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Sumário

Capa Sumário Folha de Rosto Folha de Créditos Dedicatória Parte Um – Faltam cinco dias 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. Parte Dois – Faltam quatro dias 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21.


22. 23. 24. 25. 26. Parte Três – Faltam três dias 27. 28. 29. 30. Parte Quatro – Faltam dois dias 31. 32. 33. 34. 35. 36. Parte Cinco – Falta um dia 37. 38. 39. 40. 41. Parte Seis 42. 43. 44. 45. 46. Epílogo: As Cartas Agradecimentos


JULIE LAWSON TIMMER Tradução: Ana Paula Corradini


Publicado sob acordo com Amy Einhorn Books, publicado por G.P. utnam’s Sons, um membro da Penguin Group (USA) Inc. Copyright © 2015 Julie Lawson Timmer Copyright © 2015 Editora Novo Conceito Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação sem autorização por escrito da Editora. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência. Versão digital — 2015 Produção editorial: Equipe Novo Conceito Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Timmer, Julie Lawson Cinco dias / Julie Lawson Timmer ; tradução Ana Paula Corradini. -- Ribeirão Preto, SP : Novo Conceito Editora, 2015. Título original: Five days left. ISBN 978-85-8163-697-9 1. Ficção canadense I. Título. 14-12491 | CDD-813 Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura canadense 813

Parte da renda deste livro será doada para a Fundação Abrinq, que promove a defesa dos direitos e o exercício da cidadania de crianças e adolescentes. Saiba mais: www.fundabrinq.org.br

Rua Dr. Hugo Fortes, 1885 Parque Industrial Lagoinha 14095-260 – Ribeirão Preto – SP www.grupoeditorialnovoconceito.com.br


Para Ellen


Parte Um Terรงa-feira, 5 de abril

Faltam cinco dias


1. Mara Mara tinha escolhido o método um bom tempo antes: comprimidos, vodca e monóxido de carbono. Um “coquetel de garagem”, como ela o chamou. O nome soava quase elegante e, às vezes, quando ela o pronunciava em voz alta, conseguia se convencer de que não era assustador. Mesmo assim, seria assustador para Tom, e ela se odiava por esse motivo. Seria preferível fazer isso sem deixar um corpo para ele. Mas, por mais que quisesse poupá-lo de descobrir seu corpo, ela sabia que não permitir que ele a encontrasse seria pior. E pelo menos essa era a opção menos bagunçada. Ele poderia ligar para alguém levar o carro dela embora. Ocupar seu lado da garagem com outras coisas para bloquear aquela imagem. Bicicletas, talvez. Ou coisas de jardinagem. Um segundo carro para ele. Talvez ela já devesse deixar tudo arranjado para que um carro fosse entregue a ele logo depois. Seria estranho demais? Um presente da sua esposa morta. Ela deveria ter dado um carro a ele anos atrás. No seu aniversário de casamento, ou para comemorar quando eles trouxeram a pequena Lakshmi para casa. Ou pelo simples fato de comprar um carro para ele. Ela deveria ter feito tantas coisas. Mara fez uma careta. Como podia ter passado quase quatro anos cruzando todos aqueles itens de sua longa lista de coisas para fazer antes de morrer e agora, faltando só cinco dias, pensar em todas as coisas que deveria ter feito? Ah, mas essa era a graça do negócio. Dizer a si mesma que esperaria até cumprir tudo aquilo e continuar adiando o fim. Porque sempre haveria mais uma última coisa na lista. O que pode não ser problema algum para quem tem o luxo de adiar por mais algumas semanas, meses, ou até mesmo anos, até finalmente não ter mais desculpa nenhuma e se sentir pronto para acabar logo com isso. Mara não tinha esse luxo. Em menos de quatro anos a doença de Huntington, a mãe de todas as destruidoras de neurônios, já havia causado mais danos que ela e Tom poderiam estar preparados para enfrentar. Ela tinha a papelada da indenização da empresa de advocacia para provar. O corpo, que já tinha sido tão gracioso e atlético, agora reagia devagar e relutava em cooperar. Se ela se permitisse viver mais aquele momento com o marido e a filha, ou viajar para aquele lugar imperdível, acordaria na manhã seguinte para descobrir que era tarde demais, e que a doença de Huntington tomara conta de sua vida. E ficaria presa naquele limbo assustador, sem capacidade para acabar com a própria vida, mas também sem poder viver de verdade. O tempo corria contra ela. Não podia mais se arriscar a esperar. Ela ficaria por ali até domingo, como havia planejado. Mas não podia esperar mais do que aquilo. Mara tomou um grande gole de água do copo no criado-mudo e se levantou. Respirando fundo, tocou o teto com as duas mãos e se concentrou na porta do banheiro, que ficava do outro lado do quarto. Era tentador olhar para cima e para as próprias mãos, como o movimento deveria ser executado, mas ela já tinha dado uma de folgada antes e o chão duro sempre vencia essa aposta. Contou até cinco, expirou e inclinou o corpo ligeiramente para a frente, suas mãos indo em direção ao chão para contar outra vez até cinco. Uma Saudação ao Sol tão modificada que se tornara irreconhecível, mas pelo menos a ajudava a desanuviar a mente.


O barulho do chuveiro parou e Tom saiu do banheiro, secando o cabelo castanho com a toalha. – Bom dia – ela disse, de olho no torso nu do marido. – Vejo que está usando minha roupa favorita. Ele veio com uma risada e um beijo. – Você estava no sétimo sono quando levantei. Eu estava pensando em pedir para seus pais virem aqui e colocar a Laks no ônibus. – Ele apontou a cama com o queixo. – Eu posso ligar para eles se você quiser dormir mais algumas horas. Laks. Mara quase engasgou. Ela foi até a cômoda e se apoiou nela para se equilibrar. Ao dar as costas para o marido, fingiu estar arrumando algumas moedas e brincos sobre a cômoda. Ela engoliu com dificuldade e convenceu a garganta a soltar algumas palavras. – Obrigada, mas não precisa – ela disse. – Já estou de pé. Pode deixar que a coloco no ônibus. Tenho algumas coisas para fazer. – Você não tem que fazer nada. Por que não escreve uma lista para mim e eu pego o que você quiser no meu caminho de volta para casa? Ele foi até o guarda-roupa, pegou uma calça social e esticou o braço para alcançar uma camisa. Em segredo, ela desejou que ele pegasse uma camisa azul, mas a mão dele encontrou uma verde. Ela tentaria se lembrar de colocar algumas camisas azuis dele mais à frente antes do fim da semana, e os olhos dele, cor de cobalto, brilhariam mais uma vez. – Eu posso muito bem fazer algumas tarefas, querido – ela disse. – É claro que pode. Mas não exagere. – Ele tentou impor um tom sério, mas sua expressão era de quem sabia muito bem que ela não aceitava ordens de ninguém. Ele afivelou o cinto – no terceiro furo – e ela balançou a cabeça como quem diz “não”. Ele não tinha engordado um quilo sequer em vinte anos. Estava até em melhor forma, correndo mais aos quarenta anos do que corria aos vinte, uma maratona por ano nos últimos dez anos. Tudo bem que parte desse sucesso se devia a ela, já que agora ele corria em parte para controlar o estresse. Ela andou até a porta, tocando de leve seu ombro ao passar por ele. – Café? – Não posso. Tenho paciente daqui a vinte minutos. Minutos depois, sentiu os braços dele chegando por trás e envolvendo-a quando ela estava de pé em frente ao balcão da cozinha, colocando um pacotinho de café na medida certa na cafeteira. Agora os grãos torrados na hora pareciam gostar mais do chão do que do filtro. Tom beijou a sua nuca. – Não faça um monte de coisas hoje. Quer saber? Não faça nada. Fique em casa e relaxe. – Ele a virou para olhá-la de frente e sorriu, derrotado. – Pelo menos, não faça coisas demais. Mara o viu desaparecer para dentro da garagem. Ela tentou acalmar a respiração e fazer com que os olhos parassem de arder. Ao se virar para a cafeteira, tentou se concentrar no “plip, plip” do café pingando no bule, no aroma de avelã, no vapor saindo da máquina. Colocou uma xícara sobre o balcão, encheu-a até a metade e ficou olhando para ela como quem sente saudade. Apesar da tentação de dar um gole, ela havia aprendido a deixá-lo esfriar. Não podia mais confiar na firmeza de suas mãos, e era melhor ter só uma mancha para limpar do que uma queimadura para cuidar. Mais calma, passou pelo corredor em direção ao quarto da filha e deu uma olhadinha de leve pela porta entreaberta. Uma pequena cabeça se levantou sonolenta do travesseiro e a recebeu com um sorriso largo, com uma abertura no meio


deixada recentemente por quatro dentes que haviam caído. – Mamãe. Mara se sentou na cama, abriu bem os braços e a menina foi para o seu colo, pressionando o corpo contra o dela e abraçando com força o pescoço da mãe. – Hummm, que cheirinho gostoso você tem. – Mara enterrou o rosto no cabelo da filha, ainda limpo depois do banho da noite anterior. – Pronta para mais um dia na escolinha? – Hoje eu quero ficar com você – os bracinhos a apertaram com mais força. – Não vou soltar. Nunca. – Nem mesmo se eu fizer coceguinha... bem… aqui? A menina teve um ataque de risada e os braços enfim se soltaram, permitindo que Mara conseguisse sair do abraço. Ela se levantou, deu alguns passos até a porta, tentando evocar sua melhor cara de “Mamãe está falando sério”, e apontou para o uniforme estendido sobre a poltrona que ficava no canto do quarto. – Vamos lá, dorminhoca. É hora de colocar o uniforme e escovar os dentes, e depois venha para a cozinha. O ônibus chega em meia hora. O papai deixou você dormir até mais tarde. – Hum... Tá. – A menina se levantou, tirou o pijama e foi até a poltrona. Mara se apoiou no batente da porta, fingindo supervisionar a situação para aproveitar mais alguns segundos olhando para aquela criança abandonada com o corpinho cor de oliva que continuava a tirar seu fôlego. Enquanto se vestia, Laks começou a cantar uma de suas músicas que mais pareciam um resmungo, uma musiquinha sobre o que estava fazendo, num tom divagador. “Música de fada”, como Mara e Tom diziam. “E então eu coloco a minha calça jeans / com flores no bolso / e uma blusa rosa / que é tão linda.” Ela se afastou um pouco da poltrona e deu uma pirueta, braços erguidos acima da cabeça, mãos na “posição chique”, como ela tinha visto as meninas mais velhas da escola de balé fazendo. Com uma pose final, olhou para a mãe e deu um sorriso triunfante. Mara forçou os lábios trêmulos a formarem um sorriso e, sem poder confiar na própria voz, levantou uma mão, os dedos separados e esticados para indicar o número de minutos que a menina tinha para chegar até a cozinha.


2. Mara Deitada na cama naquela noite quando tinha acabado de receber seu diagnóstico, já havia quase quatro anos, Mara ficou encarando a escuridão enquanto Tom, de coração partido ao seu lado, dormia um sono agitado. Muito antes de os primeiros raios cinzentos da manhã invadirem a noite negra como tinta, Mara fez uma promessa para ela mesma: escolheria uma data e jamais a adiaria. Sem mudar de ideia, sem desculpas. Ela viveria como nunca até a data chegar, com o maior controle possível sobre seus últimos dias. Daria uma canseira nesse tal de Huntington antes de finalmente mostrar o dedo do meio para ele, entornar seu coquetel e sair do mundo da maneira como sempre viveu – de acordo com as próprias regras. Não daria a esse filho da mãe a satisfação de tirar até isso dela. Escolher a data foi fácil: 10 de abril, seu aniversário. Ela sabia que Tom e os pais dela sentiriam ainda mais a sua falta naquela data, e não era justo dar outra data horrível para eles. Mas qual 10 de abril, qual aniversário? Não o primeiro depois do diagnóstico, ela decidiu – ela teria pelo menos um ano inteiro bom antes que a doença atingisse o próximo estágio. O segundo também parecia cedo demais. Mas o quinto poderia ser tarde demais. Quando o sol do Texas já brilhava com seus primeiros raios por entre as persianas, fazendo com que o teto do quarto mudasse de cinza para branco, Mara já tinha chegado à conclusão de que o plano mais seguro era escolher um sintoma que fosse um sinal do começo do fim, um aviso de que a doença estivesse passando dos primeiros estágios para os mais avançados. Quando o sintoma aparecesse, ela se daria até o próximo 10 de abril, e então baixaria as cortinas. Enquanto esperava por Laks na cozinha, uma onda repentina de enjoo a atingiu e ela segurou na lateral do balcão, esperando que aquela sensação passasse antes de a filha aparecer. Fechou os olhos com força, mas não havia como fugir desde o dia anterior, e a tontura piorou enquanto a manhã anterior passava diante de seus olhos outra vez, mesmo com as pálpebras fechadas. Ela estava no corredor dos cereais no supermercado. Um menino pequeno se encontrava a alguns metros de distância, a mão gordinha sobre o quadril da mãe enquanto ela se inclinava para pegar alguma coisa em uma prateleira baixa. O menino deu um sorriso tímido para Mara e ela sorriu de volta. Ele ergueu a mão e ela foi responder com um aceno quando, sem aviso algum, sentiu uma vontade avassaladora de ir ao banheiro. Tentou se lembrar de onde ficava o banheiro do mercado e ficou pensando por que seu corpo estava agindo de modo tão impaciente. Antes que ela pudesse pensar em uma resposta, já era tarde demais. Devagar, inclinou a cabeça para inspecionar sua calça de ioga cinza-clara, que agora mostrava uma mancha molhada na virilha. Uma linha escura e fina abria uma trilha descendo pela lateral de sua perna direita. – Ai, meu Deus – ela sussurrou. – Ah, não. Colocou a mão sobre a maior parte da mancha, tentando escondê-la. Mas o menino já tinha visto, e sua boca formava um “O” cheio de surpresa. Mara tentou sorrir para ele de novo, para garantir que não havia motivo nenhum para ficar nervoso – nem nada para contar à mãe dele. A boca não quis cooperar, então ela pousou um dedo sobre os lábios. Mas a mãe do menino já estava de pé de novo, e ele a puxou pelo


pulso ao apontar para Mara com a outra mão: – Mamãe! A moça fez xixi nas calças! O rosto de Mara pegou fogo. Ela procurou a jaqueta que sempre levava no carrinho de supermercado por causa do ar-condicionado poderoso da loja, mas não a encontrou. Mara havia esquecido a jaqueta no carro. Desesperada, tentou achar outra coisa com a qual se cobrir. A mãe do menino, com o rosto impassível naquela maneira ensaiada de alguém que tenta não reagir, pegou um pacote de toalhas de papel do próprio carrinho e o abriu enquanto andava em direção a Mara, com o filho a tiracolo. – Para de olhar – a mulher sussurrou. Mas os olhos do menino continuavam fixos na calça molhada de Mara. À medida que eles se aproximavam, ele apertou o nariz com os dedos em pinça. – Ecaaaa! A mãe o repreendeu com um sibilo: – Brian! Ao chegar até Mara, a mulher passou para ela uma resma de toalhas de papel. – Quem sabe se você secar sem esfregar? – Apesar de sua expressão natural, o rosto da mulher estava bem vermelho e seu nariz se contraía quase imperceptivelmente. – Eu poderia ir pegar um cobertor no meu carro, mas – a mulher continuou, apontando para o filho com um gesto de cabeça – até eu levá-lo e trazê-lo de volta... – Obrigada – Mara sussurrou, pegando as toalhas de papel. – Isso nunca me aconteceu antes. – Ela começou a secar a calça de leve enquanto Brian puxava a mãe pelo pulso. Um minuto depois, os olhos molhados e cheios de vergonha se encontraram com os olhos cheios de compaixão da mulher. – Você não precisa ficar. Não quero deixar seu filho irritado. – Está tudo bem com ele – a mulher disse, destacando mais toalhas de papel do rolo e passando-as para ela. Mara procurou um lugar para colocar as toalhas de papel molhadas e acabou decidindo enfiá-las na bolsa. O menino arfou e tentou puxar a mãe ainda com mais força para o outro corredor. A mulher deu um puxão no moleque inquieto e colocou a mão sobre a cabeça dele, ancorando o menino no lugar. Ela se inclinou para conseguir falar ao ouvido dele e sussurrou: – Essa moça boazinha precisa da nossa ajuda, e nós vamos ajudá-la. – Mas... – Shh! Chega. Mara parou de secar a calça e ergueu a cabeça, a boca entreaberta para tentar dizer alguma coisa. Ela queria explicar a eles que tinha tomado café demais. Isso sem contar toda a água que ela tinha que beber para engolir os comprimidos. E o shake de proteínas que Tom insistia que ela tomasse toda manhã para não perder peso. E ela também tinha ficado distraída com a lista de coisas que devia fazer. Não tinha tido tempo para ir ao banheiro nas últimas horas. Ela fechou a boca. Mara não podia mais sobrecarregar ninguém com a sua história. Baixando a cabeça, começou a passar a toalha de papel na calça freneticamente, mas não adiantava. A calça era clara demais e a mancha, escura demais. E agora a calça estava cheia de migalhas de papel branco.


– Acho que não está funcionando – ela disse para a mulher, e foi como se um caco irregular de humilhação a atravessasse quando ela ouviu sua frustração sair como um gemido em tom agudo. Ela ficou olhando para as toalhas de papel na mão. Precisaria de um banho de chuveiro longo e bem ensaboado para se livrar do fedor. Mara olhou de relance para o menino de novo, o nojo evidente nos lábios encurvados, e agradeceu a Deus por estar sozinha ali, com apenas estranhos como testemunhas. E se Laks estivesse com ela? Ou Tom? Aquele pensamento drenou o sangue de sua cabeça e ela teve que se apoiar no carrinho. – Eu sinto muito por isso – ela disse, olhando para a mãe e o filho. – O que ela tem? – Brian sussurrou, e os olhos de sua mãe e os de Mara se encontraram por um segundo, um acordo silencioso segundo o qual ignorariam a pergunta do menino. – Ele é uma graça – Mara disse, sem querer que a mulher ficasse brava com o filho por causa de sua reação. Quem poderia culpá-lo? – Odeio ter que fazer isso, mas vou deixar meu carrinho aqui mesmo e correr para o meu carro. – Pode deixar que coloco as suas coisas de volta na prateleira – a mulher disse. E, fazendo um gesto para a calça de Mara, continuou: – Mas você sabe que melhorou um pouco? Mas o sorriso dela era falso, e Mara se sentiu como uma criança que acabou de cortar o próprio cabelo e os pais dizem que está “ótimo”. – Obrigada pela sua gentileza – Mara disse em voz baixa. – Só quero que você saiba que eu sinto muito mesmo. – Imagine... Cuide-se. Enquanto Mara batia em retirada pelo corredor, podia ouvir a voz animada demais da mulher lendo o restante de sua lista de compras e afogando o barulho da criança ao seu lado que estava perguntando, Mara tinha certeza, o que aquela senhora maluca tinha com todas aquelas toalhas de papel cheias de xixi. Ela se forçou a erguer a cabeça ao passar pelos caixas e, por fim, pela porta da frente. Quando chegou ao estacionamento, seus lábios tremiam e podia sentir a pressão já familiar no alto da garganta, sinalizando uma corrente de lágrimas. Entrou com tudo no carro, fechou a porta tão rápido que quase bateu nos próprios pés e se largou no assento, as mãos cobrindo o rosto. – Ai, meu Deus, ai, meu Deus, ai, meu Deus! Os soluços vieram com força e ela quase perdeu o ar entre um e outro. Quando ficou cansada demais para se manter ereta, deixou o corpo cair para a frente, a cabeça sobre o volante. Ela ficou assim, inclinada e chorando, por uma hora, assistindo de novo ao episódio em uma câmera lenta torturante sem parar em sua mente, e sempre desejando um final distinto. Finalmente, seu corpo estava cansado demais para produzir mais lágrimas ou mais barulho, e ela começou a se dar conta dos carros estacionando por perto, do barulho dos rádios, das portas batendo, das crianças chamando os pais. Ela se deixou descansar sobre o volante mais um pouquinho antes de endireitar o corpo, secou as bochechas e o nariz com a manga da blusa e encontrou o próprio olhar no espelho retrovisor. – Então é isso – disse com pesar para os olhos vermelhos e inchados que a olhavam no reflexo. – Meu aniversário é no domingo. Eu tenho até lá. Só faltavam cinco dias, como naquela manhã. Tão pouco tempo. Mas ela tinha começado a se preparar fazia quase quatro anos, naquela manhã deitada ao lado do marido quando estabeleceu o prazo e se prometeu que não daria nenhuma desculpa para adiá-lo.


Desde então, havia saboreado cada momento como se fosse o último. Grandes momentos – como os aniversários de Laks, Dias de Ação de Graças, Natais, aniversários de casamento – e também os pequenos, como cozinhar com a sua mãe, ver seu pai ler histórias na hora de dormir para Laks, ficar sentada na varanda em frente à casa, fazer bolhas de sabão para Tom e Laks saírem correndo para ver quem as estouraria primeiro. E ela já tinha decidido: os pequenos momentos seriam aqueles dos quais ela sentiria mais saudade. – Mamãe? – Laks, com a mochila sobre um ombro, igualzinha às crianças maiores no ônibus, entrou trotando na cozinha e pegando a lancheira de bailarina sobre o balcão. – Você não se esqueceu de colocar um biscoito de novo, né? Ela olhou de relance para a mãe de maneira suspeita e abriu o zíper da lancheira para olhar lá dentro. Satisfeita, fechou o zíper e estendeu a mão. – Pronta? Um chumaço de cabelo saía espetado de cima da orelha direita da menina, resultado de um incidente com cola uma semana antes. Susan, a melhor amiga de Laks, passara cola sem querer no cabelo da amiga e, para tentar consertar o erro, cortara tudo com tesoura sem ponta. Desde então, Mara vinha tentando fazer a menina usar rabo de cavalo para esconder os tufos, mas as tentativas sempre acabavam em discussão e lágrimas e Mara desistia. Um caroço do tamanho de um pulso bloqueou a garganta de Mara ao ver a filha com o cabelo espetado, banguelinha e linda. Como ela poderia estar pronta? Mas era por isso que tinha feito a promessa. Para que seguisse em frente com a decisão, estivesse pronta ou não. – Não vou fazer rabo de cavalo, mamãe – Laks disse, o queixo ressaltando uma pontinha de determinação, uma cópia fiel da mãe mesmo sem compartilharem o DNA, como Tom sempre notava. – Ele puxa demais o meu cabelo. Eu falei para você. – Ela colocou a mão sobre a testa e puxou a pele para trás, demonstrando. Mara pigarreou e se levantou. – Eu sei – ela disse. – Não estava pensando no seu cabelo. Só demorei um pouco para responder. – Ah – Laks fez que sim com a cabeça, mais calma. – Então, você está pronta? Mara beijou o topo da cabeça da filha e fez um carinho de leve sobre o cabelo espetado antes de pegar sua mãozinha. – Sim, querida, estou pronta.


3. Scott Scott veio com o carro pela entrada da casa e estacionou próximo à calçada para deixar espaço para Curtis, que estava jogando basquete na tabela presa acima da porta da garagem. “Arremessos com as duas mãos. Mas tudo bem, porque ele é só um menino de oito anos”, pensou. Ao ouvir o carro, Curtis se virou e acenou. – Bem legal o arco nesses arremessos, carinha. – Ugh. Estou tão cansado de arremessar com as duas mãos, mas é só o que consigo fazer com essa tabela. O menino segurou a bola à sua frente, olhando para ela como se fosse uma traidora, e então fez que sim com a cabeça. Scott deixou as chaves e a maleta na entrada de casa e, em um movimento gracioso, pegou um passe malfeito, fez que ia arremessar e deu uma enterrada. Swoosh! Curtis pegou o rebote e tentou fazer um arremesso parecido. Mas faltou graça – e altura –, e a bola fez sua curva meio metro abaixo da cesta. Ele ergueu a sobrancelha: – Viu? Scott pegou o rebote. – Eu sei, eu sei. Eu deveria ter comprado aquelas tabelas ajustáveis quando a gente aposentou a sua amiga aqui. – Ele fez um gesto com a cabeça em direção à cesta de plástico encostada na garagem. Ao enterrar mais um arremesso, ficou ali parado com os braços abertos e o menino foi correndo para ele, lançando os braços ao redor da cintura de Scott. Este fez um carinho na cabeça apoiada sobre a sua barriga, sua mão branca e pálida em comparação à pele morena que se mostrava por entre o cabelo preto e crespo de Curtis. Ao se inclinar para a frente, ele pressionou o nariz e a boca contra o topo da cabeça de Curtis e sentiu o cheiro que misturava o odor de suor do menino com a primavera em Michigan. – Vou ficar com saudade de você – ele disse. O menino fez que sim com a cabeça e o abraçou com mais força. Eles ficaram assim por alguns momentos, abraçando-se, até que Curtis se desvencilhou, passou a mão suja pelos olhos marejados e saiu correndo atrás da bola. – Cadê a Laurie? – Scott berrou para o menino, que ainda corria. – Na cozinha. Fazendo lasanha. A informação ganhou um sorriso de aprovação. – E o que você fez para merecer isso? – A srta. Keller marcou um “certo” na minha agenda porque eu tive um dia muito bom. – Ele lançou um olhar de “e aí, o que você acha disso?” e cumprimentou Scott com o punho cerrado. – Legal. Já são dois esta semana. Mais três e você pode ficar acordado até mais tarde na sexta-feira. – Pipoca e um filme. Até as dez. – A boca do menino se torceu com um desânimo exagerado. – Mas a Laurie também quer assistir, já que é o nosso último, então vai ter que ser um filme que menina gosta de


ver. Sem explosão, nem nada. – De qualquer jeito, você vai dormir às dez, certo? Curtis se alegrou um pouco. – E pipoca. – Então, detona nesses próximos três dias. Acho melhor ir lá dar um alô. Mais basquete depois do jantar? – Talvez. Tenho que ler hoje à noite. A Laurie que disse. E estudar matemática. Scott sorriu ao vê-lo fingir estar zangado. O menino havia florescido com as expectativas e regras da casa dos Coffmans, mas agora já tinha idade suficiente para saber que não deveria admitir isso. E Scott entrava na brincadeira. – A escola é importante, carinha. Venha jantar daqui a pouco. Ele se inclinou para pegar as suas coisas e foi até a porta da frente. Ainda conseguiu ouvir um “Que saco!” e imaginou que mais um arremesso tinha sido curto demais. Ao empurrar a porta após entrar, Scott deixou as chaves no hall de entrada e respirou fundo: alho, tomate, manjericão, queijo. – Laur? – ele chamou. – Mas que cheiro fantástico! Deixou a maleta aos seus pés e se inclinou para examinar um prego no chão que tinha se soltado e ameaçava se enroscar na próxima meia que passasse por ali. Ao empurrar o prego para baixo com o calcanhar, Scott checou o restante do hall da entrada para ver se tinha mais algum. Já fazia dez anos que tinha lixado aquele piso. Colocou a mão sobre a lombar, em um reflexo. A visão da casa dos sonhos de sua esposa não correspondia exatamente ao seu orçamento de reforma. Restaurar a casa colonial de cem anos que “precisava de amor” havia envolvido uma lista de tarefas de três páginas e todos os fins de semana e noites por um ano. Eles tentaram se convencer de que aquele era o preço para morar na casa que ela sempre quis e que ele estava decidido a dar a ela: um lugar espaçoso, enorme e com piso de madeira, prateleiras embutidas e duas lareiras. Cheia de personalidade e, um dia, de crianças. Ele passou a mão sobre a parede do hall de entrada. Havia demorado dois meses só para tirar todas as camadas de papel de parede dali. Então tiveram que pintar tudo – no mesmo tom cru neutro pela casa toda com uma parede diferente em cada cômodo, escolhida com todo o cuidado depois de compararem várias amostras de tons de uma série de cores. Eles brincaram com a ideia de colocar o cara da loja de tintas em sua lista de cartões de Natal. Chegou até a porta da cozinha e se encostou no batente. Sua esposa estava inclinada sobre o forno com a enorme barriga que ainda era uma surpresa para ele. Ela não tinha se trocado depois de chegar do trabalho, mas seu cabelo loiro e ondulado estava preso em um rabo de cavalo. – Mas que cheiro fantástico! – ele disse de novo. – Oh, oiê. Não ouvi você chegar. – Ela colocou a lasanha sobre o fogão. Ele atravessou a cozinha para dar um beijo nela. – Ele teve um dia bom, pelo que soube. Scott aproximou o rosto da lasanha e respirou fundo de novo. – Hummm. Que bom que ele teve um dia bom. Faz um tempo que também estou com vontade de comer


a sua lasanha. Ela fez uma cara feia e colocou a mão sobre a barriga. – Só vocês dois. Mal posso aguentar esse cheiro. – Em resposta à expressão de preocupação dele, Laurie acenou. – Não é nada. A gente comeu salada fattoush no almoço daquele lugar perto do escritório e estava um pouco gordurosa demais. Ah, mas de qualquer forma não fique muito animado com o dia bom que ele teve. Conversei com a srta. Keller quando fui buscá-lo. Ela está pegando leve com ele esta semana por causa da transição. Ele só alcançou metade dos objetivos de comportamento, mas ela decidiu dar a nota máxima para ele mesmo assim. Acho que ficou preocupada com não ajudá-lo a criar um momento positivo e ele perder a cabeça na sexta-feira. – Talvez a srta. Keller conheça uma maneira de evitar que eu perca a cabeça também – Scott disse. Com um suspiro, ele abriu a cortina da pequena janela acima da pia e espiou o menino à entrada da casa até que a mão nas suas costas o fez lembrar a quem ele deveria estar prestando atenção. Ele deixou a cortina voltar para o lugar e se voltou para a esposa. – Estou surpreso ao ver você tão complacente – ele disse. – Lasanha, sem que ele tenha atingido os objetivos? – Laurie tinha sido a responsável pela disciplina do menino o ano inteiro. Ele pousou a mão sobre a barriga redonda dela. – A maternidade iminente está deixando você boazinha, hein? Ela deu de ombros. – Eu ia preparar uma lasanha de qualquer jeito, mesmo sem o aval da srta. Keller. Queria que ele comesse mais uma vez antes de ir. Vou fazer espaguete amanhã e deixá-lo assar biscoitos para a sobremesa. E pizza feita em casa na quinta-feira. Pensei em fazer um bolo na sexta, e você poderia preparar uns hambúrgueres na churrasqueira para o sábado. Todos os pratos favoritos dele, sabe? Embora eu me sinta tentada a obrigar o menino a comer só verduras e frutas até ir embora, para ficar cheio de nutrientes antes de voltar para lá. Scott estremeceu. – Desculpa – ela disse. – Não, tudo bem. Não faz sentido nenhum fingir. Ele não vai se mudar para o Ritz quando sair daqui, e essa é a realidade. E tudo bem – pelo menos é o que eu venho dizendo para mim mesmo nas últimas semanas. Ele fechou os olhos como se estivesse recitando um mantra. – Vai ficar tudo bem. Mesmo se ele só comer ravióli frio de uma lata e tomar só um banho por semana e voltar a fazer molecagem. Tudo isso é melhor que ficar separado da mãe. Mesmo que ela não se importe de ele não fazer a lição de casa e mande o menino para a escola sem café da manhã, a melhor coisa para ele é ficar com a mãe. – Tudo isso é verdade – Laurie disse, e ele pôde sentir um leve tom de frustração na voz dela. – E desta vez parece que você está quase acreditando. – Ela não completou com um “afinal”, mas ele sabia que ela estava pensando nisso. – Quase – ele disse. Laurie começou a falar e, para evitar ouvir o que ele sabia que vinha por ali, Scott se adiantou: – Obrigado por buscá-lo na escola, aliás. Desculpe pela mudança de planos nos 45 do segundo tempo. Então, posso ajudar com alguma coisa? Arrumar a mesa? Funcionou. Ela passou para ele três copos e uma cesta de pães, armou os talheres e guardanapos de


papel e os levou para a sala de jantar. – De nada, mas eu achei que esse negócio de ter o Peter no treino era para você ter mais tempo em casa, e não mais tempo para reuniões de última hora com pais. Por que você não pediu para a mulher esperar até a semana que vem? Ela disse aquilo naquele tom leve demais que ele reconheceu como reprovação embrulhada em educação, e a pergunta era mais um desafio que qualquer outra coisa. Laurie havia proposto desafios similares várias vezes: por que ele acordava cedo nas manhãs de sábado para dirigir por meia hora até o meio da cidade de Detroit, quando podia dormir até mais tarde? Metade das crianças que faziam parte do programa de aulas extras no sábado só aparecia por causa da pizza grátis do almoço, ele não enxergava aquilo? Por que passava as noites de verão na quadra velha em frente à escola, brincando com crianças que a maioria dos professores adoraria não ver por dois meses inteiros, ou para sempre, agora que elas já estavam no ensino médio? Scott ergueu as palmas das mãos para ela, implorando perdão. – Você sabe como são minhas reuniões de pais e mestres naquela escola. Eu fico lendo Sports Illustrated por uma hora até uma ou duas pessoas resolverem aparecer. Se alguém quiser se envolver de verdade na educação dos filhos, preciso estar lá para conversar com eles. Se eu adiasse até a semana que vem, quem garante que ela apareceria? – Mas você não pode salvar sozinho cada aluno da Franklin Middle School. – Eu sei. Não vou conseguir atender todo mundo. Três anos não é tempo suficiente. – Ele deu um sorrisinho e rezou para que fosse irresistível. Ela deu um suspiro ao voltar para a cozinha. – Não é disso que eu estou falando, e você sabe. Em seguida, Scott foi até a geladeira pegar uma cerveja e abriu a garrafa, depois encheu um copo com água da torneira. Ele passou o copo para a esposa e ergueu a garrafa. Ela bateu o copo de leve contra a cerveja, deu um gole e fez uma cara ruim, com a mão sobre a barriga. – Você tem certeza de que está bem? – ele perguntou. Ela suspirou. – Você sabe como tem sido. Eu como uma coisa errada e isso acaba comigo pelo resto do dia. Ele ergueu a cerveja de novo. – Que o último trimestre seja melhor. O último trimestre começava em duas semanas. Ela daria à luz no dia 15 de julho. – Espero que sim. Ela colocou o copo sobre o balcão e fixou o olhar na água. – Eu nunca acho que é o momento certo para dizer isso, e agora não é mesmo. Mas acho que ter nossa vida de volta vai ajudar a melhorar as coisas. – Ela viu a expressão de Scott e logo completou: – Ou não necessariamente “melhorar”, mas deixar mais fácil, sabe? Poder vir para casa direto do trabalho e sentar? Relaxar? Sem ter que ser taxista, garçonete de lanchinho da tarde, supervisora de lição de casa e tudo isso? Scott olhou pela janela de novo para o menino à entrada da casa e não respondeu. Ele não tinha uma lista de coisas que preferia fazer a passar tempo com Curtis.


– Você prefere ficar sentado sozinho e ler ou jogar basquete? – Curtis tinha perguntado uma vez. – A Laurie disse que eu preciso perguntar para você o que prefere fazer, em vez de achar que você vai vir brincar comigo toda vez. Scott deixou o livro cair no chão. – Eu sempre prefiro brincar com você. Mas você prefere fazer uns arremessos e não ter defesa, para depois ficar repetindo para si mesmo que é o melhor jogador, ou que eu mostre como é que se joga e detonar essa quadra? “Você prefere”. Aquilo tinha virado o dialeto deles. Uma versão para meninos do segundo ano para “Também amo você”. Você prefere comer vidro ou andar sobre ele? Você prefere engolir um punhado de aranhas ou ficar uma hora em um quarto cheio de morcegos? Scott ouviu Laurie pigarrear atrás dele. Você prefere continuar olhando para o menino e deixar sua esposa fula da vida pelo resto da noite, ou prestar atenção a ela? Ele deu as costas para a janela. – Eu também vou sentir saudade dele – ela disse. Pegou uma faca da gaveta e começou a cortar a lasanha. – Mas estou me concentrando no lado bom agora, e isso é o que você precisa fazer. Já planejei a semana que vem: na segunda-feira, vou vir do escritório para casa, me sentar no sofá com a pilha de livros sobre bebês que ainda não tive a chance de ler, e não me mexer até a hora do jantar. Ela apontou a faca para ele. – Estou contando com a possibilidade de o meu marido me levar para jantar nessa noite. E talvez até pegar um cinema depois. Quando foi a última vez que tivemos uma noite romântica? Ela fez uma pausa, esperando que ele percebesse a deixa. Ele fez que sim com a cabeça e ela, satisfeita, continuou. – Na terça-feira, vou usar, enfim, aquele vale-massagem para gravidez que as meninas do escritório me deram. Mal posso esperar. – Ela colocou a mão sobre a lombar e esfregou as costas. – Na quarta... Bom, só consegui planejar até a terça. O resto da semana provavelmente vai incluir um tempão sentada com os pés para cima, lendo, em silêncio absoluto. – Legal. – Pense em tudo que você vai poder fazer com seu tempo livre – ela disse. – Ler livros sobre bebês comigo, para começar. Já estou com seis meses e seis meses atrasada para aprender o que está acontecendo aqui. – Laurie apontou para a barriga e ele pousou a mão sobre ela, que cobriu a mão dele com a sua, apoiou-se no fogão e sorriu. – Às vezes ainda não consigo acreditar, sabe? Depois de todo esse tempo. Um bebê. Nesta casa. Em julho. – O sorriso ficou mais largo. – Você acredita? – Eu fico sorrindo como um idiota sempre que alguém me pergunta sobre isso – Scott respondeu. – Foi o que o Pete me disse. Pete Conner era um colega professor de inglês na Franklin e técnico assistente de basquete de Scott, além de seu melhor amigo. Ela estalou os dedos. – Ah, quase esqueci: a Nenê Feliz ligou. Sabe aquele berço que a gente viu? Aquele com os pés de garra, que já tinha sido vendido? Acontece que eles têm outro em consignação, que vai chegar no final da semana ou na segunda-feira. É cinza, mas nada que umas camadas de tinta não resolvam. Eles vão deixar reservado no nosso nome. – Gostei da notícia do berço, mas não da pintura.


– Ah, vai ser divertido. E é só um quarto desta vez, certo? Ele estreitou os olhos para que ela percebesse que ele já tinha entendido tudo. Podia ser apenas um quarto, mas ele tinha visto a lista de tarefas dela para o quartinho do bebê e era tão comprida quanto aquela que ela havia preparado para o ataque que fizeram ao primeiro andar inteiro da casa. Ela riu e deu um soco no ombro dele. – Para! – ela disse. – Você vai adorar decorar tanto quanto eu! – É, eu sei – ele respondeu. – Vou lá buscar o menino. A porta da frente se abriu com tudo antes que ele pudesse chegar até ela e Curtis entrou correndo. No último segundo, Scott abriu os braços para agarrá-lo, e Curtis deu risada com o encontrão. Scott relutou, mas se desvencilhou e pousou a mão sobre o ombro do menino, conduzindo-o para a cozinha. – Vá lavar as mãos, LeBron. É hora do jantar.


4. Mara Depois que o ônibus foi embora, Mara ficou de pé junto ao balcão da cozinha e passou a mão pelo granito frio. Era seu cômodo favorito na casa. Ela sempre achou a cozinha tão sedutora, com os balcões de granito cinza-escuros com uma linha fina de verde calcário, os armários altos de cerejeira num tom acolhedor, o piso sexy de ardósia, em um cinza mais claro que o do granito, mas com uma veia delicada do mesmo verde calcário. Hoje em dia a cozinha impunha alguns obstáculos, mas ela continuava a amá-la. A porta do forno parecia mais pesada a cada dia, e era preciso usar uma combinação ensaiada de movimentos dos braços, pernas e quadris para abri-la e fechá-la. A bancada foi obrigada a receber um tipo de ancoradouro largo: ela tinha machucados roxos o suficiente para se lembrar de como o granito podia ser dolorido ao impacto. Também não dava para brincar com o lindo piso de ardósia: quando ela não conseguia segurar direito um copo ou prato, já sabia que não precisava perder tempo desejando que eles se salvassem, e ia pegar a pá e a escovinha na dispensa. Tom vivia dizendo para ela passar mais tempo nos sofás macios e pisos acarpetados da sala de estar e da sala de TV, em vez de ficar nas cadeiras ou banquetas duras de madeira na cozinha. Mas Mara adorava a maneira como o sol entrava pelas portas de correr de vidro que se abriam para o jardim. O prisma de cristal pendurado no batente capturava a luz e a lançava em raios concentrados para a cozinha, um milhão de raios laser de cor que sempre a deixavam cheia de energia, mesmo nos dias de noites sem dormir e consultas preocupantes com o dr. Thiry na clínica para doença de Huntington no centro de Dallas. Mara, Tom e Laks almoçavam no balcão da cozinha e jantavam na sala de jantar, deixando a mesa da cozinha como o local de trabalho de Mara. O laptop dela morava ali, acompanhado por blocos de anotações, uma xícara cheia de canetas e pelo menos dez pacotinhos de post-its. Uma pilha de arquivos legais ficava por ali também. Agora Mara usava aquele espaço para as revistas e os romances a que recorria quando ainda estava acordada no meio da noite e não tinha mais nada para ler on-line. Pouco tempo antes, ela ia direito para a mesa depois de seu encontro cedinho com a máquina elíptica e os halteres que eles guardavam no quarto de hóspedes, conseguindo trabalhar por mais ou menos uma hora antes de o resto da casa acordar. Ela só voltava mais tarde, quando Laks já estava na casa, até Tom conseguir convencê-la a parar por aquela noite e ir com ele para o sofá na sala da TV ou, no inverno, em frente à lareira na sala de estar. Mara se dirigiu para a mesa e, ao se sentar, descolou um post-it gigante de um pacote, escolheu uma caneta e ficou pensando em tudo o que teria que fazer nos próximos cinco dias. Dar um jeito de Laks não estar em casa no sábado à noite. Ela tinha que se despedir. A tarefa número um – finalizar todos os detalhes – estava mais ou menos feita. Havia uma garrafa de vodca cheia no armário de bebidas. Ela vinha estocando comprimidos para dormir nos últimos meses e achava que tivesse o bastante, mas contaria as pílulas mais tarde só para garantir. Se achasse que precisava de mais, uma ligação rápida para o consultório do dr. Thiry resolveria o problema. Três palavras simples – “Não consigo dormir” – e mais trinta comprimidinhos brancos seriam dela.


A tarefa número dois – dar um jeito de Laks não estar em casa – poderia ser resolvida em um minuto. Mara pegou o telefone e ligou para seus pais. – Bom dia, filha. – Pori adorava o identificador de chamadas. – Oi, pai. A mamãe está aí? – Está, mas eu estou também. – Que bom. Quer falar sobre os planos para sábado à noite? – Vou chamar a sua mãe. Mara riu ao ouvir um barulho do outro lado da linha. – Marabeti – Neerja disse. – Como você está? Dormiu bem? – Como nunca – Mara mentiu. – Mãe, posso pedir um favor? A Laks pode dormir aí no sábado? – Claro. Seu pai e eu vamos adorar. Está tudo...? – Tudo ótimo. Tom e eu queremos... A gente tem que... Tem algo que precisamos... Sua mãe deu uma risada. – Você não tem que ter vergonha da sua mãe. A Lakshmi é bem-vinda aqui, e você e Tom podem aproveitar o... sei lá o quê. Ela achou graça. – Mãe. Por favor. – Só estou brincando, Beti. Queria eu ter essa oportunidade. O que você está fazendo hoje? Descansando, espero, né? Quando Mara não respondeu, Neerja completou: – Bom, não faça coisas demais hoje. – Obrigada por sábado. A Laks vai adorar. – Descanse, Mara. – Tá, mãe. A tarefa número três – dizer adeus sem levantar suspeitas – levaria mais tempo. Mara desenhou três colunas no post-it. Pessoas com quem ela falaria pessoalmente: Tom, Laks, seus pais. “Aquelas Moças” – o nome que Laks tinha dado para Steph e Gina, as duas melhores amigas de Mara, que andavam tanto em dupla que todo mundo entendia por que Laks as chamava por um único nome. Na verdade, quando Laks veio com essa, ela as chamou de “Aquelas Senholas”. Agora que ela podia pronunciar as palavras direito, não gostava que ninguém se lembrasse do “senholas”. E o timing era perfeito: Aquelas Moças iam levar Mara para almoçar no sábado para comemorar seu aniversário. Mais uma vantagem de ter escolhido 10 de abril como prazo. Ela pediria a Tom para levá-la ao seu lugar favorito para jantar na noite de sábado, decidiu, e anotou isso ao lado do nome dele para não esquecer. Pessoas para quem ela ligaria: suas amigas mais próximas da McGill em Montreal, suas melhores amigas da faculdade de direito depois de Steph. A mãe e a irmã de Tom em Nova York, que deveriam estar esperando a ligação semestral de Mara mesmo, e então não suspeitariam de nada. Sempre tinha sido


suficiente para elas saber nessa ligação semestral e no cartão de Natal anual como seu filho/irmão estava e quanto sua neta/sobrinha que elas tinham visto apenas em fotos tinha crescido desde as últimas notícias. Tão diferentes de Pori e Neerja, sempre por perto, e que sabiam mesmo antes de Mara se Laks tinha perdido um dente ou precisava de tênis num tamanho maior. “Esse é o risco que você corre”, Tom tinha dito com resignação, mas não amargura, “quando você confronta membros da sua família sobre o alcoolismo e eles preferem atirar no mensageiro em vez de ouvir a mensagem”. Pessoas para as quais ela mandaria e-mails: um bocado de gente na empresa em que ela e Steph tinham trabalhado desde a formatura na Faculdade de Advocacia SMU e algumas mães-amigas da escola de Laks. E, é claro, os queridos amigos de Mara do fórum “Não é a família do seu pai”, uma “comunidade on-line para famílias adotivas, temporárias, gays e outras não tradicionais”. Ela tinha encontrado o fórum uma semana antes de Tom e ela voltarem da Índia com a bebê Lakshmi, tirada do orfanato em Hyderabad, de onde Neerja e Pori haviam resgatado Mara 37 anos antes. Nos últimos cinco anos, Mara tinha conversado por alguns minutos quase todos os dias com alguns participantes do fórum sobre arranjos familiares pouco tradicionais e muito mais. Trabalho, culinária, exercício, finanças, casamento, sexo – nenhum tópico estava fora de questão. Muitas pessoas saíam do fórum quando sua pergunta específica era respondida, mas um grupo central de membros regulares permanecia, entre eles Mara. O motivo pelo qual cada um tinha entrado no fórum já tinha sido substituído pela razão pela qual eles ficaram: amizade. Com alguns membros ela tinha ido além das discussões em grupo e para o mundo privado das mensagens pessoais. Não era incomum que uma discussão começasse no fórum mais abrangente, e então um participante convidasse o outro para trocar mensagens pessoais para continuar falando sobre o assunto. As contas de mensagens pessoais eram estabelecidas por meio do fórum – um clique duplo do nome de usuário do membro permitia enviar uma mensagem pessoal a ele –, então essas mensagens não revelavam a identidade dos membros além das informações que o fórum principal fornecia. NadaMalvada, que havia fundado o fórum, pedia que os membros permanecessem anônimos para preservar os pais adotivos entre eles, muitos do quais estavam sob acordos de confidencialidade em seus estados por causa das crianças de que cuidavam. Mas todos os membros concordavam que o anonimato era uma das principais vantagens do fórum; não revelar nomes facilitava na hora de compartilhar detalhes que eles jamais revelariam a pessoas que conhecessem sua identidade. Mara tinha debatido com Tom tantas vezes ao longo dos anos como era estranho o fato de ela ser tão reservada na “vida real”, mas se sentir tão confortável ao compartilhar detalhes profundamente pessoais com gente que ela só conhecia como MãedePhoenix, CidadedosCarros, planodevoo, NadaMalvada, 2meninos. Mara escreveu o nome de CidadedosCarros no post-it e desenhou um círculo ao redor. Por um ano, ele e sua esposa vinham sendo os guardiões legais de um menino que deveria voltar para casa na próxima segunda-feira, para viver com uma mãe que tinha dado menos atenção ao menino nos oito anos de vida do moleque que CidadedosCarros nos últimos doze meses. Era fácil ver que CidadedosCarros amava aquele “Carinha” como se fosse seu próprio filho, e, embora ele tivesse dito muitas vezes que seria melhor ele voltar para a mãe, todo mundo sabia que o fato de domingo ser seu último dia com o menino estava acabando com ele. CidadedosCarros precisaria de um amigo na segunda-feira. Mara estaria morta no domingo. Seu peito ficou apertado de tanta culpa e ela deixou o post-it de lado para checar o laptop aberto. Acessou o fórum com um clique, abriu o software de reconhecimento de voz e ditou uma postagem rápida.


Terça, 5 de abril às 8h32 Para CidadedosCarros Pensei em você a manhã inteira. Só mais cinco dias com o seu Krinha (não que alguém precise lembrar isso a você). Estou mandando pensamentos positivos para você, meu amigo. Vou entrar de novo mais tarde para ver como foi seu dia.

Ela clicou no botão “Postar” ao pé da tela e esperou para ver se a sua mensagem aparecia como um novo comentário. Quando apareceu, Mara leu aquilo que havia postado e fez cara feia. Uma linha ou duas sobre “pensamentos positivos” parecia tão inadequado. Ela rolou a página até o final para ver o que NadaMalvada tinha postado como tópico de discussão do dia. Era sobre a situação de CidadedosCarros: como outros membros do fórum tinham conseguido segurar a barra ao devolver os filhos “temporários” para as suas famílias? Que conselho eles poderiam dar a CidadedosCarros para tornar os dias que se aproximavam menos tristes? O fórum ficaria mais leve hoje, Mara sabia disso, e sentiu seu peito relaxar. A maioria dos membros era bem ocupada, com pouco tempo livre, mas os “de sempre” tinham como prioridade passar um minuto ou dois por ali para checar o tópico do dia e postar algo antes de se voltarem de novo para os filhos ou o trabalho. Mesmo quando Mara estava atribuladíssima, ela arranjava um tempinho para oferecer uma linha ou duas de encorajamento quando um membro precisava. Mara nunca tinha contado sobre a sua doença para os amigos virtuais, e meses atrás um debate diário e acirrado tinha começado em sua mente: será que ela estava poupando seus amigos ou deixando-os de fora? Parecia desleal não ter contado nada para ninguém por tanto tempo. E agora desaparecer sem nenhuma explicação, ainda mais quando CidadedosCarros precisava de todos os amigos que tinha, parecia imperdoável. Mara se inclinou em direção ao microfone minúsculo do laptop e falou: Terça, 5 de abril às 8h34 Já que estamos nesse tópico de contagem regressiva de cinco dias, há algo que eu deveria ter contado para todos vocês há um tempo:

Ela leu o que havia ditado até então e ficou pensando em como continuar. Isso ajudaria CidadedosCarros, pensou, pois ele saberia que ela sentia mais que uma compaixão sem graça por aquilo que ele estava passando a milhares de quilômetros de distância. Ela também estava se preparando para se despedir da filha. Entendia o sufoco que ele deveria estar sentindo ao pensar em se despedir de seu Carinha. O pânico que deveria apertar o peito dele quando imaginava sua vida sem o menino. Como ele devia engolir o choro toda vez que o colocava para dormir, sabendo que o beijo de boa-noite de hoje seria um dos últimos. Ela sentia as mesmas coisas, e agora poderia contar para ele. Ele gostaria de saber que uma amiga estava passando pela mesma agonia que ele, não é? Ou ele ficaria horrorizado, sabendo que ela tinha escolha nesse caso e havia escolhido só mais cinco dias e não mais... mesmo que ela não soubesse quantos dias ainda tinha? Será que eles ficariam todos horrorizados? Seria melhor sair quietinha da vida de CidadedosCarros, da vida de todos eles, e não sobrecarregar ninguém com o motivo? Poucos meses antes, o controle motor perfeito de Mara tinha começado um motim. Mais perturbador que os grãos de café espalhados pelo balcão e pelo chão da cozinha foi o fato de, do dia para a noite, seus posts no fórum parecerem ter sido escritos por uma criança semialfabetizada na segunda série. Quando 2meninos afinal perguntou com seu estilo cuja característica era ser abrasivo (“que porra é essa, mãedalaks – já tomou várias agora cedo?”), Mara mentiu e disse que tinha quebrado o braço e estava usando só uma das mãos para digitar. Ela passou a hora seguinte fazendo o download de um software de reconhecimento de voz no laptop e no telefone.


Se ela confessasse tudo para eles agora, será que se culpariam por não terem percebido o retorno rápido demais de sua agilidade ao digitar, a recuperação rápida demais de um osso presumidamente quebrado? Será que contar ajudaria apenas a eles ou só a ela? Ela morreria sem a culpa de ter desaparecido do fórum sem explicação nem despedida, mas eles viveriam sabendo que sua amiga havia sofrido esse tempo todo e eles não tinham feito nada para ajudar. Eles jamais se perdoariam por não tê-la apoiado, e o fato de ela nem sequer ter dado a eles a chance não faria com que eles se sentissem melhor. No começo não foi uma decisão consciente deixar de contar sobre a doença. Ela ainda estava em estado de negação, e era tão difícil admitir para si mesma que havia algo de errado quanto admitir o fato para eles. Mas então, após o diagnóstico, todo mundo ao seu redor ficou preocupado demais e atencioso de modo tão insuportável que ela começou a se arrepender do fato de todos saberem. Apesar de ser um alívio ter um diagnóstico em mãos, ela ficava fula da vida ao se ver deteriorar aos olhos das pessoas à sua volta. Como Mara havia aprendido, bastava usar a palavra “doença” para de repente todo mundo começar a tratar você como se estivesse doente, mesmo nos dias em que se sentia bem. O fórum havia se tornado o último vestígio de normalidade em sua vida. Era o único lugar em que as pessoas não estavam sempre pedindo a ela para diminuir o ritmo, relaxar, preservar sua energia. Lá ela não era tratada como Mara a paciente, Mara a doente, Mara a pobre alma que não sobreviveria aos próprios pais. No fórum, ela era simplesmente a mãedalaks: mãe adotiva, advogada em tempo integral, esposa de seu namorado da faculdade, amiga que gostava de ajudar. Por aquela razão o fórum havia se tornado sua tábua da salvação em muitos dias. Uma corda que a ancorava à realidade, por mais frágil que às vezes parecesse. Mara leu de novo o começo do post que havia ditado. Ela nunca havia precisado tanto de ajuda para manter a sanidade como nesta semana. Não era o momento de contar seu segredo para eles. Levou o cursor ao pé da tela e clicou em “deletar”.


5. Mara Mara estava deitada ao lado de Tom na cama, passando a mão pelo ombro e o peito dele enquanto o marido dormia o sono satisfeito de um homem que havia acabado de fazer amor. Para ela havia sido um tipo meio desesperado e carente de sexo. Parte desculpa por aquilo que ela estava prestes a fazê-lo sofrer, parte gratidão por tudo o que ele havia feito por ela e faria pela filha deles. Parte despedida. Para ele, tinha sido quente. Agora, meia hora depois, ele nem se mexia enquanto sua mão se movia pelo corpo dele. Ela passou o dedo indicador de leve pelo nariz de Scott e sobre a barba por fazer no queixo quadrado. Ele não era nem um pouco vaidoso, mas nos últimos tempos andava meio preocupado com os cabelos grisalhos em suas costeletas, e com a maneira como a barba estava crescendo meio grisalha também – não que ele deixasse a barba crescer por mais que um fim de semana prolongado. Mas Mara adorava. Era como se os cabelos grisalhos fossem holofotes atraindo a atenção para o contraste com os olhos azuis dele. Certa vez Neerja havia contado a Mara que “dizem” que a combinação de cabelo escuro com olhos azuis, que é muito rara, tende a resultar em uma beleza excepcional. Com certeza o objeto de estudo que dormia ao seu lado provava aquela teoria. Ele era sempre muito paquerado, tanto por mulheres quanto por homens. Quantos convites e propostas ele havia recusado nos últimos 22 anos?, ela ficou pensando. E quanto tempo levaria para aceitá-los quando ela não estivesse mais aqui? Tirou a mão dele. Desvencilhando seus membros dos dele, ela saiu de fininho do quarto e foi para o quarto de Laks, um desvio curto a caminho da mesa da cozinha e do laptop à sua espera. Era um hábito noturno instintivo – alguns segundos para cobrir a menina, tirar um pouco dos bichinhos de pelúcia encaixados ao redor dela, beijar a sua testa e sussurrar “te amo” antes de se sentar à mesa para trabalhar, ler ou navegar na internet. Mas nesta noite Mara ficou congelada com a visão daquele ombrinho magro sobre as cobertas, e parou ao lado da cama observando-o ir para cima e para baixo até suas pernas ficarem bambas. Ela se sentou na pontinha da cama e, quando percebeu que seu peso sobre o colchão não havia feito a menina se mexer, aproximou-se aos poucos do corpo que dormia. Ela colocou um braço ao redor de Laks e a puxou para si bem devagar até ficarem de conchinha, a bundinha da criança pressionada contra a barriga de Mara. Enterrou o nariz nos cabelos grossos da filha e respirou fundo. Laks tinha conseguido escapar do banho naquela noite, e seu cabelo tinha um cheiro fraco do xampu do dia anterior e.... mel? Do almoço, Mara pensou: cinco vezes por semana de sanduíche de pão integral, sem casca, com manteiga e mel. Seis minicenouras. Uma garrafa d’água. E o maldito biscoito, é claro. Deus que perdoasse quem se esquecesse de incluir o biscoito. Mara aproximou o nariz do pescoço da menina e sentiu algo grudento. Sorrindo, ela imaginou Laks no refeitório brandindo o sanduíche no ar enquanto conversava com sua amiga Susan e as outras meninas, sentindo de repente uma coceira no pescoço e usando a mesma mão para coçá-la. O fato de ter espalhado mel no próprio pescoço não a teria perturbado nem um pouco. Ela teria dado de ombros – talvez com arrependimento, talvez não – e continuado conversando. “Senhorita Baguncinha”, Tom a chamava.


Mara puxou Laks para ainda mais perto, uma mão esticada passando pela pequena caixa torácica. Ela podia sentir o coração da menina batendo em sua palma. Devagar, moveu-se um pouco para baixo na cama e pressionou o nariz e a boca contra a pequena camiseta do pijama, o tecido texturizado áspero contra seus lábios. Ela respirou fundo de novo: corpo matinal. – Essa criança nem tem bafo matinal quando acorda – Tom disse certa vez. – Ela tem corpo matinal. Não que eles tivessem outro filho para poder comparar, mas ficaram surpresos ao perceber como ela tinha um cheiro azedo quando estava prestes a acordar. Era uma combinação de suor de menininha e baba seca. E, em noites sem banho como esta, o aroma era “realçado” por qualquer comida que ela tivesse conseguido derrubar sobre si mesma durante o dia. – É meio nojento –, Tom havia dito. “É o melhor cheiro do mundo”, Mara pensava agora. Ela fechou os olhos e inalou de novo, pressionando cada centímetro de seu corpo que podia contra o de Laks, tentando implantar em sua memória a sensação precisa do calor da filha, suas vértebras protuberantes, o bumbum ossudo. O cheiro dela. O barulho de sua respiração enquanto dormia, a pausa breve e silenciosa antes de inalar. A imagem da filha, tão quieta, tão pequena, tão em paz. Um soluço saiu com tudo do peito de Mara. Um soluço de pânico, aterrorizado que instintivamente a fez segurar a menina mais apertado. Laks se mexeu e tentou rolar para o outro lado, mas o corpo da mãe a bloqueava de um lado enquanto vinte bichinhos de pelúcia a aprisionavam do outro. – O quê? Mãe? – ela se soltou dos braços de Mara e virou o rosto para ela, acordada e confusa. – Tudo bem, querida – Mara disse, levantando-se. – Eu vim cobrir você e parecia que estava com frio, então achei melhor abraçar para esquentar você um pouco. Mas eu já estava saindo. Dorme. Ela se inclinou para dar um beijo na bochecha da menina e sentiu tanto alívio quanto tristeza quando Laks piscou uma vez e caiu no sono de novo. Mara se encaminhou para o corredor antes que os joelhos não aguentassem mais seu peso. Ela se apoiou na parede. Ao mesmo tempo que fazia um grande esforço, podia ouvir a respiração baixinha de Laks pela porta, e na escuridão fechou os olhos e viu o ombro estreito subindo e descendo. Ela cheirava a manhã e a mel amanhecido. Um pequeno gemido escapou de sua garganta antes que pudesse impedi-lo colocando a mão sobre a boca. Louca para poder sentir o corpinho contra o dela de novo, deu um passo em direção à porta do quarto. Ela ouviu aquela pequena pausa ao final da respiração da menina e tapou a boca com a mão ainda com mais força quando outro gemido conseguiu escapar, mais alto que o primeiro. Laks se mexeu e Mara deu um passo para trás e para longe da porta. Era cedo demais. Ela não poderia fazer aquilo. Domingo era cedo demais. E se ela tivesse mais doze meses? Mais um ano inteiro preparando lanches para a escola, dando banhos. Mais um ano de abraços e risadas e da hora de dormir. De pijamas ásperos e corpo matinal. Talvez tivesse sido um incidente isolado o que acontecera no supermercado. Talvez ela devesse falar com o dr. Thiry ou alguém da equipe dele sobre o acontecido antes de chegar à rápida conclusão de que era mesmo o começo do fim. A doença de Huntington era diferente para todo mundo, eles diriam a ela – falavam a mesma coisa em quase toda consulta. Uma incidência de incontinência poderia ser sinal do início de um grande declínio para um paciente, mas algo aleatório, insignificante e que nunca mais acontecia para outro.


Na cozinha, ela pegou o telefone, apertou o número gravado para a clínica do dr. Thiry e deixou uma mensagem perguntando se poderiam encaixá-la no dia seguinte para uma consulta breve, só uma ou duas perguntas rápidas sobre um pequeno incidente. Podia ser um exagero, e as respostas com certeza a impediriam de fazer tempestade em copo d’��gua. Sentiu seu pulso lento ao olhar para o fone na mão. Talvez ela sobrevivesse até o próximo aniversário.


6. Scott Scott se recostou na cadeira e deu um tapinha na barriga. – Você é uma ótima cozinheira, Laur. Estava ótimo. – Obrigada. – Ela empurrou seu prato quase intocado em direção a ele. Ele deu algumas garfadas antes de erguer a mão: – Não posso mais. Ao se virar para Curtis, Laurie disse: – Pensei em fazer espaguete amanhã. Que tal você fazer uns biscoitos para a sobremesa? Com a boca cheia, Curtis sorriu e concordou com o polegar. – Não por causa do belo relatório que a srta. Keller vai escrever na sua agenda amanhã à tarde. É só para fazer os biscoitos mesmo. – Ela pousou a mão sobre a dele e Scott sorriu ao ver o menino lançar um olhar suspeito para os dedos que seguravam os seus; ele sabia o que vinha por ali. – Não deveria ser esse bafafá toda vez que você se comporta bem na aula – ela disse, com a voz séria, porém gentil. – Você sabe disso. Deveria ser algo que você faz o tempo todo, porque é a coisa certa a fazer. Curtis fez que sim com a cabeça, ainda mastigando. – Um dia, você vai conseguir se comportar do jeito que deve mesmo sem ganhar adesivos de bom comportamento, sem jantar especial, sem noite de cinema, sem eu e o Scott tomando conta de você. Porque fazer a coisa certa não acontece por causa de uma folha cheia de adesivos, certo? O menino fez que não com a cabeça. – E acontece por causa da... Ele apontou para a testa. – Certo. E do que mais? Ele apontou para o coração. – Esse é o meu garoto! – Ela fez um carinho na mão dele. – Você já conseguiu. E pode fazer isso sozinho. Não precisa de mim, nem do Scott, nem dos adesivos, nem mesmo da srta. Keller. Você tem tudo de que precisa bem aqui – ela apontou para a testa dele – e aqui – falou apontando para o coração do menino. – Certo? – Certo! – ele respondeu, já tendo acabado de mastigar. – Como hoje: eu fiz tudo direito. Tudo o que tinha que fazer. Igualzinho ao que está escrito na minha agenda. – Ele olhou de relance para os dois antes de baixar o queixo para estudar seu prato. Scott olhou de lado para a esposa, como se estivesse apostando em silêncio que ela não deixaria a mentira escapar numa boa. – E foi por isso que você recebeu um bilhete tão legal da srta. Keller – ela disse para o menino antes de se virar para dar um sorriso vitorioso para o marido.


Ele se inclinou para dar um beijo nela. – Você está ficando mole – ele sussurrou enquanto voltava para a sua cadeira. – Quando o bebê nascer, você vai ser tão trouxa quanto eu. A mão dela pousou cheia de empatia sobre o joelho dele e ele a cobriu com a sua. – Tenho uma ideia – ele disse. – Por que você não deixa eu e o Carinha arrumarmos a cozinha enquanto se arruma para o clube do livro? Quando ela foi se trocar, Scott e Curtis se levantaram para tirar a mesa. – Você prefere que eu ajude, mesmo que eu deixe todos esses pratos caírem no chão e quebre tudo – Curtis perguntou equilibrando os pratos nas mãos –, ou prefere fazer isso sozinho e garantir que nada saia quebrado? Enquanto eu fico sentado à mesa, tomando o maior cuidado, sem mexer em nada e talvez até contando para você umas piadas novas? – Você prefere varrer a garagem, incluindo todos os cantos onde as aranhas maiores e mais cabeludas moram, ou ir até o porão ver se a gente pegou alguma coisa bem enorme e feroz nas ratoeiras? – Ecaaaaa – o menino teve um arrepio exagerado e se rendeu ao trabalho. Quinze minutos depois, Scott estava colocando detergente na máquina de lavar louça quando ouviu sua esposa descendo as escadas. Ele olhou para cima e deu um assovio baixo. As ondas compridas de seu cabelo, libertadas do confinamento do rabo de cavalo, cobrindo seus ombros, e a cor do vestido que ela tinha colocado – canela, ele achava que era isso que ela tinha dito – realçavam todas as suas feições. Os olhos dela brilhavam, o rosto também, o cabelo parecia ter um viço especial. E tudo aquilo só por usar o vestido certo. “E estando grávida”, ele pensou. A gravidez de fato a tinha deixado mais relaxada, não apenas no jeito como falava com Curtis, mas fisicamente também. A gravidez havia relaxado a tensão ao redor de sua boca e das têmporas, nas quais todo o desapontamento, a frustração e o ressentimento se acumulavam antes. Todas essas coisas logo apareciam na sua expressão e no seu tom de voz uma vez ou outra, mas não mais o tempo todo. Ele ficou feliz ao ver que ela tinha trocado os brincos pequenos e conservadores que usava no trabalho por aqueles no formato de uma gota substanciosa que eles tinham comprado juntos em uma feirinha de arte anos atrás. Os brincos eram compridos e dramáticos, e ele achava que a faziam parecer descolada, artística e sexy. E, sabendo disso, ela usava aqueles brincos toda noite em que saíam, e não os tirava nem quando eles faziam amor. Nos últimos tempos, mesmo se ela os usasse, era capaz de a noite acabar com uma beijoca na bochecha antes que cada um se virasse para o seu lado. Mas o coração dele bateu um pouco mais rápido mesmo assim. – Uau. – Ele cruzou a sala em direção a ela e tirou uma mecha de cabelo do seu rosto. – Permitem homens no seu clube do livro? Quer dizer, só para ficar ali observando? Rindo, ela içou o corpo ao redor dele para falar com Curtis, que estava na cozinha enxugando a assadeira da lasanha. – Cinco páginas hoje à noite, certo? Curtis olhou por sobre o ombro e fez que sim com a cabeça, animado. Ela ergueu a mão para contar alguns itens nos dedos. – E matemática. E um banho. Ele escancarou a boca em um protesto exagerado.


– Eu sei – ela disse. – É uma tremenda injustiça. Ela passou por Scott para dar um beijo e um abraço no menino, pousou os lábios rapidamente na bochecha do marido e se encaminhou para a porta da frente. – Até mais, meus homens favoritos – disse. – E é melhor que um de vocês esteja dormindo quando eu chegar. – Se os dois estiverem dormindo, pode acordar um de nós – Scott disse. Ele ouviu o tilintar de uma risada antes de a porta se fechar.

* Scott e Curtis estavam em suas posições noturnas de sempre na sala de TV: Curtis quase perdido no meio das almofadas gigantes no sofá, contando as páginas até poder se livrar de seu treino de leitura, e Scott à escrivaninha embutida ao lado da janela, armado com uma caneta vermelha para atacar uma pilha de trabalhos de inglês do sétimo ano. Do outro lado da janela estavam as prateleiras de livros que tomavam a parede toda com as quais Laurie tinha sempre sonhado, agora cobertas por duas camadas de tom cru aconchegante e cheias até a boca de livros e porta-retratos. Uma lareira de pedra ficava na parede dos fundos da sala. Scott tinha acendido a lareira logo após o jantar e agora o fogo queimava aos poucos, quase pronto para outro tronco de madeira. Eles haviam escolhido a parede oposta à lareira para a cor especial – Verde Musgo Profundo –, que assumia uma aparência texturizada quando a luz do fogo dançava sobre ela, dando a impressão de que estava coberta por veludo. Uma moldura escura bem no meio da parede exibia sua fotografia predileta: ele e Laurie ensopados na proa do Maid of the Mist debaixo das Cataratas do Niágara. Os dois em lua de mel, os rostos juntinhos para que Scott pudesse fazer a selfie. Eles estavam encharcados e congelando, além de um pouco enjoados, mas mesmo assim sorrindo como se tivessem acabado de ganhar alguma coisa. Pelo menos metade das fotos pela sala mostrava a mesma coisa: os dois rindo, de rosto colado, enquanto um deles segurava a câmera à frente de ambos. Ou de pé, se abraçando, enquanto outra pessoa registrava o momento para eles, os corpos grudados no limite do possível. Lembranças emolduradas de como eles eram felizes. Havia fotos mais recentes também. Laurie e Scott à porta do banheiro em outubro do ano anterior, a boca dos dois aberta de animação e surpresa enquanto ela segurava um teste de gravidez em branco e ele esticava o braço para tirar a foto. Scott e Curtis à entrada da casa, Curtis segurando uma bola de basquete junto ao peito com uma das mãos, erguendo o dedo indicador para anunciar que era o autoproclamado número um na liga de basquete do quintal. Scott estava agachado ao lado dele, seu cabelo escuro de tanto suor, os olhos com uma expressão cética perante a proclamação de vitória do menino, a mão esquerda perto da bola, pronta para roubá-la e continuar o jogo depois do clique. Scott, Pete e Curtis nos degraus da varanda em novembro passado, cada um brandindo um ingresso de futebol americano no ar e todos vestidos nas cores amarelo-limão e azul da Universidade de Michigan, onde Scott e Laurie tinham estudado, no campus onde eles se conheceram como alunos do primeiro ano havia quase quinze anos. No canto inferior direito da foto estava o irmão mais velho de Curtis, Bray, exaluno e jogador de basquete de Scott. Agora Bray estava no segundo ano com uma bolsa para jogar basquete em Michigan. A vida dele


prometia tanto que quando sua mãe, LaDania, fora mandada para a prisão por doze meses desde o último mês de abril, Scott agarrara a chance de tomar conta de Curtis o ano inteiro para que Bray não arriscasse seu futuro tendo que tirar folga para cuidar do menino. Na foto, Bray estava na grama ao lado da varanda, segurando o próprio ingresso. Mesmo meio agachado na foto, ele ainda era um metro mais alto que o irmão. Laurie e Curtis em frente ao fogão no primeiro dia do menino com eles, na primavera passada, com uma assadeira de biscoitos entre eles e Curtis brandindo um como prêmio. O primeiro biscoito que ele comera na vida que não tinha vindo de um pacote, Curtis contou para eles. Ficaram pensando se ele relutaria em provar o biscoito – mas a hesitação só durara dois segundos. No instante em que o menino escutou o clique da câmera, enfiou o biscoito na boca. Talvez ele nem tenha mastigado direito antes de engolir. Ele não havia sido tão espontâneo com seu bolo de aniversário alguns meses antes. Berrou quando Laurie segurou a faca sobre o bolo e implorou para que ela não o cortasse. Ele queria guardar o bolo para sempre, tinha dito. Não era nada especial, Laurie respondeu, só um bolo comum transformado em um campo de batalha com a ajuda de corantes verde e marrom para alimentos e um pacote de soldadinhos de plástico. Ela poderia fazer outro para ele a qualquer momento. E gravaria este para ele, completou, levantando a câmera e disparando meia dúzia de fotos. Mas Curtis ergueu as duas mãos, protegendo o bolo contra a faca, enquanto Scott, Pete e Laurie trocavam olhares confusos. Por fim, Bray sussurrou para que Curtis não ouvisse e disse que era o primeiro bolo de aniversário da vida do menino. Mais tarde, ele explicou que, embora LaDania tivesse conseguido arrumar um presente ou dois para os aniversários dos meninos (em geral ainda na sacola da loja em que foram comprados e com a etiqueta do preço), organizar detalhes mais refinados como ter um bolo e velas prontos, ou embrulhar os presentes com papel e laços, era mais do que ela podia ou se dispunha a fazer. Até então, Scott e Laurie tinham feito tantas “primeiras vezes” pelo menino que não ficaram tão surpresos ao ouvir isso – as primeiras roupas que não eram usadas (dadas por alguém ou de uma loja de artigos de segunda mão), o primeiro corte de cabelo no barbeiro e não à mesa da cozinha, a primeira vez que alguém colocou seu almoço na lancheira e não teve de comer o grude na cantina da escola. Laurie passou a mão sobre a cabeça do menino para tentar acalmá-lo e disse que faria outros bolos para ele, como aquele. Um bolo por mês, se ele quisesse. Então ele ficaria livre para comer esse inteirinho, sem se preocupar se seria o último. – É isso mesmo, cara – Pete disse a Curtis. – Você já viu como a Laurie adora fazer bolo. Ela pode fazer outro como esse muitas outras vezes. – Mas depois que esse acabar – Curtis disse, apontado para a cena comestível de guerra à sua frente – meu aniversário vai acabar também. – É, mas você vai ter outro no ano que vem – Scott disse, sentando-se ao lado do menino e pousando a mão sobre o ombro dele. – Este não é o seu único aniversário, Carinha. Certo? Curtis respondeu tão baixinho que Scott não conseguiu escutar. – O que você falou? – ele perguntou, aproximando-se do menino. O garoto ergueu a cabeça, colocou a mão na nuca de Scott para puxá-lo mais para perto e sussurrou em seu ouvido: – Eu disse que é meu único aniversário com um pai. Scott escutou um clique distante enquanto Laurie tirava mais uma foto: Curtis e Scott, as testas coladas,


abraรงados, segurando-se com forรงa, como nรฃo quisessem se soltar nunca mais. Scott tinha aquela foto no seu criado-mudo.


7. Mara Mara e Tom disseram ao dr. Thiry que, olhando para trás, era provável que já houvesse sinais da doença quando Mara estava na faculdade de direito. Na sua maioria, problemas de memória: uma vez ela foi andando até a loja de bebidas para comprar vinho e voltou para casa sem nada. Chegou à esquina e se esqueceu do que tinha ido comprar, então deu meia-volta e foi para casa encontrar um marido surpreso à mesa, em frente a duas taças de vinho vazias. Era o estresse dos exames finais, eles tinham decidido, rindo sobre sua “demência induzida por faculdade de direito”. Em outra ocasião, Tom chegou à biblioteca da faculdade de direito para eles saírem para comemorar o aniversário de casamento, algo que tinham discutido a semana toda. Ela ficou olhando para Tom como se ele tivesse inventado a história toda. Conseguiu convencê-la a tomar um café, mas ela engoliu tudo em alguns minutos e mandou-o ir para casa, irritada por ele ter interrompido seus estudos. Mais tarde naquela noite, ao ir da biblioteca para casa a pé, ela se lembrou de tudo de repente. Aí, foi correndo para casa e se enfiou na cama com ele, cobrindo-o de beijos, pedidos de desculpas e lágrimas enquanto ele dava um sorriso safado e dizia que já tinha pensado em uma maneira de ela recompensá-lo por tudo aquilo. Ao se lembrarem dessas situações com mais atenção, eles levantaram mais incidentes, alguns por ano desde que tinham se formado, seguidos por um aumento significativo depois que ela se tornou sócia na empresa. No começo, eram pequenas coisas: um ou dois itens esquecidos da lista de supermercado, ou ela se esquecer de ir ao tintureiro. Mesmo quando não eram coisas tão triviais, eles sempre riam daqueles momentos. Eram engraçados, “fofinhos”, Tom disse, nada que os dois considerassem algo com que se preocupar. Ela se esqueceu de um horário marcado no cabeleireiro, e o salão ligou. Ela se esqueceu de deixar um cheque para o serviço de limpeza da casa e recebeu uma ligação não tão amigável do gerente. Ela não apareceu na consulta com o dentista e recebeu a conta pelo correio – com um carimbo dizendo “Taxa de Segunda Consulta Perdida”. Ao remarcar o cabeleireiro e o dentista e assinar um cheque e um bilhete de desculpas para a faxineira, Mara riu e disse a Tom que nem tinha percebido que precisava retocar as raízes, de uma limpeza nos dentes ou que os banheiros da casa estavam sujos. Se ela não se importava com o estado dessas coisas, então por que o cabeleireiro, o dentista e a faxineira estavam em pé de guerra? E então, em setembro, apenas alguns meses depois de terem trazido a bebê para casa, essas coisas perderam a graça. O celular de Mara tocou às nove e quinze certa manhã e Gina, que trabalhava como sua secretária à época, estava agitada do outro lado da linha. – Cadê você? Eles estão aqui! – Quem está aí? – Mara perguntou. Ela estava sentada na sala de TV com a mãe, Neerja, tomando café e vendo a bebê Laks dando seus resmunguinhos no chão à sua frente. Mara e Tom tinham planejado contratar uma babá para ficar com a bebê enquanto eles continuavam suas doze horas de jornada de trabalho. Mas Pori e Neerja não queriam ouvir falar de uma estranha criando sua neta e nem ligaram para os apelos de Mara de que não jogassem a aposentadoria no lixo trocando fraldas. Eles chegavam cheios


de alegria toda manhã, “expulsando” Tom e Mara e dizendo que podiam trabalhar quanto precisassem, e que a Nana e o Nani da bebê tinham tudo sob controle. Naquele dia, Pori tinha saído para resolver algumas coisas e, só por diversão, Mara decidiu passar uma hora tranquila com a mãe e a filha antes de ir para o escritório. Mara se inclinou para tocar a barriga da bebê e estremeceu quando a voz de Gina berrou em seu ouvido: – O mediador! Os executivos da Torkko! O Sr. Hoskins! Todo mundo! Quando Mara não respondeu, Gina disse: – A mediação da Torkko? Às nove e meia hoje? – Merda! – Mara se levantou e a bebê, assustada pelo grito, começou a chorar. Neerja a pegou no colo e a tirou da sala enquanto Mara checava seu relógio. Ela estava a trinta minutos do escritório, isso sem trânsito. – Eu vou conseguir chegar às nove e quarenta e cinco, dez horas no máximo. Dê um jeito de enrolar todo mundo. Mais tarde, quando as portas do elevador se fecharam e os clientes tinham ido embora, Mara deu um abraço apertado em Gina e a beijou na bochecha. – Você é um presente de Deus! O que eu faria sem você? Vamos, vou levar você para almoçar. Sem sanduíche hoje! Gina sorriu, orgulhosa, mas ergueu as mãos em protesto. – Só estou fazendo o meu trabalho. E será que temos tempo para almoçar fora? Já é tarde e o relatório da Winchester Foods ainda precisa de bastante trabalho, não é? Mara ficou olhando para ela com cara de paisagem. – A apelação da Winchester Foods – Gina repetiu. – Nosso relatório de resposta? Que é para hoje...? Mara levou a mão à boca. – Ai, meu Deus! Eu me esqueci completamente! – ela lançou um olhar preocupado para Gina enquanto a lembrança das horas passadas trabalhando no relatório da Winchester Foods veio à mente, assim como todo o trabalho restante a ser feito antes do prazo, que chegaria ao fim em questão de horas. – Você está bem? – Gina sussurrou para a chefe, segurando seu braço. Ela a levou, passando pela mesa da recepção, até seu escritório, onde Mara se afundou na cadeira. – O que está acontecendo, Gina? Eu teria tido um longo almoço comemorando a parceria recuperada da Torkko, e sem fazer trabalho nenhum para a apelação da Winchester Foods. O que há de errado comigo? Nós trabalhamos nisso o dia todo ontem. Foi a única coisa que a gente discutiu o dia inteiro. Mara levou a mão da boca aos olhos e pressionou o polegar com força contra uma das têmporas, a mesma coisa do outro lado. Uma coisa era esquecer de ir ao dentista ou pagar a faxineira; aquelas situações eram fáceis de resolver com uma desculpa e um dinheiro a mais. Mas esquecer de prazos no trabalho podia acarretar um processo contra a empresa, e Mara seria demitida. Ela não podia mais ficar pensando em seus problemas de memória com curiosidade e não fazer nada sobre aquilo. Precisava tomar uma atitude. Mas, primeiro, teria de finalizar a apelação da Winchester Foods e mandá-la para o tribunal. Pelas três horas e meia seguintes, elas revisaram o relatório a fundo e o deixaram na mão do entregador sem tempo de folga até o prazo no tribunal. Quando o motoboy foi embora, Mara fechou a porta da sala e se sentou à


sua mesa, fazendo um gesto para que Gina se sentasse em uma das cadeiras à sua frente. – Não podemos deixar que isso aconteça de novo – Mara disse. – Não posso esperar que os clientes sejam tão compreensivos sobre mediações esquecidas. E um prazo perdido no tribunal é negligência. Gina tentou falar, mas Mara ergueu a mão como quem diz “espera aí”. – Na semana passada, quando você teve uma consulta no médico durante o horário de almoço, eu deveria ter participado daquela reunião sobre litígio ao meio-dia. Eu quase me esqueci de aparecer, até a Steph passar aqui para irmos juntas. E até eles me apresentarem eu nem tinha lembrado que era a minha vez de falar das atualizações anuais de procedimento civil. Gina ficou de queixo caído. – Eu pensei... – ela começou, mas se segurou. – Você pensou que eu soubesse? Gina fez que sim com a cabeça. – Porque... nós falamos sobre isso? Gina estremeceu. – Jesus! – Mara deu um tapa na mesa. – A gente falou sobre isso? – Você é quem mais trabalha nesta empresa. Todo mundo diz isso – Gina disse. – Eu já tinha pensado como é que você consegue lidar com tudo ao mesmo tempo. Talvez, depois de um tempo, tenha ficado impossível. – Bom, “impossível” não é uma opção. A gente precisa de uma solução. – Que tal pegar mais leve? – Gina perguntou. – Todas as outras sócias já fizeram isso, pelo menos por um tempo, depois que tiveram filhos. Até a Steph... – Gina – Mara lançou um olhar mortal para a mulher. O assunto de como ela trabalhava demais estava fora de cogitação – para Gina, para Tom, para os pais de Mara, para sua melhor amiga, Steph, sua sócia na empresa. Não que todos já não tivessem tentado, alguns deles mais de uma vez, convencê-la a diminuir o ritmo. Mas esta era a pessoa que Mara pensava ser: Mara, a advogada incansável; Mara, a mulher casada e com um bebê mas que continuava a trabalhar tanto quanto uma mulher solteira. Ela sempre tinha sido assim, fazendo todos os trabalhos para crédito extra no ensino fundamental, lendo todos os “livros sugeridos” da lista de verão no ensino médio enquanto seus amigos estavam dormindo até tarde, estreitando os olhos para conseguir ler sob a luz tênue depois que sua companheira de quarto na faculdade já tinha começado a roncar na cama ao lado da sua. Mesmo na faculdade de direito, um lugar repleto de workaholics, ela era conhecida por suas maratonas na biblioteca e por recusar a happy hour com os colegas nas noites de sexta-feira se não tivesse cumprido a meta de estudos para aquela semana (que ela tinha estabelecido para si mesma, claro). E é como ela sempre seria, dizia a eles. Então eles podiam guardar os avisos e a bajulação e as súplicas para si mesmos. Nada a fazia se sentir tão viva quanto um dia longo e produtivo na empresa de advocacia. E nada – nem os amigos, nem os pais, nem a happy hour, nem o marido e nem mesmo um bebê novinho – poderia fazê-la desistir disso. – Tá – Gina disse, pegando um bloco de anotações e uma caneta da mesa de Mara. – Vamos tirar um tempo agora para ver a sua agenda e garantir que tenho todos os seus prazos. Então eu posso lembrar você quando eles estiverem perto. – Obrigada. Isso vai me ajudar muito. Mas é mais do que prazos. É tudo. É como se a minha memória


de curto prazo estivesse em greve. A gente precisa de algum sistema, alguma coisa infalível. Gina se inclinou para a frente, pousou as duas mãos sobre as de Mara e sorriu. – Vamos dar um jeito. Pelo resto da tarde e o começo da noite, elas analisaram todos os arquivos abertos na sala de Mara. Gina estava armada de um calendário para mesa, um bloco, uma pilha de post-its e canetas coloridas. Quando elas terminaram, um pouco depois das sete horas, Gina tinha dez páginas de notas e um calendário cheio de anotações, e havia colocado post-its em metade dos arquivos de Mara, com cores diferentes para indicar níveis diferentes de urgência. – Vou colocar todos os prazos no meu calendário do e-mail – Gina disse, recolhendo suas coisas – e vou mandar avisos de reuniões para cada um deles. Vou acionar o alarme do calendário para mandar vários lembretes de cada prazo para você. – Quando ela chegou à porta da sala de Mara, Gina olhou para ela pensativa. – Me deixe terminar isso, e então pensar no que mais posso fazer para garantir que temos tudo sob controle. – Obrigada, Gina. Isso vai muito além do que você está aqui para fazer. – Mas você sabe de uma coisa? Você é a única advogada que toma conta dos próprios prazos. Já era hora de me deixar ajudar com isso. Mara se sentiu melhor ao ouvir aquilo. Ela não era a única que estava sob estresse demais por causa do trabalho e do ritmo frenético de conciliar profissão e família, para conseguir manter o controle de tudo. – Sim, mas você também trabalha demais – ela disse a Gina. Fez um gesto mostrando a sala, indicando as centenas de arquivos devidamente etiquetados que Gina passava horas por semana atualizando. Naqueles cinco anos em que vinha trabalhando para Mara, Gina havia feito incontáveis horas extras sem reclamar; ela era a única secretária que Mara havia tido que conseguia acompanhar a carga de trabalho, os prazos constantes e os requisitos de uma chefe perfeccionista que exigia que cada relatório fosse relido para evitar erros, cada pilha de provas checada mais uma vez para verificar se estava mesmo completa. – Você é o meu anjo da guarda, Gina. – E você é o meu. E parece que está se esquecendo disso. – Mara não respondeu, e Gina disse: – Não precisa fingir. Você sabe muito bem do que estou falando. Mara revirou os olhos. Ela tinha pegado um avião para o enterro do pai de Gina em Oklahoma, e acabara ficando mais uma semana para ajudar a mãe de Gina a resolver sua situação financeira. Quando a mãe de Gina falecera, dois anos depois, Mara viajara de novo para Oklahoma e ficara mais uma semana ao perceber quanto trabalho Gina tinha à frente empacotando tudo para vender a casa dos pais. Faltavam semanas para a primeira argumentação oral de Mara no Quinto Tribunal de Apelação em Nova Orleans, e ela deveria estar em casa se preparando. Mas tinha se recusado a deixar Gina encarar tudo aquilo sozinha, e mandara a empresa enviar três caixas de relatórios e provas no dia seguinte, que ela revisara tarde da noite, depois que ela e Gina passaram o dia empacotando ou em reuniões com o advogado da família, ou fazendo o que precisasse ser feito. Ao voltar para casa em Dallas, Mara havia insistido que Gina passasse o Dia de Ação de Graças com a sua família para não ter que ficar sozinha no feriado. Mara fez um gesto para Gina como quem diz “deixa para lá”. – Por favor. Qualquer um teria feito a mesma coisa. – Você quer dizer “ninguém”. Ninguém mais teria feito aquilo. Ninguém se ofereceu, nem fez nada. A


não ser você. Mara fez que não com a cabeça, e Gina foi andando decidida até ela e pousou a mão sobre a dela. – Você escutou? Ninguém. A não ser você. Você tem sido a minha família. O mínimo que posso fazer é ser a sua memória. – Ela apertou a mão de Mara, virou-se e saiu da sala. – Vou para o meu computador – Gina falou por sobre o ombro. – Você está prestes a receber 75 avisos de reuniões por e-mail. – Se eu me esquecer de checar todos os post-its que a gente tem por todo canto – Mara disse, atrás de Gina –, então estamos ferradas mesmo. – Então vou começar a ligar para lembrar você deles também. – Ai, meu Deus, Gina. Se chegar a esse ponto, me jogue de um penhasco.


8. Mara Quando o próximo setembro chegou, Laks tinha um ano de idade e Mara não fazia mais piadas sobre seu esquecimento. Ela também não fazia mais comentários autodepreciativos, e não tolerava que Aquelas Moças, Tom, nem seus pais fizessem pouco da situação. Na verdade, ela mal podia tolerar qualquer um deles, e por qualquer motivo. Havia se tornado irritável e mal-humorada. Ninguém estava imune a seus ataques de raiva, principalmente Tom. Certa noite, no fim de novembro, eles estavam na cozinha. Mara mexia a sopa na panela sobre o fogão e Tom fatiava uma baguete. – Estamos umas três semanas atrasados com a roupa suja – ele disse. – Pensei em, depois do jantar... – Ele parou de falar quando a colher de pau que ela estava segurando passou voando por sua cabeça e bateu na mesa da cozinha, esparramando sopa pelas paredes e pelo chão. Tom olhou assustado para a colher e então se virou para Mara, prestes a dizer alguma coisa. Mas não teve chance. – Não dá para acreditar em você! Estou aqui fazendo sopa caseira depois de doze horas no escritório e tudo o que você tem a dizer é que estou atrasada com a roupa suja? Tom ergueu as mãos, questionando a situação. – Por que você ficou tão nervosa? Eu não falei que você estava atrasada. Falei que nós estávamos. E eu só queria falar que posso ligar a máquina depois do jantar... – Até parece! – Mara disse cuspindo. – Você estava me acusando. Você sabe como eu me sinto péssima quando estou atrasada com as coisas da casa, e você só está tentando me fazer sentir mal. Tom soltou a faca e andou em direção a ela com os braços abertos. – Mara, quando foi que eu... Ela se afastou dele, desamarrou o avental que estava usando sobre o terninho e o jogou no chão. – Faça o seu próprio maldito jantar! Mara saiu correndo da cozinha para o quarto, batendo a porta, e ficou andando para lá e para cá em frente à cama, abrindo e cerrando os punhos. Finalmente, diminuiu o ritmo, foi até o banheiro e se olhou no espelho, envergonhada pelo rosto vermelho, inchado e cheio de raiva que retribuía o olhar. Ela havia agido como uma criança. Molhou uma toalha com água fria e a pressionou contra o rosto por vários minutos antes de chegar mais perto do espelho e inspecionar o próprio rosto como se fosse capaz de encontrar aquilo que a estava deixando tão louca. – O Que Foi Que Eu Fiz? De volta à cozinha, ela viu Tom de pé em frente ao balcão, o pão fatiado, um drinque à frente dele. Ele ergueu os olhos para encontrar os dela, um olhar de tanta dor no rosto dele que as lágrimas voltaram imediatamente para os olhos de Mara. Ela foi correndo até o marido e o abraçou pela cintura, beijandoo:


– Eu sinto tanto! Não tenho a menor ideia do que acabou de acontecer. – Ela o abraçou e se aproximou um pouco mais, pressionando seu corpo inteiro contra o dele até enfim senti-lo relaxar. – Não sei o que deu em mim. Você não merecia aquilo. Por favor, me perdoe. Ele suspirou e beijou o topo da cabeça dela. – Eu perdoo – ele disse. Mas, depois daquilo, ela parou de se desculpar. Começou a gritar com ele porque Tom tinha queimado uns legumes na grelha certa noite – e, na noite seguinte, deixou-os de lado porque eles estavam “crus” demais. Por semanas, quando ele a procurava na cama, ela fingia estar exausta ou expressava sua total falta de interesse. E então o acusava depois de não querê-la mais, já que havia meses que não transavam. Ela se tornou irracional, paranoica. Deprimida e ansiosa. No Natal, Tom implorou que ela fosse ao médico, mas ela se recusou. Não lembrava mais os motivos da recusa. Mas, à época, tudo já fazia parte da doença – que não atacava apenas a sua capacidade de pensar e se mover, mas também suas emoções. Um ataque com um tridente, cada uma das pontas tão mortal quanto as outras duas. Como a forquilha do diabo. Algumas semanas depois do Dia dos Namorados, eles tinham colocado Laks para dormir e estavam sentados juntos no sofá, algo que não faziam havia meses. Tom parecia meio quieto, e Mara perguntou o que estava pensando. Ele olhou para ela com todo o cuidado. – Estou preocupado com você – ele disse, pegando na mão de Mara. – Eu acho que você precisa ir ao médico. Mara tirou a mão da dele e ficou de pé. – Não fique brava – ele disse, estendendo a mão para ela de novo. Ela deu um passo para trás, fora do alcance dele, e cruzou os braços sobre o peito. – Eu só quero que você seja feliz – ele continuou. – Como antes. Parece que você não aproveita mais nada... Trabalho, a gente, nada. Esta noite está sendo ótima, mas não é o que acontece normalmente. Não mais. – Estou tão cansada dessa conversa – ela disse. – Eu vivo dizendo para você que não quero ir a médico nenhum. Coisas normais da vida, como esquecer algumas coisas e ficar irritada às vezes, não são diagnosticáveis. Ninguém vai o médico por causa disso. – Mas aí é que está – ele respondeu. – Não tenho certeza se isso são “coisas normais da vida”. Eu acho que agora é mais do que isso. – Ele olhou para ela com pena, uma mão ainda estendida em direção a Mara. Continuava tentando discutir o assunto numa boa, com calma. Aquilo a deixava doida da vida. Ela fez um bico que logo virou uma expressão de escárnio até ele baixar a mão. – Eu não sei se você sabe o que é uma “vida normal” – ela disse. – Desde que nos casamos, sou eu que faço tudo por aqui, além de ter que lidar com um emprego para lá de exigente e estressante. Eu cuido de casos o dia todo, e então venho para casa criar a sua filha, fazer o seu jantar e dobrar as suas roupas. Enquanto você faz o seu horariozinho de dermatologista e sai para suas longas corridas. Ele jogou a cabeça para trás, chocado com as acusações dela. Mara deixou escapar uma risadinha aguda, satisfeita com o golpe que havia dado e nem aí com o fato de ser totalmente injusto. Ele ajudava mais com a casa e com Laks do que qualquer outro marido que ela conhecia. Depois de crescer às voltas com um pai que estava sempre bêbado demais para ajudar a limpar a casa ou cuidar dos filhos, Tom fazia questão de ser um pai e marido que ajudava e participava. A sugestão de que ele havia falhado em uma dessas tarefas – ou, pior ainda, que não havia nem tentado – era a pior crítica que poderia ouvir. Por uma


fração de segundo, Mara até pensou em pegar mais leve. Mas ela continuou. – Você quer que eu seja feliz? – ela perguntou. – Você quer que eu aproveite mais a vida? Então tente ajudar mais aqui em casa. Eu não preciso de um diagnóstico, dr. Nichols. Eu preciso que você comece a agir como um adulto. Que tal experimentar isso por um tempo, e então vamos ver se você continua achando que eu preciso ir ao médico. – Mara – ele disse, afinal. – Isso é injusto demais. Ela olhou para ele com uma expressão de “não estou nem aí” por um segundo. Ele estava se aproximando dela, sua expressão aberta, como quem confia nela. Ele esperava que ela fosse admitir que havia sido mesquinha e se desculpar, como antes. Mas, no lugar disso, ela zombou do marido de novo e disse: – Você acha que é um ótimo pai. Um ótimo marido. Bem, mas não é. Você é igualzinho ao seu pai. Tom ficou de pé tão rápido que Mara estremeceu e deu um pulo para trás. – Chega, Mara! Você não pode dizer essas coisas para mim! Você não pode inventar toda essa merda e me machucar assim só porque está de mau humor de novo. Isso aqui já foi muito além de estresse com o trabalho, e aguentei tudo até aqui. Não sei se você precisa de antidepressivos ou suplemento de ferro ou só tirar uma soneca bem comprida. Mas isso precisa parar. E não estou pedindo, estou dizendo a você. Vá ver um médico. Ou eu vou embora. Ainda de boca meio aberta com o choque, Mara viu Tom ir para o quarto deles e bater a porta. No dia seguinte, Mara deixou Tom marcar uma consulta para ela com Alan Misner, um neurologista que ele conhecia da faculdade de medicina e que havia concordado em receber Mara depois do expediente como um favor para seu ex-colega de classe. Mas ela não concordou em ouvir tudo com a mente aberta, apesar de não ter contado essa parte para Tom. Quase se sentiu culpada por causa disso: ele estava tão feliz por ela ter concordado em ver alguém. Enquanto eles se dirigiam em silêncio para o consultório do dr. Misner, ela fez com que Tom acreditasse que ela estava se preparando para uma discussão sobre a doença que poderia ter. Mas, na verdade, Mara estava se preparando para lançar aquele olhar de “eu não disse?” para o marido depois de seu colega informar que Mara tivera razão o tempo todo – apesar das mudanças que eram de esperar com a idade, ela estava perfeitamente saudável. Mais tarde, em casa, ela diria a Tom que havia seguido suas ordens, e que agora seria a vez de ele seguir as dela e jamais voltar a dizer que “havia algo de errado”. Ela previa que o ato final seria bater as portas com tudo também, e por isso tinha deixado Laks passar a noite com seus pais. No consultório do médico, ela e Tom se sentaram nas poltronas de couro preto que pareciam saídas de um filme de ficção científica em frente à mesa do dr. Misner. Mara jamais se esqueceria da mesa – uma daquelas peças supermodernas em preto que mais parecia uma nave especial que um móvel, com pés cromados e brilhantes que combinavam com os das cadeiras. Era mais bizarro do que o normal, ela pensou, e ficou imaginando como as pessoas que de fato tinham uma doença reagiam quando o médico dava a má notícia atrás daquela mesa. Ele poderia ter olhos cheios de compaixão, as mãos mornas e a voz macia de um médico especialista em dar más notícias, mas todos aqueles feitos ficariam em segundo plano, ela achava, por causa da mesa pouco convencional. Enquanto Mara se ocupava com seus pensamentos sobre móveis para escritório, podia ouvir os excolegas se atualizando sobre as décadas que haviam passado entre a faculdade de medicina e aquela noite. Ela sorriu enquanto os dois comparavam notas sobre consultórios e funcionários e filhos, com toda


a certeza de que ela e Tom estariam a caminho de casa logo mais, deixando essa consulta fútil no passado para sempre. Depois do bate-papo obrigatório, o dr. Misner se virou para Mara, com um sorriso gentil, e perguntou como poderia ajudar. Ela deu um sorriso morno em resposta e não disse nada. – Bom – ele disse, imperturbável. – E se começarmos com uma pergunta mais fácil? Vamos falar do seu histórico médico. Apesar de Mara estar determinada a não levar o assunto a sério, ela decidiu que pelo menos parecer cooperar seria um bom disfarce. E seu histórico médico não era complicado: começava e terminava com ela, já que o orfanato não havia dado nenhuma informação a seus pais sobre doenças ou o histórico médico de seus pais biológicos. Ela disse tudo o que sabia a ele. – Ah, agora, sim, estamos indo para algum lugar – o dr. Misner disse, sem dúvida satisfeito por ter estabelecido algum tipo de comunicação com sua paciente recalcitrante. – Vamos começar de novo discutindo o porquê de você estar aqui – ele explicou, e, antes que Mara pudesse lançar para ele o mesmo olhar de tédio com que tinha começado, Tom começou a falar. – Tudo bem se eu responder? – Tom perguntou, estendendo a mão para segurar a dela. Mara fez que sim com a cabeça e, continuando com a mão sobre a dela, ele falou em voz baixa, quase como se estivesse se desculpando, enquanto descrevia para o outro homem as mudanças que havia visto em sua esposa. Enquanto ele falava, Mara ficou olhando para as mãos juntas e dizendo a si mesma que as histórias que estava ouvindo não eram sobre ela. Ela andava meio esquisita, um pouco impaciente, meio irritável. Mas a mulher que ele estava descrevendo parecia psicótica – objetos jogados nas paredes (ou em Tom) toda semana, bateção de porta por causa de pequenos desentendimentos, xingamentos berrados não apenas para ele, mas para Gina também, e Steph e até mesmo Pori e Neerja. Depois de um tempo, ela se desligou do médico com quem era casada e voltou suas atenções para o outro atrás da mesa. Ele estava tomando notas em um bloco amarelo enquanto escutava. Mara tentou disfarçar e dar uma espiada para ver o que ele estava escrevendo, mas não conseguia entender as palavras. Em algumas ocasiões ela o via sublinhar algumas palavras, e até fazer círculos grandes ao redor delas. Ele fez uma série de perguntas e, enquanto Tom as respondia, o dr. Misner sublinhava ainda mais algumas palavras e circulava outras. Mara se mexeu desconfortavelmente em sua poltrona, tirando a mão da mão de Tom. Estava na cara que o dr. Misner achava que estava quase desvendando o enigma, e ela foi ficando mais e mais ansiosa – e cada vez menos confiante em sua estratégia de defesa. Quando Tom acabou seu recital, o dr. Misner ergueu os olhos de suas anotações, olhou de relance para cada um dos dois e perguntou: – Há quanto tempo você tem notado esses movimentos involuntários do braço? Mara perguntou: – Que movimentos involuntários do braço? – enquanto Tom respondeu, ao mesmo tempo: – Há pouco mais de um ano. Eles se olharam de boca aberta, cada um chocado pela resposta do outro. Embora não quisesse fazer aquilo, Mara se forçou a olhar para as próprias mãos. Para seu terror, elas estavam se mexendo para a frente e para trás sobre as pernas, para os braços da poltrona, e então de volta ao meio de novo, como se o seu colo fosse um piano e ela estivesse tocando uma composição complicada. Rapidamente, ela enfiou as mãos debaixo das coxas, apertando as pernas sobre elas. Tom sussurrou uma palavra de conforto e


passou a mão na sua perna. O dr. Misner circulou uma palavra em seu bloco amarelo. Ele a circulou de novo e acrescentou um sublinhado. E então ele fez que sim com a cabeça como quem está pensando, estudando suas anotações por um momento antes de erguer os olhos cheios de dor para Mara. Ela pigarreou e se remexeu na poltrona de novo enquanto ele abriu uma das gavetas de sua nave espacial e tirou de lá um cartão de visitas. Levantando-se lentamente e quase de modo relutante, ele deu a volta ao redor da mesa e foi para o lado de Mara e Tom. Misner se apoiou à mesa com um suspiro cansado, pousou as mãos sobre o colo e lançou um olhar gentil para Mara. A expressão no rosto dele fez os lábios de Mara tremerem, então ela olhou para o chão. Os sapatos dele, mocassins pretos e caros, batiam como que sapateando contra o carpete. Ela deu uma rápida olhada para o rosto dele de novo e percebeu: ele estava nervoso. Seus lábios tremeram mais ainda. Ela queria se levantar e sair dali antes que ele pudesse dizer o que provocava tanta ansiedade. Mas Tom diria que ela não havia cumprido sua parte do trato e a arrastaria para lá mais uma vez outro dia. Ela tirou as mãos de debaixo das pernas e segurou os braços da poltrona, forçando-se a ficar no lugar. – Mara – o dr. Misner disse gentilmente. – Tom, não sei nem como dizer quanto sinto dar essa notícia a vocês. E, antes que eu continue, deixe-me dizer que não posso atestar nada com certeza sem um exame de sangue. Mas, com base no que vocês me contaram sobre os esquecimentos, as alterações de humor, a irritabilidade, a depressão e a ansiedade, e com base nos sintomas físicos da Mara, é uma pena, mas pode ser doença de Huntington. Eu gostaria que você consultasse um especialista. Há uma clínica para essa doença no Hospital Baylor, no centro. É administrada por Evan Thiry. – Ele passou o cartão para Tom, e então pousou as mãos sobre o colo de novo. – O dr. Thiry pode fazer alguns exames cognitivos e físicos para ver se a doença de Huntington é mesmo uma possibilidade real. Se ele concordar com a minha teoria de que é isso que está acontecendo com a Mara, ele pode confirmar com um exame de sangue, que você pode aceitar fazer ou não. Mas, seja lá o que você decidir, a clínica do dr. Thiry tem condições de fornecer uma série de serviços, tanto médicos quanto emocionais, que eu acho que seriam bons para vocês dois. E, mais tarde, quando ela tiver idade para isso, para a sua filha também. Eles têm ótimos assistentes sociais de pediatria que ajudam as crianças a lidar com... Ele fez uma pausa antes de começar a falar de novo. – Desculpe, eu estou colocando a carroça na frente dos bois aqui. Estou olhando para o Tom, e sei que ele entende o que é a doença de Huntington. Mas eu não deveria apenas achar que você sabe o que essa é essa doença, Mara. Você já ouviu falar dela? Ela achava que sim. Ela se lembrou de Tom ter falado sobre isso uma vez; ele tinha lido sobre isso numa aula da faculdade, talvez? Ou um de seus sócios tinha tratado um paciente com doença de Huntington? Ela não conseguia se lembrar, e não tinha certeza se já tinha ouvido falar de todos os detalhes sobre a doença, mas agora, com base na atitude do dr. Misner, já podia adivinhar que era algo terrível de verdade. Ela se virou para Tom, para pedir que a lembrasse do que havia dito a ela. Esperava que ele fosse revirar os olhos e dizer que o outro homem estava viajando e, o que quer que estivesse acontecendo com ela, não precisava do dr. Misner saindo de detrás daquela mesa ridícula, inclinando-se para ela daquele jeito e olhando-a daquela maneira, falando sobre especialistas e exames de sangue e assistentes sociais que poderiam ajudar sua filha a lidar com tudo isso. Mas os olhos de Tom, brilhantes de lágrimas, diziam a ela outra coisa.


Mara se virou para o dr. Misner e deu de ombros, e ele pousou uma de suas mãos enormes sobre a mão dela. Sem nunca tirar os olhos do rosto dela, ele descreveu a doença com uma voz baixa e gentil. Tom puxou sua poltrona para mais perto de Mara e colocou o braço ao redor dela, e do canto do olho ela podia vê-lo estudando a sua expressão enquanto o dr. Misner continuava. Ela tentou se concentrar nas palavras do médico. Sua mente computava tudo a toda a velocidade, primeiro para tentar entender o que ele estava dizendo, e depois para preparar um argumento de como ele estava errado, assim como seu marido, em sugerir que havia algo de errado com ela além de estresse do trabalho e da idade que vinha chegando. Ela só conseguia ouvir uma a cada cinco palavras, mais ou menos. O restante das frases do dr. Misner soava abafado, como se ele estivesse falando em um rádio ligado em um carro que saía de frequência a toda a hora. Doença neurológica degenerativa. Morte progressiva de neurônios. Provocada por um transtorno genético. Cada filho de uma pessoa afetada tem cinquenta por cento de probabilidade de herdar a doença. Era por isso que ele tinha feito tantas perguntas sobre seus pais biológicos, Mara pensou. Se o orfanato tivesse fornecido algum tipo de relatório para Pori e Neerja, ela podia usá-lo agora para mostrar a Tom e seu colega como eles estavam malucos. A não ser que os relatórios não mostrassem isso. Ela fechou os olhos rapidamente ao pensar nisso. Mas se permitiu, antes de reabrir os olhos, mais um pensamento na mesma linha: graças a Deus que Laks era adotada e não tinha os seus genes. Os pais biológicos de Laks, e Tom e Mara sabiam disso graças ao arquivo grosso de páginas que haviam recebido, não tinham nenhum defeito no DNA. Caracterizada pelo declínio da função mental. Perda gradual do controle físico. Mara se sentou mais reta e quase riu com alívio. O dr. Misner era tão dramático quanto o seu marido; nada daquilo se aplicava a ela. Ela estava em perfeito funcionamento mental. E com certeza não tinha nenhum problema com controle físico. Deixava alguma coisa cair às vezes, mas isso não acontecia com todo mundo? No entanto, pensando bem, ela tinha que admitir que estava acontecendo com maior frequência nos últimos tempos. Ela havia caído da postura do Cachorro Olhando para Baixo na aula de ioga duas vezes no sábado anterior. Steph, no tapetinho ao lado dela, tinha tirado sarro da amiga: “Não é Cachorro Morto”. Mas a falta de jeito não era necessariamente “perda do controle físico”, Mara disse a si mesma. Movimentos involuntários no rosto, no corpo e nos membros, em geral conhecidos como “coreia”. Mara olhou para as mãos. Para seu desalento, elas não estavam segurando os braços da poltrona, como planejado, mas indo para a frente e para trás sobre eles, e depois na direção oposta, em um movimento rápido que ela não havia nem sequer notado. Ela enfiou as mãos debaixo das pernas e apertou as coxas sobre elas de novo, desta vez com mais força. Outros sintomas incluem depressão e ansiedade. Alterações no humor e mudanças na personalidade. Ela sentiu as bochechas esquentando. Esquecimento.


Ela engoliu em seco e lançou o olhar do dr. Misner para Tom. Ele estava mordendo o lábio inferior e seu rosto estava pálido. Diminuição gradual da habilidade de desempenhar atividades diárias como trabalhar, dirigir. Inabilidade eventual para andar, falar, engolir, cuidar de si mesmo. Totalmente dependente dos outros nos estágios mais avançados. Cadeira de rodas. Casa de repouso. Tubo de alimentação. Consciência limitada do ambiente à sua volta. Inabilidade de falar. Pode não reconhecer membros da família. Expectativa de dez a quinze anos de vida após o início dos sintomas. Nenhum tratamento eficaz para a progressão lenta da morte de neurônios. Fatal. Sem cura. Quando o dr. Misner terminou, colocou a mão sobre o ombro dela. – É muita coisa para compreender – ele disse com gentileza. – Vou dar um minuto para você absorver tudo isso, e então nós podemos... Mara não conseguia fazer os lábios pararem de tremer. Nem havia como tecer um argumento convincente contra esses dois homens no estado em que estava. Ela revisou sua estratégia: se conseguisse sair do consultório sem chorar, sem deixar os dois pensarem que tinham conseguido acabar com ela, então consideraria aquilo uma vitória. Ela se levantou de repente, tirando a mão do médico de seu ombro. – Não precisa – ela disse. O dr. Misner se aproximou dela e ela se virou depressa, conseguindo chegar à porta antes que ele pudesse passar pela cadeira dela. Mara não aguentava mais nenhum segundo de sua voz macia, seus olhos compreensivos e sua previsão de que o que havia de errado com ela era bem pior que apenas estresse causado pelo trabalho. Tom logo se levantou também e a seguiu até o corredor, uma das mãos na parte inferior das costas dela enquanto a levava para o elevador. O dr. Misner conseguiu alcançá-los e andou ao lado de Tom. Mara viu os dois trocando olhares do tipo “está vendo?” e fazendo que sim com a cabeça, e observou os lábios dos dois se mexendo, mas o sangue em sua cabeça estava latejando rápido demais para que ela conseguisse entender a conversa. No carro, ela fechou os olhos e se encostou no assento, fingindo estar exausta demais para conversar enquanto repassava a longa e terrível lista que o dr. Misner havia recitado, e disse a si mesma que aquelas coisas jamais aconteceriam com ela. Tom dirigiu em silêncio, a mão na perna dela. Quando estacionaram na garagem, ele correu para abrir a porta para ela, mas Mara a abriu sozinha e simplesmente passou por ele. Ela se ocupou na cozinha, enchendo um grande copo d’água e então bebendo enquanto esperava os nervos se acalmarem. Tom ficou por perto, esperando. O olhar dele – pura compaixão e compreensão, sem nem sinal do “eu não disse?” que ela estava esperando – a deixou enfurecida. – É claro que o Misner pode estar errado – ele disse, estendendo a mão para colocá-la nas costas dela. Ela saiu de seu alcance. – Pelo amor de Deus, eu espero que ele esteja errado. Ele se aproximou e tentou abraçá-la, mas ela saiu de novo de seu alcance, e ele deixou os braços caírem ao longo do corpo.


– Se você quiser, posso ligar para o dr. Thiry – Tom disse. – E marcar o exame de sangue. Você tende a querer ter certeza das coisas. Os exames dariam isso a você. Ele tocou o ombro dela de leve, tirando a mão antes que ela se afastasse de novo. – Mas você não precisa fazer o exame, lógico. Só depende de você. Desta vez você pode não querer ter certeza, e isso seria totalmente compreensível. Você ouviu o que o Misner falou: como não há cura, muitas pessoas sob esse risco decidem que preferem viver com uma chance de 50% de que não têm a doença a ter 100% de certeza de que estão doentes. Mara considerou o marido. Ela não tinha ouvido Misner falar aquilo. Ficou pensando no que mais tinha perdido. Mas não fazia diferença, ela disse a si mesma. Tom e seu amigo da faculdade de medicina estavam viajando. – E eu entendo se essa for a sua decisão também – Tom disse. – Mas, como ele explicou também, você pode receber tratamento para alguns dos sintomas, mesmo que não queira fazer o exame confirmatório. Depressão, ansiedade, essas coisas podem ser tratadas com medicação. Eu sei que já disse isso antes, e você não quis ouvir. Mas, se você tomasse alguma coisa para esses sintomas, seria mais feliz. Ou menos incomodada por... – ele pausou. – Tudo. Ele era tão dramático, Mara pensou. Ela não se sentia incomodada por tudo. Não o tempo todo, pelo menos. – E, se você quiser fazer o exame, e se o resultado for positivo, continua havendo esperança. Eles estão sempre fazendo pesquisas para achar a cura, para descobrir como diminuir a velocidade da doença. Mara ficou pensando se Misner tinha dito aquilo também, ou se Tom já sabia daquilo antes. Ele esperou por uma resposta dela, e o olhar cheio de esperança em seu rosto a irritou. Ela lutou para controlar a raiva – brigar com Tom só provaria o ponto de vista dele. – Obrigada – ela respondeu, dura. – Mas, com todo o respeito, eu acho que o maravilhoso dr. Misner está meio fora de órbita, assim como você. Ele fez um discurso emocionante e interpretou seu papel muito bem. Mas não tem nada de errado comigo. Tom arregalou os olhos. – Tá – ela disse. – Eu me esqueço das coisas. Mas sou uma mãe que trabalha fora, com um emprego muitíssimo estressante. E tenho quase quarenta anos. Ele começou a falar, mas ela ergueu a mão. – E talvez eu me irrite às vezes, mais do que antes. Mas a gente passou por momentos difíceis nos últimos tempos. Nós nos afastamos. Não somos mais uma equipe como antes. E é isso que está fazendo com que a gente aja de maneira diferente. – E é verdade, eu ando meio desastrada, e um pouco agitada às vezes. Enquanto você, eu preciso dizer, se irrita à toa. Fica impaciente. E obcecado, pelo que parece, em encontrar algum tipo de problema médico comigo para jogar nisso a culpa de todos os seus problemas. Ele fez um barulho em protesto, mas ela fez que não com a cabeça e ergueu um dedo em riste para que ele não a interrompesse. – Eu admito que não tenho sido fácil de uns tempos para cá – ela disse. – E eu sinto muito por isso. Mas você também não tem sido. E pelo menos eu não arrasto você para ver antigos colegas que descrevam alguma doença degenerativa horrível e fatal e então digam “Eu acho que você tem isso”. Se eu fizesse isso, nossos problemas ficariam bem piores. Ela ergueu uma sobrancelha, chegando ao ponto da discussão: depois dessa palhaçada, ele só poderia culpar a si mesmo se as coisas ficassem ainda mais tensas entre ambos.


Ele tentou se aproximar de novo. – Mara. Ela passou ao lado dele e foi até a porta. – Vou dormir – Mara disse ao deixar a cozinha. – Vou deixar seu travesseiro e um cobertor no sofá.


9. Scott Sem conseguir se concentrar em ortografia e gramática, Scott deixou os trabalhos de inglês de lado e abriu o laptop. Enquanto esperava o computador ligar, esticou o pescoço para ouvir Curtis lendo. Ele adorava a maneira como o menino pronunciava cada palavra com um sussurro, passando o dedo devagar sob a frase. – Você... pode... levar... o... prato. Ficou escutando por mais alguns segundos, e então abriu sua pasta de favoritos e abriu o fórum “Não é a família do seu pai”, o sistema de apoio on-line com o qual ele vinha contando desde aquela noite em que ele e Laurie tinham concordado em ficar com Curtis por um ano. Em pânico com a expectativa de se tornar pai da noite para o dia, mesmo que só por um tempo, ele havia navegado na internet por horas antes de tropeçar na miscelânea dos participantes de sempre: 2meninos, um viúvo criando seu próprio filho e o enteado; planodevoo, uma participante mais velha que tinha sido mãe solteira com duas filhas depois de se divorciar do tirano bêbado que era o pai das meninas; mãedalaks, uma mãe adotiva; NadaMalvada, uma madrasta e criadora do fórum. No último ano, Scott havia conversado com eles quase que todos os dias sobre tudo, de assuntos relacionados à criação dos filhos, como disciplina, hora de dormir e lição de casa, a assuntos mais centrados em estilo de vida, como equilibrar trabalho e família, mudanças na carreira e receitas favoritas. E, às vezes, sobre assuntos bem mais pessoais, como desentendimentos com amigos, problemas no casamento e até sexo. Seus confidentes on-line não conheciam seu nome verdadeiro nem reconheceriam seu rosto, mas sabiam tanto sobre as suas alegrias quanto sobre o estresse de seu relacionamento com Laurie quanto Pete, e também sobre o amor que sentia pelo seu Carinha. Ele rolou a página para cima para ler o tópico do dia. Terça, 5 de abril às 7h55 NadaMalvada escreveu: BOM DIA a todos! Eu tinha planejado passar o dia de hoje falando sobre acampamento de férias – tem gente falando aqui sobre como o último dia de aula está chegando. Chegou AQUELA época do ano DE NOVO – época de pensar o que é que vamos fazer com a criançada por DOIS meses. Mas vou guardar esse assunto para uma OUTRA vez. Não sei quanto a vocês, mas, desde que o CIDADEDOSCARROS nos lembrou que a partida do Carinha está próxima, fiquei pensando o seguinte: COMO é que vocês, pais postiços e guardiões, se deixam depositar todo esse amor e atenção em uma criança que talvez NUNCA mais vejam de novo, depois que ela vai para casa? Vocês se protegem se SEGURANDO um pouco, sem se entregar 100%? Pessoalmente, não consigo IMAGINAR investir todo o tempo e energia necessários para cuidar de uma criança sem ter alguma garantia de que, como recompensa, vou ter amor e lealdade para sempre. Alguém para me visitar quando eu estiver velha e decrépita e resmungando pelo resto dos meus dias numa CASA DE REPOUSO! E aqui estão vocês, fazendo tudo isso por crianças com as quais talvez nunca mais entrem em contato depois disso. COMO é que pode?

Scott passou a mão no queixo e desejou que NadaMalvada tivesse escolhido o acampamento de férias como tópico. Ao passar os olhos sobre as respostas daquele dia, ele leu com mais atenção, como sempre, os posts de seus amigos mais próximos no fórum. O primeiro era de mãedalaks, mandando uma mensagem de “estou pensando em você”, como havia feito todas as manhãs nas últimas semanas.


No começo, ele tinha pensando em mãedalaks na posição de lótus sobre uma grande almofada roxa, o laptop equilibrado sobre os joelhos, o cabelo negro e comprido em uma trança que ia até o final das costas, um sorriso beatífico no rosto enquanto falava com seus amigos on-line. Era com certeza uma visão estereotipada e talvez racista. E totalmente inexata, ele pensou, agora que a conhecia melhor. Agora ele a imaginava em um terninho caro, maleta na mão, caneca de café na outra, postando no fórum antes de entrar no carro e sair correndo para o centro da cidade e em seu luxuoso escritório no 15º andar. Rolando a página mais para baixo, viu outro post dela, desta vez com uma resposta direta à pergunta da NadaMalvada. Terça, 5 de abril às 9h15 NM, preciso dizer que ando pensando muito nisso também. Eu acho que está bem claro que o CidadedosCarros é um cara do tipo ou tudo ou nada. A mesma coisa com a MãeAdotiva, apesar de a situação ser um pouco diferente – eu sei que a MP está planejando adotar as crianças de verdade. Quero muito saber o que você acha disso, CidadedosCarros. Eu sei que deve ser difícil pensar/escrever sobre isso. Mas espero que debater o assunto com a gente possa tornar a despedida um pouco mais fácil, de alguma maneira. Ou não “fácil”, mas um pouco mais tolerável.

Scott rolou a página um pouco mais para baixo e encontrou uma mensagem de outra amiga, planodevoo: Terça, 5 de abril às 16h20 Também estou interessada no que CidadedosCarros tem a dizer sobre isso – e MP. Vocês todos sabem que eu acho que os pais adotivos/guardiões deste grupo são heróis de verdade. Eu não seria capaz disso – sou egoísta demais.

Planodevoo tinha entrado no fórum em busca de apoio moral e conselhos para viver com uma pessoa de idade que sofre de demência depois que sua mãe fora morar com ela. Mas havia se tornado tão próxima dos membros mais regulares que, mesmo depois que sua mãe morrera, ela continuava a dar um alô todos os dias. Ela era a voz da razão em meio às perguntas às vezes meio sem noção dos pais mais jovens, mesmo que suas respostas fossem polvilhadas com uma dose mínima de acidez. Quando alguém perguntara algumas semanas antes como ajudar uma criança a terminar um trabalho de ciências do terceiro ano, planodevoo havia respondido: “Diga a ela que você já passou do terceiro ano, e então saia da sala e deixe-a fazer o trabalho sozinha”. Ela havia repreendido vários participantes além da conta quando eles reclamavam não poder oferecer alguma coisa a seus filhos, como férias caras ou uma faculdade ou, no caso de Scott, uma figura paterna permanente, depois que Curtis voltasse para LaDania. “Pode parar, CidadedosCarros”, planodevoo havia ordenado. “Você só pode controlar uma coisa aqui, e é isso que vai oferecer enquanto a criança estiver com você. E, como parece que você esqueceu o que é, vou lembrar: um ano inteiro com a melhor figura paterna que ela poderia ter na vida. Além disso, você não pode controlar mais nada. Então, pare de fingir que pode.” Outro dos amigos mais próximos de Scott no fórum era 2meninos, meio boca suja e amante dos esportes. Ele nunca se casara com a mãe de seu filho, que havia abandonado os dois logo depois de o menino nascer. Vários anos mais tarde, ele se casara com uma mulher que já tinha um filho. Após um ano de casados, ela fora diagnosticada com leucemia; dois anos mais tarde, ele era um viúvo e pai solteiro de dois meninos pequenos. Ele havia entrado no fórum logo depois da morte da esposa, declarando-se um solteirão para o resto da vida (“elas me abandonam ou morrem; seja como for, parece que sou um repelente de mulher”). Scott e 2meninos logo fizeram amizade falando sobre esportes, e muitas vezes enchendo o fórum com tantos posts sobre recordes de times e estatísticas de jogadores e escalações que os outros diziam, como quem não quer nada, para os dois procurarem um blog de esportes – e, assim, dar oportunidade para os outros


participarem também. Rolando a página um pouco mais para baixo, Scott viu uma mensagem que 2meninos havia postado mais tarde naquele dia. Terça, 5 de abril às 16h33 @plano – também não sei o que faria. Droga, estou sempre me arrependendo do tempo que gasto com esses 2meninos, e eles são ligados a mim por sangue e pela lei. se não fosse pelo desconto nos impostos, juro que tentaria dar um jeito neles. @cidade – para começar, você viu os mísseis que o pettitte lançou nas primeiras duas entradas do jogo ontem à noite? o cara está demais; os yankees vão levar o campeonato este ano, tenho certeza. na verdade, pra começar, o negócio é o seguinte, cara: você sabe que fico impressionado, e já disse isso antes. e, como a galera, quero saber como você está fazendo para aguentar essa bucha.

Scott ficou ensaiando com o teclado por um momento enquanto reorganizava os pensamentos, então começou a digitar: Terça, 5 de abril às 18h53 @MUITOMalvada – é assim que a gente deveria chamar você, por levantar essa questão neste momento! Brincadeira. É um tópico válido, e eu sei que outras pessoas no fórum estão/já estiveram numa situação parecida e podem querer discutir isso. Segundos antes de entrar aqui, eu estava ouvindo o Carinha ler em voz alta e pensando em como vou sentir saudade desse som ao fundo enquanto corrijo provas ou crio minhas jogadas de basquete ou converso com todos vocês. Não dá para acreditar que só tenho mais cinco dias com a leitura sussurrada e gaga dele. Mas, para responder à sua pergunta, não fico pensando em termos do que investi nele e não vou receber de volta. Penso em tudo o que ele investiu em mim no último ano, e como vai ser dolorido ter que viver sem isso. Estou tentando focar em ser feliz por tudo o que ainda está para acontecer: ele vai voltar a morar com a mãe, e eu vou ter a minha própria família. No entanto, como tenho certeza de que minha esposa diria, não estou indo muito bem nesse negócio de manter o pensamento positivo. Já me disseram que estou parecendo um cara prestes a perder um filho, e não muito como um cara que está prestes a ganhar um. @mãedalaks – você é a irmã virtual que eu nunca tive. Sabe disso. Mas você não sabe como as suas mensagens toda manhã me ajudam, nem como vou contar com elas nas semanas que vêm por aí (bom, agora você sabe). @meninos – só poste alguma coisa quando você puder contribuir de maneira inteligente. Os Yankees já foram pro brejo. Aqui é Tigers, seeeempre!

Ele apertou o botão “postar” e inclinou a cabeça na direção de Curtis, tentando escutar. – Você... pode... sentar... naquela... chaleira. Música para os ouvidos dele. Ele saiu do fórum e fechou o laptop. – Cara, tenta aquela frase de novo. Acho que era “cadeira”, e não “chaleira”. – Cara? E desde quando você me chama de Cara? Ele deu um peteleco de leve na cabeça de Curtis. – Eu quis dizer Carinha. “Cadeira.” Tenta de novo. – Ele se jogou no sofá, a alguns centímetros de Curtis, que se aproximou, encostando-se em Scott. – Você pode... sentar... naquela... cadeira. – Demais. Que tal mais cinco páginas, e então um pouco de matemática? – Mais cinco? Eu já li cinco. A Laurie disse que eu só precisava ler cinco. E pode ser que a gente não tenha tempo de jogar basquete se eu tiver que ler dez. – Bom, se cinco é bom, então dez é melhor. E você quer ser o melhor, certo? Curtis bufou e Scott lançou um olhar do tipo “estou avisando” para ele. – Tá. Mas só duas páginas de matemática seria melhor ainda, certo? Acho que mais do que isso não seria tão legal... Scott riu.


– É, duas páginas de matemática seria ótimo. A trindade da tortura – leitura, matemática e um banho – demorou demais para os dois poderem jogar basquete. Curtis estava em frente ao guarda-roupa do seu quarto, suspirando enquanto vestia o pijama. – Eu falei para você que deveriam ser só cinco páginas – ele lançou um olhar pidão para os pôsteres de basquete que cobriam a parede, e então para a cesta que Scott tinha pendurado perto do guarda-roupa. Por fim, arrastou o par de olhos tristes para Scott, que se apoiava no batente da porta e tentava não rir do melodrama e da autopiedade que o menino havia aperfeiçoado. Cruzando o quarto, Scott pegou a cópia já bem malhada de O Pequeno Stuart Little da prateleira de livros sob a janela e se sentou na cama, esticando as pernas compridas à sua frente. Ele deu um tapinha no lugar ao seu lado. – E se a gente lesse um capítulo extra sobre o rato hoje? Ou você prefere perder a hora de dormir fazendo bico? Porque a gente também pode fazer isso, se você quiser. – Ele fez um bicão, exagerando a expressão do menino. Curtis tentou manter o bico, mas não conseguiu impedir que ele se transformasse em um sorriso. – Mais Stuart! Conforme o menino se arrumava na cama, Scott fingiu estudar a capa do livro enquanto se permitia alguns momentos para aproveitar aquele silêncio de satisfação, a sensação do corpinho quente contra o dele, o braço fininho pousado sobre a perna dele. Curtis não parecia muito preocupado em interromper esse momento, então Scott pousou o queixo sobre a cabeça do menino e deixou o olhar se aventurar lentamente pelo quarto. Era um verdadeiro quarto de menino: pôsteres de esportes nas paredes, vários carrinhos de corrida, Legos e soldadinhos espalhados pelo chão de madeira. Dois dinossauros de borracha estavam caídos de lado sobre um tapete que pretendia ser um mapa da cidade. Scott e Laurie tinham escutado de seu quarto enquanto os dinossauros dizimavam a cidade antes da aula naquela manhã. Os monstros mandaram os homenzinhos do Lego da cidade voando por cima do tapete e para baixo da prateleira de livros. Alguns conseguiram chegar ao guarda-roupa, cuja porta aberta revelava uma cesta de roupa suja cheia até a boca e algumas roupas penduradas de uma maneira não muito convencional. Uma unidade do exército, é claro, havia tentado porém falhado em proteger a cidade; membros verdes saíam de debaixo de um dos dinossauros, e Scott notou alguns desertores se escondendo em meio aos livros na prateleira. O corpinho impaciente ao seu lado disse que era hora da leitura. Ele abriu o livro, tirando com todo o cuidado a foto amassada que marcava a página em que haviam parado na noite anterior. A foto mostrava Scott e Curtis, sentados juntinhos na cama como agora, com a então supernova cópia de O Pequeno Stuart Little na mão do menino. Era a primeira noite de Curtis com eles e Laurie tinha tirado um milhão de fotos para mandar para LaDania e Bray verem como Curtis estava bem em sua nova residência temporária. Curtis tinha pedido uma cópia, e ela vinha servindo de marcador de páginas desde então. Quando Scott se virou para colocar a foto sobre o criado-mudo, uma mãozinha se esticou para impedilo. – Posso ver? Scott passou a foto para o menino, que a segurou com todo o cuidado com ambas as mãos por alguns segundos antes de passar o dedo sem pressa sobre o contorno das duas imagens. – Também vou ficar com saudade de você – ele disse. Uma resposta para o que Scott havia dito à entrada da casa algumas horas antes. – Eu amo a minha mãe, mas.... – Ele passou a manga do pijama pelo


nariz e pela boca. – É claro que ama – Scott disse, beijando a cabeça do menino. – E o fato de que você vai ter saudade de mim não quer dizer que você não a ame, ou que a ame menos. Você pode amar a nós dois, como eu amo você e a Laurie. E o Bray. Você não está fazendo nada de errado. – Ele puxou Curtis mais para perto. – Vou sentir tanta saudade de você que nem sei. Mas sempre vou estar aqui. E você pode visitar a gente a qualquer momento. Estou contando com isso. Quem mais eu vou detonar na hora de jogar basquete? – Ele cutucou o menino nas costelas e sorriu. Curtis deu uma risadinha, cutucando Scott também. – É, mas se eu trouxer o Bray comigo a gente vai detonar você naquela quadra. – Bom, isso é verdade. Mas venha com o Bray mesmo assim. Vocês dois são sempre bem-vindos aqui. – Ele apertou o ombro do menino. – Sempre. Curtis deu uma fungada e passou a manga pelo nariz de novo antes de devolver a foto para Scott. Quando Scott esticou o braço para colocá-la sobre o criado-mudo, ele sentiu uns dedinhos cutucando seu sovaco. Ele virou de volta com tudo, agarrando a mãozinha levada. – Você está... fazendo coceguinha em mim? Então você está dizendo que, basicamente, é a hora da coceguinha? Porque você sabe que se fizer cócegas em mim essa é a mensagem que está mandando. O menino deu um gritinho e tentou sair da cama, mas Scott o agarrou, ficou de joelhos e não deixou o garoto fugir. Ele segurou os dois bracinhos agitados com uma das mãos e usou a outra para fazer cócegas até que a gritaria se reduziu ao seu volume de derrota. Depois de alguns cutucões finais no sovaco só para garantir, ele deu um soco de brincadeira na barriga, um sinal de que a luta tinha chegado ao fim, e se sentou contra a cabeceira da cama. – Aaaaaaaaaai! Scott agarrou as mãos que cutucavam seu sovaco de novo, tentando atrair mais cócegas. – Eu sei, eu sei. Mas é hora de diminuir o ritmo e não de se agitar de novo. Ele se voltou para o livro, não dando a mínima confiança para uma negociação sobre acalmar as coisas ou não. – Bom, onde a gente largou esse rato ontem à noite?


10. Mara Mara cruzou a cozinha em direção às portas de correr de vidro e espreitou o céu noturno. Alguma coisa se mexeu em sua visão periférica e ela deu um passo para trás; era um prisma de cristal, balançando de seu suporte acima do batente da porta. Ela o tocou com a ponta do dedo e o viu girar devagar, uma réplica em miniatura da Basílica de Notre-Dame em Montreal. Ela e Tom o haviam comprado há quatro anos, ao visitarem a cidade onde tinham se apaixonado na esperança de reacender aqueles sentimentos. Eles se conheceram na McGill durante o segundo ano de faculdade. Mara sempre tinha morado a apenas alguns quarteirões de distância e Tom do outro lado da fronteira, no norte do estado de Nova York. Ela estava planejando estudar direito nos Estados Unidos; seus pais não viam a hora de se mudar para um lugar com clima mais quente quando se aposentassem e queriam morar perto de sua única filha. Graças ao trabalho de Pori como engenheiro químico para uma companhia com negócios dos dois lados da fronteira, ele tinha cidadania dupla, além do passaporte da Índia, o que tornava a vida em um lugar mais quente que Quebec uma possibilidade real. Tom estava pensando vagamente em estudar medicina, apesar de ter feito seus planos soarem um pouco menos vagos ao notar como aquela companhia exótica e de cabelos negros como um corvo era séria a respeito do próprio futuro. Ela falou do sonho em seguir carreira no direito na primeira vez que saíram, sentados nos degraus em frente à igreja, tomando café em copos de papel e fingindo que o frio os havia feito se sentar mais perto um do outro. Ela descreveu em pormenores a empresa de advocacia de litígio que planejava ter, o caminho que seguiria para se tornar sócia, a longa carreira que iria muito além da idade de se aposentar. E ela o provocou dizendo que, se ele procurava uma SRA para combinar com o DR dele, alguém que ficaria em casa o dia todo e deixaria o mundo do trabalho para ele, então era melhor que se separassem bem naquele momento. Tom riu naquela noite, mas, dois anos mais tarde, no começo do último ano, ele a levou de volta para Notre-Dame. E, enquanto estavam nos degraus onde tinham passado as primeiras horas juntos, ele disse a ela que estava procurando uma SRA mesmo. Ele sempre imaginara que acabaria com o tipo de esposa gentil que ficaria em casa e faria comida, confessou, mas tinha percebido que a mulher perfeita para ele era aquela que seria casada com sua carreira tanto quanto com seu marido. Que o deixaria louco da vida ao trazer trabalho para casa nos fins de semana e quando saíssem de férias e em todas as situações possíveis. Aquele era o tipo de SRA que ele queria, como disse a ela, ao se apoiar sobre um joelho só, estender o anel que ele admitiu não ser bom o bastante para ela e perguntar: ela conhecia alguém que combinasse com aquela descrição? Mara deu outro tapinha no prisma de cristal e, enquanto ele girava mais rápido, também girou o anel de noivado no dedo. Tom havia implorado várias vezes que o deixasse substituir o anel original por um melhor. Um anel caro, com o diamante enorme que ele queria ter dado para ela na época, mas só podia comprar agora. Ela disse a ele que era melhor nem se arriscar. Mara ficou olhando para a igreja enquanto esta diminuía o ritmo mais uma vez. Ele a havia surpreendido com a viagem quatro anos atrás, alguns meses depois da consulta com o dr. Misner. Tom não tinha mencionado a doença de Huntington de novo naqueles meses, e Mara vinha tomando mais cuidado para não ter tantas alterações de humor. Como resultado, parte do muro de tensão entre eles


havia se esfarelado um pouco, mas continuava lá, e ela ficou chocada quando Tom sugeriu a viagem de fim de semana. A viagem era suspostamente para seu aniversário de casamento, mas na manhã do segundo dia Tom fez com que Mara se sentasse no sofá de seu quarto de hotel e confessou que a verdadeira razão para a viagem era renovar os esforços de tentar convencê-la de que não estava tudo normal com ela. Ele estava desesperado para que ela reconsiderasse ir ver o dr. Thiry na clínica de doença de Huntington. Ela notou pelos ombros tensos que ele estava preparado para uma reação agressiva por parte dela ao mencionar a doença. Mas, pelo contrário, ela se dobrou para a frente com a cabeça sobre o colo e chorou de soluçar – pelos sintomas que afinal admitiu ter, pelo diagnóstico sobre o qual Tom devia ter razão. Mara disse a ele que estava pensando nisso desde a noite da consulta com o dr. Misner. Ela havia pensado em tudo o que o médico tinha dito sobre a doença, e havia pesquisado um pouco sozinha também. Por fim, encontrara um site com centenas de comentários deixados por pacientes nos primeiros estágios da doença de Huntington, ou seus esposos e esposas, filhos e outros membros da família que cuidavam deles. Mara se reconhecera na lista de sintomas e em alguns testemunhos dos primeiros estágios da doença que havia lido on-line, e tinha decidido, enfim, que queria fazer o exame, para confirmar a suspeita que ela agora compartilhava com Tom e seu ex-colega de faculdade. – Se eu tenho doença de Huntington, então quero saber – ela disse a Tom, os dois de mãos dadas em seu quarto de hotel em Montreal. – Eu preciso ter certeza, como você disse. Eu quero me preparar. E quero encontrar uma maneira de explicar isso para a Laks – talvez não todos os detalhes terríveis, mas pelo menos o fato de que essa doença vai me tirar da vida dela. Ela já foi abandonada por uma mãe sem explicação. Não quero que ela passe por isso uma segunda vez. Se ela vai perder uma segunda mãe, quero que saiba o porquê. Tom insistiu no assunto, explicando que a equipe na clínica do dr. Thiry faria o mesmo. Ela tinha certeza de que estava pronta para descobrir? Ela sabia como se sentiria, o que faria se o resultado fosse positivo? Ela respondeu que estava pronta. – Se for positivo, vou me sentir mais aliviada do que qualquer outra coisa – ela disse, ainda inclinada para a frente, os braços abraçando as laterais do próprio corpo. – Eu sei que tem alguma coisa de errado comigo. E sinto que a gente vem se afastando por causa disso. E eu sei que você sente isso também. O estresse de não saber tem sido insuportável para nós dois. Mesmo se a resposta for assustadora, pelo menos é uma resposta. Olhando nervosa para ele, continuou: – Se a gente descobrir o que é, e souber com o que estamos lidando, então será que a gente pode encontrar o caminho de volta um para o outro de novo? – Nós podemos – ele disse, pousando as mãos sobre os ombros dela e levantando as costas de Mara com toda a gentileza até que ela se sentasse de novo. Ele colocou o braço ao redor dela e a puxou para perto. – É claro que podemos encontrar esse caminho de novo. Nós já começamos. Ela pressionou a bochecha contra a pele morna da mão dele. – Eu vou morrer – ela sussurrou. – Antes de os nossos netos nascerem. Antes até de a Laks se casar, se formar na faculdade... – Amor, vamos descobrir primeiro, antes de você... – Eu tenho a doença – ela disse. – Eu sei que tenho. E você também.


Ao girar o prisma de cristal mais uma vez, Mara sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto, e então outra, e então uma enxurrada quando ela se lembrou como tinha se dobrado para a frente de novo, desta vez com a cabeça no colo de Tom, os braços agarrados em desespero à cintura dele, seus ombros indo para cima e para baixo como se a força daquilo tudo a tivesse atingido de uma só vez. Tudo o que ela deixaria para trás. – Eu não vou estar aqui quando ela precisar – ela chorou. – Ela não vai ter mãe. Não vou vê-la crescer. Eu vou perder tudo isso. – Ah, Mara – ele disse, mas ela podia ouvir a agonia na voz dele mesmo agora, quatro anos depois. Sentir o peso dele quando se inclinou por cima dela, como um escudo contra todos os perigos. Mas a ameaça não estava vindo de fora, e, por mais que a puxasse para perto de si, por mais que cobrisse todo o corpo dela com o seu, ele sabia que não poderia protegê-la do ataque que estava sofrendo do próprio corpo.


11. Mara Eles passaram quase seis horas na clínica de doença de Huntington na primeira consulta, e tudo não passava de um borrão de entrevistas, reuniões, exames e mais testes de que Mara mal podia se lembrar agora. Ela se lembrava mais vividamente das pequenas coisas. Da gentileza da chefe da equipe, Betty, que coordenou todos os exames e entrevistas de Mara naquele dia e segurou a sua mão enquanto ela e Tom foram da sala de exames para a sala de reuniões. A maneira como o dr. Thiry a cumprimentou, segurando a mão dela entre as dele e por um bom tempo. Era um gesto que a fez se sentir cuidada e segura no mesmo instante, a maneira como se sentia todas as vezes que colocava o pé na clínica. Como Tom segurava na sua mão milhões de vezes, esfregava seus ombros a cada cinco segundos e beijava suas bochechas, têmporas, testa e dizia que a amava. Ou talvez aquelas não fossem coisas pequenas, afinal. Os vários membros da equipe do dr. Thiry passaram um tempão explicando a doença com muitos detalhes, mas Mara tinha lido tantas coisas sobre a doença de Huntington, ou “DH”, sozinha, que ficara difícil saber onde ela tinha visto determinada informação. Antes de chegar à clínica, ela já sabia que a DH era como uma gagueira genética, uma repetição mais alta que o normal de uma certa sequência de proteínas: a sequência C-A-G, ou “CAG”, ao final de um filamento específico de DNA. Ela sabia que o exame de sangue que confirmava se uma pessoa tinha DH ou não mostrava o número de repetições CAG no DNA da pessoa. Abaixo de 35 repetições não havia problema nenhum – não havia o gene da DH no seu DNA, nem sintomas futuros com que se preocupar. Mas mais de quarenta repetições significavam que você tinha DH e desenvolveria sintomas em algum ponto, se vivesse o bastante para isso. Se as repetições ficassem entre 36 e 39, então ninguém sabia ao certo: você tinha que esperar para ver – talvez desenvolvesse os sintomas, talvez escapasse ileso. Mara fez com que a igrejinha parasse de girar e passou o dedo indicador pelos ângulos do prisma enquanto alguns detalhes da sua primeira consulta vinham à mente. Durante a sessão de uma hora com Betty, Mara tinha perguntado se era verdade que alguém com um número maior de repetições CAG – 45, por exemplo – entraria em declínio com maior rapidez que alguém com quarenta repetições. Ela havia lido on-line que um número maior de repetições era pior: significava que a DH aniquilaria seus neurônios mais rápido, cortando a comunicação entre o cérebro e os músculos mais depressa, e assim você perderia o controle sobre os membros antes do esperado. Ou seja, a doença matava mais rápido. Crianças com DH juvenil, por exemplo, tinham cerca de sessenta repetições CAG, e apenas cinco anos de vida entre a primeira aparição da DH e seu golpe final e fatal. Ela se lembrou de Betty dizendo que não, que não havia uma correlação cientificamente provada entre um número alto de repetições CAG e a taxa de progressão da doença. E que aquela era a primeira, mas não a última vez que Mara tinha percebido que não podia contar só com a clínica, nem com os médicos em geral, como fonte de informação. Havia ainda tanto que eles não sabiam, Betty disse, e por “eles” ela queria dizer médicos enterrados em laboratórios, tentando descobrir os “porquês” e “comos” de tudo aquilo. Mas, por enquanto, no mundo real, havia muitas pessoas vivendo com a doença e compartilhando suas


experiências on-line. E, mesmo se os caras de jaleco branco nos laboratórios até então não pudessem afirmar nada, Mara sabia o que tinha lido: dezenas de testemunhos de pacientes de DH e seus esposos e esposas contando como pessoas com repetições CAG acima de 45 tinham deteriorado muito mais rápido que um tio ou irmão ou avô que tinha só 41 repetições. E ela também sabia ao que tinha assistido: um vídeo de uma mulher com 46 repetições que apenas oito meses antes havia marcado dois gols em um jogo de futebol entre pais e filhos com a sua filha, e agora fazia uma cara desconfortável para a câmera, a parte superior do corpo guinando tanto que parecia que ela ia cair para a frente a qualquer segundo. Os braços da mulher balançavam de tal modo que Mara se lembrou daquelas birutas coloridas de posto de gasolina, às vezes também nos pátios das concessionárias de carros, seus corpos e membros se dobrando e torcendo e acenando espasmodicamente a cada rajada de vento. Outra coisa de que Mara se lembrava com clareza de sua primeira consulta na clínica foi quando o dr. Thiry perguntou sobre sua coreia – os movimentos involuntários nos membros que o dr. Misner havia notado e explicado para ela. Mais uma vez, ela ficou surpresa ao olhar para baixo e para as próprias mãos e vê-las se mexendo depressa sobre o colo. Olhou assustada para Tom, e ele deu de ombros como quem pede desculpas. – Costuma ser bem discreto, só piora quando você está sob muito estresse. Mara fechou e apertou as mãos para que elas parassem de se mexer e Tom se inclinou e a beijou. – Essa situação é bem estressante, amor – ele disse. O dr. Thiry explicou que não era incomum pessoas com DH terem uma percepção errônea dos próprios movimentos. Alguém que não para quieto o tempo todo por causa da coreia pode nem perceber que está se mexendo, ele disse. Ou então pode ter um andar bastante irregular e achar que está andando de maneira normal. – O nome disso é a anosognosia – o dr. Thiry disse. – Anosognosia – Mara repetiu, achando que a palavra soava estranha. Mas naquela época era um fenômeno estranho – como os braços de alguém podiam se mexer sem que a pessoa percebesse? Como o jeito de andar de alguém poderia mudar por completo sem que a pessoa notasse? Por mais implausível que parecesse, agora aquilo fazia parte de sua realidade. – Anosognosia – ela sussurrou para si mesma, olhando para as próprias mãos, que ainda se mexiam. Era como se elas estivessem presas ao corpo de outra pessoa. Ao falar com Tom, o dr. Thiry perguntou: – Então ela já tem coreia há algum tempo, é isso? Algum outro sintoma físico? Tom olhou de relance furtivamente para Mara antes de se virar para o dr. Thiry e fazer que sim com a cabeça. – Ela deixa coisas caírem – ele explicou em voz baixa, e Mara sabia que ele estava dividido entre poupar a esposa de ouvir mais notícias estressantes e dar ao dr. Thiry toda a informação de que precisava. – Tudo bem – ela disse a ele, sorrindo para mostrar que não estava mais na defensiva. – Conta tudo para ele. Tom se mexeu na cadeira, desconfortável. – Ela também vive dando encontrões nas coisas – ele disse. – Cantos de mesa, o armário da cozinha.


E... – fez uma pausa como se estivesse juntando coragem para dizer as palavras seguintes – ela cai de vez em quando. – Você falou com a Steph? – Mara perguntou, lembrando-se do “Cachorro Morto” na aula da ioga. Aquilo já tinha acontecido várias vezes. Tom inclinou a cabeça para o lado. – Não. Eu já vi você cair. Por quê? Você caiu na frente da Steph? – Não muitas vezes – ela sussurrou. Ele aproximou sua cadeira e colocou o braço ao redor dela. Mais tarde, no carro, Tom voltou a falar da anosognosia. Aquilo explicava por que ele tinha notado os movimentos estranhos da esposa mesmo sem que Mara os notasse. – Eu pensei em falar com você sobre isso quando começou – ele disse –, mas você não parecia muito aberta a discutir o assunto. E não é à toa, é claro. Você quer que eu avise quando estiver acontecendo, daqui para a frente? Ou se piorar? Mara pensou na mulher-biruta que ela tinha visto no vídeo na internet, aquela com CAG de 46. Quem é que gostaria de saber que está assim? Ela fez que não com a cabeça. – Não – respondeu. O restante dos detalhes da primeira consulta, as outras cinco horas ou mais de discussões e exames e acenos de cabeça e anotações feitas por vários profissionais cujos nomes e rostos ela já tinha esquecido, Mara não lembrava mais. Também não se lembrava de muita coisa da segunda consulta, um mês depois, quando eles voltaram para fazer o exame de sangue. Mas lembrava-se de cada detalhe da terceira consulta, quando eles se sentaram rapidamente com Betty e o dr. Thiry para ver os resultados. A consulta começou e terminou com um número: Quarenta e oito. Seu número de repetições CAG. Quarenta e oito. 48. Quatro, oito. O dr. Thiry passou o papel para ela, e Mara o segurou por apenas um segundo para depois deixá-lo cair como se ele a tivesse picado. Ela fechou os olhos com força e disse a si mesma que jamais olharia para aquele número de novo sem sentir um ódio de partir os ossos. Evitaria a previsão do tempo no inverno. Ignoraria seu aniversário depois dos 47, se chegasse àquela idade. Ela abriu os olhos e percebeu, pelas expressões no rosto dos outros, que havia dito tudo aquilo em voz alta. Tentou se levantar, sair da sala, mas de uma hora para outra não conseguia suportar o próprio peso. Tom se levantou com rapidez e a ajudou a se equilibrar. Ao colocar os braços ao redor dela, ele pressionou as bochechas, o peito, as pernas, toda a extensão de seu corpo contra o dela enquanto beijava suas bochechas, os olhos, o cabelo e dizia que a amava. Ela não sabia por quanto tempo eles ficaram daquele jeito. Depois de um tempo, Tom se virou e falou baixinho com Betty e o dr. Thiry, e eles saíram da sala, mas ele não se moveu, e Mara não conseguia também. Ela não sabia ao certo como fora da clínica para o carro, mas imaginava que ele a havia carregado a maior parte do caminho, ou pelo menos a ajudado a carregar a maior parte do seu peso. Eles choraram até chegarem em casa, ela se lembrava disso, apertando a mão um do outro com tanta força que ficaram com as mãos dormentes, e tiveram que soltá-


las, abrir e fechar algumas vezes, para recuperar a sensação – e então deram as mãos de novo. Ao chegarem em casa, empurraram a porta da garagem que dava para a sala de estar e caíram juntos no sofá, exaustos demais para seguir além. E ficaram lá, uma bagunça de braços e pernas entrelaçados e lágrimas, até a noite chegar. Por fim, Tom a levou para o quarto deles, ajudou-a a vestir a camisola e entrar debaixo das cobertas. Tirando tudo, menos a cueca, ele se deitou ao lado dela. Tom a envolveu em seus braços, colocou uma das pernas sobre as dela, enterrou o rosto molhado na nuca da esposa e a embalou até que os dois pegassem no sono. O restante da semana passou como um borrão em sua memória, apesar de algumas partes terem se destacado: o pranto de Neerja quando Tom deu a notícia a eles; os pais dela levando Laks para a casa deles quando Aquelas Moças vieram visitar Mara; Steph dizendo um monte de coisas ao mesmo tempo e Gina chorando, e então organizando uma programação para todo mundo da empresa trazer refeições para Mara nas próximas semanas; outros amigos (agora ex-amigos) vindo uma vez, ficando pálidos com a descrição de Tom do que estava por vir, e então desaparecendo para sempre. Os pais de Mara foram uma presença constante naquela semana, é claro, seu pai vindo a cada meia hora com mais compras do mercado, sua mãe cozinhando, apesar de um lembrete gentil de Gina dizendo que já tinha escalado outra pessoa para fazer o jantar daquela noite. Mara se lembrava de estar sentada na sala de estar uma noite com a sua mãe, Steph e Gina, tomando uns drinques e falando em voz baixa, enquanto Tom e Pori colocavam Laks para dormir. Mara disse às outras mulheres que não sabia ao certo por que estava tão chocada. Ela sabia havia algum tempo, intelectualmente, que só poderia existir uma razão para aqueles sintomas. Já sabia, é lógico, que esse seria o resultado. Gina fez que sim com a cabeça e Neerja deu uma risadinha de compaixão, enquanto Steph serviu a todas mais um drinque e disse: – Acho que o intelecto e a lógica não sabem merda nenhuma de como é ser diagnosticado com uma doença incurável.


12. Mara Mara deixou as portas de correr de vidro e tomou seu lugar à mesa da cozinha, abrindo o laptop. O relógio do computador marcava duas e quinze da manhã, mais de duas horas depois de ela ter saído da cama de Tom e ido para a cama de Laks. Ela fez que não com a cabeça, surpresa com a loucura que suas horas de sono tinham se tornado desde o diagnóstico. Preocupada o tempo todo com aquilo que teria que encarar no mês ou na semana seguinte, não havia dormido uma noite inteira fazia mais de um ano. Agora, noites como essa eram comuns: o restante da casa dormindo enquanto Mara ficava sentada na cozinha escura, revivendo momentos. Preocupando-se. Planejando. Ela abriu o laptop e descolou o post-it que tinha escondido do lado de dentro mais cedo naquele dia: a lista de pessoas de quem deveria se despedir, coisas a fazer nos próximos cinco dias. Com uma caneta, riscou o nome de duas amigas da McGill para quem tinha ligado depois do almoço, usando a desculpa de atualizar sua lista de contatos. Também riscou o nome de uma das mães que eram suas amigas mais próximas na escola de Laks, para quem tinha mandado um e-mail antes de Laks chegar em casa. O e-mail tinha começado com uma pergunta inventada sobre o Dia de Excursão da escola antes de se transformar em um parágrafo de “obrigada pela sua amizade” que Mara havia reescrito quatro vezes até se convencer de que não soava suspeito. Até que ela já tinha feito bastante coisa, disse a si mesma. Não teve coragem de entrar no fórum, mas ainda havia tempo. Mara colou o post-it na parte de baixo do laptop, abriu o navegador da internet e abriu o fórum, dando uma olhada geral nos posts que haviam sido publicados desde a sua última visita. Sorriu ao ler o post de CidadedosCarros sobre como ele a considerava uma irmã, e deu um sorriso até maior ao ver quantas pessoas tinham deixado mensagens de apoio durante seus últimos dias com o Carinha. Ela não era religiosa, mas fechou os olhos e desejou com todas as forças que seu amigo ficasse bem depois que o menino voltasse para casa. Graças a Deus ele tinha seu filho vindo por aí. Já que estava fazendo isso mesmo, ela completou com um pedido para que a equipe do dr. Thiry ligasse no dia seguinte e fosse quase rir de sua preocupação de que um episódio de incontinência significava alguma coisa séria. Com seu desejo a caminho pela atmosfera, ela abriu o site sobre pesquisa em DH que tinha marcado como favorito quatro anos atrás e pegou um bloco de anotações e uma caneta. Nos primeiros meses após o diagnóstico, Mara havia vasculhado o site todos os dias, animada ao ler sobre as várias equipes de pesquisa no mundo todo que estavam fazendo “progresso substancial” ou recebendo “novos financiamentos significativos” para apoiar sua busca por descobrir a causa e a cura do transtorno. Ela já tinha visto Tom fazendo o mesmo, apesar de ele sempre negar, dizendo que estava lendo alguma coisa sobre um de seus pacientes e nunca explicando direito por que precisava fechar o laptop com tudo antes que ela pudesse ver a tela. Ela já não pegava Tom no flagra fazia algum tempo e já tinha desistido. Esses “inícios positivos” e “possibilidades animadoras” nunca levavam a nada conclusivo e, depois de um tempo, parecia a mesma coisa que procurar dinheiro debaixo de um travesseiro em uma casa na qual não se acreditava na fada dos dentes. Fazia um tempão que ela não abria o site. Agora, na expectativa das notícias que esperava ouvir no dia seguinte, ela segurou a caneta acima do bloco e clicou algumas vezes, como um carro tomador de notas esquentando os motores na F1, pronta para registrar detalhes sobre os últimos avanços e então contar tudo para Tom na manhã seguinte, e


planejar algo diferente para comemorar seu aniversário. Ela leu as manchetes da página inicial, clicando para vasculhar todos os detalhes de cada modelo de estudo com animais que havia sido recém-concluído ou continuava em progresso, cada ensaio clínico com pacientes que oferecia esperança. Vinte minutos depois, deu um clique anêmico na caneta antes de deixá-la cair da mesa. Não havia nada. Muita pesquisa tinha acontecido desde a última visita de Mara – páginas e mais páginas –, mas nada palpável de fato. Uma empresa farmacêutica havia suspendido um estudo de vários anos depois que “resultados desapontadores” foram encontrados em ensaios com animais. Um laboratório havia adiado o lançamento de sua pesquisa sobre como os neurônios morrem em pacientes com DH e a primeira fase agora fora marcada para terminar dali a dezoito meses, em vez de seis. O produto final do projeto era, ou pelo menos a equipe esperava que fosse, o desenvolvimento de uma droga que retardasse a progressão. Não uma cura, então, apenas um controle. E isso demoraria pelo menos três fases, cada uma com duração de seis a dezoito meses. Não haveria nenhum elixir na farmácia de Mara logo mais. Ela já devia saber. As respostas para a doença, o segredo sobre como ela funcionava e como poderia ser detida eram tão esquivos como sempre. Ela havia sido atraída a checar debaixo do travesseiro mais uma vez. E tudo o que encontrara fora um dente podre e sangrento, e nenhuma moeda brilhante em seu lugar. Mara olhou do laptop para o telefone sobre o balcão e desejou que não tivesse deixado a mensagem na clínica do dr. Thiry. Eles não se atreveriam a confirmar que o incidente no supermercado era mesmo o começo do fim. Nem poderiam prever o fim de tudo com base em um único acontecimento. Mas também não seriam capazes de prometer que o incidente não tinha sido o começo de um declínio até o final tão temido. Que não havia sido um sinal de que mais humilhação estava a caminho, e mais decadência. Que ela ainda teria bastante tempo antes de perder o controle físico necessário para comandar a própria saída do mundo. Que ela poderia esperar mais um ano, ou mesmo mais um mês. A única coisa que falar com eles concretizaria seria um número maior de pessoas sabendo do seu espetáculo público tão embaraçoso. Quando a clínica respondesse à ligação no dia seguinte, ela deixaria o telefone tocar até parar.


Parte Dois Quarta-feira, 6 de abril

Faltam quatro dias


13. Scott Scott acordou tarde, depois de passar boa parte da noite encarando o teto. Ficou surpreso ao sentir o cheiro de café quando desceu as escadas, já que nos últimos tempos o cheiro deixava Laurie enjoada. Ele tinha passado a comprar sua xícara de café em um drive-through no caminho para o trabalho. Ela já estava vestida para ir trabalhar e sentada na cozinha, terminando de comer uma torrada. Ele apontou para a cafeteira enquanto andava em direção à máquina. – Você está tomando café? Ela fez cara feia. – Não sei se algum dia vou conseguir tomar café de novo. É a pior coisa da gravidez, sabia? Você sempre ouve falar dos desejos que as grávidas têm, mas ninguém conta das aversões repentinas a coisas que você amava antes. Eu fiz para você. Não sabia se você teria tempo de passar por aquele café no caminho. Conseguiu dormir, afinal? – Um pouco. – Posso tentar adivinhar o que manteve você acordado? Ele olhou para ela com cuidado, pensando se deveria inventar uma história – cortes de funcionários na escola, por exemplo. Ela se levantou, colocou o prato na pia e a mão sobre o peito dele. – Sabe que eu também fiquei um tempo acordada? E fiquei pensando: se você é tão dedicado assim com um menino que nem é nosso, então este bebê vai ter o pai mais dedicado do mundo! – Ela tirou a mão do peito dele e a pousou sobre a bochecha do marido. – Eu sinto como se talvez não tenha tido tanta compaixão nessa situação quanto deveria. Às vezes esqueço que, por mais próxima que eu seja dele, vocês dois são muito mais. Por mais que seja difícil me despedir dele, por mais que eu vá sentir saudade dele, vai ser muito pior para você. Desculpe por não ter reconhecido isso o bastante. A compreensão na voz dela, nos olhos, era tão inesperada que ele não conseguiu falar. Fechou os olhos e pressionou o rosto contra a mão dela. – Quer que eu vá buscá-lo na escola hoje? – ela perguntou. – Não. Só vou ter mais algumas oportunidades para trazê-lo para casa. E não vou deixar que nada comprometa isso. Fiquei com tanta raiva de mim mesmo por ter deixado isso acontecer ontem à noite. Você tinha razão – eu deixei o treino com o Pete esta semana para poder passar mais tempo com ele, e então deixei aquela mulher... – Que bom você dizer isso – ela reconheceu. A voz dela era reconfortante. Ele esperava uma bronca leve sobre como sempre colocava a escola em primeiro lugar e decidiu que não discutiria quando a bronca viesse. Mas ela não veio e, agradecido, ele virou a cabeça para beijar a palma da mão dela, e então sua bochecha.


– Obrigado pelo café. Quando Laurie saiu para trabalhar, ele já estava quinze minutos atrasado em um dia cheio. Curtis teria que aguentar a programação, mas havia um prêmio se ele estivesse com vontade de cooperar, e era uma de suas coisas favoritas: escolher a estação de rádio no caminho para a escola. Scott pegou as lancheiras da geladeira e as colocou sobre o balcão, pondo uma banana e uma barrinha de granola sobre uma delas – um café da manhã “para viagem” para seu passageiro. Ele deixou a caneca na pia, descascou uma banana para si mesmo, acabou com ela em quatro mordidas e subiu as escadas três degraus a cada passo. – Carinha! Temos que estar no carro em seis minutos! Vamos! Curtis saiu correndo da cama e já recebeu o prêmio sem pestanejar. – Eu nem quero saber de programa de esportes hoje – ele disse a Scott ao se sentar no banco de trás. – Agora eles só falam sobre beisebol, e eu não estou nem aí. Ele logo completou: – Mas eu amo os Tigers. Tigers seeeempre! – Tigers seeeeempre – Scott concordou. – Então, o que vai ser? Rock? Jazz? Blues? Um pouco de Motown? – Minha mãe ama Motown. – Então um pouco de Motown, para comemorar o encontro com sua mãe de novo na segunda-feira? E voltar para casa? Ele mordeu o lábio no momento em que as palavras saíram de sua boca. Mandar o menino para a escola com aquele peso na cabeça não era uma boa ideia. Scott se odiou por isso e compôs um e-mail na cabeça para a srta. Keller: “Desculpe se o Curtis está difícil hoje. A culpa é minha...” Mas, como qualquer menino de sua idade, Curtis estava tão animado com a notícia hoje quanto estivera deprimido na noite anterior. – É! Motown para comemorar ir para casa com a minha mãe! – Então vamos de Motown. Ele encontrou a estação de rádio e saiu da garagem, juntando-se a Smokey ao fazer uma segunda voz que Laurie sempre implorava que ele não revelasse em público. “So take a good look at my face You’ll see my smile looks out of place.” (“Olha só para a minha cara / Você vai ver que meu sorriso está fora de lugar”) Curtis se dobrou para a frente tapando os ouvidos com as mãos, como se estivesse ficando surdo. – Aaaaah! Por favor! Para! – Ah, fala sério, você espera mesmo que um cara de Detroit ouça o Smokey e não cante junto? Qual é a sua desculpa? Sentado aí e reclamando em vez de soltar a voz. Quero ouvir, vamos lá! – Eu só sei essa parte do “good look at my face”. Não sei o resto. – Bom, então é melhor o senhor aprender logo se quiser continuar morando nesta cidade.


Eles seguiram pelo restante do caminho em um silêncio sociável. Apesar do nível quase impossivelmente alto de energia de Curtis pelo resto do dia, ele não gostava de acordar cedo. Scott colocou a mão para trás e deu um tapinha na perna da criança quietinha que agora apenas olhava de relance para os prédios e árvores passando pela janela. O trajeto da manhã era quase sempre assim, o programa de esportes ou música no rádio, os dois satisfeitos em estar juntos, mas perdidos em seus pensamentos. Scott gostava de agitar quando o menino estava a fim, mas também curtia fazer o trajeto em silêncio, pensando nas jogadas que experimentaria no treino, e no novo romance que apresentaria aos seus alunos do oitavo ano. Hoje, ele deixou a mente correr solta enquanto via as ruas elegantes de Royal Oak darem lugar às avenidas abandonadas de Detroit. Depois de dez anos trabalhando na Franklin, Scott já tinha visto tudo aquilo um milhão de vezes. Mas havia pequenas mudanças de tempos em tempos, e ele ficava de olho quando podia. Em geral, as mudanças eram deprimentes – mais uma casa com as janelas tapadas com tábuas, mais uma pichação em um prédio que o dono tinha acabado de limpar uma semana antes. Mais um papel quadrado pregado em outra porta da frente, a cor e o tamanho anunciando que era um aviso de despejo, apesar de ele não conseguir ler o que estava escrito do carro. Mas às vezes também havia sinais encorajadores. Luzes acesas em uma loja de máquinas que não abria fazia anos, alguns carros no estacionamento dos empregados. Uma placa de “Sob nova gerência” na janela de uma quitanda que tinha sido fechada há muito tempo. Roupa estendida no varal do quintal de uma casa que tinha sido abandonada, mas que agora mostrava cortinas novas nas janelas e brinquedos na varanda com a tinta descascando. Eram mudanças como aquelas que mantinham Scott esperançoso. As coisas poderiam melhorar por ali. As famílias poderiam voltar para suas casas e apartamentos. Homens de negócios honestos poderiam abrir lojas e pequenas fábricas. Um moleque como Brayden Jackson poderia ganhar uma bolsa para a faculdade. E um diploma. Um emprego de verdade. Uma vida longe daqui. A escola Franklin, onde Scott passava seus dias, era um microcosmo de Detroit – deprimente e bela, tudo o que a cidade tinha sido e tudo o que poderia ser. Scott imaginava que a escola já deveria ter sido majestosa quando nova. Três andares de tijolos vermelhos à vista com janelas altas e portas de duas folhas enormes. O gramado da frente devia ter sido de um verde exuberante, a quadra de basquete nos fundos lisinha e preta com linhas brancas e sólidas, a cerca ao seu redor reta e orgulhosa. Na época, os corredores de mármore deveriam brilhar, e ele podia apostar que as portas de madeira das salas de aula eram lisas e limpas. Ficou pensando em quantas pessoas que já tinham estudado na Franklin no começo haviam visitado a escola nos últimos tempos, e em como deviam ter se sentido. Agora os tijolos estavam pálidos, cinza em alguns lugares e preto em outros, a descoloração era um lembrete das fileiras de fábricas que ficavam perto dali. Diversas janelas não tinham todos os painéis de vidro, e as várias soluções que os professores inventavam para preencher os buracos – durex de várias cores, quadrados de papelão – tinham deixado a fachada do prédio com ares de palhaço. O “gramado” à frente da escola agora não passava de um quadrado cheio de terra, com montinhos de ervas daninhas e grama fazendo força para se levantar. A quadra de basquete não tinha mais as linhas no chão, e boa parte de sua superfície havia cedido às ondas de rachaduras provocadas pela força de décadas de invernos em Michigan. A cerca tinha sido cortada ou arrancada em vários lugares; não mais reta e orgulhosa, mas dobrada e transformada em uma coisa caída e triste. E lá dentro... O piso dos corredores era sem brilho, arranhado. As paredes eram de um verde pálido e


pútrido que em algum momento já tinha sido um tom alegre, mas agora lembravam a Scott as alas psiquiátricas dos anos 1960 que ele tinha visto em filmes. As portas das salas de aula mal podiam ser reconhecidas como feitas de madeira, cobertas pelas iniciais dos alunos e por palavrões, alguns escritos em rosa, outros gravados com faca. Eles chegaram à Escola Elementar Logan, a escola de Curtis, localizada a alguns quarteirões da Franklin, e Scott entrou no estacionamento. A Logan não havia tido um início tão majestoso quanto a Franklin. Era somente um andar com tijolos amarelos pálidos e portas de metal verde. Mas também não parecia tão acabada quanto a Franklin. Os tijolos estavam enegrecidos em menos lugares e não tão escuros. As janelas continuavam inteiras. Não havia pichações. As portas das salas de aula, como Scott havia chamado a atenção de Laurie na noite da reunião de pais e professores, não tinham tatuagens de palavrões. Scott parou no estacionamento. – Você fica por aqui, Carinha. O menino saiu do carro, colocou a mochila sobre o ombro, pegou a lancheira e andou ao redor do carro até chegar à janela de Scott. – Toca aqui – Scott disse, mostrando o punho cerrado. Curtis bateu o punho no punho de Scott. – Bochecha – Scott disse. Curtis fingiu morrer de vergonha, mas sorriu ao trazer a bochecha para perto e receber um beijo de Scott. – Promete – Scott disse. – Eu prometo. – Não, desse jeito não dá. Quero ouvir tudo. Curtis suspirou. – Eu prometo fazer aquilo que a srta. Keller mandar. – Até quando? – O dia inteirinho. – Legal. Vai lá, Albert Einstein. Scott chegou à sua sala com dez minutos de folga antes da primeira aula. Tempo suficiente para uma checada rápida no fórum. Ao abrir o laptop, pensou em como alguém poderia achar estranho que, mesmo naquela semana, quando ele estava tentando aproveitar todas as experiências possíveis com Curtis, ainda tivesse tempo para pensar no fórum e postar alguma coisa lá. E poderia parecer estranho também, e talvez até mais, que, em um momento de tamanha devastação, a maior parte do apoio que recebia não viesse de seu melhor amigo, Pete, nem de sua esposa, mas na verdade de um grupo de pessoas que ele não reconheceria se entrassem na sala de aula naquele momento. Não que Pete e Laurie não fossem capazes de confortá-lo – pelo menos eles tentavam. Mas, por mais paradoxal que parecesse, quando chegava a hora de revelar seus sentimentos mais íntimos, não havia nada igual ao anonimato da internet. Ao contrário de pessoas que o conheciam na “vida real”, mãedalaks, planodevoo, 2meninos e os outros não tinham um contexto no qual inserir seus posts, nem histórico – bom ou ruim – contra o qual medir as coisas que ele dizia. Para Laurie, a frase “Vou morrer sem ele” a machucava e a ofendia por causa do significado implícito que a esposa ouvia com ela: “O Curtis é mais importante que o bebê. O Curtis é


mais importante que você”. Pete não se sentia tão machucado, mas também não conseguia parar de pensar no contexto, como Laurie: “Mas, cara, você vai ver o Curtis de novo quando ele estudar na Franklin. Vai poder passar três anos com o moleque. E, enquanto isso, você vai poder focar no próprio filho, além das vinte crianças do time e das outras trezentas que você vê nos corredores da escola todos os dias”. Era uma tentativa de ajuda, Scott sabia disso. Mas não ajudava. Os amigos de Scott no fórum não tinham essa noção do contexto maior. Eles liam uma frase como “Vou morrer sem ele” com seu significado preciso em mente, e nada mais. Não tentavam enxergar mais do que aquelas quatro palavras na mensagem. Não se sentiam ofendidos, nem tentavam contrariá-lo. Não a condenavam por sua relatividade presumida. “Mas é claro que sim”, eles diziam. E aquela era a mesma maneira como respondiam a qualquer outra coisa que ele tinha dito sobre si mesmo: o que ele achava da criação de filhos, de casamento e sexo, de educação e raça. Liam o que ele escrevia, apenas o que ele escrevia, então respondiam. E nem sempre concordavam – Scott havia tido várias discussões acaloradas no último ano sobre uma série de assuntos. Mas não precisava de ninguém para concordar com ele o tempo todo – e nem de alguém para acrescentar mais 21 palavras às quatro que ele tinha escrito. Nesta semana, ele não precisava que Laurie o fizesse se sentir culpado além de estar com o coração partido. Ele não precisava que Pete tentasse animá-lo e fizesse com que ele visse tudo pelo lado bom. Só tinha quatro dias a mais com Curtis: não havia motivo para se animar, não havia um lado bom. Não precisava de ninguém para consertar o problema – não havia conserto. Precisava que alguém reconhecesse seus sentimentos. Aceitasse a sua dor. Concordasse que seu coração estava mesmo partido, e que deveria estar. E que poderia ficar partido por um bom tempo. E era exatamente isso que ele recebia ao falar com esses amigos sem nome e sem rosto no fórum: reconhecimento puro e autêntico. Era por isso que ele estava reservando um tempinho para o fórum hoje. E era por isso que continuaria se esforçando para fazê-lo, quando tivesse três dias a mais, e então dois, um, e depois que o menino fosse embora. Ao encontrar a conversa do dia anterior, ele se sentiu emocionado ao ver quantas pessoas tinham comentado sobre a sua situação. Havia mais de trinta posts novos. Aquelas pessoas não eram meros estranhos com endereços de IP desconhecidos. Eram amigos, e se importavam com Scott tanto quanto ele se importava com eles. Não pôde deixar de sorrir ao ver que um novo membro havia se manifestado para lhe desejar boa sorte nos próximos dias. Havia um lembrete de NadaMalvada de que homens podiam chorar, sim, e ele riu. Ele tinha entrado de fininho no quarto de Curtis nas últimas noites, depois que Laurie havia caído no sono, se instalado na cadeira de balanço e deixado as lágrimas verterem do canto dos olhos, uma ou duas escorrendo pelas bochechas e pelo pescoço, sob a gola da camiseta, enquanto observava as pálpebras e os lábios do menino se agitarem, sem dúvida dando uma de espertinho e reclamando para alguma criatura do mundo dos sonhos. Ao passar os olhos adiante, Scott parou em um post que esperava ver, de uma participante que postava de vez em quando chamada MãeAdotiva e que havia acolhido junto com o marido mais de uma dúzia de crianças na última década. Terça, 5 de abril às 20h41 Sinto muito, mas acho que vou ajudar menos do que você esperava. O melhor conselho que eu e meu marido recebemos antes de começarmos a acolher crianças foi este: não se apegue demais. Seguimos esse conselho desde o começo, e, embora as crianças que acolhemos tenham deixado uma grande marca em nosso coração, sempre tomamos o cuidado de manter uma distância emocional


considerável. Em consequência, quando chega a hora de devolvê-las para os pais, não sentimos como se um pedaço de nós tivesse sido arrancado, como sentiríamos se fôssemos forçados a abandonar um de nossos próprios filhos. Por tudo o que você disse sobre seu relacionamento com o Carinha, desconfio que aquilo que a mãedalaks disse sobre você antes é certo: você entrou nessa de peito aberto e, em vez de guardar uma parte, entregou seu coração inteirinho para o menino. Se isso for verdade, acho que a única coisa que você pode fazer é se lembrar a todo instante daquilo que é melhor para a criança. Como você e eu já discutimos várias vezes por mensagens pessoais, na maioria dos casos a melhor coisa para uma criança é ficar com seus pais ou um deles. Se a mãe do Carinha deixou os hábitos de lado enquanto estava presa – e você me disse há alguns meses que esse seria o caso –, então, na verdade, a melhor coisa para ele é voltar para ela. Focar isso vai diminuir um pouco a dor da despedida. Não muito, talvez, pelo tanto que você ama o menino, mas espero que um pouco. Boa sorte, meu amigo.

Scott checou o relógio. Seis minutos até os alunos da primeira aula chegarem. O tempo que tinha para postar uma resposta para ela. Quarta, 6 de abril às 7h54 @MãeAdotiva – eu acho que deveria ter pedido o seu conselho *antes* de o Carinha ir lá para casa. Você e a mãedalaks têm razão sobre quanto do meu coração eu deixei a salvo: 0%. Mas não sei se poderia ter feito tudo de uma maneira diferente – esse menino entra na sua corrente sanguínea. Bom conselho sobre focar naquilo que é melhor para o menino, e a sua sabedoria sobre o assunto, das nossas conversas particulares de alguns meses atrás, ficou comigo. Mais que isso – está me ajudando a passar por isso. E a ponto de eu estar passando por isso, apesar de sentir que estão arrancando um pedaço de mim. Mas é mais fácil de aguentar se eu estiver fazendo isso por ele. @2meninos – Como é que os seus Yankees estão hoje depois de tomarem aquela lavada dos Orioles ontem à noite? ;) Tigers seeeeempre. Eu até ofereceria uma aposta bem alta se tivesse certeza de que poderia achar você para pegar o meu dinheiro. Será que a NadaMalvada abriria uma exceção à regra do anonimato só desta vez?

Pensando na noite passada, e como não tinha conseguido dormir, ele completou: @NadaMalvada – que tal procurar mais membros para o fórum na Ásia? Estou com insônia esses dias e seria legal ter com quem conversar no meio da noite. Já vi todas as reprises de jogos clássicos na ESPN na calada da noite e estou perigando assistir àqueles canais de comerciais para me fazer companhia. Preciso guardar o dinheirinho que sobra para toda a parafernália de bebê de que a minha esposa vive falando, e a última coisa de que preciso é me sentir tentado a ligar às duas da manhã para comprar um jogo de pratos comemorativos decorados com o rosto de todos os presidentes...

Ele fechou o laptop, enfiou-o na maleta e checou o relógio. Dois minutos. Pensou no conselho um pouco atrasado de MãeAdotiva para evitar se apegar demais. E como, mesmo se o tivesse recebido a tempo, ele não seria capaz de manter o Carinha longe de seu coração. No minuto em que tinha dito sim a Bray, no ano anterior, ele havia assinado um contrato para ter um pedaço seu arrancado na semana seguinte. Bray tinha aparecido na varanda em frente à casa de Scott e Laurie levando Curtis pela mão há quase um ano. Os meninos estavam muito longe de casa – o apartamento onde moravam com a mãe ficava a alguns quarteirões feios da Logan, em um complexo esquálido de alvenaria bege que na última década havia batido os recordes de denúncias de violência doméstica e tráfico de drogas. Os meninos eram de pais diferentes e parece que a mãe nunca havia conseguido criar os dois sozinha. Scott tentou falar com LaDania várias vezes durante seu período como técnico de Bray na Franklin, e contava para Laurie como ficava preocupado com o nível de sobriedade de LaDania a cada tentativa. LaDania tinha essa cara de paisagem toda ocasião em que o via, e sempre parecia distraída e fora de foco. Ela parecia não entender o que ele tentava dizer, sobre como seu filho mais velho era talentoso na quadra, e como tinha um futuro brilhante à frente. Então, apesar de Scott se sentir surpreso ao ver Bray e Curtis na varanda naquela noite fria de abril, não ficou chocado quando, depois de levá-los para dentro de casa, Bray disse em voz baixa que precisava falar com os Coffmans em particular sobre uma complicação relacionada a drogas que sua mãe estava tendo. Como Curtis estava ocupado na sala de estar com papel e giz de cera, Scott levou Bray e Laurie à outra sala, onde Bray confessou que a palavra “complicação” talvez fosse leve demais para descrever o


que estava acontecendo: LaDania tinha sido presa naquela manhã por posse de drogas e teria que encarar uma sentença de doze meses – onze meses na prisão seguidos por um mês em uma casa de reabilitação. O defensor público disse a Bray que não abrandariam a pena, já que essa era a terceira vez que a flagravam com drogas. Seria necessário dar um jeito nos pertences dela, na correspondência e no seu filho de sete anos, Curtis. Bray tinha dirigido até Ann Arbor naquela manhã em um carro emprestado de um colega de time, e passado o dia conversando com o defensor público do Condado de Wayne para tentar resolver o que fazer com seu meio-irmão mais novo. Uma das opções era levar Curtis com ele para Ann Arbor. Mas não podia levar uma criança para morar em um alojamento estudantil. O apartamento que dividia com três colegas já estava lotado, e era longe de ser um ambiente adequado para um aluno de primeiro ano. E, como estaria muitíssimo ocupado com as aulas, treinos e jogos, Bray não teria tempo de brincar de pai no próximo ano. Além disso, ele tinha conversado com a professora de Curtis na Logan naquela tarde, e a discussão havia trazido à tona mais uma complicação: apesar dos problemas comportamentais bem significativos, Curtis estava começando a mostrar algum progresso. Progresso que poderia ser revertido se ele fosse arrancado e levado para uma nova escola em uma nova cidade. O menino voltaria a Logan quando sua mãe saísse da cadeia, e tirá-lo dali por um ano, só para trazê-lo depois mais tarde, não parecia muito inteligente. Outra opção seria Bray trancar a faculdade em Michigan por um ano e voltar a morar em casa. Poderia tentar garantir de novo seu lugar no time principal da faculdade no ano seguinte, quando LaDania fosse libertada. Por mais que amasse o irmão caçula, Bray não estava muito animado com essa opção. Ele tinha apenas começado a viver seu sonho, e queria segui-lo até o fim se pudesse. Mas não estava descartando essa alternativa também. Não podia prometer que ficaria feliz, mas voltaria para casa se não houvesse mais nenhum jeito. O defensor público queria encontrar uma solução diferente tanto quanto Bray. Ele já tinha visto jovens demais jogarem fora seu potencial ao ficarem presos em situações como essa e jamais conseguirem expandir seus horizontes, e incentivou Bray a considerar toda alternativa possível. Não havia alguém, o defensor perguntou, que pudesse ajudar? Alguém em quem Bray confiasse, que pudesse servir de guardião para o garoto até LaDania ser libertada? Alguém que pudesse assumi-lo por um ano para que Bray não tivesse que arruinar seu futuro? Bray nunca tinha conhecido o seu pai, nem o de Curtis, e, em seus dezenove anos de vida, o único parente que havia conhecido era a mãe de LaDania, que morrera pouco depois que Curtis nascera. Os Johnsons, superintendentes do complexo onde moravam, tinham sido legais com os meninos ao longo dos anos, mas eram mais velhos. A Sra. Johnson vivia doente e Bray não queria incomodá-los. Os vizinhos, a galera com quem a mãe andava por aí, não podiam nem ser considerados. Desesperado, Bray recorreu à pessoa que já tinha feito mais por ele, e demonstrado mais interesse nele que qualquer outra pessoa, incluindo a sua mãe. A única pessoa no mundo que com certeza quereria que Bray ficasse na faculdade tanto quanto ele: Scott Coffman. Um ano era bastante tempo, Bray sabia disso, olhando nervoso de Scott para Laurie. Era um pedido e tanto, ele sabia disso. Mas pelo menos podia garantir que não passaria daquilo. LaDania ficaria onze meses na prisão, o décimo segundo mês na casa de reabilitação, e então poderia voltar a seu apartamento e pedir o filho de volta. Doze meses, e estaria tudo terminado. Era uma decisão fácil para Scott, que já havia sacado ao ver Bray por alguns segundos na quadra, oito anos antes, que ele tinha algo especial. Depois de uma semana de treino, Scott anunciou para Pete e, mais


tarde, para a esposa que Brayden Jackson era o melhor jogador que ele treinaria na vida. Ele nunca tinha visto tanto talento ou ética de trabalho em um jogador tão jovem, e a altura do menino – 1,82 metro no sexto ano – o tornava bem mais impressionante. A personalidade de Bray também impressionava. Ele era um líder nato na quadra e na sala de aula, maduro e responsável para a idade. Parte disso, Scott sabia, vinha da situação de Bray em casa. Na melhor das circunstâncias, a mãe do menino não era muito atenciosa. Sob a pior das circunstâncias, não estava nem lúcida. Ela não usava drogas em excesso, Bray disse – pelo menos quando comparada às pessoas com quem andava por aí. E ele não tinha certeza de que ela era alcoólatra, mais uma vez se comparada aos outros. Mas ela “tinha emoções demais” de tempos em tempos e bebia e fumava para acabar com elas. Bray relutou em confessar a Scott que era mais “mãe” do irmão caçula que a própria mãe dos dois, dando banho e vestindo o menino quando a mãe estava fora de casa, ou desmaiada. Ele também tomava conta da criançada na escola, sempre de olho nas mais novas, tanto no time quanto nos corredores. Quando Bray foi conversar com Scott no final do sexto ano e pediu ajuda para melhorar no jogo, Scott ficou mais que satisfeito ao ajudar o menino que sempre ajudava todo mundo à sua volta. O verão inteiro, Scott ia encontrar Bray na Franklin logo depois que as aulas do curso de verão terminavam. Eles passavam horas jogando na quadra da escola ou, quando esta estava ocupada, na entrada da casa dos Coffmans. O sonho de Bray era entrar para o time principal de Parker High, e ele esperava que, se ralasse bastante nos dois anos seguintes, tivesse uma chance. Scott achava que Bray tinha muito mais que uma chance, quer continuasse com a rotina dura de treinos ou não, mas ele preferia que Bray passasse o tempo em uma quadra de basquete a que ficasse nas ruas. Como o defensor público, Scott havia visto vários jovens com potencial acabarem com tudo ao se envolverem com a turma errada. Então, guardou sua opinião sobre as chances de Bray entrar para o time para si mesmo e ofereceu o treinamento extra por quanto tempo ele quisesse. Dois anos depois, Bray entrou para o time da Parker e logo se tornou uma revelação, e então um astro. Scott e Pete foram ver todos os jogos da primeira temporada de Bray, e Scott postava em seu quadro de avisos todos os artigos de jornal que mencionavam o rapaz. E foram muitos. Quando a temporada terminou, Scott estava quase explodindo de tanta alegria e orgulho de Bray. Ele também foi consumido pelo nível de tristeza que o surpreendeu ao perceber que o tempo que passava com esse menino talentoso, dedicado e incrível, que ele havia aprendido a amar, logo chegaria ao fim. Bray tinha garantido um lugar no time da Parker; ele não precisaria mais de Scott. Mas Bray não tinha nenhuma intenção de descansar com o sucesso obtido no primeiro ano, e, depois que a temporada terminou, ligou para Scott para perguntar se podiam retomar os treinos naquele fim de semana. A temporada tinha sido ótima, ele disse a Scott, mas queria mais. Queria ser o melhor jogador da história da Parker. E depois queria uma bolsa para jogar basquete na faculdade. Ele sonhava em ser empresário, em construir uma vida melhor para si mesmo, o irmão e a mãe. E sabia que não poderia fazer faculdade a não ser que pagasse pelo curso sozinho, com seu talento na quadra. Eles continuaram com as sessões na Franklin e na entrada da casa de Scott e Laurie, a cada duas semanas, por mais um ano. E Scott e Pete, que foram a todos os jogos do segundo ano de Bray, viram o menino alcançar seu objetivo no fim do ano seguinte; os jornais locais declararam que ele não era apenas o melhor jogador de Parker High, mas o melhor que a cidade de Detroit já tinha visto. Scott recortou os artigos e foi até seu quadro de avisos, guardando com todo o cuidado os recortes anteriores em uma pasta, e então na gaveta de sua mesa para abrir espaço para os novos. Bray quebrou recordes de pontuação que tinham sido estabelecidos havia décadas por jogadores pelo


menos dois anos mais velhos que ele. Cartas de interesses começaram a chover das faculdades. Olheiros começaram a aparecer nos jogos dele. Mas ele não deixava a peteca cair: as sessões à entrada da casa de Scott continuavam, e, no fim do segundo ano de Bray na escola, os artigos no quadro de avisos de Scott declaravam que Brayden Jackson era considerado um dos melhores jogadores de basquete no ensino médio do país. Entre tantas bolsas para a faculdade, Bray escolheu Michigan; queria ficar perto de casa para poder cuidar de Curtis e de sua mãe. No fim do último ano de Bray, Scott e Pete, que não tinham perdido nenhum jogo até então, junto com os repórteres que continuavam fornecendo material para o quadro de avisos de Scott, previram que o basquete na faculdade não seria o ponto-final para aquele jogador. Eles veriam Brayden Jackson na NBA. A dedicação de Scott a Bray havia custado a ele centenas de horas ao longo de vários anos, mas tinha amado cada minuto. Ele considerava um preço baixo a pagar pelo futuro imenso que Bray tinha criado para si mesmo com determinação e muito trabalho. O jovem cujos braços e pernas estavam dobrados de um jeito desconfortável no sofá da sala de estar de Scott e Laurie em abril do ano passado, as pernas tremendo de nervoso, estava a poucas semanas de terminar seu primeiro ano na faculdade. Se as provas seguissem conforme o esperado, como disse a eles, orgulhoso, ele poderia terminar o ano com uma média boa o bastante para entrar na faculdade de negócios no segundo ano. O que Bray não contou a eles, mas Scott já sabia, era que o curso de negócios vinha se tornando um ótimo plano B. Havia boatos de que certos olheiros da NBA já tinham feito algumas viagens a Ann Arbor para ver o fenômeno do primeiro ano em ação. Para Scott, apesar do pedido de Bray para ficarem com Curtis ter vindo do nada, além de sua magnitude inimaginável, a resposta era simples: ele faria qualquer coisa para manter Bray em Michigan, jogando basquete, trabalhando para se formar e, como era possível, se tornar jogador profissional. Mas não era tão simples assim para Laurie, e ela disse isso a Scott em voz baixa depois que eles pediram licença para conversar no quarto e decidir como responder ao pedido de Bray. A relação de Laurie com Bray não era nada como a dele com Scott, e seu investimento no futuro do menino tinha sido quase nenhum. A ideia de ver sua vida virar de cabeça para baixo não era tão rapidamente minimizada pelo encanto de ver Bray realizando seus sonhos. O trabalho envolvido em cuidar do filho de outra pessoa – uma criança com problemas de comportamento, ainda por cima – não era logo desconsiderado por ela ao imaginar Bray de terno, ou mesmo num uniforme da NBA, como era por Scott. Eles haviam visto Curtis de tempos em tempos, nos jogos de Bray, ou quando ele aparecia para treinar com o irmão na entrada da casa, mas já tinham percebido como o menino dava trabalho. Uma tarde com ele era uma coisa. Um ano inteiro era outra coisa. Além disso, ela lembrou a ele que tinha sonhos também, e um em especial: ter a própria família. Eles tinham passado os últimos três anos tentando engravidar – anos que envolveram uma quantidade considerável de tristeza, frustração e momentos tensos entre eles, isso sem mencionar as inúmeras consultas ao médico, testes de fertilidade e FIV. A primeira rodada de FIV não funcionara, eles haviam chegado à conclusão de que tinham capacidade financeira e emocional para tentar mais uma vez, no outono. Toda a energia e atenção de Laurie estavam voltadas para o bebê que tanto queriam. Ela não sabia se poderia dedicar aquela atenção ao filho de outra pessoa. Aproveitando-se da obsessão de Laurie em ter a própria família, Scott tentou soar casual ao sugerir que ficassem com Curtis até tentarem a segunda rodada de FIV, e então esperar para ver se tinha dado certo; isso poderia ser exatamente do que eles precisavam: ocupar-se com uma criança serviria como


uma distração do processo enlouquecedor de esperar, querer, pensar, se preocupar. E uma criança com alguns probleminhas comportamentais? Melhor impossível para distrair os dois, hein? E o momento era perfeito, ele lembrou. Seria um alívio passar os meses do verão entretendo um menino de sete anos em vez de ficar na expectativa de sua “última chance” com FIV. Se eles tivessem a sorte de engravidar desta vez, ainda teriam o ano escolar todo com a gravidez. Quando o bebê nascesse, sua responsabilidade temporária já teria voltado para LaDania. Laurie não estava inteiramente convencida de que encarar ser babá por um ano era uma boa ideia. Ela poderia pensar em várias maneiras como preferia passar seu último ano sem filhos, como esperava. Mas era verdade que sua jornada para se tornarem pais tinha sido cheia de preocupações e tensão, e ela estava impaciente e cansada de esperar. A distração de ter uma criança na casa tinha seu encanto. E ela sabia como Bray era importante para seu marido. E então relutou, mas concordou. Curtis poderia ficar pelos doze meses da sentença de LaDania, ela disse a Scott. Mas não poderia ficar mais do que isso – a essa hora no ano que estava por vir, Laurie esperava estar fazendo os preparativos para o bebê –, só poderia ficar por doze meses. Na manhã seguinte, Scott, Laurie e Bray se encontraram com Janice, a assistente social responsável pelo caso da família Jackson. De preferência, Janice disse a Scott e Laurie, eles deveriam ficar com Curtis por um ano e uma semana. Isso daria a LaDania uma semana para que pudesse procurar emprego e se preparar, tanto quanto deixar o apartamento pronto, para receber o filho de volta, depois de sair da casa de reabilitação. Scott lançou um olhar pidão para a esposa, que suspirou, mas concordou que o plano de Janice fazia sentido. Naquela tarde, com a bênção de LaDania, assim como com sua assinatura no formulário do plano de colocação com guarda limitada, os quatro apareceram diante do juiz para pedir que os Coffmans se tornassem os guardiões limitados de Curtis por doze meses e uma semana. Algumas confirmações de Janice, meia dúzia de perguntas do juiz para os Coffmans e para Bray e, uma batida de martelo depois, Scott e Laurie se tornavam os guardiões de Curtis. LaDania havia saído da casa de reabilitação e voltado para seu apartamento na noite do domingo anterior. Ela estava procurando emprego, conforme Janice tinha dito a Scott e Laurie, e arrumando o apartamento para que Curtis voltasse para casa na segunda-feira, depois de o tribunal dissolver formalmente a guarda limitada dos Coffmans na audiência marcada para a manhã de segunda. E agora, Scott tinha apenas até domingo com o Carinha, quatro dias a mais com o menino que o fazia sentir mais como um pai que um “guardião limitado”. O fato de LaDania não ter ligado para Curtis mais que um punhado de vezes naquele ano inteiro, nem ter respondido às cartas que ele havia mandado para ela na prisão, não seria relevante no tribunal. Nem o fato de Scott e o menino terem ficado muito mais próximos que um formulário legal de uma página. LaDania era a mãe de Curtis, e Scott era só um homem que tinha tomado conta dele em caráter temporário.


14. Scott Mas a brincadeira se virou contra Scott. Curtis tinha cumprido seu papel em distrair o casal, como Scott havia prometido a Laurie que ele faria. Na verdade, ele gastava tanta energia mental dos dois que Laurie disse que tinha ficado grávida graças à presença do menino. O médico tinha dito a ela para parar com essa obsessão em engravidar, para ocupar o cérebro com outras coisas a fim de encarar a próxima sessão de FIV com um corpo que não estivesse tenso de tanta ansiedade em relação à concepção. Curtis chegou a essa cena em abril, e em setembro Laurie estava tão envolvida com gráficos de comportamento e sistemas de recompensa, tão concentrada em melhorar o nível de leitura dele e diminuir o número de visitas à diretoria que tinha pouco tempo durante o dia para pensar em fertilidade, e quase nada de energia à noite para fazer qualquer coisa além de cair no sono. E, quando eles descobriram que a FIV tinha funcionado, sua primeira reação foi: “É por causa do Curtis”. No entanto, sua gratidão pela capacidade de distração do menino não se traduziu em querer que ele ficasse além dos doze meses combinados. E Scott não a culpava por isso. Ele é que tinha ido além de seu papel, ficando cada vez mais próximo do Carinha a cada mês que passava. Tanto que agora ele não conseguia nem pensar na hora de se despedir. Nas últimas semanas eles vinham trocando de papel, e Laurie passou a tentar convencer Scott a procurar uma distração, começando pelo bebê que ela estava carregando. “Nossa filha”, ela gostava de enfatizar, em um tom que deixava bem claro que não estava feliz em ter que lembrar o futuro pai de que ele era, de fato, um futuro pai, e que esse título (pelo menos para ela) era muito mais importante que o de guardião limitado do filho de outra pessoa. Até então, Scott tinha se segurado para não dizer em voz alta: “Como é que eu posso ficar animado com um filho que nem conheci, enquanto estou tão arrasado de perder o filho que já tenho?”. Mas os olhares que havia recebido da esposa nas últimas semanas sugeriam que seu humor em geral já tinha comunicado a mesma mensagem. Como a esposa, Scott tinha sonhado em ter uma família, a mente cheia de imagens de pai e filho jogando bola no quintal, hóquei e cavalinho à entrada da casa, churrascos em família. Ele tinha ficado muito feliz com as listras cor-de-rosa do exame de gravidez em outubro, e achado que seu coração explodiria ao ouvir a batida do coração do bebê pela primeira vez, a imagem por entre as sombras do ultrassom. Scott ficou tão animado. Muito mais que animado. E quem não ficaria? Mas os sentimentos eram relativos, ele havia aprendido, e o fato é que não conseguia manter o mesmo nível de empolgação da esposa. Tinha tentado; cara, ele tinha tentado tanto! E tinha se culpado como nunca pelo fato de algo tão fácil requerer tamanho esforço – a esposa também. Mas ainda faltavam três meses para a bebezinha chegar. E o menino estava lá agora, e precisava dele. Um menino prestes a voltar para um mundo sem três refeições diárias, com roupas sujas e uma mãe nem sempre lúcida. E, embora Scott tivesse por fim aceitado o conceito de que ficar com a mãe era melhor para Curtis do que estar separado dela, ele continuava arrasado ao pensar no tipo de vida que seu Carinha estava deixando para trás, e o tipo de vida para o qual retornaria. E era tão, mas tão difícil pensar em qualquer outra coisa.


Scott se assustou e deixou seu devaneio para trás ao ouvir o sinal que anunciava a primeira aula. Momentos depois, vozes abafadas no corredor se transformaram numa quase gritaria em sua sala de aula à medida que os alunos do oitavo ano iam para seus lugares na aula de inglês do Sr. Coffman. Scott baixou a mão que tinha mantido sobre o estômago ao pensar sobre o futuro do Carinha na segunda-feira seguinte. Na segunda-feira. Era cedo demais. “Não pense nisso”, ele disse a si mesmo. Tem muito que rolar até lá. Tempo para gerar muito mais lembranças. Espaguete e biscoitos e hambúrgueres e filme em casa. E caminhões-monstro – aqueles caminhões malucos feitos com picapes de tamanho normal e pneus gigantes que competiam para ver qual conseguia passar por cima do maior morro de terra ou pular a fileira mais comprida de carros velhos enquanto um estádio cheio de fãs enlouquecidos torcia por seus favoritos. Curtis havia assistido aos caminhões-monstro na TV, ele havia dito a Scott, e tinha sonhado em ver um de perto “a vida inteirinha”. Foi logo depois que ele se mudou para a casa de Scott. Para variar, estavam brincando de “Você prefere”, e Scott tinha perguntado a Curtis se ele preferia ser a primeira criança a pisar na lua ou o primeiro presidente de sete anos de idade. – Bom, já que a gente está falando das melhores coisas do mundo – Curtis disse –, então nenhum dos dois. Eu preferia ver os caminhões-monstro. – Caminhões-monstro? – Scott deu risada. – A melhor coisa do mundo é ver um caminhão-monstro? Melhor que ir para o espaço ou mandar no país ou... que tal jogar na Michigan com o Bray? – Não. Caminhões-monstro. – Jogar na NBA com o Bray? – Scott tentou. – Ter chiclete grátis para a vida toda? Ou sorvete? Nunca mais ter que fazer a lição de casa? Ou… – Caminhões-monstro – Curtis respondeu com firmeza. – Ver um caminhão-monstro seria a melhor coisa do mundo inteirinho, de todas as coisas que você falou. Você pode ficar aí falando o dia todo. Mas não tem mais nada que eu prefira no mundo. Dois meses antes, na hora do jantar, Scott tinha deixado os ingressos sobre a mesa como quem não quer nada, e esperou Curtis sussurrar as palavras enquanto lia. – Ca-mi-nhão-mons-tro. Não, caminhões. Mons-tro. Caminhões. Monstro. Monstro! CaminhõesMonstro! Caminhões-Monstro! Erguendo os ingressos acima da cabeça, ele pulou da cadeira, que bateu na parede atrás dele, e correu várias voltas pelo primeiro andar da casa, gritando. – Eu vou ver caminhões-monstro! Eu vou ver caminhões-monstro! Dando risada, Scott teve que tirar os ingressos da mão do menino para que ele não os amassasse demais. Ele os pregou no canto de um quadro de avisos na cozinha, com medo de deixá-los em um lugar que Curtis pudesse alcançar. – Não posso deixar você babar nos ingressos e transformar tudo em uma meleca de papel que ninguém vai conseguir ler. Os ingressos eram para o domingo seguinte, para o último dia de Scott e Curtis juntos. Laurie só precisou de um dia para perceber que precisava dar a Curtis um calendário de contagem regressiva para os caminhões-monstro para que ele não a deixasse louca de tanto perguntar “Falta muito?” a cada meia hora. Desde então, a última coisa que ele fazia toda noite era marcar o dia com um X


vermelho bem grande e anunciar o número de dias que faltavam para “o melhor dia que eu vou ter na minha vida inteirinha, não importa o que aconteça nos próximos cem anos”. Pelo menos meia dúzia de vezes desde aquela noite Curtis tinha pedido a Scott para levantá-lo para que ele pudesse tocar nos ingressos fora de seu alcance. A cada vez, ele passava o dedo devagar sobre cada palavra, pronunciando-as com aquele sussurro de que Scott gostava tanto. Há algumas noites, Curtis leu tudo duas vezes. Quando Scott o colocou de volta no chão, o menino colocou a mãozinha gelada sobre a bochecha de Scott e, com o mesmo sussurro baixinho, disse: – Essa é a melhor coisa que alguém vai fazer por mim na minha vida. Scott passou os nós dos dedos pelos dois olhos ao ir para a frente da classe e esperar o sinal parar de tocar. Não havia uma festa de despedida legal o bastante para mostrar ao menino como Scott o amava, o quanto ele sentiria a sua falta e como o garoto tinha se tornado parte dele mesmo. Mas CaminhõesMonstro eram uma boa pedida.


15. Mara Laks e Tom estavam de pé à porta da frente, prontos para ir ao ponto de ônibus, quando Mara se arrastou até a sala de estar. – Não posso acreditar que quase não vejo vocês – ela disse, indo em direção a eles. – Desculpe por dormir até tão tarde. Ela beijou Laks e passou a mão pelo rosto de Tom. – Você deveria ter me acordado, querido. Eu consigo encarar a rotina da manhã. – Não tem problema. Tomar café da manhã com uma das minhas duas meninas lindas nunca é um esforço para mim. Ela entendeu pelo jeito como havia dito aquilo, e pela maneira como estava sorrindo para ela, que ele estava bem satisfeito. Pensou nele observando-a enquanto dormia, tirando um fio de cabelo de sua bochecha ou tocando seu rosto, e então virando-se para desligar o despertador que ela tinha programado, sorrindo para si mesmo ao fazer esse “favor” de deixá-la dormir um pouco mais depois de ter ido para a cama tão tarde. Mara não conseguiu sorrir de volta muito bem. Ela tinha tão poucas manhãs agora com Laks, que ficou arrasada por ter perdido uma delas. Tinha que se lembrar de programar um segundo despertador para o dia seguinte, um que ele nem sabia que existia. Ficou pensando se ainda tinha seu relógio de corrida. Será que ela tinha dado o relógio para a caridade também, com todas as outras coisas, ou ele estava por ali, em uma gaveta que ela não abria fazia um tempo? Esperava conseguir se lembrar de procurá-lo assim que Tom saísse para trabalhar. – Você vem andando com a gente? – Laks perguntou. Ela torceu o nariz ao olhar para a mãe, até então de camisola, robe aberto, uma das pontas do cinto se arrastando pelo chão. Mara se inclinou para a frente e foi se olhar no vidro de um porta-retratos pendurado ao lado da porta da frente. Um tufo de seu cabelo preto e curto estava de pé bem no cocuruto, e ela tinha linhas marcadas em uma das bochechas. Tentou alisar o cabelo desobediente com uma das mãos e esfregar a bochecha com a outra para apagar as linhas. Não funcionou. Afastando-se da foto, ela fez uma careta para a filha, fingindo não se importar com a reação chocada de Laks. – É claro que não! Eu jamais deixaria alguém além de você e do papai me ver desse jeito! Olha só para mim! Ela foi até a janela da frente e ficou escondida atrás das cortinas, uma das mãos abrindo um centímetro só para ver lá fora sem que ninguém a visse. – E é hora de vocês irem. O ônibus vai chegar a qualquer momento. Vou me esconder aqui, atrás da cortina, e dar tchau: vou ser invisível para todo mundo, menos para vocês. A menininha sorriu de alívio e saiu trotando com o pai, gritando por sobre o ombro: – Tchau, mãe! Até depois da aula!


– Tchau, querida! Prometo que vou estar mais apresentável. Mara estava diante do balcão da cozinha, brigando com o porta-comprimidos que dizia “quarta-feira”, quando Tom entrou. – Ela não quis magoar você. Ele tentou pegar o porta-comprimidos, mas ela fingiu não perceber e continuou lutando com o recipiente até que a tampa resolveu se abrir. Colocou as pílulas para melhorar o humor na boca freneticamente e foi pegar um copo d’água. Se havia um dia em que suas emoções ameaçavam tomar conta dela sem alguma ajuda dos remédios, então este era o dia. Tom esperou até ela engolir os comprimidos e passou o dedo pela bochecha dela. – Você é linda, mesmo tendo acabado de acordar. Ela bateu na mão dele para afastá-la e cobriu a bochecha amassada. – Mentiroso. – Você É Linda. – Ele tirou a mão dela da bochecha. – Você não precisava se esconder atrás da cortina. Ela só estava sendo... – Sincera – ela disse. – Ela estava sendo sincera. Ela olhou de relance para o robe, que tinha se aberto de novo, e fez que não com a cabeça, com nojo. Mara apertou o cinto até machucar. – Não quero que você pense... Tom começou, e ela sabia o que ele diria. Que ele não queria que ela pensasse que tinha feito o que estava na cara que tinha feito: deixar a filha com vergonha. – Bom, é claro que estou pensando isso, Tom. E se ela está com vergonha agora, enquanto eu ainda estou andando, falando e ao menos consigo reconhecer quando preciso me esconder atrás da cortina, como é que ela vai se sentir em alguns anos, ou até mesmo antes, quando eu não puder mais fazer essas coisas? – Pode parar. – Ele tocou-lhe o queixo e virou o rosto dela para ele. – Pode parar. – Parar o quê? Impedir que isso aconteça? Porque ninguém pode… – Pare de tentar adivinhar como ela vai se sentir durante esse processo – ele disse com a voz séria. – Você não sabe como... – Eu acho que esta manhã nos deu uma boa ideia de como ela vai se sentir, você não acha? Ele expirou o ar aos poucos e colocou os braços ao redor dela, pressionando os lábios contra o topo da cabeça de Mara. Já tinham conversado sobre isso antes, Mara entrando em parafuso ao pensar que não havia jeito de Laks sair ilesa desse tipo de infância, e Tom insistindo que a filha era muito mais forte do que Mara pensava, e muito mais aberta a lidar com os aspectos mais feios da doença da mãe. Ela se deixou relaxar contra o peito dele, permitindo que os braços dele a mantivessem reta. Ele a soltou depois de um tempo e se inclinou para lhe dar um beijo. – Vamos mudar de assunto? Ela sorriu para ele, grata. – Por favor. – Ontem à noite. O que deu em você? E como eu faço para acontecer de novo?


Ela colocou uma expressão casual no rosto e perguntou: – O que foi? Uma mulher não pode mostrar que ama seu marido lindo e seu corpo maravilhoso? – Pode, sim, com certeza. E quantas vezes quiser. Com um braço ainda ao redor da cintura dela, ele esticou o outro para servir duas xícaras de café. Encheu a dela só até três quartos e ela fez que sim com a cabeça, para ele continuar colocando mais, e então pegou a xícara sem cerimônia. – Acho que talvez seja melhor você beber menos cafeína – ele disse ao passar a xícara para ela. – Tenho a impressão de que você está com dificuldade para dormir estes dias. Ela deu de ombros. – Você precisa descansar mais, amor – ele sugeriu. – Você sabe disso. Será que o Thiry pode aumentar sua dose de Ativan? Ou você está se esquecendo de tomar o remédio algumas noites da semana? Quer que eu lembre? Ela sentiu o coração pular no peito ao pensar nele à sua frente, comprimidos em uma das mãos, copo d’água na outra, com um sorriso doce ao vê-la engolir tudo. Um guarda de prisão, mesmo sem saber, entre ela e o túnel de fuga que vinha cavando com tanto esforço. Ou, pior, indo com ela até a clínica de DH para pedir uma dose mais forte e ouvir que ela já tinha feito o mesmo pedido há alguns meses, sem que ele soubesse. E que a dosagem prescrita era a quantidade mais forte que alguém do tamanho dela poderia tomar. “Não é possível que não esteja funcionando”, o dr. Thiry diria. Se ela não estava dormindo bem, então é porque não estava tomando o remédio direito. – Ah, não – ela disse, com um gesto como quem diz “deixa pra lá”. – Não precisa. Eu já estou engrenada na minha rotina e, graças aos meus post-its, não me esqueço de nada. Escovar os dentes, passar fio dental, tomar um Ativan, beber o resto da água, ir para a cama. Dar um beijo de boa-noite no meu marido. Por sorte, não preciso de um post-it para a última coisa. Ela ficou encarando a xícara, sem conseguir olhar para ele enquanto mentia. Quando colou o post-it “Ativan!” no espelho do banheiro há alguns meses, foi para lembrá-la de deixar sua reserva secreta bem abastecida regularmente, e garantir que estivesse escondida na parte de trás da gaveta, atrás das toalhas de rosto. Tom não pareceu muito convencido, então ela pegou as chaves dele e as enfiou na mão dele enquanto se virava para o relógio do fogão. – Olha só que horas são! Deu certo. Ele desapareceu para ir procurar a maleta, e sua cabeça agora estava no consultório, nos pacientes, não no remédio para dormir da esposa e em por que a dose que ele acreditava que ela estava tomando direitinho não estava funcionando. Voltou momentos depois, maleta em punho, paletó do terno sobre o ombro, o gosto da pasta de dente de hortelã em seu beijo. Pela primeira vez naquela manhã, Mara notou como os olhos dele brilhavam. Sua estratégia de arrumar o armário dele tinha funcionado: ele estava usando uma camisa azul. A favorita dela, de corte italiano, com uma estampa bem sutil de espinha de peixe. Os olhos dela se lançaram para a aliança de casamento na mão esquerda dele e ela imaginou, e não pela primeira vez, como a mulherada ficaria assanhada quando ele não a usasse mais. E, também não pela primeira vez, ela lutou para impedir que uma corrente quente de ciúme subisse pela clavícula e chegasse até seu rosto. Lembrou-se de que o lance com o suicídio é que o preço, pelo menos para quem vai se suicidar, tem que ser pago adiantado. Não haveria um “depois” durante o qual ela pudesse parcelar seu sentimento de perda. Pensar em Tom com outra mulher, a dor de tudo o que perderia na vida de Laks, tudo se acumularia nesses últimos quatro dias.


“Pode parar com essa autopiedade”, ela pensou. “São quatro dias para você, mas uma vida inteira para eles.” – Algum plano para hoje? – Tom perguntou, e ela ficou grata pela interrupção, tirando-a do caminho de autocomiseração no qual ela estava embarcando. – Tenho umas coisas para fazer mais tarde – ela respondeu. – Pedi o táxi para as duas e meia. – Ótimo – ele disse. – Olha, não se preocupe com as roupas sujas. Pode deixar que lavo hoje à noite quando chegar em casa. – Tom Nichols – ela disse, séria. – Sou perfeitamente capaz de lavar a roupa. – Mas tem um monte de roupas minhas de corrida ali e estão fedendo horrores... – Até parece. Mas sei o que você está tramando, e pode parar com isso agora. Eu tenho lavado suas roupas suadas de corrida há vinte anos. E não morri até hoje. – Tá – ele disse, erguendo as mãos como quem se rende. – Mas pelo menos me deixe buscar o jantar no caminho para casa, aí poupo você de ter que cozinhar. Você poderia tirar uma soneca à tarde em vez de cozinhar. Ela revirou os olhos. – Sim, por favor. Como é que eu vou conseguir fazer o jantar e descansar em meras sete horas? Ele estremeceu e ela se arrependeu do sarcasmo no mesmo instante. Com um sorriso como pedido de desculpas, ela tocou as têmporas dele com os dedos, e então as costeletas. – Você me mima demais. Eu posso fazer o jantar. – Deixe-me mimar você, por favor. Se não posso trazer o jantar para casa, que tal passar no supermercado? Você precisa de alguma coisa? Os dois se viraram para a meia dúzia de post-its cor-de-rosa colados na porta da geladeira. Fazia parte do sistema criado por Gina, e ela tinha vindo até a casa para explicá-lo para Mara e Tom: os postits cor-de-rosa indicavam o que eles precisavam do supermercado, os amarelos diziam a Mara o que ela deveria cozinhar naquela noite, os verdes sinalizavam que ela precisava tirar alguma coisa do freezer e os azuis a lembravam de preparar à noite o almoço de Laks para o dia seguinte. Tom foi até a geladeira para pegar os quadradinhos cor-de-rosa. – Pode deixar que compro tudo no caminho para casa. – Ele esticou a mão à frente, um post-it colado em cada dedo enquanto andava para a garagem. – Amo você – ele falou por sobre o ombro. – Tire uma soneca, por favor. – Tá, dr. Nichols. O telefone ficou iluminado quando Mara colocou a xícara de café na pia. Alguns meses antes, barulhos altos começaram a pegá-la de sobressalto, e Tom na mesma hora havia trocado o telefone comum da cozinha por um com luzes que piscavam quando alguém estava ligando. Ela não tinha visto esse tipo de comportamento na lista de sintomas de DH ou de efeitos colaterais de seus medicamentos, mas derrubava mais coisas do balcão, da mesa, da penteadeira por causa do telefone tocando, ou de Laks ou Tom chamando seu nome. Não parecia fazer diferença quando ela sabia de onde o barulho vinha. Laks tinha um joguinho com patinhos que falavam “quá-quá” que Mara já tinha desistido de jogar. Mesmo quando Laks avisava a mãe de que um patinho estava prestes a grasnar, Mara acabava jogando as cartas para o outro lado da sala, ou derrubando todas as peças do tabuleiro.


Mara se apoiou na pia e viu o identificador de chamadas: clínica do dr. Thiry. Enquanto as luzes piscavam, ela pensou nos resultados de sua pesquisa desesperada na internet na noite anterior: não havia nenhuma nova descoberta médica capaz de reverter o declínio que tinha começado com o incidente no supermercado na segunda-feira. A clínica não poderia prometer nada a ela, nem garantir que não precisava se preocupar com o incidente. Nem garantir que ela poderia deixar o prazo no domingo passar e ainda ter controle sobre o seu próprio fim. Na melhor das hipóteses, eles fariam aqueles barulhinhos de compaixão, os “tsks”, enquanto faziam que não com a cabeça do outro lado da linha e agradeciam a Deus por não estarem na situação lamentável de Mara Nichols. Na pior das hipóteses, eles alertariam o dr. Thiry de que seria melhor pedir ao marido de Mara que redobrasse a vigilância, pois ela poderia fazer alguma loucura como consequência da humilhação que havia passado. Mara encarou o telefone até que as luzes pararam de piscar e a tela se apagou.


16. Mara Mara olhou para o relógio. Uma e quinze – tempo suficiente para checar o fórum antes de o táxi chegar. Ela decidiu que pularia o tópico que NadaMalvada tinha postado para discussão naquele dia e se concentraria nos posts da discussão do dia anterior sobre CidadedosCarros e seu Carinha. Deu uma olhada rápida nos posts publicados desde sua última visita, parando ao ver o post de CidadedosCarros daquela manhã. O comentário dele sobre conseguir mais membros para o fórum na Ásia a fez sorrir; havia algo que ela poderia oferecer a ele, afinal, mais que a vaga comiseração que ela sabia não ser suficiente. Quarta, 6 de abril às 13h20 CidadedosCarros, venho fazendo uma análise detalhada de quais comerciais da madrugada são mais eficazes (e a resposta é “nenhum”, apesar de ter que confessar que pensei na centrífuga de sucos algumas vezes), e de quais jornais são entregues mais cedo no meu bairro (o Wall Street Journal ganha – 4h30 da manhã). Eu nem sabia que você também ficava acordado e disponível para conversar na madrugada. Quer me encontrar on-line hoje lá pela meia-noite (fuso horário central)? A gente pode usar as mensagens pessoais para que o resto do fórum não precise analisar um monte de besteira amanhã cedo.

No instante em que releu a mensagem, ela pensou em como Tom ficaria irritado se soubesse que ela estava planejando conversar com alguém tarde da noite e não dormir, como deveria. Ela pensou na lista de tarefas colada na parte de baixo do laptop, e tudo o que precisava fazer nos próximos quatro dias. Será que era maluca por passar mais um segundo falando on-line com pessoas que nunca tinha conhecido ao vivo, quando tinha tão pouco tempo para organizar sua despedida das pessoas que mais amava na “vida real”? Talvez fosse meio louca, ela pensou. E então, sorrindo, disse a si mesma que sem o fórum teria enlouquecido de vez. Sua família e seus amigos da “vida real” importavam muito mais, é claro, mas seus amigos virtuais, ao tratarem-na como uma pessoa normal esse tempo todo, tinham mantido Mara lúcida o bastante para aproveitar a vida real até ali. E, talvez por essa razão, ou talvez porque ela estivesse se sentindo sentimental, não queria ficar longe do fórum naquela semana, apesar do pouco tempo. Ela encontraria uma maneira de dar um alô para os amigos virtuais e também riscar todos os itens de sua lista. E, de qualquer modo, também não estaria tentando resolver os itens da lista durante a noite em vez de conversar on-line. E com certeza não estaria dormindo. Então ela poderia muito bem ajudar um de seus amigos do grupo. Mara saiu do site, colocou os chinelos que tinha chutado para baixo da mesa e pegou a bolsa. Estava organizando o conteúdo da bolsa quando a campainha tocou. O barulho fez com que ela jogasse a carteira do outro lado da cozinha. – Merda. Ela xingou de novo e viu que a carteira havia aterrissado na fresta entre a geladeira e a parede. O braço dela caberia ali sem problemas, mas ficou preocupada com seu equilíbrio questionável e ter que se agachar tão baixo. Com o táxi prestes a chegar, não era hora de acabar estatelada no chão, sem conseguir se levantar. Talvez conseguisse tirar a carteira dali com a vassoura. Mas a vassoura não estava por ali e ela não tinha ideia de onde a deixara. Quando conseguisse lembrar, ou se arrastar pela casa até encontrá-


la, o táxi já teria chegado. – Que saco. A campainha tocou de novo. – Pelo amor de Deus. Deixe o folheto e vá embora. Mais um toque. A pessoa não estava a fim de ir embora mesmo. E Mara não queria que ela estivesse ali quando o táxi chegasse, um público para ficar pensando por que é que uma mulher de quarenta e poucos anos tinha que ser levada para cima e para baixo de táxi em vez de dirigir. – Estou indo! Irritada, ela abriu uma fresta da porta e estava pronta para latir alguma coisa para assustar o visitante quando se viu encarando o rosto avermelhado do motorista de táxi. Ele era uma versão meio desamparada do Papai Noel, com sua camisa de flanela vermelha esticada sobre o barrigão, cabelo grisalho e oleoso penteado para trás. Seu cheiro era uma mistura de naftalina, enxaguante bucal e colônia pós-barba. Ou só mesmo colônia – ela se corrigiu ao notar a barba por fazer de alguns dias no rosto dele. – Boa tarde, dona. Eu pensei em vir um pouco mais cedo. E dar para a senhora… dar para nós... dar tempo para... – ele passou a mão grossa pelo cabelo e tentou de novo. – Eu sei que a senhora quer sair às duas em ponto. – Ah, obrigada, mas você não precisava vir até a porta. Em geral você não espera no carro? Eu ia encontrá-lo aí na frente, na esquina. – Não tem problema. Eu achei que a senhora poderia... – Ele olhou para Mara cheio de ansiedade, como se estivesse com medo de dizer algo errado. – Eu achei que poderia... – ele tentou de novo. – Eu vi como a esquina fica longe e... – Ah – ela sentiu o rosto ferver. Depois de se humilhar no corredor dos cereais na manhã de segunda-feira, e se recuperar o bastante depois para conseguir dirigir, Mara tinha saído a toda a velocidade do estacionamento do supermercado, desesperada para tirar aquela calça molhada e fedida e tomar um banho quente. Mas, em meio a toda a agitação, ela fez uma curva errada. Quando enfim percebeu que estava se afastando do caminho de casa, virou o volante com tudo para pegar o caminho para o norte, na direção oposta. A manobra arriscada provocou uma cacofonia de buzinadas e freadas, enquanto Mara avançava pelas faixas que iam para o meio e para o sul da cidade. Sua mão direita reagiu ao barulho puxando o volante, deixando o carro entre a sua faixa e a próxima. – Merda! Uma caminhonete buzinou com tudo atrás dela antes de o motorista pisar no acelerador e passar correndo ao seu lado, com o dedo médio em riste, a expressão de raiva dizendo: “Que porra é essa?”. Esgotada, Mara viu uma rua lateral a um quarteirão de distância, do outro lado de um pequeno banco que ficava na esquina. Nessa vontade de sair da rua principal, ela virou o volante com força demais para a direita. Não conseguiu desvirar o volante rápido o bastante e seu carro atravessou duas faixas antes de quicar na guia, avançar pela calçada e então sobre uma grande placa de metal no gramado em frente ao banco. Algo fez um barulho terrível e o airbag bateu em seu peito, empurrando o ar para fora de seus pulmões em um grande suspiro. O motor assobiou, e, quando ela tirou o airbag da sua frente, viu que a lateral direita do carro estava toda amassada.


– Que merda! Lenta e metodicamente ela checou cada membro, mexeu os dedos das mãos e dos pés e girou os tornozelos e pulsos. Nada parecia quebrado, apesar de que, do jeito que suas costelas doíam, ela podia jurar que tinha caído do teto do banco no estacionamento logo abaixo. O barulho crescente das pessoas à sua volta a assustou. Ao ver o tamanho da multidão que se formava, Mara desejou poder ficar ali escondida até que seus ossos e pele tivessem derretido e ela pudesse sair pelo chão do carro e sumir de vista. Um barulho soou em seu ouvido esquerdo e uma mulher usando maquiagem demais e um crachá do banco apareceu à janela. Mara tentou baixar o vidro, que não funcionou, e então abriu a porta. – Você está bem, querida? – a mulher perguntou. – Todo mundo quase enfartou aqui agora. Graças a Deus que tem airbag, né? Acho que você escapou sem um arranhão. – Ela olhou para o capô do carro antes de se inclinar para falar de novo. – Pena que não posso dizer a mesma coisa sobre o seu carro. O negócio parece feio. Ela se inclinou em direção a Mara e seus lábios se abriram como se ela estivesse prestes a dizer mais alguma coisa. Mas os fechou de novo, e os torceu um pouco. Aproximou-se um pouco mais do ouvido de Mara, baixou a cabeça e sussurrou: – Você tem alguma coisa com que se cobrir? Olhando para baixo, Mara viu que a operação toalha de papel não tinha ajudado muito: a calça ainda estava manchada, como era visível. Ela colocou a mão sobre o rosto e desejou poder desaparecer mais uma vez. – Um segundinho, querida – a voz da mulher disse em seu ouvido. Ela foi correndo até o lado do passageiro, pegou a jaqueta de Mara e segundos depois estava de volta, olhando para a jaqueta com admiração antes de passá-la para Mara. – É meio chique demais para... isso. Mas é um caso de emergência, né? Ela deu um tapinha no ombro de Mara. Esta conseguiu amarrar a jaqueta ao redor da cintura e a mulher disse: – Ah, muito melhor. Eu não sinto o cheiro daqui, para ser sincera, então, se ninguém vir, ninguém mais tem que saber além de eu e você. Mara olhou de relance para o desodorante para carros em forma de árvore dentro do porta-copos ao seu lado. No estacionamento do supermercado, ela o havia arrancado da cordinha pendurada no espelho retrovisor e o passado sobre a calça. O mais incrível é que tinha dado certo. Em voz baixa, ela agradeceu à mulher, que fazia barulhinhos de compaixão e se afastou para abrir caminho para o motorista do guincho e os paramédicos que estavam chegando à cena. Mara conseguiu sair do carro, fazendo um gesto como quem diz que não precisa de ajuda. – Estou bem, de verdade – ela disse. – Você devia estar com a maior pressa – o motorista do guincho meio que berrou lá da frente do carro dela. – Sem tempo para estacionar e entrar no banco, e resolveu fazer seu próprio caixa eletrônico drivethrough, hein? – Ele deu uma gargalhada e ela deu um sorriso amarelo para ele antes de sair de perto. Ela conseguiu não chorar no guincho até a oficina mecânica. Mas, quando o mecânico soltou um assovio e disse como era incrível ela não ter se machucado, a ideia de que poderia ter machucado alguém com gravidade, ou até mesmo matado uma pessoa, foi um soco no estômago. E se Laks estivesse no carro? Seu queixou caiu sobre o peito e os soluços começaram. Do canto do olho, ela pôde ver o mecânico


dar um passo para trás. O peso do corpo dele pendia de um pé para o outro enquanto ele pigarreava e dizia a ela, sem muita convicção: – Não precisa ficar nervosa, dona. A senhora está bem. O gerente disse que só conseguiria entregar o carro na sexta-feira, e ele não sabia se havia um carro extra disponível. Ele estava procurando uma locadora de carros quando ela afinal disse que não precisava se preocupar. Ela disse, sem graça, que ia parar de dirigir e não precisaria de carro emprestado nem alugado. Depois que entregassem o carro na sexta, ficaria na garagem até seu marido decidir o que fazer com ele. O gerente inclinou a cabeça para o lado, esperando que ela explicasse mais. Mas aquela única frase já a tinha deixado exausta e ela ficou ali, muda, lágrimas e ranho escorrendo sobre os lábios e para dentro da boca, até a recepcionista chamar o gerente de lado, pegar na mão de Mara do outro lado do balcão e dizer: – Vem, querida, vou chamar um táxi para você. Ela ficou esperando na entrada da oficina, apoiada contra o vidro. O táxi apareceu e ela estendeu o braço. O motorista acenou de volta do banco da frente, esperando-a sair. Mas, depois que ela empurrou a porta e deu alguns passos à frente, de repente o motorista saltou do carro e veio correndo até o seu lado, com uma expressão de pânico no rosto. Ele estendeu o braço para ela e Mara ficou chocada com o excesso de drama. O motorista do guincho e o mecânico tinham recuado também, depois de vê-la dar alguns passos. Mas qual era o problema com aqueles caras? Ela tinha resmungado para o operador do guincho e para o mecânico e agora falava por entre os dentes com o motorista, pedindo que ele voltasse para esperar no carro, da mesma maneira que esperava todo mundo. Porque ela não precisava da ajuda dele. E não precisava de sua pena. E ela conseguia andar. Bem o bastante. Sozinha. Como ele podia ver, merda. Ele baixou o braço, mas a expressão em seu rosto mostrava que ele não estava de comum acordo, e ficou ao lado dela até chegarem ao táxi. Ao andar, ele assoviava como quem não quer nada e tentou olhar ao redor, disfarçando. Abriu a porta para ela, apressando-se em dizer que abria a porta para todo mundo. E então deu um passo para trás, fazendo um gesto para ela entrar com a desculpa de estar perfeitamente feliz ali, segurando a porta até ela entrar. Quando ela perdeu o equilíbrio ao tentar colocar a cabeça dentro do carro primeiro, ele resmungou uma desculpa rápida e estendeu os dois braços para ela. Uma vez sentada, Mara começou a encará-lo de novo, mas logo desistiu. Ele podia ter exagerado, mas também tinha evitado que ela quebrasse a cabeça na porta do táxi. Ela deu um sorriso de desculpas para ele e se segurou para não ficar brava ao ver a mistura de pena e satisfação pessoal que sabia que estaria no rosto dele. A expressão de “parabéns para mim” que dizia “olha só, eu sou o cara, ajudando essa mulher que mais parece uma boneca de pano que nem consegue entrar no carro sozinha. Se não fosse por mim, ela estaria inconsciente agora”. Mas não foi o que ela viu ao olhar para ele. Não havia pena em sua expressão, nem satisfação. Na verdade, o olhar que cruzou o dela dizia a melhor coisa que ela poderia ouvir no momento: “Eu também tenho os meus problemas, dona. E não vou gastar tempo nenhum pensando nos seus”. Ela pediu o cartão dele. E agora lá estava ele, na porta da casa dela, com o mesmo olhar de impassibilidade em seu rosto grande e castigado pelo tempo. E lá estava ela, olhando para ele como se o coitado tivesse apontado para ela e dado risada. Ela mandou o rubor não tomar conta de suas bochechas.


– Desculpe – ela disse. – Foi muita gentileza sua ter pensado em mim. Eu estava me aprontando para sair. Mas deixei cair a carteira na cozinha e agora não consigo alcançá-la. Você poderia me ajudar? A surpresa ao estar pedindo ajuda a um estranho, não importando como ele era modesto, fez com que ela sentisse as bochechas pegando fogo de novo, e ela estava pensando em como desfazer o pedido quando ele respondeu: – Com prazer. Mara se arrependeu de ter pedido, mas o que podia fazer agora, dizer a ele que não tinha deixado nada cair? E não precisava mesmo da ajuda dele? Não poderia pagá-lo sem a carteira. E precisava ir à farmácia. – Obrigada. Levou-o até a cozinha e apontou para a carteira, que ele resgatou em um segundo e entregou a ela. Mara agarrou a carteira e na mesma hora a deixou cair de novo. Ela fez que não com a cabeça, sem conseguir acreditar. O chão da cozinha era como um ímã, puxando coisas da mão dela. Mas a expressão do motorista não mudou quando ele se agachou para apanhá-la de novo. – Aqui – ele disse. – E se eu... – Com vagar, um olho fixo no rosto de Mara como se ela fosse avançar e mordê-lo, ele abriu a bolsa dependurada no ombro dela e colocou a carteira lá dentro. – Obrigada. – O prazer é meu – ele disse. – Será que é melhor eu ir lá para fora de novo, esperar a senhora no carro? – Acho que já passamos dessa fase, não é, hum...? – Harry. – Acho que já passamos dessa fase, Harry. Enquanto se encaminhavam para a porta, ele estendeu o braço para ela e olhou para Mara de lado, meio com medo. Ela escutou-o soltar o ar ao colocar a mão sobre a flanela macia de sua manga. Ela sorriu. Ele era com certeza um cavalheiro do Sul, e preferia que uma mulher andasse de braço dado com ele. E tinha sido tão galante com a carteira que era justo recompensá-lo com a mão sobre o seu cotovelo. – Obrigada. Aliás, meu nome é Mara Nichols. – Prazer em conhecê-la, Sra. Nichols. Ela riu. – Será mesmo? Até agora eu não fiz nada além de encarar e ser grossa com você. Ele a guiou para fora da casa e pela calçada. – Eu acho que a senhora é mais do que isso – ele disse. E ficou quieto por um tempo. Ao falar de novo, afastou a cabeça um pouco dela, como se Mara fosse dar um soco nele. – Eu acho que a senhora está acostumada a mandar. E não gosta muito de... – ele hesitou, parecendo nervoso de novo. – Ajuda. Mara jogou a cabeça para trás, rindo alto. O movimento repentino fez com que ela quase caísse para trás também, e Harry deu um passo rápido à direita, atrás dela, conseguindo segurá-la. Ele a ajudou a ficar reta de novo com toda a gentileza, voltando sua atenção em qualquer direção que não fosse a dela. Ela olhou com gratidão para o perfil dele, mas ele não a olhou, então ela deu um cutucão na lateral do motorista até ele virar a cabeça para ela. Mara abriu um sorriso conspiratório para ele e riu de novo, e desta vez ele riu junto, uma risadinha baixa e meio roncada que ela achou que ele interrompeu mais cedo


de propósito. Enquanto ele falava com a central por rádio, Mara deu uma olhada no táxi. Na segunda-feira ela estivera nervosa demais para notar que, apesar da aparência modesta do motorista, o carro era imaculadamente bem cuidado. Os assentos e o piso estavam um brinco, e as várias pilhas de mapas, blocos de recibos e cartões de visita no console estavam arrumadas direitinho, e presas por clipes pretos. Havia um pequeno isopor no chão em frente ao banco do passageiro – o almoço dele, ela tentou adivinhar – e uma jaqueta muito bem dobrada estava sobre o banco de trás. O visor dele estava abaixado e no canto inferior direito havia uma foto desbotada e meio amassada. Mara se inclinou para a frente querendo ver mais de perto. Era uma foto de escola de uma menina não muito mais velha que Laks. Ela estava sentada de um jeito formal como é comum acontecer nessas fotos tiradas na escola, os ombros retos, as mãos juntas pousadas sobre o colo, um sorriso um pouco forçado no rosto. – Sua neta? – ela perguntou. Mas mesmo ao ter feito a pergunta ela sabia que a resposta era “não”. A foto era velha demais, e o estilo do cabelo e das roupas da menina antigo demais também. A foto deveria ter uns dez anos pelo menos, e hoje a menina seria uma adolescente, ou talvez mais velha. Mara estudou o perfil de Harry e tentou estimar sua idade. Cinquenta e poucos anos no máximo. Ele parecia alguém que havia tido uma vida difícil, mas não velho o bastante para ter uma neta adolescente. Harry levantou o olhar das anotações que estava fazendo em seu diário de bordo. – O que foi? – Eu estava perguntando sobre a foto no seu visor. É a sua neta ou...? – Ah. Hum. Não. – Ele fechou o visor com tudo, escondendo a menina. Mara estava prestes a se desculpar por tê-lo deixado nervoso quando ele se virou e sorriu. – Então, no telefone a senhora disse que ia parar em alguns lugares. Aonde vamos primeiro? Ele apertou o botão para ligar o taxímetro. Então ele não tinha ficado nervoso. Mas não haveria mais papo sobre a foto. – Farmácia – Mara disse. – E tem uma loja de roupas a alguns quarteirões de lá. Já liguei e eles separaram algumas coisas para mim. Preciso experimentar as roupas, mas não deve demorar muito. Ele fez que sim com a cabeça e deu a partida no carro.


17. Mara Mara disse a si mesma que não tinha problema, as pessoas compravam essas coisas o tempo todo. A caixa não ia pensar duas vezes, os outros clientes nem iam notar. Não dava mais vergonha do que comprar absorvente interno, que ela costumava enterrar debaixo de um monte de embalagens de hidratante, xampu e protetor solar quando era adolescente, mas agora não tinha o menor problema em carregar na cara dura em um supermercado cheio. Da mesma maneira que já tinha visto homens de meiaidade com uma cara normal na fila para comprar pomada para hemorroidas. Não tinha nada de mais. Harry tinha se oferecido para ir à farmácia com ela. Carregar a cesta enquanto ela comprava as coisas, levar as sacolas para o carro, mas ela disse que não precisava. Não haveria problema se ele fosse junto, ela sabia, mas ele não insistiu. Deve ter percebido que ela queria ficar sozinha. Lá dentro, ela pegou uma cesta da pilha ao lado da porta e deu um passo cheio de confiança em direção ao corredor que dizia “Andadores/Roupa íntima com proteção/Artigos de primeiros socorros”. Era uma frase generosa, ela pensou: “Roupa íntima com proteção”. Mas ela não conseguia parar de pensar nisso como qualquer coisa além de “fraldas”. Porque era assim mesmo que funcionavam: como fraldas. Ela tinha 42 anos, e estava comprando fraldas. Não do tipo fofinho com patinhos amarelos no pano, que simbolizavam uma fase perfeitamente normal da vida, mas coisas gigantes e horrorosas que pareciam berrar “Não consigo mais controlar a minha bexiga, voltei a ser criança”. E, apesar de as avaliações na internet jurarem que os novos modelos eram discretos, e alguns até costurados com estampas bonitas para parecer com menor exatidão aquilo que eram, não tinha como não reparar no pacote gigante, desajeitado e plástico que deixava na cara de todo mundo que o comprador estava “enfrentando dificuldades”, como diziam os comerciais na internet. Incontinência, como todo mundo pensaria. O segundo passo não foi tão confiante. Não se tratava mais de uma caminhada rápida da porta até o corredor, mas de uma jornada traiçoeira até a ponta da prancha e para as águas perigosas dos doentes e decrépitos. Ela era um fracasso. Seu corpo a havia deixado na mão, e o fato de isso estar acontecendo aos quarenta em vez de aos oitenta apenas tornava seu fracasso ainda mais patético. Ela se sentiu como um menino de treze anos comprando camisinha, uma menina de catorze comprando um teste de gravidez. Havia um certo intervalo de idade em que compras na farmácia eram inocentes, nada notáveis. Fora desse intervalo, as mesmas compras eram terríveis, suspeitas. Humilhantes. Mara sentiu a pele esquentar ao redor da clavícula e então o calor subir para o queixo, e seguiu o caminho da vergonha até o corredor. Ao chegar lá, deu um breve giro, inspecionando todos os 360 graus para se assegurar de que ninguém a seguia. Ou olhava para ela. Ou havia notado. Não havia ninguém por perto, então ela respirou fundo e disse a si mesma que era hora de agir agora que tinha uma pequena janela de privacidade. Andando mais rápido pelo corredor, ouviu a própria voz na cabeça: “Pegue dois pacotes, corra para o caixa, pague e saia correndo para o táxi. Faça tudo rápido e talvez não seja tão ruim assim. Três...dois... um: arranque o band-aid”.


Mas ela não conseguia dar nem mais um passo sequer no corredor. E, enquanto ficava ali parada, os sapatos grudados no piso, elaborou mais uma teoria: se ela se recusasse a dar os próximos passos, se recusasse a tocar nos pacotes, talvez o problema desaparecesse com facilidade. Tinha pensado nisso naquela manhã, antes de decidir que era arriscado demais. No banheiro, com um absorvente externo gigante nas mãos, ela se convenceu de que, se não o usasse, se não reconhecesse que havia uma razão para se proteger contra outro acidente, então ele não aconteceria. Colocou o absorvente de volta na caixa, empurrando-o para o fundo do armário. Mas minutos depois, quando estava vestindo sua calça de ioga recém-lavada, ela viu o menino do supermercado em sua mente, o “O” surpreso da boca dele ao fixar o olhar nas manchas da calça dela, e então gaguejou e balbuciou que deveria haver uma explicação razoável para estar ali em um local público coberta de manchas de xixi e envolvida em um cheiro horrível de urina. Ela marchou de volta ao banheiro, tirou a caixa do armário e colocou o absorvente, rezando para dar conta do recado até ir à farmácia comprar o negócio certo. Sem saber o que fazer, Mara olhou para a esquerda e para a direita, para trás e à frente, checando mais uma vez se não havia outro cliente por perto. Uma gôndola na ponta do corredor oferecia uma pilha de toalhas de praia dos Dallas Cowboys, e, apesar dos mais de vinte anos de texana sem nunca ter prestado a mínima atenção em futebol americano, ela decidiu que agora era o momento de ter alguma coisa do time local. Pegando uma toalha, e depois outra, ela ficou pensando se era melhor o fundo azul com o capacete branco ou o inverso, ignorando a voz falsa em sua mente que dizia US$ 4,99 cada uma, ela só precisava comprar essas porcarias e pegar o que tinha vindo comprar na farmácia. Ela ouviu uma voz de homem no próximo corredor e se lembrou de Harry. Se ela demorasse mais, a gentileza sulista dele exigiria que viesse buscá-la na farmácia, ou checar se estava tudo bem. Ela colocou as duas toalhas na cesta, lançando um olhar cansado para as prateleiras. Na noite anterior, havia escolhido uma marca depois de fazer uma pesquisa na internet e agora estreitava os olhos e inspecionava os pacotes até encontrar aquele que vira no site. Mara lançou mais um olhar furtivo em cada direção. Livre. Respirando fundo, colocou a mão sobre a boca e andou o mais rápido que podia pelo corredor. Sem diminuir o passo e sem respirar, ela estendeu o braço para o lado, pegou dois pacotes da prateleira, enfiou-os na cesta debaixo das tolhas e manteve o ritmo até chegar ao final do corredor. Só quando fez a curva para “Itens para a casa/Artigos de papelaria” é que ela abriu a boca, deixando o ar preso sair com tudo antes de se dobrar ao meio e respirar fundo de novo, e então de novo, e mais uma vez. Ao se recuperar, ela ficou reta de novo, olhou de relance para as formas quadradas debaixo das toalhas e deu um sorriso muito de leve. Pronto. Tinha conseguido. Estava prestes a se permitir um sorriso de verdade quando uma mulher apareceu do nada ao lado de seu cotovelo. Mara se apressou em sair de perto, passando a cesta para o outro lado e saindo do campo de visão dela, fingindo examinar as opções de sabão em pó à sua frente enquanto esperava a mulher passar. A mulher saiu devagar do corredor e Mara, agora com um sorriso estampado de alívio, foi até a saída da loja e para o porto seguro do táxi. E então ela se lembrou de que precisava pagar. Que saco. Como poderia ter se esquecido daquilo? E agora estava andando na prancha de novo, ou pelo longo corredor verde até a câmara de execução, ou pela Trilha das Lágrimas, ou qualquer outro trajeto horrendo que as pessoas tinham seguido antes dela. Ela se dirigiu de má vontade até o caixa e se preparou para revelar o conteúdo de sua cesta a uma caixa de vinte e poucos anos cuja boca com certeza formaria o mesmo “O” horrorizado que Mara tinha visto no supermercado na segunda-feira.


Ela inspecionou a caixa de perto e, ao ver a mecha azul no cabelo da menina, a sobrancelha com piercing e anéis em todos os dedos, decidiu que a mulher tinha a idade e o tipo de personalidade precisos para levantar o pacote e dizer algo tipo: “Eca, fralda. Minha avó tem que usar isso”. Mara decidiu que, se conseguisse dar de ombros e responder: “Ah, é para a minha mãe”, então poderia sair da farmácia com a dignidade intacta. Mas já podia sentir a onda de calor subindo pelo pescoço e pelas bochechas e sabia que sua humilhação seria denunciada pelo rubor. As palmas de suas mãos suavam e ela sentiu a garganta se fechar, e, se havia alguém capaz de fazer um comentário casual e inocente para convencer a caixa de que “isso não é para mim”, essa pessoa não era Mara Nichols. Havia uma fila no caixa e ela ficou ali por perto, um olho na fila e outro na porta caso Harry aparecesse. A caixa jogava conversa fora com cada cliente, e a ladainha tipicamente texana que Mara sempre tinha achado uma graça antes – “Tudo bom com a senhora? Encontrou tudo o que queria? Que a senhora tenha um ótimo dia! Volte sempre!” – agora parecia uma série de unhas afiadas se enfiando em sua pele inflamada. Quando o último cliente foi embora, Mara se aproximou, já sentido tontura, mas com o restante de suas forças colocou a cesta sobre o balcão. Ela se amparou com uma das mãos e prometeu ao corpo que poderia despencar no táxi se conseguisse ficar de pé mais alguns minutos. A caixa ergueu os olhos para cumprimentá-la, mas Mara pegou uma das revistas de fofoca na gôndola perto do caixa e a abriu com tudo em frente ao rosto, uma barricada entre ela e “Eca, minha avó tem que usar isso”, e, ao antecipar o comentário, o café da manhã de Mara ameaçou fazer uma reprise. – Tudo bem com a senhora? – Tudo – Mara sentiu os lábios se mexendo, mas não ouviu a palavra sair. Ela tentou de novo, mas mais uma vez não saiu nada além de um pouco de ar. Houve silêncio por alguns segundos, e Mara achou que a caixa estivesse esperando que ela olhasse por trás da revista e respondesse com mais educação. Como uma pessoa civilizada, ela pensou, e a vergonha chegou de novo na forma de mais uma onda de calor da clavícula para as bochechas. – E encontrou tudo o que queria? Ah, mas que coisa! As palavras agarraram o coração de Mara e ele parou por alguns segundos antes de pegar no tranco de novo e engatar a primeira marcha, batendo mais na sua garganta que no peito. Segurando a respiração, ela baixou a revista um milímetro e viu a caixa com um dos pacotes de plástico branco nas mãos, fazendo cara feia enquanto o girava. A mulher olhou para Mara com uma expressão de dúvida no rosto, e Mara ficou pensando se a pele humana seria capaz de ficar tão quente de humilhação que se encheria de bolhas. Em pânico, ela olhou para a porta e tentou estimar quanto tempo demoraria para chegar até lá fora, e se, caso ela resolvesse sair correndo, a caixa viria atrás dela, mostrando as fraldas para todo mundo no estacionamento ver, incluindo Harry. – Ah, achei. Às vezes é tão difícil achar esses códigos de barra! A menina ergueu o pacote para mostrar a Mara o símbolo e Mara levantou a mão, baixando-a depressa para indicar para a menina que ela deveria baixar o pacote. Mas a menina ficou ali parada, sorrindo contente consigo mesma por ter encontrado o código de barras e, é claro, sem um pingo de pressa de finalizar a compra. Do canto do olho, Mara viu um homem mais velho se dirigindo do final de um corredor para o caixa. – Estou morrendo de pressa – ela disse, em uma voz que não reconheceu. A menina entrou em ação, passando o scanner rapidamente sobre as toalhas e os dois pacotes.


– Claro, senhora, sem problemas. São cinquenta e dois dólares e noventa e cinco centavos. Ah, espera aí, acho que as roupas íntimas têm um cupom de desconto esta semana. No folheto? Ali na frente, perto das cestas. – Ela apontou enquanto o homem se aproximou mais um pouco. – A senhora quer ver... – Quero pagar sem desconto mesmo – Mara disse, de olho no homem. – Ou eu posso, se a senhora quiser... – Fecha a compra! Por favor, feche a compra em cinquenta e dois e noventa e cinco. Eu preciso ir mesmo. – Mara enfiou o cartão de crédito na cara da mulher e se enterrou atrás da revista antes que pudesse olhar nos olhos dela. – Claro. Mas dá uma olhada on-line quando chegar em casa, de repente tem jeito de receber o desconto correspondente depois. É só ir em www... – Não! – Mara ergueu a mão, largou a revista no balcão e foi pegar as sacolas. – Só me deixe ir embora! A caixa estremeceu. Sem dizer uma palavra, ela entregou as sacolas e o recibo para Mara, que, envergonhada demais com o próprio comportamento para dizer alguma coisa, tentou embutir um “obrigada” e um pedido de desculpas fazendo sim com a cabeça. – Tenha um ótimo dia – a caixa disse de modo mecânico. – Volte sempre – ela completou sem sentimento algum, ao mesmo tempo que Mara estava agradecendo a Deus por nunca ter que ir àquele lugar de novo.


18. Scott Scott estava passando a lição de casa para os alunos da quarta aula quando o alto-falante da sala fez um barulho e a sra. Bevel, a secretária da escola, com uma voz bem agitada, pediu que ele fosse à diretoria imediatamente. Ela havia pedido à conselheira da escola, a srta. Styles, que tomasse conta da classe até que ele voltasse. Scott olhou do alto-falante para o relógio e então para os alunos esperançosos do oitavo ano à sua frente, que estavam torcendo para ele não terminar de passar a lição antes de ir. – Desta vez vocês tiveram sorte – ele disse, virando-se em direção à porta. – Maddie – ele chamou por sobre o ombro uma menina na primeira fileira –, você é quem manda até a srta. Styles chegar aqui. Ele foi para o corredor, sorrindo ao ouvir uma pequena comemoração na sala. Continuava sorrindo ao chegar até a sra. Bevel, e até quando Janice, a assistente social da família Jackson, se levantou da cadeira em frente à mesa da sra. Bevel. – Oi, Scott – Janice disse, e como sempre sua voz estava tão tensa quanto seu corpo. Ela olhou para os próprios sapatos como se não tivesse certeza do que fazer a seguir. As delicadezas da interação humana sempre pareciam confundi-la. Para uma assistente social, Scott tinha comentado com Laurie algumas vezes, Janice não parecia ser lá muito social. Ele sempre tinha dado oportunidade a ela de desmentir essa teoria, lembrando que ela devia se importar mais com as crianças e as famílias de seus casos que sua conduta externa poderia indicar. Mas a maneira rígida como ela agia, o jeito vago como olhava para as pessoas, a falta de graça em sua voz faziam parecer que ela estava só passando por momentos difíceis. Será que tinha sido diferente antes de começar a carreira? Será que as décadas de trabalho extra haviam drenado qualquer sentimento dela? Ou será que já tinha começado na profissão fria e distante? Talvez ela tivesse recebido o mesmo conselho da MãeAdotiva: não se apegue demais. – Janice! Não esperava ver você por aqui. – Scott estendeu a mão e Janice a dela, tocando a dele por um segundo antes de recolher a mão de volta. – Achei que a sra. Bevel tinha me chamado aqui para me dar uma bronca por ter deixado as luzes da sala de aula acesas, ou por ter entregado as notas com atraso ou um monte de outras coisas – ele disse, virando-se para a sra. Bevel com um sorriso aberto. – Eu tenho uma lista comprida de pecados, não é, sra. B? A sra. Bevel olhou de um jeito estranho de Scott para Janice e então se levantou, resmungando alguma coisa sobre precisar checar um arquivo, e desapareceu no corredor que levava a outros escritórios. – Bom – Scott disse a Janice, ainda sorrindo. – Parece que a assustei. Espero que você... Foi quando ele notou a expressão no rosto de Janice. Seus lábios pressionavam tanto um contra o outro que estavam mais para brancos do que para cor-de-rosa, e seus olhos pareciam estar fazendo um buraco na mesa da sra. Bevel. Ele não conseguia discernir o sentimento. Raiva? Ansiedade? Com certeza era alguma coisa sob a variante “muito nervosa”. Não tinha sido à toa que a sra. Bevel havia saído de fininho para o corredor. Scott também queria sair dali. – Sinto muito, mas não tenho boas notícias – Janice disse. Ela se sentou e deu um tapinha na cadeira ao


seu lado. Scott entendeu o gesto como uma ordem e ficou olhando para ela com atenção enquanto se sentava ao seu lado. Esperando pela explicação, a mente de Scott se encheu de possibilidades. Será que Curtis tinha arrumado confusão na escola de novo? Mas a srta. Keller tinha seu celular e sempre mandava uma mensagem ou ligava antes. Seria alguma coisa com Bray? Mas Bray teria ligado para ele. A não ser que não pudesse. – O Bray está bem? – ele perguntou, sentindo-se nauseado de repente. Janice não respondeu, e Scott sentiu o estômago dar uma guinada. – Janice, o Bray...? – É a LaDania. Ela veio ao meu escritório hoje cedo. Disse que quer ir buscar o Curtis na escola agora à tarde. E levá-lo para casa. – O quê? – Ele pulou da cadeira como se ela estivesse pegando fogo. – Mas a audiência é só na segunda! – Mas é apenas uma formalidade, como você deve saber. Ela disse que está pronta para recebê-lo em casa agora. E, por lei, ela tem todo o direito de levá-lo. A guarda concede direitos a você e à sra. Coffman, mas não tira nenhum direito dela. E é claro que, tecnicamente, a guarda concede tais direitos a você até ela ser solta, o que aconteceu na semana passada. Ela concordou em deixar Curtis com vocês mais esta semana porque eu a tinha convencido de que esse tempo extra entre a libertação dela e a audiência formal para suspender a guarda seria melhor para ela. Mas não está mais convencida dos benefícios desse acordo. Ela diz que é muito solitário morar sozinha. E que quer os filhos com ela. Scott ficou segurando a cabeça com as duas mãos e a apertou, mas as palavras que tinha ouvido não saíam dali. Curtis ia embora hoje. Não haveria mais espaguete, nem biscoitos feitos em casa hoje à noite. Não haveria mais a hora de leitura. Nem brincar de cavalinho pela última vez. Nem hora de dormir. Nada de filme na sexta à noite. Nada de Caminhões-Monstro no domingo. Nada de despedidas. Ele se apoiou na mesa da sra. Bevel e levou os nós dos dedos das mãos aos olhos. Scott pousou a mão sobre a barriga e se controlou para não vomitar. Alguns minutos depois, ele disse em voz baixa: – Mas eu ainda tenho alguns dias. Nós – ele se corrigiu. –Nós ainda temos alguns dias. Temos um monte de coisas planejadas. Leituras extras todas as noites, jantares especiais, um último jogo de basquete. E filme na sexta à noite. E Caminhões-Monstro no domingo. A gente estava contando com… – Eu sei – Janice disse, e Scott ficou surpreso com a gentileza em sua voz. – Eu sei que vocês estavam contando com este fim de semana juntos. – Ela sorriu, mas era um sorriso triste. – Achei que vocês tivessem alguma coisa especial planejada, e disse isso a ela. Mas então o tom de voz de Janice mudou, e Scott pôde sentir a raiva por trás dele. Ele descobriu os olhos e olhou para ela. Agora Janice estava inclinada para a frente, e os olhos que ele encontrou brilhavam de emoção. Ele podia ver os músculos compridos e entrelaçados dos braços magrinhos dela trabalhando enquanto ela enroscava as mãos sobre o colo. – Eu também disse a ela que o menino precisa terminar o tempo que passou na sua casa do jeito certo. Ele precisa conseguir se despedir direito, e você e a Laurie também. E, depois de tudo o que fizeram, vocês mais que merecem isso. Eu falei tudo isso para ela – ela disse – de maneira muito clara e de uns dez jeitos diferentes. Não fez a menor diferença.


A emoção dela o surpreendeu. Ela tinha vindo à casa deles várias vezes durante o último ano, mas se mantivera tão distante e reservada depois da décima visita quanto após a primeira. Parecia aceitar o café ou a limonada todas as vezes contra sua vontade, mas deixava a bebida intocada ao se sentar como um capataz à mesa da cozinha e tomar notas impossíveis de ler sobre os hábitos alimentares e de sono de Curtis, seu comportamento, o progresso na escola. Ela escrevia páginas e páginas de informações sobre o menino, mas Scott e Laurie sempre tinham a impressão de que devia ser mais importante colocar palavras em seu caderno do que dedicar seu tempo para conhecer a criança ou os guardiões. Às vezes ela também fazia perguntas a Curtis, e, quando ele dava respostas bobas, ela não sorria nem mostrava um pingo de surpresa, apenas repetia a pergunta até receber uma resposta digna de ser registrada. Em outras vezes, ela se sentava sozinha em um canto da sala para “observar”, pedindo a eles que agissem com naturalidade e fingissem que ela não estava por perto. Scott e Curtis conseguiam fazer exatamente aquilo, e continuavam lutando no chão ou jogando damas ou qualquer outra atividade, mas Laurie sempre ficava tensa pairando perto demais de Janice, oferecendo encher de novo o copo ou a caneca dos quais Janice nem tinha tomado um gole. “É como se o bichopapão pedisse para você dormir e ficasse sentado ao pé da sua cama”, Laurie tinha dito a Scott depois da primeira sessão de “observação”. – Eu disse a ela que não havia justificativa para separar vocês dois um dia sequer antes do planejado, o que dirá vários – Janice continuou. – E que vai ser muito difícil para ele se despedir de vocês. E para vocês se despedirem dele também. Eu disse a ela que nunca tinha visto... – Ela se recostou à cadeira de novo, quase caindo, como se o esforço de demonstrar sentimentos tivesse acabado com ela. – Bom, eu disse a ela que seria errado. Então ela sabe da minha opinião sobre isso. Mas sinto informar que ela também está muito firme em sua opinião. – Então é isso!? Ela pode apenas... levá-lo embora. Ela pode ignorar tudo aquilo com que estávamos contando. Porque está se sentindo sozinha. E mudou de ideia. Isso é… incrível. Isso é tão… – Scott fez uma pausa, tentando encontrar a palavra certa. – É foda. Incrível. Janice não reagiu bem ao palavrão, e ele pensou em se desculpar, mas o máximo que conseguiu fazer foi dar de ombros. – Eu posso ir contra ela? – ele perguntou. – No tribunal, você quer dizer? Ele fez que sim com a cabeça. Janice torceu os lábios. – Você não tem uma base legal real. Nem tenho certeza de que o tribunal consideraria seu pedido. Acho que você teria que falar com um advogado. Scott ficou pensando para quem poderia ligar. O vizinho de Pete era um advogado; talvez ele pudesse ajudar. É claro que ele não possuía nenhum direito legal sobre o menino, mas tinha que tentar alguma coisa. O que LaDania estava fazendo era ridículo, e inacreditavelmente egoísta. Então ela não tinha a menor consideração por ele e Laurie, e por aquilo que tinham feito por seu filho no último ano – por seus dois filhos? Por ela mesma? Será que ela não pensou que eles poderiam querer aproveitar esses últimos dias para se despedir de Curtis direito? Será que ela pensava neles? Mas então ele pensou no que a MãeAdotiva tinha dito: concentre-se naquilo que é melhor para a criança. Ele ergueu as palmas das mãos até a altura da cintura, como quem não sabe o que fazer. Não tinha escolha. Se lutasse contra isso, seria por ele mesmo, e não por Curtis.


– Deixa para lá – ele disse a Janice. – Ela é a mãe dele. Não vou me colocar entre ele e a mãe, não importa quanto eu discorde disso. Não gostaria de terminar nosso ano juntos com uma briga. Não seria nada melhor para ele do que aquilo que ela está fazendo. Janice fez que sim com a cabeça. – Preciso dizer que é muito bom lidar com um adulto hoje em dia que coloca os interesses da criança à frente dos próprios. – Então, e agora o quê? – Scott perguntou. – Ela aparece na Logan às três da tarde, diz “Surpresa!” e leva ele para casa, é isso? – Sim – Janice respondeu. – Apesar de eu tê-la convencido a me deixar ir junto, para garantir que o Curtis receba uma explicação para o que está acontecendo. Espero que a minha presença o ajude em uma transição mais eficaz. – Mas e as coisas dele? – Scott perguntou. – As roupas dele lá em casa. Os brinquedos. Os livros. – Ele pensou em O Pequeno Stuart Little e sentiu a garganta se fechar. – Ela pediu que eu levasse as coisas para ele mais tarde hoje à noite. Eu pensei em dizer a ela que você poderia entregar tudo, para ter uma chance de ver o menino. Mas acho que isso poderia deixar a situação mais difícil para o Curtis... Ver você tão cedo antes de ter a chance de se adaptar à nova... situação. – Então eu não posso nem me despedir? – Scott sussurrou. Ele engoliu em seco e se esforçou para deixar o ar passar pelo nó na garganta. – Como disse, eu imaginava que você tivesse algo em mente para seu último fim de semana juntos – Janice disse. – E perguntei se ela consideraria deixar você seguir em frente com esse último plano. Ela disse que pensaria no assunto. – Janice fez um som amargo e então uma cara feia. – A gente ia ver Caminhões-Monstro no domingo – Scott disse. – Ele vai morrer se perder. Está falando nisso há meses. E está fazendo contagem regressiva no calendário. Ele… Scott não podia mais continuar. Ele foi andando devagar até a cadeira da sra. Bevel e se sentou. Inclinando-se para a frente, colocou os braços sobre a mesa e deixou a cabeça, que de repente tinha ficado muito pesada, cair sobre eles. As lágrimas que estivera segurando até então deram um jeito de sair e ele não se importou em impedi-las. Um som irreconhecível veio de Janice, e segundos mais tarde ele a sentiu ao lado dele, seus braços ao redor com tanta força que ele teve que se esforçar para respirar. Ele tentou se soltar, mas não tinha forças para se mexer. Ou foi isso que disse a si mesmo ao relaxar nos braços dela e deixar que ela o abraçasse, a voz macia e reconfortante em seu ouvido, sussurrando: – Tudo bem. Depois de um tempo, ela o soltou um pouco e ele sentiu a mão de Janice fazendo círculos em suas costas, tentando acalmá-lo. – Quando eu a vir na Logan hoje, vou perguntar sobre os Caminhões-Monstro. – Ela deu uma batidinha de leve no braço dele. – Vou insistir nos Caminhões-Monstro.


19. Mara Harry se ofereceu para colocar as sacolas no porta-malas, mas Mara recusou. Enquanto ele dirigia, ela enfiou a mão em uma delas, tirou uma “roupa íntima com proteção feminina discreta” do pacote e a colocou na bolsa. Cada barulhinho do plástico soava como um trompete em sua cabeça e ela se preparou para um olhar curioso no espelho retrovisor, ou por sobre o ombro. Mas ele estava concentrado na rua à frente. Ou pelo menos fingia estar. A loja de roupas era um daqueles lugares modernosos com estilo casual-chique que Steph tinha recomendado havia um tempão. – Você não pode se vestir como uma advogada poderosa quando está ajudando na aula de artes – Steph disse. – E você também não pode se vestir assim. – Ela fez um gesto para indicar a calça de ioga e a camiseta folgada de Mara. – Você precisa ficar... – ela fez uma pausa. – Mais moderna, sabe? Steph ficaria tão orgulhosa ao saber que ela afinal tinha ido à loja, Mara pensou. Por outro lado, Steph não ficaria lá muito impressionada ao descobrir que a amiga comprara tudo on-line e tinha ido buscar na loja, em vez de ver as peças nas araras, comparar cores e cortes e experimentar tudo por horas a fio, como Steph gostava de fazer. Eles tinham reservado três saias de algodão pretas para ela no caixa, junto com três blusas – todas em cores diferentes, mas da mesma marca e estilo. – Se elas servirem – ela disse à vendedora –, você se importaria se eu saísse da loja já usando um desses conjuntos? Vou ser voluntária na escola da minha filha e minha amiga disse que preciso aparecer usando alguma coisa melhor que estas roupas de ginástica. – Ela se deu um olhar de repreensão ao indicar a calça de ioga Neiman Marcus que estava usando, o dobro do preço das três saias e blusas juntas. – Sem problema. Várias mães vêm aqui procurar essas roupas. – A vendedora não tinha mais de vinte anos e passou cada item para ela. – Você encomendou três conjuntos iguais, então só precisa experimentar um. Mara podia detectar a decepção na voz da menina. Quem é que passava dois minutos procurando online, e então ligava para a loja e reservava três conjuntos iguaizinhos? – Eu sei – Mara disse. – Deveriam levar embora o meu crachá de “mulher”. Minha amiga sempre me diz isso. Mas eu confesso que odeio comprar roupa. E pelo menos as blusas são em cores diferentes, certo? A menina olhou para Mara como se ela fosse uma animal raro e fez que sim com a cabeça de um jeito exagerado. – Às vezes a gente recebe mulheres como você – ela brincou. – Mas não consigo entender. Eu vivo para comprar! – Aproximando-se um pouco mais, ela baixou a voz: – Mas não vivo para a parte de experimentar. Então, a sua estratégia de escolher a mesma marca e tamanho para tudo faz sentido para mim. Faço qualquer coisa para ficar menos no provador. E todos aqueles espelhos do teto até o chão, né? E aquelas luzes! É um território inimigo! – É isso mesmo – Mara concordou, fingindo que aquela tinha sido a razão pela qual ela havia


encomendado tudo igual. Ao se dirigir para o provador, com a saia e a blusa sobre o braço, virou-se para sorrir para a vendedora e viu que a menina estava de olho nela com uma cara de dúvida. Pega no flagra, a menina deu um sorriso envergonhado e se virou rapidamente para a parte da frente da loja como se tivesse ouvido alguém entrar. Mara fez cara feia, mas disse a si mesma para deixar para lá. Era estranho encomendar tudo igual, mas a vendedora tinha sido bem menos crítica que outras meninas da sua idade podiam ser. Não havia nada com que se preocupar. No cubículo apertado, ela tirou com muito custo a calça de ioga e a lingerie cara de seda que tinha modelagem de biquíni. Segurando a “roupa íntima com proteção” para inspecioná-la, ela viu aliviada que era bem mais fina que o produto deselegante que estava esperando. Mas, quando o colocou e sentiu aquele volume frio e áspero contra a pele, ela sentiu uma pontada na ponta do nariz e a garganta se fechar. Mesmo com tecido mais fino e costuras em arabesco, ela ainda estava usando uma fralda. Ela se viu sob o brilho nada lisonjeiro da luz do provador e ficou de boca aberta no espelho mostrando o retângulo de tecido descartável e as duas pernas pálidas e nada tonificadas que iam sem graça do tecido branco até os seus chinelos. Ela se mediu da cabeça aos pés e se deu os parabéns por nunca ter instalado um espelho de corpo inteiro em casa. Mara sempre havia tido orgulho do corpo. Anos de dedicação com exercício e alimentação saudável tinham dado a ela a perfeita mistura de músculos magros e curvas femininas. Tom já tinha sussurrado sua satisfação um milhão de vezes e as amigas de Mara haviam confessado sua inveja. Mas nos últimos quatro anos a demanda calórica da doença para abastecer o movimento de cada músculo lhe roubara cada grama extra de músculo, cada último vestígio de curva feminina. Ela fingia não notar quando as mãos passavam por quadris ossudos no chuveiro, ou ao dar uma olhada inadvertida em uma janela ou no espelho e ver os ombros que também eram só ossos salientes sob a camiseta, uma clavícula proeminente demais roubando a atenção do colar. Aos poucos, seu corpo fora de bronzeado e musculoso a... isso. O espelho do provador havia entregado uma mensagem cruel: o fato de Mara ter se recusado a ver seu corpo se transformar de saudável em quase anoréxico não havia impedido que aquilo acontecesse. Ela não se trocava mais na frente de Tom, mas, meu Deus, mesmo no escuro, debaixo dos lençóis... Ela levantou a cabeça e viu seus olhos escuros encarando-a do espelho, pequenas piscinas de líquido se formando nos cantinhos, traindo-a. Pressionando as pontas dos dedos contra as pálpebras, Mara contou até cinco devagar enquanto dizia a si mesma para se recompor. Ela não queria que a vendedora a visse chorando ao sair do provador – nem Harry. Teve que contar até trinta, mas conseguiu se acalmar. Ela vestiu a saia, deu uma alisada nela e se virou devagar de um lado para outro, inspecionando-se de todos os ângulos para garantir que ninguém pudesse detectar seu segredo. Satisfeita, vestiu a blusa. Não era um look ruim, mas ela podia ver por que mães jovens na escola preferiam a combinação calça de ioga e camiseta. – Legal! – a menina disse quando Mara saiu do provador, e Mara ficou feliz por ter se controlado quando a vendedora a havia encarado minutos antes. – Dá uma voltinha! Mara segurou a respiração enquanto fazia um círculo lento e nervoso, esperando pelo barulhinho que a vendedora faria ao ver a marca da fralda. Ou, como era da mesma idade da caixa na farmácia, um gritinho de “Eca, você está usando fralda igualzinho à minha avó”. Mas o espelho não havia mentido. – Fantástico! – a menina disse, batendo palmas. Num tom mais baixo, ela completou: – Espero que você não se importe com o meu comentário, mas esse conjunto deixa você com ar mais jovem.


De todas as respostas que Mara poderia ter ouvido, aquela estava ótima. – Eu não me importo nem um pouco – ela disse. Harry ergueu uma sobrancelha no espelho retrovisor. – Ah, pelo jeito a senhora trocou de roupa. Está muito bonita. Vamos a algum lugar especial agora? – Na verdade, essas eram as coisas que eu tinha que resolver hoje. Mas você se importaria em fazer um caminho diferente até a minha casa? A turma da minha filha deve estar no recreio da tarde agora, e pensei em passar por lá. – Ela esqueceu alguma coisa? – Não. Eu só… – Mara ficou quieta por um segundo. – Eu só queria vê-la. Fica aqui perto, só alguns quarteirões fora do caminho. Mas se você estiver com pressa... – Tenho todo o tempo do mundo. Mara disse a ele onde a escola ficava e, quando partiram de novo, ela notou pela primeira vez como Plano parecia muito mais nova e mais colorida quando comparada ao mundo de cinza no norte em que ela e Tom tinham crescido. Os gramados bem cuidados que passavam pela janela pareciam artificiais de tão verdes e perfeitos. As casas eram gigantes, como em um desenho animado, e cada uma parecia mais nova e gigantesca que a outra. Até os espaços públicos eram lindos ali, as ilhas no meio das ruas como uma amostra feliz de jardins coloridos. “É um cenário de filme da Disney”, Tom havia dito quando eles passaram de carro por ali pela primeira vez. Estavam procurando uma casa para comprar nos subúrbios ao norte de Dallas, sua carta de oferta em uma clínica de dermatologia dobrada com cuidado no console entre eles. Na época, Mara era uma advogada em seu terceiro ano, e em vinte quatro horas seu marido tinha passado de residente-chefe mal pago a dermatologista com salário digno de rei, e equivalente a vários salários dela. – Tenho a impressão de que a qualquer momento os donos das lojas vão sair cantando pela calçada. – Ele deu risada. – E sou só eu que estou achando ou o sol é um pouco mais brilhante aqui, o céu um pouco mais azul? Acho que a cidade de Plano deve ter ventiladores gigantes que sopram todas as nuvens para o sul de Dallas. Harry e Mara chegaram à escola enquanto uma multidão de crianças saía estourando das portas em uma onda de gritaria e se derramava pelo parquinho. – A senhora já a achou? – Harry diminuiu a velocidade quase até parar e os dois se viraram para examinar o pátio da escola. – Até agora não... Ah! Ali! A menininha de cabelo preto? Com o short rosa e a blusa branca e rosa? Subindo no escorregador? A terceira, contando de cima. – Ah. É a sua cara. Ela sorriu. Harry não tinha sido o primeiro a dizer isso. Afinal, todos os indianos se parecem. Não importava que ela e Laks não compartilhassem o DNA, assim como não importava o fato de ela e seus pais também não o compartilharem. Todo mundo achava que ela era uma cópia dos dois também. Tom era o único forasteiro genético do grupo na mente (e comentários) de estranhos quando os viam todos juntos – o lindo guia turístico americano levando um casal indiano mais velho, sua filha e a neta. – A senhora quer estacionar e ficar aqui por um tempo – Harry perguntou – ou precisa ir para casa? – Na verdade, eu não preciso mais estar em lugar nenhum – Mara disse. Harry fez que sim com a cabeça, estacionou o carro e desligou o motor. Mexendo-se em seu assento,


ele se virou para o parquinho e ficou observando com um olhar de contentamento no rosto como se ele também não tivesse que estar em mais nenhum outro lugar. Como seria bom ficar relaxado assim, Mara pensou, e por reflexo enfiou a mão na bolsa e de lá tirou o celular para checar seus e-mails do trabalho. Não havia nenhum. É claro que não havia nenhum. Na verdade, o pequenino ícone “KL” no qual ela costumava clicar para acessar sua caixa de entrada, não estava mais na tela do telefone, e isso já fazia semanas. A empresa a havia deixado ficar com o celular, mas a tirara da rede Katon Locke de imediato, por questão de política interna. Ela xingou baixinho por ter esquecido. Sua conta pessoal continuava lá, mas ela não estava a fim de checá-la agora. Mara encostou a cabeça na janela de vidro escuro do carro e fechou os olhos ao pensar que não era mais uma advogada poderosa com uma caixa de entrada transbordando de e-mails, mas essa ideia era nova. Ela não tinha mais pressa que Harry – aliás, era provável que bem menos, pois ele no mínimo tinha um emprego. Com a cabeça ainda apoiada na janela, ela abriu os olhos e acionou o aplicativo de mensagens de texto. Era separado do sistema de e-mail, então sua longa lista de mensagens não tinha sido apagada quando a empresa a tirara da rede. Ela rolou a tela para baixo e viu várias mensagens trocadas com Gina sobre a logística de empacotar seus arquivos e desocupar o escritório, enquanto procurava por algo substancial. Uma mensagem que consertaria seu ego fraturado, mesmo que por um minuto, para lembrá-la de quem era não muito tempo atrás, alguém que tinha lugares importantes a visitar, coisas urgentes para fazer. E lá estava ela, enfim. Uma mensagem de Steph: “Preciso falar c/ vc sobre a apelação dos Bakers – pesquisar argumento comprovativo”. Mara fechou os olhos de novo e sorriu, permitindo-se ignorar, por um segundo, quanto tempo já fazia que ela tinha trabalhado na apelação dos Bakers, e como tudo tinha terminado. Havia começado como o caso dos Bakers. O cliente da Mara, o caso da Mara. Quatro semanas e meia no tribunal. Vinte e duas testemunhas, 209 provas. Um associado e um paralegal tinham arrastado os cadernos do julgamento para a mesa da defesa toda manhã e mantiveram todos os documentos direitinho. Mas foi Mara quem entrevistou todas as testemunhas, ofereceu todas as provas, argumentou todas as moções comprovativas. E ganhou o caso. Aquilo já fazia quase cinco anos, quando tudo estava em ordem no mundo. Quando Tom achava que a esposa estivesse trabalhando demais, mas não suspeitava de nada além daquilo. Quando a única razão para pronunciar a palavra “Huntington” era porque era o nome de uma avenida a cinco quarteirões de distância, e às vezes eles passavam por lá se o trânsito estivesse parado na rua principal. A parte que estava processando a outra havia apelado, e o caso foi se resolvendo no sistema de apelações durante os anos seguintes – primeiro com um parecer legal, e então com a argumentação oral, um novo julgamento de uma questão de danos, mais um parecer – quase à mesma velocidade que a doença se desenvolvia dentro de Mara, primeiro obliterando sua memória de curto prazo e depois detonando sua capacidade de concentração e discernimento. Ela não queria encarar o caso, mas convidou Steph a participar antes do novo julgamento. “Mas só como um plano B”, Steph garantiu à amiga. Mas, ao final do novo julgamento, o plano B tinha se tornado a advogada principal, já que para Mara era cada vez mais difícil lembrar qual prova se referia a cada testemunha, e qual argumento legal tinha sido aplicado a cada moção. Gina, em sua forma típica, tinha ido ao escritório em um fim de semana para poupar Mara de ver uma gaveta de arquivos inteirinha de sua sala ser esvaziada. Com o tempo, mais pessoas ficaram sabendo da doença de Mara na empresa, e o restante de suas gavetas também teve que dizer adeus aos arquivos


gordos de casos, enquanto eles eram distribuídos entre os outros sócios de litígio – tudo sob o olhar atento de Gina, pois ela sabia que Mara não ia querer testemunhar aquilo. Dezessete anos de sua vida levados embora em um carrinho de correspondência. Mas não ver aquilo acontecer não tornou a situação mais fácil. Gina. Se não fosse por ela, a aposentadoria de Mara teria chegado bem mais cedo. Gina tinha feito das tripas coração por Mara desde o começo, fazendo hora extra para controlar os efeitos de cada sintoma à medida que apareciam, adiando o dia inevitável quando Mara teve que admitir que não poderia mais representar seus clientes com eficácia. Gina se tornou a memória externa de Mara quando a sua interna estava em seu pior estado – um post-it ambulante, lembrando-a não apenas de prazos para reuniões e audiências, mas também do aniversário de casamento de Neerja e Pori, dos aniversários dos filhos de Steph. Mais tarde, depois que a doença trocou o plano de ataque da memória para as emoções de Mara, fazendo com que passasse de serena em instável da noite para o dia, Gina montou diligente guarda à sua porta. Com uma ladainha interminável de desculpas, conseguiu manter todo mundo longe, à exceção de Steph, para que ninguém mais pudesse testemunhar o que estava acontecendo com aquela advogada que já havia sido tão brilhante, mas que não conseguia mais controlar seus casos, nem seu temperamento. Mara pensou nas centenas de post-its e listas de coisas a fazer que Gina mantinha meticulosamente para ela, muitas vezes pulando o almoço para manter os arquivos atualizados, agora que sua chefe era incapaz de lembrar em que ponto cada caso tinha parado, ou os próximos passos, a não ser que estivessem anotados em algum lugar. A carga extra de trabalho devia ter quase matado a mulher, Mara disse a Tom e Steph depois. À medida que Mara ficava mais doente e demorava até cinco vezes mais para desempenhar tarefas rotineiras, Gina começou a passar mais e mais horas em sua sala ajudando-a, e menos e menos tempo à própria mesa. Como resultado, ela tinha que ficar cada vez até mais tarde para terminar tarefas administrativas que eram sua responsabilidade, mas para as quais ela não tinha mais tempo durante o dia. Gina parecia nem ouvir quando Mara lhe suplicava que pedisse ajuda à equipe de funcionários temporários; ela não queria que mais pessoas ficassem sabendo que ela estava atrasada com o serviço porque sua chefe não conseguia mais pensar direito. Nessa época no ano interior, depois de o dr. Thiry insistir que ela precisava ter mais dias de descanso, Mara começou a ir apenas quatro vezes por semana para a empresa. E quase morreu por causa disso. E quase morreu também ao ter que admitir o motivo para Kent, o sócio-gerente. E ela quase não conseguiu. Era tão tentador, e teria sido tão fácil jogar com a carta da culpa de mãe que trabalha fora como o motivo e esconder a verdade dele pelo maior tempo possível. Mas ela não achou certo, e então contou sobre a doença e o fato de que seu médico havia sugerido que ela seria mais produtiva se reduzisse a jornada de trabalho para quatro dias e permitisse que o corpo e o cérebro recarregassem as baterias no quinto. Kent tinha dado uma força incrível a Mara, dizendo que, se ela pudesse trabalhar quatro dias, a empresa adoraria tê-la naqueles dias. Ele fez um gesto de “deixa para lá” quando ela disse que cobriria as horas extras de Gina com seu próprio salário, já que tinham sido necessárias por causa da doença dela. Ele também se recusou a concordar com o pedido dela de mudar seu cargo na empresa de “sócia” para “consultora”, dizendo que, do ponto de vista dele e de todo mundo na Katon Locke, ela sempre seria sócia. Com o apoio de Kent e a ajuda de Gina, Mara comemorou com Tom naquela noite, ela conseguiria cumprir a jornada de quatro dias por semana para sempre. E então, e pareceu ter sido da noite para o dia (apesar de não ter acontecido até o outono anterior), de repente ela ficou tão exausta com os quatro dias de trabalho que o dr. Thiry a mandou reduzi-los para


três. Três dias mais curtos ainda por cima – três “dias de criança”, como ela os chamava –, somente das oito à cinco, uma fração das horas que ela trabalhava antes. Não foi surpresa quando Tom disse que não queria que ela trabalhasse nem esses três dias mais curtos: “Pare de uma vez”, ele tinha pedido. Mas ele sabia naquele momento que ela não desistiria com tanta facilidade. Mara falou com Kent de novo, e eles concordaram que ela faria o máximo dessa jornada enquanto a doença permitisse. A doença permitiu esse esquema por seis meses, até fevereiro deste ano. Naquela época, e com uma velocidade espantosa, a mulher que costumava sair para longas corridas com o marido nos fins de semana pela manhã não conseguia nem mais fazer uma posição do Cachorro Olhando para Baixo na aula de ioga sem cair, mal podia segurar uma xícara de café sem derramá-lo e tinha sido desastrada o bastante para quebrar uma dúzia de pratos na cozinha. A mulher que podia cumprir a jornada de trabalho de três dias por semana agora tinha se tornado, e sem aviso, uma lembrança distante. Era o número de repetições CAG, ela tinha dito a Aquelas Moças. Mas não tinha dito nada a Tom: ele não gostava de ouvi-la falar sobre o assunto. – Mas é só uma porcaria de número, não é? – ela disse a Steph certa noite quando estavam tomando drinques. – Como é que, com tanta gente por aí, eu tenho que ter o tipo A da doença, que pelo menos tem que ganhar todas? Pela primeira vez na vida, eu adoraria saber como é fazer algo bem devagar. No início de fevereiro, há apenas dois meses, ela estava lutando para ter um dia produtivo por semana. E foi quando Kent desistiu. Ele entrou de fininho na sala dela numa tarde, fechou a porta e disse: – Mara, temos que conversar. Ele disse que era muito mais que impressionante ela ter conseguido trabalhar por tanto tempo. E ele sempre a consideraria a pessoa mais corajosa que já havia tido a honra de conhecer. – Mas tenho que pensar na empresa como um todo – Kent explicou, os braços na altura da cintura, as palmas viradas para cima. Suplicando para que ela compreendesse sua posição. Implorando para que ela o perdoasse. – Tenho que pensar nos nossos clientes. Ele não podia mais arriscar que a doença dela, que parecia ter decidido de repente avançar mais rápido, pudesse permitir que ela se esquecesse de um prazo importante em um caso, ou de incluir um argumento vital em um parecer. – E eu sei que você também não gostaria que isso acontecesse – ele disse, e sua expressão demonstrava que estava pensando nela também, e não só na situação. – Eu sei que você jamais se perdoaria se acontecesse. Se eles tivessem em outro setor de trabalho, ele disse, um que não fosse tão dependente de perspicácia mental... E então Mara se levantou, fazendo que sim com a cabeça e forçando um sorriso, dizendo que ela compreendia, que achava que ele estava analisando a situação dela em relação aos lucros da empresa, e que o perdoava, enquanto o levava para fora da sala com toda a gentileza. – Vou combinar com a Gina para tirar minhas coisas daqui – Mara disse antes de fechar a porta por trás dele, trancá-la, cair no chão acarpetado, enroscar-se em posição fetal e chorar. Então era isso. A carreira dela tinha chegado ao fim. A vida com a qual tinha sonhado desde criança e pela qual havia trabalhado sem descanso em quatro anos de curso preparatório e três anos de faculdade de direito acabava de repente. Os títulos – advogada, litigante, sócia – que ela sempre demonstrava modéstia em citar, mas dos quais tinha tanto orgulho, não se aplicavam mais a ela. Foram necessárias duas horas para reunir forças para se levantar do chão, ir até a mesa e ligar para


Tom ir buscá-la. E uma semana para reunir a resistência emocional para ligar para Kent e discutir a logística de tudo. Ela concordou que faria a jornada de um dia por semana até conseguir empacotar as coisas de sua sala, mandar arquivos de casos antigos para o depósito e passar arquivos de pesquisa ainda relevantes para Steph e os outros sócios. No fim de fevereiro, Mara empacotou os últimos pertences pessoais e disse adeus – a seus colegas, ao escritório, à carreira à qual tinha sido tão devotada por quase vinte anos da vida e que havia planejado seguir a todo o vapor por muitos mais. No último dia, ela ficou observando Dallas de sua janela no 33º andar, admirando pela última vez a vista que tinha lhe feito companhia durante as horas intermináveis de preparação para julgamentos, elaboração de pareceres e pesquisa. Estudou o batente grosso de metal da janela e os ferrolhos que o seguravam ali. Em menos de um minuto, ela pensou, poderia abrir o ferrolho, empurrar a janela, passar pela abertura. Mas lembrou-se de sua promessa, e disse a si mesma que ainda tinha mais um tempo. Mara conseguiu se segurar ao fechar a porta da sala pela última vez. E sorriu no jantar de aposentadoria que eles organizaram para ela em um restaurante pretensioso no centro da cidade. Acenou com a cabeça graciosamente durante os discursos que Kent e os outros sócios fizeram para ela, abordando o fim inglório e prematuro de uma carreira brilhante. Ela só perdeu a cabeça em casa, primeiro nos braços de Tom e então semanas depois, quando o fato de ela continuar arrasada o deixava preocupado, e apelou para o jato potente do chuveiro, que ficou satisfeita ao descobrir que abafava até o mais alto dos choros.


20. Scott Mais tarde, Scott não conseguia mais se lembrar do que tinha ensinado nas suas aulas pelo resto do dia, nem da lição de casa que havia passado. Ele tinha uma vaga lembrança de que Pete viera até a sua sala na hora do almoço, como sempre fazia, e tinha feito uma bateria de perguntas para estabelecer a razão pela qual Scott estava encarando o chão em estado catatônico. Ele se lembrava de Pete xingando com uma lista comprida de palavrões, então tinha certeza de que devia ter contado a ele sobre a conversa com Janice, mas não se lembrava de ter dito em voz alta: “O Curtis foi embora”. Depois da aula, Scott foi andando até o carro em piloto automático e se dirigiu, como era de hábito, para a Logan. Só quando virou a esquina e viu a escola e a multidão de crianças no parquinho, ou fazendo fila para os ônibus, ou cumprimentando os pais, é que ele se lembrou de que não ia buscar Curtis hoje. Nem outro dia. Estacionou e ficou olhando as crianças saindo pela porta e invadindo carros e ônibus à sua espera e balanços, de olho em cada uma delas em busca de Curtis, e também para ver se conseguia avistar Janice ou LaDania. Ele não os viu, e esperou mais um pouco porque talvez fossem sair mais tarde, quem sabe com o diretor ou a srta. Keller para acompanhá-los e manter Curtis na linha. Os brinquedos do parquinho se tornaram um borrão em sua visão quando percebeu que eles já tinham ido e ele não tinha visto nada. Não que ver o menino a uns cem metros compensaria o fato de não levá-lo para casa. Mas pelo menos teria sido alguma coisa. Ele apertou o botão do rádio e uma música da Motown invadiu o ar. Scott não era do tipo chorão, mas ouvir Smokey de novo tão cedo fez com que suas lágrimas entrassem em ação. Ele apertou o botão de novo e dirigiu o resto do caminho para casa em silêncio. Laurie o estava esperando no hall de entrada quando ele entrou e se jogou em seus braços. – A Janice me ligou. Ela me contou tudo. Estou com tanta raiva de LaDania que seria capaz de... – Ela fez que não com a cabeça, sem vontade de dizer em voz alta, é claro, o que estava tentada a fazer com a mãe de Curtis. – Ela disse que viria aqui mais tarde para pegar as coisas dele, e eu então pedi que ela viesse naquela hora. Para que você não precisasse estar aqui. Ela saiu daqui uns minutos atrás. O que eu posso fazer? “Traga o Curtis de volta”, Scott queria dizer. Mas uma coisa era o que ele queria que ela fizesse, e outra coisa era o que ela queria que ele dissesse. E havia um abismo gigante entre elas. – Talvez um drinque? – ele perguntou. – Cerveja ou alguma coisa mais forte? – Ela o olhou de perto. – Alguma coisa mais forte em um minuto – ela disse. – Por que não vai lá para a sala e eu levo o drinque para você? Momentos depois, ela se sentou no sofá ao lado dele, estendendo-lhe o copo com uma das mãos e acariciando o joelho dele com a outra. – Mas pelo menos uma notícia boa: a Janice me disse que a LaDania deixou você levar o Curtis para ver os Caminhões-Monstro. Você pode ir buscá-lo no domingo cedo, e deixá-lo em casa a hora que for. Pelo menos vocês dois podem ter esse dia especial juntos, né?


Ele deu o sorriso sutil que ela esperava e tomou um gole. – Pensei em pedir comida delivery – ela disse. – Tailandesa? Achei que a última coisa que você fosse querer hoje era o espaguete que a gente estava... – Comida tailandesa é uma boa. Obrigado. Quer ficar sentada aí e eu ligo para lá? – Já liguei. Vai demorar uma hora. Quer que eu ligue a TV? – Vou tirar uma soneca lá em cima, se você não se importar. – Claro. – Quer vir? Ela fez que não com a cabeça e pegou um livro que estava sobre a mesa de centro. Ele o reconheceu da pilha alta de livros sobre bebês que ficavam no canto. – Quero ler um pouco. Vou chamar você quando a comida chegar. Lá em cima, ele tentou, mas logo perdeu a aposta de que conseguiria passar pelo quarto de Curtis sem olhar lá dentro. O quarto não tinha ficado tão arrumado desde que Curtis havia se mudado, e, apesar das muitas vezes que Scott tinha enchido o saco do menino para pegar as roupas e os brinquedos espalhados pelo chão, a falta de bagunça o deixou triste. A porta do guarda-roupa estava fechada, e ele adivinhou que Laurie a tivesse deixado assim de propósito, para poupá-lo de ver as prateleiras e os cabides vazios lá dentro. Laurie havia mandado Janice embora com duas malas de mão cheias até a boca, ela contou. Ela tinha se concentrado nas roupas, mas depois preencheu o espaço que sobrara com o máximo de brinquedos que conseguiu. Ao cair na cama de Curtis, ele se apoiou na cabeceira e olhou bem devagar ao redor do quarto. “Grave tudo na memória”, ele pensou, antes que Laurie chegue com as latas de tinta e tecido para as cortinas para a bebezinha. “Registre tudo. Era assim o quarto quando você tinha um filho.” Cada item do quarto vinha com uma lembrança. O Pequeno Stuart Little, que por milagre não tinha sido socado dentro das malas, veio com um milhão delas. Uma parte da prateleira estava vazia, sinal de que Laurie havia mandado alguns livros. Será que ela tinha deixado esse de propósito, porque sabia o valor sentimental que tinha para ele? Era bondade dela, ele pensou, mas o Carinha deveria ficar com o livro e a foto que estava dentro. Ele mandaria o livro pelo correio para o endereço de LaDania no dia seguinte. No batente da janela acima da prateleira ele viu alguns soldadinhos verdes, agora separados do restante da infantaria, que tinham sido empilhados sobre o tapete de mapa da cidade que agora também deveria estar dentro da mala. Ele mandaria esses caras pelo correio também. Talvez devesse fazer um inventário mais detalhado daquilo que havia sobrado no quarto; talvez mandar um pacotão para o menino. Mas pouparia o garoto de uma carta comprida e emocionada sobre quanta saudade ele sentia, e colaria um bilhete em um dos soldadinhos, alguma coisa para que Curtis soubesse que ele estava pensando nele. Sorrindo, pensou na mensagem perfeita: “Você prefere enfiar esses caras dentro do nariz ou derreter a galera até virar suquinho e beber?”. Ao encarar os brinquedinhos de plástico verde, Scott podia ouvir a voz de Curtis anunciando a próxima missão deles, que sempre envolvia salvar a cidade-tapete de seus mais novos invasores – os dinossauros de brinquedo ou algum monstro de Lego que ele tinha construído só para isso, ou o inimigo mais temido de todos: Scott, ou melhor, Sapato Gigante. “Agora escutem aqui, soldados, que a notícia é ruim. Eu sei que vocês pensaram que iam fazer um pouco mais de reconhecimento hoje à noite, mas acontece que o Sapato Gigante apareceu e é provável que tenhamos de fazer uma operação no escuro.


Vocês sabem que eu tenho um plano, como sempre. E vamos combinar que o Sapato Gigante não é o inimigo mais inteligente do planeta.” Mas o comandante tinha se dado mal rapidinho naquela noite, Scott lembrou, quando, fingindo estar ofendido, o Sapato Gigante pisou de leve em metade do batalhão verde e falou que o próximo lugar onde aterrissaria seria na mão do comandante. O comandante deu um pulo e foi para a segurança de sua cama, onde a Mão Gigante, companheira do mal do Sapato Gigante, seguiu em frente com a Tortura da Coceguinha até o comandante dar um gritinho informando que se rendia e tinha concordado em ir dormir. De pé, Scott foi até a janela e pegou os três soldadinhos, girando-os nas mãos e ouvindo os comandos gritados de Curtis, relatórios do “front”, estratégias para atacar ou sair em retirada. Pensando bem, Scott imaginou, enfiando os bonequinhos no bolso, de quantos soldadinhos o menino precisava? Ele não daria falta desses três. Mas, caso perguntasse sobre eles um dia, Scott os deixaria na gaveta do criado-mudo por um tempo. Ele poderia sempre mandar os brinquedos pelo correio se ele quisesse e, caso contrário, achou que o Comandante Jackson aprovaria instalar uma pequena unidade armada em sua gaveta para proteger seu relógio e uns trocados. Aliás, Scott pensou, estendendo a mão para pegar O Pequeno Stuart Little da prateleira, fazia sentido mandar o livro pelo correio? E se o menino perdesse o interesse no rato, como com certeza aconteceria? E se o livro ficasse abandonado em algum armário na casa de LaDania, apenas para ser jogado sem sentimento algum no lixo um dia, fosse por uma mãe que não tinha a menor ideia de seu significado para o menino, fosse pelo menino que de repente tinha ficado legal demais para gostar de uma história tão infantil? E se a foto tivesse o mesmo destino? E é claro que teria. Ele tirou o papel que fazia as vezes de marcador, como Curtis tinha feito na noite passada, e passou o dedo indicador pelo contorno das duas figuras. Na verdade, era mais como uma figura de duas cabeças: eles estavam tão juntinhos em sua pose de hora de dormir que ficava difícil saber onde um começava e o outro terminava. Scott pensou na expressão melancólica no rosto de Curtis quando ele tinha segurado a foto na noite anterior, e então imaginou a cara de vergonha do menino dali a um ano, ao ver como ficava agarradinho na hora de dormir com um homem que nem seu parente era. É claro que a foto estaria a caminho da lixeira se ele a enviasse pelo correio. Aquele pensamento quase deixou Scott nauseado, mas ele disse a si mesmo para deixar de drama. Por quanto tempo poderia esperar que uma criança se lembrasse de seu nono ano de vida? Fechando os olhos, tentou se lembrar de uma coisa que havia feito quando tinha aquela idade. Foi quando ganhou uma camisa dos Detroit Lions no Natal e insistiu em usá-la por cima do terno que a mãe o fazia vestir para ir à igreja. Mas ele tinha nove ou dez anos? Ficou pensando na escola onde fez o ensino fundamental e se esforçou para lembrar onde ficava sua sala. Segundo andar, na parte da frente – ou naquele ano ela ficava no térreo, perto da secretaria? Ele interrompeu o exercício sem se forçar a relembrar os nomes da professora ou de qualquer amigo da época. Aquele ano tinha sido inesquecível para Scott, mas isso não garantia que seria o mesmo caso para o menino. Na verdade, na melhor das hipóteses, aquele ano não teria uma fração de toda essa importância para Curtis. É claro que Scott era uma figura heroica agora, mas e dali a cinco anos? Ele continuaria profundamente afetado pela ausência do menino de seu quarto com móveis de carvalho, mas, lá em Detroit, será que o nome Scott Coffman evocaria um herói ou apenas uma lembrança nebulosa? Colocou o livro no bolso de trás da calça. Ele se juntaria à unidade do exército que ia morar na gaveta de seu criado-mudo. Decidindo que era melhor não forçar nada, Scott deixou a porta do guarda-roupa fechada e ficou olhando o restante do quarto. Laurie colocaria a cadeira de balanço para a bebê, e por ele tudo bem. Fora


aqui que ele tinha aprimorado suas habilidades de pai – sentado ali com Curtis uma noite quando uma terrível dor de ouvido não deixara o menino dormir. “Eu sou grande demais para você me fazer dormir”, o garoto reclamara com uma vozinha fraca antes de pousar a cabeça no ombro de Scott e cutucando seu braço, até que Scott o colocara ao redor do menino e o puxara para perto. “Não vou contar para ninguém”, Scott tinha sussurrado. Ele não sabia quantas horas tinha passado naquela cadeira nos últimos doze meses, segurando listas de palavras para Curtis praticar sentado sobre o tapete do mapa da cidade, tentando dizer as letras na palavra certa, ou ouvindo alguma história que o menino precisava mostrar como tinha acontecido, com a cama, o chão debaixo da cama, a parte de dentro do guarda-roupa e o colo de Scott compondo o palco. Nas poucas vezes em que Curtis tinha ficado doente, ou com saudade da mãe, ou triste sem explicação, ele pedira a Scott para “ficar comigo até eu dormir”. Naquelas noites, Scott corrigia trabalhos da escola ou conversava com mãedalaks e os outros no fórum, muitas vezes descrevendo a imagem e os barulhos que o menino fazia a alguns metros de distância. “Você é um pai nato”, 2meninos tinha comentado uma vez, em uma rara demonstração de sinceridade. Fora antes de Scott e Laurie terem visto o resultado positivo do teste de gravidez. “Tenho certeza de que você vai ser pai de verdade um dia,” 2meninos tinha escrito. “O universo não pode jogar fora um cara como você.” Naquela noite, Scott havia sugerido para Laurie a adoção de uma criança mais velha. Mãedalaks o havia alertado de que os custos da adoção de um bebê não eram muito diferentes daqueles de um carro esportivo importado da Europa. Mas eles já tinham gasto suas economias na FIV, e ainda faltava pagar mais uma parcela. Se não funcionasse, não teriam a opção de adotar um bebê. Mas, além do dinheiro, para Scott seria uma ideia natural adotar uma menina ou um menino mais velho, uma criança de alguma instituição local. Salvar uma criança que caso contrário poderia definhar no sistema e, além disso, ter uma família na hora, sem ter que esperar. Era simples. Afinal, a questão ali era se tornarem pais, certo? Não importava como a criança chegasse até eles. Mas acontece que se tornarem pais não era a única questão para Laurie. Ela queria ser mãe do próprio filho. A adoção não era um plano B para ela, Laurie disse a ele – era o plano Z. Todas as outras opções teriam que ir para o beleléu, e então mais uma vez, para que ela considerasse a adoção. E adotar um bebê. Uma criança novinha demais para trazer qualquer bagagem emocional. Depois que uma criança já tinha um ano ou dois, era tarde demais – as “malas emocionais” já estavam feitas, e muitas vezes cheias a ponto de estourar. – Essas crianças não vêm de famílias felizes, sabe? – ela tinha dito a ele. Ouvira histórias horríveis sobre crianças adotadas com dificuldades para se afeiçoar, barreiras emocionais, terrores noturnos. Sobre mentiras, roubos. Crianças testando as regras o tempo todo, brincando com os limites. E ela sempre tinha sonhado em ter um bebê. Imaginado, planejado e até criado um quartinho especial para ele em sua mente. Tudo arrumadinho no pequeno quarto no alto da escada, até que ele crescesse o bastante para ter uma cama em um dos outros quartos. E era nisso que ela apostava suas esperanças: em bebês gordinhos e rosados. Ele não deveria mais ter tocado no assunto. Foi o que o Pete havia lhe dito mais tarde, quando Scott descrevera o choro, a bateção de porta e a semana que ele passara dormindo no sofá. As coisas que ele jamais deveria ter dito. Pense em toda a decepção que ela sofreu, Pete tinha dito, e como ela lidou com tudo de uma maneira incrível. Será que Scott fazia alguma ideia de como tinha sorte? Ele não tinha ouvido falar das


separações potenciais por causa de infertilidade? Esposas culpando maridos, vida sexual inexistente, casamentos que acabavam? Por que, Pete perguntara, Scott estava brincando com a sorte daquele jeito, continuando a pressionar a esposa com aquele assunto? Mas ele não conseguia se controlar. Ficava imaginando crianças, meninos de cinco e dez anos que nunca souberam o que era ser querido ou pertencer a uma família. E ele sabia o que acontecia com essa criançada mais tarde: passava de carro por eles todos os dias no caminho do trabalho para casa. Jovens violentos com expressões vazias, de olho nele no farol, e na rua para ver se não havia policiais por perto, calculando se tinham tempo o bastante para falar com ele, vender um saquinho de maconha, bater a cabeça dele com tudo no volante e levar sua carteira, o carro. Jovens que poderiam ter tido uma vida muito diferente. E era por isso que ele tinha insistido, muito tempo depois de quando já deveria ter parado com essa história. Mesmo que a FIV funcionasse desta vez, ele argumentara, talvez eles devessem adotar uma criança mais velha também, ou começar a acolher crianças em caráter temporário. Ela teria o bebê que queria, e eles também poderiam ajudar crianças que não tinham ninguém. Mas essa discussão não havia levado a nenhum lugar. Ele era o único que se sentia responsável por salvar cada criança negligenciada em Detroit, ela disse. Não ela. E ela não gostava nada dessa indireta de que deveria se sentir como ele. Que implicava que, de alguma forma, ela estava errada ou era egoísta demais por ter os próprios desejos. Por não compartilhar seu complexo de salvador da pátria. “Esse maldito complexo de salvador da pátria”, era como ela tinha dito, na verdade. Ela estava sacrificando o marido para a causa das crianças abandonadas de Detroit, ela disse a ele, sem cerimônia, e sua amargura já havia se instalado. Ele passava mais tempo na Franklin que em casa, e mais tempo inventando treinos de basquete que em noites românticas com a mulher. Ela já havia chegado ao limite. Também tinha o direito de ter o próprio sonho. Mesmo depois que Laurie deixou Scott dormir na cama de novo, foram necessárias mais duas semanas para que ela o deixasse tocar nela mais uma vez.


21. Mara Mara passou a mão pelos olhos, guardou o celular na bolsa e olhou para o parquinho da escola. Ouviu um barulho e viu a janela de vidro escuro ao lado de sua cabeça começar a baixar. – Não! – Ela se escondeu indo para a frente, com a cabeça sobre os joelhos. – Quer dizer, não, obrigada. Não quero que ela veja... Ela ouviu Harry se virar em seu banco e pensou que ele deveria estar de olho nela, imaginando o que havia de errado com aquela mulher. Todos os olhares de cara feia e chiados, e agora isso: loucura completa. Mas o taxista não disse nada, e ela ouviu o banco dele se mexer enquanto ele se virava para a frente, e outro barulho enquanto a janela subia. Por quinze minutos eles ficaram ali em silêncio, vendo as crianças brincando. A criança brincando. Laks subiu as escadas até o topo do escorregador, escorregou com tudo, subiu de novo e fez a mesma coisa várias vezes. Quando ela e Susan resolveram ir para o espirobol, seu short cor-de-rosa já estava encardido no bumbum. Elas gritaram ao lançarem a bola e não conseguirem acertá-la, e tentaram mais uma vez sem sucesso. Depois, as duas saíram correndo para o trepa-trepa do outro lado do parquinho. Mara queria gritar: “Não corra de chinelo, menina!”. Ainda bem que Laks conseguiu não cair de nariz no chão ao correr a toda a velocidade com os chinelos gastos de borracha que mal ficavam presos aos pés. Mara fez que não com a cabeça; ela já tinha tropeçado nos próprios chinelos várias vezes naquele dia, e isso andando devagar. Minutos depois, as duas meninas estavam no escorregador de novo. E então foram para os balanços, onde apoiaram a barriga no assento e fingiram ser o Super-Homem. E agora a frente da camiseta da menina combinaria com o short, Mara pensou. Ela nem queria imaginar a cor dos pés da filha. Tinha deixado Laks escapar do banho na noite anterior, e muitas outras noites também, nos últimos tempos, porque havia ficado mais difícil para Mara ficar se ajoelhando e levantando sem perder o equilíbrio. E não queria admitir isso a Tom. Ela encontraria uma desculpa para pedir a ele que desse banho em Laks naquela noite: aqueles pés não poderiam passar mais um dia sem água quente e sabão. Na verdade, depois do começo de abril, o banho da noite não deveria mais ser negociável. Será que ela deveria anotar aquilo para Tom? Mara já havia ditado uma longa carta para ele e outra para Laks. Elas estavam devidamente arquivadas em um drive protegido por senha em seu laptop, prontas para serem impressas no domingo e deixadas sob o travesseiro de Tom para que ele as encontrasse ao voltar de sua corrida. Ela havia pensado em deixar uma série de cartas para eles, uma para ler a cada aniversário, talvez. Mas então ouviu um programa na rádio pública a respeito de uma mãe que tinha feito a mesma coisa, deixando uma carta para sua filha ler a cada ano, com vários conselhos aqui e ali, e elas tinham se tornado mais um fardo para a filha que na verdade um presente. A cada ano, a filha leria sobre o tipo de vida que a mãe havia imaginado para ela, a faculdade que faria, a carreira que seguiria, o tipo de marido que escolheria. Quando a previsão da mãe não era igual à realidade da filha, a menina passava semanas em depressão por culpa, achando que tinha decepcionado a mãe. Ou até pior: com raiva porque a mãe havia jogado


para cima dela todas essas expectativas com base na menina que ela tinha sido anos antes, e não naquela que havia se tornado. As cartas não deixavam nenhum espaço para que a filha crescesse do seu jeito. Mara não faria aquilo com a própria filha, nem com o marido. Ela deixaria uma carta para cada um dizendo quanto os amava, e como havia tido sorte em fazer parte da vida deles por um período breve, porém glorioso, e como ela ficaria feliz por eles, não importando o que fossem fazer. E não deixaria instruções demais para Tom, ela havia decidido agora, enquanto Laks e Susan faziam do descer do balanço uma performance dramática, os rostos corados, o cabelo molhado de suor, as roupas e a pele cheias de areia. Ela deixaria apenas algumas dicas, como se fosse viajar a trabalho – pequenos detalhes logísticos que tornariam a vida dele mais fácil. Mas as questões maiores, como Cuidar e Alimentar Lakshmi, ela deixaria aos cuidados dele. Deixaria que ele fosse persuadido pelas negociações para evitar banho no começo de abril ou até mesmo até a metade de julho. Ele aprenderia, quando o “corpo matutino” o atingisse com toda a força na manhã seguinte e os pés sujos dela deixassem marcas no lençol. Mas ele ficaria bem, ela disse a si mesma. Ele se atrapalharia da mesma maneira que ela, e talvez de algumas maneiras novas. Mas ficaria bem. Um apito ecoou e o barulho fez com que Mara batesse a mão no plástico duro da porta ao seu lado. Ela xingou baixinho, enquanto o enxame de crianças em idade pré-escolar fazia seu caminho dos brinquedos do parquinho para a porta da escola, onde um ajudante estava balançando os braços para direcioná-los a formar fila. Como aqueles funcionários do aeroporto na pista de decolagem. Esfregando a mão, ela xingou baixinho de novo a incapacidade de seu sistema nervoso de lidar com barulhos altos. – Passou tão rápido – Harry disse. – Quando eu era criança o recreio era de meia hora. – Para mim também – ela respondeu, esticando o pescoço para enxergar o relógio no painel do carro. – Hum, o taxímetro parou quando você desligou o carro. Você poderia acrescentar esses quinze minutos? – Posso – mas não o fez. – Harry, você não ganha a vida com as corridas? – Ganho. – Bom, aqui está o negócio, meu amigo. Motoristas de táxi ganham dinheiro com o taxímetro. – Hum – ele fingiu pensar no assunto por um minuto. – Boa dica. Mas esse desvio não vai acabar comigo. – Bom – ela disse –, e se eu quisesse que você me trouxesse direto para cá um dia? Não como desvio, mas como destino final? Você deixaria o taxímetro correr, não? Ou será que eu preciso ligar para outra pessoa, se quiser fazer isso? Alguém que me deixe pagar? – Você ligaria para outro motorista? – Ele enfiou uma faca imaginária no peito. – Não, a não ser que precise. Não quero que você me traga aqui de graça. – Quando? – Amanhã? – Combinado. – Você vai ligar o taxímetro? – Ela apontou para a máquina. – Você vai ligar só para mim? – Combinado. – Ela sorriu, estendendo a mão para ele. – Combinado. – Eles apertaram as mãos. Harry deu a partida no carro, fez um sinal de joinha para ela,


deu um sorriso largo no espelho retrovisor e seguiu em frente. Harry bateu com um dos dedos grossos na janela ao parar em frente à casa. – Parece que você tem visita. Mara deixou o dinheiro da corrida no painel ao lado dele antes de olhar pela janela e ver seus pais parado à porta da frente, Neerja segurando uma caçarola, Pori um saco plástico com as ilustrações características do mercado indiano Agarwal. – Você vai dar uma festa hoje à noite? Parece que já tem companhia e eles trouxeram a janta. – Não, nada de festa. São os meus pais. Eles sempre acabam descobrindo que fizeram comida demais sem querer. E sempre, de maneira muito conveniente, na quantidade exata para minha família. Acho que eles compraram coisa demais sem querer no mercado também. Ele fez que não com a cabeça e deu uma risadinha. – Hum.... Eles ganharam a filha errada, né? Com certeza não ganharam o tipo de filha que leva a janta para eles. Mara deu risada. – Tem razão. Não sei por que, mas eles não conseguiram descobrir em 42 anos o que você descobriu em 24 horas. – Você quer seguir viagem? – Ele pousou a m��o sobre o câmbio, pronto para engatar a primeira marcha e ir embora com ela. – Ah, não! E eu não deveria ter sido tão mal-educada. Eles são maravilhosos, e só querem o nosso bem. Mas eu ia fazer o jantar hoje. Sou bastante – ela bateu a mão com tudo no assento – capaz – mais uma batida no assento – de fazer o jantar. – Ela lançou um olhar determinado para o espelho retrovisor, tentando provar algo em silêncio para os pais: ela não era inútil. Eles precisavam parar de tratá-la como se fosse. Também precisavam parar de tratá-la como se fosse de vidro, Mara pensou, lembrando-se do que havia acontecido na última visita deles. Tinha sido alguns dias antes, no fim de semana. Pori e Neerja tinham vindo almoçar (e trouxeram o almoço, é claro), e então levaram Laks para tomar sorvete e dar uma voltinha. Nem uma hora depois, eles trouxeram a neta de volta para casa. Mara pediu que a menina guardasse suas Barbies e a resposta foi um “tá, mamãe” todo animado. Mara revirou os olhos e foi marchando direto para o quarto deles para encontrar seu marido e reclamar com ele. Tom olhou para ela cheio de curiosidade, e ela o lembrou de que, se Laks estivesse agindo de acordo com a própria natureza, a resposta teria sido: “Posso guardar mais tarde, mãe?” ou: “Mas eu vou brincar com elas de novo daqui a pouco” – respostas bem normais e esperadas para uma menina da idade dela, em especial aquela menina. “Tá, mamãe” não era normal. Agora eles tinham uma Miss Perfeitinha em casa, Mara disse a Tom, e ela sabia muito bem quem estava por trás daquilo. Por coincidência, a rotina de Miss Perfeitinha da filha sempre parecia começar depois que ela tinha passado um tempo com os avós. A menina não conseguia levar aquilo adiante por muito tempo, é claro, e Mara ficava grata por isso. Laks era incapaz de durar mais que meio dia no modo “sim, senhora” antes de abandonar o script e agir como ela mesma de novo, brigando com a mãe por causa das coisas mais ridículas. Mas aqueles meios dias com a Miss Perfeitinha a deixavam louca da vida; quando aconteciam, Mara mal reconhecia a filha naquela criança falsa e atenciosa perante ela, perguntando se havia qualquer coisa que ela pudesse fazer para ajudar e se oferecendo para carregar isso ou pegar aquilo. Tom tinha dado de


ombros, sem forças para achar que havia motivo para se preocupar. Laks estava crescendo, ele disse. Crianças não são respondonas para sempre. Mas Mara estava de olho nele, ela avisou, e também de olho nos pais. Laks não tinha amadurecido quinze anos em alguns meses, e todo mundo sabia disso. É que ela estava sob as ordens rígidas dos avós, com o óbvio consentimento do pai, para nunca discutir com a mãe doente. E aquelas ordens precisavam ser rescindidas de imediato. Mara não era inútil, nem feita de vidro. Ela não precisava ser ajeitada sobre travesseiros macios enquanto seus pais tomavam conta da casa para ela, e não se espatifaria se alguém discutisse com ela. E Pori e Neerja, querendo ou não, precisavam enfiar isso na cabeça. Mara acordou do sermão imaginário que estava passando nos pais com o barulho de Harry tirando o cinto de segurança. Quando ele ofereceu a mão para ela sair do carro, ela disse: – Não me ajude, Harry. Por favor. – Ah, com certeza seu pai vai querer vir e andar com você até a porta. – Ele vai querer, mas vai pensar duas vezes, pelo menos. Ela tirou o cinto de segurança, mas não se mexeu para sair. – Você deve achar que eu sou louca, deixando você me ajudar quando não tem ninguém por perto, mas não quando tem gente. Ou até mesmo egoísta, deixando um total estranho me levar até em casa na segunda-feira, como deixei você, mas não o próprio pai. Harry pigarreou e ela olhou para cima para encontrar os olhos dele no espelho retrovisor. – Eu não fui sempre motorista de táxi – ele disse. – Antes eu era... – ele fez uma pausa. – Algo mais. Anos atrás, em Tulsa. Então ele desviou os olhos por um momento e olhou para o para-brisa. Mara achou ter visto saudade no perfil dele, e ficou pensando se ele estava pensando no jeito como as coisas eram naquela época, quando ele era “algo mais”. Ele encontrou os olhos dela no retrovisor de novo e continuou: – Quando tive que mudar de vida e ser motorista de táxi, não quis trabalhar lá porque todo mundo já me conhecia como... como outra pessoa. Alguém melhor. Então eu vim para cá, onde ninguém nunca tinha me visto na vida. – As pessoas daqui não olham para mim do jeito que as pessoas que me conheciam me olhavam, quando eu era... tão mais. Elas não ficam com essa... coisa nos olhos, esse olhar que mostra que é tão triste ver a que ponto eu cheguei. – Ele fez cara feia como se estivesse vendo os olhares de pena que tentava evitar. – Porque elas não me conhecem. Se eu tivesse que fazer isso em Tulsa, ver a cara daquele povo o tempo todo... – Ele fez que não com cabeça. – Então, não. Eu não acho que seja louca. Nem egoísta. Isso era coisa de um cara lá de Tulsa, que não conhecia você na época, e não olharia assim para você. – Jesus – Mara disse, sem conseguir acreditar. – Você era psicólogo em Tulsa? Barman? Padre? Leitor de mentes? – Ah – ele riu. – Não. – Harry? – Hum? – Sinto muito pela coisa que aconteceu e fez você ter que mudar de Tulsa para cá. – Hum – ele disse, desviando o olhar por um segundo. – Não tem importância.


– Ah, não adianta fingir. – Ela piscou para ele, e então abriu a porta com tudo e lutou para sair do carro. Ela bateu na janela do lado de fora e ele abriu o vidro. – Sabe – ela disse –, estou exagerando um pouco esta semana. Você viu o meu estado na segunda-feira, na primeira vez que tentou me ajudar. Em geral eu não paro de chiar, como aconteceu com você. Então, não é que eu sempre deixe estranhos me ajudarem, mas não os meus próprios pais. Ele sorriu: – Então eu sou sortudo. – Ah! – ela riu. – Se você acha que sim... – Bom, é o que eu acho. – Ele pegou o diário de bordo e uma caneta do painel do carro e se ajeitou para escrever alguma coisa. – À mesma hora amanhã? – Na verdade, que tal às quinze para as onze? O recreio da manhã é às onze. Ele fez que sim com a cabeça, anotando. – Vou tocar a campainha. E aproveitar a chance de ajudar enquanto você exagera um pouco esta semana. – Tenho certeza de que sim. – É capaz de eu ser tão teimoso quanto você. – Eu diria que é bem possível. – Ela sorriu. – Mas pode ser a explicação para nós sermos tão... – ela deu de ombros e olhou por cima do topo do carro, sem saber se deveria mandar seus pensamentos sobre ele para o ar, onde ele pudesse ouvi-la. Era ridículo se sentir tão próxima de alguém que ela mal conhecia. E mais ridículo ainda dizer isso em voz alta. – É – ele disse. – Pode ser. – Marabeti! – Neerja chamou da porta da frente. Mara se virou para acenar para eles enquanto Neerja estendia o braço para segurar Pori, que fez um movimento instintivo em direção à filha. – Oi, filha – ele disse. – Sua mãe e eu queremos saber se vocês podem ficar com um pouco dessa comida antes que estrague. Mara se virou para Harry, que deu a ela um sorriso do tipo “não falei?”, e então tirou o braço da janela e acenou antes de partir.


22. Mara Os pais dela eram um par interessante. Eles tinham exatamente a mesma altura e, como sempre, estavam mais vestidos para um coquetel do que para entregar uma comidinha rápida. Pori estava usando uma calça cáqui passada a ferro, sandálias e uma camisa de seda, e Neerja um vestido de linho. O vestido dela era do mesmo lilás da camisa dele; era uma coisa engraçada que tinha começado anos atrás e da qual eles não desistiam. Pelo menos ela não tinha prendido o cabelo com uma fita lilás – quer dizer, não desta vez. E aquele era o único lugar onde não combinavam: o pouco cabelo que sobrava em Pori era completamente grisalho, enquanto a trança comprida usada por sua esposa era pelo menos um quarto preta. – Viemos rapidinho – Neerja disse. – Para trazer para vocês um pouco de moorgh e arroz e algumas samosas extras que compramos no Agarwal. – Ela mostrou o saco plástico. – Não vamos ficar muito. Mas estou louca para mexer no jardim. Estou vendo algumas ervas daninhas que poderia arrancar… – Ela deixou sua frase terminar sozinha ao estudar o jardim, sem dúvida fazendo uma anotação mental de como direcionar o ataque. Mara fez cara feia. Eles não tinham planejado passar a aposentadoria assim. Sempre falavam em viajar. Os dois sempre levavam folhetos para mostrar para Mara e Tom – as ruínas astecas que queriam ver, o passeio de barco em Veneza que sempre sonharam em fazer, os fiordes noruegueses que mal podiam esperar para fotografar. Eles se debruçavam sobre guias turísticos na biblioteca, faziam listas de seus vinte destinos preferidos, passavam horas mexendo nela, refinando-a. E então Mara ficou sabendo que seu número de repetições CAG era 48, e eles pararam de trazer folhetos. E começaram a trazer panelas de comida e compras, ferramentas para o jardim e produtos de limpeza para o banheiro. Mara tinha tentado evitar que seus pais a ajudassem desde o ensino básico, insistindo que eles a deixassem “fazer isso sozinha”, fosse o que fosse. Ela se opunha tanto a ser tratada como uma criança incapaz de novo quanto a vê-los sacrificando seus anos de descanso por ela. Então, fez sugestões de leve sobre como eles não precisavam ficar responsáveis por toda a comida nem a limpeza da casa, nem pelo jardim; ela ainda conseguia tomar conta de tudo sozinha. Quando não funcionou, ela começou a apelar para que não fizessem tudo, mas também não deu certo, então ela se viu obrigada a dar ordens explícitas para que parassem com aquela palhaçada, parassem de tratá-la como se não fosse capaz de cuidar da própria casa. Eles prometeram que parariam, mas tudo o que fizeram foi mudar de tática. Não é que eles a considerassem incapaz, disseram; simplesmente tinham saudade de passar o aspirador em uma casa de verdade agora que moravam no apartamentinho para o qual tinham se mudado depois de aposentados. Eles sentiam tanto prazer em passar a máquina sobre os tapetes na casa dela, só para relembrar os velhos tempos. Além disso, era bom que não ficassem parados naquela idade, e havia exercício melhor do que arrancar ervas daninhas do jardim? E quanto à comida, todo mundo sabia como era difícil cozinhar só para duas pessoas – era bem mais fácil preparar porções maiores e dividi-las. E Mara sabia que era assim que as coisas seriam de agora em diante. Porque eles jamais, nem menos por uma semana, deixariam sua filha doente. E, quando ela morresse, as ruínas astecas teriam que ser riscadas da lista porque eles não poderiam mais andar tanto. O passeio de gôndola também, já que não


conseguiriam mais se equilibrar para entrar em um barquinho instável. Se houvesse um curso de “Fazer sacrifícios para quem se ama sem reclamar”, as duas pessoas que estavam na varanda de Mara neste momento seriam os professores mais bem qualificados do mundo. Mara esperava que mais tarde eles não fossem pensar que, ao demonstrar tamanho desapego para a filha, teriam inspirado a promessa que ela tinha feito a si mesma anos antes. Ela esperava que eles fossem achar suas ações egoístas e covardes. Que eles nunca percebessem que, por mais que ela não quisesse viver mais com DH, Mara não queria que eles vivessem com a doença também. Tentar aguentar firme até o fim, e isso sem dúvida era o que eles queriam que ela fizesse, não mudaria o fato de que eles acabariam vivendo mais que a própria filha. Se ela resolvesse aguentar até o fim, apenas aniquilaria qualquer oportunidade para eles passarem o resto da vida como tinham sonhado. E da maneira que mereciam, depois de tudo que tinham feito por ela. E ela não tiraria isso deles. Nem pensar. Na varanda, ela deu um beijo nos dois antes de procurar as chaves na bolsa. A chave se recusava a ficar quieta por um momento para entrar na fechadura e, antes que ela pudesse protestar, seu pai se libertou da mãe e ajudou Mara a colocá-la no lugar certo. Ele entrou na casa primeiro e estendeu uma das mãos para Mara, e então para a esposa passarem pela porta. – Ah, para com isso, Pori – a mãe protestou, revirando os olhos para Mara de modo exagerado e numa demonstração totalmente falsa de desaprovação do marido. Ela passou a caçarola para ele, forçando-o a sair do lado de Mara. – Pegue isso aqui, ó, e, por favor, coloque a caçarola sobre o balcão e deixe a mulher entrar em paz na própria casa. Deixe a sacola aqui e pode deixar que eu a levo depois. Sua mãe estava tentando fazer a voz soar irritada, mas Mara detectou o carinho nos olhos daquela senhora e, antes de Pori se virar, Neerja transformou a cara amarrada em um sorriso. – Obrigada, Puppa. Virando-se para Mara, Neerja juntou as mãos e as colocou debaixo do queixo enquanto inspecionava a sala de estar. – A casa está linda como sempre, Beti. Era uma mentira sem tamanho, é claro, e Mara sabia que, no segundo em que saísse da sala, sua mãe tiraria o pó rapidinho com o espanador, e de olho na porta para não ser pega de surpresa. – O que tem na sacola, mãe? – Mara perguntou, fazendo cara feia. Ela já tinha dito à mãe para parar de perder a tarde cozinhando para a família de Mara. – Ah, só umas samosas – Neerja respondeu com cara de culpada. Logo, ela completou: – Mas compradas, é óbvio, e não feitas em casa. Eu só fiz a comida que está na caçarola. Mara arqueou uma sobrancelha e sua mãe disse: – Desculpe. Mas é o prato favorito da Laks e seu pai insistiu em trazer... – Tudo bem – Mara suspirou. Pelo menos as samosas não tinham sido feitas em casa. – Vamos colocar tudo na cozinha, e sirvo uma taça de vinho para você e o pai. Antes que Neerja pudesse sugerir que Pori servisse o vinho para evitar o desastre iminente, que aconteceria enquanto Mara tentava segurar uma garrafa pesada, a voz de Steph ecoou da porta: – Alguém acabou de oferecer um drinque, é isso mesmo? – Ela olhou desconfiada para Neerja. – E ninguém disse “sim”? Gina vinha atrás de Steph, bem mais baixinha e bem mais gordinha que a amiga, tão alta e elegante.


Elas eram como uma dupla de desenho animado, Mara pensou: Steph loira, alta e confiante e sua parceira achatadinha, morena e tímida. Mara tinha conhecido Steph quase vinte anos antes, no primeiro dia da faculdade de direito na SMU, durante a orientação e, por acaso, elas haviam se sentado lado a lado no auditório para ouvir o discurso de boas-vindas do diretor. Daquele momento em diante, tornaram-se quase inseparáveis, para a alegria e às vezes leve irritação de seus maridos. Elas passavam horas juntas na biblioteca da faculdade de direito, debruçadas sobre livros de casos e anteprojetos. E entravam em pânico juntas na hora dos exames finais. Comemoraram juntas ao passarem no exame da ordem. Foram comprar terninhos juntas para as entrevistas de trabalho quando chegou a hora de trocar as calças de moletom e mochilas por pastas e sapatos de salto alto. Elas tinham feito estágio juntas durante o verão na Katon Locke ao final do segundo ano, e naquele mês de agosto sentaram-se na varanda do apartamento de Steph com uma jarra enorme de Long Island Iced Tea, lendo as cartas de ofertas de trabalho uma da outra, e apenas “consultando” os maridos depois que já tinham decidido, juntas, as ofertas que aceitariam. Durante seus quase vinte anos juntas na empresa, elas haviam tido incontáveis “reuniões” no banheiro feminino ou em suas salas para discutir como lidar com promotores com uma oposição cáustica e como microgerenciar clientes. Ou para reclamar de suas secretárias incompetentes. Mara sempre tentando “fazer dar certo” com toda a paciência antes de mandálas de volta para a reserva de secretárias do escritório com toda a gentileza, e Steph geralmente preferindo a estratégia de “a porta da rua é serventia da casa” sem maiores rodeios. Elas tinham julgado casos juntas. Tinham feito cartas uma para a outra à mesa durante as reuniões intermináveis da ordem e naqueles almoços insuportáveis de prática de litígio. Eram madrinhas dos filhos uma da outra e Mara estava na sala de parto quando Steph teve Christopher e, dois anos mais tarde, Sheila. Steph estava esperando na casa de Mara e Tom às três da manhã, com o café feito, um freezer cheio de pratos congelados e uma mesa coberta de coisas para bebês quando eles chegaram da Índia com a bebê Laks. – Oi, Sra. Sahay – Gina cumprimentou com toda a educação, estendo a mão para Neerja enquanto Steph abraçou a mulher com tudo, deu um beijo em sua bochecha e disse: – Mãe! Cadê aquele seu marido bonitão? – Olá, meninas! – disse Neerja. Ela juntou as mãos mais uma vez e as colocou sob o queixo ao ver as duas cumprimentando Mara com beijos e abraços. – Adoro ver Aquelas Moças juntas. – Ela se virou com uma cara de preocupação para Mara. – Vivo esquecendo que não deveria mais usar esse termo. A Lakshmi ainda não chegou em casa, né? Mara fez que não com a cabeça. – O Tom foi buscá-la na escola e a levou para comprar sapatilhas novas para o balé. Ela quase foi expulsa na semana passada, ou pelo menos foi a história que ela contou, por causa das “sapatilhas caindo aos pedaços”. Mas ela não liga mais se a gente disser “Aquelas Moças”. Ela ficava brava quando a gente dizia “Aquelas Senholas”. – Ah, é mesmo – sua mãe disse. – Eu sabia disso. Bom, mas eu e seu pai vamos indo, então, para você pode ficar à vontade com as suas amigas. – Fiquem, por favor – Mara disse, fazendo um gesto para Steph e Gina. – Elas querem ver vocês dois também. E eu acho que a Steph já sentiu o cheiro das samosas. – Samosas? – Steph perguntou, os olhos brilhando. – Onde? Neerja mostrou a sacola, toda orgulhosa, e o coração de Mara se partiu ao ver como sua mãe tinha


ficado feliz ao ser elogiada, e nĂŁo criticada, por ter trazido comida.


23. Scott Depois da audiência em abril passado, Scott tinha levado Bray e Curtis para o apartamento de LaDania para pegar as coisas de Curtis. Pichações cobriam cada palmo de tijolo no complexo, e parte das portas e janelas também. Parecia haver apenas um carro funcionando no estacionamento. Os outros não tinham uma roda ou duas, ou seus eixos pelados estava apoiados sobre blocos de alvenaria. Alguns carrinhos de supermercado enferrujados dominavam uma vaga e havia uma mesa de piquenique em outra – com três adolescentes de cara feia sentados sobre ela, os pés sobre os bancos, garrafas embaladas em papel pardo nas mãos. Eles disseram “Ei!” para Bray quando ele, Scott e Curtis saíram do carro. Bray respondeu um “Ei!” e, em voz baixa para Scott: “Tranque o carro”. O cheiro no corredor deixou Scott nauseado: uma mistura de suor, vômito e urina. As pichações continuavam nas paredes internas e pela escada. O fedor também subia os degraus, e o espaço confinado só servia para deixá-lo mais forte. Scott ficou feliz por Laurie não ter ido junto. Ao longo dos anos, ele já havia dado carona para Bray várias vezes, mas nunca tinha entrado. Ele sempre se oferecera para levar Bray até a porta, mas o menino era rápido ao recusar a oferta. Scott sabia o porquê, mas nunca imaginara que fosse assim tão ruim. Quando Bray destrancou a porta do apartamento da mãe, o cheiro de leite azedo atingiu Scott antes que ele pudesse ver qualquer coisa. Era pior que o vômito e a urina no corredor. Quando Bray acendeu a luz, Scott viu pelo menos meia dúzia de baratas passarem correndo pelo balcão e pelo chão. – Visita – Curtis anunciou sem cerimônia, enquanto tentava não pisar nelas. – Ele nunca quer matar nada – Bray disse a Scott. – Mas elas não podem ficar aqui, Curtis. Cadê aquelas armadilhas que eu comprei? O menino deu de ombros e Bray assustou as baratas do balcão e pisou nas que conseguiu pegar. Algumas fugiram pela fresta entre o balcão e o pequeno fogão engordurado. Curtis as viu indo embora, parecendo satisfeito por terem se salvado. Scott observou o restante da cozinha, que estava cheia de pratos sujos. Havia uma caixa de cereal derrubada sobre o balcão, com o conteúdo esparramado. Uma banana preta e fedida estava por perto e, ao lado dela, a fonte daquele odor tão ofensivo: uma caixa meio vazia de leite. Bray fez que não com a cabeça, com nojo, mas pousou a mão com delicadeza sobre a cabeça do irmão. – Curtis, você tem que arrumar as coisas. Lembra de quando eu mostrei para você? Ele pegou o leite, colocou alguns pratos sujos do outro lado da pia e esvaziou a caixa no ralo. Mas, ao ligar a torneira para mandar tudo embora com a água, apenas um barulho metálico saiu da torneira. Ele se virou para o irmão com uma cara de dúvida. – Foi por isso que não lavei a louça – Curtis disse. – Faz tempo que a gente está sem água. Bray suspirou e se virou para Scott. – Foi por isso que eu escolhi a Michigan entre todas aquelas escolas. Para ficar por perto. E pelo jeito


não estava perto o bastante. Nunca fiquei sabendo que eles estavam sem água. – E, virando-se para Curtis: – E o dinheiro que eu fiz a mãe prometer que ia deixar reservado para as contas de água, de luz e do aquecimento? Curtis olhou para o chão, visivelmente infeliz ao dedurar a própria mãe. – Acho que ela usou para outra coisa. – Onde você está tomando banho? – Bray perguntou. – Na casa dos Johnsons. – Eles também estão dando comida para você? Curtis deu de ombros. – Às vezes. Mas eles não têm sempre um monte de comida em casa. Então eu sempre falo para eles que já comi. Scott tentou disfarçar o choque, mas Bray viu sua expressão. – Não dá para engordar morando aqui – ele disse, dando um sorriso rápido e batendo a mão na barriga lisinha. – Aqueles moleques gordos dos subúrbios são pesados demais para ficar na quadra. Dieta forçada, é disso que todo atleta precisa. – Talvez o Pete deva se mudar para cá quando sua mãe voltar – Scott disse. Ele e Bray vinham enchendo o saco de Pete por causa de seu peso desde que Pete e Scott tinham começado a treinar Bray na Franklin. Bray riu, e Scott entregou a Curtis a mala de ombro que tinha trazido de casa. – Carinha, por que você não pega as suas coisas? E então vamos deixar seu irmão voltar para a escola. – Carinha – Curtis deu uma risadinha. – Gosto disso. Ele pegou a mala e sumiu enquanto Scott e Bray foram para a sala de estar. Scott notou que só havia uma porta na sala e adivinhou que o apartamento tinha apenas um quarto. Um olhar de relance para o sofá confirmou a suspeita: havia um travesseiro numa ponta e um lençol amassado na outra. Bray seguiu o olhar de Scott. – Minha mãe dorme aqui – ele disse. – Antes ela dormia no quarto, e o Curtis, aqui. Mas eu a fiz trocar com ele. Ela chega em casa muito tarde, eu disse a ela. Ela precisa deixá-lo dormir no quarto: assim ele não acorda quando ela chega. Scott não pôde esconder sua surpresa. – Ela sai depois que ele vai dormir – Bryan disse, sem dúvida nada feliz com aquilo. – Já falei para ela um milhão de vezes: “Você não pode deixar uma criança dessa idade sozinha”, mas ela diz que os Johnsons estão sempre em casa se ele precisar. Acontece que o sr. Johnson vai dormir às oito, e a sra. Johnson não consegue mais subir escada. Mas minha mãe não está nem aí para esses detalhes. Então eu pedi para um amigo que mora aqui no corredor dar uma olhada toda noite, para ver se o Curtis está bem, se vai dormir na hora certa. – Ele deu de ombros. – É o que dá para fazer. Deveria ter pedido para ele ver se tinha água também, eu acho. Ele olhou para o sofá de novo e fez que não com a cabeça, como se a sua mãe estivesse sentada ali. – Estava pensando ontem à noite que ela ir presa talvez seja a melhor coisa a acontecer na vida dele, sabe? Sei que não é superlegal para você e a Laurie. Mas é melhor para ele. Quando ela sair, ele vai ser um ano mais velho e vai estar mais pronto para se cuidar sozinho. Posso achar um jeito de dar um celular


para ele; assim ele pode me contar quando esse tipo de coisa acontecer. – Ele fez um gesto para a pia da cozinha e fez que não com a cabeça de novo. – Não vejo a hora de ele sair daqui para sempre. Ele não pode viver desse jeito. Scott estava prestes a responder quando Curtis entrou correndo na sala. – Pronto! – ele disse, segurando o que parecia ser uma mala de mão meio vazia. Scott fez um gesto para que o menino passasse a mala para ele e olhou lá dentro. Havia uma camiseta e um par de meias. Scott abriu a mala para Bray dar uma olhada. – Você não tem mais nenhuma roupa? – Bray perguntou. – Nã-não. – E aquelas coisas que eu comprei para você no Natal? – A mãe vendeu para uma mulher. Bray se ajoelhou e colocou cada uma de suas mãos gigantes sobre um ombro do menino. Ele baixou a cabeça e a balançou de um lado para o outro, e Scott sabia que Bray estava se culpando pelas condições nas quais o irmão caçula estivera vivendo. Bray se inclinou para a frente até que sua testa tocasse a do irmão. – Por que você não me contou? – ele sussurrou. – A mãe falou para eu não te contar. Os músculos no maxilar de Bray se flexionaram e ele se virou para o técnico mais uma vez. Ele respirou fundo algumas vezes para se controlar antes de se levantar, pegou a mala e foi até a porta, com a mão sobre o ombro de Curtis. – Vamos comprar umas roupas para você antes de voltar para Ann Arbor. – Não precisa – Scott disse. – A Laurie adora roupa de criança. Ela vai ficar brava se você tirar dela essa oportunidade de ir às compras com ele. Bray olhou para ele sem acreditar muito. – De verdade. Ela vai adorar. Não a deixe de fora dessa. – Desculpe, técnico – Bray disse. – É pior do que eu pensava. Scott havia contado a seus amigos on-line sobre o apartamento algumas semanas antes, quando estava listando todas as razões pelas quais ele estava lutando contra a ideia de mandar Curtis para casa. “Cara”, 2meninos tinha escrito, “você tem que deixar o moleque longe disso. Para sempre” – exatamente o que Scott tinha dito a si mesmo várias vezes desde aquele dia, há um ano, quando ele levara Curtis de Detroit para Royal Oak e se permitira pensar como o menino teria uma vida melhor morando na casa enorme e limpa dos Coffmans, com toda a água corrente e roupas limpas e comida extra que queria, e toda a supervisão e cuidado dos pais de que ele precisava. Mas não era tão simples assim. Scott já suspeitava disso na época e agora sabia com certeza, depois de um ano debatendo o assunto com Janice, trocando mensagens sobre isso com MãeAdotiva e lendo cada livro e artigo que pudesse encontrar sobre a questão. Para a criança, ficar com os pais era a melhor coisa – e ponto. É claro que havia exceções – abuso, negligência. Mas, embora LaDania tivesse sido bastante incompetente com seu filho nas últimas semanas antes de ir presa, ela nem sempre tinha sido daquele jeito. De acordo com Bray, ela sempre usava umas “paradas mais leves” e sempre tivera o vício sob


controle, podendo largar a qualquer momento sem problemas. Mas no último ano ela tinha enfrentado muita falta de sorte – perdera o emprego, terminara com o namorado –, e se sentia sozinha sem a presença reconfortante do filho mais velho. Havia embarcado numa “parada mais séria” para tentar superar essa época difícil. Não tinha sido a melhor mãe, mas Bray tinha certeza de que ela tinha aprendido a lição e não faria mais isso. Ela havia prometido a ele. E, apesar de ter ficado com raiva dela por ter ido presa e deixado os filhos de lado por um ano, ele havia admitido a Scott e Laurie que, na maioria das vezes, LaDania se esforçava para ser uma boa mãe. Ou boa o suficiente, pelo menos – ele não achava que ela era digna de ganhar um prêmio. Às vezes ela era meio egoísta, escolhendo ir dormir tarde em vez de acordar cedo para mandar os filhos para a escola, para ver se eles estavam tomando café da manhã direito ou garantir que tivessem dinheiro para comprar o almoço. Ela também era meio distraída com o dinheiro, e a visão frequente da geladeira vazia no fim do mês e dois meninos com fome em frente a ela não a havia encorajado a se tornar mais responsável. Não se importava muito em deixar os meninos sozinhos por um tempão enquanto saía com seus amigos de qualidade questionável. Também não durava muito nos empregos, não se importava lá muito com valores nutricionais quando cozinhava e nunca tinha se mostrado muito interessada em manter o apartamento limpo. No quesito estabelecer regras e fazer os filhos segui-las, ela não achava que fizesse muito sentido: eles sabiam o que viria por ali se saíssem da linha. Mas julgar mal as situações não podia desqualificar alguém de poder criar o próprio filho. E, se pudesse, Janice disse a Scott, muitos pais seriam desqualificados. E se ter barata na cozinha, não saber impor disciplina ou ficar na rua às vezes até tarde da noite com gente de conduta questionável enquanto os vizinhos cuidavam de seu filho significava que LaDania não merecia ter o filho de volta, então muita gente em Michigan e no mundo todo já poderia começar a se despedir de seus filhos. MãeAdotiva tinha dito a mesma coisa para ele em uma série de mensagens na calada da noite no outono anterior, dizendo ainda que a história do Carinha não era diferente da de inúmeras crianças em Detroit, Cleveland, Houston ou uma centena de outras cidades no país inteiro. Havia milhares de pais por aí que podiam ser melhores, e milhares de crianças que poderiam receber mais comida, mais atenção, mais ajuda com a lição de casa se morassem com outras famílias. Mas aquilo não queria dizer que tirálas de seus lares era a coisa mais certa a fazer. Não havia um psicólogo especializado em crianças nos Estados Unidos que diria que uma casa melhor, refeições melhores e uma disciplina mais regimentada eram melhores para uma criança que o amor dos próprios pais. “O Estado não tem o direito de exigir perfeição dos pais”, Janice tinha dito a Scott. “Nós sempre esperamos que as pessoas sejam o melhor que podem ser para seus filhos. Mas, se amam os filhos, e os querem, e não os estão pondo em perigo, então temos que considerar isso suficiente e passar para o próximo caso.” Bem que Scott queria que fosse suficiente para ele também saber que Curtis estava com uma mãe que o amava e o queria. Ele disse a si mesmo que era – repetia isso todos os dias nas palavras que usou com Laurie no dia anterior. Mas, apesar disso, não conseguia fazer com que seu estômago parasse de queimar toda vez que pensava em Curtis morando naquele apartamento velho. Ficava de coração partido ao pensar no potencial do menino e em como este se perderia quando ele voltasse para a sua antiga vida. A lição de casa que voltaria para a escola sem ser feita, o nível de leitura que cairia com tudo, ao mesmo tempo que o número de visitas do menino à diretoria alcançaria um novo recorde. O diploma do ensino médio que talvez nunca fosse conquistado. E isso sem falar em faculdade, e em deixar para trás aquela vizinhança suspeita que havia aprisionado tanta gente, inclusive LaDania, em um


círculo vicioso de drogas, bebida e pobreza. Bray tinha lutado para sair, mas Bray era único, um cara em um milhão com uma rara combinação de talento, altura, ética de trabalho e inteligência que não tinha vindo direto do DNA, que, de todo modo, Curtis não compartilhava com ele. Scott esperava que aos oito anos de idade fosse cedo demais para saber, mas até então Curtis não parecia ter a mesma vontade de vencer que o irmão, a mesma coragem física nem o mesmo potencial de altura. Na casa dos Coffmans, ele atingiria algum objetivo e construiria uma vida decente para si. Scott e Laurie garantiriam isso. Mas e sem eles? Scott ficava com dor de estômago só de imaginar onde o menino poderia parar. Ele se sentou na cadeira de balanço e se permitiu observar mais uma vez o quarto abandonado de Curtis. – Vai dar tudo certo – ele disse, recorrendo ao seu mantra, mas a voz saiu fraca, fina e pouco convincente. – Vai dar tudo certo – tentou de novo. Mas a frase não soava mais verdadeira, e, enquanto ele pronunciava as palavras nas quais não mais acreditava, o tapete de mapa da cidade, a prateleira de livros e os pôsteres de basquete, todos pareceram desbotar de uma hora para a outra, como se sua vibração, sua utilidade, suas próprias cores tivessem saído da casa agora que o menino não ia mais voltar.


24. Mara Mara observou o grupo reunido em sua sala de estar e notou que nessa pequena área estavam as quatro pessoas que, além de Tom e Laks, eram as mais importantes para ela no mundo todo. Steph deu uma gargalhada alta e Mara se virou para estudar o perfil da amiga. Como sempre, o rosto de Steph era uma dicotomia de lábios que não paravam de se mexer e olhos intensos. Ela fora a primeira pessoa para quem Tom tinha ligado, depois dos pais de Mara, quando souberam do número de repetições CAG de Mara. Ela havia tirado o dia de folga e estava esperando ao lado do telefone em casa, como disse a Tom, porque sabia que qualquer que fosse a notícia sua reação seria obscena e em alto volume. E, como era de esperar, ele teve que afastar o fone do ouvido quando gritou: “Filho da puta maldito! Chego em dez minutos”. Ela tinha repetido a frase, e não em voz baixa, inúmeras vezes durante a semana seguinte até Pori começar a repeti-la também, para o desgosto da esposa. E para o desgosto de Gina, Mara pensou, enquanto seus olhos se moviam de uma amiga para a outra. Gina era toda gentileza típica do sul e sabia se comportar; Steph não tinha o menor interesse nessas coisas. Antes da DH, Mara sempre dava uma de juíza para não deixar as duas mulheres brigarem o tempo todo. Quer dizer, para não deixar Steph brigar – Gina jamais deixaria o jeito de lady de lado para se comportar assim. Mas, depois que a má notícia veio, o relacionamento entre elas havia mudado e as diferenças que irritavam uma à outra agora eram fonte de provocações só para quebrar o gelo. Era uma das únicas coisas positivas na lista antes da DH/depois da DH, Mara pensou, sorrindo agora que Gina tinha colocado a mão sobre o antebraço de Steph para que ela pegasse mais leve nos palavrões na frente dos pais de Mara. Steph afastou a mão de Gina e disse, em resposta a algo que Mara não tinha ouvido: – Eu sei, foi isso mesmo que eu achei! E que porra é essa, né, Pori? Mara segurou uma risada enquanto Gina estremecia e Neerja apertava os lábios. Mas pelo menos Gina não saiu de perto sem mais explicações, como teria feito antes do diagnóstico de Mara. Apesar de nunca ter gostado dos palavrões, nos últimos quatro anos Gina havia aprendido a apreciar o jeitão despachado de Steph por causa do alívio óbvio que Mara sentia em poder contar com pelo menos uma pessoa que dizia tudo sem rodeios. – É – Steph tinha dito a Mara certa vez, depois que Mara reclamou sobre como a doença estava deixando seu rosto anguloso demais. – Dá para ver por que você está se achando meio parecida com um esqueleto. Seu cabelo grisalho também não está ajudando. Nada que um pouco de cor e uma boa base não possam consertar. Vou marcar um horário para nós duas no salão. E depois vamos parar no balcão de maquiagem da Saks e ver se conseguimos achar uma base melhor. E Steph logo viu também que Gina era muito mais que um depósito roliço de regras de decoro. Como amiga, ela era tão leal e incansável quanto tinha sido como secretária, sempre de olho nas pilhas de correspondência sobre o balcão da cozinha de Mara e marcando os envelopes com um “M” ou um “T” e então acompanhando para ver se Mara tinha dado conta de suas cartas. Ela passou uma semana fazendo uma revolução na lavandeira, na despensa e nos armários do hall de entrada para facilitar para Mara o processo de deixar tudo sempre no mesmo lugar – e muito mais fácil de lembrar onde ela tinha deixado


da última vez. – Você é a pessoa mais organizada que já conheci – Steph disse a Gina uma vez. – Você é melhor que todas as secretárias da empresa juntas. Mara e Aquelas Moças estavam sentadas em espreguiçadeiras no quintal de Steph, tomando vinho e discutindo os próprios pontos fortes e fracos e os de cada uma também. – E você é a pessoa mais direta que eu já conheci – Gina disse, completando em seguida que aquilo era um elogio. – Eu bem que queria ser capaz de dizer para as pessoas o que acho de verdade. Foi então que Steph sugeriu que, juntando as duas, Aquelas Moças seriam capazes de ajudar Laks com qualquer problema. – Verdade – Gina disse, rindo. – Pode deixar que vou organizar material escolar, agendas e compromissos, e também vou me encarregar das boas maneiras, como o jeito certo de escrever um cartão de agradecimento, essas coisas. E a Steph entra em cena em tudo o que ela precisar de informação direta, sem rodeios: a primeira menstruação, masturbação, sexo oral, método anticoncepcional. Mara riu com Gina e olhou de relance para Steph, esperando que ela fosse entrar na brincadeira que tinha inspirado. Mas os lábios de Steph estavam virados para baixo, e não para cima, e Mara viu lágrimas rolando pelas bochechas da amiga. – Steph? – Mara perguntou. – O que foi? Elas estavam sentadas em um círculo pequeno, e Steph pegou sua cadeira, colocou-a mais perto da cadeira de Mara e segurou a mão da amiga. – Sei que você se preocupa com como vai ser para ela depois que você... – Ela engoliu um soluço, sem poder continuar. Mara apertou sua mão e Gina aproximou a sua cadeira das outras duas e colocou uma mão sobre o joelho de Steph. – Quando você não estiver mais aqui – Steph terminou, engasgando nas palavras. – Mas quero que você saiba – ela olhou para Gina –, nós queremos que você saiba – Steph soluçou de novo. Gina deu uma batidinha leve no joelho de Steph e terminou a frase que a amiga havia começado: – Nós queremos que você saiba – Gina disse com lágrimas escorrendo pelo rosto também – que vamos ficar ao lado da Laks. Para o que ela precisar. Para qualquer coisa que ela queira perguntar. Ou quando precisar de ajuda. Ou quiser conversar. Para sempre. Ela pegou as outras duas mãos livres das mulheres. E então Mara começou a chorar também, e as três ficaram sentadas ali, de mãos dadas e chorando, até que Gina afinal enxugou os olhos, fungou e perguntou para Mara: – O que é que a gente tem? Não é muito cedo para isso? Porque vai demorar anos até que a Laks precise da gente... – Não tem nada de errado nisso – Mara interrompeu. – É maravilhoso. Eu me preocupo o tempo todo com como ela vai ficar quando não tiver mais mãe. Ela pode não precisar de vocês agora, mas eu preciso ouvir isso agora. O Tom é incrível, vocês sabem disso. Mas vocês conseguem imaginar ele falando com ela sobre como escolher o primeiro sutiã, ou ficar menstruada pela primeira vez, ou quando alguém partir o coração dela? São essas coisas que não me deixam dormir à noite. E, embora eu sempre soubesse que vocês ficariam ao lado dela, passariam tempo com ela, jamais pediria que vocês se comprometessem a isso.


Ela olhou para cada uma delas de uma vez, seus olhos escuros dizendo como era grata. – Eu sinto como se vocês tivessem acabado de me libertar da maior angústia que venho carregando. Ela não vai ter uma mãe. Ela vai ter... – Duas – elas terminaram a frase com ela. Os olhos de Mara se encheram de lágrimas de novo e, como se fossem uma coisa só, Aquelas Moças se inclinaram para a frente e se abraçaram, num montinho formado por três mulheres chorando. As amigas de Mara tinham acabado de fazer uma promessa que, até dez minutos antes, ela nem teria sonhado em pedir a elas. Agora parecia que essa era a coisa mais importante que poderia fazer pela filha. Em todas as suas listas e planos, ela tinha deixado de fora a coisa mais importante: deixar a cargo de Aquelas Moças a função de identificar e resolver tudo com meia garrafa de Merlot. Steph ergueu o copo e as outras brindaram com ela. – A Aquelas Moças! Nós duas juntas nunca nem vamos passar perto de ser metade da mãe que a Mara é. Mas com certeza vamos tentar fazer o melhor. Desde aquela noite, Mara tinha falado com elas uma a uma sobre suas respectivas listas de responsabilidades. Um dia, na ioga, Mara disse a Steph: – Você é responsável por alimentação, malhação, distúrbios alimentares, esse tipo de coisa – você sabe disso, certo? Gina admitia com franqueza sua relação de amor/ódio com comida e sua relação de ódio/ódio com exercício. Tom daria seus sermões sobre aminoácidos essenciais e proteínas completas, mas o que ele sabia sobre como evitar a pressão das amigas na adolescência para passar fome de propósito? Steph inclinou a cabeça para o lado como quem diz que a escolha não poderia ser diferente. Em outra ocasião, Gina estava atualizando os vários post-its pela cozinha de Mara, colocando as coisas de volta no lugar enquanto isso. Mara estava procurando alguma coisa na despensa para fazer para o jantar. – Você vai dizer coisas para ela do tipo “descubra qual é o prato favorito do seu marido e faça sempre para ele”, não é? Tenho medo de ela ouvir tanto discurso feminista da Steph que vai achar que fazer uma gentileza para o marido seria uma afronta às mulheres. Quero que ela se sinta livre – e generosa – para expressar seu amor, quer esteja politicamente na moda ou não. – E não só com o marido, mas com todas as pessoas. Ligar para os avós para ver como eles estão, em vez de esperar que eles liguem. Quero que ela mantenha todas essas gentilezas em mente, sabe? Todos aqueles toques especiais com os quais muitas pessoas nem se importam, mas que podem ser tão importantes. Ligar para o Tom no aniversário dele é fácil, mas... – Ela deveria ligar para ele no aniversário de casamento de vocês dois – Gina disse em voz baixa. – Exato. – Já está na minha lista – Gina disse, batendo o dedo de leve na têmpora. – Tudo isso.


25. Mara Laks entrou voando na sala, gritando de animação ao ver suas pessoas favoritas no mundo – seus avós, seus pais e Aquelas Moças – juntas. Ela abraçou os avós primeiro, e então Mara, Steph e Gina. Sentou-se no colo de Gina e Mara pôde ouvir as duas sussurrando sobre as novas sapatilhas de balé. Momentos depois, Tom entrou e deu beijos nas bochechas das três mulheres, e nos lábios da quarta. Ele apertou a mão de Pori e passou uma sacolinha para Laks. – Direto para o guarda-roupa, Senhorita Baguncinha, como nós combinamos. – Paaaaai – Laks disse, lançando olhares para os outros. – Não me chama assim na frente de Aquelas... – Desculpe – ele disse. Lakshmibeti. Gina fez cara de ponto de interrogação e Tom deu de ombros. – Só sei apelidos. Não aprendi o resto até agora. Mas me dê mais 22 anos. Neerja deu um tapinha carinhoso no genro e deu um sorriso com ar conhecedor para Mara. Mara e a mãe sabiam que, para Tom, não se tratava de aprender um segundo idioma, mas de sentir que pertencia a uma família. Ele não tivera nenhum apelido carinhoso na infância, a não ser que “inútil, igualzinho ao seu pai” contasse. Laks pegou a sacola e saiu correndo para o quarto. – Missão cumprida – Tom disse à esposa quando a menina não podia mais ouvi-los. – Acho que ela não vai mais ser malhada como Judas na aula de sábado. Mas não sei se ela vai participar do recital – tive que desistir das meias-calças cor-de-rosa. Elas eram “grudentas demais” ou “coceirentas demais” ou alguma outra coisa “demais” que já esqueci, mas que parecia envolver cortar a circulação a ponto de quase precisar amputar. – Bom – Steph disse –, então ela estava com o pai certo. Você poderia ter feito a amputação na loja mesmo. – Sou dermatologista, não cirurgião, Steph. Se fosse uma espinha, eu poderia ter espremido na loja. Amputar uma perna teria sido um pouco mais problemático. – O que é espinha? – Laks perguntou, de volta do seu quarto. – E o que é amputar a perna? – Você guardou as sapatilhas? – Mara perguntou. – Pendurei a sacola na minha porta… – Por favor, guarde as sapatilhas no lugar delas, e onde seu pai mandou você colocá-las – na prateleira de balé no seu guarda-roupa. – Mas, mããããe. Eu quero ver Aquelas Moças antes que elas vão embora. – Elas não vão sair daqui a dois minutos, que é o tempo que vai demorar para você obedecer a seus pais. A menina saiu pisando duro o mais alto que podia, deixando para trás seis adultos que tentavam não


dar risada. Trinta segundos depois, ela estava de volta, fazendo a volta ao redor da cadeira de Steph a caminho da cozinha. Steph colocou a criança no colo, passando o dedo de leve no rostinho dela. – Lakshmi Nichols. O que falei que ia acontecer da próxima vez que você respondesse para a sua mãe no lugar de se comportar e falar “sim, senhora” como a criança de cinco anos mais perfeita do mundo? Laks estreitou os olhos para tentar se lembrar. Sorrindo, ela ergueu o dedinho em riste para mostrar que já sabia a resposta. – Dinheiro! – É isso mesmo. – Steph tirou uma nota de um dólar da bolsa. – E não se esqueça de que tem mais de onde essa veio. Agora, vá lá para a cozinha ver se tem mais samosas para a Tia Steph. – Ela colocou a menina no chão e deu um tapinha na bunda dela. – Vai logo! Laks saiu correndo e dando risada para a cozinha, abanando o dinheiro no ar. – Steph – Gina e Mara disseram ao mesmo tempo, no mesmo tom sério. – O quê? – Ela disse e deu de ombros, com ar inocente. – Você tinha um problema com a Miss Perfeitinha a tratando como se você fosse frágil demais para ficar brava ou discutir com você. Eu encontrei uma maneira simples de resolver o problema. É para isso que me pagam. Depois que Steph e Gina foram embora, Mara insistiu que seus pais ficassem para jantar. Eles aceitaram, mas só se Mara deixasse que eles esquentassem a caçarola e arrumassem a mesa enquanto ela relaxava na sala com Tom. Relutantemente, ela aceitou, e meia hora depois estavam todos sentados à mesa da sala de jantar. Pori tinha colocado a louça e os talheres especiais na mesa e Laks bateu palmas uma vez de tanta animação. Se ela colocasse as mãos sob o queixo, Mara pensou, pareceria uma miniatura de Neerja. – Que chique! – Laks disse. – Ah – Pori disse, olhando para a filha –, será que eu deveria ter guardado esses para uma ocasião especial? Mara ficou com vergonha de como ele tinha ficado preocupado com a possibilidade de ter quebrado uma de suas regras. – Esta é uma ocasião especial – ela disse a ele. – Minhas quatro pessoas favoritas juntas para o jantar. Laks deu uma risadinha. – A gente está sempre junto, mãe. Mas, como a mesa está chique, a gente pode dizer graças? A família da Susan diz toda noite. Mara olhou para a filha, surpresa. – Graças? A menina fez que sim com a cabeça. – É uma coisa que a gente diz antes de... – Eu sei o que é – Mara disse, rindo. – Só fiquei surpresa ao ouvir você falar disso. Mas é claro. Por que não? Vamos dizer graças. – Ê, que legal! – Laks bateu palmas de novo e olhou ao redor da mesa, esperando que um dos adultos começasse. Mas três deles não eram cristãos e o único que era, Tom, parecia perdido. – Deixe-me pensar – ele disse. – Já faz tempo.


– O que a família da Susan diz quando eles rezam, Lakshmibeti? – Neerja perguntou à neta. – Eles dizem como estão felizes e gratos por estarem juntos. – Cada momento juntos é muito especial – Pori disse. – Não é verdade, mamãe? Ele estava olhando para Neerja. A boca dele abriu um sorriso, mas Mara viu a dor em seus olhos escuros. Neerja fez que sim com a cabeça antes de passar o dedo sobre os próprios olhos. O motivo para aquela tristeza coletiva atingiu Mara com tanta força que ela sentiu seu corpo desabar sob o próprio peso. A filha deles estava morrendo. Com que frequência ela tinha pensado nisso – a fundo mesmo? Ela não queria admitir a resposta. Ou o fato que, quando pensava nisso, era apenas em um contexto que deixava bem claro que ela era a vítima, mas não eles. “Eu não me importo se o método predileto deles para lidar com a doença incurável da filha é atacar a notícia com uma vassoura, um aspirador e um prato com curry”, ela tinha reclamado para Tom várias vezes. “Eu sou a filha em questão e não quero que eles me tratem como se eu não fosse capaz de cuidar da minha própria casa ou fazer comida para a minha própria família.” Quando ela admitiria que eles também eram vítimas? A filha deles estava morrendo. Mara olhou para a própria filha e sentiu aquela dor familiar e incompreensível passar queimando pelo corpo, do centro às extremidades dos dedos dos pés e das mãos. Como ela poderia ter passado os últimos dias consumida pela agonia insuportável de encarar seus últimos momentos com a própria filha e não ter passado um segundo sequer reconhecendo que seus pais vinham sendo despedaçados pela mesma dor? Ela não era a única mãe ali perdendo a filha. Mara pegou a mão da mãe e Neerja, achando que o gesto da filha era o começo do negócio de dizer graças, pegou na mão da neta. – Mas a família da Susan não dá as mãos – Laks disse, mas mesmo assim pegou na mão do pai, que estendeu a mão para Pori. Pori pegou a mão de Mara, e então sorriu para a neta: – Então não vamos contar para ela. Os outros baixaram a cabeça e Pori disse algumas palavras sobre amor e família e novas sapatilhas de balé. Mara observou devagar todos ao redor da mesa, deixando os olhos pousarem por alguns segundos sobre cada cabeça baixa. Então, ela fechou os olhos, baixou a cabeça também e fez um desejo em silêncio para que tivesse um deus no qual acreditar, como a família de Susan. Seria um conforto pensar que havia alguma coisa, ou algum lugar, depois disso. Que havia um motivo para a sua doença, que não era meramente o resultado do sorteio de uma loteria que ela tinha perdido ao nascer. Que haveria alguma lição de vida nisso tudo para Laks. E, ela pensou, mesmo que acreditar não trouxesse conforto a ela, pelo menos seria bom ter alguém em quem pôr a culpa.


26. Scott Quarta, 6 de abril às 23h47 CidadedosCarros enviou esta mensagem pessoal: Adorei, mãedalaks. Obrigado por ficar acordada até tarde para me mandar uma mensagem. Eu estava tentando me lembrar quando tinha sido a última vez que trocamos mais mensagens. Uns sete meses atrás? Quando a gente recebeu a má notícia dos resultados da FIV e comecei a insistir no assunto da adoção com a minha esposa. A gente teve uma janela ali quando ela pareceu animada com a possibilidade de adotar um bebê e você era a melhor fonte que tínhamos sobre o assunto. Até hoje ela sorri sempre que falo de você. É um milagre ela não ter decidido chamar a bebê de “mãedalaks.” ;) Ela queria que você escrevesse um livro, lembra? Quarta, 6 de abril às 23h49 mãedalaks enviou esta mensagem pessoal: Lembro. Eu até pensei no assunto, por um tempo. Mas então, como se diz por aí, a vida aconteceu... Quarta, 6 de abril às 23h50 CidadedosCarros enviou esta mensagem pessoal: A vida sempre acontece. Mas já faz tempo que estamos falando de mim. Não sei quanto a você, mas já cansei de mim. É a sua vez. O que tem deixado você acordada até tarde estes dias? Quarta, 6 de abril às 23h51 mãedalaks enviou esta mensagem pessoal: Para falar a verdade, estou tão perdida nos meus próprios pensamentos estes dias que fico feliz ao poder mudar de assunto por um tempo. Podemos pôr a culpa da insônia na meia-idade e falar sobre outra coisa? Não estou nem um pouco cansada de você. Venho pensando tanto em você, e me sentindo mal. Não consigo ajudar tanto quanto gostaria. Eu queria que houvesse mais alguma coisa que eu pudesse fazer. Algo mais importante que mensagens pessoais. Quarta, 6 de abril às 23h54 CidadedosCarros enviou esta mensagem pessoal: Pode acreditar em mim: essa última meia hora foi na medida exata o que eu precisava. Às vezes, as menores coisas acabam sendo as mais importantes, sabia? Quinta, 7 de abril à 0h01 mãedalaks enviou esta mensagem pessoal: Com certeza. Quinta, 7 de abril à 0h03 CidadedosCarros enviou esta mensagem pessoal: Ei, tem uma coisa que a gente enrolou para discutir hoje à noite, mas não foi direto ao ponto: Com esse lance de eu ficar acordado esta noite, preocupado com como o Carinha está com essa mudança tão rápida, você acha que é possível ele não estar tão arrasado quanto eu porque, apesar de sermos tão próximos, ele continua ligado por um fio invisível, porém inquebrável, com a mãe? Você acha que a ligação biológica prevalece sobre tudo? Espero que seja uma pergunta justa para fazer a uma mãe adotiva, e não uma pergunta do tipo que o 2meninos faria. Se eu estiver viajando, por favor mande eu me f..., e a gente pode mudar de assunto. Quinta, 7 de abril à 0h05 mãedalaks enviou esta mensagem pessoal:


Rindo alto. Você nunca seria capaz de fazer uma pergunta do estilo do 2meninos – você tem tato. Ele não tem. ;) É uma pergunta perfeitamente justa – pelo menos para mim. Não sei como outros pais adotivos se sentem, mas penso nisso o tempo todo. Não sei se você vai adorar ou odiar minha conclusão mais recente sobre o assunto, mas hoje acredito que, enquanto os adultos são capazes de amar o filho de outra pessoa como se fosse o próprio filho, as crianças não têm a mesma capacidade. Elas sempre sentem essa ligação mais forte com os pais biológicos. Eu lutei contra esse conceito no começo. Quem é que gosta de pensar que os filhos não são tão apegados a você quanto você a eles? Eu queria acreditar no que tantos defensores da adoção dizem, e que tantos livros advogam: um relacionamento de adoção pode ser tão completo quanto um biológico. Para ser sincera, meu coração se partiu ao pensar que depois de cinco anos criando a minha filha desde bebê, dando a ela todo grama de amor que havia no meu corpo, ela poderia ter uma gota de afeição lá dentro que não é para mim. Tenho certeza de que os defensores da adoção me censurariam por ter chegado a essa decisão. Mas é como a minha amiga Steph diria: “Que se fodam”. ;) Além disso, você já viu todos os programas da Oprah, como eu já vi: uma criança é deixada para adoção com um dia de vida. E então mora com os pais adotivos por dezoito anos e eles fazem de tudo por ela. A criança completa dezoito anos e tcham! Parte em uma jornada para encontrar sua mãe biológica. Ninguém pode negar a realidade – a ligação biológica é como um daqueles ímãs poderosos que eles usam na NASA. Mas eu aprendi a amar essa realidade, em vez de lutar contra ela. Isso quer dizer que não vai ser tão difícil para a minha filha me perder tanto quanto eu ficar sem ela. Ela não vai ter tanta saudade de mim, ou pelo menos por tanto tempo, como se eu fosse sua mãe biológica. Isso quer dizer que, se meu marido resolvesse se casar de novo, ela aprenderia mais rápido a aceitar a nova esposa dele como “mãe”, e desenvolveria um relacionamento mais rápido com ela também, porque ela não seria uma mãe não biológica tentando substituir a mãe verdadeira; apenas uma versão mais nova, e talvez mais jovem, da mãe não biológica: eu. Espero que pensar assim conforte você também. Por mais que você esteja arrasado por causa do Carinha, pode ser um consolo você saber que, durante esse ano, ele estava arrasado por não estar com a mãe verdadeira. E que ele vem sentindo falta dela esse tempo todo. Agora que ele está com ela de novo, não está mais de coração partido. É claro que ele sente a sua falta. Mas ninguém quer que nossos filhos fiquem tristes, certo? O fato de ele poder não estar tão triste quanto você, em razão da falta de DNA compartilhado, pode ajudar você a conseguir dormir. Não é? Quinta, 7 de abril à 0h06 CidadedosCarros enviou esta mensagem pessoal: Espera aí! Vamos voltar um pouco! O que você quer dizer com esse negócio da sua filha perder você? Por que a sua filha está perdendo você? Quinta, 7 de abril à 0h13 mãedalaks enviou esta mensagem pessoal: Ah, eu só estava falando de modo hipotético, é claro. Sou uma imaginadora profissional de coisas ruins que podem acontecer. Como o meu cliente vai se ferrar com esse contrato? Como o meu cliente vai tomar um capote com esse processo? Como meu marido e minha filha vão sobreviver se eu bater o carro no caminho do escritório para casa? É um dom dos advogados e das mães – a gente se preocupa não apenas com o que está acontecendo, mas também com aquilo que poderia acontecer, não importa que a probabilidade seja baixa, ou o risco quase improvável... Você sabe o que quero dizer. Desculpe preocupar você. Quinta, 7 de abril à 0h16 CidadedosCarros enviou esta mensagem pessoal: Não me assuste desse jeito, por favor! Agora que meu coração voltou a bater, deixe-me reler o que você escreveu. ... Tá. E, sim, isso me faz sentir melhor, e eu entendo por que faz você se sentir melhor também, na possibilidade pouco provável, altamente questionável e bem maluca de um acidente de carro acontecer. Estamos tão ligados a eles no emocional quanto se eles fossem nossos filhos de verdade. Mas não importa quanto eles sejam abertos para receber nosso amor, há uma parte pequena dentro deles que não vão entregar para a gente. Eles a deixam reservada para os pais de verdade. Então, quando alguma coisa terrível acontece – eles são arrancados da nossa casa alguns dias antes do combinado, ou a gente finge que bate o carro de mentira em nossa mente insana ;) –, eles não choram por nós como choramos por eles. Isso ajuda. Você tem razão – eu não quero que ele sinta nem uma fração da tristeza que sinto ao perdê-lo. Mas me deixe perguntar uma coisa: você também foi adotada. E talvez essa pergunta cruze mesmo a linha para o território do 2meninos: tudo o que você disse quer dizer que você não considera sua mãe adotiva como sua mãe “verdadeira”? Você tem se segurado esses anos todos, querendo, lá no fundo, encontrar sua mãe biológica? Quinta, 7 de abril à 0h18 mãedalaks enviou esta mensagem pessoal:


O que eu digo a mim mesma é que sou mais apegada à minha mãe adotiva que a minha filha é apegada a mim porque a minha mãe ficava em casa comigo o tempo todo. Desde que a minha filha chegou, ela tem passado tanto tempo com os meus pais quanto comigo. Aquilo me deixava meio de coração partido – lidar com a culpa de mãe, essas coisas assim –, mas agora (quando penso no meu acidente hipotético de carro) acho isso um alívio. Mesmo se ela tivesse ficado tão apegada a mim quanto eu fiquei à minha mãe, a logística da nossa família nunca permitiu que isso acontecesse. Então, o resultado continua o mesmo – ela não vai sentir uma fração da tristeza que eu sentiria ao perdê-la se eu não estivesse mais aqui. Quinta, 7 de abril à 0h19 CidadedosCarros enviou esta mensagem pessoal: Mas acontece que a sua filha NÃO está perdendo você, graças a Deus. A não ser nos exercícios malucos da sua mente, que com certeza pensaria de maneira mais racional se seu amigo reclamão parasse com essa choradeira e deixasse você ir dormir. Boa noite, MãeL. E obrigado.


Parte TrĂŞs Quinta-feira, 7 de abril

Faltam trĂŞs dias


27. Mara Mara acordou com o relógio apitando, escondido debaixo do travesseiro. Um olhar de relance para o rádio-relógio ao lado da cama mostrou que o despertador tinha sido desligado. Tom. No banheiro, ela tirou a calcinha de papel e a colocou em uma sacola de plástico, e então outra, para enfim colocá-la em uma terceira sacola que enfiou no fundo da lixeira. Ela fez careta para a calcinha nova e logo a vestiu, amarrando depressa uma toalha ao redor da cintura caso Tom entrasse. Ela vestiu uma saia e uma blusa – fúcsia brilhante desta vez e muito além de sua zona de conforto, como as roupas roxo-beliscão que tinha usado no dia anterior. Steph também ficaria impressionada com esse modelito, e era mais um passo que ela dava em direção à esperada incursão de Mara no mundo das roupas estilosas. Ela passou a mão pelo cabelo, jogou uma água no rosto e comparou seu reflexo com aquele que tinha visto no porta-retratos da manhã do dia anterior, aquele que fez a sua filha fazer cara feia e se preocupar com que o que as outras crianças do ônibus pensariam. – Melhor – ela suspirou, antes de seguir o barulho de conversa que vinha da cozinha. Tom estava apoiado no balcão, ouvindo com atenção enquanto Laks conversava com ele do alto de seu banquinho do outro lado da cozinha, uma tigela de cereal à sua frente. – Bom dia! – Mara disse. – Mãe! – Laks desceu do banquinho e lançou as mãos sujas de leite ao redor da mãe, enquanto Mara estava pensando como é que Tom não tinha notado que a menina estava comendo cereal com os dedos. – Só mais três dias! – Laks disse, abraçando as pernas da mãe. Em um segundo, as veias de Mara congelaram e ela deu um passo para trás, fora do alcance da menina. Será que eles tinham achado o post-it colado sob o laptop dela? Ela lançou um olhar furtivo para Tom, mas ele estava de costas para ela, guardando o cereal e o leite. Mas, se eles tinham encontrado o post-it, então por que Laks estava tão animada? – Do que você está falando? – Mara perguntou, tentando não deixar o pânico sair junto com a voz. – Até o seu aniversário! – Laks disse, batendo palmas. – Só faltam três dias até o seu aniversário! – Ah, isso! – Mara disse e seu corpo se aqueceu de alívio. – É mesmo. E, antes que o alívio se transformasse em culpa sobre o que ela tinha planejado para aquele dia, Laks estava falando de novo: – Você vai me levar até o ônibus hoje? – Com certeza – Mara disse, feliz por mudar de assunto. – Eeee! E depois você vem para a aula na biblioteca também, né? Porque é a sua vez de ser ajudante esta semana, lembra? Ela havia se inscrito duas semanas antes, pois Laks tinha pedido, mas achou que a menina não ia querer que ela fosse, depois da reação da manhã anterior. Mas agora o rostinho da filha estava de olho nela, na expectativa.


– Você quer que eu vá? A menina estreitou os olhos como se a pergunta tivesse sido feita em latim. – Que gostoso que a mamãe está livre para fazer essas coisas, hein? – Tom estava olhando para elas agora. A pergunta foi feita para a filha, mas seus olhos estavam fixos nos da esposa, relembrando-a em silêncio daquilo que ele tinha dito a ela na noite de seu jantar de aposentadoria, quando ela tinha chorado por como, sem o direito, sua vida teria muito menos importância. Como ela agregaria menos valor ao mundo e à sua família. “Eu discordo por completo”, ele tinha dito. “Você vai agregar muito mais valor. Pense no que vai significar para a Laks ter você aqui durante o dia. Você vai poder ir a excursões da escola, ajudar nas festinhas da classe dela, ser a moça da biblioteca. Essas coisas são tão mais importantes para a nossa família que uma segunda fonte de renda. E tão mais importante para a nossa filhinha do que ter uma superadvogada de litígio como mãe. A aposentadoria não precisa ser a melhor coisa a lhe acontecer do seu ponto de vista – e nem estou dizendo que deveria. Mas a perda de uma pessoa é o ganho de outra, como se diz, e não posso pensar em uma ilustração melhor para isso que Lakshmi Nichols poder contar com a mãe aposentada o dia todo.” Mara deu um beijo na filha antes de afastar uma mecha de cabelo do rostinho dela e a colocar atrás da orelha. – Sim – ela disse. – É claro que vou à sua aula na biblioteca hoje. Laks escalou o banquinho de novo. – Feliz é uma mãe moça da biblioteca! Mara e Tom deram risada. Mara tinha lido “Felicidade é... um cachorrinho fofo” para Laks na hora de dormir algumas semanas antes, e desde então a menina vinha anunciando tudo o que a fazia feliz, apesar de não ter conseguido acertar a frase direito. “Feliz é quando a mamãe lê um livro a mais para mim!”; “Feliz é macarrão com molho no jantar!” Os dois já tinham desistido de fazê-la dizer a frase direito – parecia estranho corrigir uma criança quando ela estava falando de felicidade. Mara foi até a cafeteira e Tom a prendeu nos braços quando ela passou por ele para pegar uma caneca. – Viu como ela fica feliz quando você a leva até o ônibus? – ele sussurrou. – A manhã de ontem foi só... – Eu sei. Eu exagerei. Desculpe, querido. Ela estendeu a caneca para ele. Ele só encheu a caneca até a metade, e ela estendeu a caneca de novo. – Você disse que ia maneirar, lembra? – Mas ele serviu um pouco mais e fez um gesto para que ela se sentasse à mesa, até onde ele levou o café para ela. – Até que horas você ficou acordada ontem? – Não muito tarde. Até certo ponto. – Estava no fórum? Ou pensando de novo em comprar aquela centrífuga de suco? Ela riu. – Fórum. Já decidi que a centrífuga não tem muito a ver com a gente. Os dois olharam para Laks, que estava ocupada apertando flocos de cereal entre o indicador e o polegar. Tom estendeu o braço e segurou o pulso da filha. – Muito bem, Senhorita Baguncinha, chega. Mais duas mordidas – com uma colher – e é hora de lavar


essas mãos melequentas, escovar os dentes e ir esperar o ônibus com a ajudante de biblioteca superespecial desta semana. Assim que Mara ouviu a porta da garagem baixar depois de Tom sair, ela ergueu o laptop e descolou o post-it com a lista de tarefas. Passara duas horas ditando e-mails para mais alguns amigos do colégio e ligando para mais três colegas da faculdade de direito, riscando cada nome de uma vez. Ela estudou sua lista, que estava encolhendo, e sorriu. Faltavam três dias, e ela a havia reduzido a um tamanho possível. Quando Harry chegou, uma hora depois, Mara estava esperando por ele à janela e abriu a porta antes que ele apertasse a campainha. – Dia, sra. Nichols. – Harry, por favor. Pode me chamar de Mara. – Uma mulher que consegue ficar pronta antes da hora. Não sei se já tinha visto essa criatura antes. – Ele ofereceu o braço a ela e os dois foram andando devagar até o táxi. Os dois foram andando em silêncio e, olhando de lado para ele, Mara ficou se perguntando como seria possível que, depois de passar a vida querendo bater em qualquer pessoa que lhe oferecesse ajuda, lá estava ela, aceitando o braço daquele homem com tanta naturalidade. Agradecendo, não latindo, quando ele oferecia o braço a ela, abria portas para ela, estendia a mão para proteger sua cabeça ao se abaixar para entrar no carro. Ela não o conhecia nem há uma semana, mas esse homem que era só jeans e camisa xadrez, com seu sotaque típico do sul e seus segredos, tinha conseguido fazer com que ela enxergasse que nem sempre era tão horrível aceitar ajuda, afinal. Nunca tinha certeza do que acreditava em um poder maior. Seus pais não eram religiosos, como a hesitação sobre como dizer graças havia demonstrado na noite anterior, e a criação católica de Tom, que ele não sabia muito bem discernir de sua criação alcoólatra, o tinha afastado da igreja de vez. Mas a ideia de um ser superior, fosse uma divindade ou um esquema maior do universo, sempre a havia atraído. Por mais de vinte anos, ela havia descrito ter conhecido Tom como algo ditado por alguma força onisciente, sem jamais aceitar que algo tão significativo tivesse sido simplesmente uma coincidência: ela estava se escondendo da chuva no hall de entrada de um prédio onde não tinha aulas; ele estava a caminho de uma entrevista para ser voluntário no centro de saúde e, distraído, entrou na porta errada. Alguém, ou alguma coisa, queria que os dois se conhecessem. Ela tinha certeza. Quando Harry parou para abrir a porta do carro para ela, Mara ficou pensando se o mesmo alguém ou a mesma coisa que havia mandado Tom para ela também havia enviado Harry agora. Nos últimos dias, uma ideia tinha começado a sair das profundezas de sua mente, e a cutucá-la até que ela não teve outra escolha a não ser pensar nela antes que esta se escondesse de novo nas sombras: se ela poderia deixar um estranho abrir a porta do carro para ela, seria então um passo tão grande deixar que seu marido a ajudasse? Ou seus pais? Veja o progresso que ela tinha feito apenas na noite anterior, permitindo que sua mãe organizasse o jantar e que o pai arrumasse a mesa. Talvez ela pudesse começar a sorrir, e não fumegar, na próxima vez que eles se oferecessem para arrancar ervas daninhas do jardim. Dali, seria um passo tão grande assim deixar uma enfermeira pentear seu cabelo ou ajudá-la a se vestir? Na semana anterior, ela teria dito que essas ideias eram impossíveis demais para ser consideradas. Agora já não tinha tanta certeza. Mas, por outro lado, qualquer coisa era fácil se você só tivesse que fazê-la por alguns dias. Se ela soubesse que teria que se apoiar no cotovelo de Harry por mais alguns anos, e deixar os pais prepararem e servirem jantares algumas vezes por semana até o futuro previsível, será que ela seria tão graciosa a respeito de tudo isso? Será que permitiria que uma enfermeira penteasse seu cabelo, escovasse seus


dentes, lavasse seu corpo nu, se soubesse que tudo aquilo se repetiria por milhares de dias, e não só alguns? Ela se aconchegou com cuidado no assento, enquanto Harry mantinha uma mão protetora entre a cabeça dela e a parte de cima da porta. No carro, ele se ocupou por um minuto com o diário de bordo, evitando a todo custo o espelho retrovisor. – Obrigada – ela disse baixinho. Ele fez que sim com a cabeça ao dar partida no carro, mas não olhou para ela. – Muito bem, então. Vambora. Harry colocou o visor para baixo e ela viu a foto da menina de novo. Em outras épocas, ela teria forçado a barra um pouco. Ah, vá, me conte um pouco sobre ela. Quantos anos ela tem? Quem é ela? Por que você não quer falar sobre ela? Você vai se sentir melhor se tirar isso do peito e puser para fora. Mas aquilo tinha sido há muito tempo. Na época em que ela não tinha noção de como era sortuda por não ter nada na vida impróprio para consumo público. Sem segredos nem verdades sombrias que não pudessem ser compartilhados com os outros. Ela virou o rosto para a janela e viu as ruas de Plano passando, diretamente do Disney Channel. Mara estudou o corredor comprido que levava à biblioteca da escola, e então olhou para o relógio e amarrou a boca. Já eram onze e vinte e oito; a aula na biblioteca começava às onze e meia. Ela tinha demorado mais para entrar na escola que o esperado ao marcar o horário com Harry. E agora tinha ficado apertado demais: o sinal tocaria em dois minutos. Ela apertou o passo, rezando para chegar à biblioteca vazia antes que o barulho provocasse uma reação em seus membros. Ao mesmo tempo, ela tentava se acalmar. O estresse tinha um efeito até mais pronunciado sobre seu corpo que o barulho – uma coisa típica da DH. Tinha lido sobre isso em um monte de artigos. “Evite situações estressantes, ainda mais em público.” Ser observada por uma multidão de olhos de estranhos só pioraria as coisas para qualquer um, mesmo sem seu número excessivo de repetições CAG. “Pense em coisas boas”, ela ordenou a si mesma. “Pense em como sua filha vai ficar feliz ao ver você aqui hoje, como ela estava animada ao saber que você vinha. Pense no que Tom disse, sobre a aposentadoria ser a pior notícia para você, mas a melhor notícia para ela. Pense em quanto tempo ela passou com a mãe nos últimos meses – tempo para lanchinhos da tarde e trabalhos de arte e piqueniques com bichinhos de pelúcia no quintal.” Tempo que ela nunca havia tido antes, com a mãe sempre na correria, sempre preocupada demais com pareceres e provas e preparações para julgamentos. A maior perda da vida da mãe até agora – a aposentadoria forçada – tinha levado ao maior ganho da vida da filha. O que a levou a pensar em como um ponto de vista diferente podia levar a interpretações drasticamente diferentes de uma mesma situação. Ali estava Mara, resolvida a sair deste planeta assim que possível para poupar Laks de ter uma mãe que era tão menos que a Mara que ela queria ser para a filha. Mas não seria possível que só estar por perto – aqui na escola, ou em casa, em vez de no escritório, ou debaixo da terra – era tudo de que a menina precisava? Como mãe, não era melhor estar por perto que sumir para sempre? E não era verdade, mesmo que estar por perto implicasse andar por esse corredor parecendo uma biruta de vento, e depois deslizando a bordo de uma cadeira de rodas? Mesmo que implicasse, por fim, não poder ir à aula na biblioteca, mas ser colocada para sentar na cama quando Laks chegasse em casa, e saber como tinha sido seu dia? Qual era o nível exigido de movimento coordenado materno? Ou o nível de amor – amor suficiente para deixar sua chance escapar para que ela pudesse estar ao lado da filha, em qualquer condição?


Uma sugestão de sorriso apareceu nos lábios de Mara e foi se abrindo à medida que ela apertava o passo no corredor. Será que ela havia acabado de se convencer que seria melhor para Laks se ela ficasse por aqui mais um tempo? Quando o assunto era Laks, não havia um lado negativo para essa alternativa. Ela estava na metade do corredor quando duas portas perto dela se abriram com tudo. A porta mais próxima era a da sala 112, a classe de Laks. Ela podia ouvir uma voz jovem dando instruções para a turma. Devia haver uma substituta naquele dia; a professora de Laks era uma mulher mais velha. Ao se aproximar, Mara pôde ouvir a substituta dando instruções para a turma fazer uma fila na sala para que a líder daquele dia, Samantha, pudesse puxar a fila até a biblioteca. Um pouco mais adiante no corredor, uma mulher que Mara reconheceu como uma professora do quarto ano estava apoiada no batente de sua sala, dando ordens que Mara não conseguia escutar dali. Ela passou pela sala 112 com rapidez. Mas, ao se aproximar da sala no quarto ano, a professora sumiu lá para dentro e uma multidão de crianças de dez anos saiu pela porta, se empurrando e xingando enquanto enchia o corredor, bloqueando a sua passagem. De uma direção, uma voz clara falava. – Muito bem, então, Samantha, você deve levar todo mundo para o corredor. Mas, por favor, fiquem parados aí até o sinal tocar. Mara ouviu as crianças do jardim de infância se mexendo atrás dela. A não ser que empurrasse os alunos do quarto ano, ela não via outra maneira de passar por ali. Olhou rapidamente para trás e viu que a fila única de Samantha já tinha se desmanchado: a criançada de cinco anos estava espalhada pela largura do corredor. Ela ouviu a batida alta de seu próprio coração ao ficar ali, presa, um grupo de alunos de dez anos bagunceiros de um lado, e uma multidão de criancinhas de cinco anos, incluindo sua filha, do outro. E então o sinal tocou. O barulho invadiu os ouvidos de Mara em ondas lentas e trêmulas e, por sessenta segundos terríveis, tudo aconteceu em câmera lenta diante de seus olhos: Seu tronco se jogou para a frente quando o barulho arrancou seu equilíbrio. Com a DH, seu tempo de reação já não era o mesmo, e ela não conseguiu contrabalancear a tempo o movimento que o corpo fez para o lado, e o momento deu conta do resto do recado, fazendo com que ela desse dois passos rápidos à frente antes de atingir um armário com toda a força. Um grupinho do quarto ano se virou para encará-la, e a maioria das criancinhas também. As crianças mais próximas dela, incluindo Laks, ficaram de boca aberta, chocadas, enquanto Mara tentava se endireitar, mas não conseguiu se segurar no armário e caiu no chão. Ao tentar de novo, ela se esforçou para se erguer, mas as risadas altas dos alunos do quarto ano pareciam penetrar a fundo em seus músculos e paralisá-los, e ela caiu de novo. Um menino do quarto ano gritou: – Olha só, a mulher está bêbada! Uma dúzia de vozes do quarto ano caiu na risada, seguida por muitas do jardim de infância. Uma menina gritou: – Alguém precisa ligar para a polícia! O que essa bêbada está fazendo aqui na escola? Outra disse: – Gente, parem de rir! Parem de rir! É maldade! Alguns pararam de rir. Outros riram mais alto.


A professora substituta, com a mão sobre a boca, disse à turma para voltar para a sala o mais rápido que podiam. Mas as criancinhas estavam congeladas, ainda de queixo caído olhando para Mara. – Eu falei para vocês voltarem para a sala agora mesmo! – a professora disse. – Samantha! Leve todo mundo para a sala já! Samantha! Crianças! Todo mundo! Vamos, rápido! Todas obedeceram, menos uma, e Mara pôde ouvir o zum-zum-zum de vozes na sala 112. Palavras como “medo” e “louca” passaram pela porta e vieram para o corredor, latejando em seus ouvidos com o eco do sinal e os cochichos e risadas dos alunos do quarto ano. – E você! – a substituta disse por entre os dentes para a criancinha que não tinha seguido Samantha até a sala. – Você! – a professora chamou de novo. – Eu mandei você entrar agora mesmo! Com as mãos e os joelhos no chão, Mara ergueu a cabeça e olhou nos olhos da criança que continuava congelada e de olhos arregalados à sua frente. – Mãe! – Laks a repreendeu, sua voz um sussurro baixinho ao olhar da mãe para a professora e para os alunos do quarto ano, e então para a mãe de novo. – Levanta! Você precisa levantar agora! A expressão de humilhação no rosto da filha e a acusação em sua voz trouxeram lágrimas quentes aos olhos de Mara. Ela tentou se convencer a ignorar as crianças mais velhas fazendo careta e rindo dela, e convenceu os braços a obedecer quando ela tentou se levantar do chão mais uma vez. Funcionou, e ela ficou de pé, com um sorriso orgulhoso no rosto, até perceber que a situação era patética demais para sentir orgulho, e ordenou que sua boca formasse apenas uma linha reta. – Desculpe – ela sussurrou. – O sinal tocou, e o barulho... E por alguma razão está tão pior hoje. Perdi o equilíbrio e então... Eu não teria vindo se soubesse que seria assim tão ruim. Eu não sabia. Eu sinto tanto. Ela tentou dar alguns passos em direção a Laks, mas outro menino do quarto ano berrou: – Ela está bêbada mesmo! Olha só como ela anda! Mara fez cara feia, confusa e irritada pelos alunos do quarto ano e o drama que estavam fazendo. O que aquele moleque estava dizendo? O Show da Mulher que Caiu tinha acabado, e ela estava andando perfeitamente bem. Por que ele não procurava outra coisa para fazer um comentário exagerado? Quando a mãe se aproximou, a menina deu um passo para trás. – Mãe, eles estão rindo de você! As crianças maiores estão rindo de você! E as crianças da minha sala estão xingando você! O corpo inteiro de Mara estava queimando de tanta vergonha. Aquilo era muito pior que o corredor dos cerais no mercado. – Desculpe – ela murmurou, o nó na garganta quase não deixando as palavras saírem. – A mamãe sente muito. Não sei por que meu corpo está se comportando tão mal hoje. – Você não pode ir para a biblioteca agora! Por favor, não vá para a biblioteca! – Lágrimas escorriam pelo rosto da menina e ela as enxugava cheia de raiva. – É claro que não. Vou para casa. Laks fez que sim com a cabeça e continuou enxugando as lágrimas. Os alunos do quarto ano ficaram quietos quando sua professora resolveu aparecer. Mara ouviu um dos meninos começar a contar o que tinha acontecido, mas a voz da mulher o interrompeu, anunciando que eles estavam atrasados e que estava na hora de ir para a aula de educação física; ele podia contar a história para ela mais tarde. – Quer que eu leve você lá fora, mãe? – Estava na cara e no tom da criança o que ela estava torcendo


para a mãe responder. – Não, querida, tudo bem. Agora já estou melhor, viu? Ela tocou no cabelo da filha, mas Laks deu mais um passo para trás, e então outro. – Preciso ir – ela sussurrou, lançando outro olhar furtivo para o corredor. – A professora falou. – Ela fez um gesto em direção à sala e olhou para a mãe com impaciência, esperando ser liberada. – Claro – Mara disse, fazendo um gesto para que a menina entrasse. – Pode ir. Vou ficar bem aqui. O táxi vai chegar logo. Vou esperar lá na frente... – Você pode esperar atrás da árvore? Assim ninguém vê você da janela. Mara balançou a cabeça concordando e saiu andando. Ela estava encolhida junto à base da árvore, com a cabeça enfiada nos braços, quando ouviu o táxi estacionar. Harry saiu do carro e foi correndo até lá, a porta escancarada, o motor ainda ligado. – O que foi? Parece que você está tentando sumir! Ela levantou o rosto vermelho e inchado para ele e abriu a boca para falar. Não saiu nenhum som, e ela só fez que não com a cabeça devagar, olhando além dele para o carro. – Claro – ele disse, gentil. – Vamos para casa. – E sem mais nenhuma outra palavra ele meio a carregou e meio a ajudou a andar até o carro, auxiliou-a a entrar e colocou o cinto de segurança nela. Enquanto Harry dirigia, Mara olhava sem expressão pela janela, sem enxergar as cores vibrantes de Plano, mas apenas os olhos escuros, zangados e cheios de lágrimas da filha enquanto a menina, humilhada, pedia à mãe que se escondesse das outras crianças. Desistiu de tentar enxugar as lágrimas que escorriam pelo rosto, desistiu de limpar o nariz com um lenço de papel e de pressionar os dedos nos olhos inchados para que eles voltassem ao tamanho normal. Ela deixaria Harry vê-la naquele estado se ele olhasse para ela no retrovisor, ela o deixaria ver seu rosto feio, vermelho, inchado, coberto de ranho ao ajudá-la a sair do carro quando chegassem em casa. Ela merecia. Merecia a vergonha e muito mais, depois do que tinha feito sua filha passar. Mara deixou escapar um resmungo de nojo da própria idiotice no corredor, quando estava quase convencida de que estar ali, mesmo naquela condição, seria melhor para Laks do que deixar o planeta. Com os olhos ainda fechados, ela sentiu Harry se mexendo no assento ao som de sua voz e pôde imaginálo olhando para ela, preocupado, esperando uma explicação. Ela virou a cabeça para a janela e encostou a testa no vidro frio, deixando as perguntas dele sem respostas, enquanto se castigava por ter sido tão boba. É claro que não seria melhor para a menina se ela estivesse por perto naquela condição. Não havia justificativa para expor Laks a mais daquilo. Mara podia imaginar os gritos e risadas das crianças no ônibus sobre a mãe que mais parecia uma biruta balançando para lá e para cá na guia, esperando o ônibus da escola. E as bocas abertas de espanto, mais tarde, quando percebessem que a mãe da menina agora estava de cadeira de rodas. Os cochichos enquanto os boatos corriam soltos agora que a mulher estava confinada a uma cama. Agora, se você fosse à casa de Lakshmi Nichols brincar com a menina, não veria uma mãe no balcão da cozinha com brownies que tinha acabado de assar; você veria a porta do quarto fechada. Ou pior, aberta, e lá dentro uma mulher doente e acabada, encarando você, ou olhando através de você. Aos cinco anos, Laks era nova demais para esconder a vergonha que tinha sentido da mãe. Ela era por instinto sincera demais com seus sentimentos para fingir que estava tudo bem, e que o comportamento da mãe não tinha sido embaraçoso. Mas um dia ela aprenderia a filtrar suas emoções. Ela descobriria que


deixava a mãe nervosa, e o pai também, se dissesse qualquer coisa negativa sobre Mara. Ela aprenderia a guardar seus sentimentos para si, e então eles se acumulariam dentro dela, uma mistura tóxica de humilhação e repulsa, amargura e raiva. Como alguém poderia dizer que isso seria melhor para uma criança que a sua mãe simplesmente morrer? Mara havia testemunhado aquilo, uma amostra do que estava por vir, quando recebera o diagnóstico. Ela ouvira sem querer uma das enfermeiras do dr. Thiry mencionar o nome de uma casa de repouso onde um de seus pacientes morava, e Mara tinha ido até lá, usando como desculpa uma história sobre a mãe doente. Não tinha demorado muito para encontrar a paciente de DH: a mulher estava sentada no canto da “sala de atividades”, um cobertor fino sobre uma pilha de suportes para os pés na cadeira de rodas, enquanto ela girava sem parar da cintura para cima, dobrando-se para a frente, e então para o lado, e então para a frente de novo, o rosto uma careta eterna. Um homem estava de pé ao lado dela e dois adolescentes, uma menina e um menino, estavam sentados em cadeiras de plástico no canto. O olhar da mulher estava fixo em uma cadeira vazia a vários metros de distância, e, apesar de a boca do homem se mover com regularidade, a mulher não dava sinal nenhum de que o escutava, ou nem mesmo de que tinha consciência da presença dele. Os filhos pareciam estar esperando o trem, Mara pensou, pelo jeito como ignoravam a mãe. Eles estavam de cabeça baixa, olhando para seus celulares, e os dois usavam fones de ouvido e mexiam a cabeça ao ritmo da batida que só eles podiam ouvir. Mas naquela época era difícil culpá-los, já que a mãe também não estava interagindo com eles. Era fácil imaginar os filhos tentando, nas primeiras visitas, conversar com ela e contando o que tinham feito desde a última visita – o que tinham feito na escola, nos treinos de esporte ou o que tinham aprontado com os amigos. E então sendo recebidos por aquele olhar vazio que Mara via no rosto da mulher agora. Um olhar que dizia que na verdade ela não tinha escutado nada. E que ela nem sabia mais quem eles eram. Enquanto a guia do “tour” pela casa de repouso continuava tagarelando sobre noites de atividades e excursões e planos de refeições, Mara ficou observando quando o homem pegou o cobertor e o esticou sobre as pernas da mulher, prendendo com delicadeza as extremidades atrás da cintura dela. Em segundos, o cobertor estava nos pés dela de novo, e ele sorriu pacientemente ao se abaixar para tentar de novo. Ele deu um tapinha de leve no ombro da mulher e recomeçou sua missão. A mulher tirou o cobertor do lugar de novo, e o homem tentou pegá-lo, e Mara viu o menino cutucar a irmã com o pé. A menina deixou de olhar para o telefone e o irmão indicou com o queixo o jogo de “pega o cobertor” que seus pais estavam fazendo. Ele olhou de relance para o pai antes de revirar os olhos com ar de drama para a irmã. Ela também revirou os dela e fez que não com a cabeça, o lábio superior curvado de nojo. O pai deles ficou de pé, voltando a ter os filhos em sua visão periférica, e eles voltaram a baixar a cabeça o mais rápido possível, encarar os celulares e a mexer a cabeça ao ritmo da música, fingindo que não tinham notado nada. Mara nunca tinha contado a ninguém sobre sua visita à casa de repouso, mas confessou várias vezes a Tom que ela sabia como os últimos estágios da DH seriam para ela, e como seria difícil para Laks. E para ele. Tom dizia que não teria problema nenhum. Não seria ideal, talvez, mas eles encontrariam uma maneira de lidar com aquilo, e tudo daria certo. Mas ele estava falando sem saber, Mara pensou. Ela tinha visto a realidade. Tinha vislumbrado seu futuro. Lançou um olhar rápido para Harry e relembrou o que estava pensando enquanto ele a ajudara a ir até o táxi mais cedo naquele dia, sobre como ela poderia um dia abrir mão da própria independência, aceitar a ajuda de Tom e de seus pais e ajudantes domiciliares e, mais à frente, enfermeiros domiciliares, para poder ficar mais tempo com Laks. Mas tudo aquilo, ela via agora, só levaria a mais dias como este. Mais risada, mais queixo caído, mais cochichos. Mais humilhação para Laks. Até que Mara se visse em uma


cadeira de rodas no canto de uma sala de atividades, chutando o cobertor pela décima vez, enquanto sua filha fingia não perceber como a mãe tinha se tornado patética. Em casa, Harry correu para ajudar Mara a sair do carro e entrar, mas ela fez um gesto para ele não se aproximar e se arrancou de lá. Mara se deixou seguir, com Harry bem atrás dela, até a porta, mas, quando ele estendeu a mão para subir o degrau da porta, ela fez que não com a cabeça com firmeza, e ele rapidamente deixou a mão cair ao longo do corpo. À porta, ela deu a ele o dinheiro da corrida antes de procurar as chaves. Harry enfiou as mãos nos bolsos e esperou em silêncio, até que ela afinal deu um suspiro e passou a chave para ele. Ele destrancou a porta e a abriu. Ela abriu a boca para agradecer, mas ele levou o dedo em riste aos próprios lábios e fez que não com a cabeça. Então se virou e foi andando até o táxi, erguendo a mão para dar um tchau ao partir.


28. Scott Scott tinha tomado banho e estava vestido, esperando Laurie chegar em casa. – Uau – ela disse. – Paletó e camisa. E aqueles sapatos que eu adoro. Para que tudo isso? – Vou levar a minha esposa para jantar. Para algumas pessoas, o nome disso é encontro romântico. – Duas vezes seguidas? – Pedir comida em casa não conta. E, mesmo se contasse, por que não? Você merece um descanso. Você precisa de alguma coisa antes de a gente ir? Nossa reserva é para as seis. – Nadinha – ela disse, virando-se de volta para a porta. Quase foi dançando pelo caminho da varanda até o carro dele. – Meu Deus, nem me lembro da última vez que fizemos algo espontâneo assim! Adoro! Faz pelo menos... – ela fez uma pausa. – Ah, deixa para lá. – Você pode falar, Laur. – Não. Seria insensível. Você ainda está... – Laur, tudo bem. Você pode falar. Ele esperou, mas ela se recusou a dizer. – Tudo bem, então digo eu – ele disse. – Faz pelo menos um ano. Desde que o Curtis veio morar aqui. A gente não tinha feito nada de espontâneo desde aquela época. Você tem o direito de ficar animada. – Ele a beijou e deu partida no carro. – Você tem o direito de me dizer como está se sentindo. Não precisa fingir que não está aliviada por que a nossa vida é só nossa de novo, quando nós dois sabemos que você não via a hora de isso acontecer. E eu também, aliás. Não é o fato de me recusar a ver o lado bom da situação que vai mudá-la, certo? Ele foi embora. A gente pode ficar triste ou dar um jeito de ver as vantagens. De qualquer modo, ele foi embora. Ela fez que sim com a cabeça, mas não quis acrescentar nada ao que ele havia dito. Eles deram as mãos e cantaram junto com o rádio, e ele a viu radiante de uma maneira que ainda não havia notado. Talvez fossem as últimas etapas da gravidez, ou ele ter se dado ao trabalho de planejar uma noite para os dois, ou a paz de aproveitar um tempo sem a “vela” de 1,20 metro que estivera com eles em todos os momentos nos últimos doze meses. Ele não sabia. Mas ela estava linda. – Você está linda – disse a ela, levando a mão dela aos seus lábios. – Você parece... satisfeita. – É assim mesmo que estou me sentindo. – Ela fechou os olhos e eles ficaram desse jeito pelos últimos dez minutos do caminho – de mãos dadas, Scott olhando de relance da rua para a sua esposa, e os dois cantando baixinho com Elton, enquanto ele lamentava a partida de Daniel e as luzes vermelhas de freio. Mais ou menos no meio do jantar, Laurie colocou os talheres sobre a mesa. – Tá, eu admito. Estou aliviada. Scott ergueu os olhos do filé e a encontrou olhando para ele sem muita certeza, como se estivesse pensando se tinha cometido um erro ao levar a palavra dele a sério. Ele fez um gesto para que ela continuasse. Não tanto porque queria ouvir o que ela diria, mas porque achava que devia isso a ela. Ela


não tinha ficado superanimada com a ideia de acolher o menino, mas havia seguido em frente de qualquer modo, por um ano inteiro, por Scott. O mínimo que ele poderia fazer era permitir que ela expressasse o que achava de tudo aquilo. – Eu estou – ela disse. – Aliviada. Satisfeita, como você disse no carro. E completa e totalmente relaxada pela primeira vez em muito tempo. Quer dizer, ô meu Deus, Scott. Você se lembra de como foi fácil ontem à noite? Jantar no sofá, nossos pés para cima? Lembra do silêncio? Sem discussões sobre como se portar à mesa ou lidar com um respondão? E depois, enquanto você estava corrigindo os trabalhos, eu li seis capítulos daquele livro e comecei outro naquele silêncio glorioso e ininterrupto. Sem fazer uma pausa para negociar a lição de casa ou o banho ou a hora de dormir ou se alguém podia repetir a sobremesa sem ter comido toda a verdura. Foi como estar no céu. Ela o olhou de perto, como se estivesse testando o terreno. Ele sabia que ela o estava esperando dizer que poderia continuar. Sentiu uma pontada de deslealdade ao escutar a esposa listar todas as maneiras em que estava “livre” do menino, e ele quase ergueu a mão como quem diz “basta”. Mas deixá-la dizer tudo em voz alta não queria dizer que concordava com ela. Ele fez um sinal com o garfo, dando permissão. – Tá – ela disse. – Bom, depois eu fui para a cama e então você foi... Para onde você foi mesmo? Lá para baixo, eu acho? Você estava naquele fórum? Bom, mesmo assim, eu fiquei deitada pensando que, pelos próximos três meses, toda noite vai ser desse jeito. Só eu e você e um silêncio tão grande que a gente até vai poder ouvir os nossos pensamentos. Ela fez uma pausa de novo. Ele fez que sim com a cabeça. – Estava um silêncio mesmo – ele disse. – Não é mesmo? – ela perguntou, não prestando atenção, ou talvez ignorando o fato de que o tom dele tinha sido mais saudoso que grato. – Tão silencioso, eu não conseguia acreditar. E sabe de mais uma coisa? Ele ergueu as sobrancelhas, convidando-a a contar. – A ideia de todo esse tempo – ela disse. – É incrível para mim. Tempo juntos, tempo sozinha. Tempo para tirar uma soneca à tarde! Ou para dormir até mais tarde nos fins de semana sem ser acordada às seis horas por um sussurro um pouco alto demais de “TROPAS, BATER EM RETIRADA! MAS FIQUEM NO CORREDOR! NADA DE IR PARA O QUARTO DOS ADULTOS E ACORDAR TODO MUNDO!”. Scott deu risada. O menino nunca tinha entendido a situação. Ou talvez tivesse, já que os cochichos sempre eram seguidos por um cutucão de Laurie em Scott, que se arrastava da cama e ia lá para baixo com o menino barulhento para que Laurie pudesse continuar dormindo. Laurie riu também, seu alívio era evidente na leveza da voz. Ela pegou na mão dele, passou o polegar pelos nós de seus dedos e deu a ele um de seus sorrisos encantadores, do tipo que o fazia se sentir mais líquido que sólido. – A gente passou... por anos não muito fáceis, você e eu, não acha? – ela perguntou. Ele fez que sim com a cabeça, e ela passou o polegar em outra direção. – E não estou dizendo que podemos consertar em três meses todo o desgaste que tivemos nesses muitos anos – ela continuou. – Mas podemos consertar muita coisa: pense em todas as noites como esta, as noites de cinema em casa sem ninguém no meio da gente no sofá, impedindo que a gente ficasse juntinho. Todas as manhãs preguiçosas na cama. Ela lançou um olhar sedutor para ele, que agora estava mais em estado gasoso que líquido. – Três meses – ela disse. – É tempo suficiente para a gente voltar ao normal antes de ter uma terceira


pessoinha em casa de novo. Suficiente para a gente se unir ainda mais, como era antigamente, antes que a bebê chegue e traga noites sem dormir, ansiedade e todas as coisas capazes de separar as pessoas. E eu acho que, mesmo estando louca da vida com a LaDania e de coração partido porque a gente não teve oportunidade de se despedir do nosso Carinha como queria, esses dias extras são um presente, porque é mais tempo para a gente. – Ela olhou para ele, nervosa. – Tudo... bem? – Claro que tudo bem – ele respondeu. Porque, falando sério, que outra opção ele tinha? Depois do jantar, ela perguntou se eles podiam passar em sua loja favorita de coisas para bebês, a Nenê Feliz, e registrar algumas coisas para o chá de bebê. Ele lançou mão da voz mais animada que conseguia lembrar e que, apesar de ter soado vazia para ele, ela aceitou, talvez por causa da própria animação nessa missão ou porque talvez ele tivesse ganhado créditos com o jantar planejado. No entanto, Laurie não engoliu a voz quando estava tentando mostrar para ele vestidinhos de tamanho 0-3 meses enquanto ele olhava para o outro lado, para luvas de beisebol para bebês e uniformezinhos em miniatura dos Tigers. Ao pegá-lo pelo braço, ela o puxou para os vestidos. – Preciso que você veja esses – ela disse. Ela tirou um da arara – tecido de algodão fino cor-de-rosa, com uma borboletinha na barriga – e o ergueu para Scott ver, os olhos dela mandando instruções para que dissesse como o vestidinho era fofo. Ele deu um sorriso amarelo e ela fez que não com a cabeça. – Assim não dá – ela disse. – Você precisa ficar animado com essas coisas. – Sacudiu o vestido na direção dele. – Eu preciso que você diga como essa borboleta é fofinha neste aqui. E – ela pegou um vestido amarelo com uma margarida enorme na parte da frente – como a flor é bonitinha neste aqui – falou, segurando o vestido para ele ver. Laurie colocou os vestidos de volta na arara e pôs as duas mãos nos ombros dele. – Eu preciso que você aja e se sinta feliz como nunca com o fato de que vamos ter uma filha. Preciso que você me convença de que a coisa mais importante na sua vida não é a família morando em um apartamento em Detroit, mas a família que eu e você estamos criando em Royal Oak. Eu preciso ver nos seus olhos e ouvir na sua voz e sentir no seu beijo que esta família, nossa pequena família de três, é a sua prioridade. Eu não acho que esteja pedindo muito. Mas, se eu estiver errada sobre isso, então é hora de me dizer. Ela largou os ombros dele e se virou de novo para os vestidos. Scott ficou estudando o chão. Será que ele seria capaz de prometer, ali, naquele momento, naquele minuto, que conseguiria superar a perda do Carinha e seguir em frente? E, de uma hora para outra, ficar todo animado com a bebê e não lamentar nem um pouco a ausência do menino? Ele ergueu os olhos e viu as pernas da esposa, sua barriga saliente, seu rosto. Mesmo irritada ela continuava com brilho. Meu Deus, ela estava maravilhosa. E tinha alguma coisa nela, alguma coisa sobre os dois juntos que era quase elétrica. Quantas vezes ela tinha deixado Scott de pernas bambas, bastando jogar o cabelo ou olhar para ele de um jeito diferente? Ele já havia decidido. Ela era a única mulher que ele amaria na vida. O que Laurie estava pedindo a ele, como ela mesma tinha dito, era eminentemente razoável. E quase nada se comparado com o que ele tinha pedido a ela naquela noite em abril passado, quando Bray aparecera na varanda acompanhado pelo irmão caçula. Ele podia imaginar o que Pete diria – 2meninos também, aliás – se fossem testemunhas desse debate interno se ele deveria prometer ao amor da sua vida


que dali em diante ele agiria fazendo jus a isso: “Hum, mas que merda de dilema é esse?”. – Você não está errada – ele disse, pegando o vestidinho rosa e erguendo-o para admirá-lo. – Então, será que eles têm cabides em miniatura para essas coisas? Porque essas roupinhas não vão caber nos cabides do nosso guarda-roupa. Ele passou o scanner na etiqueta, esperando pela aprovação dela antes de acrescentar o vestido à lista. – Obrigada – ela disse baixinho.


29. Mara Mara aguardou na varanda até o ônibus chegar. Ela nunca mais esperaria na calçada. – Laks, querida – ela disse quando a menina chegou. Curvou-se para a frente sem muito equilíbrio, levando o rosto ao nível do rosto da filha para poder olhá-la nos olhos. – Nem sei como me desculpar pelo que aconteceu hoje. – Tudo bem, mãe. – A menina ficou olhando para seus sapatos. – Posso comer um lanchinho? Mara respirou direito pela primeira vez em horas. – Claro. – Eu falei para você – Tom disse depois de chegar em casa e Mara descrever o comportamento de Laks quando voltou da escola. Mara havia ligado para ele logo depois que Harry fora embora, soluçando, dizendo que tinha certeza de que Laks jamais falaria com ela de novo depois do que tinha acontecido. – Isso é loucura – ele disse. – Ela é muito mais forte do que você pensa. Mas, mais tarde, Mara estava levando toalhas de banho limpas ao armário de Laks – só duas por vez, já que carregar uma pilha inteira de toalhas limpas tinha se tornado difícil demais – e Tom, ela achava, estava no sofá, lendo uma revista. Quando se aproximou da porta do quarto da menina, ela ouviu a voz dele perguntando: – Laks? O que foi? Mara espiou pela fresta da porta. A menina estava chorando com o rosto enterrado no travesseiro. O pai estava sentado na cama dela, passando a mão pelos cabelos da filha. – Laks, fale comigo – ele disse. A resposta foi mais soluços, e Mara ficou olhando enquanto ele fingia estudar as pregas da própria calça. Um momento depois, ele perguntou: – É por causa do que aconteceu na escola? Mara respirou fundo quando a cabeça no travesseiro foi para cima e para baixo. – Sei. Quero que você converse sobre isso comigo. Se você está sentindo uma coisa muito forte, é melhor falar. Não guarde nada aí dentro. Laks se virou, o rosto amassado e vermelho de raiva. – Não sou mais amiga da Lisa – ela soluçou. – Não mais. Nunca mais vou falar com ela. – O quê? – ele disse, e Mara compartilhou o alívio que ouviu na voz dele. – Isso é por causa da Lisa? O que aconteceu com a Lisa? – Ela disse – Laks fez uma pausa para recuperar o fôlego – coisas feias. – A menina engasgou, antes de soluçar de novo. – Que coisas feias? O rostinho se virou para a parede.


– Lakshmi. Fale comigo. Que coisas feias? Ainda virada para a parede, ela resmungou: – Ela chamou a mamãe de “bêbada”. – Bêbada? – Tom perguntou, e Mara detectou o esforço na voz dele tentando torná-la mais leve, quase forçando uma risada. Um sentimento de desespero se instalou em seu peito. – Ah, mas que coisa mais boba – ele disse – e estranha para uma menina de jardim de infância falar, mas acho que ela não sabe o que isso quer dizer... Laks olhou séria para o pai. – Ela ouviu os alunos do quarto ano falando isso. E falou com maldade. – E, em um instante, seu olhar sério desabou em outro cheio de dor e mais lágrimas escorreram por seu rosto. Os ombrinhos minúsculos começaram a sacudir e ela passou a engasgar e ficar quase sem ar ao tentar usar as palavras por entre soluços. – Todos eles. Falaram – ela chorou. – Todo mundo menos a Susan. Ela respirou fundo de novo. – Ela é a única que continua sendo minha amiga. – Ela fez outra pausa para soluçar mais. – E todo mundo falou... Com maldade... As crianças maiores... Também. – Ela tomou mais ar e fungou. – Todos eles começaram a chamar a mamãe assim. “Bêbada”. Porque ela estava... andando... engraçado. – Ela estava ofegante. – E as crianças grandes falaram... Que ela parecia... uma bêbada. E eu perguntei... Professora... o que é “bêbada”, e ela... disse que é... ruim. – O corpinho chacoalhou e ela lançou os braços ao redor da cintura do pai, enterrando a cabeça em seu colo. Bêbada. Mara olhou para baixo: as toalhas que estava segurando se moviam para a frente e para trás, para cima e para baixo. Ela não tinha notado seus braços se mexendo. Anosognosia. A total falta de consciência que alguns pacientes de DH têm de que seus corpos estão se mexendo. Ela se lembrou do dr. Misner explicando isso para ela. E então Tom. E então o dr. Thiry. Ela já tinha ouvido falar de pacientes de DH sendo presos por estarem “bêbados” em público por causa de seu andar inclinado para a frente, estranho, e eles diziam estar perfeitamente bem – o que nunca ajudava ao argumentar com a polícia. E agora Mara tinha feito a mesma coisa. Mas, em vez de morrer de vergonha diante da polícia, ela havia humilhado a filha em frente a um corredor cheio de crianças. Será que aquilo tinha começado naquele dia, na escola, ela ficou pensando, ou ela já vinha andando de um jeito estranho fazia algum tempo? E de repente ela se deu conta: o menino e sua mãe no supermercado tinham olhado para ela como se tivesse alguma coisa errada – algo além do fato de ela ter feito xixi na calça. Harry quase tinha vindo correndo ao vê-la dar os primeiros passos para sair da oficina. E a vendedora da loja de roupas parecia estar encarando Mara também. Ela não tinha se dado conta esse tempo todo – ela tinha olhado para Mara como se houvesse algo de errado com ela. Mara sabia que não estava sendo ela mesma naqueles momentos, mas apenas achou que os olhares confusos fossem uma reação a isso. Agora ela sabia por que todo mundo olhava torto para ela. Tinha andado por aí como uma bêbada a semana inteira. Mas a sua família e suas amigas agiram como se nada tivesse mudado. Ela sabia que isso era motivo para amá-los até mais, mas com a filha chorando daquele jeito ficava difícil não sentir o oposto. – Eu sinto muito – Tom disse a Laks. – E a mamãe também. Mas não é culpa dela. Lembra quando eu e a mamãe explicamos para você que ela não estava se sentindo muito bem? Que ela tinha uma coisa chamada doença de Huntington e que era por isso que tinha parado de trabalhar? E que era por isso que


às vezes ela tinha ficado meio brava, até começar a tomar o remédio? Você se lembra disso? Lembra quando a gente conversou que quando alguém tem uma doença não é culpa dela? Então, quando a doença faz a pessoa agir de uma maneira que a gente pode não gostar, nós precisamos tentar não ficar bravos com ela, porque é culpa da doença, e não dela? Você lembra tudo isso? Eles não tinham falado muito sobre a doença de Mara para Laks. Não seria incomum se decidissem não explicar nada para ela porque Laks era tão novinha, a assistente social da clínica do dr. Thiry tinha dito a eles. Mas não era assim que as coisas funcionavam na família, Mara disse. Eles falavam a verdade. Na lata. Eram do tipo de pais que se referiam às partes do corpo por seus nomes verdadeiros. Então, no verão passado, quando Laks só tinha quatro aninhos, perguntou para a mãe: “Por que você toma todos esses remédios de manhã?”, eles se sentaram com ela e explicaram os motivos. Contra a vontade de Mara, Tom tinha acrescentado esse pedaço sobre a necessidade de serem compreensivos e não ficarem aborrecidos quando Mara ficasse brava, deixasse alguma coisa cair ou levasse um tombo. Mara queria que a menina tivesse permissão para expressar raiva e frustração em relação à sua mãe, se era aquilo que estava sentindo. Enterrar tudo isso por causa de uma promessa que ela tinha feito ao pai era o extremo oposto do que Mara queria para a filha. “Ainda bem que Tom não estava no corredor na escola hoje”, Mara pensou. Laks poderia ter se sentido pressionada a levar Mara até a calçada, apesar de na verdade preferir fingir que não a conhecia. – Eu lembro – Laks respondeu. – Que bom – Tom disse, passando a mão pela cabeça dela. – Então você lembra que a gente não pode ficar bravo com a mamãe por causa do que aconteceu, já que não é culpa dela, né? Laks não respondeu. – Né, Lakshmi? – Tom repetiu com a voz mais séria, instruindo-a a concordar. A menina não fez que sim com a cabeça. E Mara não a culpou por isso. E Tom não insistiu, mas se sentou em silêncio, deixando-a chorar em seu colo, enquanto ele fazia carinho nos ombros dela, que continuavam se sacudindo com os soluços. E agora Mara via as lágrimas escorrendo pelo rosto do marido. Ela levou a mão à boca para sufocar o próprio soluço e deu um passo para o lado, apoiando-se na parede. As toalhas escorregaram de suas mãos e caíram no chão. Ela tinha passado horas ruminando a preocupação de que um dia a doença pudesse envergonhar sua filha. Que lidar com os efeitos da DH, ajudar a filha a tentar lidar com eles fosse se tornar pesado demais para o marido. Mas não tinha pensando como se sentiria se aquelas situações se tornassem realidade. Ela ouviu a voz de Laks, agora alta e séria: – Não quero mais que ela vá à minha escola, pai! Mara sentiu um flash momentâneo de orgulho da filha por expressar o que sentia antes de um aperto tomar conta de seu peito. Ela podia sentir a dor na voz da menina, podia imaginar o rostinho cheio de receio por ter dito aquelas coisas sobre a própria mãe. – Também não quero que ela fique na calçada. E nem que ela me espere na varanda! Não quero que as crianças riam da cara dela. Nem da minha. – Opa! Espera um pouco aí – Tom disse. – Não quero ouvir você dizer... – Eu quero que ela fique em casa para sempre e nunca mais saia! Mara se segurou na parede. Embora fosse doloroso pensar em Laks tendo que esconder seus sentimentos reais sobre a doença da mãe, ouvi-la dizer tudo em voz alta era de matar. Uma dor passou queimando dos ouvidos de Mara até seus pés, preenchendo seu corpo, agarrando-se aos órgãos,


envolvendo ossos, enfiando-se por baixo da pele. E então ela se sentiu oca. Suas pernas ficaram bambas e ela segurou os ombros para cima, tentando forçar o corpo a ficar ereto. Respirando fundo e devagar, ela implorou ao corpo para não deixá-la na mão só desta vez. – Pronto, já passou – Tom estava dizendo agora. – Pronto, pronto – ele repetiu. E então mais alguma coisa em um tom baixo e sério, mas gentil. – Você não me entende, pai – ela ouviu a vozinha dizer, e ele respondeu, naquele mesmo tom baixo, sério e gentil. E Mara parou de ouvir as palavras de Laks, e as de Tom, e estava apenas vagamente consciente da voz grave dele, os protestos dela na vozinha aguda, até que enfim as vozes desapareceram e ela não ouviu mais nada e não viu mais nada além disto: Tom e Laks estão no carro, em silêncio. Ela está de mau humor; ele está se preparando, tentando ignorá-la. Eles estacionam o carro, entram no prédio, assinam um livro. Laks cobre os ouvidos ao ouvir uma sirene e as portas internas se abrem. É um barulho feio e irritante e ela aprendeu a desprezá-lo. Eles andam até o final do corredor, na sala compartilhada por todos. Os enfermeiros chamam aquele lugar de sala de estar, mas, fala sério, Laks pensa, quem eles estão tentando enganar? Mara está sentada à janela. Encarando, mas sem ver nada. Um cobertor velho e gasto sobre ela, apesar de fazer trinta graus lá fora. Laks fica pálida. O cheiro daquele lugar a deixa de estômago revirado. Mas ela aprendeu que, se reclamar para o pai, vai ficar de castigo no quarto a tarde inteira. Quando o pai não está olhando, ela cobre o nariz com a mão. Tom vai até Mara e pega sua mão com gentileza, beija o topo de sua cabeça. O cabelo não tem vida, e não está penteado. O couro cabeludo está seco. Ele ignora isso, e a beija mesmo assim. Ver os lábios dele tocando a cabeça da mãe deixa Laks nauseada. Ela toma cuidado para não produzir nenhum som. Ela se larga em uma cadeira, cruza os braços sobre o peito e faz um bico. Isso é ridículo. Ela não queria estar ali. Queria estar na internet, no celular, mandando mensagens de texto para os amigos. Putz, até fazer a lição de casa seria melhor que isso. Ela não tem utilidade nenhuma para essa mulher. Já se despediu da mãe, em sua mente. A mãe que ela tinha. A mãe que lia para ela, a empurrava no balanço, colocava bilhetinhos no lanche para a escola todos os dias: “Sempre vou amar você. Beijos, Mamãe”. A mãe que ela costumava admirar e elogiar para os amigos. A mãe que ficava feliz em ver quando o ônibus chegava perto de sua casa. Ela olha para o pai e seus lábios se curvam para baixo de decepção. Antes ele era tão bonito, tão cheio de vida. Agora o cabelo dele está todo grisalho. O rosto dele é magro demais e está sempre tenso. O azul dos olhos dele se desbotou – ela não achou que fosse possível, mas jurava que era verdade. A boca dele estava sempre formando uma linha reta e séria. A não ser aqui, onde ele força os lábios a virarem para cima e finge que não gostaria de estar em mais nenhum outro lugar. Não há nada que ele prefira fazer, a não ser falar com essa mulher que nem escuta, que nem consegue entender o que ele está dizendo. Antes ela o admirava por causa disso. Pela lealdade dele. Pela fidelidade. Agora ela só o acha patético. Ela se odeia por pensar desse jeito, tanto quanto se odeia por pensar desse mesmo jeito sobre a mãe. Mas o que ela deveria pensar? Ela quer ter uma vida. Quer um pai com os olhos acesos de novo. Por que essa mulher não morre logo?


Em um segundo, Mara estava no banheiro de hóspedes perto da cozinha, ajoelhada em frente ao vaso sanitário, enquanto tudo que ela tinha comido no jantar saía de uma vez só. Vomitou mais algumas vezes até que não tivesse sobrado mais nada. Jogou água fria no rosto e olhou séria para seu reflexo no espelho. E então andou decidida até a cozinha, pegou o telefone e apertou a tecla que ligava direto para o consultório do dr. Thiry. Quando a secretária eletrônica atendeu, ela anunciou seu nome e pediu para deixar uma mensagem para o médico. – Não consigo dormir.


30. Mara Na sala de estar, Tom estava sentado na ponta do sofá, o laptop aberto sobre os joelhos, um olhar intenso no rosto. Mara pigarreou e ele fechou o computador com tudo e o colocou sobre a mesinha de centro. – Ah, olha só, você aqui – ele disse, dando um tapinha ao lado dele no sofá. – Não tem nenhuma pesquisa nova – ela disse. – Eu chequei ontem à noite. E hoje cedo de novo. – Do que você está falando? Ela lançou um olhar desafiador para ele e fez menção de pegar o laptop. Como ela esperava, ele o alcançou primeiro, antes que ela pudesse levantar a tampa e ver o que ele estava lendo. Ela deu um sorriso de vitória. – Você acha que eu não sei dessa sua obsessão noturna? Ele olhou para ela com cara de paisagem, continuando a fingir que não estava entendendo nada. Ela decidiu que voltaria ao assunto. – Por que você não me contou que estou andando igual a uma bêbada? – O que? Ah, você escutou...? – Foi difícil não escutar quando a menina gritou: “Não deixe a mamãe sair de casa de novo!”. Tom fez uma careta. – Eu sinto muito... – Não. Você deve estar de saco cheio de dizer isso. Eu sei que estou cansada de ouvir isso. Acho que é a centésima vez que você diz “sinto muito” em uma noite. Por que você me deixou sair de casa andando daquele jeito? Você pediu para a Laks não falar nada? Porque ela costuma ser mais sincera. – A Laks nem deve ter percebido – ele disse. – Você é a mamãe. E a mamãe anda assim. Foi só quando... – Quando ela virou motivo de piada na Escola de Ensino Fundamental Plano Parkway que ela descobriu que a mamãe anda igual a uma bêbada? Ele fez que não com a cabeça, mas ela não deixou que ele falasse. – Por que você não me contou? – ela perguntou de novo, mais alto. Ele fez cara feia. – Você me pediu para não contar. Ela começou a discutir, e então se lembrou: a mulher biruta. No dia em que o dr. Thiry explicou o que era anosognosia, ela tinha pedido a Tom para não lhe contar quando estivesse se movendo de um jeito esquisito. Ela não queria saber. – Ah. – Ela apontou para o laptop que ele tinha fechado tão rápido. – Fala sério comigo. Você não está cansado disso?


– Do quê? Não era à toa que ele estava sendo meio sem noção; ela já tinha desistido de esperar que ele agisse de outra forma. – Cansado de caçar novidades na internet – ela respondeu. – De cruzar os dedos e rezar para eles descobrirem um novo remédio hoje, um novo ensaio clínico, porque não apareceu nada de novo no dia anterior. Cansado de esperar um final diferente para essa história, de rezar por aquela cura que “está quase chegando”, mas na verdade nem saiu do lugar. As mentes mais brilhantes da pesquisa não sabem até agora como a doença funciona – eles não estão “quase descobrindo” como fazer para acabar com ela. Você não está cansado de segurar a respiração, abrir o laptop e dizer a si mesmo: “Talvez hoje”? Ele levantou um ombro. – Não estou tão ansioso assim por causa das pesquisas. Eles estão fazendo avanços. E a gente ainda tem tempo. – Até parece! Eu fui de “Supermãe” a “Não deixe a mamãe sair de casa de novo” em dois meses. – Ela estalou os dedos. – Talvez os pacientes que têm a sorte de ter um número de repetições CAG perto dos quarenta tenham tempo. Mas não eu. – Não vamos começar com isso de novo, Mara – ele disse. Sua voz estava embargada; ela sabia que ele fazia de tudo para tentar controlar sua frustração. – Já falei para você, o dr. Thiry falou para você, todo mundo da equipe dele falou para você: não existe prova de uma relação entre o número de repetições CAG e a velocidade de progressão – ele disse. – Bom, eu já li muita coisa on-line sobre gente com número alto de repetições CAG deteriorando mais rápido que... Ele ergueu a mão. – Por favor. Pare de se deixar levar por essas coisas que você lê na internet. Acho que a gente precisa acreditar mais nos médicos... – Ahá! – ela zombou dele. – Você quer que acredite mais nos médicos? Nos caras que até hoje não têm nenhuma novidade sobre essa doença desde o dia em que fui diagnosticada? É mais seguro contar com a Bola Oito Mágica da Laks. Ele não respondeu, e eles ficaram em silêncio por alguns minutos. Tom estava pensando em maneiras de acalmá-la, ela sabia, e, antes que pensar nisso pudesse deixá-la com raiva, ela respirou fundo e contou até três para começar a falar de novo. Seria bom evitar uma discussão. – Mas sinceramente, Tom – ela disse em voz baixa. – Você não está cansado de fingir que não há nada de errado com o futuro de merda que você ganhou? – Mas está tudo bem – ele disse com gentileza, pegando na mão dela. – É claro que eu não queria que você tivesse que passar por isso, mas... – Ah, fala sério – ela respondeu, persuadindo o marido, tentando fazer com que ele confessasse. – Não me venha com essa conversinha de novo. Você também não queria passar por isso. – Eu não. – Fale a verdade – ela disse, fazendo que sim com a cabeça lentamente, indicando que ele deveria seguir em frente e concordar. – Você bem que queria não ter perdido tão feio na loteria das esposas. Ele estremeceu, chocado e com raiva, como se ela tivesse dado um tapa nele. – Mara! É claro que eu não...


– Queria, sim. Eu sei. Eu queria que você não precisasse aguentar tudo isso o tempo todo. Eu queria que você não estivesse preso nessa situação patética... Ele pulou do sofá, soltando as mãos dela, e ficou de pé, os pés afastados, os punhos cerrados. – Não me diga o que eu quero. Não fique achando que você sabe o que eu acho, o que eu penso, como eu me sinto... – Bom, eu posso adivinhar – ela disse –, já que estou passando pela mesma coisa. E eu sei que queria poder acabar logo com isso de uma vez, agora, do que ficar aqui enrolando por anos e anos. Eu sei que a Laks estaria muito melhor comigo dentro de uma urna sobre a lareira do que como motivo de piada nos corredores da escola. Eu sei como a vida seria muito melhor para você comigo fora do caminho, e com um espaço para uma modelo linda e saudável tomar o meu lugar. Alguém para quem você pudesse olhar com orgulho em vez de pena. E se eu sei de tudo isso com certeza, então você sabe de tudo isso também... – Mas que merda, Mara! Ela estremeceu. Ele nunca xingava nem gritava. Ela tinha sempre sido a escandalosa boca-suja da família. – O que eu acabei de dizer? Você não sabe o que eu sei! Você não sabe o que a Laks sabe! Pode parar de tentar… – Tá. Eu sei o que EU sei. E o que EU sei é que seria melhor para vocês... – Pelo amor de Deus! – Agora ele estava andando de um lado para o outro. Seu rosto estava vermelho e ela podia ver que ele abria e fechava os punhos, tentando controlar a raiva. Mas não estava conseguindo. – Você está errada. Quando é que você vai entender isso? Você está redondamente errada. Não seria melhor para a gente… – Bom, me desculpe se é um pouco difícil de acreditar. – Com um gesto, ela indicou o andar nervoso dele, o rosto vermelho, os punhos cerrados. – Você não está na melhor posição para me dizer que está bem. – Também tenho o direito de ficar nervoso, Mara, igual a você. Tenho o direito de ficar louco da vida. E com o que a DH está fazendo com a minha mulher, a minha filha, com a nossa família. E tenho o direito de odiar essa doença tanto quanto você. E a Laks também. Tenho o direito de andar para lá e para cá e xingar e ficar com o rosto vermelho e gritar quanto eu quiser. Todos nós temos. E eu e a Laks não fizemos muito disso até agora, e hoje à noite pode ser um sinal de mudança, ou de repente uma coisa que só aconteceu uma vez. Eu não sei, nem quero saber. Porque ficar nervoso é bem normal quando essas coisas deixariam qualquer um nervoso! E quero que ela saiba disso. Mas só porque ficamos nervosos não quer dizer que não podemos lidar com isso, nem que não queremos lidar com isso. Ele se sentou de novo e pegou a mão dela. – Pense nisso, amor – ele disse em voz baixa, implorando; toda a raiva tinha desaparecido agora. – Eu sou um médico. Se eu não quisesse ter nada a ver com gente doente, não teria me tornado um. – Você é dermatologista – ela disse, ácida. – Não é a mesma coisa que oncologia. Tom começou a responder, mas desistiu. Respirou fundo e então levou a mão dela aos lábios e a pressionou contra a boca. Mara ficou ofendida ao ver como ele podia se forçar a se acalmar tão rápido, e como ele era capaz de sair daquele precipício emocional daquele jeito, ignorar o insulto dela e tentar encontrar outra maneira de levá-los de volta ao caminho certo. Isso era algo que ela não era mais capaz de fazer. Mas na verdade, ela disse a si mesma, não era ele que estava sendo atacado. Quem não seria capaz de


se controlar sendo apenas uma testemunha da destruição? Você não via as pessoas perdendo a cabeça ao assistir à cobertura da guerra na TV. Os únicos que perdiam a cabeça eram os que estavam lutando na porra da guerra. – Por favor, não me diga que a gente ficaria melhor sem você – ele disse com a voz macia. – Não é verdade. E me machuca mais do que você pensa. E eu acho que machucaria a Laks também... – Tá. – Ela deu de ombros. – Vou deixar vocês dois fora disso. EU ficaria melhor se isso acabasse agora. Eu ficaria melhor não tendo mais que ficar aqui, sabendo que a minha filha vai ser motivo de piada na escola, sabendo que estou botando o meu marido para baixo... Tom não pulou desta vez, mas soltou a mão dela, soltou um resmungo de irritação e ficou de pé. Deu um passo para o outro lado da mesinha de centro e se largou em uma das poltronas em frente ao sofá. Pela expressão no rosto dele, sua tentativa de controlar a raiva já era. Ela não pôde deixar de sentir um lampejo de satisfação nisso. – O quê? – ela perguntou. – Por que você ficou bravo agora? Eu não estava falando sobre o que seria melhor para vocês dois. Eu estava falando do que EU quero... – Porque isso não envolve só você! Nem só o que você quer, nem o que você sente! – Ele se inclinou para a frente. Você já pensou nisso? – Isso já passou pela sua cabeça pelo menos uma vez nestes últimos quatro anos? – Ele abriu as mãos. – Você leu os sites, os folhetos do consultório do Thiry. Trinta mil pessoas nos Estados Unidos têm DH. Um número maior ainda é afetado pela DH. Você pode dizer que tem o gene, mas essa doença maldita não é só sua. Claro, a DH está no seu corpo. Mas também está nesta família. E você é uma das três pessoas desta família. Uma das duas pessoas neste casamento. E, sim, você é que tem DH, e nunca vou fingir que sei como é ter essa doença. Mas eu sou o cara casado com a mulher com DH. E aquela menininha – ele apontou para o quarto de Laks – é a filha da mulher com DH. E nós amamos essa mulher. Mais que tudo. Eu sei que essa doença acabou com você. Mas você parece esquecer que essa doença acabou com a gente também. Você parece esquecer que, tanto quanto você precisa da nossa ajuda para passar por isso, também precisamos que você nos ajude. Eu preciso do amor e do conforto da minha esposa. A Laks também precisa dessas coisas da mãe. Nós precisamos ter você aqui, com a gente. Não ficaríamos melhor com você numa merda de caixa na merda da lareira. Nunca diga isso de novo! – Tá, claro – Mara disse, revirando os olhos –, é isso que você tem que dizer. Mas lá no fundo do coração... – Pelo amor de Deus, Mara! – Ele ficou de pé de novo. – Chega! Ela ficou vendo, de queixo caído, enquanto ele foi andando até o quarto deles e sumiu lá para dentro. Momentos depois, ele estava de volta com o travesseiro dela, a camisola e o edredom da cama deles. – Quer que eu pare de tratar você com firula? – ele perguntou. – Quer que eu pare de sentir pena de você e sempre dar uma chance e ser sempre o bobo apaixonado? – ele quase engasgou. Ele jogou as coisas sobre o sofá. – Isso é o que eu faria se você não tivesse DH e tivesse passado os últimos quinze minutos dizendo para mim que eu não a amo o bastante para ficar com você até a porra do último minuto que eu puder, seja lá o que isso signifique. Isso é o que eu faria se você fosse perfeitamente saudável e tivesse me acusado de preferir o caminho mais fácil a cuidar do amor da minha vida. Isso é o que eu faria se você nunca tivesse sido diagnosticada, se a palavra “Huntington” nunca tivesse sido mencionada nesta casa, e você tivesse confessado para mim que quer sair dessa porque, sem dúvida, viver tem algumas desvantagens que, para você, são mais importantes que ficar comigo. Ele se virou, voltou para o quarto deles e bateu a porta com tudo.


Mara ficou ali, paralisada e olhando do travesseiro para o edredom, para o chão, e para a porta fechada do quarto, e tudo de novo. Boa estratégia, ela disse a si mesma com ironia, deixá-lo tão fulo da vida que agora talvez ele ficasse feliz por ela não estar mais lá. Ela cruzou os braços e tentou zombar da situação, mas o barulho saiu como um gemido machucado e lágrimas embaçaram a visão da porta fechada entre eles. Mara se sentou no escuro por mais de uma hora, tentando juntar coragem para falar com ele. Ela não podia dormir na sala, não quando eles tinham tão poucas noites juntos. Ele jamais se perdoaria, mais tarde, se ela tivesse ficado no sofá por causa de sua ordem. Por fim, ela se levantou e pegou as coisas que ele tinha jogado no sofá. À porta do quarto, ela parou, e então empurrou a porta de leve um centímetro, e então outro, até conseguir passar. Estreitando os olhos, conseguiu ver o contorno dele no escuro. Estava deitado de costas, a cabeça pousada sobre os braços cruzados, os olhos abertos – e olhando para ela. – Eu queria dormir aqui se estiver tudo bem com você – ela disse com a voz baixa e fina. Ele não respondeu. Era melhor que um “não”, ela decidiu, e entrou na cama ao lado dele. Aproximou-se dele e tentou tocálo na coxa. Ele continuou na mesma posição, agora encarando o teto, sem reconhecer a presença dela. – Desculpe – ela sussurrou. Nenhuma resposta até então. Ela se virou para ele e estudou a linha firme formada por seus lábios, a maneira como sua mandíbula estava tensa, como se ele estivesse se segurando para não falar. Ou para não chorar? Ela respirou depressa ao ver as lágrimas dele. Tinha magoado Tom. Aquele pensamento fez seus próprios olhos arderem e pela primeira vez ela se permitiu considerar que aquela “lenga-lenga do não tenho problemas com a sua DH” (o nome que ela tinha dado a isso) que ele tinha usado na sala, a mesma que ele tinha usado tantas vezes depois de seu diagnóstico, talvez não fosse lenga-lenga, mas a verdade. Talvez ele quisesse mesmo cuidar dela. Talvez ficasse magoado de verdade ao pensar que ela não acreditava nisso. Talvez de fato quisesse que ela ficasse com ele, e não fora do caminho. Talvez, pela segunda vez em muitos dias, ela tivesse cometido um erro ao deixar uma mensagem para o dr. Thiry. – Desculpe – ela disse de novo. – Tom, por favor, fale comigo. – Fico de coração partido quando você fala desse modo – ele sussurrou, continuando a encarar o teto –, quando você não acredita em mim quando eu digo que quero ficar com você até o fim. – Ah, Tom. Com todo o cuidado, ela virou o queixo dele para que ele a olhasse. Agora os olhos dele estavam cheios de lágrimas e os lábios dela se abriram de surpresa, mas ele deu de ombros, como quem não está nem aí. Mara passou o polegar sob os olhos do marido, e então o pressionou contra os próprios lábios. – Não vou mais poder dirigir – ela sussurrou. – Você vai ter que fazer todas as tarefas. – Eu não me importo – ele sussurrou em resposta. Ele a encarou, desafiando-a a dizer que não estava falando a verdade. – Vou ficar magra e pálida, e coberta de cuspe mais rápido do que você pensa. Você vai ter que me empurrar em uma cadeira de rodas. – Eu não me importo.


– Se você quiser me levar para algum lugar, vai ser assim. Você vai ficar com tanta vergonha de mim e vai ser tão sacal me empurrar por aí que vai preferir que eu fique em casa, escondida. – Não vou. – Eu vou esquecer quem você é. Quem a Laks é. Vou parar de falar. Vou ter que ir para uma casa de repouso, e você não vai querer ir me ver. Você vai se forçar a ir lá por obrigação. E vai forçar a Laks a ir também. E ela vai me odiar. Ela fez cara feia para essa ideia e se virou para o outro lado, mas ele colocou a mão sobre o queixo dela, forçando-a a olhá-lo de novo. – Não vai – ele disse, fixando seu olhar no dela. – Você nunca vai poder se aposentar. Casas de repouso são uma fortuna. Vai ter que trabalhar até os setenta anos. A Laks vai acabar indo para uma faculdade barata de bairro. Ele riu baixinho. – Você presta atenção nos demonstrativos dos investimentos que mostro para você? Eu poderia me aposentar amanhã e tudo bem. Ela estreitou os olhos para ele, e ele riu de novo, e aí foi que se inclinou para beijá-la. – Eu poderia – repetiu. – E vou querer ir visitar você. A Laks também. E não vai ser obrigação para mim, nem para ela. E ela jamais poderia odiar você. – Ela vai. E você também. Você vai acabar sozinho e deprimido, indo visitar um velho fiapo de uma pessoa que nem o conhece mais. Quando poderia estar em outro lugar. Encontrando outra pessoa. Casando-se com alguém mais jovem e saudável e começando uma vida nova. Ele fez que não com a cabeça. – Eu não quero uma vida nova. Eu quero esta vida. Com você. – Mas eu vou... – Você vai ser o amor da minha vida. Para o resto da minha vida. Ela suspirou e fechou os olhos. Mara sentiu Tom se mexer ao lado dela até ficar no lado dele na cama, olhando-a. Ele passou um braço por baixo dela, colocou o outro por cima dela e a puxou para perto. Logo, a respiração dele estava lenta, e ela sentiu o abraço ficar mais relaxado. Com todo o cuidado, ela se desvencilhou dos braços dele e ficou ali, vendo-o dormir. Ele era mesmo uma obra de arte. “Você quer dizer que eu faço muita arte”, ele sempre respondia, rindo. E ela diria: “Não, eu quis dizer obra de arte mesmo”. Ela passou os dedos bem de leve pelo cabelo dele, do topo da testa até o alto, e então deixou que eles descessem por suas costeletas e ao longo da mandíbula. Era imperdoável deixar um homem lindo como aquele perder a vida brincando de enfermeiro para uma mulher cuja aparência, corpo e sex appeal estavam se esvaindo a todo o vapor enquanto ele ficava mais bonito a cada dia. Mara passou os dedos pelas rugas dele ao redor dos olhos, rugas de tanto dar risada. Ele era um homem tão gentil e generoso. É claro que tomaria conta dela até o fim. Ele tinha razão sobre o que dissera na sala antes: Tom era treinado para isso. Ele era um “cuidador” profissional. Cuidaria dela melhor que qualquer paciente que já tinha tratado, se ela deixasse. Ela teria muito mais anos em casa, por causa dele, do que a DH permitiria em casos normais. Podia imaginá-lo dizendo: “Ainda não, amor”, a cada vez que ela sugerisse que estava na hora de procurar uma casa de repouso. Poderia imaginá-lo empurrando-a na cadeira de rodas, carregando-a no colo do sofá


para a cama, batendo a comida dela no liquidificador. Penteando seu cabelo. Colocando-a na banheira e dando banho nela com todo o carinho, preocupado até demais com a temperatura da água, a pressão da esponja sobre a pele dela, o xampu nos olhos. Ele era o ingresso dela para um mundo com mais tempo com Laks, com os pais dela, com Aquelas Moças. Mas ele também tinha razão sobre outra coisa que havia dito na sala: havia duas pessoas naquele casamento, e não apenas uma. Duas pessoas que se amavam até os limites do universo, ida e volta. Ao se aproximar dele, ela respirou fundo, inspirando o cheiro dele, masculino, sensual e intoxicante. Ela pressionou os lábios com delicadeza sobre o calor gostoso da bochecha dele, a barba por fazer tão sexy. Deixou sua língua sentir o gostinho do sal na pele dele. Duas pessoas tão fortemente movidas pelo amor de uma pela outra que jamais uma delas faria algo para machucar a outra. Ela enfiou o rosto com força no pescoço do marido e deixou que as lágrimas grudassem sua pele na dele, enquanto considerava tudo de que teria que abrir mão se não o deixasse tomar conta dela pelo tempo que fosse. E tudo de que ele teria que abrir mão se ela não recusasse.


Parte Quatro Sexta-feira, 8 de abril

Faltam dois dias


31. Scott Scott reconhecia que sua revisão de adjetivos e advérbios não era superinteressante, mas, quando a turma inteira do sétimo ano virou a cabeça para a porta, ele sabia que era mais do que falta de inspiração ao dar aula. Seguiu o olhar coletivo e ficou surpreso ao ver sua esposa à porta. Os olhos dela estavam vermelhos e inchados, como se estivesse chorando, e seus lábios tremiam agora como se ela estivesse prestes a começar de novo. “Ai, meu Deus!,” ele pensou, “a bebê”. Virando-se para a sala, o rosto pálido de repente, ele disse: – Vocês podem me dar um minuto? Vou mandar o Sr. Conner para cá. – A sala de Pete era ao lado da sua. Ele foi para o corredor, fechou a porta da sala e colocou as mãos trêmulas sobre os ombros de Laurie. – Aconteceu alguma coisa com a bebê? Ela pareceu surpresa com a pergunta, e fez que não com a cabeça, pousando a mão protetora sobre a barriga. – É a LaDania – ela disse. – Ela morreu. – O quê? – Ele deu um passo para trás, quase tropeçando na porta da sala de aula. – Morreu? Como assim? – Overdose. Ontem à noite, eu acho. A Janice me ligou no trabalho. A polícia a encontrou lá pelas quatro da manhã. Eu tentei ligar para você mais cedo, mas ninguém atendeu na secretaria. E achei que a gente deveria ir buscar o Bray de qualquer jeito, então resolvi vir até aqui e contar. E quando eu cheguei aqui e fui à secretaria, a sra. Bevel olhou para mim e disse que eu poderia vir direto até a sua sala. Acho que ela não queria ficar sozinha comigo até você chegar à secretaria. Bom, já falei demais. Você pode sair? – Posso, posso. Claro, posso sair. Espere só um segundo. Ele seguiu pelo corredor e enfiou a cabeça na sala de Pete. As carteiras estavam vazias e Pete estava à sua mesa olhando para uma pilha de papéis, uma caneta vermelha na mão. Scott pigarreou e Pete ergueu os olhos. Ao ver a expressão do amigo, ele deixou a caneta cair. Antes que Scott pudesse falar, Pete já tinha se levantado e vinha andando até a porta, pálido. – O que aconteceu? – Pete perguntou, antes de notar que Laurie estava lá. – Ah, oi, Laurie! Não tinha visto você aí. Ei, você está chorando? O que foi? É o bebê? – LaDania – Scott disse a ele. – Ela morreu. Overdose... – Ele olhou para Laurie. – Foi ontem à noite? Ela fez que sim com a cabeça. – Sim. Bom, tecnicamente, hoje cedo, eu acho. Ou tarde da noite ontem, o que você preferir. – Ela deu de ombros e passou a mão pelo rosto – Estou falando demais de novo. – Meu Deus! – Pete disse. – Merda! – Ele pousou a mão sobre o ombro de Laurie. – Quer dizer, que


merda. Não, que pena. Acho que... acho que estou falando demais também. Estou chocado. Mas ela estava indo bem, não estava? Voltou para casa, levou o Carinha com ela. Você não falou que ela estava fazendo entrevistas de trabalho esta semana? E falando para a Janice que estava tudo bem? – Estava – Scott respondeu. Eles ficaram ali por um minuto, ninguém sabendo o que dizer depois. Afinal, Scott se virou para Laurie. – A gente tem que ir. Vamos achar o Bray antes que a Janice ligue para ele. E, ah não... – Ele bateu a mão na testa. – E o Curtis? – Ele ainda está na escola – Laurie disse. – Vamos buscá-lo na volta de Ann Arbour. Ele não sabe até agora. Só o Bray sabe. A Janice ligou para ele antes de ligar para mim. Eu disse a ela que contaríamos para ele, e ela disse que, como o Bray é parente próximo, ela teve que contar para ele primeiro. Mas liguei para ele no caminho para cá e disse que vamos buscá-lo, e então vamos buscar o Curtis na escola para que ele possa contar para o irmão. Ele concordou. Pelo menos, é o que a gente pode fazer por ele. Scott olhou para Pete. – Eu dou notícia depois, quando a gente souber mais. – Ele apontou para a sua sala de aula. – Você pode? – Pode deixar – Pete respondeu. – Não se preocupe. Os olhos de Bray estavam vermelhos e inchados, e ele se largou no banco de trás enquanto Scott dirigia com Laurie ao seu lado. Janice tinha ligado antes e se oferecido para ir buscá-lo e levá-lo para ver o irmão. – Mas eu disse que tinha certeza de que um de vocês ia me ligar e vir me buscar. Scott e Laurie se olharam de relance, e ele disse um “obrigado” mudo a ela. Estava na cara quem sabia lidar melhor com uma crise. E, como se estivesse provando isso mais uma vez, Laurie se virou para Bray e disse: – Espero que você concorde, mas liguei para o pastor John a caminho da Franklin. – Ele era da igreja que LaDania frequentava de maneira bem irregular. Ele tinha ficado em contato com ela na prisão e ligado para os Coffmans várias vezes para saber de Curtis. – Não, tudo bem – Bray disse. – Obrigado por fazer isso. Acho que preciso falar com ele. Arrumar o enterro. – A voz dele quase sumiu e ele colocou a mão sobre o rosto, afundando mais no banco. – Eu já deixei tudo pronto – Laurie disse, colocando a mão sobre o joelho dele. – Ele pode amanhã, às dez, ele disse. É meio cedo para isso, mas ele achou que seria melhor para você e para o Curtis. Mas se você quiser esperar... – Não – Bray se apressou em dizer. – Eu prefiro fazer isso o mais rápido possível. – Ele deu um resmungo e olhou para o outro lado, e Scott teve a impressão de que o rapaz estava se castigando por querer que o enterro da mãe acontecesse rapidamente. – Eu entendo totalmente – Laurie disse baixinho, parecendo perceber a culpa de Bray também. – O pastor John disse que entraria em contato com alguns dos amigos dela da igreja. E os Johnsons. Ele vai pedir aos Johnsons para falar com os outros moradores do prédio. Além deles, somos só nós, certo? Mais algum parente que você conheça? Ele não sabia de nenhum. – Não. Além da minha avó, não tem mais ninguém. Que eu saiba, né? – Tá – ela disse. – Então está tudo certo. Nós podemos ligar para ele depois para ver alguns detalhes.


Música, leituras, esse tipo de coisa. Ou eu posso fazer isso, se você preferir. – Obrigado – Bray respondeu baixinho. – É, Laur, obrigado – Scott disse. Ele pousou a mão no joelho dela e tentou pensar em mais alguma coisa que pudesse fazer para ajudar, e ela colocou a mão sobre a dele. Ela estava cuidando de tudo, enquanto ele seguia atrás, perdido. – Vocês podem ficar com a gente neste fim de semana, é claro – ele disse a Bray. – E posso levar você de volta para Ann Arbor no domingo. Bray pigarreou. – Hum, eu estava pensando se podia ficar no domingo, se estiver tudo bem com vocês. Eu preciso estar em Detroit na segunda de qualquer maneira, para a audiência. – O quê? – Scott perguntou. – Por quê? Para que acabar com a nossa guarda agora, se não tem mais ninguém para ficar com ele? No mesmo momento ele percebeu que não deveria ter dito aquilo em voz alta antes de discutir o assunto com a esposa, e ela tirou a mão da mão dele. Ele tentou fazer contato visual com ela, mas ela se afastou e ficou olhando pela janela ao seu lado, os ombros rígidos. – Eu falei com a Janice sobre isso – Bray disse. – E eu poderia adiar a audiência, com tudo isso acontecendo. Mas acho que é melhor para o Curtis saber o que vai acontecer com ele o mais rápido possível. Então eu disse a ela para a gente seguir em frente. Dizer ao juiz a minha decisão, deixar tudo formalizado e deixar o Curtis seguir com a vida dele. – Que decisão? – Scott perguntou. – Ela disse que eu tinha duas opções: ficar com a guarda dele ou entregar o Curtis ao sistema de assistência social. – O quê? – Scott perguntou. – Ela disse a um aluno de faculdade que ele deveria considerar se tornar o guardião de um menino de oito anos? – Ele não podia acreditar naquilo. – Essa é uma das escolhas que ela sugeriu? Onde ela acha que ele vai dormir? No chão do seu quarto? Ele vai fazer a lição de casa no vestiário enquanto você treina? Dormir no ônibus quando você for jogar em outra cidade? – Ele batia no volante do carro enquanto falava e podia sentir o calor subindo pelo pescoço para o seu rosto. Ele sabia, mesmo sem olhar pelo espelho, que as veias no seu pescoço estavam saltadas. Laurie falou sem tirar os olhos da janela: – Calma. Não foi o Bray quem sugeriu isso, ele só está contando o que a Janice disse. – Desculpe – Scott disse, olhando para ela com ar culpado. Mas ela ainda encarava a janela e não viu o gesto. Ele lançou outro olhar culpado para Bray no espelho retrovisor. – Não, tudo bem – Bray disse, deixando para lá o pedido de desculpa de Scott ao fazer um gesto com a mão gigante. – Eu também fiquei meio chocado quando ela disse isso. Mas pensei no assunto a manhã inteira. E falei com uns amigos sobre isso também. E faz sentido, se você pensar bem. Eu sou a única família que ele tem. Deveria ser o guardião dele. E para que esperar? Vocês dois têm que se preparar para o bebê. Não posso mais deixar o Curtis com vocês... – Então você vai abandonar a faculdade de uma hora para a outra? – Scott estalou os dedos. – Abandonar o seu curso? Seu futuro inteiro? Ele olhou para a esposa enquanto falava, querendo que ela dissesse a Bray para esperar um pouco, deixar Curtis com eles por um tempo até tomar uma decisão tão importante quanto aquela. Desta vez ela


olhou para ele, mas os seus olhos estavam escuros e estreitos. – Scott – ela disse por entre os dentes. – Deixe O Bray Terminar. Ele respirou fundo. – Desculpe, Bray. Eu estou… Eu estou… Pode falar. Laurie lançou para ele outro olhar sombrio antes de se virar de novo para a janela. Bray fez um gesto de “deixa pra lá” de novo. – Tudo bem. Quer dizer, não está tudo bem. É uma loucura. Mas não quero adiar mais isso, fazer o Curtis esperar e ficar pensando como vai ser a vida dele enquanto eu esbanjo tempo decidindo o que fazer. Ele precisa de uma resposta. E merece uma. – Bray respirou fundo, e olhou para Scott no espelho retrovisor. – E a minha resposta é: vou ser o guardião dele. Vou sair da escola, me mudar para casa de novo. Minha mãe tinha um dinheirinho – uma apólice de seguro de vida de um emprego que ela tinha. A Janice me contou. Não é muito, mas vai dar até eu achar um emprego. Ele ergueu a mão para Scott, que tinha parado de se afobar e falar todo atrapalhado, só esperando a sua vez. – Eu sei o que você está pensando – Bray disse. – Tudo o que você vai dizer. Mas, é, já pensei nisso. E, sim, vai ser um saco largar a escola. A faculdade, o basquete, tudo. Ele olhou pela janela e fez que sim com a cabeça devagar, como se estivesse imaginando o fim de sua futura carreira, a morte de seus sonhos. Ao se voltar para Scott, ele acrescentou: – Mas eu queria a carreira na NBA e o diploma em negócios mais para construir uma vida melhor para a minha família. Você sabe disso. E o Curtis é a minha família. Que tipo de cara eu seria ao entregar meu irmão para a assistência social e seguir em frente para construir uma vida melhor só para mim? – Scott abriu a boca para responder, mas Bray fez que não com a cabeça e Scott o deixou continuar. – Eu entendo você ficar bravo – Bray disse –, se você acha que perdeu aquele tempo todo, aqueles anos todos, me ajudando a chegar a um nível para que eu pudesse entrar na faculdade e até mesmo ter uma chance de ser jogador profissional. E você deveria ficar bravo comigo por jogar tudo isso fora. Também estou com raiva por ter que fazer isso. Ele se virou para a janela de novo, fazendo cara feia, e Scott podia ouvir a amargura na voz dele. – Estou furioso com a minha mãe por ter me colocado nessa posição. Por deixar o Curtis sem mãe. – Bray arregalou os olhos para a janela antes de respirar fundo e se voltar para Scott. – Mas a vida é assim – ele disse. Bray deu de ombros, agora com a expressão passiva, calma. – E não vejo alternativa. Então é isso que eu vou fazer. Eu posso estudar à noite depois, quando tiver economizado uma grana. Fazer um curso, conseguir um emprego melhor. Não vai ser na Michigan, nem na NBA. Mas essa fase já acabou para mim, e tudo bem. Scott começou a interromper de novo, mas Bray colocou a mão sobre o ombro dele, pedindo em silêncio para que segurasse seus protestos por mais um minuto. – E o que eu preciso agora é que você aceite isso também, técnico. E me apoie nisso. Não me diga o que eu já sei, como isso é uma grande pena e como não é justo, essas coisas. Eu sei. Mas não posso pensar nisso agora, e não quero ouvir falar disso também. Por favor. Scott se forçou a ficar quieto. Ele seguiu o exemplo de Bray e respirou fundo. E então de novo. E de novo. Mandou o vermelho abandonar seu rosto e as veias em seu pescoço se acalmarem. Ele dirigiu por


um tempo respirando fundo, expirando devagar, até ter certeza de que poderia falar com calma. Ao olhar para Bray de novo no espelho, ele disse: – Eu vou apoiar você. Se está certo disso. Absolutamente, e com 100% de certeza que é isso que você quer. Mas... não estou discutindo aqui, apenas conversando sobre o assunto com você. E quero dizer que ninguém vai culpar você por não ter certeza de querer aceitar isso. Qualquer pessoa entenderia se você quisesse esperar um pouco mais, adiar a audiência por um tempo, para pensar no assunto com mais calma. E qualquer um entenderia se, ao final das contas, você decidisse que é demais para você, e que não é algo para o qual você esteja pronto. Scott olhou de lado para a esposa de novo. Os ombros dela ficaram mais tensos, e ele sabia que ela podia sentir seu olhar sobre ela. Mas Laurie manteve o corpo virado para o outro lado, fingindo estar concentrada na paisagem à janela, e não disse nada. Scott suspirou e voltou a prestar atenção na rua. – Eu sei disso, técnico, e agradeço – Bray disse. – Mas tenho 100% de certeza disso, neste momento. O negócio é que eu me culparia todos os dias se colocasse meu irmão na assistência social e o mandasse ir morar com gente estranha só porque é “demais”. Não sou assim. Eu não desisto de uma coisa porque é “demais”. – Não – Scott respondeu. – Não mesmo. E nunca fez isso.


32. Mara Mara estava prestes a revisar a lista de tarefas que tinha descolado da parte de baixo do laptop quando o telefone acendeu. Era da clínica do dr. Thiry, e nesse momento ela atendeu sabendo que eles estavam ligando para discutir a mensagem que ela tinha deixado na secretária eletrônica na noite anterior, sobre precisar de mais remédio para dormir. Tinham checado a data de seu último refil e não teriam problema em pedir mais, a recepcionista disse. Mara poderia pegar os comprimidos na farmácia quando quisesse. Ela fez uma careta ao pensar em ter que voltar lá. Talvez desta vez ela deixasse Harry superfeliz ao mandá-lo em seu lugar. – Já que liguei – a recepcionista disse –, podemos marcar sua próxima consulta de acompanhamento? Acho que não marcamos até agora. – Ah, sim, é uma boa ideia – Mara respondeu, sentindo as bochechas esquentarem com a mentira. – Mas não tenho minha agenda aqui. Posso ligar para você mais tarde? – Claro. Mas não deixe para a última hora – você sabe como ele agenda tudo com algumas semanas de antecedência. Eu não sei como é para você, mas agora eu tenho que agendar as consultas dos meus filhos com meses de antecedência. O dentista também. Hoje todo mundo anda tão ocupado que logo, logo o cabeleireiro vai marcar tudo meses antes também. Ela riu e Mara meio que entrou na dança enquanto pegava sua lista e acrescentava “Marcar consultas da L”. Desligou e logo ligou para o pediatra de Laks. – Só para as vacinas de cinco anos? – a recepcionista perguntou. – Ou você quer marcar o exame geral também? Na verdade, a vacina é só em dezembro, e o calendário me deixa marcar coisas para os próximos doze meses. Eu posso colocar as vacinas de seis anos no sistema também. Não há nada como planejar com antecedência! – Perfeito! – Mara disse. – E você vai mandar os cartões-postais aqui para casa, certo, para lembrar a eles, quer dizer, me lembrar, algumas semanas antes? – Sempre. Em seguida, ela ligou para o dentista. – Pensei em programar as próximas limpezas semestrais dela para três anos, antes que eu esqueça – ela disse. – Vou entrar num esquema maluco de trabalho e pensei em deixar tudo pronto agora, enquanto tenho um tempinho. – Ah, sinto muito – a recepcionista disse –, mas só posso marcar uma limpeza por vez. Talvez a senhora possa colocar um lembrete em sua agenda para me ligar de novo em seis meses? Nenhuma mãe é ocupada demais para fazer uma ligação, certo? Não, Mara queria dizer a ela. Mas algumas mães estão mortas demais. Mara viu o telefone cair de sua mão. Ele bateu no balcão, quicou uma vez e se espatifou no chão. O pedaço retangular que cobria a bateria saiu voando com o impacto. Ela podia ouvir uma vozinha minúscula falando do piso, e, apesar de não conseguir entender as palavras, imaginava o que a voz estava


dizendo. Ficou olhando para a peça, paralisada, até a vozinha se transformar em um tom de chamada. Ao erguer o olhar do chão, observou a cozinha e a sala e imaginou Laks e Tom andando para lá e para cá tensos, tristes. Laks sentada diante do balcão, a cabeça debruçada sobre o cereal, mas sem conseguir levá-lo à boca com a colher. Triste demais até para apertar o cereal entre os dedos. Tom de pé do outro lado do balcão, mal dando um gole no café enquanto pedia para a menina comer. Os dois andando até a calçada juntos, a menina se prendendo ao braço dele e implorando para não ir à escola. E seria a mesma coisa à noite, os dois sem conseguir jantar, até Tom desistir e deixar os dois escaparem com apenas uma ou duas garfadas. Na hora do banho, ninguém no clima de brincar de navio pirata nem uma das brincadeiras bobinhas que Laks inventava. E por fim a hora de ir dormir, a hora mais dolorosa do dia para quem sente falta de alguém. Mara podia imaginar os dois abraçados na cama da menina, Tom tentando segurar a onda enquanto Laks berrava, uma pilha de livros ao lado da cama, intocados por mais uma noite. Por causa dela. Por causa do que ela estava fazendo. O tom de chamada vindo do telefone soou para Mara agora como uma linha reta em uma máquina de ECG – aquela única nota que avisa que alguém morreu, e alguém foi deixado para trás. Qual som poderia causar mais dor? Como ela poderia se oferecer àquele coro? Como ela pôde? Mara imaginava aquela frase soando como um coro também, um mar de vozes – as mães na escola, os advogados na empresa, os vizinhos. Steph, Gina, seus pais. E Tom, mais alto que todo mundo. Como ela pôde fazer isso com a gente? Usando o banquinho para se equilibrar, Mara se inclinou para pegar o telefone e desligá-lo. Ela precisava acabar com aquele barulho, e, com ele, as imagens de como aqueles cômodos ficariam depois que o barulho de sua própria linha reta se juntasse ao coro daqueles que já tinham ido antes, arruinando vidas enquanto a nota insistia em soar. É por eles, ela lembrou a si mesma. Estava fazendo isso por eles. Não para eles. Ela tinha que se concentrar nisso. Sentou-se à mesa da cozinha e viu a lista de tarefas. Se ela se distraísse com a dor que causaria, e não pensasse na dor que estava tentando evitar, não conseguiria fazer o que estava em sua lista. E jamais conseguiria cumprir a última tarefa. – É por eles – sussurrou, e então, mais alto, disse de novo. – É por eles. – Ela pegou uma caneta e escreveu “POR ELES” no topo de seu post-it, e se fez repetir a frase, e mais alto ainda desta vez. – É por eles. Ela pigarreou, endireitou os ombros e riscou o item que havia acabado de acrescentar à lista momentos antes: “Marcar consultas da L”. Ao examinar o restante do post-it, Mara fez que sim com a cabeça, determinada. Faltando dois dias, tinha quase terminado todas as ligações e e-mails, mas havia outros itens importantes na lista que ainda precisava cumprir. “Tom – conselhos” estava no topo da lista e não havia sido riscado até então. Colando o post-it na mesa, Mara se virou para o laptop e abriu o documento que tinha começado a preparar semanas antes – uma lista de conselhos que ela vinha reunindo para Tom à medida que tinha novas ideias. Digitou a informação sobre marcar consultas com meses de antecedência sob a advertência de sempre comprar sapatos um número maior para Laks para que ela tivesse espaço para crescer. E acima da dica sobre como comprar sapatos: comprar calças com o elástico e botões escondidos na cintura, para que elas fossem compridas o bastante para as pernas de Laks, mas que continuassem se fechando com segurança ao redor da cinturinha minúscula da filha; não tenha vergonha de dizer que é


viúvo quando a associação de pais e mestres começar a encher o saco com a história de embrulhar presentes para um evento para arrecadar fundos em dezembro e seja lá o que for que inventem – essas coisas demandam uma quantidade enorme de tempo, e, apesar de as mulheres tentarem convencer você do contrário, o negócio é que elas precisam mais de algo para fazer do que a escola precisa de dinheiro; aliás, diga que é viúvo também para que Laks fique com a professora de que mais gostar – a secretaria vai dizer que não aceita pedidos, mas eles aceitam pedidos da associação de pais e mestres e não vão ter coragem de dizer “não” ao médico viúvo; sempre, sempre peça para a Elizabeth cortar o cabelo dela no salão – Marian passa o pente com força demais na cabeça de Laks, e ela vai berrar como se alguém a estivesse matando o tempo todo no salão e depois, até chegar em casa. Sessenta minutos depois, Mara riscou uma linha sobre “Tom – conselhos” na lista e suspirou. O que ela faria agora? Tinha mandado e-mails para todo mundo da lista e aguentado um telefonema frustrante e passivo-agressivo com a mãe de Tom, que já estava tão bêbada às nove e quinze da manhã que jamais se lembraria de mencionar a ligação ao filho. Checou o fórum para ver se tinha notícias de CidadedosCarros. Não havia nada, e, sem conseguir fingir para participar do tópico do dia de NadaMalvada, “como ter tempo para se exercitar mesmo com a agenda lotada”, ela saiu rapidinho. Deu uma olhada na pilha de revistas ao lado do laptop, pegou uma e abriu a capa, e então a colocou de volta à pilha. Só eram nove e meia. Harry não chegaria por ali até as onze, e ela já tinha tomado banho e se trocado. Fazendo beicinho, soprou o ar para cima, fazendo a franja curtinha brincar na testa. As cartas que tinha escrito para Tom e Laks estavam prontas; ela se permitiria uma revisão de cada uma antes de imprimilas, mas não havia grandes mudanças a fazer. Pegou a caneta e cruzou aquele item, e o próximo: na noite anterior, ela tinha examinado duas caixas de plástico que mantinha debaixo da cama do quarto de hóspedes, uma com os cartões que Tom tinha lhe dado ao longo dos anos – para o seu aniversário, aniversário de casamento, Dia dos Namorados – e outra com os trabalhinhos que Laks tinha trazido da escola para casa: o desenho de um peru para o Dia de Ação de Graças, com sete olhos enormes e três pés, mas apenas uma pena na cauda; um boneco de neve cuja cabeça era maior que o corpo, e que usava um boné igual ao que Tom usava para correr, em vez de uma cartola; um coração cor-de-rosa, muito maior no lado esquerdo que no direito. (“Preciso em termos médicos, apesar de não ser tão artístico”, Tom tinha dito.) Era arriscado, ela sabia, reler todos esses bilhetes cheios de amor de Tom, passar a mão pelas camisas dele no guarda-roupa. Rever todos os desenhos da Laks, as primeiras palavras que ela tinha escrito. Enterrar o rosto nos bichinhos de pelúcia da filha. Transar com Tom. Era como se ela estivesse seguindo seu caminho entre minas enterradas – e qualquer uma poderia explodir no rosto dela e acabar com a decisão. Mas ela se sentiria covarde ao evitar ver tudo isso, sentir os cheiros. Era como pedir desculpas no escuro. Havia um motivo egoísta por trás disso também. Ela queria absorver tudo, deixar que essas coisas penetrassem sob as camadas de sua pele e então em seus ossos. Levar tudo consigo. Mara olhou de relance para a lista de novo e notou que tinha se esquecido de uma coisa: observar todas as pinturas e outros objetos de arte que eles tinham comprado ao longo dos anos. Começando pela sala de estar, ela passou a mão pela prateleira acima da lareira e sobre os objetos caros de cerâmica que a decoradora de preço exagerado tinha insistido que eles comprassem logo depois que se mudaram para a casa. Ao todo, eram quatro peças extravagantes, meio no estilo de Chihuly, cujas cores fortes combinavam à perfeição com o padrão intrincado dos azulejos ao redor da lareira. Tom tinha dito que aquelas peças dariam ótimos vasos e a decoradora quase batera nele. Nenhuma gota d’água poderia se aproximar deles, e muito menos ir para dentro deles, ela alertara; custavam mais do que a quantia que as


pessoas em geral gastavam ao comprar o primeiro carro. Estavam ali para ser admirados, não usados. Àquela altura, Tom estava prestes a demitir a decoradora. Os dois tinham quase se matado por causa da decisão de Tom de trocar a lareira a gás por uma normal, a lenha. Era uma ideia à moda antiga, ter fogo de verdade, a decoradora tinha dito em seu sotaque endinheirado do Texas, mas eles precisavam pensar na hora de vender a casa. Ninguém com condições de comprar esse tipo de coisa estaria disposto a se ajoelhar aos pés da lareira e ter que mexer com troncos sujos e cinzas. Mara teve que impedir que Tom enchesse as peças de cerâmica de flores antes da próxima (e final) visita da mulher. Agora ela estava sorrindo, pensando como ele ficaria orgulhoso ao vê-la segurando um daqueles objetos pretensiosos nas mãos desajeitadas, arriscando uma queda fatal nos azulejos lá embaixo. Ela o colocou ao lado dos outros e seguiu em frente, passando os dedos sobre as ranhuras de um porta-retratos de vidro. Esse ela não arriscaria. Era uma foto dela e de Laks, tirada no último Dia de Ação de Graças. Mara estava sentada no chão da sala, as pernas afastadas, enquanto a menina se ajeitava nos joelhos da mãe. Laks estava de lado, em um ângulo quase impossível, e olhando para a mãe, a boca aberta, no meio de uma risada. A cabeça de Mara estava inclinada para a filha, a boca tão larga quanto a da menina. Seus braços envolviam os pequenos ombros e a menina estava segurando um cotovelo da mãe em cada mãozinha. Elas tinham ficado sentadas assim por uma hora, conversando e se abraçando, quando Tom fora buscar a câmera. A ponta do nariz de Mara começou a queimar. – Não – ela disse com firmeza, pressionando as pálpebras com os dedos enquanto desviava o olhar da foto. – Não. Por eles, ela se lembrou. Estava fazendo um favor a Laks. A Tom também. E estava quase lá. Aquela não era hora de questionar seu plano. Ou será que era a hora perfeita para isso? Mara se forçou a olhar para a foto de novo. Mãe e filha, se abraçando e conversando. E havia coisa melhor? Nos dias de inverno em Montreal, Mara se arrastava até em casa naquele frio horrível para encontrar Neerja à sua espera na cozinha com chocolate quente e biscoitos. Mara se sentava no colo da mãe e sentia os braços quentes ao seu redor, enquanto falava sobre o que tinha aprendido, ou quem tinha sido mandado para a diretoria, ou do que tinham brincado no recreio. À medida que foi crescendo, ela passou a se sentar à mesa em frente à mãe, mas nunca ficou adulta demais para essa rotina de conversar com Neerja sobre o seu dia. E, apesar de ter parado de contar tudo para a mãe, Mara ainda contava seus segredos para ela. Não porque Neerja tivesse os melhores conselhos – suas gerações e criações eram tão diferentes, na verdade, que Mara às vezes tinha que se segurar para não rir das soluções que a mãe propunha para namoros e amizades. Mas Neerja sempre escutou como se aquilo que Mara tivesse a dizer fosse a coisa mais interessante do mundo. Ela sempre fazia que sim com a cabeça, e Mara sempre se sentia compreendida, e a mãe estava ao seu lado, mesmo quando ela contava como tinha se metido em confusão na aula ou levado uma nota ruim ou esquecido de entregar a lição de casa. No fim do ensino médio, quando Mara começou a trabalhar depois da aula, elas passaram a conversar à noite, antes de irem dormir. E ao longo da faculdade, mesmo quando Mara morou no campus e então passou a dividir apartamentos com a amigas, elas não podiam se ver todos os dias, mas sempre ligavam uma para a outra. E aqui elas ainda passavam na casa uma da outra algumas vezes por semana, apesar de que, nos últimos tempos, era Neerja quem vinha ver Mara. Ela não contava tudo para a mãe, e ainda tinha que esconder um sorriso de tempos em tempos diante dos conselhos que recebia. Mas elas continuavam


conversando. Mara contava seus segredos, e Neerja ainda escutava como se ouvir o que a filha tinha a dizer fosse mais importante que qualquer outra coisa que pudesse fazer. Mara escutava Laks da mesma maneira que Neerja a escutava. Era o melhor presente que ela achava que podia dar à menina, a maior expressão de seu amor. E, mesmo que não pudesse manter essa conversa por algumas décadas, como sua própria mãe tinha feito, ela poderia manter isso depois do domingo. Muito tempo depois de ter parado de receber Laks com lanchinhos depois da aula, ou brincar de casinha no quintal, ela seria capaz de escutar. E talvez dezenas de coisas, talvez até centenas, que Mara não poderia mais fazer por Laks não teriam muita importância, se pelo menos ela pudesse escutar o que a filha tinha a dizer. Porque, ao pensar nisso agora, não haviam sido o chocolate quente, os biscoitos, nem mesmo o colinho quente de Neerja, segurando-a com força pela cintura, que tinha tido tanta importância para Mara. Tinha sido o hábito de escutar. Mara tocou a moldura de vidro no meio do peito da menina. O que Laks estava dizendo a ela naquele dia mesmo? Ela tentou se lembrar. Algo sobre um sonho, uma viagem, ou será que... Do nada, ela sentiu uma vontade desesperada de ir ao banheiro. Ao perceber que tinha se esquecido de colocar a fralda depois de tomar banho, tirou a mão do porta-retratos e se virou depressa... Tarde demais. Colocou as duas mãos sobre a boca. – Não. Ela havia escondido aquelas porcarias na parte de trás da penteadeira na noite anterior e, por isso, tinha acabado se esquecendo. Graças a Deus ela estava em casa e não no táxi. Esperou até o fluxo acabar, mas parecia que cada gota que ela tinha bebido nos últimas doze anos estava saindo, deixando uma trilha amarela e nojenta pela parte interna das pernas, sobre os tornozelos pelados e para o carpete branco da sala, onde deixou uma mancha cinco vezes mais brilhante do que na pele. O círculo de urina fedida saía de seu pé e, sem pensar, ela se agachou com rapidez e juntou as mãos em concha na extremidade da mancha, como se ela pudesse segurá-la ou impedi-la de se alargar. O movimento a desequilibrou e ela caiu para a frente. Seu tempo de reação foi lento demais; seus braços não conseguiram amortecer a queda a tempo e ela caiu de cara na poça. – Não! Num instante, ela se arrependeu de ter aberto a boca. Seus lábios estavam plantados no carpete, e agora o líquido morno e de gosto horrendo abria caminho entre eles, cobrindo a língua e os dentes. Mara sentiu ânsia e parte de seu café da manhã se juntou à urina no carpete. – Mas que merda! Aos poucos, sem opção a não ser enfiar as mãos na meleca para se erguer, ela conseguiu se levantar. Tensa, a calcinha e a saia encharcadas, ela foi até o banheiro, cada passo um pronunciamento grudento e fedido. Tirou a saia, e então a calcinha, colocou as duas no lixo, tirou a blusa e o sutiã, olhou para os dois e os jogou no lixo com as outras peças. Nua, e ainda xingando, ela foi andando e batendo os pés com força até a cozinha pegar um balde, um pano de chão e o produto para limpar carpetes, e se ajoelhou com todo o cuidado ao lado da poça, pulverizando e esfregando e pulverizando e esfregando de novo até se satisfazer de que a mancha não era identificável. De volta ao banheiro, sabia que não deveria se olhar no espelho, mas se olhou mesmo assim, e viu um


montinho de vômito na bochecha, e um maior no cabelo acima da orelha. Ela sentiu uma terrível dor de barriga ameaçando mandar mais restos do café da manhã o mais rápido possível. Agora já treinada para se preocupar com a possibilidade de se afogar, sentou-se logo no vaso sanitário e ficou ali até não conseguir imaginar que havia sobrado qualquer coisa em seu intestino. Mara arrancou um monte de papel higiênico do rolo e tentou se limpar, mas seus braços tinham entrado num estado altamente não cooperativo por causa da queda e ela acabou cheia de manchas marrons nojentas na parte de dentro das pernas, na parte mais baixa da barriga e sob as unhas. Pegou um pedaço de papel higiênico para limpar o nariz, mas o fedor de sua mão a deixou nauseada, e então ela baixou o papel e deixou o nariz escorrer pelo queixo e pelo pescoço. Lembrou-se da cara de nojo do menino no supermercado. Da maneira como o mecânico na oficina tinha se afastado dela. De como a voz de sua filha tinha soado quando ela pediu a Mara para se esconder atrás da árvore para que ninguém pudesse vê-la e, mais tarde, implorou ao pai para não deixar a mãe sair de casa de novo. E então percebeu que, por mais gostoso que fosse imaginar um futuro em que Laks viria correndo para casa contar tudo sobre seu dia, aquela não seria a realidade. A realidade é que, se Mara ficasse ali por mais tempo, essa doença terrorista a colocaria em situações sujas como essa sempre, e era só uma questão de tempo até que isso acontecesse na frente da filha. E, depois disso, Laks não iria correndo até o lado da cama de Mara para conversar – ela passaria de fininho pela porta do quarto da mãe e para fora da casa, onde poderia ficar livre daquela mulher nojenta que, na melhor das hipóteses, andava como se estivesse bêbada e, na pior das hipóteses, urinava e defecava em si mesma. E, depois de um tempo, mesmo nos raros dias em que Laks enfim se sentasse de má vontade na cama de Mara – por ordem do pai e dos avós –, ela não ganharia um conselho bem pensado da mãe que escutava seus problemas com todo o cuidado. Mas apenas encararia sem dizer nada os olhos vazios de uma mulher que nem ao menos registrava a sua existência. Depois de se limpar da melhor maneira possível no vaso, ela escorregou para o chão. De joelhos, fechou a boca bem apertada e tentou não respirar ao passar toalhas molhadas no vaso sujo e então jogálas no lixo também. Ligou o chuveiro e, enquanto esperava a água esquentar, lavou as mãos na pia sem parar, esfregando com o máximo de força que podia até que sua pele estivesse vermelha e ardendo. Só quando o sabonete líquido acabou é que ela fechou a torneira e entrou no chuveiro. Cobriu-se com sabonete líquido e esfregou cada milímetro de pele que conseguiu alcançar, mais arranhando e raspando do que lavando. Mais se punindo do que se limpando. Quando o sabonete líquido caro chegou ao fim, ela mudou para um xampu até mais caro. E então seu condicionador. Em seguida o sabonete líquido de Tom. Quando todos os contêineres do chuveiro estavam vazios, ela ficou de costas para a torneira, o corpo dolorido com a água quente queimando a pele quase em carne viva. Sua pele gritava, mas ela não se deixava sair de debaixo d’água. Ela merecia aquilo. Pelo que estava pensando em fazer com eles, ela merecia isso. Esticou os braços, as palmas para dentro, e examinou as mãos. Mesmo depois de todo aquele sabão, do sabonete líquido e do xampu, ainda podia sentir aquele cheiro. Sempre sentiria aquele cheiro. Virando as mãos devagar, notou a camada fina e marrom sob as unhas e deixou escapar uma risada amarga. Havia maior símbolo de fracasso que aquele? Virando-se para a torneira, ela levantou o rosto. – Por favor – falou para a corrente de água. – Por favor. Vá embora. Você venceu. Eu perdi. Agora, me


deixe sozinha. Por favor, eu imploro. Não por mim – pela Laks. Eu imploro. Ela precisa de mim. Por favor. A única resposta foi o barulho do chuveiro, o som oco da água batendo no boxe de plástico. E então isso: um movimento em seu braço esquerdo. Um que ela talvez não pudesse notar se não estivesse confinada nesse espaço, mas impossível de ignorar agora que seu pulso colidia com o plástico do boxe. E doía; o estresse estava fazendo com que seu braço se mexesse mais rápido e com muito mais força do ela já tinha percebido antes. Bang! Bang! – Por favor, pare. Por favor. Bang! – Por fa... – Bang! – Vá se foder! Com muito custo, ela agarrou o pulso esquerdo com a mão direita e o puxou em direção ao corpo, segurando-o com força. Era como tentar segurar um peixe. Seu braço se desvencilhou da armadilha e bateu na parede de novo. – Pare! Pare De Mexer Merda! A mangueira do chuveiro estava pendurada à sua frente como um microfone. Mara levantou a mão, agarrou no metal liso para se equilibrar e gritou o mais alto que podia no microfone de mentira. – Doença maldita! Filhadaputa! Sua desgraçada! Malvada! Sua merda! Porra! Filhadamãe! Cuzona! Eu odeio você! Com Cada Merda De Célula Doente Na Merda Do Meu Corpo! Por mim? Pela Laks? Ela Ainda Está Na Merda Do Prezinho Você Precisa Mesmo Destruir Uma Criancinha? Você Precisa Mesmo Continuar Com Essa Merda? Sem ar, ela largou o metal e colocou o braço sobre a parede para se equilibrar. Ofegando, deixou a cabeça pender e se concentrou em controlar a respiração. Olhou para cima de novo e começou a levantar a mão mais uma vez, mas seu braço estava cansado demais. Ela o deixou cair ao lado do corpo, enquanto baixava mais a cabeça. Deixou a água ainda mais quente, e se afastou da torneira até sentir a parede do chuveiro atrás de si. Ela foi escorregando devagar pela parede até ficar sentada no chão, a água agora dolorosamente quente castigando suas pernas. Respirou fundo, deixando os pulmões se encherem de vapor. Aproveitando uma pausa do... Bang! Um soluço veio de dentro do peito e, depois disso, outro. Ela tentou dobrar as pernas, colocar os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos. Mas seu braço esquerdo não queria obedecer. E sua perna direita não queria ficar dobrada. – Que se foda! Com a mão direita sobre o colo, ela deixou a água escaldante atingir o topo da cabeça, os ombros, enquanto seu pulso esquerdo continuava a se bater sozinho, um pouco mais fraco agora, contra a parede do boxe. Bang! Bang! Bang! – Eu desisto. O barulho sem graça da água caindo sobre o chão do chuveiro era pontuado pelo pulso batendo na parede, a respiração errática enquanto ela tentava inspirar entre um soluço e outro, e o ritmo contínuo de


duas palavras que ela repetiu sem parar até a água ficar fria: – Me perdoe.


33. Mara Às dez e meia, Mara estava vestida de novo, e desta vez não tinha se esquecido da roupa íntima com proteção. Na cozinha, ela fez cara feia para a meia xícara de café que tinha servido, jogou o café no ralo da pia e se virou para esvaziar a máquina de lavar louça. Pegou um copo da prateleira de cima da máquina e, quando estava estendendo o braço para guardá-lo no armário, ele escapou de sua mão, quicou no balcão e caiu no chão, se espatifando. Pedacinhos de vidro saíram voando em todas as direções. Ela se agachou para pegar os cacos mais próximos dela, mas então, pensando bem, resolveu ficar ereta de novo. De modo lento e deliberado, tirou uma xícara de porcelana da prateleira e a olhou com admiração antes de segurá-la acima da cabeça. Esticou o braço o máximo que podia e então, em um único movimento, baixou-o como uma moça que dá a largada em uma corrida de carros, largando a xícara de uma vez. Ficou assistindo, atônita, enquanto a xícara se estilhaçava no piso. Ao ficar olhando para os cacos de vidro e porcelana no chão, seus lábios se curvaram para formar um sorriso satisfeito. Pegou outra xícara da prateleira de cima e a ergueu antes de soltar o braço com tudo, deixando-a embarcar em seu destino. Ela pegou outro copo. E mais outro. Mais uma xícara, outro copo, até que tinha acabado com a prateleira superior. Estava sobre uma pilha de vidro e porcelana quebrados quando a porta da frente se abriu e ela ouviu a voz de Harry. – Mara! Tudo bem? Ouvi um barulho. Você caiu...? Ele entrou pela curva da sala de estar para a cozinha, parando de repente ao ver o chão. Ergueu os olhos arregalados e cheios de perguntas para Mara. Ela o encarou alguns segundos antes de se virar, olhou para a prateleira vazia da máquina de lavar e foi pegar alguma coisa no armário. Quando a próxima xícara se chocou contra o chão, Harry deu um passo rápido para o lado, para escapar dos cacos. Ele abriu a boca para falar. E a fechou. E então plantou os pés separados, enfiou as mãos nos bolsos e ficou olhando, sem dizer nada, com uma mistura de preocupação e admiração no rosto, Mara pegar outra xícara, e outro copo, e mais outro e outro. Quando ela tinha acabado com todos os copos e xícaras no armário, ficou de olho numa pilha de pratos. Harry seguiu o olhar dela. – Tem que tomar cuidado para os pratos não racharem o piso. Ela fez que sim com a cabeça e ficou olhando o mar de cacos ao seu redor. Como quem não quer nada, Harry entrou na cozinha e pegou a vassoura apoiada na parede. Ele varreu os cacos, formando uma pilha enorme no meio do chão, e, quando terminou, ela apontou para a despensa. Ele encontrou a pá lá dentro e alguns sacos de lixo. Depois que ele encheu dois sacos, ela inclinou a cabeça para a porta que levava à garagem e ouviu o barulho alto e surdo quando ele colocou os quatro quilos e meio de xícaras e copos quebrados na lixeira. Ao voltar, ele umedeceu algumas toalhas de papel e, de quatro no chão, passou as toalhas de papel pela superfície, pegando os cacos fininhos que tinham escapado da vassoura. – A gente não pode deixar ninguém cortar os pezinhos aqui mais tarde – ele disse.


Ela abriu a boca para agradecer, mas as palavras tinham sumido, e ele se agachou de novo antes que ela pudesse encontrá-las. Ela pousou a mão sobre o ombro dele por um minuto, e ele parou de trabalhar por um instante – sua maneira de dizer, ela sabia, que já era o bastante. Quando ele acabou, levou as toalhas de papel para a garagem. Da porta da cozinha, ele perguntou: – Então vamos sair para comprar xícaras e copos? Ela fez que não com a cabeça. Tom tinha deixado uma caixa extra na garagem. Ela a apontou para Harry e ficou apoiada ao balcão enquanto ele tirava cada item da caixa, passava uma água rápida, secava e os guardava no armário. Levou a caixa vazia para a garagem, vindo para a cozinha com um sorriso como se tivesse acabado de chegar à casa. – Pronta para ver o recreio dela? – ele perguntou. Ela fez que sim com a cabeça. – Então tá. – Ele ofereceu o cotovelo para ela. – Vamos ver o recreio. Quando estavam quase chegando ao carro, ele perguntou: – Quer me contar o que está por trás disso? – Não vale a pena se incomodar – ela disse baixinho. – E se eu decidir se vale a pena ou não? Ela deu uma olhada rápida para ele antes de desviar o olhar. – Sinceramente, Harry, se eu contasse metade das coisas a meu respeito, você jamais apareceria à minha porta de novo. – Que pena – ele disse. – É uma emoção poderosa. – Com certeza. – Mas não é que eu não saiba como é isso, sabe? Acho que muita gente sabe também. Ela olhou para ele pensando, lembrando o que ele tinha dito sobre ser uma pessoa diferente antes, lá em Tulsa. – Tenho certeza de que você tem razão. Mas, de qualquer modo, por mais catártico que fosse jogar tudo no seu colo, ou no banco de trás do carro, e ver o que acontece, acho que vai passar. – Entendi. Ele a ajudou a entrar no carro, ligou o taxímetro e deu a partida. – Mas, olha, até que estou achando bom ir ver a menininha no escorregador hoje. Ela sorriu para a sua janela. – Você é de outro mundo, Harry. Tenho certeza de que se esforça ao máximo para fazer com que cada cliente se sinta especial. E tenho certeza de que não deveria levar isso tão a sério. Mas, de alguma maneira, você conseguiu me fazer acreditar que isso é verdade mesmo. – Só existe uma razão para você acreditar, eu acho. – É, acho que é verdade. – Pela mesma razão que eu sinto que você se importa comigo também. Ela olhou para ele no espelho retrovisor.


– E me importo mesmo. – Eu sei – ele disse, sorrindo para o reflexo dela. – E, se eu fosse contar para alguém a história triste da minha vida, então contaria a você. Mesmo morrendo de vergonha. Ela sorriu de volta. – Você não precisa ir tão longe assim. Ele estacionou na escola, deixando o táxi no meio de uma fileira de carros de professores. Enquanto se ocupava ligando para a central, Mara viu Laks, desta vez de short cor-de-rosa e camiseta branca. Bom, branca por enquanto. Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, e então Harry pigarreou. – Sou um alcoólatra em recuperação – ele disse. – Agora já estou sóbrio há treze anos. Mas fiquei bêbado por 25 anos antes disso, e fiz muita besteira nesses 25 anos. – O que fez você… Ele ergueu a mão grossa. – Sem perguntas. Sem comentários. Sem compaixão. Sem julgamento. Combinado? Ela arqueou uma sobrancelha. Mas era um pedido justo. Só Deus sabia como ela estava cansada de compaixão. E ela com certeza não era obrigada a aguentar o julgamento de ninguém. – Combinado. Ela esperou que ele continuasse, mas agora ele estava encarando o painel do carro, esperando. Ela respirou fundo e se concentrou na filha ao falar. – Eu tenho a doença de Huntington – ela disse em voz baixa. – Ou DH, como eles dizem. A única coisa que a minha mãe biológica me deixou quando me largou no orfanato duas semanas depois que eu nasci foi esse monstro de doença genética, incurável e fatal. Harry olhou rapidamente para o parquinho e para a menininha de quem ela sabia que ele tinha aprendido a gostar, mesmo que a distância. Os lábios dele estavam pressionados e bem juntos e suas bochechas tensas, como se ele estivesse segurando a respiração. – Ah, não – ela disse depressa, percebendo a preocupação dele. – Você não precisa se preocupar com ela. Ela foi adotada também. E, graças a Deus, ela veio com registros médicos. Não há histórico de DH no lado dela. Ela está bem. Mara pôde ouvi-lo ele deixar o ar escapar pelos lábios. – O mais irônico é que meu marido ficou aliviado quando eu quis adotar porque ele tem… – ela fez uma pausa – certos genes na família que não queria passar para o nosso filho. E, enquanto isso, meu DNA é que estava escondendo essa bomba-relógio. Se ela fosse nossa filha biológica, e eu tivesse passado esse risco para ela... Mas pelo menos a gente não tem que se preocupar. Não tenho que carregar essa culpa. Meu maior pecado, ou pelo menos o meu pecado que vai durar mais tempo, vai ser deixar a menina sem a sua segunda mãe cedo demais. Harry virou a cabeça de repente e ela pôde ver um milhão de perguntas passando pelo rosto dele, e várias frases de compaixão querendo escapar por entre seus lábios enquanto ele lutava para obedecer às próprias regras. Ele se virou para o painel de novo e ficou quieto por tanto tempo que ela achou que ele tivesse pegado no sono. Mas, ao olhar para o rosto dele mais de perto, viu que os lábios estavam se mexendo de leve, e notou que ele estava rezando. Ela se arrependeu de tê-lo conhecido só agora. E ficou pensando se a confissão dele tinha chegado ao fim, e deu um suspiro de alívio por talvez não ter que dizer mais nada também.


– Eu tenho uma filha – ele disse, afinal. – Caroline. E não a vejo há dezessete anos. E a culpa é minha e de mais ninguém. – Ele baixou o visor para revelar a foto da menina que Mara tinha visto antes. Caroline. – Eu tinha uma lanchonete em Tulsa – ele continuou –, Pingão do Harry. Talvez não o melhor nome para alguém que ia acabar sendo um viciado – ele riu baixinho. – A cidade inteira ia lá tomar café nos fins de semana. Todo mundo me conhecia, eu conhecia todo mundo. Caroline sempre dizia que ia trabalhar lá, com o pai. Ela ia ser a garçonete-chefe e eu, o cozinheiro. Mas eu perdi... perdi a lanchonete. Gastei meu dinheiro todo em bebida, um pouco em drogas. Comecei a dever para os fornecedores para não ficar sem o meu vício e conseguir pagar a hipoteca do restaurante. “Primeiro eu tive que entregar a casa. Levei a minha mulher – o nome dela era Lucy – e a Caroline para morar em um apartamentinho ruim. Assim eu podia ficar com a lanchonete, manter as aparências. Mas também manter minha bebida e minha droga. Eu só pensava em mim. – Ele baixou a cabeça e fungou, então cerrou o punho e deu um murro com força na perna. – Eu fui um desgraçado. Um desgraçado egoísta.” Ela se esforçou ao máximo para não estender a mão e tocar o ombro dele, o braço. Mas regras eram regras. E agora era a vez dela de novo. – Eu fui horrível com o meu marido – ela disse. – Quando os sintomas começaram, e antes de saber o que tinha de errado comigo. Minha personalidade inteira mudou. Eu virei um terror quase da noite para o dia. Irracional por completo. Um pouco paranoica. Irritada. Ah, você nem imagina. É parte da doença, ou pode fazer parte da doença. Negar tudo isso também. Não é a melhor combinação para um casamento. Ela viu a expressão de Harry no espelho. – Pode acreditar – ela disse. – Eu fui mais cruel do que você pode imaginar. Lembra de quando você me conheceu? O olhar? As palavras ríspidas? Não era nada comparado ao que estou falando. Eu fui horrível com ele por mais de um ano. Eu o rejeitei. Disse coisas a ele que eu preferia não lembrar. Mas infelizmente a DH não afeta a sua memória de longo prazo. Nem a do seu marido. Depois de tudo o que eu o fiz passar, não há nada que eu não daria, nem faria, para poupá-lo da dor. Ela cruzou as mãos sobre o colo e esperou. Harry tinha dito nada de julgamento, mas era difícil imaginar que ele fosse capaz de não julgá-la agora. Ele suspirou. – A Lucy aceitou tão bem deixar para trás todas as amigas do nosso bairro, nossa casa boa e se mudar para o apartamentinho. Qualquer um pode ter que enfrentar uma fase difícil, ela me disse. É claro que eu tinha mentido para ela, disse que o negócio andava devagar e que eu não podia mais pagar o financiamento da casa. E nunca mencionei que era o responsável por trazer essa fase difícil para mim, para a minha família, cheirando e bebendo as nossas economias. “Eu sabia que eles iam tirar a lanchonete de mim e, duas semanas antes, fui embora. Eu não podia encarar a minha mulher descobrindo a verdade sobre o que eu tinha feito. Não podia mais aguentar o que a minha vida tinha virado. Então eu falei para elas que ia sair para comprar leite. E nunca mais voltei. Larguei as duas lá. Minha própria mulher e filha. Deixei a Lucy tomar conta da confusão na lanchonete e da confusão da nossa família. “Eu liguei para ela uns anos atrás. Para a Lucy. Chorei igual a criança por quase meia hora, enquanto ela ficava lá do outro lado da linha me deixando soluçar e fungar até me acalmar e até eu conseguir pedir desculpas. Eu pedi que ela me perdoasse, e ela falou que já devia ter me perdoado. Dá para acreditar nisso? Eu nunca mereci aquela mulher. A Caroline já tinha saído de casa e a Lucy disse que tinha que


perguntar para ela primeiro antes de me dar o número de telefone dela. Ela disse que, se a Caroline aceitasse, ia me ligar de volta.” Ele ficou olhando para as mãos grossas cruzadas sobre o colo. – Mas ela nunca me ligou. E aquela foi a minha resposta: minha filha não quer saber de mim. Eu daria tudo para conseguir falar com ela, implorar o perdão dela, ver se talvez ela desse um jeito de me aceitar de novo em sua vida. Mas acho que ela não ia querer. Agora ela já é uma moça. Vinte e três. Ela não precisa de nada de mim agora. – Ele fez um gesto para a foto no visor. – Essa é a única foto que eu tenho dela. Estava na minha carteira na noite em que fui embora. Mara mordeu o lábio. Harry continuou. – A ideia de nunca mais ver a minha filha, nunca ter a chance de me desculpar me faz querer tomar todas para não saber nem quem eu sou. E muito menos o que fiz com ela e a mãe dela, com a minha besteira. – Ele fungou e ela viu uma lágrima abrir um caminho fino e brilhante em seu rosto. Para surpresa dela, ele tirou um lenço de tecido dobrado com todo o cuidado do bolso da camisa xadrez e o levou às bochechas, e então aos cantos dos olhos. Ele ficou olhando para a foto de Caroline por um tempo, e então fechou o visor com toda a gentileza. Mara sentiu as próprias lágrimas vindo e logo se virou para a janela. Ela encontrou Laks de novo e respirou fundo, enquanto a seguia com os olhos pelo parquinho. – Ontem foi meu último dia de ajudar na biblioteca – ela disse. Colocou a mão sobre a janela, querendo que pudesse tocar Laks através do vidro. Fazer carinho em seu cabelo. Pedir desculpas mais uma vez. – Ela está com tanta vergonha de mim. Tom acha que ela vai superar isso. Eu não concordo que ela deveria ter que superar isso. Ela abriu os dedos sobre o vidro. Adeus. À porta da frente, Mara fuçou na bolsa para tentar encontrar suas chaves e Harry se virou para observar a floreira, fingindo estar intrigado demais com as flores para notar o trabalho que ela estava tendo. Mas um minuto depois, quando ela ainda estava tentando enfiar a chave na fechadura, a mãozona de Harry cobriu a dela. – Quanto tempo? – ele perguntou. – Não o bastante. – Ela olhou para o próprio braço esquerdo, que estava se mexendo de leve, e se lembrou do que tinha acontecido no chuveiro. – Ou tempo demais. Depende de como você vê a situação. – E como você vê a situação? Ela deu um suspiro comprido. – Tenho 42 anos e já estou aposentada. Pensei que fosse trabalhar até os setenta. Não posso mais dirigir. Não consigo me lembrar de nada, a não ser que anote tudo num papel. E, quando quero ver minha filha brincar com os amigos, tenho que fazer isso escondida, por trás das janelas de vidro escuro de um táxi, para não humilhá-la. Em um ano, talvez menos, vou estar em uma cadeira de rodas. Vou ter que arrumar uma daquelas vans especiais para espionar minha filha na escola. Isso se conseguir me lembrar da hora do recreio. Ou do fato de que tenho uma filha. Pode ser que eu nem more mais aqui. – Ela fez um gesto com a cabeça em direção à casa. – Pode ser que eu já esteja numa casa de repouso, sentada num canto, encarando o teto, com a bênção de desconhecer a existência desta casa, da família lá dentro e do fato de que eu e você já tivemos essa conversa. – Eu visitaria você lá. Ela pousou a mão sobre o rosto dele.


– Eu não ia querer que você fosse. – É, acho que eu já sabia disso. Você não ia querer que ninguém a visse... assim. – Eu não quero ser assim. Toda aquela gente fazendo tudo o que eu deveria fazer sozinha? Me dando comida? Penteando o meu cabelo? Me dando banho? – Ela estremeceu. – Eu não quero nem pensar. – Não quero me meter nisso, mas preciso falar. Você já ficou tão mais relaxada comigo, não foi? E isso tudo em alguns dias. Você me deixou ajudá-la a entrar no carro, a pegar a carteira na cozinha naquele dia... E hoje... com os pratos, sabe? Você não acha que podia continuar fazendo isso, um pouquinho de cada vez, até que não incomodaria tanto ter as pessoas fazendo as coisas por você? Até mesmo seus pais? O seu marido? Gente em uma… casa de repouso? – Sinceramente, Harry, eu acho que você deve ter algum tipo de superpoder. Eu venho pensando na mesma coisa, em como estar com você esta semana me... modificou tanto. Mas não tenho certeza de que é suficiente. Sinto que o que você viu talvez seja o limite do que consigo permitir. – Cachorro velho demais para aprender um truque novo, hein? – ele perguntou. Ela sorriu. – Mais ou menos isso. – Certo. – Então me deixe fazer uma pergunta – ela disse. – Sabe, para deixar o placar igual de novo. Ele riu: – É justo. – E se você escrevesse uma carta para que a Caroline saiba como você se sente? Que você sente muito, e você quer consertar a situação com ela. Não sei se alguém na posição dela entraria em contato com você primeiro, mas talvez isso não queira dizer que ela não quer falar com você. Ela pode estar esperando que você dê o primeiro passo. – É, já pensei nisso. E até tentei escrever uma vez ou outra, mas acabei rasgando as páginas. E não sou lá essas coisas com palavras, não que você já não saiba disso. Meu coração sabe o que eu quero falar, mas minha cabeça não consegue botar as palavras na ordem certa. – Certo. Se você pudesse escrever uma carta, diria mais alguma coisa para ela além do que disse para mim no carro? Ele pensou por um segundo. – Não. Acho que o que eu falei com você resume tudo. Não ia dizer mais que isso, além de que eu pisei na bola e sinto muito, e que ia gostar muito de vê-la se ela deixasse. E tentar consertar tudo se ela me desse mais uma chance. Quer dizer, eu diria tudo isso de um jeito melhor e mais comprido se pudesse. Mas é mais ou menos isso. Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, e então Harry falou. – Então, quando você me ligou na terça, disse que precisava de alguém para a semana. E agora a semana acabou. Mas você pode me ligar sempre que precisar – ele disse a última frase mais como um comando que uma afirmação. – Eu vou – ela respondeu. – Aliás, tenho algumas coisas para fazer amanhã, e então vou almoçar com as minhas amigas, enquanto o Tom leva a Laks ao balé. Em geral eu a levo ao balé, mas... – Então você vai sair para fazer suas coisas em vez disso – ele disse. – Comigo. E levo você para o


almoço. Ele se inclinou para a frente e deu um beijo na bochecha dela. Antes que ela pudesse reagir, ele se virou e andou em direção ao carro, levantando o braço para dar um tchau, como sempre.


34. Scott Ver Scott, Laurie e Bray na escola no meio do dia não podia ser sinal de coisa boa. Os lábios de Curtis estavam tremendo mesmo antes de falar. – O que foi? Ele se dobrou ao meio no chão do corredor como um amontado de membros e lágrimas ao ouvir a resposta. LaDania não tinha sido uma ótima mãe. Ela havia deixado Curtis com Bray com mais frequência do que deveria. Deixara que ele ficasse sujo, que passasse fome. Tinha vendido metade das coisas de casa para financiar seu vício. Ela só tinha respondido a uma parte irrisória das cartas e desenhos que ele tinha mandado para ela na cadeia, e suas respostas, na maioria das vezes, não passavam de uma ou duas frases. Mas ela era a sua mãe. E ele vinha contando com ela para segurar a barra, por ele. Quando ele afinal parou de chorar e conseguiu olhar para eles, Bray estava de braços abertos. Mas Curtis foi até Scott, que o levantou nos braços e o abraçou. Curtis grudou-se ao pescoço de Scott como se estivesse se afogando e Scott fosse uma boia. Scott olhou para Bray como quem pede desculpas e começou a passar Curtis para ele, mas Bray fez que não com a cabeça. – Ele conta mais com você que com qualquer outra pessoa – Bray disse baixinho. – Você deveria ficar feliz com isso, e não se sentir mal. Em casa, Curtis se deitou no sofá da sala em posição fetal, com uma almofada apertada junto ao peito. Bray se sentou ao lado dele, falando baixinho com o irmão e fazendo carinho em sua cabeça. Depois de um tempo, o menino se aproximou do irmão mais velho até colocar a cabeça sobre as pernas de Bray. Quando Scott apareceu para dizer que o jantar estava na mesa, o corpo inteiro do menino estava aninhado no colo de Bray. Agora ele ficava olhando para o irmão mais velho, com os braços ao redor de sua cintura. – Você quer comer? – Bray perguntou a ele. A cabecinha se levantou, se mexeu de um lado para o outro, e então se abaixou de novo. Bray olhou para Scott sem graça e deu de ombros. – Acho que vamos ficar mais um tempo aqui, técnico, se estiver tudo bem pra você. – Sem problema. Eles ainda estavam na mesma posição uma hora depois, quando Scott e Laurie tinham terminado de jantar e arrumar a cozinha. – Você deve estar morrendo de fome – Scott disse a Bray. Bray fez que sim com a cabeça, e então um gesto para o colo, e deu de ombros. – Curtis – Scott chamou –, que tal a gente ir dormir, hein? Eu levo você lá para cima – a não ser que você queira o seu irmão. Sem dizer nada, Curtis escorregou para fora do sofá e foi até Scott, estendendo a mão.


– Não quero Stuart hoje – ele disse. – Não – Scott disse, apertando a mãozinha. – Hoje não é dia de Stuart, né? – Olhando para Bray, disse: – A Laurie deixou um prato na geladeira para você. Fique à vontade. – Será que devo ir lá para cima depois? Para ver como ele está? Scott olhou para Curtis, que estava bambeando um pouco ao se levantar, as pálpebras meio fechadas de exaustão. Ele se abaixou e pegou o menino no colo. – Acho que ele não vai estar mais acordado daqui a pouco. Lá em cima, Scott achou uma camiseta velha para Curtis usar para dormir e o colocou debaixo das cobertas. Ser colocado para dormir pareceu ter acordado um pouco o menino e ele começou a dar soluços tão grandes que seu corpo inteiro tremia. Scott sentiu as próprias lágrimas vindo também e se esticou na cama, abraçando o corpinho que se sacudia. Ele jamais imaginara que seu próximo encontro com o menino seria assim. – Eu sei, Carinha – ele sussurrou. – Eu sei. É muito difícil. Eu sinto tanto. Ele ficou por ali até bem depois que os soluços do menino deram lugar a uma respiração ritmada e o céu que ele via pela janela foi de um cinza com toques de azul-claro da noitinha para um cinza mais escuro, e por fim para o negro profundo da noite. Pouco depois das dez, Laurie deu uma olhada neles, também indo dormir, e disse que tinha arrumado tudo para Bray dormir no sofá. – Eu queria que a gente tivesse arrumado outro quarto de hóspedes para ele ter onde ficar – ela disse. – Ele é quase um metro mais comprido que o sofá. Mas eles tinham deixado os outros quartos um pouco de lado no quesito “cama” para economizar e decorar os quartos que usavam com maior frequência. – Ele vai ficar bem – Scott disse a ela. – Eu até ofereci comprar um daqueles colchões infláveis um milhão de vezes, e ele disse que prefere o sofá. Acho que ele gosta de ficar perto de onde as coisas estão acontecendo. Depois de doze anos morando com uma mãe que nem sempre estava por perto, seguidos por outros seis com um irmão que precisava de mais conforto do que ele podia dar, Bray parecia gostar de ficar perto das pessoas. Ele tinha dado risada quando Pete e Scott sugeriram que ele morasse num quarto sozinho em Michigan para poder se concentrar nos estudos quando não estivesse na quadra. – Eu me sinto melhor numa multidão – ele disse, e aceitou o convite para morar num quarto apertado com alguns companheiros de time que iam com ele para todo lugar, e fazendo o maior barulho. A vida no antigo apartamento de LaDania, com mais ninguém além de uma criança para lhe fazer companhia, acabaria com ele. Os dedos compridos do desespero se espalharam pelo peito de Scott. – Vem dormir – sua esposa pediu com gentileza. Ele se ergueu para se sentar e olhou de novo para o menino que dormia. Scott estava prestes a se levantar quando Curtis tremeu de repente e deu um ganido baixinho. – Ele só está sonhando – Laurie disse. Mas Scott já tinha se deitado de novo, aproximando seu corpo ao do menino e colocando um braço ao redor dele. – Eu sei. Mas vou ficar só mais um pouquinho. Vai saber. Mais tarde, Scott se deitou na cama ao lado da mulher. Ele virou de bruços, a cabeça sobre os braços.


Sem se mexer na escuridão silenciosa, ele se deu conta do nó de tensão que tinha se formado no fundo de seu estômago mais cedo e que não tinha ido embora. Nem a sensação latejante sob seu crânio. Tinha tomado um remédio para dor de cabeça depois do jantar, mas não havia funcionado. E o copo de uísque que Laurie tinha servido para ele não havia desfeito o nó. Ele tentou respirar fundo, mas aquilo também não funcionou, e ficou pensando se o nó no estômago e a dor de cabeça um dia desapareceriam. Sentiu Laurie se mexer ao lado dele, e um segundo depois a mão quente dela estava na nuca dele, o polegar e os outros dedos massageando o crânio no lugar certo. Ele fechou os olhos e tentou deixar aquela leve pressão embalá-lo até dormir, ou pelo menos aliviar a tensão em seu pescoço. Nenhuma das coisas aconteceu, e ele acabou se virando para olhar para ela. – Não suporto isso. Ela aproximou a cabeça até que os dois estivessem compartilhando o travesseiro dele, as testas quase se tocando. Ela fez carinho na bochecha dele. – Eu sei – a voz dela era macia, reconfortante. – Ele não tem a menor ideia de onde está se metendo. – Você tem que acreditar mais nele. – O polegar dela massageou a têmpora dele. – Você prometeu que o apoiaria. – Mas isso é loucura. Como eu posso ficar parado e deixar que ele faça essa maluquice? – Eu não sei se você tem uma escolha. Não se quiser manter os dois na nossa vida. Se você está planejando dizer toda vez que o vir que ele está fazendo uma loucura, então ele não vai mais visitar a gente. – Eu não quis dizer isso. – Ele respirou fundo e se perguntou se deveria continuar. Mas, se não fosse agora, então quando? – Eu quis dizer… e se… a gente impedir isso de acontecer? Ela afastou a mão. – Do que você está falando? Mas ele podia ouvir a tensão na voz dela, e seus olhos estavam piscando em todas as direções. – E se a gente se oferecer para ficar com ele? Ela virou de costas, respirando fundo, e encarou o teto. Ele tentou pegar a sua mão, mas ela cruzou os braços sobre o peito e enfiou as mãos debaixo deles, fora do alcance do marido. – A gente se oferecer para ficar com o Curtis – ela disse. Apoiando-se sobre o cotovelo, ele tentou olhá-la, mas ela respirou fundo de novo e afastou o rosto do dele, em direção à porta do banheiro. A pele ao redor de sua boca estava tensa; não era um bom sinal, ele sabia, e Scott se preparou para um sermão sobre todas as razões pelas quais ele estava errado em pedir isso a ela, depois de tudo. Mas, quando ela se virou para olhar para ele, sua boca estava relaxada. Por um segundo, ele achou que ela fosse dizer sim. – Você não acha que isso é um pouco, sei lá, ofensivo? – ela perguntou. – Você sugerir que ele não é capaz de dar conta do recado, e então precisamos fazer isso por ele? – Não é uma questão de ser capaz ou não. E não tem nada a ver com ele. Eu diria a mesma coisa para qualquer um na idade dele. Ele tem vinte anos. Como ele pode criar um menino? Ele só é um menino também.


– Não é, não. Ele é um homem de vinte anos. Tem gente com essa idade que já tem filhos. Uma moçada que você conhece – amigos dele mesmo – já tem filhos. Você quer dizer ao Bray que ele não vai conseguir lidar com isso? Depois que ele pediu para você parar de desafiá-lo e para ficar ao lado dele? Ela tinha razão. Ele não poderia entrar em cena, com a capa esvoaçante atrás dele, e salvar alguém que não queria ser salvo. Ele se deitou de costas, e agora a esposa é que estava apoiada sobre um cotovelo, inclinando-se na direção dele. Ela beijou a sua têmpora. – Não estou dizendo que vai ser fácil. Só estou dizendo que você prometeu a ele que faria isso. – Mas e o futuro dele? – ele perguntou. – O curso, a NBA. Tudo. – Esse é o futuro dele – ela disse. – É o que ele quer. – Mas… – Ele pediu o seu apoio, Scott. E você prometeu que o apoiaria. Ele a sentiu se mexer ao lado dele, aproximando-se, pressionando-se contra ele. Ela pousou a mão sobre o peito dele e começou a fazer círculos lentos, e seu toque o acalmou um pouco. Depois de um tempo, a mão sobre o peito diminuiu o ritmo, e então parou, e a respiração dela ficou profunda e contínua. Ele ficou quieto por mais alguns minutos, tentando pegar no sono. Não funcionou, e ele se levantou da cama, foi para o corredor de fininho e fechou a porta do quarto com cuidado.


35. Mara Os pais de Mara apareceram à porta minutos antes da hora marcada de o ônibus de Laks chegar. Um vestido amarelo pálido de seda para sua mãe hoje, uma camisa verde-clara com listras amarelas para o pai. Com o telefone no ouvido, Mara sorriu e fez um gesto para que eles entrassem, erguendo o dedo indicador para dizer que só demoraria mais um segundo. Ela estava no meio da tentativa de convencer sua segunda melhor amiga de que não precisava de uma carona para o restaurante no dia seguinte. – Sim, Gina, tenho certeza. Como eu disse à Steph, tenho algumas coisas para resolver no centro e prefiro fazer tudo para não ter que sair depois de novo. Já chamei um táxi. Ele vai me deixar no restaurante e me buscar mais tarde... É, o mesmo cara... Sim, estou, um caso tórrido de amor no banco traseiro do carro. Olha, meus pais estão aqui. A gente pode conversar amanhã? ... Ótimo! Até amanhã. Também amo você. Foi só até ela ter desligado o telefone e começar a se desculpar com os pais que percebeu que só a mãe tinha entrado. Ela espiou pela porta. – Pai? Você vai entrar? – E se a gente deixar o seu pai esperar a Lakshmi enquanto eu e você guardamos estas coisas? – Neerja tinha trazido mais uma sacola do Agarwal. – O Tom pediu para vocês virem? – Mara direcionou a pergunta a seu pai, sabendo que a mãe jamais confessaria. – Vou arrancar umas ervas daninhas do jardim enquanto espero – ele disse, afastando-se. – Você sabe como não aguento ficar aqui sem nada para fazer. – Vou torcer o pescoço dele quando ele chegar em casa – Mara falou. – Não preciso que ele fique planejando essas coisas para mim desse jeito. Interferindo. E me protegendo. Mas então ela se deu conta. Não era ela quem ele estava tentando proteger. Laks é que tinha dito que não queria que a mãe saísse de casa. – O que foi? – Neerja perguntou. – Nada, tudo bem. Foi um engano. – Mas a sua mãe, entre todas as pessoas do mundo, jamais entenderia, ela pensou, fazendo cara feia. E então ela se pegou no flagra de novo – não fazia nem 48 horas que tinha se punido por ter criticado os pais injustamente, e lá estava ela repetindo a mesma coisa. Virou-se para a mãe e pousou a mão sobre o braço dela. – Fiquem para jantar. Neerja bateu palmas e colocou as mãos sob o queixo. – Seria um prazer! Logo Laks chegou em casa e convenceu o avô a empurrá-la no balanço no quintal. – A mamãe dá um empurrão forte para cada ano que eu tenho – ela disse, enquanto ele a levava pela mão pela porta dos fundos. – São cinco empurrões bem grandes. Eu tenho sorte, porque a mãe da Susan


não dá nem um empurrão mais. Ela diz que dá trabalho demais, e às vezes a Susan bate nela com tudo quando o balanço volta, e a mãe dela não gosta disso. Mara ouviu o pai fazer um som de decepção pelo infortúnio de Susan de ter uma mãe dessas, e prometeu que jamais deixaria a neta sofrer tal injustiça. Ela ficou observando os dois pela porta de correr de vidro por alguns minutos e, ao se virar, viu a mãe na sala, olhando para uma foto na parede: os cincos juntos, no último Halloween. Laks estava vestida de Homem de Lata porque Tom tinha se encarregado da fantasia, e ele estava na garagem um dia, colocando gasolina no cortador de grama usando um funil, quando Laks perguntou que fantasia deveria usar. Ele pintou o funil com tinta spray prateada, e ele e Pori passaram uma hora enrolando a menina em papel alumínio na noite de Halloween, e então a enrolando de novo cada vez que ela mexia uma perna ou um braço e arruinava todo o trabalho que tiveram. Eles acabaram chegando à conclusão de que a fantasia estava decente o bastante para ela sair para a rua, mas, mesmo assim, mandaram as mulheres seguirem à frente enquanto iam atrás, cada um carregando um rolo de papel alumínio e examinando a criança com cuidado a cada passo. Ela passou mais tempo sendo “consertada” do que pedindo doces. Quando Neerja percebeu que a filha estava olhando para ela, desviou o olhar da foto e fez um esforço muito malsucedido para enxugar os olhos sem que Mara percebesse. – Não ligue para mim – ela disse. – Sou só uma velha sentimental – ela riu. – É que ver a menina usando aquela fantasia... – Não é isso, e nós duas sabemos disso – Mara foi até a mãe a abraçou. – Você tem o direito de ficar nervosa, mãe. E tem o direito de ficar nervosa na minha frente. A mãe não respondeu até Mara levá-la para o sofá. Quando as duas se sentaram, ela tomou a mão enrugada da mãe nas suas e passou os dedos sobre as veias da mulher, como fazia quando era criança. – Já sei o que a gente deveria fazer. Venha comigo. – Ela levou Neerja até o quarto de hóspedes e apontou para a prateleira estreita no guarda-roupa onde ficavam todos os álbuns de fotos da família. Neerja bateu palma e pegou os cinco álbuns grossos na prateleira de cima, carregando quatro deles de volta à sala enquanto Mara vinha atrás com o último. Elas se sentaram no sofá e Mara indicou a pilha de álbuns na mesinha de centro à sua frente. – A vida completa de Mara Nichols, volumes um ao cinco, dos três meses aos 42 anos. – Você tem certeza de que quer fazer isso? – Neerja perguntou, a mão sobre o joelho de Mara. Laks tinha pedido para ver os álbuns pouco tempo antes, e Mara havia dito que não. Quando Laks insistiu, Neerja a levou para longe, distraindo a neta com brinquedos no quarto dela. – Eu entendo, Beti – Neerja disse a ela depois. Mara fez que sim com a cabeça e elas não falaram mais do assunto. Era doloroso demais se ver crescendo em papel Kodak, sabendo o que aguardava a menina soprando velinhas, abrindo presentes, formando-se na faculdade, a caminho do altar, passando no exame da ordem, tornando-se sócia. Sabendo que em cada momento a menina não estaria aproveitando a ocasião tanto quanto deveria se soubesse como os bolos, as cerimônias e as comemorações seriam efêmeros. No lugar disso, ela estava pensando sempre no próximo objetivo, dizendo a si mesma que estava um passo mais perto, para não ficar estagnada no momento, mas seguir em frente. Se ela soubesse... Mara afastou o pensamento, pousou a mão sobre a da mãe e fez um gesto para a cabeça em direção à pilha. – Em ordem ou aleatoriamente? – ela perguntou, pegando os livros.


– Em ordem, eu acho. – Pegou o Volume 1 da pilha enquanto Neerja ria. Mara se juntou a ela. Como se “aleatório” algum dia tivesse sido uma opção legítima para Mara. Elas já estavam no baile do segundo ano do ensino médio quando Tom chegou em casa. Ele deu uma olhada na dupla chorando no sofá e disse: – Não sei se um homem pode ficar em segurança aqui. – Ele se abaixou para beijar as duas, e então viu o sogro e a filha no quintal, pegou duas cervejas na geladeira e fugiu pela porta para se juntar a eles. Quando elas já tinham chegado à época de Mara na McGill, ele tinha voltado, perguntando sobre o jantar. – A Laks disse que seus pais vão jantar com a gente, o que é maravilhoso. Querem que eu invente alguma coisa, ou as senhoras têm alguma coisa em mente? Mara e Neerja olharam para ele com cara de paisagem antes de Neerja assoar o nariz e Mara enxugar os olhos. – Tá – ele disse. – Vou fazer frango grelhado. – Depois de fuçar no freezer e na geladeira por um minuto, ele saiu de novo, desta vez com alguns pacotes do açougue e vidros de molho para marinar a carne. – É melhor a gente ficar mais um tempo aqui fora – Mara o ouviu dizer antes de a porta de vidro selar a sua voz. – Tantas lembranças – Neerja disse, sorrindo por entre as lágrimas. Ela pegou um lenço de papel da caixa e assoou o nariz de novo. Mara ficou pensando em tudo o que tinham visto: viagens para as Montanhas Rochosas, para as províncias marítimas do Canadá, para o Grand Canyon. Bolos de aniversário no formato de castelos, dragões, livros. Novas bicicletas, patins, vitrolas. Festas do pijama com dez ou mais meninas rindo na pequena sala de estar em Montreal. – Você e o pai conseguiam dormir? – ela perguntou à mãe. – Nem um minuto – a mãe confessou. E mesmo assim eles tinham permitido essas festas inúmeras vezes, do sexto ano até o ensino médio. – Vocês fizeram tanto por mim, você e o pai – Mara disse, pegando a mão da mãe de novo. – Sem nunca pensar em vocês mesmos. Vocês me colocaram em primeiro lugar desde o dia em que me trouxeram de Hyderabad. Mesmo antes. Desde o dia em que decidiram me salvar. – Não é nada, quando se ama uma pessoa. – É tudo, mãe. Eu tive uma vida maravilhosa graças a vocês dois. Como posso um dia agradecer por tudo o que vocês me deram? Tudo o que fizeram por mim? E agora pelo Tom e pela Laks também? – Você acabou de agradecer. – Não. Agradecer de verdade. Como posso agradecer de verdade por tudo isso? Como posso mostrar de verdade quanto vocês significam para mim, quanto eu amo vocês, e como tenho sorte de ser a sua filha? – Eu não preciso do “de verdade”. Eu preciso disso. – Neerja colocou a mão sobre a perna de Mara, que estava junto à da mãe, e então fez um gesto com a cabeça em direção aos álbuns. – Só disso. Ela inclinou a cabeça e a descansou no ombro da filha, e naquele momento Mara sentiu como se alguma coisa tivesse se aberto entre elas. Durante a sua vida inteira, sua mãe tinha cuidado dela. Ainda mais depois do diagnóstico. A mãe nunca revelou incerteza ou ansiedade sobre nenhum aspecto de seu papel.


Neerja também tinha chorado com o diagnóstico, é claro, mas fora isso nunca tinha demonstrado medo ou vulnerabilidade ou fraqueza em relação à filha. Ela tinha sido a mãe capaz e segura de Mara. Ela mantivera tudo sob controle em todos os momentos, incluindo as próprias emoções, porque não queria que a filha se preocupasse com ela. E ali estava ela, a cabeça sobre o ombro reconfortante da filha enquanto se permitia sacudir os próprios ombros com soluços quase inaudíveis. Permitia que Mara colocasse o braço ao redor dela, e a puxasse para perto e dissesse: “Eu sei. Tudo bem. Eu estou aqui. Deixa tudo sair”, como tinha feito com Mara tantas vezes. Mara beijou o cabelo escuro e macio da mãe antes de colocá-lo atrás da orelha, como tinha feito com Laks a cada manhã. – Eu amo você – ela disse para o topo da cabeça da mãe, onde seus lábios ficaram. – Eu amo você. Elas ficaram sentadas ali, enquanto lá fora, do outro lado das portas de vidro, Tom marinava e grelhava o frango e Pori empurrava Laks no balanço, e então a via mostrar sua técnica daquele “cara de aranha” para subir no escorregador. Elas ficaram sentadas ali enquanto Laks escalava o trepa-trepa e chamava o pai e o avô, sentados nas espreguiçadeiras, bebericando cerveja sem pressa. Ficaram sentadas ali até que as portas de vidro se abriram e uma Laks “quefomequefomequefome” passou correndo por elas para lavar as mãos no banheiro para jantar, dizendo enquanto corria que queria o prato rosa e o copo amarelo, por favor. – Álbuns de fotos! – Pori se inclinou para abrir um deles. – Não vejo essas fotos há anos. – Ele se virou cheio de esperança para as mulheres no sofá, arregalando os olhos de surpresa ao ver que elas estavam chorando. – Hoje não – Neerja disse, fungando. – Acabamos de ver todos, e você sabe que não é a coisa favorita da Mara. Quem sabe uma outra vez, Puppa. Mara beijou a mãe de novo, e então a empurrou um pouco para a esquerda para abrir mais espaço à sua direita. Ela sorriu para o pai, deu um tapinha ao lado dela e pegou o primeiro álbum.


36. Mara Às duas e meia da manhã, Mara desistiu de tentar dormir e saiu da cama. À porta do quarto, ela se virou e olhou para o marido. Um pouco da luz da lua brilhava por uma fresta das persianas, iluminando uma faixa do corpo de Tom dormindo. Outra soneca satisfeita depois de outra maravilhosa sessão de amor juntos na cama – era algo que ela não estava conseguindo segurar. Ele tinha que estar meio desconfiado daquilo, ela pensou. Ela não tinha sido tão assertiva desde os trinta anos, talvez desde os vinte. Ela observou o restante da cama: os lençóis estavam uma bagunça e ela não sabia onde estava seu travesseiro. Ele não parecia ter fingido. Mas, pensando bem, quando os olhos de alguém estão fechados, eles podem estar pensando em qualquer coisa. Ela se virou rapidamente, andando com cuidado na escuridão da sala até o quarto de Laks. A menina tinha atirado as cobertas para fora da cama, e agora tudo estava no chão. Mara cobriu a filha e foi até o pé da cama pegar Floquinho, o coelho de pelúcia com que Laks dormia toda noite desde os dois anos de idade. Ela devia ter chutado o coelho com os lençóis. Mara levou o boneco peludinho ao rosto, apertou-o e respirou fundo. Corpo matutino. Com Floquinho debaixo de um braço, Mara andou nas pontas dos pés pelo quarto, tocando com a mão livre tudo o que podia alcançar – a madeira lisa da cadeira, o cofre de porquinho de louça, tão frio na prateleira, a foto em um porta-retratos prateado de Laks no colo do orgulhoso Pori. Ela passou os dedos devagar sobre os cantinhos de tudo, tentando prender todo o conteúdo do quarto da filha em sua memória. Sua garganta se fechou quando ela viu a caixinha de música que Tom tinha comprado uma semana depois que eles voltaram de Hyderabad. “Eu tenho uma filhinha”, ele tinha anunciado a Mara, “e toda menininha precisa de uma caixinha de música.” Mara queria pegar a caixa, sentir o peso em suas mãos, mas e se a deixasse cair no chão? Ela passou a palma da mão sobre a superfície lisa da tampa, ouvindo sua melodia na cabeça. “Beautiful Dreamer”. Ela tirou um boné do gancho ao lado do guarda-roupa e passou o dedo sobre a letra R bordada. O boné era um suvenir especial de um jogo dos Rangers ao qual Pori e Neerja tinham levado a neta um fim de semana. Sorrindo, Mara se lembrou de 2meninos e CidadedosCarros e a discussão sem fim sobre Tigers e Yankees. Ela ficou pensando o que eles achavam dos Rangers. Perguntaria aos dois na manhã seguinte, se conseguisse se lembrar. Virou o boné para o rosto e respirou fundo, e então o colocou de volta no gancho e abriu o guardaroupa. A porta rangeu e ela ficou atenta à cama, preocupada, mas a pequena figura que dormia nem se mexeu. Mara olhou de um lado para o outro, um ladrão checando se os vizinhos estavam vendo, e então entrou no guarda-roupa, fechou a porta e puxou a correntinha para acender a luz. A bagunça no chão do guarda-roupa a fez segurar a respiração e dar uma risada sem som. Muito organizada, ela tinha preparado um sistema de recipientes de plástico e ensinado a menina a guardar seus brinquedos em ordem. Cada contêiner era para uma categoria diferente de brinquedo: móveis da casinha de bonecas, Barbies, fantasias, utensílios de cozinha de plástico. Mas Mara não supervisionava a limpeza do quarto fazia muito tempo, e o pot-pourri de brinquedos em cada contêiner desafiava qualquer categoria ou tema unificador. As Barbies estavam dobradas em panelinhas de plástico. Um bercinho em


miniatura estava cheio de peças de quebra-cabeça. Dentro de uma bolsa roxa, ela viu uma coleção de bonequinhas de plástico. Um velho carrinho de bebê tinha, entre outras coisas, trabalhos de escola, e Mara balançou a cabeça ao folheá-los. Havia um monte de folhas de exercícios, um aviso para a classe, desenhos amassados cujo glitter já tinha descolado muito tempo atrás e agora se espalhava pelo fundo do carrinho. Uma pasta colorida chamou a atenção de Mara e ela a pegou. “Poemas – por Lakshmi Nichols – Jardim da Infância.” Laks tinha falado de sua aulinha de poesia e mostrado alguns poemas quase ilegíveis e altamente sem sentido para os pais. Era um projeto ambicioso, Tom havia comentado, ensinar poesia para crianças que mal sabiam escrever sozinhas. Mara folheou as primeiras páginas, admirando a escrita cuidadosa, as palavras escritas com tanta força em alguns lugares que as letras tinham furado a página. Ela podia imaginar Laks tentando fazer cada letra perfeita e sentiu uma onda de tristeza. Não queria que sua filha fosse tão intensa quanto ela. Talvez pudesse pedir para Laks passar um tempo com Harry toda semana. O pensamento fez sua garganta queimar. – Mara? Seu coração quase parou de bater quando a porta se abriu e um Tom sonolento ficou ali, de cueca, a cabeça inclinada para um lado. – Amor? – ele sussurrou. – O que você...? – Ah. Hum, oi – ela sussurrou em resposta, tentando inventar uma explicação para estar dentro do guarda-roupa da filha no meio da noite. – Eu, ãhn... não consegui dormir... e pensei que talvez... pudesse começar a limpar aqui. Eu ia fazer isso no domingo de manhã, quando ela estivesse na casa dos meus pais. Jogar fora umas coisas enquanto ela não estivesse aqui para protestar, sabe? Então vim aqui para ver o que me aguardava... – Às três da manhã? – Ele se encostou no guarda-roupa. – Você está...? Por que você está chorando? Ela passou os dedos sobre as bochechas para apagar as lágrimas. – Ah, não é nada. Eu... Ele apontou para a pasta na mão dela. – O quê? Ela passou a pasta para ele. – Ah, eu me lembro disso – ele disse, ainda falando baixinho. Abriu a pasta na última página e a mostrou para ela. Um haikai por Lakshmi Nichols Ninguém é tão forte. Minha mãe nunca desiste. Sou uma filha orgulhosa. Ele fez que sim com a cabeça, concordando com o sentimento no poema. – É um ótimo retrato de vocês – ele sussurrou, apontando. Havia uma foto ao lado do haikai: Laks e Mara de mãos dadas, Mara quase uma mulher Popeye, com músculos definidos. – Um bom haikai também – ele completou. – Sempre gostei desse.


– Você já leu isso antes? Achei a pasta no carrinho que ela está usando como arquivo. Ele deu de ombros. – Eu a ajudei a escrever o poeminha. Bom, na verdade mais contei sílabas e corrigi a ortografia. “Filha” foi “fila” nos primeiros três rascunhos, até eu convencê-la da forma correta. Mas a ideia é toda dela. Você estava... Não sei onde você tinha ido aquela noite. Talvez saído com Aquelas Moças? Ela tinha que fazer um haikai sobre uma característica – sabe, honestidade, ou força, ou lealdade. Ela escolheu força, e perguntei para ela o que vinha à mente quando ela pensava em força. Ela nem pensou, e disse imediatamente: “A mamãe”. Mara fungou e passou a manga do robe pelo rosto. – Ela pensou em mim para “força”? Tom aproximou as sobrancelhas. – E em quem mais ela poderia pensar? – Ah, não sei… Você? O corredor de maratonas que faz uns trinta quilômetros antes do café da manhã e depois consegue correr atrás dela no quintal à tarde? – Por favor, não é o mesmo tipo de força. Nada que já fiz na vida teve esse mesmo tipo de força. Você não sabe disso? – Ele inclinou a cabeça em direção à cama. – Sua “filha orgulhosa” é inteligente o bastante para saber disso. – Ela não é mais tão orgulhosa. Não depois do fiasco na escola. – Ela vai superar isso. Lembra como você morria de vergonha do sotaque dos seus pais? “Mortificada” era como você se descrevia nessa situação, se me lembro bem. E quanto tempo aquilo durou? Nem um ano na escola, certo? E então você decidiu que “diferente” não queria dizer mais nada além de “diferente”. – Aquilo foi um pouco pior que um sotaque indiano forte. – Não foi, não. É sentir vergonha dos pais. É tudo a mesma coisa. Todos nós passamos por isso, e todos nós superamos isso. – ele estendeu a mão para ela. – Vamos dormir.


Parte Cinco Sรกbado, 9 de abril

Falta um dia


37. Mara Quando Mara entrou na sala logo cedo na manhã de sábado, ela viu a filha de cinco anos enroscada no sofá, encarando a TV, catatônica. – Bom dia, querida – Mara disse. Laks, distraída, nem respondeu. Fazendo que não com a cabeça, ela observou a menina e ficou pensando se Tom tinha razão: será que a doença de Mara era mais pesada que o sotaque de Pori e Neerja tinha sido para Mara, ou o alcoolismo dos pais de Tom tinha sido para ele? Deitada no sofá, ignorando a mãe e preferindo um programa idiota na TV, Laks com certeza parecia com qualquer outra criança nos Estados Unidos. Se sua mãe ficasse por ali, e piorasse ao longo do ano, ou mesmo mês a mês, haveria desvantagens para a vida de Laks, da mesma maneira que na vida de qualquer outra criança no país. Qualquer outra criança naquela rua mesmo, aliás. Neste instante, naquele quarteirão e por toda a cidade de Plano e em cada estado, crianças estavam deitadas no sofá, envolvidas com seus desenhos enquanto os pais brigavam, ou um deles saía de casa. Enquanto seus irmãos mais velhos mudavam de novo para casa, depois de repetirem de ano na faculdade, ou suas irmãs adolescentes confessavam estar grávidas. Será que as desvantagens particulares de Laks eram tão maiores se comparadas às de qualquer outra criança? Mara observou a filha mais uma vez e se sentou à mesa, descolando o post-it da parte de baixo do laptop. Ela continuaria pensando nisso enquanto dava conta de sua lista de tarefas. Não fazia mal resolver o restante dos itens, mesmo se ela decidisse abortar a missão. Passou a ponta do dedo por um dos itens que até então não tinha sido riscado: cartas para Tom e Laks. Era a oportunidade perfeita para finalizá-las. Tom estava correndo e não ia voltar em menos de uma hora. E, pelo jeito, as paredes podiam desabar ao redor da filha e a menina continuaria com os olhos grudados na TV. Mara clicou para abrir as cartas, lembrando-se de que só teria tempo de dar uma olhada rápida nelas. Não daria para reescrever tudo, como ela tinha feito tantas vezes nas noites anteriores. Ainda precisava encontrar Aquelas Moças para almoçar, dar café da manhã para Laks e aprontá-la para a aula de dança. Só o rabo de cavalo – uma exigência da professora – poderia demandar trinta minutos de negociação e execução. E, de qualquer forma, ela jamais ficaria satisfeita com as cartas, não importava o número de revisões. Como seria possível somar todo o conteúdo de seu coração em um único documento? Leu cada carta duas vezes e as salvou de novo. Ela as imprimiria amanhã, colocaria cada uma em seu envelope e as deixaria no travesseiro de Tom depois que ele saísse para correr. Deixaria um terceiro envelope para ele, também – a lista de dicas úteis que ela havia compilado para ajudá-lo na tarefa de criar a sua filha. Agora ela abriu a lista, conferindo para ver se havia faltado alguma coisa. Ela acrescentou uma seção sobre as promessas que Aquelas Moças tinham feito, para que ele soubesse que poderia pedir ajuda de Steph ou Gina com relação a qualquer assunto. Também acrescentou um parágrafo sobre como tinha avisado seus pais várias vezes nas últimas semanas que, quando Laks fosse para o primeiro ano, Mara achava melhor que a menina ficasse na creche à tarde até Tom ir buscá-la depois do trabalho.


Aquilo daria uma chance para a menina se socializar mais, Mara disse a eles. Mas o que ela queria mesmo era evitar que a vida diária de Tom fosse invadida demais pelos pais dela, caso a sua presença constante fosse muito dolorosa. Sabia que eles insistiriam em cuidar da menina, e também que ele jamais seria capaz de dizer não. A não ser que soubessem que havia sido um dos últimos desejos de Mara. E acrescentou mais uma ou duas linhas para dizer a ele que tinha pagado o que faltava na Neiman e tinha cancelado a conta, então ele não precisava mais se preocupar. Não queria pensar nele abrindo um extrato da loja, lendo a lista de suas últimas compras. Mara tinha cancelado tudo o mais que pudera lembrar também – correspondência da faculdade de direito, catálogos, qualquer coisa que pudesse aparecer em casa com o nome dela. Por fim, em uma página separada que ele poderia jogar fora se ficasse bravo, ela tinha anotado os nomes e números de telefone de alguns pastores unitaristas que poderiam fazer o enterro, até para quem nunca havia frequentado a igreja deles. Mesmo para uma família que não poderia prometer que iria à missa. Mesmo com toda a falta de conexão de Tom com a igreja, ela não ficaria chocada se ele quisesse uma missa no enterro dela. Mas talvez fosse mais uma questão de ritual do que de crença. E não havia nenhum ritual mais antigo do que as pessoas se reunirem para dizer algumas palavras sobre quem tinha morrido. Mesmo que as palavras que Tom quisesse dizer fossem “Vai se foder”. Ela leu a lista de nomes, sem muita certeza. Seria justo fornecer esses nomes e números de telefone? Quando pensasse na ideia, ela sabia que ele não poderia ignorá-la. E se houvesse uma missa, ele não poderia dizer “Vai se foder”. Não em voz alta, pelo menos. Em voz alta, ele seria forçado a dizer coisas boas sobre ela. Ele se forçaria a falar sobre todas as coisas boas que ela tinha feito, por ele e por Laks, antes de ter cometido esse ato terrível. Ele teria que fazer que sim com a cabeça e sorrir e concordar com seus pais e Aquelas Moças e os outros que, sim, era uma coisa horrível a se fazer com uma criança, com amigos e familiares que a amavam tanto, mas, na verdade, quem eram eles para julgá-la? Como alguém poderia saber o que ela estava passando de verdade? Quem sabe eles não teriam considerado a mesma possibilidade se estivessem no lugar dela? E, ao dizer essas coisas em voz alta, e concordando com as pessoas que as diziam também, ele teria que se permitir pensar que talvez parte delas fosse verdade. Ele ainda poderia sussurrar “Vai se foder, Mara” sozinho no quarto deles, ou dirigindo para o trabalho, exausto pela demanda de conciliar a carreira e uma filha sozinho. Mas a missa do enterro teria plantado as sementes da empatia e da compreensão e, de vez em quando, ela esperava, aquelas sementes brotariam e cresceriam por entre os palavrões. Talvez aquelas sementes jamais fossem o bastante para tomar o lugar de todo o ressentimento e amargura. Mas talvez fossem suficientes para empurrar essas coisas para longe. – Mamãe! – Laks estava olhando para Mara do braço do sofá, como se tivesse descoberto que havia um pônei na cozinha. Mara riu e se virou para olhar para a filha. – Sim, a mamãe. A mamãe que falou bom dia para você faz meia hora e que está sentada aqui, a um metro de distância, desde então. – Ela sorriu e balançou a cabeça. – Você e os seus desenhos. – Vem assistir comigo! – Laks se sentou e deu uma batidinha ao seu lado no sofá. – Mamãe, vem assistir comigo! Havia alguma forma pior de tortura para uma mãe do que meia hora da risada maníaca do Bob Esponja? Mara olhou de relance para o laptop, procurando uma desculpa para se convencer de que não


tinha tempo para ficar vendo desenhos idiotas naquele dia. Mas e em que outro dia, então? – Claro. Ela se sentou com cuidado ao lado da menina, deixando um espacinho entre elas. Desde o incidente na biblioteca, tinha ficado com mais vergonha do corpo, em particular na frente da filha. Mas Laks foi se aproximando de Mara até que o espaço tão cuidadosamente deixado houvesse desaparecido, e então colocou a parte superior do corpo sobre o colo da mãe, a bochecha no joelho de Mara. Mara passou a mão esquerda pelo cabelo da filha, e com a direita fazia círculos pequenos no tecido do pijama da menina, sobre seu quadril ossudo. Laks se remexeu, pressionado o corpo com força no colo da mãe. Duas mãozinhas pegaram a mão direita de Mara, levando-a ao peito da menina e apertando-a com força. Ela se remexeu mais uma vez para se reposicionar, e então ficou quieta e deu um suspiro longo e satisfeito. Mara também deu um suspiro parecido e a menina riu. Mara tinha pensado em como se despedir de Laks, no que diria ou faria que fosse significativo o bastante para a criança no futuro, mas não escandaloso o bastante para que ela ficasse preocupada. Ela sentiu as lágrimas nos olhos ao se dar conta: aquele era o momento. Tom levaria Laks para a casa dos pais de Mara depois da aula, enquanto Mara almoçava com Aquelas Moças. Essa era a despedida. A caixa de lenços de papel mais próxima estava na mesa de centro, fora do seu alcance, então Mara deixou as lágrimas fluírem e contou com o fato de a menina estar tão hipnotizada pelo desenho ridículo que nem perceberia. Sua mão direita estava presa, e ela não conseguia impedir que a esquerda continuasse fazendo carinho no cabelo de Laks, então ela tentou enxugar o nariz no ombro. Ao se virar, viu o laptop e ficou pensando que sabia bem o que 2meninos diria se pudesse vê-la agora, se soubesse de tudo o que ela não tinha contado: “Pelo lado bom, essa é a última meia hora que você vai ter que passar assistindo ao Bob Esponja”. Mara soltou uma combinação de soluço e risada ao pensar nisso e Laks, que já estava rindo por causa do desenho, riu mais e mais.


38. Mara Mara e Aquelas Moças se sentaram à sua mesa favorita no Mesa de Madeira, o restaurante predileto de Mara. Enquanto elas se ajeitavam, abrindo guardanapos e procurando um lugar para as bolsas, Mara se virou para Gina. – Você poderia levar a Laks à igreja uma vez? – ela perguntou. – Quer dizer, se ela quiser ir? E mesmo se não quiser? Talvez quando ela estiver no final do ensino fundamental, ou quando você perceber que ela já tem idade para entender o que estão dizendo? O Tom não se importaria. Eu disse a ele que ia perguntar a você sobre isso. – Seria uma honra – Gina disse. – Obrigada – Mara respondeu. – Ah, e você se lembra de quando conversamos sobre você lembrá-la de ligar para o Tom no nosso aniversário de casamento? E acho que você disse que a faria ligar para ele no Dia das Mães também? Eu estava pensando: você deveria pedir a ela para não ligar mais se ele se casar de novo. E Steph, você vai ter que mandar meus pais serem legais com a nova namorada ou esposa dele; você sabe disso, certo? É que eu não consigo imaginá-los fazendo birra para ninguém, mas, nesse caso, vai saber... – De onde está vindo tudo isso? – Steph perguntou, os olhos estreitados, cheios de suspeita. – O que você não está contando para a gente? Você recebeu alguma notícia do Thiry? As coisas estão avançando mais rápido ou... – Ah, não! – Mara disse, enrolando. – É que... é que eu fico pensando nessas coisas, sabe? A Laks estava falando uma dessas noites sobre como a família da Susan sempre agradece na hora de comer, e que queria que a gente experimentasse também, e fiquei pensando que talvez ela goste de ir à igreja. Ou pelo menos possa se beneficiar de ir algumas vezes, para conhecer. E as outras coisas, sei lá, apareceram na minha cabeça, eu acho, e várias vezes. E como vocês duas estão aqui, e eu ainda consigo lembrar... – Ela não mencionou que havia escrito um post-it para cada uma e deu uma olhada rápida nas duas enquanto elas se sentavam. Steph torceu os lábios como se não tivesse acreditado por completo na explicação da amiga. Mara pegou o cardápio e, antes que Steph pudesse interrogá-la, lambeu os beiços e leu alguns itens em voz alta. – Aqui eles têm o melhor filé-mignon. Enrolado no bacon mais grosso que você já viu. E o tiramisu mais cremoso do mundo. Hummm, mas o brownie de chocolate com cobertura quente é tão tentador. – Bem que eu queria – Gina disse, olhando para sua cintura cada vez mais larga. – Vai ser salada da casa de novo para mim, com ricota e fruta para a sobremesa. – Ela ergueu os dedos para colocar aspas em “sobremesa” e fez uma careta. – Bom – Steph disse –, já que começamos este almoço com esse sentimentalismo das mensagens que temos que passar para a Laks de pessoas no além – ela apontou o dedão para Mara –, então eu diria que é um ótimo momento para pedir alguma coisa bem decadente que se qualifique como uma última refeição. Gina abriu a boca para criticar Steph, mas Mara colocou a mão sobre o seu braço e fez que não com a cabeça.


– Ela tem razão. Quer dizer, por que esperar até a última refeição de verdade? No meu caso, então, tanto pior, já que vai chegar por um tubo. Não é assim que quero saborear minha última porção de cobertura de chocolate! – Ao falar, ela fuçou na bolsa e tirou de lá um caderninho que Gina tinha dado a ela há muito tempo para registrar coisas que não queria esquecer. Gina sorriu quando Mara pegou o caderno. Folheando as páginas, Mara disse: – Achei. Não consigo me lembrar de onde vi isso. Mas que surpresa, né? Mas sabia que pelo menos uma de vocês – ela olhou de relance para Steph – ia gostar. E esta é a ocasião perfeita. É algo que Nora Ephrom escreveu, ou disse em uma entrevista, sei lá. Olha só: “Quando você for ter mesmo a sua última refeição, vai estar doente demais para comer ou não vai saber que é a sua última refeição e pode acabar comendo um sanduíche de atum, e isso seria irônico. Então, é importante... Eu acho que é importante ter a sua última refeição hoje, amanhã, logo”. – Perfeita mesmo! – Steph disse, batendo palmas e então pousando as mãos sobre o queixo, igualzinha a Neerja. Todas riram e Mara piscou para Steph, um “obrigada” em silêncio por evitar que o momento se tornasse deprimente. – Nada de sanduíche de atum para mim, meninas – Mara disse. Ela passou o caderno para Gina, que estava secando os olhos, sem conseguir escapar por inteiro do lado deprimente da frase. Apontando para a anotação, Mara sorriu para Gina. – E nada de salada da casa também. Hoje é dia de filé-mignon e brownie. Bacon e chocolate são os dois ingredientes essenciais de qualquer última refeição. E vou tomar um martíni também. Bem forte. Ah, eu não estou dirigindo mesmo. – Vou querer o tiramisu – Gina disse, orgulhosa. – Assim você pode experimentar um pouco de cada um. O que você vai querer de entrada? Mara leu o menu de novo e escolheu a opção mais light que poderia escolher para sua amiga preocupada com o peso. – Hummmm, acho que o salmão com legumes. – Até parece – Steph disse. – Berinjela à parmegiana – Mara admitiu. – Uma berinjela à parmegiana, um tiramisu – Gina disse. – Pronto. – E depois disso? – Steph perguntou. – Ravióli de abóbora com linguiça. E linguiça extra. E torta de limão com suspiro. Gina sorriu e devolveu o cardápio. – Tudo parece tão melhor do que a salada da casa. Enquanto faziam o pedido, Steph e Gina pareciam orgulhosas ao anunciarem suas escolhas para o almoço ao garçom, cada uma pedindo um drinque chique para acompanhar, Mara ensaiava em silêncio o discurso em que havia pensado no táxi. Era meio despedida, meio agradecimento, meio carta de amor para as duas mulheres que tinham sido como irmãs para ela. As poucas palavras que lhe tinham ocorrido não eram adequadas. Mas nada seria. Quando o garçom saiu de perto, Mara respirou fundo e começou. Ela falou sobre quanto Aquelas Moças significavam para ela. Como a amizade delas era uma bênção. Como jamais poderia expressar com palavras quanto ela apreciava sua lealdade, honestidade, seu apoio nos últimos anos, que tinham


sido tão difíceis... – Jesus – Steph a interrompeu. – Não aguento mais isso. Não depois das mensagens para a Laks e esse papo de última refeição. Pode ser numa próxima vez? Quer dizer, você não vai morrer amanhã, né? Gina engasgou e Mara ficou branca. Mara se recuperou mais rápido que Gina e deu uma risada casual para Steph. – Meu Deus, eu estou sendo deprimente, não é? – Ela fez um gesto com a mão como quem diz “deixa para lá”, como se seu discurso macabro fosse bobagem. – O Thiry me deu esse remédio para a cabeça – ela mentiu. – E que me deixa emotiva e dramática. Se vocês acham que isso foi ruim, tinham que ouvir o que eu disse para o Tom ontem à noite... – Ela arqueou uma sobrancelha. Funcionou. Steph se inclinou por sobre a mesa e pegou na mão de Mara com força. – Ah, agora a conversa está ficando boa. Conta para mim o que você falou para aquele homem bonito. Até eu teria umas coisas para dizer a ele, sabia?

* – Você passou pelo programa dos doze passos? – Mara tinha perguntado para Harry enquanto ele a levava do restaurante para casa. – Não. Sou tradicional. Parei sozinho. – Uau, impressionante. – Nem um pouco. Levei 25 anos para decidir parar de beber. – Então você nunca ouviu falar daquela parte do programa em que a pessoa pede desculpas para todo mundo que já magoou na vida? – Não. Nunca. – Bom, ando fazendo um tipo de programa de doze passos eu mesma, esta semana. Não pedindo desculpas, mas agradecendo. Às pessoas que me ajudaram ou que foram importantes de modo especial para a minha vida. – Meio como contar suas bênçãos, mas agradecendo pessoalmente por cada uma delas. – Mais ou menos. E, Harry? Quero agradecer a você também. – Eu? – ele perguntou, fingindo surpresa. – Eu fui importante assim para a sua vida? – Eu acho que você sabe que sim. – Hum – ele disse, sorrindo. – Talvez eu saiba. – Eu não estava feliz por ter que desistir de dirigir esta semana, de desistir desse controle. Não que você não saiba disso. Mas comecei a pensar que talvez isso tenha acontecido por uma razão. E a razão era eu poder conhecer você. Fico feliz por ter podido passar esta semana com você. Então, obrigada. O sorriso dele se alargou: – De nada. Eles foram até a casa de Mara em silêncio. Quando ele estacionou, ela pegou um envelope da bolsa e o entregou com o dinheiro da corrida. – Mas o que é isso? – Ele estudou o envelope em suas mãos.


– Não é nada, na verdade. Só uma coisa que eu acho que seria útil para você. – Posso abrir? Ela fez que sim com a cabeça e ele abriu o envelope com cuidado, desdobrando uma carta digitada lá dentro que começava com “Querida Caroline”. Ele se virou apressado para Mara. – Acho que é o que você queria dizer para ela – ela disse. – É tudo o que você me falou, e da maneira que você escreveria se pudesse... – Fazer com que as palavras saíssem da minha cabeça do jeito que elas soam no meu coração – ele terminou a frase. – É. Ela esperou enquanto ele lia o resto da carta. Ao terminar, ele a dobrou com cuidado e a colocou de volta no envelope, que ele deixou sobre o banco do passageiro, sob sua jaqueta. – Você está certa – ele disse. – É na medida exata o que eu sempre quis dizer para ela. Nas palavras que eu sinto aqui dentro, mas nunca ia conseguir botar no papel. – Ele se mexeu no assento e se inclinou em direção a ela. – Obrigado. Por fazer isso por mim. – Você não precisa usar a carta toda. Só as partes boas. – Vou usar cada palavra. Mara aceitou o braço de Harry depois que ele abriu a porta e os dois foram andando até a casa em silêncio. Quando ela começou a girar a maçaneta da porta, ele pousou a mão sobre a dela para que parasse. – Por que, eu fiquei pensando aqui, você está fazendo esse programa de doze passos esta semana? Agradecendo a todo mundo? Me dando esse presente? Ela olhou para ele e sorriu. E então se inclinou em direção a ele e lhe deu um beijo na bochecha. – Harry, você conhece as regras. Sem perguntas, sem comentários, nem compaixão, nem julgamento. – Hum – ele disse, fazendo cara feia, e ela pôde ver que estava se arrependendo das regras que tinha inventado. Mas ele deu um pequeno sorriso e fez que sim com a cabeça. – Então, tá – disse, e foi andando em direção ao táxi. Depois de alguns passos ele se virou e perguntou: – Mas isso não é adeus, certo? Vamos à escola juntos de novo na segunda-feira? Passo para buscar você umas onze e pouco? – Claro – ela mentiu. – Umas onze e pouco. Seria ótimo. – Até segunda, então. – Ele se virou para ir para o carro e ergueu o braço como quem diz “tchau”.


39. Scott Curtis tinha começado a chorar no minuto em que acordara naquela manhã e não tinha parado até depois de eles voltarem para casa do enterro de LaDania. Scott não conseguia acalmá-lo, e Bray e Laurie também não tiveram sorte com isso. Por fim, Pete começou a rezar uma Ave-Maria que falava de sorvete, e as lágrimas do menino pararam pelo tempo que levou para irem até a sorveteria e ver o menino quase que inalar um sundae gigante. Ele começou a chorar de novo perto da hora de dormir. Laurie ficou com ele na cama até ele chorar pedindo Scott, que ficou com ele por mais de duas horas até Bray chegar. Lá pelas onze, Bray caiu no sofá, exausto. O menino continuava choramingando um pouco, ele disse, mas quase dormindo. Scott foi lá para cima e espiou pela porta. Curtis não se mexeu, então Scott foi para o próprio quarto de fininho e deitou na cama ao lado da esposa, que já dormia a sono solto. Ele ficou ao lado dela por um tempão, tentando forçar seu corpo a dormir. Estava muito mais que exausto, mas as engrenagens de sua mente não paravam de girar. Ele olhou para o ombro de Laurie subindo e descendo e ficou pensando se deveria acordá-la. Mas para quê? Ele se levantou com todo o cuidado, saiu do quarto de fininho e foi para o corredor, parando à porta do quarto de Curtis. O menino estava esparramado na cama, as pernas abertas, os braços fazendo um ângulo reto com a cabeça. Ele respirava devagar, a carga emocional das últimas 24 horas vindo na forma de sono pesado. Lá embaixo, Scott deu uma olhada na sala, onde Bray estava esparramado pelo sofá e com os pés sobrando, parecendo estar em coma, como o irmão caçula. O relógio da cozinha marcava cinco minutos depois da uma da manhã. Ele viu seu laptop na mesa e ficou pensando se algum de seus amigos estaria on-line. 2meninos era uma coruja, e tinha se tornado estranhamente mais legal desde que Scott tinha dado a eles a notícia dramática do dia anterior, mas seus filhos sempre jogavam hóquei no domingo de manhã ou tinham treino de lacrosse ou as duas coisas. Mãedalaks e o marido tinham um encontro romântico, e, embora isso nunca a tivesse impedido de deixar um comentário rápido enquanto diminuía o ritmo antes de dormir e o marido já tinha caído no sono, ela tinha avisado que talvez não fosse estar on-line. Rezando para Fênix ou planodevoo ou NadaMalvada estarem on-line, Scott levou o computador para o sofá da outra sala, abriu o fórum e clicou na conversa do dia. Ele viu que estavam discutindo religião, porque era o assunto que NadaMalvada tinha proposto naquela manhã ou porque a conversa tinha enveredado para esses lados. Como grupo, eles não eram os melhores em seguir só um tópico. Para a alegria de Scott, o horário dos últimos posts de 2meninos e planodevoo mostrava que eles haviam publicado as mensagens há apenas alguns minutos. Domingo, 10 de abril à 1h08 CidadedosCarros escreveu: Oi, gente. Só vim aqui dizer que o enterro foi o.k. O Carinha chorou o próprio peso em lágrimas e não vai mais conseguir chorar por uns seis anos, mas (por fim) dormiu e acho que, com o tempo, ele vai ficar bem.

Ele clicou em “publicar post”, foi até a cozinha e se serviu de um copo de uísque. Tomou um gole longo, fazendo cara feia enquanto o líquido descia queimando a garganta antes de voltar ao laptop e clicar em “atualizar”. Bingo! Amigos acordados ao resgate.


Domingo, 10 de abril à 1h12 planodevoo escreveu: CidadedosCarros, obrigado pelas notícias. Estamos pensando em você. Nosso coração está com você, o Carinha, o irmão dele e a sua esposa. Domingo, 10 de abril à 1h15 2meninos escreveu: cara, pensando em você. sei que o carinha vai ficar bem. a molecada é forte. não quer dizer que vai ser fácil – nós temos nossos momentos de choradeira de menino sem mãe aqui também de vez em quando, você sabe. mas seu carinha tem um irmão mais velho para ajudar, e isso vai fazer uma grande diferença. e como está o irmão dele? e você, com tudo isso? ps – notou como estou evitando falar da surra que os tigers levaram ontem à noite? viu como eu também consigo ser sensível? Domingo, 10 de abril à 1h19 CidadedosCarros escreveu: @planinho, obrigado. Aliás, o que você está fazendo acordada tão tarde? @2meninos, você foi demais mesmo ao não mencionar a derrota. Mas como eu estou me sentindo? ...

Scott tirou as mãos do teclado. Ele não sabia como estava se sentindo. Ele tinha ficado tão concentrado no enterro, e tomando conta de Curtis, que nem havia tido a chance de pensar nisso. O que era uma coisa boa, como ele tinha se dado conta agora. Não havia sido um dia feliz de jeito nenhum, mas o nó no estômago e a dor de cabeça que o atacaram na noite anterior tinham sumido. Até agora. Ele foi até a janela da frente da casa, uma mão massageando o pescoço. Olhando a rua de relance, observou com inveja as janelas escuras dos vizinhos e imaginou todos eles dormindo em paz. Ficou pensando se um dia dormiria daquele jeito de novo depois disso. Ou ficaria acordado noite após noite, procurando alguém com quem conversar on-line? Andando sem sossego. E se arrependendo. E se ressentindo. Esvaziou o copo e o levou de volta para a cozinha. Não podia fazer disso um hábito, como disse a si mesmo. Insônia era uma coisa, mas beber sozinho no meio da noite não ia dar certo a longo prazo. Ele se permitiria tomar mais uma dose naquela noite, já que o dia tinha sido tão difícil. Mas dali em diante se limitaria a apenas um drinque. Serviu uma dose dupla. Ao voltar para a sala de estar, olhou de relance outra vez para a sala de TV, esperando ver um jogador de basquete esticado e roncando no sofá. Mas os pés de Bray estavam no chão e ele, inclinado para a frente, com a cabeça entre as mãos. Scott podia ouvi-lo respirando fundo, como se estivesse se controlando para não vomitar. Ele pigarreou e Bray levantou a cabeça de repente. – Técnico! Não sabia que você estava acordado até agora. – Estava no computador. Não conseguia dormir. Mas acho que não sou o único. – Ele sorriu com compaixão. – Pensando na sua mãe? Deve ser muito difícil, cara. Sou muito mais velho que você, mas ainda adoro ter a minha mãe por perto. – Não é ela. Quer dizer, estou triste por causa dela, é claro. Mas tenho que seguir em frente, tomar conta da família que continua aqui. Curtis. – Ele se esforçou para dar um sorriso confiante, mas sua boca acabou virando para baixo. E Scott sentiu a tensão em sua voz. – Tem alguma coisa errada? – Scott perguntou. – Não. Sim. – Bray suspirou e se recostou no sofá, parecendo exausto. – Não sei. Eu achei que tinha tudo resolvido na minha cabeça, sabe? Mas já não sei mais. Falei com uns caras na igreja hoje. – Os colegas de time de Bray, assim como seus técnicos, tinham viajado de Ann Harbor para o enterro de LaDania.


– E? – Estava contando para eles que vou largar a faculdade, voltar para casa e cuidar do Curtis. E alguns deles entenderam de cara. Meus companheiros de quarto, sabe, sempre me apoiaram. E outros caras também. Eles falaram que fariam a mesma coisa, sem dúvida. Mas outros caras estavam falando que seria o maior erro que eu poderia cometer. E não só para mim, mas para o Curtis também. E então os Johnsons vieram falar comigo e o pastor John. E o sr. Johnson e o pastor também entenderam tudo e, cara, como eu queria evitar que ele fosse para a assistência social. Mas a sra. Johnson não queria nem saber. – Ele se inclinou para a frente de novo, cotovelos sobre os joelhos, e deixou a testa cair sobre as mãos. – Ela disse que eu largar a faculdade para cuidar dele era besteira. Ela disse que, tanto quanto eu devo a mim mesmo ficar na escola, eu devo ao Curtis deixar que ele seja criado por gente que sabe ser pai e mãe. Ela falou muito sobre como eu achar que posso cuidar dele sozinho não é pensar nem um pouco nele. Eu pensei que largar tudo e ir morar em casa com ele de novo seria melhor. Mas a sra. Johnson tem razão ao dizer que eu não sei como criar o Curtis. E agora não sei o que fazer. Você acha que eu deveria fazer o que ela está dizendo, técnico? – Ele olhou para Scott. – Você acha que eu deveria deixar outra pessoa cuidar dele? – A voz dele sumiu e ele esperou mais alguns segundos antes de falar de novo. – Quero fazer o que é certo. O que é melhor para ele. E é claro que quero me formar. E virar profissional, se puder. Mas mandar o Curtis morar com uma família de estranhos? Ele deixou a cabeça cair de novo e cobriu o rosto com as mãos gigantescas. – Acho que não sou capaz de fazer isso com ele, técnico. Não quero fazer a coisa errada ao criar o menino eu mesmo. E não quero sair da Michigan. Mas gente estranha? Abaixando-se no sofá, Scott colocou o copo sobre a mesinha de centro e o passou para o menino. Bray deu um gole, fez uma careta e mandou a bebida de volta. – Acho que vomitar não vai me ajudar agora, mas valeu. Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, e então Bray perguntou: – O que você acha que eu deveria fazer? – Estou me segurando faz dois dias – Scott disse – e me controlando mesmo. Porque você disse que queria o meu apoio, e eu prometi que daria. E minha mulher me mandou ficar quieto e manter a minha promessa. Você tem certeza de que quer saber o que eu acho? – Por favor. – Eu acho que a sra. Johnson está certíssima – Scott disse. – Eu acho que você deveria ficar na faculdade. Não só por sua causa, mas pelo Curtis também. Eu sei que você acha que a coisa certa a fazer é largar tudo e cuidar dele porque ele é a sua família. E acho que você é incrível pelo simples fato de considerar essa possibilidade. Mas, Jesus, Bray. Tenho o dobro da sua idade e na maior parte deste ano quase fiquei doido cuidando do Carinha. Ele é uma criança ótima, mas... – Eu sei. Ele dá trabalho. – Dá mesmo – Scott disse. – E me daria trabalho se eu tivesse trinta anos, e imagine se eu tivesse vinte, então. Ainda mais sozinho. Aqui nós somos dois e ficávamos tão cansados às vezes que mal conseguíamos ficar acordados para jantar. É exaustivo. Toda a lição de casa e a disciplina e fazer comida e lavar a roupa e botar para dormir e... tudo isso. E se você também precisar trabalhar além disso, e fazer tudo sem ajuda? Com vinte anos? Bray fez que sim com a cabeça bem devagar. – Isso podia acabar com nós dois.


– Com qualquer um – Scott disse. – Mas talvez alguém que já tenha feito isso antes, com alguém a mais para ajudar, tenha uma chance maior de fazer isso dar certo. – Pois é – Bray sussurrou. – Estou vendo que faz sentido. Mas não sei se vou conseguir ficar em paz. – Eu sei. Eles ficaram quietos por um tempo, até que Scott disse: – Olha, também não quero que ele vá morar com estranhos. – Ele respirou fundo mais uma vez, tentando acalmar os nervos. Passou as mãos sobre a calça jeans, do quadril até o joelho, então na direção contrária. Scott ficou de pé, foi até a lareira, deixou o copo sobre a prateleira. Pegou o copo de novo. De copo na mão, ele virou-se para o sofá, onde um cara de vinte anos, confuso e ansioso, seguia todos os seus movimentos. Levou o copo aos lábios, sentindo o uísque queimar a garganta e o estômago. O nó de tensão que estava ali desde o dia anterior se afrouxou um pouco. Seria o uísque, ele pensou, ou acabaria por dizer o que seu corpo estava pedindo que dissesse? Ele pigarreou. – E se você não deixá-lo com estranhos? E se... você deixar o Curtis comigo? – Mas eu achei... – Bray gaguejou, confuso. – Eu pensei que a Laurie não quisesse... E ele tem aprontado tanto, e com o bebê e tudo o mais... – E se ela mudar de ideia? – Scott perguntou, olhando para ele de relance. Ele tomou um gole de uísque, esperando afogar a dúvida. – Você faria isso? – Bray perguntou. – Você ficaria com ele até... – Até o tempo que fosse necessário – Scott disse. – Até você se formar, se os times profissionais perderem a cabeça e não contratarem você. Ou até você se aposentar da NBA, se eles forem espertos e pegarem você. Ou para sempre, se você quiser viver a sua vida, ter a sua família. Eu entenderia se você quisesse. Qualquer um entenderia. E você poderia vê-lo quando quisesse. Vir aqui para passar o Dia de Ação de Graças, o Natal, como neste último ano. Ficar com ele por uma semana aqui ou lá, ou nas férias, ou o que for. Você continuaria sendo o irmão dele. Mas não precisaria se sentir responsável. Acabado. Preso. Seja lá como você estiver se sentindo. – Todas essas coisas – Bray sussurrou, passando a mão gigante pela cabeça. – Eu me sinto mal. Eu sinto como se fosse um irmão ruim, uma pessoa ruim, admitindo tudo isso. Mas é, estou sentindo todas essas coisas, como você disse. Preso. Acabado. Ontem, no carro, eu estava falando sem parar como nunca faria isso com a minha família, porque não sou assim. E não sou. Não quero largar o menino. Mas também não quero piorar a situação para ele. Tenho vinte anos, técnico. Não tenho a menor ideia de como criar uma criança. Ia dar errado. Para ele e para mim. – Vou falar com a Laurie – Scott disse. – Ver se a gente consegue resolver isso. Tá? – Tá – Bray disse, enxugando o rosto. – Mas, se ela disser não, não quero que você se preocupe com isso. Estou chorando como um bebê agora, mas é só porque hoje foi um dia difícil, ver o Curtis chorando tanto, me despedir da minha mãe. Pensando em tudo isso. Mas não é problema seu, técnico, é meu. E vou lidar com ele, e tomar a decisão necessária. – A voz dele sumiu de novo e ele olhou para o chão antes de se forçar a olhar para Scott de novo. – Vou ficar bem. – Eu sei – Scott disse. – Mas não precisa decidir nada agora, tá? Só me dê um tempinho para eu ver o que consigo fazer. Até amanhã à noite. Ainda tenho um tempinho antes de levar o Carinha para ver Caminhões-Monstro de manhã, depois que a gente voltar. Se eu não conseguir encontrar uma maneira de


fazer as coisas darem certo aqui, você pode ir à audiência na segunda, dizer ao juiz o que você decidiu. Só me dá esse tempo, tá? Bray fez que sim com a cabeça, os ombros agora sacudindo de soluçar. – Ei – Scott disse, sentando-se ao lado do rapaz de novo e colocando o braço sobre seus ombros largos. – Era para isso fazer você se sentir melhor, e não pior. – Eu estou me sentindo melhor – Bray disse. – Eu me sinto... nem sei descrever. – Ele enxugou as lágrimas, mas elas não paravam de vir. – É que desde que fiquei sabendo o que tinha acontecido com a minha mãe pensei que a minha vida tivesse acabado, sabe? E agora você está dizendo que talvez eu possa continuar vivendo a minha vida. E o Curtis também. Pela segunda vez, técnico. Essa é a segunda vez que você salva a gente. Scott abriu a boca para responder. Mas não saiu nenhuma palavra.


40. Mara Depois de chegar do almoço com Steph e Gina, Mara pegou o telefone pelo menos umas dez vezes para ligar para os pais. Só mais uma despedida, ela disse a si mesma. Mais uma chance de dizer a Laks quanto a amava. Mais uma chance de dizer isso aos pais. Mais uma oportunidade de os dois dizerem o mesmo a ela. Mas ela sempre desligava antes que a ligação se completasse. Se ouvisse a voz deles de novo, não conseguiria seguir em frente com o plano. Agora ela e Tom estavam na estrada, dirigindo em direção ao leste, a caminho de seu jantar de aniversário. Mara mordeu o lábio, pensando em como Tom, Laks e seus pais estavam planejando dar presentes para ela no dia seguinte, quando Pori e Neerja trouxessem Laks para casa. Como conhecia a mãe, Mara suspeitava que uma das atividades na casa de seus pais esta noite envolvia massa, cobertura e velas de bolo. Ela ficou passada ao pensar neles trabalhando a todo o vapor na cozinha de Neerja, fazendo o bolo favorito de Mara, Laks tomando o maior cuidado para decorá-lo direitinho. – Olha que pôr do sol mais lindo, amor – disse Tom, e Mara ficou agradecida por ele haver interrompido sua sessão de autoflagelamento. – Você consegue ver? Ele virou o retrovisor para ela e uma bola laranja e vermelha, coberta por faixas de um amarelo-manga profundo, olhou para ela. As poucas nuvens mirradas que cercavam o sol mostravam tons de roxo. – Uau – ela disse, apesar de a palavra não ter saído com força o bastante para ele conseguir ouvi-la. – Viu? Ela fez que sim com a cabeça, os lábios formando um sorriso tenso. – Lindo – ela finalmente desengasgou. A certo ponto, até tinha pensado em fazer uma lista das coisas de que mais sentiria saudade na natureza, para garantir que aproveitaria todas pelo menos uma última vez: o barulho dos grilos nas noites de agosto, o primeiro narciso-amarelo da primavera, o zunido de um beija-flor, sentir o sol no rosto. E isso, a tela dramática e colorida de um pôr do sol no Texas. Ela tinha perdido a lista em algum lugar, ou a deixara de lado porque anotar tudo aquilo só a deixava com mais vontade de experimentar todos os itens: o som da risada de Laks, a sensação da barba por fazer de Tom contra a sua bochecha, o aroma do xampu da sua mãe, a colônia pós-barba do pai. Aquelas eram as visões, sons e sensações físicas mais gloriosas para ela. Ela não fora correndo para o jardim ver os primeiros botões de narcisos-amarelos este ano. Não tinha prestado atenção no barulho pesaroso do vento nos sinos do lado de fora da porta, a sensação pesada e elétrica no ar antes de uma tempestade, o cheiro rico e farto da terra depois da chuva. Não tinha ficado sentada por horas ouvindo o chamado dos pássaros no jardim. E agora sentia uma pontada de arrependimento por não ter se reservado tempo para fazer todas aquelas coisas. Tom se voltou para a estrada enquanto Mara observava o sol se afundar pouco a pouco atrás deles. – A gente pode parar o carro para assistir? – ela pediu. – Vai acabar daqui a alguns minutos e está tão lindo. – Nós já estamos atrasados. O que, como você sabe, não me incomoda nem um pouco. Mas não posso dizer o mesmo sobre a minha esposa sempre pontual.


– Eu queria mesmo ver. – Então vamos ver. – Ele pegou a próxima saída, encontrou um estacionamento e apontou para o oeste antes de desligar o motor. – É lindo mesmo. – Aham. Ele se aproximou dela, colocou o braço direito ao redor de seus ombros e estendeu a mão esquerda para ela. Mara pegou na mão dele, entrelaçando os dedos ao se aproximar do marido. Ela pousou a cabeça no ombro dele e ele colocou o queixo no topo da cabeça dela. Sem dizer nada, ficaram assistindo ao sol se afundar mais e mais, as nuvens roxas mudando de tom enquanto a fonte de luz se movia na horizontal, e então para baixo. – Este é o pôr do sol mais incrível que a gente já viu – ela perguntou – ou é a única vez em que ficamos quietos, só assistindo mesmo? – É difícil saber. – Ele passou a mão sobre o braço dela. – Que gostoso. Não é sempre que a gente fica sentado sem fazer nada. – Eu não fico sentada, você quer dizer. Você sempre tenta fazer com que eu fique assim com você, mas sempre dou uma desculpa. Eu nunca fui muito disso, né? Relaxar. Diminuir o ritmo. Saborear o momento. – Ou o pôr do sol. – É. – Mas e daí? Você está fazendo isso agora. Fazendo que sim com a cabeça, ela ficou olhando para as suas mãos entrelaçadas, tocando de leve a sua aliança de casamento na dele. – Casar com você foi a melhor coisa eu já fiz, e aquela da qual eu mais me orgulho. – Não – ele disse. – Eu é que me dei bem. Muito melhor. Ela riu. Era uma piada antiga entre eles. – Com todas as suas conquistas acima da média – ele diria –, não dá nem para comparar. Casei muito melhor. – Ganhando ou não, fico feliz por ter me casado com você – ela disse. – Eu também. Ela ajustou a cabeça um pouco sobre o ombro dele. – Vamos ficar por aqui por muito tempo? – ele perguntou. – Por que não? Já saímos para jantar um milhão de vezes. Mas nunca fizemos coisas como esta o suficiente. – Ah, não – ele disse, sentando-se reto e tentando dar a partida no carro. – Você só está dizendo isso por minha causa. E, por mim, tudo bem. A gente já está aqui há alguns minutos. Já gastei a minha cota de ficar quieto, e você deve ter ultrapassado o seu limite até demais. – Ele piscou para ela. – Não precisa se torturar por minha conta. – Mas eu quero – ela disse, tirando a mão dele da ignição, e puxando o corpo dele em direção ao dela de novo. – Se torturar? – ele riu, deixando-se ser puxado. – Por minha causa?


– Não existe causa melhor.


41. Scott Scott se sentou na cama, tomando coragem para acordar a esposa. Com a mão sobre o ombro dela, ele a chacoalhou com cuidado. – Laur? Ela abriu um olho e o coração dele palpitou. Agora que ele estava ali, e ela estava acordada, não se sentia mais tão confiante. Era uma má ideia, começar acordando a esposa. Quantas vezes ela já tinha reclamado que não dormia o suficiente? Ela olhou de relance para o relógio. – O que foi? – Havia pânico na voz dela e ela tentou se sentar. Ele a empurrou com gentileza para baixo de novo. – Não precisa se levantar – ele disse. – Que bom – ela respondeu, sonolenta. Um segundo depois, pareceu registrar que ele também não estava dormindo e perguntou: – Mas por que você está acordado? – Eu estava falando com o Bray. Ele está arrasado. Ela fez um som de compaixão. – É muita coisa para ele lidar. – É... – Ele olhou para baixo e percebeu que sua perna esquerda estava tremendo. Laurie notou isso também, e puxou a camisa dele para que Scott olhasse para ela. – O que foi? Ele respirou fundo. – Ele estava conversando com um pessoal, e teve um tempo para... pensar em tudo, sabe? E... ele não tem mais certeza se... vai conseguir criar o menino sozinho. Ele está convencido de que vai estragar tudo. Para os dois. – Mas é o contrário do que ele tinha dito ontem. – É. – Agora ele está pensando em... Ele vai entregar o Curtis para a assistência social? – Ele está pensando no assunto. Mas acha que também é uma má ideia. – Uau. – Ela deitou de costas e encarou o teto. – Que confusão. E, pelo que a gente conhece do Bray... ele está... – Um farrapo. Ele já se convenceu de que, o que quer que faça, é a coisa errada. Estou preocupado se ele nunca conseguir se perdoar, qualquer que seja a decisão. – E agora? – ela perguntou. – Quando ele vai decidir? Quando ele vai contar para o Curtis?


– Pedi para ele não tomar uma decisão até amanhã à noite. – Ah, é, porque você e o Curtis vão ver Caminhões-Monstro o dia todo, de qualquer maneira. E ele não ia querer dizer nada amanhã cedo antes de vocês saírem. Isso arruinaria o dia todo. Fazia perfeito sentido e, se ele tivesse pensado mais rápido, poderia ter fingido que aquela era a verdadeira razão para esperar. Mas não pensou, e ficou na cara. – Scott. O que o Bray está esperando? – Ela se sentou na cama e se apoiou na cabeceira, olhando para ele com os olhos estreitos. – Scott. A garganta dele ficou seca de uma hora para outra. Ele pegou o copo d’água no criado-mudo dela e deu um gole longo. No segundo em que colocou o copo de volta, ela pegou o pulso dele com força. – Responda para mim. Por que você pediu para o Bray esperar? – Eu pedi para ele esperar... para ver se talvez... a gente... ãhn... pudesse ficar com o Carinha. Ela largou o pulso dele. – Você falou o quê para ele? Ele se aproximou, tentando pegar a mão dela. – Por favor, me escute – ele disse. – Eu sei que este ano tem sido... desafiador. Mas talvez tenha sido por causa da natureza temporária de tudo, sabe? O fato de todos sabermos que ele voltaria a morar com a mãe. A srta. Keller disse isso, e você também, lembra? Como a transição iminente era difícil para ele? E, na verdade, o ano todo foi uma transição, né? Mudar-se para cá e, quando ele afinal se acostumou, ter que voltar para lá. Uma transição comprida de doze meses. – Além disso, toda a expectativa para ver se ela seguraria a onda quando saísse da prisão. Nossa, como aquilo não seria estressante para o menino? Ele esperou que ela concordasse com um aceno de cabeça. Ela não fez nada. – Bom, então – ele continuou –, se ele não tivesse esse tipo de coisa na cabeça o tempo todo, quem sabe o que ele teria feito. Então eu estava pensando, se ele soubesse que fosse ficar aqui para sempre, e se não precisasse se preocupar se os pais estariam em casa ou na prisão quando ele chegasse da escola, talvez ele se tornasse... melhor. Menos... problemático. Talvez, com o tempo, ele até se tornasse uma criança mais... fácil. Ele olhou para ela já sem forças, adivinhando que estava exagerando ao dizer que Curtis um dia seria “fácil.” O olhar que ela lhe deu deixou bem claro que ele tinha adivinhado certo. – Eu sei que você não vê a hora de ter mais tempo livre, para você e para nós dois. – Ele apertou a mão dela, sorrindo. – E eu também. Mas eu acho que, se ele ficasse aqui de vez, então melhoraria nisso também. Ele poderia começar a brincar mais sozinho no quarto por um tempo depois da escola, dar mais tempo para você. Eu acho que a ideia do tempo limitado que ele teria aqui é que o fez ficar tão grudado o tempo todo. E eu sei que o Pete ajudaria nos próximos meses, então a gente ainda poderia ter todos os encontros românticos e as outras coisas antes de a bebê chegar. Ele levou a mão dela aos lábios e a beijou, e então deu de ombros, rindo da própria tentativa fraca de mostrar o tipo de romance que ela poderia esperar dele. – E tenho certeza de que o Curtis vai se dar superbem com a bebê. Ele está tão animado para conhecêla, fica falando de como quer vir aqui vê-la, cantar para ela, ensiná-la a jogar basquete. Ele seria um irmão mais velho incrível, eu sei que seria. E olha só como ele já se encaixa na vida da gente. Nós vamos ter aqueles jantares em família o ano todo, como você sempre quis. E ele já foi ao supermercado com você, e ajudou com os biscoitos. Coisas que você sempre imaginou que faria com crianças um dia.


“E você se lembra de como o Natal foi divertido, com os dois aqui? Da manhã de Natal? De como você explicou tudo sobre colocar todo mundo na escada, do mais baixinho ao mais alto, no topo, e depois cantar “Jingle Bells” até chegar lá embaixo, e eles adoraram a ideia?” – Ele fez um gesto para o corredor atrás dele, e para o topo das escadas, tentando fazer com que ela se lembrasse de como eles tinham se divertido naquela manhã. – E que você disse que tinha sido um Natal em família de verdade? Nós quatro, uma família? Sem ar, ele pegou o copo d’água de novo, olhando de propósito para o livro sobre o criado-mudo dela enquanto tomava outro gole e juntava a coragem para olhar para a esquerda e encará-la. Ouvir a resposta dela. Ela pigarreou e ele se virou. Os lábios dela estavam entreabertos, e ele notou, aliviado, que ela não sabia o que dizer. Não estava pronto para ouvir o que ela ia dizer. Começou a falar de novo, pensando que seria melhor encher o silêncio com mais das próprias palavras, e continuar falando para que ela não ficasse chocada, para que não fizesse as perguntas que faria quando se recuperasse, as razões que ele de repente sabia que ela ia enumerar para argumentar que essa ideia jamais daria certo. Ela encontrou a voz antes que ele pudesse pensar no que dizer em seguida. – Você quer que a gente adote o Curtis? Ele deu de ombros. – Ele está tão animado com a bebê. Ele seria um ótimo irmão mais velho. Até você disse isso... Ela falou tudo rápido demais, tirou a mão da mão dele e a ergueu, olhando para ele, impedindo que ele continuasse: – Isso foi meses atrás. E eu só estava elogiando o Curtis por ser tão bonzinho, passando tanto tempo olhando roupas de bebê comigo naquele dia. Eu não quis dizer isso no sentido literal. Você sabe disso. Eu quis dizer em teoria. Se a mãe dele tivesse outro bebê, eu quis dizer. Não quis dizer que ele seria um ótimo irmão mais velho para a nossa filha, especificamente, e então ele deveria ficar aqui para sempre. Não use isso contra mim para... – Você tem razão – ele disse. – Desculpe. Mas ele seria um bom irmão mais velho. E ele já tem o lugar dele aqui, certo? E nos divertimos bastante neste último ano, não foi? – É claro que sim – ela respondeu, agora bem acordada. – Mas também tivemos centenas de castigos e quase o mesmo número de chiliques. Meia dúzia de reuniões na diretoria... – Certo – ele disse, concordando. – Mas é isso que eu estou dizendo. Que muito disso foi produto de não ter sido criado direito nos primeiros anos de vida dele e... estresse. Mas quanto disso poderia desaparecer se ele soubesse que as regras seriam consistentes? E se ele soubesse que esse seria seu lar permanente? Que íamos tomar conta dele para sempre? E se não tivesse que se preocupar com o que comer na próxima refeição, ou com não ser abandonado? – Eu não sei, Scott. Talvez tudo isso desaparecesse. Ou talvez nada. E você não sabe... – Bom, é, eu sei que não há garantia de nada. E ele não vai virar um menino de ouro da noite para o dia, mas... – E não é só uma questão de comportamento – ela disse. – Ou querer ter mais tempo para mim, ou com você antes de a bebê chegar. Você sabe disso. Ele inclinou a cabeça para o lado. Não sabia o que mais estava em jogo. O olhar dela mostrou que ele deveria saber.


Ela fez cara feia. – Não me olhe desse jeito – ela disse – todo surpreso, como se fosse novidade para você como eu me sinto a respeito disso. Ele estava tentando adivinhar aonde ela estava indo com aquilo. Ela ergueu uma sobrancelha, cética. – Você está falando sério? Jura? A maior briga que a gente já teve, e você se esqueceu? Ah. A discussão sobre a adoção de outra criança, que o tinha feito dormir no sofá por uma semana antes de ser promovido aos confins do outro lado do colchão por mais duas, e então a um contato mais próximo. Ele piscou. Ela deveria estar falando daquela briga agora. Era a única briga feia que eles haviam tido na vida. Mas como se encaixava nessa discussão? Aqueles filhos eram hipotéticos. Curtis era de verdade. Ele disse em voz alta. Ela fez que não com a cabeça e olhou para ele como se Scott não tivesse a menor noção de nada. E foi como ele se sentiu de repente. – Isso só deixa tudo mais difícil – ela sussurrou. – Muito mais difícil. Mas não muda como eu me sinto. Eu continuo querendo a mesma coisa. Nossa própria família, nossa família biológica. Você, eu e a nossa bebê. E talvez outras crianças, se tivermos a sorte de ficarmos grávidos de novo. Ele não podia acreditar naquilo que estava ouvindo. – Mas o Curtis… – Eu sei. E vou ter um troço se o Bray decidir não ficar com ele. Mas não posso ficar com ele só porque tenho pena, Scott, não posso. Não é a família que eu quero. E não posso mudar de ideia de uma hora para a outra só porque agora a situação está diferente. Por puro reflexo, ele fez cara feia e balançou a cabeça uma vez, com força, como se estivesse tentando tirar algo assustador de seus pensamentos. Havia esperado ter que ouvir como Curtis tinha sido difícil, como ela estava relutante em aceitar novos desafios, como ele ficaria devendo para ela por isso pelo resto da vida, e de maneiras que ela adoraria inventar. Mas não tinha contado com isso. Scott sentiu o olhar da esposa sobre ele e ergueu o queixo para olhá-la. Ela estava chorando e agora ele percebeu que Laurie tinha visto a cara que ele fizera, registrado sua decepção. – Não finja que é novidade – ela sussurrou, e ele pôde ouvir a raiva no tom dela, assim como dor. – E não insinue que é uma coisa terrível para dizer. Eu venho esperando essa gravidez, sonhando com essa gravidez há anos, e está enfim acontecendo. – Ela pousou a mão sobre a barriga. – Não finja que é uma coisa horrível eu querer aproveitar isso ao máximo. Ele se xingou. – Eu não quis dizer... – Ele começou, esticando a mão para ela. Ela deu um tapa na mão dele e passou por ele, saindo da cama. – Não me diga que não é verdade, depois da cara que você fez. – Ela enxugou as lágrimas com raiva. – Depois de tudo o que fiz por esses dois meninos neste último ano. – A voz dela era pouco mais que um sussurro, e ele teve que se inclinar para a frente para ouvir. – Todos esses meses eu nem pude arrumar o quartinho do bebê, nem ler os livros sobre gravidez que estão cheios de poeira num canto porque não tenho tempo. Porque estava ajudando com a lição de casa, lendo histórias. Mandando ele tomar banho ou ir dormir na hora. Todos os fins de semana que eu poderia ter passado fazendo todas as coisas relaxantes que todo mundo diz para fazer antes de o bebê chegar e você jamais ter um momento de paz de novo.


– Laur – ele disse baixinho. – Eu sei. Você já fez tanto por ele. Desculpe... Ela ergueu a mão. – Não me diga isso agora. Não se atreva a tentar me dizer isso cinco segundos depois de olhar para mim como se eu fosse um monstro malvado por não querer ficar com o menino para sempre. Eu já fiz a minha parte. Eu disse que ficaria com ele por doze meses e fiquei. Eu fiz tudo o que disse que faria. E fiz tudo muito bem. – Eu fiz o menino se sentir amado e bem-cuidado e seguro. Eu abri a minha casa e a minha família e o meu coração para ele. Que ainda estão, e sempre estarão abertos. Já falei para o Curtis e o Bray que eles são sempre bem-vindos se quiserem nos visitar ou passar a noite aqui. E até no Natal. Mas como visitas. Não devo a eles nada além disso, e nem a você. Eu concordei em ter a guarda por um tempo. E não em adotar. – Eu sei – ele disse. – Eu pisei na bola. Não deveria ter reagido daquele jeito. Eu não estava pensando. Eu estava só... – Você só estava achando que eu deixaria de lado tudo o que eu quero e diria sim. Porque se para você é tão fácil aceitar, então você achou que eu aceitaria também. E eu não quis e agora você está enojado? Desapontado? O que foi aquele olhar, exatamente, hein? A voz dela sumiu e ela se afastou dele, indo para o banheiro. Scott foi correndo atrás dela, tentando alcançá-la. – Não, não é isso – ele começou. Mas não sabia o que dizer em seguida. Ele deixou a mão cair ao longo do corpo, e então a passou pelo queixo. Ficou apoiado nos calcanhares e enfiou as mãos nos bolsos. – E não tem jeito mesmo de você ser feliz – ele perguntou – com essa mudança de planos? Eu sei que vai dar trabalho... Ele dá trabalho. Mas e se eu prometesse cuidar de tudo da escola para que você não tivesse que fazer nada disso? Eu faria toda a lição com ele... tudo. Você poderia se concentrar no bebê. – Isso não é uma família – ela fungou. – Eu e a bebê em uma sala, e vocês dois na outra. Você não seria feliz assim. Nem eu. E não seria justo para ele. – Certo – ele disse. – Mas então… – Ficou procurando alguma coisa, qualquer coisa. – E se... não sei. Tem mais alguma coisa? Alguma outra maneira de a gente fazer isso dar certo? Você não acha mesmo que tem um jeito de se acostumar com...? Ela fez que não, balançando a cabeça devagar, e olhou para os próprios dedos. – E o fato de que é do Curtis que estamos falando aqui... – A voz dele desapareceu e ela levantou a cabeça de repente. – Isso não muda como eu me sinto. Eu amo o Curtis. Não use isso contra mim. Eu sinto como se você estivesse armando para cima de mim aqui, sugerindo que, como ele passou o ano aqui, nós somos as pessoas que deveriam ficar com ele. Isso não é justo. Não me faça me arrepender de ter concordado em ficar com ele em primeiro lugar. – Eu acho que não entendo – ele disse, baixinho. – Quer dizer... – Eu não posso ter essa conversa de novo – ela o interrompeu, erguendo a mão para evitar mais perguntas ou mais sugestões de como eles poderiam fazer isso dar certo. – E acho que também não quero ter essa conversa de novo. Porque não querer dedicar toda a minha existência a esse menino não é o único problema aqui. Também há a questão de você ser esse homem de família quando a gente se mudou para essa casa, não querendo nada além de encher a casa de bebês e passar todo o tempo livre juntos, como uma família. E então você consegue esse emprego na Franklin e tcham! Agora você é o ar que eles


respiram, e só tem tempo para os seus alunos. E seus ex-alunos, aliás. Eu sempre quis ter a minha própria família. Você sabia disso quando se casou comigo. Eu não mudei. Mas você mudou. Ele pensou nisso por um momento. – Você tem razão – ele disse.– Eu mudei. Era fácil falar sobre uma casa perfeita cheia de crianças perfeitas quando estávamos na faculdade, e éramos jovens que não sabiam de nada, não tínhamos visto nada. E mesmo quando a gente se casou e eu estava trabalhando como técnico naquela escola particular chique em Bloomfield Hills, onde cada aluno tinha um pai ou mãe que se metia demais em todo o jogo, e às vezes os dois. Mas então eu fui para a Franklin. E é, eu mudei. E quem não teria mudado? – Tá – ela sussurrou. – Quem não teria? Só um monstro sem coração. – Eu não quis dizer... – Quis, sim. Ele ficou olhando para os próprios sapatos. – Não faça isso comigo – ela disse, a voz fazendo uma súplica tensa, os ombros chacoalhando com os soluços. – Eu não sou uma pessoa terrível e egoísta, não importa o que você pense. Isso não é fácil para mim, dizer que não vou ficar com ele, depois de tudo. Mas não posso deixar a culpa me forçar a fazer algo que não quero fazer. E desistir daquilo que quero. Do que eu sempre quis. Do que você sempre quis também, até decidir que queria outra coisa. Você não pode me pedir para fazer isso. – Não tem mesmo jeito...? – ele começou, mas o olhar dela era a reposta. Ele estava chocado. Mas ela tinha razão: eles já tinham passado por aquilo antes. E toda essa gritaria, lágrimas e ameaças não os fizeram chegar a um acordo na época, então não fariam agora. Além disso, o tópico da discussão estava dormindo no quarto ao lado, do outro lado da parede. A última coisa de que ele precisava era acordar e ouvir sem querer todas as razões pelas quais não era querido. – Tudo bem – ele disse baixinho. Estavam a alguns metros de distância um do outro, Laurie soluçando baixinho, o rosto inchado e vermelho, Scott com as mãos enfiadas no bolso, apoiado sobre os calcanhares. Ele pensou em abrir os braços para ela, ir até ela, mas seu corpo não se mexia. Abriu a boca algumas vezes para falar, mas nada em que ele acreditava naquele momento poderia melhorar as coisas entre eles. Depois de um tempo, os soluços diminuíram, e então pararam, e Scott sentiu que Laurie estava olhando para ele. – Fale alguma coisa – ela disse. Os lábios dele se abriram, e então se fecharam de novo. Ele deu de ombros e amarrou a boca como desculpa. – Scott – ela chorou de novo. – Por favor. Fale alguma coisa. Diga que não me odeia. – Eu não odeio você – ele disse. – Eu jamais poderia odiar você. Ele mordeu o lábio e rezou para ela não perguntar se a amava.


Parte Seis Domingo, 10 de abril


42. Mara Tom estava no balcão da cozinha, servindo café. – Feliz aniversário! – ele disse quando ela entrou. – Obrigada. Ela passou as mãos ao redor da cintura dele e pressionou a bochecha contra o espaço entre os ombros dele. Respirou fundo, enchendo os pulmões com o cheiro dele. – Hummmm – ele disse, virando-se para olhar para ela. – A gente precisa mandar a Laks dormir na casa dos seus pais com mais frequência. Ontem à noite foi incrível. Não que o resto da semana não tenha sido incrível também. Mas ontem à noite foi especialmente... – Eu amo você – ela disse, abraçando-o com mais força. – Sou tão agradecida por ter você na minha vida. Você é o meu porto seguro, o meu e o da Laks. E não digo isso o suficiente. Ele riu. – Fora ontem à noite, você quer dizer. Você me disse a mesma coisa quando estávamos jantando, lembra? E no caminho para casa, e quando fomos para a cama. Ela sentiu as bochechas se enrubescerem e ele colocou a mão fria sobre uma delas. – Não que eu esteja reclamando – ele disse. – Entre todas as coisas para esquecer que já me disse, e tem que falar para mim de novo, essa é uma das melhores. Ela se permitiu um último e longo abraço antes de se forçar a se afastar. – Então, você vai sair para correr? – Vou, mas preciso de um pouco de cafeína primeiro. Pensei em fazer dezenove ou vinte hoje, se você não se importar de eu demorar um pouco. Estou me sentindo tão cheio de energia depois de dormir dez horas inteirinhas ontem à noite. Graças a você. – Dezenove ou vinte, hein? E isso só leva o quê, umas duas horas e meia? Duas horas e 45 minutos? – Mais ou menos. Mas não preciso ficar tanto tempo fora hoje. Aliás, nem preciso ir... Ela ergueu a mão para interrompê-lo. – Tom Nichols. Não vamos ter essa discussão de novo. Você é um corredor. Você corre. Você vai correr vinte. Ele ergueu as mãos como quem diz “eu me rendo” e riu. – Tá, tá. Vou correr vinte. E o que você vai fazer enquanto isso? Existe alguma chance de você considerar tirar uma soneca? Ela olhou para ele como quem diz “O que você acha?”, e ele riu. Passou para ela uma xícara de café e ela assoprou o líquido quente, e então disse: – Então, duas horas e 45 minutos, você acha?


Ele estreitou os olhos por sobre a xícara. – Hum, é. Duas e 45. Tudo bem por você? Ela olhou para ele com cara de paisagem, fingindo ser uma coisa de memória. – Você vai ficar com saudade de mim? – ele perguntou, provocando Mara. – É por isso que fica perguntando quanto tempo eu vou demorar? Você está tentando decidir se a gente tem tempo para mais – ele sorriu – aventuras no nosso quarto depois que eu voltar e antes de ir buscar a Laks? Porque eu topo. Será que eu deveria correr só cinco ou seis agora? Guardar energia? – Ele piscou. Um punho de ferro apertou o coração dela e sua garganta ficou seca na hora. “Sim”, ela queria dizer. “Sim, vamos passar mais uma hora juntos na cama. Mais uma hora.” Ela fechou os olhos rapidamente e viu a imagem dos adolescentes de saco cheio, virando os olhos um para o outro enquanto a mãe jogava o cobertor no chão de novo e o pai se abaixava para pegá-lo pela décima vez. Abrindo os olhos novamente, ela fez que não com a cabeça, fingindo estar irritada. – Vai. Mara pegou a mão dele, levou-a à boca e pressionou os lábios sobre os nós dos dedos. Virando o rosto para ele, abriu a boca para falar. – Deixe-me adivinhar – ele falou, continuando a provocar. – Você me ama. E é grata a mim. Ela fez que sim com a cabeça, pressionando a boca ainda com mais força contra ele, e ele riu baixinho. Ela tinha dito a si mesma que teria que se forçar a sorrir para ele naquela manhã. Tinha até treinado algumas vezes em frente ao espelho. Mas agora seus lábios se curvavam para baixo quando ela percebeu que não precisava de mais uma hora na cama, mais um beijo nos lábios, mais um abraço. Este – a pele dele nos seus lábios, o tom leve e paquerador na voz dele, a risada dele – era um momento final tão bom quanto ela poderia desejar. Ele se inclinou para a frente e deu um beijo em sua testa, a mão firme em sua mandíbula. – Odeio interromper esse momento tão gostoso – ele disse –, mas, se vou tentar fazer vinte, tenho que ir antes que esquente demais... – Vai – ela repetiu. Ele deu um último sorriso e saiu pela porta. Tom só tinha saído há um minuto quando o telefone se acendeu. Ela não precisou olhar no visor para saber que deveria ser Laks ou os pais dela ligando para cantar “Parabéns para você”. A boca de Mara se abriu de alegria: havia presente melhor de aniversário do que a chance de ouvir a voz de sua filha e de seus pais? Ela tirou o fone da base, mas, antes de apertar o botão para responder, pensou naquilo que tinha dito a si mesma um milhão de vezes na noite anterior – que alguns segundos da risadinha da filha poderiam fazê-la fraquejar. E a risada baixinha do pai e o “Beti” tão carinhoso da mãe acabariam com toda a sua coragem. Mara ficou encarando o telefone em pânico, enquanto as luzes continuavam a brilhar. Mais alguns segundos e iria para a secretária eletrônica. Até que enfim, ela apertou o botão, levou o fone ao ouvido e deixou as vozes dos três amores da sua vida soarem em seu ouvido.


43. Scott – Você prefere ser amassado por um caminhão-monstro ou.... – Curtis fez um bico para pensar em uma alternativa terrível o bastante. Eles estavam vindo para casa depois do show dos Caminhões-Monstro, os dois exaustos depois de um longo dia. Curtis tinha passado o dia vacilando entre histeria e depressão, animado por estar com Scott e vendo os caminhões em um minuto, e triste por causa da mãe no outro. Agora ele estava largado no banco de trás, parecendo cair de sono, mas Scott podia ouvir as engrenagens girando na cabeça do menino enquanto ele fazia pergunta atrás de pergunta. Era como se Curtis não quisesse passar um minuto sequer sem trocar palavras, agora que os dois estavam juntos de novo. Scott não o culpava. – Você prefere ser amassado por um caminhão-monstro ou.... – Curtis tentou de novo, mas não conseguia pensar direito para terminar. “Eu me sinto como se já tivesse sido amassado por um deles”, Scott queria dizer. Passaram-se alguns minutos de silêncio antes de o menino falar de novo. Agora ele estava falando mais baixinho e Scott teve que baixar o volume do rádio para ouvi-lo. – Ouvi o Bray falando no enterro da mãe. Com uns caras do time. Ele falou que está pensando em largar a escola para ficar comigo. Mas então ele não vai jogar no profissional, eu ouvi eles dizendo. Então por que eu não posso morar com você, e ele fica na escola, como a gente fez este ano? Por que não posso fazer isso para sempre? – Não é tão simples assim, Carinha. – Por que não? Scott rangeu os dentes com tanta força que pôde ouvir o barulho mesmo com o rádio ligado. Ele não podia culpar a esposa, mas também não suportaria não dizer para o menino quanto queria ficar com ele, como tinha lutado para ficar com ele. Ele cerrou o punho direito e bateu com tudo no joelho. Autoflagelação por não saber o que dizer naquele momento tão importante. Por não ter convencido a esposa na noite passada. A discussão mais importante de sua vida, ele tinha perdido. – Você parece estar bravo – Curtis disse, a voz irregular. – Você ficou bravo porque eu perguntei? – Não estou bravo. Estou triste. – Por causa de mim. – Bom... sim. Curtis suspirou. – Estou triste por causa de mim também. Parece que um caminhão-monstro me atropelou e agora todos os meus órgãos estão amassados do lado de fora. Scott deixou escapar um ruído, não uma risada propriamente dita, e ficou pensando se deveria tentar explicar para o menino o que era telepatia. Mas agora seus olhos estavam ardendo, e ele não queria dizer mais nada.


– Eu sei como é, Carinha. Ele estendeu a mão e Curtis veio para a frente com mais energia do que tinha demonstrado nas últimas horas. Ele pegou a mão de Scott nas suas e a segurou com tanta força que a mão começou a formigar um pouco. Scott disse a si mesmo que merecia aquilo. – Você está chorando – Curtis disse. – Eu nunca tinha visto você chorando. – Estou. E muita gente nunca viu. A maioria das pessoas nunca viu. Curtis soltou a mão dele e se largou no banco mais uma vez. Ele apoiou a cabeça na porta e fechou os olhos. Ficou daquele jeito por um bom tempo, e Scott estava prestes a aumentar o volume do rádio, achando que o menino estava dormindo, quando ele falou de novo. – Você prefere estar tão triste que sente como se um caminhão-monstro tivesse atropelado você, e todos os seus órgãos estivessem espalhados, ou... nunca ter conhecido o Bray ou eu? Assim você não estaria tão triste. E você podia estar correndo ou jogando basquete ou fazendo alguma coisa agora e nem estaria pensando em coisas tristes. –Órgãos espalhados, Carinha. Essa é fácil. – Eu também. Laurie estava de joelhos no jardim quando Scott e Curtis estacionaram o carro na entrada da casa. Scott saiu devagar do carro. Ela olhou para cima, enquanto tentava arrancar um arbusto. – Vocês chegaram cedo! – Ela se levantou devagar, deixando a espátula cair aos seus pés, e o abraçou, rindo quando a barriga impediu os dois de chegarem perto demais. – Achei que vocês fossem demorar pelo menos mais uma hora! – Por que você está mexendo no jardim? E o seu descanso? – Ah, acabei de vir para cá. Eu estava ansiosa para vocês chegarem em casa. Energia nervosa. Eu tive que arrumar alguma coisa para fazer. – Energia nervosa? – ele perguntou. – Ei, Curtis – ela disse –, você se importa em esperar aqui fora um minuto? O menino, que já estava subindo os degraus da varanda, fez uma cara de interrogação e pulou de volta para a calçada. – Que tal jogar basquete por uns minutos? – ela perguntou. – Eu queria falar com o Scott. Sozinha. – Claro. – O menino correu para pegar uma bola na garagem e segundos depois Scott ouviu o barulho borrachento dos dribles do outro lado da casa. – O que foi? – Eu só queria... – ela começou. Laurie passou o pulso sujo pela testa, deixando uma trilha de terra preta. Estendeu a mão para inspecioná-la e fez uma careta. – Na verdade, você poderia me dar um minuto? Estou ridícula. Posso me arrumar, e então a gente pode se sentar na varanda por um minuto, antes de o Bray voltar? Mandei ele fazer uma coisa. – Claro. Mas não quero discutir de novo, Laur. Não tem por que e... –Nem eu. Você poderia esperar só um pouquinho, quando eu estiver menos acabada? – Claro.


Subiram os degraus juntos e ele se sentou na varanda enquanto ela foi lá para dentro. Ele ouviu Laurie indo até a cozinha, a torneira aberta. O barulho da água corrente o lembrou de que não tinha ido ao banheiro desde a última parada no posto de gasolina e um café grande. Para não ficar distraído ao falar com Laurie, resolveu ir ao banheiro e abriu a porta da frente. O cheiro de tinta o atingiu tão logo ele entrou na casa. Mas o que era aquilo? O cheiro vinha lá de cima, ele percebeu, e subiu as escadas de três em três degraus. Pôde ouvir um ventilador à esquerda, e seguiu o barulho até o quarto de Curtis. Bom, o quarto que era de Curtis, mas estava irreconhecível agora. Havia um berço no lugar da cama, um tapete em cor pastel em vez do mapa da cidade. A prateleira baixa tinha sumido e em seu lugar havia uma mesa para trocar bebês. Uma nova poltrona e um banquinho estavam no canto – a velha cadeira de balanço tinha desaparecido. Mas Como Assim? Um ventilador oscilava no canto, secando paredes que tinham sido despidas dos pôsteres de basquete da Michigan e da tabela de brinquedo de Curtis, e agora tinham sido pintadas de verde-clarinho. Uma merda de cor de ervilha. Nada de jeans nem moletons com capuz em uma pilha no chão do guarda-roupa. Em vez disso, havia uma cômoda com gavetas lá dentro, cheias de cobertores cuidadosamente dobrados e roupinhas de bebê. Ele olhou para o berço de novo. Não era aquele berço exclusivo, caro, com pés de garra que ela tanto queria, mas um berço comum e com cara de barato que eles tinham visto em um milhão de catálogos de bebê. Ela estava tão animada para arrumar o quarto que não podia nem esperar pelo berço? Não podia esperar até o menino ir embora antes de fazer tudo isso? Ele deixou os braços caírem ao longo do corpo e cerrou os punhos. Sentiu o calor subir pelo rosto e seu coração latejando no peito e então na garganta. Como ela podia ser tão fria? Dando um passo cheio de raiva em direção à porta, ele pensou em voltar para a varanda e esperar por ela ou enfrentá-la na cozinha. Foi pisando duro até o corredor, o primeiro passo para qualquer uma das duas decisões. E parou, inclinando a cabeça para o lado. Mais ventiladores pelo corredor, e no quarto vazio que eles usavam como escritório. Mas como...? Talvez ela tivesse usado o resto da merda da cor de ervilha nos outros quartos, ele pensou. Ela tinha dedicado cada fibra de seu ser a esse bebê – e então, por que não dedicar todos os quartos da casa também? Ele foi andando até o escritório a passos largos, levantou um pé e chutou a porta. Ela se abriu com tudo, batendo com um barulho alto na parede atrás. Segundos depois, Laurie tinha aparecido no topo das escadas, água e sabão escorrendo pelos braços. – Scott? Tudo bem? Ouvi um barulho. Você caiu? Ele se virou para olhar para ela, um milhão de emoções em sua expressão.


44. Mara Mara foi para a garagem, fechando a porta após entrar. Por alguns segundos, ela se permitiu deixar que a porta a apoiasse. Levava a garrafa de vodca pelo gargalo em uma das mãos e o saquinho de comprimidos para dormir na outra. As lágrimas escorriam por seu rosto tão rápido que não valia a pena tentar enxugálas. – Tá – ela disse, endireitando-se. – Não tenho tempo para isso. Deixou a garrafa e o saquinho sobre o capô do carro e entrou em ação. Atrás de uns sacos grandes de fertilizante, ela havia escondido quatro rolos de fita adesiva e pilhas de toalhas que tinha comprado meses antes. Com todo o cuidado, selou a porta com a fita. Tinha lido na internet que casas mais novas tinham portas bem seladas, então ela não precisaria se preocupar com esse detalhe – o monóxido de carbono não entraria na casa. Mas quem poderia se arriscar? Esse tempo todo, ela tinha planejado deixar a parte de cima da porta sem fita mesmo – não conseguiria alcançar sem uma escadinha, e selar os outros três lados já era um trabalhão. Mas, ao olhar para a porta agora, ela fez cara feia. A extensão sem fita da porta dava nos nervos. E a fazia sentir como se estivesse deixando algo por fazer. Ela pegou a escadinha e, segurando a respiração, subiu nela, uma das mãos segurando quatro pedaços compridos de fita, a outra segurando com força a porta, para se equilibrar. Ela não subia em uma escadinha fazia mais de um ano e era mais difícil do que esperava. Seus pais e Tom tinham insistido para que não usasse a escada. Depois, pressionou três toalhas ao pé da porta que levava à casa, e mais dez ao longo da porta da garagem. De trás dos sacos de fertilizante, tirou um saco de lixo que tinha escondido ali também, e lá de dentro pegou um tubo de plástico mole. Foi mais fácil fingir que sabia tudo de reforma na loja de ferragens que o esperado – o cara só tinha perguntado de qual comprimento ela queria, cortado o tudo no tamanho certo e o entregado a ela com um rolo de fita, desejando-lhe boa sorte. Agora ela prendeu uma ponta com cuidado na boca do escapamento do carro, prendeu a outra extremidade na pequena abertura da janela do assento atrás do motorista e a prendeu com fita ali. Também tinha lido isso on-line: motores modernos não criavam a mesma concentração de monóxido de carbono que os antigos. Assim, além de usar o tubo, era importante ter o número certo de comprimidos. Não era o momento de fazer nada meia-boca. Mara deu uma olhada em seu trabalho e fez que sim com a cabeça, satisfeita, antes de ir até a garrafa e os comprimidos. Com a mão na garrafa, ela se virou para ver o carro de Tom, atrás dela. Tinha passado fita em tudo mais rápido que o esperado. Ela ainda tinha um tempinho extra. Deixou a garrafa de vodca, abriu a porta do passageiro do sedã de Tom e se sentou. Passando as mãos sobre o couro bege, ela respirou fundo – a colônia pós-barba de Tom. Ela estendeu a mão até o assento do motorista e a passou por ele, como se em vez de couro frio pudesse sentir o corpo quente dele. Deslizou a mão sobre a circunferência lisa do volante antes de fazer o mesmo com a marcha, que ela segurou de leve como se fosse a mão dele. Passou a mão pelo painel antes de abrir o porta-luvas e tocar no manual do carro, no envelope que continha sua carteira de motorista e o seguro, e os CDs. Ela sorriu. Ele se recusava a colocar um


daqueles porta-CDs no visor, mas não conseguia alcançá-los do banco do motorista enquanto estava dirigindo, e nunca se lembrava de pegar um CD do porta-luvas até chegar no meio da estrada. Por quase um ano, Tom tinha ouvido o mesmo CD – Tom Petty, o que ela tinha colocado no CD player para ele no dia em que ele trouxera o carro novo para casa. Ela saiu do carro e fechou a porta devagar. Dentro do próprio carro, Mara deixou a garrafa de vodca sobre o banco do passageiro e esvaziou o saquinho de comprimidos no porta-copos. Ela se apoiou contra o banco e respirou fundo. Suco de maçã azedo. Laks. Ela se virou para o banco de trás. O assento da filha estava coberto de migalhas e uma caixinha de suco em formato de ampulheta se encontrava ao lado, espremida até o meio para que não sobrasse uma única gota lá dentro. Também havia um chinelinho rosa preso entre o assento e o cinto de segurança. Mara levou a mão à garganta. Enquanto olhava para a sandalinha, ficou pensando que no táxi de Harry, com seu cheiro de colônia, os assentos brilhantes de vinil e o chão impecável, tinha sido tão fácil se envolver em uma mortalha de dor e medos, suas regras rigorosas sobre o que tolerava ou não que a filha, o marido, os pais, as amigas fizessem. Ela talvez não conseguisse manter a concentração com o cheiro de suco azedo, as pequenas impressões digitais na janela. O chinelo. Fechou os olhos e ouviu a voz de Laks cantando “Parabéns para você”, rindo ao terminar a música com “Parabéns para você, eu só vim para comer...” que as suas amiguinhas cantavam nas festas, os pais dela rindo ao fundo. Eles iam comer panquecas, Laks anunciou, e Mara podia imaginar a calda grudenta na bochecha da menina – e agora, como era provável, no telefone dos pais. Ela pensou no mel que tinha achado atrás da orelha de Laks ao se deitar ao lado dela naquela noite. E nos tufos de cabelo que saíam espetados da cabeça da menina, cortesia de Susan e sua tentativa de “consertar” o incidente com a cola. Pensou nos cinco empurrões fortes que Laks exigia no balanço todo dia, a nova técnica do “cara de aranha” que ela tinha aprendido para subir no escorregador de plástico. Pensou em como elas tinham ficado abraçadinhas no sofá no dia anterior, Laks segurando o braço da mãe com força, aninhando a bundinha na barriga de Mara, suspirando contente como se não houvesse nada melhor no mundo que ver TV com a mãe. Mara respirou fundo, pressionando o polegar e um dedo sobre as pálpebras. – Vire-se – ela disse. E virou-se, com rapidez, e rápido também pegou a garrafa de vodca e tomou um gole longo. Ela descansou a cabeça no banco, com o olhar fixo à frente, através do para-brisa, e disse a si mesma que tinha sido por isso que o universo havia mandado Harry. Ela não poderia ter passado esses últimos dias no próprio carro, com isso – sua filha, sua vida – tudo ao seu redor. Precisava do casulo seguro do táxi, longe de tudo e todos que estava deixando para trás. Rapidamente, ela deu outro gole e, enquanto engolia, fuçou no bolso do robe para pegar a chave do carro. Um barulho de papel lembrou-a de que ela tinha dobrado o haikai e o deixado ali na noite anterior. Seus dedos tocaram de leve as pontas do papel. Sua filha orgulhosa. E será que agora ela sentiria orgulho? Ou acharia que a mãe era forte? Não havia força nenhuma em fugir. Mara tirou a mão do bolso e a prendeu debaixo da coxa, longe do poema. Ela enfiou um punhado de comprimidos na boca, virou a garrafa e engoliu tudo. E então deu a partida no carro.


45. Scott Scott olhou de Laurie para o escritório. A escrivaninha, o arquivo, a tábua de passar e as caixas de plástico cheias de tranqueiras que eles guardavam ali tinham sumido. Em seu lugar havia uma cama com edredom amarelo e azul, um tapete que imitava as ruas de uma cidade. Uma prateleira baixinha ao longo da janela, O Pequeno Stuart Little sobre ela, ao lado de uma pequena foto no porta-retratos: a de Scott e Curtis sentados na cama do menino, lendo uma história sobre um rato. Não havia tom cru aconchegante por perto. As paredes tinham sido pintadas de azul do chão até a metade, e de amarelo até o teto, com uma faixa dizendo “Michigan! Vai, Azulão!”, dividindo as duas seções. A tabela de basquete de brinquedo de Curtis estava pendurada na parede perto da janela, e meia dúzia de pôsteres emoldurados de basquete da Michigan estava encostada na porta do guarda-roupa, esperando para ser pendurada. Ele olhou para Laurie sem saber o que estava acontecendo. – O Pete e metade dos meninos deram um jeito neste quarto enquanto eu, o Bray e a outra metade arrumamos o quarto da bebê – ela disse. – Começamos no minuto em que vocês saíram e, como sou muito boa com tarefas, não deixei ninguém descansar até terminar. Eles até comeram pizza enquanto trabalhavam. Ainda bem que a temporada acabou – você não sabe como é rápido fazer as coisas com oito atletas do último ano à mão. Ele olhou para ela, parte animado com o que achava que aquilo significava, parte horrorizado por talvez estar errado. – Para...? Ela fez que sim com a cabeça. – Para o Curtis. – Para quando ele vier nos visitar? – ele sussurrou. Ela sorriu, fazendo que não com a cabeça. – Para quando ele for dormir toda noite. Ou quiser brincar com seus brinquedos. Ou fugir da irmãzinha. Scott ficou de pernas bambas e se sentou com tudo na cama. Ele se inclinou para a frente, pousou a cabeça sobre as pernas e sentiu a umidade das bochechas cobrir suas palmas. Laurie se ajoelhou na frente dele, as mãos sobre os joelhos do marido. – O outro quarto está mais ou menos a mesma coisa. Sem o tapete de cidade e o O Pequeno Stuart Little, é claro. Não deu tempo de pintar. Mas peguei o dinheiro que economizei com o berço mais barato e comprei uma cama – supercomprida. Quer ver? Ele abriu os dedos e olhou para ela, confuso. – Para quando o Bray vier para casa – ela disse. – Sabe, para o Natal, férias de verão, fora da temporada da NBA. Seja lá quando for que crianças crescidas visitam suas famílias. Gentilmente, ela tirou as mãos do rosto dele e o beijou.


– Eu não me esqueci dos sacrifícios que você fez por mim nos últimos anos. Comprar esta casa antiga e reformar tudo sozinho à noite e nos fins de semana. Tentar ter um bebê mesmo depois de você ter aceitado nosso destino e seguido em frente. Gastar todo o nosso dinheiro em FIV. Depois que você foi lá para baixo ontem, eu me senti tão mal com a nossa briga. E então tentei me fazer sentir melhor imaginando como seria entrar naquele quarto – ela apontou para o outro lado do corredor – e pegar nossa filha do berço. Eu tentei imaginar isso – nossa casa, com apenas aquele quarto ocupado, e o resto desse corredor vazio enquanto esperávamos por mais bebês. E fiquei querendo que esse sentimento tomasse conta de mim – esse sentimento de, sei lá, contentamento, eu acho, ou paz. Essa coisa pela qual eu espero há tanto tempo estava prestes a acontecer. Nós íamos ter nossa própria família, só nós três. Eu deveria ser a mulher mais feliz do mundo. E fiquei imaginando, e não senti nada de contentamento, nem de paz. Nem felicidade. Só me senti triste. De coração partido. Arrependida. E então me dei conta de que você ficaria desse jeito para o resto da vida se não fizéssemos o possível para ajudar esses meninos. Ela fungou. – E percebi que, não importando o que eu achava que queria que minha vida fosse cinco dias atrás, tudo o que sei agora é que, seja a minha vida como for, ela não seria nada se eu soubesse que você não está feliz. E que eu evitei que você fosse feliz. Então comecei a imaginar outra coisa. – ela fez um gesto para o quarto. – Comecei a imaginar isso. E foi então que eu senti o contentamento e a paz que queria sentir. Ele pigarrou. – Você tem certeza? Ou acha que talvez só esteja... sentimental, ou alguma coisa do gênero, por causa do que eles tiveram que passar? Você acha que vai se arrepender da próxima vez que o Curtis for mandado para a diretoria ou chegar em casa com o nariz sangrando? – É claro que estou me sentindo sentimental por causa do que eles passaram. E você também. E pensei em como vou me sentir quando ele aprontar de novo, como toda criança, e se vou ficar ressentida quando isso acontecer. E espero estar certa sobre isso, mas decidi que você tinha razão sobre como era fácil só pensar em uma casa perfeita e filhos perfeitos, como eu vinha fazendo esse tempo todo. Ou talvez nossa vida não deva ser assim, afinal. Talvez ela deva ser cheia de imperfeições, como a Franklin. E as crianças imperfeitas que vêm com ela. – Você tem certeza mesmo? – Certeza de que vamos conseguir ficar com ele sem querer arrancar os cabelos às vezes? Não. Nem pensar. Mas prometo que vou olhar para você um milhão de vezes e perguntar o que é que eu estava pensando. E você vai ter que me lembrar dessa conversa. E então me passar um drinque. Ela sorriu, levantou-se um pouco e o beijou. – Mas é certeza que amo o Curtis e o Bray. E nunca tive tanta certeza de que amo você. E eu só preciso ter certeza disso.


46. O Fórum Domingo, 10 de abril às 22h30 CidadedosCarros escreveu: Tenho o prazer de anunciar que estou cansado e vou para a cama... dormir! Você sabe que está velho quando essa é a notícia... @mãedalaks – já mandei algumas mensagens pessoais pra vc. Vou abrir de novo aqui para falarmos antes de dormir. Agora vou ficar preocupado com você apelando para as centrífugas de suco enquanto eu ronco. ;) Domingo, 10 de abril às 22h32 2meninos escreveu: cara, você viu o compacto do jogo? o pettitte está saudável e forte e vai acertar todas as bolas, começando em detroit... falando sério agora, que bom que você deu um pé na bunda da insônia – isso quer dizer que o irmão tomou a decisão certa? conta aê – mentes curiosas querem saber. Domingo, 10 de abril às 22h34 planodevoo escreveu: É, CdC, conta tudo. Estou entrando a esta hora – algo que quase nunca faço – para ver se você tem alguma notícia. O irmão tomou uma decisão? Domingo, 10 de abril às 22h35 CidadedosCarros escreveu: Se eu não amasse tanto vocês, faria todo mundo adivinhar, cobraria apostas, essa coisa toda. Mas eu amo, então... Vou adotar o Carinha. E o irmão. Bom, não dá pra adotar um cara de vinte anos, mas vou chamar de meu. A gente tem um quarto para quando ele vier visitar depois de limpar a quadra com os imbecis que decidirem jogar contra ele e para quando ele começar a fazer a mesma coisa no profissional. Ou na sala de reuniões... seja lá o que for melhor para ele. E, antes do 2meninos perguntar, minha esposa concordou. Você me ouviu: ela aceitou. Eu e o Carinha chegamos em casa hoje depois dos Caminhões-Monstro e dá para acreditar que ela botou o irmão e uns amigos do time para trabalhar, junto com o Pete (que só deve ter comido pizza, bebido cerveja e mandado nos outros o dia inteiro)? Quando voltamos, ela tinha arrumado os quartos permanentes dos dois meninos, falado com a assistente social, tudo isso. Eu sinto como se a minha vida estivesse começando de novo esta noite. (Pode falar, planodevoo, se estou mole demais para ser técnico.) mãedalaks – tenho detalhes para você nos quais os outros não vão ficar interessados. Mal posso esperar para ouvir a sua reação. Domingo, 10 de abril às 22h37 2meninos escreveu: uau – que demais ficar com o menino E com a garota no final, isso sem falar no cara alto para limpar as calhas todo outono ;) Domingo, 10 de abril às 22h40 NadaMalvada escreveu: WOOHOO, Cidade! TÃO FELIZ! Tão feliz de ficar acordada até tarde para entrar aqui! Boa noite para todos! Vejo vocês amanhã cedo. Vou dormir pensando em NOVOS TÓPICOS de discussão. Alguma coisa *LEVE* depois da semana que a gente teve, vocês não acham? SUGESTÕES? Domingo, 10 de abril às 22h45 2meninos escreveu: nadamalvada – yankees. vamos falar a semana inteira dos yankees. o cidade está de bom humor demais para dizer não. Domingo, 10 de abril às 22h48 CidadedosCarros escreveu:


@2meninos – nunca vou ficar tão de bom humor assim. Tigers seeeeempre! @mãedalaks – você deve estar ocupada. Ainda sem resposta para as mensagens que mandei mais cedo. Vou checar de novo daqui a pouco, depois de ver se os meninos estão em seus quartos pela 100ª vez. Domingo, 10 de abril às 23h32 CidadedosCarros mandou esta mensagem pessoal: mãedalaks, sem querer fazer drama, mas está tudo bem? Estou meio que esperando você. Acho que nada disso vai ser oficial até você ficar sabendo. Estou começando a desejar que a gente tivesse trocado nomes de verdade e telefones, para poder ligar para você. Tenho certeza de que você não se importaria se eu invadisse a sua privacidade por causa disso. :) Domingo, 10 de abril às 23h55 CidadedosCarros mandou esta mensagem pessoal: Oi, mãedalaks. Pensei em checar só mais uma vez, mas parece que você continua off-line. Tenho certeza de que deve haver uma explicação simples para isso, tipo a internet caiu ou algo do gênero, mas, cara, estou ficando maluco aqui, esperando para falar com você! Estou doido para contar todos os detalhes sobre hoje e esperando para ver como você está. Você está aí?


Epílogo: As Cartas

Minha querida Laks, Deixei esta carta com o papai e pedi a ele para entregá-la quando achasse que você já tem idade para lê-la. Então, se ele a entregou é porque acha que você tem idade suficiente e maturidade o bastante. Que bom que você já é tão madura. Estou tão orgulhosa de você. Sempre tive tanto orgulho de você. E sempre vou ter. Para ser sincera não sei se Deus existe, nem o céu. A gente não falou muito sobre isso. Agora, a tia Gina já deve ter levado você à igreja algumas vezes, e você talvez tenha desejado saber mais sobre isso do que eu. Se você acredita, então acredito também. Muitas vezes os filhos conseguem entender essas coisas melhor que os pais. E espero que você se sinta melhor agora sabendo que estou no céu, observando você, amando você. Com você. Mas mesmo que você não acredite, sempre vou estar com você. É só fechar os olhos e pensar em mim. Não importa se você não se lembrar mais do meu rosto – só é preciso pensar “Mamãe”, e sempre vou estar aí. E isso me lembra de outras coisas importantes que você precisa saber. A primeira é que eu amo você. Mais que tudo no mundo. E não quero que você pense nunca que eu teria ficado se a amasse mais. Seria impossível amá-la mais. A segunda é que tudo bem se você se esqueceu do meu rosto. Ou do som da minha voz. Isso é totalmente normal. Não me lembro de como a minha mãe era, ou da voz dela, quando tinha cinco anos idade. Você pode olhar para as fotos se quiser me ver. E, se não quiser me ver, tudo bem também. A terceira é que, se o papai se casar de novo, tudo bem amar a sua nova mãe tanto quanto me amava. Ou mais até. Isso é normal também, eu prometo. E também prometo que é isso o que quero para você. A quarta é que a minha morte não é culpa sua. Foi culpa da DH. Você sabe disso. A gente falou sobre isso várias vezes, de como a DH deixou a mamãe doente e como não havia nada a ser feito. Eu sei que o papai já deve ter dito isso para você. Seus avós vão dizer isso também, e sei que Aquelas Moças também dirão. Por favor, acredite neles. A DH é uma doença muito poderosa contra a qual eu não podia mais lutar. Não tinha nada que você, nem o papai, nem os médicos pudessem ter feito para me salvar. A quinta é que, sempre que você precisar de alguma coisa, Aquelas Moças estarão aí para você. O papai também sabe disso. Ele sabe também que eu o acho o pai mais incrível do mundo e que ele pode ajudar você com qualquer coisa que aconteça. Mas, se por acaso você achar que seria melhor conversar com outra mulher, o papai não vai ficar bravo se você disser que prefere falar com elas. Ou sair para fazer compras com elas, ou fazer as unhas com elas... ou essas coisas de menina. A sexta, e a última, é que é bem provável que as pessoas que querem o seu bem digam que, agora que a sua mãe morreu, você precisa “ser boa” ou “ser corajosa” ou “ser forte” ou “ser uma mocinha” e que precisa ser essas coisas todas pelo seu pai ou pelos seus avós, ou até mesmo por mim. E quero que você saiba que todas essas pessoas bem-intencionadas estão erradas. Você não precisa ser boa, nem corajosa, nem forte, nem mocinha ou qualquer outra coisa que não quiser ser. Você precisa ser quem você é, e agir como quiser agir, e sentir o que quiser sentir. E você precisa fazer isso por si mesma, e por mais ninguém. E todo mundo que disser o contrário está errado. Não diga isso a eles – mas você pode pensar isso. E, quando fizer isso, pense em mim e saiba


que vou balançar a cabeça, concordar com você e dizer: “Você está certa”. Eu amo você, minha querida, minha Lakshmi. E amei todos os segundos de cada minuto de todos os dias em que fui sua mãe. Obrigada. Obrigada por fazer de mim a mamãe mais sortuda do mundo. Era isso o que eu era, porque tive você como filha. Com amor, Beijinho da Mamãe.


Querido Tom, Meu verdadeiro amor, meu querido, meu coração, meu tudo. Você se lembra da primeira vez que me chamou para sair? A gente estava no vestíbulo do Morrice Hall. Eu tinha corrido para lá a fim de fugir da chuva e você entrou no prédio errado para ir a uma entrevista. A gente conversou por um tempo, esperando a chuva passar. E então você me chamou para sair. Eu não respondi por um bom tempo e você achou que eu não estivesse interessada, e se desculpou e se virou para ir embora. Eu não deixei você ir e expliquei que estava com vontade de espirrar, por isso ainda não tinha respondido. Era mentira. Sabe por que demorei tanto para responder? Porque não conseguia respirar. Você era a pessoa mais linda que eu já tinha visto. E quando você olhou para mim e começou a conversar comigo, eu disse a mim mesma que você só estava sendo educado. Nós éramos as duas únicas pessoas ali – você tinha que conversar comigo. Eu disse a mim mesma que você devia ter uma fila de mulheres lindas à sua porta toda noite, brigando pela sua atenção. Se alguma delas estivesse por perto, ou se não estivesse chovendo, se você não tivesse sido forçado a dividir aquele espaço fechado comigo, então jamais teria olhado para mim pela segunda vez. Então, quando você continuou falando por um tempão, mesmo depois de a chuva ter passado, eu não pude acreditar na sorte que havia tido. E quando você me chamou para sair, bom, como eu disse, eu não consegui respirar. Eu poderia ter morrido feliz naquele dia. E mesmo assim, para a minha a sorte, ganhei tantos outros dias depois daquele – tantos outros dias felizes com você. Alguns dias tristes também, como todo mundo tem. Mas mais dias felizes que tristes, sem dúvida. E mais felizes do que jamais poderia imaginar nos meus sonhos. Eu me achei a garota mais sortuda do mundo e pensei desse modo todos os dias – até o dr. Thiry aparecer. Mas ninguém pode ser tão sortuda por tanto tempo, eu acho. E cheguei à conclusão de que, como um ato de justiça universal, minha vida gloriosa com você tinha chegado ao fim – não seria justo apenas uma pessoa ter toda a felicidade do mundo, nem o tanto que eu tive. Era hora de redistribuir tudo de novo. Você é o meu sonho tornado realidade. Tudo o que eu sempre quis. Correção – você é muito mais do que eu sempre quis. Mais do que eu jamais pensei em querer, mais do que imaginei um dia poder querer. E a minha vida, desde o dia em que o conheci, foi tão mais do que eu poderia planejar, ou sonhar em ter. Por sua causa. Sei que você vai ficar com raiva de mim, meu amor, e não o culpo. E se um dia você contar à Laks como eu morri, e ela perguntar se você ficou com raiva, ou se ainda tem raiva, espero que responda a ela com sinceridade. Assim, se ela sentir raiva também, não vai se sentir sozinha. Mas, por favor, não sinta só raiva. Sinta carinho também às vezes. E, por favor, lembre isso à Laks também. Além disso, Tom, por favor, permita-se sentir aliviado, e diga à Laks que tudo bem se ela se sentir assim também. Você não precisa admitir isso a ela – sei que você não vai nem se deixar dizer isso em voz alta. Mas, por favor, admita isso a você mesmo. E saiba que, quando conseguir admitir, minha alma afinal se libertará (não, não passei a acreditar da noite para o dia nessas coisas, mas estou dando uma chance para que você possa acreditar, um dia).


Quero que você fique aliviado, meu querido. Quero isso mais que qualquer outra coisa – que você se liberte de mim e dessa doença horrível que me transformou em alguém tão diferente da menina que ficou sem ar por sua causa naquele dia. Foi por isso que fiz isso – para poupar você e a Laks. E os outros, também, mas sobretudo vocês dois. Vocês merecem toda a felicidade e a aventura que o mundo tem a oferecer, e nunca conseguiriam aproveitar isso comigo por perto. Não quero que você fique sobrecarregado com uma mulher que não pode sair à rua sem se humilhar; não quero que a Laks fique presa a esse tipo de mãe. Ou amarrados à casa, alimentando, dando banho e trocando uma mulher adulta que deveria estar lá fora, vivendo. Não posso suportar a ideia de vocês desperdiçando horas de suas vidas visitando a casca vazia de sua antiga amante, da antiga mãe da Laks, em uma casa de repouso. Fiz isso por mim também, sim – eu jamais poderia ter enganado você a ponto de acreditar que perder o controle sobre a minha vida não estava me deixando maluca. Mas fiz isso, acima de tudo, por você, meu marido querido, gentil e altruísta, que teria passado sei lá quantos anos acorrentado por dentro, a mim, enquanto os melhores anos da sua vida estariam passando lá fora sem você perceber. E não, você não me levou a fazer isso, nunca agiu como se eu estivesse privando-o de alguma coisa. Nunca senti nenhum ressentimento de você, nenhum sinal de que estivesse se sentindo injustiçado, escolhendo a única mulher na McGill, talvez, com uma bomba-relógio em seu DNA. Muito pelo contrário – o que senti, nos últimos quatro anos, foi que você estava sempre disposto e até animado com a perspectiva de cuidar de mim enquanto a doença piorava. Que ficaria mais honrado do que incomodado ao pentear o meu cabelo, bater a minha comida no liquidificador ou me dar de comer com uma colher, limpando meu queixo depois de cada colherada. Sobre esse negócio de eu mandar em tudo (você sabia que esta parte estava a caminho quando encontrou a carta, não foi?): quero que você namore. Eu sei que você está fazendo que não com a cabeça agora. Pode parar. Escute: eu estou falando a verdade. Quero que você conheça alguém maravilhosa e que se apaixone. Se isso ajudar, não ache que está fazendo isso por você mesmo. Faça isso por mim. Estou de coração partido de tanta culpa por deixá-lo dessa maneira, por você ter que ser a pessoa a me encontrar antes de todo mundo e dar a notícia aos outros. Saber que um dia você vai se apaixonar de novo, por alguém forte e saudável e vibrante que possa viajar com você, correr com você, ser uma parceira de verdade para você até o resto da vida me absolve de uma fração pequena da minha imensurável culpa. Por favor, me deixe ter essa absolvição. Mas, acima de tudo, faça isso pela nossa filha. Ela é nova demais agora para ver como seu pai foi um marido e um parceiro maravilhoso. Ela precisa ver você nesse papel de novo, quando tiver idade suficiente para observar e absorver isso. Ela precisa testemunhar como você é romântico, carinhoso e sensível. Como você se lembra de aniversários de casamento, Dias dos Namorados e aniversários. Como você traz flores para casa sem nenhum motivo. Como você é generoso com beijos e elogios. Senão, como ela vai saber o que querer do futuro? O que mais posso dizer a você, meu amor, meu coração, meu melhor amigo, meu amante, meu marido, meu tudo? Só que sinto profundamente por ter deixado você sem nenhum aviso ou o tipo de despedida que queria dar. Por favor, entenda que teve que ser assim. Eu jamais poderia deixar você desconfiar do meu plano, e então tentar impedi-lo, o que sabemos que você teria feito. E obrigada.


Obrigada pela sua paciência e pelo seu perdão nos últimos anos, que foram difíceis. Obrigada por ser meu porto seguro. Obrigada por me abraçar nas noites em que eu rugia de raiva por ter recebido a sentença para um fim tão horrível e prematuro. Obrigada por me dizer todos os dias que me amava mais do que nunca, que essa coisa não era nada para a gente, que você não se arrependia de ter me escolhido. E que ficaria comigo para sempre, e não porque achava que deveria. Eu acredito em você, Tom. Eu sei que você teria ficado comigo. Sempre soube disso. Eu nunca achei que você deveria. E obrigada por ter me feito ficar sem ar na entrada do Morrice Hall, tantos anos atrás. E desde aquele dia. Sua Mara.


Agradecimentos

Minha gratidão profunda a Amy Einhorn, por sua percepção editorial brilhante, por ajudar a criar uma nova brincadeira que envolve literatura e bebida e por me deixar incluir uma referência a uma certa banda de meninos do Reino Unido em homenagem às minhas três adolescentes favoritas. Obrigada também a Elizabeth Stein, Anna Jardine e ao restante da equipe na Einhorn Books, e a Thomas Dussel no Penguin Group nos Estados Unidos. Obrigada à minha agente, Victoria Sanders, que se arriscou com uma nova autora e cujos poderes agentísticos mágicos resultaram nas férias mais incríveis que eu e meu marido já tivemos. Obrigada também a Bernadette Baker-Baughman, por responder a minhas muitas perguntas de novata, a Chris Kepner e a todo mundo na Victoria Sanders Associates. Também agradeço a Eric Rayman. Para mim foi crucial poder retratar a doença de Huntington (DH) de maneira precisa. Sou muito grata por poder expressar as informações de maneira adequada graças aos especialistas que foram generosos ao oferecer seu tempo para me ensinar sobre a doença, em especial L. Hennig, MSW, LCSW, QCSW, DCSW, que passou horas explicando os aspectos médicos, emocionais e sociais da DH, e o dr. Kelvin Chou, M.D., que revisou cada ponto narrativo da história de Mara comigo e aconselhou quanto ao que era clinicamente preciso – e, quando não era, me ajudou a descobrir como torná-lo verdadeiro. Além disso, Barb Heiman, LISW, e Elynore Cucinell, M.D., me ofereceram sua ajuda e experiência de especialistas no assunto. Quaisquer inexatidões são de responsabilidade apenas minha. Sou tão sortuda por ter amigas inteligentes e generosas. Kate Baker, Jeanne Estridge, Jana Timmer Bastian, Terri Eagen-Torkko, Meghan Eagen-Torkko, Mary Beth Bishop, Jennifer Bondurant, Julia Kailing Cooper, Sarah Roach Plum, Ruth Slavin, Anna Cox e Sonja Yoerg leram e comentaram os primeiros rascunhos, assim como Kate Kennedy. A incrível Benee Knauer ajudou a transformar um manuscrito com potencial em algo muito melhor. Rina Sahay, Elisha Fink, Lori Nelson Spielman, Linda VanAcker, Pamela Landau e Meghan Eagen-Torkko ofereceram sua expertise em uma série de assuntos, de cultura indiana, direito criminal em Michigan e políticas de distritos escolares ao ambiente social em Detroit e os desafios emocionais relacionados à adoção e infertilidade. Nicole Ross, Os Carinhas Legais, Glenn Katon, As Moças de Segunda à Noite, Nick Kocz, Mike Coffman, Patrick Cauley, Charley Hegarty, Mary Bisbee-Beek e Adam Pelzman ofereceram suporte moral e geral em vários pontos do processo. Muito obrigada a vocês, todos vocês. Meus filhos, Samantha, Jack, Libby e Maddie, se transformaram em líderes de torcida, animados e barulhentos, e nunca reclamaram ao ouvir “Deixe-me só terminar esse capítulo” como resposta para quase toda pergunta que fizeram ao longo de 24 meses. Obrigada, obrigada, obrigada, obrigada. E, por fim, agradeço ao meu marido, Dan, que tomou para si a grande tarefa de cuidar de uma casa cheia de coisas a fazer por dois anos enquanto eu me escondia em um cantinho, debruçada sobre o meu laptop. Ele também foi meu primeiro conselheiro editorial, e ganhou o apelido de “Médico de Enredos” dos meus colegas de escrita como resultado de sua incrível habilidade de resolver os problemas mais cabeludos com enredo e personagens. A “recompensa” por seu talento foi ser interrompido o tempo todo – quando estava lendo, trabalhando, assistindo aos jogos dos times de Michigan e até mesmo dormindo – pela minha ladainha de sempre: “Posso perguntar mais uma coisa sobre o livro?”. E sua resposta sempre foi: “Claro”.


Cinco Dias - Julie Lawson Timmer