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Tradução Ana Carolina Mesquita

1ª edição

2015

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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ A933b August, Noelle Boomerang [recurso eletrônico] / Noelle August ; tradução Ana Carolina Mesquita. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Galera, 2016. recurso digital (Boomerang ; 1) Tradução de: Boomerang Formato: epub Requisitos do sistema: adobe digital editions Modo de acesso: world wide web ISBN 978-85-01-10845-6 (recurso eletrônico) 1. Ficção americana. 2. Livros eletrônicos. I. Mesquita, Ana Carolina. II. Título. III. Série. 16-36615 CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3 Título original: Boomerang vol. 1 Copyright © 2014 Wildcard Storymakers LLC. Os direitos de tradução foram negociados por Sandra Bruna Agência Literária, SL, em associação com Adams Literary. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios. Os direitos morais do autor foram assegurados. Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Editoração eletrônica da versão impressa: Abreu’s System Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa somente para o Brasil adquiridos pela EDITORA RECORD LTDA. Rua Argentina, 171 – Rio de Janeiro, RJ – 20921-380 – Tel.: 2585-2000, que se reserva a propriedade literária desta tradução. Produzido no Brasil

ISBN 978-85-01-10845-6 Seja um leitor preferencial Record. Cadastre-se e receba informações sobre nossos lançamentos e nossas promoções. Atendimento e venda direta ao leitor: mdireto@record.com.br ou (21) 2585-2002.


Para Lisa, minha primeira agente literária, leitora constante e melhor amiga. Amo você, Blister. E para Brenda, por tudo o que você faz e pelo seu enorme e belo coração — LO Para Lolo, que escreveu metade deste livro, mas, enfim. Você é maravilhosa. — VR


Sumário Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30 Capítulo 31 Capítulo 32 Capítulo 33 Capítulo 34 Capítulo 35 Capítulo 36 Capítulo 37 Capítulo 38 Capítulo 39 Capítulo 40 Capítulo 41


Capítulo 42 Capítulo 43 Capítulo 44 Capítulo 45 Capítulo 46 Capítulo 47 Capítulo 48 Capítulo 49 Capítulo 50 Capítulo 51 Capítulo 52 Capítulo 53 Capítulo 54 Capítulo 55 Capítulo 56 Capítulo 57 Agradecimentos


Capítulo 1 Mia P.: Você alguma vez já teve um caso de uma noite?

No dia mais importante da minha vida, acordo pensando: Ah, merda, cadê minha calcinha? Penso nisso porque, por acaso, acordo na cama de um estranho, com a coxa nua sendo atravessada por um raio da luz verde-amarelada de Los Angeles, e não há nem o menor dos menores sinais de calcinha, sutiã ou qualquer outra peça de roupa. Isso é tão pouco a minha cara! Mas, enfim, aqui estou, enrolada em lençóis mornos que definitivamente não são meus. Vagos fragmentos da noite anterior abrem caminho pelo meu cérebro amortecido pela ressaca. Lembro-me de estar no Duke’s, depois da entrevista que tive com Adam Blackwood, louca de ansiedade e com a sensação de que finalmente eu iria deslanchar. Conseguiria terminar meu filme sobre Nana, exibi-lo e dizer sayonara para a faculdade. E esse estágio em uma das maiores empresas de mídia do país se transformaria numa carreira de verdade no cinema, com a qual eu poderia encontrar a mim mesma e achar o meu estilo, deixando de seguir apenas os estilos que imitei feito um papagaio nos anos que passei na faculdade. E quase me lembro do cara também. Ombros largos, simpático e a sensação de tesão e possibilidade. Mas só. Nada de rosto. Nem de nome. Nem a menor ideia de como isso — esse pequeno milagre de rolar sexo na minha vida real — acabou acontecendo. Infelizmente, talvez esse mistério tenha que continuar sem solução. Preciso ir embora. Eu me levanto com dificuldade e puxo com todo o cuidado as mechas do meu cabelo cacheado de debaixo do ombro — belamente definido e bronzeado — do meu novo amigo. Minha cabeça mais parece um liquidificador preparando um frapê, e o gosto que sinto faz parecer que um bicho qualquer se enfiou na minha boca e morreu lá dentro. Pouso os pés descalços no chão frio de concreto e me levanto, me esforçando para afastar o enjoo que ameaça tomar conta do meu corpo. Valeu mesmo, tequila Patrón Silver. Dou a volta de fininho na cama para ver se, dessa vez, tenho mais sorte e encontro minha calcinha — ou qualquer peça de roupa, na verdade — naquele lado do mundo. E, vou confessar, também estou morrendo de vontade de dar uma espiada no cara. Minha curiosidade é definitivamente recompensada. Embora o rosto dele esteja esmagado no travesseiro e o cabelo curto cor de caramelo tenha colado na sua cabeça por causa do suor, ele é supergato. Tem um maxilar forte, bem desenhado e com uma covinha discreta, lábios grossos e o tipo de cílios escuros e compridos que as garotas se matam para conseguir passando camadas e mais camadas de rímel. Com o corpo esticado coberto por apenas uma beiradinha do lençol — minha culpa, por ter puxado quase tudo para mim —, seus pés oscilam para fora da cama. O que significa que ele é alto. E, mesmo dormindo, seu rosto tem uma intensidade interessante, com a testa franzida, como se sonhasse que está salvando o mundo. Tenho certeza de que ele deve ter uma personalidade brilhante,


ou eu jamais teria acordado em sua cama. Não encontro nenhuma embalagem de camisinha, o que me faz perguntar o que, exatamente, rolou na noite anterior. Com certeza não é a minha cara ser descuidada. Será que nada aconteceu? Mas estou sem calcinha! Enquanto tento desvendar esse enigma, meu olhar se fixa no relógio da mesinha de cabeceira. Os números 8:02 perfuram meu torpor e a adrenalina inunda cada molécula do meu corpo. Meu estágio na Boomerang — resultado de eu ter me tornado mais do que a filha de uma fotógrafa famosa, de ter começado minha vida verdadeira e guardado para a posteridade a vida da pessoa mais querida do mundo — vai começar daqui a exatamente cinquenta e oito minutos. E não faço a menor ideia de onde estou nem de onde foi parar minha maldita calcinha. — Merda, merda, merda. Passo as mãos pelo cabelo, faço um rápido registro daquele quarto e concluo que minhas roupas devem estar em algum outro lugar. Isso vai ser divertido. Ao andar apressada por um corredor estreito, vejo de relance fotos esportivas e pôsteres motivacionais com águias voando e pores do sol em montanhas. Um desses cartazes diz: “A vida começa onde acaba sua zona de conforto.” Quer dizer então que minha vida, com certeza absoluta, está apenas começando. Neste. Exato. Momento. Estou numa sala com um típico sofá de homem solteiro, cheio de calombos, uma mesa de centro suja e uma televisão de tela plana gigantesca, na qual bate a luz do sol que tenta entrar por duas janelas que foram tapadas com cobertores. O lugar também tem o típico fedor que encontramos em quase toda sala de homem solteiro: uma mistura de bebida alcoólica e suor que tem como toque final um cheiro de gambá morto. Há livros e revistas espalhados em quase todas as superfícies, além de uma tonelada de controles remotos que sugerem a existência de algum esconderijo subterrâneo, um laptop que parece velho o bastante para ter sido de Fred Flintstone e várias peças de roupa — um moletom, shorts de ginástica e... bingo!, meu vestido da noite anterior. Eu o pego do chão e o analiso. Está tão amassado que parece ter sido atropelado por um caminhão de lixo; em alguns pontos há partes duras e, no topo, está com uma mancha em forma de V. Por que não escolhi alguma coisa menos provocante para a reunião com Adam Blackwood?, penso, enquanto tento alisar aqueles vincos. Mas não: usei este vestido, e hoje Adam vai vê-lo de novo. Só que, dessa vez, vai parecer que o roubei de uma moradora de rua. Ouço molas rangendo, então o som de uma porta se abrindo e se fechando, seguido pelo ruído de água de um chuveiro. Então o cara acordou. Que ótimo. Talvez ele possa me dar uma mãozinha na Missão Impossível: Etapa Calcinha. Isso não vai ser nem um pouco estranho, não é mesmo? Depois de procurar pela sala inteira, inspecionando roupas, caixas de pizza, estojos de videogames e diversos equipamentos esportivos, consigo encontrar meus sapatos, minha bolsa e — sobre a bancada da cozinha americana — meu sutiã. Mas nada da calcinha. Será que ela simplesmente desapareceu? Acabou se dissolvendo no meu corpo? Nesse caso, o cara é demais mesmo. Evan? Não, não é esse o nome dele. Mais um motivo para eu querer me lembrar, nem que seja de poucos minutinhos, da noite anterior. O relógio do micro-ondas exibe 8:09. Junto meus sapatos, meu sutiã e vestido e volto correndo até o quarto. Jogo tudo na cama, bato na porta do banheiro e logo vou abrindo. As delicadezas já foram mesmo atiradas pela janela em algum momento entre minha reunião com Adam Blackwood e o instante em que minhas roupas se espalharam por esse apartamento como camisetas num jogo do Lakers. — Hã, ei... — Como é mesmo o nome desse cara, pelamordedeus? — ...você — digo, do jeito


mais tosco do mundo. — Hã... sem querer ser esquisita nem fazer pressão, mas tô superapressada. É meu primeiro dia num emprego novo. Tudo bem se eu entrar e... Ele afasta a cortina do boxe e enfia a cabeça para fora, me proporcionando um vislumbre de torso definido nesse processo. Acrescente a isso os olhos azuis expressivos e a água se acumulando nas cavidades de suas clavículas e, bom, é demais para absorver logo de manhã cedo. Obviamente ele também tem a mesma impressão que eu, porque seus olhos percorrem depressa o meu corpo de cima a baixo e então ele balbucia alguma coisa. — O quê? — pergunto, levando a mão à boca. — Tem alguma coisa nos meus dentes? Ele ri. — Você está completamente pelada. Sorrio. — Desculpe, é mesmo. Tem problema? Entre posar para minha mãe, fazer oito apresentações por semana pelada numa montagem de verão de Hair e ser a dublê que abaixa as calças nos filmes dos meus colegas do curso de cinema, tenho a impressão de que passo metade do tempo nua. Será que vou também passar metade do tempo envergonhada e pedindo desculpas por isso? Não, de jeito nenhum. Seu olhar percorre meu corpo e seus lábios se abrem num sorriso, embora ele faça um belo esforço para me olhar nos olhos ao dizer: — Claro. Tudo ótimo. Faça o que precisar. — Legal. —Viro as costas e deixo o cara tomar seu banho. Limpo o vapor condensado no espelho e dou uma olhada em mim, principalmente no cabelo, que sempre é um caso à parte. Ele está cheio de frizz que apontam para múltiplas direções, mas com certeza já esteve pior. Ou seja, percebo, com uma pontada de arrependimento, que obviamente a gente não transou. Sexo — sexo bom, pelo menos — sempre deixa meu cabelo bagunçado. Uma zona estilo cogumelo nuclear, é o que quero dizer. Mas, no momento, ele parece em um estado intermediário, o que indica que caprichamos na pegação, mas nada além disso. Pelo visto, a maldição da seca continua. Encontro uma escova, penteio o cabelo e depois coloco um pouco de pasta de dentes no dedo a fim de escová-los. Então gargarejo mais ou menos um litro de enxaguante bucal e tomo alguns goles de água da torneira. — Eu sei que é uma pergunta idiota, mas por acaso você faz ideia de onde a minha calcinha foi parar? Ele fecha o chuveiro e estica o braço para pegar a toalha, que entrego para ele pela lateral da cortina. Ele afasta o tecido listrado e a toalha enrolada em sua cintura acentua seu abdome impressionantemente definido. — Não tenho certeza — responde, com um sorriso. — Deixe só eu me vestir e já te ajudo a encontrar. Depois de tomar uma chuveirada rápida, volto ao quarto dele e visto o sutiã e o vestido, que me parece estranhamente assimétrico sem a calcinha. — Onde você trabalha? — pergunta ele, enquanto abotoa uma camisa branca bem passada. Por um instante, o visualizo vestido num terno na noite anterior e me lembro de enfiar os braços por dentro do paletó para sentir suas costas fortes. Ele parece estar acostumado a usar roupas boas, provavelmente devido à sua profissão. Por outro lado, tem uma grande quantidade de equipamentos esportivos. Talvez seja treinador de basquete. Esses caras usam terno, não usam? — Para onde mesmo você precisa ir? — pergunta ele de novo, e percebo que estou viajando.


Corando, respondo: — Century City, mas vou chegar tão atrasada... Ele continua abotoando a camisa. — Eu também — murmura, mais para si mesmo do que para mim. — Mas daqui até lá leva só vinte minutos, se o trânsito estiver bom. Você vai conseguir chegar a tempo. Isso significa que preciso sair agora mesmo. Ele me ajuda a vasculhar o apartamento, revirando os estofados, checando atrás das cortinas. — Tem certeza de que estava de calcinha quando veio pra cá? — Você acha que vim pra cá sem calcinha? Será que vim sem calcinha? Ele puxa o cordão do ventilador de teto que fica acima de uma mesinha da cozinha, sorrindo, enquanto adia a resposta. — Parece possível. Eu também não me lembro direito dos detalhes, mas pelo visto a gente se divertiu pra caramba. Talvez não tanto quanto você pensa, sinto vontade de dizer, mas por que tocar nesse assunto? Encontro um elástico no balcão da cozinha e prendo meu cabelo num coque baixo. Dou mais uma olhada no meu vestido e me dou conta de que não vai dar mesmo para aparecer no trabalho desse jeito. — Ei, será que você poderia me emprestar uma camisa? — pergunto. — Que eu possa usar como um vestido-camisa. Eu... hã, depois devolvo. — Torço para que isso não me faça parecer uma dessas garotas esquisitas que ficam no pé dos caras, mas minha necessidade de não passar a impressão de que arranjei minhas roupas no chão de uma taverna é maior do que minha preocupação com primeiras (ou segundas) impressões. — Sim, claro — diz ele, e segue para o quarto. Volta com uma camisa azul abotoada e a entrega para mim. — Talvez fique um pouco grande. — Tenho certeza de que vai ficar — respondo, mas visto a camisa e resolvo o maior dos problemas com um cinto, que aperto ao redor da cintura. Agora só estou parecendo uma esquisita amarrotada. Mas, se meu novo chefe anda com frequência com gente do cinema, não vou ser a única esquisitona na vida dele. O cara pega uma cueca boxer xadrez preta e branca que está jogada sobre uma cadeira da cozinha. — Eu estava usando isso ontem à noite, então estamos chegando perto. Minha ansiedade aumenta cada vez mais à medida que ele vai encontrando as próprias peças de roupa. — Desculpe, Mia — diz ele, depois de abrir cada armário e olhar em todos os cantos do apartamento modesto. Sinto uma leve onda de prazer com o fato de ele saber o meu nome, que rapidamente é suplantada pelo constrangimento de ser a idiota que não se lembra do dele. Na cozinha, ele se serve de um copo de suco da geladeira e desliza um para mim pela bancada. — Não tenho a menor ideia de onde possa estar. Onde foi parar essa maldita calcinha? Será que é melhor chegar atrasada no meu primeiro dia de trabalho ou chocar todos os novos colegas com a minha indecência? Decisões, decisões. Pego o celular da bolsa — 8:29 — e suspiro. — Tudo bem — decido. — Acho que vou sem calcinha. — Sair sem calcinha. — Ele dá um sorriso. — Aí está uma coisa que gosto numa garota. — Não seja por isso, obrigada. Fique com ela de lembrança, caso a encontre.


— Pode deixar. A menos que seja uma daquelas calcinhas enormes de vovó. Mas, enfim, se fosse uma dessas, teria sido mais fácil de achar. — É claro que não é uma calcinha enorme! É uma... Ele ri, de costas para mim. — Uma calcinha rosa-shocking? Com borboletas brancas? — Isso mesmo! Como é que você... Ele dá um passo para o lado e abre o seu forno elétrico Breville. Lá, jogada de qualquer jeito sobre a grelha, está minha calcinha.


Capítulo 2 Ethan P.: Nos encontros, você prefere rachar ou pagar a conta?

Por alguns instantes, não consigo tirar da cabeça a imagem da calcinha fio dental cor-de-rosa de Mia dentro do meu forno elétrico. É como se o tempo parasse... então a imagino com a calcinha, depois sem, até que a voz do Treinador Williams irrompe na minha cabeça latejante: Chegar na hora é chegar atrasado. Isso me põe em movimento, como fez nos últimos quatro anos. Mal consigo imaginar o que o Treinador Williams pensaria de mim nesse momento: atrasado para o estágio que deve mudar minha vida e com uma ressaca tão animalesca que continua me deixando tonto. Saio da cozinha e vou até a sala. A garota que acordou ao meu lado — Mia — jogou o peso do corpo em um dos quadris enquanto remexe sua bolsa. Então, aproveito para apreciar a vista. Porra, como ela é gostosa. Dou um tapinha mental de parabéns nas minhas costas. — Pode me passar seu endereço? Preciso chamar um táxi — diz ela, pegando o celular na bolsa. Uma imagem da noite passada surge de repente na minha cabeça: nós dois nos jogando dentro de um táxi assim que ele parou em frente ao bar. A pressa de ficarmos a sós era grande demais para esperar pela carona de Jason e Isis. Mas por que diabos a gente veio para cá e não para a casa dela? Meu apartamento é um lixo infectante. — Creston Drive, número quarenta e quatro — respondo. Depois de afastar para o lado umas meias e protetores de canela, me sento no sofá surrado e calço meus sapatos Oxfords. — Em Westwood. Mia faz a ligação, falando depressa com o atendente, mas tenho a impressão de que não é só porque ela está atrasada. O tom de sua voz é rouco e pitoresco, como o de alguém falante e que ri muito. Ela é mignon. Não tem mais do que 1,60m, mas o salto que usa lhe empresta mais uns dez centímetros. O tecido da minha camisa afrouxa na frente quando ela se abaixa, o que me proporciona um excelente ângulo de seus peitos grandes e perfeitos. — Cinco minutos? — diz Mia. — Obrigada. — Ela desliga o telefone e volta a atenção para mim. Seus olhos são verdes, mas não daquele verde-acastanhado fraco que as pessoas tendem a chamar de verde. Os de Mia são de um tom claro e brilhante. — Tudo certo? — Eu me levanto. — Sim, tudo certo. — Mia joga o celular de volta dentro da bolsa e coloca um cacho de cabelo preto atrás da orelha. Seus olhos percorrem depressa meu corpo de cima a baixo, e, em seguida, ela olha para a porta da entrada. — Bem, então... obrigada pelo suco? Dou um passo para o lado, bloqueando seu caminho. O protocolo de qualquer transa sem compromisso é ir embora tão rápido quanto chegou, mas ainda não consigo deixá-la partir. Ela não é a única que precisa chegar a Century City, e já está tarde demais para eu ir pedalando até lá. — Pode esperar só um segundinho? Preciso falar com o cara que divide o apartamento comigo. Ela olha ao redor e fica boquiaberta, pois cinco segundos atrás, nossas roupas estavam por toda parte.


— Você divide o apartamento com alguém? — Sim. Com Jason. E Isis. É a namorada de Jason, mas praticamente mora aqui. Acho que você conheceu os dois na noite passada, no Duke’s. Mia dá um sorriso trêmulo. — Está bem, é horrível admitir isso, mas sequer lembro se seu nome é Evan ou Ethan. Então, acho mais seguro supor que esqueci alguns pequenos detalhes da noite passada. Merda. Eu não estava a fim de nada sério, é óbvio. Depois de dois anos com Alison, isso é uma exigência. Mas, espere aí... essa garota sequer se lembra do meu nome? Que bosta. Mas dou de ombros e tento não me importar. — Tudo bem. É Ethan. Ethan Vance. — O meu é Mia Galliano. — Prazer, Mia Galliano. — Ficamos ali de pé um na frente do outro durante um estranho instante. Parece meio sem propósito fazermos apresentações, considerando que tenho certeza absoluta de que dormi com a mão na bunda dela. — Me dê só um minutinho — digo, quebrando o silêncio. — Pode se servir de mais suco, se quiser. Mandou bem, hein, Ethan? Porque com certeza é isso o que ela quer: beber mais PowerAde às 8h33 da manhã. Vou até o quarto de Jason, bato à porta e a abro. Jason e Isis estão sentados na cama olhando para a porta como se estivessem justamente me esperando entrar. Isis abre um sorriso e bate palmas baixinho. Jason é menos discreto. Leva uma vuvuzela à boca e a sopra. O som alto da corneta invade meu cérebro e faz minha dor de cabeça atingir o nível de alarme máximo. — Aê, Ethan! — Jason ri. — Como é que foi, cara? É mesmo que nem andar de bicicleta? — Um pouquinho mais divertido do que isso — respondo. Mas, que merda, queria me lembrar direito. — Ela já foi embora? — pergunta Isis. — Ainda não, mas precisa ir. — Ethan! — Calma aí, Isis. Nós dois precisamos ir. Ela trabalha, e meu estágio começa hoje. Isis bufa. — Que merda, hein? Porque você está um lixo. — Então me sinto pior do que pareço estar. J, preciso de uma grana. — As palavras queimam na minha garganta: odeio pedir dinheiro. — Para rachar um táxi. Jason balança a cabeça. — Foi mal aí, irmão. Tô duraço. Você esvaziou minha carteira ontem à noite. — Esvaziei? Isis ri. — Não lembra? Você e Mia estavam fazendo body shots, tomando tequila no corpo um do outro. Caramba, body shots? Será que voltei no tempo e virei calouro outra vez? — Deixa para lá então. Enquanto volto para a sala, penso em remexer minha mochila esportiva para procurar trocados, mas não tenho tempo para isso e, de qualquer jeito, eu não encontraria o bastante para rachar o táxi. Só sobra uma opção. Vai ser uma merda, mas dane-se. É o único jeito. Vejo Mia me esperando à porta com um meio-sorriso sensual e me vem à cabeça uma lembrança: eu lambendo sal de sua pele morena.


— Isso que acabei de ouvir foi mesmo uma vuvuzela? — pergunta ela. — Pois é, Jason se acha muito engraçadinho. Então, sobre o táxi... Tudo bem se eu pegar uma carona com você? Mia franze a testa e percebo que está surpresa. Também estou. Não era assim que eu esperava que essa manhã se desenrolasse. — Claro — diz ela. — Sem problema. — Legal. E... hã... mais uma coisinha. — Merda. Estou prestes a acabar com qualquer chance de ver essa garota de novo, e eu quero vê-la de novo, no mínimo para descobrir o que a gente realmente fez na noite passada. Mas não tenho opção. — Tudo bem se você pagar?


Capítulo 3 Mia P.: Você é um lobo solitário ou gosta de andar em bando?

O pobre coitado do Ethan está parecendo alguém que acabou de pedir uma coisa horrorosa. O que quer dizer que ele não gosta de pedir favores. Interessante. — Claro, não tem problema algum — respondo. Sou obrigada a usar todo o meu autocontrole para não esticar o braço e tocá-lo, endireitar sua gravata vermelha ou alisar o pequeno topete sobre sua testa séria e reta. As moléculas de ar ficam espessas entre nós, cintilando com aquela energia deliciosa da atração. Ou melhor, admito: da luxúria. Faz tanto tempo que não sinto isso que adoraria ficar mais um pouco aqui, imersa nesse momento. Mas não tenho tempo. Um carro buzina, interrompendo meus pensamentos. — Acho que nosso táxi está aqui — digo. Ele se inclina à minha frente para abrir a porta e de repente noto intensamente a sua altura — ele tem uns quinze centímetros a mais do que eu, e olha que estou usando um salto de dez centímetros — e o seu cheiro: defumado e sedutor, como uma fogueira feita na praia. Outra lembrança me vem à mente: o interior de um táxi, as luzes dos postes passando por nós e depois revelando o rosto lindo e sério dele. Ethan me puxando para perto no banco de trás, colocando minha perna sobre a dele e me abraçando, suas mãos fortes nas minhas costas. Então os flashes da minha lembrança desaparecem, deixando apenas uma leve aceleração de meus batimentos cardíacos e o lembrete de que realmente preciso ir embora. Eu o sigo até uma varanda estreita, piscando por causa da luz cristalina que deixa tudo com tons brilhantes de verde e dourado. Lá embaixo, na rua, um táxi nos espera, e desço uma escada de alumínio que parece gasta. Tenho consciência de que ele está atrás de mim. Sinto sua presença — tangível e leve ao mesmo tempo —, seus passos decididos e rápidos fazendo toda a escada estremecer enquanto descemos. Concentre-se, Galliano. O que está em jogo é eu me tornar o que quero ser. Terminar meu filme. Encontrar um jeito de entrar nesse ramo por conta própria. O que está em jogo definitivamente não é um cara que tem como maior feito ter escondido minha calcinha dentro de um eletrodoméstico. Entro primeiro no táxi e dou o endereço da sede da Boomerang. Ethan entra do outro lado. — Esquina da Olympic com a Avenue of the Stars — diz ele para o taxista. — Provavelmente deve ser perto de onde ela está indo. O motorista ruivo se vira e olha para a gente de um jeito esquisito. — É, deve ser mesmo. Mal conheço aquela região da cidade, mas pelo menos isso facilita as coisas. A camisa de Ethan parece flutuar ao redor do meu corpo, e a malha sobe pelas minhas coxas. Isso não é bom. Talvez ainda haja tempo para fazer um esforço e não andar por aí parecendo a “Srta. Periguete”, como diria Nana.


Ligo para Skyler, que parece atender antes mesmo de o telefone tocar. — Ai, meu Deus. Me conte tudo. Agora mesmo. Pelo jeito devo ter avisado às meninas que moram comigo que eu não voltaria para casa na noite passada. Suspirando, digo: — Bom dia pra você também. — Ah, que se dane essa parte. O que aconteceu? Onde você tá? Foi delicioso? Ele... — Escute, Sky — interrompo, certa de que Ethan deve estar ouvindo cada palavra. — Preciso de um favor. Ela logo percebe meu tom de voz. — Ele tá aí? — pergunta ela. — Tipo, bem aí, agora? Você não tinha que estar no seu novo emprego? — Estou a caminho — respondo, respirando fundo para conter minha exasperação. — Eu... hã... dormi demais e... — Estou desapontada por você ter perdido tempo dormindo! — Sky, dê um tempo! — Tudo bem, tudo bem. Então, onde ele está? — Pois é, a gente... hã... Sinto Ethan me olhando e me viro para encontrar seu olhar. Ele sorri de um jeito que parece doce e sexy ao mesmo tempo de forma impossível. Retribuo o sorriso, desejando com todas as forças ter um cone de silêncio portátil para proteger minha privacidade. Mas o navio da privacidade zarpou para bem longe em algum momento durante aquela madrugada. — A gente está rachando um táxi agora. Enfim, isso não vem ao caso, eu... — Me ligue pelo Facetime — diz Skyler. — O quê? De jeito nenhum. Pode se concentrar rapidinho, por favor? Preciso que você faça uma coisa para mim. — Se você me ligar pelo Facetime, vou ajudar. — Você vai me ajudar de qualquer jeito porque é minha amiga, lembra? — Facetime. — Vou matar você. — Facetiiiiiiiime. — Está bem! Aperto o ícone na tela do meu celular e o rosto de Skyler aparece na minha frente, com seu cabelo louro e um delineador esfumado no estilo Cleópatra. Como sempre, está segurando o cabo do seu violoncelo e dedilhando as cordas enquanto conversamos. — Quero ver! — exige ela. Meu corpo inteiro fica gelado, depois quente, e gelado de novo em seguida. — Por que você me odeia? — Eu te amo com o ardor de mil sóis — diz Sky. — Agora me mostre. Ah, que inferno. Estou de ressaca e rachando o táxi com um cara que não passa de um caso de uma noite. Será que eu precisava mesmo do restinho de amor próprio que me sobrou? Viro o celular para Ethan, que sorri com simpatia para a tela. Mas as pontas de suas orelhas ficam cor-de-rosa, e estranhamente me consolo ao perceber que ele está tão envergonhado quanto eu. — Uau — diz Skyler. — Oi. Reviro os olhos. — Ethan, essa é minha ex-roomate, Skyler Canby — digo. — Skyler, Ethan.


— Oi, Skyler. Ele ergue dois dedos para cumprimentá-la, e outra lembrança se desenrola em minha mente: ele fazendo essa mesma saudação para o barman do Duke’s, afastando a barra do paletó azul-marinho para se sentar ao meu lado no banquinho alto diante do balcão do bar. — Está comemorando algo? — foi o que me perguntou, e seus olhos demonstravam tamanho interesse que endireitei o corpo e me virei para olhá-lo. — Parte trabalho, parte diversão — respondi. — Eu também — disse Ethan, e fizemos um brinde. — Ao trabalho e à diversão, em partes quase iguais. Agora, entretanto, preciso deixar de lado a diversão e ir logo para o trabalho. — Muito bem, escute aqui — digo para Skyler, enquanto o táxi faz uma curva e entra no Santa Monica Boulevard. — Será que você ou Beth poderia chegar em Century City daqui a uns... — Confiro a hora no celular. — Merda. Tipo, daqui a uns dezoito minutos? É possível? — Hoje é seu dia de sorte. Beth vai fazer um teste na Fox. Provavelmente deve estar lá desde as seis da manhã, perseguindo o diretor. — Ligue pra ela e veja se levou alguma roupa que eu possa usar. Nem que seja só um casaco. — Tá bem, mas nada de casaco. Você não pode esconder esses peitos. — Skyler! — Apoiado — concorda Ethan. Eu me viro para ele, surpresa. Aquele sorriso de novo: sexy, mas um pouco tímido. E aqueles olhos azuis — tão azuis e profundos, que parecem quase pretos. — É que eles são, hã... um bem valioso — diz ele. Tem alguma coisa na expressão dele, franca e fanfarrona... Não sei se é memória ou fantasia, mas sinto suas mãos em meu corpo, os dedos deslizando as alças do meu vestido... — Ele tem razão — afirma Sky. — Casacos deixam você troncuda. Eu me controlo mentalmente. — Tanto faz. Por favor e obrigada. — Sério, qualquer coisa ajudaria a melhorar meu traje atual. — Vamos deixar de conversa mole para eu poder cuidar logo desse assunto. Mando uma mensagem de texto confirmando. — Valeu, gata. — Eu realmente tenho as melhores amigas da face da Terra. — Sem problema — diz Skyler, que então me presenteia com um grande sorriso cheio de dentes. — Ah, e diz para o Ethan que ele é um tesão. Ele ri ao meu lado e balanço a cabeça, mortificada. — Tenho certeza de que ele já sabe disso.


Capítulo 4 Ethan P.: Você planeja seus encontros ou gosta de ser surpreendida?

O táxi segue devagar pela Wilshire. Não consigo fazer minha perna parar de tremer, mesmo estando claro que Mia percebe. Minha vontade é de abrir a porta do carro, jogar o paletó para fora e ir correndo até Century City. Sei que conseguiria chegar lá mais rápido assim. Sorrio, me lembrando do comentário preferido do meu pai quando ele vem me visitar: Por que todo mundo está sempre com uma maldita pressa por aqui? Mas, se precisa chegar a algum lugar, você aceita isso. Pessoas bemsucedidas estão sempre correndo. — Você trabalha na ESPN ou algo do tipo? A pergunta de Mia me surpreende. Então me lembro de que ela provavelmente viu os alteres e o equipamento de futebol na sala. — Não, quem me dera. Ganhar a vida trabalhando com esporte seria maravilhoso. Cheguei bem perto disso. Bati alguns recordes na UCLA, mas uma lesão no joelho no penúltimo ano da faculdade acabou com a minha chance de entrar para o futebol profissional. Depois da cirurgia de LCA, nunca mais fui o mesmo. — Hoje é meu primeiro dia de trabalho — conto para Mia, focando no futuro. — Vou trabalhar na área de marketing em uma empresa de internet. — Não consigo me forçar a dizer que “vou estagiar”. Sou formado em uma das melhores universidades. Imagina-se que eu encontraria um jeito de ganhar pelo meu trabalho, mas isso vai mudar mais tarde. — E você? É modelo de biquínis e maiôs? Não sei por que estou flertando com ela. Nunca mais vou vê-la e até já dormi com ela, embora não me lembre de nada. Mas ela é gostosa, e tem algo de intrigante nela. É um pequeno mistério embrulhado na minha camisa preferida. — Mas é claro! — Ela sorri e dá um tapinha no próprio quadril. — Com tudo isso aqui, o que mais eu poderia ser? Ela se sente tão à vontade com o corpo. O que é impressionante para mim, pois mesmo depois de dois anos com Alison, ela ainda fazia questão de apagar a luz quando trans��vamos. Acho que Mia e eu sequer começamos numa cama... apesar de termos terminado lá. — O que mais? — pergunto. — Sei lá. Dançarina de Vegas? — Uau, valeu. Você está avançando. — É só a minha imaginação rolando solta. Então o que, sério? O que você faz? Mia cruza as pernas e dou um jeito de continuar encarando-a. — Bom, na verdade, ainda estou estudando. — Estudando... Que legal. — Por favor, tenha dezoito anos. Você precisa ter. — Em que ano e onde? — Estou no segundo ano do ensino médio na Los Angeles High. Quase engasgo com minha língua. — Você está o quê? Ela cai na gargalhada.


— Desculpe, não consegui resistir! Na verdade, estou no último ano da Occidental. Estudo cinema. Arrumei esse trampo no último semestre para ter um pouco de experiência da vida real. — Você é cineasta? Que maneiro. Tem um filme de arte que eu adoro. Star Wars, sabe? Acho que você nem deve ter ouvido falar. É meio obscuro. Isso é tudo em que consigo pensar para esconder minha falta de conhecimento em cinema. Não assisto a filmes, eu jogo futebol. Quando não estou jogando futebol, leio livros sobre história ou biografias, temas que uma garota como Mia provavelmente detesta. Ela estreita os olhos, como se estivesse numa reflexão profunda. — Star Wars, é isso? Acho que nunca ouvi falar, mas você sabe como nós, cineastas, somos. Se não é um filme granulado e em preto e branco que foi gravado em eslovaco e depois dublado em inglês, é tão perda de tempo. Ela estica as pernas e invade meu espaço pessoal. Não consigo identificar se está me paquerando ou se simplesmente se sente à vontade. Não importa, eu gosto. — E você? — pergunta ela. — O que você curte, além de calcinhas no forno? Dou risada. — Ei, não fui eu quem colocou a calcinha lá! — Mas, vai saber? Na verdade, pode muito bem ter sido eu. Por um breve instante fico na dúvida se conto ou não para ela sobre minha carreira no futebol, mas decido que não. — Acabei de me formar na UCLA, em junho. Então, sabe como é, esse é meu rito de passagem corajoso para a vida adulta e tal. Hoje é meu primeiro dia de trabalho. — Isso significa que nós dois estamos começando com ressaca. Que ótimo. — Mas pelo menos estamos usando roupa de baixo. — Pelo menos isso. — Mia joga a cabeça para trás, apoiando-a no banco, e sorri. Não há nenhum flerte nisso. Nada de forçado ou falso. É simplesmente um belo sorriso. De repente nos vemos numa competição de quem fica olhando para o outro por mais tempo. O olhar dela é muito firme, e seus olhos verdes parecem prismas. Há tanta luz dentro deles! Trazem tantas perguntas, piadas e histórias. Então, nesse momento, tenho certeza de que quero repetir isso. Quero que ela me olhe desse jeito de novo. — Olhe, Mia, eu sei que não é assim que... O táxi para de repente. — Dezoito dólares — diz o motorista. Mia enfia a mão na bolsa. — Vou pagar a corrida dele também. Pode acrescentar o valor? — Mas é claro, moça. Continuam sendo dezoito dólares. Mia e eu nos entreolhamos. Não acredito. A gente estava indo para o mesmo lugar? Não pode ser! Alguém buzina atrás de nós. O motorista solta um palavrão e encosta mais o carro na calçada. — Avenue of the Stars, número 2.100. O endereço era esse, não era? — Era — respondemos ao mesmo tempo. — Nossa. Caramba — diz Mia, entregando umas notas para o cara e saindo comigo do táxi. O prédio comercial assoma na nossa frente, uma parede lisa de vidro fumê que irrompe em direção ao céu. No dia da minha entrevista, fiquei boquiaberta ao ver aquilo. Eu me lembro de ter pensado que aquele era o lugar onde eu ia começar meu futuro. Mas não é isso que estou pensando agora. No momento, estou tentando entender o presente. Mia e eu passamos pelas portas deslizantes e nos juntamos a um grupo que aguarda no hall dos elevadores. Não dissemos uma palavra sequer desde que saímos do táxi.


Nem olhamos um para o outro. Nem mesmo sei se ainda estamos lado a lado, ou só nas proximidades. Dou de ombros e digo a mim mesmo que é o terno que está me fazendo sentir estranho e limitado. O elevador chega e as portas se abrem. Seguro-as, deixando uma dúzia de pessoas passar por mim. Então entro e faço menção de apertar o botão do décimo sétimo andar, mas alguém já o apertou. Mia está escondida atrás de uma muralha de ternos escuros. Sou tomado pela vontade de abrir caminho até ela. Parece desespero, mas por outro lado não ficar ao lado dela também parece estranho. Porém, já é tarde demais. As portas se fecham e fico preso lá na frente, encarando a fresta entre as duas chapas de metal. Chegamos ao sétimo andar e quatro pessoas saem. Somente quando as portas voltam a se fechar é que percebo que estava segurando a respiração. Mia continua no elevador. Décimo segundo andar. Duas pessoas saem. Décimo quarto. Três outras. Olho de relance para o painel do elevador. Apenas um andar continua aceso. — Nossa, que surpresa. Mia ainda está alguns centímetros atrás de mim. Não posso afirmar com certeza, mas acho que ela está sorrindo. Sinto vontade de lhe fazer ao menos uma das perguntas que estão inundando meu cérebro, mas as portas se abrem no lobby de paredes de vidro da Boomerang e eu e ela saímos do elevador.


Capítulo 5 Mia P.: Vestida para se largar ou vestida para matar?

Meu cérebro decide que é um momento excelente para entrar em greve, deixando-me sem recursos para entender por que: a) acordei ao lado desse ser adorável do sexo masculino depois de fazer atividades das quais tragicamente não consigo me lembrar; b) acabei indo parar no mesmo táxi que ele, o qual; c) nos levou para exatamente o mesmo destino, até; d) descermos por acaso no mesmo andar. Um andar que abriga uma única empresa: a Boomerang. Meu novo local de trabalho. E, pelo visto, o dele também. — E aí, o que é esse seu emprego? — pergunto. Um cacho de cabelo parecido com uma mola entra no meu campo de visão como se para enfatizar meu estado lastimável. — Estágio — corrige ele, e a palavra sai com um peso, como uma confissão. — Na Boomerang. Ele assente, e suas mãos se ocupam com o nó da gravata, o que me faz lembrar do meu traje nada profissional. Estou me segurando para não pegar meu celular e descobrir se Beth já chegou. — Você também, né? Estou chocada demais para formular uma resposta, portanto apenas faço que sim com a cabeça, feito uma retardada, e começo a caminhar como se num sonho por um ambiente que parece se encolher e se expandir a cada passo. Brinquei que nunca havia assistido a Star Wars, mas ao notar a amplitude do assoalho cintilante de bambu, ouço a “Marcha Imperial” tocar na minha cabeça. Esse lugar parece mais com Ridley Scott do que com George Lucas, porém, com paredes brancas curvas e iluminação roxa dividida em nichos. Os cubículos têm paredes de vidro fumê baixas e estações de trabalho excêntricas em meiocírculos. Como diria Skyler, parece que alguém bebeu um coquetel de feng shui e vomitou a decoração. Passamos por alguns cubículos ocupados por garotas com óculos pretos de aro grosso e cortes de cabelo assimétricos e caras de calça jeans skinny com várias configurações de pelos faciais. A sensação é de que estamos na Central dos Hipsters, embora Adam Blackwood, fundador e presidente da Boomerang, pareça mais o filho de Ryan Gosling com... bem, Ryan Gosling. — Preciso dar um pulo no... — Rapidamente, Ethan se corrige: — Acho que precisamos dar um pulo no RH, preencher alguns formulários, entregar nosso primogênito, sei lá. Esse tipo de coisa. — Putz, já entreguei meu primogênito no meu último emprego. Você teria algum extra sobrando aí? Ele sorri para mim. — Como eu teria um primogênito extra? — Ah, beleza, você está querendo colocar lógica nessa conversa? Uma loura muito alta, vestindo um terninho verde-esmeralda com lapelas tão duras que poderiam fatiar queijo, anda na nossa direção com uma expressão entre raivosa e assassina. — Você só pode estar de brincadeira comigo! — diz ela, dando um gritinho estridente, enquanto


caminha ao nosso lado e me lança um olhar gélido como uma tundra. Na mesma hora, acho que ela está falando da minha roupa (que, embora não seja exatamente apropriada, também não merece esse chilique colossal). Mas ela desvia o olhar e tapa o ouvido com a mão. — Se não der certo com esse cara, não vou ter o menor problema em enfiar um picador de gelo na sua bunda magricela, Paolo — diz ela, e finalmente noto o Bluetooth preso ao lado de um coque muito puxado que deixa seus olhos tão esticados quanto os de uma chinesa. Ela se afasta batendo o salto alto no chão, fazendo flores murcharem e pássaros despencarem do céu ao passar. — Meu Deus — murmura Ethan, e percebo que cheguei a agarrar o braço dele de terror. — Espero que ela não seja a responsável pelo RH. Eu me permito desfrutar rapidamente daquele momento antes de soltar seu braço. — Espero que ela nem trabalhe aqui. Ele sorri. — Espero que ela esteja de partida para um cruzeiro de dez anos. — Para a Antártica. — Para se reunir com seu clã: os monstros das neves. Dou uma risada, e meu olhar encontra o dele mais uma vez. Talvez eu tenha dado sorte e conseguido mais do que simplesmente um estágio aqui. — Desculpe interromper a festinha de vocês — diz uma voz atrás de nós. Eu me viro e vejo Beth ao lado de uma passagem delimitada por um coração cor-de-rosa feito com dois bumerangues gigantes, usando uma peruca preta e lisa por cima de seus cabelos cacheados e um ridículo macaquinho de estampa xadrez azul. Está parecendo uma espécie de vampira fazendeira... do Harlem. Sacudindo um saco plástico diante de mim, ela fala: — Vamos nessa, amiga! Vamos dar um trato em você. Tenho outro lance ao meio-dia, e o lugar fica onde Judas perdeu as botas, lá em Burbank. — Graças a Deus, você conseguiu vir! Corro até ela e apresento rapidamente Ethan enquanto vou até a porta do banheiro feminino. Seus olhos negros sagazes absorvem cada centímetro de Ethan e ela lhe oferece uma mão dotada de unhas de acrílico roxas e perfeitas ao cumprimentá-lo. — Gostei do seu... — Ethan faz um gesto amplo tentando indicar basicamente todo o conjunto de Beth. — Pois é, também gostei do seu. — Ela dá um tapa na minha bunda e me empurra em direção à porta. — Se você for um garoto bonzinho, quem sabe Mia te divide comigo um dia desses. — Beth! A porta se fecha diante da expressão boquiaberta de Ethan e ela dá uma grande gargalhada rouca. — Aquele cara não faz a menor ideia de onde se meteu! Antes de ter a chance de responder que sei muito bem como é essa sensação, ela já tirou minha camisa e o substituiu por uma blusa de seda violeta. Beth descende de uma longa linhagem de assistentes de figurino e palco, portanto esse é um processo que já observei várias vezes, embora seja a primeira em que sou o alvo da transformação. — De onde saiu essa roupa? — pergunto. — Era o que eu estava vestindo quando saí de casa hoje de manhã — diz Beth. — Ou você achou de verdade que eu estava andando por aí parecendo uma Dorothy desconjuntada de Oz?


Ela se abaixa e puxa uma saia cinza-escuro de dentro da bolsa. — Vista isso — ordena, segurando a saia aberta para mim, e eu obedeço. Ela ergue o corpo de volta, me gira e enfia a blusa dentro da saia, depois fecha o zíper e começa a ajustar a roupa no meu corpo. O modelito é de uma perfeição absoluta, o que não é nenhuma surpresa. Coloco a mão no ombro de Beth enquanto fecho o zíper das botas de couro macio que ela me emprestou para substituir minhas sandálias de tiras. — Você é mesmo muito boa para mim. — Tão boa quanto Ethan? Eu me empertigo e me olho no espelho. Minha pele parece meio amarelada sob as luzes fluorescentes e estou parecendo uma anêmona, pois metade do meu cabelo escapou do rabo de cavalo. Mesmo assim, foi uma melhora e tanto no meu visual. — Você vai me matar, mas não consigo me lembrar de quase nada. Ela faz tsc, tsc. — Que vergonha. É por isso que não bebo. Então ela segura meus cabelos como se fossem rédeas. Num esvoaçar de unhas roxas e anéis grossos de prata, ela o arruma, transformando-o numa versão melhorada do coque baixo que eu tinha tentado fazer. Tenho a impressão de que seria um pouquinho ingrato lembrá-la de que, na verdade, ela só parou de beber depois de acabar transando sem querer com o próprio primo. — Mas fico feliz por você ter se divertido um pouco, Mia — continua. — Você merece isso, depois daquele cuzão do Kyle. — Valeu, gata. — Eu lhe dou um breve abraço e depois entrego o vestido e as sandálias que usei na noite passada. Até penso em devolver a camisa de Ethan para ele, mas algum impulso me faz entregar a ela também. — Nem sei como agradecer por tudo isso. Você é uma salvadora de vidas. Ela enfia tudo nas sacolas de compras e me observa por um tempinho. — Você está bonita, mas um batonzinho não faria mal algum. — Qual você tem aí? — Gosta desse? — pergunta ela, apontando para o vermelho-brilhante em seus lábios carnudos. — É lindo. Você me... Beth segura meu rosto e me dá um beijo estalado na boca. — Voilà! Retira o excesso dos cantos dos meus lábios com o polegar, me gira em direção à porta e me dá outro tapa na bunda. — Agora mostre para eles quem manda aqui.


Capítulo 6 Ethan P.: Você prefere criar as regras ou quebrá-las?

Mia se afasta depressa com sua amiga, me deixando sozinho no saguão. Com o início do estágio e tudo o mais que aconteceu nesta manhã, estou começando a ter a sensação de estar vivendo a vida de outra pessoa — tirando o fato de que esse é o emprego que eu tanto queria. O emprego que vai fazer minha carreira profissional deslanchar. Pelo menos isso não me parece estranho. Assim que chego à recepção, avisto Rhett Orland, o gerente do RH, vindo pelo corredor. Na minha entrevista de estágio, fiquei sabendo que Rhett tem trinta e poucos anos, é divorciado sem filhos e, recentemente, se tornou um fanático por ciclismo, natação, halterofilismo e corrida. O cara está sempre elétrico — provavelmente porque nas horas vagas deve trabalhar como distribuidor de suplementos energéticos. Tenho quase certeza de que arranjei esse trampo porque ele quer me dar umas dicas de treino. Mas, ei, que mal tem isso? Se foi isso o que me fez conseguir o trabalho, por mim tudo bem. — Ethan! — diz ele com uma voz ribombante, enquanto sacode minha mão com força. — Eu estava esperando você, cara! Primeiro dia! — O rosto de Rhett realmente parece com o de alguém que malha constantemente, algo entre esquelético e musculoso, como um pit bull. — Você está ótimo. Mandando ver na academia, hein? — Que nada. Só tenho dado umas voltas de bicicleta. — Isso porque não tenho grana para comprar um carro. — Sensacional! Eu sabia. Vamos lá, vamos botar você para começar! — Rhett enlaça meu pescoço com um de seus braços e me arrasta pelo saguão. É estranho, porque sou mais alto que ele e... porque é estranho pra caramba mesmo e pronto. Ao sairmos do saguão, olho para trás, mas não vejo Mia. — Esqueceu alguma coisa? — pergunta Rhett. “Sim”, tenho vontade de responder. “Talvez a melhor noite da minha vida.” Mas balanço a cabeça. — Não, está tudo bem, cara. E aí, como andam os treinos? Está pronto para encarar o triatlo? Ao longo da meia hora seguinte, assino alguns documentos em seu escritório enquanto ele vai me colocando a par do seu progresso. Quando me acompanha até a porta, já estou por dentro do seu peso atual, IMC, frequência cardíaca de repouso, consumo calórico diário e rendimento. Segundo minhas estimativas, dali a cinco minutos ele começaria a me dar um relatório completo dos seus movimentos intestinais. Não é que eu não esteja nem aí, ou que ache o cara um mala. É que, para mim, estar em forma não é uma questão de números. O que importa é o jogo. Jogar bonito, como se fala. Jogar futebol me permitiu superar meus limites físicos — o que foi algo muito sedutor —, mas praticar esse esporte também significa saber fazer parte de um time. Pertencer a algo maior do que você mesmo. O jeito como Rhett encara o esporte não poderia ser mais diferente do meu. Ele basicamente faz parte do “time do eu sozinho”. Paro à porta de seu escritório.


— Escute, Rhett, sem querer interromper, mas achei que só tivesse uma vaga de estágio aqui. O cara arregala os olhos. — Ah! — Ele inclina o corpo para mais perto de mim, como se estivéssemos compartilhando um segredo. — Quer dizer que você conheceu Mia, hein? O que achou? Bela bun... — Pois é, conheci — interrompo. Depois de uma noite nebulosa com ela, eu não devia me importar, mas me sinto capaz de dar um soco nele caso terminasse aquele comentário. — Então, o que aconteceu? Abriram uma nova vaga? — Não, não. — A mão de Rhett faz pressão em meu ombro e voltamos a caminhar pelos corredores. Que tipo de cara do RH é esse que não consegue entender o conceito de espaço pessoal? — O chefão quer te dar os detalhes pessoalmente. Senão, sabe como é, eu te contaria tudo. Ele me olha como se eu e ele fôssemos amigos muito próximos. — Ah, entendi — digo. Mas não entendi nada. Não esperava por isso. Sendo que isso, no caso, é Mia. Já estou imaginando — imaginando não, já tenho certeza de que ela vai ser uma distração. Ou uma tentação. Merda. Ela com certeza vai ser tanto uma coisa quanto outra. Rhett me leva até uma sala com paredes de vidro. Os móveis são modernos, apesar de não serem frágeis nem gritantes. Passa a impressão de ser o escritório de alguém organizado, elegante e rico. Cadeiras de madeira de bom gosto, com estofado de couro preto brilhante. A mesa é uma peça inteiriça de vidro grosso, e sobre sua superfície cintilante não há nada além de um laptop, um celular e um pequeno tigre de bronze. Adam Blackwood ergue os olhos do laptop quando Rhett e eu entramos. Atrás dele, estende-se Los Angeles, banhada de sol e agitação. É um dia excepcionalmente ensolarado e dá para ver toda a paisagem até Santa Monica. Ele se levanta e rodeia a mesa; as abotoaduras de prata cintilam quando ele me estende a mão. — Ethan. Bom ver você novamente. Bem-vindo à Boomerang. Adam tem vinte e dois anos, apenas um a mais que eu, mas já é presidente de uma empresa multimilionária. É claro que abrir a primeira empresa aos quinze anos ajuda. Ele estudou em Princeton, o que fica evidente pelo tigre em sua mesa, e a Boomerang é a terceira empresa que fundou. Ontem à noite no Duke’s, quando nos encontramos para tomar um drinque, tive a sensação de que todas as mulheres do lugar orbitavam nossa mesa. Eu mesmo já fui paquerado algumas vezes por lá, mas nada que se compare ao que vivenciei na companhia de Adam. O lance é que o cara está sempre dez passos à frente de todo mundo. Por isso que é tão bemsucedido. Sei que vou aprender muito com ele. — Obrigado, Adam. Estou feliz por estar aqui. Adam pede que Rhett se retire, e ele vai embora com uma cara de pit bull decepcionado. Em seguida, indica uma cadeira em uma área afastada de sua mesa. — Sente-se, Ethan. — Obrigado. Afundo em uma cadeira de couro macio. Uma série de enormes quadros modernos com ondas do mar domina uma das paredes. Guardo aquilo na mente: Blackwood pode até ser da Ivy League, mas também é surfista — ou colecionador de arte. Ele afasta a cauda do paletó para trás em um movimento que é tão inconsciente quanto a maneira como faço malabarismos com uma bola de futebol.


— E aí, como foi a noite passada depois que fui embora? Sorrio, porque parte de mim quer contar a verdade. Bem, Adam, conheci a outra estagiária, tomei uns body shots com ela, depois a levei para o meu apartamento e provavelmente passei a noite no meio das suas coxas. Então, no geral, pode-se dizer que a noite foi ótima. No entanto, opto pela resposta mais segura. — Foi boa. Encontrei o cara que divide apartamento comigo e comemoramos um pouco. — Que bom. É isso que gosto de ouvir. — Os olhos de Adam passam direto por mim e nos levantamos novamente quando Mia entra com aquela mulher loura que vimos no saguão mais cedo. — Bom dia, Cookie — cumprimenta ele.— Adam, estagiária. Estagiária, Adam. Ela dá um pequeno empurrão em Mia e, em seguida, gira sobre um salto agulha e sai da sala. A porta de vidro é uma daquelas com uma dobradiça que se fecha lentamente, por isso, ouvimos e vemos a mulher se retirando durante o que parece ser uma eternidade. — Preciso dessa apresentação, Paolo — diz ela, pressionando um fone de ouvido que passa a impressão de ser implantado em seu ouvido. — Quero isso na minha mesa daqui a uma hora, senão mando deportarem essa sua bunda porto-riquenha. E, não, não estou nem aí se é impossível. Eu conseguiria dar um jeito, não duvide disso nem por um... A porta se fecha, e nos acomodamos de volta em nossos lugares, compartilhando um momento de silêncio tenso. Pelo canto do olho, percebo que Mia está usando outra roupa. Tenho vontade de ver como ficou, mas isso não é uma opção no momento. Além disso, já sei que ela fica linda com qualquer coisa. E maravilhosa sem roupa alguma. Adam sorri e cruza as pernas. — Gosto muito de gente talentosa que trabalha duro, e Cookie, por acaso, é as duas coisas. Como vocês dois. Vão perceber que faço vista grossa para as excentricidades dos meus funcionários, contanto que o trabalho que produzam seja de alta qualidade e entregue no prazo. Mas tenho, sim, algumas regras. — Ele enrijece o corpo ligeiramente e balança a cabeça. — Desculpe. Estou esquecendo as boas maneiras. Vocês dois ainda não se conhecem. Ele apresenta Mia e eu, e nos cumprimentamos com um aperto de mão, fingindo ser estranhos que não viram o outro pelado há uma hora e dez minutos. Não sei se fingimos bem o suficiente. Adam nos observa com uma expressão curiosa, como se soubesse de alguma coisa que não sabemos. Ou como se soubesse daquilo que sabemos e estamos tentando esconder. — Do que eu estava falando mesmo? — pergunta ele. — Das regras — digo. — Do trabalho de mais alta qualidade — acrescenta Mia. — Ah, sim, obrigado. Sei que vocês vão fazer um bom trabalho; do contrário, não estariam aqui. Mas as condições desse estágio precisam ficar bem claras. Vocês vão ajudar no marketing. Sei que os dois têm áreas de interesse diferentes, mas a marca Boomerang pode sempre aproveitar muito a chegada de novos jovens criativos. E o marketing é a melhor área para aprenderem um pouco mais sobre o que fazemos. Porém, apenas um de vocês, aquele que contribuir mais para a empresa, vai receber a oferta de emprego permanente, no outono. Se provarem seu valor, vão conquistar um cargo em uma das empresas de mídia que mais crescem no mundo, mas quero deixar bem claro novamente: só há uma vaga. Apenas um de vocês vai continuar aqui. Ele faz uma pausa, deixando a ideia assentar. E é o que acontece. Como um balde de água fria. Só aceitei esse estágio por causa da promessa de contratação no final do verão. Não vim até aqui trabalhar pra caramba de graça e no final acabar de mãos abanando. Isso não é uma opção para mim. Vou morrer de fome se não conseguir esse emprego.


Já estou muito perto disso, aliás. Sinto o olhar de Mia em mim. Essa garota surgiu na minha vida menos de vinte e quatro horas atrás. Dormi com ela. Rachei um táxi e lhe emprestei minha camisa, mas esta nova situação muda tudo a partir de agora. Oficialmente, Mia tornou-se minha rival. — Entendido? — pergunta Adam, estreitando os olhos para mim e, em seguida, dirigindo-os para Mia. Faço que sim. Ela responde: — Entendido. — Ótimo. — Adam entrelaça as mãos. — Agora, vamos às regras. Na verdade, só existe uma. Esta empresa foi criada para unir pessoas que buscam relacionamentos sem compromisso. Isso é o que eu vendo. Relacionamentos para pessoas que estão na fossa, se recuperando. Gente que só está atrás de diversão, sem qualquer envolvimento emocional. Mas nossa política proíbe relacionamentos entre os funcionários: casos, namoros, enfim, coisas desse tipo. Sem exceções. — Mais uma vez, ele olha de mim para Mia, seus olhos azuis brilhando. — Fui claro? Desta vez, Mia é quem assente e sou o único a responder. — Isso não vai ser um problema — digo. Preciso desse emprego. E sempre jogo para ganhar.


Capítulo 7 Mia P.: Você perdoa e esquece ou guarda rancor?

Isso não vai ser um problema. As palavras de Ethan ricocheteiam no meu cérebro já em frangalhos enquanto acompanhamos Adam Blackwood por um longo corredor. Fico para trás, deixando os dois seguirem à minha frente. As botas de Beth estão apertando meus dedos e sou obrigada a dar cerca de seis passos a cada dois deles. Eu me sinto para baixo e magoada, e não sei ao certo o que me incomoda mais: que esta grande oportunidade tenha se transformado em uma competição fechada ou que eu tenha levado um soco no ego de alguém com quem nem tenho certeza se quero mesmo ficar. Isso não vai ser um problema. Provavelmente, se eu tivesse acordado na minha cama e não estivesse com uma ressaca estelar, teria encarado numa boa essas cinco palavras. Mas elas continuam remoendo dentro de mim, como músculos que a gente só lembra que estão doloridos quando nos alongamos da forma errada. Estou aqui para trabalhar, relembro a mim mesma. Não vim aqui por causa desse cara. Eu, que nem me lembrava do nome dele uma hora atrás, estou agora fazendo beicinho porque ele está a fim de se concentrar no trabalho? Ah, bom. Agora, sim. Desse jeito vai ficar muito mais fácil acabar com a raça dele. Hã, bem... O que eu quis dizer foi: “Desse jeito vai ficar muito mais fácil conquistar esta fantástica oportunidade com base no meu próprio mérito.” Trechos da conversa dos dois chegam até mim à medida que entramos e saímos dos halos das lâmpadas de LED: penetração de mercado, taxa de desistência. Ethan já assumiu as rédeas, enquanto estou aqui deprimida no fundo. É essa Mia Galliano que vai dominar essa merda de mundo? Não, não é. Então, preciso de um plano. Um plano que deixe Ethan comendo poeira. Eu fico firme e dou alguns passos largos para alcançá-los. Colocando-me ao lado de Adam, empurro Ethan com o ombro. — Já tenho várias grandes ideias — digo a Adam Blackwood. — Que tal uma abordagem mais cinematográfica para suas promoções? Tipo, uma narrativa visual que a gente consiga migrar para todas as plataformas de mídia? O que você acha? — Isso me parece bom — responde ele, e me dá uma piscadela que seria até mesmo capaz de relaxar o cabelo da Medusa. Continuo batendo papo com ele até chegarmos a um nicho com uma mesa maciça de acrílico e cromo. Tablets repousam em cada lado da mesa, com teclados sem fio adicionais e modernos apoios dobráveis. A geek que existe dentro de mim fica salivando (mas com toda a classe, lógico). Em uma comprida bancada de concreto ali perto, uma imponente máquina de café espresso solta sibilos e gorgolejos alternadamente, com os quatro bicos cobertos de espuma. Embaixo há um armário com as portas abertas, e uma profusão de produtos de limpeza e copos de papel caídos no


chão. Adam olha para a área da cozinha com uma expressão carrancuda e então aponta para as lustrosas cadeiras de madeira e couro branco que flanqueiam a mesa. Nós dois acabamos indo para a mesma cadeira e trombamos de modo nada elegante um com o outro. Ethan coloca uma das mãos no meu ombro para impedir que eu caia, e aquele seu cheiro delicioso invade minhas entranhas. Concentre-se, Mia. Eu me desvencilho e desabo na cadeira grande demais, cujas rodinhas prontamente me fazem deslizar por mais ou menos dois metros ao longo da sala. — O que está em primeiro lugar na agenda de hoje? — pergunta Ethan. Ele se acomoda em sua cadeira como se tivesse nascido para isso, embora suas pernas sejam tão compridas que seus sapatos Oxfords engraxados acabam indo parar ao meu lado. Deslizo a cadeira de volta até a mesa, me sentindo excessivamente consciente de cada pedacinho do corpo dele, dos seus pés bem ao lado dos meus. Suas pernas torneadas e os ombros largos estão perfeitamente revestidos pelo terno. Seus olhos azul-escuros, curiosos e simpáticos, estão fixos em Adam. Não de um jeito agressivo. Nem ansioso demais. E sim de maneira profunda e interessada, movida pelo desejo de mergulhar em um desafio. — Hoje, quero que vocês se inscrevam no site da Boomerang. Precisam ter a experiência do cliente para saber como vendê-la, não é mesmo? E tudo o que fazemos: esse site de relacionamento, nossos comerciais e produtos para a televisão; tudo está baseado em entender o espírito do nosso tempo. Em entender realmente como devemos falar com nosso público. Podem inventar um perfil próprio. Em seguida, deem uma olhada no site, preencham o perfil de membro e se familiarizem com tudo isso. — Depois de limpar uma sujeira imaginária de sua manga, ele acrescenta: — Na verdade, quero que vocês criem o perfil um do outro. Que conheçam seu concorrente. Seus olhos astutos se movem de Ethan para mim e de volta para ele, e um sorriso de esperteza surge por um breve instante. — Tudo bem? Ethan assente e liga seu tablet. — Tudo ótimo. Recosto o corpo na cadeira, mas prendo com o pé a perna da mesa para não sair deslizando pela sala novamente. — Claro — digo, olhando para Ethan. — Isso não vai ser um problema.


Capítulo 8 Ethan P.: Fale um pouco de si mesmo.

Adam se afasta, deixando-nos em nossas novas mesas. Por alguns segundos, Mia e eu ficamos só nos olhando. Eu me pergunto se ela está tão cansada quanto eu. Seja lá o que foi que fizemos juntos ontem à noite, dormir não deve ter tomado muito tempo. Não bebo café, mas estou tentado a ligar a enorme máquina que está em cima da bancada e injetar um pouco de espresso na minha veia. — Podemos começar? — pergunta ela, com um tom de voz meio animado demais. Ela também não está nada feliz de ter que competir por algo que deveria ser certo. Sinto uma vontade insana de abandonar a competição e deixar que ela fique com esse maldito estágio. Então me lembro do caixote no meu armário cheio de contas para pagar, financiamentos estudantis e formulários de inscrição na faculdade de direito. Cair fora seria mesmo uma estupidez. Eu mal conheço essa menina. Mas, pelo visto, isso está prestes a mudar. Mia tamborila no teclado à sua frente. — Quer fazer isso um de cada vez ou ao mesmo tempo? — Vamos fazer ao mesmo tempo. Costuma ser mais divertido. Seus olhos voltam-se depressa para mim. Acho que não sou o único com uma mente suja. — Eu começo. — Abro o laptop na minha frente e encontro o ícone do perfil no Boomerang. Clico para abri-lo. — Sobrenome? — Galliano. Dois L. Um N. — Você é italiana? — Passei a manhã inteira achando que ela era grega ou brasileira... — Metade italiana, metade judia — diz ela. — A culpa é minha criptonita. Seus olhos estão fixos na tela, mas dá pra perceber que ela está se esforçando para não sorrir. — O meu é Vance. O nome se escreve como fala mesmo. Idade? — Vinte e um — responde ela. — Amadureci cedo. Tenho a sensação de que ela não é capaz de conter seu senso de humor. Isso é um problema. Seria muito mais fácil se ela fosse mais parecida com Alison, que passava semanas enchendo a cara por causa dos problemas emocionais, por razões que nunca entendi. Mia não pode ser assim tão descontraída. — Também tenho vinte e um. Nós continuamos, passando pelas informações básicas, e logo descubro que ela nasceu em Little Silver, Nova Jérsei, e é filha única. Seu livro infantil favorito é Tudo depende de como você vê as coisas, e sua sobremesa preferida é algo chamado hálava. Digo que nasci no Colorado, literalmente no boliche dos meus pais; que acho que minha cor favorita é marrom — ou talvez seja vermelho, ou laranja. Infelizmente nunca vou saber com certeza, pois todas essas cores tendem a parecer a mesma para mim graças ao meu leve daltonismo. Contei também que minha comida favorita é qualquer coisa que não seja comida chinesa.


Então partimos para as perguntas mais difíceis. — Duração e fim do último relacionamento? — pergunto. — Ugh. — Mia faz uma careta e passa os dedos pelo cabelo cacheado. — As pessoas precisam mesmo responder isso? — Sim, afinal este serviço foi inventado para pessoas que estão se recuperando de um término. — É, acho que sim. Mas essa pergunta é meio desestimulante, não é? Enfim, meu último relacionamento durou um ano e terminou há cerca de um ano. E o seu? Eu fico encarando o cursor piscando na minha tela. Um ano atrás? Não se envolveu com mais ninguém desde então? Não sei por que, mas isso me surpreende. — Ethan? — O quê? Ah. Durou dois anos e terminou há dois meses. — Uau. Dois anos? — Próxima pergunta. — Esse é um assunto delicado? Olho para ela e noto que está com um sorriso provocador. — Pode-se dizer que sim. — Por um instante, cheguei a pensar que esse dia não poderia ficar mais estranho, mas falar de Alison para uma menina com quem transei e que agora é minha colega de trabalho está definitivamente superando tudo. — Próxima. Pergunta — digo. — A menos que você queira me ver destruindo uma máquina de café muito cara. — Número de parceiros sexuais? — pergunta ela. — Mas que porra é essa? Dirijo o olhar para a tela. Sim, a pergunta está mesmo ali. — Acredito que a questão diz respeito a quantos parceiros, não sobre os detalhes da ação. — Meu Deus. Eles querem mesmo conhecer a pessoa a fundo, né? — Giro os ombros para trás e sinto que, de repente, estou morrendo de raiva. — Bem. Não me julgue, OK? Este é um assunto delicado pra mim. Oitenta e três. Mia revira os olhos. — Nos seus sonhos, né? — Se fosse nos meus sonhos, esse número seria muito maior, na verdade. Infinito, provavelmente. Mas, se quer saber mesmo a quantia verdadeira, são dez. E, só pra lembrar, fiquei com a mesma menina por dois longos e malditos anos, então você tem que considerar isso. Eu até esperava um comentário dela sobre as dez pessoas, mas Mia diz apenas: — Dois longos e malditos anos, hein? Parece bastante tempo. — Você não faz ideia. — Na verdade — retruca ela —, acho que faço, sim. Noto um tom de tristeza em sua voz, e me sinto tentado a perguntar sobre seu ex, mas prefiro evitar esse tipo de conhecimento. — E você? Qual é o seu número? — Contando Kyle, quatro. Isso deixa meu cérebro em emergência por um tempo enquanto processo aquela informação. Quatro. Quatro caras já estiveram com ela. Quatro caras que não conheço, mas de quem, de repente, já não gosto. Então corrijo o que ela disse. — Então, contando comigo, seriam cinco, certo? Ela me lança um olhar carrancudo, o qual quer dizer fale baixo, e sussurra: — Quatro, porque não fizemos nada.


Eu me inclino para trás na cadeira e cruzo os braços. — Não, não. Nós fizemos, sim. Mais de uma vez, eu diria. Ela se inclina para a frente, entrelaça os dedos e me analisa. — E por que você acha isso? — Bem, para início de conversa, sua calcinha fio dental estava dentro do meu forno elétrico. — Ei, esse é um ótimo lugar pra guardar calcinha. Eu podia começar a fazer isso a partir de agora. Podia ser o próximo sucesso do momento. Pense nisso. Gavetas que aquecem calcinhas. — A gente está mesmo falando de calcinhas quentes ou é só impressão minha? — Pelo visto, sim. Mas uma calcinha quente não significa que houve sexo. — Concordo, mas você acordou nua na minha cama. — Isso ainda não significa nada. Coloquei a mão no peito. — Isso dói. Está bem, mas e quanto a isso: nunca fiquei pelado na cama com uma garota bonita sem ter feito aquilo. Espere aí. Acabei de chamá-la de bonita? Sim, foi isso mesmo. Mais uma vez, Mia não reage. Ou está acostumada a ser chamada de bonita e pouco se importa de eu ter acabado de fazer isso, ou está disfarçando que gostou do meu elogio. Retomo minha linha de pensamento e sinto vontade de me esmurrar por ser tão burro. O trabalho, Vance. Concentre-se. — Vou pensar no caso — diz Mia. Ela tamborila os dedos no queixo e estreita os olhos como se estivesse refletindo sobre o significado da vida. — Quer dizer que você já esteve na cama com dez garotas nuas e transou com elas todas as vezes? — Isso. Tenho um registro perfeito sobre isso. — E você me incluiu nessa conta? Abro as mãos. —Você estava pelada na minha cama. Eu me lembro da aparência dela, daquelas curvas lindas, dos olhos verdes e do cabelo cacheado e selvagem. Que ótimo que esta mesa está me fornecendo certa cobertura, porque estou armando uma barraca gigante aqui embaixo, logo agora. Não poderia haver a porra de um momento melhor. Mia sorri e dá de ombros. — Então acho que no seu caso foram só nove. — Ela digita no teclado, corrigindo a informação no meu perfil. — Sinto muito por estragar sua série de vitórias. Mas o brilho em seus olhos me diz que ela não sente nem um pouco.


Capítulo 9 Mia P.: Fale da sua família.

Assim que chego à Casa Galliano naquela noite, sou obrigada a me sentar num banquinho alto sob luzes brilhantes o suficiente para produzir um raio X, e logo em seguida uma colher de pau gigante cheia de alguma coisa verde é empurrada até o meu rosto. — Joe, você está invadindo minha foto! — reclama minha mãe, saindo de trás de sua Linhof Technikardan para ajustar a lente, olhar meu pai e mandar uma saraivada de beijos para mim. Seu cabelo ruivo está entremeado por fios grisalhos e ela está usando um moletom cor-de-rosa sujo e uma camiseta preta, portanto sei que está no meio de um surto criativo. — Pearl — responde meu pai —, você é que está no meio da minha degustação. — Ele se vira para mim e me dá uma piscadela. — O que achou do pesto, Mia Moré? Bom? Ruim? Muito salgado? Precisa de mais manjericão? Resistir certamente é inútil, por isso, pego a colher e provo o pesto. — Precisa de um pouco de pasta de pimenta, Jo-Jo, um pouco de spezia. Em seguida, limpo a boca no avental do meu pai, penteio meu cabelo com os dedos e faço uma pose para a minha mãe, que ela imortaliza dando duas clicadas rápidas. — O que eu sou dessa vez? — A face do capitalismo sem controle — responde ela. — Vou imprimir você numa nota de um dólar de dois metros e meio de altura, impressa em silk-screen. É para uma exposição que vou fazer na Bolsa de Nova York. Sempre fico impressionada com as loucuras que deixam minha mãe fazer, mas, quando se é tão famoso quanto ela, você começa a ter liberdade para fazer o que quiser. — Sério? — digo para provocá-la. — Isso parece tão básico para você. — Bem... Ela desaparece atrás da câmera de novo e por isso mal escuto o resto da frase, mas acho que consigo entender a palavra empalada. Já ouvi piores. Olhando ao redor para o conjunto de equipamentos e para o quadro de cortiça que tem a largura de uma parede e está repleto de imagens, penso em como minha mãe parece tão segura de si, em como todos os seus projetos — por mais bizarros e de outro mundo pareçam ser às vezes — têm a cara dela, da forma mais absoluta e perfeita. — Ei, mãe — digo. — Como você... — Não tenho certeza do que quero perguntar exatamente, e sempre fico com a sensação de que pedir um conselho para minha mãe é como trapacear. Como pegar um atalho que passa por uma propriedade privada. — Como você decidiu, hã... sei lá, qual seria a sua perspectiva artística? Tipo, como você vê, não sei, as coisas da maneira que você vê? — Só me joguei — murmura ela. — Eu não me prendia tanto a tudo, como você. Engulo em seco, decepcionada, e olho para além dela, para a moita de sálvia que pontilha as paredes do cânion que fica mais além do nosso quintal.


— Cadê Nana? — pergunto, mudando de assunto. — Como ela está hoje? — Teve um dia bom — diz minha mãe, mas meu pai coça a barba grisalha por fazer sob o queixo e balança a cabeça. Minha mãe tem o dom especial — e a maldição — de só ver o que ela quer ver. É ótimo para a arte, mas, para a vida, nem tanto. Suspiro e olho para o que está atrás da minha mãe enquanto ela tira mais algumas fotos. Meu pai desaba em uma cadeira Eames original que eles tratam como se fosse algo que encontraram num leilão de fundo de quintal. Ele está completamente indiferente ao pesto que escorre da colher para o piso de linóleo amarelo esponjoso do estúdio da minha mãe. Ainda bem que ela tem um equivalente ao daltonismo de Ethan no que se refere a manchas. O que, é claro, me faz pensar nele, nas coisas que descobri durante nossa entrevista mútua. Fiquei sabendo que ele foi praticamente criado na pista de boliche de seus pais e que uma vez perdeu uma pontuação perfeita por um spare. Notei que suas sobrancelhas se unem acima do nariz quando ele está perdido em pensamentos. E descobri — sem que precisasse me dizer — que ele adora crianças. Seu rosto se iluminou mais do que as luzes do estúdio da minha mãe quando ele falou sobre ter sido treinador de futebol juvenil. Não importa. Eu sei. Embora ache que, se você tem que acordar ao lado de alguém depois de uma noite da qual não consegue se lembrar e depois ser obrigada a trabalhar com essa pessoa todos os dias, é melhor que ela seja decente, inteligente e sexy. — Como foi seu primeiro dia, filha? — pergunta meu pai com aquele jeito assustador que tanto ele quanto minha mãe têm de ler a minha mente. — Fez algum amigo? — Foi ótimo — respondo. — Mas, no fim das contas, descobri que estou competindo com outro estagiário por uma efetivação. E nós estamos na área de marketing, que não é o que mais gosto. Minha mãe bufa sua desaprovação, mas meu pai sorri. — Isso é ótimo — diz ele. — A melhor coisa do mundo é ganhar algo pela qual você realmente batalhou. E não importa se é ou não o que você mais gosta. Transforme isso em uma coisa que te dá satisfação. — Pode ser. — Confie no seu velho sobre isso. Ele se levanta novamente. Desde o acidente — em que um aprendiz de eletricista desligou o disjuntor errado, deixando meu pai em contato com um fio de alta voltagem — ele é fisicamente incapaz de ficar sentado por mais de dois minutos. Então me entrega a colher e abre caminho por um labirinto instável de guarda-chuvas, cabos elétricos enrolados e caixas de adereços que parecem ter vindo de uma montagem de Lisístrata ambientada na Lua. Ele se enfia atrás da minha mãe, lhe dá um abraço e afaga seu pescoço com o nariz. — Esta aqui me disse não umas cem vezes antes de dizer sim. — Do que está falando? — retruco. — Vocês engravidaram de mim no primeiro encontro! — É, mas tive que fazer uma centena de tentativas até conseguir esse encontro. Não surpreende que a gente estivesse tão ansioso quando o dia chegou. Rindo, minha mãe inclina a cabeça para cima e o puxa para um beijo. Essa é minha deixa para recolher os farrapos da minha psique e fugir dali. Pego minha câmera no armário do corredor, onde a deixo guardada desde que algum convidado da festa de Sky usou-a para fazer um filminho altamente significativo dos seus testículos. Atravessando a cozinha toscana ensolarada em direção à suíte de Nana, pego uma maçã do cesto, dou uma olhada na correspondência empilhada para ver se alguma coisa é para mim, e deixo


separada a Aperture da minha mãe, para roubá-la mais tarde. O volume da televisão de Nana está um pouco acima do limite, capaz de ensurdecer uma pessoa, portanto bato vigorosamente e, em seguida, abro a porta. Encontro minha avó de calcinha e tênis, fazendo um enorme esforço para enfiar uma calça de pijama de seda, a única coisa que ela usa atualmente porque, como diz, todas as outras coisas fazem suas pernas coçarem. Uns cem grampos prendem seu cabelo ondulado — também extremamente ruivo —, o que significa que ela acabou de lavar e ajeitá-lo. — Ah, que bom, você está aqui! — exclama. Por trás das lentes grossas dos óculos, seus animados olhos castanhos parecem límpidos e focados, e me sinto grata por isso. Às vezes, parece que Nana está num barco, e eu, na praia, acenando e observando-a afastar-se cada vez mais e ir diminuindo com a distância. Não posso nadar atrás dela, nem trazê-la de volta. Só consigo captar as partes dela que permanecem à vista. Afasto minha tristeza. — Oi, Nana! — Dou um beijo na sua bochecha fria e seca e, em seguida, chamo-a para se sentar de novo numa cadeira. — Deixe que ajudo você. Ela me deixa tirar seus tênis e depois ajudá-la a vestir a calça de pijama — a qual subo pelas suas pernas e, após levantá-la da cadeira, ajusto em sua cintura. Amarro com firmeza, como ela gosta, ciente de como ultimamente ela tem me parecido pequena e oca. — A camisa do pijama está aqui? — pergunto, andando até o armário. Mas ela apenas dá de ombros e me lança um olhar que me diz que não está acompanhando a linha de raciocínio. Encontro uma blusa de algodão macia azul-marinho, com pequeninos hibiscos brancos espalhados pela manga, e ajudo-a a vesti-la, abotoando para ela. — Fico feliz que você tenha trazido isso — diz ela, apontando para a câmera que deixei na cômoda do seu quarto. — Me disseram que era melhor eu filmar minhas coisas, para o caso de a menina voltar e levar tudo embora. — Que menina? Quem disse isso? — A que contrataram para me ajudar. Ela deve estar falando de uma de suas acompanhantes, embora eu não consiga imaginar nenhuma delas roubando alguma coisa da minha avó. — Podemos começar? — pergunta ela. — Pegue minha bolsa. Obedeço e ligo a câmera. Começo focando nas roupas de cama limpas para ajustar o balanço de branco e, em seguida, abro a íris para entrar um pouco mais de luz. Ela remexe na bolsa e tira lá de dentro um longo colar de pérolas com um pingente de diamante na forma de um chai, o símbolo hebraico para vida. — Stan trouxe isso de Israel para mim — conta ela, enquanto a filmo remexer nas contas, passando-as diversas vezes pelos dedos. — Ele pagou trezentos dólares, o que era uma fortuna naquele tempo. — Acho que ele pensou que você valia a pena, Nana. Ela se permite sorrir, mas depois o sorriso vira uma expressão preocupada, e, em seguida, ela joga o colar para mim. — Fique com ele. — Ah, não. — Eu o deixo em seu colo, recolocando as mãos dela em cima do colar. — É seu. Fique com ele. Ela revira as contas e joga o colar de volta na bolsa, a qual fecha com um estalido e abraça no


peito. — Só não quero que aquela menina ponha a mão nele — diz. — Ela entra aqui e mexe em tudo. — Provavelmente só está tentando limpar ou ajudá-la a guardar suas coisas. — Faço uma nota mental para perguntar à minha mãe sobre essa nova pessoa. Por enquanto, porém, viro novamente a câmera para minha avó, tento (mas não consigo) vê-la através do olho mais objetivo da lente. Eu a observo, o meio sorriso irônico em seus lábios me dizendo que está sonhando algum sonho secreto, talvez com meu avô ou de quando era jovem e tinha uma ambição que a levou a estudar direito e a lutar pelos direitos civis no Sul. Olho ao redor, para suas joias, seus livros, vestidos e lembrancinhas. Ao lado da foto em que ela está com Martin Luther King há outra que eu amo mais ainda. A que ela está atrás do volante de um carro antigo — um Studebaker, pelo que me disse — com um dos charutos do vovô preso, apagado, entre os dentes. O sorriso dela é absolutamente deslumbrante, e ela pisca para a câmera como se aquele momento fosse durar para sempre. Tenho um estalo e percebo que encontrei o caminho do meu filme. Esses objetos — as fotografias, as joias, os frascos de perfume antigos que dominam sua cômoda incrustada de marfim —, todas essas coisas que ela guardou ao longo de sua vida adulta, que passaram pela perda do meu avô e de suas duas irmãs mais velhas, a jornada do apartamento extravagante em Forest Hills para este quarto modesto do outro lado do país, tudo aquilo pode contar a história por ela. Podem me ajudar a dizer ao mundo quem ela é. — Fale mais sobre o colar, Nana — peço, e levanto a câmera mais uma vez.


Capítulo 10 Ethan P.: Numa escala de um a dez, como você classificaria sua condição física?

Como o gerente de RH do inferno acabou conduzindo exercícios de aquecimento para o meu time é um mistério que nunca vou decifrar. Num minuto eu estava em Century City, descolando uma carona com Rhett Orland depois do trabalho. No próximo, estou no campo de futebol da Beverly Hills High vendo o cara obrigar meu time de futebol masculino subnove a fazer uma terceira série de flexões. Já faz dez minutos que estou aqui observando e ainda não consigo acreditar. — Vamos, galera! — grita Rhett. Ele entrelaça as mãos atrás das costas e anda feito um sargento ao longo da fileira de garotos gemendo de dor. — Botem um pouco de vontade nisso aí! Costas retas, cóccix para baixo! Estão sentindo, gente? Estão sentindo a gostosura? Inacreditável. Sentindo a gostosura? Esse cara diz cada besteira épica sem noção... Tyler, meu lateral-esquerdo, ergue o olhar da sua posição de flexão, com o nariz retorcido e o rosto vermelho. — Treinador Ethan, por que temos que fazer flexões? É uma pergunta justa. Os braços das crianças de nove anos não passam de uns gravetinhos, e estou ficando com medo de que os de Milo acabem se quebrando bem diante dos meus olhos. Isso sem falar que o fortalecimento da parte superior do corpo não é exatamente do que preciso desses meninos. Preciso de resistência. De força no centro do corpo. Cara, a única coisa de que preciso mesmo é que esses garotos se concentrem por mais de dois segundos! Mas hoje está sendo um pouco diferente: eles é que estão me ajudando a desenvolver uma habilidadezinha chamada puxa-saquismo. — Porque se vocês não fizerem flexões — respondo para Tyler —, o treinador Rhett aqui vai ter que me despedir do novo emprego. Rhett interrompe seu ataque verbal e sorri. — Você é estagiário, Vance, então legalmente não posso demiti-lo. Só posso dispensá-lo. — Sua cabeça se volta de repente para a fila de meninos grunhindo. — Cameron, estou de olho em você! Consegue se abaixar mais do que isso! Vamos, galera! Mais duas séries! Esta costumava ser a melhor parte do meu dia. Deixo Rhett terminar o aquecimento e então sigo efetivamente para a parte do treino com os meninos. Dribles. Passes. Toques de bola. Esses garotos sabem o que fazer quando estão treinando. São jovens, mas esse é um time da primeira liga, com testes, torneios, rankings, a coisa toda. Antes de escolher esse time, primeiro me certifiquei de que eles queriam mesmo estar aqui. Consigo aguentar as palhaçadas, os meninos cutucando o nariz, desde que mostrem gana quando estão jogando futebol para valer — e fazem isso. Meu time tem uma gana fenomenal. Na hora da disputa de bola eu me junto a eles, em parte porque isso os atiça, mas também porque não consigo resistir à vontade de tocar na bola. — Joga para cá, Vance! — grita Rhett, enquanto sai trotando até o gol. Não sei que horas ele fez isso, mas o cara teve a manha de buscar luvas de ciclismo no seu carro e


uma camisa amarela brilhante muito apertada (mesmo para uma camisa de spandex). Essa deve ter sido sua tentativa de se vestir a caráter como um goleiro, acho. Ele bate palmas com as mãos enluvadas e abaixa o corpo numa posição de quem aguarda uma bola de beisebol, com as mãos nos joelhos. O suor escorre pelo seu rosto e pinga de seu nariz, embora tudo o que ele fez até o momento tenha sido gritar. Mas, enfim, Rhett está sempre acalorado, mesmo no escritório. — Quero ver você marcar um gol comigo aqui — diz ele. Isso me faz estremecer um pouco. — Deixa disso, Rhett. Estou tranquilo. Passo algumas bolas para meus atacantes, Tyler e Milo, orgulhoso deles por perderem poucos gols com Rhett na defesa. E fico ainda mais orgulhoso quando eles decidem chamá-lo de Treinador Suorete em vez de Treinador Rhett. Passo outra vez a bola para Tyler, que está com o pé esquerdo pegando fogo hoje, mas ele toca a bola de volta para mim. — Vamos, Treinador Ethan! Chute para o gol! — Não, Tyler, chute você. — Não estou aqui para dar um show, então devolvo a bola para ele. — Manda ver. Tyler chuta de novo para mim. — Não, você, Treinador Ethan! — grita ele. — Em seguida, para e agita os braços de graveto no ar, no estilo de um campeão. — Sinta a gostosura! Que merda. Não posso dizer não a isso. Chuto sem qualquer reserva. Dou um tiro de canhão e a bola mergulha no fundo da rede, exatamente onde eu queria. Gira e para antes mesmo de os garotos reagirem, então todos começam a celebrar fazendo aviõezinhos com o corpo e dando tapas no peito, com exceção de Rhett, que balança a cabeça. — Você teve sorte, Vance! Tente de novo! Chuta aí, cara! — Claro, Rhett — digo. — Mas só daqui a um minuto. Você consegue aguentar a onda só um pouquinho? Correr daquele jeito despertou o monstro da minha ressaca. Meu cérebro está parecendo um balão de água balançando no meu crânio, e preciso beber alguma coisa. Eu poderia também aproveitar esse intervalo para dar o telefonema do qual estava com medo o dia todo. Rhett parece genuinamente magoado. — Beleza, beleza. Tudo bem, Vance. Já entendi. — Valeu. Ando em direção ao estacionamento, de onde ainda consigo ver o campo de futebol, e me sento no capô do Mini Cooper de Rhett, que está equipado com um rack de esqui, um suporte para bicicleta, e, é claro, tem as listras de um carro de corrida. Pego meu celular no bolso e ligo para casa, torcendo para pegar meu pai antes que comece o movimento da noite na pista de boliche. Ele atende no terceiro toque. — Boliche Black Diamond. — Oi, pai. Sou eu. — Ethan! Como vai, filhão? Já escalaram você para algum filme? Meu pai é uma dessas pessoas que grita quando fala. Passar vinte anos numa pista de boliche causa isso. Ele também acha que estou guardando um desejo secreto de virar ator, pois, para ele, essa seria a única explicação para eu continuar morando em Los Angeles depois de me formar na


faculdade. O barulho de pinos de boliche sendo derrubados enche meus ouvidos — foi um strike, pelo som — e sou tomado por uma onda de saudades de casa. O que eu não daria para estar lá esta noite, polindo bolas de boliche, desentupindo as máquinas de venda automática e passando um tempo com meu pai. — Não. Nenhum filme ainda — respondo. — Como estão as coisas por aí? Como está mamãe? — Bem! Faz dez minutos que ela ligou lá do Arizona. Ah, é. Eu tinha esquecido. Minha mãe foi de carro com meu irmão mais novo até a Universidade do Arizona esta semana. Terminei a faculdade no mesmo momento em que Chris entrou. Então me dou conta: isso não vai tornar essa conversa nada fácil. Consegui uma bolsa parcial na UCLA por causa do futebol, e meus pais ajudaram o máximo que puderam, mas, mesmo assim, fui obrigado a pedir créditos estudantis no valor de US$ 28.000 para cobrir o resto das despesas. Agora, meus pais têm que pagar quatro anos de faculdade para Chris e... — Ethan? — chama meu pai. — Hã? Hã... que legal, pai. Chris está bem? Está se adaptando no alojamento e tudo o mais? — Aham. Eles acabaram de tirar as coisas do carro e estão indo jantar alguma coisa. — Legal — falo, e fico sem saber o que mais dizer. Não posso pedir mais nada. O ruído estrondoso dos pinos caindo fica mais baixo, e sei que é porque meu pai entrou no escritório e fechou a porta. Eu o imagino ali, assistindo, através das persianas empoeiradas da grande janela que fica diante das pistas oito e nove, ao seu negócio enfrentar dificuldades. Imagino as pilhas de contas a pagar em sua mesa — pilhas que não são muito diferentes das que estão no caixote no meu apartamento. — O que está acontecendo, filho? — pergunta ele, num tom mais gentil. — Pai, eu... eu sei que este não é um bom momento, mas preciso de dinheiro emprestado. Silêncio por alguns segundos. — Quanto? O fundo da minha garganta começa a arder. — Sei lá... uns mil? Este trabalho que consegui... Vai demorar um pouco até eu receber algum salário. — Entendi. Bom. Não posso lhe emprestar dinheiro, Ethan. As palavras aterrissam como um soco no meu peito. Fico olhando para a grama a meus pés, me concentrando apenas em inspirar e expirar. A imagem que temos das pessoas que estão completamente falidas é sempre daquela gente empurrando carrinhos de compras cheios de lixo, ou sentada na calçada com um vira-lata adormecido e um cartaz de papelão. Não é o meu caso. Minhas chuteiras valem US$ 500. Minha educação vale mais de US$ 100 mil. Dois meses atrás, eu estava dando autógrafos após minhas partidas de futebol. — Tudo bem, pai. Eu entendo — digo. Então me pergunto pelo que ele está passando. Sei que já faz uns dois anos que as coisas não andam bem no boliche, mas será que ele e minha mãe estão tendo dificuldades financeiras? — Acho que você não entendeu, Ethan. Não vou lhe emprestar dinheiro. Você é meu filho. Vou transferir três mil dólares pra você esta tarde. É o suficiente? O aperto no meu peito não se afrouxa exatamente, mas sinto que consigo respirar de novo. — Sim, pai. Obrigado. É o suficiente.


Pode não ser para o verão inteiro, porém, é mais do que eu devia aceitar. — Ótimo! — diz ele, erguendo o tom da voz até sua altura habitual. — E então, já conheceu alguma garota bonita por aí? O rosto de Mia surge em minha mente. A tarde está acabando, e as árvores banhadas de sol ao sul do campo me fazem lembrar de seus olhos brilhantes e verdes. — Na verdade, conheci, mas ela, hã... escapou de mim. — Bem, você nunca foi de desistir das coisas, Ethan. Vá atrás dela! Sorrio, balançando a cabeça. — Vamos ver, pai. Vamos ver. Quando chego em casa do treino, aromas de comida me atraem para a cozinha, onde encontro Isis e Jason. — Oi, E. — Ela olha para mim, desviando o olhar do alface que está cortando na bancada. — Estou fazendo tacos. Está com fome? Passo meus braços ao redor de seus ombros, abraçando-a por trás. — Você é incrível, Isis. — Vou interpretar isso como um sim — diz ela. — O que é bom, porque estou assando cookies com gotas de chocolate, também. — Dê um pé na bunda desse perdedor. — Indico Jason. — Vamos fugir juntos. — Tire as mãos da minha namorada, Vance — diz Jason lá da mesa, sem desviar os olhos do seu laptop. — A menos que queira ganhar um olho roxo. — Na verdade, fique bem aqui. — Isis empurra um monte de coentro na minha direção. — Lave as mãos e pique isso para mim. — Em seguida, ela lança um olhar tão intenso para Jason que, finalmente, ele olha para ela. Ao entrar no apartamento, notei algumas caixas desconhecidas empilhadas na sala, e tenho certeza de que já sei o que está por vir. Jason pega a cerveja ao lado de seu laptop e toma um gole, pensativo. Ele a coloca de volta na mesa. — Isis vai se mudar para cá. Vai rachar o aluguel. Tradução: você deve encarar isso numa boa, porque não é tão diferente de como as coisas são atualmente e, além disso, vai diminuir suas despesas mensais em algumas centenas de dólares. — Jason! — Isis joga um pano de prato nele, que cai em seu ombro, mas ele sequer pisca. Meu colega de apartamento é o cara mais descontraído da face da Terra. —Você devia perguntar se para ele estava tudo bem — repreende ela. — E não apenas informá-lo. Jason olha para mim, e nós dois sabemos que está tudo bem. Mais do que bem. Gosto de estar com eles. Isis é uma aspirante a escritora de romances de terror, cheia de tatuagens e mechas cor-de-rosa no cabelo. Jason jogava no meu time de futebol. A gente dominou os campos por alguns anos, como laterais esquerda e direita, mas ele se formou um ano antes de mim. Agora está cursando o segundo ano da faculdade de medicina na UCLA, a caminho de tornar-se médico numa sala de emergência. De longe, eles parecem um casal supernormal. Mas é só começar a ouvir os dois conversando sobre vísceras e fluidos corporais com uma verdadeira paixão desenfreada para perceber que foram feitos um para o outro. Depois que tudo terminou com Alison, observar o relacionamento dos dois me ajudou muito. Jason e Isis são, acima de tudo, grandes amigos, coisa que Alison e eu nunca fomos.


— Não tem problema nenhum, Isis. Sério. — Faço um gesto amplo, indicando nosso pequeno apartamento. — Bem-vinda ao nosso humilde lar. — Tem certeza mesmo? — Ela vai até o fogão e mexe a carne moída. — Não quero que você se sinta pouco à vontade com a minha presença. Esta é a sua casa. — Ah, consigo lidar com ter que abaixar sempre a tampa do vaso. — Estava me referindo a trazer garotas para cá. Esse tipo de coisa. Jason ri. — Ah, sim, ele parecia muito pouco à vontade ontem à noite. Muito inibido. — Ele fecha o laptop e sorri para mim. — Qual foi a parte mais difícil, E.? Foi se agarrar com Mia na frente de um bar lotado ou bagunçar o apartamento com as roupas um do outro? Recebo aquelas frases com total fascinação. — Será que poderia ser mais específico sobre o que você viu? Ele me olha com desconfiança. — Fala sério... Está me dizendo que realmente não se lembra de ontem à noite? Você apagou mesmo? — É o que estou dizendo. Jason dá uma gargalhada aguda. — Que tragédia, cara. — Eu sei. Acho que posso estar traumatizado. Percebo então que descontei minha frustração no coentro, que foi triturado ao ponto de virar uma gosma verde. — Gostei dela — diz Isis ao tirar a carne moída do fogo. — Não tivemos muita chance de conversar, porque você estava monopolizando a boca da menina, mas ela parecia legal. Vocês vão se ver de novo? — Aham. A gente vai se ver amanhã. E depois. E no dia seguinte. Ela trabalha comigo. Isis contém um grito de espanto. Sério? Tá bom, agora preciso saber de tudo. Enchemos nossos pratos de comida e nos sentamos à mesa. Enquanto devoramos os tacos, conto a eles tudo o que aconteceu na Boomerang. Depois, quando já estou comendo alguns cookies de chocolate quentinhos, Jason e Isis começam a rir da bizarrice dessa história toda, e me sinto melhor nesse momento do que me senti o dia todo. — Nossa. Isso sim é que é se abrir completamente — comenta Isis, quando conto sobre os questionários que eu e Mia preenchemos. — Pode ficar sossegado, meu amigo — diz Jason. — Você e Mia foram até os finalmentes. A gente foi praticamente testemunha disso no Duke’s. Pode considerar que você já transou com dez garotas. Isis estica a mão para pegar outro cookie. — Não sei, não. Concordo com Mia nessa parte. Acho que vocês não foram até o fim. — Vou tentar não encarar isso como uma afronta pessoal — retruco. — E não devia mesmo — diz ela de boca cheia. — Suas habilidades masculinas ficaram mais do que evidentes na noite passada, E. Você foi sensacional. Fiquei muito impressionada. Jason olha de cara feia para ela, de brincadeira. — Que história é essa, Isis? — Quer dizer, impressionada de forma objetiva. Como uma espectadora completamente imparcial. — Papo encerrado garota. — Jason faz o gesto meus olhos/seus olhos. — Você e eu. Habilidades masculinas. Mais tarde.


— Tudo bem, doutor do amor, conte com a minha presença — diz ela, antes de se virar para mim. — Mas, enfim, que importância tem se você e Mia transaram ou não ontem à noite? — Está falando sério? — O que quero dizer é que vocês trabalham juntos. Sua história com ela está longe de ter terminado. — A parte divertida terminou. Ela está fora de alcance. Política da empresa. Recebemos uma advertência daquelas para manter nosso relacionamento no âmbito estritamente profissional. — O que você acha, Spicy? — pergunta Jason, chamando-a pelo apelido que inventou para ela. — Quanto tempo você dá para nosso garotão aqui se comportar de maneira não profissional? Isis para de mastigar e olha para mim como se tivesse acabado de desenvolver um olhar de raio X. — Duas semanas. — Tem certeza absoluta? — pergunta Jason. — Apostaria vinte dólares? — Quarenta. E vou redecorar o apartamento quando eu ganhar. — Negócio fechado — diz Jason, e eles chegam até mesmo a trocar um aperto de mão. — Não vai rolar, crianças — retruco. — Sou um cara de palavra. E não posso me dar o luxo de me queimar nesse trabalho. Em seguida, termino minha cerveja e jogo a garrafa e nossos pratos de papel no lixo. — Valeu pelo jantar, roomate — digo a Isis. Mas, mesmo enquanto saio da cozinha, a discussão deles continua. — Eu vou perder, né? — diz Isis. — Vai — responde Jason. — Ele não vai aguentar nem uma semana. — Você não presta, Jason! — grito por cima do ombro. Fecho a porta do meu quarto, abafando o som de suas risadas. Então arranco minhas chuteiras e pulo na cama, de cabeça. Meu travesseiro está com um leve cheiro doce e floral. Talvez de lilases ou violetas? De uma coisa tenho certeza: não é o meu cheiro. A imagem de Mia sorrindo para mim no banco de trás do táxi invade minha mente. Depois me lembro dela sorrindo na mesa do escritório. Então deixo minha imaginação correr solta, e a visualizo bem aqui, nua embaixo de mim, seus cachos escuros espalhados ao redor do rosto. Ainda sorrindo. Pronta para mim. Que merda. Talvez Jason tenha razão.


Capítulo 11 Mia P.: O cara ou as amigas em primeiro lugar?

Estou no chuveiro, raspando as pernas e traçando minha estratégia para o dia, quando Skyler entra como um furacão e se senta no vaso para fazer xixi. — E aí, como andam as coisas lá? — pergunta ela. Espio pela lateral da cortina da Hello Kitty e a vejo toda esparramada, com uma camiseta, o short vermelho abaixado até os tornozelos e uma cópia da Vanity Fair aberta no colo, segurando um pó compacto e um delineador. — É sério, Sky? — O que foi? Sou multitarefa. — Ela afasta seu cabelo louríssimo e passa o delineador ao redor dos olhos. — Além disso, segurar pode fazer a pessoa ter uma infecção urinária. Termino uma das pernas e espirro espuma de barbear com aroma de lavanda na outra. Sinto como se esse momento se enquadrasse na categoria dos momentos em que existe informação demais. — Fala sério, a gente está vivendo numa grande festa da vulva aqui. Você não vai ficar toda cheia de dedos comigo agora, vai? Antes que eu perceba, Beth também entra no banheiro. — Festa do quê? — pergunta ela. — Ai, meu Deus — gemo. Beth enfia a mão no chuveiro para balançar suas unhas com esmalte prateado para mim, então vejo sua silhueta se movimentar para a frente e para trás na pia. As luzes do banheiro ficam mais fracas, o que quer dizer que ela ligou os bobs térmicos. — Falando nisso — diz Sky. — Você está planejando quebrar umas regrinhas com o Sr. Atleta McGostosão? Eu havia contado para elas sobre meu primeiro dia no trabalho e sobre a política rígida de não envolvimento de Adam Blackwood. Tudo isso tornou a perspectiva de um futuro envolvimento com Ethan ainda mais sedutora para as duas do que para mim. O futuro é meu, mas a diversão é delas. — Não, nada de quebrar regras. — Desligo o chuveiro e puxo a cortina. — Além disso, não acho que ele esteja tão a fim de mim assim. Toalha — acrescento, e Sky passa por cima da cortina uma toalha de banho azul-claro. — Muito bem — diz Beth. Durante o tempo que levo para me secar e sair da banheira, ela já enrolou metade do cabelo nos bobs. — Porque todos os caras odeiam garotas inteligentes e bonitas com peitos grandes. — Não estou dizendo que ele me odeia — retruco, tentando afastar o fantasma do meu namoro com Kyle, que foi do tipo termina-volta-termina-volta-de-novo-ai-quero-morrer. — E, de qualquer maneira, não tem importância. Eu quero terminar meu filme e quero esse emprego. É uma oportunidade incrível, e um jeito de entrar nesse meio. — Ele também é — insiste Beth. — Uma oportunidade incrível, quer dizer.


Ela termina de enrolar o cabelo, depois pula na bancada do banheiro e começa a pintar as unhas dos pés. — Existem outros caras. — Desde quando? — pergunta Sky, puxando, finalmente, seu short para cima e dando descarga. Vai até a pia, e Beth tira os pés do caminho para que ela possa lavar as mãos. É uma coreografia muito impressionante para um lugar tão pequeno. — Desde quando o quê? — Desde quando existem outros caras? — Ela se vira para mim e se inclina para trás no balcão, de braços cruzados. — Você está deixando esse cuzão do Kyle transformar você na Srta. Havisham. Dou risada. — Não sou a Srta. Havisham. Para início de conversa, não tenho um vestido de casamento mofado e velho. — Pode rir, mas você continua deixando isso abalar você. Sinto vontade de discutir, mas, como sempre, é como se ela lesse minha mente. Não acho que a questão seja Kyle. Não exatamente. Nós nunca formamos um bom casal, porque ele não tinha nenhuma paixão. Nem por mim, nem por coisa alguma. Mas há outra coisa, algo que me deixou hesitante durante o ano passado inteiro, algo que está sempre me irritando: um sutil desgaste da minha vontade de me jogar no mundo novamente. O vidro ondulado da janela do banheiro ganha um tom de laranja quando o sol alcança a lateral do nosso prédio. É melhor eu me apressar. — Você sabe — digo, surpreendendo a mim mesma. — É a situação toda. Não quero ter que lutar por nada. Não quero ter que me esgueirar por aí, nem provar que eu valho a pena a ponto de fazer alguém quebrar as regras, entende? Quero um cara que simplesmente me queira e ponto, sem ter dúvida alguma. E quero querer ele também. E deixar rolar. Não digo o resto: que quero o tipo de amor que parece uma flechada; profunda, inevitável, enaltecedora. É muito cedo para poesia, e essa conversa já está me fazendo sentir boba e chorosa. Quero esse emprego. Quero fazer meu filme. E não quero ninguém que não sabe se me quer ou não. Simples, né? Quando chego à Boomerang com vinte minutos de antecedência, encontro a cadeira de Ethan ainda vazia e me dou um presunçoso tapinha imaginário nas costas, parabenizando-me por ter chegado antes dele. Guardo minha bolsa, ligo meu tablet e fico ali sentada, encarando o espaço que ele logo vai ocupar e lembrando a mim mesma de que devo tratá-lo como um colega, nada mais. Giro na cadeira, e algo nesse movimento me traz um feixe de memória: eu girando no banquinho do bar, minha perna roçando a de Ethan, um frio na boca do meu estômago. Sinto o gosto de Sambuca nos lábios e me inclino em direção a ele, minha mão sobre sua coxa, meu rosto perto do dele, e um beijo, leve e quente, bem ali no meio do bar lotado. Tenho a lembrança de me afastar e de ele olhar para mim com aqueles olhos muito azuis, os cílios longos e escuros, o rosto alegre, surpreso e divertido. Quer dizer que fui eu que tomei a iniciativa. Mandou bem, Mia. — Agora, sim, estou vendo a convicção que eu queria ver. Ergo o olhar e encontro Adam Blackwood encostado na longa bancada da cozinha, todo engomado e trabalhado no luxo e no brilho, o terno cinza feito perfeitamente sob medida. Como pode alguém tão jovem, só um ano mais velho do que eu, parecer que já nasceu vestindo Armani? — Obrigada. — Droga, não quero deixar a lembrança escapar, mas, relutantemente, é o que faço.


— Eu, hã, mal podia esperar para começar a trabalhar. Mandou bem, Mia. — Excelente! — Ele pontua o comentário batendo uma palma. — Estamos reunidos na sala de reunião. Quer se juntar a nós? Quanta recompensa por ter chegado cedo. — Lógico. — Ótimo. Pegue seu tablet e me encontre lá. Vou reunir os suspeitos de sempre. Ele se afasta. Então junto minhas coisas e passo pelo seu escritório a caminho da sala de reunião. As paredes são de concreto e têm um tom verde-musgo opaco e um bumerangue de cromo brilhante serve como maçaneta da porta. Abro a porta e me vejo encarando uma sala lotada. E um quadro do tamanho da parede de uma pin-up desconstruída — uma mandala abstrata de cabelo escuro e pele morena, usando salto alto vermelho, cerejas e chapéus de marinheiro. É mais uma estampa do que um retrato, mas reconheço a artista e o tema. Porque é uma obra da minha mãe. E aquela pin-up? Sou eu.


Capítulo 12 Ethan P.: Seguidor ou líder?

– Obrigado pela presença, pessoal. Adam ocupa o lugar na cabeceira da mesa de reunião. Ele tem um sorriso tão genuíno que quase se poderia pensar que ele não nos paga, nem à sua equipe de marketing, para estar à sua disposição assim que estala os dedos. Na verdade, ele não me paga para estar à disposição assim que estala os dedos, mas isso vai mudar. É só o segundo dia do meu não trabalho, mas me sinto cem por cento melhor do que ontem. Dormi um pouco, tenho dinheiro na carteira, e, com Isis se mudando para o apartamento, talvez eu consiga fazer a grana que meu pai me mandou durar até o final de agosto, quando termina o estágio. Outro ponto positivo foi descobrir que Rhett mora em Brentwood, a apenas cinco minutos do meu apartamento. Agora tenho carona para ir e voltar do trabalho todos os dias, por isso, adeus bicicleta estradeira. E daí se Rhett é um incômodo para meus ouvidos? As coisas estão começando a se encaixar. Tenho um plano, e ele vai dar certo. Descolar esse emprego, pagar parte do meu crédito estudantil e me candidatar à faculdade de direito. E toda essa situação com Mia vai se ajeitar. Olho para a direita e analiso rapidinho seu perfil. Olhos verdes. Cabelo bagunçado, escuro, com cachinhos por toda parte, queixo e nariz finos. Ela é mais bonita do que eu lembrava, e me lembro de ela ser muito bonita, mas isso é irrelevante agora. Ela não vai me importunar. Não vai me impedir de alcançar meus objetivos. Seu cheiro — de violeta, tenho quase certeza — nem é tão distrativo assim. — Reuni todo mundo aqui para falar sobre a DateCon — continua Adam —, a maior feira de convenções do nosso ramo, que vai acontecer em Las Vegas nos dias... — Olha para a agenda na frente dele. — Quando que vai ser este ano, Cookie? — Na terceira semana de agosto, no Mirage. Como sempre — responde Cookie, com uma voz que soa como uma queimadura de gelo. O visual inteiro dela é meio ártico. A camisa azul-claro que ela está vestindo tem uma gola irregular que parece quase tão afiada quanto seu cabelo espetado, e sua maquiagem foi feita em camadas grossas de tons prateados. Ela parece um dos malucos da capital de Jogos Vorazes. — Sim, agosto. Isso mesmo — diz Adam. — Dessa maneira, temos oito semanas para nos preparar para o que quero que seja nossa melhor feira até hoje. Para isso, vou dobrar seu orçamento este ano, Cookie. Quero um novo estande. Quero uma festa. E quando falo em festa, quero dizer a melhor festa da feira. Quero que todos os participantes da DateCon só falem de um site de relacionamentos: Boomerang. — Só isso? — pergunta Cookie. Não sei como ela se safa dizendo essas coisas. Será que Adam está transando com ela? Mas, quando comparo a atitude despreocupada dele com a frieza de Cookie, esse não me parece ser o caso. Além disso, Adam me passa a impressão de ser o tipo de pessoa que pratica o que prega.


— Não, tem mais — responde Adam. — Vou convidar nossos investidores para a feira. Este ano faremos nossa reunião anual lá, e sei que ainda é muito cedo para qualquer promessa, mas estou pensando em abrir o capital da Blackwood Entertainment ano que vem, por isso é fundamental que tudo saia na maior perfeição. Quero que vocês deixem os investidores boquiabertos. Ele faz uma pausa e lança um olhar descontraído ao redor da mesa, o qual tem dez vezes mais impacto do que o olhar gelado de Cookie. Adam quer excelência, e isso me dá vontade de corresponder às suas expectativas. — Certo — continua ele. — Cookie vai cuidar desse assunto, então... Rhett abre a porta da sala de reunião. — Desculpe, Adam, mas preciso falar com você. — Já vou. — Ele se levanta e sorri. — Isso é importantíssimo, gente. A Boomerang está prestes a deslanchar e assumir a liderança do mercado. E, quando isso acontecer, todo mundo aqui vai se beneficiar. Preciso que todos vocês se joguem de corpo e alma e façam dessa feira a melhor de todos os tempos. Quando ele sai, Cookie assume a liderança. — Sadie, você está responsável pelo planejamento da festa. Não avacalhe tudo, está bem, querida? A parte de logística e programação no local da conferência fica com você, Paolo. Se fizer um bom trabalho, pode ser que eu dê uma palavrinha a seu favor no Serviço de Imigração. A organização das viagens e dos mimos para os investidores fica a seu cargo, Vanessa. Você é uma puxa-saco de mão cheia. É sua chance de se superar. E o redesenho do estande vai para caféspequenos: Mia e Ethan. É isso aí! Agora ao trabalho. Os membros da equipe se dispersam um para cada lado, como bolas de sinuca após uma tacada matadora, e desaparecem pelas portas, mas Mia e eu somos mais lentos. Fico repassando na minha cabeça o que Cookie disse, para ver se faz mais sentido. Então Mia se levanta da cadeira. — Cookie, você tem um minuto? Cookie sustenta a mão sobre a maçaneta da porta em formato de bumerangue. Quando sua cabeça se vira lentamente para Mia, fico tenso, com vontade de me jogar na linha de fogo para protegê-la. — Posso fazer o redesenho do estande sozinha — diz Mia. — Quer dizer... todas as outras tarefas foram delegadas a apenas uma pessoa. Ela tirou as palavras da minha boca. Eu estava justamente indo atrás de Cookie para dizer a mesma coisa. Quero uma chance para brilhar. Como vou provar que sou eu quem merece este emprego se Mia e eu fizermos as mesmas atribuições juntos? Cookie leva um segundo para colocar um soco-inglês e lançar um jato rápido de veneno. — Você não é uma pessoa. É uma estagiária, café-pequeno, e ele também. — Ela me lança um olhar. — Juntos, num dia muito bom, talvez os dois possam se equivaler a um funcionário competente. Meu Deus do céu. — Peça um cartão de crédito empresarial a Rhett — acrescenta ela. — O nosso estande está no vale. Na Winning Displays. Vou supor que vocês dois sejam inteligentes o suficiente para encontrar sozinhos. Quero planos e um orçamento até amanhã de manhã. Vão logo e façam a coisa acontecer. — Pode deixar — diz Mia. — Vamos cuidar de tudo. Tenho que admitir. A menina é boa. Ela se mantém firme sob pressão. Cookie bufa de desdém. — Isso é o que vamos ver.


Não sei se é o jeito que ela está tratando Mia ou simplesmente uma burrice que me invade, mas alguma coisa está fervendo dentro de mim. — Ei, Cookie. Espere um segundo. — Enfio a mão na minha bolsa carteiro e tiro uma marmita de plástico. — A garota que mora comigo fez esses cookies ontem à noite. Achei que você poderia gostar. — Estendo a marmita para ela. — É para você. Ela olha para mim como se eu tivesse acabado de lhe oferecer um monte de bosta em vez de cookies com gotas de chocolate. Em seguida, abre a porta e sai, pisando firme. — Você está querendo morrer? — pergunta Mia baixinho, enquanto seguimos até a sala de Rhett. — Queria ver o que ela ia fazer. — Queria ver a realidade nua e crua? — questiona ela. — Exatamente. Pensei que, se ela me agredisse, talvez eu conseguisse uma oferta de emprego fixo no acordo de conciliação. Você sabe, com coisas bacanas como benefícios e salário. — Hum. Usando táticas de guerrilha, é isso? — Dá pra me culpar? — Não. Pensei que ela fosse me estripar ali mesmo. — Achei que ela fosse arrancar meus olhos e dá-los de comer aos corvos. Mia para bem na frente da porta da sala de Rhett. Ela fica nas pontas dos pés e se aproxima, olhando no fundo dos meus olhos. — Bem, você está com sorte. Parece que eles ainda estão lá. O que ainda está lá é minha atração por ela. Meu coração se acelera, e não consigo desviar o olhar. Vejo a mesma riqueza em seus olhos que vi ontem, no táxi, e minha mente se enche de perguntas. Quero saber mais sobre seu filme e sua família. Quero lhe dizer que meu forno elétrico está com saudades da calcinha dela. Alguém vem pelo corredor e Mia resolve sair da ponta dos pés, mas eu ainda estou fissurado. Vamos lá, Vance. Interrompa o contato visual. Você consegue fazer isso. Consigo, e meu olhar recai em seu sorriso sexy de soslaio, e, em seguida, move-se mais para baixo, e eu a imagino como estava no meu apartamento. Nua. Que maravilha, Ethan. Grande melhoria. Atrás de mim, ouço a porta do escritório de Rhett se abrir. Eu me viro no mesmo instante em que Adam sai. — E aí, Ethan! — chama Rhett de sua mesa. — Acabei de contar a Adam que estamos treinando juntos. Mia vai para o meu lado. — Vocês dois se conhecem? — pergunta. — De antes da Boomerang? — Não... a gente não se conhecia. Sei a impressão que isso deve ter causado nela, como se eu fosse um puxa-saco. Talvez eu seja mesmo, mas só porque preciso dos serviços de chofer de Rhett. — Ouvi dizer que você é muito bom. — Adam se apoia no batente da porta, enfiando as mãos nos bolsos. — Quatro anos na UCLA. Rhett me contou sobre suas proezas por lá. Estou impressionado. — Obrigado. Foi uma época boa. Resisto ao desejo de ver a reação de Mia. Isso está prestes a se tornar constrangedor. Não tenho problema algum em me gabar nos esportes, mas usar isso para impressionar seu chefe é golpe baixo. A voz do treinador Williams surge na minha cabeça. Quando se trata de mostrar o seu talento, o olho vale mais do que o ouvido: não diga que você é bom, mostre. Isso também se tornou minha estratégia.


— Você ainda joga? — pergunta Adam. — Só uma partida aos sábados com alguns dos caras que ficaram por aqui e com quem mais quiser participar. — Ei! — diz Rhett. — Vocês vão me deixar jogar nesse fim de semana. Não é, E.? Luto contra a vontade de esganá-lo. Só meus amigos mais próximos me chamam de “E.”, e não quero jogar futebol com Rhett nesse fim de semana. Mas, com Adam ali, a possibilidade de acabar com a alegria dele é nula. — Claro, Rhett. — Eu também costumava jogar um pouco — conta Adam. — No meio-campo. Ao contrário de Rhett, Adam é legal demais para se convidar para o jogo sábado, mas noto uma centelha em seus olhos que me diz que seu espírito competitivo se acendeu. Ele está a fim de jogar. Agora quem está impressionado sou eu. Quem acha que pode jogar com gente do nível semiprofissional do futebol universitário ou é corajoso para caramba ou é um idiota. Entre Adam e Rhett, parece que as duas coisas são verdade. — Pode vir também, Adam. Quando quiser. — Obrigado — diz ele, dando um tapinha no meu ombro ao sair. — Conte comigo no sábado.


Capítulo 13 Mia P.: Você aguenta a pressão?

Percorro

um longuíssimo trajeto de elevador até o estacionamento, e nesse meio-tempo vou ensaiando mentalmente e depois rejeitando uma série de comentários sarcásticos que estou morrendo de vontade de fazer. Tipo: “Como é a visão dentro do saco de Adam Blackwood?” e “Você e Rhett lambem o saco um do outro?” Mas mantenho os lábios contraídos e os olhos fixos no painel do elevador. Por um lado, Ethan parecia com vontade de rastejar para fora da própria pele e bater em Rhett, o que me diz que ele não está exatamente atrás do cara. Por outro, não estou brava com Ethan, mas com toda aquela vibe masculina de vamos-tomar-umas-cervejas-depois-de-suar-jogando-bola. Tenho a graça atlética de um filhote de cachorro que toma ritalina, então nunca vou me conectar com Adam nesse nível. O que significa que tenho de encontrar outra arena, algo que seja meu. Isso me faz lembrar do quadro na sala de reunião. O qual, por acaso, sei que foi vendido em leilão a uma quantia que provavelmente equivale a uma década de salários trabalhando nessa empresa. Então Adam leva a sério esse lance de colecionador. E curte o trabalho da minha mãe. Pensar em usar isso para ter vantagem na disputa me deixa com um peso na consciência, mas guardo essa opção — para emergências apenas, é claro. Quero conseguir o emprego por mérito próprio, sem pegar carona no trem expresso Pearl Bertram. Caso contrário, não haveria desafio. E pior: nenhuma satisfação se eu ganhar. Quando eu ganhar, na verdade. As portas do elevador se abrem e entramos no luxuoso estacionamento. Os odores de asfalto escaldante e gasolina chegam a mim, um perfume que, por mais estranho que seja, eu adoro. — Então, o que estamos procurando? — pergunto, avaliando as filas e mais filas de Lexus e BMW. Imagino que Blackwood tenha um carro veloz, tipo um Aston Martin ou um Bugatti. Ele parece ser um cara que gosta de velocidade. Mas será que escolheria algo assim para o carro da empresa? Não faço ideia. O cabelo de Ethan se agita com a brisa, revelando uma pequena cicatriz em forma de meia-lua sobre sua sobrancelha esquerda. Há algo de infantil e cativante nela. Mas sua expressão vazia me diz que ele não tem a menor consciência disso. Ele enfia a mão no bolso da calça para pegar a chave — a chave do manobrista, que ele segura na palma da mão aberta para minha inspeção. — Nossa, uma chave de manobrista. Estou emocionada com a confiança que Cookie tem na gente — digo, pegando a chave. — Bem, sabemos que é um Toyota. — Ainda bem que ninguém em LA dirige um desses. — É. Ainda bem. Ficamos ali por um tempo, olhando para as inúmeras filas de carros que se estendem até os recessos sombrios dos fundos da garagem cavernosa.


Dou voz ao impensável: — Será que é melhor a gente subir de volta e perguntar? — Claro, com certeza acho que seria melhor fazer isso — diz ele, esticando o braço em direção à porta do elevador. — Você vai na frente. — Por que tenho a impressão de que você vai me enfiar lá dentro e fazer uma barricada para me impedir de sair? — Assim você me magoa, Cachinhos. De verdade. Olho para ele, para aqueles olhos azuis ao mesmo tempo elétricos e insondáveis, com leves rugas nos cantos externos. As sombras da garagem acentuam os contornos do seu rosto, fazendo com que ele pareça mais velho e mais ridiculamente lindo — como um vislumbre do homem que ele vai ser daqui a dez anos. — Algo me diz que você vai sobreviver — retruco. Virando-me de volta para as fileiras de carros, digo: — Será que a gente não pode simplesmente, tipo, sair por aí enfiando nossa chave em todos os Toyotas? — Podemos, desde que você não se importe em ficar aqui até terça que vem. — Ele me surpreende agarrando minha mão e me puxando de volta para o elevador. — Vamos lá, vamos fazer isso juntos. De brincadeira, enfio o salto alto no chão e o puxo para trás. — Ah, meu Deus, não me obrigue a enfrentar isso... aquele monstro de novo! Ela tem uma lista de vitórias malignas com dois quilômetros de extensão. Não posso, não vou! — Cadê sua coragem, cara? — brinca Ethan, dando outro puxão que me lança na direção dele. No instante seguinte, estamos brigando e rindo. E ele está tão perto de mim que sinto seu calor, a energia de seus músculos. Tento pegar a chave de volta da mão dele, mas ele a segura cerca de dois quilômetros acima da minha cabeça. — Vamos, Cachinhos — provoca Ethan. — Tente pegar aqui. — Você vai se dar mal. Dou um salto suicida e alcanço a chave, mas quando me viro, ele me agarra com firmeza pela cintura. Tento me esquivar, mas estou fraca de tanto rir. — Me solte, seu idiota, senão vou alimentar aquele Yeti monstruoso com seus ossos. A porta do elevador se abre e revela Cookie, cujos olhos irradiam cerca de mil quilowatts de puro ódio em nossa direção. — É o Solara vermelho, seus imbecis — diz ela, e as portas se fecham na sua frente com uma rapidez mágica, como se o mal tivesse uma velocidade especial. Ethan me deixa dirigir, o que é uma surpresa, porque nenhum cara nunca me deixa dirigir. Abaixamos a capota e apreciamos a clareza dourada da tarde de Los Angeles, a agitação das palmeiras. Lá fora está cheirando a alcatrão e madressilva, e meu cabelo se solta da trança e chicoteia ao redor do meu rosto. Sei que serei uma visão aterrorizante quando chegamos ao nosso destino, mas não me importo. O sol aquece minha pele. A estrada 405 está milagrosamente livre e nós seguimos para um destino real. Grito acima do rugido do motor e da vibração da minha blusa balançando ao vento: — O que você está pensando como tema? — Tema? Ethan está sentado com os olhos fechados, o rosto voltado para a luz solar. Há tanto contentamento


em seu sorriso que me sinto quase culpada por falar sobre trabalho. — Sim, para o estande. Para a feira. Como queremos que seja o projeto? Ele se empertiga e aperta os olhos para me ver melhor, protegendo-os com uma das mãos. — Que tal um tema esportivo? Tipo: “Se jogue. Manda ver.” — Eca. — Ah, por favor — insiste ele. — Não somos o eHarmony. Não se trata de compromissos para a vida toda. Não tem nada de errado com um pouco de diversão. — Eu sei, mas... — E a empresa se chama Boomerang. Já é uma coisa esportiva. Que tal: “Jogue com afinco e se jogue em outra?” — Está bem, isso é pior ainda. — Tento prender meu cabelo para olhá-lo de cara feia, mas não adianta. — E o que exatamente seria essa “outra” no slogan? Ele sorri. — Você sabe. — Não, senhor, não sei, não. Porque me parece que você está falando das mulheres. Tipo: “Use-as e depois jogue-as fora, meninos.” — Você viajou nessa — protesta ele. — É se jogue em outra parada. Tipo, parta para outra. Vale tanto para homens quanto para mulheres. Você também pode se jogar em outra. Dou risada. — Então, essa é a imagem que queremos passar para nossos investidores? De relacionamentos baseados no sexo que jogamos para o alto de repente? — É genial. Pense só. Mas agora é sério: por que não algo relacionado a esportes? — Não sei — digo. — Parece superficial ou... Sei lá. Nem todo mundo vê isso como um jogo. — Mas é isso que Blackwood está vendendo, não é? Recreação? O que está em jogo é o fato de se divertir e depois... lavou está novo, não é? Amanhã tem mais. A frieza súbita domina seu tom de voz, e me pergunto se ele está pensando na menina, seja lá quem ela era. Aquela que o fez viver um inferno por dois anos. Saímos da rodovia e seguimos por algumas ruas residenciais estreitas. Ficamos em silêncio, enquanto atravessamos as sombras salpicadas pelo sol das copas das árvores intrincadas. — E que ideia você teve para o tema? — pergunta ele em voz baixa. — Bem, é claro que eu adoraria fazer algo relacionado a cinema. Alguma coisa engraçada, talvez. Tipo, se Annie Wilkes tivesse usado a Boomerang, talvez as coisas não tivessem chegado ao ponto que chegaram no filme Louca Obsessão. — Certo — diz ele. — Ou talvez o capitão Ahab tivesse perseguido, sei lá, uma baleia e um golfinho. Espalhado o amor por aí. Acho graça. — E você age como se só soubesse de esportes. — Então, se entendi o que você quer dizer, Cachinhos, é saudável namorar muito e a monogamia torna a pessoa perigosa. Pelo menos para os escritores e para as baleias. É isso? Sinto uma pontada de alguma coisa... Melancolia, talvez, mas dou um sorriso mesmo assim. — Mais ou menos. O GPS nos conduz por uma fileira de armazéns até uma placa no formato de um polegar para cima onde se lê “ESTANDES INNING” em uma fonte bem anos 1970, em forma de bolha. Paro a poucos metros da porta da frente, que é revestida com uma camada descascada de verniz UV. — Está vendo só? — pergunta Ethan, saltando do carro antes de eu tirar a chave da ignição. —


Inning Displays. É um sinal. Innings são do beisebol. O tema dos esportes ganhou. — É um sinal de que Cookie é mais louca do que pensávamos. Saio e me esforço ao máximo para suavizar a nuvem maluca em que se transformou meu cabelo. Em seguida, passo uma rápida camada de batom e certifico-me de que todo o resto está mais ou menos no lugar. Gostaria de saber se Ethan se sente como eu às vezes. Como se eu estivesse brincando de ser adulta. Fingindo estar confiante em situações totalmente estranhas. Dentro do prédio, estende-se linha após linha de mostruários, cada um com um tipo diferente de estande e uma sinalização elaborada. O cara desleixado com alargadores na orelha e costeletas espessas que está atrás de um balcão circular na recepção murmura um cumprimento mais ou menos na nossa direção. — Candy já vai atender vocês — diz, e aponta para um sofá de couro macio, que prontamente me engole inteira. Eu me ajeito com esforço e me sento na borda. Depois de alguns minutos, uma mulher loura muito alta vem batendo o salto alto em nossa direção, vociferando ameaças às pessoas enquanto passa. Ethan a observa com os olhos arregalados. — Não. Não pode ser... Será que é... — Você não acha que... — Mas não consigo sequer me obrigar a processar o que estou vendo. Ela se aproxima de nós e ficamos de pé num pulo, como soldados flagrados dormindo durante uma vigília. — Então vocês são da Boomerang? Ela aperta minha mão e a sacode com uma precisão mecânica, depois faz o mesmo com Ethan. — Sim, nós... — começa a dizer ele. — Estão atrasados — vocifera a mulher. — Minha irmã me disse que estariam aqui às onze. Ela gira como se estivesse numa banda militar e se afasta de nós. — Ai, meu Deus — sussurro. — Cookie e Candy. Nunca na história da procriação foram dados dois nomes menos adequados a uma dupla de seres humanos. — Vocês sabem que deveriam estar me seguindo, não é? — dispara Candy por cima do ombro. — Achei que não precisaria dizer isso com todas as letras. — Desculpe — digo. — Estamos indo. Nós apertamos o passo para alcançá-la e chegamos perto o suficiente para ouvi-la murmurar, entre dentes: “imbecis”.


Capítulo 14 Ethan P.: Lençóis de algodão ou de cetim?

Mia e eu seguimos Candy, indo dos estandes de baixo aos de alto orçamento, que ficam nos fundos. Passamos diante do estande de uma fabricante de bronzeador, o qual tem um escorregador que aterrissa em uma piscina de paredes transparentes, um estande cujas laterais são feitas de pedra, e, em seguida, outro com uma cozinha gourmet completamente abastecida. Quando chegamos a um quarto completo, com lençóis de cetim brilhantes e flores falsas nas mesinhas de cabeceira, eu me inclino para Mia e sussurro em seu ouvido: — O que você acha? São nossos concorrentes? — É de um distribuidor de colchões, babaca — diz Candy por cima do ombro. Em seguida, ela para e indica o estande à nossa direita. — Este foi o de Blackwood no ano passado. Analiso a mobília branca e a iluminação embutida. Tem um balcão branco comprido com computadores, onde suponho que as pessoas entrassem no site e experimentassem a interface dos cadastrados da Boomerang. Acima do balcão, há um grande logotipo roxo retroiluminado da Boomerang. — Nossa. É muito... Aquilo me faz lembrar de um terminal do aeroporto da Virgin America, ou seja, algo que teve o estilo classudo diluído para agradar as massas. Mas não sei ao certo quanto posso dizer com Candy logo ao lado. A boca de Mia se retorce em uma careta. — Sem cor? Sem inspiração? Assinto. — Sim. E previsível. — E genérico. É quase corporativo. — Mia diz aquelas palavras como se fosse uma blasfêmia, e me lembro de ter descoberto ontem que a mãe dela é artista plástica. Fotógrafa. — E nada memorável. — É — concordo. — Já me esqueci do que estamos vendo. Mia balança a cabeça, ficando cada vez mais animada. — Quer dizer, qual é a mensagem que isso passa? — Ela me encara. — Será que alguma coisa nesse estande faz você sentir vontade de se divertir? Será que, nem que remotamente, deixa você num clima sexy? — Não, mas aquela cama, por outro lado... Mia vira a cabeça para o estande do colchão, e seu cabelo cai sobre um dos ombros. — Sério? Mesmo com os lençóis bregas de cetim? — Pois é, mesmo assim! Eles me sugerem uma diversão escorregadia. — O fato de estarmos em um depósito de estandes não detém nem um pouco a minha imaginação sexual. Eu poderia seriamente começar o serviço naquela cama com ela. — O que você acha, Cachinhos? Vamos mostrar alguns órgãos sexuais?


Ela sorri. — Claro, você diz de um jeito que torna tudo muito irresistível... Candy apoia a mão no quadril, num movimento tão rígido quanto uma saudação militar. — Que surpresa agradável — diz ela. — E eu que pensei que nenhum de vocês entendia absolutamente nada sobre concepção de estandes. No fim, os dois são gênios! Ela gira no salto alto e se afasta marchando, tal como Cookie. — Mandou bem, gênio — murmura Mia acusadoramente enquanto nós a seguimos. Ela dá um empurrão no meu ombro de brincadeira, e eu a empurro de volta. E assim recomeçamos. Fizemos isso mais cedo, lá no estacionamento, e meus braços acabaram em torno dela. Não tenho certeza do que acontece exatamente, mas meu corpo parece saltar a cada oportunidade de tocá-la. Da vez seguinte em que ela me empurra, faço um movimento rápido, levantando-a com facilidade por cima do meu ombro. Mia solta o mais ínfimo gritinho, seu corpo se enrijece e fico paralisado, esperando Candy se virar, mas isso não acontece. Nesse momento, alguns pensamentos invadem minha mente. A primeira e mais importante é o fato de que minha mão está tocando a bunda de Mia, que é macia e arredondada em todos os pontos certos, e seu peso é maravilhoso. Segurá-la é maravilhoso. Estou extremamente tentado a fazer uma pausa, ir até o estande do colchão e deitá-la em todo aquele cetim. Em segundo lugar está o conceito de estar flertando com uma garota que tem grande potencial de pegar meu emprego, o que é meio brochante. E a terceira é a câmera de segurança no teto. Estamos fazendo a festa de seja lá quem estiver assistindo. Dou alguns passos, como se a estivesse levando para a cama, até que ela me dá um soco forte nas costelas. Então, com relutância, a coloco no chão. Através da fina seda de seu vestido, sinto suas formas deslizarem entre meus dedos enquanto ela escorrega por todo o meu corpo — a curva de sua cintura, o sulco de sua coluna, os ângulos de suas omoplatas — até ficar de pé. Por um longo instante, nossos corpos ficam se tocando, e não há como esconder a verdade, a verdade física de como eu reajo a ela. Estou duro como aço por causa de Mia, mas sua expressão não é de surpresa. Ela sabe que me deixa excitado. O que vejo em seus olhos é incerteza. Uma espécie de sombra de dor. Constrangidos, nós nos afastamos, olhando para todos os lugares, menos um para o outro. Em silêncio, Mia alcança Candy, mas eu preciso de alguns segundos. Não só para acalmar meu pau, mas porque tenho que controlar minha raiva também. O que eu fiz de errado? Com certeza acabei de passar de alguma espécie de limite. Será que este estágio subiu à cabeça dela? O fato de estarmos competindo? Ou é alguma coisa relacionada ao seu ex? Mas não pode ser isso. Já faz um ano inteiro que ela está solteira. Por que diabos estou remoendo isso, aliás? Eu devia ficar feliz por ela estar me evitando. Eu devia ficar entusiasmado pra caralho com isso. Candy está nos esperando em uma cabine maior que fica depois da esquina, de braços cruzados, batendo o pé. Ela olha de mim para Mia. Provavelmente, percebeu a mudança no estado de espírito entre nós dois, mas não dou a mínima. — Esse é o layout que vamos usar na mostra deste ano — diz Candy, apontando para um grande estande em forma de T. — Blackwood alugou um lugar nos fundos. O que significa que ele vai ter


180 graus de cobertura. Vamos usar a mesma paleta de cores e a mesma mobília, o mesmo visual do ano passado, mas vamos dividir o estande com uma parede, deixando o lounge de um lado e os terminais de computador do outro. Dessa forma, quem se sentir mais inclinado a socializar pode ficar tranquilo, enquanto os que só querem acessar o site podem fazer o login, dar uma olhada e ir embora. Alguma pergunta? Mia e eu nos entreolhamos. — Espere um pouco — diz ela —, você quer dizer que o estande para a conferência já foi planejado? Já está feito? — Não. Ainda não foi pago. Vocês trouxeram o cartão de crédito da empresa, não é? Eu não digo nada. É a única coisa que posso fazer para me impedir de quebrar aqueles estandes de merda nesse exato instante. Mia está em silêncio ao meu lado. O rosto de Candy se abre em um sorriso. — Não acharam mesmo que minha irmã deixaria vocês dois tomarem uma decisão, acharam? Ainda não consigo pensar em absolutamente nada a dizer, e, pelo que parece, Mia também não. — Ah, acharam. — Candy balança a cabeça. — Que bonitinho.


Capítulo 15 Mia P.: Você se senta e lamenta ou resolve o problema?

Paramos em um parque para dividir um sanduíche antes de voltar para a Boomerang. Observo Ethan tirar as folhas de um banco de piquenique para mim, e, com isso, sua camisa se solta do cinto e expõe uma parte de sua pele bronzeada. Ah, Mia, penso. Você está ferrada. Por causa do corpo dele, com certeza: sua solidez elegante, senti-lo encostando em mim. Duro. A sensação de tudo ser exatamente como tinha que ser, molécula a molécula, quando ele me colocou no chão no showroom. Mas posso resistir a um corpo. Estou ferrada por causa do seu sorriso, por causa daquela covinha que se forma quando ele ri, de seus dentes retos e perfeitos, exceto por um incisivo ligeiramente torto. Estou ferrada por causa de suas sobrancelhas grossas, sérias, o nariz angular perfeito, seus olhos que parecem uma poça de chuva. Estou ferrada, acima de tudo, por causa de sua bondade, que se irradia por todos os poros. Sua paixão, quando ele se permite falar sobre aquilo que ama. Porque ele insistiu em me devolver o valor do táxi depois e em pagar nosso sanduíche. Estou ferrada por causa dele, de tudo dele. Meu corpo e meu cérebro estão conspirando contra mim, mas não posso ceder. — O que vamos fazer em relação a esta situação com Cookie? — pergunto, espantando uma mosca que pousou no papel encerado aberto entre nós. Pego minha metade do sanduíche de peru e abacate e abro minha latinha de Coca Diet. O líquido sobe, derramando na minha mão, e lambo o dedo, mas, em seguida, o flagro me observando e isso ameaça me desviar para outro caminho verdadeiramente improdutivo. — Situação? — murmura ele, erguendo o olhar lentamente para me encarar, como se estivesse acordando de um sonho. — É. Cookie. Ela vai dificultar que qualquer um de nós dois consiga esse emprego. Mas não sei por quê. — Talvez um estagiário tenha matado a mãe dela. Eu rio. — Ou a trigêmea que falta. A Cupcake. Ethan dá uma mordida e mastiga, pensativo. Seu maxilar forte se flexiona, e tenho que admitir, esse garoto transforma até o ato de comer em algo estiloso. — Acho que podemos continuar insistindo com ela, tentar amolecer seu coração um pouco. Mas provavelmente precisaremos passar direto por ela e ir falar com Adam. — E dizer o quê? Que o projeto do estande dele é uma porcaria? Ele sorri. — Algo assim. — Finalizando seu sanduíche em mais duas mordidas, ele acrescenta: — Talvez eu é quem devesse falar, Cachinhos. Notei que você tem alguns problemas com diplomacia. — Sim, porque sua jogada com o cookie de gotas de chocolate foi muito impressionante mesmo.


— Uma fruta cheia de sementinhas cai em espiral entre nós dois, e eu a afasto da mesa com um dos dedos. Mesmo tendo sido eu quem trouxe o assunto à tona, de repente me arrependo de estar falando sobre trabalho. — Talvez você possa ir para cima de Adam durante seu jogo de futebol nesse fim de semana. Como Skyler gosta de ressaltar, às vezes tenho problemas para acertar o tom de voz, e essa frase sai mais sarcástica do que eu pretendia. — Ei — diz Ethan, recostando-se. — Foi Adam quem se convidou. Eu não queria que ele fosse. — Por que não? — Retiro a fatia de cima do pão do meu sanduíche e a jogo para dois esquilos que correm por ali, na sombra. — É uma boa estratégia. — Não dou a mínima para isso — diz Ethan, e seu tom frágil combina com o meu. — Não estou tentando criar estratégias. Só quero jogar futebol. Isso é tudo. — Está na cara que você quer mais do que isso. — Como assim? — O emprego. Você quer esse emprego. Dobro a metade inferior do sanduíche e dou uma mordida. De repente, fico faminta. — E você, não? Eu engulo, e o sanduíche desce por um caminho lento e doloroso pelo meu esôfago. Mastigue, Mia. Pelo amor de Deus. — Sim, quero — respondo. — E acho que não tem problema querer. Então, não precisa agir como se cada atitude sua não fosse pensada. Você conseguiu chamar Rhett e Adam pra jogar futebol. Isso é ótimo pra você. Então, só... Bom, não tem problema em simplesmente querer alguma coisa. Isso me faz pensar se eu não deveria ter menos escrúpulos em usar minha mãe como isca. Se me ajudar a conseguir esse emprego, que mal tem? Ele olha para mim e nós ficamos em silêncio por bastante tempo. Pego meu sanduíche, só para fazer alguma coisa. Uma brisa agita a embalagem, que cai da mesa para o chão. Eu me abaixo para resgatá-la, ciente de que as coisas tomaram um rumo realmente estranho — e que fui eu quem as conduzi por esse caminho. Que droga. O que há de errado comigo? Vou até uma lata de lixo, sem conseguir evitar a imagem que se forma na minha mente. Kyle na nossa última noite. A cantina à beira-mar, onde o luar deixava tudo com um brilho mágico, e suas palavras quase desaparecendo sob o barulho insistente do oceano. “Simplesmente não sei o que eu quero, Mia.” Nada disso é culpa do pobre do Ethan, é claro. Inspiro fundo algumas vezes — uma coisa estúpida de se fazer diante de uma lixeira — e volto à mesa. — Desculpe — digo. — Estou sendo injusta. — Não tem problema — retruca ele, e se levanta. Ele sorri, mas o sorriso não chega aos olhos. O que há ali — curiosidade, preocupação — me deixa com vontade de me enfiar em seu bolso e simplesmente morar ali. Kyle me lançava o olhar em pânico de alguém que está procurando ansiosamente por uma saída ao menor sinal emotivo que eu deixasse transparecer. — Quer dirigir na volta? — pergunto, erguendo a chave do manobrista. — Claro. Nós entramos no carro e ele liga o motor. — Vamos dar um jeito. — No quê? — Nessa coisa do estande. Vamos falar com Adam sobre isso quando voltarmos. Juntos.


— Está bem. Ele fica um tempo me olhando e depois tira a gravata e a entrega para mim com um sorriso. — O que é isso? — Pensei que você poderia usar isso para prender seu cabelo — diz ele. — Devia ter pensado nisso antes. Deslizo o tecido de seda por entre os dedos, desejando que Ethan não tornasse tão fácil gostar dele. — Isso é muito gentil. Puxo meu cabelo para trás e o amarro com a gravata. As bordas fazem minha nuca coçar, me dando arrepios. — Pronta? — pergunta ele. Assinto. — Então vamos.


Capítulo 16 Ethan P.: Encontros às cegas: oportunidade de se divertir ou de entrar numa fria?

Isis bate à porta do banheiro. — Estamos indo, E.! Tenha um ótimo jantar com seu novo namorado! — Pegue leve com ele, Spicy — diz Jason. — O cara está em crise. — Sua voz fica abafada e mais alta, como se ele estivesse bem do outro lado da porta. — Ethan, desculpe aí. Mas, ah, quase esqueci. Deixei as flores pra você levar pro Blackwood em cima da mesa da cozinha. Ele mal consegue terminar a frase. Ninguém é mais engraçado para Jason do que o próprio Jason. Ouço sua risada ir diminuindo até a porta do apartamento se fechar, então tudo fica em silêncio. Retiro um pouco de creme de barbear do meu ouvido enquanto observo meu reflexo no espelho. Pareço alguém que está prestes a começar uma briga ou assaltar um banco — e não alguém que vai jantar com Adam. É sábado à noite. Eu devia estar indo para a The Reel Inn comer tacos de peixe e tomar cerveja com Jason, Isis e o resto da galera. Especialmente quando já vi Blackwood e Rhett no futebol de manhã. O jogo foi um sucesso. Adam aguentou o tranco como um campeão e Rhett não morreu de exaustão por causa do calor. Fiz os dois se divertirem pra caramba. Isso não deveria bastar? Coloco a toalha no porta-toalhas e vou para o meu quarto. Numa onda de esperança, pego meu celular na cômoda para ver se Adam cancelou, mas só encontro a mensagem que ele me enviou uma hora atrás. Adam: Preciso que você compareça a um jantar hoje à noite. Passo aí às sete.

O que eu poderia dizer, exceto tudo bem? Confiro o relógio e vejo que tenho dez minutos até ele chegar. Durante meio segundo fico na dúvida se arrumo ou não meu quarto, então me sento na beirada da cama e cerro as mãos em punhos. Por que ele me convidou? O cara já era milionário aos dezoito anos. Não tem um monte de mulher fazendo fila para passar uma noite com ele? E por que me importo? Ele é um cara legal, e este é um sinal positivo para minhas perspectivas de carreira. Quanto mais próximos ele e eu ficarmos, melhores são as minhas chances de derrotar... Ai... Merda. Mia. Uma imagem surge em minha mente. Ela, sorrindo no conversível com minha gravata prendendo seu cabelo escuro. Isso foi terça-feira. A última vez que fiquei sozinho com ela. A última vez que estivemos à vontade um com o outro, antes de surgir mais um obstáculo. Não tem problema em simplesmente querer alguma coisa, dissera ela aquele dia no parque. Precisei de todo o meu autocontrole para não dizer: Você está errada, Mia. Tem problema eu


querer você. Passei a semana toda sentado na frente dela. Descobri que ela abre os sanduíches e torna a fechálos antes de comer. Descobri que ela fala de seus amigos mais do que de si mesma, e de sua família mais do que de seus amigos. Descobri que o filme que ela está fazendo é sobre sua avó, que tem Alzheimer. Descobri que seu cabelo é como uma espécie de barômetro — que prevê muito bem como está seu estado de espírito. E descobri que gosto de tudo nela. Cada. Pequena. Coisinha. De. Merda. Antes que me convença do contrário, procuro seu nome na minha lista de contatos e lhe mando uma mensagem de texto. Ethan: Oi, Cachinhos

Meu coração vai parar na boca enquanto observo a confirmação de que a mensagem foi enviada. Isso foi péssimo. Uma burrice, porra. Estou prestes a deixar meu celular de lado quando a resposta dela chega. Mia: Oi! E aí?

Certo. Hora de inventar um motivo para ter mandado uma mensagem para ela. Ethan: Grandes planos para hoje à noite? Mia: Nada de mais. Noite em família. E você? Ethan: Nada tão emocionante quanto domingo passado. Mia: Quando você se encontrou com Adam no Duke’s, não foi? Ethan: Só você importou naquela noite, Cachinhos.

Dois segundos de pausa. Mia: Você tá me dando mole? Ethan: Isso significaria quebrar as regras da empresa. Mia: Sim, mas você tá? Ethan: Sim. Ethan: Tô. Ethan: Falando nisso Ethan: o que você está vestindo?

Essa frase é uma brincadeira... mais ou menos. Mas, como sou praticamente virgem no sexo virtual, não consigo resistir a testar essa tirada clássica. Alison se recusou a embarcar em qualquer avanço que tentei dessa forma. Ela não era muito de embarcar em nada, ponto. Encaro o celular, esperando que Mia me coloque no meu lugar. Sua resposta chega em seguida e eu quase deixo o telefone cair. Mia: Sua gravata e nada mais.

Puta merda.


Ethan: Sério??? Mia: Não Mia: Mia: Você ainda está aí? Ethan: Sim. Vou tomar um banho frio.

Meu pau duro vai exigir mais do que uma chuveirada. Que ótimo. Nada como uma quantidade fenomenal de frustração sexual quando você está prestes a sair à noite. Mia: Você fica lindo no chuveiro.

Meu Deus. Ela está tentando me matar. Fico olhando aquelas palavras e várias imagens de nós juntos surgem em minha mente. Chuveiro. De pé. Cama. Cadeira. Chuveiro e por aí vai. É tipo o melhor slide show do universo. Não me lembro da última vez que uma garota me deixou tão excitado assim. Se posso ou não desejá-la não tem qualquer efeito aparente. Eu a desejo, porra. Olho o relógio. 6h57. O que fiz para merecer isso? Ethan: Tenho que ir. Minha carona tá chegando. Mia: Blz. Ethan: Divirta-se hoje à noite, Cachinhos. Mia: Você também.

Fico ali sentado relendo nossas mensagens até que Adam me manda uma avisando que chegou. Respondo que estou descendo e levo alguns segundos para me recompor. Vômito. Acidentes de carro. Vômito em acidentes de carro. Muito bem. Funcionou. Pego uma gravata, mas me contenho e guardo-a de volta no armário. Não preciso dessa distração pendurada no meu pescoço a noite inteira. Só a camisa branca terá que bastar. Encontro Adam me esperando na calçada em um Bugatti cinza como carvão. Entrar naquele carro se parece com montar em uma pantera, musculosa e rebaixada. Não ligo muito para carros de luxo — minha ideia de carro bacana é uma caminhonete off-road gigantesca —, mas o veículo de Adam me faz mudar de ideia na hora. — É um pouco chamativo — admite ele enquanto encosta o carro na calçada —, mas foi um gesto simbólico para mim. — Simbólico? — Os odores ali dentro são fortes: estofamento de couro e um leve cheiro de óleo de motor. Uma combinação irada. Inspiro aquele cheiro, e minha cabeça retorna a uma zona sem Mia. — Como assim? — Tive dois investidores na minha primeira start-up. Um era francês, o outro, alemão. Antes de abrirmos o capital, eles tentaram se unir para me jogar de escanteio. —Adam dá um sorriso diabólico. — Falharam. O cara é sensacional. Sinto uma onda de otimismo. Por que eu estava chateado antes? Estou saindo com Adam Blackwood. Num maldito Bugatti. — Você comprou o carro depois de lançarem as ações da empresa no mercado pela primeira vez?


— pergunto. Adam assente. — Foi a primeira coisa que eu fiz. O design do Buggati é francês, mas a empresa automobilística é subsidiária da Volkswagen. — Uma montadora alemã — observo, preenchendo a lacuna. — Exatamente. Este carro me faz lembrar de tomar cuidado em relação a quem me aproximo. — O tom de sua voz abaixa, ficando nebuloso com uma emoção sombria quando ele acrescenta: É uma lição que levo a sério desde então. Ele passa a terceira marcha quando entramos na autoestrada. O carro se lança para a frente e ficamos em silêncio. O assunto acabou. A maneira como ele se desvia no trânsito é desafiadora e um pouco insana, como se ele estivesse disputando com seus próprios demônios. Mas, depois que saímos da rodovia, ele sorri e volta a ser o Adam carismático e legal. — Obrigado por me acompanhar nessa — diz ele quando o rugido do motor finalmente diminui. — Eu não queria deixar passar a oportunidade. Com você ao lado, a estranheza vai ser menor. Fico sem entender. — Estranheza? — Bem, afinal, sou o chefe dela. Não. Não pode ser, porra. Ele não pode estar falando sério. Preciso me lembrar de respirar. — Adam. Aonde exatamente estamos indo? — Eu não lhe disse? — pergunta ele. — Jantar na casa dos pais de Mia. Sou um grande fã do trabalho da mãe dela. — Ele fixa o olhar no meu pescoço e estreita os olhos. — Olhe atrás do seu banco. Acho que tem uma gravata extra. Provavelmente é melhor optar pelo certo do que pelo duvidoso. Sim, que pena. Ver Mia esta noite vai ser exatamente o oposto de optar pelo certo.


Capítulo 17 Mia P.: Você gosta de cozinhar?

Aparentemente, o mundo está fora do eixo, porque minha mãe decidiu cozinhar. Isso significa que a refeição caseira que eu tinha planejado — a Lasanha à Milanesa especial do meu pai — virou... Bem, não sei dizer o que, exatamente. Alguma coisa azul, que tem cheiro de pé e de alguma forma exigiu o uso de todas as panelas dentro de um raio de vinte e cinco quilômetros para ser feita. — Ele vai chegar em dez minutos — digo, tentando arrumar as coisas enquanto ela cria, o que é tão eficaz quanto varrer o chão depois de um tornado. — Por que você não vai se trocar, mãe, enquanto eu... — Olho para meu pai, que se refugiou na tarefa de seleção de vinhos como sempre faz para fugir das situações, e falo baixinho: — Peço uma pizza? Eu devia ter pensado melhor antes de fazer isso. Não fui capaz de suportar a ideia de Adam e Ethan jogando futebol juntos sem encontrar um jeito de fazer algo à altura e equilibrar as chances, mas estou me sentindo tão nojenta quanto achei que iria me sentir por expor minha mãe. Estou me sentindo culpada e exausta, e as mensagens de Ethan não ajudam em nada. Eu me esforço ao máximo para deixar isso de lado. Assim como a lembrança dele me dando sua gravata no carro ou sorrindo para mim do outro lado da nossa mesa de trabalho. Ou debaixo do chuveiro, a água escorrendo devagar pelos contornos do seu abdome. Minha mãe despeja em alguma coisa marrom e borbulhante o conteúdo de uma tábua de cortar cheia do que parece ser cebolinha. Tenho quase certeza de que deve ter um olho de lagartixa escondido ali em algum lugar. — Pearl — chama meu pai. Ele coloca três garrafas na mesa: um Chianti, um Pinot Grigio, e uma de Jim Beam pela metade, que tenho certeza de que é para ele. — Deixe que assumo um pouco as coisas por aqui. Vá vestir algo bonito para agradar o garoto. — Está bem! — Minha mãe tampa algumas panelas e sai da cozinha, desamarrando o avental no caminho. — Não deixe o messicant queimar. — Que diabos é messicant? Meu pai passa um dos braços ao meu redor e cuidadosamente levanta uma das tampas das panelas. O vapor que sobe flutua em forma de crânio com ossinhos cruzados até o exaustor. Certo, estou exagerando, mas o cheiro é mesmo de morte, e absolutamente nada do que está dentro do forno parece comida de verdade. — Por que você deixou mamãe cozinhar? — pergunto, enxugando respingos à la Pollock de todas as bancadas de ardósia. Meu pai serve dois dedos de uísque e entrega o copo para mim. Em seguida, serve uma quantidade maior para si mesmo. — Isso a deixa com tesão — responde ele e faz tim-tim com a minha taça. — Salud! Quero. Morrer. Agora. A campainha toca, e considero a hipótese de me jogar pela janela, no melhor estilo Leão Covarde, mas enfio o copo de uísque na mão do meu pai.


— Por favor, se você me ama — digo, apontando para o fogão —, dê um jeito nisso. Enquanto ando apressada pelo corredor, ajeito o cabelo, aliso os vincos do meu vestido de linho cor de pêssego e calço as sandálias plataforma prateadas que deixei ao lado da porta de entrada. Eu me forço a colocar um sorriso no meu rosto e, ao abrir a porta, dou de cara com Adam Blackwood segurando uma garrafa de vinho em uma das mãos e um buquê de narcisos cor-de-rosa na outra. E com Ethan ao lado. Pisco, certa de que estou alucinando, mas não é o caso, aquele é mesmo Ethan. Ele está arrasando com aquela camisa branca e a gravata preta fina. — Ethan — digo com a voz chiada. Pigarreio e tento de novo. — Oi. — Surpresa — diz ele, dando de ombros ligeiramente. Adam passa por mim e entra na casa. — Surpresa? — pergunta ele, me olhando com perplexidade. — Sinto muito. Liguei para sua mãe e perguntei se teria problema trazer um colega. Ela não lhe contou? Claro que não. — Não, mas... — Tudo bem ter chamado Ethan, não é? — Desculpe vir assim sem avisar — diz Ethan, fechando a porta atrás de si e aproximando-se de mim. Ele tem o cheiro de quem acabou de tomar banho, e agora, sim, me meti numa encrenca daquelas. — Eu não fazia ideia de que era para cá que estávamos vindo. — Não, tudo bem. — Passo a impressão de ter perdido todas as principais funções motoras e fico ali, parada, olhando para ele boquiaberta. — Hã... Entrem. Seguimos Adam pelo pequeno corredor até a sala de estar, enquanto minha mãe surge do outro lado. Vestindo uma calça de seda larga e uma blusa preta estilo quimono, ela estende a mão elegante para Adam. Agora é Pearl Bertram, a fotógrafa famosa, e não Pearl Bertram, minha mãe e péssima cozinheira. Ela é tão charmosa quando quer, enquanto eu sou uma sem-noção. — Este é o colega que mencionei — diz Adam. Ele apresenta Ethan para minha mãe e depois para meu pai, que aparece com uma travessa de frios e taças de vinho. Deus o abençoe. — Ethan é estagiário, como eu — digo, apenas para ter o que dizer, e me forço a não acrescentar como teria sido incrível saber que ele viria esta noite. Mas não é o momento para isso, e, além do mais, não há por que deixar Ethan ainda menos à vontade do que ele obviamente já está. — Estagiário e concorrente — comenta Adam. — Gosto de apimentar as coisas. Ethan e eu nos entreolhamos, e encho a boca com uma azeitona para não dar um sorriso idiota. Eu diria que, quanto à pimenta, estamos bem. Noto Ethan olhando ao redor e tento enxergar nossa casa do seu ponto de vista. Um espaço amplo com janelas de seis metros de altura que vão do chão ao teto e dão para um jardim inglês luxuriante, móveis elegantes e modernos de design dinamarquês em tons de ardósia, marrom e bege. Há um Lucien Freud pendurado acima da lareira, e duas esculturas de Judy Chicago escoram livros de viagem em cima da lareira. Tudo opulento e reluzente, graças a Bitsy, nossa governanta que tem uma paciência fenomenal. De repente, tudo me parece ostensivo, como se eu precisasse me desculpar pelos meus pais ou por mim. Ou como se eu não tivesse o direito de querer as coisas porque pertenço a uma família abastada. Quero explicar que é justamente por causa da riqueza da minha família que o trabalho é importante


para mim. Minha mãe tem sua arte, meu pai teve uma empresa, que construiu do nada. Quero a oportunidade de criar algo totalmente meu, para me sentir merecedora de tudo o que eu ganhar. Quero me concentrar nessa pessoa que é tão preciosa para mim, minha Nana, e imortalizá-la, para que de alguma maneira ela viva para sempre. E quero passar a vida fazendo filmes. Este trabalho não é só o melhor caminho para isso, é o único de que disponho no momento. — Adam, Ethan, por que vocês não vêm conhecer o estúdio? — pergunta minha mãe. — A luz é linda neste horário, e podemos terminar nossas bebidas no deque. Obrigada, Pearl Bertram, por agir com normalidade quando necessário. Viro-me para ir, mas então me lembro de que meu pai e eu escondemos todos os nus no estúdio da minha mãe. — Hã, hum, mãe, talvez fosse melhor se você simplesmente pulasse o estúdio. — Bobagem — diz Adam, esfregando as mãos. — Eu nunca me perdoaria se perdesse a oportunidade de ver o trabalho da sua mãe em andamento. É uma honra. Droga. Não é que eu não queira que Ethan me veja nua. Obviamente. É que não quero que ele me veja nua sentada em algo que parece uma taça de coquetel cheio de sangue. Ou coberta de olhos e mamilos. — Ethan, por que você não... hã, por que você não vem conhecer minha Nana? — Claro — diz ele, me olhando intrigado. — Mas eu adoraria ver o trabalho da sua mãe, também. — Ah, tenho certeza de que mais tarde ela pode trazer algumas obras para mostrar para você — digo, enquanto tento mandar uma mensagem telepática para minha mãe não me humilhar. Ethan me segue pelo corredor até o quarto da minha avó, mas para diante de uma série de fotografias que minha mãe tirou de mim — vinte e uma, para ser mais exata: uma em cada um dos meus aniversários. Em cada foto, estou envolvida em um tecido branco, o cabelo penteado para trás, sem maquiagem ou nenhum outro adorno. Amo esses retratos: não por serem de mim, mas porque, mais do que qualquer outra foto da minha mãe, essas expressam algo que vem do seu coração. Ele fica ali parado, olhando para as fotos na ordem em que foram tiradas: de bebê a criança a adolescente a... seja lá o que sou hoje. — São incríveis. Alguma coisa nos seus olhos continuou igual ao longo dos anos. — Ethan se vira para me olhar, e a luz do corredor faz cintilar halos de luz em seu cabelo, fornecendo-lhe um brilho líquido. — Dizem tanta coisa... os seus olhos. — É mesmo? — pergunto. — E o que estão dizendo agora? — Ah, Mia, penso. Você está brincando com fogo. Algo surge na minha consciência: Ethan molhado, minhas mãos em seu cabelo. Nossos corpos nus, escorregadios. A gente se beijando. E rindo. Que diabo aconteceu naquela noite, afinal? Estamos em um território perigoso ali no corredor, a centímetros de distância um do outro, os olhos doces e pensativos dele fixos nos meus. Mas agora não estou nem aí. Só sei que quero de novo. Dou um passo em sua direção. Não consigo evitar, a atração é muito forte. O emprego que se dane. Kyle que se dane. Só preciso ser envolvida por seu cheiro maravilhoso de fogueira de praia. Quero sentir o corpo dele no meu, quero esses lábios doces e macios em mim novamente. E, dessa vez, quero me lembrar de tudo. Dou mais um passo, e ele me observa andando em sua direção, de olhos semicerrados, os lábios úmidos e convidativos. Mas, nesse momento, Nana me chama do quarto em frente.


Capítulo 18 Ethan P.: Envelhecer e ficar grisalho ao lado de quem se ama ou resplandecer numa trilha solitária em direção ao pôr do sol?

Sigo Mia por um longo corredor, passo por um átrio de vidro com uma fonte de pedra moderna e digo a mim mesmo que a química entre nós é puro fruto da minha imaginação. Ela não acabou de me olhar como se estivesse a fim de me beijar. E não está maravilhosa nesse vestido cor de pêssego. E não estou caindo de quatro por ela. Não. Estou tranquilo. Mia para diante de uma porta e bate suavemente. — Nana? Estou entrando! Ela entra e segue direto para um canto com poltronas nos fundos do quarto espaçoso. A decoração é moderna, como o resto da casa, porém, um pouco mais elegante, com lustres de cristal, móveis brancos e paredes num tom castanho-claro. Acho. Talvez a cor esteja no meu espectro de daltonismo e na verdade as paredes sejam vermelhas. Mia se ajoelha diante de uma mulher magra lendo um livro. Eu chutaria que ela tem sessenta e tantos anos, e fico surpreso com o quão jovem ela parece, considerando que tem Alzheimer. — Oi, Nana — diz Mia. — Este é meu amigo Ethan. — Ela sorri para mim. — Ethan, esta é minha Nana, Evelyn Bertram. Evelyn olha para mim com uns olhos verdes que me parecem assustadoramente familiares, mas então percebo que são nebulosos, como um vidro que ficou exposto ao ambiente durante décadas. Ainda assim, há neles muito da mesma simpatia e senso de humor que os de Mia. Então percebo que estou sorrindo para Nana como se a conhecesse desde sempre. — Olá, Ethan. — Nana estende a mão para ele. — Pode me chamar de Evie. — É um prazer conhecê-la, Evie. Nana sorri para mim e depois para Mia. Em seguida, de novo para mim. — Bem, sente-se. — Obrigado. Eu me sento na poltrona à sua frente. Mia se senta em cima dos joelhos e coloca a mão sobre a da avó, que está apoiada no livro. Há carinho na atitude e no sorriso dela. Está em todo o seu ser. Talvez eu esteja inspirado, por estar na casa de uma fotógrafa famosa, mas sinto vontade de tirar uma foto dela agora. — Você é amigo da faculdade? — pergunta Nana. — Não. Mia e eu trabalhamos juntos. — Trabalham? Nana olha para Mia como se não entendesse, e sinto vontade de retirar o que disse. De repente, as palavras parecem meio arriscadas. — É recente, Nana. Comecei segunda-feira. Ethan e eu estamos na área do marketing de uma empresa chamada Boomerang.


Ela fala com firmeza e lentidão, mas de forma nem um pouco paternalista, e tenho a nítida impressão de que já disse tudo isso para Nana. Então Mia me olha, e me dá pena a tristeza em seus olhos. — Na verdade, quem dá todas as boas ideias é Mia. Só estou lá para dar apoio. — Ah, mas você parece bastante adequado para o cargo. Mia deixa escapar uma risadinha. — Como assim, Nana? — Olhe só para ele! É bonitão. — Obrigado, Evie. E a senhora é uma mulher linda. Mia me olha. — Você está dando em cima da minha avó? — Estou, mas foi ela quem começou — retruco. Então noto a foto em preto e branco no portaretratos de prata em cima da mesa. — Nossa... Essa é a senhora? Eu me inclino para a frente e vejo uma moça que tenho quase certeza de que é Evelyn. Imagino que o homem à sua direita seja seu marido, mas o que me chamou a atenção foi o homem à direita dele. Martin Luther King Jr. Mia já havia comentado que sua avó se envolveu com o movimento dos direitos civis nos anos 1960, mas isso é incrível. — Onde tiraram essa foto? Como ele era pessoalmente? As perguntas simplesmente saem. Não consigo acreditar que ela tenha feito parte da história. Mas, assim que Nana olha para a foto, me dou conta de que cometi um erro. Não há qualquer lampejo de reconhecimento em seus olhos. Apenas confusão. — Foi tirada em... em... — Ela se inclina um pouco na direção de Mia e sussurra: — Qual é mesmo o nome desse lugar? — Selma — responde Mia com delicadeza. — Selma, Alabama. Nana assente, e percebo que está decepcionada consigo mesma por não se lembrar. Então noto que se esforça para dar um sorriso. — Stan parece tão jovem aí. Não acha, Mia? — Ela olha para um ponto além de nós, no quarto. — Onde está Stan? Ele não vem jantar? Ai, não. Mia me contou que seu avô faleceu quando ela era criança. — Ele avisou que não vai poder vir hoje — diz Mia, apertando a mão da avó. — Mas nós vamos ter uma grande noite mesmo assim. — O que poderia ser tão importante para que ele não pudesse jantar conosco? — Nana, é que ele está... — Mia morde o lábio inferior. — Vovô está... Testemunhar aquilo é terrível. O que se pode dizer numa situação dessas? “Olha, faz anos que seu marido morreu?” Quantas vezes essa mulher é obrigada a reviver a morte do homem que ainda ama? Quantas vezes Mia precisa vê-la passar por isso? — Sinto muito que ele não possa vir — digo, sentindo a necessidade de ajudar de alguma forma. — Mas, por outro lado, é uma sorte para mim. Sabe, vim sozinho, mas espero que a senhora aceite ser minha acompanhante hoje, Evie. — Eu me levanto e estendo a mão para ela. — A senhora aceitaria jantar comigo esta noite? Nana volta a sorrir. — Sim — responde, pegando minha mão. — Obrigada, Ethan. Eu aceito. Mas não tente nada comigo. Stan é muito ciumento. — Vou tentar me comportar. Enlaço o braço dela com o meu e ofereço minha mão livre para Mia, que a segura.


Ao sairmos do quarto, Mia solta minha mão e sinto um dos seus braços me envolver. Ela pressiona o corpo no meu, comprimindo minhas costelas. — Obrigada — sussurra. Com isso, ganhei a noite. Na sala de jantar, Adam e o pai de Mia estão sentados à mesa, entretidos numa conversa animada. Adam gira a taça de vinho tinto distraidamente enquanto escuta. Sinto um pouco de inveja da atenção que o Sr. Galliano está recebendo, mas então noto o pardal empoleirado no espaldar de uma das outras cadeiras. Um pardal de verdade. Ele eriça as penas e faz aquele movimento rápido típico dos pássaros, de inclinar a cabeça para o lado, como se estivesse tão surpreso em me ver quanto estou em vê-lo. — Costumamos deixar as portas do terraço abertas — explica Mia. Enquanto seguíamos pelo corredor, ela acabou soltando meu braço, o que foi um saco, mas compreensível, pois Adam está aqui. — Baudelaire meio que adotou nossa família. — Você tem um pardal de estimação chamado Baudelaire? — pergunto, ajudando Nana a sentar-se numa cadeira. — Como nunca me contou isso? — Shhh — diz Mia. — Ele odeia que digam isso. — Isso o quê? — Que é de estimação. Ele acha humilhante. — Desculpe, Baudelaire. — Ele perdoa você. — Que bom. Sei que nós dois estamos só de papo-furado para prolongar este breve momento em que estamos perto e concentrados um no outro. Consigo ver cada um de seus cílios. O batom é cor de pêssego, como o vestido, e, se eu me inclinasse um pouquinho para a frente, conseguiria beijá-la. Mia passa a língua nos lábios e sinto um arrepio. Estamos pensando na mesma coisa ao mesmo tempo. — O que tem para jantar? — pergunta Nana. — Esse cheiro está horroroso. Mia estremece, e nossa conexão é interrompida. — Pai, e o jantar? — pergunta ela, com um ligeiro pânico. O pai olha para ela, desviando os olhos da conversa com Adam, e lhe dá uma piscadela. — Tudo sob controle. Vai ficar pronto em dez minutos. Não entendo como isso serve de consolo para Mia, porque Nana tem razão: seja lá o que vamos comer, tem cheiro de carniça. Mas Mia relaxa perceptivelmente. — O que querem beber? — pergunta ela, indo até o bar. — Nana, o de sempre? E você, Ethan? — Qualquer coisa — respondo. — Mas antes eu gostaria de conhecer o estúdio da sua mãe. — Ah, que pena — comenta ela, por cima do ombro, enquanto serve uma taça de vinho. — Outra hora, quem sabe. Não tenho certeza se entendi bem. — Por que outra hora? — Que tal agora? — A mãe de Mia entra de repente na sala. Apesar de aquela mulher ter uma presença fortíssima, o pai de Mia continua conversando, obviamente acostumado com a


personalidade forte da esposa. — Agora me parece uma hora maravilhosa! Ela enche sua taça de vinho quase até a borda, pega a que Mia acabou de servir e inclina a cabeça, me chamando. — Venha, venha! O próximo tour parte imediatamente! Adam interrompe a conversa com o pai de Mia e encontra meu olhar. — Vale muito a pena dar uma conferida lá. Imediatamente, Mia sai em disparada como um velocista olímpico, passando direto por sua mãe e desaparecendo no corredor. Dois pensamentos me vêm à cabeça. O primeiro, que essa garota diz que não é atleta, mas sabe muito bem como se movimentar e fica linda ao fazer isso. E o segundo: está na cara que não estou entendendo alguma coisa aqui. — Obrigado — digo, aproximando-me de Pearl. — Fiquei chateado quando pensei que não teria mais a chance de conhecer seu estúdio. — Bobagem. — Pearl me entrega uma taça cheia de vinho tinto até a borda. — É por aqui. — Em seguida, enlaça o braço no meu. — Uou. — Sem querer, minha taça de vinho balança um pouco, mas felizmente não derrama no chão. Pearl ri. — Desculpe. Nós somos uma família que gosta dessa coisa de pele. Às vezes esqueço que isso pode ser meio incômodo para os outros. — Não... não tem problema. É que eu não estava esperando, só isso. Pearl sorri. — Coisas inesperadas são as de que mais gosto. Também gosto muito do inesperado, mas estou começando a achar que esta noite se parece mais com a sensação de estar na Space Mountain: no escuro e sem conseguir antecipar as várias reviravoltas. Pearl é baixinha como Mia, mas anda depressa, e por isso sou obrigado a dar passos maiores para acompanhá-la e não derramar vinho. E também porque vejo fotos em todo lugar para onde olho, uma mais interessante do que a outra. — Sabe, Ethan — diz Pearl. — Mia nos falou bastante sobre esse estágio. — É uma grande oportunidade. — Não acrescento: “mas apenas para um de nós”. Pearl para diante de uma porta de madeira entalhada que é diferente das outras da casa. É toda deformada e gasta, como se tivesse sido resgatada de um naufrágio. Ela se empertiga e continua parada na minha frente. Depois de um ou dois segundos, nem mesmo o vinho na sua taça se mexe. Sinto como se fosse a primeira vez que ela estivesse realmente me vendo, e essa sensação é intensa. Tenho que me forçar a ficar quieto e aceitar aquela análise de olhos de águia. Recuar àquele olhar significaria, de alguma forma, perder. — Você tem uma estrutura óssea fantástica, um corpo lindo à la Bernini, e essa covinha em seu queixo me deixa totalmente louca — diz ela. Que. Porra. Foi. Essa? De repente começo a suar como Rhett, mas dou um jeito de responder como se estivesse levando aquilo na esportiva. — Obrigado. — Não me agradeça. E sim a seus pais. — Está bem. — E, provavelmente, à sua prática de exercícios. Você pratica esporte?


— Jogo futebol. — Ah. Ela assente, absorvendo aquela informação. — Minha filha não falou nem um pio sobre você. — Eu... não sabia. — Ora, e como poderia saber? — É mesmo. Será que ela está tentando me deixar confuso? Nunca me senti tão despreparado diante de outro ser humano. Pearl inclina a cabeça para o lado, da mesma forma que Baudelaire fez mais cedo. — Sabe o que isso faz de você, Ethan? — Algo inesperado? Ela dá um grande sorriso e sinto como se tivesse acabado de passar num teste dificílimo. — Sim — responde ela, enfatizando a palavra. — E extremamente incomum. Ela abre a porta de madeira, deixando-me com esse pequeno enigma para decifrar. Que ótimo. Como se eu já não tivesse o bastante com que me preocupar esta noite. Entro atrás dela num enorme estúdio com pé-direito alto. Um dos cantos parece ser meio laboratório, meio fábrica, cheio de monitores gigantescos de computador e equipamentos que parecem industriais, os quais, imagino, devem servir para ampliar e revelar as fotos. As paredes acima dos equipamentos estão repletas de ampliações de todos os tamanhos. São fotos incríveis. Meus olhos são atraídos por uma que mostra um sapato de salto alto com lantejoulas brilhantes e um laçarote. Parecem os sapatos de Dorothy de O Mágico de Oz, só que com um salto de dez centímetros altíssimo cuja ponta está enfiada na curva de uma pele macia. É justamente a parte do corpo que é tão hipnotizante. Não consigo desviar o olhar. Não sou capaz de distinguir se é um seio, as costas ou uma panturrilha — e acontece o mesmo com todas aquelas fotos. Você olha para elas e fica instigado. Com vontade de saber mais. Necessidade de saber mais. A outra extremidade do estúdio é bem mais espaçosa, com uma cortina e diversos cenários, além de alguns banquinhos altos e adereços como perucas, guarda-chuvas e asas de anjo. Atrás disso, imensas portas de vidro dão para um terraço ao ar livre com uma das paisagens mais incríveis que já vi. — Oi — diz Mia. — Ah, aí está você! — diz sua mãe, virando o corpo para ela. Em seguida, balança a cabeça com ar de desaprovação. — Sério, Mia? Então percebo que há lençóis tapando alguns dos quadros apoiados em uma das paredes. — O que é isso? — pergunto. — Não é nada — responde Mia. — Nada mesmo.


Capítulo 19 Mia P.: Como você lida com uma crise?

É claro que minha mãe começa a retirar os lençóis de cima dos quadros como se estivesse deixando à mostra um carro novo. Nem sei por que tentei. O maior deles, e provavelmente o mais chamativo, é um tríptico enorme que minha mãe fez usando como base um nu de Modigliani. Estou reclinada sobre um chaise de veludo vermelho, com os braços acima da cabeça, coberta com um lençol branco de seda que se esparrama por minhas coxas. Minha pele parece polida, quase âmbar. E, como é um quadro da minha mãe, meu corpo está fatiado em finas espirais, como se tivesse sido enfiada num descascador de maçã. Ela afasta os quadros da parede e os coloca ao lado de todos os outros que tentei esconder: a Mia da taça de martíni, a Mia de múltiplos mamilos, a Mia deusa vingadora, com oito braços, um halo de globos oculares destacados e chamas azuis onde deveriam estar minhas partes femininas. — Como você pode ver — diz minha mãe para Ethan —, minha filha é minha musa. Mas, vendo aquilo, Ethan deve achar que minha mãe provavelmente tem como musa os cogumelos, apesar de ela nunca ter se drogado na vida, pelo que eu sei. Ele, no entanto, recua para ver melhor os quadros, e, mais uma vez, eu o observo olhando para mim — para uma versão diferente de mim, na verdade. Manipulada digitalmente, iluminada de forma atrativa, em poses poderosas. Ele está olhando para essa Mia. — São... extraordinários — murmura Ethan, mas não consigo entender o que ele quer dizer com isso. Extraordinários tipo maravilhosos? Ou extraordinários tipo bizarros? — Nunca vi nada igual. — É idiota, mas sinto uma pontada de ciúme, observando-o admirar o trabalho da minha mãe. — Está vendo, querida? — Minha mãe segura meu queixo entre as mãos para me dar um beijo. — Nunca se esconda. — Para Ethan, ela acrescenta: — Ela não é linda? — Mãe! Ele olha para mim, e seu olhar é caloroso e respeitador, como se estivesse me vendo — a Mia de verdade, a que está na frente dele — pela primeira vez. — Muito — concorda ele. — Vou lhe mostrar no que estou trabalhando agora — diz minha mãe, calorosamente. — É uma série chamada “Raposas”. Solto um gemido. É aquela em que apareço em ambientes urbanos estranhos com máscaras de diversos animais. Mia com máscara de raposa em um carrinho de supermercado sob luzes fluorescentes. Mia com máscara de gato agachada na escada rolante de um shopping, subindo em direção às sombras. Estou vestida na maioria dessas fotos, mas talvez fosse bom não encher o garoto com nossa esquisitice completa, não é? — Mãe, o jantar vai ficar pronto daqui a pouco. Por que não voltamos para ficar um pouco com nosso outro convidado? — Quero muito ver essa série — afirma Ethan, sorrindo para mim. Mais uma vez, não consigo interpretar sua expressão. Será que ele realmente está interessado? Ou


está puxando o saco da minha mãe? Ou então só me dando tsuris, como diria Nana, usando a expressão judaica, querendo dizer “dando dor de cabeça”? — Tudo bem, mas não canse Ethan, mãe — digo. Não acrescento: “Por favor, não lhe diga nada vergonhoso sobre si mesma. Ou sobre mim.” Sigo andando para a porta, distraída, mas então o calcanhar da minha sandália fica preso no emaranhado de cabos no chão. Cambaleio e seguro o braço de Ethan, fazendo sua taça cheia de vinho — cheia de Chianti — espirrar por todo o seu rosto, seu pescoço e sua bela camisa branca. — Ai, meu Deus, Ethan! Me desculpe! Ele fica ali parado, em completo choque, e em seguida dá uma olhada em si mesmo. Uma gota de Chianti escorre por seu nariz e cai em seu sapato. — Que acidente feliz! — exclama minha mãe, cerrando os punhos, como um dos Quem do Dr. Seuss na manhã de Natal. — Mia, por que você não vai correndo buscar uma toalha? E veja se consegue arranjar uma camisa limpa para ele. — Desculpe, desculpe de verdade — digo a Ethan. — Fique bem aqui. Volto em um minuto. Dessa vez saio do estúdio com todo o cuidado, mas minha vontade é parar e bater a cabeça na parede algumas vezes antes de sair. Por que sempre me sinto um desastre ambulante quando estou perto desse cara? A caminho do armário onde ficam as roupas de banho, passo pela cozinha. Fico surpresa em ver meu pai, Adam e Nana ali, sentados à mesa redonda enfiada no nicho da janela. Adam e meu pai parecem já ter feito um belo estrago à garrafa de conhaque, porém, a taça de Nana continua cheia de vermute. Adam está recostado na cadeira, com uma expressão estranha e a cabeça apoiada na parede. — É isso que eles não entendem — diz, com a voz rouca. — E como poderiam entender? — Meu pai bebe um gole de vinho. — Essa sensação de que alguém apertou um botãozinho na sua vida que a transformou em outra coisa de repente? — E em algo que você não pediu para acontecer. Nem queria que acontecesse — retruca Adam. — Oi, gente — digo, entrando na cozinha. — O que está acontecendo? Está tudo bem por aqui? — Ah, minha querida Mia Moré. — Meu pai acena para mim e me aproximo dele. Enlaça minha cintura com um braço e me aperta. — Sabe qual é a questão, Adam? Você precisa encontrar algo que faça tudo isso valer a pena. Capaz de transformar essa vida que você não queria em uma que você passa a gostar. Adam brinda com a taça do meu pai. — Que legal que você tem isso. Família. — Do que vocês estão falando? — pergunto. Adam observa o resto do seu uísque à procura de uma resposta, mas não diz nada. — Sua filha... — Ah — responde meu pai. — É que contei a Adam sobre meu acidente. — Sério? — Meu pai nunca fala sobre isso. Por que se abriria com Adam, que é um estranho? Quando falam sobre eletricidade, as pessoas sempre se referem a voltagem, mas foi preciso apenas um ampere para parar o coração do meu pai. Seu peito coberto de cicatrizes cor-de-rosa brilhantes não nos deixa esquecer do que aconteceu, mas nunca me lembro das outras feridas, as que ele carrega dentro de si. — Isso serve para nos lembrar de que as coisas acontecem muito rápido e que nada é garantido. A gente só pode lutar por nossa quota de felicidade, capisci? — diz meu pai. — Capisco — responde Adam. Será que existe alguma coisa que esse cara não saiba?


Com os olhos vidrados, ele vira o restinho do uísque. Pela primeira vez eu o vejo meio... malajambrado. Seu colarinho está virado para um lado e o nó da gravata está apertado demais, como se ele o tivesse puxado. — Que tal a gente servir o jantar? — sugiro. Um pouco de pão bem que ajudaria a dar uma regulada na bebedeira dos dois. Meu pai me solta, levanta-se e diz: — Bem pensado, querida. — Estende a mão para Nana. — Evie? Nana fica de pé e sorri para mim. Seus olhos voltaram a ser como sempre: verdes e com humor afiado. — Para onde foi aquele menino bonitão? — pergunta ela. Ai, merda. Eu me esqueci completamente do Ethan. — Já volto — aviso, e explico rapidinho sobre o acidente de Ethan com o vinho. Corro para o quarto dos meus pais, reviro o armário do meu pai em busca de uma camisa, pego uma toalha no armário com roupas de cama e volto correndo para o estúdio da minha mãe. — Desculpe pela... — Mas a cena com a qual me deparo me faz interromper a frase pela metade. As luzes do estúdio fotográfico foram acesas e minha mãe está atrás da câmera, tirando fotos e dizendo palavras de incentivo. Para Ethan. Que está sentado num banquinho posando para ela... seminu.


Capítulo 20 Ethan P.: Luzes, câmera, ação... Ou você prefere se divertir no escuro?

Mia para, segurando uma camisa numa das mãos e uma toalha na outra, e seu olhar encontra o meu. O momento entre nós se prolonga enquanto tentamos processar aquela situação estranha. Eu estava mesmo me perguntando como ela reagiria quando voltasse. Meu melhor palpite era que seria com humor, dando risada ou fazendo alguma brincadeira, mas o outro palpite — de que ela ficaria constrangida — não vinha muito atrás. Mas o jeito como ela me olha — com os olhos arregalados, os lábios rosados relaxados num beicinho — não indica nem uma coisa nem outra. Eu já a deixei sem palavras outras vezes, e seria um tesão gigantesco se a mãe dela não estivesse a trinta centímetros de distância de mim. Na verdade, é um tesão mesmo assim. Pearl abaixa a câmera e sorri para Mia. — Ah, você voltou. — Hã, mãe? — diz Mia, com uma voz aguda. — O que você está fazendo? — Aproveitando uma oportunidade — diz Pearl. — Eu nunca me perdoaria se ele saísse desta casa sem que eu tivesse tirado uma foto desse queixo. Venha dar uma olhada. Ela mexe na parte de trás da câmera e Mia se aproxima dela, olhando o display digital que se acende. As duas estão atrás dos limites do halo de luz amarela que vem dos holofotes e, portanto, são basicamente escondidas pela escuridão, mas consigo ver a boca de Mia curvar-se em um sorriso enquanto Pearl lhe mostra as fotos. Nos segundos de silêncio seguintes, converso um pouco comigo mesmo para melhorar meu ânimo. Costumo ser confiante com meu corpo. Nunca me importei com o que alguma garota poderia pensar ao me ver sem camisa, porque sei que tenho um corpo decente. Mais que decente, aliás, graças ao futebol. Então, por que cargas d’água estou aqui preocupado com o que Mia está achando? — Essa — diz ela, colocando a mão sobre a de Pearl para que a mãe parasse. — Essa é a sua foto. Pearl olha para mim, depois para Mia. — É um lado diferente dele. Mais sombrio. E isso me dá uma pista do que elas estão vendo. Assim que que Mia saiu, Pearl me perguntou se poderia tirar uma foto minha. Respondi: “Não, obrigado.” Ela disse: “Mas tenho certeza de que vou conseguir convencer você.” O que veio em seguida foi uma troca pesada de argumentos em que acabei concordando em posar para Pearl desde que ela me respondesse algumas perguntas sobre Mia. Eu tinha um objetivo em mente, como sempre. Então, comecei as perguntas me concentrando primeiro nos amigos de Mia, esperando o momento perfeito para trazer seu ex à tona. Eu não queria


saber como era o cara, só queria descobrir o que ele tinha feito para fazer o namoro ir por água abaixo. Foi quando Pearl me disse como ele era um filho da puta escroto, a forma como tratava Mia, achando que ela estava a seus pés. — Ele chifrou Mia? — Não — respondeu Pearl, entre uma foto e outra. — Foi pior do que isso. — Clique, clique. — Ele brincou com os sentimentos dela. — Clique, clique. — Ele às vezes sumia ou perdia totalmente o interesse por ela, usando como desculpa esse papo idiota de que precisava se encontrar. — Clique, clique. — Depois reaparecia e ela ficava cheia de esperança outra vez. Isso aconteceu até ele acabar de vez com a esperança dela simplesmente. Canalha. Senti vontade de descobrir por onde anda esse tal de Kyle e lhe dar uma surra. Acho que esse sentimento é que deve ter se traduzido nas fotos como “Ethan Sombrio”. — Você devia ampliar, mãe — diz Mia. — Você tem namorada, Ethan? — pergunta Pearl, e noto um tom sarcástico em sua voz. — Não mais. Já terminamos por aqui? O grito do pai de Mia vindo do fundo do corredor chega até nós: — O jantar está na mesa! — O jantar! — Pearl empurra a câmera para Mia. — Guarde isso para mim, pode ser? — Sua calça de tecido se agita enquanto ela sai do ateliê. Depois que ela sai, Mia coloca a câmera em cima da mesa. — Acho que simplesmente pedir desculpas não vai ser suficiente, né? Dou de ombros. — Não foi nada. Eu tive que estabelecer os limites e me recusar a fazer nu frontal, mas fora isso foi bem legal. — Seu puritano. — Ei, por acaso não sou eu que estou seminu por aqui? — Tudo bem, mas já deu uma olhada ao redor? — Para falar a verdade, não consigo parar de olhar. As imagens criadas por Pearl já eram hipnotizantes por si mesmas, mas agora que sei que é Mia quem está retratada ali, não consigo parar de olhar. Não acredito que não a reconheci de imediato apesar de o formato do seu corpo ter se tornado tão familiar para mim. Ficamos um instante em silêncio, ouvindo apenas o zumbido alto dos holofotes. Eles exalam bastante calor, e a sensação que tenho é de estar sendo queimado pelo sol. Felizmente, as portas do pátio estão abertas e é uma noite fria. Mia está de pé fora do círculo iluminado, mas sinto seu olhar fixo em mim. — Mia? — Oi? — Pode me dar a camisa? — Ah, claro — diz ela, olhando para sua mão. Ela joga a toalha na mesa e se aproxima com a camisa. — Aqui. — Ela finalmente olha para mim. — Vou tentar limpar a sua. Ou substituí-la por outra. Provavelmente por aquela que roubei de você. Eu me levanto e pego a camisa do pai dela. — Valeu. Só de olhar, já sei que vai ficar pequena. Isso não é exatamente uma surpresa, considerando que o Sr. Galliano tem mais ou menos um metro e setenta e cinco, e eu tenho um e noventa. Mas o que me faz hesitar não é o tamanho da camisa.


Não quero acrescentar roupas nesse cenário, quero tirar. Imagino rapidamente o vestido cor de pêssego de Mia aos seus pés e sua aparência sob estas luzes. Embaixo de mim sob estas luzes, e fico imaginando se... Encaro seus olhos, procurando a vibração que senti emanar durante a conversa que tivemos mais cedo, ou quando ela entrou no estúdio. Mas não está mais lá. Mia não me parece mais convidativa, e não sei se é por minha causa, por causa do emprego ou por causa do filho da puta do ex-namorado dela, mas, na verdade, neste exato momento nada disso tem a menor importância. Preciso de um sinal verde, e não o recebo. A risada de Adam ecoa lá da cozinha, como se fosse uma ordem de bater em retirada. Mia diz: — Acho melhor a gente ir. — Beleza. Pego a camisa das mãos dela. Tal como eu suspeitava, vestir aquilo parece mais como vestir uma segunda pele. A camisa é tipo quatro números menor que o meu. Mia cai na risada antes mesmo de eu começar a abotoar a blusa. — Nossa, você consegue respirar? — pergunta. — Não muito, mas acho que agora não vou ser capaz de comer nada. — Você só está tentando evitar a comida da minha mãe. — De jeito nenhum. Ácido sulfúrico é meu prato preferido. — Os botões de cima não fecham, então desisto e olho para Mia. — É uma pena eu não ter um peito cabeludo para coroar esse visual de camisa aberta. Será que você não tem nenhuma corrente de ouro para me emprestar? Ela nega com a cabeça e sorri. — Você não pode ir jantar com esse peito de fora. Venha cá, deixe que eu abotoo pra você. Assim que ela toca a camisa, minhas mãos envolvem seu rosto e me inclino mais para perto. Poucos centímetros nos separam. Mia não fica tensa nem recua de surpresa, e tenho a nítida impressão de que ela sabia o que eu iria fazer, ainda que eu mesmo não soubesse. Ficamos assim parados, apenas respirando o mesmo ar por alguns segundos, formando um pequeno círculo de sombra na luminosidade que nos rodeia. Isso precisa ficar em segredo, senão poderíamos pôr tudo a perder. Ninguém pode ficar sabendo. Não dizemos nada, mas o pacto é selado ali mesmo, entre nós dois. Em seguida, os dedos de Mia se fecham em torno do colarinho da minha camisa e me puxam mais para perto, então não consigo mais aguentar. Roço seus lábios nos meus. Não é nosso primeiro beijo, mas é exatamente como se fosse, e, de alguma forma, parece importante ser carinhoso com ela. Isso não dura muito tempo. Quero mais logo e minha língua desliza para dentro da sua boca. Seu gosto é fresco e doce, como de uvas geladas. Quando sinto sua reação, retribuindo meu beijo como se quisesse mais, eu a envolvo com os braços, apertando seu corpo contra o meu, e dou o que ela quer. Mia recua ligeiramente depois de um tempo e dá beijinhos no canto da minha boca. Aproveito a oportunidade para olhar de soslaio para ela, de perto: ela tem o corpo mais gostoso que já vi. Deslizo a mão pelas suas costelas, encontrando a curva do seu seio. Ela suspira e pressiona mais o corpo no meu, e aquele suspiro quase me faz perder a cabeça. Preciso de mais. Eu a levanto e acomodo-a no banquinho alto, sem parar de beijá-la. Seus joelhos


ficam no meu caminho, portanto abro suas pernas e levanto o vestido até as coxas. Em seguida, me acomodo entre seus quadris. — Você é incrível, Mia — digo. Mas, puta que o pariu, ela é perfeita na verdade.


Capítulo 21 Mia P.: Você gosta de surpresas?

Seguro o bíceps firme de Ethan e abro ainda mais as coxas, puxando-o para mim. Quero sentir ao máximo seu braço forte envolvendo minha lombar e seus dedos perfeitos roçando meu mamilo, tateando todo o meu corpo — um toque familiar e novo ao mesmo tempo. Quero mais dos seus lábios, suaves e ansiosos, e sua deliciosa língua quente com gosto de vinho buscando a minha, mergulhando em minha boca. Estamos presos num mundo entre as sombras do estúdio e as luzes brilhantes que nada escondem, e a sensação é de estar num sonho, como se aquele momento já estivesse gravado na memória. Minhas mãos agarram seu cabelo e eu o puxo ainda mais para perto, envolvendo-o com minhas pernas e cruzando os tornozelos para prendê-lo. Eu o sinto completamente, por inteiro — seu peito largo e sólido, seu coração pulsando entre nós, e toda aquela extensão dura pressionando a parte inferior do meu ventre, inegável, insistente, me fazendo sentir ondas sísmicas no meu âmago. — Meu Deus do céu, Mia — diz Ethan, ofegante, com os lábios junto aos meus. Pressiono o corpo no dele, sentindo a necessidade de percorrer todos os lugares com meus lábios e minha língua — sua boca, a cavidade de seu queixo, seu maxilar, seu pescoço, onde roço os dentes numa veia pulsante. Meus lábios demoram um tempo ali, explorando, enquanto minha mão desliza para baixo, sempre para baixo... — Mia — chama meu pai. Seus passos pesados ressoam no corredor. Ethan e eu nos afastamos de repente. Eu salto do banquinho e já estou na metade do caminho até a porta, meu coração batendo enlouquecidamente, quando meu pai aparece. — O jantar está servido, meu bem — diz ele, e esbarra de leve em uma das paredes. Ele exagerou na bebida mesmo. — Você não nos ouviu chamar? — Ah, desculpe, não ouvi — respondo, resistindo à vontade de alisar o vestido e arrumar o cabelo, que com certeza deve ter virado um emaranhado selvagem. — Ethan e eu estávamos... hã, conversando. Já vamos subir. — Fiz o que pude — sussurra ele. — Mas está na hora de enfrentar a realidade. — O quê? — O pânico me invade. Será que estamos ferrados? Há quanto tempo estamos aqui embaixo? — Acrescentei uns temperos. Joguei um pouco de frango, uns legumes. — Ele dá de ombros. — Fiz o melhor que pude. — Ah, claro! — Solto o ar com força suficiente para apagar uma vela. — O jantar. Claro. — Venha. Está esfriando. Ou congelando. Ele dá uma meia-volta desajeitada para retornar à sala de jantar. Respiro fundo e dou olhada no estúdio. Ethan está apoiado na mesa de trabalho da minha mãe, de pernas cruzadas, sorrindo daquele seu jeito que é ao mesmo tempo presunçoso, encantador e descarado e que basicamente me faz sentir vontade de tacar fogo na casa para nunca mais termos que


sair daqui. — O jantar — digo. Mas o que quero mesmo é segurar sua mão e sair pela janela para o frescor da noite. — Eu ouvi. — Você não vem? — Daqui a um minuto. — Ele sorri, olhando para baixo. — Tenho que... hã... resolver um probleminha aqui. Sigo seu olhar. É. Definitivamente é um probleminha e tanto. — Fique aí para resolver isso, então — digo. Mas não consigo resistir e me vou para cima dele mais uma vez, dando-lhe um último beijo de língua e roçando meu corpo no dele. O probleminha vira um problemão, e me afasto, rindo. — Você não presta — grita Ethan enquanto eu saio. Vou andando pelo corredor com um sorriso idiota, aliviada com o murmúrio de conversas e os acordes de Béla Fleck que me dizem que a noite está correndo muito bem, obrigada, sem nós dois. Não consigo parar de pensar nas fotos de Ethan que minha mãe tirou. É verdade que mostram um lado dele mais sombrio. Preocupado, com a mesma expressão intensa que vi em seu rosto naquela manhã — menos de uma semana atrás — em que acordei na sua cama. Gostaria de saber o que estava passando na cabeça dele naquele momento. Meu corpo está leve, solto. Como se eu estivesse bêbada ou chapada. Eu me sento em uma cadeira na frente de Adam, que àquela altura já se recompôs e está sentado com sua expressão rígida e costumeira de autodomínio. — Já está detonando a concorrência? — pergunta ele, sorrindo. — Isso mesmo. — Aliso o guardanapo em cima do meu colo. — Meu rival foi completamente imobilizado. Minha mãe aborda Ethan quando ele surge no final do corredor, e em seguida eu o vejo cambaleando em nossa direção, carregando uma travessa grande o suficiente para conter um peru gigantesco. Ele pousa a travessa e senta-se na outra ponta da mesa, ao lado de Nana. Estou com medo de olhar para ele, porque sei que vou entregar o jogo. Mas olho mesmo assim, e, antes de se concentrarem no prato à sua frente, seus olhos se iluminam ao encontrarem os meus. Um meio sorriso sexy surge em seus lábios, e percebo que ele está pensando a mesma coisa que eu. Minha mãe tira a tampa da travessa e reprimo um grito. Um grito de espanto, que quer dizer quemágica-insana-aconteceu-por-aqui?. Porque a comida tem aparência e cheiro normais. Até mesmo tentadores. Além disso, também se parece com comida de verdade: um frango com alguma espécie de molho e coisas que reconheço como vegetais. Todos ficam boquiabertos e soltam exclamações de surpresa ao redor da mesa. Exceto minha mãe, que comprime os lábios rigidamente. Meu pai está encrencado, mas o jantar está salvo. — Nossa, isso tem um cheiro diferente — diz Ethan, sem pensar. Em seguida, fica vermelho e tenta consertar: — Quer dizer, delicioso. Nana ri e dá um tapinha no braço de Ethan. — Boa tentativa, meu jovem. O jantar é servido, e todos nós conversamos de forma descontraída. — Que tipo de coisas você e Ethan andaram fazendo, hein? — pergunta minha mãe. Quase engasgo com meu vinho, mas então percebo que ela está falando da Boomerang. — Bom, a gente acabou de começar, mãe. Mas estamos trabalhando numa campanha de branding, ou seja, de marca.


— É uma campanha de rebranding, na verdade — corrige Adam. — De atualização da marca. Pedi que Ethan e Mia se envolvessem no processo de alavancar a imagem da Boomerang. Eles vão ajudar a impulsionar a presença da empresa numa feira em Las Vegas. — Por falar nisso — interrompe Ethan, com delicadeza —, Mia e eu estávamos justamente querendo falar com você sobre o projeto do estande. Enquanto fazemos nosso discurso, olhamos para Adam, mas na verdade é como se estivéssemos conversando um com o outro, como uma máquina perfeitamente afinada. — Podia ser tão mais impactante — digo a Adam. — Mais sexy, ousado. Poderia se comunicar de verdade com o público que você está tentando alcançar. O projeto atual... Olho para Ethan em busca de ajuda. — Só se comunica com pessoas preguiçosas que estão a fim de um lugar para se sentar — completa ele. — É um lounge, com certeza, mas é muito mais um lounge de aeroporto do que qualquer outra coisa. Não tem apelo de verdade. Não é... — Romântico — digo, engrenada, e fazendo a metade do meu discurso com gestos. — Nem aventureiro. Ou inovador. — Muito menos descolado — acrescenta Ethan. — Exatamente! Mesmo criando algo diferente ou mesmo querendo reposicionar completamente a Boomerang com uma nova imagem, tudo vai acabar indo por água abaixo com aquele espaço. — Vai ser como colocar a Mona Lisa na prateleira de uma farmácia — diz Ethan. Seus olhos assumiram um brilho interessado e competitivo. Ele está em seu estado natural: descontraído, eletrizado de entusiasmo. Meu Deus, como ele me deixa louca. Adam ri. — Quer dizer então que vocês dois estão criando a Mona Lisa das apresentações de mídia? É isso? — É isso aí — retruca Ethan. Concordo, balançando a cabeça. — Ou poderíamos, com um cenário mais inspirador. Deixe a gente mudar aquele estande. — Bom, seja lá o que vocês têm em mente, é melhor ser muito bom mesmo para compensar a ira de Cookie. Ethan e eu nos entreolhamos. Migalhas. Cookie. — Tenho certeza de que Cookie quer o que for melhor para a empresa — diz Ethan. — E nós dois queremos aproveitar ao máximo esta oportunidade. — Ok — diz Adam, levantando uma das mãos para deter nossa enxurrada de comentários. — Eu me rendo. Novo projeto de estande, do jeito que vocês quiserem que seja. Desde que fique dentro do orçamento, é claro. Que é bastante generoso. Dividam o projeto, cada um assina uma parte, mas as duas têm que se encaixar perfeitamente. Por outro lado, elas devem refletir a visão específica que cada um de vocês tem da Boomerang. Entenderam? — Perfeito — digo, já pensando nas possibilidades. Isso vai ser divertido. — Sei que nós dois estamos à altura do desafio. — Não duvido. — Adam enxuga o canto do lábio com um guardanapo e, em seguida, levanta-se. — Falando em desafios, vocês me fizeram lembrar do meu plano para a semana que vem. — Que plano? — pergunta Ethan. — Pesquisa de campo — responde ele. — A partir da próxima quarta-feira, vocês dois precisam


comeรงar a sair com pessoas do site.


Capítulo 22 Ethan P.: Como prefere lutar suas batalhas: mantendo a frieza ou aos berros?

– O que você disse? Apoio os cotovelos na mesa, sentindo as costuras da camisa do Sr. Galliano se retesarem e ameaçarem abrir. Adam olha para mim com toda a calma. — Encontros com pessoas do site — repete ele. — Para fazerem um test-drive do nosso produto, digamos assim. Entenderem de forma direta o serviço que oferecemos. Não é obrigatório, mas quase ninguém deixa passar essa oportunidade. E é óbvio que só precisam passar poucas horas com alguma das pessoas propostas pelo sistema, nada além disso. Ele continua seu discurso, falando que achava que Rhett tinha nos contado sobre o teste, que ele sugere isso a todos os seus recém-contratados solteiros, porém meu foco está em Mia. Ela parece um pouco pálida, mas é difícil afirmar com certeza sob a luz de velas. Seja como for, fica claro que ela está encarando a situação muito melhor do que eu. Sem dúvida o Ethan Sombrio deve ter dado as caras novamente. Caramba, mas que merda de emprego é esse? Já estou trabalhando de graça e ainda vou ser obrigado a dedicar a porra da minha vida social também? Mas o pior nem é isso. O pior é imaginar Mia tendo que passar a noite com algum desses canalhas que, tenho certeza, só usam a Boomerang para transar. Puta. Que. O. Pariu. Merda. Adam interrompe seja lá o que estava dizendo. — Tudo bem pra você, Ethan? Eu nunca forçaria nenhum funcionário a passar por uma situação incômoda. Aliás, cheguei a pedir para a minha assistente Lena marcar os encontros dos dois no mesmo horário e local. Talvez assim vocês considerem mais fácil, mais parecido com outras tarefas do trabalho. E, depois, poderão comparar as anotações. Também devo admitir que nesse sentido sou um pouco antiquado e ficarei mais tranquilo se você estiver de olho em Mia. Adam sorri e levanta a taça na direção dela. — Não interprete isso errado, Mia. Sei muito bem que você sabe cuidar de si mesma, mas eu ficaria mais tranquilo sabendo que Ethan está por perto. — Ter Ethan por perto é uma ideia excelente — diz Pearl, me encarando com aqueles olhos penetrantes. — É mesmo — concorda o Sr. Galliano. — Isso me deixaria mais sossegado também. Aham, penso. Vocês não diriam isso se soubessem que eu estava no meio das pernas da sua filha dez minutos atrás. De repente, me sinto envolvido por um mar de raiva e luxúria. Fixo o olhar na taça de vinho à minha frente. Dou um gole, pois estou precisando de alguma coisa capaz de me refrescar por dentro. — Hã... quando isso tudo vai acontecer? — pergunta Mia.


— O primeiro encontro será quarta à noite. Acho que tem mais dois agendados para essa mesma semana. — Tu-do bem — diz Mia. — Parece... ótimo. — Três encontros! — cantarola Nana. — Que maravilha! Adam assente. — Com isso vocês podem inclusive ter o insight necessário para criarem o estande perfeito para a conferência. — Ah, com certeza vão fornecer um insight — comento. Mia me lança um olhar repreensivo e depois diz: — Ei, vocês sabiam que Ethan aprendeu a jogar futebol numa pista de boliche? Isso faz a conversa tomar um rumo completamente diferente. Eu estava prestes a dizer com todas as letras para Adam como me sinto sobre essa ideia, mas Mia percebeu e salvou minha pele. Todos ficam encantados quando digo que aprendi a chutar mirando os pinos de boliche. Que legal, dizem. Mas na verdade foi por pura falta de opção. Nem sempre conseguia bancar as partidas em quadras cobertas ou as viagens com os times, então eu jogava onde dava. Sei que Mia teve a melhor intenção do mundo ao trazer esse assunto à tona, mas a única coisa que quero é me levantar dessa maldita mesa. Nem estou sentindo o gosto da comida, mas o vinho está descendo muito bem. Depois do jantar, ajudo Mia a levar os pratos para a cozinha e então o Sr. Galliano surge com a sobremesa: um crème brûlée cuja casquinha ele faz na mesa com um maçarico e Adam jura ser o melhor que ele já provou. Puxa-saco. Mia e eu nos levantamos para levar a louça até a cozinha de novo. Assim que deixamos os pratos, ela segura minha mão e me puxa para um quartinho fora do campo de visão de quem está na sala. Nós nos esprememos ali com uma escultura que parece a pilha de descartes de uma oficina mecânica. — Você está tranquilo com essa situação? — pergunta ela. — Com esses encontros? Porra. Claro que não. Você está? Ela nega com a cabeça, mas alguma coisa em seus olhos não me agrada. — O que foi, Mia? — O emprego, Ethan. Você precisa desse emprego. O jeito como ela disse “precisa” não é fruto da minha imaginação: faz lembrar demais a minha família. Eu não tenho uma casa como essa. Não sou dono de uma pilha de metal que provavelmente deve valer um milhão de dólares e fica guardada num quartinho especial. Literalmente, não sou dono nem da camisa que estou vestindo. — Tem razão. Preciso mesmo. E você, Mia? Por que se meteu nisso? Não precisa desse emprego pra fazer o documentário sobre sua avó. E está na cara que não precisa de grana. Ela fica boquiaberta. — Ethan... Será que tenho que me justificar pra você? Só porque não estou desesperada por dinheiro não significa que esse emprego não seja importante pra mim. Ele pode significar uma carreira, algo que vou poder construir so... — Ela balança a cabeça, como se não quisesse seguir por aquele caminho. — Olhe. Só estou confusa com tudo isso. — Mas eu não — minto. Não sei mais o que quero. Estou puto da vida. Muito puto da vida. E o tanto de vinho que bebi durante o jantar está me deixando tonto. — Não tem problema algum, Mia. A gente só se empolgou um pouco mais cedo. Não fizemos nada de errado.


— Como assim? — Concordamos que não nos envolveríamos com ninguém do trabalho e não quebramos essa regra. A gente só se divertiu um pouquinho, mas não foi nada... Não foi nada o quê, Ethan? Incrível? Maravilhoso? Seu mentiroso de merda. Foi isso tudo, sim. Isso tudo. Mas não consigo parar. Não sou o ex dela. Porra, não sou de dar pra trás nem de ficar todo cheio de dedos, e não é agora que vou começar com isso. Por isso, tento novamente. — O que estou tentando dizer é que o que aconteceu entre a gente não foi nada... — Nada — repete ela de um jeito vazio, mas vejo a mágoa em seus olhos. — Nada que a gente não possa dar a volta por cima, foi o que eu quis dizer. Só precisamos nos concentrar naquilo que realmente importa pra nós. O emprego. Não sei o que diabos estou dizendo. Quero beijá-la outra vez. Sentir seu corpo no meu. Pressionar meu corpo no dela contra a parede. Não quero que ela saia com outros caras. Um gosto horroroso sobe pela minha garganta e uma dor cresce em meu peito, uma dor que não sinto há semanas. Há dois meses, para ser mais exato, quando entrei no apartamento de Alison e a encontrei na cama com seu assistente de pesquisa. Então percebo, de repente, o que deixou minha cabeça tão ferrada. Eu não sei dividir. E nunca mais quero chegar nem perto de uma situação como essa.


Capítulo 23 Mia P.: Fazer amor ou fazer guerra?

Entro marchando no escritório da Boomerang na segunda-feira de manhã, como se estivesse indo para a guerra. Estou usando um vestido verde-esmeralda curto, justo e decotado e botas pretas de salto agulha. Meu cabelo cai solto em cachos grossos e brilhantes domados por Skyler. Vou passando pelas baias enfileiradas carregando uma caixa gigantesca de bolinhos recém-fritos e docinhos folhados que entrego aos meus colegas a caminho da minha mesa. Deixo para trás um rastro de doçura pasteleira e gemidos de orgasmos alimentares. Que os jogos comecem. Porque ele podia ter dito qualquer coisa. Não consigo parar de pensar nisso. Temos um idioma maravilhoso lotado de palavras, frases, sentenças inteiras. Ethan tinha à sua escolha milhares de termos, uma riqueza verbal imensa, mas ele disse que o que aconteceu não foi nada. Aquele momento quente, onírico, que vivemos no estúdio da minha mãe. A carga de conexão — e não apenas sexual — entre nós. A sensação de estar tudo certo, no lugar certo, com a pessoa certa, fazendo exatamente a coisa certa. Tudo isso não significou nada. Traduzindo: eu não significo nada. Pelo menos foi isso o que ouvi quando me afastei, sentindo um nó na garganta ao tentar conter as lágrimas repentinas que me recusei a derramar. E depois que eles foram embora, quando me deitei no sofá da sala com a cabeça no colo de Nana, foi essa palavra que ficou martelando na minha cabeça: nada, nada, nada. E pensar que estive a ponto de desistir do estágio por ele. Porque eu queria Ethan mais do que esse emprego, e a ideia de sair com outros caras para fazer uma “pesquisa de campo” me deixava com vontade de vomitar na minha própria bolsa. Agora, porém, pretendo me divertir. Minha vida pós-agir-como-uma-idiota-com-garotos vai ser uma caixa de bombons, e vou provar todos, inclusive. Ethan já está sentado à nossa mesa, com o tablet à sua frente. Está usando o mesmo terno que vestiu no nosso primeiro dia de trabalho, e minha cabeça deseja voltar até aquela manhã, até o momento em que acordei na cama dele, em que ri com ele enquanto tentávamos encontrar minhas roupas. Bloqueio minha mente para essas imagens e estendo a caixa para Ethan. — Bom dia — cumprimento, com um tom de voz alegre e falso como néon. — Quer um folhado de amêndoa? — Foi a única coisa que sobrou, além do miolo de uma rosquinha. — Bom dia. — Ele olha para o interior da caixa e depois para mim. Seus olhos estão sombrios. — Não, obrigado. Eu me viro e coloco o último folhado em cima do balcão da cozinha, depois enfio a caixa da Stan’s Donuts na lixeira e a amasso com raiva usando a ponta da minha bota. Volto à mesa, me acomodo na cadeira e ligo o tablet.


— Mia, escute... — começa Ethan. Ao mesmo tempo que ele, eu digo: — Hoje vai ser um grande dia. Nós dois dizemos: — Desculpe, o que você falou? — Você primeiro — peço, abrindo meu perfil da Boomerang para ver se adiciono ou não mais fotos. Talvez eu devesse aparecer com alguma coisa mais sexy do que a blusa de seda que usei no primeiro dia de trabalho. Quem sabe com algo mais decotado. E pedir para Ethan tirar as fotos. — É que... — Ele esfrega a nuca. — Sabe o que eu disse naquela noite? Saiu de um jeito mais grosseiro do que eu... Ergo uma das mãos para interrompê-lo. Já foi ruim o bastante ter que ouvir aquilo, para início de conversa, e depois ainda tive que passar o fim de semana inteiro me sentindo uma idiota arrasada e usada. Já sei que ele está arrependido. Notei isso em seu rosto assim que ele disse, mas não tem a menor importância. O que não consigo suportar é justamente essa oscilação, essa tortura interminável de vai e volta, quer não quer. Meu coração não suporta mais. — Não tem problema — digo. — Sério. Você tinha razão. A gente só... se empolgou. E foi legal, mas... — Não consigo olhar direito para Ethan, portanto me concentro no ponto entre suas sobrancelhas expressivas e retas. — Vamos enfiar tudo isso dentro de uma caixa e guardá-la bem, OK? — Combinado — diz ele. — Ótimo. O assobio da máquina de café espresso preenche o silêncio constrangedor por bastante tempo. Não sei o que eu queria que ele dissesse. Mas sei que não era isso. — E o que você ia dizer? — pergunta Ethan. — Ah, só que hoje vai ser um grande dia. Vamos escolher com quem vai ser nosso primeiro encontro na Boomerang. — É — murmura ele. — Que legal. — Talvez seja mesmo. — Passo por alguns perfis e paro no cara com ar mais nojento que consigo encontrar, de óculos espelhados, segurando uma margarita gigante e com os braços em volta dos ombros de duas gêmeas idênticas louras platinadas. Que ele fez questão de manter na foto de perfil. — Olha, aqui tem um: Robby_OTrepador. — Viro o tablet para Ethan. — O que você acha? — Robby_OTrepador — diz ele, me olhando de um jeito esquisito. — Que sutileza. — Ah, e para que se importar com sutileza? Essa não é justamente a promessa do site? “Jogue com afinco e se jogue em outra”, não é? Esse tal de Robby parece ser o tipo de cara que sabe jogar com afinco. Ethan estremece. Ou talvez seja só minha imaginação. — Não era você mesma que estava falando sobre todas as grandes experiências que os membros da Boomerang podem ter? As memórias que podem criar? Esse cara parece alguém capaz de lhe propiciar uma lembrança legal, Mia? — Ah, sei lá. — Viro o tablet de volta para mim e finjo refletir. O bronzeado alaranjado de Robby me faz lembrar de uma bola de basquete, e seus dentes têm um brilho ameaçador, como os de um tubarão. — Talvez algumas noites não sirvam para deixar lembranças. Pode ser que sirvam apenas para você descolar alguém e se divertir. Nós nos entreolhamos, e encontro mágoa e frustração em seus olhos. Mas o papo virou uma bola


de neve que já está descendo a toda velocidade morro abaixo. Paolo, o diretor de arte, aproxima-se e se senta na beirada da minha mesa, de costas para Ethan. Está usando uma calça jeans skinny preta com a barra enrolada para mostrar as meias brancas e tênis All Star vermelho. É magro, usa óculos de aro vermelho, uma barbinha escura impecável e uma pele bronzeada que me faz sentir vontade de levá-lo lá fora para filmá-lo. — Bolinho de maconha — diz ele, erguendo o punho em cumprimento. Dou risada e toco meu punho fechado no dele. É sua primeira visita ao Gulag dos Estagiários. Antes ele só passava aqui a caminho da cafeteira. — É melhor se cuidar, rapaz — diz ele para Ethan. — Você vai acabar ferrado na mão dessa aqui, que vai ficar com o emprego. — Amanhã trago um bolo de casamento — diz Ethan, levantando as sobrancelhas e fazendo uma careta. — O que você quer aqui? — A questão na verdade é o que você quer — diz ele, e pega meu tablet. — Robby_OTrepador? É sério, Mia? Pelo amor de Deus. Não! — Mas olhe só esse bronzeado! — digo, com um sorriso. — Talvez as garotas venham junto. — Bom, isso seria mesmo um bônus. Mas não. Continue tentando. Ele vai até o lado de Ethan e espia por cima de seu ombro. — É sério — diz Ethan, afastando-se dele. — O que você quer? — Estou aqui para ajudar você a arranjar um encontro, cara! — responde Paolo. — Isso é uma espécie de rito de passagem aqui. Seu primeiro encontro esquisito na Boomerang. Preciso ajudar nessa parada. — Não precisa, estamos bem — digo. — Mas valeu mesmo. — Vocês não estão entendendo — insiste ele. — Eu trabalho diretamente com Cookie. Sabem o que isso significa? Significa que sou massacrado umas vinte e seis vezes por dia. — Ele enfia os dedos nos passadores de cinto da calça e sorri. — Posso te mostrar as cicatrizes, se quiserem. — Não precisa — digo. — Receba minhas condolências. — Claro. Bom, o que quero dizer é que não se pode negar os pequenos prazeres a um pobre homem. — Então não seja por isso. Faça o favor. — Ethan lhe entrega seu tablet. — Você escolhe. — Ele tamborila os dedos na nossa mesa e olha para mim. — Quero uma bem gostosa. — Dã, é claro, né? — Ele pega o tablet e vejo o reflexo da tela em seus olhos à medida que vai navegando pelos perfis. Para em um deles e lê por alguns instantes, movendo os lábios. — Caramba! — exclama. — Essa aqui. Ethan olha demoradamente para a tela e sorri. — Com certeza. Virando o tablet para mim, Paolo pergunta: — O que você acha? A garota tem pernas e braços compridos, é ruiva de olhos castanhos e tem o nariz salpicado de sardas lindas. O nome dela é Raylene Powers. No seu perfil diz que adora escaladas e ajuda a construir casas para os sem-teto. Em uma das fotos, ela está entre o ex-presidente Jimmy Carter e Beyoncé. Sinto vontade de fazer uma brincadeira e dizer que ele precisa escolher alguém que saiba se autopromover melhor, mas tenho a sensação de que minha boca está cheia de algodão e só consigo dizer: — Bonitinha.


— Ponto! — exclama Paolo. — É essa aí. — Ele pega meu tablet. — Agora, você. — Pelo amor de Deus, Paolo — diz uma voz que gela minha espinha. — Merda! Cookie — sussurra ele, se levantando num pulo e olhando ao redor, em busca de uma rota de fuga. — Me escondam. Estou considerando seriamente escondê-lo embaixo da minha mesa quando Cookie vem batendo o salto alto e aparece no canto da sala. Ela fica parada ali, de braços cruzados, e faz um furo no crânio de Paolo com aqueles olhos lancinantes. — Paolo — chama ela, num tom marcado de prazer aterrorizante. — Você ama esse país ou não? — Vai ter que se virar sozinha, garota — diz ele para mim ao se afastar. Ela direciona seu olhar de raio laser na minha direção. — Você não queria oferecer um folhado para mim, Mia? Quase faço xixi na calça. Ela me dá muito medo. — Hã, bom, é que você não ficou muito interessada nos cookies de Ethan naquele dia. Ela sai bufando, e eu a observo se afastar. Virando-me novamente para a tela, suspiro. — Ah, que diferença faz? — murmuro, e lanço meu bumerangue virtual para Robby_OTrepador.


Capítulo 24 Ethan P.: Todos nós já tivemos algum encontro desastroso. Qual foi o seu?

Quem quer

que tenha inventado a mesa de escritório compartilhada merece uma morte lenta e

agonizante. Não consigo erguer os olhos do meu tablet sem ver o sorriso de Mia. Seus lábios. Seu decote. Ela está literalmente no meu campo visual de alerta. Bem na minha frente. A um metro de distância. Isso foi uma tortura a semana inteira, e não está ficando nem um pouco mais fácil. Eu me sinto tentado a trocar de lugar com a cafeteira e trabalhar no balcão da cozinha, mas é provavelmente isso o que ela quer. Devo ser o motivo de ela ter feito um upgrade nas roupas que usa para trabalhar, saindo de coisas adequadas ao ambiente profissional para um vestuário absolutamente sensual. Com aquele vestidinho preto, ela está destruindo a minha concentração. Destroçando-a. Mas nem morto vou confessar isso. Para tentar me distrair, entro no perfil da menina do meu encontro. As ruivas nunca fizeram meu tipo, pois essa cor de cabelo basicamente passa batido por mim, mas aquela garota parece ter potencial, mesmo tendo estudado na USC. Sou capaz de superar uma rivalidade entre universidades e não dar importância para o seu nome, Raylene Powers, que confunde, por ser tão... masculino. Paolo disse que ela é gostosa. Ele foi um pouco generoso, mas a menina não é de se jogar fora. Tento me imaginar me divertindo ao lado dela, quem sabe levando-a para o meu apartamento, mas termino com a lembrança de Mia pelada no meu banheiro, escovando os dentes com o dedo. Mandou bem, Vance. Funcionou pra caramba. Passo para o plano B da minha Estratégia de Evitar Mia. Abro os arquivos do projeto do estande no qual estou trabalhando. Já decidi que toda a minha abordagem vai estar fundamentada no movimento, porque essa é minha especialidade. No meu trabalho de conclusão de curso da faculdade de psicologia, fiz um estudo do efeito posterior da endorfina nos atletas. Segundo minha pesquisa, a sensação de euforia depois de um esforço físico extenuante apresenta um resultado previsível, considerando que setenta e dois por cento dos voluntários testados afirmaram que transar era atividade que mais desejavam fazer depois de uma atividade física liberadora de endorfina. Isso foi, de certa forma, uma surpresa, porque o barato do corredor é muito parecido com o relaxamento pós-orgasmo, mas parece que quanto mais se tem, mais se quer uma sensação boa. Não é mesmo? Acho que o velho Newton tinha razão. Corpos em movimento tendem a querer continuar em movimento. Digito algumas anotações sobre como integrar tudo isso no projeto de um estande e perco a noção do tempo, até ouvir a voz aguda de Cookie ressoando no fim do corredor. Ergo os olhos e percebo que Mia estava me olhando. Há certa tristeza em seus olhos verdes. Baixo o olhar de novo para a minha tela e meu estômago se revira. Tudo o que falei para ela naquele quartinho na casa dos seus pais me vem à cabeça e me sinto corar de vergonha.


Que canalha de merda eu sou. Banquei o namorado ciumento logo depois do primeiro beijo. Mas, fala sério. Que beijo. E não estou me referindo só ao sábado à noite, mas também à primeira noite em que ficamos. Aquela noite misteriosa. Em que acordei ao lado de uma garota gostosa, inteligente e engraçada na minha cama. Que agora virou minha colega de trabalho. E que, ironicamente, também anda dificultando minha concentração no trabalho. Meu Deus. Isso precisa parar. “O único erro verdadeiro é não conseguir aprender”, dizia o Treinador Williams, e eu estou aprendendo. Não vou deixar essa garota arruinar meus planos. Não vou deixar que ela vire uma obsessão. Ou, sei lá, quem sabe vou, sim. Digito algumas palavras e entro no perfil de Robby_OTrepador. Que excelente escolha bizarra, Mia. Balanço a cabeça enquanto olho para aquele rosto com bronzeamento artificial. Dou zoom e noto que os dentes dele são horrorosos. Então passo o resto do dia pensando em maneiras de obrigálo a passar por um tratamento ortodôntico, que é mais do que necessário no caso dele. Sério, seria fazer um favor a esse cara, na verdade. Às seis da tarde, eu me levanto e penduro a bolsa carteiro no ombro. — Então — digo a Mia. Passei horas me privando do prazer de olhar para ela, mas o efeito rebote é que agora estou morrendo de vontade de olhá-la. Passo a mão pelo cabelo, tentando não encará-la. — A gente se vê no Rock Sugar? — Uau — diz Mia. — O tempo voa. Quase reviro os olhos. O tempo não voou. Hoje o tempo quebrou uma asa e teve que ficar de repouso. Acabei de passar quatrocentos e oitenta minutos pensando em Mia, olhando para Mia e tentando não pensar e não olhar para ela. Ela fecha o tablet e coloca a bolsa no colo. Normalmente fico louco da vida quando as garotas não conseguem encontrar suas tralhas na bolsa, mas sou fã desse jeitinho dela. É uma oportunidade de ficar olhando para Mia. Coisa que eu não deveria estar fazendo, mas dane-se. Um homem só tem certo autocontrole, depois disso é ladeira abaixo. Essa garota é puro sex appeal, e as botas ficam um tesão nela. Estou imaginando Mia usando só aquelas botas quando ela encontra suas chaves e se levanta. — Quer uma carona? — pergunta, empurrando a cadeira com o quadril. — Ethan? — O quê? Não, obrigado. Rhett vai me levar. Ela assente, e não sei se o que vejo em seus olhos é desapontamento ou não. — E mais tarde? — Valeu, mas Jason vai me emprestar o carro. — Tudo bem... Ei, como tá sendo morar com Isis? Bacana da parte dela perguntar, mas quero lhe dizer que as coisas entre nós precisam permanecer numa esfera estritamente profissional. Sábado estabeleci esse limite e não estou a fim de ultrapassálo. — Ótimo — respondo, usando a mãe de todas as “não respostas”. — Ótimo — repete ela, me dando um gostinho do meu próprio remédio. Ela pendura a bolsa no ombro. — Então a gente se vê mais tarde, acho. — Espere aí — digo. — Será que não seria melhor criarmos um sinal para indicar “operação abortada” ou algo do gênero para essa noite? Se as coisas estiverem horríveis, seria bom termos um


jeito de comunicar isso, para podermos salvar a pele um do outro. O que você acha? O que quero na verdade é poder interferir caso ela ache que seja necessário. Mia dá de ombros, como se não conseguisse imaginar que Robby_OTrepador pudesse ser qualquer outra coisa diferente de um perfeito cavalheiro. — Tudo bem. Que tal se a gente mandasse uma mensagem de texto com a palavra Baudelaire? Nego com a cabeça. — É difícil demais escrever sob pressão. Que tal... Cookie? Ela dá um sorriso de verdade, o que me deixa arrasado. Não consigo vencer, porra. Ela pode agir com simpatia, frieza ou entre uma coisa e outra, mas não tem a menor importância. Estou ferrado. — Cookie, pronto — diz ela. — Vejo você às oito. — Tudo bem — eu me ouço dizer, mas não está nada bem. Não tem nada bem nessa situação toda para mim. Sou o primeiro a chegar ao restaurante, o que é um mau sinal. Tecnicamente, o Rock Sugar não serve comida chinesa, e sim fusion asiática, mas meu corpo não consegue notar a diferença. O cheiro me faz lembrar daquela noite, dois meses atrás, com Alison, e uma sensação incômoda surge em minha barriga. Escolho uma mesa com sofá e passo um instante conversando comigo mesmo para me animar. Digo como vai ser bom retomar o estilo de vida de solteiro, que era o plano antes de conhecer Mia e ainda é. Descolar esse emprego. Pagar umas parcelas do empréstimo para o financiamento estudantil. Entrar na faculdade de direito. Tudo isso. Abro o cardápio e fico olhando, sem ter certeza se vou acabar vomitando antes mesmo de a comida chegar à mesa. Sinto a chegada de Mia antes de vê-la. Tiro os olhos do cardápio e, dito e feito, ali está ela, seguindo a hostess pelo restaurante. Está usando um vestido... vermelho, tenho quase certeza, que faz o preto que vestiu no início do dia parecer recatado. Seus cachos foram domados em longas ondas e ela parece completamente diferente, mas ainda assim continua sendo ela mesma e inacreditavelmente gostosa. Observo a hostess levá-la até uma mesa a poucos metros da minha e dizer: — Que tal esta? Mia olha duas vezes ao perceber que estou ali. — Ah... Hã, está ótima. Então ela se senta e tenho uma visão perfeita da lateral do seu corpo perfeito. Que maravilha, parece que esta noite vou acabar ficando vesgo. Tiro o celular do bolso e checo a hora. Daqui a cinco minutos nossos acompanhantes devem chegar. Abro o cardápio novamente e olho os pratos listados, sem ver nada a não ser letras, até que Mia cruza as pernas. Então, meus olhos são atraídos como se ela os houvesse puxado com uma cordinha. Ela está sensacional, incrivelmente sensacional. Será que não podia ter vindo de calça de moletom? Ou quem sabe de trench coat? Ela me flagra olhando para ela, portanto pigarreio. — Pronta para encarar o tranco? — Estou, sim. E você? — Aham.


Ficamos em silêncio, mas sem desviar os olhos um do outro. Queria que fosse uma situação estranha, mas não é. Encarar os olhos dela é a coisa mais natural do mundo. Mia é quem desvia primeiro, voltando a atenção para a entrada do restaurante, onde uma garota segurando uma sacola de compras azul-turquesa conversa com a hostess. Reconheço minha acompanhante: Raylene. Logo atrás dela está Robby_OTrepador em carne e osso, percorrendo o restaurante com o olhar faminto de um tubarão branco gigante. Eu me levanto da mesa e ergo uma das mãos para que Raylene possa me ver. — Ethan Vance? — pergunta ela com uma voz aguda enquanto se aproxima. Ela meio que bate palminha e depois me olha de cima a baixo com tamanha empolgação que sinto vontade de cancelar tudo naquele instante. — Sou Raylene Powers. Meu deuxx! Você é maravilhoso! Vamos nos divertir taaaanto, né? Essa noite não vai ser sensacional? Não sei a qual pergunta responder e estou ocupado demais observando o abraço de corpo inteiro que Robby está dando em Mia. Ele praticamente a levantou do chão! — Prazer em conhecê-la, Raylene. Aperto sua mão, tentando ignorar que suas unhas falsas de três centímetros de comprimento cravam na minha pele. Então espero que ela se sente antes de voltar a me sentar no sofá diante dela. Raylene estende o braço para pegar o guardanapo de pano, mas sua mão paira imóvel por um segundo enquanto seus dedos tremem de leve. — Quer que eu me sente ao seu lado? — pergunta. — Só me sentei aqui porque parece ser o mais habitual, mas posso trocar de lugar se você quiser, para a gente ficar mais pertinho. O que você acha? É um exagero ou tudo bem? Puta que o pariu. Puta. Que. O. Pariu. — Hã?... N-não — respondo, gaguejando.— Acho que estamos bem assim. Os ombros de Raylene murcham, e vejo minha noite ser consumida em chamas. E meu emprego está sendo queimado nelas, tudo porque não consegui suportar nem um encontro sequer da Boomerang. As palavras saem da minha boca desajeitadamente antes que eu consiga impedir: — Como você preferir, Raylene. Se quiser se sentar ao meu lado, pode vir. Venha. — Maneiro! — exclama ela, vindo para o meu lado. — Você é tão legal! Tão encantador, na verdade. As pessoas dizem que o cavalheirismo morreu, mas não sei do que elas estão falando. — Enquanto diz isso, ela vai puxando para si, com enorme precisão, os talheres e o jogo americano que estavam do outro lado da mesa, de forma que parece que ela só enxerga ângulos retos. Então, endireita meus talheres. Minha taça de vinho. Meu copo de água. — Perfeito! — exclama, quando termina. — Estamos prontos para começar! Não é sensacional? Já estou me divertindo tanto! E você? De repente sinto uma dificuldade enorme de processar aquilo tudo. Raylene disse no seu perfil que tinha vinte e quatro anos, mas estou achando que na verdade ela tem dez a mais do que isso, no mínimo. Outro problema é que noto uma enorme quantidade de branco ao redor de suas pupilas, como se ela tivesse acabado de ver um fantasma. E ganhado um carro. Para completar, Robby não para de conversar com os peitos de Mia, como se os olhos dela ficassem na altura do seu decote. Porra, é demais para suportar. Uma gota de suor escorre pelas minhas costelas. Respiro fundo, bem fundo, depois expiro e solto todo ar ao ver um prato fumegante de macarrão kung pao passar por nós. Tarde demais. Meu estômago se embrulha. — Ethan? — diz Raylene. — Hum?


Estou encurralado. O único jeito de conseguir sair desse sofá é subindo na mesa, e estou considerando seriamente fazer isso. Uma parte de mim está morrendo neste exato momento. Morrendo e berrando: Cookie! Baudelaire! Raylene se vira ligeiramente, escondendo um sorriso atrás do ombro num gesto que, suponho, era para ser de timidez. — Trouxe uma lembrancinha para você. Não se preocupe, não é nada de mais. Eu nunca faria alguma coisa assim tão ousada ou vulgar. Isso não é nem um pouco meu estilo. — Os olhos de Raylene se arregalam ainda mais e se fixam na minha calça, antes de tornarem a subir para o meu rosto. — Fiz super-hipermega questão de perguntar ao vendedor se não tinha problema dar isso no primeiro encontro. Ele disse que seria perfeito. Não seria exagero. E sim o presente ideal. — Ela me entrega o embrulho, que tem escrito Tiffany’s em um dos lados. — Então, pronto. Aí está. Abra! — Uau, Raylene. Isso é muito legal da sua parte, mas não precisava se... — Precisava, sim! Abra logo! — Com licença, garçom? — digo, ao segurar um assistente de garçom que passa carregando uma bandeja com pratos limpos. — Eu gostaria de pedir uma bebida, por favor. Um uísque duplo, sem gelo. Raylene, você quer alguma coisa? — Você bebe? — Ela faz uma careta como se eu tivesse acabado de lhe dizer que sou pedófilo. Devo parecer aterrorizado com aquilo, porque ela se apressa a dizer em seguida: — Ah, tudo bem, tudo bem. Todos nós temos defeitos, não é mesmo? Ninguém é perfeito. Abra logo, abra logo! Enfio a mão na sacola e vou retirando vários pedaços de papel, quase esperando encontrar lá no fundo uma cabeça de cavalo, ou talvez um coelho de estimação aferventado. Mas é só uma caixinha. Eu a retiro da sacola, abro-a e, ali dentro, há abotoaduras prateadas parecidas com as de Adam. A essa altura estou me sentindo um pouco tonto, mas consigo controlar. Preciso dar conta de tudo isso. — Raylene... São lindas, mas não posso aceitar. — Ah, não, você precisa aceitar! Não posso devolver pra loja. — Ela pega as abotoaduras da minha mão e segura-as contra a luz da vela. — Elas têm suas iniciais gravadas, está vendo? EJV. Ethan James Vance. É você! Não são maravilhosas? Aqui, me deixe colocá-las em você. Não consigo encontrar absolutamente nada para dizer, portanto fico ali parado, observando suas compridas unhas trêmulas prenderem as abotoaduras na minha camisa. — Ficaram tããããããão lindas em você! — diz ela, ao terminar. — Meu deuxxx, como você é gato. Eu estava tão preocupada quando me cadastrei no site, porque, afinal, é um site de relacionamentos, né, mas você é um par-ti-da-ço. Meu deuxxx, aposto como você é um furacão na cama. Adorou o presente, não foi? — Hã... — Nada ainda. Nenhuma palavra. Minha boca está começando a se encher de saliva quente. Eu me sinto como um desses animais que para escapar de uma armadilha cortam uma das patas com os próprios dentes. Eu daria minha mão direita para não estar aqui. — Pode me beijar agora, se quiser — diz Raylene. — Só estou querendo dizer que não vou me importar, que vou interpretar isso como um sinal de gratidão. Nunca iria pensar que você tá passando dos limites nem nada disso. Ela coloca uma das mãos na minha coxa e vai subindo, e meu pau literalmente recua. Bem nesse instante, Mia olha para a nossa mesa pela primeira vez.


Capítulo 25 Mia P.: Como você imagina um encontro perfeito?

Meu cérebro tenta absorver a imagem na minha frente. Ethan e sua acompanhante lado a lado no sofá da mesa, quase tão grudados quanto tinta e parede. E, diante deles, em cima da mesa, há uma caixinha da Tiffany’s. Não consigo entender. Será que aquela gigante ruiva pediu Ethan em casamento? Tomo um longo e necessário gole do meu White Russian e me inclino para olhar melhor. Porque a julgar pela posição das mãos dela, aquela garota não está tentando colocar o anel no dedo dele. — Caramba, garota, olhe só para você — diz Robby, encarando meus seios com a sutileza dos olhos arregalados de um lobo de desenho animado. Endireito o corpo imediatamente e expiro, tentando me controlar para não apunhalar meu garfo na sua gravata com estampa de Bettie Page. Tenho que reconhecer que esse cara tem uma qualidade: não tem medo de dizer o que pensa. E o que ele pensa é: eu sou vulgar. Robby inclina o corpo para trás na cadeira e faz o mesmo gesto esquisitíssimo de massagear o peito que já fez umas dezesseis vezes na última meia hora. Como se quisesse dizer: Olhe minha camisa brilhante, gata. Deixa ela hipnotizaaaaaaar você. Um gesto que seria muito eficiente. Se eu fosse Baudelaire. — Então, me conta — pergunto, me esforçando para tirar da cabeça Ethan e a Srta. Mão Boba. — Por que você escolheu a Boomerang e não outro site de relacionamento? Adam fez questão de frisar que não podemos revelar que somos funcionários da empresa, por isso tenho que tomar muito cuidado ao interrogar meu parceiro. Porém, por outro lado, preciso extrair algo de bom dessa noite, algo além de uma dor de cabeça e um caso de clamídia por contato. Robby estala os dedos para chamar nossa garçonete e sinto vontade de pular em cima dele, por cima da mesa, para quebrar aqueles dedos. — Quero mais um desse — indica ele para a garçonete, girando o gelo do copo. — E você, meu bem? — Lógico — respondo, tomando o resto do meu coquetel em um só gole. — Então? E a Boomerang? — Bom, sabe... — Ele olha do meu peito para seu drinque e depois para três garotas que estão passando atrás de mim a caminho da mesa delas. Aliás, isso é uma coisa que ele está fazendo a noite inteira, essa triangulação visual esquisita, como se precisasse continuar em estado de alerta, em busca de uma oportunidade mais interessante. Como se fosse receber um convite para alguma orgia ali perto. — Não escolhi “trepador” como pseudônimo porque sou muito bom em subir em árvores, se entende o que quero dizer. — Sei. A garçonete volta com uma travessa de guiozas, e é então que me dou conta de que mal passamos


dos aperitivos da noite. Deixo escapar um grunhido de pânico baixinho, mas o cara não parece notar. — Vai, meu bem, pode mandar ver — diz ele, empurrando a travessa para mim. — Você parece ser boa de garfo. Acertei? Fico paralisada. — Eu pareço... o quê? Ele faz uma cara de pânico e de repente fica corado até o pescoço, passando da cor de abóbora para vermelho-tomate. — Ah, meu Deus, não foi isso o que eu quis dizer. Não tô dizendo que você é gorda. Você não é. Tem uma gordurinha, é claro, mas é... — Ele dá um gole na sua vodca com tônica, como se pudesse engolir a própria estupidez. — Eu quis dizer que você parece ser alguém que, hã, sabe desfrutar das coisas. Que não é uma dessas piranhas magrelas que só comem salada. — Outro gole, e o tom da sua voz vai baixando, como uma boneca de corda que está ficando sem energia motora. — Não que, hã, seja ruim... gostar de... salada. Seria errado se eu segurasse a cabeça entre as mãos e começasse a resmungar? Ouço Ethan tossir e olho para sua mesa. Vejo a Mãe Teresa ruiva com uma colher de cerâmica em uma das mãos, rindo. — Ai, meu deuxxx! — exclama, esfregando o paletó dele. — Estava muito quente? Queimei você? Ela estava mesmo dando comida na boca de Ethan? — Hã... não... Você só enfiou a colher mais fundo do que eu esperava. Ele olha na minha direção, mas está escuro demais para eu conseguir interpretar sua expressão. — Ah, coitadinho! — exclama ela, e enlaça seu pescoço com um dos braços. Erguendo a colher mais uma vez, ela diz: — Deixe eu tentar de novo. Não vou enfiar muito agora. Robby dá um risinho irônico. — Isso é o que o homem diz. Eu me levanto da mesa como se estivesse flutuando. — Já volto — digo, em um estranho tom formal, como se de repente tivesse me transformado numa condessa viúva. Tenho certeza absoluta de que minhas sinapses entraram em curto e que daqui a uns dois minutos vou começar a sentir o cheiro das cores. Tenho a impressão de que me afastar daquela mesa é a melhor coisa que já me aconteceu. Sinto vontade de parar no meio do restaurante e brandir os punhos fechados para o alto como Tim Robbins em Um sonho de liberdade. Seria ainda melhor nem passar pelo banheiro feminino e, em vez disso, seguir direto até meu carro, mas ainda não descobri absolutamente nada sobre o meu primeiro Cliente Boomerang, a não ser que ele, como se fosse muito diferente dos machos da sua espécie, gosta de sexo. Uma escultura gigantesca de madeira de Buda paira acima do salão principal do restaurante. Minha vontade é a de acender um incenso e rezar para ele, pedindo um incêndio na cozinha ou um ataque alienígena na cidade. Mas, em vez disso, caminho pelo salão à meia-luz, passando por um casal feliz atrás do outro. O restaurante é marcado pelos estofados vermelhos luxuosos, painéis dourados esculpidos e pela luz suave e sensual, que faz todo mundo parecer totalmente fantástico e abençoadamente apaixonado. No banheiro, abro a bolsa e pego meu celular, torcendo do fundo do coração para encontrar uma mensagem de texto de Ethan dizendo “me salve”. Nada. Não é nenhuma surpresa, certo? Vi bem de perto como as coisas estão indo bem na mesa dele. Ela está se jogando toda em cima dele, e ele está comendo na boquinha. Literalmente. Observo meu rosto pálido sob as luzes fluorescentes e faço um pacto comigo mesma. Se conseguir


sobreviver a esse jantar sem vomitar nenhum espetinho satay nem encharcar meu companheiro com White Russian, amanhã poderei passar o dia inteiro de pijama, assistindo a uma maratona de reprises de Dollhouse. A porta se abre, quase me atingindo, e Raylene Powers entra. — Ai, meu deuxxx, me desculpe — diz ela, e me lança um sorriso de um quinquilhão de quilowatts. Seus dentes são lindos e ela tem uma pele perfeita de alabastro, mas, sob aquela luz, percebo que ela tem muito mais que vinte e quatro anos. — Não foi nada — digo, e, por adorar um castigo, pergunto em seguida: — E aí? Está se divertindo essa noite? — Ah, estou me divertindo muito! — responde ela, indo até uma das cabines. E continua falando enquanto faz xixi. — Tive tanta sorte. Você nem acredita! — É mesmo? — Olho ao redor, procurando alguma coisa para me enforcar, mas não encontro nada. — Por quê? — Deixei que umas amigas fizessem um perfil pra mim num desses sites de relacionamento. E de cara já arrumei um gato sensacional. Nem acredito na minha sorte! Ela continua fazendo xixi. Fico me perguntando se ela tem alguma doença. — E ele também é superlegal — continua ela. — Um pouco tímido, mas acho que é porque tá a fim de mim. Por fim, ela dá descarga e sai. Na pia, lava as mãos meticulosamente, ensopando os braços até os cotovelos feito um cirurgião. Ouço-a cantarolar alguma coisa baixinho. — O Dr. Oz diz que a gente deve cantar “Feliz Aniversário” duas vezes quando lava as mãos — informa ela. Seus olhos são de um tom de chocolate intenso, mas o branco dos olhos tem um brilho esquisito, como se ela tivesse acabado de se encontrar com Deus. — Bom saber. Ela olha para mim. — Você é que tá com aquele cara gatinho, né? — Eu? — É! — Ela me dá uma piscadela e depois se inclina para perto do espelho, como se estivesse olhando para o infinito. — Aquele bonitão de camisa roxa. É você que tá com ele? — Ela enfia uma unha entre os dentes e diz: — Consegui! Caramba, acho que isso tava aqui desde o almoço. — Humm... É, é com ele que estou saindo. — Bom, espero que sua noite seja tão boa quanto a minha. — E eu desejo o mesmo a você. — Ah, pode deixar! Tenho grandes planos — diz ela, e me lança um olhar penetrante, com aquele jeito de quem é levemente obsessiva. — Vou levar o cara pra casa e transar com ele até dizer chega. — Ela agita os dedos para mim ao sair. — Tchauzinho! — Tchauzinho — digo, enquanto a porta se fecha diante de mim.


Capítulo 26 Ethan P.: Surfe, skate ou outra palavrinha que começa com “s”?

Quando nossa comida chega, Raylene puxa uma conversa sobre onde mais gosta de passar férias, o Havaí e o Deserto — que, pelo que aprendi, é como as pessoas de Los Angeles chamam Palm Springs. Afinal, LA é uma floresta tropical, não é mesmo? — A gente devia ir junto! — diz ela, enxugando absolutamente todas as gotículas de condensação do seu copo d’água. — Para qualquer um dos dois lugares. Ou melhor, aimeudeuxxx, para os dois! Não por agora, não se preocupe. Um dia. Não quero pressionar. Foi só uma sugestão, mas seria superdivertido, não acha? Levo um instante para formular uma resposta que não seja completamente mal-educada. — Na verdade, não curto muito praia, Raylene. Cresci no Colorado, por isso sou muito mais de montanhas e... — Ah, aposto que você fica um gato de sunga. — Ela coloca o copo d’água em sua localização simétrica ideal e sorri para mim, enrugando o nariz. — Acho que senti uma barriga de tanquinho antes de eu ir para o banheiro. Será? Você tem mesmo? Uma barriga de tanquinho? A resposta é sim. Sempre tive abdome forte, mas nunca vou admitir isso, prefiro comer essa travessa inteira de macarrão chinês, para onde mal consigo olhar, a fazer isso. — Bom, Raylene, eu... eeeeei! Eu me espremo contra a parede quando ela estica a mão para tocar minha barriga. — Ah, só estou brincando um pouquinho com você! — Ela ri e recua com aquelas garras, balançando a cabeça como se eu estivesse sendo ridículo. — Algumas coisas são muito melhores quando a gente espera por elas. A espera é uma arte, não acha? Além disso, senti os gominhos na barriga quando meu cotovelo roçou em você, então eu já sei! Por ter estudado psicologia, passei um trimestre inteiro aprendendo sobre os sintomas do estado de choque. Estou suando, com toda certeza. Meu corpo não consegue esfriar. Respiração superficial? Confere. Confusão, ansiedade, agitação? Confere os três. Raylene pega seu garfo. — Você também tem aqueles músculos na parte de baixo da barriga? Aqueles em formato de V, sabe? Minha amiga Mona chama isso de indicador de pau. Que nome, né? — Ela esconde um sorriso com a mão. — Meu deuxxx! Não acredito que acabei de dizer isso, mas é que me sinto tão à vontade ao seu lado! Você é tão legal, Ethan. Essa comida é tão gostosa. Mas você não está comendo muito. Essa noite está sendo fantástica, não está? — É, a comida é mesmo muito... cheirosa. — Esse cheiro vai me matar, se Raylene não conseguir essa proeza antes. Enquanto ela come, olho outra vez de soslaio para Mia. Ela está se comportando de forma profissional, com uma expressão um pouco reservada e a inteligência de seus olhos atiçada ao máximo. Isso significa que não gostou do cara, o que é o único ponto positivo da noite. Mas odeio o fato de ele já ter tomado quatro coquetéis em meia hora, sem contar que ainda não parou de encarar


os peitos dela. — Você acredita nisso, Ethan James? — diz Raylene, escalando as muralhas da minha fortaleza mental. — Quer dizer, é difícil de imaginar, não é? O momento em que virei Ethan James passou batido por mim. — Eu, hã... — Minha mente rebobina e faz um playback, procurando o assunto sobre o qual ela está falando. — Uau. É sério mesmo que no Deserto chega a fazer quarenta e três graus? Nem consigo imaginar um calor desses. O que é uma puta mentira, porque tenho certeza de que essa é a temperatura do meu corpo no momento. Raylene assente devagar, enquanto abre um sorriso. — Esse calor existe, Ethan James. Vou provar para você! Abro o botão de cima da minha camisa e olho para meu copo d’água, tentado a jogá-lo em mim mesmo para me refrescar. Raylene oficialmente me desestruturou do ponto de vista emocional. É coisa de canalha, mas logo depois de ela comer mais um pouco, peço a conta. Ao olhar para a mesa de Mia, percebo que ela e Robbie_OTrepador ainda nem chegaram a pedir o prato principal, mas não consigo mais ficar aqui neste sofá. Vou ter danos permanentes se não for embora agora mesmo. — Nossa, que ansiedade... — diz Raylene, dando aquele seu sorriso por trás do ombro. — Tudo bem. — Desculpe, Raylene. É que amanhã preciso acordar cedo para ir trabalhar. Mas me diverti. Foi uma noite ótima. Acompanho você até seu carro. Meu Deus, como está quente aqui dentro, né? Raylene olha para o botão que abri e diz: — E como. — Certo, vamos! Eu a empurro mesa afora, sendo mais ou menos gentil, e paro a garçonete que estava nos atendendo e está trazendo a conta. Assino meu nome em algum lugar no recibo do cartão antes mesmo de ela entregá-lo para mim e depois sigo direto para a porta. Em dois segundos, já estou lá fora. Um fluxo contínuo de adolescentes serpenteia ao meu redor, conversando sobre o filme de terror sangrento que acabaram de ver, mas eu simplesmente fico ali parado, respirando como se estivesse numa tundra do Alasca. No fim do mundo. Livre, novamente. Raylene enlaça o braço no meu. — Estou me divertindo tanto, Ethan James. Tanto! Estacionei meu carro para lá. Encontrei uma vaga na rua, viu que sorte? Está tudo bem com você? Ela enfia a mão embaixo do meu braço enquanto fala. Não consigo imaginar como isso possa ser divertido, porque estou suando tanto que parece que acabei de jogar uma partida de futebol. — Sim, sim. Tudo ótimo. — Está na hora de jogar água fria nas expectativas dela. — Escute, Raylene. Vou acompanhar você até seu carro e depois vou direto para casa, está bem? E, pela primeira vez, seus olhos de cervo perdem um pouco de luz ante os faróis de um carro. Aquilo me pega tão desprevenido que quase tropeço no meio-fio. — Certo. Está bem. Tudo bem. Mas a gente se divertiu, né? É esse bem aqui. Uau. Que noite, não acha? Ela para diante de um Lexus SUV branco e, quando nossos olhares se encontram, acho que ela percebe a verdade, porque baixa os olhos rapidamente para sua bolsa. — Acho que você não quer que eu vá para sua casa. Tudo bem. Eu entendo. É que eu cheguei até a


arrumar uma babá, sabe. — Raylene? — digo. — Posso falar? Ela assente. — Eu sei que falo demais. Tudo bem. Sua vez. — Valeu. — Esfrego a mão no rosto, ainda tentando superar o calor desenfreado e o fedor do Rock Sugar. — Por que você se esforçou tanto? As abotoaduras. O papo do Havaí, o Deserto. Por que isso tudo? Você mal me conhece. — Você nasceu em Fort Collins, Colorado, no dia 11 de agosto. Tem um caso leve de daltonismo. Jogou futebol por quatro anos na UCLA, e seu livro preferido é Portões de Fogo, de Steven Pressfield. — Sua memória é boa, mas isso não responde minha pergunta. Por que tanta pressa? Por que eu? Os olhos de Raylene se enchem de lágrimas. Ai, merda. — Ei — digo. — Raylene... Eu não queria chatear você. Só estava querendo saber se você está mesmo bem. Era só o que precisava para a barreira se romper. — Não — diz ela. — Não estou nada bem. De repente ela começa a soluçar e não consigo entender nenhuma palavra que está dizendo. De algum jeito, consigo pegar as chaves da sua mão e abrir o carro. Não sei qual é o meu plano, só sei que ela está chorando tanto que mal consegue ficar em pé, e o mesmo instinto básico que me levou a sair correndo do restaurante me impele a ajudá-la, a lhe dar um pouco de privacidade enquanto ela entra em colapso. Eu a coloco no banco do carona e me sento no lugar do motorista. Reviro o banco de trás e encontro uma caixa de lenços de papel. Ali há também uma mochila de criança e uma bola de futebol, e sinto um nó na garganta, porque Raylene é mãe, e mães não deveriam sentir uma tristeza como essa. Só de pensar na minha mãe chorando assim já fico louco. — Desculpe, Ethan — diz ela, entre um soluço e outro. — Desculpe mesmo. — Não se preocupe — digo, entregando-lhe um lencinho de papel atrás do outro. — Isso na verdade está sendo mais fácil de encarar do que o jantar, então nada de pedir desculpas, está bem? — Com isso, ela dá uma risada lacrimosa, o que me encoraja. — O que aconteceu? O que está rolando? — Quer mesmo saber? — Aham. — O que mais posso dizer? Ela precisa de ajuda. — Sim, Raylene. Quero. Então ela me conta. Durante uma hora, escuto a história sobre sua paixão de colégio. Como eles se casaram aos vinte e três anos, tiveram um filho e passaram nove anos maravilhosos juntos até que, do nada, ele a abandonou, seis meses atrás. Ela me diz que parece que seu coração se parte todos os dias, todas as vezes que olha para o filho, Parker, que não tem mais pai, e como o divórcio foi horroroso, como ela é jovem demais para se sentir tão usada e cansada, e como ela se arrepende de ter me pressionado tanto no nosso encontro, mas é que ela estava desesperada para ter uma noite só dela, só uma noite em que pudesse se esquecer dos problemas. Para se sentir jovem e desejada outra vez. E a única coisa que ela realmente queria era rir um pouco. Quando Raylene termina, eu me recosto no assento, processando tudo aquilo. Meus olhos vagam até a rua, até o Prius de Mia, e prometo a mim mesmo que assim que puder vou voltar para aquele restaurante para ver se ela está bem. — Confesse — diz Raylene, enquanto alisa os vincos de um lencinho usado e volta a dobrá-lo em


seu formato anterior. — Você me acha uma fracassada. Nego com a cabeça. — Não. Só estou um pouco surpreso de termos passado tão rápido de indicadores de pau para divórcios, mas nada de mais. Raylene tapa o rosto com as mãos. — Meu Deus. Desculpe. É que faz tanto tempo. E é tão bom poder tocar alguém de novo. Acho que eu sentia falta disso. Entendo. Desde a noite de sábado, não consigo tirar da cabeça os cinco minutos que passei com Mia no estúdio de sua mãe. Estou sempre atrás dela. — Bom, então admita que esta noite foi o pior encontro que você já teve — diz Raylene, dobrando outro lencinho. — Admito que é um forte concorrente ao posto. Mas não foi o pior. — Não? Balanço a cabeça. — Não. Nem de longe. Mas não vou continuar explicando. Já vivenciei uma quantidade suficiente de eventos traumáticos esta noite. Se Alison entrar na jogada, vou acabar precisando de uma camisa de força. Então, jogo a bola de volta para ela. — Sinto muito por você ter que passar por tudo isso, Raylene. — Sei que sente. Posso ver. Seus olhos são gentis, Ethan. Notei logo de cara. — Ela me dá um sorriso triste e olha para a pilha de lencinhos que dobrou no colo, enquanto solta um longo suspiro. — O que devo fazer? — diz ela, daquele jeito generalista de quem pergunta: o que é a vida? — Deixe secando por um dia e depois guarde os lenços de volta na caixa. Vão ficar novinhos. Ela ri, e aquele som me dá um nó na garganta, porque é bacana. Que bosta, é uma pena que esse som não esteja mais presente na vida dela. — Seu filho, Parker. Onde ele joga? — pergunto. — Ah. — Ela olha para o banco de trás e sorri, como se o menino estivesse ali. — Ele jogava num time de Laguna Beach, mas precisei me mudar para ficar mais perto dos meus pais, para que eles pudessem me dar uma força. Então agora ele não está jogando em time nenhum. Começo a contar sobre o meu time, mas ela logo me interrompe. — Obrigada, mas ele não é muito bom. Antes era, mas agora tem muito medo da bola. Tanto que chega a correr dela. — Essa é minha especialidade, Raylene. Traga ele um dia. Confesse: você confia em mim. Ela sorri. — Confesso. Confio, sim. Eu lhe dou os detalhes dos nossos treinos com os Dynamos, depois retiro as abotoaduras e colocoas na palma da sua mão. — Você vai chegar bem em casa? — pergunto. — Vou — responde ela. — Você vai voltar pra aquela garota no restaurante, né? Aquela bonita, de cabelo cacheado? Não sei o que dizer. Fico surpreso demais por ela ter notado alguma coisa além dos meus músculos abdominais e da geometria exata dos itens da nossa mesa. — Tudo bem, Ethan. Vi você olhando para ela algumas vezes. É uma ex-namorada? — Não, é... alguém de quem eu gosto. As palavras saem com intensidade. Estou zonzo ao me despedir de Raylene e ao mesmo tempo


puto da vida, porque de alguma maneira, ao dizer isso em voz alta, só consegui fortalecer ainda mais o que sinto por Mia, o sentimento contra o qual tento lutar. Alguém de quem eu gosto. Mandou bem para caralho, Vance. Não podia ter dito que era alguém do seu trabalho, não? Ou alguém com quem você transou? Ou alguém com quem dividiu um sanduíche? Minha nossa. Quando Raylene vai embora, volto para o restaurante e subo os degraus de dois em dois. Vejo Mia lá fora e no mesmo instante percebo que tem alguma coisa errada. — Sério, Robby, não vai dar — diz ela, recuando. — Para mim, já deu. Obrigada e boa noite. Robby embola as pernas ao avançar na direção dela. — Ah, qual é, meu bem — diz, com a língua enrolada. — São só nove horas. Vou até ela e seguro seu braço. — Você está bem? — pergunto. Ela dá um pulinho de susto, mas em seguida noto seu alívio. — Estou. — Quem é você? — pergunta Robby, atrás de mim. Eu me viro, tomando o cuidado de manter Mia atrás de mim. — Volte para casa, cara. A noite acabou. Ele empina seu peito roxo. — Que merda está acontecendo aqui, hein? Você trouxe outro cara para o nosso encontro? — Ele está certo, Robby — diz Mia. — É melhor você voltar pra casa. — Está zoando com a minha cara? Sua vadia, acabei de te pagar um jantar. Dou um passo para a frente, prestes a dar uma surra naquele cara, mas ele ergue as mãos e se afasta, recuando. — Tô indo — diz, depois olha para algum ponto atrás de mim. — Tenha uma boa noite, sua putinha. Avanço para cima dele, mas Mia segura meu pulso com força. — Ethan, não. — Ela não me solta, então a arrasto atrás de mim enquanto vou até Robby. Não vou deixá-lo escapar assim tão facilmente depois de ter insultado Mia. — Ethan, pare! Olho para ela, mas levo um segundo para realmente enxergá-la. — Tem certeza de que você está bem? — Eu me ouço perguntar. Ela hesita. — Sim. Está tudo bem. Seguro sua mão. — Vamos dar o fora daqui. Eu a coloco dentro do jipe de Jason sem nem parar para pensar. Mia me diz como chegar em seu apartamento e nós dois ficamos em silêncio no caminho. Parte de mim se sente bem com a forma que agi com Raylene, como se de alguma maneira eu a tivesse ajudado. A outra parte é puro ódio de mim mesmo. O que eu tinha na cabeça, ao deixar Mia sozinha com aquele canalha imbecil? Por fim, não consigo mais suportar aquele silêncio. — Aquele babaca pôs as mãos em você? — Não exatamente — diz ela, com uma voz suave, como se estivesse esperando aquela pergunta. — Mas tentou. Acho que ele se esforçou bastante para me abalar um pouco, mas você mesmo viu em que ponto estávamos. Tinha gente por perto. Ele não ia fazer nada... de verdade.


Por algum tempo, a única coisa que consigo fazer é segurar o volante e tentar garantir que não vamos bater o carro. Perco a noção do tempo depois disso. Uma hora estou na rodovia, depois estacionando na vaga dela. Desligo o motor e olho para os degraus que levam ao seu apartamento. Não consigo me perdoar. Minha vontade é ir atrás de Robby e machucar o cara. Machucar de verdade. E não consigo olhar para Mia. Ela está prestes a sair do carro e entrar em casa, e minha única chance de superar isso é fingir que o caminho à minha frente é a única coisa que existe no mundo. Então quebro minha própria regra e olho para Mia, porque esta noite não pode terminar dessa forma. Não vou deixar isso acontecer, de jeito nenhum, porra. — Quer subir? — pergunta ela. — Talvez a gente possa conversar um pouco. Sobre o que aconteceu esta noite, e... você sabe... ter algumas ideias... — Sim, quero subir — respondo. Mas a verdade é que não quero: preciso subir.


Capítulo 27 Mia P.: Você gosta de multidões ou de locais mais intimistas?

No meu apartamento, arrasto Ethan para passarmos direto pelos meus amigos e vizinhos que estão empilhados no sofá assistindo a American Horror Story e sigo direto para meu quarto. Em geral, adoro as pessoas que moram comigo, a cordialidade e o caos de viver com essa tribo mutante de amigos e amigos de amigos. Mas essa noite só quero me trancar num lugar silencioso, ainda que seja com alguém que me faz sofrer só de olhar para ele. Acendo o abajur ao lado da cama e me jogo em cima do edredom. Depois de empilhar todos os travesseiros atrás de mim, estico as pernas e faço um gesto para Ethan sentar-se na cadeira de espaldar alto que fica diante da minha mesa. O que eu queria mesmo era que ele se sentasse na cama, me abraçasse e me olhasse daquele jeito dele — como se me enxergasse de verdade, como se eu fosse mais do que só peitos e uma tomada em busca de um plugue. Mas essa hipótese é loucura, por isso, fico aliviada quando ele gira a cadeira e se acomoda nela. Noto que ele observa as cortinas de tecido voil, as borboletas de estêncil nas paredes cinza-claro e meu equipamento de filmagem em cima do pufe de couro ao pé da cama. Então, seus olhos se fixam em mim, e as emoções atravessam seu rosto mais rápido do que frames num rolo de negativo. Parece que ele está lidando com essa noite ridícula tão mal quanto eu. Ele estende a mão e não consigo me controlar: eu a seguro. É quente e perfeitamente áspera, e sinto a vida que existe dentro dele pulsar na minha pele. — Você está bem mesmo, Cachinhos? — pergunta. — Estou, sim — respondo. Mas ali sentada, tão perto dele, e enquanto as palavras de Robby rodopiam na minha cabeça, percebo que estou qualquer coisa, menos bem. Um nó firme de ressentimento se acomoda no meu estômago, e não consigo saber se é por causa de Robby, de Adam Blackwood ou de Ethan, por me darem um vislumbre de algo tão bom e logo em seguida tirarem do meu alcance. Tento deixar para lá e digo: — Acho que nós dois escolhemos campeões hoje, hein? Ethan dá de ombros e recolhe a mão. — Raylene não era tão ruim assim. Engasgo. — O quê? Como assim? Ela era louca! — Ela só está... —Ele passa os dedos compridos e magros pelo espaldar da cadeira, pensando no que dizer. — Sei lá. Solitária. Sinto meu rosto ficar quente. De repente, a ideia de passar mais um minuto ao lado dele, relembrando os acontecimentos daquela noite e conversando como colegas de trabalho, me parece tão atraente quanto mastigar areia. Não estou a fim de admirar como ele é justo e compreensivo. E bondoso. Isso é demais. Não dá pra ficar aqui sentada tão perto de Ethan, no meu quarto, e saber que tenho um monte de Robbies_OsTrepadores pela frente enquanto esse cara legal e atencioso está


completamente fora de alcance. Esforçando-me para manter a voz num tom normal, digo: — Desculpe. Sei que fui eu que chamei você aqui, mas preciso ficar um pouco sozinha. Ele ergue as sobrancelhas, surpreso. — Eu não queria... — Só preciso tomar um banho e ficar um pouco quieta. Estou bem. Ele balança a cabeça. — Posso falar uma coisa, Mia? — Desculpe — digo. — Diga. Ele se levanta e se senta na cama, o que deixa tudo dez vezes pior. Preciso me esforçar para não chorar e não me jogar em cima dele. Quando ele me olha, seus olhos têm um ar suave e profundo como a noite. — Escute — diz. — Preciso pedir desculpas por aquela noite. Fui um babaca, e não tive a intenção de magoar você. Você está me magoando agora, é o que quero lhe dizer. Só de ficar aqui ao meu lado sem poder tocar em você já me magoa. — Mas é o certo — conclui ele. — Nós dois temos uma oportunidade incrível na Boomerang. Não quero colocar tudo a perder. Nem para mim, nem para você. — Entendi — digo. Durante todo esse tempo eu só quis alguém diferente daquele cuzão do Kyle, alguém que sabe o que quer. Que faz suas escolhas e se mantém firme. Eu devia ter sido mais específica. — Tudo bem. Vejo você amanhã no trabalho, está bem? Sinto sua relutância em ir embora como uma força palpável entre nós. Porém, ele se levanta e vai até a porta do quarto. — Tudo bem — diz, baixinho. Sinto seus olhos em mim, mas não consigo olhar para ele. — Vejo você amanhã. Cookie, Rhett e Adam foram para Las Vegas para uma reunião pré-planejamento bancada pela organização da feira. Isso quer dizer que, agora, o Gulag dos Estagiários virou a Central da Diversão. É verdade que, pelo menos em parte, a culpa é minha: hoje o catnip dos funcionários veio na forma de hambúrgueres quentinhos da Fatburgers. O que posso dizer? Sou o Flautista de Hamelin do suborno alimentar. Vanessa — do departamento de TI, acho — e Trent, do Relacionamento com o Cliente, criaram uma sinuosa corrida de obstáculos com filtros de café e copos de isopor e competem, de olhos vendados e sentados em cadeiras de rodinhas, pelo último hambúrguer, que foi colocado como um troféu da vitória em cima da fotocopiadora que fica no canto da sala. — Você é minha nova melhor amiga, Mia — diz Vanessa, e puxa um dos lados da venda para roubar na competição fazendo um arriscado zigue-zague. Pego minha Canon Vixia e sigo os dois enquanto eles se trombam na “pista”, rindo e tentando conter a cadeira um do outro. Observá-los me faz ter um lampejo de ideia, algo que posso usar na apresentação do estande da Boomerang. Talvez, quando eu montar esse filme, possa apresentar algumas cenas em câmera lenta, para lhes dar um ar romântico, sonhador. Ainda não tenho certeza da mensagem que quero passar, mas talvez seja que a diversão pode ser significativa, que algo pode ser breve, mas ainda assim valer a pena. Penso na minha mãe me dizendo que preciso “brincar mais” e viro a câmera para Ethan, que está


tamborilando dois dedos no teclado do seu tablet. Estamos sendo cautelosos um com o outro hoje, mas na maior parte do tempo tem sido tranquilo. Sem me olhar, ele pergunta: — O que você tá fazendo, Cachinhos? — Nada. Pode me ignorar. Dou um zoom, conseguindo um close bem próximo do seu rosto, das raras mechas de cabelo louro mescladas ao castanho-claro e daquela pequena cicatriz em cima de sua sobrancelha, curva como a marca que uma unha deixaria na pele. Passo para seus lábios carnudos e a covinha em seu queixo, que, percebo, está um milímetro fora do eixo central. Mesmo separadamente, cada parte dele contém uma beleza pura e imperfeita. Entendo por que minha mãe quis fotografá-lo, embora este Ethan aqui esteja mais leve, banhado pela luz do sol que vem das janelas próximas e que lança halos em sua pele, criando linhas onduladas em seus cílios escuros. Uma sombra pontilhada de luz preenche a lente, me assustando. Ao afastar o rosto, vejo Paolo sorrindo para mim. Ele pula no canto da minha mesa, lugar que reivindicou como seu hábitat por direito. — E aí, meninos, como foram os encontros? — Bom, acho que eu os classificaria o mesmo nível daquela vez em que você tentou fazer um ménage-à-trois de brincadeira com Cookie. Ele estremece. — Noooossa. Difícil. — Aham. — Beleza, vou arrumar alguém para você hoje, Mia, e não adianta discutir, está bem? — Está bem. Faço login na minha conta da Boomerang e entrego o tablet para Paolo. Um macaco cego não conseguiria ter feito uma escolha pior do que a minha. Enquanto ele analisa minhas opções, ando pela sala e filmo Vanessa e Trent mais um pouco. Os dois tiraram tudo de cima do balcão comprido da cozinha e parecem estar usando Pippa, do departamento de Arte, como uma espécie de disco de curling humano. — Você não vai cair, prometemos — garante Vanessa para a garota, mas dito e feito: Pippa sai deslizando pela ponta do balcão no terceiro passe e se estatela numa caixa de toalhas de papel. — Merda! — grita ela, com uma voz fraca, lá do chão. — Ela quis dizer que você não ia cair no chão — diz Trent, ajudando-a a se levantar. Estou ficando empolgada porque começo a ver tudo direito. Imagens como essa. De gente brincando, se divertindo, sendo um pouco ousada, talvez. Experimentando coisas novas. Posso filmar em Los Angeles, conseguir a ajuda de Beth e Skyler. Paolo assobia alto. — Nossa, Mia, venha cá. Vou praticamente pulando até a minha mesa, animada para anotar algumas das ideias que tive, embora fique menos empolgada ao imaginar outro encontro doloroso. — Muito bem, tenho duas opções pra você. As duas são de primeira categoria. — Manda. — A primeira... — Ele toca a tela. — É Brian. Um cara do cinema. Um tremendo nerd à la Whedon, que nem você, portanto é uma escolha perfeita. Além disso tudo, o cara toca numa banda. Blues e covers. Ele postou um vídeo aqui e não é nada mau.


— Parece ótimo — digo. Preciso confessar que parece mesmo. — Lança um bumerangue nele. — Não quer olhar a foto dele primeiro? — pergunta Paolo. — O cara é gato. — Não, me surpreenda. E o outro? — Nossa, apressadinha. Vai sair com dois caras ao mesmo tempo! Sorrio. — Não é isso. Preciso sair com mais duas pessoas. Você escolhe. — E se você gostar desse tal de Brian? Estou ciente da atenção de Ethan, do peso do seu foco em mim. — Se isso acontecer, penso no que fazer — digo, sem me arriscar a olhar na direção de Ethan. — Mas, sabe, para fins de pesquisa... acho importante conhecer um, hã, apanhado da clientela. — Para fins de pesquisa, claro. — Paolo pisca para mim. — Nesse caso, lhe apresento o Rei. — O Rei? Não. — Está bem, já entendi. É um nome horroroso. Mas confie em mim. O cara é roteirista, você é cineasta. Ele é de Nova Jérsei, você, de Nova York. Não vou nem mencionar que ele parece um irmão gêmeo do Drake. Sei que não está a fim de ver como ele é, mas... — Vá em frente — digo a Paolo. — Confio em você. — Eu não colocaria você em uma fria, meu bem — diz ele, e dá um tapinha na tela. — Beleza, dois encontros, duas semanas. Você vai me agradecer. — Já estou agradecendo. — Basicamente por me poupar do trabalho de eu mesma ter que escolher os caras. Paolo se vira para Ethan. — Sua vez. Ethan se levanta da cadeira. — Estou tranquilo, cara — diz ele. — Já resolvi o assunto. — É mesmo? — pergunta Paolo. É mesmo? — Aham, tudo em cima. Valeu. — Ele olha para o relógio. — Ei, Cachinhos, você pode me dar uma carona até o treino de futebol? Minha carona só volta de Vegas mais tarde. — Claro — respondo, sabendo que estou condenada a passar o resto do dia me perguntando quando foi que ele escolheu seus encontros, e com quem são. Por sorte, consigo me concentrar nas anotações para o projeto do estande e passo um tempo conversando com Pippa sobre alguns esboços conceituais. Eu imagino alguma coisa cinematográfica, com a estrutura de um filme, mas ainda não sei em que estilo, em que tom. Ensinam tantas coisas na faculdade de cinema, mas existe aquele “algo” misterioso, instintivo, que não dá para ser explicado. Um jeito único de enxergar o mundo. Não tenho certeza se tenho isso, o que é algo que me aterroriza. Antes de me dar conta, ouço cadeiras sendo arrastadas e pessoas juntando suas coisas para ir embora. Elas passam por mim a caminho de levar suas canecas de café para serem lavadas na pia e pegar sobras de comida que deixaram na geladeira. Ethan se levanta e empurra a cadeira com força em direção à mesa, derrubando minha câmera, que está apoiada no tripé de borracha em cima da mesa. — Desculpe — murmura. Ele está com a cabeça em outro lugar, consigo perceber. Seu corpo libera uma energia desconcentrada e impaciente. Mas talvez seja apenas porque não quer se atrasar. Ele fica em silêncio durante todo o trajeto até o campo de futebol. — Pelo menos hoje você não vai ter que se preocupar com Rhett acabando com algum menino —


falo, hesitante. — Futebol é assim — diz ele, dando um sorriso distraído. — Mas ele vai aparecer mais tarde, quando chegar de Vegas. Ele afasta o corpo para sair do carro. — Valeu pela carona, Mia. — Dá um tapinha no capô. — Tenha uma boa noite, ok? — Você também — digo, mas ele já fechou a porta. Não sei o que está me incomodando mais: o fato de ele mal ter me olhado o dia inteiro ou de ter me chamado de Mia em vez de Cachinhos. Ele sai correndo para o campo e vejo um lampejo vermelho. É Raylene. Lá no campo. Com Ethan. Ela está usando um vestido amarelo e salto alto preto... num campo de futebol. Corre na direção dele como se os dois tivessem ficado dez anos longe um do outro e o abraça. Ao observá-los, meu peito se contrai como se eu estivesse presa num dos abraços de urso de Robby_OTrepador. O que ela está fazendo ali? Há um menininho com ela: pálido, com cabelo ruivo alaranjado, diferente do dela, que é mais avermelhado. É seu filho ou algum menino que ela pegou por aí para se aproximar de Ethan. Mas seria loucura fazer isso, né? Ninguém faria uma coisa dessas, certo? Sei lá. Engato a primeira, sabendo que é melhor sair dali antes que eu mesma faça uma loucura.


Capítulo 28 Ethan P.: Prefere jogar em equipe ou ser um cavaleiro solitário?

Enquanto caminho até Raylene, que está com um menininho de cabelo encaracolado grudado no seu quadril, tento me recompor para enfrentar a próxima hora e meia. No carro, na noite passada, dei a entender que poderia ajudá-la. Essa é minha especialidade, foi o que falei. Mas o que sei sobre ajudar mães de trinta anos de coração partido a se fortalecerem? — Oi, Ethan James! — diz ela, me abraçando como se fôssemos velhos amigos. Em vez de se afastar da mãe, Parker simplesmente chega para o lado, ficando enterrado embaixo da axila dela. É o tipo de coisa que vemos crianças pequenas fazerem o tempo todo, mas o menino tem nove anos. — Oi, Raylene — digo, dando-lhe um tapinha nas costas. — Oi, Parker. Sou o Treinador Ethan. Ouvi dizer que no outro time você era ponta-esquerda, é isso? O garoto dá as costas para mim, então fico falando com sua cabeça encaracolada. — Desculpe — murmura Raylene. — Tudo bem. Pode deixar que assumo a partir daqui. Pode buscá-lo às sete. Isso faz Parker olhar para a mãe. — O quê? — pergunta. — Você tá indo embora? — Bem, eu... — Raylene olha para mim. — É a política do time — explico. — Os meninos treinam melhor sem os pais por perto. Parker joga a cabeça para trás. — Não! — berra. — Não vou ficar aqui sozinho! O berro vira pirraça, e essa é minha deixa para ir embora. — Estarei lá no campo — digo a Raylene, e me afasto. Enquanto pego os equipamentos nos armários do almoxarifado, olho para o estacionamento, só que o carro de Mia não está mais lá. O que será que ela pensou ao ver Raylene aqui? Talvez tenha sido algo próximo do que senti mais cedo, ao saber dos caras maravilhosos que ela vai conhecer nos dois próximos encontros. Maldito Paolo. Aquele merdinha. Por outro lado, ele não sabia que ouvir aquilo tudo era uma tortura para mim. Ninguém no trabalho parece fazer a menor ideia do que rola entre Mia e eu. O que, sinceramente, me surpreende. Conduzo o time nos aquecimentos e alongamentos, mas fico de olho em Parker, que está sentado na cerca arrancando grama. — Cadê o Treinador Suorete? — pergunta Tyler. Outros garotos fazem coro com ele. Rhett virou um treinador oficial, aceito na liga, com direito a ter suas próprias chaves e armários no almoxarifado, uma camisa do time com seu nome e tudo o mais. Quando eu lhe disse que ele estava dentro, juro que o cara ficou emotivo. Ficar exposto à energia dele às vezes é exasperante. É como passar um tempo ao lado do mascote de um time, como se o cara fosse uma verdadeira mangueira de incêndio de entusiasmo. Mas não dá


para manter alguém assim a distância por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, essa gente acaba vencendo pelo cansaço. — Ele vai chegar daqui a pouco, Tyler — digo. — Está vindo do aeroporto. Quando Parker se aproxima de nós e se senta encostado na trave, já estou treinando jogadas e passes com o time. Espero alguns minutos antes de me aproximar dele, o que dá supercerto, porque exatamente neste momento Rhett surge todo paramentado como se fosse jogar a Copa do Mundo. — Quem é o garoto novo? — pergunta ele, indicando Parker com a cabeça. — É uma longa história — explico, sabendo muito bem que ele vai querer ouvir tudo sobre isso no caminho de volta para casa. Eu me sento ao lado de Parker, que mais uma vez faz aquele lance de evitar contato visual. É um menininho robusto, com ombros largos, sardas no nariz e nas bochechas e maxilar forte. Não parece o tipo de criança que tem medo das coisas. — Você acha que ela não vai mais voltar? — pergunto. Ele solta um resmungo de desdém. — O quê? — Sua mãe. Você não para de olhar para o estacionamento. — Não — diz ele, enfaticamente. — Só não estou a fim de ficar aqui. — Pois é, mas já está. E vai ficar por mais uma hora. — E quem se importa? — diz ele. — Com o futebol? Eu. E com você? Sua mãe. — E daí? Nem conheço você. Nem gosto mais de futebol. Assinto, observando sua linguagem corporal cautelosa, seu tom defensivo, e tento imaginar o que ele realmente está sentindo. Que seu pai não liga mais para ele. Que sua mãe pode agir da mesma forma um dia, indo embora para nunca mais voltar. Que não tem sentido nenhum dar risada e chutar uma bola por aí, porque a vida é dura e injusta. Não conheço esse garoto. Ainda não. Mas eu me importo, sim. Fico de pé num pulo. — Vamos nessa, Parker. — Nessa o quê? — pergunta ele, sem olhar para mim. Boa pergunta. Não sei. Por isso, apenas respondo: — Você já vai ver. Às sete, os pais e as mães vêm buscar os garotos. Apresento Rhett para Raylene, a única que ele ainda não conhece. Então nós dois vamos guardar o equipamento nos armários e repassar o treino. Como eu previa, ele faz as perguntas sobre Parker no nosso trajeto para casa. Conto a Rhett sobre o encontro que tive com Raylene e como me ofereci a ajudá-la. — Que fofo, Ethan — diz Rhett. — Vou ignorar que você acabou de me chamar de fofo. — Mas você é mesmo. Nem conhece essa mulher. Quer dizer, ela é gata e tudo o mais, mas não deve nada a ela. — Eu sei. Mas é alguma coisa que posso fazer. Observei Parker durante o treino. O menino está morrendo de vontade de jogar. Só preciso achar um jeito de fazer os outros garotos aceitarem a chegada dele. Acho que ele está preocupado por ser novo no time. E, além disso, tenho que fazer ele se concentrar em outra coisa que não o fato de o pai ter saído de casa e de que sua vida provavelmente virou um caos. Vou marcar logo um treinamento motivacional. A gente pode trocar as posições, fazer alguma coisa diferente. Vai ser legal. Não só para Parker. O time todo poderia... —


Interrompo o que estou dizendo porque Rhett me olha de um jeito estranho. — O que foi? — Você, tipo, engatou no supertreinador. Entrou em modo John Wooden. Todo filosófico, essas besteiras, sabe? — Aham — digo, mas aquele comentário se espalha pelos meus braços e pelas minhas pernas e chega nos meus pulmões. Sinto como se tivesse acabado de respirar fundo. Talvez eu estivesse mesmo canalizando um pouco o Treinador Williams, o que é legal. Ele é um cara maneiro de se canalizar. Rhett tira uma das mãos do volante e descreve círculos no ar. — Continue encerando, Ethan Miyagi. — Ah, beleza! — digo, mas acabo sorrindo sem querer. Qualquer cara que cita Karatê Kid tem qualidades que o redimem. Rhett olha para mim. — Um cara que pega moscas com hashi pode conquistar qualquer coisa! — Aposto que é mesmo verdade. Na Sepulveda, o sinal fica amarelo. Rhett acelera e o Cooper arremete para a frente. Enquanto passamos depressa pelo cruzamento justamente quando o sinal fica vermelho, ele abre a mão e grita: — Visão clara, coração cheio! Ah, que se dane! — Não se pode perder! — grito, e bato minha mão na dele depois de dizer o mantra do treinador Taylor, do seriado Friday Night Lives. Em casa, encontro Jason e Isis enroscados no sofá vermelho (ou laranja, ou marrom) que compraram no fim de semana. Nenhum dos dois disse nada sobre a aposta que fizeram sobre Mia e eu voltarmos a ficar juntos. Isis silenciosamente aceitou sua vitória e aos poucos foi trazendo móveis novos para o apartamento. Os dois pararam de me importunar de vez sobre Mia. Não tenho certeza do que acho disso. — Jantar, galera? — pergunto, dando um chute para trás a fim de fechar a porta. Estão assistindo a O Segredo da Cabana na televisão, e uma pizza semidevorada de pepperoni e cogumelos está em cima da mesa de centro na frente deles. — Pausa obrigatória nos estudos — diz Jason, que andou estudando tanto esta semana que seus olhos estão quase fechando. — Maratona de Joss Whedon. — Isis bate de leve o pé com meia de arco-íris na poltrona ao lado do sofá. Aquela garota é obcecada por meias; quanto mais esquisitas, melhor. — Junte-se a nós. — É, junte-se a nós — concorda Jason. Acho que talvez ele esteja falando dormindo. Assistir a um filme parece ótimo, na verdade, mas então me lembro de que Mia também é fã do Joss Whedon, e não estou a fim de me lembrar dela bem agora. — Vocês vão ter que se virar sem mim. Pego uma fatia de pizza e saio comendo, depois jogo minha bolsa carteiro e a bolsa de lona de futebol no meu quarto e sigo para o chuveiro. Que também me faz lembrar de Mia. Dou uma olhada no meu celular quando saio e encontro uma mensagem de Chris me perguntando o que está rolando, querendo saber por que mamãe parecia tão preocupada comigo quando ele falou com ela. Respondo dizendo que ele entendeu errado como funciona a vida na faculdade, se está com tempo


para me mandar mensagem e conversar com mamãe. Então clico no contato de Mia e entro num conflito bastante acirrado comigo mesmo, mas no fim acabo dando um chute na minha própria bunda e ganhando o prêmio de fazer o que não deveria. Ethan: Tudo bem por aí, Cachinhos?

Digito a mensagem e depois fico olhando para a tela, com o dedo em cima do botão Enviar. Quero saber se ela está no seu quarto. Ou se está com Skyler e Beth. Quero saber qualquer coisa. Simplesmente quero essa mulher, porra. Mas não posso desmoronar agora, principalmente depois de ter lembrado a Mia naquela outra noite de que devemos seguir a regra que proíbe sair com colegas de trabalho. Deleto a mensagem e depois fico mais um tempo olhando o celular, sem saber o que fazer. Preciso pensar em qualquer outra coisa que não seja Mia. Preciso de uma distração. Então tenho uma ideia. Talvez eu esteja encarando esse lance dos encontros com as garotas da Boomerang da forma errada. Se eu conhecesse outra menina, alguém legal, talvez isso me ajudasse a esquecer Mia. Sei que as chances de isso dar certo são quase nulas, mas não tenho muita opção. Quem sabe? Talvez meu próximo encontro seja a resposta pela qual tanto estou procurando.


Capítulo 29 Mia P.: A honestidade é sempre sua diretriz?

Vou jogar a culpa na minha confusão mental, porque sob circunstâncias normais eu jamais sairia do campo de futebol, atravessaria a cidade de carro e voltaria para os escritórios da Boomerang. Sob circunstâncias normais, eu voltaria para casa, vestiria minha calça de moletom mais confortável e desabaria no sofá, enquanto Beth me serviria um prato gigantesco da sua Paella das Garotas Pobres, cujos ingredientes são guardados a sete chaves, até mesmo de mim. Mas está na cara que um parafuso se soltou de vez na minha cabeça, porque aqui estou, me esgueirando pelo corredor à meia-luz numa atitude bizarra de garota carente que não se parece nem um pouco comigo. Nem com ninguém que não seja um personagem de desenho animado, aliás. Mesmo assim, preciso saber. Com quem Ethan escolheu sair no próximo encontro da Boomerang? Raylene? Por que ele anda tão calado sobre isso tudo? E por que me importo? E como é possível sair dessa esteira rolante ridícula de clichês? Não consigo. Só depois que eu descobrir. Uma luz escapa da fresta da porta da sala de reunião, deixando o piso de bambu com um tom branco leitoso. Com o coração acelerado, passo na ponta dos pés diante da porta. Tem alguém aqui, trabalhando até tarde. Provavelmente fazendo a coisa mais produtiva e inteligente da sua noite. Seja lá quem for, espero de verdade que não me veja. Já me sinto uma idiota. Claro que isso não me impede de me sentar na cadeira de Ethan e imaginar que, de alguma maneira, consigo sentir o calor de seu corpo envolvendo o meu. O relógio do micro-ondas tiquetaqueia ruidosamente, o que eu nunca tinha percebido, e esse cantinho parece especialmente escuro e cheio de correntes de vento à noite. Estremeço ao olhar em volta e presto atenção para ver se escuto alguma respiração, os passos de alguém ou se o Espírito do Bom Senso veio me arrastar pelo cabelo. Então pego o tablet de Ethan e ligo. O protetor de tela é uma imagem de um jogador de futebol com uniforme branco e gotas de suor na cabeça, paralisado no meio de um chute. Ou de um bloqueio. Ou de alguma coisa intensa qualquer. Adoro a imagem. É tão Ethan. Além da obviedade do futebol, é a cara dele porque ilustra a paixão de alguém, a vontade de vencer. Passo pelos ícones e clico no da Boomerang, que carrega o site. A conta de Ethan já está lá; a senha, salva. O que eu faria se não estivesse, aliás? Iria embora para casa sem bisbilhotar, talvez? Toco na tela, tentando imaginar que palavras estarão escondidas naquele conjunto de asteriscos. Eu queria conhecê-lo tão bem a ponto de poder até chutar. Vou direto até a página “Início do Jogo” e vejo que não, ele não escolheu Raylene para o segundo e terceiro encontros. Pior. A garota número dois — Carmen — é mignon, morena, de lábios carnudos brilhantes e com os mesmos olhos castanhos límpidos que um filhote de cervo. Ela estuda enfermagem, gosta de montar os próprios quebra-cabeças de madeira e seu perfil é tão engraçado e autodepreciativo que praticamente sinto vontade de sair com ela também. O número três é uma tragédia completa. É linda, oriental e uma tenista entre as primeiras do


ranking. Todas as suas fotos são intensas e mostram a garota na quadra ou então erguendo um troféu, com exceção de uma, em que ela aparece com botas de couro de cobra que vão até as coxas e um microvestido. Nesta, ela está de braços dados com outra menina e as duas fazem biquinho para a câmera, obviamente se segurando para não rir. Ela está fazendo doutorado em antropologia com ênfase em culturas migratórias. Um dia, tenho certeza, garotos do mundo inteiro colocarão fotos dela nos protetores de tela dos seus computadores. É meio difícil não admirar o gosto de Ethan para mulheres, principalmente porque ele escolheu garotas tão bonitas quanto inteligentes. Mas só de imaginá-las com ele num restaurante, dando em cima dele, rindo ou servindo sopa quente na sua boca, já me faz ter vontade de gritar de um jeito histérico. Ou então, admito, já me faz imaginar alguma coisinha mais maligna. Maligna não estilo Cruella de Vil usando um casaco de pele de filhotinhos de cachorro, mas... também não inteiramente pura. A escuridão parece se espessar ao meu redor e aumento a luminosidade da tela. Ali, sentada, deixo a ideia do meu plano se consolidar, enquanto vou zapeando pelas mulheres sugeridas para ele, lendo os perfis delas. Parte de mim se encolhe ao ver cada beldade inteligente que tem como chamada uma frase de Anchorman. Dizem que Los Angeles está cheia de mulheres lindas, mas nunca havia me dado conta de quantas mulheres belíssimas e inteligentes existem por aí. Que droga. Aceito na boa que nada aconteça depois daquela única noite com Ethan e daquele único beijo sensacional. Mas o mínimo que posso fazer — por mim mesma — é me esforçar para que ele só continue encontrando garotas que não têm nada a ver com ele. E me poupar do tormento de vê-lo achar seu grande amor bem diante dos meus olhos. Então aí está minha resposta, o que me fez vir correndo para cá feito uma louca. Tenho que aceitar que ele me quer, mas não quer estar comigo. Porém, não preciso aceitar que ele foi feito para outra mulher. A julgar pela sua conexão forte e inexplicável com Raylene, talvez seja melhor pular todas as opções de mulheres que obviamente são malucas. O que mais poderia amedrontá-lo? Uma palhaça de rodeio? Uma mendiga neurótica que vive de forma ecologicamente correta num trailer? Descarto as duas opções: ser palhaça de rodeio significa ser aventureira, enquanto ser uma pessoa neurótica pelo ecologicamente correto é saber se virar sem estar preso nas armadilhas do materialismo. Esfrego a têmpora enquanto passo de uma imagem para outra, de um perfil para outro. Em algum lugar por aqui deve ter uma garota que é mil por cento errada para Ethan. Uma catástrofe absoluta. Óleo na água dele. Por fim, paro diante do perfil de uma loura sarada vestindo um terninho cinza de caimento perfeito. É linda, mas seus traços parecem refinados demais, como se as ferramentas do seu criador tivessem exagerado de leve. Seu queixo e nariz são pontudos, seus olhos do mesmo tom azul-acinzentado de geleiras são afastados. Algo neles, uma expressão de altivez ou distância, me deixa com a impressão de que ela é capaz de revirar uma pessoa do avesso só com o olhar. Tudo nela, da sua postura rígida até seu olhar frio e sério, parece indicar alguém que nunca teve um orgasmo na vida. E nem quer. Leio os detalhes do seu perfil: trabalha na empresa de investimentos do pai, adora cavalos e altacostura e destaca na sua página uma frase de Kierkegaard: “Há duas maneiras de ser enganado. Uma é acreditar no que não é verdade; a outra é se recusar a acreditar no que é verdade.” Nervosinha, cita existencialistas dinamarqueses, filhinha de papai. Acho que encontrei a mulher perfeita.


Capítulo 30 Ethan P.: Zangar-se ou vingar-se?

– Tá tudo bem com você, E.? — pergunta Rhett enquanto entramos em seu Mini depois do trabalho. Tenho exatamente meia hora para chegar em casa, vestir alguma roupa casual e ir até o Pink Taco, o local da sessão de tortura desta noite. — Sim. Tudo ótimo — digo, espremendo as pernas dentro do carro. — Beleza, beleza — diz ele. Rhett manobra para fora da garagem, mas sei que ainda não desistiu de saber mais. Ele capta muito mais do que a gente pensa. Sei que é por esse motivo que Adam confia nele. Isso o torna perfeito para sua função. — É que você parece meio preocupado — insiste ele, virando à esquerda na Santa Monica. — Tipo, diferente do normal, sabe? O que posso dizer? É verdade mesmo. Provavelmente fui meio babaca hoje, se é mesmo para ser sincero. Mas não tive escolha. Meu dia poderia ter sido de duas maneiras: eu poderia ter me remoído por causa da minha conta bancária em descenso e, o que é mais importante, por causa de Mia, que vai sair com outro cara esta noite. Ou poderia ter transformado toda essa raiva em uma coisa positiva — e foi exatamente o que eu fiz. Enquanto Mia, Paolo e Sadie brincavam de “duas verdades e uma mentira” e depois sumiam num almoço em que provavelmente devem ter feito tranças no cabelo uns dos outros e trocado pingentes da amizade, abaixei a cabeça e trabalhei arduamente no projeto do estande da feira em Vegas. Manter o foco total no trabalho, descobri, é a única maneira de conservar a sanidade com Mia sentada a um metro de distância de mim, rindo com gente que... bom, que não sou eu. O resultado não foi nada mau. Consegui fazer bastante coisa. — Estou trabalhando muito, só isso — respondo para Rhett. — Tentando terminar tudo para Vegas. Mexo nas saídas do ar-condicionado, que estão viradas para mim no máximo, na direção de Rhett. — E como as coisas estão indo? — pergunta ele. — Bem. Acho que arrumei um DJ para tocar no meu lado do estande. Um tal de Rasputin. Ter música no estande faz parte da minha estratégia de focar no movimento. Rhett faz uma careta. — Você contratou um russo velhote pra ser seu DJ? — Não sei se ele é russo, mas com certeza não é um velhote. Tem só dezoito anos. Dizem que é o cara do momento. Acho que consegui contratar o garoto antes de ele estourar numa carreira fenomenal. — Massa. — Paramos no sinal. Rhett abaixa o retrovisor para se olhar. — E o lance do videogame? Essa é minha ideia preferida: um jogo feito sob medida no qual as pessoas podem jogar bumerangues virtuais.


— Também já está encaminhado. O primo de Jason, Zeke, que projeta jogos para a Naughty Dog, vai ser o idealizador. Vai ser um jogo super-realista. Vamos projetar em telões, para todo mundo ver. Vai ter luva sensível, alvos móveis, rankings, a coisa toda. Zeke está empolgado. Conversei com o cara hoje de manhã e ele me disse que ficou trabalhando nisso a noite inteira. Rhett sorri para mim e acelera quando o sinal abre. — Você vai arrasar, cara. O emprego vai ser seu com certeza. — Esse é o plano — respondo, mas não tenho tanta certeza assim. Mia é muito inteligente e criativa para ser tirada do páreo com tanta facilidade. Durante o resto do caminho, Rhett e eu conversamos sobre os Dynamos e nosso novo jogador, Parker, mas ainda estou com seu comentário na cabeça. “O emprego vai ser seu com certeza.” Eu devia ter ficado muito mais feliz ao ouvir isso. Meia hora depois, peço uma mesa à hostess do Pink Taco. Especificamente uma mesa. Depois de Raylene, jurei que nunca optaria pelos sofás. Seguindo-a, passo pelo balcão do bar e vejo que Mia já chegou... e seu acompanhante também. Diminuo um pouco o passo para dar uma boa olhada nos dois, pois nem ela nem o Príncipe Encantado me viram ainda. Passei dois dias resistindo à vontade de checar o perfil do cara — meu jeito sem noção de fingir que ele não existe —, mas não posso mais suportar. Ele está bem na minha frente, sentado num banquinho alto virado na direção de Mia, com uma jarra de sangria entre eles. É um cara bonito. Moreno. Alto e magro, com cabelo ondulado meio comprido que com certeza as garotas adoram. Está usando um terno escuro, o que me faz me arrepender de ter trocado meu terno por uma calça jeans com camisa polo. Mas, fala sério: quem que vai comer burrito de terno? Mia ainda está usando o mesmo vestido florido com o qual foi trabalhar, só que trocou os brincos, que não são mais as estrelinhas douradas que ela estava usando mais cedo, as quais notei em suas orelhas apesar de ter passado o tempo todo a ignorando com toda a minha força. Mudou o cabelo também: agora ele está puxado para o lado, numa trança que cai como uma corda escura por cima de um dos ombros. Com o cabelo assim, seu queixo pequeno e seus olhos brilhantes ganham ainda mais destaque. Assim como a pele macia e perfeita do seu pescoço. Ela ficou com uma aparência delicada, o que me deixa com vontade de abraçá-la. Ou de observá-la tomar sangria com outro cara. Puta que o pariu. Esses encontros vão acabar comigo. Afasto a tensão dos ombros, apresso o passo para alcançar a hostess e sento a bunda na cadeira. Então tiro o celular do bolso e abro o aplicativo da Boomerang. O mais interessante disso tudo, penso, enquanto busco furiosamente o perfil do Príncipe Encantado, é que nunca fiz o tipo possessivo, mas, quando se trata de Mia, uma garota que sequer é minha namorada, eu fico desse jeito. Pronto. Encontrei. Brian Bergren. De Scottsdale, Arizona. Toca numa banda e trabalha atualmente como assistente de direção de um diretor que ganhou o Oscar, de quem nunca ouvi falar na vida. Brian procura garotas engraçadas, inteligentes e que se interessem por arte. E blá-blá-blá. Tudo aquilo mais parece uma


piada bizarra, como se eu estivesse lendo a lista das características do cara ideal para Mia. Rolo até a coluna Broxante, onde as pessoas costumam listar coisas que não querem num parceiro, como vício em cigarro, drogas, antecedentes criminais. Mas o bom e velho Brian consegue ser fofo até nesse quesito. Broxante: Não conhecer Stanley Kubrick. Não dá para sair com alguém que não tenha pelo menos um conhecimento superficial dos filmes dele. Eu bem queria que isso fosse brincadeira, mas não é. Que ótimo para Mia. Ela acabou de encontrar a si mesma em uma versão masculina atraente. — Ethan? Quase deixo o celular cair. Mia surge na minha frente, atrás de uma cadeira, com as mãos apoiadas no encosto. — Oi... O que você tá fazendo aqui? — A pergunta sai meio brusca, mas Mia acabou de me flagrar fuxicando o perfil do cara com quem ela está. Pelo menos, é o que eu acho. — Vim pra o meu encontro. Ela olha por cima do ombro para o Brian Kubrick dos Infernos, que está nos observando do balcão do bar. — Isso eu já percebi. Quis dizer aqui na minha mesa. — Ah. — Mia olha para suas mãos por um segundo. Quando volta a me olhar, seus olhos verdes estão um tom mais escuro. Sei que estou sendo um babaca, mas não consigo evitar. Estou num trem descarrilado. — Bom, é que acabei de receber uma mensagem de texto sobre o seu encontro. Houve alguma complicação ou algo assim. — Complicação? — É, um cancelamento. De última hora. Um cancelamento de última hora — diz ela, apertando o estofo do encosto da cadeira, não sei por quê. Mia não costuma ficar nervosa na minha presença. — Cookie me mandou uma mensagem dizendo que, hã, é, acabaram arrumando outra pessoa para você. Ela deve chegar a qualquer minuto. — Está bem. Obrigado por avisar, Mia. — De nada. Divirta-se hoje à noite, Ethan. Minha canalhice finalmente está surtindo efeito, porque seu tom na verdade quer dizer: “Você é um escroto.” — Ah, vou, sim — digo, como se estivesse planejando agarrar a garota supergostosa que arrumaram pra mim em cima da hora na primeira oportunidade que encontrar. Mia inclina a cabeça para o lado e me olha, desconfiada. — Hum — diz. — Eu também vou. — Legal. Irado. — É... irado — repete ela, me enfrentando. — Então vejo você no trabalho? — Isso aí. Vejo você no trabalho. — Mia dá de ombros de forma quase imperceptível. — Mas pode ser que eu chegue um pouquinho atrasada. Você sabe. Se as coisas derem certo. — Ah — retruco, assentindo. — Legal, Cachinhos. Está pensando em chegar ao número seis essa noite, é? — Me escuto dizendo aquilo. É impressionante que eu ainda não tenha surtado completamente. Realmente impressionante. — Bom, ainda é cedo pra dizer. Mas na verdade ele seria meu número cinco, porque não aconteceu nada entre a gente.


— Ah, aconteceu, sim, Cachinhos. Garanto a você. E não foi só uma vez, não. Foram várias. No mínimo. — Ela revira os olhos ao se afastar, mas ainda não acabei de falar. — Sou seu número cinco, Mia! — grito, parecendo um possesso completamente maluco. — Eu sou seu número cinco! Uma família na mesa ao lado olha por cima de suas fajitas borbulhantes para mim, mas Mia não para de andar. Eu a observo voltar para Brian Kubrick — que continua me olhando para tentar descobrir se deve ou não se preocupar comigo. Eu lhe envio uma mensagem telepática para esclarecer esse assunto. Foi idiotice minha achar que ela sairia com outro Robby. Aquele cara era um canalha, mas nunca teve chance alguma. Brian Kubrick, por outro lado, é uma ameaça real. Ele tem potencial pra ferrar com tudo. Isso se eu estivesse dando a mínima, o que não estou, relembro a mim mesmo. Muito bem. Continue repetindo essa frase. O garçom se aproxima para anotar minha bebida. Mal ele se afasta, minha atenção se volta para uma loura sensacional que vem percorrendo um caminho por entre as mesas. Ela está vindo na minha direção, olha para mim e... O sangue escoa completamente da minha cabeça e minha visão fica turva nas laterais, como se eu estivesse prestes a desmaiar. Mas isso não acontece. Apenas fico observando a garota se aproximando da minha mesa. Alison. Minha ex. Está aqui. — Oi, Ethan — cumprimenta ela, retorcendo o canto da boca para formar um sorriso. Alguns segundos se passam. Eras. Milênios. E, mesmo assim, continuo incapaz de entender que porra está acontecendo. Alison puxa a cadeira atrás da qual Mia esteve há minutos e se senta. Seu sorriso desaparece e vejo dois anos de lembranças surgirem em seus olhos azuis lacrimosos. — Obrigada, Ethan — diz ela. — Obrigada por ter me dado uma chance.


Capítulo 31 Mia P.: Você se sente pouco à vontade em situações sociais?

Eu me afasto de Ethan com um bilhão por cento de certeza de que esse experimentozinho social de Adam Blackwood vai acabar me fazendo perder o tesão tanto por homens quanto por comida pelo resto da vida. Sinto o peso de um chumbo na minha barriga, e o ar do restaurante de repente parece nebuloso, espesso com um cheiro forte adocicado de cebola e pimentão refogado. Ethan me obrigou a ser má, e odeio ser má. Está bem, ele não me obrigou exatamente. Apenas trouxe esse meu lado à tona. Ele me estraçalha a ponto de só me deixar com vontade de me encolher e assumir uma atitude defensiva. Volto a me sentar no banquinho ao lado de Brian e sorrio para ele de um jeito que me parece brega e falso. — Tá tudo bem? — pergunta ele. Seu rosto é um daqueles de formato quadrado meio infantil, de menino, com bochechas rosadas e um nariz fantástico que parece ter sido quebrado uma ou duas vezes. Seus olhos são quase de um tom castanho-avermelhado — como cacau — e absorvem a gente devagar, entre uma piscadela e outra, como se ele não quisesse perder absolutamente nada. Gosto dele. Esse pensamento aterrissa com o estrondo de uma rocha no meu cérebro, o que indica que aquilo não vai dar em nada. Pobre Brian. Assinto ao pegar uma tortilla, depois giro-a num pilão de pedra cheio de guacamole e a enfio na boca, pensando ligeiramente no efeito que todo aquele alho e coentro terá no meu hálito. — Sim, tudo ótimo — digo, por fim. — Era só um colega de trabalho. Então tive que, hã, dar uma palavrinha com ele sobre um assunto profissional. — Pareceu uma palavrinha bem intensa — comenta Brian, me lançando um olhar atento de pura curiosidade, nada crítico. Esse olhar me deixa com vontade de revelar coisas. — Também tive a impressão de que ele estava a fim de arrancar minha cabeça fora. — Brian pega a jarra de sangria e serve um pouco no meu copo meio cheio, depois enche o dele. — Ah, essa é só a cara dele. Até mesmo essa piada me faz sentir idiota e desleal. Porque não é verdade. E porque ele tem uma cara linda. Meu Deus, preciso me controlar. Mas estou elétrica, inquieta. Aquilo me faz lembrar de Baudelaire, andando com delicadeza na borda da cadeira e retorcendo o corpo um segundo antes de bater asas e voar. Expiro, tentando retornar ao presente, tentando não pensar no lindo e boçal do Ethan. — O que fez você se inscrever na Boomerang? — pergunto a Brian, na tentativa menos sutil do mundo de mudar de assunto. Pelo canto do olho, vejo uma ondulação azulada e então uma loura absolutamente estonteante deslizar pelo salão. Ela está usando um vestido frente única azul com uma gola de brilhantes que


rodeia seu pescoço branco de cisne. Seu salto alto Louboutin cinza percorre a distância entre a porta do restaurante e a mesa de Ethan em mais ou menos cinco passos. Então me dou conta: estou olhando para ela. Minha preciosa rainha do gelo. Aguente essa, Vance, penso, morrendo de vontade de girar no meu banquinho para poder observar os desdobramentos dessa noite esquisita. Eu me sinto culpada por toda essa armação, mas menos do que estava antes de ele agir como um babaca essa noite. Brian pisca duas vezes, mas depois fixa obedientemente o olhar em mim. Gosto disso também. Ele não finge não notar a presença de um ser humano estonteante, mas não agiu como um ogro nojento que não consegue desviar os olhos dela. Como Robby. E, sou obrigada a admitir, como Kyle. Aquele cuzão. — De algum jeito, parece mais seguro. — Levo um instante para perceber que Brian está respondendo a minha pergunta. — Seguro? Jura? Ele abaixa a cabeça para pegar uma bolinha de guacamole antes que ela deslize da sua tortilla. — Bom, usando uma analogia do cinema, talvez seja o equivalente a fechar um pouco a abertura do diafragma. — Com as mãos, ele faz um retângulo e olha para mim através do buraco. — É uma pressão menor dizer: “Vou me concentrar nesta noite, nesta pessoa”, em vez de achar que esta será a primeira noite do que nós dois torcemos para ser o início de uma vida inteira juntos. Parece uma resposta justa. Uma boa resposta. Mas mal consigo prestar atenção. Sei que tem alguma cena dramática se desenrolando às minhas costas e estou morrendo de vontade de ver com os próprios olhos. — E você? — pergunta Brian ao mesmo tempo que sugiro: — Ei, quer se mudar para um sofá? — Desculpe. — Ele sorri. — Claro. Avisamos ao barman. Brian pega nossos copos e a jarra de sangria, fazendo sinal para eu levar o guacamole e as tortillas. Eu o sigo enquanto ele passa por entre as mesas e, milagrosamente, encontra o lugar perfeito para nós. O problema é que ele acaba ficando de frente para Ethan e a Rainha do Gelo, o que só me deixa duas opções: ou fico do outro lado, de costas para os dois, ou tenho que me sentar ao lado dele, o que vai passar uma mensagem que não quero. Fico ali indecisa por um segundo, como uma idiota, a tigela de pedra cheia de guacamole pesando na minha mão. Se eu me sentar ao lado de Brian, será o mesmo que dizer que desejo mais proximidade, que quero ficar coladinha nele. Mas, nesse caso, eu conseguiria ver Ethan. Se eu me sentar na sua frente, não vou parecer uma desesperada que não tem noção dos limites, mas, por outro lado, não conseguirei observar os acontecimentos. E foi justamente por esse motivo que pedi para sairmos do balcão. De repente, a ideia de passar décadas sofrendo por causa de todas essas besteiras do primeiro encontro me deixa com vontade de me afogar na tigela de guacamole. Coloco a tigela e as tortillas na mesa e sorrio para Brian. Faço sinal para um ponto próximo do seu colo e pergunto: — Ei, se importa se eu... Para a sorte do meu ego, ele imediatamente dá um enorme sorriso e abre espaço para mim. — Desculpe. Claro. Quer dizer, eu não sabia se você ia achar isso estranho.


É, definitivamente é estranho. Quer dizer, não sou uma truta com olhos nas laterais do rosto. Não entendo por que os outros se sentam assim, mas agora sou uma dessas pessoas. Deslizo para o lado dele e me viro na direção da mesa de Ethan justamente quando um garçom entra no meu campo visual, bloqueando minha visão. Fala sério! — Jantar, jovens? — pergunta ele. O cara tem um topete louro platinado digno de um pastor de televisão e dois “X”s estilizados vermelhos tatuados acima das sobrancelhas, o que, percebo com certo pavor, na verdade é o logo da Dos Equis. Prevejo que ele vai se arrepender disso em mais ou menos... bom, neste exato momento. — O que você acha, Mia? — pergunta Brian. — Quer dividir alguma coisa? Umas fajitas, talvez? — Parece ótimo. Tento usar minha visão de raio X para enxergar através do peito magrelo do garçom, mas, infelizmente, parece que esta noite ela não foi ativada. Enfim terminamos todo o processo torturante de escolher uma fonte de proteína, tortillas de milho ou de trigo, legumes e outros acompanhamentos, o que quase me faz gritar para ele colocar logo qualquer coisa no prato e nos trazer de uma vez. O garçom se afasta, e dirijo minha atenção para Ethan e sua companheira. Eu esperava ver bebidas intocadas, Ethan com o cenho franzido e uma postura de desgosto. E é exatamente o que vejo. Ele parece arrasado. A garota também. Mas é o tipo errado de arrasado. É um tipo meio... íntimo, de certa maneira. Os dois inclinam a cabeça para perto da do outro. Os dedos brancos compridos da garota estão perto dele, sugerindo que ela quer tocá-lo. — Por que você entrou no site da Boomerang? — pergunta Brian, e a pergunta parece cair no vazio, como se fizesse parte de uma conversa que tive sessenta anos atrás. — O que está procurando? Desvio os olhos e murmuro: — Boa pergunta. — Mas não sei o que quero a não ser ir embora daqui, onde estou morrendo de curiosidade e me sentindo arrasada ao ver Ethan com outra. Mesmo que seja uma garota de quem ele obviamente não está desfrutando da companhia. — Acho que só quero ser... não sei. Autêntica? Nervosa por estar entrando em território perigoso, viro o resto do copo. — Só quero poder olhar pra alguém e dizer: “Eu quero você.” Ou “Eu te adoro.” Sei lá, é como se ninguém conseguisse se expor a ponto de falar: “Quero ficar com você.” Nem eu, nem meus amigos, nem ninguém que conheço. Todo mundo morre de medo de abrir mão do poder de ser a pessoa que menos se importa em um relacionamento. — Bom, isso é... — começa Brian, mas o que ele pode dizer depois disso? Ethan desliza para fora do sofá e se levanta. Abre a carteira e joga várias notas de dinheiro na mesa. Quando se vira, seus olhos encontram os meus, e neles há tamanha tristeza e angústia que levo um susto. — O que foi? — pergunta Brian. — Nada. É que... Meu, hum, colega parece chateado. Ethan passa por mim e fico chocada ao ver que a garota — a Rainha de Gelo — se levanta e corre atrás dele. Só que, quando ela passa, noto que seu rosto está todo inchado e que lágrimas brilham em seus olhos. — Que diabo tá acontecendo aqui? — Eu me escuto dizer. — Uma briga de casal? — sugere Brian. Mas isso é impossível. Eles nunca se viram. Ou já?


Capítulo 32 Ethan P.: Você perdoa e esquece, ou guarda rancor?

Alison me segue até lá fora. — Ethan, o que está acontecendo? O tom de sua voz é tão familiar que me dá arrepios na espinha. É melhor eu continuar andando. Não devo porra nenhuma a ela. Mas Alison está tão confusa... Tem alguma coisa estranha nisso tudo, no fato de ela estar aqui essa noite. Paro. — Você planejou isso, Alison? — Não, achei que você tivesse feito isso. Ela surge na minha frente, mas continuo com o olhar fixo nos carros que passam. Do outro lado da rua um manobrista pega um molho de chaves e vira a esquina correndo. — Faz poucos minutos que apareceu seu nome — explica ela. — Recebi uma mensagem com os detalhes do encontro. De início, achei que alguém estivesse brincando comigo, mas então comecei a ter esperança de que você tinha finalmente decidido conversar comigo. Pela primeira vez, olho para ela. Alison é linda. Foi a primeira coisa que notei nela anos atrás, e isso não mudou. Tem a beleza de uma estalactite. Fria e afiada. Nem de longe tão frágil quanto parece ser. Engulo em seco e respiro fundo, depois engulo em seco novamente, tentando descobrir o que posso falar. — Quer dizer que você veio aqui pra encontrar outra pessoa — digo, e de repente começo a lutar contra as imagens que surgem na minha cabeça, de Alison sentada na sua cama de sutiã, os lençóis amarfanhados ao redor, comendo comida chinesa com outro cara. Desde aquela noite, ela me ligou e me mandou mensagens de texto centenas de vezes. Consegui evitá-la. Achei que tudo tivesse acabado. Até este momento. — Não posso dizer que isso me surpreende. Alison estremece. — Ethan... — Ela coloca uma mecha do seu cabelo louro comprido atrás da orelha. — Não sei como isso foi acontecer. Juro que não fiz nada. Mas queria muito ver você de novo. Se me der só uma chance e me escutar... Ela fica em silêncio e envolve o próprio corpo com os braços. Uma parte distante da minha mente acha tudo isso interessante. Alison nunca fica nervosa nem confusa. Nas situações em que deveria ficar nervosa, ela se torna cruel. Letal. Como uma cobra, mais ou menos. O manobrista surge na nossa frente, sem fôlego, sorrindo, com a gravata borboleta um pouco torta. — Os senhores estão aguardando seu carro? Alison olha para ele. — Não — responde. Uma única palavra que, no entanto, mais parece um soco. Aí está a garota que conheço tão bem.


O manobrista se afasta tão depressa que praticamente solta faíscas no asfalto. Ficamos a sós outra vez. — Você está com alguém, E.? — pergunta ela, me fazendo baixar a guarda. — Imagino que sim, se está usando a Boomerang... Balanço a cabeça. — Não. Eu trabalho lá. Isso, para mim, é trabalho. Esses encontros. — Ah. — Alison parece mesmo aliviada. Seus braços se afrouxam em torno da barriga. — Para mim também. Estou trabalhando na empresa do meu pai. Vim checar a Boomerang para ele, que está pensando em virar um dos sócios investidores da empresa. O pai de Alison é um banqueiro de investimentos cheio da grana. Muito cheio da grana. Perto dele, Adam é um mendigo. Sei que eu deveria estar considerando estrategicamente o que ela diz. Eu poderia passar para Adam um pouco do que está acontecendo por trás dele. Mas a única coisa que consigo pensar é que eu já disse a essa garota que a amava. Que idiota de merda. Eu não a amava. Eu amava como nos divertíamos, as férias que passamos juntos, ter ao meu lado uma garota que todo cara morria de vontade de ter. E, quando se completa um ano de namoro, se a pessoa não diz essas palavras é porque tem alguma coisa errada. E tinha mesmo, mas eu disse de qualquer jeito. Agora gostaria de não ter feito isso. O fato de ter dito aquilo de forma tão displicente me deixa puto da vida. Uma brisa sopra por nós. Os ombros de Alison estremecem de leve. A noite está gelada, mas não sinto frio. Não estou sentindo nada no momento, a não ser vontade de ir embora. — Ethan... não saí com mais ninguém desde você. — Não ligo para o que você faz, Alison. Parei de me importar quando encontrei você e Carl na cama. — Craig. — Tanto faz. — Estraguei tudo. Sei disso. E sinto muito. Muito mesmo. Respiro fundo e prendo o ar, tentando deixar a parte racional da minha mente pensar. Mas o que realmente quero é que isso acabe, portanto formulo uma resposta que vai propiciar esse fim: — Tudo bem, Alison. Você já disse que sente muito, agora pode ficar com a consciência tranquila. — Não é isso o que eu quero. Passamos dois anos juntos, Ethan. A maior parte foi sensacional. Se tudo acabar assim, quer dizer que jogamos fora esse tempo todo. E acho... acho que quero ver se podemos recuperar parte dessa relação. Não para voltar a ficar juntos, não acho que poderíamos fazer isso, ou que você consideraria essa possibilidade depois do que fiz. Mas é como se nada do que vivemos tenha tido valor. E não gosto de sentir tanto arrependimento. Pensei a mesma coisa inúmeras vezes. Durante algum tempo, eu estava constantemente editando meu passado para retirar todas as referências a ela, qualquer coisa capaz de trazer alguma lembrança indesejada. O cheiro de canela me fazia lembrar das férias que passamos juntos, pois Alison sempre polvilhava canela no café. Ou Jason e Isis interrompendo uma história no meio: coisa que nós quatro fazíamos juntos. Até mesmo zapear pelos canais assistindo a um pouco de pesca esportiva, surfe, caiaque, me fazia lembrar das viagens com a família dela. Desde o verão, desde a Boomerang, isso já não era mais tão intenso. Nem de longe. Mas entendo, sim, o que ela quer dizer. Sei como é querer apagar o passado para deixar de odiá-lo. O que não entendo é o que ela está me pedindo. — O que você quer, Alison? — pergunto. — Que a gente vire amigo? É isso?


A esperança lampeja nos olhos dela. — Não sei exatamente. Queria ter uma chance de reconfigurar nós dois. Estraguei tudo, Ethan. E acho que só não quero perder absolutamente tudo.


Capítulo 33 Mia P.: O que deixa você com medo?

Há luz em todas as janelas da casa dos meus pais, e a porta de entrada está escancarada para a noite. Uma forte onda de adrenalina toma conta do meu plexo solar. Salto do carro e saio correndo em direção à casa sem ao menos ter certeza se estacionei e desliguei o motor. — Nana? — grito ao entrar em casa e disparo pelo corredor da entrada. Corro pela casa chamando por ela em cada cômodo, começando pelo seu quarto, que parece ter sido revirado do avesso. As gavetas da cômoda foram puxadas, algumas estão até mesmo caídas no chão. O armário está aberto, várias roupas empilhadas embaixo de cabides de cetim brancos. Há livros espalhados no chão e quase tropeço numa xícara emborcada. Mas ela não está ali. Nem no estúdio da minha mãe, nem em nenhum dos três banheiros, nem na oficina do meu pai, lá embaixo. — Nana! Pelo amor de Deus — berro, abrindo e fechando as portas de todos os quartos de hóspede e da sala de televisão com meia dúzia de poltronas reclináveis de couro macio e um home theatre que tem a tela da largura da parede. Tudo parece sem vida, vazio. Estremeço ao sair de casa pela porta dos fundos. Sinto um mau presságio pesar sobre mim, desacelerando os passos, emprestando aos meus movimentos a sensação morosa de um sonho. As palmeiras que circundam o jardim sombrio cintilam fios de luzinhas, mas elas me parecem artificiais e sentimentaloides, e não festivas e sensuais, como de costume. Fico parada ali na tranquilidade da noite e vasculho as sombras, com o ouvido atento. — Nana? — sussurro, e minha voz é levada pela brisa repentina. Sinto um nó na garganta ao andar pelo escuro em direção aos limites da propriedade, que termina numa queda íngreme no desfiladeiro abaixo. Um som à minha esquerda me faz parar. Galhos se quebrando sob os pés de alguém. Eu sigo o barulho, correndo ao redor do lago ornamental e me espremendo pela abertura estreita entre dois álamos para chegar no outro lado da casa. Lá encontro Nana vagando pelo jardim de camisola e robe. O cinto de cetim prendeu em um arbusto próximo, revirando ao sabor da brisa da noite. Meu alívio me dá vontade me curvar e vomitar. Também me deixa com vontade de socar a cara de alguém. — Nana, meu Deus! — exclamo, ao atravessar correndo o gramado em sua direção. — O que está fazendo? Ela nem me olha, simplesmente continua andando a esmo pelo jardim, o cabelo ruivo cintilando como sangue sob a luz fraca do luar. Cheguei tarde, eu sei, mas não deve fazer nem quarenta minutos que meus pais saíram. O que aconteceu por aqui? Como ela ficou nesse estado? Gentilmente, com medo de assustá-la, puxo a manga de seu robe. — Nana?


— Não fique aí parada! — diz ela, num tom autoritário. — Me ajude a encontrar. — Encontrar o quê? O que você está procurando? — Aquela garota levou todos embora — murmura ela. — Todos mesmo. Não deixou nenhum para mim. A tal garota de novo. Eu me esqueci de perguntar aos meus pais, mas estou realmente preocupada. Será que foi ela quem fez aquilo no quarto da minha avó? — O que ela levou, Nana? — Todos os bonitos — responde, e é claro que isso não ajuda em nada. Mais uma vez, me lembro da queda íngreme atrás das árvores e das rochas afiadas. Penso em coiotes famintos, vagando em bandos. Culpa e vergonha me invadem, não porque deixo a maioria das preocupações com os meus pais, e sim porque uma parte mais profunda de mim, a garotinha egoísta que mora aqui dentro, está com vontade de sair correndo o mais rápido possível. Mas não faço isso. Toco o ombro da minha avó com suavidade, mas com pressão suficiente para que ela me olhe. Seus olhos parecem pequenos e febris, como o de passarinhos, afundados na pele pálida ao redor. — Está muito escuro aqui, Nana — digo. — Vamos ter mais chance de encontrar o que quer que você esteja procurando de manhã. — Mas e se até lá todos estiverem perdidos para sempre? E se a garota levar tudo e fugir de trem? Levar tudo o quê? Que trem? Minha vontade é berrar um monte de perguntas para ela, mas sei que está confusa, sobrepondo acontecimentos em sua mente. Ela tem sonhado acordada com tanta frequência que fica muito difícil saber o que é real. Eu a levo de volta para casa, onde a ajudo a se limpar e troco sua camisola por uma que não está com a bainha suja de terra. Então a deito na cama. À luz fraca do abajur na mesinha de cabeceira, conversamos sobre sua vida na juventude, sobre quando conheceu meu avô, quando deu à luz minha mãe. Não posso salvá-la, mas posso lhe oferecer alguns pontos de apoio em noites como esta. — Vou descobrir onde a garota escondeu suas coisas — digo. — E vou resgatar tudo. — Todos os objetos bonitos... seja lá o que forem. Gasto um tempo rearrumando seu quarto para que ela não se assuste com a bagunça ao acordar de manhã. Depois de dar um jeito na casa e apagar a maioria das luzes, eu trago para ela uma xícara de chá de lavanda com mel, mas minha avó cai no sono assim que deixo a xícara na sua mesinha de cabeceira de ébano. Seu cabelo ruivo se enrola no espaço entre seu queixo e o ombro, e há algo de coquete na maneira como seu rosto se suaviza ao dormir, mas algo de forte também. Como o rosto de Joana d’Arc, se ela não tivesse lutado seus combates em Orléans, na França, e sim em Selma, Alabama, e em Manhattan nos anos 1960. Guardo mais algumas coisas e depois saio de fininho do quarto, deixando a porta ligeiramente entreaberta, do jeito como eu gostava que deixassem quando era pequena. Apago todas as outras luzes daquela parte da casa, mas deixo uma bem fraquinha acesa no corredor para ela conseguir se localizar caso se levante no meio da noite. Então, finalmente afundo numa cadeira da cozinha e acendo as velas do castiçal de cobre que fica em cima da mesa. Suas chamas estalam e exalam um cheiro de química, de plástico, mas aqueles três pontos dourados me aquecem e ajudam meu corpo a relaxar. Apoio a cabeça nas mãos e então as lágrimas surgem. Só algumas. Aquele barco parece mais distante do que nunca, e minha Nana não passa de um pontinho minúsculo no horizonte cinzento. Depois de um instante, seco os olhos. Ela continua aqui, lembro a mim mesma. E, com minha câmera, tenho o poder de eternizá-la, de guardá-la comigo de alguma maneira e de compartilhá-la


com os outros. Isso me faz pensar em Ethan. Antes que eu perceba o que estou fazendo, já peguei o celular. É ridículo, mas quero ter essa conexão com ele. Sinto sua falta. E quero saber o que diabos aconteceu essa noite no Pink Taco. Afinal, quem era aquela garota? Mia: Oi, td bem por aí?

As chamas da vela diminuem e se alongam. Aproximadamente sessenta mil minutos se passam até a resposta dele aparecer. Ethan: Defina “bem”

Nenhuma brincadeirinha. Nenhum “Oi, Cachinhos”. Mia: Hummm. Vc tá a salvo, inteiro? Ethan: Um pouco. Não tô inteiro nem a pau. Mia: O q aconteceu? Ethan: Sabe aquela garota de hj? Mia: Sei. Ethan: Era Alison. Minha ex.

De repente, é como se eu tivesse hipermetropia. Sou obrigada a afastar o celular, a me esforçar muito para me concentrar nos balõezinhos azuis com letras brancas. Como pode ser? Como é possível que, no meio de milhares de perfis, eu tenha escolhido justamente a maldita ex-namorada dele? Quais são as chances? Parece que seria mais fácil ser atingida por um meteoro. Começo a rir histericamente. Passo os dedos algumas vezes pelas chamas da vela, esperando que a pequena dor me acalme, me ajude a entender o que desafia absolutamente qualquer entendimento. Meu celular apita. Ethan: Tá aí ainda, Cachinhos? Mia: Sim. Uau. Que louco. Ethan: Não tanto qto estou me sentindo. Mia: Que droga. Quer q eu te ligue? Ethan: Não precisa. Melhor fingir q foi só um sonho ruim. Ou uma piada de mau gosto. Aliás, isso me faz lembrar de uma coisa.

Espero, e quando ele não diz mais nada, mando: Mia: ??? Ethan: Vou matar Cookie por ter me zoado assim.

Ai, merda. Começo a digitar uma resposta para Ethan, dizendo que fui eu que troquei as garotas, e não Cookie. Mas, toda vez que tento explicar, fica parecendo loucura — algo que uma namorada maluca psicótica faria. Não se parece em nada comigo e, com certeza, não se parece em nada com alguma coisa que ele vá conseguir entender. Pelo menos não neste momento.


Estou tentando pela décima quinta vez quando chega outra mensagem. Ethan: Vou nessa. Vou tomar café da manhã c/ a minha ex. Chegue cedo p/ o showzinho. Cookie vai se dar mto mal. Mia: Não faça nenhuma loucura.

Isso quer dizer que ele vai ver a ex de novo (por que ele faria isso?) ou enfrentar Cookie, que não teve nada a ver com aquilo. As duas coisas parecem escolhas erradas, muito erradas. E pelo visto fui eu quem colocou esses dois caminhos na sua frente.


Capítulo 34 Ethan P.: Você vive mais no passado, no presente ou no futuro?

Consigo dormir umas duas horas no máximo e vou me encontrar com Alison no John O’ Groats para tomar café da manhã. Lá, empurro um pouco de comida goela abaixo enquanto nós dois agimos como se fôssemos capazes de dar conta daquilo, de modificar nós mesmos — ou seja lá que porra é essa que estamos fazendo. Alison me pergunta sobre meus pais e meu irmão. Quer saber sobre os Dynamos e sobre Jason e Isis. Ela tagarela sem parar, me fazendo falar de coisas e pessoas que gosto até eu começar a relaxar, mesmo contra minha vontade. Então ela pergunta sobre a Boomerang. — Como é Adam Blackwood? — Misturando um pouco de trabalho na história, Alison? Ela sorri, um pouco culpada. — Só curiosidade. Papai está tentando sacar como ele é. — Ela dá um gole em seu café com leite polvilhado com canela e come um pouquinho do seu omelete de claras. — Você está gostando de trabalhar lá? — Estou, sim. Conheci umas pessoas bem legais. Minha cabeça para e dá um giro, ficando repentinamente cem por cento focada em Mia. Nos seus olhos verdes e em seu sorriso doce. Em como ela ficou naquela noite em que a beijei no estúdio da sua mãe. Ela estava tão receptiva, tão excitada. Quero sentir isso de novo. Preciso disso. Alison deve ter percebido que me distraí, porque estreita os olhos para mim e assume um ar de tristeza resignada. Depois baixa o olhar para o café com leite. — Você ter vindo significa muito para mim, Ethan. — Quase não vim. — Provavelmente eu não teria vindo, se fosse o inverso. — Talvez não — retruco. — Dê um pouco mais de crédito a você mesma. Ela continua encarando seu café, mas seus olhos começam a se encher de lágrimas, o que me espanta. Antes dessa campanha do Reconfigurar a Nós Mesmos, só a tinha visto chorar uma vez, quando seu cavalo, Zenith, quebrou uma perna e teve que ser sacrificado. Pego um guardanapo e estendo-o para ela, me lembrando de Raylene. Isso está começando a virar um hábito para mim. — Obrigada. Alison aceita o guardanapo, mas o coloca embaixo do prato. Já recuperou o controle. No caso dela, não existe essa de ficar chorando por uma hora. — Como está sua mãe? — pergunto, porque sinto como se fosse minha obrigação. Ela me olha e dá um sorriso forçado. — Ah, você sabe. Arrecadando milhões de dólares para caridade. Organizando almoços. Fazendo botox. O de sempre. A mãe de Alison é uma figura. É o ser humano mais autocentrado que já conheci. Fico sem saber o


que responder, mas sou salvo pelo toque do celular dela. — É o meu pai — diz Alison, tirando o telefone da bolsa e recusando a chamada. — Falei para ele que ia ver você hoje de manhã. OK. Isso é bizarro. — Mande um oi para ele. — Você sabe como ele é. Isso não vai ser o suficiente. Ele vai me fazer uma centena de perguntas sobre você e depois vai decidir te ligar. Ele queria ter telefonado para você algumas semanas atrás quando a gente... terminou. Juro, ele quase me deserdou. Sente sua falta. Sorrio, porque a ideia do pai dela sentindo falta de algo que não seja ganhar dinheiro é difícil de imaginar. Ele é um empresário sagaz, assim como Adam, só que, enquanto Adam parece se divertir no trabalho, o pai de Alison é implacável. Graham Quick e eu não temos nada em comum, o que faz de mim alguém ao mesmo tempo inofensivo e interessante para ele. Várias vezes, nas viagens com a família de Alison, ele parecia a fim de passar mais tempo comigo do que com a filha. Aquela família é bizarra, mas me dei relativamente bem com eles. — Bom, diga que ele pode me ligar sempre que quiser — aviso. — Provavelmente vai convidar você para jogar golfe com ele. — Seria ótimo. Adoraria ensinar de novo para ele como é que se joga. — Vai continuar convidando até ele vencer. — Então vamos ter que jogar muitas vezes. O sorriso de Alison desaparece e ela abre os dedos compridos na mesa. — Você traz o melhor das pessoas à tona, Ethan. Não acredito no que acabei de ouvir. E não consigo mais suportar essa personagem “não Alison”. Preciso ser direto com ela. — Você tá bem diferente, sabia? Ela nega com a cabeça. — Não... Não estou. É só com você, Ethan, acredite em mim. Acho que não tenho nada a perder e muito a ganhar. — Ela se empertiga num gesto familiar, que me lembra de todas as vezes em que sua mãe a repreendeu por estar com os ombros caídos, mesmo quando não era o caso. — Estou falando sério — continua. — Sobre você. Acho que foi por isso que fiquei com você por tanto tempo. — Porque eu era como seu treinador? — Não, porque você era minha boia salva-vidas. *** Quando Alison me deixa no trabalho, estou emocionalmente exausto. Preciso de tempo para pensar, para processar, mas enquanto o elevador sobe até o décimo sétimo andar, vou me recuperando desse estado anestesiado e me lembro de como foi que Alison e eu nos reencontramos. Relembro as palavras que Mia me disse no restaurante na noite passada. Cookie me mandou uma mensagem... Saio como um cavalo em disparada assim que a porta do elevador se abre, seguindo como um furacão pelo saguão e pelo corredor, indo direto até a sala de Cookie. Eu a encontro sentada à mesa, assinando uma pilha de documentos com uma caneta prateada elegante sob o olhar de Paolo.


— Que diabos você está tentando armar para cima de mim, hein, Cookie? Meu corpo inteiro lateja de raiva. A caneta prateada para de se mover e Cookie ergue o olhar. — Perdão? — Sei o que você fez. Se ficou chateada porque Mia e eu fomos falar com Adam sobre o estande, tudo bem, mas esse foi um jeito muito baixo de se vingar. Cookie se levanta da cadeira em câmera lenta, os olhos da mesma cor da caneta em sua mão. — Sr. Vance — diz ela, do jeito mais profissional que já a ouvi usar. — Não faço a menor ideia do que está falando. — Ah, dê um tempo... Está querendo me dizer que o que aconteceu foi uma coincidência? Não me venha empilhar bosta a essa altura do campeonato. Paolo está pálido ao seu lado. Por um instante, me pergunto se cometi um erro, se na verdade aconteceu alguma improbabilidade maluca da informática que fez os algoritmos da Boomerang entrarem em cena e me parearem com minha ex depois do meu encontro original ter sido cancelado. Mas isso é impossível. Uma merda desse tipo não acontece espontaneamente. Cookie estava puta da vida por causa do lance do estande e encontrou em Alison sua arma perfeita. É provável que estivesse planejando aquilo tudo há semanas. — O-OK — diz Cookie, com uma voz cantarolante falsa. — Chega de empilhar bosta. Entendi, Sr. Vance. Ah! Por falar em coincidências, sua presença aqui vem bem a calhar, porque eu estava justamente querendo lhe contar uma coisinha. Sabe a feira? Seu orçamento do estande foi reduzido. Justo agora. Eu é que estou decidindo, não Adam. Que Deus me perdoe se eu empilhar bosta em cima do senhor outra vez. Será obrigado a abrir mão do seu adorado videogame. Agora dê o fora antes que eu fique realmente irritada, seu peãozinho imbecil. Ela se senta de volta na cadeira e recomeça a assinar os papéis. Antes que eu faça alguma coisa realmente idiota, me obrigo a sair dali. Eu sabia. É guerra. A notícia corre pelo escritório à velocidade da luz. Ninguém me diz nada, mas percebo que está todo mundo por dentro. Sempre que alguém vai até a cozinha, não escuto mais o papo de sempre: as pessoas simplesmente pegam o café em silêncio e vão embora. Mia também está quieta. Concentrada no trabalho, mal se atrevendo a me olhar. Enquanto as horas se arrastam, tenho a impressão de que de certa maneira a desapontei... e essa é a pior parte. O fato de ela ter me mandado mensagem ontem à noite querendo saber como eu estava foi a única coisa que me impediu de perder a cabeça. Só de saber que ela estava pensando em mim, ainda que só por um tempinho de sua noite, fez toda a diferença. Estou me sentindo um vilão aos olhos dela e do resto do escritório, o que é exatamente o contrário do resultado que eu queria alcançar. Dei tudo de mim para esta empresa e sei que estou fazendo um bom trabalho. É inacreditável que um ataque de Cookie por baixo dos panos possa ter arruinado tudo desse jeito. Três meses atrás estava tudo encaminhado. Eu tinha acabado de me formar na faculdade, sonhava em arranjar um emprego sensacional como esse e pagar os empréstimos estudantis antes de ingressar na faculdade de direito. Agora, sei lá como, estou retrocedendo e não consigo encontrar um jeito de parar. Só percebo que já é meio-dia quando Mia se levanta e pega sua bolsa. — Posso levar você para almoçar? — Claro — respondo, antes de conseguir pensar a respeito.


Vamos até a garagem e entramos no carro dela em silêncio. — Não estou com fome — digo. — Então o que você quiser comer pra mim tá ótimo. Só vim pela companhia. Mia tira as mãos do volante. Está escuro na garagem e só consigo ver os contornos do seu rosto, mas conheço aquele olhar dela: uma mistura de compreensão e carinho. Meus ombros relaxam e me dou conta de que era isso o que eu queria a manhã inteira. Que Mia me olhasse daquele jeito. — Vai passar, Ethan — diz ela. — Você sabe como Cookie é. Mas é uma pena o lance do videogame. Faço um lembrete mental para estrangular Paolo por ter sido tão eficiente em espalhar a fofoca. — Não precisa sentir pena. O videogame vai continuar na jogada. — Vai... o quê? — Cookie já aprovou esses gastos, e não vou ligar para Zeke cancelando. Mia vira o corpo para me olhar. Ela está usando um vestido branco justo que se une a todas as suas curvas e meio que sinto vontade de lhe agradecer. Sua gostosura é uma distração bem-vinda de toda a merda com a qual estou tendo que lidar. — Ethan, você tem certeza? — Tenho. Tenho certeza. Parece que Cookie está, sei lá, tentando me humilhar ou alguma coisa assim. Enfim, não vou dar pra trás a essa altura do campeonato. — Sorrio. — Você devia estar comemorando, Cachinhos. O emprego é praticamente seu agora. Parabéns, vencedora. Mia se inclina para trás, apoiando a cabeça no encosto do assento. — Não... A gente vai dar um jeito nisso, Ethan. Vou ajudar você. Prometo. Um sentimento estranho contrai minha garganta. Fecho as mãos com força para lutar contra a vontade de abraçá-la. Se eu pudesse abraçar Mia bem nesse momento, nada disso importaria para mim. Nem Alison, nem o maldito videogame que vai me colocar no olho da rua. É isso aí: abraçar Mia “daria um jeito” nisso tudo. Mas sou obrigado a morder o interior da minha bochecha para não pedir um abraço para ela. Eu mesmo estabeleci as regras, afinal de contas. Somos colegas de trabalho. E colegas de trabalho não ficam se pegando por aí. Portanto, em vez disso, dou um soco de brincadeira no seu ombro. — Ei — digo. Hora de aliviar o clima. — Quer jogar boliche comigo e um bando de meninos de nove anos amanhã à noite?


Capítulo 35 Mia P.: Você é do tipo esportista?

Ninguém

deveria ficar assim tão bonito com sapatos de boliche, mas obviamente Ethan está parecendo um deus grego. Tipo, ele devia estar coberto com um pano na altura da virilha e jogando um disco em vez de erguendo uma bola de boliche azul-clara e olhando para os pinos como se tivessem insultado sua mãe. A pista é retrô, com luzes néon. Todas as garçonetes se parecem com Rosie, a rebitadeira, ou com alguém que largou uma big band. Elas passam por nós com pratos cheios de asas de frango e copos de cerveja em forma de pinos de boliche. Ando por ali durante algum tempo, filmando os casais namorando e os grupos de meninas solteiras paquerando os grupos de caras solteiros. Mas minha lente acaba sempre voltando para Ethan. Ao seu redor, um batalhão barulhento de meninos de nove anos está brigando, pulando de joelhos nos bancos com estofado de vinil e pele artificial de onça e criando uma nuvem móvel de pandemônio, enquanto Rhett tenta, sem sucesso, dividi-los em equipes. — Espere aí, galera! — diz ele. — Quero um pouco de ordem aqui. Ele já cometeu o erro de deixar cada um inserir o próprio nome no computador para contar a pontuação, por isso, meus companheiros de boliche têm nomes como “BOCA DE PATO” e “SR. BUNDA”. Ah, os nove anos. Uma idade maravilhosa. Ethan fica na ponta dos pés, dá alguns passos e joga um míssil na pista que praticamente estraçalha os pinos. Strike. Óbvio. — Aê, Treinador! — diz um menino alto e forte com um topete louríssimo. Ethan se vira e sorri. Indicando os pinos com o polegar, diz: — Sua vez, Bunda. — O que, obviamente, deixa os garotos histéricos. Por enquanto só tem Ethan, Rhett, os meninos e eu. Isso é, a maioria dos meninos. Ainda não vi Raylene nem o filho dela. Preciso sair cedo para ir a um dos concertos de Skyler, mas antes tenho que contar a Ethan que fui eu quem trocou as meninas do encontro da Boomerang. A culpa está me consumindo e já passei três dias assistindo-o cometer suicídio profissional sem conseguir confessar a verdade. Respiro fundo. Depois repito isso mais duas vezes, converso comigo mesma para levantar meu ânimo, dizendo coisas como: “Mia, deixe de ser tão covarde”, e passo por aquele mar de meninos grudentos de suor, a maioria cheirando a fritura e a ozônio. Agora entendo por que Ethan ama o que faz. Esses garotos são estranhos, hilários e acham que chamar alguém de “Torta de Cocô” é a coisa mais engraçada do mundo. E de certa forma é, principalmente quando um garoto oriental alto troca o nome de Rhett no computador para Torta de Cocô. Ethan está dando uma chave de braço em um dos meninos, um de orelhas grandes e cabelo castanho-claro cortado com máquina dois, enquanto orienta o menino louro, o Sr. Bunda.


— Vá um pouco pra trás. Deixe os ombros paralelos à linha. Quando jogar a bola, só solte-a uns dois segundos antes de estar paralela ao chão. Entendeu? — Acho que sim — diz ele, sem muita certeza. Ethan solta o outro garoto — Máquina Dois — e enfia a mão no bolso, retirando de lá dois dólares. — Caralho — diz. — Treinador Vance! — Foi mal, quis dizer “caramba”. — Ele olha para mim franzindo a testa. — Ei, será que você me emprestaria uma grana? Quero comprar uma pizza para eles ou alguma coisa assim. Eu praticamente jogo duas notas de vinte em cima dele, felicíssima de poder inserir algo na coluna do carma positivo, ainda que seja uma pequena oferta. — Maneiro! Posso ficar com o troco? — pergunta Máquina Dois, seguindo para o balcão da lanchonete. Ethan o cutuca por trás com seu sapato de boliche preto. — Deixe de bancar o espertinho. Compre duas pizzas: uma de queijo e outra de pepperoni. E umas limonadas ou alguma coisa assim. — Ele aponta para o outro menino. — Tyler, vá com ele. Você fica encarregado de trazer o troco para a Srta. Galliano. Entendeu? Srta. Galliano me faz pensar na minha tia ou em alguma pessoa madura que não fica por aí esperando uma oportunidade de confessar que fez a coisa mais idiota e impulsiva da face da Terra. O menino me olha com timidez e faz que sim com a cabeça, como se tivesse ficado sem fala. — Tyler. Ir com ele significa, sabe, ir realmente com ele — acrescenta Ethan, exasperado. — Está bem — responde o menino, e logo tropeça nos dois degraus acarpetados do piso principal do salão. Embora a luz néon cor de âmbar deixe sua pele com outra coloração, percebo como ele está vermelho enquanto se levanta desajeitadamente e sai apressado. — Ei, Tyler, me traga uma cerveja, está bem? — pede um dos meninos, e ele e os outros caem na gargalhada. Ethan sorri. — Quem diria que tirar essa turma do campo de futebol os faria perder o juízo, hein? Ouvindo o som de pinos de boliche sendo atingidos por toda a parte, observamos dois garotos seguirem para pistas vizinhas e esperarem sua vez de jogar. Os dois seguem as instruções de Ethan, endireitando o corpo, equilibrando-se com cuidado na ponta dos pés e aguardando educadamente que as pessoas ali perto terminem suas jogadas. Vou ficar maluca se não fizer logo o que tenho que fazer. Pigarreio e começo: — Sabe, Ethan... Mas o garoto à esquerda leva o braço para trás e a bola escapa de sua mão, fazendo um estrondo ao cair entre os meninos de nove anos que estão brincando perto da área do retorno das bolas. Um deles grita: — Meu pé! E, em seguida, cai, fazendo outro garoto ali perto largar a bola que estava segurando. A bola sai rolando em direção a uma família com três filhinhas que gritam ao ver o objeto avançando lentamente até eles, como se fosse um trem de carga descarrilado. Nós nos dividimos como grupos de sete e dez pinos, eu saio atrás da bola antes que atinja suavemente o pezinho de uma menina de cinco anos e Ethan vai desfazer o nó górdio dos garotos inquietos.


O pai da família pega a bola e a entrega para mim com um sorriso, depois sabiamente leva a filha para se sentar no banco mais afastado de nós. — Obrigada. Volto para ajudar a restaurar um pouco de ordem ali, embora qualquer um que conferisse minha vida naquele instante pudesse dizer que essa com certeza não é minha especialidade. Ethan faz o garoto — Milo — se deitar num banco e ajoelha-se à sua frente, para desamarrar seu sapato. — Muito bem, cara — diz ele. — Só vou dar uma olhada no seu pé para ver se quebrou alguma coisa, falou? Milo assente, e Máquina Dois, que voltou da missão das pizzas, se senta para observar por cima do ombro do amigo. — Ai, meu deuxxx, o que aconteceu? — pergunta uma voz às nossas costas. Ao olhar para cima, encontro Raylene ali, o cabelo ruivo preso numa altura descomunal. Está usando um vestido jeans claro que mais parece uma camisa e uns saltos agulhas que, com certeza, são completamente inadequados para uma pista de boliche. — Oi, Parker — cumprimenta Milo, e alguns dos outros garotos também murmuram cumprimentos. Na hora percebo que estão sendo gentis com o colega, daquele jeito surpreendente que os garotos às vezes têm de serem protetores quando seria mais fácil bancarem os durões. Parker sai de trás da mãe para se aproximar do menino machucado. — O que aconteceu? Então Rhett surge, com o peito estufado de um jeito estranho e, juro, mais um botão aberto na sua camisa de boliche colada ao corpo. Seu amedrontador rosto anguloso está amável e seus olhos brilham de um jeito que só vi quando ele marca um gol ou demite alguém. — É só um soldado que foi atingido no campo de batalha — diz ele com uma voz estrondosa, e Raylene ri, exibindo todos os dentes. Está na cara que esses dois vão acabar juntos, provavelmente mais cedo do que tarde, o que me deixa feliz, aliviada e curiosa em saber se vão destruir vilarejos com o calor do sexo ardente que farão. Ethan mexe o pé do menino e pressiona alguns dedos. — Não tem nada quebrado — declara. Depois volta a calçar o sapato de boliche no garoto e, ao terminar, lhe dá um tapinha. — Mas agora esse pé ficou um número maior. Milo sorri e sai do banco. — Vou mudar meu nome para Pé Grande! — exclama, e sai correndo para o computador. Ethan olha para ele com um sorriso carinhoso e depois se vira para mim. — Crise resolvida — diz, ao se levantar. Uma delas, pelo menos. — Ei, será que posso monopolizar você só por um segundo? — pergunto. — Antes de todo mundo te chamar? — Claro. O que foi? — É que... Meu Deus, vou parecer uma tremenda canalha. O que é muito adequado, acho, pois fui mesmo uma canalha por ter feito aquilo. Respiro fundo algumas vezes e o afasto ligeiramente do resto das pessoas, levando-nos até onde fica uma máquina de garra e a pequena área de fliperamas perto da porta. Ele não para de olhar para trás, para os garotos.


— Não posso ficar tão longe. — Eu sei — digo. — Vai levar só um segundo. Só sinto que preciso dizer que... Mas seus olhos se afastam de mim e uma expressão indecifrável surge em seu rosto. — Hã. Só um minuto — diz ele, e sai. — Espere, Ethan. — Um segundinho só, eu já volto. Fique de olhos neles, está bem? Ele sai apressado e meu estômago se revira quando vejo o motivo. Pelo visto, Alison também veio jogar boliche.


Capítulo 36 Ethan P.: Caixa de bombons ou saco de batata frita?

Estou correndo em direção a Alison quando percebo: de todas as ideias idiotas que já tive, jogar boliche com meu time de futebol, minha ex-namorada e Mia com certeza é a pior delas. Vai ser uma noite infernal. — Oi, Alison. Você veio. — Para lhe dar um abraço, me inclino sobre a caixa cor-de-rosa de confeitaria que ela está segurando. — O que é isso? — Só uma surpresinha que preparei para o time. — Ela abre a caixa e faz um pequeno floreio. — Tcha-ram. Ali dentro há mais de uma dúzia de cupcakes. Cada um tem uma cobertura branca permeada por linhas de chocolate, para que fiquem parecidos com uma bola de futebol. Apenas um, no meio, é diferente, e minha boca se enche de água assim que o vejo: um cupcake de chocolate com avelã. Meu preferido. Aquele gesto é típico da antiga Alison, portanto não fico surpreso. Ela sempre foi de dar presentes, inclusive coisas extravagantes, algumas vezes. Antes, sempre havia um traço de desespero em sua generosidade, como se eu fosse um animal arredio que poderia desaparecer sem uma dieta rígida à base de Nikes customizados, camisas de grife e jantares caros. Mas com esses cupcakes é diferente. Vejo nos olhos dela que não está esperando nada além da minha gratidão, o que ela recebe. — Parecem ótimos. Obrigado. — Gesticulo para chamar os garotos. Todos formaram uma fila atrás das linhas da pista de boliche, menos Cameron, que está balançando uma bola para trás e para a frente, prestes a jogá-la num túnel formado por dez pares de pernas abertas. Alguém vai acabar se machucando de novo, quem sabe até ser castrado. Mas, felizmente, Rhett interrompe Cameron bem a tempo. — Se não tiver problema para você, vamos esperar para comê-los no final, senão os garotos correm o risco de virar atômicos com esse açúcar todo. — Acho inteligente — diz Alison, arregalando os olhos diante do comportamento bizarro do meu time. — Beleza. — Hesito por um instante. Quando ela me mandou uma mensagem de texto esta tarde perguntando se poderíamos conversar de novo, imaginei que poderíamos fazer isso ali: um lugar público e barulhento, o mais inadequado possível para uma discussão de relacionamento. Surpreendentemente, não vejo problema algum em conversar outra vez com ela, mas também não tenho o menor interesse em me colocar numa situação remotamente íntima. Isso nunca mais, porra. Nunca. Mas acabei não pensando direito nos detalhes: com o time aqui, só vou conseguir falar com ela daqui a uma hora. — Estou um pouco ocupado, mas... — Tudo bem, Ethan. Vai lá — diz ela, acenando para que eu me afaste. — Vou pegar um drinque e dar um tempo por aqui, até que você possa conversar. — Beleza. Mais uma vez, ela me parece irreconhecível. Essa garota é cem vezes mais fácil de lidar do que aquela com quem namorei. Quase fico esperando o momento em que ela vai abrir um zíper e tirar sua


pele nova, como num desenho do Scooby Doo. Ao voltar para as pistas, procuro por Mia. O que será que ela vai pensar ao ver Alison aqui? Eu a encontro ajoelhada diante de Parker, amarrando os sapatos de boliche do menino, à vontade mesmo bem no meio daquele caos. Por enquanto Rhett está conseguindo manter os meninos se comportando mais ou menos bem, portanto me sento ao lado de Parker. Mia olha para mim e encontra meu olhar por uma fração de segundos antes de virar as costas de volta para fazer um nó duplo. — Tudo bem aí, Parker? — pergunto. — Minha mãe se esqueceu de dar dois nós nos meus sapatos de boliche apesar de eu ter falado três vezes pra ela fazer isso, mas não tem problema, porque acho que estão grandes demais mesmo — responde o menino. Então ele solta o ar de um jeito exasperado, fazendo seus cachos ruivos flutuarem por um segundo. — Quer que eu pegue um número menor para você? — oferece Mia. Parker balança rapidamente a cabeça. Sorrio ao me lembrar de como é ter aquela idade. Uma garota bonita já nos deixa mudo, mas ele só vai entender o motivo anos mais tarde. — Sabe o meu pai, Shep? — digo, tentando pensar numa história que possa ajudar Parker a superar sua relutância em jogar boliche. — Ele é dono de um boliche no Colorado. Era onde eu morava, e... — Tyler me contou — interrompe o garoto. — Ele me disse que você aprendeu a fazer gols lá. Na pista de boliche. Sorrio. Esse é um bom sinal. Parker foi meu principal motivo para ter organizado esta noite. Ele tem aparecido nos treinos, mas ainda não jogou nenhuma vez. Só assistiu, e é isso o que ele está fazendo hoje também. Ou era o que eu achava. Tyler é o líder, portanto, se começou a conversar com Parker, a aceitá-lo, as coisas estão começando a melhorar. — Aham — digo. — É verdade, mas voltando ao meu pai: ele acha que a maioria das pessoas é muito apressada no momento da abordagem, ou seja, quando dão aqueles primeiros passos antes de jogar a bola. Ele diz que, quando a gente usa sapatos maiores do que nosso número, andamos mais devagar pra não tropeçar. Por isso, ele tem uma teoria de que a maioria das pessoas joga melhor com sapatos grandes. Parker fica um instante em silêncio e me olha de uma forma intensa demais para uma criança. — No futebol é igual? — pergunta ele. — Usar sapatos grandes ajuda? Ou melhor, chuteiras? — Ajuda a quê? A marcar muitos gols? A chutar com força? Com o canto do olho noto que Mia está sorrindo. Sinto vontade de olhar para ela, mas não me atrevo a quebrar o contato visual com Parker. Ele está me escutando. Finalmente, esse menino está me escutando de verdade. — A chutar com força — diz ele. — Quero chutar longe e com muita força. Que nem você. Cruzo os braços e olho para as pistas como se estivesse pensando no assunto. — Que tal acrescentar precisão nessa história? Força e alcance não são nada se você não conseguir chutar para onde quer. — É — diz ele, antes que eu sequer pudesse concluir o que estava dizendo. — Beleza. Posso te ensinar isso — digo. — Não precisa de nenhum sapato especial. Mas você vai ter que começar a treinar. Precisa participar. E não só assistir. E vai ter que dar duro. Não é o discurso mais motivador que já dei, mas o que ele precisa não é de palavras bonitas. Se eu tiver razão, Parker só precisa acreditar que não vou fazer promessas e depois sumir, que aconteça


o que for ele já conquistou um lugar no Dynamos. — Peidorrento? — berra Rhett, quebrando o pequeno casulo que nos rodeava. Rhett faz um esforço para ler o painel da pontuação, depois olha ao redor. — Gente, escute só. Gente! Alguém sabe quem é Peidorrento? Parker dá um pulo. — Preciso ir. — Para perto do placar e olha para trás. Seus olhos encontram os meus. — Mas tudo bem, Treinador. Pode deixar. Mia se empertiga e se senta no lugar que Parker acabou de deixar vago. Está sorrindo; sinto isso sem sequer olhar para ela. — Você parece bem orgulhoso de si mesmo, Treinador Ethan. — É... Gosto desse garoto. — Ele é o seu preferido? — Se “preferido” quer dizer aquele em quem mais penso, então, sim. Ele é meu preferido. — Segundo essa definição, você seria minha garota preferida, penso, mas em seguida me reprimo por isso. — Parker acabou de passar por poucas e boas, sabe. Mia nega com a cabeça, e seu cabelo cacheado balança sobre seu ombro. — Não. O que aconteceu? Abaixo o tom de voz, embora não haja a menor chance de alguém nos escutar com todo aquele barulho. — O pai dele o abandonou. Abandonou os dois, aliás — digo, indicando Raylene com a cabeça. Só então percebo que ela está sentada com Alison numa mesa, diante de duas taças de vinho branco. Sinto como se eu tivesse entrado numa outra dimensão. — Que coisa mais triste... Pobrezinho — diz Mia, franzindo a testa de preocupação. Meus olhos pousam em seus lábios, no brilho rosado suave de seu gloss labial. Seria tão fácil abaixar o corpo e provar seu gosto. Minha força de vontade se desintegra quando fico assim tão perto dela, portanto me inclino para trás e me concentro nos meus sapatos de boliche. — De certa maneira, consigo entender pelo que ele está passando. —Achei que seus pais fossem casados — retruca Mia. — Você me disse que eles ainda são loucos um pelo outro. — E são mesmo — concordo, reparando em como ela se lembra de cada palavra que lhe disse. Seria melhor se eu não tivesse reparado nisso, pois não vai facilitar em nada a minha vida. — O que eu quis dizer é que sei como é ser desapontado por alguém em quem você confia. Mia pisca para mim sem entender. — Como assim? — Nada... deixe pra lá. — Não quero falar mal de Alison, principalmente porque ela está aqui. Seguro a mão de Mia e puxo-a para cima, para que se levante. — Sua vez, Srta. Ô Lá Em Casa. Ela ergue os olhos para o painel. — Lá... o quê? Não fui eu. Um dos garotos escolheu esse nome. Sorrio. — Gostaria de saber quem foi. Eu a levo até a pista e paro no caminho para pegar sua bola de boliche. — Ethan, sou alérgica a esportes — diz Mia, se contorcendo para tentar se soltar da minha mão. — Eu já te disse isso! Ando até com anti-histamínico na bolsa. — Tente, não custa nada. Não vai matar você. Entrego a bola de boliche para ela, cujo peso a faz tombar para a frente.


Todos os garotos pararam de fazer o que estavam fazendo para formar uma fila, e estão quietíssimos, mais do que em qualquer momento daquela noite. Então Milo assobia um fiu-fiu. — O Treinador Ethan está agarrando a namoraaaaada! De repente, todos começam a dar risadinhas e cutucar um ao outro. — Estou falando sério, Ethan. Posso machucar você seriamente. — Por trás do seu sorriso, percebo que ela está mesmo preocupada. — Quando tento praticar esportes, quebro janelas. Quebro ossos. — Não tem problema. Você está nas mãos de um profissional. — Ajeito o modo como ela segura a bola. — Vai até marcar um strike, aqui e agora. Seguro seus quadris e viro-os ligeiramente para o lado. Então contorno Mia e ajusto a posição do seu braço, depois puxo seus ombros para trás. Os garotos começam a cantarolar: Mi-a! Mi-a! — Terminou? — pergunta ela, parecendo arrasada. — Posso jogar agora? — Não, você está toda torta. — Mas foi você quem acabou de me colocar nessa posição! — É, mas não deu certo. Relaxe, Cachinhos. Está tudo sob controle. Fico atrás dela, pensando que vou conseguir ajudá-la da mesma forma que aprendi, como meu pai fez comigo, guiando meus movimentos. Mas, assim que meu corpo se alinha ao dela, percebo que cometi um erro. Um grande erro. Seu cheiro sensacional de violetas invade minhas narinas e, no mesmo instante, faz meu corpo entrar em estado caótico. O calor toma conta de mim e de repente me vejo fazendo tudo ao meu alcance para esquecer como é bom ficar perto dela desse jeito. — Segure a bola assim. — Envolvo as mãos dela com as minhas para lhe mostrar como deve segurar a bola, mas menos de um por cento da minha cabeça ainda está pensando no boliche. Estou ficando de pau duro ali mesmo, com gente ao redor, mas não consigo fazer meu maldito pau abaixar quando estou roçando em sua bunda dessa forma. É simplesmente impossível. Continuo falando com ela, por que o que mais posso fazer? — Balance a bola para trás e para a frente. Só solte quando... — Ethan — diz Mia. Apenas isso. Apenas meu nome, mas é como se fosse uma súplica e uma ordem em uma só palavra. — O que foi? — pergunto, com a voz rouca. Tem alguma coisa muito familiar naquela situação. Em ela estar roçando assim no meu corpo. — O que a gente está fazendo? Ela ficou paralisada como uma estátua na minha frente. Uma estátua com curvas suaves que estão me enlouquecendo. — Algo diferente do que gostaríamos de estar fazendo — respondo. As palavras escapam de mim com a velocidade da verdade. Mia se afasta tão rápido quanto se eu a tivesse machucado e joga a bola de boliche para a frente, que aterrissa na canaleta com um estrondo e salta até a pista do lado, onde começa a rolar do jeito mais vagaroso possível até finalmente alcançar o fim da pista e desaparecer. Os garotos ficam histéricos, mas Mia olha para mim. Odeio a mágoa e a raiva presentes em seus olhos verdes. Aquilo me faz cair estatelado da altura deliciosa em que eu estava minutos atrás, quando o corpo dela estava colado ao meu. Tenho a impressão de que eu devia pedir desculpas, mas porra, não estou nem um pouco arrependido! O que aconteceu foi bom demais para eu me arrepender. Sem dizer uma palavra, ela sai da pista e vai até Rhett, que está de pé ao lado de Raylene. Não posso ir atrás dela bem agora, portanto me obrigo a encarnar o treinador. Passo a hora


seguinte tentando evitar que os garotos quebrem algum dedo do pé ou da mão e, de vez em quando, consigo até mesmo jogar alguma bola na pista. Porém, minha mente nunca se desliga totalmente. Não paro de pensar na mágoa que havia nos olhos de Mia. Desde aquela noite na casa dos seus pais, lutei contra meu desejo durante semanas. Essa noite, o desejo revidou e me derrotou de vez. Ao tocar Mia como fiz, violei o acordo entre a gente, o acordo que eu mesmo estabeleci: de sermos só amigos e colegas de trabalho, nada mais. Pois é. O arrependimento acabou dando as caras, no fim das contas. Sacana. Pouco antes das sete horas, reúno os garotos para lhes dizer algumas palavras, como sempre faço depois dos treinos. Os pais deles estão esperando de pé num semicírculo, atrás dos filhos inquietos que não param de se remexer e se cutucar. Mia também está ali. Não parece mais estar com raiva, o que alivia a tensão que esteve pesando nos meus ombros durante a hora que passou. Só então me lembro de que ela queria me perguntar alguma coisa, logo antes de Alison aparecer. Minha ex também continua ali, segurando a caixa com os cupcakes, e Rhett está ao lado de Raylene. Meus olhos sem querer se fixam nos dois por um segundo e percebem os sinais indiscutíveis da linguagem corporal deles. Minha mente faz um cálculo rápido. Rhett mais Raylene igual a... nossa. Como não percebi isso antes? Eu me encosto na máquina que devolve as bolas arremessadas e volto a concentrar minha atenção no time. — O que vocês aprenderam hoje, galera? — Quero fazer minha festa de dez anos aqui! — A pizza daqui é uma delícia! — O Sr. Bunda fez dois strikes! — Certo, certo, gente — digo. — O que mais? — Olho para Tyler, rezando para que o menino me ajude. — Pois é — diz ele. — Esse time é demais. Mas eu já sabia disso. — Mas é bom lembrar de novo, né? — pergunto. — Não é uma boa coisa para a gente se lembrar? — Algumas cabeças assentem, o que significa que consegui o espírito que eu desejava deles. — O que sempre digo sobre esse time, gente? — Que a gente precisa pensar menos no eu e mais no a gente — responde Cameron. — É isso aí. Vocês jogam tanto uns para os outros quanto para si mesmos. Acho que hoje a gente mandou bem pensando no a gente. O que vocês acham, galera? Um coro de gritos começa ao meu redor. — Muito bem. Bom trabalho, Dynamos. Peguem um cupcake com Alison antes de irem e se lembrem de agradecer. Em geral, esse momento costuma ser um pandemônio, com os meninos pulando um em cima do outro para irem embora, mas dessa vez ninguém se mexe. — Já tá tudo pago, gente — digo. — Só precisam devolver os sapatos e pronto, podem ir. Milo, que continua sentado de pernas cruzadas no chão, enfia a mão na sua bolsa esportiva e tira uma bola lá de dentro. Uma bola de futebol. Ele faz a bola rolar pelo chão brilhante até onde estou. Sei o que vão me pedir antes mesmo de eu pegá-la. Como de costume, Tyler é o porta-voz do grupo. — Pedi pro meu pai falar com o dono do boliche e ele disse que não tinha problema. Que você podia fazer isso. Mas só uma vez, e só você. Olho para os onze rostos que irradiam confiança. Por mais que eu não queira fazer isso aqui, nesse


lugar que é tão parecido com a minha casa, e ao mesmo tempo tão diferente, não vou desapontá-los. De jeito nenhum. Ouço alguns gritinhos de empolgação quando coloco a bola na linha e recuo. Enquanto percebo quanto aquilo me parece natural e me lembro da força exata necessária, do pino certo onde mirar, o silêncio toma as pistas ao redor e as outras mais distantes também, até que a única coisa que consigo ouvir é o ritmo pulsante de uma música dos Rolling Stones nos alto-falantes. Tenho plateia, mas isso não me deixa nervoso. Nunca deixou. Saio em disparada como um foguete e chuto a bola, que rola pela pista. Num instante, nove pinos de boliche voam pelos ares. O décimo pino gira devagar e, por um segundo, acho que não consegui, até que, finalmente, ele cai, e os garotos enlouquecem às minhas costas. Um strike perfeito. E a sensação foi maravilhosa. Eu me viro, procurando Mia e sorrindo antes mesmo de encontrá-la. Mas não a acho, porque ela não está mais lá. Foi embora.


Capítulo 37 Mia P.: Você é generoso com seus amigos?

Abro caminho pelas mesas do Maxi’s Café e me sento ao lado de Beth no mesmo momento em que Skyler entra no palco. A multidão grita por ela, que sorri e gira ligeiramente o violoncelo antes de se acomodar num banquinho, afofar seu vestido longo amarelo-manteiga e apoiar o instrumento entre as coxas. Em geral adoro esse instante logo antes de Sky começar a tocar. As pessoas olham para ela e veem uma garota que é o estereótipo da manic pixie dream girl, com sua franjinha e seu corpo magro. Nem sonham com o que estão prestes a encontrar: uma fera da música com um estilo percussivo feroz capaz de fazer janelas tremerem. Esta noite, porém, mal consigo parar quieta na cadeira, e minha pulsação lateja como se houvesse um mar em meus ouvidos. Fugi de Ethan, fugi da verdade do que ele disse e da verdade mais profunda ainda das suas mãos em meu corpo. Ele me envolveu com os braços na pista de boliche, colando o corpo firme nas minhas costas, e uma enxurrada de lembranças me assolou da cabeça à ponta dos meus sapatos marromescuros de boliche. Estamos molhados — ainda não sei por quê. Mas ele está atrás de mim, levantando meu vestido por cima da minha cabeça e jogando-o em algum canto. Estamos em sua cozinha, no escuro, rindo, e todo o meu corpo se sente fraco com aquilo e com os inúmeros drinques que tomamos no Duke’s. Eu me apoio no aço inoxidável frio de sua geladeira enquanto suas mãos me envolvem, segurando meus seios em concha e enfiando os polegares na seda do meu sutiã. Ele afasta para um lado meu cabelo molhado e respira, seu ar quente no meu pescoço. Seus lábios se movem por mim, seus dedos deslizam pelo meu corpo, aquecendo minha pele fria. O contato me faz estremecer, um delicioso estremecimento lento. Tenho a sensação de que eu poderia derreter ali mesmo. As moléculas do meu corpo parecem ser de hélio, como brasas jogadas para cima por um atiçador. Pressiono meu corpo no dele, querendo me virar, sentir seus lábios nos meus, mas ele me segura, com uma mão firme na barriga, a língua provocando minha pele, os lábios percorrendo meu ombro. Sinto ele tão duro contra mim e isso revira minhas entranhas, me faz liquefazer. “Isso não é justo”, digo, e parece que minha voz está vindo de uma nuvem distante. “O que não é justo?” “Você ainda está vestido.” E nesse momento me afastei dele e joguei a bola de boliche na outra pista, como se estivesse fazendo um arremesso de softball. Depois fui embora correndo. Odeio o fato de não ter me despedido dos meninos nem de Rhett, mas simplesmente não dava. Eu não conseguia estar com aquelas imagens rodopiando na minha cabeça e ficar ali tão perto dele, mas não com ele. Skyler liga o sampler da bateria e inicia uma versão poderosa de “Purple Haze”, seu cabelo louro


balançando para a frente, com um olhar de pura alegria. Algo diferente do que gostaríamos de estar fazendo. As palavras de Ethan ricocheteiam em meu cérebro. É verdade. O que eu gostaria de estar fazendo começa com uma reprise dessa pequena lembrança e termina com ele nu na minha cama. O que vou fazer é me obrigar a aceitar de todas as maneiras que não posso ter isso. Ainda que esta noite ele tenha balançado, já deixou muito claro como quer que as coisas sejam. E agora ele tem Alison, graças a mim. Tudo bem, porque tenho o emprego da Boomerang e a viagem para Vegas, daqui a algumas semanas. Tenho meu filme, meus amigos, minha família. Isso é o bastante, digo a mim mesma. Sério. Skyler começa uma bossa nova, “Bitter Sweet Symphony”, fazendo o arco voar pelo violoncelo, as mãos batendo no corpo do instrumento para produzir a batida bonita que é sua marca registrada. Ela está mandando ver, e sua paixão me incita. Já vi tantos amigos se formarem sem terem a menor ideia do que são na verdade, ou do que querem. Nada os move por dentro. Portanto, eles passam pela vida carregando seu descontentamento de um emprego mal remunerado a outro. Tenho sorte de saber — de sempre ter sabido — aonde quero chegar. Preciso parar de achar que isso é comum ou fácil de ter. Preciso atacar meu desejo da mesma maneira que Skyler ataca o violoncelo. Tenho que descobrir quem sou e ir fundo. E é o que vou fazer. Durante a hora seguinte, observo minhas melhores amigas: uma delas no palco, enlevada, amando o que é capaz de fazer; a outra do meu lado, com uma expressão ávida que me mostra que ela está sonhando com o próprio lugar sob os holofotes. Sinto vontade de agradecer às duas pelo presente maravilhoso que me dão todos os dias. O presente de serem garotas lindas e poderosas. Skyler começa a tocar “Seven Nation Army”, minha preferida, e a música me enleva. Quero lhe agradecer por me proporcionar isso, por me livrar da vitimização e me fazer sentir inspiração e gratidão. Uma pequena lâmpada imaginária se acende. No intervalo, enfio a mão na bolsa, pego o celular e encontro o número de Brian, o cara com quem saí na outra noite graças à Boomerang. Mia: Ei, quer conhecer uma garota fantástica? Brian: Além de você, quer dizer? Mia: Talvez a MAIS maravilhosa de todas. Brian: Pode apostar. Mia: Maxi’s Cafe. Daqui a meia hora? Brian: Te vejo lá.

— Por que você ficou toda cheia de sorrisos de repente? — pergunta Beth. Guardo o celular de volta na bolsa e sorrio. — Logo, logo você vai ver — prometo. E, pela primeira vez em semanas, tenho certeza de que estou certa.


Capítulo 38 Ethan P.: Você é bom em enfrentar a realidade ou foge dela?

– O que disse? — Rhett vira o volante e quase bate no carro à nossa direita ao parar numa vaga na garagem subterrânea. Desliga o motor e o ar-condicionado, que estava ligado no máximo, deixando uma crosta de geada na minha camisa e gravata. — Tenho certeza de que não ouvi direito. Dez minutos atrás, estávamos rindo sobre como havíamos chegado perto do desastre ontem à noite, quando Milo tomou o Jack Daniels com Coca-Cola de Raylene em vez da sua bebida. Agora, de alguma forma, tocamos no assunto de Alison. Não sei como Rhett conseguiu me meter nessa, mas estou descobrindo que ele é capaz de truques de mágica com as palavras. — Você ouviu bem — digo, forçando um tom casual. Vou pro Colorado com ela este fim de semana. Os traços do rosto de Rhett ficam ainda mais acentuados com sua careta. — Sua ex-namorada? — É, Rhett. Minha ex. A gente foi comer sushi depois do boliche e... — Que merda... Do boliche para o sashimi. — Ele balança a cabeça. — Isso de alguma maneira me ofende. — É, a noite teve mais reviravoltas do que um saquinho de pretzels. Falando nisso... — Empurro seu ombro. — E você e Raylene, o que tá rolando? — Nada. — As sobrancelhas de Rhett se unem e de repente ele fica sério. — Ela é legal, só isso. Sorrio. — Com certeza não é só isso, Rhett. — Não é o que você está pensando. — Ele faz um gesto para descartar aquela ideia. — A gente conversou sobre advogados de divórcio. De pensão alimentícia. Coisas desse tipo. Confie em mim, meu jovem. As coisas ficam complicadas quando você é um velho de trinta e poucos anos. — Droga. E eu aqui, curtindo a simplicidade da minha vida social. — É exatamente o que eu queria dizer, Vance. Passar o fim de semana com sua ex-namorada é uma péssima ideia. Desculpe, cara. Tento não me meter. Não comentei nada sobre a armação que você está tentando empurrar pra cima de Cookie... — Você tá sabendo disso? — Está falando do videogame de 17 mil dólares que você anda desenvolvendo sem a aprovação dela? É, estou sabendo disso. Adivinhe quem tá livrando sua barra? Uma mistura de raiva e constrangimento espalha um calor pelo meu corpo. Não posso deixar Rhett se dar mal por minha causa. — Não pedi pra você se meter em assunto meu. — Seus assuntos são os mesmos que os meus, Ethan. Tarde demais, já me envolvi, mas não é sobre isso que a gente está falando agora. Ir pro Colorado com sua ex-namorada psicótica é como jogar uma granada na sua vida pessoal. — Alison não é psicótica.


— Está vendo só? Ela já está desmontando suas defesas. — Não, não está. A gente... aceitou um ao outro de uma nova forma. Deixamos o passado para trás. A careta de Rhett se acentua mais ainda. — Ela tá fazendo você falar que nem um clichê ambulante, cara. Não pode reduzir sua vida a uma declaração impactante. — Você fala de um jeito bem mais inteligente quando tá puto da vida. — Você se compromete a fazer coisas imbecis quando sai pra comer sushi com sua ex. — Retiro o que eu disse. — Retire seus planos pro fim de semana também. Ela tá voltando a controlar você. Não percebe? Ontem à noite, sentado na frente de Alison na mesa do restaurante, ela parecia tão diferente. Tão vulnerável e sincera. Ela não me quer de volta. Não como Rhett acha que quer. — Não — respondo. — Ela vai me dar uma carona no seu jatinho particular até a casa dos meus pais. A família dela é dona de um rancho que fica a uma hora de distância da casa deles, e o aniversário do meu pai é nesse fim de semana. Meu irmão, Chris, vai visitá-los. Ele está vindo da faculdade e... — Estou começando a passar a impressão de que quero permissão dele, por isso calo a boca. — É uma coisa conveniente, só isso. Rhett olha pra mim daquele jeito de um profissional de recursos humanos, todo cheio de percepções e compreensões ocultas. — Com certeza não é só isso — diz, por fim. — Não importa. Pego minha bolsa carteiro e salto do Mini, fechando a porta com mais força do que era necessário. Rhett e eu ficamos em silêncio enquanto percorremos o caminho até nossas salas, mas pra mim já chega de ser julgado por ele. Do que ele sabe, afinal? Não vou passar o fim de semana assistindo a Jason e Isis agarradinhos no sofá enquanto tento não pensar em Mia. No corpo dela encostando no meu. Ou em como a magoei. Preciso dar o fora dessa cidade, senão vou perder a porra da cabeça, e se quero ir para o Colorado, eu vou e pronto, dane-se. Rhett está errado. Nada vai acontecer entre Alison e eu. Vou pegar uma carona de graça e, com certeza, vai ser só isso.


Capítulo 39 Mia P.: Seus amigos contam tudo para você?

Graças a esquemas complexos envolvendo cupcakes, a promessa de filmar o chá de panela da prima de Paolo e um pouco de conversa fiada com todo mundo que sei que não vai me dedurar para Cookie, consegui o estúdio de produção da Boomerang para fazer meu filme do estande da feira. Vou filmar Beth e Paolo também, que vai ser o “parceiro” dela. Minha ideia é que os dois improvisem alguns encontros, talvez de mãos dadas ou se beijando, coisas assim. Em cima disso, vou brincar com imagens de fundo. Brian ofereceu ajuda e pode ser que eu aceite, porque efeitos especiais não são meu forte. O equipamento daqui é tão avançado que me faz salivar. Parte dele é melhor do que o que tínhamos na faculdade de cinema. Acho que esse é outro ponto positivo de trabalhar para um grande milionário da mídia. Duvido que o eHarmony tenha uma ilha de edição desse porte no porão deles. Estar perto disso tudo já atiça minha vontade de conseguir esse emprego. O dinheiro é outro ponto forte, mas tudo isso aqui — os recursos, o equipamento, a confiança na criatividade das pessoas que trabalham para Adam em toda a Blackwood Entertainment —, todas essas coisas tornam essa oportunidade ridiculamente rara. Uma oportunidade que quero de verdade. — Certo — diz Beth, sentando-se num cubo pintado de verde que vai se tornar um divã, uma poltrona acolchoada de espaldar alto ou, quem sabe, a cadeira do comandante de uma nave espacial. — Antes que seu amigo volte, você precisa me contar mais dessa viagem pro Colorado. Você está calma demais, garota. Isso está me assustando. — Por mim, tudo bem — digo, embora minha garganta se feche e as palavras saiam truncadas. — Assim posso colocar um ponto final de vez nessa maluquice. O que mais posso dizer? Desde que Paolo colocou uma caneca de café com leite nas minhas mãos e me deu a notícia da grande viagem de Ethan, estou me sentindo enjoada e para baixo. Se eu me permitir pensar nos dois juntos desse jeito — o jeito que nós dois ficamos juntos, no estúdio da minha mãe, no banco de trás do táxi, nas sombras frias da cozinha dele — não vou conseguir produzir nada. Ela cruza os braços sobre o peito e ergue uma sobrancelha. — E que maluquice seria essa? A maluquice de você estar totalmente na dele? Ou a maluquice de ele estar totalmente na sua? — A maluquice de que ele, obviamente, ainda tá a fim da ex-namorada. A maluquice de que tenho coisa melhor pra fazer da minha vida do que acabar com a minha carreira e ir atrás de alguém que não me quer. De novo. — Você disse que ele não conseguia tirar as mãos de você, nem mesmo na frente da ex. — Exatamente. — Observo o rosto de Beth e ajusto alguns dos refletores para lançar mais luz em sua direção. — O problema não é físico. — Bom, com esses peitos, com certeza não é. — Ha, ha, ha.


— Sério, então qual é o problema? Explique. Eu me ajoelho ao lado dela e aliso as ondas do vestido florido simples que pegamos emprestado de Skyler em torno dos seus joelhos, depois me demoro mais algum tempo mexendo em seu cabelo, até que ela dá um tapa nas minhas mãos para afastá-las e ela mesma o arruma. — A gente já conversou sobre isso — digo. Ela revira os olhos. — Você tá falando daquela besteira de “preciso ser escolhida”? — Como isso é besteira? Começo a me levantar, mas ela coloca as mãos em meus ombros e me faz abaixar outra vez. — Posso perguntar uma coisa? — O que? — Como você fez pra entrar na faculdade de cinema? Suspiro. — Aonde você quer chegar? — Só quero saber se você ficou esperando de braços cruzados em casa até o pessoal da faculdade bater na sua porta e dizer: “Mia, a gente escolheu você.” — Não é a mesma... — E quando você tava a fim de descolar esse trampo, o que você fez? Ficou esperando que o filho do Ryan Gosling ligasse pra você? Ou, em vez disso, foi com tudo atrás desse emprego? — Emprego não, estágio — lembro. — Que ainda por cima preciso dividir. — No fim disso tudo, vai ser um emprego — diz ela. — Sabe como eu tenho certeza? — Não. — Porque eu não tenho a menor certeza. A única coisa que sei é que pendi a balança pro meu lado sem querer quando coloquei Ethan e Cookie em pé de guerra, o que ainda preciso consertar. — Porque quando você quer uma coisa, gata, você não fica dando mole. Você vai atrás. Nunca esperou que eu escolhesse lavar a louça nem que lhe devolvesse as coisas que peguei emprestado. Nem que Skyler escolhesse pagar a conta de luz. Você não fica esperado nada nem ninguém. Mas, quando se trata de garotos, você age como a maldita Bela Adormecida. Como se eles fossem os únicos com o direito de escolher alguma coisa. — Isso não é justo. —Eu me afasto de Beth e me levanto. Embora me ocupe olhando pelo visor da câmera, as lágrimas ameaçam escorrer e pisco para impedir que isso aconteça. — A questão agora não é o que é justo ou não. É cair na real. — Ah, dê um tempo, tá bom? Ela se levanta, acabando com todo o trabalho que tive para arrumá-la, para deixar a iluminação perfeita. — Que merda, Beth... — começo a reclamar, mas ela carinhosamente pega a câmera das minhas mãos e a coloca na mesa ao nosso lado. — Minha querida, escute — diz ela, com tom cheio de afeto e carinho, o que não é nem um pouco a cara dela. E sua expressão basta para me desarmar na hora. — Sabe por que sempre chamo Kyle de cuzão? Faço que sim. — Parece que agora quem está agindo dessa maneira é você, comportando-se como se fosse alguém que deve ser escolhida ou deixada de lado segundo a vontade de algum cara. Entende? Escondo o rosto nas mãos porque reconheço que é verdade, e aquela verdade fervilha em todos os meus membros, enraizando meus pés no chão. Perdi tanto tempo com Kyle esperando que ele me


enxergasse como sou, alguém que tem valor, que merece ser escolhida. Esperei tanto sem realmente me perguntar se eu mesma queria estar com ele. Ah, que droga. Justamente neste momento, Paolo entra. — Hora do amor! — grita ele. Nunca fiquei tão feliz com uma interrupção. — Aham — digo, e pego novamente a câmera. — Por que vocês dois não se sentam? Beth hesita por um instante, mas lhe dou um sorriso que indica “fim de papo” e ela volta a se sentar no cubo. — Maravilha — digo, embora nada pareça ser uma maravilha. — Vamos começar.


Capítulo 40 Ethan P.: A verdade liberta ou consome você?

– E aí, o que aconteceu com seus pais? — pergunto a Alison. — Você não tinha grandes planos para o fim de semana no chalé da família? Ela olha para mim, os olhos escondidos sob a meia-luz. A janelinha às suas costas emoldura um círculo de céu que começa a fazer a transição do azul para o preto. É sexta-feira à noite e estamos a milhares de pés de altura em algum ponto entre Los Angeles e Loveland, indo para uma pista de pouso particular localizada nos arredores de Fort Collins. Alison toma cautelosamente um gole de sua vodca com tônica e apoia o copo na mesa. — Aconteceu um imprevisto. Dois, na verdade. Meu pai teve que viajar para Nova York por causa de uma emergência no trabalho e minha mãe precisou resolver uma situação social de última hora. — Situação social? Ela sorri — algo que sei que faz para esconder a frustração. — Um chá de cozinha que ela só lembrou justamente quando meu pai teve que cancelar. É aquela manobra de adolescente, sabe, do “você não pode terminar o namoro porque vou terminar primeiro”. Ele está sempre ocupado demais para ficar com ela, por isso ela está sempre ocupada demais para ficar com ele. — Sinto muito — digo, mas isso é típico dos pais dela. Sei que Alison já está acostumada. O sorriso de Alison se alarga um pouquinho. — Não tem problema. Sob a luz fraca da cabine do avião, seus dentes ficam brancos demais, retinhos demais. Ela olha para baixo e balança suavemente o gelo em seu copo. Continua metade cheio, mas o meu já está vazio. Não tem mais vodca. Nem gelo. Até o limão parece seco. — Você podia ter cancelado essa viagem, Alison. Vai fazer toda essa viagem para passar o fim de semana soz... — Paro no meio da frase, porque sei o motivo de ela não ter cancelado. Sei por que está aqui. Não queria me desapontar novamente. — Escute, Alison, eu não... — Tudo bem, Ethan. Não estou esperando nada em troca. Não quero deixá-lo pouco à vontade. Eu só não podia recusar a chance de estar com você de novo, mesmo que só por algumas horas. E não queria que você deixasse de ir ao aniversário do seu pai. — Por que não vem jantar com a gente amanhã? Assim que digo essas palavras, uma sensação estranha surge em mim, como se eu estivesse traindo alguém, mas a afasto antes de poder analisá-la. Não tenho que dar satisfações a ninguém, e Alison não pode mais me magoar. A campanha do “reconfigurar nosso relacionamento”, no fim das contas, fez muito bem para mim. Emocionalmente, não existe mais nada, nada mesmo que me ligue a ela. — Você não vai jantar com a sua família? — pergunta ela. — Vou, mas não tem problema — digo, assentindo. — Eles vão ficar felizes em te ver. — É mesmo? — Claro — respondo.


Em seguida, desafivelo meu cinto de segurança e vou até o pequeno bar preparar outra bebida para mim. — O que deu na sua cabeça, E.? — pergunta Chris, segurando meu cotovelo e me arrastando até o balcão do Jimmy’s, o pub preferido da nossa família. — Como você pôde trazer essa menina para o jantar de aniversário do papai? Dou um grande gole na minha cerveja e olho para meu irmão caçula. A faculdade fez com que ele mudasse para melhor. Foi uma mudança sutil, mas está lá — na sua postura, com os ombros um pouco mais alinhados, sua voz mais grave. Gosto demais desse garoto. É mesmo ótimo vê-lo de novo, mas a última coisa de que eu preciso é dele bancando a mamãezinha. — Corta essa, Chris. Já acabou. Não precisa fazer drama. O jantar com minha família (e com Alison) ficou para trás. Duas horas e três uísques com CocaCola depois, ainda estou vivo. Meio bêbado, com certeza, mas nada além disso. — Tá mais do que na cara que não acabou, Ethan. Ela ainda tá aqui. — Chris se inclina mais para perto de mim e percebo que ele está mais alto do que eu agora. Que droga. — Ninguém aqui gosta dela. E com certeza gostamos menos ainda depois do que ela... — Você está me enchendo o saco, Chris. Cambaleio um pouco, sentindo a cabeça leve demais. É o contrário de como sinto meu estômago. O steak rib-eye que mandei para dentro durante o jantar se instalou como uma âncora na minha barriga. Apoio as costas no balcão do bar, e as pessoas viram um borrão atrás de Chris, um borrão formado de calças jeans e camisas de flanela cor de ferrugem. Tudo parece desbotado e puído em comparação com o brilho de Los Angeles. Chris me observa como se estivesse fazendo uma análise forense das minhas roupas, do meu rosto, da minha postura. Não sei a que conclusão está chegando, mas, a julgar pelo seu olhar de preocupação, acho que é o contrário do crescimento e da maturidade que acabei de notar nele. — O que deu em você? — pergunta, abaixando tanto a voz que mal consigo escutar o que ele diz, com todo o burburinho do bar. — É porque você parou de jogar bola, é isso? Ele acertou na mosca que estou péssimo, mas não tem nada a ver com o fato de sentir saudade de jogar futebol. Pelo menos acho que não. A única coisa que eu sei é que não quero saber por quê. Foi por isso que bebi vodca, uísque e a cerveja que está na minha mão no momento: para não saber. — Por favor, cale a boca, cara. — Bebo um gole da cerveja, mas quase erro a minha boca. — Dê um tempo, por favor. Do outro lado do bar lotado, vejo Alison se levantar da mesa dos meus pais. Assim que ela vira as costas, meu pais e seus amigos mais próximos, os Davis, trocam olhares de alívio. Durante o jantar ela comentou que qualquer dia desses gostaria de levar minha família ao Palace Arms, em Denver, que é um restaurante dez vezes mais chique do que este em que estamos. Foi um comentário casual, mas o suficiente para jogar um balde de água fria na comemoração. Meus alegres pais da classe operária não enxergam as coisas do mesmo jeito que ela, como se tudo tivesse um ranking de qualidade. Estavam felizes por simplesmente terem reunido a família. Ao meu lado, ao ver Alison se aproximando, Chris solta um palavrão entre dentes. — Que ótimo... A chegada do Anticristo. Enquanto observo Alison abrir caminho até nós pelo bar lotado, o corpo firme envolvido em jeans e couro de grife, me dou conta de que tanto Rhett quanto Chris têm certeza de que a gente vai reatar o namoro este fim de semana. Então percebo que eu jamais teria pensado nisso, se não fosse a reação


deles. Nunca tinha passado pela minha cabeça. Mas agora, sim. E se a gente reatasse mesmo? Ao meu lado, sinto o olhar de Chris passar de mim para ela. — Bom, pelo jeito isso vai mesmo acabar bem. É doloroso demais assistir. Ah, quer saber, não vou coisa nenhuma. Passe para cá seu celular. — Meu celular? Chris estende a mão. — O meu está sem bateria e quero falar com Jake e Connor. Seus colegas da escola. Pego o telefone no bolso. Chris apanha o celular e depois retira a cerveja da minha mão. — Vou levar isso aqui também. Sua capacidade de julgamento já está bastante comprometida. Ele vai se juntar aos meus pais, que estão rindo e comendo gelatina com vodca com os Davis, mais felizes do que em qualquer outro momento daquela noite. — Oi — diz Alison. — Interrompi alguma coisa? — Não, ele já estava indo mesmo. O bar está lotado e não há outro lugar onde eu possa ficar, a não ser atrás dela ou bem ao seu lado. Escolho a segunda opção porque a primeira me faria lembrar de Mia instantaneamente, e isso é a última coisa de que preciso, relembrar como senti seu corpo no meu na pista de boliche, ou como ela estava linda no trabalho hoje, com uma blusa verde da cor dos seus olhos, e... — Ethan? — Hã? — Perguntei se você tomaria um pouco de champanhe comigo, caso eu pedisse uma garrafa. Olho ao redor. O Jimmy’s não é uma birosca, mas também não é lugar pra se tomar champanhe. Nem de longe. Mas enfim: essa garota é a mesma que foi à manicure antes de fazer um safári. — Claro — digo. — Por que não? O barman lança um olhar irritado para Alison quando ela faz o pedido e se afasta do balcão para buscar uma garrafa de champanhe na despensa, que fica nos fundos. — Então... — diz Alison, sorrindo para mim. Tem gente nos pressionando de todos os lados, portanto nossas pernas acabam ficando encostadas. — Então — repito. Não tenho mais o que dizer. Não quero conversar com ela. De repente uma necessidade primitiva e sombria de simplesmente tirar sua roupa toma conta de mim. Aquilo me atinge como uma porrada, mas some num instante. Sei qual é a sensação do seu corpo. Fiquei com ela por dois anos, mas não é ela que eu quero. Nunca senti com Alison o que sinto com Mia. Ninguém me faz sentir o que sinto com Mia, a não ser a própria Mia. Merda. Chega de entorpecer meu cérebro com álcool. De repente, tenho a sensação de que estão nascendo espinhos no steak dentro do meu estômago. — Tá tudo bem, Ethan? — Claro. Até parece. O barman coloca um balde de gelo na nossa frente com um ruído alto, depois me entrega duas taças flute com as bordas manchadas de detergente, cheias de sabão líquido. Entrego uma para Alison, enquanto começo a sentir o suor escorrer pelas minhas costas. — Aos recomeços — diz ela.


Repito o brinde... ou talvez não. O bar está rodando em uma direção, e minha cabeça, em outra. Enquanto levo a taça até os lábios, alguém esbarra em Alison por trás. Ela é jogada para a frente e o champanhe de sua taça cai na minha camisa. — Ei, preste atenção! — grita ela, irritada, por cima do ombro. Depois olha para mim e apoia a mão no meu peito. — Que droga. Desculpe, Ethan. Não sou capaz de olhar para ela. Só consigo olhar para a minha camisa. A lembrança de Mia derrubando vinho tinto em mim no estúdio da mãe dela passa diante dos meus olhos. Porém, nesse instante, o cheiro doce do champanhe me atinge e faz com que eu me afaste ainda mais. Abre uma porta que esteve trancada na minha mente durante semanas. Foi isso!, percebo. Foi isso o que aconteceu entre nós. Minha mente é inundada por imagens, gostos e cheiros. Champanhe e o doce cheiro de violetas de Mia. A sensação de seu cabelo cacheado entre nas minhas mãos, seus lábios macios beijando meu maxilar. Minhas mãos explorando cada centímetro de seu corpo. — Alison, preciso de um pouco de ar — digo. Parece uma desculpa, mas é verdade, e começo a me mover pela multidão do bar lotado até sair na rua. Preciso de um lugar onde eu possa ficar sozinho, onde possa me lembrar, porque a lembrança voltou. Está tudo voltando. Mia e o que fizemos depois de sairmos do Duke’s. Agora me lembro da nossa primeira noite.


Capítulo 41 Mia P.: Rainha da balada ou bobo da corte?

Meus planos de ficar deitada na cama o fim de semana inteiro fazendo uma maratona de filmes para sentir pena de mim mesma (Simplesmente amor; Orgulho e preconceito; (500) Dias com ela) são sabotados pelas minhas duas melhores amigas, que parecem dispostas a me torturar, embora eu sempre seja a pessoa mais doce e compreensiva com elas, respeitando toda vez o tempo de cada uma e suas necessidades de deixar as emoções marinando de vez em quando. O tormento desta noite é: Operação Tirar Mia de Casa e Levá-la pra Balada. Os estágios iniciais foram me enfiar numa blusinha de lantejoulas douradas e numa minissaia preta, prender meu cabelo num coque altíssimo e encher minha bolsa de camisinhas. É. Até parece que isso vai acontecer. A segunda fase, que está acontecendo no momento, inclui o bar do Club Tonga, um drinque do tamanho de um aquário e os esforços muito sutis de Skyler em me juntar com alguém —, acho que isso é em troca de eu ter lhe apresentado Brian. Esses esforços consistem em empurrar os caras na minha direção, dizendo: “Esta é Mia. Ela é gata, né?” Até agora consegui murmúrios de concordância geral (ainda que confusos) — menos no caso de um cara gay, que disse: “Nossa, muito gata” e tentou me apalpar toda. Acabo com aquela história, dizendo que o fato de ele gostar de cachorros não lhe dá o direito de molestar gatos. Ofendido, ele saltita para longe, e Skyler me dá uma cutucada com força nas costelas. — Ei, seja legal. — Ai! Estou sendo. — Só não o bastante pra proporcionar emoções grátis para estranhos. Pode me processar, se quiser. — Não está sendo, não. Você está emitindo vibrações de escrota. Com o canudo preso entre os dentes perfeitamente cuidados, ela observa os caras passando, os quais, sem dúvida, só estão esperando uma oportunidade para me humilhar. Seus olhos se iluminam e ela desliza para fora do seu assento, com o olhar fixo num garoto com pinta de ator e barba por fazer cuidadosamente milimetrada. Eu me levanto num pulo antes que ela possa armar o bote. — Vamos dançar. Beth já está há uma hora na pista de dança, que de repente me parece um lugar muito mais atraente para estar. Ergo meu drinque, empurro o canudinho para o lado e dou um gole. Está bem, confesso: vários goles, até acabar com o copo gigantesco. Depois bato o copo com força no balcão, como se estivesse provando alguma coisa para alguém. O líquido me queima por dentro ao descer e depois provoca um calor na minha barriga, aquecendo cada centímetro do meu corpo e me proporcionando uma alegria maravilhosa, como se eu tivesse me entupido de algodão-doce. Talvez isso seja exatamente do que eu preciso. — Vamos — digo, e agarro a mão de Skyler, quase retirando-a de seus Oxfords listrados.


A multidão pulsa ao nosso redor, e sou atingida por ondas de calor corporal, cheiro de Axe e perfume frutado. Eu me sinto envolvida, flutuando, e invadida pela necessidade visceral de me inserir naquele local, de me movimentar com as batidas da música que martelam no meu próprio peito, tornando-se parte de mim. Abrimos caminho pela multidão, e me sinto tonta, o corpo formigando de um jeito que parece estar agitado, mas não é o caso. Estou ansiando pela proximidade das pessoas, e não só de uma. Quero mergulhar num mar de gente e me perder. Abro caminho pelo conglomerado apertado de gente até chegar ao centro da música e do caos. Ali, claro, encontro Beth, balançando-se sem parar, sem perceber as pessoas em torno. De olhos fechados, ela me dá um sorriso estático, como se tivesse alguma espécie de sonar de melhor amiga que lhe avisa que estou por perto. As batidas sacodem o chão, que parece esponjoso e distante. Começo a dançar e sinto meus problemas se afastarem de mim, voarem em direção ao teto iluminado com lasers, para longe de mim, para a noite. Tchau, Boomerang e Adam Blackwood. Tchau, competição. Tchau, mãe famosa que viu e fez coisas que eu talvez jamais faça. E tchau Nana, com sua memória comprometida, sua paranoia frenética. Estou me sentindo iluminada por dentro, toda músculos, sangue e movimento irracionais. Não me sinto tão bem assim há semanas, desde aquela noite no Duke’s, quando conheci Ethan e... Droga, não quero pensar nele. Não quero imaginá-lo no jatinho particular da sua ex-namorada. Exnamorada que, aliás, fui eu quem enfiou de volta na sua vida. Esse assunto está encerrado, lembro a mim mesma. Na verdade, nunca esteve aberto. Fecho os olhos, levanto os braços no ar e tento retomar aquela sensação boa, enfiar a música novamente dentro de mim. Porém, não consigo impedir o surgimento das imagens. Ethan jogando Alison na cama, movendo seu corpo atlético e flexível sobre o dela, afastando seu cabelo louro para beijá-la, para olhá-la do jeito como me olhava. Esses pensamentos e o drinque gigantesco levam a melhor sobre mim. Sinto minha garganta queimar, e uma onda de tontura me faz dar um passo cambaleante para o lado. A multidão me pressiona e todo o meu corpo parece superaquecido. — Preciso me sentar um pouquinho — grito para Beth. Ela puxa a alça do sutiã vermelho para dentro da camiseta e assente. — Quer que eu vá com você? — pergunta. — Não precisa, estou bem. Beth transmite o recado para Skyler, mas me viro antes que seu olhar de preocupação possa me atingir. Miro um cantinho estreito nos fundos da boate, onde corpos se retorcem em sofás baixos. Tudo agora parece estranho, sexualmente intenso e esquisito. Sinto inveja de todo mundo. Das pessoas na pista de dança que conseguem desligar o cérebro por mais do que dez minutos. Das pessoas nesses sofás, que podem se tocar, estar juntas, mesmo que um pouco menos do que se houvesse menos gente ao redor. Eu me sento na ponta de uma chaise de veludo e tento ignorar os murmúrios dos amassos a poucos centímetros de mim. Quero mais um drinque. Ou mais dez. Quero dar um jeito em mim, mas não consigo decidir o que fazer.


Alguém no sofá ao meu lado solta um grito sufocado, e inúmeros fragmentos de lembranças da noite que passei com Ethan me invadem. Apenas imagens aleatórias que me deixam tonta, não o bastante para formar uma representação fiel. Seu cabelo escuro, molhado, colado ao pescoço, o sulco profundo de sua clavícula e meus lábios ali, descendo pelo seu peito. Nós dois embolados no seu sofá, rindo embaixo do cobertor Pendleton até a língua dele abrir meus lábios e eu enterrar as mãos em seu cabelo molhado. A música parece diminuir de intensidade, e as memórias me invadem. Percebo que, na verdade, a coisa da qual mais quero fugir é de mim mesma. Beth tem razão: não sou a Bela Adormecida. Vou atrás do que quero. Mas nesse caso não fui, e já é tarde demais. Pego o celular, e seu brilho lívido se acende como uma chama naquele canto escuro. Fico bastante tempo encarando a tela, depois começo a ler nossas mensagens de texto e percebo que estou sorrindo. É tarde demais, eu sei. E estou bêbada. Mas talvez, se eu contar pra ele, essa sensação ruim vá embora. Não sei exatamente o porquê, mas sinto como se de alguma maneira precisasse exorcizar o arrependimento, deixar tudo para trás de verdade, para conseguir me libertar. Mia: Gostaria de me lembrar mais daquela noite.

Isso é verdade, mas é apenas parte da verdade. Mia: Tenho certeza de que você mexeu comigo.

E tenho mesmo. Do mesmo jeito que tenho certeza de que ele continua mexendo comigo, apesar de todos os meus esforços para voltar a deixar tudo nos eixos. Corro o dedo pela tela e torço para ele me responder, para me dizer que sente o mesmo, seja lá onde estiver. Só isso. Eu ficaria feliz só com isso. Espero por bastante tempo. Meu coração bate num ritmo impiedoso. Corpos se movem ao meu redor enquanto fico ali sentada, tão imóvel quanto uma pedra num rio. Mas a resposta não vem. Portanto, me levanto, guardo o celular e volto até onde minhas amigas estão.


Capítulo 42 Ethan P.: Champanhe: reservar apenas para ocasiões especiais ou tomar quando tiver vontade?

A caminhada de seis quilômetros do centro velho de Fort Collins até minha casa é um borrão. Não vejo os bares e cafés, as ruas estranhas que aos poucos vão se transformando no meu bairro. Não. É como um filme. Saio do Jimmy’s, depois vomito numa moita e entro cambaleante na cozinha de casa, onde estou neste momento. Abro a torneira e bebo goles gigantescos de água com a cabeça embaixo do jato, até sentir que vou vomitar de novo. Depois endireito o corpo, seco o queixo com a manga da camisa e encaro a escuridão. Não consigo ver muita coisa além do relógio do micro-ondas e o brilho do aço inoxidável, mas sinto a firmeza daquelas paredes. Minha vida — e a de Chris — está registrada naqueles armários amassados e nos assoalhos arranhados ao meu redor. Fecho os olhos, e o gosto azedo da minha língua se adoça até ficar com gosto de champanhe, com o gosto de Mia, e volto ao meu apartamento em Los Angeles na primeira noite que estive com ela. Fomos para lá depois de nos conhecermos no Duke’s. Por algum motivo, ali de pé com ela na minha cozinha minúscula, enfiei na cabeça que a gente devia comemorar. — Comemorar? — pergunta Mia. Ela apoia o quadril na bancada e sorri. — Qual é a ocasião especial? — Você, Cachinhos. Você é a ocasião especial. Fico na dúvida se para ela aquilo fica parecendo uma frase feita, mas estou falando sério. Faz poucas horas que a conheci, mas ela já eclipsou tudo o mais que existe no meu mundo. Essa garota com olhos verdes, cabelo bagunçado e sorriso espetacular é sensacional. Engraçada, inteligente e gostosa. Meu Deus, como ela é gostosa. Com toda a certeza do mundo ela é algo que vale a pena celebrar. O sorriso de Mia aumenta. — Cachinhos, é? Dou um passo em sua direção, estico o braço e enrolo um cacho do seu cabelo macio no dedo. — Combina com você. Mia se inclina em direção ao meu toque, apoiando sua bochecha na minha mão, e então me lembro da corrida de táxi até meu apartamento. Meus dedos enterrados em seu cabelo, ela com metade do corpo deitado no meu colo. Pegamos fogo juntos; sempre que eu a toco, quero mais. Eu a quero agora mesmo, mas não tem necessidade de pressa. Eu me inclino e dou um beijo rápido em seus lábios, depois enfio a mão na geladeira e pego a garrafa de champanhe que Jason escondeu ali algumas semanas atrás.


— Você por acaso guarda duas garrafas de Cristal na geladeira para momentos como esse? Sorrio e nego com a cabeça. — O cara que mora comigo, sabe, o que estava lá no bar? — Retiro o envoltório prateado e o jogo na pia, depois desatarraxo lentamente a rolha para deixar a pressão sair da garrafa. — Ele acabou de começar o segundo ano de medicina, por isso os pais dele lhe mandaram isso de presente. É algo que fazem toda vez que... A rolha bate na palma da minha mão ao ser atirada para cima. O champanhe espirra da garrafa, subindo em arco pelos ares e molhando Mia. Ela solta um gritinho e sai de cima da bancada, curvando o corpo como um gato assustado. — Ops — digo, tentando não rir. Seu vestido azul fica com uma mancha que vai do quadril ao ombro, onde o tecido acabou sendo encharcado. Ela afasta um cacho pingando do rosto e arqueia as costas. Depois passa a língua pelo lábio inferior. — O gosto é ótimo, na verdade. É a coisa mais sexy que já vi na vida e sou obrigado a pigarrear para encontrar minha voz. — Não posso dizer que estou arrependido que isso tenha acontecido. — Você não parece arrependido... mas logo vai estar. — Ela pega a garrafa da minha mão. — Vamos ver se você gosta. Ela sacode a garrafa na minha direção. O champanhe espirra na minha camisa, uma chicotada fria e líquida que mal sinto no peito. Parece que meu corpo tem só uma programação: como se tivesse sido repentinamente programado para sentir apenas Mia. — Não foi assim tão ruim. — Pego a garrafa de volta e dou um passo para a frente. — Tem uma coisinha que provavelmente preciso te contar sobre mim. — Ela recua, mas continuo andando até encurralá-la na bancada. — Sou extremamente competitivo. E sempre termino o que começo. — Na verdade isso são duas cois... Mia ofega, engolindo o resto das suas palavras quando inclino a garrafa em cima dela — em cima de nós dois, na verdade, pois estamos praticamente grudados. Ela ergue as mãos e abraça meu peito enquanto respira com dificuldade, mas não faz nada para me impedir enquanto encharco cada centímetro dela. Depois de esvaziar a garrafa, coloco-a sobre a bancada. — Pronto. O único som no ambiente que é o do champanhe pingando no chão e o da respiração acelerada e entrecortada de Mia. Não sei para onde olhar primeiro. Seu rosto é memorável, seus olhos verdes iluminados quase brilham de espanto. As curvas do corpo dela ficaram perfeitamente delineadas pelo vestido grudado, e sinto vontade de me parabenizar porque — puta que o pariu — ela ficou linda desse jeito, tremendo, molhada, segurando-se em mim como se fosse voar para longe caso me soltasse. — Bom — diz ela, por fim. — Estamos todos molhados. Não consigo mais resistir a ela. Por um milésimo de segundo noto seus olhos se arregalando de surpresa logo antes de beijá-la. Quero ir devagar, mas é como conter a onda de uma maré cheia. Beijo-a com força, a língua deslizando na dela, seu gosto frio e doce por causa do champanhe. Ela solta um gemido suave e inclina a cabeça para cima,


me proporcionando um ângulo melhor, me dando exatamente o que quero, como se estivéssemos conectados de um jeito primitivo, nossos corpos fluentes na nossa própria língua pessoal. Parte de mim sabe que estamos bêbados, os dois, mas isso é real. Como não poderia ser? Abaixo a cabeça e seguro entre os dedos a parte macia de sua orelha, dando uma mordida com delicadeza. — Você é tão doce, Mia. Tão gostosa. Ela reage na mesma hora às minhas palavras, envolvendo meu rosto com as mãos e guiando minha boca para a dela. Ela pressiona o corpo no meu e no mesmo instante fico duro, lutando contra a necessidade de me enfiar dentro dela naquele momento. Quando foi que já desejei tanto uma garota assim? Será que isso já aconteceu algum dia? — Seu gosto é incrível — digo, bebendo o champanhe de sua pele morna. Vou descendo pela sua clavícula e depois para seus seios. Ela é macia, tem peso e formato perfeitos, porra. Não consigo afastar o suficiente o vestido e o sutiã, portanto chupo as camadas molhadas de tecido e sinto seu mamilo endurecer com a minha língua. — Ethan... — Mia agarra meu cabelo e arqueia as costas. — Isso é tão bom. — Vai ficar ainda melhor. — Olho para ela. Seus olhos estão sem foco, cheios de desejo. Vê-la desse jeito só me faz desejá-la ainda mais. Ela é como fogo líquido sob minhas mãos, tão receptiva. — Mas sabe o que está nos atrapalhando, Cachinhos? — Passo a mão pelo seu quadril e por sua coxa, encontrando a barra do tecido molhado. — O seu vestido.


Capítulo 43 Mia P.: Quando foi sua última noite verdadeiramente memorável?

Caio na cama, bêbada, com a cabeça rodando, tentando focar nos quadrados duplos iluminados da janela do meu quarto, que Sky abriu para que eu tomasse um pouco de ar fresco. Sinto o gosto da noite na língua: aquele cheiro forte e metálico que vem logo antes da chuva. A brisa está fria e tremeluzente e faz meu lençol ondular como se fossem dedos, tão leve, tocando cada pedacinho de mim. Claro que penso em Ethan, desejando seus dedos, seus lábios. Lembrando. — Mas sabe o que está nos atrapalhando, Cachinhos? — diz ele, e suas mãos passeiam pelo meu corpo como se estivesse me medindo, como se estivesse me esculpindo ali, na cozinha minúscula mal iluminada dele. — O seu vestido. Ele me vira e me empurra suavemente em direção à geladeira. — O que você está fazendo? — pergunto, mas não me importo, na verdade. Só sei que quero ele, quero sentir seu gosto outra vez, sua língua quente e dardejante na minha boca, seu corpo pressionando o meu de novo, firme, poderoso e irradiando desejo. — Zíper — diz, inclinando-se para perto do meu ouvido. Apoio as mãos na superfície fria, e a sensação é muito boa. Eu devia estar sentindo frio, por estar ensopada de champanhe — agora me lembro —, mas estou febril, flutuando, querendo sentir suas mãos em mim para me deixar enraizada. O zíper arranha levemente minha pele e sinto a proximidade de Ethan como uma força palpável que me mantém onde estou. O tecido macio do meu vestido roça nas minhas pernas, deslizando pelas minhas coxas, minha barriga, meus seios, até eu me ver livre dele, que desaparece nas sombras como se nunca tivesse existido. Ethan me abraça e acaricia o tecido leve e molhado do meu sutiã, fechando as mãos em torno dos meus seios com a firmeza certa, tudo exatamente como eu gosto. E como, percebo, nunca aconteceu, não dessa maneira perfeita. Ele passa os polegares pelos meus mamilos, aperta-os, depois afasta meu cabelo para que seus lábios possam tocar meu ombro, meu pescoço, seus dentes me mordiscando, sua língua quente na minha pele. — Não é justo — digo. — O que não é justo? — Você ainda está vestido. Ele ri. — Por enquanto. — Com a boca na minha orelha, ele diz: — Você tem gosto de champanhe. Meu Deus, quero sentir isso sem parar.


Não tanto quanto eu quero sentir você, penso, e empurro o corpo para trás, para perto do dele, precisando sentir seu corpo outra vez. É mais do que só uma compatibilidade física perfeita, mais do que apenas o fato de ele saber como me tocar. É a sensação de estar perfeitamente livre para expressar cada parte de mim mesma, ainda mais meu desejo por ele. Tiro a mão da geladeira, pois preciso tocá-lo, mas ele segura minha mão e a coloca de volta no aço inoxidável gelado. — Estou bem aqui — diz ele, que me pressiona e o sinto duro nas minhas costas. — Não se mexa. Fique exatamente assim. Ele volta a me abraçar, envolvendo minha cintura com um dos braços. Inclina-me um pouco para a frente, enfia uma perna no meio das minhas, para que eu sinta sua coxa dura como pedra, a textura da sua calça jeans no meu corpo. Gemo e apoio o rosto em um dos meus braços, sentindo-o grudento por causa do champanhe, percebendo a vibração fria da geladeira. Ethan abre minhas pernas e sua outra mão desliza por baixo do elástico rendado da minha calcinha, abaixando-a para apoiar o corpo em mim, no centro quente pulsante do meu corpo. Então não consigo mais pensar, apenas sentir. Seus dedos roçando em mim. Sem parar. Perfeito. Tão absolutamente perfeito. Seus lábios nas minhas costas, no meu pescoço, seu braço envolvendo minha cintura com firmeza. Eu me movimento contra ele, meu corpo buscando seu toque, minhas pernas trêmulas por causa da impossibilidade de ficar de pé enquanto sua mão se movimenta em mim, enquanto eu me movimento na sua mão. — Caralho — diz ele, gemendo, e o som da sua voz me deixa de pernas bambas, me faz desejar que aquele aço inoxidável não estivesse tão escorregadio. — Como você é gostosa. Gostosa demais, porra. Ele me aperta com força contra seu corpo, me seduzindo com os dedos, fazendo minha respiração acelerar e todo o meu corpo tremer. Não consigo mais suportar tanto prazer, como se um sol em miniatura estivesse queimando dentro de mim, lançando raios para todas as minhas células. Como se eu estivesse prestes a virar uma supernova. Então é o que acontece. Ele enfia um dedo em mim, e o calor percorre cada parte do meu corpo, a pulsação deliciosa que sinto quase me faz cair de joelhos. Aquilo me percorre como uma onda atrás da outra, com força, de um jeito quase doloroso, mas ao mesmo tempo o oposto da dor. Meu corpo não consegue parar de se movimentar com seus dedos. Todas as partes do meu corpo desejam mais, e fico inundada naquele local de rendição entontecedora, maravilhosa. — Caramba. Quero beijar minha própria mão de tanta gratidão por fazer parte do meu corpo, com sangue, nervos e pele. Só estou de pé porque ele está me segurando, porque só existo onde estou conectada com seu braço forte, seu belo e hábil toque. Minha respiração desacelera e a mão dele desliza para fora da minha calcinha, juntando-se à outra que está apoiada na minha barriga. — Obrigado — responde ele, e imagino seu sorriso lento e satisfeito, que poderá


muito bem ser minha perdição. Eu me viro em seus braços. Suas mãos mergulham em meus cabelos, e fico na ponta dos pés para beijá-lo, para devolver com a língua todo o prazer e gratidão ao seu corpo, para lhe dar um pouco do que ele acabou de me proporcionar. Nós nos beijamos sem parar durante o que parecem horas, mas ao mesmo tempo segundos, como se nunca houvesse tempo suficiente para sentir o gosto dele, para conhecer tudo que há para conhecer dos lábios dele nos meus. Meus dedos descem até seu pescoço, passam pelo “V” firme do seu peito, deslizam pelos contornos de sua barriga até chegarem ao botão da calça jeans. — Agora você — digo, ansiando por tocá-lo a ponto de meus dedos até se atrapalharem. — Ainda não, Cachinhos — diz ele. E antes que eu perceba, Ethan já me ergueu do chão, como se eu não pesasse nada. Suas mãos se acomodam atrás de mim, e cruzo as pernas em sua cintura. Envolvo seu corpo com o meu e ele me beija de novo. Em seguida, me carrega até a sala com os lábios ainda pressionados em mim, então seguimos desajeitados, batendo nas paredes. — O que estamos fazendo? Sinto seu sorriso no meu e depois ele me acomoda no sofá. Penso vagamente que deveríamos ir para o seu quarto, mas a maior parte de mim não está nem aí. Só quero mais. Aproveitar essa sensação. — Primeiro, acho que devemos tirar o resto das suas roupas molhadas — diz ele, fingindo uma preocupação. — Tenho algumas ideias do que fazer depois disso.


Capítulo 44 Ethan P.: Qual sua cura preferida para a ressaca?

– Ethan? — Minha mãe bate na porta do meu quarto. — Hora de acordar. São seis horas. — Quero dormir. Minha cabeça... precisa dormir. Estou parecendo o Frankenstein. Com a garganta rouca. — São seis da tarde, Ethan. Sua cabeça dormiu o dia inteiro. — Que horas? Meu rosto está esmagado no travesseiro, e não consigo levantá-lo. Acho que talvez minha cabeça e o travesseiro tenham se tornado uma coisa só. Olho para a janela e noto a luz do sol entrando pelas persianas. — Você está num estado decente? — pergunta minha mãe, abrindo a porta. — Acho que não. — Que coisa, mãe. — Puxo o lençol para cima a fim de cobrir minha bunda. — Que tal um pouquinho de privacidade, hein? — digo, mas estou acostumado a morar com uma família que não considera nada sagrado. Minha mãe olha as roupas que usei na noite passada empilhadas no chão e o vidrinho de aspirina na minha mesa de cabeceira com os mesmos olhos azuis analíticos de Chris. — Parece que você conseguiu alcançar seu objetivo de ficar doente. Ela espera um instante, e sei que quer que eu converse com ela. Minha mãe quer saber o que está acontecendo, mas estou a anos-luz de distância de conseguir contar. O que quero dizer é que estou bem, mas também não consigo fazer isso. Mentir pras pessoas que você ama é uma merda. Eu já achava isso muito antes de Alison. — Sou um cara movido por objetivos — rouquejo. Ela ri. — Acabei de pedir umas pizzas e Matt tá vindo aí. Apoio o corpo nos cotovelos, sentindo os efeitos de uma dor de cabeça monstruosa enquanto tento descobrir quem será esse tal de Matt. Então a ficha cai. — O Treinador Williams vem pra cá? — Ele não é mais seu treinador. Pode chamá-lo de Matt agora. Ele vai chegar daqui a meia hora com sua esposa, Tricia. Não tenho a menor ideia de como meu ex-treinador descobriu que eu estava em casa, nem por que ele está vindo para cá, mas vai ser bom revê-lo. Sinto que estou sorrindo de leve (o que faz minha mãe sorrir também), e isso promove uma mudança e tanto no meu humor. — Você ligou pra ele? — Talvez, mas foi ele quem se convidou para passar aqui. Agora vá já pro chuveiro. Vou fazer um milk-shake de baunilha e um queijo quente pra você. Meia hora depois, eu me sinto mais ou menos humano quando Tricia e Matt Williams entram na nossa


casa com uma garrafa de vinho pro meu pai e girassóis para a minha mãe. Meus pais abraçam Matt, depois faço o mesmo, e sinto como se fosse mais normal do que eu esperava. Menos estranho do que eu imaginava. Agora ele é meu colega, mas ainda preciso me acostumar com isso. Quatro anos e meio atrás, ele veio até esta casa me recrutar e ficou exatamente onde está agora. Seu cabelo castanho não tinha nenhum fio grisalho e ele vestia uma camiseta do time de futebol da UCLA em vez desta que está usando hoje, da Academia da Força Aérea, mas fora isso ele não parece ter mudado nada. Sua vibração ainda é de pura calma e positividade, do tipo que se entranha silenciosamente nas pessoas ao seu redor. Dois minutos depois já sinto isso acontecer. Tricia está gravidíssima, e ouço minha mãe lhe fazer uma torrente de perguntas contínuas e depois levá-la até a sala de estar. Meu pai, Matt e eu nos acomodamos na sala de televisão, onde está passando um jogo de futebol da liga principal. O futebol é um mundo pequeno. Matt treinou ou jogou com alguns dos caras que estão correndo naquela tela plana, e eu mesmo conheço alguns deles, portanto, durante algum tempo, conversamos sobre esses garotos e sobre o jogo, enquanto meu pai relaxa na sua poltrona reclinável, só ouvindo. Então Matt me pergunta de Los Angeles e conto sobre Jason e os outros caras. — Estou treinando um time de meninos — revelo. — O time joga todo sábado também, por isso nem sempre consigo ir às peladas, mas os caras e eu nos vemos quase toda semana. — Você está treinando um time? — pergunta meu pai. É a primeira coisa que ele diz desde que nos sentamos. — Estou. De garotos. Subnove. Basicamente é um esquadrão de filhotinhos, mas são garotos bacanas. Formamos um time de futebol society agora. E acabei de acrescentar um garoto que vai nos tornar imbatíveis assim que eu conseguir fazer o menino se integrar. Matt se inclina para a frente e apoia a cerveja na mesa de centro. — Por que ele não está conseguindo fazer isso? — pergunta, interessado de verdade. — Ele chegou depois, então integrá-lo a um time que já se conhece muito bem não foi fácil. Só que o principal não é isso. Ele tem problema de confiança, mas acho que já estou conseguindo resolver a questão. Matt e meu pai disparam inúmeras perguntas sobre Parker, por isso, a história toda acaba vindo à tona, desde Raylene até a noite no boliche. Por motivos que desconheço, meu pai dá gargalhadas homéricas quando descobre que fui obrigado a sair com mulheres por causa do meu trabalho, mas Matt só vai se interessando cada vez mais, perguntando sobre as outras crianças do time e depois sobre Parker e Raylene. — Quer dizer que você conseguiu se conectar com ele? — pergunta. — A saída com o time deu certo? — Ainda não tive chance de trabalhar com ele desde a noite do boliche, mas acho que sim. Quero sair com ele algumas vezes por semana para trabalhar as habilidades de finalização do menino. — Posso fazer uma sugestão? — pergunta Matt, agitando os dedos; esse é um sinal familiar de que está prestes a dizer algo em que acredita com convicção. — Claro. — Não trabalhe com ele isoladamente. Se vai trabalhar com Parker fora do campo, traga Tyler ou algum outro dos garotos também. A última coisa de que Parker precisa, suponho, é sentir que está sendo alvo de atenção isolada. Eu me inclino para trás, absorvendo a sabedoria daquela sugestão. — Obrigado. Vou fazer isso.


Matt sorri. — A parte mais difícil você já fez, Ethan. Isso é moleza. — Dou de ombros, tentando não sorrir que nem um idiota por ter recebido esse elogio. — Então, como andam os planos para a faculdade de direito? — pergunta ele. — Da última vez que nos falamos, você estava se preparando para o exame de admissão do LSAT. — É... LSAT — murmuro. — Ainda não consegui fazer isso, com o trabalho e os treinos. Ficamos em silêncio por alguns instantes, assistindo à televisão, mas sei que tanto meu pai quanto Matt estão focados em mim. A atenção dos dois me faz corar. Minha única preocupação se torna não ficar inquieto, e sim permanecer calmo. — Ethan, eu estava pensando numa coisa no caminho para cá... — fala Matt, com um tom sério que acelera meu coração. — Este ano fiz meu time trabalhar em conjunto com um especialista, Mike McCarthy. O cara é um psicólogo focado em atletas de alto nível. Ele é incrível. Todos os meus jogadores tiveram um progresso fenomenal nos jogos e nos treinos depois de trabalharem com ele. Infelizmente, Mike está se mudando do Colorado. Há uma pausa. Sei que devo preenchê-la, e é o que faço. — É? E pra onde ele vai? — Lá para os seus lados, na verdade. Pra USC. Vai fundar uma nova pós-graduação por lá: especialização em psicologia do esporte, em nível de mestrado e doutorado. Falei com ele sobre seu interesse em psicologia e seu histórico no esporte. Mike acha que você seria um candidato ideal ao curso. Eu ficaria feliz em colocar vocês dois em contato, caso se interesse. Meus pulmões param de funcionar por alguns segundos. Fico olhando para a televisão, tentando tornar minha respiração inconsciente de novo. — Agradeço a oferta, Matt. Mas... O que posso dizer? Que minha conta bancária tem algo em torno de cento e trinta dólares no momento? Não era esse o plano? Pense num motivo, Ethan. Pense em um maldito motivo decente para recusar essa oferta que não tenha a ver com orgulho ou dinheiro. Ouço a porta se abrir e fechar. — Pizza! — berra Chris. Um golpe de sorte. Matt pega sua cerveja e sai em silêncio, mas meu pai fica para trás. — Filho — chama ele, apoiando uma das mãos no meu ombro, depois espera até ter certeza de que estou de fato ouvindo. — Me faça um favor, filho. Pense no que Matt disse. É a parte do favor que não posso negar. Claro que faço o que quer que seja quando ele me pede desse jeito. — Tá bem, pai, prometo. Então vou até o banheiro para ganhar tempo. Preciso jogar um pouco de água fria no rosto antes que minha cabeça exploda. Ao virar a esquina para seguir pelo corredor, esbarro com Chris. — Jantar, irmão? — Seu sorriso é tão largo que chega a doer em mim. — Como tá sendo o dia pra você? — Ele ergue meu celular. — Vai ficar muito melhor. — Seu merdinha. Tento pegar o celular da mão dele, mas Chris desvia e bate na parede, quase derrubando um retrato emoldurado em que estamos esquiando. — Quem é Mia e o que você fez com ela? — berra Chris, gargalhando. Nunca tive um objetivo tão claro na minha vida. Agarro sua camisa e dou-lhe uma chave de braço,


para conseguir recuperar meu telefone. Depois, verifico as mensagens de texto e leio a de Mia. Minha nossa senhora. Leio as duas frases novamente, mas Chris rouba o celular da minha mão e sai correndo para a sala de jantar. Sigo logo atrás dele, mas é tarde demais. — Querido Ethan — diz ele, embelezando palavras que já são perfeitas sem isso. — Gostaria de me lembrar mais daquela noite mágica. Tenho certeza de que você mexeu comigo. Beijos, Mia. Meu pai e minha mãe caem na gargalhada. Matt passa um braço em torno dos ombros de Tricia e sorri. Percebo que pelo menos ele está tentando se controlar, por respeito. — Valeu, Chris — digo. — Muito legal da sua parte contar isso para todo mundo. Na frente do meu treinador. — Não sou mais seu treinador, Ethan. Enfim, pelo visto, eu é que devia me aconselhar com você. Tricia apoia a mão na sua barriga gigantesca. — Acho que você está indo muito bem sem isso. — Imagino que a maçã não tenha caído muito longe da árvore — comenta meu pai, como se estivesse fazendo um aviso público. — Vocês sabem como é o ditado: tal pai, tal filho. Essa é a parte clichê da noite. Encontro o olhar do meu irmão, do outro lado da mesa. — Você vai morrer, Chris. Assim que eu tiver energia para isso, vou acabar com sua raça. Depois desabo na cadeira e me preparo para responder a um milhão de perguntas sobre Mia. — Ethan, o que você está fazendo? — pergunta minha mãe. — Não seja mal-educado. Vá responder a menina! Matt assente. — Bom conselho. — Continue me orgulhando assim, filho. — Meu pai mal consegue dizer essas palavras de tanto que ri. Chris desliza meu celular pela mesa de jantar e eu o pego. Em seguida, saio da sala e vou pro meu quarto, e, em menos de dois segundos, já estou escrevendo para Mia. Ethan: Oi, Cachinhos. Acabei de ver sua msg. Ethan: Passei a maior parte de ontem me lembrando daquela noite. Me lembrando de você. Você também mexeu comigo.

Caio na cama, depois de jogar meu tênis Nike pra longe, e olho intensamente para o telefone. Ainda bem que a resposta dela vem logo em seguida. Mia: Vc se lembra? Ethan: De quase td Ethan: O suficiente pra querer mais.

Nenhuma resposta. Nenhuma resposta, nenhuma resposta, nenhuma resposta. Finalmente ela responde. Mia: E o trabalho? E Alison? Ethan: Mia Mia: Oi?


Ethan: Eu quero VC.

Outra pausa. E então: Mia: Vc sempre me deixa sem fala. Mia: Quero vc tb.

Fico olhando para aquelas palavras por alguns segundos e meu coração dá cambalhotas duplas. Preciso reunir toda a minha força de vontade para não ligar para ela. Não seria uma conversa rápida e, de qualquer jeito, não quero dizer por telefone o que tenho pra dizer. Por mais compreensivos que meus pais e Matt aparentemente estejam com essa situação, seria grosseiro passar o resto da noite no quarto conversando com Mia e não com eles. Então, passo para o plano B. Ethan: Preciso te ver. Logo. Mia: Qdo vc volta? Ethan: Amanhã às 6. Tá a fim de me buscar no aeroporto? Mia: SIM. Ethan: Sim em cx alta? Mia: !!!!!!SIM!!!! Ethan: Blz. Mais uma coisa. Ethan: Me manda uma foto sua.

Fico encarando o telefone até a foto aparecer. Mia está deitada na cama envolta por uma luz dourada suave, como se viesse de um abajur na mesa de cabeceira. Seu cabelo escuro está espalhado pelos travesseiros cor-de-rosa ao seu redor e dos seus ombros vejo apenas uma parte da sua pele macia e nua coberta por uma tira preta finíssima, a alça de uma camiseta ou de um sutiã. Seus olhos verdes brilham de expectativa, mas seu sorriso é doce... e convidativo para caramba. Ela parece estar prestes a sorrir e a me pedir para mexer com ela, e sei que estou prestes a enlouquecer por causa dessa garota. Droga. Sei que vou ficar olhando para essa foto a noite inteira, imaginando milhares de cenários diferentes, todos começando com esse momento e terminando com ela estremecendo, chamando meu nome. Não há dúvida quanto a isso. Mas agora preciso voltar lá para baixo. Portanto, mando uma última mensagem para ela. Ethan: Vc é linda, Mia. Amanhã te agradeço por isso.


Capítulo 45 Mia P.: Com quem você aprendeu o que é amor verdadeiro?

Em alguma realidade alternativa, eu poderia andar por aí sem esbarrar nos móveis. Ou seria capaz de me concentrar na minha pobre Nana, que finalmente está tendo um dia bom, mas cujas palavras entram e saem da minha cabeça. Trinta minutos até eu ter que sair para buscar Ethan no aeroporto. Este é literalmente o único pensamento que consigo ter hoje. Claro que comecei com vinte horas até eu ter que sair para buscar Ethan no aeroporto. O que tornou meu dia inútil praticamente em todos os sentidos: tipo, precisei, inclusive, conferir se havia vestido a calça antes de sair do apartamento. Vinte e nove minutos, e Ethan gosta de ver você só de calcinha. Ou sem. Cale a boca, cérebro. Vou até o estúdio da minha mãe, onde a encontro estirada na sua chaise, iluminada pelo sol e olhando uma prova de contato com uma lupa fotográfica. Noto que ela só passou brilho nas unhas de um dos pés — o tipo de coisa que eu bem poderia ter feito hoje. — No que você tá trabalhando? — pergunto, mesmo sabendo que não vou me lembrar de nada do que ela me disser. Mais vinte e sete minutos... — Numa nova série — diz ela, me entregando a prova de contato e a lupa. Eu me sento na beirada da chaise e me inclino em direção à luz do sol para poder ver melhor. As imagens são cruas: retratos simples de pessoas que não reconheço, além de closes de alguns de seus traços: uma cicatriz rosada numa pele morena cintilante; o resto de um batom sobre um lábio superior grosso. Naquelas fotos há uma dureza e uma intimidade muito diferentes do que é típico da minha mãe. Elas são silenciosas em comparação com suas obras normalmente ousadas e extravagantes. É o que lhe digo, e ela sorri. — Gosto de mudar. É por isso que sempre lhe digo para brincar. A artista que você é com vinte e um anos não é a mesma que você será com quarenta. Ou com sessenta. É importante ser curiosa e aberta. Não tenha tanto medo. Hoje, essa angústia me parece a anos-luz de distância. Ethan está voltando. Vamos ficar juntos. E definitivamente estou a fim de brincar. Devolvo a prova de contato para ela. — O que a fez ter essa ideia? — pergunto. — Ou, tipo, o que a atraiu nessas pessoas em especial? Parte de mim está animada com o fato de ela fazer descobertas e escolher caminhos novos em sua produção artística, mas parte de mim se entristece por achar que eu talvez tenha sido excluída. Ela sorri. — Ah, eu só sigo a luz. Todas essas pessoas têm uma espécie de brilho. Interno. Entende o que quero dizer?


— Aham. — Ethan tem isso, eu acho. Ele é intenso e iluminado, como um fósforo que alguém risca no escuro. — Você também tem isso, minha querida — diz ela, envolvendo meu rosto com as mãos em concha. Nana aparece à porta carregando uma caixa de couro com dobradiças. Depois de se acomodar numa cadeira de espaldar duro, diz: — Ela tem razão, sabia? — Obrigada, Nan. Eu me sinto tão grata por estar aqui hoje, quando ela está tão iluminada. Aponto para a caixa. — O que é isso? — Ah, eu só queria lhe dar algumas coisinhas. Ela abre a tampa e tira um punhado de fotografias amareladas. São fotos dos meus avós na praia em Coney Island. Viro-as para ver a data: julho de 1964. Meu avô está estirado de bruços na areia, com óculos aviadores apoiado em seu cabelo cacheado escuro e um sorriso preguiçoso. Minha avó — que ali parece tão jovem e tão parecida com a Audrey Hepburn que parece loucura — está deitada com a cabeça apoiada nas costas dele e um livro grosso de capa dura apoiado no peito, sorrindo para a câmera. É impressionante como os dois parecem modernos, embora o biquíni branco da minha avó tenha cintura alta e um cinto grosso dourado. Tenho a ideia de pegar minha câmera e registrar mais da vida da minha avó num dia em que ela está feliz e lúcida. Corro até a cozinha, tiro-a da bolsa e corro de volta para o estúdio. Ligo a câmera e foco na minha avó. — Você se lembra do que estava lendo? Ela consegue se lembrar muito mais do seu passado do que de seu presente. Quero que ela fale, quero deixá-la animada e parecida com seu antigo eu pelo maior tempo possível. Ela pega a fotografia e a analisa. — Ah, devia ser The Group — diz. — Minhas amigas e eu estávamos lendo esse livro. Fico surpresa por seu avô estar tão feliz aqui, porque esse livro me deixou com muita raiva dele. Bom, dos homens em geral. — Ela dá uma piscadela para minha mãe e acrescenta: — É um milagre que você tenha nascido no ano seguinte. Minha mãe ri. — A julgar pela frequência com que vocês dois me deixavam trancada para fora do seu quarto, é um milagre eu só ter dois irmãos. — Como eram as coisas naquela época? — pergunto. — Em relação a namoros, quer dizer. Ou a relacionamentos. Você tinha muitos amigos solteiros? Sinto vontade de perguntar se as coisas sempre foram confusas, como hoje. E extasiantes. Ela faz que não com a cabeça. — Todas nós nos casamos cedo. Com a sua idade, ou até mais jovem. Mas talvez isso fosse um pouco parecido com namorar. — Como assim? — Levei muito tempo para conhecer seu avô — explica ela. — Éramos praticamente estranhos quando nos casamos, mas as coisas eram assim mesmo. Você queria alguém e se casava com essa pessoa: se tivesse sorte, se apaixonava. — Não sei se era assim com todo mundo — acrescenta minha mãe. — Talvez não. — Ela pega as fotografias de volta, fecha a caixa e a entrega para mim. — Tem um


rolo de filme aqui, também — diz ela. — Da marcha. — Meus Deus, Nana. — Começo a babar, praticamente. — Você tem um filme da marcha em Selma aqui? Ela assente. — Acho que foi nesse dia que me apaixonei pelo seu avô. Quero dizer me apaixonar mesmo. — Mas você já estava grávida de mim! — exclama minha mãe. — O que aconteceu nesse dia? Penso em Ethan porque não consigo parar de pensar nele, porque preciso sair em... — confiro o celular — sete minutos, e porque de repente me vejo no futuro, sentada com meus próprios filhos. Será que vou lhes contar histórias sobre ele? E de como me apaixonei por ele? Não sei. Só sei que quero vê-lo, para me sentar ao lado dele, respirar o mesmo ar que ele. Certo, talvez atacá-lo também como se ele fosse um bufê caro. — Então você estava grávida quando você e vovô participaram da marcha em Selma? — Sim. De seis meses, mais ou menos. — O que fez você se apaixonar por vovô nesse dia? Ela passa a mão pela borda da caixa, com uma expressão sonhadora. — Um policial me derrubou sem querer e seu avô ficou louco e foi para cima dele. Pegou o cassetete da mão do homem e lhe deu uma surra. — Foi mesmo? Não consigo associar o sorriso preguiçoso da fotografia com um homem que ataca um policial. — Foi, e por isso acabou com uma cicatriz após levar quinze pontos — diz ela. — Mas você sabe como ele é. Pode ser meio esquentado. Sou tomada pela ansiedade quando ela usa o presente, mas não a corrijo. — Acho que todos nós somos um pouco assim. — Stan também estava muito bravo comigo naquele dia. Ele queria que eu ficasse em casa porque sabia que seria perigoso. Mas tínhamos trabalhado com todas as outras pessoas do escritório de advocacia para organizar aquilo, para fazer alguma coisa em relação à situação terrível do Sul do país. E eu era uma ingênua. Embora tivesse lido as notícias, não achava que a polícia poderia fazer alguma coisa. Acho que eu não acreditava que eles poderiam machucar uma garota judia bonitinha de Nova York. Imagino a multidão, o caos, e visualizo meu avô como um jovem tão repleto de espírito protetor e de ira que chegou ao ponto de atacar um policial da tropa de choque munido de escudo e cassetete. — Ele me pegou no colo, sendo que eu não era mais leve como uma pena naqueles dias, grávida de seis meses, e me carregou para longe da multidão. — Ela toca a têmpora. — O sangue escorria por seu rosto, do corte que abriram na pele dele. E seu avô estava de tal jeito que... seria capaz de derrubar qualquer pessoa em seu caminho, fosse policial ou não. Acho que ele seria capaz de atravessar uma parede se com isso conseguisse me deixar em segurança. — Entendo o que fez você se apaixonar por ele. Penso outra vez em Ethan, nele me carregando no colo — e também não sou leve como uma pena — e me levando até a sala do seu apartamento. E penso em como ele é justo, como é leal. Ele faria o que meu avô fez. Sei disso. De repente, não consigo mais esperar nem um minuto para vê-lo. Desligo a câmera. — Preciso ir ao aeroporto — digo a Nana e a minha mãe. — Quer trazer Ethan para jantar com a gente? — pergunta minha mãe, mas seu sorriso treme, e


percebo que está tirando sarro de mim, pois ela sabe, como sempre, o que está passando pela minha cabeça. — Hã... Quem sabe outro dia — respondo, e lhe dou um beijo na testa. Depois abraço e beijo Nana. — Fico feliz por você ter se apaixonado — digo. Então corro até a porta.


Capítulo 46 Ethan P.: Como você gosta de ser beijado: com força, com delicadeza ou tanto faz?

Vejo o Prius de Mia no exato instante em que ela abre a porta e sai correndo em minha direção. Ela se joga em meus braços e minha bolsa esportiva desliza do meu ombro quando a abraço. Eu a beijo e sinto o mundo recuperar o foco. Somos oficialmente um casal meloso se reencontrando no aeroporto, mas não estou nem aí. Estou de quatro por ela só de sentir seu corpo no meu, o cheiro floral do seu cabelo, sua boca macia e ávida na minha. Tudo se transforma nela, e só um tsunami poderia me fazer voltar a mim. Ou um funcionário do estacionamento do aeroporto. — Vão se agarrar em outro lugar, vocês dois! Senão daqui a três segundos vou lhes dar uma multa e rebocar esse Prius! Depois de conversar com Alison naquela manhã e de contar com o máximo de delicadeza possível sobre Mia, decidi voltar sozinho de avião. Agora Alison está magoada, o que derruba por terra o objetivo de tentarmos reconfigurar nossa relação, mas não posso mais colocá-la em primeiro plano. Esse lugar já tem dona. — Oi — diz Mia, sorrindo para mim. — Pra onde vamos? Sinto como se finalmente pudesse olhar para ela sem tentar esconder nada. Posso finalmente olhar para ela como se fosse minha. Mia está linda com aquela calça jeans desbotada e suéter roxo. É bem diferente das roupas que ela usa para ir trabalhar e com as quais estou acostumado a vê-la. É sensual, de um jeito que me faz imaginar tardes preguiçosas na cama... O que vai acontecer em breve e com frequência. Minha vida de repente ficou boa para caralho. — Tudo bem se a gente der uma passadinha no escritório? — pergunto, jogando minha bolsa no banco de trás. — Preciso pegar uma coisa. A feira em Vegas é em poucos dias, e meus preparativos estão quase chegando ao fim. Preciso buscar o cheque para pagar Zeke, o último pagamento do jogo virtual do bumerangue. O sorriso de Mia desaparece. — O que foi, Cachinhos? Trabalhar era a última coisa que estava passando pela sua cabeça? Ela nega com a cabeça. — Não, isso parece sensacional. Seguro a mão dela, impedindo que se sente no banco do motorista. — Tudo bem se eu dirigir? — Claro, mas... por quê? — Por segurança. É o único jeito de eu conseguir manter minhas mãos longe de você durante a próxima meia hora. Eu me inclino para baixo e a beijo antes que ela possa responder alguma coisa, depois pego as chaves de sua mão. — Como foram as coisas na sua casa? — pergunta ela, pulando para o banco do carona.


— Inebriantes em parte, mas também esclarecedoras. Eu me afasto do aeroporto e começamos a conversar descontraidamente. Eu lhe conto sobre minha noite desastrosa de sexta-feira, sobre como Chris mudou. Depois pergunto sobre seu fim de semana e ela me conta de Nana, e ficamos nessa, ouvindo as novidades um do outro. Quando lhe conto da visita de Matt, Mia esconde o rosto nas mãos. — Ai, meu Deus. Quer dizer que agora sua família e o seu ex-treinador sabem que você mexeu comigo? — diz ela, com a voz abafada. — Sabem, mas foi sem querer. Ela ergue o olhar. — Acho que nunca passei tanta vergonha na frente de estranhos antes. Nem mesmo em nome da arte. — Bom, eles não são completos estranhos, na verdade. — Eu já contei tanta coisa sobre meus pais e Chris que, apesar dos percalços das últimas semanas, Mia sabe mais sobre o que está rolando na minha vida do que Alison, ou até mesmo Jason. — Agora eles sabem bastante sobre você. O jantar da noite de sábado foi basicamente uma entrevista coletiva sobre Mia Galliano. Ela sorri. Começa dizer alguma coisa, depois parece mudar de ideia. — Fico feliz por você ter encontrado seu treinador — diz ela, em vez disso, com uma voz suave marcada pela sinceridade. — Obrigado. Ficamos em silêncio durante um tempo. O silêncio é confortável, preenchido apenas com os ruídos suaves da estrada. Mas então percebo que quero contar mais coisas a ela. — Até esse fim de semana, nunca tinha me dado conta do quanto ele me influencia. Matt está sempre tentando tirar o melhor das pessoas, isso ficou bem claro para mim, e me fez pensar que talvez eu tenha aprendido isso com ele, sabe? Talvez eu tenha pegado isso dele ou pode ser que já fizesse parte de mim e ele apenas aperfeiçoou essa minha característica, como treinador. Como alguém que preciso ouvir. — Essa foi a parte esclarecedora do seu fim de semana — observa ela, mais como uma afirmação do que como uma pergunta. Assinto. Mia apoia a cabeça no banco do carro e fica me observando por alguns segundos, depois sorri. — É maravilhoso, Ethan. — Então ela olha pela janela e fica pensativa. — Nana é a mesma coisa para mim, acho — prossegue depois de algum tempo. — Ela meio que guarda a história da nossa família. Mas não é só isso. Ela fez parte de um movimento tão grande, fundamental para a história atual do país. Acho que é por isso que quero tanto fazer esse documentário. Ela me inspira, e quero sempre ser como ela. Nunca quero que a influência que ela exerce sobre mim desapareça. Mia balança de leve a cabeça, como se tivesse falado demais, mas eu poderia ouvi-la falar desse jeito o dia inteiro. Ela é inteligente e engraçada, e mais gostosa do que deveria ser permitido por lei, mas dentro dela há uma alma velha. Quero proteger essa parte de Mia. Quero montar guarda diante dela, para que fique sempre em segurança. — Quer saber qual foi a melhor parte do meu fim de semana? — pergunto. Ela sorri. — Qual foi a melhor parte do seu fim de semana? — Foram algumas, na verdade. Pensar em você. Receber suas mensagens. Você ter vindo me buscar no aeroporto. E agora... — Sorrio para ela. — Está vendo algo em comum entre isso tudo? Dizer esse tipo de coisa tão diretamente é novidade para mim, mas com ela parece natural. E a


recompensa vale muitíssimo a pena... Mia afrouxa o cinto de segurança e fica de joelhos. Inclina-se sobre o painel e me dá um beijo na bochecha. Depois aproxima a boca da minha orelha e, quando fala, sinto sua respiração quente. — Se é tão fácil assim agradar você, então o fim de semana vai ficar muito melhor. Ainda temos algumas horinhas. Eu me viro e a beijo, conseguindo roubar um pouco do seu gosto antes de olhar de volta para a estrada. — Você tinha razão — diz Mia. Noto uma centelha de surpresa e desejo em seus olhos antes de ela se acomodar de novo no banco. — Nós somos mesmo um perigo para as estradas. — Eu estava no controle, Cachinhos. — Estico o braço para alcançar sua mão, que parece macia e muito pequena em comparação à minha. — Nunca colocaria você em risco. — Mesmo assim — insiste ela. — Ficar nos beijando quando estamos a cem quilômetros por hora não é uma boa ideia. — Discordo. Beijar você de um jeito arriscado dá sentido à minha vida. — Tudo bem, mas dá para pelo menos tentarmos não fazer isso? — O lance é fazer ou não fazer. Não existe essa de tentar. — Essa é uma das frases de Matt? — pergunta ela, sorrindo. Olho para Mia como se estivesse chocado. — Cachinhos, você sabe que é do mestre Yoda! — E é verdade, ela sabe mesmo. — E ainda se considera uma aluna de cinema! — Eu sei. Sou uma vergonha — diz ela. — E aí, vamos fazer ou não? — Está brincando comigo? — Inclino a cabeça para cima, chamando-a para perto de mim. — Volte já pra cá. Mia ri, depois volta a ficar de joelhos e nos beijamos de novo. Meia hora depois, estamos entrando no escritório da Boomerang. Num domingo à noite, com apenas metade das luzes acesas nos nichos de gesso e com as janelas cobertas pela noite, o lugar parece assustadoramente silencioso e escuro. — Pedi que o Rhett deixasse tudo aberto pra mim. Ele vai voltar mais tarde pra trancar o escritório — explico para Mia enquanto andamos até a sala dele. Nem me dou o trabalho de acender as luzes, pois tem iluminação suficiente ali, filtrada pelas paredes de vidro, e além do mais só vamos ficar alguns minutos. O cheque para Zeke está em cima do teclado do computador de Rhett, como ele prometeu. — O que é tão urgente que não dá pra esperar até amanhã? — pergunta ela, sentando-se na beirada da mesa. — Não tem a ver com urgência. Não dava pra gente correr o risco de preencher esse cheque durante o horário comercial. Rhett veio aqui tarde da noite, na sexta, só para isso. — Eu já contei para ela sobre o problema do jogo virtual e de Cookie, portanto Mia sabe por que precisei recorrer a esse artifício. — Zeke e eu vamos de carro até Temecula amanhã para dar uma olhada no jogo antes que seja enviado para a Winning Displays. De lá, vai para Vegas de caminhão, junto do resto do estande. — Pego o cheque. — Mas preciso pagar o cara antes. — Ah, entendi — diz Mia, mas ela exibe uma expressão preocupada, e eu sei o motivo disso. Largo o cheque de volta na mesa e fico diante dela. Seguro seu rosto com ambas as mãos. — Esse lance da Boomerang... — digo, fitando seus olhos. — A competição pelo emprego... A


gente vai dar um jeito. Depois dessa armação que fiz com Cookie, sei que vou perder o emprego de qualquer jeito e não me importo. Sei quanto Mia quer fazer o filme com Nana e não encaro mais a vitória dela como uma derrota minha. — Mas, Ethan, eu... — Vai ficar tudo bem, Cachinhos. Prometo. Inclino a cabeça para baixo e roço os lábios nos dela. Tive a intenção de que fosse um beijo suave, mas a boca de Mia é firme, insistente. Sua língua desliza entre meus lábios. Eu a puxo para perto de mim e, feito um fósforo que se acende, fico de pau duro. — Ethan. — Ela suspira, pressionando os quadris em mim. Eu a levanto e ela me envolve com as pernas, cruzando-as nas minhas costas. Enfio a língua em sua boca e seus braços se apertam ao meu redor. De repente visualizo ela deitada naquela mesa, nua, as pernas enroladas em meu corpo exatamente como estão agora. E eu, enterrado dentro dela. — Você não pode me seduzir assim, Mia. — Por que não? As luzes do escritório se acendem e o brilho é ofuscante. Um instinto primitivo dispara dentro de mim e protejo Mia, colocando-a rapidamente atrás de mim. Cookie está parada junto à porta, batendo o pé. — Eu poderia pensar em vários motivos, se quer saber.


Capítulo 47 Mia P.: Você se envergonha com facilidade?

A luz no escritório parece clara o suficiente para cortar a pele até meus ossos, mas não tem nem a metade da intensidade do olhar de nojo que Cookie dirige a mim. Levo uma eternidade para processar que nós fomos flagrados com a boca na botija. Pela pior pessoa possível. Da face da Terra. Ela entra na sala de Rhett e fecha a porta. Imediatamente, tenho a sensação de que ela acabou com todo o oxigênio que existia ali. Minha garganta se aperta e meu corpo todo começa a suar. — Cookie — começo a dizer, mas ela está completamente fixa em Ethan. Sorrindo, ela diz: — Bom, antes de mais nada, você está demitido. Ai, meu Deus. — Não! — exclamo. — Não é... — Ah, é sim — diz ela, com aquele sorriso satisfeito fixo no rosto. — É justo, quer dizer. Era isso o que você ia falar, não é? — Se quer saber o que ela ia dizer, então deixe-a falar — interrompe Ethan. Ele está ali, tranquilo e empertigado, mas sinto a raiva acumulada em seu corpo. E sei que a culpada sou eu. Cookie se apoia na porta, cruzando os braços. Olha para Ethan com uma expressão que o desafia a ir mais longe, se tiver coragem. Não posso deixá-lo fazer isso. — Escute... — tento mais uma vez. — Não preciso de nenhuma explicação, Mia — interrompe Cookie, embora seu olhar mal se dirija a mim. Pela primeira vez ela não está vociferando de raiva, mas a frieza de suas palavras é muito, muito pior. — Só preciso que vocês dois se retirem. E não quero mais ver a cara do Sr. Vance por aqui. Parece bem simples. — Por que só Ethan? Por que não...? — Ótimo — interrompe ele. — Mas me responda uma coisa primeiro. — Você não está em posição de exigir nada. — Como descobriu sobre Alison e eu? Todo o meu corpo aquece, e minha boca fica seca como o deserto do Saara. Estendo a mão para tocar seu braço, mas ele o move justamente quando encosto, enfiando as mãos nos bolsos da calça jeans. — Você está parecendo um maluco paranoico — diz Cookie. — Sabe disso, não é? — Está bem. O maluco sou eu. Mas não fui eu quem ficou espionando a vida de alguém só pra sabotar sua carreira. Cookie bufa. — Que carreira? Você é um estagiário. Nunca seria mais do que isso. Um rubor sobe pelo pescoço de Ethan, e ele dá um passo para a frente. Cookie se encolhe como se


tivesse medo de que ele fosse bater nela. Isso é horrível, preciso colocar um ponto final nessa história. — Por favor, escute... — E você garantiu que eu não fosse mesmo, não foi? — pergunta Ethan. — Adora bancar Deus, né? E se safa com isso. Quando se cansou de ameaçar Paolo e Sadie, resolveu ir pra cima de mim? — Você tem uma visão exagerada da sua importância — diz Cookie. — E tem sorte de eu estar apenas despedindo você. Devia mandar prendê-lo. — Prender? Por quê? Ela vai até a mesa e pega o envelope com o cheque de Rhett. — Por roubar 17 mil dólares, que tal? Ele ri, e é um som puro, brutal. — Fala sério. Isso é baixo, até mesmo pra você. — Isso é loucura — protesto. — Ele não estava roubando. Estava tentando fazer um bom trabalho para Adam e os investidores. — Os investidores não estão nem aí para o que dois estagiários têm a dizer sobre nada. Agora deem o fora daqui. Ela vai até a porta e a escancara. — Espere — digo. Minha pulsação lateja em meu ouvido, tão alto quanto o rugido do mar. — Pode me despedir, se tiver que despedir alguém. Não foi culpa de Ethan. Fui eu quem trocou os encontros da Boomerang. — O quê? — pergunta ele. — Mia, você não precisa... — Eu sei — falo, ainda incapaz de olhar para ele, mas querendo desesperadamente fazer isso. — É besteira. Eu devia ter lhe contado antes. Ia contar, mas... — Mas você não tinha como saber que Alison era minha ex-namorada. Como... — Eu não sabia — afirmo. Finalmente, olho para ele, que está tão confuso e magoado quanto eu temia que fosse ficar. — Eu só senti... ciúme, e tentei escolher outra pessoa, alguém que achei que você fosse odiar. Ele ergue uma sobrancelha, e uma frieza domina seu olhar, me perfurando. — Sério? De todas as garotas no sistema da Boomerang, você escolheu Alison por acaso? — Parece maluquice, eu sei, mas foi isso mesmo. — E aí você me deixa fazer um papelão na frente da Rainha do Gelo aqui? — Ele indica Cookie com o polegar. — Não passou pela sua cabeça que seria uma boa ideia me contar isso antes de eu cometer suicídio profissional? Não consigo suportar que Cookie esteja ouvindo tudo isso, vê-la novamente diante da porta, com uma expressão de divertimento. Sendo que a fonte de sua diversão sou eu e Ethan. — Vamos conversar sobre isso em outro lugar, está bem? — Sabe de uma coisa? — O tom dele é mais seco do que folhas no outono. — Não precisa. — O que isso quer dizer? Ele vai até Cookie e arranca o cheque das suas mãos. — Vou pagar meu fornecedor porque ele fez o trabalho. Se quiser chamar a polícia, então chame a porra da polícia. Ele segura a maçaneta e lança um olhar para Cookie como se a desafiasse a impedi-lo de ir embora. — Ethan, espere. — Vou a pé pra casa — diz ele. — A gente conversa depois.


Sinto como se um buraco tivesse aberto na minha barriga quando ouvi aquilo. Estraguei a noite dele. Talvez tenha estragado tudo. — Ethan, é muito longe. Eu levo você. Mas ele já saiu e não me escuta. Ou, se ouve, finge que não. Viro-me para Cookie, e ela me olha de um jeito frio e impassível. — Você vai para Vegas montar o estande — afirma ela. — E é bom que seja a melhor coisa que já tenha feito na vida. — Senão o quê? — pergunto. De repente, aquele emprego não parece mais ter qualquer importância pra mim. Só sinto vontade de estrangular Cookie e acertar as coisas com Ethan. — Não pode despedir nós dois. — Claro que posso — responde ela, mas há uma leve hesitação em seus olhos. Não estou nem aí se isso vai me custar o emprego. Preciso encontrar um jeito de salvar a noite. Não por mim: a essa altura, não dou a mínima para mim. Mas não posso ser responsável por Ethan perder essa oportunidade. Simplesmente não posso. — A feira é daqui a cinco dias — lembro. — E, goste você ou não, Adam delegou a dois estagiários a parte mais crítica da convenção. — Uma decisão que questionei desde o início. — Ela solta um ruído de desprezo. — Mas tenho certeza de que conseguiremos nos virar muito bem sem vocês. — Ótimo. Vamos testar essa teoria. — Sinto como se minhas entranhas estivessem literalmente tremendo. Estou morrendo de medo de que ela descubra meu blefe. — Tenho certeza de que você tem tempo de produzir um novo estande totalmente customizado, não é? Ou talvez possa apenas recuperar o antigo que está no depósito. Com certeza Adam adoraria vê-lo de novo. — Quem você pensa que é? Mas eu a ignoro. — E também tenho certeza de que Paolo, Sadie e Pippa vão ficar muito felizes de ajudar na criação, pois você sempre foi tão boazinha com eles. Ela cerra os punhos ao lado do corpo e tenta me eviscerar com seus olhos, mas não estou nem aí. — Tudo bem — diz ela. — Vejo você em Vegas. Isso não é o bastante. Não é o que está em jogo aqui. — Vejo vocês dois em Vegas, é o que você quis dizer. Ela me olha, e retribuo seu olhar. Tenho certeza de que outra era do gelo está surgindo enquanto ficamos ali paradas, olhando uma para outra. — Boa noite, Srta. Galliano — diz ela, e sei que ganhei. Cookie se vira e apaga a luz, deixando-me sozinha apenas com o brilho da iluminação dos nichos do corredor. Eu a observo ir embora, sua pele fantasmagoricamente pálida, sua postura tão rígida quanto um rastelo. No estacionamento, corro até meu carro e abro a porta com força. Quando me sento atrás do volante, sinto vontade de chorar. O que aconteceu com esta noite? Engato a marcha e sigo para a estrada. Pouco tempo depois, avisto Ethan, que está correndo no meio-fio. Encosto o carro ao lado dele e abro a janela, seguindo devagar. — Ethan, espere aí — grito, tentando não bater o carro nem atropelá-lo. — Cookie vai deixar nós dois irmos a Vegas. Eu disse que não iria se você não fosse. Ele enfia as mãos nos bolsos, mas não me olha. — Ótimo.


— É, não é? — Perco um pouco o controle do carro e acerto a direção. — Ethan, por favor, dá pra entrar no carro? Vou acabar matando você ou a mim, tentando conversar desse jeito. Finalmente ele para e se vira para mim. Com isso, freio com tudo, quase quebrando o nariz no volante. — Você vai entrar? Ele hesita por um instante, mas depois abre a porta e entra no carro. Todo o meu corpo se alegra só de tê-lo ao meu lado de novo. Coloco a mão em seu ombro e ele me deixa mantê-la ali, mas seus olhos continuam fixos no para-brisa à sua frente. — Você não está despedido — arrisco. — É, eu ouvi. — Mas isso... é bom, não é? — Como falei, é ótimo. Está tudo tão arruinado que a única coisa que consigo fazer é me conter para não sair do carro e voltar a pé. Vê-lo ali, com toda a nossa conexão e calor destruídos, me deixa magoada. E me magoa ainda mais saber que aquilo é cem por cento culpa minha. — Eu... sinto muito, Ethan, de verdade. Não foi minha intenção que nada disso acontecesse. Eu só estava sendo... — O quê, Mia? Idiota? Egoísta? As palavras parecem pequenas demais para conter tudo o que quero dizer. — Você precisa acreditar que eu não queria que nada disso acontecesse. — Tudo bem, Mia — diz ele, num tom que sugere o extremo oposto. — Só me leve pra casa.


Capítulo 48 Ethan P.: Para você, o que fica em Vegas?

Rhett e eu fazemos o check-in no Mirage às 11 da noite, o que em Vegas é o equivalente ao happy hour. — Será que devíamos comer alguma coisa primeiro? — pergunta ele. — E depois jogar vinte e um? Essa é nossa única noite “de folga”. A convenção abre para os expositores de manhã. Temos o dia para montar tudo antes da feira começar, na segunda de manhã. — Não estou com fome — digo. — Vamos só tomar alguma coisa e jogar. Rhett me olha de um jeito estranho. Ando recebendo muitos desses, esta semana. Fazemos um desvio até um bar e peço um uísque com Coca-Cola. Rhett escolhe uma cerveja, mas quando nossas bebidas chegam, não vamos para o cassino. Sequer conversamos a respeito, apenas continuamos ali no bar. Então percebo que andei fazendo certa jogatina sozinho recentemente. Corri um risco. Confiei em uma garota mais uma vez — e mais uma vez me ferrei. Estou puto da vida comigo por ter cometido o mesmo erro. Odeio ainda mais o fato de entender os motivos de Mia ter feito aquilo. Só de me lembrar de Robby_OTrepador e do outro cara, o tal de Brian, fico com vontade de socar alguém. Eu também não queria que ela tivesse saído com esses idiotas. Não estou com raiva por ela ter trazido Alison de volta para a minha vida. Está dando certo. Está me obrigando a me reconciliar com o meu passado. E também não posso culpar Mia por eu também não ter conseguido o emprego. Independentemente de como tudo começou, fui eu quem perdeu a cabeça com Cookie naquela manhã e depois segui agindo às suas costas com o lance do videogame. Não posso dizer exatamente com o que estou puto da vida. Com a maldita política de proibir relacionamentos na empresa? Talvez nada disso houvesse acontecido se eu simplesmente tivesse ido atrás de Mia como queria, em primeiro lugar. — O jogo virtual vai ser demais, Ethan — diz Rhett, quebrando nosso silêncio. É uma surpresa ouvi-lo me chamar pelo meu nome inteiro, pois ele costuma me chamar só de “E”. Algumas semanas atrás isso me tirou do sério, mas agora não consigo imaginar o motivo. — Talvez você tenha forçado um pouco a barra nesse caso — continua ele —, mas Adam gosta de ousadias. Ele vai ficar mais impressionado com sua iniciativa do que irritado por você ter passado a perna em Cookie. Rhett não tem ideia do que aconteceu entre mim, Cookie e Mia domingo à noite no escritório. Até onde eu sei, ninguém mais sabe além de nós três. — Não estou nem aí pro que ele pensa ou deixa de pensar — digo, mas isso é mentira. Estou aqui porque me importo. Estou aqui porque termino o que começo, e porque ainda quero o emprego. Não quero que Mia perca, mas perder também não é uma opção para mim. Não sei em que pé isso me deixa... ou nos deixa.


— Você não está falando sério — comenta Rhett, com sua intuição certeira de sempre. Mas meu orgulho não vai me permitir dar o braço a torcer, então dou de ombros e tomo um longo gole do meu drinque. Depois endireito os ombros e me concentro em estar aqui. Neste momento. Sin City está a todo vapor esta noite. A vibração ao nosso redor está carregada com a promessa de dinheiro e sexo. Executivos. Acompanhantes profissionais. Despedidas de solteiro. Mulheres que vieram passar o fim de semana. Todo mundo está aqui para se libertar, e é isso que está prestes a acontecer. Consigo sentir no ar. Daqui a duas horas, as últimas camadas de reserva controlada das pessoas vão rachar sob a pressão de montanhas de desejo represado. Meu olhar é atraído para uma garota de cabelo escuro e vestido preto que entra no bar. Mia. Não me surpreende vê-la entrar com Sadie e Paolo. Todos estamos hospedados aqui, por isso era apenas questão de tempo até ela aparecer. Fiz um trabalho espetacular de evitá-la esta semana. Na segunda passei o dia no depósito do fornecedor de jogos. Na terça fui para a Winning Displays verificar o projeto do estande. Na quarta ela é que foi lá, fazer o mesmo com seu projeto. Na quinta trabalhei na sala de conferências. E na sexta fui para o escritório às seis da manhã, saí ao meio-dia e trabalhei o resto do dia no meu apartamento. O único ponto em que falhei foram todas as malditas noites, quando eu ficava olhando a foto dela no celular. Rhett sai do meu lado e vai se juntar a Sadie e Paolo numa mesa alta do bar. O jeito como eles estão fazendo isso, de modo tão deliberado, me deixa com dúvida se mais ninguém mesmo sabe do que aconteceu. É óbvio que todos eles acham que Mia e eu precisamos conversar. — Oi — diz ela, juntando-se a mim na mesa. Eu me viro em direção ao balcão e apoio os cotovelos sobre ele. — E aí? — Não tenho visto muito você. — Andei ocupado com os treinos e preparando as coisas para a feira. Enquanto respondo, olho para as garrafas de bebida iluminadas que estão dispostas nas prateleiras no fundo do bar. Não quero encontrar seus olhos verdes. Não quero que ela note a tristeza que sei que ela vai ver. — Ah, tá — diz ela. — Faz sentido. Como... hã... como foram as coisas com Parker esta semana? Os treinos com meu time foram os únicos pontos altos da minha semana, e sinto vontade de contar tudo para ela. Quero lhe contar como agora Parker virou outro garoto em campo; como ele e Tyler são uma dupla insuperável agora. E como Raylene vai a todos os treinos e como ela e Rhett se transformaram num casal bacana, normal, que se trata com carinho. Rhett tem suado menos, sinto vontade de dizer. E Raylene já não está mais maníaca. Na verdade, ela está bem legal. Mas não digo nada disso. — Foi tudo bem — respondo. — Ele está se saindo bem. Pelo canto do olho vejo Mia assentir, mas tenho a sensação de que ela sentiu quanto deixei de dizer. Ela puxa uma cadeira e se senta. Pede uma bebida ao barman quando ele aparece. Então ficamos ali sentados por longos minutos, bebendo, com meu coração batendo acelerado só por estar perto dela.


— Gostaria que você conversasse comigo. Olho para ela. — Também, Mia. Por que você não disse nada depois daquele primeiro encontro que tive com Alison? Por que deixou passar tanto tempo? — Porque eu estava com medo — assume ela, mas a frase sai como se sentisse raiva. — Durante algum tempo, era como se tivéssemos todos os motivos do mundo para não ficarmos juntos. A competição por esse emprego... as regras. O jeito como começamos, com uma noite e nada mais, da qual nem eu nem você conseguíamos nos lembrar. Eu não queria acrescentar mais um problema. Mais um motivo para nos afastar. E então vocês dois começaram a sair juntos de novo, e eu... — A gente não estava saindo junto de novo. — Foi o que pareceu. Você ia com ela pros lugares. Foi para o Colorado com ela. Você e eu... não fizemos absolutamente nada juntos que combinamos por livre e espontânea vontade. Percebo que é mesmo verdade. Na primeira noite fomos parar no mesmo bar depois de nos encontrar com Adam. Na segunda vez que nos beijamos, no estúdio da mãe dela, eu só estava ali por acaso. Trabalhar juntos também não foi combinado. Até mesmo este momento, este exato instante, é uma coincidência. Um formigamento se espalha pela minha pele, e sinto como se eu não reconhecesse a mim mesmo. Minha bússola interna está girando. Perdi o norte. Sempre fui atrás do que quero, mas não fiz isso com Mia. Acho que não fiz isso nem comigo mesmo. Estou batalhando por esse emprego e pelo meu futuro. Por dinheiro, para poder pagar os empréstimos e cursar a faculdade de direito, mas alguma coisa não parece certa, e não consigo descobrir o quê. É como se minha vida tivesse ficado borrada, fora de foco. — Desculpe interromper seu silêncio pungente — diz Paolo, aproximando-se de nós dois —, mas acabei de receber uma mensagem de texto de Mark. Adam está alucinando nas mesas de vinte e um. Acho que já apostou 20k, e olha que se sentou há dez minutos. Essa é uma coisa obrigatória de se ver. Pelo menos na minha opinião. E na de vocês? — Claro. Vou também. — Mia olha para mim, os olhos brilhando de esperança. Ainda não terminamos nossa conversa, mas isso não vai acontecer agora, com Rhett, Sadie e Pippa ao nosso redor. — Estou de boa — digo para eles. — Talvez eu alcance vocês depois. — Está bem — diz Mia, com os olhos opacos. Ela vai embora com Paolo, Sadie e Pippa. Não observo-a ir, mas sinto a empolgação de estar ao seu lado arrefecer. Rhett ocupa a cadeira que ela acabou de deixar vaga. — Você hoje está sendo do contra, E. — Sorrio tolamente para ele. — É verdade — continua Rhett, rindo. — Você não para de falar coisas que são o contrário do que quer dizer. Porque você não quis jogar, não está “de boa” e também duvido que vá se encontrar com eles mais tarde. — Do contra, é? — Viro o copo, bebendo o resto do drinque. — Bom, nesse caso, adoro como você se mete na minha vida pessoal, Rhett. Não me dá vontade nenhuma de socar você pra calar essa sua maldita boca. Ele ri, depois pedimos mais um drinque, e estabeleço como objetivo para esta noite alcançar um estado de torpor confortável. Talvez, se me sair bem nessa tarefa, eu não fique olhando para a foto de Mia quando voltar para o quarto. Porque não quero fazer isso.


Diz o cara que é do contra.


Capítulo 49 Mia P.: Luzes poderosas ou noites ociosas?

Só mesmo em Vegas um saguão de hotel resplandece com luzes néon e tem um carpete com uma estampa que parece ter sido criada por alguém que colocou um tigre numa trituradora industrial. Uma música techno suave flui sob um fluxo contínuo de conversas pontuadas por ataques de risadas agudas que fazem meu corpo inteiro estremecer. Claro que já estou abalada, não só por ser responsável pela montagem da minha parte do estande — com a ajuda de Paolo, graças a Deus —, mas também porque precisarei passar o dia inteiro trabalhando ao lado de Ethan e agindo como se estivesse perfeitamente à vontade com o fato de a gente não ter se falado desde que o abordei no bar ontem. Tudo continua errado. Mas, enfim, agora estou aqui, determinada a fazer o trabalho que Adam me confiou. Ao nosso redor, as pessoas montam estandes elaborados, erguendo banners de vinil gigantescos, armando plataformas, encaixando prateleiras. E, em todos os estandes, parece que há alguém tendo um ataque de nervos. Ali perto, um homem com cabelo louro cor de palha com um corte que mais parece um capacete e terno brilhante cinza-chumbo, anda de um lado para outro com o celular colado na orelha e o rosto vermelho o bastante para me fazer olhar em torno em busca de médicos de plantão. — Eu pedi pirâmides de cromo com três metros de altura e vocês me mandaram essas prateleiras fodidas! — Ele recua e afasta o telefone para mostrar um par de estantes triangulares que deve bater mais ou menos na altura dos meus ombros. — É sério — continua ele. — Estão vendo esta merda? Bem nesse instante, ouve-se o estrondo de algo se rasgando e então vejo duas garotas mais ou menos da minha idade, só que altas, com vestidos que parecem ter sido recentemente pintados com spray em seus corpos. Cada uma segura a metade de um banner em formato de coração que se rasgou ao meio. — Meu Deus do céu, Amy! — exclama uma delas, uma ruiva, dando um gritinho e jogando no chão sua metade do banner. — O que foi que você fez? — O que eu fiz? Eu te disse pra parar de ficar puxando o banner! — Esse lugar está uma loucura — murmura Paolo, enquanto desdobra uma planta daquele espaço gigantesco. — Qual é mesmo o número do nosso estande? — pergunto pelo que deve ser a sexagésima vez. — É o número trinta e três, no... — ele consulta a planta — melhor lugar da feira, bem entre o bar e os banheiros. Alguém quase nos separa passando com um painel sobre rodas com imagens de homens de roupa militar e uma placa onde se lê: “O Amor é um Campo de Batalha.” Isso me parece uma abordagem duvidosa, mas, ei, não sou estagiária deles. Finalmente avisto nosso estande, e mesmo daqui consigo perceber que é perfeito. Tem o formato de dois bumerangues, um de costas para o outro, quase com um efeito ying-yang, sendo que o de Ethan é uma parede curva com o chão de um tom escuro profundo e brilhante, enquanto o meu é


branco resplandecente. Monitores de LCD enchem um balcão estreito que se estende ao longo da lateral do lado dele, conduzindo até uma tela alta com um console na frente que, eu sei, é onde vai rodar o jogo do bumerangue que ele encomendou. Uma mensagem não para de passar em todas as telas, sem parar: No jogo do amor, jogue pra vencer. Meu lado é mais suave, com mesinhas de centro, poltronas confortáveis e uma tela curva de projeção que ocupa quase toda a minha parede. É ali que vou deixar passando o vídeo que editei com todo o material que captei nos escritórios da Boomerang, que filmei de meus amigos e vizinhos, e de Paolo e Beth agindo como “namorados” diante de um fundo verde (que com a ajuda de Brian transformei em um café parisiense, um piquenique no Central Park e — por que não? — um banquete árabe, com tendas de tecido finíssimo tremulando e um céu enluarado cheio de estrelas). Em cada mesinha coberta de seda há um par de iPads nos quais os clientes poderão acessar o site da Boomerang, criar perfis e até mesmo participar do sorteio de uma assinatura anual do serviço. Mais do que tudo quero que o espaço pareça íntimo e sensual ao mesmo tempo, com meu filme fazendo as pessoas se lembrarem de como namorar pode ser uma grande e encantadora aventura. Desde que a pessoa não seja eu. — Ethan, seu garanhão! — exclama Paolo, e atravessa os últimos metros correndo até o estande para dar um abraço típico de homem em Ethan, o que consiste em metade um aperto de mão e metade um soco no peito. Diminuo o passo, e Ethan olha para mim. Sorrio, e ele retribui, mas não acredito no meu sorriso nem no dele. Então ele se vira de costas e começa a conversar com Rhett, que, agora vejo, está de quatro plugando cabos numa cadeia com tomadas bem organizadas. Rhett me vê, levanta-se e limpa a poeira das mãos. — E aí, Mia? Está preparada para mexer com Adam? Meu corpo inteiro fica gelado e olho imediatamente para Ethan. Será que ele contou a Rhett sobre a minha mensagem de texto? Mas Ethan faz que não sutilmente com a cabeça, como se estivesse lendo minha mente, e sinto uma bolha estranha de histeria crescer dentro de mim. Será que tudo — cada comentário aleatório — vai me fazer lembrar dele? Mesmo que eu nunca mais o veja depois desse fim de semana, será que estarei condenada a carregá-lo comigo aonde quer que eu vá? E por quanto tempo? — Mia? — Desculpe. Sim — respondo. — Vou só conectar o vídeo e fazer uns testes de exibição. Depois só preciso esperar a entrega do meu banner com o slogan que criei: A vida é curta. Faça dela uma aventura. O serviço de catering vai chegar segunda de manhã. — Parece ótimo. Me avise se precisar de ajuda. Pelo visto, Raylene combina com Rhett. O rosto dele engordou um pouquinho neste último mês mais ou menos, e ele parece menos estressado e intenso. Mais ursinho de pelúcia, menos Esqueleto do He-Man. Penso em quantos casais se formaram nos poucos meses em que Ethan e eu estamos trabalhando juntos. Raylene e Rhett; Paolo e Mark, que trabalhava na contabilidade; Skyler e Brian. É como se fôssemos alguma versão de Dorian Grey em forma de relacionamento: todo mundo à nossa volta encontra um par, enquanto a gente continua se desintegrando. Muito bem, Mia, concentre-se. Vou até os fundos do estande para conectar meu laptop e rodar o vídeo. — Ei, Paolo, a gente tem cabos HDMI por aí?


Paolo vem para o meu lado do estande, trazendo um conjunto de cabos em cada mão. — É esse com saídas esquisitas que parece uma carinha feliz? — Humm. Não. Não sei o que é esse cabo. — Estendo a mão para pegar os dois conjuntos de cabo que ele me entrega, mas também não reconheço nenhum. — Merda. Não são o que preciso. Do lado de Ethan surge uma música alta, seguida pelo som do vento. — Ah, isso é insano, E.! — exclama Rhett, e não consigo mais me segurar: preciso ir lá ver. Nos domínios de Ethan, encontro Rhett com uma luva de vinil cheia de placas metálicas brilhantes nos nós dos dedos. Uma tela à sua frente exibe um esquema com sinalizadores em formato de coração indicando a distância em intervalos de três metros. — Vou tentar o nove dessa vez — avisa Rhett. Ele ergue um objeto imaginário com a mão enluvada e em seguida leva o braço para trás e o balança na direção da tela. Um bumerangue vermelho e azul com a logomarca da Boomerang aparece voando do canto da tela, passa o sinalizador de três metros, o de seis e quase chega ao de nove antes de girar em falso e voltar para Rhett. Ele se sobressalta e arremete para a frente, fechando a mão no ar. Na tela, certa mão animada passa direto pelo bumerangue e some. Em letras vermelhas surgem os dizeres: ERROU. — Você tentou pegar o bumerangue antes da hora — diz Ethan, com o mesmo tom que mescla paciência e divertimento que ele usa para falar com os meninos do time. — Espere até o bumerangue preencher dois terços da tela e só então tente pegá-lo. — Saquei. Rhett tenta novamente e depois de algumas tentativas já está jogando o bumerangue virtual a pelo menos doze metros de distância e pegando-o de volta a cada tentativa. — Isso aí — diz Ethan, então finalmente percebe que estou ali. — Ficou bem legal — elogio. — Tudo. E é verdade. Tudo parece lustrado e organizado no lado dele. Atraente. Como Ethan. — Valeu. Ele afasta a franja da testa e sinto vontade de fazer isso por ele, uma vontade que se espalha por todo o meu corpo. Só uma desculpa para tocá-lo. — Ei, será que vocês teriam um cabo HDMI extra? — Temos uns seis — responde Rhett. — Pode pegar. Olho para Ethan querendo uma confirmação, mas ele já está inclinado sobre um emaranhado de cabos para procurar o que preciso. — Está aqui — diz ele, me entregando o cabo. — Tem mais aqui se precisar de alguma coisa. Ficamos parados um diante do outro por mais um instante esquisito antes de eu me lembrar de agradecer e voltar para o meu lado do estande. Conecto meu laptop, ligo-o e espero. Paolo vai para o lado de Ethan e ouço os três se revezando no jogo e conversando sobre o melhor horário para mandar entregar as cadeiras e a comida na segunda-feira. Quando os ícones do meu desktop aparecem no telão, clico na pasta onde está minha apresentação, mas aparece uma caixa de diálogo na tela: “Erro 2048 — Arquivo não compatível.” Mas já abri esse arquivo uma dúzia de vezes! Sei que é compatível. Tento de novo, mas dá o mesmo erro. O pânico me invade, mas luto contra ele. Salvei outra versão do arquivo na nuvem, só por via das dúvidas. Conecto no wi-fi do hotel e acesso a minha conta, sentindo a náusea se agitar na minha barriga.


Faço o download e clico para abrir o arquivo. “Erro 2048 — Arquivo não compatível.” É claro, devo ter salvado depois que o arquivo de alguma maneira foi corrompido. O que mais iria acontecer naquele dia? Sinto o gosto de alguma coisa metálica subir pela garganta e meu corpo fica mole. Afundo numa poltrona em frente a uma das mesinhas de centro. Estou ferrada. Ethan tem uma apresentação perfeita e inteligente do outro lado e eu não tenho nada. Só um café falso e estranho com uns iPads em cima da mesa. Ah, isso vai mesmo enlouquecer os investidores. Mas não é com isso que estou realmente preocupada. Só não quero humilhar Adam, nem a mim mesma. E não tenho a menor ideia de como vou impedir que isso aconteça. — Mia? Olho e, claro, é Adam ali de pé com toda a sua glória e elegância, vestindo uma calça jeans cinza e uma camisa Oxford preta feita sob medida. Então percebo que um dos botões do meio da camisa não está abotoado e, pela primeira vez desde que nos conhecemos, ele está com uma expressão sombria. — O que...? — É sua mãe — diz ele, estendendo o celular para mim. — Ela está atrás de você.


Capítulo 50 Ethan P.: Crises: elas acordam você ou o desligam do mundo?

Zeke projetou o nível avançado do jogo do bumerangue para que se parecesse com tiro ao prato: quando a pessoa clica em Início, uma série de três alvos — corações, os quais achei que fossem ficar bregas, mas na verdade ficaram bem irados — aparecem atravessando o céu da tela. Só um deles é o “certo”, o que é iluminado por um brilho vermelho repentino que se acende logo antes do momento que pessoa tem que jogar o bumerangue. O objetivo é atingir esse coração, mas evitar os outros, e ao mesmo tempo pegar o bumerangue assim que ele voltar. É genial e viciante. O único problema, para mim, é que a cor vermelha fica bem no espectro de cores que não identifico, e isso faz com que seja quase impossível identificar o coração certo. Quase impossível. Clico em Início e agito meus dedos enluvados, pronto para tentar outra vez. A maior parte do meu lado do estande está montada, e sou capaz de sentir a inveja dos outros. Depois que Mia solucionar o problema com seu arquivo, vou ter um pouquinho mais de competição, mas, por enquanto, meu lado do estande está imbatível. — Ethan — diz Rhett, segurando meu braço justo quando estou prestes a lançar o bumerangue. — Melhor dar uma olhadinha aqui. Seu tom de voz faz uma dose de adrenalina atravessar meu corpo, e fico me perguntando se mais alguém se machucou. Essa área de exposições representa um risco constante. Um dos funcionários da GetLucky.com já caiu de uma escada e torceu o tornozelo. Sigo Rhett, torcendo para que ninguém da nossa equipe esteja ferido, muito menos Mia. Espero, na verdade, que ela só precise de ajuda para resolver o problema do arquivo. Mas, assim que chego no lado dela do estande, todo branco cintilante e estiloso, paro imediatamente. Mia está ao lado de uma das mesas de centro com um celular no ouvido, os ombros curvados. Está parada, como se todo o seu corpo estivesse comprimido de angústia. Adam está ao seu lado. Adam, que tem valor pessoal de aproximadamente cinquenta milhões de dólares a mais do de qualquer outra pessoa naquele centro de convenções e que só ia aparecer aqui amanhã, na abertura da feira. Assim que ele me vê, faz sinal para que me aproxime. Seu cabelo está molhado e despenteado como se tivesse saído apressado do banho. O rosto exibe uma barba rala por fazer, coisa que nunca vi nele. — É a avó dela — explica Adam. Meu Deus. Todo o meu corpo fica dormente. Nana. Mia ainda não disse nenhuma palavra, continua com o olhar distante direcionada para o nada, escutando alguém falar do outro lado da linha. — O que aconteceu? — pergunto. — Ela está no hospital — explica Adam. — Não sei mais nada. A mãe de Mia me ligou. Tem meu telefone porque encomendei uma obra com ela. Acho que o celular de Mia está sem sinal aqui.


Ficamos ali parados, Rhett, Adam e eu, formando um pequeno círculo protetor ao redor de Mia. Cookie passa por perto, silenciosa e rígida. Olho para ela para avisar que, se ousar dizer qualquer palavra — sobre qual for o assunto —, vou fisicamente silenciá-la, e então ela evita meu olhar, tomando a sábia decisão de se manter afastada. Do outro lado do estande, Paolo, Sadie, Pippa e Mark observam tudo. E mesmo de locais mais distantes, as pessoas já perceberam que há algo errado. Nosso estande estava fazendo bastante sucesso, mas agora toda a atenção que atrai é a que vem com as tragédias. — É grave, mãe? — pergunta Mia, por fim, com uma voz baixa e trêmula. Depois volta a ficar quieta, escutando. Depois pergunta: — Mas ela vai sobreviver, né? Vai ficar bem, não vai? Dane-se o emprego. Dane-se tudo. Coloco o braço ao redor dos seus ombros. Seus olhos continuam distantes, em Los Angeles, mas ela transfere ligeiramente o peso do seu corpo para mim. — Certo — diz Mia. — Certo. Não se preocupe comigo. Vou ficar bem, OK? Preocupe-se apenas com Nana. Eu te amo. Tchau. — Ela devolve o celular para Adam e diz: — Obrigada. Ficamos todos ali esperando que ela explique a situação, mas ela não o faz. Apesar de já ter desligado o telefone, continua ouvindo a voz de sua mãe. — Mia — digo. — O que aconteceu com Nana? Ela ergue os olhos e, ao falar, se dirige apenas a mim. — Ela foi atropelada por um carro. Está mal. Quebrou vários ossos. Ninguém sabe ainda a verdadeira gravidade dos ferimentos, mas ela teve hemorragia interna e bateu a cabeça, e... — Sua voz falha e eu a abraço com mais força. — Tudo bem, Mia. O que mais? — Os médicos ainda não sabem se ela vai sobreviver. Eu a aperto com mais força porque ela está a ponto de cair no choro, muito perto de perder o controle. Consigo sentir isso como se fosse comigo, no meu próprio corpo. Não posso lhe dar privacidade, mas posso me doar para ela. Meus braços terão que bastar por enquanto. — Vou voltar com ela — digo para Adam. Devia ter sido uma pergunta, afinal, ele é meu chefe. Mas não foi. Paolo está aqui. Só percebo sua presença quando ele fala: — Acabamos de verificar os voos de todas as principais companhias aéreas. Só tem voo decolando de Vegas a partir do meio-dia. Vocês vão chegar mais rápido se forem de carro. Adam olha de Paolo para mim. Pega no bolso as chaves do seu carro e me entrega. — Meu carro é mais rápido do que o Prius dela — explica ele. Pego as chaves, acomodo Mia sob meu braço e saímos. De volta a Los Angeles.


Capítulo 51 Mia P.: Quem é que sempre apoia você?

A viagem de volta até Los Angeles se passa num borrão. Rodovia. Deserto. Poeira. Meu pai me liga em algum momento para me dar notícias, e descubro que minha avó, de alguma maneira, saiu perambulando pela estrada do desfiladeiro de camisola. De madrugada. A motorista do carro que a atropelou era uma menina de dezessete anos, filha de um dos novos vizinhos que meus pais tinham acabado de convidar para jantar em nossa casa. Dou um relatório para Ethan: — Nana está na sala de cirurgia para estancar a hemorragia e ter o pulmão operado, pois foi perfurado. Ela quebrou o quadril, o nariz e uma perna foi completamente esmagada. Eles ainda não sabem se... — Mas não consigo dizer o resto da frase. — Vai ficar tudo bem, Cachinhos — diz Ethan com a voz doce, mas tão cheia de convicção que quase me convence. Ele segura minha mão e a aperta de leve. — Vamos fazer você chegar logo lá. E é o que ele faz. Mais rápido do que parecia possível, paramos diante da entrada do CedarsSinai. — Vou estacionar e depois procuro você — avisa ele. Depois ergue minha mão até seus lábios, e no mesmo instante as lágrimas que andei me esforçando tanto para não derramar saem de dentro de mim. — Já volto. Vá logo. Com a visão embaçada, entro correndo pelas portas automáticas e encontro meu caminho no meio de um labirinto de corredores esterilizados. Chego até a Unidade de Terapia Intensiva, que fica em um prédio totalmente diferente. De lá ligam com o intuito de me darem permissão para subir até o andar da ala de cirurgia. Quando as portas do elevador se fecham, meu corpo está encharcado de suor e não consigo mais conter as lágrimas. Sinto como se estivesse num pesadelo onde as letras se transformam num borrão diante dos meus olhos e onde cada passo parece exigir de mim um esforço sobre-humano. Finalmente encontro a ala de espera. Minha mãe está sentada numa poltrona almofadada de vinil, encarando um monitor que lista o nome e o estado dos pacientes. Ela se levanta ao me ver. Colidimos num abraço desajeitado, e as lágrimas da minha mãe molham minha bochecha. Dou um abraço apertado nela e ficamos paradas ali por um instante, depois minha mãe se afunda na poltrona e me puxa para que eu me sente ao seu lado. — Cadê o papai? — Foi pegar café — responde ela. — Sua avó está quase saindo da primeira cirurgia. Eles conseguiram estancar a hemorragia e consertaram a perfuração no pulmão. Acho que também fizeram o que era possível em relação aos ossos quebrados. Mas... — Sinto como se meu coração parasse de bater enquanto a espero terminar a frase. — Precisamos ver se ela vai acordar da cirurgia. O cérebro também foi prejudicado, e talvez ela não... recupere a consciência. Eu me lembro das fotos que ela me mostrou há pouco tempo e daquele seu olhar corajoso e esperto, a mesma expressão que já vi milhares de vezes. A garota que participou das marchas no


Alabama, que foi uma das únicas dezenove mulheres em todo o Estado de Nova York a receber um diploma de paralegal em 1963, ainda vive dentro da minha avó. Não consigo imaginar que essa pessoa possa acabar assim, que essa vida possa terminar de tal maneira. Apesar de já fazer anos que ela está indo embora aos poucos, ainda não me sinto preparada para me despedir de vez. — Ela vai acordar — digo. — Ela é tão forte... — E teimosa. Sorrio. — É verdade. Meu pai chega com uma caixinha de papelão cheia de copos de café. Ele a coloca em cima de uma mesa com tampo laminado arranhado e me dá um abraço forte. Depois afasta o cabelo do meu rosto e me dá um beijo na testa. — Cadê o Ethan? — pergunta. — Ele já vai subir. — Que bom que ele trouxe você — diz minha mãe. — Eu não podia suportar a ideia de você vir para cá sozinha. Sei o que ela quer dizer. Desde que saímos de Las Vegas, tenho a sensação de ter ficado mais vulnerável, de ter passado a vida inteira em uma espécie de bolha protetora que estourou com o acidente de Nana. Sei que é loucura, que não existe bolha alguma desse tipo, mas continuo imersa nessa sensação de fragilidade. — O que aconteceu? Por que ela escapou dessa vez? Minha mãe olha para o meu pai, mas nenhum dos dois diz nada. — O quê? O que foi? Meu pai se senta ao meu lado e coloca um copo de café nas minhas mãos. — Ela teve um surto hoje à tarde. Estava de novo falando sem parar sobre aquela garota. A que ela acredita que esteja roubando suas coisas. — Quem é essa garota? É uma das enfermeiras? — Não acredito que ela esteja roubando as coisas de Nana, mas consigo acreditar que minha Nana tenha enfiado isso na cabeça e não arredado pé. — O que ela estava procurando dessa vez? — As fotos dela — diz minha mãe, baixinho, e lança um olhar estranho e triste para mim. — E o filme de Selma. — Mas ela me deu essas coisas! — exclamo, e tomo um choque de realidade tamanho que é como se eu tivesse levado um soco no estômago. — Espere aí. A garota sou eu? Como pode ser? Mas não consigo negar que faz sentido. O jeito que ela vivia tentando me dar coisas, como joias, fotos antigas. O filme. Além disso, a última enfermeira que conheci foi Grace, uma mulher mais velha. Não sei como não cheguei a essa conclusão antes. Fico sentada, digerindo isso durante um tempo, sentindo uma dor fria no peito. É devastador me imaginar sendo reinterpretada dessa maneira na cabeça de Nana. Parece uma tremenda traição. Por outro lado, sei que de certa forma não passa de uma invenção, assim como minha bolha protetora. Embora seja completamente injusto, é tão verdadeira para minha Nana como suas outras ideias não confiáveis. Surge um médico de avental com a máscara de cirurgia abaixada na altura do queixo. No mesmo instante, a porta do elevador se abre e Ethan sai. Ao ver o médico, ele diminui o passo, mas minha mãe faz sinal para que ele se aproxime. — Bom, ela é uma guerreira — diz o médico. — Está acordando da anestesia.


Começo a soluçar imediatamente, de tão feliz que estou. Minha mãe aperta minha mão. — Ah, graças a Deus. — Mas ela ainda tem uma longa batalha pela frente, uma bastante difícil, considerando sua condição de demência senil. Ela deverá ficar com a perna imobilizada por pinos durante meses, e, por isso e pelos danos sofridos por sua coluna vertebral, provavelmente não vai voltar a andar. — Mas ela está viva — observa meu pai, e o médico assente. Ele então começa a detalhar seus ferimentos, que são mais horríveis e extensos do que eu havia imaginado, e em seguida informa sobre suas cirurgias, que parecem mais horrendas ainda (embora milagrosas também). — Quando podemos vê-la? — pergunto. — Podem ir agora mesmo, mas ela vai ficar desacordada por mais um tempo. Só é permitida a entrada de uma pessoa por vez no CTI e apenas por cinco minutos a cada hora. Sua avó ainda precisa de muitos cuidados, por isso precisamos manter o quarto o mais desobstruído possível. — Mia Moré — diz meu pai. — Por que você não vai primeiro? — Eu? Não devia ser mamãe? Mas minha mãe balança a cabeça e diz: — Não, ele tem razão. Você vai. Depois encontraremos um voo de volta para Las Vegas para você. — Não, não preciso v... — Mia — interrompe minha mãe. — Sua avó está em excelentes mãos e só podemos vê-la por cinco minutos a cada hora. Ela ficaria arrasada se soubesse que a privou de uma oportunidade. Você pode vê-la mais uma vez amanhã de manhã e depois voltar. — Não posso deixá-la. — A gente vai ligar pra você se acontecer alguma coisa, filha — diz meu pai. — E você vai voltar daqui a um dia, um dia e meio, mesmo. Ficaremos bem. — E sei que você não quer desapontar Adam — acrescenta minha mãe. — Tudo bem? Olho para meus pais e sinto uma onda tão forte de amor me invadir que praticamente me tira do chão. — Está bem — respondo. — Vocês venceram. — Acrescento, para Ethan: — Saio daqui a cinco minutos, OK? Ele assente e se senta em uma das cadeiras desconfortáveis. Quando me olha, seus olhos estão cheios de carinho e preocupação. — Vou te esperar bem aqui — diz ele. — Pelo tempo que for necessário. Sigo a enfermeira por um corredor comprido, em cujos dois lados há quartos envidraçados de CTI. Ela afasta a cortina do quarto da minha avó e dá um tapinha no meu ombro assim que eu entro. — Você vem de uma linhagem de gente forte, minha querida — diz ela. Mas, neste instante, me sinto qualquer coisa, menos forte. Tenho a impressão de que meu corpo foi revirado do avesso, como se todos os meus nervos estivessem expostos, doloridos. Tremo ao me aproximar da cama de Nana. Lágrimas caem dos meus olhos, meu nariz está escorrendo. Mesmo com tanto medo do que vou ver, meus pés se movem pelo chão de linóleo até a figura deitada encolhida parcialmente coberta por tubos, fios e curativos. Essa pessoa não se parece em nada com Nana. Seu rosto está inchado e tem um brilho estranho, distorcido. Suas pálpebras estão roxas devido às contusões, sendo que esta é praticamente a única parte visível sobre a máscara de oxigênio e o lençol branco que foi puxado até seu queixo. Fico ali parada, fazendo um registro mental doloroso da armação de metal envolvendo sua perna,


dos curativos em seus braços, em seu peito, o sangue brotando pela gaze. Quero tocá-la, beijá-la, mas estou com medo de machucá-la apenas com minha respiração. Arrastando uma cadeira até sua cama, noto seu braço pendendo da cama. Passo os dedos por uma parte da sua pele na região do pulso e apoio a mão dela de volta no lençol. Fecho os olhos e rezo por ela, mandando todo o meu amor e toda a minha força para o seu corpo. “Mia”, disse ela para mim um dia desses. “Tudo passa rápido demais, mas você nunca se sente diferente por dentro.” Ela colocou a mão no meu peito, na altura do coração e falou: “Temos a mesma idade. Aqui dentro.” Encosto a mão na altura do meu coração, sentindo a vida dela batendo dentro de mim. Depois me levanto e vou encontrar Ethan.


Capítulo 52 Ethan P.: Termine a frase. Sentir pele na pele é _____?

– Aonde estamos indo? — pergunta Mia. Essa é a prova do quanto ela ainda está chocada por estarmos quase chegando ao meu apartamento. Desde que saímos do hospital ela está quieta, e pareceu mais importante respeitar seu estado de ânimo do que abordar certa logística, por isso eu ainda não tinha contado meu plano pra ela. — Pra minha casa. — Paro o Bugatti de Adam ao lado da calçada. Essa deve ser a primeira vez que este carro é estacionado assim. — Está quase na hora do rush, por isso pensei que a gente pudesse fazer um pit stop aqui por algumas horinhas. — Desligo o motor, e sua vibração grave se silencia. — Você está exausta, Mia. Precisa descansar. E também não comeu nada o dia inteiro. Ficaria mais tranquilo se você comesse alguma coisa. Ela fica me olhando por bastante tempo e não consigo descobrir se está preocupada por voltar para Vegas, com Nana ou sei lá o quê. Mas ela assente e diz: — Beleza. Parece uma boa ideia. Meu apartamento está vazio e limpo. Mia para logo depois de passar pela porta e olha ao redor. — Seu apê está muito diferente — diz ela, depois de um longo instante. Deve parecer mesmo. Eu já me acostumei com os móveis novos — com as flores frescas, os tapetes coloridos e os quadros abstratos nas paredes —, mas imagino a impressão que isso deve estar causando em Mia, considerando o que ela viu da última vez em que esteve aqui. — É obra de Isis — digo, deixando a chave do carro de Adam em cima da mesa. — Ela fez a gente virar civilizado. Os dois vão passar a noite fora, por isso o apartamento é só nosso hoje. — Eu me dou conta de que devo estar passando a ideia de que estou querendo que role alguma coisa hoje, então logo acrescento: — Achei que você iria gostar de um pouco de tranquilidade. Eu a levo até o sofá e faço com que se sente. Então abro o zíper de suas botas e retiro-as, colocando-as de lado. Mia me observa com um olhar cansado. — Pra que tudo isso? — pergunta. Sinto meu rosto ficar um pouco mais quente, mas ignoro meu constrangimento. Não preciso mais disfarçar. — Vou cuidar de você. Preciso fazer isso. A necessidade de tranquilizá-la está me consumindo desde que eu a vi ao telefone em Las Vegas. Ela assente, e puxo uma manta macia que está debaixo do encosto do sofá para envolvê-la. Trago um copo d’água e coloco seu celular numa almofada ao seu lado. Então apago a luz, deixando aceso apenas o pequeno abajur da mesa no canto. — Vou preparar alguma coisa para comer — aviso. — Me dê dez minutos e volto para ficar com você. Isis não recebeu o nome de uma deusa à toa. Antes de sair com Jason, ela abasteceu a geladeira.


Encontro exatamente o que eu esperava. Pão fresco. O tipo certo de queijos gourmet. Dez minutos depois já estou com o famoso queijo quente da minha mãe preparado. Lavo uns morangos e faço chocolate quente, depois levo tudo para Mia. Ela está deitada quando volto para a sala. Por um segundo, penso que está dormindo, mas então ela se senta, joga o cabelo para trás e sorri. — Isso está com um cheiro muito bom, hein. — Espere só até provar. — Eu me sento ao seu lado e lhe entrego o prato. — Boa sorte em desmantelar isso aí — digo, me lembrando do hábito que ela tem de desmontar sanduíches. — Vai dividir comigo? — Como o que sobrar. Dividimos o sanduíche, o chocolate quente e os morangos — cada uma dessas coisas parecendo mais doce que a outra, com o gosto ainda mais destacado na escuridão. Esse momento parece familiar, como a tarde que passamos no banco do parque depois de irmos à Winning Displays, só que ainda melhor. Eu estava me esforçando tanto para deixar de gostar dela naquele dia. Mas agora não existe nenhum impedimento entre nós. — Jason procurou se informar — afirmo, colocando o prato e a caneca vazios na mesa de centro. — Ele disse que sua avó está nas mãos dos melhores especialistas do mundo. Ela vai ficar bem, Cachinhos. É forte. Uma guerreira, que nem você. Mia puxa o cobertor e se aninha junto a mim. Fico sem ar com a naturalidade com que faz isso. — Eu que sou igual a ela — diz, e depois acrescenta: — Obrigada, Ethan. Eu a puxo mais para perto do meu peito, e um de seus braços enlaça minha cintura. Ficamos sentados assim por alguns instantes, sentindo como nos encaixamos dessa nova maneira. Pego um dos seus cachos e o enrolo no meu dedo e imediatamente percebo que essa se tornou uma das coisas que mais gosto de fazer. Ouço um barulho vindo da rua. É um carro passando, tocando uma batida eletrônica. Pessoas andam por ali, tendo conversas animadas e rindo. — Será que estraguei tudo pra nós dois no trabalho? — pergunta Mia. Troquei mensagens de texto com Rhett durante o dia inteiro. Ele avisou que estão tocando o estande pra frente. Mas não quero que Mia fique pensando na Boomerang, nem por um segundo. — Não tô nem aí para o trabalho. — Ah, não acredito. — Aqui é onde quero estar, Mia. E não foi isso que senti quando estava no estande de manhã. Esse pensamento me surpreende e, de repente, volta a sensação que tive no bar na noite passada, de que a bússola da minha vida estava girando sem rumo. Agora, porém, sinto que está girando mais devagar, recomeçando aos poucos a apontar para o norte. Sei que Mia tem a ver com isso, com o fato de eu estar reencontrando meu caminho. Mas não é só isso: estou prestes a entender mais uma coisa também. Estou quase lá. Mia ergue os olhos para mim e a sensação desaparece, cedendo espaço apenas para ela. — Não quero voltar ainda — diz ela. — Então não vamos voltar. Vou ficar aqui o mês inteiro se quiser. — Mas assim a comida ia acabar. — Sempre podemos pedir pizza. — As pessoas provavelmente ficariam preocupadas, achando que nos convertemos a algum culto de gente que só come pizza.


— As pessoas que se danem. Os cultos de gente que só come pizza são demais. — E o que a gente iria fazer esse tempo todo? — Ah, acredite em mim, eu sei o que a gente poderia fazer, Cachinhos. Consigo pensar em um milhão de coisas que eu gostaria de fazer com ela se a gente passasse um mês inteiro sozinhos. Já pensei em tudo isso, sem parar, observando a foto dela ou olhando pra ela sentada diante de mim no trabalho. Mas depois me dou conta de que agora pode não ser exatamente o melhor momento para revelar minhas ideias pra ela. Com tudo o que está acontecendo na vida dela, parece falta de educação dizer que quero vê-la estremecendo embaixo de mim. Seus olhos se fixam na minha boca. — Ethan... Droga. Parece que ela está pensando o mesmo que eu. — Logo mais, Mia. Prometo. — Beijo sua testa. — Temos tempo. Não vou fazer isso só para que ela esqueça sua dor. Em vez de se aninhar de novo ao meu corpo, ela se inclina e toca os lábios nos meus. Eu a beijo e a puxo para mais perto. Ela tem gosto de morango e chocolate quente, doce e perfeito. Mia passa o joelho por cima da minha perna e se aninha junto à minha coxa. Meu autocontrole, que já estava por um fio, agora vai para o beleléu. Puxo a perna dela pra cima de mim, movendo seus quadris para que ela fique com uma perna de cada lado do meu corpo. Cumpriu direitinho sua intenção de não se aproveitar dela, hein, Ethan? Pois é, mas estou caidinho por ela. Por vê-la como a imaginei um milhão de vezes. Por seu perfume doce e pelo modo como seus cachos pretos e macios roçam minhas bochechas. Suas mãos encontram os botões de cima da minha camisa. — Quero sentir sua pele — diz ela. Sorrio. — Beleza. Ela ri, como se eu tivesse dito alguma coisa engraçada. A sensação que tenho é que ela demora uma eternidade para abrir os botões, mas finalmente tira minha camisa. Mia senta-se reta e me analisa com seu olhar de fotógrafa, só que de um jeito ainda melhor, como se nunca fosse se satisfazer só com uma foto. Suas mãos deslizam em seguida pelo meu corpo. Pelo meu peito e meus ombros, e deixo, até que não consigo mais ser um observador passivo. Eu me inclino e beijo sua boca, enquanto minhas mãos se enfiam por baixo da sua camisa. Puxo seu sutiã e o fecho se abre. Eu abaixo a cabeça, levanto a camisa dela e exploro seu corpo com a língua, tendo certeza de que eu poderia ficar fazendo isso — sentindo seu gosto, tocando-a, possuindo-a — para sempre. Mia solta um gemido e arqueia as costas. Ela inclina o corpo na minha direção, quase sem ar, os olhos brilhando de surpresa ao encontrarem os meus. Depois, ela olha para baixo. Vê-la olhando pra mim — pra nós dois, juntos — é sem a menor sombra de dúvida a coisa mais sensual que já vi. — É isso o que você faz comigo, Cachinhos. — Ouço eu mesmo dizer. — Que bom. Ela sorri e se abaixa, dando beijinhos suaves em torno dos meus lábios. Esfrega os quadris em mim, e minha mente se esvazia de vez, ficando absorta em uma única necessidade. Com um único objetivo. Pode ser que eu tenha mexido com ela antes, mas agora vou mexer com o universo inteiro dela. Meus dedos encontram o botão de cima da calça dela. Eu o abro e, nesse instante, há um clique no


meu cérebro. Diminuo o ritmo quando um fio de juízo volta a mim, e minhas mãos param onde estão. — Mia — digo. Merda, merda, merda. Vamos, Vance. Faça a coisa certa. — Cachinhos... A gente não devia fazer isso. Ainda não. Agora não. Suas costas relaxam e ela se aconchega junto a mim, enfiando o rosto na curva do meu pescoço. Eu a abraço com força. Sei que não preciso dizer mais nada. Que a gente se empolgou demais. Isso acontece toda vez que nos tocamos. Mas quero ter certeza de que ela entendeu. — Mia — digo, acariciando seu cabelo, afastando-o do rosto. — Você me disse uma coisa ontem no bar. Disse que eu não escolhi você. Que toda vez que a gente fica junto é por causa das circunstâncias, porque por acaso estamos no mesmo lugar na mesma hora. E você tinha razão. As coisas tem sido assim, mas você merece mais do que isso. E vou lhe dar mais do que isso. Quero que você saiba. Quando a gente voltar a ficar junto, não vai ser por acaso. Vai ser porque nós dois escolhemos. Está bem? — Está bem. — Aos poucos ela desliza de leve para o lado, ainda encostada em mim, e diz: — Mas na verdade você já escolheu, Ethan. Voltou comigo. Você está aqui comigo. Fico ali abraçado com ela, pensando por bastante tempo no que ela disse. Em como às vezes já estamos fazendo a coisa certa, só que ainda não sabemos. Muito tempo depois de ela cair no sono e não haver mais barulhos na rua, penso em como, às vezes, a única coisa de que precisamos é sabedoria para enxergar o que esteve na nossa frente o tempo todo.


Capítulo 53 Mia P.: Qual foi a melhor noite da sua vida?

— Primeiro, precisamos tirar essa sua roupa molhada — diz Ethan. — E tenho algumas ideias do que fazer depois disso. Ele desliza a calcinha pelas minhas pernas e ergo o quadril pra ajudar. Depois me sento, abro o fecho do sutiã e o jogo em algum canto do cômodo. Uma onda de avidez toma conta de mim. É como se esta noite a sensação de estar bêbada viesse em ondas, e agora está chegando a maré alta. Ethan se levanta do sofá com minha calcinha na mão. O cobertor cai no chão, mas não tô nem aí. — Espere... — Tento segurá-lo, mas ele já está seguindo pro outro lado da cozinha. Acho que não sou a única que está na maré alta. — Aonde você vai? — A gente precisa secar essa roupa — diz ele. Ouço ele bater em alguma coisa e soltar um palavrão, mas logo ele está de volta. Murmura algo que parece “torradeira”, mas estou focada demais em seus lábios carnudos e seu rosto masculino perfeito para entender suas palavras. Eu me sento e o puxo na minha direção, e todo o meu corpo está praticamente vibrando de desejo. Quero mais dos seus lábios, mais das suas mãos. Quero fazer com que ele se sinta tão bem quanto me fez sentir. Ele me beija e sua língua provoca meus lábios, deslizando devagar, brincalhona, para dentro da minha boca. Solto um gemido porque estou ansiando por ele, e não me lembro de já ter sentido isso, como se meu corpo tivesse virado um fio elétrico soltando faíscas. Com os lábios ainda pressionados nos meus, ele me acomoda no sofá. Finalmente, penso, desesperada para sentir seu peso, todo o seu corpo maravilhoso sobre o meu. Mas ele se afasta para beijar meu pescoço e seus dentes roçam a cavidade do meu pescoço, enquanto sua língua e suas mãos exploram cada canto do meu corpo. — Nossa, Cachinhos — diz ele, roçando os lábios no meu mamilo. — Nunca vi nada mais lindo que você. Mais uma vez tento segurá-lo, morrendo de vontade de mais. De tudo o mais. Mas, de novo, ele afasta minha mão. — Ainda é sua vez — avisa ele, e sua boca e sua língua começam uma jornada lenta, enlouquecedora, pelo meu corpo. — Não é justo — reclamo. Mas sua boca roça meu umbigo e ele separa minhas coxas com suas mãos aquecidas. — A vantagem do lance é minha — diz ele, depois abaixa a cabeça ainda mais. Acordo na cama de Ethan e, dessa vez, sei onde está minha calcinha: infelizmente, ainda no meu


corpo. Dá para notar que ainda está de noite, mas não tenho ideia de por quanto tempo dormimos. Eu me lembro vagamente de Ethan me levando para o seu quarto, me ajudando a tirar a roupa e me dando uma de suas camisetas para usar como pijama. E me lembro de deitar com a cabeça em seu peito enquanto os últimos instantes da nossa primeira noite juntos passavam pela minha cabeça. Naquela noite ele não conseguia tirar as mãos de mim, me provocando com a língua, me dando prazer sem parar, até parecer impossível. Era como se meu corpo tivesse sido substituído por outro, que servia apenas para reagir às carícias de Ethan. Agora ele está deitado ao meu lado e um raio de luar ilumina seu maxilar forte, esticando-se também a ponto de atingir seu braço e seu ombro musculosos. Seu peito sobe e desce , e seu calor me cerca, junto de seu cheiro delicioso de fogueira e sal. Precisamos voltar pra Las Vegas, mas não consigo mexer nem um dedo. Ou não quero. Então, me aproximo mais dele e roço os lábios em seu pescoço, suspendendo o corpo acima do dele. — Acorde — sussurro, e dou uma lambida em sua orelha. Preciso que ele esteja acordado, que esteja totalmente comigo, do mesmo jeito que quero estar com ele. — Mia? — Ele abre os olhos e sorri pra mim. Não me lembro de já ter visto coisa mais linda que essa. — O que você tá fazendo? — Escolhendo — respondo, e depois lhe dou um beijo. O gosto dele ainda é doce, como o dos morangos que me deu. Meu corpo, minha mente, cada parte de mim o deseja. Chega de ser a Bela Adormecida. — Não posso mais esperar. E você? Ele ri e me puxa pra mais perto. — Putz, não. Nós nos beijamos sem parar, até eu me sentir bêbada novamente, da mesma forma que naquela primeira noite, como se cada molécula do meu corpo quisesse colidir com cada molécula do corpo dele. Enfio a mão por baixo do lençol, roçando os dedos no tecido macio da cueca boxer de Ethan. Meu toque vai ficando mais insistente e ele solta um gemido. Esse som me faz perder a cabeça. Sou capaz de enlouquecer se não puder tê-lo. Não só agora, mas sempre. Deslizo pra cima dele e me sento com uma perna de cada lado do seu corpo, minhas coxas apertando seus quadris. Com os olhos fixos nele, tiro a camiseta que me deu pra vestir. Depois apoio meu corpo no dele, roçando os seios em seu peito, pele contra pele. Passo a língua pela cavidade deliciosa de sua clavícula e vou subindo por seu pescoço, até alcançar seus lábios. Fico absorta ali, sentindo seu gosto, seu corpo embaixo do meu. Deslizo o quadril pra baixo, encaixando nele. Ele respira fundo, –— Espere, Mia — diz. — Preciso te dizer uma coisa antes. Mordisco seu mamilo. — O quê? Ethan inclina meu queixo para cima para que eu possa olhar para ele. — Eu... eu escolhi você. — Eu sei — respondo. — Você provavelmente já me disso isso umas cem vezes, mas fui idiota demais para prestar atenção. — Mas preciso dizer isso com todas as letras. E preciso que você saiba que não tem nada a ver com... — Ele passa as mãos pelo meu corpo e eu estremeço. — Isso.


— É mesmo? — pergunto, pressionando meu corpo no dele. — Nadinha? Ele segura meu quadril e me puxa pra baixo com mais força, fazendo uma onda de prazer atravessar meu corpo inteiro. — Está bem. Nada, não. Só que é muito mais do que isso. É você, Cachinhos. O pacote completo. O jeito que você fica com a câmera na mão, como se fosse capaz de olhar através das pessoas, ver o que elas são de verdade. E esse seu cabelo louco e gigantesco. Essa sua risada. Toda a sua esperteza. Tudo. Escolho tudo isso. Quero dizer o mesmo para ele, dizer como amo sua determinação, sua generosidade. Seus cílios. Seu nariz reto perfeito. Sua inteligência e sua lealdade. Saber que posso confiar completamente nele. Quero dizer, e vou. Vou tentar dizer isso pra ele todos os dias. E espero que esses dias se estendam até o fim da minha vida. Mas, por enquanto, apenas digo “obrigada” e lhe dou um beijo, torcendo para que entenda que meu beijo contém todas essas palavras. — De nada — diz ele, e suas mãos deslizam minha calcinha. — Agora vamos tirar isso. Rindo, terminamos de tirar a roupa um do outro. Ethan encontra uma camisinha e a coloca, depois me puxa de novo pra cima dele. Nós ficamos nos beijando por muito, muito tempo, abraçados sob o raio intenso do luar. Sugo sua língua, e os dois soltam um gemido e, por isso, rimos de nós mesmos. Mas aí ele olha pra mim, e seus olhos azul-escuros brilham com tamanha intensidade. — Eu quero tanto, tanto você, Mia — diz ele. — Não consigo mais esperar. Eu me sinto derreter por dentro, como se tivesse virado fogo líquido. Tenho vontade de me derramar em cima dele, de envolver nós dois. — Então não espere mais — digo. Em algum passe de mágica, nossos corpos se encontram de forma perfeita e ele entra devagar em mim, puxando meu quadril para baixo e preenchendo cada parte do meu corpo. — Muito bem, com certeza a gente não fez isso antes — digo, ofegante. Então começamos a nos mexer juntos e fico sem palavras. Agora há apenas a junção impressionante do corpo dele e do meu, esse ritmo ondulante perfeito, com altos e baixos, como se fôssemos um elemento da natureza. Feitos um para o outro. Ele me acaricia e seguro uma de suas mãos, puxando seus dedos compridos até a minha boca. Porque quero ainda mais dele. Porque não tenho certeza se tenho o bastante para satisfazer esse desejo que ele fez brotar em mim. Ele me rola de lado e me prende ao colchão. Tenho vontade de chorar ao sentir como é bom tê-lo em cima de mim, como ele é deliciosamente sólido e ridiculamente sensual. Ele desliza uma das mãos entre nossos corpos, e ele começa a se mexer todo, sua língua dentro da minha boca, seu quadril pressionando o meu, seus dedos urgentes, descrevendo em círculos. — Mas era pra ser a sua vez — tento dizer, porém meu corpo é egoísta: ergue-se ao encontro do dele, ansiando por mais. — Mia — geme Ethan. — Você definitivamente... não precisa... se preocupar com isso. Eu o envolvo com os braços, puxando-o para mais perto. Nossos corpos estão pegando fogo, soltando faíscas, e sinto outra vez aquele sol nascer dentro de mim, aquele calor irradiante e cortante. Essa sensação se intensifica cada vez mais, e então todo o meu corpo treme, preenchido com a sensação de prazer que comprova como isso é bom. Como ele é bom. Então, inclina-se para a frente e atinge o ápice, me imergindo numa corrente elétrica intensa, esvaziando-me de tudo até eu me perder dentro dela, arder, tremer e me estilhaçar em um milhão de pedacinhos cintilantes. Ele geme, e seus movimentos ficam mais intensos e concentrados. Uma camada de suor brilha em


seu ombro, e sinto o gosto salgado da sua pele. Seu ritmo se intensifica e ele enfia o rosto no meu pescoço, dizendo meu nome. A sensação de Ethan buscando o próprio prazer é mais do que consigo suportar, e meu corpo se eleva com o dele. Meu tremor o faz tremer. Seus gemidos me fazem gemer. Por fim, ele fica rígido, e seus braços prendem meu corpo, me contendo. Ele estremece longa e profundamente, e tenho a sensação de que é o meu corpo que está estremecendo. Aos poucos, vamos parando de nos mexer, nossa respiração vai se aquietando. Meu coração começa a bater numa velocidade enquadrada no padrão normal. — Uau, Cachinhos — murmura ele. Dou risada e depois o abraço. — É — digo. — Isso aí, dupla.


Capítulo 54 Ethan P.: Você vai atrás dos seus sonhos ou de fato os alcança?

– Por que você não toma um banho primeiro? — pergunto. — Daqui a pouco entro com você no chuveiro. Mia está sentada, nua e maravilhosa, e sorri com ironia. — Banho? Por que preciso tomar banho? Tenho que rir, porque o cabelo dela está gigantesco. — Achei que talvez, hã... — Faço um gesto englobando a montanha negra de cachos ao redor de sua cabeça. — Não sei muito bem como descrever o que está acontecendo aqui. Acho que nem Diana Ross, nem a Noiva do Frankenstein chegariam perto disso, para ser sincero. Mia me dá um soco de brincadeira. — Culpa sua. — Então dá uma palmadinha no cabelo, sentindo a dimensão do que rodeia sua cabeça. — Uau. Está mesmo impressionante. Acho que vou apelidar esse estilo de Hat-trick. — Você sabe o que quer dizer hat-trick, no mundo dos esportes? — Claro que sei — responde ela, descendo da cama. Para diante da porta do banheiro e olha para trás, sorrindo. — Só que o mais importante é que sei qual a sensação disso. Bom, isso encerra o assunto. Já posso morrer feliz. Meu trabalho foi concluído. Só que não. Pego meu celular, que está em cima da mesinha de cabeceira, e digito duas mensagens de texto rápidas — uma para Beth e outra para Matt —, depois envio uma para Rhett. Ethan: E aí cara. Como tá o estande?

São sete da manhã, mas ele me responde na mesma hora. Rhett: Mais ou menos. Estamos tentando.

Isso não parece nada bom. Meu lado do estande está em ordem, mas sinto um nó no estômago. Obviamente, o de Mia não deve estar. Ethan: Continuem tentando. Rhett: Pode deixar. E Mia?

Eu me sinto tentado a responder que está bastante satisfeita, mas sei que não é isso o que ele está perguntando. Ethan: Aguentando as pontas.


Aviso que estaremos de volta às onze, depois vou para o banheiro, encontro Mia no chuveiro e me dou conta de que devia ter dito meio-dia para Rhett. Ah, que se dane: eles que esperem. Debaixo do chuveiro, abraço Mia. Ela está relaxada, mas cansada — exaurida pelo dia de ontem, dá para perceber. Beijo-a, brincando com seus lábios macios, enquanto minhas mãos exploram seu corpo. Quero fazê-la se sentir bem de novo, mas ela balança a cabeça. — Quem sabe daqui a pouquinho? — diz Mia. — Estou toda dolorida. — Sinto muito. Não sinto nada, na verdade. — Ela ri, mas prendo o som de seu riso com outro beijo e digo: — Conheço algumas técnicas de cura... Hoje à noite, Cachinhos. Ou logo mais, se a gente acabar não saindo desse chuveiro. O sorriso dela aumenta. — Está bem, hoje à noite. Pode contar com isso. Ela está tão insinuante e bonita assim, que não consigo resistir. Seguro seu rosto entre as mãos e fito seus olhos verdes. — Mia... fizemos tudo errado: no trabalho, naqueles encontros que não queríamos ir... Mas isso não muda nada. Não muda em que ponto estamos. Agora você é minha. Aquilo soa meio possessivo e psicótico, mas é o que sinto. Sinto vontade de virar um campo humano magnético ao redor dela. Quero lhe entregar tudo o que eu puder — tudo — para deixá-la feliz e segura. Na verdade, ela é tão minha quanto sou dela. Mia balança a cabeça e sorri. — Eu já era sua, Ethan. No instante em que colocou minha calcinha no forno, eu soube que você era a pessoa certa para mim. — É mesmo? Está bem, confesso que esse foi um gesto inspirado. A água do chuveiro começa a esfriar, portanto fecho a torneira e enrolo uma toalha em Mia. Ela olha para cima ao ouvir a porta de um armário batendo na cozinha. — Tem alguém aí. — Ela encara a porta e depois engasga quando uma gargalhada explode do outro lado. — É a... Beth? — Pra mim está mais parecendo Sky, mas você deve saber melhor que eu. Mia se afasta depressa de mim, abre a porta e vai correndo até a sala. Pego outra toalha, amarro-a na cintura e vou atrás dela. A conversa no apartamento é interrompida. Por um segundo, todos ficamos apenas imóveis ali. Eu e Mia seminus. Skyler na mesa da cozinha. Isis está prestes a quebrar um ovo dentro de uma tigela sobre o balcão. Beth está no sofá (coberto de vestidos, calças e sapatos). Jason está no meio de tudo aquilo parecendo um animal assustado que não sabe para onde fugir. — O que é isso? — pergunta Mia, puxando a toalha mais para cima. — O que estão fazendo aqui? Skyler ergue uma embalagem de café. — Trouxe café com leite pra todo mundo. Beth estende os braços como se estivesse apresentando o sofá. — Eu trouxe o de sempre. Vários modelitos fabulosos. — Estou preparando panquecas — avisa Isis, da cozinha. Jason dá de ombros, levantando o canto da boca num sorriso envergonhado. — E eu só moro aqui. Mia olha para mim, sem entender nada.


— Pareceu um bom momento para chamar a galera — comento. Sou recompensado com um sorriso perfeito antes de ela se trancar no meu quarto com as amigas, sendo surpreendida por inúmeras perguntas e condolências. — Caramba — diz Jason, quando estamos a sós. — Elas parecem um furacão de categoria cinco. Naquele momento, porém, estou grato demais por ele estar ali — por todos eles estarem ali — para fazer alguma piada. — Valeu, J. — Não precisa agradecer. Não é toda segunda-feira que tenho a oportunidade de dirigir um Bugatti até Malibu. Jason vai devolver o carro de Adam para mim hoje à tarde. — Por nos deixar ficar aqui no apartamento ontem à noite, foi o que quis dizer. E por ficar de olho no estado da avó dela. — Como eu disse, não precisa agradecer. — Está bem. Eu me viro e paro, me dando conta de que não posso entrar no meu quarto e que, portanto, não tenho como me vestir. — Que droga, hein — diz Jason atrás de mim. Mas não é uma droga: estou adorando que Mia está aqui, rodeada pelas suas amigas, as antigas e a nova. Jason senta-se à mesa. — Puxe uma cadeira, cara. Pronto. Tome um desses Mocha-Chai-sei lá-que-porra-é-essa. Eu me sento e pego um dos cafés. — Então — diz ele. — Pelo visto você violou o código de conduta estabelecido pelo seu chefe. Código de conduta idiota da porra que quase me custou Mia. — Talvez ontem à noite sim — respondo. — Talvez hoje de manhã também. — Aham — diz Jason, nem um pouco surpreso. — E essa — ele agita a mão no ar, procurando as palavras certas — transgressão profissional... — Não houve nada de errado nisso. Nada. — Estou sabendo, cara. Estou mesmo. Já estava na hora de vocês dois se acertarem, mas minha pergunta é: vocês só têm mais uma semana de trabalho, desculpe, de estágio. Vão esconder do Blackwood o que tá rolando? — Ih, tarde demais pra isso — respondo, me lembrando de como abracei Mia na frente de Adam ontem. Ele não é nenhum idiota. Sabe o que está rolando. Jason toma um gole do café. — Você não parece muito preocupado com isso. — Estou, por ela. — E por você? — Estou ótimo. Muito bem mesmo — respondo. Então conto sobre a conversa que tive com Matt no Colorado. Sobre o programa de pós-graduação em psicologia esportiva, ao qual vou me candidatar. Acabei de decidir isso, na verdade, esta manhã mesmo. Ou talvez tenha sido em algum momento durante a noite passada em que estava abraçado com Mia. Mas, ao conversar com Jason, ouço a voz de alguém que tem certeza da sua decisão. Alguém com uma confiança inabalável no caminho que escolheu trilhar. Fazer uma pós sempre pareceu o certo, eu só precisava encontrar a que mais se encaixava comigo. — Acabei de mandar uma mensagem para Mike — digo, concluindo. — Vou falar com o contato


dele. Agitar esse lance o mais rápido possível. Jason se recosta na cadeira e me observa com atenção. Há um sorriso em seus olhos. Pra ele, isso também parece certo, mas meu amigo balança a cabeça. — Psicologia, é? Sorrio. — Aham. — Quer saber de uma coisa? — diz ele, cruzando os braços. — Vou ficar puto da vida se você virar doutor antes de mim. Uma hora mais tarde, depois de Mia conversar com os pais e descobrir que a situação de Nana está estável, seguimos para Las Vegas. Sky e Beth nos deixam no aeroporto e chegamos a tempo de pegar o voo das dez da manhã. E, com isso, chegamos no hotel logo antes do meio-dia. Enquanto atravessamos o cassino para chegar no centro de convenções, sinto o medo de Mia aumentar a cada passo. Durante o voo, pensamos em maneiras de corrigir o arquivo corrompido do filme no qual ela passou as últimas semanas trabalhando. Fizemos até mesmo uma lista de pessoas que poderiam nos ajudar nisso: Zeke, o cara que programou o jogo. Gayle, o especialista em TI da Boomerang, que supostamente chega essa manhã à feira. E, em um ato de suprema magnanimidade, sugeri o nome de Brian. — Fique sabendo, Cachinhos, que ainda não está terminado — falei para ela. Ela me deu um sorriso forçado, mas não dava pra fugir da realidade: não tínhamos muito tempo. E agora, ao apresentarmos nossos crachás ao pessoal da segurança na porta do evento, temos menos tempo ainda. Daqui a apenas seis horas, milhares de pessoas tomarão conta desses corredores e entre elas estará Adam Blackwood e seus investidores de primeiro gabarito. — Ai, meu Deus — diz Mia quando avistamos nosso estande. Meu lado está aceso, o gramado verde-claro sob um céu azul. Não consigo ver quem está jogando, mas o bumerangue assovia pelo céu e depois destrói um coração, que explode provavelmente numa chuva de faíscas vermelhas. Mesmo de longe o jogo parece irado, mas nem consigo curtir isso. As paredes do lado de Mia estão brancas, imaculadas: e não deviam estar assim. Quando chegamos ao estande, Mia é rodeada por Paolo, Sadie e Pippa. Todos falam ao mesmo tempo, o que se parece com o caos que estava rolando no meu apartamento hoje de manhã, só que mais frenético e estressado. — Ficamos acordados a noite inteira — diz Pippa. — Tentamos tudo, mas nada deu certo. Sadie segura um pendrive com USB. — Arrumamos novos arquivos com suas imagens, mas não são compatíveis com esse sistema. — Sua avó tá bem? — pergunta Paolo. Sinto vontade de dizer para todo mundo calar a boca, mas esse é o trabalho de Mia. O silêncio dela finalmente faz efeito neles, que olham para baixo, parecendo culpados por terem bombardeado Mia com perguntas e informações. — Obrigada — diz ela. — Obrigada por... terem feito tudo isso. “Tudo isso” não parece nada aos meus olhos, embora eu tenha certeza de que eles passaram as últimas vinte e quatro horas tentando. Mia olha para mim. Percebo que ficou um pouco pálida, mas sua voz sai calma quando diz:


— Vamos usar só seu lado, Ethan. Vamos mandar todo mundo pra lá. O jogo é sensacional e... — Não — digo. — De jeito nenhum. — É tarde demais. — Não é, não. Você se esforçou muito pra fazer isso aqui. — Não vou deixar que ela falhe. Não posso deixar que isso aconteça, é uma impossibilidade física. Eu me aproximo dela e afasto um cacho dos seus olhos. — A gente vai dar um jeito, Mia. Juntos. Percebo que ela quer acreditar no que digo, mas pergunta: — Em seis horas? — Ah, sim. Em seis horas. — Beijo sua testa e depois tiro o paletó e o jogo em cima de uma das mesinhas de centro. — Chega dessa besteira de competição. Vamos fazer isso.


Capítulo 55 Mia P.: Feliz nos bastidores ou apenas sob os holofotes?

Quinze minutos antes de as portas da convenção serem oficialmente abertas, estou debruçada sobre um vaso sanitário tentando não vomitar a quesadilla de frango que dividi com Sadie e não estragar meu vestido e o cinto Gucci caro que minha equipe de estilistas me emprestou em Los Angeles. Elas ficariam mais mortificadas com o estado do meu cabelo, na verdade. Estamos no alerta 5, mas os ponteiros começam a apontar para o vermelho. O suor de nervosismo faz isso com a pessoa, assim como o suor causado por arrastar equipamentos pelo chão úmido de um centro de convenções que ficou ainda mais pegajoso com a hiperventilação de centenas de expositores ansiosos. Por sorte temos uma pequena floresta de palmeiras envolvidas em néon para absorver a quantidade extra de gás carbônico. Respiro fundo algumas vezes, me levanto e vou cambaleando até a pia. Ao meu lado há uma garota vestindo uma fantasia de foguete feita de feltro e que foi enfeitada com corações e um cinto de LCD onde as palavras “Lançamento do Amor” deslizam. — O que você acha? — pergunta ela, sorrindo para mim pelo espelho enquanto retoca o gloss cor de bronze. — Está sutil demais? — Ah, acho que nossa plateia é sofisticada o suficiente para apreciar a sutileza. Limpo o suor do meu lábio superior e passo as mãos pelo cabelo, o que o deixa um trilhão de vezes pior. Um dos lados está mais ou menos cacheado e mais ou menos liso. O outro está emplastado em cima, mas há cachos embaixo. Meu cabelo tem uma personalidade estilo “O Médico e o Monstro”, mas sorrio mesmo assim, relembrando a noite e a manhã que passei com Ethan. — Qual é o seu? — pergunta a garota, e levo um segundo para me dar conta de que ela está se referindo ao estande. — Boomerang. — Ah, ouvi dizer que está um arraso — comenta ela. — Se for verdade, é um milagre. Passamos seis horas: eu, Ethan, Paolo, Sadie e Pippa arquitetando um plano e depois colocando-o em ação. Dividimos os estandes e fizemos uma nova configuração, empurrando as paredes para o lado de fora, formando uma espécie de coração com os dois bumerangues. Depois juntamos minhas mesas de centro e colocamos na frente delas os bancos pretos e elegantes de Ethan. Ficou incrível, graças à sugestão de Pippa de que as pessoas talvez prefiram se sentar em grupos e não em mesas para dois. O que fazia todo o sentido. Mas será que vai mesmo dar certo? Ou será que só nos parece bom porque não temos mais tempo para criar nada e nem temos opção? Não sei. Só sei que estou muito agradecida por todos terem se esforçado tanto, e também sei que vou pagar uns drinques gigantescos para todo mundo hoje no fim da noite. Com meu estômago ainda se revirando, digo “boa sorte” para a Garota Foguete. — Espere um pouco — diz ela, e me entrega um elástico fofinho em forma de coração que estava


preso no seu pulso. — Pro seu cabelo. Que deve estar horrível, se até pessoas desconhecidas estão me dando seus acessórios de cabelo. — Valeu. Saio do banheiro e prendo minha juba ridícula com o elástico com a vaga esperança de que ajude. Depois vou correndo até o estande da Boomerang. De longe, parece sensacional. O preto cintilante e o branco dos sonhos se completam, criando um ambiente que parece harmonioso e ao mesmo tempo sensual e convidativo. Paro um segundo para mandar uma mensagem de texto para minha mãe pedindo informações do estado da minha avó. Ao que parece, Nana acordou algumas vezes e até conseguiu tomar um pouco de sopa. A mensagem da minha mãe diz que ela está melhor do que seria de se esperar. Sorrio, porque acho exatamente a mesma coisa. — Escapou por pouco, Mia. Meu sangue congela nas veias e, quando me viro, vejo Cookie caminhando em minha direção. Fico chocada, porque ela está de cabelo solto e substituiu as roupas elegantes e quase militares de sempre por um suéter de cashmere cor-de-rosa e uma calça cinza. — Uau, Cookie — digo. — Você está... — Não diga “quase humana”, implora meu cérebro, e pela primeira vez eu o escuto. — Bonita. — E você está... — Ela me analisa. — Amarrotada. Agora será que podemos ver o que vocês aprontaram? Preciso descobrir o tamanho da confusão. — Acho que você vai ficar positivamente surpresa. — Se for esse o caso, vai ser mesmo uma surpresa. —Ela gesticula com impaciência. — Vá na frente. Ótimo. Como se meu nível de ansiedade precisasse aumentar ainda mais. Conduzo Cookie por alguns estandes e começo a me sentir um pouco melhor. O nosso está numa localização central e realmente chama a atenção. Embora eu não tenha conseguido recuperar todo o meu filme, consegui os clipes em arquivo bruto e transformei os melhores em simples GIFs animados. Eles estão sendo exibidos sem parar nas telas espalhadas pelo estande, milagrosamente integrados ao jogo de Ethan. Eu até mesmo transferi alguns segundos do lindo filme em tons de sépia que mostra meus avós. Foi tão difícil deixar Nana em Los Angeles e vir pra cá que, de alguma maneira, eu precisava dela aqui comigo hoje. Além disso, há alguma coisa no modo como ela e meu avô se olham, sentados lado a lado numa mesa de piquenique em algum lugar em Catskills, com um carinho e uma atração capazes de atravessar décadas. Adoro essa imagem, romântica e moderna ao mesmo tempo. Parece comigo. Meu corpo começa a relaxar. Estamos bem. Tudo ficou ótimo. Agora só precisamos fazer as pessoas virem interagir com nosso estande; depois, é só contabilizar o lucro. Nesse instante, os GIFs piscam e desligam, um a um, restando apenas uma dúzia de telas em branco. Ah, não. Não. Não. Não. Vou correndo até lá, enquanto Ethan sai de trás de uma parede do seu lado do estande, parecendo tão mal quanto eu. — O que aconteceu? — Isso está acontecendo já faz alguns minutos. É algum problema de conexão, mas acho que podemos consertar. Sem as imagens, o ambiente fica totalmente diferente: parecendo inacabado. Faltando alguma coisa.


— Dois minutos para os portões abrirem, galera — anuncia Paolo. Nervosamente, ele retira uma sujeirinha imaginária da lapela. — Deixe eu dar uma olhada. Vou para trás do estande e sinto vontade de chorar ao ver o emaranhado de cabos ali. Escavo esse monte até descobrir onde estão conectados, procurando falhas de contato. Rio, pensando que Falhas de Contato seria um péssimo nome para um site de relacionamento. Tenho quase certeza de que estou beirando a histeria. Encontro alguns cabos que convergem para uma espécie de gerador central e sigo o cabo desse gerador até uma tomada instalada no chão, que tem uma tampa solta. Empurro o plugue ali dentro com mais firmeza e levanto o cordão gordo para que não fique mais emaranhado com os outros. — Aê! — grita Ethan. — Conseguimos. — Ótimo. Coloco o cabo de volta no chão e começo a me levantar, mas Paolo diz: — Não. Perdemos a conexão de novo. Merda. Pego o cabo. — OK, agora está funcionando — avisa Ethan. Fico ali sentada, segurando o cabo na mão a cerca de vinte centímetros do chão. Receio que sei o que vai acontecer, mas começo a abaixar o cabo novamente. — Droga! — geme Ethan. Olho ao redor, considerando se posso pegar uma caixa, uma cadeira, uma criancinha, qualquer coisa capaz de ajudar a apoiar esse cabo. Não vou me perdoar se todo o nosso esforço for arruinado por um gerador barato. A música techno suave aumenta e ouço um monte de risadas e vozes animadas. Uma onda de empolgação e ansiedade me invade. Sadie espia por trás da parede, com o cabelo ruivo balançando feito um pêndulo em minha direção. — Os portões estão abertos! — Ainda está tudo funcionando? — Sim, está sensacional! Quero tanto ver. Quero estar lá quando as pessoas chegarem para explorar nosso estande. Quero ver o rosto delas, observar Ethan mostrando o que fizemos. Mas, pelo jeito, acho que vou ter que ficar aqui sentada segurando esse maldito cabo durante as próximas horas. Cookie vai para trás do estande e fica parada ali, com as mãos nos quadris e aquele seu sorriso de sempre, uma mistura de ódio completo e desprezo total cheia de nuances. Então ela me assusta para caramba ao se ajoelhar ao meu lado, pegar o cabo da minha mão e vociferar: — Me dê isso aqui e vá pra lá. — Mas... — É a sua feira, Mia — diz ela, e alguma coisa lampeja em sua expressão, tão depressa que tenho certeza de ter sido fruto da minha imaginação. Pois parecia algo semelhante a compaixão. — Vá logo. Eu me levanto. — Vou procurar alguma coisa onde apoiar esse cabo. Ou, se eu conseguir encontrar um novo gerador, talvez a gente possa conectar nele. — Sim, eu adoraria não passar a noite inteira acabando com as minhas costas aqui sentada. Agora,


vá. Saio apressada para encontrar Ethan. Ele, Paolo e Sadie estão rodando o estande fazendo pequenos ajustes, arrumando as mesas e dando os retoques finais nos inúmeros brindes: copinhos com a logo da Boomerang e bumerangues de verdade, feitos de espuma, que desconfio que logo vão virar uma ameaça naquele centro de convenções lotado. Uma multidão vem se aproximando da gente, uma maré de pessoas lindas, provavelmente inebriadas. Elas se espalham pelo ambiente como água escorrendo do rio para os afluentes. Dou uma olhada na multidão e logo avisto Adam, alto e elegante em um terno cor de berinjela. Ao seu lado, alguns caras também de terno o acompanham, com um ar cético e blasé. Pelo visto, vamos ter problemas com eles, mas eu não faria nada diferente. — Preparada, Cachinhos? — pergunta Ethan, enquanto passa um braço pela minha cintura. Eu me inclino na direção do corpo dele por um segundo e busco apoio em sua força. — Manda ver! — respondo.


Capítulo 56 Ethan P.: O que importa é vencer ou participar?

A

expressão de Adam é neutra ao apresentar Mia e eu aos cinco homens que poderiam, potencialmente, transformá-lo em um bilionário. Ele também não demonstra qualquer surpresa diante da transformação radical que o estande da Boomerang sofreu desde que ele o viu ontem. O rosto de blefista desse cara devia virar uma lenda. Mia e eu assumimos um risco enorme. Foi minha a ideia de inserir as imagens dela no meu videogame. Sumimos com o grande céu azul e o gramado entediante: agora os corações de bumerangues voam sobre imagens de pessoas em encontros amorosos, rindo, se divertindo... e se apaixonando, como no caso de Nana. De vez em quando, alguém acerta na mosca e o coração explode, e então a impressão é a de que uma chuva de fogos de artifício está caindo sobre um casal. Ficou perfeito, porra. Como planejamos. Não poderíamos ter planejado de nenhuma forma melhor. Por melhor que tenha sido a minha ideia, a de Mia, de inverter as paredes do estande para exibir as imagens por toda parte, levou o nosso a outro nível. Com essa tacada de mestre, ela fez o estande da Boomerang ganhar um ar exclusivo, o de um lugar tão difícil de entrar como um clube de primeira linha em Vegas, e a cada segundo fica mais óbvio que o público adorou isso. A feira abriu há apenas dez minutos, mas Rhett e Paolo já tiveram que ir para a entrada do estande de forma a regular o fluxo de pessoas. Viramos praticamente um lugar onde as pessoas ficam de pé, pois está tocando uma música sensacional graças ao DJ Rasputin. As risadas e a galera se divertindo me fazem achar que uma coisa incrível está acontecendo aqui. Porém, a expressão de Blackwood, é claro, deve ser a mesma que ele exibia nas mesas de vinte e um na noite passada: fria e controlada, como se ele não desse a mínima para o fato de sua empresa ter virado um marco na história dessa conferência. — A própria Srta. Galliano fez essas imagens especialmente para o estande — explica ele para um homem com o rosto vermelho. — São ótimas — responde ele com um sotaque sulino arrastado. — O talento corre nas veias da família, pelo jeito. Não sei o que me surpreende mais: o fato de Adam ter dado um briefing sobre Mia àqueles homens ou o fato de aquele cara ter tamanha informação cultural para conhecer o trabalho de Pearl. — Obrigada — diz Mia. — Este foi um projeto extremamente gratificante, tanto para Ethan quanto para mim. Sorrio. — É verdade — digo, assentindo. — Às vezes acho que nem é certo chamar o que fazemos de trabalho. O olhar de Adam encontra o meu e tenho a impressão de que ele está me advertindo com frieza, mas nem ligo. — O jogo do bumerangue foi projetado por qual fabricante? — pergunta o Sr. Inoue, um investidor


do Japão. — Foi projetado por Zeke Lee especialmente para nós. Ele é programador na Naughty Dog. Mas o homem nem olha para mim enquanto explico, de tão interessado que está no bumerangue sendo lançado nas telas. — Quer jogar? — Ah, sim! — responde ele. — Ótimo. É só me seguir. Eu o levo até um console e furo a fila imensa de pessoas que estão esperando a vez de jogar. Ajudo o Sr. Inoue a colocar a luva especial e lhe dou algumas dicas, depois é com ele. O cara joga bumerangues como se tivesse nascido no outback australiano. Inoue entende o jogo de imediato, então me afasto e fico observando o homem rir ao, literalmente, quebrar corações a torto e a direito. Adam fica ao meu lado, de braços cruzados, com aquela mesma expressão neutra. — Não me lembro de ter assinado permissão para isso — diz ele. — Não assinou mesmo — respondo, e sinto Mia se aproximar de mim. Fico esperando mais algum comentário de Adam, mas ele não diz nada. Simplesmente fica ali parado, mas isso, pelo visto, basta para me deixar um pouco irritado. Não estou nem aí com o que ele possa me dizer, mas se colocar Mia para baixo, vou dar um soco na cara desse riquinho boa-pinta. Quando Inoue se afasta da área do jogo, sorrindo como uma criança, aproxima-se de mim e pede o telefone de Zeke. Depois parabeniza Adam pelo evento sensacional. Adam aperta sua mão e sorri com simpatia, mas, assim que Inoue vai embora, ele se vira pra mim e pra Mia com aquela expressão indecifrável novamente. — Estou marcando uma reunião esta noite na minha suíte com todos os funcionários da empresa, inclusive os estagiários. Vejo vocês dois lá. Então ele vai embora, e as pessoas abrem caminho quando ele passa pelo estande. — Meu Deus do céu — digo. O cara realmente é fenomenal. — Deus? Pra mim ele está parecendo mais Moisés agora, isso sim — comenta Mia, e em seguida aperta minha mão. — Nós conseguimos. Olho para ela e sorrio, cumprimentando-a de volta. — Mandamos bem, dupla.


Capítulo 57 Mia P.: Vida real ou final de conto de fadas?

Estamos

prestes a sair do elevador entrar na suíte presidencial de Adam na cobertura do hotel quando Ethan me abraça por trás, impedindo que eu saia. — Espere só um segundo — diz ele, me puxando para perto e levantando meu cabelo para beijar minha nuca. A porta se fecha e ficamos sozinhos, refletidos em todas as paredes espelhadas do elevador. — Acho que, se a gente não aparecer nesse quarto, não poderemos ser demitidos. — Eu me viro e envolvo o pescoço de Ethan com os braços, puxando-o para um beijo longo e provocante. — É esse o plano, Treinador? — Tipo isso. Aliso o colarinho da sua camisa e ajeito a gravata, me lembrando do quanto quis fazer isso no primeiro dia em que ficamos juntos, no quanto quis ceder à vontade de tocá-lo. — A gente fez um bom trabalho hoje, Ethan — digo. — Independentemente de qualquer coisa, nós fizemos o estande ser um sucesso. Adam teve cinco mil acessos ao site. Em uma única noite. É uma loucura. Conseguimos quatrocentos novos usuários. Ele sorri e me beija de novo. — Meu Deus, como você fica sexy relatando estatísticas. — E você fica sexy quando respira. Ele ri, mas então assume um ar grave. — Sério, eu só queria dizer que vai ficar tudo bem. Vou te dar cobertura. Fico um longo momento fitando seus olhos azuis repletos de luz e noto um poço profundo de bondade e lealdade. Eu me aninho nele e beijo seu maxilar, roçando os lábios em sua barba por fazer. — Também vou te dar cobertura. — Estico o braço e dou um tapinha na bunda dele. — Agora vamos lá ser mandados embora. Quando entramos, todos já estão reunidos na suíte, menos Adam. A sensação é de sermos recebidos pelo júri que vai decidir sobre um enforcamento. Paolo está sentado no braço de um sofá extensível marrom-chocolate e fica girando seu coquetel nervosamente, os gelos chocando-se no copo. É o barulho mais alto ali. — Vocês fizeram um trabalho sensacional esta noite, galera — diz ele, lançando um olhar desafiador para Cookie antes mesmo de ela ter a chance de fazer alguma expressão facial. Pippa, Sadie e Rhett murmuram em concordância. Cookie olha para seu drinque como se quisesse estrangulá-lo até a morte. — Obrigada — digo. — Sério, queria agradecer a todos vocês por tudo. Salvaram nossa pele. Pelo menos esta noite, se não de vez. — Bom, pelo amor de Deus, se sentem logo — diz Cookie. Ethan vai até a mesa de mogno arrumada com guardanapos de linho, taças de cristal e pratos com borda dourada para aquela soirée espontânea. Atrás da mesa há janelas que vão do chão ao teto, com


quatro metros e meio de altura, as quais revelam uma vista maravilhosa em que a luz do alto do Luxor corta a escuridão do céu negro sem estrelas. Ethan traz duas cadeiras e eu me sento, mas ele fica de pé atrás da sua. Sei, sem que ele precise dizer nada, que a ansiedade estampada em seu rosto não é por ele e sim por mim. Estou sentindo um medo irracional de que ele acabe se engalfinhando com Adam no carpete felpudo assim que o homem surgir por aquela porta. Então Adam surge de um dos cômodos com um ar relaxado e afável, de calça jeans e uma camisa borgonha. Esse homem gosta mesmo de tons fortes semelhantes aos das joias. — Obrigado por terem vindo — anuncia ele, como se nossa presença ali não fosse obrigatória. — Vejo que já estão se servindo à vontade das bebidas do bar, não é, Paolo? Mais alguém? Ele dá uma de barman por alguns instantes, mas Ethan e eu recusamos as bebidas. Meu estômago já está se revirando, e me sinto nervosa, corada. Sei que em parte é só cansaço e os efeitos que restaram de ter voltado correndo para ver Nana, das preocupações com ela, com o dia de hoje. Agora que deixei a segurança do refúgio que é a cama de Ethan, tudo está caindo como uma bomba em cima de mim. Eu me remexo na cadeira e tento lembrar a mim mesma de que, seja lá o que aconteça aqui, vai ficar tudo bem. Tenho algo muito melhor do que um emprego, tanto que parece até ganância querer ainda mais. Mas eu quero, de verdade, ou quero que Ethan tenha. Só não quero que o emprego seja de outra pessoa. Adam leva um tempo enorme para preparar alguns drinques e tento me controlar para não enlouquecer enquanto ele começa a misturar hortelã para fazer um mojito. Ele fecha a tampa da garrafa de club soda e volta até onde estamos. Entrega o drinque para Cookie, senta-se ao seu lado e cruza as pernas, depois os braços no peito. — Bom, tenho que confessar que vocês dois me surpreenderam. E é só isso que ele diz. O lugar fica em um silêncio tão profundo que literalmente dá para ouvir o barulho do tique-taque de um relógio, embora eu não esteja vendo nenhum relógio nas paredes. Por fim, Ethan pergunta: — E isso é bom ou ruim? Adam reflete por um instante. — Bem, vamos ver. Vocês encomendaram um jogo de videogame que custou quase vinte mil pratas. Interferiram na pesquisa de campo que solicitei que fizessem e desconsideraram completamente minha política de não envolvimento entre funcionários. Sinto meu rosto ficar quente. Sei que é um péssimo momento para achar pelo em ovo, mas digo mesmo assim: — Ethan não interferiu nos meus encontros da Boomerang, exceto quando precisou afastar um cara inconveniente. Portanto, é tudo culpa minha. — O videogame, não. Isso é culpa minha — interrompe Ethan, finalmente sentando-se ao meu lado. — E foi minha responsabilidade quebrar a regra do não envolvimento. Porque essa é uma regra idiota. Dou risada e seguro a mão dele, que é forte e cálida. — Acho que a responsabilidade foi meio a meio. — Tudo bem — concorda ele, encarando Adam com um meio sorriso suave. — Então nesse quesito a responsabilidade foi meio a meio. Então acho que estamos quites. O que mais tem para nos dizer? — Tenho uma vaga na empresa que ainda precisa ser preenchida — diz Adam. — E que quero


contratar os dois. — O quê?! — exclama Cookie. — O quê?! — dizemos Ethan e eu ao mesmo tempo. — Sabem o que fizeram lá fora? — pergunta Adam. — Acabaram com a competição. Destruíram os rivais. Impressionaram um bando de velhos que são cínicos profissionais. E fizeram tudo isso depois de enfrentarem um problema de saúde de um parente e da distração causada pela atração entre os dois, que, suponho, está rolando há algum tempo. Também criaram um slogan perfeito, sem falar que me arranjaram desconto nas obras da minha fotógrafa preferida. Por isso, quero os dois trabalhando comigo. O que me dizem? Sinto tamanha onda de euforia, choque e gratidão que mal consigo falar. É como se eu estivesse sonhando. Mas então Ethan diz: — Valeu. Valeu mesmo. Mas acho que serei obrigado a recusar. — Espere um pouco. — Eu me viro para olhá-lo. — Por quê? Ele sorri e massageia o próprio pescoço, ficando tímido de repente. — Quero que o emprego seja seu. Era para ser seu, Cachinhos. — Como assim? Você queria esse emprego tanto quanto eu. Ethan dá de ombros. — Eu queria a grana, mas você queria o emprego. — Cara, estou confuso — diz Paolo, bebendo o resto do drinque e indo pegar um refil no bar. — Eu também. — Seguro ambas as mãos de Ethan e observo seu rosto em busca de respostas. — Então, o que você vai fazer? — Bom, eu estava esperando a hora certa para te dizer isso. — Agora serve — diz Sadie. — É — concorda Rhett. — Também acho. Ethan olha ao seu redor. — Beleza — diz ele. — Então vai ser agora. — Seus olhos brilham ao se direcionarem para mim. — Quando eu estava no Colorado, Matt me falou sobre um programa de pós-graduação em psicologia do esporte na USC. Ele me colocou em contato com o responsável pelo programa e... — Ethan dá de ombros. — Vou estudar lá. — Mas e os empréstimos? E... — Estou dando um jeito. Vou procurar um emprego de treinador por lá... o que me garantiria carona de graça também. E vou pegar mais empréstimos, se for preciso. Mas é lá que quero estar. — Ele olha para Adam. — Tenho certeza de que você entende, não é? Adam assente. — Para mim é uma perda, mas Rhett me disse que você treina muito bem seu time, e com certeza soube tirar o melhor da minha equipe. Então, sim, entendo. — Ele olha para mim, parecendo pensativo. — E você, Mia? Ainda está dentro? — Minha nossa, é claro. Com certeza. — Graças a Deus! — exclama Paolo. — Seria um tédio continuar trabalhando aqui sem vocês dois. — É — diz Cookie, com desdém. — Graças a Deus. Mas de novo noto aquele ar de algo diferente do costumeiro nela. É apenas um vislumbre, não tenho certeza, mas acho que é um sorriso. Pippa se levanta e diz:


— Proponho um... um desses discursos! — Um brinde? — Sadie ri. — É, um brinde. Adam se levanta e todos fazem o mesmo. — Excelente ideia, Pippa. Vamos começar logo essa festa. Nós nos reunimos ao redor do bar e Adam prepara mais coquetéis. Rhett me diz para ir à sua sala na segunda-feira preencher alguns formulários, e Paolo comenta que vai arranjar para mim uma mesa ao lado da dele. Saí do Gulag dos Estagiários. Bebemos e depois colocamos som na caixa. Ethan e eu dançamos sem parar, e não me surpreendo ao ver que ele dança bem para caramba. A música fica mais lenta e eu me movimento dentro do seu abraço, e fico ali, aquecida, exultante e impressionada com todas as possibilidades que surgem à minha frente. — Naquela noite no Duke’s — diz ele. — Fiquei observando você no bar. Não conseguia desviar os olhos. Volta e meia me pegava olhando de novo. Sorrio. — Volta e meia como um bumerangue? Paolo esbarra em nós a caminho do bar. — Ops. — Ele cambaleia de leve. — Ei, algum dos dois quer um refil? — Não, obrigada — digo. Depois puxo Ethan para um beijo longo e completamente antiprofissional. — Tudo de que preciso já está bem aqui.


Agradecimentos Em primeiro lugar, obrigada a TODOS da minha incrível e grande família da produção literária. É impossível citar os nomes de todo mundo aqui. Se você acha que deveria aparecer nesta página, acredite, eu também acho. Tenho tanta sorte de muitos de vocês terem começado sendo apenas clientes, alunos, colegas e, no fim, se tornado amigos para a vida toda. Agradeço a Don Maass, Erin Anderson, à maravilhosa faculdade BONI, e a todos os alunos que tive ao longo dos anos. Muito obrigada por seu esforço e por me inspirarem constantemente. Sou muito mais grata do que consigo expressar. Aos alunos da WRW: muito obrigada pelas noites incríveis na varanda em Marydale. Obrigada também a Gary Provost e Robin Hardy. Também agradeço muito a Gail Provost, Elizabeth Lyon, Carol Dougherty e Jason Sitzes e seus textos de última hora. Agradeço aos meus agentes literários: Josh e Tracey Adams; a minha compatriota Emma Dryden; e ao meu destemido (e subempregado por mim) assistente Kelsey Tressler: obrigada por me divertir o tempo todo. Agradeço ao Roman (Chewy) White pelas aulas de música e pelos anos de risadas; Katie Lu Krimitsos pelo sushi e por exigir tanto de mim; Kim Frost pela sua companhia dirigindo noite adentro tantas vezes; meus amigos locais de produção literária: Tom, Chris, Liz, Larry, Usman (e Gemma e Geodie em espírito) por tantas conversas boas e um pouquinho de crítica; Jackie P. por ser um exemplo de determinação; e Kim L. pelas conversas sobre vísceras. Obrigada, é claro, a Tessa Woodward e todo mundo na HarperCollins. E a minha querida coautora, Veronica Rossi, por uma quantidade ridícula de risadas e cumprimentos on-line ao longo do processo. É uma honra, Minty. Por fim, minha louca, hilária e maravilhosa família: Lisa, Mustafa, Alex (panda), Andrew, Dina, Samantha e Abby. E Brenda, Jose, Liz, Anna e Kyle. Somos estranhos, mas eu não gostaria que fosse diferente. — LO

Minha imensa gratidão vai para as seguintes pessoas: Lorin Oberweger, por sua amizade e por seu brilhantismo genial. Josh e Tracey Adams, pelo agenciamento de mais alto nível. Tessa Woodward, pelo apoio e orientação editorial, obrigada. O resto da gangue da William Morrow, Molly Brickhead e especialmente Megan Schumann, por todo esforço que teve para divulgar sobre o mundo da Boomerang. Meus amigos e minha família, obrigada por serem a razão de tudo. Por fim, a blogueiros e leitores por aí, obrigada por confiarem em mim mais uma vez. —VR


Este e-book foi desenvolvido em formato ePub pela Distribuidora Record de Serviรงos de Imprensa S. A.


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Table of Contents Rosto Créditos Dedicatória Sumário Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30 Capítulo 31 Capítulo 32 Capítulo 33 Capítulo 34 Capítulo 35 Capítulo 36 Capítulo 37 Capítulo 38 Capítulo 39


Capítulo 40 Capítulo 41 Capítulo 42 Capítulo 43 Capítulo 44 Capítulo 45 Capítulo 46 Capítulo 47 Capítulo 48 Capítulo 49 Capítulo 50 Capítulo 51 Capítulo 52 Capítulo 53 Capítulo 54 Capítulo 55 Capítulo 56 Capítulo 57 Agradecimentos Colofon Boomerang – vol. 1


Boomerang vol. 1 - Noelle August