pilha de escombros e acenou para os homens atrás dele na fila. – Eu preciso de ajuda. Quatro bombeiros uniformizados juntaram-se a ele e começaram a puxar a bandeira norteamericana dos escombros. Ela estava em um poste, provavelmente uma daquelas que ficavam no pátio interno perto do topo do World Trade Center. Várias bandeiras foram encontradas desde que as tentativas de resgate começaram, e cada uma era um estímulo para que os homens trabalhassem com mais afinco, mais rápido que antes. Com muito cuidado, os bombeiros tiraram pedaços de cimento e vigas quebradas de cima da bandeira até que conseguiram levantá-la dos escombros. Então, sem dizerem uma palavra, os homens levaram-na para um lado da pilha alta de aço retorcido e de placas de cimento e fincaram-na nas cinzas. Um silêncio sobreveio à multidão quando a bandeira esfarrapada se abriu sobre os destroços das Torres Gêmeas. Pessoas a quase cem metros de distância tiraram o chapéu e pararam para observar. Então, por cima do som de equipamentos pesados e de caminhões a diesel, uma canção irrompeu pela linha das equipes de resgate. Deus abençoe a América... Começou baixa, mas cresceu à medida que outras vozes se juntaram. Landon sentiu as lágrimas arderem em seus olhos quando a música chegou ao último verso: Meu lar, meu doce lar!, e, em seguida, recomeçou. Ainda cantando, eles retomaram a brigada, passando baldes de mão em mão. A despeito do cansaço de trabalhar tantos dias seguidos, a despeito das enormes perdas que todos tinham sofrido, a despeito das gargantas ásperas por causa da fuligem, da fumaça e das cinzas todos os dias, a despeito de tudo, eles cantavam. E, naquele lugar tranquilo na alma de Landon, o lugar pelo qual orou que iria mantê-lo são, Landon implorou a Deus para fazer exatamente isso. Abençoar a América e aqueles que a amavam. Mesmo que nada voltasse a ser como era antes de 11 de Setembro.


CAPÍTULO 23 Pela primeira vez em anos, Ashley sentiu urgência com relação à vida. À luz dos ataques contra os Estados Unidos, ela não tinha tempo a perder, temendo o que as pessoas pensavam a seu respeito, preocupando-se com a possibilidade de tê-las desapontado. Ashley tinha um filho para amar, uma família para cuidar, um irmão que já não a odiava. Um Deus que talvez, apenas talvez, ainda não tivesse se cansado dela. E uma casa cheia de residentes na Sunset Hills que estavam desesperados por alguém que se importasse com eles. Os arquivos que Ashley tinha feito sobre Irvel e os outros estavam quase completos. Ashley tinha lido outros artigos na internet sobre a abordagem passado-presente para ajudar os pacientes com Alzheimer, e o que leu fazia sentido para ela. A ideia era encontrar esse lugar no tempo e na memória onde cada paciente com Alzheimer se sentisse mais à vontade e, então, permitir que houvesse a maior interação possível em torno desse período de tempo. Isso poderia significar redecorar uma sala, evitar certos assuntos ou permitir outros, o que quer que ajudasse os pacientes a se sentirem mais felizes, mais em paz. De acordo com algumas das pesquisas mais recentes, quando os pacientes se sentiam à vontade, eles tinham mais chances de se lembrar das coisas importantes que tinham esquecido – as pessoas, os lugares e as imagens que antes significavam tudo para eles. Ashley estava convencida de que, pelo menos, alguns dos residentes da Sunset Hills poderiam se beneficiar com as ideias do passado-presente. O primeiro passo para colocá-las em prática era aprender o máximo possível sobre o passado dos pacientes. Ashley tinha feito isso. Agora era hora de colocar algumas das informações em prática. Ela começou com Edith, que ainda gritava todas as manhãs quando chegava ao banheiro. Durante algum tempo, Ashley fez anotações especiais sobre o comportamento de Edith, a atitude dela enquanto seguia da cozinha para o banheiro. A mulher ficava distante e, às vezes, confusa, dependendo do café da manhã, se ela brigasse ou não. Contudo, não havia nela nenhuma expressão de medo, nenhum sinal de que estava sendo perseguida por uma bruxa – não até que chegasse ao banheiro. Nas manhãs em que Belinda estava lá, ela fazia uma pausa no trabalho do escritório, dava um sedativo a Edith, dava-lhe um banho e a colocava na cadeira. Dessa forma, a pobre idosa ficava


sonâmbula pelas manhãs e não gritava de modo algum. Mas, Ashley odiava a ideia de medicar Edith. Tinha de haver outra maneira. Então, quando Belinda anunciou que passaria a semana fora em um seminário, Ashley soube que havia chegado o momento de fazer algumas experiências. Nas duas primeiras manhãs, ela ficou observando enquanto Edith seguia em ziguezague para o banheiro. Assim que os gritos começavam, Ashley estava ao lado dela. Cada vez, Edith parecia ficar do mesmo jeito: tesa como uma vareta, os punhos cerrados, os olhos bem apertados, a boca formando um círculo perfeito. – A bruxa! É uma bruxa! Socorro. Alguém me ajude! – Em seguida, ela dava os gritos mais altos, estridentes e aterrorizantes que Ashley já tinha ouvido. Ela levava trinta minutos ou mais para convencer Edith a sair do banheiro e ir para sua cadeira, para convencê-la de que a bruxa não estava atrás dela e para parar seus gritos. Foi um exercício de frustração, e Ashley leu o arquivo de Edith várias vezes do começo ao fim, procurando uma explicação para o comportamento da mulher e uma pista para mudá-lo. No terceiro dia, Ashley tentou outra coisa. Depois do café da manhã, quando Irvel estava tomando seu chá de menta e Helen estava convencida de que todas na sala tinham sido revistadas, Edith se levantou e começou a arrastar os pés em direção ao banheiro. Dessa vez, Ashley foi atrás dela, quase encostando no cotovelo da idosa. Elas viraram no corredor para entrar no banheiro juntas quando Edith viu o armário espelhado de remédios acima da pia. Por uma fração de segundo, Edith encarou sua própria imagem com um silêncio horrorizado. Em seguida, fechou os olhos e começou a gritar. Ashley olhou para Edith e, em seguida, para o espelho. Ela se deu conta no mesmo instante. A mulher estava com medo de seu próprio reflexo! Claro! Tudo fazia sentido. Tendo vencido um concurso de beleza, Edith tinha sido uma mulher cuja única certeza na vida tinha sido sua própria imagem. O mal de Alzheimer deve ter levado seu cérebro a ativar um mecanismo de segurança, assim como diziam os artigos na internet. No caso de Edith, o mecanismo de segurança era a crença de que, de alguma forma, ela ainda tinha sua beleza. Em sua mente, ela não era uma paciente com Alzheimer que estava envelhecendo e esperando morrer em uma casa de repouso. Ela era jovem e cheia de vigor, vivendo seus dias em um lugar imaginário onde ainda era bonita, um lugar onde as marcas do tempo não tinham causado danos à sua pele clara e cabelos castanhos, quando seus olhos não ficaram caídos e seu queixo ainda estava firme. Querida e doce Edith. Ela não estava vendo uma bruxa no banheiro. Estava vendo seu próprio


reflexo, a pessoa que havia se tornado. Ashley ajudou a mulher a cumprir a rotina: dar passos pequenos e tímidos em direção à sua cadeira, acalmar-se e ficar confortável. Então, sem hesitar, foi ao armário e encontrou um lençol velho. – Querida – gritou Irvel da sala de jantar –, vamos tomar chá?– Só um minuto, Irvel. Já vou aí. Era hora do banho, mas Ashley tinha de fazer algo primeiro. Levou o lençol ao banheiro de Edith e cobriu o espelho, dobrando as pontas do lençol nas beiras do armário para que não caísse. *** Na manhã seguinte, quando Edith foi para o banho, Ashley novamente a seguiu em silêncio. – Ela já foi revistada. – Helen acenou para Ashley. Sem dizer uma palavra, Ashley virou-se e fez que sim para Helen. Então, levantou um dedo e sussurrou: – Eu já volto. Edith virou o corredor, como de costume, entrou no banheiro e olhou para o espelho coberto. Em seguida, ela se virou para Ashley e baixou a testa. – Será que eu comi meus ovos hoje? Ashley queria levantar a mão fechada e gritar de alegria. Ela havia conseguido! Tinha desvendado o mistério! Enquanto Edith não fosse obrigada a olhar para sua própria imagem, poderia continuar a acreditar que a idade nunca tinha chegado para ela, continuar a viver no bem-estar da beleza que guardava na lembrança, sem nunca mais ter medo de uma bruxa. Depois do almoço, Ashley rabiscou detalhes sobre o incidente na pasta de Edith, junto com este conselho: mantenha Edith longe de espelhos. Belinda não voltaria nos próximos dias, e Ashley queria aproveitar ao máximo a ausência dela. No início daquela tarde, a filha de Helen, Sue Brown, apareceu na porta da frente. Ashley estava absolutamente certa de que Helen estava vivendo na década de 1960, quando Sue era uma adolescente e as duas passavam a maior parte das horas livres juntas, antes de Sue ter se casado e se mudado para longe, e tudo sobre a vida de Helen começar, pouco a pouco, a se deteriorar. Ashley foi ao encontro de Sue na entrada e levou-a rapidamente para um lugar tranquilo na sala de jantar. Elas se sentaram com as cadeiras de frente uma para a outra. – Eu tive uma ideia. – Ashley abriu o arquivo de Helen e o esparramou sobre a mesa. – Eu estive pensando sobre o passado de sua mãe, as coisas que você me contou, as fotos que ela guarda na gaveta da cômoda.


– Sim, eu queria lhe agradecer por isso. – Sue olhou para o arquivo. – Ninguém nunca perguntou sobre o passado de minha mãe. – Bem... – Ashley fez sinal para o arquivo. – Segundo no-vas pesquisas, se você descobrir mais sobre a história de um paciente, talvez seja possível descobrir onde ele está preso, em que período de tempo da vida dele. – Ela olhou para Sue novamente. – Isso faz sentido? – Eu acho que sim. – A mulher encostou-se na cadeira e pôs a bolsa no chão. – Ao que parece, alguns pacientes com Alzheimer real-mente se saem melhor se você lidar com eles como se eles estivessem certos. – Ashley sentiu seu corpo tenso, certa da resposta irritada que viria em seguida. – Em outras palavras, concorde com o que eles estão pensando. Reaja como se realmente fosse, digamos, 1965, ou seja qual for a época com a qual eles se sentem confortáveis. – Isso parece maravilhoso. – A sensação de alívio fez algu-mas das linhas de expressão no rosto de Sue desaparecerem. – Como eu posso ajudar? Ashley olhou para ela. Como ela poderia ajudar? Essa não era a resposta que Ashley estava esperando. Belinda tinha dito que os familiares queriam que seus entes queridos fossem mantidos no aqui e agora. Mas, se essa era a reação de Sue... Ocorreu-lhe, então, que talvez os familiares não soubessem o que queriam. Talvez eles simplesmente concordassem com Belinda e com a filosofia de Lu. Afinal de contas, o que os parentes poderiam fazer? Belinda e Lu eram as especialistas. Se dissessem que os pacientes com Alzheimer deveriam ser lembrados da realidade, então os familiares quase teriam de concordar. A voz de Ashley ficou calma. – Eu pensei que... você ficaria zangada comigo. – Zangada? – Sue olhou para Ashley, confusa. – Eu quero qualquer coisa que faça minha mãe se sentir melhor. A maneira como ela age agora, eu mal a conheço. – Certo. – Ashley engoliu em seco e olhou para o arquivo de Helen. – Bem, aqui está minha ideia. Ashley explicou que Helen parecia estar presa na década de 1960. – Ela não consegue imaginar ter outra coisa que não seja uma filha adolescente. Sue fez um sim com a cabeça. – Então... – Ashley não se continha de entusiasmo. – Você poderia ter uma conversa melhor com sua mãe se não mencionasse que é filha dela. – Você acha? – Eu acho. – Ashley deu a Sue um sorriso afetuoso. – Diga a ela que você veio por duas razões. Para fazer uma visita... e para falar de Sue.


– E eu? – Sue inclinou para frente, a expressão curiosa. – Certo. – Ashley apontou para o arquivo. – Eu acho que se você disser a ela que foi revistada, garantir que não é uma espiã, mas não insistir em que é filha dela, então, talvez, ela queira conversar com você. Você poderia até dizer que conhece Sue, encontrar esse interesse comum que somente vocês duas compartilham. Sabe, histórias sobre sua adolescência, lembranças engraçadas, músicas que vocês cantavam juntas, as coisas que vocês faziam. Fale sobre tudo isso. – Como se eu só conhecesse Sue? – Isso mesmo. – Ashley podia sentir seu entusiasmo au-mentar. Diferente da pintura, o tempo que passava com as pessoas na Sunset Hills era o trabalho mais emocionante que já tinha feito. – Assim, ela não vai ter medo de você. Olhe só – Ashley respirou firme –, sua mãe fica muito assustada quando você aparece e diz que é Sue. Ela ainda pensa em você como uma adolescente, de 18, 19 anos. Ela não quer ver uma mulher com seus 50 e poucos anos passar por aquela porta dizendo ser Sue. Uma luz de compreensão brilhou nos olhos de Sue. – Eu entendo. Mas, se falarmos sobre Sue, podemos começar a ser amigas. – Exatamente. – Tudo bem. – Sue passou a língua no lábio inferior. – Es-tou nervosa. Mas estou pronta. Pode trazê-la. Ashley praticamente saltou da cadeira e, um minuto depois, levou Helen à sala. – Helen, tem alguém querendo ver você. Ela veio lhe fazer uma visita. Helen franziu o nariz e olhou para Sue. – Eu já vi essa mulher antes. – Ela olhou para Ashley. – Ela é uma espiã. Uma sombra de dor atravessou o rosto de Sue, mas durou pouco. – Não, Helen, eu não sou uma espiã. Eu fui revistada. Helen deu uma olhada cautelosa em Sue. – Você foi? – Seus olhos se voltaram para Ashley nova-mente. – Ela foi? – Sim, Helen. Eu a revistei antes de ela entrar. Ela não é uma espiã. – Tudo bem, então. – A suspeita desapareceu dos olhos de Helen. – Por que você está aqui? Sue sorriu e pegou a mão de Helen. – Eu quero falar sobre Sue. Nenhuma das duas falou por um instante. Helen piscou uma vez, depois mais uma. – Sue? – Seu tom, de repente, foi suave, cheio de saudade e tristeza. – Você conhece minha Sue?


Com a maior discrição possível, Ashley puxou a cadeira ao lado de Sue e ajudou Helen a se sentar. Então, deu um passo para trás e encostou-se na parede. Até aqui, tudo bem. Era a primeira vez que Helen estava disposta a se sentar e conversar com a filha desde que Ashley começou a trabalhar na Sunset Hills. Provavelmente muito mais tempo. Sue ainda segurava a mão da mãe. – Eu conheço Sue muito bem. Ela está ótima. Ela... ela fala muito sobre você. A expressão de Helen era quase pueril. – Ela fala? – Sim. – O que ela diz? – Ela se lembra de quando vocês duas iam à biblioteca e escolhiam livros. – Sue levantou a outra mão e colocou-a delicadamente sobre os dedos da mãe. – Você se lembra? – Sim. Lemos As crônicas de Nárnia. – Isso mesmo. – Sue piscou para conter as lágrimas. Ashley queria pular pela sala, aos gritos. Estava dando certo! Helen e a filha estavam, de fato, encontrando um interesse comum, tendo uma conversa. Helen ficou olhando para o espaço e, em seguida, voltou a olhar para Sue. – Nós duas líamos perto da lareira e, quando termináva-mos, trocávamos de livros. Depois, conversávamos sobre as histórias. Às vezes, tomávamos leite quente nas canecas azuis. – Sim. – Sue enxugou uma lágrima no rosto. – Sue conta que vocês duas se divertiam muito juntas. Helen concordou. Em seguida, em um piscar de olhos, sua expressão mudou. A preocupação, o medo e a desconfiança voltaram, privando Helen até da alegria da lembrança. Ela examinou Sue, os lábios franzidos, os olhos estreitos de raiva. – Alguém a roubou de mim. Minha Sue. – Não... Ashley ficou na expectativa. Vamos, Sue. Não se entregue. Deu mais um passo para trás, não querendo interromper. Conscientemente, Sue levantou os cantos da boca. – Sue está ótima, Helen. Foi ela que me disse. Ela está feliz e bem, e quer que você saiba. Helen jogou-se para trás e bateu na mesa, fazendo Sue saltar. – Então, onde está ela? Por que ninguém me diz onde ela está?


– Bem... – Sue parecia nervosa. – Ela mora longe. Mas, ela está planejando fazer uma visita a você. A nuvem de ansiedade e de raiva desapareceu. – Ela está? – Sim. – Lágrimas brilharam nos olhos de Sue novamente. – Até lá, ela me pediu para visitar você. Assim, eu posso falar dela com você. Ashley inclinou a cabeça, comovida com o esforço que Sue estava fazendo. Devia ser muito doloroso estar sentada lado a lado com a mãe e, mesmo assim, sentir-se a um milhão de quilômetros de distância. – O que mais você sabe sobre ela? – Helen acomodou-se na cadeira e olhou atentamente para Sue. Era o modo mais normal que a mulher tinha de olhar desde que Ashley a conheceu. A conversa entre mãe e filha durou quase uma hora. No dia seguinte, Sue voltou. Dessa vez, falou sobre uma viagem que ela e a mãe tinham feito quando ela era adolescente. Mais uma vez, elas passaram a tarde sem um único acesso de raiva ou acusação de comportamento dissimulado da parte de Helen. No último dia de ausência de Belinda, Ashley fez uma lista das mudanças na Sunset Hills e ficou maravilhada. Helen começou a dar menos tapas e a bater em coisas com menos frequência, e Edith parecia mais focada durante as conversas com Irvel. A estratégia passado-presente estava funcionando! Trabalhar com Irvel era mais fácil do que com as outras, é claro, porque o lugar onde ela vivia era óbvio. Irvel estava presa em um momento do passado em que seu Hank era forte o suficiente para pescar todos os dias, em que tomar chá de menta com as amigas era o momento central de toda tarde. Semanas atrás, Ashley pediu à sobrinha de Irvel, uma advogada que morava a uma hora de distância, para reunir o maior número possível de fotografias de Hank. Hank e Irvel, Hank e os filhos deles, Hank sozinho – não importava, desde que Hank estivesse na fotografia. Uma caixa de fotografias tinha chegado pelo correio nessa semana, e Ashley comprou molduras para várias delas. No início da tarde, enquanto os residentes da Sunset Hills tiravam um cochilo nas poltronas reclináveis, Ashley pendurou as fotografias na parede do quarto de Irvel – todas, menos uma delas. A foto que faltava era uma imagem em close-up de Hank com seus 20 e poucos anos, com o sorriso preguiçoso, que aparecia em todas as fotos, de orelha a orelha. A foto chamou a atenção de Ashley no momento em que ela a viu, o que a motivou a dar vida ao rosto do homem na tela. Dias


antes, ela a levou para casa e a colocou perto do cavalete. O retrato do homem ocupou todas as suas horas livres a partir daí, e ela ainda tinha o trabalho de alguns dias para fazer antes de poder mostrá-la a Irvel. Ashley mal podia esperar. Mas, por enquanto, a parede tinha dezoito fotos de Hank – um monumento ao homem e a tudo o que ele significou para Irvel ao longo dos anos. Ashley deu um passo atrás e examinou as imagens. O quanto era possível aprender com a arte fotográfica, com as expressões e ações das pessoas congeladas em um único momento de tempo. Hank Heidenreich era alto e bonito na época, um homem cujo sorriso e contato pareciam ser fáceis. As fotografias de Hank e Irvel mostravam seu braço solto ao redor dos ombros dela, o rosto tomado por um sorriso que se levantava nas bochechas e chegava aos olhos. As fotografias de Irvel também eram expressivas. Nos braços de Hank, Irvel tinha o olhar de alegria, de segurança e de paz absoluta. O amor deles, juntos, irradiava tanto que quase parecia afetar a qualidade da fotografia, como se o fotógrafo tivesse usado iluminação especial. Ashley ficou olhando para as fotografias por mais um instante e deixou a mente vagar. Onde estava Landon nesta tarde? Será que ele tinha encontrado Jalen? Ele estaria bem depois de tudo o que deve ter visto e feito no Marco Zero? Deus, por favor, ajude-o. Ajude-o a encontrar o amigo. Ajude-o a estar seguro. Por favor... Ela cumpriu sua promessa. Toda vez que pensava em Landon, ela orava, assim como ele havia pedido para ela fazer. Ele era um herói agora, sem dúvida. O jornal local dedicou duas páginas à matéria sobre como ele salvou a vida do menino em julho e agora era um dos que estavam vasculhando os escombros do World Trade Center. A mãe de Landon foi citada no artigo dizendo que centenas de moradores de Bloomington tinham enviado cartas de agradecimento ao seu filho pelos atos de heroísmo dele. Várias até com pedidos de casamento. Ashley suspirou. Ela telefonou para a mãe de Landon depois que o artigo foi publicado. – Como ele está? – Ela hesitou. – Estou... preocupada com ele. – Você quer dizer – a surpresa na voz da mãe dele pegou Ashley desprevenida – que ele não ligou para você? – Ainda não. – Eu sinto muito, Ashley. Eu teria lhe dado notícias antes. Ele está trabalhando todos os dias, às vezes dormindo doze horas seguidas antes de voltar para o Marco Zero. Eu estou surpresa por ele não ter ligado para você.


No fundo, Ashley estava surpresa também, mas deixou isso para lá. Landon sempre seria especial para ela, mas era claro que ele havia decidido seguir em frente com a vida. Já fazia mais de duas semanas que ele tinha partido, e não havia nenhuma notícia dele. Se ele estava recebendo propostas de casamento aqui em Bloomington, o mesmo provavelmente estava acontecendo em Nova York. Afinal de contas, por que isso a incomodava? Ela sempre soube que não era a pessoa certa para Landon Blake. E isso ainda era verdade, mesmo depois de ter-lhe contado sobre Paris. Mesmo orando por ele e indo à igreja nessas últimas semanas. Ela gostava da música e até mesmo das mensagens do pastor Mark. Contudo, não era uma mulher de fé, praticamente errada para um homem tão comprometido com Deus como Landon. Ele precisava de alguém como Kari ou Erin. Mas, se Landon não era o homem certo para ela, quem seria? Quem iria enfeitar as paredes de seus últimos dias? As perguntas estavam suspensas no ar da incerteza quando Ashley foi para a cozinha. Ela esvaziou a máquina de lavar louça enquanto as mulheres cochilavam, mas, ainda assim, não tinha respostas para si mesma. Quando Irvel acordou, Ashley levou-a para o quarto e, depois, recuou para ver a surpresa da idosa. – Meu Deus, querida. Hank deve ter passado por aqui en-quanto eu estava dormindo. – Ela estendeu a mão na direção das fotografias, uma de cada vez, passando lentamente pela coleção. – Ele é, sem dúvida, bonito, não é? Ashley engoliu a emoção engasgada na garganta. – Ele é, Irvel. Muito bonito. Irvel balançou a cabeça e lançou um olhar para Ashley atrás dela. – Às vezes, eu acho que o homem passa tempo demais pescando. Eu já não tenho um dia a sós com ele faz... – Ela baixou os olhos por um instante e, depois, voltou a olhar para Ashley – uma semana, pelo menos. – Você gostou das fotografias? – Se gostei delas? – Irvel sorriu, e o brilho em seus olhos atravessou as cataratas. – Querida – baixou a voz –, é como se ele estivesse aqui no quarto. Como se nunca tivesse ido pescar. Ashley sentiu o calor do sorriso de Irvel nos lugares mais profundos e escuros de seu ser. Afinal de contas, por isso ela havia aceitado o trabalho. Para que as camadas endurecidas de seu coração


fossem removidas, para que ela pudesse aprender a ter sentimentos novamente. – Vamos, Irvel, vamos fazer um lanche. – Ashley estendeu a mão. Irvel deu uma última olhada para a parede de fotografias e se virou para Ashley. Ao fazer isso, ela inclinou a cabeça, com os olhos completamente vazios de quem não reconhecia Ashley. – Desculpe, querida. Eu acho que não me apresentei a você. Ashley sorriu e passou o braço pelo de Irvel enquanto saíam do quarto. – Eu sou Ashley. Eu trabalho aqui. *** Ashley trabalhou dois turnos naquele dia e, assim que os residentes dormiram, pegou os arquivos e examinou um em particular, o que era de Bert. Uma carta do filho de Bert tinha chegado naquele dia mais cedo. Ashley só teve tempo para lê-la agora. Passou o dedo por debaixo da aba do envelope e tirou uma página com espaçamento simples. Prezada Sra. Baxter, Primeiro, eu gostaria de agradecer por seu esforço de tentar um contato com meu pai. Se você acha que saber mais sobre o passado dele irá, de alguma forma, ajudá-lo, fico feliz em dar todas as informações necessárias. Dou meu apoio a você e a tudo o que puder fazer com os detalhes que lhe dei. Eu estive pensando na história que lhe contei antes e me esqueci de uma coisa. Pode não ser importante, mas eu acho que você deveria saber.

Ashley sentiu o coração acelerar. Ela precisava do maior número possível de fatos sobre o histórico de Bert. Tinha de haver, em algum lugar, uma explicação para os círculos incessantes que ele fazia. Correu os olhos pela carta para ler mais adiante. Eu disse que meu pai trabalhava com cavalos, mas não disse como. Papai era um seleiro; ele fazia selas. Fazia as melhores selas da região e ganhava mais dinheiro assim do que cuidando da fazenda de gado leiteiro.

A carta continuou a explicar que a fazenda pertencia à família havia anos e praticamente se mantinha. Quando jovem, Bert não via tanta importância em supervisionar uma operação autossuficiente. Então, contratou homens para manter a fazenda e montou uma loja onde começou a fazer selas. Pessoas envolvidas com cavalos de todo o país compravam as selas de meu pai, continuou a carta. Ele passava horas todos os


dias mexendo com couro, passando óleo naquelas selas até brilharem. Ele tinha mais orgulho desse trabalho do que de qualquer outra coisa que já tinha feito.

A respiração de Ashley ficou presa na garganta. Bert passava horas todos os dias passando óleo nas selas? Imaginou como Bert estava agora, como ele ficava todos os dias. Aquele olhar determinado, vago – levado a fazer círculos ao longo da beira da cama o dia todo. De repente, fez sentido. Bert não estava alisando as dobras do edredom. Ele estava esfregando as selas, preso em uma época em que seus dias tinham propósito e suas ações eram apreciadas por inúmeros clientes. Ashley colocou a carta dentro do arquivo de Bert e apoiou a testa na ponta dos dedos. Podia estar errada sobre Bert, mas devia haver uma maneira de descobrir. O que ela poderia fazer? Bert não falava, que dirá ouvi-la! Saber que ele fazia selas não significava nada se ela não pudesse usar isso de alguma forma para tentar um contato com ele. Por quinze minutos, Ashley ficou sentada ali procurando uma solução. Então, teve uma ideia. Ela sabia exatamente o que fazer para diminuir a distância entre o passado e o presente de Bert. Mas, isso levaria alguns dias. E isso significava parar com tudo quando Belinda estivesse ali. Mas isso não importava. O que Ashley fazia durante as horas como assistente social não precisava incomodar Belinda desde que as regras da casa fossem obedecidas. E não havia regras que proibissem o que ela estava para fazer. Além disso, quem sabia o que poderia acontecer se ela estivesse certa? Seu plano poderia mudar a vida de Bert e ser a maior prova de todas de que o experimento de Ashley estava dando certo. Agora, era simplesmente uma questão de colocá-lo em ação.


CAPÍTULO 24 Landon estava mais que exausto. Após quatro semanas no Marco Zero, fadiga e cansaço extremos eram as condições permanentes para ele e para os outros. Os dias em que passavam vasculhando escombros e localizando pedaços de corpos estavam causando sofrimento, deixando muitos dos socorristas deprimidos e desorientados, como se o tempo, a vida e todo o senso de normalidade tivessem deixado de existir. O restante dos Estados Unidos estava voltando à vida. Havia notícias de que a bolsa de valores estava se estabilizando. As empresas tinham parado de fazer demissões drásticas. O antraz, a bactéria mortal cujos esporos foram encontrados em gabinetes políticos e centros postais após os ataques terroristas, não aparecia mais tanto assim nos noticiários. Em vez disso, as manchetes eram preenchidas com o esforço de guerra iminente: Operação Liberdade Duradoura. Embora oitenta mil trabalhadores do setor aéreo tivessem sido demitidos depois dos ataques, as pessoas estavam voando novamente. Para a maioria dos Estados Unidos, parecia que o pesadelo do dia 11 de setembro estava diminuindo. Contudo, no Marco Zero, a tarefa tinha apenas começado. Segundo os funcionários, talvez levasse um ano para que os escombros das Torres Gêmeas fossem completamente explorados e removidos do coração da cidade de Nova York. Os jornais relatavam que noventa mil toneladas de entulho haviam sido retiradas do local somente nos primeiros onze dias. O peso real da pilha de entulho era maior do que qualquer um deles poderia imaginar. Ao mesmo tempo, as equipes de resgate tinham recuperado corpos ou partes de corpos de menos de trezentas pessoas. E, quanto mais cavavam os escombros, menos restos humanos eles encontravam. No entanto, muitos corpos foram finalmente recuperados, e o número ficava claramente muito aquém dos milhares de desaparecidos, aqueles incinerados quando os aviões se chocaram contra as torres ou pulverizados quando os edifícios desabaram. Os últimos relatórios indicavam que mais de quatro mil pessoas do World Trade Center estavam desaparecidas – vítimas de mais de sessenta países. A rotina de Landon tinha mudado um pouco desde seu primeiro dia no local do desastre. Mas nos lugares reservados de seu coração, as sutis diferenças eram suficientes para alarmá-lo. Ou não teria sido assim se ele não estivesse tão exausto? Ele saiu da linha da brigada de baldes e desceu o quarteirão com dificuldade em direção à rua do


Canal. Ultimamente, ele estava almoçando no Nino’s, um restaurante não muito longe do Marco Zero. Desde o dia 12 de setembro, o Nino’s estava servindo refeições gratuitas para as equipes de resgate. Os voluntários, dentre eles muitas mulheres, lotavam o lugar. Eles usavam tocas de papel e aventais e, às vezes, ficavam em torno das mesas de bombeiros mais tempo que o necessário, procurando uma maneira de serem úteis. Landon entrou e esperou até que seus olhos se adaptassem à iluminação fraca. Examinou a sala e encontrou um lugar em um canto. Acenando para alguns bombeiros ao longo do caminho, ele parou em uma mesa tranquila e se acomodou ali, com as pernas doendo por causa do turno da manhã. Um zumbido percorria seu corpo cansado, e ele sentia náuseas. Os antebraços caíram como âncoras na mesa. Ele deixou a cabeça cair para frente. Onde o Senhor está, meu Deus? O pensamento pairou sobre o ar viciado por um tempo e desapareceu. Quanto tempo fazia que ele não lia a Bíblia ou realmente compartilhava seu coração com Deus? Ele sabia qual era o problema. Trabalhar no Marco Zero fez com que ele se sentisse isolado, como se nem mesmo Deus pudesse entender como ele se sentia. Landon respirou fundo e tossiu. A temperatura lá fora estava caindo, mas seu corpo estava quente e suado no uniforme. Ele se sentou novamente, secando a testa com a manga da jaqueta. Sua fé ainda estava intacta. Nada poderia abalá-la. Mas em toda a sua vida ele nunca tinha se sentido tão longe de tudo o que era importante para ele: Ashley, sua família, seu Deus. Até mesmo suas razões para se tornar bombeiro pareciam confusas, filtradas pela experiência dolorosa de trabalhar no Marco Zero. Uma voluntária loura usando um suéter apertado e um batom brilhante trouxe-lhe um copo de água e colocou-o na frente dele. Esperou por um instante ao lado da mesa e perguntou. – Você está bem? Os cantos da boca de Landon levantaram-se mecanicamente. Ele não estava com vontade de conversar. Queria comer e voltar ao trabalho. – Sim. Eu estou bem. Bem? Landon respirou fundo enquanto observava a voluntária se afastar. Nada poderia estar mais longe da verdade. O desespero penetrou em cada milímetro de sua alma por causa de uma verdade muito dolorosa: eles ainda não tinham encontrado nenhum sinal de Jalen. Landon não tinha conseguido fazer a única coisa à que tinha vindo: encontrar o amigo vivo ou morto. Em vez disso, tinha assumido o papel de uma máquina, uma máquina que não deveria notar celulares quebrados, maços de dinheiro e alianças de casamento no meio dos escombros nas centenas


de baldes que passavam por suas mãos a cada dia. Uma máquina dedicada a recuperar os mortos, nada mais. A voluntária loura estava de volta. Dessa vez, tinha uma bandeja com um sanduíche bem grande de peru e uma pilha de biscoitos de chocolate. Colocou-os sobre a mesa e deslizou no banco à frente dele. Landon levantou a cabeça e a examinou. Talvez ela tivesse 20 e poucos anos, mas seus olhos pareciam ter 30, pelo menos. Ele pegou o sanduíche. – Obrigado. – Não tem de quê. – Ela estendeu o queixo, com o tom de voz suave. – Você não parece bem. – Sim, bem... – Landon não reconheceu a própria voz. – Não consigo encontrar meu amigo. A loura sabia bem como conduzir uma conversa em uma situação como essa. Ela esperou, deparando-se com o olhar dele. – Sinto muito. Landon deu de ombros. – Não importa. Ele se foi. Como os outros. – Ele era bombeiro? – Ela cruzou os braços. – Sim. – Landon inclinou-se para trás e entrelaçou os de-dos atrás da cabeça. Os voluntários já tinham falado com ele antes, mas nenhum se sentou e se juntou a ele no almoço. A distração era quase agradável. – Eu sou Kaye. – Ela estendeu a mão. Landon segurou-a, mas apenas o tempo suficiente para ser educado. Ele não disse seu nome. – O que a traz aqui? – Ele estendeu as pernas e, por aci-dente, encostou nas dela ao fazer isso. – Eu trabalhava no World Trade Center. – Seu olhar se voltou brevemente para as unhas pintadas. – Eu fazia reservas para o restaurante. Sabe, o famoso, no topo. Landon deu uma mordida no sanduíche e esperou. – Era para eu trabalhar naquele dia, mas meu irmãozinho estava doente. – Ela se serviu de um gole da água de Landon. – Ninguém que eu conhecia conseguiu sair. A tristeza tomou conta de Landon, e, por um longo tempo, ele a olhou nos olhos. Os dois compartilhavam algo que todos no Marco Zero pareciam ter em comum, algo que o restante do mundo não conseguia entender. Uma dor, uma sensação de perda incalculável que somente aqueles no meio de tudo isso poderiam compreender plenamente. – Eu sinto muito. Ela encolheu os ombros. – Eu não tenho para onde ir. Estou sem trabalho, sabe. Então, vi que eu podia trabalhar aqui como


voluntária por um tempo. Pelo menos, eu estaria fazendo algo para ajudar. – Eu sei como é a sensação. Landon terminou seu almoço e ofereceu uma bolacha à jovem. Houve um silêncio confortável entre eles, como se a conversa sem sentido fosse um luxo do passado. De alguma forma, a experiência compartilhada fez Landon se sentir ligado a ela. Ela era uma completa estranha, mas sabia pelo que ele estava passando, pelo que todos estavam passando. – De onde você é? – Ela tomou outro gole de água. – Bloomington, Indiana. – A jovem à sua frente era a melhor coisa que seus olhos tinham visto desde que tinha chegado a Nova York. Como é mesmo o nome dela? – Você tem namorada? A pergunta ecoou em sua mente. Ele pôde imaginar Ashley, a forma como se sentia em seus braços, como estar com ela no verão passado quase o fez cancelar seus planos e ficar em Bloomington. Por que ele não tinha ligado para ela? Será que era porque o som da voz de Ashley, uma pontinha de interesse da parte dela, o teria colocado em um avião em uma hora? Landon ficou olhando para a mesa. Era exatamente por isso que ele não tinha ligado. E ele não podia ir para casa agora; só podia ir embora quando eles encontrassem Jalen. Ele deixou de lado a lembrança e olhou para a loura. Ela estava esperando uma resposta. – Mais ou menos. – Imaginei. – Ela se levantou e tirou a toca e o avental. – Olhe só, meu turno acabou. Quer dar uma volta? Fazia meia hora que ele tinha deixado o trabalho, mas Landon não tinha compromisso com ninguém, a não ser consigo mesmo. Os voluntários tinham autorização para entrar e sair quando quisessem, e nenhum deles precisava ser convidado a voltar ao trabalho. Ainda assim, ele tinha de voltar ao Marco Zero, não tinha? Que mal teria em passear com essa garota ou com quem quer que fosse? – Claro. – Ele deslizou no banco, levantou-se e pôs o ca-pacete de volta. Eles saíram, e o ar pungente os fez estremecer ao mesmo tempo. – O cheiro de morte. – A garota empoleirou-se ao lado dele. – Sem dúvida. – À luz do dia, Landon podia ver que a moça tinha pernas longas e as formas marcantes. Algo nela o fez se sentir quase vivo pela primeira vez depois de semanas. A meio caminho do local de resgate, eles encontraram um banco e sentaram-se.


– Bem... – Ela estava usando um par de tênis velhos e deu-lhe um chute de leve. – Por que você quis ser bombeiro? Landon precisava voltar ao trabalho. Talvez esse fosse o dia. Se eles, ao menos, pudessem trabalhar um pouquinho mais rápido. Se tivessem mais pessoas trabalhando na linha, encontrariam Jalen. Ele trouxe os pensamentos de volta à pergunta da garota. – Essa vontade estava em mim, algo que eu descobri quan-do estava na faculdade. Por motivos que Landon não conseguia entender, ele começou a contar-lhe sua história, como tinha ido para o Texas a fim de estudar zoologia, como tinha planejado voltar a Bloomington e montar uma clínica veterinária. – Então, conheci Jalen. – Landon olhou para a equipe de trabalho à distância do outro lado da rua. – Foi como encontrar um irmão que estava perdido. Nós éramos muito parecidos. A loura não disse nada, mas se aproximou um pouco do rapaz sem deixar de olhar para o rosto dele. Landon contou-lhe sobre como ele e Jalen haviam se tornado bombeiros voluntários e também sobre o incêndio na casa que mudou sua vida. – As unidades de apoio não conseguiram chegar ao local, então Jalen e eu nos juntamos aos outros à procura de vítimas dentro da casa. – Ele respirou rapidamente. – Jalen encontrou uma mulher caída do lado de fora do quarto. Havia chamas por todos os lados. – Landon inclinou a cabeça para trás, revivendo o momento aterrorizante na mente mais uma vez. Em seguida, voltou a atenção para a loura ao seu lado. – A mulher estava quase morta, mas, quando Jalen a levou para fora, ela gritou pelo bebê. – O filho dela ainda estava lá dentro? – Os olhos da loura arregalaram-se. Ela se aproximou ainda mais dele. – Sim, uma menina. – Landon alisou o queixo e, mais uma vez, ficou olhando para frente. – Eu peguei um cobertor e lutei contra as chamas à porta do quarto dela. – Ele fez que não com a cabeça. – Era tudo o que eu podia fazer para encontrar o berço. Levei-a para a mãe, mas já era tarde demais. – Ele se virou para a jovem ao lado dele. – A criança já estava morta. – Que horror! – Depois disso, eu sabia que não poderia ser veterinário. Nunca seria capaz de ajudar animais quando pessoas como aquela garotinha precisam de minha ajuda. Eles ficaram em silêncio por um tempo, observando os caminhões se afastarem, um a um, do monte de escombros.


Então, sem dizer uma palavra, a loura passou a mão na dele. – A vida é muito curta. Como se fossem cargas elétricas, arrepios emanaram do lugar onde a mão da jovem o tocou, percorrendo o corpo de Landon. Talvez houvesse vida nele depois de tudo. Provavelmente havia, uma vez que ele ainda podia reagir dessa maneira ao toque de uma mulher bonita. O que eu estou fazendo? A pergunta sacudiu as janelas de sua consciência. Eu preciso voltar ao trabalho. Mas, o momento era especial, mais real que qualquer outra coisa esperando por ele do lado de fora do Marco Zero. Ele inclinou o corpo na direção da loura e, antes que pudesse se levantar e ir embora, ele a abraçou, e eles começaram a se beijar. Alheios a tudo ao redor, Landon e a mulher beijaram-se longamente. Por fim, ela recuou e deu um sorriso largo para ele. – Você não me disse seu nome. Sua declaração foi como um balde de água fria. Ele tinha perdido a razão? O que ele estava fazendo sentado em um banco em uma rua de Nova York, beijando uma desconhecida? Delicadamente, ele se soltou dela e deu uma risada nervosa. – Landon. Landon Blake. – Ele fez que não com a cabeça. – Desculpe. Eu não sei de onde veio isso. A menina deslizou para mais perto dele novamente. – Não precisa se desculpar. Quero dizer, o que é a vida se a gente não puder dividir coisas com alguém? Especialmente depois... – fez um sinal com a cabeça em direção aos escombros – depois do que aconteceu. Ele fitou a moça. O que ela queria dizer com isso? Ele se levantou e ajeitou a jaqueta. – Olhe, eu tenho de voltar ao trabalho. – Colocou as mãos nos bolsos. – Obrigado por me ouvir. Antes que ele pudesse ir embora, ela lhe entregou um cartão com seu nome e telefone. É óbvio que já era sua intenção dar-lhe o cartão desde o início. – Ligue para mim. – Ela lhe deu um olhar astuto. – Meus pais viajaram. Estou sozinha hoje à noite. – Não havia em seu rosto sinal de desculpas nem de constrangimento. – Quem sabe se passássemos a noite juntos, seria mais fácil passar mais um dia aqui. Entendeu? Landon dobrou o cartão e colocou-o no bolso. – Obrigado. Talvez você tenha razão. – Ele acenou uma vez na direção dela e começou a caminhar em direção ao local do resgate. – Foi bom conversar com você. Quando estava a um quarteirão de distância, ele se virou e ficou aliviado por ela já ter ido


embora. O que havia de errado com ele? Ele realmente disse que talvez ela tivesse razão, que dois estranhos passando a noite juntos iriam, de alguma forma, eliminar o cheiro da morte no Marco Zero? Seguiu em direção ao local do resgate, mas algo estava brotando dentro dele, algo que tornava impossível voltar ao trabalho naquele momento. Ele virou uma esquina, subiu em um monte de concreto e aço retorcidos e chegou ao local onde ainda estava a cruz improvisada. Dezenas de buquês de flores rodeavam a base da cruz; centenas de mensagens tinham sido rabiscadas no aço ou amarradas com fitas à viga. Quase sempre as pessoas se reuniam aqui. Mas, nesse momento, no meio da tarde, Landon viu-se sozinho. De repente, o sentimento que estava brotando dentro dele veio à tona. Veio um grito muito baixo para ser ouvido acima da maquinaria pesada, mas, ainda assim, exauriu todo o seu corpo. Ele caiu de joelhos e baixou a cabeça. – Deus, o que eu estou fazendo? É como se o Senhor es-tivesse muito longe de mim! Então, como se o próprio Deus tivesse revelado a verdade sobre suas emoções, lágrimas jorraram de seus olhos. Ele chorou por Jalen e pelos trabalhadores no restaurante onde a loura havia feito reservas até o dia 11 de setembro. Chorou por todos os que estavam sob os escombros e pela loucura no sentido de como a vida dessas pessoas tinha vindo abaixo com as Torres Gêmeas. Ele podia imaginar seu amigo Jalen, como ele devia ter ficado nos minutos depois de receber o chamado para o World Trade Center. Os olhos azuis dele provavelmente ficaram sérios, o coração acelerado quando partiu para o local do atentado com seu gancho e escada. Jalen provavelmente foi um dos primeiros a subir na escada, um dos primeiros a chegar às vítimas. Ele provavelmente tenha chegado ao topo da torre antes de o prédio desabar. Não há dúvida de que ele estava ajudando as pessoas a descerem as escadas quando o piso cedeu. – Por que, meu Deus? – Landon gritou as palavras e cer-rou os punhos. Minutos se passaram, e, de repente, Landon sentiu a mão de alguém no ombro. Virou-se e se deparou com um homem negro simpático cujo sorriso energético era conhecido em todo o país. O homem era autor e palestrante, uma presença constante no ministério de homens conhecido como Promise Keepers e outras conferências nacionais. Alguém a quem Landon respeitava profundamente. Ele piscou para ter certeza de que não estava vendo coisas. – O que... o que você está fazendo aqui? O homem ajoelhou-se ao lado dele. Os dois ainda eram as únicas pessoas perto da cruz. – Eu vi você por aqui. – O homem deu um sorriso triste. – Você é crente, não é? Landon concordou, sem palavras.


– Como você se chama? – Landon. O homem estendeu a mão e apresentou-se, como se isso fosse necessário. – Posso orar com você? O coração de Landon batia forte. – Claro. O homem segurou a mão de Landon e baixou a cabeça. – Senhor, este é um tempo de escuridão para nossa nação, mas, particularmente, para aqueles que servem, aqueles que honram aos Estados Unidos com dedicação e, às vezes, com a própria vida. – Ele respirou rapidamente. – Por favor, conforte Landon, venha ao encontro dele neste lugar e faça-o se lembrar do primeiro amor. É fácil se distrair aqui entre tanta morte. Mas, por favor, Senhor, restaure a vida no coração de Landon e ajude-o a ver o Senhor, ajude-o a sentir seu toque. Mesmo aqui no Marco Zero. Em nome de Jesus, amém. Antes que Landon tivesse tempo para fazer perguntas, o homem desapareceu, foi-se ao encontro de outra pessoa machucada com quem pudesse orar. Atônito, Landon olhou para a cruz. Parecia que seu coração tinha voltado à vida. Deus, o Senhor me ouviu. Sabia do que eu precisava e enviou alguém em quem eu pudesse confiar. Landon lembrou-se da oração do homem. Faça-o se lembrar do primeiro amor... Faça-o se lembrar do primeiro amor. Era isso, não era? Suas horas no Marco Zero estavam tão voltadas para a morte que Landon havia se esquecido de ocupar a mente com pensamentos de vida. Pensamentos de Deus, da bondade e dos planos dele para seu povo. Todas as coisas boas que ele sabia que eram verdade sobre Deus, todas as promessas e verdades divinas, estavam cobertas de cinzas – quase irreconhecíveis desde que ele tinha chegado à cidade de Nova York. Sim, ele havia se esquecido de seu primeiro amor. Não apenas de Deus, mas de Ashley também. Algum dia, quando este pesadelo acabasse, ele voltaria para Bloomington. E, quando isso acontecesse, ele encontraria Ashley e iria convencê-la, sem sombra de dúvida, de que eles pertenciam um ao outro. Se fosse dali a um mês ou um ano, não importava. O tempo não mudaria o modo como ele se sentia em relação a ela. A última coisa que ele fez antes de voltar ao trabalho foi tirar do bolso o cartão com o nome e o telefone da loura. Ele o rasgou ao meio e o enfiou na camada de entulhos perto da base da cruz. Então, tirou o pó das mãos e voltou ao trabalho.


Nesse momento, não se sentia sozinho. Podia sentir o Senhor ao seu lado, a presença dele tão real como se os dois estivessem caminhando lado a lado. Entrou na fila e pegou seu primeiro balde de entulho, sabendo, de repente, o que faria naquela noite; se não naquela noite, então em breve. Ele faria o telefonema que deveria ter feito há muito tempo. Não para a loura estranha, mas para uma garota que estava em seu sangue, o que quer que acontecesse com sua vida. Uma garota por quem ele orou, um dia, para que reconhecesse Deus como o primeiro amor dela também. Naquela tarde, enquanto trabalhava, Landon orou por Ashley como nunca tinha orado antes. Constantemente e com fervor, hora após hora. Que ela encontre o Senhor, Deus, por favor. Vá aonde ela está e faça com que ela saiba que o Senhor é real. Nada que eu possa dizer ou fazer vai trazê-la para mais perto do Senhor. Mas, o Senhor, Deus, pode alcançá-la. Eu sei disso. Pouco antes do anoitecer, Landon foi tomado por uma paz, quase como se o Senhor o tivesse abraçado. Landon queria levantar o punho em sinal de vitória. A paz só podia significar uma coisa: suas orações tinham sido respondidas. Um dia, por mais longe que estivesse, Ashley Baxter entregaria o coração a Deus. Quando esse dia chegasse, Landon não tinha dúvida de que ela teria os mesmos sentimentos fortes por ele que os que ele tinha por ela. Agora, era uma questão de sobrevivência até lá.


CAPÍTULO 25 O Dia de Ação de Graças foi mais tranquilo que o habitual. Por volta das 15 horas, o jantar estava pronto, e John Baxter chamou todos para se reunirem à mesa para a bênção. Deu uma olhada rápida para os rostos familiares e se perguntou por que o clima estava tão tenso. É claro que a atitude de Luke colaborou para isso; ele tinha passado o dia todo trancado no quarto. Era o último período de férias de Erin e Sam antes da mudança – isso provavelmente estava no coração de alguns deles. Mas, muito provavelmente, o espírito da família era um reflexo direto do clima da nação. À luz do dia 11 de setembro, a maioria dos norte-americanos tinha um senso maior de apreço por sua fé, suas famílias, sua liberdade, mas também um profundo sentimento de tristeza, de luto. Os Baxter não eram exceção. O país estava em guerra com o Afeganistão, e isso também contribuía para uma atmosfera mais sombria. Chegavam notícias diariamente de missões de bombardeio e a possibilidade de preparar tropas terrestres para entrar em combate. Os Bailey, que moravam no final da rua, tinham um filho servindo na USS Theodore Roosevelt no mar da Arábia. O rapaz era amigo de Luke, um piloto de caça. Não tinha tido um dia de descanso desde que a guerra começou. Todos estavam de mãos dadas quando John observou o grupo. O pastor Mark e a esposa, Marilyn, juntaram-se a eles pelo segundo ano seguido. Todos estavam presentes, menos... John abafou um suspiro exasperado. – Luke! – Sua voz ecoou pela casa, e os outros se viraram em direção às escadas. – Hora de comer. Houve uma pausa, e, então, eles ouviram a porta de um quarto se abrir. – Podem comer. Eu não estou com fome. John sentiu um nó no estômago. Ultimamente, Luke estava se escondendo no quarto. Sua ausência fazia com que as poucas conversas entre eles fossem tensas e breves. John tinha compartilhado suas preocupações com o pastor Mark e, agora, os dois homens trocaram um olhar de cumplicidade. Em volta da mesa, os outros fizeram o mesmo. Ao lado de John, Elizabeth apertou a mão do marido e fez um sinal com a cabeça; seu modo de dizer que ela faria a próxima tentativa. – Luke, venha aqui para baixo. – Sua voz foi agradável, mas firme. – É Dia de Ação de Graças.


Nós estamos esperando por você. Todos na mesa pareciam ansiosos quando ouviram a porta do quarto se abrir novamente. Dessa vez, Luke não disse nada; apenas desceu as escadas. John não ficou surpreso pelo filho ter obedecido à mãe. Por alguma razão, grande parte da animosidade recente de Luke parecia estar direcionada a ele. – Desculpem. – Luke tomou seu lugar entre Ashley e Cole. Sua expressão era de uma tolerância entediada, mas, pelo menos, ele não prolongou o assunto. – Obrigada. – Elizabeth sorriu na direção dele, mas ele só fez um sim com a cabeça e ficou olhando para o teto. John observou-o por um instante. O que quer que houvesse de errado com Luke, ele já não era o mesmo desde os ataques terroristas. John queria pedir-lhe para mudar de atitude, forçá-lo a ser educado, como fazia quando Luke era pequeno. No entanto, Luke havia crescido agora, e esse não era o momento nem o lugar. Os outros estavam com os olhos fechados e prontos para a oração. John baixou a cabeça. – Senhor, obrigado por esta refeição que nos dá. Obrigado pela bênção da família e da boa saúde, por ter cuidado de nós no ano passado. Oramos por aqueles que sofrem com as perdas neste Dia de Ação de Graças... – Imagens de Reagan e de Landon passaram pela cabeça de John, e, por um momento, ele ficou muito emocionado para falar. – Nós nos lembramos deles agora, Senhor, e pedimos que se lembre deles também. Conforte-os e console aqueles que lutam por nossa liberdade no exterior. Acima de tudo, Pai, agradecemos pela dádiva de vivermos nos Estados Unidos. Sua bondade cerca-nos, e não temos palavras para agradecer. A refeição foi sem pressa, pontuada com uma conversa tranquila e eventuais brincadeiras das crianças. Erin e Sam anunciaram que tinham adiado a mudança para o verão. Incertezas na companhia de Sam levaram a demissões. Embora a gerência ainda o quisesse na filial do Texas, os preparativos foram postergados. Erin parecia aliviada, mas ainda estava claramente preocupada com a mudança. Ashley contou as últimas novidades a respeito dos residentes da Sunset Hills. – Eu precisei de algumas coisas para o quarto do Bert, sabe, para deixá-lo mais confortável. Achei uma sela no eBay. Deve chegar aqui a qualquer momento. Kari terminou de comer sua colherada de purê de batatas. – Eu amo o eBay, especialmente quando estou ocupada com Jessie. – Ela olhou para trás e conferiu: a bebê estava dormindo tranquilamente em um cobertor na sala da família. – Você pode encontrar praticamente tudo. – Por falar nisso – Peter colocou o garfo no prato e olhou para o pastor Mark –, nós realmente


gostamos de sua mensagem no último domingo. Você nos fez pensar. John deu uma piscadela para Elizabeth. O maior acontecimento para os Baxter desde os ataques terroristas era que Brooke e Peter e até Ashley estavam frequentando a igreja. Peter era um homem reservado, um jovem médico notável com um histórico de autoconfiança. Na verdade, Brooke era reservada também. Somente um evento capaz de mudar a vida de todos como o que aconteceu no dia 11 de setembro podia levá-los a gostar de um sermão de domingo. – Obrigado. – O pastor Mark deu de ombros. – Esse é meu trabalho. Peter deu uma olhada para Brooke e depois de volta para o pastor. – Na verdade, gostaríamos de nos encontrar com você em uma noite da semana que vem, se não for problema para você. Houve um silêncio em torno da mesa, como se nenhum deles soubesse o que dizer ou como reagir à declaração de Peter. Em seguida, o sorriso do pastor Mark iluminou a sala. – Por mim tudo bem... Vamos falar sobre isso depois do jantar. Ao lado dele, John pôde sentir a alegria de Elizabeth. Quantos anos eles oraram por Brooke e Peter, para que os dois pudessem perceber que a vida não podia ser explicada somente por livros didáticos e conhecimentos científicos? – Mamãe, acabei. – Maddie, de 4 anos, que nunca comia muito, estava se contorcendo na cadeirinha. – Posso ir brincar? – Sim! – Cole esganiçou. – Vamos fazer um castelo! – Eu também! – Os olhos da pequena Hayley se arregala-ram, e ela puxou a manga de Brooke. – Vou brincar. Brooke sorriu. – Está bem. Pode ir. – A propósito... – a esposa do pastor Mark olhou para Brooke enquanto ela ajudava Hayley a descer da cadeira –, como está Maddie? Pelo que eu soube, ela ainda estava lutando contra um vírus ou algo assim? A expressão de Brooke endureceu um pouco. Apesar de toda a sua formação médica, nem Brooke nem Peter conseguiam explicar as febres estranhas da filha. Era um assunto sobre o qual Brooke não gostava de falar. – Ela está bem agora. – Os cantos da boca de Brooke se levantaram, mas o medo em seus olhos permaneceu. – Estamos – ela deu uma olhada rápida para Peter – estamos orando por ela. Orando por ela? John esforçou-se para conter sua surpresa. Uma coisa era ver Brooke e Peter interessados em igreja e reunião com o pastor Mark. Mas vê-los falar tão abertamente sobre oração?


Em silêncio, John agradeceu a Deus. Tranquilo ou não, esse era um Dia de Ação de Graças do qual ele nunca se esqueceria. A refeição continuou, mas Luke falou pouco. Quando a conversa voltou-se para a guerra no Afeganistão, ele parou de comer e ficou olhando para o prato. Enfiou o garfo na batata-doce, com a mente claramente em outro lugar. – Eu acho que eles pegaram Osama bin Laden. – Sam passou manteiga em outro pãozinho e olhou para os outros. – Se ele estiver morto em uma daquelas cavernas, só vão encontrá-lo daqui a meses. – Eu não sei. – Peter ficou pensativo. – O homem é muito engenhoso. – Muito mau, você quer dizer. – Kari passou a salada de frutas para Elizabeth. – Eu não consigo acreditar que ele tinha bases terroristas aqui nos Estados Unidos. Isso é horrível. O pastor Mark concentrou-se em Ashley. – Você tem notícias de Landon? Durante toda a sua vida, Ashley tinha se esforçado para ficar distante, ser diferente do restante deles. Mas John a conhecia muito bem. As emoções que estampavam seu rosto com a menção do nome de Landon diziam-lhe claramente uma coisa: ela amava Landon Blake. Pela primeira vez desde que os dois se conheceram, ela realmente o amava. Ashley deu um suspiro rápido. – Ele não ligou. – E ficou olhando, por um momento, para o prato com a comida ainda pela metade. – Eu acho que ele tem intenção de ficar por lá por um tempo. – Ele ainda está trabalhando no Marco Zero? – A pergunta de Marilyn foi inocente, mas John pôde ver pela inclinação do queixo de Ashley que era difícil para ela responder. – A mãe dele diz que ele está. Ele ainda está... está procu-rando o amigo Jalen. – Jalen? – Marilyn fez uma pausa, a expressão curiosa. – O bombeiro, certo? – Isso mesmo. – Lágrimas formaram-se nos olhos de Ashley, e ela piscou para contê-las. – Ele estava trabalhando em uma das Torres Gêmeas quando elas desabaram. Ao ouvir isso, Luke colocou o garfo e o guardanapo sobre a mesa e empurrou a cadeira para trás. – Licença. – Ele deu um sorriso disfarçado para o restante deles, virou-se e seguiu para as escadas. – Estarei em meu quarto. Um silêncio nervoso misturado com os aromas frescos do jantar pairou sobre a mesa por um momento. Ashley limpou a boca. – Luke não gosta de falar sobre o Marco Zero. – Ela fez que não com a cabeça e deu um sorriso simpático aos Atteberry. – Não é culpa sua. É só que... ele não tem notícias de Reagan desde que ela


partiu. Tudo isso está sendo muito difícil para ele. John olhou para Ashley. Como ela sabia? Luke não tinha compartilhado seus sentimentos com ele ou Elizabeth, mas, ao que parecia, tinha se aberto com Ashley. John pensou nisso por um instante. Provavelmente era uma coisa boa. Embora o silêncio de Luke em relação a ele doesse, John não poderia estar de outra forma senão agradecido pela amizade renovada entre Luke e Ashley. – Desculpe. – Marilyn segurou a mão do marido. – Eu nem pensei. O pastor Mark levantou uma sobrancelha na direção de Ashley. – Estou orientando um grupo na igreja para pessoas que estão tendo dificuldades para aceitar o que aconteceu no dia 11 de setembro. – Ele olhou para os outros. – Muitas pessoas têm dúvidas. O grupo dá-lhes a oportunidade de explicar seus sentimentos. Pode ser que Luke se interesse. Ashley tomou um gole de água e fez que sim com a cabeça. – Eu acho que ele não está sabendo disso. John voltou a olhar para seu prato. É claro que Luke não sabia disso. Ele tinha ido à igreja apenas uma vez desde os ataques. – Está bem. – Ashley pegou outra fatia de peru. – Eu vou dizer a ele. Do outro lado da mesa, Erin terminou o jantar e cruzou os braços. – Esse foi o melhor peru que você já fez, mãe. – Ela sorriu para Elizabeth. – Obrigada. Eu usei um saco plástico para forno dessa vez. Acho que ficou mais macio que das outras vezes. Essa era a parte do Dia de Ação de Graças de que John mais gostava: as brincadeiras e conversas descontraídas entre aqueles a quem ele amava. E Erin estava certa. Elizabeth havia se superado nesse ano, talvez porque ela também percebesse que as coisas estavam mudando. Não tinha como dizer quantos feriados como esse eles haviam perdido, com todos juntos à mesa. – A mamãe disse que você ainda fala com Ryan. – Erin olhou para Kari. – Como ele está? As bochechas de Kari enrubesceram com a pergunta de Erin. – Nós nos falamos, sim. – Ela tomou um gole de água de uma das taças de cristal que Elizabeth usava em ocasiões especiais. – Ele está bem. A equipe esteve para cá e para lá esse ano. É emocionante para todos eles, ali no meio de Nova York. – Eu acredito. Diga que estamos orando por ele. – Digo, sim. John observava sua segunda e quarta filhas. Era incomum que Erin não tivesse falado sobre isso com Kari antes, mas, por outro lado, ambas andavam muito ocupadas: Erin dando aulas para uma


nova turma infantil e Kari passando seus dias com Jessie e indo para Indianápolis para trabalhos de modelo uma ou duas vezes por semana. John não estava certo se Erin sabia, mas Kari também estava fazendo leitura extra e estudo bíblico nesses dias, preparando-se para um ministério que ela esperava começar dentro de um ano. O pastor Mark estava se reunindo com ela regularmente para falar sobre a ideia. Quase todos tinham acabado de comer. John limpou a boca e dobrou o guardanapo sobre seu prato. – Hora do relatório. Era uma tradição com a qual todos estavam familiarizados. Da sala, Elizabeth chamou as crianças mais velhas. – Tudo bem... – Ela sorriu para as crianças. – Todo mundo compartilha aquilo pelo que está agradecido. – Posso ser o primeiro? – Cole praticamente dançava de alegria. Quando John fez que sim com a cabeça, Cole falou que era grato pelos brinquedos e pelo peru. Em seguida, mencionou cada um que estava presente – e Landon, porque ele é corajoso e é meu amigo! – Muito bom, Cole – disse Elizabeth. – E Maddie? Maddie não era tão extrovertida como Cole. Pensou em sua lista, mas, finalmente, mencionou sua mãe, seu pai e sua gatinha. Hayley, sem saber o que estava acontecendo, simplesmente seguiu o exemplo da irmã: – Gatinha. – Tudo bem, isso é um bom começo. – John olhou ao re-dor do círculo. – Quem é o próximo? Ashley levantou a mão. Ela se endireitou na cadeira. – Sou grata pelas pessoas da Sunset Hills. Elas estão... – Ela procurou as palavras certas. – Elas estão me ensinando coisas sobre a vida. – E olhou para Cole e beijou a ponta do nariz dele. – E, claro, pelo meu precioso Cole. – Ela olhou ao redor da mesa, com a voz suave e terna, e a atitude completamente diferente de um ano atrás. – E por vocês, cada um de vocês. – Hesitou. – Sou gra-ta porque tenho vontade de pintar de novo e porque estou aprendendo a não ter medo de amar. John estava feliz por não ser sua vez. Se fosse, ele não conseguiria falar. Piscou para Ashley e fez um sim com a cabeça, dizendo-lhe, da única forma que podia, que estava orgulhoso dela. Erin era a próxima. – Sou grata por minha fé e minha família, pelos meus alu-nos e pelo futuro que Deus tem para


mim. – Ela não olhou para Sam, e John se perguntou por quê. Será que ela o ignorou de propósito? Ele esperava que não. Sam e Peter eram gratos por suas famílias. Quando os dois terminaram, o grupo voltou os olhos para Brooke e esperou. Os olhos dela brilhavam com lágrimas. – Eu sinto muito que tenha tido de acontecer uma tra-gédia... – Sua voz embargou, e ela apertou a ponta do nariz, buscando forças para terminar. Peter abraçou-a. Ela fungou e fez que não com a cabeça. – Isso é mais difícil do que pensei. – Suspirou e olhou para os outros mais uma vez. – Desde o dia 11 de setembro, a vida tem sido diferente para mim. Mais real, eu acho. Sou grata pela admiração que vejo nos olhos de meu marido... pelas bandeiras hasteadas por todo o país... e pela maneira como todos vocês receberam a mim e Peter na igreja, apesar de não termos dado muito apoio no passado. – As lágrimas caíam e molhavam seu rosto. Ela sorriu, embora o lábio inferior e o queixo tremessem. – E sou grata por meus dois anjinhos doces. Pela saúde das duas... Maddie ainda estava em pé ao lado da mãe. Levantou um dedinho e enxugou uma lágrima do rosto da mãe. – Não chore, mamãe. – Está tudo bem, querida. – Brooke segurou o rosto de Maddie com as mãos. – Estou chorando de alegria. John apoiou os antebraços na mesa e olhou para sua filha mais velha e sua neta. As febres inexplicáveis de Maddie incomodavam John. Preserve a saúde dela, por favor, Deus. Os olhos de Kari estavam úmidos também. Ela hesitou, esperando Brooke usar o guardanapo para enxugar os olhos. Então, ela listou as coisas que eram importantes, as razões pelas quais era grata: Jessie, sua família e sua fé. – Mas, sou especialmente grata pela vida, porque Deus me permitiu encontrar esperança e uma razão para continuar. Mesmo depois de tudo o que aconteceu. – Ela mordeu o lábio, e John ficou todo emocionado com ela. Apenas um ano atrás, Tim tinha celebrado o Dia de Ação de Graças com eles. Como a vida podia mudar completamente no decorrer de apenas doze meses! John suspirou. Não, ela poderia mudar mais rápido que isso. Vinte e quatro horas foram suficientes para mudar o curso da história. Se os norte-americanos tinham aprendido alguma coisa recentemente, era isso. – Quem é o próximo? – perguntou. – Eu! – Cole gritou de sua cadeira, e todos riram.


– Você já falou. – Elizabeth cruzou os braços, sorrindo para ele. – Agora é a vez da vovó. – Ela desfiou uma lista de nomes, todos estavam à mesa e mais alguns. O pastor Mark e Marilyn fizeram mais ou menos o mesmo. Finalmente chegou a vez de John. – Bem, primeiro, sou grato pela presença de Deus entre nós e por todos vocês. – Sentiu sua expressão ficar séria enquanto avaliava as pessoas ao seu redor. – As mudanças neste ano foram inesquecíveis. Algumas profundamente dolorosas... – Estreitou os olhos na direção de Kari, orando para que ela pudesse sentir seu amor e preocupação. Então, olhou para a pequena Jessie que ainda estava dormindo na sala. – Algumas profundamente alegres. Vimos relacionamentos restaurados e as chamas da fé sendo acesas. Mas não sem um preço. – Ele apertou a mão de Elizabeth. O rosto de Luke veio à mente. Então, John baixou a cabeça, e, à sua volta, os outros fizeram o mesmo. – Deus, oro para que o Senhor possa ser misericordio-so para conosco no próximo ano, para que continue a ser o coração de nossa casa, o alicerce de nossa família. Que as cicatrizes de nossas recentes tragédias não permaneçam para sempre. Mas que um dia, por mais longe que possa estar agora, possamos olhar para trás e ser gratos pelo modo como o Senhor nos ajudou em nossos momentos difíceis. *** Depois da sobremesa, Ashley deu uma escapulida para o andar de cima. Como era estranho a inversão de papéis que tinha ocorrido entre ela e Luke desde o ano passado. Há apenas um ano, Luke era arrogante e crítico, disparando farpas depreciativas para Ashley sempre que tinha a oportunidade. Ele era o menino de ouro da família, cheio de risos e gosto pela vida. Mas também estava empenhado em ver a justiça ser feita em todas as situações, determinado a fazer o que era certo, independentemente dos erros que suas irmãs pudessem cometer. Agora, porém, Luke estava irritado e retraído. Desde a partida de Reagan, ele parecia inconformado com Deus e com quase todos os demais de quem gostava. Na verdade, não parecia capaz de se relacionar com ninguém da família, exceto, talvez, com Ashley. E, quanto às mudanças em seu próprio coração, ela sabia que eram, em parte, por causa de Landon Blake. Ao deixá-la falar sobre Paris, ele tirou um peso de sua alma. Sem esse peso, o lugar que tinha inflamado, machucado e doído estava, na verdade, começando a se curar. Agora, em algumas noites, ela e Cole liam juntos antes de dormir, e Ashley tinha vontade de gritar sobre os obstáculos que havia superado no ano passado. Ela estava aprendendo a viver novamente,


aprendendo a amar. E, a cada dia, sentia menos medo de seu passado, mais confiante que, depois de tudo, Deus se importava com ela. Agora talvez ela pudesse ajudar Luke a se lembrar de algumas das mesmas verdades. Ela bateu na porta do quarto dele e entrou com cautela. – Ei, posso falar com você? Ele estava sentado à escrivaninha, com a caneta se movendo constantemente de um lado para outro de um bloco de papel, a mochila jogada no chão perto dele. Ao ouvir sua voz, ele pôs a caneta na mesa e olhou por cima do ombro. – Claro. Entra. Ashley ficou aos pés da cama dele e esperou enquanto ele girava a cadeira para ficar de frente para ela. – Trabalho da faculdade? Luke olhou para o caderno aberto. – Pois é. Comunicações. Tenho um projeto para fazer. Ela franziu o nariz. Ele não tinha dito algo sobre essa tarefa antes? Ela e Luke tinham se falado com mais frequência nos últimos dois meses do que nos últimos anos. – O que você está fazendo com aquela garota? – Lori Callahan. Ela se senta ao meu lado na classe. – Pensei que você tivesse terminado. – Não. O professor Hicks deixou para o final. Ashley ficou em silêncio por um momento. Virou o pé e inclinou-se um pouco para trás. A última coisa que ela queria era dar um sermão nele, especialmente depois de tudo pelo que ele havia passado. Além disso, há muitos anos ela havia se sentido como uma intrusa, anos em que um sermão era a última coisa que ela queria. Quaisquer que fossem as razões de Luke, Ashley entendia um pouco aquilo pelo que ele estava passando. – Você perdeu a sobremesa. Luke fez que sim com a cabeça. – Depois eu pego um pouco. – Está bem. – Ashley inclinou a cabeça. – E aí? O que está incomodando você? Ele cerrou os dentes, e Ashley ficou impressionada com a beleza de seu irmão mais novo. Ao longo dos últimos anos, ela havia feito o possível para evitá-lo. Mas, agora que a amizade dos dois estava restaurada, era como se ela o estivesse vendo pela primeira vez.


Os músculos da mandíbula de Luke se contraíram. – Todo mundo só quer falar sobre o dia 11 de setembro. – Ele se inclinou e colocou os cotovelos nas coxas. – Acho que eu estou cansado disso. Ela o examinou, não querendo sondar muito profundamente. Seu tom de voz era gentil. – Teve notícias de Reagan? – Eu parei de ligar na semana passada. – Ele entrelaçou os dedos. – Levei muito tempo para perceber que ela não estava ocupada ou longe do telefone ou ido a algum lugar. Nós terminamos. – Ele baixou os olhos. – Ela não quer falar comigo. Ashley mudou de posição. A dor e a tristeza de Reagan eram compreensíveis. O silêncio dela, não. Qualquer que fosse o motivo para não atender as ligações de Luke, devia haver outra coisa além da morte do pai dela. – Talvez haja outra coisa errada. Por uma fração de segundo, Ashley pensou ter visto uma pontinha de culpa nos olhos de Luke, que se dissipou antes mesmo que ela pudesse ter certeza. Luke respirou fundo e levantou o queixo. – Acabou, Ashley. Tudo o que nós dois vivemos morreu junto com o pai dela quando aquele prédio desabou. – Ele soltou o ar com os lábios apertados. – Eu não posso fazer nada sobre isso. – Tudo bem. – Ela se moveu um pouco para trás na cama e agarrou um travesseiro, colocando-o debaixo do cotovelo enquanto se esticava na cama. – E o que mais? – O que mais? – Ele franziu a testa. – Isso já não é o su-ficiente? – Você sabe o que quero dizer, Luke. – Ela teve o cuidado de manter um tom de voz amigável. – Você está evitando praticamente todos da família, como se estivesse revoltado com todo mundo. Luke levantou-se, foi até a porta e voltou. – Talvez todo esse lance dos Estados Unidos esteja me afetando. – Ele olhou para ela. – Fala sério, não é estranho? Todo mundo, de repente, agitando bandeiras e indo à igreja. Por causa do quê? Por que terroristas descobriram nosso ponto fraco? Os traços de seu rosto eram de confusão. – Se não fosse pela administração de Clinton, podería-mos ter evitado todo o desastre. Eles permitiram que Osama bin Laden nos atacasse três vezes e nunca fizeram nada para detê-lo. Agora, estamos colhendo os resultados. Isso deveria me fazer querer balançar uma bandeira? – Eu entendo o que você quer dizer. – Ashley esperou. – No começo, não entendi de verdade esse lance da bandeira também. – Ela rolou de costas e dobrou o travesseiro atrás da cabeça. – Mas, agora eu entendo. O povo não está se sentindo orgulhoso dos erros dos Estados Unidos. Tem mais a


ver com o lance da união. Fomos derrubados, mas nós somos norte-americanos. Vamos nos reerguer. – Ela fez uma pausa, com a voz ainda suave. – Entendeu? Ele bufou e se jogou na cadeira de novo. – Eu acho que sim. – Seu olhar era firme. – Aí tem todo esse papo de Deus. Você me conhece, Ashley. Minha fé era mais sólida que... que uma rocha. Mas não é mais. – Ele olhou para o pôr do sol pela janela. – Fiquei pensando, de que adianta? Ashley ficou quieta, dando-lhe a oportunidade de continuar. Ele deu uma risada sem graça. – Desde o dia 11 de setembro, as pessoas começaram a lotar as igrejas. É isso que todos os jornais dizem, e é verdade. Olhe para você, Brooke e Peter. – Ele apontou na direção da irmã. – Por que, Ashley? Por que você vai lá? – Eu não sei, de verdade. – Ela se sentou e apertou o tra-vesseiro na barriga. – O dia 11 de setembro me fez lembrar do que é importante na vida. Milhares de pessoas vão trabalhar um dia e, então, no espaço de uma hora, estão todas mortas. – Ela fez uma pausa. – Acho que as pessoas com quem trabalho na Sunset Hills têm algo a ver com isso também. Todos os dias, sentadas lá, vendo televisão, esperando a morte. – Ela deu de ombros. – Ultimamente, a igreja é o único lugar onde encontro esperança e sentido. Onde toda a insensatez faz um pouco de sentido. Ele olhou para ela com os olhos meio fechados. – Quer dizer que você aceita esse lance de Deus agora? Você acredita que Ele está lá, tomando conta de nós, essas coisas todas? – Eu não sei no que acredito. – Ela estendeu a mão e aper-tou o pé dele que estava com meia. – Eu só sei que, ultimamente, me sinto melhor acreditando que Deus tem um plano, mesmo quando as coisas estão loucas e fora de controle. – Então, que tipo de plano Ele poderia ter? E, no final das contas, de que adianta orar quando Deus, se é que existe um Deus, vai fazer o que Ele bem entender? – Luke baixou o tom de voz e se inclinou para frente, os olhos brilhando. – Pedi para Ele deixar o pai de Reagan viver. Mas isso não aconteceu. Ashley queria interromper a conversa e abraçá-lo, dizer que estava tudo bem, que eles não tinham de falar sobre isso. Mas sabia que não estava tudo bem. E ele parecia determinado a continuar. – Aí apareceu esse trabalho de comunicações. – Ele fez um sinal para o caderno atrás dele. – Provar ou refutar a existência de Deus. Respaldar seu argumento com evidências. Eu disse: Tudo bem, ótimo, Deus. Agora é sua chance. Você pode provar que é real, permitindo que as coisas deem


certo entre mim e Reagan. – Ele jogou as mãos para o ar. – E o que aconteceu? Ela nem mesmo atende as minhas ligações. Ashley ainda estava pensando no trabalho da escola. – Seu professor de comunicações pediu para vocês prova-rem ou refutarem a existência de Deus? – Sim. – Luke cruzou os braços, e a discussão, de repente, desapareceu. – Na verdade, ele não vai dizer isso, mas acredita que a única visão de mundo válida é o humanismo. Sabe, a crença na razão e no espírito humano, o direito das pessoas de escolherem entre o bem e o mal. Isso faz sentido. Quero dizer, as pessoas ajudam umas às outras, e os resultados são óbvios, como o que vem acontecendo desde o dia 11 de setembro. Não é Deus que nos ajuda. Nós é que ajudamos a nós mesmos! Ashley praticamente não era uma estudiosa da Bíblia, mas até ela sabia que uma teoria como a que Luke estava descrevendo ia contra as crenças da família, crenças às quais ele mesmo tinha se apegado antes dos ataques terroristas. Ela afundou os cotovelos no travesseiro e examinou o rosto de Luke. – De que lado você está? Luke ficou em silêncio. Pôs-se cabisbaixo novamente, e um quê de rebeldia surgiu em sua expressão. – Eu só tive certeza depois que Lori falou comigo. – A menina que senta perto de você? Ele ergueu os olhos, e Ashley sentiu uma distância entre Luke e ela, uma distância que não existia um minuto atrás. – Ela está me levando a essas reuniões sobre razão e livre--pensamento. O pai dela é advogado desse grupo em favor das liberdades civis em Washington, D.C. Ele está nos ajudando na tarefa. Dessa vez, os alarmes soaram na alma de Ashley. Algo sobre as referências do irmão a “livrepensamento” e “liberdades civis”, expressões que ela já tinha ouvido de algumas das pessoas nos clubes que frequentava. – Você está tentando refutar a existência de Deus? – Sua voz foi quase um sussurro. Se isso tivesse partido de qualquer outra pessoa, ela não teria se preocupado. Afinal, as pessoas questionam a existência de Deus. Quanto tempo ela mesma fez isso? Mas Luke? O irmão que era o conservadorismo em pessoa? Não é de admirar que ele não estivesse passando muito tempo com a família recentemente. É provável que se sentisse um excluído, da mesma forma que ela se sentiu todos esses anos depois de voltar de Paris.


– Que... que tipo de evidência você está encontrando? Ele deu outra risada sem graça. – Os ataques terroristas são um ótimo ponto de partida. Que tipo de Deus permitiria que isso acontecesse? – Ele se encostou na cadeira. – O fato de que poucas pessoas foram encontradas com vida nos escombros é mais uma prova. As pessoas falam que milagres estão acontecendo. Que milagres? Tudo o que aconteceu naquele dia foi arbitrário. Um olhar que era mais de tristeza do que de raiva encheu seus olhos. – O humanismo é a única visão que faz sentido para o que está acontecendo. Sabe, as pessoas doando sangue, doando dinheiro, apoiando as vítimas, esse tipo de coisa. Coisas pelas quais Deus não pode ter o crédito. Ashley resistiu ao impulso de estremecer. O que o pastor Mark tinha dito no último domingo sobre os voluntários em Nova York? Vê-los na TV é como ver Jesus em carne e osso. Deus está agindo em toda a cidade. Ela pensou em dizer isso a Luke ou fazê-lo se lembrar de algo que o pastor tinha dito na semana anterior: que as evidências de Deus estão por toda parte, tão perto quanto a árvore mais próxima, um rio ou uma montanha. Entretanto, ela se deteve. Esse não era o momento, e ela não tinha certeza de que era capaz de discutir o argumento. O melhor que podia fazer agora era mostrar-lhe que ela se importava com ele. Quando ele terminou de falar, ela saiu da cama, foi até o irmão e colocou os braços em volta do pescoço dele. – Por mais difícil que tudo possa parecer agora, lá no fun-do, você sabe que Deus é real. E, um dia, tudo a respeito Dele vai fazer sentido de novo. Assim como está começando a fazer sentido para mim. – Ela o beijou na bochecha e deu-lhe um sorrisinho. – Até lá, lembre-se de uma coisa, pode ser? A expressão de Luke suavizou. – Do quê? – Eu amo você. – Ela bagunçou o cabelo dele. – E todos por aqui amam você. – Obrigado. – Ele deu um sorriso perturbado. – Eu tam-bém amo você. Que pena que eu fui tão crítico! – Está tudo bem. Todos nós temos nossas fases. Eles ficaram em silêncio por um tempinho. – Ashley? – Seus olhos se encontraram. – Sim?


– Desculpe. – Pelo quê? – Pelo... pelo jeito como tratei você nos últimos anos. – Ele a abraçou novamente. – Eu fui um idiota. Você me perdoa? – Claro. – Lágrimas arderam em seus olhos, e ela sentiu o coração apertar. – Que bom que as coisas estão bem agora. Naquela noite, no caminho para casa com Cole, Ashley pensou no trabalho de Luke e na ideia de colocar a existência de Deus à prova. Luke estava confuso e com o coração partido. Ele estava muito infeliz para ver as evidências que existiam à volta dele. Tudo bem, talvez ela não estivesse na posição em que deveria estar com Deus. Afinal de contas, ela só tinha voltado a orar devido ao pedido de Landon. E talvez não soubesse exatamente quais versículos da Bíblia ler em determinadas situações. Mas, Deus era real. Ela não tinha nenhuma dúvida disso. O pedido de desculpas de Luke ficou gravado em sua mente. Você me perdoa?... Você me perdoa? Depois de Paris, tinha certeza de que os dois nunca mais seriam civilizados um com o outro, muito menos encontrariam aquele lance especial que tinham antes. Mas, agora... agora eles, de fato, se amavam novamente. Secou duas novas lágrimas quando entrou na garagem. Se isso não fosse evidência de que Deus era real, nada mais seria.


CAPÍTULO 26 Kari tinha acabado de colocar Jessie para dormir quando o telefone tocou. Ela olhou para o relógio. Nove horas. Era a hora em que Ryan ligava sempre. E, desde os ataques aos Estados Unidos, ele vinha ligando toda semana. Às vezes, duas ou três vezes na semana. Kari poderia estar ocupada, mas não a ponto de não perceber que uma rotina estava se desenvolvendo. Não somente Ryan estava ligando mais vezes, mas ela estava começando a desejar ouvi-lo. Encontrou o telefone sem fio em uma mesa na sala de estar e apertou o botão para atendê-lo. – Alô? – Ei! – Oi. – O som da voz de Ryan fez com que ela se sentisse com 15 anos novamente. Ela estava começando a aceitar a ideia de que não poderia mais impedir seu amor por Ryan Taylor tanto quanto não poderia parar de respirar. O interessante era que, ultimamente, ela se sentia menos culpada por isso. Talvez fosse outro sinal de que estava sendo curada, seguindo com a vida. – Como está meu técnico de futebol favorito? – Preso no meio de duas derrotas seguidas. – Seu tom de voz era suave, atencioso. – Isso vai mudar. – Sim. – Ryan bocejou. – Espero que sim. Nós temos o dobro de reuniões quando perdemos. Kari esticou-se no sofá. Fazia meses desde que tinha visto Ryan pela última vez. Mas, toda vez que eles conversavam, apesar da distância, ela podia senti-lo bem ali, sentado à sua frente. Fechou os olhos e fingiu que ele realmente estava. – Ei, eu queria perguntar da última vez: você tem visto Landon recentemente? – Não. A equipe não vai ao Marco Zero há uma semana ou mais. Nossa agenda está apertada. – Ainda há muitos voluntários? Ryan fez uma pausa, e ela quase conseguia vê-lo olhando para fora, pela janela do apartamento no arranha-céu, procurando as palavras para descrever o que estava acontecendo ao seu redor. – Eu nunca vi nada parecido, Kari. – O apoio, você quer dizer? – Bandeiras agitando-se por toda parte. Quero dizer, você não olha para uma única rua em Nova York sem ver dezenas delas penduradas em prédios, em janelas de escritório, hasteadas em floreiras ao longo das fachadas.


– Aqui está assim também. As pessoas têm bandeiras no carro, nas camisas, nas bicicletas. É como se todo o país tivesse acordado e percebido o ótimo lugar que os Estados Unidos realmente são. – Exatamente. – Ryan suspirou. – Eu nunca pensei que diria isso, mas sinto uma conexão com o povo de Nova York. Depois de trabalhar no Marco Zero, distribuindo água para o pessoal das equipes de resgate, vendo como raramente fazem uma pausa... Eu não sei, Kari. Isso está no sangue. Como o futebol, Kari queria dizer. Uma sensação estranha tomou conta dela. Essa ligação com Nova York era algo novo, algo que ela não havia compartilhado com Ryan. Ela sempre o tinha imaginado voltando para Bloomington, no final, mas talvez ele não voltasse. Seu coração apertou. Talvez seu amor por Ryan agora seja mais maduro como nunca foi antes. – Deve ser incrível estar ali no meio de tudo. – Sentimos isso toda vez que voltamos depois de um jogo fora de casa. – Seu tom era pensativo, profundo. – É quase como se fizéssemos parte da guerra, especialmente aqui. Pelo simples fato de escolhermos voar para Nova York, estamos correndo um risco, mas também estamos fazendo uma declaração para os terroristas: Vão em frente e tentem nos derrotar. Nós ainda estamos em pé. Na verdade, estamos mais próximos do que nunca. – Eu nunca pensei nisso dessa forma. – Você vai. Na primeira vez em que voar para Nova York. – Ryan hesitou, e seu tom ficou mais leve. – Ei, isso não é uma má ideia. Que tal vir a Nova York para um jogo? Você poderia trazer Jessie, ficar no hotel perto do centro de treinamento. Apenas por alguns dias, de sábado à segundafeira, ou algo assim. Kari imaginou um fim de semana assim. Ryan estaria ocupado com reuniões, com jantares de equipe e com os eventos do dia do jogo. Ela pensou nos anos de Ryan como jogador e nas vezes em que tinha ficado perto dele na época. Esposas e namoradas costumavam ficar juntas em uma panelinha confortável, principalmente porque os homens estavam ocupados demais para se juntar a elas. Depois, havia as fãs atiradas, as mulheres seminuas que ficavam na expectativa de cada jantar ou encontro pós-jogo. Ryan foi gentil ao convidá-las, mas onde ela e Jessie se encaixavam nesse quadro? – Eu não acho que deva. – A voz dela estava cheia de tristeza. – Não nesta temporada. Jessie é muito pequena e... bem, eu não conheço ninguém. Ele suspirou apenas alto o suficiente para ela ouvir. – Foi isso mesmo que eu pensei que você diria.


Kari não poderia dizer se Ryan estava frustrado ou apenas decepcionado. Ela se virou e ficou olhando para a sala vazia. – Você está bravo? – Claro que não. – Ryan fez uma pausa. A ligação estava tão silenciosa que ela podia ouvi-lo respirar. – Como está Jessie? Kari ficou contente por ele mudar de assunto. – Crescendo rápido. A voz de Ryan era mais suave que antes. – Aposto que sim. – Dá para acreditar que ela já está com quase 7 meses? – Nossa! – Ryan ficou em silêncio por um momento. Será que ele estava pensando a mesma coisa que ela? Que, se Jessie já tinha 7 meses, fazia muito tempo que eles não se viam. – Ela já está sentando? – Quase. E ela rola o tempo todo agora. Um bipe suave soou no ouvido de Kari. – Isso é sua outra linha? – Sim. Um minuto. Quando ele voltou, sua voz estava diferente, mais apressada. – Ei, Kari, eu tenho de atender essa chamada. Falo com você outro dia dessa semana, tá? – Tudo bem. – Ela se esforçou para esconder a decepção. – Se cuide! – Pode deixar. Kari sentiu como se alguém tivesse jogado um balde de água fria sobre ela. Os telefonemas de Ryan normalmente duravam, pelo menos, meia hora. Eles davam a ela um motivo para ficar na expectativa. Depois de desligar, ela vagou pela casa; então, decidiu voltar ao início. Por que Ryan não se ofereceu para vir para Bloomington? Será que ele estava tão envolvido com a experiência de treinamento e com a vida em Nova York que a ideia de visitá-la nem mesmo passou pela cabeça dele? E, afinal, para onde exatamente o relacionamento à distância deles estava indo? Eles nunca discutiram seus sentimentos mais profundos, como nunca falaram sobre sentirem falta um do outro, muito menos sobre amarem um ao outro. Talvez ele ligasse para ela apenas por causa de algum sentimento nostálgico de amizade e lealdade. Afinal de contas, eles haviam escolhido seguir com a


vida pouco antes de Tim ter sido assassinado. Talvez Ryan apenas sentisse pena dela: uma mãe solteira, criando Jessie sozinha. Quais são os planos que o senhor tem para mim, Deus? Quando vai me deixar saber? Ela puxou as cobertas para se cobrir e fechou os olhos. É claro que o Senhor já tinha mostrado parte de seus planos para ela. O pastor Mark tinha dito que ela talvez estivesse pronta para começar o ministério em breve. Enquanto isso, ele queria que ela começasse a se reunir com uma mulher mais idosa na igreja, alguém que partilhasse de seu desejo de ajudar mulheres sofridas. O material de aconselhamento que ele lhe tinha dado foi útil também. Ensinou-a a se lembrar da verdade de Deus sobre relacionamentos. – É uma questão de lembrar o que é importante –, explicou o pastor Mark durante uma das reuniões de Kari com ele. – Você vai ajudar as mulheres a se lembrarem como amar. Esse tipo de lembrança se torna um modelo que elas vão seguir à medida que o coração delas for sendo curado. Lembrar-se da verdade de Deus... Lembrar-se do que é importante... Lembrar-se de como amar. Lembrar era um tema que parecia permear todas as coisas que eram importantes desde os ataques: Landon honrava a memória do amigo ao vasculhar os escombros; Ashley ajudava seus pacientes com Alzheimer a viverem em um lugar onde eles tinham lembranças felizes. De modo muito simples, uma alma saudável era aquela que arrumava tempo para lembrar. Mas, e com respeito a ela e Ryan? Por que ela estava tão ansiosa pelas ligações dele ultimamente? E por que ela passava tão pouco tempo pensando em Tim nos últimos dias? Kari virou-se de lado e puxou os lençóis para perto do queixo. De alguma forma, os acontecimentos de 11 de Setembro serviram para distanciar Kari da dor de perder Tim. Mas talvez isso estivesse errado. Talvez ela ainda devesse honrar a memória de Tim, pensando nele a todo momento. Diga alguma coisa, Senhor. Diga se meus sentimentos por Ryan estão errados. Como posso saber o que fazer quando ele está tão longe? É claro que minha cura não desonra Tim. Meus pensamentos não são seus pensamentos; nem seus caminhos, meus caminhos, filha. Kari piscou os olhos. Era Deus falando com ela? Sussurrando aos lugares secretos de sua alma? As palavras eram de Isaías 55, parte de um versículo que ela havia lido em algum material que estava estudando. Mas eram a resposta do Senhor para ela agora? Se sim, o que as palavras significavam? O Senhor tem um plano diferente para mim, Deus? Algo que eu não posso imaginar? Talvez Deus quisesse que Ryan desaparecesse da vida de Kari, se tornasse uma lembrança, em


vez de uma presença constante. Isso seria diferente – e, definitivamente, algo que ela não poderia imaginar. Kari respirou fundo. Não era possível que esse fosse o plano de Deus para ela, né? Então, ela pensou em algo que a fez arregalar os olhos. Pelo que ela sabia, a pessoa que havia ligado para Ryan e interrompido sua conversa com ela poderia ter sido uma mulher, alguém com quem ele estava saindo – talvez alguém com quem as coisas estivessem ficando sérias. Kari fechou os olhos novamente. Enquanto tentava dormir, as perguntas a atingiam como granizo. Por alguma razão, ela estava com medo das respostas – porque não importava o que Ryan sentia por ela ou que versículos bíblicos lhe passavam pela cabeça. A nuvem de culpa e de tristeza que pairava sobre ela durante meses finalmente estava se dissipando, e, em sua ausência, os sentimentos de Kari por Ryan eram tão claros como o sol da tarde. Ela o amava. Por causa disso, os planos de Ryan realmente não eram o problema. Desde que o havia conhecido, ela nunca tinha tomado a iniciativa, nunca tinha sido ousada o suficiente para realmente declarar seus sentimentos por ele. Mas, agora, ela era uma mulher adulta, uma mulher que tinha aprendido muito nos últimos meses. Já não era suficiente deixar a vida acontecer ao seu redor. Não mais. Ela puxou o ar lentamente, uma vez mais acordada. Finalmente, era tempo de agir de acordo com seus sentimentos. As ideias giravam em sua mente até que ela elaborou um plano: um plano maravilhoso e ousado que não tinha nada a ver com sua natureza. Na verdade, ela mal conseguia dormir por causa da euforia que estava sentindo com o que estava prestes a fazer. Ela havia perdido Ryan uma vez, quando esperou muito tempo, imaginando os sentimentos dele. Mas, ela havia aprendido algumas coisas desde essa época e, agora, de repente, estava certa de uma coisa. Ela não cometeria o mesmo erro novamente.


CAPÍTULO 27 O artigo que Ashley comprou no eBay chegou na segunda-feira à tarde. Ela abriu o pacote e respirou fundo. Era exatamente aquilo de que precisava: uma antiga sela do oeste norte-americano que ela comprou em um leilão por 42 dólares. Sim, o estribo esquerdo estava faltando, mas a sela era grande o suficiente para um adulto e tinha marcas bonitas gravadas no couro preto. Ashley tinha visto o preço de selas usadas em lojas da cidade e chegou a encontrá-las até por quinhentos dólares, muito acima de seu orçamento. Essa estava perfeita. Assim como o velho cavalete desgastado que ela pegou na madeireira. O gerente o tinha encontrado em um galpão de armazenamento e ficou feliz em se livrar dele. Ele não cobrou nada por ele e sugeriu que procurasse a sela no eBay. Na terça-feira pela manhã, Ashley levou os dois itens até o porta-malas de seu carro. Ela os deixou lá até a hora de seu turno. A última coisa que queria era que Belinda a encontrasse enquanto ela arrastava a sela e o cavalete para o quarto de Bert. Era melhor esperar até Belinda estar ocupada com a papelada. Se Ashley conseguisse levar a sela para o quarto de Bert, ela estaria livre. Belinda raramente entrava no quarto de Bert. Ashley odiava pensar no que aconteceria se Belinda descobrisse seu plano. A mulher já não estava feliz com Ashley. Ela vivia removendo o lençol do espelho do banheiro e, quando viu o mural de fotos de Irvel, acusou Ashley de ter muito tempo livre. Ela ainda não sabia que Sue Brown estava fingindo ser amiga de Helen, em vez de filha da idosa. Mas, se Belinda descobrisse, Ashley tinha certeza de que haveria problemas. Armar conversas que não pertenciam à realidade era, de certa forma, ir contra às regras da casa. – Ultrapasse muito os limites e você estará acabada –, Belinda tinha dito a Ashley recentemente. – Não force a barra. Você não está no comando aqui; eu estou, e Lu me ouve. Me dê um motivo, e você já era. Ashley não queria que a sela e o cavalete fossem o motivo. Ela trancou o carro e entrou na casa. Belinda ainda não estava lá, mas a mulher poderia aparecer a qualquer minuto. Ashley despediu-se da assistente social do turno da noite, então preparou o café da manhã, trocou as fraldas e ajudou Irvel e as amigas a se sentarem à mesa. Quando elas estavam sentadas, Ashley serviu a cada uma delas uma tigela de cereal quente e uma xícara de chá de menta.


Em seguida, juntou-se a elas. – Então – ela olhou ao redor da mesa –, como vocês estão hoje? Irvel parecia particularmente descansada, o rosto relativamente liso e livre das linhas de preocupação com as quais ela, às vezes, acordava. – Hank tem sido maravilhoso para mim, querida. Tem sido uma semana linda. A idosa tinha uma forma de tocar o coração de Ashley. Ela inclinou a cabeça, vendo Irvel como deveria ter sido duas décadas antes, quando ela e Hank compartilhavam a mesma alma. É claro que agora que a idosa acordava com as imagens de Hank, ela se sentiria mais segura. – Isso é maravilhoso, Irvel! A luz do sol atravessou a janela, apesar da forte chuva que havia caído na noite anterior. Irvel sorriu para ela. – Sabe, querida, com esta luz você tem um cabelo muito bonito. Alguém já lhe disse isso? – Hoje, não, Irvel. – Ashley lembrou que Landon tinha dito a mesma coisa, provocando-a em um dos preguiçosos dias de verão que passaram juntos. Isso foi antes do mundo ter sido abalado naquela manhã de setembro. – Bem, é verdade. – Irvel olhou para Edith. – Você não acha? – Sim, eu gosto de seu cabelo. – Edith olhou para Ashley por um instante. – Ele tem uma tonalidade bonita. Helen baixou o queixo e ficou olhando para Ashley por sobre a tigela de cereal. – Com o cabelo assim, é bom que você tenha sido revista-da. Sue foi revistada, mas não durante o café da manhã. – Ela pegou a colher e comeu um bocado do cereal quente. Ashley sufocou um sorriso com as mãos. Na época em que ela começou a trabalhar na Sunset Hills, Helen teria batido o punho na mesa ou teria dado um tapa na perna para dar ênfase. Agora não. A tendência à agressividade que parecia alterar sua personalidade havia desaparecido consideravelmente. Ashley tinha de acreditar que isso era por causa das conversas de Helen com a filha. A mulher tinha uma conexão com Sue agora, por mais distante que fosse. Consequentemente, a vida era melhor para todas elas. – Você foi revistada, não foi? – Helen levantou um olho na direção de Ashley mais uma vez. – Espiões estão pelo lugar, você sabe. Havia um sujeito na TV outro dia... parecia louco e selvagem. Cara de maluco. – Ela bateu um dedo contra a têmpora. – Um grande zero aqui em cima. Ele era um espião, eu sei disso. Mas ninguém nunca o revistou. – Sim, Helen, eu fui revistada. Pouco antes de entrar. Eu não sou espiã.


– Bom. – Ela fez um rápido sim com a cabeça. – Aquela senhora idosa vem me visitar hoje? Aquela bonita... que conhece minha filha? – Eu acho que sim. – Ashley estava feliz por Sue não ter ouvido aquela descrição de si mesma, especialmente vindo da mãe. – Ela não é espiã. – Helen soprou seu cereal. – Não, Helen, ela não é. – Sue vinha com frequência agora. Toda vez que elas estavam juntas, o coração de Ashley se enchia de esperança. Talvez um dia, se a amizade entre Sue e Helen continuasse, Helen pudesse realmente aceitar Sue como ela era: sua única filha. Irvel largou a colher e olhou para Helen. – Eu sou a Irvel. – Ela estendeu a mão. – Que bom que você pôde se juntar a nós hoje. Helen deixou a mão de Irvel suspensa e olhou para Edith. – Quem é você? – Eu? – A pergunta pareceu desconcertar Edith por um momento. – Edith... eu sou Edith. – A colher balançou em sua mão, a voz ficou insegura. – É isso mesmo, não é? – Sim, Edith. – Ashley manteve a voz calma e confiante. Ela havia notado que os residentes se sentiam melhor quando os cuidadores não reagiam às suas perguntas com sarcasmo ou irritação, a maneira como Belinda constantemente agia. – Edith é nossa amiga – disse Irvel. Ela acariciou a mão de Edith e olhou para Helen com as sobrancelhas levantadas educadamente. – E você é... ? – Você sabe quem eu sou! – Helen baixou a testa. – Eu cuido para que as pessoas sejam revistadas por aqui. – Esta é a Helen. – Ashley deu um sorriso para Irvel. – Ela é nossa amiga também. – Este chá está simplesmente maravilhoso. – Irvel apon-tou para a xícara de Helen. – Você deveria experimentar. – Ela olhou para o relógio, uma delicada pulseira de prata antiga que ela usava dia e noite. Ashley tinha a impressão de que tinha sido um presente de Hank. Irvel tomou lentamente um gole de seu chá. – Hank estará aqui em uma ou duas horas; então, beba, Ingrid. O chá é melhor quando está quente. Edith bateu no ombro de Irvel. – Eu não sou Ingrid. Eu sou Edith. – Ela apontou para Ashley. – Essa menina disse que sim. Ashley sentou e observou, com um misto de diversão e tristeza, enquanto a conversa se desenrolava. Elas realmente não sabiam. Essas mulheres viviam juntas, faziam todas as refeições juntas e passavam os dias em companhia uma da outra. Mas, todas as manhãs, elas não tinham ideia


de quem eram as pessoas ao redor da mesa. Apresentações faziam parte de sua rotina diária. A doença era realmente perversa. E, apesar de ter encontrado uma maneira de fazer com que Edith parasse de gritar, não havia nada que Ashley pudesse fazer para limpar a névoa permanente que bloqueava a memória da mulher. As pesquisas que Ashley tinha lido diziam que ajudar as pessoas a viver no momento do tempo em que elas mais se sentissem à vontade, às vezes, servia para restaurar a perda de memória. Mas, nem sempre. E claramente não funcionava com Edith. Irvel fez que não com a cabeça e disparou um sorriso para Edith. – Eu sei que você é Edith. – Ela apontou para Helen. – Eu me refiro a ela. Ingrid está lá. Aquela que está sempre revistando as pessoas. – Meu nome é Helen. – Um olhar irritado encheu os olhos de Helen, e ela olhou para Ashley, buscando ajuda. – O que há com ela? – Ela apontou para Irvel. – A velha doida não lembra de nada! – Na verdade, eu estava pensando que poderíamos jogar uma partida amigável de bridge até Hank chegar aqui. – Irvel olhou para as outras. – Mas, nada de apostas. Hank diz que o bom Deus despreza apostas. – São ovos mexidos? – Edith enfiou a colher no cereal três vezes. – Não parecem ovos. Irvel lançou um olhar por baixo dos óculos em seu nariz delicado para a comida na tigela de Edith. – Querida... – Ela revirou os olhos na direção de Ashley. –Não são ovos. É cereal de milho. Sua mãe preparou para nós. – Isso é ridículo! – Helen levantou a mão, mas não chegou a batê-la na mesa. – Minha mãe faz lasanha. Ela fez hoje. – Helen olhou para a cozinha. – Mas, toda vez que ela faz, alguém rouba. Assim como aconteceu com Sue. Eles roubaram minha filha também. As coisas estão sempre sendo roubadas por aqui. Irvel suspirou como se fosse só isso que pudesse fazer para ser paciente com as mulheres ao seu lado. – Não é sua mãe, Ingrid. É a mãe de Edith. A mãe de Edith fez o cereal de milho essa manhã. – Eu não sou Ingrid – Helen rosnou. – Ingrid está em outro cômodo. Edith não comeu nada desde que perguntou sobre o conteúdo de sua tigela. Agora, ela pronunciou a palavra mãe, com os olhos arregalados e com medo. – Mãe? – Ela olhou ao redor. – Mãe? – Espiões. – Helen fez que não com a cabeça, enojada. – São os espiões que roubam as coisas.


Lá vamos nós... Ashley respirou fundo. De vez em quando, uma dose saudável de realidade era necessária para colocar a conversa nos trilhos novamente. – Na verdade, eu preparei o cereal nessa manhã. Edith olhou para ela. – Você não é minha mãe. – Não – Irvel interrompeu. – Ela não é sua mãe. Mas, ela tem um cabelo bonito. Vocês não acham, meninas? Eu nunca vi um cabelo assim antes. *** Ashley mal podia esperar pela hora da soneca. Ela só conseguia pensar na sela e no cavalete no porta-malas de seu carro, e em como Bert reagiria quando visse aquilo. Será que ele reconheceria a sensação do couro? Seria atraído pelo cheiro? Será que aquilo iria fazê-lo voltar ao passado como ela esperava que acontecesse, de volta a uma época em que ele foi útil e necessário? Se sim, era possível que ele recuperasse algumas de suas habilidades de comunicação. Pelo menos, era o que ensinava a escola passado-presente de pesquisa. Apesar da confusão que reinava, a manhã correu bem. Ashley cuidou para que o lençol estivesse sobre o espelho do banheiro, e Edith parecia completamente à vontade. Irvel só tinha de olhar para a parede do quarto para saber que Hank estava perto. E Helen tinha perguntado novamente sobre a “simpática senhora idosa” que veio para falar sobre Sue. Às vezes, durante o café da manhã, Belinda entrava sorrateiramente pela porta da frente e se dirigia de volta para o escritório sem dizer uma palavra. Ashley ficava feliz. As duas se davam melhor quando evitavam uma à outra. Às 10 horas, os residentes estavam banhados e aninhados nas cadeiras para o cochilo da manhã. Laura Jo parecia pior. Ela praticamente não tinha comido nada durante três dias e dormia quase o tempo todo. Ashley olhou para ela e calmamente se aproximou. – Laura Jo? – Ashley pegou o copo de água da mulher e forçou um pouco do líquido por entre os lábios secos dela. A mulher tomou dois goles lentos. Ashley esperou. – Você está bem? A mulher gemeu e rolou a cabeça alguns centímetros em direção a Ashley. Ela estava encolhida; seus ossos praticamente passavam pela pele. A última vez que Ashley tinha verificado a ficha médica da mulher, o peso de Laura Jo havia caído para menos de quarenta quilos. Seu médico disse que seria


apenas uma questão de semanas. Belinda já estava aceitando requerimentos pelo quarto de Laura. – Eu estou aqui, Laura Jo. – Ashley pegou os dedos da mulher e correu o polegar sobre os finos ossos ao longo do dorso da mão. – Se você precisar de alguma coisa, me avise. Laura Jo moveu os lábios como se estivesse tentando dizer alguma coisa. Finalmente, uma única palavra soou: – Orar. Orar? Os nervos de Ashley tilintavam como sinos de vento. – O que é isso, Laura Jo? Eu estou aqui ao seu lado, que-rida. Para o que você precisar. Mais uma vez, a mulher moveu a boca. – O-o-orar. Orar. Desta vez, Ashley não teve dúvida e engoliu o medo. – Você quer orar? Com um movimento pequeno, quase imperceptível, Laura Jo fez que sim. Ótimo. Ashley sentiu um filete de suor correr pela testa. Ela não podia orar com Laura Jo. Não era a pessoa certa para isso. Uma coisa era orar em silêncio por Landon ou falar com Deus na igreja. Mas em voz alta? Por uma mulher morrendo? Laura Jo precisava de alguém que tivesse uma reputação com o Senhor para fazer aquele tipo de oração, alguém que conhecesse um versículo da Bíblia ou dois, alguém para dar-lhe paz em seus momentos finais. – Você... Você quer que eu ore? Movendo-se como um bonequinho com pilha fraca, Laura Jo assentiu. – Oooore. – Ela apertou a mão de Ashley levemente com os dedos. Ai! O coração de Ashley batia tão alto no peito que ela estava com medo de amedrontar a idosa. Eu não sei o que dizer, Deus. Me ajude! Lembre-se dos dias de sua mocidade, filha. Lembre-se... Ashley recuou um pouco. Lembrar-se dos dias da juventude? De onde isso tinha vindo? Laura Jo não tinha dito isso, e não havia mais ninguém no quarto. Além disso, as palavras foram em silêncio. Quase como se alguém tivesse falado diretamente ao seu coração. Então, sua ficha caiu. Era possível que fosse Deus falando? Ele estava pedindo a ela para se lembrar da infância, do modo como orava em voz alta naquela época? Uma lembrança encheu sua mente. Ela e Kari, crianças, com as mãos ao lado de seu cachorro doente. Deus, faça Brownie melhorar. Por favor, Deus. Ela havia orado naquela ocasião, certo?


Palavras simples dando voz ao pedido mais profundo de seu coração. Mas, isso tinha sido mais de uma década atrás. Ela poderia fazer isso aqui? Por essa mulher morrendo? Ashley engoliu a saliva e abriu a boca. Deus, me ajude. Eu não sei o que dizer. Então, como se o próprio Deus estivesse lhe dando um roteiro, as palavras, quase infantis, começaram a vir. – Senhor, ajude Laura Jo... – A voz de Ashley estava trê-mula, nervosa. Mas, de alguma forma, ela encontrou força para continuar. – Esteja aqui e segure a mão dela... Por favor, Deus. Faça-a se sentir feliz interiormente e seja bondoso para com ela. Lágrimas turvaram a imagem do rosto da idosa, e Ashley piscou, esforçando-se para ver. – Muito em breve ela estará... – Sua voz ficou presa, e ela percebeu que as rugas ao redor da boca de Laura Jo tinham se aliviado um pouco. A urgência que a mulher tinha momentos antes desapareceu. Ashley esforçava-se para terminar. – Muito em breve ela estará em casa, em seus braços. – Ashley inclinou-se e beijou o rosto frio e fundo de Laura Jo. – Até lá, fique com ela, Deus. Dê a ela sua paz e segure a mão dela para que ela nunca, nunca esteja sozinha. Ashley sentiu-se relaxar. Pronto! Ela respirou lentamente e terminou a oração. – Eu peço isso em nome de Jesus. Amém. Passou a ponta dos dedos sobre a testa de Laura Jo. – Você se sente melhor agora, querida? Laura Jo fez um único sim com a cabeça e, em poucos segundos, estava roncando. Ashley percebeu que estava prendendo a respiração e, finalmente, respirou, tremendo com o que tinha acabado de acontecer. Ela, de fato, orou em voz alta! As orações que ela estava fazendo a favor de Landon a tinham ajudado a saber que isso era possível. Por pior que tivesse sido seu passado, ela poderia iniciar uma conversa com Deus. Mas, isso? Essas palavras obviamente tinham vindo do próprio Deus. Que outra explicação haveria? Ashley ainda estava impressionada com o incidente quando saiu do quarto de Laura Jo e se certificou de que Belinda estava ocupada no escritório. Quando ouviu Belinda falando ao telefone, saiu pela porta dos fundos e foi até o carro. Tirou a sela do porta-malas e, com cuidado, removeu o cavalete. Ele já estava um pouco frágil, e ela não queria quebrá-lo antes de levá-lo para o quarto de Bert. A sela sozinha pesava quase dez quilos, e Ashley a colocou no cavalete. Em seguida, carregou o


conjunto pela calçada e entrou na casa. Ela estava no meio do corredor em direção ao quarto de Bert quando Belinda dobrou o corredor do outro lado e parou, com os olhos arregalados. – O que... você está fazendo? – Ela caminhou os passos que as separavam e olhou para a sela e o cavalete. – O que é isto? Pense em alguma coisa, Ashley disse a si mesma. Mas, a única explicação que parecia fazer sentido era a verdade. – Bert era um fabricante de selas. – Ashley pôs o cavale-te no chão do corredor e olhou Belinda diretamente. – Você sabia disso? Belinda colocou as mãos nos quadris. – E? – Ela virou a cabeça em direção ao cavalete e à sela. – O que você está fazendo com essa... essa coisa na casa? – Bem... – Ashley manteve a voz calma. Talvez, se ela não reagisse de forma exagerada, Belinda também não reagiria. – Eu pensei em colocar isso no quarto de Bert. Assim, ele não teria mais de alisar o edredom. Ele teria uma sela para polir... como ele fazia quando... – Uma sela? Você ficou louca? – A voz de Belinda mani-festava uma fúria controlada. A mulher sabia muito bem que não devia gritar e acordar uma casa cheia de pacientes com Alzheimer que estavam dormindo. Mas ela estava mais irritada do que jamais Ashley tinha visto. – Vale a pena tentar. – Ashley suspirou e inclinou-se sobre o cavalete. – Que mal teria? O rosto de Belinda estava vermelho. – Bert delira. – Ela apontou para Ashley. – E agora é você. – Seu olhar pousou sobre o cavalete de novo, mas, dessa vez, ela o chutou, derrubando-o de lado e jogando a sela longe no corredor. – Ei, espere aí! – Ashley estendeu a mão para tentar pegar a sela, mas Belinda se colocou no caminho. – Você está demitida, Baxter. Eu aguentei tudo o que po-dia. – Ela apontou para a sela e o cavalete. – Pegue suas coisas e saia. Vou ligar para Lu e pedir para ela cortar seu último pagamento. Ela vai me apoiar. Ashley sentiu o sangue fugir do rosto. – Belinda, eu acho que devemos falar sobre isso antes... Belinda levantou a mão, interrompendo-a. – Não há nada para falar. Pegue suas coisas e vá embora. Por um momento, seus olhos se encontraram, e Ashley soube que estava terminado. Não havia um pingo de chance de Belinda ceder, e de nada adiantaria conversar. Tecnicamente, é claro, Belinda


não tinha autoridade para demiti-la; esse direito pertencia a Lu. Ela até pensou em ir ao escritório e ligar para Lu, explicando o que tinha acontecido. Mas Lu ficaria do lado de Belinda. Belinda era a gerente leal, Ashley era apenas a ajudante recém-contratada. Além disso, Belinda já havia reclamado com a proprietária sobre Ashley uma dezena de vezes; Lu tinha dito isso. A mulher não teria outra escolha senão ficar do lado de Belinda. Ashley pegou a sela e olhou para a chefe. – Você está falando sério, não é? – Pode apostar que sim! Você não pode simplesmente sair por aí em um lugar como a Sunset Hills e mudar tudo. Não é assim que as coisas funcionam. – Belinda recuou e observou Ashley. Algo no olhar dela parecia familiar para Ashley. De repente, Ashley reconheceu o mesmo misto de raiva e arrogância que tinha visto em Jean-Claude Pierre na última vez em que se viram. – Mas, quem vai cuidar de... – Eu vou cuidar dos pacientes até Krista chegar. – Belinda estreitou os olhos. – Você tem cinco minutos para arrumar suas coisas e ir embora. O coração de Ashley batia forte enquanto ela pegava a sela e o cavalete e os levava de volta para o carro. Em seguida, ela entrou novamente e reuniu seus arquivos, os que tinha feito sobre os residentes. Pegou a bolsa e o casaco e encontrou Irvel, Helen e Edith roncando sossegadamente nas poltronas. Era isso, então? Ela estava sendo forçada a ir embora sem nem dizer adeus? No canto da sala, viu Belinda assumir sua posição, observando-a, certificando-se de que tinha feito o que lhe tinha sido dito. Ashley não se importava. Havia algo que tinha de fazer antes de sair. Ela andou até Edith e abraçou-a, colando o rosto no da idosa e acariciando seus cabelos brancos cacheados. – Adeus, Edith. Que Deus cuide de você. Então, ela fez o mesmo com Helen e, finalmente, com Irvel. – Eu não sei como, Irvel, mas, um dia, vou vê-la de novo. – Lágrimas marcavam cada lado do rosto de Ashley. – Cuide de Hank. Quando terminou de se despedir, ela vestiu o casaco e deu uma última olhada ao redor da sala. Então, sem olhar para trás, dirigiu-se para o carro. A manhã fria feria seu rosto úmido, e ela o enxugava com a manga do casaco. Deu uma olhada para a casa mais uma vez, entrou no carro e ligou o motor. – Deus, me ajude! – Agora que ela havia orado com Laura Jo, as palavras vieram com mais


facilidade, como se estivessem ali o tempo todo. Ashley encostou a cabeça no volante por um momento. – O que eu vou fazer? Irvel, Edith e Helen eram como uma família. Como ela poderia ir embora justo agora, quando elas estavam começando a fazer progressos? Quem poderia garantir que o espelho permaneceria coberto para Edith? E quem incentivaria Sue a continuar a amizade com Helen? Acima de tudo, quem garantiria a Irvel que Hank estava voltando? Era tudo muito injusto. As lágrimas escorriam copiosamente enquanto Ashley se afastava. Foi muito bom que Irvel e as amigas estivessem dormindo. Suas lágrimas teriam perturbado as pobrezinhas. E de que adiantaria isso? Depois de hoje, elas não se lembrariam mesmo de Ashley.


CAPÍTULO 28 O táxi não podia ir mais rápido. Depois que Kari desembarcou no aeroporto La Guardia, tudo o que ela podia fazer era esperar uma oportunidade favorável para que pudesse, finalmente, ver Ryan. A viagem era uma surpresa, algo que ela vinha planejando desde a última vez que eles se falaram. Kari tinha verificado o cronograma do Giants. A equipe não tinha jogo programado no dia 2 de dezembro. Ela não sabia ao certo até quando Ryan estaria de folga naquele fim de semana, mas sabia que ele não sairia da cidade. Ele disse isso a ela muitas vezes. Eram 16h30 de quinta-feira, e Kari imaginou ir primeiro ao apartamento de Ryan, levá-lo para jantar e, em seguida, encontrar um hotel onde pudesse passar as próximas noites. Uma risada tranquila fugiu de sua garganta enquanto ela olhava, pela janela do táxi, para as ruas movimentadas. Seus pais não tinham acreditado nela quando ela mencionou a ideia pela primeira vez. – Simples assim? – Sua mãe ficou com a boca aberta. – Você está indo para Nova York? – Isso mesmo. – Kari sorriu, sentindo-se mais viva do que nunca nas últimas semanas. – E eu preciso que você cuide de Jessie. – Onde –, o pai de Kari engoliu com dificuldade, – onde você vai ficar? – Pai! – O rosto de Kari enrubesceu. – Em um hotel, é claro! – Seu pai e eu chegamos à conclusão de que nada nos surpreenderá a essa altura dos acontecimentos, querida. – Além disso, eu sou uma mulher adulta. Eu posso ir para Nova York, se eu quiser. – Eu sei. – Seu pai aproximou-se e a beijou na testa. – Cui-de-se. Ainda é... – Cedo? – Isso. – Ele voltou para o lado da esposa e repetiu: – Cui-de-se. – Pai, eu vivi em Nova York, lembra? E eu conheço Ryan desde que me entendo por gente. – Ela olhou para a mãe. – Em toda a vida, eu nunca fiz nada em relação aos meus sentimentos por ele. Até agora. Sua mãe pareceu alarmada. – O que exatamente você está planejando? – Uma visita. – Kari estendeu as mãos para ela. – Nada mais. Apenas uma maneira de fazê-lo


saber que ele ainda está em meu coração. – Ele está, não é? – A carranca do pai desapareceu. – Sim. – A voz de Kari ficou mais suave. – Eu penso nele o tempo todo. – Então, vá. – A mãe sorriu, sem a preocupação em sua ex-pressão. – Se o dia 11 de setembro nos ensinou uma coisa, foi que a vida é curta. Se você se preocupa com Ryan, diga isso a ele. E deixe que Deus assuma o controle daí para frente. O táxi estava mais perto agora, movendo-se pelo coração da cidade. Kari olhou para fora da janela, comparando mentalmente o que via com o que ela se lembrava de seus dias de modelo. Eles passaram por ruas com barricadas e janelas com tábuas. Bandeiras norte-americanas agitavam-se em inúmeras lojas, ao longo dos lados de edifícios e em quase todos os carros e táxis na área. Talvez fosse coisa de sua imaginação, mas ela parecia ver uma diferença nos olhos das muitas pessoas ao longo de cada lado da rua. Uma profundidade de perda e de camaradagem que Kari não tinha visto antes. A percepção deu-lhe um arrepio na espinha e fez seus braços e pernas se arrepiarem. – Quantos quilômetros faltam? – Ela se inclinou para frente para que o motorista pudesse ouvi-la. – Uns oito ou dez. – Obrigada. Foi então que ela percebeu duas fotografias coladas no painel do motorista. Uma delas era de um policial; a outra, de uma mulher com um uniforme. Estranhamente, ambos se pareciam com o motorista. Kari hesitou, mas não se conteve. Apontou para as imagens. – São seus parentes? – Meu filho e minha irmã. Nenhum deles foi encontrado ainda. – Eu... Eu sinto muito. – Kari sentiu o coração se afundar vários centímetros no peito. Por que ela perguntou, afinal? A tragédia que tinha acontecido aqui não era simplesmente um espetáculo para ser visto. Era a vida real, afetando pessoas de verdade, pessoas como esse taxista, que nunca mais veria seus entes queridos. O calafrio foi embora. Em seu lugar, uma triste realidade a cercou. Ela seria mais cuidadosa com as perguntas na próxima vez. Seus pensamentos voltaram-se para Ryan mais uma vez, e ela olhou para a mão. Ela havia tirado a aliança e a colocado em uma caixa de veludo que guardava na gaveta da cômoda no quarto. Era hora... e, um dia, a pequena Jessie poderia querê-la.


Kari olhou para o hodômetro. Mais oito quilômetros. Como seria a sensação de estar com ele de novo? Os dois haviam passado por tantas coisas na vida, muitos altos e baixos. É claro que ela precisava estar com ele agora. Ela o amava, e não havia o que ela pudesse fazer sobre isso. Talvez fosse muito cedo. Mas, toda vez que ela orava sobre a situação, sentia a mesma coisa. Agora que a névoa da morte de Tim estava começando a clarear, agora que ela havia dedicado tempo à cura, agora que havia estudado, orado e sondado seu coração... a verdade era simples e óbvia. Ryan Taylor era tudo para ela. E ela precisava fazer com que ele soubesse disso. O labirinto de ruas parecia não ter fim, mas, finalmente, o motorista parou em frente a um conjunto de apartamentos. Um porteiro estava de guarda na frente. – É aqui. – O motorista fez sinal para o taxímetro. – Eu prefiro dinheiro, se você tiver. Kari entregou-lhe o valor com uma bela gorjeta. – Tomara que eles os encontrem. Seu filho e sua irmã. O homem fez que sim com a cabeça, mas não disse nada. Quando saiu e pegou a bolsa, Kari o viu limpar uma lágrima. Ela ficou ao lado da mala na calçada e viu o táxi se afastar. Ajude-o, Deus. Dêlhe paz, por favor. Não havia nenhuma voz baixa em meio ao barulho da cidade. Mas Deus a tinha ouvido – e isso era o mais importante. E ela havia aprendido algo com o taxista: estar na cidade de Nova York seria mais difícil do que ela pensava. Ela se virou para o porteiro. – Estou aqui para visitar um amigo. – O nome dele? – A postura do homem era dura, mas ha-via compaixão em sua voz. – Ryan Taylor. – Ele está esperando por você? – Não. – Borboletas se agitaram no estômago de Kari. – Posso subir mesmo assim? O homem insinuou um sorriso. – Preciso ligar para ele primeiro. – Ele se voltou para um painel de botões e pegou um interfone. Kari não conseguiu ouvir nada da conversa. Depois de alguns segundos, o homem se virou para ela. – Pode subir. – Disse-lhe o número do apartamento e girou uma chave que abriu a porta para a recepção. Kari arrastou a mala pela porta dupla em direção aos elevadores. De repente, sentiu-se nervosa,


as mesmas velhas dúvidas enchendo de novo sua mente. E se ele não ficasse feliz em vê-la? E se os sentimentos dele por ela tivessem mudado meses atrás, quando ela estava tão desesperada para resolver as coisas com Tim? Talvez ele a julgasse presunçosa por aparecer sem avisar antes. Não, isso não era possível. Afinal de contas, ele pediu que ela viesse. E agora ela estava aqui. O elevador subiu suavemente para o 12-º andar. Seus joelhos tremiam enquanto ela seguia pelo corredor até o apartamento indicado. Por um breve momento, pensou em voltar atrás. Em se tratando de Ryan, ela nunca tinha feito nada tão ousado antes. Ela bateu à porta. Era tarde demais para desistir agora. A porta se abriu, e lá estava ele. Ryan Taylor, os olhos arregalados, a boca aberta. Cada uma das dúvidas de Kari se dissipou como neblina em dia de verão. – Kari... eu pensei... quando o porteiro disse que uma mu-lher estava... quero dizer, eu imaginei que fosse um engano. Onde... como você...? – Ryan. – Ela largou a bolsa e se colocou nos braços dele, deliciando-se com a sensação do corpo dele contra o seu, respirando a realidade dele. – Eu não acredito que estou aqui. – Sua voz saiu como um sussurro, sufocada pela alegria de vê-lo de novo, de estar com ele. – Eu não podia ficar longe mais um minuto. Ele a abraçou com força. – Você veio. – As palavras estavam impregnadas de desejo, o mesmo desejo que ela havia ouvido tantas vezes na voz dele ao telefone, mesmo quando ela havia feito todo o possível para não pensar nele. No momento em que ele falou as palavras, ela soube. Ele não tinha seguido em frente com a vida. Era o tipo de detalhe que ela não poderia ter reconhecido se não estivesse ali, vendo-o em pessoa, sentindo os braços dele ao seu redor. Não importa que quase sete meses houvessem passado desde que tinham estado juntos ou que o fim de semana fosse acabar em breve. A sensação era a mesma da primeira vez em que ele a abraçou. A mesma que sempre tinha sido, com uma diferença. Desta vez, era mais forte. *** Ryan não conseguia parar de olhar para ela, olhando por cima do ombro enquanto andavam pela cidade naquela noite para encontrar um restaurante. Ela realmente estava aqui! E o que isso significava – o fato de ela ter vindo? Até agora, além do abraço que tinham dado quando ela chegou, ela não lhe tinha dado nenhuma razão para pensar que a visita tivesse sido por outra razão a não ser


porque ele a havia convidado. Eles estavam no meio do jantar quando Kari mostrou uma foto de Jessie. Não havia nenhuma dúvida sobre isso. A bebê tinha uma impressionante semelhança com Kari. – Uau! – A boca de Ryan se abriu por um minuto. – Ela é perfeita. – Ele pegou a foto com cuidado, estudando-a. – Não dá para acreditar no quanto ela cresceu! Kari sorriu. – Não dá para acreditar que estou aqui. Eu estou longe dela só por algumas horas, até agora. – Ela pegou a foto de Ryan. – Eu sinto saudade dela. – Eu também. – Sua voz era baixa e grossa, tensa com a emoção. Não importava que ele não tivesse visto Jessie desde que ela nasceu, que ele a tivesse segurado apenas durante os primeiros dias de vida. A criança tinha conquistado seu coração sem ele nem saber disso. Ryan levantou o rosto para Kari. Seus olhos encontraram-se e fitaram-se. – Mas eu senti mais saudade de você. Ryan deslizou a mão por cima da mesa e entrelaçou os dedos nos dela. Viu perguntas nos olhos dela, mas nada que lhe dissesse para ir embora. Ela apertou a mão dele. – Eu tinha de vir, Ryan. Eu... eu não podia ficar longe. – Não é o mesmo que falar ao telefone, né? Ryan sentiu uma emoção forte que não podia explicar, como uma onda de amor, alegria e felicidade. Ali, naquele momento especial, tudo estava certo com o mundo. Mas como dizer adeus em três dias? *** A visita estava passando mais rápido do que Kari queria. Era o segundo dia deles juntos, e eles estavam no apartamento. Ryan sentou-se no sofá, as longas pernas esticadas à frente. Ele encheu dois copos de água e estava esperando por ela. A televisão estava desligada. Ocorreu a Kari que eles precisavam ter cuidado. Ela estava tão feliz de vê-lo que, até agora, não tinha pensado no que significaria ficar sozinha com ele. Afinal, nas últimas várias vezes em que estiveram juntos, a ideia de nada acontecer entre eles havia sido impensável. Primeiro, ela estava tentando salvar seu casamento, e, mesmo na época, eles quase não resistiram à tentação. Então, ela começou a ser uma viúva enlutada que ainda estava se recuperando do nascimento da filha. Mas agora... agora ela não era nenhuma dessas coisas.


Ela se sentou ao lado de Ryan e se virou para poder ver o rosto dele. Só olhá-lo já a fazia se sentir viva novamente, inteira, como não se sentia há mais tempo do que conseguia lembrar. Ainda assim, havia coisas de que ela não tinha certeza. Nenhum deles tinha dito nada sobre os sentimentos de um pelo outro – não desde que Ryan foi para Nova York. Isso era compreensível, considerando os eventos do último ano. Mas, agora, já havia passado tempo suficiente? Kari não sabia. Tinha certeza apenas de uma coisa: agora que estava aqui com Ryan, não queria deixá-lo nunca mais novamente. Ela deu um leve suspiro. – Eu ainda não consigo acreditar que estou aqui. Ele levantou um dedo e passou ao longo da testa de Kari, sempre olhando-a nos olhos. – Já notou – dessa vez, a voz de Ryan estava totalmente exposta, com toda a educada pretensão deixada de lado –, o quanto nossos telefonemas são superficiais? – Ele fez uma pausa, os olhos tão profundos como o oceano. – Falamos de tudo, menos de nós. – Eu estava pensando exatamente nisso. – Então, por que fazemos isso? – O que há para dizer? – Kari dobrou as pernas e apro-ximou os pés ao seu corpo. Estava grata por essa conversa não estar acontecendo por telefone. Eles não poderiam falar sobre isso sem olhar nos olhos um do outro, sem ler os sentimentos um do outro. – Você mora aqui; eu estou lá. Ryan sentou-se e suspirou lentamente. – Esqueça isso por um minuto. Faz quase um ano que Tim morreu, e você nunca... – Ele parou e deixou a cabeça cair para trás contra o sofá de couro bege. – Nunca o quê? Ele abaixou a cabeça, e, de repente, ela quis tornar isso mais fácil para ele. Mas, mesmo agora, tudo o que tinham era superficial. No outro dia, ela voltaria para Bloomington, e eles não estariam mais perto do relacionamento que sempre sonharam. Ela tocou o ombro dele. – Ryan? – Eu sinto muito. – Ele gemeu e levantou a cabeça. – Dei-xe para lá. – Não, qual é! O que você ia dizer? – É só que... Eu sinto falta de você o tempo todo. – Ela quase podia vê-lo tentando agarrar as palavras. – Alguma coisa sobre essa situação me faz sentir culpado. Como se eu nem devesse dizer isso a você.


– Porque Tim morreu, você quer dizer? – Seu tom era calmo, encorajando-o a abrir o coração, algo que ele não fazia desde aquele dia no lago Monroe mais de um ano atrás. – Talvez. Quer dizer, deve ser isso. – Ele hesitou e fitou os olhos dela novamente. – Você ainda está superando a perda dele, e aqui estou eu pensando em mim, em meus sentimentos por você. – Sua voz engasgou. – Kari, se você ao menos soubesse... Ela esfregou o ombro dele. – Ajudaria se eu lhe dissesse que estou em paz com rela-ção a Tim? – Em paz? – Sim. – Kari inclinou-se para mais perto, com a voz suave. – Tim não ia querer que eu passasse o resto da vida na tristeza. – Por que...? – Seus olhos examinaram os dela, e ela viu uma chama de esperança se acender ali. – Por que você não me contou isso antes? – Eu acho que acabei de perceber isso. E, depois... bem, eu não acho que fosse justo. – Sua voz estava comprimida, tensa pela emoção que lhe sufocava a garganta. – Eu não queria deduzir nada. Ele desviou os olhos e riu. Não uma risada sarcástica, mas do tipo que demonstrava alívio. Os olhos dos dois se encontraram novamente. – Você está falando sério? Ela fez que sim com a cabeça e sentiu um sorriso encabulado aparecer nos lados de seu rosto. – Muito sério. – Kari! – Ele pôs o rosto dela entre as mãos e falou direto à alma de Kari. – Só Deus poderia ter me levado para um lugar onde meu coração não esperasse por você e sentisse sua falta todos os dias, todas as horas. – Outro riso, mais silencioso, veio dele. – Por que você acha que eu ligo tantas vezes? Por que você acha que eu lhe pedi para vir? Kari deu de ombros. Era maravilhoso sentir as mãos de Ryan em seu rosto. Assim, estava difícil para ela se concentrar. – Por que você sentiu pena de mim? – Pena de você? – A expressão de Ryan era de descren-ça. – Eu teria ligado para você todas as noites, mas eu estava tentando dar espaço para você. Dar tempo para você. Sentir pena de você? Era como se Kari estivesse flutuando. Todos esses meses, ela ficou imaginando Ryan, quais eram os sentimentos dele e se eles, algum dia, teriam novamente uma noite como essa, uma noite em que poderiam ser honestos um com o outro. Como eles tinham sido naquela noite no lago Monroe. E agora ali estavam eles.


Kari sentiu seu sorriso desaparecer. Por outras 24 horas, enfim. Depois disso, o que aconteceria? Ele pareceu perceber as perguntas dela. Passou os polegares sob os olhos e ao longo das maçãs do rosto dela. – Não se preocupe com o amanhã, Kari. Deus vai cuidar disso. – Ela cobriu as mãos dele com as suas e deixou a testa cair contra a dele. A voz de Ryan foi como um sussurro. – O importante é que, depois desta noite, nunca vamos ter de perguntar o que sentimos um pelo outro. Ryan estava certo. Kari levantou a cabeça e examinou os olhos dele. – Não vamos precisar, não é? – Não. – Ele fez que não com a cabeça. – Nunca mais. Desde o momento em que entrou no apartamento de Ryan no dia anterior, Kari queria beijá-lo. Agora, a vontade era mais do que ela podia resistir. Sentiu-o se aproximar e roçar a boca contra seu pescoço, rosto, orelha. Ela fechou os olhos enquanto ele sussurrava em seu rosto com a voz que ela havia memorizado quando era adolescente: – Eu amo você, Kari. Eu sempre vou amar você. Acredite em mim, tá? Ela fez que sim com a cabeça, o rosto tocando o dele. – Eu também amo você. Devagar, em uma dança que havia sido planejada antes do início dos tempos, os lábios dos dois se encontraram. Pela primeira vez desde a lesão dele no futebol, o momento não era nem apressado nem banhado em culpa. Esse era o beijo apaixonado de duas pessoas que tinham passado a vida esperando uma pela outra. Um beijo que dizia mais sobre como eles se sentiam agora do que quaisquer palavras jamais poderiam dizer. *** Kari fechou a conta no hotel e colocou a mala ao lado da porta. O táxi estaria lá em cinco minutos, e ela e Ryan estavam em uma área privada da recepção, a centímetros de distância um do outro, tentando encontrar a maneira mais fácil de dizer adeus. Lágrimas brotaram nos olhos de Kari antes que ela dissesse uma palavra. Afinal, o que a mantinha em Bloomington? Por que ela não ia para casa, pegava Jessie e embarcava no próximo avião de volta para Nova York? Ela poderia ficar aqui enquanto ele trabalhasse com o Giants. Com seus contatos, ela provavelmente poderia até mesmo fazer alguns trabalhos para catálogos.


Mas, isso não seria correto. Ryan estaria ocupado, e ela não tinha apoio aqui, nenhum pastor para ajudá-la a lidar com seu passado, nem ideias incipientes sobre um ministério com mulheres feridas. Nenhuma família. Ninguém para ser babá de Jessie. A cidade de Nova York, mesmo a Nova York mais generosa e mais dócil que tinha emergido depois de 11 de Setembro, não era lugar para uma mãe sozinha com uma bebê. Seu coração estaria sempre com Ryan. Mas por enquanto, pelo menos, Bloomington era sua casa. Isso não fazia com que fosse mais fácil deixá-lo. Ela se inclinou para ele e apoiou a cabeça no peito dele. – Eu queria não ter de ir. – Seus braços enroscaram-se no pescoço dele, e ela o segurou, lembrando-se de uma dezena de outros momentos em que disse adeus a ele. – Então, fique. – Ele deslizou as mãos por ela e parou perto da cintura dela. – Eu não posso. Ele examinou o rosto dela. – Eu sei. Eles ficaram em silêncio por um momento, olhando nos olhos um do outro. – Se eu olhar para você por tempo suficiente, talvez possa manter uma parte de você aqui comigo. O beijo que deram foi longo, mas, no final, eles falaram muito pouco. O que havia para dizer? Eles não podiam falar sobre a próxima vez em que estariam juntos nem fazer promessas de se verem em breve. Não havia como dizer quando seria a próxima vez. A única coisa certa era o que sentiam um pelo outro. E, por enquanto, isso teria de ser suficiente. Ryan caminhou com ela para fora e esperou até que o táxi aparecesse. Em seguida, ele a abraçou mais uma vez. – Cuide bem da minha garotinha. Kari fez que sim com a cabeça, enxugando as lágrimas no rosto. – Tchau. Ryan colocou a mala no porta-malas, e ela entrou no táxi. Ambos ficaram olhando um para o outro por um bom tempo após a porta ser fechada, até que o motorista se afastou e virou uma esquina. Só então Kari deixou as lágrimas virem livremente. Uma tristeza profunda e agonizante brotou dentro dela e saiu como a oração mais simples que ela já havia feito. Por favor, Deus, permita que fiquemos juntos um dia. Por favor. ***


A dor de ver Kari partindo foi muito forte. Ryan sentiu-a em cada minuto que passou. Assim que voltou ao apartamento, ele ficou tentado a ligar para o escritório do Giants e pedir que encontrassem outro técnico. Ele estava voltando para Bloomington. Mas não era assim que ele agia. Ele precisava honrar seus compromissos, como seu pai havia lhe ensinado. Não, ele não poderia sair de Nova York agora. Sua dívida para com a equipe era ficar e terminar a temporada. Depois disso, no entanto, ele e Kari teriam algumas possibilidades sérias para discutir. Ele tinha certeza de que o Giants estenderia seu contrato por mais um ano. Se não, ele poderia encontrar uma posição em outro time da Liga Nacional de Futebol. Mas, aonde isso levaria a ele e a Kari? Será que ela se casaria com ele e se mudaria para Nova York? Será que ela iria querer seguilo pelo país enquanto ele abria caminho para uma posição de técnico principal? Era isso que o Senhor queria para eles? Ele suspirou. Havia muitas incógnitas. Neste momento, só havia uma coisa sobre a qual Ryan estava certo: Kari estava longe dele há menos de uma hora, e ele já mal podia esperar para vê-la novamente. Serviu-se de um copo de leite e se acomodou no sofá, no mesmo lugar onde se sentou no dia anterior e a beijou. Ela estaria chegando a La Guardia em breve. Imaginou-a: uma bela morena que fazia cabeças se virarem enquanto caminhava pelo aeroporto, e uma pontada de ansiedade cortou seu coração. Ele nunca tinha se preocupado muito com voar, mesmo nas primeiras semanas após o 11 de Setembro, quando o país inteiro parecia temer os céus. Mas, agora, ele se sentiu forçado a orar pela segurança do avião em que Kari estava prestes a embarcar. Porque, depois de encontrá-la novamente, ele não poderia suportar perdê-la.


CAPÍTULO 29 A sensação de dormência estava voltando. Landon precisava tirar uma folga do Marco Zero, precisava tirar um dia e se sentar na capela local e chorar por tudo o que tinha visto, ouvido e cheirado nos últimos dois meses. Mas, ainda assim, ele continuou a trabalhar. Ele tinha trabalhado no Dia de Ação de Graças e mal tinha tido tempo para comer um sanduíche frio de peru junto com alguns voluntários. Desde aquela estranha tarde, há um mês, ele ficou longe do Nino’s. Ele não estava no Marco Zero para socializar ou solidarizar-se com outras pessoas que sofriam. Ele estava ali para encontrar Jalen. Quando ficou claro que seu amigo estava morto, Landon se mudou para o apartamento de dois quartos de Jalen. Ele e os pais de Jalen encaixotaram as roupas e os pertences dele, e, depois disso, parecia justo que Landon ficasse lá. Afinal de contas, eles estavam planejando dividir o lugar. Ficar no apartamento de Jalen mantinha Landon focado, mas ele ficava ali o mínimo de tempo possível. Cada hora era um lembrete de que o trabalho que tinha vindo fazer ainda não estava concluído. Não estaria até que encontrasse Jalen. Agora, uma tarde de segunda-feira, era o 82º- dia seguido que Landon vasculhava entulho, limpava baldes e baldes de restos humanos cobertos de pó e outros detritos do local onde antes estava o World Trade Center. Às vezes, ele dormia doze horas seguidas antes de encontrar força para voltar. Mas, ele sempre voltava. Dia após dia, desde o momento em que chegou a Nova York. Um balde passou, depois outro, e outro. As mãos de Landon estavam dormentes por conta da mesmice da tarefa. Eles ainda estavam encontrando partes de corpos com bastante frequência, mas já tinha se passado um longo tempo desde que tinham encontrado um bombeiro. Eram 14 horas, e Landon imaginou que iria trabalhar até anoitecer. Ele fez isso na maioria das noites, e, às vezes, ficou até mais tarde, trabalhando com a equipe da noite. Não tinha nada esperando por ele no apartamento, exceto um telefone. E não podia se permitir ligar para Ashley. Ouvir a voz dela só iria fazê-lo querer entrar no próximo voo para casa, esquecendo cada dia que já havia passado no pesadelo que era o Marco Zero. Outro balde passou. E outro. Em seguida, na linha de frente, o líder dos trabalhadores balançou as mãos, e um deles gritou: – Encontrei um bombeiro!


As entranhas de Landon reagiram do mesmo modo de sempre ao ouvir aquelas palavras. Seu estômago se contorceu, e imagens de Jalen passaram por sua cabeça – as ocasiões em que os dois tinham corrido juntos naquelas madrugadas no Texas ou compartilhado um serviço voluntário no corpo de bombeiros. Ele quase podia ver Jalen – sorrindo, acenando para ele, dizendo para se apressar e ir para a Costa Leste. Landon engoliu em seco enquanto algo que havia dito a Ashley ecoava em sua mente mais uma vez: O combate aos incêndios em Bloomington é um passatempo. Em Nova York, é uma paixão. O capitão à frente da linha de bombeiros sabia da amizade de Landon e Jalen. Se encontrassem o corpo de Jalen, o homem tinha prometido comunicar a Landon imediatamente. O desfile interminável de baldes parou, e várias equipes de resgate estavam tentando remover o último corpo dos escombros. Landon podia ver as botas e a jaqueta de um bombeiro. Landon ficou na expectativa enquanto o capitão descia da pilha de escombros e seguia em sua direção. Um suspiro lento escapou por entre os dentes de Landon. Não podia ser, certo? Depois de todo esse tempo? E com tantos bombeiros ainda desaparecidos? Teriam realmente encontrado Jalen? O capitão se aproximou devagar, e seus olhos encontraram os de Landon. – Blake? Landon esforçava-se para conseguir falar. – Sim, senhor? Os olhos do homem olharam para baixo por um momento e, em seguida, fitaram-se nos de Landon. – Nós encontramos seu amigo. Achei que você gostaria de nos ajudar na frente. A cabeça de Landon começou a girar. Sua boca ficou seca de repente, seus movimentos se tornaram lentos e calculados quando ele passou o balde para o homem ao seu lado e saiu da linha. – Sim, senhor. Obrigado. Os outros tentaram não olhar quando Landon saiu atrás do capitão e se dirigiu até o monte em direção à frente da linha. No meio do caminho, Landon surpreendeu um olhar vindo do velho capitão bombeiro aposentado, aquele que ainda estava procurando os dois filhos. Os olhos de ambos se detiveram por um momento; em seguida, o mais velho olhou para o lado. Landon continuou a andar, olhando para o círculo de bombeiros à frente e o contorno de um corpo no meio deles. Ele temia esse momento desde que tinha chegado a Nova York, ele temia e ansiava por isso. Não era certo os restos mortais de Jalen ficarem enterrados sob cimento e aço retorcido. Mas, ao mesmo tempo, Landon temia o que poderiam encontrar. Um corpo esquartejado? Um


esqueleto? Já era ruim o suficiente ver estranhos mutilados retirados dos escombros. Mas, Jalen? Um nó de tristeza se alojou em sua garganta, e Landon engoliu-o de volta. Avançou para o círculo em torno do corpo de Jalen. A visão de seu amigo – sem vida, mutilado, imóvel para sempre – tirou o fôlego de Landon. Seus joelhos amoleceram. – Querido Deus, não...! Um bombeiro próximo colocou a mão no ombro de Landon, firmando-o. Landon apoiou-se nele, buscando forças para ficar em pé. Uma onda de náusea subiu dentro dele, e ele colocou a palma da mão na boca, determinado a enfrentar o momento de uma forma que teria deixado Jalen orgulhoso. Seu amigo tinha sido um dos sortudos. Seu corpo estava intacto, protegido como vários dos outros por causa de seu equipamento. O rosto de Jalen estava parcialmente decomposto e marcado pelas toneladas de detritos que o cobriram. Mas, ele estava reconhecível, mesmo que apenas pela etiqueta com o nome dourado ainda presa à sua jaqueta. Estava arranhada, mas legível. Tenente Jalen Hale. Landon estendeu a mão e tocou a ponta da bota de Jalen quando uma montanha de raiva brotou nele. Como esses terroristas se atreveram a fazer isso com seu amigo? Como se atreveram a tirar do mundo alguém tão bom quanto Jalen? Ele deu um suspiro cansado e deixou a raiva se dissipar. Em seu lugar, uma grande tristeza começou a se formar. Está tudo bem, amigo. Nós achamos você. Você pode descansar agora. Landon afastou-se da bota de Jalen e se aproximou, ajustando o capacete do amigo para que se encaixasse firmemente na cabeça. Eu deveria estar com você, amigo. Talvez nós tivéssemos sobrevivido a essa coisa juntos. Landon baixou a cabeça e esforçou-se para respirar. Por que você não saiu de lá antes que isso caísse, Jalen? Por quê? Houve uma agitação atrás dele, e Landon se virou. Os funcionários do necrotério tinham chegado. Ele respirou rapidamente e endireitou-se. Não estava lá em 11 de setembro para ajudar Jalen a sair do prédio antes do desabamento, mas poderia ajudar agora. Ele se juntou aos outros e trouxe o corpo de Jalen para um saco colocado em uma maca. Com carinho, Landon tomou as mãos sem vida de Jalen e, uma de cada vez, cruzou-as respeitosamente sobre o peito silencioso. Um dos funcionários fechou o saco enquanto o capitão entregava a Landon uma bandeira norteamericana.


– Você faz as honras, Blake. – Sim, senhor. – Landon tomou a bandeira e olhou para o vermelho, branco e azul. Todo o seu corpo tremia. Você nos deixou orgulhosos, Jalen. Esse país nunca vai esquecer você. Eu nunca vou esquecer você. Uma tontura apoderou-se dele, e ele se livrou dela. Como era possível que dentro daquele saco diante dele estivesse o amigo com quem riu com tanta frequência, com quem planejou e armou esquemas? Aquele rosto, tão cheio de vida, nunca sorriria novamente. Landon queria cair no chão e chorar, mas não podia. Uma centena de pares de olhos estava sobre ele, e ainda havia uma coisa a fazer. O capelão não estava por perto, mas isso não importava. Landon tirou o capacete, trouxe a bandeira ao peito e baixou a cabeça. Com o canto do olho, ele viu os outros da linha fazerem o mesmo. – Deus, nós lhe entregamos nosso irmão Jalen. Ele é... – A voz de Landon falhou, mas ele se recusou a ceder à correnteza de emoção que rompia nele. – Ele é seu agora, Deus. Faça-o um capitão e dê-lhe um de seus melhores postos aí em cima, certo? – Ele fungou forte, forçando-se a ser firme. – E que ele saiba que nós o amamos. Landon levantou a cabeça e olhou para o saco escuro e com o zíper fechado na maca. Movendose com grande cuidado e respeito, ele colocou a bandeira sobre o corpo coberto de seu amigo. Estava na hora de transportar Jalen. – Você está bem, Blake? – O capitão colocou a mão no ombro dele. Landon limpou a garganta. – Tudo bem, senhor. – Ele parou em um lado da maca. – Vamos. Vários bombeiros juntaram-se a ele e, juntos, levaram o corpo de Jalen da pilha de escombros para o caminhão frigorífico, a cerca de cem metros de distância. Um funcionário do condado levou-os para dentro e para a esquerda. – Obrigado. – Ele acenou para Landon e os outros. – Nós assumimos daqui para frente. Eles passaram a maca para quatro funcionários do necrotério, que desapareceram com ela atrás de uma divisória improvisada. Os outros bombeiros viraram-se para sair, mas Landon ficou. O funcionário do condado estava à espera, mas, por um momento, Landon não conseguia encontrar as palavras. Ele engoliu em seco e fez que não com a cabeça, apontando na direção para onde tinham levado Jalen. – Ele... ele era meu amigo. – Landon apertou os lábios para impedi-los de tremer. – Cuida dele para mim, está bem?


O protocolo exigia que o oficial do condado concordasse e nada mais. Mas ali era o Marco Zero. Ali, no improvisado necrotério refrigerado, o homem grisalho pôs um braço em volta do pescoço de Landon, puxando-o para perto. – Eu sinto muito, filho. – Sua voz estava embargada. – Eu sinto muito. As lágrimas, então, vieram, e Landon não pôde fazer nada para impedi-las. – Jalen... – Ele dobrou os joelhos e agachou-se, incapaz de ver. – Jalen adorava combater incêndios aqui. Embora ele estivesse trabalhando no Marco Zero há mais de dois meses e tivesse visto o funcionário do condado quase todos os dias, Landon não sabia o nome do homem. Mas, o oficial agarrou o ombro de Landon e permitiu que ele chorasse, permitiu que pranteasse, gemesse e lamentasse a perda de Jalen como ele não tinha sido capaz de fazer desde que viu os ataques pela televisão. Porque a morte de Jalen não tinha sido real até agora. Dois minutos se passaram, e Landon não conseguia controlar suas emoções. Sentia-se soterrado sob a morte, a destruição e a perda da mesma forma que Jalen estava soterrado sob as Torres Gêmeas. Isso não era certo! Tantos bombeiros, todos dedicados a salvar vidas, todos correndo pelas escadas em direção a uma armadilha mortal. Por que ninguém os tinha parado? Como ele contaria à mãe de Jalen? Que detalhes ela poderia querer saber? E quanto a todos os outros que ainda esperavam encontrar um amigo ou membro da família? E o capitão aposentado que ainda estava trabalhando na linha de frente, ainda à espera de sua hora da verdade? Landon queria erguer-se, mas não conseguia. Não queria voltar para as ruínas novamente; queria caminhar até a parte de trás do caminhão, encontrar o corpo de Jalen e sentar-se perto dele por um tempo. Eles precisavam de mais tempo juntos, de tempo para conversar. Tempo para Landon pedir desculpas por ter demorado tanto para encontrá-lo. Tempo para contar a ele sobre o que tinha acontecido e como o país estava respondendo. Os soluços sacudiam seu corpo até que ele sentiu outra mão no ombro. – Blake... Ele se virou e viu o capitão, o mesmo que o levou para a frente da linha de homens quando perceberam que o corpo era de Jalen. – S-s-sim, senhor. – Quando foi a última vez que você tirou um dia de folga? – O tom do homem era carinhoso, quase paternal. Landon imaginou que essa não era a primeira vez que ele tinha visto um de seus


próprios homens abatidos desde o dia 11 de setembro. – Bem, senhor... – Os joelhos de Landon tremeram quan-do ele se levantou. Ele apertou o nariz e fechou os olhos por um momento, tentando limpar as lágrimas o suficiente para ver. – Eu não tirei nenhum dia, senhor. As sobrancelhas do capitão levantaram-se. – Nem mesmo um dia? Desde que você chegou aqui? Dois rápidos e silenciosos soluços mexeram os ombros de Landon. – Não, senhor. Eu... eu queria encontrar Jalen, senhor. – Olhe, Blake – o capitão segurou o braço de Landon –, você precisa ir para casa. – Para casa, senhor? – Landon piscou. Sua cabeça estava girando... a qualquer hora ele iria desmaiar. – Eu trabalho aqui agora, senhor. – Eu sei disso. Mas você não vai ser muito útil para nós se não se cuidar. Landon esperou, ainda desejando estar com seu amigo pela última vez. – Nós temos um monte de baixas no departamento, como você sabe. – A voz do capitão era firme, mas compassiva. – Eu preciso de homens como você para equipar um posto, não para vasculhar escombros. Ele fez uma pausa, o olhar direto. – Vá para casa, Blake. Tire alguns dias. Depois, volte e se apresente ao serviço na sede. Seu contrato de um ano começará em 10 de dezembro, e vai começar no posto. Você já fez mais do que sua parte aqui no Marco Zero. Landon não tinha ideia de como conseguiu voltar para o apartamento naquela tarde. Mas, de alguma forma, ele encontrou um modo de entrar em contato com os pais de Jalen e com os seus, e reservar um voo de volta para Indiana. Ele tinha feito o que se propôs a fazer: havia encontrado Jalen e ajudado a retirá-lo dos escombros. Nesse processo, ele tinha dito adeus a um de seus amigos mais próximos. Agora era hora de passar alguns dias com os outros.


CAPÍTULO 30 Ashley não tinha pressa para conseguir outro emprego antes do Natal. Ela ainda tinha um pouco do dinheiro que havia sobrado do acordo do acidente de carro ocorrido há quatro anos. Além disso, ela e Cole estavam passando um tempo maravilhoso juntos. Eles foram várias vezes à biblioteca e leram uma dúzia dos livros do Dr. Seuss, os favoritos de Cole. Passaram as noites assistindo Dumbo ou O rei leão e comendo os biscoitos de aveia caseiros de Ashley. – Você é minha melhor amiga, mamãe. Sabia? – Cole passou os braços imundos em torno dela em uma manhã depois do café. – Além disso, você é a mais boa leitora do mundo! Ashley gostaria que houvesse como agradecer a Irvel, a Helen e a Edith. Em poucos meses, elas haviam lhe ensinado mais sobre amor e vida e criado boas lembranças do que ela havia aprendido em todos os anos de sua vida. Ela viveu com medo e vergonha por muito tempo, mas não mais. Seus erros do passado não eram culpa de Cole, e ela não podia fazer nada sobre eles agora. Afinal, Cole seria jovem apenas uma vez. E era desses momentos com Cole que ela queria se lembrar quando fosse velha. Quando a culpa com relação aos seus dias em Paris ou às oportunidades perdidas com seu filho tentavam fincar suas garras nela, ela as removia antes mesmo que se passassem alguns minutos. Em seguida, ela chamava seu filho: – Venha aqui, mocinho. A mamãe precisa de você. Ela o abraçava, o beijava ou lia para ele. Uma semana depois de Ashley perder o emprego, sua mãe lhe fez uma queixa provocativa: – O que aconteceu com meu filho? Faz um tempão que ele não passa a noite aqui. – Eu estou recuperando o tempo perdido, mãe. – Ashley abaixou-se, beijou Cole no nariz e riu quando ele divertidamente o enxugou. – Eu o quero comigo o máximo de tempo possível. Agora fazia quase duas semanas que ela havia sido despedida, e, naquela tarde, Ashley cedeu e deixou sua mãe levar Cole por algumas horas. Ela não estava muito longe. Na verdade, ela estava logo ali à frente, a cinquenta metros da porta da frente de seus pais. Ela havia decidido fazer uma pintura da casa dos Baxter, como ela ficava no início do inverno, banhada pelo sol poente da tarde. Enrolada em um casaco maior que ela, sentou-se na frente do cavalete e estudou os raios de sol que atingiam o lado norte da casa, onde se destacavam as águas-furtadas. A imagem prendeu tanto sua atenção que ela mal ouviu o barulho de um carro na calçada atrás dela. Deve ser o papai.


Mas, o carro não continuou para entrar na garagem, e o fato de que ele estava ali saiu rapidamente da cabeça de Ashley. A temperatura estava caindo, e seus dedos estavam duros. Ela apertou as cerdas na cor ouro pálido que havia misturado e delicadamente espalhado no lado da paleta, separando os pelos finos. Estava perdendo a luz do dia, mas queria terminar de esboçar o céu antes do pôr do sol. Mais uma vez, ela olhou para a casa. Com essa luz, era quase como se o próprio Deus estivesse iluminando a casa dos Baxter com uma lanterna. Era esse o efeito que ela queria captar em sua pintura. Com pinceladas leves, ela acrescentou um brilho de luz no lado esquerdo da tela. Ela estava para molhar o pincel novamente quando sentiu alguém vindo por trás e segurar seus ombros. Antes que pudesse se virar, ela sentiu que era Landon. Seu toque provocou arrepios em sua espinha, apesar de seu casaco pesado, arrepios que nada tinham a ver com a queda da temperatura. Mas como era possível? Ela não tinha notícias dele desde que ele tinha ido para Nova York. Ela se virou, e lá estava ele. – Landon. – Ela queria fazer-lhe uma centena de pergun-tas, mas apenas uma importava. Ele havia encontrado Jalen? Ela não pôde dar voz à pergunta. Em vez disso, mergulhou na visão dele e viu um monte de dor em seus olhos. Algo na expressão de Landon lhe dizia que o tempo dele em Nova York o havia mudado. Ele sorriu para ela, mas seus olhos não brilharam como antes. Ela queria mandar a dor embora, abraçá-lo até que ele estivesse bem outra vez. Deixando cair o pincel, ela quase derrubou o cavalete enquanto se levantava e colocava os braços em volta dele. Ele ainda não tinha dito uma palavra, e ela se perguntava se algo estava errado. Talvez tivesse havido outra tragédia. – Landon? – Ela se afastou e examinou o rosto dele. Ela ainda não podia perguntar sobre Jalen. – Você está bem? Ele baixou o queixo, seus olhos não piscaram. – Nós o encontramos. Suas palavras atingiram-na como muitos tijolos. – Oh, Landon... Eu sinto muito. – Eu... – Ele fez que não com a cabeça, abalado. Ao lado de todas as outras emoções que lutavam para aparecer em seus olhos, Landon estava visivelmente exausto. Assim como os outros que trabalhavam no Marco Zero, ele provavelmente não havia tirado um dia de folga em semanas. Talvez


em meses. Não é de admirar que não tivesse ligado. Todas as horas que ele ficou em Nova York tinham cobrado um preço alto. A voz dele era quase inaudível sobre a brisa da tarde gelada. – Eu acho que sempre pensei que havia uma chance. En-quanto não encontrássemos o corpo dele, então, talvez... – Landon deu de ombros. – Talvez ele tivesse conseguido sair de alguma forma. Talvez ele estivesse vagando pela cidade com amnésia ou preso em algum buraco sob o chão com um miraculoso suprimento de comida e de água. Ashley fez que sim com a cabeça e respirou profundamente, compartilhando o sentimento de derrota dele. O que ela poderia dizer? Ela não conhecia Jalen, mas tinha visto a luz no rosto de Landon quando ele falava sobre os momentos deles juntos no Texas, tinha visto as fotos dos dois quando ela esteve na casa de Landon. Era difícil imaginar o jovem sorridente... morto. – Eu orei por você. Como eu disse que faria. – Eu sei. Dá para sentir que sim. – Ele examinou os olhos dela. – Você não tem ideia de como é bom ver você. – Ele deslizou os braços ao redor da cintura dela e puxou-a para mais perto, enterrando o rosto no ombro do casaco dela. – Havia tanta morte, Ashley. Parecia... o inferno, do jeito que eu imagino ser o inferno. Ela afrouxou os braços que estavam em volta do pescoço dele e correu os dedos ao longo dos ombros de Landon. – Mas você está vivo, Landon. Você está aqui, e você está vivo. – Ver Jalen daquele jeito, tirar o corpo dele daquela hor-rível pilha de escombros e lama... – Sua voz embargou. – Foi a coisa mais difícil que eu já fiz, Ash. – Ele examinou o rosto dela. – Além de deixar você. Era isso. A verdade sobre como ele se sentia. Mesmo não tendo ligado, ele pensava nela da mesma maneira que ela pensava nele. Ashley sabia o que estava por vir, mas não podia acreditar. Não podia acreditar que ele estava ali em seus braços novamente. – Landon. Os meses se desvaneceram como tantas horas, e seus lábios se encontraram em um beijo desesperado que era parte tristeza, parte dor. Parte uma paixão incerta. Quando se afastaram, lágrimas marcavam o rosto dos dois. – Senti saudade de você. – Eu também. A cada hora, Ashley. – Seus olhos se fita-ram por um momento; em seguida, Landon respirou fundo e tentou sorrir. – Vamos levar suas coisas lá para dentro. – Ele a ajudou a juntar as


tintas e a fechar o cavalete. – Você não tem ideia de como esse ar cheira bem. Pela primeira vez, havia um sinal de vida nos olhos dele. Ashley viu isso como um bom sinal. Talvez, depois de passarem um tempo juntos, ele seria capaz de seguir em frente, apesar das coisas terríveis que tinha visto. Talvez seus olhos pudessem, mais uma vez, refletir todas as coisas boas, corretas e leais dentro dele. Assim como era antes de ele ir para Nova York. Lado a lado, eles levaram as coisas dela para a casa. Mal tinham passado pela porta quando Cole os viu. – Ei, você está de volta! Ashley viu o filho jogar-se nos braços musculosos de Landon e enrolar as mãozinhas de menino em volta do pescoço dele. Landon apertou-o por um longo tempo. – Esse é o melhor abraço que recebi em semanas, ami-guinho. – Ele piscou para Ashley por sobre o ombro de Cole. – Senti sua falta. – Eu também! – A voz de Cole transbordava de emoção. – Depois que você foi embora, eu não assisti nenhum jogo de beisebol! Só de futebol. – Cole segurou o rosto de Landon com as mãos. – E a mamãe não luta muito bem. – Não! – Landon colocou Cole de volta no chão, mas segu-rou firme a mão dele. – Meninas não são muito boas lutadoras. – Ele se abaixou à altura de Cole. – Mas sua mãe não é ruim. Eu definitivamente acho que você deveria ficar com ela. Os pais de Ashley saudaram Landon como se fosse o próprio filho deles. Ele ficou para o jantar, e, durante toda a noite, Ashley não conseguiu tirar os olhos dele. Seu coração pulava dentro do peito como se ela fosse uma adolescente loucamente apaixonada. Depois do jantar, eles comeram o pão de banana que a mãe dela e Cole tinham feito, e, em seguida, por volta das 20 horas, foram para a casa de Ashley. Cole adormeceu no caminho, Landon levou-o para dentro de casa e colocou-o na cama com cuidado. Finalmente, eles estavam sozinhos, e Ashley sentou-se no sofá. Landon acendeu a lareira e foi sentar-se perto dela. Entretanto, parou quando viu um dos quadros dela na parede oposta atrás do sofá. Ele o examinou por um instante do modo como sempre fazia quando a pegava no trabalho, com os olhos apertados, pensativo. – Isso é lindo. Ela sorriu.


– Obrigada. – Você é muito boa, Ashley. – Ele lhe deu um olhar sério. – As pessoas fariam fila para ter a chance de comprar um desses. Ryan Taylor tinha dito a mesma coisa um ano atrás, quando veio à casa dela depois de terem passado um dia juntos no shopping. Ashley lembrou-se de ter se sentido lisonjeada por ele ter notado o trabalho dela. Mas o elogio parecia diferente vindo de Landon – era mais... significativo. Talvez fosse porque Landon se preocupava com o coração dela. Quando olhava para sua obra, ele não via cores, sombras e representações de luz. Ele via Ashley. Landon deu uma volta lenta pela sala, examinando cada pintura. Parou diante da mais recente peça: uma com Cole no balanço no quintal. – Ash, isso é lindo! Você o registrou perfeitamente. – Lan-don aproximou-se e estudou os detalhes. Ele deu uma risada suave e fez que não com a cabeça. – Eu amo esse menino. – Olhou para ela, fechando a mão e pressionando-a acima do coração. – Agora que ele está aqui, eu não posso tirá-lo. – Ele ama você também. – Uma tristeza cresceu dentro dela. Que preço o pequeno Cole tinha pagado pelo comportamento teimoso da mãe. Se ao menos ela tivesse visto o homem que Landon era anos atrás, quando ela chegou de Paris. Se tivesse feito isso, ela duvidava que ele teria se interessado em se mudar para a cidade de Nova York. Ele estaria ali com ela e Cole. Os três poderiam até ser uma família. Ela afastou o pensamento. Não havia como voltar atrás agora. Landon tinha outros planos, outros compromissos. Ele devia ter. Caso contrário, teria encontrado tempo para ligar para ela de Nova York, pelo menos, de vez em quando. Sim, ele a beijou algumas horas atrás, mas não havia como saber o que ele queria dizer com isso. E ela estava com muito medo da resposta para perguntar a ele. Depois de um tempo, ele voltou para o sofá e sentou-se ao lado dela. Ele mudou de posição, recostando-se na almofada enquanto seus olhos encontravam os dela. – É muito bom estar aqui. – É estranho. – Ela se estendeu ao lado dele, com as per-nas perto dele. – Você e Ryan Taylor lá fora, em Nova York, e Kari e eu ainda aqui. Kari pegou o avião para vê-lo na semana passada. Ryan não tem certeza se vai ficar em Nova York no ano que vem. Ele tem de terminar a temporada primeiro. – Sim, eu o vi no Marco Zero uma vez. Ele e alguns joga-dores estavam ajudando com a água.


A pergunta que Ashley tinha medo de fazer pendia na luz quente do crepitar do fogo. Por fim, Ashley não teve escolha a não ser falar: – Você vai voltar, não é? Um suspiro aliviado saiu dos lábios dele, e ele inclinou a cabeça, os olhos implorando para que ela o entendesse. – Sim. Ela não se surpreendeu, mas isso não tornava a resposta dele mais fácil. Por que ele havia voltado para casa, então? Ela era apenas uma diversão, uma forma de recarregar as energias dele depois de muito tempo na linha de frente? A vida, a carreira dele – estava tudo em Nova York agora. E não havia como dizer se ele se mudaria para Bloomington novamente. Por um momento, uma ideia louca passou por sua cabeça. Ela podia se mudar para a cidade de Nova York. Levar Cole e começar uma vida nova na Costa Leste. Dessa forma, ela e Landon poderiam estar juntos o quanto quisessem, e talvez um dia... A ideia fracassou. A quem ela estava enganando? Paris a tinha feito odiar a vida em uma cidade grande. Nova York seria barulhenta e agitada, e isso mataria sua criatividade. Pintar seria impossível, e, além disso, ela não podia levar Cole para longe do apoio da família que tinha em Bloomington. Os olhos dele ainda estavam fixos nos dela. Ela se esforçava para saber o que dizer. – Quando você vai? – No final da semana. Ela cruzou os braços e apertou-os sobre o estômago. Qualquer coisa para aliviar o nó que se formou ali – um nó de desesperança e desespero misturado com a certeza de algo que ela não tinha percebido plenamente até o início daquela tarde. Ela não estava se apaixonando por Landon Blake. Ela já estava apaixonada. Contudo, isso não importava; já era tarde demais agora. Landon estava tocando a vida, e não havia nada que ela pudesse fazer sobre isso, nada que pudesse dizer para fazê-lo mudar de ideia. Nada que ela dissesse, mesmo se pudesse. Porque trabalhar em Nova York era algo que Landon claramente queria, e seria errado ficar no caminho dele. Ela havia tido sua chance, e tinha estragado tudo. – E aí? – Ela manteve seu tom calmo, não querendo fazê--lo se sentir culpado pela decisão. – Eu vou ficar no lugar de Jalen no posto de bombeiros. – No lugar de Jalen? – Ela estava impressionada com a ideia. Era para os dois trabalharem


juntos. Mas, agora, com Jalen morto, a experiência seria completamente diferente. Cada chamado, cada incêndio, Landon sentiria Jalen com ele, sentiria como se estivesse cumprindo a paixão de Jalen. Ela entendia por que ele queria voltar. Mas ainda assim... – Por que... Por que você voltou para casa? Landon segurou as mãos dela. – O capitão me disse que eu precisava ficar um tempo afastado. – Ele hesitou. – Eu vou começar um contrato de um ano quando voltar. Ashley engoliu sua decepção, mas sua mente estava girando. Não fazia sentido. Se ele iria voltar, se ainda estava aceitando o trabalho mesmo depois de tudo o que tinha acontecido, então, por que estava ali agora? Ele poderia ter ido para a casa dos pais e ligado para ela só antes do voo de volta para Nova York. Em vez disso, ele a procurou logo que chegou. Será que ele ainda tinha sentimentos românticos por ela ou a havia finalmente aceitado “apenas como amiga” – o modo como ela sempre quis que ele pensasse sobre eles? Landon levantou as mãos dela e levou-as ao próprio rosto. – Você está fria. Ashley sentiu-se corar. Suas mãos sempre ficavam frias quando estava nervosa. – Mãos frias, coração quente, eu acho. – Você não precisa de mãos frias para provar isso, Ashley. – Ele lançou um olhar para suas pinturas mais próximas novamente. – Olhe para seu trabalho. – Seus olhos amoleceram e sua expressão ficou pensativa. – Você não pode fingir esse tipo de calor. E você não pode colocá-lo na tela se ele não estiver em você. Ele baixou as mãos dela, mas ainda as manteve entre as suas. – Você não me disse que tinha sido despedida. Ashley mordeu os lábios e fez que não com a cabeça. Seu pai havia mencionado isso durante o jantar, provavelmente pensando que Landon já soubesse. Landon tinha perdido muito da vida e do coração dela enquanto esteve fora. Na maioria das vezes, ela duvidou que ele voltasse – pelo menos, não por muito tempo. – Você – a voz de Ashley era quase um sussurro –, você nunca ligou. – Não. – Mais uma vez, seus olhos procuraram os dela. – Eu não podia. – Não podia? – Sua voz elevou-se e um pouco de raiva alterou suas palavras. Era inevitável. Sua frustração era profunda, como se tivesse sido silenciosamente construída nas profundezas de seu coração por semanas. – Todos os dias eu me perguntava como você estava, se tinha encontrado Jalen.


– Seu tom ficou mais triste do que irado. – Uma ligação, Landon? Você não podia dar um único telefonema? Ele não reagiu, mas sua expressão era mais intensa do que ela já tinha visto. – Eu não podia porque sabia o que iria acontecer. – O quê? – Ashley fez que não com a cabeça, tentando entender a resposta dele. – O que teria acontecido se você ligasse, Landon? A cabeça dele inclinou-se para trás um pouco, e ele olhou fixamente para um ponto na parede atrás dela, com os olhos distantes. – Foi tão horrível, Ashley. Morte... dor... devastação para todo lado; era tudo o que se respirava. – Uma dor horrível, crua e assombrosa estampou suas feições quando seu olhar encontrou o dela novamente. – Você não vê? O som de sua voz teria me tirado do sério e me mandado correndo de volta para casa, desesperado pelo próximo avião para sair de Nova York. – Ele apertou um pouco os olhos cheios de lágrimas. – Eu não podia fazer isso com Jalen. A explicação deixou Ashley arrasada. Como ela havia sido pequena ao confundir o silêncio dele com qualquer coisa, menos aquilo que realmente era: uma determinação obstinada em encontrar o amigo. – Eu sinto muito, Landon. Eu não pensei que... – Não. – Ele ergueu uma das mãos que estava sobre as de-las e levou um dedo aos lábios dela. – Você não me deve um pedido de desculpas. Eu deveria ter ligado para você. – Ele se inclinou para frente e deu-lhe um beijo carinhoso na testa. – Eu queria. Eu simplesmente não consegui. – Ele voltou para seu lugar. – Entende? – Claro! – A resposta dele esclareceu seu silêncio, mas não respondeu à grande pergunta. Por que ele estava de volta? Era uma pergunta que ela não estava pronta para fazer; então, mordeu o interior do lábio e esperou que ele falasse. – Tudo bem. – Landon respirou lentamente. – Me fale sobre seu trabalho. O que aconteceu? Ashley levou um momento para mudar mentalmente de assunto. – Belinda. Ela não gostou de mim desde o início. Ashley contou a ele sobre as descobertas que tinha feito na internet, como ela havia tentado ajudar os residentes da Sunset Hills com métodos que Belinda e Lu consideravam controversos. Ashley baixou os olhos para o colo. – Talvez seja melhor mantê-las ligadas ao presente. – Levantou os olhos para ele. – Mas você precisava vê-las, Landon; foi surpreendente. Edith parou de gritar. Helen estava quase normal. Irvel


não se preocupava se Hank estava atrasado. – Ela levantou um ombro. – Parecia bom para mim. Por um longo tempo, Ashley ficou olhando para Landon, examinando o rosto dele. Desde o dia em que o conheceu, ela teve medo de que ele fosse muito simples, muito conservador, que a vida com ele fosse previsível e rotineira. Mas, agora, ela se perguntava de onde tinha tirado essa ideia. E havia algo mais: uma profundidade tranquila nele que ela não tinha notado antes. Uma profundidade que era intensamente atraente. Ele soltou uma das mãos para tirar uma mecha de cabelo da testa dela. – Você sente falta delas. – Sim. – Lágrimas arderam em seus olhos antes que pu-desse detê-las. – Especialmente de Irvel. – O que você fez foi certo, Ashley. Concordo com o texto daquele pastor que você leu. As lembranças são de Deus. – Ele segurou o rosto dela e puxou-a para perto até que seus lábios se unissem. O beijo foi hesitante dessa vez, como se ambos tivessem perguntas. Quando ele se afastou, seus olhos encontraram os dela, e ela sentiu uma ponta aguda da dor que estava por vir. A dor de dizer adeus a Landon depois de estar em seus braços novamente, depois de saber com certeza que seu coração nunca mais amaria outro homem como ela o amava. – Às vezes... – O tom de voz dele era baixo e falava muito so-bre seus sentimentos por ela. Os rostos estavam próximos, e o brilho do fogo surgiu nos olhos dele. – Às vezes, as lembranças são tudo o que temos. Tudo o que nos mantém em pé. – Que lembranças manteve você em pé? – Ela o beijou novamente. – No Marco Zero? Dessa vez, ele mexeu nos cabelos dela com a outra mão e brincou neles com os dedos. – Lembranças... – ele moveu os lábios nos dela – disso. – Seus dedos tremiam no rosto dela. – Depois que eu parti, às vezes me perguntava se o verão realmente tinha acontecido. Ou se tudo tinha sido apenas um sonho. – Eu pensei... – ela engoliu em seco, procurando coragem para continuar. – Eu pensei que, depois do que eu lhe disse sobre Paris, seus sentimentos por mim mudariam. Ele beijou o queixo e a ponta do nariz dela e, por fim, os lábios novamente. – Eu estou aqui, não estou? Seus braços enroscaram-se e eles se beijaram como Ashley havia desejado desde o momento em que o viu novamente. A cada minuto, a paixão entre eles crescia até não haver dúvida de que estavam pisando em terreno perigoso. Ela se afastou primeiro, sem fôlego. Antes que pudesse mudar de ideia, ela se levantou e se espreguiçou, levantando as mãos acima da cabeça. – Tudo bem. – Ela suspirou profundamente. – Acho que a gente precisa de uma pausa.


Landon deu um tapinha no assento ao seu lado. – Qual é, Ashley. – Sua voz estava cheia de desejo. – Nós estamos bem. Ela fez que não com a cabeça e balançou um dedo para ele. – Nós não estamos bem. – A última coisa que ela queria era perder o controle e ter um momento com ele que faria os dois se lamentarem pelo resto do ano. Se isso acontecesse, ele iria embora em alguns dias, sentindo que lhe devia alguma coisa. E ela não podia ter isso. Não. Se Landon queria combater incêndios em Nova York, ele deveria ir e fazer isso sem quaisquer obrigações de voltar a Bloomington. Dessa forma, se ele voltasse, se por algum milagre eles se encontrassem outra vez, o amor deles seria por todas as razões certo. – Além disso... – Ela estendeu a mão e ajudou-o a se le-vantar. – Eu não acho que o pastor Mark aprovaria. Imediatamente, o desejo de Landon desapareceu, primeiro porque ele ficou confuso e, segundo, porque estava totalmente incrédulo. – Pastor Mark? – Landon não teria parecido mais surpreso se ela houvesse anunciado que se tornaria freira. – Sim. Eu acho que ele não aprovaria. – Ashley reprimiu uma risada e se jogou de volta para o canto mais distante do sofá. Sua recente frequência na igreja era mais uma coisa que Landon tinha perdido. Ele se encostou no braço oposto do sofá e olhou para ela. – Você tem falado com o pastor Mark? – Seus olhos es-tavam arregalados, sem piscar. – O que mais você não me contou? Ela lhe deu um sorriso tímido. – Um monte de coisas. – Tá bom. – Ele apoiou os cotovelos nas coxas, os olhos brilhando de expectativa. – Então, me fale sobre o pastor Mark. – Não é nada demais. – Ashley puxou os joelhos até o queixo e fixou os olhos nos dele. – Depois do dia 11 de setembro, eu comecei a ir à igreja com minha família. – Ela encolheu os ombros. – Parecia ser a coisa certa a fazer. – Um riso nervoso escapou. – Eu... Ashley Baxter... na igreja todos os domingos. Dá para acreditar? – Ashley... – A boca dele estava aberta. – Isso é incrível! – O quê? – A reação dele a deixou repentinamente des-confortável. – Eu só fui à igreja. Será que é tão chocante?


– Não! É só que... – Ele se conteve e fez que não com a cabeça. – Deixe para lá. – Ele sorriu para ela. – Isso é ótimo, Ash. Sério. Havia algo que ele não estava dizendo, mas ela não sabia como entrar no assunto. E se ele quisesse saber detalhes específicos sobre ela e Deus? Mesmo depois de orar naquele dia com Laura Jo, Ashley não sabia ao certo onde estava. Ela não tinha começado a ler a Bíblia ou qualquer coisa assim. E não queria decepcionar Landon dizendo isso. Ela devolveu um sorriso para ele. – Eu pensei em ir só uma vez, logo depois que você partiu. Tudo sobre a vida parecia tão triste e louco depois dos ataques. Mas, na igreja, naquele domingo... eu não sei, eu tive essa sensação de paz. – Seu sorriso sumiu. – Você entende? – Com certeza! – Sua expressão refletia uma alegria que ela não tinha visto antes. Ashley não conseguia defini-la, mas estava lá. Fosse qual fosse a razão, ela estava feliz. Era maravilhoso vê-lo feliz. Isso o fez parecer-se mais com ele mesmo, menos com o guerreiro cheio de cicatrizes de batalha que ela havia recebido em casa mais cedo naquele dia. Eles se acomodaram no sofá e assistiram a uma comédia na TV, evitando os beijos que quase os tinham colocado em problemas antes. Muito rapidamente, a noitinha acabou, e Landon saiu para passar a noite na casa dos pais. Os dias seguintes foram uma sequência veloz de almoços com Cole e caminhadas com ele no ar frio do inverno, jogos de bola e, em seu último dia juntos, uma série de corridas em frente à casa de Ashley. Na maioria das vezes, Cole era o vencedor. – Você é o campeão mundial, amigo! – Landon levantou a mão de Cole e desfilou com ele por todo o quintal, como se o menino tivesse acabado de ganhar os Jogos Olímpicos. Cole sorriu largamente e ergueu o punho. Então, abraçou o pescoço de Landon e disse algo que partiu o coração de Ashley: – Eu queria que você ficasse para sempre, Landon! – Eu também. – Landon bagunçou o cabelo dele e o co-locou no chão. – Eu e a mamãe podemos ir com você quando você for embora? – Dessa vez, não, amigo. – Landon abraçou Cole e colo-cou-o no chão novamente. Não havia dúvida de que existia algo especial entre Landon e Cole. Sim, Cole sempre gostou do tempo que passava com o pai de Ashley. Mas, em todos os sentidos importantes, Landon era a figura do jovem pai que Cole nunca tinha conhecido. A tarde passou, e Ashley tentou não pensar muito sobre isso. Mas, naquela noite, as imagens dos


dois juntos impediam que ela dormisse. E se Landon nunca mais voltasse? E se ele perdesse o interesse por ela ou se apaixonasse por outra pessoa? E se ele se tornasse uma pessoa diferente depois de um ano em Nova York, alguém que não pudesse ser incomodado por uma mulher difícil e seu filho sem pai? Não sabendo o que o futuro lhe reservava, Ashley tinha certeza de uma coisa: ele não traria respostas fáceis. E, depois que Landon partisse, as perguntas só ficariam mais difíceis.


CAPÍTULO 31 A tarde de domingo chegou muito rapidamente. Depois do culto, Ashley levou Cole e Landon de volta para sua casa e fez sanduíches de queijo grelhado e sopa de tomate para eles. Em seguida, quando estava quase na hora de Landon partir, ele se abaixou na altura de Cole e o abraçou. – Você cuida de sua mãe agora, ouviu? Cole baixou o queixo e ergueu os olhos. Seu lábio inferior tremeu, e Ashley sabia que ele estava fazendo o possível para não chorar. – Eu vou. – Ele tossiu duas vezes. – Você vai voltar? Essa era a pergunta que Ashley tinha medo de fazer desde que Landon havia voltado. Ela ficou na expectativa. Landon passou os dedos pelos cabelos de Cole e não olhou na direção dela. – Eu gostaria. – Ele apoiou as mãos nos ombros de Cole. – Algumas coisas Deus só nos diz quando é a hora. Certo? Cole conseguiu dar um sorriso corajoso. – Certo. Até que seja a hora? As palavras de Landon ressoaram na mente de Ashley. O que isso queria dizer? Ela respirou rápido e fez questão de perguntar a Landon mais tarde. – Agora, que tal você ir lá fora e jogar enquanto eu me despeço de sua mãe? Pode ser? Cole concordou, mas ficou onde estava, ancorado nos braços de Landon. Então, ele o abraçou mais uma vez, enterrando o rosto perto do ombro musculoso de Landon. – Eu amo você. Os olhos de Landon brilharam, e ele não falou nada por alguns segundos. – Eu também amo você, Cole. Fique perto de Jesus. Cole fez que sim com a cabeça, depois se afastou. Pegou o casaco e as luvas e, em um piscar de olhos, estava no quintal, deixando Landon e Ashley sozinhos. Landon não disse nada, apenas estendeu os braços e esperou enquanto ela atravessava a sala e se entregava ao seu abraço. – Eu sou uma idiota. – Ela deixou a cabeça cair no peito dele. Com mãos suaves, ele acariciou seus cabelos e passou os dedos na base de seu pescoço.


– Essa é uma maneira engraçada de dizer adeus – disse ele. Ela levantou os olhos, sofrendo com os erros que tinha cometido no passado e com o preço que eles estavam cobrando dela agora. – Por que eu não enxerguei isso? Landon esperou, com uma feição paciente e gentil. – Você era tudo o que eu poderia querer, Landon. Mesmo naquela época, antes de Paris. – Ela fez um som que parecia uma risada, mas sem o humor. – Sabe o que eu achava? Ele torceu o rosto e olhou para o teto, como se estivesse tentando resolver o enigma mais difícil do mundo. – Sem uma dica? Além disso, meu pai me ensinou a nun-ca tentar adivinhar o que as mulheres estão pensando. – Um sorriso preencheu seu rosto. Ela relaxou um pouco, apanhada desprevenida pelo jeito brincalhão dele. – Eu achava que você estava seguro demais. Ele deu um passo para trás e apontou para si mesmo, com os olhos arregalados. – Eu sei, eu sei. – Ashley sacudiu a mão. – Eu tive tempo para pensar nisso desde que você partiu. Você não estava seguro; você estava louco. – Ela levantou um dedo. – Primeiro, você muda de futuro veterinário para bombeiro. – Seu segundo dedo se ergueu. – Então, você arrisca a vida para salvar um menino. – Ela ergueu o terceiro dedo. – Por fim, por um pouco mais que um capricho, você decide ir para Nova York. Ela deixou a mão cair ao lado do corpo. – É claro, depois tem Jalen. – Ela percebeu que a expres-são de tolice tinha desaparecido. – Que tipo de homem fica em um lugar como o Marco Zero por tantas semanas à procura de um amigo morto? Respirando quem sabe o quê e usando as mãos e... e o coração em uma tremenda confusão? Ela entrelaçou os dedos na nuca dele. – Eu era uma idiota, Landon. Eu nem conhecia você. – Você esqueceu uma coisa. – Ele esfregou o rosto no dela.– O quê? – A primeira loucura que eu fiz foi me apaixonar por você. Ela pensou nisso por um tempo. Ele estava certo. Ela não era a garota convencional na escola. Ah, ela havia sido líder de torcida por um tempo – por muito pouco tempo –, como seus pais e suas irmãs esperavam. Mas, depois disso, começou a sair com um grupo de retro-hippies e a usar roupas estranhas e penteados ainda mais estranhos. Enquanto isso, Landon era tranquilamente charmoso, conservador, querido por todos na escola de


ensino médio de Clear Creek. Ele poderia ter saído com qualquer garota. Mas, em vez disso, foi atrás dela, e só dela, mesmo quando ela mal lhe dizia as horas. Não havia nada de seguro sobre isso. – Está vendo? – Ela se deu um leve tapa na testa. – Eu deveria ter sabido disso naquela época. – Está tudo bem, Ash. – Ele estava falando sério nova-mente. – Tudo isso ficou para trás. – Não está tudo bem. – Ela se afastou dele, ficando preca-riamente entre o lúdico e o desespero. – É tarde demais. Eu descobri isso tarde demais. – O que você descobriu tarde demais? – Ele pegou as mãos dela e colocou-as ao redor de sua cintura. Ela suspirou, e parecia que a frustração estava escapando de sua alma. Seus olhos fixaram-se nos dele, e ela sentiu as lágrimas brotarem. Houve um aperto na garganta quando ela tentou falar. – Que eu... eu amo você, Landon. Eu amo você. – As lágri-mas correram por seu rosto, mas ela não fez nada para detê-las. – Eu amo você do jeito que você sempre quis, e agora é tarde demais. – Porque eu estou indo embora? – Ele examinou os olhos dela e, com um toque suave do polegar, enxugou as lágrimas. – Porque tudo está diferente agora. – Sua voz estava mais aguda que antes, quase estridente, e, de repente, Ashley reconheceu algo que não tinha antes: ela estava com medo, com medo do que poderia acontecer se Landon passasse um ano apagando incêndios na cidade de Nova York. Ela engoliu em seco e se obrigou a ter calma. Sua voz era pouco mais que um sussurro quando falou novamente. – Olhe o que aconteceu com Jalen. Poderia ter sido você, Landon. Você acha que eu não penso nisso? Se você não tivesse se machucado no incêndio daquele apartamento aqui, você estaria bem ao lado dele. – Ah, Ashley, querida! – Ele a abraçou até que o corpo dela parou de tremer. Quando ela estava um pouco mais calma, ele segurou o rosto dela e se afastou apenas o suficiente para ver os olhos dela. – Lembra quando você me disse que estava indo à igreja? Eu agi meio engraçado, e você pensou que era porque eu estava chocado por você ter ido. Lembra? Ashley fez que sim. – Eu ia contar uma coisa para você, mas... – ele olhou ao redor da sala, como se estivesse procurando as palavras corretas –, não parecia ser o momento certo. – O quê? – Ela fungou, deliciando-se com a maneira como as mãos de Landon tocavam seu rosto, memorizando o cheiro da colônia dele, o som da voz dele. Seus olhos fixaram-se nos dela, e ele olhou diretamente para os lugares mais privados do coração de Ashley.


– Eu orei para que você fosse. Um dia, quando eu estava no Marco Zero, senti como se estivesse desmoronando. Como se eu fosse me tornar outra pessoa. – Ele piscou duas vezes. – Um homem orou comigo e, depois disso, eu me senti forte novamente. E bem ali, de joelhos nos escombros das Torres Gêmeas, eu orei por você, Ashley. E eu sabia... eu sabia que, de alguma forma, Deus levaria você de volta para Ele. Eu sabia porque eu ouvi a resposta Dele. Ela sentiu arrepios ao longo do pescoço e da espinha. – Você orou para que eu fosse à igreja? – Não. – Ele deu um sorriso meigo. – Eu orei para que você se apaixonasse por Deus. Por tudo que diz respeito a Ele, Ashley: a verdade de Deus, a igreja... o plano Dele para sua vida. Por um instante, os velhos sentimentos passaram pela mente da moça, e ela teve o desejo de discutir ou de correr. A verdade de Deus? O plano Dele para sua vida? Tudo parecia um pouco igrejice. Mas, ali estava aquela profunda alegria nos olhos de Landon novamente, um raio de luz que lhe dizia que ele estava falando de algo que ia além de grupos de mulheres e almoços de domingo. – Você acha... você acha que isso está acontecendo comigo? Landon fez que sim. – Eu acho. Um soluço travou na garganta de Ashley, e ela riu. – Sério? – Sério. – Eu meio que perguntei sobre Deus. – Essa era a con-versa que ela queria ter com ele nos últimos três dias. Agora, eles não tinham tempo; então, ela fez o possível para resumir seus sentimentos. – Eu ficava pensando que igreja era bom e tudo mais. Mas Deus... Ele era meio assustador. Como Ele poderia estar interessado em mim depois de tudo o que eu tinha feito? – Ela baixou o queixo, ainda horrorizada com as lembranças de seu passado. – Eu ainda não sou boa o suficiente para Deus. Eu não o culpo se Ele não me quiser agora. Landon acariciou a cabeça dela e puxou-a para perto mais uma vez. – Nenhum de nós é bom o suficiente. – Você é. – Ela murmurou as palavras contra seu peito. Eles estavam tão perto que ela podia sentir o coração dele. – Não, Ash. – Ele se afastou e olhou para ela. Dessa vez, seus olhos tinham um leve traço de culpa. Nos lugares distantes da mente, ela se perguntou o que ele tinha feito que poderia fazê-lo se sentir culpado. Tudo o que Landon já tinha feito era pensar nos outros. Mas ele fez que não com a


cabeça. – Ninguém é bom o suficiente. Nem eu, nem você, nem qualquer outra pessoa. Lembranças da infância passaram pela cabeça de Ashley, e ela pôde ouvir seu pai dizendo a mesma coisa uma dúzia de anos atrás: Todos nós precisamos de um Salvador. Ninguém pode chegar ao céu por ser bom. Eles estenderam os braços ao longo do corpo, e ele entrelaçou seus dedos com os dela. Ela os segurou, temendo o fato de que a qualquer momento teria de deixá-lo partir. Ela olhou para os pés. Se Landon estava certo, se seu pai estava certo, então, como é que ela seguiria em frente a partir daqui? – O que eu deveria fazer, então? – Depende do que você quer. – Seus olhos fixaram-se nos dela. Tudo ao redor desapareceu, exceto o som de sua voz. – Você quer uma amizade com Deus, Ashley? Se ele tivesse lhe falado sobre como se tornar cristã, ela teria hesitado. A palavra cristã era tão vaga que quase não tinha sentido. Seu pai se dizia cristão, mas o mesmo diziam as meninas da igreja que a haviam evitado quando ela chegou de Paris, grávida e sozinha. Mas, amizade com Deus? Parecia bom demais para ser verdade. Ela fez que sim lentamente com a cabeça. – Eu gostaria. Se Ele me quiser. – Ele quer você. – A voz de Landon se tornou um sussurro sufocado. – Tudo o que você tem de fazer é pedir. – Ele hesitou. – Sabe? – Você quer dizer orar? – Seu coração batia mais forte do que antes. Ela podia ouvir a ansiedade em sua voz. – Agora? – Agora, não. – Landon lhe deu um meio sorriso. – Mais tarde, quando você estiver sozinha com Deus. Quando for o momento certo. Um alívio inundou a alma de Ashley. Por toda a vida, ela havia evitado um momento como esse. As pessoas tinham tentado fazê-la orar antes. Ela havia visto as pessoas fazerem algum tipo de oração – oração do pecador ou algo parecido. Mas isso sempre lhe pareceu forçado e artificial. Se ela fosse pedir ao Senhor para ser seu amigo, pedir que Ele a perdoasse, ela não queria fazer ali com Landon. Não que ele fosse tentar forçá-la, mas esse tipo de oração era algo que teria de acontecer só entre ela e o Senhor. Landon olhou para o relógio. – Eu tenho de ir. – Eu sei. – A dor era tão real que Ashley mal podia respirar. – Ore por mim, tá? – Sempre. – Ele se inclinou para ela e a beijou mais uma vez, um longo beijo que teria de ser o


suficiente por agora. Talvez para sempre. Ele a abraçou. – Era sério o que eu disse para Cole. Vou ligar, e, quando meu ano terminar, eu vou... Ela fez que não com a cabeça. – Não, Landon. Nada de promessas. É como você disse. Algumas coisas Deus só nos diz quando é a hora. A respiração dele aqueceu o lado de seu rosto. – Quando você ficou tão esperta? Ela inclinou a cabeça, ignorando as lágrimas frescas que se acumulavam em seus olhos. – Eu tenho um amigo incrível orando por mim. Ele beijou a testa de Ash. – Adeus, Ashley. – Adeus. Ela o observou enquanto ia embora e sentiu o coração ficar mais pesado a cada metro que surgia entre eles. Mas só depois que ele se foi é que ela fechou a porta e caiu de joelhos. Um oceano de lágrimas vinha crescendo dentro dela desde o momento em que ele lhe contou os planos que tinha. Não apenas porque ele estava partindo, mas porque ele poderia nunca mais voltar. O som da porta da varanda se abrindo a fez se sentar sobre os calcanhares e cobrir os olhos. Cole apareceu e olhou para ela. – Mamãe, o que foi? Você está doente? Dois soluços rápidos sacudiram os ombros de Ashley. – Não, eu... eu só estou triste. – Eu sei o que fazer. – Cole rapidamente se pôs ao lado dela. – A vovó diz que você deve orar quando se sentir triste. – Ele passou um braço em volta do pescoço de sua mãe e apertou o rosto contra o dela. – Você quer que eu ore, mamãe? Ashley fungou. – Sim, querido. Ore... ore para que a mamãe saiba com certeza que Deus a ama. Cole fechou os olhos e, em belas frases infantis, fez exatamente isso. *** A resposta à oração de Cole foi a primeira coisa que chegou na parte da manhã. Antes de Ashley acordar, Lu, da Sunset Hills, ligou. – Alô? – Ashley colocou o braço sobre os olhos. Ela estava com dor de cabeça de tanto chorar no


dia anterior. – Ashley, desculpe acordar você, mas aconteceu algo aqui. Uma coisa ruim. Ashley sentou-se na cama, com o coração batendo forte. – É Irvel? Houve silêncio do outro lado. Ashley teve de se lembrar de respirar. Ela estava completamente acordada agora, a adrenalina correndo por seu corpo como uma droga. – Lu, me diga. O que aconteceu? – É uma longa história – Lu suspirou. – Eu despedi Be-linda essa manhã. Você é a única pessoa que pode fazer o trabalho, Ashley. Por favor, volte para a Sunset Hills. A mente de Ashley disparou. O que Belinda tinha feito? Ela fez força para se concentrar na proposta de Lu. – Eu... eu não quero trabalhar na contabilidade, Lu. – Eu vou contratar alguém para isso. – Lu parecia estar prestes a chorar. – Os residentes daqui são diferentes perto de você, mais felizes. Nada foi o mesmo desde que você saiu. Por favor, Ashley, volte. O que quer que você estava fazendo, faça de novo, e treine o pessoal para fazer a mesma coisa. – Ela inspirou rapidamente. – Você pode, Ashley? Por favor! O entusiasmo substituía cada pensamento assustador que Ashley teve. A alegria enchia seu coração, e ela se esforçava para falar. Ela estava voltando! Ela veria Irvel novamente e ouviria sobre Hank. Colocaria fotos na parede, cobriria o espelho para Edith e levaria de volta a sela e o cavalete. Lágrimas corriam por seu rosto quando uma gargalhada estrepitosa e maravilhosa saiu de sua garganta. – Quando eu começo? Elas discutiram os detalhes, e Ashley prometeu estar lá logo cedo de manhã. Dessa forma, ela poderia passar mais um dia com Cole antes de retornar a Sunset Hills. Lu garantiu que ela poderia trabalhar até as 15 horas, para que ela e Cole passassem as tardes e os fins de semana juntos. Depois que ela desligou, Ashley olhou para o teto, maravilhada. Era o arranjo perfeito. Enxugou o rosto, e foi aí que sua ficha caiu. A oração de Cole! Seu filho tinha orado para que ela soubesse com certeza que Deus a amava. Ashley ficou de boca aberta, espantada. Ela ainda não havia orado como sabia que deveria. E, ainda assim, Deus estava respondendo às suas orações e às de seu filhinho, poucas horas depois de terem sido proferidas. Foi aí que ela afundou o rosto no travesseiro e começou a falar realmente com Deus. Ela pediu


perdão por uma vida de escolhas erradas e pediu para Deus ser seu amigo, seu Salvador, agora e para sempre. Depois disso, ela Lhe contou todas as outras coisas que estavam em seu coração. Trinta minutos depois, ela se levantou e ficou olhando para fora, pela janela. Ela era uma nova pessoa; podia sentir isso. A misericórdia e a graça de Deus a inundaram, enchendo-a como nunca antes. Deus a amava! Ele a amava, e nada poderia mudar isso. Não porque ela fosse boa ou porque finalmente havia orado. Mas simplesmente porque ela era Dele.


CAPÍTULO 32 Kari encontrou um modo de se manter ocupada. O pastor Mark tinha arranjado para ela se encontrar com Martha Oglesby, uma das mulheres mais velhas na igreja, que compartilhava a visão de Kari de ajudar outras mulheres que pudessem estar com problemas no casamento. Duas vezes por semana, elas se reuniam para conversar, orar e discutir os problemas com os quais Kari poderia ter de lidar uma vez que começasse esse ministério. Isso e cuidar de Jessie lhe davam horas inteiras a cada dia para não pensar em Ryan Taylor. As noites eram algo completamente diferente. Fosse qual fosse o futuro reservado para os dois, agora Deus os tinha separado por uma razão. E até que eles pudessem estar juntos, cada um tinha um trabalho a fazer. O de Ryan era honrar seu contrato. E o dela era honrar a Deus com o trabalho que Ele lhe tinha dado. – Eu não sei o que o amanhã nos reserva, querida –, disse--lhe sua mãe na última vez em que falaram sobre Ryan, – mas eu tenho a sensação de que, de alguma forma, ele envolve Ryan Taylor. As palavras da mãe alegravam seu coração enquanto ela caminhava em direção ao escritório da igreja naquela tarde de segunda-feira. Ela virou uma esquina e atravessou a igreja em direção ao gabinete do pastor Mark. Ele tinha telefonado para ela mais cedo e pedido que passasse ali. – Há algo que eu gostaria de discutir com você. Ela entrou no gabinete do pastor e encontrou-o ao telefone. Sentou-se no lugar costumeiro, no sofá em frente à mesa, e esperou. Depois de alguns segundos, ele desligou o telefone e deu-lhe sua saudação habitual. – Olá, Kari! Como está sua família? Ela sorriu e sacudiu de leve os ombros. – Bem, eu acho. Ashley conseguiu o emprego de volta. Parece que Erin e Sam estão muito bem. Ela está feliz porque eles não se mudaram. O pastor assentiu. – E eu me reuni com Brooke e Peter. Eles ainda não estão no ponto de assumirem um compromisso, mas estão interessados. É emocionante ver até onde eles chegaram. – O sorriso do pastor Mark sumiu. – Eu não tenho visto Luke. Um peso caiu sobre Kari.


– Ele está com problemas. – Ela cruzou as mãos. – Eu falei com mamãe e papai, e eles acham que é uma fase, algo com que ele tem de lidar. Mas, eu estou preocupada. – Ela hesitou. – A fé dele sofreu um grande abalo depois do 11 de Setembro. – Eu sinto muito. – O pastor Mark suspirou, os olhos ain-da fixos em Kari. – Estou orando por ele. Peça ao seu pai para me manter informado. – Vou pedir. O pastor hesitou e se acomodou na cadeira. – Bem, Kari, Martha acha que você está pronta. – Pronta? – Para atender a alguém que esteja tendo dificuldades. – Ele girou sua cadeira de escritório, procurou algo em sua gaveta de arquivo e tirou uma folha de papel. – Eu tenho alguém em mente. A tristeza por Luke se foi, e uma onda de empolgação brotou dentro dela. Sem dúvida, Kari havia se considerado pronta meses atrás. Mas, se Martha pensava assim, talvez ela realmente estivesse. – Qual é a situação da pessoa? – Eu conversei com ela por telefone. – O pastor Mark passou os olhos pelo papel. Metade da página estava coberta com anotações feitas à mão. – Ela ligou na semana passada, e, pelo que percebi, é jovem, sem filhos. Com problemas no casamento. Ela disse que está com intenção de deixar o marido nos próximos meses. Ela precisa de sigilo total. – Será que ela me conhece? – Eu não mencionei seu nome. – O pastor olhou para as anotações. – E ela não me deu o dela. Era muito tímida ao telefone, com medo de que alguém pudesse descobrir. – Os olhos voltaram às anotações. – Eu disse que havia uma mulher aqui na igreja que poderia se encontrar com ela, talvez ouvi-la e orar com ela. Prometi que ninguém jamais saberia o nome dela ou que ela havia se encontrado com alguém. – O que ela disse? – Que não era a resposta que ela estava procurando. – O pastor Mark deu a Kari um sorriso triste. – Eu acho que ela está bem propensa a um divórcio. O coração de Kari se partiu pela mulher. O casamento pode ser muito difícil, especialmente com todas as pressões resultantes da vida diária. No entanto, se ela e Tim tinham lidado com seus problemas e encontrado união e amor novamente, isso poderia acontecer àquela mulher, quem quer que ela fosse. – Que motivos ela tem?


O pastor Mark levantou o papel para vê-lo melhor. – Não há nenhum caso extraconjugal, pelo menos não neste momento. Ao que parece, a mulher tem um amigo no trabalho que a ouve, mas ela diz que não é o problema. – Então, qual é? – Parece que o problema começou quando o marido foi transferido para um trabalho fora do estado. Eles deveriam se mudar nesse verão. A mulher me disse que ela já decidiu ficar aqui. Mas, eu acho que ela está tendo problemas com isso. Ela é crente desde jovem. Sua família não vai compreender. Esse tipo de coisa. Kari inclinou-se para frente e olhou para o pastor Mark. A descrição quase parecia com Erin, exceto que Erin não tinha confiança em nenhum colega de trabalho, e ela, certamente, não tinha intenção de se divorciar de Sam e ficar em Bloomington. Kari sentiu um pouco de alívio quando pensou nesses detalhes. Não, a mulher devia ser outra pessoa. – O que você acertou com ela? – Ela concordou em se encontrar com você desde que ninguém mais na igreja saiba. Para dizer a verdade, eu acho que ela está procurando uma maneira de aliviar a culpa. Se ela se encontrar com você, pelo menos vai poder dizer que tentou. Eu acho que ela está esperando que você fique ao lado dela, passe a mão na cabeça dela e diga que não há problema algum em acabar com o casamento. – Exatamente o que eu não vou dizer a ela. – Kari deu ao pastor Mark um sorriso triste. – Você acha que está pronta? O coração de Kari encheu-se com a ideia de usar seu passado, sua dor, para ajudar outra pessoa. – Estou. – Ótimo, então. Quando você pode se encontrar com ela? – Vou ligar para ela esta semana e marcar. O pastor Mark escreveu algo em um pedaço de papel e o entregou a Kari. – Esse é o número dela. Ela não deixou nome. Kari pegou o papel e, quando viu os sete dígitos, seus olhos se arregalaram. Sentiu o sangue fugir do rosto e o coração bater descompassado. Não era possível. Por que ela não tinha dito nada a Kari? E como ela reagiria quando descobrisse que Kari era a pessoa com quem ela iria se encontrar? Nada daquilo parecia nem remotamente possível. Quando ela havia decidido deixar o marido, e por que não tinha contado a ninguém? E esse amigo? Quem era? Kari não tinha respostas, não havia fatos, exceto um: a verdade inegável que ela segurava com as


mãos trêmulas. O número de telefone no pedaço de papel não era de uma estranha. Era o de sua irmã Erin.


CAPÍTULO 33 As contusões de Irvel foram suficientes para deixar Ashley aborrecida. A idosa estava deitada na cama gemendo, seus braços murchos tinham grandes manchas roxas e azuis, riscados com linhas de sangue vermelho. Ela rolava a cabeça de um lado para o outro, com olhos arregalados e cheios de medo. Havia um forte cheiro no quarto, como se Irvel não tomasse banho há dias. Além disso, seu cabelo estava separado em punhados oleosos e emaranhados. Ela parecia ter envelhecido dez anos em duas semanas. Ashley mal a reconheceu. – Irvel? – Ela entrou no quarto da idosa na manhã de terça, com o estômago revirado. O que havia acontecido com ela? Ela foi para o lado da cama de Irvel e pegou a mão da idosa. – Olá, Irvel. Como você está? Irvel parou de gemer e virou os olhos para Ashley. Houve um momento em que pareceu que ela iria começar a gritar. Mas, em vez disso, suas pálpebras se fecharam e ela moveu os lábios. Então, começou a cantar: – Tu és fiel, Senhor, meu Pai celeste... Tu és fiel, Senhor... Meu Pai celeste... Tu és... As palavras eram roucas e rápidas, e ela as pronunciava repetidas vezes, completamente fora de tom. Pareciam vir de uma pessoa louca. Ela está agindo como Laura Jo! Como isso pôde acontecer? A raiva cresceu em Ashley, mas ela se conteve. Irvel não precisava de sua indignação; ela precisava de sua solidariedade. E de sua ajuda. – Irvel, é Ashley. Eu estive fora por um tempo, mas voltei. – A voz de Ashley falhou, e ela piscou para conter as lágrimas. – Como você está, Irvel? – Onde está Hank? – As palavras de Irvel eram secas e pastosas, e seus olhos corriam de Ashley para outros pontos ao redor do quarto. Irvel soltou um gemido alto. – Eu não consigo encontrar Hank. Por mais confusa que Irvel sempre tivesse sido, ela nunca tinha delirado, como uma pessoa com estágio mais avançado de Alzheimer. Mas, agora... eram os analgésicos que a faziam agir dessa forma ou algo tinha se rompido dentro dela? Talvez ela estivesse com febre... Ashley colocou a mão na testa de Irvel, mas o movimento fez com que Irvel se afundasse mais no travesseiro, com medo.


– Não me machuque! – ela gritou. Ela estremeceu, fe-chando os olhos e agitando as mãos na direção de Ashley. Imediatamente, Ashley afastou a mão. – Está tudo bem, Irvel. Está tudo bem. O que Belinda tinha feito? Irvel nunca tinha agido assim antes. Ashley apertou a barriga, querendo afastar a náusea que aumentava. – Eu sinto muito, Irvel. Eu não vou machucar você. Você está a salvo agora. – O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz re-pousar em pastos verdejantes; guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma... Lágrimas enchiam os olhos de Irvel enquanto seus lábios pronunciavam o salmo 23. Quando ela o recitou pela segunda vez, sua voz diminuiu para um gemido de menininha. – Eu quero Hank. – Hank está bem, Irvel. – Mais uma vez, Ashley se esfor-çou para não deixar sua voz demonstrar raiva. Era fundamental que Irvel ouvisse só palavras de gentileza. O que quer que houvesse acontecido, ela obviamente havia sido aterrorizada o suficiente. – Está tudo bem. – Eu estou com problemas. – O gemido parou de repente, e Irvel tentou se concentrar em Ashley. – Hank está procurando por mim. Ele quer ajudar. De todo o coração, o desejo de Ashley era só embalar Irvel nos braços e afastar a dor, garantir que ela e Hank estariam juntos em breve e que ninguém iria machucá-la novamente. Mas, ela não podia fazer isso. Agora Irvel estava com muito medo de ser tocada. – Você está bem agora. Está tudo bem. Irvel estreitou os olhos mais uma vez e fixou o olhar em Ashley mais do que antes. – Você conhece o Hank? Ashley ergueu os olhos para as fotos ainda penduradas na parede. E para o retrato do homem que ela havia pintado. – Sim, Irvel. – Um sorriso triste puxou os cantos de sua boca. – Eu conheço Hank. – Eu achei que sim. – Como uma brisa de verão, a paz atravessou o rosto enrugado da idosa. Pela primeira vez naquela manhã, Irvel parecia mais como Ashley se lembrava dela. – Ele virá nessa tarde? – Ele lhe disse que viria? – Ashley manteve a voz sem o menor tom de ameaça possível. – Sim! – Irvel estalou os lábios novamente e, por um mo-mento, seus olhos se moveram rapidamente pelo quarto. Em seguida, encontraram os de Ashley mais uma vez, quase como se uma


batalha estivesse acontecendo na mente de Irvel, uma batalha por sua sanidade. – Ele disse que viria. – Hank nunca desapontou você antes, não é? – Nunca! – Bem, então... – Ashley esfregou o polegar suavemente ao longo dos dedos ossudos de Irvel. – Eu tenho certeza de que ele não vai decepcionar você agora. – Sim. – Como se alguém tivesse apertado um botão, a opressão pareceu sair de Irvel. Seu semblante ficou agradável e confiante, quase como era antes. – Claro. – Ela sorriu e acenou com a cabeça, e seu corpo estava visivelmente mais relaxado. – Por que eu não pensei nisso antes? – Ela olhou para Ashley. – Acho que ainda não nos conhecemos, querida. Meu nome é Irvel. – Oi, Irvel. – Ashley lutou contra outra onda de lágrimas. – Eu sou Ashley. Acho que vamos dar um banho em você e lavar seu cabelo. Deixar você bem limpinha. A luz brilhou nos olhos de Irvel, e um sorriso surgiu em seu rosto. – Hank vai gostar disso. – Tenho certeza que sim. – Ashley deu um tapinha de leve na mão de Irvel. Elas conversaram por muito tempo. Irvel precisava descansar. – Então, talvez mais tarde, possamos tomar um chá. – Chá de menta? – Os olhos de Irvel se arregalaram. – Exatamente. – Ah, minha querida! – Irvel puxou a mão sobre o corpo e apertou-a sobre a de Ashley. – Isso seria ótimo. Como você sabia? Menta é meu favorito. Eram 7h15, e Ashley deveria se encontrar com Lu em cinco minutos. – Com certeza, Irvel. Ainda é muito cedo. Você pode des-cansar um pouco, e vamos começar o dia em cerca de uma hora. – Tudo bem. – As pálpebras de Irvel abriram e fecharam lentamente algumas vezes, e ela bocejou. – Sabe, querida... – Ela ergueu o braço machucado e fez um gesto na direção de Ashley. – Você tem um cabelo muito bonito. É muito bonito. Alguém já lhe disse isso? *** A pergunta surgiu assim que Ashley ficou a sós com Lu. – Você a viu? – Ashley estava em pé, andando pelo peque-no escritório, com os olhos fixos em Lu. – A polícia precisa ser chamada para ver isso. – Eu já chamei. – A voz de Lu estava calma e um pouco frustrada. – Eu tirei fotos. A polícia


conversará com Belinda hoje. O advogado dela alega que foi um acidente, que Irvel caiu e foi isso que causou as contusões. – Eu vi marcas de dedo em todo o braço dela. Pelo amor de Deus! – Ashley teve de se esforçar para manter a voz sob controle. – Essa mulher deveria estar na cadeia. Lu respirou demoradamente e olhou para um documento em sua mesa. – No caso de pacientes com Alzheimer, muitas vezes é a palavra deles contra a de um cuidador. Como os pacientes têm uma tendência a cair ou a fingir, na maioria das vezes é difícil provar o abuso. – Lu balançou os ombros, desanimada. – Além disso, idosos se machucam muito facilmente. Uma queda comum pode deixar uma pessoa com a idade de Irvel com manchas roxas e azuis em mais da metade do corpo. – Então, o que vai acontecer? – Se a polícia não tiver provas suficientes, vai arquivar o caso. Ashley cerrou os dentes e gemeu. – Como você descobriu? – Eu não teria descoberto se não fosse por Krista. Ela tra-balhou no turno da manhã naquele dia, mas saiu para uma consulta médica. Ela voltou mais rápido do que esperava. Quando entrou, encontrou Irvel no chão e Belinda em pé sobre ela, gritando com ela. Lu apoiou os braços na mesa. – Krista disse que Irvel estava mais agitada do que o nor-mal naquela manhã. Falando constantemente sobre Hank, esse tipo de coisa. Krista não sabia como lidar com ela. Ashley ficou desalentada. – Então, Krista saiu para um compromisso e Belinda as-sumiu. É isso? Lu concordou. – Aparentemente, Belinda estava de mau humor. Várias vezes, mesmo antes de Krista sair, Belinda gritou com Irvel e mandou que ela parasse de falar sobre Hank. Naquela tarde, Irvel se recusou a sentar na poltrona. Em vez disso, ficou andando de um lado para outro, da janela para a porta, esperando por Hank. Várias vezes, ela tentou sair pela porta da frente. Quando Krista saiu, ela avisou a Belinda que Irvel poderia tentar escapar. Lu baixou a cabeça por um momento. Quando olhou para cima, havia raiva em seus olhos. – Belinda riu e disse a Krista: “Não no meu turno; ela não vai”. – Lu hesitou. – A partir daí, é muito fácil juntar as peças do que aconteceu. – Você acha que Irvel tentou sair?


– Se ela queria muito ver Hank, sim. Ashley fechou os olhos e imaginou o que poderia ter acontecido. A pobre Irvel teria ficado desesperada para encontrar Hank. Cada vez que ela tentava sair, Belinda deve tê-la agarrado pelo braço e a forçado a ficar na cadeira. Por fim, Belinda provavelmente ficou loucamente frustrada. Nessa última vez, ela deve ter agarrado Irvel e a jogado no chão. – De qualquer forma, foi ali que Irvel estava quando Krista voltou. – Lu estava claramente devastada com os detalhes da história. Mencioná-los parecia minar sua força. – Naquele momento, Irvel estava se contorcendo de dor no chão, e seus braços já estavam com manchas. Krista ouviu Belinda dizer: – Bem feito, sua velha louca. É melhor você ir para sua cadeira e ficar lá. Se você tentar sair de novo, da próxima vez vai ser pior. Ashley ficou horrorizada. Se isso tivesse acontecido, Belinda teria puxado com gosto o cabelo da mulher e a jogado pela janela. – O que aconteceu depois? – Vamos apenas dizer que Belinda ficou muito surpresa ao ver Krista. Ela se enrolou com as palavras e, por fim, explicou que Irvel tinha caído. – Lu expirou com força. – Krista teve o bom senso de encontrar um telefone particular e ligar para me contar a história. Liguei para a polícia e me encontrei com os policiais na sala quinze minutos mais tarde. Um médico estava aqui em uma hora. Ashley fez que não com a cabeça, os punhos apertados. – Eu mal reconheci Irvel hoje pela manhã. – O médico diz que os ferimentos são, na maior parte, superficiais. – Certo. – Ashley bufou. – Você viu o medo nos olhos dela? Ela tem medo da própria sombra. – Eu sei. Não havia muita coisa que qualquer uma delas pudesse dizer sobre o incidente. Lu passou para os detalhes do novo cargo e salário de Ashley. Ela havia contratado um contador que iria começar na próxima segunda-feira. Até lá, Lu ficaria todos os dias e tocaria o escritório. Por volta das 8h30, Ashley e Lu terminaram de conversar, e Ashley começou a preparar o café da manhã. Edith e Helen juntaram-se a ela na mesa e se apresentaram. Antes da refeição terminar, Ashley se lembrou do espelho do banheiro. Ela correu até lá, cobriu-o com um lençol e voltou para a mesa. Ashley passou as duas horas seguintes dando banho em Irvel e nas outras e servindo chá a todas. Então, quando todos os residentes estavam cochilando, Ashley foi até o carro e trouxe a sela e o cavalete. Na hora do almoço, ela os arrastou pelo corredor até o quarto de Bert. Ele estava


mordiscando biscoitos e tomando sopa de uma pequena tigela, e ergueu os olhos quando ela entrou. – Oi, Bert. – Ashley colocou o cavalete do outro lado do quarto, próximo ao pé da cama. – Eu tenho algo para você. Bert não disse nada e voltou sua atenção para a sopa. Ashley pegou a sela e colocou-a sobre o cavalete. Então, tirou uma flanela de um saco. Sentou-se na beira da cama de Bert e esperou que ele terminasse de comer. Todos os dias durante as duas últimas semanas, ela lamentou não poder levar a cabo esse plano. Agora que ela estava aqui, ninguém poderia detê-la. Ashley não podia esperar. Finalmente, Bert terminou e empurrou a bandeja para o lado. Enquanto ele se esforçava para ficar em pé, Ashley se aproximou dele. – Olhe, Bert. Eu trouxe uma sela. Eu gostaria de saber se você pode lustrá-la para mim. Bert olhou para o chão e resistiu um pouco. Mas, depois de um momento, ele permitiu que Ashley o levasse até o cavalete. Ela o posicionou bem em frente a ele, de frente para a sela. Em seguida, ela colocou a flanela na mão dele, levantou-a e a colocou em cheio no meio da sela. – Aqui, Bert. Você pode lustrá-la agora. Todas as vezes em que ela lidou com Bert, ele nunca manifestou qualquer emoção. Nem raiva, nem tristeza, nem solidão. Nada. Agora, enquanto Bert sentia a flanela na sela, ele ficou completamente imóvel. Ashley deu um passo para trás, olhando para a mão de Bert, ansiosa enquanto esperava para ver qual seria o próximo passo dele. Em parte, ela esperava que ele desse a volta no cavalete e voltasse para perto da cama, onde ficava fazendo círculos há tanto tempo que ninguém conseguia se lembrar. Mas, ele não se moveu. Ele fixou os olhos na sela, e então aconteceu. Ele começou a esfregá-la em pequenos e suaves círculos, para cima e para baixo, em toda a sua extensão. Depois de alguns segundos, sua outra mão se aproximou e agarrou a sela. Seus dedos moviam-se sobre o couro gasto de uma forma experiente, como se estivessem voltando à vida depois de estarem dormentes por anos. Ashley mal conseguia manter a calma. Bert entendeu o que era o objeto! Ele reconheceu a sensação da sela debaixo de suas mãos. A cada minuto que passava, os ombros ficavam mais eretos e os movimentos eram menos inconscientes, mais intencionais. Ela ainda estava olhando para a sela, observando as mãos de Bert enquanto esfregavam o couro em movimentos circulares, quando viu uma pequena gota de água atingir a superfície. Em seguida,


outra. O que era isso? Ela lançou um olhar para o rosto de Bert. Só então ela entendeu exatamente o quanto Bert precisava de uma sela. Os olhos dele diziam a Ashley tudo o que ela precisava saber. Porque agora, enquanto esfregava uma sela pela primeira vez depois de décadas, Bert estava fazendo algo que Ashley nunca o tinha visto fazer antes. Ele estava chorando.


CAPÍTULO 34 Ryan Taylor havia tomado uma decisão. Agora, ele estava no meio do campo de treino do Giants e olhava para a bandeira norteamericana iluminada do estádio que balançava em uma extremidade. Fazia quase quatro graus negativos naquela noite, e o céu estava claro. Ainda assim, o vento de inverno cortava a pele de Ryan; então ele apertou ainda mais o casaco em torno do pescoço e do rosto. Que jornada tinha sido aquela de treinamento na Liga Nacional: amistosos e torneios de verão, a pré-temporada e cada jogo muito disputado desde então, o choque emocional de estar tão perto do Marco Zero após o 11 de Setembro e, depois, uma temporada decepcionante que tinha deixado o time em um triste sétimo e nono lugares na liga. Ryan examinou a bandeira. Não importava o que a ficha mostrava, o New York Giants era vencedor. E assim eram seus fãs: o povo da cidade de Nova York. Muito tempo depois de vitórias e derrotas serem esquecidas, a tragédia do dia 11 de setembro e seu impacto horrível sobre as pessoas dessa cidade ressoariam profundamente no coração de Ryan. Ele nunca mais olharia para uma bandeira norte-americana sem ver a bandeira esfarrapada que tinha sido retirada dos escombros das Torres Gêmeas, nunca mais ouviria menção aos ataques terroristas sem lembrar como esses edifícios em chamas pareciam vistos pela janela de seu próprio apartamento. De fato, três semanas atrás, quando o Giants estava em uma série de vitórias, Ryan havia passado horas imaginando como poderia convencer Kari a se mudar para Nova York e estar com ele enquanto ele treinasse. Ele guardava seus pensamentos consigo mesmo toda vez que conversava com Kari, tomando cuidado para não tocar no assunto. O que ele poderia dizer quando, na maior parte do tempo, havia estado muito confuso sobre o futuro até para saber o que queria fazer? Deus, eu amo Kari. Ele orava da mesma forma várias vezes por dia. Mostre-me o que eu devo fazer. Diga-me onde o Senhor me quer e se é o momento certo para nós. No final, a decisão tinha sido tomada por ele. Ryan sorriu e afundou as mãos nos bolsos. Não pela comissão técnica, embora parecesse que sim, mas pelo próprio Deus. O Senhor sondou o coração dele e soube que havia apenas uma maneira de Ryan Taylor ser feliz. Mesmo agora, Ryan estava certo de que o acontecimento do final da temporada tinha sido uma resposta direta às suas orações.


– Nós faremos algumas mudanças no treinamento. – Foi assim que o treinador principal do Giants apresentou os fatos para ele. Ryan entendeu o que o homem estava dizendo. Por causa de suas constantes orações, ele não estava irritado ou decepcionado. A taxa de rotatividade era maior no treinamento profissional do que em praticamente qualquer outra área. Era a natureza do trabalho: vencer ou nada. Após a temporada de derrotas do Giants, as mudanças de treinamento eram inevitáveis, assim como eram as ofertas de outras equipes. No momento em que Ryan foi liberado oficialmente de seu contrato com o Giants, meia dúzia de outras equipes quiseram entrevistá-lo. Denver, Oakland, Detroit, Chicago – durante uma semana após o fim da temporada, a lista parecia aumentar a cada dia. Já eram meados de janeiro, e Ryan tinha falado com os donos de cada equipe que tinham telefonado para ele. Mas, só nessa tarde ele havia tomado a decisão de entrar em contato com cada uma delas para dar sua resposta. Ryan inspirou o ar congelante e deu uma última olhada. Então, saiu de seu carro, passou pela entrada do prédio e seguiu para um apartamento, onde planejava passar a noite fazendo as malas. Depois de um ano na NFL, Ryan Taylor estava indo embora. Não para assumir outra equipe. Não para um lugar na cabine dos comentaristas para uma das redes de TV – outra oferta que tinha surgido na última semana. Mas para Bloomington, Indiana, e para uma mulher que tinha conquistado seu coração quando ele era pouco mais que um menino. *** Kari abriu a porta e sorriu para a jovem conhecida que estava na escada à frente de sua casa. – Oi, Erin. Entre. A princípio, Erin ficou aterrorizada ao saber que a pessoa com quem conversaria era sua própria irmã. Contudo, Kari prometeu-lhe o anonimato, como se elas não se conhecessem. Agora, várias semanas após terem começado as reuniões, elas finalmente estavam chegando ao xis das questões. O problema não era surpreendente. Erin não queria se mudar. Ela não confiava em Sam nem o amava o suficiente para ir atrás dele no Texas. E, quando ela e Kari começaram a se reunir, ela não tinha intenção de mudar de opinião. Elas falaram sobre o amigo de Erin, e Kari convenceu a irmã de que essa relação só poderia trazer-lhe problemas. Depois disso, ela finalmente deu uma tarefa a Erin. – Eu quero que você se lembre por que se apaixonou por Sam. – Kari tinha entregado a Erin um


livreto. – Há alguns exemplos aqui, mas vamos para algumas coisas simples que você pode fazer. Kari explicou que Erin podia ler cartões e cartas que Sam havia escrito no tempo do namoro ou assistir ao vídeo do casamento. Fotografias poderiam ajudá-la a se lembrar de momentos especiais quando o amor era novo. Então, quando as lembranças estivessem frescas, Erin poderia escrever uma lista de coisas que apreciava em Sam naquela época. – Lembrar por que você se apaixonou por seu marido é como treinar seu coração a procurar essas mesmas qualidades nele agora. A resposta de Erin foi típica. – E se ele mudou? Kari sorriu. Ela se sentia do mesmo modo quando ela e Tim estavam em aconselhamento. – Acredite em mim – Kari afagou a mão da irmã –, aquelas coisas que você gostava em Sam ainda estão lá. Mesmo que você tenha de olhar com mais atenção para encontrá-las. – E depois? – Honre-o... elogie-o. Fortaleça-o para que ele saiba que você ainda o ama. Erin estava cética no início. Mas, agora, ainda no degrau, um raro sorriso iluminou seu rosto. Antes mesmo de entrar, ela abriu os braços e deu um abraço apertado em Kari. – Muito obrigada, Kari. Kari sentiu o coração acelerado da irmã. Afastou-se e examinou os olhos de Erin. – Obrigada por quê? – Funcionou! – Erin puxou Kari para dentro da sala. – Foi a melhor semana que tivemos em anos. – Você quer dizer que isso aconteceu porque você se lem-brou por que o amava? – Sim! Eu pensei que isso fosse loucura; uma coisa ultra-passada, só do meu lado, tanto faz. Não fazia nenhum sentido para mim. Mas, como nada mais estava funcionando, pensei em dar uma chance a essa ideia. Dois dias depois, Sam e eu passamos uma noite inteira sem brigar. Ele se tornou uma pessoa completamente diferente. Kari, estou falando sério. Qualquer coisa que você tenha a dizer, eu estou pronta para ouvir. Kari não podia conter sua alegria. Ela riu, pegando as mãos de Erin e apertando-as. – Você sabe por que, né? – Eu não sei por quê. Só sei que funciona. – Erin piscou para conter as lágrimas. – Porque é de Deus. – Kari fez uma oração silenciosa, agradecendo a Deus pelo avanço de Erin. – Deus quer que nos lembremos de nosso primeiro amor, tanto por ele quanto por nosso cônjuge. Quando nos lembramos disso, somos mais capazes de honrar a pessoa com quem estamos infelizes.


Depois disso, tudo se encaixa. Kari abriu a Bíblia sobre o colo. – Hoje, vamos avançar um pouco mais... *** Kari tremia ao sair da igreja naquela manhã de domingo. O sermão havia sido comovente. O pastor Mark havia incentivado a congregação a examinar o modo como vivia e, depois, a seguir em frente. – Tenha como meta o caminho elevado, o lugar onde Deus quer você –, disse ele. – E não deixe que nada se coloque em seu caminho. Nada de arrependimentos, ele tinha dito. Aproveite ao máximo cada oportunidade para que, quando a vida terminar, essa afirmação seja verdade. Durante a mensagem, Kari deu uma olhada para a fileira de Ashley. Sua irmã mais nova estava concordando com a cabeça e, cuidadosamente, fazendo anotações. Seria possível que, apenas um ano atrás, Ashley teria rido da ideia de ir à igreja? No entanto, aqui estava ela, crescendo na fé, entregue a Cristo. O estudo de Kari com Erin, sua irmã, continuava, e, apesar de Erin e Sam ainda terem suas diferenças, o casamento se fortalecia a cada semana. Erin havia confidenciado a Kari que tinha certeza de que se mudaria para o Texas com o marido quando chegasse o momento. Brooke e Peter continuavam a frequentar a igreja, embora Maddie tivesse ficado doente novamente nos últimos dias e eles terem perdido alguns domingos. Ainda assim, o impacto do dia 11 de Setembro permanecia com eles, convencendo-os de que precisavam de Deus. Todos os Baxter estavam onde deveriam estar. Todos, exceto Luke. Kari lembrou-se do olhar no rosto de seu pai quando ela lhe perguntou, mais cedo naquela manhã, se Luke viria. Cole faria um solo na igreja com o coral das crianças, e Ashley tinha convidado Luke. – Eu acho que não. – Os olhos de seu pai estavam carre-gados de dor. – Ele disse a Ashley que achava que não tinha nada a ver. Como a visão de seu irmão havia se tornado tão distorcida? Kari não sabia, mas ligaria para Luke nessa semana e conversaria com ele. Talvez se ela o lembrasse de que ele era amado e também motivo de orações... Ela chegou ao carro e pôs Jessie sobre a outra coxa para poder usar as chaves. Sua filha tinha 8 meses agora e ficava dizendo palavras sem sentido. Embora o restante de sua vida ainda estivesse


pendente em um equilíbrio incerto, Kari estava profundamente grata por sua filhinha. Abriu a porta de trás e colocou Jessie na cadeirinha no carro. Então, tirou uma mamadeira da bolsa e entregou a ela. – Pronto, querida. Daqui a pouco estaremos em casa, e você vai poder tirar uma soneca. Kari dirigiu-se para a porta do motorista, mas parou de repente. Um envelope estava preso sob os limpadores de para-brisa. Estranho, Kari pensou. Deu uma olhada para os carros ao redor. O dela era o único com alguma coisa no para-brisa. O envelope estava úmido; então, ela o abriu lentamente, com cuidado, para não rasgar a carta de dentro. Quando ela desdobrou o papel, seu coração acelerou. Era a letra de Ryan. Mas Ryan estava em Nova York. Na verdade, ele estava tão ocupado com reuniões que fazia vários dias que não ligava para ela. Seus olhos percorreram o breve bilhete: Querida Kari, Encontre-me no lago Monroe em uma hora. Vou estar em nosso lugar à sua espera.

Não havia nome nem assinatura, nada além da escrita para convencê-la de que o bilhete era de Ryan. Kari olhou para as palavras de novo: os círculos que não chegavam a se unir e as curvas que pareciam quase como linhas retas. Era a letra dele, não era? Poderia ter sido outra pessoa? Não, não era possível. Ryan era a única pessoa que ela conhecia que escrevia assim. Kari ainda estava estudando o bilhete, tentando descobrir o que fazer com ele, quando sentiu um tapinha no ombro. Ela pulou e se virou. – Pai! – Ela estava sem fôlego. – Você me assustou! Os olhos de seu pai piscaram. – Desculpe. – Ele sorriu. – Sua mãe e eu queríamos saber se podemos ficar com Jessie esta tarde. – Ele murmurou para o bebê. – Nós, hã, pensamos que você pudesse precisar da ajuda. Kari agarrou o bilhete, mas deixou sua mão cair para o lado. – Ajuda para quê? – Ah, você sabe – a voz da mãe cutucou –, caso você precise de algumas horas para si mesma essa tarde. John fez que sim.


– Para ir ao lago ou algo assim. Ao lago? Kari olhou para o bilhete em sua mão mais uma vez. – Espera um pouco! Vocês sabem sobre isto? – Hummm. – Os olhos de seu pai se arregalaram com falsa inocência. – Meu Deus, o que é isso? A mãe de Kari sorriu. – Parece um bilhete! – Seus pais se cutucaram. – Quem será que poderia tê-lo deixado em seu carro? Kari agarrou o braço da mãe. – Mãe, se você viu Ryan, você tem de me dizer. Qual é? Eu preciso saber! Seu pai deu de ombros. – Tudo o que sei é que um passarinho... – Ele olhou para a esposa novamente. – Um pássaro grande, na verdade. John assentiu. – Isso! Um pássaro grande nos disse que você pode precisar de ajuda com Jessie esta tarde. Alguma coisa sobre visitar o lago Monroe, é isso mesmo? – Sim, eu acho que sim. – A mãe apontou para o carro de Kari. – Que tal você nos seguir até em casa, acomodar Jessie no berço e pegar mais um casaco e luvas? – Vocês não vão mesmo me falar, né? – Não! – O pai dela fez um movimento de zíper na boca. – Não vamos mesmo. Kari riu. Não adiantava levar o assunto adiante. Ela fez o que os pais disseram, seguiu-os de volta até a casa deles e colocou uma roupa quente. Quando Jessie dormiu, ela partiu para o lago Monroe. Durante o tempo todo, seu coraç��o flutuava de felicidade. O bilhete tinha de ser de Ryan. De alguma forma, ele já tinha falado com os pais dela e arranjado para que eles cuidassem de Jessie. Mas por que o mistério? E por que o lago Monroe, quando poderiam ter se visto facilmente na casa de seus pais? Ela chegou ao estacionamento exatamente uma hora depois de encontrar o bilhete e começou a observar em direção à margem do lago. Lá, sentado sobre uma mesa congelada de piquenique, estava Ryan. Ela teria reconhecido seu perfil, sua figura, a cem metros de distância. Quando ouviu o carro dela, ele se virou e sorriu. Era ele! Ele veio e transformou um domingo frio e invernoso no dia mais quente depois de semanas. Com passos cuidadosos, ela seguiu até a margem escorregadiça. Ele se levantou e esperou, com os olhos fixos nos dela.


Quando estava a apenas alguns metros de distância, ela parou e o observou. – Parece que você viu meu bilhete. – Eu vi. – Ela deu mais um passo em direção a ele. – Você não me disse que viria. Ele estendeu as mãos, e ela veio prontamente, incapaz de esperar mais um minuto para estar em seus braços, sentir seu calor. – Você está aqui mesmo. Eu não posso acreditar, Ryan. Eu reconheci sua letra, mas, ainda assim... – Ela aconchegou o rosto no ombro dele. – Eu pensei que você só poderia vir daqui a semanas. – Bem... – Ele recuou, e os olhos deles se encontraram e se fixaram. – Eu tinha uma pergunta para fazer que não podia ser por telefone. – Seus olhos brilhavam com um amor tão real e verdadeiro que aqueceram os lugares mais profundos do coração de Karin. – Achei que a única maneira de perguntar era vir aqui e fazê-la pessoalmente. O coração de Kari disparou. Ela sabia que ele tinha sido liberado pelo time de Nova York, mas, até agora, não tinha decidido sobre as outras equipes. Ele tinha tomado uma decisão? Ele estava se mudando para outro estado, talvez ainda mais longe do que antes? Ela piscou duas vezes, e sua voz foi quase inaudível em meio ao vento de inverno que vinha do lago. – Que pergunta? Ryan agarrou a jaqueta dela e a aproximou, beijando-a longa e lentamente. – A pergunta que eu quis fazer a você durante toda a minha vida. Seu sorriso desapareceu, e algumas lágrimas brilharam na superfície dos olhos. Devagar, ele dobrou um joelho na terra úmida e segurou a mão esquerda de Kari. – Ryan! – Ela sentia choques no coração. Isso era...? Poderia ser...? – Eu falei com seus pais mais cedo hoje, e eles me deram a bênção. – A bênção? – Sua cabeça estava girando, mas ela fez um esforço para se concentrar. – Kari, durante toda a minha vida, eu disse adeus a você, buscando coisas que eu pensei que me fariam completo... – Ele fez uma pausa, suas palavras ficaram lentas e espontâneas enquanto ele se esforçava para manter o controle das emoções. Tinha levado muito tempo para chegar a esse ponto. Ela apertou as mãos dele e o amou com os olhos. – Mas, eu só me sinto completo quando estou com você. Ele olhou diretamente para a alma dela. – Você me completa, Kari. Você sempre me completará. Ele abriu a mão direita, e ali estava um anel solitário de diamante. Não grande nem muito chamativo. Mas bem ali. Sem deixar de olhar para os olhos de Kari, ele colocou o anel no dedo dela.


– Case comigo, Kari. More comigo aqui em Bloomington. Deixe-me ser um pai para Jessie e para qualquer outra criança com que o Senhor possa nos abençoar. Por favor, Kari. Não há nada na vida que eu queira mais. As lágrimas vieram espontaneamente, escorrendo pelo rosto dela e passando pelos cantos levantados de sua boca. Ela caiu de joelhos na frente de Ryan e colocou os braços em volta do pescoço dele. – Eu sonhei com isso desde que eu era uma menina. Você está mesmo aqui? – Eu estou aqui, Kari. Eu não quero deixar você nunca mais. Ela se inclinou para trás e examinou os olhos dele. – E o treinamento? Eu não quero ser um empecilho, Ryan. Se é isso que você quer, eu estou disposta a falar sobre isso. Ele fez que não com a cabeça. Ela nunca o tinha visto mais seguro. – O que eu quero está bem aqui com você e Jessie. Eu não estou interessado em viajar pelo país e dar minha vida para o futebol. Eu quero você, Kari. Só você. Ela riu em meio às lágrimas. A umidade do solo passou por seu jeans, gelando seus joelhos, mas isso não importava. Ela podia ficar assim nos braços de Ryan para sempre. Ela estendeu a mão esquerda e olhou para o anel. – É lindo, Ryan. Há quanto tempo você está planejando isso? Ele hesitou, esperando até que seus olhos se encontrassem novamente. – Desde que eu tinha 14 anos. – Eu amo você, Ryan Taylor. Ela o beijou, enxugando as lágrimas no rosto. – Só tem um problema. – Ryan parecia sério. Kari ficou na expectativa e olhou para ele. Não, Deus, por favor... Nada de problemas. Não agora. – Qual? – Você não respondeu à minha pergunta. Ela podia sentir o sorriso se espalhar em seu rosto. Com um movimento estranho, ela se levantou e ajudou-o a se levantar. Então, pegou as mãos dele e olhou-o nos olhos mais uma vez. – Sim, Ryan Taylor, eu vou me casar com você. – Ela inclinou a cabeça para trás e gritou para o céu. – Sim! Cem vezes sim! Ele a puxou em sua direção e segurou o rosto dela com a ponta dos dedos.


– Eu amo você, Kari. Eu espero que você nunca se canse de ouvir isso, porque, desta vez, eu não vou a lugar nenhum. Nunca mais. Ela estava sonhando? Nada disso parecia real ainda, e ela riu enquanto abraçava Ryan novamente. – Eu não posso esperar para contar à mamãe e papai. – Há uma coisa que eu quero fazer antes. Kari inclinou a cabeça, esperando que Ryan explicasse. – Ore comigo, Kari. Por favor. Ele segurou as mãos dela e inclinou a cabeça. Juntos, eles agradeceram a Deus por sua soberania e por seu tempo divino, por seu dom do amor e por sua direção no relacionamento deles. Em seguida, agradeceram a Deus por remover uma palavra do vocabulário deles para sempre, uma palavra que os tinha assombrado até onde podiam lembrar. A palavra adeus.


CAPÍTULO 35 Luke Baxter se sentia uma pessoa completamente diferente. Ele e Lori Callahan tinham conseguido uma nota A no projeto. Com muito pouco esforço, na verdade, eles conseguiram com sucesso, pelo menos pelos padrões do professor Hicks, argumentar que Deus não existe. Particularmente, Luke pensou que os resultados da tarefa pareciam um pouco insípidos e manipulados. Afinal de contas, não havia uma forma concreta para provar ou refutar a existência de Deus. Mas, enquanto realizava a tarefa, aconteceu algo com Luke que mudou sua vida. Ele tinha descoberto o poder do humanismo, a visão de mundo na qual o professor Hicks acreditava. A única surpresa foi que ele não tinha descoberto isso antes. As ideias básicas do humanismo estavam em todos os lugares atualmente, não estavam? Anúncios impressos dos Jogos Olímpicos de Inverno falavam de “Celebrar a humanidade”, e uma coalizão recém-formada tinha começado a apresentar comerciais incentivando as pessoas a lutarem contra o terrorismo indo para o trabalho e se envolvendo com a busca pela educação continuada. “Lute contra o terrorismo”, diziam os anúncios aos Estados Unidos. “Viva corajosamente.” E isso era o que importava, não era, à luz do dia 11 de setembro e das constantes ameaças de terroristas? Que as pessoas apoiassem umas às outras e vivessem corajosamente juntas? Tudo tinha a ver com as pessoas, não com Deus. Luke e Lori tinham discutido esse assunto minuciosamente, muitas vezes na casa dos pais dela, com o pai presente. – A religião é perigosa –, dizia o pai dela em várias ocasiões. – As pessoas não precisam de um velho doente cheio de tradições e contos da carochinha. – Ele sorria muito sério. – Elas precisam de respostas concretas e fé em uma coisa com que possam contar: a bondade fundamental da humanidade. Especialmente em momentos como esse. O pai de Lori ficou empolgado quando descobriu que Luke tinha interesse em Direito. – Um garoto como você, brilhante, inteligente; é exatamente disso que precisamos para impedir que todos os loucos direitistas corroam nossos direitos constitucionais. A ideia parecia atraente para Luke e, não muito tempo depois de terminado o semestre, ele tomou uma decisão: iria estudar Direito e tornar-se o mesmo tipo de advogado que o pai de Lori. A essa altura, no meio de janeiro, ele estava passando mais tempo com Lori e a família dela do que com a


sua. O fato de que ele estava cada vez menos na casa de seus pais era apenas uma progressão natural dos acontecimentos, é claro. Afinal, nenhum deles parecia interessado em discutir com ele a realidade de Deus. Certamente, eles não considerariam seu ponto de vista válido. Como poderiam? Nenhum deles via o crescente movimento do humanismo como uma alternativa viável para a linha principal do cristianismo. Enfim, ainda não. Além de ser teimosa, sua família – de fato, a maior parte de suas irmãs – estava francamente decepcionada com as coisas que ele tinha dito e com as companhias que tinha. – Você está partindo o coração do papai –, disse Kari na semana anterior. – Pelo menos, fale com ele, ouça o que ele tem a dizer. Isso tudo é por causa da perda de Reagan, Luke, você não vê isso? O papai pode orar com você, mostrar alguns versículos da Bíblia, ajudá-lo a entender o que está acontecendo. Mostrar alguns versículos da Bíblia? Kari não conseguia ver que isso era passado para ele agora? Luke sempre tinha se dado bem com Kari, mas, com declarações como essa, ela havia ultrapassado os limites. – Sabe o que há de errado com você?, ele gritou com ela ao sair do quarto naquele dia. – Você acha que todos os problemas podem ser resolvidos com uma oração e um versículo da Bíblia. Ele parou no pé da escada e deu uma única risada. Olhe para as pessoas enterradas no World Trade Center, Kari. Quanta oração e versículo da Bíblia resolveram os problemas delas! Ela começou a dizer algo, mas ele não quis ouvi-la. Como foi que os ataques terroristas levaramno a achar que a família era tão mente fechada? De toda a família, apenas Ashley parecia, de fato, entender o que estava acontecendo com Luke. Ou, pelo menos, ela não lhe disse que ele estava arruinando a vida dele, como os outros disseram. – Eu amo você, Luke –, ela lhe tinha dito uma dezena de vezes desde os ataques. – Não importa no que você acredite, o que faça com sua vida, eu sempre vou amar você. – Ela o abraçava e beijava o rosto dele. – Eu deixei de amar você durante muitos anos para nunca deixar isso acontecer de novo. Ashley estava tratando-o como ele deveria tê-la tratado todos aqueles anos depois que ela voltou de Paris. Mas ele era uma pessoa diferente naquela época: crítico e de mente fechada como o restante deles. Claro, Ashley não tinha ideia do quanto eles realmente tinham em comum. Ele não tinha contado a ninguém sobre o que aconteceu entre Reagan e ele na noite antes de o pai dela morrer. Não era algo que ele tinha a intenção de compartilhar. Nunca. Não porque pensasse que aquilo que ele e Reagan fizeram estava errado – era passado agora. Só


não era da conta de ninguém. Quando pensava nisso, a aceitação que Ashley tinha por ele era mais uma prova de que o espírito humano era a maior força que existia. Não foi Deus quem motivou Ashley a oferecer amor e amizade a Luke. Foi o senso inato de bondade pessoal e amor dela – os mesmos atributos que estavam tão obviamente em ação nos Estados Unidos desde os ataques. Claro, no passado, ele teria dado crédito a Deus por isso e considerado as mudanças em sua irmã como fruto da fé e resposta de oração. Mas como ele poderia se apegar a essas crenças infantis quando elas não tinham provado ser nem um pouco confiáveis? Se Deus era real e a oração funcionava, então, isso funcionaria todas as vezes, não é? De acordo com o que ele viu nesses dias, os cristãos tinham uma forma de celebrar o que pareciam ser respostas milagrosas à oração e de varrer para debaixo do tapete as vezes em que a oração não fazia diferença. Assim, mesmo os cristãos mais devotos pareciam carregar algum tipo de dúvida a respeito de Deus. Como ele poderia colocar sua confiança em um poder superior que não era consistente? Não que tivesse sido fácil deixar para trás uma vida inteira de instrução. De vez em quando, ele dispensava Deus, a oração e a fidelidade, e o sussurro mais estranho parecia soprar em seu coração: Eu amei você com um amor eterno, meu filho. Volte para mim. Luke não tinha a intenção de voltar. Ele atribuía o estranho sussurro a uma imaginação fértil e a uma vida inteira de condicionamento. Com o passar das semanas, os sussurros foram ficando mais suaves, chegando agora a ser quase imperceptíveis. – É como se você tivesse sofrido uma lavagem cerebral –, disse Lori em uma noite quando ele lhe contou sobre a voz imperceptível e a mensagem que ela entregou. – Eu não posso acreditar que você engoliu essa coisa a vida toda. A coisa com Lori era bem estranha. Luke não estava exatamente atraído por ela, embora não tivesse dúvida sobre os sentimentos dela por ele. No caminho de volta na terceira noite de reunião para fazer o trabalho de comunicação, ela lhe pediu para dormir com ela. Educadamente, ele a rejeitou, explicando que ainda estava apaixonado por Reagan. Mas, a verdade era que ele nunca havia namorado uma garota tão direta antes. Para ele, era como jogar basquete sem um adversário: sem desafio, sem mistério algum. Ainda assim, quanto mais tempo passava com Lori, mais divertido era estarem juntos. Ela podia não ser o tipo de garota com quem ele se visse casado um dia, mas o intelecto dela era fascinante. Isso o levou para outro nível de pensamento. E ela não era feia, com seus olhos verdes claros e seus


muitos cachos escuros. Qualquer dia desses, eles seriam obrigados a cruzar a linha da amizade para o namoro, já que tinham se beijado algumas vezes, e Luke podia ver que as coisas estavam ficando mais sérias entre eles. E por que não? Afinal de contas, ele era um homem livre. Seu relacionamento com Reagan era coisa do passado. Ele ligava para ela muito de vez em quando, com a intenção de desejar que as coisas dessem certo para ela e mostrar-se solidário pelo que havia acontecido com o pai dela. Mas ela não tinha atendido a nenhum de seus telefonemas. Tudo isto – a decisão de Luke de abraçar o humanismo, sua ideia de se tornar um defensor das liberdades civis e sua crescente amizade com Lori e a família dela – tinha causado um impacto tão grande em Luke que ele falou com o pai no início da semana e perguntou se poderiam conversar uma noite. – Claro! Que noite é melhor para você? Luke odiou a forma como o pai pareceu aliviado com a pergunta. Ele acha que eu vou voltar a ser como eu era. Bem, ele vai saber a verdade em breve. Eles decidiram pela noite de quinta, e Luke esperava que a discussão transcorresse bem. Seu pai ficaria desapontado com sua decisão, é claro. Mas, ainda assim, ele era um bom homem, um dos melhores que Luke já tinha conhecido. Apesar de sua determinação de se agarrar a uma fé irracional, o coração do humanismo batia fortemente em John Baxter. Luke só esperava que esse coração ficasse evidente na quinta-feira à noite. *** John Baxter estava preocupado com seu único filho. A velocidade com que Luke estava se afastando deles já não era algo que John pudesse discutir à distância. Ele e Elizabeth tinham visto o filho se transformar em um jovem recluso e crítico, cuja fé tinha desaparecido. Eles tinham conversado longamente sobre as decisões que Luke estava tomando e a influência que Lori Callahan parecia ter sobre ele. Quando não estavam falando sobre Luke, eles estavam orando. Todas as noites e todas as manhãs, eles pediam a Deus para chamar a atenção de Luke e trazê-lo de volta à única realidade que ele já tinha conhecido: a realidade da fé e da certeza de que a vida vinha de um Deus que se importava com ele e o amava, independentemente das dores que a vida trazia.


Na quinta-feira, o dia em que havia acertado de se encontrar com Luke, John não só orou todas as vezes que pôde, como jejuou também. O jejum não era algo que ele fazia com frequência, e ele nunca compartilhava o fato com alguém, exceto com Elizabeth. Mas, naquele dia, ele sentiu que era necessário. A caminho de casa, depois de sair do consultório, ele orou novamente. Esteja conosco hoje à noite enquanto conversarmos. Que a paz e o amor prevaleçam. Fale suas palavras por meio de meus lábios. Por favor, Pai, não deixe que meu único filho se afaste. Eu não poderia suportar. A resposta que John ouviu nesse momento, no fundo de sua alma, foi a mesma que tinha ouvido durante todo o dia. O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente. Era um versículo da Bíblia que John e Luke tinham memorizado juntos quando Luke tinha apenas 8 anos. Naquela época, isso abriu a porta para o crescente entendimento de Luke de toda a bondade que Deus tinha reservado para aqueles que o seguiam. Agora, o versículo lembrava John de que as lutas de Luke não estariam acontecendo se não fosse uma coisa: o inimigo estava atuando. O que tinha acontecido? Luke era o mais forte, o menino de ouro destinado a viver uma vida de fé. Mas ele não tinha mostrado sinais o tempo todo de que sua fé não era o que deveria ser? E o que dizer da forma como ele reagiu à situação de Ashley? E de Kari? De algum modo, durante a adolescência, ele se tornou rígido e moralista, esquecendo-se do poder da graça e do perdão. John perguntou-se por que não conversou com Luke naquela época, quando tinha notado pela primeira vez essas mudanças. Ele não tinha respostas para isso nem compreendia plenamente o que estava acontecendo com Luke agora. Mas isto ele sabia: por pior que a situação parecesse, Deus venceria no final. Os propósitos de Deus prevaleceriam. John só esperava que, em breve, Luke se lembrasse das verdades que tinha conhecido e nas quais tinha acreditado quando era menino, as mesmas verdades das quais estava tentando fugir nesses dias. Naquela noite, quando o jantar terminou, Luke chegou em casa e encontrou John na sala da família. John tentou lê-lo, mas era impossível. Luke parecia duro, com o rosto tenso e ansioso. – Podemos conversar agora? – Claro. – John sorriu. A última coisa que queria era dar a impressão de que estava com dúvidas. Se Luke queria falar, ele precisava de um bom ouvinte, e John tinha a intenção de ser exatamente isso.


Eles subiram para o escritório de John. O pai fechou a porta e sentou-se em frente a Luke. Olhou para o filho, esperando que sua expressão fosse gentil. – Posso dizer uma coisa antes de começar? – Claro. – Luke fez um breve contato visual com John e depois baixou o olhar para o chão. – Eu estou orgulhoso de você querer conversar. – John apertou as mãos e inclinou-se para frente. – Eu sei que você está passando por um momento difícil. – Ele deu ao filho um sorriso torto. – Significa muito você ter pedido essa reunião. Luke lambeu os lábios e se mexeu. – Tudo bem. – Então... – John inclinou-se para trás. – Sobre o que você gostaria de falar? Luke levantou os olhos. – Eu quero sair de casa. O estômago de John revirou. Não havia raiva na voz de Luke, apenas uma determinação – assustadora e firme. Ajude-me, Deus. Ajude-me. A decisão de Luke obviamente tinha sido tomada muito antes dessa conversa. John respirou lentamente. – Bem, isso é compreensível. Você já tem idade suficiente para ir para um lugar seu. Luke levantou uma sobrancelha, como se a resposta de John o surpreendesse. – Eu também tenho alguns planos para minha carreira profissional. Calma. Fique calmo. – Estou ouvindo. – Eu quero ser advogado especializado em liberdades ci-vis. É algo sobre o que o pai de Lori me falou. – A voz de Luke tinha uma aspereza. – Assegurar que as liberdades humanas não sejam pisoteadas por grupos limitados e de mente fechada com interesses especiais. Os pulmões de John se esvaziaram como balões de festa que sobraram. Ele podia adivinhar que “grupos limitados e de mente fechada com interesses especiais” o pai de Lori tinha em mente. – Como seu pai, vou respeitar as decisões que você tomar, Luke. Eu nunca vou amar menos você ou ficar contra você, se escolher esse tipo de carreira. – Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e aproximou o rosto do de Luke. – Mas não posso deixar você me dizer isso sem compartilhar algo com você. – O quê? – Havia desafio no tom de voz de Luke, e John temia a direção que a conversa poderia tomar.


– É um versículo que ficou voltando à minha mente to-dos os dias enquanto orei por você. – John hesitou. – É João 10.10. Jesus está falando, e ele nos diz: – O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente. Luke olhou para ele com uma expressão dura. – É só isso que você tem a dizer? – Sua voz estava mais alta que antes. – Eu digo que estou saindo de casa e que quero seguir carreira de advogado das liberdades civis e você me cita um versículo da Bíblia? O pânico espalhou-se pelas veias de John. Quem era esse jovem à sua frente? E o que tinha acontecido com o menino de ouro que amava a Deus? O que ficava incomodado com as más escolhas das irmãs? O que estava determinado a fazer as coisas do jeito de Deus, por mais alto que fosse o preço? – É o versículo que nós memorizamos quando você era um menininho, Luke. Achei que você iria se lembrar. Luke levantou-se e olhou para o pai. – Eu não sou mais um menininho, pai. Eu sou um homem adulto e tenho minhas próprias maneiras de entender o que aconteceu no país no ano passado. – Ele cerrou os punhos. – Você não entende isso? – Sim, eu entendo. – John permaneceu sentado, com a voz tão firme quanto no início da conversa. – Eu só estou tentando ajudar você, filho. – Eu não preciso de ajuda! – Luke passou os dedos pelos cabelos e olhou para o teto. Sua raiva era palpável, como um escudo físico ao seu redor. – Eu tenho direito a ter meu ponto de vista, sem sua tentativa de me “ajudar”... ou me fazer voltar a ser o que eu era. – Baixe a voz. – John finalmente deixou sua frustração vir à tona. – Você sempre vai ter direito à sua opinião. Mas você não vai falar comigo nesse tom de voz. Entendeu? Luke soltou uma risada curta e fez que não com a cabeça. – Sabe, pai, eu realmente pensei que você fosse o tipo de homem que pudesse ter uma conversa sem a transformá-la em um sermão. Ou trazer Deus para ela. – Bem, então... – A voz de John voltou ao normal, mas seu coração estava se partindo –, eu acho que você não me conhece muito bem. Deus não é algo que eu traga para uma conversa. Deus é minha vida. Quando eu falo com meu filho, um pouco de Deus, com certeza, flui. – E é por isso que eu estou indo embora hoje à noite. – Luke dirigiu-se para a porta. – Luke, pense no que você está dizendo. – John levantou--se e estendeu a mão para o filho. – Se


você não quer que eu compartilhe versículos da Bíblia, eu não vou. Não há nenhuma razão para você fugir assim. – John estava ansioso e fez uma última tentativa desesperada. – Pense em como sua mãe vai se sentir. Luke revirou os olhos. – Ela não vai sentir minha falta. Ela já me disse o que acha de Lori. Vocês dois não concordam com nada que eu esteja fazendo ultimamente. – Ele abriu a porta. – Vou passar as próximas semanas com um amigo de Lori. Vou levar minhas coisas no dia primeiro. Três horas depois, Luke se foi. John tentou repetir o conhecido versículo da Bíblia na mente enquanto Elizabeth chorava em seus braços no silêncio do quarto. Onde estavam o encorajamento, a esperança sobre o futuro, a certeza de que, com a ajuda de Deus, de alguma forma, Luke um dia cairia em si? John não tinha respostas para si mesmo. Tudo o que ficava voltando à sua mente era a primeira parte do versículo: O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir. Foi essa parte que o abalou completamente, que nunca em sua vida pareceu ser mais verdadeira. A parte que o manteve acordado durante toda a noite, orando desesperadamente pela segurança de seu único filho. Que Deus salvasse Luke antes que qualquer uma dessas coisas realmente acontecesse. *** Sua família ficaria furiosa com ele. Mas, isso não era nada novo. Luke estava junto à janela do apartamento que agora dividia com Lori Callahan fora do campus. Seus outros planos para um apartamento tinham fracassado algum tempo após o Natal. O pai de Lori já tinha alugado esse lugar para ela. Então, quando ela sugeriu que ele se mudasse para lá também, Luke não conseguiu pensar em uma única razão para recusar. Kari e Ryan tinham convidado a todos para se reunirem na casa dos pais dela aquela noite para algum tipo de jantar festivo. Não era preciso ser um gênio para imaginar qual era o grande assunto. Eles, obviamente, anunciariam seu noivado. Kari fez questão de ligar para Luke um dia antes para confirmar se ele iria. – Talvez –, disse ele. – Por favor, Luke. Isso é muito importante para Ryan e para mim. Ele realmente quer você lá. Luke abafou um suspiro. – Vou tentar. Tenho um monte de trabalhos para fazer. – Tente para valer. Luke não tinha do que falar. Não havia nada otimista sobre sua vida desde os ataques terroristas.


Houve alguns pontos favoráveis, sim, mas a maior parte de seus dias era um vazio desprovido de sentido. E talvez toda a vida tivesse sido assim até 11 de Setembro também. Pessoas nasciam. Elas morriam. Nesse meio-tempo faziam o possível para ganhar dinheiro e ajudar o maior número possível de pessoas. Era isso. Sem Deus, nem céu, nem eternidade para aguardar com esperança. Contudo, não era assim que suas irmãs viam a coisa, e elas nunca iriam deixá-lo esquecer esse fato. Luke sentiu uma tensão nos ombros enquanto olhava para a noite escura. Não tinha nada contra Kari ou contra qualquer uma de suas outras irmãs. Mas elas não o entendiam. Todos, exceto Ashley, estavam sempre tentando mudá-lo: compartilhando as Escrituras, oferecendo-se para orar, dizendo que ele estava passando por uma fase ou que estava deprimido. Lori veio por trás e massageou os músculos na base do pescoço dele. – Você parece tenso. – Eu estou. – Ele não se virou. Ele estava morando com Lori agora, fazendo tudo que vinha junto com isso. Era um arranjo agradável, mas não era amor. – Por causa de sua família? – Lori passou as unhas leve-mente pelos lados do corpo dele. Levantou a camiseta branca dele e deixou um rastro de beijos entre as omoplatas. Ele ficou imóvel ao toque, não querendo os avanços da garota. – Eu acho que sim. – Vá, então. – Ela deixou a camiseta voltar ao lugar e veio para o lado dele. – Se você quer estar lá, vá. Seu pai não vai brigar com você esta noite. Não, se for algum grande anúncio de Kari e Ryan. Luke fez que não com a cabeça. – Eu não quero ir. Eu só estou me sentindo mal. Só isso. Lori observou-o por um instante. – Me fale se eu puder ajudar. Ela saiu e seguiu pelo corredor em direção ao quarto deles. O vazio no coração de Luke aumentou até ele não ter certeza se podia suportar mais. Por que mesmo ele estava ali? O que estava fazendo ao viver com uma garota a quem não amava, uma garota que, às vezes, mal conseguia aguentar? E o que sua família estava fazendo na casa dos Baxter sem ele? Eles o tinham riscado do mapa? Ou estavam de mãos dadas em torno da mesa de jantar, orando para que ele recobrasse o juízo? Por que o vazio o estava afetando nesta noite? Normalmente, não o incomodava; era parte de sua vida agora. Acreditar que Deus não existia era acreditar que não havia sentido em nada. Trabalho,


relacionamentos, filhos – tudo isso não tinha sentido. Um processo em constante mudança que não levava a lugar nenhum. Ele fechou os olhos e deixou a cabeça cair contra a janela fria. A neve da última semana já havia derretido em grande parte de Bloomington, mas o inverno estava apenas começando. De repente, Luke lembrou-se da primavera passada, quando ele e Reagan jogavam softball, assistiam a jogos de basquete na TV e liam a Bíblia juntos. Como ele pôde ter sido tão ingênuo? Reagan nunca o tinha amado. Se tivesse, ela não teria desaparecido de vez após um pequeno erro. Olhando para trás, nem parecia tão ruim. Eles haviam cometido um deslize – uma vez. Mas, isso era motivo para que ela o descartasse completamente? Desde o dia 11 de setembro, ela ainda não havia atendido seus telefonemas nem respondido às suas mensagens. Não, estava claro para Luke agora que Reagan nunca o tinha realmente amado. Era a Deus que ela amava. E, agora, esse mesmo Deus estava exigindo dela uma terrível penitência por um pequeno deslize. Ela poderia ter, pelo menos, falado com ele, ter-lhe dito como estava lidando com a perda do pai. Mas, em vez disso, ela o cortou de sua vida. E se perder Reagan era o preço que ele tinha de pagar por quebrar as regras daquela terrível segunda à noite, então, todo o lance de fé era um jogo. Um jogo que Luke não queria mais jogar. Agora não. Nem nunca. Ele abriu os olhos e ficou olhando para a paisagem escurecida mais uma vez. Estava acabado – tudo em relação à vida como ele uma vez a conheceu. Mas, por mais que tentasse, ele não conseguia parar de pensar nas mesmas duas perguntas que o incomodavam desde que foi morar com Lori. Onde estava Reagan agora? E será que ela – em uma noite fria de inverno – estaria encostada em uma janela escura pensando nele?


CAPÍTULO 36 A ideia ocorreu a Ashley assim que ela voltou para a Sunset Hills. Ela a chamou de Dia da Família. Uma tarde de sábado em que todos os parentes seriam bemvindos para fazer visitas ao mesmo tempo. A Sunset Hills daria o jantar, e a nova filosofia de Ashley sobre os cuidados com portadores de Alzheimer poderia ser apresentada. Os benefícios nos residentes tinham sido tão extraordinários que até Lu começou a estudar as ideias do passado-presente. – Você estava certa –, disse Ashley em uma tarde depois de ver alguns casos na internet. – Eu falei com os proprietários de outras casas de repouso. Os benefícios podem ser eficazes quando você ajuda os pacientes com Alzheimer a viverem no lugar onde eles podem lembrar mais. – É difícil argumentar com os resultados. – Ashley sorriu para Lu. – Eu gostaria que você continuasse a treinar todo o pessoal para tratar dos pacientes como você trata. Foi esse último comentário de Lu que convenceu Ashley a criar o Dia da Família. Ela encontrou Lu alguns dias depois. – Uma vez que o pessoal entender, vamos abrir a casa para os membros da família. Assim, eles vão ver por si mesmos como esse método funciona. Lu sorriu. – Eu mal posso esperar. O Dia da Família foi marcado para 19 de janeiro, um sábado, e Ashley ficou surpresa com a resposta. Pelo menos, um parente de cada paciente planejava comparecer. O melhor de tudo: o filho de Bert, de Wisconsin, viria. Ashley tinha ligado para lhe contar que algo impressionante tinha acontecido com o pai dele. – Tudo bem, Srta. Baxter. – O filho de Bert parecia cansado. – Você não precisa mentir para nos fazer ir. Faz tempo que não vejo meu pai; então, eu estarei aí. Eu não estou esperando milagres. Ashley mal podia esperar para ver o rosto do homem quando ele percebesse que estava errado. O Dia da Família amanheceu ensolarado, apesar da baixa temperatura. A filha de Helen foi a primeira a chegar. As duas continuaram a conversa sobre “Sue” várias vezes por semana, e, em nenhuma vez, Sue deixou transparecer que a filha não era uma estranha visitante. Ashley não tinha certeza, mas sentia que um avanço estava por vir.


Naquele dia, Sue e Helen sentaram-se juntas no quarto, compartilhando histórias sobre Sue, como de costume. Ashley dava uma olhada nelas de vez em quando, e, às 10 horas, levou uma xícara de chá para cada uma. Elas pareciam envolvidas com a conversa; então, Ashley voltou de mansinho para a porta e observou. – Depois que os espiões pegaram minha Sue – Helen apontou para a gaveta da cômoda –, ela ainda morava aqui. Sue deu uma olhada para Ashley, e elas trocaram um olhar cúmplice. Essa foi a primeira vez que Helen tinha confiado em Sue o suficiente para falar sobre sua gaveta de fotografias. Sue rapidamente voltou a atenção para a mãe. – Tem certeza? O rosto de Helen ficou visivelmente mais suave. – Quer ver? Sue segurou a mão da mãe. – Isso seria maravilhoso. Lentamente, Helen foi até a cômoda, abriu a gaveta e tirou a foto emoldurada que havia mostrado meses atrás para Ashley. – Esta – sua voz falhou –, esta é minha Sue. – Ela é muito bonita, Helen. Exatamente como eu me lembro dela quando era mais jovem. Helen apertou a fotografia no peito. – Quando ela era... mais jovem? Elas estavam pisando em um terreno perigoso. Ashley fechou os olhos e orou para que Helen não ficasse agressiva. Sue lançou um olhar meigo para a mãe. – Eu conheci Sue muito bem. Ela era bem assim quando era menina. Por um longo tempo, Helen ficou olhando para Sue, quase como se a estivesse vendo pela primeira vez. Aos poucos, timidamente, ela afastou a fotografia do peito e estendeu-a para que a imagem da jovem Sue ficasse logo abaixo do rosto da Sue mais velha. Ashley observava, impressionada. Por favor, Deus, permita que ela entenda só desta vez. Por Sue, Senhor... por favor! Helen olhava de Sue para a fotografia e vice-versa. – Sabe, você meio que tem os olhos de Sue. Era neste momento que Helen tinha mais chances de surtar. Ashley podia imaginá-la expulsando


Sue do quarto, acusando-a de ser uma espiã e de roubar os olhos de Sue, insistindo que ela havia, de alguma forma, escondido sua filha . Ashley mordeu o lábio e esperou. Por favor, Deus! A princípio, Sue não disse nada. Ela pegou a foto e ergueu-a ao lado do rosto para que Helen pudesse ver claramente as duas imagens. – Sim. Eu me pareço com a Sue mais jovem. Os olhos de Helen umedeceram-se. – Você... você se parece? – Me pareço. – Sue manteve a fotografia ao lado do rosto. Ela, obviamente, queria que a mãe visse a semelhança, a semelhança que nem mesmo 30 anos poderiam esconder. A voz de Sue era o mais suave afago. – Os mesmos olhos... o mesmo rosto. O mesmo tudo. Helen inclinou-se para frente e observou Sue como se a filha estivesse em pé no meio de um nevoeiro denso. Ela olhou com os olhos meio fechados, e seu queixo flácido e enrugado começou a tremer. Então, ela levantou a mão trêmula na direção do rosto de Sue e, colocando para trás uma mecha do cabelo grisalho da filha, disse: – Sue? Lágrimas encheram os olhos de Sue, e um soluço escapou de sua garganta antes que ela pudesse se recuperar. – Sim, mamãe, sou eu. Sue. – Minha Sue? Ashley sentiu as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto observava a cena se desenrolar. Foi um milagre, um momento arrancado do passado. Com o mal de Alzheimer, não havia como dizer se elas teriam um momento como esse novamente. Todos os dias traziam consigo uma nova série de desafios. Mas aqui, agora, Sue estava recebendo um presente que poucos filhos de pacientes com Alzheimer conseguiriam ganhar. A chance de ver sua mãe se lembrar – mesmo que só dessa vez. Sue baixou a fotografia e inclinou-se para os braços da mãe como se tivesse 13 anos novamente. – Eu estou aqui, mamãe. Helen começou a chorar. – Sue! – Ela acariciou as costas dela e colou o rosto no de sua filha. – Eu pensei... eu pensei que nunca mais veria você. – Eu sei, mãe. – As lágrimas de Sue escorriam pelo rosto, mas sua voz era clara, e um sorriso


marcava seus soluços. – Eu sei. – Alguém levou você para longe de mim. – Helen fungou duas vezes e correu os dedos pelos cabelos de Sue. – Não, mamãe. Eu estou aqui. Eu nunca vou deixar você. Helen enterrou a cabeça no ombro da filha. – Eu senti saudade, querida. Eu nunca deixei de sentir saudade de você. Ashley deu um passo para trás em direção ao corredor. Era uma ponte. Essa era a vantagem de permitir que os pacientes com Alzheimer vivessem em suas lembranças, no passado, onde se sentiam confortáveis. Às vezes, durante momentos como esse, as lembranças eram fortes o suficiente para diminuir a distância entre o ontem e o hoje. Fortes o suficiente, nesse caso, para dar à mãe e à filha a oportunidade de se amarem como não puderam fazer durante anos. Lu passou e fez uma pausa, olhando por cima do ombro de Ashley. Ela se inclinou e sussurrou: – O que está acontecendo? Ashley enxugou as lágrimas e sorriu, mantendo a voz baixa o suficiente para não interromper a conversa entre as duas mulheres. – Helen se lembrou dela. É a primeira vez em anos. – Isso é impossível! – Lu ficou olhando para as duas mu-lheres e depois voltou a olhar para Ashley. – Acho que vamos mudar seu título: de gerente para operadora de milagres. Ashley sorriu. – Esse título não é meu. – Ela apontou para cima. – É Dele. – Lu não era cristã, mas Ashley tinha a sensação de que ela seria um dia. – Bem... – Lu olhou para Sue e Helen e fez que não com a cabeça. – Eu diria que Ele está fazendo um bom trabalho. *** O filho de Bert e a família chegaram logo após o almoço. Esse era o momento pelo qual Ashley estava ansiosa desde que deu a sela a Bert. As mudanças em Bert tinham sido impressionantes e contínuas. Ashley ainda planejava escrever sobre elas em um artigo e submetê-lo a vários dos grupos que tinha encontrado na internet. Sua experiência seria mais uma prova de que permitir aos pacientes com Alzheimer suas lembranças era uma coisa boa. Ashley recebeu o homem, a esposa e as duas filhas na porta e lhes deu as boas-vindas. Quando estavam sentados, Ashley sorriu para eles.


– Vou buscar seu pai. O filho de Bert trocou um olhar estranho com a esposa, e Ashley sabia o que eles estavam pensando. Como Ashley tiraria Bert do quarto? O idoso odiava sair do lugar e sempre foi quieto e difícil quando trazido para o convívio social. Ashley dava risadinhas para si mesma e cantarolava enquanto ia até o quarto de Bert. Ele estava polindo sua sela da mesma forma como fazia todas as tardes nessa ocasião. – Oi, Bert. – Ela parou na porta e sorriu para ele. – Como vai você? Ele se virou e sorriu para ela. Seus movimentos ainda eram mais lentos do que talvez fossem, mas havia vida em seus olhos, e sua voz tinha um quê de consciência. – Você me trouxe uma sela. – Estou vendo. – Ashley estendeu a mão. – Seu filho está aqui para ver você, Bert. Eu disse que viria buscar você. A mão de Bert parou no meio do movimento. – Meu... meu filho? – Sim! Hoje é o Dia da Família. Seu filho e a família dele estão aqui. – David? Ashley queria gritar. Bert lembrava! As mudanças em Bert aconteceram rapidamente depois que ele recebeu a sela. Primeiro, ele começou a fazer contato visual; depois, começou a falar. Mas, ele nunca havia mostrado qualquer consciência de que tinha um filho – até agora. – Sim, David Riley. Seu filho. – Ele mora na estrada... antiga fazenda de gado leiteiro. – Isso mesmo. – Sorrindo, Ashley estendeu a mão um pouco mais. – Vamos dizer oi para eles. As sobrancelhas de Bert baixaram, e ele fez um sim lento e sério com a cabeça. – Pode acreditar. – Colocou a flanela com cuidado em cima da sela e deu passos pequenos e hesitantes em direção a Ashley. Quando estava perto, segurou a mão dela e deixou-a conduzi-lo para fora do quarto. David levantou-se quando Ashley e Bert entraram na sala. Houve silêncio por um momento, e, em seguida, David deu um passo para frente. – Oi, pai. Sou eu, David. – O homem era uma versão mais jovem de Bert: alto e orgulhoso, com ombros musculosos e palmas das mãos calejadas. Ele atravessou a sala e estendeu a mão. Ashley deu um passo para trás enquanto Bert pegava os dedos do filho e os segurava com força.


– Oi. Do outro lado da sala, a mulher de David estava de boca aberta e os olhos arregalados. Calmamente, ela sussurrou: – Mas, como...? David limpou a garganta. – Você sabe quem eu sou, pai? Bert estreitou os olhos e sorriu para David, as mãos de ambos ainda unidas. – Você é meu garoto. É cópia do pai. David lançou um olhar de surpresa e gratidão por cima do ombro para Ashley. Então, puxou o pai para um abraço e segurou-o assim por um bom tempo. – Eu estava com saudades de você, pai. Você não sabe o quanto eu senti sua falta. – Ele se afastou e fungou, tentando claramente controlar sua emoção. – Como... como você está? Bert ficou um pouco sem jeito e deu um tapinha nas costas de David. – Ela me trouxe uma sela. Ashley cobriu a boca com as costas da mão, não querendo que seus próprios sentimentos interrompessem o momento. Deus, o Senhor é tão bom! Obrigada por isso. Ela engoliu em seco, tentando achar a voz. – Seu pai tem falado muito nas últimas semanas. Não é mesmo, Bert? Ele olhou para ela, e um sorriso de criança levantou os cantos de sua boca. – Ela me trouxe uma sela. Ashley conduziu os dois homens a sentarem-se no sofá, enquanto Lu passava pela casa e chamava os outros: Irvel com seu neto e sua sobrinha; Edith e as duas netas; Helen, agarrada à filha Sue; e o filho de Laura Jo, que tinha vindo da Califórnia pela primeira vez em mais de um ano. Quando estavam todos reunidos, Lu explicou que a filosofia na Sunset Hills tinha mudado um pouco ao longo dos últimos seis meses. – Nós reunimos vocês aqui hoje porque nossa nova geren-te encontrou pesquisas que comprovam que é fundamental para os pacientes com Alzheimer viverem em suas lembranças. Se o tempo do qual eles mais se lembram é de dez ou vinte anos atrás, então, nós permitimos que eles tenham o luxo de viver lá. Ashley Baxter, nossa gerente, vai falar mais com vocês. Ashley não tinha intenção de entrar em muitos detalhes com respeito à pesquisa sobre o mal de Alzheimer com os residentes sentados ali na sala, mas percebeu que não haveria problema algum em falar em termos gerais. Ashley explicou as diferentes escolas de pensamento em se tratando de


pacientes com Alzheimer. – Digamos que você passe a vida como vencedora de um concurso de beleza. Uma vez que o mal de Alzheimer chega, você pode acreditar que ainda tem 35 anos e está belíssima. Ashley sorriu na direção de Edith. A mulher estava olhando para as mãos, aconchegada entre as netas. A conversa não significava nada para ela. Embora estivesse mais em paz desde que deixou de olhar para o próprio reflexo, ela estava tão perdida como sempre – talvez ainda pior do que antes. Ashley continuou. – E digamos que toda vez que entra no banheiro, você grita, pois acha que uma bruxa está atrás de você. – Ashley fez uma pausa e olhou ao redor da sala. – A velha escola de pensamento ensina os cuidadores a forçarem um paciente com Alzheimer a reconhecer a realidade atual ou a ser sedado. Assim, o cuidador insistiria que não há nenhuma bruxa, que você está apenas olhando em um espelho. E, se você não parasse de gritar, ele simplesmente lhe daria medicamentos suficientes para apagar você. Ela olhou de volta para Edith. – Nesta casa, decidimos tentar um método diferente. Em vez de forçar nossos residentes a reconhecerem a realidade atual, decidimos deixá-los viver em qualquer época de sua lembrança que os torna mais felizes. – No caso do residente que grita, por exemplo, e, sim, este é um exemplo verdadeiro, nós apenas cobrimos o espelho do banheiro, e os gritos pararam. O motivo? A paciente não estava vendo uma bruxa. Ela estava vendo seu próprio reflexo. – Ashley podia ouvir a compaixão em sua voz. – Um reflexo que ela já não reconhecia, porque estava vivendo décadas no passado. Quando não via a imagem que ela vê agora. – Ashley sorriu para as netas de Edith. – Por fim, nossa paciente está mais calma e mais feliz. Ashley continuou, compartilhando exemplos sem alertar os residentes de que estava falando deles. Depois, ela respondeu às perguntas de vários familiares, mas não ouviu nenhuma das respostas negativas sobre as quais Belinda a tinha alertado. Os benefícios nos residentes eram muito convincentes. Agora, os membros da família só queriam saber como poderiam cooperar com aquilo que, obviamente, já estava funcionando. Ashley encorajou os familiares a ficarem para comer peru no final da tarde e a permanecerem ali pelo tempo que pudessem. Em seguida, ela circulou entre as pessoas, passando tempo com cada um dos residentes e seus vários parentes. Irvel havia se recuperado totalmente do conflito com Belinda. Suas contusões haviam


desaparecido e ela estava amigável e social. Ela ainda recebia visitas semanais da sobrinha, e, juntas, elas recitavam o salmo 23 e terminavam a visita cantando a música “Tu és fiel”. O fato de que o neto de Irvel tinha vindo hoje foi especialmente maravilhoso. Irvel não o reconheceu exatamente, mas gostou da companhia dele e interagiu bem com todos os visitantes que encheram a casa. – É o dia perfeito para uma festa – Irvel dizia quando Ashley entrou em seu quarto. Seu neto sorriu. – Perfeito! – Ele era um jovem músico que vivia a duas horas de distância. Ele não visitava a avó com frequência, mas, quando vinha, Ashley tinha a impressão de que ele se importava muito com a avó. Irvel viu Ashley, e seus olhos se iluminaram. – Olá, querida! Eu acho que ainda não nos conhecemos. Eu sou Irvel. – Oi, Irvel. – Ashley acariciou a mão da mulher. – Eu vi que seu neto está aqui hoje com você. – Meu neto? – Irvel pareceu assustada por um instante. Em seguida, seus olhos encontraram os do neto, e ela sorriu. – Ah, ele. Ele é bonito, não é? Não tanto como meu Hank, mas, ainda assim, bonito. – Ela olhou para Ashley novamente. – Hank está aqui, não é? A imagem de Hank sorriu para Ashley da pintura que ela havia pendurado acima da cama de Irvel. – Eu acredito que sim. Irvel afundou-se mais na cadeira. – Isso não é maravilhoso? Que homem bom! – Sim, ele é. – Ashley deu um passo para trás. – Estarei ali fora com os outros, caso algum de vocês precise de alguma coisa. Irvel sorriu para ela e, em seguida, bateu no joelho do neto. Olhou para ele, com o rosto cheio de curiosidade. – Desculpe, mas como é mesmo seu nome? Ne... alguma coisa! – Neto. – O jovem deu um tapinha carinhoso na mão de Irvel. – Eu sou seu neto. – É isso mesmo! Ne-to! Eu sempre me esqueço. – Irvel assentiu por um momento. Depois, virouse e apontou para Ashley. – Ela não tem um cabelo muito bonito? O neto de Irvel corou um pouco. Ele era do tipo tímido, provavelmente não acostumado a ser colocado em uma sinuca de bico. – Sim, vovó. Ela é muito bonita.


*** A tarde avançava, e Ashley foi ao quarto de Laura Jo. A cena era mais triste que a dos outros quartos, e o coração de Ashley se partiu pelo idoso sentado ao lado da mãe. Ele era um homem de negócios com inúmeras responsabilidades na Costa Oeste, mas tinha escolhido esse momento para responder ao convite de Ashley e visitar a mãe. Ele deu um sorriso fraco a Ashley quando ela entrou no quarto. – Não vai demorar. Ashley concordou. O homem estava certo. Fazia semanas que eles estavam esperando a morte de Laura Jo, mas ela estava aguentando. Talvez por isto: a chance de estar com o filho pela última vez. Ashley pensou que poderia ser isso. Não importava que Laura Jo não tivesse conseguido sair da cama há anos. Ela ainda respondia, fracamente, quando Ashley orava com ela, e agora, com o filho ao lado, ela parecia mais em paz do que nunca. Ashley deu um tapinha no ombro do homem. – Foi bom você ter vindo. Ele ficou olhando para a mãe e passou a mão suavemente pela testa dela. – Eu a amo. Ela foi uma mulher maravilhosa durante toda a minha vida. Forte, batalhadora, determinada a educar bem os filhos. – Ele olhou para Ashley, acanhado. – Ela amava muito a Deus. – Ela ainda ama. – Ashley sentiu o coração se contrair quando olhou para Laura Jo, murcha e encolhida, esforçando-se a cada respiração. O homem olhou para o relógio. – Eu tenho de pegar um avião no final da noite em India-nápolis. É melhor eu ir. Ashley concordou. – Vou deixar vocês dois sozinhos para que possam se des-pedir. A mensagem implícita era clara. Essa não era uma despedida qualquer. Era, provavelmente, a última vez que esse homem veria a mãe viva. Ashley piscou para conter as lágrimas quando foi para a cozinha. Dez minutos depois, o homem a encontrou, com os olhos vermelhos e inchados. Entregou a Ashley um cartão de visita com vários números de telefone. – Ligue, está bem? Quando for a hora. Sei que você tem muitos deles em seus arquivos, mas pode não ter o número de meu celular. Eu quero ter certeza... Ashley prometeu que ligaria e agradeceu ao homem novamente. Ele a olhou nos olhos de modo fixo. – Obrigado, Srta. Baxter. Eu não teria vindo se não tivesse me ligado. Estar aqui com ela foi um


presente muito grande. *** O dia finalmente terminou. Um por um, os visitantes foram embora. A cuidadora da noite chegou, e Ashley foi buscar Cole na casa de seus pais. – Que tal um jantar com a mamãe? – Ela lhe deu uma cotovelada de brincadeira nas costelas. – Sério? – Cole gritou. – Tipo um McLanche Feliz? – Claro! Eles foram para o restaurante favorito dos dois e, depois que se sentaram diante do lanche, Ashley o ouviu compartilhar uma dúzia de histórias daquele dia. No meio daquilo tudo, ela não podia deixar de se lembrar de Laura Jo e do filho dela. Será que haveria um tempo em que ela poderia olhar nos olhos de Cole e não o reconhecer? Um tempo em que ela estaria morrendo e Cole deixaria a vida ocupada para ficar ao seu lado? Ashley não podia imaginar algo assim; no entanto, trabalhar na Sunset Hills a havia ensinado que isso poderia facilmente acontecer um dia. O telefone tocou muito tempo depois de ela ter chegado em casa e ter colocado Cole na cama. Era Lu, e Ashley sabia que algo estava errado no momento em que ouviu a voz dela. – O que aconteceu? – Ashley encostou-se no balcão da cozinha e esperou. – Laura Jo. Ela faleceu há uma hora. Por um instante, houve uma sensação de vazio, como se lhe tivessem tirado o ar. Em seguida, com a mesma rapidez, Ashley sentiu uma onda de alegria. – Ela nunca mais ficará confinada a uma cama. – Não. Ela está livre – disse Lu. Ashley disse a Lu onde encontrar o cartão com o número do celular do filho de Laura Jo. – Provavelmente, ele está no meio do caminho para Los Angeles agora, mas estava esperando por isso. Tenho certeza de que ele vai voltar para ajudar com os detalhes. Quando desligou, Ashley atravessou a sala de jantar e ficou olhando para sua pintura de Cole no balanço. A vida era tão curta, tão passageira. Hoje aqui, criando memórias e cumprindo compromissos... e, então, amanhã, fazendo planos para uma cerimônia fúnebre. Algo com respeito à morte de Laura Jo a fez desejar Landon ainda mais que o habitual. O ano dele em Nova York tinha apenas começado, e já era como se ele tivesse desaparecido da face da Terra. Ele não tinha ligado, mas isso não a surpreendeu. Ele tinha muito a aprender em Nova York e


uma agenda que iria mantê-lo correndo quase constantemente. Ashley foi para a sala e folheou um álbum de recortes que mantinha na mesinha de centro. No meio dele, encontrou a foto que estava procurando. Era de Landon, usando seu uniforme, com Cole radiante em seu colo. Ashley tinha tirado a foto no verão passado, pouco depois de Landon ter voltado ao trabalho. Antes do dia 11 de setembro. Ela e Cole tinham parado no posto do Corpo de Bombeiros para uma visita, e ela estava com sua máquina fotográfica. Nesse momento, ela olhou atentamente para a foto, os olhos fixos nos de Landon. Mesmo na foto, ela podia ver que eles eram profundos e cheios de bondade. Aqueles seriam os olhos que a assombrariam quando ela fosse velha? Seu olhar se voltou para Cole, seu precioso raio de sol. Como ele parecia feliz nos braços de Landon, tão natural e verdadeiro. Será que os três, um dia, estariam juntos? Esteja com os dois, Deus. Cuide de Landon em Nova York. Mantenha sua mão sobre meu Cole enquanto ele cresce. E, se for de sua vontade, por favor, faça com que fiquemos juntos novamente um dia. Já era tarde, mas ainda havia uma coisa que Ashley queria fazer, uma coisa que lhe permitiria extravasar os sentimentos que brotavam dentro dela. Ela foi para seu estúdio, tirou suas tintas e apoiou a foto de Landon e Cole ao lado do cavalete, onde pudesse vê-la. Então, começou a pintar, criando uma imagem das duas pessoas que ela mais amava com emoções mais profundas que o Grand Canyon. A cada pincelada, era como se ela estivesse pintando o rosto deles na tela de sua alma, na qual podia vê-los dali a décadas. Um dia, independentemente do que acontecesse entre eles no futuro, ela daria essa pintura a Landon. Ela iria mostrar-lhe que era sua melhor pintura, a obra que ela nasceu para criar. Não porque ela tivesse se desenvolvido como artista, mas porque Landon a tinha levado de volta para Deus. E Deus, em toda a Sua graça e misericórdia, tinha realizado dois grandes milagres com os acontecimentos do ano anterior. Ele lhe havia ensinado a importância de ter algo para lembrar, uma sela para lustrar. Depois, Ele havia feito algo que ela não imaginava ser possível. Ele lhe havia ensinado a amar de novo.


Mais sobre a Família Baxter! Vire esta página e ganhe um trecho de RETORNO o terceiro livro da SÉRIE REDENÇÃO de Karen Kingsbury com Gary Smalley.


ExtraĂ­do de RETORNO de Karen Kingsbury com Gary Smalley


CAPÍTULO 1 As mãos de Reagan Decker tremiam quando ela pegou o telefone e teclou. O número já tinha sido muito familiar, em um tempo que parecia ter ficado em um passado distante, antes de seu mundo ter saído dos eixos e ficado assim. Ela esperou. O coração parecia estar na boca. Um toque... O que vou dizer? Como eles vão receber a notícia? Dois toques... – Alô? – Sra. Baxter? – Reagan congelou. – Sim? – Uma pequena pausa. – Posso ajudar? – Hã... – Ela não reconhece minha voz. Eu devo estar louca por ligar depois de tanto tempo. – É Reagan. Reagan Decker. – Reagan... Meu Deus! Faz... já faz muito tempo, querida. – A mãe de Luke parecia estranha, como se a menção do nome de Reagan tivesse lançado uma sombra sobre o momento. Reagan pensou em dizer algumas palavras rápidas e, em seguida, desligar. Mas isso não era possível. Ela teve de fazer essa ligação por uma única razão. Ela não poderia se esconder de Luke Baxter para sempre. – Sra. Baxter, eu preciso falar com Luke, por favor. – Reagan fechou os olhos. Um ano antes, ela era perspicaz e expansiva, mas isso ficou no passado. A vivacidade foi-se de sua voz. A mãe de Luke tinha de notar. Ela respirou, determinada. – Eu tenho algo para dizer a ele. *** Seu passado havia criado pernas e ido atrás dele. Tinha de ser assim. Luke não tinha outra maneira de descrever a ansiedade aflita que marcou grande parte de sua vida. Às vezes, ele quase podia ouvir passos atrás dele e, em dias como esse, chegava até mesmo a se virar. Como se pudesse ver uma pessoa ou um ser, o que quer que estivesse atrás dele. Mas nunca havia ninguém. O sentimento era sempre acompanhado de lembranças. Então Luke finalmente se convenceu de que aquilo que o perseguia não era nada mais sinistro que seu passado.


Um passado que alterava o hoje e o amanhã e o mantinha centímetros à frente de uma névoa sufocante, uma névoa em que sua nova vida baseada no livre-pensamento era quase impossível. No início, a sensação o dominava eventualmente, mas agora era quase constante. Essa manhã foi pior do que nunca. Durante as aulas de economia, ciência política e, agora, em história moderna, essa sensação deixava Luke tão inquieto a ponto de não conseguir se concentrar. O professor estava esboçando algo no quadro, mas tudo o que Luke podia ver eram imagens de si mesmo e de sua família na última vez em que estiveram juntos, antes do dia 11 de setembro. A pequena Maddie estendendo as mãos para ele. Me balança, tio Luke, me balança. Seus pais de braços dados ao fundo. Como vão os estudos, Luke? Você já teve notícias de Reagan? Com movimentos amplos, o professor passou o apagador no quadro, e as imagens na cabeça de Luke desapareceram. O homem virou-se para a classe e começou a falar, mas, em vez disso, Luke ouviu a voz de Reagan, como a tinha ouvido naquela noite terrível quando tudo mudou para sempre. Tá tudo bem, Luke. Eu ligo para você amanhã... Tá tudo bem... Mas, ela nunca teve a chance. Luke fechou os olhos. Ele estava pronto para seguir em frente, certo? Não era isso que ele dizia a si mesmo? Então, por que essas lembranças o perseguiam assim? Com todo o livre-pensamento que ele estava praticando, todos os clubes e as organizações aos quais Lori o havia apresentado, ele deveria estar satisfeito com a vida como ela estava. Não como tinha sido. O professor mudou o tom de voz. Ele estava dizendo alguma coisa sobre vendas de armas estrangeiras, mas Luke não estava prestando atenção. Uma conversa continuou a passar por sua cabeça, a que tinha tido com sua mãe algumas semanas atrás. Você acha que tem tudo planejado, Luke, mas você não vai se livrar assim tão facilmente do Cão de Caça do Céu. O Cão de Caça do Céu?, Luke nem tentou esconder sua frustração. Sua mãe sabia como ele se sentia em relação a Deus; então, por que ela não podia deixar isso para lá? O Espírito de Deus, Luke. A voz de sua mãe não tinha nenhum pedido de desculpas. Quando alguém se desvia do Senhor, normalmente é o Espírito, o Cão de Caça do Céu, que o persegue e o traz de volta. O Cão de Caça do Céu, sem dúvida. Como se Deus – se é que havia um Deus – se importasse o suficiente com Luke Baxter para caçálo. Luke bateu a borracha do lápis no bloco de notas. Não, não era por isso que ele estava se sentindo assim. Estreitou os olhos e concentrou-se no professor. Sobre o que o homem estava tagarelando? E por que os outros estavam anotando?


Sentiu um formigamento pela espinha e mudou de posição em sua cadeira na sala de aula. Talvez tenha sido um choque cultural. Depois de uma vida em que ele esteve apegado a um conjunto de crenças, houve uma reviravolta e, com certeza, haveria algum tipo de consequência. Isso explicava a dor no peito, a falta de ar que, às vezes, o atingia no meio de uma aula na faculdade e o fluxo constante de lembranças. Lembranças que eram como um torno apertando sua mente e sua alma. Claro, era um contratempo. Mas não havia necessidade de contar a Lori. Ela só colocaria a culpa no controle mental que sua família exerceu sobre ele durante tantos anos. E ele não se importava em discutir controle mental com ela. Ele não gostava da forma como isso soava. Apesar de todos os defeitos, de todas as maneiras tacanhas de pensar, sua família não exerceu controle mental sobre ele. Praticamente não. Ele havia participado de forma voluntária, e, apesar das crenças infundadas de sua família, ela o amava naquela época. Ela ainda o amava. E muito, ele tinha certeza. Mas ele estava tão certo de que queria seguir em frente, explorar um mundo sem radicalismos e – como é que Lori o chamou? – um sistema de moralidade antiquado? Sim, ele estava pronto para se afastar disso. – Sr. Baxter, eu espero que você me responda na primeira vez em que eu o chamar. Luke saltou na cadeira. Dois estudantes sentados perto dele seguravam o riso. – Perdão, senhor! – Eu disse – a voz do professor exalava sarcasmo – que talvez você pudesse explicar o significado das vendas de armas específicas feitas no final da década de 1970. – Sim, senhor. – Luke fez uma busca desesperada em sua mente, e só veio um branco. Seus dedos tremiam e ele tossiu para ganhar tempo. – Senhor, eu não tenho essa informação no momento. Outro ataque de riso abafado. – Muito bem, Sr. Baxter. Posso, então, lhe fazer uma su-gestão? – O professor baixou os óculos e olhou seriamente para Luke. – Sim, senhor. – A garganta de Luke estava seca. Era tudo o que podia fazer para não sair da sala correndo. – Durma mais ou saia de minha aula de história moderna. – O homem ergueu a voz. – Entendeu? Luke sentiu o rosto queimar. – Sim, senhor. Quando a aula terminou, dez minutos depois, Luke foi um dos primeiros a sair da sala. Não só porque não queria qualquer discussão com o professor, mas porque ainda precisava correr, manter-se


afastado daquilo que o estava perseguindo. Talvez, seu passado ou suas convicções anteriores. Talvez, sua falta de familiaridade com tudo aquilo com que havia se cercado. Mas, definitivamente, não era o Cão de Caça do Céu.


UMA PALAVRA DE KAREN KINSGSBURY Aqueles que fizeram esta jornada conosco pelo primeiro livro, Redenção, sabem como essa série começou. Quando Gary Smalley entrou em contato comigo para escrever ficção com ele, eu estremeci. Quando ele disse: – Pense em uma série –, senti um branco. Durante semanas, orei sobre a ideia da série pedindo a Deus para me mostrar exemplos que ilustrassem melhor o tipo de amor ensinado e discutido por Gary Smalley e pelo pessoal do Smalley Relationship Center (Centro de Relacionamentos Smalley). Ideias vieram, mas pareciam muito pequenas para algo tão grande e que pudesse mudar vidas como o sonho que eu e Gary passamos a compartilhar. Então, um dia, eu estava em um voo doméstico saindo de Colorado Springs, quando Deus literalmente me deu a série Redenção – títulos, exemplos, personagens, temas, tramas. Tudo isso foi parar em meu notebook enquanto arrepios percorriam minha espinha. A essência e a direção da série permanecem fiéis àquela visão inicial. No entanto, à medida que a família Baxter se tornava viva nas páginas desses livros, seus problemas mudaram e foram adaptados para corresponder às personalidades, e, certamente, para atender aos eventos que acontecem ao redor dela. Terminamos de escrever Redenção logo que os ataques terroristas aconteceram em solo norteamericano, no dia 11 de setembro. Originalmente, aquele primeiro livro teria compreendido uma extensão de tempo que incluía aquele dia abominável. Muito rapidamente, os editores da Tyndale se reuniram e concordaram em fazer uma mudança. Em vez de terminar na primavera de 2002, Redenção terminaria na primavera de 2001. E isso configuraria a rica mistura de tragédias e conflitos que você acabou de ler no segundo livro, Lembranças. Que privilégio foi escrever sobre um momento que nos tocou tão profundamente. As histórias de perda e desespero que resultaram desses eventos estarão para sempre com todos nós que as testemunhamos. Como você, eu sempre verei os acontecimentos de 11 de Setembro tão claramente como naquela manhã, quando, em meu sofá da sala, eu os vi se desenrolarem. O que aconteceu naquele dia mudou a todos nós. Parece justo que tenha mudado a família Baxter também. Depois de Gary ter passado algum tempo ajudando pessoas no Marco Zero, suas descobertas e experiências abriram muitas possibilidades para nosso romance. Experiências com pessoas, lugares, paisagens, sons e cheiros do esforço de limpeza na cidade de Nova York. E descobertas sobre o que


significa lembrar de coisas importantes da vida. Oro para que você veja a beleza das lembranças em ação enquanto Kari lida com sua dor e espera que Deus a conduza. As lembranças de Ashley desempenharam um papel importante no tratamento dos pacientes com Alzheimer e na busca de Landon pelo amigo desaparecido. Algo belo e raro acontece quando permitimos que as lembranças nos ensinem lições para hoje. Espero que você encontre nas páginas deste livro um dos ensinamentos de Gary Smalley: a importância de se lembrar. Coloque isso no bolso e use em breve em algum momento de sua vida. Sem dúvida, será um tema que você verá novamente na série Redenção. Alguns dos mistérios apresentados no primeiro livro foram resolvidos agora. Você sabe que Kari e Ryan vão se casar em breve e que Erin está lutando por seu casamento. Mas o que dizer de Luke e Reagan? E de Ashley e Landon? Será que Landon voltará para Bloomington um dia? Será que Brooke e Peter finalmente vão descobrir qual é o problema de sua filha pequena ou aceitar abertamente suas crenças reacendidas? Os Baxter são pessoas como qualquer um de nós. Eles vivem pela fé, mas também tropeçam e, às vezes, tropeçam feio. Como mencionei antes, a série Redenção irá assemelhar-se a muitos de meus outros romances. Os personagens cometerão falhas e seus problemas serão os mesmos que você e eu enfrentamos, apesar de nossa fé em Deus. Normalmente, não deixo meus leitores imaginando o que aconteceu com os personagens em determinado livro. Mas, no caso da série Redenção, haverá sempre algumas perguntas sem resposta, algumas questões não resolvidas até o fim. Eu gostaria de poder dizer agora o que será de John e Elizabeth, Kari e Ryan, Ashley e Cole, Brooke e Peter, Erin e Sam – e o que vai acontecer com Landon Blake. Mas eu não posso. Os livros que temos pela frente estão escritos nas páginas do coração de Gary e do meu, mas ainda não foram digitados. À medida que surgirem, vamos trazê-los para você. Minha oração, e de Gary, é que você continue a apreciar esta série e que, ao fazer isso, ganhe um profundo entendimento do verdadeiro significado do amor: ouvir, doar-se, valorizar, honrar e aceitar. Talvez, ao passar os próximos anos com os Baxter, você se veja expressando essa nova compreensão em seus próprios relacionamentos. E talvez, apenas talvez, a série Redenção vá ajudar a mudar o modo como você vive com outras pessoas, o modo como você ama. Deixo com você a mensagem de Lembranças: devemos nos lembrar como amar, lembrar o que é importante e lembrar a verdade de Deus enquanto a aplicamos


em nossos relacionamentos. Cometeremos erros? Claro. Mas se você tem um relacionamento confuso, veio ao lugar certo. Esta série é sobre redenção. A redenção de Deus. A Bíblia diz que aceitar o dom da redenção de Deus é o primeiro passo para o verdadeiro amor. E a série Redenção é totalmente sobre o amor verdadeiro. Se precisa conhecer mais sobre a redenção que Deus tem para você, eu o incentivo a entrar em contato com uma igreja local que crê na Bíblia e a conversar com um ministro – alguém como o pastor Mark, da igreja da comunidade de Clear Creek. Então tome a decisão de aceitar a oferta de redenção de Deus enquanto essa salvação ainda pode afetar profundamente sua vida. Não espere. A verdade é que talvez não tenhamos muito tempo para acertar as coisas. Se ignorarmos a oferta de redenção de Deus hoje, amanhã poderemos descobrir que é tarde demais. O melhor momento para dizer sim a Deus é sempre hoje. Obrigado por viajar pelas páginas de Lembranças conosco. Espero que você passe esse livro para alguém. E fique atento ao próximo livro da série. As respostas para algumas de suas perguntas estão logo à frente em Retorno, o terceiro livro da série Redenção. Enquanto isso, que você esteja andando perto de Deus, desfrutando da jornada da vida e celebrando o presente da redenção de Deus. Como sempre, eu adoraria ouvir você. Por favor, visite www.KarenKingsbury.com ou escreva para Karen@KarenKingsbury.com. Bênçãos para você e os seus. Humildemente, Karen Kingsbury


UMA PALAVRA DE GARY SMALLEY Lembrar não é algo que Deus considera de modo leviano, e por razões óbvias. A essência da ação de um cristão é “lembrar o primeiro amor”, o Deus todo-poderoso, e lembrar o que é importante de acordo com a verdade de Deus. Se não nos lembrarmos dessas coisas, ficaremos abertos para as duas forças mais destrutivas que atuam em relacionamentos hoje: orgulho e medo. Essas atitudes e emoções destroem os laços de confiança, intimidade e amor e vão contra tudo o que o Senhor tem para nós em nossos relacionamentos. Ainda assim, há momentos em que estamos muito ocupados para nos lembrar ou muito cansados para acreditar no passado. O que se segue é uma lista de seis maneiras práticas pelas quais você pode incorporar a capacidade de lembrar em seus relacionamentos hoje.


SEIS MANEIRAS DE LEMBRAR 1. Lembre-se das coisas importantes da vida. Quanto mais o tempo passa, mais ocupados ficamos. Não é verdade? Nossa lista de contas e despesas e os projetos inacabados aumentam mais a cada ano. Faça questão de ter “dias de lembrar”, sozinho ou com alguém que você ama. Pode ser o cônjuge ou um pai/mãe, um irmão ou um filho, até mesmo um amigo. Dê um passeio ou saia de carro, planeje uma hora tranquila para tomar café e reflita no que é essencial, nas coisas que são realmente necessárias para que seu relacionamento dê certo. Durante esse tempo, faça uma lista e dê uma boa olhada nela. Quanto tempo por dia você investe em coisas que nem estão na lista? 2. Lembre-se de sua fé compartilhada. Muitas vezes, começamos nossos relacionamentos com uma enxurrada de promessas: orar juntos, frequentar a igreja e estudar a Bíblia. Volte ao passado e veja se isso aconteceu com a pessoa que você ama. Se sim, vocês ainda compartilham sua fé dessa maneira? Deus quer que nos lembremos de nosso primeiro amor, tanto em nosso relacionamento com Ele como em nossos relacionamentos uns com os outros. Em ambos os casos, o vínculo que constrói relacionamentos duradouros não é outro senão Jesus Cristo. 3. Lembre-se de como seu relacionamento começou. Pense no tempo em que seu relacionamento começou. Veja as fotos ou os vídeos de seus primeiros dias juntos. Quer seja um casamento ou o relacionamento entre pai e filho, sua decisão de andar pelo caminho das lembranças e admirar o alicerce de seu amor sempre será importante. 4. Lembre-se do que você gostou nessa pessoa. Reserve uma hora ou uma tarde e faça uma lista dos traços de caráter, das peculiaridades de personalidade e dos atributos que ajudaram a construir seu relacionamento com essa pessoa. Talvez haja detalhes que ainda se aplicam. Ou talvez a correria da vida e o peso de vários problemas tenham enterrado os traços de que você mais gostou na pessoa que ama. Examine a lista com atenção. Você ainda está procurando essas coisas nessa pessoa? 5. Lembre-se dos bons momentos que passaram juntos. As fotografias e os álbuns de recortes são uma maneira de desencadear uma série de memórias. Faça um esforço para pensar nos tempos felizes juntos. Mais uma vez, pode ser o momento em que você e seu filho de 5 anos caminham todas as noites. Ou pode ser o tempo em que você e seu cônjuge começaram a namorar. De qualquer maneira, faça uma lista de como vocês dois interagiram durante um tempo em que as coisas entre


vocês estavam no auge. Esses pensamentos lembrados contribuirão no sentido de substituir os pensamentos às vezes conturbados do mesmo relacionamento hoje. 6. Lembre-se das lições do passado. Se você é cristão há muito tempo, sabe que os problemas normalmente vêm e vão. Jesus nos disse que neste mundo teríamos problemas, mas que não nos preocupássemos, pois ele já tinha vencido o mundo (João 16:33, minha paráfrase). Obviamente, lembre-se de que um único momento de verdade contribuirá para ajudar você a se esquecer dos problemas de hoje. Além disso, lembre-se de como Deus livrou você de problemas no passado. Ele, que foi fiel para fazer aquilo, também será fiel para livrar você em quaisquer problemas de relacionamento que talvez esteja enfrentando no momento. Lembrar mostra a importância de trabalharmos em nossos relacionamentos por meio do uso de nossas recordações, e não apenas no casamento, mas também nos laços especiais que temos com filhos, pais, irmãos e amigos. Se você ou alguém a quem você ama necessita de aconselhamento ou de outros recursos para melhorar um relacionamento importante, entre em contato: The Smalley Institute 1482 Lakeshore Drive Branson, MO 65616 (EUA) Fone: 800-975-8748 family@smalleyonline.com www.smalley.cc/contact


Perguntas para discussão Use estas perguntas para reflexão individual ou para discussão em um pequeno grupo. Elas irão ajudá-lo não só a entender alguns dos assuntos de Lembranças, como também a aplicar algumas das mensagens do livro em seus próprios relacionamentos. 1. Antes do dia 11 de setembro, de que forma as lembranças de Landon Blake desempenharam um papel em sua decisão de aceitar um emprego em Nova York? Explique. 2. Por mais que uma recordação possa ser útil, as lembranças dolorosas podem, na verdade, atrapalhar relacionamentos saudáveis. Como isso ocorreu no relacionamento de Ashley Baxter com Landon? E com a família dela? 3. Explique o objetivo de Ashley ao aceitar um emprego na Casa de Repouso Sunset Hill. 4. Qual o papel das lembranças de Kari em sua cura após a morte do marido? De que maneira você acha que as lembranças podem ter ajudado Ryan Taylor durante esse tempo? 5. Depois de trabalhar na Sunset Hills por várias semanas, Ashley começou a descobrir algo sobre as lembranças dos pacientes com Alzheimer com quem trabalhava. O que ela descobriu? 6. Descreva as ideias do passado-presente que Ashley encontrou na internet. Como isso a ajudou a deixar os residentes da Sunset Hills mais calmos e felizes? 7. Como o trabalho de Ashley na Sunset Hills afetou a vida pessoal dela? O que isso a fez sentir com relação às próprias lembranças? 8. Quando Ashley compartilhou as lembranças dolorosas do tempo que passou em Paris, do que Landon a fez se lembrar? Como isso, por sua vez, mudou a vida de Ashley? 9. Depois do dia 11 de setembro, quando Landon foi para Nova York para trabalhar no Marco Zero, o que você acha que o levou a ficar em atividade por quase oitenta dias seguidos? 10. Como Kari usou a importância das lembranças para ajudar Erin no casamento? 11. O que você pode aprender com suas lembranças felizes em se tratando de relacionamentos? O que você pode aprender com as memórias mais tristes?


12. Ao longo das Escrituras, Deus pede ao seu povo para que se lembre de certas coisas. Por que você acha que lembrar é tão importante para Deus? Como sua fé cresceria se você quisesse se lembrar das maneiras sugeridas pelas passagens abaixo? “Assim vocês se lembrarão de obedecer a todos os meus mandamentos, e para o seu Deus vocês serão um povo consagrado” (Números 15:40). “Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude” (Eclesiastes 12:1). “Depois que ressuscitou dos mortos, os seus discípulos lembraram-se do que ele tinha dito. Então creram na Escritura e na palavra que Jesus dissera” (João 2:22). “Em tudo o que fiz, mostrei-lhes que mediante trabalho árduo devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus” (Atos 20:35). 13. Descreva um relacionamento que você gostaria que melhorasse. Quais são os problemas, os conflitos? Como sua capacidade de lembrar poderia melhorar esse relacionamento? Detalhe um plano com base nas sugestões da seção anterior. 14. Compre um “diário de lembranças”: qualquer caderno pautado serve. Anote lembranças importantes de sua vida e as lições que você aprendeu ou que ainda pode aprender com elas. 15. Que papel o perdão desempenhou no relacionamento de Ashley com Landon? Com Deus? Consigo mesma? Com Luke? E com Kari? 16. De que maneira você poderia achar liberdade e paz se tivesse de buscar o perdão de Deus e dos outros? De que maneira você poderia sentir liberdade e paz se perdoasse os outros e a si mesmo? 17. Como o tema da redenção – o tema geral da série – se revelou neste livro? Em quais vidas você viu a redenção em ação? 18. De que maneira sua vida precisa de redenção? Como você irá encontrá-la? 19. Quais relacionamentos foram marcados pela honra? De que maneiras específicas os personagens mostraram honra? 20. Atualmente, como você está mostrando honra em seus relacionamentos? Como você gostaria


de crescer nessa área? Como você conseguirá isso?


Lembranças vol. 2 - Karen Kingsbury