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Ficha Técnica Título original: Nothing Denied Tradução: M aria Emília Ferros M oura Revisão: Domingas Cruz Capa: M aria M anuel Lacerda/Oficina do Livro, Lda. ISBN: 9789898228819 QUINTA ESSÊNCIA uma marca da Oficina do Livro – Sociedade Editorial, Lda. uma empresa do grupo LeYa 2610-038 Alfragide – Portugal Tel. (+351) 21 427 22 00 Fax. (+351) 21 427 22 01 © Jesse Petersen, 2010 Publicado com o acordo de Avon Red, uma chancela de HarperCollins Publishers. Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor E-mail: quintaessencia@oficinadolivro.leya.com www.quintaessencia.com.pt www.leya.pt

Esta edição segue a grafia do novo acordo ortográfico.


Para o Michael por me amar em todas as minhas variantes da letra ÂŤJÂť


Capítulo 1 ensen, juro por Deus que, se algum desses pacotes tocar nem que seja ao de leve no chão, o despedirei sem uma única carta de recomendação antes do jantar − declarou Beatrice Albright enquanto passava junto ao criado que retirava os embrulhos da carruagem depois de mais uma tarde de compras. O criado assentiu nervosamente com a cabeça antes de voltar ao seu trabalho. Beatrice alisou o vestido e levantou o rosto para a elegante e moderna casa que se erguia na sua frente. Deus do céu! Como temia regressar àquele lugar. Sentia um nó no estômago só de pensar nisso. O problema não residia na sua actual residência. Desde que a irmã mais velha casara com um conde e a irmã a seguir com um duque, a família não se vira obrigada a viver na pobreza. Na verdade, a mansão da cidade era a mais bonita que já habitara. Não, o problema estava na companhia da casa. Mal transpôs a ombreira da porta, sabia o que a esperava: a mãe com os seus gritos e apreciações, e a irmã mais nova, Winifred, com um sorriso de lhe apodrecer os dentes. − Que Deus me guarde! − pronunciou entre dentes enquanto avançava. − Desculpe, miss? − disse o mordomo, afastando-se para o lado e dando-lhe passagem. Beatrice não respondeu, limitando-se a fulminar o homem com os olhos e a avançar para a entrada enquanto começava a desabotoar o casaco. O criado, acostumado às suas mudanças de humor, não repetiu a pergunta e estendeu a mão para pegar no seu casaco e na capa. − Mistress Albright está a tomar chá na sala com Miss Winifred e Lady Rothschild − informou ao recebê-los. Ante o comentário, Beatrice deixou de se ocupar a descalçar as luvas e virou-se para o homem de sobrolho franzido. − Disse que a minha irmã está aqui? Miranda? O mordomo hesitou um momento, não que Beatrice o culpasse. Bom, culpava-o, mas uma parte dela também entendia. Uma das coisas de que se orgulhava era da sua capacidade de fazer uma cena. O mordomo antecipava sem dúvida esse momento. − Sim, Miss Beatrice. A condessa chegou pouco depois de ter saído para ir às compras. Beatrice resfolegou de cólera. − Isso foi sem dúvida planeado para que pudesse evitar encontrar-se comigo. Fingiu não sentir o mínimo ressentimento ante a declaração. Não se tratava de

−J


desejar o tipo de relação íntima que as duas irmãs mais velhas partilhavam, nem sequer o afeto que as duas pareciam dedicar a Winnie. Afinal, passara uma boa parte dos últimos anos a afastá-las − por que razão não haviam de excluí-la da sua intimidade? Beatrice endireitou os ombros, atirou as luvas ao mordomo e percorreu o corredor até ao salão. A porta estava aberta e, a alguns passos de distância, escutou o som de vozes femininas imbuídas numa animada discussão. Hesitou, compondo a expressão endurecida que apresentava ao mundo, a que ocultava qualquer mágoa ou vulnerabilidade. Tratava-se de emoções que jamais permitiria serem vistas. − Oh, não é justo! − escutou a voz áspera da mãe vinda da sala. Beatrice quase podia imaginar a expressão de amuo nas faces bochechudas da mãe e as lágrimas de crocodilo ante qualquer injustiça que achava que fora feita contra ela. Como Beatrice odiava aquele som, aquele rosto e as manipulações que ele ocultava. − Tens mesmo a certeza de que deves levar a minha pequena Winifred para a temporada? − prosseguiu a mãe. Beatrice franziu a testa, surpreendida, e parou. Foi a voz de Miranda a responder, calma e irritantemente suave como era seu hábito. − Não acha que seria melhor, mamã? Winifred juntar-se-ia a Ethan e a mim na festa em casa da Penelope. Provavelmente, conheceria uma série de cavalheiros adequados. Acho que poderia ter uma boa oportunidade de um belo casamento se lhe servirmos de damas de companhia. Já tem preocupações que cheguem com a Beatrice. − É verdade − concordou a mãe com um raro toque de reflexão na voz. − Beatrice. Acho que afastar Winifred da irmã seria melhor para ela. Os homens podem não ficar tão intimidados. Detestaria acabar com duas filhas solteiras. Uma é humilhação que chegue para uma mãe. Ante aquelas palavras, Beatrice cambaleou e encostou-se à parede. Começara a entender tudo. Parecia-lhe correta a suposição de que Miranda sempre tencionara visitar a mãe na ausência de Beatrice. A irmã mais velha tinha um esquema que envolvia um casamento e um afastamento da mãe. Contudo, não para ela. Não, Miranda aparecera para salvar Winifred, a suave e influenciável Winifred que não distinguiria um bom partido se ele fugisse com ela para Gretna Green1 e a comprometesse. As mãos de Beatrice tremiam-lhe quando retomou o passo e entrou na sala. Ali estava a sua família a planear uma traição, embora parecessem tão inocentes e gentis. A mãe ocupava o lugar habitual no sofá com a sua bonita e calma irmã Winifred ao lado dela, qual cachorrinho obediente. Na frente delas estava Miranda. A própria Beatrice tinha de confessar, embora não em voz alta, que Miranda era provavelmente a mais bonita das irmãs Albright. Reluzia de felicidade e satisfação. Parecia que jamais experimentara qualquer sofrimento, pelo


menos desde que arranjara um bom par no conde de Rothschild, Ethan Hamon. Beatrice odiava-a por isso, quase tanto como odiava o casamento feliz de Miranda com um homem que ela adorava quase tanto como ele a venerava. − Beatrice! − exclamou Miranda ao olhar na direção da porta ao mesmo tempo que se levantava e esboçava um leve sorriso. − Não sabia que já tinhas chegado. − Oh, acredito! − retorquiu Beatrice, tendo dificuldade em controlar as emoções ao esquivar-se às boas-vindas de Miranda. − Na verdade, apostaria a minha mesada em como não esperavas ver-me ainda hoje. Miranda emitiu um leve suspiro que buliu com os nervos de Beatrice. Como é que a irmã se atrevia a mostrar-se irritada quando estava a destruir a vida de Beatrice? Não merecia a sua raiva, a perturbação ante as notícias que acabara de ouvir no corredor? − O que te deu? − perguntou Miranda com a inocência de um cordeiro enquanto retomava o seu lugar no sofá e se servia de mais uma chávena de chá. − É verdade, minha querida − balbuciou a mãe, mas incapaz de olhar Beatrice de frente. − Pareces perturbada. Winifred foi a única a manter-se silenciosa, com os olhos azuis baixos e uma expressão triste e submissa. − Como podia não ficar perturbada ao escutar tanta vilania no corredor? − explodiu Beatrice, começando a percorrer a sala. − Sei o que estão a planear! − Foste sempre tão teatral − retorquiu Miranda com outro dos seus profundos e irritantes suspiros. − Ninguém está a conspirar contra ti, Beatrice. − Ah, não? − rugiu ela com uma gargalhada abafada. − Não estão a conspirar quando se oferecem para colocar a Winifred sob as vossas asas e ajudá-la a arrebatar um marido rico, deixando-me a apodrecer aqui? Sem dar tempo a que Miranda respondesse, Beatrice virou-se para a mãe. − Não é traição falar de mim como se eu fosse uma cruz a carregar? A mãe torceu as mãos no regaço enquanto Winnie se afundou mais nas almofadas do sofá, Miranda, porém, não pareceu comovida. A irmã mais velha arqueou uma sobrancelha e emitiu um suspiro de desagrado. − Percebo que tenhas dificuldade em entender, mas nem tudo no mundo gira à tua volta, Beatrice. Há muitos acontecimentos que não têm influência sobre a tua vida. O facto de Ethan e eu levarmos Winifred para passar a temporada é um desses. − Não têm influência na minha vida? Como podes dizer isso? − explodiu Beatrice, pestanejando horrorizada devido às lágrimas repentinas que lhe encheram os olhos. Nunca chorava, independentemente de quanto algo a magoasse. − Então, por que razão levam a Winnie? − É o início da sua quarta temporada − retorquiu Miranda, franzindo a testa. − Gostávamos de proporcionar-lhe a oportunidade de fazer sucesso.


Beatrice cruzou os braços. − Então, e eu, Miranda? Já vou na sétima temporada. Sétima. E estás a sugerir que a Winifred merece uma oportunidade especial? Já desististe completamente de mim, como parece ser o caso da mamã? Miranda abanou a cabeça sem deixar lugar para dúvidas que a sua frustração atingira o auge. − Confessa que nunca aceitarias a ajuda de ninguém, mesmo que te fosse oferecida. Se estás na sétima temporada não é pela minha falta de assistência. Podes não querer aceitar, mas és tu a culpada da situação em que te encontras. A tua atitude, a tua falta de… Beatrice ergueu a mão para interromper a irmã, pois sabia o que Miranda se preparava para dizer e infelizmente a maior parte era verdade. Odiava enfrentar o que fizera para criar o seu inferno em vida. − Poupa-me. Tu e a Penelope já me brindaram vezes bastantes com a lista dos meus erros e falhas − retorquiu, servindo-se do seu tom afiado para impedir que a irmã se apercebesse de quanto a realidade a magoava. Miranda levantou-se. − Beatrice… − Não. Foste muito clara − disse, tomando a direção da porta. − Não vejo motivo para continuar a discussão. Estão todos determinados a manter-me uma solteirona e, possivelmente, a rir-se de mim quando o meu destino estiver selado enquanto proporcionam de mão beijada a Winifred uma oportunidade que ela não terá a mínima ideia de como usar. É óbvio que terei simplesmente de tomar o meu futuro nas mãos. Bom dia. Abandonou o salão com passo firme e bateu com a porta nas costas de uma forma que a satisfez. Percorreu rapidamente o corredor, quase correndo para as portas das traseiras e descendo as escadas para o jardim. Quando lá chegou, abrandou o passo e pôs-se a caminhar por entre os suaves verdes e as cores brilhantes. Não serviam para a acalmar, mas, pelo menos, ao sol podia respirar. E pensar. O que constituía, na verdade, uma espada de dois gumes. Respirou fundo e ponderou no que havia acabado de ocorrer. Miranda e Ethan levariam Winifred, e Penelope e o seu marido, Jeremy, iriam ajudá-los. Com o apoio de um duque e de um conde, e sem a interferência da mãe, Winifred decerto encontraria um bom partido. Isso significava que a irmã mais nova casaria antes dela, tornando Beatrice um alvo de troça maior do que já era entre os membros da sociedade. Beatrice conseguia imaginar perfeitamente a humilhação enquanto algumas das jovens mulheres de quem se afastara exibiriam os maridos na sua frente, mostrando-se satisfeitas com a sorte de


Winifred. Quanto aos homens, não seria melhor. Ao longo dos anos, Beatrice recusara muitos deles… um dos que havia rejeitado poderia muito bem aceitar a mão da irmã e nada mais lhe restaria senão observar. Observar e afundar-se mais no inferno que era o seu estado de solteira. Oh, sim, sabia que era uma velha solteirona. Tinha consciência de que, provavelmente, destruíra todas as oportunidades de encontrar o amor ou a amizade… ou até mesmo um homem disposto a contentar-se com o que os outros não desejavam. No entanto, de certa forma, a situação parecera suportável desde que tivesse uma companheira de tristeza. Porém, agora Winifred ia partir e ela ficaria sozinha. Sozinha com a mãe. Beatrice estremeceu ante aquele pensamento. Dorthea Albright inundaria Beatrice com toda a sua atenção, as alterações de humor, a conversa incessante. Não haveria fuga, ninguém a quem impingir a mãe quando tudo se tornasse insuportável. Beatrice estremeceu ao ponderar no resto da sua vida. Em breve, começaria a receber menos convites, em seguida nenhuns, excepto os das irmãs. As poucas amigas que lhe restavam desapareceriam, deixando-a à mercê da mãe. Quando isso acontecesse, tinha a certeza de que enlouqueceria. Beatrice deixou-se cair num banco no meio do jardim e massajou as fontes. Como poderia escapar àquele destino? Havia poucas opções. Seria possível que arranjasse trabalho como empregada ou governanta de alguma senhora, mas abominava a ideia de se rebaixar a esse ponto. Além disso, dispunha de uma boa mesada graças aos seus dois cunhados. Duvidava que o conde e o duque permitissem que se espalhasse o boato de que a sua parente tivesse sido forçada a uma vida de escravatura. Isso deixava-a com uma única alternativa. Casar, como não fora capaz de fazer durante tanto tempo. Tapou os olhos, esfregando fortemente as têmporas enquanto media a impossibilidade da sua tarefa. Devido a uma série de circunstâncias, algumas por sua própria escolha e outras não, há anos que ninguém a desejava. Beatrice não conseguia imaginar encontrar alguém que milagrosamente o fizesse agora. A não ser que fosse tão indesejável como ela própria. Ergueu o rosto frente a essa ideia. Poderia dar resultado? Talvez. Mesmo que ele não fosse ridiculamente abastado, escandalosamente bonito ou extremamente inteligente como sempre esperara… qualquer homem que conseguisse apanhar seria uma maneira de sair de casa da mãe. Uma maneira de se furtar a fazer figura de idiota perante toda a cidade. Afinal, não era essa a sua única opção?


Beatrice levantou-se e desceu o caminho. Sim, tinha de ser assim. Iria encontrar o homem mais indesejável da cidade e torná-lo-ia seu. Casaria antes do fim da temporada. Que as irmãs, o passado e as consequências fossem para o inferno! ***

Gareth Berenger, o marquês de Highcroft, estava de pé no salão, examinando a carta que já tinha lido pelo menos umas cem vezes desde que a recebera do advogado da avó, três dias antes. As palavras mantinham-se inalteráveis, mas continuavam a chocá-lo de cada vez que as relia. − Conseguiste mudar o desejo da tua avó no leito de morte olhando demoradamente para essa carta? Gareth voltou à terra e virou-se para o seu melhor amigo, Vincent, o visconde Knighthill, com o mesmo olhar frio que afastara seis jovens ao longo dos anos. Vincent fingiu-se aterrorizado e serviu-se de uma bebida. − Se, ao menos, conseguisse mudar as suas últimas instruções com o pensamento − resmungou finalmente Gareth. − Ela nunca me compreendeu, mas também nenhuma mulher o fez. Vincent rolou os olhos enquanto estendia um copo a Gareth. − Sim, és tão incompreendido, meu amigo. Eu sei. Que coisa horrível ser rico, atraente e… − Tenho várias outras qualidades que são indesejáveis para as mulheres − interrompeu Gareth, engolindo a bebida de um trago. O ardor do álcool não lhe minorou o tormento. − É aí que reside a questão. O último desejo da minha avó foi o de que voltasse a casar. Porém, como é possível depois da última vez? Nos olhos castanho-escuros de Vincent surgiu um brilho de compaixão e de piedade a que Gareth se furtou. − Não tiveste culpa. − Tive e tu sabes − ripostou, odiando-se mais do que nunca. − Estavas presente e viste o que fiz. O amigo parecia prestes a iniciar a mesma discussão em que se embrenhavam há quase dois anos, mas depois abanou a cabeça. Gareth respirou de alívio. Sentia-se demasiado cansado para rever o passado uma e outra vez. − Sabes que podes ignorar o pedido dela, se receias assim tanto as consequências − vincou Vincent calmamente. − A tua avó foi enterrada há meio ano, escreveu essa carta meses antes e tomou disposições para que te fosse entregue após o teu período de luto. Não vai perseguir-te do túmulo. Gareth fechou os olhos enquanto a dor da sua perda lhe invadia o corpo vindo do


recanto onde a encerrara. Pensou na avó, com mil memórias em simultâneo, mas todas elas partilhando um elemento comum: a sua eterna devoção e o amor que lhe dera quando mais ninguém se importara. A ideia de lhe recusar aquele último desejo só porque ela não estaria por perto a olhá-lo com censura… bom, não era correto. − Não posso fazê-lo − retorquiu Gareth com um suspiro. − Quer ela esteja aqui para me pressionar ou não, é-me impossível em boa consciência desrespeitar o seu desejo. De qualquer maneira, a sua lógica é muito real. O amigo assentiu lentamente com a cabeça. − És o último homem da tua descendência. O último que pode fazer um filho e prolongar a linhagem Highcroft. − Se não houver casamento, não haverá herdeiro − retorquiu Gareth, encolhendo os ombros. − Ela não tem razão ao afirmar que é meu dever impedir que tal aconteça? − Suponho que sim − retorquiu Vincent com um suspiro. − É má sorte ser o último da tua descendência. Gareth esboçou um aceno de concordância. Má sorte, mesmo. Por vezes, parecia que a sua família fora amaldiçoada. Havia acontecimentos da sua vida que sustentavam essa estúpida noção. Tivera dois irmãos que podiam tê-lo salvo desse dever que não queria cumprir. Contudo, tinham morrido, com uma diferença de um ano, de dois acidentes. A mãe seguira-se rapidamente, vítima de uma doença que quase a reduzira a nada antes do fim. Uns anos depois do seu falecimento, o pai sofrera um ataque cardíaco e fora fazer-lhe companhia na sepultura. Antes dos vinte e um anos, Gareth vira toda a família dizimada. E tinha havido a sua primeira mulher, Laurel. Há dois anos que se encontrava debaixo da terra, embora apenas pudesse culpar-se a si próprio por essa tragédia. − Que se lixe o dever, amigo − retorquiu Vincent, abanando a cabeça. − Parece estúpido fazeres uma coisa que desejas tão pouco. Gareth encolheu os ombros. − O que desejo não tem importância agora. − Estás então decidido a regressar à sociedade − concluiu Vincent, arregalando os olhos. Gareth reuniu todas as suas forças para assentir com a cabeça. − É por esse motivo que voltámos a Inglaterra, não é? Um sentimento de enorme tristeza abateu-se sobre ele, um peso nos ombros que o pôs na lama. A única esperança residia em não se afundar. − A tua tarefa não será fácil − murmurou Vincent, quase mais para si próprio do que para Gareth.


− Nada mesmo, amigo − concordou Gareth, indo até à janela e observando a tarde chuvosa. − Não me parece. Devo ser o único homem rico, nobre e bastante atraente por quem ninguém optará lutar. 1 Gretna Green é uma vila no Sul da Escócia famosa por ali se realizarem casamentos à pressa. (N. da T.)


Capítulo 2

B

eatrice endireitou-se e lutou contra o impulso de combater a rigidez do maxilar. Com mil diabos! Sorrir o tempo todo era doloroso. Não admirava que nunca se tivesse preocupado muito com a máscara. Contudo, aquela não era a linha correta de raciocínio. Poderia mudar a sua vida naquela temporada. Mudaria a sua vida, custasse o que custasse. Apanhou um cavalheiro a observá-la do outro lado do salão. Tratava-se de Mr. Roger Westin, se não se enganava. Era apenas o terceiro filho de um marquês e, noutra altura, poderia ter-lhe virado a cara. Porém, ele fizera uma boa fortuna com qualquer tipo de negócio arriscado. Serviria. Alargou o sorriso forçado e fixou-o… mas verificou com um calafrio que ele lhe virava as costas, mesmo àquela distância. Sentiu um peso no coração, mas recusou ceder ao pânico que a invadiu. Ao perscrutar a sala, descobriu outro cavalheiro que se mantinha afastado das senhoras. O baronete Harker era sem dúvida mais velho, mas conservava a maior parte dos dentes. E, a acreditar nos boatos, tinha três filhos pequenos que precisavam de uma mãe. Estremeceu ante a ideia, mas momentos desesperados exigiam medidas desesperadas. Fixou-o nos olhos. Todavia, à semelhança de Mr. Westin antes dele, Harker não correspondeu ao seu avanço. Na verdade, recuou como se achasse que ela poderia atravessar a sala e atingi-lo com o sapato. E mal descobriu uma pessoa conhecida iniciou conversa para que pudesse ignorá-la delicadamente. Beatrice sentiu-se corar de embaraço e pânico, mas antes que pudesse encontrar uma maneira de abandonar a sala graciosamente, a mãe tocou-lhe no cotovelo. − Os dois estão abaixo de ti − vincou num tom que pretendia passar por um sussurro mas em nada o era e levou várias pessoas por perto a soltar uma risada de troça ante o despropósito do comentário. Com as faces ainda mais coradas, Beatrice cerrou os punhos fortemente de cada lado do corpo. Abaixo dela. Quantas centenas de vezes a mãe fizera a mesma afirmação sobre homens perfeitamente decentes? Homens que poderiam ter sido bons partidos para ela? No começo, Beatrice tinha acreditado na mãe, desprezando esses homens. Ao longo do tempo, o desprezo transformara-se num escudo que ostentava na frente. Agora era apenas uma segunda natureza. A ideia de perder aquela aparência dura, impeditiva de que alguém se aproximasse demasiado e detetasse a sua vulnerabilidade, era assustadora, embora nunca deixasse de prejudicá-la tal como as elevadas expectativas da mãe.


− Julguei ouvir da sua boca que ter uma filha solteirona constituía uma humilhação − sibilou Beatrice tão baixo que ninguém ouviu. − Não é o que confessou a Miranda quando ela se dispôs a levar Winifred com ela para passar a temporada? Tentou não pestanejar ante a recordação de ver Winifred afastar-se na bela carruagem de Miranda nessa mesma manhã. A irmã parecera tão feliz por se ver livre da insistência da mãe. Beatrice não conseguiu afastar o pensamento de que, caso houvesse facilitado as situações, também ela poderia ter-se libertado da mãe anos antes, quer pelo casamento ou por qualquer acordo semelhante com as irmãs. − É verdade, querida − concordou a mãe, fitando Beatrice com um olhar inexpressivo. − Porém, isso não significa que queira que optes por qualquer homem. − Uma solteirona como eu não pode esperar um cavalheiro com um título, uma grande fortuna, ou… − Beatrice hesitou. − Dentes. − Querida… Porém, a filha não conseguia ouvir mais nada. Deus do céu! Como desejava uma fuga e possivelmente uma bebida. E esconder-se da multidão e do desprezo que sentiam por ela. Talvez o merecesse, pois tratava-se meramente do espelho do sentimento que mostrara pelos outros durante tantos anos. − Gostava de apanhar um pouco de ar fresco − disse Beatrice, sufocada. − Voltarei dentro de momentos. A mãe abriu a boca para protestar, mas Beatrice não esperou para ver. Atravessou a sala rapidamente e transpôs as portas abertas do terraço que a separavam da noite fria e húmida. Tratava-se, sem dúvida, de uma fuga temporária. Escapar à mãe era sempre temporário, mas só lhe restava aproveitar o que podia obter. Fosse lá como fosse. − És tu, Beatrice? Beatrice fechou os olhos com força. Reconheceu a voz que se tinha intrometido no seu momento de paz como sendo a da sua mais antiga… e praticamente única amiga, Amelia Kinley. − Sim, Amelia − respondeu com um suspiro. − Sou eu. A amiga saiu para o terraço pouco iluminado com um arrepio. − Está frio, não achas? O que fazes aqui? − Receio que não esteja a ser uma noite agradável − disse Beatrice com um encolher de ombros. − Suponho que tens razão − concordou a amiga, premindo os lábios. − Toda a cidade fala de Lorde e Lady Rothschild terem colocado a tua irmã debaixo das suas asas esta temporada, levando-a para a festa particular do duque e da duquesa Kilgrath no campo. Winifred não deixará certamente de encontrar um bom partido. Com as narinas dilatadas, Beatrice dominou a sua reação natural que seria a de fazer


a amiga em picadinho e deixá-la debulhada em lágrimas. Contudo, de nada lhe serviria por mais que a ideia a atraísse. Em vez disso, suspirou e optou pelo sarcasmo em vez da raiva. − Obrigada, Amelia. O teu comentário ajuda-me muito. Afinal, passei sete temporadas reduzida ao estado de velha solteirona. Interrogo-me sobre quantas mais me esperam antes que me veja firme e irredutivelmente posta na prateleira? Amelia inclinou a cabeça de lado, visivelmente desatenta quanto às verdadeiras emoções de Beatrice. − Talvez mais duas. A mamã diz que ninguém pode passar uma década a ser posta de lado sem ficar desesperada, por mais rica ou encantadora que seja. E tu não és rica nem encantadora. Beatrice olhou-a fixamente. Na perspetiva da maioria das pessoas, palavras como as da amiga assemelhar-se-iam a punhais subtis com a missão de destruir, mas Amelia era demasiado oca para uma tal sabotagem e crueldade. De facto, a amiga era tão estúpida que nem sequer percebia que estava a ser insensível. A única razão por que Beatrice a suportava era… Na verdade, restavam poucas pessoas que desejavam a sua presença. Beatrice optara por Amelia e, nesse momento, ao fitar aquela insípida amiga interrogava-se se seria obrigada a casar com alguém como ela. Talvez a sua última esperança residisse num homem que fosse demasiado estúpido e oco para reconhecer os defeitos de Beatrice. Aquela ideia quase aflorava a depressão. − Bem, obrigada, Amelia − conseguiu pronunciar entre dentes. − As tuas palavras desconcertantes deram-me muito que pensar. Girou sobre os calcanhares, disposta a regressar ao salão de baile e às garras da mãe quando Amelia lhe agarrou no braço, obrigando-a a recuar. − Oh, meu Deus! − arquejou a amiga. Beatrice fitou Amelia, estranhando qualquer tipo de emoção vindo da concha vazia da amiga. Os olhos de Amelia arregalaram-se, a boca formou um «O» de espanto e estava a tremer quando olhou para o salão de baile, nas costas de Beatrice. − O que se passa? − perguntou. − Não viste quem acabou de entrar no salão de baile? − retorquiu a amiga, abanando a cabeça. Beatrice virou-se e também ela quase recuou. O homem que acabara de entrar não era, obviamente, alguém das suas relações, mas conhecia-lhe a reputação. − É o marquês de Highcroft? − inquiriu, respirando fundo. Amelia assentiu com a cabeça. − Gareth Berenger. − Gareth − repetiu Beatrice, fitando o homem.


Ele manteve-se do lado oposto do salão, o que não lhe permitiu distinguir bem as suas feições, mas de qualquer maneira ficou com uma ideia. Era alto, de ombros largos e muito elegante. Usava o cabelo escuro demasiado comprido na frente e tombando encaracolado sobre a testa, como se tal não parecesse incomodá-lo. Tinha um maxilar forte e bem delineado que, mesmo àquela distância, parecia cerrado e tenso. − Bom, é tão bonito como os boatos o rotularam − comentou Beatrice baixinho. A amiga emitiu um suspiro e largou-lhe subitamente o braço. − Contudo, o que interessa isso a alguém? − Interessa a todos − ripostou Beatrice com uma gargalhada. − Por favor. Pode fazerse quase tudo e singrar quando se é bonito. Sobretudo os homens. − Na maioria das vezes pode ser verdade − resfolegou Amelia −, mas não neste caso. A minha mãe diz que um homem como aquele nunca será aceite de novo na sociedade depois do que fez, independentemente do dinheiro ou da beleza que possa ostentar. Beatrice estreitou os olhos ao contemplar novamente o espécime de homem que atravessava o salão. Não conseguiu dominar-se e avançou na direcção da entrada para o observar melhor. Agora, poderia dizer que tinha uns olhos tão escuros como a aura que o rodeava. As pessoas recuavam à sua passagem, abrindo um corredor pelo meio do salão, como se ele fosse um pária. O que afinal correspondia à verdade, não? − Achas mesmo que ele nunca será aceite pela sociedade? − murmurou. − Mesmo com todos os benefícios que pode proporcionar à mulher que cortejar? − Nunca − sibilou Amelia. − Afinal, toda a gente sabe que ele assassinou a mulher. A veia na cabeça de Gareth latejava em sintonia com o ritmo da música tocada pela orquestra. Um-dois-três, um-dois-três, pulsava, bloqueando-lhe a visão e provocandolhe um nó no estômago. Aquela noite terrível nunca mais acabaria? Afastou-se da beira da pista de dança e três jovens quase tropeçaram umas nas outras para lhe escapar, como se ele fosse mutilar uma delas, caso chegasse perto. A cena repetira-se durante toda a noite. Ninguém, à exceção de Vincent, lhe tinha dirigido a palavra. Limitavam-se a olhar. Em resumo, foi um desastre total. Gareth não havia certamente esperado encontrar um par naquela noite, mas aguardara uma reação melhor. Talvez um indício de que poderia superar os boatos que o rodeavam. − Isto é terrível − murmurou quando Vincent regressou depois de ir buscar bebidas. O amigo premiu os lábios. − Não vou mentir e encobrir a verdade. Acho que talvez consigas entender-te com alguns dos homens. Vários pareceram dispostos a isso, em teoria, quando lhes falei esta noite, mas…


− Mas as mamãs, as viúvas e as damas de companhia estão petrificadas − completou Gareth quando o amigo hesitou. − E os homens podem acabar por fazer negócios comigo ou partilhar um porto, mas não me confiariam as filhas. Nenhum deles jamais esquecerá o que julgam saber. − Levará o seu tempo − retorquiu Vincent com um encolher de ombros. Gareth fechou os olhos. Se o amigo tentava ser gentil, não estava a resultar. Não era estúpido. Tinha consciência de que levaria mais do que tempo; seria necessário um milagre para ultrapassar o boato de que ele matara a mulher. E a família dela apenas contribuíra para piorar esses boatos. Culpavam-no publicamente, o que só servia para aumentar a reação da multidão. − Preciso de apanhar ar − murmurou, virando-se para o terraço. Contudo, antes de se afastar, reparou numa jovem mulher que permanecia junto à mesa das bebidas. Estava sozinha, o que era raro naquelas festas, e fitava-o. Não o observava com a expressão enviesada dos que sussurravam a seu respeito. Tão-pouco emitia os olhares aterrorizados e furtivos das debutantes que o consideravam um monstro. Aquela jovem dama fitava-o de uma maneira diferente. Tratava-se de interesse com um leve toque de receio, mas sobretudo de avaliação. − Quem é ela? − perguntou Gareth com um subtil movimento da mão na sua direção. − A loura que me observa tão atentamente. Verificou surpreendido que o amigo estremeceu quando seguiu a indicação de Gareth e olhou para a mulher em causa. − O seu nome é Beatrice Albright. Chamam-lhe… − A megera − interrompeu Gareth. − Sim, lembro-me dela dos dias anteriores ao meu casamento. Tinha fama de ser uma… − Deteve-se, já que praguejar no meio do salão de baile não o beneficiaria. − Bom, consta que é uma mulher difícil. − Existe outra palavra para a definir, amigo − disse Vincent, engolindo a bebida de um trago. Gareth sorriu e foi a primeira vez que se sentiu bem durante aquela noite horrível. − Ela chegou a casar? − interessou-se, prestando novamente atenção à jovem mulher. − Céus! Não! − explodiu o amigo. − Quem iria querê-la depois de todos estes anos? Gareth inclinou a cabeça. Megera ou não, ela era inegavelmente bonita. Tinha o farto cabelo louro apanhado na nuca e alguns caracóis pendiam-lhe sobre os seios. Usava um vestido feito de qualquer suave seda azul a condizer com o azul-violeta dos olhos. A julgar somente pela aparência, parecia bastante meiga e bonita. Porém, um olhar mais atento serviria para corrigir essa primeira impressão. O formato altivo dos lábios carnudos e o brilho de teimosia no olhar prenunciavam uma mulher que jamais se dobraria. A menos que fosse devidamente dobrada. Um calafrio


inesperado percorreu-lhe o corpo ante essa ideia, a de transformá-la de megera numa gatinha meiga. Beatrice continuava a fitá-lo e ele não desviou os olhos, esperando que fosse ela a fazê-lo. Em vez disso, Beatrice cruzou os braços e correspondeu. Gareth quase soltou uma gargalhada. Ela não tinha ideia de quanto o espicaçava nem de como o fazia sentirse perigoso. De súbito, uma mulher mais velha apareceu ao lado dela e Beatrice virou-se para encará-la. − Seja como for, é bonita − murmurou Gareth enquanto se afastava do feitiço da sua sereia e se dirigia à porta do terraço. − Confia em mim, amigo − avisou Vincent, indo atrás dele. − Ninguém a quer. − Sim − murmurou Gareth. − Tal como ninguém me quer. Desde muito cedo que Beatrice aprendera a desligar do interminável papaguear da mãe. Por vezes, essa capacidade era a única coisa capaz de mantê-la no seu juízo perfeito, sobretudo quando a mãe tinha centrado todas as atenções em Beatrice e no seu desejo de casá-la com alguém melhor do que as irmãs haviam encontrado. Nessa noite, valorizou silenciosamente essa capacidade de abafar a voz da mãe enquanto Dorthea Albright falava sem parar do baile de onde regressavam a uma velocidade que faria rodopiar a cabeça de Beatrice se realmente a escutasse. Em vez disso, isolou-se nos seus pensamentos enquanto andava de um lado para o outro na sala. Aquela noite fora um verdadeiro desastre. Algures no seu íntimo tinha mantido a leve esperança de que, caso modificasse um pouco a sua atitude, poderia reconquistar algum interesse dos que a rodeavam. Imaginara, embora vagamente, que os homens mais estúpidos da cidade, ou aqueles com poucas perspetivas, talvez esquecessem a sua reputação, caso simplesmente forçasse um leve sorriso e batesse as pestanas. Não havia resultado e ficara bem visível que as suas hipóteses não se tinham meramente esgotado ao longo dos anos, mas haviam sido destruídas pelo seu comportamento e o da mãe. Ninguém a queria… e, mesmo que encontrasse alguém capaz de o fazer, estremeceu ante o tipo de homem que poderia ignorar os defeitos que mantinham os outros à distância. Beatrice fechou os olhos e apoiou a testa de encontro ao vidro frio da janela na sua frente. Diminuiu-lhe ligeiramente a dor e ela suspirou ao descontrair-se um pouco. A sua mente abrandou e deu por si a recordar outras imagens do baile. Imagens do marquês de Highcroft. Ele podia ter sido a única pessoa do baile dessa noite a viver uma experiência pior do que a dela. Enquanto as pessoas a evitavam subtilmente, no que lhe dizia respeito tratara-se de rejeição pura − terror mesmo. Era raro que alguém com riqueza, posição e


elegância não conseguisse que os outros esquecessem os seus pecados, mas, aparentemente, o marquês conseguira aquela estranha combinação que levava todas as suas qualidades a desaparecerem, comparativamente aos boatos que giravam à sua volta. De certa forma, ela e o marquês assemelhavam-se. Os dois eram totalmente rejeitados e a sua esperança de superar o passado era quase inexistente. Beatrice abriu os olhos e fitou a rua mergulhada na escuridão. Não tinha jurado que perseguiria um homem que mais ninguém desejava? Quando fizera essa promessa de se casar não imaginara obviamente um assassino potencial, mas pouco importavam as consequências da sua escolha. Ao olhar por cima do ombro, viu que a mãe continuava a falar. Preparando-se para o que estava disposta a fazer, encarou a mãe e interrompeu-a. − Mamã, esta noite só se falou do marquês de Highcroft. Não voltei a vê-lo acompanhado desde a morte da mulher. − Sim, querida, falava do marquês − retorquiu a mãe, premindo os lábios. − Não estavas a ouvir-me? − Claro que sim − respondeu Beatrice, vacilando. − Contudo, tenho uma leve dor de cabeça e distraí-me por momentos. A mentira apaziguou a mãe, como todas as mentiras o faziam, e Dorthea lançou-se em mais um rosário de frases sem tomar fôlego. − Fiquei chocada por Lady Wilkinshire o convidar apesar da sua reputação, mas julgo que podem ter tido qualquer tipo de amizade no passado e talvez ele tirasse partido dessa ligação. Patife! Beatrice arqueou uma sobrancelha. Até as debutantes mais inocentes sabiam que Lady Wilkinshire era indomável e se orgulhava muito das suas ligações amorosas visto que brindara o idoso marido com o seu herdeiro e mais dois sobresselentes. Beatrice imaginou que tipo de «amizade» Sua Senhoria poderia ter tido com o elegante marquês e talvez continuasse a ter. − Contudo, se ele pensou que ao aparecer no baile o aceitariam, enganou-se − prosseguiu a mãe. − Sim, ainda o evitaram mais do que a mim − comentou Beatrice com uma amargura incontrolável. A mãe franziu mais a testa, mas em seguida pareceu afastar quaisquer pensamentos negativos que lhe tivessem ocorrido. − Todos os outros pecados desvanecem-se na presença do dele, minha querida. O que ele fez! − Refere-se à morte da mulher − disse Beatrice, voltando a recordar a imagem do indivíduo que em nada se parecia com o retrato de um assassino. − Acha que esses


boatos são verdadeiros? Será que ele a matou? Viu-se a suster a respiração enquanto a mãe passou por um raro momento de meditação silenciosa. − Na realidade, ninguém sabe − respondeu, encolhendo os ombros −, mas especulações não faltam. E a família da mulher foi bastante pródiga em acusações. Beatrice rolou os olhos. A cidade podia especular sobre o que quisesse, sem que isso fosse verdade. Ela própria desencadeara boatos que escaparam ao seu controlo. Sentiuse espicaçada por um leve toque de culpa, mas afastou-o. Era inútil ponderar em tudo o que fizera. Tinha de se concentrar no futuro. Em mudar… pelo menos o suficiente para caçar um homem. − Há provas de que possa ter-lhe feito mal? − perguntou. − Provas? − repetiu Dorthea pestanejando. − Todos sabem que eles não eram felizes. Beatrice enrugou a testa. Deus do céu! Ela não era feliz e tal não significava que estivesse prestes a matar alguém. − Contudo, não há uma certeza! − retorquiu. − Acho que não − disse a mãe. − Porém, por que motivo arriscar? Pela primeira vez desde há muito tempo, Beatrice fitou a mãe com uma expressão de respeito relutante. Dorthea tinha obviamente razão. Com tantos boatos e insinuações sobre o homem, qualquer rapariga seria idiota em arriscar-se, sobretudo se tivesse outras perspetivas. Beatrice não desceria, obviamente, tão baixo a ponto de perseguir um potencial assassino apenas para fugir à influência da mãe. Não, iria continuar com o seu novo plano. No baile seguinte, faria um esforço por se mostrar simpática e sorrir, acabando eventualmente por engodar qualquer tolo a prestar-lhe atenção. Dirigiu-se à campainha e chamou um criado. Quando ele apareceu, ordenou: − Vai buscar os convites para o resto da semana. O criado deu um longo passo atrás e empalideceu um pouco. − Miss… hum… bom… Beatrice inclinou a cabeça. − O que se passa, homem? Desembucha. − Não há convites − elucidou o criado com voz trémula. Beatrice fitou-o durante um longo momento antes de se voltar para a mãe: − Não há convites? A mãe torceu os dedos com uma expressão angustiada no rosto normalmente sereno. − Esperava que chegassem alguns esta noite enquanto estávamos fora. As mãos de Beatrice começaram a tremer. − Não pode ser verdade. Devemos ter sido convidadas para alguma coisa nos próximos dias. Um chá, um musical, um baile. Qualquer coisa!


A mãe abanou a cabeça. − Parece que agora que Winifred está fora de casa e Miranda e Penelope se encontram no campo, não há convites. Beatrice sentiu um nó no estômago e precisou de todas as forças para não gritar. Então era isso. Por um momento, pensara que lhe restava mais um ano… talvez dois… antes de enfrentar os factos. Contudo, a realidade atacara-a de forma inesperada e terrível. Por fim, todo o seu censurável comportamento recebera a punição; ela quase tinha de confessar ser merecedora disso. Fora total e completamente desprezada pela sociedade. Tanto quanto sabia, a sua vida acabara.


Capítulo 3

B

eatrice alisou o vestido ao sair do camarote da ópera de Miranda e Ethan para se misturar na multidão que girava de um lado para o outro durante o intervalo. Alguns olharam-na de relance enquanto se mantinham em grupinhos isolados a conversar sobre tópicos mundanos, mas era visível que para a maioria ela deixara de existir. Uma onda de desespero invadiu-a ao sentir em pleno as consequências do que tinha feito ao longo dos anos, mas empurrou-a para o mais fundo de si. Sobretudo naquele momento não havia espaço na sua vida para uma tal fraqueza. Encontrava-se ali com um objetivo e tencionava concluí-lo. Depois de se ver livre da mãe. − Mamã, aquela não é Lady Briarwood? − sussurrou. A mãe ergueu-se em bicos dos pés a fim de espreitar por cima da multidão e os olhos brilharam-lhe. − É! Gostava de cumprimentar a minha velha amiga. Beatrice inclinou a cabeça e sentiu pena. Por vezes, naqueles ínfimos momentos, divisava a mãe sem as cortinas da sua própria frustração, e Dorthea Albright oferecia, na realidade, uma imagem patética. A de uma mulher que perdera tudo, inclusive uma pequena parte da mente, e que sempre lutara desesperadamente para readquirir um pouco da sua juventude. Beatrice quase se condoeu, mesmo ao rezar para que um dia não se parecesse com a mulher que tinha na sua frente, ansiosa por recuperar o que perdera de todas as maneiras possíveis. − Porque não vai cumprimentá-la? − sugeriu num tom mais meigo. − Acho que estou a ver Amelia. Voltamos a encontrar-nos no camarote a seguir ao intervalo. A mãe já ia a acenar-lhe enquanto se dirigia a uma das poucas senhoras que ainda se esforçavam por tratá-la com gentileza. Beatrice emitiu um suspiro de alívio. Um obstáculo fora derrubado. E, visto que Amelia e a família não estavam na realidade presentes, isso significava que ficava livre, pelo menos durante um quarto de hora. Examinou com um olhar atento a multidão aglomerada à sua volta. O marquês de Highcroft encontrava-se algures na proximidade. Certificara-se que assim seria antes de suplicar à mãe que usasse o camarote do seu cunhado nessa noite. Agora, bastava encontrá-lo no meio de toda aquela gente. Não demorou muito, pois o homem destacava-se como uma espécie de anjo negro. Avistou-o à distância, encostado a uma coluna com um charuto apagado entre os dedos. Estava a observar firme e atentamente os que o rodeavam, como um gato em busca da


presa. E estava sozinho, o que tornava aquele momento perfeito para que se aproximasse. O coração pulsava-lhe no peito e o sangue aflorou-lhe às faces, provocando-lhe uma leve tontura ao encaminhar-se na sua direção. Parou à distância de um ou dois passos e ergueu o rosto. Dúvidas e interrogações invadiram-lhe a mente mas afastou-as com dificuldade. − Boa noite − cumprimentou, satisfeita por a voz soar com a arrogância habitual. Era inútil mostrar-se receosa diante daquele homem. O marquês arqueou uma sobrancelha negra quando baixou os olhos para ela, após o que se endireitou lentamente. − Boa noite. Nesse momento, Beatrice estremeceu um pouco. O que estava a fazer contrariava totalmente o protocolo. Nenhuma mulher abordava um homem desconhecido com tamanha ousadia. Não sabia muito bem o que deveria fazer a seguir. − Suponho que sabe quem eu sou − disse ele, quebrando o silêncio que ela ainda não preenchera. Beatrice assentiu com a cabeça. − Sim. É Gareth Berenger, o marquês de Highcroft. − E você é Beatrice Albright − retorquiu ele com uma leve inclinação de cabeça. Ela franziu o sobrolho. Com mil diabos! Acalentara a parca esperança de que ele a desconhecesse, permitindo-lhe revelar o seu problema com a reputação da maneira que escolhesse. Contudo, o marquês sabia o seu nome, o que significava que, provavelmente, ouvira tantas histórias a seu respeito como ela sobre ele. Mesmo assim prosseguiu, resolvida a não se desviar da rota traçada. − Parece que as nossas reputações nos precederam. Pela primeira vez, o esboço de um sorriso desenhou-se nos seus lábios carnudos e Beatrice fitou-o involuntariamente. O marquês era, de facto, um homem atraente e tinha uns lábios notoriamente sensuais. Uma imagem selvagem dele a beijá-la invadiu-lhe a mente e afastou-a com uma exclamação abafada. − Sente-se bem? − perguntou ele, dando um passo na sua direção. Beatrice teve vontade de recuar, de se afastar da escuridão e do calor que pareciam irradiar do seu corpo. Contudo, forçou-se a permanecer firme. Não se curvava diante de nenhum homem. Nem mesmo daquele. − Estou ótima, obrigada − retorquiu, arqueando uma sobrancelha. Aquele sorriso voltou a aflorar-lhe os lábios, mas agora semelhante ao de um lobo. − Assim parece. Beatrice pestanejou. Estaria a namoriscar? Deus do céu! Quase já não reconhecia isso, visto há tanto tempo ninguém a namoriscar.


Ou talvez estivesse a troçar dela. − Se me conhece, deve ter ouvido os boatos que correm a meu respeito − disse ela, indo direta à questão. O marquês arqueou o sobrolho. − É verdade e também deve conhecer a minha reputação. Beatrice assentiu com a cabeça. − As coisas que dizem a meu respeito são verdadeiras. O marquês soltou uma gargalhada, chamando a atenção de algumas pessoas que os rodeavam. Beatrice fulminou o grupo mais próximo com um olhar que os fez desviar novamente os rostos. − São mesmo, Miss Albright? − perguntou. − Tem a certeza de que deseja admiti-lo? − Por que razão não deveria fazê-lo? Sei o que sou. Sou difícil. Sou snobe. Sou… sou… − Uma cabra? − completou ele. Beatrice pestanejou ante o uso da palavra vulgar que sabia que era sussurrada nas suas costas. Era culpa dela que ele a tivesse pronunciado. Fora ousada, por que razão ele não o seria? − Talvez − anuiu, encolhendo os ombros. − Uma tal honestidade não se adequa a senhoras com o seu estatuto, minha querida − disse ele. − Ignoro se deva admirá-la ou acautelar-me com o seu custo. − Não há custo − apressou-se a responder, observando os lábios dele com um crescente fascínio. − Apenas espero que a minha honestidade inspire a sua. Compreenda, Lorde Highcroft, gostaria de saber se… Interrompeu-se. Como poderia fazer-se uma pergunta tão delicada? Agora que se encontrava na sua frente e ele era tão alto e estava tão concentrado nela, a prudência daquele comportamento parecia-lhe menos clara. − Está a perguntar-me se os boatos a meu respeito também são verdadeiros? − questionou ele. Beatrice assentiu com a cabeça, aliviada por ele ter dado voz ao que ela não conseguia verbalizar. − Correria perigo se não estivéssemos rodeados por essa multidão? O marquês aproximou-se mais até os corpos quase se tocarem. Ela conseguia sentirlhe o cheiro, um misto interessante de sândalo e tabaco e algo de quente e sedutor que não conseguia situar. Respirou-o e susteve o impulso de emitir um suspiro. − Talvez corresse, Miss Albright, embora não da maneira que possa imaginar. Gareth esboçou um sorriso que era selvagem e não amigável. O coração de Beatrice começou a bater com mais força enquanto a sombra dele se inclinava sobre ela, mas não conseguiu desviar os olhos nem afastar-se.


− Beatrice! Abanou a cabeça enquanto o seu nome trespassava a névoa que a envolvia. Virou-se na direção da voz e ficou surpreendida ao avistar o marido da sua irmã Penelope a atravessar a multidão e dirigindo-se a ela. O andar determinado e o esgar denotavam que Jeremy Vaughn, duque de Kilgrath, não estava satisfeito. Ele agarrou-lhe no braço e Beatrice virou-se para saber como reagiria Gareth àquela interrupção, mas verificou, admirada, que ele havia desaparecido. Voltou a centrar a atenção em Jeremy. − Larga-me imediatamente! − Nem pensar − sibilou ele enquanto a puxava ao longo do corredor até ao reposteiro diante do camarote de Miranda e de Ethan. − O que julgas que estavas a fazer? Beatrice pestanejou com um ar inocente. − Estava a desfrutar a ópera até alguém me maltratar como um bruto. Jeremy fechou os olhos e Beatrice achou que ele poderia ter murmurado uma praga entre dentes, antes de ripostar. − Com uma companhia daquelas, tiveste sorte em ser apenas maltratada. − Não sei a que te referes − mentiu ela. − Estavas com Gareth Berenger! Beatrice afastou-lhe a mão e cruzou os braços. − E supostamente devias estar no campo com as minhas irmãs, a tentar arranjar um marido para a perfeita e jovem Winifred e não aqui a espiar-me, à irmã que todos odeiam. Jeremy mostrou-se surpreendido com a intensidade da sua resposta. − Tive de terminar uns negócios em Londres antes de me juntar à festa − retorquiu. Fitou-a com uma expressão mais suave que ela reconheceu como sendo de pena e a fez recuar. − Beatrice… Ela cortou-lhe a palavra com um olhar fulminante. − Por favor, não finjas que te importas comigo. − Toda a gente se importa contigo − sussurrou ele, mas era óbvio que a sua paciência quase se esgotara. − Por amor de Deus! Sabes o que as pessoas dizem sobre o marquês. O que te levou a falares com ele sem uma dama de companhia? − Antes de mais, as pessoas fazem muitas afirmações falsas, Jeremy. Devias saber isso − retorquiu Beatrice. − E não estava sozinha com o marquês. Pelo menos, ainda não. Jeremy franziu o sobrolho, mas ela viu que lhe faltava resposta para os seus argumentos. − Podes ter razão quanto às pessoas fazerem afirmações falsas − disse finalmente. − Não tenho ideia do que Gareth Berenger é ou não, ou do que fez ou não. Contudo, sei


que seria prudente da tua parte manteres-te longe. Há muitas perguntas à volta dele que poderiam ter respostas muito perigosas. Beatrice virou as costas e afastou a cortina do camarote. − Bom. Resta-me muito pouca escolha, não é verdade? Winifred está sob protecção, mas eu tenho de me defender pelas minhas próprias mãos. Deitou-lhe um último olhar antes de entrar no camarote e fechar a cortina atrás dela. Gareth enterrou os calcanhares nos flancos da égua e incitou-a a um ritmo mais veloz. O vento agitava-lhe os cabelos enquanto seguiam por um caminho sinuoso ao longo de Hyde Park e pela primeira vez desde que regressara a Londres sentiu-se livre. Um passeio a cavalo fora sempre uma boa forma de solucionar os seus problemas, onde quer que estivesse ou fossem eles quais fossem. Contudo, nesse dia, um pensamento não lhe saía da cabeça. Uma imagem de Beatrice Albright no momento antes de o seu cunhado os interromper, na ópera. Naquele breve instante, as suas muralhas de aço e veneno haviam caído por terra e ele divisara uma vulnerabilidade que apelara ao seu mais profundo e escuro ser. Beatrice podia ser domada. Ele tinha percebido. E domá-la seria de facto um prazer. Além da atração sexual que surpreendentemente sentira de imediato, também tinha ficado impressionado com a ousadia da jovem. Toda a gente sussurrava a seu respeito, mas só existia uma simulação de bravura em resguardar-se atrás de um leque e ficar-se pelas interrogações. Ninguém alguma vez tivera coragem de ir ao seu encontro e perguntar-lhe cara a cara se ele era um assassino. No entanto, uma megerazinha sem dama de companhia tinha-o feito. E se tremera, não se notara. Não, ela olhara-o bem de frente e desafiara-o, ao mesmo tempo que pronunciava as palavras sussurradas a respeito dela sem desculpas nem rubores. Aquele tipo de ousadia interessou-o a diversos níveis. Todavia, não mudava nada. Numa das primeiras noites após o seu regresso a Londres, a sua ex-amante Lady Wilkinshire convidara-o para o seu sarau, mas não se deixara iludir de que o fizera para o ajudar. Nada disso. Ela gostava de chocar e gostava de pavonear as suas ligações amorosas, como a que haviam partilhado brevemente antes de casar com Laurel. De qualquer maneira, aquela única comparência na sociedade não o havia beneficiado. Não recebera convites desde essa altura. Fora relegado para eventos públicos como a ópera da noite anterior ou o dilúvio diário de Hyde Park. Restava-lhe a escassa esperança de que alguém importante se interessasse por ele ou se apiedasse dele e o convidasse para uma festa. Não se tratava de uma situação a que estivesse habituado, a de esperar pela aprovação dos outros. Era um homem poderoso que não gostava de deixar o destino nas


caprichosas mãos alheias. Porém, perdera as opções, a reputação, perdera tudo a partir do momento em que Laurel fora parar ao fundo das escadas e a sua vida se apagara num momento horrível. Gareth puxou as rédeas da égua, amarrou-a a uma árvore próxima e percorreu a pé uma curta distância. Aqueles pensamentos, aquelas recordações da sua mulher mantinham-se tão perturbadoras como no dia em que tinham acontecido. Daria tudo para encontrar uma forma de esquecer. − Lorde Highcroft! Gareth parou quando uma voz feminina o chamou nas suas costas. Voltou-se e viu a mulher que lhe ocupara os pensamentos a puxar as rédeas do seu potro e a desmontar com graciosidade. Beatrice Albright estava vestida com um elegante fato de amazona que lhe demarcava a curva delicada dos seios, cingindo a estreita cintura. Tal como na primeira noite em que a vira, o azul da casaca condizia com os olhos, ressaltando a sua palidez nas faces coradas. Usava o cabelo preso sob um boné, mas algumas madeixas pendiam libertas, provocando-o com uma doce suavidade. − Miss Albright − conseguiu pronunciar, avançando na sua direção. − Parece que os nossos caminhos voltaram a cruzar-se, embora não possa dizer que me sinto infeliz ao vê-la. Beatrice arqueou uma sobrancelha e aquele olhar ousado repercutiu-se nas suas partes baixas. Ela não fazia provavelmente ideia do efeito produzido, o que tornava tudo melhor. − Bom. Antes de mais, tenho de confessar que hoje o segui, milorde − disse sem parecer envergonhada. − Fomos interrompidos na noite passada e desejo muito terminar a nossa conversa. Ele sorriu. − Miss Albright, devo admitir que é a mulher mais direta que conheci. É uma sensação agradável. Beatrice estreitou os olhos, quase como se tentasse determinar se ele estava ou não a troçar dela. Por fim, encolheu um dos ombros. − Infelizmente esse é o meu problema. Sabe, a maior parte dos homens não encara a minha franqueza como uma qualidade. Na verdade, desprezam a minha personalidade franca e impetuosa. E foi por isso que o segui hoje. − Para me dizer que a maioria dos homens não gosta de si? − retorquiu o marquês, cruzando os braços. Beatrice expeliu o ar com força. − Adora mostrar-se difícil, não é verdade? Mal pronunciou as palavras, empalideceu um pouco e fechou os olhos. Gareth


observou maravilhado como ela se acalmava e, quando voltou a fitá-lo, reconheceu a máscara que havia colocado. Sorria, mas sem vontade. Os cantos da boca suavizaramse, tornando-a muito menos interessante aos seus olhos. − Desculpe, mas por vezes a minha língua tem vontade própria. Gareth abafou um pequeno gemido. Imaginava facilmente o género de coisas que a sua língua poderia fazer, caso ela permitisse que o professor indicado a conduzisse. − Passa-se alguma coisa? − perguntou Beatrice, inclinando a cabeça num primeiro gesto de verdadeira preocupação que lhe havia detetado até então. − Acabou de produzir um som estranho. − Estava apenas a aclarar a garganta − mentiu. − Miss Albright, não há a mínima dúvida de que veio procurar-me hoje para discutir qualquer assunto comigo. Porque não o fazemos? Beatrice quase sucumbiu de alívio por não ser obrigada a manter a máscara afetada. Endireitou os ombros, fitou-o bem nos olhos e começou a falar. − Tem toda a razão, milorde. Apesar de termos chegado onde nos encontramos de formas muito diferentes, acredito que estamos os dois numa circunstância semelhante. − E qual é ela, minha querida? Beatrice premiu os lábios ante o termo afetuoso, mas prosseguiu: − Na noite passada, conversámos sobre o facto de ambos termos uma reputação que afasta a cidade de nós. Uma reputação que será difícil, se não mesmo impossível, de superar, e que, no entanto, desejamos que aconteça. Acredito que talvez deseje casar novamente, ou estou errada nessa suposição? Gareth encolheu os ombros. Desejar talvez fosse uma palavra forte, mas não havia necessidade de corrigi-la. − Sim, vim para Londres com a esperança de que poderia eventualmente encontrar uma noiva. Tenho a obrigação de fazê-lo. − E eu preciso de um marido por… bom, por uma série de razões. Respirou fundo e foi a primeira vez que Gareth detetou o seu nervosismo antes que ela acrescentasse: − É provável que nenhum de nós consiga alcançar os seus objetivos sozinho e, então, proponho que reúnamos forças. E se nos casássemos, milorde?


Capítulo 4

O

marquês de Highcroft não parecia ser o tipo de homem que se chocasse facilmente. Na verdade, antes do casamento e da morte prematura da mulher, Beatrice tinha algumas vagas recordações de que fora conhecido por chocar os outros. Por conseguinte, quando ele recuou, de olhos arregalados e boquiaberto, invadiu-a uma sensação de orgulho. Quer aceitasse ou não a sua proposta, decerto nunca a esqueceria. E isso parecia constituir realmente um êxito. − Está a pedir a minha a mão em casamento? − perguntou, decorridos uns longos segundos de silêncio. Beatrice rolou os olhos. − Julgo que se trate de algo do género, embora prefira chamar-lhe qualquer coisa muito menos idiota e romântica. Estou a fazer-lhe uma proposta de negócio. Após mais um respirar de silêncio chocado, o marquês abanou a cabeça. − Onde está a sua dama de companhia, minha querida? Beatrice reagiu com um pestanejar surpreendido. − Desculpe? Ele apontou em volta com um gesto brusco. − É óbvio que não se encontra em segurança ao andar por aí sozinha a fazer propostas de casamento a homens que apenas viu duas vezes. Beatrice estreitou os olhos. Nada lhe desagradava mais do que a arrogância de um homem incapaz de entender que ela tinha a sua própria mente e sabia usá-la perfeitamente. Mesmo assim, precisava de ser cuidadosa para não se descontrolar, pois essa reação já lhe causara problemas mais que uma vez. − Vim até ao parque com uma amiga e a mãe dela − esclareceu entre dentes. − Contudo, elas estavam distraídas e consegui escapar-me ao vê-lo. − Não acha que vão notar a sua ausência e começar a procurá-la? O que dirão quando nos encontrarem sozinhos? Beatrice cerrou o maxilar. − Para ser sincera, a mãe de Amelia ficará provavelmente feliz por se livrar de mim. − Ah, sim? − exclamou ele, arrastando a voz e cruzando os braços. − E por que razão? − Como lhe disse, não possuo perspetivas e tenho tendência a destruir as dos que me rodeiam − respondeu Beatrice com um longo suspiro. − Agora, por favor, falemos a sério e discutamos a minha proposta. O marquês abanou a cabeça e continuou a fitá-la como se ela fosse uma criatura de


outro planeta. − Ignoro como pode usar a palavra sério na frase que se refere a essa sua ridícula proposta. Beatrice sentiu-se invadida por uma onda de pânico, mas sufocou-a. − E porque não? Não pode negar que falo verdade. Ninguém quer casar consigo, milorde. Na verdade, constou-me que os membros da nossa esfera social nem sequer o desejam nas suas casas. As suas tentativas para reingressar na sociedade têm-se limitado a presenças em lugares públicos como a ópera na noite passada ou hoje, em Hyde Park. Estou errada? Verificou surpreendida que Highcroft apenas inclinou a cabeça num sinal de concordância. Não desviara o olhar, mas a sua expressão começara a passar de puro horror e surpresa para interesse. Beatrice agarrou-se ao pequeno lampejo de esperança que ela lhe concedeu e prosseguiu. − Como pensa que arranjará um par se ninguém lhe dirige a palavra sequer? − Encolheu os ombros. − Parece-me perfeitamente razoável que pondere virar-se para outra pessoa que também foi desprezada pela sociedade. − E essa pessoa é você? − perguntou ele. Beatrice assentiu com a cabeça, lutando para não corar de humilhação. − Sim. Acredite que não há mulher mais indesejada. Porém, ainda acredito que os dois podíamos beneficiar em muito de uma parceria. O marquês limitou-se a fitá-la quando ela se calou, a fim de lhe dar a palavra. Beatrice mexeu-se desconfortavelmente. − Não me assemelho a uma criada em busca de uma posição mais elevada − explicou. − O meu pai era um cavalheiro e os meus dois cunhados desfrutam de uma posição muito elevada. Verificou, aliviada, que ele assentia com a cabeça. − De facto, isso é verdade. A minha objeção não se deve à sua falta de linhagem, Miss Albright. Beatrice pestanejou. Ele não podia furtar-se. Precisava de encontrar uma maneira de impedir que recusasse. Fosse lá como fosse. − Qual é, nesse caso, a sua objeção? O marquês hesitou e em seguida uma leve risada saiu-lhe dos lábios. O som da mesma repercutiu-se-lhe na coluna e fez com que o corpo lhe tremesse de uma forma estranha e poderosa. Respirou fundo e tentou controlar-se. − Oponho-me porque não me parece que saiba realmente o que está a pedir, minha menina. O formigueiro que tentara suprimir desapareceu com toda aquela arrogância. Colocou as mãos nas ancas e fulminou-o com o olhar.


− Não me trate assim. Não faz ideia de quem sou, do que sei, ou do que vi − retorquiu enquanto a decisão de se manter calma a abandonava. − Você é mesmo um lorde típico e arrogante, não é verdade? Finge ser mais e oculta-se por trás dessa sombra misteriosa e sedutora, mas apenas se vê a si próprio. Acho que pode ser o maior… Não teve tempo de acabar a frase. Gareth agarrou-lhe no pulso, puxou-a de encontro ao peito e esmagou os lábios nos dela de uma maneira que nada tinha de suavidade ou persuasão. Não, ele devorou-a. Não foi exatamente o primeiro beijo que Beatrice tinha imaginado quando se permitia tais voos de fantasia. No entanto, a pressão esmagadora e punitiva nos seus lábios ateou um fogo no seu íntimo que atingiu rapidamente uma intensidade aterradora. Sentiu-se excitada e trémula em simultâneo, as pernas fraquejaram, doíam-lhe os mamilos e o sexo latejou. Mesmo na qualidade de jovem inocente com meras palavras sussurradas em salas de fundos sobre o que aconteceria quando um homem e uma mulher se uniam, sentiu a promessa no beijo dele. Quando ele lhe meteu a língua por entre os lábios e se lhe apoderou da boca, imaginou a forma como lhe violaria o corpo. Não seria meigo, mas dar-lhe-ia prazer. Forçaria o prazer dela e iria controlá-lo. O que era um pensamento assustador. De súbito, ele afastou-se, deixando-a a cambalear sem lhe oferecer qualquer ajuda cavalheiresca. Beatrice levou a mão aos lábios quentes e latejantes e fitou-o num silêncio atordoado. − E agora, continua a pensar que gostaria de casar comigo? − perguntou ele, arquejante. Beatrice fitou-o, um desapontamento a perturbá-la. Aparentemente, ele não a beijara por desejo, mas por uma espécie de tática para a fazer desistir do plano. − Isso destinava-se a assustar-me, milorde? – perguntou ela com uma gargalhada, esperando que soasse mais convincente do que se sentia. − Não o conseguiu. A minha proposta mantém-se. É homem bastante para aceitá-la e solucionar os nossos problemas? Gareth fitou-a durante um longo e intenso momento e em seguida desatou a rir. − Oh, sim, dominá-la seria um prazer. Beatrice inclinou a cabeça. Não estava muito segura de gostar daquela ideia de ser dominada, embora o tom que ele usara ao pronunciar as palavras a tivesse percorrido como uma faca em brasa. − Minha querida, talvez não saiba, mas a minha vil reputação não envolve apenas os boatos sobre a… − Interrompeu-se e abanou a cabeça. − Bom, não envolve apenas os boatos sobre a morte da minha mulher. Na verdade, antes de casar, antes mesmo de me tornar infame, era considerado pouco recomendável para várias famílias mais atentas.


Sabe porquê? Beatrice abanou a cabeça, momentaneamente sem fala devido à forma hipnotizante como ele avançava na sua direção. Como se ela fosse um rato indefeso e ele uma cobra. Nunca a haviam tratado assim. A maior parte dos homens eram idiotas que a rodeavam e se assustavam facilmente com a sua língua afiada. − Sabe, tenho algumas paixões… certas tendências no que se refere a mulheres. E aprendi por experiência que qualquer mulher que me chame de marido deve ser capaz de suportar essas coisas ou o nosso casamento será realmente muito infeliz. − Estendeu a mão e passou-lhe um dedo pela face. − Você é uma mulher resoluta, Beatrice. Talvez não goste do que acarreta casar e ir para a cama comigo. Ela estremeceu quando os dedos dele se aproximaram da sua garganta, percorrendo-a antes de chegar ao decote rendado do vestido e explorar logo abaixo da superfície. Ela sabia que devia afastar-se, mas não o fez. O toque dele assemelhava-se a um relâmpago líquido, cheio de uma energia explosiva que latejava com premência por todo o seu corpo. − O que está a dizer? − sussurrou, detestando a sua voz rouca, detestando o rubor que a invadiu e revelou o seu secreto prazer ante aquele gesto ousado e de mau gosto. − Jamais voltarei a ficar noivo de uma mulher que não participe nas minhas atividades − declarou com um arremedo de sorriso. − Portanto, se quer unir-se a mim, sugiro-lhe um teste. − Um… um teste? − repetiu ela estupidamente, continuando hipnotizada pelo seu toque quente. − Uma ligação − elucidou ele, assentindo com a cabeça. Beatrice recuou ao ser atingida pelo choque do que ele lhe sugeria. Fitou-o enquanto tentava mostrar indignação, repulsa, raiva… Contudo, nenhum desses sentimentos a invadiu. Na verdade, as reações que a dominaram não foram o que tinha esperado e fizeram-na corar. Interesse. Excitação. E, pior do que tudo, desejo. Se outras mulheres e as suas famílias se haviam furtado aos apetites sexuais do marquês, eles deveriam ser de facto terríveis e todavia ela não conseguia coibir-se de querer saber mais. De experimentar algum tipo de paixão. Passara tanto tempo desde que um homem demonstrara qualquer interesse por ela que quase se tinha esquecido de como era um olhar escaldante. Essa recordação voltara de imediato quando Gareth a beijou. Naquele momento acalorado tinha-se sentido desejada, apetecível… e possuída de uma forma que não esperava. − Uma ligação − sussurrou. − Compreenderei se recusar − disse ele com um encolher de ombros. − Afinal, não se


trata de um acordo que a maior parte das mulheres com o seu estatuto se dispusesse a aceitar e com muito boas razões. Beatrice estreitou os olhos ao divisar o tédio da postura dele e em simultâneo a expectativa no seu olhar. Gareth achava que a sua sugestão a assustaria e impediria de seguir o único rumo que lhe restava. Era evidente que não compreendia as suas necessidades. Ela tinha de casar a qualquer custo. Não podia dar-se ao luxo de recusar aquela oportunidade, mas poderia negociar condições. − Não tenho medo de si, independentemente de como tente manipular-me − retorquiu, aproximando-se mais, embora o corpo trémulo lhe gritasse que fugisse para longe e depressa. − Agora, responda-me, sir, a sua proposta é genuína ou está apenas a tentar desmoralizar-me? − Acredite, minha querida, que só peço a alguém que seja minha amante caso o pretenda − disse, inclinando-se. Uma onda de alívio invadiu-a mas ela logo a abafou. Não podia aceitar pura e simplesmente a sua surpreendente proposta sem aprofundar mais os pormenores. − Quero ter a certeza de que o entendo − declarou, cruzando os braços. O gesto levou o marquês a baixar os olhos para os seus seios e Beatrice estremeceu ao vê-lo esboçar um sorriso selvagem. Estava a devorá-la… e ela gostava. − Prossiga − convidou ele, arqueando uma sobrancelha. − Qual é a sua dúvida? Beatrice ignorou a sua sensação de desconforto. − Afirmou que, se me envolvesse consigo e achasse que eu seria capaz de aguentar o… estilo de vida que aparentemente leva, casaria comigo? O marquês assentiu com a cabeça. − Sim. Se nos déssemos bem na cama, pode acreditar que um casamento entre os dois resolveria os nossos problemas. Uma alegria silenciosa invadiu-a. Estava tão próxima do seu objetivo que não havia forma de recuar. − E quanto tempo espera que tenha um caso consigo antes de cumprir a sua promessa de casar comigo? Gareth inclinou a cabeça como se a examinasse mais atentamente. − Julgo que ambos saberíamos dentro de quinze dias se éramos compatíveis. Caso chegássemos a acordo, poderíamos casar alguns dias depois desse prazo. Beatrice esboçou um aceno de concordância. Tendo em conta o tempo de viagem e as contingências inesperadas, poderia estar casada dali a um mês, a confiar nas palavras dele. A proposta era apelativa e precisava apenas de um pouco de fé da sua parte. No entanto, essa era a parte mais difícil. A fé era tão fácil de esmagar, como ela tão bem sabia.


Beatrice fitou-o com um olhar penetrante e disse: − A minha única preocupação reside no que acontecerá se voltar atrás com a sua promessa. Acho que consigo suportar tudo o que me pedir, mas, se mudar de opinião no final da ligação? Se me usar, se se apoderar da minha virtude e depois recusar casar comigo? Gareth recuou e fitou-a com um olhar de genuína ofensa. − Isso seria o cúmulo da desonra, Miss Albright. Posso ser muitas coisas, mas nunca um canalha. − Tenho a certeza de que um canalha nunca se assumiu como tal − ripostou ela num tom sarcástico. − Pode passar o dia a dar-me a sua palavra de honra que não muda o facto de que, na nossa actual posição, o senhor detém todo o poder e eu corro todos os riscos. Gareth fitou-a durante um longo e escaldante momento, como se as palavras dela tivessem produzido qualquer imagem que lhe agradava e o excitava. Beatrice viu-se presa ao seu olhar, cativa da atenção que lhe despertava. A sua capacidade de a dominar era algo que a jovem mulher nunca experimentara e, verdade fosse dita, assustava-a um pouco. No entanto, que alternativa lhe restava? − Suponho que tem razão ao afirmar que arrisca as maiores consequências − concordou ele por fim quando o silêncio parecera alongar-se eternamente. − Se contribuir para que se sinta melhor, posso firmar um contrato entre nós. Algo que lhe proporcione uma vida mais do que confortável caso volte atrás com a minha palavra. De uma forma ou de outra, quando acabássemos teria a sua independência quer pelo seu casamento comigo ou através de um acordo financeiro. Beatrice premiu os lábios enquanto ponderava detalhadamente a proposta de Gareth. Em primeiro lugar, avaliou a sua situação. O que quer que fizesse, era altamente improvável que a sociedade mudasse de opinião a seu respeito. A falta de convites nessa semana constituía apenas o primeiro passo na descida para se tornar uma solteirona. Bem podia sorrir, mostrar-se afetada ou fingir-se inocente, tudo o que quisesse, mas muitos já haviam divisado a sua verdadeira personalidade. Os homens que não a conheciam seriam avisados e as mulheres desfrutariam a sua queda visto que as rebaixara ao longo dos anos. Devido ao seu comportamento, todas as vantagens que adquirira com os bons casamentos das irmãs ou o respeito do nome do pai há muito que tinham desaparecido. A sua virgindade nem sequer estava em causa, dado que nenhum homem conseguia ver para lá da sua censurável conduta e da sua mãe dominadora. Uma vez que nem a castidade poderia ajudá-la, por que razão não usar o corpo de uma forma diferente para obter a sua liberdade? Isso não significava que entregasse a


sua alma ou o coração. O seu corpo tornar-se-ia um objeto e, por fim, conseguiria o que mais desejava. Não valeria o sacrifício, especialmente tendo em consideração a alternativa? − Se elaborar um acordo desses por escrito, talvez considere o seu pedido − acedeu finalmente, escondendo as mãos trémulas por trás das costas. − E se fizer todos os esforços para defender a reputação que possa restar-me. Gareth recuou. − Surpreende-me, Miss Albright. Confesso que julguei que estava a fazer bluff. − Bom, é porque não me conhece, milorde − retorquiu Beatrice, estreitando os olhos. − Todavia, parece que em breve a conhecerei intimamente − disse ele com um sorriso. Quando Gareth soltou uma gargalhada, a pele de Beatrice arrepiou-se e uma onda de calor invadiu-a, mas ela não respondeu. Negar-lhe-ia essa satisfação. O marquês arqueou uma sobrancelha. − A fazermos esse acordo, teria de se realizar na minha propriedade, que fica a meio dia de viagem, a oeste de Londres. Garanto-lhe que é bastante isolada apesar da sua proximidade da cidade e o meu pessoal é da máxima confiança. Ninguém precisaria de saber o que fizemos juntos, desde que consiga escapar à sua mãe e encontrar uma forma de viajar sem companhia. Beatrice esboçou um trejeito. Tratava-se da única eventualidade que não tomara em consideração. Escapar à mãe não seria uma tarefa fácil. Beatrice poderia inventar um convite de Amelia para ir até ao campo, mas a mãe não suportava ser excluída de nada. Insistiria em ir também e estragaria tudo. A menos que… − Poderia precisar da sua ajuda para afastar a minha mãe da equação − disse Beatrice com um súbito sorriso. − Acha que conseguiria ajudar-me a enviar uma carta pelo correio como se fosse de outro lugar? − Penso que seria possível − respondeu Gareth, assentindo com a cabeça. − Isso ajudaria a resolver a situação? − Se escrever a carta adequada, ela abandonar-me-á facilmente − respondeu ao mesmo tempo que o sorriso se desvanecia. − Sabe, milorde, conheço exatamente como a minha família funciona. Apenas preciso de manipular o desejo da minha mãe de vir a ser importante. Gareth esboçou um aceno de concordância depois de ponderar por um momento. − Então, parece que chegámos a um acordo. Beatrice engoliu em seco, tomando pela primeira vez consciência do que havia firmado. − Sim, parece que chegámos.


Estendeu a mão para fechar o acordo, mas em vez de corresponder, ele puxou-a de encontro a si. Beatrice sentiu-lhe a respiração quente na pele e a mão dele era pesada ao deslizar-lhe pelas costas, parando mesmo acima do traseiro da forma mais inadequada e excitante. Moldou o seu corpo ao dela e a jovem sentiu a dura ereção de encontro ao ventre quando ele baixou os olhos na sua direção. − Devemos beijar-nos, Miss Albright. É a melhor maneira de selar um acordo dessa natureza. Beatrice engoliu em seco. Da primeira vez que ele a beijara, não tivera espaço nem tempo para ponderar no que aconteceria. Nesse momento, ele moveu a boca ao encontro da dela com uma excitante lentidão e mal conseguia respirar à espera da união. Contudo, ele não lhe beijou os lábios. Em vez disso, a boca pousou na curva do pescoço e a língua titilou o latejar da pulsação. Beatrice verificou, surpresa, que arqueava o corpo ao seu encontro ao mesmo tempo que ele lhe chupava a pele suave. Estranhas e fortes sensações invadiram-na, provocando-lhe um tremor nas pernas à medida que a boca dele deslizava até mais abaixo. Por fim, ele afastou-se. − Anseio por fazer isso novamente quando tiver menos roupa − disse virando as costas com um leve sorriso. − Falarei brevemente consigo, Miss Albright. E anseio com grande expectativa por vê-la em minha casa. E na minha cama. Com aquelas palavras de despedida foi-se embora, montando novamente a cavalo e descendo o caminho para longe dela. Beatrice ficou a observá-lo, de olhos arregalados e o corpo latejando de novas e aterradoras maneiras que não entendia. Apenas sabia que gostava do que sentia. E nos lugares mais secretos do seu coração, da sua mente e do seu corpo, mal podia aguardar para explorar mais sensualidade com o marquês de Highcroft. E também para apaziguar a sua curiosidade sobre as «tendências» que ele insinuara possuir. Aquelas que a excitavam tanto como assustavam.


Capítulo 5

D

epois de o acordo ter sido firmado, Beatrice ficou chocada pela rapidez com que o marquês agiu para cumprir a parte que lhe incumbia. Passado um dia, Beatrice escrevera uma carta a convidar a mãe para se juntar às suas irmãs na festa em casa de Penelope. Fosse como fosse, Gareth conseguiu uma maneira de enviá-la pelo correio para que parecesse ter vindo da casa de campo do seu cunhado, o duque de Kilgrath. Com uma perfeita sincronização, Beatrice informara a mãe que tinha sido convidada a juntar-se à família de Amelia, no campo. Ao ser confrontada por uma escolha entre intrometer-se na vida amorosa falhada de Beatrice ou conviver com condes, duques e gente importante, a mãe não hesitara. Era óbvio que, quando Dorthea aparecesse sem aviso prévio na casa da filha, surgiria uma enorme desconfiança, mas nessa altura seria demasiado tarde. Caso as irmãs se dessem ao trabalho de investigar, era muito pouco provável que a encontrassem. Beatrice tivera o cuidado de não partilhar os seus planos e, portanto, ninguém atraiçoaria a sua confiança, caso a família investigasse. Por conseguinte, Beatrice encontrava-se nesse momento numa carruagem com uma dama de companhia muito calada que Gareth mandara ir buscá-la. Beatrice ignorava o que a criada pensava a seu respeito, pois a jovem manteve-se reservada, mal pronunciando uma palavra durante o meio dia de viagem que as separava de Londres. De certa forma, o silêncio da acompanhante frustrava Beatrice. Pelo menos, se a outra mulher falasse, a mente de Beatrice não deslizaria para o acordo com o diabo que, possivelmente, fizera, nem para a perigosa situação que estava prestes a viver. No fundo, por muito que tentasse ignorar e esquecer o facto, Gareth Berenger estava acusado de envolvimento na morte da primeira mulher. Quando Beatrice falara com ele, tivera dificuldade em acreditar que isso fosse verdade, mas nada lhe provava a sua inocência. Mal se encontrassem a sós, ele podia fazer-lhe o que lhe apetecesse e já havia insinuado possuir desejos sexuais depravados. Quando a carruagem abrandou, Beatrice estremeceu e não o fez com total desagrado. − Estão a abrir os portões, miss − informou a criada sem erguer os olhos do livro. − Devemos chegar à mansão em menos de um quarto de hora. Beatrice fitou a sua companhia. − Afinal, parece que consegue falar. Que alívio! A criada ergueu momentaneamente os olhos, mas depois voltou a concentrar-se no livro sem dar resposta. Beatrice necessitou de todo o seu autodomínio para não lhe atirar qualquer coisa.


Fechou os olhos durante o resto da viagem e verificou que a carruagem parava depois do que lhe pareceu um tempo interminável. A porta abriu-se e uma mão estendeu-se para ajudá-la a sair. Quando a aceitou e desceu, ficou surpreendida ao ver que era Gareth a recebê-la e não um criado. − O… olá − balbuciou, quando pisou o chão e o fitou. Era mesmo ele em carne e osso. Sempre fora tão alto? − Boa tarde, Beatrice − cumprimentou meigamente enquanto a levava para que os criados começassem a descarregar a sua bagagem. Mal se deu conta das pessoas que se movimentavam de um lado para o outro à volta deles. Só conseguia pensar que Gareth não lhe largava a mão. − Vai dizer alguma coisa? − perguntou ele com uma sobrancelha arqueada e claramente divertido. Beatrice largou-lhe a mão, corando ao perceber que ficara a olhá-lo como uma adolescente idiota. − Podia ter mandado uma criada mais apática para me fazer companhia? − inquiriu enquanto descalçava as luvas e entrava na casa sem esperar pelo convite. − Ela mal pronunciou quatro palavras durante toda a viagem. Senti um tédio de morte. − Talvez devesse ter trazido um livro. Beatrice sobressaltou-se. Gareth estava mesmo ao seu lado, embora não tivesse ouvido nem sentido a sua presença. Virou-se para ele. − Talvez. Agora, por favor, mande alguém conduzir-me ao meu quarto. Estou cansada e quero refrescar-me. Gareth fitou-a e soltou uma risada baixa e perigosa. − Não, não, Beatrice. Não será assim. Ela recuou, mas ele avançou e encostou-a à parede. − O que quer dizer? − retorquiu, ofegante. − Nós fechámos um acordo, minha querida. É minha durante quinze dias. E, se pensa que vai passá-los a ditar-me ordens, ficará muito desiludida. − O que significa «sou sua»? − inquiriu Beatrice com o coração acelerado. − Nunca concordei com um disparate desses. − Concordou sim, minha querida − ripostou Gareth, colocando uma mão de cada lado da sua cabeça. Ela sentia a sua respiração quente na pele e odiou-se pelo prazer que lhe dava. − Sabe, disse que aguentaria as minhas tendências, fossem elas quais fossem. A ser verdade, quando estas duas semanas chegarem ao fim, dobrar-se-á à minha vontade sempre que eu o exigir. Será a minha dedicada escrava sexual, Beatrice, e agradecerme-á por isso. Gareth nunca se servira de termos tão descarados para descrever o que pretendia na


cama. Com as mulheres a quem pagava, não eram necessárias explicações. As prostitutas tinham uma visão muito mais ampla de sexo. Ainda assim, esses encontros nunca haviam sido muito gratificantes, pois não implicavam uma verdadeira rendição. Essas mulheres faziam o que faziam sem rodeios, não pelo puro gozo da submissão. Por conseguinte, ele casara com a esperança de poder convencer Laurel a submeterse. Quando lhe descrevera as suas fantasias e desejos, tinha sido meigo, mau grado o final. Porém, com Beatrice isso não resultaria. Para conseguir o seu corpo, precisava de ser bem claro quanto ao que lhe faria. E maravilhou-se pela forma como os seus olhos se arregalaram e o lábio inferior lhe tremeu enquanto tentava fulminá-lo com um misto de repugnância e desdém. A sua ansiedade encobria um inegável interesse e desejo. − Nunca serei assim tão tola, garanto-lhe − cuspiu ela. − Nesse caso, receio que não nos entendamos na perfeição, minha querida − retorquiu ele, apelando ao único receio a que sabia que ela se submeteria. Afinal, ela fechara aquele negócio e as suas necessidades eram prementes. Beatrice encolheu-se, como ele sabia que faria. Durante um longo momento, pareceu ponderar nas palavras dele e em seguida assentiu com a cabeça. − Muito bem, Gareth − anuiu, cerrando os dentes. − Indique o caminho. − Sem dúvida que o farei − quase ronronou, antes de lhe pegar na mão e a enfiar no braço. Beatrice ficou rígida ante o seu toque com o desejo natural de resistir, de argumentar uma última vez. Contudo, quando ele a conduziu para a escada, não resistiu. Embora Gareth não pudesse descrevê-la como mansa ao segui-lo, era sem dúvida uma gatinha de unhas retraídas. Interrogou-se sobre quanto tempo aquela atitude duraria. A pergunta só permaneceu na sua mente por breves momentos, pois quando abriu a porta do seu quarto e lhe indicou que entrasse com um movimento de cabeça, a sua breve concordância terminou. − Este é… − Interrompeu-se ao examinar o quarto escuro e muito masculino. Ele perguntou-se se ela saberia que os seus olhos azuis eram tão inacreditavelmente grandes. − Este é o seu quarto? Gareth assentiu com a cabeça enquanto fechava a porta atrás dele. Beatrice abanou a cabeça ao fixar o olhar no monte de malas que os criados já haviam eficientemente colocado no canto para serem desfeitas mais tarde. − Mas essas são as minhas coisas! − Pois são. Beatrice virou-se para ele, cruzando os braços sob os seios enquanto o trespassava com um olhar irritado e penetrante.


− Onde é o meu quarto? − Vai partilhar este comigo − disse ele num tom meigo. − Quero aceder a si, sempre que o desejar. Como o desejar. − Não − retorquiu ela, abanando a cabeça. − Prometeu que defenderia a minha reputação, prometeu-me… − Não seja idiota, minha querida − ripostou Gareth, aproximando-se dela. − Todo o meu pessoal está ciente de que a única razão por que uma senhora viria sem acompanhante para ficar aqui seria para foder na minha cama. Beatrice pestanejou ante a palavra vulgar, mas não desviou o rosto. Céus, como ele adorava o fogo que lhe ardia no olhar! − É inútil fingir ao conceder-lhe um outro quarto que vou atacá-la todas as noites ou arrancá-la ao sono. Ficará comigo, fará o que me agradar e os meus criados desviarão educadamente os olhos e ficarão calados. A sua reputação é algo que destruiu à sua maneira. Contudo, garanto-lhe que esta estada não lhe causará maiores danos. Beatrice manteve-se silenciosa durante um longo momento e Gareth detetou aquele brilho de luta que jamais lhe abandonava o olhar. A luta entre a sua natureza cáustica e o que pensava que deveria fazer para levá-lo a casar com ela. Porém, era dona de uma personalidade forte que daquela vez levou a melhor. Gareth sorriu quando ela avançou, com um dedo apontado na sua direção como uma minúscula espada. − Como se atreve a falar-me de reputação? Sou a única a arriscar algo neste maldito acordo e o que tenho a ganhar é muito pouco, tomando em consideração o que vou entregar antes de terminar. Não acha que deveria ter alguma palavra a dizer sobre o que me acontecerá? Alguma… O marquês rodeou-lhe a cintura com uma das mãos e atraiu-a de encontro ao corpo. O gesto selou-lhe os lábios e Beatrice limitou-se a fitá-lo com um misto de receio e de desejo. Ele sentiu um grande gozo ao aperceber-se da segunda emoção. − Prometo-lhe, Beatrice, que o que receberá lhe dará prazer − murmurou. Ela estremeceu quando ele lhe colou os lábios ao pescoço, mas ainda balbuciou: − Eu… eu duvido. Disse que faria isto pelo resultado final. Não se convença de que terei prazer. − Você é uma pequena mentirosa − retorquiu Gareth com uma gargalhada enquanto procurava o primeiro botão das costas do vestido de seda de Beatrice. Desabotoou-o e ela soltou uma exclamação abafada. − Não sou nada − sussurrou. − Claro que é. − Desapertou mais um botão devagar, mas sem deixar de olhá-la fixamente. − Pode dizer que não pretende desfrutar de tudo o que desejo fazer consigo, o que desejo fazer-lhe… mas quando a beijei em Hyde Park reagiu com uma paixão que


foi ensinada a reprimir. Então, Miss Albright, deixe-se de jogos comigo. Há uma parte de si que vibra com a ideia de experimentar um prazer devasso e perverso. Uma parte de si que arde ao imaginar o que farei com o seu corpo. Libertou mais três botões em rápida sucessão e o vestido dela começou a descair em redor do pescoço cavado, proporcionando-lhe uma encantadora visão da curva do rego dos seios. − Confesse − sussurrou ele. Beatrice abanou a cabeça. − Não confesso coisa nenhuma. Gareth sorriu e inclinou a cabeça, fazendo deslizar a língua por entre os seios dela. Beatrice susteve a respiração e arqueou impotente o corpo contra o dele. − Confessa, sim − murmurou ele. − Admite tudo com as reações do seu corpo. Dirme-á o mesmo por palavras mais tarde. O marquês puxou o vestido que descaiu. Beatrice sentiu o fluxo de sangue nas faces e odiou a reação emotiva. Não queria parecer enfraquecida diante daquele homem, mas era exatamente assim que se sentia. Enfraquecida pelo desejo que ele via claramente, mas também enfraquecida pelo medo que esperava poder ocultar dele. Aquela ideia parecera excelente quando se resumia a teoria, mas agora… agora o vestido descaía-lhe pelas ancas, agora Gareth fitava-lhe declaradamente o corpo e ela vivia mesmo aquele instante. E quando terminassem não haveria retorno para ela. − Você é linda − disse meigamente Gareth quando o vestido de Beatrice atingiu o chão, deixando-a apenas com a fina combinação, meias e sapatos. O rubor voltou a subir-lhe ao rosto, mas dessa vez tratava-se de excitação e sentiu-se descontrair. Há tanto tempo que ninguém lhe gabava a beleza que mal conseguia lembrar-se. − Não há nada a recear − disse ele num tom ainda mais suave, ao mesmo tempo que a envolvia na quente escuridão do seu abraço. Sentiu que ele a fazia recuar lentamente até as costas tocarem na beira da sua cama. Sobressaltou-se ante o contacto, mas os braços fortes e masculinos não lhe permitiram que se escapasse. − Desta primeira vez, não haverá jogos, nem testes − disse ele num tom extremamente reconfortante no quarto, onde, além das palavras, reinava o silêncio. Por um momento, Beatrice sentiu dificuldade em respirar quando a realidade voltou a atingi-la. Porém, dessa vez, com os braços de Gareth a agarrá-la com força, os seios esmagados contra o seu corpo, as pernas entrelaçadas nas dele e a cama contra as suas costas… a realidade não era arrepiante. Fechou os olhos e assentiu com a cabeça.


− Obri… obrigada − sussurrou. A palavra soou estranhamente aos seus ouvidos, pois raramente a pronunciava, mas adequava-se à situação. Afinal, ele podia fazer o que lhe apetecesse, mas estava a prometer-lhe suavidade e atenção. O mínimo que lhe devia era um agradecimento enquanto suportava o que estava para vir. − Olha para mim. Tratava-se de uma ordem, o que normalmente irritava Beatrice, mas viu-se a obedecer. Abriu os olhos e ficou a ver Gareth a despir lentamente o casaco. Desapertou o nó da gravata e em seguida soltou a camisa para fora das calças. Beatrice susteve a respiração quando ele a desabotoou e tirou por cima da cabeça, ficando nu da cintura para cima. Deus do céu! Que espetáculo! A sua pele morena parecia quente, retesada sobre os músculos lisos. Tinha uma leve camada de pelos, que se prolongavam até ao cós das calças que nesse momento desabotoava. − Nunca viste um homem assim − comentou ele. Beatrice desviou os olhos da visão chocante da braguilha aberta das calças e fitou-o. − Não − admitiu ela. − Nem um criado? Um familiar? Nem mesmo uma fotografia? − inquiriu Gareth. Beatrice abanou a cabeça. − Nada. Nunca. Gareth sorriu enquanto tirava as calças e se expunha diante dela em toda a sua nudez. − E o que achas? Beatrice engoliu em seco e baixou novamente o olhar. Ouvira falar do… instrumento de um homem… do seu pénis, ouvira as irmãs casadas a rirem uma vez a esse respeito. Tentara imaginá-lo, mas nunca se assemelhara àquilo nos seus devaneios. Era grosso e a largura daquele membro inchado devia aproximar-se de três dos seus dedos juntos. Quanto ao comprimento também constituíra uma surpresa. − Vai enfiar isso em mim? − perguntou, tentando imaginar a cena. Nunca vira um homem nu, mas era óbvio que se tinha tocado. Com um dedo dentro da sua abertura já se sentia cheia. Antes de Gareth lhe responder, ela verificou como o membro dele se transformava. − Está a mover-se − sussurrou. − És mesmo inocente − murmurou ele, aparentemente mais para si do que para ela. − À medida que fico mais excitado, o meu membro aumenta e fica mais rijo. Quando estiver completamente ereto, enfio-o dentro de ti. Se tiver desempenhado bem o trabalho, o teu corpo estará quente e escorregadio, pronto para se esticar e me receber. Beatrice ergueu os olhos e as palavras dele provocaram-lhe um arrepio que não conseguiu reprimir.


− Já está completamente ereto? − perguntou ela com mais um rubor indesejado. Depois de fitá-la um longo momento sem desviar o olhar, Gareth estendeu o braço e agarrou-lhe na mão. Atraiu-a mais a si enquanto lhe fechava os dedos à volta do sexo. Beatrice arquejou devido à suavidade da pele por comparação à rigidez do músculo subjacente. − Acaricia-me − disse ele com a voz tensa. Beatrice ergueu o rosto, de olhos muito abertos. Contudo, não recuou embora ele lhe estivesse a dar ordens novamente. Em vez disso, pôs-se a movimentar a mão para cima e para baixo a todo o comprimento, demasiado fascinada pelo que sentia para deixar de explorar a sua curiosidade. − Sentes como fico mais duro com o teu toque? − perguntou Gareth, descendo os lábios até um pouco abaixo da sua orelha. Beatrice estremeceu enquanto ele lambia a pele delicada naquele sítio. − Sim − conseguiu articular. − Sinto. − Estou quase pronto para te encher − gemeu ele num tom rouco. − Todavia, duvido que estejas pronta para me receber − acrescentou ao mesmo tempo que, com um empurrão inesperado, a atirava para cima dos lençóis. − Portanto, tenho algum trabalho a fazer. Beatrice sentou-se apoiada nos cotovelos, meio assustada com as suas palavras e meio excitada. Nunca se sentira tão trémula e ansiosa, tão nervosa e agitada em simultâneo. Gareth inclinou-se sobre o seu corpo e ela soltou uma exclamação abafada quando ele lhe prendeu o tornozelo. Os seus dedos longos e finos ergueram-lhe o pé e descalçaram-no. Repetiu o gesto com o outro pé e atirou os sapatos para o lado. Abriulhe um pouco as pernas, o que lhe permitiu ficar de pé junto à cama entre eles. Beatrice arquejou enquanto a respiração quente lhe inundava a pele nua, explorando sob a sua combinação até às zonas mais privadas, intensificando o estranho latejar doloroso nesse lugar. − És uma provocadora e não sabes − riu ele. Beatrice seguiu-lhe o olhar e corou ao ver que ele fitava o sítio onde a combinação tinha escorregado entre as coxas apartadas e a cobria apenas em parte. Não conseguiu pensar em replicar, não conseguiu pensar em nada exceto no toque dos dedos dele enquanto os fazia deslizar pelas suas pernas. Demoraram-se nos joelhos e acariciaram as coxas até encontrar o cimo das meias. Enrolou-as, uma de cada vez. Os dedos deslizaram pela carne desnuda e arrepiada enquanto as puxava para baixo e se desfazia delas. Juntou-se-lhe na cama, pondo-se de joelhos e afastando-lhe ainda mais as pernas com o corpo largo.


Beatrice sentiu-se invadida por duas reacções. Uma era a de fugir antes que fosse demasiado tarde para recuar. A outra consistia em ficar e puxá-lo para ela. Envolver-se no seu calor, encher-se dele. Não optou por nenhuma e limitou-se a manter-se deitada e indefesa enquanto deixava que as mãos dele a acariciassem novamente. Dessa vez, as palmas das suas mãos pousaram nas suas coxas nuas. Arqueou as costas enquanto um gozo enorme a invadia devido às chocantes carícias. O latejar entre as suas pernas aumentou de intensidade e sentiu a mesma humidade que afluía àquele sítio quando se acariciava. As mãos de Gareth subiram até chegarem à bainha inferior da combinação. Fitou-a e puxou a peça de roupa íntima por cima das ancas, desnudando-a da cintura para baixo. − Espere − pediu ela, agarrando-lhe nos pulsos e empurrando-os suavemente ao mesmo tempo que toda aquela sensação e emoção a invadiam. − Vais mudar de opinião? − murmurou ele enquanto se instalava mais para baixo. Tinha a cabeça sobre o seu ventre, os olhos pregados nos dela e o corpo entre as suas coxas. Beatrice hesitou. Iria? − Eu… eu não sei − confessou finalmente. − Isto é tudo tão estranho. − Deixa-te ir − sussurrou ele e deslizou a cabeça mais para baixo. − Deixa-te ir, Beatrice. Sem lhe dar tempo para pensar, e muito menos para responder, as mãos de Gareth moveram-se para o interior das coxas dela, apartando-as e abrindo os lábios exteriores das suas partes mais íntimas. Ela ficou exposta quando a cabeça dele mergulhou naquele sítio e apenas deixou escapar um grito ante o toque dos seus lábios. − O quê? − exclamou enquanto os cotovelos cediam e ela caía sobre o colchão. − Gareth? Ele não respondeu, limitando-se a premir a língua de encontro à sua carne quente e húmida. De início, apenas lambeu a entrada, levando-a a recordar a segunda vez que a tinha beijado no parque. Entreabrira-lhe os lábios com uma tal inesperada delicadeza e suavidade. Nesse momento, fazia o mesmo com os seus lábios inferiores. E, tal como acontecera no parque, rendeu-se à sensação. Quando relaxou, pareceu dar-lhe a deixa, visto que ele aumentou a intensidade das lambidelas. Encostou a língua completamente à sua carne, a pressão dos lábios tornouse mais insistente e focada, como se estivesse decidido a limpar cada gota do seu suco e substituí-lo pelo dele. E foi fantástico. Se a abertura já latejara e ansiara até então, nesse momento ele despertou-lhe ainda mais os nervos e a carne. Nada do que Beatrice fizera sozinha na quietude do quarto podia comparar-se àquele toque. Àquele toque totalmente perverso. Gareth uniu os dedos, apartando-a, traçando a sua entrada com uma lentidão


cativante. Por fim, com um movimento do pulso descobriu aquele sítio que ela sempre esfregava, aquela perolazinha dura e suave do seu gozo que se ocultava por entre as pregas. Enquanto a sua língua invadia e lhe dava prazer na abertura, esfregava aquela pérola escondida com o indicador e o polegar com mais intensidade do que ela alguma vez tinha sentido. As coxas de Beatrice começaram a arquear-se ao ritmo do seu gozo, ela deixou escapar gemidos e, por fim, com uma explosão de humidade e tremor, o prazer dominou-a e ela perdeu todo o controlo. Quando as sensações avassaladoras desapareceram, Beatrice ignorava se tinham passado momentos ou horas. Apenas conseguiu ficar deitada, ofegante, sentindo o pulsar do coração e as derradeiras contorções do corpo devido ao gozo que experimentara. Olhou para baixo e avistou Gareth lambendo os lábios enquanto subia na sua direção. Ele beijou-a ao estender-se em cima dela, dando-lhe a provar um gosto a terra e a sal nos lábios. Sobressaltada, Beatrice percebeu que estava a saborear-se a si própria. A mente segredou-lhe que virasse a cabeça, mas em vez disso arqueou o corpo, moldando-se às curvas duras de Gareth. − Agora, estás pronta. E eu também, sem dúvida − disse ele quando se apartou dos seus lábios. Os seus olhos tinham um brilho de desejo quando os baixou para a jovem mulher. Beatrice ficou tensa quando ele colocou os quadris na posição adequada e sentiu o roçar da cabeça do pénis contra a sua abertura. A realidade trespassou a névoa e ela fitou-o com um misto consciente de receio e hesitação. Gareth não desviou os olhos por um momento antes de baixar os lábios para os dela e deslizar para o seu interior. Beatrice ficou tensa ante o derrubar da barreira, mas, em vez de se embainhar totalmente, Gareth hesitou. Aquele momento de trégua permitiu que ela apreciasse o momento em pleno. Sentia-se cheia, muito mais cheia do que quando se tocava, mas não era desagradável como havia receado quando vira o membro dele pela primeira vez. Era simplesmente algo estranho e desconhecido, mas também excitante. Mexeu-se por baixo dele, apertando os músculos internos e regozijando-se com o latejar de gozo que isso lhe concedeu. Por cima dela, Gareth fechou os olhos com um gemido rouco e Beatrice fitou-o. Fora ela a causadora? − Estás a testar a minha paciência − murmurou Gareth, avançando mais. − Da melhor forma possível. − Para quê ser paciente? – arquejou ela enquanto retesava ainda mais os músculos. − Porque quero que tenhas prazer − respondeu Gareth, avançando um pouco mais. − Se me apressar, não será o caso. Beatrice fitou-o novamente, surpreendida pela íntima sensação de proximidade que recebia. Estarem unidos daquela maneira era assustador por se sentir tão exposta, tão


perigosamente vulnerável… e, contudo, pela primeira vez na sua vida estava disposta a ser assim, dada a doce recompensa da sua vulnerabilidade. Gareth baixou os lábios sobre os dela. Beatrice mergulhou no beijo, rodeando com os braços as largas costas musculosas. A restante ansiedade desapareceu e ela limitou-se a sentir, tal como ele lhe tinha pedido no início. Gareth aproveitou aquele momento para se apoderar dos derradeiros centímetros do seu corpo. Beatrice retesou-se enquanto ele lhe tirava a virgindade e a dor do final aliou-se a uma intensa memória que trespassou a névoa. Ele baixou os olhos e Beatrice ficou surpreendida ao divisar a empatia e culpa que lhe obscureciam o olhar. − Nunca mais será assim − assegurou-lhe em voz baixa. Beatrice assentiu com a cabeça, embora não estivesse totalmente segura de poder confiar em qualquer promessa que ele fizesse. Ainda assim, as irmãs não pareciam importar-se a nível do que partilhavam com os maridos, pelo que acreditou na promessa dele. − Agora, quero apagar essa dor − sussurrou Gareth. A boca masculina voltou a apoderar-se dos seus lábios num beijo intenso que lhe provocou um nó no estômago e um fervilhar do sangue. Apesar da dor, estremeceu ao seu toque, à sensação daquele retesar do seu corpo inexperiente. Em seguida, ele moveu-se e ela esqueceu tudo excepto as novas sensações que a avassalavam numa forte explosão. Gareth arqueou as ancas contra ela, mergulhando no seu ventre e esfregando-lhe a pelve de tal maneira que o prazer que despertara anteriormente com a língua se intensificou a outros níveis. Beatrice arqueava o corpo a cada estocada, enterrando as unhas na carne desnuda enquanto gritava de gozo. Ele prometera que a faria esquecer a dor da união dos corpos e cumpria habilmente a palavra dada. Tudo o que ela sentia, via e experimentava era ele. Naquele momento, o gozo explodiu. Beatrice martelou as ancas contra as dele enquanto soltava um som de prazer e realização. Em seguida, deixou-se cair na cama, arquejante ao mesmo tempo que o via desenfiar-se e vir-se nos lençóis. Fechando os olhos, Beatrice emitiu um grande suspiro. Pronto. Estava feito e não havia recuo, não até ter a aliança daquele homem no dedo.


Capítulo 6

G

areth viu-se a admirar Beatrice, deitada com um braço nu sobre os olhos e os seios a subirem e descerem ao ritmo da respiração arquejante. A pele reluzia de suor, rosada devido ao seu toque e à intensidade do orgasmo. Não tinha esperado que aquele primeiro encontro fosse tão intenso, nem que ela se mostrasse uma parceira tão entusiasta e excitante. Na verdade, Beatrice tinha fama de ser gelada e era virgem sem qualquer experiência nas questões carnais. Contudo, deralhe um enorme prazer e reforçara a sua crença de que poderia ser uma excelente parceira. Caso passasse nos seus testes. Como se sentisse que ele a fitava, Beatrice afastou o braço do rosto e ergueu os olhos na sua direção. Gareth verificou, surpreendido, que não conseguiu ler-lhe a expressão. − Não és o monstro que fingias ser − disse ela finalmente enquanto se soerguia nos cotovelos. − O que significa isso? − retorquiu ele, arqueando uma sobrancelha ante o comentário inesperado. − Levaste-me a pensar que eras totalmente depravado, que me exigirias coisas irracionais que eu seria incapaz de aceitar. E, no entanto, o que aconteceu entre nós não me pareceu ser assim tão… − Hesitou. − … mau. Gareth quase soltou uma gargalhada. Ela estava a tentar insultá-lo ou não conseguiria simplesmente dominar-se? Rolou de lado para a encarar, observando como os seus mamilos endureciam com a aproximação e os olhos brilhavam. Desejava-o e agradavalhe ser capaz de despertar uma tal reação numa mulher mais conhecida pela sua aspereza do que pela paixão. − Acho que talvez não compreendas − disse ele enquanto lhe percorria o braço com a ponta do dedo. A pele dela ruborizou-se ante essa leve carícia. − Hoje, tirei-te a virgindade. É uma imensa responsabilidade que levei a sério. Não podia introduzir-te em todas as minhas «depravações», como lhes chamas, no teu estado de inexperiência e insegurança. E o que fizemos juntos deu-me um grande prazer. Gareth iria jurar que os olhos dela brilharam com um prazer surpreendido antes de virar o rosto. − Mas… − disse ela. Ele encolheu os ombros. − Jamais ficaria satisfeito durante muito tempo com a simplicidade do que acabámos de partilhar. Preciso de mais.


Beatrice sentou-se e agarrou na colcha, tapando o corpo. Gareth interpretou o gesto como uma forma de se escudar e, de momento, permitiu. Dentro em pouco destruiria toda a sua proteção, quebraria a concha. − Contudo, nunca me explicaste o que significa esse mais, Gareth. O que desejas que é tão terrível para as outras mulheres? Ele inclinou a cabeça, achando que ela merecia saber. − Não me basta exigir o teu corpo, Beatrice − disse baixinho. − Quando estás na minha cama, preciso de possuir-te. Sentir que te dobras à minha vontade. Ver que me aceitas como teu dono. A jovem mulher manteve-se silenciosa durante um longo momento, limitando-se a fitá-lo de olhos arregalados. − Queres uma escrava. − Na cama, sim − admitiu sem uma ponta de vergonha. Não a sentia. Beatrice abanou a cabeça enquanto atirava os cobertores para trás e saía da cama. − Enganaste-me! − gritou, agarrando na combinação e enfiando-a pela cabeça. − Como? − inquiriu ele, observando-a sem se mexer. − Devias ter-me dito que querias uma escrava, devias ter-me dito antes de me tirares a virgindade − retorquiu, olhando em volta e tapando a boca. − Deus do céu! Não posso fazer isso. Não posso entregar-te tudo. − Porque não? Gareth levantou-se e ela recuou um passo para longe enquanto ele agarrava num roupão que se encontrava aos pés da cama. Beatrice pestanejou. − Viste a minha natureza, ouviste o que os outros dizem. Eu… eu não sou feita para isso. Dar tudo a um homem, sobretudo a um de que sei tão pouco… é pedir demasiado. − Já o fizeste − sorriu ele − Podias ter-me perguntado em qualquer momento o que esperava de ti, quais eram as minhas tendências. Em vez disso, vieste até aqui e entregaste-te a mim. − Porque não tinha escolha! − redarguiu Beatrice, abanando a cabeça. − Não! − sorriu Gareth. − Tiveste sempre uma escolha, mas parte de ti desejava estar sob o meu controlo. Parte de ti vibrava por não saberes o que te faria depois de estares sob o meu poder. − Isso não é verdade − sussurrou Beatrice, mas, apesar da intensidade da negação, Gareth detetou o brilho da verdade nos seus olhos, embora ela ainda não a aceitasse. − É, sim − retorquiu ele, estendendo a mão e pousando-a no seu ombro. Ela pestanejou mas não se afastou, quase o fazendo rugir de gozo. − Não percebes? Este é o primeiro passo, Beatrice. Estás no caminho para uma completa e total rendição. E a tua natureza irascível faz parte do motivo por que te desejei tanto. Assemelhas-te a um


potro selvagem que precisa de ser domado. − És o homem mais insultuoso que conheci. Não sou um cavalo! − ripostou, virando as costas. Gareth deslizou por trás dela. Beatrice tremia e o leve movimento repercutiu-se nele. Dessa vez, não lhe tocou, mas inclinou-se próximo do seu ouvido. − Claro que não. Contudo, pensa no prazer que te dei hoje. Beatrice respirou fundo para contrapor o que ele já sabia, mas Gareth tapou-lhe suavemente os lábios com os dedos. − Não negues. Senti e vi o teu prazer de forma muito clara. Pensa nisso, Beatrice. E pensa no que poderia fazer para ti, por ti, se fosses minha de todas as maneiras. Houve um momento em que ele a sentiu a ponderar, mas não era mulher para ceder. Girou sobre os calcanhares. − Não! Gareth cruzou os braços. Tudo fazia parte da dança e, no final, seria ele a conduzi-la, ou jamais poderiam ser verdadeiramente felizes juntos. − Se não podes sequer tentar, deves provavelmente ir-te embora − disse ele num tom suave, sabendo exatamente qual seria a sua reação. − Cumprirei a minha parte do acordo e dar-te-ei o pagamento que combinámos. Podes voltar para Londres quando quiseres. Não és refém. – Ele hesitou. – Volta para junto da tua mãe. O comentário fê-la estremecer e ele quase sentiu pena ao vê-la afastar-se dele e olhar para os jardins através da janela. Embora Beatrice tentasse ocultá-lo a todo o custo, Gareth apercebeu-se de toda a vulnerabilidade e desespero que ela se esforçava por esconder sob a brusquidão exterior. Ela sabia exatamente o que aconteceria se desistisse do acordo naquele momento. E Gareth estava disposto a apostar que ela não estava preparada para que isso acontecesse. Beatrice virou-se lentamente para ele. − Vais magoar-me? Bater-me? − Claro que não − respondeu Gareth, abanando a cabeça. − O domínio não tem de implicar dor. E nunca ergueria a mão para uma mulher. Beatrice inclinou ligeiramente a cabeça e avaliou-o com o olhar. Gareth quase desviou o rosto, pois sabia que ela estava a pensar na sua falecida mulher. Nos boatos de que ele tinha, na verdade, feito mal a alguém do sexo dela. − Não posso prometer que me renderei − disse ela. − Não faz parte da minha natureza. − Isso é metade do prazer, Beatrice − retorquiu o marquês, incapaz de apagar um sorriso selvagem dos lábios. − És um desafio. Avançou na sua direção e ela recuou. O sorriso dele desvaneceu-se. Era visível que


não a convencera por completo de que não a magoaria fisicamente. Suspirou enquanto apanhava a roupa do chão. − Provavelmente sentes-te dorida. Já mandei que te preparassem um banho quente. Podes descansar e depois juntar-te a mim para o jantar, às sete. Beatrice fitou-o. − Aca… Acabou? − De momento, sim − disse ele, assentindo com a cabeça. − Mas… − Hesitou. − Mas porquê? Respondeu com um encolher de ombros enquanto erguia as calças acima das ancas. − Tenho quinze dias para aproveitar o prazer − acrescentou com mais um sorriso. − Para quê apressar-me? Vejo-te esta noite. Em seguida, virou as costas e deixou-a a pensar no que acontecera. E, segundo esperava, a fantasiar sobre o que estava para vir. *** Beatrice jamais o confessaria em voz alta, mas o banho serviu para restaurar forças, não só ao seu corpo dorido, mas ao espírito acelerado. Enquanto mergulhava mais no quente abraço da água, os problemas e receios desapareceram, deixando-a somente com lembranças dos prazeres que experimentara nesse dia. Imaginara muitas vezes como seria fazer amor com um homem. Mesmo quando se foi tornando mais óbvio que as suas oportunidades de casar iam desaparecendo, continuou a sonhar com paixão, e nos momentos mais ridículos, com amor. Chegara mesmo a tocar-se, embora nunca tivesse sentido nada de parecido com a explosiva e ofuscante libertação que ele lhe proporcionara nesse dia. Não, nada do que tinha sonhado ou feito se assemelhava a partilhar o corpo com Gareth. As suas mãos, a boca, o membro… tinham-lhe provocado sensações que nunca imaginara. Nunca se sentira tão próximo de outra pessoa em toda a vida. E, no entanto, ele queria mais. Queria obediência, rendição. Queria ser o seu dono. O pensamento aterrorizava-a, mas por trás do medo escondia-se algo mais: excitação. Podia tentar negar a emoção as vezes que quisesse, mas a ideia de se entregar totalmente a Gareth fazia-lhe vibrar as entranhas e tremer as mãos. Franziu o sobrolho. Passara menos de uma hora desde que Gareth lhe tinha tocado e, no entanto, ansiava por mais prazer. Mais do que dorida… sentia-se obcecada. Só conseguia pensar no seu sexo palpitante, na pérola que latejava escondida por entre os folhos. Do outro lado do biombo que rodeava a banheira, ouvia uma criada a andar de um lado para o outro e a arrumar as suas coisas. Atrever-se-ia a dar prazer a si própria quando a mulher podia ouvir ou ver?


Beatrice sentia o corpo a latejar e mergulhou a mão na água, cobrindo o monte entre as pernas. O toque não lhe aliviou a ânsia, pelo contrário, intensificou-a. Aumentou a pressão contra as pregas e abafou um suspiro de gozo. Apenas uns momentos não poderiam doer. Não, se ficasse quieta. Dobrou os dedos e as pontas deslizaram por entre as pregas até acariciar a escorregadia humidade da sua fenda. A carne apresentava-se dorida devido à intrusão de Gareth, mas isso apenas contribuiu para torná-la mais sensível. Aquele leve toque fê-la erguer as ancas e um leve suspiro escapou-se-lhe dos lábios. Nunca os seus dedos lhe tinham proporcionado um tal estímulo. Era intenso. Viciante. − Sente-se bem, miss? − perguntou a criada do outro lado do biombo. − Quer que lhe traga alguma coisa? Beatrice fechou os olhos e tentou controlar a respiração, antes de responder: − N… não. Estou bem. Continue o seu trabalho. Ouviu a jovem a andar de um lado para o outro e estremeceu. Havia algo de tão perverso em fazer aquilo com outra pessoa na divisão. Alguém que não tinha ideia de como ela se tocava. Meteu os dedos mais fundo na abertura e pôs-se a enfiá-los e desenfiá-los lentamente do corpo, imitando o que Gareth lhe fizera antes. Verificou, surpreendida, que o formigueiro de prazer aumentava, proporcionando-lhe um leve gosto da explosão que preparava. Podia realmente dar aquilo a si própria? Desejava sem dúvida aquela sensação com uma intensidade quase assustadora, pois era descontrolada, conduzindo as suas emoções e ações mais do que a lógica. Dobrou-se, enterrando os dedos mais fundo, em seguida descobriu a pérola do prazer com o polegar e acariciou-a. Inesperadamente, o orgasmo invadiu-a, poderoso e intenso enquanto as suas ancas se moviam selvaticamente, fazendo com que a água jorrasse sobre a borda da banheira e molhasse o chão. Não se importou. Deixou-se levar pelo gozo, respirando pesadamente, tentando abafar um grito de prazer. Por fim, tapou a boca com a mão livre e mordeu os lábios para se manter silenciosa. Finalmente, os tremores diminuíram e recostou-se para trás, num estado de choque saciado. Permaneceu assim durante um longo momento e depois abriu os olhos e ergueu o rosto. A rapariga do outro lado do biombo prosseguia a sua tarefa. Teria ouvido? Se assim fosse, o que pensaria? Beatrice sorriu. Isso tinha alguma importância? Tal como Gareth dissera antes, o seu pessoal conhecia o motivo da sua presença ali. Ela estava hospedada no quarto do patrão, do dono da casa. Se a jovem pensasse que ela era uma devassa, paciência. Talvez fosse isso, afinal, em que Beatrice se tornara. Estremeceu quando a palavra dono lhe invadiu a mente. Gareth seria um tipo de dono muito diferente se decidisse permitir-lhe satisfazer as suas fantasias. Contudo, a submissão total… era aterradora. Não queria depender inteiramente de outra pessoa


para coisa alguma, nem sequer para o prazer. Havia demasiado risco aliado a uma tal vulnerabilidade. No entanto, estava presa, não estava? Perdera a virgindade e o seu valor para outro homem desaparecera. Isso significava que Gareth era verdadeiramente a sua melhor escolha. Se, pelo menos, conseguisse sobreviver… convencê-lo de que lhe pertencia total e verdadeiramente, ele casaria com ela e libertá-la-ia da mãe. Uma vez franqueado esse passo, poderia ir para Londres ou qualquer das suas outras propriedades. Na verdade, apenas tinha de levá-lo a pensar que lhe conquistara a alma. Poderia fazê-lo, não poderia? Aceitar o jogo dele até obter o que desejava? − Está pronta para sair, miss? − inquiriu a jovem criada do outro lado do biombo. Beatrice refletiu na pergunta. Estaria pronta? Pronta para Gareth, pronta para os jogos dele? Se jogasse alguns dos seus… talvez estivesse. − Sim − respondeu, erguendo-se para estar pronta quando a jovem a envolvesse na toalha quente. − Estou pronta para tudo. Nessa noite, quando Beatrice entrou na sala de jantar, Gareth sentiu que se operara uma mudança na jovem vulnerável e insegura que deixara na sua cama. Quando ela entrou na sala, tinha os ombros puxados para trás, fazendo com que a seda rosa do vestido se retesasse num delinear da curva dos seios. Avançou num passo firme e permitiu que um criado a sentasse à sua direita. E, quando o olhou, não desviou o rosto. − Boa noite, Beatrice − cumprimentou ele enquanto punha o guardanapo sobre o colo. A jovem mulher esboçou um aceno de cabeça e bebeu um gole de vinho tinto. Gareth observou o movimento da garganta enquanto ela engolia e pensou em todas as coisas que desejava ensiná-la a fazer com aquela bela e sensual boca. − Vejo que estiveste a pensar na nossa conversa − disse ele. Beatrice assentiu com a cabeça. − É verdade. − E tomaste alguma decisão? Devo mandar chamar a carruagem para te levar a casa… ou preparar-me para a próxima quinzena ao teu lado? Beatrice fitou-o e não desviou os olhos de um azul maravilhoso. À primeira vista eram frios e distantes, mas Gareth pretendia chegar mais fundo. Já detetara a sua vulnerabilidade antes; sabia que se encontrava oculta porque ela receava mostrá-la. − Não posso ir-me embora, pois não? − retorquiu ela por fim num tom suave. − Claro que podes − ripostou Gareth, arrastando as palavras. Ela premiu os lábios, frustrada. − Sabes perfeitamente que não posso voltar a Londres e à falta de perspetivas e de futuro que tenho lá. Portanto, decidi ficar e esforçar-me por agradar. Gareth sorriu e Beatrice deu a entender que aos olhos dela era uma tarefa a


desempenhar. − Deves ter refletido muito no assunto enquanto te preparavas para jantar depois de te ter deixado. Beatrice assentiu com a cabeça enquanto um criado colocava o primeiro prato na frente deles. − É verdade. Mal me saiu do pensamento. − Mesmo enquanto te acariciavas no banho? − inquiriu ele baixinho. Beatrice levara à boca uma colher de sopa antes de ele falar e abriu muito os olhos, começando a tossir. Gareth esperou que ela recuperasse a compostura. − De… de que estás a falar? − perguntou, após limpar os lábios. − Minha querida, os meus criados nunca deixarão transpirar uma palavra que seja a teu respeito fora da casa, mas são-me fiéis. − Gareth aproximou-se mais, agarrou na borda da cadei-ra de Beatrice e arrastou-a para junto dele. − Podes fingir que estás resignada ao que te ofereci, mas na verdade excita-te. O suficiente para teres dado prazer a ti própria com uma empregada na divisão. Beatrice virou o rosto, com as faces ruborizadas, mas ele sentiu a sua excitação ante a ideia de que a criada sabia o que ela fizera, pelo facto de uma estranha haver relatado os seus atos a Gareth. Ele inclinou-se e premiu os lábios contra o seu pescoço. Beatrice gemeu e inclinou o pescoço para trás a fim de facilitar o acesso, mas depois pareceu recompor-se e abanou a cabeça. − Não, aqui? Na mesa? − Onde quer que te deseje, Beatrice − respondeu, empurrando a cadeira para a posição onde se encontrava antes. − Sempre que te deseje. A jovem mulher estremeceu e fitou-o com menos segurança do que quando entrara na sala. Gareth sentia o ruir das barreiras físicas. Beatrice mostrava-se mais aberta ao que ele desejava do que Laurel alguma vez se disponibilizara. Contudo, uma rendição física não bastava. Ele não queria que ela fingisse obediência e submissão. Queria que ela lhe entregasse todo o seu ser. Por dentro e por fora. Gareth bebeu um gole de vinho. − Quero algo neste mesmo instante. Beatrice assentiu com a cabeça, franzindo a testa e tentando recuperar alguma da distância. − Bem vejo. Pousou o olhar entre as pernas masculinas e Gareth baixou o rosto para a sua visível ereção com um encolher de ombros desdenhoso. − Não é isso o que quero… ainda. − Arrastou a cadeira para a frente e inclinou-se mais sobre ela. − Quero saber mais a teu respeito. Há muito pouca informação além da linhagem da tua família e dos boatos sobre a tua atitude.


Beatrice fincou as mãos na mesa e o olhar perdeu-se na distância. − E o que mais interessa além da linhagem e dos boatos, milorde? São essas coisas que fazem girar o mundo. Gareth recostou-se na cadeira e cruzou os braços. A faceta espinhosa da personalidade dela voltara. O tom de voz era afiado e a linguagem corporal implicava distância. Toda a suavidade que lhe descobrira entre os lençóis tinha-se apagado. − Foram a linhagem e os boatos que nos trouxeram até aqui, mas, se quisermos casar em qualquer altura, penso que será necessário um pouco mais, tesouro. − Inclinou a cabeça. − Fala-me do teu pai. Ele morreu há alguns anos, não é verdade? A cor esvaiu-se do rosto de Beatrice que se limitou a fitá-lo durante um longo e pesado momento. Em seguida, abanou a cabeça. − Pouco importa, agora, não é verdade? Está morto e não quero falar sobre ele. Gareth ergueu o sobrolho ante a gelada e imperscrutável expressão do seu rosto. Era um muro de pedra, impossível de deitar abaixo. Por enquanto. − Muito bem − anuiu, disposto a ceder-lhe um pouco de terreno no início. − Nesse caso, a tua mãe. Vocês as duas são obviamente próximas em muitos aspetos e contudo anseias por estar longe dela. O que podes dizer-me a seu respeito? − Ela é o que vês. Que mais há a dizer? − ripostou Beatrice, bebendo mais um longo gole de vinho. − E as tuas irmãs? − insistiu, sentindo-se mais frustrado ante o muro que os separava. − Duvido que qualquer delas possa ser definida apenas pelo que se vê. Ouvi alguns boatos sobre Lady Rothschild e a duquesa de Kilgrath e a forma como conseguiram casar com os homens das suas vidas. − Se existem boatos, para quê essas perguntas? − replicou. − Aparentemente sabes tudo. Por que razão eu saberia mais? − Porque são do teu sangue − pressionou ele. Beatrice encolheu os ombros como se não pudesse importar-se menos. − Só porque são do meu sangue não implica, necessariamente, que eu saiba algo de interessante a respeito delas e elas a meu respeito. Gareth olhou-a fixamente. O que quer que sentisse sobre a sua família era tão forte que, na verdade, parecia recear partilhar algo com ele. Aquele tipo de barreira era o que precisava de destruir para a dominar totalmente. Beatrice tinha de confiar nele ou jamais possuiria toda a sua submissão e entrega. Após uns minutos de silêncio, Gareth comentou: − Acho curioso que vás partilhar o corpo comigo, e acedas mesmo em submeter-te às minhas outras exigências… e, no entanto, te mostres tão reticente em referir a mínima faceta do teu passado. Não permites um mero vislumbre dos teus pensamentos íntimos. Beatrice voltou o rosto para que Gareth só a visse de perfil, mas, pela fina linha dos


lábios e preocupação em redor dos olhos, ele podia adivinhar a batalha que se travava no seu íntimo. Por fim, ela começou a tamborilar nervosamente com os dedos na borda do prato, sob a tigela da sopa. − Descobri na vida que o maior dano, a maior ferida, podem ser causados por pessoas que conhecem o meu passado… ou os meus pensamentos. Por que razão havia de dar uma arma dessas para ser usada contra mim? − retorquiu, fixando-o. − Principalmente a ti que apenas conheço de um encontro na cama. Porque havia de confiar em ti? Gareth recuou, surpreendido por ela confessar aqueles pensamentos. Tratava-se dos primeiros passos, mas, mesmo assim, tinha de ser cuidadoso na resposta. − O que quero fazer, partilhar contigo, exigirá alguma confiança, Beatrice. − Bom, talvez seja capaz de concedê-la, ou talvez não − reagiu com um encolher de ombros. − O tempo o dirá, não é verdade? Gareth observou-a durante um longo momento. Beatrice era franca, fora designada como uma cabra pela sua frieza, mas ele entendia a situação a muitos níveis. A atitude dela era o seu escudo, a sua proteção. Infelizmente, tinha-se habituado de tal forma a defender-se que ele não sabia se conseguiria forçá-la a largar esse hábito. Contudo, quanto mais tempo passava ao lado dela, mais se interessava em derrubar as suas defesas e transpor os obstáculos. Em torná-la sua de todas as formas possíveis. − Sim − anuiu, erguendo o copo. − Só o tempo o dirá.


Capítulo 7

A

o jantar, quando Beatrice tinha recusado partilhar o que quer que fosse do seu passado com Gareth, esperara ser alvo de um interrogatório durante o resto da noite… e talvez mesmo de uma viagem para casa visto não ceder à sua sondagem pessoal. Isso estava longe dos desejos da jovem mulher, mas o que ele lhe pedia que partilhasse era demasiado. No entanto, o resto do jantar decorreu numa atmosfera surpreendentemente agradável. Gareth abandonou por completo os tópicos pessoais que ela detestava e, em vez disso, questionou-a sobre os seus objetivos e falou-lhe dos dele. Há tanto tempo que não partilhava um diálogo tão civilizado que mal sabia o que responder. Contudo, nesse momento, percorriam juntos o longo corredor na direção da escada. Gareth não lhe tocava, nem sequer a agarrava pelo cotovelo e, no entanto, Beatrice sentia a sua presença por todo o corpo. O simples facto de se encontrar ao lado dele era como se lhe invadisse o espaço, lhe enchesse os poros e a tocasse de formas totalmente inapropriadas. Para ser franca, a sensação agradava-lhe bastante. − Nunca tive oportunidade de mostrar-te a minha casa − disse Gareth, apontando para as escadas. − Que tal uma visita? Beatrice esboçou um aceno afirmativo. − Não vamos começar pela parte principal, pois não? Gareth abanou a cabeça. − A parte principal da minha casa assemelha-se a todas as outras das pessoas da sociedade. Tenho um magnífico salão de baile que nunca uso, várias salas desinteressantes, um escritório desarrumado, uma sala de bilhar e outra de música… Se já viste alguma desse género, viste todas, excepto de cores diferentes e com outro mobiliário. − Acho que sim − concordou Beatrice, enquanto subia as escadas atrás de Gareth. − Nesse caso, para quê uma visita guiada? Gareth sorriu-lhe por cima do ombro e Beatrice pensou num gato em perseguição da presa. Ele estava a brincar com ela e necessitou de todo o autodomínio para não o atacar. Detestava sentir-se um brinquedo. Ou, pelo menos, assim julgava. Por vezes, não tinha muitas certezas. Estar ao seu lado assemelhava-se a andar numa carruagem descontrolada. Temia e antecipava a curva seguinte em igual medida. − Porque, minha querida, há sítios nesta casa inteiramente fora do comum −


respondeu, parando em frente de uma porta e tirando uma pequena chave dourada do bolso interior do casaco. − Como este. Abriu a porta e fez-lhe sinal para que entrasse. A divisão era escura, à exceção de uma lareira que mal a iluminava. Beatrice levou uns momentos a adaptar a vista a seguir ao corredor profusamente iluminado. Sentiu que Gareth se mexia e em seguida alguns candeeiros acenderam-se e o fogo da lareira aumentou de intensidade. Piscando os olhos, Beatrice observou o que a rodeava. Parte do motivo que lhe dificultava a visão residia no facto de a decoração ser preta. Reposteiros pretos, cobertas pretas sobre o escasso mobiliário e mesmo uma alcatifa preta a tapar o chão de madeira polido. Era um quarto diabólico com acessórios do diabo. O centro da divisão era ocupado por uma mesa comprida e larga, tapada por couro macio e flexível que recordou uma sela a Beatrice. Ligadas ao couro, havia o que lhe pareciam algemas, algumas num extremo, outras a meio, embora essas dessem a sensação de poderem ser recolhidas. Numa das paredes estava pendurada uma pequena coleção de chicotes. Ao vê-los, Beatrice recuou. − Que diabo é isto? − Uma sala para meu prazer pessoal − respondeu Gareth suavemente, como se não lhe tivesse mostrado nada mais chocante do que a sala de bilhar que descrevera antes. − E espero que também o seja para ti. − Mas são chibatas, Gareth! − exclamou Beatrice com um aceno de cabeça frenético na direção da parede. − Disseste-me que nunca levantarias a mão contra uma mulher. A sua mente fixou-se involuntariamente nos boatos que o cercavam. A morte da mulher, a ideia de que poderia ter sido o responsável. Espancara a mulher até à morte com aqueles chicotes pendurados na parede? Beatrice sentiu-se momentaneamente invadida pelo terror e em seguida abafou-o. − Para ser verdadeiro, não levantaria a mão contra ti − disse com uma gargalhada que se repercutiu na sua coluna. Detestava que ele troçasse do seu medo. − Não tem graça nenhuma – sussurrou ela, recuando. Gareth franziu o sobrolho e compôs uma expressão séria. − Minha querida, algumas pessoas acham que um leve toque de dor aumenta muito o prazer do sexo. A barreira entre os dois é bastante ténue, sabes? Beatrice hesitou. Ao ouvi-lo pronunciar aquelas palavras, não conseguiu deixar de pensar no momento em que gozara na cama dele. O prazer fora tão intenso que, de certa maneira, quase aflorara a dor. E, mais tarde, na banheira, a sua sensível e dorida bainha ampliara o seu próprio toque. − Contudo, jamais te forçaria a tal coisa. Não exijo a dor para ter prazer − disse,


interrompendo os seus pensamentos chocantes. − Embora não me importasse de tentar, se decidisses estar interessada. Beatrice estremeceu, embora ignorasse se o arrepio era causado por medo, repugnância ou excitação, talvez fosse uma combinação dos três. − E a mesa? − perguntou num tom de voz involuntariamente trémulo. − Posso desejar ter absoluto controlo sobre ti − explicou com mais um encolher de ombros despreocupado. − Amarrar-te em qualquer posição que deseje proporciona-me isso. O mesmo se refere às algemas da parede. Beatrice seguiu o movimento da mão e soltou uma exclamação abafada. Sentira-se tão chocada pela exposição das chibatas que nem reparara nas algemas forradas de pele penduradas na parede. Um homem poderia realmente dominar uma mulher assim? Uma parte dela desejava descobrir. − A ideia de seres dominada assusta-te − disse ele baixinho. Beatrice fitou-o com intensidade. Confessar-lhe o seu medo era quase mais assustador do que submeter-se-lhe fisicamente da forma que ele tinha descrito. − Não sejas ridículo. Não tenho medo − mentiu. − Apenas me sinto chocada como qualquer senhora na minha posição ficaria. − Hmm! – fez ele. Era óbvio que não acreditava nela. Fitou-a por momentos antes de transpor a distância que os separava. Rodeou-lhe a cintura com mais suavidade do que ela esperava e moldou o corpo contra o seu. Beatrice não conseguiu dominar-se e inclinouse para ele, deleitando-se com o seu odor e toque. − Desejas-me? − perguntou ele. − Diz que sim. Beatrice estremeceu. Aquela ordem parecia diferente das que lhe tinha dado antes. Era mais premente. Tratava-se do começo da rendição que ele descrevera. Agora tinha de optar. Iria dar-lhe o que ele desejava ou não? − Desejo-te − ouviu a sua própria voz, antes mesmo de ter tomado a decisão de o fazer. − Queres o meu corpo dentro do teu − clarificou ele. − Desejas entregar-te a mim. A jovem mulher assentiu com a cabeça. − Não. Di-lo, Beatrice − ordenou num tom brusco. − Di-lo em voz alta. Ela voltou a hesitar, detestando expor-se daquele modo à sua inspeção. Todavia, fechara um acordo e, portanto, acabou por sussurrar: − Quero que te enterres em mim. Gareth fechou os olhos e um rugido animalesco brotou do seu íntimo. − Muito bem. Ela ergueu a cabeça para receber o beijo, mas ele abanou a cabeça. Aparentemente, a sua tortura não havia terminado.


− Agora, pede-me − disse num tom baixo e áspero. − E diz por favor. O corpo de Beatrice retesou-se instintivamente, mas os braços dele, que de início emanavam suavidade, apertaram-na com mais força. Ergueu os olhos e deparou com a sua espera. Caso recusasse, Gareth deixaria que se fosse embora, mas seguiria de mãos vazias. E o seu corpo latejava. Ansiava por ser tocada. Tinha a certeza de que o que fizera a si própria antes não bastaria. Precisava daquele homem. Precisava realmente dele, um facto preocupante que se negou a ponderar naquele momento. − Por favor, possui-me − sussurrou num tom quase inaudível. Gareth sorriu. − De momento, basta. Baixou os lábios e esmagou-os nos dela com uma pressão ávida e apaixonada. Beatrice ergueu-se nos bicos dos pés ao seu encontro, para se aproximar mais, para sentir mais e mais rapidamente. Gareth levantou-a sem esforço e ela envolveu-lhe as costas com as pernas, colando-se a ele. Gareth vibrou com a reação apaixonada de Beatrice. De facto, não esperara um ardor daqueles. Tinha a certeza de que ela hesitaria. No fim de contas, passara por um grande esforço naquele dia, desde a viagem à perda da virgindade e à compreensão precisa do que lhe exigiria se ela consentisse. Na verdade, tencionara apenas mostrar-lhe a sala naquela noite e em seguida deixá-la a pensar no que aconteceria entre eles. Contudo, agora o seu vestido enovelava-se entre eles, as suas pernas envolviam-lhe a cintura, a boca dela procurava avidamente a sua… e o seu membro pouco se interessava com o que ela havia passado. Desejava fodê-la. Desejava fazê-lo naquela sala de jogos. Desejava-o nesse preciso momento. Sem quebrar o duro contacto dos lábios, Gareth levou-a até à mesa forrada de cabedal no centro da divisão. Pousou-a na superfície macia e cobriu-lhe o corpo com o seu. Beatrice arqueou-se ao seu encontro com um rouco e ávido gemido e um arrepio de gozo percorreu o corpo masculino. Como ela respondia, céus! Como se moldava na perfeição à vida onde ele desejava introduzi-la. A sua resistência apenas iria tornar mais agradável a submissão que se seguiria. Gareth recuou e fitou o corpo de mulher estendido sobre a mesa, com os cabelos a começarem a perder o belo penteado que usara ao jantar. O vestido mantinha-se enrolado à volta das coxas com o tecido de seda amachucado. Gareth sorriu-lhe e verificou, surpreso, que ela lhe devolvia a expressão com perversidade. A centelha entre ambos era quase insustentável. Com dedos trémulos, ele agarrou na bonita fita rosa-escura atada sob os seus seios perfeitos e puxou-a. O decote


abriu-se, revelando uma série de botões em forma de flores. Gareth desapertou-os e o cenário desnudo mostrou-se totalmente ante os seus olhos. Desceu os lábios enquanto se debatia com o vestido, baixando-o juntamente com a combinação até à cintura. Os seios eram pálidos sob a luz brilhante da sala e os mamilos de um rosa-escuro que quase combinavam com o vestido. Já estavam rígidos, empinando-se na sua direção, pedindo para serem sugados e tocados. Gareth não resistiu, mergulhou a cabeça e chupou um deles. A cabeça de Beatrice embateu na mesa e os dedos dobraram-se contra a superfície suave da mesa como se quisesse agarrar o cabedal. Gareth chupou com mais força e ela soltou uma exclamação abafada. − Compreendes o que um mero toque de dor pode fazer, Beatrice? − perguntou ele, erguendo a cabeça. A jovem mulher semicerrou os olhos e ele viu como fitava as chibatas penduradas na parede ao lado deles. Em seguida, virou novamente o rosto na sua direção. − Fá-lo outra vez − sussurrou. Gareth sorriu. − Não, não. Pede-me. Os lábios dela formaram uma linha reta, mas ele não se mexeu. − Por favor, fá-lo outra vez − murmurou ela finalmente. − Faço o quê? − retorquiu ele, decidido a colocá-la no caminho que desejava. Os olhos de Beatrice brilhavam. − Por favor, chupa-me os mamilos, Gareth. Ele baixou os lábios percorrendo-lhe a pele, mas, em vez de chupar, roçou suavemente os dentes no botão sensível de carne. Beatrice gemeu, arqueando as costas frente à sensação. Ele deslizou as mãos por baixo dela, curvando-lhe as costas para que os seus seios se lhe oferecessem na perfeição e dedicou-se à tarefa com mais empenho do que anteriormente. Movia-se entre eles, chupando um mamilo até o mesmo ficar vermelho de prazer e depois passando ao outro. Com uma lentidão propositada começou a lamber lascivamente o rego entre os seios. Quando parou, Beatrice gritava e todo o corpo lhe tremia. Gareth sentiu o desejo dela a pairar e soube instintivamente que, se lhe metesse a mão entre as pernas, se lhe tocasse no clítoris, ela se viria num orgasmo explosivo. Todavia, aquele era o início da sua rendição e, caso lhe proporcionasse tal gozo sem exigir nada em troca, ela não compreenderia totalmente nem respeitaria o que ele desejava. Por conseguinte, resistiu à tentação e não lhe tocou, mas colocou-a novamente de pé. Beatrice respirava com esforço e cambaleou ao fitá-lo. Gareth permaneceu em


silêncio, observando a luta que ela travava com aquelas novas sensações de desejo lascivo, mas não tomou qualquer atitude. Por fim, ela emitiu um suspiro frustrado. − O que pretendes? − inquiriu, recuperando o tom brusco. − Diz. − Linda menina − ronronou Gareth agarrando na orla do vestido e fazendo com que o mesmo lhe caísse aos pés. − Começas a entender. Beatrice atirou os sapatos para longe e fitou-o. − Então, diz-me. − Lembras-te de quando te fiz gozar com a língua? O rubor que lhe cobriu as faces respondeu por ela, tal como depois o assentimento de cabeça. O sexo dele latejou com as duas reações e a memória do seu sabor a terra, do poderoso orgasmo. − Quero sentir essa tua boca a rodear-me − disse, desapertando as calças e deixandoas cair no chão. − Quero que me dês prazer. Quando Beatrice baixou os olhos para o membro excitado de Gareth, percorreu-a um arrepio. Não duvidava de que poderia recebê-lo entre os lábios, mas… o que faria em seguida? Ao que parecia, ninguém explicava essas coisas a senhoras da sua condição… − Não terás prazer, minha querida, excepto se te esforçares − disse ele baixinho. Beatrice fulminou-o com o olhar. Quer alguma vez lho admitisse ou não, era ele quem detinha todo o poder. Por que razão não deveria usá-lo? Ele dissera que o poder era o que desejava. E, pior ainda, aquela força subtil que ele possuía… seria uma ameaça? Bom, fosse como fosse, fazia-a vibrar e desejá-lo ainda mais. − Como? − perguntou através dos dentes cerrados. − Ensina-me. Gareth inclinou a cabeça, quase surpreendido ante a rápida concordância. − Põe-te de joelhos. Beatrice hesitou novamente. De joelhos na frente daquele homem? Praticamente a adorá-lo? Contudo, a ideia de lhe dar prazer levou de vencida. Não lhe caberia o trunfo se fizesse aquilo devidamente? Não conseguiria que, pela primeira vez, ele se tornasse seu escravo? Baixou-se e ajoelhou-se em cima do vestido espalhado aos pés. O rosto ficou à altura do sexo masculino e fitou-o. Na primeira vez que o observara, não tinha reparado em todos os pormenores da cabeça em forma de cogumelo, nas veias que o percorriam, na gota de sémen que escorria da ponta. Sem pensar, estendeu a mão e tocou-lhe, agarrando-o como ele a instruíra antes e acariciando-o da base à ponta. Gareth gemeu quando ela o fez, apoiando-se na borda da mesa onde a tinha torturado com a boca uns momentos antes. Beatrice sentia-se insegura, mas verificou surpreendida que o instinto começava a levar a melhor. Tratava-se de uma espécie de primitivismo surgido de centenas de


gerações de mulheres que haviam dado prazer a centenas de gerações de homens. Assim, quando ela se inclinou para a frente e aflorou o membro apenas com a ponta afilada da língua, não se sentiu tão estranha ou desfasada como pensara. Na verdade, a sensação era boa. Foi avançando centímetro a centímetro, agarrando na base do sexo enquanto repetia o ato, tocando levemente com a língua na sua pequena fenda tal como ele a lambera antes. − Céus! − murmurou Gareth por cima dela, com os dedos entrelaçados no seu cabelo. − Está bem assim? − perguntou ela, levantando o rosto com uma expressão interrogativa. − É como me saboreias. Gareth cerrou os punhos junto aos lados do corpo ao mesmo tempo que assentia lentamente com a cabeça. A voz saiu-lhe tensa, ao responder: − Gosto quando fazes isso, mas quero mais. Mais da tua boca, mais da tua língua. Quero estar dentro do teu corpo, de uma ou de outra forma. Beatrice pensou nas ações dele quando possuíra o seu corpo antes, nesse dia. Se queria que ela lhe imitasse os movimentos, o que estava a fazer não era correto. Dedicara-se a lamber-lhe a fenda, mas agora entendia. A sua boca tinha de assemelharse à sua bainha, ele desejava que se envolvesse em torno dele como ela agira com o corpo quando fizera amor com ela. Ainda insegura, tomou-o entre os lábios. Ele tinha um sabor a terra, nada desagradável, e esfregou suavemente a língua na parte inferior do seu membro. Devia ter sido a atitude indicada, pois as ancas dele ergueram-se, enterrando-se mais uns centímetros na sua boca e soltou um palavrão. − Sim − gritou. − Agora, move-te à minha volta. Lentamente, ela fez descer os lábios, enterrando-o mais na boca. Quando lhe chegou à garganta, quase se engasgou, mas fez uma pausa, relaxando os músculos enquanto lutava para o receber mais, na totalidade. Imitou as estocadas com que ele a brindara antes. Para a frente e para trás, um movimento vagaroso que o engolia mais fundo para em seguida quase o desenfiar da boca. Decorrido um breve espaço de tempo, encontrou um ritmo confortável. Apercebeu-se de que gostava do sabor dele, gostava de sentir a cabeça do seu sexo a embater no fundo da garganta. Gostava sem dúvida dos seus gemidos abafados enquanto o fazia gozar. Aqueles pequenos sons abafados provocavam-lhe um estremecimento do corpo e as suas partes femininas mais íntimas ansiavam por ser tocadas. Os dedos de Gareth descerraram-se nos lados do corpo e em seguida sentiu-os no seu cabelo, afastando-lhe os caracóis para poder observar-lhe o rosto. Recebeu-o mais fundo e daquela vez não sentiu desconforto. Ao desenfiar-se, lambia-


o suavemente, saboreando-o, estimulando-o e adorando a maneira como ele resfolegava de prazer e de desejo. − Mais depressa − gemeu ele, entrelaçando os dedos nos seus cabelos. Beatrice relaxou quando Gareth começou a enterrar-se, mostrando-lhe como gostava de ser recebido e rapidamente. Era surpreendente a forma como Beatrice se entregava a um ato que nunca havia considerado nem sequer imaginado. Se alguém lhe tivesse dito um mês antes que receberia o pénis ereto de um homem entre os lábios, talvez aplicasse uma bofetada, mas nesse momento… adorava o que fazia. Adorava as reações apaixonadas de Gareth. Manteve uma mão firmemente apertada à volta do membro, mas fez deslizar a outra ao longo do seu corpo nu e colocou os dedos entre as pernas. Descobriu o monte de vénus e enfiou-se no interior, excitando a pérola do seu gozo com movimentos rápidos e vigorosos. − Merda! − gemeu Gareth por cima dela. Em seguida, viu-se repentinamente puxada para longe dele, arrastada ao longo do seu corpo. Gareth encostou-a à borda da mesa e enfiou a língua na sua boca, beijando-a com estocadas ritmadas, enquanto esfregava a pelve contra a dela. Beatrice começou a abrir as pernas, num convite a que ele possuísse o que o excitara àquele ponto, mas, antes que conseguisse posicionar-se, sentiu que ele a fazia girar e a punha de costas. O corpo masculino arqueou-se, o sexo aflorou ao de leve os macios globos do seu traseiro, premindo a entrada proibida nesse sítio. Contudo, depois ajustou-se e ela sentiu novamente o pénis encostado à sua fenda. Gareth dobrou-se sobre ela, forçando-a a inclinar-se sobre a mesa. As mãos largas deslizaram pelos seus braços, encontrando as mãos e entrelaçando os dedos nos dela. Beatrice encostou-se contra ele e o membro penetrou-a um pouco, mas o suficiente para que suspirassem em uníssono. A respiração dele era quente no seu pescoço, a língua dele saboreava-a enquanto arqueava o corpo ritmicamente, sem a penetrar na totalidade. Em seguida, pressionoulhe os dedos em torno das restrições de cabedal colocadas a meio da mesa. − Agarra-te − ordenou, fechando-lhe os punhos para que ela segurasse nas tiras de cabedal. Beatrice obedeceu e segurou-as com força. Agora percebia por que razão havia correias. Podia ser amarrada, forçada a manter-se na posição em que estava sem qualquer pedido. Obrigada a esperar enquanto ele se deliciava a examiná-la, curvado sobre a mesa e pronto para iniciar o lance. Sentiu um calor líquido escorregar-lhe da fenda só de pensar nisso. Contudo, nessa noite, ele não parecia interessado em esperar ou atormentá-la. Apartou-lhe as pernas por de trás e acariciou com os dedos e entrada ensopada. Ouviu-


o grunhir de satisfação ao senti-la molhada e quente e depois possuiu-a. Com uma estocada dura e profunda, enterrou-se totalmente dentro dela. O seu corpo apresentava-se tão sensível, tão recetivo que um único movimento desencadeou os primeiros estremecimentos do orgasmo. Beatrice gritou, atirando-se para trás enquanto buscava mais gozo, pedindo mais com os seus gestos. Gareth deu-lhe o que ela queria. Esticou-se e chegou ao feixe de nervos ocultos por entre os seus folhos, enquanto em simultâneo se dobrava para trás e martelava violentamente o seu corpo. Ela explodiu. Durante alguns abençoados momentos, todo o seu ser se centrou na zona entre as coxas. Pouco lhe importava estar a gritar o bastante para deitar abaixo a maldita casa. Pouco lhe importava estar a conceder a Gareth aquele poder, permitindo-lhe ver como poderia facilmente controlar o seu gozo. Apenas lhe interessava que aquelas ondas do êxtase se apoderassem dela e desejava que não terminassem. Porém, terminaram. Lentamente, viu-se a sair da névoa com o corpo estremecendo a espaços devido à força do orgasmo. Por detrás dela, Gareth continuava a possuí-la. Pareceu dar-se conta que o clímax dela acabara, pois retirou as mãos de entre as suas pernas e em vez disso cobriu-lhe os seios, massajando-a suavemente enquanto movia as ancas com uma precisão implacável. O segundo orgasmo apanhou-a de surpresa, pois Beatrice nunca julgara que pudesse voltar a perder o controlo tão rapidamente. O corpo começou a tremer e ela largou as correias, estendendo os braços para trás a fim de prender o pescoço de Gareth enquanto o gozo se apoderava novamente dela. As suas estocadas tornaram-se irregulares enquanto ela soluçava o seu nome e subitamente desenfiou-se e ela sentiu o jorro quente do seu sémen a inundar-lhe o traseiro. Caíram juntos para diante sobre a mesa e Beatrice fechou os olhos, exausta e tomada de uma completa satisfação.


Capítulo 8

B

eatrice abriu os olhos e examinou o que a rodeava através da névoa turva do sono. Não reconheceu o ambiente e começou a entrar em pânico. Sentou-se, esfregou os olhos e verificou que estava totalmente nua. Foi nesse momento que a memória lhe relembrou alguns pormenores minuciosos. Recordou-se da chegada, de perder a virgindade, da ceia sumptuosa com Gareth e, em seguida, da «visita» à sua sala oculta do prazer do vício. Estava de volta ao quarto dele, envolta nos lençóis… mas sozinha. E não fazia ideia de como tinha ali chegado. A última coisa de que se lembrava era de Gareth a depositar alguns beijos quentes ao longo das suas costas desnudas. Apertou os lençóis à volta do corpo e ordenou as ideias. Depois de terem feito amor na sua sala especial, ela devia ter adormecido. Os acontecimentos do dia decerto a haviam esgotado. A ser verdade, significava que alguém a levara até ali. Era possível que tivesse sido um criado, mas o coração segredava-lhe que fora Gareth. Estremeceu. No seu sono, havia sido totalmente vulnerável. Gareth podia ter feito o que lhe apetecesse ao seu corpo. Enquanto estivera inconsciente, não fazia ideia de quanto tempo ele a observara, do que lhe sussurrara, nem sequer de como lhe tocara. Um arrepio percorreu-lhe o corpo, mas recusou admitir o prazer que aqueles pensamentos lhe provocavam. Não lhe agradava ter-lhe permitido esse tipo de poder. Consultou o relógio que estava ao lado da cama. Passava das dez da manhã. Há quanto tempo ele se fora embora? Ou teria dormido ali? Chegara a hora de descobrir. Levantou-se e viu que lhe tinham deixado um roupão de seda aos pés da cama. Examinou o suave tecido. Não era uma peça do seu guardaroupa, mas fora obviamente talhado para uma mulher do seu tamanho. Teria pertencido à falecida mulher, ou talvez a uma amante? Ou fora feito à sua medida? Premindo os lábios, Beatrice colocou-o à volta dos ombros e dirigiu-se à campainha junto à porta. Respirou fundo ao puxar o cordão para chamar uma criada que a ajudasse a preparar-se para o dia. Decorridos uns momentos, a porta abriu-se e uma jovem criada entrou no quarto e sorriu nervosamente a Beatrice. − Posso ajudá-la, miss? − Quero vestir-me e depois ir ter com Lorde Highcroft. E apressemo-nos. A jovem deitou-se ao trabalho e Beatrice suspirou enquanto deixava vaguear o pensamento. Aquele era verdadeiramente o primeiro dia do acordo e, após a última


noite, começava a entender plenamente o que isso significava, tanto para o seu corpo como para a sua mente. Gareth queria algo dela que nunca havia considerado partilhar nos mais remotos pensamentos. Ele queria tudo. Embora tivesse pedido especificamente que a levassem até junto de Gareth mal estivesse vestida, um criado conduziu-a em vez disso à sala de jantar. Entrou e olhou em volta, verificando aborrecida que estava sozinha. Virou-se para o indivíduo de sobrolho franzido. − Pedi que me levasse ao seu patrão. Contrariamente à maioria dos criados, aquele fitou-a de frente. Não parecia receá-la, embora o olhar refletisse uma saudável dose de desprezo. − Faço o que o marquês me pede e não a senhora. Beatrice cruzou os braços e emitiu um suspiro indignado, esperando ocultar até que ponto aquela situação a deixava incomodada. Os outros criados fingiam ignorar que ela era a prostituta de Gareth, mas aquele não. Além disso, era óbvio que lhe votava pouco respeito. − Deve fazer o que os seus superiores lhe ordenam – ripostou Beatrice. – E lembrarse de qual é o seu lugar. Como se chama? O homem limitou-se a olhá-la. Beatrice avançou, mas o coração começou a pulsar-lhe ansiosamente no peito. − Ouviu o que perguntei. Como se chama? − Hodges – soou uma voz calma masculina da entrada da sala de jantar. Beatrice semicerrou os olhos ao reconhecê-la como a de Gareth. Apercebeu-se igualmente da profunda desaprovação do tom. Virou-se para ele, de sobrolho franzido. Gareth não desviou o rosto, embora continuasse a dirigir-se ao criado. − Podes ir. O criado hesitou um momento, mas depois assentiu com a cabeça e passou pelo patrão, desaparecendo no corredor. − Devias pôr uma trela mais apertada no teu pessoal – retorquiu Beatrice optando pela rudeza, a fim de ocultar o desconforto por ser apanhada a falar com o seu pessoal de uma forma que ele claramente não aprovava. Para já nem falar do estranho arrepio que a percorreu ao ver-se sozinha com Gareth depois dos chocantes acontecimentos da noite anterior. – Para um homem que gosta de controlo, não tens nenhum sobre aquele. Gareth ficou uns instantes parado na ombreira da porta e depois entrou na sala. Avançou até junto da comida exposta para contento deles e pegou num prato do bufê. − Estás de mau humor esta manhã, não é verdade, Beatrice? – perguntou, enquanto colocava alguma comida no prato. – Bom dia para ti também.


Ela cruzou os braços ao mesmo tempo que corava embaraçada. − Não sei o que queres dizer com isso. Era óbvio que sabia, mas não estava disposta a admitir que atacara desnecessariamente um criado só porque se sentia pouco à vontade. Não havia necessidade de se explicar àquele ou a qualquer outro homem. − Não sabes? – retorquiu ele, fitando-a de cenho franzido. – Não acredito que tenhas tão pouca consciência de ti própria. Quase atacaste o meu criado que se limitou a conduzir-te onde eu lhe pedi. − Mas eu pedi-lhe que me levasse até junto de ti – ripostou Beatrice, cruzando os braços. – Fui muito específica nas minhas instruções. − Contudo, sou eu quem lhe paga o salário – redarguiu Gareth num tom suave e tranquilo, contrastando com o tremor da dela. Beatrice premiu os lábios, pois não tinha resposta para ele. Era exatamente como o próprio criado afirmara. Na verdade, até ser a marquesa daquela casa, se isso alguma vez acontecesse, não havia motivo para que qualquer criado fizesse algo que ela lhe pedisse. Isso significava que Gareth tinha mais poder do que ela em mais do que um aspeto. − Agora, vais sentar-te? – perguntou ele com um aceno de cabeça para o lugar ao seu lado. Beatrice hesitou, mas sentiu um aperto no estômago e franziu o sobrolho. Queria comer e, por conseguinte, não lhe restava alternativa. Caminhou devagar até junto da mesa e sentou-se. Verificou, surpreendida, que Gareth colocava à sua frente o prato que tinha preparado. − Queres chá? – inquiriu, apontando para o bule que se encontrava no centro da mesa. Beatrice assentiu com a cabeça e ele serviu-a primeiro e depois a si próprio. Quando Gareth se sentou, ela deu uma dentada na torrada e depois observou-o enquanto mastigava. − Que olhar é esse? – perguntou ele com um sorriso. − Estava a pensar se não deveria ser eu a tua escrava? – retorquiu com um movimento de cabeça para a comida na sua frente. – E, no entanto, serviste-me. − Estás a confundir delicadeza com escravidão – comentou ele com mais um sorriso irritante. – És minha convidada e desejo que te sintas bem. Isso nada tem a ver com a tua rendição final no meu quarto. Por muito que desejasse engendrar uma resposta, Beatrice não a tinha, frente à calma alegação de Gareth. Pelo menos, uma que não a fizesse parecer pior do que já fizera. E, por qualquer motivo, não queria que Gareth pensasse ainda pior dela. Ficaram sentados em silêncio durante algum tempo. Gareth bebia o chá em pequenos goles e folheou uma pilha de jornais de Londres que haviam sido colocados junto ao


seu lugar, antes de terem entrado na sala. Beatrice debicou a comida, apreciando a fruta fresca, os pastéis perfeitamente confecionados e as carnes que o pessoal tinha preparado. Se vivesse ali, decerto engordaria com tanta fartura. Aguardou no meio do silêncio. Observava. E, decorrido um quarto de hora de tranquilidade, colocou finalmente o garfo de lado e fitou-o. − És o homem mais frustrante de todo o país – declarou. Gareth ergueu os olhos do jornal e devolveu o olhar. − Qual foi a minha transgressão agora? Tenho estado a ler calmamente o meu jornal, enquanto tomavas o pequeno-almoço. Ou não aprovas o Highcroft Weekly? É um jornal local e confesso que deixa algo a desejar a nível de conteúdo e de qualidade de escrita, mas… − Sabes bem que me estou nas tintas para o teu jornal idiota – interrompeu Beatrice com um suspiro. – Estamos aqui sentados sabe Deus há quanto tempo e tu não… Gareth ergueu as sobrancelhas, encorajando-a a prosseguir quando ela hesitou, ruborizada. − E eu não? − Nem sequer tentaste seduzir-me! – explodiu Beatrice finalmente. – Não é por isso que estou aqui? Para ver se somos compatíveis a nível físico? Duvido que as nossas duas cambalhotas de ontem bastem para satisfazer a tua curiosidade sobre o assunto. Não depois de teres exposto tão dramaticamente o que pretendes. Gareth recostou-se na cadeira. − Não achas que isto seja sedução, Beatrice? − Claro que não é – retorquiu, pondo o guardanapo de lado e levantando-se. – Estamos aqui sentados a passar a manhã mais mundana possível. Sentei-me mil vezes à mesa com a minha mãe desta maneira, embora, graças a Deus, o ambiente esteja mais calmo contigo. Gareth não se mexeu, nem mesmo quando ela avançou, frustrada, até à janela mais próxima. − Contudo, quando te sentaste todas essas vezes à mesa com a tua mãe, pensavas em sexo? – inquiriu ele, baixinho. − É óbvio que não! – respondeu ela, virando-se para ele com um arquejo indignado. − E, no entanto, esta manhã, estavas visivelmente a pensar em sedução, visto que a mencionaste – retorquiu ele, inclinando a cabeça. – Esperavas que te tocasse, talvez por baixo da mesa? Ou que te sussurrasse como desejava enterrar bem fundo o meu membro na tua bichana? Beatrice retesou o corpo. Nunca tinha ouvido aquela palavra, mas imaginava o que ele pretendia dizer dado o contexto. − Esperavas? – insistiu ele.


Beatrice esboçou um firme aceno de cabeça. − Sim. Trouxeste-me aqui para ter sexo. Claro que estava a pensar nisso. − Nesse caso, estamos envolvidos numa sedução, minha querida – disse ele, pondose finalmente em pé e avançando na sua direção com um lânguido olhar de posse. Beatrice desejou afastar-se dele, mas permaneceu colada ao chão. − Enquanto estive sentado ao teu lado – murmurou Gareth – só conseguia pensar no teu odor. Começa a infiltrar-se em mim e o mero cheiro da tua pele põe-me duro como uma rocha. Observei-te enquanto te inclinavas sobre o prato. Sabias que esse leve movimento me proporcionou uma breve visão do teu decote nesse vestido? Beatrice baixou os olhos com uma exclamação abafada. − Esse ligeiro vislumbre foi o suficiente para desejar desnudar-te e tocar-te. Contudo, uma parte da sedução reside na espera, Beatrice. É interrogarmo-nos quando chegará o momento, porque isso o torna ainda mais precioso. Não gostas de esperar? De te interrogares quando voltaremos a fundir-nos na paixão que partilhámos ontem à noite? Beatrice fitou-o. Ele estava mais próximo do que nunca, a um mero passo de distância, na sua frente. Sentia-lhe o calor do corpo, o cheiro da pele, como ele afirmara poder sentir o dela. Era emocionante, confuso e frustrante em simultâneo. − Não sei – admitiu, humedecendo os lábios. Gareth assentiu com a cabeça e estendeu a mão, a fim de lhe percorrer a face com um dedo. Beatrice teve desejo de suspirar, fechar os olhos, mas recusou mostrar-lhe essa fraqueza. − Isso é muito honesto. Talvez a primeira confissão honesta que fizeste. Beatrice franziu o sobrolho. As pessoas desprezavam-na por causa da sua excessiva franqueza, não era? − O que queres dizer? – perguntou. − Acho que és muito menos megera do que queres que as pessoas pensem − respondeu Gareth num tom muito calmo. Beatrice vacilou. Detestava quando ele insinuava que conseguia entendê-la melhor do que os outros. A arrogância irritava-a e, pior ainda, receava que pudesse ser verdade. Não queria que ele visse mais, não queria que a conhecesse. Por conseguinte, colocou-o à distância da única maneira que sabia. − Isso torna-o menos assassino, milorde? No momento exato em que pronunciou as palavras, no momento em que os olhos de Gareth ficaram duros como aço, desejou poder retirar as palavras. Cometera um erro e só Deus sabia como iria pagar. Embora as palavras afiadas de Beatrice tivessem produzido o efeito desejado, ferindo-o profundamente, Gareth não reagiu. Apesar da raiva que fervia no seu íntimo, limitou-se a fitá-la. Controlou-se e não perdeu terreno.


Beatrice virou o rosto. − Para de me olhar assim – sussurrou ela. Gareth não respondeu, mas não desviou o olhar e ela fitou-o pelo canto do olho. – Para! Gareth manteve-se imperturbável. Agarrou-a impedindo-lhe qualquer movimento e continuou a olhar, pois sabia que essa atitude a quebraria mais do que mil réplicas. A sua atenção centrada e focada era uma maior punição para Beatrice do que qualquer outra coisa no mundo e queria saber porquê. − Des… Desculpa – murmurou ela finalmente, desviando os olhos e ele assentiu com a cabeça. − Obrigado – agradeceu ele baixinho, após o que inclinou um pouco a cabeça. – Porque és assim, Beatrice? A jovem franziu o sobrolho e foi a primeira vez que ele viu as barreiras caírem. A raiva, a aspereza, a ferocidade desapareceram e deram lugar a uma tristeza a que ela apenas se permitiu por um momento. − Não sei – respondeu finalmente. – O meu pai morreu quando eu era muito jovem. Suponho que… Hesitou como se ignorasse a forma de terminar a frase. Gareth assentiu com a cabeça, refletindo na tristeza causada pela morte dos seus próprios pais. A diferença residia em que lhe restara uma fantástica avó que não se poupara a esforços para lhe minorar a dor. Beatrice ficara apenas com as irmãs e uma mãe que, na melhor das definições, era difícil. Não conseguia imaginar Dorthea Albright a proporcionar conforto ou orientação. − Deves ter passado maus momentos – disse num tom meigo, recuando um passo. Beatrice passou por ele no espaço que lhe deixara e afastou-se lentamente. − Passei mesmo – admitiu, de costas viradas. – Eu era a sua princesa. Quando ele morreu, perdi tudo o que sabia. Tudo o que era. Hesitou e Gareth permitiu-lhe os pensamentos que a haviam detido. Por fim, Beatrice voltou-se e ele reparou na dureza de regresso ao seu olhar, afastando a vulnerabilidade que lhe mostrara. Estava agora mais distante do que nunca. − No entanto, estou a ser parva. Isso foi há muitos anos e deixou de ser importante. Gareth optou por não discutir nem insistir, pois era claro que tais atitudes só lhe valeriam mais um confronto. Já conquistara o seu prémio. Pela primeira vez desde que a conhecera, tinha detetado algo de real em Beatrice. Algo de humano que ela podia querer esmagar, mas continuava a viver no seu íntimo. Talvez a jovem não quisesse dar-lhe essa vitória, mas estava disposto a conquistá-la. Podia roubar-lhe essa vulnerabilidade através do corpo e moldá-la. − Então, o que é importante, Beatrice? – inquiriu num tom meigo. Colocou-se atrás da jovem junto à janela e inclinou-se, roçando o corpo no dela.


Beatrice emitiu um leve suspiro ante a junção, mas não respondeu. Gareth tocou-lhe no ombro e virou-a, satisfeito ao ver que ela não oferecia resistência. Talvez não o soubesse, mas estava a dobrar-se à sua vontade. Ela apoiouse à janela envidraçada, fitando-o com um olhar de paixão e calor. − O que é importante? – repetiu ele, deslizando as mãos e cobrindo-lhe os seios. Ela gemeu. − Is… isto – balbuciou. Gareth assentiu com a cabeça. − E queres mais? Beatrice mordeu os lábios, ao mesmo tempo que os dentes brancos se enterravam sedutoramente na carne rosada. Gareth necessitou de todas as forças para não esmagar os lábios nos dela. − Sim – admitiu a jovem finalmente. – Quero mais. Gareth retirou as mãos dos seus seios e agarrou-lhe os pulsos. Sem desviar os olhos, ergueu-lhos até lhe imobilizar as costas contra o vidro, os braços acima da cabeça. Beatrice arregalou os olhos e fitou-o com uma expressão interrogativa e uma ponta de medo. Porém, acima de tudo, primava a excitação, um puro desejo inegável. − Não te virás até eu o permitir – ordenou Gareth, inclinando-se para encostar os lábios atrás da sua orelha. – Entendes? Se tiveres um orgasmo antes de te dizer que podes, serás punida. Beatrice susteve a respiração quando ele recuou para a fitar. Percebeu que ela queria recusar, que queria lutar. Contudo, tal como esperava, ela queria mais atingir o clímax. Queria sexo e isso superava tudo o resto. − De acordo – anuiu por entre os dentes cerrados, mas as ancas já roçavam contra as dele. Gareth sorriu e baixou a boca. Beatrice ergueu o queixo, num encontro ávido de lábios entreabertos. De início, ele aceitou suavemente a oferta, desfrutando o sabor da sua boca, onde ainda pairava o gosto do chá e da compota doce. Todavia, quanto mais a beijava, mais violento se tornava. Procedeu a exigências com a língua, enterrando-a cada vez mais na boca ansiosa, procedeu a exigências com as ancas, mergulhando na suavidade do seu corpo e ouvindo o farfalhar das saias de encontro ao vidro. − Gareth – ofegou ela quando os lábios masculinos trocaram a sua boca pelo delicado pescoço. – Devíamos ir lá para cima. Devíamos… Gareth recuou e fitou-a. − Ninguém vai entrar. Têm ordens rigorosas. − Mas a janela… − disse ela, com um rápido olhar por cima do ombro. − Alguém pode ver. − Ora, ora, minha querida – ronronou ele. – Já concluímos que gostas da ideia de que


alguém te veja… ou ouça o teu gozo. − Mas claro que não – ripostou Beatrice com um arquejo e desviando o olhar. − Não te esqueças da minha criada, Beatrice – sussurrou ele. – Eu não me esqueci. Um rubor invadiu-a e espalhou-se do pescoço até ao peito. − Is… isso foi uma fraqueza momentânea. Gareth apoderou-se novamente do seu pescoço, murmurando de encontro à pele: − Momentânea? Não, não me parece. Em qualquer lugar recôndito que tentaste tanto ocultar, imagino que consegues facilmente imaginar olhos postos em ti quando te vens, observando o teu gozo. Desejando serem tu. Ou estarem contigo. A jovem mordeu os lábios e moveu as mãos contra as dele, mas Gareth não a largou. − É aqui que te desejo, Beatrice – sussurrou ele. – E acho que também me desejas aqui. Rendendo-te a todo o prazer que sabes que te darei. Ela arqueou o corpo contra o dele, soltando mais um gemido quando ele lhe mordeu suavemente o lóbulo da orelha. − Céus! Sim! Gareth não pediu mais. Soltou-lhe as mãos e desapertou rapidamente os botões da frente do seu bonito vestido. Ela mexeu o corpo, permitindo-lhe que a libertasse do vestido, seguido da combinação, e lhe desnudasse os seios. Beatrice olhou na direção da entrada da sala de jantar, mas, em seguida, arqueou o corpo numa oferta silenciosa. Gareth não conseguiu suster uma risada quando baixou a cabeça para os seus seios. Rodou a língua à volta de um mamilo endurecido e adorou a forma como ela susteve a respiração. O corpo feminino contorcia-se, rolando as ancas de encontro às suas, enquanto ele lhe beliscava a carne macia. O resto do vestido descaiu à volta dos seus tornozelos e ele afastou-o com os pés, deixando-a quase nua na sala de jantar. As costas de Beatrice repousavam no vidro e ela soltou mais um arquejo. − Tens frio? – perguntou ele, afastando a boca do seu seio. − Agrada-me – disse ela, inclinando a cabeça para trás. O membro dele latejou ante a confissão. Diabos o levassem, mas aquela mulher nascera para o sexo e o pecado, independentemente da aparência que ostentava. Por mais que resistisse, fazia parte da sua natureza submeter-se, ceder, gemer e implorarlhe. Quando tivesse a sua derradeira rendição, seria maravilhoso. De momento, ia contentar-se com a situação. Voltou a prender-lhe os pulsos, daquela vez com uma das mãos e imobilizou-os contra o vidro. Com a outra mão, apartou-lhe as pernas e acariciou-lhe a entrada do corpo com um dedo. Emitiu um som de pura posse quando verificou que ela estava molhada e pronta para o receber. Contudo, não. Ainda não. Dissera-lhe que não podia vir-se até ele lhe dar permissão. Estava na altura de testar os seus limites. Abriu-lhe as pernas e foi afastando as


pregas de carne até a pérola húmida do clítoris surgir, reluzente. Lambeu o polegar e depois acariciou ao de leve o duro botão de carne. Beatrice meneou imediatamente as ancas e soltou uma exclamação de surpresa e intenso gozo. Já estava muito próxima do orgasmo. − Não te esqueças do que prometeste, Beatrice – sussurrou ele. – Só te virás quando te der permissão. A jovem mulher gemeu como resposta, mas não se afastou nem argumentou, dando mais um passo rumo aos planos finais que ele lhe reservava. Gareth acariciou-lhe novamente o centro, reunindo alguns dos próprios fluidos para lhe lubrificar o clítoris com outro suave beliscão. − É tão bom – murmurou ela com voz trémula. – Eu quero… quero… − Queres vir-te – completou Gareth, enfiando um dedo na sua bainha e acariciando-a com uma suave pressão. Beatrice assentiu com a cabeça, arqueando-se ao rimo do seu toque. − Pede-me – ordenou ele, cessando todos os movimentos e olhando-a. A jovem fixou-o, de lábios trémulos e as pernas vibrando de necessidade e desejo. O sexo pulsava, mas ela não tinha experiência bastante para saber que, se o apertasse, poderia libertar-se sem a ajuda dele; ou que esfregando-se contra o seu polegar poderia obter alívio. Mais tarde, viria a aprender essas coisas, mas não as faria porque ele a proibia. Gareth não duvidava de que em breve a dominaria. − Pede – repetiu ele. − Por favor – sussurrou Beatrice ao mesmo tempo que o sangue lhe afluía ao rosto. – Por favor, deixa-me… Abria e fechava a boca em busca da palavra para descrever a sua libertação. − Vir – disse ele ao vê-la hesitar. – Queres vir-te. − Quero vir-me – soluçou ela. – Quero que me faças vir. Por favor, deixa-me. − Como? – murmurou Gareth, com aquele doce tormento testando-se da mesma maneira que a ela. – Com os meus dedos, a minha boca ou o meu pau? Beatrice gemeu. − A tua… a tua boca – pronunciou, ofegante. Gareth arqueou uma sobrancelha, admirado com a sua resposta. Não a esperara tão rapidamente nem com tanto empenho. − Gostaste quando te lambi? – indagou enquanto lhe largava os pulsos e deslizava ao longo do seu corpo, sem deixar de sugar a pele. – Gostaste quando provei o teu suco? − Sim! – gritou Beatrice quando ele soltou a respiração quente contra o seu sexo. – Sim, gostei. Por favor, faz-me isso outra vez. − Espera – recordou Gareth. – Espera até eu te dizer quando. Ela assentiu bruscamente com a cabeça. Agora que tinha as mãos livres, enfiou uma


delas nos cabelos dele, mas manteve a outra apoiada na janela atrás dela, abrindo e fechando os dedos de encontro ao vidro com pancadas desesperadas e inúteis, numa tentativa também desesperada de controlar o corpo trémulo. Gareth depositou um beijo suave nos lábios exteriores do seu sexo e em seguida abriu-a. Começou a lamber-lhe mais uma vez o clítoris com a língua. Ela emitiu um som de gozo e puxou-lhe os cabelos com força. Ele enfiou a língua no seu interior, saboreando o desejo, cheirando a proximidade do clímax, mas sem estar pronto para conceder permissão. Queria que ela dependesse dele para essa permissão; que esperasse, como ele ordenara, mesmo que isso fosse contra as suas necessidades físicas e a própria mente. − Ainda não – sussurrou contra a sua pele. O corpo feminino retesou-se e sentiu-a a tentar controlar-se, buscando um pingo de sanidade enquanto ele a lambia e a chupava à loucura. Por fim, Gareth voltou a fixar-se no seu clítoris. Chupou-o e ela contorceu-se, mas não se rendeu aos próprios desejos. Cumpria a ordem recebida. Da segunda vez, Gareth sentiu o sexo dela a estremecer e soube que estava quase a vir-se. Dali a um momento, não lhe restaria alternativa e teria o orgasmo quer tentasse ou não impedi-lo. − Agora! – disse ele. – Vem-te para mim, Beatrice. A jovem gritou quando ele voltou a chupá-la e a explosão do orgasmo foi intensa e enorme. Meneou as ancas descontrolada ao mesmo tempo que o sexo latejava. Gareth levantou-se enquanto ela continuava a arquear o corpo e a balançar-se de alívio e baixou as calças. Beatrice abriu-se, mesmo enquanto continuava a gritar e recebeu-o quando ele a penetrou com uma única estocada. − Continua a vir-te, anjo – sussurrou-lhe junto ao ombro enquanto se desenfiava e enfiava novamente. Beatrice soluçava de gozo, enterrando-lhe as unhas nos ombros através do tecido do casaco. Apertou as pernas à volta do seu corpo e firmou as ancas sem parar o orgasmo que os lábios dele haviam iniciado. Gareth possuiu-a. Não havia dúvidas quanto a isso. Aplicava estocadas firmes e duras, mas ela não ofereceu resistência. Aceitava cada uma com entusiasmo, abandonando-se-lhe total e completamente. A sua submissão era tão terna que o transportou até próximo do orgasmo após algumas estocadas. Gareth sentiu o gozo a esvair-se do corpo dela e os membros a relaxar após uma libertação tão intensa. Queria senti-la a vir-se com ele. Queria transportá-la até mais longe. − Disse-te que parasses? – perguntou num tom rouco junto ao ouvido dela. Beatrice ficou tensa, recuando para o olhar com uma expressão indecifrável.


− Eu… − Quero que te venhas outra vez – murmurou Gareth, roçando as ancas nas dela num círculo vagaroso. Beatrice pestanejou e gemeu: − Não consigo fazê-lo novamente. − Consegues, sim – disse ele, repetindo o vagaroso círculo e pondo as mãos em concha sob o seu traseiro, erguendo-a para a colocar numa posição melhor. Deslizou a outra mão entre os seus corpos, apertando suavemente um dos seios, enquanto percorria o caminho entre as pernas. Penetrou-a e pôs-se a acariciar-lhe o sensível clítoris. − Vais mesmo vir-te, Beatrice. A respiração da jovem saía-lhe agora ofegante e ela encostou a cabeça contra o vidro atrás dela. Gemeu quando ele voltou a penetrá-la. − É demasiado – gemeu ela. Gareth riu e voltou a estimular-lhe o clítoris. − Isso não existe. Vem-te para mim. Agora. Com um grito, ela fez exatamente o que ele ordenara. As ancas menearam-se num ritmo selvagem contra as dele e os seus gritos encheram a sala enquanto lhe apertava o membro com firmes e fortes estremecimentos. O autodomínio dele findou quando os dedos dela se enterraram nos seus antebraços e Gareth rugiu o seu próprio prazer antes de se desenfiar e deixar que a sua semente pulsasse entre os dois ao abraçá-la. Beatrice obedecera à sua ordem e ele gozara cada momento. Se estivera cético em relação ao compromisso que haviam assumido, agora começava a interrogar-se sobre se errara. Talvez tivesse encontrado a mulher capaz de aceitar as suas tendências, a sua vida. Talvez, afinal, tivesse encontrado a sua noiva.


Capítulo 9

B

eatrice ergueu o rosto para o céu ensolarado e respirou fundo. Depois de dias escondida na propriedade de Gareth, o sopro da brisa no cabelo e o sol na pele eram celestiais. Continuou a descer a colina, para longe da casa. Não se queixava do que tinha vindo a fazer desde que chegara. Pelo contrário, o facto de estar longe e de entregar o corpo a Gareth dava-lhe indubitavelmente prazer. Nos quatro dias que passara ali, as carícias dele haviam-na realizado tantas vezes e de tantas maneiras que quase lhes perdera a conta. Porém, continuava a esperar que ele a levasse novamente àquela sala secreta que tinha visto na sua primeira noite ali. Continuava a aguardar que ele dominasse o seu corpo para além do mero controlo dos seus orgasmos, o que conseguira na perfeição. Nesse momento, o som da sua voz rouca murmurando «Agora» era o bastante para que estremecesse. E se adicionasse o seu toque, fazia com que se perdesse. Porém, estava consciente de que ele lhe reservava algo mais para suportar e sentia-se repleta de expectativa… e de excitação… face à ideia de que ele exigiria mais e mais do seu corpo… da sua alma. Mesmo assim, acolheu satisfeita aquela pausa na intensidade que desfrutava na cama de Gareth. Ele fora obrigado a tratar de uns negócios e ela decidira passear pelas colinas e conhecer melhor o local. Respirou o ar suavemente perfumado e olhou em volta. A propriedade de Gareth era o sítio mais belo que lhe tinha sido dado observar em toda a vida. As terras onde passara a infância haviam-se apresentado num estado caótico durante toda a sua vida. Por fim, o mobiliário ficara desgastado e mal conservado e o pai tinha vendido muitos dos objectos mais bonitos. Era humilhante. Londres revelou-se melhor. A casa que Beatrice partilhava com a mãe e a irmã era muito acolhedora, o que não era de admirar. Fora providenciada pelos fundos compartilhados dos seus dois ricos cunhados e eles não se poupavam a esforços para parecer interessados. Contudo, por mais bonita que fosse, encontrava-se tão próxima da dos vizinhos que não usufruía de um mínimo de liberdade. Quanto às propriedades das irmãs casadas, era inegável que o conde de Rothschild e o duque de Kilgrath tinham casas fantásticas, mas nunca se sentira bem em nenhuma delas. A partir do momento em que pisava o interior, sabia que os anfitriões contavam o tempo para que se fosse embora. Não existia falsa simpatia ou beleza capazes de camuflar essa realidade. Ali era diferente. Ali podia respirar. Não tinha uma mãe por cima do ombro a dar-lhe


vinte e cinco instruções sobre o que deveria fazer de outra forma. Ali não tinha olhos a vigiá-la, julgando-a em permanência e detestando-a pelas coisas que havia feito e dito. Sentia-se livre ao caminhar pelo belo relvado que parecia perder-se no infinito. Mesmo na casa, sentia que pertencia ali. À exceção do criado que parecia desprezála pessoalmente desde aquela manhã em que o repreendera, o pessoal não a tratava mal, nem a julgava. A casa estava disponível para ela e os seus desejos, quer se tratasse de uma hora tranquila a ler na biblioteca de Gareth, ou de um encontro escaldante e apaixonado com ele contra a porta do seu escritório. Estremeceu ao afastar aquela recordação particular. Sim, sentia-se confortável ali. Em casa. Talvez, se passasse todos os testes de Gareth e os dois viessem a casar-se como haviam concordado no início do acordo, ela pudesse mesmo ser feliz, o que se tratava de um conceito de que quase abdicara ao longo dos últimos anos. Suspirou ao entrar num pequeno bosque ao fundo de uma colina. Uma das árvores tinha sido derrubada por uma tempestade aparentemente ocorrida anos antes e Beatrice sentou-se no tronco caído, a fim de descontrair um momento antes de regressar a casa e a um encontro planeado com Gareth após ele concluir os negócios. Acabara de se sentar e dispor as saias à sua volta quando ouviu um restolhar no matagal, à sua direita. Retesou o corpo e espreitou através dos ramos sombrios. − Está aí alguém? – chamou para o silêncio que a rodeava, sentindo-se idiota ao aperceber-se de que o som vinha provavelmente de qualquer animalzinho a caçar no meio dos arbustos. Mesmo assim, sentia uma presença. Uma pessoa. Como era de esperar, não obteve qualquer resposta e abanou a cabeça ante a imagem criada pela sua imaginação. Passara obviamente tempo de mais enfiada na casa. Talvez sugerisse a Gareth que dessem um passeio todos os dias, embora não estivesse muito segura de desejar tanto tempo ao lado dele quando ele poderia interrogá-la sobre o passado que queria manter secreto. Ele queria saber demasiado, ver… Antes de conseguir terminar o pensamento, o restolhar voltou, mais nítido daquela vez, e teve a certeza de que provinha de algo muito maior do que um rato do campo ou de um coelho a farejar os arbustos. Levantou-se e enfrentou o som. − Quem está aí? – perguntou, adotando mais uma vez a brusquidão que a definia quando o medo a tomava. Tinha experiência bastante para não mostrar fraqueza diante do inimigo. – Sei que está alguém aí. Mostre-me imediatamente o seu rosto. − Com prazer. Beatrice gritou quando um homem saiu da sombra e avançou na sua direção. Era alto e adelgaçado, magro como se não comesse há bastante tempo. As roupas também se apresentavam em mau estado. Segurava uma garrafa numa das mãos, mas antes mesmo de saber que se tratava de uísque, cheirou-lhe o hálito e recuou. − E quem é você para invadir assim a propriedade do marquês de Highcroft? –


inquiriu ela, afastando-se e tentando manter o tom duro e arrogante face ao saqueador que a fitava com um olhar intenso. O homem riu, embora sem vontade. − Ele disse que Highcroft tinha uma prostituta aqui, mas você é uma bela mulher. Beatrice encolheu-se ante o tom de voz, cheio de amargura e de ódio. As palavras afiadas e ofensivas pairavam entre ambos, causando-lhe um nó no estômago e fazendo com que as mãos lhe tremessem. Tudo indicava que aquela pessoa a desprezava, embora tivesse a certeza de que nunca o vira antes de ele ter surgido da mata por detrás dela. Pior ainda, o estranho que estava na sua frente afirmara que «ele» dissera algo a seu respeito. «Ele», outra pessoa… alguém que espalhara o boato sobre a sua permanência ali. A ser verdade, caso alguém tivesse presenciado a sua chegada, se o pessoal de Gareth andasse a divulgar rumores, isso significava que as histórias poderiam chegar à cidade e não haveria regresso. A sua vida ficaria total e completamente destruída. − Não faço ideia do que está a falar – redarguiu, distanciando-se uns passos do invasor embriagado. Tinha de controlar qualquer dano causado pelo que ele ouvira e afastar-se o mais depressa possível. – Sou a noiva de Lorde Highcroft e estou aqui com muitos convidados. O senhor não é um deles, portanto, sugiro que se vá embora imediatamente. O homem deixara de avançar na sua direção e a garrafa que segurava na mão caiu-lhe aos pés enquanto a fitava. Uma grande emoção refletiu-se-lhe no olhar toldado, mas dessa vez não se tratava de ódio mas de choque e talvez de uma ponta de mágoa. − Noiva? – replicou com voz trémula. – Ela está morta e enterrada e ele substituiu-a por uma prostituta. Beatrice cruzou os braços, magoada e assustada pelas palavras do homem e o seu estado obviamente emocional. − Se não se for embora imediatamente, gritarei e os convidados acorrerão. Estão no cimo da colina. O homem abanou a cabeça e sorriu-lhe. − Não há ninguém por perto, miss. Tenho a certeza. Tal como sei que não há nenhuma festa aqui. São apenas você e ele e todo o joguinho sujo que ele quer que faça. Beatrice abriu e fechou a boca desesperadamente. A situação era pior do que julgara. Aquele homem estava de posse de mais do que rumores passageiros, sabia pormenores sobre o motivo da sua presença ali. Alguém com conhecimento íntimo falara-lhe aparentemente dela. A ideia enojava-a e assustava-a. Tinha de sair dali, de voltar para junto de Gareth. Ele saberia o que fazer. Ergueu o queixo com toda a arrogância de que se servira para colocar outros à distância.


− Já ouvi insultos que cheguem da sua boca. Vou regressar à casa. E aconselho-o novamente a que se afaste. Virou as costas, mas ele deu um salto e agarrou-a pelo braço. O instinto sobrepôs-se de imediato e Beatrice começou a lutar, empurrando a mão do assaltante, puxando o braço para o libertar até lhe doer, mas ele não a largou. − Oh, não, não vai! – gritou ele, enquanto se debatiam. – Ainda não acabámos. Não deixarei que ele vá por diante com isto. Com nada. − Pare! – gritou Beatrice quando o vagabundo a obrigou a dar meia volta para o encarar. O hálito a uísque aumentara de intensidade e ela inclinou-se para longe dele. – Solte-me imediatamente! O homem não obedeceu e em vez disso recuou e começou a arrastá-la para a escuridão arborizada e só Deus sabia para que tipo de tormento. Beatrice gritou o mais alto que podia, mas sem qualquer ilusão de que os seus gritos lhe trouxessem ajuda. Tinha recusado a companhia do criado que Gareth lhe pusera à disposição e por conseguinte não fora seguida. Ninguém iria dar pela sua falta até estar atrasada quase uma hora para o seu encontro com Gareth. Nessa altura, era muito provável que estivesse morta. Assim, fez a única coisa que lhe ocorreu. Girando levemente sobre os calcanhares, deu uma joelhada ao atacante entre as pernas com a maior força que conseguiu. O homem largou-a enquanto emitia um rugido de dor. − Cabra! − Beatrice! – chamou uma voz à distância. Ela virou costas e correu na direção da voz, reconhecendo de imediato a de Gareth. − Estou aqui! Ajuda-me! – gritou ao vê-lo descer a colina. Quando lhe ouviu a voz, Gareth começou a correr ao seu encontro. − O que se passa? – perguntou quando ela se atirou para os seus braços e o apertou, tremendo da cabeça aos pés, embora quisesse controlar-se. – Porque estás a gritar? − Ele apareceu do nada – disse ela, apontando para o homem que estava a levantar-se e se contorcia. – Ele atacou-me! Gareth colocou-a suavemente de lado e avançou para o assaltante desconhecido como um animal selvagem liberto da jaula. − Que raio… Não acabou a frase. Beatrice verificou surpreendida que, quando o outro homem levantou a cabeça e olhou para Gareth, este ficou paralisado. Os dois homens fitaram-se de frente. Pelo olhar trocado, era óbvio que se conheciam. − O que está a fazer aqui? – arquejou Gareth. O outro homem abanou a cabeça. − Não acontecerá, Highcroft. Juro por Deus, que lhe farei o que fez à minha. Juro.


Em seguida, virou-se e correu para o bosque, a coxear e agarrado ao sexo. Beatrice sentiu alguma satisfação por saber que o magoara. Contudo, era muito pequena, pois a sua última ameaça era-lhe obviamente dirigida. Gareth pareceu considerar persegui-lo, mas mudou de ideias. Fitaram-se durante um longo momento, mas depois ele correu ao seu encontro e abraçou-a novamente. Daquela vez com mais força, mais intensidade e intimidade. − Estás bem? – sussurrou-lhe junto ao cabelo. – Ele fez-te algum mal? Beatrice apertou-o de encontro ao corpo, refugiando-se no seu toque, embora soubesse que devia afastá-lo, fugir àquela ligação emocional que tanto receava. − Não me fez mal nenhum – sorriu quando se afastou, mas continuava trémula. – Fui eu que o magoei. Gareth devolveu o sorriso trémulo. − Foste tão corajosa, Beatrice. Em seguida, esmagou a boca na dela com um medo desesperado que ela quase podia provar. Naquele momento, teve consciência do perigo que correra e sentiu medo. Porém, com os braços de Gareth à sua volta estava segura. Protegida. Rendeu-se a essa sensação enquanto os dois caíam de joelhos por terra ao mesmo tempo. Beatrice estendeu o braço para o casaco dele, puxando o pesado tecido com as duas mãos, ávida por sentir a sua pele nua sobre a dela. Gareth recuou com um olhar admirado. − Tens a certeza? Em vez de palavras, ela reagiu rodeando-lhe as faces com as mãos em concha e erguendo-se para o beijar. Entregou-se totalmente à paixão daquele beijo e sentiu que ele o aceitava, sentiu que se fundia com as suas próprias emoções. Enquanto ele lhe desabotoava o vestido, ela puxava-lhe violentamente a camisa. A roupa caiu à volta deles, formando uma cama improvisada onde ele se deitou com ela sobre o peito. Os dedos de Gareth enroscaram-se-lhe no cabelo louro que lhe caía sobre os ombros e as costas. Ela ignorou as cócegas e depositou um beijo acalorado no peito dele. Gareth rugiu de gozo, mas, para sua surpresa, não controlou o que ela fez depois. Limitou-se a pousar uma das mãos no fundo das suas costas e a esboçar languidamente desenhos com os dedos na sua pele. Colocou a outra mão debaixo da cabeça a servir de almofada. E limitou-se a observá-la. Beatrice franziu a testa. Gareth nunca a deixara controlar a maneira como faziam amor. Nem sequer estava muito segura de como agir, embora o seu corpo albergasse várias ideias muito específicas. − Porque me olhas assim? – sussurrou ele, enquanto lhe acariciava suavemente a pequena depressão no fundo das costas e ateava o fogo entre as suas pernas sem sequer


tentar. − Porque não estás a… a… − Dominar-te? – completou ele a sorrir. Beatrice assentiu com a cabeça. − O verdadeiro significado de te dominar significa assumir a responsabilidade não só do teu prazer quando fazemos amor, mas das tuas necessidades. E acho que, depois da tua provação, necessitas de recuperar um pouco do teu poder. Por conseguinte, aceita-o, Beatrice. Concedo-to de livre vontade. Beatrice pestanejou. Nunca imaginara que ele considerasse parte do seu dever zelar pelo seu bem-estar. Isso implicava que cuidaria dela e levaria em conta as suas necessidades. O último homem a fazer-lhe essa promessa tinha sido o pai e falhara a missão, levando Beatrice a jurar nunca mais ficar totalmente dependente de quem quer que fosse. Contudo, Gareth estava a prometer-lhe que poderia fazê-lo. Com o seu corpo e mais do que isso. A ideia era muito intensa e ela tentou libertar-se, mas ele aumentou a pressão sobre a sua pele e foi fácil mantê-la em cima dele. − Não fujas, Beatrice – disse, com os olhos colados nos dela. − Podes pensar nisso mais tarde e apresentar-me todos os motivos por que estou errado e tu estás certa. De momento, aceita o que te ofereço. Precisas disso. Beatrice hesitou, baixando os olhos na sua direção. Queria desesperadamente o que ele lhe oferecia. Queria ser confortada e protegida pelo seu toque. Queria o prazer que decerto encontraria. E sentia-se tentada pela perspetiva de que o poder mudava na sua direção e poderia conduzir o destino daquele encontro. Hesitante, inclinou a cabeça e premiu os lábios contra os dele. Esperava que Gareth tomasse as rédeas do beijo, mas, fiel à sua promessa, deixou-a conduzir. Entreabriu os lábios, mas não os esmagou, nem exigiu. Beatrice saboreou-o ao mesmo tempo que toda a resistência desaparecia, submetendo-se ao seu beijo e a todo o prazer que ele lhe proporcionava. Gareth também tinha obviamente prazer, pois Beatrice sentiu a ereção dele entre os seus corpos, endurecendo contra a parte exterior da sua coxa. Estremeceu, deslizando uma das mãos pelo peito dele, entre os corpos até lhe agarrar o pénis. Acariciou-o várias vezes da base à cabeça, adorando a rigidez aveludada da carne. Gareth emitiu um gemido abafado ante o toque e ela regozijou-se ao senti-lo mais rijo para ela. Por causa dela. O corpo masculino retesou-se ante o seu toque, as veias do pescoço latejaram e ele emitiu um som gutural de puro gozo. O poder cresceu no íntimo de Beatrice e ela mudou de posição para o cavalgar. O membro roçou-lhe o ventre, mas ela não o recebeu logo. Manteve-o dominado, atormentando-o com os dedos e sem desviar os olhos.


Gareth não vacilou. Fitava-a com maior intensidade sempre que ela lhe tocava, como se lhe desse mais e mais de si próprio, livremente e sem hesitar. Beatrice sentia-se estupefacta com aquela capacidade de submissão. E também um pouco assustada, pois não desejava a ligação que sentia com ele nesse momento. Não queria aquele calor no corpo que nada tinha a ver com sexo ou prazer, mas com emoção. Precisava de pôr termo à situação. Precisava de se assegurar de que o sexo era apenas isso. Sexo e não sentimento, nem emoção. Apenas dois corpos que se uniam. Sem preâmbulo, subiu no corpo dele e posicionou o membro masculino de encontro ao seu sexo húmido e excitado. Com uma única estocada, recebeu-o plenamente. Os dois soltaram um gemido de prazer ante aquela união. Gareth deslizou a mão quente para os seus seios, titilando-lhe os mamilos com os dedos, enquanto ela começava a menear as ancas contra as dele. O prazer aumentou com o toque no seu clítoris e ela moveu as ancas com mais vigor, procurando estimulação e prazer que encontrou facilmente no corpo masculino. A sua bainha latejava à beira do orgasmo, mas não conseguia lá chegar. Aumentou a intensidade dos movimentos, adorando o crescendo do orgasmo, mas sentindo-se frustrada ante a incapacidade de alcançá-lo. Por fim, soluçou de insatisfação. − Não consigo – murmurou, desviando os olhos e sem forças de tanto desejar o orgasmo. − Descontrai-te – disse Gareth, acariciando-lhe suavemente a pele. – Vais conseguir. − Não consigo sem… − Hesitou, odiando-se por estar prestes a confessar que perdera o poder. – Não consigo sem que me dês permissão. Fitou-o e verificou que ele a observava sem o triunfo ou poder que havia receado. Observava-a com uma total admiração. Sentou-se com movimentos lentos e Beatrice envolveu-lhe instintivamente as costas com as pernas. Encontravam-se frente a frente, com uma maior intimidade do que em algum momento em que tinham feito amor, pois não podiam esconder-se. Gareth inclinou a cabeça e beijaram-se no preciso instante em que ele começou a içar-se contra ela. Beatrice foi ao encontro das estocadas, embatendo no corpo dele à medida que o prazer perdido regressava com uma intensa e ofuscante rapidez. Deitou a cabeça para trás com um grito quando todo o seu corpo aderia ao gozo. Por fim, ele sussurrou: − Vem-te, Beatrice. Dá-me o teu prazer. Tal como ela receava, a permissão era o que o seu corpo dorido necessitava. O alívio que tanto desejava atingiu-a com uma força semelhante à dor. Perdeu o controlo do corpo e os movimentos tornaram-se selváticos enquanto cavalgava o membro de Gareth com total abandono. Contudo, ele não a deixou perder-se totalmente. Segurou-a, beijando-a ao longo do clímax e murmurando palavras doces que se imiscuíram no


prazer e o tornaram melhor. Por fim, ele inclinou a cabeça para trás, retesando o pescoço e o corpo invadido por um tremor. Com mais algumas rápidas estocadas, explodiu e dessa vez no interior do corpo dela, inundando-a de calor, prazer e força num jorro de sémen que pareceu estimulá-la mais e elevá-la a um novo nível de prazer e alívio. Após um momento semelhante a uma eternidade, o prazer trepidante chegou ao fim e Beatrice voltou à realidade. Recordou-se de que estavam no exterior, com os braços e as pernas entrelaçados, as testas transpiradas suavemente encostadas e as respirações sincronizadas. De alguma forma, esquecera-se disso, esquecera-se de tudo que não fosse ele. Inclinou-se para o fitar e sentiu algo que nunca esperara quando tinha iniciado aquele acordo. Estabelecera uma qualquer ligação com Gareth. Por mais que o receasse, por mais que odiasse ter-lhe dado totalmente o domínio do prazer do seu corpo… isso também lhe conferia uma sensação de paz. E a paz era algo a que Beatrice não estava acostumada.


Capítulo 10

G

areth viu Beatrice deslizar lentamente a combinação por cima da cabeça e alisava o tecido sobre a pele. Aquele simples ato excitou-o loucamente e teve o forte impulso de voltar a colocá-la sobre a relva e arrancar todo o prazer e calor que pudesse da sua pálida carne. Contudo, não o fez visto que muita coisa mudara em apenas algumas horas. Tinha tomado consciência da mudança enquanto faziam amor, mas o novo entendimento entre ambos expressara-se na perfeição quando Beatrice admitira que necessitava da sua autorização para conseguir chegar ao orgasmo. Tratava-se de uma forte declaração daquela mulher que desejava controlar tudo e deitaria as garras de fora, caso alguém ameaçasse o seu poder. Mais profundo ainda era o facto de ele ter derramado o sémen dentro da bainha dela. Não planeara esse momento que pura e simplesmente acontecera enquanto se abandonavam à paixão e à libertação. De qualquer maneira, aquele instante de fraqueza mudava tudo. Gareth era muitas coisas mas jamais daria o seu nome a um bastardo. Agora existia a hipótese de um filho que selava o futuro de ambos como um casal, antes mesmo de ele haver testado a capacidade dela quanto a render-se ao seu estilo de vida. Beatrice fitou-o enquanto reunia a saia do vestido espalhada na relva e os pensamentos agradáveis mas confusos de Gareth desvaneceram-se. Franziu a testa ao reparar numa leve nódoa negra no braço dela. Não se tratava de uma marca da paixão que os avassalara, mas provinha da forma como o agressor a prendera. Um agressor que viera até ali por causa dele. − Meu Deus, Beatrice! – sussurrou, estendendo a mão que passou sobre a ligeira marca. Beatrice olhou para o hematoma e uma sombra de medo surgiu-lhe no rosto, embora dissesse: − Não tem importância. Vai desaparecer dentro de dias. Gareth abanou a cabeça. − Devo-te o maior pedido de desculpas pelo que suportaste hoje. Há muitos anos que vivo nesta propriedade. Temo que a minha adaptação ao lugar me tenha tornado complacente. Nunca deixaria que tivesses vagueado sozinha pela propriedade se pensasse… Verificou admirado que a expressão habitualmente rígida dela se suavizava. − Claro que não deixarias. Não te culpo pelo que aconteceu hoje – tranquilizou-o.


Em seguida, pareceu dar-se conta da emoção que partilhava, pois virou as costas bruscamente. Enfiou o vestido sem o fitar e apertou rapidamente os botões da frente. Mantendo-se de costas viradas, começou a pentear o comprido cabelo louro com os dedos. Tratava-se de um gesto perfeitamente vulgar, mas ele percebeu que se destinava a conservá-lo à distância. − Quando te aproximaste do homem que me enfrentou na floresta – disse ela baixinho – pareceram reconhecer-se um ao outro. Quem era ele? Gareth retesou o corpo e acabou de abotoar a camisa antes de responder à sua pergunta perfeitamente legítima. Não queria partilhar a verdade, mas, depois do que acontecera, era algo que lhe devia. Se estava a ser ameaçada, merecia saber por quem. E porquê. Aclarou a garganta. − O homem que te atacou era… o irmão da minha falecida mulher. Beatrice deixou subitamente de alisar o cabelo. Virou-se lentamente para o fitar e estava mais pálida do que o habitual. − As su… suas ameaças – pronunciou finalmente após uma longa e desconfortável pausa. – Ele disse que me faria o mesmo que lhe fizeste. Referia-se à irmã, não era? À tua falecida mulher. Gareth assentiu com a cabeça e Beatrice estremeceu. Ele percebeu que ela estava a pensar em morte. Pior ainda, num assassínio, naquela coisa horrível que há anos pairava sobre a sua cabeça. Na acusação a que Beatrice nunca parecera dar muito crédito desde o primeiro momento em que o vira. Talvez fosse a única. No entanto, naquele momento notava o brilho da dúvida no seu olhar e foi apanhado de surpresa pela perturbação que aquela dúvida lhe causava. Pigarreou e dessa vez foi ele a virar as costas para lhe ocultar a sua reação. − A família de Laurel ficou muito revoltada comigo desde a sua morte e talvez eu mereça a raiva deles, visto que a perderam para sempre. Gareth abanou a cabeça ao pensar no olhar furioso que o irmão de Laurel, Adam, lançara a Beatrice ao vê-la. A recordação despertou-lhe uma raiva protetora quase insuportável. A ideia de que o homem pudesse cometer qualquer ato de vingança perversa contra ela fez descer um véu de fúria cega sobre os olhos de Gareth. − Nunca pensei que ele fosse tão longe – murmurou, tentando controlar as emoções. Ao ver que ela não respondia, Gareth voltou-se e viu que Beatrice se mantinha no mesmo lugar onde se encontrava no início daquela conversa, mas deixara de alisar o vestido e pentear o cabelo. Limitava-se a fitá-lo e era talvez a primeira vez em que não tentava disfarçar a leitura compenetrada do rosto dele. Apertava as mãos diante do corpo e ele viu que tremiam. − Quero fazer-te uma pergunta – sussurrou ela com voz trémula e Gareth desejou que


não fosse por causa do medo. Gareth assentiu com a cabeça pois sabia qual era a pergunta antes mesmo de ela a formular. − Gareth, tu… tu mataste a tua mulher? Ele estava preparado para aquelas palavras, mas mesmo assim atingiram-no como um murro no estômago. Tratava-se da pergunta que o perseguia desde há dois longos anos. O pior residia em que não tinha a certeza da resposta. Em algumas noites sentia-se como um assassino, enquanto relembrava os acontecimentos daquele dia terrível em que a vida de Laurel se extinguira. − Gareth… − sussurrou Beatrice, quando ele não respondeu. Ele afastou-se, sem desejar explicar, pronunciar em voz alta o que fizera, o que a mulher fizera e porquê. O porquê era a pior parte… sobretudo para Beatrice. − É mais complicado do que isso – disse finalmente. A jovem aproximou-se dele e pegou-lhe no braço. Quando o puxou, Gareth virou-se para a fitar. Os olhos azuis dela brilhavam de raiva, preocupação e medo quando o fitou. − Então, explica-me – pediu. Gareth ficou surpreendido ao ver que por uma vez a brusquidão e acusação não estavam presentes no tom em que ela se lhe dirigia. A rispidez que Beatrice usava como um escudo protetor desaparecera e ela era apenas uma mulher que desejava – não, que precisava – saber a verdade. − Gareth – sussurrou. – Hoje, alguém me atacou em nome de uma mulher que desconheço para além de rumores e de conjeturas. Tu e eu fechámos um negócio que, segundo o combinado, resultará em casamento se chegarmos a acordo. O mínimo que mereço é ouvir o que lhe aconteceu. A Laurel. – Hesitou e ele notou que cerrava o maxilar. – Por favor. Gareth recuou. Se aprendera alguma coisa sobre a mulher que tinha na frente, era que ela não pedia nada facilmente. A exigência adaptava-se mais à sua personalidade e o facto de lhe ter pedido que revelasse a verdade possuía uma enorme força. − Sim, mereces isso – concordou ele. – Para que entendas os acontecimentos de hoje preciso de voltar ao início. Beatrice esboçou um aceno silencioso. Gareth assentiu com a cabeça, ao ser invadido pelas recordações. − Eu… eu vi Laurel no lado oposto de uma sala onde me encontrava há quase três anos e desejei-a de imediato. Beatrice não se mexeu, mas Gareth pensou que vira um músculo do maxilar a tremerlhe como se não gostasse de ouvir aquilo. Ignorou o sinal de ciúme e prosseguiu: − Fiz todos os esforços para a conhecer. Quando isso aconteceu, receio não ter


conseguido ocultar até que ponto a desejava, mas o meu entusiasmo não pareceu assustá-la. Pensei que me desejasse de igual maneira, pois deixou que lhe roubasse um beijo apaixonado no jardim nessa mesma noite. Ficou claro para todos que eu queria cortejá-la, mas a família dela opôs-se árdua e vocalmente a qualquer ligação entre nós. Havíamos sido vizinhos durante muito tempo, sabes, e acho que eles tinham ouvido boatos do que eu… − Arqueou o sobrolho na direção de Beatrice. – Bom, provavelmente, acreditavam que eu era um libertino. Beatrice assentiu com a cabeça e Gareth viu que ela compreendia que estava a referir-se às suas inclinações. − Mesmo assim, casaste com ela, independentemente das opiniões deles sobre o assunto. − Reparaste certamente no traje do homem que te atacou … chama-se Adam – retorquiu Gareth com um encolher de ombros. – A família de Laurel encontrava-se no início de grandes dificuldades financeiras. O seu irmão Adam herdou uma quantidade imensa de dívidas quando o pai deles morreu. E o jovem era um alcoólico e jogador. Receio ter-me aproveitado dessas coisas na minha busca para obter o que desejava. Muito em breve, a família não teve alternativa senão aceitar um contrato de casamento e por conseguinte Laurel e eu casámo-nos. Beatrice assentiu com a cabeça. − Nunca fui íntima da tua mulher, mas conheci-a vagamente durante a sua apresentação em sociedade e acho que foi no ano em que casaram. Houve muitos boatos e conversas sobre o vosso casamento à pressa. Gareth abanou a cabeça. − Sabia que a nossa rápida união causou algum dano à sua posição, mas a verdade é que não me importei. Estava decidido a possuí-la a qualquer custo. Talvez egoistamente determinado em mais do que um aspeto. Demorou um momento a tomar fôlego e a recuperar a compostura. Beatrice não tentou interrompê-lo nem encorajá-lo a prosseguir. Limitou-se a aguardar com uma paciência que ele nunca lhe atribuíra. Por fim, Gareth continuou: − Logo a seguir ao casamento, trouxe-a até aqui, onde podíamos passar os primeiros meses do nosso casamento em total intimidade e privacidade. De início, julguei que tudo correria bem. Embora ela se mostrasse tímida em prodigalizar afeto, parecia bastante aberta a lições de desejo e de paixão. Contudo, decorridas algumas semanas, eu queria mais. Beatrice observou-o a percorrer nervosamente a área relvada de um lado para o outro. − Querias que ela permitisse que a dominasses. Querias a sua total submissão, tal


como exiges a minha. Gareth anuiu. − É essa a minha natureza quando se trata de sexo, Beatrice. Sem domínio, canso-me depressa da minha parceira. Não desejava cansar-me da minha mulher e por conseguinte pedi-lhe que se me entregasse. Porém, ela… Interrompeu-se ao pensar na repugnância de Laurel na primeira vez que lhe mostrara a sua sala privada de prazer. Retrocedera física e emocionalmente. Dirigira-se-lhe num tom áspero ao declarar que não queria aquela sala ao fundo do corredor onde dormia e um dia criaria os seus filhos. Ele tentara argumentar, mas ela fugira. Durante três longos dias nem sequer lhe tinha dirigido a palavra. Gareth deveria ter percebido e deixado que ela se fosse embora, mas não o fez. − Tornou-se mais do que óbvio que ela não queria partilhar a minha vida – terminou com dificuldade. – Não conseguia aguentar, nem sequer se esforçou. Depois da nossa primeira discussão sobre o assunto, limitava-se a ficar deitada como uma tábua na nossa cama, só permitindo as minhas mãos no seu corpo. Nem sequer fingia ter prazer por mais paciente ou prestativo que me mostrasse. E em breve deixou de me permitir a mínima intimidade. Durante meses não partilhámos a mesma cama e encolhia-se quando me aproximava. Beatrice avançou um passo com o olhar fixo no rosto dele. − Foi por essa razão que te mostraste tão inabalável quanto a «testar-me.» Foi por isso que disseste que tínhamos de saber se somos compatíveis antes de casarmos. Gareth assentiu com a cabeça, tão atormentado pela dor como pela memória. Se, ao menos, tivesse explicado as suas necessidades a Laurel antes de casarem, talvez tudo o que acontecera mais tarde pudesse ter sido evitado. − Mas o que lhe aconteceu, Gareth? – inquiriu Beatrice, quase num sussurro. – O que te levou de um casamento sem paixão igual a muitos outros da cidade à sua morte prematura? − Receio não ter lidado delicadamente com a nossa situação – respondeu ele, engolindo em seco. – Senti-me frustrado pela sua recusa de nem sequer tentar que o nosso casamento funcionasse. À medida que as semanas e os meses passavam, ela trancava-se cada vez com mais frequência. Quando falávamos era na maioria das vezes para discutir. Pareceu tornar-se cada vez mais histérica e chegou a atacar-me fisicamente. Beatrice arregalou os olhos de surpresa, mas não o interrompeu. − Uma noite, a luta passou todos os limites. Laurel pôs-se a correr aos gritos pela casa, embora eu tivesse um amigo como convidado, embora o pessoal e metade do condado pudessem ouvi-la injuriar-me. Beatrice estremeceu e Gareth desviou os olhos. Era incrível como o facto de contar


em voz alta tudo o que acontecera podia trazer de volta todas as emoções daquela noite horrível. − Quanto mais ela prosseguia, mais irritado e frustrado me sentia – disse entre dentes, à medida que a clareza dos pensamentos se tornava quase dolorosa. – Por fim, ripostei. Um suspiro abafado escapou dos lábios de Beatrice e Gareth fitou-a, sobressaltado. Ergueu as mãos numa súplica muda de compreensão e crença. − Não lhe toquei, juro-te! Recordei-lhe simplesmente que me devia um filho, um herdeiro; que, ao manter o corpo longe do meu, estava a roubar-me o meu legado e não o suportaria por mais tempo. O rosto de Beatrice descontraiu-se um pouco. − E qual foi a reação dela? Gareth engoliu em seco, pois tinha as temidas palavras entaladas na garganta. − Ao que parece, a ideia de ter filhos meus desagradava-lhe totalmente. O terror que expressou no rosto era a prova do que sentia. Agarrou-se à barriga e disse que nenhum filho dela ficaria alguma vez sob o meu controlo. Gareth voltou a hesitar, quase fisicamente incapaz de prosseguir. − De… depois virou-se e atirou-se da escadaria principal. Beatrice soltou uma exclamação abafada e tapou a boca com a mão. Fitou-o com um brilho assustado nos olhos azul-claros. − É… é tão alta – murmurou finalmente. Gareth assentiu com a cabeça enquanto a náusea o invadia em ondas tão poderosas como acontecera naquela noite horrível. − Ela caiu, de cabeça para baixo, e bateu no chão de mármore ao fundo com o pior ruído que ouvi em toda a minha vida. Desci a correr ao seu encontro, mas vi que estava morta antes mesmo de chegar junto dela. Partira o pescoço e tinha morrido. E eu, aos olhos de muitos, era um assassino. Embora não o desejasse, Gareth obrigou-se a encarar Beatrice, para detetar a sua repugnância e medo quando também ela concluísse que ele era um criminoso depravado. Contudo, ao olhá-la, viu que ela já o fitava, como ele a fitara antes. Os seus olhos azuis centravam-se nele com uma atenção inflexível, mas não conseguia ler-lhe as emoções, a sua reação ao que lhe contara. Estremeceu face àquele escrutínio, mas forçou-se a aceitá-lo. Tivera consciência de que ela podia ficar horrorizada quando soubesse a verdade e estava preparado para qualquer reação. À exceção da que ela teve. Beatrice aproximou-se dele muito devagar. Estendeu a mão e envolveu-lhe suavemente o pulso com os dedos. − Gareth… − murmurou. – Eu… eu nunca tive muito jeito para confortar ninguém… Ele soltou-se.


− Não quero a tua compaixão, com mil raios! − Não é isso o que te ofereço! – ripostou a jovem, voltando a agarrá-lo. – Detesto recebê-la, e porque havia de insultar-te, oferecendo-ta? Falei em conforto. Gareth franziu o sobrolho. − Como posso ter conforto? A minha mulher está morta e foi aquilo que sou o que a matou. − Para! – ordenou Beatrice, apertando-lhe o pulso com mais força. – Não consigo aceitar qualquer tipo de piedade, incluindo a piedade de alguém por si próprio. Não muda nada. Deves saber que não a mataste. − Não sei nada – redarguiu ele com um encolher de ombros. − Como é possível? – ripostou ela, exasperada. – Não a empurraste, nem sequer a mandaste saltar! Ela fez aquilo de livre vontade e pelos seus motivos pessoais. − Os seus motivos eram eu – insistiu Gareth. – Se não se tivesse casado comigo, se não se sentisse tão profundamente repugnada pelo que sou, nunca se teria atirado daquelas escadas. Não é de concluir que casar comigo a matou? − Claro que não! – rugiu Beatrice e era óbvio que achava que nunca ouvira uma afirmação tão disparatada. – Também se conclui facilmente que, se ela tivesse tentado ser o que desejavas, um pouco que fosse, os dois poderiam chegar a um entendimento. Por essa lógica, a incapacidade de Laurel de se comprometer foi o que provocou a sua morte. Qualquer que tivesse sido o motivo, a verdade é que te trancaste durante muito tempo, Gareth. Permitiste os rumores e a crueldade da cidade… Nunca te defendeste uma só vez. Gareth assentiu com a cabeça. − Não queria tornar a sua memória mais sórdida do que já o era. Se os seus familiares e a sociedade me consideravam o vilão, encaravam-na obviamente como a vítima. Era melhor do que o oposto. − Não acredito – discordou Beatrice. – Mentir para proteger a sua memória, sem deixares de te atormentar pelo que ela fez há dois longos anos, não é melhor. De qualquer maneira… basta. Beatrice voltou a fitá-lo e Gareth foi novamente apanhado de surpresa pela inesperada doçura do seu olhar. Ela desejava realmente ajudá-lo, confortá-lo, embora isso não fizesse parte da sua natureza. Contudo, tal significou ainda mais para ele, pois tratava-se de algo que ela optou fazer. − Puniste-te e deixaste que os outros te punissem – sussurrou. – Já chega, Gareth. − É o que o Vincent diz. − Vincent? – inquiriu ela, franzindo a testa. − O meu melhor amigo, Vincent, o visconde Knighthill. Era ele que estava de visita quando Laurel se suicidou. Há muito que me incentiva a defender-me publicamente.


Beatrice colocou as mãos nas ancas. − Nesse caso, estou ansiosa por conhecê-lo, pois parece um indivíduo sensato com conselhos sensatos. − Vais conhecê-lo – prometeu Gareth. – Enviar-lhe-ei recado para que venha aqui imediatamente. Beatrice inclinou a cabeça. − Porquê? − Se alguém anda a ameaçar-te, quero por perto um amigo de confiança para me ajudar a proteger-te – respondeu Gareth, sem desviar os olhos. – Defendo os meus. A jovem estremeceu ante aquela afirmação e ele reprimiu um sorriso. Descobriu que gostava sempre que ela usava o fogo e enxofre da sua natureza para o defender e não para empurrar quem quer que ousasse aproximar-se. Aquele tipo de feroz proteção faria dela uma boa esposa, uma mãe excelente… e uma amiga fantástica. Como se lhe adivinhasse os pensamentos, Beatrice corou e recuou um passo, distanciando-se dele e da intensidade daquela permuta. Cruzou os braços e aguentou o seu olhar. − Sinto-me contente por me teres contado o que se passou com a tua falecida mulher, Gareth – disse. – Agora que sei, a nossa situação faz mais sentido. Contudo… Gareth arqueou uma sobrancelha. Haveria consequências pelo que tinha confessado, embora ela alegasse entender? − Contudo? – incitou. Beatrice alisou o vestido com um ar pensativo. − Esta coisa entre nós não tem nada a ver com ela. Não quero que o que fazemos e o que partilhamos se relacione com o que aconteceu antes. Gareth pestanejou. Não esperara aquela declaração, embora concordasse totalmente. Na verdade, ele pedira aquele acordo a pensar na recusa de Laurel. Todavia, a partir do primeiro momento em que tocara em Beatrice, nunca pensara na falecida mulher. As duas estavam totalmente separadas. E tencionava manter tudo assim. − Tens razão – admitiu em voz baixa. – E juro-te que a minha falecida mulher não entra nem nunca entrará no quarto connosco. Beatrice endireitou os ombros. − Estou farta de jogos, Gareth. Tenho estado a aguardar que me mostres exatamente o que queres de mim e agora exijo-te que o faças. − Exiges? – retorquiu com o primeiro toque de humor desde que encontrara Adam a persegui-la. Beatrice assentiu com a cabeça, mas ele detetou o nervosismo ao vê-la engolir em seco.


− Leva-me novamente àquela sala especial que me mostraste na noite da minha chegada. No entanto, desta vez, quero que me dês realmente tudo o que desejas e te apoderes de tudo o que precisas. Gareth hesitou. A sua exigência representava uma total tentação e a sua oferta de que fizesse o que lhe apetecesse era uma dádiva inigualável. − Não estou certo de que saibas o que estás a pedir – murmurou. Beatrice sustentou o seu olhar, sem uma hesitação. − Talvez não, mas estamos numa encruzilhada, Gareth. Há que tomar decisões e definir o futuro. E essa é a única forma de sabermos se somos verdadeiramente compatíveis. Gareth expeliu o ar com força. Conduzira suavemente Beatrice para a submissão, esperançado de poder persuadi-la. Todavia, nesse momento, ao fitar-lhe o lábio inferior a tremer e as faces coradas, percebeu que a tratara como a Laurel. Esperando submissão em vez de a conquistar. E temendo a sua reação. Contudo, Beatrice em nada se assemelhava à sua falecida mulher. Era mais forte e estava mais preparada para aceitar o que ele desejava, embora a sua natureza se opusesse. A subtileza jamais resultaria. Beatrice desejava e necessitava de uma mão firme. E ele sentia-se extremamente feliz por poder fornecer-lha. Nesse preciso instante.


Capítulo 11

B

eatrice encontrava-se na escura e sensual sala do prazer com que sonhara desde a sua chegada à propriedade de Gareth. O coração pôs-se a bater com mais força ao vêlo entrar na sala e fechar a porta atrás dele. Quando a trancou, sentiu um arrepio de medo, mas afastou-o. Era aquilo o que precisava de fazer. E, após os acontecimentos desse dia, sabia sem sombra de dúvida que Gareth não ia magoá-la. Fitou-o. Gareth conservava-se junto à porta, simplesmente a observá-la. Parecia tão hesitante como ela, mas agora Beatrice conhecia o motivo. Temia a sua reação quando se desfizesse da fachada cavalheiresca e lhe mostrasse o domínio que tanto desejava. Laurel fizera-lhe isso, a mulher que ele protegera, embora ela o rejeitasse. Beatrice sentiu uma empatia que se forçou a pôr de lado juntamente com o medo. Sentimentos mais profundos não tinham lugar naquela sala nem com aquele homem. Beatrice queria a liberdade que ele representava e nada mais. A submissão era a forma de obtê-la. Poderia haver prazer, mas não iria mais longe. Já conhecia as consequências de desenvolver uma relação. − Tira a roupa – disse Gareth num tom de voz diferente, mais poderoso e infinitamente mais sedutor. Porém, ela enfureceu-se por as palavras serem uma ordem. A sua reação natural foi mandá-lo para o diabo e correr para o mais longe que pudesse. Em vez disso, mantevese muito quieta, sem desviar os olhos. Gareth arqueou uma sobrancelha. − Nesta sala, Beatrice, és minha propriedade, minha escrava em todos os sentidos. Deves fazer o que te digo ou sofrer as consequências que te garanto não serem agradáveis. Aqui, sou o teu amo. − Então, não tenho poder? – murmurou, sem saber se deveria concordar com aquele pedido, mesmo para ele. − Em alguns aspetos tens todo o poder, minha querida – discordou ele, abanando a cabeça. − Não compreendo – retorquiu a jovem, franzindo o sobrolho. − Podes deter-me em qualquer altura com uma só palavra. Escolhe, e se a pronunciares, devo recuar imediatamente por mais entusiasmado que me sinta. Mesmo que esteja a possuir-te, termina aí. Beatrice arregalou os olhos. Ali estava uma reviravolta naquela ideia de submissão que ela desconhecia inteiramente. O que ele disse concedia-lhe um poder supremo, pois


vira o quanto envolvido e excitado podia ficar. Isso significava que a qualquer momento ela podia retirar-lhe esse prazer. Mediante uma palavra que escolhesse. Endireitou os ombros e ele sorriu-lhe. − Diz-me a palavra. − Perverso – elucidou Beatrice, arqueando por sua vez a sobrancelha. Gareth riu, começando por uma gargalhada que se repercutiu por todo o corpo. Beatrice nunca o tinha visto tão solto e descontraído e sentiu-se fascinada. Deus do céu! Ele era mais encantador do que julgara. O seu riso era quase tão agradável como o seu toque excitado. − Só tu escolherias dizer a palavra perverso para me fazer parar – comentou quando deixou de rir. – Contudo, é a tua escolha e vou respeitá-la. Se, a qualquer momento pronunciares a palavra perverso, eu cessarei imediatamente as minhas atividades e terás toda a liberdade para te afastares de mim. No entanto, tudo o mais que disseres não me deterá. Mesmo que me digas não. Beatrice assentiu com a cabeça. − Agora, despe a roupa. O corpo da jovem ficou tenso e sentiu-se muito tentada a proferir bruscamente a palavra «perverso» e distanciar-se, mas refreou o impulso. Pedira-lhe que a levasse ali e fizesse aquilo. Censurara a sua falecida mulher por se haver recusado. A melhor atitude parecia-lhe simplesmente experimentar. Levou as mãos ao decote do vestido e agarrou no primeiro botão. Quando o desapertou, Gareth aproximou-se mais e os olhos escuros brilharam à luz da lareira. − Mais devagar, Beatrice – arquejou. Ela estremeceu quando Gareth estendeu o dedo e lhe percorreu a face, mas obedeceu ao pedido e passou ao segundo botão. Sem desviar o olhar, desapertou-o e puxou suavemente o tecido para lhe conceder um pequeno vislumbre da sua pele por baixo. Ele sorriu com uma expressão tão selvagem e possessiva que Beatrice cerrou as pernas em torno da humidade que lhe inundava o sexo. − Mais um – ordenou Gareth, apontando para o botão seguinte. Beatrice desapertou-o e, em seguida, o outro, abrindo completamente o espartilho. − Deixa-me ver os teus seios – sussurrou ele, num tom com aspereza de areia. – Oferece-mos. Beatrice corou face ao pedido sem delongas e a palavra perverso voltou a ocorrerlhe. Ignorou-a e fez deslizar o vestido pelos braços, junto com a combinação. Desnudou os seios e aconchegou-os suavemente por baixo, erguendo-os como que numa oferta. − Belo! − exclamou Gareth, sem nunca desviar o olhar dos mamilos rijos. – Agora, toca-te. Mostra-me a tua excitação. Um leve gemido escapou-lhe dos lábios e ela corou, pois o som era em parte recusa,


mas prazer em igual medida. Era distorcido o quanto gostava da forma como ele a olhava e lhe falava. − Beatrice, quero que me respondas quando te digo que faças essas coisas – disse ele, com as pupilas dilatadas de desejo quando ela beliscou suavemente os mamilos sensíveis. – Quero que te ouças a dizer-me que sim. − S… sim – balbuciou ela. Gareth abanou a cabeça. − Com respeito – acrescentou. Beatrice semicerrou os olhos, mas continuou a puxar os mamilos, sem atender à indignação que a tomou. − Sim, meu senhor. Gareth fechou os olhos. − Oh, gosto disso. Mais ainda do que amo. É o que quero que me chames de agora em diante. Beatrice assentiu com a cabeça, um tanto fascinada pelo prazer que ele mostrava pelas suas atitudes. Gareth dava as ordens, mas de alguma forma ela ainda o tinha na mão, porque ele precisava daquilo por parte dela. Tratava-se de uma dádiva que ele aceitava. − Sim, meu senhor – murmurou e ficou chocada ante a repentina sedução na sua própria voz. − Tira o resto do vestido – disse ele num tom suave. – Mostra-me o teu corpo, porque me enlouquece de desejo. Beatrice corou, surpreendida pelo elogio. Que idiota e infantil era gostar que ele desejasse ver o seu corpo, mas sentiu o calor a espalhar-se e um pulsar constante entre as coxas. Empurrou o vestido para baixo, juntamente com a combinação. Descalçara-se ao entrar na sala e ficara apenas com as meias. Gareth emitiu um som gutural de prazer. − Vou comprar-te roupa interior bonita e chocante, Beatrice – prometeu. – Coisas escandalosas para usar por baixo de vestidos decentes. E, quando as usares, pensarás em mim e em todas as coisas que te farei. Entendes? Beatrice fechou os olhos ante a imagem que ele criou. Quase se imaginava sentada a tomar um chá convencional com senhoras também convencionais, usando algo totalmente escandaloso por baixo do vestido. Isso torná-la-ia consciente do que a aguardava em casa. − Responde-me, Beatrice – disse ele bruscamente. − Sim – gemeu ela. – Sim, meu senhor. − Alguma vez te tocaste? – perguntou ele. Beatrice abriu muito os olhos e fixaram-se.


− Sabe que sim – murmurou. – No banho. Gareth abanou a cabeça. − Referia-me a antes de chegares aqui. Antes de seres minha. Beatrice corou e as faces ardiam-lhe. − S… sim – confessou finalmente. – Algumas vezes. − Mas alguma vez sentiste um alívio como o que te proporcionei? Beatrice ponderou na pergunta. Brincara furtivamente consigo na cama. A sensação fora ótima, mas só se sentira completa com o que ele lhe dera. Só agora conseguia atingir o orgasmo. − Prazer, mas nunca alívio. Só quando me possuiu – confessou. − Queres dizer que te proporcionei o teu primeiro orgasmo? – inquiriu ele, abrindo ligeiramente os olhos que escureceram com um brilho que ela sabia de prazer. − Sim, meu senhor – sussurrou a jovem mulher. – Ensinou-me esse prazer. − Muito bem – pronunciou ele entre dentes e com os olhos brilhantes de intenções maliciosas. – E agora responda, Miss Beatrice Albright, gostaria de ter um agora? Ela esboçou um aceno de cabeça silencioso, embora soubesse que o silêncio não bastaria. − Diz-me – insistiu ele. − Quero um orgasmo, meu senhor – admitiu ela por entre os dentes cerrados. – Por favor. − Espera – sussurrou. – Tê-lo-ás, prometo. Beatrice estremeceu, sentindo a bainha a latejar de antecipação. − Aproxima-te da mesa – murmurou Gareth, apontando para o lugar onde já a conduzira anteriormente. Ela seguiu-o, incapaz de fazer outra coisa que não aquiescer, pois sabia que ele lhe daria prazer em troca dessa obediência. Virou-se de forma a ficar de costas para ele como da primeira vez que haviam tido sexo ali. Antes que ela pudesse inclinar-se sobre a mesa numa oferta, ele tocou-lhe no ombro e voltou-a. − Desta vez, não – declarou num tom meigo. – Deita-te. Beatrice obedeceu. A mesa era surpreendentemente confortável, pois estava almofadada e revestida de cabedal macio. Descontraiu-se, controlando a respiração e rendendo-se a observá-lo por cima dela. Contudo, verificou surpreendida que ele não a possuiu. Em vez disso, agarrou-lhe numa das mãos e ergueu-a acima da cabeça, prendendo-a à argola e apertando, sem deixar que ela movesse o braço. Beatrice agiu por impulso e tentou libertar-se, mas era impossível. Ficou a olhar, enquanto ele repetia o gesto para a outra mão. − Gareth! – gritou. – Para!


Ele arqueou uma sobrancelha e sorriu-lhe. Dissera-lhe que não a soltaria, exceto se ela usasse aquela palavra. E não era parar. Perverso voltou a pairar na sua língua, mas absteve-se de usar a palavra, embora a imobilização dos braços fosse um pouco assustadora. De qualquer maneira, o sangue latejava-lhe nas veias e era inegável que, para lá do medo, sentia-se plena de desejo e de antecipação quanto ao que ele lhe faria a seguir. − Pequena escrava descarada – pronunciou Gareth baixinho. – Não me dizes o que te fazer. Como hei-de castigar-te, Beatrice? − Castigar? – repetiu ela fitando-o e abrindo mais os olhos. − Oh, sim – respondeu ele, agarrando-lhe no tornozelo que enfiou suavemente na argola ao fundo da mesa. Beatrice ficou a observar enquanto ele repetia o gesto para o outro tornozelo. Agora, ela estava realmente prisioneira, com as pernas apartadas e abertas, mostrando lascivamente o sexo húmido e inchado. Encontrava-se totalmente à sua mercê e ele falava em castigá-la. − O que me fará, meu senhor? – perguntou, detestando que a voz lhe tremesse, mas mais ainda que o facto não se devesse apenas ao medo. Como é que ela podia gostar daquela completa rendição e subjugação? Porém, gostava. Em qualquer sítio escuro e febril do seu íntimo, adorava que ele a desprovesse de controlo sem desculpas ou remorso. Gareth arqueou uma sobrancelha. − Mais tarde vais aprender a não me questionar – sussurrou. – Contudo, por agora perdoo-te, visto estares a aprender. O que te farei? Essa é uma pergunta muito interessante. Sabes, minha querida? Esta noite, as minhas intenções eram conduzir-te ao orgasmo vezes sem conta até ficares debilitada e implorares para te vires. Beatrice não conseguiu dominar um arrepio face à imagem que esse tormento delineava. − Vejo que a ideia te agrada – comentou Gareth com uma risada. – Excelente, e prometo-te que, mais tarde, o farei. Pensa nisso enquanto te aplico o meu castigo hoje. − E qu… qual é o castigo, senhor? – perguntou, dirigindo o olhar para a coleção de chibatas penduradas na parede. Gareth seguiu o seu olhar e abanou a cabeça. − Ainda não, querida. Não estás pronta para essa punição. Quero que te sintas tão curiosa com a ideia de seres espancada que te venhas na primeira vez que o fizer. Não, não se trata disso. Acho que farei exatamente o oposto do meu plano original. − O oposto? − Esta noite planeei dezenas de orgasmos durante horas de prazer – disse Gareth. – No entanto, em vez disso, acho que te condenarei a um único. E terás de esperar para o


conseguir. Nada de prazer nem alívio para te castigar por seres tão malcomportada a ponto de questionares o teu amo. Beatrice abriu a boca disposta a ripostar, mas deteve-se face às sobrancelhas arqueadas de Gareth. Se o fizesse, ele poderia não lhe conceder qualquer prazer e limitar-se a atormentá-la a noite inteira. − Se te vieres antes de o permitir – murmurou Gareth, inclinando-se sobre ela –, deixar-te-ei aqui amarrada e regressarei ao meu quarto. Não terás nada e deixarei que os criados venham libertar-te de manhã. Um estranho arrepio de excitação percorreu Beatrice face à ideia de que estranhos pudessem vê-la amarrada como se encontrava, mas virou o rosto para que ele não percebesse o seu interesse. Todavia, ele percebeu. Aparentemente, ela não conseguia ocultar-lhe o que quer que fosse. − Sua devassa – retorquiu Gareth num tom arrastado. – Sei que o facto de seres observada te excitou. Contudo, tratarei de manter isso em mente para futura referência, mas não para esta noite. Exceto se te portares muito mal, entendes? Beatrice assentiu lentamente com a cabeça. Ele estendeu-se por cima dela, com o corpo quente e rijo, ainda todo vestido, enquanto ela se apresentava escandalosamente nua e aberta para seu gozo, tapando-a. Moveu-se até ficarem frente a frente e fitou-a sem desviar os olhos. − Não te magoarei, Beatrice – prometeu num tom meigo e tranquilizador. – Deves estar ciente disso e renderes-te totalmente. Quando o fizeres, ambos teremos um supremo prazer, garanto. Beatrice susteve a respiração. De uma forma estranha, ele estava a pedir a sua permissão. Pensou no que lhe dissera antes, que de certa maneira ela tinha a supremacia naquela relação, não só porque podia pará-la com aquela única palavra, mas também porque o dever principal dele na qualidade de amo residia em ocupar-se das necessidades dela. Protegê-la do mal e dar-lhe grande prazer. Caso se mostrasse obediente, teria isso e muito mais. − Entendo – forçou-se a pronunciar através dos lábios secos e do nó na garganta. – E… e confio em si, meu senhor. Gareth arregalou os olhos face àquela difícil confissão, mas em seguida baixou a boca para cobrir a dela e Beatrice cedeu à magia. Ele entreabriu-lhe os lábios, enchendo-a de calor e um misto de sabor a uísque e hortelã. Beatrice gemeu. Céus, só aquele beijo representava um tal prazer! Era injusto que ele conseguisse fazê-la vir tão facilmente. Nunca fora mulher que se rendesse e, no entanto, o toque dele submetia-a. Já era sua escrava, pelo menos com o corpo. Podia não estar disposta a admiti-lo, mas faria tudo, o que quer que fosse, por aquilo.


− Não te venhas – ordenou Gareth recuando e fitando-a. Sem lhe dar tempo a responder, a boca dele moveu-se ao longo do seu corpo e cobriu um dos seios excitados com os lábios. Chupou-o vagarosa e languidamente e, por fim, de uma forma lasciva, passando a língua sobre a carne sensível. Beatrice estremeceu, mas as correias impediam-na de se mover demasiado. Restavalhe esperar e sentir toda a dolorosa pressão e poder do que ele lhe fazia. O calor da boca masculina repercutia-se no seu sistema sanguíneo, preenchia-lhe os sentidos e assentava numa necessidade latejante entre as pernas. O clítoris vibrou e ela retesou o sexo a fim de tentar aliviar a pressão. Não conseguiu. A cada toque dele ficava mais excitada e louca de desejo. − És tão sensível – murmurou Gareth deslizando mais para baixo, saboreando o ventre, mordiscando-lhe a coxa. – Anseio por conseguir fazer com que te venhas só de olhar para ti da maneira certa. − Poderias fazer isso? – arquejou ela, surpreendida, esquecendo o papel de escrava do seu amo. Gareth ergueu o rosto e posicionou-se entre as coxas dela, com um brilho excitado nos olhos escuros. − Se te entregares totalmente a mim, se fores minha em todos os aspetos, farei coisas que, só de as recordares, estremecerás. Beatrice humedeceu os lábios, incapaz de se controlar. − Ta… tais como? Ele manteve-se silencioso por momentos, ocupando-se, em vez de responder, a apartar-lhe com os polegares os lábios do sexo gotejante. Fitou o corpo excitado que ela retesou para o seu toque, embora soubesse que não deveria. − Há tanta coisa que eu poderia fazer, Beatrice. Um dia, farei com que te venhas no interior de carruagens, atrás de biombos e nos jardins, durante bailes. Dar-te-ei prazer por baixo da mesa, às refeições. Irás pensar na minha boca e no meu membro quando tomares chá com as tuas amigas. E ansiarás por mim e desejarás aliviar essa ânsia como puderes, mesmo que isso signifique tocares-te em público, numa casa de banho de senhoras. Beatrice ouviu um gemido e ficou chocada ao perceber que lhe saíra da própria boca. As imagens que ele construía na sua mente eram chocantes e deveriam parecer-lhe nojentas. Em vez disso, ansiou por esses dias. Desejava ser o brinquedo dele. Queria estar numa tal sintonia com ele que um olhar a fizesse vir-se. Desejava sentir-se possuída, bonita e viva, exatamente como naquele momento. − Estás tão próxima – rugiu ele, examinando de novo o seu sexo húmido e gotejante. – Vais ter dificuldade. Não podes vir-te, Beatrice. Não quero castigar-te, mas é o que farei.


Beatrice assentiu com a cabeça quando ele a fitou por instantes. Forçou-se a pensar noutras coisas, mas era quase impossível quando os dedos dele desceram até ao centro do corpo e premiu um contra a entrada molhada do seu sexo. O corpo de Beatrice não ofereceu qualquer resistência quando Gareth enfiou um dedo no interior. Na verdade, sugou-o, recebendo-o no calor molhado ao mesmo tempo que gemia de gozo. Ele tencionara lambê-la, chupar-lhe o clítoris, mas percebeu que ela se encontrava demasiado perto do orgasmo. Mal premisse os lábios contra a sua carne quente, ela explodiria e ele ver-se-ia forçado a castigá-la. Na qualidade de amo, tinha por dever ajudá-la e, por conseguinte, desviou-se do seu húmido e endurecido clítoris e em vez disso acariciou-a por dentro com um dedo. Beatrice esforçou-se por acompanhar o ritmo suave, mas estava tão firmemente amarrada que mal conseguia erguer as ancas para ir ao encontro das estocadas. Mesmo assim, o sexo apertou-se, prendendo-o e proporcionando-lhe imagens do seu membro sugado, envolto na proteção do corpo de mulher quente e recetivo. Gareth ignorou a húmida tentação do clítoris e em vez disso enfiou mais um dedo no interior da sua bainha. Beatrice abriu-se, retesando-se para o aceitar enquanto gritava de prazer. Estremeceu quando ele a acariciou, mas Gareth sentiu a sua luta para se suster, para manter o orgasmo controlado como ele lhe pedira que fizesse. Esse facto acresceu o seu desejo. Beatrice fazia involuntariamente todos os esforços para se submeter e, pela forma como batia com a cabeça contra a mesa almofadada, estava a gostar. Tal como sempre esperara, tinha encontrado uma mulher que gostava da luta pelo controlo. Uma mulher que se rendesse à sua vontade e sentisse prazer em se lhe entregar. Beatrice não conseguiu impedir-se de gemer e gritar quando Gareth a penetrou com um terceiro dedo. O sexo retesou-se e sentiu-se cheio, mas não era desagradável. Na verdade, era delicioso, sobretudo quando ele torcia os dedos lentamente. As pontas esfregavam o cimo da bainha com um prazer cada vez maior e em seguida ele descobriu outro lugar. Um prazer intenso e explosivo invadiu-a e todo o seu corpo ficou tenso; Beatrice lutou com todas as suas forças para suster a onda de prazer que o toque inesperado dele provocou. Desejava vir-se, mas, se o fizesse, sabia perfeitamente quais eram as consequências. Contudo, a pressão desapareceu quando Gareth retirou os dedos. Observou-o a leválos à boca, lambendo os fluidos. Sentiu um nó no estômago e reagiu com mais um gemido. − É demasiado – murmurou ele. − Sim, meu senhor – redarguiu ela com um aceno de cabeça. – Mas foi tão bom. Tão bom.


− Então, mais tarde, voltarei a fazê-lo vezes seguidas. – Inclinou-se sobre ela com os olhos brilhantes à luz da lareira. – Mais tarde. Beatrice gemeu. Se todas as suas sessões amorosas tivessem a mesma intensidade a partir desse momento, provavelmente não conseguiria sobreviver. Contudo, pelo menos, morreria feliz, nos braços daquele homem que podia dar-lhe prazeres como nunca conhecera antes. Gareth afastou-se dela e atravessou a sala até não poder vê-lo do sítio onde se encontrava na mesa. Ouviu-o a mexer-se, o restolhar de tecido, e depois ele regressou com uma almofada angular. Colocou-a de lado e soltou-lhe as correias do tornozelo para lhe proporcionar um pouco mais de movimento nas ancas. − Ergue-te – pediu num tom meigo. Pela primeira vez, Beatrice não estremeceu face à ordem. Em vez disso, ergueu obedientemente as ancas e esperou o que quer que se seguisse. Gareth deslizou suavemente a almofada para baixo dela. Ela ficou surpreendida ao verificar que não era macia, mas destinada a mantê-la num ângulo, com as ancas um pouco levantadas. Todavia, dado o apoio das costas, não achou a nova posição desconfortável. − Perfeito! – murmurou Gareth enquanto voltava a ajustar as argolas dos tornozelos e se afastava. – És-me oferecida como em qualquer ritual pagão. Beatrice não conseguiu reprimir um sorriso. Aquela sala parecia um lugar de sacrifício e a mesa um altar de prazer. Achou que isso fazia de Gareth um deus e ela era a virgem destinada a satisfazê-lo. − Ela sorri – pronunciou ele com uma risada ao mesmo tempo que aproximava uma cadeira da mesa para poder sentar-se na borda, mesmo em frente do seu sexo aberto e do traseiro apertado. − Não deveria, meu senhor? – perguntou Beatrice, entrando plenamente no jogo. – Agradar-lhe-ia mais se franzisse o sobrolho? − Se te pedisse, fá-lo-ias? – retorquiu ele e parecia mais sério. Beatrice compreendeu o que ele pedia. Naquela sala, naquele lugar, quando estavam a fazer amor, ele precisava de saber que ela obedeceria e confiaria que haveria uma recompensa no final. Mesmo que o pedido dele parecesse frívolo ou assustador, ele tinha de sentir que ela obedeceria sem questionar, sem hesitações. Contudo, seria capaz? Beatrice assentiu com a cabeça, quase involuntariamente. E, com o corpo, descobriu que confiava nele. Obteve como recompensa o leve roçar dos lábios dele no seu sexo apertado. Gareth evitou habilmente o clítoris inchado e Beatrice percebeu que se tratava de uma recompensa e não de um castigo. Estava tão próxima do orgasmo, de desobedecer à sua ordem de que não se viesse, mesmo que não fosse essa a sua intenção. Se ele lhe


tocasse ali, naquele montinho de prazer, ela teria um orgasmo sem haver forma de o deter. Gareth afastou-se e voltou a fitá-la. − Confia em mim – sussurrou. Beatrice não respondeu, não precisava de perguntar o que ele queria dizer. Ele deslizou suavemente os dedos, ainda húmidos da sua boca e do sexo dela, até à parte de baixo do seu corpo e começou subitamente a acariciar a roseta do seu ânus. Ela retesou-se e tentou menear as ancas, mas a almofada e as argolas mantinham-na presa. − Chiu − acalmou-a Gareth. – Vou ser meigo. Beatrice pensou novamente na palavra que terminaria aquilo. Precisava apenas de gritar perverso e faria com que ele terminasse aquela vergonhosa e nova exploração do seu corpo. Abriu a boca para a pronunciar, mas verificou que a palavra não saía. Os dedos molhados dele desenharam um círculo suave à volta da abertura, premindo a carne apertada com a pressão adequada e Beatrice sentiu-se chocada pelo facto de após o desvanecer da surpresa ter achado o toque proibido… agradável. A palavra morreu nos seus lábios e todo o corpo lhe amoleceu, fechando os olhos enquanto ele a seduzia de uma nova maneira. Mostrou-se infinitamente suave ao produzir um movimento circular com o dedo, molhando-a com os fluidos que lhe encharcavam o sexo e lhe escorriam pela parte interior das coxas. O corpo da jovem retesou-se, pois sempre que os dedos de Gareth retornavam ao seu traseiro, pressionavam mais e deslizavam aos poucos para dentro dela sem lhe permitir acostumar-se à violação, retirando-se em seguida. A respiração de Beatrice tornou-se mais ofegante quando ele mergulhou o dedo no seu sexo e depois voltou a colocá-lo junto ao apertado traseiro. Dessa vez, quando ele empurrou, deixou que o dedo percorresse todo o caminho dentro dela até ao segundo nó da mão. Beatrice gritou de dor ante a invasão e contorceu-se um pouco numa tentativa de fuga, ou talvez de se chegar mais perto. Deixara de ter certezas. Todo o prazer, todas as novas sensações confundiam-na e já não sabia se queria libertar-se ou receber mais. − Descontrai-te − murmurou ele num tom rouco mas tranquilizador. – Sabes que não farei nada que não seja para te dar prazer. Beatrice abafou mais um grito enquanto pensava na primeira vez em que tinham feito amor. Nessa altura também se verificara alguma dor e a estranheza de sentir-se cheia. Contudo, tinha-se habituado e passara a ansiar fazer amor com Gareth. Confiara nele quando lhe prometera que a dor ia passar. Tinha de fazer o mesmo naquele momento. Descontraiu com esforço os músculos tensos, um de cada vez. Concentrou-se meramente no prazer em seu redor e libertou a dor. Quando terminou, apenas restava


um leve incómodo e estranheza. − És tão deliciosamente apertada – disse ele por entre dentes e Beatrice ignorava se ele tencionara confessá-lo em voz alta, o que lhe provocou uma onda de triunfo. Mesmo amarrada e na qualidade de escrava em oferta, conseguia perturbá-lo. − Agora, vou mover-me. Suavemente. Beatrice desejou apertar-se, mas ficou quieta e relaxada, confiando em que ele tornaria a experiência agradável. Gareth desenfiou o dedo e ela susteve a respiração, mas verificou, surpreendida, que a dor sentida desaparecera bastante e dera lugar a um novo e intenso prazer como nunca tinha experimentado. Havia alguma coisa naquele novo ato proibido que fazia com que o sexo latejasse no vazio e o clítoris pulsasse com o desejo de ser tocado e acariciado. Gareth moveu-se dentro dela com suavidade, mas sem nunca parar. Beatrice sentiu que lhe faltava o ar e cerrou as mãos por cima da cabeça, enquanto lutava inutilmente por um maior prazer, uma maior intensidade. Como se lhe lesse a mente, Gareth gratificou-a. Continuando a enfiar e a desenfiar o dedo do ânus apertado, baixou a boca até ao sexo e premiu os lábios contra o seu clítoris latejante. Beatrice não conseguiu reprimir um grito de alívio. Havia horas que aguardava o toque dele, provavelmente desde que tinham feito amor lá fora no início do dia e agora que o sentia assemelhava-se a subir ao paraíso. Juntamente com a sensação do dedo que se enfiava e desenfiava sem parar do seu traseiro apertado, sabia que estava à beira do orgasmo. Tentou sustê-lo, mas ele aproximava-se impiedosamente. Por fim, Beatrice bateu com a cabeça de encontro à mesa e gritou: − Não quero desobedecer, mas vou vir-me se continuar assim! Gareth afastou imediatamente a cabeça e a onda de calor e de desejo abrandou. Ele retirou vagarosamente o dedo do seu interior e levantou-se. Beatrice ergueu a cabeça com um gemido. Teria errado ao alertá-lo para o seu orgasmo iminente? Ele tencionava castigá-la por se pronunciar na altura errada? Os seus receios foram dissipados quando ele agarrou na sua camisa amarrotada e a desenfiou pela cabeça. Quase soluçou quando ele a seguir baixou as calças e as afastou com um pontapé, revelando todo o comprimento do grosso membro ereto contra o ventre. − Tens sido ótima – sussurrou, estendendo-se sobre ela em cima da mesa. – E vou dar-te o que procuras se esperares um pouco mais. Confias em mim? Beatrice assentiu com a cabeça. Gareth baixou a boca e exigiu a dela, ao mesmo tempo que se embainhava bem fundo no seu corpo latejante. A jovem emitiu um gemido abafado ao sentir a língua brusca. Dado ter as ancas elevadas pela almofada por baixo


delas, parecia que ele estava mais dentro dela do que alguma vez estivera, que conseguia atingir novos sítios a cada estocada. Quando ele a enchia tinha a impressão de que a despojava mais do seu controlo. Contudo, «despojar» não era a palavra exata. Não se sentia aproveitada, mau grado aquela posição e as ordens de o tratar por «meu senhor» e fazer o que ele lhe pedisse sem questionar. Tratava-se de algo melhor. Sentia-se como se se encontrasse suficientemente protegida para lhe dar aquele controlo. Para lho oferecer e a si própria de uma forma que sempre tivera demasiado receio de fazer. Os dedos de Gareth entrelaçaram-se nos dela e cobriu-lhe os lábios de beijos quentes e molhados que a transportaram para o seu mundo e o seu corpo, afastando tudo o mais. Naquele momento, ele era tudo para ela e, melhor ainda, ela era tudo para ele. Gareth deve ter sentido a mudança, porque se inclinou, beijando-lhe suavemente a orelha, antes de sussurrar: − Vem-te para mim, Beatrice. Solta-te e dá-me o teu prazer. A jovem reagiu logo e de uma forma muito intensa. Após reprimir o prazer durante tanto tempo, a intensidade do mesmo multiplicou-se. Debateu-se contra o corpo dele e as amarras, soluçando de alívio e de prazer enquanto o seu sexo estremecia com ondas de alívio. Ainda que envolvida na sua própria explosão, Beatrice deu-se vagamente conta de que as ancas dele haviam aumentado o ritmo e tinha as veias do pescoço retesadas. No momento em que o orgasmo dela abrandou, Gareth soltou um grito gutural animalesco e inundou-a de sémen antes de se abater sobre o seu corpo nu e transpirado, abraçando-a. Beatrice não teve noção de quanto tempo permaneceram abraçados. Contudo, passado algum tempo, Gareth mexeu-se um pouco e começou a desatar-lhe as mãos, beijando suavemente os verg��es vermelhos nos lugares onde ela se debatera com força excessiva e se magoara. Quando ficou liberta, virou-se de lado e pôs os braços à volta dele, adorando abraçálo quando fora incapaz de o fazer durante tanto tempo. A respiração de ambos misturouse ao mesmo tempo que o cansaço e o prazer saciado a invadiam. Os olhos começaram a ficar pesados e os músculos relaxados enquanto ele lhe massajava suavemente as costas. Contudo, antes de adormecer, Beatrice obrigou-se a fitá-lo. Sorriu meigamente e sussurrou: − Acho que compreendo, Gareth. E quero saber mais, fazer mais, ser mais. Ao deixar-se arrastar pelo sono, sentiu os lábios dele baixarem-se sobre a sua testa e o sussurro repercutir-se na sua pele. − Sabia que eras a eleita, Beatrice.


Em seguida, ela mergulhou nos sonhos preenchidos de prazer e de calor.


Capítulo 12

N

a manhã seguinte, quando Beatrice entrou na sala de jantar, Gareth levantou-se com um sorriso nos lábios a que ela correspondeu nervosamente. Ao vê-la pegar num prato e começar a servir-se, ele não conseguiu impedir-se de refletir em como o dia se assemelhava à primeira manhã que tinham passado juntos. Só que nesse dia existia menos tensão entre ambos, menos receio por parte de Beatrice. A noite anterior mudara tudo entre ambos, não havia dúvidas a esse respeito. No entanto, quando a jovem se sentou ao seu lado, Gareth concluiu que ainda não estava satisfeito. Exigira a total rendição do seu corpo, mas, na verdade, continuava a saber muito pouco sobre o coração de Beatrice e o seu passado cuidadosamente resguardado. Até ter derrubado aquele último muro que os separava, mantinha-se hesitante em dar o «teste» por terminado. − Está muito calado, meu senhor – comentou ela, enquanto comia uma grande garfada de ovos. Gareth soltou uma risada, divertido pelo seu apetite voraz. Depois da noite anterior, achava que o merecia. E agradava-lhe vê-la lasciva em todos os seus desejos e prazeres, pois isso significava que estava a sentir-se mais à vontade. − Acho que a noite passada nos deu muito em que pensar, não é verdade? Verificou, satisfeito, que Beatrice corou profundamente e desviou o olhar. Descobriu que se deixou tocar por aquela reação. A jovem continuava a manter a inocência bastante para que qualquer referência às suas atitudes na cama ou na sala especial a desconcertassem. − Sei que não fui exatamente… − Hesitou – … adequada no meu comportamento. Gareth arqueou uma sobrancelha. − Ainda estás a aprender, Beatrice. Cabe-me ensinar-te e tenciono ter muito prazer em fazê-lo. Contudo, responde, agradou-te mesmo submeteres o teu corpo ao meu desejo? Confiarias em mim a ponto de fazeres o que te pedisse sem hesitar? Beatrice pousou a chávena de chá e pareceu refletir momentaneamente na pergunta. Por fim, sussurrou: − Ambos sabemos que a minha tendência natural é a de não me submeter a ninguém. E confesso que, na noite passada, tive a nossa palavra especial, perverso, na ponta da língua por várias vezes. Contudo, acabei sempre por me reprimir pois lembrava-me que poderia dar-te o que pedias e receber muito em troca. Gareth assentiu com a cabeça. De certa forma, o facto de saber que ela desejara leválo a parar e confiara nele o bastante para não o fazer era mais satisfatório do que se ela


se tivesse rendido no primeiro momento. − Desejavas tê-lo feito? – perguntou com um desejo enorme de saber a resposta. − Não, Gareth – sussurrou ela, sem desviar os olhos azuis. – Sinto-me contente por te ter dado o que me pediste. Gareth respirou de alívio, mas em seguida abanou a cabeça. − Porém, ainda não me deste tudo. Beatrice recuou um pouco e abriu muito os olhos. − O que queres dizer? Pediste a minha entrega e dei-ta de bom grado. Como afirmaste, ainda estou a aprender, mas não te neguei nada. − Negaste sim, Beatrice. A jovem franziu a testa, preocupada e confusa, e ele prosseguiu. − No quarto és, sem dúvida, uma aluna ávida e dás-me muito prazer – disse num tom meigo. – Todavia, ainda não me pertences, pois recusas confiar-me o teu passado. Alguma coisa te tornou tão irascível, tão propensa a distanciares-te de todos os que te rodeiam. Beatrice estremeceu como se aquela afirmação a tivesse magoado fisicamente. Baixou as mãos para o guardanapo que tinha no colo e torceu-o enquanto fixava a mesa. − Já te interroguei antes e recusaste partilhar o teu passado comigo – insistiu Gareth, estendendo o braço e traçando o percurso desde os nós da mão aos dedos entrelaçados. – E, no entanto, agora conheces todos os meus segredos. Beatrice fitou-o e ele percebeu que lhe faltavam argumentos. A jovem reconhecia indubitavelmente quanto lhe custara partilhar a verdade sobre o que tinha acontecido com Laurel. A morte da mulher não poderia obviamente ser menos dolorosa do que qualquer segredo que ela tivesse para partilhar. Gareth aproximou-se mais. − Não chegou o momento de conhecer o teu? − Não posso – sussurrou ela e foi a primeira vez que Gareth lhe sentiu lágrimas na voz. Inclinou a cabeça e surpreendeu-se ao ver que a sua expressão, por norma firme e indiferente, se apresentava contraída. Beatrice tremia de dor e mesmo de receio. Até esse instante carregado de emoção, ele nunca entendera realmente até que ponto ela protegia o seu coração e os seus segredos. − Deste-me o teu corpo e não te magoei, pois não? – redarguiu ele, pegando-lhe no queixo para que o fitasse. Uma lágrima correu-lhe pela face e ela corou de embaraço. Tentou desviar o rosto, mas ele segurou-o com firmeza. − Atraiçoei-te de alguma forma, Beatrice? – pressionou. A jovem hesitou, mas por fim abanou a cabeça.


− N… não. Não atraiçoaste. − E não o farei. Por favor, confia em mim. − Por que razão é tão importante para ti saberes o que sou, quem sou? – sussurrou ela, fixando-o por momentos com os olhos azuis que logo desviou como um animal assustado. – Não basta darmo-nos bem? Há mesmo necessidade de pressionar mais? Gareth acariciou-lhe suavemente o rosto. − Estamos a falar de uma vida, Beatrice. Posso encarar algumas coisas de ânimo leve, mas nunca um casamento. − Porquê? – insistiu ela. – Para a maioria dos que pertencem à nossa esfera social, não passa de um negócio. − O desejo da minha avó no leito de morte foi o de que voltasse a casar-me – explicou Gareth, afastando a dor que acompanhava a memória dela. – Foi a única pessoa que me amou depois da morte dos meus pais, Beatrice. É o motivo que me levou a voltar à sociedade e a suportar os olhares e o ódio dos que me rodeiam. Porém, quero mais do que a concha vazia de um relacionamento. Posso não exigir amor, mas também não quero a animosidade que, no final, partilhei com Laurel. Beatrice manteve-se silenciosa por um momento e, em seguida, afastou lentamente o rosto da mão dele por baixo do seu queixo. − Portanto, é tudo por causa de Laurel – sussurrou. Quando baixou os olhos para o prato, de testa franzida, Gareth viu que a resposta dele a incomodara. Não queria ser comparada com outra mulher, ter o futuro condicionado pelo passado de outrem. − Já abordámos esse assunto – disse ele baixinho, esperando tranquilizá-la. – Não posso apagar o que aconteceu entre mim e a minha primeira mulher… garanto-te que, se pudesse, o faria. Contudo, é impossível e não vou permitir que a memória de Laurel interfira no nosso relacionamento. O meu desejo de ouvir a tua história, de compreender as tuas motivações, não tem nada a ver com ela, mas tem tudo a ver contigo. Beatrice voltou a fitá-lo com um olhar cheio de surpresa e de um pouco de esperança. A vulnerabilidade que a jovem se esforçava por ocultar tocava-o mais fundo do que alguma vez julgara possível, visto ser óbvio que não acreditava que alguém pudesse desejá-la e cuidar dela. − Quero conhecer-te, Beatrice – pronunciou meigamente. – O que aconteceu para te tornares tão fria? O que te levou a afastares-te de toda a gente? Beatrice endireitou os ombros. Afastou a cadeira para trás e percorreu a distância que a separava da mesa até à janela, onde se deteve a contemplar a propriedade de Gareth. Manteve-se silenciosa por um longo tempo, mas ele não a interrompeu. Não ia exigir mais, ainda não.


Por fim, Beatrice estremeceu com um suspiro e tomou a palavra: − Falei-te um pouco do meu pai. Gareth sentiu-se aliviado. Ia finalmente receber o que desejava. − Sim. Uma vez disseste que eras a sua princesa. Beatrice assentiu com a cabeça e esboçou um leve sorriso. − Ele era muito chegado a Miranda, a minha irmã mais velha, e parecia ter um enorme orgulho em Penelope, a segunda mais velha. Até a minha irmã mais nova, Winifred, era a sua «bebé.» Contudo, apesar de sermos tantas filhas, eu partilhava algo de especial com ele. O meu pai adorava-me, dava-me tudo o que eu queria, desde brinquedos a roupa… até mesmo um pónei, um ano. E eu amava-o com todo o fervor. Ele prometeu-me que cuidaria sempre de mim, mas… − Mas…? – pressionou Gareth meigamente quando ela se interrompeu. − Era tudo mentira – prosseguiu com uma expressão dura. – Quando ele morreu, ficou a descoberto que não tinha nada de nada. Fingira sempre ser poupado e frugal e, na verdade, tinha perdido a nossa fortuna ao jogo, sem pensar no dano que causaria à nossa família. Miranda tomou a situação a seu cargo, tentando evitar a nossa ruína e talvez nem sempre me tivesse mostrado gentil com ela. Contudo, após a morte do meu pai, nada voltou a ser como dantes. − Porque deixaste de ter dinheiro? Beatrice abanou a cabeça. − Não. Bem, sim, claro que a falta de dinheiro me aterrorizou. A minha mãe ficou histérica e tive o prazer de assistir às suas infindáveis e sombrias tiradas de como íamos morrer na rua ou ter de vender o corpo para nos salvarmos. Gareth estremeceu. Na altura, Beatrice era sem dúvida muito jovem e conseguia imaginar perfeitamente como lhe deveria ter custado ouvir e imaginar tudo aquilo. − Mas não ficou por aí – prosseguiu ela. – Disseste que a tua avó foi a única pessoa que te amou depois da morte dos teus pais. Gareth assentiu silenciosamente com a cabeça. − Bom, o meu pai era o único que na verdade me amava. E, quando ele morreu, sentime tão… − A respiração tornou-se um rangido áspero –… sozinha. − Contudo, não estavas sozinha – contrapôs Gareth, franzindo a testa. – Por que razão não te aproximaste mais das tuas irmãs? Da tua mãe? Aparentemente, puseste-as de lado. Beatrice virou-lhe as costas. − Houve momentos em que desejei estar próxima delas. Via como as minhas irmãs se preocupavam umas com as outras e ansiava por isso, mas sentia dificuldade em tentar. − Porquê? – insistiu ele meigamente. − Perder o meu pai magoou-me profundamente… − Cruzou os braços. – Comecei a


recear perder mais alguém, com uma intensidade que roçava a doença. Por conseguinte, isolei-me, esperando jamais voltar a sentir um tal vazio na minha vida. Gareth assentiu com a cabeça. − Foi uma reação compreensível. Pelo menos, durante algum tempo. Beatrice encolheu levemente um dos ombros. − No entanto, passado algum tempo, esqueci-me… de como ter outra atitude. E havia tantas coisas na minha vida fora do meu controlo que senti que continuava a necessitar de me proteger. − Fora do teu controlo? – pressionou Gareth. Beatrice uniu as mãos. − A minha mãe, por exemplo. Já a viste e ouviste o que as pessoas dizem a seu respeito. Ela é… Gareth observou enquanto ela tentava encontrar uma palavra que descrevesse Dorthea Albright. Ficou surpreendido ao perceber que Beatrice estava a tentar proteger a mãe que desprezava, mau grado todas as formas como Dorthea a havia prejudicado ao longo dos anos. − Ela é uma pessoa nervosa e difícil – disse finalmente Beatrice, corando. – Devido ao seu passado, luta constantemente por uma posição social mais elevada, mas nada lhe chega. Quando as minhas irmãs mais velhas casaram respetivamente com um conde e um duque, tal somente aumentou a sua loucura. Encheu-me de tiradas constantes de como eu era melhor do que todas, de como merecia tanto como as minhas irmãs que haviam casado. De início, acreditei nela. − Mas deixaste de o fazer? – murmurou Gareth, ansiando por confortá-la, mas percebendo que não era esse o curso de ação a tomar. A confissão dela era difícil e, se lhe tocasse, ia considerar o gesto como compaixão e afastá-lo-ia. − Não sei – respondeu Beatrice, com um olhar de relance. – Tanta coisa mudou. No início, o meu aspeto e as minhas ligações às famílias importantes dos meus dois cunhados proporcionaram-me alguma vantagem na sociedade. Houve pretendentes e houve mesmo homens de quem… gostei. Gareth retesou-se, dominado por um súbito e irracional ciúme face à ideia de que ela se sentira atraída por homens que a cortejavam. − Por que razão não casaste com um deles? − A minha mãe continuou a espicaçar-me para que almejasse mais. Nessa época, pareceu-me que estava certa, pois tinha tantas opções. E, na verdade, receava o tipo de proximidade que um casamento me traria. Por fim, afastei todos os homens de que gostava e observei-os a casar com outras raparigas, um por um. O corpo de Beatrice ficou tenso e ele percebeu o quanto esse facto a enchera de tristeza e de arrependimento.


− Guardei igual ressentimento aos que não gostava por causa das suas falsas palavras e indelicadeza. À medida que as temporadas foram passando, cada vez eram menos os que me fitavam. Em breve as pessoas começaram a falar, evitando-me por causa da minha atitude e por causa da minha mãe. − Deve ter sido difícil para ti – replicou ele num tom meigo. Beatrice assentiu com a cabeça. − Todavia, lutei contra a dor e a minha amargura cresceu, espalhando-se por cada partícula do meu corpo, até tudo o que existia de mais profundo ou bondoso ser morto, envenenado ou sufocado. E tornei-me… uma megera… é isso o que me chamam, não é? Uma cabra. A jovem fitou-o com as faces ruborizadas de embaraço por lhe ter revelado tanta coisa. Porém, manteve o queixo erguido, desafiando-o a que troçasse dela ou tentasse derrubá-la agora que dispunha de munições para fazê-lo. Em vez disso, Gareth estendeu o braço e fez aquilo porque ansiava desde que ela começara a falar. Pegou-lhe na mão. Beatrice soltou uma exclamação abafada quando ele a ergueu e depositou um beijo terno e sensual nos nós dos dedos, antes de a puxar uns passos para a frente. Não num abraço, mas suficientemente próximo para poder sentir o calor e cheirar o perfume dela. − Não vejo uma megera, Beatrice – murmurou. – Só te vejo a ti. A minha Beatrice. E espero… a minha futura noiva. Ela entreabriu os lábios e recuou um pouco, fitando-o com admiração e surpresa. − Estás a pedir-me… O aceno de cabeça de Gareth cortou-lhe a palavra. − Sim, acho que passámos todos os testes que viemos fazer aqui, não te parece? Concordámos que, se fôssemos compatíveis, Casaríamos. Ainda o desejas? Beatrice engoliu de tal maneira em seco que ele observou o movimento da garganta. A sua pálida pele estava ainda mais branca quando ergueu o rosto para ele. Gareth susteve a respiração enquanto aguardava a resposta. Mal ela dissesse que sim, iria metê-la na carruagem e conduzi-la até Gretna Green para legalizarem o enlace. Porém, antes que qualquer resposta saísse dos seus lábios descorados, a porta por trás deles abriu-se. Gareth girou sobre os calcanhares com um olhar assassino dirigido ao intruso e verificou que se tratava do criado, Hodges, que se intrometera na sua privacidade e no que estava rapidamente a tornar-se o momento mais longo da sua vida. Fulminou o indivíduo com o olhar e ficou surpreendido quando o homem devolveu a expressão antes que o rosto ficasse novamente impassível. − O que se passa, Hodges? – perguntou bruscamente. – Estou um tanto ocupado. − Lamento, sir, mas tem visitas – respondeu o criado, torcendo o nariz. − Visitas? – rugiu Gareth. – Não estou à espera de ninguém. Podem perfeitamente


aguardar. O criado arqueou uma sobrancelha. − Deixaram bem claro que não vão esperar, milorde. Na verdade, ameaçaram invadir a casa e procurá-lo se não as receber imediatamente. O comentário prendeu a atenção de Gareth e soltou a mão de Beatrice, virando-se completamente para a porta. − Mas quem são eles, com mil diabos? − O conde e a condessa de Rothschild, milorde – respondeu Hodges delicadamente. Atrás dele, Beatrice emitiu uma sonora exclamação angustiada e deu um longo passo em frente. − A m… minha irmã e o marido? − Exatamente – anuiu o criado com um breve olhar na sua direção. – O que devo fazer? Gareth lançou um olhar de lado a Beatrice. A jovem parecia profundamente irritada e um pouco atemorizada, mas não havia qualquer remédio. Se Lorde e Lady Rothschild estavam ali sem aviso prévio e ameaçavam vasculhar a casa, suspeitavam claramente da presença de Beatrice na residência. − Manda entrar o conde e a mulher – ordenou com um encolher de ombros. – Irão, sem dúvida, proporcionar o entretenimento da manhã. A única coisa que sempre se dissera sobre Ethan Hamon, conde de Rothschild, era que dominava qualquer sala. E, embora Beatrice nunca se tivesse dado bem com o marido da irmã mais velha, sempre respeitara a sua capacidade de apagar qualquer outro homem presente numa sala. Quando o conde entrou na sala do pequeno-almoço, Gareth não se desvaneceu. Mesmo quando ele avançou com um olhar fulminante, Gareth não pestanejou, quanto mais recuar. No máximo, parecia aborrecido com toda aquela cena e Beatrice dificilmente susteve uma risada face à sua audácia. − Deus do céu! – exclamou a sua irmã Miranda, soltando o braço do marido e precipitando-se para a frente. Para surpresa de Beatrice, a irmã envolveu-a no abraço mais quente e apertado que alguma vez sentira. Miranda tremia quando se agarrou a ela. Por fim, a irmã recuou e o rosto cor de cinza expressava uma enorme censura. − Não sei bem se deva estar feliz por te encontrar sã e salva ou furiosa por ver que foste tão longe, Beatrice. Toda a breve onda de calor e proximidade que Beatrice tinha sentido nos braços de Miranda desapareceu imediatamente. − Experimenta as duas coisas – retorquiu de sobrolho franzido. – Assim, não terás de escolher.


Miranda emitiu um suspiro irritado e voltou para junto do marido. Os dois fitaram Beatrice e Gareth, uma frente unida nos seus julgamentos e deceções. − Acho melhor que se explique, Highcroft – disse Ethan, trocando um olhar furioso com Gareth. − Por que razão não falas comigo? – ripostou Beatrice, chamando a atenção do cunhado para ela. – Em vez dele? Foi a mim que vieste procurar. − Mas foi ele que te arrastou até aqui e te arruinou completamente – interferiu Miranda, com os olhos azuis brilhantes de fúria. – Como se atreve, sir? Beatrice abanou a cabeça. − Ele trouxe-me aqui a meu pedido. Olhou de relance para Gareth e viu que ele estava simplesmente a observá-la com um sorriso divertido no rosto, como se tudo aquilo não passasse de um entretenimento. Porém, sob aquela calma exterior, não lhe escapou a tensão dos seus ombros, a prontidão para a defender se tal fosse necessário. Contudo, por enquanto, deixava que ela lidasse com a situação da forma que lhe parecesse adequada. Correspondeu com um sorriso e a ligação que partilhavam quase emitiu brilho. Miranda fitou o marido com uma expressão preocupada, antes de fulminar Beatrice com o olhar. − O que significa que ele te trouxe aqui a teu pedido? O que se passa, Beatrice? − Vou casar com ele – respondeu a jovem sem levantar a voz. Nesse momento, a sala ecoou com as exclamações de repugnância e recusa por parte da irmã e do cunhado. Beatrice cruzou os braços e aproximou-se mais de Gareth. Sorriu ao sentir que ele lhe passava levemente os dedos pelas costas a incutir-lhe segurança. Passara tantos anos a odiar depender de alguém e, agora, regozijava-se com o seu apoio e calma. Ethan interrompeu aquele momento de ternura, precipitando-se para a frente e agarrando no colarinho de Gareth com as duas mãos. − Não me parece, meu caro – rugiu. – Não, quando pode ter assassinado a sua primeira mulher. Beatrice emitiu um suspiro de raiva e prendeu um dos braços de Ethan enquanto Miranda lhe prendia o outro. As duas mulheres puxaram com força, mas os dois homens permaneceram agarrados. − Como te atreves? – insurgiu-se Beatrice enquanto continuava a esforçar-se em vão para obrigar Ethan a soltar Gareth. – Nada sabes sobre ele ou o seu passado. Para! Larga-o imediatamente! − Miranda – disse, Ethan, sem olhar para a mulher, mantendo o olhar fixo em Gareth, embora o soltasse lentamente. – Leva a tua irmã para um passeio no jardim. As duas


têm muito sobre que conversar e eu quero um momento a sós com Lorde Highcroft, aqui. − Não – gritou Beatrice, colocando-se entre os dois homens, agora que se criara um espaço. – Não permitirei que… − Beatrice! – interrompeu Gareth num tom calmo mas firme por de trás dela. A jovem virou-se lentamente e fitou-o. Gareth não desviou os olhos e ela detetou o brilho de aço, a ordem prestes a ser pronunciada. E, nesse momento, percebeu que não se furtaria, mesmo que o desejasse. − Vai com a tua irmã. Beatrice emitiu um longo suspiro. − Mas e se ele… − sussurrou. Gareth abanou a cabeça. − Beatrice! Mordendo o lábio, Beatrice esboçou um aceno de concordância e virou-se lentamente para Miranda. Fulminou Ethan com o olhar ao caminhar até junto da irmã e só parou um instante para fitar Gareth, antes de fechar a porta atrás dela e deixar os dois homens a sós. Entretanto, rezou para que aquela não fosse a última vez que via Gareth.


Capítulo 13

M

iranda manteve-se estranhamente silenciosa enquanto as duas caminhavam pela propriedade e saíram para o jardim, mas Beatrice nunca deixou de sentir o olhar da irmã pousado em si, a cada passo. Aquele intenso escrutínio fez com que Beatrice se sentisse desconfortável e, por fim, virou-se para Miranda com as mãos nas ancas. − Vá. Diz lá o que queres. Diz que sou um horror, uma desilusão e o mais que seja. Não me importo. Contudo, no preciso instante em que pronunciou as palavras, apercebeu-se de que eram falsas. Importava-se, mesmo que nunca o confessasse em voz alta. Independentemente de quão pouco fosse merecedora, Beatrice desejava que a irmã a aceitasse como o fazia em relação a Penelope ou Winifred. − Na verdade, não ia dizer nenhuma dessas coisas – declarou Miranda num tom meigo. – Apenas me surpreendeu a facilidade com que seguiste o pedido… ou melhor, a ordem… de Lorde Highcroft para o deixares a sós com Ethan. Como conseguiu ele arrancar-te uma tal obediência? Beatrice corou e distanciou-se da irmã com longas passadas. Não tencionava de forma alguma explicar a Miranda os jogos de domínio e submissão de que acabara por gostar. Porém, aparentemente não teria de dar qualquer explicação. A irmã premiu os lábios e sentou-se no banco mais próximo. − Ah, compreendo! – exclamou Miranda com um suspiro. – Bom, suponho que é de esperar, tendo em conta a história da nossa família. Beatrice sentiu-se espicaçada pelas palavras da irmã. − Referes-te a como sempre fui diferente de todos vocês? – perguntou, deixando-se afundar no banco ao lado da irmã. De súbito, sentiu-se muito cansada de tudo aquilo. Emitiu um suspiro e nem sequer falou num tom ríspido, ao acrescentar: − A como sempre fui uma desilusão de que a minha ruína é a prova? Miranda virou-se na sua direção e, pela primeira vez, sorriu como não fazia desde há muito tempo. Tapou a boca, mas não sem que uma risada lhe escapasse por entre os lábios. − Deus do céu! És assim tão ingénua? Ora, Beatrice. Todas as raparigas da nossa família foram arruinadas de uma ou de outra forma. − De que estás a falar? − Eu tive uma relação com o Ethan muito antes de casarmos – respondeu Miranda com um encolher de ombros. – E a Penelope fez sabe-se lá o quê com Jeremy, enquanto


criticava os pecados da sociedade. Beatrice inclinou-se para trás, chocada com as palavras. Sempre tinham corrido, obviamente, rumores sobre a sua família, mas nunca acreditara neles. Miranda e Penelope eram tão calmas e seguras e… perfeitas que nunca as julgara capazes de se desviar do caminho, exigir paixão ou fazer uma cena. Cruzou os braços, incomodada com a perceção de como aparentemente fora cega. − Como me encontraste? – perguntou, ansiosa por mudar de conversa, visto ignorar o que dizer face à confissão de Miranda. − Não nos facilitaste as coisas, isso é verdade – suspirou Miranda. – Quando a mamã apareceu sem se fazer anunciar na festa campestre de Penelope e Jeremy, dizendo que tinha sido convidada, ficámos desconfiados. Jeremy e Ethan começaram a averiguar discretamente onde poderias estar. E, visto que a amiga para casa de quem disseste que irias ainda se encontrava em Londres e nada sabia do teu paradeiro, era óbvio que tinhas feito algo imprudente. Beatrice premiu os lábios. Não estava certa de considerar o tempo que passara ali como «imprudente.» − Estava apenas a proteger o meu futuro – redarguiu. Miranda arqueou uma sobrancelha. − É assim que lhe chamas? De qualquer maneira, algumas pessoas tinham-te visto na companhia de Lorde Highcroft e… − Ah! – exclamou Beatrice, irritada pelo desinteresse da irmã. – Contudo, Penelope e Jeremy não podiam ser incomodados para vir atrás de mim. Ignoraram-me, não foi? Miranda fitou-a admirada, mas em seguida a sua expressão suavizou-se. − Não, bem pelo contrário. Jeremy queria vir a cavalo até aqui provavelmente para chicotear Highcroft de morte, mas não quisemos levantar suspeitas no resto do grupo, especialmente desde que… A irmã interrompeu-se, e vagueou o olhar pelo jardim, com um franzir de sobrolho preocupado. − Desde que? – quis saber Beatrice, aproximando-se mais. − Bom, ao que parece, não foste a única a descobrir o prazer – disse Miranda baixinho. – A nossa doce Winifred recebeu uma larga educação ao longo dos anos através de uma coleção bastante elevada e secreta de livros indecentes e decidiu ir atrás da sua própria felicidade. Foi apanhada numa posição bastante imprópria com o segundo filho do visconde Valeron. Vão casar assim que te levarmos de volta a casa. Foi a nossa desculpa para vir procurar-te. Beatrice fitou a irmã, totalmente apanhada de surpresa pela notícia que acabara de receber. − Winifred e Milo Valeron?


− Isso mesmo – anuiu Miranda com um encolher de ombros. Beatrice esboçou um trejeito. Milo Valeron era famoso pelos seus apetites lascivos. Dificilmente conseguia imaginar a sua calma irmã mais nova a prender-lhe a atenção. Contudo, talvez não conhecesse Winifred tão bem como julgava. − E eles vão casar? – repetiu. Miranda assentiu com a cabeça e um olhar resignado face à ideia. − Ela parece muito feliz e o futuro noivo também. E visto que, como expliquei, nem eu nem Penelope estamos em situação de desaprovar, resolvemos ficar felizes por ela. Espero que também fiques. Winifred teme muito a tua reação. Beatrice encolheu-se ao pensar em todas as maneiras como magoara a sua sensível irmã mais nova. Embora nunca se tivesse propriamente orgulhado muito de si própria, era a primeira vez em que se sentia culpada dos seus atos. − Fui odiosa para com ela − sussurrou, erguendo o rosto para Miranda. A irmã assentiu com a cabeça e uma expressão solene. − Essa foi em parte a razão por que Ethan e eu a levámos para longe, com a esperança de que sem a tua influência ela pudesse desabrochar. Parece que estávamos mais certos do que esperávamos. Beatrice concordou com um aceno silencioso. Tentava imaginar uma Winifred apaixonada, mas não conseguia fazê-lo. Por fim, encolheu os ombros. − Percebo. − Serás capaz de desejar-lhe felicidades? – perguntou a irmã. Beatrice ponderou no assunto. Quando eram muito jovens, existira uma grande intimidade entre ela e Winifred. O facto de terem idades tão próximas criara uma aliança entre as duas que ela quebrara após a morte do pai. Talvez agora… talvez pudesse reparar o mal causado. − Sim – murmurou. – Quando a vir, desejar-lhe-ei felicidades e pedirei desculpa por tudo o que fiz. Miranda recuou, como se tivesse ficado surpreendida, mas depois sorriu. − Ótimo. Estou certa de que significará muito para ela. − Mas tu consegues desejar-me felicidades, irmã? – quis saber Beatrice. – Consegues dar-me o mesmo apoio que deste a Winifred, embora não acalentes sentimentos tão profundos a meu respeito? Miranda entrelaçou os dedos, com uma expressão meiga e entristecida. − É isso o que pensas? Que gosto menos de ti do que das nossas outras irmãs? Beatrice ergueu o queixo numa atitude de desafio, embora tivesse o coração pleno de tristeza. Nunca haviam tocado naqueles assuntos em voz alta. Por fim, assentiu levemente com a cabeça. − Não é nenhum segredo que não… gostas de mim. E talvez seja essa a razão da


minha personalidade. − Não posso afirmar que sempre tenha sido fácil lidar contigo. Contudo, querida, as minhas objeções à tua união com Lorde Highcroft em nada se relacionam com a profundidade dos meus sentimentos por ti – disse Miranda, apertando-lhe um pouco os dedos. – Baseiam-se, pelo contrário, no meu maior receio de que ele possa magoar-te e eu não seja capaz de proteger-te. Ouviste os rumores a respeito dele sobre o que aconteceu à mulher. E se forem verdadeiros? Beatrice afastou as mãos das da irmã, ainda pouco à vontade com esse gesto. − Não são – declarou com toda a convição que sentia no íntimo. − Mas… Beatrice pôs-se de pé e afastou-se uns passos, mantendo-se de costas para a irmã. − Disse que não. Nada do que se contou sobre Gareth é verdade. − Como o sabes? – pressionou Miranda. Beatrice cerrou os olhos. − Ele contou-me a verdade sobre o que aconteceu a Laurel – respondeu, virando-se lentamente para enfrentar a irmã. – Mesmo que não o tivesse feito… uma mulher sabe cá dentro. Miranda fitou-a durante um longo e pesado momento. Beatrice percebeu que a irmã queria dizer mais, queria perguntar mais, talvez até quisesse discutir mais, mas quando se pronunciou não foi para fazer nada disso. − Suponho que tens razão. Uma mulher sabe – declarou Miranda, encolhendo os ombros. – Correram sem dúvida muitos boatos sobre Ethan e Jeremy antes de eles se juntarem à nossa família. De início, eles nem sequer confiavam um no outro. Porém, agora são tão chegados como irmãos de sangue. Nada do que se disse a respeito deles era realmente verdade no seu coração. Beatrice esboçou um aceno e interrogou-se por breves momentos sobre se Gareth também alguma vez se enquadraria na sua família. Se o desejaria sequer. No casamento de ambos poderia haver paixão, mas nenhum deles prometera ao outro a ligação espiritual que as irmãs pareciam ter com os maridos e, secretamente, sempre as invejara por isso. Afastou os pensamentos com um movimento de cabeça. − Sei melhor do que ninguém como a cidade pode ser cruel – disse baixinho. – Falam, decidem e julgam. Contudo, sei a verdade e, por conseguinte, peço-te que confies em que Gareth pode ser muitas coisas, mas assassino não é uma delas. A irmã demorou algum tempo a assentir com a cabeça e Beatrice percebeu que ela teria de ouvir a opinião de Ethan sobre o assunto antes de se sentir à vontade com Gareth e a sua disposição de casar com Beatrice. De qualquer forma, a expressão da irmã era mais suave do que quando haviam saído


para o jardim. − Vou dizer-te uma coisa. Pareces feliz – retorquiu Miranda, inclinando um pouco a cabeça. – Mais feliz do que há muito tempo te via. Beatrice fitou a irmã enquanto a memória recuava até à família nos dias antes da morte do pai. Até esse momento, nunca falara a ninguém sobre o seu desgosto ou os motivos para o exílio que impusera a si própria. Abanou a cabeça e surpreendeu-se ao sussurrar: − Por acaso não pensas que tu, Penelope e Winifred foram as únicas a perder um pai, pois não? A perder tudo? Miranda deu um longo passo em frente. − Claro que não. Sei que ficaste tão magoada como qualquer de nós. E, em parte, compreendi que te lançaste ao ataque devido à tua dor. Só desejava poder ter-te ajudado mais. Nessa altura e agora. Beatrice sorriu à irmã, o primeiro sorriso verdadeiro que haviam trocado em tantos anos que mal se conseguia recordar da última vez. − Não te teria permitido – admitiu. − Mas talvez o permitas agora? – disse Miranda com uma leve risada. − Sim. Talvez – reagiu Beatrice. Em seguida abanou a cabeça. Haviam sido confissões e entendimento bastante para uma só tarde. − Agora vamos regressar, antes que os homens se matem. A irmã pareceu entender o seu desconforto, pois limitou-se a esboçar um aceno de concordância e deixou que Beatrice a conduzisse até casa. Contudo, ao entrarem juntas, Beatrice suspirou. Pela primeira vez, desde há longo tempo, sentia-se como se fosse novamente irmã de Miranda. E isso agradava-lhe mais do que alguma vez esperara. *** Gareth cruzou os braços enquanto observava o conde de Rothschild a percorrer a sala de um lado para o outro, despejando raiva por todos os poros do corpo. Não havia dúvida de que o antagonista era ameaçador. Tratava-se de um homem alto e musculoso e parecia capaz de aplicar um soco pesado. Porém, Gareth não se deixava intimidar facilmente. Rothschild virou-se para ele com um olhar fulminante. − Quando tenciona explicar-se, Highcroft? − O que há para explicar? – retorquiu Gareth com um encolher de ombros. – Acho que os dois sabemos o que aconteceu entre mim e Beatrice. Propus-lhe casamento e ela aceitou. Ethan deu um longo passo na sua direção.


− Seu filho da mãe! Claro que aceitou, ela está arruinada. Está… Gareth arqueou uma sobrancelha. − Não menos do que se diz ter acontecido entre si e a sua mulher há pouco tempo. Pelo menos, declarei-me a Beatrice na privacidade da minha casa e não num baile diante de toda a gente. Rothschild pestanejou e as narinas expandiram-se de raiva. Gareth percebeu claramente por que razão ele era tão respeitado e mesmo temido por alguns. − Aprecio esta mostra de proteção – comentou Gareth num tom arrastado. – Interrogo-me simplesmente sobre onde se encontrava quando Beatrice precisou dela. Estava ciente da reação que as palavras produziriam, mas naquele momento não se importou. Gareth concluiu que desejava realmente desafiar a raiva de Ethan Hamon. Desejava levar a família de Beatrice a questionar as suas atitudes e a perceber que ele defenderia a sua honra… até mesmo deles. Por conseguinte, quando Ethan se precipitou pela sala com um rugido e de punhos erguidos, Gareth estava preparado. Furtou-se ao primeiro soco e os homens acabaram a enfrentar-se, agarrando no casaco um do outro, sem desviar os olhos e insultando-se mutuamente. − Parem com isso! Os dois homens largaram-se de imediato quando Beatrice voou pela sala com Miranda nos calcanhares. Enquanto esta agarrou no braço do marido e o afastou, Beatrice brindou o cunhado com um olhar que, provavelmente, já deixara cicatrizes em muitos homens. − Como te atreves? – ofegou Beatrice. Ethan sacudiu a cabeça, como se não acreditasse que ela se punha do lado de Gareth. − Estamos aqui para te proteger! − Não quero a vossa proteção – retorquiu Beatrice. – Não dele. Vocês não sabem nada sobre esta situação. − Sei que não devias ficar aqui, não devias estar aqui! – ripostou Ethan, exasperado. – Por amor de Deus, Miranda! Diz alguma coisa! Em vez disso, a irmã de Beatrice estendeu a mão e acariciou a face do marido. Gareth observou, fascinado, como o homem enraivecido que o atacara se transformou ao pousar os olhos na mulher. Fitaram-se durante um longo e pesado momento em que mil palavras se trocaram entre ambos com a facilidade que só se tinha com a pessoa amada. Gareth baixou o rosto e viu que também Beatrice estava atenta. Como se tivesse sentido o seu olhar, fitou-o e em seguida corou e desviou o rosto. Ainda não haviam descoberto aquele tipo de entendimento, nem sequer estabelecido esse vínculo. E, frente à situação, a sua ligação física esmoreceu um pouco.


− Vamos embora, Ethan – disse Miranda meigamente. – Estamos todos muito emocionados com o que aconteceu nos últimos dias. Sei que apenas desejas proteger as minhas irmãs e amo-te por isso mais do que alguma vez o saberás, mas esta não é uma decisão a tomar neste momento. Ethan fitou-a e depois desviou ligeiramente o olhar para Gareth. − Esta noite vamos levá-la connosco para a pousada. Gareth arqueou uma sobrancelha em desafio, antes de olhar para Beatrice. − É isso o que tu desejas? A jovem arregalou os olhos e pôs as mãos nas ancas. − Nem pensar! Não podes entrar por aqui dentro e dizeres-me o que fazer, Ethan Hamon. Vou ficar aqui e ponto final. − Beatrice… − ripostou Ethan. Antes que a irmã e o cunhado chegassem a vias de facto, Gareth avançou. − Compreendo o seu desejo de proteger a irmã da sua mulher, Lorde Rothschild – disse sem erguer a voz e num tom de respeito de que até então se abstivera. – Não tem certezas sobre mim, o meu passado ou até mesmo as minhas intenções, e por conseguinte não quer deixá-la aqui, mas ela não deseja partir na sua companhia. Estamos num impasse e então proponho que os dois saiam da estalagem e fiquem na minha propriedade. Dessa forma, Beatrice não sentirá que foi arrastada contra a sua vontade e vocês não ficarão na desconfortável posição de entregá-la aos meus cuidados. Na sala reinou um silêncio absoluto. Miranda Hamon limitou-se a fitá-lo, crítica e bonita, embora ele achasse a sua beleza inferior à de Beatrice. Ethan avaliou Beatrice e a jovem devolveu-lhe o olhar. Por fim, Gareth suspirou. − Isso seria aceitável para todas as partes? Foi Miranda a responder: − Sim. Acho que é uma sugestão muito boa, Lorde Highcroft. E, se ficarmos aqui, isso também me permitirá e ao meu marido conhecê-lo melhor. – Tocou no braço de Ethan. – Também compreendemos que nem todos os rumores são verdadeiros, não é querido? Por fim, Ethan fixou o olhar em Gareth. − Sim, suponho que sim. − Lorde Highcroft está a proporcionar-nos uma justa oportunidade de o vermos aqui e o avaliarmos segundo a nossa perspetiva. − Muito bem. Ficaremos – resolveu Ethan depois de um longo momento, assentindo com a cabeça. Aparentemente, todos na sala respiraram de alívio nesse mesmo instante e Gareth sorriu.


− Tomarei então providências para que o meu criado vá à aldeia e traga a vossa bagagem imediatamente. Contudo, quando Gareth abandonou a sala a fim de procurar um criado, não conseguiu reter um suspiro. No meio dos mais agradáveis momentos da sua vida, tudo se tornara subitamente muito mais complicado. E tudo indicava que a situação se manteria até provar que os boatos a seu respeito eram falsos.


Capítulo 14

T

al como Gareth suspeitara que aconteceria, as últimas horas tinham sido das mais desconfortáveis da sua vida. Quando Lorde e Lady Rothschild ficaram instalados e a sua bagagem fora trazida da estalagem, era quase hora de jantar. A refeição decorrera num ambiente de tensão, para dizer o mínimo. Todas as palavras ditas foram analisadas e havia uma procura de intenção em cada olhar. Enquanto Miranda Hamon parecia disposta a reservar para si juízos a respeito dele por causa da irmã, o marido conservava um ar de total desconfiança. Porém, Gareth não criticava o conde. Havia que ser cauteloso quando se tratava do passado de Gareth. Mas passara tanto tempo longe da sociedade, furtando-se ao tipo de censura espelhado no olhar do indivíduo, que se tornava muito doloroso ver-se forçado a suportá-lo nesse momento. Em qualquer outra noite ter-se-ia entregado ao prazer de uma mulher para aliviar a tensão, mas a actual situação punha aparentemente de lado essa alternativa. Com a irmã e o cunhado na casa, Beatrice estava fora de questão. Embora Gareth não tivesse medo de Ethan Hamon, também não desejava chegar a vias de facto com o conde. Isso não facilitaria qualquer ganho de confiança por parte dele. Gareth tãopouco queria prejudicar o vínculo já de si tão frágil entre Beatrice e a irmã. Quer ela o admitisse ou não, a jovem queria a aprovação da família e, se a conquistassem, um casamento entre os dois tornar-se-ia muito mais aceite pela sociedade. Gareth podia obviamente marcar um encontro com outra mulher. Havia várias na zona que chamava de vez em quando para satisfazer as suas necessidades como lhe agradava. Mulheres que se lhe entregavam tranquilamente sem hesitação, mas também sem grande entusiasmo. Ao contrário de Beatrice. E, num perturbador momento de reflexão, concluiu que apenas desejava satisfazer o seu desejo com ela. Tentando afastar essa ideia, empurrou a porta do quarto e entrou na sala mergulhada na obscuridade. Esfregou as têmporas latejantes enquanto fechava a porta nas costas. − Boa noite, meu senhor. Gareth ergueu o rosto, sobressaltado. Do outro lado da sala, na ombreira entre o quarto de vestir e o de dormir, estava Beatrice. Apresentava-se envolta num roupão de seda e o cabelo louro tombava-lhe sobre as costas numa nuvem. − B… Beatrice! – gaguejou, surpreendido, avançando na sua direção. – O que fazes aqui? Um leve sorriso surgiu-lhe no canto do lábio, mas Gareth observou igualmente um


brilho de puro desafio no seu olhar. Era muito excitante detetar aquela dura expressão e saber que Beatrice podia ter-se rendido totalmente a ele, mas a nenhuma outra pessoa. Beatrice baixou as mãos e desfez lentamente o nó do cinto. Abanou os cabelos louros e o roupão caiu-lhe aos pés. Estava total e deliciosamente nua por baixo, com os mamilos rosados já endurecidos. Alargou o sorriso. − Ninguém me diz o que fazer – sussurrou. – Apenas recebo ordens suas, meu senhor. Gareth atravessou com tanta rapidez a sala que pareceu surpreender Beatrice, pois ela riu nervosamente face ao seu ímpeto. Contudo, quando ele a rodeou com os braços, o sorriso desapareceu e não fez qualquer movimento para resistir. Na verdade, o corpo moldou-se ao dele e a boca abriu-se no momento em que Gareth lhe esmagou os lábios. As respirações uniram-se e a jovem emitiu um ávido e apaixonado rugido de puro prazer. Gareth levantou-a do chão. As pernas dela rodearam-lhe a cintura enquanto a transportava até à cama. Não o largou, nem mesmo quando ele a deitou na colcha macia e não interrompeu o beijo quente e molhado. Beatrice estava tão ávida dele como ele dela. Gareth concluiu que assim era pela maneira como ela lhe rasgou a roupa, arranhando-lhe a pele com as unhas à medida que se desfaziam de cada peça. Durante todo esse tempo, Beatrice conservou as ancas coladas às dele, esfregando-lhe o membro através da prisão cada vez mais apertada das calças com um ritmo de uma perfeição frustrante. − Como me fizeste isto? – ofegou ela, ao mesmo tempo que os dedos de ambos se entrelaçavam no cós. Os dois puxaram o cinto dele e lutaram com os fechos da braguilha. Por fim, quando as calças caíram no chão e ele as afastou com um pontapé, Beatrice recuou um pouco e fitou-o da cabeça aos pés. Gareth gemeu enquanto ela lambia os lábios com uma posse selvagem que lhe endureceu o membro a ponto de lhe doer. − O que fiz? – retorquiu ele, ao mesmo tempo que se posicionava em cima dela e lhe esticava os braços de cada lado da cabeça. Contudo, não a penetrou logo. − Tornaste-me uma devassa, tão ávida do teu corpo que seria capaz de implorar por ele. Faria o que quer que me pedisses − disse ela, abanando a cabeça com uma expressão surpreendida. – Como o fizeste? − Limitei-me a despertar o que és, Beatrice – sorriu ele. – Quem és. Penetrou-a devagar. O seu membro entrou no corpo húmido sem resistência e estremeceu quando o sexo dela o apertou em sintonia com os seus movimentos. O corpo feminino assemelhava-se a uma luva quente e húmida, apertando-o de tal maneira que poderia vir-se facilmente como um rapazinho. − E o que és e quem és – ofegou ele – é meu.


Beatrice assentiu com a cabeça. − Sou tua. As palavras assemelharam-se a um grito enquanto ele se desenfiava para voltar a penetrá-la em seguida ainda com mais força. Beatrice apertou-lhe a cintura com as coxas e ergueu o corpo ante a forte estocada. − E o que quer que sejas mais, na minha cama, rende-te a todos os meus desejos e prometo-te que cuidarei de ti – sussurrou ele. Beatrice assentiu silenciosamente, o rosto transfigurou-se numa máscara de puro êxtase e ele desenfiou-se de forma a retirar praticamente o sexo do seu corpo. Quando ela emitiu um rouco gemido de desejo, Gareth abanou a cabeça. − Diz as palavras, Beatrice. − Na tua cama, nos teus braços, és tu o amo – admitiu ela. – E sei que adiarás o orgasmo e farás com que também me venha, tendo o meu prazer final em mente. Gareth recuou e colocou as longas e macias pernas dela à volta do seu pescoço. Em seguida, penetrou-a e não existiu qualquer dúvida na posse. A união dos corpos foi rápida, dura e infindamente animalesca. Ele martelou-a sem piedade, conduzindo-a ao prazer, desejo e futuro a cada meneio dos quadris. Beatrice debatia-se desesperadamente, erguendo as ancas a cada estocada e gritando ao sentir-se cheia. Fincava os dedos nos lençóis, balançando a cabeça de um lado para o outro. Gareth sentia que estava muito próxima do prazer, mas não o atingia. Somente porque necessitava da sua permissão. Por fim, depois de todos aqueles anos de procura, depois da dor causada pela repulsa de Laurel em relação ao que ele era e do que necessitava… ali, debaixo dele, recebendo o seu membro, encontrava-se a mulher perfeita aos seus olhos. A mulher que se lhe havia rendido de todas as formas, mau grado a perspetiva aterrorizadora que isso representara para ela. − Vem-te para mim, Beatrice – murmurou, concedendo-lhe a dádiva que ela conquistara com a sua confiança e submissão. Não restavam dúvidas de que ela estivera prestes a vir-se há muito tempo, pois o seu orgasmo foi o mais violento a que assistira. Os gritos da jovem encheram de tal maneira o quarto que começou a interrogar-se sobre se deitaria a casa abaixo. O corpo contorceu-se e estremeceu e parecia continuar imparavelmente enquanto ele a guiava através do gozo rumo à libertação definitiva. Por fim, amoleceu debaixo dele, completamente saciada. Gareth ainda não se viera, mas, mesmo assim, desenfiou-se do sexo latejante e estendeu-se ao lado dela, totalmente ereto, ainda molhado dela. Beatrice abriu os olhos e fitou-o. − Não compreendo – sussurrou, baixando o rosto. – Tu não…


− Ainda não – retorquiu ele, afastando-lhe os caracóis emaranhados da face. – Hoje, fiz-te uma pergunta e, antes que pudesses responder, fomos interrompidos pela chegada da tua irmã e do marido. A jovem assentiu com a cabeça e Gareth reparou que as pernas ainda lhe tremiam devido ao orgasmo. − É verdade. − Tens alguma resposta? Beatrice soergueu-se um pouco. − Disse a Ethan e a Miranda que me casaria contigo. Ouviste-me. Gareth encolheu os ombros. − Disseste, mas foi tanto para os aborrecer como por qualquer outro motivo. A jovem premiu os lábios com desagrado por um instante, mas depois sorriu. − Suponho que houve parte disso nas minhas palavras. − Quero uma resposta que seja apenas para mim – redarguiu ele. – Quero saber se casarás comigo. − Tens a certeza de que ainda queres casar comigo, mesmo depois da arrogância de Ethan e de Miranda? – sussurrou, pousando a mão no peito dele. Gareth assentiu com a cabeça. − Sim. Quero casar contigo – declarou ela, respirando fundo. O alívio que percorreu todas as partes da mente e do espírito de Gareth não era algo que esperava quando concluíra aquele acordo. Mas, na verdade, tudo o que se relacionava com Beatrice fora uma deliciosa surpresa. E agora tinha uma vida inteira para descobrir ainda mais a respeito dela. Eram indubitavelmente compatíveis na cama e gostava dela, apesar de… ou talvez por causa de como podia ser irascível. Constituía um desafio e isso agradava-lhe. − Estás a observar – disse ela. – Queres algo mais de mim? − Sim, algo mais – anuiu ele, sorrindo. Os olhos de Beatrice brilharam ao fixar o olhar no membro ainda rijo. Em seguida inclinou-se e beijou-o, excitada, húmida e plena de rendição, posse e desejo. − O que posso fazer por si, meu senhor? – indagou baixinho, erguendo os olhos azuis ao seu encontro. Gareth estremeceu de prazer ante todas as imagens maravilhosas causadas pela pergunta. Assemelhava-se a uma criança que levassem a uma loja de doces, dizendo-lhe que poderia ter tudo o que desejasse. Como escolheria frente a tamanha quantidade? − Há tantas respostas à tua pergunta, minha querida, que tenho dificuldade em escolher uma só – respondeu, sorrindo. Uma risada como nunca lhe ouvira escapou-lhe dos lábios e fez com que a fitasse mais de perto.


− Por que razão escolher uma só? – retorquiu ela, pestanejando de uma forma coquete. Gareth inclinou-se, agarrou-lhe no rosto e deu-lhe um beijo quente e ávido. A jovem fundiu-se no seu corpo, arqueando as ancas e quase o privando da virilidade. Foi com dificuldade que ele se afastou, fitando-a. − Tenho um desejo. − Qual? Gareth observou-a intensamente. − Gostava de reclamar o único lugar virgem do teu corpo. Beatrice arregalou os olhos com nervosismo e um toque de preocupação. − O qu… Gareth estendeu a mão e apartou suavemente os dois globos do traseiro. Premindo os dedos contra o apertado buraco no meio, aguentou o olhar dela sem pestanejar. Beatrice engoliu em seco, enquanto todo o tipo de pensamentos sensuais lhe ocorriam. Lembrou-se da última vez em que ele lhe tocara como o fazia nesse momento. Um dedo apenas provocara-lhe um enorme prazer, mas igualmente dor, e o membro dele era muito maior. Não conseguia imaginá-lo a penetrar o estreito canal que ele tanto desejava possuir. − Is… isso é possível? – perguntou. Gareth inclinou-se para a frente, depositou-lhe um beijo ao de leve na ponta do nariz. − Não o sugeria se não fosse. Beatrice fitou-o, tão surpreendida pela ternura do beijo como pelo choque da sugestão. Contudo, por fim, assentiu com a cabeça. Chegara a altura da rendição final. − Gareth, entreguei-te o meu prazer. És o seu dono de todas as maneiras. E se é isso o que queres e o que acreditas que necessito, então… Não completou a frase, mas em vez disso rolou sobre o estômago e ergueu o traseiro numa oferta silenciosa. Gareth emitiu um palavrão lascivo e Beatrice não conseguiu reprimir um sorriso. Ele não esperava uma rendição tão ousada, embora a desejasse. Surpreendê-lo era um prazer. Ele moveu-se lentamente por detrás dela, apartando-lhe as pernas para se ajoelhar no meio, na cama. Beatrice enterrou a cabeça nas almofadas, preparando-se para a dor e desejando que o gozo a equilibrasse. Contudo, Gareth não se limitou a possuir. Agarrou-lhe o traseiro com as mãos em concha, massajando a carne com suavidade e acariciando-a reverentemente, como se adorasse uma deusa. Beatrice descontraiu-se face ao toque agradável, suspirando para o travesseiro, à medida que os músculos ficavam menos tensos. Gareth inclinou-se sobre ela para abrir


uma gaveta da mesa de cabeceira ao lado da cama. A jovem não levantou a cabeça para ver no que ele pegara, mas, quando Gareth retomou a posição e se ocupou novamente da sua pele, ofegou ao sentir um líquido quente. Erguendo a cabeça, olhou por cima do ombro. Gareth pairava sobre ela, com o membro rijo junto ao estômago e as grandes mãos apresentavam-se revestidas de qualquer substância húmida e oleosa. − O que é isso? – quis saber Beatrice. − Apenas azeite – murmurou ele, voltando a colocar as mãos no seu traseiro. – Vai ajudar. Beatrice assentiu com a cabeça, hipnotizada enquanto observava as suas mãos oleosas a acariciarem-lhe a pele. Sem qualquer impedimento ao seu toque, tratava-se de uma experiência totalmente desconhecida. Assemelhava-se a estar debaixo de água e, no entanto, sentia-se muito mais recetiva ao calor da pele dele e do roçar dos seus dedos. − Gareth – engasgou-se, apertando a almofada com força, por cima dela. Ele não respondeu e, em vez disso, voltou a apartar-lhe o traseiro e deslizou os dedos oleosos por entre os globos. Dado o acréscimo de lubrificação, o canal não ofereceu resistência e o dedo enfiou-se nela sem qualquer problema ou a dor que tinha sentido antes. A plenitude dos dedos dele era diferente naquele local proibido. Dado ser inexperiente, as sensações eram mais cruas e as reações menos controladas. Cerrou as mãos em punhos contra a almofada e emitiu um leve gemido. − És tão apertadinha – grunhiu ele, num tom tenso. – E tão quente, Beatrice. Mal posso esperar para te sentir à volta de mim. − Eu quero isso, meu senhor – disse ela, passando facilmente ao seu papel de submissa. – Quero senti-lo dentro de mim. Por favor. Gareth soltou uma risada. − Minha pequena devassa. No entanto, tenho de preparar-te. Descontrai-te e deixa que te dê prazer. A jovem concordou com um breve olhar de relance por cima do ombro. Em seguida, talvez pela primeira vez, entregou-se-lhe totalmente sem perguntas, nem preocupação. Esqueceu todos os seus medos e confiou nele para que a salvasse, a levasse, se fundisse no seu corpo. Gareth não a desapontou. Pôs-se a enfiar e desenfiar um dedo, lubrificando o canal apertado com o azeite que tinha espalhado. Quando ela começou a gemer e a menear-se para trás, acrescentou mais um dedo. Ela sentiu-o a distendê-la lentamente, alargando-a para receber a sua ereção muito maior. Em seguida, juntou-se um terceiro dedo. Nessa altura, Beatrice debatia-se contra a


almofada, erguendo desesperadamente as ancas enquanto a sua bainha vazia latejava e chorava por ele. − Toca-te, Beatrice – ordenou ele num tom áspero que ecoou no quarto. – E tens a minha permissão para te vires. Vem-te para mim, mais e mais. Beatrice deslizou avidamente os dedos trémulos por entre as pernas. Quando tocou no monte, verificou que já estava molhado, pronto a ser tomado. Porém, Gareth não regressaria ao seu corpo ávido nessa noite. Não, ele estava a proporcionar-lhe uma nova experiência. A jovem gemeu de prazer enquanto se acariciava com os dedos. Com a permissão de Gareth de gozar as vezes que quisesse a soar-lhe aos ouvidos, aliviou-se rapidamente com algumas carícias. − Gareth! – gritou, à medida que ondas de gozo a inundavam. Continuou a acariciarse enquanto se vinha, dominada pela infindável penetração dos dedos dele e o leve aflorar dos seus. Sentia-se saciada e viva e tão consciente do seu desejo que lhe parecia que o mundo girava à volta dele. No preciso momento em que o seu primeiro orgasmo findou, sentiu que Gareth se mexia. Pressionou a cabeça do membro contra a roseta do seu traseiro e deteve-se enquanto a respiração lhe saía quente e excitada nas suas costas. Beatrice estava debilitada após o orgasmo, mas obrigou-se a fitá-lo. − Sabe tão bem! – gemeu. − E saberá melhor − prometeu ele com os olhos brilhantes à luz da lareira. – Deixa que te possua. Descontrai-te e permite que a dor seja substituída por uma sensação que te aumentará o prazer. − Sim – concordou Beatrice com um aceno de cabeça. Obtida a sua permissão, Gareth avançou. De início foi vagaroso, deixando que o corpo dela se descontraísse, pressionando com um ritmo firme e regular. Sentiu que Beatrice contraía um pouco os músculos e apercebeu-se de que ela suportava a dor da união, embora ele a tivesse preparado e lubrificado o canal dela e o seu membro. − Descontrai-te − acalmou-a. – Toca-te. Sente o prazer com a dor. Beatrice hesitou um momento e ele quase pensou que ela se afastaria, mas, em vez disso, os seus dedos trémulos moveram-se no meio das pernas. Empenhou-se na tarefa, esfregando o clítoris, tocando-se suavemente e a cada toque o rabo descontraía-se, recebendo-o aos poucos até a encher por completo. − Céus! – gemeu Gareth. – Sabe tão bem, querida, sentir-te apertada à minha volta. A jovem não respondeu, mas em vez disso gritou quando um segundo orgasmo se apoderou dela. Gareth inclinou a cabeça para trás. O sexo dela pulsou e estremeceu e ele sentiu-o através da fina separação entre os dois canais, massajando-lhe o membro de uma forma excitante.


Beatrice continuou a contorcer-se debaixo dele. Gareth retirou-se um pouco com suavidade e em seguida voltou a impelir-se para a frente. Os gritos dela aumentaram, mas o corpo não se contraiu e Gareth percebeu que a estocada apenas tornara o seu orgasmo ainda mais forte. O corpo feminino aceitara o que ele pretendia. Voltou a impelir-se, sem violência mas cada vez mais fundo, adorando a forma como ela o apertava, como continuava a tocar-se, ofegando e gemendo de gozo. Beatrice atingiu o clímax uma terceira vez e, no preciso instante em que os tremores se desvaneciam, uma quarta. Beatrice mal conseguia respirar devido à intensidade do prazer. Era uma escrava, uma escrava do calor escaldante numa entrada e do arrepio de gozo na outra. Queria mais, queria Gareth, queria que a sensação se prolongasse eternamente. − Sou tua – gritou, meneando as ancas ao encontro das suas estocadas e exigindo que ele a possuísse com mais força. – Sou tua. Aquela confissão pareceu erguê-lo às nuvens. Emitiu um grito animalesco, como ela nunca ouvira. As suas estocadas, que haviam sido suaves, tornaram-se duras, castigadoras e repentinamente ela sentiu o jorro do seu sémen enchê-la enquanto se deixava cair e cobria o corpo com o dele. Permaneceram assim durante algum tempo e, por fim, ele sentou-se e desenfiou-se suavemente do seu dorido e usado traseiro. − Desculpa – pediu ofegante, enquanto estendia a mão para um pano ao lado da cama e a limpava delicadamente. – Não devia ter perdido o controlo. Foi muito pouco cavalheiresco da minha parte. Beatrice sorriu, rolando o corpo sob o dele e fitou-o. Prendeu-lhe o rosto e atraiu-o a si. − Nunca te confundi com um cavalheiro, Gareth – sussurrou. Obteve como recompensa um leve sorriso sensual e deleitou-se com o calor do seu olhar divertido. Em seguida, ele afastou-lhe uma madeixa do rosto. − Mesmo assim, devia ter-te preparado. Podia ter-me controlado − retorquiu baixinho. Beatrice encolheu os ombros. − Se vamos casar, parece que teremos de confiar um no outro. Podes perder o controlo da mesma forma que mo podes tirar. Gareth fitou-a durante um longo momento e depois envolveu-a nos braços e atraiu-a a si com um suspiro de satisfação. Contudo, quando Beatrice fechou os olhos e se dispôs a adormecer, não conseguiu deixar de se sentir perturbada por Gareth não ter reagido à sua declaração. Embora fossem casar e ela lhe confiasse o seu corpo e o seu futuro, ignorava se ele podia confiar em si o bastante para se lhe entregar da mesma maneira. E a ideia de que seria ela a única a render-se fê-la sentir-se vazia e vulnerável pela


primeira vez desde que se entregara ao homem que em breve seria seu marido.


Capítulo 15

B

eatrice esgueirou-se do quarto de Gareth e fechou a porta atrás dela. Uns dias antes ter-se-ia sentido embaraçada ao sair da divisão onde poderia ser vista por qualquer criado, ou mesmo pela irmã ou o cunhado, mas nesse dia não sentiu vergonha ou preocupação. Tudo fora resolvido entre ela e Gareth. Agora só restava o casamento. Com um sorriso nos lábios, desceu a longa escadaria e percorreu o corredor até à sala de jantar. Ao aproximar-se ouviu sons no interior. O sorriso desvaneceu-se ao perceber que se tratava de Ethan e Miranda a sussurrar por mais que tentassem abafar as vozes. Embora não conseguisse distinguir as palavras, era óbvio pelo tom preocupado que a família ainda acalentava receios sobre a sua relação e futuro com Gareth. Fitou a porta entreaberta. Beatrice não era cobarde, mas tinha passado uma noite tão maravilhosa que não queria descer das alturas que ainda se repercutiam no seu íntimo. Não queria regressar ao seu costumado papel de se explicar e defender diante de pessoas que muito simplesmente não entendiam as suas necessidades. Não como Gareth o fazia. Ergueu a orla da saia e deslizou junto à porta até ao vestíbulo da entrada, tendo o cuidado de o fazer silenciosamente para que ninguém pudesse ouvi-la do interior da sala de jantar. Dentro em pouco, Gareth iria ter com ela ao fundo das escadas e enfrentariam juntos a sua família. Com ele ao lado dela, tinha a certeza de que encontraria forças para levar Ethan e Miranda a compreenderem a sua posição. Até essa altura, queria sair e desfrutar o ar fresco da manhã. Quanto mais não fosse, esperava preparar-se para o que decerto se revelaria a batalha final. Lá fora estava um calor que provocou um sorriso em Beatrice quando fechou a porta e começou a descer o acesso às colinas relvadas da propriedade. Dali a umas semanas, aquela seria a sua casa. Sentiu um arrepio de excitação, pois tratava-se de um sítio onde estaria a salvo do controlo da mãe e do juízo das irmãs. Emitiu um suspiro de contentamento. Estar ali, saber que em breve se casaria, era mais do que se atrevera a esperar quando tinha iniciado o acordo com Gareth. Só que aqueles factos não eram os únicos a fazê-la sorrir. Na verdade, o tempo que passara com ele fizera-a esquecer as razões mercenárias que a haviam trazido até ali e rendido. Havia uma história que o pai lhe tinha lido em criança. Um conto de uma bela adormecida numa torre que só poderia ser acordada pelo amor verdadeiro. Quando ele


lhe lera a história, Beatrice achara bastante idiota que a jovem precisasse de um príncipe para a acordar. Todavia, nesse momento… Agora compreendia ainda melhor aquele conto de fadas. Antes de Gareth ela estivera adormecida. Em Londres, apenas levara meia vida, um sono onde apenas funcionava mas não prosperava. Estivera a aguardar até Gareth a desafiar a querer mais, a aceitar mais, a entregar tudo o que tinha e muito mais. À semelhança da bela adormecida do conto, ele acordara-a, embora com um pouco mais do que um mero beijo casto. Franziu a testa ao subir ao topo de uma colina baixa, vagueando o olhar pelos terrenos da propriedade. O conto descrevia que o amor poderia acordar a jovem. Contudo, isso não existia entre ela e Gareth. Paixão, sim e sem dúvida um entendimento. No entanto, amor? Pela primeira vez na vida, Beatrice interrogou-se sobre se nunca conheceria esse sentimento. Viria a ansiá-lo ao longo do tempo? Não. Isso era um disparate. Nunca fora suficientemente ousada ou idiota para amar um homem. Seria injusto fazer tal exigência a Gareth. Poderiam ter uma boa vida juntos, sem esse disparate sentimental. Começou a dar meia volta, esperando que Gareth já se tivesse juntado a Miranda e Ethan para tomar o pequeno-almoço enquanto ela dava o seu passeio. Iriam enfrentá-los juntos e juntos acabariam por convencê-los a aceitar o facto de que casariam. Se assim não fosse… bom, a decisão havia sido tomada, independentemente da opinião da família. Porém, ao virar-se com o pensamento centrado no futuro, sentiu repentinamente uma pressão na garganta. Um braço grande e musculoso prendeu-a, imobilizando-a contra o peito duro e imóvel de uma pessoa que não conseguia ver. − Não! – gritou, mas foi interrompida quando uma mão lhe tapou a boca com um pedaço de pano. Tinha um odor adocicado quando lhe cobriu o nariz e encheu-lhe a garganta de um cheiro enjoativo. Lutou por um momento, mas em seguida o corpo tornou-se pesado e as pálpebras descaíram. Debateu-se contra a sensação, mas saiu vencida. Seguiu-se a escuridão total. Quando Gareth entrou na sala de jantar e encontrou apenas Ethan e Miranda Hamon à sua espera, gemeu interiormente. Embora ele e Beatrice tivessem resolvido totalmente o seu futuro na noite anterior e nenhum argumento da família pudesse mudar o curso actual, não ansiava pelo confronto prestes a surgir. − Bom dia, milorde e milady – saudou com um leve sorriso.


Miranda devolveu cautelosamente o cumprimento. − Bom dia, Lorde Highcroft. Ethan mal ergueu o rosto da chávena de chá, deitando um olhar de relance a Gareth. − Highcroft. − Espero que os vossos quartos sejam confortáveis − disse Gareth, servindo-se de uma chávena do líquido fumegante. – E a vista satisfatória. Miranda assentiu com a cabeça. − Sim. A sua propriedade é muito bonita. Gareth esboçou um aceno de agradecimento. Colocara intencionalmente os dois num quarto com vista para a parte mais bonita da sua propriedade. Queria que vissem, o máximo possível, que Beatrice ficaria bem instalada ali. − Talvez mais tarde possamos dar um passeio juntos até ao lago – sugeriu. – Tenho a certeza de que a minha governanta pode arranjar um piquenique para o grupo. Ethan brindou-o com um olhar de superioridade. − Não me parece que Beatrice goste de piqueniques − murmurou. – Nunca lhe agradou o ar livre. Gareth arqueou uma sobrancelha. Uns dias antes, Beatrice mostrara-se bastante entusiasmada com o ar livre. A ideia provocou-lhe um sorriso. − Talvez nunca tenha encontrado a atividade ao ar livre capaz de interessá-la − pronunciou baixinho. Quando os dois o fitaram com um ar incrédulo, encolheu os ombros. − É possível que os dois não conheçam Beatrice tão bem como julgam. Miranda cruzou os braços e Gareth detetou nos seus olhos uma faísca semelhante à que Beatrice emitia. Por mais que o negassem em voz alta, as duas irmãs eram mais parecidas do que o admitiam. − E o senhor conhece-a? – perguntou Lady Rothschild. – Apenas porque se comprometeu com ela? Gareth franziu a testa. − Já que traz à tona esse assunto indelicado, milady, tenho todo o gosto em responder. O que existe entre nós é muito mais do que o lado físico. A sua irmã e eu firmámos um elo muito mais profundo. Ao pronunciar as palavras, Gareth teve consciência de que era mesmo verdade. − Beatrice apresenta um rosto ao mundo − disse mais para si próprio do que para o casal diante dele − que é, sem dúvida, por vezes amargo e desconcertante, mas, quando nos damos ao trabalho de observar para lá do mesmo, podemos ver os motivos que a levam a ser tão defensiva. No tempo que passei ao seu lado, achei-a bastante inteligente, o que me interessa. E, quando recebe o tratamento devido, é capaz de grande vulnerabilidade e confiança.


Nesse momento, Miranda fitava-o quase como se ele tivesse afirmado que a irmã conquistara um pequeno país. − Tenho dificuldade em imaginar as suas palavras como sendo verdadeiras − retorquiu, abanando a cabeça. − Porque a Beatrice se afastou de si durante muito tempo − reagiu Gareth com um franzir de sobrolho. – Contudo, isso não significa que as emoções e pensamentos que lhe escaparam marcassem ausência, milady. Miranda premiu os lábios, mas não fez qualquer comentário. − Entendo que tenha graves dúvidas a meu respeito − prosseguiu Gareth −, mas, se não reconhecer mais nada, admita, pelo menos, que a sua irmã tem alguma sensatez. Depois de ter passado tanto tempo à procura de um marido, não escolheria à toa. − No entanto, o que nos perturba é exactamente o facto de ela ter esperado tanto tempo – interrompeu Ethan Hamon. – Não pode negar que ela se conservou afastada de qualquer homem que se mostrasse interessado. Por que razão correria de repente para os seus braços? Gareth recostou-se na cadeira e fitou Lorde e Lady Rothschild tranquilamente. − Levou a sua irmã para o campo, não é verdade? Para lhe arranjar um par? E deixou Beatrice sozinha com uma mãe que fez quase tudo ao seu alcance para arruinar as oportunidades de a filha arranjar um bom casamento. Ao ver que Miranda se encolhia, Gareth soube que pensava no que ela própria tinha sofrido nas mãos daquela mãe perturbada. − Tentei explicar… − começou. − Por que razão as suas explicações significariam algo para ela? – interferiu Gareth. – Naquele momento emocional apenas via que estava a ser posta de lado, condenada a ser uma virgem solteirona e a uma vida ao lado da mãe. Se foi esse o motivo que levou a sua irmã a fazer um acordo desesperado, é perfeitamente compreensível. − Admite, então, que ela estava desesperada quando foi ter consigo – retorquiu Rotschild pondo-se de pé, o que apenas poderia ser interpretado como uma postura de ameaça. Gareth não se esquivou. − No começo, sim, mas eu seria louco se não aceitasse a sua oferta. Nenhum de nós se encontrava nas boas graças da sociedade e, por conseguinte, as nossas perspetivas de casamento eram ínfimas. Por que razão não descobrir se poderíamos formar um par compatível? Beatrice veio até aqui para testar o nosso entendimento, mas assim que chegou o seu desespero começou a desvanecer-se. Estabelecemos um elo que é, provavelmente, mais forte do que na maioria dos casamentos combinados. E acho que pode ver que seria bem tratada aqui. − Mas o seu passado… − sussurrou Miranda num tom trémulo de preocupação.


Gareth estremeceu. Aparentemente, jamais iria superar os boatos sobre a morte de Laurel. E, pela primeira vez, preocupava-se com o que perderia se continuasse a ser encarado como um assassino. − Por que razão não interrogamos Beatrice a esse respeito? – sugeriu. – Onde está ela? Miranda franziu a testa. − Ignoro, milorde. Ainda temos de vê-la esta manhã. Presumo que esteja deitada ou talvez a preparar-se. Gareth deu um passo em frente. − Não, não está. Ela desceu antes de mim. Mal pronunciou as palavras, o rosto de Ethan Hamon ensombrou-se e Gareth engoliu um palavrão. Revelara demasiado, deixando poucas dúvidas de que ele e Beatrice tinham passado a noite juntos, mas de momento isso pouco lhe interessava. A sua única preocupação era Beatrice. − Temos de encontrá-la. Miranda abanou a cabeça face à sua mudança de humor. − Parece preocupado. Ela não poderia simplesmente ter regressado ao quarto ou ter sido desviada por qualquer outra coisa? − Presumo que sim – anuiu Gareth –, mas ia sentir-me melhor se tivesse a certeza do seu paradeiro. Quando saiu da sala, Ethan Hamon foi atrás. − O que se passa aqui, Highcroft? Ou deseja controlar totalmente a minha cunhada ou tem qualquer motivo para temer pela sua segurança. Nenhum deles me reconforta. Por isso, qual é? Gareth ignorou o convidado e fez sinal a uma criada que se encontrava ao fundo do corredor. − Tu aí. Viste Miss Albright esta manhã? – perguntou. A jovem virou-se na sua direção e abanou a cabeça. − Lamento, sir, mas não a vi. Acho que o Bradley saiu e andou por aí esta manhã a fazer recados. − Vai buscá-lo – ordenou Gareth num tom ríspido. – Imediatamente. A rapariga afastou-se a correr e, momentos depois, regressou com um dos criados mais jovens atrás dela. − O que se passa, sir? − Viste Miss Albright enquanto andavas a cumprir as tuas obrigações esta manhã? – perguntou Gareth. Após refletir um momento, o criado assentiu com a cabeça. − Vi, sir. Estava lá fora a tirar água quando vi a jovem senhora a sair pela porta da


frente. Ela desceu pelo caminho, mas depois perdi-a de vista. Gareth quedou-se, paralisado. Dissera a Beatrice que não andasse sozinha pelos terrenos da propriedade depois do ataque de que fora alvo por parte do irmão da falecida mulher. − Não a viste regressar? – insistiu. − Não, sir. − Vão os dois para dentro e descubram se qualquer outra pessoa a viu regressar a casa e depressa – ordenou Gareth bruscamente. – Eu próprio revistarei os terrenos. Os dois criados fitaram-no com uma expressão preocupada, mas não abriram a boca e correram a interrogar os outros. Mal desapareceram, Gareth dirigiu-se à porta, mas, antes que o fizesse, Ethan Hamon agarrou-lhe no pulso. − Basta. Diga-me o que se passa. Por que razão está tão preocupado com a Beatrice? − Venha atrás de mim – disse Gareth, afastando a mão do outro homem. – Explicarei tudo enquanto a procuramos. Com aquelas palavras, saiu com Miranda e Ethan na sua peugada. Revistou os terrenos da propriedade a partir da porta e depois começou a descer o caminho que levava às colinas e árvores à distância. Enquanto corriam, Gareth explicou o que acontecera uns dias antes, quando Beatrice fora atacada pelo irmão da sua falecida mulher, acrescentando as ameaças que o homem fizera contra a vida dela. − Que raio se passa consigo? – redarguiu Ethan Hamon, agarrando no braço de Gareth e obrigando-o a enfrentá-lo. – Devia ter-nos contado isso mal chegámos! Se a irmã da minha mulher estava a ser ameaçada, eu tinha o direito de saber. Para a proteger dessa pessoa, de si e do que o seu passado forjou! Gareth soltou-se. Não havia sinal de Beatrice e quanto mais tempo ela se mantinha desaparecida sem dar notícia, mais receoso se sentia. Assim, as acusações de Rothschild ainda o espicaçaram mais. − Eu não matei a minha mulher, raios! – explodiu. Depois, deteve-se. Até à confissão que fizera a Beatrice, não o dissera a mais ninguém. O seu silêncio era expiação, castigo. Contudo, agora queria que Miranda e Ethan soubessem a verdade, que a ouvissem dos seus lábios. Queria voltar a ter uma oportunidade na vida… com Beatrice. − Mas isso agora não interessa nada, pois não? – ripostou Ethan. – Alguém acredita que o fez e pode estar disposto a ferir Beatrice movido por qualquer impulso distorcido de vingança. − Parem já os dois! Os homens viraram-se e avistaram Miranda de pé, a pouca distância. Tinha um brilho selvagem nos olhos arregalados e rasos de lágrimas. E segurava uma sandália nos


dedos trémulos. − Esta sandália pertence à minha irmã – sussurrou enquanto uma lágrima lhe corria pela face. – Reconheço-a porque tivemos uma discussão sobre os seus gostos luxuosos quando ela levou o par para casa. Gareth arrancou a sandália das mãos de Miranda e examinou o tecido macio e o bordado delicado. Beatrice não faria certamente qualquer joguinho de Cinderela com ele. Alguém a raptara e com brutalidade suficiente para levá-la a perder a sandália. Virou-se para Ethan. − Por favor, por favor, ajude-me – murmurou com voz trémula que teve dificuldade em reconhecer como sendo a sua. – Por favor, ajude-me a encontrá-la. Ethan assentiu com a cabeça. − Sabe onde ela pode estar? − Devíamos falar com o meu ex-cunhado – respondeu baixinho. – Dantes, era um homem sensato e, caso a tenha em seu poder, talvez possamos negociar o seu regresso. Ethan atraiu a mulher de encontro ao corpo e abraçou-a por breves instantes, após o que sussurrou: − Volta para dentro de casa, Miranda. Ela soltou-se. − Não! Eu quero… − Por favor – interrompeu ele num tom áspero. – Precisas de estar aqui na eventualidade de ela conseguir voltar pelos seus meios e chamares o magistrado. Por favor, faz isso por mim e por ela. Um mundo de comunicação estabeleceu-se entre marido e mulher e Gareth distanciou-se. Ele e Beatrice partilhavam esse mesmo entendimento sem palavras. A diferença residia em que, enquanto Miranda e Ethan sabiam perfeitamente o quanto se amavam, Gareth nunca dissera a Beatrice que gostava dela, que a considerava mais do que um mero objeto sexual. Que morreria se a perdesse. E, enquanto ele e Ethan se dirigiam apressadamente aos estábulos para ir buscar montadas, Gareth rezou para que chegasse a tempo de dizer isso e muito mais a Beatrice.


Capítulo 16

Q

uando Beatrice acordou, rodeava-a uma estranha névoa. Como se estivesse entre o escuro e a realidade, lutou contra pesadelos para abrir os olhos. Tinha de abrir os olhos, embora desconhecesse por que razão essa urgência lhe surgiu na mente. Decorrido algum tempo, as ideias aclararam-se. Foi recebida de volta ao mundo mediante uma sensação de náusea, intensificada por um sabor agridoce que não lhe saía da boca. O gosto, aliado à total escuridão no quarto estranho ao seu redor, lembrou-lhe, com uma aterradora nitidez, os pormenores do seu rapto. Esperara que tudo não passasse de um sonho, mas, nesse momento, deitada num ângulo bizarro em cima de um chão duro, sentindo o latejar da cabeça provocado por uma qualquer droga que a fizera desmaiar, não havia dúvida do que acontecera. Fora vítima de sequestro, embora ignorasse o momento em que ele se dera. Podia ter sido momentos antes ou dias antes. Enquanto chegava a todas aquelas conclusões, os olhos começaram a adaptar-se ao aposento onde se encontrava e percebeu que não estava totalmente às escuras, como de início pensara. Havia uma pequena luz ao fundo, bloqueada por qualquer coisa que dificilmente penetrava a névoa. Com a esperança de poder ver melhor, moveu-se, mas sentiu imediatamente uma dor aguda nos braços, que lhe tinham amarrado atrás das costas. Beatrice sentiu-se aterrorizada, mas lutou contra o pânico. Não era o momento para tais idiotices. Planos calmos e calculados eram talvez a sua melhor… e talvez a sua única esperança. Mexeu-se, numa tentativa de se sentar, tanto para se situar melhor como talvez para conseguir elaborar um plano de fuga. Porém, ao começar a deslizar, ouviu uma risada do outro lado da divisão e ficou paralisada. Ao que parecia, não se encontrava sozinha. O raptor estava presente. − Eh! – gritou, tentando que a voz não lhe tremesse. – Quem está aí? Só o silêncio lhe respondeu e dificilmente susteve um gemido frustrado. O instinto segredou-lhe que não se tratava de um rapto acidental, de um assalto por dinheiro ou pedido de resgate. Não, quem quer que a tivesse sequestrado, participava num jogo, apreciando a consciência de que ela estava à sua mercê, brincando com ela. Rolou sobre o estômago e virou o rosto. O chão estava sujo, sentia pó e tábuas duras de madeira contra a face. Como desejava estar em casa, com Gareth. Por que razão não enfrentara simplesmente a irmã e Ethan? Inspirou fundo. Não. Não pensaria nisso agora. Tinha de concentrar todas as energias em fugir e primeiro necessitava de saber quem a raptara. Só conseguia pensar numa


pessoa: o mesmo homem que a atacara uns dias antes. Se fora tão ousado a ponto de se aproximar dela na propriedade de Gareth, fazia sentido que pudesse voltar novamente à sua procura. Afinal, ele tinha falado em vingança. Estremeceu ao pensar na raiva que lera nos olhos daquele homem… no louco desespero. Tratava-se do ex-cunhado de Gareth… Adam, lembrava-se de que fora assim que Gareth lhe chamara. Aparentemente, o desgosto pela morte da irmã levara-o à loucura. Contudo, isso não significava que tivesse perdido o decoro. E, se apelasse a essa faceta, talvez conseguisse libertar-se. − Adam? − chamou no meio do escuro e, quando a voz lhe tremeu, engoliu em seco, retomando a palavra. − Adam, decerto não quer fazer-me mal. − Adam? Esse idiota é um cobarde, por mais provas que lhe apresentem − chegou-lhe a voz do outro canto da divisão com um toque entediado. Beatrice sentiu um aperto no coração ao perceber que, afinal, ignorava quem a tinha raptado. Embora a voz lhe parecesse familiar, não conseguia situá-la e não lhe ocorria ninguém, à excepção de Adam, que pudesse saber que ela estava com Gareth, e muito menos raptá-la. − Quem é você? – perguntou, recorrendo à raiva para disfarçar o medo. – Como se atreve? Seguiu-se um longo silêncio e depois um arrastar de uma cadeira através do chão de madeira. Contraiu o rosto e, quando abriu os olhos, a divisão iluminara-se subitamente. Esticou o pescoço para ver e ficou chocada quando um homem pairou sobre ela. Embora tivesse o rosto distorcido numa máscara emocional, não havia dúvida de que se tratava do criado de Gareth. Aquele que parecia odiá-la. Hodges, lembrou-se de que era esse o nome dele. − Vo… você! – murmurou, completamente aturdida. − Sim, minha cara – pronunciou o homem num tom de voz arrastado e virando lentamente a face para a examinar de mais perto. – Aposto que não me esperava − acrescentou com um sorriso trocista e cruel. − Não − anuiu Beatrice com um esgar. – Liberte-me imediatamente. O sorriso dele apagou-se. − A mesma cabra de sempre, não é verdade? A mesma superioridade. Só que se tornou rapidamente uma prostituta. Beatrice estremeceu ante as palavras duras, mas não desviou o olhar do filho da mãe que pairava sobre ela. − Talvez me tivesse tornado, mas sou a prostituta de Lorde Highcroft. E sofrerá a sua ira, caso não me liberte. Hodges baixou rapidamente a mão e agarrou-lhe na gola do vestido. Com um forte


puxão, obrigou-a a pôr-se de pé e abanou-a. Dado ter as mãos presas, estava impotente e só conseguiu reprimir um grito de dor quando os ombros doridos se retesaram. − Não compreende? – rugiu-lhe de muito perto. O hálito cheirava a uísque e tabaco e alguns perdigotos atingiram-lhe as faces. – É você que está a sofrer a minha ira. E ele também sofrerá quando eu acabar. Empurrou-a e ela tropeçou, caindo de costas. O ar saiu-lhe com força dos pulmões quando o ombro estalou. Uma dor terrível percorreu-lhe o corpo e quase desmaiou, mas conseguiu manter a consciência e deslizar para longe dele o máximo que a pequena divisão permitia. Estava magoada, se bem que desconhecesse até que ponto. Apenas tinha a certeza de que a lesão a colocava em desvantagem, caso tivesse oportunidade de lutar ou de correr. E se o sádico filho da mãe que a raptara descobrisse… bom certamente se deliciaria com isso para a torturar. Reteve um suspiro enquanto o ombro latejava incessantemente. Concentrar-se. Tinha de concentrar-se. − Porquê? – sussurrou num tom que dissimulava a dor o melhor que podia. – Por que razão tem toda essa raiva contra mim se apenas me conhece há pouco tempo. Deve-se a tê-lo tratado com indelicadeza quando cheguei à propriedade? Hodges sorriu. − Confesso que o prazer é maior e se torna muito mais fácil castigar uma rapariga tão desprezível, mas a minha vingança não tem nada a ver consigo. Beatrice abanou a cabeça. − Então, porquê? − Ele. Ao pronunciar a palavra, Hodges contorceu o rosto e a sua expressão refletiu um ódio e uma raiva tão intensos que Beatrice se sentiu paralisada. Naquele olhar detetou toda a tortura e o sofrimento que ele tencionava aplicar-lhe antes de finalmente pôr termo à sua vida. E não lhe restavam dúvidas de que ele eventualmente a mataria. − Quer punir Gareth − sussurrou. Hodges assentiu com a cabeça. − Quero sim. − Ele tem-se mostrado um amo difícil − retorquiu a jovem, forçando-se a adoptar um tom suave, submisso mesmo. Talvez que, se a visse como uma aliada, ele pudesse ser convencido a pôr termo aos seus planos. Hodges fixou-a atentamente e havia desprezo no seu rosto. − Claro que não. Quando se trata disso, cuspimos na sopa e mijamos na roupa. Não, para levar a cabo este tipo de vingança, um homem tem de fazer algo muito pior. − O que fez ele? – inquiriu Beatrice.


− Matou a mulher que eu amava − cuspiu Hodges. Beatrice não conseguiu reprimir um estremecimento face àquelas palavras. − Quem…? Interrompeu-se ao pensar na única mulher a quem Gareth fora acusado de causar dano. Arregalou os olhos ao fitar o seu raptor. − Laurel? – perguntou. − Não pronuncie o seu nome − rugiu, recuando a mão num gesto de ataque. Beatrice virou a cara, preparando o corpo para o golpe, mas o mesmo não chegou. Quando abriu os olhos e o fitou, ele abria e fechava os dedos, baixando o rosto na sua direção com uma loucura ameaçadora que a assustou até ao mais fundo de si. − Ainda não − murmurou, falando mais para si próprio do que para ela. – Se começar, não conseguirei parar. Beatrice não conseguiu reprimir um gemido pleno de lágrimas que resumia todo o seu medo, toda a sua pena. − Você amava-a − soluçou, abandonando toda a raiva ou irritação que, por norma, definia as suas reações. Ele assentiu com a cabeça e, para lá da loucura do seu desejo de vingança, Beatrice viu como aquele homem tinha realmente o coração destroçado. O que dizia era verdade, pelo menos aos seus olhos. − Sim. E ela amava-me. Estava grávida de mim na noite em que Highcroft lhe causou a morte − disse, batendo com o punho na mesa que tinha ao lado. – Tirou-me tudo nessa noite. Beatrice estremeceu ante a violência do gesto. − Lamento. − Ainda não − murmurou ele, aproximando-se. – Contudo, vai lamentar. O marquês de Highcroft roubou-me, violou-me, matou uma parte de mim quando Laurel morreu. Agora, vou fazer-lhe o mesmo durante o máximo de tempo que conseguir. Quando Gareth derrubou a pontapé a porta da frente da casa arruinada do ex-cunhado, um punhado de criados de roupas esfarrapadas acorreu de imediato. No entanto, um olhar para os dois homens musculados que entraram no vestíbulo bastou para que nenhum deles fizesse qualquer movimento para se aproximar ou impedi-los de avançar. − Onde está o vosso amo? – gritou Gareth, com dificuldade em conter toda a raiva, todo o receio, todas as emoções ao pensar no sequestro de Beatrice. – Onde está Adam Branden? Os criados limitaram-se a olhar em silêncio, mas, por fim, um mordomo deu um passo em frente. − El… ele está no escritório, milor…


Gareth não esperou que ele completasse a frase. Disparou pelo corredor com Ethan atrás dele, mas, no momento em que estendeu a mão para a porta, Ethan agarrou-lhe no braço. − Se o matar, não encontrará a Beatrice – disse Ethan por entre dentes. – Compreendo o seu pânico, mas tem de pensar em salvá-la e não na sua vingança. Por enquanto. Gareth soltou-se da mão do outro homem com um olhar fulminante, mas respirou fundo. Rothschild estava certo, por mais que gostasse de ignorar as suas palavras e desfazer Adam. Precisava do homem vivo e coerente, se queria descobrir para onde ele levara Beatrice. E se ela ainda estava viva. Estremeceu ante a ideia e depois empurrou a porta. Quando os dois homens entraram na divisão mergulhada na obscuridade, Gareth olhou em redor. Passara tanto tempo desde que estivera naquela casa. Mesmo antes da morte de Laurel, não tinha visitado a família dela, detestando os seus olhares de acusação e a reciprocidade irada que, por norma, aconteciam quando ficava mais do que alguns minutos com eles. O que viu causou-lhe um choque. Até que ponto a ruína aumentara desde a sua última visita. A sala estava deteriorada e pairava um cheiro a bolor que provocou um arrepio em Gareth. Em seguida, avistou o seu ex-cunhado. Adam estava sentado à secretária, às escuras, com uma garrafa na frente. Nem sequer erguera os olhos quando a porta se abriu, embora Gareth e Ethan tivessem feito um enorme barulho no corredor. − Você… − começou, mas Ethan agarrou-lhe no braço e segurou-o. − Olhe bem para ele – sussurrou Rothschild. – Quer tenha ou não raptado Beatrice, o homem não está bem. Se o atacar, não obterá nada. Acalme-se. Gareth rangeu os dentes. − Adam – conseguiu finalmente pronunciar. O homem sentado à secretária ergueu o rosto, dando um salto como se estivesse assustado ao ver os dois homens junto à porta. Levantou-se devagar e avançou na direção deles. − Highcroft? – perguntou, inclinando a cabeça, confuso. – O que está a fazer aqui? Quem é este? Ethan avançou e estendeu lentamente a mão. − Sou o conde de Rothschild, Mister Branden. E viemos aqui por causa de um assunto importante. A minha cunhada desapareceu. Gareth inclinou-se para a frente, fitando Adam e procurando qualquer sinal de culpa, remorso, ou mesmo de orgulho. Contudo, não detetou nada. O rosto de Adam era uma página em branco, onde não se lia a mínima emoção. − Não sei o que quer dizer – retorquiu Adam.


Gareth não conseguiu aguentar por mais tempo. Com um grito, percorreu de um salto a distância que o separava de Adam e agarrou-o pelas lapelas do casaco. Puxando-o por cima da secretária, atirou o indivíduo ao chão e pôs-se em cima dele, imobilizando-o enquanto respirava pelo nariz como um touro enraivecido. − Sabe exatamente a que porra nos referimos. Atacou Beatrice e ameaçou-a. Acha-me tão estúpido que não suspeitasse de si quando ela desapareceu? Adam pestanejou como se a violência o arrancasse a um estado de sonho. Virou o rosto de Gareth para Ethan com uma expressão de perplexidade. − A… a mulher? – redarguiu. – Sim, aproximei-me dela. Não… estava a pensar. Não queria fazer-lhe mal, mas só assustá-la. Gareth bateu com o corpo do outro homem mais fortemente de encontro às tábuas. − Onde está ela? Juro por Deus que o matarei se a tiver magoado. − Pare! – rugiu Ethan ao mesmo tempo que agarrava Gareth pelos ombros, puxando-o. Contudo, Gareth não largou a presa e arrastou Adam com ele no momento em que caíram para trás. − Diga-me – gritou em cheio no rosto de Adam. – Onde está ela? O seu ex-cunhado abanou a cabeça e, pela primeira vez, Gareth detetou um brilho de compreensão nos olhos de Adam. − Não a raptei, juro. Lamentei ter ido à sua propriedade, feito o que fiz e dito o que disse, assim que fugi. Estava confuso e o Hodges era tão vil nas suas descrições, nas declarações do que me cabia fazer… Gareth fitou Adam enquanto ele continuava a divagar. Por fim, ergueu a mão. − Espere aí. Disse Hodges? Adam assentiu com a cabeça. − Contou-me que tinha trazido uma nova mulher para a sua propriedade. Uma mulher com quem tencionava casar. Brincava com a minha dor e desgosto… − O meu criado, Hodges? – repetiu Gareth enquanto afastava Adam com um empurrão e se punha de pé. – Está a dizer que ele teve a ver com o motivo que o levou a minha casa? Que lhe falou de Beatrice? Adam esboçou um aceno afirmativo, embora permanecesse sentado no chão, parecendo não atentar na sua estranha posição. − Sim. − Mas… porquê? – indagou Gareth, totalmente confuso. – Por que razão o meu criado faria isso? Adam fitou-o e abanou a cabeça. − Não sabia? Hodges e Laurel eram… tinham um relacionamento. Gareth cambaleou para trás e passou a mão pelo cabelo, enquanto percorria a divisão de um lado para o outro. Sentiu um nó no estômago ante a ideia, a perceção de que,


enquanto Laurel recusara o seu toque, aceitara o de um criado sem hesitar. E, pior ainda, que o seu relacionamento com aquele homem colocava agora a vida de Beatrice em risco. E a sua ignorância de que um lobo vivia na sua própria casa apenas servira para piorar a situação dela. − Acha que esse Hodges teve a ousadia de raptar Beatrice? – inquiriu Ethan baixinho, nas costas de Gareth. Gareth rodou sobre os calcanhares e enfrentou Adam. O outro homem fixou-o durante um momento e depois assentiu lentamente com a cabeça. − Quando a criança morreu, ele enlouqueceu. − A criança? – gritou Gareth, sentindo uma tontura. – Isso quer dizer que Laurel estava grávida quando morreu? Adam esboçou um trejeito, mas, por fim, anuiu. − Hodges assim o afirmou. Os joelhos de Gareth ameaçavam ceder. Ele e a mulher não haviam tido relações durante tanto tempo antes da sua morte que duvidava que qualquer criança que trouxesse no ventre pudesse ser dele. Se Hodges acreditava que Laurel estava grávida… se achava que o filho era dele… Isso era mais do que motivo para o pior tipo de vingança. − Mas porque esperou tanto tempo? – murmurou Gareth. – Teve dois anos para me matar na minha cama. − Ele não queria matá-lo sem o destruir primeiro – respondeu Adam com um encolher de ombros. – Há dois anos que anda a maquinar e tem ficado cada vez mais louco. A ideia de que você pudesse voltar a casar foi aparentemente a gota que fez transbordar o copo. − Por conseguinte, Hodges encorajou-o a procurar vingar-se de Beatrice para me atingir – sussurrou Gareth. Adam concordou, acrescentando: − E, quando me recusei após o nosso último encontro, ficou enraivecido. Estava descontrolado; nada do que pudesse dizer-lhe serviria para o acalmar. − Então, pode tê-la raptado – concluiu Ethan, fixando Gareth que lhe leu no olhar piedade e uma preocupação quase tão profunda como a dele. Sentindo o estômago às voltas, Gareth murmurou: − Adam, preciso que me diga para onde ele pode tê-la levado. A vida dela pode depender disso. Sabia que corria um risco ao falar de vida e de morte com aquele homem que havia perdido uma irmã amada. Porém, passado um longo momento, Adam reagiu.


− Já houve morte bastante, dor bastante – disse em voz baixa. – Há um sítio para onde ele pode ter ido…


Capítulo 17

B

eatrice fechou os olhos com força e uma lágrima escorreu-lhe pela face e caiu no chão poeirento. Quanto tempo alguém levaria a sentir a sua falta? Sentir a sua falta. Quase soltou uma gargalhada, embora nada houvesse de minimamente divertido na sua situação. Depois de todos os anos que passara desde a morte do pai a erguer um muro à sua volta, bloqueando qualquer amizade ou amor… bom, agora pagaria o preço. Ninguém se importaria com o seu desaparecimento. Além dos mexericos que um fim tão horrível provocaria, haveria pouco pesar, pouca pena. Receava que a própria família sentisse mais alívio do que desgosto. E a culpa pertencia-lhe exclusivamente. As suas atitudes tinham-na transformado numa pária. Eram a razão por que ninguém viria procurá-la. O desespero invadiu-a e deixou que as lágrimas lhe corressem silenciosamente pelas faces enquanto lamentava a sua vida, lamentava todas as coisas que deveria ter feito, lamentava… − Gareth – disse suficientemente baixo para que Hodges não ouvisse. Gareth vira para lá das suas defesas. Obrigara-a a encarar-se e ao seu passado. Gareth viria procurá-la. Só que chegaria tarde de mais. Forçou-se a abrir os olhos e examinou a divisão sombria. À distância, Hodges encontrava-se sentado a uma mesa. Não conseguia ver o que fazia, mas de vez em quanto ouvia o som de metal contra metal, como se estivesse a afiar lâminas. O criado iria torturá-la. Disso não tinha dúvida. Mesmo que não lhe tivesse dito, lera-lho no olhar, ouvira-lho na voz. Contudo, não era a dor o que temia ou lamentava. Quanto mais se aproximava o que sabia ser o final, mais triste ficava. Triste pelo facto de Gareth vir a saber que ela sofrera. Quando a visse, ficaria sem dúvida destruído e culpabilizado por não a ter protegido. E mais do que isso, sentia-se oprimida pelo arrependimento. Por que razão resistira aos desejos de Gareth durante tanto tempo? Por que razão se distanciara e não lhe dissera o que sentia por ele? Que o amava. Quando esse pensamento trespassou o receio enevoado que lhe ia na mente quase gritou de dor. Lutara muito tempo para manter tudo e todos bem longe, para se proteger. E agora, agora que não existiam dúvidas no seu coração, estava prestes a perder tudo. − Acha que não a ouço choramingar? – explodiu Hodges, batendo com o punho na mesa que tinha na frente. A madeira rangeu sob tamanha força e Beatrice retesou o


corpo e preparou-se para a dor. − Não é isso que quer? – redarguiu. – O meu sofrimento não faz parte do seu plano doentio? Hodges soltou uma risada e virou-se um pouco para ela. − Plano doentio. Como pode chamar-me doentio quando apreciou todos os jogos que Highcroft exige às suas mulheres? Os criados ouvem-na a gemer como uma puta na cama dele. − Ele nunca me forçou, nunca me magoou – sibilou Beatrice, determinada a defender Gareth frente àquele filho da mãe. Hodges virou-se para pegar numa fina lâmina de entre a coleção de objectos expostos na mesa. − Gostou, portanto, do que ele lhe fez, sua puta desavergonhada. Pode ter gostado dos jogos dele, mas garanto-lhe que não gostará dos meus. Beatrice colocou-se de forma a ficar sentada, apesar da dor aguda provocada pela lesão no ombro. Recuou até à parede, enquanto Hodges avançava na sua direção, com passos lentos. O homem sorria, sadicamente deleitado com o medo dela e Beatrice não conseguiu deixar de expressá-lo com um grito agudo no momento em que ele ergueu a lâmina sobre a sua cabeça, preparando-se para a atingir. Todavia, antes que pudesse fazê-lo, antes que pudesse mutilá-la, matá-la, a porta atrás dele escancarou-se. Beatrice gritou de novo enquanto se gerava uma enorme confusão. Hodges foi arrancado de junto dela, atirado através da divisão com tanta força que os vidros da janela junto à porta se estilhaçaram quando ele bateu na parede. A luz do Sol inundou toda a divisão. Beatrice esforçou-se por ver o que se passava. Quando os olhos se adaptaram, viu Gareth em cima do corpo do criado prostrado por terra, dando-lhe socos ininterruptos na cara. Matá-lo-ia, se é que o não fizera ainda. Ethan estava sobre eles, tentando deter Gareth, mas impotente devido à fúria de Gareth. − Gareth – chamou Beatrice com voz fraca. A voz da jovem deteve-o a meio de um murro. Virou-se lentamente e a névoa de raiva que lhe obscurecera o rosto, transformando-o num homem que ela desconhecia, desapareceu. Afastou para o lado o corpo inerte do homem que a tinha raptado e atravessou a divisão até junto dela com três longas passadas. − Beatrice – murmurou, ajoelhando-se diante dela. – Lamento muito. Envolveu-a nos seus braços e todo o medo que ela sentira, toda a tristeza que a invadira, explodiram ao soluçar no ombro dele. Teve uma vaga consciência de mãos que a desatavam, provavelmente as de Ethan, visto que Gareth nunca a soltou. Enquanto continuava a chorar, Gareth ergueu-a e embalou-a junto ao peito ao mesmo tempo que a transportava para fora da suja e mísera


barraca onde estivera presa. − Ela está ferida – ouviu Beatrice por entre as lágrimas. Era a voz de Ethan e parecia tão preocupado… tão afetuoso que ainda soluçou mais. – Vou buscar o magistrado e uma carruagem para a transportar até casa. Aos poucos, os soluços diminuíram e Beatrice afastou a face do ombro de Gareth para o fitar. Ele baixara o rosto na sua direção com um brilho intenso nos olhos verdes. − Beatrice – disse num murmúrio. – Amo-te, amo-te, estás a ouvir-me? Amo-te. A jovem sentiu-se inundada de emoções por causa de tudo o que havia sofrido e radiante devido à confissão que ouvira dos lábios de Gareth. Abriu a boca disposta a fazer igual confissão, mas as palavras não saíram. A dor no ombro era demasiado intensa e as emoções demasiado acutilantes. Por conseguinte, voltou a esconder o rosto no ombro dele e deixou-se mergulhar na escuridão. Gareth mantinha-se no canto do seu quarto, de braços cruzados, observando silenciosamente enquanto o médico se ocupava de Beatrice. Pelo menos, ela voltara a acordar. Quando Beatrice perdera novamente a consciência, sentira um medo terrível de que a sua vida corresse perigo, mas o médico tranquilizou-o com a afirmação de que tinham sido a dor e a emoção a pô-la naquele estado. Nesse momento, a jovem estava sentada na cama, apoiada nas almofadas brancas, com o cabelo louro espalhado sobre os ombros, um dos quais estava ligado, e com o braço numa faixa junto ao peito. O filho da mãe que a tinha raptado deslocara-o. Contudo, ia sarar. Ela ficaria boa, afirmara o médico. − Não há nada que mais deteste do que mulheres que desmaem – ripostou Beatrice. – Excepto, talvez médicos bajuladores. O médico franziu o sobrolho na direção dela, mas Gareth não conseguiu reprimir um sorriso. O regresso de Beatrice à sua personalidade habitualmente acutilante constituía o primeiro sinal de que não ficara permanentemente afetada pelo que sofrera. Miranda, que se encontrava sentada ao lado da irmã na beira da cama, abanou a cabeça. − Ele só está a tentar ajudar, querida. Beatrice rolou os olhos, mas em seguida virou o rosto para Gareth. Quando se fitaram, ele percebeu que a sua atitude não passava de fachada. Ainda havia lágrimas por derramar e ela era uma mulher frágil, embora mais ninguém se apercebesse. − É tudo, doutor? – perguntou, avançando. O médico virou-se na sua direção. − Sim. Tenho mais algumas instruções. Gareth apontou para a porta. − Transmita-as lá fora, à irmã. Agora, quero que todos nos deixem.


Miranda pôs-se imediatamente em pé, de olhos muito abertos e enraivecidos. − De forma alguma! Não deixarei a minha irmã… Antes que pudesse terminar a frase, o marido aproximou-se e pôs-lhe a mão no ombro. − Miranda – disse Ethan num tom meigo. Aquela palavra deteve-a e seguiu-se uma breve troca de olhares com Beatrice. Esta esboçou um leve aceno de cabeça e Miranda franziu o sobrolho, mas dirigiu-se à porta por onde, momentos antes, o médico saíra, murmurando palavras de reprovação. Quando a porta se fechou e ficaram sós, Gareth virou-se de novo para Beatrice. Detetou-lhe no rosto fraqueza, ternura, vulnerabilidade, mas também a sua força. Não se tratava do tipo de força que a tornava uma mulher difícil e fazia com que os outros lhe chamassem megera, mas algo mais. − Precisas de alguma coisa? – perguntou com uma súbita timidez. Beatrice não desviou os olhos durante um longo momento e em seguida abanou a cabeça. Gareth aproximou-se com a hesitação de um noivo que nunca se deitara com a noiva, porque, apesar de todos os prazeres físicos que haviam partilhado, pisava um território desconhecido. Nunca tinha amado uma mulher e sentia-se indeciso quanto à atitude a tomar. − Eu… eu disse-te uma coisa quando te encontrei – pronunciou num tom meigo. Beatrice fechou os olhos e invadiu-a um leve arrepio. − Estavas muito emocionado, Gareth. E não vou prender-te devido às palavras que disseste nesse momento. − Achas que não as sentia? – indagou ele, fitando-a. Beatrice engoliu em seco e abriu lentamente os olhos azuis. − Sentias mesmo? Gareth assentiu com a cabeça e aproximou-se. Pegou-lhe na mão, tendo cuidado para não lhe tocar no braço ferido. − De alma e coração, Beatrice – sussurrou Gareth. – Deus do céu! Nunca tinha dito nada de semelhante a alguém. Compreendes-me? − Amas-me? – perguntou ela, entreabrindo os lábios. Gareth assentiu com a cabeça. − Com tudo o que sou, com tudo o que quero ser. Amo-te. Beatrice soltou a mão, mas apenas para a erguer até ao rosto dele. Com as lágrimas a correrem-lhe pela face, acariciou-o meigamente. − Sabes o que pensei quando julguei que aquele homem… Hodges… ia matar-me? Gareth abanou lentamente a cabeça, tentando não se deixar arrastar pela raiva ao pensar no tormento por que ela passara.


− Não. − Pensei em ti – disse muito baixinho. – Pensei em como me sentia triste por nunca conseguir dizer-te quanto apreciei que tivesses lutado para ver quem sou e o que sou realmente. E quanto te amo. Gareth recuou um pouco e fitou-a. Conhecia Beatrice, conhecia o motivo que a levava a fugir de emoções, da dependência de qualquer outra pessoa. A sua franqueza, a mostra de emoções significavam o mundo aos olhos dele. Eram dádivas especiais, coisas que ela não compartilhava facilmente. − Amas-me? – indagou ele no mesmo tom. − Com tudo o que sou, com tudo o que quero ser – disse, repetindo as palavras dele, com um aceno de cabeça. – E tens a certeza de que me amas, embora eu seja difícil… uma megera? Gareth não conseguiu reprimir um sorriso. Sentia uma alegria demasiado intensa, demasiado forte para que a ocultasse. − És muito mais do que isso, Beatrice. Mesmo que ninguém mais o veja, eu vejo. Vejo-te e ao teu coração. A jovem sorriu e uma expressão de felicidade inundou-lhe o rosto e tornou-a ainda mais bonita aos olhos dele. − O que sou eu? − És minha – respondeu Gareth, agarrando-lhe no queixo e aproximando-se para a beijar. – Minha. És minha. E quando ele colou os lábios aos dela, Beatrice sussurrou: − Para sempre.


Epílogo Cinco Anos Depois

B

eatrice observou os seus dois gémeos a descerem a encosta a correr, equilibrandose com dificuldade nas pernas gordas de pequerruchos e tentando acompanhar os primos mais velhos, os filhos de Penelope e de Winifred. Os gritos e risadas das crianças chegaram-lhe lá de baixo e fizeram-na sorrir antes de regressar para junto da família. Todas as irmãs estavam sentadas juntas, desfrutando dos filhos e do sol luminoso de uma manhã de Verão. A única pessoa ausente daquela reunião era a mãe. Beatrice franziu a testa. Passara um ano desde que a mãe falecera tranquilamente durante o sono. Apesar de todos os problemas que ela lhe causara, Beatrice ainda lhe sentia a falta. Depois de todas as filhas terem casado, Dorthea acalmara-se um pouco. E à medida que os netos foram nascendo tornara-se mais feliz, proporcionando-lhes um afeto que havia sido incapaz de dar às próprias filhas. Todas as mulheres Albright apreciaram o facto e enquanto o tempo passava falavam muitas vezes de Dorthea. Beatrice reprimiu as lágrimas e fitou as irmãs, uma por uma. O tempo e os filhos não lhes haviam retirado a beleza. As harpias invejosas da cidade teciam infindáveis comentários a esse respeito e nada dava maior prazer a Beatrice. O olhar de Miranda brilhou ao pousar a mão no ventre inchado. Decorridos anos de tentativas frustradas, aproximava-se do fim da primeira gravidez. − Sentes-te bem? – inquiriu Beatrice num tom meigo quando a irmã emitiu um leve suspiro. Winifred e Penelope pararam imediatamente de conversar e viraram-se para a irmã mais velha. Todas se haviam preocupado com Miranda nos últimos nove meses. Depois de assistirem à sua luta, era difícil que assim não fosse. − Lindamente – respondeu Miranda com um sorriso. – Contudo, acho melhor mandarem um dos homens chamar o médico, pois acho que este pequenito está pronto para se juntar aos primos. Winifred foi a primeira a levantar-se. − Vou mandar imediatamente o Milo. Penelope apressou-se a ir atrás. − E eu encarrego-me de que Jeremy faça companhia a Ethan. Sabes que ele ficará impossível até saber que tu e o bebé estão bem. Assim que as duas irmãs desapareceram, Miranda virou-se para Beatrice com um


sorriso. − Como sabias? − Vi-o nos teus olhos – respondeu com um encolher de ombros. Miranda fitou-a durante um prolongado momento e Beatrice não desviou o rosto. Durante muito tempo, nunca aguentara o olhar da irmã, mas agora… depois de anos a sentir a força do poder do amor, deixara de recear a sua própria vulnerabilidade. E, embora a cidade pudesse continuar a chamar-lhe cabra nas suas costas, e talvez ela tivesse algum prazer em desempenhar esse papel, a família deixara de se afastar da sua ira. Sentia-se muito feliz por isso. As portas do terraço abriram-se de rompante e Ethan apareceu com os olhos arregalados e uma expressão assustada. Atrás dele, encontravam-se Jeremy, Penelope e Gareth. Mesmo passados todos aqueles anos, o coração de Beatrice continuava a bater com mais força quando o seu olhar se cruzava com o do marido. − Chegou a altura? – perguntou Ethan, num tom ofegante e ansioso. Beatrice rolou os olhos. Antes do final do dia, os homens teriam provavelmente de embebedá-lo para que não tivesse um ataque de coração. Miranda pôs-se vagarosamente de pé. Ethan agarrou-lhe no braço e caminharam devagar até ao interior, seguidos de Penelope e Jeremy. Beatrice sorriu quando o seu próprio marido avançou e a envolveu num abraço. − Pareces feliz – comentou meigamente. Beatrice rodeou-lhe a cintura. − Estou feliz, meu senhor – sussurrou. – Estou aqui consigo, com a minha família. Tenho tudo o que alguma vez desejei. Como podia sentir-me infeliz? Gareth beijou-a ao de leve antes de se virarem para a colina onde as crianças brincavam. O lugar onde ela pertencia.


Força do Desejo vol. 3 - Jess Michaels