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Capa Dedicatória Capítulo Um Capítulo Dois Capítulo Três Capítulo Quatro Capítulo Cinco Capítulo Seis Capítulo Sete Capítulo Oito Capítulo Nove Capítulo Dez Capítulo Onze Capítulo Doze Capítulo Treze Capítulo Catorze Capítulo Quinze Capítulo Dezesseis Capítulo Dezessete Capítulo Dezoito Capítulo Dezenove Capítulo Vinte Capítulo Vinte e Um Agradecimentos


Original: Let Love In Série The Love: livro 01 Copyright © 2013 Melissa Collins Copyright da tradução © 2016 Editora Charme Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, digitalizada ou distribuída de qualquer forma, seja impressa ou eletrônica, sem autorização. Este livro é uma obra de ficção e qualquer semelhança com qualquer pessoa, viva ou morta, qualquer lugar, eventos ou ocorrências, é mera coincidência. Produção Editorial: Editora Charme Tradução: Larissa Nicoli Preparação de Texto: Cristiane Saavedra Revisão: Ingrid Lopes Projeto Gráfico: Verônica Góes Design da capa © Design da capa e arte por Sommer Stein com Perfect Pear Creative e Toski Covey Photography 1ª Impressão 2016 Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.

CIP-BRASIL, CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DE EDITORES DE LIVROS, RJ Collins, Melissa Deixe o amor entrar / Let Love In Série The Love - livro 1 Editora Charme, 2016. ISBN: 1. Romance Estrangeiro CDD 813 CDU 821.111(73)3


Para aqueles que jรก se magoaram e ainda assim encontraram forรงas para deixar o amor entrar.


Meus pais estão mortos. Não me entenda mal, sou marcada por isso. Estou tentando superar, mas, com toda honestidade, nunca ficarei completamente curada. Eles morreram quando eu tinha dez anos de idade; há oito anos. Nunca vou me esquecer desse dia, porque, quando os perdi, eu perdi tudo. Foi um acidente de trânsito que os matou; um caminhão perdeu o controle e a carga dele os atingiu. Como só tinha dez anos, não precisava de muito mais detalhes do que isso. Eles se foram, ponto final. Eu não tenho irmãos, e meus avós paternos e maternos já tinham morrido há muito tempo. Nunca os conheci, pois faleceram antes de eu nascer. Parecia que a minha vida era atormentada pela morte, e eu só estava na quarta série. Mas a vida tem um jeito engraçado de continuar. Na verdade, não se tem escolha. Você acorda, é obrigada a vestir algo, vai sem muito entusiasmo para a escola, sorri e acena no momento esperado, e dá o máximo para sobreviver sem chamar a atenção. Em suma, você enfrenta. Encara o fato de que, aos dez anos, foi arrancada de você a única vida que já conheceu e as únicas fontes de amor e carinho foram abruptamente tiradas da sua vida no meio da noite. Eles só deviam ir a um encontro: jantar e cinema. Velório e enterro não deveriam fazer parte do pacote. Contudo, este foi o pacote que me foi dado: pais mortos e mudança de endereço. Fui tirada da minha pequena e pitoresca casa suburbana em Long Island e levada para o meio do nada. Assim é como eu gosto de chamar o lugar, mas, na verdade, fica a apenas algumas horas de Manhattan. Não existe muita coisa no interior de Nova York; aprendi isso no meu primeiro inverno aqui. Tinha neve e vacas — um monte de ambas. A tia do meu pai, irmã da mãe dele, tia Maggie, me adotou. Ela é doce e carinhosa, mas, convenhamos, uma solteirona de sessenta e seis anos de idade tomando conta de uma criança de dez não é o ideal para ambas as partes. Mas, como disse, eu estava — talvez ainda esteja — em modo de sobrevivência. Não me


lembro muito dos primeiros anos com ela. Parecia que estava no meio de um nevoeiro. Não havia uma luz salvadora no final do túnel, e eu tinha certeza de que estava condenada a viver uma vida cinzenta, sem cores. A neve e as vacas só serviam para realçar esse esquema de cores. O primeiro vislumbre de cor veio na forma de uma ruiva cheia de vida. Ela se sentava ao meu lado na sétima série — éramos organizados em ordem alfabética, e Melanie Crane vinha bem depois de mim, Madeleine Becker. Seu rosto era coberto de sardas e ela vivia com um largo sorriso no rosto quase o tempo todo. Era difícil não notá-la, não ser gentil ou não se abrir com ela. Ainda me lembro da nossa primeira conversa. — Qual é a sua cor favorita? A minha é roxo. Não aquele roxo escuro, mas lavanda ou lilás. É tão bonito. Lavanda também é a minha flor favorita, elas têm um cheiro tão bom. Meu quarto inteiro é roxo. É tão a minha cara! Ok, não foi bem uma conversa e sim um monólogo, mas, quando ela falou comigo, algo dentro de mim se abriu um pouquinho. A parte que me lembrou de que eu era apenas uma menininha, e que o para sempre era um longo tempo para viver submersa no mar de solidão cinzenta que me engolia, me arrastando cada vez mais para baixo. Meus lábios se curvaram no mais ínfimo dos sorrisos e isso foi tudo o que ela precisou para saber que eu estava ali em algum lugar. Talvez ela tivesse algum tipo de sexto sentido para saber que eu estava triste. Não tive certeza naquela época; entretanto, quando olho para trás, vejo claramente que tinha. Melanie é a pessoa mais gentil, carinhosa e amável que já conheci. É o tipo de pessoa que não tem um osso maldoso no corpo, e, por causa disso, da minha necessidade de bondade, amor e calor humano, nos tornamos melhores amigas desde então. Depois de elogiar a cor roxa, ela me convidou para ir à sua casa no dia seguinte. Quando falei com tia Maggie sobre o convite, ela ficou eufórica, dizendo que “seria bom para mim” finalmente fazer uma amiga. Entrar na casa de Melanie na tarde seguinte foi como voltar ao passado. A casa era a própria definição de calorosa e aconchegante: uma poltrona e um sofá de dois lugares de cor chocolate harmonizavam a sala de estar, mas o resto era arejado e iluminado, com variações de tons azulpálido e verde-água. Era um lar, o lar de outra pessoa, mas um lar. A estante de livros estava abarrotada de livros infantis e fotos de família, um contraste gritante com a mesa de centro forrada com toalhinha de renda e coberta com quinquilharias de gente velha, que caracterizava a sala de estar da tia Maggie. Eu sei que parece clichê, mas o que realmente fez parecer um lar foi o cheiro. Era uma mistura de algum tipo de purificador de ar com essência de primavera e cookies recém-assados. Ninguém nunca fez cookies para mim, exceto minha mãe. Senti saudade dela na mesma hora, mas não remoí esse sentimento por muito tempo porque Melanie agarrou minha mão e me guiou até a cozinha, onde sua mãe estava colocando vários cookies de chocolate num prato para nós. — Oi, querida, como foi o seu dia? — A voz da Sra. Crane reverberou por mim, mas tudo que ouvi foi a voz da minha mãe cantando canções doces e reconfortantes em meu ouvido quando eu ficava doente, me despertando do sono quando ficava sonolenta, cantando canções de ninar quando tinha pesadelos. — E você deve ser a Madeleine. Já ouvi muito a seu respeito pela Melanie. Ela não consegue manter a boca fechada, não é? Consegui sussurrar um “oi”, mas isso nunca funcionaria com a Mamãe Crane. Ela insistiu que eu


a chamasse assim. Tudo nela era tão maternal — o cabelo ligeiramente grisalho, olhos azuis brilhantes num rosto redondo e afetuoso, e, assim como Melanie, tinha sempre um sorriso no rosto — que não precisei de um segundo pensamento para concordar em chamá-la de Mamãe Crane. Mas tarde, soube que o marido da Mamãe, James, foi o único e verdadeiro amor de sua vida. Ele era arquiteto e teve um acidente de trabalho grotesco. E, num instante, ele foi arrancado de sua vida. Eles ficaram casados menos de um ano, e ela estava grávida de seis meses de Melanie quando ele morreu. Quando descobri tudo isso, soube que queria ser igual à Mamãe. Não que eu quisesse perder o amor da minha vida ou algo parecido, mas queria aprender como lidar com a perda e a mudança de vida de uma forma graciosa e forte. Eu queria sobreviver, assim como ela. Melanie e eu passamos o resto daquela tarde — e praticamente cada minuto livre de nossa existência adolescente — em seu quarto, cantando músicas da nossa boy band favorita, assistindo filmes de menininhas, experimentando penteados e maquiagens e, ocasionalmente, fazendo o dever de casa. Mas, entre todos aqueles momentos insignificantes entre cantar, dançar e sonhar acordada, algo milagroso aconteceu. Eu voltei à vida. Eu estava feliz. Fazer parte da família de Melanie me fez sentir completa novamente, e, quando a tia Maggie faleceu de um ataque cardíaco fulminante aos setenta e quatro anos, na primavera do nosso último ano do ensino médio, foi uma coisa natural eu me mudar para casa de Melanie e da Mamãe. Eu praticamente já morava lá mesmo. Por isso, apesar da tristeza de ter que dizer adeus à única família que me restava, a mudança foi fácil.

Agora é final de agosto, e Melanie e eu estamos nos preparando para nos mudarmos para nosso dormitório na Universidade de Ithaca em poucos dias. Passamos horas vendo fotografias velhas, aquela coisa toda de relembrar, mas, com toda honestidade, não estou muito interessada em reviver o passado. Mesmo que meu tempo aqui com as Cranes tenha sido só amor, sinto falta da minha família. Ter que mudar da casa delas me faz perceber que sou realmente sozinha. Encontro uma foto do ensino fundamental e fico chocada com a tristeza que é mostrada nos traços do meu rosto. Meu corpo inteiro cede com o peso da minha vida. As lágrimas caem pelas bochechas assim que olho para quem eu costumava ser, e não consigo impedi-las. Eu quero um recomeço. Ser feliz pelo menos uma vez na vida. Quero muito me amar e amar a minha vida; saber que alguém realmente me ama. Quero minha família de volta, e ver essa foto só me faz querer tudo isso ainda mais. — Você acha que devo levar minhas botas Ugg? Não quero arruiná-las na neve, mas são tão confortáveis. Não sei se consigo deixá-las para trás. Mad? Maddy? Alô, Terra chamando Senhorita Madeleine? Você está aí em algum lugar? Sério, dá um tempo de vez em quando, Mels. Quando me viro para ela, meu rosto coberto de lágrimas mostra o meu péssimo estado emocional. Ela afunda ao meu lado, na cama de babados lilás, e passa o braço em volta de mim.


— Qual é o problema, Maddy? Por que as lágrimas? Esse é um momento feliz. Nós vamos dar o fora daqui e estaremos por conta própria em alguns dias. — É exatamente por isso, Melanie. Vou sentir falta desse lugar. O único lar de verdade que eu já tive. Não tenho mais nada nem ninguém. — Mesmo com o nó na garganta, consigo falar. — O que você quer dizer com “vou sentir falta desse lugar”? — Seu rosto tem uma expressão de genuína confusão. — Eu quero dizer... Eu... bem, o que... — gaguejo, pois não consigo encontrar as palavras certas para expressar meus medos. — Melanie, os últimos meses em que fiquei aqui, morando com você e a sua mãe, foram os melhores. Ela abre a boca para concordar, mas a interrompo para que eu possa terminar. — Foram definitivamente os melhores dias da minha vida, e você sabe exatamente quão triste ela tem sido e como não é fácil dizer que fui verdadeiramente feliz. Mas estamos nos mudando, bem, quero dizer, eu estou. Sua mãe foi muito gentil me aceitando aqui por alguns meses, mas estarei por conta própria em poucas semanas, e, por mais excitante que seja dividir um dormitório com você, estou triste porque não terei mais um lar de verdade. As lágrimas caem com força nesse momento e minha frustração toma conta de tudo. Jogo as mãos para o ar e tento colocar para fora toda a minha explosão emocional com sarcasmo. — A quem estou enganando, Melanie? Não tive um lar nos últimos oito anos! — Volto a cair na cama e bufo de frustração. — Essa é definitivamente a coisa mais ridícula que já ouvi, Madeleine Renee Becker. — A voz da Mamãe Crane vem do lado de fora da porta do quarto. Ela se move rapidamente e senta-se do meu outro lado, me imprensando entre Melanie e ela. — Essa tem sido a sua casa desde que Melanie a trouxe aqui pela primeira vez. Suas correspondências até chegam aqui! Isso faz com que eu sorria. — Mamãe C, tudo bem. Você não tem mais que tomar conta de mim. Já fui fardo suficiente nesses últimos meses, e não posso imaginar tê-la... — Agora, cale essa sua linda boca com todos esses “ter”. Você mora aqui porque queremos. Amamos você, não porque seja como uma filha, mas porque você é minha filha. É assim, puro e simples. Você pode ter vivido com a sua tia Maggie, mas fui eu quem tive o privilégio de vê-la crescer e se transformar nessa linda mulher que é hoje. Malditas lágrimas. Elas. Não. Param. Quando finalmente consigo colocar um pouco de ar nos pulmões novamente, digo que a amo também, mas não consigo tirar a incerteza de que, uma vez que eu for embora daqui, não terei mais um lar. — Você tem certeza, Mamãe C? Não quero ser um incômodo. Tenho certeza de que, quando Melanie vier para casa nas férias e feriados, já vai ser estressante o bastante sem ter que se preocupar comigo. — Maddy, você não entendeu? Vai ser mais estressante se você não estiver aqui. Vou ficar dia e noite imaginando onde está e quem está tomando conta de você. Aqui é o seu lar. Entendeu? — O tom de fim de discussão em sua voz me faz sorrir e suspirar de alívio. — Agora, limpe esse lindo rosto e desça, o jantar sairá em vinte minutos.


— Sua mãe é a melhor, Mel. Tenho certeza de que estaria morando no velho carro batido da tia Maggie, se não fosse por ela. — Eu sei, quando crescer, quero ser como ela. Entretanto, com um pouco menos de cabelos grisalhos. — A provocação de Mel faz com que eu caia na gargalhada, e com isso minha pequena explosão acaba. Nós empacotamos as últimas coisas e limpamos tudo antes do jantar. A tristeza ainda está lá, sob a superfície, mas, pela primeira vez, a vida parece estar começando a ficar boa — muito boa.


Depois do jantar, Melanie e eu começamos a nos arrumar para uma festinha de despedida. Não é bem uma festa somente dedicada a nós; vamos com um grupo de amigos até o lago para uma despedida antes que todos comecem a ir embora na próxima semana. Cada um está seguindo seu caminho, e, mesmo que tenhamos jurado manter contato, algo dentro de mim sabe que isso não vai acontecer. Chamem-me de cínica, mas é como se eu já soubesse que não posso contar com ninguém na minha vida, além da Melanie e da Mamãe C. É assim que é. Jay vai estar lá também. Estamos juntos há seis meses, mas, apesar de estar indo muito bem, não acho que esteja apaixonada por ele. Na verdade, sei que não estou, e o triste é que eu quis que fosse desse jeito. Sei que é bobeira e até clichê, mas, se eu não amá-lo, ele não poderá me machucar. Se eu não me aproximar, não haverá um doloroso vazio em minha vida quando ele se afastar. Autopreservação é uma faca de dois gumes; ela te mantém segura, mas a um grande custo. Não sei ao certo se algum dia vou realmente deixar alguém entrar, mas, ainda assim, em contrapartida, deixar alguém entrar e compartilhar quem eu sou e toda a minha existência é realmente algo que eu quero. Sou a primeira a concordar que sou muito jovem para esses tipos de sentimentos, mas, merda, perder os pais aos dez anos te faz crescer rápido. Jay é o típico “bom garoto” americano. Uma bela aparência, cabelo loiro claro e profundos olhos castanhos. Tem 1,82m de puro músculo, mas nada como “Eu fico dez horas por dia na academia”. Ele é magro e lindo. Sim, absurdamente lindo; essa é a melhor maneira de descrevê-lo. Ele quer mais do nosso relacionamento do que eu; já me disse isso várias vezes. Se dependesse só dele, estaríamos “transando como coelhos” — palavras dele, não minhas. Pararíamos apenas para recuperar o fôlego e comer algo. Mas não estou nessa vibe ainda, e não sei ao certo se estarei algum dia. Quer dizer, já fizemos quase tudo, mas, bem, você sabe... Ele é doce, gentil e muito divertido, mas não consigo amá-lo. E se eu não o amo, com certeza não posso me entregar a ele. Não sou muito conservadora ou algo parecido — não sou contra o sexo antes do casamento.


Não é por isso que não vou transar com ele. Apenas não o amo, e acho que, se você vai entregar seu corpo a alguém, precisa estar apaixonada por essa pessoa. Se isso me faz conservadora, então tá, tudo bem. Depois que Melanie termina de arrumar o cabelo, entra no quarto e deixa escapar um longo e alto assobio. — Puta merda, garota! Você está gostosa! — Suas palavras fazem minhas bochechas aquecerem e ficarem vermelhas. — Pare de corar, Maddy. Um dia, você vai perceber quão bonita é. Não quero parecer superficial, mas você acha que conseguiria um cara como o Jay se não fosse linda? — Sim, talvez, Mel. Só não vejo isso tudo, mas me acho uma garota bonita como qualquer adolescente se acha. Um dia eu chego lá, quem sabe. — Até eu consigo ouvir a falta de convicção nas minhas palavras. Sei que não sou completamente desprovida de boa aparência, mas não me sinto linda. Nunca tive um laço de mãe e filha; ela nunca teve a chance de me ensinar como passar maquiagem ou a me vestir de forma a realçar as minhas melhores qualidades. Tive que descobrir tudo isso por conta própria. E ainda estou descobrindo. Assim que Melanie sai do quarto para falar com a Mamãe C sobre os nossos planos para a noite, dou uma espiada no espelho para tentar ver o que a Melanie vê. Pernas? Concordo. Tenho 1,70m, afinal de contas. Elas são esguias, mas não muito magras. Corro todas as manhãs, então elas sempre foram musculosas, mas de um jeito feminino — pelo menos, espero que sejam femininas; volumosas não é uma palavra que quero que alguém use. Acho que o short azul-marinho que estou usando, que não é muito curto nem muito comprido e com alguns plissados, mostra minhas pernas muito bem. As anabelas brancas com lacinhos fofos e delicados em cada tornozelo dão um toque final perfeito. E a blusa cinza simples completa o visual e abraça minhas curvas. Talvez exista algo na teoria da Mel, no final das contas. Meu cabelo loiro dourado, um pouco queimado do verão, está com ondas suaves descendo em cascata até no meio das costas. Geralmente o deixo preso, mas, hoje à noite, Melanie insistiu que eu deveria deixá-lo solto e ondulado. Deixei que ela brincasse de Barbie comigo e não posso dizer que odiei. Porém, o verdadeiro show são os meus olhos. Eles têm um tom de verde vibrante e brilhante. Parecem quase falsos, mas, assim que me inclino para dar uma olhada mais perto no espelho, consigo ver pequenas manchas douradas neles que sei que nenhuma lente de contato poderia replicar. Sempre amei meus olhos. Herdei-os da minha mãe; vi em algumas fotos que tenho da minha infância. Mesmo que eles fossem escuros, embaçados, de um marrom maçante, iria adorá-los, contanto que fossem da minha mãe. Foi realmente a única coisa dela que me restou. Deixei Melanie fazer a festa ao arrumar meu cabelo, mas não abri mão de manter minha maquiagem simples: blush suave rosa pálido, brilho labial claro e sombra dourada suave são tudo o que preciso. Uma passada leve de rímel e o visual está completo. Ok, então a teoria da Melanie, definitivamente, tenha algum mérito. Realmente pareço gostosa. Talvez tenha sido o choro catártico que tive mais cedo com Mamãe C e a Mel que me fez sentir um pouco mais leve, porque realmente me sinto bem hoje à noite. Sei que nem tudo na vida é perfeito — Deus, sei disso melhor do que ninguém —, mas sinto uma mudança chegando.


Estacionamos o velho Honda Civic da tia Maggie e vamos em direção ao lago. O pessoal já tinha acendido a fogueira e as chamas estavam indo em direção ao céu noturno. Todo mundo está descansando ao redor dela e não estão bebendo, ainda. Não sou de beber muito, nunca fui. Não me entenda mal, já pensei sobre isso, atenua a dor e tudo mais, mas não vejo sentido. A neblina induzida pelo álcool vai se dissipar eventualmente; infelizmente, a dor é para sempre. Um rock alto toca no carro de alguém. Reconheço vagamente a letra de We are Young, do Fun, enquanto vou em direção ao grupo. As garotas, Katie, Julia e Lyndsay, já estão em pé e dançando. Mel se junta a elas e eu vou em direção ao Jay. — Oi, linda! Nossa, você está... um... nossa... uau, você está linda essa noite — ele consegue falar antes de me dar um beijo casto e doce na bochecha. Ele sabe que não gosto de demonstração pública de afeto. — Obrigada, Jay. Você sempre diz as coisas mais doces. Ele parece um pouco fora do ar, distraído, mas não sei ao certo com o quê. — Quer dar uma volta? Está um pouco mais calmo perto da água. Sim, definitivamente distraído. Sua habitual calma e confiança estão completamente ausentes quando ele agarra a minha mão e me leva até a margem do lago. — O que foi, Jay? Você parece distraído hoje. Tem algo errado? — Se você considerar que minha garota está indo embora daqui a dois dias e ela ainda não me deu uma resposta de como vamos ficar, então, sim, estou um pouco distraído. — Calma e confiança estão definitivamente ausentes; raiva e mágoa se fazem presentes. — Jay, nós já conversamos sobre isso antes. Não acho que algo à distância vá funcionar. Por que não podemos continuar amigos e ver o que acontece? Só estamos juntos há alguns meses. Não é nada sério ainda. Saem a raiva e a mágoa e vem a irritação. — Não é sério? Maddy, é realmente assim que você se sente sobre nós? Venho tentado te dizer o que sinto por você já faz tempo, mas, toda vez que tento, você muda de assunto, me afasta. E daí que estamos juntos só há alguns meses? No meu coração, parece que faz muito mais tempo. Seu tom muda novamente e posso dizer que ele está tentando se controlar. Está sendo romântico e doce. E eu tenho uma enorme queda por ele quando está assim. Posso não estar apaixonada, mas ele, definitivamente, tem um pedaço do meu coração. Ele aninha minha mão dentro da sua e me puxa até a areia. Sentamos olhando para a água cintilante pelo que parece uma eternidade. Nenhum de nós parece querer quebrar o silêncio, mas ironicamente ambos começamos a falar ao mesmo tempo. — Você primeiro — digo a ele. — Não, Maddy, primeiro você. Por favor, converse comigo.


Suas palavras doces são demais para mim. Sei que vou quebrar seu coração, mas não posso mais fazer isso. — Sinto muito, Jay. Realmente, sinto. Não quis afastá-lo ou mudar de assunto. Precisamos mesmo conversar sobre nós. Acho que estou com medo. É assustador pensar em me afastar daqui e começar tudo de novo em alguns dias. — Mas, Maddy, é por isso que estou aqui. Eu... ah, merda, não tem um jeito fácil de falar isso, porque estou com tanto medo de assustá-la, mas eu te amo. Já sei disso há algum tempo, mas sabia que você queria levar as coisas devagar e venho tentando fazer isso, de verdade. Mas você é tão doce, engraçada e, puta merda, é a garota mais linda na qual já pus os olhos. Meu peito se contrai e não consigo colocar oxigênio suficiente nos pulmões. Jay nota o choque em meus olhos. Ele segura meu rosto em suas mãos e esfrega gentilmente minha bochecha com os polegares. — Maddy, eu te amo. Quero ficar com você. Esta noite e quando for embora. Não quero que a gente termine. — Sua súplica é muito dolorosa de ouvir porque, há poucos minutos, eu estava pronta para levar essa conversa por um caminho totalmente diferente. Ele interpreta meu silêncio como uma deixa para continuar. Inclina a cabeça em minha direção, mas estou tão chocada que não consigo sequer me mover um centímetro. Sua boca encosta na minha de um jeito suave e inocente. A língua dança por meus lábios, implorando por permissão para aprofundar o beijo. Eu permito, não porque quero continuar com isso, mas porque sei que será nosso último beijo. Ele move uma das mãos e a coloca atrás da minha cabeça para que possamos ficar mais próximos. Sua língua dança dentro da minha boca e a minha encontra suas investidas. É intenso, talvez o beijo mais apaixonado que já compartilhamos. Mas estamos nos perdendo nele por duas razões completamente diferentes e isso é o suficiente para me fazer me afastar. Quando o faço, ele olha em meus olhos. Os deles estão cheios de tesão e luxúria. Sinto-me péssima, mas tenho que dizer isso. Coloco as mãos em seu peito, não para acariciar, mas para colocar alguma distância entre nós. — Jay, eu não posso ficar com você. Não estou apaixonada por você. Honestamente, nem sei dizer o que é estar apaixonada. Você é gentil, doce e um ótimo cara, mas eu não posso. Sinto muito, Jay, não podemos mais ficar juntos. Minhas palavras o paralisam. Ele murmura algo que não consigo ouvir, mas que parece muito com “porra”. Seu maxilar está apertado com tanta força que é muito difícil entender com certeza. Saiu toda a doçura e o romantismo, dando lugar a MUITO IRRITADO! Esmurrando a areia, ele me faz dar um pulo para trás. A força em suas palavras me faz tremer ainda mais. — Que porra é essa, Madeleine, por que não? Qual é a porra do seu problema? Eu deveria ter previsto isso. Você nunca quer conversar comigo. Nunca se abre. Merda, quase nem nos vemos mais. Estou aqui abrindo meu coração para você, dizendo que te quero, que quero nós dois, e você está sendo uma cadela com tudo isso. Quer saber? Ótimo, vamos fazer do seu jeito. Nós terminamos. Se enfie no seu pequeno mundo e me deixe aqui. — Ele se levanta e começa a andar


pela margem do lago. Quando o alcanço, ele está encarando o nada, pensando em Deus sabe o quê. Tento segurar suas mãos para lhe oferecer o pouco conforto que posso, mas ele se afasta no segundo em que sente meus dedos encontrarem os dele. Dando um passo atrás, seu olhar furioso me faz desequilibrar um pouco. — Quer saber, Maddy? Retiro o que eu disse ainda há pouco. Não te amo. Nunca poderia amar alguém tão fria e fechada como você. — Ele não fala gritando, o que deveria ser mais fácil de compreender. Suas palavras são quase um sussurro; um venenoso e doloroso sussurro. Assustome visivelmente com elas e as lágrimas que estou desesperada para não derramar fazem sua aparição. As lágrimas rapidamente são seguidas de soluços angustiantes que fazem meu peito arfar. Caio na areia e cubro o rosto. Choro porque acabei de magoar Jay, mas, mais ainda, porque eu o magoei. Justo quando pensei que, talvez, apenas talvez, poderia começar a me sentir melhor sobre a minha vida, tudo é arruinado novamente ao meu redor. Sei que não amo o Jay, mas não amá-lo me faz sentir como se nunca fosse amar ninguém. Se não posso amar alguém como ele, então estou tão quebrada que não é possível consertar. Jay está mortalmente parado à minha frente. Leva alguns minutos para que encontre sua voz, mas, quando olho para ele, vejo-o tentando recuperar o fôlego em meio às lágrimas. Ele se afunda do meu lado e viro meu rosto para ele. — Você quebrou meu coração, Maddy. Espero que um dia eu supere, mas eu te amo, e é por te amar que vou dizer isso. Você merece amor. Você não é quebrada nem vazia como pensa que é. Ele coloca os dedos sobre meus lábios quando tento interrompê-lo e enxuga as lágrimas dos meus olhos, com intenção de terminar o discurso “Maddy vale a pena amar”. — Você é. Agora me deixe terminar. Sei que perder seus pais foi difícil e que, de muitas maneiras, você ainda está se recuperando, mas isso nunca vai melhorar até que se permita melhorar. Você precisa deixá-los ir e seguir sua vida. Sei que merece ser amada. E, porra, eu estava esperançoso de que fosse merecedor o suficiente de ter essa honra, mas não sou. Só espero que um dia você perceba que merece isso, que seja capaz de deixar o amor entrar. Ele se levanta e segura minha mão, me puxando para ficar em pé com ele. Os soluços pararam e limpo as lágrimas. Quero dizer algo, mas não tenho as palavras certas — e quais seriam as palavras certas nesse momento? — Jay, sinto muito. Eu realmente sinto. — Sim, é tudo o que consigo dizer. Ele é todo amoroso e sincero e eu, toda fraca e deprimente. — Shh. Tudo bem. Sou um garoto grande, vou conseguir lidar com isso. Vamos voltar para o grupo e aproveitar o resto da noite. — Tá bom. Parece uma boa ideia. — Fraca e deprimente, essa sou eu. O resto da noite passa como um borrão, principalmente porque todo mundo está mais do que ligeiramente embriagado. Mel e eu nos afastamos do grupo por alguns minutos, e contei a ela o que aconteceu com Jay. Ela não ficou surpresa. Conhecia os meus problemas melhor do que ninguém. Ela me disse que entendia como me sentia, mas que também concordava com o Jay —


toda aquela besteira de que eu era merecedora de amor e que deveria parar de ser fechada. A teoria da Mel provou estar certa mais cedo naquela noite. Talvez eu deva seguir seus conselhos nesse sentido tambĂŠm.


Eu queria recomeçar e é um recomeço que vou ter. Ok, admito, nunca terei meus pais de volta, mas um novo começo está, definitivamente, no horizonte. Depois que Jay e eu terminamos e Mel e eu tivemos uma conversa profunda mais tarde naquela noite, fiz a mim mesma algumas promessas. São bem simples, mas espero conseguir cumpri-las. 1. Escolher ser feliz; 2. Apreciar a beleza; 3. Deixar o amor entrar. Como eu disse, simples, revigorantemente simples. Melanie e eu nos mudamos para o nosso dormitório na faculdade ontem, e, mesmo que tenha sido difícil a nossa despedida com a Mamãe C, será excitante e divertido estarmos por conta própria. Nossas companheiras de dormitório também se mudaram ontem. Elas são ótimas. Na verdade, além de ótimas, Lia e Camryn são primas. Elas já estão no segundo ano, ou seja, além de termos colegas fodonas, garantimos também guias turísticos. Nosso dormitório é show. Na verdade, eu nem chamaria isso de dormitório; é um apartamento. Melanie e eu dividimos um quarto, e Lia e Cammie, o outro. Não são quartos pequenos, cada um tem espaço suficiente para cama, escrivaninha, cômoda e um armário inteiro para cada uma. Compartilhamos uma área comum mobiliada pela faculdade, que é um pouco tediosa, mas, depois, todas nós acrescentamos um toque pessoal e realmente nos sentimos em casa. Tem uma cozinha modesta: fogão e geladeira do tamanho certo para o apartamento. A pia fica numa pequena bancada azul pálida de fórmica em forma de L, que também serve para café da manhã, do lado oposto aos eletrodomésticos. Não é de alta tecnologia ou algo parecido, mas é funcional, e, pela primeira vez na vida, é meu — realmente e verdadeiramente meu. Essa é a primeira vez na minha vida que foi escolha minha morar em algum lugar, que realmente me senti à vontade o suficiente para colocar meu toque


pessoal em algo. Lia, Cammie, Mel e eu estamos indo almoçar na pizzaria local, e estou entusiasmada de ver como as coisas mudaram nos poucos dias depois que me mudei. Sinto-me mais livre, mais leve. Sinto-me bem, muito bem, e não consigo parar de sorrir por causa disso. — Então, o que vocês vão fazer hoje à noite? — Cammie interrompe meu devaneio. — Haverá uma festa na casa do Jack. Ele disse que vocês deveriam ir, que adoraria conhecê-las. Jack e Cammie são namorados desde o ensino médio, e, ao contrário de mim e Jay, eles se amam o bastante para fazerem as coisas funcionarem. Estão juntos há três anos e meio, mesmo enquanto Jack estava começando a faculdade e Cammie terminando o ensino médio, e, pelo que Cammie nos falou até agora, eles continuarão juntos por um longo tempo. — Ah, meu Deus! Vocês definitivamente deveriam vir. As festas do Jack são as melhores. Por favor, por favor, por favor! Vocês não vão querer ficar sem suas companheiras de dormitório durante toda a noite, vão? — Essa foi Lia. Ela é um pouco alegre demais, para não dizer outra coisa. Gostaria de ter um quarto de sua energia e personalidade, embora, considerando as novas promessas que fiz a mim mesma, passar algum tempo com Lia pode estar no meu futuro próximo. Mel e eu nos olhamos e falamos ao mesmo tempo “claro que vamos”. Passamos o resto do almoço conversando sobre como crescemos, de onde somos, como estamos nos sentindo em relação à faculdade. Bem, elas compartilharam, eu apenas sorria e assentia. — Por que está tão quieta, Maddy? — Cammie questiona, e imediatamente congelo. Não estou constrangida ou envergonhada por meus pais estarem mortos, mas queria deixar isso para trás, e aqui está o fato me encarando. Respiro fundo e escolho ser feliz, assim como minhas novas regras dizem para ser. — Não há nenhuma razão, realmente. Não tenho muito o que compartilhar. Meus pais faleceram quando eu era pequena. Minha tia me adotou. Ela faleceu na última primavera. Então, Mel e a mãe dela meio que me adotaram. Morei com elas nos últimos meses e agora estou aqui por conta própria. — Uau, então é a só isso que se resume a minha vida. Atônitas em silêncio, nem Lia nem Cammie conseguem formular uma resposta mais eloquente do que um “oh”. Mas não leva mais do que um segundo para que Lia retorne com sua energia. — Você não está por conta própria. Você nos tem e nós temos você. Não sei como é perder os pais, nem vou fingir que sei, mas, se algum dia você precisar de alguém para conversar sobre isso, estou aqui. — Ela sorri, me tranquilizando. — Agora, vamos terminar a pizza e nos preparar para a festa mais tarde. Cammie e Mel levantam seus refrigerantes e brindam um “saúde” à declaração de amizade que Lia fez. — Digo o mesmo, Maddy — Cammie fala. — Estou aqui para você. Vamos nos focar em coisas alegres e nos divertirmos muito essa noite. Vai ser bom para quebrar o gelo antes de as aulas começarem na segunda e sei que Jack está louco para conhecê-las. Seus colegas de casa estão muito animados também. Só para saberem, eles são uns colírios para os olhos — os colegas, quero dizer. Não me levem a mal, eu amo o Jack mais do que tudo, mas, ah, cara, ele tem uns amigos


lindos. O pequeno discurso da Cammie faz todas nós rirmos. Agora estou definitivamente ansiosa por hoje à noite.

A casa do Jack está praticamente vibrando com a batida da música. Está tão alta que não consigo decifrar qual música está tocando. Cammie abre a porta da frente e nos arrasta atrás dela. Ela manobra o caminho através da multidão, sobe as escadas e para na frente de umas das três portas no corredor, procurando em sua bolsa uma chave. — Esse é o quarto do Jack. Nossas coisas ficarão seguras aqui. Sou a única que tem a chave, além dele. — Cammie enfia a chave no seu bolso de trás e colocamos nossas bolsas no closet. Antes de descermos, Cammie nos fala sobre os colegas de Jack. Ele divide a casa com outros dois caras, Logan O’Rourke e Reid Connely. Estão todos no último ano e dividem a casa desde o primeiro ano aqui. Jack estuda fisioterapia e espera montar sua própria clínica quando terminar a graduação. Logan é a estrela do futebol americano. Cammie brinca que ele nasceu com uma bola de futebol nas mãos. Reid, aparentemente, é a ponta solta do grupo. Ele já mudou de curso tantas vezes que nem Cammie tem cem por cento de certeza de qual é. Ela não sabe nada sobre a vida dele; ninguém sabe. Talvez os caras saibam algo sobre ele, mas, cada vez que Cammie pergunta a Jack, ele diz: “Caras não conversam sobre essas merdas”, e ela apenas deixa pra lá. A única coisa que ela sabe é que Reid é gostoso. Do tipo, muito gostoso — palavras dela, não minhas. Depois de uma pequena biografia dos meninos, estamos prontas para a festa. A multidão parece ter se multiplicado nos dez minutos que ficamos lá em cima. Cammie nos leva até a cozinha e pega alguns copos descartáveis para enchê-los no barril que está no quintal. A casa toda grita “casa de solteiro”. Bem, uma combinação de casa de solteiro/fraternidade. Entretanto, funciona. Não é nada tão sujo que você tenha medo de contrair uma DST se sentar em algum dos sofás, mas também não é tão limpo. Quando chegamos do lado de fora, o rosto de Cammie suaviza e seus olhos brilham. Ela troca olhares com quem eu presumo ser o Jack, que está cuidando do barril. — Olá, moças. — Sua voz transmite suavidade. — Obrigado por terem vindo. Já colocaram tudo no meu quarto? Essas festas podem ficar um pouco loucas. — Sim, estamos bem, Jack. Me serve um pouco? — Lia segura seu copo para que Jack o encha. — Jack, essas são Melanie e Madeleine — Cammie nos apresenta e ele se move para encher seu copo e os nossos. Tomo um gole, e ele percebe o olhar no meu rosto. — Obrigada, Jack, mas não sou muito de beber.


— Sem problemas, Madeleine. Tem água na geladeira. Sirva-se com o que você quiser — Jack instrui. — Obrigada. Uma garota de faculdade que não bebe. Acho que pertenço ao Smithsonian ou algo assim, hum? Ah, e, a propósito, pode me chamar de Maddy. Vou lá dentro pegar um pouco de água. Volto em um minuto. — Escuto “está bem” deles enquanto volto para a cozinha. Tem um grupo jogando moedas na ilha da cozinha e outro alinhando doses na mesa do café da manhã; nada a ver comigo. Apenas dou de ombros, abro a porta e pego uma garrafa de água. Quando estou prestes a me virar para voltar para fora, dou de cara com uma parede sólida de músculos. — Pega uma para mim? — Sua voz é suave e rouca ao mesmo tempo. Com o rosto vermelho, me viro novamente e pego uma garrafa para ele, agradecida pelo frescor que a porta aberta da geladeira me oferece. — Aqui está. — Não consigo tirar os olhos de sua boca enquanto ele leva a garrafa aos lábios. Eles são perfeitos, bonitos e cheios de um jeito completamente masculino. Assisto completamente fascinada enquanto sua garganta se move, engolindo a água em três ou quatro goles. Ele limpa a boca com o antebraço e não consigo evitar de olhar o resto de seu braço desde os bíceps até seus ombros. São iguais aos lábios: perfeitos. Por incrível que pareça, são lindos, total e divinamente perfeitos. Musculosos e bronzeados, seus braços são apetitosos. Meus joelhos vacilam. Meu coração golpeia. Milhares de borboletas abrem asas em meu estômago. Nunca me senti assim antes, nem mesmo com Jay. Sou pega completamente desprevenida. — Obrigado... — Ele encara meu rosto por um minuto e não consigo evitar imaginar se ele está gostando do que vê. Ele limpa a garganta e me tira do meu pequeno devaneio onde o glorioso homem está hipnotizado pela garota de visual um pouco acima da média. É quando percebo que ele está perguntando meu nome. — Maddy. Desculpe, meu nome é Maddy. — Quase engasgo com o meu próprio nome. Idiota. Quando retomo minha habilidade de falar como um ser humano normal, continuo: — Minha colega de dormitório, Cammie, namora um dos caras que mora aqui. — Minha boca fica seca e faço um esforço monumental para que essas simples palavras saiam dela. Ele apenas balança a cabeça em troca e me afasta para pegar outra garrafa de água. Ele está coberto de suor e, quando encosta no meu braço, fica um pouco em mim. Não estou enojada; na verdade... de repente, desejo que ele me deixe toda suada de um jeito totalmente diferente. Ele obviamente acabou de malhar. Está usando uma camiseta cinza leve e short de malha preto. Mesmo encharcado de suor, ele cheira muito bem. É aquela combinação perfeita de suor, água de colônia e homem que tenho certeza que faz todas as mulheres passarem mal. O silêncio está me matando e, assim que ele bebe a segunda garrafa de água, mexo na minha que está à minha frente e digo: — Não sou de beber, então espero que não se importe que roube uma dessas.


— Sirva-se. É apenas água. Vou tomar um banho. Talvez veja você mais tarde, Maddy. E com isso ele se foi. Não me leve a mal, não ligo de vê-lo sair; de costas, é tão glorioso quanto de frente, absolutamente delicioso, mas não me importaria de conversar, ou, uhm, encará-lo um pouco mais. Saber seu nome seria bom, mas, como ele disse que ia tomar um banho, suponho que deva morar aqui. Então, ele deve ser Logan ou Reid. Vou lá para fora e vejo as garotas rindo de algo que Jack está contando. Melanie imediatamente percebe meu rosto corado. — Você está bem, Maddy? Parece uma pouco corada. — Estou bem. Está um pouco quente e cheio lá dentro. Tipo 1,88m de um sólido homem lindo, musculoso e gostoso. Mas mantenho isso para mim. — Vamos, garotas, vamos lá dançar! — Lia, alegre como sempre, está no modo festa total. Ela nos leva para a sala, muda a música para uma batida de techno dance e começa a se mover. É difícil não seguir seu ritmo. Ela é tão divertida. Nós entramos na dela também. A festa está a todo vapor. Cammie, Lia, Mel e eu estamos nos divertindo tanto no nosso pequeno grupo de dança que nem ligo de não estar bêbada como o resto das pessoas. Prometi a mim mesma que escolheria ser feliz, e é exatamente isso que estou fazendo. Danço, danço e danço. Meus braços balançam sobre a cabeça de um jeito suave e preguiçoso, enquanto os quadris balançam no ritmo da batida. Na hora que me viro, olho para as escadas, onde vejo meu homem misterioso de mais cedo descendo. Inclino-me até o ouvido de Cammie e tento manter a voz baixa para que ninguém consiga me ouvir, embora tenha certeza de que a música faz um bom trabalho de encobrir minha pergunta. — Quem é aquele, Cam? Conversei com ele mais cedo, mas não perguntei o nome. Imaginei que fosse Logan ou Reid, já que ele me disse que ia tomar um banho, mas não me disse seu nome. Os lábios de Cammie se curvam num sorriso de reconhecimento na hora em que ela começa a responder. — Aquele, minha querida, é Reid. Eu disse que os colegas de Jack eram um colírio para os olhos! Ele é delicioso, né? Logan não vai estar aqui hoje. Ele tem uma sessão de estudo obrigatória e depois vai assistir filmes para o futebol. “Delicioso” não começa nem a descrevê-lo. Pensei que Jay fosse bonito, mas Reid o coloca no chão. Reid é o epítome de alto, moreno e incrivelmente lindo. E mesmo essa descrição parece não servir. Baseado no traje de mais cedo, lógico que ele malha, mas seu corpo parece ainda mais definido com a camisa preta um pouco solta e jeans desbotado não muito folgado. Seu cabelo castanho, todo bagunçado, ainda está um pouco molhado do banho e posso ver algumas gotas de água no pescoço. Quero lambê-las. Da escada, ele me pega olhando-o e me lança um olhar e um rápido aceno de reconhecimento, calmo e frio, enquanto estou aqui com vontade de pular para cima e para baixo balançando meus braços para que ele venha até mim. Mantenho a calma, embora continue dançando, minha voz


interior me dizendo que seria um vexame ser “toda atiradinha” na minha primeira festa. Em mais ou menos uma hora ou quem sabe quantas músicas mais tarde e meu pé me matando, estou pronta para parar de dançar quando sinto uma mão agarrando meu pulso por trás. Não consigo ver quem é de início, mas posso dizer apenas pelo cheiro; não está tão suado quanto estava mais cedo, mas é a mesma combinação de colônia e homem, com uma nova adição de corpo lavado, que me faz apertar as coxas. — Acho que você me deve uma dança. — O calor de seu hálito em meu pescoço faz minhas pernas se transformarem em gelatina e meu coração pular no peito. — Devo? Pelo quê? — Minha voz soa ofegante até mesmo para mim. Ele me vira para ficarmos cara a cara. — Pela água, claro — ele diz. — Ah, me desculpe, não percebi... — Minha voz falha, e seus lábios se curvam rapidamente num sorriso. Um lindo e pequeno sorriso. Chame-me de doida, mas o olhar em seu rosto é de flerte. Reid está flertando comigo. Bem, estou confusa! — Fica tranquila, Maddy. Estou brincando. Venha, vamos dançar. — Sua voz me relaxa um pouco, mas meu coração se recusa a parar de bater furiosamente dentro do peito. O bastardo está rindo de mim. Bem, você quer jogar, então vou jogar também. Baixo as pálpebras para dar-lhe um olhar sexy e envolvo a mão sensualmente em seu pescoço, trazendo seu ouvido até meus lábios. Sem um centímetro de espaço entre nós, murmuro: — Eu poderia te pagar de volta com mais do que uma dança, Reid. Coloco a mão em seu peito e o afasto um pouco. Vejo suas pupilas dilatarem e escuto uma falha em sua respiração. Ponto para Maddy! — Então você fez uma pequena pesquisa, hein? Tenho certeza de que meu rosto mostra confusão, quando minhas sobrancelhas franzem. Pesquisa? Oi? — Meu nome. Você teve que descobrir quem eu sou, não é? — Ele acha graça e joga novamente. — Claro. Precisava saber quem foi o responsável por me deixar toda quente e suada antes. — Percebo meu erro assim que as palavras saem da minha boca. — Então eu te deixei quente e incomodada, hein? Vamos ver se consigo fazer isso novamente. — Então, ele agarra minha mão e me puxa para a pista de dança. A música abrandou um pouco, não é mais uma batida techno. É suave e rítmica — do jeito que eu imaginaria o sexo, se fosse uma música. Não que eu saiba algo sobre isso. Ele passa as mãos em volta da minha cintura e me traz para perto. De início, não sei onde colocar as mãos, com medo de entrar em combustão instantânea se realmente tocá-lo, então as coloco no ar, sobre a minha cabeça. Movimento errado. Ele levanta seus braços também e acaricia os meus levemente, passando as pontas dos dedos calejados em minha pele, causando arrepios na espinha. Meus mamilos endurecem na hora e é quase doloroso. Tento apertar as pernas para me impedir de convulsionar


aqui mesmo. Quando suas mãos alcançam as minhas, ele entrelaça nossos dedos e leva meus braços para sua cintura para que eu possa explorar seus músculos rígidos e esculpidos das costas. Merda de camiseta que está no caminho. Quero tocar sua pele, mas arrancar a camisa no meio da sala de estar dele não me parece apropriado. Inferno, nada do que eu quero fazer parece apropriado. Ele deve ter visto o olhar em meu rosto porque ri levemente; o ribombar em seu peito igualmente rígido e esculpido passa como ondas através do meu corpo. Nossos corpos se movem juntos como se fôssemos um só; balançando e movendo ao som da música. Suas mãos grandes passam por toda a superfície das minhas costas, mas sempre retornam para a pequena parte de pele exposta entre a blusa e o jeans. Em um determinado momento, tenho certeza de que ele se inclina e inala o cheiro do meu cabelo — apesar de que eu poderia ter imaginado. Estou tão perdida em sentir seu corpo junto ao meu que não consigo ter certeza. Num certo ponto, ele pega meu rosto entre as mãos e nos encaramos por um longo momento. Quando nos encaramos, uau, apenas uau. O oceano azul interminável mais profundo que eu já vi encontra os meus olhos verdes, e fico paralisada. Ele é lindo; isso é incontestável. Mas há algo nesses olhos que os tornam muito familiares para mim. Leva um minuto para eu processar tudo e acho que ele capta o meu olhar interrogativo. Ele me gira como uma bailarina algumas vezes e, em seguida, me inclina na hora em que a música termina. Até o momento em que ele me endireita e libera minha cintura, eu descubro. É dor. É a mesma dor que vejo nos meus olhos tão frequentemente. Sentindo que estou vendo algo que não quer que eu veja, ele abruptamente me solta e agradece pela dança. Tem um corte em sua voz que não tinha antes. A mudança em seu humor é instantânea. Sinto-me fria e desolada pela sua ausência e não consigo ignorar a pontada de ciúmes que sinto quando o vejo pegar uma loira de pernas longas e arrastá-la para o outro lado da sala. No final da noite, Reid e a loira estão de bocas coladas no sofá. Eu não disse mais do que algumas palavras e ele já acabou comigo. Acho que posso escolher felicidade tanto quanto eu quiser, mas isso não significa que posso fazê-la me escolher também.


Tento não pensar em Reid pelo resto do final de semana. Não tenho sucesso. Ele está nos meus sonhos. Posso sentir suas mãos em meu corpo. Posso ver a dor em seus olhos, e dizer que estou curiosa e desejando seria um eufemismo. Quero conhecê-lo mais porque, em nosso pequeno tempo juntos na pista de dança, eu senti algo. Senti bastante, na verdade. Relaxei em seus braços e houve com toda certeza uma conexão, uma que aparentemente ele não quer reconhecer, mas que está lá. Tento não pensar nele, mas, infelizmente, passo a maior parte do final de semana fazendo exatamente isso. Quando meu despertador toca às seis da manhã, já estou acordada. Sempre corro de manhã; uma boa corrida antes do meu primeiro dia de aula é exatamente o que eu preciso. Não tenho aula até às dez e meia e, como não tenho uma ideia de quão seguras são as trilhas locais, vou até o ginásio para correr na esteira. O lugar está calmo. Tem uns caras na sessão de peso e todas as esteiras estão disponíveis. Elas estão dispostas de frente para uma parede de vidro. Posso ver o lado de fora, mas sei, porque passei por elas do lado de fora, que ninguém consegue ver dentro. A parede de vidro dá uma vista panorâmica do lago à distância. O sol ainda está baixo no céu e o rosa e o laranja que refletem na água são absolutamente lindos. Definitivamente terei que achar uma trilha ao ar livre logo. Alongo-me, coloco meus fones, aumento o volume, defino o ritmo e corro. Quando a música The Dog Days Are Over, de Florence and the Machine, estoura em meus ouvidos, sinto pela primeira vez na vida que estou correndo atrás de algo e não fugindo disso. Quarenta e cinco minutos e oito quilômetros depois, saio da esteira e limpo o suor do rosto. Sinto-me bem, muito bem. Trabalhei toda a minha confusão do final de semana. Sei que é bem provável que eu cruze com Reid novamente, então decido fingir que aqueles momentos que compartilhamos, ou que pensei que tivéssemos compartilhado, nunca aconteceram. Prometi a mim


mesma que escolheria felicidade e Reid me deixando desejosa na pista de dança para dar uns amassos em outra garota não é felicidade. No caminho para os chuveiros, dou uma olhada na sala de peso. Apenas quando eu decido esquecê-lo, lá está ele. Reid está com um grupo de amigos, rindo. Parece que eles realmente estão curtindo a companhia um do outro enquanto malham. Como é que pode? Ele estava tão malhumorado e frio na sexta à noite e agora parece uma pessoa completamente diferente. Está sorrindo e gargalhando e tem um brilho em seus lindos olhos azuis que é de tirar o fôlego. Na hora em que me vê observando, ele endurece. É como se estivesse se preparando para um duro golpe. Não fiz nada a não ser olhá-lo e ele está atirando punhais em mim. Qual a merda do seu problema? Qual foi a merda que eu fiz para deixá-lo tão irritado? Por que estou falando tanto a palavra merda? Ele deve trazer à tona a minha parte que fala palavrão. A força de vontade que nasceu na corrida se esvaiu instantaneamente, então vou para o vestiário. Mais ou menos vinte minutos depois, Reid chega à saída ao mesmo tempo que eu. Sorrio para ele, tentando ser legal, enquanto seu rosto permanece duro como uma pedra — levemente mal barbeado, mas uma pedra deliciosa. Tenho uma escolha: posso ficar irritada e mal-humorada ou posso ser legal e calma. Enterro a raiva, relembro minhas promessas e escolho a última. — Oi. Reid, certo? Acho que nos conhecemos nesse final de semana na festa do Jack. — Tento passar por inocente, esperando que os olhares que ele me lançou antes possam ser apagados pela minha falsa confusão. Ele sorri para mim, sabendo que estou mentindo. Através de seu riso abafado, ele diz: — Isso, Reid. Ashley, certo? — Agora é a vez dele de mentir. Reviro os olhos e tento morder minha língua sarcástica, mas falho miseravelmente. Inclino-me um pouco em sua direção e digo sedutoramente: — Se você não tivesse me deixado depois de uma dança pela Senhorita Loira de Pernas Compridas, então definitivamente lembraria do meu nome. Não haveria uma maneira de você ter esquecido depois de gritá-lo a noite toda. — Tudo bem, sou virgem, mas definitivamente não sou pura, e parece que Reid traz à tona não só a Maddy que fala palavrão, mas também a Maddy sexy. Ele fica parado na porta, boquiaberto. Passo por ele para ir à aula. Estou atravessando a quadra quando o sinto me segurar. — É Maddy. E mesmo que eu não tenha tido o prazer de chamá-lo a noite toda, não teria esquecido seu nome. Então, por que você está me seguindo? Sua pergunta me deixa mais do que um pouco confusa, porque é ele quem está me seguindo pela quadra. — O que você quer dizer com isso? — Na academia, você estava me perseguindo ou algo assim? — Ele está tentando fazer a pergunta parecer mais leve, mas tem um tom sério em sua voz. Ele realmente acha que estou seguindo-o. Ele não percebe que não sou uma inocente caloura desesperada? Dou um suspiro exasperado e me aproximo um pouco dele.


— Não, Reid. Definitivamente não estou te seguindo. Eu queria dar uma corrida antes da aula dessa manhã. Nem sabia que você estava na academia. Não tinha te visto até que eu terminei a corrida e você deu aquele olhar sórdido para mim. Não ia nem te dizer oi se não tivesse te encontrado na porta. Satisfeito? Você pode seguir feliz seu caminho agora que sabe que eu não tinha a intenção de te ver hoje. Volto a caminhar em direção à biblioteca para ler um pouco antes de a aula começar, mas suas pernas longas me alcançam enquanto tento aumentar a distância. — Desculpe, Maddy. Não tive a intenção de te irritar. Realmente não tive. Acho que apenas fiquei surpreso de te ver lá. Surpreso por vê-la correr daquele jeito. Mas não estou surpreso de ver o quão explosiva você é. — Suas palavras são um contraste gritante do olhar gelado que ele me deu antes. São doces e sinceramente arrependidas. — Ah, Reid, você não faz ideia — digo para ele. Por alguma razão, sua reação volúvel me deixa muito nervosa e irritada. — Agora, se me der licença, preciso terminar um trabalho. — E com isso, entro na biblioteca, acho um cubículo e abro meu livro. Incapaz de me concentrar, encaro as palavras na página, a mente perdida no enigma que é Reid Connely.

As próximas duas semanas passam do mesmo jeito. Levanto cedo, vou à academia, faço meus oito quilômetros e vou para a aula. Estaria mentindo se dissesse que a única motivação para ir lá todas as manhãs são as minhas corridas. Reid também vai todas as manhãs. Sei que ele me olha. Já peguei seus olhares algumas vezes, então ele também sabe que estou olhando-o. Parece que estamos presos nesse puxa e empurra, e nenhum de nós parece querer fazer algo sobre isso. Hoje é sexta-feira e terminei as aulas mais cedo, então volto para o apartamento para tirar um cochilo. Cammie tem a tarde livre também e, quando entro na sala, ela tira o nariz do livro. — Oi, Maddy! Como foi o seu dia? — Nada muito excitante. Embora ache que essas aulas de psicologia ainda vão me matar. Sinapses, neurotransmissores e blá, blá, blá. — Sento-me ao seu lado no sofá e penso se devo ou não conversar sobre Reid. Ela já disse que não sabe muito sobre ele, mas acho que vale tentar descobrir qualquer coisa. Se colar, colou, certo? — Sei que já perguntei sobre ele, mas o que você pode me falar do Reid? Toda manhã, quando vou ao ginásio, ele está lá e trocamos olhares sempre. Nos falamos uma vez na semana passada, mas foi tenso e rude, como se eu o tivesse irritado por estar em sua preciosa academia e depois ele ficou todo doce e cheio de desculpas, quase me deixando louca. Geralmente, sou bem serena e calma, mas ele traz à tona o meu lado sarcástico e insolente. Não sei como lidar com ele e não tenho a mínima ideia do que eu fiz para irritá-lo. Sim, é basicamente isso. — Um... — Ela faz uma pausa enquanto tenta organizar seus pensamentos. — Eu realmente não sei ao certo. Reid se mantém muito na dele quando estou lá com o Jack. Nunca recebo mais do


que um leve sorriso e um rápido “oi” quando ele me vê. Humm, não era bem isso que eu esperava. Ele me pareceu bem à vontade e amigável com os caras na academia. — Olhe, Maddy — ela continua. — Você não vai querer ouvir isso, mas as poucas coisas que realmente sei sobre Reid não dão a melhor impressão dele. Ele é um jogador. Nos três anos que tem estado aqui, ele nunca ficou com uma garota mais do que uma noite, talvez um final de semana, se ela fosse realmente boa. Ele dorme praticamente com tudo que se move e parece não ter a menor vergonha disso. O fato de ele ter sido doce e cheio de desculpas com você é algo realmente chocante para mim. Suas palavras me acertam em cheio. É completamente ridículo da minha parte pensar que Reid não poderia ter qualquer garota que quisesse; só não gostaria de pensar que ele aceita qualquer oferta. Completamente confusa de como deveria me sentir sobre isso, relaxo e afundo ainda mais no sofá. — Só não sei o que fazer em relação a isso. Dançamos na festa do Jack e juro que tivemos algum tipo de conexão, mas, num piscar de olhos, ele ficou totalmente diferente comigo, frio e distante. Depois, pensou que eu o estava perseguindo na academia. Deu a entender que estava irritado porque eu estava lá, mas, em seguida, houve uma centelha de esperança em suas palavras de que eu poderia realmente estar lá para vê-lo. E o tenho visto todas as manhãs desde aquele dia, mas ele não falou mais uma só palavra comigo, e não farei o primeiro movimento em relação a isso. Vejo uma lâmpada aparecer sobre sua cabeça enquanto um sorriso travesso aparece em seus lábios. — Bem, tem outra festa hoje à noite. Por que você não vem e vemos se podemos mexer com ele, fazê-lo dar o primeiro passo. Há um olhar furtivo em seus olhos e não sei se quero seguir seu plano. — Eu não sei, Cam. Não sou do tipo que joga. — Mesmo dizendo essas palavras, tenho a sensação de que ele não jogaria comigo. Não sei por quê. Talvez seja porque eu sei que não o deixaria fazer isso comigo. Mantive meus escudos erguidos com Jay, e realmente gostava dele. Reid não tem a menor chance de quebrá-los agora. — Vamos lá, vai ser divertido. Vamos fazer você ficar supergostosa e o faremos perceber quão idiota ele está sendo. Daremos a ele um pouco do próprio remédio e depois viremos para casa. E, se isso não funcionar, apenas dançaremos, nos divertiremos e você arrumará outro gostosão. Ela faz aquele olhar de cachorro pidão e com isso eu já era. — Certo, eu vou, mas eu escolho a minha roupa. E não estou indo lá para ser mais uma das transas dele. Embora encostar nele mais uma vez não seria nem um pouco horrível. Afinal de contas, já o vi sem camisa na academia. Foi uma ótima manhã, com certeza. A voz animada de Cammie me tira dos meus devaneios picantes com Reid.


— Oba! Seremos só você e eu. Lia tem uma sessão de estudo, e Mel trabalhará hoje à noite. Tinha me esquecido disso. Melanie conseguiu um trabalho no laboratório de informática. Já que ela é novata, acabou ficando presa no turno das sextas à noite, o que diminuiu sua vida social, mas é como se ela estivesse sendo paga para fazer o dever de casa, então ela não reclama muito. Pela primeira vez em nossas vidas, Melanie e eu realmente vamos ficar um tempo longe uma da outra. — Certo, você e eu, então! Vai ser divertido. Definitivamente preciso de algum tempo para relaxar. — Bem devagar, me animo um pouco com o plano dela. O fato de Reid estar lá não tem nada a ver com isso. Não, não é sobre Reid e seus brilhantes olhos azuis, seu corpo glorioso e seu sorriso sexy. Não, nada a ver.

Quando chegamos, a festa já está a pleno vapor. A música está nas alturas e todo mundo dança. Não vi Reid em lugar nenhum, não que estivesse procurando por ele. Não, definitivamente não estou procurando por ele. Sigo Cammie até a cozinha e ela pega uma bebida pra gente. Não é cerveja dessa vez; é um ponche rosa de menina. Não tem um gosto horrível, então, pela primeira vez na vida, decido que realmente vou beber. Apenas um ou dois copos — nada que me faça ficar louca como todo mundo já está. Jesus, são apenas dez da noite. Como é possível ficar tão bêbado sendo tão cedo? Demora uns quinze minutos antes que encontremos Jack, que está rindo com Logan. — Oi, amor! — Jack sorri amorosamente para Cammie, e o rosto dela brilha. Eles são lindos juntos. — Oi, Maddy! Acho que você não conheceu o Logan na última vez em que esteve aqui — ele nos apresenta, Logan pega minha mão para dar um aperto, mas acaba dando um suave beijo cortês nas costas dela. Meu rosto queima e ele ri para mim. Ele é muito bonito, o jeito típico de estrela do futebol americano. Tem cabelo castanho curto e olhos calorosos, também castanhos. Onde Reid é todo forte e musculoso, Logan é bonito. Sem querer parecer muito crítica, ele é bem bonito. Um colírio para os olhos, mas muito diferente de Reid. Não que agora eu compare todos os caras que vejo com Reid. Não, não faço isso de jeito nenhum! — É muito bom te conhecer, Maddy! Posso pegar outra bebida pra você? Olho para o meu copo e me dou conta de que já bebi tudo e nem percebi. Logan pega minha mão e me leva de volta para a cozinha, onde está o ponche de menininha. Enquanto ele enche o copo, pergunta: — Então, como você está indo aqui? Está gostando das aulas?


— Aqui é ótimo. Estou gostando muito. Cammie e Lia são fantásticas. Aulas? Ehhh, são boas. Não estou muito entusiasmada com a de psicologia, mas estou amando as de poesia — respondo. Dou um grande gole na bebida e começo a sentir o efeito do álcool. Definitivamente preciso ir com calma. Não quero virar uma bagunça. Logan e eu continuamos a conversar, ele é realmente legal. Cammie está certa: ele basicamente come, respira e vive futebol americano. Ao que parece, ele está em uma ótima forma atlética. Diz que, se não puder passar a vida dentro do campo jogando, o melhor lugar para estar é na linha lateral ajudando os outros a jogarem melhor. A noite avança e seguimos para a sala de estar. Logan me vira e começamos a dançar, pulando para cima e para baixo ao som de algum tipo de hip-hop doido. Sinto o estresse da faculdade e toda a merda com Reid se esvaírem e me jogo mais na dança. Eventualmente, a batida muda e sinto um ritmo mais lento preencher a sala. Logan me puxa para mais perto e alinha nossos corpos. Começa a se mover e balançar e de bom grado o acompanho. O álcool me deixou mais solta, então coloco minhas mãos em seu peito. Ele passa as mãos em volta da minha cintura e inclina o rosto em minha direção. Na hora que ele encosta os lábios nos meus, alguém me empurra. Forte. Tão forte que quase caio. Tenho que segurar nos ombros de Logan para me equilibrar. Quando me viro para ver quem foi o maluco que fez isso, tudo o que vejo são as costas de Reid enquanto sobe as escadas. Ele se vira lá de cima e me encara. Se eu tinha pensado que ele estava frio e distante na última semana, esse seu olhar só pode ser descrito como ártico. — Volto logo — Logan grita sobre a música e sobe os degraus de dois em dois para alcançar Reid. Eles brigam lá em cima e consigo escutar pedaços da conversa. — Que porra é essa, cara? Isso não foi legal — Logan resmunga para Reid. Reid apenas dá de ombros e diz: — O quê? Não fiz nada. Ele está tentando fazer pouco caso, mas vejo o limite em seus olhos. Ele me olha por sua visão periférica e está fervendo de raiva. Logan zomba um “não estou nem aí” e volta até mim. — Vou pegar outra bebida. Quer uma? — Logan pergunta. Sei que eu disse que pegaria leve, mas, depois de Reid quase ter me derrubado, estou puta e uma terceira bebida parece uma ótima ideia. Quando voltamos para a sala, Reid também já voltou e está esfregando na pista de dança em uma garota que só posso descrever como uma supermodelo de tão linda. Eles estão praticamente fazendo sexo ali. Suas mãos passeiam por todo o corpo dela, poupando apenas as partes que não podem ser tocadas em público, a menos que você curta esse tipo de coisa, claro. Engulo o resto da minha bebida e me desequilibro. Logan está bem ali para me pegar e me puxa pela sala para sentarmos. Sigo-o e afundo ao seu lado no sofá. Ele coloca o braço atrás de mim, em volta dos meus ombros, e começa a fazer círculos preguiçosos em meu braço. É gostoso e meus braços se arrepiam. Fecho meus olhos e tento aproveitar seu toque, apesar de que queria que fosse Reid me tocando. Tudo que estou tentando fazer é tirar da cabeça Reid e a garota na qual ele está se esfregando.


Logan se inclina para me beijar e não me oponho. Ele tem sido doce a noite toda, e eu já tinha me convencido de que não sou eu quem Reid quer, mesmo que esteja deslumbrante na minha minissaia preta e top rosa. Na hora que Logan move seus lábios nos meus, sinto a atmosfera na sala mudar. Reid está na nossa frente em segundos. Ele agarra Logan pelo colarinho e o levanta do sofá. Antes que Logan possa falar qualquer coisa, Reid desfere um gancho devastador na mandíbula dele. Saio do sofá e vou para o outro lado da sala, onde estão todos para abrir espaço. Jack e outros caras demoram um minuto ou dois para separá-los, e, quando conseguem, posso ver a bochecha de Logan, bem abaixo dos olhos, machucada, e o maxilar já começando a inchar do primeiro soco. Reid murmura um “vai se foder” para Logan antes de sair porta afora. Pego um pouco de gelo para o rosto de Logan e me sento ao seu lado no sofá. Nesse momento, a maioria das pessoas começa a ir embora. A multidão diminuiu consideravelmente em menos de meia hora depois da briga; somos apenas eu, Logan, Cammie e Jack sentados na sala. — Eu estou acabado — Jack diz antes de começar a rir. — Mas acho que você está mais, hein, Logan? — Ele está ao nosso lado, gargalhando agora. — Ah, você é tão hilário, Jack! — As palavras de Logan são cheias de sarcasmo quando ele se levanta e toca a bochecha com hematoma. — Ahhh, amor, deixe-o em paz. Venha, vamos para a cama. Cammie se inclina no pescoço de Jack e sussurra algo que faz a respiração dele parar e suas pupilas dilatarem. Jack se levanta e leva Cammie com ele. Ele a coloca por cima dos ombros em segundos. Ela grita de susto e ele, brincalhão, dá um tapa em sua bunda enquanto a leva para o quarto. Jack a vira para que ela nos dê tchau. Ela me olha interrogativamente, com preocupação em seu rosto. — Você tem certeza de que está tudo bem passar a noite, Maddy? Chamo um táxi, se você quiser. — Não, tudo bem, de verdade, Cammie. Vou ficar bem. — Sorrio de volta para ela e me viro para Logan. — Me desculpe pelo drama dessa noite, Maddy. Não faço a mínima ideia de por que Reid fez aquilo. Ele pode ser difícil, às vezes. Te levaria em casa, mas definitivamente não estou em condições de dirigir. Ele se inclina e oferece sedutoramente sua cama para eu dormir. Sinto firmemente que, se aceitar ir lá para cima, ele vai querer fazer qualquer coisa, menos dormir. — Não, tudo bem, Logan, de verdade. Não posso ir para casa de carro, ainda mais porque minha carona acabou de ser carregada para o quarto no melhor estilo homem das cavernas. Se estiver tudo bem para você, durmo confortavelmente aqui no sofá. — Não, Maddy, não quero que você durma no sofá. Vamos para o meu quarto. Vou dormir no chão. Sério, tá tudo bem. Vou controlar as mãos. — Ele levanta a mão num gesto típico de “palavra de escoteiro”, e me lembro do meu pensamento inicial de que o sofá parecia poder transmitir DST. Rapidamente, envio uma mensagem para Melanie avisando que estou com a Cammie


e que vamos ficar na casa de Jack essa noite. Ela diz que espera que eu me divirta e rio da imprecisão de sua avaliação. — Ok, tudo bem. Mas com certeza você vai dormir no chão. — Cedo e espero que ele cumpra sua promessa.

Como um verdadeiro escoteiro, Logan manteve sua promessa e dormiu no chão. Ele me emprestou uma camiseta e um short para dormir e é com essa roupa que Reid me vê na manhã seguinte quando nos esbarramos no corredor. — Bela camisa — ele murmura enquanto vai em direção ao banheiro. Murmuro um “babaca”, o que parece chamar sua atenção. Ele se vira e me encara. — O que você disse? — Sua voz irradia raiva. — Eu disse babaca. Você está sendo babaca. Ou talvez você prefira “idiota”. Escolha um. Na verdade, você está fazendo um excelente trabalho sendo ambos. — Qual é a porra do seu problema? Oi? Ele não vê o quão infantil é o seu comportamento? Ele acha mesmo que o que fez ontem à noite foi aceitável? — Meu problema? Sério, Reid?! Qual é a porra do seu problema? Você dança e flerta comigo e definitivamente existiu algo ali, mas depois me larga como se eu fosse uma doença contagiosa. Me ignora todas as manhãs na academia, mas te vejo me encarando também. Você quase me derrubou ontem à noite e depois socou o Logan porque ele estava sendo legal comigo. E ainda tem a audácia de me perguntar qual é o meu problema? — Aproveito a pausa e ponho o dedo em seu peito. — Você é o único com a porra do problema e não faço a menor ideia do que seja, porque, desde que nos conhecemos, você não disse mais do que uma palavra para mim. Então, sim, você está sendo um babaca! Viro-me para ir em direção ao quarto de Logan, mas, antes de ir muito longe, Reid pega meu pulso e me puxa de volta para ele. Sua boca esmaga a minha antes que eu possa perceber o que ele está fazendo. Abro-a para ele na mesma hora, e não é porque ele me pegou desprevenida. Eu queria esse beijo desde o momento em que o vi, e é tudo o que eu esperava que fosse. É um beijo enfurecido e firme, cheio de toda a angústia que estamos carregando. Nossas línguas colam uma na outra furiosamente, explorando, experimentando. Ele morde suavemente meu lábio inferior e depois suaviza com uma lambida. Ele agarra a parte de trás do meu pescoço e me puxa para mais perto. Coloco as mãos em volta da sua cintura, levantando a parte de trás da camisa. Sua pele é quente sob meus dedos, suave como seda e musculosa. Ele tem um gosto tão... indescritível... me faltam palavras. É, sem dúvida, o melhor beijo da minha vida. Quando ele se afasta, meus lábios estão inchados da sua paixão e eu quero perguntar por que parou, mas ele começa a falar antes que eu possa dizer qualquer coisa.


— Babaca o suficiente para você? — Sua voz está cheia de veneno e eu fico fora de mim de tanta raiva e humilhação. Fico ali parada, completamente imobilizada pela sua raiva e confusa com sua mudança de comportamento. Sufoco com a língua e não consigo achar uma resposta para sua pergunta. Ele se inclina até minha orelha e diz: — Por que não volta correndo para a cama do Logan agora? Tenho certeza de que ele deve estar se perguntando onde você está. Compreendo o que parece eu sair do quarto de Logan com as roupas dele de manhã cedo, mas, graças às artimanhas de Reid no começo da noite de ontem, Logan não teve nem a chance de me beijar. As palavras de Reid me atingem como um soco no estômago, e quase posso sentir a bile subindo pela garganta. Ele zomba com um “que se dane” para mim, dá meia-volta e retorna para o quarto. Não consigo impedir as lágrimas de caírem e, na hora que a primeira sai, parece que se abre uma represa. Fico ali parada chorando por causa das suas palavras ofensivas, seu tom duro e as insinuações de que sou uma vagabunda. Naquele momento, espero nunca mais ver Reid Connely novamente.


Depois que Reid me deixa chorando no corredor, volto para o quarto de Logan e junto as minhas coisas. Ele ainda está meio morto; definitivamente não é uma pessoa matutina, então nem percebe que estou triste quando o acordo para me levar para casa. Penso em bater na porta do quarto de Jack para chamar Cammie, mas não quero interrompê-los. Para ser sincera, nem ligo se Logan vir que estou triste. Só quero ir para casa. Melanie está em nosso quarto quando volto para o apartamento. Ela sabe que estive chorando e abre os braços para mim assim que me vê. Depois de tirar todo o ar dos meus pulmões, ela me mantém em seus braços, quase como se verificando se tenho lesões. — O que aconteceu, Mad? Quando recebi sua mensagem ontem à noite, imaginei que as coisas finalmente tinham dado certo entre você e Reid. Por que está chorando? Você está me assustando um pouco, Maddy. Conto a ela todos os detalhes. Minha dança com o Logan, Reid quase me derrubando, ele batendo em Logan, Logan sendo um cavalheiro, Reid me beijando como eu nunca tinha sido beijada antes, Reid sendo um completo filho da puta. Ela escuta e respira fundo pelo comportamento de Reid. Está bem claro que ele não é a sua pessoa favorita no momento. — Ele é um grande idiota, Maddy. Não entendo por que te tratou daquele jeito. Não faz sentido. E depois te beija assim. Mas que merda?! Deito na cama e dou um suspiro de exasperação. Mas que show de merda! O plano de Cammie de mexer com ele com certeza saiu pela culatra. — Então, o que você quer fazer hoje? — Melanie pergunta com um tom de esperança na voz. Sei que ela está tentando me tirar dessa merda, mas uma grande parte minha quer ficar enrolada e emburrada. Sinto-me triste novamente. Digo, eu realmente não me coloquei nessa situação com Reid. Nem tenho certeza de como me sinto sobre ele, mas ele me tratou como lixo, e isso dói.


— Vamos lá, não vamos ficar sentadas e perder um dia perfeito de outono. Que tal irmos fazer comprar e almoçar? — Ela é persistente; tenho que lhe dar o crédito por isso. — Eu gostaria, na verdade, de dar uma corrida. Venho querendo ver as trilhas que alguém me recomendou na academia. Quer dar um pulo na Sports Authority, pegar alguns sanduíches e ir fazer um piquenique numa dessas trilhas? Posso dizer pelo seu sorriso torto que Melanie está apaixonada pelo meu plano. Ela já está quase fora da porta antes que eu saia da cama. As compras foram um sucesso e a trilha é linda. É bem atrás dos dormitórios e tem muitas pessoas aproveitando, o que é ótimo, porque agora não preciso mais usar as esteiras na academia e diminuo a chance de encontrar Reid. Caminhamos pela trilha uns dois quilômetros e paramos numa clareira com vista para o lago. É o lugar perfeito para aproveitarmos nosso almoço e colocarmos o papo em dia. Sinto que não tenho tido tempo com Melanie desde que nos mudamos. Ela me conta tudo sobre seu trabalho no laboratório de informática. Em suma, a maior parte é muito entediante, mas a salvação é o geek gostoso que trabalha com ela. Não estava ciente de que geeks em computadores vinham na variedade “gostoso”, mas aparentemente vêm. O nome dele é Bryan e, de acordo com Melanie, que sinto um pouco tendenciosa, ele não é apenas lindo, mas divertido também. Fico nas nuvens de felicidade quando ela me conta que tem um encontro com ele no domingo à noite. Eles vão no pequeno restaurante italiano familiar na cidade. Estaria mentindo se dissesse que não sinto um pouco de inveja. Sei que ainda poderia estar com Jay se quisesse, mas não quero. Há Logan, que aparentemente é bem interessante. Ele é realmente doce e cavalheiro, mas estaria mentindo se dissesse que o quero. Tenho um pressentimento de que, se ficar com Logan, seria do mesmo jeito que era com Jay. Tanto Logan quanto Jay são ótimos caras, mas tem algo faltando. Algum tipo de entendimento, paixão, fogo; não consigo apontar o que é, mas sei no fundo do meu coração que, por mais gentis e doces que eles sejam, não são certos para mim. Odeio isso. Enquanto Melanie está rasgando seda sobre Bryan, tudo em que eu posso pensar é Reid. Ele não foi nada além de idiota desde o momento em que o conheci, mas não posso negar que o quero. Há uma força que nos atrai e sei que ele sente isso. Tem que sentir, ou aquele beijo não teria sido o que foi. Quero ir mais fundo. Conhecê-lo melhor. Saber o que colocou aquela dor em seus olhos. Quero suavizá-la. Quero dividir com ele minha dor na esperança de que ele consiga me ajudar a esquecê-la, porque, apesar de sua raiva, também vi compaixão em seus olhos. Escutei esperança em sua voz. Já o vi rindo com os amigos e sei que existe um cara legal em algum lugar ali. Melanie e eu terminamos nossa caminhada bem na hora em que o sol estava se pondo no horizonte. Quando voltamos para o dormitório, nos aconchegamos no sofá, assistimos a um filminho de garotas e fazemos nossas unhas. Sentia falta de passar um tempo com minha melhor amiga. É leve, tranquilo e alegre, tudo o que Reid e o que estou sentindo por ele não são. Resumindo, é a cura perfeita para a minha merda de sábado à noite.


Passo toda a tarde e a maior parte da noite de domingo na biblioteca estudando para uma prova importante de psicologia na segunda-feira. A aula é, de longe, a mais difícil, mas estou começando a descobrir como sobreviver a ela. Tenho esperança de que, em algum ponto do semestre, eu comece realmente a gostar disso, mas é altamente duvidoso. Raramente durmo demais, mas, como fiquei estudando até tarde na noite passada, mal tive tempo de escovar os dentes e me fazer apresentável antes do grande teste. Chego à sala na mesma hora que o professor está entregando as provas. Respiro profundamente e faço muito esforço para fazer meu melhor. Uma hora e meia mais tarde, quando a prova termina, sinto que me saí bem. Pode não ser minha melhor nota, mas estudei muito. Minha próxima aula passa como um borrão. Na hora do almoço, estou faminta e completamente exausta. Pego um sanduíche da máquina da lanchonete e vou direto para o meu quarto tirar um cochilo. Acordo às quatro da tarde e me sinto descansada e energizada. Já que não fui à academia hoje de manhã, pego meu tênis novo para dar uma corrida ao ar livre. Talvez ter dormido demais tenha sido uma tentativa do meu subconsciente evitar Reid na academia. Sim, definitivamente passei muito tempo com meu livro de psicologia nesse final de semana. Correr na trilha é muito mais emocionante do que na academia. O ar fresco é friozinho e firme contra minha pele. Em vez de bater opressivamente nas costas, o sol gentilmente acaricia meus ombros e aquece os músculos. Corro até a clareira onde Melanie e eu almoçamos no outro dia e faço uma pausa para respirar e apreciar a beleza à minha volta. O lago é primitivo e incrivelmente calmo. É cercado por pinheiros e o contraste entre a cor verde esmeralda profunda das árvores e a cor azulada da água é tão gritante que parece até artificial. Ouço alguns pássaros cantando na árvore e olho para cima para ver um casal de pardais empoleirados lado a lado como dois apaixonados... Rio um pouco da cena sentimental, mas é realmente bonito. Para honrar a promessa que fiz a mim mesma de ver a beleza do mundo, deito e fico observando o céu. As palavras de Jay sobre eu não conseguir superar a morte dos meus pais ainda estão na minha cabeça. Geralmente afasto as memórias que tenho dos meus pais; elas são muito dolorosas para deixar que fiquem na superfície. Mas, nessa ocasião, decido deixá-las vir à tona e senti-las pela primeira vez. Uma das minhas lembranças favoritas da minha infância é de quando meu pai e eu costumávamos ir ao parque aos sábados de manhã. Era um jeito doce de ele dar à mamãe um tempo para ela. Acho que ele apenas gostava de seu pedaço de tempo semanal com a Maddy. Nós nos deitávamos de costas e nomeávamos as formas que víamos nas nuvens. Eu colocava a cabeça sobre seu peito e escutava a batida de seu coração. Estava segura, protegida e amada. Nesse exato momento, deitada aqui no chão encarando as nuvens, consigo quase sentir sua colônia, uma loção pós-barba meio picante; posso quase sentir seu coração contra minha bochecha, o calmo tum-tum em seu peito. Consigo ouvi-lo rir enquanto nomeio algumas coisas bem ridículas, uma estrela-do-mar, um bebê, um sanduíche de manteiga de amendoim e marshmallow. Uma lágrima incontrolável desce por minha bochecha e não posso evitar sorrir das memórias. Nós sempre íamos a uma lanchonete depois de nossas idas ao parque e comíamos panquecas e bacon no almoço.


Algumas tardes, chegávamos em casa e mamãe estava cochilando no sofá, então nós escapulíamos para ver um filme ou íamos à lanchonete para ver algum jogo de beisebol. Esses dias foram os mais felizes da minha vida. Espero que talvez um dia eu volte a me sentir daquela forma novamente, como o paraíso na Terra. Posso ainda não estar lá, mas, pela primeira vez na vida, não me parece que estou no inferno.


Sábado de Manhã – Depois do melhor beijo da minha vida, com a Maddy Vejo lágrimas caindo pelo rosto dela quando volto para o quarto, mas estou muito fodido agora para ir até lá. Sei que estou sendo exatamente o que ela disse que sou, um babaca, mas não consigo ouvir de seus doces lábios o quanto eu a machuquei. Quero me desculpar por quase derrubá-la, por insultá-la, por ser um grande idiota, mas não consigo assumir esses sentimentos agora. Não vou, definitivamente, me desculpar por beijá-la. Desde que a conheci, quero beijá-la e fazer muito mais. Mas aquele beijo — meu Deus —, o que foi a porra daquele beijo? Nunca senti nada igual na vida, e, para ser bem sincero, já beijei uma cota considerável de garotas. Ame-as e deixe-as. Sim, esse sempre foi o meu lema. E funciona para mim. Nada de amarras, nada de compromissos; perfeito. Coloquei umas paredes bem sólidas em torno de mim depois de Alex ter me fodido, e ninguém foi capaz de quebrá-las. Não vou deixar quebrarem. Mas existe algo em seus olhos; eu vi quando dançamos. Eu podia ver dentro de sua alma, e isso balançou minhas estruturas. Ela me pegou totalmente fora do meu jogo. Ela é sarcástica e pavio curto, mas tem tanta doçura também. Não consigo tirá-la da cabeça, e, agora, eu realmente fodi as coisas. Ela foi embora logo depois do nosso beijo e sei que está chateada. Logan está sentado à mesa da cozinha, colocando leite em seu cereal. Eu o encaro, muito além de irritado por ele ter feito isso comigo, você sabe, toda aquela coisa de “amigos antes das vadias”, mas, mais uma vez, não é como se eu tivesse falado que a queria. Por que alguém pensaria que você quer uma garota de verdade? Você faz o seu melhor para afastá-las.


— Imagino que tenha tido uma boa noite, Logan — comento, minha voz com sarcasmo e raiva. Ele encosta na cadeira e apoia as mãos atrás da cabeça. — Absolutamente fantástica, na verdade. Maddy é muito gostosa. Suas palavras me hostilizam e cerro os punhos. Não quero socá-lo de novo. Bem, na verdade, quero, mas não vou. Quero alguns detalhes e, se fizer isso de novo, não vai ajudar na minha missão. — Ela é? Gostosa, digo? Não percebi. Ele enxerga por trás da minha mentira, não que eu tenha tentado esconder muito. Não posso mentir sobre o quão linda Maddy é. E doce. E atrevida. E perfeita. Ele se endireita e me encara. — Você não percebeu? Sério? Então qual foi a porra do seu problema ontem à noite? Você quase a derrubou e chegou perto de me derrubar também. — Perto de te derrubar? Não, eu claramente te derrubei. A propósito, belo olho roxo. — Não consigo esconder o sorriso. Eu o peguei de jeito. Quando passa por mim para ir assistir algo na ESPN enquanto come, ele sussurra: — Melhor transa da minha vida. — Você é um merda, Logan. — Não quero dizer mais do que isso. Não quero colocar minhas cartas na mesa e lhe dar mais informação, mas estou furioso por ele ser aparecer e agir como um cavaleiro de armadura brilhante, por ela dormir com Logan e comigo mesmo por ser um filho da puta. Definitivamente não estou irritado porque queria ser eu a dormir com ela. Não, claro que não é por causa disso.

Não tenho visto Maddy desde o nosso beijo no sábado de manhã. Ela não tem ido à academia. Não tem ido à nossa casa. Não tem estado em nenhum lugar que eu esteja. Depois de uma semana sem vê-la em nenhum lugar, tenho a impressão de que ela está me evitando. Agora, por que ela iria querer evitá-lo, idiota? Não é como se você a tivesse beijado como quis (o que você fez) e depois de tudo ainda tê-la chamado de vagabunda (o que você fez). Sim, “idiota” resume bem isso. Ok, ela definitivamente está me evitando e não sei o que fazer. Depois que ela foi embora no sábado de manhã, tentei lidar com os meus sentimentos. E não tive sucesso. Deus, pareço uma garotinha. Lidar com os sentimentos. Logan se gabando também não me ajudou muito.


Meu telefone vibra no bolso e, por um minuto, espero que seja Maddy. Seu merda, você nunca lhe deu seu número e a essa altura ela não irá querer. Deslizo o dedo na tela, abrindo a mensagem. É da Jessa. Vamos nos ver mais tarde? “Vamos nos ver” é o código dela para transar. Geralmente, aceito a oferta. Sexo sem amarras: porra, me inscrevo na hora. Fizemos bastante nos últimos meses. Quando a maioria das garotas aceita a aventura “sem amarras”, elas geralmente o fazem com a esperança de que eventualmente isso mude. Elas querem domar o indomável, mas não a Jessa. Ela fica bem com a distância. Ela é muito gostosa e está sempre pronta para uma boa foda, mas não estou no clima hoje à noite. Nem me incomodo em responder. Ela encontrará alguém para “ver”. Preciso dessa distância quando se trata de garotas. Sempre precisei e quis. Recuso-me a deixar que se aproximem de mim. E nesse momento de clareza percebo por que tenho sido tão estúpido com Maddy. Ela não tem sido nada além de legal comigo. Bem, ela tem sido sarcástica e na defensiva em relação a mim, mas também eu a faço se sentir assim. Ela não fica em cima de mim como todas as outras garotas, mas existe algo que me diz que ela quer mais. Há certa vulnerabilidade e abertura que a fazem tentar se proteger. Sei disso porque sou do mesmo jeito. Não posso negar que quero algo mais com ela e isso me assusta pra caralho. Uma batida na porta me tira dos meus pensamentos sobre Maddy. — Ei, cara — Jack chama do corredor. — E aí? — Eu e alguns dos caras vamos no Shooters hoje à noite. Quer vir? — Nessa hora, a proposta de Jack parece perfeita. Um tempo com os caras, jogando sinuca e tomando cervejas — sem pensar em Maddy —, é absolutamente perfeito.

O salão de bilhar está cheio e barulhento; é uma distração perfeita. Estamos na terceira partida quando a vejo entrar. Minha boca fica seca e meu coração martela no peito. Linda, simplesmente estonteante. O cabelo cai em ondas — tipo pós-foda — e é um visual perfeito. O jeans apertado acentua cada curva única de sua bunda perfeita. O jeans de cintura baixa e um top acima do umbigo pareceriam vulgar em qualquer outra mulher aqui, mas em Maddy é um tesão e, puta que pariu, muito convidativo. Jack me cutuca com o seu taco de bilhar, indicando que é minha vez de jogar. Ele dá uma risada alta quando percebe o motivo da minha distração. Quando termino a jogada, ele pergunta:


— Você está caidinho, hein? — O que você quer dizer? — retruco. — Maddy. — Ele inclina a cabeça em sua direção. — Você está caidinho. Foi por isso que bateu em Logan e tem estado mal-humorado a semana toda. Não tinha ligado os fatos antes, mas é por ela. Você a quer e não pode tê-la. — Ele está com um olhar orgulhoso no rosto, com certeza feliz com as suas habilidades recém-descobertas de detetive. Babaca. Um rápido encolher de ombros e a conversa termina. Acho que Jack sabe que não quero entrar no assunto. E o fato de que Cammie caminha logo atrás de Maddy o ajuda a se distrair também. Lia, Melanie e um outro cara, que mais tarde descubro ser o novo namorado dela, Bryan, seguem Maddy e Cammie. Mas que porra é essa? Jack não me disse que era uma reunião familiar. Não estou no clima para isso hoje. Estou no clima de arrancar as roupas da Maddy e escutá-la gritar meu nome. Isso sim não me soa um péssimo plano. — Oi, amor. Tá a fim de um jogo de verdade? — As palavras de Jack estão cheias de luxúria e sei que isso é ele desafiando Cammie a jogar para ver sua bunda enquanto ela joga. Hummm, não é má ideia. Não é má ideia mesmo. Agora tenho que fazer com que Maddy também entre no jogo. Cammie dá uma olhada para Maddy, obviamente incerta se Maddy vai querer jogar contra a gente. Realmente levei isso muito longe. Talvez seja hora de dar uma parada e ver o que vai acontecer. A química entre nós já está muito mais do que quente. Talvez esteja na hora de deixar algumas dessas paredes caírem — não todas de uma vez, só algumas. — Vamos, garotas. Vai ser divertido — falo piscando, esperando que isso funcione e a faça aceitar. Cammie responde um “claro” muito animado. E tudo o que recebo da Maddy é um suspiro exasperado e um “se insiste” desinteressado. Isso realmente me afeta. Caminho para perto dela e me inclino. Quero que ela jogue. Quero que veja que nem sempre sou idiota. Ok, certo, “idiota” é um eufemismo. Mas eu tenho que fazer as coisas melhorarem. Está na hora de ligar meu charme. — Por favor, Maddy? Prometo que serei um bom menino — falo baixo em seu ouvido. — Ah, por favoooorrr. Como se você ao menos soubesse o que isso significa! — ela dispara. — Vai ficar tudo bem, Mad — Cammie interrompe. — Jack está aqui. Ele manterá o babaca... um, quero dizer, Reid, na linha. — Nunca gostei muito da Cammie mais do que eu gosto agora. — Tá bom, tudo bem — Maddy concorda. Bem, ela pode não estar feliz com isso, mas pelo menos vai ficar. Lia, Melanie e Bryan sentam-se numa mesa perto da gente, e todos começamos a brincar e rir de um lado a outro. Maddy rapidamente esquece sua raiva de mim e relaxa, entrando no jogo. Ver a Maddy despreocupada e divertida ilumina meu espírito e só me faz desejá-la mais.


E, ah, agradecer aos deuses que inventaram o jeans de cintura baixa e que abraçam bem as bundas. Vê-la se inclinar na mesa pelas últimas horas tem sido um show e tanto, até eu pegar um filho da puta na mesa ao lado apreciando também. Maddy também o nota e acrescenta um extra em suas tacadas; há mais gingado em seu quadril. Caralho! Ela está flertando com ele e bem na minha cara. Quando nosso jogo termina, ele se aproxima e coloca seu braço em volta da cintura dela. Só consigo pegar alguns pedaços da conversa, mas a vejo sorrir e gargalhar como uma garotinha. Ela parece feliz. Ela está feliz porque ele não a está tratando como lixo. — Cam, vou tomar uma bebida com Mike — Maddy anuncia para o grupo, mas vejo seu olhar afiado ao passar por mim.

Ela já está no bar com ele há umas duas horas. Não bebeu nada além de dois refrigerantes. Eles começaram apenas com uma conversa, mas aquilo rapidamente evoluiu para um flerte brincalhão cheio de toques. Parte de mim está fervendo de raiva por ela estar fazendo isso para se vingar de mim. Outra parte está enfurecida, com ciúmes, porque quero que ela seja assim comigo. E outra parte, uma muito maior, está preocupada com ela. Tem algo nesse cara que eu não gosto. Jack, Logan e eu viemos aqui há anos e nunca o vi aqui antes. Ele não parece jovem o bastante para ser um estudante universitário também. Eu só não gosto dele. Ele percebe que estou observando-os e ocasionalmente me encara também; então, se inclina no ouvido de Maddy e sussurra algo. Os olhos dela se arregalam em estado de choque, mas logo ela se recupera. Balança a cabeça num “não” e aponta para o lugar em que Jack, Cammie e eu ainda estamos jogando sinuca. Melanie e Bryan já saíram faz um tempo. Lia foi com eles. A sinuca nunca foi muito sua praia. Mike rapidamente se recupera de sua rejeição e reassume o flerte brincalhão. Maddy parece feliz com isso. Não posso mais ficar assistindo. Preciso de um tempo dessa ceninha acontecendo na minha frente. De repente, percebo que Maddy ficar com Logan teria sido muito melhor do que sair com esse cara. Logan é um dos bons — um filho da puta por ter dormido com ela, mas é um cara bom de verdade; Mike, nem tanto. Detesto deixar meu posto de observação, mas a natureza me chama. Enquanto passo por eles no caminho até o banheiro, Mike se inclina para beijar Maddy, mesmo que mais cedo ela tenha dito não às suas investidas. Então me vê e o beija de volta. Acho que ela vê o olhar de desgosto em meu rosto porque seus olhos parecem transmitir algum tipo de desculpa. Vou me empurrando até a saída para o final do corredor onde estão localizados os banheiros.


Só preciso de um pouco de ar fresco. Preciso clarear a cabeça. Preciso de alguns minutos para recuperar o pouco de compostura que eu pensei que tinha. Sento no meio-fio e deixo minha cabeça pender para baixo. Isso é tudo tão estranho para mim. Sinto-me um grande covarde sobre tudo isso, mas uma coisa permanece clara: eu a quero. Pela primeira vez na vida, quero uma garota para mais do que uma noite, para mais do que sexo. Ela é viva e vibrante. Sinto que ela consegue enxergar o verdadeiro eu. Assusta pra caralho, mas não consigo mais negar. Não sei por quanto tempo fiquei aqui fora dando a mim mesmo essa pequena conversa animadora, mas definitivamente fortaleceu minha determinação com todas as coisas relacionadas à Maddy. O único jeito de ela saber como me sinto é lhe contando. Tenho que parar de ser um babaca, parar de ter medo e apenas ver o que acontece. Toda aquela merda aconteceu há anos. Maddy não é Alex. Ela não me machucaria daquele jeito. E mais, Shane já está morto, então não é nem mesmo possível Maddy me machucar daquela forma. Enterro o sentimento de culpa sobre a morte do meu irmão e tento tirar os pensamentos vis de Alex da minha cabeça. Não importa quantas vezes as pessoas me disseram o contrário, eu sei que o matei. Foi inteiramente minha culpa — e dela —, Alex. Meu sangue gela só de pensar nela e no Shane. Mas Maddy é diferente. Sei que ela vê minha dor. Eu vejo a dela e não consigo evitar de me perguntar o que a colocou ali. Já faz cinco anos. Talvez agora finalmente seja a hora de me curar. Talvez Maddy consiga me ajudar a descobrir como. Encaminho-me na direção da porta de saída e dou de cara com Mike e Maddy. Estamos em lados opostos do corredor, mas, mesmo a essa distância, tenho certeza de que Maddy consegue ver o choque e o desgosto em meus olhos. Ela está indo embora. Com ele? Mas que porra é essa!? Eu os persigo, mas paro com tudo no segundo em que faço contato visual com Maddy. Algo está errado. Muito errado. Seus olhos estão opacos e distantes. Ela está cambaleando tanto que Mike está praticamente carregando-a para fora. — Maddy, você está bem? — Não consigo esconder a preocupação genuína em minha voz. Mike responde por ela. — Ela está bem, idiota. Estamos indo embora. Você pode voltar para os seus amiguinhos agora. Eu a seguro pelos ombros e puxo seu rosto para que me encare. Definitivamente ela não está bem. Entretanto, não entendo. Ela não bebeu mais do que dois refrigerantes a noite toda. Mesmo que tivesse rum naquelas Cocas, ela não ficaria tão bêbada depois de apenas dois ou três. E então algo me atinge — o olhar que ele me deu quando passei mais cedo. Foi ele. Ele colocou algo em sua bebida e esperou que eu saísse para tirá-la daqui sozinho. — Maddy, por favor, me diga que está bem. Venha, vamos embora daqui. Te levo para casa. — Estou praticamente implorando-a para vir comigo, mas ela não sai do lado dele. Percebo nessa hora que não é bem que ela não queira sair do lado dele, é que ela não pode. Não consegue nem


ficar de pé sozinha. Está muito ferrada. — Por que xe importa, Reid? Você num mee quer. Deixou iiisso bem claro. Não sou gosxxtosa o bastante para você ou o que quer que seja. — Suas palavras estão arrastadas e seus olhos começam a revirar. — Cai fora! Você escutou a moça. Ela vai comigo. Agora saia do nosso caminho. — Mike me empurra com a intenção de passar. Eu o meço. Sou alguns centímetros mais alto e tenho pelo menos uns nove quilos a mais de músculos do que ele. Nem fodendo! Ela vai embora comigo e você ainda vai receber um chute no traseiro. — Decisão errada, idiota. Eu que te digo para cair fora! — Empurro-o a cada palavra, para acentuar a gravidade da minha ameaça. Ele tira os braços da cintura de Maddy. Felizmente, ela está perto da parede e pode se apoiar. O segundo que ele leva para recuperar o equilíbrio é tudo que preciso para derrubá-lo. Eu o nocauteio com um forte gancho de esquerda no queixo e uma joelhada nas bolas, fazendo-o se desequilibrar e cair. Enquanto ele rola de dor no chão, agarro a Maddy e corro de volta para a saída. Passando as mãos por seu rosto e tirando o cabelo dos olhos, pergunto se está bem. Ela não consegue sequer formular uma resposta. Sinto-a se afastando de mim, a caminho da inconsciência. Tenho que levá-la para casa. Carrego-a até meu Mustang e a coloco no banco da frente. Inclino-me para passar o cinto nela e ela se encosta em meu pescoço. — Hummm, você cheira tão bem, Reid. Sempre cheira tão bem. Me beija, por favor. — Ela, obviamente, recuperou a voz e a consciência por uns instantes. — Logo, linda. Vou fazer mais do que beijá-la em breve, mas agora quero te levar para casa e cuidar de você. — Ela concorda com um “ok” e rapidamente retorna ao estado quase comatoso. Coloco seu cabelo atrás da orelha e a beijo na testa. Não vou beijá-la como ela quer ser beijada agora. Não vou tirar vantagem, mas, bem, se ela quer um beijo, é o que ela terá. Quando me sento no banco do motorista, envio uma mensagem rápida para Jack, dizendo que estou com Maddy e estamos indo para casa. Também pergunto ao Jack se ele tem o número da Melanie. Sei que ela vai surtar se Maddy não for para casa. Ele me manda o número da Mel e responde que sabia que eu estava ferrado. Lidarei com ele mais tarde. Minha preocupação no momento é que todos saibam que ela está bem. Quando estacionamos, Maddy está completamente desmaiada. Retiro-a do carro e a carrego até os degraus da porta da frente. Não é uma tarefa fácil abrir a porta com ela em meus braços, mas é um desafio bem-vindo. Ela está aqui comigo, sã e salva. Isso é tudo que importa. Andando pela sala, considero deixá-la dormir no sofá, mas não quero que ela acorde sozinha. Não sei do que se lembrará e não quero que fique com medo. Decido que dormir na minha cama será o lugar mais seguro para ela. Subo as escadas, então. Sem nenhum motivo oculto.


Deito-a no meio da minha cama e tiro suas sandálias pretas de tiras. Decido deixá-la de roupa. Não que eu não queira tirá-las — ah, Deus, quero isso mais do que tudo —, mas quero que ela esteja consciente quando a despir. Rastejo na cama para ficar ao seu lado, puxo a coberta sobre nós e cruzo os braços por trás da cabeça. Não vou conseguir dormir um minuto sequer com seu corpo suave e quente ao meu lado. De qualquer forma, preciso ficar acordado para ter certeza de que ela está bem. Inclino-me até seu ouvido e sussurro: — Boa noite, linda. Não se preocupe, vou cuidar de tudo. Ela murmura algo, espero que não em protesto, e volta para seu sono profundo. Fico olhando, de olhos bem abertos, o teto e rindo por dentro. Queria Maddy na minha cama, isso é fato, mas, definitivamente, não desse jeito.


Minha cabeça está latejando. A boca está seca. O corpo, fraco. Tento piscar para despertar, mas até isso requer um esforço monumental. Nunca me senti assim antes. Que merda aconteceu comigo? Enquanto a consciência retorna lentamente, encaro o teto e percebo que não estou na minha cama. Cacete, onde estou? Começo a sentir pânico. Sinto meu corpo começar a tremer quando o pânico se transforma em pavor. Respiro fundo para tentar me acalmar e, nesse momento, sei exatamente onde estou. Sentir o cheiro do travesseiro desperta mais do que o meu senso de consciência. Estou com Reid. Reconheceria esse cheiro em qualquer lugar. Tem cheiro de lar. O medo de não saber onde estou se vai e novos surgem. Eu dormi com ele? Ele tirou vantagem de mim? Não me lembro nem de ter saído com ele na noite passada. Como é que eu vim parar aqui? Parece que ele percebe que estou acordada e se vira para me encarar. Seu cabelo está bagunçado pelo sono e os olhos ainda estão sonolentos. Ele parece inocente e doce — duas palavras que nunca imaginei usar para descrever Reid Connely. Ele estende a mão para acariciar minha bochecha quando vê choque em meus olhos. — Bom dia, linda — ele murmura. Suas palavras e a suavidade do carinho fazem meu estômago se apertar de um jeito bom, de um jeito deliciosamente bom. Ele move a mão da minha bochecha para tirar uma mecha de cabelo dos meus olhos.


— Um... nós... — movo a mão para frente e para trás entre a gente — sabe? Nós... um... fizemos aquilo? Bem, isso foi bem articulado. Ele ri suavemente da pergunta e continua a acariciar minha bochecha com a ponta do polegar. — Não, Maddy. Nós definitivamente não fizemos “aquilo”. Pode acreditar, quando nós fizermos, você se lembrará. — Ele para por um segundo e parece que está procurando as palavras certas antes de continuar. — Então, do que você se lembra de ontem à noite? — ele pergunta. Ele se senta e apoia as costas na cabeceira da cama. Junto-me a ele e puxo as cobertas comigo. Tenho a chance de dar uma espiada por debaixo delas. Graças a Deus! Ainda estou vestida. Não que estar nua com Reid não esteja no topo da minha lista de desejos. Engulo o choque inicial que sinto na garganta. Espere! Ele disse quando. Ele quer transar comigo? Mas ele não me odeia? Meu cérebro não consegue lidar com tudo isso pela manhã. Talvez eu tenha ouvido errado. — Você acabou de dizer quando transarmos? — Não consigo esconder o choque na voz. — Sim, eu disse — ele responde sem rodeios. Ok, não sei realmente o que fazer com isso. Vou apenas arquivar para mais tarde, mas é definitivamente bom saber. Ele repete sua pergunta anterior. — Então, Maddy, do que você se lembra? — Um, bem, me lembro de estar no salão de sinuca com todo mundo. E depois Mike e eu saindo do bar por um minuto. Depois disso, as coisas ficaram meio confusas. Sua testa franze como se estivesse tentando descobrir algo. Ele parece preocupado, mas não fala nada. — O que foi, Reid? O que aconteceu? O que você não está me contando? — Seu silêncio me assusta um pouco. — Você sabe de quase tudo. Estava com Mike e bebeu no bar, mas, pelo que eu vi, foram apenas refrigerantes. — Ele deixa essa última parte pairando no ar entre nós — pesada e carregada. A compreensão me atinge em cheio. Eu não bebi ontem à noite. Isso não é ressaca. Reid pega o olhar esmagador de pânico em meus olhos e imediatamente me conforta. — Não se preocupe, Maddy. Nada aconteceu. Eu estava voltando para o Shooters quando Mike estava tentando sair com você. Vocês passaram por mim e vi que algo estava errado. Seus olhos não estavam nítidos. Estavam vidrados e nem parecia você. Te observei a noite toda, então sabia que não estava bêbada. Foi quando percebi que ele devia ter colocado alguma coisa na sua bebida. Dei uma porrada nele e te trouxe pra cá. Imaginei que você, provavelmente, não ia querer acordar ao meu lado, mas não queria te deixar sozinha e acordar assustada. Na hora em que a realidade me atinge, percebo que Melanie não sabe onde estou. Tenho um


sobressalto e cubro a boca com a mão. — Oh, Deus, a Mel! Preciso ligar para a Mel. Ela deve estar passando mal de tão preocupada. Nunca passei a noite fora sem falar com ela. — Me atrapalho um pouco numa tentativa meia-boca de sair da cama. Minha cabeça ainda está meio nublada e imediatamente me sinto tonta quando tento me mover. — Shh. Não se apavore. Mandei uma mensagem para ela ontem e avisei que você estava aqui. Não se preocupe. Já cuidei de tudo. — Sua voz é calma e relaxante, assim como seus dedos, que ainda estão traçando delicadamente linhas sobre meus olhos, bochechas e lábios. Inclino-me novamente contra a cabeceira e respiro longa e calmamente. — Você estava me observando? — Minha pergunta o pega desprevenido. Ele não responde de imediato. Posso dizer que está procurando as palavras certas. Ele para de acariciar meu rosto e corre as mãos pelos seus cabelos. Posso vê-lo brigando internamente sobre o que dizer. Ele realmente está travando uma batalha aqui e, se eu não estivesse tão ansiosa pela resposta, provavelmente acharia muito engraçado. Ele finalmente decide falar. — Um... Sim. Acho que pode-se dizer que sim. É só que... bem... eu não confiava naquele cara. Nunca o tinha visto lá e ele estava te encarando enquanto você se inclinava sobre a mesa de sinuca daquele jeito, como um lobo olha um cordeiro. Queria ter certeza de que você estava bem, só isso. Não consigo responder mais do que um “ah”. O silêncio se estende. Palavras não ditas pairam pesadamente entre nós. Não consigo me segurar por mais tempo, e digo: — Obrigada. — Pelo que, Maddy? — Seus olhos estão bem abertos e claros agora; todos os traços de sonolência se foram. — Por me salvar. Por me trazer aqui e ficar comigo sabendo que eu poderia ficar assustada se acordasse sozinha, por mandar uma mensagem para a Mel, por não se aproveitar de mim. Sei que você não gosta de mim e tudo mais, então, quero agradecer por ter me ajudado mesmo assim. Ele recua visivelmente com as minhas palavras. Parece ofendido e irritado, parece com o Reid que já me é mais familiar. — É isso que você pensa? Acha que eu te odeio? Afasto-me com o tom de voz duro e frio de suas palavras. — Bem, sei que não sou sua pessoa favorita, isso é certo. Prefiro pensar que você não me odeia, Reid, mas acho que não gosta muito de mim. Ele se aproxima, diminuindo a distância que acabei de criar. — Definitivamente não te odeio. — Suas mãos voltam para minhas bochechas, e seus olhos encontram os meus. Seu olhar é intenso e fico fascinada, completamente paralisada pela honestidade que brilha em seus profundos olhos azuis. — Então o que é isso, Reid? O que está acontecendo aqui? — Jogo as mãos para cima em sinal de frustração. — Estou exausta de tudo isso. Você me hostiliza o tempo todo, me trata como merda


e depois corre como um cavaleiro de armadura brilhante para me resgatar de um grande lobo mal. Eu... eu... não sei o que fazer ou como me sentir. Não posso ficar correndo de você. Evitar você está me consumindo. — Dou uma respiração pesada e trêmula antes de admitir a próxima parte. — Desde que te conheci, quis ficar aqui em seus braços, mas você não fez nada, só me afastou. Então me diga como eu deveria achar que você sente algo diferente de ódio por mim. — Então você acha que eu sou um cavaleiro de armadura brilhante, hein? — Seus lábios se curvam num lindo e contido sorriso, e eu reviro os olhos. Bato de brincadeira em seu peito musculoso, largo e perfeito que acabei de perceber que não está coberto por uma camisa. Deus, espero que ele não esteja nu por baixo das cobertas. Sim, espero. Não, não espero. Sim, espero. O silêncio está de volta, mas dessa vez é ele quem o quebra. — Tenho sido um idiota, Maddy. — Sua confissão me causa uma pequena gargalhada. — Isso é um eufemismo, Reid. — Tá, tá bom! Eu tenho sido um grande babaca. Um filho da puta. Tenho certeza de que o Sir Mix-a-lot escreveu uma música sobre mim. — Suas palavras são brincalhonas e zombeteiras, mas ele sabe que têm fundamento. — Agora sim parece você. Pode continuar agora. — Faço gracinha, e mostro a língua para ele, esperando manter o clima suave. Quero que continue se abrindo. Estou morrendo de curiosidade para saber o que ele sente. Ele levanta a outra mão, colocando agora as duas nas minhas bochechas. Alinha meu rosto com o seu e encara ainda mais profundamente — se é que é possível — meus olhos verdes. — Desculpe ter agido desse jeito, Maddy. Sei que parece clichê e bobo, mas nunca quis machucar você. Eu... bem, você... eu digo... Ah, Deus, nem consigo falar nesse momento. O que eu quero dizer é... um... bem... — Suas divagações incoerentes param quando me aproximo dele. Encaro-o, pacientemente, dentro de seus olhos azuis como cristais, e sussurro: — O que, Reid? O que você quer dizer? Ele inspira profundamente e expira lentamente, seu olhar nunca deixando o meu. — Você me tirou completamente do prumo. Nunca conheci ninguém como você e isso me assusta pra cacete. É como se você não me visse. — Minhas sobrancelhas franzem em confusão e me movo para interrompê-lo, mas ele continua antes que eu tenha a chance. — Você não me vê, você vê direto através de mim. Vê além do lado de fora, é como se você enxergasse em mim o que ninguém mais enxerga. Vi isso em seus olhos na primeira noite que te conheci e isso me derrubou. Eu era um caso perdido, e desde então acho que tenho tentado te afastar. Nossa, agora sim é uma confissão. Ele me silencia e continua. — Você é uma espertinha e amo que me mantenha no meu lugar. Definitivamente, você não é


igual às outras garotas e amo isso, mas também me assusta. Não deixo ninguém entrar há anos e, bem, com você, sinto que quero me dar essa chance. Ele acabou de falar amor? Duas vezes? É muito para assimilar. Meu cérebro ainda está meio tonto e todas essas novas informações não estão sendo processadas rapidamente. Reid deve ter visto que estou tentando fazer algum sentido com tudo isso, e, mesmo sob seu olhar de escrutínio, não consigo formular nenhuma palavra. — É muito, Maddy, sei disso. E sei que não tenho o direito de pedir que compartilhe o que está sentindo, mas você pode me dar algo? Estou morrendo aqui. — Nunca deixei ninguém entrar também. — Minhas palavras são quase um sussurro, mas continuo. — Mantive muitas paredes à minha volta durante toda a minha vida. A única pessoa que conseguiu passar por elas foi a Mel e é basicamente porque a conheço desde o ensino fundamental. Mantenho as pessoas a uma distância tão grande que até terminei com o único namorado que já tive antes de vir para cá porque não queria que nos aproximássemos. Sua resposta é uma risada. Ele pede para eu me abrir e depois ri. Idiota. — Sério! Você vai rir de mim, Reid? Bem, obrigada por essa conversa profunda, mas acho que terminei. — Cruzo os braços sobre o peito e bufo de raiva. Ele é tão idiota. — Desculpa. É que você disse que só teve um namorado e achei engraçado. Sério, só um? Quer dizer que seu pai nunca teve que espantar os garotos com um bastão? De repente, congelo. Não sei o que dizer. Não sei o que sentir. Com tudo o que tem acontecido com Reid, com tudo o que aconteceu na noite passada, com as revelações dessa manhã, mencionar meu pai, mesmo que sem intenção do jeito que foi, é muito para aguentar. Uma lágrima desce pela minha bochecha enquanto penso que meu pai nunca teve a chance de afastar supostos namorados. Outra lágrima a segue quando penso como ele nunca vai me esperar chegar em casa depois de um encontro, como nunca ninguém pedirá minha mão em casamento a ele, como ele nunca vai me levar ao altar. Reid me puxa para seus braços quando vê minhas lágrimas. Deslizamos da cabeceira para a cama e ele fica de lado. Faço o mesmo e agora estamos nos encarando, ainda nos braços um do outro. — O que foi, Maddy? Por favor, me diga o que eu disse. Detesto que já tenha feito você chorar uma vez. Odeio vê-la assim. Desculpe-me se te aborreci. — Seu olhar é genuíno e sincero. Ele está oferecendo tudo que eu sempre quis: uma chance de deixar alguém entrar e compartilhar minha dor e aliviar a tristeza. Respiro profundamente e decido aceitar sua oferta. Suas mãos estão penteando levemente meus cabelos e fazendo cócegas no couro cabeludo. É tão reconfortante e calmante que quase me esqueço de falar. Seus lábios tocam suavemente minha cabeça e ele me pede para falar alguma coisa. — Por favor, Maddy. Quero estar aqui para você. Sei que tenho sido um babaca, mas realmente estou arrependido e quero fazer as pazes, se você deixar. Por favor.


Ele coloca meu cabelo atrás da orelha e me olha com os olhos suplicantes. Tento achar as palavras certas, mas elas não existem, então opto por franqueza. — Meus pais estão mortos. Os dois. Eles morreram quando eu tinha dez anos, então, ele nunca teve a chance de afastar os garotos. Não que eu já tenha tido um encontro de verdade, de qualquer maneira. Detesto falar com as pessoas sobre essa parte minha. Sempre vem acompanhado de um patético “Sinto muito pela sua perda”. O que isso realmente significa? Odeio os olhares de simpatia e as palavras inadequadas. Na maioria das vezes, aprendi a sufocar o desejo de gritar quando alguém age assim comigo, mas teve algumas poucas vezes que não me contive. Então a reação natural de Reid me tira dos eixos. — Faz sentido, então — ele diz. Encaro-o inexpressivamente. — O que faz sentido, Reid? — As paredes que você construiu. Perder alguém que se ama é realmente difícil. Perder as duas pessoas que você mais ama e que te amariam mais do que a própria vida deve ser tão doloroso que não se tem escolha a não ser manter todo mundo afastado. — Ele coloca os dedos debaixo do meu queixo e inclina minha cabeça para que possa encontrar seu olhar. — Só para você saber, seu pai provavelmente teria um estoque de Nike para espantar a quantidade de pretendentes que você teria. Sorrio imaginando como meu pai teria sido. Nunca deixei minha mente vagar realmente para como as coisas seriam se eles ainda estivessem vivos. Não existe razão para isso. Eles estão mortos, mas estar aqui nos braços de Reid me faz sentir segura e a salvo, então deixo minha mente explorar essa possibilidade por um minuto. A voz de Reid interrompe meu estado sonhador. — Me fale sobre eles. Sou arrastada de volta — não, espere, isso é eufemismo. Fico chocada e sem palavras por um minuto. — Ninguém nunca me perguntou sobre eles. É sempre uma tentativa patética de pedido de desculpa. Mas, por não perguntarem sobre eles, é como se estivessem dizendo que eles nunca existiram. Acho que, depois de um tempo, era mais fácil eu pensar desse jeito também. Já faz tanto tempo que não permito nem a mim mesma pensar neles. É muito doloroso. Mas ultimamente venho deixando algumas memórias voltarem e elas são boas de certa forma. — Sorrio para ele. Minhas emoções estão um pouco mais controladas, então continuo. — Meu pai era incrível. Sempre queria passar um tempo comigo. Não como aqueles pais que trabalham e vêm para casa e não podem ser incomodados. Ele sempre me ajudava com o dever de casa e qualquer projeto maluco de ciências que eu tinha que fazer. Ele era engraçado também. Não do tipo engraçadinho; acho que muito do meu senso de humor veio dele. — Reid me lança um olhar irônico, mas ignoro-o e prossigo: — Ele só parecia ver a vida de um jeito diferente da maioria das pessoas. Um jeito mais fácil e leve que só o fazia parecer mais despreocupado a maior parte do tempo, mas ele era sério também. E, ah, meu Deus, realmente amava minha mãe.


Ela era linda. — Bem, uma olhada em você e consigo imaginar isso — ele me interrompe e beija minha testa. — Obrigada, mas não, ela era maravilhosa. Não consigo me lembrar de muitas coisas específicas, mas sei que temos os mesmos olhos. Ela era impecável, mas que garotinha não acha a mãe perfeita e o pai algum tipo de super-herói? Tenho certeza de que, na realidade, eles estavam muito longe disso, mas, nas minhas memórias, eles eram simplesmente incríveis juntos. Não me lembro nem mesmo deles brigando. Eles dançavam, do nada mesmo, sem música. Papai apenas ficava atrás dela e a rodava, e eu pensava que era a coisa mais romântica de todas. Eles se olhavam com tanto amor e ternura. Sempre me lembrarei disso sobre eles. Então, sim, acho que é por isso que coloquei essas paredes. É mais fácil manter as pessoas afastadas do que tê-las olhando para você desse jeito e depois elas serem arrancadas de você de uma vez só. Ficamos deitados nos braços um do outro pelo que pareceu uma eternidade. Sinto que um peso enorme saiu dos meus ombros por ter compartilhado sobre meus pais. Não vou mentir. Machuca pensar neles, mas agora a dor é incômoda ao invés de excruciante como uma faca no coração, como normalmente é. Reid está traçando círculos em minhas costas, e sinto o sono me chamando novamente. Para me impedir de cochilar completamente, digo: — É melhor eu ir embora. Não quero te ocupar o dia inteiro. Tenho certeza de que tem coisas melhores para fazer do que ficar me escutando falar dos meus pais mortos o dia todo. Além do mais, estou bem grogue da noite passada, então acho que vou cair na cama e dormir o dia inteiro. — Começo a levantar, mas ele me puxa de volta para seu peito. — Que tal isso? Pego um moletom e uma camiseta. Você toma banho, se quiser, e, enquanto você faz isso, eu preparo alguma coisa para comermos e depois você pode relaxar o dia todo. Gosto de te ter aqui. Se você quiser, claro. Posso levá-la para casa, se preferir. Você é quem decide, linda. Só me promete uma coisa? Suas palavras me desarmam. Darei tudo a ele sendo assim tão sincero. — Claro, Reid. — Bem, duas coisas na verdade. — Seus olhos estão brincalhões quando ele acrescenta algo mais em seu pedido inicial. Finjo debater seu pedido, mas ele vê através disso. Amo quando ele está todo brincalhão e divertido; é tão natural e fácil. Então, claro que assinto que estarei de acordo com o que ele vai pedir. Ele coloca suas cartas na mesa. — Primeiro: saia num encontro comigo. Você disse que nunca esteve num de verdade e eu ficaria honrado se me deixasse ser o primeiro. — E a segunda coisa? Ele ri na hora quando percebe que não vou responder sua primeira pergunta sem escutar a segunda. — Bem, acho que a segunda coisa é mais para nós dois. Ambos prometeremos não colocar


tantas paredes à nossa volta. Não estou falando que as que já estão lá precisam cair agora, mas apenas que ambos deveríamos ficar abertos para essa possibilidade. — Ele gesticula a mão entre nós. — Pode realmente ser bom. Novamente, estou chocada com a sua honestidade. É como se ele estivesse lendo minha mente sobre deixá-lo entrar. Queria isso desde que o conheci, mas acho que ele demorou um pouco mais para chegar a essa conclusão. Ele diz que tem suas paredes também, e eu quero forçar um pouco para que ele se abra, mas não tenho energia e não quero mudar como nos sentimos agora. Outra coisa para colocar no arquivo para mais tarde. — Acho que posso concordar com esses termos. Então, você realmente quer me levar num encontro? Não tem que fazer isso, você sabe, né? Digo, se for por simpatia. Sou uma garota crescida. Posso aceitar se você realmente não gostar de mim. Ficaria arrasada e comeria alguns potes de sorvete para superar. Mas me recuperaria, eventualmente. Tipo, quando tivesse uns sessenta anos. Ele pega meu rosto entre as mãos e me olha nos olhos. — Gosto de você. Muito. Se não gostasse, não estaria convidando-a para sair. Não levo qualquer uma para sair, tipo, nunca. Então, por favor, saiba que a minha oferta é real. Você, por favor, aceitaria ir a um encontro comigo? Apenas um, e, se realmente detestar, te deixarei em paz. Prometo. — Ele faz um “x” em seu coração e olha para mim com o que só pode ser caracterizado como olhos de cachorro pidão. Merda, ele é adorável. Seu rosto está tão perto do meu que consigo sentir sua respiração quente em meus lábios. Sussurro um “sim” em resposta e, no segundo em que o faço, seus lábios estão nos meus. Não é tão rápido e duro como o nosso primeiro beijo. Pelo contrário, é doce e erótico. Sua língua dança ao redor da minha e, quando acaricio a dele em resposta, sou recompensada com um gemido sexy. Ele aumenta a intensidade e gentilmente belisca e morde meus lábios, rapidamente lambendo os pontos sensíveis. Ele afasta a boca da minha e gemo em protesto, que para na hora em que percebo que ele está fazendo um caminho de beijos por meu maxilar e descendo até o pescoço. Sua língua traça padrões molhados e quentes logo abaixo da minha orelha, e não consigo segurar o gemido que escapa de meus lábios. Sua mão está emaranhada em meus cabelos e ele me puxa para mais perto, para que não exista espaço entre nós. Cada parte nossa está se tocando — peitos, quadris, pernas e dedos. Almas. Nossas pernas estão entrelaçadas e posso sentir o tanto que ele está excitado. Passo as mãos por sua cintura e deixo-as vagar por todo seu peito e costas. Sua boca está de volta na minha e ele não está mais só me beijando. Está me devorando. Dessa vez, interrompo o beijo e me movo para seu pescoço. Lambo a camada externa de seu ouvido e mordo o lóbulo; ele empurra sua ereção contra mim em resposta. — Ah, Deus, Reid! Deus, por favor, faça isso de novo. Ele faz e eu quase grito em resposta. É incrível e quero beijar cada pedacinho dele.


Antes que eu tenha a chance de fazer, ele se afasta e imediatamente fico autoconsciente de que fiz algo errado. — O que houve, Reid? Fiz algo errado? — Puta merda não, Maddy. Você não fez nada de errado, mesmo. Uns minutos a mais do que estava fazendo e você teria me feito fazer isso no automático. Deus, eu te quero. Você tem que saber disso. — Ele cutuca sua ereção em mim outra vez, apenas para provar seu ponto antes de continuar. — É só que, com tudo que aconteceu na noite passada, não quero tirar proveito. Quero tentar fazer isso do jeito certo. Então, por favor, saiba que me mata ter que fazê-lo, mas eu preciso parar. Ele sai da cama e não consigo evitar pensar no quanto ele estava se divertindo. A prova está armada em sua cueca boxer preta sexy e apertada pra caramba. Ele balança a cabeça e ri quando me pega observando. — Preciso de um banho. Um bem frio. — Ele se vira e sai do quarto, e não posso evitar de rir da sua frustração. Minha risada desaparece quando percebo que vou precisar de um banho frio também.

Deito-me e faço um balanço da minha atual situação. Estou na cama de Reid depois de uma sessão de amassos, e ele disse que quer me levar num encontro de verdade. Ele gosta de mim e admitiu abertamente ter sido um babaca essas últimas semanas. Hummm, talvez eu deva jogar na loteria. Hoje parece ser meu dia de sorte ou algo assim. Ele volta para o quarto depois do banho, com nada além de uma toalha enrolada na cintura. Nota que estou encarando e ri de mim novamente. — Gosta do que vê, hein? — Ele ri. Coro num tom furioso de vermelho e ele senta ao meu lado. — Tudo bem, Maddy. É perfeitamente normal gostar do que vê. Eu gosto do que vejo também. Você é de longe a garota mais gostosa que eu já vi. Então estamos quites. — Ele se inclina e me dá um beijo doce na boca antes de pegar um short e uma camiseta. Graças a Deus ele vai para o banheiro se vestir, porque tenho quase certeza de que entraria em combustão instantânea se ele ficasse nu na minha frente agora. Quando volta, está completamente vestido, infelizmente. — Deixei uma toalha e roupas limpas para você. Não tenho nada daquelas coisas femininas, mas tem sabonete e água quente, que tenho certeza de que é exatamente o que você precisa depois de ontem à noite. Vou preparar algo para comermos enquanto você se limpa. Tudo bem? — Parece perfeito, Reid. Obrigada novamente. — Shh, não precisa me agradecer. Eu é quem deveria estar te agradecendo. — Ele beija


minha bochecha e continua. — Vou trazer sua comida aqui em cima para que não tenha que lidar com os caras agora. Vejo você em alguns minutos.

Ele estava certo. Um banho quente definitivamente me ajudou a clarear os pensamentos e me sinto revigorada quando termino. Suas roupas ficam enormes em mim, mas não ligo. Coloco a calça de moletom e tento algumas vezes apertá-la o máximo que posso, mas não adianta, continuam caindo. A camiseta que ele deixou também é enorme. Vai até no meio das coxas. Dou uma espiada dentro do quarto para constatar que ele ainda está lá embaixo. Vou até a gaveta na qual o vi tirando uma boxer e roubo uma para mim. Mesmo que a camisa seja grande, não existe motivo para ficar andando por aí com as coisas de fora. Ele volta alguns minutos depois com um pouco de café e bagel com cream cheese. Quando está acabando de tomar um gole de café, digo que estou usando uma de suas cuecas. Com seu engasgo, percebo que deveria ter esperado para compartilhar esse detalhe sexy. Ele recupera a compostura e dá uma mordida no bagel. Mas antes, diz: — Você tem algo mais para me dizer antes que eu dê uma mordida nisso? Porque mais uma informação como essa e provavelmente vou parar de respirar. — Rio e franzo o rosto, fingindo pensar sobre mais alguma coisa que o deixe sem rumo. — Não, acho que é isso, mas aviso se pensar em algo mais que vá fazer você querer engolir a língua. — Obrigado pela consideração, linda. — Ele sorri e me dá uma leve cotovelada brincalhona. Comemos em um silêncio amigável e, quando terminamos, ele coloca as vasilhas em cima do criado-mudo. Entre o banho, o estômago cheio e basicamente tudo o que ocorreu nas últimas doze horas, o sono está me vencendo rapidamente. Reid me puxa para os seus braços. Descanso a cabeça em seu peito e fecho os olhos. Ele me beija com doçura e sussurra em meu ouvido: — Feche os olhos, linda. Você teve uma manhã dos infernos. Vamos tirar um cochilo, te levo para casa mais tarde. Aconchego-me ainda mais a ele e, antes que possa dizer qualquer coisa, sentindo-me segura, aquecida e a salvo, minhas pálpebras se fecham e o sono me leva.


Acordo com a coisa mais linda do mundo enrolada ao meu lado, dormindo pacificamente. Não posso evitar sorrir com essa cena. Quem imaginaria que ficar de conchinha — porra, qualquer tipo de intimidade — me faria sorrir? São apenas duas e meia da tarde, então tenho pouco tempo antes de precisar acordar Maddy para levá-la para casa. Envio uma mensagem rápida para Melanie avisando que está tudo bem. Sua resposta é imediata. Melanie: O que diabos aconteceu, Reid? Tenho tentado ligar para Maddy a manhã toda. Vai direto para a caixa postal. O que você fez? Eu: Nada de mal. Juro. Tenho certeza de que ela vai te contar tudo quando chegar em casa. Vou levá-la de volta às quatro. Ela está dormindo agora. Melanie: “Nada de mal”, sério? Como se você soubesse de algo. Eu: Sim, eu sei, mas estou tentando mudar isso. Prometo. Melanie: Que seja. Maddy parece gostar de você. Não tenho ideia do porquê, então vou tentar ser legal por ela, acho. Eu: Você pode me fazer um favor? É pela Maddy. Melanie: Hummm, claro, mas desde que realmente seja para ela e não alguma forma indireta de você conseguir o que quer. Você está andando sobre gelo fino. Eu: Posso te pagar um almoço? Melanie: O quê? Você percebe que é minha amiga que está aí com você? Você é um filho da puta, sabe disso, né?


Eu: Não!! Não desse jeito. Quero conhecê-la melhor, e você é a melhor amiga dela, então gostaria de te conhecer melhor também. Melanie: Ah, tá. Acho que sim, mas isso não significa que você está perdoado. Minha última aula termina à uma e meia. Te encontro no refeitório logo depois. Eu: Obrigado. Te vejo lá. Maddy pode não ter tido um pai que perseguia os garotos, mas Melanie com certeza chega perto de ser um. Sei que, se tiver qualquer chance de ganhar Maddy, vou ter que ganhar Melanie também. Sinto Maddy começar a acordar e sorrio calorosamente para ela. Não posso deixar de rir um pouco quando penso em quão fora da minha zona de conforto isso é, ainda assim, parece tão natural. Sinto um pedaço daquela parede ao redor do meu coração se quebrar um pouco. Quero dividir com ela o porquê de as paredes estarem lá em primeiro lugar, mas como posso contar isso? Ela já perdeu tanto e lidou com uma tonelada de dor. Sei com toda certeza que, se ela descobrir a pessoa horrível que sou por dentro, nunca me dará uma chance. Não importa quão próxima ela fique, não pode nem sonhar em conhecer aquela parte minha. Se minha própria família não me quer, por que ela iria me querer? Sei que vai afastá-la de vez e já me queimei uma vez, de forma irreparável e horrível. Não posso suportar isso novamente. Agora, ela está totalmente acordada e olhando para mim com um olhar sonhador e sexy pra caralho. — Ei, dorminhoca. Sente-se melhor? — Muito melhor. Que horas são? Por quanto fiquei apagada? — Sua voz é muito sensual quando está sonolenta. Tenho que fazer um esforço para acordar mais vezes ao lado dela. — São quase três horas. Acabei de mandar uma mensagem para a Melanie. Ela acha que te sequestrei. Maddy ri. Acho que Melanie está parcialmente certa; eu realmente sequestrei Maddy. — Ela pensaria isso mesmo! Vamos dizer que, com toda a merda que aconteceu entre a gente, você não é a pessoa favorita dela. — Sua sobrancelha arqueada é tão deliciosamente sarcástica. Amo isso. — Mereço isso com certeza. Vou consertar as coisas com ela e com você. Prometo. Pisco um olho para ela, esperando que me deixe fazer isso. Beijo-a de leve nos lábios e saio da cama, temendo que, se ficar perto demais por muito tempo, nunca vamos sair daqui. Não me entenda mal. Amaria passar o dia e a noite toda na cama com ela, mas vou fazer isso do jeito certo. Ela merece. Enquanto puxo uma camiseta sobre a cabeça, Maddy vem por trás de mim e envolve os braços em volta da minha cintura, pressionando a bochecha nas minhas costas. — Posso te perguntar uma coisa? — Ela parece incerta e imediatamente imagino o que fiz de errado. — Você pode me perguntar qualquer coisa, doçura. Qualquer coisa, exceto porque estou machucado. Ainda não estou pronto para isso.


— O que você acha que aconteceu entre mim e Logan? — Sua voz é vaga. Este é um tema sensível para ela. Sei que agi como um bobo com Logan e ela. As coisas dela são dela. Deus sabe que não tenho direito nenhum de julgar. — Ele me disse que vocês dormiram juntos. E tudo bem, Maddy. Não estou em posição de julgar o que você fez. — De repente, me arrependo de cada encontro sexual que já tive. A atmosfera do quarto muda enquanto ela reúne as palavras. — E você acreditou nele? Por acaso pensou em me perguntar o que aconteceu? Ela está ofendida. Estamos há dois minutos nessa relação, ou no que quer que seja isso, e já ferrei com tudo. — Sinto muito, Maddy. É só que, quando te vi com a roupa dele e saindo do quarto, bem, o que eu deveria pensar? Depois, quando conversamos mais tarde, ele me disse que vocês transaram, então o que eu deveria fazer? Tudo o que eu queria era isso: evitar uma conversa pesada. — Para começo de conversa, você poderia ter me ligado, ter escutado a minha versão da história, antes de tirar conclusões precipitadas. Ela coloca as coisas de um jeito tão simples. Sou um idiota. Vou resolver isso diretamente com Logan. Mentir para mim é uma coisa, mas falar merda sobre Maddy é outra totalmente diferente. Tento amenizar o clima e digo: — Bem, não tenho o seu número, então não tinha como fazer isso. Agora posso, né? Ela revira os olhos e corre para pegar a bolsa. Deus, ela é adorável quando está exaltada. Adoro isso. Escuto meu telefone vibrar no criado-mudo. Ela está segurando seu telefone no ar e rindo. — Pronto. Agora você tem. Se alguma vez quiser saber algo, me ligue. Pergunte-me. E não apenas assuma cegamente o pior. E para constar, não dormi com Logan. — Uma vermelhidão sobe de seu pescoço até o rosto com a última parte da informação, mas ela continua: — Eu nunca dormi com ninguém, na verdade. — A última parte é quase um sussurro. Então, essa é a sensação de ter todo o ar tirado de você. Ela percebe que estou paralisado pela revelação. Ela está falando sério? Ela nunca dormiu com ninguém? Ela é linda. Como nunca foi conquistada até agora? — Reid, diga algo, qualquer coisa. Por favor. — Seu rosto ainda está num vermelho vivo por causa do embaraço e parece que não consigo me recuperar do choque. Ela continua tentando defender algo que não precisa de defesa nenhuma. — Eu disse que nunca deixei ninguém entrar. Nunca me permiti chegar tão perto. Entendo se você preferir não me levar para sair agora. Sei que não tenho tanta experiência quanto você. Foi por isso que pensei que você deveria saber antes de as coisas ficarem muito sérias. Nossa, olha o que eu disse: “Antes de as coisas ficarem muito sérias”. Nós nem saímos ainda e já estou falando sobre as coisas ficarem sérias.


Minha boca silencia seu discurso. Ela é tão fofa que não posso evitar. — Maddy. Pare. Me escute. Me desculpe, eu não fui até você para descobrir o que realmente aconteceu. Prometo, daqui pra frente, conversar antes de tirar qualquer conclusão. E quanto a você ser virgem, bom, só estou um pouco chocado. Apenas isso. Você é linda, divertida, engraçada, inteligente e, bem, simplesmente incrível. Ela sorri para a minha lista de elogios. — Então isso não é um grande “X” vermelho para você, eu ser virgem? Ela é incrivelmente adorável. — Você está de brincadeira comigo? Claro que não tem problema. De jeito nenhum. Vamos devagar. Vai me matar, mas vamos com calma. Já te disse que quero fazer as coisas certas. Não me leve a mal, mas eu já tive muito sexo. — Ah, meu Deus, será que conseguiria soar mais babaca agora? Tento me retratar. — O que quero dizer é que já tive muito apenas sexo. Foi tudo sempre assim; sexo somente. Nunca teve intimidade, conexão ou desejo por mais. — Certo, está um pouco melhor. — E você quer essas coisas? Intimidade? Conexão? Mais? Comigo? — Ela tem todo o direito de estar cética, mas não posso negar que sua descrença machuca um pouco. — Quero, Maddy. Gostaria que você me desse a chance de ganhar e ter essas coisas com você. Não vou dizer que vou ser perfeito o tempo todo. Nunca fiz isso antes, mas vou tentar. E, inferno, se as coisas físicas vierem no pacote, então vai ser fantástico. — Pisco para tentar aliviar o clima antes de continuar numa linha mais séria. — E se não vierem, tudo bem, mas, depois dessa manhã, tenho um bom pressentimento de que não vai ser um problema. Só não quero te forçar a nada. Quero estar com você e quando estiver pronta, bem... daremos um passo de cada vez, ok? — Tá. Está mais do que ótimo! — Ela me envolve com os braços novamente, dessa vez, pressionando a bochecha em meu peito. Consigo sentir a tensão deixar seu corpo. — Posso te perguntar uma coisa agora? — incito. — Claro, Reid. — Como você conseguiu meu número? — Levanto uma sobrancelha, e ela quase engasga com as palavras. — Um... bem... Pedi a Cammie. Você sabe, só por via das dúvidas. Aquele rubor adorável está de volta e não posso evitar, então a beijo. — Tudo bem, Maddy. Fico feliz que tenha pedido. Você sabe, “só por via das dúvidas”. Ela me dá um tapa de brincadeira no peito e revira os olhos. — Bom, se já terminamos com o jogo de perguntas e respostas, gostaria de te levar para casa agora. — Já está me chutando pra fora, hein? Tem alguma garota esperando no corredor ou em algum outro lugar? — Ela está tentando ser sarcástica sobre isso, mas consigo ouvir uma preocupação verdadeira. Seguro seus ombros com firmeza e a olho nos olhos.


— Escute-me atentamente, Madeleine. Já disse que quero fazer as coisas corretamente. Prometo que não vou fazer nada pelas suas costas. É só você. Não existe mais ninguém. Desejo você desde o dia em que te vi e vou tentar o meu melhor para não ferrar com tudo. Então pare com essa bobagem de que vou ficar com outras garotas. É só você. Entendeu? Quero levá-la para casa porque sei que a Melanie está muito preocupada e eu disse a ela que te levaria até às quatro da tarde. E, a propósito, é melhor checar a sua caixa postal; ela disse que está tentando falar com você desde de manhã bem cedo. Ao final do meu pequeno discurso, beijo-a com vontade e apaixonadamente para que entenda o meu ponto. Quando me afasto, seus olhos estão arregalados e ela está sem fôlego. — Entendi. Sim, definitivamente entendi — ela balbucia enquanto passa os dedos levemente pelos lábios inchados. Levo-a de volta para o dormitório e até a porta. Ela protesta, dizendo que não preciso escoltála até lá e lanço-lhe um olhar furioso. — Já disse que vou fazer isso do jeito certo. Agora, quietinha. Ela apenas revira os olhos em resposta. — Você vai voltar para a academia agora que fizemos as pazes? — Deus, espero que sim. Aquele shortinho de corrida de lycra vale muito a pena ter que acordar com o sol raiando. — Você me quer lá? Não quero fazer você sentir que estou em cólicas por você ou algo do tipo, mas está ficando um pouco frio para correr nas trilhas de qualquer forma. — Você tem corrido nas trilhas sozinha? Não é seguro, linda. E se algo acontecesse com você? Por favor, diga que voltará para a academia. — Então tá. Vejo você amanhã de manhã. Obrigada novamente, Reid, por tudo. Sei que você disse para parar de falar isso, mas obrigada. Deixando de lado a parte de ser drogada, essa manhã foi a melhor que eu já tive. Ela fica na ponta dos pés e me dá um beijo casto antes de entrar no dormitório. Sinto outro pedaço daquela parede, que uma vez pensei ser impenetrável, ruir.

Estou superanimado para chegar à academia na manhã seguinte. Se dissesse que é somente pela nova aula de MMA que me inscrevi, estaria mentindo. Maddy volta hoje e amo poder começar o dia com ela. Encontro-a na porta. — Bom dia, linda. — Inclino-me para lhe dar um beijo e ela parece hesitante. — O quê? Não quer ser vista em público comigo? — pergunto, meio que brincando, mas realmente espero que ela esteja bem comigo a beijando, porque ficar sem ela pelas últimas doze horas tem me matado. Definitivamente precisei de um banho frio para passar a noite. — Não, não é nada disso. Apenas pensei que você não queria ser visto comigo. Imaginei que o encontro era uma coisa. Nós não estabelecemos limites ou qualquer outra coisa ontem, então não


sabia o que esperar hoje de manhã. — Acho que dizer que te quero não é o bastante, hein? — Levanto uma sobrancelha para ela. — Deixe-me esclarecer, Maddy. Não quero só sair com você num primeiro encontro oficial, gostaria de sair com você exclusivamente. Se estiver tudo bem pra você. Não quero soar presunçoso ou algo parecido. — Essas palavras acabaram de sair da minha boca? Exclusivamente? Estou em apuros aqui. — Então o que isso faria de mim? O que isso faria de nós? Ela realmente não entendeu e sua incerteza me faz pensar que não estou sendo claro o bastante. — Bem, gostaria que você fosse minha namorada. Quando pensei que você tivesse dormido com Logan, fiquei fora de mim de tanta raiva. O rosto do Logan pode provar isso. — Rio silenciosamente e ela me lança um olhar severo. Certo, ainda não é engraçado. — E depois, quando você estava flertando com aquele cara no Shooters, bem, fiquei puto também. Não posso dizer que serei bom nisso — porra, nunca fiz isso antes —, mas gostaria de ter um relacionamento de verdade com você. Algo em você me faz querer tentar, pelo menos. Seu silêncio de choque me mantém no limite da sanidade por um momento. Quero perguntar o que ela acha. Quero fazer umas observações espertinhas, mas não quero assustá-la e não quero que ela pense que não estou falando sério. Estou falando sério. Tão sério que isso me assusta, mas nunca desejei tanto tentar. Então eu vou tentar. Ela ainda não disse nada, então quebro o silêncio. — Olha, talvez eu tenha sido um pouco precipitado. Desculpe. Talvez você se sinta mais confortável em esperar para ver como será o nosso encontro e veremos como vai ser daí em diante. Isso parece mais razoável? — Esperarei uma semana por ela. Talvez precise de muitos banhos frios, mas esperarei. — Não. Que merda eu fiz de errado? Por que ela está dizendo não? Ela percebe meu olhar magoado. Num segundo, seus braços estão em volta de mim e ela fica na ponta dos pés para me beijar. Sua língua dança apaixonadamente ao redor da minha. Deus, amo seus beijos. Quando ela se afasta, não consigo evitar o olhar confuso em meu rosto. Ela vê e começa a se explicar. — O que eu quis dizer, Reid, é que esperar até nosso encontro definitivamente não é a coisa mais razoável. Serei sincera. Quando você me deixou na pista de dança naquela primeira vez em que nos conhecemos para ir dar uns amassos na sósia da Barbie, eu perdi a cabeça também. Não gosto da ideia de você com outra mulher. Então, se quiser ser meu namorado, nada me faria mais feliz do que ser a sua namorada. — Ela sorri ternamente e se levanta mais uma vez na ponta dos pés para me dar um beijo inocente e suave nos lábios, e acrescenta: — Só para você saber, Reid, também estou assustada. Talvez mais do que eu deixe transparecer. Tenho muito medo de me machucar, mas me sinto segura com você. Acredito quando diz que vai dar o seu melhor. Não tenho certeza se algum de nós dois vai ferrar as coisas e que não nos machucaremos, mas sei, ou pelo


menos espero, que não nos machuquemos de propósito. Ela se sente segura comigo. Nunca me senti tão contente como me sinto agora. Ela entendeu. Ela só está tão assustada quanto eu e ainda assim quer tentar nos dar uma chance. — Maddy, espero que um dia eu tenha tanta força quanto você. Você me impressiona. Sabe disso, né? — Eu? Forte? Não, você deve estar me confundindo com o meu namorado fodão — ela dá uma olhada para relógio antes de continuar —, que estará atrasado para o seu pequeno “clube da luta” se não começar a andar. — Ai, merda, você tá certa. Te encontro quando terminarmos e vou caminhando até a biblioteca com você. — Beijo-a levemente e dou um tapa brincalhão em sua bunda quando ela entra na academia na minha frente. Ela me dá uma espiada e um olhar de “Eu não acredito que você fez isso”. Dou de ombros e sorrio de volta. Meu mundo parece mais vivo com ela nele e não é nada menos do que uma ação de Deus de que ela me quer no dela também.

Outra razão para estar louco para começar essa aula é porque Logan se inscreveu comigo. Se aquele merdinha pensa que vai se safar por mentir sobre ter dormido com a Maddy, está redondamente enganado. Ele estava fora na noite passada depois que eu trouxe Maddy para casa, então não tive a oportunidade de confrontá-lo. Isso na verdade funciona perfeitamente. Ele não faz ideia do quão puto estou, e estamos em uma situação na qual estou muito inclinado a socálo de verdade. Ambos estamos um pouco atrasados, então não tem ninguém no corredor quando ele me cumprimenta na porta da sala de luta. — Ei, cara. Como foi o resto do seu final de semana? Soube que a Maddy passou a noite lá em casa. Nunca soube que você era do tipo que não esperava nem esfriar. — Ele me cutuca levemente com o cotovelo na costela de um jeito brincalhão, como se isso fosse a porra de uma piada. Coloco meu antebraço debaixo de seu queixo num segundo. Posso senti-lo lutar para engolir sob meu braço. Seus olhos estão arregalados; tenho o elemento surpresa do meu lado. — Babaca. Você quer dizer isso de novo? — Empurro com mais força contra sua garganta. — Você é um verdadeiro merda, Logan. Então, quando ia me dizer que estava mentindo para mim? Seu rosto fica pálido e posso ver seus olhos começarem a ficar à deriva. Percebendo que talvez esteja empurrando muito forte, afasto o braço de sua garganta. Logan desliza pela parede, com falta de ar. Quando recupera o fôlego, pego-o pelo colarinho e o levanto de volta até meu rosto.


Ele recupera a compostura. — Qual é a porra do seu problema, Reid? Você aprendeu como respeitar uma mulher da noite para o dia ou algo assim? E isso foi antes ou depois de foder com ela? Através da mandíbula cerrada, rosno: — Retire isso. Agora, Logan. — Retirar o quê? Você está maluco. Nem mesmo sei do que você está falando. — Sabe sim e vou contar até três para te dar tempo de compreender sobre o que estou falando e para se desculpar antes que eu te arrebente. Logan está tentando processar tudo, mas não está fazendo rápido o suficiente para mim. Começo a contar. Talvez isso o motive a engolir a porra de suas palavras. — Um. — Reid, você está louco. Realmente vai bater no seu amigo por causa de uma mulher qualquer? Ele está desviando o assunto, tentando me fazer ceder, mas não vai funcionar. — Dois. — Ela deve ter sido muito boa mesmo pra você ficar todo irritado desse jeito. Só lembre de que eu a tive primeiro, mano. — Três. — Nem mesmo dou a chance de ele responder a minha contagem. Dou um soco na boca do seu estômago, e ele se encolhe de dor. Tentando recuperar o fôlego mais uma vez, ele mal consegue falar. Inclino-me para que minhas palavras sussurradas sejam ouvidas apenas por ele. — Última chance, filho da puta. Retire ou realmente farei você pagar. Ele se endireita e olha em meus olhos; vejo derrota neles, então espero por suas palavras. — Sério, Reid? Você vai arrebentar seu amigo por causa de uma garota? — Ela não é apenas uma garota. É a minha garota e não vou deixar você ficar falando merda sobre a minha garota. Ela é minha agora e você me deve uma explicação, seu babaca. Então, ou você começa a falar ou vou continuar te batendo. — Ela é sua garota? Devo esperar o apocalipse depois? — Ele está tentando ser engraçado, mas não estou nem um pouco no clima. — Não que seja da porra de sua conta, mas, sim, ela é minha namorada agora. — Bem, então. Você é um sortudo filho da puta porque ela é uma ótima transa! — Ok. Você pediu. Vamos fazer isso do seu jeito, Logan. Não vou lhe dar a satisfação de dizer o que quero que ele me diga. Vou tirar isso à força, se é o que ele quer. Dou um passo em direção à porta e a seguro aberta para ele. Estendo o braço em direção ao interior da sala num típico gesto de “depois de você” e o assisto cruzar a porta. Percebo o cuidado com o qual ele caminha quando passa por mim. Bom, ele está com medo. O filho da puta deve ficar. Depois de um breve alongamento e aquecimento, o instrutor nos diz para fazer parceria para


alguns sparrings. Imediatamente, movo-me para perto de Logan. Mantenho a voz baixa para que só ele possa me escutar: — Vou acabar com você, Logan. Mal o instrutor apita e já derrubo Logan em dois segundos. Seu rosto está pregado no tatame; meu joelho está em cima do seu rim, forçando-o, e seu braço direito torcido até o centro das costas. Ele mexe o corpo tentando sair debaixo de mim, mas ainda não o solto. Empurro o joelho um pouco mais e puxo ainda mais seu braço. Seu rosto se contorce de dor e eu o solto. Ele fez suas escolhas antes. Poderia ter sido sincero, mas agora vou tirar isso a limpo tanto quanto possível. Ambos levantamos e começamos a nos movimentar ao redor um do outro, gingando e fazendo tentativas de socos. Ele ginga na minha direção algumas vezes, mas sou mais rápido com os pés, então ele não consegue me acertar. Numa rápida sucessão, dou vários socos em seu rosto. Sua bochecha abre abaixo do olho, e ele deve ter sentido o sangue descer por ela. Ele a limpa e olha para sua mão. — Que porra é essa? — diz. Minha resposta é simples: — Um soco do outro lado do seu rosto. — Dou um chute em sua lateral e mais um na coxa antes de o instrutor perceber o que está acontecendo. Todo mundo está parado à nossa volta, chocados com a ferocidade com a qual estou lhe dando uma surra. Estou furioso e meu raciocínio lógico se foi completamente. Volto-o para o chão e começo a socá-lo no rosto, no estômago e nas costelas. Ele está em posição fetal, abandonando todas as suas frentes de defesas e toda a autopreservação nesse momento. Minha voz é feroz e bruta. — Eu disse para você retirar agora! Sinto alguém me tirar de cima de Logan. Ben está entre nós, assim como alguns outros alunos tentam nos separar. De canto de olho, vejo Maddy nos olhando pela parede de vidro que separa a sala de luta do resto da academia. Liberto-me dos apertos e vou correndo em sua direção. Ela parece assustada e está de olhos arregalados. Estou coberto de suor e certamente também com sangue de Logan na camisa. Ela tenta se afastar de mim, mas dou um passo para mais perto. — Shh. Tudo bem, Maddy. Não vou te machucar. Prometo. — Estendo a mão para ela, esperando que segure a minha. Quando nossos dedos se entrelaçam, levo-a comigo para a sala de luta. Minha pequena luta com Logan praticamente limpou o lugar. Apenas Logan e Ben permanecem. Ben fala primeiro. — Você já esfriou a cabeça, Reid? — Agora já, estou bem — respondo ao Ben, mas meus olhos estão atirando punhais na direção de Logan. — Ótimo, porque mais uma explosão como essa e você será expulso da aula. Entendeu? — Entendi. Essa foi a última vez. Prometo. Será que nós três podemos ter uns minutos sozinhos?


Algumas coisas precisam ser ditas. Ben olha para nós três e consigo ver as peças do quebra-cabeça se juntando em sua cabeça. — Sim, apenas tente não arrebentá-lo outra vez. Ok? — Ben sai da sala e a porta se fecha atrás dele. Maddy quebra a tensão preenchida pelo silêncio. — Reid, o que está acontecendo? Você está me assustando. — Logan tem algo para te dizer. — Dou a ele um olhar de reconhecimento. Ele não quer brigar novamente, então finalmente desiste. Encara Maddy e limpa a garganta de um jeito nervoso. — Me desculpe por mentir para Reid sobre nós. Maddy parece chocada. Ela provavelmente pensou que eu deixaria isso de lado. Será que ela não entende que não permitirei que ninguém fique falando merda sobre ela? Cutuco Logan com o cotovelo. Ele terá que dizer mais do que isso para fazer da forma certa. — Queria deixar Reid irritado depois de ele ter me batido naquela noite. Nunca deveria ter te arrastado para isso. Foi errado dizer que dormimos juntos só para irritá-lo. Espero que você possa me perdoar. Maddy apenas acena em sua direção e Logan volta a atenção para mim. Estendendo sua mão num jeito de pedir trégua, ele começa a falar comigo. — Me desculpe. Se eu soubesse que você estava falando sério sobre ela, não teria dito essas coisas. É que você não é o tipo de cara que namora. Desculpe por ter te irritado e por falar merda sobre a sua garota. Amigos? Não estou pronto para perdoá-lo com alguns “Me desculpe”. Não importa quão sincero eles possam parecer, não são o bastante para melhorar as coisas, mas já é um começo. E tenho que morar com esse cara depois de tudo, então aperto sua mão e digo: — Sim, estamos bem. Apenas mantenha a porra da sua boca fechada de agora em diante. Com isso, Logan vai embora da academia, admitindo a derrota. Maddy se vira para mim e parece não saber o que dizer. Depois de alguns minutos de silêncio, ela finalmente encontra a voz. — Você bateu nele? Por mim? Não consigo dizer se ela está impressionada ou chocada. — Ele mentiu sobre você. Isso não é legal. Não vou permitir isso. Você é minha, Maddy, e não ia deixá-lo se safar tão fácil. Então sim, eu bati nele por você. — Ela tem que perceber que nunca vou deixar ninguém machucá-la. — Sua? — Sua voz mal é um sussurro. — Sim, Maddy. Minha. Você é minha. Por favor, me diga que está tudo bem com isso. — E você é meu? — Escuto a descrença em sua voz. Inferno, até eu acho difícil de acreditar que mudei tão rapidamente.


— Sim, linda. Eu sou seu e você é minha. Combinado? Ela levanta a mão para um aperto de mão e sorrio para ela. Seguro sua mão e meu corpo acorda para a vida sob seu olhar caloroso. Um simples toque dela é mais emocionante do que qualquer contato físico que já tive antes. Balançamos as mãos e ela diz: — Sim, combinado. Sob uma condição. Nossas mãos ainda estão juntas e me inclino para beijar de leve seus lábios, que estão tremendo. — Qualquer coisa por você, Maddy. Diga seus termos. — Primeiro, pare de bater em seus amigos por mim. — Ela arqueia uma sobrancelha, indicando que não está satisfeita com as minhas travessuras. — Desde que eles mantenham suas bocas fechadas, estamos bem. — Beijo-a novamente e peço seu próximo termo. — E segundo, da próxima vez que tiver aula, promete não usar camisa? Você é muito gostoso! — Ela coloca as mãos em meu peito e fica na ponta dos pés para me beijar. Não consigo segurar o sorriso que surge em meu rosto. — Definitivamente consigo lidar com essas condições, minha linda. Agora, vamos tomar um banho e nos aprontarmos para a aula. Nos beijamos brevemente antes de seguirmos por caminhos diferentes. Se ela não tinha acreditado em mim mais cedo, de que eu estava cem por cento nessa relação, agora ela com toda a certeza acredita.

Andar com a Maddy pelo campus depois de sair da academia é como caminhar nas nuvens. Adoraria passar o dia com ela, mas ela tem aula até depois das três, o que me dá uma oportunidade perfeita de almoçar com Melanie sem Maddy saber. Eu sei. Eu sei. Honestidade, transparência e tudo isso, mas as minhas intenções são boas. Realmente pretendo dizer a Maddy sobre meu almoço com Melanie hoje à noite. Só não queria deixá-la preocupada sobre isso de antemão. E mais, depois do meu comentário sobre seu pai ontem de manhã, concluí que, em boca fechada, não entra mosca, então, quero ter certeza de que não vou dizer mais nada estúpido. Outra parte do meu plano é conquistar Melanie. Já sei que não sou sua pessoa favorita, mas Melanie é a única que Maddy já permitiu entrar. Preciso que ela fique do meu lado. Chego ao refeitório antes de Melanie e imagino que uma coisa legal de se fazer é comprar o almoço dela. Pego uma salada de frango grelhado e uma garrafa de água. Minha nova aula de MMA me deixou exausto hoje de manhã, literalmente, e estou morrendo de fome. Comeria uma vaca inteira de tão faminto que estou. Então opto por um cheeseburguer com fritas. Não é a opção mais saudável, mas um homem tem que comer.


Quando vejo Melanie entrar, me levanto e aceno para ela. É um encontro estranho. Não estamos ainda no estágio de abraço. Ela não é homem, então bater nossos punhos seria estranho. E não estamos numa entrevista de emprego, então um aperto de mãos é ridículo. Fico apenas parado lá e aceno um oi. É, aceno um oi. Sou tão estúpido. Ela ri e se senta. — Oi, Melanie. Obrigado por me encontrar. — Sem problemas, Reid. Qualquer coisa por Maddy, você sabe disso. E me chame de Mel. Vou pegar algo para comer. Volto logo. Paro-a antes que consiga se afastar. — Não precisa, Mel. Já comprei o almoço. Era o mínimo que eu poderia fazer por sua ajuda. Ela literalmente me olha como se tivesse visto um unicórnio ou algo parecido. — Um, certo. Obrigada. Foi legal da sua parte. Tive que estudar antes da aula hoje, então pulei o café da manhã e estou faminta. — Seus olhos pousam em meu hambúrguer e ela parece nunca ter visto comida antes em sua vida. — Bem, então você está com sorte. Não tinha certeza do que gostaria e imaginei que estudante universitário não gostaria de um hambúrguer com fritas. — Meu estômago reclama enquanto deslizo o prato para sua frente. — Ah, meu Deus. Obrigada, obrigada, obrigada. Isso é ótimo. — Ela consegue dar uma mordida do tamanho de uma dentada de um Tiranossauro Rex no hambúrguer. — Você é ótimo. Não poderia sobreviver comendo salada, mas Maddy diz que você malha todo dia, então tenho certeza de que um hambúrguer acabaria com tudo que você já fez hoje. Se não estivesse aqui por Maddy, estaria atravessando a mesa e arrancando esse hambúrguer de sua boca. Você tem sorte de ser mulher. Acho que posso pegar outro para mim quando ela for embora, então apenas me enterro na salada — porra de comida de coelho. Engolindo meu humor azedo, digo a ela sobre minha nova aula. — Sim, eu malho toda manhã. Não vou mentir, ficou ainda mais fácil levantar todo dia de manhã para ver um certo alguém lá também. Acabei de começar essa nova aula de MMA. Aquela mistura de artes marciais — explico. — Não precisa explicar. Caras lindos lutando e ficando suados. Sim, sou familiar com esse esporte. — Seu esclarecimento me tira uma risada. — De qualquer jeito, tenho certeza de que Maddy falou para você como perdi a linha algumas vezes com Logan e ela. Acho que sempre tive problemas com raiva, então imagino que era hora de ser construtivo sobre isso. Quando vi o folheto de inscrição na academia na semana passada, foi a oportunidade perfeita. — Isso é ótimo, Reid, mas não entendo por que você está me falando isso. Digo, sei que você quer que sejamos amigos e tudo, mas o que realmente está acontecendo aqui? Ainda não comprei sua fase de “bom moço”. — Preciso fazer uma pesquisa.


Mel me interrompe no meio da minha frase com um olhar furioso. — Não estou aqui para falar sobre a Maddy. Qualquer coisa que queira saber, precisa ser com ela. Maddy e eu não contamos segredos uma da outra e me recuso a começar agora, só porque você quer saber algo. Sabia que você não era legal. — Não, Mel, por favor, me escute. Outro dia, eu abri a boca para falar sobre o pai dela ter que afastar todos os potenciais namorados. Desnecessário dizer que isso a chateou muito. E depois, quando mandei uma mensagem para você sobre onde ela estava, pareceu-me que, de algum jeito, você é sua protetora. — Dou de ombros como se isso pudesse dar algum sentindo à minha pequena história. — Só queria que você soubesse que estou tentando trabalhar minha raiva e prometo que nunca a machucarei. Por mais raiva que estivesse sobre a coisa do Logan, nunca tocaria em Maddy. Nunca. Só queria que soubesse disso. Além do mais, acho que resolvemos essa situação hoje de manhã. — Ah, sim, sobre isso, você praticamente a chamou de prostituta por ela estar com Logan. Você vê a ironia nisso, certo? Mesmo que ela tivesse dormido com ele, você chamá-la de puta foi epicamente estúpido. — Ela pausa o discurso de insultos e não digo nada, porque ela está certa. Parece que está pesando suas opções, tentando imaginar o que fazer comigo. Finalmente, decide e diz: — Colocando tudo isso de lado, Reid, salvá-la daquele babaca que a drogou foi uma prova de que você não deseja que nenhum mal aconteça a ela. Mas é realmente bom saber que não está apenas ciente de seus problemas, mas que também quer trabalhá-los. Bem, isso é apenas um bônus. — Ela sorri com sinceridade e clareza. Sinto que a ganhei pelo menos em um ponto. — Obrigado, Mel. Sei que você não contaria os segredos dela e não quero saber nada sobre ela que não seja contado pela própria, mas, por favor, me diga se tem outras minas terrestres que eu preciso evitar. Trazer à tona seus pais foi realmente doloroso pra mim e eu percorreria uma longa distância para evitar que ela se sinta assim novamente. — Seus pais são definitivamente um ponto sensível. Mas, se você perdesse ambos os pais quando tinha dez anos de idade e tivesse que se mudar do único lar que conhecia para viver com alguém que nunca tinha conhecido antes, tenho certeza de que seria sensível também. Parece que tem melhorado. Ela realmente está trabalhando isso. Acho que se cansou de ficar triste e está fazendo um esforço consciente para se permitir ser feliz. E penso que você seja parte dessa felicidade, Reid, então, não faça nada estúpido para foder com isso. — Ela aponta o dedo para mim enquanto arqueia uma sobrancelha. Seu rosto tem uma mistura genuína de preocupação e diversão. Definitivamente consigo entender pontos sensíveis. Sensível e entorpecido é como tenho me sentido nos últimos cinco anos. Perder a família toda definitivamente te deixa assim. Só posso desejar conseguir lidar com minha dor do jeito que Maddy faz com a dela. Talvez um dia. Ao invés dessas revelações intensas, que ainda não estou pronto para compartilhar com ninguém, apenas sorrio e aceno. — Prometo. Vou tentar o meu melhor para não foder com tudo. Então, você pode me dizer mais


uma coisa? — Dou a ela meu olhar de “por favor”. — Claro, mas se apresse. Tenho aula em quinze minutos do outro lado do campus. — Então vamos. Vou caminhar com você. Até carrego seus livros — ofereço, e ela apenas dá um sorriso travesso e um pouco sarcástico. — Sim, estou tentando ser um cavalheiro. Posso ganhar um pouco de crédito? — Faço um sinal com os dedos juntos, indicando quanto crédito deveria merecer nesse momento. — Tá, ok. É certamente gentil da sua parte fazer isso por Maddy. E para nós, é isso que importa. Tenho um pressentimento de que, se você se mantiver fiel a suas palavras, o verei muito mais. E seria uma merda ter que ser má com você o tempo todo. — Ela me cutuca com o cotovelo e começa a juntar o nosso lixo. Pego seus livros e ela sai andando e rindo um pouco. Posso ver porque ela é a melhor amiga de Maddy. Elas são diferentes em muitos aspectos. — Ok, certo, Connely. O que mais você quer saber? — ela pergunta quando saímos da lanchonete. — Bem, vou levá-la num encontro na sexta à noite e quero que seja especial. Então, pensei que talvez você pudesse me dizer algo, sem quebrar a promessa de “segredos” com a Maddy, claro. Uma refeição feita em casa e um filme? Ou é melhor ir a um restaurante chique e uma exposição de arte, ou alguma merda dessas? Por favor, o que quer que diga, por favor, não diga exposição de arte. Por favor, por favor, por favor!!! — Uma exposição de arte certamente não; essa não é a dela. Mas há esse estúpido fliperama para o qual ela está tentando me arrastar. — Você está dizendo que Maddy gosta de fliperama? Maddy, alta, gostosa e loira ama videogame? Puta merda, isso é maravilhoso! — Sim, ela costumava adorar quando erámos crianças. Eu os odiava, então, a não ser que quisesse jogar, ela nunca tinha chance. Bryan contou sobre isso outro dia e ela praticamente está babando, mas não quero ir. Acho que ela vai gostar de lá. E mais: você ganhará alguns pontos comigo se levá-la, porque aí não preciso ir. Não consigo evitar sorrir e gargalhar disso. É óbvio que Melanie ama Maddy como uma irmã, mas não o suficiente para sofrer com videogames. — Ela também gosta de relaxar e assistir a um filme. É bem a cara dela. Ela é uma grande fã daqueles filmes do John Hughes dos anos oitenta. Escolha qualquer um desses e você está feito. — Muito obrigado, Mel. Sei que é seu primeiro encontro “de verdade”, então quero que seja especial para ela. Quero que realmente se divirta. — Reid, com toda honestidade, do jeito que ela fala de você, contanto que esteja com você, ela aproveitará. Apenas mantenha isso em mente e se divirta. É tudo que a Maddy realmente deseja. A aula vai começar em alguns minutos. Obrigada mais uma vez pelo almoço. Vejo você em breve. — Ela acena por cima do ombro e se afasta. Assim que ela entra no prédio, sinto que posso respirar novamente. Foi tudo bem, muito bom, na verdade. Fiz amizade com Mel e tenho algumas informações sobre Maddy — de um jeito não desprezível, claro.


Uma rápida olhada no relógio me diz que tenho aproximadamente uma hora antes de pegar Maddy em sua última aula do dia. Também me dá uma hora para descobrir quem é a porra do John Hughes para providenciar cada filme dele antes de sexta à noite.


Vou me encontrar com Reid daqui a uma hora para o nosso primeiro encontro e estou nas nuvens de tanta excitação e ansiedade. É meio bobo, na verdade. Quero dizer, estou quase terminando o primeiro semestre na faculdade e estou me aprontando para o meu primeiro encontro, nervosa como uma garotinha empolgada de dezesseis anos. Melanie está tendo um dia e tanto. Disse-me que se encontrou com Reid no início da semana para discutir os planos desse encontro. Ela tem me provocado sem parar sobre onde acho que estamos indo, o que acho que devo vestir, coisas desse tipo. Tenho que admitir, achei estranho eles saírem para almoçar. E até fiquei um pouco brava com Reid por não ter falado comigo primeiro, mas, quando ele estava todo nervoso naquela noite dizendo que “tinha que me falar algo” e que ele “não queria que eu ficasse chateada com ele”, não pude evitar pegar leve. Ele só quer fazer essa noite ser especial, e faz meu coração bater mais forte saber que ele está realmente tentando fazer isso dar certo. Mesmo indo para a academia juntos todas as manhãs, me acompanhando a todas as aulas que pode, mandando mensagens ou ligando todas as noites antes de ir dormir, Reid não me disse nada sobre esse encontro. Nós temos conversado muito sobre todo o resto, mas, quando o assunto é a noite de hoje, é ultrassecreto. Portanto, estou parada em frente ao meu armário, tentando imaginar o que vestir, e estou completamente perplexa. Experimentei várias roupas e, embora todas pareçam apresentáveis, não quero usar jeans se formos a um lugar chique. Nada em Reid grita “chique”, mas não sei. De repente, tenho a visão de Julia Roberts jogando escargot do outro lado de um restaurante elegante. Realmente espero que seja mais uma noite descontraída. Tenho que encontrá-lo na casa dele em uma hora e não consegui decidir o que vestir. Decido mandar uma mensagem para ele. Foda-se.


Eu: Oi. :) Reid: Oi, linda. Animada para daqui a pouco? Eu: Muito! ;) Sei que você está sendo todo “misterioso” sobre hoje, mas pode pelo menos me dar uma pista sobre o que vestir? Estou estressada aqui! Reid: Linda, você pode usar um saco de batatas que ainda vai ficar maravilhosa ;) Mas, se quer saber, jeans e camiseta ficarão ótimos para o que eu planejei. Eu: Ótimo, obrigada. Te vejo daqui a pouco. Beijos. Jeans. Perfeito. Sinto como se pudesse respirar novamente. Escolho um jeans skinny preto sexy e camiseta estilo baby doll vermelha. Meu All Star preto completa o look casual perfeito. Faço uma maquiagem simples e, como de costume, deixo o cabelo solto todo ondulado, também casual. Decido deixar todo o sex-appeal por conta da jaqueta preta de couro estilo motociclista. Perfeito. Pareço gostosa e, quando vou para a sala, as garotas concordam. Claro que todas três estão em casa hoje à noite. Não que tenhamos ficado no mesmo ambiente toda a semana, mas todas querem estar aqui para me despachar. Colocando os dedos entre os lábios, Lia assobia. — Maddy, você parece quente. Como manteve essa jaqueta escondida de mim durante todo esse tempo? Vou querer pegá-la emprestada. — Ela praticamente arranca-a do meu corpo enquanto fala. — Mantive-a escondida porque sabia que nunca a pegaria de volta. Você sabe, como o meu top rosa, meus saltos pretos, minhas argolas de prata e meus óculos de sol da Guess. Você vê um padrão aqui, senhorita Lia? — Mostro a língua quando termino de provocá-la. Amo-a até a morte, mas ela é meio doida. — Reid vai pirar com você. — Essa vem da Mel. — Realmente espero que sim. Essa coisa de não saber o que vamos fazer está me torturando. — Olho para Mel de um jeito suspeito porque ela sabe aonde vamos, mas tudo que ela faz é aquele movimento de zipar a boca. Então digo: — Vingança é um prato que se come frio, Mel. Lembre-se disso. Cammie está na cozinha, fazendo pipoca para o filme que elas vão assistir. — O que quer que você esteja fazendo com ele, continue — ela fala. — Já o conheço há algum tempo e ele é uma pessoa completamente diferente com você, Maddy. Até gosto dele agora! — Mesmo ela parece surpresa com sua nova opinião sobre ele. Lia vai até a cozinha servir refrigerante para todo mundo. — É sim. Ele está totalmente diferente. Na verdade, nem o odeio mais. Não consigo evitar encará-la. Sei que ele agiu de uma forma verdadeiramente estúpida no passado, mas ainda assim machuca ouvi-las falando dele tão levianamente. — Obrigada, garotas. Significa muito que vocês vejam a mudança dele. É difícil de acreditar que ele é o mesmo cara que conheci da primeira vez que cheguei aqui. — Dou de ombros. — Acredito nele e ele me faz feliz, então acho que vou viver um dia de cada vez. As garotas acenam em concordância com a minha fala. Se elas conseguem ver a mudança nele,


definitivamente conseguem vê-la em mim. Cammie caminha até a porta quando escuta uma batida. — Eu atendo — ela diz alegre. Sério, quando é que ela não está feliz? Abre a porta e eu só posso descrevê-lo como o homem mais bonito do mundo. Reid está totalmente comestível. Está usando uma roupa parecida com a minha, casual e descontraída, mas tem algo muito “bad boy do gueto” que faz minhas entranhas se agitarem. Seu jeans escuro é rasgado no joelho, mas não porque são de um designer caro. Tenho quase certeza de que Reid não teria pago mais do que vinte pratas por um jeans. O azul-marinho de sua camisa acentua cada músculo de seu peitoral e braços. Ele está delicioso e não consigo acreditar que é meu. Seu rosto é esculpido e forte — a definição da beleza masculina. Mas seus lábios, ah, meu Deus, seus lábios são o paraíso. Posso pessoalmente atestar isso. Chamar seus olhos de azul é uma meia verdade grotesca. De perto, eles são como as ondas do oceano, poderosos e turbulentos, mas calmantes e de tirar o fôlego. Existem algumas manchas douradas na borda exterior de suas profundezas azuis. Posso contemplá-los por horas. Demoro tanto tempo encarando-o que quase me esqueço do enorme buquê de flores em suas mãos. Minha boca está seca, tanto por sua enorme gostosura quanto pela simplicidade e doçura das flores, e mal consigo pronunciar uma palavra. Quando meus pés finalmente começam a funcionar, caminho em sua direção e fico na ponta dos pés para lhe dar um beijo na bochecha. — Você me trouxe flores? — Minha voz mal é um sussurro, na melhor das hipóteses. E para quem mais seria? Ele só balança a cabeça, concordando, enquanto passa os olhos por mim. É bom saber que o afeto tanto quanto ele a mim. — Ninguém nunca me deu flores antes. Nunca. Elas são lindas, Reid. E lírios são, definitivamente, as minhas favoritas. Como você sabia? — Minha voz começa a ganhar algum volume, mas ainda estou admirando seu gesto. — Tive uma pequena ajuda. — E com isso ele dá uma piscada para Mel do outro lado da sala. Ela caminha em nossa direção e pega as flores das minhas mãos. — Vou colocá-las na água para você. Saiam e divirtam-se. Vejo vocês mais tarde. — Mel me dá um leve abraço e nos acompanha até a porta. Ela detém Reid e murmura algo em seu ouvido. Reviro os olhos para o pequeno gesto como se fossem “unha e carne”. Quando ela termina de dar, o que eu imagino ser, o pequeno discurso de “seja bemcomportado e não ferre com tudo”, Reid se inclina e me beija, perguntando se estou pronta. Pego rapidamente minha bolsa e saímos. Reid pega minha mão e entrelaça nossos dedos. Sempre que andamos juntos e para onde quer que vamos, sempre damos as mãos. Amo isso. Tenho que dizer que realmente pensei que Reid agiria estranho sobre expor nosso relacionamento publicamente. Mas, quanto mais tempo passamos juntos, mais percebo que minha primeira impressão sobre ele não ser sério quanto a nós é mais minha insegurança falando do que qualquer outra coisa que ele tenha feito ou dito. E, hoje à noite, com as flores e a mensagem carinhosa de mais cedo, sei que ele é realmente especial. Em meio a todos esses pensamentos piegas e efusivos, me lembro de algo.


— Ei, pensei que era para te encontrar na sua casa. Perdi alguma coisa? — pergunto. Realmente me distraí mais cedo com seus atos totalmente maravilhosos. Antes que ele possa responder, chegamos ao carro e ele me conduz até a porta do passageiro. Pressiona-me contra a porta de modo que cada centímetro do nosso corpo se toca, e então coloca o dedo sob meu queixo para fazer com que eu olhe dentro de seus estonteantes olhos cor de safira. Com sua outra mão, ele acaricia minha bochecha antes de dizer: — Ora, que graça teria se eu fizesse o que você esperava? É nosso primeiro encontro e quero fazer isso direito, o que significa eu ser seu motorista, comprar lindas flores e dizer o quanto você está gostosa. Ele inclina o rosto na minha direção e roça levemente os lábios nos meus. Sua língua desliza por eles, implorando para entrar. Dá uma mordidinha no inferior e os suga quase ao ponto de dor, e os abro imediatamente para ele. Passo os braços em volta de seu pescoço e enfio os dedos em seus cabelos castanhos e sedosos. Ele move as mãos de forma que uma fica em volta da minha cintura e a outra, da nuca. Nos beijamos de forma selvagem e apaixonada pelo que parece uma eternidade, nossas mãos vagando e explorando. A dele que estava em minha cintura se estende pela costela, ficando perigosamente perto da parte debaixo do meu seio. Meus mamilos endurecem com o pensamento dele os tocando, brincando, mordiscando-os. Sinto sua excitação pela dureza no meu quadril e me pressiono mais ainda nele. Eu o quero mais do que jamais quis alguém, e está bem claro que ele me quer também. Mordo seu lábio por causa desse pensamento e ele quase rosna em resposta. Quando ouvimos um grupo de festeiros bêbados gritarem “Cara, arrume um quarto”, interrompemos o beijo. Reid me encara com um olhar cheio de luxúria. — Maddy, você é linda. Linda pra caralho e, porra, beija escandalosamente bem. — Ele pisca e depois abre a porta para mim. Vejo-o tentando se reajustar enquanto caminha pela parte da frente do carro. Provavelmente desejando poder tomar outro banho gelado agora. Assim que ele senta, passa a mão por cima do câmbio e do painel para segurar a minha. Quando nossos dedos estão entrelaçados, ele levanta minha mão até seus lábios e a beija gentilmente. — Então, Maddy, pronta para o melhor encontro de todos? — ele pergunta com um sorriso ridiculamente bobo. É um belo sorriso e não consigo fazer outra coisa a não ser sorrir de volta. — Sim, Reid, estou pronta. Pronta para o que quer que você esteja aprontando.

— Não acredito que você me derrotou desse jeito. Sério, quem imaginaria que você era tão boa jogadora. Muito gostosa, carinhosa pra caralho e jogadora? Ganhei na loteria das namoradas


com você! Adoro quando ele me chama de namorada. Sei que dissemos que erámos isso, mas ainda assim me afeta. — Bem, agora, quão divertido seria se eu fizesse tudo o que você espera? — Ele ri quando cito suas palavras de mais cedo e dou um beijo em sua bochecha. — Então, qual o plano agora? Ou eu chutando seu traseiro em cada videogame que se possa imaginar na face da Terra era seu plano principal? — Sorrio e ele revira os olhos em resposta. — Será que você poderia entrar no carro e parar de esfregar isso na minha cara? — Ele rapidamente dá um tapa na minha bunda e finge estar ofendido, mas sei que está brincando. Entro e ele liga o rádio quando começa a dirigir até o nosso próximo destino. A versão acústica de Everlong, do Foo Fighters, começa e digo o quanto amo essa música. Aumento o volume e começo a cantar bem alto e fora do tom, devo acrescentar. Ele ri das minhas palhaçadas. Quando Dave Grohl canta sobre cada respiração, Reid se aproxima e sussurra a letra em meu ouvido, mandando arrepios pela minha espinha e esquentando meu sangue. Sempre quis alguém assim para dizer essas coisas para mim, para me querer além de tudo, para me fazer sentir amada com apenas uma frase sussurrada, e ele fez exatamente isso. Nessa hora, percebo que estou me apaixonando rápido e forte por esse glorioso homem ao meu lado. Estacionamos numa grande área aberta onde casais estão passeando com cachorros e grupos de crianças brincam de frisbee. Tenho que admitir, estou um pouco confusa com seus planos. Ir a um parque não tem nada a ver com um “encontro”. Com medo de estragar o momento, decido manter a boca fechada. Continuamos caminhando de mãos dadas, é claro, e num silêncio confortável. Mas há tanta coisa que eu quero saber sobre ele que não consigo evitar as perguntas. — Então me conte sobre a sua família. Você já sabe sobre a minha. Não que haja muito para saber. Sua reação à minha pergunta aparentemente simples é palpável. Ele não está mais calmo e descontraído. Sinto sua mão suando na minha, os ombros enrijecem e o vejo cerrar o maxilar. Imediatamente me arrependo de perguntar. Suas palavras são curtas e grossas. — Não há muito o que dizer. Não tenho o que falar da minha família. Ele não quer falar; isso está bem claro. Não vou forçar e arruinar nossa noite, então decido deixar pra lá, mas não sem antes dizer: — Tudo bem, Reid. Você não tem que falar sobre eles. Só estava tentando te conhecer melhor. — Levanto a mão até sua bochecha e o beijo para reforçar minhas palavras. Ele relaxa na mesma hora e mudo para um assunto menos sensível. — Entããão... — arrasto a palavra, na tentativa de aliviar o clima. — Está empolgado para se formar esse semestre? Nem acredito que você vai terminar mais cedo e já vai começar um estágio. Isso é muito legal, Reid. Me conte mais sobre isso. Ele sorri.


Ufa! Faculdade é um tema seguro. Bom saber. — Estou realmente animado e ansioso também. Demorou um pouco para eu decidir que curso fazer, mas, quando terminei minha primeira aula de aconselhamento, soube que tinha encontrado algo que amava de verdade. Crianças nem sempre têm alguém para recorrer quando estão lidando com alguma merda, e elas têm mais merdas para lidar do que a maioria das pessoas pensa, então sempre quis ajudar. O estágio é numa escola local, trabalhando com psicólogos, assistentes sociais e orientadores educacionais. Vou ter que fazer pós-graduação, não importa qual carreira escolha, então vai ser uma grande oportunidade de tentar cada uma delas e ver qual eu gosto mais. Estou admirada com o entusiasmo dele em ajudar crianças. Minha primeira impressão sobre ele era de que não se importava nem um pouco com as outras pessoas — com ele sendo um babaca e tudo —, mas eu, obviamente, julguei o livro pela capa. Reid é gentil e atencioso, e quer ajudar crianças necessitadas. Gostaria de saber se existe algum tipo de motivação pessoal para ele. Mas, baseado na reação de mais cedo sobre sua família, não vou forçar isso agora. — Reid, isso é surpreendente. Estou tão empolgada. Você vai ser ótimo no que quer que escolha. Ele sorri para mim e eu derreto. Lindo e gentil. Definitivamente sou uma ganhadora; não faço a mínima ideia de como, mas sou. — Aqui estamos. — Ele para em frente a, bem, nada. É apenas uma área aberta e gramada numa colina. Percebendo que não estou entendendo nada, ele ri. Diz para ficar onde estou e que voltará logo. Desaparece entre algumas árvores que estão atrás de nós, e, quando volta, não consigo disfarçar o sorriso que divide meu rosto. Ele traz um pequeno cooler, um cobertor e alguns travesseiros para nos sentarmos. — Você é tão fofo. Isso é lindo, Reid. Obrigada. Cada um segura um lado do cobertor e nos ajeitamos. Ele abre o cooler e tira algumas garrafas de água, pratos e utensílios, mas não há comida. Dou-lhe um olhar de simpatia. Não quero que se sinta envergonhado por ter esquecido o principal. É a intenção que conta, certo? Quando estou prestes a falar, ele olha para além de mim e sorri. Levanta-se e caminha para longe sem dizer uma única palavra. Viro-me para olhar por cima do ombro, bem a tempo de vê-lo pagar a um entregador. Ao se sentar, ele fala: — Você não achou que eu fosse cozinhar, certo? Quero mantê-la perto por algum tempo e cozinhar seria um jeito de fazê-la sair correndo. — Ele começa a tirar as embalagens de dentro da sacola. — Você pediu comida chinesa? Ah, meu Deus! Mel e eu experimentamos cada restaurante chinês na cidade desde que chegamos aqui e todos são uma bosta. Estou louca pra comer Camarão Lo Mein. Por favor, diga que é o que tem aí dentro. — Estou surpresa por sua consideração. — Tive que ligar para um lugar a duas cidades daqui e pagar o dobro pela entrega, mas ver


você toda empolgada valeu cada centavo. Viu só, conquistar a amizade da Mel valeu a pena, não é? Talvez eu deva marcar um encontro com ela por semana para falarmos sobre você. — Ele me passa o prato. — Se isso significa planejar mais coisas como as de hoje à noite, então sim. Vai com tudo! Sua risada com o meu comentário faz coisas engraçadas dentro de mim. Nunca me senti dessa forma com ninguém. E tenho certeza de que ninguém mais vai me fazer sentir assim. Conforme comemos nossa refeição, nos perdemos na conversa. Não me surpreende termos gostos semelhantes em quase tudo: desde livros, televisão e até música. É fácil e libertador ficar com ele aqui desse jeito. Rimos sem parar; é surpreendente como comemos tudo. Ele me puxa para seu lado depois de colocar o prato no chão e beija o topo da minha cabeça. — Estou adorando esse nosso momento, Maddy. Sei que nunca fez isso antes e nem eu, na verdade. Estou realmente feliz em te ver feliz. Passei muito tempo te irritando e fazendo chorar. — Pare, isso tudo é passado. Além do mais, estou me divertindo porque estou com você, então toda aquela merda que já aconteceu não importa mais. Ok? — Inclino-me um pouco mais para perto dele e beijo seu peito, inalando o cheiro divino. — Então, qual é o seu filme favorito? — ele pergunta, continuando nossa conversa de mais cedo sobre nossas coisas favoritas. — Meu filme favorito é A Garota de Rosa Shocking. — A expressão em seu rosto indica que ele nunca ouviu falar, embora isso não seja muito chocante. Reid não parece ser o tipo de cara que assistiria a um filme com as palavras “garota” e “rosa” no título. — Uhm, nunca ouvi falar. Sobre o que é? — Pelo menos ele está fingindo interesse. — É sobre uma garota peculiar, mas muito legal, Andie, que tem apenas um amigo. Sua mãe vai embora e seu pai tem uma doença mental, então ela fica basicamente por conta própria. Ele abre um sorriso, instantaneamente reconhecendo a conexão pessoal que sinto com o filme. Sorrio em resposta e continuo: — Ela se apaixona por esse cara, Blane, e ele é totalmente lindo e rico, tudo que ela não é. Além disso, os amigos dele a odeiam pelo fato de ela não fazer parte da “gangue descolada”, e eles o convencem a não levá-la ao baile de formatura. Então, o melhor amigo dela, Duckie, que é total e loucamente apaixonado pela Andie, vem resgatá-la e a leva ao baile. Quando Blane a vê, percebe que cometeu um enorme erro e pede desculpas. — O que acontece no final? O cara fica com a garota? — Ele parece genuinamente interessado, mas sinto que não está perguntando sobre o filme. — Sim. Mesmo com tudo o que deveria mantê-los afastados, eles terminam juntos. — Espero que ele veja que a minha resposta também não é só sobre o filme. Ficamos sentados por mais alguns minutos e, quando o pôr do sol chega, ele sugere que devemos ir embora antes que fique muito escuro. Ele embala tudo e caminhamos pelo parque. Supondo que estamos indo de volta para o carro, fico completamente desnorteada quando viramos num canto e vejo uma enorme multidão na clareira. Estão todos sentados em travesseiros e cobertores de frente para uma enorme tela de cinema.


Quando o olho, esperando uma explicação, ele diz: — Espere o inesperado, linda. — Ele ri e começa a estender o cobertor pelo gramado. Então, dá um tapinha no lugar ao lado dele e, de bom grado, obedeço. Quando estou toda aconchegada ao lado dele, pergunto: — Então, o que vai passar hoje? Escutei sobre essas noites de filme no parque, mas não sabia que ainda faziam isso. — Na verdade, acho que essa é a última do outono. Está começando a ficar um pouco frio para isso, mas o bom mesmo é que vou poder te aquecer. — Ele me olha de forma sedutora e começa a rir. — Mas não tenho a menor ideia do que vai passar. Acho que vamos ter que esperar para ver. — Vejo um brilho travesso em seus olhos. Ele está tramando algo. Quando o filme começa, imediatamente reconheço A Garota de Rosa Shocking, o meu filme favorito! — Como...? Quais são as chances? Você arrumou isso? — Encaro-o. — Não há a menor chance que, de todos os filmes do mundo, vão passar logo esse. — Disparo as perguntas. Ele apenas dá de ombros e ri de mim. Claro que isso só pode ser coisa da Mel, aquela pequena coisinha sapeca. Ela sempre me surpreende. Isso é o máximo! — Bem, Mel me contou sobre seus filmes favoritos e, quando descobri que hoje era o “último filme no parque” por causa do outono, convenci o operador a passar esse filme em particular. Estou total e absolutamente chocada. Passo os braços em volta da sua cintura. — Reid, você foi simplesmente maravilhoso. Muito obrigada. Jamais esquecerei essa noite. Assistimos ao filme abraçadinhos em nosso cobertor. Quanto termina, ele me leva para casa, me acompanhando até a porta e me dando um beijo de boa noite. Tenho que me conter fisicamente para não me derreter sob seu toque quando ele diz: — Boa noite, Maddy, e bons sonhos. Sonhe comigo. Sei que eu vou sonhar com você.


O rosto de Maddy paira sobre o meu, sedutoramente. Estou de costas na minha cama e ela está esparramada, nua e linda, em cima de mim. Os seios estão esmagados contra meu peito, tão macios e suaves que não consigo evitar, sento com ela em meu colo e a toco. É instintivo. Um magnetismo que nunca experimentei antes. Levanto as mãos e cubro seus mamilos empinados. Ela geme e arqueia ao meu toque. Segurando seu peso em minhas mãos, esfrego os mamilos com a ponta dos dedos e os torço levemente. Ela esfrega a pélvis em mim. Ela gosta do que eu faço, então torço e puxo um pouco mais, alongando os já pontudos bicos entre meu polegar e indicador. Inclino-me mais para perto dela, beijando a sua pele suave e delicada entre os seios antes de enfiar o mamilo rosado na boca. Ela quase grita em resposta e, quando o pego entre os dentes e mordisco de leve, ela se contorce e se esfrega toda em cima de mim; está em chamas. Sinto seu calor; está me queimando. Faço um caminho de beijos dos seios até o pescoço. Beijo e lambo cada centímetro que consigo alcançar. Ela inclina a cabeça para o lado, me dando mais acesso. Enterro o rosto em seu pescoço e sinto sua respiração quente no ouvido. Ela está murmurando algo incoerentemente, e às vezes ouço o que parece ser o meu nome. Ela se afasta, ainda montada no meu colo e se esfrega na minha ereção. Eu quase enlouqueço. Ela fica muito gostosa quando está excitada. Quase não consegue se controlar. Colocando as mãos no meu peito, ela arranha meu mamilo com as unhas. Reviro os olhos. Depois começa a passar as unhas pela minha barriga até pegar no meu pau, acariciando-o com tanta intensidade que quase não aguento. Deitando ao meu lado e com meu pau duro na mão, ela sussurra em meu ouvido: — Quero fazer isso com minha boca, Reid. Quero lamber e saborear cada pedacinho seu. Você vai me deixar fazer? — Com isso, todos os meus pensamentos evaporam. Ela se move para baixo, pelo meu corpo, estabelecendo-se entre as minhas pernas. Sinto seu hálito


quente em mim. Não vou aguentar muito. Seu cabelo dourado e sedoso cria um véu que nos cerca. Tiro-o do caminho. Quero ver sua boca me devorando, meu pau sumindo dentro de seus lábios macios e doces. Mantendo seu cabelo afastado e enrolado no pulso, a observo lamber a ponta antes de abocanhar os primeiros centímetros e, nessa hora, sei como é sentir o paraíso na Terra. Ela primeiro está experimentando, meio incerta — então a guio com a mão, nunca forçando a ir mais além do que aguenta. Ela pega o ritmo e me perco nele. Minhas costas arqueiam e a cabeça cai na cama. Tento abrir os olhos, mas não consigo. O prazer é muito intenso. Meu coração incha de prazer em ter a Maddy me amando desse jeito. É um sentimento que nunca conheci e não quero que acabe nunca. Mas, quando Maddy levanta a cabeça, minha felicidade se evapora instantaneamente. O rosto de Maddy é substituído por um que eu esperava nunca mais voltar a ver. Seus sedosos cabelos dourados são substituídos por um curto e muito preto. Profundezas verdes e cintilantes que parecem piscinas desaparecem, e preto gelado de pura maldade me encara. Alex. Levanto correndo da cama. O oxigênio não entra em meus pulmões. Suspiro e quase grito com a imagem do final do pesadelo — ou foi só o começo? Estou encharcado de suor e tremendo com o pensamento da boca dela em mim, seu corpo encostando no meu. Bile sobe pela minha garganta, e tenho que correr para o banheiro antes de esvaziar todo o conteúdo do estômago no tapete. Ainda que possa estar limpo depois de vomitar, nunca ficarei limpo dela. Alex é a última pessoa que foi próxima a mim, e a razão pela qual minha família foi embora. É o motivo de o meu mundo ter se despedaçado em um milhão de pedaços. Cinco anos deveriam ser o suficiente para apagá-la da memória, para me absolver dessa culpa extrema. Ainda que, ocasionalmente, ela faça aparições em meus sonhos, que prontamente se transformam em pesadelos. Mas esse foi diferente. Imagens da Maddy se transformando em Alex não são só assombrosas, são aterrorizantes. De algum jeito, sei que isso é o meu cérebro me dizendo que preciso dividir meu passado com a Maddy. E com toda honestidade, está me matando manter isso escondido. Parte de mim quer contar a ela, quer se abrir, quer que ela ajude a aliviar a dor. A outra parte está muito assustada. Se Maddy souber a verdade, se ela souber sobre Alex e quão fodido eu sou, vai me deixar. Disso eu tenho certeza. Ninguém tão doce, amorosa, gentil e carinhosa como Madeleine Becker ficaria com alguém que matou o próprio irmão, tudo por causa de uma garota. O mundo não funciona desse jeito.

Hoje à noite, dia seguinte ao nosso primeiro encontro, Maddy tem plano com as garotas, então os caras e eu pedimos pizza e compramos cervejas. Não tem sido apenas “os caras” há um bom tempo. Parece ter sempre uma festa acontecendo ou uma grande quantidade de garotas para passar o fim de semana. Bem, agora que eu tenho a Maddy, o número de garotas que vinha aqui


diminuiu consideravelmente. Jack me passa uma cerveja enquanto se senta na outra extremidade do sofá. Coloca as pernas em cima da mesa de centro e pega um pedaço de pizza. Então decide me provocar. — E aí, como foi seu encontro com a Maddy? — Seu tom imita o de um estudante do ensino médio. Babaca. — Vá com cuidado, Jack. Você não quer terminar como eu — Logan alerta Jack enquanto aponta para o hematoma amarelo na bochecha. — Foi bom, ótimo, na verdade. — Não vou mentir sobre meus sentimentos. Eu realmente gosto dela, então que se foda o que quer que as outras pessoas pensam. — Sério? Você, Reid Connely, o homem que nunca passou mais do que uma noite com a mesma garota, não apenas foi a um encontro, mas realmente aproveitou? — Jack está quase fora de si de choque. Também estou chocado comigo mesmo, mas é verdade. — Sim, eu sei. Mas Maddy é diferente. Realmente gosto dela e não quero foder com tudo. — Olho para Logan nessa última parte. Ele sabe que falo sério, então apenas levanta suas mãos na defensiva. — Uhm. Nunca imaginei isso, mas entendo. É como com a Cammie. Jack talvez tenha todas as características de um cara tradicional e também está com a Cammie há muito tempo, ele a ama mais do que a própria vida. — Maddy provavelmente vai estar aqui com mais frequência, então apreciaria se vocês pudessem segurar os comentários sobre “Reid costumava ser mulherengo” com ela por perto. Tenho certeza de que Cammie e Lia já a encheram com todos os detalhes sórdidos do meu passado. Ela não tem que encarar isso toda vez que vier aqui. Não quero que se sinta desconfortável. Logan me surpreende quando fala no lugar de Jack. — Claro, cara. Escute, sei que fui um idiota pelo que fiz. Só quero dizer que sinto muito pelo outro dia e não apenas porque você me arrebentou de novo. É que, honestamente, nunca te vi sendo mais do que um cara do tipo “use e descarte”. — Bem, as coisas mudam. Maddy me faz querer mudar. Então parem com essas merdas e ficaremos bem daqui em diante. — Realmente quero deixar o que aconteceu com o Logan no passado, mas estaria mentindo se dissesse que já o perdoei. — Muito bem, vocês dois. Já podem se beijar e fazer as pazes? Gostaria de assistir um pouco do jogo. Logan está arrependido e você, apaixonado. Estamos bem agora? — Jack sempre teve essa coisa paternal. E está brilhando nele agora. Logan e eu nos olhamos e falamos quase simultaneamente. — Sim, estamos bem. — Ótimo, agora encerrem a putaria, me passem outra cerveja e um pedaço de pizza, e assistam a porra do jogo. — Jack nos olha em expectativa e obedecemos seus comandos. Os caras passaram a noite me enchendo o saco. No entanto, não ligo. Eles podem tirar sarro de mim por como me sinto sobre a Maddy o quanto quiserem.


Estou feliz pela primeira vez em muito tempo e ninguém vai tirar isso de mim.

As semanas passam e os pesadelos continuam. Imagino que estejam acontecendo pela coincidência das chamadas telefônicas diárias de um número com o código de área da minha cidade que não reconheço, ou pode ser que não tenha nada a ver. No entanto, afasto esses pensamentos da cabeça. Tenho coisas mais importantes e mais bonitas para pensar, como Maddy e a nossa relação. As coisas estão mais do que maravilhosas entre nós. Ela é divertida e despreocupada e passamos o máximo de tempo que podemos juntos. Ela dorme a maioria das noites aqui, mas também fico algumas na casa dela. Ainda não avançamos para o nível fisicamente mais próximo e estranhamente estou satisfeito com isso. Ficamos sempre até tarde conversando, nos conhecendo melhor. Dormir com ela aninhada em meus braços e com a bochecha encostada no meu coração é pura perfeição. Eu me apaixonei rápido e forte, sei disso. Tenho certeza de que me apaixonei por ela na primeira vez que dançamos juntos, mas, nas últimas seis semanas, esse sentimento se solidificou definitivamente e isso abalou minhas estruturas. Estamos nos tornando tão ligados que a proximidade, que uma vez temi ser incapacitante e horripilante, agora é a minha força vital, meu próximo suspiro. Eu faria qualquer coisa por essa garota e sei que ela faria o mesmo por mim. Ainda não dissemos as palavras, mas está explícito pelo jeito que ela me olha e em como a seguro bem junto a mim todas as noites na cama, em como seus olhos se fecham quando ela está rindo de mim, e em como sei que faria qualquer coisa para fazê-la feliz e mantê-la segura. Então, quando ela traz à tona seus planos para o Dia de Ação de Graças, que é daqui a três dias, vejo tristeza em seus olhos cor de esmeralda. — Qual o problema, linda? Não é fã do Dia de Ação de Graças? Como você pode ficar triste com peru e molho cranberry? Ela suspira e desabafa: — É que nunca fui muito chegada a certos feriados. Sei que meus pais devem ter tido uma maneira de fazer as coisas especiais pra mim quando eu era criança. Já vi fotos, mas é como se, quando eles morreram, tivessem levado todas as minhas memórias felizes. E tudo que era bom e estava associado a eles também se foi. Olhar essas fotos é como olhar para a vida de outras pessoas. E depois, quando fui morar com a tia Maggie, éramos apenas ela e eu. Não havia necessidade de fazer uma enorme refeição. Não tinha família para reunir à mesa e compartilhar histórias. Meu coração dói por ela e desejo poder dar-lhe tudo isso de volta. Pegaria a lua para ela se pudesse. — Ah, minha linda. Gostaria de poder mudar tudo isso para você, de verdade. Venha aqui. — Estamos esparramados no sofá do dormitório dela, estudando para as provas finais, que começam


na próxima semana, depois do feriado. Ela vem para o meu lado e se aconchega em meu peito. — Você vai para casa com a Mel? — pergunto. — Esse é o plano, mas isso me faz lembrar quão temporário é tudo em minha vida. Digo, quantos anos ainda vou para a casa da Mel antes de as coisas mudarem, antes que não seja minha casa também? Antes de virmos para cá, já tinha essa impressão de que estaria por conta própria. Então, por mais que a Mel e a Mamãe adorem me ter lá, ainda me sinto sozinha. — Ela limpa uma lágrima solitária da bochecha e diz: — Feriados são sempre difíceis pra mim, então acho que estou um pouco emotiva. Não é nada demais. De repente, tenho uma grande ideia. Vai dar algum trabalho braçal e vou gastar um pouco de dinheiro, mas estou disposto a dispor de ambos para a minha Maddy. Enquanto estou matutando, as garotas atravessam a porta, cheias de sacolas de compras. Dá até para imaginar que entre essas quatro deve haver todos os tipos de roupas e merdas das quais garotas precisam. Melanie nos vê no sofá e sorri carinhosamente. Temos almoçado todas as segundas-feiras desde aquela primeira vez e realmente gosto dela, não apenas porque tem me ajudado com a Maddy, mas porque é realmente uma boa pessoa. Maddy tem se importado menos com nossos encontros frequentes, apenas ri da gente, sabendo muito bem que irá se beneficiar de algum jeito disso. Então, quando peço para conversar com a Mel em seu quarto, ninguém vê nada de mal. — O que você tem aí nessa sua cabecinha agora, Reid? Está com aquele olhar intrigante. Merda, ela me conhece muito bem. — Ah, essa foi boa. No entanto... Mel, você definitivamente vai querer me ajudar. Por favor, por favor, por favor, me ajude! Ela me encara, mas de um jeito brincalhão. Sei que não consegue me dizer não. — Tá bom, o que você precisa que eu faça? — pergunta. — Quando você está planejando ir pra casa no feriado de Ação de Graças? — Maddy e eu terminamos a aula da quarta, uma hora da tarde. Depois, voltamos pra cá para pegarmos as malas e partirmos. Por que a pergunta? — questiona, arqueando uma sobrancelha. Ela sabe que estou tramando algo. — Estávamos conversando sobre isso e ela me pareceu meio desapontada por nunca ter tido uma grande família para reunir nos feriados, e eu quero dar isso a ela. Sei que Jack já está pensando em ficar aqui porque tem muito trabalho a fazer. — O que significa que Cammie vai ficar também. E se a Cammie ficar, Lia também fica — ela fala, fazendo rima, e meu plano ficando em evidência. — Exatamente. Então posso conversar com Logan hoje à noite e você pode convidar Bryan, assim seremos oito pessoas, o que já é mais do que ela esperaria. — Ok, mas onde vamos fazer isso? Não cabem tantas pessoas assim aqui. Nós nem temos uma mesa de jantar. Meu telefone vibra no bolso, me distraindo momentaneamente. É o mesmo número que vem me ligando há semanas. Aperto “rejeitar” e retomo minha conversa com Mel. — Bem, podemos fazer na minha casa.


Um olhar de desgosto atravessa o rosto de Mel. Ela está tentando ser discreta e procurando as palavras certas, mas sei o que ela vai dizer, então vou direto ao ponto. — Já sei. Já sei. A casa é nojenta. Mas... — arrasto as palavras, tentando convencê-la. — E se eu limpá-la de cima a baixo? — Reid, vocês vão precisar de uma máquina de lavar bem poderosa e um sistema de limpeza para começar a pensar em tirar qualquer sujeira da superfície daquele lugar. Merda, ela está certa. Acho que três homens universitários não são bons donos de casa. Tenho uma ideia. — Vou contratar alguém. Chamo um serviço de limpeza e faço com que venham enquanto estamos todos fora. Vai dar tudo certo. — Viu? Simples. — Ok, mas onde você sonha em arrumar dinheiro pra isso? Você vai precisar de uma boa grana para um serviço assim. E acrescente o dinheiro da comida e tudo mais; vocês nem têm pratos e talheres! Duvido que tenham qualquer panela ou assadeira para cozinhar, vocês têm? E tenho certeza de que Logan e Jack não vão dar dinheiro para você gastar com a sua garota. Você ao menos sabe cozinhar? — Se eu cobrir todas as despesas, você me ajuda? Tenho dinheiro. Acredite, tenho mais do que sei o que fazer com ele, só quero fazer algo especial para Maddy. Me ajude a fazer uma lista com tudo o que vamos precisar que eu compro. Merda, vou contratar o fornecedor mais caro da cidade se for preciso, só para poder dar o Dia de Ação de Graças que ela sempre desejou. — Minhas palavras são sinceras e Mel sabe disso. Joguei a linha, o anzol e a isca. Já era hora de todo aquele dinheiro ir para uma boa causa. — Mas e quanto à minha mãe, Reid? Não posso deixá-la sozinha. Ela não tem ninguém também. Por mais que ame Maddy, não posso fazer isso com ela. Meu telefone vibra novamente — a mesma porra de número — e ao mesmo tempo Maddy bate na porta gentilmente e diz: — Agora estou bem com vocês serem amigos e tudo, mas já estão aí há muito tempo. Vamos pegar algo para comer. Querem ir conosco? Ou estão muito ocupados planejando dominar o mundo? Rapidamente, respondo a Mel sobre a preocupação da mãe dela, esperando que terminemos essa conversa antes que Maddy fique muito desconfiada. — Vou cuidar disso também. Prometo. Podemos ver os detalhes mais tarde. Também quero que seja surpresa, então não diga nada a Maddy. — Ok. Estou dentro. Vamos fazer isso. — Ela bate palmas e dá pulinhos. Ela é tão malandra quanto eu; só esconde um pouco melhor, só isso. Ela responde a Maddy, dizendo que estamos indo, mas tenho certeza de que ela revirou os olhos e disse um “não quero nem saber”. Coloco parte do meu plano em ação, pegando escondido o livro de psicologia da Maddy e o colocando na minha mochila. Quando estamos saindo pela porta do dormitório, meu telefone vibra novamente e imediatamente aperto “rejeitar”. Não quero ser incomodado com isso agora. Tenho coisas muito mais importantes para fazer do que imaginar


quem está me ligando daquele lugar horrível que eu costumava chamar de lar. Aquele lugar não é mais meu lar faz muito tempo. Meu lar é onde a Maddy está. Ela é o meu lar. Se as coisas saírem como estou planejando, aqui vai ser finalmente o lar dela também.


Paro no vão da porta da Mel e grito “Melanie Elizabeth Crane”, na esperança de apressá-la. Já era para estarmos na estrada para casa para o feriado de Ação de Graças. Ela sabe que odeio dirigir à noite naquelas descidas sinuosas da montanha. E por mais que a ame, a garota tem um sério problema com horário. — Vamos, Mel! Vamos nos atrasar. — Relaxa, Maddy! Nós estamos indo pra casa. Não dá pra atrasar quando se vai para a própria casa, bobinha. Além do mais, estou quase pronta. Você já pegou tudo o que precisa? E o livro de psicologia? Sei que é sua primeira prova final quando voltarmos. — Ai, merda! Você está certa. Acho que não peguei. — Saio da sala, onde fiquei esperando-a se aprontar pacientemente por uma hora. Procuro dentro da bolsa e meu livro não está lá. Checo minha escrivaninha, e também não encontro nada. Eu poderia jurar que estava aqui na noite em que Reid e eu estávamos estudando. Onde está essa porcaria? Merda, talvez tenha deixado na casa dele. Envio uma mensagem rápida só para me certificar. Eu: Oi, querido. Não consigo encontrar meu livro de psicologia em lugar nenhum. Está aí na sua casa? Reid: Sim, está bem aqui. Quer que eu leve pra você? Eu: Não precisa. Passamos pra pegar aí quando estivermos indo. Reid: Quer dizer que vou ter a chance de ver esse corpinho sexy e beijar esses lábios doces mais uma vez antes de você ir e me deixar aqui sozinho o final de semana inteiro? Eu: Pare de me fazer sentir culpada. Eu disse que você poderia ir com a gente.


Reid: Ok, ok, você venceu. Te vejo daqui a pouco. Beijos. Eu: Tá bom, beijos. Há algo nele sobre me mandar beijo pela mensagem que faz meus joelhos fraquejarem. Sabia que tinha me apaixonado forte por ele praticamente desde a primeira vez que o vi, mas agora tenho certeza que o amo. Ele é tudo o que originalmente pensei que não fosse. É doce, gentil e amável. Tenho a sensação de que ele me ama também, mas acho que cada um está com medo de ser o primeiro a assumir. Sei que as minhas defesas em relação a ele se esvaíram. Ele está no meu coração, e, mesmo que possa ser muito assustador às vezes, é basicamente o que eu sempre quis. Só queria que ele baixasse um pouco mais sua guarda. Sei que ele me ama, mas ainda está escondendo algo. Tem uma ferida não cicatrizada e ele a está escondendo de mim. Não posso forçá-lo a contar; ele tem que querer. Estou sentada na cama, perdida em meus pensamentos sobre Reid quando Mel vem me dizer que está pronta para ir. — Finalmente! — digo a ela. Carregamos o carro com nossas bolsas e toneladas de guloseimas, depois vamos para a casa do Reid pegar meu livro. Não é muito distante, então vamos escutando músicas e cantando durante os dez minutos do percurso. Quando paramos na frente da casa, percebo uma mudança em Mel. Ela está além de radiante, se é que é possível ficar mais do que já é. — O que você está aprontando, Mel? — pergunto, olhando de soslaio para ela. Ela apenas dá de ombros em resposta, mas não diz nada. Sai do carro e eu a sigo. Ela bate à porta, o que é estranho; nunca batemos aqui. E quando a porta abre, dá um passo ao lado para sair da minha linha de visão. Fico espantada com o que vejo. Reid estende a mão para mim e me puxa para dentro. — Está... está tão limpo. Que porra é essa? O que está acontecendo, Reid? Eles definitivamente estão aprontando algo, mas nem Melanie nem Reid dizem nada. Estão apenas compartilhando olhares, rindo secretamente. O choque dá lugar à frustração e quase grito. — Mas que porra está acontecendo, gente? Fiquei tranquila com alguns segredos por quase dois meses, mas agora está ficando meio chato. Por que você não bate o pé nervosamente e bufa enquanto espera por isso, Maddy? Eles se entreolham mais uma vez e Reid puxa algo do bolso traseiro. — Confia em mim? — ele pergunta. Estou confusa pela pergunta, mas, quando vejo que está segurando uma venda, entendo. — Claro que confio, Reid, mas, se você não começar a falar logo, vou surtar um pouco. Ele apenas ri e se aproxima para me vendar. Ao tirar o meu cabelo do caminho, sinto seu hálito quente e doce no meu pescoço. Ele me beija gentilmente debaixo da orelha antes de mordiscá-la. Arrepios passam por todo o meu corpo e os mamilos endurecem. Ele sabe que tem esse efeito sobre mim, e posso sentir seu sorriso no meu pescoço. — Espero que goste da sua surpresa, Maddy. — E, com isso, termina seu assalto em meu pescoço. Tenho que apertar as coxas uma contra a outra para tentar domar o fogo que ele causa


em mim. Assinto e ele me guia na direção do que acredito ser a sala de estar, que estava escondida da minha visão pela parede da porta de entrada. Tem cheiro de produto de limpeza, algum aroma de pinho. Sinto que há outras pessoas na sala; a tensão coletiva me deixa nervosa para tirar a venda e ver o que está acontecendo. — Posso tirar essa coisa agora, Reid? Me sinto uma idiota. Sua resposta é uma risada e um “ok”. Ele fica atrás de mim enquanto desfaz o laço da venda, depois envolve minha cintura. Lágrimas caem dos meus olhos diante da cena à minha frente. Aquele cheiro de pinho não era da limpeza da sala. Era uma árvore de Natal, enorme e realmente linda. Meus olhos vão primeiro para lá porque é a maior coisa na sala de estar, mas eventualmente vejo as pessoas pela minha visão periférica. Jack e Cammie estão aqui, de mãos dadas, lado a lado; Lia também está aqui, sorrindo como de costume. Estou surpresa por ver Logan e Bryan também. — O que vocês estão fazendo aqui? Não era para estarem viajando hoje? — Não consigo esconder a surpresa na voz. Realmente não entendo o que está acontecendo. Lia fala pelo grupo: — Bem, seu doce namorado aqui conversou com todos nós para mudarmos nossos planos para que passássemos o final de semana juntos. — Ela pausa por um momento e acrescenta: — Aqui em casa. — Ela me envolve em seus braços e me aperta, depois olha para cima de mim. Lágrimas não derramadas estão em seus olhos cor de chocolate. — Todos queríamos ficar juntos aqui, como uma família, por você. Muitas lágrimas caem dos meus olhos. Viro-me para Reid e sorrio. — Você fez isso por mim? — Minha voz está trêmula de emoção. Sou apaixonada por esse homem gentil e querido diante de mim. — Bem, tive uma ajuda, como de costume. — Ele pisca para Melanie e, se é que é possível, amo-a mais ainda também. — Vocês, todos vocês — faço contato visual com todos na sala —, são maravilhosos. Vocês não imaginam o quanto isso significa para mim. Nunca tive um feriado com uma grande família... — Minhas palavras ficam escondidas atrás da minha grande emoção. Não consigo falar através do bolo na garganta. Quando finalmente controlo as emoções, olho para Reid. — Mas qual é a da árvore? Você sabe que o Natal é só daqui a um mês, certo? Confundiu os feriados? — Meu sarcasmo sempre leva o melhor de mim. Logan responde antes de Reid. — Bem, não vou poder estar aqui no Natal e Bryan tem que ir para casa também, então pensei que poderíamos comemorar todos os feriados juntos agora, começar uma nova tradição, sabe? — Ele se aproxima de mim enquanto fala. Quando termina, me puxa para um abraço inocente e diz baixo o suficiente para que ninguém mais possa ouvir: — Além do mais, fui um verdadeiro babaca por mentir para o Reid sobre nós e realmente gostaria de te compensar por isso. Estava muito irritada com ele sobre toda essa situação, mesmo ele tendo dito que estava arrependido várias vezes e Reid tendo arrebentado a cara dele. Esse gesto de consideração me faz ficar mais receptiva. Não posso ficar brava quando ele também teve um papel nisso tudo,


então o abraço de volta e agradeço. — O plano é o seguinte — Cammie diz. — Hoje vamos cortar essa árvore monstra, beber vinho barato e comer pizza. Essa sempre foi a tradição na minha casa, então agora a estou dividindo com vocês. Vamos — ela diz para Mel e Lia. — Me ajudem na cozinha com as bebidas e vamos pedir a pizza enquanto os meninos trazem todos os enfeites do carro. Todos vão fazer suas tarefas. No entanto, Reid fica atrás de mim e me puxa em seus braços, começando a dançar comigo do mesmo jeito que me lembro que meus pais faziam, sem música, sem ritmo e sem pista de dança. Apenas nós. Estou definitivamente mais apaixonada. Descanso a cabeça em seu peito e inalo o perfeito e masculino cheiro. Ele é meu lar, me sinto segura em seus braços. Ele beija o topo da minha cabeça, e olho dentro de seus oceanos azuis, que brilham de emoção. — Você não está brava comigo, não é? Quis surpreendê-la e dar algo que sempre quis. Sua pergunta me deixa fora do ar. Brava? Ele está de brincadeira? Estou além de eufórica com o gesto amoroso. — Reid, como posso sequer pensar em ficar brava com você? Isso tudo é lindo. Sinto-me tão amada e querida. Nunca ficaria brava. Você é o mais doce — dou-lhe um beijo na boca —, gentil — outro beijo — e gostoso — um beijo mais profundo — namorado de todos, e sou incrivelmente sortuda de ter você na minha vida. Ele me beija profunda, apaixonada e amorosamente, depois segura meu rosto com suas mãos grandes, mas gentis. — Sim, acho que sou um bom partido, hein? — Doce e brincalhão. Deus, ele é surpreendente. Continua num tom sério. — Foi você quem me pegou, Maddy. — Gentilmente segura meu rosto e passa os polegares pelas minhas bochechas. Inclino-me mais uma vez em sua direção e o beijo com a súbita onda de amor que sinto por ele. Minha curiosidade finalmente ganha de mim e tenho que começar a procurar pela verdade. Me afasto e pergunto: — Então, como tudo aconteceu? Digo, além do fato óbvio de que Mel e você fizeram isso. — Ergo a sobrancelha para ele. Seus lábios rapidamente dão um sorriso brincalhão e me puxa para o sofá, que só agora percebo que é novo. — Você comprou um sofá novo! Ah, obrigada, Deus! Sentia como se precisasse de um banho toda vez que me sentava no antigo. Ele ri alto. — Era bem nojento, né? — Nojento? Reid, era muito além de imundo. Até me arrepio em pensar no que já aconteceu naquele sofá durante os anos. — Realmente tremo com esse pensamento. — Então fale. Como aconteceu e como você pagou por tudo? Árvore, decoração, um sofá novo, estou morrendo de curiosidade! — Bem, quando você disse que queria um grande jantar em família, não consegui evitar de


colocar a Mel nisso. Todos estavam mais do que dispostos a mudar seus planos. Todos eles te amam, e você sabe disso, certo? — Ele me beija castamente nos lábios antes de continuar: — Seu apartamento definitivamente era a opção mais limpa, mas não era grande o suficiente. Então, contratei um serviço de limpeza para arrumar a casa e passei praticamente a maior parte do dia de ontem e hoje na Target e no supermercado comprando tudo enquanto você estava na aula. Não tinha percebido que não tínhamos quase nada até Mel falar. Não possuíamos nem mesmo pratos. E comida? A porra dos armários estavam vazios. Então comprei tudo e, quando cheguei em casa e vi quão limpa estava, não consegui continuar com a mesma mobília. Tive sorte de convencer o cara da loja a me vender o mostruário. Dei uma grande gorjeta e, só pra você saber, foi tudo entregue hoje de manhã. Ele faz tudo parecer tão simples, mas de onde veio o bendito dinheiro? — Mas e o dinheiro, Reid? É muito dinheiro para se gastar com uma pessoa. — Você está certa. É muito para gastar em uma pessoa, mas, Maddy, você não é apenas uma pessoa. Você é tudo pra mim. Só queria fazer algo legal para você. O dinheiro não tem importância, acredite em mim. Quero acreditar que não tem importância, mas ele é um estudante universitário de vinte e um anos. — Reid, mas isso é loucura! Por favor, deixe-me te pagar de volta. Minha faculdade e acomodação são basicamente pagas pela bolsa de estudo e o resto é financiado pelo seguro de vida dos meus pais. Posso pagar com o dinheiro de lá. Ele parece irritado — irritado mesmo — com essa sugestão. — Não. — Seu tom de voz é duro e frio. Até ele percebe isso, então deixa a fúria reduzir um pouco antes de dizer: — Você não vai me pagar. Não vai usar o dinheiro dos seus pais comigo por fazer algo legal para você. Já está tudo pago. O dinheiro é de uma ação judicial de quando eu era adolescente. Foi resolvido de comum acordo e nunca toquei nele. Nunca tive razão para isso, então ficou parado e rendendo. Agora tenho você, e fazer essas coisas me faz feliz, então, é a razão perfeita para finalmente gastá-lo. Acredite, tudo isso não é nem um décimo do dinheiro que eu tenho. E mais, se não tivesse esse dinheiro, como teria pago aquele operador de filmes para fazer passar o seu filme favorito no nosso primeiro encontro? Impossível não me derreter por ele e por sua consideração. Olho dentro de seus olhos e digo com sinceridade. — Obrigada, Reid. Por tudo isso, não pelo material, mas pela família que nunca tive, por me dar a chance de finalmente me abrir para alguém. Você me faz muito feliz, só espero te fazer se sentir da mesma forma. — Feliz? Está de zoação? Maddy, você é a razão de eu respirar. Sem você, minha vida não teria sentindo algum, então dizer que “você me faz feliz” é um enorme eufemismo. Você traz mais felicidade pra minha vida do que pensei ser possível. — Seus lábios batem nos meus e ele me beija com toda a emoção que está tentando passar em palavras. Esses sentimentos de amor e alegria são tão avassaladores que sinto que meu coração pode explodir. Nosso beijo é interrompido quando escutamos os garotos passando pela porta, carregando


todas as sacolas de compras feitas pelo Reid. — Reid, traz sua bunda aqui, cara! Essa merda tá pesada. As palavras de Jack estão tensas devido ao peso das sacolas que está tentando arrastar pela porta. Corro para ajudá-lo, mas ele me diz para voltar para onde eu estava. Deito-me no sofá e fico feliz com a ideia de não precisar esfregar minha pele quando levantar. Ouço a porta se fechar e sacolas caírem no chão. As garotas voltaram para a sala com uma bandeja cheia de petiscos e bebidas. Lia dá a todos uma taça de vinho e propõe um brinde. — Ao nosso primeiro Dia de Ação de Graças juntos como uma família. — Todos levantam suas taças e dizem “saúde”. Depois, tomam um gole. Quando Lia diz família, a realidade me atinge. — Ah, não, Mel, temos que ligar para a Mamãe e contar sobre tudo isso. Ela vai ficar preocupada com a gente. — Dou uma olhada no meu relógio e me dou conta de que já deveríamos estar lá há duas horas. — Ela provavelmente já colocou uma equipe de resgate atrás da gente! Inclino-me para pegar o celular na bolsa que caiu no chão quando Reid tirou minha venda. Quando levanto, grito de susto. — Mamãe C! — grito tão alto que todos cobrem os ouvidos. Corro para seus braços abertos e relaxo com o carinho maternal. Ela devia estar escondida atrás da parede da entrada. — Mas... como... quando... o que está fazendo aqui? Como sabia que estaríamos aqui? Não vi seu carro lá na frente — falo gaguejando, mas é porque estou surpresa em vê-la. Mel caminha para perto da mãe e passa um braço em volta de sua cintura, então estamos nós três unidas diante de todos os nossos amigos. Vejo Mamãe limpar uma grande lágrima da bochecha antes de começar a falar. — Bem, Maddy, seu namorado aqui — ela sorri calorosamente para ele e sei que já a ganhou — me ligou outro dia e perguntou se eu me importaria de mudar meus planos e vir para cá ficar com você e todos os seus amigos. E ainda me prometeu que eu não teria que levantar um dedo, que ele tomaria conta de tudo. Não pude recusar. Um final de semana com as minhas meninas e seus melhores amigos, e... — ela estende o último “e” para enfatizar, quase como se para lembrar Reid de sua promessa — não tendo que cozinhar, limpar ou fazer qualquer coisa além de aproveitar vocês, como eu poderia recusar? Reid até mandou um carro para me buscar essa tarde para que eu não precisasse dirigir e, bem, aqui estou. Reid dá um passo à frente em direção a Mel, Mamãe e eu e ergue a mão para cumprimentála. — É um prazer enorme finalmente conhecê-la, Senhora Crane. Estou muito feliz que pôde me ajudar em tudo isso para a Maddy. Ela nos solta e olha para a mão dele como se fosse um objeto estranho saindo do braço. Ela é do tipo que adora abraçar, não dar as mãos, então o puxa para um abraço terno. Quando sussurra algo em seu ouvido, um pequeno sorriso surge em seus lábios. Depois, fala alto o suficiente para que todos escutem.


— O prazer é meu, Reid. Qualquer um que faça tudo o que você fez pela minha Maddy merece pelo menos um pouco de esforço da minha parte. E com isso todos nós retornamos para nossas bebidas, e a conversa enche a sala. Começamos a desempacotar os enfeites e imediatamente decoramos a árvore. A noite passa rapidamente porque estamos todos nos divertindo muito. Comemos pizza em pratos descartáveis, sentados no chão da sala, enquanto todos compartilham memórias dos feriados passados. Reid me olha preocupado e entendo o porquê: não tenho tantas memórias para compartilhar, mas sorrio calorosamente para ele. — Você está bem, linda? Não quero que fique triste. — Ele fica tão fofo quando está preocupado comigo. — Estou ótima, na verdade. Isso tudo é perfeito. — Beijo sua bochecha, coloco a mão em seu peito, e sussurro: — E mais tarde planejo dar a você o troco perfeito. — Sua respiração fica dura e sinto o batimento acelerar de excitação.

Todos já se foram e apenas Reid e eu estamos em pé, de frente para a mais nova e bonita árvore de Natal decorada. Mamãe vai ficar com Melanie no nosso dormitório. Acho que ela queria falar algo sobre eu ficar aqui com Reid, mas não disse nada. Sei que ela vê o que sinto por ele e tenho certeza de que também percebe o que ele sente por mim, mesmo que nenhum de nós tenha admitido um para o outro. Então, manteve seus comentários para si, e é por essa e tantas outras razões que eu a amo. — Espero que tenha gostado da noite, linda. Sua incerteza é comovente, mas ele só pode estar de brincadeira. Essa foi a melhor noite de todas e está a ponto de ficar muito melhor. — Reid, foi maravilhoso. Amei cada minuto. Ele me interrompe antes que eu possa continuar com a minha promessa de dar a melhor noite para ele em troca. — Tenho mais uma surpresa guardada pra você. Acha que pode esperar aqui embaixo por uns minutos enquanto arrumo tudo? Ele fica me olhando com um olhar arregalado e amoroso, como posso recusar? E não há nada que eu consiga pensar que ele faça que possa tornar essa noite ainda mais especial. Depois de me beijar rapidamente, sobe as escadas para seu quarto. Sento-me no sofá e tento classificar todas as minhas emoções. Sorrio para as memórias de hoje e dos últimos dois meses desde que conheci o Reid. Sei com toda certeza do mundo que o amo. Quero tanto dizer isso a ele, mas tenho medo de assustá-lo. Mesmo eu tendo o pressentimento de que ele me ama também, não sei se isso é o suficiente para que fale sobre seus sentimentos por mim. Apesar do amor que sinto, ainda há uma parte minha que tem medo de se doar


completamente até que saiba que ele se sente tão seguro comigo como me sinto com ele. Não posso me permitir amá-lo por completo por causa do medo de ele se afastar caso fique assustado. Tenho que saber que suas paredes ruíram como as minhas, para que possa lhe dar tudo de mim. Reid volta para a sala e vem em minha direção. Parece diferente, mais sensual, lascivo, faminto. Entrelaça sua mão na minha e me levanta do sofá. Subimos as escadas de mãos dadas. Meu coração começa a disparar no peito. O desejo que sinto por ele desde o momento em que o conheci está pulsando freneticamente em minhas veias. Eu o quero. Quero-o mais do que qualquer outra pessoa ou coisa na minha vida. Agora que descobri que o amo, sei que estou pronta para me entregar ao desejo. Sim, tenho algumas ressalvas, mas estou pronta para isso. Para ele. Para nós. Paramos na porta de seu quarto, e ele se vira para mim. — Não tem pressão nenhuma para fazer algo. Só quero fazer esta noite — sei que com “esta noite” ele quer dizer o que quer que aconteça — ser apenas especial como o início já foi. — Reid, sei que nunca me forçaria a fazer algo que não quero. Então cale a boca e me leve para a cama. — Fico na ponta dos pés e passo a língua por seus gloriosos lábios macios. Ele abre a porta, e mais uma vez fico encantada com o que está à minha frente. O quarto foi completamente mudado. Onde antes tinha um colchão grande em uma raquítica cama e um edredom velho, agora há uma linda cama com quatro colunas com algum tipo de tecido sedoso drapeado na parte superior, onde fica um dossel improvisado. Está coberto com o mais bonito tecido branco e creme que já vi. E por mais claro e gracioso que seja, ainda assim é completamente masculino e bonito. Ele repintou as paredes também, de um suave cinza azulado que combina com seus olhos. Tem velas espalhadas por cada superfície que é segura e até em outras que não são. Ele plugou o iPod nos autofalantes em cima da cômoda e minha atenção é atraída para lá quando escuto a voz sensual de David Gray encher o quarto. Perto do iPod, há um enorme buquê de lírios brancos num grande vaso de cristal. Ele me deixou completamente sem fala, mas palavras não são necessárias agora. Existe apenas Reid e eu nesse paraíso sensual que ele criou. Ele me vira e me puxa para mais perto. Coloca as mãos na minha nuca e solta meu cabelo amarrado, que cai suavemente em volta do rosto. Gentilmente retirando o cabelo que caiu em meus olhos, ele se aproxima mais e me beija. Esse é um beijo diferente. É cheio de promessas de prazer. Sua língua acaricia a minha. Ele é hesitante e lento no início. Acredito que esteja tentando se controlar, mas não é isso que eu quero. Quero mergulhar em suas profundezas e me perder lá, me dar por inteiro a esse homem que tanto amo. Sei que nesse momento preciso contar isso a ele. Qualquer que seja a parede que está mantendo, qualquer que seja o segredo que está escondendo de mim, não pode ser suficiente para mudar meu amor por ele; e ele precisa saber disso. Paro de beijá-lo e olho dentro de seus lindos e profundos olhos. — Reid, tenho que te dizer algo. Ele me olha de forma interrogativa. — Maddy, você pode me dizer qualquer coisa. — Passa suavemente os dedos pelas minhas


bochechas e diz: — Foi algo que eu fiz? Converse comigo. Diga-me o que se passa na sua cabeça. Puxo-o pelo quarto e o faço sentar na cama. Por dentro, estou tremendo de nervosismo pelo que estou prestes a dizer e pelo que estou finalmente permitindo acontecer. Ele está sentado na beira da cama, seus pés tocando o chão. Sento-me em seu colo, montando nele, assim posso olhar dentro de suas piscinas tão azuis que parecem o céu, quando eu falar. Coloco as mãos em suas bochechas carinhosamente e respiro fundo, preparando-me para as palavras que estou prestes a dizer. — Reid, eu te amo. — Faço uma pausa para registrar o choque em seus olhos, mas não há nenhum. Ele apenas sorri adoravelmente para mim e traça vagarosamente pequenos círculos nas minhas costas. Há um certo silêncio por um momento, mas preciso preenchê-lo. — Sei que você pode achar que é muito cedo e sei que temos nossos próprios problemas, mas não consigo evitar o que sinto. Você é surpreendente e quebrou cada barreira que coloquei para manter as pessoas afastadas. Não existe mais ninguém que eu queira além de você, e sei que serei capaz de superar tudo o que acontecer conosco. Me sinto muito forte sobre nossa relação. É assustador e aterrorizante, na verdade, mas eu precisava falar que te amo. Amo muito, muito mesmo — digo tudo isso tão rápido que preciso inspirar um pouco mais profundo para fazer com que o ar entre em meus pulmões. Seus lábios formam um sorriso diabólico e lindo. — Já terminou? Posso falar? Concordo com a cabeça e digo “Uh-uhm” em resposta. Minha linguagem normal fugiu do cérebro. — Madeleine, eu também te amo. — Movo-me para dizer algo, mas ele me silencia com um beijo. — Não, você já teve sua vez, agora é a minha. — Beija-me novamente antes de dizer o resto. — Amo você mais do que tudo. Moveria céus e terras para fazer você perceber o quanto te amo. E não quero que pense que digo isso apenas porque você disse. Tenho pensado muito nisso ultimamente e sim, tenho algumas merdas na cabeça, a mesma merda que me fez construir muros altíssimos, mas perto de você eles simplesmente desaparecem. É por isso que fiz tudo isso hoje. Quis criar uma linda memória para a primeira vez que diria que te amo. Quando decidíssemos levar a coisa física para outro nível, queria que a cama fosse nossa e somente nossa. Queria que fosse apenas você e eu lá, nenhuma outra memória além dessa de agora, de você brilhando lindamente à luz de velas, sentada em meus braços, me escutando dizer várias vezes o quanto te amo. — Ele beija a ponta do meu nariz e passa os polegares suavemente debaixo dos meus olhos, onde algumas lágrimas perdidas caem. Sua declaração de amor acende um fogo logo abaixo da minha barriga. Se pensei que o queria antes, estava redondamente enganada. Estendo a mão até a barra de sua camisa e a tiro, nosso contato visual só sendo quebrado quando o tecido passa por sua cabeça. Empurro-o até que ele esteja deitado e ainda estou montada nele. Suas mãos estão em minha cintura, mas são tão grandes que estão quase em todos os lugares. Ele as move um pouco para baixo, onde meu quadril encontra minha bunda, e a aperta gentilmente. Seus polegares começam a traçar círculos perigosamente sensuais perto do meu núcleo. Inclino-me e beijo seu peito. É largo e musculoso, mas ainda assim macio e quente ao toque. Os


pelinhos fazem cócegas em meu rosto. Beijo em cima do coração e digo “eu te amo” antes de continuar descendo e seguindo a fina linha de pelos que desaparecem dentro do jeans. Quando vou desabotoar sua calça, ele me detém, agarrando meus pulsos como uma das mãos e se sentando comigo ainda no colo. — Não, Maddy. Deixe-me te amar. Por favor. Minha boca fica seca e meu interior se contrai deliciosamente só de pensar no que ele quer fazer comigo. Concordo, quase imperceptivelmente, mas ele vê. Pegando a barra da minha camisa, ele a retira, me aliviando de sua presença. Suas pupilas dilatam quando vê meu sutiã rosa de seda. É quase transparente e meus mamilos pressionando contra o tecido deixam pouco à imaginação. Ele está prestes a desabotoá-lo. Mas me adianto e alcanço o fecho antes dele, abrindo-o vagarosa e sedutoramente. Meus seios ficam livres e jogo o sutiã no chão junto com nossas outras peças de roupas. Ele não me toca mais do jeito que normalmente faz. Já passamos desse estágio. Ao invés de me tocar, ele apenas me encara. Encara por tanto tempo que arrepios começam a passar pela minha espinha e os mamilos ficam mais duros diante de seu olhar cheio de luxúria. — Linda. Você é linda pra caralho, Maddy. Ele passa os braços em volta da minha cintura e rapidamente muda de posição, de forma que estou embaixo dele. Suportando todo o peso nos braços, ele está só com metade do corpo deitado sobre mim. Começa beijando meu pescoço e gemo em apreciação da sua investida sensual. Sua língua é quente contra a minha pele e meus seios estão implorando por seu toque. Ele começa a passar os dedos no meu seio, mas não toca os mamilos, agora dolorosamente excitados. Mudando de posição e ficando agora completamente sobre mim, ele baixa a boca até meu seio esquerdo, mas não faz nada mais do que respirar sobre ele, fazendo com que fique ainda mais ereto, se é que isso é possível. Ele beija cada parte do meu seio, exceto onde mais quero. Movendo de um para o outro, ele continua sua tortura, me fazendo contorcer debaixo dele. — Por favor, Reid. Ah, Deus, por favor. — O que, linda? Diga-me o que você quer. Quero te dar tudo. — Seus olhos estão meio fechados e sexy pra caralho. — Quero você, Reid. Quero agora. Por favor. — Minha voz não é mais do que um sussurro sensual e sem fôlego. Ele obedece meu comando e puxa um mamilo com a boca. Sinto espasmos internos quando a língua quente e molhada desliza de um mamilo para o outro. Puxa ainda mais profundamente meu bico rosado para dentro da boca e o arranha gentilmente com os dentes. Arqueio e gemo em êxtase. Faz uma, duas, três vezes até que não aguento mais. Estou no limite do meu controle; mais uma investida de sua língua em qualquer outro lugar do meu corpo e cairei no abismo de prazer que sua boca promete. Percebendo quão perto estou, ele se afasta e busca em meus olhos permissão para ir mais longe. Conseguindo vê-la neles, se abaixa e faz um caminho de beijos entre meus seios até o estômago. Quando mergulha sua língua em meu umbigo, gemo seu nome.


— Reid... por favor... mais... preciso de mais... por favor. Ele não responde, apenas continua me beijando em todos os lugares. Quando começa a desabotoar meu jeans, levanto os quadris para facilitar que puxe a calça, acrescentando-a à pilha de roupas já depositadas no chão. Ele me encara de baixo para cima, mas dessa vez me sinto constrangida. Nunca fomos tão longe; nunca estive tão exposta. Ele vê a minha agitação interna e me acalma. — Você é a mulher mais linda que eu já vi, Maddy. Quero você mais do que pode imaginar, mas, se não estiver pronta, tudo bem também. Só quero que você sinta o quanto eu a amo. Quero que sinta o quão incrível me faz sentir a cada dia. — Suas palavras suavizam meu nervosismo e de repente não me sinto mais preocupada sobre minha nudez. Deixando a calcinha rosa de seda, ele trilha um caminho de beijos pelas minhas pernas. Quando volta ao centro, estou ardendo de desejo. Ele me lambe sobre o tecido da calcinha, me fazendo ficar mais molhada ainda. Inalando profundamente, diz: — Você cheira tão bem, Maddy. Tão doce. Mal posso esperar para lamber cada pedacinho seu. Toda minha habilidade de dizer ou fazer qualquer coisa foi embora e estou à sua mercê. Enganchando os polegares na calcinha, ele a puxa bem devagar pelas minhas pernas. — Abra pra mim. Deixe-me te amar, doce Maddy. Afasto os joelhos e aguardo ansiosamente pelo prazer que sei que sua boca me trará. Com uma simples investida de sua língua no meu núcleo em brasa, ele me traz novamente ao limite do prazer. Quando gira a língua em volta do meu clitóris pulsante, não consigo segurar o grito que sai de minha boca. — Reid... tão... perto... por favor... Mas nesse momento não tenho certeza do que estou pedindo. Para parar? Para continuar? Estou totalmente incoerente. Parando de me lamber, ele vagarosamente desliza um dedo dentro de mim. — Puta merda, Maddy. Você está encharcada. — Sua voz é cheia de admiração, e, quando tira o dedo, choramingo. Mas o vazio não dura muito porque ele rapidamente introduz um segundo dedo. Quando acha um caminho macio de carne no meu sexo que tremula, ele move os dedos sobre ele implacavelmente. Sua língua volta para o meu clitóris, traçando uma suave forma de oito lá. O limite está bem ali ao meu alcance e dessa vez ele não para. Continua lambendo meu clitóris com sua língua mágica e massageando as paredes internas com seus dedos grandes e calejados até que grito seu nome quando gozo. Meu corpo não é nada mais do que uma piscina de desejo por ele. Se é que é possível, quero-o mais agora do que antes. Ele se move em direção à minha boca e me beija. Sinto meu gosto em sua língua e é de longe a coisa mais erótica que já experimentei. — Diga-me para parar, Maddy, que eu paro. Diga-me que isso é tudo o que você quer essa


noite e ficará tudo bem. Vamos apenas dormir. — Sei que está dizendo isso só para tentar acalmar meus medos e amo muito você por pensar neles, mas estou pronta, Reid. Eu te amo e quero estar com você. Simples assim. — Beijo-o profundamente para que possa sentir minhas palavras em seu coração. — Deus, Maddy, faz muito tempo que quero fazer amor com você. Você está fazendo meu sonho se tornar realidade. Sei que o momento não é para piadinhas, mas não consigo me conter. — Você só está feliz porque não precisará mais tomar banhos frios. Ele ri levemente, mas imediatamente volta a ficar sério. — Tomaria três banhos frios por dia se você não estivesse pronta. Porra, teve dias que realmente tomei três banhos. Dividimos uma risada tranquila e depois o silêncio volta. Estou deitada nua em seus braços, saciada e com fome ao mesmo tempo. Ele me olha com o mesmo olhar voraz. Beijo-o decidida. — Sou sua, Reid. Não quero esperar mais. Pegue o que é seu, por favor. Qualquer autocontrole que ele ainda tinha acabou agora. Ele me esmaga com seu peso e sua língua saqueia minha boca. Suas mãos estão em todos os lugares, alimentando o fogo que está queimando em meu centro. Procuro pelo botão de sua calça, mas meus dedos estão tremendos de nervosismo. Ele os acalma e me ajuda. Passo a mão por sua ereção protuberante e me farto com a sensação de senti-lo na mão. — Agora é a minha vez. Deixe-me te amar, Reid, por favor. Você vai me deixar fazer isso? Ele ergue a sobrancelha e me lança um olhar do tipo “como se você tivesse mesmo que perguntar”. Encaro isso como sim e mudo de posição com ele, ficando por cima. Abro seu jeans e ele levanta o quadril para me ajudar a puxá-lo, como eu fiz mais cedo. Mais um item se junta aos outros no chão, mas minha atenção está no único item de roupa que permanece entre nós: uma pecaminosa e justa cueca boxer cinza e sexy como o pecado. Sua ereção está lutando contra o cós, quase saindo. Beijo-o por cima do tecido. — Caralho, Maddy — ele sibila com a sensação de minha língua deslizando contra seu comprimento. — Você vai me matar, sabe disso, né? — Ainda não. Não experimentei você ainda. Puxo a cueca e o deixo livre. A pilha está completa agora, e estamos completamente nus. Ele é o homem mais bonito que já vi com roupas, mas nu e à mercê dos meus desejos é absolutamente lindo. Cada centímetro seu é perfeito. Passo a ponta dos dedos pela sua ereção — um elegante pedaço grosso de aço revestido de veludo que me faz lembrar um romance Harlequin. Ele é ao mesmo tempo duro e macio. Sua pele está em chamas sob meus dedos e me inclino para lamber a ponta. Ele tira meu cabelo do caminho.


— Quero te ver, Maddy. Quero ver meu pau desaparecer dentro da sua boca. — Sugo os primeiros centímetros e ele levanta o quadril e arqueia as costas. — Oh... Deus... Maddy... — Suas palavras são um longo e ininteligível gemido. Nunca fiz isso antes, por isso é bom saber que ele está gostando. Encorajada, levo mais um pouco dele para dentro da boca, relaxando a garganta enquanto faço isso. Ele envolve minha outra mão no restante do pênis que não consigo engolir e a move para cima e para baixo. Mantemos esse ritmo por algum tempo, então ele o puxa para fora da minha boca e um alto e audível “pop” ecoa pelo quarto. Merda, fiz algo errado. Machuquei-o ou não está mais gostoso. Ele deve ter visto minhas emoções, porque se senta ao meu lado num segundo. Suas mãos estão no meu cabelo, alisando e tirando-o do meu rosto. Passa o polegar sobre meu lábio inferior inchado e o tira de entre meus dentes; estou preocupada como nunca com isso. — Antes que você pense por um minuto sequer que fez algo errado, pare agora. Foi perfeito, Maddy. Você é perfeita pra caralho. Na verdade, mais um segundo disso e eu teria gozado. Ok? — Sua voz me acalma e reafirma que não fiz nada errado. — Tá bom. Acredito em você. — Existe uma parte em mim que não acredita nele, que acha que eu poderia estar fazendo algo errado, dizendo palavras erradas, agindo do modo errado. É tudo tão novo para mim e estou apenas deixando minha necessidade por ele agir. — Bom, doce Maddy. — Ele me deita novamente e fica praticamente em cima de mim novamente. Sinto-o alcançar o criado-mudo, procurando por algo que presumo ser uma camisinha. Pego sua mão e paro sua procura cega. — Tá tudo bem, Reid. Suas sobrancelhas se juntam em confusão. — O que você quer dizer com “tá tudo bem”, Maddy? Não estou entendendo. — O momento se tornou estranho, mas acho que era esperado. — Eu tomo pílula. Sabia que seria com você, que era apenas questão de tempo. Então, o que estou dizendo é que, se estiver tudo bem para você que não tenha nada entre nós, não tem necessidade de camisinha. — Indico o preservativo com os olhos. — Eu... uh... Maddy... Nunca fiz sexo sem camisinha antes e tive que fazer exame de sangue antes de começar a aula de MMA na academia. Eu estou limpo. Sim, vergonhoso. Estou me sentindo uma tola por não ter trazido o assunto à tona antes, mas, bem, nunca realmente me ocorreu. — Você nunca transou sem camisinha? Sério? — Não quis parecer chocada, mas, bem, para ser honesta, ele já transou muito, mais do que quero pensar. Apesar de tudo, confio nele; sei que não mentiria para mim. — Nunca. Juro. Posso usar a camisinha se você quiser, mas juro que estou limpo. Se você toma pílula, não tem nada que eu prefira fazer agora do que te sentir completamente sem nada enquanto me enterro em você. Não é mais vergonhoso. Apenas gostoso.


Muito gostoso. — Reid. — Olho em seus olhos atentamente, esperando transmitir a seriedade das palavras que estou prestes a dizer. — Eu te amo e quero você. Agora. Sem nada entre nós. Faça amor comigo, por favor. Ele está em cima de mim num piscar de olhos e minhas pernas envolvem sua cintura. Inclinandose, me beija com todo o seu amor. Sinto-o cutucando minha entrada e a penetrando pouco a pouco. É uma sensação de preenchimento e alargamento que nunca senti antes. Meus olhos reviram de prazer e balanço a cabeça de um lado para o outro com a sensação dele me penetrando. — Meu Deus, Reid. Você é incrível. — Caralho, Maddy. Você também. Deus, você é tão apertada. — Faz uma pausa antes de me perguntar. — Você aguenta mais agora? — Você está dizendo que não está totalmente dentro? — Não imaginei que poderia ser melhor do que isso, mas tenho espasmos internos só com o pensamento de ter mais dele, tudo dele. — Merda, posso sentir você me apertando. Vou me mover agora. Olhe para mim, por favor. Quero que olhe para mim. — Seus olhos estão enormes no rosto, o azul é apenas uma fina linha em suas íris; as pupilas estão pretas de luxúria e amor. Olho para ele, que então se afunda todo dentro de mim. Sinto uma breve e afiada picada e ele para diante da resistência, perguntando preocupado: — Você está bem, linda? Desculpe se te machuquei. Prometi que nunca mais te machucaria. Não posso formar as palavras; não tenho mais nada na mente do que o prazer que ele está me dando agora. Passo as mãos em volta de seu pescoço e puxo sua linda boca de encontro à minha para beijá-lo até sua preocupação desaparecer. Ele começa a se mover num ritmo lento e sensual. Sua língua duela com a minha enquanto nossos corpos se esfregam um no outro. Seu maxilar está cerrado, e vejo os tendões de seus ombros e bíceps tensionarem. Ele está se controlando, posso sentir. — Não se contenha, Reid. Quero tudo de você. Agora. Temos nos segurado por tanto tempo e nesse momento só quero que ele me dê tudo que tem. Quero sua paixão selvagem e desejo enfurecido. Nunca me tacharia como uma devassa, sem vergonha, mas ele traz à tona isso em mim. Com meu pedido, ele começa a se mover num ritmo furioso. Quando está me preenchendo completamente, é como se pudesse senti-lo alcançando minha alma. Grito seu nome enquanto meu corpo se contorce loucamente de prazer. Ele se move mais algumas vezes, duro e rápido, antes de estremecer e continuar acima de mim. Ele está coberto de suor e tremendo. Puxo-o para mim e me deleito com a sensação de todo o seu peso sobre mim. Envolvo os braços nele e me aninho nos seus. Eventualmente, recuperamos nosso fôlego. Estou mole e completamente satisfeita em seus braços, e seu coração bate contra meu peito. Minhas pálpebras estão ficando pesadas e, na hora que estão começando a se fechar, sintoo se mexer na cama. Está se levantando e indo em direção ao banheiro. Volta com uma toalha morna em uma mão e um Advil na outra. Faço menção de me sentar, mas ele me detém, se movendo entre as minhas pernas para me limpar. Sabia que ele era gentil, mas isso comove a


minha alma. E também coro violentamente. Eu sei. É bobeira me sentir assim depois de tudo que compartilhamos, mas é tão íntimo. Entretanto, amo-o por isso. Quando ele termina, me entrega o comprimido e um copo de água. — Mas não estou com dor de cabeça. Para que isso? — Bem... você... humm... você pode ficar um pouco dolorida amanhã, então pensei que isso poderia ajudar. E, honestamente, mal posso esperar para fazer isso novamente, então quanto menor o tempo que ficar fora de combate, melhor. Seu sorriso torto é estupidamente adorável; não posso deixar de beijá-lo um pouco mais. Ele me puxa para ele de modo que minhas costas fiquem coladas em seu peito e sussurra palavras doces em meu ouvido. Diz que me ama e puxa a coberta sobre nós, calorosamente me envolvendo, e não consigo mais manter os olhos abertos. Sinto-me flutuar com Reid brincando com meu cabelo, o seu hálito quente contra meu pescoço, com a sensação de completa e absoluta plenitude” que possuo, deixando-o entrar.


Estou com dezesseis anos e correndo o mais rápido que minhas pernas me permitem. Meus pulmões estão queimando e os olhos, cheios de lágrimas enquanto o vento gelado chicoteia meu rosto. O pavor me oprime e me faz correr ainda mais rápido. O mundo está se fechando sobre mim, me afogando, me enterrando. Não existe luz; a escuridão me envolve. Viro e remexo na cama, despertando do meu pesadelo iminente. Não essa noite. Não com a Maddy aqui. Não com tudo que aconteceu entre nós. Forço os horrores do meu passado para longe e respiro profundamente, contando de um até cem de trás pra frente. O sono me envolve perto do número cinquenta e cinco, com uma ligeira esperança de que terei um sono tranquilo. Entro como um furacão pela porta da minha casa. Não tem ninguém. Ligo freneticamente para mamãe e papai, mas sei que estão trabalhando. Minha garganta está áspera pelos gritos inúteis, mas continuo gritando. A única pessoa que quero que me responda nunca responderá. O som da minha voz penetra em meus ouvidos. Subo as escadas de dois em dois degraus. Meu dedão do pé prende e dou de cara no chão. Meu queixo corta onde bateu ruidosamente contra o piso frio de madeira. Meu peito dói. Sinto a pressão aumentando e os ouvidos zumbindo com o batimento acelerado. O rosto está coberto de suor. Instintivamente, passo o polegar pela cicatriz no meu queixo. Não é nada mais do que uma fina linha branca na pele. É superficial, mas a verdadeira cicatriz se esconde muito abaixo da superfície. Enterrada. Fria e morta, assim como Shane. Olho para o lado e vejo minha doce Maddy ainda dormindo pacificamente, enrolada como uma bola. Me aninho nela, ficando de conchinha, e ela ajeita a bunda contra minha virilha. Envolvo-a em meus braços com força, mas não tão forte a ponto de acordá-la. Inalo o cheiro de coco de seu shampoo, um cheiro que passei a associar a todas as coisas calmantes e bonitas, enquanto tento acalmar meu batimento cardíaco e a ansiedade paralisante. Começo a contar novamente de trás


para frente a partir de cem. Quando chego ao zero, o sono ainda me escapa e começo de novo. Na terceira contagem, um sono profundo me pega. Finalmente chego ao topo da escada e escuto a água correndo no banheiro. O medo me congela. Meus pés permanecem grudados no chão. Não consigo me mexer. Não consigo falar. O mundo sai do eixo. Eu o chamo. — Shane. Está em casa? Ele não responde. Não pode responder. Chamo-o mais alto, como se isso fosse acordá-lo de seu sono eterno. Ainda sem resposta. Bato timidamente na porta do banheiro, onde ainda escuto a água correr pela torneira da banheira. — Shane? Cara? Você está aí? Não há resposta. Nunca haverá uma resposta. Tento abrir a porta, mas está trancada. Bato com mais força. Bato os punhos na porta branca até que a madeira começa a lascar e meus dedos, a sangrar. Mudo de tática quando o pânico me atinge. Corro e bato com o ombro na porta. Ainda nada. Não vai ceder. Bato de novo e de novo. A dor é cega. Tenho quase certeza de que desloquei o ombro, mas não posso parar. Não vou parar até chegar ao outro lado. A porta começa a quebrar. Bato mais uma vez, sabendo que irá ceder se colocar toda a minha força no golpe seguinte. Meu ombro bate na porta uma última vez e passo por ela, aterrissando no frio piso de cerâmica coberto de sangue. Tremores passam pelo meu corpo e o grito que escapa da minha boca é feroz; é o som de um animal. Rastejo desajeitadamente; a água tingida de sangue faz meu estômago revirar. Tem sangue em todos os lugares. Tento me convencer de que é meu sangue, do queixo, dos dedos, da lasca de madeira que está presa em meus ombros. Entretanto, sei que não é. É dele. É do Shane. Chego à borda da banheira, onde seus braços estão pendurados e sem vida. Não está mais saindo sangue da veia cortada em seu pulso. Seguro-o pelos ombros e tento balançá-lo, tento tirá-lo da água, tento salvá-lo. Sua cabeça apenas rola para o lado. Seus olhos estão fixos e sem vida. Ele está frio, já se foi. Estou muito atrasado. Desabo no chão e vomito. Não consegui salvá-lo. Cheguei tarde demais. É minha culpa. Se tivesse chegado mais cedo, ele ainda estaria aqui. Soluços tomam conta do meu corpo, e me debato com raiva. — Reid! Ah, meu Deus! Reid, meu amor, acorde. Você está tendo um pesadelo. Por favor, amor, acorde. Está me assustando. Por favor! — O pânico em sua voz me tira do fundo do inferno. Maddy passa freneticamente suas mãos pelo meu rosto e peito. Puxa-me para mais perto dela, fazendo minha bochecha descansar contra seu coração. Leva uma eternidade para me acalmar, para recuperar os sentidos do aqui e agora, mas seus dedos acariciam gentilmente meu cabelo, a mão fazendo círculos nas minhas costas, sua doce voz me dizendo que “tudo vai ficar bem”. Inclino o pescoço para poder olhar para ela e esse pequeno movimento causa uma agitação dentro de mim. Sinto que algo está vindo, então levanto correndo da cama e vou direto para o banheiro. Ela está ao meu lado num instante, me acalmando e consolando. Não sobrou mais nada no meu estômago e começo a levantar. Maddy me ajuda e se ocupa com algo na pia. Volta logo para o meu lado, passando um pano umedecido pela minha testa e bochechas. Não posso olhá-la. Vou despedaçar, sei disso.


Quando a ânsia de vômito diminui, ela limpa minha boca com uma toalha de rosto e me dá um copo de água. — Aqui, amor. Tome um gole. O que mais posso fazer por você? Ela parece tão frágil, tão inocente, tão preocupada. Eu ainda não disse uma palavra e nem sei se consigo. Só sei que, se lhe contar essa merda, ela acabará me deixando. Não posso perdê-la nem lidar com essa porra sozinho. As comportas se abrem com o simples pensamento de perdê-la. Ela vai até o quarto, coloca uma camiseta e me entrega um short. Coloco-o e volto a me sentar no chão. Já me sinto tão vulnerável que estou grato de pelo menos estarmos vestidos. Depois de tudo que compartilhamos ontem à noite, não posso perdê-la. Estou chorando incontrolavelmente agora e posso imaginar o que estou parecendo; a palavra “covarde” me vem à mente, mas com Maddy eu simplesmente não ligo. — Reid, meu amor, por favor, converse comigo. Você não disse uma palavra e estou realmente preocupada. Por favor, o que quer que seja, pode conversar comigo. Estou aqui para você. Estamos nisso juntos. Você tem sido meu chão e força o tempo todo. Deixe que eu seja o seu. Por favor, amor, deixe-me levar sua dor embora. Isso apenas me faz soluçar mais forte. Ela me puxa para seus braços, sua maciez calorosa me cercando, envolvendo. Sinto-me seguro. É um pequeno vislumbre e com isso a maciça parede que costumava guardar meu coração desaba. Sinto-me seguro. Em seus braços, estou seguro e protegido. Ela já dividiu tanto de sua história comigo. É tão forte e estou tão admirado com ela. Talvez possa fazer isso. Talvez ela não me deixe. Dou uma longa respiração e mentalmente tento me preparar para dividir meu segredo mais sombrio. — Eu... Maddy... Nunca... — Não sei por onde começar. É algo que nunca contei a ninguém. Um “caralho” sai da minha boca antes de eu recuperar a compostura e começar novamente. Ainda estamos sentados no chão do banheiro, o azulejo frio fazendo minha perna arrepiar. Não posso contar isso a ela aqui, então me levanto e puxo-a para meus braços. Abraço-a forte e tento tirar toda a força que consigo dela. Voltamos para o quarto e nos sentamos na cama. Meu telefone vibra no criado-mudo e eu o ignoro. A única pessoa do mundo que quero conversar está aqui em meus braços. Ela segura meu rosto, olhando amorosa e profundamente dentro de meus olhos. — Reid. Estou aqui para você, mas, se não conseguir conversar, ou não quiser, vou entender. Por favor, só me fale se você está bem. Consigo finalmente dizer algumas palavras. — Você está aqui. Estou bem. É simples assim. — Ela solta um suspiro que eu nem sabia que ela estava segurando. — Se estiver tudo bem pra você, há algumas coisas que eu gostaria de te contar. Quero pedir para não me deixar quando contá-las, mas sei que é impossível. Mas não posso mais deixá-las enterradas. — Eu te amo. Não vou te deixar. É simples assim também. Ela passa o nariz no meu peito e os braços pela minha cintura, e, nesse instante, tudo está certo


no mundo. Beijo o topo de sua cabeça e percebo que preciso escovar os dentes. O que tenho que contar é odioso demais; não posso fazer isso com o gosto de vômito na boca. Quando volto para a cama, ela está me encarando com olhos arregalados e ansiosos para escutar o que tenho para contar. Entretanto, não é uma ânsia de conhecer todos os detalhes como uma adolescente que gosta de fofoca; é uma curiosidade de preocupação crescente pelo que eu estou lidando. Ela sabe como é sentir dor e não ter ninguém para ajudar a seguir em frente. Esses pensamentos fortalecem tudo o que eu já tinha resolvido. Sentamos de pernas cruzadas na cama, nos encarando de mãos dadas, mostrando solidariedade contra nossos fantasmas do passado. — Não existe um jeito fácil de falar isso, então me deixe falar tudo de uma vez. Ok? Não sei se vou conseguir continuar e concluir tudo se parar de falar. Ela concorda. Saber que não irá me interromper me dá o empurrão final para começar. — Shane era meu irmão mais velho. — Vejo-a arregalar os olhos em choque pela minha confissão. — Sei que disse que não tinha família e é verdade. — Ela apenas me olha com conhecimento de causa; uma dor compartilhada com a perda de membros da família. Fecho os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, me permito pensar sobre meu irmão e melhor amigo. — Ele era tudo o que eu sempre quis ser. Aos meus olhos, o sol praticamente nascia e se punha sobre ele. Era dois anos mais velho do que eu, então erámos mais do que irmãos, ele era meu melhor amigo. Fazíamos tudo juntos. Dividíamos o quarto e virávamos noites acordados. Quando erámos mais novos, isso enlouquecia meus pais. Tenho certeza de que houve vezes em que eles pensaram que íamos destruir tudo. Conforme fomos crescendo, diminuímos — mas nunca paramos completamente — e as bagunças se transformaram em conversas de fim de noite. Sei que soa como coisa de mulherzinha e essas merdas, mas realmente éramos melhores amigos. Sempre achei muito legal o fato de que, enquanto todos tinham que voltar para casa à noite, tendo que deixar seus amigos para trás, eu não tinha, pois Shane estava sempre ao meu lado. “Quando fui para o ensino médio, ele me levava para a academia com ele depois da escola. Foi ele que me transformou num rato de academia. Passávamos horas malhando juntos e, depois de tudo, seus amigos viraram meus também. As coisas mudaram um pouco dentro do grupo quando ele se formou, mas apenas pelo fato de que Shane não estava mais na escola durante o dia. Ainda saíamos todos juntos nos fins de semana e, como Shane ficou em casa para ir a uma faculdade local, ainda dividíamos o quarto.” “Uma noite, acordei com o som de choro abafado dele. Estava tentando me segurar, mas, quando um som estridente escapou de sua boca, percebi que tinha algo errado. Ele estava tremendo incontrolavelmente e eu estava muito assustado. Ele era meu super-herói. Mas lá estava ele, quebrado e caído, obviamente lidando com algo sério. Disse que ia chamar a mamãe e o papai, mas ele disse não. Eles não poderiam saber. Tentei acalmá-lo e eventualmente o fiz. Disse a ele que, se não contasse para mamãe e papai, então precisaria contar a alguém. Qualquer que fosse seu segredo, a dor era tanta que estava lhe causando angústia, então tinha que contar a alguém. Ele disse que me contaria, mas só se eu jurasse pela minha vida que nunca contaria a ninguém. Que ele morreria se alguém descobrisse.”


“Claro que prometi que nunca contaria a uma alma viva e, quando disse isso, quando prometi a ele que meus lábios estavam permanentemente selados, quis realmente dizer isso. — Os soluços voltam à minha garganta com o conhecimento de que quebrei minha promessa. É minha culpa ele estar morto.” Maddy me acalma e me puxa para mais perto de seu peito enquanto choro. Não diz nada e a amo por isso. Apenas me deixa sentir minha dor, deixando-a se esvair. Segurando as lágrimas, continuo minha história. — Ele me disse que era gay e, honestamente, não fiquei chocado. Nunca perguntei, mas sempre teve uma parte minha que já suspeitava. Isso não mudou o que eu sentia por ele. Era meu irmão. Amava-o independente do que ele fosse, mas entendia completamente o medo que sentia se outras pessoas descobrissem. Meus pais eram ultraconservadores e nossa pequena cidade, intolerante. Ele seria evitado imediatamente por seus amigos e, mais do que provavelmente, deserdado pelos nossos pais. Eu só tinha dezesseis anos na época, então não podia imaginar a enormidade de sua confissão, mas sabia que era algo grande. Na nossa cidade, na nossa família, era algo enorme. Então, eu jamais contaria a ninguém. “Até que a conheci. O Shane começou a namorar uma garota chamada Alex. Ele a conheceu na aula de Inglês quando ela era caloura. Era toda charmosa e bonita de um jeito sombrio. Ele imaginou que seria um bom disfarce, mas acho que uma parte dele esperava não ser gay. E por mais triste que fosse, seria fácil para ele se não fosse. Não consigo nem imaginar o que passava pela sua cabeça; como devia se sentir com o fato de nunca ser aceito pela pessoa que era.” “Eles namoraram por um tempo, acho que por uns três ou quatro meses antes de ela se aproximar por mim. Ela estava encostada no carro do lado de fora do lugar em que eu trabalhava. Soube quem era imediatamente, já tinha encontrado com ela várias vezes. Shane fez questão de levá-la em casa para conhecer meus pais e ser visto pela cidade com ela. Eu quase ri de sua farsa e só desejava um lugar em que ele pudesse se sentir seguro o suficiente para ser ele mesmo. O verdadeiro Shane era incrível, mas eu sabia que, por mais que nossos pais fossem sua família e a nossa cidade ainda fosse seu lar, o verdadeiro Shane era alguém que só eu conhecia.” “Então, de qualquer forma, ela queria saber se eu queria sair, o que me pareceu estranho. Ela disse que estava esperando Shane terminar algo — acho que a lição de casa — e só queria passar o tempo. Não confiei nela inteiramente, embora fosse namorada do Shane, mas estava muito gostosa. Ela tinha uma garrafa de Jack no banco da frente e perguntou se eu queria beber. Não queria ser uma menininha. Digo, já tinha ficado bêbado antes, mas algo gritava para eu manter minhas defesas em guarda com ela. Dirigimos para fora da cidade num lugar montanhoso e nos sentamos no capô do carro, bebendo o Jack. A conversa começou bastante inocente. Sabe, essas merdas de escola. Se estava ansioso com a temporada de beisebol na primavera e etc... Antes que eu me desse conta, estava muito bêbado. Jack sobe rápido, principalmente se não estiver acostumado com ele.” “Na hora que viu que eu estava bêbado, ela se jogou em cima de mim. Começou a me beijar e pressionar seu corpo no meu. Fui um canalha por transar com a namorada do meu irmão, mas não consegui evitar e reagi. Eu era a porra de um adolescente de dezesseis anos com tesão e tinha uma garota da faculdade com a língua enfiada na minha garganta. Ela tirou minhas calças e colocou meu pau na boca antes mesmo que eu pudesse perceber o que estava acontecendo. No


segundo seguinte, estava em cima de mim, me fodendo como se não houvesse amanhã.” Paro e registro que a expressão de choque no rosto de Maddy não mudou. Ela não merece isso. Não me merece. Sei que estou sendo um grande idiota por descarregar tudo isso em cima dela depois de ontem à noite. Sei o que significa para ela me deixar entrar desse jeito. Caralho, significa o mundo para mim também. E aqui estou eu contando sobre como fodi a Alex, mas ela tem que saber. Então, respiro fundo e continuo resoluto; só espero que ela ainda me ame quando terminar de contar tudo. — Foi minha primeira vez, então não durou muito. Enquanto ela descia de cima de mim, disse “já era hora de alguém me foder direito”. — Ela deve ter visto o olhar de confusão no meu rosto. Perguntei se ela e Shane nunca tinham transado. E isso saiu mais chocado do que eu queria, mas estava bêbado. Meu choque e confusão devem ter sido o suficiente para ela seguir com suas intenções originais. Podia ver a crueldade em seus olhos. Vi o mal fervendo na superfície, mas o álcool e a luxúria nublaram tanto a minha visão que, quando ela disse que sabia que ele era gay, meu conhecimento da verdade deve ter ficado bem claro na minha expressão. Não a procurei e não contei a ela, mas foi por minha causa que ela descobriu. Foi por minha causa que todos descobriram. Fiquei de cabeça baixa praticamente o tempo todo em que estive falando. Evitei contato visual com a Maddy, sabendo que tudo o que eu veria seria julgamento e raiva em seus lindos olhos cor de musgo. Quando finalmente a encaro, há choque em seu olhar. Acho que ela não seria um ser humano se não estivesse de alguma forma chocada. É muito para processar; porra, é muito para exteriorizar. Tenho que tentar convencê-la de que não sou mais aquela pessoa. — Maddy, você tem que acreditar que eu jamais contaria o segredo dele a ela. Por favor, acredite. É por isso que nunca bebo. Por isso que nunca deixei ninguém entrar, a não ser você. Ela ainda não diz nada. — Maddy, por favor. Me diz que estamos bem. Que você está bem. — Alcanço seu rosto e o seguro, suspirando quando ela se inclina com ternura em minhas mãos. Ela não me odeia. — Posso falar agora, Reid? Não quero te interromper se você tiver mais para falar. — Sua preocupação apenas me faz amá-la ainda mais. — Não, pode falar, por favor, diga algo — imploro. Realmente tenho mais para compartilhar, mas preciso recuperar o fôlego e me acostumar com a ideia. Também preciso escutar que ela não me odeia por quem eu costumava ser, pelo que fiz. — Estou tentando encontrar as palavras certas. Sei que você não quer escutar “tudo bem” ou “não foi culpa sua”, porque sei que não está tudo bem. Você vomitou pelo pesadelo que teve sobre tudo isso, então definitivamente não está tudo bem. E eu poderia jurar que não foi sua culpa, e não é, mas sei que não vai mudar como você se sente. Aceno em concordância pela sua linha de raciocínio. Sei bem no fundo que, se não tivesse transado com a Alex e exposto o segredo de Shane, então ele ainda estaria aqui. — Nunca me culpei pela morte dos meus pais. Digo, realmente não havia nada que qualquer


um pudesse ter feito. Dou uma risada sarcástica. Se ela está tentando me fazer sentir melhor sobre minha culpa, está falhando miseravelmente. Ela volta atrás e diz: — O que quero dizer é que, mesmo eu não me sentindo responsável por eles terem morrido, ainda sinto a dor da morte deles. Sei o que você está sentindo agora, todo esse sofrimento e amargura, e abrange tudo isso; o tipo de luto que te mantém acordado durante a noite, ameaçando te devorar. Aí, você faz o seu melhor para se proteger, para manter o mundo do lado de fora e todos a uma certa distância. Aprende a proteger o que resta do seu coração porque não pode nem mesmo sequer começar a imaginar como seria ter esse pequeno pedaço quebrado como o resto. Não sei o que dizer para você se perdoar, mas sei realmente que é um bom homem e o amo mais do que tudo. Estou aqui para você. Quero te ajudar a compreender o seu passado e descobrir como seguir em frente, assim como você me ajudou a compreender o meu e a seguir com a vida. Ela faz uma pausa e vejo-a tentando juntar algumas partes da história bastante longa que expus a ela. — Vai me contar o resto? — pergunta timidamente. Nunca falei tanto sobre a minha família e sei que ela percebe que há algo que eu não contei. Sentindo-me encorajado por sua força interior, conto o resto. — Bem, depois de Alex ter descoberto o que queria, me levou para casa e prometeu não contar nada a ninguém. Pura mentira. Podia ver nos olhos dela. Ela estava com vergonha de ter sido enganada, que o namorado a tenha feito de boba. Ela era definitivamente uma mulher desprezível e estava numa missão de destruir Shane por fazê-la de idiota. Foi há cinco anos, eu ainda estava no ensino médio, então não conhecia muito sobre Facebook e MySpace e todas essas redes sociais. Alex sabia e as usou para fazer da vida do Shane um inferno. Ela fez um vídeo de fotos que tirou dos dois durante o namoro deles e usou para expor sua sexualidade. Foi mau, cruel e completamente vingativo. “Como eu disse, morávamos numa cidade pequena de mente fechada. Denning, o lugar onde cresci, é uma pequena cidade rural do estado de Nova York e possui apenas cinco mil habitantes. A maioria são fazendeiros e operários. As pessoas que vivem lá têm raízes ali há gerações e não aceitam bem qualquer coisa que não seja normal. As pessoas na estrada sabiam quando a gente peidava, então a notícia de que Shane era gay se espalhou rapidamente. Quando ele voltou da aula uma noite, poucos dias depois do meu encontro com Alex, meus pais estavam esperando por ele sentados no sofá. Disseram que ele tinha que ir embora, que eles não tinham filho gay. Não deixariam que nenhuma “pessoa desse tipo” morasse em sua casa. Ele deixou de ser o filho deles num instante. Pararam de amá-lo. Fizeram-no ir embora. Não podia acreditar no quão cruel e insensível eles estavam sendo com o próprio filho. Mas Shane não gritou, brigou ou fez qualquer coisa. Apenas foi embora, de cabeça baixa. Sei que eles não estão realmente mortos, mas, naquele momento, as pessoas que pensei serem meus pais morreram diante dos meus olhos.” “Não consigo nem imaginar quão ruim o bullying na internet e na escola deve ter sido para ele. Quando passou por mim, pela escada, seus olhos estavam tristes, abatidos, magoados, mas, num


lugar lá no fundo, vi um brilho de alívio também; alívio pela verdade ser revelada. Uma pequena chama de esperança surgiu daquele brilho de alívio. Comecei a pensar que talvez ficaria tudo bem e que toda essa merda passaria de manhã.” “Mas não foi assim. Quando acordei na manhã seguinte, Shane tinha ido embora. Quando desci as escadas para encontrá-lo, meus pais estavam sentados à mesa, tomando café da manhã como se nada tivesse acontecido. Gritei com eles. Disse que tinham perdido a porra do juízo, que eles não tinham coração e que, se podiam simplesmente deserdar o próprio sangue e carne por ser gay, eles não valiam a pena. Então, me disseram que, se eu me sentia desse jeito, deveria ir embora também. Senti como se estivesse olhando para dois estranhos. Eles eram meus pais. Obviamente os conhecia a vida toda, mas, quando me disseram aquilo, senti como se estivesse em algum tipo de penumbra ou qualquer merda do tipo.” “Então, naquela tarde, quando sabia que meus pais deveriam estar no trabalho, saí da escola mais cedo e fui para casa fazer as malas. Eu ia encontrar o Shane para ir embora com ele. Qualquer lugar que ele fosse, não queria que ficasse sozinho e definitivamente não queria ficar mais na minha casa. Enquanto ia para casa, tive um pressentimento de que algo estava errado. Corri mais do que já tinha corrido antes para chegar em casa o mais rápido possível.” Faço uma pausa, tentado reunir forças para a próxima parte. A respiração profunda que solto chega a machucar os pulmões, como se fosse uma criança que chorou até dormir. — Ele estava na banheira, os pulsos cortados, sangue por todo lado. Era tarde demais. Não tinha nada que eu pudesse fazer. Ele se matou por minha causa e pela porra do meu erro. Deixou um bilhete, mas tudo o que dizia era que lamentava por não ser quem eles queriam que ele fosse. Eu o matei. A culpa de o meu irmão estar morto é toda minha. — Lágrimas caem copiosamente pelo meu rosto agora. Maddy apenas me puxa para mais perto dela e deita comigo na cama em seus braços. Depois de longos momentos em silêncio e de finalmente me acalmar, ela pergunta: — É por isso que você quer trabalhar com crianças, não é? Sorrio. — Sim. O meu eu de dezesseis anos se culpava por tudo o que tinha acontecido com o Shane, mas meu eu de vinte e um anos sabe que, se ele talvez tivesse alguém a quem recorrer, ainda poderia estar aqui. Não pude fazer nada por ele, mas talvez possa fazer a diferença para alguém. Ela sorri para mim com amor e depois me abraça. Não dizemos nada por um tempo; apenas apreciamos a sensação de termos um ao outro, deleitando-nos do conforto de ter alguém que entenda a nossa dor. Perco-me em pensamentos felizes de como as coisas eram antes de Shane morrer, sobre como amava minha vida e família. E tudo isso desmoronou num instante. Sei que Maddy entende isso; ela não teve um aviso sobre a morte dos pais. Seu mundo inteiro desmoronou, assim como o meu. Devendo ter alguma habilidade para ler meus pensamentos, porque enquanto estou pensando sobre como meus pais estão essencialmente mortos para mim, ela pergunta sobre eles. — E o que aconteceu com seus pais depois?


Suspiro e rio levemente, não podendo evitar. — Bem, como eles basicamente me expulsaram de casa, eu estava pronto para ir morar com Shane. Mas, depois de sua morte, perdi a vontade de fazer praticamente tudo. Vivia entorpecido no último ano da escola. Apenas existia. Passávamos uns pelos outros na cozinha ou no corredor, mas nunca trocávamos uma palavra. Quando me formei, juntei minhas coisas, fui embora e nunca mais olhei para trás. Não tenho notícias deles desde então. Nunca tentaram entrar em contato comigo e eu nunca os incomodei. Se ela pensa mal de mim por tirar meus pais da minha vida quando os dela estão mortos, esconde muito bem. — Então, como você paga a escola? A casa? Quero dizer, sei que não é o Ritz, mas você não trabalha. Sem a ajuda dos seus pais, como paga por tudo isso? E o dinheiro que gastou ontem, de onde vem tudo isso se eles não te sustentam? — É aí que eles ganham o prêmio de “Pais do Ano” — digo com raiva. — Depois que Shane se matou e meus pais souberam de toda essa merda que rolava na internet, procuraram Alex e entraram com um processo contra ela alegando difamação, morte por negligência ou algo do tipo. Parei de prestar atenção em qualquer coisa que faziam e eles me deixaram em paz. Não queriam ter algo a ver comigo porque estava de luto por Shane. Só não podia entender como podiam agir como se ele nunca tivesse existido. De qualquer forma, eles queriam que todos os traços de que ele era gay fossem apagados. Queriam que Alex retirasse o que tinha escrito nos sites, mesmo que fosse verdade. Não tinham interesse no dinheiro que, para eles, era contaminado pela homossexualidade do Shane. Queriam apenas livrar suas caras. Então, quando tudo foi resolvido num acordo, fora dos tribunais, eles colocaram o dinheiro num fundo escolar para mim. Tenho certeza de que, caso soubessem que estou investindo o dinheiro numa carreira para ajudar crianças como Shane, retirariam o dinheiro do fundo. Eu realmente nunca quis tocar nesse dinheiro; e, além das mensalidades, aluguel e despesas básicas da vida, nunca gastei um centavo dele. Até você aparecer. — Perco-me relembrando quanta felicidade fui capaz de dividir com ela por causa desse dinheiro. — Shane teria amado você, sabia? — O silêncio se estende novamente e dessa vez é o meu medo que o interrompe. — Então, onde isso nos deixa, Maddy? Ela parece perdida com minha pergunta e não sei dizer se isso é bom ou ruim. — O que você quer dizer com “onde isso nos deixa”? — Ela muda de posição para ficarmos deitados de frente um para o outro, olho no olho. — Tenho escondido tudo isso porque tinha a sensação de que me deixaria se soubesse. Você é muito boa pra mim, para o meu passado, e entre tudo que aconteceu comigo e Alex, e por, principalmente, eu ter matado meu irmão... Ela não me deixa terminar minha linha de raciocínio. Seus lábios me silenciam, e sinto que posso respirar novamente. Não estaria me beijando assim se fosse me deixar. — Reid, eu disse que te amo. Agora, isso talvez o choque. — Ela está tentando ser brincalhona, arqueando uma de suas sobrancelhas. Deus, eu a amo. — Mas não digo essas palavras por aí à toa. São coisas bem sérias que você tem aguentado e odeio que sentiu que não podia me contar. Estou aqui por você, meu amor. Amo você e não o que fez, mesmo que nada disso tenha sido realmente culpa sua...


Tento interrompê-la, mas ela apenas me lança um olhar de “cala a boca”. — Não foi, Reid. Nada disso foi sua culpa. Alex te seduziu. Basicamente te estuprou. Verdade que não foi forçado ou violentado, mas, para começar, ela embebedou e seduziu um garoto de dezesseis anos para conseguir uma informação da qual não tinha o direito. Pelo amor de Deus, você era uma criança. Seu irmão confiou em você e ela te manipulou. Você deliberadamente não o traiu. Não o desonrou como seus pais fizeram. Ia até morar com ele, ajudá-lo e dar apoio. Pense em quanta dor e sofrimento ele teve que lidar para tomar essa decisão. Não foi culpa sua, amor. Você está até mesmo escolhendo uma carreira para ajudar outras crianças como Shane. Eu diria que é extremamente maravilhoso. Você tem que se perdoar. Senão, a culpa e a raiva vão te consumir. Estou admirado com a beleza e a compaixão dessa mulher. Só Deus sabe como eu tenho a sorte de tê-la em minha vida. — Maddy, você faz tudo parecer tão simples. Deus, eu te amo. Não consigo me perdoar completamente nem engolir a raiva e a dor, mas, pela primeira vez desde que tudo aconteceu, estou disposto a tentar. Você me faz querer tentar. Beijo-a e derramo toda a emoção que consigo nesse beijo. Ela me deixa embasbacado. Não correu, não me virou as costas, não teve pena de mim. Continua aqui quando eu mais preciso dela, me segurando, escutando e enxugando minhas lágrimas. Maddy interrompe o beijo — Amo você, Reid. — Ela respira profundamente e bufa, uma sugestão para mudar de assunto. — Então, vou tomar um banho agora e colocar aquela ave monstra no forno. Vocês colocaram algo nela? Porque é absurdamente grande! — Ah, merda, Maddy! Esqueci completamente que hoje é Dia de Ação de Graças e que temos que fazer um jantar para nove pessoas. — Pego meu celular para ver as horas e vejo cinco chamadas perdidas, todas do caralho do mesmo número. — Em seis horas. — Tudo bem, amor. Tenho tudo sob controle. Você tem apenas que se sentar lá e ficar lindo. — Ela abre um sorriso sarcástico. — Vou tomar banho e depois começar a cozinhar. Assim que se levanta e sai da cama, dou um tapa em sua bunda de um jeito brincalhão. Adoro o poder que ela tem de devolver essa minha leveza. Deus, se ela não estivesse aqui hoje, depois daquele pesadelo, nem sei o que estaria fazendo. Definitivamente não estaria sorrindo e rindo. Nunca fui mais grato por algo em minha vida. Escuto a água correndo e me junto a ela no banheiro. Posso pelo menos gastar uma dessas seis horas mostrando quão grato estou. Ela já está debaixo do jato quente, enxaguando a espuma de seu longo e lindo cabelo. Água escorre por seu corpo perfeito. Poderia assistir à cena diante de mim por horas. Suas longas e magras pernas estão ligadas a mais gloriosa bunda que já vi na vida. É cheia, redonda e firme; eu poderia cravar os dentes nela. Seus quadris e cintura são macios e firmes, perfeitamente femininos. Ela está longe daquelas modelos de pele e osso que todo mundo diz serem perfeitas. Bem, se eles acham que isso é perfeito, então claramente nunca viram a Maddy. Ela está de costas para mim. Entro no boxer e fico atrás dela. Ela solta um som audível de susto.


— Você me assustou pra cacete, Reid! O que está fazendo aqui? Está tentando se cobrir. Bobinha. Passo os braços ao redor de sua cintura e a puxo de forma que suas costas colam em meu peito; a água faz nossos corpos deslizarem juntos de um jeito perfeitamente delicioso. Beijo seu pescoço suavemente antes de mordê-lo com um pouco mais de força. Ela estremece e vira a boca para a minha. — Você realmente pensou que eu poderia ficar no quarto, sabendo que estava aqui toda quente, ensaboada e molhada? — Beijo seu pescoço novamente só que do outro lado. Beijo onde seu lindo e longo pescoço encontra o ombro e volto até sua orelha e chupo o lóbulo. Sua respiração se torna rasa, e sei que ela está se perdendo. Pensar em quão molhada ela está, não apenas do banho, faz meu pau se contorcer. Ela me sente ficar duro atrás dela e se afasta um pouco para me tocar. Meus joelhos dobram ligeiramente. Ela tem esse poder sobre mim. A sensação do amor e o poder de toda sua emoção viajam por cada toque de seus dedos em minha pele, fazendo eu me render e perder as forças. Não consigo evitar e cedo ao seu toque, empurrando os quadris em direção à sua mão. A água caindo ao nosso redor faz meus movimentos serem sem esforço. Ela se vira de frente para mim para deixar o ângulo um pouco menos estranho. Encaro seus lindos olhos verdes. Eles estão nublados com luxúria e cheios de amor e paixão. Sei que o mesmo olhar está presente em meus olhos. Minhas mãos molhadas deslizam por sua cintura e ficam embaixo de seus seios cheios e redondos. Eles são perfeitos também. Seus mamilos ficam duros e os coloco entre os dedos indicadores e polegares, puxando-os levemente. Ela geme e roça o quadril no meu. Curvando a cabeça em direção aos mamilos, pego o direito com a boca e o sugo. — Ahhhh, Reid. Isso é incrível. — Ela envolve as mãos em meu pescoço e torce os dedos em meu cabelo, me segurando no lugar. Afasto-me, puxando o ar de volta para os pulmões. — Você é linda pra cacete, Maddy. Cada pedacinho seu é perfeito. — Passo as mãos por todo o seu corpo para enfatizar o que estou dizendo. — E aqui em cima. — Massageio seu couro cabeludo, causando outro tremor, e seus mamilos ficam ainda mais duros. — Você é a pessoa mais inteligente e engraçada que eu já conheci. — Coloco as mãos sobre seu coração. — E aqui. Meu Deus, aqui é o coração mais gentil e compassivo do mundo. Não acredito que tenho o privilégio de estar dentro dele e de ser parte do seu mundo e da sua vida. Amo você, Maddy, mais do que possa imaginar. Seus lábios esmagam os meus antes que eu possa dizer mais alguma coisa. Não que existam palavras que possam transmitir o quanto a amo, especialmente agora que ela sabe de tudo, agora que coloquei meu coração, meu coração negro, aberto e desnudo aos seus pés e ainda assim ela quer ficar comigo. Nunca em um milhão de anos jamais pensei que seria tão sortudo. Ela aprofunda o beijo, levando-o para um ritmo febril. Nossos dentes batem. Mordemos e sugamos os lábios um do outro. As línguas dançando loucamente. Estamos perdidos um no outro, perdidos no momento de paixão desenfreada. Agacho-me para tocar entre suas pernas, e agora é a vez dela de dobrar os joelhos sob o toque prazeroso. — Abra as pernas para mim, amor. Deixe-me te tocar.


— Ah... Deus... Sim... Reid... Sua voz desaparece entre gemidos incoerentes de êxtase. Faço redemoinhos ao redor do clitóris endurecido, pressionando sempre suavemente. Ela pode estar dolorida da noite passada e definitivamente não quero causar-lhe dor. Quando se esfrega na minha mão, sei que dor é a última coisa que passa pela cabeça dela. Dois dedos deslizam por suas dobras sedosas e ela está completamente perdida em mim. Sua cabeça vira e ela mal pode se segurar. Envolvo minha outra mão em sua cintura para suportar seu peso. Meus dedos bombeiam dentro dela; o polegar circulando o clitóris. Ela goza gritando meu nome e é a coisa mais linda que já ouvi. Arrebenta as correntes que há muito tempo coloquei no meu coração e faz com que ele inche de amor. Finalmente, capaz de suportar seu peso novamente, ela envolve os braços em mim e inclina a cabeça em meu peitoral. — Reid, isso foi incrível. Você me faz sentir... ah, Deus... nem sei como colocar em palavras. Eu te amo. — Ela segura meu pau novamente e retoma seus movimentos de mais cedo, mas depois de tocá-la e senti-la gozando na minha mão, não aguento mais carícias e já estou no meu limite, a ponto de explodir. — Maddy, suas mãos são fantásticas. Amo o jeito que me toca. Ahhh... amor... estou perto... — Estou em tão completo esquecimento que não percebo que ela mudou de lugar e agora está ajoelhada à minha frente. A visão dela só me empurra ainda mais para perto do clímax e eu latejo em sua mão. Ela me toma na boca e já era. Sua língua e seus lábios são minha perdição. Tento me afastar; não estava esperando que ela usasse a boca. Não quero que ela pense que tem que fazer qualquer coisa que não queira. Ela agarra minha bunda e me puxa de volta, mais fundo na boca. Quero dizer que ela não tem que fazer isso, mas acabo gozando antes mesmo que as palavras saiam. Ela não se mexe, não se move um centímetro. Apenas toma tudo de mim — corpo e alma —, toma tudo e torna isso uma coisa linda. Coloco as mãos em seus ombros e puxo-a para os meus braços. Beijo o topo de sua cabeça. — Você não tinha que fazer... bem... você sabe. — Algo sobre ela apenas me faz querer ser mais discreto, um pouco menos vulgar sobre isso. — Reid, você realmente acha que teria feito algo que eu não quisesse? Amo você e quero mostrá-lo o quanto o amo. A não ser... fiz algo errado? Ah, Deus, fiz algo errado? Devo parecer uma idiota. Sua insegurança é adorável. Ela me teve gozando na boca há menos de um minuto e acha que fez algo errado. Rio levemente de sua incompreensão da situação. — Maddy, acredite, você não fez absolutamente nada errado. — Ficamos debaixo da água, apenas nos abraçando, curtindo a nossa felicidade. Quando a água esfria, corremos para terminar nosso banho. Enrolo uma toalha na minha cintura e passo outra sobre os ombros dela. Enquanto descanso o queixo no topo de sua cabeça, cai a ficha: foi a primeira vez dela, mas a minha também. Foi a


primeira vez que eu disse a uma mulher que a amava; foi a primeira vez que disse a alguém sobre o Shane e a Alex; foi a primeira vez que me senti amado, apesar de todos os demônios do meu passado. Definitivamente, o banho fez mais do que lavar meu corpo. Com Maddy ao meu lado, sinto como se minha alma tivesse sido limpa e foi dada ao meu coração uma segunda chance. Quando um sorriso aparece em meus lábios com esses pensamentos, pela primeira vez em muito tempo, não tento reprimi-lo.


Estou admirada com tudo o que está diante de mim, e não apenas porque as garotas e eu servimos um jantar de Ação de Graças e tanto. É o amor e sentimento de família que me faz ficar toda sentimental. Os garotos ficaram na sala assistindo futebol americano o dia inteiro. Um pouco machista com certeza, mas estaria mentindo se dissesse que meu coração não derrete um pouco cada vez que os escuto gritar com a televisão. Meu pai costumava ser assim em relação ao futebol. Bem, qualquer esporte, na verdade. Não entendo por que os homens gritam tanto assistindo a um jogo. Será que eles não percebem que não vão mudar o resultado, não importa quão alto gritem? Tolinhos, não? — Prontinho, a mesa já está posta e todos os acompanhamentos estão prontos. Acho que podemos comer — Melanie me informa da sala de jantar. Honestamente, eu não poderia ter feito nada disso sem ela e as garotas. Nunca cozinhei mais do que macarrão com queijo. Deus, espero não envenenar ninguém! Mamãe C tem sido uma lindeza também. Mesmo que tenha jurado não levantar um dedo, ficou rondando a cozinha como uma águia o dia inteiro. Já a vi experimentando pratos e adicionando pitadas disso e daquilo nas panelas. Tirei a enorme ave do forno há alguns minutos e agora a encaro, imaginando como vou cortála em pedaços. Esqueça isso; não faço ideia de como começar. Talvez os rapazes tenham uma serra elétrica. Isso deve funcionar. Quando estou prestes a ter um miniataque de pânico, Reid entra na cozinha. Ele tem sido incrível o dia inteiro. A cada vinte minutos ou mais, vem até a cozinha para nos ajudar. Nunca pretendeu que eu fizesse todo o trabalho, e, depois de cinco ou seis vezes que insisti, finalmente


parou de tentar ajudar. Mas não posso negar que, nesse exato momento, ele é uma visão mais do que bem-vinda. — Precisando de ajuda, Maddy? — Está sendo um debochado, implicando com a minha insistência de que eu não preciso de ajuda. — Sim, querido, por favor. — Ergo a sobrancelha de um jeito brincalhão para ele. — Pode carregar isso para a mesa e cortá-lo pra mim? — Tento minha melhor imitação de June Cleaver, o que o faz rir histericamente. Não deveria ficar excitada com a visão dele carregando um peru para a sala de jantar, mas ver seus bíceps flexionando sem esforço algum com a bandeja pesada faz meu sangue ferver. Assistir sua bunda perfeita sair da cozinha é verdadeiramente delicioso. Amo que todos tenham decidido manter tudo casual e discreto. Nunca entendi por que algumas pessoas se vestem tão bem só para comer. Cai fora, quero mais é usar roupas folgadas. Quando entro na sala de jantar, chego a prender a respiração de tanta emoção da cena que vejo. Todos estão sentados à mesa, que está linda, por sinal; meio que parece uma pintura de Norman Rockwell. Reid está sentado na cabeceira e dá um tapinha no assento ao seu lado para que eu me sente lá. Assim que o faço, ele se levanta e ergue seu copo, limpando a garganta para chamar a atenção de todos. — Antes de comermos, gostaria de dizer algumas coisas. Primeiro, quero agradecer a todos por fazerem essa noite possível. Sei que joguei isso no colo de todo mundo no último minuto, mas, se vocês toparam, espero que tenham se divertido no processo. Jack entra na conversa, irritando Reid. — Sim, não há nada mais divertido do que colocar um enorme pinheiro no meu carro e trazer para casa. Logan acrescenta: — Não tenho do que reclamar. A casa está mais limpa do que a de uma porra de comercial de Pinho Sol. Reid apenas lhes lança um olhar brincalhão e continua. — Senhora Crane, realmente não tenho como agradecê-la o suficiente por vir pra cá. Não seria o mesmo para a Maddy e a Mel, e sei que falo por todos quando digo que adoramos te ter aqui. Mamãe C pisca para ele. Acho que ela está um pouco impressionada, porque a vejo segurando as lágrimas por ele estar sendo doce e gentil. — E por último, mas não menos importante, Maddy, muito obrigado por ter entrado na minha vida. Não faço ideia do que fiz para merecê-la, mas passarei cada minuto do resto da minha vida certificando-me de que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que continue ao meu lado. Amo você, minha linda, e espero que o seu dia de Ação de Graças tenha sido perfeito. Depois de suas últimas palavras, ele se inclina e me beija amorosamente na bochecha. Todos levantam suas taças, dizem “amém” e brindam.


Mamãe C lidera uma oração antes de comermos e meu coração se enche de amor por essa mulher que tem sido minha mãe substituta nos últimos oito anos. Quando ela termina, Reid corta o peru e todos começam a passar os pratos entre si. Meu prato está cheio até a borda, assim como meu coração. Tenho tudo o que sempre desejei por causa do Reid. Levanto a mão para segurar a dele e a aperto levemente. — Reid, eu te amo. Obrigada. Essa foi a melhor surpresa e o melhor fim de semana de toda a minha vida. Ele pisca para mim. — Qualquer coisa por você, Maddy. Qualquer coisa mesmo. — Ah, estou tão feliz que disse isso, porque, se você pensa que vou limpar tudo isso depois de cozinhar o dia inteiro, bem, está redondamente enganado. Ele ri e me oferece seu sorriso torto e sexy. — Pode deixar que vou lavar a louça, amor. Você está de folga pelo resto da noite. Bem, pelo menos até todos irem para casa. Depois, você é toda minha.

Estamos todos sentados na sala de estar assistindo O Mágico de Oz e conversando, mas não me passa despercebido que Reid passou a noite toda verificando o celular sem parar. Pensando bem, ele nunca fica ao celular, mas, nas últimas semanas, isso tem sido constante; sempre na mão e sempre vibrando ao longe ou em qualquer superfície que ele o deixe. Quem estaria ligando para ele? Estamos todos aqui. Há algo errado. Pensamentos desagradáveis invadem minha cabeça. Ele está me traindo? Deus sabe a quantidade de mulheres que ele tem para escolher, e todas mais gostosas e experientes do que eu. Talvez manteve alguma escondida por todo esse tempo. Tento não deixar meus pensamentos irem por esse caminho. Tenho me lembrado de todos os gestos carinhosos que Reid fez por mim desde que estamos juntos. Um cara que trai não manda mensagem praticamente a cada hora para saber como você está. Não compra flores a cada oportunidade — às vezes uma única rosa — se estiver dormindo com outra. Quando ele dormiria com outra, de qualquer forma? Passamos praticamente todas as noites juntos. Mas só fizemos sexo uma vez. Não precisa passar a noite para fazer sexo. Com o pensamento de ele transando com outra, só consigo pensar no quão estúpida fui por insistir que transássemos sem camisinha. Meu coração e mente estão duelando ferozmente sobre no que acreditar. Uma coisa é certa, não gosto dessa minha versão; a questionadora, insegura e


incerta, que tenho tentado apagar todos esses últimos meses. É estúpido, de verdade. Não tenho razão para pensar que ele estaria voltando aos antigos hábitos. Deixei-o entrar e ele fez o mesmo, agora de repente estou assustada como uma garotinha que só está arrumando desculpas para fazer as coisas parecerem imperfeitas. É a mesma coisa que fiz com o Jay antes de partir. Deixe de ser burra. Ele é um bom homem, Maddy. Não faria isso com você. Ele percebe que estou olhando-o e suas sobrancelhas arqueiam de forma interrogativa. Sorrio rapidamente, mostrando que tudo está bem. Finjo um bocejo de cansaço. Ele sorri de volta e retoma sua conversa com Logan e Bryan. Ainda estão, provavelmente, analisando cada detalhezinho do jogo de futebol de mais cedo. Quando todos finalmente vão embora, são quase dez horas e estou exausta. Entre a noite passada — e depois novamente no chuveiro hoje de manhã —, todas as revelações de Reid e essas porcarias de ligações, estou surpresa de ainda ter força para subir as escadas e me jogar na cama. Ele fala que é nossa cama, uma cama que comprou para que pudéssemos ter nossas lindas memórias. Ele não faria tudo isso por mim, inclusive contar seus segredos mais sombrios, para depois jogar tudo fora por outra mulher. Realmente espero que não. Estou prestes a desmaiar quando Reid diz: — Vou tomar uma rápida chuveirada antes de ir para a cama. — Então, acrescenta com um sorriso sensual e seus olhos nebulosos: — Quer se juntar a mim? — Reid, eu realmente adoraria, mas estou exausta. Quero me jogar na cama e desmaiar por umas doze horas. Desculpe, amor, mas podemos deixar para a próxima? — Claro, linda. Que tal uma massagem nas costas quando eu terminar? Vai te ajudar a relaxar. Ah, meu Deus, ele é adorável quando está sendo doce. Escondo minhas dúvidas recentes e tento me agarrar à ideia de que ele me ama de verdade. Estou sendo estúpida, eu sei. Vou conversar com ele sobre isso de manhã, porque só de pensar em ter essa conversa de “você está me traindo” me deixa mais exausta ainda. — Parece maravilhoso. — Levanto-me para pegar uma de suas camisetas na cômoda. — Ótimo. Volto em alguns minutos, então — diz, tirando a camisa e fazendo um movimento sexy pra caralho. Pergunto-me se os homens percebem quão sexy isso é. Provavelmente acontece o mesmo com eles ao nos verem tirar o sutiã sem tirarmos a blusa. Rio do meu pensamento sem sentido, embora ainda divertido. Meu riso some completamente quando escuto o celular de Reid vibrando na cômoda. Não quero olhar. Sim, você quer. Não, não quer.


Merda. Enquanto fico me debatendo, o telefone para. Acho que isso resolve meu dilema. Como se eu o atendesse porque estava tocando fizesse minha atitude de bisbilhotar menos ofensiva. Logo em seguida, começa a vibrar novamente e não posso evitar ir pegá-lo. Sou como a Bela Adormecida, atraída pela roca que não deveria tocar. Nada de bom pode vir disso, eu sei, mas não consigo evitar. Passei tanto tempo guardando meu coração que a menor sugestão de que Reid está fazendo algo errado, não importa quão ridícula seja na minha cabeça, me faz questionar tudo. Pego o celular e deslizo o ícone para atender. Abro a boca para dizer algo, mas nenhuma palavra sai. O que devo dizer? Não tem nome registrado no número e, por um momento, acho que é uma boa coisa. Se tivesse alguém com quem ele falasse ou visse regularmente, com certeza teria nomeado e salvado a informação. Mas há uma pequena voz no fundo da minha cabeça que está de repente ficando mais alta que me diz que salvar o número dela, quem quer que ela seja, seria a última coisa que ele faria. O que ele gravaria de qualquer jeito? Peguete? A outra mulher? Não é a Maddy? Todos esses pensamentos passam pela minha cabeça enquanto espero silenciosamente por algum tipo de resposta para essa porra de situação em que me coloquei. Ainda não consigo dizer nada, mas, quando a voz de uma mulher jovem soa na linha, não posso evitar colocar aquela parede de volta ao redor do meu coração. Mesmo que esteja rendida e completamente sem palavras, me sento e ouço atentamente a mulher do outro lado. — Oi? Reid? É você? Tem alguém aí? — Então a linha fica muda. Antes de colocar o celular novamente em cima da cômoda, vejo o histórico de chamadas perdidas. Sou uma péssima namorada, sei disso, mas é na minha autopreservação que estou pensando. Estou além de chocada quando vejo que ele tem mais de quarenta e cinco ligações do mesmo número. Escuto-o saindo do chuveiro, então não tenho tempo para procurar mais informações, por quanto tempo a ligação durou, quantas vezes ele ligou para ela e se trocaram mensagens. Ao invés disso, rapidamente salvo o número no meu celular. Enterro quaisquer emoções que estejam em conflito. Preciso ficar sozinha e descobrir o que diabos farei sobre tudo isso. Apenas não tenho energia — física e emocionalmente — para confrontá-lo hoje à noite. Talvez seja porque não quero escutar suas desculpas. Talvez seja porque não quero saber a verdade. Mas escolho ignorar isso por enquanto. Ignorância é uma benção em toda essa merda. Quando Reid volta para o quarto, finjo estar dormindo. Ele fica de conchinha atrás de mim e passa os lábios no meu pescoço, beijando-me naquele lugar doce que manda arrepios por toda a minha coluna. — Vamos deixar a massagem para depois também, amor? Meu coração derrete um pouco com seu tom suave de voz.


— Tá bom. Acho que estou mesmo muito cansada para conseguir me virar. — Sei que estou sendo boba, deixando-o de fora desse jeito, mas sentir suas mãos por todo o meu corpo enquanto penso sobre ele possivelmente estar com outra faz minhas entranhas revirarem. Sei que, se ele começar a me tocar, vou desmoronar. — Shh. Tudo bem. Vamos apenas dormir. Amo você, Maddy. Amo tanto. Não sei onde eu estaria sem você na minha vida. Obrigado por me dar a chance de provar que não sou um completo e total filho da puta. Sinto seu sorriso no meu pescoço. Quero acreditar nele e tem uma grande parte minha que acredita. Inferno, quatro horas atrás, não havia dúvida sequer na minha cabeça de que ele me ama e sobre cada palavra que disse. Mas agora tudo está diferente. Não quero que seja, mas é. Mesmo que esteja com medo de que ele vá me destruir, que essa garota, quem quer que ela seja, fique entre nós, não posso evitar dizer que também que o amo. Porque eu amo. Amo tanto. Mas o amor te faz ficar fraco e vulnerável. Torna-me tudo o que tenho tentado não ser.

É domingo depois do Dia de Ação de Graças e ainda não encontrei coragem de conversar com Reid sobre os telefonemas. Eu evitei vê-lo na sexta, desde que Mamãe C, Mel, Cammie, Lia e eu fomos às compras na Black Friday porque sábado era o último dia da Mamãe C aqui com a gente. Então, quis passar algum tempo com ela como uma desculpa para evitá-lo. Sei que tenho sido covarde e estou envergonhada por fingir estar ocupada estudando para as provas finais, que começam amanhã. Estou de volta ao dormitório, sentada na minha cama, presa num debate acalorado comigo mesma sobre o que fazer. Sei que não posso falar com a Mel sobre isso. Por mais que ela me ame, sei que tem sido amiga de Reid também. Não me levem a mal, se Reid e eu alguma vez terminarmos, gostaria de pensar que Mel seria “Team Maddy”, mas não quero que ela tenha que se envolver até que eu saiba com certeza o que está acontecendo. Acho que descobri um jeito de chegar ao ponto disso tudo. Nervosamente, ligo para o número. Nunca tremi tanto para ligar. Sei que, assim que fizer essa ligação, terei minhas respostas. Se são as que eu quero ou não, ainda não sei; somente o tempo dirá. Atenho-me à minha resolução e ligo. No segundo toque, o outro lado da linha atende e uma voz masculina e profunda sai pelo receptor. — Alô? — Oi, Bryan. É a Maddy, a colega de quarto da Mel. — Ah, oi, Maddy. Não reconheci seu número. E aí? — Um, bem, eu meio que tenho um favor para te pedir. — Ok, certo. O que posso fazer por você? — Ele é um cara bom.


— Bem, imaginei que você, sendo o deus da tecnologia, conseguiria me ajudar a descobrir a quem o número de um celular pertence e me ajudar a fazer uma pequena investigação de quem é. — Realmente não quero dar a ele muito mais do que isso. É injusto esperar que não minta para Mel. Eles estão ótimos juntos, e eu me odiaria se colocasse qualquer coisa entre eles. — Para que isso, Maddy? Geralmente não faço esse tipo de coisa. — Ele parece inseguro. Sei que vou ter que dar-lhe algo, então faço o que qualquer um na minha situação faria: minto. — Tenho recebido uma tonelada de ligações desse número que não conheço. E não tenho certeza de quem é. Estou preocupada que seja aquele cara, o Mike, que tentou me drogar no início do semestre. Não consigo lembrar-me se dei a ele meu número, mas acho que posso ter dado. Só estou preocupada que ele esteja me perseguindo ou algo assim. Não quero que Melanie fique toda preocupada e tenho certeza de que não quero que Reid fique nervoso com isso. Imaginei que você seria um bom lugar para começar. — Sou toda beicinho, mas depois me dou conta de que ele não consegue me ver. Idiota. — Ah, nossa. Não achei que fosse por algo assim. Claro que darei uma olhada nisso. Vou ver o que posso fazer. E não direi nada a ninguém até que saibamos alguns detalhes. — Obrigada, Bryan. Você é um cara legal. — Quando lhe dou o número, sinto a culpa começando a me consumir. — Sem problema. Te ligo quando descobrir alguma coisa. Sinto-me uma pessoa horrível quando desligo. Estou feliz que esteja sozinha para que possa chafurdar na minha própria autopiedade sobre essa bagunça fodida. Não preciso de ninguém me vendo assim. Nunca fiquei tão grata de as garotas estarem fora de casa. Mel pegou outro turno no laboratório. Cammie e Lia estão na biblioteca. Elas não conseguem estudar aqui. Tudo as distrai. Eu gostaria de alguma distração. Mas, ao invés disso, não tenho nada além de silêncio e meus pensamentos. Por outro lado, Reid tem sido totalmente incrível. Eu o amo, realmente amo. E ele me ama também. Isso está muito claro. Mas, mesmo que nos amemos, isso é o suficiente? Não sei se consigo perdoar uma traição. Depois, por outro lado, ele pode não estar me traindo. Quanto mais penso, mais estou inclinada a dizer que ele não é um traidor. Isso vai de encontro a tudo que sei sobre ele. Ele mesmo disse isso, que o conheço melhor do que ninguém, e não consigo imaginá-lo saindo com outra pessoa para ter qualquer tipo de contato físico quando realmente parece estar feliz comigo. E então tem o fato impossível de ignorar: ele me faz mais feliz do que alguma vez fui em toda a minha vida. Poderia ser estúpida e falar algumas baboseiras de garotinhas como “ele me completa”, mas isso é um monte de porcaria. Ele não me faz inteira, não apaga a dor que venho sentindo por quase toda a vida. Estar com ele não é algum tipo de cura para tudo que já tive que lidar, mas, quando estou com ele, sou eu mesma. Sou a pessoa que sempre quis ser: divertida, alegre, brincalhona, paqueradora, sexy, sedutora e amorosa. Ele me abriu à possibilidade de um futuro completamente diferente que jamais imaginei ter, um futuro que só posso imaginar sendo com ele. Sendo completamente honesta, sei do fundo do meu coração que ele não está me traindo. Acho


que estou usando a ideia de ele me trair para proteger meu coração da dor de qualquer que seja o segredo que está escondendo de mim. Preparo-me para o desconhecido. Antes de cair no sono, minha última lembrança é de nós dois fazendo amor. Lembro dos votos que fiz quando o semestre começou e todos os três ironicamente são aplicados aqui. Escolherei ser feliz e não deixar isso — o que quer que seja — ficar no caminho de agora em diante. Não faz sentindo eu ficar toda chateada sobre uma coisa que pode não ser nada. Apreciarei a beleza de tudo o que Reid e eu somos juntos, de tudo que trouxemos para fora um do outro. Já deixei o amor entrar. Reid não está apenas no meu coração, ele é dono dele. Agora só tenho que mantê-lo lá e nunca deixá-lo ir.


É segunda-feira da semana das provas finais — minha última semana de provas — e estou sentado numa mesa no refeitório, esperando ansioso pelo meu almoço semanal com a Melanie. Sair com a Mel me faz amar ainda mais a Maddy, se é que é possível. Melanie é como a irmãzinha que nunca tive e não consigo parar de sorrir quando estou perto dela. Sua alegria é contagiante. Ao invés de ir direto ao assunto — também conhecido como Maddy —, tento alguma conversa normal primeiro. — Então, como se sente com suas primeiras provas finais? Ela me dá um olhar de lado. Já me conhece muito bem. — Ah, deixe de besteira, Reid. Vejo em seus olhos. O que está tramando agora? Finjo um olhar ofendido, mas, novamente, ela me enxerga por trás dele e decido jogar limpo. — Bem, estou me formando e não há melhor forma de comemorar do que com umas férias. É muito frio aqui no inverno, então estava pensando em levar Maddy para algum lugar para comemorar. Bem, terminei a faculdade até que o meu estágio comece, mas na minha cabeça já me formei. Não tem nada a ver com querer ver Maddy de biquíni durante uma semana. Ou sem o biquíni, o que é muito melhor. Não, não é nada disso. — Eca! Você está pensando nela nua agora. Seu olhar te entrega. — Ela joga uma batata frita em mim. Não admito que esteja certa. Posso sonhar acordado sobre minha namorada — minha gostosa


e nua namorada — o quanto eu quiser. — Ok. Tá bem. Vou ajudar. Sempre ajudo. Então, o que você precisa de mim? — pergunta. — Bem, ela já quis ir a algum lugar específico? Gostaria de ir a algum lugar tropical, longe dessa terra gélida? Ambos tivemos um semestre difícil e gostaria de tê-la só para mim durante uma semana. Melanie parece perdida em seus pensamentos. Posso vê-la matutando para achar algo útil para mim. Então, abre um largo sorriso. — Bem, não é tropical, mas é uma praia, então não tenho certeza se você vai estar interessado. Quando estávamos no ensino médio, lembro-me de ela mencionar algo sobre querer ir ao Montauk Point, em Long Island. Depois que os pais morreram e ela se mudou para a casa da tia, ela nunca teve a chance de voltar para lá. Nunca perguntei por que ir a Montauk era especial, se era um lugar de férias em família ou algo do tipo. Ela parecia não querer falar sobre o assunto e nunca mais mencionou novamente. Lembro-me dela perdida em pensamentos enquanto falávamos sobre isso. — Isso é perfeito, Mel. Obrigado. — Ideias e mais ideias me vêm à cabeça. — Claro, sem problema. Tudo isso para vê-la de biquíni por uma semana, hein? Lá não é muito mais quente do que aqui. — Ela acha que está tirando sarro de mim. Bobinha. Inclino-me sobre a mesa e quase sussurro. — Tem sempre a banheira, Mel.

É quarta-feira de manhã e estou atravessando o campus para encontrar Bryan no laboratório de informática. Ele disse que descobriu uma informação para mim e, já que a Mel está ocupada com a prova final de economia, agora é a hora perfeita para nos encontrarmos sem que ninguém descubra. Imagino se é assim que a Mel e o Reid se sentiram quando almoçaram juntos pela primeira vez, como se estivessem se esgueirando, fazendo algo que sabiam não ser esperado que fizessem. Entretanto, há uma grande diferença aqui; suas intenções sempre eram boas. Tenho que admitir que me sinto como se o estivesse traindo por agir pelas costas do Reid. Não está acontecendo absolutamente nada entre mim e Bryan, mas parece errado. Quem quer que esteja ligando desse número, faz parte da vida de Reid e não da minha. Eu só estou querendo tirar isso a limpo. Bryan me cumprimenta amigavelmente por trás de sua mesa. É engraçado; já o vi inúmeras vezes desde que Mel começou a sair com ele, e mesmo que o conheça bem e saiba que ele é o cara, nunca me pareceu ser do tipo geek. Então, vê-lo aqui sentado todo imponente como se fosse o Rei da Terra do Computador ou algo assim me faz rir.


— Oi, Maddy. Como vai? Como foi sua prova final de psicologia ontem? Sei que está genuinamente interessado porque ele me ajudou a estudar numa noite quando esteve lá em casa. — Bem... Tenho estado tão distraída com tudo isso que ficarei feliz se conseguir passar. — Estou bem ciente das minhas notas. Falhar para mim é tirar algo menos do que um dez, então, para eu dizer que ficaria feliz com um cinco, é porque alguma merda séria está acontecendo. Não vejo a hora de acabar logo com isso. — Então, o que você descobriu, Bryan? Ele me olha atentamente antes de responder. — Bem, você ficará feliz em saber que não é Mike quem vem te ligando. — Ele procura em meu rosto um olhar de alívio, mas não encontra. Então continua: — O que, pelo seu olhar, não é uma surpresa. O que você realmente quer saber, Maddy? — Seu tom de voz mudou; agora está severo e sério. Ele já me desmascarou e só trocamos algumas palavras. Merda. Hora de jogar limpo, Maddy. Ele me encara por longos minutos e não tenho escolha a não ser contar a verdade. Se não o fizer, ele não vai me dar a informação que quero. — Você está certo, Bryan. Isso nunca foi sobre Mike. — Respiro fundo, procurando as palavras. — É sobre Reid. Ele está recebendo chamadas desse número sem parar. Uma noite, enquanto ele estava tomando banho, olhei no histórico de chamadas e copiei o número. Imaginei que você fosse minha melhor aposta para encontrar qualquer coisa. Então, você conseguiu encontrar algo? Ele me olha decepcionado. Inferno, até eu estou desapontada comigo. — O que você pensou que eu fosse encontrar, Maddy? Sabe que o Reid te ama, né? Por que simplesmente não foi até ele e perguntou? Sua pergunta me faz sentir incrivelmente culpada. Bem, agora desejo ter ido até Reid. Teria me poupado muita inquietação essa semana. — Não sei. Bem, sei, eu tenho problemas em deixar as pessoas chegarem muito perto. Reid, obviamente, trabalhou duro nessas questões, mas, quando vi as chamadas, meu primeiro pensamento foi de que ele estava me traindo. Sabia que eu tinha que me proteger caso ele realmente estivesse fazendo isso. É bobo, eu sei, porque, se descobrisse que está me traindo, se ele me dissesse ou eu descobrisse por conta própria, me machucaria do mesmo jeito. Bryan vê que essa conversa está ficando séria demais para a sala principal do laboratório de informática, então me leva até uma seção menor que ninguém está usando. Liga um computador e se senta. — O código de área é de uma pequena cidade não muito longe daqui. Denning. Quando escuto o nome da cidade, meu rosto perde a cor e meu estômago revira. Foi lá que Reid cresceu. A sensação de que eu o estava traindo antes não é nada se comparado ao que estou sentindo agora. Sei o tanto que ele odeia seu passado; tem razões suficientes para isso. Bryan percebe minha reação.


— Você está bem, Maddy? Não parece muito boa. Tento manter a compostura, sabendo que, se vacilar, ele não compartilhará mais nada comigo do que descobriu. — Sim, Bryan, estou bem. Só vou beber um pouco de água. Preciso mesmo é de um momento para processar tudo isso. Caminho em direção ao bebedouro que fica perto da porta. Poderia parar essa coisa toda agora. Não preciso ouvir o que Bryan tem a dizer. Poderia apenas ignorar e deixar Reid lidar com isso. Então, uma ideia invade a minha mente. E se for a Alex? Não tem como deixar isso para lá agora que sei tudo o que aconteceu. Ela é um ser humano horrível — da pior espécie — e está ligando para o Reid depois de todos esses anos. De repente, essa profunda necessidade de protegê-lo nasce em mim e sei que tenho que ir até o fundo disso. Volto até onde o Bryan está, já me sentindo mais forte, pronta para encarar a verdade. — Pronto, estou melhor agora. Desculpe-me por isso — peço, mas Bryan apenas olha para mim com aquele rosto de “não seja ridícula”. — Tudo bem, descobrir a pessoa ligada ao número foi um pouco mais complicado por ser um celular, mas, com esses novos métodos de buscas online, até que não foi tão difícil. Estou perdida. Se for mais do que checar e-mail ou ler algumas notícias nos sites de fofocas, não entendo nada. Já que ele não quer me fazer sentir como uma idiota, apenas ri um pouco do olhar vidrado que está estampado na minha cara e continua. — Então, de qualquer forma, descobri que o número pertence à Katelyn Donovan. Não tinha percebido, mas meu coração parou de bater, esperando que ele dissesse o nome. Quando não diz Alex, ou qualquer variação do nome, volta a bater novamente. Solto a respiração que nem tinha percebido estar segurando. Só posso imaginar as emoções que Bryan vê passando por meu rosto, mas, honestamente, nesse momento, não me importo. Não é ela, não é Alex. Graças a Deus. — Depois que descobri o nome — ele faz uma pausa para me lançar um olhar irônico — e que não era Mike, imaginei que deveria ir em frente e descobrir um pouco mais sobre ela. — Quer dizer que você sabia esse tempo todo que não era sobre Mike e mim, e não me disse nada? Ele não responde, apenas sorri, um sorriso fofo. Deus, ele é tão parecido com a Mel que chega a ser engraçado. — Sim, sabia, Maddy. Mas também sabia que, se veio até mim e não queria que ninguém mais soubesse, então devia ser muito importante pra você. Não quero que tenha preocupações sobre nada disso, então fiz o que prometi e procurei por ela. — Obrigada, Bryan, muito obrigada. Não posso nem dizer o quanto aprecio o que você fez. Então, o que descobriu? Ele clica em uma pasta de arquivo no computador e abre alguns artigos, fotos e a página dela do Facebook.


— Mesmo que o número seja de Denning, parece que ela não mora mais lá. Na verdade, ela é uma caloura na Universidade do Estado de Nova York, em New Paltz. Foi criada pelo pai Joseph. Seus pais se divorciaram quando ela estava no ensino fundamental e a mãe foi embora. Pelo que descobri, parece que a mãe nunca mais voltou. Olho para a tela onde ele está com a foto aberta, e ela é linda. Meio que me lembra a puta loira que estava com Reid quando nos encontramos pela primeira vez. Mas, de alguma forma, ela é diferente. Tem uma inocência no rosto, parece ter classe e autorrespeito. Inferno, só isso já faria qualquer garota parecer mais bonita do que aquela vadia. Por mais que as descobertas de Bryan tenham me deixado mais perdida ainda, a mais importante é que ele não está me traindo e também não é a Alex quem está ligando sem parar — na verdade, isso não pode ser totalmente descartado, mas o fato de que ela mora a três horas daqui torna isso bem improvável. Mesmo assim me sinto no escuro. Quero dizer, o que eu tenho de concreto? Tudo o que tenho dela é o nome e em qual faculdade estuda. Não é muito com o que trabalhar. Bryan começa a desligar o computador que estava usando. — Desculpe se não consegui descobrir muita coisa, Maddy, mas, honestamente, não parece ter muito mais o que descobrir. O que está pensando em fazer com tudo isso? — Não sei ainda, Bryan. Honestamente, não pensei sobre essa parte. Não posso confrontar o Reid. O que eu diria? “Estava fuçando seu celular porque pensei que estivesse me traindo, mesmo declarando seu amor por mim a toda hora. Ah, e não esqueça também do fato de ter me contado coisas do seu passado que não contou a mais ninguém”. Realmente me coloquei numa enrascada aqui, não foi? Posso vê-lo pensando na dimensão da situação. — É, não parece bom não, Maddy. — Passa a mão pelo cabelo preto e depois coloca o polegar e o indicador no queixo, tentado pensar em um tipo de solução. — Você quer minha opinião sincera? Odeio quando alguém pergunta se quero opinião “sincera”. Significa que eles vão falar algo que você já sabe, mas não está preparada para admitir. Concordo com a cabeça. — Converse com o Reid. Você errou, mas, se essa garota está tentando ligar pra ele, algo deve estar acontecendo. E você não vai se sentir nem um pouco melhor sobre tudo isso até conversar com ele. Não se pode construir uma relação com mentiras. Não me leve a mal, não acho que o que você fez seja algo para terminar o namoro, mas ele merece saber. E o mais importante, você precisa lidar com o fato de que a sua cabeça e coração imediatamente supuseram que Reid está te traindo. Você precisa descobrir um jeito de fazer tudo isso funcionar e precisa fazer isso com o Reid, não comigo, caçando informações sobre uma garota que ele pode nem conhecer. Aparentemente, Bryan é um especialista em relacionamentos, além de computadores. Odeio admitir que ele está certo, mas, bem, ele está. — Sei que você está certo, mas estou assustada. Assustada com como ele reagirá, quem é essa garota, do que acontecerá com a gente. Mas sei que tenho que conversar com ele, é o único jeito


de resolver isso. Obrigada novamente, Bry. Te devo uma. Caminhando de volta para o dormitório, ainda me sinto uma merda sobre isso. Não estou nem perto de descobrir como vou lidar com essa situação. Só sei que preciso cair na cama e dormir. As provas finais estão me dando uma surra e ainda tenho um enorme trabalho de poesia a ser feito. E não quero fazer nada disso. O que quero mesmo é enterrar minha cabeça na areia e esquecer tudo ao meu redor. Quero voltar para o último final de semana e não atender o celular de Reid. Deus, como posso trazer o passado de Reid à tona e fazê-lo confrontá-lo mais do que já fez? Que direito tenho de fazer isso com ele? Ele confiou em mim e quebrei essa confiança. Sei mais do que ninguém o que significou para ele se abrir comigo dessa maneira. Pensando em Reid e no que fiz com ele, sem ele saber, me faz querer estar com ele. Ficar em seus braços e deixar o mundo do lado de fora. Tenho quase certeza de que as provas finais dele terminam amanhã de manhã, mas aproveito a oportunidade e ligo para saber o que está fazendo. Claro que ele atende no primeiro toque. — Oi, linda. — Sua voz acalma minha alma na hora, e tenho uma sensação renovada de que talvez as coisas funcionem. — Como está indo seu trabalho? — O homem se lembra de tudo. Bom, nem tudo. Nunca se lembra de baixar a tampa do vaso sanitário. Acho que está no DNA de todos os homens. — Nossa, não comecei ainda, mas sei o que quero escrever. Assim que eu sentar e realmente me focar nisso, dará certo. Como estão indo os estudos? — Essa conversa boba me acalma. — Ótimo, na verdade. Estou quase acabando. E o que você está fazendo? Claro que ele largaria qualquer coisa para passar um tempo comigo. Ele é incrível. — Na verdade, nada demais. — Está tudo bem, Maddy? Você parece meio fora do ar. — Sua voz está cheia de preocupação, e isso esmaga meu coração. — Estou bem, amor. Juro. — De repente, meu desejo de vê-lo e de estar no mesmo lugar que ele é esmagador. — Acho que é saudade de você. É tão ridículo, sei disso, mas não te vejo desde domingo e já é quarta à noite, e, bem, desde que começamos a namorar, é o tempo mais longo que ficamos sem nos ver. Mensagens só nos deixam mais longe. Sinto sua falta. — Minhas emoções estão à flor da pele e, apesar de tudo que fiz de errado, quero ficar perto dele para me sentir melhor. Sei que não mereço seu conforto, mas, bem, agora preciso disso e vou ter enquanto posso. — Então, posso aparecer aí? Não quero te atrapalhar com seu trabalho e não ficarei muito tempo, mas eu daria tudo pra te ver um pouco. Se ele fosse mais doce, me daria cárie, pelo amor de Deus. — Seria perfeito, Reid. O trabalho é só para amanhã à tarde de qualquer maneira, e minha manhã está completamente livre, então você não vai me atrasar. — Sei que, se não tranquilizá-lo de que não vai atrapalhar o meu trabalho, ficará preocupado a noite toda. Ele é muito mais do que doce, mas é neurótico também. — Perfeito. Vou pegar algo para comermos e um filme, e estarei aí em uma hora. Amo você. —


Parece tão feliz e não consigo evitar me sentir mais leve sabendo que estará aqui logo. — Amo você também, amor. Até já. Na hora que desligo, relaxo completamente de tudo o que aconteceu nos últimos dias. Bem, agora nada disso existe. Somos apenas Reid e eu. Tudo mais pode desaparecer, porque não importa o que aconteça, sempre vou amá-lo e tenho que acreditar que ele sempre fará o mesmo. Há muita dor envolvida só de pensar no contrário.


Com sushi, um filme que não é de mulherzinha e uma rosa na mão, bato na porta de Maddy. Não me entendam mal, não odeio a escolha de seus filmes, apenas quero algo diferente para hoje à noite. Além disso, acho que uma comédia romântica está longe de estragar minha fama de homem. Fico admirando a vista diante de mim quando Maddy abre a porta. Está usando um short muito curto. Não sou perito em moda feminina, mas essa coisa mais parece uma linda calcinha. Adoro instantaneamente. A blusa curta também não é nada mal, de jeito nenhum. — Oi, linda. Trouxe sushi. Sei que disse que estava louca por isso noutro dia. Ela sorri para mim. Acho que realmente a derrubo quando escuto o que fala e depois me lembro do que disse. Entrego a rosa que comprei e ela revira os olhos. — Não tem que me comprar flores toda vez que vem aqui. — Leva a rosa até o nariz e a cheira. O profundo vermelho das pétalas faz seus olhos brilharem. — Querida, você disse que fui a primeira pessoa que te comprou flores, e quero ser a última. Então, sim, tenho que te dar uma flor toda vez que vier aqui, porque quero te lembrar de que será só eu quem vai te amar. — Curvo-me para beijar seus lábios, colocando as mãos em seu rosto. Seus olhos reviram novamente, mas dessa vez de prazer ao invés de aborrecimento. Quando interrompemos o beijo, lhe dou um tapa na bunda de brincadeira e a conduzo para dentro do pequeno apartamento. Nos servimos e vamos para o sofá. — O que vamos assistir hoje? — pergunta enquanto vai em direção ao aparelho de DVD.


— Os Infiltrados. Ela me lança um olhar de desapontamento porque trouxe algo que ela chama de “filme de menino”. Puta que pariu, ela é linda! — Dê uma chance ao filme. Quem sabe você não gosta? É realmente bom. — Sei que é sem sentido tentar convencê-la, mas ela cede e senta ao meu lado. — Tá bom. Você venceu. Sobre o que é? — Um mafioso infiltrado no Departamento de Polícia de Boston e um tira infiltrado na máfia. E ambos tentam encontrar o infiltrado que está dando informações. Ganhou o prêmio de Melhor Filme uns anos trás. Ela parece se afastar um pouco por causa da minha descrição. — Não se preocupe, amor. Não tem muito sangue. Eu te abraço se você ficar com medo. Pisco e sorrio para ela. Flertar sempre parece soltá-la um pouco, mas ela ainda está tensa. Envolvo-a nos braços quando o filme começa. Ela não diz nada. Apenas descansa a cabeça no meu ombro e se aconchega. Pouco tempo depois, sua cabeça está no meu colo e a escuto bocejar. Começo a brincar com seu cabelo, sabendo que isso a relaxa. E a mim também. Após uns trinta minutos de filme, ela já está capotada e roncando levemente. Não tenho vontade de movê-la. E mais, gosto dela no meu colo assim. Assisto o resto do filme sozinho, tentando não acordá-la toda vez que me mexo para comer um pouco do meu jantar. Quando os créditos finais sobem, começo a mexer as pernas para tentar voltar a senti-las. O movimento faz Maddy acordar e ela me olha sonolenta. — Ei, dorminhoca. Acho que podemos falar oficialmente que você não é fã de Scorsese. — Esse comentário ganha um revirar de olhos. É por isso que a amo. Dois minutos acordada e já é atrevida. — Venha, vamos para a cama. Você tem um trabalho para escrever amanhã e eu, algumas coisas pra fazer. — Coisas? Que coisas? Pensei que suas provas tinham terminado hoje. — Está ficando acostumada com minhas travessuras e ficando muito boa em me olhar intensamente tentando descobrir exatamente qual meu próximo movimento. Ergo uma sobrancelha. — Apenas coisas. Vamos deixar por isso mesmo. — Meu sorriso lhe dá uma dica de que tem mais surpresas vindo aí. Ela se levanta do sofá, depois de esfregar os olhos, erguendo as mãos num claro sinal de “desisto”. Espreguiça-se arqueando as costas. Seus seios se destacam pelos mamilos salientes no tecido fino da blusa. Minha virilha se contorce de tesão por ela. Percebendo o efeito que tem sobre mim, ela se inclina de forma sedutora na minha direção e, como ainda estou sentado, me proporciona uma excelente visão da parte da frente de sua blusa. — Você sabe que não precisa ir. Poderia ficar aqui. A não ser que tenha “coisas” para fazer hoje à noite. — Se afasta. Ah, não, não vai, não.


Pego seu pulso e a puxo de volta para ficar frente a frente comigo. Meu rosto está na direção da parte não coberta de sua barriga. Lambo o cós do short e a sinto estremecer. Envolvo sua cintura e engancho os dedos em seu short e calcinha. Puxo-os um pouco para baixo e lambo novamente, dessa vez mais baixo, na zona de perigo entre o umbigo e o sexo. Ela estremece novamente. Movo as mãos para a parte de trás de seu short e aperto sua bunda enquanto puxo-a para mais perto do meu rosto. Ela, sem se dar conta, abre ligeiramente as pernas, mas é o bastante para que eu perceba. Aceito sua oferta imediatamente. Desço as mãos por seus quadris, por debaixo da roupa curta, puxando-a no processo e deslizando pelas pernas. Corro meus dedos até o interior de suas pernas, afastando-as ainda mais. Seus lábios estão brilhando de excitação. Minha boca se enche de água e não consigo mais me segurar. Usando os polegares para afastar suas dobras, exponho seu clitóris e o beijo levemente. Seus joelhos fraquejam e ela prende a respiração. Sopro-o e mais uma vez beijo, só que dessa vez com um pouco mais de força. — Reid, sua boca é incrível. Ah, Deus... por favor. Como posso dizer não para isso? Giro a língua em volta de seu clitóris endurecido, deixando-a fora de si de tanto prazer. Gemidos e suspiros passam por seus lábios, mas nada se compara à linguagem real. Afasto-me de sua boceta encharcado e a olho. Deus, ela é linda. Bochechas coradas, olhos em chamas e seios implorando para serem tocados e sugados. Usando o polegar, faço pequenos e rápidos círculos em seu clitóris e enfio dois dedos nela. — Oh, porra, Reid. — Suas pernas estão tremendo e posso sentir seu interior me apertando e pulsando em meus dedos. Ela está perto e quero que goze muito. Não há nada mais bonito do que assisti-la perder o controle depois de lhe dar prazer e ainda mostrar o quanto a amo. Ergo as mãos para envolver sua cintura novamente e me levanto em sua frente. Inverto nossas posições, ela agora está sentada onde eu estava. Suas pernas não suportam seu peso e quero que ela aproveite sem se preocupar em se manter de pé. Afasto um pouco a mesa de centro, criando um lugar melhor para me ajoelhar. Inclino-me nos calcanhares e me posiciono entre suas pernas. Puxo-as para que fiquem sobre meus ombros. Seus olhos encontram os meus e vejo incerteza neles. Sei que para ela isso é tudo novo, mas ela tem que saber o quanto a amo e a acho linda, o quanto me excita, especialmente desse jeito, espalhada diante de mim. Deslizo a língua molhada por sua coxa e tento tranquilizá-la. — Deus, Maddy. Você é tão linda. Tem um gosto incrível. — Mudo para a outra coxa e acrescento: — Te amo tanto e mal posso esperar para ouvi-la gritar meu nome. Puxo seus lábios molhados mais uma vez e enterro a língua dentro dela, fazendo-a suspirar audivelmente. Meus dedos retornam para sua profundeza e massageio suas paredes internas, esfregando a ponta dos dedos naquele pedaço de carne que a deixa louca.


Lambo em direção a esse ponto e sugo-o gentilmente, imitando o movimento dos dedos que deslizam para dentro e para fora sem esforço algum. — Puta merda! Você está tão molhada, Maddy. Amo isso. Ela choraminga e leva seu quadril de encontro aos meus dedos. Passo a ponta do polegar furiosamente em círculos no clitóris para que ela goze com força. Meu nome em seus lábios e seu gosto na minha língua são puro paraíso. — Reid! Reid, ah, meu Deus, amor! Eu... eu... ahhhh... Amo quando fica sem palavras. Tiro suas pernas dos meus ombros e a levanto, segurando-a em meus braços. Carrego-a até seu quarto, inclinando-me em direção à sua boca, beijando ferozmente. Quando ela chupa a minha língua e suga com força, quase a deixo cair. — Adoro o meu gosto na sua boca, amor. Com isso, quase corro o resto do caminho. Quando chegamos ao quarto, somos totalmente mãos e bocas, lábios e dentes. É uma paixão febril que nos impulsiona. Estamos fora de controle com o desejo um pelo outro e, em menos de um minuto, estamos ambos nus e na cama. Ela está debaixo de mim, seu cabelo lindamente espalhado por todo o travesseiro com as mãos em volta do meu pescoço. Então, puxa-me para mais perto e me beija. Nossas línguas duelando enquanto nossos corpos se conectam. Maddy é tão apertada, quente e molhada. Afundando-me nela, o mundo desaparece. Existe apenas eu, ela e o nosso amor. Meus quadris bombeiam num ritmo furioso e levanto seus tornozelos até meus ombros. Vejo seus olhos revirarem quando atinjo o ponto certo. — Reid... tão... profundo... eu... vou... gozar. Sinto sua boceta vibrar e me apertar. Estou perdido. Algumas investidas mais fortes e gozo, chamando seu nome. Ela passa os braços em volta dos meus ombros molhados de suor e me puxa para ela. Desmorono em cima dela enquanto ambos tentamos recuperar o fôlego. Viro-me para o seu lado, sabendo que estava esmagando-a, mas ainda precisando estar perto. Fico atrás dela de conchinha, tirando o cabelo do seu pescoço. Coloco os lábios suavemente em sua nuca e sussurro: — Eu te amo. Derivamos ao longo de uma noite abençoada e sonolenta, envolvidos na segurança dos braços um do outro. Um pequeno sorriso surge no canto dos meus lábios, sabendo que estamos indo em direção a mais um final de semana feliz.


Estou sentada à minha escrivaninha, escrevendo esse estúpido trabalho de poesia e tudo o que consigo pensar é em ontem à noite. Depois que Reid explicou que o filme era sobre encontrar uma pessoa que passa informações, eu só queria fugir. Isso que é ironia. Queria contar tudo a ele, realmente queria. Só não consegui. Talvez fosse errado da minha parte agir como se nada tivesse acontecido, como se não estivesse escondendo algo. Mesmo quando estávamos fazendo amor, isso estava no fundo da minha cabeça. “Isso” significa que vou machucá-lo. Porque é o que vai acontecer. Não importa quem seja Katelyn, não importa como eles estão ligados, nem mesmo que toda essa situação esteja ligada ao seu passado. O que mais importa é que minha reação inicial foi pensar que ele estava me traindo, que não confiava nele, e cheguei a pensar que algo estava errado comigo. Todos esses sentimentos de culpa fermentam enquanto estou aqui presa escrevendo sobre amor e coisas bonitas. O trabalho não sai facilmente, mas três horas depois terminei e estou cruzando o campus para entregá-lo. Não é o meu melhor trabalho, mas está dentro do prazo e completo. Nesse momento, não sou capaz de muito mais do que isso. É difícil de acreditar que, há três meses, minha vida era tão diferente da que é hoje. Acho que, com o semestre terminando, estou um pouco no modo reflexivo. Tanta coisa aconteceu num curto período de tempo que é um pouco assustador. Não posso dizer que superei completamente meus pais e o sentimento de vazio que sempre associei com eles terem ido, mas a família que tenho aqui, Cammie, Lia e Mel, me fortalece de um jeito que nunca pensei ser possível. Meu relacionamento com Reid mostrou o quanto eu não me conhecia. Ensinou-me a amar


novamente, apesar da dor. Encontrei de verdade meu melhor amigo nele e agora estou morrendo de medo de perdê-lo. Perdê-lo seria como perder parte da minha alma. Com esse pensamento me dominando, tomo a decisão de lhe contar tudo o que está acontecendo. Quanto mais tempo eu esconder isso dele, mais o estarei traindo; ele sairá machucado de um jeito ou de outro, mas, se não contar agora, se esperar semanas ou até meses para contar, ficará ainda mais machucado. Não tenho certeza de como farei exatamente, mas tenho pelo menos a noite de hoje para descobrir. As meninas e eu vamos ter uma noite de “garotas”. Com o semestre terminando e as provas finais sendo ridiculamente insanas, não temos tido muito tempo para ficarmos juntas, então, quando Lia sugeriu uma maratona de Friends, comer junk food e tomar vinho barato a noite toda, aprovamos na hora a ideia. Lia quase pula no meu rosto para pegar a batata chips quando volto para o dormitório. — Por favor, me diga que você trouxe batata chips de sal e vinagre! Sou louca por ela. — Ela parece um animal selvagem procurando nas sacolas que eu trouxe do supermercado. Não sei como ela come desse jeito e ainda mantém a forma. — Sim, Lia. Eu trouxe sua batata. Você me mandou umas dez mensagens hoje para me lembrar de comprá-la. — Reviro os olhos, e ela me mostra a língua. Cammie já está enfiada num pote de sorvete, e Mel está comendo um pacote de biscoito recheado. Já posso sentir a dor de barriga chegando, mas sei que vai valer a pena. Quando começa o décimo episódio de Friends, escuto Mel guinchar de prazer. — Aimeudeus! Esse é o meu episódio favorito. Mel é completamente viciada em Friends. Passamos várias noites assistindo as reprises. Tenho quase certeza de que vimos todos os episódios umas duas vezes, pelo menos. Devo admitir que é o meu também. É um no qual Ross está tentando reconquistar Rachel depois de fazer uma lista de razões para não ficar com ela. A linha de raciocínio da Phoebe de que ele é a lagosta dela — os companheiros lagostas ficam juntos a vida toda e andam com as garras juntas — não está funcionando. No final, Rachel percebe que Ross fez um grande esforço para salvá-la de levar um bolo no baile de formatura. Ela fica emocionada, esquecendo sua mágoa. Novamente, a ironia não passa despercebida por mim nesse episódio, que é bastante adequado à minha situação com Reid. No final, espero que ele possa ver que é a minha lagosta. Perdida nas minhas reflexões sobre Reid, estou completamente alheia a alguém batendo na porta. Antes que eu possa me dar conta, Reid está parado de pé diante de nós, sorrindo maliciosamente para a cena da nossa pequena festa do pijama. — Ah, por favor, me digam que não perdi uma guerra de travesseiros com vocês nuas. — Está tentando abafar o riso, mas falha miseravelmente. Fingindo irritação, Cammie pergunta: — O que você está fazendo aqui? Hoje é noite das garotas, então, se não cresceu um par de seios em você da noite para o dia, tem que ir embora. Não são permitidos garotos aqui! — Ela está no modo completamente garotinha com as mãos nos quadris, batendo severamente o pé no chão. Sem conseguir evitar, rio alto de seu pequeno ato.


— Ah, Cam, acredite em mim, se tivesse crescido um par de seios em mim, eu estaria agora em casa brincando com eles, mas, já que não, pensei em passar aqui e pegar os da Maddy emprestados por um tempo. — Reid! — grito com ele. — Não acredito que você disse isso! — Meu rosto está vermelho escarlate de vergonha. — O que, amor? Não posso elogiar o lindo corpo da minha garota? — Seu olhar está eufórico e o sorriso, de um lado a outro do rosto. Ele é lindo, mas não posso evitar revirar os olhos. Vou até ele e passo os braços em sua cintura. Olho dentro de seus profundos olhos azuis e sei que será ele para sempre. Nunca vou amar alguém tanto quanto amo esse homem. Ele é tudo o que eu nunca soube que queria e pensei merecer. — Sério, Reid, o que está fazendo aqui? É noite das garotas. Pensei que ia sair com os caras. Com minha pergunta, vejo-o dando uma breve olhada para Melanie e sei que estão aprontando algo. Antes que consiga dizer qualquer coisa, Mel está saindo do nosso quarto, trazendo uma pequena mala atrás dela. Não consigo evitar dar um suspiro exasperado, deixando escapar outro por ter sido enganada mais uma vez, mas tenho que admitir que há uma grande parte minha que gosta quando ele me surpreende. — O que vocês aprontaram dessa vez? — Meu tom é mais de ansiedade do que de raiva. — Não fiz nada. Bem, nada, exceto planejar umas pequenas férias para a gente. E, como de costume, tive uma pequena ajuda de uma amiga. — Ele sorri para Mel enquanto explica tudo para mim. Estou impressionada e completamente sem palavras. — Estamos saindo de férias? Para onde? Quando? — Ok, não completamente sem palavras, mas definitivamente chocada. — Calma, amor. Alguma vez já estive despreparado? Tenho tudo sob controle. Tudo o que você precisa fazer é se trocar para uma viagem de carro e depois partimos. Tudo mais já foi providenciado, como de costume. E é simples assim. Ele toma conta de cada detalhe, de mim... amo-o tanto por isso. — Viagem? Quão longe estamos indo? Por que não esperamos até amanhã? É quase meianoite. — Quando ele disse “férias”, imediatamente pensei que pegaríamos um voo para algum lugar. Não consigo pensar em muitos lugares para irmos de carro que seja um bom lugar para férias, mas tenho um forte pressentimento de que Reid já pensou em tudo isso. — Apenas se troque e leve essa linda bunda para o meu carro. Já está tudo pronto. — Ele se inclina no balcão da cozinha e cruza as pernas à sua frente. Tocando o relógio, diz: — Mexa-se, vamos. Cinco minutos e uma conversa com Mel completamente sem sentido sobre para onde Reid está me levando, estou saindo do dormitório e indo em direção à noite escura, viajando para um lugar desconhecido que meu incrivelmente carinhoso namorado determinou que será um excelente lugar para férias.


Não posso deixar de pensar que essas pequenas férias talvez me deem a perfeita oportunidade de tirar tudo do meu peito. Sorrindo um pouco, rio da ideia de que terei a semana inteira para fazer tudo dar certo com ele. Depois de aproximadamente uma hora de viagem, Reid para num posto de gasolina. Meu estômago está mal. Nunca fico bem em longas viagens de carro. Mas, dessa vez, parece muito pior por causa de toda a porcaria que comi mais cedo. Enquanto passa ao lado da minha porta para ir pagar o atendente, Reid se inclina na janela e pergunta se quero algo. — Um remédio para enjoo, por favor. Não estou me sentindo bem. — Sei que não é só a viagem de carro e o enjoo que estão me fazendo ficar doente, mas não compartilharei isso com ele ainda. — Claro, linda. Volto logo. — Ele beija-me castamente antes de se afastar. Quando volta, me entrega o remédio e uma garrafa de água. Pega no banco de trás um pequeno travesseiro de viagem e um cobertor. — Por que não fecha os olhos e dorme um pouco? Beija minha testa e enrola o cobertor em mim. Reclino o assento um pouco para tentar achar algum conforto, e, antes que eu perceba, estou caindo num sono tranquilo, no qual pequenas lagostas estão andando por aí de garras dadas com seus amores verdadeiros.

Quando acordo, algumas horas mais tarde, ainda está escuro. Não reconheço o lugar onde estamos, não que tenha muito em volta para ajudar a distinguir a localização. A rodovia é estreita; com duas faixas em cada direção e cercada por pinheiros. Nem sinal de shopping ou posto de gasolina por perto. Não há muitos outros carros na rodovia também. Levanto o assento e me alongo um pouco antes de inclinar a cabeça para descansar no ombro de Reid. — Onde estamos? — Minha voz está suave e rouca por causa do sono. — Em algum lugar. Ok, já entendi. Ele não vai contar nada até que estejamos lá. — Posso ao menos fazer mais perguntas? — Você pode perguntar o que quiser, linda, mas não vou responder nada. — Ele consulta o relógio e depois volta a olhar para frente. — Além do mais, estamos quase chegando. Desisto e apenas me aconchego nele. É calmo e pacífico de qualquer jeito, então aproveito o silêncio. A única coisa que ouço é o barulho do Mustang e a única coisa que sinto é a batida do coração de Reid debaixo da minha mão. Poucos minutos depois, o sol começa a nascer no horizonte. É absolutamente lindo. Sombras


vermelhas e laranjas dançam juntas. Misturam-se e se entrelaçam, criando cores que eu nunca tinha visto e que nunca verei novamente. Conforme o sol ganha altura no céu, as cores se transformam numa suave combinação de fúcsia e violeta; é mais bonita do que qualquer imagem de sol nascendo que já vi antes. Reid me pega admirando a cena e sorri. Isso deve ser parte do seu plano. Ele é tão incrível. — É lindo, Reid. Você programou isso desse jeito? Digo, é por isso que saímos àquela hora? — Talvez. E sim, é lindo, mas não tanto quanto você. — Ele beija a ponta do meu nariz antes de retornar sua atenção para a estrada. Dirigimos um pouco mais e estou tão perdida com o nascer do sol deslumbrante que não presto atenção em mais nada. Em pouco tempo, vejo um farol entrar no meu campo de visão. Os pinheiros desapareceram, e uma suave e plana vista aparece para nos cumprimentar. Vejo uma placa que diz que estamos a oito quilômetros de Montauk Point. Não consigo falar. Não consigo pensar. O tempo para, e enquanto sei que o resto do mundo está cuidando de suas coisas, para mim, tudo parou. Alguns minutos depois, Reid para em um pequeno estacionamento que nos leva em direção à praia. Antes de ele desligar motor, de algum jeito, eu registro que está tocando It’s Time, do Imagine Dragons, no rádio. Não existe canção mais adequada ao que estou prestes a fazer. Reid sai do carro e caminha pela frente do capô para abrir a minha porta. Pega minha mão e me puxa do assento. Seguro para ter algum equilíbrio; força, na verdade. — Ainda tonta de sono, hein? Venha, vamos dar um passeio até a água. A brisa do mar vai te acordar. Não consigo responder; minha voz está presa atrás do grande nó de emoção que se formou na minha garganta, então apenas pego sua mão e caminho. Chegamos à beira da água e o som alto da espuma branca da onda quebrando é frenético e calmante ao mesmo tempo. A areia é macia e cede sob meu peso, permitindo que eu afunde um pouco mais. A água está molhando meu tênis e começando a encharcar meus pés. Quando sinto a água salgada em minha pele, colapso com o peso das minhas memórias. Não me preparei para a queda. Minha bunda bate na areia molhada e ralo as palmas das mãos na superfície abrasiva embaixo de mim. Tento manter minhas emoções sob controle, mas a água em movimento à minha frente é muito poderosa e atraente. Não tenho mais energia para segurar todas as emoções e começo a chorar, soluços passando por todo o meu corpo. Reid está ao meu lado em um instante, me segurando apertado ao seu lado, passando os dedos por meu cabelo, tentando desesperadamente me acalmar. — Maddy... eu... eu não sei o que dizer. O que há de errado, amor? Por favor, converse comigo. Odeio vê-la assim. Por favor, me diga o que fiz de errado. Sua voz é um sussurro, ou talvez seja o volume normal, mas quase não consigo ouvir em meio ao som dos meus soluços chorosos. Esfregando círculos nas minhas costas, diz: — Shh. Shh. Tudo bem. Estou aqui para você, amor. Só queria te levar para algum lugar


relaxante. Melanie disse que sempre quis vir aqui e apenas pensei... ah, Deus, não sei o que pensei. Desculpe se te deixei chateada. Por favor, fale comigo. Quero fazer as coisas melhorarem. Por favor. Posso escutar sua voz um pouco melhor agora que minhas lágrimas estão diminuindo, e há um pânico crescente nela. Ele se move um pouco para que fiquemos um de frente para o outro, coloca as mãos no meu rosto e passa os polegares pelas lágrimas, limpando-as. É inútil, de verdade, porque continuam caindo. Seus profundos olhos azuis procuram nos meus algum tipo de resposta, ou uma lembrança da Maddy que conhece, mas não consigo encontrá-la agora. Tudo que consigo encontrar é a minha versão de dez anos de idade, que estava parada num lugar não muito diferente desse. As palavras do padre ecoam no fundo do meu cérebro. Posso sentir a mão da tia Maggie apertando de leve a minha, o vento acariciando meu rosto, o sol me forçando a fechar um pouco os olhos. Sinto a dor angustiante; o tipo de dor que é muito pior do que qualquer ferimento real. Na dor física, pode-se colocar curativos; com o tempo, será curada. Mas as feridas emocionais nunca se curam completamente e são tão fáceis de serem reabertas, mesmo quando se pensa que estão melhores. As feridas permanecem e a minha foi trazida à superfície. A cena está se repetindo em minha mente, o padre está dizendo algo sobre eles “descansarem em paz eternamente”. Tia Maggie me levanta, guiando-me para mais perto da água. Uma pequena onda quebra sobre meus sapatos novos pretos e brilhantes. E, na mesma hora, ambas jogamos duas rosas vermelhas na água azul profunda diante de nós. O padre começa a rezar o Pai Nosso enquanto abre a urna que guarda as cinzas dos meus pais. Abençoando o que restou deles e espalhando-as ao vento, eles se foram. Estão em seu próprio paraíso, dançando sem música por nenhuma razão, ficando nas ondas intermináveis do oceano, sendo levados para todos os cantos do mundo, saltando através das estrelas no céu noturno, formando nuvens de formas extravagantes. Volto para o presente e agora a voz de Reid está como a minha, grossa de tanta emoção. Ele está à beira das lágrimas e percebo que ainda não disse uma palavra sequer. Reid aperta minha mão e olha dentro dos meus olhos, implorando para que eu diga algo. — Você não fez nada de errado, Reid. Por favor, acredite em mim. Não tinha como saber o que este lugar significa pra mim. Ninguém sabe. Acho que não falei nem mesmo para a Melanie em todos esses anos que a conheço. — Vai me contar? Obviamente é importante e quero estar aqui para você. — Vejo uma lágrima escorrendo por seu rosto com o pensamento que, de algum jeito, ele me causou dor. Limpoa com a ponta do dedo e inclino-me ao seu lado. Ele passa seu braço forte em volta dos meus ombros e beija o topo da minha cabeça de forma suave e amorosa. — Espalhamos as cinzas dos meus pais aqui. Bem, não exatamente nesse lugar, mas foi numa praia em Montauk. Foi a última vez que os vi, que falei com eles e disse o quanto os amava. Vi-os flutuar no ar, caírem na água e sumirem no oceano. Foi quando soube que tinham morrido. Tia Maggie não tinha dinheiro para enterrar um, quanto mais dois, então ela pediu para cremá-los. Comigo me mudando para o norte do estado para morar com ela, não tinha necessidade de


túmulos e lápides. Não teria ninguém para visitá-los. Poucos dias depois da cerimônia, minha casa foi vendida e minhas coisas, empacotadas. Mudei para a casa da tia Maggie imediatamente e nunca tive condições de voltar para vê-los, para sentar calmamente na praia e conversar com eles, sentir o conforto que o lugar de descanso final deles me daria. Depois da minha confissão, seus olhos estão arregalados e pedindo desculpas. — Maddy, sinto muito, muito mesmo. Nunca teria te trazido aqui se soubesse que ficaria triste. Procuro no fundo da minha alma e percebo que posso olhar para esse momento como sendo triste ou feliz. Escolho feliz. — Não, Reid. Claro que estou triste. Amo tanto meus pais e sinto a falta deles mais do que tudo. Depois que morreram, teve manhãs quando eu acordava que quase esquecia que eles tinham morrido. Aqueles poucos minutos, quando existiam, mesmo que apenas em minha mente, eram os melhores minutos do meu dia. E depois a realidade me atingia em cheio e a escuridão se estabelecia. Ele balança a cabeça, reconhecendo os sentimentos; sentiu a mesma coisa, tenho certeza. — Depois de algum tempo, parei de acordar nesse estado de alegria inconsciente. Eles estavam mortos e não era algo que eu iria esquecer. Sempre gostei de pensar que onde quer que estejam, suas cinzas estariam me seguindo por todos os lugares. Ainda assim, sinto falta deles. — Sei o que significa acordar nesse estado inconsciente. Alguns dias, quando algo importante acontecia, meu primeiro pensamento era “Mal posso esperar para contar ao Shane”, mas claro que não poderia. Lembro-me de uma vez. Fiz a melhor jogada no basebol na minha última partida na carreira escolar. Enquanto corria pelas bases, procurava na multidão pelo rosto de Shane. Claro que meus pais não estavam lá, pois já quase não nos falávamos mais antes desse jogo. Foi nessa hora que percebi que estava completamente sozinho. Mesmo no meio de minha dor, quero tirar a dele. Quero fazê-la sumir e curar a nós dois. — Sei que minha reação não é muito convincente, mas, por favor, acredite em mim quando digo que não estou triste. Ele não está acreditando; eu provavelmente também não acreditaria. Então, tento explicar. — Não percebe? Você me trouxe de volta para eles. — Você nunca para de me surpreender, Maddy. É tão forte e estou constantemente admirado em como você sempre olha o lado bom das coisas. Amo você. Passamos longos segundos amontoados na areia, apenas apoiando nossa dor, ambos perdidos em memórias de nossas famílias que não mais existem. Mas temos um ao outro. Quando um pouco da sensação de peso nos deixa, lembro-me do episódio de Friends da noite passada. Penso que aquele cenário da praia diante de nós é bastante apropriado e rio um pouco. — O que é tão engraçado, amor?


Ele vai pensar que sou idiota, mas que se dane. — Não é nada demais. Estava só pensando que você é a minha lagosta. Seu rosto se contorce em confusão. — Isso é bom ou ruim? — É bom, Reid. Muito bom. Amo você. Levanto e puxo-o comigo. Passamos o resto da manhã caminhando para cima e para baixo pela costa dessa linda praia, de mãos dadas, relembrando as pessoas que amamos e perdemos. É cura e purificação para ambos, e, quando voltamos para o carro, me sinto mais leve e feliz do que jamais senti.


Passar a manhã caminhando pela praia é muito melhor do que quaisquer férias tropicais. Sempre me senti próximo de Maddy, mesmo quando a estava afastando, mas, depois de tudo que compartilhamos essa manhã, memórias tanto boas quanto ruins, sei que ela faz parte de mim; de alma e coração. Chegamos ao hotel e fazemos o check-in. Já é meio-dia e o sol está brilhando. O lugar é lindo, com tema náutico, mas sem ser clichê. Passo o cartão na porta e, quando Maddy vê a suíte, quase geme de alegria, batendo palmas e dando pulinhos. — Reid, esse lugar é lindo. Amei. — E eu amo colocar um sorriso em seu rosto. Moveria céus e terras para ver esse sorriso. — Aperto-a um pouco, levantando-a e girando no ar. Deixo-a deslizar pelo meu corpo. Ela ergue uma sobrancelha quando percebe minha ereção crescente. Passa as mãos em volta do meu pescoço e os dedos no meu cabelo. Puxa meu rosto para o seu e me beija apaixonadamente. Não é rápido e caloroso, mas devagar e sedutor. Ela está experimentando, lambendo e se esfregando em mim de um jeito tão sensual que cresço ainda mais contra o zíper do jeans. Pegando minha mão, me puxa para o quarto. Tira minhas roupas devagar, seus olhos nunca se afastando dos meus. Quando estou nu diante dela, ela passa as mãos por cada centímetro do meu peito e costas enquanto se inclina para me dar um beijo de abalar a Terra. Ela me empurra por todo o caminho até que a parte de trás dos meus joelhos bate na cama. Empurrando-me para que deite no colchão, começa a tirar sua própria roupa no strip-tease mais sexy que já vi na vida. Ela


não incorpora sua stripper interior. Não, e é o que torna isso tão sexy como a inocência e a confiança em seus olhos. Cada item de roupa é removido lentamente. Ela puxa o tecido por cada centímetro de seu corpo e faz meus dedos coçarem com a necessidade de tocá-la. Quando tira toda a roupa, rasteja em cima de mim, montando em meu comprimento latejante. Não há palavras; mesmo que houvesse, não seriam necessárias nesse momento. Posso ver o seu amor por mim. Sei que estou transmitindo o mesmo olhar. Descendo em mim, ela se enterra tão lentamente que sinto cada pulsação e aperto de seu sexo. — Caralho, Maddy! Você está me deixando louco. Ahhh... amo você. — Mal me contenho. Quando se inclina para me beijar, envolvo sua cintura e faço-a ir para cima e para baixo no meu pau. Ela não diz nada; acho que não consegue, mas, cada vez que saio dela, sinto seu interior estremecer de prazer. Movo-a para que fiquemos sentados. Agora está montada em meu colo, e me afundo nela com mais força e profundidade. Com uma mão, pego sua bunda e movo-a no mesmo ritmo comigo. Usando a outra mão, faço círculos de forma devagar e sensual em volta de seu clitóris pulsante. — Ahhhh... Reid... sim, mais rápido, por favor... sim... ah, amor, vou gozar. Suas costas arqueiam, forçando seus seios perfeitos perto da minha boca. Lambo e sugo furiosamente, sentindo seus músculos interiores apertarem meu pau. Quando ela goza pela segunda vez, com apenas minha boca sugando seu doce mamilo, perco o controle. Com duas investidas a mais dentro de seu canal encharcado, gozo com mais força do que jamais pensei ser possível. Passo os braços em volta de seu corpo magro e puxo nós dois para o colchão. Ela descansa a cabeça no meu peito e corre os dedos pelos poucos cabelos que tenho ali. Amo quando faz isso. Puxo o cobertor que está ao pé da cama para nos cobrir e beijo o topo de sua cabeça. — Amo você, Maddy. Que tal um cochilo e depois sairmos para um jantar chique para celebrar o fim do seu primeiro semestre? — Isso parece perfeito, exceto por uma coisa. — O que, linda? — Vamos sair para celebrar sua formatura e o início do seu estágio. Estou tão orgulhosa de você, amor. Meu rosto quase se divide em dois com seu elogio. Há muito tempo alguém não fica genuinamente orgulhoso de algo que fiz. — Vamos celebrar ambos, então. Vamos dormir um pouco agora. Tenho de certeza que vamos precisar da nossa energia para mais tarde. Sinto-a sorrir contra meu peito e, em poucos minutos, sua respiração estabiliza e suas mãos param de acariciar meu peito. Caio no sono sabendo que, quando acordar, minha dor não vai ter ido embora, mas estará suportável, menor. A vida não pode ser dolorosa quando a coisa mais bonita do mundo está


aconchegada ao seu lado, mantendo você aquecido, seguro e protegido dos fantasmas do passado.

5 Quando acordo do meu cochilo, Reid não está ao meu lado, mas tem um bilhete.

Almoço na varanda e aproveito o ar fresco e a paisagem. Perco-me no meu livro, um que não tenho sido capaz de ler porque estava preocupada com as provas finais, e, antes que perceba, preciso tomar banho e me aprontar para o encontro. Depois do banho, seco o cabelo para que fique suavemente ondulado. Faço uma maquiagem simples e me sinto sexy e bonita. Quando volto para o quarto para me vestir, percebo que não tenho a mínima ideia do que tem dentro da minha mala. Tenho certeza de que Reid disse a Mel o que colocar nela, mas o senso de moda de Mel tende a inclinar para o mantra de que “menos é sexy”. Quando abro o closet, encontro um lindo vestido preto pendurado diante de mim. É a minha cara. Tem um bilhete pregado no cabide.

Deslizo o tecido sedoso sobre a cabeça e, claro, serve como uma luva. Não é muito curto a ponto de parecer vulgar; fica uns três dedos acima do joelho. O topo assimétrico forma um decote generoso e elegante, de um jeito sofisticado, não um “ei, venha dar uma olhada nos meus seios”. A característica mais marcante é ser de um ombro só e de manga comprida. Enquanto um braço está completamente nu, o outro está coberto até o pulso com um tecido leve de organza. Há sapatos também, claro. Meu incrível namorado pensa em tudo. Estou com um pouco de medo de abrir a


caixa de Jimmy Choo, mas minha deusa interior dos sapatos está pulando como louca de alegria. Sempre quis um par desses, mas nunca pude pagar. São prateados, brilhantes, estilo peep-toe. Estou apaixonada por eles. Olho-me no espelho antes de dar o toque final com meu gloss nude. Pegando a clutch prateada que Reid também deixou para mim, vou até a porta, me sentindo a própria Cinderela esperando o príncipe encantado. Quando a porta do elevador se abre, Reid está lá esperando por mim, com uma única rosa vermelha na mão. Olha-me de cima a baixo e parece satisfeito. Deveria, pois escolheu tudo, afinal de contas. — Oi, linda. — Puxa-me de lado e me beija castamente. — Oi. Olhe só para você! Está realmente lindo. — Não estou acostumada a vê-lo com algo mais do que jeans e camiseta ou roupas de malhar, mas hoje à noite parece que poderia estar na capa da revista GQ. A blusa azul-clara de botões faz seus olhos brilharem quase que de forma não natural. A camisa é justa no largo peitoral musculoso e nas costas. Posso ver as protuberâncias de seus bíceps quando se move e isso enche a minha boca de água. Suas pernas longas e grossas e bunda fantástica estão cobertas por uma calça preta recém-passada. Não acho que ele tenha algo mais do que tênis, então tenho quase certeza de que esses sapatos pretos brilhantes são novos. Não posso deixar de sorrir para quão lindo ele está. — Pronto para ir? — Estou ansiosa para sair, para ficar ocupada apenas com a gente e não focada no que tenho que contar a ele durante o jantar. — Claro. Só tenho que fazer mais uma coisa. — Ele puxa uma caixa preta de veludo do bolso de trás e fico completamente sem palavras. Estou segurando as lágrimas; a maioria é de felicidade, mas há algumas de culpa. — Reid, você não tinha que fazer isso. Já fez tanto por mim, gastou tanto comigo. E agora isso? Não posso aceitar. — Você é a única mulher que conheço que não gosta de ganhar presentes. Por favor, deixe-me dar a você. Eu te amo e quero que tenha isso. — Abre a caixa e o que tem lá é absolutamente de tirar o fôlego. É um colar. E diferente de qualquer outro que já tenha visto, não é um colar com pingente. Tem duas correntes separadas e se entrelaçando, mas cada uma delas parece ter centenas de pequenos diamantes incrustrados. Uma corrente está coberta de diamantes negros e a outra, com brancos. São entrelaçadas de forma simples, mas ainda assim estonteante, e refletem cada luz no ambiente. — Reid, isso é muito. Eu... Ele não me deixa terminar a frase. Pega o colar da caixa, fica atrás de mim e coloca meu cabelo de lado. Quando o fecha em volta do meu pescoço, beija suavemente bem embaixo da minha orelha e sussurra: — Eu te amo. Move-se para minha frente e arruma o colar. — Quando o vi, tive que comprar. É o símbolo perfeito para nós dois. Quando vi o preto, imediatamente pensei no nosso passado e em toda merda que tivemos que lidar; o branco me fez


pensar nas coisas boas que compartilhamos juntos. Como estão entrelaçados e um sobre o outro, me fazem pensar em como... sem você — ele beija a ponta do meu nariz antes de terminar de falar —, eu não teria força para seguir em frente. Você me fez perceber que a vida pode ser boa novamente e que nem tudo tem que ser ruim. Então, acredite quando digo que, quando o vi, soube na hora que tinha que comprar porque nos representa. — Essa é a coisa mais doce e romântica que já escutei na minha vida. Muito obrigada. Não apenas pelo colar, que, a propósito, é a coisa mais linda que já ganhei, mas por aflorar a felicidade em mim, quando tudo que eu sentia era dor. Amo tanto você. — Não que você não fosse linda antes, mas o colar faz seus olhos brilharem. — Beija a ponta do meu nariz e diz: — Vamos. Tenho mais coisas planejadas para essa noite. — Entrelaçando nossos dedos, ele me guia pela porta, onde o manobrista está esperando com seu carro. O jantar foi simplesmente divino. Ele me levou a um pequeno e íntimo restaurante de frutos do mar. Lampejos da luz de vela dançam por seu rosto enquanto fala sobre seu estágio, que começa semana que vem. Amo escutá-lo falando sobre ajudar as crianças. O suicídio de Shane e como seus pais o trataram depois disso realmente danificou Reid, e sei que assistir os outros vai ajudá-lo a lidar com seus próprios demônios. Pode não afastá-los completamente, mas sei que lhe dará um propósito na vida; vai trazer paz, sabendo que está confortando outras pessoas. Acho que é por isso que me trata desse jeito. Não posso ficar brava porque me mima, especialmente quando isso o faz feliz. Mas me faz sentir muito culpada, porque sei que não mereço. Dividimos um petit gateau como sobremesa e estou satisfeita. — Nossa. Não aguento outro pedaço. Estava delicioso. Ele desliza uma pequena sacola de presente pela mesa, e reviro os olhos. — Não! Não vou aceitar mais nenhum presente seu. O vestido, os sapatos e o colar são mais do que suficientes. — Estou praticamente gritando com ele por me dar um presente. Ele apenas sacode a cabeça e ri de mim. — Maddy, apenas cale a boca e abra a sacola, que, a propósito, foi a única coisa pela qual não paguei, então não fique toda nervosa sobre eu gastar dinheiro com você. Reviro os olhos, mas estou confusa. Pego a sacola e puxo um pequeno pote de vidro cheio de areia. Minhas sobrancelhas se unem em confusão e apenas o encaro. Ele responde à minha pergunta silenciosa. — Você disse que queria poder ter um lugar onde pudesse visitar seus pais. Não podemos estar aqui o tempo todo, então pensei em te dar um pedaço da praia para levar para casa. Agora sempre os terá com você. Estou chocada e sem palavras por sua consideração. — Reid... não sei o que dizer. — Não precisa dizer nada. Vamos. Quer dar uma caminhada no calçadão para fazer a digestão? Sabe, antes da atividade pesada? — Ele pisca seus olhos azuis para mim de forma sedutora, insinuando a outra parte do seu plano para a noite. — Uma caminhada sob a luz das estrelas parece ótimo. Uma caminhada em qualquer lugar


parece ótimo, desde que você esteja comigo. Ele assina o recibo do cartão de crédito e caminha para ficar atrás de mim e puxar minha cadeira. Sempre um cavalheiro. Quando chegamos ao lado de fora, está visivelmente mais frio do que antes. A brisa que estava calma e quente pela quantidade de luz solar mais cedo em um dia de outono excepcionalmente quente agora está forte e de partir os ossos. Não duramos mais do que cinco minutos lá fora antes de voltarmos correndo para nos aquecermos no carro. — Desculpe, amor. Acho que deveria ter te trazido aqui no verão. — Ele coloca a mão no bolso para verificar o celular, que está vibrando. Escutei já algumas vezes hoje à noite, mas, como estávamos no restaurante cercados por outras pessoas, não disse nada. Foi apenas uma desculpa, na verdade, mas, agora que estamos apenas nós dois no carro, sei que tenho que contar a ele. Não posso deixar isso continuar por muito mais tempo, porque a culpa está me comendo viva, especialmente depois de tudo que ele fez por mim. — Quem era, Reid? Ele simplesmente me dispensa. — Ninguém. — Ele se vira para ligar o carro, mas para quando continuo falando. — Eu vi você verificando o celular várias vezes hoje à noite. Na verdade, já te vi fazendo isso muitas vezes recentemente. Seu rosto endurece e há uma tensão palpável sendo construída dentro do carro. Talvez começar acusando-o não tenha sido a melhor ideia. Ele está tentando controlar a raiva, mas posso ver que está fervendo na superfície. Tenho que liderar essa conversa cuidadosamente. Ele finalmente fala. — Eu disse que não era ninguém. Ninguém importante, de qualquer forma. Nem mesmo conheço o número. Alcanço sua mão através da caixa de câmbio e a aperto para tentar tranquilizá-lo. Ele se acalma um pouco, mas sei que sua explosão será inevitável. — Reid, tenho uma coisa para te contar. Por favor, não fique bravo. — Registro o olhar de choque em seu lindo rosto enquanto considera cuidadosamente suas próximas palavras. — Ok. Prometo que vou tentar, mas, quando você de repente começa a duvidar de mim, pode ser que eu não consiga. Vejo um vislumbre do Reid que conheci pela primeira vez: frio, duro e volúvel. Respiro profundamente e abraço a mim mesma para me preparar para as consequências. — No feriado de Ação de Graças, percebi que você estava sempre verificando seu celular. Uma vez, quando você estava no banho... bem, ele tocou e eu atendi. — Você fez o quê? — Seus olhos estão arregalados de choque e posso escutar a mágoa em sua voz. — Por que fez isso? O que esperava encontrar? — Ele está jogando a isca e sei que sabe a resposta; apenas quer que eu diga. — Eu... não sei por que, mas pensei que fosse alguma garota que você ainda via. Sabia que já tinha dormido com várias antes de mim. Sabia que tinha necessidades, necessidades que não teve


até a noite anterior, então apenas imaginei que estivesse seguindo seus velhos hábitos enquanto esperava por mim. Ele recua com as minhas palavras e é quase como se eu tivesse lhe dado uma bofetada. Ele berra de volta para mim. — Não posso acreditar nisso, Maddy! Você realmente vai jogar meu passado na minha cara desse jeito? Não fiz tudo ao meu alcance para que você percebesse o quanto eu te amo? Então, vê uma coisa insignificante como essas poucas chamadas de um número que nem mesmo conheço e automaticamente assume o pior de mim? Como pode sequer pensar que estou te traindo? — Sua voz é venenosa e crescente, é raivosa e cheia de mágoa. Ele está cerrando os punhos ao seu lado e posso ver as veias salientes no pescoço enquanto tenta controlar sua justa ira. — Amor, eu... — Não me chame de amor, porra! — Ele está gritando comigo, e posso sentir as lágrimas no fundo dos meus olhos. Seus ombros caem e ele descansa a cabeça no volante. Parece derrotado e com dor. — Eu te amo e confiei em você com tudo e ainda assim você age pelas minhas costas. Diga-me, Maddy, quem era? Quando atendeu ao telefone, quem era? Sei que, se começar a falar, vou chorar e não tenho o direito de estar chateada, de querer sua simpatia, mas só quero que ele me puxe para seus braços e diga que tudo vai ficar bem. Quando não respondo de imediato, ele bate os punhos no volante, fazendo-me pular. — Quem era, Maddy? — Era uma garota. Ela não disse nada mais do que um alô. E eu não disse nada a ela. Não sabia o que dizer, mas, quando escutei a voz de uma mulher na linha, eu... desculpe, tirei conclusões precipitadas. É que... eu estava com medo. Pensei que estivesse me traindo e amo tanto você que o pensamento de te perder tomou conta da minha cabeça. Desculpe. Nunca quis te magoar. Ele está ameaçadoramente calmo. Sei que tenho que lhe contar o resto. É agora ou nunca. Errei e agora preciso arcar com as consequências. — Tem mais. — Minha voz é quase um sussurro. — O que você quer dizer com isso? O que mais pode ter? Você não confia em mim? Seu tom baixo e cheio de mágoa faz minha culpa aumentar. Eu errei tanto. Só queria acabar com a sua dor. Agora fervendo de raiva, ele diz: — Porra, Maddy, fale. Conte tudo. Aqui vai. — Depois que desliguei, vi que tinha um monte de chamadas do mesmo número, então anotei-o e levei até o Bryan. Imaginei que ele poderia me ajudar a descobrir quem era. Seu sarcasmo o domina. Ele revira os olhos e o rosto se contorce em várias formas de descrença. — E ele conseguiu? Descobriu o que precisava? Por que você não podia simplesmente me perguntar? Deus, Maddy, não sei o que fazer com essa porra toda! Posso ouvir a ansiedade e o pânico crescente em sua voz. No pequeno espaço de confinamento


do carro, ele parece um animal enjaulado. — Não sei por que não te procurei. Desculpe. Isso tem me matado. — A você? Isso está te matando? Ah, que dó! — Ri sarcasticamente. — Conte-me o que ele descobriu. — Seu tom é mortal e a calma que está na superfície desmente a fúria que ferve por baixo. — Quando Bryan me disse que o número do celular era de Denning, eu, bem, não sabia o que pensar. Fiquei preocupada com você, de verdade. Pensei que era Alex. Não sei por que ela ligaria depois de tanto tempo, mas não queria que te machucasse novamente. Você tinha acabado de me contar sobre Shane, sua família, e, amor, por favor, acredite em mim. Eu estava realmente preocupada. Sua raiva suaviza um pouco quando percebe a preocupação genuína em minha voz. — Assim que ele falou que o número era de Denning, imediatamente esqueci a ideia de que estava me traindo. Por favor, você tem que acreditar em mim. Não sei nem como me desculpar o suficiente por ter ido lá e não ter conversado com você. É só que... eu mantive meu coração guardado por tanto tempo que foi uma reação instintiva. Ele aperta a ponta do nariz e depois esfrega os olhos como se tentasse apagar a tensão. Retomando o senso do Reid que conheço e amo, se vira no assento para olhar dentro dos meus olhos. — Por isso nunca atendi. É um número que não conheço, mas reconheci o código de área imediatamente. Não existe ninguém lá com quem eu queira falar. — Está tentando explicar tudo calmamente, mas ele está muito, muito além disso. Tento alcançar suas mãos, mas ele as afasta. Está certo por ainda estar com raiva de mim, mas machuca-me ele não querer o meu toque. Percebendo minha dor, posso dizer que está numa briga interna sobre o que fazer. O alívio que sinto quando seus dedos entrelaçam com os meus é enorme. Talvez exista uma chance de nos recuperarmos disso. — Por favor, Reid, você tem que acreditar em mim. Sinto muito. Te amo tanto e farei qualquer coisa para provar isso. Sinto muito, muito mesmo, meu amor. Ele não diz nada. Apenas segura minha mão, passando o polegar por meus dedos. Levo nossas mãos entrelaçadas até a boca e beijo a sua, de um jeito amoroso e terno. Lágrimas estão escorrendo pelo meu rosto, não porque quero que se sinta mal por mim, mas por causa da emoção avassaladora que sinto nesse momento. Um peso foi tirado de mim quando contei tudo e ele não fugiu. Amo-o tanto e sei que farei qualquer coisa para que possamos dar certo. Sobrevivemos a algo muito pior; vamos superar isso também. Com sua outra mão, ele enxuga minhas lágrimas. Sentir sua mão na minha pele faz meu coração derreter. Ficaremos bem. Temos que ficar. Ele fala primeiro, quebrando o longo e emocional silêncio. — Não vou mentir, Maddy. Estou furioso. Muito mesmo. Mas... — ele pausa e respira fundo —


eu amo você. E por mais que não queira entender porque pensou que estivesse te traindo, eu entendo. Eu era um completo idiota antes de te conhecer e te tratei como merda no começo. Apenas prometa-me que, de agora em diante, você vai me procurar. Assim que estou prestes a fazer uma promessa a ele, seu celular vibra novamente. É o elefante branco no meio da gente, mas ele prefere ignorar. Não diz nada; apenas aperta “rejeitar” e coloca o celular de volta no console. Em seguida, começa a vibrar novamente. O som da vibração contra o plástico duro da caixa do câmbio de marcha reflete o retorno da tensão que pensei ter ido embora. — Reid? Por que você não atende? Ele me lança um olhar como se tivesse nascido outra cabeça em mim e depois suspira em descrença pela minha sugestão. — Por quê? Porque não existe ninguém naquele inferno que eu costumava chamar de lar com quem queira falar. Por mais que queira fazer parecer que não tem nada naquele lugar, sinto mágoa em sua voz e vejo a dor em seus olhos. É um longo caminho até ser curado. Quando vibra pela terceira vez, até eu me surpreendo quando sugiro que eu atenda para ele. É simples: se ele não está forte o suficiente para fazer algo, então eu faço. Por ele. Serei seu fio de luz quando ele estiver na escuridão. — Por que deixaria você atender? Nem mesmo sei quem é. Nada de bom pode vir disso, então vamos apenas ignorar. Talvez, se ele souber quem seja, atenda. Talvez se lembre de algo sobre o nome. É uma cidade pequena, talvez todos se conheçam. Tenho que dar uma chance e dar-lhe o último pedaço de informação. — O nome dela é Katelyn Donovan. Ela é caloura em New Paltz. Cresceu em Denning e foi criada pelo pai. Sua mãe os abandonou quando ela era criança e nunca mais voltou. Ele me olha chocado e apavorado ao mesmo tempo, mas não diz nada. — Reid, por favor, deixe-me fazer isso por você. Ela obviamente tem algo a dizer, já que está insistindo tanto. Vamos apenas ver o que é para sabermos o que fazer. Estarei ao seu lado o tempo inteiro. Prometo. Eu te amo. Mais uma vez o celular vibra, mas, dessa vez, ele o pega do console. Apenas encara a tela, obviamente contemplando se deve ou não atender. Deslizando o polegar na tela, ele atende.


Estou muito assustado, mas Maddy está certa. As ligações não vão parar até que eu atenda. “Donovan” parece familiar, mas, mais uma vez, não é um nome incomum. Tomando coragem para me atirar ao desconhecido, atendo o telefone. — Alô? — A palavra treme na minha garganta; odeio parecer fraco. — Alô. É Reid Connely? — Sua voz suave oscila em descrença. — Sim. Quem é? — Minha fraqueza se foi. Já estou preparado para o que quer que ela tenha a dizer. — Meu nome é Katelyn. — Faz uma pausa antes de acrescentar seu sobrenome. — O que você quer? Por que tem me ligado? — Estou sendo duro, um filho da puta, sei disso, mas, honestamente, só quero terminar essa merda e seguir minha vida. — Hum, bem... é sobre a sua mãe, Reid. Meu mundo gira. O telefone quase cai da minha mão, mas consigo segurá-lo a tempo. Lentamente e com a voz mais controlada que consigo, digo: — Não tenho mãe. Ela está morta para mim. Termino a ligação e desligo o celular. Ligo o carro e saio do estacionamento, indo em direção ao hotel. Não olho para Maddy; não posso. Ela vai querer me fazer falar sobre a ligação, mas não posso agora. É mais fácil enterrar profundamente e ignorar. A volta de quinze minutos para o hotel passa em completo silêncio. Não tem nada a ser dito, na verdade. Entrando em nosso quarto, Maddy passa seus pequenos braços por trás das minhas costas e


descansa a cabeça lá. — Quer conversar sobre isso, Reid? Rio um pouco do ridículo da pergunta. — Não, definitivamente não quero conversar sobre isso. Meus pais estão mortos para mim. Eles repudiaram o Shane e pararam de reconhecer a minha existência simplesmente porque reconheci a do meu irmão. Não tem nada que ela tenha a dizer que eu queira escutar. Vou tomar banho e depois dormir. Só quero que esse dia termine. — Saio da sala para o banheiro sem nem olhar para trás. Preciso ficar sozinho. Demoro mais tempo no banho do que o meu normal, mas quero que a água escaldante queime todas as memórias e a dor. Não funciona. Voltando para o quarto, pego uma calça de moletom e uma camiseta, quando escuto uma voz na varanda. Mas que porra é essa? Vou para a sala e fico fora de vista. Posso ouvir pedaços do final da conversa de Maddy. Aproximo-me mais, mas ainda permaneço fora de seu campo de visão. — Entendo, Katelyn... Não escuto o resto da frase. Meu estômago revira e meus punhos se fecham involuntariamente. Meu coração acelera de raiva pela sua traição. Como ela pôde? Ela volta a falar e me reoriento para escutar o que está dizendo. — Pode deixar. Vou tentar conversar com ele. Não posso prometer nada. Ele está magoado, mas vou tentar falar sobre isso. Ok, ligo para você amanhã. Tchau. — Ela desliga e coloca o celular no bolso da calça. Quando se vira para passar pelas portas de vidro, me vê e suspira em choque. Imagine como me sinto. — Ah... oi... eu... estava falando com a Mel. Ela está tropeçando nas palavras. É uma péssima mentirosa, mas dessa vez a peguei em flagrante e não vou deixá-la se safar. Ela tenta passar por mim, mas não consegue. Um olhar assustado passa por seu rosto e ela olha dentro dos meus olhos duros e intensos. — Com quem você estava ao telefone, Maddy? — Já disse... — Não venha me dizer que era a Mel! — A fúria em minha voz a faz pular. — Escutei você, então me diga a porra da verdade. Quem era ao telefone? Ela está tremendo de pânico. Sua voz treme ao confessar. — Era a Katelyn. Mantenho meu olhar. Já sabia disso, mas pelo menos ela está me falando a verdade agora. — E pode me dizer por que você ligou para ela? — Desculpe, Reid. — Lágrimas começam a encher seus olhos, e ela está aos soluços. Não tenho mais energia para suas desculpas, para seu sentimentalismo. Estou mergulhado num mar de raiva. — Pare com a porra das lágrimas, Maddy, e me diga por que ligou para ela.


Paro diante dela, diminuindo seu espaço, e percebo que ainda está tremendo. Pego seu braço e caminho até a sala. Giro-a de forma que me encare e pergunto mais uma vez, para que me conte o que está acontecendo. — Quando escutei você dizendo que era sobre sua mãe, tive que ligar e descobrir o que estava acontecendo. Ela é sua mãe, Reid. Isso não importa? — Não é da porra da sua conta! Você não se importa de ela ter renegado os próprios filhos? De não ter entrado em contato comigo nos últimos três anos? Essa porra não importa? — Ela está doente. Morrendo. Precisa da sua ajuda, Reid. Você é sua última chance. — Maddy está praticamente gritando comigo agora, mas não escuto o que diz. Grito mais alto ainda. — Não me importo com o que ela precisa! Ela não estava lá para mim quando precisei, e nem para o Shane, quando precisou dela. Ela era nossa mãe e nos deu as costas! Que tipo de mãe é essa? Nunca mais quero ouvir nada dela. Maddy endireita a coluna e me cutuca com força no peito. — Você é um filho da puta egoísta! Você por acaso sabe o que eu daria para ter meus pais de volta na minha vida? Mas não posso, porque eles estão mortos; real e verdadeiramente mortos. Sim, sua mãe foi uma merda por fazer o que fez, mas está viva, talvez não por muito tempo, e precisa da sua ajuda, mas você está sendo um idiota por ignorá-la. Se há alguma pequena possibilidade de ajudá-la, então precisa fazer isso. E se ela morrer? — Já está morta há muito tempo no que diz respeito a mim! — Não, não está, Reid. Está viva. Minha mãe está morta. Nunca a terei de volta, mas você pode ajudar a sua. Sei que, se ela morrer e você não ajudá-la, vai se arrepender pelo resto da sua vida. Sua raiva diminui um pouco e quase quero me entregar, mas não o faço. — Não existe a menor possibilidade de eu ajudá-la. Entendeu? Perder seus pais não te dá o direito de fazer qualquer coisa no que diz respeito à minha vida. É uma merda que seus pais estejam mortos, mas eles nunca machucaram você como os meus me machucaram. Fazer-me conversar com minha mãe não vai trazer os seus pais de volta, então deixe essa merda de Madre Teresa para lá e supere essa porra. O mundo não gira em torno de você e sua dor, Maddy. Não é porque a minha vida não é como a sua que significa que você seja melhor do que eu. Como se atreve a me julgar? — Quer saber? Não, eu nunca vou entender como alguém pode virar as costas para a própria mãe porque é algo que eu jamais faria. Isso é tão horrível que eu quero que você faça a coisa certa, para ser o homem que sei que é. Você está errado, Reid, e não importa o quanto te amo, não posso ficar ao seu lado enquanto deixa sua mãe morrer. Estamos dizendo coisas feias e terríveis um para o outro. Minha garganta dói por causa dos gritos e Maddy parece exaustada em decorrência da energia que está gastando tentando me convencer a conversar com a minha mãe. Ela pega a minha chave do carro em cima da mesa e corre até a porta.


— Não posso ficar aqui com você. Volto mais tarde quando estiver mais calmo, e espero que com o juízo recuperado. — Com isso, ela sai. Pego a garrafa de champanhe que comprei mais cedo do frigobar. Não tem mais o que celebrar agora. Ando para a varanda e encaro as estrelas. Estourando a rolha em direção ao céu noturno, sento na cadeira da varanda e coloco as pernas na grade. Termino a garrafa em poucos minutos e volto ao minibar. Quando está vazio, desço até o bar do hotel para tentar acalmar minha raiva. Não funciona. Quando volto para o quarto, já passa das três da manhã, e desmaio sem nem me dar conta de que a Maddy não está ao meu lado.


Em algum lugar ao longe, escuto batidas. Minha cabeça está nebulosa por causa do álcool. A luz que penetra pela janela é dolorosa. Eu nunca bebo e essa ressaca é enorme. Olho para o meu lado, mas Maddy não está. Será que está no sofá? Não me lembro de escutála chegando de madrugada, mas, de qualquer forma, depois da minha quinta dose de uísque, não lembro de muita coisa. Olhando para o relógio ao lado da cama, percebo que já passa das onze da manhã. Ela saiu há quase doze horas! Tento levantar da cama, mas minhas pernas estão instáveis e o quarto gira. Quando chego à sala e vejo o sofá vazio, fico sóbrio e meu estômago revira. Ela nunca voltou. Quando escuto as batidas novamente, a preocupação me domina. Tentando me acalmar, digo a mim mesmo que provavelmente é a Maddy. Acho que ela não tem uma cópia do cartão. Ando com as pernas bambas até a porta e consulto o olho mágico. O mundo some. Destranco a porta e quase caio no chão quando o policial mostra seu distintivo e apresenta seu parceiro. — Sou o oficial Rivera, e esse é meu parceiro, oficial Murphy. Podemos entrar? Não digo nada. Apenas abro caminho para que possam entrar. — Seu nome é Reid Connely? — o oficial Rivera pergunta, mas parece que já sabe a resposta, então apenas balanço a cabeça em concordância. — Você é dono de um Ford Mustang preto, 2008? — continua. — Sim, oficial, mas não o dirijo desde ontem à noite. — Eles dão uma olhada em minha aparência. Tenho certeza de que estou uma completa bagunça e posso garantir que cheiro como a garrafa de uísque que bebi na noite passada.


— Isso foi antes ou depois de você beber, jovem? — O oficial Murphy acena com o queixo em direção à pequena mesa da sala, que está repleta de garrafas do minibar. — Foi antes. Eu juro. Minha namorada e eu tivemos uma briga e ela pegou a chave do carro para dar uma volta e esfriar a cabeça. Ela... ah, Deus... por favor, digam-me que está bem. Onde ela está? Lágrimas queimam meus olhos e um grande caroço se forma na minha garganta. Ela tem que estar em segurança. Não posso perdê-la. Por favor, que eles estejam aqui por pensarem que ela roubou meu carro. Por favor, que ela esteja bem. — Desculpe, filho, mas ela teve um acidente na noite passada... Os restos de suas palavras desaparecem no fundo da minha mente e caio de joelhos. Seguro a cabeça em minhas mãos e choro descontroladamente. Não! Não! Não! Isso não pode estar acontecendo. Sinto meu coração estilhaçar no peito enquanto penso nela ferida. Sinto uma mão nas minhas costas e vejo outra tentar me ajudar a levantar. O oficial Rivera diz: — Ela está viva, mas em estado crítico. Está no Hospital St. Francis. Estamos tentando entrar em contato com você a manhã toda. Quando conseguimos falar com o parente mais próximo dela, Melanie Crane, ela nos deu seu número e nos disse que estavam aqui. Tentamos ligar para o seu quarto e seu celular, mas ninguém atendia. Se quiser, podemos te levar lá para vê-la. A senhorita Crane está a caminho. Entorpecido, visto algumas roupas e me recomponho para ir com os oficiais. Não posso fazer isso, não posso encarar a possibilidade de ela não sobreviver. Fui um idiota com ela na noite passada. Preciso vê-la, me desculpar, dizer que a amo. Ela não pode me deixar. Isso não pode estar acontecendo.

Entro no hospital e imediatamente sou atingido pelo cheiro forte de antisséptico. Queima meu nariz e olhos, mas estaria mentindo se dissesse que essa é a única causa das minhas lágrimas. Se achei que tinha sentindo dor antes, estava me enganando. Maddy é minha força; Maddy é a luz na escuridão. Preciso dela como preciso da minha próxima respiração e até mesmo o menor pensamento de perdê-la dilacera meu coração. Sem pensar, bato no botão que chama o elevador e subo até o terceiro andar para a sala de espera da uti. Uma enfermeira vem até mim, mas mal reconheço sua presença. — Senhor? Posso ajudá-lo? — Sua voz deriva entre a neblina de dor e preocupação que está me engolfando. — Madeleine Becker. Minha Maddy está aqui. Preciso vê-la. — Você é da família? — Não, mas ela é minha. Meu tudo. Apenas balanço a cabeça quando as lágrimas voltam. — Não, não sou. Ela é minha namorada. Estávamos de férias... — Minhas palavras derivam, e


a enfermeira me leva até algumas cadeiras. — Espere aqui, vou ver o que posso fazer por você. Ela vai até o posto de enfermagem e procura nos arquivos. Em alguns minutos, ela volta, seu rosto ilegível e o comportamento até muito calmo. — A situação dela é crítica, mas estável. A grave concussão causou um inchaço no cérebro, então agora está inconsciente, mas é capaz de ouvi-lo. Gostaria de vê-la por alguns minutos? Não sei por que estou autorizado a vê-la, já que não sou da família, então presumo que a Melanie tenha dito algo sobre isso. Então, apenas sigo a enfermeira para um pequeno quarto mal iluminado. Escuto o constante bipe de alguma máquina ao fundo enquanto meus olhos voam para o corpo machucado de Maddy deitado na cama. Tem tubos e agulhas ligados aos dois braços. A cabeça está enfaixada e manchada de sangue. O braço esquerdo está engessado até o cotovelo e o lindo rosto está machucado e inchado. Caio no choro novamente ao vê-la nessa condição. Vou até o lado da cama e o horror se estabelece. E se ela não acordar? E se ela morrer? Escuto a enfermeira começar a explicar algumas coisas. — O rosto dela parece pior do que realmente está. Os hematomas são principalmente do air bag, mas o nariz e o osso orbital direito quebraram com o impacto. Nesse momento, estamos esperando ela acordar. Enxugo as lágrimas, nem um pouco envergonhado da minha incapacidade de controlar minha tristeza. — Quando será isso? — Vamos ter que esperar para ver. Esperamos que seja em breve. Sente e converse com ela. Pode ajudar. A enfermeira sai, deixando apenas Maddy e eu no quarto. Puxo a cadeira para perto da cama e me sento ao seu lado. Pego sua mão frágil na minha e a levo até meus lábios. Sinto o gosto do sal de minhas lágrimas e desmorono de novo. — Maddy, amor, por favor, acorde. Desculpe, meu amor. Retiro todas as palavras horríveis que disse antes de você sair. Amor, sinto muito, muito mesmo. Por favor, por favor, volte para mim. Maddy... — Minha voz está embargada pela dor e emoção. Parece estranha até mesmo para mim. Depois de alguns minutos, a enfermeira volta para me dizer que tem alguém aqui para vê-la. Melanie. Quando volto para a sala de espera, Melanie corre para os meus braços. Lágrimas escorrem por seu rosto cheio de sardas. — O que aconteceu, Reid? Por favor, me diga que ela vai ficar bem! Fiquei tão assustada quando me ligaram. Onde você estava quando isso aconteceu? Por que não conseguiam entrar em contato com você? — Ela está em pânico e estou com medo de contar que é tudo culpa minha. Estou perdido na minha dor e culpa. Caio no chão à sua frente, deslizando pela parede atrás de mim. Melanie senta-se comigo e puxa minhas mãos para ela. Ela me pede para começar a falar e coloco tudo que consigo junto.


— Brigamos. E eu disse algumas merdas para ela. Ela saiu porque estava brava comigo. Fiquei bêbado porque estava com muita raiva. Nem percebi que ela não tinha voltado até os policiais aparecerem no hotel hoje de manhã. Não há necessidade de elaborar mais. O ponto é que a culpa é minha por ela estar aqui, assim como é por Shane estar morto. Por que causo tanto sofrimento às pessoas? Por que fodo com tudo? Se eu tivesse apenas escutado e concordado em deixá-la me ajudar a encarar meu passado, ajudar minha mãe, então ela estaria segura. Estaríamos provavelmente fazendo amor, aquecendonos no sol. Mas, ao invés disso, estamos aqui, esperando-a acordar e retornar para nós. Estou chorando de novo, ou ainda, e Mel inclina a cabeça em meu ombro. — Vai ficar tudo bem, Reid. Ela é mais forte do que qualquer um que eu conheço. Ela tem que ficar bem. — Mel está perdida em lágrimas e estamos nos apoiando através dos pensamentos dolorosos de perder a pessoa que é mais importante pra gente. Quando se acalma um pouco, levanta e me puxa com ela. Vagamente percebo que Cammie está sentada em uma das cadeiras à nossa frente. E me oferece um pequeno sorriso de simpatia. — Vou ver se posso visitá-la agora. — Mel caminha até o posto de enfermagem. Eu sento na cadeira ao lado de Cammie. Perco a batalha com minhas emoções novamente e desabo. Cammie me segura e tenta me acalmar, mas é realmente inútil. A única pessoa que foi capaz de me ajudar com minhas emoções está inconsciente no quarto ao lado. E tudo por minha culpa. — Fodi tanto com as coisas, Cam. Disse coisas horríveis para ela. Ah, Deus, e se ela não acordar? E se eu perdê-la? Não posso... — Começo a hiperventilar com o pensamento de perder Maddy. Ela é meu mundo e sem ela sei que retornarei para as sombras do homem que uma fui vez. — Shh. Shh. Está tudo bem, Reid. Ela ficará bem. — Ela segura meus ombros e se afasta de mim, olha nos meus olhos e diz: — Reid, às vezes, falamos coisas terríveis para as pessoas que mais amamos. Só se pode machucar de verdade as pessoas que se ama. Não vou dizer que a Maddy vai estar pronta para te perdoar, mas você a ama, então fará tudo o que estiver ao seu alcance para consertar as coisas com ela. E porque ela te ama, vai te perdoar. — Dá um pequeno sorriso brincalhão, tentando amenizar o humor, mas nada vai aliviar a minha escuridão. Nada. A não ser Maddy.

Algumas horas mais tarde, a Senhora Crane chega, o rosto manchado de lágrimas. Mel conta a ela todos os detalhes e elas choram abraçadas com o pensamento de Maddy sofrendo, de não acordar. Estamos todos amontoados na sala de espera. Jack também está aqui. Ele trouxe Cammie e Mel. Não é de se espantar que as garotas não tivessem condições psicológicas de fazerem essa viagem sozinhas. Lia e Logan já estavam a caminho de casa para a primeira parte das férias de inverno, então não puderam vir com os outros. Cammie tem estado no telefone a maior parte do tempo que está aqui, contando a todos o estado de Maddy.


Ver Mel e a senhora Crane se abraçando tão apertado me faz pensar em Maddy. Tudo me faz pensar nela, mas essa cena me faz pensar em tudo o que ela disse sobre a minha mãe antes de sair. Lampejos de percepção e sentimento de remorso profundo começam a me consumir enquanto penso nas palavras dela. Não, não está, Reid. Está viva. Minha mãe está morta. Nunca a terei de volta, mas você pode ajudar a sua. Sei que, se ela morrer e você não ajudá-la, vai se arrepender pelo resto da sua vida. A dura realidade é que, se Maddy não acordar, se eu a perder, nunca serei capaz de segurála novamente, de dizer que a amo. Nunca acordarei em seus braços ou a sentirei traçando linhas imaginárias no meu peito. Pela minha visão periférica, vejo um médico se aproximando. — Vocês são da família de Madeleine Becker? Todos nos levantamos quando escutamos o que ele diz. Senhora Crane fala pelo grupo. — Ela está bem? Quando vai acordar, doutor? — O inchaço está começando a ceder. Os sinais vitais estão mais fortes desde que a estabilizamos quando ela chegou. O acidente não foi com impacto direto, então ela parece pior do que realmente está. Se o inchaço continuar a diminuir, há uma chance de ela acordar amanhã ou depois. Meu coração começa a bater novamente e meus pulmões inalam uma respiração instável e trêmula. — Então ela está bem? Não vai morrer? — Sinto como se o peso do mundo tivesse sido tirado do meu peito. De repente, a luz volta à minha vida, e posso respirar novamente. — Não, filho. Parece que ela vai ficar bem. Só precisa acordar. Por que vocês não vão lá passar algum tempo com ela antes de irem para casa descansar? Ligaremos se houver alguma mudança no quadro. Cammie e Jack vão primeiro e são rápidos. Quando ela volta para a sala de espera, seus olhos estão vermelhos e inchados de chorar. Está tremendo, então Jack tenta acalmá-la. Eles saem, dizendo que esperarão no carro. Melanie é a próxima. Demora um pouco mais que Cammie, mas sua reação é a mesma: olhos vermelhos, inchados e peito arfando por causa dos soluços. A senhora Crane abraça a filha e a consola, massageando círculos lentos e calmantes em suas costas. Passa Mel para meus braços para que possa dar boa noite para sua outra garota, a quem ama tanto quanto essa que está em meus braços. A senhora Crane sai alguns minutos depois e puxa Mel de volta para seus braços. Tem lágrimas nos olhos também e sua respiração está pesada. Está tentando reprimir as emoções, ser forte por Melanie, e sinto uma pontada de culpa por não existir um terceiro ali para confortá-las. — Vocês vão em frente. Dei a Jack as informações do hotel. Podem ficar lá hoje à noite. Vou dormir aqui na sala de espera. Tomem um banho quente e comam. Vocês estão cansadas da viagem. Prometo ligar se tiver alguma mudança.


Mamãe C me abraça calorosamente e coloca as mãos nas minhas bochechas quando está prestes a sair. — Ela vai ficar bem, Reid. Tem que ficar. Abraço-a e beijo o topo de sua cabeça antes de soltá-la. Elas não argumentam; é inútil, na verdade. Um exército não conseguiria me levar para longe dela. As duas atravessam as portas da UTI até um elevador. Estou sozinho. Vou para o quarto de Maddy devagar, silenciosamente rezando e pedindo para um Deus no qual não acredito que Maddy acorde. E talvez, se eu for sortudo, ela me perdoe quando acordar.


Sento na cadeira na qual estive mais cedo e pego sua mão na minha mais uma vez. Sei que deveria dizer algo, qualquer coisa, mas nenhuma palavra vem. Apenas seguro sua mão e choro. Choro pela dor que lhe causei, pela dor que estou sentindo profundamente na minha alma e que venho carregando há muito tempo. Com base na sua força interior, penso em tudo o que ela me disse. O pensamento de Maddy morrendo sem eu ser capaz de dizer a ela o quanto sinto muito passa pela minha cabeça. Pela primeira vez desde que Shane morreu, permito pensar em deixar meus pais entrarem na minha vida novamente. E se minha mãe tiver pensamentos parecidos? E se ela quiser apenas me dizer pela última vez que me ama? Sei que eu nunca me perdoaria se não pudesse dizer a Maddy que a amo e segurá-la em meus braços uma última vez. Não estou pronto para deixá-los entrar novamente, mas, pela primeira vez desde que viraram as costas para mim, não estou completamente fechado à ideia. Passo o resto da noite vagando entre a máquina de café e a sala de espera. Perto das duas da manhã, a enfermeira gentilmente balança meu ombro para me acordar. Meu pescoço e costas estão me matando por dormir na cadeira da sala de espera, mas dormiria para sempre se significasse que Maddy estaria bem. De repente, o pânico me atinge, pensando que algo de errado deve ter acontecido. — O quê? Ela está bem? — Estou imediatamente acordado; meu desconforto esquecido. — Sim, Reid. Ela está bem. — Começamos a nos chamar pelo primeiro nome desde que seu turno começou e ela viu que eu não ia embora. — Apenas pensei que estaria mais confortável na cadeira reclinável do quarto dela. — Sorri e


começamos a caminhar até o quarto de Maddy. Quando estamos em frente à cadeira, diz: — Peguei um travesseiro extra e um cobertor. Agora, tenho que tirá-lo daqui quando meu turno terminar, mas não poderia assistir você dormindo lá fora. — Obrigado, Carolyn. É muito legal da sua parte. — Puxo o cobertor e tento me ajeitar, mas o bipe implacável das máquinas me mantém acordado. Deslizo para a cadeira perto de Maddy e tento conversar com ela. — Maddy, amor, sou eu, Reid. Só quero que saiba que estou aqui esperando você acordar e estou tão arrependido, linda. Por favor, acorde. Amo você. — Puxo sua mão para meu rosto e beijo levemente, passando seus dedos pela minha bochecha. E então acontece. É leve, mas eu sinto. Sinto sua mão mover na minha, então começo a falar de novo. — Isso mesmo, querida. Estou aqui e também a Mamãe Crane, Mel, Cammie e Jack. Estamos todos aqui por você e todos te amamos muito. Amo você, linda, te amo tanto. Por favor, acorde para nós. Ela aperta minha mão novamente e começa a se mexer na cama. Não consigo segurar as lágrimas de alegria e alívio que deslizam pelo meu rosto. — Você pode me escutar, amor? Por favor, abra os olhos. Por favor, Maddy, acorde, por favor. Ela para o pequeno movimento que estava fazendo e meu coração afunda. Coloco minha cabeça na cama ao lado de sua mão e choro como um bebê. Quando sua mão se mexe e ela passa os dedos por minhas bochechas, paro de respirar completamente. — Oi, por que todas essas lágrimas? — Mesmo sua voz estando rouca e áspera, ainda é a coisa mais linda que já escutei na vida. Ela tosse por causa do esforço de falar essas poucas palavras. — Shh. Tudo bem. São lágrimas de felicidade agora. Deus, estou tão feliz que esteja bem. Amo tanto você, Maddy. — Estou beijando seus dedos e qualquer parte da mão e braço que não está coberto pelo gesso frio e duro. — Deixe-me chamar a enfermeira para você, amor. — Não, não vá. Por favor. Fique comigo. Diga-me o que aconteceu. Por um momento, sou um egoísta esperançoso de que talvez ela não lembre de nossa briga. Talvez não se lembre de todas as coisas odiosas que eu disse a ela. — Você sofreu um acidente, minha linda. Estava num cruzamento prestes a fazer uma curva à esquerda quando alguém avançou o sinal do outro lado. Ainda tentaram desviar para não te atingir e quase conseguiram. Não foi um impacto direto, mas ainda assim foi ruim. Você ficou apagada por quase um dia inteiro. Maddy tenta se ajustar na cama, mas suspirar de dor. — Por favor, Maddy, deixe-me chamar a enfermeira. Ela vai te dar algo para dor. Volto logo. Carolyn volta comigo e checa os sinais vital de Maddy. Quando o médico vem examiná-la, saio do quarto com Carolyn. Sinto-me mais leve e mais esperançoso do que já estive em toda a minha


vida. Quando o médico sai, me diz que vai dar algo a ela para dor e que provavelmente ela ficará derivando entre dormir e acordar por um tempo. Antes de retornar ao quarto, ligo para Melanie e conto que Maddy acordou e está bem. Mel diz que estarão aqui assim que puderem. Depois de desligar, volto rápido para o lado de Maddy, segurando sua mão novamente. Vou segurá-la para sempre, se ela deixar. Ela quer falar, mas eu a silencio imediatamente. Ela precisa descansar. — Tudo bem, Maddy. Estou bem aqui. Não vou a lugar nenhum. Durma, amor. Estarei aqui quando acordar. Eu te amo. — Quero passar os dedos em suas bochechas suavemente. Quero beijar seus lábios macios, mas não quero machucá-la. Nunca mais quero machucá-la de novo. Ao invés disso, apenas deito a cabeça perto de sua mão e deixo o som das máquinas me embalarem ao lado do meu amor.


Uma batida na porta me faz acordar do meu sono leve. Endireito-me na cama e digo a quem quer que seja para entrar. — Como está se sentindo essa manhã, Senhorita Becker? — A doutora McNamara tem esperança de que eu possa ir para casa hoje e eu também. Tenho me recuperado rapidamente, mas, por ter quebrado alguns ossos no rosto e nariz, tive que fazer uma pequena cirurgia depois que recobrei a consciência. Meu rosto ainda está inchado e machucado, mas me garantiram que as cicatrizes quase não são visíveis. — Ainda estou meio dolorida, mas definitivamente pronta para sair daqui. Uma semana no hospital não é exatamente o que eu tinha em mente. — Dou uma risada forçada. É o melhor que consigo fazer nesse momento. Realmente, só quero ir para casa. De todos os médicos que vi aqui, a que mais gosto é a Dra. McNamara. Ela é nova, não tem mais do que trinta e poucos anos. Seus olhos castanhos e bondosos fazem uma ruguinha nos cantos. E quando ela fala comigo, posso escutar uma preocupação genuína em suas palavras. Quando se senta na cadeira ao lado da minha cama para revisar meus papéis de alta, vejo um olhar de preocupação passar por seu rosto. Ela estende a mão para segurar a minha, atitude que não faz parte do roteiro, creio eu. — Seu exame de sangue final chegou do laboratório hoje de manhã. — Ela faz uma pausa enquanto lê os papéis da minha liberação, como se estivesse verificando algo. — Ótimo. Isso significa que vou para casa hoje? — Sinto-me como uma criancinha no Natal ou no último dia de escola. — Parece que sim. Está tudo ok. — Ela passa as medicações que precisarei tomar quando sair


daqui: antibióticos para evitar possíveis infecções, anti-inflamatórios para o inchaço e creme de cicatrização. — Obrigada, comprarei todos assim que chegar em casa. — Apesar das dores persistentes, estou praticamente pulando da cama para arrumar minhas coisas. — Você também vai querer essa prescrição e precisa ligar para sua ginecologista. Com todo esse caos de acidente e depois da cirurgia, tinha esquecido completamente do meu anticoncepcional. Dou uma olhada nos papéis, esperando ver uma coisa e vejo algo completamente diferente. — Acho que você me deu a receita errada, Dra. McNamara. Aqui diz vitaminas de pré-natal. Eu preciso de anticoncepcionais. — Minha mão está trêmula enquanto a levanto para devolver a receita a ela. Ela olha para a receita e depois volta a se sentar na cadeira. — Temo que não, senhorita Becker. Como parte do exame de sangue normal, pedimos um exame de gravidez e o seu deu positivo. E já que o número de hormônios ainda é relativamente baixo, presumo que não esteja grávida há muito tempo; algumas semanas, no máximo. E considerando sua reação, também presumo que não sabia. — Não pode ser. Eu tomo anticoncepcional. Estava tomando. Peguei na clínica do campus e tomava religiosamente todo dia. Como? Não entendo! — Estou surtando. Grávida! Como essa porra aconteceu? — Por quanto tempo vem tomando? — Aproximadamente um mês, acho. Era para eu começar uma cartela na manhã seguinte ao acidente. — E quando foi sua última menstruação? — Ela pega seu smartphone do bolso do jaleco e abre o que imagino ser um calendário. — Hum, acho que foi no início da semana das provas finais, mas veio pouco. O médico do campus disse que era possível que minha menstruação diminuísse ou não viesse um fluxo grande, então não dei importância quando durou pouco mais de um dia. — Também te disseram para usar outro meio contraceptivo durante o primeiro mês, por precaução extra? — Não, nunca mencionaram isso. — O mundo para de girar. Como puderam esquecer de me dizer algo tão importante? Ela clica em mais algumas coisas no celular e olha para o meu prontuário uma última vez antes de devolver o celular para o bolso, depois coloca meu prontuário no colo. Inclina-se e segura minhas mãos nas dela. Está no modo completamente médico agora, quando começa a explicar como tudo aconteceu. — Para algumas mulheres, a pílula nem sempre funciona de imediato. É muito raro, mas, como precaução, a maioria dos médicos diz às suas pacientes para usar outro meio contraceptivo no primeiro mês, enquanto seus corpos ainda estão se acostumando com os novos hormônios. Foda! Foda! Foda! Isso está acontecendo!


— Suspeito que o que você achou ser sua menstruação era um escape que a maioria das mulheres tem no início da gravidez. Considerando tudo o que passou, você é sortuda, senhorita Becker. Não posso evitar o escárnio que sai pela minha boca. Desculpe-me, mas ela acabou de dizer que era sortuda? Mas que porra de sorte há nessa situação? — Uhu, essa sou eu. O autêntico trevo de quatro folhas. Dra. McNamara me dá uma olhada de canto de olho por minha atitude irreverente. — Para começar, você está viva. E o mais importante, seu bebê também — ela me repreende, mas suaviza na última parte. Meu bebê. E mais do que de repente, torna-se mais real. Tem uma pequena pessoinha crescendo dentro de mim. Uma pessoa feita de mim e Reid. Vários pensamentos embaralham meu cérebro, mas o mais proeminente é Reid. Como ele irá reagir? Estamos juntos há poucos meses, e agora um filho! Ele nunca pediu por isso; inferno, nem eu. Então, penso na nossa briga sobre sua mãe e todas as coisas horríveis que ele me disse sobre ela. Estou tentando ver isso por todos os ângulos possíveis. Definitivamente, ela é menos do que digna de atenção depois do jeito que tratou Shane e Reid e a morte de Shane, mas, mesmo assim, ela é mãe dele. Reid está aqui por sua causa e não entra na minha cabeça como ele pode ser tão frio e insensível com a pessoa que o pôs no mundo. Se ele pôde facilmente apagá-la de sua vida — por qualquer que seja a razão que pense que tem —, o que irá impedi-lo de me esquecer um dia? O que acontecerá quando ele deixar de me amar? Venho tentando controlar minhas inseguranças, mas elas estão começando a me consumir, e de repente as paredes estão começando a voltar ao seu lugar. Como seria possível eu olhar dentro dos olhos do meu filho e entregá-lo para Reid, sabendo que ele deixou sua mãe morrer sem lutar por ela? Não poderia. Já tem dor e sofrimento o bastante nesse mundo. Não posso me imaginar lidando com a culpa dele por sua mãe ter morrido caindo sobre mim, sobre nós, sobre nosso filho, quando, na verdade, existe algo que ele pode fazer para que isso não aconteça. Se ele é capaz de tirar a mãe da vida dele quando ela mais precisa de sua ajuda, poderia ele ser capaz de fazer o mesmo comigo e nosso filho? Esse último pensamento me atinge como se fosse uma tonelada de tijolos: nosso filho. Enquanto a ideia de ter um filho aos dezoito anos me assusta como nunca, não posso negar que estou feliz por finalmente ter a família que sempre quis. Essa pequena pessoinha será parte de mim, e nada pode atrapalhar isso. A não ser o Reid. Tenho quase certeza de que no meu rosto estão passando milhares de emoções enquanto tento processar tudo. É muito para aceitar e fico grata quando Dra. McNamara se levanta para sair. — Já volto com os papéis da sua alta. Você deve sair daqui na hora do almoço. Não se esqueça das vitaminas juntamente com todo o resto.


Parando perto da porta, ela faz uma pausa, sua mão na maçaneta. Vira-se para mim e caminha em direção à cama. — Maddy, posso dizer apenas uma coisa? — Seu tom é de cautela, como se estivesse pisando em território desconhecido. — Claro. Qualquer coisa. — Não se preocupe. Digo, sobre estar grávida. Você pode se preocupar o quanto quiser, mas não mudará as coisas. Quer que seus primeiros pensamentos sobre seu filho sejam de arrependimento e remorso? Preocupação não vai mudar a situação, então deixe tudo acontecer e se jogue no caminho à sua frente. Pode achar, a princípio, que seu caminho é escuro e solitário, mas, eventualmente, o sol nascerá e irá iluminá-lo. Posso vê-la visivelmente tentando controlar suas emoções, como se quisesse retirar o que tinha dito. — Sinto muito. Ultrapassei os limites. Não é da minha conta como lidará com isso e como se sente. É que... bem, não queria que se sentisse sozinha. Só isso. Culpa recai pesadamente sobre mim, fazendo-me engasgar um pouco com as palavras. — Não, tudo bem, acredite. Não ultrapassou os limites. Foi, na verdade, um ótimo conselho. — Bom. Então, acho que te verei mais tarde. Quando chega novamente à porta, me oferece um pequeno sorriso e um aceno de cabeça e sai. Sou deixada sozinha no quarto com os pensamentos sobre Reid, nosso filho, sua mãe morrendo e também sobre a nossa relação. Realmente desejaria ter perguntado sobre alguma medicação para dor. Poderia tomar algo para me deixar letárgica, algo para anestesiar a dor que está me sugando para um profundo abismo de escuridão. Lágrimas ameaçam me afogar e meu peito pesa quando tento puxar um pouco de ar para os pulmões enquanto o choro se intensifica. E claro, é nessa hora que Reid escolhe entrar no quarto. Praticamente corre para o meu lado quando me vê chorando. Gentilmente afastando meu cabelo que está caindo nos olhos, com cuidado para não tocar meus machucados, levemente pressiona seus lábios em minha testa. Ele não diz nada; não é preciso. É como uma linguagem não escrita de amor e suporte. Quando um está sofrendo, o outro apenas abraça forte, deixando a força infiltrar pelos ossos e profundamente na alma. Nunca é cansativo ou extenuante porque sempre estamos ali para nos dar força. Enquanto passa os dedos pelo meu cabelo, penso em quão incrível ele foi durante minha recuperação. Trouxe-me flores quase todos os dias e, na manhã depois que acordei, a primeira coisa que vi além de seus olhos azuis brilhantes, foi o pote de areia da praia dos meus pais. Disseme que sabia que gostaria deles aqui enquanto estivesse me recuperando. Entretanto, agora mais do que nunca, apenas gostaria que ouvisse suas próprias palavras e deixasse sua mãe voltar para sua vida enquanto ainda pode. De repente, sentimentos de agitação e angústia começam a me sufocar. O timbre calmante de Reid quebra meus pensamentos.


Ele encosta seu rosto no meu e cola nossos lábios. Fisicamente, reajo de imediato. Senti sua falta e, bem, agora esse tumulto interior está me fazendo desejar tanto seu conforto quanto seu afeto. — Fale comigo, amor. O que houve? — Me puxa para seu lado e me aconchego na dobra de seu braço. — A Dra. McNamara me deu os papéis da alta e disse que sairei em breve. — Ok, estou fazendo rodeios, mas apenas para tentar adiar o inevitável. Ele enruga a testa em confusão. — Isso é bom, não? — Sim, claro que é bom. É só que... ela também me disse algo mais. Ele não diz nada. Apenas fica me olhando, os olhos me incentivando a dizer o que quer que seja. Não posso apenas cuspir as palavras. — E o que é? O que ela disse, Maddy? Sei que, quando disser essas próximas duas palavras, meu mundo, inevitavelmente, vai mudar. — Estou... grávida. — A última palavra sai com um soluço. Escuto-o arfar de choque, como imaginei. A cama se desloca na hora em que ele se levanta, como se não pudesse se livrar de mim rápido o suficiente. Está loucamente andando de um lado para o outro perto de mim. — Como? Pensei que tivesse dito que estava tomando anticoncepcional. — Está tentando esconder, mas escuto a acusação em sua voz. — Claro que estava. Você me viu tomando todas as manhãs, Reid. A médica mencionou um segundo meio contraceptivo durante o primeiro mês. — Por que não usamos, então? Por que não me disse? Merda! — Passa as mãos pelo cabelo e o puxa em frustração. — Não acha que falaria se soubesse? O médico da clínica esqueceu de mencionar esse pequeno detalhe, então, agora aqui estamos. Estou magoada e não vou esconder. Ele acha que menti para ele? Ele não quer? Sabia que não ia querer. Sei que é estúpido, mas, tirando toda essa merda da mãe dele e meus sentimentos recentes de raiva, tem uma grande parte minha que estava esperando que ele sorrisse, me beijasse e ficasse feliz. Ficar feliz depois de ter escutado que sua namorada há menos de três meses está grávida não é algo que se adiciona à equação de um recém-formado de vinte e um anos. Ele se joga na cadeira e parece completamente derrotado, ombros caídos e cabeça apoiada nas mãos. Balançando a cabeça embalada em suas mãos, diz: — Mas que porra faremos? Começarei a porra do meu estágio daqui a algumas semanas e já foi um milagre ter conseguido adiá-lo por causa do acidente. Ele poderia muito bem ter me dado um tapa. Na verdade, teria gostado mais de um tapa na cara do que de suas palavras. — Então, a culpa é minha? Engravidei porque não segui as instruções que nunca me foram


dadas e depois me enfiei num acidente de carro de propósito para foder com seus planos? — Reviro os olhos e a raiva leva a melhor. — E você não teve nada a ver com essas coisas? Já te ocorreu que eu não estaria na porra desse hospital se não fosse por você? Quer culpar alguém? Culpe a si mesmo e a sua teimosa. Não me importo mais com a dor irradiando pelo meu corpo enquanto levanto da cama e coloco minhas coisas na mala. E mesmo sendo difícil com uma só mão, recuso a ajuda dele. Recuso-me a pegar leve com ele. Reid dá um passo para ficar entre mim e a mala. Eleva-se sobre mim, me olhando dentro dos olhos. — Me diga por que isso tudo é culpa minha. Nunca tive medo do seu tamanho e, mesmo que ameaçadoramente invada meu espaço, não vou começar agora. Pode estar puto, mas sei que não irá me machucar, pelo menos não fisicamente. Suas palavras, entretanto, certamente vão arrancar meu coração. — Diga, como isso tudo é minha culpa. — Sua voz é um rosnado de raiva, e recuo. Olho dentro de seus olhos, que não estão mais azuis calmos e pacíficos. Há tempestade neles e estou prestes a desencadear sua fúria. — Como? Bem, simples, na verdade. — Meu tom é como o de um adulto tentando, com calma e paciência, explicar uma simples tarefa a uma criança; que é o que estou fazendo, afinal de contas. — Não fiz filho com o dedo. E se você se lembra, só transei com você. Então, embora não seja completamente livre de culpa, não fiz isso — aponto para minha barriga lisa para enfatizar — sozinha. Ele pode ter quinze centímetros e quase cinquenta quilos a mais do que eu, mas me recuso a recuar, então me movo para dentro de seu espaço físico para o que vou falar a seguir. — E se estou nesse lugar e fodendo seu precioso estágio, é porque você se recusou a fazer a coisa certa e ligar para a porra da sua mãe que está morrendo! — Não falo alto ou grito. Meu tom calmo e baixo transmite minha fúria bem o suficiente. Afasto-me dele e vou para o banheiro pegar as poucas coisas que tenho. Quando volto para o quarto, ele está praticamente vibrando de raiva. — Então vamos voltar a isso? Quando vai parar de jogar a porra do meu passado na minha cara? Ela não significou nada pra mim nos últimos anos. É isso... acabou. Então saia da porra do seu pedestal e lide com isso. Por que essa merda é tão importante para você? — Por que isso é tão importante para mim? Você é realmente tão cabeça dura que não consegue enxergar? — Talvez eu seja realmente estúpido, Maddy. Então, por favor, esclareça-me. — Sua voz é cheia de sarcasmo e nessa hora lembro-me de cada razão que tive para ficar longe do Reid no início. — Porque a minha mãe está morta e nunca terei a chance de dizer para ela novamente que a amo. Nunca tive a chance de fazer as pazes com ela, de dizer adeus. Você tem mãe e está sendo um idiota por não aproveitar essa chance. — Engulo as lágrimas, mas de alguma maneira encontro forças para continuar. — E porque eu serei mãe. Tem uma pessoa crescendo dentro de mim, que,


sim, tudo bem que eu não o planejei, mas não posso mudar esse fato. Não posso mudar o fato de que amarei essa criança com tudo o que sou e não acho que possa estar com alguém que não compartilhe os mesmos sentimentos. O que acontecerá quando você já tiver se cansado do nosso filho e de mim? Apenas nos esquecerá como está fazendo com a sua mãe? — Isso é baixo, Maddy. Você sabe o que ela fez comigo e o Shane. Sabe tudo sobre mim e ainda joga na minha cara desse jeito. Sabe que a amo e que nunca poderia dar as costas para você. Vejo verdade em suas palavras, mas ele deixou de lado a peça mais importante dessa informação: nosso bebê. Ele caminha na minha direção com os braços estendidos. Coloco meus braços na frente do meu corpo para me proteger e me defender, porque sei que, se ele me abraçar, vou desistir; vou estar entregue ao seu amor por mim, mas não posso agir somente por minhas necessidades. — Não, Reid. Não me toque. Por favor, saia. Quero terminar de arrumar minhas coisas para poder ir embora. Ele baixa a cabeça como se tivesse sido fisicamente atacado por mim. — Você está me deixando? É isso? Está dizendo que terminamos? — Há descrença e dor em suas palavras. A angústia se instala em seu lindo rosto e quero fazê-la ir embora. Quero me aninhar em seus braços e deixar que o mundo desapareça para que fiquemos apenas nós dois em nossa pequena bolha, mas não posso. Não somos mais só nós dois. Não posso ficar nem confiar nele até que eu saiba que ele é totalmente capaz de amar a mim e ao nosso filho do jeito que merecemos. Lágrimas queimam meus olhos, mas recuso-me a deixá-las caírem. Serei forte por mim e por nosso bebê. Essa criança merece uma família que a ame incondicionalmente, e agora posso ver que Reid não é capaz de sentir um amor incondicional. Precisa de tempo para enfrentar seu passado, porque, não importa o quanto ache que ele esteja resolvido, não está. O pensamento de seguir em frente sem Reid é insuportável, mas tenho que fazer isso. Por mim, por meu bebê, para nos proteger. Com as paredes firmemente em seus devidos lugares, me preparo para um inevitável coração partido. — Sim, Reid. Eu... não posso ficar com você. Esse bebê merece amor... — Ele abre a boca para dizer algo, dizer que ama o bebê e a mim, mas sei que dirá qualquer coisa agora para evitar que eu diga o resto. — Eu mereço amor e, até que você perceba que também merece, que não é culpado pela morte de Shane, que sua mãe também merece, sei que não posso ficar com você. Com os olhos arregalados e sinceros, seu coração sangra diante de mim. Parece um garotinho perdido, o que, essencialmente, ele é. — Mas eu não posso ficar sem você. Pode me afastar o quanto quiser, mas lutarei por nós. Lutarei até minha última respiração para mostrar o quanto amo você, o quanto sempre te amarei. Nossos olhos estão presos um no outro, e ele está furiosamente procurando por alguma pista de hesitação nos meus de que não quero realmente dizer isso. Está implorando para que retire minhas palavras, mas o Reid que conheço está plenamente consciente da verdade nelas.


Uma batida na porta nos tira do nosso inferno. Mamãe aparece na porta. — Adivinhe quem está pronta para ir para casa? — Sua voz cantada e animada é um contraste com a atmosfera gelada. Perdida na felicidade que a está consumindo por eu estar bem e finalmente poder ir para casa, não percebe o que está acontecendo. Ela fica ao meu lado e me puxa para ela. Descanso a cabeça em seu ombro e tento não chorar ou soluçar pela dor do meu coração partido. — Acabei de ver a Dra. McNamara no corredor e ela me entregou isso. — Balança os papéis na minha frente, indicando que estou pronta para ir embora. Afasto-me de Reid porque não posso suportar ver o que acho que seja minha dor refletida em seus olhos. Pego a alça da minha mala com a mão. Mamãe passa seu braço em volta do meu ombro e começa a andar até a porta. Está começando a perceber que tem algo errado. — Sorria, Maddy. Você está indo para casa. Tem a mim, Mel e Reid para tomar conta de você. Tudo vai ficar bem. Bem, na medida do possível, já que faremos uma viagem de cinco horas de carro. Apenas desejo que essa última parte seja verdadeira. Daria qualquer coisa nessa hora para saber do fundo do coração que Reid estará lá para tomar conta de mim e do nosso filho. Enquanto Mamãe e eu caminhamos até a porta, Reid permanece atrás de nós no quarto. Mamãe o encara fixamente. — Não vem com a gente, Reid? Ele recupera sua compostura e engole a dor. — Sim, claro, Mamãe. Apenas preciso voltar para o hotel e pegar Cammie e Jack. Estou com o carro dele. Na verdade, vou voltar com eles para dar mais espaço para Maddy se esticar no banco de trás. Encontro vocês mais tarde. Ele caminha até mim lentamente e estou saboreando cada último segundo que tenho com ele. Quero memorizar a barba por fazer que está crescendo em seu rosto, seu maxilar, seus profundos olhos azuis que estão cheios de angústia agora, seus lábios cheios e macios, seu rico cabelo castanho que parece seda entre meus dedos. Parando na minha frente, segura minhas bochechas com as duas mãos. Gentilmente, passa os polegares debaixo dos meus olhos, onde as lágrimas estão escorrendo. Inclina-se até o meu ouvido. — Adeus por enquanto, doce Maddy. Amo você. Sempre amarei, não importa o que, e vou te provar isso. — Seus lábios macios encontram minha bochecha e depois ele sai, passando por mim, pela porta e para fora da minha vida. Quando Mamãe e eu entramos no corredor, vejo Reid no final dele. Sua silhueta escura está iluminada pela luz do sol através das portas de vidro deslizantes. Não posso deixar de pensar em como essa imagem é apropriada. Reid, o amor da minha vida, sempre esteve na escuridão procurando por luz. Espero, por sua causa, por minha e pela do nosso filho, que ele possa finalmente encontrá-la.


Quando comecei a escrever Deixe o Amor Entrar, fiz isso principalmente porque tinha uma história para contar. Percebi rapidamente que era uma história que valia a pena ser compartilhada. Então, enviei-a para alguns poucos amigos e familiares, que imediatamente gostaram. Encorajada por suas respostas positivas, sabia que tinha que publicar o romance e espalhá-lo para que o máximo de pessoas o lesse. Tem sido uma louca jornada chegar a esse ponto, mas realmente amei cada minuto. Tenho que agradecer a todas as pessoas que leram meu trabalho antes de ser lançado. Seus encorajamentos, sugestões e apoio foram de grande ajuda para me manter motivada. Lori L., Lisa L., Mollie M., Nicoli L., e Kristy B., muito obrigada por estarem por perto nas primeiras fases de lançamento. Vocês são todas incríveis e possivelmente eu não poderia expressar o quanto suas revisões me mantiveram seguindo em frente. Ser uma autora independente e autopublicada é muito solitário às vezes. Há tanta coisa a fazer. Então, sou muito grata à minha editora, Joy, na Indie Author Services, e a todos os blogueiros que me ajudaram ao longo do caminho. Por meses, minha casa ficou suja, tapetes sem aspirar, louças sem lavar. Nem preciso dizer que minha família nunca reclamou. Meninos, amo vocês mais do que o céu, e espero que um dia possam encontrar a verdadeira paixão e abraçá-la. Sei que tenho ficado em frente ao computador mais do que gostariam, que levará anos até que possam ler isso, mas só quero dizer obrigada por serem as melhores crianças que eu poderia querer. Ao meu marido, nem sei por onde começar. Você sempre foi meu maior torcedor, às vezes, tendo mais fé em minhas habilidades do que eu. Não há como resumir em poucas palavras como me sinto sobre você. Apenas saiba que te amo e que sempre será “minha lagosta”. Por último, mas certamente não menos importante, devo muito a você, leitor. Obrigada por ler a história de Maddy e Reid e por seu contínuo apoio. Espero que tenha gostado de Deixe o Amor Entrar e que esteja ansioso para ler Deixe o Amor Ficar, segundo livro da série The Love. Sigam-me: Facebook - https://www.facebook.com/MelissaCollins Twitter - @mcollinsauthor Web – www.melissacollinsauthor.com


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Deixe o Amor Entrar vol. 1 - Melissa Collins