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Andrew, Jacob e Sarah Beth, vocês são os melhores ajudantes que alguém pode pedir. Loo-gey, você ainda é o melhor. Melissa e Jennifer, como sempre, seu feedback é de valor inestimável. Natalie, minha incentivadora, amo você. E Amy, minha parceira de choramingo, onde eu estaria sem você?


CAPÍTULO I DALLAS, TEXAS —

Não quero que você volte ao trabalho. Ainda não.

Grayson Montgomery deixou a xícara de café sobre a gasta mesa de jantar e olhou para Mick Winslow com expressão confusa. — Do que está falando, Mick? O homem mais velho passou a mão cansada pelo rosto, um rosto agora profundamente marcado por linhas e fadiga. Ele havia telefonado para Gray de manhã e proposto um encontro ali para um café. Gray tinha hora marcada para uma avaliação física e psíquica dentro de meia hora. O último obstáculo para sua volta ao trabalho como policial em Dallas. Era atormentado por dúvidas. Que pessoa sã não seria? Não estava completamente certo de que poderia voltar ao trabalho se Alex, seu parceiro, não voltaria. Nunca. Mas, é claro, ele voltaria. O assassino de Alex tinha que ser capturado. A justiça precisava ser feita. Tudo que havia em seu caminho era uma aprovação do médico para sua condição física e a avaliação de um psiquiatra para seu estado mental. E podia passar por essa etapa sem nenhuma dificuldade. — Acha que não posso mais trabalhar? — Gray perguntou quando Mick demorou a responder. — Não é isso que estou dizendo. — Então, que diabos está dizendo? Mick cravou em Gray os olhos marcados pela dor. Ele parecia muito esgotado. Muito diferente do homem grande e de peito largo com a voz retumbante e personalidade adequada a ela. — Escute. Eu tenho um favor a pedir. Filho. Gray se encolheu, não porque Mick o chamou de filho, mas porque o verdadeiro filho de Mick havia partido. Nenhum dos dois voltaria a vê-lo. — Quero sua ajuda para levar o assassino do Alex à justiça. Gray devia ter esperado por isso. Mick estava mais que frustrado com a ausência de progresso na investigação do caso. Era compreensível. Gray também ardia com a mesma sensação de injustiça. Por isso estava tão ansioso para voltar ao trabalho. Para encontrar o assassino de Alex e fazer o desgraçado pagar pelo que fizera.


— Mas você não me quer de volta na força. — Eles desistiram dessa investigação — Mick disse sem rodeios. — Você sabe disso, e eu sei disso. Estão todos por aí enrolando enquanto o assassino do meu garoto continua livre. Não têm nem um suspeito. O Alex era um bom policial. Um policial muito bom. Não merecia cair daquele jeito. Os olhos de Gray se estreitaram. Nada pessoal, mas não gostava de como Mick questionava a atuação do departamento no caso. Nada que vira o levava a acreditar que alguém tratava a morte de Alex com menos seriedade que o esperado. — Por que não quer que eu volte? — Gray perguntou, tentando levar Mick de volta ao assunto. Não queria lidar com Alex. Não agora. Não quando havia levado tanto tempo para se sentir capaz de pensar no parceiro sem sentir que alguém o incendiava por dentro. Uma garçonete se aproximou com um bule de café e começou a completar suas xícaras. Mick a dispensou com um gesto irritado. Ela se afastou rapidamente, as sobrancelhas erguidas diante da expressão fechada no rosto dele. — Estive investigando por conta própria. Gray franziu o cenho. Era por isso que Mick estava tão abalado? Porque dedicava cada hora do dia à tentativa desesperada de prender um assassino, abrindo mão de horas de sono? — Está aposentado, Mick. Deixe o trabalho policial para nós. A dor inundou os olhos de Mick. — Vou esquecer que disse isso, filho. Gray balançou a cabeça. — O que descobriu? — Acho que tenho uma pista concreta de quem pode ter matado o Alex. Ele esteve na cena do crime naquela noite, pelo menos, então, se não for o assassino, sabe quem é. Mas minha intuição me diz que ele é o desgraçado que atirou no Alex pelas costas. Gray sentiu o estômago ferver, e todo o café que havia consumido queimou como ácido. Imagens de Alex com o rosto para baixo, como uma porcaria qualquer descartada, sangue empoçado no chão. — Se tem evidências, por que não foi procurar o Billings, e por que está aqui me pedindo para não voltar ao trabalho? — Porque o Billings é uma praga onipresente que tem a cabeça tão enfiada no próprio rabo, que pode cheirar o jantar da semana anterior — Mick grunhiu. — Fui procurá-lo quando consegui informação sobre o homem que estava lá. Samuels. Eric Samuels. — Sabe o nome dele? — Gray interrompeu. Mick levantou a mão. — Me deixe terminar. Sei muito mais que o nome do cretino.


Gray assentiu e tentou relaxar na cadeira. Depois, olhou para o relógio. Ia se atrasar. — Fui procurar o Billings. Contei a ele tudo que sabia. Ele me desprezou. Disse que eu era um aposentado ultrapassado e que precisava deixar o trabalho da polícia para os profissionais. Disse que quando precisasse da minha ajuda ele mesmo pediria. No departamento há gente dizendo que o Alex teve culpa no tiroteio. — O quê? Que merda é essa? — Tenho ouvido comentários, Gray. Parece que a crença que prevalece é que o Alex agiu sem motivo, e que a morte foi uma infeliz consequência das ações dele. As palavras “flagrante negligência do dever” foram ditas em mais de uma conversa. Gray olhava incrédulo para Mick. — Não pode estar falando sério. Eu estava lá. Fiz um relatório. — Você diria qualquer coisa para proteger seu parceiro. Gray recolheu os lábios numa careta. Mick levantou a mão. — Isso é o que eles vão dizer. Não eu. Gray se encostou à cadeira, respirou fundo algumas vezes para acalmar a ira que fervia dentro dele e olhou demoradamente para Mick. Era uma armadilha? Ele o estava provocando, tentando deixá-lo suficientemente furioso para assegurar seu apoio em tudo que quisesse? Mick sempre havia sido um homem direto, mas a perda de um filho pode modificar uma pessoa. Mick apoiou os cotovelos à mesa e se inclinou para a frente, olhando intensamente nos olhos de Gray. — Você pode fazer sua própria avaliação, filho. Converse com o Billings. Se acha que estou falando bobagem depois de ter retornado ao quartel-general por algumas horas, então, por favor, volte ao trabalho e esqueça que tivemos essa conversa. Mas, se descobrir que eu estava certo, ligue para mim hoje à tarde. Vou te encontrar e então podemos conversar sobre como vamos pegar o filho da mãe que matou meu filho. Seu parceiro. Seu irmão. Mick se levantou e jogou algumas notas amassadas em cima da mesa antes de se dirigir à saída. ••• Havia sido difícil pedir tranquilamente uma licença quando o que realmente queria era esmurrar a parede. Gray havia considerado falar disso na avaliação psicológica, mas essa porcaria ficaria em seu histórico para sempre, e não queria que isso o perseguisse pelos próximos vinte anos. Estava na sala de estar de seu apartamento, andando de um lado para o outro, agitado demais para sentar-se e esperar a chegada de Mick. O velho não deu nenhuma indicação de estar


surpreso quando Gray telefonou. Nem perguntou quais eram os comentários no quartel-general. Mas ele sabia. Havia falado com Gray, mas Gray não acreditara nele. Gray havia voltado com a intenção de ignorar o pedido de Mick. O que quer que acontecesse, ele queria estar ali, onde poderia ajudar na investigação, não em uma busca insana e inútil. Mas Billings havia traçado uma linha firme. Gray não podia nem se aproximar da investigação. Estava envolvido demais, toda essa besteira. Como se precisasse de bobagens psicológicas enquanto o assassino de seu parceiro estava solto. Quando perguntara diretamente sobre os boatos que circulavam a respeito de Alex ser culpado, Billings havia negado imediatamente, dizendo que a investigação estava em andamento e que o departamento faria tudo que pudesse para levar o assassino à justiça. Gray também havia perguntado sobre Samuels e sua possível ligação com o assassino, mas Billings se recusara a comentar. Havia saído do escritório frustrado e fora recebido por vários olhares solidários de colegas policiais. Muitos murmuravam sua opinião, diziam que Alex não havia feito nada errado. Mas o fato de terem que dizer isso enfurecia Gray. Não deveria haver dúvida. Isso levantara questões sobre a direção em que a investigação seguia. Mick entrou sem se importar em bater. Gray o encarou e viu em seus olhos pura determinação. — Então, agora sabe — Mick falou em voz baixa. — Vai me ajudar? — Consegui seis meses de licença — Gray respondeu sem rodeios. — Agora, me diga tudo que descobriu para podermos pegar esse desgraçado. Mick se aproximou do sofá e sentou-se sobre uma almofada. Depois, olhou para Gray determinado. — Você vai ter que ir a Houston. — O que tem em Houston? — Faith Malone. Gray cruzou os braços sobre o peito. — O que ela tem a ver com o Eric Samuels? — Talvez nada. Mas ela é a única pista que tenho agora. — E o que tem ela? Quem é? Mick coçou a nuca e inclinou a cabeça. — O Eric Samuels se envolveu com a mãe dela bem na época do tiroteio. Os dois desapareceram poucos dias depois de o Alex ser alvejado. Ninguém os viu. Eu a investiguei. Uma fracassada como o Samuels. Troca de emprego como quem muda de roupa e tem um histórico de uso abusivo de drogas. A filha dela trabalha para o William Malone, o homem que a adotou. Ele é proprietário da Malone and Sons Security. Uma empresa bem-sucedida. Ele não segue muito as regras. Você teria gostado dele. Gray esperava impaciente que Mick chegasse ao ponto. Não importava muito se ele gostava ou


não de Malone. Tudo que interessava era se a filha dele poderia ou não levá-los ao assassino de Alex. — Aparentemente, a Faith cuidou da mãe durante a maior parte da vida, até alguns anos atrás, quando a mãe teve uma overdose, e o Malone interferiu e levou Faith de volta a Houston. Desde então, a mãe telefonou esporadicamente para a filha, na maioria das vezes pedindo dinheiro, pelo que pude entender. A última ligação aconteceu há um ano. O que estou pensando é que, se a mãe costuma telefonar para a filha quando precisa de dinheiro, ela bem pode começar a ligar para ela agora que Samuels entrou em cena. Samuels está desesperado. Precisa de dinheiro, agora que está em movimento. Dinheiro que a mãe não tem. Se você se aproximar da filha e tentar descobrir alguma coisa, ela pode nos levar ao Samuels por intermédio da mãe. Gray assentiu. Até então tudo fazia sentido. A mãe e o namorado estavam fugindo. Com pouco dinheiro, provavelmente. Ela bem podia entrar em contato com Faith e pedir ajuda. Até onde sabia, a garota podia não saber exatamente onde estava a mãe. — Meu amigo Griffin é amigo do Malone, e o Malone deve a ele um favor — Mick continuou. — Consegui um emprego para você na empresa de segurança. Ele sabe quem você é, sabe que é um policial e que seu parceiro foi assassinado. — Mais nada, certo? Mick balançou a cabeça. — O que ele sabe é que você está de licença enquanto enfrenta a morte do seu parceiro e decide se quer ou não voltar ao trabalho. Gray olhou diretamente para Mick. O mais velho deu de ombros: — Pareceu uma explicação plausível. Não fazia diferença. Ele não dava a mínima para o que Malone pensava sobre suas razões para tirar uma licença. — O Malone se encaixa nisso de algum jeito? Ele tem alguma coisa a ver com a mãe da Faith? Mick balançou a cabeça. — O Griffin me contou essa parte. Eles foram casados por um breve período há dez anos, mais ou menos. Desde então, não há mais nenhuma ligação entre os dois. Ele é um bom homem. O filho é ex-militar. Tem mais dois caras trabalhando para ele. Um esteve nas Forças Especiais, o outro era policial antes de ser afastado por causa de um ferimento. Eles fazem um bom trabalho. — Então, só preciso me preocupar com a filha dele. Mick assentiu. — Exatamente. Parecia simples. Entrar, pegar a informação e sair. Entregar tudo ao departamento em uma bandeja de prata. Quase uma brincadeira, depois dos casos que havia resolvido ao longo dos anos.


E, sim, o intervalo seria útil. Não teria que pensar tanto em voltar ao trabalho sem o parceiro. Mick o encarou por um longo momento antes de dar a impressão de desmoronar diante de seus olhos. — Obrigado, filho. Sabia que podia contar com você. — Não precisa me agradecer — Gray falou com tom seco. — O Alex teria feito o mesmo por mim sem pensar duas vezes. Ele se aproximou e sentou ao lado de Mick. Nenhum dos dois falou por um momento, depois Gray estendeu a mão e tocou o ombro dele. — O Alex vai ter a justiça que merece, Mick. Eu juro.


CAPÍTULO 2 HOUSTON, TEXAS

Faith Malone aninhou-se no braço inerte de John e tentou, tentou realmente não se deixar invadir pela onda lenta de decepção. A respiração suave e regular do amante encheu o quarto inclusive quando ele a puxou para mais perto contra o peito. A mão dele segurou seu cabelo, afagando a nuca. Ela pressionou a face contra o corpo dele e tentou relaxar. Tentou encontrar algum contentamento na saciedade depois do amor. — Foi bom para você? — ele murmurou. — Sim — mentiu Faith. Bem, não era exatamente uma mentira. Certamente havia tido experiências piores, e John era um amante atencioso. Mas era extremamente passivo. Ela suspirou e se deitou de costas, olhando para o teto. Qual era o problema? Por que não conseguia se sentir satisfeita? Por que tinha tanto medo de buscar mais? — Faith, estive pensando. Ela olhou para John. O pânico a acertou como um soco no peito. Nada de bom podia vir de um homem que dizia ter estado pensando. Homens não pensavam só por pensar, e certamente não eram propensos a expressar esses pensamentos em uma conversa na cama. Ele mudou de posição, deitou de lado e olhou para ela. — Também estive pensando, John — disse ela de repente. Ele levantou uma sobrancelha. — Você primeiro. Ela se apoiou sobre um cotovelo e o encarou nervosa. A mente girava depressa, tentando encontrar uma maneira coerente de colocar o que queria dizer. — Por que não planeja nosso encontro amanhã à noite? Decida o que vamos fazer, onde vamos comer. E depois podemos voltar para cá, talvez, e você pode... Não sei, me amarrar, ou fazer alguma coisa excêntrica. Basicamente, o que quiser fazer. Você escolhe. Que desastre. Teria sido possível expressar seus pensamentos de um jeito pior? Ela mordeu o lábio enquanto esperava a resposta.


Os olhos dele se abriram. Seria surpresa ou entusiasmo? — Hum, não sei se entendi — ele falou com desconforto. Definitivamente, não era entusiasmo. — Quero que você assuma o comando — ela disse com tom suave. Ele se sentou na cama e coçou a cabeça. — Faith, de onde veio isso? Com o rosto queimando, ela engoliu em seco. Deus, sentia-se idiota. Nada como mandar um homem correr em direção oposta. — Está infeliz de como as coisas estão? É isso que está tentando dizer? Faith pensou em mentir e recuar. Era o que havia feito em seu último relacionamento. E no anterior. Mas isso não a levaria a lugar algum. — Eu não diria infeliz. Não exatamente. — O que diria, então? — Insatisfeita — ela respondeu em voz baixa. — Sexualmente, quer dizer? A mulher levantou a cabeça e encontrou seu olhar penetrante, a irritação iluminando seus olhos. — Não. Não é só com relação ao sexo, John. Se fosse, talvez eu pudesse lidar melhor com isso. É algo maior. Eu quero... quero um homem que possa assumir o comando. Tomar decisões. Estar... no controle. E não só no quarto. — E eu não sou esse homem. Ela uniu os dedos, torcendo-os e apertando-os. — Não tem sido. Ele praguejou baixinho. — Quer que eu mude? Faith o encarou com tristeza. — Não. Isso não é justo. Nem com você, nem comigo. Acho... acho que tinha esperança de que você pudesse ser esse homem. — Droga, Faith, está falando como se fosse terminar tudo entre nós. O que é isso? Uma fantasia que quer que eu realize? Eu posso realizar. Quero dizer, se estiver falando de encenação, mas não parece que você quer uma situação temporária. Ela balançou a cabeça. — Não quero. Eu quero... não, preciso disso. E é o seguinte: tive homens que teriam se entusiasmado com a ideia de passar uma noite no papel do macho dominante, mas teria acabado ali. Não quero que acabe. — Ela se inclinou para a frente, tentando fazê-lo entender. — Isso faz algum sentido?


Ele passou a mão pelo rosto e esfregou os olhos de um jeito cansado. — Sim, faz sentido. Faith estendeu a mão para tocá-lo, e ele se afastou. — Não sei o que dizer. Está zangado? Um som brusco escapou de seus lábios quando ele soprou o ar com força. — Não. Sim. Droga, não sei. Eu me sinto como se você tivesse jogado uma maldita bigorna na minha cabeça. Ele estendeu a mão e segurou o queixo da mulher. Afagou sua face com o polegar enquanto olhava dentro de seus olhos. — Eu sabia... sabia que alguma coisa não ia bem entre nós. Não esperava nada disso, mas sabia que você não estava tão feliz quanto poderia estar. Ou deveria estar. Quero que você seja feliz, Faith. Droga, eu quero ser feliz. E acho que não nos fazemos felizes. Ele levantou um canto da boca em um arremedo de sorriso, e Faith relaxou. — Também não estava satisfeito — acusou. O sorriso tornou-se mais largo. — Bem, acho que não vou ter problemas por reconhecer que não. Ela se jogou de costas na cama e deixou escapar uma risadinha. — Não fazemos uma boa dupla? Estamos aqui deitados e nus depois do sexo, terminando tudo. Ele se inclinou com expressão séria. — Você é uma mulher fabulosa, Faith. Eu esperava mais de nós dois, e admiro você pela coragem de falar claramente o que quer. — Então, não acha que sou uma doida pervertida? — Não, mas quero que me prometa que vai tomar cuidado. Muitos homens por aí poderiam tirar proveito do tipo de situação que você quer. E não teriam como objetivo seu prazer ou o que é melhor para você. — Obrigada, John — ela falou com tom suave ao tocar seu rosto. Ele a beijou na face antes de se levantar da cama para vestir-se. Faith estava sentada atrás de sua mesa na Malone and Sons Security e mordia distraída a ponta do lápis. O escritório hoje estava quieto. Pop e os outros haviam saído para um encontro de negócios com o cara novo, e ela estava sozinha. O que nunca era bom. John havia ido embora na noite anterior, em vez de ficar para dormir como costumava fazer. Mas um rompimento era uma maneira bem eficiente de jogar um homem para fora da cama. Podia se consolar com o fato de, aparentemente, ele ter estado tão insatisfeito com ela quanto ela estava com ele, por isso duvidava de que ele estivesse sofrendo com um coração partido. Ela, por outro lado, estava a caminho da loucura. Talvez tivesse sido sutil demais. Temerosa


demais. Talvez sentisse vergonha de suas necessidades e vontades. Certamente não era um assunto que costumava discutir com as amigas, não que tivesse muitas. Elas provavelmente a expulsariam do grupo de mulheres depois de ouvir o que queria dos homens. A noite passada fora a primeira vez que ela realmente expressara em voz alta os desejos sombrios que habitavam sua cabeça. Não que tivesse fornecido muitos detalhes. A breve menção era suficiente para ainda fazer seu rosto queimar de vergonha. Mas isso tinha que acabar. Agora. A sutileza não a favorecia. Nunca a havia ajudado com os homens com quem havia se relacionado. Torcer e esperar não era o caminho. Não, tinha que ser mais proativa. Mais exigente. Se não deixasse claro o que queria, como poderia ter alguma chance de conseguir? O toque do telefone interrompeu a linha melancólica de pensamentos, e ela estendeu a mão para o aparelho com gratidão. — Malone and Sons — disse. — Oi, amorzinho, é a mamãe. Faith foi tomada pelo desânimo. Uma espiral de náusea começou a girar em seu estômago, e ela teve que conter fisicamente a urgência de desligar o telefone. Deus, fazia um ano que não tinha notícias da mãe. Um ano sem histeria, sem atitudes de mártir e sem desculpas esfarrapadas. — Mãe — respondeu com voz fraca. — Como vai? — Pergunta idiota. Sua mãe nunca ia bem. Sempre havia algum problema. — Estou encrencada, Faith. Preciso da sua ajuda. Faith fechou os olhos e mordeu o lábio. Do outro lado, ouvia um barulho como de carros passando por uma avenida. A mãe falava de um telefone público? Celia não tinha dinheiro para comprar um celular. Não pergunte, Faith. Não faça perguntas. Você não quer saber. — Faith, está me ouvindo? — Sim, estou — ela sussurrou. Não devia ter atendido ao telefone. — Preciso de dinheiro, nenê. Só um pouco, para me ajeitar até arrumar outro emprego e um lugar para morar. Faith engoliu o terrível desapontamento e fechou os olhos para controlar as lágrimas. Por mais estúpido que fosse ter esperança de um dia ver Celia cuidando da própria vida, Faith se agarrava a ela da mesma maneira. Por que não podia ter uma mãe? Uma mãe de verdade. Alguém que não se empenhasse tanto em estragar tudo, que pudesse ter um relacionamento verdadeiro com a filha. — Faith, desta vez a necessidade é real, meu bem. Eu vou devolver o dinheiro, é claro. É claro. Que piada. Faith apertava tanto o telefone que uma dor aguda subiu da mão para o braço.


— Desta vez não, mãe — ela disse, surpreendendo-se com a própria resposta. A pausa longa do outro lado da linha a fez compreender que a mãe estava igualmente surpresa. — Mas, meu bem, eu preciso do dinheiro para sobreviver. — Havia desespero na voz de Celia. Ela se tornou mais firme. — Eu disse que vou devolver. Tenho que encontrar um lugar para morar, comprar combustível e comida. Assim que me instalar e conseguir outro emprego, tudo vai ficar bem. — É o que você sempre diz. Mas isso nunca acaba. Não posso continuar resolvendo seus problemas. É hora de assumir a responsabilidade por você mesma. Antes que Celia pudesse responder, Faith desligou o telefone com um movimento suave, silencioso. As mãos tremiam quando ela se afastou da mesa. — Tudo bem? Ela levantou a cabeça ao ouvir a voz estranha. Havia um homem apoiado ao batente da porta de sua sala. E não era um homem comum. Ele ocupava todo o espaço da porta. — Eu... posso ajudar? Ele se afastou do batente e caminhou até sua mesa. E estendeu a mão. — Gray Montgomery. O novato. Os lábios dela formaram um O. Ela apertou a mão dele e, em vez de sacudi-la, ele apenas a segurou. — Faith Malone. Ele sorriu, e os olhos azuis brilharam para ela. — Eu sei. Faith soprou o ar dos pulmões. — É claro que sabe. Sou a única mulher que trabalha aqui, portanto, não poderia ser outra pessoa. — Estou interrompendo alguma coisa? — ele perguntou ao soltar sua mão e apontar o telefone. — Parecia aborrecida. Ela balançou a cabeça e continuou encarando o recém-chegado. Era o tipo de homem que intimidava. — Não foi nada. Precisa de alguma coisa? O telefone tocou, e ela pulou na cadeira. A náusea voltou mais forte que antes. Devia ser sua mãe. Faith olhava para o aparelho sem querer tocá-lo, sem querer lidar com a mãe extenuante que a manipulava sempre. A mão grande cobriu o fone e o tirou do gancho. — Malone’s — disse Gray sem rodeio. Houve uma longa pausa, e ele olhou para Faith com aquele olhar penetrante. — Lamento, mas ela saiu por um instante. Quer deixar algum recado? Por favor, por favor, não deixe recado. Não suportaria um ataque histérico da mãe. Não com um


estranho como testemunha. Gray desligou o telefone. — Obrigada — ela falou em voz baixa. — Não foi nada. Você está bem? Tive a impressão de que não queria falar com a pessoa que telefonou antes. Ela estremeceu sob os intensos e firmes olhos azuis. — Está tudo bem. De verdade. Agora... queria alguma coisa? — perguntou de novo. Os cantos da boca de Gray se ergueram num sorriso divertido. — Está tentando se livrar de mim? Faith corou. — Desculpe, é claro que não. É um grande prazer te conhecer. O Pop e o Connor falam muito sobre você. Está bem instalado? Não tenho te visto pelo escritório. Cale a boca, Faith. Queria deixar a cabeça cair sobre a mesa. Estava se comportando como uma cabeça de vento. Ele pigarreou. — É um prazer conhecer você. O Pop e o Connor também falam muito a seu respeito. Estou muito bem no apartamento, e hoje é meu primeiro dia no escritório. Seus olhos brilhavam e ele ainda a encarava com um sorriso. Belos olhos. Profundos, azuis. Ele usava cabelo curto, ligeiramente espetado no alto da cabeça. Provavelmente, não precisava fazer muito mais que esfregar a toalha na cabeça, passar um pente de qualquer jeito e sair. — Esperava que pudesse me dizer onde fica minha sala... Ela piscou e interrompeu a lenta avaliação de seus atributos. Depois se levantou e bateu o joelho na mesa. A dor subiu pela perna, e ela fez uma careta. Gray levantou uma sobrancelha, mas não fez nenhum comentário. Ela abriu a primeira gaveta da mesa, vasculhou o que havia dentro dela por alguns segundos e encontrou um chaveiro. — Estas são as chaves da sua sala e da porta do prédio. Tenho certeza de que o Pop já forneceu todas as senhas do sistema de segurança, mas, se ainda não as tiver, posso anotá-las para você. Ela entregou as chaves, e a mão forte segurou a dela mais uma vez. Um arrepio morno percorreu sua pele quando o polegar roçou seus dedos. Faith puxou a mão e contornou a mesa a caminho da porta. Quando chegou ao corredor, virou-se e viu que ele ainda a observava. Tinha certeza de que ele olhava para o seu traseiro, mas, assim que ela se virou, os olhos dele subiram. — Se vier comigo, posso mostrar onde fica sua sala. Ele se levantou de onde havia apoiado o traseiro à beirada da mesa e a acompanhou. Faith caminhou pelo corredor até a porta do escritório vazio que havia sido designado a ele, três salas depois da dela. Ela abriu a porta, mas não entrou. Apenas apontou o interior com a mão.


— Aí está. Se precisar de alguma coisa, fale comigo. — Eu falo — ele respondeu em voz baixa ao passar por ela. Gray sentiu seu olhar, soube que ela o observava enquanto entrava na sala. Os dois se olharam várias vezes. Quando Mick falara sobre Faith Malone e dera detalhes de sua aparência, não a havia imaginado tão bonita. Ou com aquele ar tão inocente. — Eu, hum, vou voltar à minha sala. A gente se vê por aí. Se precisar de alguma coisa, é só gritar. Gray virou-se e a viu deixar a porta de seu escritório para voltar ao dela. Sorrindo para si mesmo, balançou a cabeça. Sabia que a deixava nervosa. Notara sua tensão desde que havia entrado na sala dela. Quando teve certeza de que Faith havia mesmo se retirado, ele foi fechar a porta e pegou o celular para ligar para Mick. — Finalmente conheci a Faith Malone — contou assim que Mick atendeu. — E? — Não é o que eu esperava — Gray confessou. — Como assim? Ele parou e, mais uma vez, pensou na imagem da mulher sentada em seu escritório, com o rosto contorcido pelo aborrecimento. Vê-la naquele estado o incomodava mais do que queria admitir. — Ela é jovem. Bonita. Parece ser legal. Tem uma aparência muito íntegra. De acordo com o Pop, é extremamente inteligente e generosa. Mick suspirou impaciente. — Conseguiu alguma coisa com os grampos nos telefones? Sabe se a mãe dela telefonou? — Só hoje consegui ter acesso ao escritório. Vou instalar os grampos no aparelho dela aqui e no apartamento assim que tiver uma oportunidade. E acho que a mãe dela pode ter telefonado hoje. A respiração de Mick ficou mais agitada, ruidosa do outro lado da linha. — Tem certeza? O que foi falado? — Nem imagino. Quando entrei ela estava ao telefone e falou muito pouco. Mas estava visivelmente perturbada. Em um momento ela desligou, e se recusou a atender quando o telefone tocou outra vez. Eu atendi, e uma mulher pediu para falar com ela. Falei que a Faith não estava, e a mulher não quis deixar recado. — Por que não passou o telefone para a Faith? — Mick perguntou irritado. — Porque ela não teria atendido. Tenha paciência, Mick. Vou chegar ao fundo dessa história. Garanto. Preciso de alguns dias para conseguir instalar os grampos. Essas pessoas não são relaxadas. Vou ter que tomar cuidado.


— Avise quando descobrir alguma coisa. — Aviso. Eles desligaram, e Gray guardou o celular no bolso. Ficou ali parado por um momento, pensando em tudo que precisava fazer. Para sua surpresa, a culpa o incomodava. Corroía-o como ácido. Gostava de Pop. Gostava do emprego, mesmo que o houvesse conseguido usando falsos pretextos. Adequava-se bem à equipe de Pop. Connor, Micah e Nathan eram todos da mesma idade que ele e tinham muito em comum. Pela primeira vez, estava questionando se voltar à força policial era mesmo o que queria de verdade. Não seria a mesma coisa sem Alex. Alex. A palavra penetrava sua mente e causava uma onda de dor, um sofrimento que tentava bloquear desde o funeral, mas, ultimamente, não tinha muito sucesso. Gray fechou os olhos. Pensava no assassino de Alex por aí. Livre. Escapando da justiça. Havia visto muito bandido bem-sucedido na vizinhança horrível em que crescera. Não deixaria isso acontecer de novo. Desta vez era pessoal. — Ah, Gray? Ele levantou a cabeça e viu Faith parada na porta de seu escritório. Os olhos passearam pelas pernas longas vestidas no jeans justo. A blusa fina de gola alta aderia às curvas nos lugares certos. Ele se mexeu desconfortável na cadeira, expulsando da mente as imagens de seu corpo. — O que houve? — perguntou, esperando soar suficientemente casual. — O Pop ligou. Ele e o Connor, o Nathan e o Micah vão almoçar e querem que você os encontre no Cattleman’s. Gray enfiou a mão no bolso, procurando as chaves. — Obrigado. Eu vou para lá agora mesmo. Quer que eu traga alguma coisa? Ela balançou a cabeça e desviou o olhar, o rosto tingido de rosa. Era tão suave e feminina! Sentia-se meio tentado a tocar uma mecha dos longos cabelos loiros. Descobrir se eram tão sedosos quanto pareciam ser. Tão sedosos quanto devia ser sua pele. Gray se forçou a desviar o olhar, mas então a ouviu saindo do escritório e se virou para ver o traseiro arredondado se movendo pelo corredor. Sentia-se atraído por ela. Droga, que homem de sangue quente não estaria? Mas era errado em tantos aspectos diferentes que nem conseguia parar de contar. Certamente, essa não era uma garota com quem um homem brinca. Não, podia ler a palavra “amarra” escrita em sua testa, e não estava em condições de se envolver nesse tipo de situação. E a assustaria, de qualquer maneira. Balançando a cabeça, ele jogou o chaveiro de uma das mãos para a outra e saiu do escritório em direção à caminhonete. Mais tarde teria que encontrar um tempo, quando todos estivessem fora,


para instalar o grampo na linha principal. Se fora a mĂŁe de Faith quem telefonara hoje, era evidente que nĂŁo havia conseguido o que queria. O que significava que voltaria a ligar.


CAPÍTULO 3 Gray apoiou-se à parede do prédio de apartamentos e viu Faith se empenhando em tirar duas grandes sacolas de supermercado do banco de trás do carro, cuja porta fechou com o quadril. Ele se aproximou, estendendo as mãos para as sacolas quando estava perto o bastante. Olhos verdes e assustados se voltaram em sua direção quando ela sentiu sua presença. — Me deixe ajudar com isso — disse Gray. Ela soltou as sacolas, ainda olhando para ele com expressão surpresa. Embora ambos morassem ali — Pop era dono do prédio de apartamentos, e Connor, Nathan e Micah também moravam nele —, Gray e Faith ainda não haviam se encontrado desde que ele se mudara para lá. Ele se dirigiu à porta do apartamento e virou, esperando que Faith a destrancasse. Ela inclinou a cabeça para um lado. — Como soube qual apartamento era o meu? — Seu irmão me contou — ele respondeu, e deu de ombros. — O Connor costuma ser mais discreto. — Uma ruga surgiu em sua testa. — Estou chocada por ele ter revelado essa informação, por não ter pensado que você poderia arrombar a porta e me matar enquanto estou dormindo. Gray riu. — Está tentando dizer que ele tenta te proteger? — Não, ele é só cauteloso — Faith respondeu, e introduziu a chave na fechadura. — E discreto. Muito, muito discreto. Não tem o hábito de divulgar informação pessoal. — E abriu a porta, convidando-o a entrar com um gesto. — Ficou aborrecida por ele ter me falado qual era o seu apartamento? Só me ofereci para ficar de olho, já que o meu fica tão perto do seu. Ela o seguiu e fechou a porta. — Não, não me aborreci com isso. — Bem, agora que esclarecemos essa parte, onde quer que eu deixe as compras? Ela apontou para a cozinha. — Em cima do balcão, por favor. Eu guardo tudo mais tarde. Gray atravessou sem pressa a sala de estar, examinando o interior do apartamento. Pela


imagem que formara dela, esperava cor-de-rosa, talvez amarelo, tons claros e neutros. Cores e decoração femininas. Babados em torno de tudo. Não poderia ter se enganado mais. O apartamento era decorado em ricos e escuros tons de terra. Havia uma nota decididamente masculina nos móveis. Bordô, azul-escuro, verde. Os sofás eram de couro marrom-escuro, e pareciam realmente confortáveis, como se fossem usados como assento, não só como peças de decoração. Ela era uma interessante contradição. E o intrigava muito. Gray deixou as compras sobre a bancada e olhou para o telefone. Parecia comum, uma linha padrão. Fácil de grampear, só precisava entrar no apartamento quando ela não estivesse lá e tomar providências para que ela nunca descobrisse nada. Arrancara informações suficientes de Micah e Nathan para saber que Faith seguia uma rotina bem definida em suas idas e vindas. Durante a semana ela passava a noite em casa. Sexta e sábado, normalmente saía à noite com o cara com quem estivesse namorando no momento, e aos domingos ia visitar Pop. Às vezes, passava algum tempo com o irmão ou na casa de Nathan ou Micah, mas, na maior parte do tempo, ela parecia ser solitária. Quando se virou para encará-la, ela o estudava com um ar cansado e reservado. Havia uma sutil curiosidade em seu olhar, apesar da reserva. Como se não conseguisse decifrá-lo. Bem-vinda ao clube, nenê. Também não havia conseguido decifrá-la no pouco tempo desde que se conheceram. Seus braços estavam cruzados, cobrindo a região mediana do corpo de um jeito protetor. Sem perceber, ela levantava os seios, empurrando-os para cima até esticarem o tecido da blusa. Podia ver o contorno dos mamilos salientes. — Quer beber alguma coisa? — ela perguntou com tom polido, embora a linguagem corporal a desmentisse. Não se sentia confortável com ele ali. Em seu espaço. Ele sorriu. — Obrigado, mas tenho que ir. Vou encontrar o Micah, vamos beber alguma coisa. Ela fez uma careta. — Sei o que isso significa. Gray arqueou uma sobrancelha. — Ah, sim? Ela riu com tom rouco. — Se tem o Micah no meio, o evento envolve muitas mulheres bonitas, normalmente bonitas e ocas, tudo bem, bonitas, ocas e seminuas. — Parece que ele é o tipo de cara que gosto de ter por perto. Ela corou novamente. — Não pensei que gostasse do tipo vazio. Um canto da boca dele se ergueu. Então, ela o estivera analisando. Muito interessante. E não pensava que gostasse do tipo vazio. Boa observação, mas podia ser só um palpite de sorte.


Francamente, preferia sofrer com a falta de sexo a transar com uma garota mais vazia que um buraco negro. — Gosto da parte das seminuas — disse sorrindo. Faith revirou os olhos. — Bem, acho que a gente se vê amanhã, então. Ah, dispensado. Ele recuou. Seria inútil irritá-la. Primeiro encontraria Micah para uns drinques, depois iria ao escritório grampear o telefone dela. E esperaria até ela ir trabalhar para entrar em seu apartamento. Quando se dirigia à porta, a voz suave soou em seus ouvidos: — Obrigada pela ajuda. Ele virou a cabeça. — Não foi nada. Faith o viu sair com a respiração estranhamente irregular. Não esperava vê-lo tão cedo depois do primeiro encontro, mas imaginava que se encontrariam casualmente com frequência, considerando que trabalhavam juntos e moravam no mesmo prédio. Connor havia contado que Gray era policial em Dallas e estava de licença desde que o parceiro fora morto cumprindo seu dever. De acordo com Nathan, Gray não era de falar muito. Ele e Connor deviam se entender muito bem, então, porque Connor também preferia ficar de boca fechada. Micah e Nathan, por outro lado... mais que compensavam a seriedade de Connor com suas palhaçadas. Eram amantes da diversão. Não havia neles um pingo de seriedade. Faith sorriu. Qual seria o lugar de Gray nessa mistura eclética era algo que ainda não conseguia entender. Depois de guardar as compras, ela encheu um copo com chá e caminhou para a mesa onde ficava o computador. Deixando o copo ao lado da máquina, moveu o mouse para acender a tela. Depois, abriu o navegador e digitou o endereço do Google. Agora, o que pesquisar. Ela ficou ali por um bom tempo, olhando para a caixa de pesquisa vazia. O que estava procurando? Tinha um nome essa necessidade nebulosa que se retorcia dentro dela? Talvez devesse pesquisar sobre o que fazer ao perder a cabeça. Finalmente ela decidiu digitar várias palavras. Talvez reduzindo um pouco as escolhas pudesse evitar a inundação de informação supérflua, e, se tivesse muita sorte, chegaria a um ou dois sites que não fossem pornôs. Dominação. Controle. Hum. O que mais? Ah, espere. Dominação masculina. Controle. Submissão? Não, isso parecia errado. Tudo bem, ficaria só com Dominação masculina e Controle por enquanto.


Ah, puxa. Estatísticas de pesquisa. Isso era realmente um tópico de pesquisa? Talvez pudesse encontrar um professor bonitão disposto a dobrá-la ao meio e... ah, as possibilidades. Ela começou a rolar a tela mais depressa, tentando ultrapassar as imagens eróticas que inundavam sua cabeça. Tapas. Mãos e pés amarrados. Um homem com poder total sobre ela. Subjugando-a, obrigandoa a se render. Cuidando dela. E lá estava o maior de todos os atrativos. Faith suspirou enquanto clicava em inúmeras páginas inúteis. Impaciente, digitou outra sequência de palavras na caixa de busca. Dominação. Controle. Amarrar. Essas pareciam mais promissoras, pelo menos. Ela examinou os tópicos e clicou em alguns deles. Uma ruga marcou sua testa quando começou a ler sobre submissão feminina. Honestamente, nunca se havia considerado uma pessoa submissa. Sim, queria um homem forte. Alguém que não precisasse perguntar ou pedir. Que fosse confiante o bastante para agir. Mas isso a tornava submissa? Ela torceu o nariz. Bem, não faria mal ler sobre o assunto. Pelo menos teria uma ideia melhor sobre como encontrar essa criatura tão ilusória: o macho dominante. Deus, falava como se essa fosse uma espécie em extinção. Mas, no mundo de hoje, supunha que fosse. Uma raça moribunda. Eliminada por uma sociedade politicamente correta. Ótimo. Agora que havia identificado o que queria em um homem, ia descobrir que esse animal não existia. Faith clicou até ficar com o dedo entorpecido. Leu até tarde da noite, os olhos grudados às informações fascinantes e, ao mesmo tempo, bizarras. Francamente, não imaginava que houvesse por aí tanta gente compartilhando de seus desejos, tantas mulheres. Mas, estranhamente, não se sentia menos isolada por isso. Cansada, suspirou profundamente enquanto lia outra lista. Quando já se preparava para desistir, um anúncio em uma das páginas chamou sua atenção. Faith se aproximou mais da tela. Houston. O endereço era em Houston. Um clube exclusivo, privado. Só para associados. “Especializado em temas como dominação, amarras e uma variedade de fetiches que certamente saciarão até os paladares mais distintos.” Ela levantou uma sobrancelha. Aparentemente, aquelas pessoas não sofriam com falta de autoconfiança. Curiosa, clicou no anúncio e foi transferida para um site surpreendentemente sofisticado. Nada de pornô vulgar cheio de imagens chocantes. Era um site discreto que poderia servir a vários negócios. Cores amenas. Relaxante aos olhos.


Nada de pop-ups ou caixinhas brilhantes avisando que você acabou de ganhar um iPod. Sua pulsação acelerou quando leu o texto. A associação era exclusiva e limitada a um pequeno número de novos membros todos os anos. Segurança era prioridade, e o clube não era um estabelecimento exuberante e cheio de luminosos de neon no centro de Houston. Em vez disso, o lugar funcionava em uma casa imponente no limite norte da cidade. Grandes portões de ferro. Cercas altas. Nenhuma placa anunciando o que acontecia atrás das portas fechadas. Basicamente, um ponto de reunião para indivíduos de pensamento semelhante. Ela estremeceu. Podia ser tão fácil? De alguma forma, duvidava disso. Mas onde mais poderia começar sua pesquisa? O cursor estava parado sobre o número de telefone relacionado no site. Ela pegou o telefone sem fio que mantinha ao lado do computador e pressionou o botão de ligar. Por vários segundos, ficou ouvindo o som da linha. Quando o telefone começou a apitar para avisar que ainda estava ligado e sem uso, ela o desligou e olhou para a tela do computador. Depois, ligou o telefone outra vez. E desligou. E ligou. Droga. O que podia ser tão terrível em ligar para o lugar? Não poderia agarrá-la pelo telefone, torturá-la e deixá-la amarrada e nua no chão. Porém, se o cara fosse muito gostoso, talvez até estivesse disposta a isso. Ela apoiou o fone à testa e fechou os olhos. Vai logo, Faith. Você só quer informação. Eles nem precisam saber seu nome. Respirando fundo, ela apertou o botão de ligar e digitou rapidamente a sequência de números. Depois, apertou o telefone contra a orelha e fechou os olhos com força, apavorada. Talvez não atendessem. Seu estômago deu um pulo quando uma voz masculina e mansa soou do outro lado. — Alô? — ele repetiu quando não obteve resposta imediata. — Ah, alô — ela disse, quase sem conseguir empurrar as palavras para fora da boca. — Queria algumas informações. Quero dizer, vi o clube, ah, ou melhor, o estabelecimento na internet. — Qual é seu nome? — o homem perguntou animado. Droga. Eles saberiam seu nome, afinal. — É Faith — respondeu, sem revelar o sobrenome. — Oi, Faith. Meu nome é Damon, e vai ser um prazer responder às perguntas que quiser fazer. Ela relaxou um pouco. — Bem, é que, na verdade, não sei que perguntas fazer. — Ah. Tudo bem, então eu vou fazer uma pergunta a você. — Ah, sim. Tudo bem, acho. — O que espera encontrar no nosso estabelecimento? — Perguntinha complicada — ela murmurou. Damon riu. — Não seja tímida, Faith. Não há nada que possa dizer para me deixar chocado. Ou que me


leve a te julgar. Se não for honesta comigo, não vou poder te ajudar. Sua boca estava seca. Momento da verdade. Como dizer a um completo desconhecido o que estava procurando, se nem ela mesma sabia ao certo? — Eu quero... — Ela respirou fundo mais uma vez e começou novamente. — Quero um homem que assuma o controle. Que tome. Não peça. Em todos os aspectos. Não só sexualmente. — Ela parou, mas Damon continuava esperando, como se sentisse que a explicação ainda não havia terminado. — Quero que cuidem de mim — concluiu com tom suave. — Você quer ser dominada. A palavra ainda causava desconforto, mas, em essência, resumia com precisão o que queria. Por isso ela balbuciou uma afirmativa. — Não há razão para se envergonhar de seus desejos — Damon falou com calma. — Uma mulher que sabe quem é e o que quer é a mais bonita das criaturas. O elogio a fez sorrir encantada, até ela perceber que se portava com leviandade pelo telefone com um desconhecido que, até onde sabia, podia estar se masturbando enquanto ouvia suas fantasias. Ela se encolheu ao criar essa imagem mental. — Aqui a associação é muito exclusiva e oferecida a poucos. Se quiser, pode marcar um horário para vir conhecer as instalações. Depois de ver o que temos a oferecer, então vai poder decidir se quer ou não se tornar sócia e frequentar nosso estabelecimento. Ela engoliu o nó que se formava em sua garganta. — Eu gostaria. — Devo prevenir você. Se vier, precisa se preparar para o que vai ver. Não vai ser uma visita à mansão vazia, uma ocasião para conhecer os salões e a mobília. Você vai vir no horário de maior movimento. E vai ver tudo que acontece aqui. Faith arregalou os olhos e tentou imaginar o que veria. Seu coração perdeu o compasso, e ela percebeu que estava excitada. Ansiosa pela visita. — Quando podemos marcar? — perguntou. — Posso receber você na sexta-feira a partir das 23 horas. As coisas costumam começar tarde por aqui. Se me der seu endereço de e-mail, eu mando o endereço da casa e as instruções detalhadas. Faith forneceu seu e-mail, e eles confirmaram o horário da entrevista. Ela agradeceu pela informação, e a ligação chegou ao fim. Faith deixou o telefone sobre a mesa e se recostou na cadeira, enchendo as bochechas e soprando o ar com força por um longo momento. Sexta-feira. Onze horas. Ela deixou escapar um gemido. Tinha a semana toda para fazer nada além de imaginar o que veria. Ela lambeu os lábios com nervosismo e apoiou a mão sobre o estômago em ebulição. Em que


havia se metido? Pior, mal podia esperar para descobrir.


CAPÍTULO 4

Ei, bonequinha — disse Micah Hudson quando virou a esquina para o escritório de Faith.

Ela sorriu e desligou o telefone. — Oi. Micah sentou-se na cadeira diante da mesa, as pernas longas estendidas para a frente. Erguendo o quadril, tirou do bolso um amarrotado maço de cigarros. Segundos depois ele enfiava um cigarro na boca e acendia o isqueiro. Faith suspirou quando o viu tragar como um homem prolongando seu último suspiro. — Micah, o que falei sobre fumar no meu escritório? Ele respondeu com um sorriso sexy e soprou uma longa coluna de fumaça. — Faith, por favor. Você sabe que estou tentando parar. Reduzi a dois por dia. O Pop me atormenta, não posso fumar perto dele. Você é meu único paraíso. Ela revirou os olhos. — Então, só porque sou mole, tenho que morrer por ser fumante passiva. — Ela procurou na gaveta um dos velhos cinzeiros de plástico que mantinha à mão e o empurrou na direção dele por cima da mesa. — Pelo menos use isto para não deixar cinzas espalhadas por todos os lugares. Ele sorriu para ela, jogou um beijo e puxou o cinzeiro. Faith balançou a cabeça. Devia ser pecado um homem ser tão sexy. Era evidente que Micah não tinha o hábito de aceitar respostas negativas para nada, e com bons motivos. Que mulher podia resistir a esse charme cheio de malícia? — Você é demais. Ele bateu o cigarro no cinzeiro e olhou para ela, os olhos castanhos inquisidores. Ainda segurando o cigarro entre os dedos, levantou a mão e empurrou os cabelos rebeldes para trás de uma orelha. O brinco de diamante brilhou ao ser exposto. Uma mecha de cabelo, perturbada pelo movimento impaciente, caiu sobre a testa. Ele enfiou a mão livre entre as mechas no alto da cabeça, puxando-as para trás e contra o couro cabeludo. Quando abaixou a mão, os cachos voltaram a emoldurar seu rosto com a rebeldia de antes. Faith sorriu diante da imagem desalinhada. De algum jeito, ele conseguia fazê-la dar certo. A bagunça era sexy nele.


— O que fez hoje? Já conheceu o Gray Montgomery? Maldito rubor! Esperava que a pele clara e sempre propensa a corar desse jeito não a houvesse delatado. — Sim, eu o conheci ontem. Fui eu que o levei ao escritório que está ocupando. — E? — E o quê? — ela perguntou levantando uma sobrancelha. — O que achou? — Ah, não achei nada. Ele parece ser legal. Quieto. Talvez um pouco carrancudo. Vai se adaptar bem por aqui. Ele e o Connor podem ser amigos para sempre. Micah não conteve uma gargalhada. — Era tudo de que precisávamos. Mais um desgraçado carrancudo. — Bem, alguém tinha que empatar esse jogo. Você e o Nathan infernizam a vida do pobre Connor. — Ah, alguém tem que cuidar disso. Ninguém deve ser tão sério. Faith sorriu. Depois riu e cobriu a boca com a mão. — Tudo bem, ele é meio tenso. Micah tragou a fumaça do cigarro. — Um pouco? O cara é tenso até no traseiro! — De que traseiro estão falando? — Nathan perguntou ao entrar. — Ah, bom, o Micah parece ter desenvolvido um fetiche relacionado ao traseiro do Connor — Faith explicou com ar inocente. Micah a encarou ameaçador. — Está fumando de novo, homem? — Nathan perguntou torcendo o nariz. — Isto aqui está com cheiro de bar. Faith suspirou irritada e pegou da gaveta um desodorizante de ar. Os dois homens tossiram quando ela borrifou a substância de aroma floral. — Vocês podiam sair do meu pé — Micah resmungou. — Estou fazendo o melhor que posso. — Sim, está — Faith concordou lealmente. — Mas, no futuro, prefiro que faça o melhor fora do meu escritório. Nathan riu e enfiou as mãos nos bolsos. O cabelo castanho-claro cobria as orelhas e enrolava incontrolavelmente perto da nuca. Um cavanhaque emoldurava a boca e o queixo. E precisava ser aparado. Olhos verdes e bem-humorados eram contornados por cílios ridiculamente longos. Cílios que Faith teria matado para ter. Não era justo desperdiçar olhos tão lindos em um homem. — Quando vai cortar o cabelo? — ela perguntou. Micah riu baixinho. Nathan passou a mão na cabeça e a olhou surpreso.


— Qual é o problema com meu cabelo? Você não atormenta o Micah com isso, e o cabelo dele é mais comprido que o meu. — Ele fica bem de cabelo comprido. Você, não. — Caramba — ele resmungou, e olhou para Micah de um jeito ressentido. Faith balançou a cabeça. — Vocês dois precisam de uma mulher que os ponha na linha. E é bom se apressarem e arrumarem logo uma, assim posso parar de bancar a babá. — Ou pode se oferecer para o trabalho em tempo integral — propôs Micah com mais um olhar sexy. — Acho que o John não vai gostar de saber que está cantando a mulher dele — Nathan comentou com tom seco. Faith ficou tensa por um momento. Depois se encostou à cadeira. — Ah, sobre o John... Dois pares de olhos a estudavam cheios de curiosidade. — Algum problema, Faith? — perguntou Micah. Não havia mais humor em sua voz, e agora ele estava inclinado para a frente, o rosto totalmente sério. Havia esquecido como eles eram superprotetores. Normalmente, esse era o papel de Connor. Por mais que Micah e Nathan gostassem de brincar e debochar, ainda cuidavam dela como falcões. — Não, nenhum problema — ela respondeu, dando à voz a leveza ideal. — É que o John e eu não estamos mais juntos. Nathan levantou a sobrancelha numa pergunta silenciosa. — Relaxe. A decisão foi minha. Não estava dando certo. E nem pense em interrogá-lo. Mais um rubor subiu por seu pescoço e se espalhou pelo rosto. A última coisa que queria era John compartilhando com Micah e Nathan os motivos para o rompimento. — E, por favor, não contem ao Connor — ela murmurou. Os dois gargalharam. — Tenho uma proposta — Micah anunciou com um brilho malicioso nos olhos. — Eu não conto para ele, se você não contar que ainda estou fumando. Ela bufou irritada. — Você é um manipulador. — Mas você me ama. Faith sorriu. Não podia evitar. — Sim, eu amo. Agora, saiam do meu escritório. Preciso trabalhar. E vocês também têm o que fazer, palhaços. — Ela olhou para o relógio de pulso. — O Pop vai ter um infarto se descobrir que estão aqui, em vez de cuidarem do trabalho.


O telefone tocou, e ela foi tomada de assalto pelo desânimo. Com a mão estendida para o aparelho, parou hesitante e esperou o enjoo nervoso ceder. Quando notou Micah e Nathan olhando desconfiados em sua direção, ela engoliu em seco e atendeu a ligação. — Malone’s. A voz grave de Pop soou do outro lado. — Faith, diga a esses dois malucos para saírem da sua sala e irem cuidar do trabalho que deviam estar fazendo. Ela riu. O alívio a invadiu com força devastadora. — Bom dia para você também. Ele riu ao telefone. — Bom dia. Tudo bem por aí? — Sim, tudo certo. Vai estar aqui na hora do almoço? Um instante de hesitação pesarosa. — Não, o Connor, o Gray e eu vamos comer fora. Esse sistema de segurança está meio maluco, acho que vamos ficar aqui por um tempo. — Tudo bem, Pop, a gente se vê. Eles desligaram, e Faith devolveu o fone ao gancho ainda rindo. — Sim, sim — Micah resmungou ao se levantar da cadeira. — Deu para ouvir o que ele disse. Juro, o Pop deve ter instalado escutas em tudo por aqui. Nathan riu. — Eu não duvido! Eles acenaram para Faith e saíram da sala. O silêncio tomou conta do prédio. Ela se recostou na cadeira e olhou para o teto. Três anos. Há três anos vivia em um paraíso. Às vezes, era difícil lembrar os anos anteriores à chegada de Pop e Connor. Então, Pop a adotara. Sim, sim, já era adulta. Uma mulher crescida, mas havia se desmanchado em lágrimas quando ele anunciara sua intenção de adotá-la e torná-la legalmente sua filha. Essa fora a primeira vez que sentira que pertencia realmente a algum lugar. E agora o círculo crescera, incluía também Nathan e Micah. Era uma atmosfera na qual se sentia confortável. Finalmente em casa. Só faltava a mãe desaparecer da face da terra. Ela olhou para o telefone, como se o olhar pudesse mantê-lo silencioso. Com um ruído de desgosto, girou a cadeira e ficou em pé. Não deixaria a mãe arruinar seu dia, sua semana, o mês... tudo bem, seu ano. Faith saiu do escritório e foi fazer a ronda pelas outras salas para recolher a correspondência nas caixas de saída. Quando reuniu uma pilha considerável, deixou os envelopes sobre sua mesa para esperar o portador que as levaria e despacharia. Depois se ocupou da análise dos novos contratos de trabalho, separando os que ainda precisavam da assinatura de Pop.


Ao meio-dia, pegou o almoço que levara de casa e comeu atendendo aos telefonemas de possíveis clientes. Micah a instruíra para dizer que ele e Nathan não voltariam ao escritório e trabalhariam até tarde. Depois Pop ligou para dizer que ela podia ir para casa cedo, e que ele fecharia tudo quando voltasse durante a tarde. Ela sorriu ao desligar o telefone. Pop parecia perceber sempre que ela não estava muito bem. Nunca fazia perguntas invasivas, mas se preocupava com ela mesmo assim. Esse tipo de amor incondicional era confortante. O telefone tocou novamente, e ela o atendeu esperando ouvir a voz de Pop outra vez. Normalmente ele se distraía quando ligava e acabava esquecendo o assunto que o fizera telefonar. O que, noventa por cento das vezes, acabava provocando um segundo telefonema imediato. — Malone’s — ela falou com tom divertido, preparada para provocá-lo com alguma piada. — Faith, nenê, precisamos conversar. Ela fechou os olhos. O almoço abriu um buraco em seu estômago. — Faith, está ouvindo? Preciso falar com você. — Sim, eu ouvi. — Preciso de dinheiro — a mãe falou, desistindo da costumeira adulação. — Estou encrencada, nenê. — Desta vez não posso ajudar — Faith respondeu. — E agradeço se parar de ligar para mim. A resposta foi um silêncio chocado. Depois: — Faith, não está falando sério. Sou sua mãe. Não pode simplesmente me tirar da sua vida. Preciso da sua ajuda. Não pode me dar as costas. Depois de tudo que fiz por você... A fúria explodiu dentro dela. A visão ficou turva. — Tudo que fez por mim? Você é muita corajosa, Celia. O que fez por mim? Sou feliz agora. Tenho uma vida boa. Sem você. Não posso te ajudar. Não vou te ajudar. Não desta vez. Nunca mais. Por favor, não telefone de novo. Faith bateu o telefone e percebeu que a respiração estava arfante. As mãos tremiam, e ela se sentia perigosamente perto de vomitar. De boca fechada, inspirou várias vezes pelo nariz, tentando superar a náusea. Quando o estômago assentou, ela se levantou da cadeira e pegou as chaves e a bolsa. Precisava de ar. Precisava sair dali antes que sucumbisse ao impulso de começar a jogar coisas.


CAPÍTULO 5 Gray entrou no Cattleman’s Bar and Grill e se dirigiu ao bar com a firme determinação de beber uma cerveja gelada. Connor o havia apresentado ao pub local, um lugar onde ele e os outros se reuniam depois do expediente vários dias por semana. Quando contornou a divisória que separava o bar do restaurante, ele se surpreendeu ao ver Faith sentada do outro lado, as pernas balançando na banqueta alta. Um cotovelo descansava sobre o balcão, a outra mão mexia o drinque com um canudinho. Ele se aproximou, mas ela não levantou a cabeça. Parecia perdida em outro mundo, um mundo que não era feliz. Gray se sentou na banqueta vizinha à dela e fez um gesto para o garçom. Faith ergueu o olhar e o encarou surpresa quando ele pediu a cerveja. — Parece que você e eu desenvolvemos o hábito de tropeçar um no outro — disse. Ele sorriu. — Não estou seguindo você, se é isso que quer insinuar. Tenho vindo aqui todos os dias depois do expediente. É a primeira vez que te vejo por aqui. Faith corou, e ele viu fascinado o rosa se espalhar por suas bochechas. — Não quis insinuar nada. Sei que o Connor e os outros costumam vir muito aqui. Mas pensei que hoje vocês fossem trabalhar até tarde. Gray deu de ombros. — Já terminamos. O Pop foi fechar o escritório, o Connor foi para casa. — Ele inclinou a cabeça e a estudou. — O que faz aqui? Havia agitação em seus olhos, mas ela os desviou apressada. — Não estava com vontade de ir para casa — respondeu vagamente. Gray condenou-se mentalmente. Seria capaz de apostar que a mãe dela havia ligado novamente, e ainda não conseguira entrar no escritório para instalar o grampo. — Comeu alguma coisa? — perguntou. Ela balançou a cabeça. — Não estou com fome. — Você se incomoda se eu comer? Ela o fitou mais uma vez, e um sorriso pálido brincou nos cantos de sua boca. Fascinado, Gray


viu a língua deslizar pelo lábio superior e capturar uma gota do drinque que ela bebia. — Fique à vontade. Deus me livre de estar entre um homem e sua refeição. — Fala como uma mulher que conhece bem as necessidades de um homem — ele respondeu, deixando que ela tirasse as próprias conclusões a respeito do comentário. Foi delicioso vê-la corar outra vez e abaixar a cabeça. Ela era realmente muito bonitinha com aquele rubor persistente. Começava a ter as mais nítidas fantasias sobre ver que partes de seu corpo aquele rubor tingia. Ela era tímida na cama? O amante tinha que convencê-la a tirar cada peça de roupa que a cobria? Ele sentiu o corpo todo ficar tenso. Queria tanto quanto qualquer outro homem viver a experiência de ser marcado a fogo na cama, transar com uma mulher que assumisse o comando e sacudisse seu mundo, mas a ideia de estar no controle, determinar cada momento da sedução de Faith provocava nele um desejo que percorria seu corpo como um raio, dirigindo-se diretamente à região entre as pernas. Sedução? Jesus. Não estava ali para seduzi-la, mesmo com a certeza de que se deliciaria com cada momento. Estava ali para tirar informações dela. Usá-la, lançar mão de todos os meios necessários, pegar o assassino de seu parceiro. Gray fez sinal para uma garçonete que passava por ali e pediu um hambúrguer e fritas antes de concentrar-se novamente em Faith. — Então, como foi seu dia no escritório? Parece... estressada. Ela se mexeu com desconforto na banqueta e bebeu mais um gole do drinque. Em seguida, desistiu do canudo e esvaziou o copo de uma vez só. — Tudo bem no escritório. Estou só cansada. Não dormi bem na noite passada. — E girou a banqueta para encará-lo com um sorriso radiante. — E você, o que está achando do emprego? Clássica mudança de assunto. Ela estava escondendo alguma coisa, definitivamente. Até um completo idiota poderia perceber. Mas não tinha com ela o tipo de relacionamento pessoal que envolvia confiança, e também não tinha tempo para cultivar essa relação. — Estou gostando. Está tudo bem. — O Connor disse... Ele contou que seu parceiro foi assassinado recentemente. Gray fez um grande esforço para não demonstrar a dor provocada pelo comentário. Por um longo momento ele não disse nada. — Desculpe. Não devia ter sido indiscreta. Os olhos dela acariciaram suavemente seu rosto, transbordaram solidariedade. Ela era doce. E ele podia apostar que era tão macia e delicada quanto parecia ser. — Não foi indiscrição — ele a corrigiu. — Isso não é nenhum segredo. Sim, o Alex, meu parceiro, foi assassinado quando cumpria o dever. O rosto dela foi transformado pelo pesar.


— Pegaram o assassino? — Não. Ainda não. Os longos cabelos loiros caíram para a frente por cima de um ombro quando ela se virou completamente para encará-lo. Queria tocá-los, imaginava como seria sentir as mechas envolvendo os dedos enquanto a penetrava. Um gemido torturado se formou em seu peito e ficou preso. Tudo bem, reconhecia, não transava há mais tempo do que conseguia lembrar, mas não podia atribuir a isso sua reação a Faith. Havia algo nela que mexia com ele. Pressionava todos os botões certos. Ela despertava seu instinto protetor. Não estava pensando em sexo quente — tudo bem, talvez um pouco. A fantasia girava em torno de fazer amor quente e lento. Do tipo em que um homem idolatra o altar da mulher. Do tipo em que todos os sabores e toques eram apreciados e saboreados. Então poderiam progredir para a trepada quente, suada. Já pensou em tudo, não é, Montgomery? Ele terminou de beber a cerveja e se perguntou onde estava o ar-condicionado. — Por quanto tempo vai ficar de licença? Quero dizer, quando volta ao trabalho? Ela se inclinou para a frente oferecendo só um breve vislumbre do início da curva pálida dos seios levantados pelo sutiã de renda. — Eu, hum, ainda não sei. Não tenho pressa. Estou decidindo o que vou fazer. Ela sorriu, e os olhos dele foram atraídos por seu rosto. Não conseguia desviar o olhar. Nunca em sua vida havia desejado tanto beijar uma mulher. — Fico feliz por você estar aqui — ela disse com tom doce. — É ótimo trabalhar para o Pop. Ele trata os funcionários como família. Às vezes... às vezes você só precisa ficar longe de tudo, sabe? Talvez precise disso agora. Um tempo longe de tudo. — De que tipo de coisas você precisa ficar longe, Faith? — ele perguntou com voz mansa. A expressão dela congelou, e Gray a viu recuar mentalmente. Droga. A garçonete voltou e deixou o prato de comida na frente dele, enquanto o garçom servia outra cerveja. Gray pegou o ketchup e abriu o frasco, pronto para temperar o hambúrguer e as fritas. Antes, porém, parou e olhou para Faith. — Tem certeza de que não quer um pouco? Ela sorriu e pegou uma batata. — Um homem típico. Tem que encharcar tudo com ketchup. — Vou evitar só por você. — E empurrou o prato, deixando-o na metade do espaço entre eles. Depois, serviu o ketchup em um espaço restrito do prato. Enquanto a via morder a batata, ele foi tomado de assalto por um pensamento repentino.


— Veio encontrar alguém? Estou atrapalhando? Ela o olhou confusa e balançou a cabeça. Gray mergulhou uma batata no ketchup e a levou à boca. — Não vai ver o namorado? Mais uma vez, o rosa delicado tingiu suas faces. — Não tenho mais um namorado — Faith respondeu com leveza. Seria essa a razão para sua melancolia? Não, havia nela uma cautela que sugeria mais estresse que tristeza. Ainda apostava na mãe. Só queria saber em que medida Faith estava envolvida neste momento. — Ele é um idiota — murmurou Gray. Ela riu, e ele levantou a cabeça, transfixado pelo som. — Acho que a idiota sou eu. Fui eu que terminei tudo. — Ele ainda é o idiota. Sorrindo, ela gesticulou para o garçom pedindo outra bebida. — Você fala como um dos caras. Gray levantou uma sobrancelha. — Que caras? — Connor, Micah e Nathan. — Bem, definitivamente, não vejo você como minha irmã. Os olhos dela se arregalaram. — E como você me vê? Essa era uma pergunta provocante. Talvez ela não fosse tão tímida quanto havia imaginado. Faith o encarava sem piscar. — Bonita. Ele riu ao vê-la corar outra vez. — O quê? O que é tão engraçado? — Você é adorável quando fica vermelha, e cora com muita facilidade. Sua testa se franziu e os lábios se encurvaram para baixo numa expressão aborrecida. — Adorável? Prefiro bonita a adorável. Ele estendeu a mão e tocou seu braço. — E se eu achar os dois? Um arrepio quente se espalhou pelo braço de Faith quando os dedos de Gray tocaram sua pele. Ela engoliu o nó que se formou na garganta. Não era nenhuma virgem inexperiente, mas sentada ali tão perto de um homem que elogiava sua beleza e dizia que ela era adorável, sim, sentia-se completamente perdida. Adorava as complexidades sutis da atração. Adorava a sensação e o desafio de conhecer alguém


novo e explorar esses primeiros e desajeitados momentos quando um estudava o outro, ambos sendo sutis, mas atirados. — Isso eu posso aceitar — respondeu com voz rouca. Ele afastou a mão e voltou a comer. Faith queria que ele a tocasse outra vez. Um carinho simples, ele olhando para ela, o cheiro masculino... seu estômago se contorceu em um nó nervoso de antecipação. Ela o via comer, observava seus movimentos. Gray era forte, confiante. Gostava disso. Mas a atitude se estenderia ao quarto? Aos seus relacionamentos? Ela balançou a cabeça discretamente. Não ia mais deixar tudo ao acaso. Quantos homens teria que conhecer até encontrar o que queria? Algum dia encontraria o que queria... não, precisava? A sexta-feira parecia estar a um ano-luz de distância. Estava muito nervosa com a ideia de entrar sozinha em um clube de fetiche, mas, em parte, orgulhava-se de ter se aventurado, se afastado tanto de sua zona de conforto. Forte. Confiante. Se queria essas qualidades em um homem, talvez fosse hora de começar a exibi-las ela mesma. Os semelhantes se atraem, não? — Eu ficaria uma semana sem cerveja para saber o que está passando pela sua cabeça agora. Faith piscou, recuperou o foco e viu que Gray olhava diretamente para ela. — Ah, desculpe. Estava só pensando. Ele riu. — Como eu disse, adoraria saber em quê. Não ficaria vermelha. Não. Ficaria. Vermelha. Podia sentir que perdia a batalha enquanto a onda de calor subia por sua nuca. Droga. Ele riu e pegou um guardanapo para limpar a boca. — Esse rubor entregou você, querida. Ela gemeu. — Não é educado ficar apontando meus defeitos. Ele se inclinou para frente e levantou seu queixo com o dedo. — Não é defeito. Acho muito sexy. Um arrepio percorreu suas costas, desceu e subiu até os ombros. Seus mamilos enrijeceram, e os músculos da vagina se contraíram. Havia uma gota de ketchup no canto da boca de Gray, e ela a usou como desculpa para tocá-lo. Deus, queria tocá-lo. Ela levantou um dedo e limpou delicadamente a gota de ketchup. Quando começou a afastar a mão para limpá-la em um guardanapo, ele a segurou e levou seu dedo à boca. Os lábios quentes se fecharam em torno da ponta, depois a língua passeou pela pele limpando o ketchup. O gesto provocou uma onda de choque que se espalhou por seu corpo. Faith ficou ali sentada, aturdida com a própria reação.


Devagar, ele tirou a mão dela da boca, deslizando a língua por seu dedo até removê-lo completamente. Quando ele a soltou, Faith deixou a mão cair sobre as pernas e tentou disfarçar o tremor. — Eu tenho que ir — ela disse, porque essa foi a primeira coisa que passou por sua cabeça. Era mentira. Não queria ir, mas não sabia o que dizer ou como agir diante da evidente sensualidade que havia entre eles. — E se eu for com você? — ele propôs. — Também vou para casa. Posso te acompanhar até a porta. — Ah, tudo bem... — Faith respirou fundo algumas vezes para a voz não soar tão trêmula. Depois, pegou a bolsa, tirou a carteira de dentro dela e começou a contar as notas que deixava em cima do balcão. Gray empurrou o dinheiro de volta para ela. — Eu pago. Devagar, ela pegou o dinheiro de volta e o guardou na carteira. — Obrigada. Gray pagou a conta e se virou para encará-la. — Vamos? — ele perguntou apontando a saída. Por que tinha a sensação de estar em um encontro? E por que estava tão nervosa? Não era assim insegura, hesitante. Sempre se sentia confortável com os homens com quem saía. Qual era o problema? Todos os outros haviam sido apenas companheiros? Rapazes legais com quem havia feito sexo satisfatório? Sexo satisfatório. Eca. Queria o tipo sujo. Sexo quente, suado, do tipo que faz gritar. Ela caminhava na frente, mas Gray a alcançou e apoiou a mão na base de sua coluna quando entraram no estacionamento. Era um gesto protetor, uma atitude que despertava nela a sensação de ser valorizada. E gostava desse sentimento. Gostava muito. Ele abriu a porta do carro de Faith e a ajudou a entrar, fechando a porta em seguida. Faith ficou ali sentada, vendo-o voltar à caminhonete. Via o andar determinado, o jeans envolvendo o traseiro. Quando ele se sentou ao volante da caminhonete, ela ligou o carro e saiu da vaga. Quinze minutos depois, entrou na vaga designada ao apartamento no prédio onde morava e desligou o motor. Então, desceu e caminhou até a frente do carro, esperando Gray se aproximar depois de estacionar a caminhonete três vagas longe da dela. Houve uma pausa constrangida quando ele parou e esperou Faith caminhar na sua frente mais uma vez. Depois, como antes, ele tocou suas costas, deslizando os dedos de um jeito sedutor pela coluna até deixá-los repousar na parte mais funda.


Faith mal conseguia controlar o tremor que ameaçava dominar seu corpo. Quando eles chegaram à porta de seu apartamento, ela não pôde evitar a decepção pelo fim tão rápido do interlúdio. Com a chave que tirou da bolsa, abriu a porta e só então o encarou. Os olhos dele estavam cravados nela, aparentemente concentrados nos lábios. Gray pensava em beijá-la? Seus lábios se entreabriram e o ar entrou pela boca como se enroscasse nela. — Acho que vejo você amanhã. Ele se aproximou um pouco mais e deslizou um dedo por seu rosto. — Estou contando com isso. A boca pairava tentadora sobre a dela. Faith deixou os olhos passearem por aquele rosto. Podia ver a veia pulsando em seu pescoço. Ele, então, engoliu duas vezes e, sem pressa, afastou-se como se travasse uma batalha interna épica. Uma onda de decepção a inundou. Ele não ia beijá-la. Faith deu um sorriso trêmulo. — Até lá, então. — Virou-se, entrou no apartamento e só olhou para trás para acenar rapidamente. Gray continuava no mesmo lugar, imóvel, e a observou até ela fechar a porta. Lá dentro, Faith caiu contra a porta e fechou os olhos. Você é uma covarde. Podia tê-lo beijado, simplesmente. Não havia lei que a obrigasse a esperar. E ele queria; havia percebido. Mentalmente, ela reviveu a sensação da língua passeando por seu dedo. Podia imaginar com facilidade a boca passeando por seu corpo, movendo-se com delicadeza sobre as costelas, pela curva inferior de um seio e, finalmente, capturando os mamilos. Um gemido escapou de seu peito e os seios doeram, os mamilos túrgidos como contas. Difícil acreditar que outra noite havia gostado do sexo medíocre com John. Agora, diante do que sentia que Gray podia oferecer a ela, as experiências do passado tornavam-se mais pálidas. E ainda nem havia ido para a cama com ele. Ainda. Um sorriso trêmulo encurvou seus lábios quando ela se dirigiu ao banheiro. “Ainda” implicava intenção.


CAPÍTULO 6 Gray bocejou e alongou os músculos cansados quando entrou no apartamento. Teria poucas horas de sono. Se tivesse sorte. Mas a escuta havia sido instalada no telefone do escritório de Faith, e agora só faltava conseguir entrar no apartamento dela para grampear a linha pessoal. Uma pontada de culpa o incomodou quando ele segurou a chave que havia tirado do escritório de Pop. Pop mantinha cópias das chaves de todos os apartamentos, e Gray havia pegado a do apartamento de Faith. Tinha que entrar hoje, assim que ela saísse, e devolver a chave antes que sentissem falta dela. Quando tirou a camisa e a jogou sobre o sofá, ele viu a luz da secretária eletrônica piscando. Sabia que só podia ser ligação de Mick ou de um dos colegas do trabalho, por isso foi ouvir a mensagem. — Gray, é o Mick. Telefone assim que chegar, seja a hora que for. Breve e direto. Havia na voz de Mick uma urgência que tirou Gray da letargia. Olhando para o relógio, ele deu de ombros e pegou o telefone. Mick havia dito que devia ligar a qualquer hora. Alguns segundos depois, a voz sonolenta de Mick soou do outro lado. — Não mandei você aí para se divertir. Onde se meteu? Gray suspirou irritado. — Estava instalando a escuta no telefone. Não é o tipo de coisa que eu possa fazer à luz do dia. O que era tão importante? — O Samuels foi visto hoje em Huntsville. A mulher estava com ele. — Acha que ele está vindo para cá? — Acho que é uma possibilidade. Fique perto da garota. Aposto qualquer coisa que o Samuels e a mãe vão atrás dela. Provavelmente, marcaram o encontro quando a mãe telefonou no outro dia. Gray franziu o cenho. Era isso que deixava Faith tão agitada? E ela tinha alguma ideia sobre em que a mãe estava envolvida, ou só se comportava como a filha obediente? — Vou ficar de olhos e ouvidos abertos, Mick. Você sabe disso. — Só queria te avisar — Mick explicou mal-humorado. — Avise se o grampo render alguma coisa.


Gray desligou o telefone. Não gostava das implicações do que Mick havia relatado. Faith estava envolvida, ou era usada pela mãe manipuladora? Ele passou a mão pelo cabelo, depois esfregou o rosto. Talvez telefonasse para o escritório amanhã dizendo estar doente. Assim, teria tempo para entrar no apartamento de Faith depois que ela saísse para trabalhar, e então poderia dormir. No quarto, ele programou o despertador para as seis horas. Duas horas. Dormiria duas horas, depois se levantaria para esperar Faith sair. Quando o alarme tocou, Gray gemeu e bateu a mão no aparelho para interromper o ruído irritante. Após vários longos minutos durante os quais refletiu sobre a necessidade de se levantar, finalmente jogou as pernas para o lado e sentou-se na beirada da cama, o rosto enterrado nas mãos. Sabendo que Faith sairia às sete em ponto, como fazia todas as manhãs, ele se levantou e foi tomar uma ducha. Às seis e quarenta e cinco, Gray telefonou para o celular de Pop e disse que estava doente e ficaria em casa. Depois de ouvir um demorado sermão sobre a necessidade de descansar, ele desligou e se dedicou à xícara de café. Às seis e cinquenta e cinco, foi até a janela da sala de estar de onde era possível ver o estacionamento e puxou um pouco a cortina, abrindo uma brecha por onde enxergava o carro de Faith. Como esperava, às sete ela saiu apressada do apartamento e entrou no carro. Uma já foi, faltavam três. Gray continuou de vigília na janela até que, um a um, Connor, Nathan e Micah também entraram em seus automóveis e foram para o trabalho. Consciente da importância de ser rápido, ele pegou a chave em cima da mesa da cozinha e saiu do apartamento. Não perdeu tempo olhando em volta. Não queria despertar suspeita. Quando chegou à porta do apartamento de Faith, introduziu a chave na fechadura e entrou. Quando olhou para a sala de estar, ele riu. A maioria das mulheres não era maníaca por organização? A bagunça ali era farta, e tudo sugeria que ela havia feito um striptease a caminho do quarto. Havia peças de roupa jogadas para todos os lados, formando uma trilha desde a porta em direção ao corredor. Ele viu o computador a alguns metros de onde estava. A máquina ficava em cima de uma mesa de madeira, cercada por pilhas de papéis e livros. O protetor de tela ainda não havia sido acionado, e a imagem que viu no monitor o fez parar. Pornô? Ela havia acessado um site pornô? Apesar da urgência da tarefa que tinha que realizar, não conseguia ignorar o que via. A ideia de que essa mulher acessava sites pornográficos era incoerente com a imagem que ela projetava.


Gray aproximou-se do computador e se inclinou para a tela. Hum, não era um site pornô, não no modo típico, pelo menos. O site era, na verdade, uma fonte de informação sobre amarras e submissão. Casais em poses variadas ilustravam a página, e Gray não conseguiu deixar de imaginar Faith no lugar das mulheres que via. Ela alimentava fantasias sombrias? A doce Faith, que ruborizava com facilidade, se interessava por perversões? A dicotomia o excitava e intrigava. Gray franziu o cenho. Seria ela só mais uma mulher disposta a abrir mão do controle no quarto, viver a fantasia e esquecer tudo na manhã seguinte? Conhecia muitas mulheres assim. Todas se mostravam mais que dispostas a representar um papel, uma encenação que se restringia ao quarto, mas, quando tudo acabava, tornavam-se mulheres completamente diferentes. Não gostava de encenação. Não era um fantoche para ter os cordões puxados e depois ser devolvido à prateleira até chegar a hora de brincar de novo. Ele balançou a cabeça e sorriu com pesar. Estava se incomodando por nada. E deixava experiências passadas colorirem sua percepção de uma coisa sobre a qual não tinha nenhuma ideia. Como saber o que Faith pretendia, ou por que ela visitava sites de submissão? Não era de sua conta. Lembrando que tinha um trabalho para fazer, uma missão que não incluía imaginar uma dúzia de maneiras de comer Faith, ele correu à cozinha. Depois de ajeitar a escuta, dirigiu-se ao quarto, certo de que lá encontraria outro aparelho, mas, após uma busca rápida na casa, concluiu que só havia o telefone da cozinha. Verificando rapidamente a sala de estar e a cozinha para ter certeza de que não havia deixado nada fora do lugar, ele se dirigiu à porta, abriu uma pequena fresta e espiou por ela. Certo de que não havia ninguém do outro lado, saiu e trancou a porta. Então, voltou ao seu apartamento e para a promessa de um bom e longo cochilo. Faith levantou a mão para bater na porta de Gray, mas hesitou no último instante. — Não seja medrosa — ela resmungou. — O fato de não conseguir ficar perto dele por dois segundos sem corar não significa que é uma covarde sem fibra. Ajeitando o saco que carregava em um braço, ela comprimiu os lábios e bateu. Esperou vários segundos e bateu de novo, desta vez mais alto. Finalmente a porta se abriu, e ela piscou quando Gray, um Gray sem camisa, surgiu na soleira. Ele se apoiou ao batente por um minuto, e Faith deixou os olhos passearem por seu corpo. Ele vestia apenas uma calça jeans, e os pés estavam descalços. Depois de fazer a viagem completa da cabeça aos pés, ela fez o caminho de volta até os olhos pararem no peito. Gray mantinha os braços cruzados sobre o peito, e era impossível não admirar


os músculos salientes nos dois braços e na parte superior do tronco. Os pelos eram poucos, só uma trilha fina descendo pelo meio até a região abaixo do umbigo. Faith sentiu o terrível calor de um rubor quando seus olhos repousaram sobre o zíper do jeans. Finalmente, ela levantou o olhar. Ele a olhava preguiçoso, os olhos azuis estudando cada detalhe de seu corpo como os dela o haviam estudado. — Eu, ah, lamento incomodar. O Pop comentou que você não se sentia bem. — E empurrou o saco de compras para ele. — Trouxe um pouco de frango e bolinhos. Comida caseira. Ele sorriu ao pegar o pacote. Depois, recuou um passo. — Entre, por favor. Faith hesitou por um minuto antes de segui-lo para o interior do apartamento. — Foi muita bondade sua. Não devia ter se incomodado em vir até aqui. Já estou me sentindo muito melhor. Gray deixou o pacote em cima do balcão que separava a pequena cozinha da sala de estar, depois olhou para ela novamente. — Vou pegar uma camisa, já volto. Ela o viu percorrer o corredor até o quarto e, quando ele desapareceu além da porta, deixou escapar um longo suspiro. Então se concentrou no saco de compras sobre o balcão, de onde removeu a embalagem contendo o frango e os bolinhos. Não queria ficar ali parada como uma idiota, então contornou o balcão e foi até a cozinha, onde procurou uma tigela. Quando a encontrou, ela transferiu rapidamente o conteúdo da embalagem de plástico para ela e a colocou no micro-ondas. Dois minutos. Enquanto a comida era aquecida, Faith procurou uma colher. Quando o sinal sonoro do micro-ondas anunciou que a refeição estava quente, Gray ressurgiu vestindo uma camiseta. Faith teve que se esforçar para não suspirar desapontada. — Não precisava fazer nada disso — ele protestou quando a viu acenar sugerindo que se sentasse à mesa. — Sente-se. Está tudo pronto. Faith mexeu o conteúdo da vasilha antes de colocá-la diante dele. — Quer beber alguma coisa? Ele tocou seu braço. — Faith, sente-se. Não precisa me servir. — Eu devia ir embora — ela respondeu. — Eu deixo você nervosa? — ele perguntou, olhando fixamente em seus olhos. — Por... por que essa pergunta? — Porque está desenvolvendo o hábito de fugir de mim. Ela se sentou na banqueta diante dele, murcha como um balão sem ar.


— Ah, não, quero dizer, bem, sim, você me deixa nervosa. Faith cobriu a boca com a mão numa reação mortificada. Havia mesmo dito isso? Ele riu. — Pelo menos, é honesta. — Fiz um pacto comigo mesma, vou começar a ser mais direta — explicou. Meu Deus, Faith, cala a boca! Os olhos dele brilharam e um sorriso distendeu seus lábios. — Então, talvez me conte por que te deixo nervosa. — Não tão direta — ela murmurou. Gray riu e pegou a colher. — Hum, isto é muito bom. Você não é só bonita e adorável, mas também é uma excelente cozinheira. Queria muito saber por que continua solteira. Faith viu a malícia nos olhos dele. Sabia que era uma provocação. — Talvez não tenha encontrado um homem digno da minha beleza ou dos meus dotes culinários — respondeu com leveza. Ele levantou a colher como forma de saudação. — Touché. — Eu tenho mesmo que ir. Minha hora de almoço está quase acabando, e tenho uma papelada enorme me esperando hoje à tarde. — Comeu alguma coisa? — Vou pegar um lanche a caminho do escritório. Só queria ver como estava se sentindo. Os olhos dele acariciaram seu rosto, a expressão era intensa. — Obrigado. Ela se sentiu acanhada, fingiu remover partículas inexistentes da calça jeans. Depois tirou as chaves do bolso e contornou o balcão. Quando passou por ele, Gray a segurou pelo pulso. Uma onda de calor subiu por seu braço quando os dedos pressionaram a pele. — Obrigado — ele repetiu com voz rouca. Por um minuto Faith pensou que ele a beijaria, como havia pensado na noite passada. E de novo sentiu-se desapontada quando ele deixou os dedos escorregarem de seu pulso. — Vejo você mais tarde — ela disse ao se encaminhar para a porta novamente.


CAPÍTULO 7 Faith saiu do carro e voltou ao prédio comercial. Quando virou a última esquina para sua sala, ela se surpreendeu ao ver Connor e Pop sentados comendo pizza. — Ei — ela falou com alegria. — Pensei que fossem comer fora hoje. — Bem, viemos almoçar com você — respondeu Connor. — Mas não te encontramos aqui. Suas faces arderam, e ela se esforçou para manter uma expressão neutra. — Levei frango e bolinhos para o Gray. Queria ver se ele estava melhor. — Muito generosa — Pop aprovou assentindo. — Como ele estava? Faith aproximou-se da caixa aberta e pegou um pedaço de pizza. Depois, pegou um guardanapo e sentou-se em sua cadeira atrás da mesa. — Ele parecia estar se sentindo melhor. Acho que devia estar na cama quando cheguei, porque ele parecia ter acabado de acordar. — Está tudo bem com você, Faith? — Connor perguntou sem rodeios. Ela piscou surpresa, parando com a pizza a meio caminho da boca. Em seguida, deixou a fatia no guardanapo e encarou o irmão. — Está tudo bem. Por quê? — O Pop e eu estamos preocupados. Ultimamente você tem parecido distante. Uma onda de pânico bloqueou sua garganta. Sua mãe havia telefonado quando não estava no escritório? Eles já sabiam que Celia enfrentava dificuldades outra vez? Odiava essas situações. Não queria que Pop ou Connor se arrependessem de tê-la convidado a fazer parte da vida deles. Nunca os sobrecarregaria com problemas relacionados à mãe, um peso morto. Eles já haviam lidado com Celia mais vezes do que era justo. — Faith? — A voz grave de Pop interrompeu seus pensamentos. — Está tudo bem? — Sim, tudo bem. Vocês dois se preocupam demais. — E sorriu para eles, tentando tranquilizálos. Connor grunhiu. — Preocupar é o que fazemos melhor. Faith concentrou-se em seu pedaço de pizza, mastigando e engolindo mecanicamente. O que faria se sua mãe telefonasse quando estivesse fora do escritório? E se Pop e Connor atendessem?


Sua mãe desligaria, ou contaria sua triste história, independente de quem estivesse do outro lado? Constrangimento puro e intenso subiu por suas costas e se enroscou em seu pescoço como um laço apertado. Por que agora? Por que depois de tanto tempo a mãe tinha que reaparecer, tentar entrar novamente em sua vida? Se Faith pudesse impor sua vontade, Celia continuaria bem longe dela. — O que acha do Gray? — Pop perguntou. Ela o encarou surpresa. — Hã? — Parece ser um bom rapaz — Pop continuou. — Uma pena essa história do parceiro. Aposto que o Gray foi um excelente policial. — Ele vai desistir? — Faith perguntou curiosa. Gray havia decidido aceitar um cargo permanente na empresa de Pop? Ele balançou a cabeça. — Não, não que eu saiba. Até onde ele informa, é só um período de licença. — Ah, você falou de um jeito que deu a impressão de que ele não ia voltar. Connor engoliu seu último pedaço de pizza. — Não acho que ele é do tipo que desiste. Faith concordava com ele. Pop deu de ombros. — Às vezes um homem precisa de mudança. É só isso que estou dizendo. O telefone tocou, e Faith deixou cair a pizza. Pop a olhou curioso, e Connor estendeu a mão para o aparelho. Faith foi mais rápida e tirou o fone da mão de Connor. — Malone’s — disse, empregando um tom tão animado quanto permitiam seus nervos em frangalhos. Os ombros relaxaram com o alívio de ouvir a voz do outro lado identificar-se e pedir para falar com Pop. Ela passou o telefone para o pai. — É para você. Raymond Jarrell. Pop limpou as mãos em um guardanapo e pegou o telefone. Enquanto isso, Faith olhou para Connor e viu que ele a observava, a testa franzida como se tentasse enxergar dentro de sua cabeça. Ela desviou o olhar, pegou a caixa de pizza, agora vazia, e saiu do escritório com ela, levando-a para a maior lata de lixo no fundo do prédio. Quando enfiou a caixa no grande tambor de plástico, a mão de Connor agarrou seu pulso. Ela se virou e o olhar preocupado a atingiu em cheio.


— O que está acontecendo, Faith? Quando ela tentou abaixar a cabeça, a outra mão segurou seu queixo e a obrigou a encará-lo. — Você sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, não sabe? Faith sorriu, sentindo o ardor das lágrimas provocadas pela preocupação amorosa. — Sim, eu sei, meu irmão. Está tudo bem. De verdade. Ele a olhou desconfiado, mas abaixou a mão. — Vou estar aqui quando quiser falar sobre o que a está incomodando. Não se esqueça disso. Ele bateu de leve com os nós dos dedos no nariz dela, depois se virou e voltou à frente do prédio, por onde entrou. Faith suspirou e fechou os olhos. Odiava mentir para eles, mas também odiava a ideia de contar a eles que sua mãe estava telefonando outra vez. Sabia que Pop interferiria, que ele a protegeria dos telefonemas, até mudaria o número do telefone da empresa ou monitoraria todas as chamadas, e isso era algo que não podia permitir. Era hora de adotar uma atitude proativa, que não permitisse as manipulações de sua mãe. Era horrível admitir que se sentia melhor quando a mãe estava fora de cena e longe de seus pensamentos? Quando não tinha que pensar nela ou tentar antecipar em que encrencas ela havia se metido. Mais uma vez, as lágrimas fizeram seus olhos arderem, e ela rangeu os dentes com irritação. Não a deixe fazer isso com você. Não outra vez. Ela já causou sofrimento emocional para uma vida inteira. Faith respirou profundamente várias vezes, tentando controlar a onda de emoção e pesar que a invadia. Por mais que tentasse resistir contra a destruição emocional provocada pela mãe, ela sempre a atingia bem no meio do peito. Havia muita tristeza e pesar atrás da barreira de proteção que Faith construíra para manter a mãe do lado de fora. — Não foi sua responsabilidade — ela cochichou. — Não foi sua culpa. E se obrigou a seguir em frente, pelo corredor até seu escritório. Teve o cuidado de adotar uma expressão serena e, esperava, um ar que não traísse o tumulto interno. Quando se aproximava da mesa, Pop levantou a cabeça. — Estamos saindo, Faith. Vai jantar com a gente hoje à noite? Vou preparar seu prato favorito. Ela riu. — E eu perderia salsichas e batatas fritas? — Espertinha. Vou fazer lasanha e pão de alho. O Connor também vai, então, podem ir juntos, se quiser carona. Ela olhou para Connor, que levantou uma sobrancelha numa pergunta silenciosa. — É claro, ótima ideia, Pop. Mal posso esperar. Pop tocou seu ombro e beijou o topo de sua cabeça. — Se cuida e trata de sair daqui em um horário decente. Vamos passar a tarde fora, então, se


precisar de alguma coisa, grite. Num impulso, ela levantou os braços e o abraçou, enterrando o rosto em seu peito. De início Pop pareceu surpreso, depois a abraçou com força. — Vejo você à noite — ele disse sem rodeios.


CAPÍTULO 8 Gray acelerou um pouco mais o ritmo da corrida na pista fechada. Ainda não estava totalmente recuperado depois de ter sido ferido por um tiro na perna naquela noite em que Alex fora morto, e seu corpo fazia questão de lembrá-lo disso. O suor escorria pelo pescoço e encharcava a camiseta que se colava ao corpo como uma segunda pele. Os pensamentos sobre Faith se acumulavam em sua cabeça, e isso o irritava. Desde sua chegada em Houston, estivera pensando em tudo, menos no que devia ocupá-lo: pegar o assassino de Alex. A culpa o oprimia. A verdade era que, desde que saíra de Dallas, sentia-se mais leve, como se houvesse deixado para trás um grande fardo. Em Dallas, acordava todos os dias para a realidade do assassinato de Alex. Comia, bebia e dormia com as lembranças daquela noite ricocheteando na cabeça como uma bola de pingue-pongue. Mas aqui... Aqui, se sentia mais livre. Um pouco mais leve. Quando estava com Faith, esquecia Alex, Mick e o fato de Faith ser seu único elo viável com Samuels. Seu corpo gritava, e ele percebeu que estava correndo. Os músculos na perna ferida tremiam e se enrijeciam. Ele se obrigou a reduzir a velocidade, depois parou, o peito ardendo como se houvesse acabado de engolir um maçarico. Gray se abaixou e apoiou as mãos nos joelhos, enchendo de ar os pulmões doloridos. Punir-se não ia resolver nada. Podia servir para sentir-se um pouco melhor, porque o inconsciente já havia decidido que merecia a punição, mas, mesmo assim, não mudaria nada. Ele pegou a toalha que havia descartado mais cedo e a pendurou no pescoço. Com uma das pontas, enxugou o suor da testa enquanto se dirigia ao vestiário. Após uma ducha rápida, ele vestiu jeans e camiseta e guardou o celular no bolso. Não havia nem passado pela porta quando o bolso vibrou sobre a perna. Gray suspirou irritado e pegou o telefone. — Montgomery — disse ao atender. — Oi, Gray. É a Faith. A voz suave sussurrava por suas veias, e os ombros dele relaxaram livres da tensão. — Oi — respondeu, irritado com o tremor na voz.


— Só queria saber se você melhorou. Gray se sentiu culpado. Devia estar em casa doente e, em vez disso, havia ido a uma academia para se exercitar. Uma atitude pouco inteligente. Protegendo o fone com a mão, saiu da academia e caminhou em direção ao estacionamento. Rápido, entrou na caminhonete tentando impedir que Faith ouvisse os ruídos da cidade em torno dele. — Estou bem, graças à sua culinária — respondeu. Ela riu baixo, um som que provocou um espasmo de prazer em seu peito. — Pensei em passar na sua casa mais tarde e levar o jantar. Ele parou, balançando a cabeça para se livrar da vertigem provocada pela ideia de revê-la. Estava se comportando como um idiota apaixonado. — A menos que esteja descansando — ela acrescentou depressa. — Não quero incomodar. — Não, de jeito nenhum — ele respondeu apressado. — Estou em pé e ocupado a tarde toda. — Tudo bem, então, eu passo por aí às 17h30, se tem certeza de que não vou incomodar. — Vou esperar ansiosamente — Gray respondeu com sinceridade. Depois de desligar o telefone, ele olhou para o relógio. Tinha tempo de sobra para voltar ao apartamento antes de Faith e os outros voltarem do escritório. Já estava se tornando um hábito para ela ficar parada na porta do apartamento de Gray, nervosa com a ideia de entrar. O que era ridículo. Ele era só um homem. Tudo bem, certo, talvez não fosse só coisa nenhuma. Mesmo assim, viveria melhor se os joelhos não tremessem cada vez que fazia contato com ele. Faith bateu na porta e esperou, determinada a ser confiante e controlada. Quando Gray abriu a porta, ela exibiu seu sorriso mais radiante e ofereceu a travessa em suas mãos. — Caçarola de linguiça e batata. Garanto que vai curar o que te aflige. É um prato muito confortante. Ele sorriu e pegou o recipiente ainda morno. — Entre, por favor. Os dedos se tocaram quando ela soltou a vasilha nas mãos dele, e Faith reconheceu a atração latente entre os dois. Estava ali mesmo quando não estava. Se é que isso fazia sentido. Ele deixou a caçarola sobre o balcão e caminhou até a geladeira. — Acabei de fazer chá. Quer um pouco? Ela assentiu e se sentou na banqueta mais próxima, observando-o enquanto ele enchia os copos com gelo. Depois serviu o chá, e os cubos chiaram e estalaram nos copos. Quando Gray deixou o copo diante dela, Faith bebeu um longo gole, apreciando o sabor adocicado.


— Bom? — Gray perguntou, movendo a cabeça em direção ao copo. — Hum, delicioso — ela respondeu, passando a língua pelos lábios para recolher as gotas. Ele sorriu. — A receita é da minha avó. Chá de sol. Quando eu era criança, ela preparava um litro e levava para o jardim. E deixava lá o dia todo tomando sol. Eu jurava que não havia coisa melhor. — Acho que concordo — Faith respondeu depois de beber mais um gole. Quando esvaziou o copo, ela o deixou sobre o balcão e olhou para Gray. — Você parece estar bem melhor — comentou. — Sim, muito. Graças a você. Ela corou e abaixou a cabeça, e Gray riu como se soubesse que essa seria sua reação. — Vai voltar ao trabalho amanhã? — Faith perguntou enquanto o espiava por baixo dos cílios. — Pode contar com isso. Ela apoiou as mãos sobre o balcão e se levantou da banqueta. — Então, até amanhã. Gray parecia meio decepcionado, como se não quisesse vê-la ir embora. As palavras seguintes confirmaram essa impressão. — Tem que ir tão depressa? Ela sorriu. — Sim, prometi a Pop que jantaria com ele e o Connor. Noite da lasanha. Ele contornou o balcão e parou a poucos centímetros dela. Estava tão perto que o calor de seu corpo a envolvia. O cheiro da pele penetrava em suas narinas. Limpo. Cheiro de sabonete e banho recente. — Um dia você vai desistir de fugir toda vez que nos aproximamos — Gray murmurou. — É mais difícil de segurar que um porco ensebado. — Porco? Você acabou de me comparar com um porco? Ele riu, os olhos brilhando enquanto a mão deslizava pelos cabelos curtos. — Ah, isso não soou bem. O que eu quis dizer é que um dia desses você vai ficar por mais de dois minutos. Tem o hábito de fugir toda vez que nos encontramos. Se não parar, vou começar a pensar que é pessoal. O calor se espalhou pelo rosto de Faith, e uma onda de prazer inundou seu peito e subiu pelas costas. — Vou me lembrar disso — ela murmurou. Ele parecia estar mais próximo do que estava há alguns minutos. Nervosa, ela umedeceu os lábios e teve certeza de que, se não saísse logo, ele a beijaria. Queria que ele a beijasse? Em parte, sim. Queria muito. Mas outra parte dela amava a antecipação. O jogo sutil de gato e rato que estavam fazendo. A atração entre eles crescia, e sabia que era só uma questão de tempo


antes de as coisas explodirem. Ele se aproximou um pouco mais. Faith fechou os olhos e se inclinou para a frente, mas, em vez de beijar seus lábios, ele segurou sua nuca com a mão e pressionou a boca contra sua testa. Os olhos dela se abriram quando Gray se afastou. Ela quase sorriu. Então... estava recebendo uma dose do próprio remédio? Na ponta dos pés, ela roçou os lábios brevemente nos dele, certamente sem a pressão necessária para fazer do contato um beijo. Depois, sorriu quando viu os olhos dele brilhando, as pupilas dilatadas. Então, plantou os pés no chão novamente e se dirigiu à porta. Quando lá chegou, virou-se para encará-lo. — Acho que a gente se vê amanhã, então.


CAPÍTULO 9 Faith empurrou o bule de café para baixo da abertura quando as primeiras gotas de líquido quente passaram pelo filtro. Uma vez por semana, Pop fazia uma reunião matinal para discutir os projetos e dividir atribuições. A segunda-feira teria sido a escolha óbvia, mas Pop tinha uma propensão a ser ilógico com relação às pequenas coisas. Reuniões como essa eram convocadas aleatoriamente e, via de regra, precipitadas por um telefonema às 5h30 no qual Pop pedia a todos para chegarem ao escritório antes das sete. Faith sempre saía antes dos outros para poder comprar rosquinhas no caminho e fazer um bule de café fresco. Gray foi o primeiro a chegar, o que não era surpreendente. Quando entrou no escritório, ele olhou com gratidão para a caixa de rosquinhas e sentou-se do outro lado da mesa. — Bom dia — Faith falou animada. — Está se sentindo melhor? Ele grunhiu uma resposta, mas aceitou com avidez uma rosquinha quando ela empurrou a caixa por cima da mesa em sua direção. — Tem café fresco — avisou ela. — Você é uma deusa — Gray respondeu ao se levantar para pegar o bule. Faith havia arranjado uma fileira de xícaras ao lado da cafeteira, e ele pegou uma delas e se serviu da bebida quente. — Quer um pouco? — ofereceu depois de beber um gole. Ela balançou a cabeça. — Não tomo café. Ele voltou à cadeira, onde se sentou com desleixo. — Não? Tenho certeza de que isso deve estar entre os pecados capitais em algum lugar da Bíblia. Ela torceu o nariz. — Nunca suportei essa coisa. Uma vez passei a noite inteira dirigindo da Louisiana ao Kansas. Tomei café várias vezes para continuar acordada. Quando cheguei ao destino, vomitei até a alma. O cheiro de café é suficiente para me deixar enjoada.


— Mesmo assim, você o prepara para nós. — Sou uma santa — ela brincou com uma piscada provocante. Os olhos dele a percorreram sem nenhuma pressa, para cima e para baixo, e seu rosto ficou quente sob o olhar penetrante. Adorava o jeito como ele a olhava, como se quisesse despi-la, tocá-la, explorar cada milímetro dela. — Daria um mês de salário para saber em que você está pensando — ele falou. Faith piscou ao sair do devaneio e viu que ele a observava, os olhos azuis brilhando com interesse evidente. Ela conseguiu controlar o rubor, mas foi por pouco. — Uma mulher tem que guardar alguns segredos — disse. Gray riu e bebeu mais um gole de café. Os olhos de Faith se voltaram para a porta quando Micah entrou na sala. Connor entrou logo atrás dele. Micah olhou em volta rapidamente. — O Nathan ainda não chegou? — É evidente que não — ela respondeu com tom seco. Micah sorriu. Ela reconheceu a demonstração de alegre entusiasmo. — Não quero nem saber o que vocês estavam fazendo — Faith avisou com um suspiro exasperado. — Bom dia — Connor falou, apoiando-se à mesa dela já com uma xícara de café na mão. — Bom dia — ela respondeu com doçura. Connor bebeu um longo gole de café, fechou os olhos e suspirou. — Juro, ninguém faz café melhor que você, Faith. — É verdade — concordou Micah, ainda de costas para ele enquanto se servia da bebida. — É muito bom — Gray confirmou. — Que café é esse? Quero comprar para fazer em casa. Connor riu, e Micah não conteve uma gargalhada. Gray olhou confuso para os dois. — Temos feito a mesma pergunta nos últimos dois anos — explicou Connor. — Ela não responde. Só sabemos que a Faith encomenda o café em algum lugar. Faith riu. — Se eu contar, vocês vão comprar o próprio café e nunca mais vão entrar na minha sala, o que significa que não verei vocês nunca. Micah bufou e foi se juntar aos outros. — Não vai nos ver? Você comanda isto aqui. Na maior parte do tempo é você quem diz quando devemos pular e em que altura. Ela o encarou séria. — Devia ter dito que não suportaria viver um dia sem me ver. Connor estendeu a mão para despentear seu cabelo.


— Ah, isso eu nem preciso dizer, garota. Uma pequena centelha de irritação se acendeu dentro dela. Não era a primeira vez que Connor a tratava como criança, mas agora, na frente de Gray, não queria chamar atenção para a diferença de idade entre eles. Não que fosse muito grande, mas a última coisa que queria era que ele a visse como uma menina. Ou, pior ainda, uma irmã mais nova. Ela continuou olhando feio para Connor. Um ruído na porta atraiu a atenção de todos, e Faith levantou as sobrancelhas ao ver Nathan entrar usando um boné de beisebol dos Astros. Não que o boné fosse estranho, ele era um torcedor fanático, mas não via cabelo embaixo dele. Nenhum fio! Ela deixou escapar uma exclamação ao mesmo tempo que Mick riu e Connor murmurou: — Que diabo? Faith se levantou e contornou a mesa correndo, e só parou na frente de Nathan. Então se levantou na ponta dos pés e tirou o boné. Atônita, ficou parada onde estava e deixou o boné escorregar por entre os dedos. Ele caiu no chão com um ruído abafado, mais ou menos na mesma hora em que o queixo de Faith também caiu. — O que você fez? — ela perguntou. Nathan suspirou e passou a mão na cabeça completamente careca. Micah passou da risadinha às gargalhadas ruidosas. Logo Connor e Gray também riam com ele. Nathan se abaixou para pegar o boné e o colocou na cabeça. — Bem, Faith, você disse que eu precisava cortar o cabelo. Micah voltou a gargalhar. — Mas não era para raspar a cabeça — ela gemeu. Connor se aproximou de Faith, parou atrás dela e apoiou a mão sobre seu ombro. — Ele está brincando com você, Faith. — É, conte a ela por que raspou a cabeça — Micah se manifestou com entusiasmo. Faith removeu o boné de Nathan novamente e deu um passo para trás para estudá-lo. Agora que havia superado o choque inicial, tinha que admitir que não havia ficado ruim. O cavanhaque havia sido aparado. Sem aquele cabelo todo caindo sobre as orelhas, ele parecia bem sexy. — Cala a boca, Micah — Nathan irritou-se. Faith virou-se e olhou para Micah. — Se sabe tanto, comece a falar. Micah sorria como um idiota. — Ah, não. Não vou perder a chance de ouvir o próprio Nathan contar tudo. Ela se voltou para Nathan mais uma vez e viu no rosto dele uma expressão resignada. Gray continuava reclinado na cadeira, sorrindo como se estivesse se divertindo.


— Sim, conte — falou Connor. — Perdi uma aposta — Nathan revelou tenso. — Uma aposta? — Faith estava boquiaberta. Depois olhou para Micah e apontou um dedo para ele. — Por que o fez raspar a cabeça por causa de uma aposta? Micah arregalou os olhos numa reação inocente. — Por que acha que tenho alguma coisa a ver com isso? Ela pôs as mãos na cintura e estreitou os olhos. — Ah, por favor. Não vai me convencer de que isso não é uma retaliação por causa daquela vez, quando ele fez você sair com a filha do governador. Connor e Nathan se desmancharam em gargalhadas. Connor havia deixado a xícara em cima da mesa de Faith e ria muito, os olhos lacrimejando. Micah estava sério, e Gray levantava as sobrancelhas demonstrando sua curiosidade. — Filha do governador? — ele perguntou. — Não sabia que ela podia sair assim. Na última vez que soube, o pai dela não media esforços para conseguir um acompanhante para a filha. Nathan riu ainda mais. — Ela não pode. Bem, só com o Micah. Ele fez loucuras para sair com ela. Micah olhou para Nathan de um jeito ameaçador. — Cala a boca, careca. — Agora eu quero saber — Gray insistiu. Faith pigarreou. — Não é que eu não goste de ver o Micah constrangido, mas já sabemos sobre a filha do governador. — Enquanto falava, ela olhou para Gray como se pedisse desculpas. — Tenho certeza de que o Nathan vai adorar contar tudo para você mais tarde. O que quero saber agora é por que o Nathan teve que raspar a cabeça. — Porque apostou comigo que o Astros não perderia o jogo de ontem à tarde — Micah anunciou arrogante. Connor olhou para Nathan com evidente incredulidade. — Cara, apostou que eles ganhariam o jogo sem o melhor batedor em campo? Com o pulso torcido? — Eu não sabia disso quando nós apostamos — Nathan explicou tenso. — Ah, mas o Micah sabia, tenho certeza — Faith disparou. — Como ele poderia saber? — estranhou Nathan. Micah passou um braço em torno de Faith e afagou seu ombro. — Sim, como? Foi sorte, acho. Só isso. — Sabe alguma coisa que eu não sei, irmã? — perguntou Connor. — Sei apenas que, por acaso, o Micah é amigo do médico do time. Foi o Micah quem trocou o


sistema de segurança dele no ano passado. — Seu filho da puta! — Nathan exclamou. Ele correu para Micah, que se esquivou e recuou no mesmo instante em que Nathan passou por Faith e agarrou a cabeça de Micah numa gravata. — Você sabia. Sabia desde o início. Por isso apostou comigo. Micah continuou rindo até quando Nathan o jogou no chão. — Aquela sua brincadeira envolvendo a filha do governador foi bem pior, não me venha com essa agora. — Ele tem razão — Connor concordou rindo. — Prefiro raspar a cabeça a suportar o que o Micah aturou. — Estou ficando muito curioso — Gray reclamou. Micah levantou-se do chão, e Nathan bateu nas costas de Gray. — Eu conto tudo hoje na hora do almoço. — Cretino — Micah resmungou. — Bem, se serve de consolo, eu acho que você ficou gostoso — Faith declarou. Nathan olhou para ela com ar surpreso. — É mesmo? Ela riu. — Sim, eu gosto. Definitivamente, combina com você. — Bom, gostosa, vamos fugir da reunião e voltar para casa. Connor olhou para Nathan com o cenho franzido. — Não tem graça, cara. Não tem graça nenhuma. — Só precisa de um brinco — sugeriu Faith. Ele a encarou horrorizado. — Um brinco? Está falando sério? Quer que eu fique parecido com o florzinha ali? — E inclinou a cabeça na direção de Micah. Faith deu de ombros. — Eu gosto do brinco dele. Você ficaria bem com um. Cabeça raspada, cavanhaque, um diamante, ou uma argola de ouro pequena... Hum, estou tremendo só de pensar nisso. Nathan segurou a ponta da orelha entre os dedos. — Está brincando comigo? Acha mesmo que eu ficaria bem com um brinco? Ela assentiu. — Sim, e só precisa de um pouco de sol nessa pele branca da cabeça, e vai se tornar um sucesso entre as mulheres. — Seja franca, Faith. Fale a verdade. Não precisa tentar me fazer sentir melhor. Acha mesmo que o visual careca faz sucesso? — Nathan perguntou hesitante. — Desgraçado vaidoso — Connor provocou.


— Bem, se a Faith acha que o Nathan é gostoso por causa da careca, vou marcar hora no barbeiro — Gray anunciou com um sorriso sensual. Connor e Micah se viraram ao mesmo tempo, ambos sérios. Até Nathan olhou para Gray por entre as pálpebras semicerradas. Faith pigarreou outra vez. — Sim, Nathan — ela começou, fingindo não ter ouvido a declaração provocante de Gray. — A careca combina com você. Nunca gostei muito do visual relaxado. Não imaginava que apreciaria um careca, mas você ficou ótimo. Nathan sorriu e a segurou pelos ombros antes de plantar um beijo molhado em seu rosto. — Você é um amor. — Tire as mãos da minha filha — Pop grunhiu ao passar pela porta. — Bom dia, Pop — Faith falou quando Nathan afastou as mãos de seus ombros. Pop tocou seu ombro ao passar por ela a caminho da cafeteira. Todos os outros o cumprimentaram, e Pop assentiu em resposta enquanto se servia de café. Segurando a xícara entre as mãos, ele olhou para Faith. — Tem aquele cronograma impresso? Ela foi pegar na gaveta da mesa as páginas impressas anteriormente e as entregou a Pop. — Temos dois serviços novos — ele anunciou. — Nada muito complicado. Mas alguns orçamentos podem ser complicados. Nathan, quero que você e o Connor se encarreguem do primeiro projeto. É uma casa de shows. Um artista importante vai vir à cidade em dois meses. Eles querem verificar toda a segurança antes disso e garantir que tudo vai correr perfeitamente bem. Quero que ouçam quais são as necessidades deles e criem uma proposta para esse projeto. Connor assentiu. — Sem problemas, Pop. Pop olhou para Micah e Gray. — Vocês dois vão se responsabilizar pelos outros dois orçamentos, vão encontrar os clientes e fazer o que for preciso para fechar o contrato. Depois, quero que se encarreguem dos projetos A e B na lista. Eu cuido do C e do D, e o Nathan e o Connor podem ficar com o que resta. Isso deve nos manter ocupados durante a próxima semana. Ele parou e olhou para Faith com um sorriso suave. — E você vai nos manter na linha, como sempre. — E olhou em volta para os outros. — Mantenham contato com a Faith. Ela deve receber atualizações regulares para poder avaliar o progresso dos projetos. Se tiverem algum problema, informem imediatamente para que ela possa discutir o assunto comigo. Então, como se só agora notasse, ele olhou diretamente para Nathan e balançou a cabeça. — Que diabo aconteceu com você, filho? Brigou com um cortador de grama?


CAPÍTULO 10 Faith passou de carro pelo Cattleman’s depois do expediente, olhando atentamente para ver se Micah e Gray estavam lá. Sabia que Nathan e Connor ainda estavam fora trabalhando, então, não os veria por ali. Havia conversado com Micah mais cedo, e ele dera a entender que tinha um encontro após o trabalho. O que significava que Gray podia estar lá sozinho. Ou podia simplesmente ter ido para casa. De qualquer maneira, ela entrou no estacionamento e tentou achar a caminhonete Chevrolet prateada de Gray. Quando a viu, seu estômago deu um pulo, e ela parou o carro na vaga mais próxima. Rápida, desceu do automóvel e ajeitou os cabelos compridos já a caminho da entrada. Um arrepio nervoso desceu pela nuca quando ela viu Gray sentado junto do balcão, de costas para ela. Por um momento, ela ficou apenas olhando, tentando arrumar coragem para se aproximar e fingir que esse era mais um encontro casual. Mas por que tinha que fingir? Direta. Havia feito um pacto consigo mesma para ser mais direta. Isso não implicava fazer jogos idiotas reminiscentes de tramas de garotas colegiais. Finalmente ela começou a andar e, quando chegou ao bar, sentou-se na banqueta ao lado de Gray e sorriu quando ele olhou em sua direção. — Ei — ele falou com um sorriso genuíno iluminando seu rosto. — Bom ver você aqui de novo. Praticava mais a tentativa de controlar seu louco rubor desde que o conhecera do que jamais praticara antes. — Queria ver você — ela disse com simplicidade, aplaudindo mentalmente o tom frio e casual da voz. E direto. Nada mais de rodeios. Ele levantou uma sobrancelha e inclinou a cabeça para o lado. — É mesmo? Faith escondeu as mãos no colo para controlar o tremor dos dedos. Quando o garçom parou na sua frente, ela pediu uma Coca. — Então, como foi seu dia? — perguntou quando se virou mais uma vez para encará-lo. — Acabou de melhorar muito.


Dessa vez ela corou, e ele sorriu. E tocou seu rosto com os dedos. — Acho lindo você ficar vermelha com tanta facilidade. É muito feminino. O dedo tocou o canto de sua boca, e os lábios dela se entreabriram alguns centímetros em resposta. Gray afagou levemente o lábio inferior antes de afastar os dedos devagar. — Passei o dia todo tentando imaginar seu gosto — ele murmurou. Ela engoliu e lambeu os lábios. O que podia dizer? Convidá-lo a descobrir? Droga, por que tinham que estar em um local público? E droga, por que havia marcado horário no salão em uma hora? — Talvez eu possa fornecer uma amostra uma hora dessas — disse com leveza. — Eu gostaria. Gostaria muito. O garçom empurrou a Coca para ela por cima do balcão, e ela a pegou, grata por ter alguma coisa que baixar a temperatura em elevação. — Então, que história é essa entre o Micah e a filha do governador? — Gray mudou de assunto. Faith riu. — O Nathan não contou? — Ainda não. Ela balançou a cabeça. — Aqueles dois são impossíveis. Desde que o Micah veio trabalhar com a gente, ele e o Nathan não param de aprontar juntos. O Micah veio de outro estado, por isso não sabia quem era a filha do governador. O Pop foi contratado para fornecer a segurança do baile que o governador organizou aqui em Houston. Mas a filha dele precisava de uma companhia, porque quem ia com ela havia desistido. As opções eram o Connor, o Micah ou o Nathan. O Connor era responsável pela segurança, então, é claro, ele não podia. E mesmo que pudesse, não teria concordado. O Nathan começou a falar imediatamente sobre a beleza da filha do governador e como deviam decidir o impasse jogando uma moeda, única solução justa, mas declarou que esperava ganhar, porque tinha ouvido dizer que, além de linda, ela também era ninfomaníaca. Agora que conhece o Micah, você pode imaginar que ele mordeu a isca. Insistiu e insistiu até o Nathan ceder e deixar para ele a honra de acompanhar a filha do governador ao baile. — Ai, merda — Gray respondeu gargalhando. — Eu teria adorado ver essa cena. — Foi muito engraçado. Ela passou a noite toda colada no Micah. E na maior parte dela os dois estiveram na pista de dança, ela com as mãos no traseiro dele e os lábios onde conseguisse plantá-los. Pensei que o Micah fosse matar o Nathan na manhã seguinte. Ainda rindo, Gray balançou a cabeça. — Aqueles dois são muito engraçados. — Sim, são ótimos.


— E você, então, acha que ser careca é sexy? Ela levantou a cabeça com ar surpreso. — Ah, bem, nele ficou bom. Os olhos de Gray brilharam. — Vou ter que raspar a cabeça para você babar por mim daquele jeito? Faith ficou vermelha outra vez, o que a irritou profundamente. — Ah, bem... — Ela tentou mudar o foco da conversa. — Já falamos muito sobre mim. E você? — O que tem eu? — Gray perguntou. — Tem namorada? Alguém com quem esteja envolvido em Dallas? Ele balançou a cabeça. — Não. Faith franziu o cenho. — É difícil acreditar. — Ah, sim? Por quê? — Você é bonito demais para não ter pelo menos uma mulher à disposição. Ele sorriu. — Bem, fico feliz por você pensar assim, mas não tenho ninguém. Palavra de escoteiro. A verdade é que ainda não me dediquei de fato a encontrar alguém. — E o que vai querer nessa mulher quando decidir procurá-la? Ele parecia surpreso com a abordagem direta. Inclinando-se para a frente na banqueta, apoiou o cotovelo sobre o balcão. Depois, olhou para ela com expressão pensativa, como se decidisse se queria ou não contar a ela. — Quero alguém suave e feminina. Não muito suave, mas que não seja ríspida. — Seus lábios se encurvaram num sorriso melancólico. — Alguém que não sinta que ser feminina é uma desvantagem para ela. Faith segurou a face com a mão e apoiou o cotovelo sobre o balcão ao encará-lo. — Pensou muito nisso, não é? Ele deu de ombros. — Não realmente. Apenas sei o que quero. Então, eram dois. Ela queria alguém forte, firme, alguém que fosse capaz de cuidar dela, alguém que não tivesse medo de tomar decisões. Seria ele essa pessoa? Faith olhou para o guardanapo sob o copo e brincou com as extremidades dele. Um poder natural radiava de Gray. Como uma segunda pele que ele se sentia confortável em usar. — Quer ouvir meu outro segredo sombrio? — ele perguntou. — É claro. — Ela riu. — Quero uma mulher que me deixe dar as cartas.


Faith o encarou chocada, incapaz de formular uma resposta. Segundos se passaram sem que o silêncio entre eles fosse rompido. Gray pigarreou. — Está chocada. É difícil fazer uma afirmação como essa e não parecer um neandertal. — E deu de ombros. — Não imagino muitas mulheres entrando na fila por mim. — Depende. — Os dedos apertaram o copo, pressionaram o vidro suado até perderem a cor. — De quê? — Do que está disposto a dar em troca. Os olhos se encontraram. Podia ver nos dele o brilho de interesse. Se o incentivasse de algum jeito, sem dúvida voltariam ao apartamento dela e fariam sexo. Ela lambeu os lábios novamente. — E o que acha que uma mulher ia querer em troca? — Gray perguntou com tom manso. — Mais mulheres aceitariam o chamado homem da casa se ele não abdicasse de sua responsabilidade. Se levasse a sério essa responsabilidade — ela disse, e detestou imediatamente o tom de sermão. Ele assentiu lentamente. — Isso faz sentido. Incapaz de parar, Faith prosseguiu: — Quando um homem não está disposto a aceitar a responsabilidade, uma mulher não tem opção, é forçada a assumi-las. Muitas vezes ela tem que pensar nos filhos. Nela mesma. Na família. Consequentemente, muitas mulheres chegaram à conclusão de que não são apenas capazes, mas, com frequência, mais preparadas que um homem para comandar a casa. — Está falando como se os homens como espécie houvessem abandonado tudo — Gray apontou com tom seco. — As mulheres também cometeram muitos erros. Deus, tinha que calar a boca, ou Gray ia sair correndo e se afastar dela o máximo que pudesse. Estava falando como uma mulher ressentida e amargurada que odiava os homens. Nada podia estar mais longe da realidade. Mas só agora analisava como se sentia quanto a relacionamentos. Estava na fronteira de um estranho mundo novo onde tentava agarrar o que queria. Sentia-se tensa e impaciente, pior, fadada ao fracasso. — Estou complicando tudo — ela resmungou. — Devia ter ficado de boca fechada. Falei como uma mulher que odeia homens e prega sermões, quando, na verdade, o que realmente quero... — E parou, mortificada por quase ter anunciado o que queria. O olhar dele era penetrante. — O que você quer, Faith? — Ei, vocês dois! Faith e Gray se viraram e viram Micah atravessando o bar e se aproximando deles. Faith não


tinha certeza, mas pensava ter ouvido Gray murmurar um palavrão. Micah beijou o rosto de Faith e parou entre ela e Gray, acenando para o garçom e pedindo uma bebida. — O que está fazendo aqui? — perguntou Faith. — Pensei que tivesse um encontro. Micah fez uma careta. — Eu tenho, mas é mais tarde. Vamos nos encontrar em algum lugar. — Misterioso. Gray pigarreou. — Eu ia perguntar à Faith se ela quer comer alguma coisa. Quer se juntar a nós, ou vai comer mais tarde? Faith olhou para o relógio e balançou a cabeça. — Desculpe, mas marquei hora no salão de beleza, tenho que ir. — Não revelaria que ia fazer depilação e se arrumar para o compromisso da sexta-feira. — Se não sair agora, vou me atrasar. Gray segurou sua mão quando ela se levantou. Faith o encarou e se surpreendeu ao ver em seus olhos um brilho que parecia ser de decepção. — Quero continuar essa conversa — ele disse. Faith corou e notou o olhar curioso de Micah. — É claro. Outra hora, talvez. Relutante, ela soltou a mão de Gray e sorriu para Micah antes de passar por ele a caminho da saída.


CAPÍTULO 11 I

— nstalou aquelas câmeras de segurança? — Pop perguntou atrás de Gray. Gray estava abaixado no chão, mas levantou-se para encarar o outro homem. — Sim, acabei de instalar a última. Vou ligar para o Connor e verificar se estão todas on-line. Pop assentiu e pegou o celular para fazer uma ligação. Gray digitou o número de Connor. — Tudo pronto aqui — disse ao ouvir a voz do outro lado da linha. — Veja se consegue ver as imagens de cada câmera. Connor estava lá em cima, na sala de vigilância, onde o sistema computadorizado de monitoramento de todas as câmeras havia sido instalado. Ele era o especialista em informática. Um verdadeiro geek, um mago da tecnologia. Gray era mais um trabalhador braçal. Tinha conhecimento suficiente para instalar câmeras e escutas, mas deixava os aspectos mais sofisticados para quem entendia realmente do assunto. — Sim, tenho visão clara de todos os cantos. Mas acho que a câmera B precisa ser levantada, talvez uns dois centímetros, dois e meio. Com esse ângulo vou ter uma visão clara do salão do baile e ainda vou poder monitorar a porta do fundo. — Já vou providenciar — respondeu Gray. — Avise o Pop que ainda vou ficar aqui em cima mais um pouco, encontro vocês mais tarde — disse Connor. Gray concordou e desligou. Guardando o telefone no bolso de trás da calça, ele saiu da sala e atravessou o prédio para ir ao local onde havia instalado a câmera B. Depois de ajustar o ângulo, ele ligou mais uma vez para Connor para confirmar a posição. Só então foi procurar Pop. — Terminei tudo — avisou quando o encontrou. — O Connor disse que ainda vai continuar trabalhando no sistema de computadores e que não precisamos esperá-lo. Pop assentiu. — Vamos almoçar, então. Vinte minutos mais tarde, os dois estavam sentados em um pequeno restaurante bebendo café e esperando a comida. Gray queria perguntar sobre Faith e o relacionamento dela com a mãe, mas não sabia como abordar um assunto tão improvável sem despertar as suspeitas de Pop.


Pop podia ser simpático e generoso, mas Connor não havia aprendido a ficar de boca fechada por acaso. Mesmo assim, Gray precisava descobrir tudo que pudesse sobre Celia Martin e sua possível conexão com Faith. — Está gostando do trabalho? — Pop perguntou, rompendo o silêncio. Gray moveu a cabeça numa resposta afirmativa. — Sim. — Era verdade. Gostava mais do que esperava gostar. — Fiquei em dúvida quando o Mick sugeriu a mudança de cenário, mas agora percebo que sair de Dallas foi um alívio. — O Mick é o pai do seu parceiro, certo? Mais uma vez Gray assentiu, engolindo o nó repentino que se formava na garganta. Pop fez um ruído que sugeria solidariedade. — Sei como é difícil perder um parceiro. Também fui policial há muito tempo. Perder um dos seus... Bem, é como perder um irmão. — Ele era meu irmão — Gray falou com uma expressão vazia. — Em todos os aspectos, menos o real, o de sangue. Imagens da infância corriam pela memória. Alex rindo. Os dois correndo na rua. Jogando beisebol. Noites na casa de Alex, a comida que a mãe dele preparava. Lutas com Mick no quintal. Todas as coisas que Gray nunca tivera com a própria família. Alex e Mick eram sua família. Sua única família. Pop assentiu demonstrando que compreendia. — Às vezes o sangue nem tem toda a importância que atribuem a ele. A Faith não poderia ser mais minha filha se fosse sangue do meu sangue, como o Connor. O amor que tenho pelos dois é igualmente profundo. Gray tentou lembrar se alguém já havia contado antes que Pop havia adotado Faith. Tinha a informação porque Mick havia feito uma investigação criteriosa, mas não era algo que devesse saber. Pop deve ter interpretado seu silêncio como uma reação confusa, porque explicou: — Eu adotei a Faith. Há três anos. Gray levantou uma sobrancelha. — Mas ela era uma adulta. — Sim. Mas quis que ela tivesse meu nome. Quis dar a ela todo o amor e a aceitação que nunca teve na vida. — Fala como se ela tivesse tido uma infância difícil — Gray comentou em voz baixa. Uma coisa em comum entre os dois. — Fui casado com a mãe dela anos atrás. — Pop fez um gesto de desdém, como se limpasse essa parte de sua vida. — O que aconteceu com a mãe dela? — Gray perguntou com naturalidade. — Ninguém a


menciona. Imaginei que estivesse morta. O rosto de Pop endureceu, e uma ruga aproximou suas sobrancelhas. — A mãe dela é uma parasita, só isso. Usa as pessoas, inclusive a própria filha, e, quando consegue o que quer, segue em frente sem olhar para trás. — Então a Faith não tem contato com ela? — Não, e isso é muito bom, na minha opinião. A Faith é boa demais para o próprio bem. Passou muitos anos cuidando da Celia. Anos que deveria ter vivido como uma criança normal, com alguém que cuidasse dela, não o contrário. A raiva transbordava da voz de Pop. Ele engoliu e bebeu um gole demorado de café. — Casei com a Celia quando a Faith tinha quatorze anos. Ela era uma menina muito doce. Quieta. Demorou um pouco para se aproximar de mim. O Connor havia acabado de cumprir o período de serviço militar. Era evidente que a Celia e eu não daríamos certo, mas eu não me separava dela porque me preocupava com a Faith. Queria que ela tivesse um lar. Mas a mãe dela acordou no meio de uma noite, levantou-se e foi embora levando a Faith. Fiquei maluco tentando encontrá-la. Só cinco anos mais tarde recebi um telefonema no meio da noite. A Celia havia sofrido uma overdose. O Connor e eu fomos buscar a Faith. Ela havia passado os últimos anos trabalhando como louca para se sustentar e cuidar da Celia. Eu a trouxe para casa, e desde então ela está comigo. — Isso é difícil — Gray murmurou. — É — Pop concordou. E respirou fundo enquanto passava uma das mãos pelos cabelos grisalhos. — Eu não devia estar incomodando você com essa história. Mas, ultimamente, tenho me preocupado com a Faith. Quero que ela seja feliz. — Ela falaria com você se tivesse algum problema? — Gray perguntou cauteloso. Pop estreitou os olhos. — É claro que sim. Ela me conta tudo. Levei um tempo para conquistar a confiança daquela garotinha quando o Connor e eu a levamos para casa, mas, desde então, ela mudou muito. — E depois disso a mãe dela desapareceu? Nunca mais a procurou? É uma atitude muito mesquinha. Gray percebeu que estava prendendo a respiração. Tinha esperanças de que Faith confiasse em Pop. Assim não teria a impressão de que ela realmente escondia alguma coisa. — A última vez que a mãe dela telefonou foi há mais de um ano. — Pop se inclinou para a frente, encarando Gray com firmeza. — A Faith não sabe disso, então, não pode contar nada a ela. Gray quase perguntou por que Pop estava contando a ele, um estranho, coisas que Faith não podia saber. Mas Pop parecia perturbado, e talvez o desabafo o ajudasse a se sentir melhor. — Quando soube que a Celia estava ligando para a Faith e pedindo dinheiro, eu a localizei e


paguei para ela desaparecer. Disse para nunca mais se aproximar da Faith. — Pop passou a mão pelo rosto num gesto cansado. — Não me orgulho disso, confesso, mas não podia permitir que ela arruinasse a vida da filha depois de a Faith finalmente ter começado a viver para si mesma. — Ela aceitou o dinheiro e concordou com a condição de se afastar? Pop assentiu. — Incrível, mas, para ela, a filha era só um cheque ao portador, mais nada. Gray fez uma careta. Se a mãe havia arrancado dinheiro de Pop antes, não ia recuar agora. De jeito nenhum. O que podia ser bom para ele e Mick, porque, com Samuels pressionando Celia, o desespero dela só aumentaria a cada dia. E o desespero faz as pessoas abrirem mão da cautela. Ele se lembrou do relatório de Mick sobre Samuels ter sido visto em Huntsville. Era bem provável que eles estivessem a caminho de Houston. Se Celia havia conseguido tirar dinheiro de Pop através de sua conexão com Faith, ela não hesitaria em insistir nessa tática. Havia também uma possibilidade de ela desistir de Faith e ir diretamente a Pop. — Não quero que ela sofra — Pop continuou. — A Faith já sofreu demais para alguém tão jovem. — A voz soou mais determinada, e ele se encostou à cadeira, estudando Gray com um olhar atento. — Você parece estar interessado na Faith. Ah, aí estava, e agora Gray entendia que as confidências eram só uma ponte para o “aviso”. Não se meta com a minha filha. Gray não mordeu a isca. Ficou ali sentado e em silêncio, esperando Pop terminar de falar. — Vai voltar para o seu trabalho quando terminar o período de licença. Já conheci homens como você. Eu te admiro. Você é um bom policial, não tenho dúvida disso. Mas não quero que se meta com minha filha ou se divirta com ela para depois sair da cidade e voltar para Dallas. O jeito como Pop colocava a situação o incomodou. — Está falando como se ela fosse um brinquedo. Gosto da Faith. Ela é uma garota doce. Pop assentiu. — Sim, ela é. E vai ser uma ótima esposa. Vai ter filhos. Um lar e segurança. — A ênfase em segurança revelou o que Pop queria para a filha. E, para ser franco, era a mesma coisa que a maioria dos pais queria para suas filhas. — Entendo — Gray respondeu com tom calmo. A expressão de Pop ganhou suavidade. — Gosto de você, filho. Gosto muito. Não quero que me entenda mal. A Faith pode encontrar homens bem piores que você. Só não vejo seu caminho e o dela se cruzando. Só isso. — Tudo bem. — Gray decidiu não apontar que nunca havia dito que queria ter relacionamento com Faith. Não precisava irritar o homem.


CAPÍTULO 12 Faith andava pelo escritório com uma agitação que não conseguia controlar. Estava nervosa, animada e petrificada, tudo ao mesmo tempo, por causa do compromisso daquela noite. A preocupação com sexo gerava devaneios interessantes, e estava grata por ser um dia tranquilo no trabalho. A tensão sexual entre ela e Gray vibrava, fervia como um caldeirão e aumentava a determinação e a ansiedade para explorar seus desejos mais secretos. Ele trazia à tona cada fantasia erótica que já havia tido, e até algumas que nunca tivera. Ela o queria. Esse certamente não era um de seus desejos mais secretos. Não havia nada de sigiloso nesse desejo. E ele teria que ser muito estúpido para não perceber que queria transar com ele. Mas... Havia sempre um mas. Queria um homem forte, dominador. A julgar pela aparência, Gray era esse homem. Ele falava como devia falar, mas ela já havia conhecido outros que falavam assim no passado. E todos haviam desapontado na cama e fora dela. E era por isso que iria ao compromisso daquela noite. Para identificar, encontrar e se apoderar do que queria. Sentia que esse era o primeiro grande passo e que, quando pusesse em prática essa mudança, esse desejo de ser dona de si mesma, não poderia voltar atrás. Ela suspirou ao arranjar uma pilha de contratos em cima da mesa. Depois, acessou a internet e abriu um e-mail de Damon, o homem com quem havia marcado a visita no lugar chamado The House. Haviam trocado alguns e-mails desde que ligara para lá algumas noites atrás. Ele a deixara à vontade com sua atitude aberta, amigável. E a incentivara a fazer perguntas, fornecendo informações generosas sobre o que acontecia na The House e também com relação ao que poderia esperar da visita. Em um de seus momentos mais tolos, e após ter passado cinco horas navegando na internet e vendo fotos de clones de Klingons vestindo peças de couro, ela escrevera para Damon perguntando o que deveria vestir. Porque, se esperavam que ela aparecesse usando um macacão de couro com buracos no lugar dos seios e uma janela no traseiro, podiam esquecer. Ela releu o email, sorrindo diante do lembrete de que o ambiente em que entraria mais tarde era nu e


explícito. O arrepio de excitação percorreu todo seu corpo até os dedos dos pés. Estava razoavelmente preparada para a visita à The House. Ou imaginava estar. Visitara vários sites na internet, pesquisara todos os links fornecidos por Damon e até encontrara coragem para invadir o apartamento de Micah e bisbilhotar sua coleção de pornografia. E ali havia visto muita coisa. Aparentemente pornô leve não fazia parte do vocabulário de Micah. Ela riu ao rever mentalmente a lista que havia compilado com cenários e posições que queria experimentar. Só precisava de um parceiro disponível, e talvez uma compreensão melhor da necessidade que a impelia. Esperava que Damon e seu grupo a ajudassem com isso. Ela se virou na cadeira, sentindo-se meio frívola e bem ridícula. Quando o telefone tocou, ela bateu com a mão na mesa para interromper o movimento da cadeira. Sufocando uma risadinha, pegou o fone. — Malone’s — disse um pouco ofegante. — Faith, precisamos conversar. — A voz estridente da mãe afetou seu ouvido como um galho seco raspando em um telhado de zinco. — Preciso de dinheiro. Preciso da sua ajuda. Você tem que me ajudar. A súplica e o tom meloso de adulação haviam desaparecido. Faith desistiu de tentar suavizar a rejeição. — Já pedi para não me ligar mais. Estava afastando o fone da orelha, quando um som distante chamou sua atenção. — ... diga à vadia para arrumar o dinheiro, ou vocês duas vão se arrepender. — Mãe, quem é esse? — Faith perguntou. — Ninguém — Celia respondeu com voz trêmula. — Não é nada com que tenha que se preocupar. Uma conhecida tristeza invadiu Faith, inundou sua mente com uma vida inteira de sofrimento. Celia nunca mudaria. Tinha que aceitar essa realidade. Havia aceitado, mas isso não tornava mais fácil o reconhecimento. — Vou ser bem clara — ela começou com um tom altivo. — Não telefone para mim. — A voz ficava mais forte e mais firme na medida em que deixava transbordar toda a intensidade de sua raiva. — Não tenho nada para falar com você. Não posso te ajudar. Não vou ajudar. E não posso ser mais clara que isso. — As palavras soaram mais trêmulas no final, quando a respiração se tornou irregular. — Eu amo você, mãe. — A voz foi cortada por um soluço e ela enxugou os olhos com o dorso da mão. — Mas odeio isso que você se tornou... o que sempre foi. Não quero de volta nenhuma parte da minha antiga vida. Minha vida com você. Sou feliz agora. Lamento, mas não tenho nenhuma vontade de retomar o contato com você, deixar você me usar outra vez. Faith ouviu um soluço e, honestamente, não soube determinar se era dela ou da mãe. Desligou o telefone com a mão tremendo, depois debruçou a cabeça nos braços em cima da mesa.


Seus ombros tremiam, e ela sentia as lágrimas escorrendo pelos braços. Quando o telefone tocou outra vez, ela o puxou com força, arrancou o fio da parede e o atirou do outro lado da sala. E abaixou a cabeça de novo para chorar. Soluços barulhentos sacudiam seu corpo. Dor, raiva e um profundo sentimento de traição se enroscavam em seu peito como uma serpente furiosa pronta para dar o bote. Por que conferia tanto poder à mãe? Por que dava a Celia a capacidade de feri-la com tanta facilidade? Quando sentiu a mão firme em seu ombro, ela ficou rígida. — Faith, o que aconteceu? — O tom urgente de Gray penetrou a névoa vermelha que dominava sua mente. Devagar, ela levantou a cabeça, sentindo-se repentinamente idiota pela explosão emocional indisciplinada. E se Pop ou Connor houvesse entrado na sala? Como poderia explicar por que estava chorando em cima da mesa de trabalho? Impaciente, enxugou os olhos e virou o rosto, tentando impedir que ele visse suas lágrimas. Sua cadeira se moveu, e ela viu pelo canto do olho que Gray estava ajoelhado no chão ao seu lado. Dedos delicados tocaram seu queixo e puxaram a cabeça, forçando-a a encará-lo. — Está tudo bem? — Gray perguntou em voz baixa. Outro soluço escapou de sua boca, e ela comprimiu os lábios para impedir que outros o seguissem. — Não, não está. É óbvio. — Ele passou os nós dos dedos em seu rosto, depois ajeitou os cabelos atrás de sua orelha. — O que aconteceu? — insistiu. — Não é nada — Faith respondeu tremendo. — De verdade. Estou me sentindo uma idiota. Fiquei aborrecida e reagi de um jeito exagerado. — É óbvio que aconteceu alguma coisa. Você não é do tipo que reage com exagero. O que a aborreceu desse jeito, Faith? Não, ele não era burro, e ela insultava sua inteligência negando a realidade evidente. — Tudo bem, aconteceu alguma coisa, mas não quero falar sobre isso. Dá para entender? — Suplicava em silêncio para ele não insistir. Gray a encarou por um longo instante. — Sim. Eu entendo. Ele secou com o polegar uma lágrima que ameaçava escorrer do canto de seu olho. Os olhares se encontraram e eles ficaram ali parados, suspensos em um eco atemporal. — Eu não devia — ele sussurrou com voz rouca e tensa. — Não devia o quê? — Faith perguntou no mesmo tom. — Beijar você. — E vai?


Em vez de responder, ele se aproximou e parou por um instante, os lábios bem próximos dos dela. A inspiração repentina de Faith foi a única coisa que aconteceu antes de as bocas se encontrarem. As mãos dele seguravam seu rosto, a boca pressionava a dela. As línguas se encontraram. Ela precisava respirar, mas não queria se afastar. O beijo a consumia. Ele a consumia. A boca se moveu sobre a dela, os dentes capturaram seu lábio superior. Gray puxou o lábio para dentro de sua boca. A língua lambeu e acariciou o lábio de Faith antes de ele soltá-lo e transferir a carícia para o canto de sua boca. Lágrimas e angústia foram esquecidas. Tudo que existia nesse momento era o homem diante dela. Seu toque, seu beijo, sua essência que a envolvia, a preenchia até tudo mais desaparecer. Ela deslizou as mãos por cima de seus ombros largos. Os dedos acariciaram o pescoço e uma das mãos segurou a nuca, puxando-o para mais perto. Faith mordeu de leve os lábios que a beijavam. Beijo por beijo, mordida por mordida, lambida por lambida. Um gemido se formou em seu peito, cresceu na garganta, escapou como um som de doce agonia. A tensão que havia crescido entre eles nos últimos dias até se tornar uma enorme entidade explodiu como um jorro de lava derretida. Ela moveu as mãos para a frente do corpo, pelo peito dele, até puxar a camisa. Queria sentir a pele nua. Impaciente, puxou até tirá-la de dentro da calça jeans. Depois, introduziu a mão por baixo da bainha e tocou sua barriga. Ele se encolheu, a boca parou sobre a dela. As mãos de Faith subiram, deslizaram sobre os músculos do peito, empurraram a camisa. Gray segurou sua cabeça, enterrou os dedos em seus cabelos, e os polegares tocaram suas faces. Havia força no toque. Uma força pela qual ela ansiava, de que precisava, e que queria tanto que a vontade era quase uma dor física. Ela choramingou contra os lábios quentes quando não retomaram o beijo apaixonado. Em vez disso, ficaram ali parados, quietos. O corpo de Gray era tenso sob seus dedos, os músculos salientes no peito. — Gray — ela cochichou. Ele se afastou e fechou os olhos. Um palavrão grosseiro pairou no ar entre eles, azedando o momento. As mãos a soltaram e ele se levantou, a tensão transbordando dele como areia caindo de um balde. Gray mantinha a mão aberta sobre a nuca e a massageava como se quisesse diminuir a agitação. — Meu Deus, Faith. Sinto muito. Isso não devia ter acontecido. Ela o olhou confusa. — O quê? Eu queria que acontecesse. Você queria que acontecesse. Não sei por que tem que se


desculpar por isso. Ele foi para o outro lado da mesa e parou no meio da sala, os movimentos entrecortados e indecisos. Depois se virou para olhar para Faith. Seus olhos queimavam com uma infinidade de emoções. O desejo ainda ardia forte, por isso ela sabia que o problema não era ele não querer o que havia acontecido. Mas também havia arrependimento e... aversão por si mesmo? — Isso não devia ter acontecido — ele repetiu balançando a cabeça. — Tirei proveito de um momento em que você estava vulnerável, fraca. Que tipo de cretino isso faz de mim? Ela se levantou da cadeira. Os joelhos tremeram, e ela apoiou as mãos abertas sobre a mesa para equilibrar-se. — Estamos caminhando para isso há vários dias. Você sabe, eu sei. Era tão inevitável quanto respirar. Não me diga que não devia ter acontecido, porque sei muito bem que você queria tanto quanto eu. — Queria? — Ele riu. — Faith, eu quero tanto você que dói. Mas não devia ter acontecido. Eu não devia ter permitido. Depois disso ele se virou e saiu do escritório, deixando-a sozinha para pensar na estranheza da afirmação que havia acabado de fazer. Faith voltou à cadeira, as emoções dominadas pelo caos. Seus olhos encontraram o fio do telefone, e ela suspirou profundamente. Levantando-se, foi buscar o aparelho que havia arrancado em um ataque de raiva. Não podia nem calcular quantas ligações devia ter perdido enquanto se agarrava com Gray. Depois de alguns minutos de esforço, ela ligou novamente o telefone à tomada na parede e olhou com desconforto para o aparelho, torcendo para não ouvi-lo tocar. O silêncio se manteve, e seus ombros relaxaram com o alívio. Isso tinha que acabar. Esse estresse constante por causa das ligações da mãe tinha que parar. Celia finalmente havia entendido o recado e desistiria de tentar entrar em contato com ela? Faith não acreditava nisso, mas nunca havia enfrentado a mãe no passado. A última conversa devia ter sido tão chocante para Celia quanto fora para ela. Você tem uma vida. Não deve nada a ela. Está finalmente saindo da concha e reconhecendo seus desejos e suas necessidades. Não estrague tudo agora. Não era o melhor discurso motivador, mas não havia nele uma palavra que não fosse verdadeira. Tinha realmente uma vida. E estava satisfeita com ela. Finalmente começava a abrir as asas e sair das sombras do passado. Finalmente ia buscar aquilo que queria. Finalmente perdia o medo de olhar para um lado de si cuja existência negara por tanto tempo. Talvez Gray não fosse o que ela precisava. O que precisava podia estar por aí em algum lugar, fora do seu alcance, mas perto. Talvez encontrasse essa resposta hoje à noite. Não saberia até tentar.


Moderadamente mais calma depois do ataque de fúria, ela alinhou os ombros e fez uma promessa silenciosa a si mesma. Não deixaria a mãe derrubá-la de novo.


CAPÍTULO 13 Gray parou a caminhonete na frente do escritório e desligou o motor. Era tarde. Dez horas de uma noite de sexta-feira. Todo mundo devia ter planos que não incluíam se aproximar do prédio onde trabalhava. E era por isso que estava de volta. Ele saiu do automóvel e olhou desconfiado para a direita e para a esquerda. Não se deu o trabalho de parar no estacionamento do fundo, porque, se fosse visto, não queria dar a impressão de que tinha alguma coisa a esconder. Se Pop ou um dos outros passasse por ali, podia dizer simplesmente que havia esquecido alguma coisa. O ar frio o envolveu imediatamente quando entrou no prédio escuro. Gray desligou o sistema de segurança antes de seguir adiante, depois, sem se incomodar em acender as luzes, percorreu o corredor até sua sala. Esperar havia sido irritante, mas não podia ouvir as gravações das ligações de Faith até estar sozinho, e não queria correr o risco de ser descoberto. Ele se aproximou da mesa e inseriu a chave na fechadura que havia trocado para ser o único a ter acesso. Então se sentou e pegou o pequeno gravador digital. Gray ouviu várias ligações comerciais de rotina até chegar ao que realmente interessava. Depois se inclinou para a frente, determinado a decifrar cada som, cada palavra. Quando chegou ao trecho em que Faith perguntava à mãe “quem é esse?”, ele parou e voltou a gravação para ouvir mais uma vez. Na terceira tentativa, conseguiu ouvir a voz masculina ao fundo e a ameaça. Samuels. Só podia ser ele. Gray continuou ouvindo, abalado com a emoção que transbordava da voz de Faith, com os soluços baixos que soavam no ar quieto da noite à sua volta. Agora, sabia sem nenhuma sombra de dúvida que Faith não era cúmplice de nenhum plano criado por Celia Martin e Samuels. O alívio que sentia era revelador, mas também o atormentava saber que estava enganando uma mulher inocente. Ela era usada pela mãe, e agora era usada por ele também. Merda. Gray guardou o gravador na gaveta e a trancou. Depois se inclinou para a frente e apoiou os cotovelos na superfície de madeira polida. Ele passou as mãos na cabeça e fechou os olhos numa reação frustrada.


A mãe dela estava a caminho dali? Exploraria o fato de Pop ter dado dinheiro a ela no passado? E ela se incomodaria em envolver Faith, ou tiraria vantagem da intenção de Pop de proteger a filha? Que confusão. Eram muitas vidas envolvidas. E a justiça estava bem no centro de toda essa encrenca. Alex estava morto. O assassino tinha que pagar. O fim justifica os meios. Se pegasse o assassino de Alex, tudo isso valeria a pena. Até a raiva de Faith. Se estava realmente convencido disso, por que a culpa pesava tanto, então? Por que imaginava o sorriso doce de Faith, lembrava a sensação da pele contra a dele, dos lábios nos dele? E por que queria mais? Era estúpido e imprudente começar qualquer tipo de envolvimento romântico com ela. Gray bufou. Romântico? Quem falou alguma coisa sobre romance? Até onde sabia, querer trepar com uma mulher até cansar não entrava na categoria romance. Tinha muito em que pensar. Precisava telefonar para Mick. Juntos eles poderiam pensar no melhor plano de ação. Gray ainda não estava convencido de que ele e Mick estavam lidando com essa situação da maneira correta, mas com Billings ignorando-os e se recusando a investir os recursos necessários à prisão do assassino de Alex, Gray não via alternativa. Ele se afastou da mesa, levantou-se e caminhou para a porta. Quando passou pelo escritório de Faith, parou e voltou atrás. Era melhor se certificar de que a escuta continuava no lugar, caso a mãe dela ligasse de novo. Movendo-se com precisão, ele contornou a mesa no escuro e acendeu a pequena luminária para poder enxergar. Examinou o telefone e se certificou de que tudo estava no lugar. Depois, arrumou a mesa e a deixou exatamente como a havia encontrado. Seus olhos notaram a agenda aberta quando ele já estendia a mão para o botão da luminária. Em vez de apagar a luz, ele leu a anotação feita em vermelho. The House. 23 horas. Sexta à noite. E estava anotado na página de hoje, e abaixo da anotação havia um endereço no norte de Houston. O nome era familiar, e ele vasculhou a memória para entender por quê. Podia jurar que esse era o nome de um clube de sacanagem do qual Micah havia falado um dia na hora do almoço. Mas, se fosse isso mesmo, por que Faith havia planejado uma visita? Ele abriu a gaveta e pegou uma caneta e um pedaço de papel de um bloco, anotou o endereço e fechou a gaveta. Depois de apagar a luz, voltou ao próprio escritório e ligou o computador. Impaciente, batucava com os dedos enquanto esperava o sistema carregar. Assim que a tela se acendeu com os ícones que mantinha no desktop, ele clicou no do navegador e acessou um mecanismo de busca. Na barra de pesquisa, digitou o nome e o endereço que havia copiado da agenda de Faith e


esperou os resultados. Quando clicou no primeiro link, Gray resmungou um palavrão. A “casa” que Faith planejava ir visitar era a mesma que Micah conhecia. Por alguma razão, sabia que ela não era uma frequentadora regular, porque, se fosse, Micah teria notado. Por que ela havia marcado hora para visitar um clube de sacanagem? Não sabia o que acontecia lá? Bem, ele mesmo nunca havia pisado em um desses clubes, mas as coisas que Micah havia contado eram mais que suficientes para criar uma imagem bem nítida sobre o que acontecia por trás daqueles grandes portões de ferro. O que só podia significar que ela nem imaginava em que estava se metendo. E pensar em outro homem pondo as mãos nela despertava seu instinto assassino. Não queria nem pensar nos porquês e portantos dessa reação específica. — Jesus, Maria e José — Gray resmungou. — Controle-se. Devia ligar para Pop e deixar que ele mesmo ou Connor cuidasse disso. Mas, com a mesma rapidez com que esse pensamento surgiu em sua cabeça, ele o desprezou. Não era um moleque para sair correndo e fazer fofoca. Faith era uma mulher adulta. Talvez quisesse experimentar coisas novas. Não precisava constrangê-la induzindo o irmão a ir tirá-la daquele lugar. Restava ele. Não podia deixá-la se meter nesse tipo de situação. Ela era doce. Inocente demais para as coisas que a The House oferecia aos clientes. Com a sorte que ele tinha, ela acabaria como escrava sexual de alguém até o fim da noite. Pensar nisso o fez ficar em pé. Ele passou pela porta poucos segundos depois. A caminho da saída, digitou os códigos de segurança antes de deixar o prédio e caminhar para a caminhonete. No caminho, ligou para Micah do celular. O maldito clube era exclusivo, e não conseguiria entrar sem a ajuda do colega. Talvez não conseguisse entrar de jeito nenhum. Mas não deixaria de tentar. Ligou para o telefone fixo e para o celular de Micah, mas não obteve sucesso. Grunhindo de frustração, pisou no acelerador e seguiu para o prédio de apartamentos. Quando entrou no estacionamento alguns minutos mais tarde, viu a caminhonete de Micah parada na frente do apartamento dele. Faith já havia saído. Ele saltou do veículo e correu para a porta de Micah, bateu com força e esperou. O vizinho não atendeu imediatamente, e ele bateu com mais força. Alguns segundos depois a porta se abriu e Micah apareceu com uma toalha enrolada na cintura. Ele olhava furioso para Gray. — É bom que seja importante, Montgomery. Antes que Gray pudesse responder, ele ouviu uma voz feminina no fundo do apartamento perguntando quem estava lá. Micah virou-se e levantou uma das mãos. — Só um minuto, nenê. Gray suspirou. Interromper Micah em pleno ato sexual não devia ser tão incomum,


considerando que ele levava uma mulher para casa um dia sim, um dia não. Não tinha tempo para essa porcaria. Micah virou-se para encará-lo outra vez com expressão furiosa. — Que porra você quer? — perguntou. — Preciso de você para entrar na The House, ou sei lá como chamam aquele lugar. Micah piscou algumas vezes. Boquiaberto, ele era a imagem clara da incredulidade. — Veio até aqui às onze da noite porque tem uma vontade que quer satisfazer? — Eu não, idiota. Aparentemente, a Faith marcou uma visita. Já deve estar lá. A expressão de Micah passou rapidamente da intensa irritação ao evidente interesse. Ele levantou a mão. — Ei, ei, espere um minuto. A Faith vai à The House? — É o que estou tentando dizer — Gray confirmou impaciente. — Tem algum jeito de me ajudar a entrar lá? Conhece alguém, ou alguma coisa assim? Micah ignorou a pergunta de Gray e balançou a cabeça, confuso. — Que diabo ela foi fazer lá? Aquilo não é lugar para uma garota como ela. Gray abriu os braços e grunhiu frustrado. — Tudo bem, tudo bem, escute — disse Micah, levantando as duas mãos para acalmá-lo. — Vou me vestir. Eu levo você até lá, vamos ver o que está acontecendo. — Não. Micah o olhou surpreso. — Eu vou. Só preciso que me ajude a entrar — Gray foi enfático. — Além do mais, você tem que dar atenção à visita. Eu cuido da Faith. Micah o encarou por um longo instante, como se o avaliasse. Seus olhos ficaram mais estreitos, e ele franziu a testa. — Que diabo está acontecendo entre você e a Faith? Gray suspirou. Estavam perdendo muito tempo. — Nada, não está acontecendo nada entre mim e a Faith. Só me preocupei quando soube aonde ela ia. Acho que ela não imagina em que está se metendo. Não quero que ela se dê mal. — Nisso estamos de acordo. Vai na frente. Sabe onde fica o clube? Gray assentiu. — Tudo bem, vá. Eu telefono e providencio tudo para você entrar. Sou amigo do dono. Gray se virou sem responder e correu de volta à caminhonete. Sentia-se meio bobo por fazer tanto escândalo com isso, e corria o risco de parecer ainda mais idiota por ter ido procurar Micah desse jeito, mas não conseguia se livrar da sensação de que Faith estava dando um passo maior que a perna.


CAPÍTULO 14 Faith parou diante do portão da grande casa no topo da colina. Quando viu o pequeno painel de segurança, ela abaixou o vidro da janela e se debruçou para apertar o botão. — Pois não? — perguntou uma voz educada. Ela inspirou nervosa. — Marquei uma visita. Meu nome é Faith Malone. — Pode entrar, srta. Malone. O portão se abriu lentamente, e ela começou a progredir, acelerando para subir pela alameda sinuosa. Quando parou perto da casa, ela viu um estacionamento afastado que não podia ser visto da entrada. Um grande muro de tijolos coberto de folhagem separava o terreno do amplo gramado frontal. Ela dirigiu o carro para o outro lado da divisória e estacionou em uma vaga ao lado de um reluzente Mercedes. Quando desceu e viu a seleção de carros caríssimos, Faith olhou meio acanhada para seu Honda Accord. Que tipo de gente se reunia ali? Eram todos ricos, gente entediada em busca de novas sensações? — Nada como generalizar — resmungou, e se dirigiu à porta dupla de madeira. Antes que pudesse levantar a pesada argola de metal para bater, a porta se abriu e ela se viu diante de um homem bonito e bem-vestido. Tudo bem, bonito era pouco. Um homem muito bonito. Ele sorria. — Você deve ser a Faith. — E estendeu a mão. — Eu sou o Damon. Ela apertou a mão dele e retribuiu o sorriso. Parte do nervosismo se dissipou. — É um grande prazer conhecer você. Tenho a sensação de que já nos conhecemos, depois de todos os e-mails que trocamos nessa semana. Ele riu. — Por favor, entre — convidou. Ela aceitou o convite, mas parou ao passar pela porta. Esperava que ele a precedesse. O saguão era decorado com elegância, a iluminação suave o suficiente para dar ao interior uma atmosfera


acolhedora e convidativa, mas não era fraca a ponto de criar um clima sinistro. Damon colocou-se ao lado dela e tocou suas costas. — Por aqui. Nossa primeira parada será a sala de estar, onde você vai poder relaxar um pouco e beber alguma coisa. Ele a levou a uma sala menor logo além do saguão. O interior era clássico, mas confortável. Um grande tapete oriental cobria o piso de madeira brilhante e terminava bem na frente de um sofá de couro marrom. À direita havia duas poltronas estofadas e muito fofas, do tipo que engole a pessoa assim que ela se senta. — Sente-se. Quer uma taça de vinho? Faith assentiu e se encaminhou a uma das poltronas de aparência confortável. — A propósito, gostei muito do que decidiu vestir. Ela se virou e sentiu o rosto quente ao ver os olhos dele descerem e subirem por suas pernas nuas. Os lábios de Damon se distenderam num meio sorriso antes de ele se aproximar da parede e pressionar um botão do que parecia ser um sistema de intercomunicação. Faith olhou para a saia justa que cobria suas pernas até cerca de cinco centímetros acima dos joelhos. Os sapatos, bem, tinha que admitir, eram só para exibir. Em um momento de pura fraqueza, gastara uma pequena fortuna em um sapato do tipo sexo sobre saltos. Mas quando os calçava se sentia sexy, vibrante e um pouco má. Tudo bem, muito má. Com um sorrisinho, ela se acomodou na poltrona de couro macio e se forçou a relaxar. Damon voltou alguns segundos mais tarde. Momentos depois de ele ter se sentado no sofá na frente da poltrona de Faith, a porta se abriu e um homem que parecia ser o mordomo de um filme inglês entrou carregando uma bandeja. Ele se inclinou e ofereceu a ela uma das taças de cristal. Faith arregalou os olhos e sorriu para aquele homem tão recatado. Estava só um pouco desapontada por ele não ter um sotaque britânico. Faith serviu-se de uma taça e a aproximou do nariz para sentir o aroma do vinho. O mordomo serviu Damon, depois inclinou a cabeça para ela e se retirou. — A maioria de sua clientela deve ser muito rica — Faith comentou antes de beber o vinho. Damon riu. — Tudo é uma questão de aparência. Se quer atrair a clientela rica, precisa se estabelecer no nível dela. — Você certamente se veste para isso. — Ela apontou com tom seco, olhando para a camisa de seda claramente cara e a calça de grife. Damon sorriu preguiçoso. — Está confortável? Faith piscou, estranhando a súbita mudança de assunto. Depois de refletir por um momento,


percebeu que não estava mais nervosa como antes. Mas isso devia ser parte do plano. Embebedar o cliente em potencial até que ele deixe de se preocupar com o tipo de encrenca em que está se metendo. O pensamento a fez rir. Damon a olhou com ar divertido. — Realmente, você é tão deliciosa em pessoa quanto pareceu por telefone e pelos e-mails. Estava contando com uma decepção. Fico feliz por não ter me desapontado. Faith ficou vermelha, com o rosto quente sob o olhar penetrante. Ele se inclinou para a frente e pôs sua taça sobre a mesa de mogno. — A casa é dividida em dois andares. O andar de baixo é onde acontece toda a socialização. Promovemos uma atmosfera muito tranquila e relaxada. As salas são preparadas para que os clientes circulem, se conheçam, conversem. Temos diretrizes bem firmes para o que ocorre no piso térreo. Ela levou a taça aos lábios e bebeu um longo gole de vinho. Borboletas dançavam em seu estômago enquanto o escutava. Estava mesmo ali para mergulhar de cabeça em... o quê? Nem sabia direito. — O segundo andar é onde a ação acontece, podemos dizer. São vários cômodos. Alguns privados, outros abertos ao público. Tem uma sala principal bem ampla cujo espaço é dividido em diversas seções. Essa é a área comum, onde vai encontrar várias atividades concentradas em um lugar. Alguns clientes gostam do aspecto público da coisa, enquanto outros preferem e exigem total privacidade. Atendemos aos dois grupos. Faith inclinou o corpo para a frente com interesse, sua curiosidade insaciável. — E o que acontece nessas áreas públicas? Damon sorriu. — Qualquer coisa e tudo. Precisa estar preparada para qualquer possibilidade. The House é um lugar onde você deve se livrar de suas inibições. Quando passa por nossas portas, você é livre para se tornar outra pessoa ou, como suspeito que seja seu caso, aceitar quem realmente é. Aqui ninguém é julgado. Somos muito abertos, aceitamos todos os estilos de vida. — E as qualificações para se associar. Você disse que o clube é muito seletivo. Presumo que isso signifique que os membros são investigados e que as “atividades” aqui são monitoradas para garantir a segurança? — Excelente pergunta — disse Damon com um olhar de aprovação. — Nossos membros são submetidos a um severo processo de investigação. Fazemos extensivas verificações e pesquisas. Não aceitamos ninguém com antecedente criminal, seja qual for o crime. Todos os cômodos são monitorados por nossa equipe. Os que se reúnem nas áreas públicas sabem que há funcionários do clube presentes o tempo todo. Os que preferem acomodações privadas, bem, nem eles têm


total privacidade, porque mantemos câmeras em todos os aposentos, e a equipe as monitora o tempo todo. Não só nos dedicamos a oferecer um ambiente onde os membros possam viver suas fantasias e suas escolhas, como garantimos a segurança de todos e cada um dos participantes. Faith estava espantada. — Isso parece ser muita garantia. Damon assentiu. — Sim, mas estamos cem por cento comprometidos com o cumprimento dessa promessa. Não hesitamos em interferir em uma situação que envolva risco à segurança de um ou mais membros. Faith estava impressionada com a confiança e o ar de autoridade de Damon. Na verdade, ele conseguiu eliminar a sensação de que ela era uma maluca se esgueirando por um clube de sexo barato em busca de prazeres vulgares. — Pronta para continuar a visita? — ele perguntou. Faith engoliu em seco e deixou a taça sobre a mesinha ao lado da poltrona. — Sim. Sim. Acho que estou.


CAPÍTULO 15 Ele se levantou e estendeu a mão. Faith a aceitou e se levantou com sua ajuda. As pernas tremiam, e ela esperava poder andar sem bater um joelho no outro. Descobria que não estava tão nervosa, mas muito animada. Intrigada. E muito excitada. — Estarei com você a cada passo do caminho. Se tiver alguma pergunta, alguma preocupação, será um prazer ajudar. Faith sorriu. — Tudo bem. Estou pronta. Ele colocou a mão dela sobre um braço e a levou para fora da sala de estar. — Primeiro vamos visitar as salas sociais no térreo. Você vai ter uma ideia de como as coisas são relaxadas por aqui. Ninguém espera que interaja ou cumprimente as pessoas, a menos que seja sua vontade. Todos aqui estão bem acostumados à circunspecção. Ela apertou o braço dele com os dedos. Damon a olhou curioso. — Sou muito grata por tudo que está fazendo para me deixar à vontade. Se age assim com todos os membros, posso entender por que seu estabelecimento faz tanto sucesso. Ele sorriu e pousou a mão sobre a dela. — Só espero que encontre o que está procurando. Eu também espero. Eles entraram em uma sala maior onde várias pessoas conversavam sentadas ou em pé. Era um ambiente de festa, mas sem o barulho. Era mais como uma reunião elegante onde a conversa era baixa, discreta. Havia música de piano ao fundo, e um garçom andava entre as pessoas servindo taças de vinho e canapés. Alguns olhavam para Damon e sorriam, mas ninguém se aproximou dele. — Esta é a principal sala de reunião. Normalmente, é a primeira parada para quem vem à The House. Daqui as pessoas vão embora ou sobem em busca de outros interesses. Nem sempre é sexo ou diversão. Muitos membros vêm aqui para encontrar pessoas de pensamento semelhante e conversar. Eles passaram mais alguns momentos percorrendo a sala, e Faith se esforçava muito para não estudar os outros membros. Nenhum deles a encarava ou olhava com curiosidade. Mesmo assim,


não resistia a olhares rápidos pelo canto dos olhos. Era uma mistura interessante de pessoas. Algumas se vestiam com elegância extrema, enquanto outras adotavam um visual mais casual. Jeans, camisetas, tênis. Faith estava satisfeita por ter encontrado o equilíbrio entre o megacasual e o arrumado demais. Para seu alívio, não havia ali nem sinal das fantasias de couro que, admitia constrangida, esperava ver. Para sua surpresa ainda maior, as pessoas se reuniam e interagiam como pessoas comuns, corriqueiras. Talvez esperasse réplicas das esquisitices que encontrara navegando na internet, mas, evidentemente, não veria nada disso ali. Damon tocou seu braço, e Faith olhou para ele. — Pronta para seguir em frente? Ela assentiu, e ele a levou para fora da sala e pelo corredor para um ambiente menor, mais íntimo. Ali a maioria estava sentada em grupos bem próximos. Dois homens ocupavam uma namoradeira, e uma mulher estava sentada no colo de um deles conversando com os dois. O segundo homem acariciava sua perna, enquanto o outro mantinha uma das mãos sobre seu quadril. Faith sentiu o rosto quente outra vez. Era óbvio que a mulher tinha a atenção dos dois homens. Um sorriso satisfeito encurvava seus lábios. A cena na sua frente prendia a atenção de tal forma que ela teve que fazer um grande esforço para desviar o olhar, analisar os outros ocupantes da sala. A alguns metros dela, um homem grande virou-se e, ao ver Damon, sorriu. Ele acenou e os chamou com um gesto. Faith viveu um momento de pânico quando Damon começou a andar em direção ao desconhecido. Damon olhou para ela e sorriu. — Tudo bem — murmurou. Eles se aproximaram do homem, que estudava Faith com interesse declarado. Era mais velho. Não velho, mas mais velho que ela. Devia ter quase quarenta anos. — Damon, é bom ver você — o homem falou estendendo a mão. Damon respondeu com um sorriso largo e apertou a mão dele. — Tony, é um prazer rever você. — E olhou para Faith. — Faith, este é o Tony. Tony, esta é a Faith, minha convidada especial esta noite. Ela se arrepiou quando o olhar penetrante de Tony a percorreu. Ele estendeu a mão lentamente em sua direção. — É um grande prazer conhecer você, Faith. Quando ela segurou a mão estendida, em vez de apertá-la, ele a aproximou dos lábios e beijou. Faith corou violentamente.


Tony riu encantado ao soltar sua mão. — Adoro uma mulher que fica vermelha. — Não vamos tomar seu tempo — Damon disse a Tony. — Tenho uma visita para acompanhar. — Foi muito bom conhecer você, Faith. Espero te ver de novo — Tony falou em voz baixa. O convite direto provocou outro arrepio. Seu estômago ferveu com a ansiedade nervosa, e ela se sentiu grata por Damon já estar se afastando e puxando-a para longe dali. Seus dedos seguravam o braço dele com um pouco mais de força quando Damon a levou para a escada. No caminho, eles passaram por mais duas salas onde as pessoas se dividiam em grupos menores para conversar e socializar. — Pronta? — ele perguntou quando chegaram ao pé da escada. Faith respirou fundo e tentou controlar todas as borboletas e os sobressaltos no estômago. — Pronta. Ele sorriu e começou a subir. Quando chegaram ao topo da escada, Faith se surpreendeu ao ver uma porta fechada. Damon segurou a maçaneta. — Aqui as paredes são à prova de som. É para reduzir ao mínimo as distrações. Quando Damon abriu a porta, Faith ouviu o burburinho de vozes. Ela se esforçava para ouvir mais enquanto caminhavam pelo corredor. Passaram por várias portas fechadas, e Damon não fez menção de abrir nenhuma. Deviam ser as acomodações privadas que ele havia mencionado. O que ela não daria para saber o que estava acontecendo atrás daquelas portas fechadas. Quando seguiram em frente pelo longo corredor, outros sons chamaram sua atenção. Ruídos curiosos. Gemidos, algumas exclamações, uma palmada. Os sons foram ficando mais e mais altos, até ela e Damon pararem além da porta de uma grande sala comunitária. Não havia ali divisórias de verdade, mas a sala era separada em várias seções criadas simplesmente com o arranjo dos móveis. A decoração também era diferente em cada segmento. Mulheres, homens, alguns nus, outros não, alguns abraçados, outros em posições cujo propósito ela não conseguia discernir, se espalhavam pela sala. Damon parecia compreender que ela precisava de tempo para processar a enxurrada de imagens que era muito intensa e rápida para ser digerida imediatamente. — Vamos começar pela direita — ele murmurou. — Vamos fazer a volta toda. Damon parou quando alguém tocou seu braço e se inclinou para cochichar alguma coisa em seu ouvido. Parecia ser alguém que trabalhava no clube, embora ela não pudesse ter certeza. Ele franziu o cenho e tocou as costas de Faith na linha da cintura. — Preciso atender um telefonema, não vou demorar. O Joseph vai ficar aqui até eu voltar. Com a mão livre, ele afagou a dela antes de se afastar pelo corredor. Joseph ficou parado ao lado dela, atencioso, enquanto Faith deixava o olhar passear pela sala.


Eram tantas informações que tinha dificuldade para processar todas elas. Imediatamente à direita, onde Damon pretendia começar a volta pela sala, dois homens se abraçavam com paixão sobre uma estrutura que lembrava um móvel típico de um quarto japonês. Apesar dos beijos quentes, ávidos, eles se despiam lentamente, de um jeito comedido. Quando percebeu que olhava para a cena sem nenhuma discrição, ela desviou o olhar, constrangida. — Tudo bem — Joseph cochichou perto de sua orelha. — Ninguém nas áreas públicas se incomoda com os olhares. Muitos frequentadores observam regularmente essas demonstrações. O voyeurismo é um prazer sexual legítimo. Ela encarou Joseph, e uma onda de calor subiu por seu pescoço até queimar as orelhas. A simples palavra voyeur parecia feia e meio nojenta. Joseph sorriu paciente como se entendesse seu desconforto. E, mesmo embaraçada por ter olhado para os dois homens com tanta curiosidade, ela voltou a olhar para eles. A imagem do abraço erótico entre os dois a fascinava. Seus olhos se abriram um pouco mais quando um deles abriu a calça do outro, libertando a ereção túrgida. Sua boca se entreabriu, um pouco pelo choque, um pouco porque respirava superficialmente, mais depressa que de costume. Quando o primeiro homem moveu os lábios suavemente pelo membro do outro, Faith sentiu o coração acelerar. A ideia devia ser repugnante. Alguma coisa dizia a ela que devia, mas, rapidamente, ela se livrou dessa impressão absurda. Os olhos do homem se voltaram em sua direção, e por um momento se encontraram com os dela. Devia desviar o olhar, mas não conseguia. Um sorriso manso e secreto distendeu os lábios dele quando a boca começou a se mover para cima e para baixo pelo membro do amante. E ele piscou para Faith de um jeito provocante. Ela riu e piscou de volta, censurando-se prontamente por ter sido tão atrevida. Faith pulou quando Damon tocou-lhe o braço. Não havia nem percebido seu retorno. Ele sorriu. — Peço desculpas. Tive que atender ao telefonema de um dos nossos associados. Pronta para continuar? Ela olhou mais uma vez para os dois homens se amando sobre o tatame coberto de seda, depois assentiu. A área seguinte tinha dois casais, um no sofá, outro no chão em meio a almofadas. A mulher no sofá estava deitada de costas, as pernas abertas e estendidas em direção ao homem ajoelhado na frente dela. A cabeça dele cobria sua vagina, e ela o agarrava pelos cabelos e o mantinha ali. A mulher no chão estava de quatro, e o homem a penetrava por trás. — Troca de parceiros — Damon explicou em voz baixa. Faith arregalou os olhos.


— Está falando em swing? Damon sorriu. — Acho que podemos colocar dessa maneira. Ele segurou seu cotovelo com uma das mãos e, com a outra, apontou uma área em um canto. — Acho que pode se interessar pelos próximos. Quando levantou a cabeça e viu o que ele apontava, Faith sentiu a boca seca. Uma mulher estava amarrada à cama, com os braços estendidos e presos à cabeceira. Ela estava amordaçada e com os olhos vendados. Um homem mantinha suas pernas abertas e seus tornozelos sobre os ombros enquanto a penetrava com movimentos firmes. Apesar da mordaça, Faith ouvia os gemidos de prazer. O som abafado associado aos estalos das coxas do homem batendo na parte de trás das pernas femininas era incrivelmente erótico. Um arrepio brotou do estômago de Faith e desceu até a área entre suas pernas, enrijecendo o clitóris. Os mamilos endureceram e se tornaram botões salientes. Ela cruzou os braços sobre o peito, tentando esconder a reação visível à cena que se desenrolava diante dela. Seus olhos estavam fixos no casal, e não conseguia se desvencilhar da imagem e dos sons que eles ofereciam. Surpresa, Faith viu outro homem se aproximar da cama segurando o membro ereto. O primeiro homem se afastou da mulher, e o segundo se posicionou entre as pernas dela e a penetrou imediatamente. O primeiro homem começou a brincar com os mamilos da mulher, apertando-os entre os dedos. Um segundo depois ele se abaixou e começou a sugá-los e mordêlos, enquanto o segundo se movia dentro dela. O tempo todo a mulher se contorcia, os braços testando a força das amarras. Os olhos de Faith estavam colados às cordas nos pulsos, e uma dor peculiar se instalou em seu peito quando ela se imaginou no lugar daquela desconhecida. — Você gosta disso — Damon constatou em voz baixa. Faith assentiu, incapaz de falar. — Então, venha comigo. Ainda tem mais. Ela o seguiu, apesar da relutância em se afastar do trio. Queria assistir à interação até o fim. Até os homens explodirem e darem à mulher o alívio esperado. Eles caminharam para o fundo da sala, do outro lado em relação à porta por onde haviam entrado. Faith inclinou a cabeça com curiosidade quando um homem fez uma mulher se ajoelhar diante dele. Ele abriu o zíper da calça e libertou o membro. Com a mão livre, segurou o queixo da mulher ajoelhada e levantou sua cabeça até a boca roçar a ereção. — Abra — ordenou. Ela obedeceu.


O homem empurrou o quadril para a frente, introduzindo o pênis em sua boca. A mão ainda a segurava pelo queixo, e o polegar pressionava um lado do rosto para manter a boca aberta. Com a outra mão ele segurou a parte de trás de sua cabeça, os dedos agarrando os cabelos enquanto ele estocava com força na boca. Por vários e longos segundos, o único ruído foi o da boca molhada sugando. A imagem a afetou mais que a ação. Ali estava um homem que, obviamente, exercia controle sobre as mulheres. Não era ruidoso ou ofensivo, dava suas ordens em voz baixa, mas havia nele uma autoridade que fez Faith se arrepiar. De repente o homem recuou. — Levante-se — ordenou à mulher. Ela ficou em pé sobre as pernas trêmulas, os seios nus balançando no ritmo da respiração. Ele pegou uma pá de madeira sobre uma mesa próxima e, com um gesto da mão, disse a ela para se mover. Faith a viu se aproximar de um objeto de forma estranha, uma estranha mistura de metal e estofamento de couro. No centro havia uma depressão que lembrava uma sela de montaria invertida. A utilidade do objeto ficou clara quando a mulher se dobrou sobre ele, o abdome acomodado na depressão. As pernas descansavam contra o V invertido que se erguia na frente da sela, e o corpo era sustentado na mesma linha do aparato. A cabeça pendia do outro lado e os braços caíam nas laterais, as mãos agarradas à base para apoiá-la. Faith olhou para o homem, que contornava o aparelho para se aproximar da mulher por trás, os passos lentos e calculados. Os dedos envolviam o cabo do instrumento que lembrava uma antiga palmatória de disciplina. A outra mão segurou e acariciou o traseiro nu da mulher. De repente ele levantou a pá e bateu com ela sobre uma nádega. Faith pulou quando o estalo soou estridente. A mulher também pulou e, com um gemido, acomodou-se novamente na posição inicial. — Não deve fazer nenhum barulho — o homem ordenou. E bateu novamente, agora na outra nádega. Faith sentiu o sangue subir à cabeça, ouviu a pulsação ecoando nas têmporas. Os dedos tremiam, e ela fechou as mãos junto do corpo. O homem continuou com seu espetáculo de dominação, e Faith teve pouco tempo para pensar em sua reação extrema àquela cena em particular. Estava ocupada demais absorvendo todas as informações, experimentando a excitação que a confundia. — Diga, gostaria de experimentar? — Damon perguntou.


CAPÍTULO 16 Faith desviou o olhar do casal e olhou surpresa para Damon. — Não entendi. — Gostaria de estar no lugar dela? — ele explicou, apontando a mulher que era espancada. — De todas as cenas que viu, tenho a impressão de que sua sintonia foi maior com esta. Está aqui para explorar seus desejos. O que pode ser melhor do que experimentá-los em primeira mão? — Isso é permitido? — ela perguntou incrédula. Damon sorriu paciente. — Não fazemos escolhas pelos membros ou associados em potencial. Você está aqui para decidir se isso é algo que quer. Eu só quero ajudar nessa decisão. Considere como um test drive que você pode fazer antes de comprar um carro. Ela riu. Não conseguia evitar. A ideia de comparar sua nudez diante de estranhos a um test drive era ridícula. Mas, quando olhou em volta e viu as pessoas que estavam naquela sala, pensou que ninguém ali parecia dar muita importância à nudez. Ela era a única de boca aberta como uma criança em uma loja de doces. — O que eu faço? — sussurrou. Seria mesmo capaz disso? Queria. Disso não tinha dúvida. Mas a ideia de pôr esse desejo em prática quase a fazia vomitar de nervoso. Damon tocou seu rosto e massageou o queixo com um dedo como se quisesse acalmá-la. — Vou estar aqui o tempo todo. Vou ajudar você a se despir, vou ficar ao seu lado. Pode fazer muito ou pouco, como quiser. Só estou aqui para monitorar, me certificar de que não vai se machucar e de que não vai ser forçada a fazer o que não quer. Essas são as únicas regras. O resto é válido. Ela engoliu, fechou os olhos e, quando os abriu novamente, descobriu que ele a encarava. Então, ela assentiu. — Tudo bem. Sim. Eu quero muito. Damon sorriu. — Ótimo. Viu? Já está assumindo o controle sobre seus desejos. Os olhos dela percorreram a sala mais uma vez. Para seu alívio, ninguém parecia prestar atenção a ela. Tinha uma imagem constrangedora de todo mundo parando o que fazia para olhar


para ela. Damon acenou para o homem, que parou e assentiu. Em seguida ele tocou o ombro da mulher e a ajudou a se levantar. Para surpresa de Faith, ele a beijou antes de fazer um gesto convidando-a a se retirar. — Não estou interferindo em um relacionamento, estou? — Faith perguntou hesitante. Damon balançou a cabeça e apoiou as mãos em seus ombros. — Agora vou te despir. Tem certeza de que quer isso mesmo? Ai, droga, por favor, não podia vomitar. Ela inspirou profundamente pelo nariz e assentiu. Damon deixou as mãos escorregarem de seus ombros até a cintura da saia. — Vire-se — ordenou com tom suave. Ela fez como ele dizia, tremendo com a voz firme. Damon sabia quanto o ar de autoridade a excitava? Devia saber. Era seu único confidente nessa aventura, o que era estranho, considerando que eram praticamente estranhos. Ou eram amigos virtuais, já que só se falavam pela internet. Uma risadinha nervosa enroscou em sua garganta, e ela a engoliu. Os dedos abriam o botão e o zíper de sua saia. A peça caiu em torno de seus pés. Ela não olhou para baixo. Não olharia para baixo. Não queria se ver de blusa, calcinha e sapatos altos. — Vire-se de volta — ele ordenou. Lentamente, Faith atendeu ao comando com os olhos fixos no chão. Segurando o tecido da blusa de seda entre os dedos, ele a puxou para cima. — Levante os braços — disse. Ela obedeceu, e Damon a despiu. Ela fechou os olhos e cruzou os braços sobre toda a pele nua que conseguia cobrir. — Braços abaixados. De novo, a voz provocou arrepios. Devagar, ela deixou os braços caírem ao longo do corpo até estar parada diante dele vestindo apenas calcinha e sutiã. — Abra os olhos. Olhe para mim — disse Damon. Ela abriu um olho, depois o outro. Atrás de Damon, o homem com a pá olhava para ela, os olhos castanhos escurecidos pelo interesse. — Você é uma bela mulher, Faith. Aceite. Não se envergonhe disso. Damon puxou as alças do sutiã e as abaixou. Depois, deu um passo à frente e a envolveu com os braços para abrir o fecho. O sutiã caiu, e sua reação imediata foi cobrir-se com as mãos. Mas Damon agarrou seus pulsos. — Não. A palavra a atingiu em cheio, e ela continuou onde estava, os joelhos tremendo, esperando pelo resto. — Tire os sapatos — ele a orientou com tom calmo.


Faith os tirou e empurrou para o lado com um pé. As mãos dele deslizaram pelas laterais de seu corpo até o quadril, e os dedos se enroscaram no elástico da calcinha. Devagar e de maneira metódica, ele a abaixou até a peça cair no chão. Oh, Deus, estava nua. Seria possível ter um rubor de corpo inteiro? Porque se sentia quente e vermelha da cabeça aos pés, e podia apostar que a pele estava corada. As mãos de Damon voltaram ao seu quadril. Os dedos roçaram sua pele levemente quando subiram até os seios. Ele segurou as saliências macias e esfregou os polegares sobre os mamilos até deixá-los duros, salientes. Um calor líquido se acumulava entre as pernas de Faith, e ela queria muito deslizar os dedos até o clitóris e aliviar o ardor doloroso. Então Damon a segurou pela mão e a virou para o homem em pé atrás dele. — É toda sua, Brent. Faith engoliu em seco e esperou a ordem do homem. Os olhos de Brent a estudaram com interesse. Ela sentiu aquele olhar em partes de seu corpo que já formigavam e pulsavam. — Venha para mim — ele falou. Faith se aproximou com passos hesitantes. Ele apontou o mesmo equipamento sobre o qual a outra mulher estivera deitada. — Barriga para baixo, braços nas laterais, pernas abertas e alinhadas com os pés da banqueta. Ela mordeu o lábio, mas fez como ele dizia e encaixou a parte central do corpo no apoio de couro morno. Inclinada para a frente, sentiu as mãos de Damon em suas costas, ajudando a colocá-la na posição correta. — Se quiser parar, é só falar. A qualquer momento — Damon avisou bem perto de sua orelha. — Vou estar aqui. Outra mão, essa desconhecida, acariciou seu traseiro. A natureza puramente proibida do toque íntimo de um estranho devia ser mais excitante. Suas pernas tremiam, mas a carícia de Brent não incendiou seus sentidos. Sem nenhum aviso, a pá encontrou sua nádega com um barulho alto. Ela pulou. O contato a assustara. Depois, franziu o cenho. Não queria uma pancada forte, dolorosa, mas o golpe não havia tido nem a intensidade de um tapa. A pá desceu novamente, desta vez na outra nádega, como ele havia feito com a outra mulher. Faith ainda mantinha o cenho franzido. Era só isso? As terminações nervosas estavam em brasa com a antecipação. Queria... não, precisava de alguma coisa, embora não soubesse ao certo o que era. Algo mais intenso, mais extremo. Não esse tapinha na bunda. Mais um golpe, e lágrimas de decepção surgiram em seus olhos. Ela levantou a cabeça, pronta para pedir a Damon para interromper a experiência, e os olhos passaram pela porta de entrada


da sala. A exclamação que escapou de sua garganta nada tinha a ver com o golpe que acertou um lado de seu corpo. Em pé na entrada, com os olhos cravados nela, ela viu Gray.


CAPÍTULO 17 Gray estava na porta de braços cruzados, com uma expressão feroz no rosto. Que diabo ele estava fazendo ali? Faith foi dominada pela mortificação quando ele continuou olhando para ela, radiando uma tensão que se espalhava em ondas. Mas ela balançou a cabeça. Não, não tinha nada de que se envergonhar. Não sabia que diabo ele estava fazendo ali e nem queria saber. Encarou-o desafiante, decidida a não se deixar intimidar. Depois, abaixou a cabeça devagar e fechou os olhos. A decepção a inundou quando outro golpe da pá de madeira atingiu sua nádega. Não era real. Nada disso era real. Uma lágrima escapou e caiu no chão sob sua cabeça. Evidentemente, tudo ali era um espetáculo, um show mais para o espectador do que para o participante. Ou não servia para ela, simplesmente. Sentira estar tão perto. Como se estivesse a um passo de alguma coisa. A pele se arrepiou com a necessidade. Estava inquieta, agitada, e já havia visto o suficiente. Mais uma vez, ela levantou a cabeça e abriu a boca para interromper o processo. Mas continuou de boca aberta quando viu Gray parado a menos de um metro de distância, os olhos ardendo com a promessa... de quê? Brent recuou e caminhou em direção a Gray. Pelo canto do olho, ela viu os dois homens se estudando. Em seguida Gray olhou para Damon. — Posso? — ele perguntou, mostrando a pá na mão de Brent. Damon balançou a cabeça decidido. — De jeito nenhum. — Pergunte a ela — Gray exigiu com voz firme. — Pergunte se ela quer. — Os olhos azuis acariciavam o rosto de Faith, a desafiavam, tentavam atraí-la para a isca. Deus, queria que Gray batesse nela? Seu corpo formigou, o sangue rugiu como um rio caudaloso em seus ouvidos. Ela engoliu e tentou respirar, apesar da língua pesada. Damon olhou dela para Gray, e seu rosto expressava dúvida. — Faith? Isso é algo que você quer? Ele não é associado. Será acompanhado à saída. Só precisa dizer que é isso que quer. Ela lambeu os lábios secos, tentando desesperadamente encontrar a coragem necessária para ir


buscar o que queria. Lentamente, assentiu. — Não, Faith. Preciso ouvir sua resposta. Tem que me dizer o que quer — insistiu Damon. — Sim — ela sussurrou. — Sim — repetiu mais alto. — Por favor. A voz tremia, e Faith relaxou o pescoço por um momento, sentindo o desconforto de sustentar a cabeça erguida. Era maluca. E essa decisão era a prova final. Mas Brent não a estava ajudando. Mesmo depois de toda a excitação provocada pelo que vira, assim que Brent a tocara ela havia murchado, perdido o gás como uma Coca aberta há um dia. A ideia de Gray tocá-la, de ser ele o dominador... Ela se arrepiou e sentiu a umidade entre as pernas. A mão firme segurou seu queixo e a fez levantar a cabeça. Faith se deparou com os olhos de Gray, olhos penetrantes que não se desviavam dela. — Você aguenta, Faith? Agora ele a desafiava. Ela estreitou os olhos. — Não faça joguinhos — Gray continuou. — Eu levo você aonde quiser ir, mas tem que estar disposta a chegar lá. Gray a encarou por mais um longo instante antes de soltar seu queixo. Ela inclinou a cabeça para o lado para observá-lo quando ele se voltou para Damon. — Amarre as mãos dela — disse. Faith engoliu surpresa e ameaçou protestar, mas mordeu a língua. Não, era isso que queria. E sabia que Damon encerraria a experiência se ela ameaçasse reclamar. Damon se abaixou e amarrou um dos pulsos de Faith à perna da banqueta com uma tira de couro. Depois, repetiu o procedimento com o outro pulso. — Os tornozelos — disse Gray. Ela fechou os olhos, enlouquecendo com a antecipação quando os tornozelos foram amarrados às pernas da banqueta. Sentia-se vulnerável. Com mãos e pés amarrados, o traseiro para cima, a vagina exposta para quem quisesse ver. E isso a excitava como nada jamais a havia excitado antes. Ouviu passos quando Gray se moveu atrás dela. Um dedo deslizou pelo vão entre as nádegas e parou bem em cima da entrada da vagina. Me toque. Por favor, me toque. Mas ele não tocou. Gray afastou a mão, e em seguida a pá encontrou sua nádega com um ruído estridente. Seu corpo balançou para frente, os olhos se abriram chocados. — Prepare-se — ele disse atrás dela. O ardor radiou da nádega e foi imediatamente substituído por um calor que se espalhou por


seu corpo. Antes que tivesse tempo para processar inteiramente a sensação, ele desferiu outro golpe ardido. Faith fechou os olhos e relaxou a cabeça. Um gemido escapou de sua boca quando o calor se espalhou pela pele. A pá fez contato novamente. Um lado. Depois o outro. Logo todo o corpo era envolvido por uma sensação que ela só conseguia descrever como um brilho eufórico. Ele mirava os golpes de maneira estratégica, nunca batia duas vezes no mesmo lugar. Faith testava a força das amarras, quase chorava com a necessidade de encontrar alívio. Queria mais, mas não tinha certeza de que poderia suportar mais. O que estava acontecendo com ela? Dez? Uma dúzia? Perdeu as contas. Depois nada. Silêncio. Ar frio acariciando seu traseiro ardido. Ela deixou escapar um uivo baixo. — Por favor — sussurrou. Ele se inclinou sobre seu corpo. Podia sentir a camisa sobre os ombros. — O que você quer, Faith? — Gray cochichou em seu ouvido. — Diga o que quer. — Quero gozar — ela arfou. Os dedos encontraram sua vagina. Assim que ele tocou seu clitóris, ela explodiu como um rojão. O coração disparou, e ela gritou ao ser sacudida pela violência da reação. Gray continuou massageando e manipulando o clitóris até ela gritar, pedindo para parar. Então ela desmoronou, os músculos tensos relaxaram, e ficou deitada sobre a estranha banqueta sentindo-se mole como um espaguete cozido além do ponto. Mãos gentis desamarraram seus pulsos, e ela abriu os olhos. Damon estava parado na frente dela, os olhos cheios de dúvidas. — Tudo bem? — ele perguntou. Faith assentiu, incapaz de fazer mais que isso. Gray a segurou pelos ombros e levantou, puxou-a para perto dele. Quando encontrou coragem para fitá-lo nos olhos, ela viu uma mistura de confusão, desejo e fúria. — Vista-se — Gray resmungou. Damon entregou as roupas a Faith, que vestiu rapidamente a saia e a blusa, sem se incomodar com as peças íntimas. — Ela vai para casa — Gray avisou sem olhar diretamente para Damon. Damon ergueu uma sobrancelha e olhou para Faith esperando a confirmação. Ela conteve um sorriso. Depois se aproximou e o beijou no rosto. — Obrigada — sussurrou. — Acho que encontrei exatamente o que queria.


CAPÍTULO 18 Gray praticamente a arrastou para fora da sala e para o corredor escuro. Assim que se afastaram dos olhares curiosos, ele a empurrou contra a parede e levantou suas mãos, segurandoas acima da cabeça. Os lábios cobriram os dela com uma pressa aflita. O corpo de Faith, ainda trêmulo depois do orgasmo explosivo, quase desabou. Gray abaixou seus braços e moveu as mãos para a cintura dela, depois subiu pelo corpo até os seios. — Quero tocá-los — falou com voz rouca. — Quero tocar tudo em você. Ele levantou sua blusa até as mãos encontrarem os seios. Segurando-os, friccionou os polegares contra os mamilos sensíveis. Depois abaixou a cabeça e tomou um deles com a boca. Os joelhos dela fraquejaram. Faith agarrou-se aos ombros de Gray, passou as mãos em torno de seu pescoço e se agarrou a ele. O ar formava uma aglutinação em torno dela. Partículas brilhantes e coloridas pareciam flutuar no ar. Cada terminação nervosa ainda estava sobrecarregada com o alívio, e a boca em seus mamilos provocou uma comoção em seu organismo. A mão dele deslizou por seu corpo, desceu até a barra da saia, e ele a levantou com um movimento firme, expondo primeiro as coxas, depois a vagina. Ele sugou seu mamilo, depois passou ao outro, movendo a boca com um ritmo constante. Com uma das mãos, afastou suas coxas e escorregou os dedos para o interior das camadas molhadas. Faith gemeu com o estímulo duplo, os dedos em sua vagina e a boca em seu seio. Gray soltou o mamilo e olhou nos olhos dela enquanto introduzia dois dedos bem fundo em seu corpo. O polegar encontrou o clitóris, e ele o massageou. — Goza para mim — ele grunhiu. — Mais uma vez. Os dedos penetraram ainda mais fundo, e um tremor incontrolável sacudiu seu corpo. Começou no fundo, embaixo, e se espalhou em todas as direções. E ganhou força, promovendo uma tensão que causou nela a impressão de que ia explodir. E ela explodiu. Quando Faith gritou, ele abaixou a cabeça e mordeu a pele embaixo de sua orelha. Com um dos braços ele a sustentava, enquanto a outra mão continuava entrando e saindo da vagina. Faith fechou os olhos em meio à repentina explosão de prazer. Era demais e, ao mesmo tempo, não era o suficiente.


— Meu Deus — arfou. Agarrava-se a ele com desespero enquanto era sacudida pela violenta tempestade do orgasmo. Ele a beijou com paixão, de um jeito selvagem, tomando tudo que ela podia dar e oferecendo em troca uma das experiências sexuais mais inebriantes de sua vida. Quando os espasmos foram perdendo força e ele removeu a mão do meio de suas pernas, ela choramingou baixinho. Devagar, Gray a pôs no chão com os pés bem plantados nele. Os olhos dela desceram até o zíper de sua calça. Na penumbra do corredor, não conseguia ver o volume coberto pelo jeans escuro, mas o sentira há um momento. E abaixou as mãos para segurá-lo. Gray ficou rígido. — Mostre como posso te dar prazer — ela pediu com voz suave. Ele hesitou, depois pôs a mão sobre seu ombro. E a empurrou para baixo enquanto levava a outra mão ao zíper da calça. Gray manipulou com alguma dificuldade o botão e o zíper. Quando conseguiu abrir a calça, introduziu a mão na abertura e tirou o membro ereto. Mais um jato líquido de desejo ardeu nas veias de Faith. A mão enroscou em seu cabelo quando ele segurou sua nuca. Com a outra mão, Gray guiou o pênis para dentro da boca de Faith. — Engula tudo — disse com voz rouca. Ela abriu a boca e deixou o membro passar por entre os lábios. — Ah, sim, isso mesmo — Gray aprovou com um gemido. Arqueando o corpo para a frente, empurrou a cabeça dela contra a parede. Depois a soltou e apoiou as duas mãos na parede acima dela, debruçando-se sobre Faith. Ela o saboreava curiosamente, tentando absorver seu gosto, sua essência, tudo que fazia dele o macho poderoso. Gostava da textura mais áspera do membro e da maciez aveludada e lisa da cabeça em contato com sua língua. Ali no corredor, onde qualquer um que passasse poderia vê-los, ele enfiava o pênis em sua boca contra a parede. Faith estava tão alta que talvez nunca mais conseguisse descer. Era denso, excitante como nada que jamais houvesse experimentado. Ele a penetrou mais fundo, e Faith relaxou os músculos da garganta para acomodá-lo melhor. Gray movia o quadril para a frente e para trás, e ela deslizou as mãos por seu corpo para segurar os glúteos firmes, musculosos. De novo ele a agarrou pelo cabelo, segurando sua cabeça enquanto se movia dentro de sua boca. Depois de um instante ele segurou sua cabeça com as duas mãos. — Engula — disse. — Ponha inteiro na boca. Faith fechou os olhos e fez o que ele pedia. Os movimentos se tornaram mais urgentes, mais


curtos e rápidos, até que ele penetrou mais fundo em sua boca e parou, as pernas e os glúteos enrijecidos sob as mãos dela. O primeiro jato morno atingiu o fundo da garganta, e ela o engoliu depressa para não engasgar. Gray recuou e empurrou o quadril para a frente mais uma vez, enchendo sua boca com a seiva. As mãos relaxaram na cabeça de Faith, mas continuaram afagando os cabelos enquanto ele se movia para a frente e para trás dentro de sua boca. Havia muita força nos movimentos, mas muita doçura também. Era uma combinação viciante. Com relutância aparente, ele se afastou e tirou da boca de Faith o pênis semiereto. Sem dizer nada, guardou-o dentro da calça e fechou o zíper. Ela ficou ali ajoelhada, perplexa, perdida demais para ficar em pé. Nem sabia se tinha força para isso. Gray se abaixou, a segurou por baixo dos braços e a pôs em pé. — Hora de sair daqui — ele avisou com tom seco. Passando um braço em torno da cintura de Faith, começou a conduzi-la para a porta. Quando olhou para trás, ela viu Damon parado na porta do grande salão. Há quanto tempo ele estava lá? Teria assistido ao interlúdio completo? Estranho, pensar nessa possibilidade não a enchia de pânico. Gray a levou pela escada, pelas salas sociais e pela porta para o pequeno estacionamento. O ar úmido a atingiu no rosto assim que eles saíram, e o impacto arrancou o ar de seus pulmões. Não que ainda tivesse muito. Quando pisaram na calçada, Faith percebeu que havia esquecido os sapatos. Ela parou e sufocou o riso. Gray parou e a olhou de lado. — Algum problema? Ela o fitou curiosa. Parecia tão... irritado. Estranho. — Meus sapatos ficaram lá dentro — Faith explicou. — Preciso ir buscá-los. — Não vai voltar lá. Ela abriu a boca para protestar, mas o olhar de Gray a silenciou. — Eu compro outro par para você. Não vai voltar àquele lugar. Parte dela queria mandá-lo para o inferno, mas outra parte, a mais cautelosa e astuta, a avisava para não abusar da sorte agora. Gray a empurrou para a frente de novo, desta vez segurando seu cotovelo. Ele a guiou para o vão entre o carro dela e sua caminhonete, mas, em vez de abrir a porta do automóvel que Faith dirigia, abriu a porta do passageiro da caminhonete. — Entre.


— Mas... e meu carro? — Eu venho buscar mais tarde. Entre, vou levar você para casa. Ela o encarou por um longo instante antes de suspirar resignada e entrar. Gray fechou a porta atrás dela. Faith ficou sentada no escuro, olhando para a frente, enquanto ele dava a volta na caminhonete e abria a porta do motorista. Sentado ao volante, ele pôs a chave na ignição. Faith o observava pelo canto do olho, mas Gray não olhava para ela. Silencioso, ele saiu do estacionamento e da propriedade olhando sempre adiante. — Não vai me dizer o que significa tudo isso? — ela perguntou quando chegaram à rua. Ouviu um som que lembrava um grunhido. Disposta a pôr fim ao silêncio, ela se virou no assento para olhar diretamente para Gray. — Não foi nada — ele resmungou. A incredulidade transformou sua expressão. — Nada? — E o olhou chocada. — Ainda posso sentir as marcas na minha bunda e seus dedos na minha vagina. Ainda tenho seu gosto na boca. Gray a olhou surpreso e boquiaberto. — Não seja vulgar, Faith. Não combina com você. — Por que apareceu do nada, Gray? Como soube que eu estaria lá? Porque não acredito em coincidências. Ele olhava para a frente com a mandíbula tensa. — Gray? — Vi sua agenda. — Isso não explica por que apareceu, por que interferiu, por que... — Tudo bem, Faith, já entendi. De verdade. Podemos deixar isso para lá? Ela o encarou em silêncio, apertando os lábios. Depois balançou a cabeça, virou-se de costas para ele e olhou pela janela. O tráfego passava como um borrão. O brilho distante do horizonte de Houston era refletido pela janela e banhava a noite com uma luminosidade iridescente. Havia imaginado tudo? Porque, nesse momento, tudo parecia ter sido só o produto de um sonho muito vívido. Um sonho bom. Muito, muito bom. Infelizmente para ela, o homem que povoava esses sonhos a tratava como se ela fosse seu pior pesadelo. Que diabo havia acontecido? E qual era o problema de Gray? Ele havia se comportado como se tivesse ciúme, mas não era nada para ele. Um beijo roubado não dava a ele o direito de bater em sua bunda. Mesmo que houvesse amado cada minuto disso. — Você precisa de ajuda — Faith resmungou. Ajuda do tipo divã e psiquiatra. Com a testa apoiada ao vidro morno, ela fechou os olhos. Como as coisas haviam azedado desse


jeito? Não podia nem culpá-lo. Na verdade, Gray conseguira salvar o que teria sido um exercício de total desapontamento. Por que reagira a ele, e não a Brent? Porque com Gray havia sido real. Não uma encenação. Não um espetáculo mais para a satisfação do espectador que do participante. Brent havia brincado com ela. Criado a aparência de dominação. Gray? Com ele a história era completamente diferente. Uma história fascinante e sedutora. Uma história que ela queria ver continuar. Queria viver a continuação. Não sabia qual era o problema com ele, mas havia aprendido muito esta noite. Mais especificamente, aprendera que o que procurava estava bem embaixo do seu nariz. O nome era Gray. E ele era mais do que capaz de saciar seus desejos mais secretos e obscuros. Quando pararam no estacionamento do prédio de apartamentos, Faith não abriu a porta imediatamente. Gray saiu da caminhonete e deu a volta no veículo para ir abrir a porta do passageiro. Mesmo assim, ela continuou sentada lá dentro. — Faith — ele disse, e estendeu a mão. — É hora de ir para casa. Seu peito inflou com a gargalhada seca. Ela então se virou para encará-lo. — Vai simplesmente ignorar o que aconteceu? — E desceu da caminhonete para ficar frente a frente com ele, levantando a cabeça para fitá-lo nos olhos. — Gray, não foi só um beijo, não foram só carícias sem importância. Ele olhou para o céu com o rosto tenso. — Foi muito mais que isso, e está fingindo que não aconteceu? Gray abaixou a cabeça, mas não olhou diretamente para ela. — Preciso ir buscar seu carro — disse. — Vá para casa. A gente se vê amanhã. — Como vai buscar meu carro? — ela perguntou irritada. — Faith, por favor. Entre. Ela abriu os braços e caminhou para a porta do apartamento. Não sabia o que o atormentava, mas sabia que não ia resolver nada esta noite. Mas amanhã ele ia falar. Faith enfiou a chave na fechadura e empurrou a porta. Quando sentiu a mão em seu ombro antes de entrar, quando virou e viu Gray ali parado, ela foi tomada por uma onda de esperança. — Preciso da chave — ele disse. Séria, Faith empurrou a chave do carro contra o peito dele e, sem esperar que Gray a pegasse, virou novamente e o deixou parado na porta. Porta que bateu imediatamente ao entrar, o tempo todo bufando de raiva. Com os braços em torno da própria cintura, ela foi para o banheiro. Precisava de um longo banho quente. Entender a noite maluca ficaria para depois.


CAPÍTULO 19 Gray caminhou sem pressa em direção ao apartamento de Micah, tentando controlar as emoções. Não conseguia nem começar a explicar o que havia acontecido naquele maldito clube de sexo. Que demônio o havia possuído para atravessar a linha do limite com Faith? Tudo que sabia era que ela havia incendiado seus sentidos como nenhuma outra mulher. Nunca poderia imaginar que ela reagiria com tanta intensidade. A intenção era dar uma lição, provar que apanhar na bunda não era o que ela queria. Era evidente que ela não estava reagindo ao aprendiz de dominador. Odiava lembrar como havia deixado suas nádegas marcadas. E, como se não bastasse, lembrarse disso era suficiente para provocar uma nova ereção. Esperava que ela odiasse a experiência, que pedisse a ele para parar, e então poderia tê-la mandado para casa com o aviso para nunca mais voltar àquele lugar. Em vez disso, ela havia reagido intensamente e pedido mais. E quando a tocara... Jesus. O orgasmo havia sido imediato, o líquido doce da vagina escorrera por sua mão. Não queria pensar nas implicações disso. Ele bateu na porta de Micah, mesmo sabendo que seria atacado novamente pela interrupção. Alguns minutos mais tarde, ele abriu a porta com uma expressão resignada no rosto. Para surpresa de Gray, estava vestido. — Então, encontrou a Faith? — perguntou Micah. — Sim, ela está em casa. — Gray pôs as mãos nos bolsos. — Escute, sei que estou interrompendo de novo, provavelmente, mas precisa ir comigo ao maldito clube de sexo. Alguém tem que dirigir o carro da Faith. Eu a trouxe para casa comigo. — Não está interrompendo nada — Micah falou. — Eu a mandei para casa depois que você esteve aqui. Gray levantou uma sobrancelha para demonstrar sua surpresa. — Imaginar a Faith na The House acabou com o clima. Vou pegar minha carteira, espere um instante. Eu vou com você. Gray assentiu e voltou à caminhonete. Acabar com o clima? Queria que o fato de ter visto Faith deitada de bruços, com o traseiro para cima, houvesse matado a atração dele. Em vez disso, a


imagem havia incendiado suas fantasias mais pervertidas. Micah saiu alguns segundos depois e sentou-se no banco do passageiro da caminhonete. Gray saiu do estacionamento e eles começaram a viagem em silêncio. Mas não foi um silêncio muito duradouro. — Vai me contar o que aconteceu? Gray olhava para a frente, os dedos brancos pela força com que segurava o volante. — Não. — Para com isso, cara. Eu vou acabar descobrindo de qualquer jeito. Gray olhou para ele. — Se a Faith quisesse compartilhar os segredos dela com você, ela mesma já os teria contado. Micah retribuiu o olhar carrancudo. — Não me lembro de ela ter feito confidências a você, Senhor-Invadi-O-Lugar-E-A-Tirei-DeLá-Sobre-Um-Ombro. Gray suspirou. Ele tinha razão, por mais que detestasse admitir. — Cara, escute, só preciso saber se preciso chutar a bunda de alguém. Ela está bem? Parte da irritação de Gray desapareceu quando ele ouviu a preocupação na voz de Micah. — Ela está bem. Cheguei antes que alguma coisa realmente acontecesse. Micah balançou a cabeça. — Não sei o que deu naquela garota. The House não é o tipo de lugar que eu esperava que ela conhecesse, muito menos que fosse visitar. Gray começava a especular quanto Micah e os outros na Malone’s, inclusive Pop, sabiam sobre ela. Faith era uma contradição, disso tinha certeza. O rosto de um anjo, doce, inocente, suave e muito feminino. Mas o corpo podia tentar um homem e induzi-lo ao pecado. Não era isso que todo homem queria? Uma mulher bonita e recatada em público, uma fogueira sensual em particular? Não ficaria pensando no que outros homens queriam, mas reconhecia que o cenário o agradava muito. — Está quieto demais, cara — Micah comentou. — Que diabo aconteceu? — Não sei ao certo — Gray falou com honestidade. O silêncio se prolongou entre eles mais uma vez. Gray notou que Micah o espiava de vez em quando. Era só uma questão de tempo até que, como Pop, ele começasse uma (não muito) sutil investigação. — Então, o que houve entre você e a Faith? — Micah perguntou casualmente, embora Gray pudesse detectar o interesse em sua voz. Gray rangeu os dentes, depois soprou o ar por entre eles. — Não há nada entre nós.


— Bobagem. Gray olhou de soslaio para ele e franziu o cenho. — Escute, cara, sei que já ouviu o sermão do Pop. Ele faz a mesma coisa com todo mundo que chega perto da Faith. Não espere ouvir outro de mim. A Faith é adulta. O Pop, bem, eu gosto do velho, mas ele a trata como se fosse de cristal. É superprotetor, e eu entendo, considerando tudo que ela já enfrentou na vida, mas a Faith é forte. Muito mais do que o Pop acredita. É claro que não gosto da ideia de ela se meter em um lugar como The House, mas tenho certeza de que ela é muito capaz de escolher os homens com quem se envolve. — Obrigado pelo apoio — Gray respondeu com tom seco. Micah deu de ombros. — Eu pensei que... Bem, a Faith é incrível. Você não vai encontrar uma garota melhor. Eu estranharia muito se não se sentisse atraído por ela de algum jeito. — Dá para parar com esse papo de emoções e sentimentos? Você parece mulher. Micah riu. — Ei, só queria saber se você tem alguma coisa com a Faith, porque, se não estiver interessado nela, talvez eu a convide para sair. — Só por cima do meu cadáver — Gray rosnou. E, assim que as palavras saíram de sua boca, ele soube que havia caído em uma armadilha. Micah gargalhava. Ele parou de rir, olhou para Gray e voltou a gargalhar. — Vai se danar. — Não é incrível quando uma mulher dá um nó em você? — Micah perguntou rindo. Gray fechou os olhos por um segundo, o máximo que podia enquanto dirigia pela avenida. Isso era uma confusão. E não estava com nenhuma disposição para as piadas ridículas do colega. Felizmente era sexta-feira. Ele olhou para o relógio. Sábado de manhã. Não teria que encarar Faith até segunda-feira. Mesmo assim, não sabia como conseguiria olhar para a cara dela de novo. — Estou muito ferrado — ele resmungou. Micah continuava rindo. Gray olhou-o com ar ameaçador, mas ele respondeu com uma expressão inocente, quase sonsa. — Tem certeza de que não quer me contar o que aconteceu lá? — insistiu. — Bastardo intrometido. — Bem, não pode me culpar por tentar. — Micah deu de ombros. — Pena eu não ter ido à The House ontem à noite. — Sim, teria sido ótimo — Gray respondeu com tom azedo. — A Faith certamente teria ficado muito feliz por ver você lá. Micah fez uma careta endiabrada.


— Não mais feliz do que deve ter ficado quando viu você. — Cala a boca — Gray resmungou. — Já encerrei esse assunto. Só me resta esperar que a Faith não queira retomá-lo.


CAPÍTULO 20 Devia ser muito estranha e pervertida, ou não acordaria se arrepiando só porque ainda sentia no traseiro um leve ardor da noite anterior. Faith saiu da cama e flexionou os músculos ao ficar em pé, espreguiçando-se. Um formigamento morno surgiu em seu ventre quando ela lembrou a noite anterior. Gray comandando seu corpo, provocando um orgasmo. Lembrava cada palmada no traseiro, como havia se sentido, o delicioso equilíbrio entre dor e prazer. Mas, mais que isso, e algo que começava a perceber, essa reação não havia sido provocada pelo estímulo, mas por Gray. Caso contrário, Brent teria conseguido incendiá-la rapidamente. Ela bocejou e se dirigiu ao banheiro, onde ligou o chuveiro bem quente e com um jato muito forte. Dez minutos mais tarde, saiu do banheiro com uma toalha envolvendo a cabeça e vestindo camiseta e short de ginástica. Enquanto se movia pela cozinha, ela pensou em seu dilema mais imediato: Gray. Mesmo que vivesse até os cem anos, nunca entenderia os homens. As mulheres eram consideradas os grandes enigmas, mas e os homens? Desgraçados mal-humorados e carrancudos, todos eles. Uma mulher em TPM ainda não se comparava a um homem. As mulheres podiam ter desequilíbrio hormonal uma vez por mês, mas os homens tinham um tipo particular de TPM todos os dias. Ele a queria. Podia ver nos olhos dele, em sua linguagem corporal. Praticamente gritava posse. Arrepiava-se só de pensar em toda aquela testosterona fluindo por trás dos músculos desenvolvidos. Então, qual era o problema? Por que Gray a empurrava para longe como se fosse a assistente de Satã desde que saíram da The House? Faith pegou um copo com suco de laranja e voltou à sala, onde se jogou no sofá. Olhou para o controle remoto da televisão por três segundos antes de entortar a boca e olhar para outro lugar. Não estava com disposição para ver TV. Estava com disposição para refletir e ponderar. Tentar entender essa coisa entre ela e Gray. A ordem dele para mantê-la longe da The House deveria tê-la enfurecido, mas não estava incomodada. Gray estava certo. E não tinha intenção de voltar lá. Por que voltaria, se havia


encontrado exatamente o que queria, e não era nada que a The House oferecia? Não, tinha certeza de que sabia exatamente o que queria agora. E, por acaso, havia encontrado essa resposta na forma de um homem carrancudo com mais de um metro e oitenta de altura. Um homem cujo sabor queria muito sentir novamente. Queria tê-lo na boca. Em seu corpo. Os braços arrepiaram, e ela fechou os olhos para lembrar a sensação das mãos em seu corpo, dos dedos entre suas pernas. Finalmente. Finalmente havia encontrado um homem que se impunha. Forte. Que não se desculpava. Um homem que não pedia. Que pegava o que queria. Agora, só tinha que descobrir como conquistá-lo. Ela se assustou quando ouviu alguém bater na porta. Rápida, deixou o copo sobre a mesinha lateral e se levantou. A caminho da porta, descobriu que estava prendendo a respiração e torcendo para que fosse Gray. Mas, quando a abriu, não era ele que estava do outro lado. Era Damon. Damon do clube de sexo. Ele sorriu e levantou a mão que segurava os sapatos dela pelas tiras. — Achei que os quisesse de volta — ele disse. Faith ficou vermelha, gaguejou e finalmente fechou a boca e rezou para uma bigorna gigante cair do céu e esmagá-lo ali mesmo onde estava. — Posso entrar? — Damon perguntou. — Não. — Horrorizada por ter respondido em voz alta, ela pigarreou. — Quero dizer, sim. Sim, é claro. — E recuou ao puxar a porta para abri-la mais. Faith o levou à sala de estar. — Quer beber alguma coisa? Suco, ou água? Damon balançou a cabeça. — Não tenho muito tempo. Ela afundou no sofá, enquanto ele se sentava em uma poltrona na posição diagonal em relação ao lugar onde ela estava. Faith esperou sem saber o que dizer, sem saber como poderia promover uma conversa normal. O que diria? Gostou do show? Viu como chupei o Gray no corredor depois que ele bateu na minha bunda? Um rubor intenso tingiu seu rosto, e ela abaixou a cabeça. Damon derrubou os sapatos no chão, e o som a fez levantar o olhar novamente. — Só queria ter certeza de que você estava bem — ele falou em voz baixa. Os olhos dela encontraram os dele, e Faith viu preocupação genuína em sua expressão. Um pouco mais relaxada, respondeu com um sorriso hesitante: — Foi muita bondade sua, Damon, mas não precisava se preocupar comigo. Nem precisava ter vindo para devolver meus sapatos. Mesmo que eu ame esses sapatos. — E olhou para eles com


carinho, grata por tê-los de volta. Damon riu. — Era o mínimo que eu podia fazer. Não acredito que a noite passada tenha sido como você planejou. Certamente não foi o que eu planejei. Ela se agitou no sofá e uniu os dedos das mãos sobre o colo, torcendo-os. — Não, acho que não foi — concordou. Em seguida, olhou diretamente para os olhos castanhos. — Mas fico feliz por ter acontecido daquele jeito. Serviu para me mostrar... muitas coisas. — Recusava-se a ser mais específica, mas ele parecia entender. Damon assentiu. — Acho que eu sabia disso. Mas precisava ter certeza. Faith desviou o olhar novamente, olhou para os dedos. — Você... ficou olhando ontem à noite? — Não estava certa de por que queria saber, o que a impelia a perguntar. Quando o espiou pelo canto do olho, ela viu que sua boca se distendia e encurvava ligeiramente para cima. — Olhar é o que eu faço — Damon respondeu com tom indiferente. — Meu trabalho é garantir que ninguém se machuque. — E o que achou? — ela perguntou, inclinando a cabeça para fitá-lo mais diretamente. Damon a olhou pensativo por um momento. — É evidente que já o conhecia. Ele parecia saber de que você mais precisava, quando nem mesma você tinha certeza disso. E respondeu a ele depois de não ter reagido ao Brent. A resposta a surpreendeu. Damon sorriu. — Faith, vejo muita gente vivendo momentos de paixão. Você obviamente não se enquadrava nessa categoria. Estava visivelmente frustrada e desapontada. Se o seu homem misterioso não houvesse interferido naquele momento, eu teria interrompido a experiência. Estava claro que não era o que você esperava ou queria. Ela sorriu acanhada. — Vai ficar ofendido se eu disser que nunca mais volto lá? Ele riu. — Não. Se não estou enganado, vai ter que enfrentar um homem muito bravo, caso volte a pisar no clube. Ela bufou, mas sabia que Damon estava certo. Gray teria um ataque se ela se aventurasse novamente naquele lugar. Por outro lado, se reagisse como na primeira vez... Um arrepio delicioso percorreu seu corpo provocado pela lembrança. Damon levantou-se, alisando com as mãos a calça social. Faith notou sua aparência pela


primeira vez desde que ele havia aparecido de surpresa em sua porta. Era a aparência de alguém que tinha dinheiro. A imagem do refinamento. Aparentemente, não era só uma encenação para o trabalho no clube. — Eu tenho que ir — ele falou. — Só queria trazer seus sapatos e ver como estava depois da experiência de ontem à noite. Faith também se levantou e sorriu. — Obrigada, Damon. Muito obrigada. — Me mantenha informado, está bem? Quero saber como a sua busca vai se desenvolver. — Ah, bem, sim, é claro. Tenho seu e-mail. Ele se inclinou, segurou o cotovelo de Faith e a beijou no rosto. Depois se dirigiu à porta, deixando-a um pouco confusa. Ela suspirou quando ele saiu e fechou a porta. Depois, caiu novamente no sofá e soltou o ar como um balão furado. Por que não podia se sentir atraída por Damon? Ele parecia suficientemente aberto para fazer as coisas que ela queria. Ora, ele havia até parado para assistir enquanto ela chupava outro homem, e, por algum motivo inexplicável, isso não a apavorava. Na verdade, a excitava de um jeito estranho. Seria uma maníaca sexual que ainda não havia saído do armário? Tudo bem, maníaca não. Um caso de ato sexual em público não a relegava ao status de ninfomaníaca. O que a surpreendia era como havia reagido aos vários cenários que vira na noite passada. Testemunhara coisas que, normalmente, deveriam horrorizar uma garota como ela. Em vez disso, havia assistido a tudo com fascínio ofegante, com um novo despertar surgindo dentro dela. Mas... O eterno mas. Não sabia se queria experimentar aquelas coisas de um jeito tão clínico. Como uma exibição em um show de bizarrices. O clube, embora muito esclarecedor, não era o que ela realmente desejava. O que queria era ser levada em uma jornada parecida com aquela, mas real. Não um espetáculo ensaiado para agradar a plateia. E queria um homem que cuidasse de cada uma de suas necessidades. Um homem como Gray. Por mais que andasse em círculos, sempre voltava ao ponto central de seus conflitos: Gray. Para ela estava muito claro que Gray se encaixava no perfil em muitos aspectos. O único problema era que ele não concordava com isso. Lutava ferozmente contra a atração que sentia por ela. Por quê? Isso era o que não sabia. Mas de repente se sentia decidida a descobrir.


CAPÍTULO 21 Tentar encontrar respostas era mais frustrante do que ela havia imaginado que seria. Se Faith estava determinada, Gray estava ainda mais. Determinado a evitá-la. Faith foi ao apartamento dele pouco tempo depois da visita de Damon. Ele não abriu a porta, embora, ela sabia, estivesse em casa. Covarde. Mais tarde, Faith foi ao Cattleman’s, onde sabia que ele se reuniria com Micah e os outros. Mas, assim que ela chegou, Gray se retirou dizendo ter um compromisso que havia esquecido. E Micah a encarou intensamente, com um olhar tão penetrante que ela teve certeza de que ele sabia pelo menos uma parte do que havia feito. Inferno. Pelo menos agora sabia como Gray trouxera seu carro de volta para o estacionamento do prédio. E pelo menos ele não havia pedido a ajuda de Connor para isso. Nesse caso, teria sido forçada a matá-lo. Faith ficou no bar e acabou tomando alguns drinques com Nathan, Connor e Micah, já que seria muito suspeito se saísse correndo atrás de Gray. Então, ela ficou como se não houvesse ido até ali só para procurar por ele. E Micah passou a noite toda observando seu comportamento, olhando para ela como se tentasse arrancar de sua cabeça cada um de seus segredos. Quando finalmente decidiu ir embora, Faith foi rápida. Domingo foi mais ou menos do mesmo jeito. Ela foi ao apartamento de Gray logo cedo. Ele não atendeu à porta. O que era bobagem, só servia para realmente irritá-la ainda mais. Faith o viu sair no começo da tarde e chegou a pensar em segui-lo, mas decidiu que seria muito invasivo. Falaria com ele no escritório na manhã seguinte. Ele não poderia evitá-la para sempre. Na segunda-feira de manhã, Faith chegou ao escritório cedo. Fez café, arrumou as rosquinhas e esperou Gray aparecer. Ele entrou na sala com Micah e nem olhou em sua direção. Micah se serviu de uma xícara de café e enfiou uma rosquinha na boca. Gray seguiu direto para a sala dele, deixando o colega para trás. Determinada, Faith serviu café em uma xícara para Gray, pegou uma rosquinha e foi até a sala


dele. Se a porta estivesse trancada, mandaria alguém arrombá-la. Não estava, mas era difícil abri-la com as duas mãos ocupadas. Quando conseguiu abaixar a maçaneta com o cotovelo, Gray levantou os olhos da mesa. — Que diabo está tentando fazer? Quer se queimar? — ele exclamou, e correu para ir pegar a xícara quente dos dedos trêmulos. Faith jogou a rosquinha em cima da mesa e o encarou. — Eu estava sendo gentil. Simpática. Sabe como é, sociável. Coisa que não posso dizer sobre você. Ele engoliu em seco e deixou escapar um suspiro cansado. — Faith, escute, é melhor... é melhor esquecermos que a noite de sexta aconteceu. Não tenho nem como começar a dizer o quanto me arrependo por ter ultrapassado o limite daquele jeito. Ela apertou os olhos e pôs uma das mãos na cintura. — Bem, eu não. Ele piscou confuso. — Você não o quê? — Não me arrependo — Faith explicou por entre os dentes. Depois apoiou as duas mãos à mesa e se inclinou até estarem frente a frente. — Fingir que não aconteceu não anula a realidade. Aconteceu, Gray, e quero conversar sobre isso, mais do que simplesmente esquecer. Não consigo esquecer. Ele segurou seu queixo. — Faith, supere. Por favor. Voltar a esse assunto não vai nos trazer nada de bom. Eu queria te dar uma lição. Não gostei de saber que estava lá. Você é uma garota doce. Gosto muito de você. Espero que nunca mais volte lá. Não devia ter gostado. O calor subiu por seu pescoço até sua cabeça ameaçar ferver e explodir. Garota doce. Ensinar uma lição. Gosto muito de você. Que besteira era essa? Ela tentou falar, mas não conseguiu emitir nenhum som. Estava furiosa demais para formular uma frase coerente, ou mesmo incoerente. Finalmente, ela levantou as duas mãos com os braços abertos, fez um barulho parecido com um “aaaaa” e saiu da sala pisando firme. Quando voltou à frente do prédio, estava fervendo de raiva. Micah saiu rapidamente da sala assim que a viu. Sujeito esperto. Assim que ele saiu, Faith fez algo que raramente fazia. Fechou a porta da sala, sinal claro de que ninguém devia entrar. Podia contar nos dedos de uma das mãos quantas vezes havia recorrido a essa medida drástica desde que começara a trabalhar para Pop. Esse momento certamente se enquadrava nos casos drásticos. Faith jogou as rosquinhas no lixo e o café na pia, apesar de os outros nada terem feito para enfurecê-la. Eles sofreriam as consequências de sua ira assim como Gray.


Quando se deu por satisfeita, ela se sentou na cadeira giratória e olhou para o teto. Precisava de férias. De um tempo. Alguma coisa. Com a mãe ameaçando sua sobriedade, a visita ao clube de sexo e Gray a levando à loucura, estava a um passo da camisa de força. Fugir não era uma tentação que já houvesse experimentado. Durante toda a vida, sempre havia ficado e enfrentado os problemas, mesmo quando ficar significava sustentar a mãe incompetente e seus vários vícios. Não, Faith não desistia. Tinha muita ética profissional entranhada nela. O mais próximo que estivera de fugir de alguma coisa fora quando a mãe sofrera a overdose e Pop e Connor a levaram, praticamente a arrastaram com eles para casa. Mas agora? Afastar-se da insanidade que havia dominado sua vida nas últimas semanas era uma ideia tentadora. Talvez devesse conversar com Pop e pedir férias. Sabia que ele atenderia ao pedido, porque ela nunca havia se afastado do escritório. — Pare com a reação exagerada — ela resmungou. Mas tirar férias parecia ótimo. Definitivamente, devia pensar nisso. Batidas cautelosas na porta a arrancaram da reflexão, e ela olhou furiosa naquela direção, imaginando quem seria o tolo corajoso que se arriscava a ser o alvo de sua ira. Nathan enfiou a cabeça na fresta da porta e olhou para ela com ar intrigado. — Bom dia, Faith. Eu, ah, só queria ver se está bem. — TPM — ela respondeu, sabendo que essa era a única garantia de botá-lo para correr dali. E estava certa. Ele saiu imediatamente. Ela riu quando Nathan fechou a porta em um nanossegundo. Os homens eram frouxos. — Então, que diabo você fez para deixar a Faith furiosa? Além de invadir sua noite de prazer hedonista — Micah falou quando ele e Gray entraram em sua caminhonete para ir visitar um cliente. Micah abriu o porta-luvas e pegou um maço de cigarros. Ele acendeu o isqueiro quando saía de ré do estacionamento e deu uma tragada profunda, fechando os olhos por um breve instante. — Ainda não desistiu — Gray apontou. Micah abriu um pouco a janela para bater as cinzas do cigarro. — Vai responder? — insistiu, ignorando a afirmação de Gray. Gray suspirou. — Estou evitando a Faith, e parece que ela não está feliz com isso. — Não consigo imaginar por quê — o colega declarou com tom seco. — É melhor assim. Mais uma longa tragada no cigarro, e Micah olhou melancólico para a brasa brilhante. — Esta coisa ainda vai me matar, mas passei muitos anos fumando no trabalho. É difícil abandonar o hábito.


— Por que abandonaria? — Gray estranhou. — O cigarro ou o trabalho? Gray riu da piada. A expressão de Micah ficou séria. — Já fumei demais. Por um momento, Gray teve a impressão de ver uma tristeza profunda na expressão dele. Micah jogou o cigarro pela janela e, imediatamente, tirou outro do maço. Seus dedos tremiam quando ele acendeu o isqueiro. Gray sentia que havia muito mais por trás dessa conversa do que “já fumei demais”, mas não se sentia à vontade para bisbilhotar, e o outro não parecia propenso a dar mais explicações. Eles seguiram em silêncio por vários minutos antes de Micah jogar a bituca pela janela e olhar para ele. — Sabe que não pode evitá-la para sempre. Ela merece mais que isso. Gray não respondeu. O que poderia dizer? Faith suspirou quando ouviu as batidas na porta. Não respondeu, mas a porta se abriu e a cabeça de Nathan apareceu na fresta. — Posso entrar? É seguro? — Se eu disser que não, você vai embora? — Ah, não, preciso de um favor — ele respondeu com um sorriso encantador. — Ou é muito corajoso, ou muito idiota. O sorriso tornou-se mais largo e ele entrou na sala. — Minha mãe sempre disse que eu era o filho mais inteligente. — Seus irmãos eram especialmente burros? — ela disparou com tom seco. Nathan adotou um ar magoado e segurou o peito. Depois se aproximou da mesa e sentou-se em uma das cadeiras na frente dela, ainda segurando o peito como se houvesse sofrido um golpe mortal. — Qual é o favor? — Faith perguntou resignada. Surpresa, ela o viu corar. Intrigada com a reação, levantou uma sobrancelha. — Eu, ah, estava pensando se pode ir comigo furar a orelha. Faith estava de queixo caído. Uma gargalhada borbulhava em sua garganta. — Vai furar a orelha? De verdade? Ele tocou a orelha esquerda. — Sim, acho que sim. Mas não sei onde. Bem, não conheço nenhum lugar onde não me sentiria um idiota, quero dizer. — Eu conheço o lugar certo — ela respondeu, e pegou o telefone. — Vou levar você no salão


onde arrumo meu cabelo, e a Julie vai furar sua orelha. As garotas vão adorar você. — Garotas? — Sua animação era evidente. — Sim, é um lugar cheio delas — Faith explicou rindo. Nathan parecia interessado, definitivamente, mas franziu o cenho mesmo assim. — Não vai contar a ninguém aonde vamos, vai? Ela riu. — Vai ficar me devendo um favor, mas, não, não conto a ninguém. Talvez possa marcar algumas sessões de bronzeamento para igualar a cor da sua cabeça à do resto do corpo. — E olhou de maneira crítica para os braços bronzeados. Depois se esticou e tocou a cabeça calva. Ele continuava com a testa franzida. — Não vai me transformar em uma florzinha metrossexual. Faith não conseguia conter o riso. — De jeito nenhum. Pena que não queira viver uma experiência no spa. A Julie também faz uma massagem incrível. — Massagem? — Sim, mas você teria que ficar nu. — Ela mordeu o lábio para não rir. — Tem outras mulheres sem roupa por lá? Faith não conseguiu controlar o riso. — Você fica nua quando vai lá? — Nathan perguntou, como se só agora pensasse nisso. Ela bufou. — Até parece que vou responder. — Ah, por favor. Colabore. Ela riu. — Quer que eu ligue para a Julie e marque para você o pacote completo? Ele a encarou desconfiado. — Não sei. Posso acabar com o pênis removido pela liga dos machos se essa notícia circular. Faith revirou os olhos. — Não seja covarde. Quem vai saber disso? E ninguém te criticaria porque vai passar meia hora com as mãos de uma mulher linda no seu corpo. — Linda? — Mudou de ideia? — ela provocou. — E você jura que não vai contar nada disso a ninguém. Ela levantou dois dedos. — Juro.


CAPÍTULO 22 Ela havia pensado nisso a noite toda. Começara a pensar enquanto esperava Nathan sentada no spa. E, depois de ter tido a ideia, não conseguia tirá-la da cabeça. Ela se desenvolvia com detalhes precisos, dando a ela a certeza absoluta de que funcionaria. Era perfeita. Então, lá estava ela no dia seguinte, esperando todos saírem do escritório para poder pegar na sala de Pop a cópia da chave do apartamento de Gray. É claro, Connor tinha que escolher justo hoje para se reunir com um cliente na sala de reuniões. Ela olhou para o relógio, consciente de que tinha um tempo limitado, se quisesse entrar no apartamento de Gray antes de ele terminar o trabalho que fazia em campo. Faith deixou escapar um longo suspiro aliviado quando ouviu vozes no corredor. Alguns segundos depois, Connor e os três homens que participaram da reunião passaram pela sala dela. Agitada, continuou sentada atrás da mesa até ouvir Connor voltar. — Ei — ele disse parado diante da porta. — Não precisava ficar. Ela o encarou com um sorriso radiante. — Ah, tudo bem. Tenho algumas coisas para terminar. Vou embora daqui a pouco. — Quer que eu espere? — Não, pode ir. O Nathan e o Micah estão te esperando no Cattleman’s. — Até amanhã, então. Faith esperou até ter certeza de que ele havia saído do prédio, e então correu ao escritório de Pop. Revirou o que havia na gaveta onde ele guardava as cópias das chaves, até encontrar a que tinha o número do apartamento de Gray. Triunfante, ela a pegou e voltou à sua sala para pegar a bolsa. A caminho da saída, Faith usou o celular para falar com Micah. — Ei, docinho — ele falou ao atender. — O Nathan está com você? — Sim, por quê? — Não o deixe perceber que é comigo que está falando. Micah fez uma pausa, e sua voz soou séria quando voltou a falar. — O que está acontecendo?


— Preciso de um favor. E não quero perguntas. — Ah... tudo bem. — Pode escapar do Nathan e ir me encontrar no apartamento do Gray imediatamente? — Estou indo. Ela suspirou aliviada. — Obrigada. Até já. Faith desligou o celular. Sentia-se agradecida por ele ter atendido ao seu pedido sem fazer perguntas. Não que não fosse fazer uma tonelada delas quando a encontrasse, mas pelo menos não havia falado nada na presença de Nathan. Ela foi direto para casa e estacionou o carro em sua vaga. Olhou cautelosa para a vaga de Gray, torcendo para ele continuar envolvido com o trabalho por mais trinta minutos, como previa o planejamento. Sentada no carro, tamborilou com os dedos no volante até ver Micah parar o carro algumas vagas longe da dela. Com a chave do apartamento de Gray na mão, ela desceu do automóvel e foi encontrar Micah. — Ei, bonequinha, o que aconteceu? — ele perguntou quando Faith se aproximou. O rosto demonstrava preocupação. Segurando a mão dele, ela o levou até a porta do apartamento de Gray. — Eu conto quando entrarmos. — Ah, arrombamento e invasão. Você sabe como se divertir, garota. Faith riu. O maluco. Assim que se aproximaram da porta, ela mostrou a chave. — Não é arrombamento e invasão, porque eu tenho a chave. — Invasão de privacidade. Pior ainda. Pendurou a bolsa no ombro e introduziu a chave na fechadura. Segundos mais tarde, ela e Micah entraram no apartamento escuro, e ele fechou e trancou a porta. — Tudo bem, cara de boneca, entramos. Agora, vai me explicar por que estou me arriscando a ser preso? Ela engoliu o nervosismo e apertou a alça da bolsa. — Eu quero que você... me amarre à cama do Gray. Nua. — E ficou tensa esperando a resposta de Micah. Não precisou esperar muito. Ele estava boquiaberto. — Ei! Espere um segundo. Quer que eu faça o quê? — Você ouviu. — Caramba. — Ele passou a mão na cabeça, enfiando os dedos entre os cabelos rebeldes. — Faith, meu bem, tem certeza de que sabe o que está fazendo? Ela olhou para o relógio e foi tomada pelo pânico.


— Micah, escute, pode brincar de psiquiatra enquanto me amarra à cama? O tempo está passando. Logo ele vem para casa, e prefiro que você não esteja aqui. — Ah, eu também prefiro não estar — Micah resmungou. E suspirou. — Vamos lá. Ela seguiu pelo corredor e parou na frente da porta do quarto. Estava aberta. Ao olhar para dentro, sentiu-se aliviada por ver que a cama era igual à dela. Contava com a possibilidade de Pop ter mobiliado os apartamentos com peças idênticas. Se a cama de Gray não tivesse aquela estrutura de madeira, teria que improvisar. Ela acenou para Micah se aproximar e se virou para encará-lo. — Sei que isso é estranho, mas não podia pedir ao Nathan. Ele é como um irmão, sabe, como o Connor. Mas você... você me vê como mulher, não como uma irmã mais nova. Ele arqueou uma sobrancelha. Faith fez uma cara de “ah, por favor”. — Já vi você olhando para a minha bunda — disse. — É bom saber que um dos meus amigos, pelo menos um, me considera atraente, ou gosta da minha bunda, pelo menos. Ele riu. — Bem, acho que a recompensa vai ser ver você nua. Posso eliminar uma fantasia da minha lista. Ela riu, tirou a bolsa do ombro, a abriu e pegou a corda que havia comprado na noite anterior. Em seguida entregou a corda a Micah e, enquanto ele a desenrolava, começou a se despir. — Sabe — ele disse —, se quer chamar a atenção desse cara, e imagino que seja essa a intenção por trás disso, posso sugerir medidas menos drásticas do que se amarrar à cama dele. As mãos de Faith pararam a caminho do fecho do sutiã. — Quer ajuda? — ele ofereceu. Os dedos de Micah roçaram suas costas quando abriram os ganchos, e ela segurou as taças sobre os seios com um braço. Quando se dirigiu à cama, ainda vestia as roupas íntimas. — Micah, me fale uma coisa. Se entrasse no seu quarto e encontrasse uma mulher nua amarrada à sua cama, o que você pensaria? — Que fui um cara muito legal em alguma vida passada? Ela balançou a cabeça. — O que quero provar é que uma mulher amarrada, nua, se oferecendo a um homem... bem, é um sinal claro. Ela é dele para fazer o que quiser. Ele está no controle. Os olhos se encontraram por um momento, e Faith viu na expressão de Micah uma semente de excitação, uma centelha de pura e primitiva masculinidade. Sim, ele entendia o que ela queria dizer. — O que aconteceu na The House, Faith? O que foi procurar lá? Ela se arrepiou com a intensidade daquele olhar. Depois subiu na cama e deixou cair o sutiã.


Sentia o olhar de Micah, e se sentia acanhada e vulnerável. Depois de respirar fundo, ela segurou a calcinha e a deslizou pelas pernas. Quando olhou para cima, Micah estava parado ao lado da cama com a corda nas mãos. Havia um fogo estranho em seus olhos, como se a visse pela primeira vez. — O que aconteceu na The House? — ele repetiu. A autoridade soava forte em sua voz. Provocava uma sensação inebriante, e Faith arrepiou-se novamente. — Fui procurar uma coisa — disse. — Algo que eu queria. E encontrei o Gray. Micah pegou uma de suas mãos e levou o braço acima de sua cabeça. Usando a corda, envolveu o pulso e o amarrou à cabeceira da cama. — E o que você queria? A voz suave e rouca percorria seu corpo como uma carícia, removendo a incômoda vulnerabilidade e deixando em seu lugar uma vaga excitação. Faith lambeu os lábios quando ele deu a volta na cama para amarrar o outro braço. — Estou esperando — Micah falou enquanto envolvia seu pulso com a corda. — Controle — Faith respondeu de maneira simples. — Um homem dominador. Micah prendeu a respiração. Em silêncio, deslizou a mão pela perna dela até chegar ao tornozelo e envolvê-lo com a corda. — Você me surpreende, Faith — reconheceu finalmente quando passou à outra perna. Micah exerceu uma pressão moderada até afastar completamente suas pernas. A vagina estava exposta, e ela fechou os olhos contra o constrangimento. Agora ele veria quanto estava excitada. — Faith, olhe para mim. Ela abriu os olhos quando Micah se dirigia ao outro lado da cama. Podia ver o volume embaixo da calça jeans. Dedos leves como penas dançaram sobre seu ventre e subiram em direção aos seios. O contato foi interrompido por um momento, e em seguida ele segurou um seio com a palma da mão, usando o polegar para esfregar o mamilo ereto. Faith estremeceu e arqueou o corpo. Qual era o problema com ela? — Não sabia que queria um homem dominador — ele murmurou. — Um homem ficaria maluco com essa submissão doce. Ela o encarou com uma mistura de impotência, confusão e excitação, curiosa com relação à promessa que via refletida em seus olhos escuros. Micah se abaixou, inclinou o corpo até a boca estar bem perto de sua barriga. Depois beijou o umbigo e deslizou a língua em torno dele. O arrepio subiu por seu corpo e explodiu no pescoço. — Não precisa ficar aqui — ele disse. Micah deixou a mão descer por seu ventre, passear pela pélvis até tocar o ninho de caracóis entre suas pernas.


— Pode vir comigo para casa. Eu posso dar o que você quer, Faith. Os dedos escorregaram pela fenda úmida, e ela gritou quando uma corrente de prazer surpreso correu por entre suas pernas. Sentia-se tentada. Era tentador escolher o caminho mais fácil. Gray a evitava. Este homem não. Micah a queria, parecia entender o que ela buscava. E, apesar de perceber a mente confusa, o corpo não parecia ter reservas com relação à oferta de Micah. Mas Gray despertava seu interesse. Não só no aspecto sexual. Se fosse só sexo, então, sim, poderia esquecer esse plano maluco e ir para a casa de Micah agora mesmo. Mas era mais que isso. Sentia-se atraída por Gray em um nível emocional que não entendia completamente. O dedo de Micah contornava preguiçoso seu clitóris. Era bom. O corpo respondia, mas não podia aceitar só pelo alívio físico que teria. — Não posso — ela sussurrou. — Talvez o Gray me ponha para fora daqui. Talvez não queira o que estou oferecendo, e talvez nem possa me dar o que preciso ter. Mas preciso descobrir. Micah se abaixou e segurou um mamilo com os lábios enquanto os dedos encontraram sua região mais sensível. O orgasmo era iminente. Faith girou o quadril, sentiu o desejo, reconheceu a necessidade de alívio para a tensão intensa, impossível. Quando estava perto de explodir, ele se afastou e a deixou com a dolorosa necessidade. Depois a beijou suavemente nos lábios. — Se ele te puser para fora, é porque é um idiota. Micah tocou sua face com um dedo enquanto ela tentava controlar a pulsação errática. — Espero que encontre o que quer — ele disse. — Mas, se não acontecer, sabe onde me encontrar. E, sem olhar para trás, ele saiu do quarto.


CAPÍTULO 23 Gray deixou o local onde estava trabalhando, feliz por poder encerrar o expediente e voltar ao apartamento. Onde não havia a menor possibilidade de ver Faith. Ela o estava enlouquecendo. Na metade do tempo podia sentir seu cheiro, e ela não estava nem perto. Imagens de seu corpo amarrado sobre o banco de espancamento, o traseiro convidativo para cima, o atormentavam. Aquela posição o tentava de muitas maneiras. Podia ter penetrado seu corpo como quisesse. As duas vias estavam abertas e acessíveis. Podia bater nas nádegas nuas até ficarem vermelhas. Podia imaginar uma dúzia de cenários nos quais estaria no controle, mas não seguiria por esse caminho. Não queria ser o brinquedinho de uma mulher. Quando estacionou em sua vaga na garagem do prédio, Gray notou que Faith e Micah já estavam em casa. Ele saiu do carro e caminhou para a porta do edifício, ansioso por uma ducha quente e uma cerveja gelada. Depois de entrar no apartamento, jogou a chave sobre a bancada. Quando atravessou o corredor, os cabelos em sua nuca ficaram em pé. Estava massageando a região quando entrou no quarto. E, quando viu Faith deitada em sua cama, ele quase tropeçou nos próprios pés. Nua. Amarrada à sua cama. Mas que diabo? Ela o fitava com os olhos semicerrados. Sua expressão era uma mistura de nervosismo e excitação. Naquele momento, todas as sensações que Gray experimentava se concentravam entre as pernas. O pênis inchou dentro da calça jeans até ele ter certeza de que acabaria esfolado. Finalmente, ele se recuperou o suficiente para andar e deu um passo à frente, enfiando as mãos nos bolsos para disfarçar o grande volume entre as pernas. — O que está fazendo aqui? — perguntou, e se sentiu imediatamente um grande idiota por ter feito a pergunta mais óbvia do ano. Mulheres não tiram a roupa e se amarram à cama de um homem sem ter uma ideia bem clara sobre o que esperam da situação. Ela umedeceu os lábios, exibindo a ponta rosada da língua. Gray quase gemeu ao se lembrar daquela língua em seu pênis, dos lábios doces envolvendo sua pele e de como havia sido explodir dentro daquela boca.


Ele tirou as mãos dos bolsos e flexionou os dedos. Queria tocá-la. Sentir seu gosto. Transar com ela. Mais que tudo, queria tirar a calça e mergulhar nela de corpo e alma. Perder-se em seu calor líquido. Foi preciso cerrar os punhos para controlar o tremor das mãos. — Venha me tocar — ela sussurrou. — Por favor. Faith olhava para ele com ar de súplica, o lábio inferior inchado e pulsante como se ela o tivesse mordido. Não, como se alguém houvesse devorado aquela boca. A imagem o fez lembrar como ela havia ficado depois de gozar em sua boca contra aquela parede no clube de sexo. Inteiramente beijável. Gray sentou-se na cama ao lado dela e se inclinou para beijar seus lábios. Ela recebeu o gesto com avidez, aberta, faminta, convidando-o a fazer mais que isso. A língua de Gray dançou sobre a dela, e ele engoliu o sabor doce. A mão encontrou a curva do quadril quando ele aprofundou o beijo. Ninguém respirava. Seus pulmões gritavam por oxigênio, mas não conseguia desgrudar a boca da dela. Um toque, uma carícia, seus dedos passeando sobre a pele dela, subindo pelo corpo até sentir o início da curva de um seio. Gray afastou os lábios dos dela, e os dois sorveram o ar com desespero. A boca se apoderou da dela novamente, bebeu de sua essência. A boca dele escorregou até o canto de seus lábios, e ele desenhou com beijos uma linha que desceu por seu queixo, a respiração cada vez mais errática e ruidosa. O lóbulo da orelha o tentava. Ele o capturou com os dentes. Faith gemeu e se contorceu inquieta debaixo dele. Ele lambeu suavemente, depois deslizou a língua por toda a volta da orelha. Sentiu o tremor que a sacudiu e viu o arrepio em sua pele. Gray seguiu uma dessas linhas arrepiadas até encontrar um seio. Por um longo momento, simplesmente olhou para os mamilos rosados. Eram perfeitos. Não muito salientes. Suaves, aveludados e redondos. Queria saboreá-los. Queria muito. Lambeu um deles, deixando a língua passear sobre a saliência sedosa. Ela se encolheu, e Gray passou ao outro seio, lambendo-o como se fosse uma deliciosa guloseima. Depois mordeu de leve, apertou com cuidado o botão entre os dentes, aplicando a pressão suficiente para ela sentir a dor leve da mordida. Faith deixou escapar um gemido de profunda satisfação, e ele sorriu sem afastar os lábios de sua pele. Acariciando a pele macia de seu ventre, ele foi descendo bem devagar até tocar e acariciar os pelos enrolados entre as pernas. Os dedos mergulharam na abertura, afastaram as dobras úmidas. Com o dedo do meio, ele encontrou e acariciou o clitóris. Suspiros doces brotavam dos lábios de Faith. Delicados, como ela. Era um som que inspirava a apreciação masculina. Queria dar a ela mais prazer só para poder ouvir os ruídos que fazia.


O dedo desceu um pouco mais, descreveu círculos lentos em torno da entrada, desenhou um caminho do lado de fora, provocando e sugerindo uma promessa ainda por cumprir. Faith arqueou as costas, e mais um gemido de prazer brotou de seu peito. Em resposta, Gray a penetrou com um dedo, e ela quase saiu da cama. Ele não conteve um gemido quando as paredes internas do corpo dela se estreitaram e acariciaram o dedo. Ela o agarrava, úmida e apertada. Seda quente. Gray fechou os olhos e imaginou aquela mesma pressão cercando seu pau. — Não, ainda não — Faith choramingou. Ele abriu os olhos para olhar para ela. Sua cabeça estava inclinada para trás, os cabelos loiros cobriam o travesseiro. Os músculos de suas pernas e virilha tremiam, sofriam espasmos. Ela estava perto do clímax. Por que queria parar? — Eu quero... — Faith arfou. — Quero que me bata como naquela noite. Quero que me amarre e assuma o controle. Depois... Ele nem a deixou terminar. Rápido, levantou-se da cama e se afastou mais de um metro. A irritação o inundou como uma onda gigante. Faith olhou para ele confusa, os olhos brilhando com a necessidade que clamava por satisfação. — O que foi? — ela perguntou. — Por que parou? Gray resmungou um palavrão, chutando o próprio traseiro mentalmente por ter se deixado arrastar para esse jogo. — Vamos ver se adivinho. Você já imaginou o cenário. Primeiro quer que eu brinque com você. Que acenda seu fogo. Quer que eu seja o senhor com sua escrava. Depois vai me pedir para bater na sua bunda e trepar com você até ficar maluca. Ela se encolheu com a grosseria, mas Gray não parecia culpado por ser tão direto. Lentamente, ela assentiu. — Isso é ruim? — sussurrou. — Quero dizer, se não me quer, é só falar. Pensei... pensei que estivéssemos ligados, que tivéssemos química. Química? Tinham energia sexual suficiente para abastecer toda a área da grande Houston! Ele passou a mão na cabeça e se esforçou muito para manter os olhos afastados dos mamilos rígidos e dos caracóis louros que cobriam sua vagina. Era possível ver a área rosada entre as pernas abertas, e queria deslizar a língua entre aquelas camadas, sentir seu sabor. — Faith, o que você acha que quer... — ele começou com toda a gentileza de que era capaz. — Acho que está se enganando. O rosto dela ficou vermelho, sinal claro de que a havia enfurecido. — Não fale comigo nesse tom superior — ela reagiu. — Não me diga o que eu quero e o que não quero. Ele levantou a mão.


— Me deixe terminar. Vamos ver se consigo ser claro. Você quer se submeter a um homem. Quer que um homem te domine. Por isso foi à The House e deixou um estranho bater na sua bunda. Em público. Ela corou e desviou os olhos. — Faith, olhe para mim. Ela o encarou novamente. — Estou certo? Você quer deixar todo o controle nas mãos de um homem? Ela assentiu lentamente. — Mas não é isso que está fazendo. — Como assim? — Por mais que diga que quer um homem que assuma o comando, você se agarra a cada vestígio de controle. — E apontou seu corpo amarrado à cama. — Criou a cena como a imaginava. Escreveu o papel, meu papel, e decidiu como tudo tem que acontecer. Planejou cada detalhe na sua cabeça. É você quem está no comando. Mais ninguém. Eu sou só a marionete esperando você segurar os cordões, ordenar que eu te domine e me dizer como devo te dominar. O choque a deixou de boca aberta. Os olhos estavam arregalados. — Não funciono desse jeito, Faith — ele falou com tom suave. — Eu disse o que queria. Uma mulher que aceitasse o meu comando. Nada desse cenário é decisão minha. É você determinando como devemos ficar juntos. Ele desamarrou suas pernas. Depois soltou as mãos. Então se afastou da cama e olhou para ela. — Vou tomar uma ducha. Foi um longo dia. Faith o viu sair do quarto, seu mundo todo girando em torno do eixo. Devagar, levantou-se da cama e recolheu as roupas. Sem se incomodar com sutiã ou calcinha, vestiu o jeans e a camiseta e sentou-se novamente na cama num silêncio perplexo. Seu corpo doía pelo constante estado de excitação, uma excitação instigada primeiro por Micah, depois alimentada por Gray. Mas não encontrava satisfação. E as palavras de Gray certamente a afastaram do orgasmo iminente. Como não havia notado antes? Ele estava certo. Sonhava com a dominação de um homem. Queria um homem que cuidasse dela, mas planejava cada aspecto de como seria essa dominação. Tinha uma ideia detalhada de como queria que tudo acontecesse. Se pudesse fazer como queria, daria a ele uma lista de cada coisa que queria que fizesse com ela. Ela escondeu o rosto entre as mãos. Ah, Deus, como era idiota. Não queria um homem dominador. Pelo contrário. O que procurava era um fantoche sem vontade própria. Mas isso não era o que realmente queria, era? Não, definitivamente não. Na verdade, o que queria era um homem que não precisasse ser orientado. Alguém que conseguisse entrar nela e ver suas fantasias, suas necessidades e cuidar delas. Emocional e fisicamente.


E, mesmo enquanto procurava um fantoche sem vontade, ela havia sido um fracasso desanimador. Passara mais tempo insinuando e sugerindo do que sendo clara e dizendo o que queria. Era de estranhar que fosse um caso clássico de frustração sexual? Que bagunça havia feito com tudo isso. Queria ir para casa e chorar. Havia encontrado o homem perfeito, um homem que queria as mesmas coisas que ela, mas fizera tudo errado. Agora ele a considerava uma idiota que não sabia o que queria e, pior, suspeitava de que fazia joguinhos estúpidos. Devia ter ficado ali se censurando mais tempo do que pensava, porque de repente Gray tocou seu ombro. Ela levantou a cabeça e o viu ali parado com uma toalha enrolada na cintura. — Tudo bem? — ele perguntou em voz baixa. Faith deixou as mãos caírem ao lado do corpo e desviou o olhar. — Você tinha razão. Nem percebi o que estava fazendo, mas você está certo. Eu estava orquestrando tudo. É o que tenho feito em todos os meus relacionamentos. Não é estranho que esteja tão ferrada, é? Ele se sentou ao lado dela e segurou a toalha com uma das mãos. — Você não está ferrada, Faith. E não há nada errado com querer orquestrar suas fantasias sexuais. Eu só sugeri que o que você acha que quer e o que realmente quer podem ser duas coisas bem diferentes. Talvez tenha que pensar se não vai se sentir melhor em uma situação em que você esteja no comando. Faith deixou escapar um suspiro frustrado. — Mas é justamente isso, Gray. Não é isso que eu quero. Sei que estou muito confusa, mas o que quero é um homem forte. Alguém que não tenha medo de agir e assumir o controle, como você mesmo diz. Eu quero, não, eu preciso disso no homem com quem vou me envolver. Eu quero... Quero alguém que cuide de mim e valorize o presente da minha submissão. Talvez soe terrivelmente antiquado, mas estou cansada de procurar alguma coisa que obviamente não existe. Talvez eu tenha lidado com isso da maneira errada, mas o que quero não muda. Eu sei o que quero. Só não descobri ainda como conseguir. Ela levantou, tomada de repente pela necessidade de sair dali. Afinal, já havia feito papel de idiota o suficiente por um dia. Talvez fosse chorar no ombro de Micah. Talvez fosse para casa tentar esquecer que esse dia havia acontecido. Ela arriscou olhar para Gray mais uma vez e o viu olhando para ela chocado. Havia em seus olhos uma expressão estranha, como se ele refletisse sobre suas palavras. O que não a surpreenderia, considerando a confusão que havia aprontado. — Sinto muito — ela sussurrou. — Sinto de verdade. E se dirigiu à porta, ansiosa para se afastar o máximo possível da possibilidade de novas


autodescobertas. — Faith, espere — ele pediu, mas foi em vão. Ela apressou o passo e correu porta afora.


CAPÍTULO 24 Gray

a viu ir embora e sentiu a frustração apertando sua garganta. Teria errado

completamente ao interpretá-la? Primeiro Faith parecera muito perdida e confusa, depois falara com convicção sobre o que queria. Havia imaginado que tudo era só um jogo sexual. Que ela queria experiências diferentes sem o véu da realidade. Mas, quando a ouvira desabafar, falar com o coração, convencera-se de que a julgara mal. Seria possível? Havia encontrado uma mulher que queria o mesmo que ele de um relacionamento? Ela parecia instável, um pouco insegura, como se só agora começasse a abrir as asas e se preparasse para voar com independência. E ele a derrubara com um tiro. Que droga. Não podia se envolver com Faith, não antes de resolver toda a situação com Samuels e a mãe dela. Ele a estava usando, o que, em essência, era o que a acusava de fazer com ele. A hipocrisia quase o fez tremer. Pela primeira vez na vida, estava realmente em dúvida com relação a uma mulher. Precisava recuperar a perspectiva. Lembrar por que estava ali, o que o levara àquele lugar. Telefonar para Mick o ajudaria nisso. Precisava mesmo de atualizações sobre o caso, porque ele não havia sido sua principal preocupação nos últimos dias. Gray levantou-se da cama e derrubou a toalha no chão. Nu, caminhou até a cômoda e abriu gavetas procurando cueca, jeans e camisa. Alguns segundos mais tarde, ligou para o número de Mick e esperou para ser atendido. — Alguma novidade para mim? — Mick perguntou sem rodeios. — Esperava que você tivesse alguma para mim — Gray respondeu. — Com exceção de uma conversa telefônica, não tenho nada. A mãe dela não ligou mais. Mick grunhiu do outro lado. — A última informação que tive foi de que eles foram vistos em Huntsville. Esse relatório chegou há vários dias, o que me faz pensar que já devem ter seguido viagem. — Como tem recebido esses relatórios, Mick? O departamento está investigando o Samuels? Silêncio prolongado do outro lado da linha. Depois: — O que está insinuando, filho?


Gray piscou surpreso. — Não percebi que estava insinuando alguma coisa, queria saber se o departamento havia mudado de atitude e decidido investigar o Samuels, só isso. O que há de novo na investigação oficial? Mick fez um ruído de desgosto. — São todos uns ratos, uns desgraçados. — Talvez eu deva telefonar para me informar sobre possíveis progressos — sugeriu Gray. — Não — Mick respondeu em voz baixa. — Você está de licença. Se o departamento souber o que está fazendo, você vai ficar encrencado. Tenho um contato lá dentro, um velho amigo que me mantém informado sobre o que está acontecendo. Ou não está acontecendo, na verdade. Gray deu de ombros. — Bem, também não tenho conseguido muita coisa por aqui. Estou convencido de que a mãe da Faith se envolveu com alguém que não presta, mas não tenho certeza de que é o mesmo imprestável que atirou no Alex. Estou agindo aqui sem muito conhecimento de causa. — Está me fazendo um favor — Mick resumiu. — Isso é tudo que precisa saber. Eu sei quem é o canalha que atirou no meu filho. Se deixássemos a investigação nas mãos do Billings, ainda não teríamos a menor noção de como identificar um suspeito. Gray mordeu a parte interna da boca. Sabia que as emoções de Mick estavam à flor da pele, mas não estava com disposição para aturar sua atitude irritante. Especialmente porque era ele quem estava ali correndo atrás do próprio rabo. O que levava à pergunta: por que estava ali perseguindo um palpite? Mick não havia fornecido nada muito concreto, mas Gray devia isso a ele, e Alex era seu parceiro. Se Mick estava certo sobre quem matara Alex, e o departamento não fazia nada a respeito disso, Gray não ia recuar. — Escute, filho — a voz de Mick soou mais aduladora. — Sei que isso não é fácil para você, sei que não é agradável correr atrás de um rabo de saia que, provavelmente, vale tão pouco quanto a mãe dela. Sei que está ansioso para voltar ao trabalho. Mas espere um pouco mais. Minha intuição diz que o Samuels está a caminho daí. Fique perto da filha por mais alguns dias. Se não acontecer nada, pode voltar para casa e esquecer tudo isso. Gray rangeu os dentes. Não defenderia Faith das acusações de Mick, porque isso só serviria para enfurecer o pai de Alex. — Eu mando notícias — ele disse simplesmente. — Obrigado, filho — falou Mick, mas Gray não se sentia assim tão caridoso. Sabia que o uso do tratamento carinhoso era sua maneira sutil de manipulá-lo. Quando desligou, Gray estava mais irritado que nunca. Com uma das mãos, pressionou a nuca e massageou os músculos tensos. O que ia fazer? Não acreditava mais no motivo que o levara até ali.


De qualquer maneira, podia ficar e acompanhar a história até o fim, ver se a mãe de Faith apareceria mesmo com o namorado caloteiro. Depois poderia voltar ao trabalho, deixar em paz a memória de Alex e, com sorte, aliviar um pouco a dor de Mick. E talvez a sua. Um estranho aperto no peito e uma onda de tristeza o pegaram de surpresa. Tinha a impressão de que nada do que havia feito ultimamente resultara em algo de bom. Não conseguira salvar o parceiro, e ainda havia dispensado uma linda mulher. Sim, a vida era muito boa.


CAPÍTULO 25 Nos últimos três dias, Faith havia sido mais sexualmente aventureira do que em toda a sua vida. E também havia se exposto ao ridículo diante de mais homens do que aqueles com quem já havia dormido. O que era bem desanimador quando fazia essa conta mentalmente. Ela afundou na banheira e olhou para as unhas dos pés pintadas recentemente. Mas nem o rosa brilhante e alegre servia para animá-la. As palavras de Gray giravam em sua cabeça, uma ladainha interminável sobre quanto havia sido estúpida. Agora que ele havia posto a situação em palavras, tudo ficara bem claro. Sua ideia de entregar o controle nas mãos de um homem era dar a ele um roteiro de atividades para desempenhar. Teria sido melhor contratar um garoto de programa e dar a ele um script. Mas, em meio a todas as lamentações, um pensamento se formou e permaneceu firme. Com o homem certo não teria que dar instruções, e o fato simples era que nunca havia estado com o homem certo. Isso era evidente. Havia respondido à frustração da única maneira que conhecia. Mas Gray desmascarara seu controle sutil. Era um homem acostumado a fazer as coisas do jeito dele. Teria sido perfeito para ela, se não houvesse conseguido convencê-lo de que era uma idiota volúvel fazendo joguinhos. Estava mais confusa que nunca. Os olhos buscaram o telefone sem fio que ela havia levado para o banheiro. Tinha duas opções. Podia ligar para Micah, mas tinha certeza de que ele responderia com um convite, e não estava preparada para isso. Ou ligava para Damon e pedia a opinião dele. Damon era uma pessoa de mente aberta, e ela se sentia confortável quando conversava com ele. Depois de um momento de hesitação, pegou o telefone e ligou para o número particular que Damon havia dado a ela. Ele atendeu no segundo toque. — Damon, é a Faith. Espero que não seja um momento ruim. — É claro que não — ele respondeu com simpatia. — Como posso ajudar? Ela hesitou por um segundo. — Preciso falar com você. Tem tempo para beber alguma coisa mais tarde? Se não estiver ocupado, é claro — acrescentou apressada. — Eu mando meu motorista ir te buscar.


— Motorista? Eu posso ir encontrar você. — Não vai me incomodar em nada. Eu mando o motorista em uma hora. Está bem assim? É tempo suficiente para você? Conheço um lugar muito bom do outro lado da cidade onde vamos ter privacidade garantida. — Sim, uma hora, então. — Ótimo. Até mais tarde. Ela deixou o telefone escorregar dos dedos. Depois saiu da banheira para se enxugar. Um motorista? Quem mandava um motorista? Ele ganhava bem com o trabalho de gerente do clube, ou ter um motorista à disposição era só um benefício do cargo? Damon mencionara privacidade e algum lugar do outro lado da cidade. Os dois comentários associados ao motorista a levaram a escolher algo um pouco mais elegante que jeans e tênis. Exatamente uma hora mais tarde, ela foi atender à porta. Havia escolhido um vestido preto e clássico de alças finas, e os sapatos eram os que Damon havia devolvido alguns dias antes, supersexy e muito altos. Os cabelos estavam presos no alto da cabeça e brincos de brilhante em forma de gota enfeitavam as orelhas. Ela verificou o batom no espelho do hall antes de abrir a porta. Do outro lado havia um homem grande vestindo um terno discreto. Apesar de ser mais de nove da noite, ele mantinha os óculos escuros. — Srta. Malone? — Sim, sou eu — Faith confirmou com um sorriso hesitante. Ele retribuiu o sorriso e ofereceu um braço. — O sr. Roche a espera. Vou levá-la ao seu destino. Faith arregalou os olhos quando viu o carro que o homem dirigia. Talvez estivesse esperando uma limusine, mas o Bentley a surpreendeu. Quem tinha um Bentley à disposição? Clubes de sexo eram tão lucrativos assim? O motorista a ajudou a entrar e sentar no banco traseiro, depois fechou a porta. Ela se acomodou no banco de couro macio e fechou os olhos para apreciar a atmosfera. Quando o carro entrou em movimento, Faith olhou pela janela escurecida para a caminhonete de Gray. Com um suspiro infeliz, voltou a prestar atenção ao interior do automóvel. As notas suaves de uma melodia clássica pairavam no ar. Ela virou a cabeça e olhou pela janela mais uma vez, observando as luzes da cidade. Trinta minutos mais tarde, o Bentley parou embaixo de um toldo, e um porteiro se aproximou para abrir a porta e ajudá-la a descer. — Por aqui, srta. Malone — ele disse. Faith arqueou uma sobrancelha, surpresa e impressionada com toda a pompa. Estava mais intrigada que nunca com relação ao status de Damon como gerente de um clube de sexo.


Ela foi conduzida ao interior de um restaurante íntimo, onde foi prontamente levada ao maître, que se curvou e beijou sua mão. Depois ele ofereceu um braço e a conduziu ao salão. A mobília era exclusiva, reservas eram indispensáveis. Faith lamentava não ter prestado mais atenção quando entrara, mesmo duvidando de que teria reconhecido o nome. O único lugar que frequentava regularmente era o Cattleman’s, e não havia nada de exclusivo nele. Para sua surpresa, o maître a levou além do salão para uma sala privada no fundo do restaurante. Quando entraram, Damon levantou-se da pequena mesa do outro lado da sala e sorriu. Ao estender a mão para Faith, ele assentiu para o maître. — É só isso, Phillip. Phillip sorriu e se retirou. Damon puxou uma cadeira e convidou Faith a sentar-se. Depois deu a volta na mesa e sentouse na cadeira que ocupava antes. Em silêncio, afrouxou a gravata e desabotoou os punhos da camisa de mangas longas. — Espero que não se importe se eu ficar mais à vontade — disse. — De jeito nenhum. Ele apoiou os braços na mesa e a encarou. — Você está muito bonita. Faith se moveu desconfortável na cadeira. Por alguma razão, sentia que o Damon com quem havia falado e que havia conhecido na The House não era o mesmo homem que estava agora sentado diante dela. E de repente se sentia tola por ter telefonado e pedido para conversar com ele. — O que quer beber? — Damon perguntou. — Eles têm uma excelente seleção de vinhos, mas pode escolher algo mais forte, se quiser. Ela suspirou. — Não creio que tenham cerveja aqui. — A última coisa de que precisava era álcool. A cabeça estava suficientemente confusa sem acrescentar uma bebida à mistura. Ele riu exibindo os dentes perfeitamente alinhados e brancos. — Cerveja, é claro. Eu vivo para servir. E acenou para um garçom que Faith nem havia notado no canto da sala. Quando o rapaz aproximou-se, Damon pediu um vinho que ela não conhecia e uma garrafa da melhor cerveja da casa. Faith riu quando o garçom assentiu sem demonstrar surpresa. — Sou completamente inadequada — disse, tentando se desculpar com Damon. — Você é deliciosa — ele respondeu com um sorriso. — Está com fome? Ela balançou a cabeça, sabendo que o estômago não toleraria comida depois de toda a agitação


daquele dia. Um silêncio incômodo se prolongou entre eles, e Faith brincou com o guardanapo para disfarçar o desconforto. O garçom voltou com as bebidas, e ela segurou o copo gelado com gratidão. O garçom se afastou, e Damon olhou para ela. — Então, qual é o problema? Faith bebeu um gole de cerveja e deixou o copo sobre a mesa com um suspiro. — Primeiro, precisa me explicar como um homem que pensei ser um simples gerente de um clube se transformou no Sr. GQ. Ele sorriu. — Não me lembro de ter me apresentado como um simples gerente de clube. — Não, acho que não se apresentou assim — ela admitiu. — Mas o Bentley foi um pouco de exagero. Ele riu e bebeu mais um pouco de vinho. — Tudo bem, admito, estava tentando impressionar você. Funcionou? Ela deu de ombros. — Acho que estou mais confusa do que impressionada, mas, ultimamente, tenho me afogado em confusão. O brilho divertido nos olhos dele desapareceu, deu lugar a uma preocupação autêntica. A mão cobriu a de Faith sobre a mesa. — Se tem alguma coisa que eu possa fazer para ajudar, Faith, conte comigo. Ela removeu a mão devagar e a descansou sobre as pernas. — Confesso que havia algumas coisas que eu queria conversar com você, um assunto em que esperava que fosse experiente, mas agora... — Agora o quê? Ela se mexeu na cadeira. — Agora estou pensando em quanto seu papel de gerente da The House é só um jogo, como todo o resto. Estou com muita dificuldade para determinar o que é real e o que não é. — Ah. — O que significa isso? — A expressão de aparente compreensão no rosto dele era frustrante. Damon encostou-se à cadeira e respirou fundo. — Faith, eu sou dono da The House. Sendo assim, minha posição de gerente ou proprietário certamente é legítima. The House é minha válvula de escape. Um lugar aonde posso ir, onde sou livre para ser quem sou ou desfrutar de um estilo diferente. — Então é um hobby? Ele a encarou interessado.


— Posso sentir sua raiva e frustração. Está se sentindo enganada como se houvessem mentido, brincado com você. Ela levantou as sobrancelhas. Sim, essa ele havia acertado na mosca. Na verdade, sentia-se mais como se estivesse presa em uma terra de fantasia onde todo mundo lia um daqueles roteiros sobre os quais Gray havia falado. — Admiro você, Faith. De verdade. — Hum? — Você sabe o que quer, e não se contenta com menos que isso. E não tem medo de errar enquanto procura. Ela riu. Não conseguiu se conter. Saber o que queria? Seria ótimo. Tornaria tudo muito mais fácil. Ele balançou a cabeça antes que Faith pudesse falar. — Pode estar confusa agora, mas no fundo sabe o que quer. Só não descobriu como conseguir. Por isso foi à The House. Não por não saber o que queria, mas por não saber onde encontrar o que buscava. — Ou como lidar com isso — ela acrescentou séria. — Quem era o cara? — Damon perguntou curioso. — O que apareceu na The House como se quisesse arrancar os membros do Brent. Faith abaixou a cabeça e riu. — O nome dele é Gray. — Ele parecia saber muita coisa sobre você. Faith suspirou. — Acho que ele me entende bem demais. — Como assim? — É uma longa história. Uma longa e confusa história. — Tenho a noite toda — ele falou sem pressa. Faith hesitou por um momento, mas contou a história toda, começando pelo rompimento com John e o subsequente encontro com Gray, primeiro na The House, depois no apartamento dele. — E o pior é que ele está certo — concluiu. Damon a estudou com ar pensativo enquanto servia mais vinho em sua taça. — Minha esperança era de que você pudesse me dar algum esclarecimento. Estou jogando? Estou repetindo exatamente o que mais detestei em minha experiência na The House? O que eu quero não existe fora do mundo das encenações e fantasias elaboradas? Ele se inclinou e tocou seu rosto. — Não acho que seja assim. Eu acho, como já disse antes, que você é uma mulher que sabe o que quer. Só não descobriu ainda como conseguir, nem encontrou o homem certo, alguém que não


precise de direção, dicas ou roteiro. — Sou uma pervertida? — Não. É uma mulher que muitos homens sonham ter. Eu, inclusive. Passo muito tempo na The House, em parte porque também procuro alguma coisa. Nem eu sei ao certo o que é, mas é algo que vai além dos jogos inofensivos representados atrás de portas fechadas. Não critico meus clientes por seus excessos sexuais. Meu compromisso é fornecer a eles um ambiente seguro no qual possam viver suas mais loucas fantasias. — O que você quer? Ele sorriu e balançou a cabeça. — Você ficaria chocada. Faith levantou uma sobrancelha. — Se chupar outro homem enquanto você assistia a tudo não me chocou, não sei como vai poder me chocar com alguma coisa que disser. Ele engasgou com o vinho e usou o guardanapo para cobrir a boca. Faith precisou de um minuto para compreender que ele estava rindo. — Você é refrescante, Faith. Não consigo te decifrar. Fica vermelha de um jeito absolutamente feminino e, ao mesmo tempo, é extremamente brusca. — E então? Vai me contar que tipo de mulher está procurando? Ele a estudou por um momento, depois deixou o guardanapo sobre a mesa. — Você tem muitas características em comum com a mulher dos meus sonhos, acho. Mas eu levaria as coisas um pouco além disso. — Ah, agora fiquei curiosa. Ele sorriu. — Quero uma mulher que se submeta completamente. Acho que, em alguns círculos, ela poderia ser considerada uma escrava. Faith arregalou os olhos. — Uma escrava? — Eu disse em alguns círculos — ele lembrou com tom seco. — Entenda, as pessoas se prendem demais a rótulos. Quero uma mulher totalmente devotada a mim e às minhas necessidades. Em troca, eu cuidaria dela e supriria cada uma de suas necessidades. Mas eu estaria no controle. — Mas isso é o que eu quero — ela declarou com tom suave. Damon assentiu. — Eu sei. Triste, não é? Aqui estamos nós, um homem e uma mulher, ambos querendo as mesmas coisas, mas você não se sente atraída por mim. Faith abriu a boca para protestar, mas ele riu.


— Não, você sabe que é verdade. Sim, respondeu ao meu toque. Mas, quando o Gray apareceu, bem, a história mudou completamente. Não havia muito que pudesse dizer contra isso. — Então, com base no que acabei de contar, acha que não tenho nenhuma chance com o Gray? Quero dizer, tenho a impressão de que ele é igual a você. Também quer uma mulher submissa, sem joguinhos, essas coisas. Como posso mostrar a ele que também quero o que é real? Damon balançou a cabeça. — Não sei o que dizer, Faith. Tenho a impressão de que ele está resistindo à atração que sente por você. Não sei por quê. Se você mostrasse algum interesse por mim, eu teria te amarrado à minha cama em menos de dois segundos. Uma onda de calor subiu por suas costas e invadiu o rosto. — Gostou da imagem, não é? — ele provocou. — Cretino — Faith resmungou. — Droga, por que ele? Por que não sinto a mesma coisa por outra pessoa? Desde que comecei a procurar um homem que cuidasse completamente de mim, tenho tido mais propostas do que tive a vida toda, sabe? — Os homens adoram uma mulher submissa — Damon falou com simplicidade. — Mesmo quando dizem que não. Tem alguma coisa encantadora em uma mulher doce procurando proteção e cuidado, e isso inspira um homem a ser maior do que é. — Sim, mas também abre muito espaço para abuso desse poder. Damon concordou com um movimento de cabeça. — É verdade. Se mais homens agissem com responsabilidade, menos mulheres se incomodariam em ceder a eles o controle. — Meu Deus! Não acredito que disse isso. Foi exatamente o que eu falei! Disse a mesma coisa ao Gray na semana passada. Eu falei que, se mais homens não fugissem da responsabilidade, mais mulheres se disporiam a aceitá-los como chefes da casa. Damon sorriu para ela e, mais uma vez, Faith lamentou o fato de Gray dominar seus pensamentos e desejos. Ali estava um homem disposto a mostrar a ela as coisas que queria. E de novo ela se afastaria depois de ter passado tanto tempo procurando esse homem. Era o suficiente para fazê-la gemer de frustração. — Preciso de férias — ela anunciou. — Preciso de tempo para decidir o que vou fazer com minha vida. Ele segurou sua mão e acariciou as palmas com os dedos. — Tenho uma casa de praia. Quer a chave? Pode ir passar alguns dias lá, ter um tempo para você. Ninguém te incomodaria. Ela o estudou e se sentiu tentada a aceitar a oferta. Alguns dias na praia, longe de tudo, seriam o paraíso. E a poupariam de encontrar Gray até se sentir mais forte.


— Meu motorista pode te levar no Bentley — ele acrescentou com um sorriso malicioso. Faith riu. — Tudo bem, eu aceito, Damon. E não sei como agradecer. — Não me agradeça. Eu tenho segundas intenções. — Ah, é? — Sim. Se as coisas não derem certo entre você e o Gray, espero que me procure. Um arrepio morno percorreu seus braços quando os dedos continuaram afagando a palma de sua mão. — Vou me lembrar disso — ela respondeu. E estava falando sério. Se desse a Damon meia chance, poderia descobrir que eram compatíveis. — Quando quer viajar? — ele perguntou. — É só marcar a data, meu motorista vai estar à disposição. Ela olhou para o relógio. — Francamente, não estou com vontade de ir para casa, o que significa que ainda vai ter que me entreter por um tempo. E, se seu motorista não estiver muito cansado, ele pode me levar para casa mais tarde e esperar enquanto eu pego algumas coisas e ponho na mala. Deixo para dormir quando chegar lá. Damon sorriu. — Muito bem, combinado. Quer mais cerveja?


CAPÍTULO 26 Gray passou uma noite de insônia argumentando consigo mesmo. Nas primeiras horas da manhã ele desistiu de dormir e foi se sentar na cozinha com uma xícara de café. Teria arruinado todas as chances com Faith? E quando foi que começara a pensar na possibilidade de um relacionamento com ela? Relacionamento? Devia estar maluco. Primeiro, estava mentindo para ela, usando-a. Ela era um meio para um fim. Segundo, sua vida, ou o pouco que havia dela, estava em Dallas. Engraçado, não pensava muito na carreira desde que chegara a Houston, mas ainda era um bom policial. Não tinha motivo para não acabar com a farsa. Podia contar a ela toda a verdade. Faith era uma mulher inteligente. E ela não queria nenhuma proximidade com a mãe. Era hora de parar com as desculpas. Faith queria a mesma coisa que ele. Quando pensava nesses termos, tudo parecia perfeitamente simples. Diria a ela a verdade sobre sua presença ali. Removido esse obstáculo do caminho, esperava que ela cooperasse. Poderia investigar o envolvimento de Samuels na morte de Alex, e talvez então ele e Faith pudessem explorar essa atração que existia entre eles. Atração. Droga. A palavra não fazia jus ao que havia entre eles. Mick ficaria furioso, mas teria que aceitar sua decisão. Não era ele que estava ali, na linha de fogo; era Gray. Desde que a justiça fosse feita, não faria diferença para Mick de que forma ela havia sido assegurada. Agora que acabara de convencer-se, estava ansioso para pôr as mãos na massa e encontrar um jeito de contar toda a verdade a Faith. Honestamente, não sabia como ela reagiria. Mas não levaria a mentira adiante. Não se queria começar um relacionamento sem nenhuma bagagem. Lá estava a palavra de novo. Mas, com toda honestidade, sabia que queria mais que uma transa casual. E o relacionamento que ela queria era exatamente o que ele procurava e que já havia imaginado que nunca encontraria. Gray pegou as chaves e saiu. Sentia-se mais leve do que se sentira a vida inteira. Quando saiu, viu o carro de Faith estacionado na vaga de sempre, o que achou estranho, considerando que ela era sempre a primeira a chegar ao escritório. Porém, ao olhar para o relógio, ele constatou que estava saindo mais cedo que de costume.


Por um instante pensou em ir falar com ela em seu apartamento, mas, provavelmente, Faith se arrumava para sair, e não queria pressioná-la. Esperaria até ter uma chance de encontrá-la sozinha no escritório. Quando lá chegou, Gray descobriu que Pop e Connor já estavam no prédio. Pop levantou a cabeça ao vê-lo passar pela porta de sua sala e o chamou em voz alta. Gray voltou atrás e enfiou a cabeça no vão da porta. — E aí? — perguntou. — Faith não vem trabalhar hoje — Pop avisou. — O Connor e eu vamos sair para participar de uma licitação, e o Micah e o Nathan só vêm para cá mais tarde. Pode organizar a correspondência e ficar para atender uma ligação que estou esperando? Tenho que estar de volta às dez para uma reunião virtual com um cliente importante, vou precisar de ajuda. Gray piscou surpreso. — A Faith não vem trabalhar? — É, eu sei; só ela sabe onde guarda as coisas — Pop resmungou. — A Faith nos mima demais. O dia vai ser difícil sem ela por aqui. — Ela está bem? — Gray tinha medo de ouvir a resposta. Havia magoado Faith? E essa era uma pergunta idiota. Era evidente que a havia magoado, mas era por causa dele que ela se ausentara do escritório, ou o motivo era outro? Pop deu de ombros. — Só avisou que não viria. E ela não falta com a frequência necessária para me dar o direito de interrogá-la quando avisa que não vem. Gray franziu o cenho. — É claro. Sim, eu posso cuidar da correspondência e dos telefones. Não tem problema. — Obrigado. Estou esperando uma ligação do Sherman Winston. Quando ele telefonar, dê o número do meu celular. Eu pretendia estar aqui para atender essa chamada, mas aí surgiu a licitação, e preciso cuidar disso pessoalmente. Gray acenou e seguiu para sua sala. Faith devia ter se cansado de suas bobagens. E quem poderia culpá-la? Tinha muito que consertar, e só teria essa chance se ela ainda aceitasse ouvi-lo depois de contar toda a verdade sobre sua presença ali. Às nove horas o carteiro chegou com a correspondência, que deixou sobre a mesa de Faith. Gray agradeceu, pegou os envelopes e começou a separar os cheques das outras coisas. Estava na metade da pilha quando encontrou um envelope endereçado a Faith Martin. Intrigado, leu de novo o nome e o endereço rabiscados numa caligrafia ruim. Não havia remetente, e era evidente que não se tratava de uma carta comercial. Faith Martin? Martin era o sobrenome da mãe dela. Ninguém que se relacionava com Faith a chamava por outro sobrenome que não fosse Malone.


Os cabelos em sua nuca se arrepiaram. Sem a menor culpa por abrir sua correspondência, ele pegou a lâmina apropriada no canto da mesa e abriu o envelope com cuidado e precisão. Não queria rasgar o selo, caso pudesse extrair dele o material para um teste de DNA. E também teve a cautela de tocar apenas os cantos do papel quando o desdobrou. Seus olhos percorreram a letra quase ilegível, e enquanto lia ele era invadido por uma fúria quase incontrolável. “Dá logo o dinheiro, vadia. Seu velho tem muito, pelo que sei, e aposto que ele não vai economizar, se for pra proteger a filha bonitinha do perigo. Pode ser do jeito mais fácil, ou do jeito mais difícil. De um jeito ou de outro, vamos pegar esse dinheiro. A escolha é sua.” Gray devolveu a folha de papel ao envelope, depois o dobrou e guardou no bolso. O desgraçado estava ameaçando Faith. Tinha que ir ao apartamento dela imediatamente. Garantir que ela estava bem e que não ficaria sozinha. Não havia melhor momento que o presente para resolver todas as coisas de uma vez. Faith se reclinou no assento de couro e viu o cenário passar do lado de fora da janela. Era uma bela manhã. Quente, ensolarada, e, quanto mais se afastavam de Houston, mais o céu ficava azul. Passaram por Galveston e seguiram para o oeste. O trânsito e o número de casas diminuíam na medida em que se afastavam. Finalmente, eles passaram pela entrada de uma grande casa de praia, a única em um quilômetro e meio de orla, pelo menos. Faith saiu do carro e respirou o ar salgado. Era perfeito. Teria privacidade completa. Ninguém para incomodar ou interferir. Seria o paraíso. O motorista, que se identificou como Sam, levou sua mala pelos dois lances de escada até a porta de entrada, que destrancou para ela. Ele deixou a bagagem ao lado da porta, do lado de dentro, e tirou um cartão do bolso. — Aqui está meu número. Se precisar de alguma coisa, é só me ligar. Ela aceitou o cartão e sorriu. — Obrigada, Sam. Muito obrigada por tudo. Ele assentiu e desceu a escada para voltar ao Bentley, deixando-a sozinha na casa espaçosa. Faith caminhou pela sala de estar até o deque dos fundos e saiu pela porta deslizante de vidro. A brisa fez seus cabelos dançarem em torno da cabeça. O som suave das ondas acalmou seus nervos tensos. Ela levantou os ombros e os relaxou com um grande suspiro. Havia uma espreguiçadeira no gramado, e ela não resistiu ao apelo de ir sentar-se nela. Com os pés para cima, ficou ali olhando para as águas turvas do golfo.


Quando lembrou que precisava ligar para Pop e explicar melhor sua ausência no escritório, ela pegou o celular no bolso e torceu para ter sinal tão longe de Galveston. — Por que está ligando do celular? — Pop perguntou quando a atendeu. Ela sorriu. — Porque não estou em casa. — Tudo bem? Pensei que estivesse doente. Você não está com voz de doente, mas também não parece estar bem. — Estou bem — ela respondeu com voz hesitante. — Só preciso... preciso de férias, Pop. Espero que não se incomode por eu tirar alguns dias. Sei que devia ter planejado com antecedência, mas... Ele a interrompeu antes que pudesse se aprofundar mais na explicação. — Não precisa justificar suas férias, menina. Você merece, e precisa mesmo descansar. Não quero ver você por aqui por uma semana, pelo menos. — Tem certeza? — ela insistiu, apesar de já ter decidido que se afastaria por uns dias. — Vamos ficar bem por aqui. O café não vai prestar, mas a gente sobrevive. Ela riu. — Obrigada, Pop. Você é demais. — Se cuida. Não tem estado bem ultimamente. — Amo você. — Também amo você, menina. Gray saiu do escritório e do estacionamento como se fosse apagar um incêndio. Precisava telefonar para Mick e avisar que as coisas haviam progredido. Samuels devia estar em Houston, ou perto dali. Mas, antes, tinha que se certificar de que Faith estava bem e esclarecer as coisas com ela. Ao ver o carro dela ainda no estacionamento do prédio, ele parou a caminhonete na vaga ao lado. Depois correu para a porta do apartamento dela e bateu com força. Nenhuma resposta. Bateu de novo. — Faith, sou eu, Gray. Abra a porta. É importante. Mais uma vez, ele esperou em vão pela resposta. O medo oprimia seu peito. O carro dela estava ali. Por que ela não atendia à porta? Gray bateu mais uma vez, contando com a possibilidade de Faith estar no banho, e esperou alguns segundos. Depois fez o que qualquer policial faria naquela situação. Chutou a porta. Ela se abriu e bateu na parede com um estrondo. Ele entrou lamentando não ter levado a arma. O apartamento estava escuro. Não havia nenhuma luz acesa. O único som que conseguia ouvir era o ronco do motor da geladeira.


Gray correu pelo apartamento olhando todos os cômodos, mas não encontrou nada. O pânico inundava seu estômago e provocava uma sensação de enjoo. Onde ela estava? Samuels já havia levado Faith? Correu de volta à caminhonete e pegou o celular. Ligou para Mick no caminho de volta ao escritório. Esperava que Pop ou Connor pudessem fornecer um motivo perfeitamente razoável para o carro de Faith estar na garagem do prédio, embora ela não estivesse em casa. Quando Mick atendeu, Gray falou rapidamente sobre a carta que havia interceptado. A respiração de Mick ficou mais ruidosa do outro lado. — Ele está aí. Eu sabia que o filho da puta não ia resistir, sabia que ele ia recorrer à garota para arrumar dinheiro. É a oportunidade perfeita, Gray. Podemos usá-la como isca, atrair o Samuels e pregar o rabo dele na parede. — Ei, ei, devagar. Mick. Não vamos usar a Faith como isca. Use a cabeça. Ela é uma vítima inocente aqui. Não vou colocá-la em risco. De jeito nenhum. — Use você a cabeça! — Mick reagiu furioso. — Ela é nossa melhor chance de pegar o desgraçado. Você não devia nem pensar duas vezes. Sabe que é uma boa ideia. Gray tentou engolir a resposta raivosa. Respirou fundo, se esforçou para manter a calma. — Mick, você está muito agitado. Precisa se acalmar e pensar nisso com racionalidade. Pegar o Samuels não justifica expor ao perigo uma mulher inocente. — Está pensando com a droga do pinto — Mick acusou furioso. — Não vou envolver a Faith nisso — Gray declarou. — Acho melhor conversar com o Pop e contar tudo a ele. Pedir ajuda. Ele tem uma filha para proteger, e nós temos um assassino para pegar. Podemos acionar as autoridades locais e fazer as coisas dentro da lei. Uma enxurrada de palavrões explodiu do outro lado da linha. Gray rangeu os dentes e contou até dez. — Eu estou certo, e você sabe disso, Mick. Não acredito que chegou a pensar em usar a Faith desse jeito. Perdeu completamente a razão, a perspectiva das coisas. Acho melhor você ficar longe do caso, eu cuido disso. Silêncio. — Não. Não, você está certo, é claro. Faça o que for necessário. Estou indo para aí. Posso chegar em cinco horas. Eu ligo quando estiver aí. Gray começou a dizer que não era necessário, que preferia que Mick permanecesse em Dallas, mas ele já havia desligado. Gray engoliu um palavrão e jogou o telefone no banco ao seu lado. Havia estragado tudo. Mick estava perturbado, e devia ter percebido antes. Não devia ter se deixado convencer a colaborar com esse plano maluco. Mas uma voz dentro dele lembrou que, se Mick não houvesse pedido sua ajuda, Faith ainda


estaria em perigo. Um perigo sobre o qual ninguém saberia, se ele não estivesse ali. Se pudesse encontrá-la antes de Samuels, se ele já não a havia encontrado, ainda teria uma chance de consertar tudo. E garantir a segurança de Faith. Quando voltou ao escritório, ele se dirigiu imediatamente à sala de Pop. Quando abriu a porta sem bater, foi recebido pelos olhares irritados de Pop, Connor e Nathan. — Onde está a Faith? — perguntou ao entrar. Pop apertou rapidamente o botão do viva-voz e tirou o fone do gancho. Cobrindo o bocal com uma das mãos, olhou para Gray demonstrando contrariedade. — Estou em uma chamada importante — disse. Gray apoiou a mão sobre a mesa de Pop, ignorando Connor e Nathan e se inclinando para o patriarca. — A Faith pode estar correndo grande perigo. Sabe onde ela está? — Eu ligo novamente em um instante — Pop falou ao telefone antes de desligar. Connor e Nathan se levantaram no mesmo instante em que Pop ficou em pé. — Do que está falando, filho? — ele perguntou. — Falei com a Faith há pouco. Ela parecia estar bem. Gray quase caiu com a força do alívio. Ele se sentou na cadeira mais próxima e soltou o ar na forma de um grande suspiro. — Preciso saber onde ela está. Connor cruzou os braços sobre o peito e olhou para Gray com ar ameaçador. — Acho que não é da sua conta onde ela está, mas adoraria saber por que acha que tem o direito de perguntar. — Prefiro voltar ao trecho em que você disse que ela está em perigo — Pop interferiu. Gray tirou do bolso a carta que havia aberto e a jogou sobre a mesa. — Cuidado — disse quando viu Pop estender a mão para o envelope. — Isso é uma evidência. Pop franziu o cenho, mas tirou o papel do envelope com todo cuidado e o abriu. A ruga em sua testa aprofundou-se enquanto ele lia, e Nathan e Connor se colocaram atrás dele para poderem ler também. — Que merda é essa? — Connor resmungou. A mão de Pop tremia quando ele deixou a carta sobre a mesa. — O que sabe sobre isso, e onde achou a carta? — ele perguntou. Gray comprimiu os lábios e balançou a cabeça. Sabia que teria que contar toda a verdade. — A mãe da Faith tem telefonado para ela pedindo dinheiro — disse, depois de decidir começar pelas informações mais pertinentes. Em um minuto chegaria à farsa que representara. — Maldição — Connor resmungou. — Sabia que alguma coisa a incomodava. — Mas o que a mãe dela tem a ver com isso? — perguntou Nathan. — Não acha que ela...


Gray balançou a cabeça. — A Celia está envolvida com um homem que é suspeito de ter assassinado meu parceiro. Três pares de olhos pareciam querer abrir buracos em seu crânio. — Tenho a sensação de que não vou gostar do que estou prestes a ouvir — Pop resmungou. — Não, provavelmente não vai — Gray confirmou. — Vim para cá atendendo ao pedido do pai do meu parceiro. O Alex, meu parceiro, foi assassinado em serviço. A investigação não progredia, e havia muitas acusações, a maioria voltada para o Alex. O Mick fez algumas buscas por conta própria e encontrou o Eric Samuels, um homem que, por acaso, estava envolvido com a mãe da Faith antes do assassinato. Depois os dois desapareceram. — Isso não explica o que veio fazer aqui — Nathan pressionou. Gray olhou para Nathan, depois para Pop. — A investigação do Mick também revelou que a Celia Martin recorria à Faith quando enfrentava dificuldades financeiras. — É verdade — Pop confirmou. — A vadia. Devia saber que ela não sairia definitivamente da vida da Faith. — Então, você veio para cá para ficar perto da Faith com a esperança de que a Celia aparecesse — Connor deduziu com tom perigosamente baixo. Gray respirou fundo e deu o mergulho final. — O Mick tomou providências para eu vir trabalhar aqui. Ele pediu ajuda a um conhecido que tem em comum com o Pop. Grampeei o telefone da Faith, o da casa e o do escritório, e esperei a mãe dela ligar. A Celia telefonou no primeiro dia, quando conheci a Faith, mas eu ainda não havia instalado a escuta. — Filho da puta — Connor cochichou. — E não pensou em nos contar nada disso? — Você a usou — Nathan apontou com tom calmo. — Sabia que havia alguma coisa estranha entre vocês dois. Quanto se aproximou dela nessa sua investigação? Connor deu um passo à frente, um gesto ameaçador, e Pop estendeu um braço para contê-lo. — Agora não. Quero ouvir o resto da história. Gray se levantou para responder ao desafio silencioso de Connor. — Alguns dias depois do primeiro telefonema, ela ligou outra vez. Encontrei a Faith extremamente perturbada na sala dela. Mais tarde, quando ouvi a gravação da conversa, identifiquei a voz do Samuels ao fundo fazendo ameaças à mãe da Faith. O Mick me informou que ele e a Celia haviam sido vistos em Huntsville, por isso deduzimos que eles estavam a caminho daqui. Pop respondeu com um palavrão nada característico. — Hoje de manhã encontrei a carta no meio da correspondência — Gray continuou, apontando o envelope em cima da mesa. — O desgraçado está aqui, e é por isso que temos que


encontrar a Faith e mantê-la segura. Connor cerrou os punhos e os músculos de seu pescoço ficaram salientes, rígidos. — Ela não estaria em perigo se você tivesse sido honesto conosco desde o início. É difícil protegê-la enquanto estamos no escuro. Pop pegou o celular e digitou um número com dedos trêmulos. Segurando o aparelho contra uma orelha, esperou impaciente. Alguns segundos depois ele resmungou outro palavrão antes de desligar o telefone e deixá-lo sobre a mesa. — Caixa-postal. — Não sabe onde ela está? — Gray perguntou incrédulo. — Não, não sei. Ela telefonou e disse que precisava de férias. Eu disse a ela para descansar. Nem pensei em perguntar onde ela estava. Na hora não pensei que fosse importante. — Pop sentou-se e passou a mão na cabeça. — Preciso de um minuto para pensar, droga. — Tem algum contato no Departamento de Polícia de Houston? — Gray perguntou. — Temos que manter o apartamento da Faith vigiado. Talvez até criar uma armadilha. Se o Samuels estiver atrás dela, com certeza vai se aproximar do apartamento. A Faith tem uma rotina da qual não costuma se desviar. — Sim, e você sabe disso, não é? — Nathan grunhiu. — Podemos criar uma armadilha para o cretino — disse Connor. — Ele parece estar bem desesperado. — Essa é a ideia — Gray confirmou. — Temos que encontrar a Faith, contar a ela o que está acontecendo e levá-la para um lugar seguro. Pop balançou a cabeça. — Não. Gray, Connor e Nathan olharam surpresos para ele. Pop encarou cada um deles. — Não quero que ela saiba de nada disso. Gray balançou a cabeça. — Como vai esconder tudo isso dela? E por que quer esconder? Ela precisa saber. — Só preciso de um minuto para pensar — Pop resmungou. Apoiando a testa nas mãos, deixou o olhar se perder na distância por um momento. — Tenho um plano — Gray falou devagar, a testa franzida enquanto pensava um pouco mais na ideia que se formava em sua cabeça. — Talvez deva nos deixar cuidar disso — Connor sugeriu com tom ácido. — Até agora não gostei muito dos seus planos. Pop levantou a mão. — Também não estou gostando de nada disso, mas neste momento o mais importante é


garantir a segurança da Faith. O resto pode esperar. Gray pigarreou e continuou: — Não posso me envolver nisso, não oficialmente, quero dizer. Vamos descobrir onde a Faith está, e eu vou buscá-la. E vou ficar de olho nela até toda essa história acabar. Você pode coordenar uma operação com a polícia de Houston e encontrar um jeito de pegar o Samuels. Talvez até criar uma armadilha, como discutimos antes. Eu conto à Faith toda a verdade, e vocês nos mantêm informados sobre tudo que acontecer por aqui. Pop balançou a cabeça novamente. — Não quero que ela saiba de nada. — Ela precisa saber — insistiu Gray. — Não pode esconder isso dela. — Você não vai decidir o que posso e o que não posso dizer à minha filha — Pop respondeu numa explosão de raiva. Seus lábios se comprimiram, e ele parecia se esforçar para recuperar o controle. — Escute, a Faith é a garota mais meiga que eu conheço. Mesmo depois de tudo que a mãe fez, ela ficaria devastada se soubesse que a Celia está envolvida numa coisa tão sórdida. Não posso deixar que ela sofra outra vez. A Faith já foi magoada e decepcionada por aquela vadia muitas vezes. — Não pode protegê-la de tudo — Gray argumentou. Pop o encarou e levantou um dedo. — Vou protegê-la tanto quanto puder. Ela não precisa saber. Está de férias. Dei a ela uma semana. Vamos descobrir onde ela está, e depois você pode tomar as providências para garantir a segurança e proteção dela. — Não gosto disso — Connor interrompeu. — Não quero o Gray perto dela. Pop levantou a mão. — Não estou mais feliz que você com toda essa confusão, Connor, mas o Gray está certo. Ele não pode se envolver nisso, e eu preciso de você, do Nathan e do Micah aqui para pegarmos aquele filho da puta. Alguém tem que garantir a segurança da Faith. — Ele olhou para Gray. — Posso contar com você para isso? — Não gosto de mentir para ela — Gray respondeu por entre os dentes. — Não sobre uma coisa como essa. — Mas aceita mentir sobre todo o resto — Nathan lembrou carrancudo. Gray tinha os punhos cerrados. — Fiz o que precisava ser feito para encontrar o responsável pela morte de um policial. Aquele desgraçado matou meu parceiro. Eu tinha o dever de fazer tudo que fosse preciso para levá-lo à justiça. Não gostei de mentir para nenhum de vocês, e não gosto de mentir para a Faith mais do que já menti. Eu... — Você o quê? — Connor o pressionou.


Ele ignorou Connor e olhou nos olhos de Pop. — Eu gosto da sua filha. Fiz de tudo para não gostar. Tentei ficar longe dela. Eu sou o motivo dessas malditas férias inesperadas. Eu a aborreci, e agora é hora de consertar as coisas. E não posso consertar nada se tiver que continuar mentindo para ela. Pop não se abalou. Apenas encarou Gray com firmeza. — Pode consertar o que quiser quando o desgraçado que a está ameaçando for preso. É inútil incomodá-la com isso agora. A mãe dela já causou sofrimento demais. Se ela souber o que a idiota fez, não vai conseguir mantê-la longe daqui. Ela vai ficar preocupada com a Celia metida nessa confusão. E podemos demorar dias para pegar esse cara. É inútil deixá-la preocupada o tempo todo. — Não gosto disso — Gray insistiu. — Também não estou pulando de alegria — Connor resmungou. Gray notou o olhar de soslaio de Connor para Pop. — Ela não é criança — Gray teimou. — Você não se incomodou por esconder a verdade dela quando era conveniente aos seus propósitos — Pop lembrou, levantando a voz mais uma vez numa reação raivosa. Gray olhou para o teto com evidente frustração. Estavam perdendo muito tempo nessa ridícula batalha de forças. Precisava encontrar Faith e se certificar de que ela estivesse protegida. Ele olhou novamente para Pop. — Escute, quando cheguei aqui, eu não sabia se a Faith era inocente ou não. Como poderia saber? Ela podia ter conhecimento da situação da mãe, até onde eu sabia. Eu não conhecia a Faith. Tinha que tratá-la como qualquer outro suspeito em potencial. Agora sei que ela não está envolvida, e não gosto de mentir para ela mais do que já menti. — E eu não quero que ela sofra — Pop respondeu em voz baixa. — Ela é minha filha. Eu a amo. Se puder poupá-la de saber que a mãe estava disposta a deixar o último namorado fazer mal à própria filha por dinheiro, eu vou poupá-la. Gray fechou os olhos. — Certo. Tudo bem. Que situação impossível. Estava pensando muito, tentando encontrar um jeito de fazer tudo dar certo. Como poderia simplesmente aparecer, acabar com as férias de Faith e agir como se não tivesse um motivo secreto para estar lá? Ela não ficaria muito feliz por vê-lo. Havia planejado procurá-la e contar toda a verdade, mas, em vez disso, continuaria com as mentiras. Mas todo o resto teria que ser verdadeiro. Teria que mostrar a ela o que era real. E o que era verdade era a atração que sentia por ela, a necessidade de descobrir se tinham chance de construir o tipo de relacionamento que ambos queriam. Poderia usar esse motivo legítimo como a verdadeira razão para ir procurá-la? Essa parte não


seria mentira. Queria muito acertar tudo com Faith e tentar um relacionamento com ela. Mas agora teria que continuar guardando alguns segredos. Por enquanto. Droga.


CAPÍTULO 27 Uma hora mais tarde, o prédio de escritórios parecia a reunião mensal da equipe da SWAT. Policiais amigos de Pop enchiam as salas da Malone’s, e o burburinho de uma dúzia de conversas diferentes vibrava pelo edifício. No meio do caos, Micah entrou com passos cautelosos e uma expressão perplexa no rosto. — Que diabo está acontecendo? — ele perguntou da porta do escritório de Pop. Os quatro homens se viraram, todos com o celular colado à orelha. Pop jogou o dele para o lado. — Sabe onde a Faith está? — ele perguntou. Uma expressão peculiar passou pelo rosto de Micah. — Ah, por quê? O que está acontecendo? Gray levantou-se e se aproximou dele. — Se sabe onde ela está, é melhor contar. A Faith está correndo perigo. Micah ficou sério. Depois baixou a voz para que só Gray pudesse ouvi-lo. — Ela está na casa de praia do Damon. — Quem é o Damon? — Gray rosnou. — É o gerente da The House, o cara que acompanhou a Faith na visita. Você provavelmente o viu quando foi buscá-la. — Sim, eu o vi — Gray resmungou. Que diabo ela está fazendo com o cara do clube de sexo? — Ela está sozinha — Micah explicou depressa, como se lesse os pensamentos do amigo. — Será que podem nos incluir na conversa? — Connor irritou-se. — Micah, se sabe onde a Faith está, é melhor falar. — Eu sei onde ela está. Agora, quem vai me explicar por que o escritório parece uma reunião do sindicato dos policiais, e o que isso tem a ver com a Faith estar em perigo? Gray resumiu rapidamente toda a história. Micah franziu o cenho e olhou para ele. — Então, esse tempo todo esteve nos enganando? Gray suspirou. — Eu tinha uma missão a cumprir, cara. Você já foi policial. Você entende. Uma sombra passou pelo rosto de Micah.


— Sim, eu entendo. Uma comoção no hall atraiu a atenção de todos. Alguns segundos depois, Mick entrou passando por uma barreira de vários policiais. Ele não havia feito a barba na última semana e sua aparência era péssima. — Mick, o que faz aqui? — Gray perguntou. — Onde mais eu estaria? — ele disparou. — Quero saber o que está acontecendo. Gray suspirou. — Não posso me envolver nisso, Mick, nem você. Vou te dar a chave do meu apartamento. Pode ficar lá. A polícia vai nos avisar quando uma prisão for feita. — O diabo! E aonde você vai? — Vou garantir a segurança da Faith — ele anunciou com tom neutro. — Espero que tudo isso acabe rápido. — Vai sair daqui? — Mick perguntou incrédulo. — Vai deixar um traseiro bonito te impedir de pegar o assassino do seu parceiro? Seu irmão? Como um raio, Connor passou por Gray e empurrou Mick contra a parede, a mão agarrando sua camisa. — Escute aqui, seu filho da puta. É da minha irmã que você está falando. Faça o que o Gray diz e dê o fora daqui. Pop se aproximou e tirou Connor de cima de Mick. Ele parecia estar mais calmo que o filho, mas seus olhos queimavam de raiva. — Afaste-se, filho. O sr. Winslow aqui e eu vamos ter uma conversinha. E depois ele vai tirar a bunda do meu escritório. — E olhou para Gray. — Precisa sair daqui. Você devia estar protegendo minha filha. Gray enfiou a mão no bolso para pegar a chave do apartamento, mas Pop acenou para apressálo. — Eu me encarrego de arrumar um lugar para o sr. Winslow se hospedar. Concentre-se no seu trabalho, e nós fazemos o nosso. Eu entro em contato para contar como as coisas estão por aqui e avisar quando puder voltar para casa em segurança. Gray assentiu, depois olhou para Micah. — Preciso do endereço. Micah foi até a frente do prédio com Gray e pegou um bloco de papel e uma caneta para rabiscar o endereço, arrancou a folha de papel e a entregou a Gray. — Siga reto pela Seawall Boulevard para sair da cidade. Não tem como errar. Quando tiver a impressão de que vai cair do outro lado da ilha, você chegou. — Obrigado. Escute, me mantenha informado, está bem? Você não estava aqui hoje cedo, e os caras estão bem furiosos com isso. Não tiro a razão deles, mas preciso ser informado de tudo, e o


Pop decidiu que a Faith não pode saber nada sobre o que está acontecendo. Aposto que ele não vai me ligar. Micah assentiu. — Eu ligo, cara. E me avise se precisar de alguma coisa. Quando Gray chegou à casa de praia, o dia se aproximava do fim. Ele entrou na propriedade pela alameda pavimentada e parou o carro na frente da escada que subia até a porta da casa. Quando desceu do automóvel, olhou para a bagagem que havia levado, mas decidiu esperar e pegá-las mais tarde. Subiu a escada correndo e bateu na porta. A sensação de déjà vu foi inevitável depois de ter feito a mesma coisa no apartamento dela naquela manhã. Desta vez, quando Faith não respondeu, ele não perdeu tempo esperando antes de entrar para se certificar de que ela estava bem. Na espaçosa sala de estar, notou a decoração masculina. Definitivamente, aquela era a casa de um homem solteiro. Não havia ali nenhum toque feminino. Por um instante ele pensou se Damon pretendia ir encontrar Faith ali e franziu o cenho. Havia uma porta francesa no fundo da sala. Ele olhou além dela, para o deque, e viu um braço pendurado na lateral de uma espreguiçadeira. A mão de Faith roçava o chão. Ele correu e, quando se aproximou, constatou que ela dormia. Em silêncio para não acordá-la, afastou-se um pouco e deixou a brisa do golfo acariciar seu rosto. Mas os olhos insistiam em voltar ao corpo adormecido de Faith, e ali ele encontrava mais motivos para apreciação do que na brisa. Ela era linda. Uma das mãos havia caído da espreguiçadeira, a outra estava embaixo do queixo. O peito subia e descia lentamente a cada movimento da respiração, e a brisa brincava com os cabelos loiros, fazendo-os dançar em torno do rosto. No caminho até ali ele se convencera de que diria a verdade, independentemente da vontade de Pop. Mas, agora que a via tão frágil e inocente, entendia por que o pai queria protegê-la. Inferno, ele mesmo queria protegê-la. Envolvê-la em algodão e garantir que nada pudesse machucá-la. Ela queria ser cuidada, e que homem não ia querer cuidar dela? Faith era doce, suave e delicada nos lugares certos. Enquanto a observava, ela se mexeu inquieta na espreguiçadeira. Seus olhos se abriram. Ela piscou ao vê-lo ali, e em seguida os olhos se arregalaram inundados pela surpresa. — Gray? O que está fazendo aqui? Ele se abaixou e deslizou um dedo por seu braço. — Espero que não tenha passado o dia todo deitada aqui fora. Vai se queimar. — Fiquei na sombra o dia inteiro. O que está fazendo aqui? Como soube onde eu estava? Ela se sentou na espreguiçadeira e manteve cravados nele os olhos sonolentos.


— Queria conversar com você — Gray respondeu. Agora ela parecia incrédula. — Sei que fui um cretino. A verdade, Faith, é que você me confundiu. Ele se ajoelhou no deque de madeira, acomodando o peso do corpo para aliviar o desconforto nos joelhos. Faith tocou seus lábios com um dedo e, chocado, Gray ficou em silêncio. — Vamos conversar lá dentro — ela disse. Ele se levantou e estendeu a mão para ajudá-la a ficar em pé. Os cabelos de Faith, despenteados pelo sono, dançavam ao vento, e ele pegou uma mecha, incapaz de resistir ao impulso de tocar os fios sedosos. Faith virou-se e caminhou para dentro da casa, deixando-o decidir se a seguiria ou não. Gray ficou observando o movimento suave de seu quadril e imaginou-se entre aquelas coxas, as mãos segurando as nádegas redondas enquanto a penetrava. A garganta ficou apertada, e ele engoliu para aliviar o desconforto. Quando entrou na casa, ela se virou e olhou para ele por cima de um ombro. — Você vem ou não? Gray começou a andar, e o nó que se formava em seu estômago cresceu quando ele pensou no que teria que enfrentar. Continuaria, em vez de encerrar, a cadeia de mentiras, e esperava começar um relacionamento fundamentado nessas mentiras. O ar frio do interior afagou seu rosto quando ele entrou. Descalça, Faith foi até a cozinha e abriu o refrigerador. — Quer beber alguma coisa? — ela perguntou. — Tem cerveja, vinho e suco. Ele balançou a cabeça. — Não, obrigado. Faith serviu para si mesma um copo de suco e voltou à sala de estar, onde ele continuava em pé. — Então, o que queria conversar comigo? Ele notou o leve tremor dos lábios dela, uma reação que Faith tentava disfarçar levando o copo à boca. Estava nervosa. Droga, ele também estava, mas não queria que ela se sentisse desconfortável em sua companhia. Gray estendeu a mão e segurou seu braço logo acima do cotovelo. — Venha, vamos sentar. Ela o fitou com evidente aflição, como se tivesse medo do que ia ouvir. Incapaz de conter-se, Gray a segurou pela nuca e puxou contra o peito. O copo que ela segurava na altura do estômago ficou esmagado entre os corpos quando ele capturou seus lábios com os dele. O som de prazer e surpresa que escapou da boca de Faith foi tragado pelos lábios dele. Ele sentia na língua macia o sabor de laranja, absorvia seu gosto e o saboreava cada vez que


acariciava a língua dela com a sua. Quando ele se afastou, os olhos se encontraram, e os dela eram poços de confusão. A boca, agora mais vermelha pelo beijo, o tentava novamente. Mais tarde, Gray prometeu a si mesmo. Saborearia cada milímetro de sua pele. Ele a empurrou com delicadeza até o sofá e a fez sentar-se. Depois se afastou e, preferindo ficar em pé, começou a andar de um lado para o outro, sem conseguir controlar a ansiedade que fluía por ele como uma corrente de energia. — Eu errei quando te afastei de mim — começou. Os olhos verdes de Faith se abriram ainda mais. Ela deixou o copo em cima da mesa de canto e uniu as mãos sobre as pernas, apertando os dedos até as pontas ficarem brancas. Gray parou de andar e a encarou de frente. — Eu quero o que você quer, Faith. Você na minha cama, nos meus braços, do meu jeito. Um vermelho intenso tingiu seu rosto em resposta à declaração direta. Gray se aproximou dela e se ajoelhou na sua frente. Segurando suas mãos, ele as levou aos lábios. — Não sou fácil, Faith. Vou pressionar, exigir de você coisas que talvez não tenha certeza de que quer me dar. Se seguirmos em frente, você vai me dar tudo. Em troca, vou valorizar esse presente. Vou cuidar de cada uma das suas necessidades. Vou cuidar de você. Um fogo brando começou a arder nos olhos dela. — É isso que quer? — Faith perguntou com voz rouca. — Você me quer? Isso não é um jogo? Um papel que acha que quero que você represente? Gray segurou seu queixo e a fitou nos olhos. — Nada de jogos. Você está de férias por uma semana. E eu também. É a oportunidade perfeita para explorarmos esse relacionamento. O queixo tremeu na mão dele. Gray deslizou o polegar sobre os lábios aveludados antes de se levantar e voltar a andar pela sala. — Existem algumas coisas que você precisa entender, Faith. Se seguirmos com isso, vou estar no controle. Completamente. Não há palavras de segurança, nem encenação, nem livros de estilo para ler. Isso tudo é bobagem. Nunca vivi de acordo com as regras de outra pessoa, e certamente não vou me enquadrar na lista de um bando de criadores de estilo pregando o que as pessoas devem e não devem fazer, impondo suas diretrizes. Se é isso que espera, é melhor desistir agora, porque o que vou exigir de você não tem nenhuma semelhança com o que um bando de fingidores faria em um joguinho sexual. Ele parou para deixar as palavras exercerem todo o seu efeito. Depois se aproximou dela e, mais uma vez, ajoelhou-se na frente de Faith. Os dedos agarraram os cabelos loiros, acariciaram o couro cabeludo enquanto se enroscavam nas mechas.


— Você vai ser minha. Minha. Vai me dar tudo e, em troca, eu vou te dar mais do que pode imaginar. Vou cuidar de você, do seu prazer, do seu sustento. — Uau — ela respondeu depois de uma inspiração trêmula. — Isso é um sim? — ele perguntou enquanto afagava seus cabelos. Devagar, Faith deslizou as mãos pelo peito dele até envolver seu pescoço. Os dedos tocaram a nuca e subiram por entre os cabelos. — Sim — ela sussurrou. Com cuidado, Gray removeu as mãos dos cabelos dela e tocou seu rosto com os dedos. Eles se abriram suavemente sobre a face, e os lábios pressionaram os dela. Quando ele se afastou, os dois respiravam ofegantes, embora o beijo tivesse sido terno. Ele deslizou os dedos por seus ombros e desceu pelos braços, apreciando a sensação de tocar a pele macia. — Vamos a Galveston. Lá deve ter algum lugar bom para jantar. Quando voltarmos, vamos começar tudo de novo. Ela esfregou a mão sobre a boca num gesto nervoso, mas assentiu. — Tudo bem — respondeu com voz rouca.


CAPÍTULO 28 Faith tomou uma ducha e se vestiu rapidamente. O estômago estava péssimo, e não sabia se conseguiria comer alguma coisa. Secou os cabelos longos, os escovou e deixou soltos sobre os ombros. Sabia que Gray gostava deles assim. Minha. A declaração ainda ecoava em sua cabeça e incendiava suas partes femininas cada vez que lembrava a expressão possessiva que vira em seu rosto naquele momento. Vestindo calça jeans e blusa rosa de mangas curtas, ela procurou um par de sapatos de salto alto. Depois de uma última olhada no espelho, voltou à sala de estar onde Gray a esperava. Ele estava em pé ao lado da porta francesa, os polegares enganchados nos bolsos da calça. Os olhos azuis brilharam com apreciação quando passearam por seu corpo. — Linda — ele disse. Faith sorriu. — Estou pronta. Ele tirou as chaves do bolso e se dirigiu à porta. Quando passou por Faith, estendeu a mão para segurar a dela, envolvendo os dedos delicados com firmeza. Juntos, eles se aproximaram da caminhonete e, como havia feito naquela noite da visita à The House, ele a acomodou no banco do passageiro antes de ir se sentar ao volante. A viagem a Galveston foi silenciosa, mas Gray segurava a mão dela e afagava seus dedos. O gesto íntimo a confortava. Diminuía o nervosismo. Como se esse fosse um encontro como outro qualquer. Ela quase riu quando pensou nisso. Esse encontro não era como nenhum outro. Isso era o que ela procurava, esperava, queria. Quase nenhuma pressão. — Frutos do mar? — ele sugeriu, rompendo o silêncio. Faith assentiu. Gray reduziu a velocidade e virou à esquerda, entrando imediatamente em um estacionamento. Lá ele afagou a mão de Faith e a fitou nos olhos. Ela sorriu tímida ao ver a aprovação naquele olhar. Gray inclinou-se e a beijou nos lábios, um beijo terno, suave, sem nenhuma agressividade. Depois se afastou dela e saiu da caminhonete. Quando entraram no restaurante, Gray trocou algumas palavras em voz baixa com a


recepcionista, que sorriu e assentiu. A jovem olhou para Faith e sorriu novamente. Depois pegou dois cardápios e os convidou a segui-la. — O que disse a ela? — Faith sussurrou enquanto andavam atrás da recepcionista. — Só que queremos um pouco de privacidade. A jovem os levou a uma mesa de canto no fundo do salão. Os clientes mais próximos deles estavam a seis mesas de distância, pelo menos. Quando se sentaram, um garçom apareceu para anotar o pedido das bebidas. Alguns segundos depois, finalmente, eles ficaram sozinhos. Gray estendeu o braço sobre a mesa e entrelaçou os dedos nos dela. — Nós... bem, eu passei muito tempo evitando você. As coisas têm sido malucas entre nós, tudo aconteceu muito depressa. Quero ir mais devagar hoje, assim vamos ter uma chance de saber mais um sobre o outro. Um calor confortável se espalhou pelo peito de Faith. — Gosto da ideia — ela respondeu. — Não sei muito sobre você. Só o que o Pop me contou. Você é policial. Mora em Dallas. Perdeu o parceiro este ano e está dando um tempo até as coisas se acalmarem. Queria saber mais. Ele parecia um pouco aflito, como se esperasse que Faith falasse sobre ela primeiro. — Quando foi seu último relacionamento, Gray? Uma ruga surgiu em sua testa. — Relacionamento? Não sei se posso dar esse nome aos meus encontros com o sexo oposto. Ela arqueou uma sobrancelha. — E como os chamaria, então? — Sexo. — Resposta direta. — E é isso que sou para você? Só sexo? Ele a encarou por um longo momento. — Não. E é isso que me assusta. Por isso eu te afastei de mim e tentei ficar longe. — Por que os homens se apavoram tanto com a ideia de uma mulher ser mais que sexo? — ela perguntou curiosa. — Isso é clichê. Sua mãe nunca te abraçava, ou alguma coisa assim? Ele arregalou os olhos numa reação surpresa, depois riu. — Não, não posso culpar minha mãe por minhas dificuldades com relacionamentos. Não a conheci o suficiente para ela poder me aproximar ou afastar da população feminina. Faith esperou que ele continuasse, sem saber que parte dessa declaração queria esclarecer primeiro. Gray soltou suas mãos e se recostou na cadeira. Depois levou o copo aos lábios e bebeu um gole generoso antes de devolvê-lo à mesa. — Minhas dificuldades com relacionamentos têm a ver com a frustração por eu não encontrar


o que quero. — Bem, isso é algo que temos em comum. — Sim. E vi em você coisas que me atraíram. Vi uma mulher que parecia ser perfeita para mim, mas o velho ditado sobre bom demais para ser verdade insistia em me atormentar. — Espero não ser uma decepção. Eu sou como sou. Da mesma forma que você não quer um roteiro a seguir, eu também não quero. — Eu nunca ia desejar mudar você, Faith. Gosto de como é. Mesmo que não dê certo entre nós. — Mas você nem sabe nada sobre mim — ela lembrou. Gray balançou a cabeça para discordar. — Sei que você é bonita. Leal. Inteligente. Feminina. Sabe exatamente o que quer e não se contenta com menos. Não tem medo de se render a um homem. — Ele se inclinou para a frente outra vez, capturando-a com o olhar. — Há dois tipos de mulher com os quais eu nunca poderia me envolver. Faith inclinou a cabeça para um lado expressando curiosidade. O funcionamento da mente de um homem... bem, só isso já fazia valer o preço do ingresso. — Uma mulher que faz jogos. Jogos emocionais, sexuais, qualquer um. Gosto de mulheres honestas, que não se escondem atrás de uma máscara. O segundo tipo é uma mulher que não é forte o bastante para se render. Mais uma vez, ela arqueou uma sobrancelha. Faith também se inclinou em direção à mesa, cada vez mais curiosa. — Não quero que uma mulher que esteja comigo se torne um fantoche sem vontade, como também não quero me transformar nisso. Só uma mulher muito especial se submete a um homem e ainda conserva tudo que a faz forte e única. Ela mesma. — Você pensou muito nisso — ela brincou. Gray deu de ombros. — É o que eu quero. — E quanto à relação fora do quarto? Seu controle se estende a todos os aspectos do relacionamento? Suponho que as mulheres a que se referiu, as que fazem jogos, são aquelas que querem apenas o sexo bom e diferente, mas saem do personagem assim que passam pela porta do quarto. Ele a encarou com intensidade, a expressão séria. — Não quero ser um tirano. Acontece que me conheço, só isso. Sou controlador. Fico confortável quando estou tomando as decisões. Se encontrar esse tipo de mulher que me atrai tanto, a mulher suave, feminina, alguém que eu possa proteger e de quem possa cuidar, sim, acho que vou querer um relacionamento no qual eu esteja no comando, na cama e fora dela. Isso te assusta?


Ela sorriu. — Não. É fraqueza minha admitir que quero um homem que possa cuidar de mim? Um brilho de satisfação iluminou os olhos dele. Gray a fitou com uma promessa refletida em cada faceta do rosto. — Acho que você deve ser uma das mulheres mais fortes que já conheci, Faith. Ela se sentiu aquecida pelo elogio e pela admiração na voz dele. E teria que ser cega e idiota para não ver a luxúria naqueles olhos. Cada vez que olhava para ela, era como se Gray a despisse centímetro por centímetro. Havia esperado a vida toda por um homem que olhasse para ela desse jeito. Como se fosse a única mulher no mundo. Não, não se sentia fraca. No momento, sentia-se muito poderosa. Eles foram interrompidos quando o garçom serviu a comida. Relaxados, começaram a comer. De vez em quando Gray oferecia alguma coisa de seu prato, e parecia gostar de alimentá-la. Quando terminaram, o garçom voltou para tirar os pratos e deixar a conta, mas eles continuaram sentados à mesa. Faith estava nervosa com a volta à casa de praia. Não era um nervosismo ruim. Ainda não sabia ao certo o que esperar, mas era um alívio não ter que tomar iniciativas. Esse era, claramente, o território de Gray. Eles conversaram sobre amenidades. Gray contou sobre sua infância em um bairro dominado pelo crime e como isso o havia influenciado a ser policial. Ele falou sobre o parceiro e sobre Mick, sua figura paterna. Faith já suspeitava de que Gray fosse um tipo de homem muito preto no branco, e, depois de ouvi-lo falar sobre seu trabalho, sobre justiça e a morte do parceiro, estava ainda mais convencida de que ele não era alguém capaz de enxergar tonalidades intermediárias. Tudo era certo ou errado. Gray chamou o garçom e pediu mais bebidas. Depois encarou Faith com um olhar penetrante enquanto bebia. — Quando foi ao clube de sexo... Ela se encolheu com a descrição. Soava muito vulgar, de mau gosto. — The House — corrigiu. Ele deu de ombros. — Quando foi à The House, o que queria que acontecesse? — Acho que é óbvio. Você viu o que aconteceu. — Só estive lá por alguns minutos. Você passou mais tempo naquele lugar. O que viu despertou seu interesse? Seu rosto ficou quente. — Algumas coisas, sim — admitiu.


Ele levantou uma sobrancelha. — Que coisas? Faith baixou os olhos por um momento. — Foi um pouco chocante. Quero dizer, já assisti a filmes pornô, mas nunca vi nem experimentei nada daquilo pessoalmente. — Ficou excitada? Ela assentiu devagar. — Muito. — Com algumas coisas mais que outras? De novo, a resposta foi um movimento afirmativo de cabeça. — De que partes gostou? — ele a pressionou. Faith teve a impressão de que a língua crescia dentro da boca. Os lábios se abriram e ela tentou superar o acanhamento. — Quando cheguei lá, nas salas do piso térreo, havia uma mulher sentada entre dois homens. Os dois se dedicavam somente a ela. Era evidente que ambos a queriam. Fiquei com inveja dela. Ele a observava com expressão francamente interessada. — Continue. — Depois subimos, e lá em cima havia dois homens. Nunca vi dois homens fazendo sexo, nem mesmo em um filme. Foi chocante, mas fiquei transfixada, não conseguia desviar o olhar. Foi uma das cenas mais eróticas que me lembro de ter visto. E depois havia uma mulher transando com dois homens. Naquele momento eu quis muito estar no lugar dela. — Transar com dois homens desperta sua curiosidade? Ela corou. — Não fique constrangida. Ficaria surpresa por saber que muitos homens fantasiam dividir a mulher com outro homem? A declaração a intrigou. — É mesmo? Você também? Ele deu de ombros. — Tem algo primitivo, sem mencionar erótico e excitante, em deixar outro homem possuir o que é seu, preencher mais de um orifício de uma mulher. Simultaneamente. O rosto de Faith ficou ainda mais quente. — Fica excitada com isso — ele constatou. — Que mulher não ficaria? — O que mais viu na The House? — As palmadas. — E gostou.


Ela se moveu na cadeira. — Não foi tanto o ato de bater. Foi o controle do homem sobre aquela mulher. A autoridade. Foi muito sombrio e sexy. Despertou em mim uma vontade que me deu a impressão de que eu estava virando do avesso. — Mas quando tomou o lugar dela, não sentiu nada com as palmadas. Ela balançou a cabeça. — Como soube? Gray sorriu. — Era óbvio. Eu vi seu desapontamento e a frustração. Precisava de mais, algo além do que ele oferecia. — Sim — ela sussurrou. — Não era real, e eu sabia disso. Ele se inclinou para a frente, tocou seu queixo e o prendeu entre os dedos. Os olhos se encontraram. — Comigo vai ser real, Faith. Eu não jogo. Ela estremeceu delicadamente quando a promessa deslizou por seu corpo como uma carícia. — Eu sei. Os dois ficaram sentados em silêncio por um tempo, saboreando seus drinques. Faith relaxou e superou um pouco do nervosismo. A noite havia sido perfeita. A ideia de terem uma semana inteira para explorar essa relação a entusiasmava. Mal podia esperar para descobrir se Gray era realmente o homem que podia dar a ela tudo que havia sonhado. Depois de um tempo, ele deixou o copo sobre a mesa e a encarou novamente. Faith sentia a pergunta se formando. Ela o olhou curiosa. — Está usando algum método contraceptivo? — ele perguntou sem rodeios. — Sim. — A resposta soou calma. — Meu último encontro sexual aconteceu há mais de seis meses. Depois disso estive no médico e fiz todos os exames. E sempre usei preservativo. Faith se mexeu com certo desconforto. — Bem, meu último check-up foi há dois meses. O homem com quem estava saindo até pouco tempo atrás fez exames de sangue antes de dormirmos juntos. Mas também usamos preservativo. Gray assentiu. — O que quero saber é o que acha de não usarmos. Uma coleção de imagens coloridas desfilou por sua cabeça. A ideia de sentir Gray em seu corpo, pele contra pele, era extremamente excitante. — Nunca transou sem camisinha? — ela perguntou. — Não. E, se quiser, posso pedir por fax amanhã cedo os resultados dos meus últimos exames. Não sou um adolescente encharcado de hormônios inventando histórias para me enfiar na sua


calcinha. Ela sorriu. — Eu acredito em você. E a verdade é que adoraria não ter que pensar em preservativos. — Faith torceu o nariz. — Sem uma boa quantidade de lubrificante, eles são muito incômodos para mim. Mas tenho que ser honesta. A última vez que fiz sexo foi imediatamente antes de conhecer você. Usamos preservativo. Nós dois somos saudáveis, mas você tem o direito de saber em que tipo de situação está entrando. — Quero muito sentir cada delicioso milímetro da sua vagina — ele murmurou com voz rouca. Um arrepio incontrolável a sacudiu. Gray olhou para o relógio, e ela soube que o jantar havia chegado ao fim. Muitas coisas borbulhavam. Desejo. Excitação. Curiosidade. Medo. As mãos dela tremiam quando as uniu sobre as pernas. — Pronta para ir embora? — ele perguntou com tom suave. Faith assentiu e se levantou quando ele ficou em pé. Gray tocou a parte inferior de suas costas e a conduziu à saída do restaurante. A brisa morna e salgada os atingiu assim que passaram pela porta. Ao longe, misturada aos sons do tráfego, a música suave do oceano enchia a noite. — Vamos voltar — Gray cochichou perto de sua orelha. Ela assentiu, e eles entraram na caminhonete.


CAPÍTULO 29 Quando voltaram à casa de praia, Gray deixou as chaves sobre a mesa e viu Faith se aproximar da porta francesa e olhar para fora. Estava nervosa. Sua linguagem corporal gritava insegurança. Ele caminhou em silêncio até o banheiro, deixando-a sozinha por um momento. Ajoelhado ao lado da enorme banheira, tampou a saída de água e abriu a torneira, colocando os dedos sob o jato para testar a temperatura da água. Satisfeito, levantou-se e voltou à sala de estar. Ela estava no mesmo lugar. Gray aproximou-se e escorregou as mãos sobre seus ombros. Afastando os cabelos para um lado, abaixou a cabeça e pressionou os lábios contra seu pescoço. Ela estremeceu, e um suspiro delicado brotou de seus lábios. Gray levantou a cabeça e olhou para a lua que se erguia no céu. Estava quase cheia, e era possível ver seu reflexo sobre a água ao longe. Era uma noite perfeita. — Venha comigo ao banheiro — ele murmurou contra sua orelha. — Estou preparando um banho para você. Faith se virou em seus braços, e ele deslizou as mãos até a cintura dela. — Isso é o paraíso — ela respondeu. Ele enganchou os dedos na frente do cós do jeans de Faith e a puxou para mais perto. Depois de alguns instantes, abriu o botão da calça. Em seguida desceu o zíper e começou a empurrar o tecido para baixo, deslizando-o por seu quadril. Quando a calça finalmente desceu pelas pernas, ele a segurou pelo quadril e subiu as mãos lentamente, acariciando a linha suave de suas curvas. Quando Gray levantou os braços, a blusa de Faith subiu por seu corpo. — Levante os braços — ele disse. Ela obedeceu, e Gray a despiu e jogou a blusa para um lado. Faith saiu da calça jeans puxando uma perna com o outro pé e repetindo o movimento do outro lado. Ele olhou para baixo, para a lingerie feminina e rendada. Sutiã lilás e calcinha da mesma cor. Linda. Como ela. Apoiando as mãos sobre seus ombros, empurrou as alças lentamente pela curva delicada até tirá-las pelos braços. Então a envolveu com os braços e abriu o fecho nas costas, deixando cair o sutiã. Os globos cheios brilhavam pálidos iluminados pela lua distante. Ele não resistiu à tentação de tocar os mamilos. Girava-os entre os dedos, puxando com suavidade até transformá-los em saliências


rígidas. Gray deixou as mãos descerem novamente até encontrarem o elástico da calcinha. Introduzindo os dedos sob a faixa fina, ele continuou descendo até tocar os caracóis macios entre suas pernas, e só então puxou para baixo a calcinha de renda fina. Quando a peça pequenina caiu no chão, Faith ficou nua diante dele, o corpo todo iluminado pelo brilho luminoso da lua. Parecia uma deusa. E era toda dele. — Minha — ele murmurou. Arrepios dançavam sobre sua pele, eriçavam os pelos dos braços. Ele passou as mãos sobre seus braços para abaixá-los. Certo de que a banheira já estava cheia, Gray pegou Faith nos braços, arrancando dela uma exclamação surpresa. Ele a silenciou com um beijo e percorreu o corredor a caminho do banheiro. A banheira estava cheia, então ele a depositou com cuidado na água quente e fechou a torneira. Faith reclinou a cabeça sobre a beirada da banheira e suspirou satisfeita quando a água quente envolveu seu corpo. Ao lado da Jacuzzi, Gray se ajoelhou e pegou um frasco de xampu. — Vire-se, vou lavar seu cabelo. Ela mudou de posição na banheira quadrada, colocando-se de costas para Gray. Ele a empurrou um pouco para a frente para abrir espaço entre seu corpo e a banheira, e então recolheu a água com o balde que era usado para pôr gelo. Gray despejou a água sobre o cabelo de Faith até deixá-lo molhado, então a puxou de volta. Ela ouviu o barulho do dosador da embalagem de xampu, depois sentiu as mãos em seu cabelo. Ele esfregava e massageava, formando uma espuma rica. Era gentil, e os dedos massageavam cada centímetro de couro cabeludo até Faith revirar os olhos deliciando-se com as sensações. De olhos fechados, entregou-se à magia do toque daquelas mãos. Por vários minutos, Gray continuou esfregando e massageando sua cabeça até ter certeza de que ela entraria em coma induzido por prazer. Finalmente, ele a empurrou para a frente e começou a enxaguar a espuma de seus cabelos. Terminada essa etapa, puxou-a pelos ombros e a devolveu à posição original. Faith ficou vermelha ao notar que os seios estavam acima da superfície da água. Os olhos de Gray passeavam por seu corpo, e ela se pegou torcendo para as mãos seguirem o mesmo caminho. Ele pegou a embalagem de sabonete líquido e, em vez de usar uma das buchas empilhadas na lateral da banheira, despejou uma quantidade do produto no centro da palma da mão. Com a outra, removeu o tampão da banheira para deixar a água fluir. E esperou a água descer e expor mais do corpo feminino. Quando o peito de Faith ficou completamente exposto, ele espalhou o sabonete sobre os seios, massageando com leveza até a


espuma se formar. Primeiro um, depois o outro, ele esfregou o polegar sobre cada mamilo. A água baixou um pouco mais, e ele massageou a região do ventre, aplicando um pouco mais de pressão. Quando a mão voltou aos seios, ela gemeu e arqueou as costas. O dedo desenhava círculos em torno dos botões túrgidos, acariciava as extremidades com leveza. Cada contato provocava uma onda de sensação que ia direto para a vagina. Faith se contorceu na água. As pernas se afastaram, e a água morna lambeu sua intimidade, sussurrou sobre seu clitóris. Logo os caracóis dourados entre as pernas apareceram sobre a superfície. Gray despejou mais sabonete na mão e, sem pressa, segurou a pequena elevação escondida entre elas. O dedo encontrou o feixe de terminações nervosas e o pressionou com precisão. Ela abriu as pernas um pouco mais. — Por favor — sussurrou. — Oh, por favor. O dedo desceu um pouco mais e contornou a abertura sensível. A extremidade firme pressionou a entrada, penetrando um pouquinho. Ela arfou quando o corpo enrijeceu, e uma urgência insuportável dominou sua pélvis. — Esta noite é para você — ele sussurrou. — Tudo para você. Depois dessa declaração, ele encontrou o clitóris com o polegar e empurrou os dedos para dentro de seu corpo. Faith levantou o quadril e foi sacudida por um espasmo. Ela mordeu os lábios quando as palavras “não pare” se aproximaram da superfície na forma de um grito. Felizmente, ele não parou. O dedo médio acariciava a parede interna da vagina, enquanto o polegar massageava o botão pulsante. Gray penetrou mais fundo e encontrou o ponto G. O mundo explodiu em um caleidoscópio de cores e sensações. O orgasmo explodiu com a velocidade de um trem desgovernado. As mãos de Faith se apoiaram ao fundo escorregadio da banheira, e ela teria escorregado se Gray não houvesse segurado sua nuca com a outra mão. Vários segundos passaram antes que ela voltasse a tomar consciência do ambiente à sua volta. Estava encostada à banheira, ofegante, e o mundo ia, lentamente, voltando ao normal. Devagar, ela se virou para olhar para Gray e encontrou seus olhos brilhantes. Olhos que gritavam uma posse primitiva. Olhos que afirmavam sua propriedade sem medo ou hesitação. Ela estremeceu, sentiu os músculos relaxados. Gray a ergueu nos braços e levou para o chuveiro, onde enxaguou o sabonete de seu corpo. Depois ele a enxugou com cuidado da cabeça aos pés, o toque delicado, mas firme. Levou-a para o quarto, e lá pegou um roupão dentro do armário. Ele a ajudou a vesti-lo e amarrou a faixa em torno da cintura. Depois a deixou por um momento enquanto trocava a


camisa molhada. Quando voltou, ele segurou a mão de Faith. — Vamos sentar lá fora, no deque. Eu escovo seu cabelo. Ela o seguiu com as pernas trêmulas. Depois do orgasmo, sentia-se fraca como um filhotinho de gato. Tudo que realmente queria era se encolher nos braços de Gray e se sentir amparada. Ele abriu a porta francesa e a puxou pela mão para levá-la para fora da casa. O ar morno e salgado fez dançar seus cabelos ainda úmidos. Faith fechou os olhos e respirou fundo, inalando a brisa litorânea. Era uma linda noite. Gray sentou-se na espreguiçadeira e a puxou para se sentar na frente dele. Acomodada entre suas pernas, ela se apoiou ao peito largo e descansou a cabeça embaixo do queixo de Gray. Saboreava o contato íntimo, adorava estar aninhada em seu corpo forte. O corpo de Faith vibrava, as veias inundadas por um desejo doce. Naquele momento tudo parecia estar certo. Era como se nada pudesse arruinar o instante perfeito. A lua brilhava forte no céu e projetava uma claridade luminosa sobre as águas calmas do golfo. Como uma lâmina de vidro, a água não tinha nenhuma ondulação. Mais perto da margem, pequenas ondas lambiam a terra e jogavam sobre a areia molhada uma cascata de espuma. A mão de Gray brincava com seu cabelo, separava as mechas com os dedos e as puxava para baixo. Ele a cercou com um braço para pegar a escova que estava em seu colo e deixou a mão se demorar sobre o nó da faixa que prendia o roupão, como se contemplasse desamarrá-la. Devagar, provocante, ele afastou a mão. Faith gemeu baixinho quando ele começou a escovar os cabelos quase secos. Enquanto ele continuava com os movimentos de cima para baixo, envolvia a outra mão com as pontas e as deixava escorregar por entre os dedos. Cada repetição provocava nela mais um gemido de prazer. — Seu cabelo é lindo — disse Gray. — Combina perfeitamente com você. Vibrante. Solto. Macio. Ela virou a cabeça para fitá-lo por cima do ombro. — Muitas vezes me senti tentada a cortar. As mãos dele pararam. — Você não teria coragem. Ela deu de ombros. — Às vezes é uma chateação. — Mal posso esperar para ver todo esse cabelo espalhado sobre a cama enquanto escorrego meu pinto entre suas coxas — ele falou com voz rouca. Faith sentiu o clitóris pulsar, os mamilos endureceram e pequenos arrepios de prazer passearam por seu corpo. — Já imaginei você em cima de mim, meu pinto enterrado fundo no seu corpo. Você debruçada


sobre mim, seu cabelo como uma cortina sobre meu peito. Então seguro as mechas com as duas mãos enquanto você cavalga. Ela respirou fundo e fechou os olhos para imaginar a cena que ele descrevia. Gray retomou os movimentos mansos com a escova, cada repetição empurrando-a mais e mais para o estado de semiconsciência. — Mas sabe qual é minha imagem favorita? — ele sussurrou bem perto de sua orelha. — Você de quatro, minhas mãos segurando seu cabelo, mantendo sua cabeça erguida enquanto penetro você por trás. Seria possível ter um orgasmo simplesmente ouvindo o que ele dizia e tendo os cabelos escovados? Faith não sabia, mas queria descobrir. Ele ficou quieto e, mais uma vez, o único som era o do oceano distante. Faith relaxou contra o peito de Gray enquanto ele alternava a escova e os dedos pelas mechas longas. Ela se inclinou um pouco mais para trás, levantando o queixo e fechando os olhos. Sussurros de prazer acompanhavam cada respiração. Não conseguia se lembrar de outro momento em que se sentira tão contente. Não conseguia nem lembrar outro homem que houvesse estado tão concentrado nela. Era excitante, satisfatório e um pouco assustador, tudo ao mesmo tempo. — Por que nunca fala sobre sua mãe? — ele perguntou. Faith ficou tensa e lamentou ter pensado que nada poderia estragar esse momento. — Não gosto de falar sobre ela. A escova deslizou novamente por seus cabelos, as cerdas arranhando suavemente suas costas. Em silêncio, Gray continuava se dedicando à tarefa. Os ombros de Faith caíram. Não era justo. Havia feito a ele várias perguntas pessoais. Se iam realmente tentar manter um relacionamento, tinha que ser honesta. Mesmo que a ideia de contar a ele sobre sua mãe e sua infância a deixasse com urticária. — Não fui muito justa — ela começou em voz baixa. — Desculpe. É que odeio falar sobre ela. — Eu entendo. — É uma longa história. — Temos a noite toda. A aceitação tranquila na voz dele a animou. Gray não a pressionava, não exigia mais do que ela podia dar. O que só despertava nela a vontade de oferecer tudo. Ele deixou a escova sobre o deque, mas continuou brincando com seu cabelo. Logo movia os dedos com mais vigor para massagear o couro cabeludo. — Hum... Continue assim, e eu conto tudo que quiser saber — ela disse. Gray riu e continuou massageando. Desceu pela nuca, chegou aos ombros. Faith suspirou deliciada. — O Pop não é meu pai de verdade. Não, espere, não é verdade. Ele é meu pai de verdade, é o


único que eu jamais conheci. Mas não é meu pai biológico. Se achava que ele se surpreenderia, Faith não viu sinais disso. Gray continuava com a massagem, e ela sentia os músculos relaxarem. Ele não disse nada, não reagiu, apenas esperou a continuação da história. — Minha mãe... Não sei nem como descrevê-la. Ela viveu a vida inteira com a cabeça enterrada na areia. Decisões ruins fazem parte da natureza dela. Ela é impulsiva e inconsequente, e simplesmente se recusa a aceitar as consequências dos próprios atos. — Parecida com muita gente que eu conheço — ele falou com tom seco. Faith assentiu. — Desde cedo eu fui o sustento emocional da nossa “família”. Na época, nem entendia que nossa relação era muito diferente de outras relações entre mãe e filha. Só tentava ser a melhor filha possível. Quando não tínhamos o que comer em casa, eu fazia trabalhos eventuais, cuidava dos filhos dos vizinhos e assim conseguia dinheiro para a comida. Lembro claramente de segurar a cabeça da minha mãe enquanto ela vomitava depois de ter passado a noite inteira bebendo. É claro, eu não compreendia que era ali que todo o nosso dinheiro desaparecia. Gray fez um ruído de desgosto. — Meu Deus, Faith. Quantos anos você tinha? Ela deu de ombros. — Nove, dez. Não lembro, realmente. As mãos dele apertaram seus ombros e os movimentos se tornaram mais relaxantes, como se ele percebesse a dificuldade de Faith para falar sobre a mãe. — Quando eu tinha quatorze anos, ela conheceu o Pop e se casou com ele. Fiquei muito animada. Amei o Pop à primeira vista. Ele era muito bom para mim. Me aceitava como filha. Tive uma paixão monstruosa por Connor. Que menina de quatorze anos não teria? Ele tinha vinte e quatro anos, havia acabado de sair do exército e era bom para mim. Não me tratava como se eu fosse um fardo. Pela primeira vez, pensei ter realmente encontrado a família que eu queria. — O que aconteceu? Faith suspirou. A lembrança daquela noite ainda tinha um efeito muito forte sobre ela. Havia sido o pior sentimento de sua vida. Pior que as decepções provocadas pela mãe. — Uma noite, minha mãe cismou com alguma coisa. Ela me tirou da cama no meio da madrugada e me levou embora. Fiquei devastada. Não queria ir. Perguntei a ela se não podia ficar. Ela me obrigou a ir, e eu sabia que era porque não havia mais ninguém para cuidar dela. Aquilo me deixou furiosa. O Pop era bom para minha mãe. Bom demais. Teria cuidado dela, se ela deixasse. Mas, como com todo o resto, ela estragou tudo. Não deixava nada de bom acontecer com a gente. As mãos dele pararam sobre seus ombros, os dedos apertaram sua pele. Ele se inclinou e a


beijou no pescoço. — Para onde vocês foram? O que fizeram? Lágrimas queimavam seus olhos. — Voltamos para nossa velha vida. Mudando de casa a cada dois, três meses, quando éramos despejadas. Voltar para a escola não fazia parte das minhas opções. Eu estava ocupada demais tentando garantir a comida e o teto sobre nossas cabeças. Gray murmurou um palavrão. — Mais ou menos um ano mais tarde, ela começou a usar drogas. Não me surpreendi. Tinha que esconder o dinheiro, ou ela gastava tudo com drogas. Eu a odiava. Queria deixá-la sozinha. — Por que não deixou? — Eu era muito nova. Tinha medo. Não tinha para onde ir. Ninguém com quem contar. E, no meio de tudo isso, ela ainda era minha mãe. Não conseguia deixá-la porque sabia que ela não viveria sem mim. Gray a abraçou e apertou contra o peito. Depois se reclinou até ambos estarem olhando para o céu estrelado. Faith fechou os olhos e saboreou a força daquele abraço. O conforto e a aceitação. A compreensão. — O que aconteceu? — ele quis saber. Faith sabia que ele queria saber como ela havia ido parar lá, com Pop, longe da mãe. Seus lábios tremeram com a lembrança daquela noite. — Quando eu tinha vinte anos, trabalhava em dois empregos e não passava muito tempo em casa para ficar de olho nela. Comprava a comida, pagava as contas e nunca dava dinheiro a ela. Acreditava que, assim, minha mãe não teria como comprar drogas. Subestimei quanto ela poderia ir longe para conseguir o que queria. Quando voltei para casa depois do expediente no meu segundo emprego, eu a encontrei desacordada na sala de estar do nosso apartamento. Ela não respirava. Liguei para o 190 e fiz todas as manobras de ressuscitação que conseguia lembrar. Quando a ambulância chegou, eles conseguiram ressuscitá-la e a levaram para o hospital. Lembro que fiquei sentada na sala de espera do hospital e me senti culpada por não saber se queria que ela sobrevivesse. Faith estremeceu, tentou se livrar da culpa que ainda sentia. — Quanto isso é horrível? Desejar a morte de minha própria mãe! Gray a abraçou com mais força. — Não é horrível. É humano. — No hospital, ainda encontraram o número do telefone do Pop dentro da bolsa dela. Quando ele e o Connor apareceram, chorei como uma criança no ombro do Pop. O Connor me levou para um hotel e ficou comigo enquanto o Pop cuidava da minha mãe. Ele a internou em uma clínica de


reabilitação e tomou outras providências que eu nem sei quais foram. Na época não me interessei em saber. Estava aliviada demais por não ter que lidar com aquilo sozinha. O Pop e o Connor me levaram com eles para Houston, me disseram que eu era da família. O Pop me deu um sermão, disse que eu não devia mais cuidar da minha mãe, que devia lavar as mãos. Ela ficou tensa nos braços de Gray, virando-se um pouco para descansar um lado do rosto em seu peito. Quando a fitou, os olhos dele transbordavam solidariedade. — Tem alguma ideia do alívio que senti ao ouvir alguém dizer que eu podia e devia encerrar aquela relação com minha mãe? Parece bobagem, mas eu precisava de alguém para me dizer que, sim, isso era possível, e que eu não era uma má pessoa por isso. Gray assentiu e tocou seu queixo com um dedo. — Muita gente não teria feito tudo o que você fez por ela. — Quando o Pop contou que queria me adotar... Lembro que fiquei olhando para ele perplexa, sem saber o que fazer. Depois chorei, chorei muito. Ele pensou que havia me aborrecido, mas aquela foi a coisa mais maravilhosa que alguém fez por mim. Pela primeira vez senti que pertencia realmente a algum lugar. Ele e o Connor eram minha família. Lá estava eu, com vinte anos de idade, me sentindo uma criança outra vez. Gray beijou sua testa e tocou sua face com os dedos, traçando linhas invisíveis da face até a orelha. — E desde então você tem vivido com o Pop. Ela assentiu suavemente, tentando não afastar a mão que tocava seu rosto. — O Pop me instalou em um dos apartamentos dele, me deu um emprego na Malone and Sons e me preveniu com um discurso muito severo sobre eu não permitir que minha mãe voltasse à minha vida. — Mas ela tem telefonado para você. Faith ficou tensa, mas ele continuava acariciando seu rosto, e aos poucos ela relaxou novamente. — Sim. Ela tem telefonado de novo. A mesma coisa. Quer dinheiro. A verdade é que sempre a socorri, mesmo depois de meu pai ter me falado para nunca dar nada a ela. Uma vez ele disse que, se você dá as sobras da comida a um cachorro, ele nunca mais te deixa em paz. E estava certo. Mas desta vez eu me recusei a ajudá-la. Faith baixou a voz e olhou para longe. Gray tocou seu rosto do lado que ela agora exibia enquanto olhava para o oceano. — Minha mãe está encrencada, e tudo que quero é que ela desapareça. Tentei ignorá-la. Não contei ao Pop sobre os telefonemas. Se ele descobrir, vai ficar magoado e bravo por eu ter escondido isso dele. Mas não quis incomodá-lo com meus problemas de novo. Ele já fez muito por mim. É hora de eu colocar limites. Resolver essa situação. O problema é que desta vez eu


acho que ela realmente precisa de ajuda. — Não pode consertar a vida dela — Gray falou com tom doce. — O Pop está certo. Se você continuar tirando sua mãe das encrencas que ela arruma, nunca vai se livrar disso. E ela nunca vai cuidar da própria vida. E, nesse caso, o que vai ser de você? Vai ser a eterna muleta da sua mãe. Ela assentiu. — Eu sei. Estou sempre dizendo isso a mim mesma, mas depois lembro que ela é minha mãe. Se você não tem mais ninguém no mundo, precisa ter sua mãe, pelo menos, não? — Não é o seu caso. Você tem o Pop, o Connor, o Nathan, o Micah ... e eu. Um brilho morno se acendeu e desabrochou dentro dela. Ocupou o peito e se expandiu em todas as direções até inundar a alma. Ele tinha razão. Não estava sozinha. Faith o encarou, e o véu formado pelas lágrimas nublou as linhas de seu rosto. Ela virou o corpo até se encolher de lado em seus braços, depois levantou a mão para tocar seu rosto. — Eu devia ter contado ao Pop sobre os telefonemas. Agora sei disso. Mas parte de mim ainda tem medo de criar problemas. Não quero que ele se arrependa de ter me aceitado em sua família. Ele tem feito muito por mim. — Já parou para pensar quanto você fez por ele? Ela o encarou chocada. — Não, eu... — Ele adora você, Faith. Todos te adoram. O Connor, o Micah e o Nathan. Não pense que não contribuiu com essa relação. Você não é uma obra de caridade. É tão importante para eles quanto eles são para você. — E você sabe de tudo isso, não é? — ela perguntou com um sorriso delicado. — É óbvio. No tempo que passei aqui, foi fácil ver quanto você significa para eles. Todos querem te proteger. As palavras de Gray aqueceram seu coração. — Obrigada por me dizer essas coisas. Eu precisava ouvi-las. Tenho estado muito estressada com os telefonemas, sem saber se tomei a decisão certa. Ele a silenciou com um dedo. — Chega de se preocupar. Esta semana é nossa. Além do mais, quem sabe? Quando voltarmos, as coisas podem ter se resolvido. A afirmação cifrada tinha o propósito de tranquilizá-la, Faith tinha certeza, e ela se agarrou à confiança que ouvia na voz dele. — Você me faz esquecer as preocupações — confessou. — Que bom. Quero que nosso tempo juntos seja livre de estresse. Quero acabar com sua


infelicidade. Quero que você brilhe. Para mim. Ela segurou seus ombros e pressionou o rosto contra a curva de seu pescoço. Sentia a pulsação de Gray em sua testa. — Posso te levar para dentro? — ele murmurou. Ah, Faith adorava o jeito como ele dizia isso. Ela assentiu. Ele a levantou de seu colo e se ergueu da espreguiçadeira. Depois se abaixou e a tomou nos braços. Quando a levou para dentro, Gray dirigiu-se ao quarto. Lá ele a deitou sobre a cama king size. — Vou tomar uma ducha — avisou. — Quando voltar, quero você nua na cama. O estômago de Faith deu um pulo quando ela viu o desejo em seus olhos. Gray a fitou por um momento antes de se virar e entrar no banheiro. Ele ligou o chuveiro e desabotoou o jeans imediatamente. Acabaria tendo uma cãibra permanente, porque havia passado a noite inteira com uma ereção, e o jeans o apertara tanto que estava em constante estado de dor. Quando tirou a calça, a ereção se libertou e ele sentiu um alívio imediato. Como sobreviveria à noite era algo que não sabia. O que sabia era que não iria para a cama com uma ereção do tamanho do Texas. Quando entrou no chuveiro, ele segurou o membro duro e começou a movê-lo para cima e para baixo numa tentativa de aliviar o sofrimento. A água quente escorria por seu corpo enquanto ele movia a pele externa para a frente e para trás, deslizando-a sobre a cabeça inchada. Gray fechou os olhos e voltou o rosto para cima, para o jato de água, quando sentiu as bolas se enrijecerem. O orgasmo se aproximava. Os dedos apertaram um pouco mais o membro ereto, e ele repetiu o movimento mais duas vezes. Um jato de sêmen brotou da ponta e foi rapidamente levado pela água. Gray abaixou a cabeça e respirou rapidamente grandes porções de ar enquanto o pulso ecoava nas têmporas. Ele continuou afagando o pênis cada vez menos rígido até que, finalmente, as ondas de prazer perderam força e sumiram. Depois ensaboou o corpo e enxaguou-se rapidamente. Então saiu do chuveiro e pegou a toalha. Seco, vestiu uma cueca boxer limpa e voltou ao quarto. Quando viu Faith deitada na cama, os cabelos espalhados sobre o travesseiro como em suas fantasias, o corpo nu iluminado pelo brilho do abajur sobre o criado-mudo, Gray teve outra ereção. E praguejou mentalmente. O plano de encontrar alívio para a dor constante que o atormentava ia por água abaixo. Ele se aproximou da cama e deitou ao lado dela. Faith olhou para ele, os belos olhos iluminados pelo desejo, mas, mais que isso, seu olhar transmitia confiança. Ele a tomou nos braços. Depois puxou as cobertas sobre eles. Sabia que Faith esperava que fizesse amor com ela esta noite, mas também sabia como era


importante não apressar as coisas. Podiam começar o relacionamento sexual no dia seguinte, e seria cedo o bastante. Esta noite, queria determinar qual era seu nível de conforto e desenvolver a confiança entre eles. Sentia-se hipócrita por dar tanta importância à confiança quando mentia para ela. Mas nisso, no relacionamento entre eles, seria absolutamente honesto. E tinha que torcer para que, no fim, isso fosse suficiente. Ele encaixou a cabeça dela sob o queixo e a abraçou com força, apreciando a sensação de pele contra pele. — Durma — disse em voz baixa. — Temos todo o tempo do mundo. O corpo delicado estremeceu contra o dele, e Gray sentiu a tensão desaparecer quando Faith relaxou em seus braços. Então beijou sua cabeça e estendeu o braço para apagar o abajur atrás dele.


CAPÍTULO 30 Gray abriu os olhos e sentiu o cabelo sedoso e loiro pinicando seu nariz. Ele piscou e afastou um pouco a cabeça. Faith estava aninhada em seu peito, com a cabeça ainda encaixada embaixo de seu queixo. Os cabelos cobriam o travesseiro perto do rosto de Gray, e ele sentia o cheiro de xampu que havia usado para lavá-los. O quarto ainda estava escuro, e ele levantou o braço para olhar o relógio de pulso. Não era muito cedo. Logo o dia chegaria. Com cuidado para não acordá-la, ele se levantou da cama. Precisava dar um telefonema, e essa era uma excelente oportunidade. Gray pegou o jeans do chão ao pé da cama e tirou o celular de um dos bolsos. Em seguida saiu do quarto. Quando abriu a porta francesa e saiu para o ar do início da manhã, digitou o número de Mick. — Onde você se meteu? — Mick disparou. — Bom dia para você também — Gray respondeu, já irritado com o tom de voz do outro. — Bom dia, meu rabo. Você devia estar aqui ajudando a pegar o assassino do Alex, em vez de se afastar para trepar com a garota. — Mick, não comece — ele o preveniu. — Telefonei para saber que diabo está acontecendo. Você pode não gostar de como decidimos fazer as coisas, mas isso é uma pena. Está reagindo com a emoção, e se usasse a cabeça saberia que estou certo. — Nós. Desde quando isso se tornou nós? Não entendo por que envolveu o Malone e a gente dele. Ele só está preocupado com a filha. Não quer nem saber se o Samuels matou meu filho. — Da mesma forma que você só está preocupado com seus interesses — Gray apontou em voz baixa. — A Faith é uma vítima inocente, Mick. Não vou permitir que ela seja usada, não mais do que já foi. Se não gosta disso, azar seu. — Nunca imaginei que se venderia — Mick acusou ressentido. — Não esperava que virasse as costas para o Alex desse jeito. — Merda, Mick. Pare de tentar me manipular. Você está fazendo essa merda desde o começo, e eu permiti que fosse assim. Estou cansado de deixar você me comandar usando o trunfo da culpa. Se o Samuels tentar atacar a Faith, o Pop e os outros vão pegá-lo. Isso é tudo que deve interessar


a você. Dentro das regras. Sem buracos legais por onde ele possa escapar. Houve uma longa pausa durante a qual o único som era o da respiração acelerada de Mick. Finalmente, ele rompeu o silêncio. — Se não quer me ajudar a pegar o assassino do Alex, eu faço isso sozinho. Não vou ficar parado enquanto ele escapa. Não quando estamos tão perto. — Mick, pare de falar pelo rabo e se acalme — Gray disparou irritado. — Mick. Mick? Droga, ele desligou. Gray também desligou e resmungou um palavrão. Mick estava perdendo a cabeça. A dor e a revolta o devoraram, o impediam de pensar racionalmente. Precisava mandá-lo de volta a Dallas, mas sabia que, nesse momento, isso era impossível. Decidido, abriu novamente o aparelho e digitou o número de Micah. Balançando a cabeça, tentava se livrar da raiva enquanto esperava que ele atendesse. Apesar de todos os defeitos, sabia que Mick era um bom homem. — Ei, cara — Gray falou quando Micah atendeu. — Ei — Micah respondeu. — Quais são as novas? Alguma notícia do Samuels? — Não, ainda não. A polícia colocou uma dublê no apartamento da Faith. Ela está morando lá e vai para o escritório como a Faith costuma fazer. Gray suspirou. Talvez fosse cedo demais, mas a carta o levava a crer que Samuels estava por perto. Mesmo que ainda não estivesse em Houston, logo ele estaria. Mais que nunca, sentia-se feliz por Faith estar fora de cena e em um lugar onde podia mantêla em segurança. Não tinha um bom pressentimento com relação a essa história toda. Mick, Samuels ou a mãe. Faith estava exposta ao sofrimento, se não físico, certamente emocional. Mais uma vez ele foi atingido em cheio pelo raciocínio que fundamentava a decisão de Pop de esconder dela a realidade. Discordara veementemente, mas agora não tinha mais tanta certeza de que Pop estava errado. — Escute, tenho que ir. As coisas estão meio malucas por aqui. O Nathan, o Connor e eu estamos de olho nos apartamentos. Temos alguns agentes plantados acompanhando tudo, mas não queremos assustar o Samuels, caso ele perceba que está sendo esperado. A dublê da Faith deve sair do apartamento em poucos minutos, e é minha vez de segui-la até o escritório. — Tudo bem, cara, mande notícias, está bem? — Vou mandar. E você, mantenha a Faith em segurança e feliz. Gray riu. — Vou fazer o possível. Quando entrou, ele foi procurar papel e caneta. Depois de rabiscar um bilhete para Faith, voltou ao quarto. Observou seu rosto adormecido por um momento, estudando os traços e apreciando a beleza serena.


Incapaz de resistir, ele se abaixou e deslizou um dedo por seu rosto. Ela se mexeu e se aproximou do toque, mas não acordou. Relutante, Gray afastou-se dela e deixou o bilhete sobre o travesseiro ao lado da cabeça de Faith. Quando Faith acordou, Gray não estava mais ao seu lado. O sol radiante entrava pela janela, e ela apertou os olhos contra a claridade. Quando se virou para o travesseiro vazio ao seu lado, ela viu a folha de papel sobre ele. Ao pegar a página, reconheceu nela a caligrafia quase indecifrável de Gray. Quando acordar, vá para a cozinha. O café estará pronto. Não vista nada. Ela deixou o papel cair sobre a cama, sentindo o início de um rubor intenso que se espalharia pelo corpo todo. Nua. Francamente, não sabia o que esperar. Até agora ele havia conseguido surpreendê-la sempre. Em vez de fazer sexo, havia passado a noite inteira cobrindo-a de atenção. Nunca se sentira tão mimada e valorizada em toda a sua vida. — Não seja covarde — ela resmungou ao sair da cama. Foi ao banheiro e escovou rapidamente os cabelos. Não precisava de muito. Gray os escovara até deixá-los brilhantes. Agora eles caíam sobre suas costas em ondas suaves. Ela olhou para o espelho. A mulher que a encarava de volta a fascinava. Havia suavidade nela. Um brilho radiante e feliz que se refletia nos olhos e no sorriso. Faith respirou fundo e saiu do banheiro. Quando se aproximou da cozinha, o coração batia mais depressa e o estômago reagia ao nervosismo. Ele estava em pé ao lado da bancada, segurando uma frigideira e servindo ovos em dois pratos. Quando Gray levantou a cabeça e fez contato visual, o primeiro instinto de Faith foi cobrir-se. Ela parou alguns metros longe dele e engoliu o nó que se formava na garganta. Gray deixou a frigideira de lado e limpou as mãos em um pano de cozinha. Depois contornou a bancada, os olhos passeando por seu corpo nu. Quando a distância entre eles diminuiu, Faith levantou os braços para cobrir os seios. — Bom dia — ele murmurou ao se inclinar para beijá-la. As mãos seguraram seus pulsos, e ele a fez abaixar os braços. — Não se esconda. Você é bonita demais para isso. Quero olhar para você. Faith ficou vermelha, e a satisfação se estampou no rosto dele. Nunca saberia por que ele gostava tanto disso. Parecia meio bobo uma mulher adulta corar como ela. — Venha sentar-se, vamos comer — ele falou enquanto a puxava para a bancada. Faith o seguiu, sentindo-se cada vez mais confusa. Ela se sentou, e Gray pôs um prato na sua frente. Bacon, ovos e torrada. E um copo de suco de laranja. Depois se sentou do outro lado e a encarou com aqueles lindos olhos azuis. Gray estava


vestido, o que o colocava em posição de ligeira vantagem na opinião de Faith. Camiseta e jeans, e os pés descalços, por alguma razão, o tornavam ainda mais sexy. Era difícil se concentrar em comer sem saber o que esperar, o que aconteceria em seguida. Ele ainda não agia como o macho dominante. Pelo contrário, na verdade. Havia deixado claro que esperava que as coisas fossem feitas à sua maneira, sim. O que ela não esperava era que isso incluísse cobri-la de atenção. Estava aflita, tensa, e Gray deixou o garfo sobre o prato quando olhou para ela. — Faith, pergunte. Posso ver um milhão de perguntas se chocando em sua cabeça. Ela sorriu acanhada e também deixou o garfo sobre o prato. — Acho que não sei o que esperar. Quero dizer, estou um pouco confusa. Isso está me deixando maluca. Ele arqueou uma sobrancelha e a encarou com intensidade. — Esperava ficar de joelhos? Pedir permissão para falar? Esperava que eu batesse em você antes da trepada? Ela se encolheu com a vulgaridade da descrição, mas também reconheceu que, em parte, Gray estava certo. Um pouco constrangida, abaixou a cabeça e assentiu. E o ouviu suspirar. Quando levantou o olhar novamente, ele estava balançando a cabeça. — Faith, não sou nenhum cretino. Não vou tratar você como se fosse um saco de lixo. Nunca. Você não precisa pedir permissão para falar, pelo amor de Deus. Ajoelhar é uma idiotice. Há muitas maneiras de demonstrar submissão e respeito, e muitas formas de eu retribuir, também. Nenhuma inclui maus-tratos ou humilhação. Um calor suave se espalhou por seu rosto quando os olhos mergulharam nos dela. Gray falava com franqueza, e sua sinceridade era clara em cada palavra. — Sem dúvida, haverá momentos em que vou pressionar você — ele continuou. — Nós dois temos fantasias. Gosto de pornografia tanto quanto qualquer outro homem, e espero que faça o que eu disser, mas isso não é um jogo. Não me canso de enfatizar. Não sou seu pai. Não tenho vontade de viver esse papel. Somos adultos, e o jogo petulante de senhor e escravo me mata de tédio. O falso e desobediente escravo age de forma errada para ser punido pelo mestre. Isso é ridículo. Se e quando eu bater em você, será porque gosto de ver as marcas da minha mão no seu traseiro e porque você terá prazer com isso. Não porque você me desobedeceu. Você é adulta e tem vontade própria. Seu estômago se comprimiu, a vagina se contraiu e os mamilos formaram saliências rígidas e dolorosas. Foi preciso abrir a boca e se forçar a respirar. — Mais alguma pergunta? — Gray indagou com tom calmo. Ela balançou a cabeça e tentou controlar o tremor das pernas. Os cantos da boca de Gray se ergueram formando um sorriso de pura apreciação masculina.


Um brilho predador iluminou seus olhos quando ele os deixou passear por seu corpo. — Muito bem. Agora, ontem foi tudo para você. Hoje? Minha vez.


CAPÍTULO 31 Faith engoliu, depois engoliu de novo. Nunca havia desejado outro homem como queria Gray. Nunca. Queria seu toque. Sua boca. Seu pau. Cada centímetro dele. A comida havia sido esquecida. Não que ela a tivesse conseguido experimentar. — Terminou? — ele perguntou. Faith assentiu, sem saber se conseguiria falar. Ele se levantou e tirou os pratos. — Vá para a sala e sente no sofá. Eu vou assim que terminar de tirar os pratos. Insegura, ela se levantou e praticamente correu para a sala. Precisava de todo o tempo disponível para recuperar-se antes de ele terminar. Quando se sentou, ela afundou no couro macio e se cobriu tanto quanto foi possível dobrando o corpo para a frente. Se fosse mais corajosa, se deitaria numa pose provocante, seria sedutora. Mas a verdade era que estava muito nervosa. Ouvia o barulho dos pratos, depois tudo ficou quieto. A expectativa corria por suas costas. Ela levantou a cabeça e o viu parado na porta olhando em sua direção. De punhos cerrados, enterrou as unhas nas palmas enquanto ele a observava. Gray parou menos de um metro distante dela, os polegares enganchados nos bolsos do jeans. Ele radiava poder. Um calor sensual que fazia seus nervos gritarem em antecipação. Com movimentos lentos, metódicos, ele levou a mão à calça e abriu o botão. Faith o observava fascinada enquanto ele abria o zíper. Gray mergulhou a mão direita na calça e tirou o membro. Os olhos dela se abriram ainda mais. Antes, no corredor escuro da The House, só havia conseguido sentir e saborear. Agora podia ver o membro grosso e avermelhado brotando de um ninho de pelos castanhos. A mão dele segurava a base e a cabeça larga se aproximava de sua boca. Ela lambeu os lábios. A respiração dele era ruidosa. — Sua boca é muito sexy — Gray elogiou. Depois estendeu a outra mão e segurou sua nuca, puxando-a para a frente e posicionando o pênis diante de sua boca. — Abra para mim — ordenou.


Ela entreabriu os lábios, e o pênis deslizou entre eles. Faith fechou os olhos para processar o bombardeio de sensações. Ele era grosso em sua boca, suave na língua e rígido entre os lábios. Gray penetrou mais fundo, deixando-a sem ar. Tirando a mão do membro, segurou seus cabelos e deslizou os dedos por eles até encontrar a outra mão na base do crânio. E a segurou no lugar enquanto penetrava mais fundo. A cabeça roçava o fundo de sua garganta, e ela inspirou profundamente pelo nariz. — Engula — ele mandou. — Engula quando eu empurro e relaxe a mandíbula. Pegue tudo. Ela seguiu as orientações, e na penetração seguinte Gray foi ainda mais fundo, aproveitando o movimento de engolir. E se manteve lá dentro. Os dedos agarrando seu couro cabeludo. Finalmente, ele recuou e soltou a cabeça de Faith. Então segurou o membro novamente e o manteve bem perto dos lábios dela. — Lamba — ordenou com tom rouco. Ela deslizou a língua pela coroa acetinada e lambeu a pequena abertura na ponta. Gray gemeu, e ela sorriu satisfeita. — Feliz com o que está fazendo, não é? Ela respondeu circundando a cabeça com a língua, parando para dar atenção especial à camada exposta quando puxava para trás a pele que recobria a extremidade. — Chupe — ele grunhiu. Ela abriu a boca e puxou a ponta entre os lábios. Sugou suavemente, enquanto Gray segurava o membro diante de seu rosto. — Agora mais fundo. Ela abriu a boca um pouco mais e sugou mais forte. — M... merda — Gray arquejou. Ele apoiou uma das mãos sobre a cabeça dela e agarrou o pênis com a outra. — Fique quieta — disse com voz rouca. E começou a acariciar o membro, rápidos movimentos para a frente e para trás. Faith fechou os olhos e relaxou, deixando-o assumir o controle. Um tremor atingiu o fundo de sua boca quando os movimentos ficaram mais rápidos. Ele tirou o pênis da boca de Faith, e um jato quente de esperma atingiu seus seios. Quando abriu os olhos ela o viu com a cabeça inclinada para trás e uma expressão de pura agonia no rosto. A mão movia o membro e o jato se espalhava por seu peito. O fluido denso escorria por entre os seios para a barriga. Quando Gray abriu os olhos, havia neles um brilho de satisfação. O olhar seguiu o mesmo caminho do sêmen. Com um dedo ele o espalhou pela parte de baixo de um seio e subiu até um mamilo, onde recolheu uma gota que ameaçava escorrer. Depois aproximou o dedo dos lábios


dela. Abrindo sua boca, espalhou o esperma pelos lábios e sobre a língua. — Limpe lambendo — comandou. Ela sentiu o leve sabor da essência almíscar e chupou seu dedo até Gray tirá-lo de sua boca. Ele deu um passo para trás. Faith sentia o corpo doer e tremer. Queria seu toque. Precisava do alívio. Estava mais excitada agora do que estivera na noite passada, quando ele a levara ao orgasmo com os dedos. — Estou adorando o que vejo — ele confessou. — É muito sexy ver meu esperma em você. Os olhos dele radiavam poder virial, identificavam um homem confiante de seu controle. E, para ser honesta, a ideia de ser marcada desse jeito a excitava ainda mais. Soaria tolo se fizesse a declaração em voz alta, por isso ela guardou o pensamento para si. Gray estendeu uma das mãos, e ela a aceitou para ficar em pé. O olhar dele desceu pela última vez para os rastros de sêmen sobre seu peito, e depois ele a levou para o banheiro. Uma vez lá, ligou o chuveiro e esperou a água esquentar antes de puxá-la com ele para baixo do jato. Então abaixou a cabeça e capturou os lábios com os dele. A boca se movia firme sobre a dela enquanto a água os lavava. As mãos seguraram os cotovelos de Faith e subiram deslizando pelos braços até ele encontrar seus ombros. Gray não a sobrepujava pela força, mas dominava seus sentidos. O beijo era suave, mas o sentia na alma com todas as nuances. Não havia mais ninguém. Nada além dele e dela. E como ele a fazia sentir. Faith o enlaçou pela cintura e abriu as mãos sobre as costas musculosas, sentindo os lábios dele se moverem da boca para o queixo, daí para o pescoço. O membro pressionava seu ventre. Ela recuou um passo e escorregou uma das mãos entre os corpos, tomada pelo desejo de tocá-lo, acariciá-lo, mas ele segurou seu pulso e a conteve. — Ainda não — murmurou. — Se me tocar, não vou durar muito. Ela o encarou e notou como Gray a fitava, como se fosse a única mulher que importava para ele. Sentia-se transfixada pela emoção sem reservas que via ali. Borboletas subiam de seu estômago para a garganta. — Adoro como você olha para mim — ele falou, e pegou o sabonete. Ela inclinou a cabeça para o lado. — Como eu olho para você? Os olhos azuis ardiam quando mergulharam nos dela. — Como se eu fosse poderoso. Como se fosse o único homem. De um jeito que pode me fazer matar outro homem, se olhar para ele assim. Ela sorriu. — Estava pensando que também adoro o jeito como você olha para mim. Ele arqueou uma sobrancelha.


— E como é? — Como se eu fosse bonita — ela sussurrou. — Como se fosse a única mulher que já te afetou desse jeito. Como se, em uma sala cheia de outras mulheres, você fosse olhar só para mim. — Tudo verdade — ele confirmou ao se aproximar um pouco mais. Gray começou a ensaboar o corpo de Faith com um toque que alternava firmeza e suavidade. Quando terminou, ela tirou o sabonete da mão dele e, apesar de seus protestos, começou a cobrir de espuma seu corpo musculoso. Enquanto os dedos deslizavam por cima de cada músculo definido, ela admirava a perfeição do físico. Não havia nenhuma gordura excessiva naquele corpo. Ela acompanhou o desenho do abdome definido, depois seguiu a linha dos pelos que desciam do peito até o umbigo. — Cuidado — Gray grunhiu quando a mão dela desceu um pouco mais. Ela riu e pulou quando a palmada acertou seu traseiro. — Se já cansou de brincar, vamos sair daqui — ele decidiu, e estendeu a mão para desligar o chuveiro. Eles se enxugaram juntos, embora Gray fizesse a maior parte do trabalho. Quando terminou, ele jogou a toalha para o lado e deu um tapinha brincalhão no traseiro de Faith. — Para o quarto. Na cama. Ela não perdeu tempo. Virou-se e correu para fora do banheiro e subiu na cama para esperar. Gray chegou um momento depois e ficou parado, olhando para ela. Faith apoiou-se sobre um cotovelo. Gray mantinha as pernas meio afastadas, e o membro estava semiereto. Em outras palavras, perfeito. Lindo. Duro. Esguio. Como um predador. Absolutamente másculo. E todo dela. Ele se aproximou lentamente da cama onde Faith estava deitada. Uma das mãos tocou sua perna e escorregou sobre a curva do quadril. Com um movimento firme, ele a deitou de costas. O colchão afundou quando ele se virou na cama. Gray se posicionou sobre ela e a olhou com intensidade. Depois abaixou a cabeça e beijou seu ventre. — Esperei muito tempo para sentir seu gosto — disse, e foi escorregando por seu corpo. Gray a segurou pelo quadril e escorregou as mãos para as nádegas até segurá-las com firmeza. Depois as deixou descer até segurarem a parte de trás das coxas. Então as moveu para o lado até posicioná-las na parte da frente das coxas, no alto, bem perto da vagina. E então abriu suas pernas lentamente. Ele as empurrou para fora e para cima, forçando os joelhos a se dobrarem. Faith fechou os olhos e enterrou os dedos nas cobertas ao lado do corpo. A boca estava muito perto de seu clitóris. Se ele respirasse, o orgasmo seria inevitável. Estava doendo, pulsando. Cada parte do corpo formigava.


Ele usou um dedo para separar as camadas macias. Depois acrescentou mais um dedo para mantê-las afastadas. — Tão linda — murmurou. — Rosa e feminina. Macia. Aposto que é tão doce quanto parece. Ela estremeceu e arqueou o quadril querendo mais, desejando-o. Então ele a lambeu. Os olhos dela se abriram, e a cabeça se inclinou para trás. A língua passeou por sua entrada até chegar ao clitóris. Cada músculo de seu corpo ficou tenso e sofreu espasmos, como se o cérebro não tivesse mais controle sobre os movimentos. — Hum, eu estava certo. Seu sabor é delicioso — ele ronronou. — Meu Deus — Faith arquejou. Gray a lambeu de novo, e ela rangeu os dentes quando uma corrente de prazer a sacudiu. Precisava de mais, só um pouco mais de pressão. Mas ele parecia perceber quanto Faith estava perto da explosão e quanto seria necessário para provocá-la, porque se continha. Leve, provocante, ele lambia e mordia a carne macia. Ela gemia e se contorcia inquieta embaixo dele. Gray levantou a cabeça para fitá-la. — Vejo que vou ter que te amarrar, se quiser que fique quieta. Ah, ele sabia que efeito a ameaça teria nela. Era possível ver a luz arrogante em seus olhos quando um arrepio a fez estremecer e os mamilos ficaram túrgidos. Então, Gray abaixou a cabeça novamente e, gentilmente, puxou o clitóris para dentro da boca. Faith tentava não se mover. Deus, tentava. Mas quando os movimentos de sucção se tornaram cadenciados, ela perdeu completamente o controle. Arqueou as costas e, chocada, ouviu a própria voz suplicando. Havia aberto a boca? Estava perto. Muito perto. Precisava. Ele soltou o botão ultrassensível e lambeu a fenda quente até contornar a entrada com a língua. Faith se acalmou na cama, sentindo diminuir a urgência do quase orgasmo. Mas logo a sensação voltou a crescer enquanto ele lambia sua abertura. A tensão aumentava. A pélvis ficou tensa. O estômago se comprimiu. Os punhos estavam cerrados, os dedos agarravam os lençóis. Ela fechou os olhos com força enquanto a carícia delicada atingia as regiões mais sensíveis repetidas vezes. Quase... quase. Gray levantou a cabeça, e ela gritou desapontada quando ele a deixou esperando. Um toque. Era tudo de que ela precisava. A mão se dirigiu automaticamente à vagina, que pulsava e clamava por alguma coisa que provocasse a explosão. Mas ele segurou sua mão e riu. — Ah, não, Faith. Ainda não. Hoje é minha vez, lembra? E estou adorando tudo isso. Ela suspirou frustrada.


Gray beijou a pele logo acima do ninho de pelos claros. De lá, foi desenhando uma linha de beijos pelo ventre até posicionar o corpo entre suas pernas abertas. Ainda sem pressa, inclinou-se e deixou a língua passear em torno de um mamilo, depois dedicou a mesma atenção ao outro. Ela vibrava de satisfação. Adorava estimular os mamilos. Os dentes pressionaram o ponto sensível, depois morderam mais forte, arrancando dela um grito provocado pela explosão de prazer no ventre. Gray sugou a ponta ereta e repetiu o movimento de sucção algumas vezes, puxando-o com os dentes e acariciando com a língua. Enquanto chupava um mamilo, ele capturou o outro entre os dedos. Puxando a saliência intumescida, a beliscava com o polegar e o dedo do meio, depois a girava e beliscava outra vez. Faith estava ofegante quando a boca finalmente abandonou seus seios e capturou seus lábios. Ele posicionou o membro grosso entre suas pernas enquanto a beijava com uma intensidade que beirava a violência. Ele sugou o ar que havia em seus pulmões. Faith ardia. Doía. Nunca antes havia experimentado paixão tão explosiva. A vagina envolvia a ereção, e, por mais que ela se movesse e arqueasse o corpo, não conseguia posicioná-lo de forma a tomá-lo em seu corpo. Ele beijava seus lábios, o rosto, os olhos, o pescoço. Mordia a ponta das orelhas, depois a curva do pescoço, e Faith não conteve um grito. Estava desesperada por ele. Queimando. Sem controle. E ainda assim ele era terno, forte, controlador e dominador. Era uma combinação que nunca antes experimentara. Finalmente, finalmente, ele introduziu a mão entre os corpos e posicionou o membro na entrada do dela. Depois se apoiou sobre um cotovelo e olhou para ela, os olhos cheios de coisas que Faith não conseguia nem começar a descrever. A cabeça passou pela abertura, e ela fechou os olhos quando Gray começou a penetrar seu corpo. Lentamente. Quase de maneira reverente. Ele era grosso. Era duro. E a distendia até ter que se perguntar quanto mais poderia receber. E continuava penetrando. Lágrimas corriam por seu rosto enquanto Gray progredia sem pressa, paciente, o quadril arqueado para a frente. Gray tomou a parte superior de seu corpo nos braços, aninhando-a junto ao peito quando finalmente parou bem no fundo da vagina. — Você é apertada — ele sussurrou. — Envolve como uma luva. Foi feita para mim. Só para mim. Enquanto falava ele depositava beijos ternos desde a orelha de Faith até o queixo, depois sobre os lábios. Os lábios seguiram deslizando pelo pescoço, sugando e lambendo onde ele sentia sua pulsação.


Faith o abraçava, os dedos abertos sobre os feixes de músculos. O quadril de Gray se movia para a frente, depois recuava para repetir o movimento de avanço. Como ele conseguia ser tão completamente gentil e, ao mesmo tempo, provocante, com tanto poder e autoridade? Era inexplicável, mas, com cada movimento, cada toque, carícia, beijo, ele a fazia sentir valorizada, protegida, amada. Gray apoiou os antebraços dos dois lados da cabeça dela e sustentou o peso do corpo. Eles se encaixavam como duas peças complementares de um quebra-cabeça. Estava aninhado entre suas pernas e deslizava os dedos por suas faces, afastando delas as mechas de cabelo úmido. Gray a fitava, e os olhos pareciam absorver cada faceta dela. Havia em sua expressão uma estranha mistura de ternura e posse declarada. Ela segurou seu rosto com uma das mãos, e Gray fechou os olhos para sentir a carícia delicada. Quando os abriu novamente, havia neles um desejo cintilante, radiante, inexorável. Ele moveu o quadril e a penetrou mais fundo. — Me envolva com as pernas — disse. Faith cruzou os tornozelos em suas costas, e ele deslizou as mãos sob o corpo dela para segurar as nádegas. E penetrou com mais força. O quadril pressionava a parte de trás das coxas enquanto ele tentava penetrá-la ainda mais. Gray tinha os olhos fechados como se fosse presa da mais doce agonia. O orgasmo se aproximava. Ela estava se encaminhando para um furacão construído lentamente. Estivera muito perto da explosão, a um passo dela muitas vezes, e fora obrigada a recuar. Agora não haveria uma negativa. Gray ganhou ritmo e velocidade, e o barulho do contato entre os corpos nus invadiu o quarto. Ela segurava sua nuca, entrelaçava os dedos na parte de trás de seu pescoço. E se segurava a ele como se a vida dependesse disso. — Por favor, não pare — sussurrou. — Não, amor, não desta vez — ele respondeu. — Solte-se. Eu pego você. Eu tenho você. As palavras a empurraram pelo trecho final. Seu coração cantou com a ternura das palavras. O corpo explodiu em um milhão de direções distintas. Pela primeira vez, coração e mente estavam em uníssono com o corpo. Nunca se sentira tão completa. Tão satisfeita. Tão contente. Tão convencida de que era ali que devia estar. Mais lágrimas rolavam por seu rosto enquanto cada músculo do corpo se contraía insuportavelmente. E finalmente o alívio chegou, a inundou, aliviou a tensão. Faith flutuava amparada pelos braços fortes. Depois de um tempo, percebeu que ele beijava sua orelha e murmurava palavras tranquilizadoras. E então foi a vez de Gray ficar tenso. Ele a penetrava com impaciência crescente, como se não conseguisse se aprofundar o suficiente e com a velocidade necessária.


E murmurou o nome dela quando desmoronou sobre seu corpo. Faith o abraçou, adorando sentir o peso, o coração batendo contra seu peito. Por um longo momento ele ficou ali, respirando ofegante em seu ouvido. Depois levantou a cabeça e a beijou demoradamente. — Não machuquei você, não é? — perguntou com voz rouca quando se afastou. Ela sorriu e acariciou seu queixo forte com a mão. — Você foi perfeito. — Está olhando para mim daquele jeito de novo. — Movendo o quadril, ele roçava o pênis ainda ereto contra as paredes de sua vagina. Depois se retirou de seu corpo, escorregou para o lado de fora seguido por um fluxo morno de fluido. — Vou buscar uma toalha — avisou. — Fique aqui. Ela o viu caminhar nu até o banheiro. Havia confiança em seu andar. Nenhuma arrogância. Nada de cadência forjada. Era só o andar de um homem extremamente confiante. Faith fechou os olhos e reviveu mentalmente os momentos de amor. Seu corpo estava saciado. Uma aura morna e sonolenta a cercava. Contentamento máximo. Prazer. A cama afundou novamente, e ele afastou suas pernas e pressionou a toalha contra sua carne ainda tão sensível. Faith abriu os olhos e descobriu que ele a observava. Gray jogou a toalha para o lado e deitou-se ao lado dela na cama. — Adoro a aparência de uma mulher satisfeita — murmurou quando a tomou nos braços. — Não tem estímulo maior para um homem do que saber que é responsável por colocar essa expressão no rosto de uma mulher. Ela se aninhou em seu peito e desejou ser capaz de ronronar como um gato. Gray a envolveu com os braços e acomodou a cabeça dela sobre seu ombro. A mão desceu deslizando pelas costas até cobrir seu traseiro de um jeito possessivo. — Durma um pouco — ele sussurrou. Faith bocejou, sinal de que estava mais que pronta para acatar a ordem. Quando ela estava adormecendo, Gray passou uma perna sobre as dela, e de repente ficou evidente que não havia uma parte de seu corpo que ele não envolvesse de algum jeito. Faith dormiu com um sorriso nos lábios.


CAPÍTULO 32 No mundo nebuloso entre o sono e a vigília, Faith pairava satisfeita e letárgica. Mãos mornas deslizavam sobre seu peito e seguraram seus ombros. Os olhos se abriram quando ela virou e o rosto encontrou o travesseiro. Suas duas mãos foram puxadas para trás e se encontraram na parte inferior das costas. Gray as segurava com uma das mãos, e ela sentiu a corda envolvendo seus pulsos. O coração batia acelerado contra o colchão, e a respiração era rápida e superficial enquanto ela tentava entender o que estava acontecendo. Quando as mãos soltaram seus pulsos, ela tentou movê-los, mas a corda a continha. Faith virou o rosto no travesseiro e tentou relaxar, mas a excitação invadia suas veias e a mantinha tensa com a expectativa. Mãos firmes apertavam e massageavam suas nádegas. As pernas estavam abertas, e ela estava exposta. O traseiro, a vagina. E estava impotente, incapaz de se defender contra o que ele quisesse fazer. De olhos fechados, arfou ao sofrer uma descarga de adrenalina como nunca havia sentido antes. Por onde ele a possuiria? Pela vagina? Pelo traseiro? A ideia de ser possuída tão primitivamente a empurrava em direção ao orgasmo. A pergunta foi respondida quando ele a levantou só o suficiente para penetrar sua fenda escorregadia. Faith gemeu ao sentir a pressão, o pênis ereto ocupando todo o espaço da passagem estreita. Gray se debruçava sobre ela, as mãos apoiadas na cama dos dois lados de sua cabeça. O corpo musculoso cobria o dela, o quadril flexionado formando um arco sobre o seu. A barriga firme roçava as mãos amarradas enquanto ele entrava e saía de seu corpo. A boca roçou sua orelha. — Fale, Faith, alguém já fodeu sua bunda? — ele sussurrou. — Eu seria o primeiro? Um arrepio eriçou os pelos de seus braços. — Sim — ela arfou. — Sim o quê?


— Você seria o primeiro — ela falou em voz baixa. Os movimentos do quadril se tornaram mais rápidos, e ele a penetrou mais fundo e com mais urgência. Gray fez um ruído satisfeito ao morder sua orelha. — Quer que eu coma sua bunda? — ele perguntou. — Fica excitada com a ideia de fazer uma coisa tão picante e proibida? — Sim — ela gemeu. — Sim! — Quer que eu te desamarre? Ou prefere trepar assim? Indefesa. Incapaz de se mover. À mercê do que eu quiser fazer. As palavras eróticas a percorreram, contraindo cada terminação nervosa por onde passavam. Gray parou de se mexer enquanto esperava a resposta. Sentia-se preenchida, distendida. Quão mais intensas essas sensações seriam se ele a penetrasse por trás? Gray a segurou pelos cabelos e puxou levemente. — Responda a pergunta — ordenou. — Quero trepar assim — ela sussurrou. A pressão nos cabelos diminuiu, mas a mão continuou segurando a mecha, tocando os fios, e ele retomou os movimentos lentos, comedidos. Depois recuou. A cama se moveu quando ele mudou de posição, e Faith ouviu um ruído baixo. Um esguicho. Lubrificante? Os dedos afastaram suas nádegas, e ela sentiu o choque gelado do gel escorregadio. Gray passou um dedo sobre a abertura, depois introduziu a ponta lentamente. Ela gemeu ao sentir o dedo entrando e saindo devagar. Um dedo, e era como se ele a houvesse preenchido completamente com o pênis. Gray tirou o dedo, aplicou mais lubrificante e introduziu dois dedos. Distendia o canal apertado, preparando-a para o que estava por vir. Ela cerrou as mãos amarradas às costas e ficou tensa ao sentir que ele removia os dedos. Gray abriu suas pernas ainda mais e se debruçou sobre seu corpo. O braço roçou suas nádegas quando ele abaixou a mão entre suas pernas para posicionar o membro. Primeiro ele o deslizou por entre as nádegas, depois usou as duas mãos para afastá-las. A cabeça pressionou o anel muscular, e a resposta instintiva à invasão foi uma contração imediata. Gray gemeu quando ela massageou a cabeça de seu pênis, mas não recuou. Os dedos a penetravam por trás, abrindo-a mais para permitir a penetração. Ele se inclinou para a frente, forçando o pênis mais para dentro. — Relaxe — murmurou. — Vai doer. Mas vou fazer você gostar. Deixe entrar, nenê. Deixe entrar inteiro. As palavras sensuais a inundaram como mel quente, e ela relaxou. Assim que sentiu sua rendição, Gray a penetrou completamente com um só movimento. Ela reagiu com um sobressalto, chocada com a dor intensa. Mas mordia o lábio e se contorcia


enquanto ondas de prazer seguiram imediatamente a dor aguda. — Faith, você precisa parar — ele gemeu. — Fique quieta, ou não vou conseguir me controlar. Está me matando. Um tapa em uma das nádegas reforçou o pedido agoniado, e ela parou, inspirando profundamente para resistir à força que crescia dentro dela. Gray segurou seu quadril com as duas mãos e recuou parcialmente. Depois parou, e Faith sentiu que ele tremia. — Tem ideia de como é sexy ver você nessa posição, envolvendo meu pinto com a bunda? — Gray a penetrou novamente, e ela não conteve um grito abafado. — Não parece possível nem que consiga me receber. Tão apertada... É incrível. Ele se levantou um pouco mais sobre os joelhos, erguendo o quadril de Faith para acomodá-lo. Depois tirou o pênis. — Linda — murmurou. Antes que ela pudesse pedir para não parar, ele a virou, e Faith teve de se esforçar para conseguir se acomodar sobre as mãos amarradas. Pela primeira vez desde que acordara, agora olhava nos olhos dele. E estremeceu ao ver neles a posse anunciada com tanta clareza. Gray abriu bem suas pernas e as empurrou contra seu corpo até garantir outra vez total acesso ao traseiro. Deslizando a mão pela vagina, tocou o clitóris com um dedo enquanto repetia a penetração anal. Faith gritou. — Ignore a dor — ele falou com tom rouco. — Entregue-se ao prazer. Vá buscá-lo. O polegar esfregava o clitóris. Outro dedo penetrava a vagina. Ela arqueou as costas para ir ao encontro das carícias. Queria que ele se movesse, que a penetrasse mais fundo. Mas Gray continuava parado, enterrado tão profundamente nela quanto era possível. — Por favor — Faith implorou. Ele recuou lentamente e, em seguida, empurrou o quadril para a frente. De olhos fechados, comprimia a mandíbula com tanta força que parecia prestes a perder o controle. — Não consigo ir mais devagar — disse, e aumentou o ritmo dos movimentos enquanto afagava seu clitóris. — Ah, meu Deus, Faith. A pélvis batia contra as nádegas de Faith. A umidade aumentava com a aproximação do orgasmo, que explodiu em seguida. Não houve uma progressão lenta até uma grande explosão, mas, em vez disso, várias explosões, uma depois da outra. E cada uma a contorcia com uma mistura de dor e prazer intenso. Tudo se misturava e fundia, até que ela se perdeu no êxtase. Então ele a penetrou uma última vez, e Faith sentiu dentro do corpo o jato quente de seu alívio, perdendo completamente a noção de tempo e espaço. Era como se seu corpo se abrisse, se rasgasse, e ela gritou.


Gray continuou se movendo até que, finalmente, parou. Debruçado sobre Faith, ficou em silêncio por um longo momento enquanto o pênis se comprimia e sofria os espasmos finais do orgasmo. Faith sentiu o movimento morno de sua semente escorrendo pela região dolorida quando ele saiu do corpo dela. Com mãos gentis, ele a virou de lado. Faith encolheu as pernas até os joelhos tocarem o estômago. Os músculos doíam, e ela tremia da cabeça aos pés. Mas o alívio que sentia era maior do que jamais sentira antes. Estava animada, exausta e completamente saciada. Ele se inclinou e beijou seu quadril antes de se levantar da cama. Faith fechou os olhos, exausta demais para fazer outra coisa além de ficar ali deitada esperando Gray voltar. Poucos segundos depois ele puxou a corda que unia suas mãos. Quando as desamarrou, ele a rolou para deitá-la de costas e a tomou nos braços. Depois a tirou da cama, beijou o topo de sua cabeça e a carregou para o banheiro. A água ainda corria quando Gray a pôs na banheira. Faith suspirou satisfeita quando a água quente envolveu seu corpo. Ajoelhado ao lado da banheira, ele passou a mão por seu cabelo. — Tudo bem? Ela sorriu, deixando transparecer a intensa alegria que a dominava. — Nunca estive melhor. Os olhos dele brilhavam, e ela viu a satisfação provocada por sua resposta. Gray a lavou, cuidando com delicadeza de cada centímetro de seu corpo. Quando terminou, ele a tirou da água, a pôs em pé ao lado da banheira e pegou uma das toalhas grandes penduradas no rack. Quando a enrolou com a toalha, ele a segurou pelos ombros e puxou contra o corpo. Com um dedo, levantou seu queixo e a beijou nos lábios. O beijo era terno, amoroso. Gray cobriu um lado de seu rosto com a mão e aprofundou o beijo. Ela suspirou contente, um suspiro que ele engoliu sem interromper o beijo. — Você é incrivelmente doce — Gray murmurou. — E perfeita. A aprovação a aquecia por dentro, e ela sorriu acanhada quando se afastaram. Gray segurou sua mão e a levou para fora do banheiro. Ela o seguiu para a sala de estar, até o sofá. Sem dizer nada, Gray passou um braço em torno dela e a acomodou em uma ponta do sofá. Os braços eram grandes e fofos, e ela teve que ficar na ponta dos pés quando Gray a fez se dobrar sobre o estofamento macio. Seus pés deixaram o chão quando ele a empurrou até um lado de seu rosto encostar uma almofada do assento. A barriga estava acomodada sobre o braço do sofá, o traseiro voltado para cima.


Gray a deixou por um momento e, quando voltou, puxou suas mãos para trás como havia feito antes. E novamente ele amarrou os pulsos com a corda. Depois abriu suas pernas, deixando a vagina e o ânus expostos e vulneráveis. — Exatamente assim — murmurou. — Vou tomar uma ducha. Quero te encontrar exatamente assim quando eu voltar. O tom de aviso em sua voz provocou nela um arrepio delicioso. Faith ouviu o ruído dos pés descalços sobre o piso de madeira a caminho do banheiro. E ficou ali no sofá, o corpo já vibrando com uma forte excitação. Não pensava ser possível ter se recuperado tão rapidamente do último orgasmo. Havia sido forte como nunca experimentara outro. Ninguém nunca havia conseguido lhe dar tanto e tomar tanto. Gray era o cara? A mente e o coração diziam que sim. Sim, sem dúvida nenhuma. O corpo dizia que sim. Ousava ter esperança de construir um relacionamento com ele? Ela fechou os olhos com medo de acreditar, temendo que esse fosse um desapontamento que não pudesse superar, caso as coisas não dessem certo. Sentindo sua presença mais uma vez, ela abriu os olhos e o viu parado ao lado do sofá. Os olhos foram atraídos pela mão ao lado do corpo e o chicote apoiado à perna. O calor transbordou por todos os poros de seu corpo. Gray ia bater nela. Ele estendeu o chicote até tocar seu rosto, a ponta de couro traçando o contorno do queixo. A linha prosseguia pelo pescoço e sobre um ombro. Ele desceu pelas costas, e Faith estremeceu ao sentir o couro acariciando uma nádega. O objeto se afastou de seu corpo e, um segundo depois, atingiu uma nádega. Uma dor intensa e ardida brotou do local onde o chicote havia feito contato, deixando-a sem ar. Imediatamente, porém, a dor foi substituída por um calor sensual que radiou por todo o corpo. As ondas foram se espalhando pela pele, enrijeceram os mamilos e contraíram a vagina com uma repentina necessidade. O chicote estalou na outra nádega, e ela se encolheu e deixou escapar um grito surpreso. Mais duas chicotadas se sucederam sem intervalo, e ela se contorcia suspensa entre a dor e a profunda sensação. — Você gosta da dor — ele disse. Faith gemeu baixinho. Gostava. Não conseguia explicar. A cada golpe sentia o desconforto inicial, mas, ao mesmo tempo, cada um proporcionava mais prazer que o golpe anterior. — Adoro ver minhas marcas em você. Adoro ver sua bunda vermelha a cada pancada do couro. Adoro ver você se torcer de dor e se entregar ao prazer que vem em seguida. — Mais — ela sussurrou. — Por favor. Gray acertou sua nádega mais uma vez, mais forte que antes. Ela gritou e se arrepiou ao sentir a mão acariciando a região do ardor. O chicote desceu novamente, e o estalo do couro castigando


a carne ecoou na sala. — Mas quer saber do que eu gosto ainda mais? — ele perguntou com voz suave. Faith gemeu baixinho. — De saber que, depois de deixar sua bunda vermelha, vou trepar com você. Vou montar em você e cavalgar forte enquanto sua bunda ainda estiver ardendo, enquanto minha marca ainda for visível na sua pele. Faith ia gozar. Só com as palavras dele, as chicotadas. Ia explodir e não podia se controlar. — Quanto mais? Quantas chicotadas acha que devo dar antes de enfiar meu pau tão fundo em você que vai poder sentir meu gosto? — Por favor, por favor... — ela arfava. — Preciso... Ela se encolheu com a nova chicotada. E mais uma. — Uma dúzia? Você aguenta, Faith? Quer que eu pare? — Não! — ela gritou. — Por favor, não pare! — Era isso que eu queria ouvir — ele murmurou. Gray descia o chicote sobre uma nádega, depois mudava para a outra e repetia o movimento. Cinco, seis, sete vezes. Faith perdeu as contas enquanto sentia o traseiro pegar fogo. Estava perdida em um mundo de dor intensa e prazer eufórico. Mais forte. Cada golpe era mais forte que o anterior. Ele havia começado devagar, mas aumentara a intensidade a cada golpe. Um calor insuportável desabrochou até ela sentir apenas o ardor nas nádegas. Então Gray parou. O chicote caiu no chão, e as mãos agarraram seu quadril com firmeza, puxando-a para trás. Antes que Faith pudesse entender o que estava acontecendo, ele a penetrou de uma vez só. Todo o seu corpo ardia com um fogo que só ele era capaz de acender. Os dedos seguravam suas mãos amarradas. Ele a segurava enquanto a comia por trás. Faith sabia que não podia mais aguentar. Nem mais um segundo. Levada ao limite antes mesmo da penetração, ela agora despencava em um abismo, uma explosão violenta. E gritava. Gritava e gritava enquanto Gray a cavalgava sem misericórdia. — Goza para mim — ele ordenou. Faith sentiu a umidade e percebeu que era ela. O barulho dos corpos se chocando ecoava na sala. Sons molhados e eróticos que só prolongavam e intensificavam seu orgasmo. — Não posso... — começou, implorando por alguma coisa que nem entendia, não sabia o que era. As mãos apertaram as dela com mais força e ele a penetrou novamente. As nádegas, ainda doloridas depois das chicotadas, ardiam a cada contato. — Solte-se — ele disse com doçura, seu tom em contradição direta com a força dos


movimentos. E ela se soltou. O estômago se contraiu. A vagina também, e o espasmo massageou o membro que a penetrava. Faith fechou os olhos e pressionou os lábios unidos enquanto uma força aterrorizante crescia e se espalhava dentro dela, exigindo libertação, abrindo caminho à força. Quando pensava que não suportaria nem mais um segundo da intolerável tensão, o mundo explodiu em torno dela. A sala estremeceu e ficou turva, fora de foco. O corpo ganhou uma nova vida enquanto tremia e era sacudido por espasmos. Lágrimas escorriam de seus olhos, o corpo se distendia como uma fita elástica levada ao limite da resistência. Alívio. Doce, doloroso alívio. Quando se recuperava lentamente do poderoso orgasmo, ela registrou a presença do pênis ainda dentro de seu corpo, movendo-se para dentro e para fora. Era quase doloroso. Estava muito sensível depois de uma explosão tão violenta. Ele a distendia, preenchia. Faith gemia. De repente ele interrompeu a penetração e a virou até apoiar seu quadril no braço do sofá. Faith encolheu as pernas para aliviar o desconforto da posição enquanto ele contornava o sofá. Ajoelhando-se, ele se colocou na altura de seu rosto. No instante seguinte o pênis estava dentro da boca de Faith. Debruçado para a frente, ele agarrou o encosto do sofá com a mão esquerda e apoiou-se à almofada do assento com a mão direita ao lado da cabeça dela. E começou a se mover novamente. — Engula tudo — ordenou. E esse foi o único aviso que ela teve antes de o primeiro jato encher sua boca. Gray parou para deixá-la engolir antes de penetrar novamente, mais fundo, e manter-se no fundo de sua garganta enquanto o pênis jorrava mais de sua semente morna. Ele penetrava sua boca como penetrava a vagina. Com força, profundamente e sem clemência. Os lábios de Faith se distendiam na base do membro para acomodá-lo. E ele não recuou até despejar a última gota de sêmen em sua garganta. Devagar e com aparente relutância, ele se afastou, mas parou quando o pênis passou pelos lábios de Faith e ficou a menos de dois centímetros de sua boca. — Limpe com a língua — ele disse meio rouco. Gray abaixou o pênis e ela o tomou na boca, girando a língua em torno da cabeça. Ele gemeu e empurrou a pélvis para a frente. Quando Faith terminou de lamber até a última gota de líquido de sua pele, ele se afastou e ficou em pé ao lado do sofá. Depois de desamarrar suas mãos, Gray a puxou para uma posição mais cômoda, sentada. — Vou buscar um short, já volto — disse. Ela ficou ali sentada, tremendo, entorpecida, com o traseiro ainda em brasa da surra que levara. Gray retornou um minuto mais tarde e sentou-se do outro lado do sofá. Depois se esticou


sobre as almofadas e a puxou para perto. Ela se acomodou de boa vontade em seus braços, e Gray a encaixou sobre seu corpo, com as costas voltadas para o encosto do sofá e os braços em torno dela, o rosto aninhado em seu peito. — Você é incrível — sussurrou. — Nunca imaginei encontrar alguém como você. Faith sorriu e se encolheu ainda mais naquele abraço. Ele continuava deslizando os dedos por seus cabelos, afastando delicadamente as mechas. — Eu estava enganado sobre você — continuou. — Tratei você mal, acreditei em algo que não era real. Ela levantou a cabeça para fitá-lo nos olhos. Havia sinceridade nos olhos azuis e profundos. E arrependimento. Faith abaixou a cabeça até os lábios se tocarem. Beijou-o com doçura, com suavidade, cansada demais para injetar mais paixão na carícia. Ele não parecia se importar. Apertou-a com mais força entre os braços e a beijou de volta, explorando sua boca com a língua. Depois se virou, e ela escorregou para baixo pelo encosto do sofá. Agora estavam frente a frente. — Estou cansado — ele confessou. — Você é muito jovem para mim. Não consigo acompanhar. Ela riu. — Graças a Deus você se cansou, porque não consigo mover um músculo. — Então durma. Só quero abraçar você por um tempo. Quando você acordar, eu arrumo alguma coisa para a gente comer. O coração de Faith parecia estar maior, e ela sentiu um arrepio quando ele friccionou o rosto no dela. Nada em suas fantasias ou em seus sonhos mais vívidos havia se aproximado da realidade do sexo entre eles. Gray era a combinação perfeita de força e ternura. Ela aproximou o rosto de seu pescoço e beijou a pele morna. Gray a apertou um pouco mais forte, e ela fechou os olhos, contente por deixá-lo fazer exatamente o que queria: abraçá-la.


CAPÍTULO 33 Gray abriu os olhos devagar e registrou um contentamento imediato. A cabeça de Faith repousava em seu peito. Seu braço direito estava adormecido, mas odiava ter que se mexer. Era tão bom tê-la em seus braços! Como se aquele fosse o único lugar a que ela pertencia. Gray beijou o topo de sua cabeça e afagou seus cabelos com a mão esquerda. Ela se mexeu e esfregou o rosto em seu peito. Ele sentiu quando ela bocejou novamente e sorriu. — Quer ir nadar? — perguntou. — Imagino que tenha trazido roupa apropriada, mas não me importo se quiser ir nua. Ela levantou a cabeça e o encarou com olhos sonolentos, satisfeitos. — Trouxe um biquíni. Não quero areia e sal na minha vagina, obrigada. Ele riu. — Areia na vagina seria uma tragédia, realmente. Especialmente porque pretendo passar muito tempo nela. — Ah, sim, e isso não seria como transar com uma lixa? Gray gargalhou, depois deu um tapinha no traseiro de Faith. Com a mão esquerda sobre uma nádega, viu as marcas vermelhas que havia deixado nela. A visão o excitou imediatamente. Ele mudou de posição até Faith estar embaixo de seu corpo no sofá. Com esforço, tirou o short e o jogou para o lado. Depois, abriu as pernas dela com um joelho e a penetrou profundamente em dois segundos. Não foi uma sessão de amor terno. A necessidade de Gray era urgente, e ele queria levá-la à loucura. Segurando seu quadril com as duas mãos, movia-se depressa e mantinha a pressão profunda. A vagina abraçava seu pênis. Sugava, aquecia, afagava. Tão apertada quanto havia sido o ânus delicioso, a vagina o pressionava com a mesma intensidade. Suas bolas se comprimiram dolorosamente. Faith gemia baixinho cada vez que a penetrava. Ele deslizou as mãos pelas laterais de seu corpo e pelos braços até os pulsos. Segurando-os com firmeza, levantou as mãos dela acima da cabeça e as manteve ali enquanto ia fundo em seu corpo e permanecia lá dentro. Queria gozar dentro dela desta vez. Marcá-la como sua da maneira mais primitiva que um homem pode marcar sua propriedade. Queria esvaziar-se tão fundo nela quanto fosse possível.


A vagina aveludada massageava seu pênis com espasmos sucessivos e, para sua surpresa, Faith teve um orgasmo. Ela gritou, arqueando o peito para a frente enquanto ele a mantinha cativa no sofá. O som de seu prazer o levou ao limite. Ele se moveu mais uma vez, rangeu os dentes e explodiu dentro dela. Quando sentiu o último espasmo do pênis, ele caiu sobre o corpo de Faith. Soltou seus pulsos e a envolveu com os braços, apertando-a contra o peito. Estava apertando demais. Era bem provável que ela não pudesse respirar muito bem, mas, naquele momento, nem se importava com isso. Queria tê-la tão perto quanto era possível. Gray a beijou na testa e sentiu uma vontade repentina de dizer mais. Queria fazer promessas que não sabia se poderia cumprir, mas queria prometer mesmo assim. Quando percebeu que ela se esforçava para respirar, ele se afastou um pouco. O pênis escorregou para fora de seu corpo seguido por um jato fluido. Ele olhou para a vagina rosada e inchada depois do ato de amor. Seu sêmen brilhava contra o cenário cor-de-rosa, e ele sentiu uma satisfação profunda. Faith era dele. Dele. Ele estendeu a mão. — Vamos dar aquele mergulho — disse. Ela encaixou a mão pequenina na dele, e Gray foi tomado de assalto pela compreensão da confiança implícita no gesto. Estava bem ali diante de seus olhos. Vulnerabilidade, como se tivesse o poder de feri-la ou fazê-la feliz como nenhum outro homem jamais havia sido capaz. Pela primeira vez ele se sentiu desconfortável com a ideia de ter sobre ela poder absoluto. Gray a ajudou a levantar, e Faith o surpreendeu ao enlaçar sua cintura com os braços e abraçálo com força. Quando ela apoiou a cabeça em seu peito, ele a abraçou de volta. Afagando seus cabelos, beijou o topo da cabeça. Quando recuou, ela levantou a cabeça e o fitou com os olhos verdes brilhando de felicidade. — Vou me vestir, só um minuto. Ele a acompanhou até o quarto e, enquanto Faith vestia o biquíni, tirou da mala um calção de banho. Quando a olhou de novo, ela tentava amarrar o top. — Deixe isso comigo — Gray ofereceu, já se aproximando dela. Faith soltou as tiras finas, e ele as amarrou com um movimento rápido. Os olhos estudavam o pequeno pedaço de tecido encarregado de cobrir seu traseiro. E levantou uma sobrancelha quando ela se virou para encará-lo. — Não que eu esteja reclamando, mas duvido que essa coisa que chama de biquíni possa manter a areia longe da sua vagina. Ela riu. — É, acho que vou ter que tomar muito, muito cuidado. Gray segurou seu queixo e a beijou. Relutante, afastou-se em seguida e segurou a mão dela.


— Vamos logo, antes que eu me torne um animal e coma você de novo. Faith corou, mas foi possível ver um brilho rápido de desejo em seus olhos antes de desviá-los. Saíram pela porta francesa para o deque. O sol era forte e quente quando eles desceram a rampa de madeira para a praia. Faith olhou para a água ao pisar a areia. Hoje o mar era mais verde, menos lamacento que no dia de sua chegada. Havia na água um brilho convidativo. Ela olhou para a mão de Gray segurando a sua e não conseguiu evitar a onda de felicidade que a invadiu. Com um sorriso travesso, soltou a mão dele e correu para a água. — O último é um ovo podre! Ele correu atrás dela, e Faith entrou no mar gritando, espalhando água em todas as direções. Quando as ondas atingiram seus joelhos ela reduziu a velocidade, mas seguiu em frente pela água morna. Gray a alcançou e tomou nos braços. Ela gritou ao ver o sorriso diabólico nos lábios dele. — Eu posso ser um ovo podre, mas você vai ser um rato afogado. — Você não faria isso! — ela o desafiou. Gray arqueou uma sobrancelha antes de jogá-la para cima. Faith foi arremessada vários metros à frente e caiu em águas mais fundas. A cabeça submergiu, e ela voltou à tona tossindo, engasgada. Ele estava lá, os braços envolvendo seu corpo. E a puxou contra o peito e a beijou. Ela o abraçou de volta e correspondeu ao beijo. Quando Gray a soltou, ela se jogou contra seu peito e o empurrou sobre as ondas. E riu quando ele a puxou para baixo, e os dois afundaram na água. De novo, Faith engoliu muita água salgada, mas valeu a pena só por ter visto a cara dele ao cair. Os dois riram e brincaram. Faith não conseguia lembrar outra ocasião em que se sentira tão feliz e livre de preocupações. E Gray não tinha mais aquele ar intenso e determinado que exibia desde sua chegada. Ela tinha uma pequena esperança de ser a responsável pela expressão relaxada que ele exibia agora. Depois de uma hora no mar, eles voltaram à praia. Faith estava enrugada, e as partes mais sensíveis do corpo começavam a arder pelo contato prolongado com o sal e a areia. Gray enlaçou sua cintura com um braço e beijou sua têmpora. — Vamos tomar uma ducha e tirar essa areia, e depois vou preparar o jantar para nós. Ela se aproximou e também passou um braço em torno de sua cintura, e juntos voltaram para a casa de praia. Faith estremeceu quando entraram no ambiente resfriado pelo ar-condicionado. Gray massageou seu braço e a levou rapidamente para o banheiro. Enquanto ele ligava o chuveiro, ela tirava o biquíni molhado e esperava a água esquentar. Em seguida Gray fez um gesto convidando-a a entrar no banho com ele.


O vapor se desprendia da água quente, e ela suspirou satisfeita quando Gray a colocou sob o jato. Ele ensaboou seu corpo com mãos gentis, tomando cuidado para remover toda a areia. Ela fechou os olhos e deixou a água lavar seu rosto enquanto ele se ensaboava. Alguns segundos depois, Gray segurou seu rosto e, ao abrir os olhos, ela encontrou os dele. — Pronto? Vamos sair? — ele perguntou. Faith sorriu e assentiu. Gray desligou o chuveiro e saiu da área molhada, estendendo a mão para puxá-la para fora. Novamente ele a enxugou, massageando seu corpo com a toalha com movimentos tranquilos, sem pressa. Quando terminou, ele a abraçou e a beijou nos lábios com delicadeza. — Vá se vestir, eu vou começar o jantar. Vamos comer no deque. ••• Enquanto Gray cozinhava, Faith ficou sentada na cozinha fazendo companhia para ele. Conversavam sobre coisas sem importância. Riam. Falavam. Era confortável, sem silêncios constrangedores. Ele entregou a Faith pratos e utensílios, e ela foi arrumar a mesa no deque. O sol havia se posto, e a brisa que soprava da água agora era mais fria. Ela arranjou os pratos e voltou ao interior da casa. Gray já se dirigia ao deque com uma travessa de massa em uma das mãos e uma garrafa de vinho na outra. — O pão está em cima da bancada, se puder ir buscá-lo — ele disse. Quando voltou com o cestinho de pães, Faith viu que ele havia servido porções de comida nos pratos e estava sentado à mesa esperando por ela. Faith sentou-se e olhou para o prato. O cheiro da comida era maravilhoso. Ela pegou o garfo e experimentou um pouco da massa. Derretia na boca, e ela não conteve um suspiro de apreciação. — Estou me sentindo muito mimada — ela confessou. Gray levantou uma sobrancelha como se estranhasse a declaração. — Não fiz nada desde que você chegou aqui. Não movi um dedo. Ele sorriu preguiçoso, os olhos brilhando quando a encarou. — Está fazendo exatamente o que pedi para você fazer. Não poderia pedir mais, nem estar mais satisfeito. O calor invadiu seu rosto. Ela engoliu em seco ao ver a força naquele olhar. — Coma — Gray falou com voz rouca. Eles comeram cercados pela noite. Enquanto a lua cheia e as estrelas surgiam no céu, Faith bebia seu vinho e relaxava recostada na cadeira. Gray se levantou e começou a recolher os pratos. Quando ela ameaçou ficar em pé para ajudar,


ele gesticulou indicando que devia ficar sentada. — Volto em um segundo. Fique aqui, relaxe. A noite está linda. Era verdade. Ondas quebravam ao fundo. A lua espalhava seu brilho prateado sobre a praia. Os cristais de areia cintilavam enquanto a água lambia a areia. Alguns minutos mais tarde ele voltou com um cobertor. Faith observou curiosa quando ele o estendeu sobre uma das espreguiçadeiras. Em seguida ele levantou a cabeça, olhou para ela e a chamou com um dedo. — Vem. Faith levantou-se e caminhou até ele. Gray bateu sobre as pernas e fez um gesto para dizer que ela devia se virar e sentar. Com as pernas abertas, acomodou-a na espreguiçadeira diante dele. Quando ela se acomodou, ele jogou o cobertor sobre os dois e a puxou contra o peito, envolvendo-a com os braços. Gray a segurava com força e descansava o queixo sobre sua cabeça. Os dois olhavam para a água. — Gray? — ela o chamou em voz baixa. — Sim, meu bem? — Posso fazer uma pergunta? — É claro. Ela hesitou. Não sabia como colocar em palavras o que queria saber. — Isso entre nós é... é só sexo? Os braços a apertaram ainda mais, e ela sentiu a respiração interrompida por uma fração de segundo, presa no peito de Gray. — Não, Faith. Definitivamente, não é só sexo. Ela queria insistir. Queria perguntar mais, mas se contentou com a resposta. Não queria afastá-lo. Então relaxou, satisfeita por passar a noite em seus braços.


CAPÍTULO 34 Gray acordou com uma vibração no bolso. Ele piscou desorientado, e o ambiente à sua volta recuperou o foco. A luz pálida que antecedia o amanhecer se derramava suave sobre o oceano. Em seus braços, Faith suspirou e se aninhou embaixo do cobertor. Haviam dormido no deque. A vibração parou, e ele percebeu que era o celular. Com cuidado para não incomodar Faith, levou a mão ao bolso e pegou o telefone. Quando o abriu, viu na tela a notificação da chamada perdida. Era Micah. Imediatamente, apertou o botão para retornar a ligação e levou o aparelho à orelha. — Ei, cara — Micah falou do outro lado. — Espero não ter acordado vocês. Gray sussurrou: — Você me acordou. A Faith continua dormindo. — Ah, que bom. Escute, acabei de chegar a Galveston e estou indo para aí. Só queria avisar. Gray franziu o cenho. — Aconteceu alguma coisa? — Ah, está tudo bem, só queria ver se vocês estão bem e levar um relatório. Gray olhou para Faith. — Ah, pode vir. Tem algo que quero discutir com você. Acho que pode se interessar. — Agora estou curioso. Chego aí em alguns minutos. Gray desligou o telefone e o deixou ao lado da espreguiçadeira. Depois abraçou Faith e beijou seu cabelo macio. Estava curioso para ver como ela reagiria ao que havia planejado. Até agora ela havia recebido tudo muito bem. Com muito cuidado, levantou-se da espreguiçadeira e a pegou nos braços. Gray a levou para o quarto e a colocou na cama. Faith se mexeu quando começou a despi-la, mas ele sussurrou algumas palavras para tranquilizá-la, e ela nem chegou a acordar. Puxando a coberta para expô-la completamente, ele pegou a corda que havia jogado ao lado da cama. Com gentileza, levantou os braços dela acima da cabeça e amarrou os pulsos. Depois pegou uma ponta da corda e a amarrou à cabeceira da cama. Satisfeito e certo de que ela ficaria confortável, mas não poderia sair da cama, Gray foi tomar


uma ducha. Cinco minutos mais tarde, ele se vestiu e olhou o interior do quarto mais uma vez. Faith dormia profundamente. Então foi à cozinha e preparou um bule de café. Havia acabado de se servir da primeira xícara quando ouviu as batidas na porta da frente. Foi abrir e encontrou Micah do outro lado, na varanda. — Quer café? — perguntou como uma forma de cumprimento. O amigo o seguiu para dentro da casa. — Sim, seria ótimo. Acordei muito cedo. Gray serviu café em outra xícara e a deixou sobre a bancada. Micah a segurou com as duas mãos e bebeu a infusão quente. — Então, o que está acontecendo? — Gray perguntou em voz baixa. Micah olhou para ele, depois em volta. — A Faith ainda está dormindo? — Sim, e não vai levantar enquanto eu não voltar ao quarto. Não precisa se preocupar com a possibilidade de ela ouvir a conversa. Micah levantou uma sobrancelha. Gray riu. — Eu a amarrei à cama. Um brilho interessado iluminou os olhos de Micah. Um brilho que não passou despercebido para Gray. — Bem, até agora o plano para pegar o Samuels não teve muito sucesso — Micah começou. — Quero saber tudo. — Ele percebeu a armadilha que montamos. Não sei como. Em uma determinada manhã ele seguiu a dublê até o escritório. Pensei que fosse atacar, mas ele fugiu. Gray resmungou um palavrão. — E não fez nenhum contato depois disso? Micah balançou a cabeça. — Pelo que sabemos, ele agora pode estar no México. — Seria estúpido se ficasse por perto. O Samuels já deve saber que estamos atrás dele. — É o que eu penso. Seu amigo Mick não está lidando muito bem com isso. Gray suspirou. — O Mick precisa voltar para Dallas e deixar a polícia local cuidar disso. Ele perdeu completamente a perspectiva. Está maluco de dor e não consegue enxergar nada além da própria necessidade de vingança. Micah assentiu. — De qualquer maneira, queria contar o que está acontecendo. E precisava me afastar daquele


lugar por algumas horas. A tensão é insuportável. O Pop está furioso. O Connor está no limite. O Nathan e eu tentamos ficar fora do caminho e deixar os dois fazerem o que acham que é necessário. Gray estudou o amigo por um longo momento. — Pode ficar um pouco mais. Tenho uma proposta que talvez ache interessante. Faith bocejou e abriu os olhos. Quando tentou se mexer, seus braços se torceram acima da cabeça. Presos. Ela percebeu que as mãos estavam amarradas à cama. Em seguida percebeu que estava nua. Ela sorriu. A última coisa que lembrava era que havia adormecido no deque nos braços de Gray. Em algum momento durante a noite ele a levara para o quarto, a despira e amarrara à cama. O que só podia significar que planejava mais sacanagens. A excitação vibrava quieta na região logo abaixo do ventre. O estômago tremulava, e os mamilos enrijeceram em antecipação. Ele a chicotearia de novo? Mais sexo anal? Faith gemeu baixo e cruzou as pernas ao lembrar como ele a havia possuído e dominado seu corpo. Como se tornara seu dono. Não havia um centímetro de seu corpo que ele não houvesse marcado de algum jeito, e era delicioso lembrar com detalhes como ele a fizera sentir. Um ruído na porta atraiu seu olhar. Seu queixo caiu com a surpresa de ver Micah parado na soleira. Os olhos dele passeavam por seu corpo, e um brilho primitivo iluminava seus olhos. De repente se sentia muito nua e vulnerável. — Linda — Micah murmurou. Ele entrou no quarto com passos lentos, medidos, como se não quisesse assustá-la. Não estava assustada. Não descreveria dessa maneira o que sentia. Confusa. Mas excitada. Onde estava Gray? Faith teve a resposta alguns segundos depois, quando Gray entrou no quarto. Ela o encarou com uma pergunta estampada no rosto. Micah parou ao pé da cama, enquanto Gray sentou-se ao lado dela e se inclinou até chegar bem perto de sua orelha. As mãos brincavam com a corda em torno de seus pulsos. — Se não quiser, é só dizer não — ele cochichou em seu ouvido. — Se não quiser que isso aconteça, eu o mando embora e ficamos só nós dois. A excitação invadia suas veias e corria pelo corpo. Ela o encarou, buscando em seu rosto algum sinal do que ele estava pensando. Seu maior medo não era fazer sexo com Micah. Para ser bem sincera, a ideia a incendiava. Seu medo era não saber como Gray reagiria. Perderia as chances que tinha com ele se aceitasse transar com outro homem? — Você concorda com isso? Tudo bem? — ela perguntou.


Ele tocou seu rosto, afagou-o com os dedos. — Se eu não concordasse, o Micah não estaria aqui. Todos nós temos fantasias. Essa é uma das minhas. Ele se abaixou, capturou um mamilo entre os dentes e o sugou com força. Depois puxou a corda de seus pulsos e se levantou da cama. Faith olhou para Micah, que abria o zíper da calça. Seu coração disparou, a boca ficou seca. Os olhos voltaram a Gray, que a observava com um olhar cintilante. — Faça o que ele disser — Gray a orientou com voz rouca. — Por ora, estou entregando você a ele. Para fazer o que ele quiser. Faith estremeceu, e uma excitação nervosa se acumulou em seu ventre. Ela olhou novamente para Micah, que já havia tirado o pênis de dentro da calça e se aproximava da cama. Era impossível desviar o olhar dos pelos escuros que cercavam o membro ereto. Negros e sedosos. A mão dele envolvia a base e, ainda assim, alguns centímetros permaneciam visíveis acima dos dedos. Micah não era tão grosso quanto Gray, mas parecia ser mais longo. — Venha aqui, bonequinha, e ponha a boca no meu pinto — ele falou com voz rouca e baixa. Ela se apoiou sobre as mãos e os joelhos e, sem pressa, engatinhou até onde Micah a esperava. Estava nervosa. Até onde devia levar a iniciativa? Com Gray, sabia que não tinha que tomar decisões incômodas, mas não sabia quão determinado Micah era. E não precisou esperar muito para descobrir. Assim que se aproximou o suficiente, ele enroscou a mão em seus cabelos. Com uma das mãos no membro, guiando-o para sua boca, usou seu cabelo como ferramenta e a puxou para mais perto até introduzir o pênis entre seus lábios. Depois tirou a mão do pênis e empurrou o quadril para a frente, penetrando mais profundamente sua boca. Agora as duas mãos estavam na cabeça de Faith, e ele se movia para a frente e para trás com firmeza. Micah gemeu quando ela relaxou a mandíbula para acomodá-lo mais fundo na boca. — Faith, benzinho, ver você pelada pode ter estado entre as dez mais das minhas fantasias, mas foder você estava no topo da lista, sem dúvida. Tenho imagens bem claras com todos os jeitos que gostaria de pegar você. Ela gemeu com o pinto na boca e fechou os olhos. — Gosta disso? — ele murmurou sem remover o membro do fundo de sua garganta. Ela assentiu. As mãos afagavam sua cabeça com suavidade, acariciando os cabelos. E então, sem aviso prévio, uma dor aguda explodiu em seu traseiro. Ela arquejou, e Micah enfiou o membro ainda mais fundo em sua boca. Atrás dela, Gray estalou o chicote outra vez, e ela pulou quando o estalo ecoou no quarto.


— Sua bunda é incrível, Faith — Micah resmungou. — E fica ainda mais linda com essas marcas vermelhas. Gray estalou o chicote de novo, e ela gemeu quando a dor se dissipou rapidamente, dando lugar ao prazer que radiava sobre a pele quente. Ele estabeleceu um ritmo cujo propósito era levá-la ao limite. Entre os dois homens, Faith se perdeu no próprio prazer enquanto dava prazer a ambos. Perdeu as contas de quantas chicotadas atingiram suas nádegas, uma mais forte que a outra. Não tinha mais consciência de nada além do membro em sua boca e do chicote estalando sem descanso. As mãos de Micah a seguraram pelo cabelo com mais força, e ele saiu de sua boca. Faith arfou, tentando levar ar aos pulmões quando as chicotadas foram interrompidas. — Vire-se — Micah ordenou. Ela girou sobre o colchão, mantendo-se sobre as mãos e os joelhos, mas, agora, de costas para ele. Gray continuava parado ao lado da cama com o chicote na mão, os olhos cheios de aprovação. Faith ouviu barulho de uma embalagem sendo aberta. Micah agarrou suas nádegas com mãos firmes, e ela não conteve um gemido de prazer. Ele a abriu e penetrou com um movimento só. Sem preliminares, sem preparação. E a penetrou completamente. Urgente. Impaciente. Ela abaixou a cabeça, mas Gray tocou seu queixo com o cabo do chicote, puxando seu rosto para cima. — Olhe para mim — ordenou. — Quero olhar nos seus olhos enquanto ele fode você. Faith o encarou enquanto Micah agarrava seu traseiro e começava a se mover com urgência. Era demais. Cada batida das coxas contra suas nádegas doloridas provocava um espasmo de êxtase que ricocheteava pelo corpo. O pênis a penetrava fundo, tocava seus recantos mais profundos. Quando estava prestes a explodir, ele saiu de seu corpo. Faith gemeu em protesto, e Micah deu um tapa em sua bunda já dolorida. Gray pegou o lubrificante em cima do criado-mudo e jogou a embalagem por cima da cabeça dela. A respiração ficou presa em seu peito, e Faith se esforçou para soltar o ar. Gray começou a abrir o zíper do jeans. Ele libertou o membro ereto, segurando-o com uma das mãos. Então se aproximou e ficou de joelhos diante dela na cama. — Vou meter na sua boca enquanto ele fode sua bunda — disse. — Acha que vai aguentar, Faith? Consegue receber o Micah inteiro como fez comigo? Ela assentiu em silêncio, incapaz de dizer alguma coisa. Micah segurou seu traseiro com as duas mãos, afastando as nádegas. A cabeça do pênis forçou a abertura no mesmo instante em que Gray segurou seu queixo e a fez abrir a boca. Micah forçou a entrada, e ela gritou. O grito foi rapidamente silenciado por Gray, que


empurrou o pênis até o fundo de sua garganta. — É isso, benzinho — Gray murmurou. — Você é linda. Sabe como é excitante ver outro homem enterrado em seu rabo porque eu dei você a ele? Faith fechou os olhos quando ouviu a declaração. Propriedade. Deus, a ideia de pertencer a ele despertava desejos sombrios, proibidos. Micah distendia e penetrava seu traseiro, a invadia com o membro ereto. Gray enchia sua boca, batia com o pênis no fundo de sua garganta, acompanhando o ritmo e a intensidade dos movimentos de Micah. Micah a penetrou mais uma vez e parou, o pênis enterrado tão profundamente nela quanto era possível. — Vou tirar a camisinha e gozar em cima de você, bonequinha — ele avisou com voz rouca. Depois retirou o membro, e ela se encolheu quando a cabeça deslizou por seu anel apertado. Gray a penetrou fundo mais uma vez, depois também tirou o pênis de sua boca. E começou a massageá-lo com a mão. Quando o primeiro jato atingiu seu rosto, ela sentiu o sêmen morno escorrendo pelas nádegas. Ele escorreu pela fenda e alcançou o ânus ainda aberto. Os dois homens gemiam e despejavam mais sêmen sobre seu corpo. Faith estava inquieta, dominada pela necessidade. Havia chegado muito perto, e agora tremia, queria e precisava terminar o que eles haviam começado. Gray estendeu a mão e limpou o líquido de seus lábios com o polegar. Ela levantou a cabeça e viu no rosto dele uma expressão de posse. Ele enfiou o pênis dentro da calça e fechou o zíper rapidamente. Atrás dela, Micah alisava suas nádegas. Ele se inclinou e beijou com ternura a base de sua coluna. Depois Gray a tomou nos braços e levantou como se ela não pesasse nada, levando-a para o banheiro, e ligou o chuveiro. Rápido, despiu-se e entrou com ela na área de banho. Depois de enxaguar rapidamente seu corpo, ele a pegou novamente e apoiou suas costas contra a parede do box. Com os braços sob suas pernas, levantou-a ainda mais até a vagina ficar na frente de sua boca. — Não deixei você gozar para ele — murmurou, o hálito acariciando os caracóis molhados. — Seus orgasmos são meus, só meus. Ela tremeu ao ouvir o tom possessivo. Gray começou a lamber seu clitóris. Ela segurava sua cabeça, gemendo enquanto ele tomava a saliência sensível entre os dentes. Com a água caindo sobre suas costas, ele lambeu a entrada da vagina e chupou com avidez, como se estivesse faminto. As coxas de Faith começaram a tremer de maneira incontrolável com as sensações beirando o insuportável. As mãos dele seguravam suas nádegas, e ele as apertou ao intensificar o ataque com a língua. Lambia, chupava, depois a penetrava com a língua.


Faith gritou quando, finalmente, o orgasmo explodiu quente e doloroso. Agarrada à cabeça de Gray, puxou-o para mais perto enquanto ele lambia os fluidos doces de seu alívio. E ele continuou com a boca em sua vagina até ela não suportar mais. Faith choramingou quando a língua roçou a pele sensível, e ele se afastou, deixando-a escorregar pela parede do box. As pernas cederam sob Faith, e ele a segurou pela cintura para ampará-la. Com a outra mão, desligou o chuveiro e olhou para ela, agora com a expressão séria. Com um dedo sob seu queixo, levantou-lhe o rosto e a fez encará-lo. — Fale a verdade. Eu fui longe demais? Nesse momento ela percebeu que o amava. Mesmo dominador ou impositivo, ele se dispunha a ir somente até onde o conforto dela permitisse. Mesmo quando se preocupava com a possibilidade de ela estar só fazendo jogos, o desejo de Gray ainda era satisfazê-la. Faith segurou o rosto dele entre as mãos e o puxou para beijá-lo. Os corpos molhados se encontraram, e ela o envolveu com os braços, querendo absorvê-lo. — Você foi perfeito — sussurrou. E era verdade. Gray cuidava dela. Não se tratava de dominação. Nem ela tinha um desejo incontrolável de submeter-se. O que queria era um homem forte que cuidasse dela, que atendesse às suas necessidades, satisfizesse seus desejos. O que pensara ser submissão era, na verdade, a necessidade de conectar-se com um homem no nível emocional e físico. Era de emoção que sentira falta nos relacionamentos anteriores. Sem ela, o sexo não correspondia às expectativas. Agora entendia por quê. Lágrimas inundaram seus olhos quando ela o abraçou com mais força. Gray a abraçou e beijou sua cabeça antes de tirá-la do chuveiro. Ele a enxugou, e tudo que Faith conseguiu fazer foi ficar ali parada, dominada pela intensidade do que sentia. Queria dizer a ele quanto significava para ela, mas sabia que esse não era o momento. Não com Micah ali. Não, guardaria a declaração para quando estivessem só os dois novamente. Enquanto isso, ela se deliciaria com um homem realizando suas fantasias. Quando terminou de enxugá-la, Gray a beijou e empurrou os cabelos molhados para trás de uma orelha. — Ver você com o Micah foi muito excitante. Ver outro homem possuir o que é meu... Não consigo nem explicar o fogo. Pode parecer estranho para você, mas é incrível. — Você gosta de ver. Ele assentiu, os olhos iluminados por um fogo intenso. — Gosto de ver você me observando — ela confessou com um sorriso contido. — Se você é estranho, acho que eu também sou. Ele deslizou a mão por suas costas e segurou uma nádega com delicadeza. — Está dolorida? Ela corou.


— Um pouco. Ele a beijou novamente. — Vamos deixar essa parte do seu corpo descansar por um tempo. Foi sua primeira vez, não quero machucar você. O coração de Faith derreteu com a preocupação terna na voz dele. — Vá para o quarto e deite na cama — disse Gray. — Acho que o Micah ia gostar de sentir seu gostinho. Os joelhos de Faith tremiam quando ela passou por ele para acatar a sugestão. Quando chegou ao quarto, viu Micah deitado na cama, nu, a mão afagando o pênis semiereto. Ele a olhava com ar sedutor enquanto Faith se aproximava da cama com passos hesitantes. O brinco cintilava, e os cabelos longos de Micah emolduravam as orelhas um pouco úmidos de suor. Ela olhou por cima de um ombro com certo nervosismo, interessada em saber onde estava Gray e se ele se aproximava. Quando o viu apenas alguns passos atrás dela, relaxou. — Vem — Micah chamou da cama com a mão estendida e um dedo flexionado. Ela se aproximou da beirada da cama. Micah mudou de posição, apoiou a cabeça perto do centro da cama e deixou os pés pendurados fora dela. — Suba, bonequinha. Quero sentir seu gosto. Um tremor percorreu seu corpo e os mamilos ficaram túrgidos. Ela sentiu a umidade entre as pernas. Quando subiu na cama, Micah a segurou pela cintura. Ele a ajudou a se colocar em cima de seu rosto e descer lentamente até quase sentar sobre sua boca. Quando a língua a tocou, Faith pulou para cima. As mãos seguraram seu quadril com mais firmeza e ele a puxou para baixo. Quando a língua mergulhou entre suas pregas e encontrou o clitóris, ela olhou para Gray. Ele estava do outro lado do quarto, e os olhares se encontraram. Lembrando o que ele havia falado sobre olhar, Faith decidiu dar a ele um show digno de apreciação. Começou deslizando as mãos pelo ventre até os seios. Ela os levantou com as palmas e girou os mamilos entre os dedos. Os olhos de Gray se incendiaram, e ele mudou de posição. Faith continuou apertando os mamilos, massageando e acariciando os seios. A respiração se tornou mais rápida quando Micah continuou com as lambidas famintas. Estava perto. Por Deus, estava muito perto do orgasmo. Mas também lembrava o que Gray havia dito sobre gozar só para ele. Ela abriu a boca para falar, mas Gray já havia atravessado o quarto e estava em pé ao lado dela. Ele estendeu a mão, e Faith a aceitou, usando o apoio para sair de cima de Micah. — Deite — Gray ordenou. Ela obedeceu, e ele a empurrou até a beirada da cama, até sua cabeça ficar pendurada na beirada. Então Gray se encaixou entre suas pernas e as abriu. O pênis duro a penetrou com um


impulso impaciente. Micah se colocou acima da cabeça dela e a puxou para trás, aproximando o membro de sua boca. Ele esfregou a cabeça do pênis em seus lábios e pressionou com firmeza até ela abrir a boca. Imediatamente, ele enfiou o pênis em sua boca e começou a se mover. Gray empurrou as pernas dela para cima, abrindo-as ainda mais e buscando maior profundidade na penetração. Ela gemia sem abrir a boca, e o som vibrou contra o membro de Micah, que passou a se mover mais depressa em resposta. — Dentro de você, nenê — Gray falou com voz rouca. — Desta vez vamos gozar dentro de você. É isso que quer? A pergunta era desnecessária. Ela se retorcia e contorcia, antecipando o alívio dos dois, querendo o seu também. Era libertador não ter que ditar, coordenar ou dirigir a ação. Eles davam exatamente o que queria sem ter que explicar tudo com detalhes. Tudo que precisava fazer era deitar e sentir. Aceitar as atenções. Micah segurou seus mamilos e os torceu entre os dedos. Ela choramingou e gemeu, aproximando-se ainda mais do orgasmo. Gray entrava e saía, e a fricção que provocava com sua circunferência, espalhava ondas de prazer entre as pernas dela. — Goza para mim — ele gemeu. — Só para mim, nenê. Solta. Com os dois pintos na maior profundidade possível dentro de seu corpo, alguma coisa nela se rompeu. Como uma vasilha derramando açúcar, seu corpo cristalizou e decolou em noventa diferentes direções. Ela arqueava o corpo e tremia enquanto os dois a penetravam com força avassaladora. Os estalos de carne contra carne ecoavam alto no quarto, fazendo coro para os gemidos e grunhidos. Faith abriu a boca para gritar, mas Micah sufocou seu grito empurrando o pênis ainda mais fundo em direção à sua garganta. Gray segurou suas pernas sobre os braços e a puxou em direção ao corpo, fazendo-a ir de encontro às penetrações. Doía. Era um prazer como jamais sentira. Doía. Era o mais incrível êxtase de sua vida. A boca se encheu com o alívio de Micah. Ela engoliu o primeiro jato e mais líquido cobriu sua língua. Ao mesmo tempo, sentia os jatos quentes do orgasmo de Gray dentro do corpo. Eles a seguravam, a possuíam, a preenchiam. Faith ficou ali deitada enquanto se recuperava do orgasmo, e enquanto os dois homens ainda se moviam dentro dela desfrutando dos últimos espasmos. Micah foi o primeiro a sair. Ele se abaixou, segurou sua cabeça e a beijou na testa. Gray saiu lentamente de seu corpo, e um jorro quente seguiu sua retirada. — Fique aí — ele falou com voz rouca. — Vou buscar um pano para limpar você. Depois pode cochilar um pouco enquanto preparo alguma coisa para comermos. Micah sentou-se na cama ao lado da cabeça dela e a encarou. Os dedos acariciaram seu rosto


quando ele afastou os cabelos de seus olhos. Faith não falou nada, e ele também ficou em silêncio. Não havia nada a dizer. Supunha que devia se sentir constrangida, mas ele já a vira nua, já havia tocado seu corpo de maneira íntima. Gray voltou um momento mais tarde e limpou a região entre suas pernas com gentileza. Quando terminou, ele bateu no travesseiro perto da cabeceira da cama. — Vem, deita aqui em cima. Esgotamos suas forças. Ela não discutiu. Bocejou e mudou de posição na cama, apoiando a cabeça no travesseiro. Gray a cobriu e se inclinou para beijá-la. — Eu venho acordar você daqui a pouco. Ela sorriu e assentiu, mas os olhos já se fechavam.


CAPÍTULO 35

Você é um filho da puta de sorte — Micah falou quando os dois homens estavam na cozinha.

Gray pôs uma cerveja na frente do amigo e assentiu. — Eu sei. Pode acreditar, eu sei. — Se ela não estivesse tão ligada em você, juro que a levaria para casa e a amarraria à minha cama. E nunca mais a deixaria sair do meu quarto. Gray riu. Entendia o sentimento, porque era muito parecido com o que sentia. Seu sorriso desapareceu quando lembrou que a estava enganando. — Que foi, cara? — Micah perguntou ao se sentar em um dos banquinhos. Gray pegou uma frigideira e a colocou sobre a bancada com um baque estridente. — Espero que ela entenda quando eu contar a verdade sobre por que estou aqui. Micah ficou em silêncio por um momento. — Acho que ela vai entender. Quero dizer, concordo com você, não vi nenhuma necessidade de esconder dela o que está acontecendo, mas também entendo o Pop, ele quer protegê-la. Quem pode culpá-lo? A Faith inspira o desejo de proteção em um homem. Gray assentiu. — Exatamente. Vim para cá decidido a contar a verdade sem me importar com a vontade do Pop, mas, quando cheguei, simplesmente não consegui. Descobri que seria capaz de qualquer coisa para protegê-la de qualquer sofrimento. — Você a ama — Micah afirmou tranquilo. Gray fez uma pausa breve e se preparou para discordar. Mas, não, não podia negar. Era verdade. — Sim, eu amo. — Isso complica as coisas. — Como assim? Micah deu de ombros. — Você mora em Dallas. Seu emprego está lá. A vida da Faith está aqui. A família é importante para ela. Gray o encarou por um longo momento, depois desviou o olhar. E não respondeu. Não sabia o que dizer. Em parte sentia-se envergonhado por ter pensado muito pouco no emprego e em Alex


desde sua chegada a Houston. Na verdade, conseguia se levantar todos os dias sem ter que se forçar a sair da cama. E ia para o trabalho com entusiasmo, não medo. E havia Faith. — Ei, não queria que ficasse desanimado — Micah falou. — Só estou lembrando que tem muito em que pensar. — Sim — Gray reconheceu sério. — Parece que sim. O outro bateu com os dedos na bancada. — Escute, cara, eu tenho que ir. Vocês dois precisam ficar sozinhos, acho, e eu preciso voltar e ver o que está acontecendo. Gray assentiu. — Telefone para mim. Mande notícias. Não quero levar a Faith de volta a Houston até termos certeza de que é seguro. — É claro. — Micah levantou-se. — E, ei, se algum dia quiser fazer isso de novo, me avise. A Faith... bem, não preciso dizer quanto ela é gostosa. Gray sorriu. — Até mais. — E acenou quando Micah se dirigiu à porta. Quando ele ouviu a porta da frente fechar, olhou para baixo e viu a frigideira sobre a bancada. De repente havia perdido a vontade de cozinhar. O que queria era conversar com Faith. Dizer a ela que a amava. Contar a verdade sobre tudo. Olhou para o relógio e viu que só meia hora havia passado desde que a deixara no quarto para dormir. Faith estava cansada. Ele e Micah haviam sido duros. Ela precisava descansar. Por mais que quisesse acordá-la, agora a deixaria dormir. Prepararia uma boa refeição e a mimaria quando ela acordasse. E depois poderiam ter uma longa conversa sobre seu relacionamento. Faith se espreguiçou e bocejou. O corpo protestou contra o movimento, mas adorava cada dor e fisgada. Era muito fácil lembrar como havia conquistado cada uma delas. Ela se sentou e tirou as pernas da cama. Gray não havia dito se podia se vestir ou não, mas, com Micah por perto, não se sentiria confortável desfilando nua pela casa. E eles poderiam despila mais tarde. Sorrindo, ela ficou em pé e foi buscar na mala um short e uma regata. Vestida, calçou os chinelos que estavam no chão. Antes de sair do quarto, deu uma olhada no espelho sobre a cômoda. Em uma palavra, parecia amarrotada. Bem-amada. Os lábios estavam inchados, e os olhos brilhavam com suprema confiança feminina. O tipo de confiança que só tem quem sabe que satisfez um homem. Satisfez muito bem.


Ela passou as mãos pelo cabelo e os ajeitou atrás das orelhas antes de se virar para sair. Quando entrou na sala, encontrou Gray parado na porta francesa, olhando para a água. Ela o observou em silêncio, apreciando o contorno do corpo poderoso. Depois, como se sentisse sua presença, ele se virou e a viu. O rosto dele tornou-se mais suave, os olhos se iluminaram. Um arrepio percorreu as costas de Faith quando ela viu a reação causada por sua presença. — Ei — Gray falou com voz mansa. — Dormiu bem? Ela sorriu e assentiu. Ele abriu os braços. — Vem cá. Faith atendeu ao chamado com alegria, e fechou os olhos contente quando ele a envolveu com os braços e a apertou contra o corpo. Gray deslizou os dedos por seu cabelo e deixou as mechas escorregarem entre eles. Depois a afastou. — O Micah foi embora. Faith sentiu uma alegria imediata. Por mais que houvesse gostado da experiência erótica de ter dois homens, queria muito que agora fossem só Gray e ela. — Vamos sentar no sofá. Quero conversar com você — ele falou enquanto a levava ao sofá. Gray sentou-se e deixou um lugar vago ao seu lado para ela. Depois pegou a mão de Faith e beijou a ponta dos dedos antes de colocá-la lentamente sobre as pernas. Ela o encarava intrigada. Era óbvio que ele queria dizer alguma coisa. A expectativa pulsava pesada em seu peito. — Faith, os últimos dias... têm sido simplesmente incríveis. Não tenho palavras para descrevêlos. Ela sorriu. — Eu sei. Para mim também. — E respirou fundo, sabendo que tinha que ser agora. Queria dizer a ele como se sentia. Essa era a oportunidade perfeita. Faith abaixou a cabeça por um momento enquanto reunia coragem, mas Gray tocou seu queixo com um dedo e a fez erguer o olhar. — Ouço um “mas” aí em algum lugar — disse. Ela balançou a cabeça. — Nenhum mas. — E o encarou, torcendo para ele poder ver o amor iluminando seus olhos. — Gray, eu amo você. O fogo se acendeu nos olhos dele depois da declaração. Ele começou a falar, mas foi silenciado pelo dedo sobre seus lábios. — Espere até eu terminar, tenho muito para dizer. Ele assentiu, e Faith abaixou o dedo.


— Eu devia me sentir fraca neste momento. Abrir mão do controle como fiz devia me fazer sentir menor, de alguma maneira. Mas não. Na verdade, nunca me senti mais fortalecida do que agora. Mais no controle do meu destino. Talvez antes não soubesse exatamente o que queria, mas agora sei. Eu quero você. E entendi por que nenhum outro homem foi capaz de me satisfazer. Porque eu não estabelecia com eles a conexão emocional que tenho com você. Não confiei neles. E confiança é tudo. Sem ela eu não teria conseguido abrir mão do controle, e, enquanto me mantinha agarrada a ele, continuava me desapontando. Ele segurou as mãos dela novamente e as levou à boca. Beijou primeiro uma, depois a outra. — Você é uma mulher incrível e honesta — disse com voz trêmula. — Fraca? Não acredito que possa ser fraca. Nunca. O que pode ser mais forte do que admitir suas necessidades e não se envergonhar ou ter medo de aceitá-las? As pessoas passam a vida toda se escondendo de quem realmente são, vivendo farsas e fantasias sem nunca aceitar a realidade. Quando se rende, quando olha de frente para suas necessidades e seus desejos, você se liberta do pior tipo de amarra. E nada é mais poderoso que isso. Ou mais corajoso. Ele tocou sua face com a parte de trás de um dedo. — Amo você, Faith. Deus sabe que tentei não amar. Quis acreditar que você fazia um jogo. Que não podia me dar o que eu queria. Mas você é o que eu quero. O que sempre vou querer. Ela o encarou em silêncio, emocionada demais para fazer qualquer coisa além de fitá-lo em choque. Fechou os olhos e tentou não chorar. Mas uma lágrima correu pelo rosto. Ele a limpou com o polegar. — Abra os olhos, Faith, e olhe para mim. Ela piscou e viu o rosto de Gray como uma máscara brilhante através do verniz das lágrimas. — Tem mais uma coisa que precisamos conversar. Ela franziu o cenho ao ouvir a nota preocupada. Antes que pudesse fazer perguntas, a porta da frente explodiu. Gray a jogou no chão e se levantou. — Não mova um músculo, ou seu amigo aqui leva a pior. Do chão, Faith olhou desesperada além de Gray e viu um desconhecido apontando uma arma para a cabeça de um homem. Medo e desespero radiavam do desconhecido armado, e o refém parecia furioso. Mas não demonstrava medo, o que era estranho. Gray levantou as mãos num gesto de rendição, mas, por dentro, recitava todos os palavrões que sabia. Ao lado dele, Faith se levantou do chão. Ele a segurou pelo pulso e puxou para trás de si. A prioridade era sua segurança. — Vou arriscar um palpite. Você é o Samuels? — Gray perguntou com tom calmo. O homem armado mostrou os dentes. — Faz diferença saber quem eu sou? — Sim, se você matou meu parceiro.


Faith se encolheu junto das costas de Gray, agarrou-o com as duas mãos. Ele ainda segurava seu pulso e afagava a parte interna com o polegar, tentando acalmá-la. Sentia seu medo, e isso o deixava ainda mais furioso. Como Samuels os encontrara? E como Mick havia ido parar lá? A conversa dele sobre pegar Samuels sozinho ecoou em sua cabeça. O idiota ia provocar a morte de todo mundo ali. — O que você quer? — Gray perguntou. — Como chegou aqui? — Quero a garota — Samuels anunciou. Gray sentiu Faith tremer atrás dele e apertou sua mão num gesto de conforto. — Não vai tê-la — avisou com um tom perigosamente baixo. — Deixe-a ir — Mick falou com amargura. — Ela não importa. — Cala a boca, Mick — Gray rugiu. — Onde estava com a cabeça? Foi atrás do Samuels sozinho? O que está tentando fazer, matar todos nós? — Boca fechada, vocês dois — gritou o homem. — A mãe da vadia está ansiosa para ver a filha. Tenho certeza de que o velho vai soltar algum dinheiro se quiser ver a menina viva de novo. Faith ficou tensa, e, antes que Gray pudesse contê-la, ela saiu de trás dele e olhou para Samuels. — O que minha mãe tem a ver com isso? O que está acontecendo? — Faith, fique atrás de mim — Gray falou devagar. Samuels apertou o braço em torno do pescoço de Mick e apontou a arma para Faith. — Vem para cá — ordenou, apontando com a arma para o lado esquerdo. — Vem logo, ou vou atirar em você. Faith ficou parada, incapaz de se mover. Podia ser medo ou choque. — Como conhece minha mãe? — perguntou. A repentina compreensão iluminou seus olhos. — Você é o homem que estava com ela. Por sua causa ela estava me ligando e pedindo dinheiro. Foi sua voz que ouvi quando ela telefonou. — Confusa, ela olhou para Gray. — Mas o que tudo isso tem a ver com seu parceiro? — Eles usaram você como isca, benzinho — disse Samuels. — Pena serem tão incompetentes. Agora ande. Não tenho tempo para todo esse drama. Gray ficou com o coração apertado ao ver a confusão e a dor nos olhos de Faith. Mais que isso, porém, a situação estava ficando muito difícil. Não podia atacar Samuels, não enquanto ele apontava uma arma para Faith. — Como assim, me usaram como isca? — ela perguntou. — Eu o mandei a Houston — Mick falou numa explosão de raiva, e seu rosto se tingiu de vermelho. — Mick, cala a boca — Gray interferiu.


— Por que o mandou a Houston? — Faith perguntou com tom suave. — Para ficar perto de você. — Mas por quê? Não entendo. — Sua voz expressava perplexidade. Com um movimento rápido, Samuels empurrou Mick e o jogou no chão da sala. Depois estendeu o braço e puxou Faith contra o corpo, a arma apontada para sua têmpora. — Pronto, assim está melhor — ele anunciou satisfeito. — Vamos simplificar as coisas, benzinho. Você vai saber que tipo de desgraçado é seu amante. O velho ali mandou o garoto sedução a Houston para se aproximar de você, porque sabia que eu estava enrolado com sua mãe. E o garoto sedução trouxe você para cá para me atrair até aqui. Samuels olhou para Gray. — Tinha planos de me derrubar sozinho? Aposto que não contou nada disso para os seus parceiros em Houston. Eles montaram uma operação de guerra. A dublê era muito parecida com a Faith. Eu provavelmente teria caído na armadilha, se o velho não houvesse deixado escapar onde você a escondia. Mas acho que isso também era parte do plano. Só que eu decidi mudar as coisas. Não sou completamente estúpido. Faith parecia ainda mais chocada. Mágoa e confusão transbordavam de todas as partes de seu corpo. — Isso é verdade? — ela sussurrou. Gray não ia perder tempo implorando por sua compreensão. Isso podia ficar para mais tarde. Nesse momento, seu foco era impedir Samuels de levá-la. Ele ignorou a pergunta e tentou não dar importância ao sentimento de traição nos olhos dela. — Você não vai longe — disse sem se alterar. — Isto aqui é uma ilha. Como acha que vai conseguir sair daqui com uma refém? — Do mesmo jeito que entrei com um — Samuels respondeu rindo. Pelo canto do olho, ele viu Mick fazer um movimento. Gray tentou segurá-lo, impedir o ato de estupidez, mas Mick se jogou para a frente como um lunático descontrolado. Não se importava com Faith ou com a possibilidade de ela ser ferida, tudo que via era o assassino de seu filho. Foi tudo muito rápido. O barulho alto do tiro. O grito de Faith. Mick caindo no chão. Era a repetição da noite em que Alex levara o tiro, e não tinha como impedir o desenrolar dos fatos. Outro disparo soou, e uma dor aguda explodiu em seu braço. A última coisa que lembrou quando caiu no chão foi o medo e o sentimento de traição nos olhos de Faith.


CAPÍTULO 36 Dor. Foi a única coisa que Gray sentiu quando abriu os olhos e viu o teto. Ele piscou, e em seguida a lembrança do que havia acontecido voltou com clareza total. Virou-se, ignorando a agonia que explodiu em seu peito. Tocou o ombro hesitante e examinou a mão ao abaixá-la. Vermelha. Sangue brilhante e vivo. Merda. Ele se arrastou até onde Mick estava caído. Rolou o velho de barriga para cima e viu o enorme ferimento em seu peito. Antes de procurar o pulso ele sabia que não encontraria nada. Lágrimas queimavam seus olhos. Estava furioso. A morte de Mick era tão inútil quanto a de Alex. E agora a vida de Faith estava em perigo. A sala ficou turva. Sentia-se tonto e fraco por causa da perda de sangue. O telefone vibrou em seu bolso. Ignorando a dor que dominava todo o corpo, ele pegou o aparelho, o abriu e levou à orelha no mesmo instante em que caiu no chão. Micah não esperou nem pelo alô para começar a falar como um louco, as palavras intercaladas com muitos palavrões. — Devagar — Gray disse em voz baixa. — Que jornal? Que notícia? — Seu amigão Mick armou para você. Precisa sair daí, Gray. Ele foi ao jornal falar sobre a operação e como você e a Faith estavam escond... — Tarde demais — Gray conseguiu falar. — Ele esteve aqui. Levou a Faith. O Mick está morto. Eu estou ferido. Preciso de socorro. — Deus do céu. Cara, você está bem? Fale comigo. Aguente firme, vou mandar uma ambulância. Não desligue. — Não estou morrendo. Só sinto que estou. Acho. Micah praguejou novamente. Gray o ouviu gritar alguma coisa ao fundo e, vagamente, entendeu que ele explicava a situação à telefonista do número de emergência e fornecia o endereço da casa de praia. A voz de Micah soava mais e mais longe. Ele rangeu os dentes e tentou se manter consciente. Em algum momento Nathan pegou o telefone, mas nada do que ele falava fazia sentido. Era tudo muito confuso. — Encontre a Faith — Gray sussurrou. — Não se preocupe comigo. Vocês precisam encontrar


a Faith. Registrou alguém gritando seu nome, mas não tinha força suficiente para continuar segurando o telefone. O celular caiu e a sala ficou escura outra vez. Uma luz ofuscante penetrou em seus olhos quando alguém levantou suas pálpebras. Ele balançou a cabeça e fechou os olhos de novo. — Vamos, filho, acorde. Gray abriu os olhos devagar. — Ah, assim está melhor. O quarto foi ganhando foco, e Gray compreendeu que estava em uma cama de hospital. Um homem que presumia ser médico o estudava de onde estava, alguns metros longe da cama, com uma prancheta na mão. Gray olhou em volta e viu Micah no canto mais afastado do quarto, o celular colado à orelha. — Onde está a Faith? — perguntou com voz rouca. Micah desligou o telefone e correu para perto da cama. — Merda, cara, você me assustou. Demorou para acordar. Gray olhou para ele, depois para o médico. — Quanto tempo passei desacordado? — Um pouco mais de vinte e quatro horas — respondeu o doutor. Gray resmungou uma sequência de palavrões e tentou sair da cama. — Ei, ei, filho, onde pensa que vai? — o médico perguntou, e apoiou a mão em seu peito, empurrando-o de volta. Gray olhou para Micah com desespero. — Onde está a Faith? Vocês a encontraram? A expressão de Micah era sombria quando ele balançou a cabeça. — Lamento, cara. Ainda não. Gray fechou os olhos e bateu a cabeça contra o travesseiro. — Tenho que sair daqui. Preciso encontrá-la. O médico franziu o cenho e olhou para Gray com desaprovação. — Hoje você não vai a lugar algum. — Qual é a gravidade? — Gray perguntou apontando o ombro coberto por um curativo. — Não é tão sério quanto poderia ser — disse o doutor com voz calma. — O ferimento é superficial. Eu fiz a sutura. Nossa principal preocupação era a perda de sangue. Às vezes as feridas mais simples sangram muito. — Se é só superficial, posso ir embora daqui. — Você precisa descansar. Talvez tenha alta amanhã, mas o ideal seria você ficar por mais


alguns dias. Temos que monitorar o eventual surgimento de uma infecção. — Vou embora hoje — Gray avisou por entre os dentes. — Prescreva analgésicos e antibióticos, e tudo vai ficar bem. — Se for embora, vai ter que assinar um termo de responsabilidade. — Não quero nem saber. Vou sair daqui com ou sem sua permissão. Ele olhou para Micah esperando ser criticado ou censurado, mas só encontrou silêncio. O médico suspirou. — Tudo bem, mas vou anotar no seu protocolo que vai deixar o hospital contrariando a orientação médica. Vou fazer as receitas. Trate de tomar os antibióticos. Se tiver febre, ou se a ferida ficar vermelha, inflamada ou inchada, volte imediatamente. Gray se levantou e quase desmaiou com a dor imediata. Ele gemeu e estendeu a mão livre para amparar-se. Micah segurou seu braço. — Apoie-se em mim e não tente levantar muito depressa. Gray conseguiu levantar da cama. O médico voltou pouco depois com as receitas. Após entregá-las a Micah, empurrou a prancheta para Gray. Ele a aceitou e nem se deu ao trabalho de ler a declaração. Sabia o que estava escrito nela. Toda a ladainha sobre o hospital não se responsabilizar se ele caísse morto no estacionamento. Sim, sabia disso. Ele assinou o documento e devolveu a prancheta ao médico. Esperou Micah se dirigir à saída e, devagar, o seguiu, tentando não dar importância a como o chão se mexia e balançava sob seus pés. Sentia-se fraco como uma menininha. Quando o amigo o levou até o saguão, meio arrastando, meio amparando, Gray suava muito e sabia que devia estar branco como uma folha de papel. — Cara, não sei se essa foi uma boa ideia — Micah opinou. — Você parece péssimo. Acha que vai conseguir? — Tenho que encontrá-la — ele respondeu, deixando a voz expressar todo o desespero que sentia. — Ouviu alguma coisa? O que está acontecendo? — E, quando eles saíram pela porta da frente, a luz do sol o cegou. Gray piscou e balançou a cabeça. — Onde estamos? — Houston — Micah respondeu sem pressa. — Escute, fique aqui. Sente-se naquele banco e não se mexa, vou buscar a caminhonete. Volto em um segundo. Gray sentou no banco e tentou acalmar o estômago revirado. Com toda a franqueza, achava que ia vomitar. Limpou o suor da testa com o dorso da mão e tentou não se deixar dominar pelo pânico. Faith. Deus, o que ela devia estar pensando? Não só estava apavorada, mas acreditava que ele a havia traído. Usado. Merda. Havia, mas não como ela pensava. De olhos fechados, tentou conter a fúria que o consumia.


Alguns minutos mais tarde, ele sentiu a mão em seu ombro e levantou a cabeça. Micah estava parado ao seu lado. Ele gemeu quando se levantou com a ajuda do amigo e, por mais que odiasse, teve que se apoiar nele para chegar à caminhonete. — Vou deixar as receitas na farmácia perto do escritório, depois volto para pegar os medicamentos — Micah avisou quando se sentou ao volante. — Quero saber o que está acontecendo — Gray falou quando eles partiram. — Que história é essa sobre o Mick e um jornal? E a Faith. Conseguiu alguma pista? O desgraçado entrou em contato com o Pop? — Devagar, cara. Uma pergunta de cada vez. A propósito, sinto muito sobre o Mick. Gray fechou os olhos e apoiou a cabeça no encosto do banco. — Eu quero pegar esse canalha, Micah. Primeiro o Alex, depois o Mick, e agora a Faith. Eu quero esse cara. — Eu sei. Todos nós queremos pegar o desgraçado. E vamos pegar. Precisa acreditar nisso. — E o resto? — Gray perguntou cansado. — O Mick estava furioso porque ninguém fazia o esforço suficiente para pegar o Samuels. Palavras dele, não minhas. Então, ele se encarregou pessoalmente de tirar o Samuels do buraco. Foi uma atitude estúpida e desesperada. Não sei onde ele estava com a cabeça. O Mick procurou uma emissora local de notícias e deu toda a história a eles. Não estava raciocinando, é óbvio. A entrevista foi uma confusão. Não consigo entender nem como eles a transmitiram. Ele estava obviamente transtornado. Ele se expôs, e o Samuels aproveitou. Não sei muito mais. A polícia também não sabe. Todos estão esperando para conversar com você. Vão ficar doidos de raiva quando souberem que você saiu do hospital antes de terem uma chance de te interrogar. — Azar deles — Gray resmungou. — Que maldição! Onde o Mick estava com a cabeça? É uma perda e tanto. Como o Samuels o pegou tão depressa? E como o Mick sabia onde eu estava? Micah ficou quieto, e Gray virou a cabeça para olhar para ele. — Jesus... você não acha que eu a usei como isca, não é? Eu não contei ao Mick onde a Faith e eu estávamos. Só você e os outros sabiam. — Eu não acho nada disso — Micah respondeu depois de uma longa pausa. — Mas não posso afirmar o que o Pop e os outros estão pensando. Essa história toda desandou. Graças ao seu amigo, não temos pistas. Gray fechou os olhos e deu um soco no assento, ignorando a forte onda de dor que o dominou. Micah parou na farmácia drive-thru e entregou as receitas pela janela. Respondeu algumas perguntas, depois perguntou a Gray sua data de nascimento antes de fechar a janela novamente e ir embora. Eles percorreram o resto do caminho em silêncio, e alguns minutos mais tarde Micah estacionou na frente da Malone and Sons. Gray ficou sentado na caminhonete por um momento,


preparando-se para o confronto que estava para acontecer. Não tirava a razão de Pop por estar furioso. Havia falhado com Faith, tinha que admitir. O amigo abriu a porta. — Vamos lá, cara, vou te ajudar a entrar. Você parece prestes a desmoronar. Gray escorregou pelo banco e desceu, encolhendo-se quando os pés tocaram o chão. O choque subiu pelas pernas até o peito. Como um velho, ele cambaleou até a entrada, e Micah o precedeu. O escritório era o caos. Quando Gray entrou, Pop, Connor e Nathan se viraram para olhar para ele. Pop deu um passo em sua direção. — O que está fazendo aqui? Devia estar no hospital. Nathan empurrou uma cadeira para perto de Gray, o que foi bom, porque estava quase desabando. Ele se sentou, grato porque a sala finalmente parava de girar. Connor, porém, permanecia onde estava com os braços cruzados, o rosto sério. — Alguma notícia? — Micah perguntou. — O desgraçado telefonou há meia hora — Pop respondeu taciturno. Gray levantou-se. A sala girou, e, se Micah não o houvesse amparado, ele teria caído de cara. — Jesus, cara, pare com isso. Fique sentado — Micah falou. — Faith. Ela está bem? — Gray perguntou enquanto respirava fundo para se recuperar. — Ele diz que sim, mas não me deixou falar com ela — disse Pop. — Ele quer um milhão amanhã de manhã, ou disse que vai matar a Faith. As lágrimas que Gray tentava conter inundaram seus olhos. Ele recusava-se a abri-los, e tentava conter a tristeza e a fúria que se juntavam e ganhavam força como uma locomotiva em sua cabeça. Quando abriu os olhos, ele viu raiva no olhar de Pop, mas não condenação. — Eu não entreguei a Faith — Gray declarou, vencendo o nó que fechava sua garganta. — Eu a amo. Pop suspirou e pôs a mão sobre seu ombro. — Eu sei. Você não devia estar aqui. Precisa voltar para o hospital, ou ir para casa, pelo menos. Vamos cuidar disso. Vamos trazê-la de volta. Gray balançou a cabeça com firmeza. — Ela está por aí em algum lugar. Amedrontada. Sozinha. E acha que eu a traí. Não posso ir para a cama enquanto não tiver certeza de que ela está segura. Ele olhou para trás de Pop, para onde Nathan e Connor estavam. — Aquele canalha matou meu parceiro, e agora matou o Mick. Não vou permitir que ele tire a Faith de mim. Havia aceitação contrariada nos olhos de Connor.


Micah o tocou no ombro. — Cara, tem dois policiais de Galveston aqui para falar com você. Querem perguntar sobre o que aconteceu na casa de praia. — Eu também quero saber — Pop falou. — Preciso saber de tudo sobre esse cretino para trazer minha filha de volta.


CAPÍTULO 37 Faith sentiu alguém sacudindo seu ombro. Tentou abrir os olhos, mas a dor era forte demais. — Faith, Faith, meu bem, você precisa acordar. O sussurro firme e urgente a despertou, e ela abriu os olhos. E piscou quando viu a mãe olhando para ela. — Mãe? — Shhh — disse Celia Martin, aproximando um dedo trêmulo de seus lábios. — Ele vai voltar a qualquer momento. Precisa ficar quieta. Faith tentou organizar os pensamentos confusos, mas tinha dificuldade para concentrar-se. Quando tentou mover os braços, descobriu que não conseguia nem senti-los. O mesmo acontecia com as pernas. — O que aconteceu? — ela sussurrou. — Tenho que desamarrar você. Não se mexa, está bem? Faith assentiu e se encolheu quando outra dor lancinante rasgou seu crânio. Enquanto Celia manipulava os nós em seus pulsos, ela ficou de olhos fechados e tentou lembrar tudo que havia acontecido. Uma dor horrível desabrochou em seu peito quando se lembrou dos tiros. Mentalmente, viu Mick cair, depois Gray. Traição. Dor. Confusão. Nada fazia sentido. Lágrimas quentes escorriam de seus olhos. A corda em torno de seus pulsos afrouxou, e mil agulhas pequeninas a perfuraram quando o sangue voltou a correr em suas veias. Ela gemeu com a agonia e, de novo, Celia a silenciou. Alguns minutos mais tarde suas pernas foram desamarradas, mas ela ficou ali, incapaz de se mover. Celia a puxou pelos braços e pôs sentada. — Escute, meu bem, você tem que sair daqui. Ele é maluco. Vai matar você com ou sem dinheiro. O medo na voz da mãe tirou-a do estado de letargia. — Você me ouviu, Faith? Tem que ir agora. Ele não vai te deixar aqui sozinha por muito tempo. Vou ajudar você a sair pelos fundos, e depois vai ter que correr e procurar ajuda. Eu vou segurá-lo aqui enquanto puder.


— Você não pode ficar aqui — Faith sussurrou. — Precisa vir comigo. Celia fez um ruído de impaciência. — Ele não vai me matar. Precisa de mim. Mas você tem que ir. Não tenho tempo para ficar discutindo, vamos logo. A urgência na voz de Celia pôs Faith em movimento. Ela se levantou e cambaleou quando a dor desceu por sua coluna. Ele a agredira? Tinha que pensar. O tempo depois da casa de praia era uma grande confusão. Lembrava-se de ter lutado, tentado escapar. Depois ele havia batido em sua cabeça com o cabo da arma. Ela levou a mão à cabeça, e os dedos ficaram sujos de sangue. Celia a tirou do quarto escuro. Onde estavam? Parecia um galpão vazio. Sua mãe passou pela porta e a puxou para uma grande área aberta. O concreto áspero feria seus pés descalços enquanto andava atrás da mãe. Quando chegaram ao fundo do galpão, Celia abriu uma porta velha e empurrou Faith para a noite lá fora. — A viela termina na rua. Você tem que ir. Ele vai chegar a qualquer minuto. Amo você. E ela fechou a porta, deixando Faith sozinha e tremendo na viela úmida. Ela segurou os braços sobre a barriga e começou a andar em direção a uma luz distante. Tonta, desorientada e com dor, começou a correr com a lembrança ainda viva de seu perseguidor atirando contra Mick e Gray. Ele a mataria. Disso não tinha dúvida. Os pés batiam no cimento quebrado da viela estreita. Lixo, comida estragada e sabe mais o que guinchavam sob seus passos. Ela tropeçou perto do fim da viela e caiu. E gritou, apesar do esforço para não fazer barulho. A dor castigou seu corpo quando desabou sobre o pavimento. Desesperada, ela se levantou e continuou correndo. Quando chegou ao fim da viela, parou na rua e olhou para a direita e para a esquerda. Deus, estava vazia. Não havia carros, nem luzes além das que brilhavam no alto dos postes. Era uma área antiga da cidade, e o comércio da região já havia encerrado suas atividades naquele dia. Faith escolheu uma direção e correu. A respiração era rápida, dolorosa. O ambiente à sua volta era turvo e passava depressa, provocando enjoo. A sensação era de que alguém havia enfiado uma faca na parte de trás de sua cabeça. Um quarteirão. Dois. Ela continuou até sentir medo de desmaiar. Quando chegou ao fim do terceiro quarteirão, tropeçou e caiu de novo, estendendo as mãos para amortecer a queda. E aterrissou com o rosto na rua dura e acidentada. Lágrimas inundaram seus olhos quando ela arfou tentando levar ar aos pulmões. A dor a impedia de se mexer. Não conseguia se levantar. Com esforço, ficou de joelhos e olhou para as mãos feridas, ensanguentadas. Quando olhou para trás, uma luz forte a deixou momentaneamente cega. Ela levantou um


braço, impelida pelo instinto de proteção, escondeu os olhos e tentou se levantar e correr. — Senhora, senhora, está tudo bem? Ela tentou enxergar quem estava falando. A luz mudou de direção, e foi possível ver a silhueta de um homem caminhando até ela. Choramingando, Faith ficou em pé e se preparou para correr. — Polícia de Houston. Precisa de ajuda? Ela parou e olhou para baixo, e pela primeira vez se deu conta do que o homem via. Suas roupas estavam rasgadas e ensanguentadas. Os cabelos estavam embaraçados. Quando se aproximou, o homem apontou a luz para baixo e para longe dela. Sua expressão era precavida, mas havia também preocupação em seus olhos. — Senhora, está ferida? Precisa de uma ambulância? A voz dele era calma e reconfortante, como se temesse espantá-la dali. A mão tocou seu ombro, e Faith estremeceu. Ele apontou a luz para seu rosto novamente, e ela se encolheu e desviou os olhos. — Senhora, seu nome é Faith Malone? — Havia entusiasmo na voz dele. — S... sim. — A voz tremeu e ela tentou de novo. — Sim, eu sou Faith Malone. — Estávamos procurando pela senhora. Por Deus, como conseguiu escapar? — Agora ele falava como um profissional, já aproximando um rádio da boca. Faith ouviu o relato excitado do policial, que fornecia o endereço de onde estavam e pedia uma ambulância. Depois ele se concentrou nela outra vez. — Senhora, pode me dizer o que aconteceu? Como veio parar aqui? — Ele está lá — Faith gemeu. O policial se virou sacando a arma. — Em um galpão — ela continuou. — Estávamos em um galpão. A alguns quarteirões daqui. Minha mãe... me ajudou a fugir. Você precisa ir tirá-la de lá. Ela está em perigo. Ele a mantém refém, ela me ajudou. Quando terminou, a exaustão ameaçou dominá-la. O policial a amparou antes que ela caísse novamente na rua. — Calma — o homem murmurou. — A senhora vai ficar bem. A ambulância está a caminho. Enquanto a segurava, ele usou o rádio novamente para pedir reforço e repetiu o que Faith havia contado sobre o galpão e a mãe. O resto foi uma confusão de sons e imagens nebulosas. Ela sentia os braços em torno do corpo e ouvia as palavras de conforto que o policial murmurava, mas era só isso. Fechou os olhos, querendo escapar da realidade, mesmo que por pouco tempo. Ouviu o ruído distante de sirenes, e depois mais nada.


CAPÍTULO 38 Gray lutava contra o efeito dos analgésicos que havia tomado. Eles diminuíam a dor, mas também o deixavam sonolento. Ao ficar em pé, ignorou a agonia renovada provocada pelo movimento. Andava pelo espaço reduzido do escritório, quase enlouquecendo de preocupação. Quando o celular de Pop tocou, todos pularam. Pop o atendeu imediatamente. Gray, Micah, Connor e Nathan pararam e se inclinaram para a frente numa reação interessada. — Onde? — Pop perguntou. Depois disse: — Graças a Deus. Estamos indo. Desligou o telefone e fechou os olhos. As mãos tremiam quando ele deixou o celular sobre a mesa. — A Faith foi encontrada. Está a caminho do hospital. Gray explodiu: — Hospital? Ela está ferida? Onde a encontraram? Pegaram o Samuels? Pop levantou a mão. — Devagar, filho. Sei que está preocupado. Todos nós estamos. Não sei muito. Um policial a encontrou naquela região dos galpões. Aparentemente, a Faith conseguiu escapar do Samuels e estava fugindo. Ela está machucada. Não sei qual é a gravidade. O assistente que telefonou disse que o policial ficou com ela até a chegada da ambulância, e a Faith forneceu informações sobre o paradeiro do Samuels. Isso é tudo que sei. — Vamos, então — Gray respondeu com tom cansado. — Preciso vê-la. Pop assentiu. — Eu levo você. Gray estava na porta do quarto de Faith, sem conseguir tirar os olhos dela. Dormindo na cama de hospital, ela parecia muito frágil. A testa estava vincada, mesmo adormecida, e ele se preocupava com os pesadelos que ela enfrentava. Um grande curativo cobria sua cabeça, e havia outros menores nas mãos e nos joelhos. Até os pés estavam enfaixados. A mão que tocou o ombro de Gray transmitia conforto, e ele olhou para trás e viu Pop ali parado.


— O que o médico disse? — Gray perguntou apreensivo. — O desgraçado bateu na cabeça dela com a coronha de uma pistola. Ela tem uma concussão. Mas é só isso. Os cortes e arranhões aconteceram quando ela fugiu. O médico quer que ela passe a noite aqui em observação. Se tudo correr bem, amanhã ela poderá ir para casa. Gray fechou os olhos quando o alívio o invadiu. — Graças a Deus — sussurrou. — Filho, você precisa descansar. Não está ajudando em nada aqui. Pode ver a Faith amanhã. Gray balançou a cabeça. — Não vou sair de perto dela. Não posso. — Você tem duas opções, filho. Pode ir para casa e descansar por conta própria, ou vou dar ordem para os rapazes te levarem à força. — E apontou com o polegar por cima de um ombro para onde Nathan, Connor e Micah estavam, no corredor. — Você escolhe. Gray resmungou um palavrão. — Duvido que ela acorde — continuou Pop. — Eles aplicaram um analgésico e, bem, ela nunca foi muito forte para isso. Uma vez ela foi ao dentista, e ele receitou um analgésico moderado. A Faith dormiu por doze horas seguidas. Micah se aproximou de Pop. — Vamos, Gray. Eu levo você para casa. Amanhã cedo a gente volta para ver a Faith. Gray suspirou resignado. — Só um minuto. Ele se aproximou da cama e olhou para ela por um longo momento. Depois estendeu a mão livre e tocou seu rosto com os dedos. — Sinto muito — sussurrou. — Eu amo você. — E se abaixou para beijá-la nos lábios, inalando seu cheiro doce. — Eu volto amanhã. Juro. Relutante, virou-se e voltou à porta, onde Micah o esperava. Olhou para Pop e Connor, que haviam passado pela porta. — Alguém vai ficar com ela? Não quero a Faith sozinha. Pop assentiu. — Vamos ficar aqui. Pode ir descansar. Vai ser muito mais útil para ela quando conseguir sustentar sua cabeça erguida. Gray o encarou. — Eu amo sua filha. Quero que saiba disso. A expressão de Pop se tornou mais suave. — Eu sei que a ama. Gray se virou e, lentamente, com grande dificuldade, começou a andar pelo corredor. Micah o alcançou.


— Pode dormir em casa esta noite. É melhor não ficar sozinho com esses ferimentos. Gray assentiu, cansado demais para discutir. — Eu não estava lá quando as notícias chegaram. Pegaram o Samuels? — Sim, pegaram — Micah respondeu sério. — Quero matar aquele filho da puta. — Sim, eu também. — E a mãe dela? — Gray perguntou. — O Pop disse alguma coisa sobre ela ter ajudado a Faith a fugir. — A última notícia que tive é que a estavam interrogando. Não sei se já decidiram o grau de envolvimento da Celia com tudo isso. — Seja como for, só vai servir para a Faith ficar ainda mais aborrecida. — Sim, isso é uma droga. Eles saíram do pronto-socorro e se dirigiram à caminhonete de Micah. Em poucas horas amanheceria, e ele precisava de umas vinte e quatro horas de sono. Quando entrou na caminhonete, Gray reclinou a cabeça no encosto e fechou os olhos. Micah ligou o motor. Ele engatou a ré, mas não saiu do lugar. Gray abriu os olhos e viu que ele o encarava. — Que é? O amigo fez uma pausa breve. — O que vai fazer, cara? Com relação ao seu emprego, quero dizer. Vai voltar, agora que tudo acabou? Gray ficou tenso. Acabou. O homem que matara Alex, matara Mick e machucara Faith estava preso. Para todos os efeitos, seu tempo ali chegava ao fim. Tinha algum tempo até o fim do período oficial de licença. Há um mês teria dito que não tinha motivos para ficar. Mas agora não havia absolutamente mais nada para ele em Dallas. — Não posso voltar — disse, reconhecendo que a decisão estava tomada, e essa era a primeira coisa que o fazia sentir bem em dois dias. Micah assentiu. — Esperava que dissesse isso. A Faith é uma boa mulher. Você se adaptou bem aqui. Podemos contratar você em caráter permanente. — Não sei se o Pop vai concordar com isso. Mas, independentemente de trabalhar para ele ou fazer outra coisa, não posso deixar a Faith. — Eu sei. E tudo vai dar certo. Gray esperava que sim. Ainda tinha que enfrentar Faith. Sentia-se grato por ela estar viva e bem, e por ter a oportunidade de fazê-la entender quanto a amava.


CAPÍTULO 39 Faith acordou com a sensação de que a boca estava cheia de algodão. Piscou, tentou lembrar que lugar era aquele, mas estava escuro. Começava a odiar o escuro. Um choramingo escapou de sua garganta quando ela mudou de posição, tentando se localizar. — Faith, tudo bem? — Connor perguntou. — Luz — ela gemeu. — Acende, por favor. Ela o ouviu tatear na escuridão, e em seguida uma luz suave inundou o quarto. Ela se encolheu e piscou, cobrindo os olhos com a mão. A cama se moveu, e quando ela mexeu a mão viu Connor debruçado sobre seu rosto, os olhos cheios de preocupação. — Como você se sente, benzinho? Faith lambeu os lábios e pensou um pouco antes de responder. — Acho que estou bem. Connor, o Gray... ele está morto? — perguntou temerosa. — Meu Deus, não, benzinho. Ele está bem. Nós o mandamos para casa porque ele levou um tiro no ombro e esteve correndo como um louco. Saiu do hospital contrariando a orientação médica e tem provocado um tumulto generalizado. Ela suspirou aliviada. — Eu o vi cair. Aquele homem atirou nele. Pensei que o Gray estivesse morto. — Uma lágrima correu por sua face, e ela fechou os olhos contra a horrível lembrança. Connor tocou sua testa. — Não se agite, Faith. Ele está bem. Minha preocupação maior é você. Tanta coisa havia acontecido. Mesmo sem o ferimento na cabeça, estaria tonta e confusa. — Por que a luz acesa? — Pop perguntou da porta. Ela o viu segurando duas xícaras de café. Parecia cansado e abatido. A preocupação havia entalhado linhas fundas em seu rosto, e era horrível saber que era ela a causa disso. De repente a realidade a atingia como uma tonelada de tijolos. Tudo que havia acontecido era por culpa dela. Faith fechou os olhos, e naquele momento desejou poder dormir e acordar em outro lugar. A mão áspera de Pop segurou a dela. Quando abriu os olhos cheios de lágrimas, Faith o viu em


pé ao lado da cama. — Esse susto me fez envelhecer dez anos, menina — ele falou sério. — E não sei o que acontece nessa sua cabeça agora, mas tenho certeza de que não vou gostar ou concordar. — Tudo é uma grande confusão — ela sussurrou. — Só quero ir para casa. — E vai — Pop falou com ternura enquanto afagava a mão dela. — O médico disse que, se tudo corresse bem, você poderia ter alta hoje. Acredito que ele vá passar por aqui daqui a pouco para examiná-la. — Precisa de alguma coisa? — Connor perguntou. — Água — Faith falou baixinho. Ele foi buscar um copo com água e o aproximou de seus lábios para que ela pudesse beber. — O Gray esteve aqui ontem à noite, mas eu o fiz ir para casa — contou Pop. — Aquele rapaz está ferido, com dor. Ainda devia estar no hospital. Faith fechou os olhos. — Não quero falar sobre ele agora. — Faith, querida... — Por favor — ela sussurrou. — Pai, não insista — Connor falou com firmeza. — Ela precisa descansar e melhorar. Pop suspirou e assentiu. Alguém bateu na porta. Como ninguém entrou em seguida, Pop franziu o cenho e caminhou até lá. E voltou um momento depois com uma expressão estranha. — Quem era? — Faith perguntou. Ele pigarreou. — É sua mãe. Ela quer ver você. Perguntou se pode entrar por um minuto. Seu coração ficou apertado e o medo inundou o peito. — Não precisa fazer nada que não queira — Pop avisou com tom tranquilizador. Lágrimas inundaram seus olhos e escorreram pelas faces. Um soluço ficou preso na garganta. A simples menção à mãe era suficiente para reduzi-la às lágrimas. Péssimo! Connor segurou a mão dela e afagou. — Não deixe que ela aborreça você, Faith. Se quer que ela vá embora, eu cuido disso. Não precisa vê-la, se não quiser. — Deixe-a entrar — Faith falou cansada. Connor afagou a mão dela novamente. — Vou estar bem aqui, benzinho. Pop voltou à porta e a abriu. Celia Martin entrou no quarto com passos hesitantes. Ela parou antes de finalmente se aproximar da cama. Pela primeira vez Faith olhou realmente para a mãe que não via há três anos. O tempo não


havia sido bom para ela. Parecia cansada, desgastada, velha. Não restava nada da mulher jovem e vibrante que Faith havia conhecido na infância. Os olhos sem brilho refletiam os arrependimentos de uma vida inteira. Faith esperou sem saber o que dizer. Obrigada? Por tê-la resgatado de uma situação pela qual ela havia sido responsável? Faith engoliu a raiva e comprimiu as mandíbulas até sentir os dentes doerem. Connor afagava sua mão, e ela segurou a dele como se agarrasse à própria vida. Celia olhou para os dois homens. — Vou ser eternamente grata por tudo que vocês têm feito pela Faith. Eu falhei com ela. Fico feliz por ela poder contar com vocês. Faith mordeu o lábio para não chorar mais. Celia se aproximou da filha e parecia lutar contra as lágrimas também. — Eu estraguei tudo, benzinho. Mas isso não é novidade. Só quis vir aqui para dizer o quanto lamento. E para agradecer pelas coisas que você disse à polícia. Eles não vão me indiciar, desde que eu deponha contra o Eric. — Que bom — Faith sussurrou. — Eu esperava... esperava que aceitasse me encontrar algum dia. Talvez quando estiver melhor. Faith ficou tensa e, mais uma vez, Connor acariciou sua mão com o polegar em um esforço para acalmá-la. — Eu... sinto muito. Agora não consigo. — O nó em sua garganta era tão grande que dificultava a respiração. Mais lágrimas escorriam por seu rosto, e ela as amaldiçoou. — Preciso... vá embora. — Era difícil banir a dor da voz. O sentimento de traição. No momento, sentia-se abandonada por todos que já havia amado. Fechando os olhos, Faith virou o rosto para o travesseiro quando os soluços subiram até a garganta. — Chega — Pop falou irritado. — Ela já aguentou demais. — É claro. Sinto muito — disse Celia. — Eu vou embora. — Shh... Amor, não chore — Connor murmurou empurrando seus cabelos para trás da orelha. — Sua cabeça vai doer mais. — Quero ir para casa — ela respondeu com voz abafada. — Vou falar com o médico e pedir a opinião dele — Pop respondeu para acalmá-la. Quando ele saiu, Faith chorou ainda mais. Felizmente, os soluços não eram barulhentos, violentos, porque teriam rasgado sua cabeça ao meio. Em vez disso, rios silenciosos de lágrimas desciam por seu rosto. Mais e mais depressa. Como água passando por um dique rompido. Connor sentou-se ao lado dela na cama e a tomou nos braços. Não disse nada, só a abraçou


enquanto ela chorava e, de vez em quando, beijava o topo de sua cabeça. Alguns minutos mais tarde, Pop entrou seguido pelo médico. O doutor franziu o cenho quando olhou para ela. — Seu pai me disse que você quer ir para casa, mas hesito em te deixar sair do hospital nesse estado de agitação. Sente alguma dor? Ela balançou a cabeça, e quase se encolheu com o esforço. — Só quero ir pra casa — murmurou. — Ela vai para casa conosco — Pop interferiu. — E vai direto para a cama. Não vai mover um dedo sequer. Tem minha garantia. — Bem, a tomografia não mostrou nenhuma alteração, e, com exceção do inchaço na cabeça, todos os outros ferimentos são irrelevantes. Vou dar alta para a paciente. Mas, se o estado dela piorar, se houver náusea, vômito ou diminuição do nível de consciência, tragam-na de volta imediatamente. Pop assentiu. — Vamos cuidar dela. Tem a minha palavra. — Muito bem, então. Vou dar as ordens de alta para a enfermeira. Alguém virá cuidar de tudo em um minuto. — Obrigado, doutor — Pop falou. Quando o médico saiu, ele se aproximou da cama e bateu de leve no braço de Faith. — Vamos te levar para casa e cuidar de você. Em pouco tempo tudo isso vai passar. Ela assentiu, mas ainda sentia o peito oprimido. Havia se esforçado muito para não pensar em Gray, mas, agora que o problema com a mãe estava resolvido, ele era tudo que restava. Por mais covarde que pudesse parecer, simplesmente não tinha força para encará-lo agora.


CAPÍTULO 40 Gray acordou com um sobressalto. A luz do sol entrava pela janela, atingia em cheio seus olhos. Sinal de que havia dormido até muito tarde. Quando virou na cama, o corpo todo protestou. E, quando bateu o ombro ferido, o ar deixou seu peito num jato ruidoso. Ignorando as queixas do corpo, ele saiu da cama e cambaleou até onde havia deixado o relógio na noite anterior. Dez e meia. Saiu do quarto e quase tropeçou nos sapatos no corredor. Ao se abaixar para pegá-los, quase desmaiou com o esforço, mas se levantou e seguiu para a sala de estar. — O morto acordou — Micah falou do sofá, onde estava recostado. — Devia ter me acordado há horas — Gray resmungou. Micah levantou uma sobrancelha. — Você precisava dormir, e a Faith não ia a lugar algum. — Mas eu preciso vê-la — Gray insistiu. — Tenho muitas explicações a dar. Micah deu de ombros. — Assim que calçar seus sapatos, nós vamos. Gray sentou-se e enfiou os pés nos sapatos. Depois ficou em pé de novo e olhou para o amigo com um ar carregado de expectativas. — Tudo bem, tudo bem, cara, estou indo — Micah falou ao se levantar do sofá. — É melhor você pedir para alguém examinar seu ombro quando estivermos no hospital. Precisa se certificar de que não tem nenhuma infecção, essas coisas. Gray o encarou. — Estou tomando antibióticos. Vai ficar tudo bem. Eles saíram do apartamento e entraram na caminhonete de Micah. — Falou com o Pop hoje? — Gray perguntou quando partiram. — Sabe como ela está? — Não. Ainda não. Ela deve estar dormindo. Gray suspirou impaciente. Não ver Faith, não tocá-la, não abraçá-la, essas coisas o estavam enlouquecendo. Devia ter ficado lá com ela. Acalmado suas dores. Confortado seus medos. Era horrível saber que um policial qualquer a havia encontrado na rua, apavorada e fugindo.


— Pare de se torturar — Micah murmurou. — Não vai mudar nada. Gray comprimiu os lábios e não disse nada. Vinte minutos mais tarde, ele parou no estacionamento do hospital. — Vou deixar você na porta e voltar para estacionar. Encontro você no quarto da Faith. Gray assentiu e, quando Micah parou na área de embarque e desembarque de pacientes, ele desceu da caminhonete tentando reduzir ao máximo os movimentos que causavam dor. Não havia tomado nenhum analgésico depois de acordar, porque queria se manter completamente lúcido para conversar com Faith. As portas automáticas deslizaram, e ele entrou no hospital. Parou quando viu Faith atravessando o saguão em uma cadeira de rodas empurrada por uma enfermeira. Connor andava ao lado da cadeira, um dos braços sobre os ombros de Faith. O coração de Gray disparou. Merda. Ela tivera alta, e não havia ido vê-la antes disso. Deixara-a sozinha a noite inteira. Gray correu em direção à cadeira de rodas tomando cuidado para não cair. Quando estava a poucos passos dela, Faith levantou a cabeça e o viu. Ele parou ao ver o dilúvio de dor que inundou seus olhos. Seu peito quase afundou. — Faith... Os lábios dela tremeram e lágrimas encheram seus lindos olhos. Gray percorreu a distância que ainda os separava e tentou segurar a mão dela. Faith se esquivou e uniu as mãos. — Benzinho, tudo bem? Meu Deus, lamento não ter vindo antes. Acabei de acordar. — Tudo bem — ela respondeu com voz trêmula. — O Pop e o Connor ficaram comigo. — E virou o rosto, não antes de Gray ver uma lágrima correndo por sua face. — Faith, amor, olhe para mim. Ela se recusou e fechou os olhos. — Este não é um bom momento — Connor avisou sem se alterar. — Ela precisa ir para casa e descansar. O irmão empurrou a cadeira de rodas, mas Gray não podia desistir tão facilmente. — Faith, eu amo você. Isso é tudo que importa. Nada mais. Ela se virou para encará-lo, e Gray ficou sem ar quando viu toda a dor em seus olhos. Faith abriu a boca, mas a fechou em seguida. Era possível ver o retraimento, como ela se recolhia dentro de si mesma. Seus ombros caíram, e ele viu a fadiga envolvê-la como um manto. O braço de Connor a estreitou um pouco mais, como se ele temesse vê-la desabar. Mas era Gray quem desmoronava. Connor pressionou os lábios e empurrou a cadeira de Faith, passando por ele. Gray se virou e a viu passar pela porta do hospital. A van de Pop já esperava lá fora. Micah entrava nesse momento, e parou na frente de Faith. Ele se abaixou e a beijou no rosto.


— Tudo bem, bonequinha? Gray não ouviu a resposta, mas viu a reação de Micah. Os olhos mais estreitos e sérios, a mão que tocou o rosto dela. — Vá para casa e descanse. O Pop e o Connor vão cuidar de você. Quando Connor ajudou Faith a entrar na van, Micah se aproximou de Gray com uma expressão solidária. — Estraguei tudo — Gray falou em voz baixa. — Devia ter contado a verdade a ela. Se tivesse falado a verdade, nada disso teria acontecido. Ela estaria nos meus braços, na minha cama, segura. Micah balançou a cabeça. — Não pode pensar assim, cara. Espere um ou dois dias. Deixe a Faith superar esse turbilhão emocional. — Não posso deixar a Faith ir embora — Gray falou sem rodeios. — Não quando finalmente a encontrei.


CAPÍTULO 41 Faith aceitou a mão de Damon quando ele a ofereceu para ajudá-la a sair do carro. De olhos fechados, deixou a brisa do mar acariciar seu rosto. O sol a aquecia, banhava sua pele, mas ainda se sentia fria por dentro. — Não gosto de deixar você aqui sozinha, Faith — ele comentou com tom preocupado. Ela suspirou. Pop e Connor também não ficaram contentes com sua decisão de partir tão cedo depois da alta do hospital, mas precisava desesperadamente se afastar de tudo. Tinha que pensar. Organizar as ideias. Fazer alguma coisa além de ficar deitada enquanto o pai e o irmão a cercavam de cuidados. — Eu vou ficar bem, Damon. É muita gentileza sua fazer isso por mim. Ele introduziu a chave na fechadura e abriu a porta da frente. — Sabe que tudo que precisa fazer é pedir. Se estiver ao meu alcance, com certeza vou atender ao pedido. Ele entrou primeiro na casa e deixou sua mala no hall. O imóvel estava cercado por uma fita amarela e ficaria isolado pelos próximos meses para a investigação policial. Quando Faith telefonara para falar da necessidade de se refugiar em algum lugar, ele imediatamente alugara uma casa parecida perto de Galveston. Em parte, ela se sentia culpada por tirar proveito de sua generosidade, pois sabia que não poderia corresponder ao interesse de Damon. Mas ele oferecia amizade, e amizade era algo de que precisava muito nesse momento. — Contratei uma pessoa para vir dar uma olhada em você duas vezes por dia — Damon contou. E estendeu a mão ao perceber que ela pretendia protestar. — Suas refeições serão trazidas para cá. Não quero que se canse. Precisa repousar e se recuperar. Se quiser alguma coisa, seja o que for, ligue para mim. — Obrigada. Ele se inclinou e a beijou na testa. — Só quero que você volte a sorrir. Ela ofereceu o melhor sorriso que conseguiu formar. — Só preciso de alguns dias para me recuperar. Esclarecer algumas coisas na minha cabeça. O


Pop me contou tudo que aconteceu, mas é difícil processar. Teria sido melhor se todos não houvessem decidido me manter no escuro com relação a essa história. Ele segurou seu rosto e afagou uma face com o polegar. — Não pode culpá-los por quererem proteger você, Faith. Eu teria feito o mesmo. Ela o abraçou com força. — Queria... — Sim, eu sei — ele a interrompeu ao se afastar. E sorriu para ela, tocando a ponta de seu nariz com um dedo. — Agora vou embora, vou deixar você sozinha. Telefone se precisar de alguma coisa. Ela assentiu e o viu sair pela porta da frente. Quando ficou sozinha, Faith se sentou agradecida no sofá. O que realmente queria era tomar um analgésico e apagar pelas próximas doze horas. Mas isso seria covardia, não resolveria nada. Um cochilo normal seria bom. Sem se incomodar em sair do sofá, ela se deitou sobre as almofadas e fechou os olhos. Uma lágrima solitária escorreu por seu rosto, e ela apertou os olhos um pouco mais. De tudo que havia acontecido, o que mais a perturbava era o que sentia por Gray. Amava esse homem. Ou o que pensava ser ele. Mas como poderia ter certeza? A ideia de ter se apaixonado por uma fantasia a enchia de desespero. Nunca se sentira tão sozinha em toda a sua vida. Não podia fugir da situação para sempre. Sabia disso. Mas precisava de tempo, precisava ser menos emotiva quando, em algum momento, enfrentasse Gray e a verdade do que existia entre eles. Gray praguejou quando teve que parar em outro farol fechado na Seawall Boulevard. A mão livre segurou o volante com força enquanto ele esperava a luz verde. A outra mão descansava sobre as pernas. Ele havia arrancado o curativo do ombro, libertara o braço, apesar da indicação médica em contrário. Ainda doía muito, e ele mantinha um curativo menor sobre os pontos, mas tudo tinha um limite. Não podia andar pelo mundo movendo só um braço. Depois de passar dois dias frustrantes tentando ver Faith, estava a ponto de esmurrar as paredes. E então, quando voltara à casa de Pop decidido a não aceitar um não como resposta, descobrira que ela havia partido. Nas horas seguintes, sentira-se prestes a arrancar a própria pele e virar do avesso. A absoluta impotência que sentia por não poder falar com ela, ver como estava, o levava à beira da loucura. Não que precisasse de muito no momento. Quando descobriu para onde ela havia ido e como chegara lá, suas esperanças despencaram. Sabia muito bem que Damon Roche estava interessado em Faith e que, se ela o encorajasse de algum jeito, ele a cercaria de atenção.


O sol mergulhava no horizonte quando ele parou o carro na entrada da casa de praia. Saiu do automóvel e andou tão rápido quanto podia para a escada que levava à porta da frente. Por um momento pensou se devia ou não bater, mas deu de ombros e reconheceu a urgência. O momento pedia medidas drásticas. O pior que podia acontecer era Faith mandá-lo para o inferno. Ele forçou a maçaneta e descobriu que a porta estava destrancada, então a abriu e entrou. Quando chegou à sala de estar, seus olhos se dirigiram imediatamente ao sofá onde ela dormia. Sua boca ficou seca. O coração bateu um pouco mais depressa, e ele cerrou os punhos. Sem fazer barulho, aproximou-se do sofá e se ajoelhou no chão, absorvendo cada detalhe de sua aparência. Ela parecia incrivelmente frágil, como se exigisse manuseio cuidadoso. Tinha quase medo de tocá-la. Quase. Incapaz de resistir à suavidade do rosto, ele deslizou um dedo pela face até o queixo, de lá ao canto da boca e, finalmente, por cima dos lábios aveludados. Uma urgência poderosa invadiu seu peito quando ele viu as marcas de lágrimas em seu rosto. Gray se inclinou e beijou cada mancha avermelhada. Ela se mexeu e abriu os olhos. — Gray? — sussurrou. — Sim, benzinho, sou eu. Sombras encobriram seus olhos, e ele sentiu o retraimento. Como se Faith buscasse se fortalecer contra ele. O coração de Gray se partiu. Tentando evitar que ela se retraísse ainda mais, ele a abraçou com ternura e gentileza. Segurou-a contra o peito, grato por ela estar viva e segura. Faith era frágil e preciosa em seus braços. — Eu não suportaria perder você — ele disse com a voz embargada. — Esses últimos dias foram o inferno. Só queria poder tocar, abraçar você, dizer quanto te amo. Ela permanecia rígida em seus braços. Depois se afastou um pouco até seus olhos encontrarem os dele. — Eu precisava de tempo para pensar — disse em voz baixa. Gray segurou seu rosto entre as mãos. — Faith, eu não usei você como isca. Nosso tempo na casa de praia não foi uma armadilha para atrair o Samuels. Eu nunca faria isso com você. Ela tocou seus lábios. — Eu sei, Gray. O Pop me contou o que aconteceu. Eu entendo. Ele me explicou que pediu para você não me contar sobre o perigo que eu corria. E se sente muito mal por isso. Gray franziu o cenho. — Então por que... não entendo. Se sabe... — Ele parou de falar e a encarou de novo. — Por que


está tão zangada? Uma tristeza profunda desabrochou nos olhos dela. O coração de Gray ficou apertado. Por Deus, faria qualquer coisa para acabar com aquela tristeza. Ela desviou o olhar quando uma lágrima escorreu por sua face. Ele a enxugou com o polegar. — Meu bem, não chore. Conte o que está errado para eu poder resolver. Ela o encarou novamente. — Você não pode. — E respirou fundo, uma inspiração trêmula. — Gray, eu entendo por que fez o que fez. Não estou zangada. Aceito que não foi à casa de praia para atrair o assassino do seu parceiro. O que não posso aceitar é o fato de que nada do que aconteceu foi real. Não consigo viver com o fato de que você só tenha me dado o que eu queria para se aproximar de mim, para obter informações e, depois, me proteger. Você tinha certeza de que eu fazia um jogo e só queria realizar uma fantasia, mas o que fez não foi construir um personagem? — Faith, meu Deus... Ela balançou a cabeça. — Não, me espere terminar. Eu quero você. Quero muito. Mas só se for real. Não posso conviver com o fato de ter encontrado exatamente o que eu queria e precisava tanto, se tudo for só uma encenação. Não quero nada disso se não for de verdade. Ele segurou seu rosto com as mãos, tomado pela urgência da necessidade de se fazer ouvir, de expor o coração e o que o consumia. — Escute, Faith. E escute bem. Eu amo você. Você! Não uma ideia do que sempre quis. Não uma fantasia que acredito ter que realizar para você. Eu amo você. Você. Não foi um jogo. Nunca! Não poderia ter sido mais real para mim. Odiei ter que mentir para você. Estava decidido a contar toda a verdade, apesar de o Pop querer que eu continuasse em silêncio. Mas, quando cheguei à casa de praia e te encontrei tão vulnerável, só consegui pensar em te proteger. Não queria que você sofresse. Nunca. E paguei por isso. Paguei caro. Amo você, benzinho. Amo tanto que dói. Eu sinto essa dor. Nunca amei outra pessoa como amo você. E quero você. Mas quero tudo. Amor, casamento, sua total e completa rendição. Vou passar o resto da minha vida cuidando de você e nunca mais vou dar motivo para não confiar em mim. Se você voltar a confiar em mim. Preciso de você, Faith. Ela parecia um pouco chocada enquanto o encarava. Havia muita emoção em seus olhos. Amor. Medo. Esperança. Incerteza. Ele prendeu a respiração enquanto esperava pela resposta. Uma eternidade passou antes de Faith assentir devagar. — Oh, sim — ela falou com voz fraca. — Eu te dou minha confiança. E meu amor. — E se jogou em seus braços. Gray a abraçou com força e enterrou o rosto em seus cabelos. Os dedos tocaram o curativo na


base de seu crânio, e ele fechou os olhos. — E seu emprego? — Faith perguntou com a voz abafada em seu peito. Gray a afastou um pouco e tocou seu rosto, incapaz de manter as mãos longe dela. — Vou ter que voltar a Dallas para resolver algumas coisas. Comparecer ao funeral do Mick... e entregar minha demissão ao departamento. Mas eu volto em seguida. Não tem mais nada lá para mim. O Pop quer que eu fique e continue trabalhando para ele. A alegria iluminou o rosto de Faith. Ela sorriu, e pela primeira vez em dias o sol brilhou no coração de Gray. — Amo você, Faith. Preciso de você. Nunca vai haver outra mulher que complete a outra metade de minha alma como você. — Também amo você — ela respondeu. — Ninguém jamais vai me entender como você entende. Gray se inclinou para beijá-la. Um beijo leve, reverente, um toque de lábios. — Podemos ir para casa agora? — ele perguntou. — Quero você comigo, ao meu lado, me tocando, na minha cama. Ela sorriu. — Sim, me leve para casa.


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Doce Entrega vol. 1 - Maya Banks