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A educação de Caroline The Education of Caroline Copyright © 2012 by Jane Harvey-Berrick Copyright © 2015 by Novo Século Editora Ltda.

GERENTE EDITORIAL Lindsay Gois

GERENTE DE AQUISIÇÕES Renata de Mello do Vale

EDITORIAL João Paulo Putini Nair Ferraz Rebeca Lacerda Vitor Donofrio

ASSISTENTE DE AQUISIÇÕES Acácio Alves

TRADUÇÃO Marcia Men

REVISÃO Liana do Amaral

PREPARAÇÃO Samuel Vidilli

CAPA Dimitry Uziel

DIAGRAMAÇÃO João Paulo Putini

DESENVOLVIMENTO DE EBOOK Loope – design e publicações digitais | www.loope.com.br

Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), em vigor desde 1º de janeiro de 2009.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Harvey-Berrick, Jane A educação de Caroline Jane Harvey-Berrick ; tradução Marcia Men. Barueri, SP: Novo Século Editora, 2015. Título original: The education of Caroline. ISBN: 978-85-428-0988-6 1. Ficção erótica. 2. Ficção inglesa. I. Título. 15-09098

CDD-823

Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura inglesa 823

NOVO SÉCULO EDITORA LTDA. Alameda Araguaia, 2190 – Bloco A – 11º andar – Conjunto 1111 cep 06455-000 – Alphaville Industrial, Barueri – sp – Brasil


Tel.: (11) 3699-7107 | Fax: (11) 3699-7323 www.novoseculo.com.br | atendimento@novoseculo.com.br


A Lisa, por me dizer para escrever este livro. A Kirsten, por todo seu encorajamento e por se apaixonar de novo por Sebastian. A John Papajik, por todas as coisas militares – de novo. A Phylly, pela revisão. A Victoria Zaleski, por sua descrição de Long Beach, infelizmente antes do Furacão Sandy. A Ana Alfaro, por todas as coisas relacionadas à comida. A Camilla, pela tradução para o italiano. A meu DH – você sabe por quê. Obrigada. JHB


AGRADECIMENTOS

Por seu apoio e encorajamento, eu gostaria de agradecer… Às blogueiras de livros Aestas Book Blog Rose, The Book List Reviews Angie, The Smut Club Lindsay, Madison Says Smitten’s Book Blog Lisa, The Indie Bookshelf Emily e as Garotas, The Sub Club Books Lori’s Book Blog Crystal’s Random Thoughts Às Devotadas Red Red Red Sasha Cameron Pollypeach44 Dw e pB Dina Cori e Mercia Karen Wright Ellie Chris L Grublue Gato Roppongi KP The Blog Mistress


PRÓLOGO

QUANDO UMA MULHER FAZ 40 ANOS ela já não é mais jovem, porém não é velha ainda também. Ao menos foi o que me disseram as amigas que haviam atingido essa marca alguns anos antes de mim. Eu não estava preocupada, embora talvez devesse estar: meu trabalho como jornalista freelancer era sempre incerto, minha hipoteca era grande, minha pensão minúscula, e o futuro ainda por escrever. Assim, completar 40 deveria ter me incomodado, sim, ou ao menos despertado um pouco meu interesse – mas não dá para forçar-se a sentir alguma coisa, não é? Eu jamais sonhei que meu passado me alcançaria e que eu seria arrastada de volta à loucura erótica de uma década atrás. Por outro lado, talvez a vida seja o que acontece quando você menos espera.


SUMÁRIO

Capa Folha de Rosto Créditos Dedicatória Agradecimentos Prólogo Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Epílogo Sobre o Autor Colofão


C APÍ TU LO

OLHEI AO REDOR DA MESA

1

para o rosto de minhas amigas,

banhando-me no calor de seu amor. Nicole me sorriu de volta e levantou sua taça. – Bem, hoje é o dia – disse ela, piscando para mim. – O grande 4 ponto 0! Não que você aparente… vadia! Feliz aniversário! Jenna e Alice ergueram seus coquetéis e fizeram tim-tim por cima da mesa. Eu sorri, bem-humorada. – Bem, alguns dias eu realmente me sinto com 40. Mas não hoje – é tão bom que vocês tenham conseguido vir! – Está brincando? – disse Nicole. – É claro que viemos. E eu nunca venho ao Brooklyn, então você devia se sentir muito honrada, Venzi! – Aqui vamos nós – resmungou Alice –, o velho discurso de “eu nunca saio de Manhattan para ver o modo como os camponeses vivem”. – No seu rabo, Alice – zombou Nicole. Eu ri, feliz ao ouvi-las discutindo, o que era tão familiar e inocente quanto o ar. Essas eram as minhas amigas; entretanto, eu pensava nelas como família. E todas tinham vindo ao meu restaurante italiano favorito no Brooklyn para celebrar comigo. – Então você está nos deixando de novo – suspirou Alice. – Para o alto, para o alto e avante em suas viagens. – Não é exatamente férias – retrucou Nicole. Ela teria erguido suas sobrancelhas, mas havia recebido seu tratamento mensal de Botox e a parte superior de seu rosto estava, no momento, imobilizada. Era verdade: não se tratava de férias. Eu estava partindo a trabalho. E estava vivendo meu sonho. Eu percorri uma longa distância desde chegar a Nova York, dez anos antes, infeliz e sem um centavo, fugindo de um casamento fracassado e um caso amoroso arruinado.


Não havia sido fácil, embora eu duvide que mudar-se para a Grande Maçã seja fácil para alguém. Contudo, para mim, significou viver sozinha, por meus próprios esforços, pela primeira vez na vida. Eu estava assustada e à deriva em uma cidade que não compreendia, onde não conhecia ninguém. No início, morei em um hostel horrível de baixo custo antes de encontrar um apartamento minúsculo na Little Italy do Brooklyn – um lugar que se tornaria meu lar pelos oito anos seguintes. Limpei apartamentos dos outros para ganhar dinheiro para comida e aluguel, enquanto poupava o quanto podia para voltar à escola para estudar jornalismo e fotografia. Eu estava em Nova York há menos de dois meses quando aconteceu o 11 de Setembro. O mundo mudou naquele dia: as vidas de todos ficaram diferentes, como se tivéssemos perdido nossa inocência. A fumaça e as cinzas perduraram no ar por vários dias após o atentado; a sensação de choque e desespero estendeu-se por muito mais tempo. E então veio a raiva: era tão forte que foi como uma criatura de pesadelos, assombrando seus sonhos despertos. Era impossível vê-la, mas dava para senti-la, vislumbrá-la nos rostos das pessoas ao seu redor – aquelas expressões vistas de soslaio, mostrando que a raiva ainda estava lá. Mas também havia uma sensação de união, talvez pela experiência compartilhada. Era como se a cidade toda se unisse para cuidar uns dos outros. Nós lamentamos juntos, tentamos apanhar os restos juntos. Era como se fôssemos uma grande família, atravessando uma grande crise junta. Era apenas uma atmosfera diferente. Todos queriam ajudar, todos tinham algum tipo de conexão àqueles prédios. De alguma forma egoísta, isso se encaixava em minha própria sensação de perda: não apenas da vida que eu deixara para trás na Califórnia, mas também por ter perdido quem eu era. Um ano se passou antes que eu abrisse meus olhos, sacudisse o torpor que pesava sobre mim e encontrasse um modo de voltar a viver. Um velho conhecido de San Diego me ajudara a arrumar trabalhos específicos em jornais locais e, a partir daí, consegui começar minha carreira de escritora freelance. A princípio, eram apenas artigos pequenos: um festival culinário no Brooklyn; um festival musical no Queens; contudo, gradualmente, o escopo da minha escrita se tornou mais amplo, até mesmo aventureiro. Foi pouco tempo depois disso, quando um artigo chamado “Os Novos Imigrantes”, escrito por mim, chamou a atenção de um editor de um jornal nacional e, de maneira repentina e inesperada, eu havia encontrado meu rumo. Nos últimos seis anos, tive a sorte de poder ganhar a vida como correspondente estrangeira, trabalhando de forma freelance para vários dos maiores jornais. Dois anos atrás, consegui até poupar o suficiente para dar entrada em um bangalô minúsculo dos anos 1920 em Long Beach. Minha hipoteca era assustadoramente grande, porém eu queria um lugar só meu: um lugar onde pudesse ir para casa como motorista de meu próprio destino e rainha de meu próprio castelo. Eu amava morar no Brooklyn e estava triste por me despedir de meus cafés e restaurantes favoritos. Havia um senso real de comunidade na vizinhança, e a área vibrava com a vitalidade da onda constantemente mutante de pessoas que passavam por ali. Nessa época, eu trabalhava na maior parte do tempo em casa – “casa” sendo qualquer lugar onde meu laptop estivesse. Assim, a distância para chegar à cidade não me incomodava, e eu estava pronta para outra mudança. Pela maior parte da minha vida morei perto do mar, certamente durante as partes


mais relevantes dela, e amava a sensação de espaço e paz que morar perto do mar me passava. Acima de tudo, eu adorava andar pela praia quando um grande swell chegava, observando os surfistas: eles eram como focas, vestidos em neoprene preto, subindo e descendo atrás do line-up, depois disparando pelas ondas verdes vindo em alta velocidade. Algumas vezes, no verão, eu pegava minha prancha de surfe e me juntava a eles. Isso me trazia lembranças felizes e eu me sentia despreocupada por cerca de uma hora. Meu novo lar em Long Beach era uma comunidade fascinante e diversa. Eu amava a mistura de pessoas, e passava várias horas felizes apenas assistindo o mundo seguir em frente, com frequência encontrando inspiração para novas histórias. Meus vizinhos incluíam uma velhinha judia, a Sra. Levenson, que andava lado a lado com sua amiga muito chegada, Dóris, uma hispânica mãe de três filhos pequenos. Havia também os adolescentes ratos de praia, fumando maconha sossegadamente o dia todo, sempre pelo calçadão ou perto do shopping, quietos e inofensivos. Todos tinham sua presença na cidade, todos parte da cultura, cores e da diversidade da vida. Nos anos mais recentes, havia se tornado popular entre os habitantes de Manhattan vir até aqui para o final de semana, sem dúvida pela cidade ser mais amistosa e consideravelmente mais barata do que alguns dias nos Hamptons. A renovada popularidade de Long Beach podia ter algo a ver com a recessão, é claro, mas eu gostava de pensar que era por sua identidade única e a impressão de liberdade. Meu novo lar era cercado de delis, lojas de bagels e restaurantes. O brunch era minha refeição favorita e, durante os finais de semana, a ampla variedade de restaurantes era inundada por pessoas fazendo pedidos para viagem, ou esperando por uma mesa para tomar o café da manhã. Mesmo durante a semana podia lotar, mas era mais provável que eu conseguisse uma mesa só para mim e passasse uma hora mais ou menos olhando pela janela ou trabalhando no meu laptop. Um café italiano no calçadão era, para todos os propósitos, meu segundo lar: os membros mais velhos da família conversavam comigo em seu italiano cheio de sotaque, os mais jovens em inglês, é claro. Uma das linhas principais de transporte público ia diretamente de Long Beach a Manhattan; portanto, era prático para quando eu tinha reuniões na cidade, o que parecia acontecer com uma frequência cada vez maior depois que saí do Brooklyn. Obviamente. Os finais de semana, no entanto, eram totalmente voltados para a praia. Mesmo no inverno, quando o clima definitivamente não era adequado para deitar sob o sol, as pessoas ainda gostavam de desfilar. O calçadão se espalhava por toda a cidade e todo tipo de pessoa parecia fazer um passeio de domingo, apesar de talvez eu ser a única que gostasse de caminhar mesmo sob a chuva. Em um dia de tempo bom, as famílias se misturavam aos atletas tirando uma folga de academias superlotadas e suarentas para correr ou pedalar ao ar livre. Casais idosos sentavam-se nos vários bancos para olhar para a água. Eu gostava de fantasiar que eles estavam contemplando suas juventudes e suas lembranças de dias passados, quando correr e pular eram tão naturais quanto respirar, mas talvez eles estivessem apenas planejando o que comer no almoço. Talvez estivessem pensando em suas famílias: filhos morando em outros estados ou outros países; amigos há muito perdidos; pais queridos que já partiram.


Eu tinha sido apegada a meu pai, mas meu querido papa morrera há mais de 12 anos. Não era chegada a minha mãe. Ela não gostava de sua filha. Eu não gostava de olhar para trás com frequência. Minhas lembranças mais preciosas eram segredos guardados com cuidado e eu só olhava para elas ocasionalmente, tirando-as da caixa de Pandora do meu passado para apreciar e desfrutar, depois cuidadosamente guardar de novo, bem escondido. Conforme os anos passavam, eu olhava cada vez menos; talvez porque sentisse que havia outras coisas me aguardando no futuro. E isso era novo. Até onde minhas amigas sabiam, eu mal tinha um passado. Elas reconheciam que eu preferia não falar sobre isso e respeitavam meu desejo, ou então sabiam que não deviam perguntar. Eu abandonei meu nome de casada no momento em que deixei meu marido, e até mesmo piquei meu nome de batismo em pedacinhos, escolhendo apenas uma curta sílaba: uma nova identidade para minha nova vida. Em vez de Sra. Caroline Wilson, eu era agora Carolina Venzi – pronunciado ao modo italiano –, mais conhecida entre meus novos amigos como “Lee”. Por sorte, isso acabou se provando muito prático: as pessoas com frequência presumiam que “Lee Venzi” era um homem. Houve um editor que comprou meus artigos freelance por cinco meses antes de descobrir que era uma mulher escrevendo sobre crimes na cidade. Não tenho certeza se eu teria recebido esse trabalho se ele soubesse da verdade, porém, àquela altura, era tarde demais. E ele teve que admitir que gostou do trabalho que eu havia feito – o que era tudo o que importava, em minha opinião. Isso me divertia, mas também me servia muito bem. Eu estava ansiosa para manter certo nível de anonimato em meu trabalho; mais especificamente, alguma distância do meu passado. E agora eu tinha 40 anos. Mais confiante do que nunca antes em minha vida, acreditando em minhas habilidades e confortável em minha própria pele, eu tinha uma carreira da qual gostava. Verdade que era um estilo de vida itinerante que podia me levar para longe de casa por semanas ou até meses, porém era uma vida à qual eu me encaixava. Eu passara os primeiros 30 anos de minha vida adormecida e estática; agora, gostava de estar em movimento. Além do mais, não havia muito pelo que voltar para casa além de uma estante de livros e um armário cheio de roupas da minha vida antiga, que eu já não usava mais. Poucos homens, muito poucos, entraram e saíram ao longo dos anos, mas não havia nenhum parceiro relevante; não havia nada relevante no momento – e eu estava bem feliz em manter as coisas desse jeito. Eu tinha a companhia das minhas amigas e aquilo era mais do que suficiente. Nicole, em especial, achava meu celibato casual difícil de compreender. Ela estava sempre tentando me juntar com “caras fofos” que conhecia. Aquilo se tornou uma espécie de jogo entre nós: ela jurando que um dia eu encontraria alguém que me tiraria do chão, e eu jurando que isso jamais aconteceria. O que eu não contei a ela, nem tinha planos de que descobrisse, era que eu já tinha sido tirada do chão uma vez, e que a trilha de devastação deixada para trás depois desse evento ainda era dolorosa demais para examinar. As memórias ficavam cuidadosamente trancadas. Minha tarefa atual me levaria para longe por um número incerto de semanas – talvez chegasse até a dois meses. Fui contratada pelo The New York Times para escrever sobre os homens e mulheres do


exército servindo no Afeganistão. Minhas amigas me apoiavam, mas não entendiam de verdade por que eu queria assumir esse risco. Era difícil de explicar. Talvez fosse para ser mestra do meu próprio destino, capaz de fazer o que diabos eu quisesse pela primeira vez na vida. Talvez tivesse algo a ver com o fato de ter chegado a Nova York com apenas algumas centenas de dólares e um Ford Pinto antigo e acabado, que morreu pouco depois de atravessar a ponte Verrazano. Talvez fosse uma necessidade de demonstrar empatia com gente que corria riscos. Eu não sabia dizer. Eu levara anos para ser capaz de custear um estilo de vida que muitas mulheres da minha idade podiam ter como garantido. Talvez essas fossem as razões pelas quais eu me sentia atraída a documentar as vidas daqueles que tinham muito menos. Minha primeira atribuição no estrangeiro veio porque meu agente conhecia um pouco do meu passado – onze anos morando em bases militares certamente haviam me dado uma percepção delas. Fui enviada para vários acampamentos perto de Mosul e Bagdá para relatar sobre os alojamentos do pessoal militar – e, pelo menos uma vez, era um ponto de vista feminino que desejavam. Portanto, meu trabalho mais recente não era a primeira vez que seria paga para ir a um lugar perigoso, mas certamente seria uma das mais desafiadoras. – Vou sentir saudades de você, Lee – disse Nicole, triste. – Com quem eu vou ficar nos finais de semana? – Você vai superar – falei, sorrindo. – E eu vou estar de volta bem antes do verão. Além disso, você tem as chaves da minha casa, então pode ir até lá e fazer o que normalmente faz: conferir os surfistas gatinhos. – É, mas não é a mesma coisa sem você – reclamou Alice. – Apesar de você nunca reparar em nenhum deles. – Talvez você conheça um soldado bonitão – disse Nicole com um olhar lascivo. – Deus, eu adoro homens de uniforme. – Eles não ficam de uniforme muito tempo por perto de você – zombou Jenna. Nicole apenas deu uma piscadela e me lançou um olhar de desafio. Estremeci. Meu ex-marido era um militar – eu definitivamente não seguiria esse rumo de novo. Meu voo estava marcado para a manhã seguinte, apesar de o jornal ainda estar lutando com os burocratas em Washington, DC, pela aprovação do meu visto e documentos de viagem. Um conjunto adicional de barreiras foi construído pelo Departamento de Defesa, na forma de uma requisição para que eu frequentasse um programa de treinamento para jornalistas sobre “ambiente hostil”, feito especialmente pelos militares em Genebra, antes de seguir viagem para o Oriente Médio – ou para o sul da Ásia, dependendo do seu ponto de vista ou afiliação política. Eu nunca estivera na Suíça, embora tivesse sobrevoado o país algumas vezes. Isso era uma novidade. Antes do amanhecer, eu estava pronta e aguardando na frente do bangalô pelos faróis que anunciariam meu táxi. Havia guardado meu passaporte no bolso traseiro, preparado minha pequena mochila de viagem, puxado e empurrado e arrastado minha pesada mala de rodinhas e trancado a porta do meu lar.


Eu me acostumei a viver com as necessidades básicas, e roupas elegantes ocupavam um lugar bem no final da minha lista. Quando a trabalho, eu vivia de jeans e botas leves de caminhada. Mantinha os cabelos em um corte que requeria pouca ou zero manutenção – eu simplesmente prendia tudo em um rabo de cavalo muito simples. Maquiagem? Não mesmo. Eu tinha um velho batom e um tubinho de rímel em algum lugar no fundo da bolsa, mas um smartphone e um laptop com a bateria cheia eram mais importantes; e eu nunca ia a lugar algum, nem mesmo ao banheiro, sem um bloquinho e um lápis. Tive algumas das minhas melhores ideias no banheiro. Provavelmente isso é um excesso de informação… Eu até aperfeiçoei a arte de fazer anotações para mim mesma no escuro para pouparme o trabalho de acender a luz quando acordava à noite com alguma ideia – é claro, ler meus rabiscos à luz do dia era outra história. Todavia, eu tinha meu próprio colete à prova de balas que pesava uma tonelada e me custava uma fortuna em taxas de excesso de bagagem. O motorista do meu táxi, que estava terminando seu turno, era extraordinariamente quieto, pelo que fiquei muito grata. Ele me deixou no terminal de partidas internacionais e eu comecei a primeira parte de minha longa jornada. **** Rolei na cama e gemi. O fuso de seis horas entre Nova York e Suíça significava que eu estava bem acordada às quatro da manhã, e a perspectiva de sono parecia frágil. Tentei forçar meus olhos a se fecharem, mas eles se mantiveram abertos por vontade própria. Fico deitada encarando o teto. Meu hotel era um desses blocos desinteressantes de concreto que podem ser encontrados em qualquer cidade de qualquer país pelo mundo todo. No entanto, era localizado no centro, tinha quartos funcionais, WiFi gratuito e se gabava de uma minúscula piscina e uma academia. Eu já tinha ficado em lugares muito piores e provavelmente voltaria a ficar – na verdade, como me dirigiria para o Afeganistão assim que possível, isso podia ser assumido como fato. Sentindo-me sonolenta e ranzinza, saí da cama e olhei pela janela. Meu quarto era alto o bastante para eu poder ver o lago Genebra reluzindo sombriamente à distância. Fiquei tentada a sair para uma caminhada, para esticar as pernas e tentar me cansar o suficiente para que o sono me dominasse de novo. Vagar pelas ruas de uma cidade estranha a essa hora era pedir por problemas, mesmo em um local tão seguro e organizado quanto a Suíça. Eu não teria durado muito em meu serviço atual correndo esse tipo de risco desnecessário. Dando as costas para a janela com um suspiro, perguntei-me se a piscina ou o centro fitness estariam abertos; parecia improvável. Frustrada e insone, peguei meu laptop e passei algumas horas lendo notícias online. Finalmente consegui dormir por uma hora antes que meu despertador me acordasse às 7 horas. O rosto que me encarou no espelho do banheiro me fez desejar quebrar o vidro com a escova de cabelo. Hoje eu aparentava cada um dos meus 40 anos. Tive vontade de jogar um tecido preto por


cima do espelho para bloquear a visão. Em vez disso, virei-me para o chuveiro e contemplei os azulejos de um branco cremoso enquanto meu cérebro pegava no tranco. O chuveiro era maravilhoso: tão potente que quase me jogou contra a parede. Era como ter centenas de dedinhos me massageando, o que definitivamente ofereceu a injeção de vigor que eu precisava para enfrentar o dia à minha frente. Fiquei muito agradecida pelos bolsos cheios de meu empregador, que me providenciou o conforto atual. Vesti uma calça jeans, sem me importar por estar com uma roupa muito mais simples quando comparada ao resto da clientela do hotel. Faminta, desfrutei de um café da manhã vagaroso composto por Zopf, um pão branco muito rico, assado no formato de uma trança e servido com manteiga, diversas geleias, mel, queijo Emmenthal e uma seleção de frios. Havia granola também, é claro, mas isso não me interessava. Era parecido demais com a granola que eu geralmente comia em casa. Eu estava contemplando se devia ou não pedir um terceiro café quando ouvi alguém chamando meu nome. – Ei, Lee! Ô Venzi! Mas que diabos você está fazendo aqui? Olhei para cima e sorri. Aproximando-se de mim estava Liz Ashton, um indomável buldogue inglês em forma de mulher no final dos 50. Ela era bem famosa em nossa área, uma Marie Colvin britânica, por assim dizer; estivera em todos os fronts de guerra desde o Chade em 1979; cada conflito civil desde Uganda nos anos 1980; e em cada ação de guerrilha desde El Salvador, em 1981. Ela relatara todas as atrocidades, da Croácia ao Congo, e era dura como aço – provavelmente, mais dura ainda. Ela não aceitava ouvir merda de ninguém. Liz era uma repórter sênior com o The Times de Londres. Nós nos tornamos amigas ao longo dos últimos cinco anos, quando nos encontramos em uma variedade de hotéis de baixo custo, unidas entre o mundo cheio de testosterona dos correspondentes internacionais. – Oi, Liz! Bom te ver! Ela me envolveu em um abraço que quase trincou uma costela. – Você também. E então, o que está aprontando, Venzi? – Estou na cidade para um curso de treinamento para ambientes hostis – respondi. – Devo voar para o Acampamento Leatherneck dentro de quatro ou cinco dias. E você? – Humm, boa sorte com isso. Um passarinho me contou que seus chefes estão sendo bem difíceis sobre pessoal que não seja militar visitando sua preciosa Base depois do último incidente azul sobre verde… Incidentes em que nossos assim chamados aliados atacavam pessoal americano estavam aumentando. – Com quem você está dessa vez? – New York Times. – Bem, diga a eles para chutarem alguns traseiros ou você pode ficar presa aqui por semanas. Meus agentes de seguro estão exigindo que eu também frequente alguma porcaria de curso para jornalistas; como limpar meu nariz em uma “área de conflito”, esse tipo de coisa. Vou partir para


Bastion na semana que vem, então vamos ser vizinhas. Só preciso pular os obstáculos de sempre antes. O Acampamento Leatherneck era a base dos fuzileiros navais dos Estados Unidos no Afeganistão, e Bastion era o equivalente para as forças britânicas. Eu não fiquei deleitada ao ouvir que meus planos de viagem provavelmente seriam interrompidos, porém a informação de Liz era invariavelmente acurada: avisos com antecedência eram armas nesse trabalho. Liz passara anos, até décadas, cultivando seus contatos, e tinha um dedo constantemente no pulso da fera que era o noticiário internacional. Fiz um lembrete mental para entrar em contato com meu editor e ver que pauzinhos ele podia mexer para me colocar a caminho. – Seu treinamento por acaso seria no InterContinental, Liz? Porque, se for, então estou matriculada no mesmo. – Excelente notícia, Venzi! Podemos sair e encher a cara depois. Eu não achava que isso fosse uma boa ideia: as sessões de bebedeira de Liz eram lendárias. Eu definitivamente não estava no mesmo patamar. – De jeito nenhum! Eu não consigo manter o seu ritmo. Você teria que me carregar para casa. – Você não aguenta nada, Lee. – É verdade. E pretendo continuar assim, então pare de tentar me levar para a perdição. – Ah! Só trabalho sem diversão faz de Jill uma garota chata. Venha, vamos ver quem eles mandaram para nos colocar em forma dessa vez. Lá fora, o ar estava limpo e fresco, um leve murmúrio de primavera penetrando na manhã clara como cristal. A cidade parecia muito europeia, a arquitetura refletindo uma mistura de influências francesa, alemã e italiana; à distância, eu podia ver o cume soberano de Mont Blanc, a neve jazendo espessa no topo como cobertura. Liz passou o braço pelo meu e caminhamos através da cidade, comportando-nos como um par de turistas. Tive que arrastá-la para longe de uma boutique de chocolates chiques onde vendiam limão cristalizado mergulhado em chocolate amargo, ao leite e branco. Podíamos gastar tranquilamente o salário de uma semana ali, e nos empanturrarmos até a estupidez sob o olhar sobranceiro do vendedor. Houve uma época em que o olhar penetrante de alguém assim me reduziria a uma pilha de nervos, mas não mais. Eu não tinha 20 anos nem era casada com um valentão; tinha 40, finalmente era eu mesma, e fazia um trabalho que me despertava paixão. A menos de um quilômetro do Palais des Nations e sua longa avenida de bandeiras nacionais, o InterContinental era uma torre feia de 18 andares no centro do bairro diplomático. À distância, os Alpes desenhavam o horizonte, relembrando-me, como se eu precisasse disso, de que eu já não estava mais no Kansas. A recepcionista nos mandou para uma sala de conferências bege e sem graça, onde café e croissants nos esperavam. Liz lançou-se sobre o lanche com voracidade e eu decidi que mais uma xícara de café não seria exagero.


Pensei no que ela havia me dito e nos prováveis atrasos que eu sofreria. Suspeitei que isso fosse a velha dança de Washington. Acontecera cinco anos atrás, quando eu tentei entrar nas bases militares no Iraque. Fui mandada de um departamento para o outro, cada um negando que o atraso tivesse algo a ver com eles. Tentaria ser estoica, entretanto isso nem sempre era fácil. Por enquanto, tanto Liz quanto eu precisávamos jogar esse jogo para chegar aonde queríamos ir. Enquanto esperávamos, seis outros jornalistas de várias nações europeias se juntaram a nós; dois deles eu conhecia de vista, além de meu amigo Marc Lebuin, um escritor freelance que vendia suas histórias para jornais de língua francesa. – Chère Lee, e ma bonne Liz! Essa é uma surpresa muito agradável. Como vão, minhas queridas damas? Ele nos abraçou calorosamente e nos beijou no rosto. – Mandando brasa, Marc, e tão empolgada quanto um estraga-prazeres. Para onde você vai? – disse Liz. Ele deu de ombros. – Ainda não sei. Estou aqui esperando por um trabalho. Acho que é para passar o tempo. Talvez eu aprenda um pouco de farsi. Pelo que entendi, vai haver um especialista em línguas aqui para nos treinar. Pode ser útil, quem sabe? Ça fait bien. Um tenente britânico com aparência jovial entrou na sala e olhou ao redor um tanto nervosamente. – Moleque novo na área – disse Liz, sorrindo. – Acho que vamos nos divertir com ele. Gemi por dentro: a ideia de “diversão” de Liz não era a mesma que a minha. Contudo, não havia como impedi-la; nem mesmo um tanque Sherman a faria mudar de ideia, depois que ela se decidia. Seu mantra, “ceder é o sinal de uma mente de terceira”, resumia sua filosofia de vida em geral. O jovem tenente desapareceu. Perguntei-me indolentemente se ele notara o olhar de górgona de Liz e partira em busca de reforços. Conforme o horário marcado para o início chegou e se foi, um resmungo irritado passou pelos jornalistas reunidos ali. – Mas que droga de espera! – disparou Liz. Lancei um olhar divertido para minha amiga: ela realmente não se dava muito bem com esperas. O que era irônico, porque boa parte de nosso trabalho envolvia ficar sentado à toa: esperando por gente com quem precisávamos conversar, torcendo para que eles notassem nossas presenças; esperando por voos; esperando por caronas; esperando por vistos. E esperando pela permissão para atravessar fronteiras para entrar em zonas de guerra. Era bastante similar ao adágio militar: “O serviço militar é 99% tédio e 1% puro terror”. Eu não ligava para o tédio. A sala estava gelada, com um ar-condicionado ligado a toda potência e totalmente sem vida. Eu me encolhi em minha cadeira no fundo da sala e enrolei meu cachecol de caxemira duas vezes em torno do pescoço para cobrir o queixo e parte do nariz. Liz, como eu disse, era feita de material mais resistente: ela marchou até a frente da sala e mexeu no termostato enquanto o tenente britânico a observava, ansioso. Pude ver que ele estava morrendo de vontade para dizer a ela para não tocar ali, mas cedeu sob o olhar devastador dela. Liz tinha esse


efeito na maioria das pessoas – especialmente sobre os homens. Imaginei se algum dia adquiriria aquele olhar distante e assustador. Provavelmente não. O tenente ficava dando espiadelas em seu relógio e ficou claro que ele esperava por alguém que estava atrasado. Imaginei que fosse provavelmente um jornalista que não viria. Aquilo acontecia com assiduidade: aviões perdidos, agendas alteradas, vistos recusados ou mesmo trabalhos cancelados no último instante. No final, eu estava errada sobre isso. Muito errada. Por fim, um homem bem mais velho, com a insígnia de um major britânico bordada nas dragonas de seu uniforme cáqui, juntou-se a nós. O distintivo de seu quepe era a figura minúscula de Mercúrio – o mensageiro alado dos deuses –, o que significava que ele era da Royal Signals Corps. Eu gostava do capricho incorporado naquela imagem. O major era um homem de aparência forte com cerca de 50 anos, com olhos amendoados gentis que se encolhiam quando ele sorria. Ele não estava sorrindo agora. Na verdade, parecia mais do que um pouco irritado e, ao entrar na sala, fechando a porta, escutei-o resmungar algo impossivelmente parecido com “malditos ianques”. Remexi-me na cadeira, desconfortável, enquanto Liz piscava para mim. – Bem, bom dia, damas e cavalheiros – começou ele. – Meu nome é major Mike Parsons e meu colega aqui é o tenente Tom Farley. Ele gesticulou indicando o jovem tenente, que tentava parecer relaxado e não estava conseguindo fazer um bom trabalho nisso. – Peço desculpas pela breve demora para começar; nosso colega americano claramente deve ter se atrasado. Todavia, vamos seguir em frente e começar com o básico. Vou falar sobre preparação e planejamento e o que vocês devem ter em seu plano de saída, principalmente como serão repatriados em caso de ferimento ou doença. Em seguida, os deixarei com o tenente Farley, que vai discutir o uso de conhecimento local e movimentação por um local perigoso. Nas sessões vespertinas, vamos tratar sobre como lidar com tiroteios, manter a própria segurança em uma multidão e primeiros socorros de emergência. Amanhã, falaremos sobre minas terrestres, IEDs,1 perigos químicos e o que fazer caso vocês sejam tomados como reféns. Nosso colega dos Fuzileiros Navais americanos se unirá a nós para algumas das sessões e para uma introdução ao dari e ao pashto, as duas línguas oficiais do Afeganistão. – E aí ele resmungou baixinho: – Se ele se der ao trabalho de aparecer. Liz me cutucou e eu fiquei irritada que meu compatriota, fosse lá quem diabos ele fosse, estivesse fazendo os Estados Unidos passar vergonha. Tive que me relembrar de que esse atraso não estava restrito ao treino da imprensa; afinal, eram os oficiais de Washington que estavam deliberadamente atrasando minha papelada. O major iniciou sua palestra e, apesar dos conselhos serem bons, eu já os escutara antes e minha mente começou a vagar. Fiz algumas anotações aleatórias apenas por aparência, mas já sabia o que devia carregar em uma bolsa de emergência para evacuação imediata (passaporte, carregador de telefone por energia solar, suprimentos de primeiros socorros, comida desidratada, água para um dia, lanterna, canivete – que era sempre confiscado no aeroporto junto com meus fósforos –, lista de


contatos de emergência, também conhecida como “lista de chamadas”); assim como mensagens de segurança básica, como combinar uma palavra-código para quem quer que chegasse para me apanhar em meu destino. Era algo óbvio quando se pensava a respeito, mas uma dica que tinha sido muito útil em várias ocasiões. Eu passei essa dica para Nicole quando ela começou a ir para seus frequentes encontros de internet em lugares desconhecidos. O major prosseguiu, relembrando-nos sobre manter a lista de chamadas e detalhes de parentes mais próximos com nossa agência ou um terceiro de confiança. Essa parte sempre me deixava triste. Minha parente mais próxima era minha mãe, mas não conversávamos há quase dez anos – desde que ela deixara absolutamente claro o que pensava de mim quando contei que meu casamento tinha acabado e que eu estava me divorciando. Estava vagamente ciente de que ela tinha se mudado para uma comunidade de aposentados na Flórida, mas não mantínhamos contato. Eu certamente não tinha nenhum plano de dar o nome dela no caso de uma emergência. Minha família de verdade eram minhas amigas, e deixei meus números importantes e meu testamento com meu agente em Nova York. O major Parsons então reiterou a importância de não ter um carimbo de Israel em nossos passaportes ao viajar para o Afeganistão ou outro país muçulmano. Sim, já tínhamos conferido esse detalhe, todos nós. Em seguida, ele nos passou para o tenente – que era competente, mas muito menos capacitado em sua apresentação. Tive a impressão de que essa era a primeira vez que ele a fazia. O major permaneceu conosco por alguns minutos para garantir que seu rapaz ficaria bem, depois saiu furtivamente da sala. Eu era uma grande fã de furtividade, e imaginei se seria muito óbvio se eu me esgueirasse para fora também. Mas eu sabia que o treino de dois dias era compulsório para as empresas seguradoras do jornal, e haveria novas coisas para aprender depois de passar pelo básico. Suspirei de leve e me encolhi um pouco mais. Despertei um pouco quando o tenente perdeu o fio da meada do que dizia por um instante e tomei ciência de que mais alguém havia entrado na sala. Entortei o pescoço, perguntando-me se o major tinha voltado. Mas era alguém bem diferente. Um homem extraordinariamente lindo com um rosto muito bronzeado e olhos azuis-esverdeados da cor do mar. Um choque de reconhecimento me percorreu. Não havia dúvidas. Dez anos mais velho, mas ainda estonteante. Sebastian Hunter. Ah. Meu. Deus. 1

Artefatos Explosivos Improvisados (em inglês, Improvised Explosive Device). (N.T.)


C APÍ TU LO

2

MEU FÔLEGO FICOU PRESO na garganta. Sebastian: o motivo pelo qual meu casamento terminou; o catalisador para eu me tornar uma jornalista. O homem que eu amei mais do que a qualquer outro, antes ou depois dele. O homem que não vi por dez longos anos. Meu lindo menino, meu amante, meu amigo. O homem que eu pensei que nunca mais veria. Sebastian. Sim, definitivamente era ele. Ele estava um pouquinho mais alto, seus ombros um pouco mais largos e seu rosto um pouco mais angular, mas, fora isso, não tinha mudado nada. Exceto seus olhos. Sim, eles haviam mudado, sua doçura endurecida com os anos. Nosso caso, se quisesse chamar assim, começara quando ele tinha apenas 17 anos e eu, 30. Como morávamos na Califórnia na época, aquilo era um ato criminoso. Eu me apaixonara profundamente, desesperadamente, ridiculamente. Ele, por sua vez, sentira uma paixonite por uma mulher mais velha, mas seu apetite pela vida, seu entusiasmo, apoio e sua crença em mim abriram meus olhos para o estado abismal de meu casamento. Nosso segredo foi descoberto e desmembrado da maneira mais dolorosa. Em uma cena que ainda assombrava meus pesadelos, fui forçada a partir ou enfrentar a ira cruel dos pais dele. Apesar de Sebastian estar a apenas poucos meses de seu décimo oitavo aniversário, meu crime era grave, e os pais dele ameaçaram mandar me prender se eu entrasse em contato com o filho outra vez. E, devido ao prazo de prescrição ser de três anos, fui forçada a obedecer. Desde o dia em que abandonei meu casamento, dez anos antes, eu não vi nem ouvi notícias de Sebastian. Pensava nele com frequência, perguntando-me o que ele teria feito com sua vida, para onde foi, o que se tornou, desejando acreditar que ele estava realizado e feliz. E agora, aqui estava ele, na mesma sala que eu outra vez, vestido no uniforme cáqui de serviço dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos.


Afundei um pouco mais na cadeira, feliz por meu rosto estar parcialmente escondido sob meu cachecol. Meu coração batia tão rápido que eu temia desmaiar de verdade. Liz me cutucou. – Você está bem? Anuí em silêncio. Ela me lançou um olhar confuso, mas encolheu os ombros e me deixou em paz para mergulhar nas lembranças do passado. A porta tornou a se abrir e o major Parsons retornou. Ele esperou que o tenente terminasse sua explanação, lançando um olhar irritado para Sebastian, que se encolhia na lateral da sala, uma expressão entediada no rosto. – Obrigado, Tom. Vamos tirar alguns minutinhos agora, damas e cavalheiros, e nos encontramos aqui às 11 horas. Refrescos serão servidos no lounge Les Nations. E estamos muito contentes em ter nosso colega da colônia, chefe Hunter, juntando-se a nós. Tenho certeza de que o conhecimento dele será inestimável. Eu duvidava ter sido a única a notar a nota de sarcasmo. Os outros jornalistas se levantaram para sair, seguindo nosso acompanhante militar para fora da sala, mas eu me encontrava incapaz de ficar de pé, temerosa de que minhas pernas fossem ceder. – Ah, o infame chefe Hunter – disse Liz, em um sussurro alto. – Bem, ele certamente tem a aparência para isso. Um belo mulherengo, pelo que ouvi dizer. – Como é? – falei, debilmente. – O americano… ele tem o que se pode chamar de uma reputação. Fico surpresa que não tenha ouvido. – E por que ouviria? – consegui soltar. – Ouvir o quê? Ela deu um risinho conspiratório e inclinou-se na minha direção. Se há uma coisa que jornalistas do mundo todo têm em comum, é que todos amam fofocar. – Ah, eu cruzei com nosso chefe Hunter em Paris dois anos atrás, embora ele fosse um humilde sargento na época. Bem, não tão humilde, você entende! Sim, um conquistador bastante notório; foi algo como um caso célebre. Dizem que ele estava comendo a mulher do seu oficial comandante, embora nada tenha vindo a público e tudo tenha sido abafado. – Certamente, isso é apenas fofoca, não? – falei, fraca. – Digo, se ele tivesse feito isso, seria um crime federal: corte marcial, e então uma expulsão da corporação. – Estou apenas contando o que eu ouvi – disse Liz, com um olhar lascivo. – Basta dizer que ele foi retirado de Paris, PDQ.2 Seja lá qual for o motivo, dizem que ele tem um olho bom para as damas. – Ela me cutucou, uma expressão maliciosa no olhar. – Imagino que você seria exatamente do gosto dele, Lee. – Ah, não, eu não tenho a menor vontade de me juntar a um harém. – Ri, um pouco débil. – Tenho certeza de que o chefe Hunter tem um desfile de jovens o seguindo. Eu lembrava muito bem dessa sensação. Se Liz notou que meu tom estava estranho, ela educadamente ignorou. – Bem, talvez, mas acredito que as tendências dele sejam em outra direção. Ele é famoso por gostar de mulheres mais velhas… mais experientes.


Eu fiz uma careta. – Dizem que ele é brilhante em campo – prosseguiu ela, sem perceber o impacto de suas palavras sobre mim. – É por isso que eles aguentam o comportamento dele fora de campo. Ouvi murmúrios de que ele foi sondado pela inteligência militar, mas você sabe como o seu pessoal é cheio de segredos com essas coisas. Eu não me surpreenderia se ele fosse um desses homens que é um pesadelo total quando não está fazendo algo perigoso. Você conhece o tipo: impulsivo, um ímã para balas. – Ela deu um tapinha no meu braço. – Dizem que ele bebe. O comentário dela me cortou como uma faca. Ah não. Não como Estelle – não como a mãe dele. Com alguma amargura, lembrei do discurso bêbado e furioso dela na noite em que deixei San Diego. Ela me chamou de “puta” e “vadia” e vários outros nomes desagradáveis. E me esbofeteara com força suficiente para fazer meus dentes baterem. Ela teria me batido de novo, se Sebastian não a tivesse impedido. As memórias há muito trancadas voltaram em uma inundação. – Você quer café, Lee? – perguntou Marc. – Desculpe, o quê? – Café, Venzi! – disparou Liz. – Sim ou não? – Ah, não, eu estou bem. Vão vocês. Passei os braços em volta dos joelhos, fisicamente juntando meus pedaços, enquanto a intensidade de minhas emoções me derrubava. Respirei fundo algumas vezes e tentei me manter calma, mas meu corpo estava atolado em um disparo de adrenalina e o desejo de lutar ou fugir me dominou. Naquele momento, eu favorecia a fuga – exceto pelo fato inconveniente de que, se tentasse me levantar, teria caído. Ouvi alguém voltar à sala e o sangue fugiu de meu rosto. – Você parece um pouco pálida, Lee – disse Marc, um traço de preocupação em sua voz. – Está bem? – Sim, estou. Estou só com um pouco de… frio. Ele me deu um olhar que mostrava não estar convencido, mas aceitou minha explicação. Quando os outros retornaram à sala, eu me debrucei sobre minhas anotações e me escondi o melhor que pude. Estava com vergonha de mim mesma. Por que diabos eu não podia me levantar, ir até ele e dizer “oi, olá, como vai”, como uma pessoa normal? Eu faria isso, é claro, disse a mim mesma. Eu faria isso durante o intervalo para o almoço, quando não estivéssemos cercados por olhos curiosos. Liz foi a última a voltar, e a essa hora eu já havia conseguido me acalmar um pouco ou, como diria meu pai, um cavaleiro cavalgando a cem metros de distância não teria notado nada de estranho. – Pronta para o segundo round? – murmurou Liz, um tanto alto. Eu pude notar que ela tinha tomado mais do que café durante o recesso de dez minutos. Não fiquei surpresa: beber era um dos perigos que cercavam nosso estilo de vida. E então meus planos de me reapresentar a Sebastian com um mínimo de privacidade e dignidade foram jogados para longe.


– Apenas uma rápida chamada antes de prosseguirmos – disse major Parsons –, agora que estamos todos aqui… só para sabermos quem é quem. Em seguida, ele chamou nossos nomes. Eu fui a última. – Lee Venzi? Assenti e ergui a mão. Vi os olhos de Sebastian passarem por mim, arregalando-se de choque ao me reconhecer e, pelo mais breve momento, ele pareceu como o rapaz de 17 anos que eu conhecera. – Você é Lee Venzi? – soltou ele. Todos se voltaram para me encarar, alertados pelo tom da voz dele, de modo que eu fui a única a ver sua expressão se transformar em algo mais sombrio, quase odioso – antes que ele controlasse suas feições e desviasse o olhar. Meu coração deu um salto desconfortável. Ele parecia realmente me odiar. Eu não esperava isso, embora suponho que não pudesse culpá-lo. Deve ter sido uma época difícil para ele depois que eu parti. Mesmo assim, ter tanto desamor depois de tanto tempo… comecei a ficar nauseada. Respirei fundo e tentei me concentrar em minhas anotações. Marc me cutucou para chamar minha atenção. – Você conhece aquele cara? O Sr. Taciturno-mas-lindo? – Sim, já nos conhecemos – falei, seca. – Humm, acho que há uma história aí, Venzi. Importa-se em compartilhar? – Outra hora. Ele me fixou com olhos estreitados, mas eu abri um sorrisinho e voltei minha atenção reduzida para a palestra. Sem querer, olhei para Sebastian, mas ele fitava a janela, uma expressão distante em seu rosto. Perguntei-me se ele estava se lembrando, assim como eu, de como nos conhecemos, e de nosso breve, mas tempestuoso verão de amor. Ou luxúria. Dependendo do ponto de vista. Mesmo enquanto eu tentava afastar as imagens, elas enchiam minha mente. Mesmo agora, eu me recordava da intensidade de quando fazíamos amor; do modo como nunca nos cansávamos um do outro – as mãos dele, seus lábios, sua língua deslizando pelo meu corpo. Enquanto o tenente continuava a nos falar sobre precauções contra sequestro e ataques criminosos, eu era devorada por uma série de imagens cada vez mais eróticas que trouxeram uma onda de cor às minhas bochechas. – Como a maioria dos ataques ocorre nas proximidades de casa – dizia o tenente, enfadonho –, assegure-se sempre de dirigir diretamente para dentro de sua garagem ou seu complexo, e feche a porta ou o portão depois de passar. Liz parecia entediada, sem nenhuma noção da mistura de emoções que perturbava o equilíbrio de minha mente. Ela começou a sussurrar uma história divertida para mim, cuja essência era que ela havia acabado enfiando o carro na parede da garagem não uma, mas duas vezes durante um trabalho no Cairo, fazendo exatamente o que o tenente sugeria. Seu comentário a meia-voz era mais voz do que meia, e causou várias risadinhas entre o resto dos jornalistas. O jovem tenente pareceu aborrecido com a ruidosa interrupção de Liz à sua palestra.


– Isso é sério, madame. O que estou lhe dizendo hoje pode salvar sua vida. Oh-oh. Coisa errada a se dizer para a Srta. Bomba-prestes a explodir. Ela inchou como um balão da Parada de Ação de Graças da Macy’s. – Escute aqui, raio de sol, você pode se achar especial com uma arma de destruição em massa pendurada no meio das pernas, mas deixe-me te dizer uma coisinha ou duas: eu estive na linha de frente de cada guerra desde Uganda em 1979, antes mesmo de você ter nascido. – Ela começou a contar nos dedos das mãos. – Angola, Croácia, Ruanda, Bósnia, Iraque, Kuwait, Afeganistão… inferno, lugares que você sequer ouviu falar. E essa mulher – ela apontou para mim com o queixo – esteve em mais lugares perigosos do que você esteve em encontros. Eu poderia ter previsto a resposta de Liz, apesar de não concordar com ela: para mim, o próximo trabalho era sempre como o primeiro – e correspondentes experientes tinham tanta probabilidade de se ferir quanto os novatos. As orelhas do tenente ficaram vermelhas e ele pareceu aturdido. Pensei ter detectado um sorrisinho nos lábios de Sebastian; porém, ele desapareceu de imediato, então não pude ter certeza. O major Parsons adiantou-se para recuperar a situação e o pobre tenente recebeu permissão para continuar. Várias vezes, durante o resto da palestra, senti os olhos de Sebastian sobre mim, mas a cada vez que erguia o olhar, ele desviava o seu com uma expressão de desprezo em seu lindo rosto. Quando a hora do almoço chegou, eu havia reunido coragem suficiente para conversar com ele. Sebastian, no entanto, tinha outras ideias. Ele desapareceu pela porta antes que eu tivesse a chance de emitir sequer uma sílaba. Suspirei; pelo visto, ele queria me evitar. Marc, contudo, sensível mais do que de costume às emoções dos outros, estava no rastro de uma história. – Vamos lá, Lee, pode despejar. De onde você conhece nosso chefe Hunter? – E como é que você não falou nada que o conhecia? – disse Liz, parecendo aborrecida. – Foi há muito tempo – falei, tentando soar casual e fracassando miseravelmente. – E…? – E nada – insisti. – Ah, que é isso, Lee! – disse Liz acusadoramente. – Você me fez contar todo o escândalo sobre nosso misterioso chefe Hunter, e nem sequer menciona que já o conhecia. Você está escondendo o jogo, já vi tudo. – Sim, chérie – concordou Marc com um sorriso. – Eu também acho que você está guardando segredos. Eles me conheciam muito bem. Ademais, eram jornalistas, o que fazia deles as pessoas mais intrometidas do planeta. – Eu o conheci quando morava na Califórnia – falei, finalmente. – Quando ainda era casada. – Ah – disse Liz, entendendo. – Tudo bem, Lee. Ambos sabiam que eu era divorciada e não gostava de conversar sobre meu casamento. Felizmente, não fizeram mais perguntas.


Passei um intervalo desconfortável no almoço perguntando-me o que dizer a ele. O que eu podia dizer? Desculpe sobre aquilo – espero não ter arruinado sua vida – como vai? De qualquer forma, não precisei dizer nada, porque Sebastian não voltou depois do almoço. Sua partida não recebeu comentários de seus colegas britânicos, que ignoraram estoicamente sua ausência. A sessão vespertina continuou com pouca novidade ou interesse para aqueles de nós que já haviam passado por essas palestras várias vezes antes. A única parte em que eu estava realmente interessada viria no dia seguinte e cobria questões específicas sobre Cabul e, numa extensão menor, Candahar. Imaginei por que Sebastian não havia voltado. Certamente não podia ser por minha causa. Ou podia? Aquilo seria simplesmente ridículo. Quando finalmente fomos dispensados por aquele dia, Liz se afastou para conversar com algumas fontes, ou foi o que ela alegou. Eu suspeitava tratar-se de outras fontes, do tipo alcoólico. Marc resmungou algo sobre um compromisso anterior e eu fui abandonada a meus próprios pensamentos enredados. Irritada comigo mesma e perplexa pelo comportamento de Sebastian, passei uma noite deprimente no meu quarto. Me distraí escrevendo longos e-mails para Alice e Jenna. Não me incomodei em escrever mais do que algumas palavras para Nicole: eu sabia que ela só lia o primeiro e o último parágrafos, a menos que as mensagens fossem de um cara. Pensei que ao menos estava cansada o suficiente para obter uma quantidade razoável de sono, mas meus sonhos foram assombrados pela memória de olhos verde-mar, pele dourada e carne nua. Fui rudemente despertada um pouco depois da alvorada por um orgasmo me percorrendo. Minhas costas se arquearam e minhas pernas se enrijeceram enquanto eu era levada pelas ondas de sensações. Sentei-me, ofegante, chocada pela maneira como meu corpo me traíra. Que diabos foi aquilo? Um orgasmo durante o sono?! Aquilo definitivamente nunca tinha me acontecido antes. Fui até o chuveiro, trôpega, tentando lavar as memórias que continuavam a me atormentar. O segundo dia de treinamento começou muito semelhante ao primeiro, exceto pelo fato de a contínua frieza de Sebastian para comigo ficar óbvia para os outros. – O lindo chefe Hunter está te encarando de novo, Lee – disse Marc, desnecessariamente. – Ele não parece feliz com você. Infelizmente, eu tinha que concordar. Hoje as palestras começaram com o tema: como identificar um campo minado. Animais mortos eram uma boa pista, mas também era bom procurar por áreas evitadas pelos locais, particularmente se a área ao redor era voltada para a agricultura e alguma parte tinha crescido demais e se destacasse. Pedaços de papel encerado também era algo a se vigiar; explosivos em geral vinham embalados neles. E então, para a parte de linguagem de nosso treinamento, estávamos nas mãos capazes de Sebastian – algo no que eu havia tido, em certa época, uma experiência considerável.


– Sim – disse Liz, concordando com a análise de Marc. – O jovem chefe Hunter estreita os olhos cada vez que olha para você. Suspirei e sorri para ela. – Talvez minha pronúncia do dari seja falha. Eu fiquei mais do que levemente impressionada ao descobrir que em algum momento dos últimos dez anos Sebastian se tornara fluente em dari, um dialeto do persa afegão, assim como em pashto e árabe. Ele nos ensinava como nos apresentarmos, dando nosso nome, profissão e nacionalidade nas linguagens que precisaríamos, assim como uma passagem do Alcorão útil para emergências. Lembrei-me de como seu italiano havia melhorado com rapidez quando começamos a namorar. Argh, “namorar”: essa palavra parecia profundamente inadequada para nosso caso tumultuado e apaixonado. – Talvez a Srta. Venzi possa responder a essa questão. A voz de Sebastian penetrou em meus pensamentos bagunçados. – Desculpe, qual era a pergunta? – gaguejei. Ele nem se incomodou em responder, desviando o olhar com uma expressão de desdém. – Ah, minha nossa! Ele vai te fazer ficar depois da aula – zombou Liz, rindo. Aí ele nos contou que uma resposta típica para uma pergunta que um afegão não pudesse responder seria: “porque o mar é verde e o céu é azul”. – Diga isso a eles e eles vão te achar esperta – disse ele, me olhando com condescendência. Senti-me perturbada e aborrecida: não importa o que aconteceu dez anos atrás, não havia necessidade para ele ser tão desagradável. Resolvi esclarecer as coisas com ele na primeira oportunidade. O hábito de Sebastian era ser o primeiro a sair pela porta assim que o intervalo era anunciado, esquivando-se de perguntas secundárias de qualquer dos outros jornalistas; isso, ou me driblar. Após o intervalo para o café da manhã, eu peguei um assento perto da saída, de modo que ele não pudesse continuar me evitando quando todos saíssemos para o almoço. E me certifiquei de prestar atenção durante o resto da seção de linguagem, para que ele não tivesse razão para me atormentar de novo. De fato, assim que o major Parsons anunciou o intervalo, Sebastian dirigiu-se para a porta. – Posso ter uma palavrinha, por favor, chefe Hunter? – falei, enquanto ele disparava por mim. Ele parou quase que derrapando, mas antes de voltar-se para mim, uma expressão que não pude identificar passou pelo seu rosto. – Estou um tanto ocupado, Srta. Venzi – disparou ele. – Ocupado demais para dizer “olá”? – retruquei. Ele me encarou por um longo instante. – Sim, estou ocupado demais para isso – replicou ele, saindo de supetão da sala. Bem, foda-se você também! Infelizmente, pude ver que nosso pequeno tête-à-tête não havia sido nem um pouco discreto. – Cacete, Venzi! O que você fez para o pobre desgraçado? Ele parece tão feliz de te ver quanto um peido em uma xícara de chá.


Chacoalhei a cabeça, frustrada. – Não faço ideia – menti. – Ele é um sujeito rude – concluiu Marc. – Certamente, não é nenhum cavalheiro. Eu tive de concordar, mas o pensamento me entristeceu. Dez anos atrás, Sebastian era a mais gentil das almas. Inevitável pensar em seus vários atos de bondade comigo. Bem, aquilo tinha sido há muito tempo; era óbvio que ele me detestava agora. Resolvi que tinha feito o que podia; se ele não queria conversar comigo, era um direito seu. Eu não forçaria nada. Além do mais, essa porcaria de treinamento logo terminaria, e eu esperava estar a caminho de Leatherneck nos próximos dois ou três dias. Entrara em contato com meu editor e ele havia prometido fazer algumas ligações em meu benefício para colocar as coisas em movimento. Parecia que minha última chance de conversar com Sebastian já havia passado, porque ele não voltou após o almoço para o final do treinamento. Nenhum comentário foi feito sobre sua ausência, mas fiquei com a impressão de que os oficiais britânicos estavam aliviados por ele ter desaparecido. – Então, espero que tenha achado úteis os últimos dois dias, Srta. Venzi – disse o major Parsons, enquanto eu fechava minha bolsa. – Muito informativos – falei, sem expressão. – Fico contente em ouvir isso – disse ele, com um brilho nos olhos. – Aprendeu de fato alguma coisa nova? – Dobrei meu vocabulário de dari e pashto – respondi. Ele pareceu confuso. – Eu não sabia que você já falava alguma coisa dessas línguas. – Eu não falava. Ele sorriu ao captar o significado do que eu havia dito. – Percebo! Bem, talvez eu possa compensar sua ausência de progresso pagando-lhe um drinque essa noite? Ah. Por essa eu não esperava. – Muito gentil de sua parte, major, mas eu tenho algumas anotações para preparar. Foi um prazer conhecê-lo. Ele aceitou bem minha rejeição, correspondendo ao aperto de mão com a quantidade correta de pressão. – Boa sorte lá fora – disse ele, sério. – Mantenha a cabeça baixa. Eu detestaria ouvir que algo aconteceu com você. – Ele hesitou por um momento. – Talvez possamos nos encontrar da próxima vez que você estiver em Genebra, ou, de fato, em qualquer lugar perto da Suíça. Estarei neste posto pelos próximos seis meses, no mínimo. – Bem, obrigada. Eu não tenho planos para voltar a esse país, mas certamente vou tomar nota disso. Nesse ponto ele abandonou o campo e saiu com sua dignidade intacta – e minha opinião sobre ele valorizou ainda mais. – Não está interessada, Lee? – indagou Marc, um olhar sagaz em seu rosto. – Qual o sentido? – suspirei. – Eu não voltarei à Suíça por meses, se é que voltarei.


– Você poderia levá-lo para um passeio rápido… Ver como anda o trote dele. – Liz sorriu. Rolei os olhos. Casos de uma noite nunca tinham sido coisa minha, e o que eu disse era verdade: não havia sentido em começar um relacionamento a tão longa distância. Sem contar com isso, eu teria sido uma tola em me misturar com outro militar depois do meu casamento desastroso. Fomos até o bar e passamos a noite com alguns dos outros jornalistas, trocando histórias exageradas sobre alguns dos locais onde fizemos reportagens. As de Liz eram, de longe, as mais exageradas – embora, no caso dela, eu estava disposta a apostar que fossem todas verdadeiras. Pouco antes da meia-noite, voltei para meu hotel em um humor muito melhor. Ainda não tinha obtido resposta do meu editor durante o dia, mas sentia-me esperançosa de que logo estaria a caminho. Tirei minhas roupas e tomei um banho rápido antes de conferir meus e-mails outra vez. Nem uma palavra ainda sobre minha carona para Leatherneck. Irritante – mas eu ainda não iria me preocupar. Programei meu celular para me despertar de manhã e apaguei a luz, torcendo, contra todas as evidências, que conseguisse mesmo dormir. Fui acordada abruptamente quando alguém bateu na porta do meu quarto. Espremi os olhos e espiei meu telefone. Credo! Duas da manhã! Quem diabos estava batendo na minha porta a essa hora? Rabugenta, acendi a luz de cabeceira, apertando os olhos para me proteger da luz, e procurei meu robe, atabalhoada. – Quem é? – Deixe-me entrar, Caro. Ninguém me chamava de “Caro” há anos; de fato, apenas uma pessoa havia usado aquela versão do meu nome. E eu conhecia a voz dele – exceto pelo tom, que estava estranho. A surpresa e o choque fizeram meu batimento cardíaco disparar de súbito. – O que você quer, Sebastian? – perguntei, através da porta fechada. – Deixe-me entrar – ele resmungou de novo. – Preciso falar com você. Agora ele queria conversar? Ele tornou a bater na porta. – Caro! Desse jeito, ele iria acordar o hotel todo. Deus, ele era irritante. E sua noção de oportunidade era terrível. Relutante, porém curiosa, abri a porta. Sebastian estava apoiado contra o batente, deliciosamente amarrotado em um jeans velho, uma camiseta preta e uma jaqueta de couro marrom. Irritante e lindo. – Caro – disse ele, uma expressão lúbrica no rosto. Ah, inferno. E também muito bêbado. – O que você quer, Sebastian? Ele não respondeu, passando por mim e entrando no quarto. – O que você está fazendo? – falei, começando a me zangar. – Só conversando com velhos amigos – respondeu ele, com um sorriso sarcástico.


– Como você me encontrou? Ele sorriu e batucou na têmpora com um longo dedo. – Inteligência militar. Fechei a porta, torcendo para que ninguém tivesse visto ou ouvido sua entrada barulhenta em meu quarto. Contudo, o corredor do hotel estava silencioso. Ele atrapalhou-se para tirar a jaqueta e jogou-a na direção da cadeira, errando o alvo por um quilômetro. Inevitável notar que sua camiseta se ajustava ao corpo de um jeito que trazia de volta um excesso de lembranças. Ele se sentou na cama e indicou o espaço a seu lado com a mão, sugestivamente. – Venha e sente-se comigo, Caro – disse ele, a voz se arrastando. Ah, eu acho que não mesmo. Cruzei os braços sobre o peito e continuei de pé. Seu olhar vagou por mim de cima a baixo de uma forma que aqueceu meu corpo todo. Eu não corava desse jeito há muito tempo. – Por que você está aqui, Sebastian? Teve sua chance de falar comigo mais cedo, mas preferiu me ignorar. Ele piscou para mim, seus olhos verde-mar intrigados. Era estranho vê-lo tão longe do oceano. Aí ele sorriu de novo. – Você ainda tem uma bunda fantástica, Caro. Já bastava. – Certo, acho melhor você ir embora agora. Seja lá o que tenha para me dizer pode esperar até você estar sóbrio. Ele apenas continuou ali sentado, sorrindo para mim. Decidi dar uma dica mais óbvia. Adianteime para retirá-lo da cama, mas em vez disso ele inclinou-se para a frente, envolvendo os braços ao meu redor e enterrando o rosto no meu peito. Isso estava ficando ridículo: o cara não aceitava um “não” como resposta? Eu certamente não queria fazer parte de nenhum harém. – Sebastian, pare com isso – falei, resoluta. – Quero que você vá embora. Agora! Entretanto, ele me segurou com mais força e seus ombros começaram a tremer. Com algo próximo do horror, percebi que ele estava chorando. – Por que você não voltou? – soluçou ele. – Eu esperei e esperei por você, como disse que faria, mas você nunca voltou! Por quê? Por que você não voltou? Eu te amo, eu te amo, eu te amo. Fiquei atônita. Não. Não era isso o que eu esperava, de forma alguma. E então me perguntei se toda sua aparente antipatia, toda a rudeza que me demonstrara, era só um muro protegendo-o da dor pela qual eu o fiz passar; uma rejeição que durou anos. Ele ainda me amava? Ah, não. Ele não podia estar falando sério. Não, era o álcool falando. – Sebastian… – comecei. Ele me abraçou mais apertado e começou a beijar meu peito, abrindo meu robe e expondo meus seios. Colou os lábios sobre meu mamilo e puxou gentilmente com os dentes. Tentei empurrá-lo para longe. – Não!


No entanto, ele não parou. Puxou-me para a cama e postou-se por cima de mim, beijando meu pescoço e meus seios vezes sem fim. Ele era tão forte que eu não consegui afastá-lo; seus braços seguravam meus pulsos e seu corpo era pesado, esmagando-me contra o colchão. – Sai de cima de mim! – gritei para ele, conseguindo soltar minhas mãos e empurrando seu peito com toda a força. Com um longo suspiro, ele rolou até deitar de barriga para cima e ficou imóvel. Eu me sentei, chocada e assustada. Fechei meu robe e o encarei. Ele tinha adormecido, desmaiado de bêbado, roncando de leve. Eu tremia pela descarga de adrenalina e medo. Empurrei-o com a mão. – Sebastian, acorda! Acorda! Ele resmungou algo e virou de lado. Merda. Isso era exatamente o que eu não precisava. Perguntei-me o que fazer. Se telefonasse em busca de ajuda, todos presumiriam que tínhamos dormido juntos. Eu não queria arruinar minha reputação já machucada; e, se eu reportasse o ataque dele, Sebastian seria preso e passaria por uma corte marcial, com a distinta possibilidade de que nosso passado ilícito fosse descoberto. Não importa a distância que eu tivesse percorrido, nem o quanto tivesse trabalhado, eu jamais seria capaz de fugir do meu passado. O pensamento me deixou gelada de fúria. No final, resolvi que o mais simples seria deixá-lo exatamente onde ele estava. Sebastian com certeza não tentaria mais nada comigo naquelas condições, e uma parte minha – pequena, mas insistente – relembrava que já tínhamos sido apaixonados. Lutei para tirar suas botas de motoqueiro e puxei a manta sobre ele. Definitivamente, eu não dormiria nua como em geral fazia, portanto cacei uma camiseta larga, vesti uma calcinha e rastejei de volta para a cama. Era estranho tê-lo deitado perto de mim outra vez depois de todos esses anos. Fiquei acordada por muito tempo, escutando os ruídos da respiração dele, um dilúvio de lembranças remexendo meu cérebro e aquecendo meu corpo. Quando meu despertador tocou na manhã seguinte, pelo mais breve instante eu não pude me lembrar do que havia acontecido. Gelei quando percebi que não estava sozinha na cama, e então tudo voltou: Sebastian batendo na porte; seus beijos atrapalhados, sua estranha admissão – Sebastian, bêbado, desmaiando em minha cama. Senti seu corpo se mexer no colchão e ele flexionou os quadris, empurrando de leve sua muito notável ereção matinal nas minhas costas. Algumas coisas não mudavam nunca. Cautelosamente, afastei-me dele e me sentei. Um olho azul esverdeado sonolento piscou para mim. Ele parecia intrigado. – Caro? – Você está acordado, então – falei, cortante. Ele pareceu embaraçado e confuso ao reparar onde estava. – Nós fizemos…?


– Não, definitivamente não fizemos. Você me acordou no meio da noite batendo na minha porta, depois desmaiou na minha cama. – Ah, é. Ele apoiou-se em um braço e olhou para baixo, para as roupas que ainda vestia, analisando a verdade daquela declaração. E então sorriu para mim. – Desculpe sobre isso. Podemos compensar por isso agora, se quiser. Eu não podia acreditar. Quem diabos ele pensava que era?! – Por mais espantoso que pareça, Sebastian – falei, com uma voz fria –, sua oferta encantadora não me tenta. O sorriso dele desapareceu e por um instante ele pareceu magoado; eu me lembrava daquela expressão. Em seguida, sua expressão arrogante estava de volta. – Tanto faz. Ele colocou as pernas compridas para fora da cama e se sentou. Não parecia estar sofrendo nenhum efeito de ressaca. Deus, como ele era irritante! – Onde estão minhas botas? – resmungou ele. – Debaixo da cadeira – falei, apontando. – Junto com a sua jaqueta. Ele se levantou e eu me diverti um pouco ao ver que ele precisou arrumar a calça. Ele apanhou sua jaqueta e reparei que ele estava partindo. Fiquei surpresa ao sentir uma pontada de desapontamento. – Por que você veio até aqui na noite passada, Sebastian? Ele franziu o cenho, depois encolheu os ombros. – Não me lembro. Ele foi até a porta e olhou por cima do ombro. – Vejo você por aí, Caro. E então se foi. Fiquei ali sentada por vários minutos, tentando processar o que havia acabado de acontecer. Ele sempre tinha sido fácil de entender, mas naquele momento eu não fazia nenhuma ideia do que estava acontecendo com ele. Balancei a cabeça e fiz um lembrete mental para não abrir minha porta para homens estranhos no meio da noite, a despeito do quanto eles fossem gostosos ou como recheassem bem uma calça jeans. Após meu despertar extraordinariamente estimulante, o dia se arrastou. Meu editor me enviara um e-mail durante a noite para dizer que meus documentos de viagem estavam definitivamente atrasados, mas que ele esperava entrar em contato com alguém que pudesse ajudar o mais breve possível. As letrinhas pequenas diziam: pode contar em ficar presa em Genebra por no mínimo alguns dias. Liz demonstrou sua compaixão durante o café da manhã. – Sinto muito ouvir isso, Lee. Minha papelada foi entregue pela embaixada logo cedo. Meu voo parte em duas horas. Talvez eu a veja por lá. – Talvez – falei, esgotada. – Cuide-se. Mantenha a cabeça baixa e tome cuidado. – Você me conhece, Lee. Eu uso calcinha de ferro – totalmente indestrutível. Nós nos abraçamos brevemente e ela partiu outra vez.


Mandei uma mensagem de texto para Marc para ver se ele estava livre; eu não podia enfrentar um dia vagando sozinha e sem objetivo. Preferia vagar sem objetivo, mas acompanhada. Fiquei aliviada quando Marc disse que ficaria feliz em me encontrar. Passamos um dia sossegado examinando uma mostra de fotografia na galeria Sonia Zannettacci e caminhando pelo Quai de Seujet até o lago. No início da noite, comecei a ficar com fome e Marc ofereceu-se para me fazer companhia durante uma refeição de massa em um bistrô pequeno e familiar que eu tinha descoberto, depois da esquina do meu hotel. Eu estava começando um pizzoccheri muito saboroso, um tipo de massa semelhante ao tagliatelle, feito com farinha de trigo sarraceno e cozida com aspargos e batatas picadas, uma especialidade local, quando o fone de Marc bipou anunciando uma mensagem. – Temo, chère Lee, que vou deixá-la sozinha após essa noite; meus papéis e o trabalho chegaram. Fiquei feliz por ele, mas sentindo um desânimo me invadir. Como os governos britânico e francês podiam expedir vistos para seus cidadãos, enquanto o meu país era tão inepto? Enquanto discutíamos sua partida iminente para Fayzabad, no norte do Afeganistão, fizemos vagos arranjos para nos encontrarmos, caso estivéssemos a uma distância curta. Tínhamos quase acabado uma garrafa do tinto da casa quando tomei ciência de que alguém assomava sobre nós. Para meu assombro, e mais do que leve consternação, vi que era Sebastian. Ele parecia mal conseguir conter a raiva, os olhos lampejando. – Precisamos conversar – disse ele, entredentes. Antes que eu pudesse formular uma resposta, ele agarrou meu braço para me puxar para cima. Marc se levantou de imediato. – Solte-a, m’sieur, ou nós dois teremos um problema. Sebastian fitou-o com raiva e, por um momento, pensei que teria de separar uma briga; todavia, logo soltou meu braço. Eu queria saber que diabos Sebastian estava tentando. Fosse qual fosse seu problema, eu já havia me cansado desse jogo de esconde-esconde cujas regras só ele compreendia. – Está tudo bem, Marc – falei, baixinho. Ele ergueu as sobrancelhas, encarou Sebastian, depois a mim. – Muito bem, mas vou ligar para seu celular daqui a 15 minutos para ver como você está, chérie. Sorri e soprei-lhe um beijo. – Quem ele pensa que é, porra? – rosnou Sebastian, enquanto eu deixava o bistrô com ele. Eu o encarei, espantada. – Um amigo! E o que isso te importa? Ele não respondeu. Eu o segui, caminhando ao seu lado, enquanto ele marchava pela rua em um silêncio furioso. Eu não sabia se achava graça de sua petulância, ficava com raiva de sua rudeza ou com medo de sua raiva tão óbvia. Todas as três coisas, provavelmente. Ele entrou em uma pequena cervejaria, mantendo a porta aberta para mim. Bem, essa já era uma pequena melhoria em seus modos. O barman o cumprimentou com um gesto de cabeça, reconhecendo-o, e as palavras de Liz voltaram à minha mente: dizem que ele bebe. Ele fez o pedido sem perguntar minha preferência.


– Deux whiskies. Mas que coragem! – Non merci, je prefere du vin rouge, monsieur. – Eu sempre preferi vinho tinto a uísque. Sebastian parecia enfurecido. Bem, foda-se ele. O barman serviu nossas bebidas, depois se afastou para atender um casal de turistas na outra ponta do bar. Sebastian jogou o uísque garganta abaixo e virou-se de frente para mim. – O que você está fazendo aqui, Caro? – disse ele, uma expressão de desprezo manchando seu rosto adorável. – Essa é uma boa pergunta, Sebastian – retruquei calmamente. – Nesse momento, estou me perguntando por que diabos estou ouvindo você mandar em mim. – Ah, pelo amor de Deus! A resposta dele foi quase divertida. Quase. – Sério, o que isso te importa? – perguntei, genuinamente interessada em uma resposta honesta. Ele passou as mãos pelo cabelo – um gesto que, eu me lembrava, denotava uma extrema frustração. – É perigoso lá fora, Caro. No Afeganistão, eu digo. Sei que é para lá que você vai, obviamente. O quê?! Respirei fundo. – Sebastian, além do fato de que eu já fiz outros trabalhos de reportagem no Iraque e em Darfur, que não foram exatamente acampamentos de verão, não é da sua conta. – Mas é da minha conta! Ele realmente era inacreditável. – Baseado em quê? Ele ficou em silêncio. – Sabe, Sebastian – falei, minha voz se elevando com raiva –, passei 11 anos recebendo ordens do meu ex-marido sobre o que fazer. Não preciso que você também comece com isso. De todas as pessoas, você é quem mais deveria compreender isso. Ele empalideceu, uma expressão magoada. Era a primeira vez que algum de nós referia-se ao passado ou ao que acontecera entre nós. – Caro, não é isso, eu… Porém eu já tinha ouvido o bastante. Se essas eram as pérolas de sabedoria que eu tinha vindo escutar, estragando assim minha última noite com Marc, para mim já bastava. Levantei-me para partir. – Caro! Não… não vá. Sua expressão e sua voz eram implorantes. – Por que você me trouxe aqui, Sebastian? E eu realmente gostaria de saber por que você me agrediu na noite passada. Ele me fitou, boquiaberto. – Agredir? Eu não te agredi! Eu jamais… – sua voz foi sumindo e ele me encarou angustiado ao ver a raiva no meu rosto.


– Na verdade, agrediu sim. Você só estava bêbado demais para se lembrar. Tem muita sorte que eu não tenha te denunciado. Embora eu ache que você pode compreender o motivo pelo qual eu não o fiz, e por que eu não podia denunciá-lo. Boa noite, Sebastian. Dei um passo, em seguida virei-me e olhei para ele de novo. – Espero que você tenha uma boa vida, de verdade. E já que estamos falando nisso, pare de beber antes que faça algo realmente estúpido. Mais estúpido. E então girei sobre os calcanhares e parti. 2

Termo militar: permanentemente desqualificado. (N.T.)


C APÍ TU LO

3

EU ESTAVA FERVILHANDO enquanto caminhava de volta para o hotel. Não sei se foi pelo gelado ar noturno ou pela memória da expressão magoada dele quando eu saí, mas minha ira começou a diminuir. E a despeito do quanto seu comportamento tinha sido inadequado, percebi que era causado por uma preocupação dele com meu bem-estar. Balancei a cabeça; eu realmente não conseguia compreendê-lo. Em um minuto ele estava me ignorando ou sendo abertamente rude; no momento seguinte, tentava dormir comigo, depois agia como um namorado ciumento ao me encontrar com Marc. E como, diabos, ele havia me encontrado, para começo de conversa? Duas vezes! Eu queria que pudéssemos conversar como dois seres humanos normais. Isso parecia improvável. Havia história demais, muita água turbulenta por baixo dessa ponte. Quando eu deslizei o cartão na porta do meu quarto de hotel, minha ira havia se esvaziado. Em vez dela, eu me sentia inquieta e irritável. Conferi meu celular para ver se não tinha recebido um e-mail de meu editor; contudo, embora ele tivesse escrito para dizer que ainda estava procurando seus contatos no Departamento de Defesa, não havia outras notícias. Pior ainda, começava a parecer que o atraso seria contado em semanas, não dias. Joguei meu telefone na cama de desgosto, e resolvi que um banho quente poderia me relaxar. Era uma esperança fútil. Eu tinha acabado de me enrolar em uma toalha quando ouvi uma batida na porta. Meus instintos me disseram que não seria o serviço de quarto. – Sim? – Caro, sou eu. Podemos conversar? – Acho que já falamos tudo, Sebastian. – Posso entrar? Só para conversar. – Isso é alguma piada? Não, não pode. Houve uma pausa, depois sua voz se tornou mais baixa e mais tensa.


– Caro, por favor. Eu não vou… tentar nada. Só quero conversar com você. Por favor. A voz dele soou tão desolada que minha resolução começou a oscilar, vacilou e acabou cedendo por completo. – Certo – suspirei. – Escute, eu te encontro no saguão em cinco minutos. Essa é minha melhor oferta. – Você… você não confia em mim? Eu não respondi. – Certo – disse ele, baixinho. – Eu estarei esperando. Passei uma escova por meu cabelo molhado e vesti uma calça jeans, camiseta e jaqueta. Eu meio que esperava que ele estivesse esperando do lado de fora da minha porta, mas o corredor estava silencioso e vazio. O elevador deslizou até o térreo, exalando um sibilo suave quando as portas se abriram. Meus olhos vasculharam a sala e eu o vi logo. Ele estava sentado em um sofá comprido e baixo, a cabeça nas mãos. Quando ele olhou para cima e me viu, sua expressão clareou, um pequeno sorriso surgindo em seu rosto. Ele se levantou educadamente quando me aproximei, mas meu próprio olhar, tenho certeza, era cauteloso. Sentei-me em uma cadeira perto do sofá e esperei que ele falasse. – Você veio – disse ele, muito quieto. – É evidente. O que você quer agora, Sebastian? Minha voz era fria e distante, apesar de, por dentro, eu não me sentir nem um pouco assim. – Gostaria de uma bebida? Ergui as sobrancelhas. – Isso era para ser engraçado? – Não… eu… Ele olhou melancolicamente para o bar, em seguida baixou o olhar para as mãos. Cruzei meus braços e esperei que ele falasse. – O que você disse mais cedo… – Ele respirou fundo e aquele simples ato pareceu erguer um pouco de sua barricada emocional. – Eu não te agredi de verdade, não é? – disse ele, confiante. – Você só estava falando isso para se vingar de mim. Foi por isso que ele implorou para que eu viesse até aqui? Para me chamar de mentirosa? Fantasiosa? – Não, Sebastian, você me agrediu mesmo – respondi, um pouco zangada. – Você estava bêbado… eu não consegui… não consegui te impedir. Fechei os olhos e estremeci com a lembrança. – Se você não tivesse desmaiado naquele momento… você me assustou – falei, olhando diretamente para ele. – Lembrou-me do seu… Mordi meu lábio para conter o fluxo de minhas palavras apressadas, mas era tarde demais. Ele arfou. – Eu te lembrei do… do meu pai?


Assenti, e a expressão dele era de quem tinha levado um golpe. – Você realmente estava com medo de me deixar entrar no seu quarto, agora há pouco? Eu te assustei tanto assim? Eu não respondi, deixando um silêncio horrorizado flutuando no ar. – Meu Deus! Caro… Eu nunca… Eu não poderia… Eu o encarei, desconfiada. O menino que eu conheci jamais teria me machucado – mas ele tinha ido embora há muito tempo. Eu não conhecia mais quem Sebastian era – ele era um estranho. – Cacete, Caro! Sinto muito, muito mesmo. Ele deixou a cabeça cair sobre as mãos de novo. Eu contive um impulso adormecido de reconfortá-lo, de abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem. Em vez disso, continuei olhando para Sebastian, traçando as memórias de dez longos anos atrás. Meu celular tocou, o que foi uma interrupção muito bem-vinda. – Chérie! Eu te liguei várias vezes! Está tudo bem? – Ah, merda! Desculpe, Marc. Sim, estou bem. De verdade. Não precisa se preocupar. – Humm, tudo bem. Você ainda está com ele? – Estamos sentados no saguão do meu hotel. Estou bem, mesmo. – Bien, ma chère. Se você diz. Ligue se precisar de mim. – Não precisarei, mas obrigada, Marc. Tenha um bom voo e cuide-se. Não quero que nada te aconteça. Ciao. Sebastian franziu o cenho. – Era o seu amigo? Rolei os olhos. – Ele é seu namorado? Ri, sem humor nenhum. – Marc é um bom amigo. Ele estava só… preocupado. – Claro que sim. – Na verdade, acho que você faz mais o tipo dele. Sebastian pareceu surpreso. Eu sabia há anos que Marc era gay; no entanto, ele não divulgava o fato. Não seria bom para sua carreira. – Você… contou a ele sobre mim? – perguntou ele, baixinho. – Que parte? – Suspirei. – Não importa. A resposta é não. Não é da conta de mais ninguém além de mim. Olhei abertamente para meu relógio. – Sebastian, já é tarde e eu estou cansada. Se você tem mais alguma coisa a me dizer, diga rápido. Se não, estou indo para a cama. Ele encarou as próprias mãos outra vez. – Desculpe por ter sido tão cretino – disse ele, em voz baixa e quase humilde. – É só que foi… um choque… ver você de novo. – Para mim também – falei suavemente. Ele pareceu esperançoso de súbito, e eu me arrependi de ter lhe dado um motivo.


– Deixe-me compensar você por isso, Caro. Deixe-me levá-la para passear amanhã. Eu poderia te mostrar a cidade. Estou aqui há meses, conheço bastante bem a cidade. – Acho que não… – Caro, vamos lá. Vou me comportar muito bem, prometo… Eu sei que a sua permissão para viajar ainda não foi liberada. Estreitei os olhos. – Como você sabe disso? – Bem… – Ele fez uma pausa. – Essa foi só a impressão que eu tive. De outro modo, você estaria fazendo as malas. Novamente havia algo estranho no tom dele, porém eu não conseguia perceber o que seria. Por outro lado, toda essa conversa tinha sido mais desgastante do que o habitual. – Por favor, Caro, eu conheço alguns restaurantes italianos ótimos. Vai ser como… Ele hesitou, então completei a frase por ele: – … nos velhos tempos? Sebastian deu um sorrisinho. – Você tem algo melhor a fazer? Suspirei, cedendo. – Não, não tenho. Mas um movimento em falso, Hunter, e você vai se arrepender. Ele abriu um sorriso imenso. – Sim, senhora! Não pude evitar sorrir de volta. Eu estava exausta pelas fortes emoções que tinham sido tão abundantes recentemente. Uma taça de vinho parecia muito atraente. Olhei na direção do bar. Agora que havíamos conversado e ele se desculpara, consegui relaxar um pouquinho. – Acho que aceito aquele drinque agora. Antes que eu pudesse me levantar para ir até o bar, ele já estava de pé. – Eu vou buscar. Um vinho tinto? – Sim, obrigada. Encolhi-me em meu assento, observando-o se debruçar contra o bar enquanto esperava ser atendido. Da última vez que passáramos algum tempo juntos desse jeito, ele ainda não tinha idade bastante para comprar bebidas alcoólicas. Fiquei surpresa quando ele voltou com duas taças de vinho; presumi que ele fosse tomar uísque de novo. Fiquei muito contente ao ver que não. – Pedi um Barolo para você. – Humm, meu favorito. – Eu sei. Eu lembrei que você gostava. Fitei-o, espantada. Como, raios, ele se lembrava de algo assim? – Ah, bem… obrigada. De súbito me senti desajeitada de novo, o olhar dele intenso demais. Suspirei. Estava na hora de ter aquela conversa.


– Como foi… depois que eu parti? Ele se recostou no sofá e fechou os olhos como se sentisse dor. Quando os reabriu, as velhas feridas ainda estavam abertas. – Ruim. Ele engoliu seco, e eu pude ver que ele tentava encontrar as palavras certas. – Minha mãe e meu pai estavam… No final, Mitch foi vê-los. Eu não sabia o que ele disse na época, mas ele e Shirley me levaram para morar com eles. Mais tarde, descobri que Mitch tinha ameaçado ir ao oficial no comando de meu pai para contar que ele vinha… me espancando. Minha mão adejou até a boca, tentando bloquear a náusea que surgiu. – No meu décimo oitavo aniversário, eu me alistei com os Fuzileiros Navais. – Ele ergueu o olhar. – E basicamente, é isso. – E Mitch e Shirley? Ches? – Mitch e Shirley conseguiram um posto na Alemanha pouco tempo depois. Ches estava estudando na UCSD, assim, quando eu estava de licença, ficava com ele e seus colegas da faculdade. – Ele abriu um breve sorriso. – Agora ele está casado e tem dois filhos. – Está brincando! É mesmo? Tentei imaginar o despreocupado Ches como o responsável pai de dois filhos. E então me lembrei de uma época em que Sebastian e eu pensávamos em ter filhos. Um sonho impossível. – Ele se alistou? – Ia se alistar, mas aí conheceu Amy na faculdade e ela o convenceu a não fazer isso. Ele é o gerente do La Jolla Country Club agora. Eu tinha lembranças do Country Club, das poucas breves semanas de minha associação enquanto Sebastian trabalhava lá como salva-vidas. Recordava-me em particular de uma sessão muito quente de sexo ilícito em uma sala de almoxarifado perto do vestiário, quem imaginaria. Pelo ardor nos olhos de Sebastian, ele estava na mesma página. Tive que desviar o olhar. – Shirley e Mitch ainda estão na Alemanha? – Não. Mitch foi enviado para a ilha Parris como instrutor. Porém, da última vez que os vi, eles estavam falando em voltar para San Diego. Acho que querem ficar perto dos netos. – Para onde Donna e Johan foram? Uma expressão estranha passou pelo rosto de Sebastian. – Como você sabe que eles foram embora? Hesitei, pensando se uma resposta honesta seria boa para alguém após tantos anos. Contudo, talvez precisasse ser dito, afinal. – Eu escrevi para eles. Ele debruçou-se adiante, me encarando. – Quando? – Perto da época do seu aniversário de 21 anos, Sebastian. E para Shirley e Mitch. Minhas cartas foram devolvidas ao remetente, fechadas. Presumi que eles tivessem ido embora ou… Eu não precisava terminar a frase. Ele soltou uma grande lufada de ar em um suspiro profundo, como se estivesse prendendo o fôlego por muito tempo.


– Então… você tentou entrar em contato comigo? – Sim e não. Eu queria acreditar que você tinha seguido com sua vida e eu não queria… interromper nada. Foi por isso que tentei contatar Shirley e Mitch. Eu queria descobrir se minha abordagem seria algo positivo ou não. Quando minha carta foi devolvida… Olhei para ele. Sua expressão era cética, e eu me senti magoada e aborrecida: ele não acreditava em mim. – Todos diziam que eu deveria simplesmente me esquecer de você – disse ele, a voz grave cheia de arrependimento. – Como se isso fosse sequer possível. Eu tentei te encontrar, Caro, mas não sabia o seu sobrenome, seu nome de solteira, e a única pessoa que sabia isso… Era o meu ex-marido. – Deixei mensagens em todo lugar que consegui imaginar – prosseguiu ele, baixinho. – Pedi aos novos inquilinos da sua casa, da de Shirley e Mitch, e de Donna, pedi a todos eles para entregar qualquer carta para mim… Acho que isso não aconteceu. Cacete, Caro, nós poderíamos estar… Ele não conseguiu terminar, sua voz engasgando-se e tornando-se indistinta. Notei que suas mãos tremiam de leve quando ele tomou um longo gole de seu vinho. – Você achou que eu não ligava. Ele deu de ombros. – No começo, eu não sabia o que pensar. Depois… é, acho que pensei que você tinha… seguido em frente. Suspirei. – Eu segui em frente, Sebastian; eu precisava seguir. Quando aquelas cartas voltaram… e mesmo antes de eu enviá-las, pensei que você estaria melhor sem mim. Creio que eu esperava que a sua vida fosse ser… diferente. Mais semelhante à do Ches. Acho que isso explica por que você foi tão desagradável nos últimos dias. Ele se encolheu e pareceu arrependido. – Merda, eu sinto muito mesmo por isso. É que foi um choque do cacete. Eu não sabia o que pensar. Me deixou em parafuso. – Foi um choque para mim também, Sebastian, mas eu não me comportei feito uma idiota. Ele olhou para mim, surpreso, depois deu um sorrisinho contrito. – Não é o seu estilo, Caro. Seu sorriso foi se desvanecendo e eu pude ver que ele queria me perguntar alguma coisa, mas não sabia se devia. Eu já podia provavelmente adivinhar… Recostei-me na cadeira. – Simplesmente me pergunte, Sebastian. Ele piscou algumas vezes depois chacoalhou a cabeça lentamente, um sorriso admirado erguendo seus lábios. – Você é tão destemida, Caro, eu amo isso em você. Suas palavras me pegaram de surpresa, deixando-me emudecida. De novo. – Eu estava me perguntando… se você está saindo com alguém. Sim, era o que eu pensei que você perguntaria.


– Não, não estou. Ele pareceu relaxar um pouco. – Mas saiu? Digo… desde… – Eu namorei algumas vezes, mas não, não houve nada sério. Além do mais, eu viajo demais para sustentar um relacionamento. E definitivamente não quero ficar presa de novo. Ele franziu a testa, mas não comentou. – E você? Alguém importante? Ele bufou e girou os olhos. – Nem a pau! Ergui as sobrancelhas. – Não foi o que eu ouvi falar. – O quê? O que você ouviu falar? – indagou ele, quase raivoso. Eu fiquei um tanto surpresa pelo tom dele, mas já que estávamos sendo francos aqui… – Sobre a esposa do seu oficial no comando, em Paris? Talvez fosse só fofoca. Ele sorriu, malicioso. – Ah, aquilo. O cara era um desgraçado de primeira. Mereceu. Balancei a cabeça em censura. – E ela “merecia”? A esposa dele? – Merecia, sim. Odiei ver uma expressão tão feia em seu rosto lindo. – E a possibilidade de enfrentar a corte marcial e ser expulso da corporação… isso também não te importava? Ele deu de ombros com arrogância. – Eu não estou nem aí. Eu não gostava desse lado agressivo e machista dele. Decidi que tinha passeado bastante pela alameda das memórias por uma noite. – Bem, acho que vou encerrar a noite agora, Sebastian. Sua expressão espantada encontrou a minha, fria. – Não vá, Caro! Nós mal começamos a conversar de novo. Você não terminou seu vinho, você… – Não, estou cansada. Comecei a me levantar, mas ele pôs uma das mãos em minha coxa, me contendo. – Caro, eu te quero muito. O quê? Ele era inacreditável! Por que eu estava aqui escutando essa merda, mesmo? – Pelo amor de Deus, Sebastian! Mal tomamos um drinque civilizado juntos e você acha que eu vou simplesmente me jogar na cama com você? – Você costumava fazer isso. Era como se eu tivesse sido esbofeteada – e eu realmente, realmente senti vontade de bater nele. – Como se atreve?! – sibilei. A compreensão do que ele havia dito e como eu interpretei suas palavras surgiu em seus olhos, tingindo seu rosto de repulsa. Com ele mesmo, esperava eu.


– Eu não quis dizer nesse sentido – disse ele, carrancudo. Fiquei de pé para partir e ele agarrou minha mão. – Caro, espere! Merda! Desculpe. Eu me soltei com um safanão. – Sebastian, não podemos simplesmente rebobinar os últimos dez anos e fingir que eles nunca aconteceram. Muita coisa aconteceu, muito tempo se passou. – Vamos, Caro, não diga isso. – Boa noite, Sebastian. Não me incomodei com o elevador – eu precisava queimar um pouco da energia nervosa que me percorria. Não pude evitar o sentimento de que sua cantada desajeitada tinha sido um tipo de tentativa de me punir – acrescentando-me à sua lista de conquistas para que ele pudesse fechar esse capítulo de sua vida, talvez, trancando a porta para seu passado. Exatamente quando eu tinha começado a sentir… Não. Não vou nem pensar nisso. Definitivamente, não vou pensar nisso. Para acrescentar mais lenha à séria irritação, ainda não havia notícias de meu editor. Eu andei pelo quarto de hotel, encontrando serviços insignificantes para fazer, depois disparei mais e-mails para Jenna e Alice como tentativa de me distrair. Foi uma tentativa fútil. Eu não sabia o que diabos estava havendo com Sebastian. Em alguns momentos, achava que podia sentir a presença do doce menino que ele havia sido, cuja consideração e bondade tinham me tirado do chão, tanto, se não mais, quanto sua presença física. Contudo, em outros momentos, eu não via nada além de um mulherengo amargo e predatório, cujo objetivo primário era deitar-se com tantas mulheres quanto possível, e cuja arma principal era sua aparência ridiculamente boa. Eu quase esperava que ele viesse bater de novo à minha porta, e tinha algumas frases já escolhidas e à espera, mas o corredor estava estranhamente silencioso. Irritada comigo mesma, irritada com ele, joguei-me na cama e passei uma noite insone lutando com o cobertor. Antes do amanhecer, eu desisti e fui para a piscina do hotel, nadando meia dúzia de voltas antes que outros hóspedes chegassem para torná-la desagradavelmente lotada. Saí trôpega da piscina e me embrulhei no robe oferecido pelo hotel antes de voltar para meu quarto. Fazendo a curva, ouvi a voz dele antes de vê-lo, seu tom raivoso ecoando pelo corredor. – Puta merda, Caro! Não podemos apenas conversar, por favor? Ele bateu na minha porta de novo e eu o ouvi resmungar em seguida: – Isso é loucura, cacete. – Essa seria uma das palavras, sim – falei baixinho, e tive o prazer vingativo de vê-lo se encolher. Ele se virou e teve a graça de parecer envergonhado. – Ah. Pensei que você não estivesse falando comigo. – Essa certamente teria sido uma de minhas melhores ideias – falei friamente. Ele suspirou e esfregou os pelos castanho-claros que começavam a brotar em seu queixo.


– Não seja assim, Caro. Olha, eu sinto muito. De verdade. Perto de você, parece que eu só abro a boca para soltar abobrinhas. – Não tenho como discordar. – Vou me desculpar de novo, se você permitir que eu te pague um café – disse ele, arqueando uma sobrancelha e sorrindo para mim. – Você está me perseguindo, Sebastian? Pensei que tínhamos dito tudo um para o outro na noite passada. O rosto dele desabou e se encheu de mágoa. – Eu só quero… não podemos ser amigos? – Amigos? Eu tive a impressão de que você queria me foder só para se vingar de alguma coisa. Eu o encarei e ele ofegou. – Não! – Tem certeza disso? Porque na noite passada você me disse que isso foi exatamente o que você fez com a esposa do seu oficial. Por que seria diferente comigo? Ele me encarou, incrédulo. – Simplesmente vá – falei, exausta. Eu realmente não queria brigar com ele de novo; era cansativo demais. Ele respirou fundo. – Eu sei que estou falando tudo errado mas… nós nos divertíamos juntos, não é? Vamos passar algum tempo juntos, nos conhecermos de novo. Você tem razão: não podemos fingir que os últimos dez anos não aconteceram. Só… me dê uma chance. Eu não sou o desgraçado sem coração que você parece achar que eu sou. Ainda sou eu, Caro. Ele ainda era lindo, mas o mesmo? Eu não acreditava. Observei-o fixamente, lembrando como, apenas duas noites atrás, ele havia chorado em meus braços. Seria aquele o Sebastian verdadeiro, ou ele era o frio predador que caçava mulheres? Eu queria desesperadamente acreditar que o primeiro é que era o homem real. Ele deve ter visto em meus olhos que eu estava enfraquecendo. – Podemos começar com café da manhã – disse ele, quase esperançoso. – Quem sabe, talvez eu consiga passar uma refeição inteira sem te deixar furiosa comigo. – Parece improvável – retruquei, um sorriso relutante surgindo em meu rosto. Ele sorriu de volta. – Você vai vestindo esse robe? Não que eu me importe; por mim, você poderia ir nua. Na verdade… Gemi. – Vou tomar um banho. Te vejo em dez minutos. – Quer que eu esfregue suas costas? – Sebastian, pensei que você ia tentar passar pelo café da manhã sem me deixar furiosa com você. Nesse momento, seu flerte adolescente é apenas irritante. Ele sorriu para mim, mas levantou as mãos em um gesto de derrota. – Certo, entendi o recado. Vejo você lá embaixo.


Ele girou sobre os calcanhares e saiu na direção das escadas, assoviando. Deus, ele era irritante. E fofo. Mas principalmente irritante. Levei bastante tempo me aprontando; eu queria testar os limites da tolerância dele. Vesti-me devagar, chequei minhas mensagens e tirei um instante para escrever um e-mail para meu editor, de novo. Quase meia hora havia se passado até que eu descesse para o restaurante do hotel para tomar café. Ele estava olhando pela janela, uma xícara intocada de café preto à sua frente. Aproveitei o momento para sorver sua beleza, que parecia quase sobrenatural à pouca luz do início da manhã. Seus olhos estavam mais suaves do que eu os vira nos últimos dias, e exibiam uma expressão distante que sugeria que ele estava perdido em lembranças. Seu cabelo curto ao estilo militar era de um loiro dourado, sem dúvida clareado por um sol estrangeiro, e seus lábios cheios e sensuais estavam partidos de leve. Suas pernas compridas estavam estendidas adiante, as mãos relaxadas no colo. Quando me viu, seus olhos se iluminaram e ele se levantou educadamente. – Você está ótima – disse ele. É, em um jeans velho e uma camiseta. Girei os olhos para ele e seu sorriso diminuiu um pouco. – Você já fez seu pedido? – Não, só o café. Estava esperando por você. – Eu geralmente tomo o café continental. Ele acenou para a garçonete, que foi extraordinariamente atenciosa. Fiquei com a impressão de que ela estivera nos observando. Bem, o observando. Plus ça change. – Existe algo em especial que você queria ver em Genebra? – disse ele, assim que a garçonete saiu com nossos pedidos. – Primeiro você tem que passar pelo café da manhã sem ser irritante – relembrei. – É, bem, eu gosto de um desafio – disse ele, sorrindo. – Mas é sério, algo que queira ver? – Nada em especial. Eu já vi bastante coisa andando por aí ontem. A Igreja Russa, talvez? Ouvi dizer que é muito bonita. Ele remexeu no guardanapo, depois levantou os olhos. – Eu tinha uma ideia de algo que poderíamos fazer… se você quiser. – O que é? – Que tal uma viagem até Chamonix? Fica a apenas uma hora daqui. Um pouco mais, se pegarmos a rota turística por Lausanne. Seria uma viagem ótima pelos Alpes. – Ele sorriu para mim. – Eu te trago de volta antes da hora de dormir. Nah. Ainda irritante. Mas eu não podia resistir a seu entusiasmo e bom humor. Além disso, tinha ouvido falar que a estrada até Chamonix era particularmente deslumbrante, e gostava da ideia de sair da cidade. – E você jura de pés juntos que vai me trazer de volta à noite? Sem ficar sem gasolina acidentalmente ou se perder.


– Eu nem sonharia com isso – disse ele, com uma expressão no rosto que me fez duvidar de cada sílaba. – Certo, mas estou falando sério sobre voltar. Estou esperando pelos meus documentos de viagem e não posso me dar ao luxo de perdê-los. Ele se remexeu no assento desconfortavelmente. – Caro, eu te trago de volta à noite, prometo. Nosso café da manhã chegou e Sebastian avançou sobre ele velozmente, devorando tudo que não se movesse. Mais uma coisa que não mudou. – Conte-me sobre os filhos de Ches – falei, buscando uma fonte de conversa relaxada, mas também genuinamente curiosa. Sebastian sorriu. – Eles são ótimos. Eles me chamam de “Tio Seb”… bem, Simone, a mais nova, ela me chama de “Zed”, porque ainda confunde as palavras às vezes. Ela tem quase três anos. Ben tem quatro e já é um ratinho de praia. Eu os vejo sempre que posso, mas toda vez eles parecem tão maiores. Nossa, eles crescem muito rápido. – Como é a Amy? – Ela é legal. Arqueei as sobrancelhas; o tom dele era distintamente morno. – Deixe-me adivinhar: ela não aprova você? Ele pareceu surpreso. – O que te fez dizer isso? – Primeiro, porque você é solteiro, e mulheres casadas ficam ansiosas achando que os amigos solteiros do marido vão levá-lo para o mau caminho. Segundo, porque, pelo que parece, você teve mais mulheres do que a maioria dos homens tem jantar quente, e isso a deixaria ansiosa porque ela não quer que você lembre a Ches de tudo o que ele está perdendo. E… Parei no meio da frase. – E o quê? – Bem, a bebida, Sebastian. Ela não iria querer isso perto do marido e das crianças. Ele fez uma careta. – É, acho que isso resume tudo. – Quando você começou a beber? – perguntei gentilmente. – O que você quer dizer? Eu não bebo tanto, não como aquela cadela da minha mãe. Eu o encarei. – Bem, em dois dias, você esteve bêbado duas vezes, a ponto de desmaiar ou de fazer comentários inapropriados para mim. O rosto de Sebastian ficou perceptivelmente mais sombrio. – Acho que minha pergunta é válida – disse, sustentando o olhar dele. Ele me fitou, hesitando responder de imediato. – Quando eu tinha 21 – disse ele, finalmente. – Foi quando eu comecei a beber.


Foi quando eu entendi, tola que eu era. A bebedeira, a promiscuidade, o desprezo impetuoso por sua carreira: tudo havia começado quando ele tinha 21 anos. Tudo havia começado porque ele desistira – desistira do amor… de mim. – Sebastian, eu sinto tanto. Eu não fazia ideia. Minhas palavras pareciam profundamente inadequadas. Ele deu de ombros e desviou o olhar. – Notícia velha, Caro, não se preocupe com isso. Lutei para pensar em algo inconsequente para dizer. – Você gosta de morar em Genebra? Chato, mas foi o primeiro pensamento que me ocorreu. – É bom, mas eu sinto falta do mar. – Ah, nenhuma praia de surfe famosa na Suíça. Ele sorriu, o equilíbrio recobrado. – Não, ainda não encontrei nenhuma. Eu correspondi ao sorriso. – Terminou de comer? – disse ele, impaciente. – Podemos ir? – Só preciso voltar para meu quarto e apanhar uma jaqueta e, presumo, meu passaporte, mas fora isso, sim, estou pronta. Ele franziu a testa. – Você é uma jornalista; devia estar sempre com seu passaporte. Diabos, isso estava naquela merda de palestra entediante que o Parsons deu anteontem. – Então você estava escutando – rebati. Ele balançou a cabeça e sorriu. – Tá, tá, mas pegue um suéter também; vai esfriar. Assenti enquanto o deixava na mesa, mas estava intrigada. Estávamos no meio de março; não era tão frio. Mas quando o vi esperando por mim na frente do prédio, entendi por que ele me disse para colocar uma roupa quente. – Está brincando comigo, Hunter? Espera que eu suba nessa coisa? Sebastian estava de pé junto a uma grande motocicleta japonesa preta com placas francesas, os olhos dançando com bom humor. – Claro! Vai ser divertido. Olhei cautelosa para o monstro. Não parecia “divertido”: parecia perigoso e frio. – Você sabe pilotar isso? – perguntei, desconfiada. – Caro, eu a trouxe de Paris – acho que consigo dar conta dos 88 quilômetros até Chamonix – respondeu ele, sorrindo amplamente. – Não sei, não – resmunguei, mudando o peso de um pé para o outro. – Nunca estive na garupa de uma moto. Ele pareceu surpreso. – É mesmo? Porque conversávamos sobre ir de moto da… Ele parou, de súbito.


Será que algum dia ficaria mais fácil falar sobre o passado? – Ah, que diabos – falei, balançando a cabeça. – Tenha fé em minhas habilidades, Srta. Venzi. – Se eu morrer nessa coisa, vou voltar para puxar o seu pé! – Promete? – Ah, é melhor acreditar, Hunter! Ele sorriu e me passou uma jaqueta pesada de couro que era obviamente uma das dele. Era velha e surrada e tão enorme em mim que minhas mãos desapareciam nas mangas compridas. Ela tinha aquele cheiro gostoso e antigo de couro velho, com um leve traço do odor delicioso de Sebastian. Ele fechou o zíper para mim e dobrou os punhos para poder livrar minhas mãos. – Combina com você – disse ele, arqueando uma sobrancelha. Ele então me entregou um capacete preto brilhoso que combinava com o seu. Passou uma perna comprida e vestida em jeans por cima do banco e estendeu a mão para me ajudar a montar na máquina apavorante. O banco me inclinava de leve para a frente, de modo que minhas coxas automaticamente agarraram as dele. – Segure firme – disse ele, a voz abafada pelo capacete. Pude perceber pela sua voz que ele estava se divertindo. Eu gostaria de ter ignorado a sugestão, mas estava morrendo de medo de cair, por isso passei meus braços ao redor de sua cintura e me segurei com força. Senti a rigidez de seu corpo por baixo do couro e soube que, definitivamente, ter concordado com essa viagem tinha sido uma ideia muito, muito ruim. O motor deu partida com um rugido rouco que aumentou quando Sebastian acelerou. Ele saiu a uma velocidade gentil, presumo que em boa parte por minha causa, e logo estávamos viajando em um ritmo constante por Genebra antes de tomar a estrada junto ao lago que ia a nordeste para Lausanne. O lago estava de um verde-acinzentado que lembrava aço, pintalgado de espuma branca. Era sereno e eterno e pude sentir meu corpo começar a relaxar. Por mais que fosse irritante admitir, eu começava a me divertir. Sebastian deve ter sentido mudança em meu corpo, pois acelerou sem sobressaltos e debruçou-se um pouco adiante, abrindo caminho entre a colcha de retalhos de plantações enquanto continuávamos contornando o lago. Eu me aconcheguei um pouco mais perto, grata pelo calor do corpo dele; o ar frio passava por nós. Ele desacelerou quando alcançamos Montreux, dando-me tempo para apreciar a beleza de caixa de bombons da velha cidade, com chalés e um castelo de granito digno de contos de fadas, e a modernidade contrastante de seus prédios de concreto e vidro, com hotéis que pareciam châteaux. – Quer tomar um café? – perguntou ele, por cima do ombro. Anuí entusiasticamente, batendo meu capacete no dele, desajeitada, e ergui meu polegar. Ele encostou do lado de fora de um pequeno café que dava para o lago, depois ajeitou o descanso lateral com o pé e desligou o motor. O silêncio repentino foi muito bem-vindo e eu olhei para a água sentindo-me pacífica, em paz.


Sebastian tirou o capacete e sorriu para mim. – Que tal? Lutei para tirar o meu capacete e torci para que meu cabelo não estivesse muito assustador. – Foi… surpreendentemente legal! Ele riu da minha expressão, e em seguida seus olhos se escureceram de um jeito que eu me lembrava bem. Era um olhar de luxúria e necessidade e desejo profundo e ardente. Sim, eu me lembrava. Desci rapidamente da moto e esfreguei as mãos, tentando devolver um pouco de calor aos meus dedos. – Está com frio? – Um pouco. Só nas mãos. Sem dizer nenhuma palavra, ele tomou minhas mãos nas suas e levou-as a seus lábios, aquecendoas com seu hálito morno e esfregando-as gentilmente. Depois de um momento, eu me soltei. – Está ótimo, obrigada. Ele continuou fitando-me com uma expressão séria. Desviei os olhos, confusa e sem graça. – Esse café parece bom – falei, desesperada. Ouvi seu suspiro suave, porém recusei-me a olhar para ele. Em vez disso, entrei no café e encontrei uma mesa junto à janela. Sebastian seguiu-me mais devagar, deslizando para a cadeira à minha frente. – Un espresso et un café americano, s’il vous plaît. – Você também fala francês? – perguntei, curiosa. Ele deu de ombros. – O suficiente para me virar. Mas nunca estudei. – E dari? E árabe? Como foi que você aprendeu? – Minha primeira viagem ao Iraque. Eu estava jogando futebol com algumas crianças locais que costumavam ficar ali pela Base. Elas me ensinaram algumas palavras e eu comecei a falar algumas frases. Meu sargento me ouviu conversando com as crianças e me mandou para alguns cursos de treinamento. Em seguida, quando começamos a nos retirar do Iraque, eles acharam que eu deveria aprender pashto e dari para ser útil no Afeganistão. Descobri que eu podia simplesmente ouvir, diferenciar todas as cadências diferentes. – Ele fez uma expressão de desprezo. – Finalmente encontrei algo em que sou bom. Quem diria. Fiquei chocada por seu tom desdenhoso. – Você sempre foi bom em várias coisas, Sebastian. Aprendeu italiano bem rápido. – Isso porque eu tinha uma namorada italiana – respondeu ele. – É mesmo? Quando foi isso? Ele girou os olhos como se eu não estivesse vendo algo óbvio. – Ah, é – resmunguei, embaraçada. – E você me ensinou a surfar, não se esqueça. Ele sorriu, quebrando a tensão de seu estranho ataque. – É, isso foi divertido. Você continuou?


– Eu vou surfar com frequência no verão – falei. – Comprei uma casa em Long Beach e… Parei de súbito, preocupada com a expressão ferida dele. – Desculpe – disse ele, balançando a cabeça como para afastar algum pensamento amargo. – É só que… bem, falávamos em ir para Long Beach e conferir os pontos de surfe. – Eu não tinha nenhum outro plano – falei, baixinho. – Quando te deixei… quando deixei San Diego, eu dirigi por oito dias até chegar a Nova York. Aquele carro que eu tinha morreu cruzando a ponte Verrazano. Arranjei um apartamento em Little Italy porque não conhecia nenhum outro lugar, e você o mencionou uma vez. Morei lá por oito anos. Você tinha razão: eu gostei de lá. Ele fechou os olhos e deixou a cabeça cair entre as mãos. Parecia tão vulnerável. Como palavras tão comuns podiam nos machucar, pensei. – Deus, Caro, quando eu penso em como as coisas podiam ter sido… isso me deixa meio louco. – Sei o que quer dizer – falei com suavidade. – Mas não faz sentido pensar assim. A garçonete voltou com nossos cafés. Encarei o líquido escuro, me perdendo nas colunas de vapor. – Fico contente que tenha ido para lá; fico contente que tenha feito as coisas que dissemos que faríamos. – Não todas – corrigi. – Porra, se apenas… – Pare, Sebastian – falei, resoluta. – Sem “e se”. E se nunca tivéssemos ido àquele restaurante siciliano naquela noite; e se Brenda não tivesse nos visto; e se ela não tivesse contado para os seus pais… não faz sentido pensar assim. Como você disse, isso só vai nos deixar malucos. – Eu sei que você tem razão, é só que… – Ele passou uma das mãos pelo cabelo em frustração. – Ei, pare – falei, agarrando seus dedos. – As coisas são como são. Não podemos mudar nada. Ele segurou com força, depois esfregou os olhos com a mão livre. – Veja bem – falei –, se eu esbarrar com a Brenda de novo, talvez eu tenha que lhe dar um tapa rápido. Ele deu um leve sorriso. – É, eu gostaria de ver isso. – Aí ele franziu o cenho. – Ela ficou muito mal sobre o que aconteceu. Soltei a mão dele e me recostei na cadeira. – Você conversou com ela a respeito – sobre o que ela fez? Fiquei espantada. E aborrecida. Talvez até magoada. Brenda, a Vadia, era a memória meiga que guardei dela. Sim, ela certamente acendera o pavio que levou à nossa explosiva separação. Eu sabia, lá no fundo, que isso teria acontecido de qualquer maneira, mas ainda assim. Ouvir que Sebastian conversou com ela, talvez até manteve contato com ela. Talvez até dormiu com ela – eu realmente não estava pronta para ouvir isso. – Bem, sim. Ela ficou enchendo o Ches até eu concordar em vê-la. Por essa época, ficou meio óbvio por que ela tinha feito tudo aquilo. – Como assim, óbvio? Ele suspirou. – Ela estava grávida. Engravidou daquele desgraçado do Jack Sullivan. Você se lembra daquele cara mais velho que ficava lá pela praia? Então, bem, quando Brenda descobriu que estava grávida,


ela surtou. Enfiou essa ideia maluca na cabeça de que se pudesse voltar comigo, ela me faria dormir com ela e fingiria que o bebê era meu. Ele balançou a cabeça, incrédulo ante o comportamento maluco de uma garota assustada de 18 anos. – Ela pensou que, se tirasse você do caminho, nós voltaríamos a namorar. Ela não tinha ideia do que fez. Só depois, mas aí já era tarde demais. – E o que você fez? Dormiu com ela? – Puta merda – disse ele, com raiva evidente. – Eu já te falei. Eu nem sequer toquei em outra mulher por três anos. – Desculpe. – Sim, bem – disse ele, prosseguindo com a historinha sombria –, ela teve que enfrentar seus pais em algum momento. Jack não queria ter nada a ver com ela, e ela não disse quem era o pai. Todos acharam que era eu, de qualquer maneira. Ele esfregou a testa, cansado. – Mas quando Kimberley nasceu, ela tinha cabelo castanho escuro e olhos escuros; ficou óbvio que eu não era o pai. – Kimberley? – Ela é uma criança ótima. Eu as vejo às vezes quando estou na Costa Oeste. Brenda se casou com um vendedor de carros dois anos atrás. Ele é um cara muito bacana, e bom para Kimberley. Assenti lentamente, descobrindo que não conseguia antipatizar com Brenda tanto quanto gostaria. Embora ainda sentisse a obrigação de estapeá-la se a visse de novo. – Bem, fico feliz que tenha dado tudo certo para ela no final. – Fiz uma pausa. – Você não me contou o que aconteceu com Donna e Johan. Eles sempre foram gentis comigo. – Shirley manteve-se em contato com eles. Eu os vi algumas vezes depois… Johan aposentou-se há dois anos e eles se mudaram para Phoenix. Ouvi dizer que ele estava muito doente. Leucemia, acho. – Sinto muito ouvir isso. Eles sempre foram um casal simpático. Ah, pobre Johan. Um homem tão decente. Pobre Donna. Talvez eu devesse escrever… não, eles não iriam querer ouvir falar de mim. Ele anuiu, mas não respondeu. – E aquele amiguinho engraçado de vocês – Fido? Qual era o nome verdadeiro dele… hum… Alfred? Albert? Arnold! O que aconteceu com ele? Sebastian não sorriu, o que nunca era um bom sinal. – Ele se alistou pouco antes de mim. Juntou-se aos Rakkasans, 187º Batalhão de Infantaria. Morreu há oito anos no Iraque – IED. O pobre coitado não teve nenhuma chance. Nem chegou aos 20 anos. – Ah não, sinto muito! E me lembrei daquele menino meigo que tentava flertar comigo: agora, morto. Todos aqueles jovens, mortos. Terminamos nosso café em silêncio, cada um perdido no passado. Toda vez que eu pensava ter acabado nosso passeio pela alameda da memória, outra coisa surgia para nos sequestrar, arrastando-nos de volta para nossa história turbulenta. Era como um passeio de


parque de diversões emocional – inclusive a náusea concomitante, porém com uma falta absurda de diversão. – Pronta para partir para Chamonix? – disse Sebastian. Sorri para ele, grata por ele ter interrompido minhas divagações. – Sim, tão pronta quanto posso. Na verdade, é mais confortável andar naquela máquina do que eu pensei que seria. Eu só queria ter vestido algo mais quente. – Coloque suas mãos nos meus bolsos dessa vez – disse ele. – Isso vai ajudar. E tem uma loja em Chamonix onde podemos te arrumar umas luvas boas. – Isso não é necessário. – Eu posso te comprar uma porcaria de um par de luvas, Caro! – disse ele, aborrecido. – Ótimo! – disparei, no mesmo tom irritado dele. – Se bem que eu não sei se quero um par de luvas que seja uma porcaria. A não ser que esteja falando de couro de porco, acho. Ele riu alto. – Deus, eu te amo, Caro! Ele parou ao perceber o que havia dito. – Foi só um lapso – resmungou. Ignorei seu comentário e esperei até que ele subisse na moto antes de montar atrás dele. Agradecida, enfiei minhas mãos nos bolsos da jaqueta, esfregando os dedos no couro macio. **** Atravessamos para a França em uma vila de nome pitoresco, Saint Gingolph. Um guarda de fronteira infantil olhou rapidamente nossos passaportes, olhou de novo quando percebeu que éramos americanos, fez algumas perguntas cheias de desdém, às quais Sebastian respondeu em francês fluente – o que pareceu irritar ainda mais o homenzinho – e então nos deixou passar. A estrada desse lado do lago era cercada por matas mais fechadas e menos habitadas do que no lado norte. Pequenas casas de fazenda pontilhavam a colina e estradas cheias de curvas subiam pelos Alpes. – Essa estrada leva até a Itália – gritou Sebastian por cima do ombro. – Que tal uma viagem rápida até a fronteira? – Dois países em um dia só é o bastante! – gritei de volta, mas o pensamento de que eu estava a apenas alguns quilômetros da terra natal de meu pai puxou meu coração de modo estranho. Chamonix logo surgiu da névoa baixa que havia se assentado sobre o vale. À minha esquerda, pude ver a presença impressionante do Mont Blanc, com uma cobertura espessa de neve sobre o topo. A cidade em si ainda estava bastante vazia; os esquiadores de inverno haviam partido há muito tempo, e os turistas de verão ainda não tinham chegado. O passeio pelos Alpes foi sensacional, conforme prometido, e Chamonix era adorável: uma cidade alpina de cartão postal, com uma abundância de lojinhas vendendo de tudo, de roupas e acessórios para esqui até joias de designers famosos e caros.


Sebastian estacionou do lado de fora de uma das primeiras e me arrastou para dentro. – Vamos te arrumar umas luvas de esqui para usar – disse ele. – É o melhor que posso fazer por enquanto. A vendedora foi extremamente prestativa. Eu não consegui decidir se era porque estava deleitada em receber um cliente tão perto do final da estação de esqui, ou se porque podia observar o traseiro de Sebastian enquanto ele vagava pela loja. Até onde me dizia respeito, ele tinha um belíssimo traseiro e, tendo estado colada em volta dele pelas últimas duas horas, eu sentia que estava em posição de emitir uma opinião de especialista. E então uma imagem muito erótica surgiu em minha mente, muito inoportuna, enquanto eu me recordava das numerosas ocasiões em que tive motivos para conhecer o traseiro nu de Sebastian realmente muito bem. Fiz o melhor que pude para banir a memória, mas não fui bem-sucedida por completo. Pergunteime se todos os fuzileiros navais estavam em tão boa forma. – Que tal essas? – disse Sebastian, me entregando um par de luvas de esqui pretas. – Noventa euros! Está brincando? Isso são 115 dólares! Por um par de luvas! – Só experimente as malditas luvas, Caro – rosnou Sebastian. – Não. Isso é ridículo. Deve haver algo mais barato. – Se você não experimentar, eu vou simplesmente comprá-las mesmo assim – ameaçou ele. – Não! É um desperdício de dinheiro. Ele voltou-se para a vendedora e entregou-as. – D’accord. Je les prends. – Espere! Attendez! Eu as peguei de volta e puxei-as sobre minhas mãos. Elas serviram perfeitamente. Mas que droga! Ele sorriu para mim, maliciosamente. – Você discute demais, Caro. – Não sei por quê – falei, seca. Deixamos a loja com minhas luvas ridiculamente caras enfiadas no bolso da minha jaqueta. Sebastian parecia irritantemente feliz consigo mesmo. – Vamos encontrar um lugar para almoçar? – O quê? Você está perguntando para mim, Hunter? Como se estivesse pedindo minha opinião? Ele sorriu para mim. – Claro! – Nesse caso, sim; mas só se eu puder pagar. Isso não é negociável. – Amo quando você me diz o que fazer, Caro – declarou ele, com um olhar lúbrico. – Me traz tantas lembranças… E dessa vez eu não pude evitar o rubor que cobriu meu rosto. Eu sabia exatamente do que ele estava falando. Além de italiano, a outra coisa que eu ensinara a Sebastian era como me dar um orgasmo. E ele tinha sido um aluno muito bom.


Ele riu alto ao me ver corar. Não consegui pensar em nenhuma resposta à altura. Nem uma sequer. Nenhuma palavra. Nenhuma resposta, piada, gracejo, ditado ou provocação. Fiquei totalmente muda. Deus, ele era irritante! Ele passou o braço ao redor dos meus ombros e me puxou para si, beijando levemente meu cabelo. – Estou só provocando, Caro. Eu me afastei, tentando parecer ofendida, mas ele me conhecia e apenas sorriu. – Quer provar fondue? – disse ele, ainda tentando não rir. – Tudo bem – resmunguei, ranzinza. Recuperei um pouco de minha pose perdida durante o almoço. Ambos pedimos fondue de queijo e recebemos uma cesta cheia de pães diferentes: foccacia, pães de azeitona, palitinhos; além disso, uma fondue feita de muçarela, dolcelatte e parmesão. Era o prato perfeito para aquecer, especialmente em um dia gelado de primavera. – Humm, isso é bom. Você já esteve aqui antes? Ele assentiu calmamente. – Algumas vezes. – Já trouxe suas mulheres aqui? Ele franziu o cenho, irritado. – Você faz parecer como se eu tivesse um desfile de mulheres. – E não teve? Ele largou o garfo de fondue, nervoso. – O que você quer que eu diga, Caro? Eu fodi tudo em que pude botar as mãos quando percebi que você não ia voltar. Passaram-se anos antes que eu confiasse o suficiente em uma mulher para conseguir fazer amor com ela, e mesmo então… Ele parou no meio da frase, olhando-me com uma expressão furiosa. Eu tinha feito mais uma vez: forçara-o a dizer palavras que só trariam dor para nós dois. – Desculpe – murmurei. – Eu não queria… – Olhei nos olhos dele. – Não é da minha conta, Sebastian. Peço perdão. E realmente não era. Era eu quem tinha insistido que não podíamos mudar o passado, e aqui estava, reabrindo cirurgicamente velhas feridas, uma por uma. – Eu também sinto muito. Eu não queria gritar com você – disse ele, a voz cheia de arrependimento. Em seguida, respirou fundo e balançou a cabeça para afastar a raiva e as recriminações. Sentamo-nos em silêncio por vários minutos. Eu procurei um assunto mais neutro para conversar. – Há quanto tempo você tem a moto? Ele se recostou na cadeira. – Essa, há cerca de dois anos. Mas tenho tido motos desde os 19 anos. Comprei minha primeira como um presente de aniversário para mim mesmo. Ainda está na garagem do Ches. – É mesmo? Bem, eis aí outro motivo para a esposa dele achar que você está levando o Ches para o mau caminho. Ou ele agora faz o tipo pai responsável? Sebastian sorriu.


– Ele é um ótimo pai, muito paciente. Ele ama pra cacete aqueles filhos dele. Mas ainda tira as pranchas de casa de vez em quando para pegar ondas quando estou lá. – Ahan, e para quantas refeições você fez com que ele se atrasasse, só para “pegar mais uma onda”? Ele sorriu. – Demais para o gosto de Amy! Mas ele também sai quando Mitch o visita, então ela não pode me culpar por isso. – Ah, não sei não; parece que ela arranjaria um jeito. Acho que eu gostaria dela: uma mulher imune ao charme Hunter. Sebastian riu. – Ela é bem imune, sim. Mas sim, ela gostaria de você. Eu te apresento quando estivermos por lá. – Caso você tenha se esquecido, eu moro a cerca de cinco mil quilômetros e dez estados de San Diego. – Ah, é? Bem, caso você tenha se esquecido, já inventaram aviões. – Touché, chefe Hunter. Ele sorriu para mim e ergueu seu copo de água em um brinde. – O que aconteceu com aquele amigo de Mitch, Bill, aquele que estava no malfadado dia “divertido” para o qual Donna me arrastou na praia? – Por que está perguntando sobre ele? Sebastian franziu o cenho para mim e eu girei os olhos. Certamente ele não estava com ciúmes ainda porque Bill flertou comigo na época? – Só me perguntando. Ele era da sua turma de surfe, não era? – Ah, certo – disse ele, meio zangado. – Ele se casou de novo alguns anos atrás, acho. Foi mandado para Quantico. Mitch mantém contato com ele, cartões de Natal, esse tipo de coisa. Graças a Deus a história de Bill teve um final feliz; acho que eu não suportaria mais más notícias hoje. – Foi bom ter você na moto comigo hoje, Caro – disse Sebastian, pensativo, como se testando a água antes de acrescentar mais alguma coisa. – Humm – falei, o som cheio de ceticismo. Ele riu. – Bem, eu tive uma ideia sobre isso… – Ah, outra de suas ideias? Parece perigoso. Ele sorriu para mim, uma centelha de travessura no olhar. – Sabe como sempre falamos de viajar pela Itália? Eu acabo de pensar: já que estamos ambos aqui, por que não? Franzi a testa para ele, sem saber se havia entendido o que ele estava sugerindo. – Por que não, o quê? – Visitamos a Itália. Podíamos ir de motocicleta e ver todos aqueles lugares de que falamos: Milão, Verona, Capezzano Inferiore. Ver se os parentes de seu pai ainda moram lá. Ah, ele definitivamente encontrou meu ponto fraco.


– Você não tem trabalho a fazer? – falei, evitando responder a questão. – Como é que você tem todo esse tempo de folga? – Estou de licença – disse ele, muito quieto. – Vou partir de novo para o Afeganistão dentro de mais ou menos três semanas. – Ah – falei, sentindo o sangue abandonar meu rosto. – Eu não tinha percebido… pensei que você estava postado em Genebra. Ele deu de ombros. – Eu estava, mas eles precisam de intérpretes e estão ficando inquietos sobre usar locais para isso. Muitos ataques das forças afegãs contra tropas da Otan. – Ele afastou esse pensamento. – E então, o que você acha? Eu balancei a cabeça. – Não posso, você sabe que eu não posso. Meus papéis podem sair a qualquer momento e eu vou para lá sozinha. Além do mais – falei, tentando aliviar a tensão –, três semanas com você… isso definitivamente é uma missão perigosa. – Não confia em mim? – disse ele, tentando parecer magoado e fracassando. – Não, não muito. Ele sorriu, completamente despudorado. – Ah, não diga isso. Eu vou ser bonzinho. Palavra de escoteiro. – Você nunca foi escoteiro. – É verdade – disse ele com um sorriso sem vergonha. – E se eu prometer me comportar, com quartos separados e tudo mais? – De jeito nenhum, Hunter. Eu já ouvi falar da sua reputação, lembra-se? Além do que, não sei quanto tempo terei até conseguir um voo para Leatherneck. Não quero me arriscar a perder minha vaga. – Isso não vai acontecer pelo menos por mais duas semanas. Estreitei meus olhos frente àquele tom. – Você parece muito seguro disso. Ele apenas sorriu para mim. Foi quando entendi tudo. – O que você fez, Hunter? O sorriso dele só aumentou. – Digamos apenas que eu conheço gente nos lugares certos. Não pude acreditar na arrogância dele. – Está me dizendo que você bloqueou minha aplicação? Minha voz começou a se elevar e ele teve a decência de parecer quase contrito. – Não está bloqueada, Caro, não totalmente. Eu… só joguei alguns obstáculos muito calculados no processo. Vai levar pelo menos uma semana para destrinchar tudo. Provavelmente, duas. Inacreditável! Agora eu estava brava de verdade.


– Esse é o meu trabalho, Sebastian – falei, a fúria evidente em minha voz. – É assim que eu sou paga. Como ousa interferir desse jeito! Você é inacreditável. Ele me fitou de cara feia. – Você não pode se meter na minha vida assim! – Eu estava quase gritando. – Não sou mais aquela mulherzinha insípida que era dez anos atrás! – Você nunca foi insípida – disse ele, uma expressão abrasadora. Ah, como eu me lembrava daquela expressão. – É melhor você retirar esses obstáculos, Hunter! Estou falando sério. Ele suspirou, desapontado. – Não posso, Caro, está fora das minhas mãos agora. Mas juro que é temporário. Eu só… depois de todo esse tempo… Eu queria que pudéssemos passar mais do que umas poucas horas juntos. – Ele fitou as próprias mãos. – Não sei quando vou te ver de novo – resmungou. – Já esperei por dez anos. Sua confissão foi tão espantosa e ele pareceu tão infeliz que minha raiva começou a ir embora. Eu ainda estava aborrecida, furiosa com a interferência dele, na verdade, mas não podia manter o mesmo nível de fúria quando ele estava daquele jeito e, mais importante, depois de ele explicar seu motivo para agir assim – que ele ainda tinha sentimentos por mim. Qual era a verdadeira natureza desses sentimentos, no entanto, era algo que ainda me deixava profundamente incerta. – Pode pelo menos pensar a respeito? – pediu ele, suavemente. Assenti, ainda furiosa demais para falar. Deixei Sebastian terminar a fondue, uma vez que meu apetite havia desaparecido. Ele me lançava olhares culpados, mas isso não o impediu de acabar com seu prato e o meu. Passamos a tarde andando pela cidade, parando para entrar em algumas lojas e olhando para a face tempestuosa do Mont Blanc. Eu ainda estava irritada com seu comportamento superior, porém não havia nada que pudesse fazer sobre isso; além do mais, estava habituada a esperar, e já tinha esperado em lugares piores. – Eu não me importaria em voltar aqui no inverno – disse Sebastian, aparentemente cego ao meu aborrecimento. – Tentar snowboarding. – Está aí outra coisa que eu nunca fiz – resmunguei, tentando imaginar como seria descer desabaladamente pela face íngreme e gelada da montanha ameaçadora em um pedaço de madeira não muito maior do que um skate. – Eu te ensino – disse Sebastian, confiante. – Ah, algo que pode me ensinar, Sr. Hunter? Ele ergueu uma sobrancelha e sorriu para mim. Olhei meu relógio. – Acho que podemos voltar agora. Não consigo recepção no celular aqui. Meu editor pode estar tentando entrar em contato comigo. Lancei um olhar de desafio para ele. Sebastian não pareceu feliz; todavia, também não argumentou. Caminhamos até a motocicleta e eu calcei minhas adoráveis, e muito caras, luvas novas. Sebastian pegou a via mais rápida de volta para Genebra e chegamos em pouco menos de uma hora. Eu não quis perguntar a que velocidade viajamos; suspeitei que fosse acima do limite.


Desci da moto e entreguei-lhe meu capacete. Ele o guardou em uma das bolsas vazias nas laterais da moto e olhou para mim. – Eu me diverti muito hoje, Sebastian. Na maior parte do dia, pelo menos. Obrigada. – De nada, Caro. Ficamos nos fitando. Sem saber por que, eu me senti sem graça, a tensão rolando em ondas entre nós. – Certo, bem, obrigada mais uma vez – murmurei, virando-me para sair. – Posso te ver amanhã, Caro? – disse ele, a voz cheia de um anseio profundo. – Você vai pensar na ideia da Itália? Eu o encarei, certa de que minha angústia transparecia em meu rosto. Seus olhos se escureceram enquanto ele continuava me olhando. – Eu quero te beijar, Caro. Quero muito, mesmo. O fôlego ficou preso em minha garganta quando ele deu um passo em minha direção. Eu sabia que também queria isso. Muito, mesmo. Ergui minha mão até o rosto dele e Sebastian suspirou suavemente enquanto se inclinava contra ela, fechando os olhos. Deslizei meus dedos por seu pescoço, sentindo o calor de sua pele. Ele deu outro passo na minha direção e pousou suas mãos em minha cintura. Eu puxei sua cabeça para mim e senti seus lábios nos meus. Tão macios, tão sensuais. Pude sentir sua respiração tocar meu rosto, e então seus lábios se separaram e sua língua invadiu minha boca. Meu Deus, as emoções que queimaram em mim, calcinando toda dor, todo instante de arrependimento. Em vez disso, lembrei-me de como as mãos dele tinham aprendido cada curva e reentrância em meu corpo, como nosso amor nos fundia em um só, como seu corpo se encaixava dentro do meu. Ele pressionou-se contra mim, sua boca devorando vorazmente cada exalação. – Deus, eu te quero, Caro. Eu quero fazer amor com você – murmurou ele em meus lábios. – Sim – falei. – Eu também quero isso.


C APÍ TU LO

4

SEBASTIAN PRECISOU ESTACIONAR sua motocicleta na garagem segura subterrânea do hotel. Sua ausência me deu bastante tempo para considerar as consequências do que eu estava prestes a fazer. Eu ainda não tinha certeza se confiava nele; tinha cerca de um minuto para decidir se mudava de ideia ou não. Contudo, na verdade não havia decisão a tomar. Meu corpo doía na ânsia de ser tocado; fazia muito tempo, tempo demais talvez, desde que eu permitira que um homem se aproximasse tanto de mim. E o modo como me sentia quando Sebastian estava perto de mim era quase como se todos os terminais nervosos estivessem sensibilizados apenas com sua presença. Eu odiava isso, adorava e odiava isso. Esperei por ele no saguão, sentada no mesmo sofá em que ele se sentou na noite passada durante nossa conversa honesta. O olhar curioso da recepcionista estava fixo às minhas costas. Não liguei; não havia lugar em minha mente para considerar mais ninguém nesse momento, e eu não podia me importar menos com o que ela pensava de mim, se é que pensava alguma coisa. E então ele voltou, e era tarde demais. Observá-lo passar pelas portas automáticas e entrar no saguão foi extraordinariamente excitante. Eu desejava sentir o corpo dele entrelaçado ao meu, sentir-me como havia me sentido antes. Podia ver a tensão e a expectativa no rosto dele, e as velhas inseguranças começaram a rastejar de volta à superfície. Dez anos atrás, eu era a mais experiente e havia tomado a liderança, apesar de minha “experiência” ser limitada ao meu marido, nada criativo. A experiência de Sebastian, na época, era zero; agora, no entanto… Segundo sua própria admissão, ele fodeu toda mulher que lhe deu permissão. Eu não tinha dúvida de que seu charme, superficial ou não, combinado com sua extraordinária boa aparência havia lhe garantido entrada a um grande número de quartos. Em contraste, o número de homens com quem eu me deitei depois dele podia ser contado em uma mão só. Eu temia que ele fosse me achar… entediante.


Ele atravessou o saguão com longos passos até estar de pé diante de mim, analisando meu rosto. Estendeu a mão e eu não hesitei. Se isso era um erro, seria um que eu cometeria de boa vontade. Um sorriso aliviado passou brevemente pelo rosto dele. Sebastian me puxou de pé e entrelaçou os dedos entre os meus, me levando até os elevadores brilhantes. Todos estavam ocupados, cheios de turistas voltando de passeios diurnos, políticos e executivos retirando-se para suas suítes para a noite. Sebastian e eu nos mantivemos nas laterais, enfiados entre um grupo de homens de terno. Ele passou os braços ao redor da minha cintura e me puxou de costas para seu peito, abaixando-se para depositar beijos suaves no meu cabelo. Dois homens sorriram cheios de malícia, mas Sebastian não lhes dedicou sequer um olhar de relance. Várias outras pessoas desceram no mesmo andar que nós, seguindo-nos pelo corredor, conversando ruidosamente. Sebastian e eu estávamos em silêncio. Puxei da carteira o cartão que servia como chave com dedos trêmulos e abri a porta. Entrei, meu coração disparado, meus nervos tensos. Movimentei-me pelo quarto, acendendo as luzes laterais, fechando as cortinas e tirando meu laptop da cama impecavelmente arrumada. Em outras palavras, fazendo tudo, menos olhar para ele. Sebastian ficou junto à porta por um momento, depois entrou lentamente e sentou-se na beira da cama, os olhos me seguindo pelo quarto. Ele pegou minha mão quando eu passei por ele em outro circuito inútil. – Ei, está tudo bem. Eu também estou nervoso. Eu o encarei, espantada. – Você está nervoso… por quê? – Porque é você – disse ele, simplesmente. Ele ergueu minha mão até seus lábios e a beijou cortesmente, um gesto meigo e antiquado. – Só se você quiser, Caro. – Eu quero… Eu só estou me sentindo, sei lá, envergonhada. É tão estúpido. Ele se deitou na cama e gentilmente me puxou para deitar com ele. Começou a beijar meu pescoço, as mãos em minha cintura e subindo. Eu podia senti-lo em todo lugar, por cima de mim, me sufocando, e congelei. – Não, Sebastian. Empurrei-o para longe e ele parou de imediato. Eu quase esperava que ele fosse se levantar e sair com raiva, mas ele me surpreendeu de novo. De repente, ele rolou para longe de mim até o outro lado da cama. – Vamos ficar só nos amassos – disse ele, sorrindo para mim. – Amassos? Tipo… – Deitados na cama, assistindo TV ruim em francês ou alemão, você escolhe, e dando uns amassos. Ele arqueou as sobrancelhas enquanto se sentava, depois tirou a jaqueta e largou-a no chão, desafivelou e tirou as botas e arrancou as meias.


Sebastian então pegou dois travesseiros, empilhou-os contra a cabeceira e se jogou de volta na cama. – Cadê o controle remoto? Apontei para o criado-mudo do meu lado da cama e observei enquanto ele se esticava para pegálo, expondo uma faixa deliciosa da barriga nua e rija quando a camiseta subiu em seu corpo. Ah, eu queria muito um pouco daquilo ali. Ele passou por alguns canais antes de encontrar um programa muito mal dublado; em seguida sorriu para mim, dando tapinhas no espaço na cama ao seu lado. Segui seu exemplo, desamarrando minhas botas e largando-as no canto com minhas meias. Rastejei para perto dele na cama. Ele me puxou para seus braços, de modo que fiquei deitada contra seu peito. Ele beijou minha testa e se ajeitou de novo nos travesseiros com um suspiro. Eu me aconcheguei a ele, sentindo-me surpreendentemente relaxada. – Isso é gostoso – disse ele, feliz. – Quer pedir serviço de quarto? – Não estou com fome. – Você se incomodaria se eu pedisse uma cerveja para mim? Só uma cerveja? – Não, não me incomodaria. Ele puxou o telefone do hotel para si para pedir uma cerveja e um sanduíche, depois tornou a se ajeitar com o braço ao meu redor. Com a típica eficiência suíça, a cerveja chegou em cinco minutos; o “sanduíche” – uma enorme baguete francesa – estava recheado de frios, alface e tomate. Os olhos de Sebastian se iluminaram. – Comida em vez de sexo? – Não pude evitar dizer, relembrando-o de uma piada recorrente que compartilhávamos. Ele sorriu para mim e lambeu os lábios. – Por enquanto. Ainda estou meio que esperando que o sexo venha depois. – E como isso está indo para você? – Não tenho certeza; ela está fazendo jogo duro. Eu ia amolecê-la com álcool e fazer tudo o que tenho vontade com ela, mas acho que ela já percebeu minha jogada. – Mulheres! – falei, rolando os olhos. Ele riu e pôs-se a trabalho para demolir o sanduíche. Quando ele terminou e espanou as migalhas de sua camiseta, deitou-se com a garrafa de cerveja e passou o braço livre ao meu redor de novo. Ele suspirou, contente, e esticou as pernas, cruzando os pés descalços no tornozelo. – Eu poderia me habituar com isso – disse ele, cheirando meu cabelo. – Isso o quê? Reprises de “Frasier” mal dubladas e jantar em frente à TV? – Você sabe exatamente o que eu quero dizer, mulher. – Ah, “mulher”, é? – falei, batendo no peito dele. – Sim, uma mulher linda, incrível, talentosa e maravilhosa – disse ele, com voz séria. O clima mudou imediatamente, indo de relaxado e bem-humorado para uma tensão quente.


Ele colocou sua cerveja no criado-mudo e me puxou gentilmente para seu peito. Com as pontas dos dedos, acariciou minha orelha, afastando meu cabelo. Seus olhos estudaram meu rosto com cuidado enquanto ele se inclinava para me beijar, as pálpebras adejando e fechando-se no último momento antes que seus lábios tocassem os meus. Sua boca vagou pelo meu rosto, depositando beijos suaves e doces, tão leves quanto asas de borboleta, flutuando sobre minhas pálpebras, roçando meu queixo, depois voltando para repousar em meus lábios. Minha mão correu por sua barriga e subiu para o peito, pausando por um momento em cima de seu coração. E então ergui minha mão para encaixá-la em seu rosto e ele voltou seus lábios para beijar a palma. Ele me abraçou mais apertado, de modo que eu estava meio deitada por cima dele, e subiu as mãos pela minha coluna enquanto beijava meu pescoço. Seus beijos se tornaram mais urgentes e eu senti sua língua deslizar pela minha garganta. Em seguida seus dentes beliscaram meu lábio inferior e sua língua mergulhou em minha boca. Senti o gosto de cerveja e o sabor quente e delicioso de Sebastian. Gemi nos lábios dele e ouvi um rosnado vindo dele em resposta. Enganchei minha perna por cima da coxa dele, puxando nossos corpos mais para perto um do outro. Através de seus jeans pude sentir sua excitação, e esse conhecimento fez um jato de calor espiralar-se pelo meu corpo. As mãos dele afagaram minhas costas por cima do fino algodão da minha camiseta enquanto o beijo se aprofundava. A seguir, elas desceram para a cintura do meu jeans e ele puxou o tecido até soltá-lo por completo, passando as mãos fortes pela minha pele nua, brincando um pouco com o elástico do meu sutiã antes de voltar a descer para massagear meu traseiro. Estremeci de desejo e as mãos dele pararam. – Tem certeza, Caro? – murmurou ele. Eu me afastei para poder fitar seus lindos olhos, esfregando suavemente o pequeno vinco entre suas sobrancelhas com o dedo. – Tenho, sim. – Eu me sentei e tirei a camiseta para acrescentar ênfase às minhas palavras. Os olhos dele estavam escuros de desejo e Sebastian engoliu seco antes de se sentar e arrancar a própria camiseta por cima da cabeça. Suas medalhinhas de identificação chocalharam baixinho ao se ajeitar de novo sobre seu peito. Estendi a mão para tocá-lo, precisando sentir o calor de sua pele sedosa, mas parei. – Você fez uma tatuagem? Ele sorriu de leve. – Coisa normal de fuzileiro naval. Analisei a arte delicada e as cores enevoadas enquanto Sebastian lentamente acariciava minhas costas. – A insígnia dos Fuzileiros Navais, certo? O que isso representa? – A águia representa a nação, bem, proteção da nação – está vendo o jeito como as asas dela estão abertas? O globo é a nossa presença mundial, e a âncora é por causa de nossa tradição naval. A águia carregava uma fita em seu bico, e eu pude discernir as palavras minúsculas. – Semper fidelis – sempre fiel.


Ele assentiu, os olhos sérios. Beijei seu ombro gentilmente e me deitei na cama, puxando-o na minha direção. Sem falar mais nada, ele me pressionou contra o colchão, beijando-me intensamente. Sua mão direita passou sobre meu seio direito, deslizando os dedos por baixo do sutiã e provocando o mamilo até que ele estivesse rígido e sensível. Em seguida ele deslizou a mão sob minhas costas, abrindo o fecho do sutiã, e empurrou as alças dos ombros pelos meus braços, jogando o tecido frágil no chão. Sebastian baixou a cabeça até meus seios, sua língua dançando ao redor dos mamilos, roçando os dentes sobre minha pele excitada. Gemi, arqueando as costas, e ele levou uma das mãos por baixo de mim, meio que me erguendo da cama. Eu respondi arrastando minhas unhas pela sua coluna, fazendo-o gritar. Ele pressionou os quadris contra os meus e chupou a pele no meu ombro, mordendo, fazendo-me sentir seus dentes. Corri as mãos sobre seus bíceps e antebraços, depois enfiei os dedos na frente de seu jeans, sentindo a grande protuberância por cima da cueca. Ele gemeu alto e eu apertei-o por cima do tecido. – Cacete, Caro! – disse ele, a voz rouca de desejo. Acompanhando meus movimentos, ele colocou as mãos por baixo da cintura do jeans, acariciando minha bunda e enfiando os dedos no vão entre minhas nádegas. Em seguida, tirou a mão e brincou com o botão na frente da minha calça antes de abri-la. Ele não se incomodou com o zíper, simplesmente mergulhando os dedos por baixo da minha calcinha, movendo meus pelos púbicos com gentileza, massageando a área em círculos lentos antes de deixar seu indicador descer um pouco mais. Eu sabia que estava molhada, desesperadamente excitada, e assim que seus dedos me encontraram eu gritei. Ele sempre conhecera essa parte do meu corpo tão bem, e definitivamente não havia perdido o jeito. Para dentro e para fora, dentro e fora, me torturando, confinada como eu estava pelo meu jeans. Minhas costas se arquearam e eu gritei de novo. Ele se sentou rapidamente e abriu o zíper da minha calça, arrastando-a rudemente pelas minhas pernas, antes de enganchar os dedos no tecido delicado da minha calcinha e jogá-la no chão. Estremeci sem parar enquanto ele abria a mão e deslizava-a pelo meu peito, descendo pela minha barriga até o osso púbico e pelas minhas coxas. Sua mão voltou a subir, encontrando meu ponto mais sensível com o indicador; ele começou a pressionar com força, para cima e para baixo. Eu gemi e afastei sua mão. – Não. Você. Eu quero você. Ele sorriu brevemente, depois abriu sua calça e ficou de pé para deixá-la cair até o chão, retirando-a por completo. Eu me ajoelhei na beira da cama, empurrando meus seios contra o peito dele e passando as mãos sobre seu traseiro. Aí tirei a cueca dele e sua ereção saltou, livre. Minha nossa, ele era grande! Eu havia honestamente esquecido como ele era bem-dotado. Na verdade, não tinha percebido até depois de nossos caminhos terem se separado que ele estava consideravelmente acima da média.


Umedeci os lábios e deslizei uma das mãos por sua extensão, gentilmente massageando seus testículos com a outra. Ele respirou profundamente pelo nariz, as narinas se alargando de leve. Repeti o gesto e ele xingou baixinho. Uma gota de umidade brilhou na ponta e eu a espalhei com o polegar. O corpo dele tremeu. – Você está tomando a pílula? – perguntou ele, a voz áspera. Balancei a cabeça, um sorriso ameaçando escapar. – Geralmente, não preciso disso. Por favor, me diga que você tem camisinhas, porque senão “amassos” é tudo o que vamos poder fazer. Ele sorriu e abaixou-se para vasculhar os bolsos da jaqueta de couro. – Só para conferir – falei, displicente –, quando foi que você comprou? Ou é um estoque antigo? Ele sorriu para mim e balançou a cabeça, negando. – Não, pacote novo. Dá uma olhada. Ele jogou a caixinha para mim e eu vi que era verdade: o lacre ainda não tinha sido rompido. – Então, não vamos precisar praticar para colocar uma? Era uma provocação; dez anos atrás, ele admitira, meio envergonhado, que havia praticado colocar uma camisinha para poder saber o que fazer quando chegasse a hora. Sebastian riu. – Bem, eu não pratiquei isso recentemente, mas acho que consigo me lembrar o que fazer. – Você está fugindo da pergunta – falei, erguendo as sobrancelhas. – Quando comprou essas aqui? – No segundo dia do treinamento para ambientes hostis. – Mas você ainda estava furioso comigo naquele dia! – falei, muito surpresa. – O que não me impedia de te desejar – retrucou ele, sorrindo para mim. – Humm, bem. Vejamos se eu me lembro do que fazer – falei, erguendo uma sobrancelha. O sorriso dele se ampliou e ele ficou à minha frente com as mãos nos quadris, a ereção apontada na minha direção. Eu abri a caixa e tirei um envelopinho, roçando-o por toda a extensão do membro de Sebastian e batendo de leve na ponta. – Ei, cuidado aí! – sussurrou ele. – Chorão! Eu pensei que você fosse um fuzileiro naval, não um rato. – É só ter cuidado com a minha arma – disparou ele. – Feche os olhos e relaxe. – Por que, o que você vai fazer? – disse ele, cauteloso. – Não confia em mim? – perguntei, sorrindo inocentemente. – Não quando você faz essa cara – disse ele, mas fechou os olhos mesmo assim. Eu abri a embalagem e prendi a ponta entre o polegar e o indicador, mas antes de rolar a camisinha sobre Sebastian, inclinei-me adiante e tomei-o em minha boca. – Porra! – ciciou ele entredentes, enquanto eu subia e descia com a boca. Ele pousou as mãos em meus ombros e flexionou o quadril automaticamente, penetrando mais fundo em minha garganta. Eu recuei de leve e rocei nele com os dentes, fazendo-o estremecer.


Chupei com força e ele gemeu. – Não, querida. Eu quero estar dentro de você. Eu dei outro puxão não muito gentil e o soltei. Ele balançou a cabeça, os olhos divertidos, mas cheios de calor. Sorri para ele e deslizei as mãos sobre sua bunda, desfrutando da reentrância definida onde o quadril se encontrava com o músculo. – Apenas coloque essa porra desse negócio, Caro – disse ele. – Você está me matando aqui. – Ah, não seja chorão, Sebastian. Nós esperamos dez anos; você não vai morrer nos próximos 30 segundos. – Eu não teria tanta certeza disso – resmungou ele. Segurei a camisinha na ponta do pênis dele e, tão lentamente quanto era possível, rolei-a para baixo, aproveitando cada segundo e cada milímetro. Ele afastou minhas mãos assim que eu terminei. – Minha vez – disse ele, em um tom que não aceitava argumentos. Eu me deitei na cama e ergui meus braços para puxá-lo para mim. – Ah, eu acho que não – disse ele. – Minha vez, lembra? Puxe seus joelhos para cima. – Sim, senhor! – gritei, fazendo uma saudação. – Está zombando da Marinha dos Estados Unidos, madame? – rosnou ele. – Por quê? O que você vai fazer a respeito? A expressão no rosto dele mudou sutilmente e eu tive a sensação de que ia me arrepender das minhas palavras de desafio. Deslizei meus pés para cima na cama conforme ordenado e observei com um misto de antecipação e delicioso presságio enquanto a cabeça dele desaparecia entre minhas coxas. Sua língua moveu-se para cima e eu estava tão excitada que quase gozei na mesma hora, meu corpo se arqueando para encontrá-lo. Por um segundo, ele recuou para olhar para mim, sorriu cheio de malícia e continuou com seu ataque erótico que me fez gemer em um volume embaraçosamente alto. Em seguida, ele encaixou os ombros sob meus joelhos e ergueu da cama toda a parte inferior do meu corpo, de maneira que meu peso repousava sobre a parte de cima das costas. E ele foi impiedoso. Meu orgasmo começou a se aproximar rapidamente e mesmo enquanto as ondas me despedaçavam, ele não parou até que todos os ossos de meu corpo tivessem se liquefeito. Não pude conter o pensamento maldoso que dardejou pelo meu cérebro: a prática leva à perfeição. No entanto, ele não me deu tempo para pensar muito profundamente, porque pousou meus quadris de volta na cama e posicionou-se por cima de mim. – Esperei um tempo longo demais para isso – disse ele. E então ele deslizou para dentro de mim, centímetro por centímetro, lentamente, enquanto meu corpo se ajustava à sua presença invasora. – Porra, você é tão gostosa, Caro. Posso sentir você ao meu redor. Tão apertada, cacete!


Eu também podia senti-lo, certamente. Meu cérebro anestesiado começou a se encher de memórias, os momentos, os lugares, as várias e várias vezes que ele fez amor comigo antes. Muitas vezes, porém, de alguma forma, muito poucas vezes. Corri as unhas pelas costas dele de novo, depois pressionei as pontas dos dedos em seus músculos retesados. Ele gemeu, continuando a se mover lentamente para dentro e para fora. Dez anos atrás, o garoto que ele tinha sido era incapaz de se conter, correndo até a linha de chegada. Agora eu me beneficiava de sua experiência. Ele segurou seu peso nos antebraços e gradualmente aumentou a velocidade. Senti o metal frio de suas plaquinhas de identificação na minha pele, acima do coração, que estava batendo furiosamente rápido conforme meu corpo começava a responder de novo. Morte por orgasmo – que belo jeito de morrer. Gemi o nome dele e Sebastian pareceu perder uma fração de seu cuidadoso controle, pois começou a se mover mais rápido. Logo seus quadris investiam ferozmente e eu absorvia cada arremetida enquanto ele esmagava meu corpo contra o seu. Os olhos dele estavam bem abertos, me encarando, quase selvagens em sua intensidade. E então sua boca estava na minha, nossas línguas se enroscando uma na outra. Inclinei meus quadris para cima, de encontro ao dele, e senti seu corpo se enrijecer; ele flexionou profundamente mais uma vez e então ficou imóvel, sua respiração vindo em arquejos rápidos. Eu o envolvi em minhas pernas, cruzando os tornozelos atrás de sua cintura e contraí meus músculos por dentro, arrancando cada gota dele. Então ele deixou seus braços cederem, enterrando o rosto em meu ombro. Um lento instante se passou e aos poucos nossa respiração começou a se normalizar. Senti os lábios dele pressionados de leve contra meu pescoço. Ele levou a mão até onde estávamos unidos, garantindo que a camisinha não havia se perdido no ato, e retirou-se de meu corpo com cuidado. Deitando-se de costas, ele tirou a fina proteção, fazendo uma careta ao amarrar um nó na ponta da camisinha antes de jogá-la na lata de lixo. Depois se apoiou em um cotovelo para olhar para mim, pousando a mão livre em minha barriga. – Você está bem? – disse ele, plantando ternamente um beijo gentil na ponta do meu nariz. Eu não sabia como responder a essa pergunta. Eu havia me prometido que nunca mais me envolveria com outro homem no serviço militar; estava determinada a nunca mais ser atraída por um homem mais jovem; sabia que revisitar o passado era uma péssima ideia; e sentia que Sebastian era uma mistura volátil de emoções intensas e raiva inquestionada pelo passado. Ainda assim, meu corpo temerário cantava cada vez que ele me tocava. – Sim, acho que sim – respondi, minha voz cautelosamente neutra. Afastei sua mão e me sentei, ignorando sua expressão confusa. – Aonde você vai? – Só pegar um pouco de água – falei, sem olhar para ele.


Senti seus olhos sobre mim enquanto entrava no banheiro, brutalmente ciente de que meu velho corpo de 40 anos não podia se equiparar à primorosa perfeição do dele. Vesti o robe e bebi um pouco de água da torneira. O espelho do banheiro refletiu meu rosto corado e cabelo emaranhado. Peguei minha escova para resolver um dos problemas quando ouvi Sebastian e virei-me para encontrá-lo na porta atrás de mim. – Caro, qual é o problema? – Nada – falei, animada demais. – Estou bem. Os olhos dele encontraram os meus no espelho e pude ver que ele não acreditava em mim, porém também não queria me desafiar. Em silêncio, ele tomou a escova das minhas mãos e lentamente, cuidadosamente, escovou meu cabelo até que ele pendesse organizadamente em ondas pelas minhas costas. – Você tem um cabelo lindo, Caro. Fico feliz que o tenha mantido comprido. Seu tom era gentil, quase amoroso. Dei de ombros. – De vez em quando eu decido cortar tudo, especialmente depois de ir a algum lugar onde não pude lavá-lo por semanas. – Isso seria um crime – disse ele, solene. – Você que o diga! – falei, apontando com o queixo para a sombra de cabelo dourado que se agarrava ao crânio dele. Os lábios de Sebastian se contorceram em um sorriso. – Acredite, meu bem, eu deixaria crescer se pudesse. Talvez eu devesse ir até meu oficial e dizer a ele que minha namorada quer que eu… Ele parou de súbito. Suspirei. – Tudo bem. Eu também fico me esquecendo em que década estou. É tão esquisito. Ele assentiu, aliviado. – É, isso é tão esquisito, eu também me sinto assim. É como se nada tivesse mudado, mas tudo mudou. É como estar em uma máquina do tempo maluca. Eu fico esperando que o seu marido bata na porta. Eu me encolhi. – Porra, desculpe. Estou fazendo de novo. Sorri dolorosamente. – Ah, bem, imagino que você tenha alguma experiência com maridos batendo à porta. – Não faça isso, Caro. Eu o encarei por uma fração de segundo, depois passei por ele, voltando para o quarto. Não podia acreditar que ele tivesse mencionado meu ex-marido. Já não tínhamos memórias dolorosas suficientes entre nós? Pelo visto, não. Ouvi água escorrendo e ele me seguiu, levando um copo de água. Ele o entregou para mim em silêncio e eu tomei um golinho antes de colocá-lo no criado-mudo ao lado da cama.


– Obrigada. Ele sentou-se na cama, cobrindo a parte inferior do corpo com o lençol. – Caro, eu sei que isso é esquisito para cacete, mas também é bom, não é? Digo, nem todo mundo consegue uma segunda chance. Era isso do que se tratava, uma segunda chance? Mas uma segunda chance de quê? De nos separarmos traumaticamente de novo? – Hoje foi divertido – falei, tentando pensar em todos os aspectos. – E essa noite foi… boa, mas a realidade é que: eu estou morando em Nova York e passando de três a seis meses por ano longe de casa. Você é um fuzileiro naval e vai para onde te mandarem. Presumo que esse próximo turno no Afeganistão será de seis meses ou mais, não? E então, para onde você vai? Porque vamos encarar, Sebastian, as chances de que você seja postado na Divisão de Assuntos Públicos da corporação em Nova York é baixíssima. Especialmente com o seu histórico. Assim, não sei muito bem que tipo de “segunda chance” você tem em mente. O corpo de Sebastian se retesou com uma fúria súbita e reprimida; ele saltou da cama, me encarando, gloriosamente nu. E muito zangado. – Cristo, é como ouvir um disco velho, Caro! Você sempre tenta pensar nos motivos pelos quais não podemos ficar juntos! – O que você quer dizer com “sempre”? Eu não te vejo há dez anos! – Esse é exatamente o ponto, Caro! Você dizia isso para mim quando eu tinha 17, e ainda está dizendo isso agora. Nós desperdiçamos dez anos e você está preocupada com alguns milhares de quilômetros? Inferno, temos aviões, temos e-mail, já inventaram celulares. Jesus, se a coisa chegar a esse ponto, eu posso até te escrever a merda de uma carta! Contive uma risada histérica que ameaçou começar. – Você escreve cartas? Os ombros dele relaxaram de leve, mas seus olhos ainda estavam tensos de emoção. – Eu escrevo para você dos dois lados da porra da folha, Caro. – Como eu posso recusar uma oferta tão espantosa? – Você está rindo de mim? – Você está gritando comigo? – Sim! – Então “sim” para você também. – Suspirei. – Olha, o dia e a noite de hoje foram divertidos. Mas como eu te disse antes, não estou querendo me amarrar de novo. Eu trabalho muito e adoro o que eu faço. Ainda estou furiosa com você por ter atrapalhado minha papelada de viagem. Não vou receber até entregar uma história, e não vou conseguir uma história até chegar a Leatherneck. Todo esse tempo, eu não estou sendo paga – e eu tenho uma hipoteca bem cara a pagar. Ele pousou as mãos nos quadris e me olhou nos olhos. – Sinto muito pelo dinheiro, Caro, e sinto muito por ter te deixado furiosa comigo de novo, mas não me arrependo do que fiz. Eu esperava ter uma chance de passar algum tempo com você, mas teria feito o mesmo só para mantê-la a salvo. Suspirei.


– Isso não está nos levando a lugar nenhum. Ele se sentou na beira da cama de costas para mim e descansou os cotovelos sobre os joelhos. Tive a oportunidade de estudar suas costas musculosas, os ombros esculpidos e a pele dourada e reluzente. Meu menino dourado. – Caro, eu tenho 17 dias antes de viajar. Gostaria de passá-los com você. Isso é tudo. Se você não quiser me ver depois disso… Bem, acho que é tudo. Ele se virou para olhar para mim por sobre o ombro. – O que você me diz?


C APÍ TU LO

5

DITO DAQUELA FORMA, o que eu tinha a perder? Eu podia visitar a Itália com ele ou passar duas semanas sem sentido andando por Genebra sozinha. E, apesar do que eu havia dito a ele sobre o sexo ter sido “divertido”, “espetacular” e “de perder a cabeça” seriam expressões mais adequadas. Além disso, foi a maior quantidade de orgasmos que eu tinha em uma noite só na última década. – Vou precisar de uma almofada para me sentar em cima se você espera que eu vá naquela sua moto o caminho todo até Salerno. A expressão dele se animou na mesma hora. – É mesmo? Tem certeza? – Bem, parafraseando você, “que diabos”. – Fiz uma pausa. – Mas eu me reservo o direito de voar de volta se você for muito idiota. – Hum, bem, é melhor você me dar uma escala de idiotices, só para eu saber. Ergui uma sobrancelha. – Isso seria uma longa lista. – Tente. – Certo – falei, me aprumando e mergulhando direto na minha lista mental dos momentos mais idiotas e irritantes desde que nos reencontramos. – Primeiro, nada de ficar bêbado e desmaiar na minha cama; segundo, mais nenhuma interferência em minha carreira, de nenhum tipo – isso é digno de me fazer voltar; terceiro, sem outras exibições de ciúme adolescente; quarto… Entretanto, não consegui terminar a lista – ele saltou sobre mim, me prendendo ao colchão e beijou-me com força. Eu estava sem fôlego e excitada quando ele me soltou, e pude sentir sua ereção renovada cutucando meu quadril através do robe. É claro. Ele se recuperava rápido. Eu havia esquecido. – Por que isso tudo? – perguntei, afastando-o de mim.


Ele encolheu os ombros. – Parecia ser uma lista muito longa; pensei em tentar te distrair. – Tática de distração? – Sim, somos treinados nisso na Marinha – sorriu ele. – Aposto que são! E falando nisso – falei, apontando para seu pênis totalmente ereto –, pode guardar esse negócio. Eu estou exausta. Alguém me arrastou por toda a Suíça e metade da França hoje. – Tem certeza de que não posso persuadi-la? – disse ele, debruçando-se para morder minha coxa. – Bastante certeza, muito obrigada. Essa mulher de 40 precisa do seu sono de beleza. Ele fechou a cara. – Eu queria que você não fizesse isso, Caro. Credo, ele sempre tinha sido assim tão temperamental? – Fizesse o quê? – Ficar falando sobre a sua idade. Você é mais velha que eu, já sei. E adivinha só? Eu não dou a mínima. Nunca dei. Só queria que você não se prendesse tanto a isso. É meio irritante. Eu o estava aborrecendo? Em que universo? Ah, esse mesmo, provavelmente. Percebi que ainda estava boquiaberta, de um jeito nada atraente. – Fique à vontade para dizer o que pensa de verdade, Hunter. Ele sorriu para mim. – Está bem. Balancei a cabeça, meio divertida, meio irritada. – E então, podemos partir amanhã? Começar nossa viagem? – disse ele, os olhos luzindo como os de uma criança no Natal. – Bem, acho que sim. Mas não sei como vamos colocar minha mala na garupa da sua moto. – Não se preocupe com isso. Vamos apenas pegar o que você precisa e deixar sua mala na minha casa até voltarmos. – ele fez uma pausa, sua expressão tornando-se desafiadora. – E aí, posso dormir aqui essa noite ou você vai me chutar para o mundo frio e escuro, sozinho em uma cidade estranha, onde mulheres más estrangeiras podem tentar me seduzir? – Essa é uma história triste, entre as piores que já ouvi, chefe Hunter. Embora eu suspeite que seja uma versão altamente editada. – Isso é um sim? – perguntou ele, esperançoso. – Sim, desde que dormir seja o que você tinha em mente. – Na maior parte. Bom o bastante? Balancei a cabeça: ele realmente era incorrigível. – Tudo bem. Quer usar o banheiro primeiro? – Não, pode ir. Enquanto eu escovava meus dentes com força suficiente para remover várias camadas de esmalte, perguntei-me como eu tinha sido atropelada de novo. Eu realmente não pareço ter a habilidade de dizer “não” no que tangia a Sebastian. Teria sempre sido assim entre nós? Pensei em alguns dos riscos absurdos que eu correra dez anos atrás. Sim, eu tinha que admitir: havia sido sempre assim.


Quando terminei, foi a vez de Sebastian no banheiro e eu fui para a cama, cansada. Tinha me esquecido da maratona que era fazer sexo com ele. Com 30 anos, eu tinha dificuldades para acompanhá-lo; parecia haver ainda menos chance de que eu pudesse fazer isso agora. Relembrei-me do consenso geral de que as mulheres atingem seu auge sexual aos 40, enquanto com homens ocorre aos 19. O que significava que Sebastian já tinha passado de seu auge; a julgar pelo que vi, ninguém o havia avisado disso. Ainda assim, isso me alegrou de leve. Desfrutei do show quando ele saiu do banheiro sem pudor algum de sua nudez, vestindo apenas suas plaquinhas de identificação e um grande sorriso. Ou ele estava muito à vontade comigo, ou se habituara a andar por aí pelado. Será que eles tinham duchas coletivas na Marinha? Humm, talvez fosse preciso um pouco de pesquisa – estritamente com base na integridade profissional, é claro. Em vez de dar a volta na cama, ele deliberadamente se sentou do meu lado, depois passou por cima de mim. – Sebastian, o que você está fazendo? – Pegando um atalho – disse ele, enquanto seu corpo pairava acima do meu e ele se abaixava para me beijar. Ele estava com gosto de menta. Ergui os braços e puxei-o para aprofundar o beijo antes de empurrar seu peito. – Dormir! Agora! – Tem certeza de que eu não posso te fazer mudar de ideia? – disse ele, olhando para outra ereção que crescia a uma velocidade alarmante. – Ah, guarda isso! Estou cansada. Ele sorriu para mim e cedeu, deslizando por baixo da coberta do outro lado da cama. Eu me estiquei para apagar a luz da cabeceira e o quarto mergulhou na escuridão. Senti a mão de Sebastian passar por cima da minha cintura e ele beijou minha nuca. – Boa noite, meu bem. Ele adormeceu rapidamente, os braços em volta de mim, me aquecendo e pesando sobre mim. Escutei os sons baixos e ritmados de sua respiração, perguntando-me se nossas diferenças iriam nos unir ou nos separar. **** Mal havia amanhecido quando Sebastian me acordou de um sonho confuso e perturbador. – Caro, você está bem? Esfreguei o rosto enquanto seus olhos preocupados me analisavam. – Ah, desculpe, eu te acordei? Eu estava sonhando. – Parecia mais com um pesadelo. – Desculpe. Sim, estou bem. Na verdade, eu estava sonhando de novo com o Iraque. Não era algo que acontecesse com frequência, mas era sempre assustador quando ocorria. As imagens recorrentes vinham da vez que visitei a Base Vitória, perto do aeroporto de Bagdá: a equipe médica tinha acabado de ficar sabendo


que três ferimentos de “categoria alfa” estavam a caminho. No meu sonho, era o zumbido característico dos helicópteros de evacuação médica que me enchiam de medo. Sebastian definitivamente não precisava saber sobre o que tinha sido o pesadelo. Estremeci e me sentei, a coberta escorregando até minha cintura. A expressão de Sebastian mudou e percebi que seus olhos estavam vorazmente fixos em meus seios. – Seus olhos vão cair assim, Hunter – resmunguei. Ele sorriu, um tanto culpado, reconhecendo ter sido flagrado encarando. – Só olhando, chefa – disse ele. Eu não me dei ao trabalho de responder. Em vez disso, me espreguicei rigidamente e fui até o banheiro com o robe bem fechado ao meu redor. Contemplei as bolsas sob meus olhos e o cabelo cansado, procurando qualquer fio branco para arrancá-lo sem piedade. E então percebi a verdade: isso era o melhor a se esperar. Eu nunca ficaria mais jovem, ou mais tonificada, ou menos enrugada. E talvez houvesse um dia, mais cedo em vez de mais tarde, em que Sebastian fosse preferir uma pele mais jovem sob suas mãos experientes. E se isso acontecesse, havia menos que nada que eu poderia fazer a respeito. No entanto, nesse momento, ele me queria. Era o meu corpo que fazia seus olhos se arregalarem, e meu corpo que o excitara tanto na noite passada. Ele havia dito de novo que não se importava com a diferença de idade, então qual era o meu problema? Talvez eu devesse simplesmente relaxar e aproveitar o passeio, por assim dizer. Talvez eu estivesse tendo uma epifania: ele não se importava, então por que eu deveria? Cutuquei meus olhos de novo. Não, ainda carregavam bagagens. Então me lembrei de uma coisa: algo que Sebastian me disse dez anos atrás, e que nunca tínhamos feito. Humm. Aquilo tinha possibilidades interessantes. Imaginei se ele me permitiria… só havia um jeito de descobrir. Aquilo certamente tiraria minhas inadequações de minha mente e, bem, eu esperava que tirasse tudo da mente de Sebastian. Ele estava deitado em seus travesseiros com as mãos atrás da cabeça. – Oi – disse ele, os olhos brilhando. – Oi, você. – Você parece melhor. – Ora, chefe Hunter, que capacidade incrível de observação o senhor tem. Ele sorriu para mim. – É, muito melhor. – Bem, agora que você mencionou, estou em um humor muito melhor, apesar de faminta. – Quer descer para tomar café ou devo chamar o serviço de quarto? – Deixe-me pensar sobre isso por um minuto. Lentamente, desamarrei o cinto do robe e retirei-o dos passadores, enrolando-o nos meus dedos. Larguei o robe no chão e vi os olhos de Sebastian acompanharem sua queda. – Eu estava pensando em devorar você, chefe, mas como você é um homem tão teimoso e irritante, que me deixa furiosa a cada duas frases que saem desses lábios lindos e mal comportados, achei que


seria melhor amarrá-lo antes. O que você me diz? O queixo de Sebastian caiu. – Eu digo, onde está Carolina Venzi e o que você fez com ela? Eu sorri maliciosamente para ele. – Estou apenas aceitando seu conselho, chefe. – Não sei que conselho eu te dei, mas deve ter sido ótimo. – Vamos descobrir? Coloque as mãos na cabeceira. – Sim, senhora. Ele passou as mãos pela estrutura metálica e eu rastejei pela cama e por cima de seu corpo. Ajoelhada por cima de seu peito, entrelacei o cinto pela cabeceira e amarrei ambos os pulsos dele com força. – Você já fez isso antes? – murmurou ele, o olhar abrasador. – Só nos meus sonhos, Hunter. Agora, fique quieto, ou talvez eu tenha que te amordaçar também. – Cacete! – sussurrou ele. – Talvez mais tarde. Tirei o cobertor de cima dele do mesmo jeito que arrancava faixas de cera de depilação das minhas pernas. Não fiquei surpresa ao ver que ele estava lindamente ereto. – Essa é uma bela vista para olhos cansados, Sebastian. Talvez eu devesse apenas deixá-lo aqui; as arrumadeiras talvez fossem gostar disso. Ou, ainda melhor, talvez eu tire uma foto sua com meu celular. Não se preocupe, não vou postar na internet, será apenas para meu protetor de tela. – Caro! – disse ele, um alerta sério na voz. – Estraga-prazeres – falei, fazendo biquinho para ele. – Nenhum senso de aventura. Ele sorriu em resposta, mas sua expressão era levemente resguardada. Ele flexionou os braços, testando os nós. Fiquei muito satisfeita em ver que ele não conseguia movê-los. Dei um beijo gentil em seus bíceps antes de escorregar por seu corpo. Ah, eu ia gostar muito de ser a pessoa dando as ordens. Talvez eu o ensinasse a ser um bom soldadinho e obedecer. Ajoelhei na cama e deslizei a língua de seus testículos até a ponta do pênis; ele gemeu alto. Não, isso não ia funcionar. Voltei a descer da cama. – Para onde você vai? – perguntou ele, um tanto preocupado. – Volto em um minuto – falei, enquanto entrava no banheiro. Vasculhei minha nécessaire tentando encontrar um elástico para o cabelo. – Caro! – berrou ele. – Mas que diabos? – Está ficando impaciente, Sebastian? Ele xingou de novo e eu escutei quando ele puxou os braços, fazendo a cabeceira estalar de modo agourento. Voltei para o quarto, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo. – Eu não conseguia ver o que estava fazendo – expliquei. – Isso vai ter troco, Venzi – disse ele, os ombros escuros e divertidos.


– Pode tentar, chefe. Ajoelhei-me na cama e passei minhas mãos por seu peito fabuloso, desfrutando da rigidez e maciez de seus peitorais, cada reentrância de seus abdominais e a barriga de tanquinho. Peguei as plaquinhas de identificação com a boca e chupei com força. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Sorri para mim mesma. Eu estava gostando de tê-lo à minha mercê – e suspeitei que ele também estivesse. Bem, era mais do que uma suspeita: eu tinha a evidência para provar que sim. Ah, sim, e sobre essa evidência… Eu fui descendo pelo seu corpo, beijando, mordendo, lambendo, mordiscando, sugando. Devo ter encontrado um ponto em que ele sentia cócegas, porque seus quadris se levantaram da cama incontrolavelmente e ele praguejou outra vez. – Sebastian, que boca! Deslizei a língua por toda a extensão de seu membro e gentilmente segurei os testículos entre os dentes. O corpo dele estava rígido e acho que ele parou de respirar. Soltei-o cuidadosamente e escutei o ar escapar de seus pulmões em uma lufada. Senti o impulso de rir, mas achei melhor não. Segurei sua ereção em um ângulo reto a seu corpo e me debrucei. Depositei um beijo suave na ponta, sentindo seu corpo estremecer incontrolavelmente, e então tomei-o em minha boca por completo, até embaixo e depois, até em cima. Usei minha língua, meus dentes e meus lábios para dar a ele sensações tão diferentes quanto era possível. Sua pele era macia e sedosa ao tato, sua ereção quente, dura e deliciosa. Massageei suas coxas e seus testículos enquanto subia e descia com minha boca. Ele flexionou os quadris para cima e gemeu suavemente. Essa foi minha deixa para aumentar a pressão e acelerar meus movimentos. Fiquei tão excitada ao tê-lo totalmente sob meu poder! Eu nunca tinha feito nada assim antes, e menti para Sebastian quando disse que sonhava em fazer isso. Mas havia algo em seu jeito aberto e honesto que me fazia sentir forte e quase destemida. Era eu quem estava lhe dando prazer e fazendo-o se contorcer sob mim, não uma mocinha casadoira de vinte anos. Quarenta, e com menos inibições: não era um lugar ruim para estar. Com uma sensação semelhante a triunfo, senti Sebastian gozar em minha boca enquanto gritava meu nome. Engoli rapidamente, ciente do fluido quente e salgado no fundo da minha garganta. Não seria nem um pouco bom se isso fosse para o lugar errado. Sentei-me, sentindo-me um pouco dolorida no pescoço e nos ombros. Ah, bem, valia a pena. Os olhos dele estavam fechados e sua respiração, acelerada. Observei-o por um momento, depois me inclinei sobre o criado-mudo e bebi um pouco da água que havia deixado ali na noite anterior. Olhei para meu telefone para ver a hora, imaginando se ele recobraria os poderes da fala em breve. Deitei-me na cama e me aconcheguei a seu peito, puxando o cobertor sobre nós dois. – Nossa, Caro! Isso foi… foi… uau! – Ele fez uma pausa. – Você vai me desamarrar agora? Balancei a cabeça, sonolenta. – Acho que não. Eu gosto de ter você como meu serviçal, sempre à disposição.


Ele riu de leve, depois chacoalhou a cabeceira de novo. – É sério, eu quero te abraçar. Resmungando baixinho, desamarrei seus braços e ele flexionou as mãos. Sebastian então massageou um pouco os dedos, o que me fez imaginar se eu não o amarrara um pouco apertado demais. Ah, bem, vivendo e aprendendo. – Onde você aprendeu a fazer isso? – perguntou ele, provocante, depois de eu me ajeitar em seu peito. – Escola noturna – falei, bocejando. Ele riu e beijou meu ombro. – Agora é a minha vez? – Pensei que você quisesse me levar para viajar amanhã. – E quero – disse ele, com um brilho impudico nos olhos. – Mas eu posso ser rápido… Humm… sexo rápido e intenso… com Sebastian. Não, meus músculos ainda estavam sentindo as pontadas das atividades da noite passada. – Eu vou pedir um adiamento, chefe. A expressão dele era pesarosa. – Tudo bem. Nesse caso, acho que devíamos começar a nos arrumar. Todavia, suas mãos não obedeciam às palavras que sua boca estava dizendo. – O que você está fazendo? – perguntei, desconfiada, os olhos ainda fechados. – Nada – respondeu ele suavemente, os dedos descendo um pouco mais. Então eu ofeguei e meus olhos se abriram de repente. Ele sorria para mim, uma expressão diabólica no rosto. – Sebastian! – gemi. – Shh, meu bem – murmurou ele, cobrindo minha boca com a sua. Parecia que era minha vez, afinal. **** Tomei uma ducha rápida, expulsando-o do banheiro quando ele tentou se juntar a mim. Eu sabia que se ele fizesse isso, nossa viagem começaria e terminaria nesse quarto – o que não soava mal, mas agora, depois de todos os meus argumentos, eu descobri que estava ansiosa em visitar a Itália. Com Sebastian. A ducha dele foi ainda mais rápida que a minha e ele se vestiu rapidamente enquanto eu guardava minhas roupas, carregador do celular, o laptop e os blocos de anotação. Com cuidado, enfiei a bolsa contendo a câmera entre minhas camisetas para dar a ela tanta proteção quanto era possível. A câmera era uma Nikon D2Xs e era muito importante para mim: tinha sido uma das primeiras coisas que eu comprei sozinha, assim que comecei a ganhar dinheiro escrevendo. Havia outras câmeras digitais melhores que ela no mercado, mas essa havia me acompanhado pelo mundo todo e nunca me decepcionara.


– Quer tomar café aqui? – perguntou Sebastian. – Você não comeu nada depois do almoço de ontem. Sua atenção era adorável. Sim, eu me lembrava disso: aqueles breves momentos quando alguém colocava as necessidades do outro antes das suas próprias. Sebastian tinha sido a primeira pessoa a fazer isso. – Não, vai demorar demais. Você deve conhecer algum pequeno café onde possamos parar, não? Talvez no lago? – Tá, tudo bem. Mas eu preciso passar na minha casa antes e apanhar umas coisinhas. Fomos até o saguão e, enquanto eu fechava minha conta, colocando o recibo no bolso, feliz pelo jornal estar pagando por esse hotel caro, Sebastian foi buscar a moto. Eu não sabia como ele colocaria minha mala na moto, mesmo pela curta distância até seu apartamento. Percebi que não fazia ideia de onde ele morava: seria fascinante ver seu mundo particular. Ouvi o motor da moto antes de vê-la; o rugido rouco já era surpreendentemente familiar. Deus, ele estava deslumbrante em sua jaqueta de couro e seu jeans justo sobre as coxas musculosas. Eu podia fantasiar durante horas só sobre elas. E o capacete preto o deixava com aparência perigosa. Ele levantou o visor. – Dê-me a mala, Caro. – Aonde você vai colocá-la? Eu a entreguei para ele, intrigada; porém, ele simplesmente a encaixou diante de si entre as manoplas e indicou com um gesto de cabeça para eu me sentar atrás dele. Sim, senhor! Eu definitivamente teria que amarrá-lo de novo: ele gostava demais de estar no comando. Ou talvez eu devesse parar de encorajá-lo chamando-o de “chefe”. Certa de que carregar bagagem desse jeito era altamente ilegal, nós partimos em direção à cidade. Resolvi que, se fôssemos parados, eu tentaria me fingir de turista inocente e sem noção. Por sorte, chegamos à casa de Sebastian sem incidentes. Seu apartamento, se era possível chamá-lo assim, ficava em uma parte mais antiga da cidade, onde a arquitetura parecia mais italiana do que suíça. A rua de paralelepípedos era estreita e muito quieta. Perguntei-me de onde eles haviam retirado as pedras, estando tão longe do mar. Um rio, talvez? O apartamento de Sebastian ficava em um prédio alto e estreito, com estuco se soltando e venezianas desgastadas. Não era nada como eu esperava. Havia imaginado um apartamento chique de solteiro, cheio de vidro e cromados – um lugar para levar suas conquistas. Retirei meu capacete e desci sem nenhuma elegância da máquina mortífera. Sebastian jogou a longa perna por cima dela com facilidade, sorrindo para mim. – Não tem nada do que rir aqui, Hunter. Só porque você é quase 30 centímetros maior que eu. – Nanica – foi o comentário generoso dele. Tentei dar-lhe um tapa no traseiro, mas ele se desviou. – Está esquentadinha essa manhã. Acho que eu gosto disso. Ele pegou uma chave antiquada no bolso da calça e segurou minha mala com a outra mão.


A porta se abriu e eu espiei um corredor escuro. – Desculpe – disse Sebastian. – Não tem luz aqui. Ele me guiou por três andares em uma escadaria estreita e escura e deslizou a chave em outra fechadura quando chegamos ao topo. – É aqui – disse ele, simplesmente. Quando entrei, uma tristeza me invadiu. O quarto era pequeno e branco, com uma cama estreita de solteiro junto a uma parede. Um cobertor feio de estilo militar estava dobrado muito corretamente sobre a cama, como se pronto para inspeção. Uma dúzia de livros em capa brochura, muito manuseados, jaziam sobre uma estante simples de madeira. A única cor no quarto vinha de seu uniforme de gala, arranjado em um cabide dentro de um saco plástico de lavanderia, pendendo de um gancho na parede. Uma cadeira de madeira estava silenciosamente sob a janela, e uma pequena cômoda fazia sentinela junto à porta. Não havia carpete ou tapetes, apenas tábuas nuas de madeira; não havia pinturas nem fotos, apenas o iPod e o laptop dele, que pareciam perdidos e deslocados no espaço espartano. Sentindo meu choque, Sebastian apontou para a janela. – Tem uma linda vista – disse ele, defensivo. – Sim – concordei, olhando por cima dos telhados na direção do lago. – Muito bonita. Ele encolheu os ombros. – É tudo de que preciso. Virei-me para mexer nos livros dele, precisando de um momento para conter as lágrimas que ameaçavam escapar; ele não iria querer minha piedade. – Ainda um fã de Conrad – falei, tentando controlar minha voz, embora minha garganta estivesse fechada com as lágrimas reprimidas. – Claro – disse ele. – Você devia arranjar um e-reader – falei, tentando encontrar um tom normal de voz. – A obra completa de Conrad por duas pratas. – É, acho que devia mesmo – respondeu ele, a voz abafada enquanto pegava uma pequena bolsa debaixo da cama. – Se eu soubesse que haveria sempre um lugar para recarregá-lo quando eu estiver em algum vilarejo da idade da pedra. Ele se levantou e jogou a bolsa sobre a cama, depois vasculhou a cômoda, puxando meia dúzia de camisetas brancas, algumas cuecas cinza e meias pretas. – O que aconteceu com todas as cores? – soltei. Ele me lançou um olhar confuso. – Sebastian, a coisa mais colorida nesse quarto é o seu uniforme de gala – apontei, impotente. – Da primeira vez em que te vi, você usava uma bermuda de um vermelho ridiculamente berrante. Ele riu de leve. – Ah, sim. Eu ainda tenho essa bermuda por aí. Acho que em uma caixa na garagem de Ches. – Parece que Ches está com todos os seus bens materiais.


– Praticamente – disse ele, dando de ombros. – Eu não peguei muita coisa quando deixei a casa dos meus pais. Mas que diabos… É mais fácil fazer as malas e sair quando você não está carregado. Meu coração encheu-se de emoção. Meu pobre e lindo menino: toda a sua família era Ches. Ele não tinha nada, não morava em lugar nenhum e não tinha ninguém. Exceto, talvez, por mim – se eu permitisse. Se ele me quisesse. – Caro, de quanta coisa que está nessa mala você precisa de verdade? – disse ele, retirando-me de meus pensamentos infelizes. – Definitivamente preciso do meu laptop e meus blocos… – Estou falando de roupas, Caro. Não ousaria sugerir a uma repórter que ela vá a qualquer lugar sem seus instrumentos de trabalho. – Isso mesmo, chefe. Você apenas a impede de ir para onde ela precisa. Ele fez biquinho e eu não pude evitar um sorriso. Ele era tão bonitinho quando fazia aquilo! Imaginei quantos fuzileiros navais usavam o biquinho como sua arma principal. Peguei algumas camisetas. – Viu? – falei, arranjando uma paleta de camisetas rosa, verde, azul, amarelo e laranja. – Isso se chama “cores”. Isso é o que você tem quando não veste só preto, branco ou cinza. – Meu jeans é azul. Rolei os olhos. – São mesmo, Sebastian. Belo avanço. – Eu posso começar a gostar de cores – comentou ele, erguendo meu sutiã favorito de renda, que era de um magenta profundo. – Acho que esse não combina com você. Ele acrescentou a peça à pilha de roupas que eu levaria. – Não, mas não vejo a hora de tirar isso de você. – Isso, presumindo que você se dê bem, Hunter. Você prometeu quartos separados, lembra-se? Foi como se eu tivesse dito a ele que o Natal havia sido cancelado. – Você não vai mesmo me fazer cumprir isso, vai, Caro? Sorri para ele. – Não sei, não. Depende do quanto você for irritante. – E se eu prometer me comportar da melhor forma possível, senhora? – Humm, talvez. Fiquei impressionada com a forma como você acatou ordens hoje cedo. Os olhos dele se escureceram perigosamente e ele umedeceu os lábios. – Sim, e aquilo vai ter troco, Srta. Venzi. Tentei recuar, mas ele me pegou em seus braços, roçando o nariz pelo meu pescoço e beijando minha garganta. – E não vejo a hora de cobrar. Talvez devêssemos batizar essa cama. – Batizar? Pensei que ela já tivesse visto muita ação. Ele congelou e olhou para mim. – Não. Você é a primeira mulher que eu trouxe aqui. É… particular.


Passei meus braços ao redor do pescoço dele e puxei sua cabeça para baixo, beijando-o suavemente nos lábios. – A gente batiza a cama na volta – murmurei. Senti o sorriso dele em minha pele. – Algo pelo que esperar. Afastei-me e continuei a guardar minhas coisas. – Certo, acabei. Aliás, para onde exatamente estamos indo? Salerno fica bem longe, então presumo que vamos parar em algum ponto do caminho. – Sim, são mais de 1.100 quilômetros, então… – E isso são quantas milhas americanas, chefe? Ele riu. – Setecentas milhas. Pensei em parar em Gênova essa noite. Até lá são menos de 200 milhas, o que vai levar cerca de quatro horas. Ou menos, do jeito que ele dirige. – Como é que você sabe todas essas distâncias de cabeça, Sebastian? Ele hesitou e eu vi que estava guardando um mapa da Itália no bolso da jaqueta. – Venho planejando essa viagem há algum tempo. Ah. Então não é nada especial, nada a ver comigo, afinal. – Você e eu conversamos sobre isso, lembra? Todas as coisas que faríamos, os lugares que veríamos. Eu pensei, já que estava por aqui, em ir assim mesmo. E… eu me lembrei que você havia dito que seu pai veio daquela vila perto de Salerno. Pensei que poderia encontrar… não sei o que pensei. Eu só queria vê-la. Balancei a cabeça. Toda vez, toda vez, ele me surpreendia assim. – Então vamos indo – falei, sorrindo para ele. Enquanto eu descia pelas escadas escuras, ouvi Sebastian trancando a fechadura. Fiquei triste por esse ser o único lugar que ele tinha para chamar de lar. Contudo, quando tentei imaginá-lo em meu minúsculo bangalô em Long Beach, de alguma forma, a imagem não se encaixava. Afastei o pensamento, concentrando-me no aqui e agora. – Podíamos ir direto para Gênova, usando o túnel Mont Blanc – disse ele, mais uma vez me puxando de minhas reflexões piegas. – Mas eu gosto da ideia de seguir a passagem alta. Ainda vai haver bastante neve por lá. Topa? Humm, estradas com neve mais duas rodas: eu não gostava dessa fórmula. Por outro lado, túnel comprido e caminhões grandes. – Voto pela rota sobre os Alpes – falei, soando muito mais corajosa do que me sentia. Sebastian largou nossa bolsa no chão e me apanhou, girando comigo em seus braços. Eu ri, deliciada, feliz por ele estar feliz. Quando finalmente me colocou no chão, ele me beijou docemente. – Deus, você é incrível, mulher! – Espere, eu deveria escrever isso – respondi, tentando pegar meu bloco. – De jeito nenhum! Você poderia usar isso contra mim no tribunal. Eu tenho o direito a um advogado?


– Suba na porcaria da moto, Sebastian, antes que eu mude de ideia. Ele sorriu e guardou nossa mochila em uma das bolsas de couro nas laterais da moto. Fiquei impressionada com o modo como ambos conseguíamos levar tão pouca coisa em viagem: algo em comum, afinal. Tomamos um café da manhã rápido com pães doces e café em um restaurante com vista para o lago, depois partimos para as montanhas. Fiquei contente por ter minhas luvas de esqui horrivelmente caras, porque não tínhamos ido muito longe antes de começarmos a encontrar montes de neve nas laterais da estrada. Alguns tinham até dois metros de altura. Presumi que tivessem se empilhado conforme os tratores limpavam a estrada. Alguns quilômetros depois começamos a subir de verdade; o asfalto desapareceu e nós abríamos caminho por cima da neve comprimida. Sebastian reduziu a velocidade quando as curvas acentuadas tornaram-se mais pronunciadas. A moto vacilou perigosamente e Sebastian parou no acostamento. Ele virou-se e ergueu o visor. – Querida, você vai nos derrubar se fizer isso. Não sei não, mas me parece uma descida bem íngreme se cairmos. – O que… o que foi que eu fiz? – falei, olhando para a queda abismal nervosamente. – Você está tentando se sentar ereta na moto. Não faça isso. Você tem que se inclinar, ou é impossível encontrar o equilíbrio. Não tente fazer nada, só fique sentadinha e se agarre a mim. – Certo, boa dica de segurança, chefe. Fico contente que tenha mencionado. Seus olhos se encolheram em um sorriso e ele tornou a abaixar o visor. Partimos lentamente, ziguezagueando pela montanha acima. As vistas ficaram cada vez mais espetaculares conforme subíamos, mas imensuravelmente mais aterrorizantes. Meus braços estavam em volta da cintura de Sebastian com uma força mortal que provavelmente esmagava suas costelas. Fiquei agradecida por ele não poder ver meu rosto, pois meus olhos passaram metade do tempo fechados. Lá se ia a chance de ser destemida; lá se ia a chance de desfrutar da paisagem. Vinte minutos depois, chegamos ao ponto mais alto da passagem e Sebastian parou outra vez. Ele retirou seu capacete e sorriu para mim. – É uma beleza, não é? Desajeitada, desci da moto, puxando o capacete e chacoalhando o cabelo. Depois me voltei para ver a paisagem. – Uau – suspirei. Genebra estendia-se sob nós, o lago espelhado sob o sol gelado. Desaparecendo no vale, vi as curvas em forma de Z pelas quais acabáramos de passar. Mesmo daqui, da segurança do cume, elas pareciam de arrepiar; eu ainda teria que descer até o outro lado. No entanto, também era lindo: o ar era cristalino e o céu, azul demais para ser real. Senti gratidão por estar aqui, desfrutando desse momento com esse homem. Uma segunda chance não tinha como ficar melhor do que isso. – Obrigada, Sebastian. Obrigada por me trazer. Recostei-me contra ele, que passou o braço por cima do meu ombro e me beijou suavemente. Virei-me em seus braços para ficar de frente e dei ao beijo a atenção que merecia, expressando minha gratidão sem palavras, despejando toda a minha felicidade naquele instante único.


Quando me afastei dele, meu rosto estava afogueado, além de outras partes do meu corpo. A expressão de Sebastian me dizia que sexo ao ar livre no topo de uma passagem na montanha nevada havia subitamente entrado em sua lista de “coisas a fazer”. Afaguei seu rosto. – Poupe-se, chefe. Ainda temos muito chão para cobrir. Ele sorriu, relutante, e esperou enquanto eu tirava algumas fotos. Depois me ajudou a montar de novo na máquina mortífera. Começamos a descida pelos Alpes em direção a um novo país. Pouco depois, Sebastian apontou para uma placa onde se lia “Itália”. Senti um arrepio de emoção me percorrer: finalmente, eu estava no país onde meu querido papa nasceu. A ideia era extravagante, mas, de certa forma, era como se eu estivesse voltando para casa. O guarda na fronteira examinou muito rapidamente nossos passaportes antes de nos deixar passar com um sorriso alegre. Eu realmente estava no País das Maravilhas. Seguimos viagem e eu estava quase sonolenta na garupa da motocicleta de Sebastian. Perguntei-me se era possível mesmo adormecer naquela posição. Eu começava a sentir a necessidade de esticar as pernas quando passamos por uma placa onde se lia “Gênova 20 km” – e eu vi o mar. Ele estava calmo e de uma cor azul profunda, debruado por villas brancas e delicadas. Itália: a costa do Mediterrâneo. Sebastian nos levou pela estrada costeira e ficou evidente que a tradição comercial marinha de Gênova não era apenas histórica. Passamos por várias docas, cheias com todo tipo de iate, barco e navio que eu podia imaginar, desde esguias lanchas de cruzeiro até enormes e feios navios cargueiros. A Gênova moderna parecia estar prosperando, com casas subindo cada vez mais alto nas laterais da montanha que assomava atrás de nós. Sebastian pareceu mirar o altaneiro farol da Torre della Lanterna, e nos dirigimos para o agitado centro de Gênova. Transpondo a Piazza de Ferrari, passamos por palácios construídos na época da Renascença e, mais acima na colina, pude ver o que parecia ser um castelo medieval. Sorvi a história local enquanto passamos em disparada. Pensei que Sebastian fosse parar logo, mas ele continuou rodando e logo Gênova havia ficado para trás. Nossa, será que ele iria tentar chegar a Salerno essa noite, afinal? Fiquei aliviada quando ele finalmente estacionou, mas ao ver que ele não desligara o motor, minha esperança de que tivéssemos terminado a viagem por aquele dia evaporou. – Só conferindo o trajeto, querida – gritou ele por cima do barulho do motor, acenando com o mapa. – Não estamos longe agora. Fiz um sinal de positivo com os polegares e saímos de novo, subindo a montanha que parecia ter surgido diretamente do mar. Ele parou outra vez para conferir o mapa, depois saiu da estrada principal e chacoalhamos por uma estrada íngreme de terra. Uma placa perto de uma villa pequena e desbotada dava as boasvindas à “Casa Giovina”. Ele estacionou e deixou o motor ligado. – É aqui. Tem apenas um quarto para alugar, mas estamos na baixa estação… quer tentar?


A expressão de Sebastian era cautelosa. Talvez ele pensasse que seu gosto simples não se comparasse com o hotel caro em que eu me hospedara em Genebra. Nós ainda tínhamos muito a aprender um sobre o outro, e eu não me importava nem um pouco com isso. – Parece encantador. Vamos dar uma olhada, mas se os donos tiverem uma filha bonita, a gente dá o fora. Ele rolou os olhos e preferiu levar minhas palavras como uma piada, o que elas eram. Tipo. Uma senhora idosa nas roupas severas e pretas de uma viúva abriu a porta para nós. – Posso aiutarvi? – Espero que possa nos ajudar – respondi, em italiano. – Estávamos pensando se vocês têm um quarto livre para pernoite. Pude ver a senhorinha observando os 1,87 metros de sólido músculo de Sebastian e avaliando quantos problemas ele poderia causar. Eu poderia ter poupado as divagações dela e simplesmente respondido “muitos”. – Vocês são casados? Enquanto eu gaguejava uma resposta, surpresa, um homem na faixa dos 50 surgiu no corredor, pisando forte. – Mama! A senhora não pode fazer esse tipo de pergunta para as pessoas! Peço desculpas, minha mãe é muito antiquada. Vocês são franceses? – Não, americanos. – Mas você fala italiano! Americanos nunca falam a nossa língua. Sebastian decidiu que estava na hora de demonstrar suas habilidades linguísticas, ainda que um pouco menos fluentes que as minhas. – Não queríamos desrespeitar sua mãe – essa linda mulher é minha noiva – disse ele, apontando para mim. – Mas se a sua mãe se sentir mais confortável, eu ficaria contente em dormir em um quarto separado. Ah, é? Duas mentiras em duas frases, Sebastian: eu já te vejo se esgueirando para o meu quarto depois que escurecer. – Não, não, isso não será necessário – disse o proprietário, enquanto sua mãe se benzia duas vezes e rolava seus olhos, fitando o céu. – Além disso, temos apenas um quarto. Um fato que Sebastian já sabia. – Por favor, entrem. Permitam que eu os leve até o quarto. O quarto era arejado e mobiliado de maneira simples. Um armário de pinho em um dos cantos e uma cadeira combinando eram a única mobília além da cama enorme e antiga. Um mosquiteiro pendia em uma piscina de renda acima dela, deixando-a parecida com um boudoir rústico. Mas a vista para o mar era espetacular. Sorri para Sebastian, feliz, e ele assentiu, concordando. – O banheiro fica do outro lado do corredor, signore; é compartilhado. Ele encolheu os ombros, impotente, como se pedisse desculpas pelo tamanho reduzido de seu estabelecimento; entretanto, eu não ligava. Imaginei como seria fazer amor com Sebastian naquela cama, com vista para o Mediterrâneo.


– O café da manhã é às 8 horas, signore, signorina. Há um ristorante a apenas dois quilômetros daqui, nessa mesma estrada. É muito bom, administrado pelo meu irmão. – Parece ótimo – disse Sebastian. – Ah, signore, mais uma coisa: se não se importa, eu pediria para não andar com sua moto à noite. Minha mãe não dorme muito bem, compreende, e ela fica no quarto ao lado do seu. – Isso não será problema – resmunguei, depois que ele se foi. – Não vou subir de novo naquela coisa hoje à noite nem que você me pague. – Está um pouco sensível, Srta. Venzi? – disse Sebastian, agarrando-me e massageando minha bunda. – Não muito. É mais uma sensação de ainda estar em movimento. – Eu sei de uma coisa para curar isso – disse ele, malicioso. – E teria algo a ver com tirar suas roupas e fazer amor louco e apaixonado naquela cama? – perguntei, franzindo o cenho para ele. – Talvez – disse ele, fitando-me cautelosamente. – Ah, tudo bem, então. Não custa tentar. O olhar que ele me lançou foi quase cômico. – Isso foi um sim? – Foi, sim. Mas vai ter que se apressar, chefe – o ristorante provavelmente fecha antes da meianoite. Ele olhou para o relógio de pulso, totalmente confuso. – São só cinco da tarde… – Como eu disse, você vai ter que se apressar. A compreensão trouxe um sorriso a seus lindos lábios. – Bem, nesse caso, você está usando roupas demais, mulher. Finalmente estávamos na mesma sintonia. – Aliás – falei, antes que ele se envolvesse demais no momento e sabendo que ele só conseguia se concentrar em uma coisa de cada vez –, sua noiva? Ele sorriu. – Pareceu uma boa ideia na hora. – Humm, bem, eu gosto mais da minha ideia. Aquela em que nós cometemos tantos pecados quanto for possível no menor espaço de tempo. E, para deixar claro meu argumento, abri o zíper da jaqueta dele e desci a mão por seu peito antes de contornar a cintura do jeans com um dedo. Minha exploração foi interrompida por uma batida na porta. Parecendo irritado, Sebastian atendeu. – Ah, mi scusi, signore, signorina. Acabo de ligar para meu irmão, e ele vai fechar às 19h30 hoje. Se quiserem comer lá, é melhor partir agora. – Obrigado – respondeu Sebastian bruscamente, e o homenzinho disparou para longe, sem saber o quanto estivera perto de um fuzileiro naval muito irritado. Não pude conter o riso ante a expressão dele.


– Um adiamento, chefe? Ele suspirou. – Parece que sim. – Deixe para lá. Venha, vamos alimentar você para depois eu poder fazer o que quiser com seu corpinho. – E o que você quer fazer com ele? – Nada muito pervertido, então pode parar de babar. Apenas moderadamente imoral. Foi um dia longo.


C APÍ TU LO

6

DE MÃOS DADAS, subimos a rua íngreme até o ristorante. Eu imaginei que um lugar tão fora de mão não podia atrair muita clientela, mas quando colocamos a cabeça para dentro da porta, vi que havia imaginado errado. Estava lotado de famílias, com crianças de todas as idades sentadas em mesas longas sobre cavaletes, como pequenos adultos. Os ruídos felizes baixaram de volume consideravelmente quando eles nos viram e um cochicho nada sutil começou. Ouvi a palavra “americani” várias vezes antes que um homem de camisa branca e calça preta, que eu presumi ser o proprietário, viesse correndo até nós. Concordamos que sim, éramos os americanos e sim, era uma coisa espantosa que ambos falássemos italiano e sim, aceitávamos o que estivesse no especial do dia. Não, não éramos melindrosos e sim, ficaríamos felizes em tomar o tinto Dolcetto local. Ele nos colocou na ponta de uma das mesas sobre cavaletes, encaixados junto a uma família de sete pessoas. No início, nossos vizinhos pareceram um pouco tímidos; no entanto, logo Sebastian tirou a jaqueta e empurrou as mangas da camiseta para cima. Uma menininha do grupo, uma fofura de cabelos pretos com cerca de cinco anos, reparou em sua tatuagem e perguntou à mãe sobre o “desenho”. A mãe dela tentou silenciá-la, mas Sebastian sorriu e explicou a ela que aquilo era porque ele era um marinheiro e um soldado, e o “desenho” o lembrava de seu trabalho. – Por que, você esqueceu? – perguntou a criança, claramente intrigada. Toda a sala caiu na risada. Eu me juntei a eles, porém vê-lo tão à vontade com a garotinha me deixou triste por como as coisas poderiam ter sido. Ficou claro que a criança estava totalmente apaixonada por ele, porque ela indagou à mãe se ele era um anjo, depois estendeu a mão para afagar seu cabelo curto. A refeição terminou com uma pequena tigela de gelato di miele – sorvete de mel – para cada um, uma especialidade local. Sebastian comeu a maior parte do meu, pois eu já estava satisfeita. Ele


realmente era um poço sem fundo quando se tratava de comida. No final da noite, éramos praticamente da família, e todos se tratavam pelo nome de batismo. Tinha sido uma noite maravilhosa, cheia de riso e diversão tranquila, enquanto eu via Sebastian conversar com sua nova amiguinha. No entanto, foi inevitável notar que Sebastian tomou quase a garrafa toda de vinho sozinho, embora isso não parecesse ter muito efeito. Por outro lado, eu mesma me sentia com a cabeça leve após duas taças. – Divertindo-se, meu bem? – Você percebeu que esse é o nosso primeiro encontro com jantar? Ele franziu o cenho. – E aquela vez em San Diego, naquele restaurante siciliano? – Aquilo não conta. Você nem me deixou terminar nossa refeição, porque queria me arrastar para o hotel. – Ah, sim, eu definitivamente me lembro disso! – Além do mais, sua amiga, Brenda, estava nos espionando. Eu meio que esperava encontrá-la agora, jogando o cabelo por cima do ombro e enfiando os peitões na sua cara como ela fazia. A expressão dele era divertida. – Ela enfiava os peitos na minha cara? – Não finja que não notava. Enfim, se algum peito vai ser enfiado na sua cara, serão os meus. Certo, Hunter? Ele riu. – O que você disser, chefa. Mal posso esperar por isso. – Eu estava pensando – prossegui. – Se esse é o nosso primeiro encontro, eu provavelmente não deveria dormir com você. Não quero que me ache fácil. Sebastian me observou com um olhar calculista, depois pegou o telefone e começou a pesquisar entre os contatos. – Para quem você vai ligar? – Bem, minha paquera acaba de me dizer que não vai dormir comigo, então pensei em ver se eu tinha o número da Brenda entre meus favoritos. Ai. Ele era muito melhor nesse joguinho do que eu. – Tudo bem, tudo bem. Eu durmo com você. Mas se a minha reputação for arruinada, é tudo culpa sua. Sebastian sorriu para mim, em seguida levantou-se para pagar a conta. Dei-me conta de que não havíamos discutido como dividiríamos as despesas para essa viagem. Talvez, se ele pagasse por uma noite, eu pagaria pela seguinte. Seria justo. Deixamos o ristorante com os bons votos e orações de nossos novos amigos, com a menininha soprando beijos para seu “Angelo”. Todavia, o anjo provou ter traços diabólicos porque, no momento em que deixamos o ristorante, ele me empurrou contra uma parede e beijou-me intensamente, segurando minha cintura com uma das mãos e subindo com a outra entre minhas coxas.


Ele pressionou o corpo contra o meu e pude sentir sua excitação junto ao meu quadril. Estava considerando seriamente em possuí-lo ali mesmo quando o ristorante começou a se esvaziar e quase fomos pegos em flagrante delito. As mulheres pareceram invejosas e os homens gritaram várias sugestões grosseiras. Fiquei muito contente pela escuridão esconder meu embaraço. – Vamos tentar chegar até nosso quarto dessa vez? – Boa ideia – resmungou Sebastian. – Acho que não suportaria uma terceira interrupção em uma noite só. A lua iluminava nosso caminho enquanto descíamos a colina. O ar estava ameno, muito mais quente do que na gelada Genebra; mas, é claro, estávamos no nível do mar deste lado dos Alpes. Voltei a me admirar pelo fato de que, em apenas alguns dias, estaríamos na cidade em que meu pai nasceu. Eu não sabia por que isso me enchia de expectativa, mas ansiava em caminhar onde ele havia caminhado, apreciar a paisagem que ele tinha visto, talvez até conversar com gente que ele conhecera. A Itália estava mudando, porém ainda existiam lugares onde o pessoal mais antigo vivia e morria nos vilarejos em que havia nascido. Quando chegarmos à Casa Giovina, a villa estava quase completamente escura. Apenas uma lâmpada luzia no corredor, e subimos as escadas como se fôssemos dois adolescentes peraltas. Peguei minha nécessaire antes que Sebastian pudesse me distrair e corri para o banheiro, esfregando os dentes para tirar as manchas de vinho e em seguida massageando um pouco de hidratante no rosto na esperança, mais do que expectativa, de que isso apagasse alguma ruga. Quando retornei para o quarto, Sebastian já estava descalço e sem camisa. Deixei a nécessaire cair porque meus dedos ficaram moles e ele riu de mim. – Parece que os seus olhos estão correndo perigo de cair, Srta. Venzi. – É verdade. Por isso ande logo e bote essa bunda de volta na minha cama rápido. – Sim, senhora! Tirei minhas roupas e joguei-as na cadeira, deixando-me cair na cama. Em vez de ser o boudoir de contos de fadas que eu imaginei, com as cortinas de renda, a cama rangia de modo alarmante com cada movimento. Eu estava horrivelmente ciente de que a mãe do proprietário estava no quarto junto ao nosso e não dormia bem. Contive uma risada: essa não era a nossa noite. Sebastian voltou, todo predador e gostoso. Eu estava ficando excitada só de olhar para ele. Contudo, pensar em nossa cama barulhenta deixava difícil manter a seriedade. – Que foi? – disse Sebastian, aborrecido por sua entrada não ter obtido o efeito que ele antecipara. – Nada – falei, reprimindo uma risada. – O que é tão engraçado? Balancei a cabeça, cobrindo a boca com a não. Chateado, ele abaixou a calça e retirou-a, depois arrastou a cueca por seus quadris esbeltos. Praticamente pela primeira vez não havia nenhum traço de uma ereção. Meu riso obviamente tinha um efeito deletério. Ele puxou os lençóis de seu lado da cama, parecendo emburrado, em seguida se sentou e começou a deslizar para perto de mim.


A cama rangeu alto e as sobrancelhas dele voaram para cima. Eu ri alto. – Desculpe! Acho que recebemos a cama vocês-não-são-casados-então-não-vão-poder-fazer-nada. Tem um alarme embutido antissexo. Sebastian sorriu para mim. – Você acha mesmo que uma cama barulhenta vai me impedir? – A velhinha está logo aqui ao lado! Ela “não dorme bem”, lembra? – Não posso fazer nada. Além disso, os ruídos vão trazer lembranças boas para ela. – Humm, você acha que é bom assim? O-oh, pergunta errada. Ele me deu um sorriso sombrio e então sua cabeça desapareceu debaixo dos lençóis. Eu realmente não estava rindo agora. Tentei conter um gemido enquanto uma sensação poderosa começou nos dedos dos pés e subiu pelo corpo todo. Puxei um travesseiro por cima do rosto e gemi junto ao monte de plumas. – Ah, Deus! – Sim, querida? – disse Sebastian, a voz divertida abafada pelos lençóis. Escutei-o subir rastejando pela cama, o colchão articulando cada movimento, e ele puxou o travesseiro do meu rosto, sorrindo. Seus dedos longos e habilidosos continuaram entrando e saindo de mim, levando-me à beira do orgasmo. Quando ele prendeu meu mamilo esquerdo entre os dentes, eu explodi, espiralando e engasgando com seu nome. – Ainda com vergonha pela cama? – disse ele, sorrindo maliciosamente para mim. A pergunta era injusta: eu estava incapaz de falar, quanto mais formar uma resposta racional. O colchão estalou de novo quando ele saiu para buscar uma camisinha em sua nécessaire. – Quer fazer isso, meu bem? – disse ele, estendendo a camisinha para mim. Ele esperou por uma resposta dois segundos antes de desistir. Como se à distância, ouvi a embalagem sendo rasgada e o som característico de uma camisinha sendo colocada sobre uma ereção impressionante. – Vire-se, amor, eu quero você por trás. Quando eu não me movi, Sebastian sugou meu mamilo direito até receber uma reação. – Me dê um minuto – resmunguei. Mas o chefe já havia esperado muito. Ele me segurou e fisicamente me virou de barriga para baixo na cama, antes de me colocar de joelhos, minha bunda apontando para o teto. Ele afagou meu traseiro e em seguida senti sua língua quente na fenda entre minhas nádegas. Humm, isso era novo. Eu me contorci, sem saber se gostava daquilo. Humm, certo, talvez. No entanto, nesse momento ele recuou e senti Sebastian posicionar-se antes de afundar em mim. – Cacete, Caro! Ele gemeu alto. Talvez fosse o álcool, ou talvez fosse porque ele finalmente tinha conseguido me foder em sua posição favorita, mas ele pareceu ter menos domínio do que o habitual. Sebastian começou a meter com força e pude sentir que ele estava se descontrolando rapidamente. A cama rangia sem compaixão, as molas antigas o incentivando.


Ah, diabos, não! Não outro orgasmo! Forcei minha cabeça contra o travesseiro e gemi nele. Estávamos correndo para a linha de chegada, e eu temia que a cama fosse desabar antes de mim. Nesse instante Sebastian estremeceu dentro de mim e ficou imóvel, enquanto eu ofegava, sem palavras. – Ah, cacete! – ciciou ele, retirando-se de meu corpo rudemente. E então, através da fina parede que nos separava da mãe do proprietário, ouvi o som de alguém batendo palmas e a voz aguda da velhinha gritou: – Bravo! Bravo! – Mas que porra é essa? – disse Sebastian, ainda sem fôlego. Comecei a rir. – Acho… Acho que recebemos aplausos. – Você está brincando comigo?! Balancei a cabeça debilmente. – Foi o que pareceu. Acho que ela ficou impressionada com a sua performance. Ouvi a cama estalar de novo quando Sebastian se sentou e gritou: – Grazie, signora! – Prego! – respondeu ela. Ele deitou-se na cama, a cabeça apoiada nas mãos. Quando virei-me de lado para olhar para ele, parecia muito satisfeito consigo mesmo. – Alguma coisa te fez sorrir, Hunter? – Sim! Eu nunca tinha sido aplaudido antes. – Talvez ela estivesse me aplaudindo. – Nah, ela me acha um garanhão, eu sei. Ele retirou a camisinha usada como se para enfatizar suas palavras. – Que bom que você não tem nenhuma ansiedade relativa à performance; isso pode tirar um homem de seu ritmo, pelo que dizem. Ele sorriu para mim descaradamente. Aos poucos, seu sorriso sumiu e ele pareceu sério. – Você pensa na primeira vez em que ficamos juntos? Sabe, quando… – Sebastian – falei, suavemente. – Você não precisa me lembrar. Não é algo de que eu vá me esquecer. – Desculpe. É só que… eu pensava muito nisso na época e ver você de novo essa semana, bem, trouxe tudo de volta. – Para mim, também. Ele sorriu e debruçou-se para correr um dedo pela minha bochecha, antes de voltar a se deitar. – Você sabe o quanto foi incrível naquela noite? Você cuidou de mim depois de meu pai ter me surrado pra cacete. – Ele fechou os olhos. – Pensei que meu coração ia parar quando você tirou as minhas roupas e depois, as suas. E aí você me tocou e meu pau simplesmente explodiu. Pensei que você riria de mim, ou algo do tipo. Foi humilhante pra cacete. – Ele fez uma pausa, recordando-se daquela noite horrível e maravilhosa e terrível. – Mas você não riu. Você me fez sentir como um homem. Eu me lembro de cada palavra que você falou. Você disse que tudo daria certo, e eu não


sabia como isso era possível, mas de alguma forma você fez o mundo desaparecer, como se fôssemos só você e eu. Fiquei em silêncio, rememorando como ele estivera aniquilado naquela noite, destruído, e como o ato de fazer amor de algum jeito o havia curado. Eu me perguntava agora se tinha sido assim para mim também. Foi com certeza o momento em que minha vida tomou um rumo totalmente diferente daquele em que eu seguia. Sua confissão me emocionou profundamente. Eu me esqueci do quanto ele podia ser dolorosamente franco. Apesar de ser tão jovem quando eu o encontrei antes, ou talvez por ser tão jovem, ele nunca se escondia de mim. Foi impossível não pensar que, em alguns sentidos, eu tirei o melhor dele naquela época, antes que a vida o tornasse amargo. Embora o começo de sua vida estivesse longe de ser perfeito, ele era a pessoa mais doce e bondosa; o amante mais gentil, generoso e atento, além de um bom amigo. – É assim que você me faz sentir, Caro, como se o mundo simplesmente desaparecesse e ficássemos só nós dois. Eu… eu achava que nunca mais fosse me sentir daquele jeito. Todas as outras mulheres, eu sei que isso te incomoda, mas foi apenas sexo. Não era… assim. – Então, nunca houve ninguém especial, alguém que fosse mais do que sexo? Ele ficou pensativo. – Houve uma garota, Stacey, que eu meio que namorei por algum tempo. Ela era… legal, mas eu não estava interessado em nada a longo prazo. – O que aconteceu? Ele encolheu os ombros e desviou o olhar. – Eu a escutei dizendo a uma amiga que ela havia “me domado”. Fiz uma careta por dentro. Essa garota precisava ser muito burra para sequer pensar que o “domara”, quanto mais para dizer isso em voz alta. – Ah, posso adivinhar o quanto você gostou de ouvir isso. O que você fez? Ele contraiu o ombro em um gesto irritado. – Dormi com a melhor amiga dela. Inspirei fundo rapidamente. – Entendo. Ele não parecia culpado ou chateado, e senti um breve tremor de tristeza por Stacey e o modo como ele a tratou, especialmente quando eu sabia de quanta gentileza ele era capaz. – Você me perguntou por que a esposa de Ches não me aprova, e esse é o motivo – prosseguiu ele. – Stacey era amiga dela. E antes que você pergunte, não, eu não dormi com Amy – foi outra garota. Eu jamais faria isso com Ches. Respirei fundo. – Bem, não estou surpresa que Amy não goste de você depois do que fez com a amiga dela… e não é muito reconfortante ouvir que você mostrou seu pau para metade da população feminina da Califórnia – e de Paris, ou foi o que me disseram –, mas isso é problema seu. Contudo, você pode entender como isso dificultou as coisas para Ches. – Como assim? – disse ele, um tanto irritado.


– Você o colocou como intermediário, fazendo-o escolher entre o melhor amigo e a esposa. – O quê? – disse ele, zangado. – Como é que eu o fiz “escolher”? – Bem, aposto o que você quiser que Amy deve ter dito que não queria você na casa deles se você fosse tratar as amigas dela assim, e Ches deve ter procurado algum jeito de defender o que foi, francamente, um comportamento indefensável. Fiz uma pausa, imaginando se Ches teria explicado a história de Sebastian – a nossa história – como um dos motivos para as ações do amigo. Odiei pensar que Sebastian usara “todas as outras” porque pensava que eu o abandonara sem olhar para trás. Era uma distorção tão feia da verdade. – Você se enche de superioridade rápido pra cacete, Caro – disparou ele. Surpreendi-me com o tom raivoso dele. – Eu só estou dizendo que… – O quê? O que você está “só dizendo”, cacete? – perguntou ele, a voz se elevando a cada sílaba. – Você era uma porra de uma jornalista, Caro! Poderia ter me encontrado a qualquer momento que quisesse. Teria sido tão fácil para você! Tão fácil! Eu nem sequer sabia a merda do seu sobrenome. Estava tão desesperado para te encontrar que até tentei ver aquele cretino do seu marido, mas ele bateu a porta na minha cara e chamou meu oficial no comando. Eu cumpri serviços de castigo por semanas depois disso. Mas você não dá a mínima, não é? É só mentira. Você apenas me diz o que acha que eu quero ouvir. Como é que eu vou poder confiar em você? – Sebastian, eu… – Eu realmente quero ouvir isso, Caro. Quero mesmo ouvir como você tentou me encontrar – zombou ele. – Você sabia que aquele merda do meu pai estava me forçando ao alistamento por sua causa, mas não se incomodou nem em fazer algumas ligações. Por três anos eu te esperei, Caro. Três anos de merda, enquanto você estava por aí construindo sua carreira e se divertindo viajando pelo mundo todo. Então, sim, eu fodi algumas mulheres que mereciam, porque já tinha sido fodido também uma vez e não ia deixar acontecer de novo. Senti náuseas. Todo aquele ódio e aquela raiva despejando de dentro dele. – Não foi assim, Sebastian. Apenas me escute por um momento! Deixe-me explicar, eu… – Vá dizer aos Fuzileiros Navais, Caro – caçoou ele –, porque eu não estou ouvindo. Eu precisava de alguma distância dele; o banheiro pareceu oferecer um refúgio até ele se acalmar. Sua raiva estava me assustando e eu não queria dizer nada de que fosse me arrepender depois, embora estivesse claro que ele não partilhava da mesma contenção. Sentei-me na beira da cama e estendi a mão para pegar minha camiseta. – Aonde você está indo? – gritou ele. – Fugindo outra vez? É, bem, é o que você faz de melhor, não é? Fugir. Foda-se! Eu vou te poupar o trabalho. Ele saltou da cama, vestiu o jeans, enfiou os pés sem meia nas botas e apanhou a camiseta e a jaqueta. E então saiu. Um momento depois ouvi o rugido rouco da motocicleta. Puxei com força o lençol ao meu redor, perguntando-me que diabos havia acabado de acontecer. Era difícil acreditar que o homem que fez amor tão docemente pudesse falar daquele jeito comigo.


Ou melhor, gritar comigo daquele jeito. Tanta raiva – de mim. Parecia claro agora que o lado gentil que ele mostrara tinha sido apenas uma máscara para me atrair, uma máscara que escondia seus sentimentos verdadeiros. Todavia, ele partiu e eu não fazia ideia se voltaria. Bem, ele que se foda! Ele não tinha sido o único a sofrer; não tinha sido o único a ter que lutar. Ah, claro, minha vida havia sido tão fácil: eu limpei o banheiro dos outros por quase três anos antes que minha escrita rendesse o suficiente para poder parar. Como ele se atrevia a falar assim comigo? Saí da cama e andei pelo quarto, enfiando tudo na pequena bolsa de viagem dele. Eu sabia que o telefone e o passaporte dele estavam em sua jaqueta, de modo que não havia deixado para trás nada que fosse precisar. Nem mesmo eu, disse a vozinha triste na minha cabeça. Analisei minhas opções: eu poderia chamar um táxi para me levar até Gênova, e dali pegar um voo para Genebra. A partir dali, de volta ao plano A: esperar pelas minhas permissões para Leatherneck – presumindo-se que Sebastian não tentasse estragar tudo de novo, apesar de as chances disso serem boas, dado sua fúria atual –, fazer meu trabalho e seguir com minha vida. E então eu poderia considerar esse episódio como uma lição aprendida. Ou algo assim. Mas doía. Doía de verdade. Bem quando eu começava a confiar nele e trazê-lo de volta para a minha vida… E então me perguntei se ele voltaria depois de esfriar a cabeça. Eu não queria enfrentar um Sebastian muito zangado e assustador hoje de novo. No entanto, se escorasse a cadeira sob a porta, não ficaria nem um pouco surpresa se ele simplesmente decidisse arrombar a porta. Não que fôssemos bem-vindos a permanecer na Casa Giovina depois da cena de hoje de qualquer maneira, mas eu não queria acrescentar uma porta arrebentada aos nossos problemas. No final, vesti a camiseta e calcinha e tentei dormir um pouco. Depois de me revirar na cama por várias horas e relembrar a cena horrível várias vezes, finalmente caí na inconsciência cerca de uma hora antes do amanhecer. **** Meu despertador me acordou às 7 horas e eu imediatamente olhei para o outro lado da cama: estava frio e vazio, como eu. Um desapontamento feroz, misturado com alívio, me invadiu. Pelo menos eu não teria que encarar suas recriminações de novo. Discussões logo ao acordar definitivamente não eram para mim. Fui até o chuveiro, mas a água tépida pouco fez para aliviar minha mente cheia. Eu não estava com vontade de tomar café da manhã, porém o mínimo que podia fazer era pedir desculpas aos nossos anfitriões pelo nosso comportamento. O comportamento dele. Vaguei para o pátio e vi que a mesinha havia sido posta para dois. Senti lágrimas quentes pinicarem meus olhos e as enxuguei raivosamente. Quando ouvi passos atrás de mim, voltei-me cheia de esperanças. Contudo, não era Sebastian, nem o proprietário; em vez disso, era a velha avó, caminhando rigidamente até mim, carregando um bule


de café. – Sente-se, jovem – disse ela. – E não se preocupe: tudo vai parecer melhor depois de comer. Ele vai voltar. Engoli seco e tentei sorrir. Ela deu alguns tapinhas amistosos no meu ombro e me deixou sozinha. O café estava muito bom: rico e forte e exatamente a injeção na veia de que eu precisava. Tomei quase o bule todo, depois consegui comer um pratinho de fette biscottate com manteiga salgada. E me senti melhor. E zangada. Realmente furiosa. Como ele ousava me convencer a sair nessa viagem, só para me deixar no meio do nada no instante em que lhe dava na veneta! Ou talvez esse fosse seu plano o tempo todo: humilhação máxima. Dane-se ele! Marchei de volta para meu quarto, apanhei a bolsa de viagem e fui procurar o proprietário. – Ah, signorina – disse ele, preocupado. – Por favor, aceite minhas desculpas pela perturbação de ontem à noite – falei, com formalidade e polidez. – Quanto eu lhe devo pelo quarto? Ele retorceu os dedos, infeliz. Eu pude ver que ele se sentia mal por me cobrar, mas eu estava determinada a pagar minhas dívidas. Puxei minha carteira, esperando. Ele suspirou. – Quarenta euros, signorina. – Obrigada, signore. O senhor tem um estabelecimento muito agradável. – Grazie, signorina. – Ele mordeu o lábio e tentou sorrir. – Posso chamar um táxi para me buscar aqui e levar até o aeroporto? – Ah, infelizmente, signorina, táxis não gostam de subir pela estrada estreita, mas se quiser caminhar dois quilômetros até Quinto del Mare, vai encontrar uma central de táxis lá. Eu agradeci, coloquei a bolsa sobre o ombro e saí para a linda manhã de primavera. Cheguei até a estrada principal quando ouvi o ronco da moto de Sebastian atrás de mim. Meu estômago deu um salto, retorcendo-se de ansiedade. Quando escutei o motor ser desligado, abaixei a cabeça e caminhei tão rapidamente quanto pude. – Caro, espere! Ele correu atrás de mim e segurou as alças da bolsa, forçando-me a parar. – Caro, sinto muito. Está bem? Você vai falar comigo? – Acho que você já falou o bastante por nós dois. – Porra, Caro! Foi o álcool falando, só isso. – Foi mais do que isso e você sabe muito bem, Sebastian. – Você não pode aceitar uma merda de um pedido de desculpas? – Não sei. Você consegue fazer um? Ficamos nos encarando, ambos magoados, ambos nervosos. Ele passou a mão pelo cabelo e me olhou de cara feia. – Não podemos ir a algum lugar e conversar? Ou você vai andar de volta até Genebra? Cruzei os braços e o fitei, furiosa. – Francamente? Sim. Eu ia pegar um táxi para me levar até o aeroporto. Tenho certeza de que não vou ter problemas para conseguir um voo.


– Não vá embora assim, Caro – disse ele, em um tom levemente menos agressivo. – Vamos só conversar, e se não pudermos… dar um jeito nisso, então eu mesmo te levo até o aeroporto. Porcaria! Assenti friamente e deixei que ele carregasse a bolsa. Em silêncio, ele me passou meu capacete e guardou nossa solitária bagagem na bolsa lateral da moto. Ele subiu na moto e estendeu a mão para me ajudar, mas eu preferi me virar sozinha. E em vez de prender minhas mãos em volta da cintura dele, segurei-me na barrinha na parte de trás do assento. Era desconfortável e não me parecia muito seguro, mas era preferível a tocar Sebastian. Ele fez o retorno com a moto em uma curva fechada e dirigiu-se para o sudeste, para longe do aeroporto, seguindo a estrada costeira. Depois de alguns quilômetros, parou em um estacionamento perto de um café na praia, na pequena cidade de Bogliasco. – Quer um café? – perguntou, rigidamente. – Um expresso e um copo de água, por favor. Ele fez os pedidos com um garçom perplexo, que claramente não esperava nenhum cliente tão cedo. De fato, suspeito que estávamos interrompendo suas fofocas matinais com seus comparsas, um grupo de velhos grisalhos que nos fitou curiosamente, relaxando depois de ouvir Sebastian falando em italiano. O garçom se afastou com uma boa vontade razoável. Encarei o rosto lindo e taciturno de Sebastian, imaginando por que estávamos nos dando ao trabalho. Percebi que os olhos dele estavam bastante injetados. Era óbvio que ele tinha escolhido mergulhar direto em uma garrafa de uísque na noite passada, ou talvez fosse grappa. Ele olhou para o mar, recusando-se a olhar para mim ou a falar. Não era um bom começo para uma “conversa”. Nossos cafés chegaram junto com uma cesta de pães, e perguntei-me quem iria quebrar o silêncio primeiro. Ele empurrou a cesta para mim. – Não, obrigada. Eu já comi. – Você fechou a conta naquele lugar? – Sim. – Pegou minhas coisas? Pisquei para ele, sem entender. – É claro! – Certo, obrigado. Quanto eu te devo pelo quarto? – Nada. Esqueça. – Apenas me diga o quanto eu te devo, Caro. – Considerando-se que você nem dormiu nele, não vejo por que deveria pagar. – É assim que você vai agir? – Como você gostaria que eu agisse, Sebastian? Porque, honestamente, eu não sei. Ele pegou um pãozinho e começou a despedaçá-lo. – Olha, talvez devêssemos simplesmente parar por aqui – falei. – Eu pego um táxi até o aeroporto e você pode… fazer o que quiser, Sebastian. Por um instante, achei que ele fosse concordar, mas então ele olhou para as migalhas em seu prato.


– Eu não quero que você vá – resmungou ele. Esperei por mais: uma explicação para o seu comportamento, talvez. Mas ele ficou em silêncio. E então a compreensão caiu sobre mim com a força de um tanque Sherman. O motivo para ele estar lutando para encontrar palavras. Ele nunca havia feito isso antes. Jamais. Não havia tido uma namorada no sentido real da palavra desde que tinha 17 anos, e aquele relacionamento terminou abruptamente e sem nenhum desejo de reconciliação da parte dele. Dali, ele mergulhara em um caso turbulento comigo, o que também não havia exatamente afiado suas habilidades em relacionamentos. Segundo sua própria confissão, ele se deitou com a melhor amiga de Stacey em sua versão de como resolver problemas. Sebastian não tinha nenhuma pista de como lidar com as emoções complexas de uma relação adulta. Na noite passada, sua primeira reação foi correr e se esconder em uma garrafa. Não era à toa que estava achando isso tão difícil. No que dizia respeito a relacionamentos, ele estava em território inexplorado. Considerei o fato de que ele queria realmente conversar comigo como um primeiro passo. Eu fui casada por 11 anos, e apesar de isso ter terminado em um fracasso abissal, pelo menos me deu alguma vaga ideia de como relacionamentos funcionavam ou deviam funcionar. E eu namorei com dois caras depois de Sebastian. Mais ou menos. Claro, isso também não tinha dado certo, mas por razões mundanas. Bob se mudou para Cincinnati por causa do trabalho; eu não contava o caso de uma noite com Allessandro, um repórter que conheci no México. Nós ainda mantínhamos contato ocasional. – Sebastian, você vai ter que me dizer por que diabos quer que eu fique – falei, gentilmente. – Na noite passada, você disse umas coisas muito desagradáveis. Eu não vou aceitar sua explicação de que havia bebido demais. Ficou bem claro que você está guardando muito raiva, e de mim. E eu não sei o que posso fazer sobre isso. Ele desabou na cadeira, parecendo muito com um adolescente rabugento. Parecia estar lutando alguma batalha interna, mas acabou se aprumando e fitando-me nos olhos. – Caro, você realmente tentou me encontrar quando eu completei 21 anos? E aqui estamos nós de novo. – Eu vou lhe dizer exatamente o que disse antes: eu escrevi para Shirley e para Donna. Mas não, não tentei encontrar você diretamente, porque eu só queria saber se você estava bem. Quando as duas cartas voltaram sem abrir, acho que vi isso como um augúrio de que não era para ser. Eu não senti que tinha o direito de interromper sua vida e arriscar ainda mais danos. Sentia muita culpa pela devastação que deixei para trás. Não queria relembrá-lo de tudo aquilo, nem fazê-lo sentir qualquer obrigação para comigo. Nunca me ocorreu que você… que você estaria esperando por mim. Ele inclinou-se adiante, os olhos intensos e zangados. – Mas eu disse que esperaria por você. Prometi que esperaria. Diabos, Caro, foi a última coisa que consegui dizer para você. E você… você disse… Ele mordeu o lábio, hesitante. Eu prometi amá-lo para sempre. Uma feia onda de culpa me cobriu e finalmente eu pude ver como as coisas eram sob o ponto de vista dele: eu não tentei o bastante. Eu o decepcionei.


– Ah, Sebastian… Eu sinto tanto, tanto. O que eu podia dizer para limpar tantos anos de mágoa? A voz dele caiu para um sussurro. – Você estava falando sério, Caro? Era verdade quando disse que me amava? – Sim, tesoro, era. Eu te amava muito. Mas você não é a pessoa que eu conheci dez anos atrás. O Sebastian que eu conheci era doce e gentil e amoroso, enquanto você… você pode ser assim, mas a sua raiva me dá medo. O ódio que vi no seu rosto e escutei nas suas palavras, aquilo foi difícil para mim. Posso ver que você acha que eu te decepcionei demais há dez anos, ou há sete anos… e eu não tenho como lhe dizer o quanto eu sinto por isso, e também não posso consertar nada. Não posso mudar o passado. Ele se virou, encarando o mar. – Estou confusa com o que você quer de mim, Sebastian. Num minuto, você diz que recebemos uma segunda chance e que deveríamos tentar de novo; no minuto seguinte, você me culpa por cada decisão ruim que você tomou nos últimos dez anos. Se me odeia tanto, se se ressente tanto de mim, por que eu estou aqui? – Eu não te odeio, Caro – murmurou ele. – Sebastian, você me chamou de mentirosa; disse que nunca vai poder confiar em mim. Ele fez uma careta, mas eu estava determinada a ir até o fim. – Você me pediu para acompanhá-lo nessa viagem, e então na primeira vez que algo dá errado, joga o passado na minha cara. Se realmente acredita que eu fiz o que fiz porque não me importava, então não vejo como vamos superar isso. Torci para que ele oferecesse algo, uma sugestão do que estava pensando, mas seus lábios continuaram fechados com força. – Olha, eu não seria quem eu sou agora se não tivesse te conhecido, essa é a verdade. Provavelmente ainda estaria presa em um casamento sem amor. Mas isso é só metade da história. Ele finalmente olhou para mim. – Foi bastante difícil para mim quando cheguei a Nova York. Eu quase não tinha dinheiro, nenhum contato, nem lugar para morar, nenhum trabalho. Quer saber como eu sobrevivi? Eu limpei as casas dos outros; esfreguei seus banheiros. Por três anos. Até chegar ao ponto de ganhar o suficiente com minha escrita. – Eu não sabia – disse ele com suavidade. – Não, porque não me deu a chance de te responder na noite passada. Perguntei-me se ele podia ver como havia me tratado cruelmente, mas sua pergunta seguinte tomou um rumo diferente. – Você disse que namorou duas vezes. – Como é? – Na primeira noite que conversamos. Eu te perguntei se você estava saindo com alguém, e você disse que namorou duas vezes. – Sim, e? – Quando?


– O que, você quer datas? – Sim. Suspirei. – Eu conheci Bob no meu aniversário de 35 anos, quando estava tomando drinques com amigos. Namoramos por três meses e aí ele foi transferido para um escritório em Cincinnati. Eric veio dois anos depois: namoramos por umas seis semanas antes que ele me trocasse por uma mulher mais jovem. – Só isso? Ah, que inferno. – Também tive um caso de uma noite com um repórter quando estava no México a trabalho. E isso é tudo. Agora você conhece todo o meu histórico sexual. Embora eu duvide muito que você pudesse ser tão sucinto com o seu. Por um momento, ele pareceu bravo, depois deu um sorriso sardônico. – Eu mereci essa. Fechei os olhos e me recostei. – Você está bem? – perguntou ele, baixinho. Balancei a cabeça devagar. – Na verdade, não. Ele suspirou. – Desculpe, Caro. É que eu fico ferrado da cabeça às vezes. – Você não pode lidar com isso descontando em mim. E eu não posso lidar com isso se você continuar me culpando por algo que eu não tenho como alterar. Ele colocou a cabeça nas mãos. – Não desista de mim, Caro. – Na noite passada, eu achei que você tivesse desistido de mim. Uma expressão sofrida passou pelo rosto dele. – Podemos recomeçar, Caro? Prometo que vou tentar não foder com tudo de novo. Respirei fundo. – Sebastian, não é um caso de “recomeçar”; é mais sobre resolver as coisas quando temos um problema. Por incrível que pareça, foi você que me ensinou isso, dez anos atrás: você me fez enfrentar as coisas. Você não pode me prometer que não vai foder com tudo, porque vai. E eu não posso te prometer que não vou foder com tudo, porque vou. Podemos lidar e seguir em frente. Ou podemos dizer que esses dias foram interessantes e seguir nossos caminhos separadamente. Ele estendeu a mão e pegou a minha, hesitante. – Eu quero seguir em frente. Com você. Eu nem sabia por que estava concordando com isso. Minha cabeça estava gritando para eu ir embora agora mesmo, mas meu coração seguia uma direção completamente diferente. Assenti, concordando. – Certo, então. Vamos tentar.


– E eu prometo não dormir com sua melhor amiga, especialmente se ela for aquela inglesa assustadora com quem te vi em Genebra. Pude ver que ele estava tentando aliviar o clima, porém eu ainda não estava pronta para fazer piadas a respeito. – Desculpe – disse ele, baixinho. – Outro fora. Tentei sorrir, mas provavelmente só consegui um esgar. Soltei minha mão e voltei a me recostar para tomar meu expresso, agora morno. Ele pegou alguns pedaços de seu pão eviscerado e mastigou solenemente. – Eles disseram alguma coisa sobre a noite passada? O pessoal lá da villa? – Não. Eles ficaram, na maior parte, embaraçados. Acho que conseguimos estragar as coisas para outros americanos que possam querer ficar lá. Mas a senhorinha me disse que você voltaria. Sebastian pareceu surpreso. – É mesmo? – Sim. E eu tenho uma certeza razoável de que era eu quem ela estava aplaudindo ontem, não você. Ela provavelmente achou que eu merecia uma medalha por te aguentar. – É – disse Sebastian, sorrindo com suavidade. – Um Coração Roxo.3 – Ferida em combate? Seu sorriso desapareceu aos poucos. – Sinto muito mesmo sobre o que eu falei. – Nós estamos seguindo em frente, lembra? Porém, só para constar, desculpas aceitas. Ele se remexeu na cadeira, desconfortável, e comeu um pouco de pão, mais para se distrair do que qualquer outra coisa, supus. – Eu me embebedei e peguei no sono na praia – resmungou ele. – Caso você esteja se perguntando. A voz dele estava tão baixa que eu mal podia ouvi-lo. – Bem, obrigada por me contar. – Entrei em pânico quando acordei. Achei que você podia ter ido embora. E então te vi andando pela estrada. No começo, fiquei aliviado, mas depois… Só pensava que você tinha me abandonado. Foi por isso que eu fui… – … tão cretino? O sorriso dele foi arrependido. – É, acho que isso resume bem. – Bem, como eu disse, obrigada por me contar. Agora, quais são os grandes planos para hoje? Ele abriu seu primeiro sorriso genuíno e aliviado do dia. – Pensei em irmos para Pisa, dar uma olhada naquela grande torre inclinada antiga. Fica a cerca de duas horas daqui. – Claro, parece divertido. Eu sempre achei difícil fingir entusiasmo, algo que meu marido apontou em numerosas ocasiões. Porém, estava tentando. Para o bem de Sebastian. Para o nosso bem. Ele terminou seu café da manhã, jogou alguns euros sobre a mesa e levantou-se para partir. Estendeu a mão para mim e, um pouco desajeitada, segurei-a.


Sua mão estava quente e seca; a pele no dorso era macia, enquanto a das palmas eram um pouco ásperas, como se ele tivesse feito algum trabalho manual recentemente. Eu não havia reparado antes. Perguntei-me por que notara agora. Quando chegamos à moto, ele mexeu no zíper da jaqueta. – Eu quero muito te beijar – disse ele, olhando para mim com uma mistura de ansiedade e desejo no rosto. Vacilei, e foi apenas pelo tempo suficiente para ver sua expressão se tornar magoada. – Tudo bem – falei baixinho. Sebastian pousou as mãos de leve na minha cintura e eu ergui o rosto para o dele. Ele tocou meus lábios com os seus e eu senti o puxão familiar do desejo. Recuei rapidamente. – Caro… – Só me abrace, Sebastian. Apenas me abrace. Pus as duas mãos sobre o peito dele e recostei o rosto contra seu ombro. Ele me envolveu em seus braços, me abraçando apertado. – Desculpe – murmurou ele. – Eu sinto tanto, tanto… Senti Sebastian beijando meu cabelo várias vezes. Em algum momento, ele me soltou e eu lhe dei um breve sorriso. – Nós vamos chegar lá – sussurrei. Não sabia se estava reconfortando Sebastian ou a mim mesma. 3

Condecoração militar dos Estados Unidos concedida a feridos ou mortos em serviço. (N.R.)


C APÍ TU LO

7

EU NÃO SABIA QUE PISA era uma cidade universitária, mas soube assim que passamos pela via principal. As ruas estavam lotadas de jovens de vinte e poucos anos, no estilo casual chic, que estudantes estrangeiros usam tão bem. Em comparação, eu me sentia empoeirada, imunda e cansada da viagem. Estar caindo de cansada também não ajudava. Eu ansiava em encontrar acomodações onde pudesse tomar um banho longo e quente e dormir em uma cama tranquila e confortável – sozinha. Ficou claro que tínhamos chegado durante algum festival, pois música ressoava de cada café e ristorante, competindo com os artistas de rua e músicos que pareciam se apresentar em cada esquina. Sebastian cuidadosamente guiou a moto para um canto de um estacionamento municipal lotado, cercado por Fiats acabados e Renaults velhos. Fiquei um pouco preocupada em deixar meu laptop, mas ao menos tinha minhas anotações guardadas em um flash drive na minha carteira, se o pior acontecesse. – Está levando a sua câmera? – Sebastian me perguntou. – Não custa. Quem sabe, talvez eu consiga vender um diário de viagem, de moto pela Itália. Sebastian arqueou as sobrancelhas. – É melhor do que reportagens das porcarias de acampamentos militares em países fodidos. Dei de ombros, sem vontade de explicar minha obsessão. Sebastian percebeu a deixa e sabiamente abandonou o assunto. A famosa torre inclinada era apenas uma entre várias maravilhas arquitetônicas. A praça central, a Piazza del Duomo, era também o lar da linda catedral românica e do Batistério, ou Battistero, de 900 anos. Era uma sensação estranha vagar entre tantas antiguidades cercada por uma juventude tão irreverente, da qual um membro tentava segurar minha mão. Fiquei contente por estar com a câmera como acompanhante. Não me sentia preparada para o nível de intimidade que Sebastian claramente


sentia ser necessário. Era difícil explicar para mim mesma: eu disse que tentaria, mas me sentia ansiosa perto dele, como se à espera de que ele explodisse de novo. Nosso clima relaxado da manhã levaria algum esforço para ser alcançado. Em vez disso, eu me sentia tensa e desconfortável. Depois de uma hora andando, percebi que ele estava começando a ficar entediado de só admirar prédios antigos, apesar de fazer o melhor que podia para disfarçar, o que eu apreciei. Reconheci que ele preferia ação à introspecção, mas naquele momento eu precisava deixar minha mente repousar sobre os mistérios seculares que via ao meu redor. Achei tudo muito tranquilizador e foi inevitável me perguntar se meu pai teria visitado Pisa. Não havia nenhum motivo especial para ele ter vindo; mesmo assim, talvez tivesse ocorrido. Gostei de imaginar que ele caminhou por aqui enquanto jovem, antes de resolver tentar a sorte no Novo Mundo. Afinal, nos anos 1960, ele teria ouvido o canto de sereia de Janis Joplin, Bob Dylan e Woodstock. Comparativamente, a Itália deve ter parecido chata e deprimente, arrastada para o fundo do poço pela depressão pós-guerra. – Uma moeda pelos seus pensamentos – disse Sebastian, interrompendo minhas divagações. – Eu estava só pensando sobre o meu papa – me perguntando se ele veio aqui alguma vez. Os olhos de Sebastian se acenderam e ele sorriu. – Eu amava muito seu pai, Caro. Eu tinha meio que ciúme de você quando era pequeno – eu queria tanto ter um pai como ele, não aquele saco de merda que era o meu. Ele fechou a cara ao se lembrar. – Você… mantém algum contato com seus pais? Ele balançou a cabeça, negando. – A última vez que vi o velho desgraçado foi na minha formatura do treinamento militar. – Ah – exclamei, surpresa. – Isso foi… legal da parte dele. – Está brincando comigo? Ele só foi porque sabia que me irritaria ter que saudá-lo. – Ah, certo. E Estelle? Ele encolheu os ombros. – Ainda está em San Diego. Ches a vê por lá de vez em quando. Ele a baniu do Country Club por beber. Ele ergueu as sobrancelhas enquanto olhava para mim. Não falei nada, mas torci para que ele estivesse ciente dos paralelos no comportamento deles. É claro, estar no serviço militar não incentivava a abstemia. – Eles se divorciaram alguns anos atrás. Meu pai se juntou a uma stripper. Eu não sei de nada, na verdade. E a sua mãe? Você a vê? Balancei a cabeça negativamente. – Não, não mantivemos contato. Sei que ela está morando em um lar para aposentados na Flórida, mas isso é tudo. – Por que vocês não mantêm contato? Ela não pode ter sido tão ruim quanto a minha mãe. – Não tenha tanta certeza. Ele hesitou, porém eu vi que estava curioso. – O que ela fez?


– Ela não fez nada, Sebastian. E é esse o problema. Quando… quando eu deixei David, ela me disse que eu “tinha feito minha cama, então agora me deitaria nela”. Não quis ter nada a ver comigo. Não me emprestou nem um centavo para me ajudar quando fui para Nova York. Ela nem sequer me enviou fotos do meu papa. Tenho apenas duas fotografias velhas dele. Sebastian tentou me puxar para um abraço, mas eu resisti sem nem perceber. Ele enfiou as mãos nos bolsos. – Você ficou sabendo de algo dele… David? – Não. Precisamos nos corresponder na época do divórcio, mas isso foi tudo. Acredito que ele tenha permanecido na Marinha. Você disse que tentou vê-lo… quando foi isso? Sebastian franziu o cenho e olhou ao longe. – Cerca de quatro meses depois de você partir. Estava me matando não saber como você estava, nem onde, nem como entrar em contato com você. Meu pai já havia destruído meu computador e deletado todas as minhas contas de e-mail antes de eu ir morar com Mitch e Shirley. Eu nem achava que o desgraçado sabia como fazer essas coisas. Ele pegou meu celular e também o arrebentou. Enfim, eu estava ficando bastante desesperado, então fui para sua antiga casa. Mas foi uma perda de tempo. O cretino gritou para mim que eu havia arruinado o casamento dele; eu falei que ele não te merecia e que era um desgraçado pelo jeito como tinha te tratado. Ele ameaçou chamar a polícia. E isso foi tudo. Suspirei. – Você não está com pena dele, não é, Caro? – disse Sebastian, zangado. – Um pouco. Ele apenas se casou com a mulher errada, mas não é um homem ruim. Pude ver pela cara de Sebastian que ele discordava com veemência. – No entanto, você não arruinou meu casamento: David e eu conseguimos fazer isso sozinhos. Você… me libertou. Sua expressão raivosa se dissolveu e seus olhos me fitaram maravilhados. – Por favor, deixe-me abraçá-la, Caro. Está me deixando louco você não me deixar te tocar. Ele estendeu a mão e eu me afastei. – Apenas… apenas me dê um pouco de tempo, Sebastian. Eu não lido bem com rejeição. – Foi assim que você viu o que houve? Como se eu tivesse te rejeitado? Eu o encarei. – É claro. Não há outra forma de ver isso. Ele passou as mãos pelo cabelo, frustrado. – Porra, Caro! A noite passada foi sobre as minhas merdas, não sobre você. Não vê isso? – Não vejo, não. De verdade. Mas não quero falar sobre isso de novo. Estou tentando deixar para trás… só preciso de tempo. Ele suspirou e seus ombros desabaram de leve. – Tudo bem. Houve um silêncio sem graça, mas eu havia aprendido que existiam dois jeitos de garantir o bom humor de Sebastian, e sexo estava fora do cardápio. – Quer encontrar algum lugar para comer?


Ele deu um sorrisinho. – Eu estava torcendo para você dizer isso. Está com vontade de comida italiana? – Ah, muito engraçado. Você deveria estar no Saturday Night Live. Nós vagamos pelas ruas cheias, tentando desfrutar da atmosfera festiva. Comecei a relaxar um pouco. – Que tal aquele restaurante ali? De repente, fui empurrada por trás e quase perdi o equilíbrio. Sebastian pegou meu cotovelo, mas a alça da câmera tinha sido puxada de meu ombro. – Minha câmera! Apontei para uma figura fugindo, porém Sebastian já tinha disparado pelo quarteirão. O pretenso ladrão conseguiu correr por pelo menos cem metros antes que Sebastian se jogasse sobre ele, derrubando-o no chão. Quando me aproximei, o sujeito tinha sangue escorrendo pelo rosto do ponto em que Sebastian o esmurrou – mais de uma vez, pelo visto. – Sebastian, não! – ofeguei, correndo atrás dele. Ao som de minha voz, ele abriu o punho e ficou de pé, entregando a câmera de volta para mim. Uma turba raivosa havia começado a se juntar e, sem saber o que tinha acontecido, sua simpatia residia com o homem sangrando. – É melhor sairmos daqui – resmungou Sebastian. – E a polícia? – arfei, meus olhos hipnotizados pela fonte de sangue vinda do nariz do homem. – Eles que se fodam! – bufou ele, agarrando minha mão e me arrastando pelo círculo de pessoas que assistiam ao show com fascínio mórbido. Algumas vozes raivosas se ergueram às nossas costas, mas ninguém tentou nos parar. Sebastian disparou por uma viela lateral, puxando-me atrás de si. Um momento depois, irrompemos em uma ampla piazza. Voltei a respirar normalmente, mas ainda me sentia abalada. Eu sabia que era uma combinação da injeção de adrenalina com um estômago vazio. – Está bem, Caro? – Estou ótima – menti, fraca. Ele não pareceu convencido. – Venha – disse Sebastian. – Você deveria comer alguma cosia. Assenti e não discuti quando ele nos levou para um pequeno café que parecia uma lanchonete dos anos 1950, com bancos altos ao longo de um balcão de fórmica. – Obrigada por salvar minha câmera – falei, baixinho. Sebastian pareceu surpreso, depois contente. – Eu achei que você fosse me dar uma bronca por bater naquele cara. – Bem, fico feliz por você ter parado de esmurrá-lo quando pedi, é óbvio, mas gosto muito da minha câmera. Trabalhei duro para poder pagar por ela. Obrigada, chefe. – Você nunca deixa de me espantar, Caro – disse ele, balançando a cabeça. Não sei o que ele queria dizer, mas naquele instante, também não me importava muito. Estendi a mão e segurei a dele.


– Como está sua mão? Ele riu baixinho. – Muito melhor agora – disse ele, passando o polegar sobre o dorso da minha mão. A garçonete gingou até nossa mesa para pegar nosso pedido e notei que ela estava demonstrando um interesse destacado em Sebastian. Ele viu a direção do meu olhar e sorriu para mim. – Não é o meu tipo – sussurrou ele. – Fico feliz em ouvir isso. Também não é o meu tipo. Por um instante, Sebastian foi pego desprevenido, depois sorriu maliciosamente para mim. – Não tem interesse em um ménage? – Não sei – respondi, displicente. – Você tem amigos entre os Fuzileiros Navais que são tão bonitos quanto você? Ele franziu o cenho. – Não tenho, não. Eu ri. Finalmente tinha vencido um round de provocação verbal. As coisas estavam melhorando. Durante o jantar, voltamos a conversar naturalmente um com o outro. Sebastian me contou mais sobre sua vida nos Fuzileiros Navais e seu trabalho lá – embora eu sentisse que também havia coisas que ele não estava me contando. Ele me perguntou sobre meus trabalhos, e mais sobre Liz e Marc; quando e como eu os conheci. E eu lhe contei sobre meu pequeno bangalô em Long Beach e sobre Jenna, Alice e Nicole, e como elas estavam entre as primeiras pessoas que eu conheci quando cheguei a Nova York. Fiquei aliviada ao ver que ele tinha parado em apenas uma garrafa de cerveja, o que também me ajudou a relaxar. Eu estava adiando o momento em que teria que lhe contar o quanto ele me amedrontava quando bebia. Contudo, não agora. Contive um bocejo. – Está cansada, Caro? – Sim, definitivamente pronta para ir para a cama, Sebastian. Para dormir. Ele sorriu e não comentou. – Certo, vejamos o que podemos encontrar. Existem algumas ruas que eu vi online formadas por, na maior parte, pensiones. Acha que deveríamos tentar uma dessas? Gostei da ideia de ficar em um desses hotéis pequeninos: eles eram geralmente administrados por uma família e, apesar de modestos, também eram amistosos e divertidos. – Parece bom. Sebastian pagou pela refeição, recusando minhas sugestões de que nos revezássemos para pagar ou rachássemos a conta. Eu estava cansada demais para discutir, mas acrescentei isso à minha lista mental de “coisas sobre o que precisamos conversar”. Era uma lista bem longa. Havia, no entanto, um assunto complicado de que eu queria tratar, e não sabia como ele reagiria. – Sebastian, não fique bravo comigo, e não ache que é nada sério… A expressão dele já era de preocupação quando eu prossegui. – … mas eu realmente gostaria de dormir em quartos separados essa noite. Apenas…


Minha voz foi sumindo enquanto um caleidoscópio de emoções passava pelo rosto dele. A predominante parecia ser mágoa, mas também havia raiva e frustração ali no meio. Meu corpo se retesou em uma reação primitiva de fugir ou lutar, porém ele acabou anuindo com a cabeça lentamente. – O que você precisar, Caro. Soltei um suspiro longo de alívio. – Obrigada. No entanto, nossa conversa bem-humorada e relaxada, previsivelmente, secou, e caminhamos em silêncio. – É essa rua – murmurou ele, apontando para uma longa fileira de sobrados estreitos. As duas primeiras pensiones estavam totalmente lotadas, e a terceira só podia oferecer um quarto. Não era nada promissor. – Poderíamos tentar algo mais caro – disse Sebastian, obviamente irritado, embora eu não pudesse dizer se era comigo ou com as acomodações. – Bem, temos que seguir essa rua para voltar à área principal dos hotéis, então podemos muito bem tentar mais alguns no caminho – sugeri. – É, tá bem. Na quinta pensione, encontramos o pote de ouro. – Sinto muito, signora – disse a proprietária, uma senhora encorpada com mais ou menos 60 anos. – Eu tenho um quarto com duas camas de solteiro, mas isso é tudo. É o Festival, sabe – disse ela, gesticulando, impotente. – A senhora tem sorte, eu tive um cancelamento. Pude ver pelo canto dos olhos que Sebastian estava disposto a aceitar. Voltei-me para olhar para ele. – Festa do pijama – cochichou ele. Impossível conter um sorriso. – Si, vamos ficar com o quarto. Grazie. A pensione era estreita e antiquada, mas também limpa e hospitaleira. Nossa anfitriã atendia pelo nome de Signora Battelli, e quando Sebastian a informou que meu sobrenome era Venzi, ela entrou em um paroxismo de felicidade que o “Sr. e a Sra. Venzi tivessem voltado para casa”, ou seja, tínhamos voltado dos Estados Unidos para o país natal. Ela havia compreendido tudo deliciosamente errado. Nosso quarto parecia ter sido decorado nos anos 1970, com um conflito espantoso de estampas vivas e retratos espalhafatosos de santos. Entretanto, eu estava tão cansada que não me importava. Havia uma pequena pia no quarto e o chuveiro ficava descendo o corredor, compartilhado, assegurou-nos ela, apenas por outro casal. A Signora Battelli saiu apressada, dizendo por cima do ombro que o café da manhã era servido às 8hs. Sebastian se jogou na cama e ela rangeu de leve. – Não tão barulhenta quanto a da noite passada – disse ele, sorrindo para mim. – Acho que nem seria possível encontrar algo igual – concordei.


Ele abriu nossa bolsa de viagem e jogou minha nécessaire na segunda cama estreita. – Obrigado por guardar minhas coisas – disse ele, olhando para mim. – Pensei que nunca mais veria essas camisas. – Que tragédia – falei, maldosamente. – Talvez você tivesse que fazer algo chocante, como comprar camisetas de cores diferentes. Ele sorriu para mim, mas não respondeu. A janela do quarto tinha venezianas antiquadas em vez de cortinas. Sebastian se debruçou para abrir a janela e os sons da folia subiram pelo ar noturno. – Escute só isso – disse ele, sonhador. – Parece que estamos na Itália. Fiquei ali de pé ouvindo por um momento, um sorriso no rosto. – Sim, isso tudo soa… feliz. Ele voltou-se e olhou para mim. – Você está feliz, Caro? Anuí lentamente. – Chegando lá. – Bom – disse ele, em voz baixa. Peguei minha nécessaire e fui para o chuveiro. Quando olhei para trás, ele ainda fitava pela janela. Quando retornei, ele estava inclinado para fora o máximo que podia, sorvendo o ameno ar noturno. Parecia relaxado e seu rosto exibia uma expressão serena. Eu não o via assim com frequência: aquilo me lembrou de como ele era quando o conheci em San Diego. – Volto em um minuto, meu bem – disse ele, sorrindo para mim. Enquanto ele estava fora, vesti uma camiseta larga que usava para dormir e apanhei o laptop para verificar meus e-mails. Meu editor estava furioso, ainda incapaz de acelerar meus documentos de viagem. Com um frêmito de culpa, percebi que nem mesmo lhe disse que eu estava viajando. Digitei um apressado e-mail de explicação e ofereci um artigo leve de viagem como bônus. Jenna e Alice tinham enviado e-mails longos e tagarelas sobre uma nova galeria que visitaram em Manhattan, com uma menção honrosa a como o vinho barato tinha estado intragável. Escrevi para contar a elas que eu estava viajando pela Itália com um velho amigo e havia finalmente visto a torre de Pisa com meus próprios olhos. Fiel a sua palavra, Sebastian voltou rapidamente do banho. Ficou aliviado ao passar pela porta. Talvez achasse que eu fosse fugir enquanto ele estava longe. – Está escrevendo? – disse ele, indicando o laptop. – Não, só trocando notícias com minhas amigas. – Contou a elas sobre mim? – Eu disse a elas que estou viajando pela Itália com um velho amigo. Ele pareceu desapontado, porém não me interrogou mais. – E então, o que quer fazer amanhã? – disse ele. – Olhar para mais prédios antigos? Achei graça no tom dele, obviamente tentando me agradar, enquanto sua expressão fácil gritava chega de prédios velhos ou eu vou espetar meus olhos com um garfo!


– Qualquer coisa. Isso tudo é um bônus mesmo. Aonde você gostaria de ir? – Tem alguns points de surfe que eu gostaria de visitar, se você não se importar – disse ele, esperançoso. – Eu não me importo, Sebastian. Na verdade, também gostaria de um tempinho na praia – dormir ao sol me parece perfeito no momento. – Certo, legal! – disse ele, claramente aliviado. – O surfe no Mediterrâneo não é fantástico, mas há algumas arrebentações que talvez dê para surfar. Ele arrancou a camiseta enquanto falava e eu não pude evitar que meus olhos vagassem pelo seu peito. Droga, mas ele estava em boa forma! Baixei os olhos de novo para o laptop antes que ele me flagrasse encarando. Ouvi o ruído de tecido enquanto ele tirava o jeans. Tive que olhar para cima e notei que ele tinha permanecido de cueca. Aquilo era atencioso. Eu sabia que o queria na minha cama de novo, mas não ainda. A essa hora na noite passada ele estava gritando comigo, me chamando de uma mentirosa que não merecia confiança. Lembranças como aquela levavam um tempo para digerir. Ele saltou em sua cama e deitou-se com os braços atrás da cabeça, sorrindo para mim. – Você vai me colocar na cama? Eu ri. – Acho que você já é velho e feio o bastante para fazer isso sozinho. – Feio? – Horroroso. Mal posso suportar olhar para você. – Você poderia fechar os olhos. – Poderia, Sebastian, mas talvez sentisse a vontade de espiar. Ele pensou a respeito por um momento. – Bem, posso receber um beijo de boa noite? – Claro. Vou perguntar para a Signora Battelli se ela está disponível. Ele fez uma careta. – Nunca beijei uma mulher de bigode. – Sempre há uma primeira vez para tudo, Sebastian. – Por favor, Caro – disse ele, fazendo um lindo biquinho para mim. – Eu serei bonzinho. Prometo. – Humm, já ouvi suas promessas antes. Ele pareceu tão triste e meio perdido que não pude mais resistir. – Certo, um beijo. Mas isso é tudo! Ele sorriu para mim, deleitado por ter conseguido o que queria. Guardei meu laptop de volta em sua bolsa e sentei-me na cama dele. Ele me envolveu em seus braços e me puxou para baixo com gentileza. Eu me aninhei junto a ele e pousei minha cabeça em seu peito enquanto ele afagava minhas costas. – Estamos bem, não é, Caro? Eu pude perceber a ansiedade em sua voz. – Chegando lá.


Soltei-me de seus braços e plantei um rápido beijo em seus lábios. Ele me abraçou brevemente e então me soltou, uma expressão de remorso no rosto. – Boa noite, chefe. Apaguei a luz da minha cabeceira e escutei seu murmúrio. – Boa noite, chefa. **** O helicóptero era tão barulhento que eu tinha que tapar as orelhas com as mãos. As lâminas giratórias levantavam colunas de poeira amarelada que cobriam meu nariz e minha garganta, tanto que podia sentir o gosto dela. Um homem em uniforme camuflado para o deserto gritava comigo, mas eu não conseguia ouvir as palavras. E então seu rosto desapareceu em uma névoa sangrenta. **** – Caro, acorde! Sebastian me chacoalhava com força. Eu me sentei, tremendo, olhos arregalados. – Cacete, Caro – disse ele, mais tranquilo. – Outro pesadelo? Assenti em silêncio. – Venha aqui, meu bem. Ele passou os braços ao meu redor e me puxou bem apertado contra seu peito. Engoli o ar em golfadas; meus pulmões queimavam como se eu tivesse ficado submersa por muito tempo. Eu quase podia sentir a poeira acre na boca. Porcaria, esse tinha sido um dos piores. – Sobre o que foi isso, querida? Balancei a cabeça. – Só um pesadelo. – Você pode me contar qualquer coisa, Caro – disse ele, me embalando devagar. Não. Não qualquer coisa. Não isso. Todavia, ele não me pressionou, e eu fiquei feliz apenas em ser abraçada por ele. Após alguns minutos, meu batimento cardíaco havia retornado ao normal. – Vai mais para lá – sussurrou ele. – Eu vou ficar aqui, só até você voltar a dormir. – Obrigada. Ele deslizou junto a mim e senti seu corpo quente pressionar o meu. Não havia raiva, nem feias acusações, nem tensão, apenas suas mãos gentis em volta de mim. Finalmente o pesadelo recuou e eu adormeci. **** Quando acordei na manhã seguinte, mais feliz e descansada, o brilho do sol filtrava pelas venezianas e o corpo de Sebastian ainda estava enroscado ao meu redor na cama estreita. Seu hálito


era quente na minha nuca e seu braço pesado me prendia no lugar. Tentei sair de debaixo dele aos poucos, me retorcendo, no entanto ele resmungou algo incompreensível e me puxou mais para perto. Era bom acordar nos braços dele. Diabos, era melhor do que bom, era… certo. Ainda tínhamos alguns problemas a resolver – problemas bem importantes –, mas comecei a me sentir esperançosa de que chegaríamos lá. Como eu havia dito. Afaguei seus longos dedos, repousando sobre minha barriga, e senti Sebastian se mover, espreguiçando-se na cama como um gato enorme e dorminhoco. Virei-me para poder olhar para ele. Um sorriso lento e sensual surgiu em seu rosto enquanto ele esfregava os olhos para afastar o sono. – Uau, eu tenho uma mulher linda na minha cama. Estou gostando bastante desse sonho. – Na verdade, Sebastian, você está na minha cama. – Ah, é. Você deve ser uma daquelas mulheres levianas de que ouvi falar no treinamento militar. – Humm, bem, acho que aquele sermão deve ter sido para afastá-lo delas, não? – Ah. Acho que não escutei direito. Suponho que isso explique por que eu não consegui entrar na Escola de Preparação de Oficiais. – Você tentou? Ele balançou a cabeça lentamente. – Não, não de verdade. Não é para mim. Tive algumas aulas na faculdade por algum tempo, mas daí… eu já estava dormindo com tudo que se movesse. Acho que irritei as pessoas erradas. – Você seria um bom oficial, Sebastian. Talvez devesse pensar a respeito. Ele deu de ombros. – Sou um subtenente. É isso que significa o título Chefe: o mais alto ranking para não comissionados. – Ele interpretou corretamente minha expressão. – É, você já sabe disso. Desculpe. Mas eu fui convidado para me juntar aos SEALs, se isso ajuda. – É mesmo? Isso é ótimo! Quero dizer, é uma honra, não? Você gostaria de lá – todo aquele negócio supermacho. Ele sorriu e deslizou um dedo pelo meu braço. – Eu recusei o convite. Fitei-o boquiaberta. Ninguém recusava a chance de se juntar à equipe de elite da Marinha. – Por quê? Ele olhou para mim como se a resposta fosse óbvia. – Caro, de jeito nenhum eu vou me juntar ao mesmo ramo que meu pai está. Foda-se! Pode imaginar se terminássemos na mesma Base? Eu acabaria matando o desgraçado. – Shh – falei, pousando meu dedo em seus lábios quando sua voz começou a se elevar. – Estamos na Itália, é um lindo dia, e vamos sair e encontrar algumas ondas para você surfar. Ele respirou fundo e sorriu. – Tudo bem – disse, feliz. E então sua mão foi até a minha coxa e ele começou a movê-la em círculos lentos, seus dedos puxando o tecido da minha calcinha.


– Sabe o que deixaria esse dia ainda melhor? – disse ele, sugestivo. – Ah, não, Sebastian. Não vou cair nessa. Eu vou tomar um banho e é melhor você ter colocado umas roupas quando eu estiver de volta. Rolei para fora da cama antes que ele pudesse me impedir e saí pelo quarto apanhando roupas limpas para usar. – Tem certeza? – disse ele, sorrindo lascivamente enquanto sua mão desaparecia sob os lençóis. Era perceptível que ele estava se masturbando, e o pensamento do que eu podia fazer com o resultado era muito excitante. Chacoalhei a cabeça para me livrar do devaneio. Não: eu havia me prometido que teríamos que passar pelo menos outras 24 horas sem nenhuma crise enorme antes que eu cedesse. Estava apenas sendo esperta. Se eu permitisse que ele se aproximasse ainda mais sem algum tipo de prova de que eu podia confiar nele com meu coração, eu seria uma bela tonta e mereceria tudo o que acontecesse comigo. Fui para a ducha, me xingando por não ter tirado uma foto dele deitado na cama, todo sexy e depravado. Eu precisaria de algo com que me entreter durante as noites escuras e solitárias quando fosse velha, entediando qualquer um disposto a ouvir sobre as férias de verão em que fiz mais sexo do que a Madonna. Bem, talvez – eu ainda estava pensando a respeito. A ducha estava fria o bastante para apagar as chamas da paixão que Sebastian vinha acendendo em mim. Vinte e quatro horas, cantei para mim mesma. Quando retornei ao quarto, ele havia vestido uma calça jeans, mas isso era tudo. – Você não deveria andar por aí desse jeito – censurei. – Vai dar um infarto na Signora Battelli. Ele me deu uma piscadinha, mas não tomou nenhuma providência, desfilando para fora do quarto. Enquanto ele estava fora, vasculhei os bolsos da jaqueta dele até encontrar seu mapa. Estudei que praias poderiam ter arrebentação boa para a prática de surfe, depois pesquisei-as no Google em meu laptop. Havia duas possibilidades, a uma hora de distância. Já tínhamos passado por um dos melhores points, em Levanto. O point seguinte era fora de Roma, mas aquilo ficava a cinco horas de moto. Resolvi que podíamos guardar esse para outro dia. – O que você encontrou? – disse Sebastian, voltando do chuveiro, ainda vestindo apenas o jeans. Ele sabia muito bem o que estava fazendo comigo! – Acho que estamos em um intervalo aqui, mas a cerca de 50 quilômetros há um lugar que parece ser bom. Tem um lugar para acampar por lá e diz que eles alugam pranchas, então deve ser uma aposta boa. Quer tentar? – Eu tento qualquer coisa com você, meu bem. – Sebastian, foco. Apontei para o mapa. – Claro, meu bem – disse ele, sorrindo. – Eu só preciso abastecer a moto, mas tirando isso, estamos prontos para partir. Ele envolveu meus ombros em suas mãos e beijou meu cabelo.


– Então vamos, Hunter – falei, jogando para ele uma de suas camisetas brancas onipresentes. – Vejamos o que a Signora Battelli fez para o nosso café da manhã. Café da manhã: a expressão era profundamente inadequada para o que a Signora Battelli havia preparado. Era mais como um banquete de comidas matinais: laranjas frescas e frutas silvestres; panini; pães doces; fette biscottate; granola; três tipos diferentes de iogurtes caseiros; queijos caciotta e pecorino baccellone; e um delírio de salumeria – frios – para chefe nenhum botar defeito, incluindo a especialidade local, javali selvagem. Os olhos de Sebastian brilharam e ele completou pelo menos três circuitos da mesa do bufê antes de estar satisfeito, ou talvez embaraçado demais para passar uma quarta vez. Talvez não: acho que Sebastian não sabia o que era “embaraçado”. Na mesa próxima sentavam-se duas estudantes americanas que estavam de olhos arregalados frente ao banquete disposto para elas. Uma das garotas perguntava para a Signora Battelli sua opinião sobre vários tipos de massa fresca. – Mas quanto eu devo servir para convidados em uma refeição? – disse ela. – Como vou saber quanto comprar, lá em casa? – Mocinha – disse a Signora Battelli, inchada de conhecimento. – Você compra 250 gramas de massa fresca por pessoa… exceto meu filho: ele come meio quilo de pasta! Eu estava torcendo para que o filho aparecesse, para poder ver se ele correspondia às expectativas, mas esse prazer nos foi negado. A Signora Battelli explicou que seu filho havia aceitado um emprego em Roma. Era a mesma história em todo lugar: os jovens deixavam suas cidadezinhas e vilas para procurar fortuna na cidade grande. Não era sempre assim? Assim que perceberam que também éramos americanos, as garotas resolveram não nos deixar em paz. Bem, tenho certeza que eu podia ter sumido em uma explosão de fumaça púrpura e elas não teriam nem reparado – seus olhos estavam grudados em Sebastian. Eu não podia culpá-las e estava um tanto curiosa para ver como ele se comportaria com elas. Uma delas me lembrava sua ex-namorada, Brenda. Talvez fosse sua propensão a jogar o cabelo comprido e brilhando por cima do ombro e olhar para Sebastian por baixo dos longos cílios. Minha nossa, ela estava flertando com ele bem na minha frente, como se eu nem existisse! Sebastian respondeu às perguntas delas de maneira agradável. Era óbvio que elas queriam uma carona conosco, e foi quase cômico o quanto a expressão delas murchou quando ele contou que estávamos viajando de motocicleta. – Eu nunca andei de motocicleta – disse a que se chamava Lydia. E não vai ser hoje que vai começar, mocinha. – Bem, tenho certeza de que vai gostar quando tiver a oportunidade – disse Sebastian, sem se abalar. Ele se levantou para partir e estendeu a mão para mim. – Vamos, meu bem. Coloquei minha mão na dele e Sebastian puxou-a até seus lábios, beijando o interior de meu pulso. Uma sensação quente subiu desde as solas dos meus pés e se assentou em algum ponto na área dos meus quadris. Ele era delicioso e perigoso, e minha resolução de esperar mais 24 horas desmoronou.


As garotas pareciam estar agoniadas e não resisti a sorrir para elas enquanto Sebastian e eu nos afastávamos de mãos dadas. – Que foi? – disse Sebastian, chamando minha atenção. – Às vezes você pode ser muito meigo. Ouvi seu fôlego ficar preso na garganta. Ele parecia muito exposto e vulnerável quando olhou para mim. – Tesoro, o que foi que eu disse? Ele fitou-me nos olhos e então pousou a testa contra a minha. – Eu te amo, Caro – disse ele.


C APÍ TU LO

8

ALI DE PÉ, DO LADO DE FORA da sala de refeições da Signora Battelli, meu mundo mudou. – Eu te amo, Caro. Tanto, tanto. Não pude acreditar que ele estava dizendo isso para mim. – Eu não mudei o que sinto. Ainda te amo – sempre te amei. Sempre foi só você. Pensei que meu coração iria parar de bater. Dez anos atrás ele disse essas palavras para mim, falou que me amava. Eu acreditei que eram palavras de um garoto solitário e com uma paixão pueril: reais, mas fugazes. Agora o mesmo homem estava à minha frente, dizendo que me amara esse tempo todo – e que era de verdade. Ele não se importava que eu fosse mais velha que ele; não se importava por eu ser cheia de inseguranças; e me perdoava por duvidar dele. Seria eu corajosa o bastante para aceitar seu amor? Poderia aceitar que ele não era perfeito, tinha seus próprios problemas a resolver, bebia demais, e sua cabeça quente com frequência o deixava encrencado? Poderia aceitar que ele fazia um trabalho perigoso em um mundo perigoso, e que estaríamos separados por meses de cada vez? Ele me perguntou uma vez se eu era corajosa o bastante para correr riscos no amor. Eu finalmente sabia a resposta para isso. – Eu também te amo, Sebastian. Mais do que você jamais poderá saber. Ele ofegou, encarando-me, maravilhado. E então me beijou. Não os beijos ferventes e explosivos que aqueciam meu sangue e despedaçavam minha força de vontade, mas um beijo tão gentil e doce, tão simples e honesto, que meu coração se abriu e encheu-se de amor. Ele puxou-me para seu peito e ficamos em silêncio, nossos braços ao redor um do outro. Eu estava vagamente ciente da contínua vaga tranquila de humanidade fluindo à nossa volta; no entanto, naquele momento, éramos as únicas pessoas no mundo todo.


– Você é tudo para mim, Caro – disse Sebastian com suavidade junto ao meu cabelo. – Você é tão corajoso, tesoro – falei em voz baixa. – Nunca teve medo de amar. Senti seu sorriso. – Isso é porque aprendi com você, Caro. Balancei a cabeça. – É verdade – disse ele gentilmente. Suspirei e abracei-o mais apertado. Ele riu baixinho e afagou meu rosto. Continuamos ali, deleitando-nos em um amor que vinha de dentro, nos aquecia e preenchia. Por fim, Sebastian esfregou meu braço e endireitou-se. – Acho melhor irmos, antes que a Signora Battelli comece a passar o aspirador de pó em volta de nós. – Tudo bem – falei, sorrindo para ele. Naquele momento, eu o teria seguido aos quatro cantos da Terra, até os próprios portões do inferno. Voltamos ao nosso quarto em um silêncio bem-aventurado e de vez em quando eu sentia os dedos de Sebastian apertando os meus. – Não consigo parar de sorrir – falei, estupidamente. – Acho que desloquei um músculo na boca. – Sei o que você quer dizer – comentou Sebastian, também sorrindo. – Embora eu tenha algumas ideias de como você poderia deslocar algo aí de verdade mais tarde. Dei um tapa em seu braço. – Você não muda mesmo, não é, Hunter? Ele se jogou na cama e sorriu para mim. – Você quer que eu mude? – Bem, seria bom um pouquinho de polimento aqui e ali, mas de modo geral, acho que está bem. – Eu gostaria de um pouco de polimento agora mesmo – respondeu ele, malicioso. – E eu adoraria fazer isso, mas a Signora Battelli vai bater na nossa porta daqui a dois minutos. Ele fez biquinho. – Nós podíamos ser rápidos. – Ah, não, eu quero demorar o quanto quiser. – Quanto tempo? – perguntou ele, com um olhar ardente. – Horas, possivelmente dias… meses inteiros, até – falei, fitando-o. Ele gemeu e fechou os olhos. – Meses? – Anos – falei, suavemente. – Uma vida toda. Sebastian se sentou, o olhar sério. – Está falando sério, Caro? Uma vida toda? – Sim. Ele fechou os olhos, respirando fundo. Sua cabeça descaiu para o peito. Devagarinho, ele abriu os olhos e fixou-os em mim. Seu sorriso foi glorioso.


– Tudo bem – disse ele, o rosto luzindo de felicidade. Sim, eu falei sério. Não havia dúvida. E, pela reação de Sebastian, dava para ver que ele estava dominado pela felicidade. Eu também me sentia assim. Dominada, varrida, inundada pelo júbilo. Empacotamos nossas coisas na pequena bolsa, movendo-nos com tranquilidade pelo quarto, nos tocando de passagem, como se houvesse uma necessidade física de expressar nossa felicidade. Sebastian pagou a Sra. Battelli, que ficou aliviada. Havíamos nos demorado tanto que ela obviamente já estava se perguntando se planejávamos nos mudar de vez. Sebastian agradeceu profusamente pelo delicioso café da manhã, dizendo que nunca tinha gostado tanto de uma pensione. Em seguida, beijou-lhe a mão e a encorpada viúva corou. – Você é tão bajulador, Hunter! – censurei, enquanto saíamos para pegar a moto. – Eu só estava falando a verdade – disse ele. – Acho que deveríamos voltar aqui e reservar o mesmo quarto todo ano, depois passar a noite fodendo. – Você é tão romântico. – É, eu sei, meu bem. A motocicleta de Sebastian tinha sobrevivido à noite. Coloquei o agora já familiar capacete preto e me ajeitei no banco, desfrutando do reconfortante cheiro de couro antigo com minhas coxas pressionadas contra Sebastian. Eu quase chegaria a dizer que me sentia confortável, embora um carro com portas e teto também tivesse muitos pontos positivos. Humm, sexo quente e selvagem no carro com Sebastian. Por outro lado, agora tinham inventado camas… Saímos da cidade e seguimos rumo sudeste pela estrada costeira, deixando Pisa e correndo para o sol. Passei meus braços em torno da cintura de Sebastian e pensei na diferença que um dia podia fazer. Ontem, eu estava infeliz e abandonada. Hoje… Bem, era o começo do resto da minha vida. **** O local para acampamentos que encontrei ficava a apenas uma hora de Pisa, nos arredores da vila de Polveroni. O Mediterrâneo se estendia diante de nós e o sol aquecia gentilmente o mar. Melhor ainda, pela perspectiva de Sebastian podíamos ver ondas longas quebrando ali, oferecendo a propulsão perfeita e alturas entre um metro e um metro e meio. Os olhos dele se acenderam com a arrebentação rolando até a praia, e quando pensei que o dia não tinha como ficar melhor, vimos uma loja com pranchas para alugar. – Agora sim! – disse ele para si mesmo. Estacionamos a máquina mortífera e Sebastian praticamente trotou para dentro da loja, conversando animadamente com o proprietário. Ele voltou alguns minutos depois com uma longboard surrada, uma imensa toalha de praia e uma bermuda espalhafatosa. – Ei, chefe! Está correndo o risco de usar cores! – provoquei. Ele sorriu para mim. – É, bem, era tudo o que eles tinham. Era isso ou eu teria que surfar nu. O que você acha, Caro? Surfar nu?


– Pode virar moda, ou você pode ser preso. Mas eu vou te dizer, Sebastian, se você for preso e eu ficar sem sexo essa noite, vou ficar muito brava com você. Ele riu, deliciado. – Agora sim, estamos conversando. Aliás, o cara da loja disse que ele aluga quartos. Ele falou que eles são bem básicos, só uma cama grande e velha e um banheiro pequeno. Mas pensei que seria legal poder ouvir o mar essa noite. Tudo bem por você? – Muito bem. Ele sorriu para mim, mas seu sorriso desapareceu quando ele fitou cheio de horror o sensato maiô azul-marinho que eu segurava nas mãos. Era o maiô que eu geralmente usava na piscina pública. – Espere aí – disse Sebastian – é isso que você vai vestir? – Sim, por quê? Eu o encarei, totalmente perplexa. – Fique aqui. Ele se afastou, voltando para a loja. Voltou alguns minutos depois com um pedacinho de cordão e alguns triângulos de tecido e entregou isso para mim. – Aqui. Vista isso. Abri o biquíni minúsculo. Ele não deixava nada para a imaginação. Mal tinha tamanho para cobrir meus mamilos, quanto mais qualquer outra coisa. – Não posso vestir isso, Sebastian, de jeito nenhum! Tenho 40 anos, não 20! – Você vai ficar incrível, Caro. Eu quero que todo cara nessa praia saiba como minha mulher é gostosa. – Eu podia muito bem fazer topless! Os olhos dele se aqueceram e uma expressão libidinosa apareceu em seu rosto. – Podia, sim. Balancei a cabeça. – Você é maluco. – Maluco de amor – disse ele, me puxando para um beijo que fez meus ossos se liquefazerem. – Certo, vou vestir o biquíni – falei, sem fôlego. Ele me deu um olhar sensual, querendo dizer que eu vestiria, sim. Minha nossa, ele podia ser tão mandão. E por que isso era sexy? Sebastian ergueu a toalha de praia para proteger minha modéstia enquanto eu colocava o biquíni minúsculo. Se bem que “modéstia” e “biquíni minúsculo” não pareciam caber na mesma frase. Assim como o biquíni. Para qualquer lado que eu o puxasse, parecia haver mais pele do que seria aceitável à mostra. – Mal posso esperar para tirar isso de você – murmurou ele no meu ouvido. – Sexo ou surfe, Sebastian? – Sexo – ele respondeu na hora. Eu ri, enquanto meu corpo superaquecia. – Bem, você vai ter que deixar para depois – nós ainda não reservamos aquele quarto para a noite. E já te avisei o que vai acontecer se você for preso.


Ele me deu um sorriso sardônico. – Você está me devendo vários adiamentos, Caro. Eu vou ficar contente quando começar a cobrálos. Ele nem se incomodou em usar a toalha quando se trocou – simplesmente tirou a calça e a cueca bem ali, a céu aberto. – Sebastian! – resmunguei, olhando ao redor para conferir se alguém estava observando. Ele já tinha vestido a bermuda espalhafatosa quando meus olhos voltaram para ele. Sebastian riu de minha expressão surpresa. – Anos de prática tirando meu neoprene em estacionamentos varridos pelo vento em Sunset Cliffs, Caro – disse ele. – Posso te mostrar a rapidez com que consigo tirar minhas roupas agora mesmo, se você quiser. – Vá. Surfe. – Aqui, cuide disso para mim. Ele tirou as plaquinhas de identificação e colocou-as em volta do meu pescoço, e o metal aninhouse entre meus seios. Ele recuou por um momento. – Elas ficam sexies em você, Caro. Muito, muito sexy. Ele me deu um beijo hollywoodiano, inclinando-me tanto para trás que meus cabelos tocaram a areia, depois me voltou a me colocar de pé. Eu ainda estava desequilibrada quando ele correu para a água. Eu adorava assisti-lo surfando, trazia muitas lembranças boas de nossa época em San Diego. Aquele verão turbulento deixara muito poucas delas, mas estar na praia com Sebastian, observá-lo nas ondas, esses tinham sido tempos felizes. Ele era tão gracioso, descendo pelas superfícies verdes e vítreas, mergulhando através da espuma. Eu levara minha câmera comigo, portanto aproximei a imagem e tirei algumas fotos de Sebastian surfando. Minhas lentes eram bastante decentes, e tirei alguns closes muito bons dele em ação. Humm, fotos de Sebastian em ação, esse sim era um pensamento para aquecer uma noite fria de inverno. Deitei-me na toalha de praia, relaxada e cheia de uma felicidade tranquila. Mais uma vez minha vida tinha completado o balanço do pêndulo, indo de desespero e amargura para uma suprema sensação de amor e ser amada. E dessa vez eu me permitiria acreditar nisso. O calor do sol era agradável, ampliando meu bem-estar. Não estava particularmente quente, talvez 20 ou 21ºC. O bastante para relaxar e não me preocupar com queimaduras. De repente, percebi que alguém estava de pé junto a mim. – Buon giorno! Um homem atraente com mais ou menos a minha idade sorria para mim. – Ciao? – respondi. Sentei, perguntando-me o que ele queria. – Está um lindo dia, não? – disse ele, em italiano. – Sim – concordei, confusa. – Parece que você está desfrutando do sol.


Ah, droga! Ele está dando em cima de mim. Será que está dando em cima de mim? – Hum, sim. Está muito agradável. – Está aqui de férias? – Sim, estamos – respondi, com uma leve ênfase no plural. – Ah – disse ele, olhando ao redor em busca de meu companheiro ausente. – Meu namorado está surfando – expliquei com um pequeno sorriso. – Então ele vai ter muita diversão pela frente ainda – retrucou meu novo amigo, que então piscou para mim e se afastou. Vi Sebastian correndo pela praia para se juntar a mim. – O que ele queria? – disse ele, parecendo nem um pouco feliz. – Não me culpe, chefe – falei, arqueando uma sobrancelha. – Foi você quem comprou esse biquíni pequenininho de nada para mim. De qualquer maneira, eu disse a ele que meu namorado estava surfando, então não precisa se preocupar. Sebastian fechou a cara. Falando em dois pesos, duas medidas… – Você se divertiu? – falei, tentando não rir dele. – Sim – disse ele, olhando na direção onde meu “amigo” tinha desaparecido. – Nada mau. Peguei algumas ondas boas. – Eu sei, estava assistindo. – Apontei para a câmera. – Também consegui umas fotos ótimas. – É mesmo? – Ele soou deliciado e voltou toda sua atenção para mim. – Eu nunca vi nenhuma foto de mim mesmo surfando. Meu coração deu um salto rápido e infeliz. Pobre menino, nunca teve pais que se importassem com o fato de ele ser bom em alguma coisa. Ele se sentou na toalha perto de mim, a pele cintilando com gotas de água salgada. Tentando não soar distraída, mostrei-lhe as imagens que capturei e ele ergueu as sobrancelhas. – Uau! Você é uma fotógrafa muito boa, Caro. – Eu tive um material excelente para fotografar – falei, depois tirei um close de seu rosto e peito magníficos. – E essa foi por quê? – perguntou ele, piscando, surpreso. – Só para eu saber que você é real – falei para ele. – Acho que você é uma ficção gerada pela minha imaginação hiperativa e talvez vá desaparecer quando eu acordar. Só que agora eu tenho provas – falei, indicando a câmera. Ele sorriu e balançou a cabeça, como se eu estivesse meio doida. E eu estava. Como ele disse: “maluca de amor”. Ele me empurrou para baixo na toalha de praia com seu corpo úmido e me beijou de um jeito que me disse como ele se sentia. Passei a mão pelo seu cabelo molhado e sorri. – Você é tão fofinho quando está molhado. – Você também – respondeu ele, lascivo. Almoçamos na praia, panini da loja e frutas frescas vendidas por um adolescente entediado que estava largado à sombra.


Sebastian continuou flertando comigo, me provocando e brincando com os cordões do meu biquíni, o que eu achei ridiculamente adorável. Eu mal podia me segurar para não saltar em cima dele bem ali. No entanto, ambos estávamos gostando de apenas tocar um ao outro, brincando e passando tempo juntos, sem ter que nos preocupar com o que mais ninguém pensava, dizia ou fazia. À tarde, ele adormeceu ao sol e eu o observei por quase uma hora, quase incapaz de acreditar em minha sorte e que ele realmente era meu e eu, dele. Passamos o resto do dia na praia. Sebastian até me persuadiu a surfar com ele, apesar de eu achar a água fria demais para meu gosto. – Vem, Caro, faz um tempão que eu quero tentar isso. Vamos sair com a prancha e pegar uma onda juntos. Eu remo e, assim, posso olhar sua bela bunda enquanto estou fazendo isso. Essa foi uma oferta que eu não pude recusar. Deitei-me na prancha primeiro e Sebastian subiu atrás de mim. Ele não resistiu morder rapidamente meu traseiro. Remamos até logo após o ponto de arrebentação das ondas e, assim que a água começou a subir, Sebastian virou a prancha e começamos a disparar para a frente da onda. – Prepare-se para ficar de pé! – gritou ele, acima do ruído do mar. – Vai! Levantei-me e senti a prancha oscilar de leve, e então Sebastian estava atrás de mim, uma das mãos em meu quadril, me estabilizando enquanto percorríamos a face da onda. Foi uma sensação extraordinária pegar aquela onda juntos. Em certo sentido era uma metáfora para a vida que estávamos iniciando. Quem podia saber quando cairíamos? Contudo, ao confiar um no outro e nos movermos como um só, o caminho seria mais longo. Enfim, Sebastian aceitou que eu estava mesmo com frio e voltamos para a praia de barriga para baixo na prancha. – Seus mamilos estão durinhos – disse ele, apontando para o óbvio. – Isso é chocante – falei. – Eu nunca os vi assim antes. – É mesmo? Verei o que posso fazer a respeito mais tarde. – Promessas, promessas – suspirei. Os olhos dele se abriram e suas narinas inflaram com o desafio. – Cama, mulher. Agora. – Não quer procurar um lugar para jantar antes? Ele balançou a cabeça. O chefe queria sexo, não comida. E eu realmente, realmente não ia discutir. Reservamos o quarto atrás da loja praiana, mas fomos interrompidos em nossa rota de fuga pelo proprietário, desesperado para falar com Sebastian sobre points de surfe na Califórnia. Eu os deixei debatendo quem tinha a melhor arrebentação, San Diego ou Monterey, apesar de poder sentir os olhos de Sebastian me acompanhando do outro lado da praia. Apanhei nossa bolsa de viagem da moto e carreguei-a até o quartinho. Era como estar em um chalé de madeira: paredes de madeira, pisos de madeira, móveis de madeira. Mas Sebastian estava certo: a cama era imensa. Eu a testei, vacilante. Não, nenhuma mola rangendo para nos distrair essa noite. Enquanto esperava por ele, conferi meus e-mails. Fiquei surpresa ao ver que havia um de Nicole.


Para: Lee Venzi De: Nicole Olsen Ass: PQP Venzi! PQP, o que diabos, você está fazendo na Itália? Como é que eu fico sabendo disso pela boca da Jenna? Você não acha que está na hora de fazer sexo alucinado com um garanhão italiano? Pode me ligar para pegar umas dicas. Divirta-se. Nx Isso era a cara da Nicole. Se ela soubesse… Decidi enviar-lhe uma foto de Sebastian para alegrar sua cinza manhã nova-iorquina. Escolhi uma em que ele estava sentado e recostado na toalha de praia, seu lindo rosto e o peito divino em plena vista. Eu não ia enviar aquela em que sua bermuda deixava à mostra sua munição: Nicole provavelmente implodiria se visse aquilo. Para: Nicole Olsen De: Lee Venzi Ass: Re: PQP Pensando no seu conselho ;) Viajando pela Itália com um velho amigo. Pensei que você gostaria desse colírio para animar seu dia. Lx Eu ainda estava sorrindo por causa de mensagem de Nicole e minha resposta quando Sebastian entrou. – O que é tão engraçado? – Ah, eu acabei de receber um e-mail da minha amiga Nicole, em Nova York. Ela quer que eu faça sexo alucinado com um garanhão italiano. Sebastian não achou graça. – Por que ela está dizendo algo assim para você? – Ah, não seja tão puritano, Sebastian! É só uma piada. Ela está sempre me enchendo a paciência para encontrar alguém. – E eu? – disse ele, parecendo ridiculamente magoado. Rolei os olhos. – Eu não contei a ninguém a seu respeito. Gosto de ter você só para mim. Mas vou contar, se você quiser. – Quero conhecer suas amigas, Caro. Mas vou falar para a “Nicole” que ela pode guardar os comentários sobre “garanhões italianos” para ela mesma! O-oh, o chefe ficou irritado. Esse seria um encontro interessante – Sebastian e Nicole eram ambos muito passionais. Eu não apostaria em quem sairia vencedor desse encontro. De repente, meu telefone tocou. Olhei para o aparelho, espantada, como se ele tivesse criado asas subitamente. Por que diabos Nicole estava me ligando? – Nicole, oi! Uau, é ótimo ter notícias suas. Como estão as coisas?


– Não me venha com essa, Venzi. Onde você conseguiu aquela foto sexy? Virou uma daquelas mulheres que fica “secando” homens mais jovens, é? – Como você? Nicole bufou. – Exatamente! Desde quando você começou a tirar fotos de caras lindos? E quem é esse “velho amigo” com quem você está viajando pela Itália, assim, de repente? – Nicole, eu te mandei uma foto dele. O nome dele é Sebastian. Sebastian olhou para mim, um sorriso no rosto. – O que é isso, Lee. Por que você não me diz com quem está viajando? – Não, é sério, Nicole. Aquela era uma foto do meu amigo. – O Gostosão é o seu “velho amigo!”? – gritou ela ao telefone. – Você está brincando comigo, Lee! Eu ri. – Juro, Nicole. – Você anda escondendo o jogo de mim? Onde você o conheceu? As palavras vinham em uma torrente. – Eu te conto outra hora – falei, balançando a cabeça, enquanto Sebastian olhava para mim, intrigado. – Não! Conte-me agora mesmo! – berrou ela. – Não posso. Mais tarde. – Por que não agora? – Por que ele está bem aqui, Nicole. Sebastian ergueu as sobrancelhas. – Besteira! Eu não acredito em você. – É verdade. – Coloque-o na linha, então. – O quê? – Eu acho que você passou muito tempo sem sexo, Venzi. Está alucinando. Entreguei o telefone para Sebastian. – Ela quer falar com você. Ele pegou o celular, divertido. – Oi, Nicole. Aqui é Sebastian. Ele ouviu atentamente, um leve vinco em seu cenho. Perguntei-me o que raios Nicole podia estar dizendo a ele. – Você não quer que eu a use? – disse ele, olhando para mim. – Bem, Nicole, eu planejava levá-la para a cama e usá-la de maneiras que não foram mencionadas nem no Kama Sutra, mas agora que você me disse isso, acho que vou tomar um banho frio. Tomei o telefone de volta, olhando feio para ele. Sebastian apenas sorriu para mim. – Desculpe, Nic! Houve um longo silêncio do outro lado. – Nic!


– Cacete! – disse ela, a voz rouca. – Não se desculpe, Lee. Essa foi a coisa mais quente que eu ouvi em anos. Ele parece ser uma máquina de sexo! Olha, acho que você deveria escrever um manual sexual com esse cara, mas terá que tirar fotos… muitas fotos. Eu ri. – Vou pensar a respeito, Nic. Nesse ponto, inquieto e impaciente, Sebastian começou a soltar os cordões do meu biquíni. Tentei espantar suas mãos, mas era desajeitado tentar isso enquanto segurava meu telefone e prosseguia com a conversa. Ofeguei quando ele jogou a parte de cima do biquíni no chão e massageou meus mamilos com os dedos. – Ah, meu Deus, Lee! Vocês estão fazendo agora mesmo? Pode colocar no viva voz? – Eu vou ter que te ligar depois, Nic – falei, sem fôlego. Desliguei enquanto ela ainda gritava e me joguei em Sebastian. Meu telefone estatelou-se no chão e uma parte do meu cérebro já calculava que danos eu podia ter causado; no entanto, a maior parte, por longa vantagem, já visualizava Sebastian despido e pronto para a ação. Meus dedos atrapalhados tiveram que se apressar para acompanhar aquela imagem, porém mesmo assim meu ataque o derrubou na cama. Eu sentei-me com as pernas em volta de suas coxas e prendi seus pulsos para trás com as mãos, minha boca esmagando a sua, meus seios forçando-se contra seu peito. Ele poderia ter facilmente me sobrepujado, já que era 50 vezes mais forte do que eu, mas pareceu contente em me deixar fazer o que quisesse com ele. Eu tinha muito tempo perdido a compensar, e ele tinha muitos adiamentos a cobrar. Nossas línguas deslizavam juntas, nossos dentes se encontrando, e eu pude sentir Sebastian ficando excitado sob mim. Ele se sentou de repente, envolvendo minha cintura em seus braços enquanto os meus se erguiam, surpresos. Ele beijou meu pescoço, correndo sua língua quente sobre minha garganta. – Você está com gosto de mar – murmurou ele –, e sua pele cheira a sol. Ele subiu os dedos por minhas costas e deixou-os se enfiarem em meu cabelo, puxando meu rosto para junto do seu. – Quero estar dentro de você, Caro. Sorri contra os lábios dele e saí de onde estava, descendo até o pé da cama. – Erga essa bunda maravilhosa – falei, puxando a barra da bermuda de surfe. Ele sorriu para mim e levantou os quadris da cama. Puxei a bermuda até retirá-la e joguei-a para trás, sentando-me em seguida para apreciar a vista. As pernas dele eram compridas, bronzeadas e musculosas como as de um corredor; suas coxas e seus quadris eram pálidos, e seus pelos, castanho-claros. Meus olhos vagaram pelo corpo dele, sorvendo a ereção que flutuava sobre sua barriga durinha, onde a pele voltava a ser dourada. Ele se levantou sobre os cotovelos e sorriu para mim, a cabeça de lado, como se perguntasse o que eu achava tão fascinante. – Você é lindo, Sebastian. Eu amo olhar para você. Amo ver você assim, quando estamos só nós dois. Por que isso parece tão certo?


Ele balançou a cabeça lentamente. – Talvez estivesse destinado a acontecer. Quero dizer, merda, será que podemos ter ainda mais desafios no nosso caminho? Eu podia pensar em um grande desafio que ainda precisávamos enfrentar, mas me recusei a deixar que aquilo estragasse o aqui e agora. – Nós tivemos mesmo a nossa cota – suspirei. Ele se sentou e segurou meu rosto em sua mão. – Não fique triste, Caro. Temos nossa segunda chance… ou talvez estejamos na terceira… eu meio que já perdi a conta. – Isso é verdade – falei, rindo. – Mas você parece estar com uma ereção deliciosa aí, então o que me diz de a gente se divertir com ela? – Sou todo seu. Sorri e saí da cama em um salto. – As camisinhas estão na sua nécessaire? – Sim, meu bem. Vasculhei a bolsa de viagem até encontrar o que estava buscando. – Sebastian, só tem mais uma camisinha aqui – falei, chacoalhando a caixa, agora vazia, para ele. – Merda! Está brincando! Porra, como eu… ah, droga. Me dê essa porcaria – vou aproveitar ao máxima essa única. – Ah, não, Hunter – sorri, exibindo o pacotinho para ele. – Essa aqui é toda minha. Os olhos dele queimaram de imediato e seu pênis se contraiu. – Sentindo-se um pouco carente, meu bem? – falei, continuando a provocá-lo enquanto dava a volta na cama. – Cacete, Caro! Ele saltou para cima de mim, mas eu me esquivei. – Minha nossa, alguém está impaciente. – É, e muito! – disse ele, parecendo ao mesmo tempo divertido e levemente irritado. Fiquei de pé junto ao pé da cama. – Você gostaria que eu tirasse isso? – perguntei, puxando de leve os laços da parte de baixo do biquíni. Ele assentiu em silêncio. – Ou talvez queira tirá-lo para mim… Ele engoliu seco e assentiu de novo. Subi na cama e rastejei até ele, o envelope preso entre meus dentes. Sustentei-me por cima dele e Sebastian desatou primeiro um lado, depois o outro, e a pequena faixa de tecido adejou até o chão. Tirei o pacote da camisinha da boca enquanto sua mão direita subia pela minha coxa e seu indicador deslizava para dentro, lentamente me massageando. Meus olhos fixaram-se nos dele, observando-o me observar. E então ele colocou outro dedo dentro de mim, movendo-se mais rápido e minha respiração começou a vir em ofegos curtos.


– Vamos, linda – disse ele, a voz tensa. Meu corpo respondeu e tentei afastar sua mão, incapaz de suportar mais. – Não, meu bem – disse ele suavemente. – Você aguenta. – Não posso! Não posso! – implorei, mas ele não parou, e o orgasmo mais intenso, exigente e devastador arqueou minha coluna e fez meu corpo estremecer, os frêmitos me percorrendo como os abalos de um terremoto. Como minhas pernas estavam separadas, ainda de joelhos por cima dele, aquilo parecia não acabar nunca. Desabei sobre o peito dele e senti seus dedos afagarem minhas costas, traçando minha coluna por cima da pele. Gentilmente, ele me deitou de costas e beijou meu pescoço e o peito, sugando e puxando meus mamilos com os dentes. Meu corpo hipersensível respondeu de imediato. Era como se o mais leve toque enviasse uma descarga de eletricidade através de mim. Ele ergueu meus joelhos e antes que meu cérebro tivesse despertado de todo, senti Sebastian mergulhar dentro de mim. – Sebastian, não! Não! – O que é isso, meu bem. Você está tão gostosa… Ele girou os quadris e a sensação me invadiu. – Não! Empurrei seu peito com força e, com relutância, ele se retirou, os olhos verde-mar acusadores. – O que está fazendo, Sebastian? – arfei, encarando-o em choque. – Só quero fazer amor com você, Caro. – Eu sei… mas você está sem camisinha. Abri a mão, implorando para que ele olhasse para o envelope que eu exibia, ainda fechado. – Não precisamos disso, Caro. Eu tinha ouvido direito? – Como é? Está louco, Sebastian? Eu poderia engravidar! Ele me encarou. – E isso seria assim tão ruim? – Você quer que eu engravide? – gaguejei. Ele suspirou e fechou os olhos, deitando-se de lado. – Eu quero ter uma vida com você, Caro, pelo resto da minha vida. Olha… filhos… tanto faz. Desde que estejamos juntos. Dessa vez, para sempre. Joguei o braço por cima dos olhos, afastando a imagem de seu lindo rosto e tentando recobrar alguma ordem entre toda a loucura. Ele retirou meu braço de cima dos olhos, forçando-me a olhar para ele. – Caro? – Sebastian… – comecei, sem saber muito bem como prosseguir. – Ficamos separados por dez anos. Eu voltei a te ver uma semana atrás, nós fizemos sexo, saímos algumas vezes, mais sexo, brigamos, terminamos… e agora você está dizendo que quer ter filhos comigo?


Ele sorriu e ergueu as sobrancelhas. – É. – Você tem alguma ideia do quanto isso soa como loucura? – Essa é a nossa história, Caro. Loucos de amor. Eu não sabia se o beijava, estapeava ou internava em um hospício. – Eu… eu não sei nem o que dizer. Ele deu de ombros. – Não precisa dizer nada, Caro. Você não precisa fazer nada. Como eu falei, caso aconteça ou não… tanto faz… a gente vê. – E daí? Você vai abrir mão de ser um fuzileiro naval para cuidar das crianças? O queixo dele caiu; em seguida, Sebastian sorriu. – Crianças? Tipo, plural? Claro, por que não? – Você… você faria isso? Agora era eu que estava boquiaberta. – Caro, eu faço o que for preciso para ficar com você. Estive com os Fuzileiros Navais por quase dez anos agora e já passei pelo Iraque e Afeganistão, fiquei estacionado na Alemanha, em Paris e Genebra. Não me importava, porque não tinha nenhum lugar para onde ir para casa. Só que, com você, teríamos um lar, e eu não desejaria ficar longe de você. Lutei para me sentar, ainda trêmula pelo meu orgasmo recente. Ou talvez fosse pelo inesperado da notícia que Sebastian tinha acabado de me lançar. – Eu… eu… Ele sorriu para mim. – Pensei que você fosse boa com as palavras, Caro. – Geralmente, sou – consegui dizer. Ele acariciou minha barriga sugestivamente, deixando sua mão descer um pouco. – E então, o que me diz? Devemos continuar? – Eu… não… olha, só me dê algum tempo para pensar a respeito. Temos apenas essa única e solitária camisinha, então vamos usá-la e depois conversamos de novo. Tudo bem? Ele suspirou, resignado, porém notei que estava desapontado. Em seguida ele olhou para seu pênis, que havia perdido um pouco de sua deliciosa rigidez. – Estou me sentindo meio chateado aqui, meu bem. Quer me animar? Suas alterações de humor me deixavam sem saber o que esperar, mas não contive um sorriso ante a expressão esperançosa em seu rosto. – É, acho que posso fazer algo a respeito. Deite-se. Ele sorriu para mim. – O que você vai fazer? – Absolutamente nada. – O quê? – disse ele, franzindo a testa. – Não vou tocar em você, Sebastian, e você não vai me tocar. Por enquanto. Vou te mostrar o quanto sou boa com as palavras.


– Não tenho ideia do que você está falando, meu bem, mas está me deixando tarado. Sorri. – Esse é o objetivo, Sebastian. Vou te deixar tão duro, tão empolgado, vou te excitar tanto, que tudo o que precisarei fazer é te tocar com um dedo para te fazer gozar. – Porra! – ofegou ele, os olhos arregalados. Deitei-me perto dele de modo a ficarmos próximos, mas sem nos tocar. – Feche os olhos – murmurei. Ele me deu um último olhar, demorado e ardente, e então fez como eu pedi. – Quero que veja tudo em sua mente, Sebastian. Imagine tudo o que estou dizendo: veja, ouça, saboreie, sinta, sorva. Entendeu? Ele engoliu seco e anuiu. – Você está deitado na cama e está muito quieto. É noite, mas há uma lua cheia, e as sombras no piso são quase azuis. Você ouve a porta se abrir, mas seus olhos continuam fechados. Você escuta meus passos pelo piso de madeira; sabe que sou eu porque reconhece o som suave dos meus passos. Estou de pé bem perto de você, olhando para seu corpo nu. Você ouve o farfalhar das minhas roupas quando eu começo a despi-las. Escuta o zíper do meu vestido. Eu devo estar usando algo de seda, porque o tecido sussurra ao cair de meu corpo. Você então sente o colchão se movendo sob você e meu peso pressionando sobre seu corpo. Meus seios nus roçam contra sua pele. Está frio e meus mamilos estão rijos quando você os toma em sua boca. Ele gemeu suavemente e vi que seu pau estava quase completamente ereto de novo. – Eu subo pelo seu corpo, me segurando por cima de você. Gemo um pouco e você sabe que é porque estou me tocando, me excitando para você. Meus dedos estão dentro de mim, circundando devagar, e quando eu os retiro, pouso-os sobre seus lábios e você os chupa com força. Pode sentir meu gosto e o almíscar do meu cheiro. Você quer me tocar, mas eu tomo seus dedos em minha boca, sugando-os um por um. Você imagina como seria ter minha boca ao redor do seu pau: meus lábios, meus dentes, a língua girando ao redor. Consegue imaginar como seria a sensação de entrar na minha boca, sua ponta alcançando o fundo da minha garganta. Vi que seu pênis estava duro e pronto para a ação. Ainda não, Sebastian. – Meu cabelo roça a pele do seu peito enquanto eu me arqueio para longe de você, e sua pele está tão sensível que pode identificar cada fio, cada onda, cada cabelo individualmente. Pego sua mão e coloco seus dedos contra meu clitóris. Estou molhada, muito molhada, e você sabe que não vai demorar até que seu pau duro e quente esteja arremetendo dentro de mim. Passo meus dedos ao seu redor, segurando-o, apertando-o, e você sabe que eu o quero – cada centímetro seu – dentro de mim. Você está na entrada do meu sexo e afunda dentro de mim, lentamente a princípio, depois cada vez mais rápido e mais forte, indo mais fundo. Seu controle está se esvaindo porque você sente aquela carne quente, suave, doce por toda a sua volta. Meu corpo começa a se rebelar debaixo do seu e você sabe que eu estou perto. Pode sentir frêmitos de prazer pulsando dentro de mim e está se perguntando por quanto tempo consegue se segurar antes de gozar. Você está tentando com todas as forças se conter, mas então eu me contraio ao seu redor, te apertando, sugando tudo o que você tem. E estou te


implorando para você me dar tudo de novo. Eu te imploro para você me comer por trás, então você retira seu pau, apesar de estar doendo de tanta vontade de gozar, suas bolas quentes e pesadas, e então você olha para a minha bunda, sabendo que eu te quero tanto, que estou só esperando por você. A essa altura a respiração de Sebastian estava se acelerando e suas mãos flutuavam acima de seu corpo, como se desesperadas para tocar alguém, eu ou ele mesmo. Minhas próprias palavras estavam me deixando molhada e excitada, porém eu continuei. – Você mergulha dentro de mim e é tão profundo nessa posição; nunca foi tão gostoso antes. Você está tão duro que seu pau dói querendo gozar, mas você quer desfrutar de cada momento, então se segura, se segura, se segura. Mas é difícil, é tão difícil, porque estou gozando de novo e você quer desesperadamente gozar comigo, mas você quer que eu tenha cada segundo, cada gota de prazer, então se segura, se segura. E então eu estou gozando forte, como você nunca sentiu antes; e é tão quente e molhado e doce que você se derrama em mim, sem parar, sem parar. E com essas palavras, agarrei seu pau com força, e Sebastian gozou na minha mão imediatamente. Eu o massageei mais algumas vezes, assistindo o fluido cremoso derramar-se em sua barriga, os músculos do peito subindo e descendo com o esforço de respirar, seus olhos fechados, apertados. Beijei-o suavemente nos lábios e me deitei ao seu lado, aninhando-me junto a seu ombro. Em algum momento ele abriu os olhos e olhou para si mesmo, pasmo. – Cacete, Caro! – grasnou ele. – Como… como… – Então agora é você que está sem palavras? – falei, convencida. Observei-o por algum tempo enquanto ele tentava se recompor. Estendi a mão e peguei minha nécessaire, tirando dela um lenço umedecido para limpá-lo. Ele assistiu com olhos vazios enquanto eu me levantava para jogar o lenço fora, depois tornava a me sentar na cama e sorria maliciosamente para ele. – Gostou da minha história de ninar? – Porra! Claro que sim! Ainda não consigo acreditar que você fez isso comigo, Caro. – Bem, Sebastian, agora você tem algo em que pensar quando estivermos separados ou quando você estiver em missão. Agora pode me imaginar falando com você. – Está brincando comigo, porra? Com 20 outros fuzileiros navais tarados dividindo a mesma barraca? – Ele gemeu. – Ah, Deus! Eu não vou conseguir me livrar dessa imagem agora. Eu ri. – Esse era meio que o objetivo, Sebastian. Ele balançou a cabeça devagar. – Cacete, Caro! Você é tão incrível. Eu já te disse isso? – Pode ter mencionado uma ou duas vezes, mas fique à vontade para se repetir. Ele ainda parecia chocado. Era uma gracinha. Dei um tapinha em seu peito. – Venha, vamos tomar um banho. Estou com fome. De comida mesmo. Saltei da cama e fui até o chuveiro. Eu já havia lavado e passado condicionador no cabelo, me lavado e enxaguado e secado com uma toalha antes que o fuzileiro naval conseguisse entrar no banheiro, ainda trôpego.


Minha nossa, e eu achando que esses caras deveriam estar em forma. Nicole ficaria tĂŁo desapontada.


C APÍ TU LO

9

A DUCHA REANIMOU SEBASTIAN o suficiente para eu me sentir quase segura para andar de moto com ele outra vez. – Você está bem? – falei. – Parece um pouco desconcertado. – Sim, cacete, e eu nem sei o que isso significa – disse ele, balançando a cabeça. – Porra, Caro, eu não consigo aceitar o que aconteceu. Quero dizer, você mal me tocou. E foi tão… quente. Sorri. – Ah, o poder das palavras. – Vai ter volta – prometeu ele, com um sorriso diabólico. – Sebastian, se eu não estivesse tão faminta, estaria te arrastando de volta para o quarto agora mesmo e te amarrando até você fazer de mim uma mulher desonesta. Ele me encarou com admiração e uma surpresa nada pequena. – Minha nossa, você ficou tão… mandona. Eu gosto. Ri, deliciada. – Ah, chefe, acho que você vem obedecendo ordens das pessoas erradas – mas vou te ajudar com isso. – Mal posso esperar – disse ele, balançando a cabeça, incrédulo. Em seguida, ele me puxou em um abraço e enfiou o rosto no meu pescoço, fazendo cócegas em minha pele com seu hálito morno. – Senti tanta saudade sua. – Eu também senti saudade sua, tesoro. Ficamos ali em silêncio, os braços dele ao meu redor, ambos hesitantes em quebrar o encanto. Finalmente, ele esfregou minhas costas e deu um leve beijo no meu cabelo. – Vamos comer. Apenas cinco quilômetros adiante, na mesma rua, ficava a bela Marina di Cecina. Nosso amigo na loja da praia nos recomendou um dos restaurantes com vista para o mar. Provavelmente pertencia a


um tio ou primo, porém parecia bom o bastante e tinha uma vista sensacional do Mediterrâneo. – O que diabos é isso? – disse Sebastian, apontando para o cardápio. – Cipolline agrodolci ala Cinque Terre. São cebolas? – Sim, cebola agridoce; é uma iguaria local. Quer experimentar? – Normalmente eu diria que sim, mas estou com muita vontade de… bife – disse ele, contrito. Rolei os olhos. – Você é tão americano! Quer batatas fritas com seu bife? – Sim, agora que você mencionou, quero. Afinal, tenho que manter minhas forças. Ando me encontrando com uma mulher que está acabando comigo. Ela não consegue manter as mãos longe de mim. – Mas que vadia. Ele sorriu para mim. – Bem, ela não tem sido muito vadia, mas eu gostaria muito de vê-la em meias 7/8 e cinta-liga. Sem calcinha. – Humm, tenho certeza de que podemos dar um jeito nisso em algum momento, mas sou obrigada a admitir, Sebastian, eu não possuo nada desse tipo. Ele pareceu surpreso. – Nada? Eu pensei que todas as mulheres… Ele parou no meio da frase, embaraçado e com cara de quem gostaria de poder devorar as palavras que havia soltado. – Talvez todas as suas mulheres anteriores, Sebastian – respondi, cortante. – Mas não, eu não. Sabiamente, ele enfiou os olhos no cardápio. – Sebastian, exceto por você, eu tive um encontro quase três anos atrás. E não há muita necessidade de lingerie sexy quando se está a trabalho em bases militares. Bem, não para mim, de qualquer forma. Talvez seja diferente para você? – perguntei, arqueando as sobrancelhas para ele. – Por que você não saía com ninguém, Caro? – perguntou ele olhando para mim, a voz intrigada. – Quero dizer, você é linda, cacete, qualquer um pode ver isso, e é esperta e divertida. Qualquer cara teria que ser cego para não te querer. E percebi que ele estava falando sério. Será que um dia eu me acostumaria a ouvi-lo dizer coisas assim? Esperava que não. – Eu simplesmente… não estava muito interessada. Ninguém me chamou a atenção. Ele balançou a cabeça, espantado. – Ah, espere, o major Parsons me convidou para sair. Mike. Ele era uma gracinha – falei, olhando despreocupadamente para Sebastian. – Aquele desgraçado do cacete! – rosnou ele, furioso. – Sebastian, eu disse não. E na verdade, ele foi muito meigo a respeito. Não forçou o assunto nem nada. Eu já estava me arrependendo de provocar o ciúme de Sebastian, mas, droga, isso me fazia sentir desejada. E eu realmente não estava habituada a isso. Decidi mudar de assunto antes que seu mau gênio estragasse nossa refeição.


– O que estava pensando naquele primeiro dia em que nos vimos no treinamento de imprensa? Você parecia furioso. O olhar dele tornou-se distante, relembrando aquele dia, há apenas uma semana. – Eu estava tão chocado. Vi o nome “Lee Venzi” na lista de treinamento. Eu o reconheci porque li alguns de seus artigos… – É mesmo? – É, claro. Eu dou uma olhada em todos os jornalistas que cobrem esses assuntos. Quero saber que tipo de merda… desculpe, que tipo de coisa eles escrevem. Achei seus artigos muito bons. Eu lancei-lhe um olhar. – Não, de verdade. Não estou falando por falar. Eu meio que presumi que você fosse um ex-militar por causa do jeito como compreendia os militares. E todos esperávamos que você fosse um cara. Obviamente, alguém não fez a investigação de antecedentes direito. Contudo, até onde vai sua presença online, você definitivamente é um homem. Sorri serenamente para ele. – Essa é a ideia geral. Recebi várias indicações de trabalho porque as pessoas presumem que eu sou um homem; trabalhos que não dariam a uma mulher. Sebastian franziu o cenho para mim. – Sim, mas também pode haver um bom motivo para isso. Quero dizer, alguns dos lugares aonde você vai são perigosos e… Peguei a mão dele e coloquei meus dedos sobre seus lábios. – Shhh, tesoro. Eles são muito menos perigosos do que aonde você vai, e nós não vamos ter essa conversa. Ele fechou a cara e começou a argumentar. – Não, estou falando sério. Este é o meu trabalho. Por favor, chega disso. Ele não pareceu feliz a respeito, porém também não discutiu mais; em vez disso, me deu um olhar que dizia que a conversa não havia terminado, apenas sido adiada. – Você ia me dizer o que pensou quando me viu pela primeira vez – relembrei. – Choque. No começo, achei que você havia feito isso deliberadamente, de alguma forma. E então vi a sua expressão, como se você também não soubesse o que me dizer, e percebi que era tão esquisito para você quanto para mim. – E depois? – Eu só ficava pensando em como estava furioso com você; culpando você por toda aquela merda. Tentei manter toda a raiva, mas você parecia tão… você parecia exatamente a mesma. E eu ficava pensando, talvez eu tenha entendido errado. E então me lembrava que você não foi me procurar e… era tão confuso, Caro. Ele encarou a água batendo na praia. – E então você tentou conversar comigo e eu surtei. Eu não conseguia… não em frente a todas aquelas pessoas, não com todas as coisas que eu queria… Eu encontrei um bar e comecei a beber… reunindo a coragem para ir te ver. Eu realmente estraguei aquela noite, não foi? – Completamente – falei, assentindo.


Ele pareceu cheio de remorsos e encarou suas mãos. – Agora já não importa, Sebastian – falei, baixinho. Ele afastou a lembrança, mas pude ver que ainda o incomodava. – O que você pensou quando me viu? – perguntou ele. – Você diz, depois do momento ah-meu-Deus? Pensei que você parecia amargo; seus olhos estavam tão frios e duros. Lindo, é claro; mas você parecia ter mudado de verdade. Fiquei intimidada. E então Liz me contou que você tinha essa reputação… como mulherengo… Sebastian fechou a cara. – Bem, foi você que perguntou. – É, bem… o que mais você pensou? – Ela também disse que você era brilhante, se isso te faz sentir melhor. – Não muito. Suspirei. – Eu apenas pensei em tentar conversar com você a sós, mas você ficava me evitando. Por isso presumi que não queria ter nada comigo. Eu fiquei… magoada, mas acho que aceitei. Podemos falar sobre alguma outra coisa? Isso está me deixando triste. – Claro, meu bem – disse ele, sorrindo suavemente. – Que tal planejarmos o resto da viagem? Sorri de volta. – Sim, por favor. Ele procurou a jaqueta, que pendia nas costas de sua cadeira, e retirou dela o mapa. – Bem, está por sua conta, Caro. Podemos continuar seguindo a estrada costeira até Salerno e procurar a velha vila do seu pai. Ou podemos ir mais devagar, visitar um pouco da Toscana. Dizem que Siena é incrível, e existe uma cidadezinha montanhesa, Montepulciano, que parece muito legal. Ou podemos ir até lá embaixo e conhecer a Sicília. – O que você quer fazer, Sebastian? Eu não ligo de passar outro dia na praia se você quiser surfar mais um pouco. São as suas férias também. – Não, tudo bem. Vai estar flat4 amanhã, eu já conferi. Mexi os olhos. – É claro. Como sou boba. – Estamos a cerca de 300 quilômetros da vila do seu pai. Poderíamos chegar lá a essa hora de amanhã. Se você quiser. Pensei a respeito por um instante. Eu estava investindo muito no que seria inevitavelmente uma grande decepção. – Não, vamos pegar leve. Eu gostaria de ver um pouco mais da Toscana. Ouvi falar de Montepulciano, eles têm bom vinho. E mel. Ele sorriu para mim, divertido. – Como é que você sabe isso tudo de comida? Eu o encarei como se, dessa vez, fosse ele a não ver o óbvio. – Eu sou italiana, Sebastian. Ele riu alto e pegou minha mão de cima de mesa para beijar meus dedos.


O garçom chegou com nosso pedido, interrompendo o momento, embora sorrisse como se pedindo desculpas. A comida, inclusive a enorme Bistecca ala Fiorentina de Sebastian, estava boa, e ficamos em silêncio por vários minutos enquanto comíamos. Brinquei com minha pergunta por algum tempo. – O que foi? – disse Sebastian, afinal, largando o garfo e a faca. – Como assim? – Você está com aquela cara, como se quisesse me perguntar alguma coisa. Pode me perguntar o que quiser, Caro. Fiquei espantada – as pessoas normalmente não liam tão bem minhas expressões. Por outro lado, Sebastian me conhecia melhor do que ninguém. Que estranho. – Bem, tem um negócio… Você estava falando sério quando disse que deixaria os Fuzileiros Navais? – Claro. Digo, eu me reinscrevi dois anos atrás, então teria que esperar mais dois antes de largar… O desapontamento me inundou. Mais dois anos. – Você acha que teria que fazer mais um turno no Afeganistão? Ele me olhou, pensativo. – Não sei, Caro. A maioria dos caras não são enviados de volta tão rápido, mas… bem, eles têm poucos intérpretes, especialmente os que não são locais, e pouca inteligência militar… Ele parou de repente, percebendo que havia falado demais. – Sebastian, qualquer coisa que você me disser fica entre nós dois. Eu jamais usaria isso em meu trabalho. – Eu sei disso, baby, mas tem algumas coisas que eu não posso te contar… e outras que é melhor que você não saiba. Não fiquei feliz por existirem segredos entre nós, mas compreendi. – Eles não vão ficar felizes por você namorar com uma jornalista. Ele desviou os olhos brevemente, depois sorriu para mim. – Não. Acho que não, embora não possam me impedir… – Então… acho que seria melhor manter isso entre nós, apenas por enquanto? Ele anuiu, depois recostou-se na cadeira. – Do que você abriria mão, Caro? Trabalhar em zonas de conflito, viajar pelo mundo todo? Eu estava esperando que ele fizesse essa pergunta, e mesmo assim não sabia como responder. A verdade era: eu não queria abrir mão disso. Tinha dado duro para alcançar a posição que alcancei, e gostava dela. Sim, meu trabalho me levava a áreas perigosas, mas era raro que eu fosse para a linha de frente; não era como Sebastian. Ah, sim: minha hipocrisia não conhecia limites. Então, qual era o meio-termo? Ele abria mão de tudo e eu, de nada? Porém, se eu abrisse mão de meu trabalho, quanto tempo levaria antes que eu me sentisse presa e ressentida? E ele queria que tivéssemos filhos. Sempre que ele falava sobre “ver o que acontecia”, eu sabia que isso estava no topo da sua lista de prioridades.


– Eu não iria querer abrir mão de tudo por completo, Sebastian, essa é a verdade. Mas talvez concordasse com um período máximo de tempo para passar fora durante o ano. Ele assentiu lentamente e suspirou. – Tudo bem, acho. Ele se levantou e espreguiçou-se, olhando para o restaurante ao redor. – Aonde você vai? – Banheiro. Estou torcendo para que eles tenham máquinas que vendem camisinhas. Sorri. – Ainda temos uma. – É, mas isso nem de longe é o bastante para o que eu tenho em mente… a menos que você queira fazer o que conversamos mais cedo. A esperança era perceptível em sua voz, mas balancei a cabeça. – Isso é uma conversa para outro dia, Sebastian. – Ele fez biquinho e eu não pude conter um sorriso. – Quando você terminar seu próximo turno, conversamos a respeito, eu juro. Ele voltou alguns minutos depois, a cara fechada. – É inútil, porra! – remoeu ele. – Eles não têm nada nos banheiros e eu conferi com o garçom. Todos os mercados e farmácias fecham no domingo à noite. – Ah, droga – falei, sorrindo. – Bem, deixe para lá. Vamos ter que simplesmente ser criativos. – É, está bem – disse ele, rabugento. Ergui minhas sobrancelhas para ele. – Espero que não esteja entediado comigo, tão rápido. Ele girou os olhos. – Você é como uma droga para mim, Caro. Nunca me canso de você. E eu gosto muito, muito mesmo de sexo matinal. Tive que rir. – Nós vamos dar um jeito. Não se preocupe, Hunter. Sebastian ainda estava de mau humor quando deixamos o restaurante. Certo, essa não era a situação ideal para dois adultos aparentemente famintos por sexo que se comportavam como adolescentes descontrolados, mas pensei que já havíamos provado nossa criatividade. E eu tinha uma ou duas coisas em mente. Além do mais, eu estava levando o resto da garrafa de vinho, então sempre podíamos ter uma noite sossegada com uma taça de vinho, vendo as estrelas surgirem. Sebastian, contudo, estava muito menos relaxado, acelerando para fora do estacionamento em um jato de cascalho, os pneus cantando. Agarrei-me com força em sua cintura, torcendo para que ele reduzisse a velocidade; porém, em vez disso, ele foi ainda mais rápido, fazendo as curvas da estrada costeira em uma tal velocidade que nossos joelhos ficaram ridiculamente perto do chão. Fechei meus olhos e me segurei até ele reduzir de modo abrupto. Logo vi o motivo: dois policiais italianos acenavam com seus cassetetes para nós. Merda. Fomos pegos ultrapassando a velocidade.


Sebastian estacionou na lateral da estrada e passou uma longa perna por cima da moto para desmontar. Observando enquanto ele retirava seu capacete, decidi acompanhá-lo. Ele era tão cabeça quente que eu podia imaginá-lo sendo grosso com eles e passando a noite em uma aconchegante cadeia italiana. – Francês? – perguntou o primeiro policial, olhando para as placas da motocicleta de Sebastian. O oficial exibia uma semelhança desconcertante com Groucho Marx, o que desviava a atenção. O segundo era mais jovem e nos encarava por trás de seus óculos aviador, mesmo já tendo anoitecido. – Não, americano – respondeu Sebastian. O policial pareceu surpreso. – Essa motocicleta é sua, signore? – Sim. – O senhor tem os documentos dela? – Sim, em minha carteira. Sebastian começou a levar a mão ao interior da jaqueta, e o oficial mais novo imediatamente pegou a arma. Ofeguei e Sebastian praguejou. No segundo seguinte, eles o forçaram a se ajoelhar no chão e colocaram suas mãos atrás da cabeça. Pude ver o policial mais velho pegando as algemas. – Não, por favor! – pedi. – Ele só estava tentando mostrar o documento para vocês. – Signora, ele estava dirigindo a 120 quilômetros por hora; o limite de velocidade aqui é 90 quilômetros por hora. – Por favor, deixe que ele mostre para vocês. Eu pego a carteira dele! Movi-me devagar para que eles pudessem ver exatamente o que eu estava fazendo. Enfiei a mão no bolso interno da jaqueta de Sebastian e, com cuidado, tirei sua carteira. – Pelo que eu estou procurando? – sussurrei com urgência. – O Certificat d’immatriculation, os documentos cinza. Caro, eu… – Não fale nada, Sebastian – ciciei para ele. – Deixe-me cuidar disso. Em silêncio, entreguei o documento, embora estivesse claro que nenhum dos policiais soubesse ler em francês. – Tem autorização para dirigir essa motocicleta, signora? – disse o oficial mais velho e gentil. – Não, mas… – Então vamos ter que guinchá-la – disse ele, bondoso. – Por favor, não o prenda! – implorei. – Ele só está de licença por duas semanas, depois vai voltar para o Afeganistão. Os dois se entreolharam. Eu estava torcendo para que a solidariedade entre polícia e militares que existia em casa também fosse verdadeira na Europa. Tirei a identidade de Sebastian da carteira, aquela que o identificava como um fuzileiro naval dos Estados Unidos, e mostrei-a para eles. – Temos apenas duas semanas – repeti, sem precisar fingir meu desespero. – Meu genro está servindo lá – disse o oficial mais velho, balançando a cabeça. – Muito bem, vamos deixar passar, mas só dessa vez. Obedeça aos limites de velocidade. Eles deixaram Sebastian ficar de pé e devolveram-lhe os documentos.


– Muito, muito obrigada – falei, sentindo os olhos se encherem de lágrimas pela moratória oferecida. – Faça-o obedecer os limites de velocidade, signora – disse o oficial mais velho, balançando o dedo para mim. – Farei. Obrigada! – Vou rezar por vocês dois – disse ele, simplesmente. Observamos enquanto eles voltavam para seu carro, conversando amistosamente entre si. – Você foi ótima, Caro – disse Sebastian, sorrindo. Eu dei-lhe um tapa forte no braço. – Chega de correr! – Não sei, não… Eu tenho um cartão de “livre-se da cadeia” no formato de Caro. – Bem, faça isso de novo e você pode descobrir como são as cadeias italianas. – Você não deixaria isso acontecer comigo, meu bem. – Não aposte nisso, chefe! Eu já tenho cabelos brancos suficientes sem você me dar mais. Ele me puxou para um abraço. – Não, não estou vendo nenhum – disse ele, beijando meu cabelo. Eu o empurrei, irritada. – Mais duas semanas com você e vou ter que pintar o cabelo – falei, ranzinza. Ele riu. – Não tem graça! – Deus, você é linda, Caro! Voltei a montar na moto, irritada ao ver que Sebastian ainda sorria, mas pelo menos ele pilotou até o acampamento em um passo mais moderado. Quando retornamos, Sebastian estacionou a moto e trancou tudo, enquanto eu saí para nosso quarto pisando duro, muito brava com ele. Se ele era assim afoito na Itália… não, eu realmente não precisava começar a pensar assim. Cacei um saca-rolhas para tirar a rolha que o garçom tinha conseguido enterrar de novo no vinho, mas não havia nenhum. Estava começando a contemplar quebrar a boca da garrafa e peneirar o vinho por uma meia limpa para retirar pedaços de vidro, acreditando que tempos desesperados requerem medidas desesperadas, quando Sebastian saracoteou para dentro do quarto. – Não consigo abrir a porra do vinho! – rosnei para ele. Ele pareceu chocado. É, bem, ele não era o único que sabia xingar. – Qual é o problema, Caro? – Acabo de te dizer! – gritei. – Não consigo abrir o vinho! Em silêncio, ele pegou a garrafa da minha mão, tirou um canivete suíço do bolso da calça e desenterrou a rolha usando uma pequena lâmina. – Acho que um pouco da rolha caiu lá dentro – disse ele, colocando a garrafa na mesa. – Obrigada – resmunguei, um tanto carrancuda. – Caro…


– O que foi, Sebastian? Você não viu que podia ter sido preso lá? Aquilo foi tão estúpido, tão temerário! Ele me encarou, pasmo. – Não aconteceu nada… – Mas podia ter acontecido! – berrei para ele. – E se você se arriscar desse jeito lá em… Porém não consegui terminar a frase. Brava e frustrada, eu fiquei furiosa quando percebi lágrimas subindo aos meus olhos. Enxuguei-as com meus punhos, enquanto Sebastian me observava em silêncio. – Ei, vem aqui – disse ele suavemente. – Está tudo bem. Ele puxou meu corpo rígido em um abraço; eu fiquei ali, dura, lutando contra as lágrimas, desejando que fosse a raiva, não o medo, a vencer. – Caro, essa noite eu fui simplesmente burro, eu admito. Estou só desfrutando ser… livre, aqui e agora, com você. Não chore. – Não estou chorando! – berrei. – Estou fula com você! – É, eu entendi essa parte, meu bem. Em algum momento, eu o afastei, agarrando a garrafa de vinho ao passar pela mesa e tomando um bom gole. Depois me joguei na cama, empilhei os travesseiros atrás de mim e joguei mais um generoso gole na boca, esfregando as costas da mão no rosto para secar qualquer resquício. – Vai dividir isso aí? – disse ele, finalmente. – Não. Você bebe demais. – Você vai ficar aí e terminar a garrafa toda sozinha? – Sim. – Você não gosta de beber. – Hoje, gosto. – Vai ficar enjoada. – Estou sendo imprudente. Você faz isso o tempo todo. – Caro – disse ele, esfregando a testa. – Vamos, já chega. Ele tirou a garrafa das minhas mãos e colocou-a em seu lado da cama. – Me dê a droga do vinho, Sebastian. – Não – disse ele, sem se abalar, sentando-se ao meu lado. Tentei passar por ele para apanhar a garrafa, mas ele me bloqueou. Eu quis gritar de frustração, apesar de saber que estava me comportando de modo infantil. – Tudo bem. Saí do quarto batendo a porta e caminhei pela praia sem um casaco. Estava muito mais frio agora que tinha anoitecido. Ah, bem, eu queria ver as estrelas. Sentei-me na areia e, petulante, passei os braços em volta dos joelhos. Uma leve brisa soprava do mar, e a luz do luar cintilava na água. A maré havia recuado quase completamente. Sebastian tinha razão: o mar estaria liso como um vidro amanhã. Enterrei minhas botas na areia ainda morna e ouvi a maré batendo contra a praia, tão regular quanto uma respiração.


Estava irritada comigo mesma pelo ataque de nervos, mas estava muito mais que irritada com Sebastian por quase ter sido preso – e por não ver nada demais nisso. Contudo, no cerne do problema estava o meu medo de que sua imprudência o levaria a fazer algo muito estúpido quando estivesse… lá fora. Eu nem queria pensar aonde ele iria – aonde estávamos indo. Não se passou muito tempo antes que eu ouvisse seus passos na areia. Fechei os braços com mais força em torno dos joelhos enquanto Sebastian se sentava perto de mim, gentilmente pousando sua velha jaqueta de couro sobre meus ombros. – Quer um pouco de vinho? – disse ele. – É ótimo quando bebido direto da garrafa. Recostei-me contra seu ombro e ele passou o braço à minha volta. – Sebastian, prometa para mim que não será imprudente. Eu não suportaria se algo te acontecesse agora. – Caro, eu nunca sou imprudente quando estou trabalhando. Bem, talvez um pouco quando estou fora de serviço, mas nunca no trabalho, prometo. Eu jamais teria sido promovido se fosse relaxado. Não se preocupe comigo. Além do mais, agora eu tenho uma razão para voltar para casa, certo? – Eu vou me preocupar. – E eu também me preocuparei com você. Você ainda tem uma chance de ir para casa, onde eu sei que estará a salvo, Caro. Por favor. Sentei-me, rígida. – Nem pense em bagunçar meu papéis de novo, Hunter! – Ei! Calma aí! Ele levantou as mãos, defensivo. – Eu prometi que não faria isso, Caro, apesar de querer muito. – Ele fez uma pausa. – E então, já terminou de me pisotear com suas botas? Suspirei. – Por enquanto, a menos a que você me peça com jeitinho para pisoteá-lo. Ele riu, gentilmente. – Vou manter isso em mente. Posso te beijar, ou isso é arriscar um machucado? Eu o empurrei na areia e fiquei confortável, deitada sobre seu peito. Sob o luar, sua pele era pálida e prateada, cada traço de bronzeado clareado. Acompanhei seu perfil com meu dedo e então virei seu rosto em minha direção, beijando-o de leve nos lábios. – Isso traz lembranças de volta – falei, sentindo-me mais calma. Ele sorriu para mim. – Sim! Sexo na praia era uma daquelas coisas que todo mundo na escola se gabava, e eu pude fazer isso com você. Aquela primeira vez foi uma das melhores noites da minha vida. – A primeira vez que passamos uma noite toda juntos. – Quer reviver os bons tempos, Caro? – Não dá. – Por que não? – Deixei nossa única camisinha no quarto. Ele suspirou e fechou os olhos.


– Além do mais – prossegui –, eu meio que tenho uma quedinha por camas hoje em dia. Pode me chamar de antiquada. – É, acho que sim – disse ele, nostálgico. – Mas eu gostei muito de fazer sexo no seu carro. Aquilo foi gostoso. – Ah, meu Deus, sim! Embora eu tenha que dizer que aquela vez no armário do country club também tenha sido fantástica. Não, espere, o hotel em Little Italy. Aquele quarto ficou parecendo que um animal selvagem tinha passado por lá quando você terminou! – Animal selvagem, hein? – disse ele, parecendo feliz consigo mesmo. – É, bem, acho que posso fazer melhor que isso agora, meu bem. – Ah, pode, é? Porque eu tenho que te dizer, Sebastian, você nunca ficava sem camisinhas quando estava com 17 anos. – Ui! Golpe baixo, Srta. Venzi. Eu ri. – Mas é verdade. – É, bem, vou dar um jeito nisso amanhã, e aí você não vai dormir nada, mulher. – Já ouvi isso antes, chefe, mas ainda não aconteceu. Deitei-me sobre seu peito e fiquei desenhando em sua camiseta com o dedo. – E então, quem foi sua primeira mulher – depois de mim, quero dizer? Senti seus braços se retesarem. – Por que você quer saber? – Só curiosidade. Ele suspirou. – Eu não quero falar disso, Caro. Foi… uma época ruim para mim. – Certo, me desculpe. Você não precisa falar nada. Ficamos em silêncio por alguns minutos. – Você vai contar para Ches que nós estamos… juntos de novo? – Claro que vou, Caro. Ches é meu irmão – disse ele, simplesmente. – Ele vai ficar surpreso. – Porra, se vai! – Acha que ele vai aceitar bem? Quero dizer, tenho certeza de que meu nome deve estar sujo com ele. – Ches não é assim. Ele ficou muito chocado com tudo que aconteceu aquele dia na sua casa, mas ele sabia que o que nós tínhamos era real. Ele é meu amigo; vai ficar contente. – Quando você vai contar para ele? – Não pensei nisso ainda. Quando vai contar para suas amigas sobre mim? – Está brincando? – Eu ri. – Depois da sua ceninha com Nicole, a novidade deve estar por toda Nova York a essa altura. Sua foto deve estar nos protetores de tela em todo canto. – Ah, é? – Não se finja de modesto comigo, Hunter. Você sabe que é uma gracinha. Ele sorriu para mim.


– Desde que você ache isso. – Eu acho que você é diabolicamente lindo, com ênfase no “diabo”. – Bem, na verdade, Srta. Venzi, acho que você também tem um pouco do diabo aí dentro. – Ah, eu realmente gostaria de ter um pouco do diabo dentro de mim nesse momento, Sebastian. Ele se sentou, puxando-me consigo. – Vamos – disse ele. Não era um pedido. Levantei-me e sacudi um pouco da areia da minha calça, enquanto Sebastian recuperava a garrafa de vinho que tinha guardado nas dunas. Caminhamos de volta para nosso quarto e, de vez em quando, Sebastian puxava minha mão para seus lábios e beijava gentilmente meus dedos. Contudo, assim que chegamos ao quarto, a história mudou. Foi como se alguém tivesse ligado um interruptor no corpo dele; o Sebastian gentil e meigo desapareceu; em seu lugar, estava um homem em uma missão, que sabia o que queria, e que queria tudo agora. Assim que fechamos a porta ele me empurrou contra ela e começou a me beijar intensamente, uma das mãos moldando-se a meus seios, a outra enfiando-se dentro de meu jeans. – Onde está a porcaria da camisinha? – resmungou ele. – Mesinha de cabeceira – ofeguei. Ele foi até lá e apanhou a camisinha, rasgando a embalagem antes de voltar para mim. – Sebastian, a cama? – falei, em dúvida. – Não, aqui. Ele abriu o zíper da calça e, experiente, rolou a camisinha sobre sua ereção com uma mão só. Depois abriu meu zíper com um puxão e me ergueu pelos quadris. – Cruze as pernas em volta de mim, meu bem – disse ele, com tensão evidente na voz. – Como? – ofeguei, apontando para a calça que ainda estava em torno dos meus joelhos. Ele praguejou e puxou-a mais para baixo, mas descobriu que ela estava presa nas botas. Em vez de esperar pelos 30 segundos que eu levaria para tirá-la, ele pisou por cima do denim e ignorou o tecido que ficou para trás. Sebastian me penetrou de súbito e eu gritei. Seu rosto estava enterrado em meu pescoço, sua respiração vindo em arquejos ruidosos enquanto seu corpo trabalhava cada vez mais rápido. Eu me segurei em seus ombros enquanto ele me arremetia contra a porta. Foi tão cru e tão urgente, tão completamente inesperado, que eu pensei estar vendo estrelas. E então seu telefone tocou. – Ah, porra! – O quê? Não pare, Sebastian! Ele me carregou até a cama, ainda juntos, e pegou seu telefone no bolso da jaqueta. – Sebastian – choraminguei. – Só um minuto, meu bem, eu tenho que atender. É o toque do meu comandante. O quê?! – Hunter, senhor.


Seguiu-se uma longa pausa e eu me remexi, desconfortável; ele franziu a testa para mim. Você que se foda, Hunter! Está atendendo ao telefone durante sexo alucinado, e vai franzir a testa para mim? Ele ergueu uma sobrancelha, sorriu, depois começou a se movimentar de um jeito que não deveria ser permitido enquanto se dava prosseguimento a uma conversa telefônica. Arremetida. – Sim, senhor. Arremetida. – Não, Itália, senhor. Arremetida, arremetida, arremetida. Eu arfei e contive um gemido. Arremetida, arremetida, giro de quadril, arremetida. – Humm… eu acabo de sair para uma corrida. Arremetida, arremetida. – Sim, senhor. Giro de quadril, arremetida, arremetida. – Sim, senhor. Investida, investida, investida, arremetida, arremetida, arremetida. – Estarei lá. Aí ele jogou o celular em um canto, me largou na cama, fez um ângulo com os quadris que me fez ofegar e eu joguei a cabeça para trás. Ele fechou a boca sobre meu mamilo de um jeito que me fez sentir seus dentes através da camiseta e dos sutiã. Gozei ruidosamente e ele me seguiu após dois movimentos rápidos. – Sebastian? – arquejei, espantada pelo que ele tinha acabado de fazer. Ele retirou-se de mim e me fitou, sorrindo, depravado. – Você conseguiu o que queria, meu bem? – Como é que é? – Você disse que queria um pouco do diabo dentro de você. Eu só quero agradar. Bati no braço dele e tentei me afastar, mas seu corpo ainda me prendia ali. – Sebastian, você acabou de me comer enquanto conversava com seu oficial no comando! – Que foi, achou que homens não conseguiam fazer múltiplas tarefas ao mesmo tempo? Eu o encarei, estupefata. – Não acredito que você fez isso! Ele riu. – E foi gostoso! Não me diga que não gostou, porque ou era você gemendo, meu bem, ou meu oficial no comando estava doente. – Eu… você… isso… inacreditável! Ele se deitou perto de mim, puxando-me sobre seu peito. – Eu nem tirei minhas botas ainda – resmunguei. – Eu também não – disse ele, sorrindo.


Sebastian se sentou e retirou a camisinha, jogando-a na lata de lixo. Em seguida, ouvi o som do zíper dele sendo fechado. Eu ainda estava tentando decidir se estava com raiva dele ou bem comida demais para me importar com o fato de ele ter atendido ao telefone enquanto fazia sexo comigo. Ele foi até o banheiro e eu escutei o chuveiro ligar enquanto ainda jazia estendida na cama. Depois voltou para o quarto, parecendo totalmente relaxado e à vontade. Senti quando ele apanhou meu pé esquerdo e começou a desamarrar os cadarços. Ele jogou a bota por cima do ombro e ela aterrissou com uma pancada. Em seguida, tirou minha meia e sugou meus dedos um por um. – Sebastian – choraminguei. – As preliminares têm que vir antes do sexo. Ele sorriu, mas não respondeu, apenas repetindo os mesmos movimentos com meu pé direito. Então puxou meus jeans e a calcinha. Não foi muito esforço, já que as duas coisas já estavam pendendo do meu corpo. Agora eu estava nua da cintura para baixo. – Muito bom – disse ele, plantando um beijo suave em meu umbigo. Puxando-me, Sebastian tirou minha camiseta por cima da cabeça, depois soltou meu sutiã. – Humm – disse ele, saboreando ambos os mamilos, os olhos cintilando, travessos. Tentei afastá-los com as mãos. – Não comece o que não pode terminar, Sebastian. – E quem foi que disse que não posso terminar? Foi você quem falou que nós deveríamos ser criativos. Estou só fazendo o que me mandaram, senhora. Ele abriu sua pesadas botas de motoqueiro e chutou-as para um canto, arrancou as meias e largou o jeans e a cueca no chão em um movimento rápido. Em seguida, tirou a camiseta, puxando-a por trás do pescoço, depois me pegou no colo e carregou até o banheiro com eficiência militar. O chuveiro estava deliciosamente quente, assim como Sebastian. Ele fez bastante espuma com o sabonete e cuidadosamente lavou cada centímetro da minha pele, parando apenas para me beijar com suavidade. – Você quer mais, Caro? – perguntou ele, sorrindo para mim e sugestivamente massageando entre minhas pernas. – Eu adoraria dizer que sim, mas só quero mesmo dormir. Sexo rústico durante telefonemas sempre me deixa assim. – Sempre? – Sempre. – Humm – disse ele, franzindo o cenho. – Aliás, por que seu oficial estava ligando? O que ele queria a essa hora da noite? Sebastian suspirou e desviou o olhar. – Ele queria saber onde eu estava. – Percebi isso. Por quê? – Sinto muito, Caro. Tenho que estar de volta em Genebra dentro de quatro dias… e depois, para o Afeganistão. – Quatro dias?


Ah, não. – Eu sinto tanto, tanto, meu bem. – Bem, vamos ter que aproveitar ao máximo esses quatro dias então. – Eu vou compensar isso, prometo, Caro. – Sebastian, não se preocupe. Todo dia com você é um bônus. E temos o resto de nossas vidas para ver a Itália. – Promete? – Prometo. Eu puxei-o para meus braços e ficamos juntos no banheiro minúsculo, deixando a água quente fluir sobre nós, tentando reconfortar um ao outro de que tudo daria certo. Em algum momento, a água começou a esfriar e eu fechei o registro. – Venha aqui, deixe-me secar você, tesoro. Sebastian ficou de pé com os braços estendidos, como se à espera de um abraço que não veio. Em vez disso, eu usei a toalha grande e fofa para secar as costas e os ombros, o peito, a barriga, os braços e as pernas; lenta, cuidadosa e metodicamente, absorvendo cada gota de umidade. – Aí está – prontinho. Ele me entregou uma toalha seca para eu me enrolar, depois esfregou cuidadosamente meu cabelo com uma toalhinha de mão. – Você não deveria dormir com cabelo úmido – censurou-me. Suas palavras me fizeram sorrir. – Sebastian, já fiz um monte de bobagens – imprudências, pode-se dizer – desde que te encontrei. Dormir de cabelo molhado não está no ponto mais alto dessa lista. Ele fechou a cara. Ele era tão fofo quando fazia isso! Eu beijei a ponta de seu nariz. – Aposto que chego antes no quarto! Corri do banheiro antes que ele pudesse mover um músculo e me joguei na cama. – Você é tão lerdo, Hunter – caçoei dele. – Está mesmo fora de forma. Talvez devesse dar uma corrida, como disse para o seu oficial no comando. – Amanhã, Caro, eu vou comprar um saco enorme de camisinhas, e vou fazer com que se arrependa de cada palavra que acabou de dizer. Sorri para ele. – Como eu falei, Sebastian, promessas, promessas. Estou sempre ouvindo falar sobre essas maratonas de sexo, mas nada acontece. Os olhos dele se acenderam com o desafio, e eu tive certeza de que viveria para me arrepender das provocações. E estava ansiosa por isso. Bocejei alto e ele pareceu achar graça. Sebastian deitou ao meu lado, o corpo quente e ainda um pouco úmido do banho, puxando os lençóis sobre nós. Aninhei-me a ele, que passou os braços ao meu redor. Fiquei aconchegada a seu peito, nossas pernas entrelaçadas.


– Deus, Caro. Você faz tudo valer a pena – disse ele, beijando meu cabelo. – Graças a Deus que você existe. – Eu te amo, tesoro – murmurei. 4

Flat, na gíria dos surfistas, significa que o mar vai estar liso, sem ondas. (N.R.)


C APÍ TU LO

10

LOGO CEDO, AO ACORDAR, a primeira coisa que vi foi o lindo olhar azul-esverdeado de Sebastian voltado para mim. – Oi – disse ele, sorrindo. – Ciao, bello! Há quanto tempo você está acordado? – Não muito. Só o suficiente para lembrar que sou um desgraçado sortudo. Sorri e me espreguicei, sentindo seu corpo quente contra o meu. – Eu poderia me acostumar com isso, Sebastian, acordar perto de você. Assim que falei isso, senti um bafejo de tristeza. Nosso tempo era limitado. Forcei um sorriso, certa de que a última coisa que Sebastian precisava ver antes de embarcar era uma cara triste e chorosa. – E então, qual é o novo plano, chefe? Quer ver um pouco mais da Toscana, ou devemos ir mais ao norte? Ele pareceu confuso. – E Salerno? – É muito longe, Sebastian. Não temos bastante tempo e você… – Nem a pau! Eu quero ver de onde seu pai veio tanto quanto você. Foda-se a distância, Caro! Vamos para Salerno. Se você tirar seu belo traseiro da cama, podemos estar lá talvez em cinco horas. Senti a atração de Salerno e do sul mais quente. Tentei ser generosa, mas Sebastian mais uma vez enfraqueceu minha resolução, como fazia com tantas coisas. – De qualquer maneira – continuou ele –, estamos sem camisinhas, e por mais que eu goste de ser criativo, eu realmente quero te foder até te deixar torta. – Palavras tão meigas, Sebastian. Como você conseguiu ficar tão sedutor? Ele sorriu para mim. – Não sei, meu bem, mas funciona toda vez.


– Toda vez, hein? Mas, sabe, eu tenho que dizer: ontem à noite não foi particularmente criativo: nós nem mesmo estávamos pelados. Ele riu, feliz. – Não foi criativo? Diabos, Caro, eu consegui manter uma conversa com Cardozo; achei isso criativo pra cacete. – É esse o nome do seu oficial no comando? – Sim, ele é um cara legal. – Deve ter as mãos cheias, lidando com você. – Fiz uma pausa. – Como é a esposa dele? Sebastian sorriu, depravado. – Loira, atraente… com cerca de 40 anos. Por que, está com ciúmes? – É claro – falei, sem me alterar. Ele me beijou suavemente nos lábios, os olhos cheios de amor. – Você não tem nada com que se preocupar, meu bem. Amor, luxúria, paixão – tudo girava dentro de mim, seu toque me cegando de desejo. Eu correspondi ao beijo dele, forçando minha língua entre seus lábios entreabertos enquanto nossos corpos começavam a se mover juntos. No meu quadril, senti o pênis dele se manifestar. Eu o queria muito. Era como ele havia dito: um vício total. – Caro – gemeu ele baixinho, enquanto eu passava minhas mãos sobre suas coxas. – Shh, tesoro. Dez minutos depois, ambos estávamos deitados de barriga para cima, ofegantes. Havia muita coisa boa a ser dita sobre uma rápida explosão de criatividade das mãos à boca antes do café da manhã. Eu estava cheia de uma satisfação quente enquanto Sebastian preguiçosamente afagava minha coxa. – Pronta para se levantar, meu bem? Suspirei, feliz. – Humm, se for preciso. Mas, para falar a verdade, ficaria bem feliz em continuar aqui o dia todo, desde que alguém nos trouxesse comida. E camisinhas. Sebastian me beijou rapidamente no peito, depois afastou os lençóis, o ar frio me fazendo encolher. – Ei! – reclamei. – De pé – disse ele, mantendo-se acima de mim. Depois ele se inclinou e fechou os dentes sobre meu mamilo, puxando gentilmente. – Trapaceiro – resmunguei, tropeçando pela curta distância entre a cama e o chuveiro. Ele deu um tapa no meu traseiro, o que julguei desnecessário; ele já havia declarado seu objetivo. A água não estava quente, o que não nos encorajou a demorar, e eu fiquei de pé no quarto, tremendo de leve enquanto me vestia. – Você não leva muito tempo para se arrumar, não é, Caro? Nem se incomoda em passar maquiagem. Sebastian estava sentado na cama, sorrindo para mim enquanto afivelava as botas. Fiquei levemente surpresa por seu comentário. Será que isso significava que ele queria que eu usasse maquiagem? Que ele achava que eu devia usar?


– Passo, sim, às vezes – respondi, tentando não soar irritada. – Se vou sair para algum lugar mais chique. Mas de modo geral, não. Por quê? Ele deu de ombros. – Nada. Estava só falando. Eu fico louco quando as mulheres passam horas se aprontando para sair. Fiquei aliviada – e aborrecida comigo mesma por me sentir aliviada. Eu era uma mulher moderna, que não precisava da aprovação de um homem sobre meu vestuário. Exceto que talvez… sim, droga! Eu queria a aprovação de Sebastian sobre meu vestuário. Eu ansiava pelo modo como ele olhava para mim, como se nunca tivesse visto nada tão precioso. Talvez eu devesse fazer um esforço um pouquinho maior. Apenas pelos próximos poucos dias: dar a ele as melhores lembranças que eu podia, antes de sermos separados. Jurei comprar um batom e rímel na próxima farmácia ou mercado que encontrássemos. – Lembra-se daquela vez que fomos comprar roupas em San Diego? – disse ele, afastando-me de meus pensamentos autoflagelantes. – Que você precisava comprar um vestido novo? – Ah, claro, eu me lembro disso! A vendedora estava flertando com você. Ele pareceu surpreso. – Estava? Virei os olhos. – Você não se lembra dela perguntando se você era um piloto, de Miramar? Sebastian balançou a cabeça, divertido e intrigado ao mesmo tempo. – Bem, eu não estou surpresa – falei, sorrindo para mim mesma. – Naquele tempo, você não notava outras mulheres flertando com você. Era tão inocente! Não como agora. – Diabos, olha só quem está reclamando, Caro! Foi para você que eu perdi minha inocência – uma mulher gostosa e mais velha. Bati em seu braço. – Você sabe do que eu estou falando. Sua expressão divertida sumiu e ele pegou minha mão e me puxou para baixo, até eu me sentar sobre seu joelho. – Caro, você é tudo o que eu quero. Não precisa se preocupar com outras mulheres. É, eu dormi com um monte de gente, mas sabe do que mais? Era só um jogo. Eu as usava, elas me usavam. Isso fica cansativo depois de algum tempo. – Ele fez uma pausa para colocar meu cabelo atrás da orelha e beijar minha garganta. – Mas talvez eu tenha que caçar aqueles velhos namorados seus e dar-lhes uma surra. Eu ri. – Dois pesos, duas medidas, Sebastian? – Não, apenas dois conjuntos de regras… mas eu estava pensando sobre aquele vestido preto e bonitinho que você comprou. Você ficou uma delícia nele. – Eu ainda o tenho em algum lugar, apesar de não usá-lo há anos. – Deveríamos fazer isso, Caro; ir a algum lugar onde você pudesse se arrumar. Suspirei.


– Eu fantasiava em te ver de smoking. – É mesmo? – Sebastian, eu passei horas demais fantasiando sobre você em… bem… várias situações. E, recentemente, isso se tornou meu novo hobby. Ele riu, deleitado. – Eu nunca usei um smoking. – Nunca? Nem mesmo na sua formatura do segundo grau? – Eu não fui. Ainda não havia te encontrado, e havia me separado de Brenda. Ches também não tinha um par – ele pegou cerveja do Mitch, eu arrumei um pouco de maconha – e nós nos acabamos na praia, em vez disso. Foi uma noite bem legal, acho. Não lembro muito a respeito. Não precisamos de mulher nenhuma – disse ele, olhando para mim com uma expressão astuta. – Mas isso foi antes de eu te reencontrar. – Humm, muito virtuoso de sua parte. Mas você não vestiu um smoking para o casamento de Ches e Amy? – Não. Amy meio que gosta dessa coisa militar, mesmo não querendo que Ches se alistasse. Por isso, pediu que eu e Mitch fôssemos com nosso uniforme de gala. Não sei, acho que ela pensou que ficaria bonito nas fotos do casamento. Ele girou os olhos. – Ela se transformou na “noivazilla”, um pesadelo dos infernos, durante a preparação para o casamento. Ches surtou, achando que estava prestes a se casar com uma maluca. Ela até tentou proibi-lo de fazer uma despedida de solteiro – disse ele, indignado. – Céus, eu me pergunto o porquê… Talvez ela não confiasse em você – falei, com sarcasmo pingando de minha voz. Ele sorriu para mim, malicioso. – É, bem, ela provavelmente estava certa a esse respeito… – Eu não quero saber, Sebastian! Ele me beijou mais uma vez. – E então, o que você acha? – Sobre o quê? – Ir a algum lugar chique, e nos vestir bem? Eu adoraria ver você daquele jeito de novo. – Tudo bem. Vamos fazer isso quando você voltar desse turno. Aí podemos celebrar de verdade. – Vamos fazer isso agora – disse ele, resoluto. – Deve haver algum lugar em Salerno onde você possa comprar coisas de mulher. – Coisas?! – É, vestido de seda, meias 7/8, saltos altos… coisas. E aí eu poderia tirar sua roupa… bem devagar. Os olhos dele se abrasaram ao pensar nisso e meu coração saltou. – Certo, eu faço isso se você fizer também. Vai ter que se arrumar. Ele riu.


– Claro, se eu puder encontrar um lugar que alugue um smoking, por que não? Seria uma bela mudança, em vez de um uniforme. Então ele me beijou rapidamente, me tirou de seu colo e colocou-me de volta no chão. – É melhor irmos. Eu tenho um encontro planejado com uma gostosona. **** Em vez de viajar pela bela estrada costeira, Sebastian dirigiu-se para o interior do continente para pegar a Autostrada del Sole, a estrada que ia de Milão a Nápoles. Estava assustadoramente lotada, com caminhões enormes rugindo perto demais de nós, mas a rota foi projetada para nos levar a Salerno no menor tempo possível. Eu me agarrei a ele e cerrei os dentes. Paramos brevemente bem pertinho de Roma, em um café na beira da estrada onde produziam massa fresca seguindo os padrões de restaurantes, depois seguimos para o sul, passando por Nápoles e chegando ao nosso destino final. Sebastian finalmente estacionou junto à calçada quando a estrada acabou. Atrás de nós, a cidadezinha de Salerno se agarrava às falésias, com construções brancas e quadradas com tetos de terracota. Cintilando abaixo desses prédios, o Mediterrâneo era azul-celeste sob o sol vespertino. Ele tirou seu capacete e espreguiçou as costas antes de descer da moto. Eu sentia como se a moto ainda estivesse em movimento, e meu traseiro tivesse sido moldado no formato da garupa. Sebastian sorriu para mim, depois me ajudou a retirar meu capacete. Era como se tivesse estado submersa e pudesse finalmente ouvi-lo propriamente. – Tudo bem com você, querida? – Estou ótima – menti. – E você? – Bem, bem. Olha, acho que vai ser mais fácil encontrar uma pensione ou um hotel em Salerno do que no vilarejo do seu pai. Estamos a apenas alguns quilômetros, então podemos ir para lá com facilidade amanhã cedo. O que você acha? – Qualquer coisa que não envolva voltar para cima da sua moto parece boa, Sebastian – falei com uma careta. – Meu traseiro já está dormente. Ele me puxou para um abraço e esfregou as mãos sobre a parte em questão. – Melhor, meu bem? – Humm, muito. Ele me beijou de leve. – Então vamos lá, vamos andar um pouquinho. Vamos encontrar um quarto e uma farmácia. – Bom ver que você está com suas prioridades em ordem, Sebastian. – O que eu posso dizer? Fui treinado pelos Fuzileiros Navais, meu bem. Caminhamos pelas ruas iluminadas pelo sol, escutando o ruído do tráfego local, que parecia consistir em motoristas malucos em carros surrados e adolescentes em scooters passeando. Em todo lugar havia gente conversando, fofocando, falando, gritando e agitando as mãos no ar em conversas animadas ao nosso redor. Aquilo me lembrava do meu papa quando ele se empolgava, e eu podia


imaginá-lo ainda criança descendo a colina correndo vindo de seu vilarejo, subindo depois no final da tarde, empoeirado, cansado e feliz. Sebastian jogou o braço sobre meus ombros com posse casual e eu deixei meus dedos se arrastarem em volta de sua cintura. Estava quente demais para usar as jaquetas de couro por muito tempo, por isso encontramos um pequeno café na calçada e nos sentamos, gratos, relaxando sob o sol. – Uma cerveja cairia bem agora – disse Sebastian. Eu não sabia se ele estava apenas comentando ou pedindo minha permissão. De qualquer forma, eu tinha outra coisa em mente. – Esse é o lar do limoncello, Sebastian, o de verdade – feito com limões de Sorrento. Acho que deveríamos provar. – É! – concordou ele, entusiasmado. – Você fazia uns fantásticos para mim quando eu era pequeno. Sebastian franziu a testa, e eu sabia o que ele estava pensando: também não gostava de lembrar de nossa diferença de idade. Dei de ombros. – Claro. Mas esses são alcoólicos. – Dei uma espiadinha de relance para ele e sorri. – Podemos pedi-los com uma jarra de água também. – Parece bom – disse ele, arqueando uma sobrancelha. O jovem garçom se arrastou até nós, parecendo despreocupado se nos serviria ou não. Porém, quando falei com ele em italiano, ele pareceu se alegrar de leve, seu comportamento um pouco menos taciturno. – E você sabe de algum lugar onde poderíamos alugar um quarto por duas noites, nada muito caro? – perguntei com um sorriso. – Talvez meu tio – admitiu ele, surpreendendo-me com um sorriso amistoso. – Vou perguntar para ele. Quando olhei para Sebastian, ele estava de cara fechada para mim. – Você não precisava flertar com ele, Caro – cuspiu ele. Eu o encarei, totalmente atônita. – Como é? Flertar com ele? Eu estava sendo simpática, só isso. – Bem, olhando daqui, não era o que parecia – disse ele, obviamente zangado. Balancei a cabeça, espantada. – Regra número três, Sebastian. Lembra-se das minhas condições para vir nessa viagem com você? Nenhuma exibição de ciúme adolescente. Esqueceu? Ele recostou-se na cadeira e cruzou os braços. Ah, que ótimo: Sebastian emburrado. Eu deveria ter acrescentado isso à minha lista. Nosso garçom retornou com os limoncellos, água e um senhor mais velho com cabelos pretos e pele morena. – Meu sobrinho me disse que vocês estão procurando um quarto. Por quanto tempo? – Apenas duas noites. Aqui na cidade, nada muito chique, embora seria ótimo se o lugar tivesse uma banheira. Estivemos em uma moto o dia todo.


– Eu tenho o lugar ideal – disse ele, feliz. – A vizinha da irmã da minha sogra aluga quartos. A villa dela tem vista para o mar e quartos muito bonitos. Só 50 euros por noite. Eu poderia telefonar para ela, se quiserem. – Obrigado – disse Sebastian, resolvendo assumir o controle. – Vamos dar uma olhada. O tio do garçom, Aberto, logo voltou sorrindo. – Vocês estão com sorte, signore, signora. Ela tem um quarto disponível. Escrevi o endereço para vocês. – Obrigada – falei. – É muita gentileza sua. Ele assentiu e virou-se para sair. – Aberto, posso perguntar outra coisa? Meu pai era de Capezzano Inferiore. Ele foi embora muitos anos atrás, mas eu estava me perguntando, você conhece alguém com o sobrenome Venzi? Prendi a respiração enquanto ele coçava a cabeça. – Não, sinto muito, signora, não conheço esse nome. Eu poderia dar uma olhada na lista telefônica para a senhora. – Obrigada. Isso seria muito útil. Sebastian segurou minha mão enquanto esperávamos pelo retorno de Aberto. – Ah, sinto muito, signora – disse ele. – Não tem ninguém com esse sobrenome na cidade. Há alguns na província, mas ninguém em um raio de 70 quilômetros. Expirei lentamente, sentindo tudo murchar dentro de mim. Que ridículo. Eu havia permitido que minhas esperanças crescessem fora de qualquer proporção. – Obrigada por procurar, Aberto. Ele anuiu e se afastou. – Desculpe, meu bem – murmurou Sebastian. – Eu sei que você havia criado muitas esperanças. – Eu estava só sendo estúpida. Eu só queria… eu esperava conhecer uma parte da família. Ele beijou minha mão gentilmente. – Ei, eu entendo. Sei como é. – Eu nunca te perguntei, Sebastian, mas você tem avós? Nunca mencionou nada assim. Ele encolheu os ombros. – Não, nada do tipo. Os pais da minha mãe morreram quando eu era pequeno; meu pai nunca falava com os dele. Que surpresa. Eu nem sei onde eles moram. – E nunca quis descobrir? – Eu pensei a respeito uma vez. De qualquer forma, não tenho certeza se quero encontrar alguém que tenha parentesco com aquele desgraçado. Além do mais, eles nunca demonstraram nenhum interesse em mim… o que me fez pensar se aquele desgraçado era mesmo meu pai. Não sei… – Ele deu de ombros. – Ches e os filhos dele, Mitch e Shirley, eles sim são minha família. – E Amy – falei, provocando-o. Ele gemeu. – É, e ela está emocionadíssima com isso. – Bem, ela vai ficar muito mais feliz quando mostrarmos para ela o novo e melhorado Sebastian Hunter. Eu poderia dizer a ela que te domei.


Ele me deu um olhar malicioso. – Você está pisando em terreno perigoso aqui, Venzi. Recostei-me e sorri para ele. – Você é tão autoritário quando fala desse jeito, Sebastian. Ele inclinou-se adiante e me encarou. – É, bem, se pudermos encontrar uma merda de uma farmácia, você vai descobrir como eu posso ser “autoritário”. – Não vejo a hora. Tomamos nossos limoncellos e bebemos um pouco de água, enquanto observávamos o mundo passar: iates e barcos pesqueiros no cais; scooters, motos e carros; pessoas de todas as idades, caminhando, conversando, desfrutando o sol da tarde. – Sabe o que deveríamos fazer, Caro? – perguntou Sebastian, esticando os braços acima da cabeça. – Deveríamos seguir até Amalfi. A estrada costeira tem algumas curvas bem maldosas. A gente vê o que a moto pode fazer. Deve ter uma paisagem linda, também. Engoli apressadamente. Eu podia imaginar Sebastian disparando pela montanha e abrindo caminho por outra série aterrorizante de curvas fechadas. – Parece divertido – falei, tentando conter o tremor em minha voz. Eu não o enganei nem um pouco e Sebastian riu alto. – Essa é a minha garota! Depois de pagarmos Aberto, vagamos pela cidade à procura da Via Roma, que acabou sendo uma larga avenida acompanhando o porto. Para o deleite de Sebastian, também encontramos uma farmácia, onde ele comprou duas caixas de 12 camisinhas, para meu eterno embaraço e para a diversão da senhorinha idosa que o atendeu. Acho que ela também pode ter me lançado um olhar de compaixão. Eu senti a cabeça leve quando fiz as contas: 24 camisinhas; 3 noites. Entretanto, também encontrei um rímel barato e um batom na cor cereja escuro. – Estou ansioso para provar esse batom em você mais tarde – sussurrou Sebastian. A villa da Signora Carello era um prédio pequeno mas lindo, esbranquiçado e com vista para o mar, conforme prometido. Eu esperava outra matrona encorpada, mas a signora era uma mulher magra como um cavalo de corrida com talvez 70 anos, cabelos pretos presos para cima e um gosto imaculado para roupas. – Ah, os jovens viajantes que Aberto mencionou. Bem-vindos à minha casa. Por favor, entrem. Deixe-me mostrar-lhes o quarto. Ela nos guiou subindo por uma escada de degraus baixos que pareciam ter sido esculpidos em mármore ou outra pedra polida e cremosa – e abriu a porta para um quarto lindo e etéreo. Uma grande cama branca dominava a área, com camadas pendentes de mosquiteiros e um armário em estilo oriental, feito com um tipo de vime. As portas da sacada estavam abertas e as cortinas flutuavam com a brisa, roçando contra uma pequena mesa de mosaico com duas cadeiras combinando. – Ah, mas isso é adorável!


– Obrigada, signora – disse ela, obviamente feliz com minha reação. – Na verdade, é signorina – falei, sem querer enganar essa mulher encantadora. – Estou trabalhando nisso – disse Sebastian, desafiador, e vi a signora Carello tentar disfarçar um sorriso. – O bagno fica à direita – disse ela, indicando elegantemente uma porta branca. O banheiro era simples e branco, mas, alegria das alegrias, tinha uma banheira esmaltada gigante no meio do recinto, além de um chuveiro no canto. Bati palmas e sorri para Sebastian. – Temos uma moto – disse ele, sorrindo com a minha felicidade evidente. – Tem algum lugar onde eu possa estacioná-la durante a noite? – Ah, eu gostava muito de andar de moto na minha época! – disse ela. – Ah, sim, meu jovem… eu era bastante ligeira quando era mais nova. E Sebastian corou. Corou de verdade. Eu não o via fazer isso há dez anos. Fiquei quase com ciúme da Signora Carello. Ela sorriu agradavelmente para ele e, quando olhou para mim, piscou. Eu sorri de volta. Ah, eu gostava dessa mulher. – Eu vou buscar a moto – resmungou ele. – Sebastian, você se importaria se eu ficasse para tomar um banho de imersão? – Não, tudo bem, Caro – disse ele, animando-se de repente. – Eu te vejo mais tarde. Humm, o que estava passando pela mente astuta de Hunter agora? Dei de ombros e deixei-o descer as escadas de volta, conversando animadamente com a signora. Fiquei deliciada ao ver duas toalhas brancas enormes e fofinhas, prontas para o uso. Abri a torneira imediatamente e tirei minhas roupas grudentas, desfrutando a pedra fria no piso do banheiro sob meus pés descalços. Deixei a água tão quente quanto suportaria, depois entrei na banheira, regozijando-me na sensação. Desejei que Sebastian estivesse ali para compartilhar o momento – e para esfregar minhas costas –, mas também foi maravilhoso poder me esticar. Ensaboei o cabelo, usando shampoo com cheiro de limão do potinho que a signora deixou para nós, e então fiquei de molho por uns bons 30 minutos. A essa altura, a água já havia esfriado; contudo, Sebastian ainda não tinha retornado. Deixei a água escorrer pelo ralo e me embrulhei na imensa toalha, sentando atrevidamente na sacada para aproveitar o sol do final da tarde. Ouvi a máquina mortífera antes de vê-la. Assisti Sebastian dirigir pela rua e parar na entrada da villa, antes de desligar o motor e empurrar a moto para dentro do quintal e para os fundos. Pergunteime o que raios ele estivera fazendo; havia ficado longe por uma era. Eu o escutei subindo as escadas correndo e o chamei. – Você perdeu um ótimo banho de imersão. Eu estou aqui sentada apreciando a vista, pelada, exceto por uma toalha. Ele veio por trás de mim e beijou meu cabelo úmido. – Você demorou um século; estava começando a achar que tinha se perdido. – Eu tinha alguns assuntos a resolver, meu bem.


Virei-me para fitá-lo. Ele sorria como o gato de Alice no País das Maravilhas. – Vamos lá, Hunter, pode falar. Que negócios? Sebastian sorriu e mordeu o lábio, mas eu sabia que ele estava morrendo de vontade de me contar. Levou apenas três segundos antes que ele cedesse. – A Signora Carello me disse onde eu podia alugar um smoking, então estou pronto para amanhã à noite. Vamos ficar chiques, meu bem. – É mesmo? – falei, empolgada. – Onde? Ele sorriu para mim. – Não posso dizer. Nem que você me torture. – Tem certeza sobre isso? Porque acho que posso te torturar, Sebastian. – Eu estava torcendo para que você dissesse isso. Ele me apanhou da cadeira e me carregou para o quarto. Eu passei os braços por seu pescoço e o beijei, faminta. – Eca, você está todo suado! – Ah, é? Alguma objeção quanto a eu te deixar toda suada também? – Absolutamente nenhuma. E essas foram quase as últimas palavras que falamos pelas horas seguintes, embora eu possa ter gemido o nome dele várias vezes. Passamos por três camisinhas e sete orgasmos contando entre nós dois. Eu estava uma calamidade, e não tinha ninguém a quem culpar por isso além de mim mesma. Todas as minhas provocações e zombarias tiveram um belo efeito sobre o chefe. Estava na hora de pagar ou jogar: eu fiz os dois. – Ah, meu Deus, não consigo me mexer! – arquejei. – Porra! – disse Sebastian, que estava um tanto menos loquaz do que o habitual. Fiquei ali ofegante por vários minutos mais. Senti a cama se mover, mas estava exausta demais para abrir os olhos. – Eu sei que você está olhando para mim, Sebastian – resmunguei –, mas seja lá o que for que tenha em mente, pode desistir. Admito qualquer coisa: que você é um animal na cama, que eu nunca, jamais vou duvidar da sua virilidade outra vez… Ele riu suavemente. – Pode duvidar sempre que quiser, meu bem, porque isso só significa que eu terei que prová-la para você. Ele arrastou o lençol por cima de nós e me puxou para seus braços, onde eu me larguei descuidadamente. – Quer ir encontrar algo para comer? – disse ele. – Ir? Você diz, sair do quarto? Não, não. Ideia ruim, muito ruim. Peça delivery. – Acho que eles não fazem delivery para gente pelada em quartos de hotel, Caro. Gemi. – Vamos lá, meu bem, está na hora de se levantar. – Não consigo – choraminguei.


Ele me deixou deitada na cama enquanto tomava um banho; eu estava quase adormecida quando ele voltou. Escutei-o movimentando-se pelo quarto, vestindo-se e calçando um par de tênis em vez das botas de motoqueiro. Sebastian se sentou perto de mim na cama e eu percebi que ele segurava minha camiseta cor de rosa nas mãos. – Não é a sua cor, Sebastian – resmunguei. – Não, meu bem. Eu quero que você vista isso. – Por quê? – Você fica uma gracinha de rosa. Ah! – E eu comprei uma coisa para você enquanto estava fora. Sentei-me, ignorando vários músculos doloridos. – Você me comprou alguma coisa? Pude ouvir o entusiasmo na voz dele, que me entregou uma sacola de compras de uma loja de roupas femininas. – Você me comprou roupas? – Olhe logo dentro da porcaria da sacola, Caro! Enfiei a mão lá dentro e fechei-a sobre uma pequena peça de tecido dobrado: preto com uma estampa de pequenas flores cor de rosa bordadas ao longo de uma borda. Era uma saia; uma minissaia; uma minissaia supercurta. Fiquei estupefata. Era assim que ele me via? Biquínis quase não existentes e microssaias? Essas eram roupas que uma garota de vinte e poucos anos usaria; não eram para mim. Talvez fosse apenas pensamento positivo da parte dele. – Você não gostou? – disse ele, parecendo magoado. – Sebastian, eu… é muito bonita, mas… – Mas o quê? – Não combina comigo. Sou uma pessoa mais chegada a jeans e camiseta hoje em dia. Além do mais, eu não tenho nenhum sapato aqui, só minhas botas de caminhada. Ele sorriu e puxou outra sacola de debaixo da cama. Dentro dela havia um par de sapatilhas de couro preto e macio. E do meu número. – Gostou delas? – perguntou ele, ansioso. Coloquei-as em meus pés nus e estendi-os para mostrar para ele. – E então, vai usar a saia? – disse ele, esperançoso. Pareceu algo muito pequeno para deixá-lo feliz. – Sim, tesoro, vou usar a saia. Levei minhas roupas novas para o banheiro e me encarei no espelho. Eu tinha um medo horrível de parecer uma tigresa vestida de gatinha. Será que todas as mulheres com homens mais jovens se sentiam assim? Como se precisassem se vestir de acordo com a idade de seu namorado? A saia era tão curta que eu mal podia me forçar a olhar para ela, e certamente não seria capaz de me inclinar ou debruçar em público com ela e manter qualquer grau de recato.


Escovei meu cabelo e apliquei um pouco do meu rímel e do batom recém-comprados. Senti-me desajeitada e desconfortável, uma fraude, como se tentasse ser algo que não era. Mas a avaliação de Sebastian foi muito diferente da minha. – Uau! Quero dizer… uau! Você está incrível, Caro. Muito, muito sexy! Ele correu a mão pela minha coxa à mostra e moldou-a ao meu traseiro. – Humm, essa saia é ótima. E está me deixando excitado. – Obrigada pelos meus presentes – falei, pudica. – No entanto, no momento, preciso de comida mais do que preciso do seu corpo, Sebastian. Ele sorriu, beijou meu pescoço e foi até a porta, abrindo-a para mim. – Depois de você, meu bem. O ar noturno ainda estava morno, embora eu suspeitasse que fosse esfriar mais tarde. Eu havia levado um suéter comigo, porém não havia muito a fazer para manter minhas pernas quentes, e eu desejei que não tivesse cedido ao capricho de Sebastian. Não ajudou em nada que dois homens indo na direção oposta tivessem assoviado para mim e lançado cantadas, das mais rudes. Sebastian fechou a cara e começou a se virar, como se fosse partir atrás deles. – Ah, não, olhos para frente, Hunter. Você comprou essa saia, e agora vai sofrer as consequências. Aguente firme. Ele franziu a testa, mas me deixou levá-lo para fora da área de perigo. Quando encontramos uma pizzeria que nos pareceu atraente, não pude evitar reparar que Sebastian certificou-se de me sentar em um lugar onde minhas pernas ficassem escondidas pela toalha de mesa. Falando sobre dois pesos e duas medidas… era quase cômico. E estava na hora de um novo assunto para conversar. – O que quer fazer amanhã, Sebastian? Além da sua surpresa? Ele sorriu, seu bom humor retornando de imediato. – Pensei que podíamos caminhar até Capezzano Inferiore, dar uma olhada por lá. Mesmo que não haja nenhum Venzi por lá, seria legal ver o lugar onde seu pai cresceu, não é? Ele era tão meigo. Um pé no saco, mas muito meigo. Nossas pizzas chegaram: pepperoni para Sebastian, quattro formaggi para mim. Ele também havia pedido uma cerveja light. E então me surpreendeu. – Conte-me sobre sua casa em Long Beach, Caro. Eu não sei por que isso me surpreendeu; talvez porque não parecia fazer parte de “nós”; talvez eu tivesse inconscientemente evitado o assunto. – Ah, claro! Certo. Bem, é pequena, um bangalô em uma área chamada West End. Foi construído há cerca de 90 anos e estava bem dilapidado quando o comprei. Eu restaurei a pérgula na frente para poder me sentar e observar o mar, e no inverno as janelas ficam cobertas de sal por causa do vento vindo do Atlântico. Eu tenho ótimos vizinhos, e eles cuidam do lugar enquanto eu estou longe. Minhas amigas gostam de vir de Manhattan nos finais de semana. Você falou com Nicole, que trabalha em um banco de negócios; também tem a Jenna, que é uma advogada brilhante, mas um amor; e Alice, que é professora de literatura na NYU. Eu a conheci quando estudei lá… Parei subitamente.


– Qual é o problema, Sebastian? Ele tinha parado de comer e me encarava com olhos escuros e raivosos. – Como é que eu vou me encaixar na sua vida lá, Caro? Todas as suas amigas têm essas carreiras incríveis… e eu vou ser apenas um desempregado inútil com um diploma de segundo grau. – Sebastian, não! – Você sabe o que elas vão pensar: Exige-se Músculos, Inteligência É Opcional. – Ei! Ninguém vai pensar isso, e quer saber? Eu não dou a mínima. Sebastian, nós não ouvimos merda suficiente no passado para começar a nos importar com o que os outros pensam agora? Não é isso o que você tem me dito? Ele remexeu-se na cadeira, mas não respondeu. – Sebastian, você me ama? Ele olhou para mim de imediato. – Você sabe que eu amo, Caro. Sempre. – Então, seja lá o que aconteça, nós vamos lidar com isso. Eu lembro vagamente de alguém me dizendo isso. Ah, espere, foi você, dois dias atrás. Sebastian, a única coisa com que minhas amigas vão se importar é com a minha felicidade. Peguei sua mão na minha. – E os seus planos de ser um personal trainer? E, minha nossa, Sebastian, vamos estar em Nova York: você poderia fazer algo incrível com suas habilidades linguísticas. Não vá ficar todo tímido para cima de mim agora, Hunter! Ele respirou fundo, forçando-se a relaxar. – Tá, tudo bem. Desculpe. Eu meio que surtei por um momento aqui. – Eu sei, e entendo. É muito esquisito para mim também, e nós não estamos fazendo isso há muito tempo. Acho que se pode dizer que estamos sem prática para esse negócio de namorar. Eu me sinto muito “não eu” sentada aqui com essa minissaia chocantemente curta, mas tentei, por você. – Chocantemente curta? – disse ele, seu sorriso voltando. Peguei a mão dele por baixo da mesa e deixei que corresse seus dedos pela minha coxa. – É – concordou ele. – Chocantemente curta. – Certo, Colombo, você já descobriu o bastante por um dia – falei, dando um tapa na mão dele para afastá-la quando começou a subir ainda mais. Ele fez biquinho para mim, e eu ri alto. – Venha, tesoro, leve-me para casa. **** Quando retornamos ao nosso lindo quarto e à nossa linda cama enorme, Sebastian fez amor comigo doce e lentamente. Talvez fosse o cenário romântico ou o modo como estávamos gradualmente nos conhecendo um ao outro de novo e derrotando nossos medos um por um, mas a maneira com que ele me tocou parecia ter nova profundidade e intensidade. Eu temia o momento, dali a apenas alguns dias, quando precisaríamos nos despedir. De novo.


Acordamos com outro dia de luz do sol derramando-se pelas janelas abertas. – Ciao, bela – disse ele, copiando as palavras que eu lhe disse no dia anterior. – Ciao – falei, sorrindo para ele. Eu me espreguicei e vários músculos resmungaram para mim. Achei que estivesse em boa forma, mas meu corpo tinha sido trabalhado por um fuzileiro naval dos Estados Unidos por várias horas. Definitivamente, havia algo de bom a ser dito sobre ter os serviços de um personal trainer. A ereção matinal de Sebastian me cutucou na lateral do corpo e sua mão vagou sobre meu quadril. O-oh, segundo round. Ou terceiro. A gente chegou a completar o quarto? Mas que diabos, enfim, repeteco. A Signora Carello nos serviu café da manhã em um terraço pequeno e privativo na lateral da villa. Ela tinha um jardinzinho cheio de buganvílias que estavam entrando em sua plena glória. Nós a convidamos a tomar café conosco, e ela aceitou nosso convite, muito feliz. – E então, esperam encontrar a família em Capezzano Inferiore? – Bem, isso seria a cereja do bolo, mas na verdade, eu só quero ver o vilarejo de onde meu pai saiu. Se eu também encontrar alguém da família, bem… Ela sorriu cheia de compreensão e deu tapinhas em minha mão. – Talvez você encontre família em um outro sentido – disse ela, olhando para Sebastian, que sorriu de volta. Havia vários jeitos de interpretar seu comentário; escolhi ignorar todos eles. Contudo, não foi fácil, com Sebastian sentado de frente para mim e sorrindo. Caminhamos por Salerno, parando para admirar a ordenada fila de iates ancorada no porto. – Eu devia te levar para velejar uma hora dessas – disse Sebastian, olhando para as águas azuis profundas do Mediterrâneo. – Se tivéssemos mais tempo, eu alugaria um barco para nós e te ensinaria a navegar. – Eu já sei navegar – falei, sorrindo para ele. – Apesar de não sair com um veleiro há anos. – É mesmo? – perguntou ele, intrigado. – Eu não sabia que você velejava. – Ah, você não conhece todos os meus talentos ainda, Hunter. Ele sorriu. – Estou ansioso em descobri-los. Mas quando você aprendeu? Droga, eu devia ter mantido a boca fechada. Nós definitivamente estávamos entrando em águas perigosas. – David me ensinou – falei, tranquila. O rosto de Sebastian se anuviou de imediato. – O cretino? Era seu apelido favorito para meu ex-marido. – O próprio. Seu bom humor evaporou e eu suspirei. Eu podia ter previsto essa resposta – eu deveria ter previsto essa resposta. – Foi há muito tempo, Sebastian. E nós concordamos que não podemos mudar o passado, então tire essa cara de bravo, ou eu vou ter que te dar um beijo indecente em público.


Sua expressão se transformou para uma de surpresa, depois escureceu perceptivelmente para luxúria. – Não, ainda estou furioso, Caro. Você vai ter que me beijar. Eu não sei se vai funcionar, mas você pode tentar. Seus olhos me desafiavam. – Tem certeza, Sebastian? – perguntei, em minha voz mais sensual. – Porque eu não quero te deixar todo cheio de tesão reprimido. – Eu vou correr o risco – disse ele, arrogante. Virei-me para encará-lo, ficando tão perto que nossos corpos quase se tocavam. E então, em plena vista de todos, passei minha mão sobre seu traseiro, subi por baixo da camiseta, e arrastei minhas unhas por suas costas. Com a outra mão, puxei sua cabeça em minha direção e o beijei intensamente. E eu posso tê-lo massageado por cima do zíper, fazendo com que inspirasse fundo. – Porra, Caro – sussurrou ele. – Vamos voltar para o nosso quarto agora mesmo. Eu ri. – Não, Sebastian. Essa foi apenas minha técnica de distração, a qual, aliás, eu não aprendi nos Fuzileiros Navais. Ele gemeu e teve que ajustar-se na calça. – Vamos para Capezzano Inferiore agora? – falei, inocentemente. Ele me deu um olhar que avisava: a vingança seria doce. Foi uma caminhada árdua até o vilarejo de meu pai, mas a vista mais do que compensou o esforço. Salerno cintilava como uma joia lá embaixo, o Mediterrâneo era um vidro polido de um azul celeste implausível. No ar cristalino, podíamos ver uma porção de terra no horizonte que, supus, devia ser Anacapri. O vilarejo propriamente dito era quieto e empoeirado: poucos carros passaram por nós, todos dirigindo-se morro abaixo. Havia uma fonte no centro que tossia e cuspia água esporadicamente e um cachorro magrelo se coçando cheio de preguiça. Toda a vida parecia ter vazado do lugar, escorrendo pela montanha para a cidade mais confiante de Salerno. Pela primeira vez, compreendi de verdade por que meu pai poderia ter desejado partir; por que a América, com todos os seus charmes espalhafatosos de Novo Mundo, propagandeados por centenas de filmes coloridos, representou tamanha atração. E talvez por que minha mãe, loira e de olhos azuis, pareceu um sonho digno de ser conquistado. Eu estava ficando triste, e sentia que havia sido um erro vir até aqui. – Não precisamos ficar, Caro – disse Sebastian, apertando meus dedos. Suspirei. – Tudo bem. Eu não sei o que esperava: meu papa sempre disse que era uma cidade de um cavalo só, mas onde o cavalo havia morrido. Acho que ele tinha razão. – Olha, aquele cara logo ali está abrindo seu café. Vamos tomar uma bebida, está bem? O proprietário do café ficou surpreso, mas deliciado por ter clientes. Imaginei que ele não recebesse muitos.


Sebastian pediu uma cerveja e eu optei por um espresso. Talvez uma injeção de cafeína ajudasse a levantar meu humor. A cerveja foi servida em um copo gelado e meu espresso chegou em um bule em miniatura com açúcar mascavo e um copo de água. – Com licença, senhor – disse Sebastian, educadamente. – O pai da minha namorada veio dessa vila. Estávamos pensando se o senhor talvez o tenha conhecido: seu sobrenome era Venzi. O homem coçou a cabeça. – O nome me parece familiar, mas não tenho certeza. Deixe-me perguntar para minha esposa. Ela morou aqui a vida toda. Meu coração começou a bater acelerado e eu me aprumei em minha cadeira, ansiosa. – Não se encha de esperanças, Caro – disse Sebastian, gentil. – Não me encherei – menti, incapaz de conter a súbita expectativa que surgiu. Um momento depois, a esposa do proprietário apareceu. – Buon giorno. Vocês estão procurando a família Venzi? Em que posso ajudá-los? – Eu estava apenas me perguntando… meu pai, Marco Venzi, nasceu aqui. A senhora o conheceu? – Minha nossa! Marco Venzi! Esse é um nome que eu não ouvia há muito tempo. Ele era o menino que partiu para morar na América. Seu pai, você disse? Sim, eu o conheci. Ela o conheceu. Ela o conheceu de verdade. Senti lágrimas surgindo em meus olhos. – É tão empolgante conhecer alguém que se lembra do meu papa – consegui dizer, olhando para o rosto cálido e simpático da mulher. – Sim, fomos para a escola juntos: ele era alguns anos mais velho do que eu, e estava sempre se metendo em encrencas. Ele tinha o diabo no corpo, aquele lá. – A filha dele é igualzinha – disse Sebastian, com um sorriso tranquilo. A mulher riu. – E como vai o querido Marco? Ele fez fortuna na América, como disse que faria? Ele era louco por seus filmes americanos. Disse que seria um grande astro, como o Valentino. – O Sr. Venzi morreu alguns anos atrás – respondeu Sebastian, sabendo que eu estava com dificuldades para falar. – Ah, entendo – disse ela. – Perdoe-me, minha jovem, meus pêsames. Seu pai foi sempre muito animado. Grande demais para essa cidadezinha. – A senhora sabe se ele tinha algum parente aqui? – disse Sebastian. – Bem, havia a mãe dele, mas ela morreu há muito tempo. Marco tinha uma irmã muito mais velha que ele, eu me lembro. Mas ela se casou e mudou-se, acho que para Nápoles. Sinto muito, não consigo me recordar o nome do homem com quem ela se casou, então acho que isso é tudo que posso contar a vocês. Ela assentiu e voltou para o interior escuro do café. Sebastian segurou minha mão, afagando os nós dos dedos com o polegar. – Poderíamos tentar encontrá-la – disse ele, gentil. – Ela pode ter tido filhos. Você poderia ter primos que não conhece. – Sim, eu poderia. Provavelmente tenho.


Fechei os olhos, recordando da felicidade que meu pai sentia em tudo que tinha a ver com a América: a música, os filmes, os programas de TV, os carros – especialmente os carros. Um Cadillac azul-claro enorme havia sido seu orgulho e sua paixão. A porcaria parecia um ônibus para se dirigir. Eu ficava enjoada só de sentar no banco traseiro. No entanto, aquilo havia ficado no passado; estava tudo no passado, e eu planejava agora o futuro. – Não importa, Sebastian – falei, lentamente. – A Signora Carello estava certa: ainda que haja primos, eles não são a minha família. Não de verdade. Eu tenho minhas amigas e tenho você. Você é a minha família agora. Ele abaixou a cabeça e levou minha mão a seus lábios. Em seguida, ficou de pé, tomando-me de surpresa. E naquela pracinha empoeirada, naquela cidade comum e sem graça em que a fonte tossia e falhava e os carros passavam sem um segundo olhar, ele ajoelhou-se em uma perna só. – Carolina Maria Venzi: eu te amo, e quero passar minha vida com você. Quer se casar comigo?


C APÍ TU LO

11

OLHEI PARA BAIXO, ESPANTADA,

enquanto Sebastian se

ajoelhava diante de mim, seu lindo rosto devastado pela ansiedade. Eu podia pensar em uma centena de razões pelas quais me casar com ele era pura loucura, e apenas uma razão pela qual não era. Respirei fundo, expulsando todos os meus temores e dúvidas por pura força de vontade. – Eu também te amo, Sebastian. E a resposta é sim. Ele soltou um grito deliciado e ficou de pé em um salto, puxando-me para seus braços e me abraçando com força, como se nunca mais fosse me soltar. Pousei minha cabeça em seu peito, ouvindo seu coração martelar através de sua fina camiseta. – Vou fazer de tudo para te fazer feliz, eu juro, Caro – murmurou ele. – Tudo, meu bem. Você é a minha vida. – E você é a minha, tesoro. Nós vamos encontrar um jeito. Sempre encontramos. Ele se sentou no assento duro de madeira e me puxou para seu colo, beijando meu pescoço. – Ah, cacete! – disse ele, zangado. – O que foi? Qual é o problema? – falei, nervosa. Será que ele já tinha mudado de ideia? – Eu esqueci de te dar a merda da aliança – rosnou ele. – Cacete! Eu queria que isso fosse perfeito. Droga, eu ensaiei tanto o que dizer na minha cabeça… – Ah, é? Você ensaiou isso? Adorei o fato de ele ter ensaiado. Ele sorriu, levemente envergonhado. – Sim, uma ou duas vezes. Talvez um pouco mais… talvez várias vezes… ah, foda-se, Caro. Veja se a porcaria do anel serve. Não pude conter uma risada de pura felicidade. Além do mais, ele era tão engraçado!


– Você está correndo o risco de me tirar do chão de novo, Sebastian. Como posso resistir a palavras tão meigas? Vou me lembrar do seu pedido para sempre: “Veja se a porcaria do anel serve”. Ele sorriu para mim, depois retirou uma caixinha do bolso de trás, abriu e colocou-a sobre a mesa. Aninhado no cetim azul-escuro havia um solitário de diamante branco-azulado, pequeno, mas de tirar o fôlego, montado em uma aliança simples de ouro. Arquejei vendo o diamante cintilar ao sol, espalhando pequenos arco-íris pela mesa. – Sebastian, é lindo! Onde foi que você o conseguiu… e quando? – Experimente. Ele tirou o anel da caixa e deslizou-o no dedo anular da minha mão esquerda. – Perfeito. – Sim, ele é. Obrigada, tesoro. Eu me virei e beijei-o suavemente, inclinando-me para desfrutar a sensação de seus lábios nos meus. Sebastian parecia ter acabado de escalar o monte Everest ou derrotar as hordas mongóis sozinho. – E então, meu noivo – falei –, o que faremos agora? O modo como o chamei pegou-o de surpresa. – Uau, noivo, hein? Eu não pensei que soaria tão legal. – Discordo, Sebastian. Eu acho que soa sexy. Talvez possamos concordar em discordar, ou simplesmente aceitar que é um título que aceita várias definições. Ele riu alto, o som cheio de um júbilo ridículo e contagiante que era inevitável compartilhar. – Bem, minha noiva, pensei que podíamos visitar aquelas curvas maldosas na costa Amalfi. O que você acha? – Acho que você é maluco, talvez até legalmente insano, e tenho um medo horrível de que seja contagioso. Ele sorriu para mim e se levantou, colocando minhas mãos sob seu braço enquanto descíamos até Salerno. O sol ardia no céu, o ar estava morno e a sensação que me preenchia era indescritível. Eu me sentia calma e, ao mesmo tempo, borbulhante de júbilo; feliz e ansiosa; amada e terrivelmente apaixonada. Estava despencando de um penhasco, do qual me lançara de própria vontade, torcendo para que voasse. Louca de amor. Quando chegamos à villa, a Signora Carello estava em seu jardim, regando as buganvílias. – Deu sorte na procura por sua família, minha querida? – perguntou ela bondosamente. – Dei, sim – falei, olhando estupidamente para Sebastian. A Signora Carello ofegou ao ver minha aliança fulgurando ao sol. – Ah, parabéns! Congratulazioni per il vostro fidanzamento, minhas crianças! Estou tão feliz por vocês. E ela deu três beijinhos em cada um de nós, enquanto Sebastian sorria como se nada pudesse diminuir sua felicidade. – E agora, sua surpresa? – disse ela, dando tapinhas amistosos no braço de Sebastian. Ele deu uma piscadela e assentiu.


Eu senti ciúme por não estar por dentro do segredo, porém não pude evitar de sorrir mesmo assim. – Querem almoçar antes de ir? Eu ia fazer insalata tricolore para mim, e vocês são bem-vindos para comer comigo. Nós nos sentamos no belo jardim da signora, desfrutando da tranquilidade que vinha de dentro. – E então, quando vocês vão se casar? – indagou ela, com interesse legítimo. Respondemos simultaneamente. – Não sei – falei. – O quanto antes – disse Sebastian. A signora riu. – Ah, vocês dois precisam conversar um pouco, estou vendo. Não se preocupem, meus queridos, vocês vão resolver tudo. Já decidiram onde vão morar? – Caro tem uma casa perto de Nova York – disse Sebastian. – Mas eu posso ser enviado a qualquer lugar. – Você está no exército? – Não, senhora, nos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. A Signora Carello anuiu lentamente, um vinco de preocupação entre seus olhos. – Ele precisa cumprir mais dois anos – falei, olhando para meu prato e tentando impedir que minha voz tremesse. – E está sendo enviado para o Afeganistão. Na quinta-feira. – Ah – disse ela, balançando a cabeça com tristeza. – Ei, vai dar tudo certo – disse Sebastian, enfatizando a última palavra. – Além disso, talvez eu a veja por lá. A Signora Carello ficou confusa. – Caro é uma repórter, uma correspondente internacional – disse Sebastian. – Mas eu queria que ela… Ele parou no meio da frase. – Bem – disse a signora, resoluta – vocês, jovens, não escolhem o caminho mais fácil, e sim seu próprio caminho. Desejo tudo de bom aos dois. Por favor, voltem aqui para a sua lua de mel. – Lua de mel! – disse Sebastian, como se tivesse acabado de ganhar na loteria. – Inferno, eu tinha me esquecido disso! Sim, nós definitivamente deveríamos ter uma lua de mel, Caro. Com serviço de quarto, para não precisarmos sair da cama. Fiquei imensamente embaraçada por ele ter dito aquilo na frente da signora, mas ela apenas riu e ele piscou para ela. Quando a Signora Carello levou os pratos de volta para a villa, dei uma cotovelada nas costelas de Sebastian. – Não fale essas coisas na frente dela – vai deixá-la envergonhada! Sebastian riu. – Você é a única que ficou com vergonha, Caro, o que é bem engraçado. A Signora Carello era “ligeira”, lembra-se? De qualquer maneira, não falei nada que não fosse verdade. E então me lembrei de que a signora já havia limpado nosso quarto naquela manhã e me encolhi, pensando na grande quantidade de camisinhas jogadas na lata de lixo. Ah, Deus, que vergonha! O


comentário inconveniente de Sebastian reduzia-se a nada quando comparado à evidência mais tangível de como tínhamos passado nosso tempo. Pegamos nossas jaquetas de couro do quarto arrumado e Sebastian calçou suas botas pesadas antes de sairmos para a “surpresa”. Ele estava tão sexy, curvado para fechar as fivelas. O que havia de tão especial em jeans, botas e jaquetas de couro? Perguntei-me como seria correr pelas ruas da parte chique de Nova York na máquina mortífera de Sebastian. Isso, sim, seria divertido. Fiquei intrigada quando a signora nos encurralou na porta da frente e tornou a nos beijar, sussurrando algo para Sebastian e dando tapinhas em seu braço. Tive a distinta impressão de que eles haviam planejado algo juntos; sem dúvida, o charme Hunter e o amor italiano por intrigas estavam aprontando alguma. A costa Amalfi era como um imenso cenário de James Bond. Estradas estreitas e vertiginosas subiam pelo arco da montanha, com os penhascos caindo no mar, centenas de metros abaixo. Agarrei-me a Sebastian enquanto ele fazia as curvas com uma velocidade aterrorizante. Eu podia notar que ele estava se divertindo, mas meus olhos estavam fechados e meus dentes, cerrados com tanta força que eu temia espremê-los até virarem pó de giz ou saírem voando da minha boca como amendoins. No topo do caminho, acima da cidadela de Pontone, Sebastian saiu da estrada perto de uma plantação de limões e desligou o motor. – É uma vista magnífica, meu bem. Quer pegar sua câmera? Abri os olhos e tirei o capacete. Ele tinha razão: era deslumbrante. E, com minha pressão sanguínea voltando ao normal, senti-me capaz de capturar a assombrosa paisagem na lente. Tirei algumas fotos de Sebastian também, todo bad boy perto de sua moto. Subi um pouco mais para pegar algumas vistas do oceano; quando desci pela montanha, fui surpreendida ao ver Sebastian procurando por algo em uma das bolsas laterais da moto. – Você não quer rodar mais um pouco? – perguntei, confusa. – Não, vamos ficar por aqui. Piquenique – disse ele, sorrindo e segurando uma mini garrafa de champanhe em uma das mãos e duas taças de cristal na outra. – Emprestadas da Signora Carello – explicou ele, em resposta à minha expressão curiosa. – Acho que a signora tem um fraco por você, Sebastian. – Deve ser meu magnetismo animal. Movi os olhos para ele. – Ei, não zombe! Funciona com você. – Lá isso é verdade, chefe. Ele nos levou para uma área de grama seca e fofa e abriu a champanhe. A rolha saiu voando como um foguete, fazendo com que nós dois nos abaixássemos. – Humm, acho que chacoalhou um pouco no caminho. É, e não foi a única coisa a ficar chacoalhada, pensei, impiedosamente. Ele serviu a champanhe, enchendo as taças até a metade com espuma e bolhas. – A nós, Caro – disse ele, suave e sério. – Hoje, amanhã, sempre. Promete? – Sim, tesoro. Sempre, eu prometo.


Ficamos sentados muito acima do Mediterrâneo como se estivéssemos no topo do mundo, bebericando nosso champanhe e conversando baixinho, trocando promessas e palavras de amor. Depois ficamos nos braços um do outro, sentindo o sol quente em nossos rostos. – Amei minha surpresa, Sebastian – falei, contente. Ele riu baixinho. – Isso é só uma parte dela, Caro. Tem mais. – Mais? – Muito mais. – Como o quê? – Você vai ver. Com a cabeça leve pelo passeio e pela champanhe, montei de novo na motocicleta e descemos na direção do mar. Dessa vez, reuni minha coragem e consegui abrir um olho enquanto Sebastian corria montanha abaixo, entrando nas curvas com o que me parecia uma velocidade imprudente. Chegamos ao vilarejo Conca dei Marini sem incidentes e, para minha surpresa, Sebastian estacionou na entrada do Il Saraceno, um hotel tão grandioso que eu tinha certeza que sua clientela era formada pelos grandes e os bons, os ricos e belos. Sebastian se encaixava ali à perfeição – especialmente com os últimos. Eu estava empoeirada e manchada de viagem, como se acabasse de cruzar o Saara no lombo de um camelo fedido. O Il Saraceno agarrava-se aos despenhadeiros, uma série de arcos semelhantes a fortalezas que imitavam a arquitetura mourisca de Granada. As vistas para o mar perigavam provocar um ataque de tontura. – Aqui? – perguntei, incerta, ciente de que meu cabelo parecia um ninho de pássaros amassado. – Aqui – disse ele com um sorriso. Fiquei surpresa quando ele retirou as bolsas da moto e entregou as chaves de sua máquina para um homem na recepção. Não conseguia imaginá-lo permitindo que outra pessoa a estacionasse; imaginei que o manobrista fosse simplesmente empurrá-la até o estacionamento. O recepcionista sorriu e entregou um envelope para Sebastian, junto com a chave de um quarto. – Vamos ficar aqui? Mas deixamos todas as nossas coisas com a Signora Carello! – Na verdade, não deixamos, não. Eu pedi para a signora fazer nossas malas enquanto estávamos fora hoje cedo. Ela concordou. Além do mais, isso foi meio que ideia dela. Bem, ela me ajudou a escolher um lugar especial. – Mas um lugar assim deve custar uma fortuna, Sebastian! – Eu posso pagar, meu bem. Essa é a minha primeira noite como um homem noivo, e quero desfrutá-la. Ei, não se preocupe. As únicas coisas em que gastei meu salário nos últimos dez anos foram bebidas e motos. Está tudo bem. O que não era a questão, mas ele estava tão animado que não tive coragem de discutir. No entanto, a surpresa não terminou aí; quando chegamos ao nosso quarto, Sebastian me tomou em seus braços e insistiu em me carregar pela porta; seu gesto, maravilhosamente romântico, me deixou sem fôlego.


A cama era imensa, com quase 2,20 metros de largura. Eu nunca havia visto nada assim; entretanto, rapidamente fiz planos para como poderíamos utilizá-la. Mal reparei na opulência do resto do quarto, no lustre e nas longas cortinas que isolavam nossa sacada privativa. O banheiro, por si só, era um ensaio sobre a magnificência: uma enorme banheira de hidromassagem, mais uma ducha com hidromassagem. Ambas eram feitas de mármore e poderiam provavelmente acomodar todo um time de futebol. Eu mal podia esperar para experimentá-las com meu próprio fuzileiro naval particular. Sebastian abriu as portas dos armários e não pareceu nem um pouco surpreso ao ver dois cabides já com roupas, ambos envoltos em plástico, pendurados lá dentro. – Esse é para você, meu bem. Encarando-o, pasma, um sorriso espalhando-se em meu rosto, abri a embalagem que ele me entregou, revelando um vestido de noite longo e estonteante em um tom azul muito escuro. – Sebastian, isso é lindo! O que você fez? Ele sorriu para mim. – Eu também tenho roupas novas. Um smoking, como você queria. Só que a minha é só alugada. Já o vestido é seu. Estendi meu lindo vestido na cama e envolvi seu pescoço em meus braços. – Como é que você pode ser tão perfeito, Sebastian? Por que eu podia ter jurado que você era um pé no saco. Ele riu. – Da próxima vez que eu te irritar, vou relembrá-la do que acabou de dizer, meu bem. O que provavelmente vai acontecer nos próximos cinco minutos. – Provavelmente – concordei, sorrindo. – Venha, vamos tomar um banho, depois quero te ver naquele vestido. – Ora, chefe! Você quer me ver vestida? – Você tem outras ideias? – murmurou ele, junto ao meu pescoço. – Ah, sim, definitivamente, e elas envolvem você pelado naquela cama, e eu fazendo tudo, tudo o que quiser com você antes de tomarmos um banho. O sorriso dele ficou ainda maior. – Então, deixe-me ver se entendi direito, Caro, são duas porções de tudo? – O negócio é o seguinte, Sebastian – falei, acariciando seu rosto e vendo sua expressão divertida se transformar em uma de luxúria –, se você vai fazer de mim uma mulher honesta, eu quero acumular o máximo possível de pecados antes. Empurrei-o para a cama, caso ele ainda não estivesse na mesma página que eu, e arranquei sua camiseta pela cabeça, amando o momento em que seus olhos se acenderam de desejo. Eu me ajoelhei por cima dele, depois deslizei a língua desde sua cintura até a garganta, fazendo um desvio delicioso para mordiscar seus mamilos. Sim, dois podiam jogar aquele jogo. Agarrei seus pulsos com as mãos e segurei-os acima da cabeça, prendendo-o. Depois me abaixei para beijá-lo, traçando seus lábios suaves com a língua e deixando seu hálito morno soprar sobre mim.


– Humm, você tem um gosto tão bom, Sebastian, que não vou querer comer mais nada essa noite. Ele riu de leve e gentilmente soltou suas mãos antes de passá-las pelas minhas costas. – Ah, é? Bem, eu estou faminto, então a menos que você queira que eu coma lá embaixo sozinho, meu bem, vai ter que aguentar uma refeição de três pratos. E eu garanto que vai precisar de energia mais tarde. Fiz beicinho para ele. – Tem certeza que não quer a entrada agora? Ele não respondeu com palavras, mas moveu as mãos até minha cintura, soltando minha camiseta, e puxou-a por cima da minha cabeça. Ela aterrissou no chão, enquanto ele abria meu sutiã com uma mão só. Houve uma época em que sutiãs representavam um pequeno desafio para ele. Não mais. – Humm, eu gosto dessa posição – disse ele, sentando-se e beijando, depois sugando meus mamilos com força. Eu gemi e arqueei as costas, empurrando meus seios em suas mãos. Ele pegou uma camisinha no bolso da calça e entregou-a para mim. – Tire sua calça, meu bem. – Eu tiro a minha se você tirar a sua – respondi, provocante. – Quero ver quem acaba primeiro! Saí de cima dele com um pulo e rapidamente desamarrei minhas botas, abandonando meu jeans e a calcinha no chão em tempo recorde. – Ah, inferno – resmungou Sebastian, lutando para desafivelar as botas. – Você é lerdo, Hunter – zombei. – Olha só o que está perdendo. Dei uma rápida voltinha, o que não ajudou na concentração dele. – Cacete! – sibilou ele, pulando pela cama, um pé descalço, o outro de bota. – Talvez você devesse ter sido bombeiro em vez de fuzileiro naval; assim estaria acostumado a tirar a roupa com rapidez. Houve um ruído alto quando sua segunda bota caiu no chão, e um momento mais tarde a calça e a cueca seguiram o mesmo rumo. Droga, ele estava lindo ali de pé, alto e ereto, gostoso e diabólico. Eu definitivamente queria um pedacinho. – Deite na cama – mandei. – Sim, senhora. Resolvi prová-lo um pouquinho, sentindo seus quadris se arquearem para cima e minha boca se encher. Certo, talvez um pouquinho não bastasse: seu gosto era levemente salgado, a pele sedosa e deliciosa. Segurei a camisinha na mão e continuei a desfrutar da sensação de sua ereção entre meus lábios, em minha boca, sob minha língua inquieta. Corri as unhas por seu peito, para cima e para baixo, enquanto continuava a acariciá-lo com a boca. Estava começando a me ressentir da intrusão de nossas amiguinhas de borracha e me perguntei quando seria o melhor momento para começar a tomar as pílulas anticoncepcionais: talvez um mês antes de ele voltar para casa em sua próxima licença? Essa seria uma surpresa boa para ele. Um presente de boas-vindas para nós dois.


– Meu bem, eu vou gozar se você continuar fazendo isso – rosnou ele, a voz tensa. Ah, eu havia me distraído completamente do que fazia. Humm, melhor não admitir isso. Soltei-o e me sentei, observando o rápido movimento de seu peito enquanto Sebastian tentava se controlar. Antes que ele tivesse a chance, rolei a camisinha nele e me posicionei sobre ele, afundando lentamente. Muito lentamente. Ele gemeu de leve e debrucei-me para beijá-lo. Ao mesmo tempo, ele flexionou os quadris para cima, preenchendo-me e massageando-me no lugar exato, fazendo com que a sensação se espalhasse por mim. – Porra, Caro! Eu não consigo me controlar com você! Ele começou a mover os quadris ritmicamente, jogando-me para cima enquanto eu forçava-me para baixo, em contraponto a ele. Sebastian atingiu o clímax rapidamente e usou os dedos para garantir que eu o acompanhasse. Desabei sobre o peito dele. – Desculpe, meu bem – disse ele, arquejante. – Não tem por que se desculpar – ofeguei, impressionada por conseguir emitir uma frase completa e coerente. Ele sorriu e acariciou minhas costas. – Preparada para o prato principal? – Você deve estar brincando comigo, certo, Hunter? Eu ainda estou… – e meu corpo se contraiu ao redor dele. – Ah, uau! – disse ele, arregalando os olhos. – Eu senti isso, senti muito. – Bom – falei, meio rabugenta. – Eu também. Ele riu e me retirou de cima dele, sentando-se. – Vou tomar um banho. Com olhos anuviados, observei-o desfilar até o banheiro palaciano, retirando a camisinha. Olhei para minha mão e vi o anel ainda não familiar no dedo. Eu ainda não sabia muito bem como aquilo havia acontecido. Contudo, a sensação era boa. Parecia certo. Explicar para minhas amigas, no entanto, seria interessante. Balancei a cabeça: diabos, explicar para mim mesma seria no mínimo interessante também. Ouvi a porta do banheiro se abrir outra vez e Sebastian saiu, secando-se. Na verdade, a aparência dele e o modo como ele olhava para mim – aquilo era explicação suficiente para nosso noivado impetuoso, até onde me dizia respeito. – Que foi? – perguntou ele, sorrindo. – Só me perguntando como diabos eu acabei noiva de um fuzileiro naval tão gostoso. Foi uma semana intensa, chefe. Ele franziu a testa. – Você não está se arrependendo, não é, Caro? Balancei a cabeça. – Não, Sebastian, não estou. Mas você tem que admitir que foi tudo muito rápido. – Foram dez anos, Caro – disse ele, sério. – Eu já esperei o bastante.


A resposta dele me chocou: ele tinha um jeito de simplesmente interromper meus surtos. – Eu te amo tanto, tesoro – falei. Os olhos dele se suavizaram. – Eu também te amo, Caro. Agora arraste essa bunda para o chuveiro, antes que eu te jogue lá. – Certo, certo – resmunguei. – Estou indo. Ele esperou até ter certeza de que eu estava mesmo me mexendo. – Encontro você no restaurante, Caro. – Não vai me esperar aqui? – Não. Eu quero ver você descendo aquela escadaria com todos aqueles desgraçados te desejando, e saber que sou eu quem vai te levar para a cama mais tarde. – Ele viu a expressão no meu rosto. – Faça só para me agradar: é uma coisa de homem. Balancei a cabeça. Francamente! Quando saí do banho, o quarto estava vazio exceto pelo meu lindo vestido, que Sebastian havia deixado estendido na cama. Eu não quis pensar como ele tinha ficado tão bom em escolher roupas femininas. Cacei pelas gavetas até encontrar um secador de cabelo. Por sorte, eu tinha alguns grampos em minha bolsa e, após alguns erros iniciais, consegui prender o cabelo em um coque razoavelmente elegante. Percebi que Sebastian deixara outras sacolas na cama. O que diabos ele havia feito agora? Dentro da primeira estava o conjunto mais requintado de sutiã e calcinha de seda prata, chique e obviamente de marca boa; devia ter custado uma fortuna. Eu nunca havia possuído nada tão glamoroso em minha vida. Na segunda sacola havia um par de sapatos de cetim de salto alto, no mesmo tom de azul que o vestido. E do meu tamanho. É claro. Fiquei com medo de pensar no tamanho do buraco que isso abriu nas economias de Sebastian. As coisas ficariam muito mais apertadas quando estivéssemos casados. Casados. Eu não tivera tempo para pensar no que isso realmente significava. Fui casada por 11 anos, a partir dos 19, e esses tinham sido anos difíceis e infelizes. Eu prometera a mim mesma que jamais me casaria de novo; e não tinha intenção nenhuma de me envolver com um homem das forças armadas. Não, nunca, de jeito nenhum. E, no entanto, aqui estava eu: prometendo ficar com Sebastian para sempre. Ajudava saber que ele não planejava continuar nos Fuzileiros Navais para sempre, porque de maneira alguma eu desejaria morar numa base militar de novo, apesar de meu fascínio para reportar e escrever sobre elas. Havia tantas coisas que Sebastian e eu precisávamos resolver: ambos ficamos solteiros por tanto tempo que fundir nossas vidas não seria fácil. Eu prometera a ele que daríamos um jeito. Ele merecia ser amado por tudo o que era. E por algum motivo maluco, ele também me amava. Vesti a minúscula calcinha prateada, apreciando o sussurro do tecido transparente sobre minha pele úmida. O sutiã abraçou meus seios e pareceu incrivelmente sensual. Aquilo me fez sentir sexy, e Sebastian escolheu aquelas peças. Eu percebi que era assim que ele me via, como alguém desejável, alguém que ele desejava. Bem, essa noite eu faria meu melhor para estar à altura dessa expectativa.


Passei um pouco de rímel, xingando quando apliquei um borrão na bochecha. Tive mais sorte com o batom. Por algum milagre, consegui comprar um com aplicação cremosa e que não borrava. Pela segunda noite seguida, o rosto de uma estranha olhava para mim no espelho. O vestido, porém… ah, o vestido era algo completamente diferente. Era fluido e ia até o chão, com um decote profundo nas costas e perigoso na frente, com um recorte na altura da coxa que só se revelava quando eu andava. Ainda assim, era costurado de um modo tão inteligente que eu me senti segura – bem, eu não temia que algo fosse revelado por engano. Mas tinha certeza de que não estaria a salvo de Sebastian mais tarde. Droga, eu estava ansiosa por isso. Torci para que ele não rasgasse nada quando tirasse minha roupa, porque aquilo seria uma vergonha. Antes de sair do quarto, coloquei o pacote de camisinhas na mesa perto do meu lado da cama – elas precisavam ficar onde pudéssemos encontrá-las na correria. Agora, se eu conseguisse descer pela escadaria principal sem quebrar o pescoço naqueles saltos ameaçadoramente altos… Respirei fundo e deixei a segurança de nosso quarto. No topo das escadas, olhei para baixo. Minha respiração saiu em um tropeço. Pensei ter atravessado alguma brecha no tempo, porque à minha frente o meu surfista amante da diversão, meu fuzileiro naval rude, durão e sexy havia se transformado em um cavalheiro do século XIX. Ele estava vestido de preto. A calça era debruada com uma estreita fita branca de cetim; um paletó de smoking elegante e ajustado pousava sobre seus amplos ombros sobre uma fina camisa de algodão piquê. Uma gravata borboleta preta acentuava ainda mais sua beleza. E a mulher com quem ele conversava parecia despi-lo com os olhos antes de arrastá-lo para seu quarto. Olhei minha concorrência. Ela tinha talvez dois ou três anos a menos que eu, vestida dispendiosamente em um top roxo de frente única do tamanho de um lenço, com pantalonas longas e sensuais. Não havia dúvida de que ela possuía o corpo para exibir um traje tão vistoso; contudo, se eu quisesse ser crítica, diria que seus seios tinham o formato, volume e movimento de bolas de praia; que seus dentes tinham sido clareados a ponto de poder causar cegueira; e que ela tinha garras falsas que poderiam remover uma córnea a cem passos de distância. Mas só se eu quisesse ser crítica. E que porra ela estava fazendo, flertando com meu noivo? Comecei a ficar seriamente furiosa quando ela pousou uma mão predatória no braço dele, em um gesto aparentemente amistoso. Vi Sebastian se virar de leve, de modo que ela foi forçada a retirar a mão. Tive vontade de comemorar: ele não estava interessado na vadia de pele alaranjada. E então ele olhou escada acima e seus olhos se arregalaram quando me viu, antes de seu rosto se abrir em um sorriso imenso. A mulher Fanta virou-se para ver o que ele estava olhando e, se um olhar matasse, eu teria caído ali mesmo, encolhida. Mas não me encolhi. Lancei para ela um sorriso pequeno e magnânimo, antes de abrir caminho escada abaixo. Sebastian veio até o pé da escadaria para me encontrar e tomou minha mão, levando-a aos lábios. – Você está linda, Caro.


– Obrigada, gentil senhor. Ele ofereceu o braço. – Posso acompanhá-la no jantar, senhora? – Ora, pode, sim. A mulher laranja parecia ter engasgado em um gambá morto. É, você mesma, mocinha! Sebastian reluzia de felicidade, apesar do brilho em seus olhos ainda ser malicioso. Eu tinha certeza, naquela noite, que eu refletia o júbilo dele, eu o sentia escorrer sobre mim; regozijava-me nele, banhava-me nele. Naquele momento, naquele instante, não havia nenhum outro lugar no mundo em que eu preferisse estar. O salão de jantar era primoroso, um pedaço de perfeição, com o Mediterrâneo a seus pés. As cadeiras eram forradas de linho combinando com as toalhas de mesa, e os guardanapos estavam dobrados em formatos como a mitra de um bispo. Sebastian me guiou para uma mesa em uma pequena alcova, onde as janelas em arco davam para o pôr do sol sobre o mar. Um garçom apressou-se a puxar minha cadeira, mas Sebastian o dispensou, cuidadosamente me sentando ele mesmo, antes de roçar os lábios em meu ombro nu em um beijo suave e prolongado. – Mal posso esperar para tirar você desse vestido – sussurrou em meu ouvido, enquanto deslizava um dedo frio do meu lóbulo até a base do pescoço. Então ele se sentou à minha frente e sorriu, arrogante. – Todo homem nesse salão te quer, Caro. Estou tão orgulhoso que não consigo parar de sorrir. – Humm… bem, acho que talvez você não seja imparcial. Pensei que ia precisar de um pé de cabra para retirar aquela mulher de você. Sou eu, ou ela exagerou no bronzeado artificial? Porque eu não tinha visto aquele tom de laranja fora de uma revista de carros turbinados. Ele arqueou as sobrancelhas. – Minha garota tem coragem. Gostei de ver. – Tive vontade de girá-la por aí pelo aplique no cabelo. Talvez eu esteja pegando um pouco do seu treinamento de fuzileiro naval só de ficar junto. – Isso vem depois do prato principal – disse ele, confiante. – Obrigada pelo dia de hoje, Sebastian – falei, ficando séria. – Foi… perfeito. Obrigada. Ele sorriu para mim do outro lado da mesa. – Demorou para acontecer, Caro, mas valeu a espera. Vi nos olhos dele que estava falando sério. – Onde você arranjou esse anel lindo? – murmurei, admirando o modo como ele cintilava em meu dedo. – Porque eu não vi nenhuma loja em Salerno que… – Eu não o comprei em Salerno – disse ele, me interrompendo. Meu queixo caiu de surpresa. – Onde, então? – Genebra – disse ele, sorrindo para mim, totalmente descarado. – Sabe quando eu deveria estar naquela porcaria de reunião chata sobre ambiente hostil, aquela que me deram como parte da minha


“reabilitação” depois de Paris? – Ele arqueou uma sobrancelha. – Depois que eu te vi… não pude encarar voltar para lá. Fiquei simplesmente vagando por ali, tentando me acalmar, e vi o anel em uma joalheria. Fiquei estupefata. – Mas… você ainda me odiava! Ele balançou a cabeça com veemência. – Eu nunca te odiei, Caro, apesar de ter tentado; e eu tentei mesmo. Mas não consegui. Ele suspirou e esfregou as mãos no cabelo. – Aquele anel está queimando no meu bolso desde então. Eu estava apenas esperando pela hora certa para te entregar. Pisquei para conter as lágrimas. Hoje não era uma noite para choro, embora eu tivesse certeza que elas viriam nos dias solitários que se seguiriam. – Você sempre teve tanta certeza – sussurrei. – Não entendo o porquê. – Eu já te falei, Caro – disse ele, suavemente. – Sempre foi você, só você. Estendi o braço, admirando o anel lampejando sob a luz do lustre. – Obrigada por dá-lo para mim. Ele pegou meus dedos e beijou o anel. – Obrigado por usá-lo. O garçom do vinho chegou com uma garrafa de um Prosecco com jeito de caro e abriu-a com um floreio discreto. Sebastian ergueu sua taça e observou as bolhas efervescendo. Então olhou para cima, fitando-me nos olhos. – Graças a Deus por você, Caro – disse ele, a voz baixa e pungente de sinceridade. – E por você, Sebastian, semper fidelis. Conforme as horas passavam, a tensão que estivera tão breve e lindamente ausente de nossa relação começou a retornar. Mais uma vez nosso verão estava nos escapando, e podíamos contar o tempo restante em minutos e segundos. Amanhã, o sonho terminaria – contudo, por enquanto, a noite ainda era nossa. Eu tinha que me lembrar disso. Jantamos antipasti di frutti di mare; como primo, um ravióli com abóbora e amêndoas com sálvia; como secondo, um ragu di pecora que derretia na boca. Enquanto isso o sol se punha, afundando no mar sob nós. Era um final perfeito e comovente para alguns – poucos – dias mágicos. Subimos a grande escadaria de mãos dadas e meu cavalheiro me acompanhou até nosso quarto. Eu esperei que ele voltasse a ser meu amante sensual e muito físico, porém ainda restava uma surpresa. Ele me levou até a sacada, onde duas taças de licor Galliano lampejavam à luz de uma única vela. E perto delas, em um vaso de cristal, estava uma rosa cor de rosa perfeita. Em silêncio, ele me entregou a bebida e pegou a segunda para si mesmo. Seu olhar era abrasador e não se desviou do meu. O líquido dourado queimou ao descer por minha garganta, mas a ardência não foi tão intensa quanto a maneira como meu noivo olhava para mim.


Ele terminou sua bebida e colocou a taça de volta na mesa, apanhando a minha. Com uma expressão que fez meu corpo formigar e minha garganta secar, ele estendeu a mão e me levou na direção da cama. Em silêncio, ele encaixou as mãos em volta do meu rosto e me beijou até eu ficar tonta e sem fôlego. Em seguida me virou e pousou as mãos em minha cintura, gentilmente abrindo o zíper do vestido, afagando minha pele nua enquanto o tecido escorria para o chão. Eu saí da pilha de tecido e o encarei fixamente enquanto os olhos de Sebastian subiam e desciam por meu corpo. Minha vez. Aproximei-me dele e deslizei seu casaco por sobre os ombros, jogando-o na cadeira. Soltei uma ponta da gravata e abri o primeiro botão da camisa enquanto ele me olhava nos olhos. Ele beijou meu pescoço, seus lábios quentes fazendo frêmitos de desejo me percorrerem; depois abaixou-se, apanhou-me em seus braços e me carregou para a cama. Eu fiquei deitada, assistindo enquanto ele abria os punhos da camisa, depois lentamente abria cada botão, jamais desviando os olhos dos meus. Ele tirou a camisa e meu cavalheiro voltou a ser um soldado, suas plaquinhas de identificação cintilando à luz das velas, sua tatuagem, uma forma escura na pele dourada. Sebastian debruçou-se para desamarrar os sapatos e retirar as meias, depois se aprumou olhando para mim em silêncio, cheio de espanto no rosto. Eu me sentei e enganchei o dedo na cintura da calça dele, puxando-o para mim. Sustentei seu olhar enquanto abria o botão e abaixava o zíper. Ele empurrou o tecido sobre os quadris e jogou a calça preta na cadeira com o casaco. Com Sebastian à minha frente, eu podia ver os músculos definidos de sua barriga, o peito movendo-se a cada respiração. Deixei meus dedos vagarem por sua pele nua e senti um tremor percorrê-lo; sua respiração ficou presa na garganta e seus olhos adejaram e fecharam-se. Empurrei sua cueca para baixo e ele se livrou da peça. O jeito como ele olhou para mim me tirou o fôlego. Desejo, necessidade, amor e luxúria: as emoções corriam por seu lindo rosto, a luz das velas lançando sombras que destacavam a simetria perfeita de seus malares. Eu me sentei, passando os braços ao redor da cintura dele, e depositei leves beijos por seu peito e sua barriga antes de descer para beijar suavemente a ponta de sua ereção. Ele respirou fundo e fechou os olhos. Beijei-o de novo, depois estendi a mão para procurar uma camisinha. Abri o pacote e lentamente rolei-a sobre toda a sua ereção. Ele sentou-se junto de mim na cama e com cuidado tirou cada grampo do meu cabelo, um por um, até minha cabeleira cair sobre os ombros e as costas. Então ele enfiou os dedos compridos em meu cabelo e inclinou minha cabeça para trás para beijar meu pescoço. Suas mãos viajavam pelo meu corpo e senti quando suas mãos soltaram meu sutiã, deslizando as alças pelos meus ombros antes dele se abaixar para beijar meus seios. Afaguei seu cabelo curto e


macio enquanto Sebastian continuava a correr a língua ao redor e por cima de meus mamilos, provocando-os até deixá-los rígidos. Deitei-me na cama, meus braços estendidos acima da cabeça, e ele se ergueu sobre mim, sua ereção cutucando de leve na entrada do meu sexo antes de ele descer por meu corpo, beijando tudo no caminho: peito, barriga, deslizando a língua pela borda da minha calcinha de seda e roçando o queixo sobre meu monte. Ele enganchou os dedos sob o tecido delicado e jogou a peça para trás. Sebastian beijou-me doce e suavemente, depois refez o caminho, subindo. Ergui meus joelhos, pronta para ele, correndo as mãos por seus antebraços e bíceps fortes, contornando sua tatuagem com um dedo. Suas placas de identificação tiniram baixinho quando caíram em meu peito e o corpo de Sebastian assomou sobre o meu, seus olhos presos aos meus. Ele me penetrou devagar e eu gemi, sentindo seu corpo me preencher. Elevei os quadris, recebendo aquela extensão extra, e escutei-o exalar abruptamente. Sebastian olhou em meus olhos, as mãos afagando meu rosto, enquanto seus quadris se moviam, flexionando de modo rítmico. Meu corpo tremeu em resposta e ele abaixou a cabeça para me beijar profundamente, sua língua contorcendo-se com a minha. Ele recuou de leve, beijando meu pescoço, e girando os quadris para que cada parte de mim o sentisse lá dentro. Contraí meus músculos ao redor dele e recebi um rosnado dele como resposta. Um gemido baixo escapou de minha garganta e o corpo dele reconheceu o som, movimentando-se um pouco mais rápido. Ergui os quadris outra vez e ouvi o ar escapar em um sibilo entre os dentes cerrados de Sebastian. Gritei, à beira de todas as sensações; aí ele enterrou a cabeça em meu pescoço e começou a arremeter rapidamente até alcançar o clímax e seu corpo se enrijecer. Por um momento, seu peso total, esmagador, prendeu-me à cama. Então, com um suspiro suave, ele retirou-se de meu corpo e rolou, deitando-se de barriga para cima, uma das mãos por cima da barriga. Nenhuma palavra foi dita; não havia nada que precisasse ser dito. Pelo resto da noite, nós dormimos, acordamos brevemente, fizemos amor e voltamos a dormir, até que a aurora deixasse o céu dourado e púrpura, com chamas alaranjadas refletindo no mar. Tínhamos conversado em silêncio, descrevendo nosso amor e expressando nossa necessidade um pelo outro com nossos corpos. Dormimos até tarde e Sebastian insistiu em pedir um café da manhã suntuoso com uma dúzia de frutas frescas, vários pães de azeitona e pães leves, suco de laranja fresco com limões de Sorrento e um grande bule de café. Sentamos na sacada ainda em nossos robes para desfrutar do banquete, mas nossa felicidade descuidada havia partido com a noite. Hoje precisávamos voltar a Genebra. E amanhã, a essa hora, Sebastian estaria partindo para um dos países mais perigosos do mundo. Eu seguiria assim que pudesse. Suspirei, olhando para o mar, e Sebastian segurou minha mão, levando-a aos lábios de tempos em tempos.


– Por mais que eu odeie dizer isso, tesoro, acho que devemos ir. Temos uma bela distância a cobrir, e você não dormiu muito na noite passada. Ele sorriu à lembrança. – Sim, mas valeu a pena. De qualquer forma, não se preocupe, Caro, não vamos de moto; vamos voltar de avião, partindo de Nápoles. Nosso voo é às 16hs; temos bastante tempo. – Voo? E a moto, como fica? – Eu a vendi, meu bem. Não posso levá-la comigo, e eles não vão me mandar de volta para Genebra depois desse turno. Fiquei estarrecida. – Quando você organizou isso tudo? – Quando estávamos em Salerno; não achei que você se importaria. – E não me importo. A moto é sua. Mas gostaria que você tivesse me contado – seria algo a menos com que me preocupar. Ele sorriu para mim. – Desculpe, meu bem. Acho que estou acostumado a fazer as coisas por conta própria. Franzi o cenho. – É. Eu também. Acho que vamos ter que praticar essa coisa de compartilhar e comunicar. Vou te escrever todos os dias, tesoro. – É mesmo? – disse ele, parecendo contente e surpreso. – Isso seria legal. Eu nunca recebo cartas. Bem, Shirley sempre me manda um cartão de aniversário, mas isso é tudo. Ches é uma merda nisso de manter contato. Eu também. – Bem, eu espero um esforço de sua parte, Sebastian. Você vai conseguir me mandar e-mails? Ele fez uma careta. – Talvez, não tenho certeza. Por alguns dias, mas depois… Estarei fora de contato. Caro, não se preocupe se não tiver contato comigo regularmente. – Ele fez uma pausa, observando minha expressão. – Os lugares aonde eles me mandam podem me manter longe da Base principal por dias, às vezes semanas, em vilarejos de merda tentando persuadir os locais a trabalharem conosco. Comunicações não militares são limitadas. Suas cartas vão me alcançar, eventualmente, mas é provável que os e-mails não sejam tão frequentes. – Compreendo – falei, um calafrio se arrastando por meu coração. – Mas em caso de emergência, qual é o procedimento para contatar você? Vi que ele estava brincando com uma resposta. – Vou te dar um número para o qual você pode ligar, mas só em caso de uma emergência real e fodida, Caro: eu não deveria dar esse número para ninguém. – Tudo bem – falei baixinho, depois endureci meus nervos para fazer a pergunta seguinte. – Se… se acontecer alguma coisa que eu precise saber, alguém sabe como entrar em contato comigo? Ele recostou-se na cadeira e fechou os olhos. – Funciona do mesmo jeito que pra você, Caro. Temos que montar uma lista de chamadas – o Formulário de Contatos de Emergência – de pessoas a quem notificar. Estive pensando como colocar


você. Digo, não posso te colocar como Lee Venzi ou Caro Venzi porque vão reconhecer o nome e começar a fazer perguntas, e você pode ficar encrencada. – E que tal Carolina Hunter? – sugeri, olhando para ele. – Eles vão apenas presumir que sou uma prima ou algo assim; na verdade, por que não faz isso? Coloque meu nome como parente. Vi, pela expressão no rosto dele, que Sebastian estava torcendo para eu fazer a sugestão. Ele sorriu. – É, isso funcionaria bem. Eu odiava ter que conversar sobre essas coisas, mas era importante, muito importante. – Ei, meu bem, nada vai me acontecer. Eu posso cuidar de mim mesmo. Estou mais preocupado com você. Repórteres são… feridos o tempo todo. – Eu sei, Sebastian, mas estarei integrada a uma unidade dos Fuzileiros Navais de Leatherneck; é o lugar mais seguro para se estar. Ouvi dizer que os Fuzileiros Navais dos Estados Unidos são durões, e sei que eles são bonitos. Na verdade, essa “integração” pode ser bem interessante… Percebi que ele não sabia se ria ou fazia uma carranca. – E você fique longe daqueles safados, Caro. São um bando de tarados. – Eu reparei! Mas não se preocupe com isso, de verdade. Eu aprendi a dizer “não” em mais línguas do que você. Ele pegou a minha mão e mexeu no anel. – Bem, pelo menos eles vão saber que você é comprometida quando virem isso aqui. Eu não respondi. Ele ficaria magoado se soubesse que eu não planejava usá-lo; não podia contar a ele que chamaria atenção demais. Eu poderia cobrir o anel com um band-aid, ou usá-lo no pescoço, pendurado em uma corrente – minha própria identificação, exclusiva. – Por quanto tempo você acha que vai ficar no Afeganistão? – disse ele, ainda passando o dedo sobre o diamante. – Presumindo que meus papéis cheguem – falei, dando a ele um olhar que Sebastian, sabiamente, ignorou –, algo entre quatro e seis semanas. Não mais do que isso, certamente. Terei dois dias em Cabul, talvez em Candahar também, para me encontrar com alguns dos seus comandantes. Depois espero conseguir pegar uma carona até Leatherneck. Só preciso ver como vai ser. Talvez eu te encontre por lá. Ele franziu a testa. – Eu quero você em casa, a salvo, Caro. – Digo o mesmo, Sebastian. Fitamos um ao outro, cientes de termos chegado a um impasse. Ele balançou a cabeça e mudou de assunto. – Quer sair para nadar? – perguntou, de súbito. – Estarei só Deus sabe a quantos quilômetros de uma piscina por lá, e a centenas de quilômetros do mar. – Claro – falei, aliviada com o novo assunto. – E de bônus, vou ver você naquela bermuda espalhafatosa de surfe outra vez. – E você vai usar o biquíni? – Só se você prometer não esmurrar ninguém que olhe para mim.


– Isso eu não posso prometer, meu bem – falou ele, sorrindo. **** O tempo passou rápido demais, e pareceu que apenas alguns momentos mais tarde estávamos sentados na traseira de um táxi, indo para o aeroporto de Nápoles, a uma curta distância dali. Era estranho voltar a viajar de carro e, por mais que o estilo de direção de Sebastian me desse pavor, eu senti saudades da máquina mortífera – tinha sido muito sensual sentir o corpo rijo dele por baixo da jaqueta de couro, minhas coxas travadas em volta dele. Perguntei-me se ele pediria que sua outra moto fosse enviada da garagem de Ches. Torci para que sim. Eu queria que ele sentisse que seu lar era em Long Beach, não em uma pilha de caixas em San Diego. Decidi abordar o assunto. – Sebastian quando você acha que vai contar para Ches a nosso respeito? Ele virou-se para olhar para mim, um leve vinco em sua testa. – Não sei. Por quê? – Bem, eu estava pensando que podia pedir para que suas coisas fossem enviadas da Costa Oeste, mas isso seria complicado de organizar se Ches não souber sobre mim. Ele piscou para mim, surpreso. – E tem alguns lugares lindos no norte de Nova York onde podíamos passear na sua outra moto… se você quiser. Um sorriso feliz espalhou-se pelo rosto dele. – Você faria isso? Fiquei confusa com a pergunta. – É claro. Por que não faria? Você vai precisar das suas coisas quando vier para casa. Não entendi a surpresa de Sebastian; ele balançava a cabeça e sorria para mim. – Tudo bem. Vou mandar um e-mail para ele essa noite – disse ele, sorrindo. – Ele vai ficar surpreso pra cacete. Eu ri. – É, acho que isso resume a situação, no mínimo. Ele puxou meu rosto para o dele e me beijou vorazmente, ignorando o fato de que nosso motorista tinha uma vista desimpedida pelo retrovisor. O aeroporto era uma estrutura pequena e moderna de aço e vidro, com apenas uma pista. Fomos separados pela segurança e eu assisti ansiosamente à distância enquanto Sebastian era revistado e interrogado. Foi só quando ele conseguiu persuadi-los a olhar para seu cartão de identificação como fuzileiro naval americano que eles finalmente o liberaram. Ele sorriu enquanto caminhava até mim. – Acho que tenho cara de criminoso ou algo do tipo. – Eu podia ter te contado isso – caçoei. – Fico contente que não era uma das mulheres da segurança, senão você nunca teria se livrado. Ele girou os olhos.


O voo foi curto, menos de duas horas, e estávamos de volta a Genebra: sem carro, sem moto e sem sol. A cidade era muito mais fria do que o sul do Mediterrâneo, porém eu também me sentia fria por dentro. Nosso tempo juntos agora podia ser contado em horas. Pegamos um táxi até o quarto ao estilo sótão de Sebastian; fiquei na porta enquanto ele abria as janelas e deixava a luz rala e cinzenta do crepúsculo nortenho entrar no recinto. Ele viu a expressão chocada em meu rosto. – Podemos fazer check-in em um hotel, Caro. – Não, tudo bem. Não é o quarto… – Não diga, Caro – pediu ele, suavemente. – Por favor, meu bem. Eu não suporto quando você me olha desse jeito. – Desculpe – murmurei. Fiz um esforço para me acalmar, pelo bem dele. – Então, uma cama de solteiro, hein? Isso vai ser aconchegante. Teremos que improvisar. Ele sorriu para mim, agradecido. – Só preciso fazer minha mala, meu bem, aí vamos procurar um lugar onde comer, está bem? – Claro, vá em frente. Vou fazer umas anotações e checar minhas mensagens. Como era de se prever, eu tinha longos e-mails de Jenna e Alice implorando para confirmar se era verdade que: a) eu tinha encontrado um homem; b) eu tinha realmente feito sexo com ele; e c) se ele podia mesmo ser o gostosão da foto. O e-mail de Nicole foi muito mais curto e tão explícito nas exigências por informação que eu virei a tela do laptop, desviando-a de Sebastian, caso ele olhasse nessa direção. Havia também uma mensagem do meu editor avisando que minhas credenciais estavam a caminho e que eu tinha um voo marcado para Cabul 12 horas depois de Sebastian. Decidi não contar a ele, sabendo que isso só lhe daria mais motivos de preocupação. Ou pior, que tentaria me atrasar de novo, a despeito do quanto negasse. Embora eu me perguntasse se ele havia mesmo intercedido, afinal, para acelerar a liberação de meus documentos. Sebastian não levou muito tempo para fazer as malas; possuía muito pouca coisa. Ele não precisaria de suas roupas civis nem da maioria dos livros, que foram encaixotados para envio de volta aos Estados Unidos; tudo o mais estava em sua mochila. – Pode ficar aqui, se quiser – ofereceu ele, um tanto contrito. – Está pago até o final do mês. A proprietária é a madame Dubois. É só deixar a chave com ela quando você for embora; não tem problema. – Obrigada, vou fazer isso. Ele sorriu, feliz em poder fazer algo por mim. – Algum e-mail interessante? – Todas as minhas amigas estão babando em cima da sua fotografia – falei, passando por cima da notícia de que meu editor havia entrado em contato. – Elas não conseguem acreditar que você é real. Nem eu, às vezes. Ele sorriu e me puxou para um abraço.


– Eu poderia provar para você agora mesmo, se quiser – disse ele, pressionando de leve contra meu corpo. Eu não respondi, passando as mãos na frente de seu jeans e apertando sem muita gentileza. Suas sobrancelhas voaram para cima, fazendo-me rir. – Sexo em vez de comida, Caro? – Sim – falei, beijando seu pescoço. – Não sei o que me deu. Você deve ser uma má influência. Ele correspondeu com entusiasmo, e eu já havia tirado sua camisa quando a porcaria do telefone dele tocou. Reconheci o toque – era um que eu jamais esqueceria –, o do comandante de Sebastian. Eu teria que ter uma palavrinha com esse sujeito. Ergui as mãos, derrotada, e Sebastian fez uma carranca ao atender. – Hunter. Sim, senhor. Acabei de chegar em Genebra. Ele ouviu atentamente por quase dois minutos sem falar nada. Eu estava me contorcendo de curiosidade, desesperada para saber o que seu oficial dizia, certa de que tinha relação com o lugar aonde ele seria enviado. Ele terminou a ligação com um breve: – Sim, senhor. Depois olhou para mim. – Vão me pegar às 5 horas. Passei os braços em volta de seu pescoço e me agarrei a ele. Ficamos juntos, de pé, imóveis, precisando daquela proximidade por quanto tempo pudéssemos. Em algum ponto, Sebastian beijou meu cabelo. – Vamos comer – disse ele, baixinho. Assenti, sem falar nada. Saímos para a noite estremeci com o ar da montanha. Sebastian segurou minha mão e caminhamos lentamente, a cordilheira atrás de nós uma sentinela silenciosa de nosso sofrimento. Ele me levou para um bistrô pequeno e íntimo onde o dono o cumprimentou com familiaridade, parecendo surpreso ao vê-lo acompanhado. – Eu venho aqui quase todo dia – disse ele, dando de ombros. Eu reparei que seu quarto não dispunha de cozinha, nem de utensílios. Na verdade, ele não tinha sequer uma chaleira. Meu amor vivia com frugalidade. Tentei aliviar o clima, querendo que ele se lembrasse de nossa última noite juntos por algo que não fosse a dor esmagadora que eu sentia. – Humm, me parece que você precisa de aulas de culinária, Sebastian. Quando você vier para casa, para Long Beach, vamos nos divertir com comida. Os olhos dele cintilaram, travessos. – Sim, isso seria ótimo! Lembra daquela cobertura de chocolate que você comprou? Aquilo foi incrível – e eu nem gosto muito de chocolate. Se bem que o gosto em você estava fantástico. – Não fale assim comigo, Sebastian. Chocolate é assunto sério para mim. Ele sorriu. – Certo, entendi. E que tal manteiga de amendoim?


Franzi o nariz. – Eu compro um pouco para você. Lisa ou crocante? – Crocante – respondeu ele, fazendo a palavra soar indecente. Sorri, feliz por vê-lo planejando nosso futuro, desejando que ele viesse o quanto antes, desejando que as coisas fossem diferentes. Não nos demoramos no bistrô. Apesar de o lugar não estar lotado, não queríamos passar nossas horas preciosas com mais ninguém. O quarto de Sebastian estava pouca coisa mais quente do que do lado de fora quando subimos aquele lance estreito de escadas pela última vez. Estremeci. – Com frio, meu bem? – Um pouco. Podemos ligar o aquecimento? Ele sorriu para mim. – Não tem aquecimento. Eu o encarei, pasma. – Não? Nem um aquecedor elétrico? Ele balançou a cabeça, divertido. – Não se preocupe, Caro. Eu te esquento. E quem precisa de aquecedores quando Sebastian Hunter estava disponível? Escovei meus dentes no banheiro gelado e saltei na cama estreita, ainda vestindo camiseta e calcinha. Sebastian era muito mais resistente, caminhando pelo quarto nu. Fartei meus olhos, tentando fixar aquela imagem em minha mente e tive que me conter para não pegar minha câmera para uma recordação mais permanente. Relembrei que tinha muitas fotos para guardar dos últimos dias: imagens e lembranças, lembranças muito boas. Ele deitou-se junto de mim, envolvendo meu corpo no seu. – Sabe, Sebastian, embora eu realmente aprecie o show, você vai ter que vestir mais roupas em casa. Ele franziu a testa. – Por quê? – Porque – falei, girando os olhos – eu moro num bangalô. E tenho vizinhos idosos. Nós temos vizinhos idosos, e não quero que você dê um ataque cardíaco neles. – Certo, chefa – concordou ele, sorrindo. Por outro lado, vai ser uma lástima perder esse show toda noite. Inferno, eu podia comprar cortinas mais espessas. Ele me puxou contra seu corpo e me beijou lenta, profunda e seriamente. E então fizemos amor, repetidas vezes, indispostos a desperdiçar um segundo que fosse sem que nossos corpos estivessem conectados intimamente. Sebastian moveu-se devagar dentro de mim, enchendo-me centímetro a centímetro, girando os quadris de modo que eu pudesse senti-lo em cada parte de meu ser. Depois ele deitou-se de costas,


puxando-me consigo. Ele pousou as mãos retas sobre minha barriga enquanto eu me arqueava em cima dele. Coloquei minhas mãos sobre as dele. – Pode sentir você lá dentro de mim? – Posso – disse ele, sorrindo. – Posso, sim. Ambos nos lembramos de que eu havia dito essas palavras para ele na primeira vez em que fizemos amor, quando seus olhos estavam arregalados com inocência do mesmo jeito que agora estavam com experiência. Rápido demais a noite terminou. Ainda estava escuro quando o despertador o chamou. Sebastian o preparou para o último horário possível, precisando de cada minuto comigo, assim como eu precisava dele. Insisti em me levantar e tomar banho com ele, deslizando minhas mãos sobre seu corpo uma última vez. Então assisti enquanto ele se vestia. Meu amante se tornou o soldado, vestindo seu uniforme cáqui para o deserto. Era a primeira vez que eu o via com a roupa que ele usaria em combate. Eu queria gritar e chorar e me agarrar a ele e implorar para que não fosse. Não fiz nenhuma dessas coisas. Puxei-o para mim, beijei-o várias e várias vezes, e disse a ele o quanto eu o amava, várias e várias vezes. – Tesoro, leve o meu amor, mas leve isso também. É bobo, mas eu sempre carrego isso comigo quando saio de casa, e agora tenho o seu anel para usar. Entreguei a ele uma pedrinha de quartzo polido. – Eu a encontrei na primeira vez que fui para Long Beach. Ele fechou os olhos e beijou meu cabelo. – Eu nunca tive algo para que voltar, Caro. Não se preocupe comigo, mas cuide-se. Ele beijou a pedrinha e guardou-a no bolso. – Eu te amo, tesoro. Fique a salvo para mim. Uma buzina soou na rua lá embaixo. – Hora de ir, meu bem. Te amo. Assisti da janela enquanto ele jogava a mochila no carro que esperava por ele. Por um segundo ele olhou para cima, para mim, e então se foi.


C APÍ TU LO

12

ASSISTI AO CARRO DELE DESAPARECENDO

na alvorada e o vazio que senti dentro de mim espalhou-se ao meu redor. Deitei na cama de Sebastian, sorvendo o odor dos lençóis que ainda continham o cheiro dele, estendendo as mãos para o frio vazio onde ele havia dormido, e chorei até alcançar um estupor exausto. Ele tinha ido embora; quando e onde nos encontraríamos de novo estava fora de nossas mãos. Eu esperava, desesperadamente, é claro, vê-lo no Afeganistão; porém, depois disso, longos seis meses separados um do outro parecia o mais provável. Tentei dizer a mim mesma que havíamos suportado dez anos. O que eram mais alguns meses? Com o sol subindo mais no céu frio e cinzento, forcei meus olhos a se abrirem e olhei em volta para o quarto vazio. Minha garganta doía de tanto chorar e a pele do meu rosto estava esticada pelas lágrimas salgadas. E daí? Siga em frente. Faça seu trabalho e faça-o bem. Apesar da minha bronca mental, o espelhinho de barbear de Sebastian ofereceu uma visão de olhos vermelhos e inchados, contornados por círculos escuros. Fiquei contente por ele não poder ver como eu estava terrível. Perguntei-me onde ele estaria agora. Provavelmente a caminho de algum aeroporto militar na Alemanha, antes de ser engaiolado em um avião C5 desconfortável destinado ao transporte de soldados com talvez até 200 outros como ele por seis ou sete horas. As posses de Sebastian estavam empilhadas em duas caixas, prontas para envio para os Estados Unidos. Abri uma delas e coloquei dentro o lindo vestido de noite e os sapatos combinando, a lingerie prateada e a minissaia que ele comprou para mim. As sapatilhas eu levaria comigo. Coloquei o resto do meu equipamento sobre a cama, conferindo e reembalando tudo para a partida. Eu havia mantido escondido de Sebastian meu colete à prova de balas. Ambos conspiramos para a ilusão de que nosso trabalho não era nada com que se preocupar, nada a temer – um passeio no parque. Esconder as evidências da mentira a tornara mais fácil. Eu adquiri o colete após minha primeira visita ao Sudão, quando descobri que o equipamento padrão não cabia em alguém que não fosse um soldado de 1,90 metro e 90 quilos. Após duas


semanas usando equipamento do tamanho errado dia e noite, fiquei com uma dor nas costas que parecia terminal, abdominais que teriam emocionado um bodybuilder e sem seio nenhum. Meu equipamento sob medida era levemente menor, mas só um pouco mais leve. Era azul, para me distinguir dos militares, apesar de isso ser uma espada de dois gumes: eu não seria alvejada por ser soldado ou espiã, porém às vezes jornalistas e pessoal não militar eram vistos como um alvo mais valioso. Até insurgentes conheciam o valor das relações públicas. O resto do meu equipamento era, talvez, um pouco excêntrico; no entanto, era baseado na experiência de várias outras incursões a ambientes hostis. Quando trabalhava dentro de zonas militares americanas, eu sempre incluía tabaco Copenhagen Black como presente para os soldados designados a me protegerem. Aprendi que muitos dos homens, especialmente aqueles do sul, apreciavam esse pedacinho de casa. Também carregava comigo pílulas de alho, um dos melhores jeitos de evitar picadas de mosquitos e insetos, e vários pacotes de chiclete para contrabalançar o remédio. Eu tinha um par de chinelos de dedo, úteis para caminhar em pisos onde as baratas dominavam à noite; um sarongue grande que podia servir como toalha, lençol leve, saco de dormir ou mosquiteiro; e uma camisa masculina que ia até os joelhos, a qual eu usava em países muçulmanos para oferecer algum recato sobre camisetas minúsculas. Tentei usar uma burca, mas descobri que não conseguia correr assim. E, de alguma forma, me pareceu mais desrespeitoso aos costumes locais do que simplesmente demonstrar que compreendia sua cultura e me cobrir. Eu sempre carregava um lenço de cabeça preto; era útil por todo o espectro, desde as igrejas católicas em Portugal até os bazares em Bagdá. Shampoo seco era um luxo no que dizia respeito a meus colegas homens, mas para mim, era a diferença entre me sentir revoltantemente suja quando não havia chance de tomar um banho por dias e ficar um pouco menos imunda. E graças aos céus por quem quer que tenha inventado os lenços umedecidos. Outro item não essencial era um humilde vidro de molho de soja tamari. As pessoas riam de mim quando eu pegava meu vidrinho, mas depois de comerem ração pronta para consumo três vezes por dia por duas semanas, o sabor que meu molho de soja podia adicionar fazia de mim a pessoa mais popular do pedaço. Chutney de manga também era um sucesso. Eu também carregava óleo de lavanda, tapa-ouvidos, uma máscara para os olhos e um colchão fino inflável que um capitão do exército americano me deu – eu o beijei quando percebi o quanto era confortável. O que não era algo que eu ia contar para Sebastian. Seu ciúme estava sempre perto da superfície; eu precisava me lembrar disso. Não que eu gostasse de ver esse lado dele, mas droga, como isso me fazia sentir querida. Tentei manter a mente no trabalho – pensar nele só me deixaria em lágrimas de novo. Chequei meus suprimentos de primeiros socorros: pílulas contra desidratação eram importantes, mas uma das coisas mais úteis para uma mulher era um copo menstrual, para aqueles momentos desconfortáveis em que absorventes externos ou internos eram impossíveis de arranjar. Por estranho que pareça, eu normalmente também carregava comigo camisinhas; nunca precisara delas para mim mesma, mas as dera para meus colegas com certa regularidade. Eu planejava comprar algumas em Genebra enquanto esperava pelos meus documentos, mas encontrei com Sebastian antes. Engraçado o jeito como as coisas são.


Também mantinha cópias de meu passaporte e distintivo da imprensa, e imprimiria uma dúzia de cópias das credenciais quando chegasse ao aeroporto. Eu também mantinha imagens escaneadas de documentos importantes, que eu enviava por e-mail para uma conta secreta à qual só eu tinha acesso. Havia mais um trabalho importante a fazer. Liguei meu laptop e, com relutância e algumas lágrimas, apaguei todas as fotos de Sebastian e eu da minha câmera, do pen drive, do laptop e do telefone, enviando as imagens por e-mail para a mesma conta particular. Eu não podia arriscar que alguém as visse e o identificasse como um fuzileiro naval dos Estados Unidos. Fiquei altamente tentada a poupar uma foto para poder olhar, mas não valia o risco para nenhum de nós dois. As lágrimas recomeçaram a cair quando, uma por uma, as fotografias que gravaram todos os nossos poucos dias de felicidade foram apagadas da memória da câmera. Eu sabia que Sebastian também não tinha uma foto minha. Tudo o que ele tinha era a minha estúpida pedrinha. De repente, aquilo me pareceu terrivelmente importante e fiquei contente por tê-la dado para ele. Encarei meu lindo anel de noivado, depois retirei-o do dedo, colocando-o em uma corrente fina de ouro ao redor do meu pescoço, onde eu podia imaginar que ele estava próximo ao meu coração. E eu estava pronta. **** Segui as instruções de Sebastian para enviar seus pertences para casa e devolvi a chave da porta para uma idosa confusa que atendeu à campainha no apartamento da senhoria. Sorri e expliquei que o monsieur Hunter havia partido. Ela ficou me perguntando se ele tinha voltado para a América e, no final, achei que era a explicação mais fácil a dar. Eu não sei quem ela pensou que eu fosse, mas apertou minha mão e deu-me dois beijos no rosto. Meu táxi me deixou no aeroporto 90 minutos antes do meu voo. De Genebra, eu voaria para Frankfurt e dali apanharia um fretado para Cabul com uma companhia aérea turca. Havia alguns voos comerciais para o Afeganistão, e eu esperava me sentar com homens e mulheres a serviço da Otan ou com engenheiros, empreiteiros particulares, médicos e construtores tentando reconstruir o país, pobre e despedaçado, além de alguns afegãos bravamente voltando para casa. Quando tocamos o solo no Afeganistão, eu já estava viajando há quase 18 horas. Dormi um pouco no avião durante a noite, mas estava exausta, embora também ansiosa e empolgada. Dei minha primeira boa olhada em Cabul. Era uma cidade esparramada e próspera, agachada no fundo das montanhas Koh Daman, no Hindu Kush. Várias das casas feias, parecendo caixotes, que começavam a subir pelas encostas eram feitas do mesmo amarelo poeirento do solo. Era uma cidade de contrastes, com palácios antigos perto de poucos arranha-céus modestos; casinhas de lama aninhadas ao lado de complexos chamativos; aleias estreitas levavam a estradas amplas e modernas, lotadas com veículos de todas as marcas, idades e estados de conservação; a opulência moderna caminhava lado a lado com a pobreza bíblica. Homens de relógio Rolex tinham os para-brisas de suas Mercedes lavados por crianças descalças. A ajuda internacional inundou o país desesperadamente pobre de dinheiro, mas a distribuição deixou


muito a desejar; cochichava-se que bilhões de dólares de ajuda haviam vazado do país para contas numeradas particulares em bancos suíços. As ruas estavam cheias de gente seguindo a vida: mulheres com lenços azuis cobrindo a cabeça; homens em uma mistura de trajes tradicionais e roupas ocidentais. Carros despejavam fumaça no ar quente e seco, e motos com tapetes nos bancos passavam rugindo, ignoradas pelos burros puxando carrinhos e os rebanhos de cabras que pareciam vagar livremente. O onipresente ruído de gente conversando, discutindo e vendendo suas mercadorias fluía de fileiras de portinhas mal iluminadas. Contudo, em todo lugar havia sinais da guerra: prédios atingidos por bombardeios, paredes com buracos de balas; e áreas feias e queimadas onde carros tinham sido usados como armas, explodindo e espalhando fragmentos de metal quente sobre os azarados que estivessem mais próximos. O carro blindado que me apanhou no aeroporto fortemente protegido agora me deixava em um complexo de estacionamento seguro no Mustafa Hotel. Fui escoltada até o interior por um robusto sargento fuzileiro naval que atendia pelo nome de Benson. Eu não sabia se era seu nome ou sobrenome, mas seu corpanzil confortável me fez sentir mais segura. O hotel era um favorito entre os correspondentes, assim como o proprietário, conhecido como um ajeita tudo. E ainda melhor: eu tive notícias de Liz antes de sair de Genebra, e ela ainda estava em Cabul, esperando por uma carona até o acampamento Bastion para reportar sobre o treinamento do Exército Nacional Afegão por soldados britânicos, com planos para a devolução total do controle a esses soldados em 2014. Alguns poucos não pensavam que quanto antes, melhor, mas era difícil ver como o país algum dia estaria pronto para se governar sozinho. Talvez a democracia não se encaixasse em uma terra onde decisões eram tomadas tradicionalmente em um nível tribal. Entretanto, eu estava aqui para reportar, não para ter uma opinião ou procurar soluções, graças a Deus. Liz me mandou uma mensagem dizendo que dividiria com alegria seu quarto com duas camas de solteiro no Mustafa Hotel, o que estava bom para mim. Havia segurança nos números, especialmente para mulheres viajando sozinhas. Ela também me garantiu que o quarto não ficava no térreo (o que não era seguro, por motivos óbvios) e não passava do terceiro andar, já que as saídas de incêndio em Cabul eram infames por sua construção descuidada. Fiz o check-in e fui então escoltada até meu quarto por um alegre garoto em trajes brancos sujos cujo único inglês parecia consistir em “olá”, “sim” e “que bom”. Suspeitei que Liz havia ensinado a ele a última expressão. O quarto era colorido de doer os olhos, decorado em um arranjo discordante de vários tons de laranja, amarelo e vermelho. Todavia, era confortável e razoavelmente limpo. Ainda melhor: tinha seu próprio banheiro. Um luxo do qual eu não disporia assim que chegasse a Leatherneck. Fiquei grata por poder largar as pesadas mochilas e ler o bilhete que Liz deixara. Ela me informava que nós tínhamos sido convidadas para um jantar oferecido pela ONU para os militares locais, a imprensa e oficiais importantes do governo afegão. Ele aconteceria no Intercontinental Hotel – e eu tinha 40 minutos para levar meu traseiro até lá. Lá se ia a chance de um descanso.


O chuveiro expelia água de modo intermitente, mas era quase quente e lavou a maior parte da poeira amarela que parecia cobrir cada parte de mim. Ocasiões formais em alguns países muçulmanos podiam ser um campo minado cultural. Como nosso jantar incluía mulheres, não seria realmente ortodoxo, então eu não estava muito preocupada com o que vestir. Eu tinha meu vestido preto de coquetel, testado e aprovado, e planejava combiná-lo com as sapatilhas pretas que Sebastian me deu. Meu anel estava na gargantilha escondida debaixo do vestido, mas eu podia senti-lo e isso era importante. O vestido tinha mangas longas, um decote fechado e chegava aos joelhos. Era passável em círculos mais conservadores, e Liz havia me informado atenciosamente que haveria vários convidados muçulmanos essa noite. E, apesar da probabilidade de eles serem mais liberais, já que mulheres estariam presentes, eu não queria arriscar ofender ninguém. Levei meu lenço preto e liso de cabeça na bolsa para cobrir qualquer eventualidade. Era uma sorte eu ter cabelos e olhos escuros, pois, assim que colocava meu lenço, atraía pouco interesse. Se tivesse cabelos loiros e olhos azuis, a história seria bem diferente. Assim que meu doce sargento Benson me levou até o Intercontinental, fui direto para o banheiro tirar o lenço e escovar o cabelo. Minha atenção foi sequestrada por uma mulher estonteante em um vestido verde jade com um decote profundo e as costas expostas. Ela estaria perfeita para uma première chique em Los Angeles, mas aqui ela era de pasmar – e não no bom sentido. Suspeitei que ela estivesse com a ONU – certamente, nenhuma jornalista estaria tão ridiculamente superexposta e despreparada. Fiquei surpresa por ninguém ter avisado a ela para que se vestisse de modo mais adequado. No espírito de solidariedade, decidi fazer-lhe um alerta. – Oi, com licença. Meu nome é Lee Venzi, eu sou da imprensa. Perdoe-me, seu vestido é realmente lindo, mas pode lhe dar alguns problemas aqui essa noite: para os muçulmanos, verde é a cor favorita de Maomé. Eles podem achar a sua escolha desrespeitosa, como mulher ocidental. E um estilo mais… conservador geralmente é mais aceito. – Ah, eu nunca me incomodo com esse tipo de formalidade – desdenhou ela, passando os olhos sobre meu vestido preto e simples com um desprezo óbvio. Fiquei emudecida por aquela atitude arrogante. Cogitei seriamente enfiar a cabeça dela debaixo da torneira para ver se aquele rímel era mesmo à prova d’água. Ela me deixou ali e virou-se para a amiga, que aplicava uma quantidade indecente de batom, apesar de, ao menos, o vestido da outra ser mais respeitoso e menos revelador. – Você está vestida para impressionar, Natalie – disse a segunda, com um forte sotaque alemão. Ela deu ao vestido da amiga a mesma avaliação visual que eu, mas com menos honestidade. – Imagino se posso adivinhar em quem você está de olho, já que você mencionou ter trombado com ele de novo. A mulher chamada Natalie sorriu friamente. – O que eu posso dizer, Hanna? Ele é uma trepada cinco estrelas: fôlego e experiência, com uma embalagem fabulosa. Paris foi memorável. Planejo ter outra noite inesquecível; quem imaginaria que Cabul podia ser tão divertida?


Segui as duas mulheres para fora do banheiro, balançando a cabeça. – Mas que vadia! – resmunguei para mim mesma. – Você não sabe o quanto está certa – disse uma voz conhecida. Girei, excitadíssima. Ele estava deslumbrante, tão lindo em seus trajes de gala; meu coração saltou de júbilo, festejando o fato de que ele estava aqui, que eu estava aqui – que estávamos juntos tão antes do que qualquer um dos dois pudesse esperar. – Sebastian! O que está fazendo aqui? Pensei que estivessem te mandando para Candahar… – Mudança de planos – disse ele, os olhos dançando de felicidade. – Tive uma parada de dois dias e ouvi dizer que a imprensa estaria aqui essa noite, então arranjei um convite. Eu não tinha certeza de quando você chegaria. – Ele sorriu para mim, malicioso. – Porém, agora que você está aqui, planejo te seduzir atrás dos vasos de plantas. – Ou em algum lugar um pouco mais privado, espero – suspirei. Os olhos dele se acenderam de excitação. – Sim, senhora. – Aliás, de onde você conhece aquela vadia? – falei, inclinando a cabeça na direção da sujeita. Ele sorriu, desdenhoso. – O nome dela é Natalie Arnaud. Francesa. Ela é assistente pessoal de um cara da ONU, mas gosta que as pessoas achem que ela é importante. – E você a conhece por quê…? Ele não respondeu, desviando o olhar. – Uma de suas conquistas parisienses. “Ele é uma trepada cinco estrelas.” Ah, não. – Foi apenas um corpo quente, Caro – disse ele, interpretando corretamente a expressão no meu rosto. – Eu entendo isso – mais ou menos –, mas ela vai se meter em um monte de problemas. Só está vestindo aquilo para te impressionar, Sebastian, então é melhor que fale com ela. Eu senti orgulho de mim mesma por tomar o caminho moralmente correto. Sebastian fechou a carranca para mim, claramente descontente com a missão que eu acabava de lhe dar. – Engole o choro, Hunter – caçoei. – Você criou essa situação; é você quem precisa lidar com ela. E depois encontre um lugar bem recluso para a gente. Ele balançou a cabeça frente minha insistência para que ele lidasse com a exibição ocorrendo no salão principal, mas sorriu e me deu uma saudação arrogante. – Sim, chefa. Em seguida, seu sorriso desapareceu e seus olhos escureceram de um jeito que me deu vontade de correr as mãos sobre seu corpo forte e enfiar minha língua entre seus lábios macios e sensuais. Eu sabia que ele estava na mesma vibração que eu, porque ele olhou em volta, pegou minha mão e me arrastou pelo corredor. Estávamos claramente na área para os funcionários do hotel, porque passamos por várias salas lotadas, cheias de mesas e gabinetes de arquivos.


Contudo, assim que Sebastian encontrou um escritório vazio maior do que um armário, ele me empurrou para dentro, me jogou contra a porta e me beijou rudemente, os botões de seu uniforme pressionando dolorosamente contra meus seios. A mão dele estava sob meu vestido, arrastando a saia para cima, os dedos acompanhando a borda da calcinha, quando ele deslizou um longo dedo sob o tecido e para dentro de mim, me fazendo gritar. – Cacete, como você está molhada – sibilou ele. Gemi em resposta. – Eu estou tão duro – rosnou ele no meu ouvido. – Aqui e agora: sim ou não, Caro? – Sim! Ele abriu seu zíper rapidamente, rolando uma camisinha sobre sua ereção enquanto eu tirava a calcinha. – Debruçada sobre a mesa – mandou ele, agarrando meus quadris. – Sebastian, a porta! – Porra – rosnou ele, virando e enfiando uma cadeira sob a maçaneta. Inclinei-me sobre a mesa, completamente excitada pela natureza inesperada e ilícita do momento. Ele puxou meu vestido por cima da minha bunda, forçou meus pés para cada lado com o seu, e mergulhou dentro de mim. Ouvi sua respiração escapar em um cicio entre seus dentes cerrados. Ele recuou devagar, depois voltou, me fazendo sentir cada milímetro seu. Sebastian posicionou-se em ângulo e girou os quadris, fazendo-me agarrar a borda da mesa com força. Os músculos dentro de mim vibraram em resposta e pude ouvir os grunhidos graves dele, que continuava a arremeter profundamente. Empurrei meus quadris para trás de encontro a ele e Sebastian gemeu alto, acelerando o ritmo e investindo freneticamente, com um desejo que beirava o desespero. Eu não aguentava mais – pensei que minhas pernas fossem ceder quando gozei –, mas ele não parou: arremetendo sem cessar, de um jeito que deixaria marcas nos meus quadris por causa da mesa de madeira. Senti o corpo dele estremecer e se esvaziar dentro de mim. Seu peito repousou em minhas costas por um breve instante antes que ele se retirasse. Caí de joelhos, desabando no chão. Ele se deitou junto a mim, o hálito quente em meu pescoço. Virei-me para olhar em seus olhos, roçando de leve as pontas dos dedos no rosto dele. Eu não precisava perguntar por que ele havia me comido daquele jeito, com tanto desespero: era um disparo de adrenalina – a sensação elevada que vinha de estar em uma zona de combate e próximo da morte. Era uma necessidade intensa de provar que você ainda estava vivo, de reafirmar a vida. – Cacete, isso não foi o bastante, Caro. Eu te quero de novo. – Não podemos, Sebastian – ofeguei. – Já sentirão nossa falta de qualquer maneira se não nos apressarmos. Ele franziu a testa, descontente, e levou minha mão flácida a seus lábios, sugando meus dedos um por um. – Preciso de você, Caro. Deixe-me ir até o seu quarto essa noite, por favor, meu bem.


– Não dá. Estou dividindo o quarto com Liz. – Livre-se dela! – murmurou ele em meu ouvido, persuasivamente. De súbito, alguém chacoalhou a maçaneta da porta e pude ouvir vozes masculinas do lado de fora. – Foda-se – sibilou ele, ajeitando-se rapidamente. – Minha calcinha – falei, em pânico. Sebastian sorriu para mim e procurou até encontrá-la pendurada na gaveta da escrivaninha. – Acho que isso lhe pertence, madame. – Obrigada – falei, vestindo-me apressadamente e arrumando a saia. A maçaneta chacoalhou de novo e eu prendi a respiração, mas as vozes afastaram-se, discutindo uma com a outra. Sebastian me ajudou a levantar e prestou atenção para ver se conseguia ouvir algo do outro lado. Hesitante, ele olhou para mim e abriu-a com cautela. – Tudo bem – disse ele baixinho, os olhos vasculhando o corredor nas duas direções. Ergui uma sobrancelha. – Eu diria que tudo ótimo, chefe. Ele sorriu, indecente. – Mais tarde? Foi quando ouvimos vozes vindo em nossa direção; eu sorri e saí, apressada. Ele me deixou sair na frente e eu abri caminho até a área da recepção, onde os convidados para o jantar circulavam. Estava me concentrando em acalmar minha respiração quando ouvi alguém chamar meu nome. – Olá, Caroline. Reconheci aquela voz. E só uma pessoa me chamava de “Caroline”. Um calafrio percorreu minha coluna e eu me virei lentamente. Meu ex-marido estava diante de mim, um sorriso rígido no rosto. Ele estava bonito, em um estilo raposa prateada. – Olá, David – falei, cautelosa, enquanto a repulsa e a desconfiança me invadiam. – Ouvi falar que você estaria aqui essa noite: a famosa correspondente de guerra “Lee Venzi”, como você é conhecida agora. Procurei pelo sarcasmo nas palavras dele, mas não consegui detectar nada. Que estranho. – Vejo que você foi promovido, capitão Wilson – respondi, mantendo a voz neutra. – Parabéns, David. Ele pareceu contente e surpreso. – Obrigado. Encontrar um ex-marido nunca seria um momento memorável, porém isso era um pouco mais embaraçoso do que o habitual, tendo em mente que meu rosto ainda estava corado por ter feito sexo com Sebastian em um escritório a menos de 40 metros dali. Contudo, o comentário seguinte de David me pegou completamente desprevenida. – Eu gosto de ler seus artigos, Caroline. Eles mostram uma grande compreensão de tudo isso.


Ele gesticulou ao nosso redor, querendo indicar com isso tudo que se relacionava a assuntos militares. Elogios vindos de David eram raros. Muito raros. – Muito obrigada mesmo – falei, as sobrancelhas chegando ao topo da testa. – Estou… lisonjeada. Pensei que David fosse dizer mais alguma coisa, mas o que ele viu por cima do meu ombro o fez perder a compostura e uma expressão conhecida de desdém altaneiro transformou seu rosto. – Vejo que ainda está com ele – disse, friamente. Eu sabia imediatamente de quem ele estava falando, claro. – Devo dizer que estou surpreso, Caroline. Senti o calor do olhar furioso de Sebastian enquanto ele se aproximava, turbulento. O protocolo militar exigia que ele saudasse um oficial superior, mesmo que de outro ramo. E David era da Marinha, não dos Fuzileiros Navais. Em vez disso, Sebastian enfiou as mãos nos bolsos, com insolência deliberada. David franziu o cenho; no entanto, quando eu tive certeza de que ele insistiria em receber o que lhe era devido, ele simplesmente ignorou Sebastian e tornou a olhar para mim. – Bom ver você, Caroline. Está linda essa noite. Espero que desfrute a festa. E se afastou, cumprimentando algumas pessoas enquanto andava pelo salão. – Que porra você estava fazendo, conversando com aquele cretino? – E por que você está deixando tão óbvio que se importa com isso? – disparei de volta, zangada. – Por que não está usando seu anel? – disse ele, soando magoado. Acho que ele tinha estado muito ocupado me comendo em cima de uma mesa para reparar nisso antes. – Eu estou usando o anel, só não em um lugar onde qualquer um possa ver. Mas no momento estou furiosa com você. Tudo o que fez foi tornar absolutamente necessário que eu vá até meu ex-marido e implore a ele para não contar a ninguém sobre nós. Você tem alguma ideia de como isso me faz sentir, Sebastian? Tem? Porque ele é a última pessoa para quem eu gostaria de pedir um favor. – Eu lido com ele – disse Sebastian, arrogante. – Vou… – Não vai fazer nada – soltei. – Absolutamente nada, está me ouvindo? Agora me deixe em paz: você já atraiu atenção suficiente essa noite. Eu me afastei, deixando-o ali com uma cara magoada, zangada e desafiadora. Forcei-me a sorrir educadamente enquanto caminhava pela aglomeração, mas por dentro eu estava fervilhando: Sebastian não estava arriscando sua própria carreira, mas estava, sim, arriscando a minha. De novo. Quem diabos ele achava que era? Obriguei-me a me concentrar: eu estava aqui para conhecer o comandante da unidade na qual estaria integrada, o capitão Ryan Grant. Era provável que ele se ressentisse de ter uma jornalista designada para sua tropa; até onde lhe concernia, ter um invasor olhando por cima de seu ombro enquanto ele tentava fazer seu trabalho não passava de um trabalho adicional e irritante. Eu só esperava que ele se comportasse com uma tolerância educada em vez de dificultar ainda mais minha posição. Ao menos eu sabia que alguém acima dele tomara a decisão de me dar acesso, o que significava que eu não deveria ter problemas com hostilidade aberta. Era o que eu esperava. Fui informada de que me sentaria perto dele no jantar; eu podia esperar até lá para me apresentar.


Primeiro, graças à ridícula exibição territorial de Sebastian, eu precisava ir me humilhar para David. Odiava o fato de que ele entregara a David o poder de arruinar minha carreira com algumas poucas palavras sussurradas no ouvido certo. Meu antigo marido estava conversando com um major do Exército quando me aproximei. – Olá, de novo – falei, tranquilamente. Ele piscou, parecendo surpreso, depois polidamente me apresentou. Fiquei espantada quando ele usou meu nome profissional: foi muito decente da parte dele. Papeamos casualmente por alguns minutos antes que o major fosse reclamado por um colega e se afastasse. – David – falei, respirando fundo. – Não vou insultar a sua inteligência: estou aqui para pedir que você não revele o que sabe sobre mim e o chefe Hunter. Ele arqueou as sobrancelhas. – Foi certamente uma surpresa, Caroline, mas não, é claro que eu nem sonharia em dizer nada que pudesse atrapalhar a sua carreira. Fiquei chocada por ele ser tão magnânimo; eu esperava que ele fosse aproveitar a chance para me humilhar. Tinha sido especialista nisso enquanto éramos casados. – Obrigada, David. É muito gentil de sua parte. – Eu sugeriria, contudo, que você o aconselhasse a agir com mais circunspecção – disse ele, calmamente. – Sim, já mencionei isso – falei, um tanto amarga. Ele deu um sorriso contido. – Ele parece tão cabeça quente como sempre. Sim, pode-se dizer isso. – Você correu um grande risco ao continuar com a relação de vocês – ele não conseguiu evitar de acrescentar. – No entanto, apesar do que possa pensar a meu respeito, Caroline, eu nunca lhe desejei mal. Olhei nos olhos dele e vi apenas uma preocupação sincera. – Obrigada por isso – falei, com mais calor do que pensei que sentiria por ele. – Vou tentar minimizar mais… riscos. Ele inclinou a cabeça para um lado e me olhou, intrigado. – Eu quis dizer que foi um risco continuarem se vendo quando ele era tão… bem, mais jovem. Eu o encarei, finalmente entendendo o que ele estava insinuando. – David, não foi assim. Eu não vi Sebastian por dez anos. Nós nos reencontramos por acidente há onze dias, em Genebra. Ele pareceu estarrecido. – Mas eu pensei… Do jeito como ele se comportou agora mesmo… Bem, vejo que eu estava enganado. Nesse ponto, foi feito um anúncio em inglês, francês e pashto, chamando-nos para o jantar. – Eu lhe desejo tudo de bom, Caroline – disse ele, bruscamente. – E estava falando sério: você está linda essa noite.


Ele sorriu brevemente e então ofereceu o braço para me acompanhar até o jantar. Aceitei, perplexa por sua consideração e amistosidade. Ele me ajudou a sentar e então, com um meio sorriso, desapareceu na direção de seu lugar em outra mesa.


C APÍ TU LO

13

SENTEI-ME EM UMA DAS LONGAS MESAS

do banquete em um leve estado de choque. Eu nunca soube que David fosse tão atencioso, especialmente no que dizia respeito a mim. Durante nossos 11 anos de casamento, ele foi um valentão dominador e… não, “valentão dominador” dizia tudo. Desde o divórcio, não tive nada a ver com ele; eu certamente não sabia que ele estaria no Afeganistão. Talvez trabalhasse no hospital da Base Aérea de Bagram, ao norte de Cabul. Minha atenção foi distraída quando notei que a mulher de verde havia entrado na sala e estava olhando os cartões marcando os lugares. Tive uma forte suspeita de que, se continuasse olhando, acabaria vendo uma troca. Bem, isso estava por conta de Sebastian; eu duvidava que ele fosse ter muitos problemas com ela – tinha certeza de que ele tinha bastante prática lidando com mulheres fáceis. Tentei afastar esse pensamento – eu tinha outras questões, muito mais importantes, em que me concentrar essa noite. – Com licença, senhora, acho que talvez esteja no lugar errado. Olhei para cima e vi um homem no traje de gala azul de capitão dos Fuzileiros Navais olhando para mim. Ele era talvez poucos anos mais novo que eu, com um rosto forte e olhos cinzentos e límpidos. – Capitão Grant? – Isso mesmo, senhora – disse ele, intrigado. – E a senhora é? – Lee Venzi. Estarei integrada com vocês pelo próximo mês. É um prazer conhecê-lo. Ele pareceu confuso. – Você é Lee Venzi? – Deixe-me adivinhar – falei, com um sorriso polido. – O senhor estava esperando um homem. Acontece muito. Ele ficou boquiaberto, parecendo totalmente furioso, e acabou tentando fingir um frio desinteresse. – É um prazer conhecê-la, senhora.


Apertamos as mãos enquanto ele me observava, cauteloso. Não se preocupe. Eu não mordo – você não é meu tipo. – Por favor, não se preocupe, capitão Grant: essa não é a primeira vez que sou integrada a tropas americanas, e não espero nenhum nível de conforto além daquele do soldado comum. Tentarei ter o menor impacto possível no seu comando. Sugeriria que nos reuníssemos em breve para discutir os protocolos para esse mês. Não estou aqui para fazer um trabalho infiltrado, capitão. – Então vai permitir que eu leia o que escreveu antes que seja arquivado? – Este é um dos protocolos que podemos discutir, mas não: meu editor é a única pessoa que vê meu trabalho antes da publicação. Era importante explicar logo como eu trabalhava. Eu não queria fazer isso na mesa do jantar, mas como ele perguntou, eu lhe fiz a cortesia de dar uma resposta clara e concisa. Um sorriso relutante surgiu em seu rosto. – Algo a discutir, senhora. – Certamente haverá muitas coisas a discutir, capitão – falei, educadamente. – Eu concordei com as regras para ser integrada à sua unidade, mas, além disso, minha independência como autora não estará aberta a discussões. Ele ergueu as sobrancelhas, porém, sabiamente, não insistiu no assunto. Pelo canto dos olhos, vi Sebastian entrar no salão e dirigir-se a um grupo de afegãos vestidos no tradicional salwar kameez, usados com os chapéus ovais qaraqul. Eles trocaram amabilidades, depois ele foi procurar o cartão indicando seu lugar. Pareceu espantado por ele não estar na área geral em que esperava encontrá-lo. Quando viu a Vadia de Verde, entendeu tudo e ficou furioso. Não contive um pequeno frêmito maldoso de farisaísmo. O problema é seu, Hunter. Ele sentou-se educadamente ao lado da francesa, que parecia querer lhe oferecer uma dança sensual antes mesmo do antipasti. No início, ele estava se livrando dos avanços dela, mas então eu a vi pousar uma mão discretamente na coxa dele e meu sangue ferveu. – Lee! Está me seguindo, mulher? O tom exageradamente doce de Liz fez algumas cabeças se virarem e não pude evitar um sorriso, sentindo-me muito grata por sua interrupção oportuna de meu aborrecimento silencioso. Ela estava com um vestido azul-marinho que ia até o tornozelo e era tão volumoso que a deixava semelhante a um navio com as velas abertas. – Oi, Liz. Obrigada por dividir o quarto. Deixe-me apresentá-la ao capitão Ryan Grant; capitão, essa é Elizabeth Ashton. Ela é correspondente do The Times de Londres. Eles apertaram as mãos, um examinando o outro. – Você viu que aquele safado miserável do Hunter está aqui? – Liz disse para mim, assim que as breves amabilidades terminaram. – De novo com seus velhos truques com a vagabunda francesa. Fiz uma careta e vi o capitão Grant franzir o cenho. – Sim, há alguns rostos conhecidos, Liz. Stroud e Van Marten também estão aqui.


– É mesmo? Eu tenho que ir puxar as orelhas deles por um minuto, Lee. Te vejo mais tarde. Capitão – despediu-se ela, saindo apressada. – Colega sua, senhora? – Sim, e uma amiga. Eu pude ver que o capitão Grant estava começando a ficar feliz por ser eu e não Liz quem ficaria integrada com ele. Foi quando seus olhos voltaram-se para Sebastian, que encarava friamente sua companhia para o jantar. Quando ela pousou uma mão proprietária em seu braço e inclinou-se para tocar uma de suas medalhas, os olhos do capitão Grant se estreitaram. – Com licença, senhora – resmungou ele. Ele levantou-se abruptamente e caminhou até os dois. Sebastian ficou de pé e o saudou de imediato. Ficou claro que o capitão estava perguntando sobre o arranjo dos lugares e Sebastian tentava explicar que apenas seguiu as instruções na identificação dos assentos. Assisti enquanto o capitão Grant levou-o de lado e pareceu dar-lhe uma bronca. Sebastian ficou na posição de sentido, e pude ver que ele olhava para um ponto cerca de cinco centímetros acima do ombro esquerdo do capitão. Depois disso, Sebastian saiu do salão, deixando a mulher desapontada e sozinha, e o capitão Grant retornou para perto de mim. – Algum problema, capitão? – perguntei, despreocupada. – Não, senhora, apenas meu intérprete; ele estava sentado na mesa errada. – Seu intérprete? – perguntei, sentindo um frio descer pela minha coluna. – Sim, acaba de ser colocado sob meu comando. Ah, droga. – Percebo que já o conhece, senhora? – disse ele, olhando astutamente para mim. – Nós nos encontramos antes – falei, mantendo um sorriso casual. – O chefe Hunter foi o especialista em linguagens quando fiz meu treino em ambientes hostis em Genebra. Ele palestrou sobre frases úteis em pashto, dari e árabe, se me lembro corretamente. O capitão Grant assentiu, aceitando minhas palavras, e conversamos sobre o futuro posicionamento das tropas em Leatherneck e depois disso. Eu não tornei a ver Sebastian durante a refeição e a Vadia de Verde teve um lugar vago a seu lado o tempo todo. Também notei que alguém deve ter falado com ela, porque agora havia um manto preto de pashmina cobrindo seu decote e seus ombros pelo resto da noite. Foi fascinante ver quem havia sido convidado para o jantar e quem não. Havia vários oficiais da ONU que eu reconheci, além de oficiais britânicos, alemães e americanos. Entre os afegãos – e não havia mulheres entre eles –, senti que havia algo mais acontecendo além de simples encontros para apresentações. Acompanhei atentamente as idas e vindas, quem falava com quem. Havia definitivamente uma excitação no ar. A noite terminou sem que ocorressem outros incidentes tangíveis. O capitão Grant me cumprimentou educadamente com um gesto de cabeça e disse que enviaria um motorista para meu hotel às 5 horas na manhã seguinte. Seríamos carregados e partiríamos para o acampamento Leatherneck, a mais de 500 quilômetros dali, pela famosa estrada Cabul-Candahar.


Duas décadas de guerra e negligência deixaram deteriorada a estrada conectando as duas cidades principais do Afeganistão. Os Estados Unidos financiaram a reconstrução de três quartos da estrada, com o Japão colaborando com mais uma pilha de dinheiro. Estava no momento em condições levemente melhores, mas havia se tornado um dos alvos favoritos do Talibã – e não era uma viagem a se fazer despreocupadamente, nem mesmo pelas poderosas forças armadas americanas. Com certeza não por uma jornalista de Long Beach. Esperei por Liz no saguão e quando ela finalmente emergiu, estava borbulhando de entusiasmo. Olhou para nosso motorista, o mesmo sargento Benson encorpado que me deixou ali no começo da noite, antes de permitir que ele nos acompanhasse até nosso carro. Ela agarrou meu cotovelo e começou a cochichar a toda velocidade. – Peguei umas informações muito interessantes, Lee. Algo está no ar, definitivamente. – Sim, eu também achei. Azimi estava conversando com Chalabi, e você não vê sunitas e xiitas sendo tão amistosos com frequência. Liz ergueu as sobrancelhas. – Interessante! Bem, eu diria, olhando para os chefões presentes, que isso é uma operação americana. Poderia se desenvolver em Leatherneck, Lee. Mantenha os ouvidos atentos para mim, sim? – Você acha que eu te entregaria um furo? – falei, provocando-a. – Não, claro que não, mas também tenho certeza de que você não vai deixar sua velha amiga no escuro. – Vou pensar no assunto. – Humpf. Malditos colonos – fungou ela. Eu ri: para Liz, metade da população mundial era de “colonos”. Passamos rapidamente pelas ruas cheias, com gente apressando-se de volta para casa antes do toque de recolher noturno autoimposto. De volta ao hotel, Liz tentou me persuadir a tomar um drinque com ela no bar. Ela tinha ouvido falar que alguém havia conseguido álcool no mercado local. Aparentemente, o banimento não era levado tão a sério por alguns dos moradores, apesar da lei da Sharia impor uma punição àqueles que comprassem, vendessem ou consumissem o líquido malévolo com multa, prisão ou até 60 golpes de chibata. – Vem comigo, Lee, vai ser engraçado. Assim que eu tirar esse vestido horroroso – disse ela, puxando a barra de sua tenda azul. – Não, obrigada, Liz. Vou tomar um banho quente de imersão. Já que este vai ser meu último por um mês, quero desfrutar de um molho em uma banheira de verdade. Liz havia retirado o vestido e colocado sua calça Berghaus de caminhada e camisa de manga longa de sempre quando ouviu-se uma leve batida à porta. Ficamos imediatamente alertas: era uma regra de ouro jamais deixar ninguém saber em que quarto você estava. Se precisasse encontrar um contato, você o encontrava no saguão. Jornalistas eram considerados alvos fáceis – e nosso guarda-costas já tinha ido embora há muito tempo. – Quem sabe que você está aqui? – sibilou Liz para mim.


– Meu contato com a integração e meu editor. E você? – A mesma coisa. Fique longe da porta e se prepare para telefonar pedindo ajuda. Peguei meu celular, checando se tinha o número do sargento Benson entre as discagens rápidas. Anuí para ela, o dedo colocado sobre o botão, e ela respondeu agressivamente. – Sim? – Senhora, estou procurando por Lee Venzi. Reconheci a voz de Sebastian na mesma hora e o alívio, a luxúria e a irritação se alternaram enquanto eu me movia até a porta. – O que você está fazendo? – murmurou Liz, agarrando meu braço. – Está tudo bem, eu sei quem é. Ela relaxou um pouco, mas ainda segurava meu braço. – É um encontro romântico, Lee? – disse ela, surpresa e um pouco irritada. – Algo assim – resmunguei –, apesar de eu não saber que ele viria essa noite. Não foi planejado. Desculpe, Liz. – Isso realmente não é do seu feitio – disse ela, franzindo o cenho. – Eu sei – falei, contrita. Abri a porta e Sebastian rapidamente entrou no quarto. O rosto de Liz merecia uma foto. – Sebastian, você já conhece minha amiga Liz Ashton. – Sim – disse ele, rígido. – Chefe Hunter – respondeu Liz, encarando-o com uma repulsa óbvia. Esfreguei a testa. – Sinto muito sobre isso, Liz, mas pode nos deixar sozinhos por algum tempo? Ela bufou e balançou a cabeça, resmungando algo que soou como “idiota”. Presumi que estivesse falando de mim, embora o adjetivo se encaixasse também em Sebastian. Eu tinha minhas próprias palavras a dizer para o chefe Hunter. – Duas horas, Lee – disse ela, olhando para seu relógio sem nenhuma sutileza. – Estarei lá embaixo no bar, caso precise de mim. Ela lançou um último olhar acusador para Sebastian e saiu. Eu ainda estava resolvendo o que dizer a ele enquanto fechava e trancava a porta; todavia, antes que pudesse falar, ele me puxou para seus braços e me beijou. Sua língua estava em minha boca e suas mãos pressionavam minha pele, espantando todos os pensamentos do meu cérebro superaquecido, exceto por um. Quando ele afinal me soltou, eu estava sem fôlego e excitada – o que era provavelmente seu plano –, mas não deixaria seu comportamento escandaloso passar sem desafios. – O que diabos você está fazendo, Sebastian? Ele encolheu os ombros e sorriu para mim. – Pensei em te beijar antes que você gritasse comigo. Acho que não funcionou. – Você acha que isso é uma piada? – falei, minha voz se elevando com frustração e incredulidade. – Primeiro David, agora Liz. Por que você simplesmente não escreve no céu?


– O que o cretino te disse? Suspirei. – Ele não vai contar para ninguém. E ele foi muito gentil a respeito. Sebastian fez uma carranca. – Liz também não vai contar a ninguém, só terei que ouvir uma bronca mais tarde. Entretanto, preferiria que ela não soubesse disso ainda. Ela é minha colega de trabalho. Você tem que parar de correr esses riscos, Sebastian. Pelo meu bem, se você não pensa no seu. Ele fez uma careta. – Desculpe, Caro. Eu fico meio doido perto de você. Não é bom o bastante. – Bem, é melhor controlar isso. Agora, por favor, por favor, diga que seu trabalho com Ryan Grant é temporário. Ele me encarou. – Cacete! Eu estava me perguntando por que eles tinham sentado você ao lado dele. Está integrada com ele? Merda! – Exatamente o que eu penso. Ele não pode saber, ou isso vai estragar as coisas de verdade para nós dois. Bem, principalmente para mim. Sebastian, você vai ter que agir como agiu em Genebra, como se ainda não gostasse de mim. Ou, no mínimo, me ignorar. Pode fazer isso? – Porra, Caro. – Ele suspirou. – Sim, posso. Mas vou odiar cada merda de minuto disso. – Pelo menos, estando no mesmo acampamento, vou saber o que você está fazendo e que você está a salvo. Ele me deu um sorrisinho. – O mesmo vale para você. É, tem isso. E talvez a gente tenha uma chance de… se dar bem? Balancei a cabeça, mesmo com a imagem se formando em minha mente. – Não, é perigoso demais. Você não pode arriscar, e eu definitivamente não posso arriscar. Grant não é estúpido. – Não, ele parece estar atento. – Pelo lado bom, Grant já acha que você não gosta de mim. Sebastian franziu o cenho. – Por quê? – Liz. Ela mencionou que nos conhecemos em Genebra e, naquele ponto, ela ainda pensava que você era uma besta. Bem, isso não mudou, mas creio que seja uma besta diferente agora. Ele me deu um sorriso torto. – Uma besta? – Das grandes. Ele se recostou contra a porta e cruzou os braços, a cabeça inclinada de lado e um sorriso sexy no rosto. – O que houve com a sua amiguinha, Natalie? – perguntei, sem querer liberá-lo ainda. O sorriso desapareceu.


– Ela não é nenhuma amiga. Ela não aceitava um não como resposta, daí Grant me expulsou por causa dela. – O que ele te disse? Sebastian se remexeu, desconfortável. – Ah, bem, deixa para lá. Eu posso adivinhar. Ela também não pareceu nada contente – acho que planejava ter você de sobremesa. Foi você quem disse a ela para se cobrir? – Sim, não que tenha feito muita diferença. – Ela deve ter dado ouvidos a alguém. Pelo menos você tentou. E você é muito tentador, chefe Hunter. Uma parte minha quer te estapear para ver se você cria senso… – E a outra parte? – murmurou ele, umedecendo os lábios. – Bem… – falei, deslizando um dedo pela trança vermelha que contornava o casaco do uniforme – Eu estava me perguntando o que podíamos fazer durante os próximos… – Chequei meu relógio de pulso. – … 115 minutos. Pensei que Sebastian fosse saltar para cima de mim, porém ele fechou os olhos como se estivesse com alguma dor. – Qual é o problema, tesoro? – Eu odeio isso, Caro. Estamos sempre correndo em direções diferentes, sempre ficando sem tempo. Eu só queria acordar com você nos meus braços todos os dias. Deus, esse homem era irritante – e maravilhoso – e podia dizer as coisas mais românticas no momento em que eu mais precisava ouvi-las. – Eu sei, Sebastian, e sinto o mesmo. Mas não será assim para sempre. Nós vamos ficar juntos. Só temos que ser pacientes. – Afaguei o rosto dele. – E, por enquanto, temos mais 113 minutos. Os olhos dele se abriram de imediato. – Porra! Subitamente nós viramos uma profusão de mãos atrapalhadas e apressadas, ofegando na boca um do outro enquanto Sebastian tentava arrancar seu uniforme e me despir ao mesmo tempo. Eu estava nua e pronta muito antes dele, então ofereci uma mão amiga, o que não pareceu ajudar muito. – Droga, Caro – gemeu ele, quando me pressionei contra seu corpo, sentindo o tecido espesso contra minha pele quente. Ele me guiou de costas até a cama, sua ereção rígida contra minha coxa. Caí na cama e comecei a rir. – Que foi? – Esse negócio das calças caídas no tornozelo não é lá muito bonito. Ele sorriu, pesaroso, enquanto tirava os sapatos brilhantes. – Acho que é melhor tirar as meias também. – Definitivamente. Quando todas as peças de roupa haviam sido despidas, ele ficou de pé junto à cama e olhou para mim. Eu não sentia vontade de rir agora. – Está gostando do que vê, Caro? – indagou ele com uma voz grave e áspera. Assenti, a boca repentinamente seca.


– Depois de hoje, bem, não sabemos quando… então eu quero que você se lembre de mim desse jeito… quando olhar para mim, veja-me desse jeito, desejando você. E ele acariciou seu membro, os olhos semicerrados enquanto respirava fundo. – E quando eu olhar para você, vai ser nisso que estarei pensando: feche os olhos. Com relutância, deixei minhas pálpebras se fecharem. O colchão se moveu debaixo de mim e senti as mãos quentes de Sebastian em meus tornozelos. Lentamente, ele abriu minhas pernas, depois subiu por elas depositando beijos até chegar à coxa e meu fôlego ficar preso na garganta. Ele não parou, e eu não queria que ele parasse. Queria que ele me amasse para sempre. Algum tempo depois, jazíamos nos braços um do outro, em paz e totalmente saciados. De súbito, ouviu-se uma explosão enorme no exterior, chacoalhando as janelas do hotel. Sebastian me agarrou e puxou-me para o chão ao lado da cama, longe da janela. Ele aguardou por dez segundos, depois se levantou, indo até um ponto na lateral da janela para olhar para fora. – Provavelmente um carro-bomba, cerca de um quilômetro daqui. Eu ainda estava no chão, tremendo. – Está tudo bem, Caro. Estamos bem. Tenho certeza de que ambos estávamos pensando a mesma coisa: nós estávamos bem, porém, em algum lugar na noite lá fora, pessoas haviam perdido suas vidas; naquele mesmo momento estavam caídas no chão, sangrando na poeira. Perguntei-me se Liz sairia para o ponto atingido, para reportar sobre o que aconteceu. Às vezes parecia importante estar na linha de frente, contando às pessoas lá em casa o que acontecia nessa guerra distante; contudo, às vezes, era como se não passássemos de pornógrafos da guerra, capturando a miséria de outras pessoas nos filmes ou em fotografias, perguntando a elas em seu momento mais desesperado para nos dar uma declaração para arquivar e mandar para casa. Serviço feito. Era uma linha estreita a seguir, e uma que nem sempre nós seguíamos direito. No entanto, eu ainda pensava que o que fazíamos era, em última análise, digno. Precisava pensar assim. Fiquei de pé, hesitante, nua e sentindo-me exposta. Geralmente, quando eu estava a trabalho em um local perigoso, permanecia vestida dia e noite. Nunca se sabe quando será preciso evacuar o quarto do hotel às pressas, quando o tempo usado para colocar calça e camiseta seria a diferença entre a vida e a morte. No entanto, com Sebastian, eu quebrei todas as regras. – Caro, você está bem, querida? – Sim, acho que sim. Só de saber que lá fora… você vai enfrentar isso em breve. Ele veio até mim. – Cristo, eu sei disso, Caro, e me mata saber que você também vai estar lá. Por favor, meu bem, por favor, vá para casa enquanto ainda pode. Merda, estou implorando, Caro! Ele me abraçou apertado contra o peito e pude sentir seu coração disparado enquanto ele enterrava o nariz em meu cabelo. – Por favor, meu bem. Eu preciso saber que você está a salvo. Se algo te acontecesse agora… Meus braços subiram até o pescoço dele e puxei seu rosto para baixo, beijando-o suavemente.


– Eu tenho um trabalho a fazer, Sebastian, você sabe disso. Assim como você. E eu vou me preocupar com você todos os dias. Rezo a Deus para que você volte para casa comigo. Por favor, tesoro, prometa que vai se cuidar e não correr nenhum risco desnecessário. Ele suspirou. – Prometo, Caro. – Então volte para a cama comigo – falei, puxando-o pela mão. O tempo estava se esgotando muito depressa. Ele deitou-se de barriga para cima e eu me aninhei em seus braços, uma das mãos em sua cintura, e minha cabeça pousada acima de seu coração, escutando seu ritmo firme e estável. Eu não queria que nossa última noite juntos fosse preenchida com tanta tristeza. Meus dedos vagaram por seu peito musculoso, pelas costelas e descendo por sua barriga reta. Empurrei o lençol para baixo, expondo seus pelos e a ponta de algo ainda mais desejável e excitante. – Sebastian, se for assim que eu tiver que te imaginar toda vez que você olhar para mim, não vou conseguir trabalhar. Ele sorriu e beijou minha mão. – Vamos voltar para o hotel da Signora Carello em nossa lua de mel, Caro. Poderíamos trepar por dias, sem nem sair da cama. Percebi que ele também estava tentando aliviar o clima e fiquei feliz em acompanhar aquela fantasia. – O que, você acha que ela iria simplesmente empurrar comida por baixo da porta para você manter suas forças? Porque eu tenho que te dizer, Sebastian, você estava perdendo o fôlego agora há pouco. Realmente pensei que os Fuzileiros Navais americanos tivessem um padrão mais exigente de forma física; talvez eu tenha que escrever a respeito em meu próximo artigo. Claro, a pesquisa está incompleta… eu só documentei o nível atlético de um fuzileiro naval… – E vai continuar assim – disse ele com firmeza. Eu ri. – Sentindo-se ameaçado? Eu, sozinha com todos aqueles fuzileiros navais tarados, segundo ouvi dizer. – Não tem graça – resmungou ele. – Certo, não vou te provocar. Sim, poderíamos voltar para a Signora Carello, mas há muitos outros lugares que eu gostaria de visitar na Itália. Florença, a ópera a céu aberto em Roma – eu adoraria ver isso. Sabe, eu realmente gosto da ideia de pegar sua velha motocicleta e ver a parte norte de Nova York. O que você quer fazer? – Além de um monte de sexo? – Meu Deus! Essa é exatamente a mesma resposta que você me deu dez anos atrás, quando era um adolescente fogueteiro! – E daí? Eu sou coerente. Pensei que as mulheres gostassem disso em um homem. Ele tinha razão. Preguiçosamente, ele passou uma das mãos entre meus seios, brincando com a corrente que segurava meu anel de noivado.


– Você tem os seios mais fantásticos, Caro. Não suporto seios falsos, eles parecem tão… Ele percebeu o que disse, ou quase disse, e parou de súbito. – Humm, eu estava pensando, chefe, talvez você devesse ser um daqueles homens fortes e silenciosos. Sabe, bom de se olhar, não muito bom com as palavras. Ele mordeu meu ombro, brincalhão, e se virou, me empurrando contra o colchão. – É mesmo? – Sim. Ouvir você falar sobre suas conquistas quando estou numa situação de júbilo pós-coito não vai te fazer ganhar o segundo round. – Hum, então eu não posso ganhar o segundo round – isso significa que vou ter que pagar por ele? Dei-lhe um tapa forte no traseiro. – Você não conseguiria pagar meu preço. – Tem certeza sobre isso, meu bem? Qual é o seu preço? – O que você tem para oferecer, Sebastian? Ele usou os quadris para me prender, sustentando o peito acima do meu. – Um orgasmo? – Isso é só quid pro quo. – Porra, adoro quando você fala sacanagem. Que tal dois orgasmos? – Dois? Está começando a soar interessante, mas você acha que está à altura do serviço? Algo sobre Sebastian: ele sempre estava pronto para um desafio. Pronto e bem pronto. Mais de uma hora depois, estávamos caídos no chão do banheiro, corados e arquejantes. – Eu tinha me esquecido do seu pendor por banheiros – ofeguei. Ele beijou minha nuca. – Gosto dos espelhos. – Sabe, isso é meio depravado, Sebastian. – Você acha? Eu gostaria de ser depravado com você, Caro – disse ele, puxando meu lóbulo com os dentes e deslizando os dedos sobre meu quadril. O pensamento era intrigante. – O que você tem em mente? Senti Sebastian encolher os ombros. – Você podia me amarrar de novo. Aquilo foi gostoso. – Humm, bem, eu poderia conversar com um dos policiais militares em Leatherneck. Talvez ver se consigo um par de algemas emprestado, Sebastian. Ele não respondeu, então cutuquei-o nas costelas. – Sim, se você quiser, Caro. – Se eu quiser? O que você quer? Ele hesitou. – Tem algumas coisas que poderíamos experimentar. – Como, por exemplo? Houve uma batida suave na porta e escutei a voz de Liz.


– Ah, inferno! É melhor se vestir, Sebastian, a menos que um ménage com Liz seja uma das suas fantasias. Ele estremeceu. – Cacete, Caro! Agora vou ficar com essa imagem na cabeça. Sorri para ele. – Então é melhor colocar a calça, chefe. Vesti uma camiseta larga e uma calça de pijama, conferi se Sebastian estava razoavelmente decente e abri a porta. – Lee, eu… ah, ele ainda está aqui? – Ele está indo embora, Liz. Sebastian estava sentado na minha cama, amarrando os cadarços, quando Liz marchou para dentro do quarto. – Há um toque de recolher, Hunter – disse ela, cruzando os braços por cima dos generosos seios. – Obrigado por avisar – respondeu ele. – Você deve ter escutado o carro-bomba: três mortos, vários feridos. Os desgraçados carregaram a bomba com pregos. – Que malvadeza – murmurei. Liz assentiu silenciosamente e Sebastian apertou os lábios, sem dizer nada. Ele se levantou, vestiu o casaco e fechou a fivela de seu cinto branco. Ignorando o olhar gelado de Liz, ele me puxou em um abraço apertado, apoiando a testa contra a minha. – Lembre-se do que eu falei, Sebastian. – Tentarei, meu bem. E você se lembre do que eu falei, no que vou estar pensando quando eu olhar para você. Ele pousou os lábios gentilmente nos meus. – Nunca tire meu anel, Caro – sussurrou ele. – Ti amo tanto, Sebastian. Ele sorriu com suavidade. – Sempre e per sempre. Ele olhou rapidamente para Liz e saiu em silêncio. Liz fechou a porta após sua saída e olhou para mim com censura. – Mas que inferno, Lee. Você se apaixonou por ele, não foi? O desgraçado priápico te atraiu para a teia dele, para ser um dos territórios estrangeiros. Como você pode ser tão estúpida? As palavras dela doeram; contudo, sendo justa, eu podia ver como as coisas pareciam ser do ponto de vista de Liz. Eu tinha duas opções: podia não dizer nada e deixá-la com a impressão que eu tinha sido ingênua e enganada por um sujeito que era um Casanova em uniforme dos Fuzileiros Navais, um mulherengo incorrigível; ou podia contar a verdade. – Não é bem assim, Liz – falei, esfregando os olhos, cansada.


– Não me venha com essa bobagem, Lee; você tem sorte de eu ser a única que sabe o que está acontecendo. Senão, estaria no primeiro avião de volta para casa, e o chefe Hunter… bem, não sei o que fariam com ele. Não que ele se importe, mas seria a sua carreira a ir ralo abaixo. É isso o que você quer? – Não, é claro que não – disparei. – Então, quer por favor me dizer o que diabos está acontecendo? Porque eu nunca te vi se comportando assim… e não foi por falta de ofertas. Por que ele, Lee? De todas as pessoas… Ele comeu metade da equipe feminina da ONU. Era isso o que você queria, só um jovem garanhão? E se ele contar para alguém? Se ele se gabar de sua conquista em Cabul? Ela realmente estava começando a se empolgar. Eu tinha que cortar esse discurso, e já. – Nós vamos nos casar, Liz, assim que o turno dele terminar. Silêncio. Eu esperei. Mais silêncio. – Você ficou maluca, Lee? – berrou ela, de súbito, fazendo-me pular. – Isso é algum tipo de pico hormonal ou crise de meia idade? Deixou que ele te comesse algumas vezes e agora está imaginando que ele vá se casar com você? Você mal o conhece! – Eu o conheço melhor do que ninguém, Liz. Eu o conheço desde que ele tinha oito anos de idade. Ela me fitou, boquiaberta. – Acho que é melhor você me contar a merda da história toda, Lee, porque senão vou presumir que uma de nós está louca de pedra e, nesse momento, minha aposta é que é você. Suspirei. Eu nunca tinha contado a história inteira para ninguém, nem mesmo minhas amigas mais próximas: a culpa, a tristeza e o desejo de seguir em frente com a minha vida me mantiveram em silêncio. – Certo. Ajeite-se e fique confortável, Liz. Eu respirei fundo, tentando organizar meus pensamentos. – Conheci meu marido, David, quando eu tinha 17 anos, e nos casamos um mês depois de eu fazer 19. Ele era da Marinha, então nós nos mudamos algumas vezes. Ficamos em San Diego por seis meses depois de estarmos casados por um ano e meio. Sebastian era o filho do comandante de David. Ele era uma criança meiga e solitária – seus pais eram simplesmente monstruosos – e nós ficamos amigos. Isso é tudo, eu juro. Ele vinha me visitar depois da escola e conversávamos sobre livros e escutávamos ópera. Depois David foi transferido para Lejeune e as coisas ficaram assim. Só que, nove anos depois, nós voltamos para San Diego. Sebastian… ele me encontrou. Ele tinha quase 18 e Liz, meu Deus, ele já era lindo mesmo naquela época. No começo, eu pensava nele apenas como o menino que eu conhecia, mas logo ficou óbvio que ele… nutria outros sentimentos por mim. Liz me observava com atenção, um vinco profundo de concentração em sua testa. – E… uma coisa levou à outra. Eu estava infeliz com meu casamento já há muito tempo. E Sebastian era tão amoroso. Ele era meigo e engraçado, divertido de se conviver. E ele me encorajou em minha escrita: se não fosse por ele, acho que eu não teria me tornado uma jornalista. Bem, os pais dele descobriram… e como ele não tinha chegado aos 18 ainda, isso era um crime grave na


Califórnia. Os pais dele disseram que não me processariam se eu partisse quieta e não voltasse. O prazo de prescrição era de três anos; eles me ameaçaram, dizendo que, se eu tentasse manter contato, eles mandariam me prender. Ainda que eu não cumprisse pena, teria uma ficha criminal. Então, mantive distância. Fiz uma pausa, tentando apagar a desolação que pensar sobre aqueles eventos sempre me trazia. – No entanto, Sebastian esperou por mim: quando ele tinha 21 anos, tentamos nos encontrar, mas nunca aconteceu. Eu não vou entrar em detalhes, mas ele acabou percebendo que eu não viria atrás dele… e foi aí que começaram as bebedeiras e a devassidão. Eu não o vi por dez anos antes de reencontrá-lo em Genebra. Ele ainda me ama, Liz. Ele diz que sempre me amou, e eu o amo, desesperadamente. Estamos noivos e vamos nos casar. Mas ninguém pode saber enquanto eu estiver aqui. Ninguém. Ela me olhou com firmeza e balançou a cabeça devagar, uma expressão preocupada em seu rosto, os olhos bondosos e aflitos. – Mas que inferno! Essa é uma história e tanto. – Ela balançou a cabeça. – Você e o belo chefe Hunter. Espero que saiba o que está fazendo, Lee, espero mesmo. Ela se levantou e foi até a janela, depois voltou-se para mim. – Vou dizer uma coisa: se Shakespeare tivesse te conhecido, não precisaria roubar todos os seus enredos, porque esse é um rolo e tanto. Espero que você esteja certa sobre ele, porque o homem que você descreveu não é o mesmo que eu vi em ação. Pegue essa noite como exemplo, com aquela francesa toda se jogando para cima dele. – Eu sei – falei, com um sorrisinho. – Uma das conquistas parisienses dele. Pedi para que ele a avisasse para se vestir de maneira mais apropriada; indiretamente, a culpa era dele por ela estar vestida daquele jeito. É claro, isso foi depois de fazermos sexo em um dos escritórios do hotel. Em cima de uma mesa. Ela me encarou, depois caiu na risada. – Você é extraordinária, Lee, é sim! Pensei que eu te conhecia: eu sabia que você era durona, quieta, mas você deve ter culhões de aço – ou peitos parecidos com os mísseis Exocet. Tudo bem, se é assim que você quer, longe de mim dizer que você está cometendo um erro gigante, do tamanho da represa Hoover. Ela fez uma pausa. – Ele é tão bom como dizem? Meu queixo caiu e eu a encarei, muito mais do que embaraçada por ela ter me feito essa pergunta. – Vou tomar isso como um “sim” – disse ela, com um sorriso sarcástico. Eu dei uma piscadela, sem responder.


C APÍ TU LO

14

A VIAGEM ATÉ LEATHERNECK foi um inferno. O que teria sido uma jornada de seis ou sete horas em casa se transformou em 15 horas de sol ardente, poeira sufocante e um pavor de revirar o estômago. O medo era esporádico, disparado toda vez que eu via homens de turbante com rifles AK-47. Eu viajava em um carro blindado mais semelhante a um tanque do que qualquer outra coisa, e me disseram que ele foi projetado para suportar bombas de beira de estrada; porém, cada vez que eu via as forças afegãs nas barreiras, um calafrio me percorria. Ataques dos locais sobre as forças estrangeiras tinham aumentado a ponto de cada unidade da Força Internacional de Assistência e Segurança designar no mínimo um soldado como “anjo da guarda” para atuar como vigia – para ficar de olho em nossos aliados afegãos. Tinha sido inquietante e excitante ver Sebastian armado com seu M16 pela primeira vez. Ele parecia tão duro e valente. Eu queria deslizar os dentes por seu pescoço à mostra e depois expor muito mais partes do seu corpo. O que diabos estava havendo comigo? Eu não conseguia parar de pensar em sexo. Culpei Sebastian. O comboio com o qual viajava estava bem armado, mas eu ficaria aliviada em sair desse trecho vulnerável de estrada, salpicado com crateras de bomba e carcaças enegrecidas de carros incinerados espalhadas no acostamento. Era reconfortante saber que em algum lugar no final da fila de caminhões e veículos blindados Liz viajava com as forças britânicas para Bastion. Concordamos em tentar nos encontrar, mas, como sempre, nada era garantido. Nosso destino, a 80 quilômetros a oeste de Candahar, abrigava 28 mil soldados britânicos, milhares de integrantes do Exército Nacional Afegão no acampamento Shorabak e 20 mil fuzileiros navais americanos. Juntas, as três seções deviam cobrir quase 16 km². Leatherneck, por si só, era maior do que muitas cidades pequenas, e contava com quatro academias, um vasto refeitório com


capacidade para servir 4 mil pessoas de uma vez só, três capelas e, o melhor de tudo na opinião das tropas, centros de comunicação onde podiam ligar e enviar e-mail para suas famílias em casa. Os arranjos de moradia eram estritos; as 2 ou 3 mil mulheres que serviam como soldados ou empreiteiras eram mantidas segregadas, não que houvesse muita privacidade disponível caso um romance surgisse. Um fato que não me passou despercebido. De qualquer maneira, a maioria da equipe feminina não saía da área delimitada pelo arame farpado, a menos que estivessem em uma missão especial para conversar com mulheres afegãs. Quando finalmente nos arrastamos para dentro de Leatherneck, me foi dado um beliche em um quarto minúsculo compartilhado com a soldado primeira classe Mary Sullivan, de Beckville, Texas, uma cidadezinha mais ou menos 250 quilômetros a leste de Dallas, ou foi o que ela me disse. Ela tinha 24 anos e ficou devidamente impressionada por eu trabalhar como jornalista. Ela fazia parte de uma equipe de 15 mulheres que trabalhavam na oficina mecânica, consertando veículos danificados – e ficou com muita inveja quando descobriu que eu viajaria para o interior, indo além da cerca. Ela tagarelou sobre sua cidade natal enquanto eu desfazia as malas, tirava o sádico colete à prova de balas, depois me mostrou o caminho para as duchas da área feminina. Um banho quente: que alegria. Foi menos alegre quando ela insistiu em continuar a conversar enquanto eu me lavava. Apesar de estar cercada por gente 24 horas por dia, sete dias por semana, tive a impressão de que ela era solitária. E ela me chamava de “senhora”, o que me fez sentir velha; – A senhora tem um namorado? Não pude evitar reparar que está usando um anel nessa corrente ao redor do pescoço. – Tenho, sim. E você? – Não. E não é tão fácil se dar bem por aqui. Eu só me alistei porque pensei que conheceria um monte de carinhas bonitos e para conseguir entrar na faculdade de graça. E então, o que o seu namorado faz? Ele também é repórter? – Não. Eu tenho amigos repórteres, uma delas está em Bastion agora mesmo. – Arrã. Onde está seu namorado? Ela realmente era tenaz; talvez ensinassem isso aos Fuzileiros Navais. Ou a corporação só atraía gente teimosa. – Eu não gosto muito de falar sobre ele, Mary. Só me deixa triste por não estarmos juntos. Nesse momento eu já estava me enxugando e pude ver os olhos dela se abrirem ainda mais, interessados com o que eu disse. – Ah, meu Deus! Você deve amá-lo de verdade! Não vou nem responder. – Sabe, estou surpresa, Mary. Uma garota legal como você – não encontrou ninguém que achasse bonito? Ela revirou as plaquetas de identificação ao redor dos dedos enquanto pensava na minha pergunta. – Bem, tem um cara… – E? – Nada.


– Por quê? Se você gosta dele, vá falar com ele. Sei lá, se ofereça para trocar o óleo dele. Ela riu. – Você acha que eu devo? Dei de ombros. – Você que sabe, mas tudo o que eu posso te dizer com certeza é que a vida é curta. E não seria preferível saber de uma vez por todas se ele gosta ou não de você? Se ele gostar, ótimo; se não, pior para ele, e você pode parar de se preocupar com isso. Depois daquele conselho, coisa em que eu era melhor em dar do que em receber, a soldado Sullivan me escoltou até a sala de reuniões onde eu deveria me reunir com Grant e o resto de seus oficiais. Contudo, a primeira pessoa que vi foi Sebastian, quente, empoeirado e furioso. Estava óbvio que ele não conseguiu o luxo do tempo para uma ducha e uma conversa amistosa sobre sua vida amorosa. Seus olhos se iluminaram quando ele me viu e começou a sorrir. Depois ele se lembrou de que estávamos tentando ser discretos e baixou os olhos de novo para o mapa que estava analisando. Por sorte, o capitão Grant estava focado no mapa aberto sob suas mãos, portanto não notou o deslize de Sebastian. Peguei o final do monólogo de Grant. – Se um cara bota a cabeça na esquina ele pode muito bem ter uma arma. Se você não consegue ver as mãos dele, ele pode ter algo, digamos, uma granada de mão. Puxar um gatilho é fácil. Precisamos é prendê-lo. Não se trata daquela pessoa, trata-se de uma equipe. Precisarei que você vá na frente e… Ele ficou ciente de minha presença e parou de imediato, parecendo irritado. – Posso voltar depois – ofereci calmamente. – Não, tudo bem, Srta. Venzi. Terminamos por aqui. Ele assentiu para Sebastian, que o saudou e deixou a sala semelhante a um barracão semicircular lançando-me um sorriso rápido ao passar. – Vamos entrar em movimento amanhã cedo, Srta. Venzi – prosseguiu o capitão Grant. – Vai ser muito mais desconfortável, e muito mais perigoso. Estaremos indo para um local remoto mais ao norte, em Helmand. Teremos internet via satélite, mas não posso garantir que será sempre possível enviar suas histórias. – Eu entendo, capitão. Ele suspirou e suspeitei que estivesse torcendo que eu fosse mudar de ideia. Comemos nossa refeição noturna após muitos adiamentos com o tenente Crawley, o oficial executivo, quatro segundos sargentos e Sebastian. Que aconchegante. Sebastian passou a maior parte da refeição olhando para sua comida ou à distância. Pude ver que ele estava irritando Grant imensamente, que ficou com a parte mais pesada da responsabilidade em tentar manter uma conversa educada comigo, embora Crawley fizesse um bom esforço, perguntandome sobre meu trabalho. Meu pobre noivo tentava muito resolutamente me ignorar; não era muito bom nisso, o que só me fez amá-lo um pouco mais.


Eu estava bem acompanhada e sabia que não havia absolutamente nenhuma chance de “me dar bem”, como Sebastian disse com tanta propriedade. Além disso, para ser sincera, eu me sentia tão cansada que estava quase de joelhos. Os homens se levantaram quando deixei nossa mesa no refeitório, Sebastian me olhando com melancolia. – Durmam bem, cavalheiros – falei, baixinho. Enquanto todos se sentavam de novo, ao menos seis deles aliviados com minha ausência, vi Sebastian dar uma espiada e sorrir outra vez. Passei o dedo ao longo da corrente em meu pescoço e sorri de volta. Foi o bastante. De volta ao meu beliche, a soldado Sullivan me esperava, praticamente dançando no lugar de tanta energia acumulada. Senti cada um dos meus 40 anos enquanto observava, cansada, aquela exuberância. – Eu falei, eu finalmente falei! Eu o chamei para sair e ele disse “sim”! Batemos nossas mãos espalmadas e ela seguiu em frente, me contando tudo sobre Frank, um mecânico da equipe. No meio da descrição do “belo traseiro” dele, peguei no sono. Eu tinha minhas próprias lembranças de um belo traseiro com que sonhar. **** – Ei, Lee! Acorde! – Hã, o quê? Mary estava me chacoalhando para acordar, seu rostinho enrugado de preocupação. – O capitão Grant está atrás de você! Atrás de mim? – O quê? Por quê? – Olhei para meu relógio. Olhei de novo, totalmente horrorizada, desejando que os ponteiros retrocedessem pelo menos uma hora. – Desculpe – choramingou Mary. – Pensei que você estava acordada; você disse que estava acordada uma hora atrás. Ele está mesmo meio fulo com você. – Ah, merda! Ela riu. – Pelo menos ele não pode te mandar para fazer limpeza. – Quer apostar? – resmunguei, calçando apressadamente as botas. Mary me ajudou a carregar meu equipamento até o veículo à espera e um capitão Grant muito taciturno e irritado me aguardava impacientemente. – Sinto muito, muito mesmo – resmunguei. – Dormi demais. Não acontecerá de novo. Ele não conseguiu se forçar a responder. Não o culpei. Ele era responsável por 160 homens e uma repórter estúpida, que estava ferrando com tudo no segundo dia de uma integração de um mês. Eu também estaria furiosa. Vesti o colete à prova de balas por cima do corpo dolorido, prendi o cabelo em um rabo de cavalo rústico e coloquei o capacete.


Grant fez uma carranca e a única coisa que podia para mostrar seu desprazer: sentou-me ao lado de Sebastian. Entrei no carro com alguns rangidos, aborrecida comigo mesma por ser tão pouco profissional, mas assim que vi Sebastian sorrindo em minha direção, percebi que pelo menos uma vez os deuses estavam do meu lado e não contive um sorriso. – Bom dia, Srta. Venzi – ronronou ele. – Dormiu bem, creio eu? – Bem até demais, obrigada, chefe Hunter – retruquei polidamente e vi Sebastian sorrir com minha resposta. Ele parecia descansado e delicioso, enquanto eu devia lembrar um presunto velho perto dele, mas não liguei. O que foi uma revelação: não importava o que eu vestisse ou quanto eu tivesse dormido, ele sempre me olhava como se o mundo começasse e terminasse em mim. Como eu poderia não ser afetada por isso? Pela certeza do amor dele? Conforme nos dirigimos para o norte na paisagem poeirenta e estéril, sacolejando por uma estrada arrebentada, indo para o sopé das montanhas, o calor já começava a aumentar e eu comecei a suar. Estaríamos todos empapados e fedidos quando parássemos durante e noite – e eu já sabia que não haveria nenhum chuveiro. Espremi os olhos contra a luz intensa, fitando os arredores inóspitos. Nossa estrada seguia a margem de um leito de rio e, por uma centena de metros em cada direção, uma faixa de vegetação verde interrompia a desolação da paisagem lunar. Espalhadas pelos campos raquíticos, vimos várias fazendas protegidas com muros altos, construídas com uma massa de lama e palha de modo a se misturar com o próprio solo de que eram feitas. Algumas reuniam-se em vilarejos frouxos em busca de companhia e proteção, mas a maioria parecia abandonada. Os únicos sinais de vida eram algumas cabras magricelas. Se os donos estavam por ali, provavelmente estavam se escondendo de nós. Eu ainda estava olhando pela janela quando senti a mão de Sebastian subindo para pousar casualmente em minha coxa. Movi minha mochila de leve para que sua mão ficasse escondida e lentamente abaixei a minha mão, permitindo que nossos dedos se entrelaçassem em minha perna. No meio daquele país flagelado, chacoalhando em uma estrada de terra em um calor de mais de 32ºC, senti um momento de paz. **** Nosso destino era a cidade de Nawzad; lúgubre era uma palavra bondosa demais. A cidade pode ter sido próspera em algum momento, com evidências de uma área de mercado, porém agora parecia ter sido soprada pelo deserto. Lojas arrebentadas jaziam abertas aos elementos da natureza, as janelas pendendo soltas. Aparentemente, havia apenas uma pessoa nessa cidade fantasma: um ancião vendendo algumas batatas e ovos em cima de um tapete, no exterior de um prédio vazio. Ele acenou quando passamos por ele e gritou algo para nós. Talvez aquilo fosse um sinal de esperança. Olhei para Sebastian. – O que ele disse?


Vi a cabeça de Grant se inclinar na nossa direção, também à espera da resposta. – Nada que eu gostaria de repetir, senhora – disse ele, roçando o polegar nas costas da minha mão. Encostei meu joelho contra o dele e contive um sorriso. Brincar de ficar tocando Sebastian com Grant sentado à minha frente me dava uma vontade quase irreprimível de rir. Entre outras coisas. A leveza desapareceu de meu coração quando vi o lugar que seria nosso lar pelo mês seguinte. Nosso complexo tinha sido a delegacia em algum momento de sua vida, mas foi usado várias vezes pelos soldados da FIAS, tanto britânicos quanto americanos. Era básico, para dizer o mínimo. Não havia água fresca nem eletricidade e os homens dormiriam nas antigas celas, cerca de uma dúzia por cômodo. Recebi um espaço do tamanho de um armário: podia apenas me esticar ali, e certamente não teria cabido ninguém mais alto do que eu. Tive sorte por receber um quarto só para mim e esse nível de privacidade. Ninguém mais tinha isso, nem mesmo o capitão Grant. Fiquei longe do capitão enquanto ele organizava o acampamento. Em vez disso, digitei anotações em meu laptop e inflei meu colchão confortável. A soldado Sullivan me deu material suficiente para meu primeiro artigo, e a deprimente cidade de Nawzad ofereceria muito mais. Estar alocada aqui era uma perspectiva muito diferente do conforto e segurança relativos de Leatherneck. Eu não conseguia crer que nossas paredes com cara de frágeis pudessem fazer muito para nos proteger de um ataque em que lançadores de granadas seriam utilizados. Após um longo período sendo ignorada, comecei a me sentir faminta – em especial por ter perdido o café da manhã e o almoço ter consistido em um sanduíche estranho com pão sem fermento na estrada. Ninguém se aproximava de mim e suspeitei que eu tinha sido convenientemente esquecida. Contudo, agora eu via homens se enfileirando perto da área que presumi ter sido designada como a cozinha. Juntei-me ao fim da fila, esperançosa. Os fuzileiros navais pareciam todos terrivelmente jovens: a maioria com vinte e poucos anos, alguns com apenas 19. Lembrei-me que Sebastian era ainda mais novo quando foi enviado pela primeira vez ao Iraque, e Fido sequer chegara aos 20. Todos ficaram tímidos perto de mim, me chamando de “senhora”, é claro, e insistindo para que eu fosse para o começo da fila. Estávamos recebendo pacotes de rações prontas para o consumo, chamadas de MRE. Avisaram-me que a comida era frango e macarrão; o macarrão eu reconheci; a carne, anêmica, não tive tanta certeza. Agachei-me com o grupo mais perto de mim e apanhei meu vidrinho de molho de soja. Não demorou muito até que ele estivesse sendo passado de mão em mão – até mesmo entre os meninos que jamais tinham ouvido falar de molho de soja, quanto mais do tipo tamari. Perguntei a cada um deles de onde vinham e o que fez com que se alistassem. Para alguns, o Corpo dos Fuzileiros Navais era uma chance de ter uma família de verdade pela primeira vez em suas vidas; para outros, era um meio para um fim: aprender uma profissão ou obter uma educação universitária; vários disseram que desejavam servir a seu país, motivados pelos eventos de 11 de Setembro. E para alguns, acho, era a diferença entre uma descida escorregadia para uma vida de crime e uma chance de contribuir para algo útil e fazer algo com suas vidas.


Vi Sebastian uma vez: ele estava de pé na entrada do complexo, perto de um dos postos de observação fortificados conversando com um grupo de locais. Parecia cansado e perguntei-me se ele tivera uma chance de comer. – Não sei como ele fala essa merda de grego – disse Larry, um rapaz simpático de Pittsburgh, indicando Sebastian com um gesto da cabeça. – Não é grego, tonto! – zombou Ben, um nativo de Kansas City. – É árabe, não é, senhora? – Sei lá, cara. É tudo grego pra mim – disse Larry, com um amplo sorriso. – Acho que é dari ou pashto – falei, achando graça quando Ben pareceu desolado por minha correção. – Tenho certeza de que ele pode te ensinar algumas palavras, se você estiver interessado. Ele deu de ombros, sem se comprometer. Compreendi: Sebastian era um fator desconhecido; era um deles, mas não exatamente um deles. Gradualmente, os homens ficaram mais relaxados em minha presença, e os risos e piadas atraíram mais gente para nosso canto do complexo. Riso que morreu no momento em que o capitão Grant aproximou-se para ver o que estava acontecendo. Acho que ele ficou levemente surpreso por ver que eu não estava sendo um pé no saco só para variar, porque foi quase civilizado comigo, esquecendo, ou ao menos perdoando, minha indiscrição anterior. Por fim, resolvi terminar por aquele dia e, apesar de me pedirem para ficar e papear, fui para meu armário. Os banheiros eram bem básicos e eu temia me familiarizar com eles. Entretanto, ao menos não teria o trabalho incrivelmente nojento de queimar os dejetos todo dia. Perguntei-me se esse serviço estaria reservado para servir como punição. Escovei meus dentes e enxaguei com um gole de água tépida, limpei um pouco da poeira do rosto com lenços umedecidos, tirei as botas e pousei meu colete à prova de balas em um lugar onde pudesse alcançá-lo numa correria. Eu sabia que estava provavelmente fedida depois de um dia suando constantemente, porém estava cansada demais para me importar, e não era como se eu pudesse vestir minhas calças de stretch depois de ficar de molho na banheira. Em vez disso, fiquei ouvindo os sons do campo ao meu redor: homens indo para seus dormitórios, outros indo para vigília. Percebi o que estava faltando: não havia nenhum canto de pássaros. Nada, nenhum ruído de vida animal. O pensamento me perturbou, despertando-me muito mais do que o alarme que não escutei de manhã. E então ouvi passos suaves do lado de fora da minha porta. – Caro? – ele murmurou. Abri a porta e vi Sebastian agachado na pouca luz. Ele se espremeu pela abertura estreita e passou os braços ao meu redor, abraçando-me apertado. – É um sonho ter você aqui – sussurrou ele. – Fico pensando que vou acordar e descobrir que imaginei você. Eu o abracei mais forte. – Meus sonhos normalmente não são tão bons assim.


– Os meus são – respondeu ele, baixinho. – Ou eram. Quando você foi embora aquela primeira vez, eu sonhava com você o tempo todo. – E o que eu fazia? – falei, afagando seu rosto. Ele esfregou o rosto em minha mão, respirando fundo. – Na maior parte do tempo, ficávamos só caminhando na praia. – Na maior parte? Ele sorriu. – Às vezes fazíamos outras coisas. – Coisas? Não sei o que você quer dizer com isso – falei, esfregando a parte da frente da calça dele, sugestivamente, torcendo para que ele sentisse a necessidade de elucidar. – Caro! – gemeu ele. – Porra, eu vim só para garantir que está tudo bem com você aqui. Tenho que voltar para a sala de comunicação. – Agora mesmo? Não pode demorar uns minutos? Ele me beijou, faminto. – Não posso mesmo, meu bem. Grant está esperando por mim. – Você gosta de provocar, não é? – falei, dando-lhe um tapa no traseiro. – Você vem aqui, faz minhas expectativas crescerem… – Não foi só isso que cresceu – comentou ele, cínico. Sorri para ele. – Bem, eu ficaria contente em cumprir essas expectativas, mas pelo jeito você precisa ir e ser um soldado… – Na verdade, eu tenho que ir ser um intérprete… Mas posso tentar voltar mais tarde, Caro. – Sebastian, é sério: faça o que precisa fazer. Você sabe onde eu estou, e confio em você para saber se é seguro ou não correr esse risco. Fico preocupada por ser uma distração para você aqui. O mais importante é que você se concentre em seu trabalho. Temos o resto das nossas vidas depois disso. Ele me beijou de novo, depois pousou a testa contra a minha. – Sou um safado sortudo. Graças a Deus por você, Caro. – Te vejo no café da manhã, chefe – falei, passando a mão por seu cabelo. – Mais uma coisa – disse ele, olhando para mim com seriedade. – Tem havido algumas conversas pelo rádio e o Talibã definitivamente sabe que estamos aqui. Não acho que eles vão tentar algo esta noite; não estão em posição, pelo que consegui descobrir, mas se você ouvir alguém gritar “sob ataque”, vista seu colete, mantenha a cabeça baixa e fique aqui, longe das janelas. Aconteça o que acontecer, Caro, fique aqui. Todos lá fora sabem o que estão fazendo; não precisamos da sua ajuda. Entende o que estou dizendo, meu bem? Eu o abracei com força. – Prometo que ficarei. Não quero você pensando em mim quando tem coisas mais importantes em que se concentrar. Ele deu um sorriso breve. – Não existe nada mais importante que você.


Em seguida, beijou-me gentilmente, pressionando os lábios macios contra os meus. Mais um instante e ele partiu. Ajeitei-me no colchão, desfrutando do relativo frescor do ar noturno. Torci para que Sebastian conseguisse voltar mais tarde, mas não contei com isso. Apenas saber que ele estava próximo já me deixava mais tranquila. O despertador do meu relógio de pulso me acordou pouco antes do alvorecer. Sentei-me de imediato, o coração martelando no peito. Podia ver uma sombra encolhida no canto do meu quarto. Ela se moveu e se espreguiçou. – Sebastian! – murmurei. – O que você está fazendo? – Oi, meu bem – resmungou ele, sonolento. – Há quanto tempo você está aí? Por que não me acordou? – Duas horas, acho. Eu não quis te acordar, você parecia tão sossegada. Arrastei-me pelo colchão e passei os braços em torno do pescoço dele. Pude sentir a barba que crescia em seu rosto. – Você nem tirou as botas – comentei, enterrando o rosto no pescoço dele. Sebastian riu baixinho. – Não parecia fazer muito sentido. – Ele beijou meu cabelo e ficou de pé. – Tenho que ir, meu bem. – Já? – perguntei, desapontada. Ele sorriu. – É, preciso me lavar e barbear antes da patrulha da manhã. – Você tem sorte – falei, com um sorriso seco. – Estou dependendo de lenços umedecidos enquanto estiver por aqui. Você vai me conhecer em outro nível, Sebastian. Ele riu baixinho. – Mal posso esperar por isso, meu bem. Te vejo mais tarde. Completei rapidamente minhas abluções matinais (dois lenços umedecidos para o rosto e axilas, e um tiquinho de creme dental para escovar meus dentes). Fiquei emocionada, mais do que emocionada, por Sebastian ter dormido na ponta do meu colchão, certificando-se de que eu estava bem, quando seria muito melhor para ele dormir na própria cama por algumas horas. De alguma forma, aquilo me disse muito mais sobre como ele se sentia do que se ele tivesse me acordado para uma rodada de sexo ilícito. Eu não teria me incomodado com isso, e fiquei desapontada por ele precisar partir tão rápido. Sabia que ele estava tentando o melhor que podia manter nossa relação em segredo. Deus, eu o amava por tentar. O que me lembrava: ele tinha saído para se lavar e barbear. Agarrei minha câmera e saí. O sol começava a surgir atrás das montanhas, tecendo nuvens rosa e púrpura ao redor dos cumes quando, como um presente do céu, vi uma fileira de fuzileiros navais despidos da cintura para cima lavando-se lá fora ao ar fresco. Nicole teria enlouquecido: toda aquela carne masculina rija e tonificada em exibição. Era uma belíssima visão, mas eu estava à procura de um exemplar específico, sensual e musculoso, que conheci muito bem nas últimas semanas. Escondi-me atrás da câmera e captei imagens da vida no complexo. Claro, claro. Finalmente tinha uma fotografia de Sebastian que poderia manter com o mínimo de legitimidade enquanto trabalhava.


Aí um dos fuzileiros mais velhos me viu. – Vai fazer um poster comigo, madame? E foi quando as cantadas começaram. Fuzileiros de todos os tamanhos e formas começaram a flexionar os bíceps e até esfregar os mamilos na minha direção. Não contive o riso, mais pela carranca furiosa no rosto de Sebastian que por qualquer outra coisa. – Cavalheiros – falei –, está cedo demais para isso tudo. Eu nem recebi minha MRE do café da manhã ainda. A provocação bem-humorada continuou enquanto eu abria caminho pelo complexo até a fila para a comida. Hum, mais macarrão e carne em pacotinhos plásticos. Não era de se espantar que surgissem zombarias com o significado de MRE, como “Mistureba de Rangos Estranhos”, “Merenda Revoltadora de Estômagos” ou “Melhor Roer Escombros”. Eu estava torcendo muito para que recebêssemos uma entrega por helicóptero de um pouco de frutas frescas e rações A, que são as congeladas ou frescas, em algum momento ao longo das próximas três semanas e meia. Senão, meu vidrinho de molho de soja não duraria muito. O capitão Grant espetou a cabeça para fora, procurando pela fonte do bom humor sem razão. Quando me viu, pareceu surpreso e assentiu polidamente um cumprimento. Eu devolvi o gesto, mas não contive um sorriso. Ele sorriu cautelosamente, depois voltou a entrar. Dez minutos depois, juntei-me aos oficiais e sargentos da artilharia para a reunião da manhã. Sebastian também estava lá, recém-barbeado e rabugento. – Essa manhã teremos quatro patrulhas saindo. Crawley, quero você e sua equipe comigo indo para o nordeste, seguindo o leito do rio. Romero, vá para o noroeste, contornando a cidade. Jankowski, seus homens vão tomar a velha área do mercado com Holden flanqueando você a 100 metros. – Hunter, você está encarregado dos intérpretes – informe-os antes de sairmos. A população aqui é sunita. Algum de seus homens é xiita? – Dois, senhor – disse Sebastian. – Eu disse a eles para ficarem para trás hoje. – Isso vai nos fazer falta? – perguntou Grant, franzindo a testa. – Não, senhor, mas uma das equipes vai ter que ficar com Angaar: o inglês dele é mais ou menos. – Então envie um dos outros com ele. – Eles não se dão, senhor. Isso pode causar problemas. – Então certifique-se de que não haja problemas, Hunter! – disparou o capitão. Sebastian não discutiu, mas vi que ele estava levemente zangado. Quando a reunião terminava, aventurei-me a levantar a mão. Parte de mim esperava que eu ficasse com a patrulha de Sebastian; outra parte esperava que não, porque eu sabia que seria uma distração para ele. – Com que equipe o senhor gostaria que eu ficasse, capitão Grant? Ele ergueu os olhos, claramente irritado. Bem, foda-se ele! Ele não era o único com um trabalho a fazer por aqui. – Talvez “gostaria” seja uma palavra forte demais, capitão – sugeri, friamente.


Vi os lábios de Sebastian se curvarem em um sorrisinho, antes que ele rapidamente se controlasse. Ele não foi o único: vi dois dos outros oficiais sorrirem abertamente. – É melhor que venha comigo, Srta. Venzi – resmungou o capitão, de má vontade. – E você também, Hunter. – Sinto-me como Fox Mulder – murmurei em um volume alto o bastante para Grant ouvir, mas não o suficiente para merecer uma resposta. – A “mais indesejada” entre os fuzileiros navais. A testa do capitão vincou-se, mas pensei ter detectado também um traço de humor em seus olhos. As patrulhas da manhã deixaram o complexo a pé. A missão de hoje era um reconhecimento da área e ter uma ideia mais exata do terreno. As duas patrulhas checando o antigo mercado provavelmente tinham o trabalho mais perigoso, apesar de nenhum dos outros ser seguro. Contudo, aqueles prédios do velho bazar ofereciam uma variedade de lugares onde explosivos improvisados poderiam ser plantados ou onde homens armados poderiam se esconder. Por comparação, meu passeio pelo leito seco do rio seria tranquilo. Ou talvez “mais tranquilo” fosse uma descrição melhor, porque o calor já aumentava, desconfortável, e nada seria fácil hoje. Eu fui posicionada no meio da patrulha, por segurança. Sebastian estava na frente com o capitão quando vimos nossos primeiros moradores. Quatro garotinhos, com idade entre oito e nove anos, sentados em uma área poeirenta quando nos viram. Eles ficaram de pé rapidamente, parecendo amedrontados, mas Sebastian os chamou e eles o encararam, surpresos. Ele disse mais alguma coisa e vi o garoto maior, que agia como se fosse o líder, balançou a cabeça. Depois o menino apontou para as colinas. Tirei uma rápida foto enquanto ninguém olhava. – Ele disse que há soldados do Talibã nos contrafortes, senhor – disse Sebastian para Grant, baixinho. – Eles se posicionaram durante a noite. Ele não acha que vão sair durante o dia. Não sei se eu levaria isso como garantia infalível, mas pode significar que eles vão nos atacar ao anoitecer, ou logo cedo amanhã. Eu o vi olhar de relance para mim. – Mais alguma coisa? – disse o capitão. Sebastian suspirou. – Ele disse que o pai dele prometeu lhe dar um rifle como o meu quando ele fizer dez anos. Inevitável me perguntar por quanto tempo essa guerra continuaria, quando crianças estavam sendo usadas para levá-la adiante. Aí um dos meninos me viu e ficou boquiaberto, me apontando abertamente para um dos amigos. Eles dispararam uma pergunta e Sebastian sorriu. – Eles querem saber se a Srta. Venzi é a sua esposa, senhor, ou se o senhor a trouxe para cuidar da cozinha. Essa vai ter volta, Hunter! Alguns dos soldados riram, mas Grant pareceu levemente perturbado. – Diga a eles que ela cuida da cozinha – disse ele. Sebastian deu a resposta a eles e os meninos assentiram, com cara de sabidos. Depois ele entregou um doce a cada um deles e nós seguimos em frente, observando eles nos acenarem em despedida.


À distância, disparei outra foto deles acenando, depois me apressei a falar com Grant. – Gostaria de explicar aquilo para mim, capitão Grant? – perguntei calmamente, enquanto lhe lançava um olhar raivoso. – Não quero que saibam que temos uma jornalista conosco – disse ele, curto. Ele tinha razão e, apesar do calor, senti um calafrio percorrer minha coluna. Enquanto eu voltava a meu lugar no meio da patrulha, olhei para Sebastian e flagrei-o olhando para mim, uma expressão séria e preocupada em seu rosto. Nós seguíamos lentamente ao lado do leito seco do rio quando um dos fuzileiros na dianteira gritou: “sob ataque!”. Olhei para cima e vi um claro lampejo no céu, ao mesmo tempo em que ouvi um rugido muito alto lá em cima. Eu meio mergulhei, meio caí no leito seco do rio, seguindo os fuzileiros que atingiram o deque no segundo em que seus colegas gritaram. A granada que lançaram chacoalhou o chão ao explodir e a percussão do ar quente me ensurdeceu. Apesar de estar aterrorizada, notei que o barulho não tinha ocorrido perigosamente próximo a nós. – Lançadores de granadas, senhor! – gritou o sargento de artilharia. – Os safados erraram por 300 metros. Lá em cima, nos contrafortes, senhor. Estaremos ao alcance deles a qualquer segundo. Ele tinha razão: estávamos na mira deles e presos. O leito do rio nos oferecia uma boa proteção, mas também não nos deixava muito movimento. Sebastian agachou-se perto de mim. – Você está bem? – Estou ótima, não se preocupe comigo. Não vou me mexer. Prometo. Ele me olhou, ansioso, depois voltou para junto do capitão Grant. Dois homens se adiantaram com um pequeno morteiro e dispararam algumas vezes. O chiado característico foi distintamente reconfortante. – Hewitt – gritou o capitão. – Chame o apoio aéreo. Quero que bombardeiem esses merdas até cansarem! Dê a eles as coordenadas, agora! Consegui me virar na área limitada e tirei fotos do fuzileiro naval no rádio chamando o apoio aéreo e dos dois que disparavam o morteiro de vez em quando. Dois outros disparos de granadas ocorreram, cada vez mais próximos, embora não o suficiente para preocupar os homens ao meu redor. Pensei estar em uma experiência extracorpórea: todos pareciam tão calmos, inclusive eu; enquanto outra parte, mais quieta e racional, estava apavorada. Por sorte, eu tinha outra coisa em que me concentrar. A despeito do calor e do fato de eu ter suado o bastante para deixar marcas de sal em minhas roupas, estava morrendo de vontade de fazer xixi. Talvez fosse só o medo, afinal, mas eu não sabia por quanto tempo mais podia aguentar. Outros quinze minutos se passaram e a pressão em minha bexiga estava se tornando intolerável. Eu considerei seriamente fazer nas calças, bem ali mesmo. Estava tão quente que minha roupa secaria rapidamente; a pontada de humilhação, contudo, duraria muito mais. Senti-me melhor quando notei vários fuzileiros navais discretamente urinando no leito do rio. Deus, era tão mais fácil para os homens. Eu devia ter usado uma saia longa como as mulheres locais, aí poderia apenas me agachar na poeira e ninguém ficaria sabendo.


Naquele momento, ouvi o som de um jato passando acima de nossas cabeças. – Harrier – murmurou o fuzileiro entediado, de joelhos perto de mim. Houve uma explosão tão barulhenta que soou como se a montanha toda tivesse vindo abaixo. Uma segunda explosão ocorreu logo em seguida. Pressionei meu rosto no chão no fundo do leito do rio e tentei me lembrar de respirar. Contei até cem antes de ousar olhar para cima de novo. Uma espessa nuvem de poeira e fumaça pesava sobre os contrafortes, preguiçosamente descendo para o vale amarelo. Sentei-me para tirar uma rápida foto. Até me lembrei de tirar a tampa da lente, o que achei bem impressionante, naquelas circunstâncias – e ainda queria fazer xixi. Então reparei que vários dos homens sorriam para mim. – Foi sua primeira vez sob ataque, senhora? – Primeira vez tão de perto – falei, com um sorriso apertado. – Quase mijei nas calças. Eles riram, tranquilos. – Vem, a senhora pareceu muito sossegada. Deveríamos torná-la uma fuzileira naval honorária. – Tenho certeza de que o capitão Grant vai ficar deliciado com essa sugestão – resmunguei, piscando para eles, conspiratória. Olhei do outro lado e vi Sebastian sorrindo para mim. Coloquei a mão sobre o coração e sorri de volta. Após esperar para ver se haveria outros ataques com lançadores de granadas, lentamente voltamos pelo leito seco do rio. A essa altura, minhas necessidades biológicas haviam se intensificado e eu praticamente corri pelos últimos cem metros até a área que servia como banheiro no complexo. “Corri” pode ser um exagero: eu estava usando quase dez quilos de equipamento de proteção; “tropecei” provavelmente seria mais preciso. O alívio, porém, não tinha como ser exagerado. Eu flutuava quando saí, indiferente aos gritos e comentários não muito construtivos dos fuzileiros navais que me observavam com amplos sorrisos nos rostos. Tudo de que eu precisava agora era um banho quente, um bom livro e um homem gostosão. Eu havia chegado bem perto de um encontro pessoal com o Talibã; um pouco de sexo para reafirmar a vida seria muito bem-vindo. Não pude ver Sebastian no mar de uniformes utilitários para o deserto, mas torci para que ele me encontrasse mais tarde. Arrastei minha carcaça sofrida para o quarto, larguei o equipamento de proteção, muito grata, depois peguei meu laptop e o carregador solar e me sentei à sombra, escrevendo minhas anotações. Pude ver uma pequena agitação de atividade ocorrendo em um canto, com fuzileiros juntando pedaços de corda e galões velhos. Meu corpo estava exausto demais para imaginar o que eles estavam fazendo, e meu cérebro estava aturdido demais para se importar. No entanto, notei que Sebastian estava organizando o trabalho. Após mais dez minutos, ele aproximou-se com displicência e se agachou perto de mim. – Como vai, meu bem? – perguntou ele, a voz baixa.


– Muitíssimo bem, chefe – respondi –, considerando-se que eu quase levei um tiro no traseiro hoje. Ele riu baixinho. – Você é absolutamente incrível, Caro. – Você também não é nada mau, Sebastian. Ambos reparamos nos olhares curiosos que estávamos recebendo ao mesmo tempo. Ele se levantou de súbito. – Nós preparamos um chuveiro improvisado para você. – Como é que é? – falei, certa de ter ouvido errado. – Os rapazes queriam fazer algo por você. Eles te acham uma mulher corajosa. Aí fizeram um chuveiro. Você tem cerca de dois minutos e meio de água morna. Que tal? – O quê? Como? Encarei-o boquiaberta, e ele sorriu. – Eu deixei alguns recipientes de água lá fora no sol durante o dia. Eles ficaram bem quentes: tudo o que precisamos fazer foi levantá-los e fazer uma ducha. Está tudo pronto para você. Só não vai poder tirar a roupa, mas já é melhor do que nada, acho. – Deus, eu te amo! – murmurei. – Mas acho que também os amo! Ele bufou, mas pareceu divertido enquanto eu acenava para a equipe que montou o chuveiro. – Já volto! Corri até meu quarto e peguei um sachê de shampoo. Não pensei que fosse precisar dele, mas fiquei muito feliz por tê-lo incluído em minhas coisas, no final das contas. A ducha estava perfeita: lavar todo o sal e a poeira do meu cabelo foi ainda melhor. Eu até consegui lavar minhas roupas de leve, já que continuei vestindo-as, antes que a água acabasse. Depois me sentei ao sol da tarde e deixei a roupa secar no corpo, enquanto conversava com alguns dos rapazes e ouvia suas histórias. O capitão Grant saiu para dar uma conferida e eu até consegui arrancar um sorriso dele. Torci para que a trégua durasse – desde que eu conseguisse não perder a hora de novo, é claro. Outra caixa de MRE, quatro balas e um café muito ruim mais tarde, eu me arrastei para a cama. Se Sebastian viesse para o meu quarto essa noite, teria que me cutucar com um graveto para me acordar. Meus ombros doíam por usar o pesado equipamento de proteção o dia todo. Eu não conseguia imaginar como os rapazes se sentiam, o equipamento deles era ainda mais pesado, e eles ainda precisavam carregar as mochilas, munição e um rifle de quatro quilos. Contando o equipamento todo e as mochilas, o peso combinado era provavelmente maior do que o meu. Com esse pensamento, desmaiei.


C APÍ TU LO

15

ESTAVA ESCURO QUANDO ACORDEI;

percebi que não

estava sozinha. – Oi, meu bem – murmurou ele. – Eu não queria te acordar, só queria te ver. Ele estava sentado no pé do meu colchão de novo. Olhei no escuro para sua silhueta difusa contra a sombra mais escura da parede. Esfreguei meus olhos ardidos e estendi a mão para ele. – Você está longe demais – resmunguei, erguendo os braços em sua direção. Ele se desdobrou do chão e tentou me alcançar, mas suas botas acertaram o chão. – Cacete – resmungou ele –, eles te deram uma porcaria de uma gaiola para dormir. – Pelo menos é privativo, Sebastian – falei, deslizando o dedo por seu queixo com a barba despontando. Ele sorriu. – É, pelo menos tem isso. Ele se inclinou sobre mim, sustentando o peso em seus braços, e me beijou com suavidade. Acho que ele tinha em mente apenas um beijo de boa noite; eu, certamente, não planejava o mesmo. Coloquei os braços ao redor do pescoço dele e travei nossos rostos juntos. Precisando de mais, forcei a passagem de minha língua entre seus lábios e explorei sua boca avidamente. Ele tinha gosto de sal e chiclete de menta. O desejo floresceu dentro de mim e minhas mãos desceram por suas costas, pousando em seu belo traseiro, sentindo o tecido áspero sob meus dedos e apertando com força. – Tem certeza, Caro? – ofegou ele. – Sim – sussurrei. – Aqui, agora. Ele gemeu baixinho e senti o peso de seu corpo pressionar meu peito. – Mas você vai ter que ficar pelado – acrescentei. Ele suspirou e se afastou de mim.


– Vou ter muito a explicar se o Talibã atacar e eu sair correndo do seu quarto com a bunda de fora – retrucou ele. Era uma preocupação justa, e ele só estava tentando proteger minha honra e agir profissionalmente, como eu havia pedido. E, no entanto… pesei os prós e os contras, percebi que ele tinha razão, e resolvi tirar sua roupa mesmo assim. Tínhamos estado sob o fogo inimigo hoje, e o enfrentamos juntos. Vi o quanto eu era sortuda: sobreviver tinha me deixado voraz, e eu ansiava por uma rodada de sexo bruto e vivo com meu lindo noivo. Eu sentia, muito literalmente, que a vida era curta demais para não agarrar algo tão bom com as duas mãos. Esse homem entre meus braços tinha me dito várias e várias vezes que me amava, que sempre havia me amado. E, apesar de tudo que o destino jogou em nosso caminho – tempo, distância e a diferença de idade – estávamos apaixonados. Como ou porque não pareciam mais importar; finalmente eu aceitei que isso era real e que não ia desaparecer. Que Sebastian não iria desaparecer. Aceitei que ele era lindo e sexy e mais novo que eu, e que mulheres com corpos muito mais bonitos e muito mais jovens também o desejariam. E aceitei que ele não era perfeito, que tinha uma fileira de conquistas em no mínimo três continentes, e aceitei que a vida continuaria a jogar novos obstáculos em nosso caminho – e eu não estava nem aí para isso. Não era perfeito; e daí? A vida não era perfeita. A vida é o que acontece enquanto você espera por seu momento ao sol e, se você a perde, esperando pela ilusão perfeita que Hollywood vende, então o bobo é você. Eu passei metade da minha vida esperando pelo momento certo. Estava cansada de esperar. – Hora de ficar pelado, chefe – ordenei. – Me convença – disparou ele. Ah, com toda a boa vontade. – Humm, certo, o que posso te oferecer em troca para você tirar a camisa? A sobrancelha dele se arqueou. – Troca? – Sim. Eu quero que você tire a sua camisa, mas pelo visto terei que dar algo em troca. Se eu concordar com os seus termos, você tira. Se eu não concordar, você pode ficar com ela. – De verdade? – Sim, Sebastian – falei, contente com meu improviso, mas também intrigada para ver o que ele inventaria. – Uma camisa por outra, Caro. Certo, então ele ia pegar leve comigo. Mas eu estava vestindo muito menos do que ele. Abri minha camisa e observei seus olhos se arregalarem enquanto ele respirava fundo, o olhar preso aos meus seios. Sua jaqueta e camiseta atingiram o chão e ambos estávamos nus da cintura para cima. – Até aqui, tudo bem. Quero que tire suas botas e as meias. Ele pensou por um momento. – Certo, mas quero que você toque seus seios, Caro; acaricie até os mamilos ficarem durinhos.


Deslizei a mão de leve sobre meu corpo, brincando com os mamilos enquanto fitava-o nos olhos. – Porra! – exclamou ele, umedecendo os lábios. – As botas – falei, minha voz cortante de desejo. Ele levou um minuto para desamarrar as botas e tirá-las dos pés, depois retirar as meias. O fato de eu ainda estar massageando meus seios e me excitando com minhas mãos e seu olhar não auxiliava na coordenação motora dele. – Quero que tire suas calças, Sebastian. – Então você tem que tirar esse pijama também, Caro. Tirei-o rapidamente, acrescentando-o à pilha de roupas no canto. Sebastian correu para empatar comigo, abrindo o zíper da calça e jogando-a no chão. Meus olhos foram atraídos para o volume muito notável em sua cueca. Mas eu precisava fazê-lo tirar a peça antes, e não tinha mais nenhuma roupa para oferecer em troca. – Quero você nu, Sebastian – sussurrei. – E eu quero que você se masturbe para mim, Caro. Quero ver você gozar. Fiz uma careta. – Que foi? – disse ele, confuso. – Sebastian, eu posso fazer isso qualquer noite da semana; francamente, eu esperava que você fizesse isso por mim. Ele sorriu. – É, mas isso seria bem empolgante pra mim. – Tudo bem, mas você também, então. – Eu também, o quê? – Tire a cueca, bote mãos à obra e goze pra mim. Ele hesitou por um momento. – Ah, mas que diabos. Ele deitou-se de barriga para cima e ergueu o traseiro para poder deslizar a cueca pelos quadris. Sua ereção imediatamente saltou, livre. Em seguida, Sebastian se sentou, apoiado na parede de frente para mim, e começou a se masturbar. Eu me ajoelhei, separando bem os joelhos, e comecei a esfregar meu clitóris lentamente. Senti-me totalmente excitada ao assistir enquanto ele se tocava de maneira tão íntima, olhar nos olhos dele quando sua respiração começou a se acelerar, ao mesmo tempo em que ouvia meu próprio gemido suave. Ele fechou a mão direita com mais firmeza ao redor do membro e começou a segurar com mais força; eu o imitei, movendo-me com a mesma velocidade, minhas costas se arqueando quando senti um tremor começar dentro de mim e meu corpo implorar pelo clímax. – Ah, que se foda isso – rosnou ele. Sebastian jogou-se adiante, forçando-me a deitar de costas, e me penetrou com força, movendo-se rapidamente. Bati no ombro dele e o empurrei. – Camisinha! – Cacete! Cacete! Cacete!


Ele saiu de mim apressadamente, agarrou a calça e as arrastou até suas mãos, vasculhando no bolso por um envelopinho. Voltou a xingar quando o deixou cair e teve que procurar por outro. – Estou coberto – sibilou ele, finalmente. – Por trás. Com força. Ouvi ele prender o fôlego, mas não precisei pedir duas vezes. Virei-me, fiquei de quatro e senti Sebastian segurar meus quadris. Ele me penetrou com tanta força que tive que abafar meu grito com uma das mãos. Desabei sobre meus antebraços enquanto ele perdia o controle, arremetendo sem parar dentro de mim, me usando para sexo, exatamente como eu lhe pedi. Foi forte e intenso e bem o que eu queria, o que eu precisava. Empurrei a bunda de encontro a ele e senti seus testículos batendo contra minha pele conforme ele mergulhava dentro de mim vezes sem conta. Ele se inclinou e deu a volta com o braço para massagear meu seio esquerdo, apertando o mamilo com força suficiente para me fazer gritar. Em seguida soltou e desceu um pouco mais a mão, seus dedos me circulando e alcançando um ponto tão atrás que eu sabia que ele estava tocando seu membro ao mesmo tempo, sentindo seu corpo entrar e sair do meu. Levei minha mão até a dele e entrelaçamos nossos dedos, literalmente sentindo nossa conexão. Meu corpo cedeu quando eu gozei e Sebastian enganchou o braço ao redor da minha cintura para me manter ereta até que seu próprio clímax o fizesse desabar no meu colchão fino. Eu estava quase desmaiando, ofegante, e a respiração de Sebastian vinha entrecortada. Eu podia sentir o suor no meu peito e nas costas. Sebastian retirou-se de meu corpo, um movimento que fez com que eu me encolhesse. Eu pedi com força, e foi o que ele me deu. Minha nossa, e como deu. Senti seu hálito em meu pescoço e sua mão pousou em meu quadril. – Você está bem? – suspirou ele. – Sim – arfei. – Tirando o fato de que amanhã vou andar como se tivesse acabado de desmontar de um camelo. E você? – É, acho que rasguei meu prepúcio, ou o que restava dele – murmurou ele. – Sério? – Eu me virei para encará-lo. – Você está bem? Ele sorriu e afagou meu rosto. – Só brincando, Caro. Isso foi incrível. Você parecia doida. – Você também. Mas tem razão… não sei o que me deu – além de você, é claro. Quer fazer de novo? – Jesus, Caro! Está tentando me matar? – Hum, morte por orgasmo. O que você acha? Um punhado deles de manhã? – Se você quiser, Caro… Mas sabe o que eu realmente gostaria de fazer agora? – Pode me chocar. Ele me puxou para seus braços e me fitou com seriedade. – Quero fazer amor com você, Caro. Eu adorei isso, mas foi só sexo. Podemos ir devagar agora, meu bem? Levar o tempo que quisermos? Eu quero tocar cada parte do seu corpo.


Ele me beijou gentilmente e passou as mãos pelos meus ombros, até a cintura, expressando com as mãos o que havia me dito em palavras. Seus movimentos eram ternos e amorosos e gentis: havia tantos lados diferentes nesse homem complexo. Era um aprendizado descobrir todas as suas facetas e o quanto a confiança entre nós crescia. Finalmente ele adormeceu, seu corpo curvado ao redor do meu, a cabeça pousada em meu peito. Conforme a noite passou e a manhã se aproximou rapidamente, relutei eu despertá-lo. Ele tinha perdido muito sono para cuidar de mim nessas últimas duas noites, e precisava estar alerta. Esperei até o último segundo possível para acordá-lo. – Hora de acordar, Sebastian – falei, relutante, passando as mãos sobre a pele sedosa de suas costas. Ele piscou e tentou se espreguiçar, mas acabou chutando a porta de novo. – Muito discreto, chefe – comentei, observando-o sentar e procurar a cueca. Ele sorriu para mim. – Claro, treinado em discrição, camuflagem e ocultação, meu bem. – Você certamente estava se ocultando em mim essa noite – várias vezes, se me lembro direito. – Perdeu a conta, meu bem? – sorriu ele. Nem me dei ao trabalho de responder; em vez disso, tinha outra pergunta. – Aliás, como você está conseguindo entrar aqui sem que ninguém note que você não está onde deveria? Ele franziu o cenho. – Não é tão difícil. Eu estou meio que separado de todo mundo. Sou um acréscimo, então nenhum deles me conhece; estou encarregado dos outros intérpretes, mas todos eles são afegãos, então também não faço parte deles. Era diferente quando eu ainda estava com a minha unidade, mas assim ninguém sabe onde ou quando eu estou a serviço. Exceto Grant, e ele tem mais com que se preocupar do que onde eu durmo. Funciona muito bem, hein, Caro? Percebi que o trabalho dele devia ser muito solitário às vezes, e que, ao passar tempo comigo, ele não estava fazendo amizade com os outros membros da unidade. A máquina militar funcionava melhor quando todos conheciam seu trabalho e o executavam adequadamente; vidas dependiam disso. Porém, analisando a fundo, era inevitável pensar que os homens lutavam por seus amigos, pelos caras da sua unidade, em vez de por seu país. Isso era um fator, claro, mas nesse tipo de guerrilha, sua vida normalmente dependia do cara com quem você comia. Eles eram a sua família. Olhei para cima e vi que Sebastian me fitava, a cabeça de lado, como se tentasse ler o que se passava em minha mente. Sorri para ele, escondendo minha preocupação. – Hora de mexer esse traseiro, Sebastian. Te vejo mais tarde? Ele me beijou rapidamente e disparou pela porta. Meio minuto depois, eu o vi caminhando com displicência pelo complexo, cumprimentando alguns dos homens que estavam acordando ou saindo do serviço de guarda.


Bocejei e me espreguicei, tirando um momento para me refrescar com mais alguns lenços umedecidos antes de sair para me juntar à fila da comida. A fofoca do dia era que rações frescas seriam entregues por helicóptero dentro dos próximos dois dias. Além do medo terrível de estar sob fogo inimigo, isso era o mais empolgante que as coisas ficavam. Percebi que, se aconteceria uma entrega de comida, então podia haver correio também. Resolvi manter minha promessa a Sebastian e escrever-lhe uma carta. Felizmente, o dia foi muito mais tranquilo do que o anterior. Não fui enviada com Sebastian; em vez disso, acompanhei o tenente Crawley e um alegre intérprete afegão chamado Gawhar, que me disse que seu nome significava “joia”. Ele ficou fascinado pelo fato de que eu não era casada nem tinha filhos. Ficava perguntando quem era “responsável” por mim. Ele não conseguia compreender minha resposta, “ninguém”. Eu nem queria imaginar como ele ficaria confuso se um dia encontrasse uma oficial com homens sob seu comando. Torci para que minha presença lhe oferecesse outro ponto de vista, no mínimo. Gawhar pensava que mulheres deveriam ser educadas “até os 11 anos”, para que pudessem ser mais úteis na educação das crianças. Em certa época, as mulheres do Afeganistão podiam ir à faculdade; agora, qualquer um que tentasse educar mulheres vivia muito perigosamente. A atitude de Gawhar era relativamente liberal, comparada à de tantos. Suspirei. Esse pobre país tinha um longo caminho a percorrer. Nossa patrulha foi a primeira a retornar ao complexo. Grant confirmou que uma entrega de comida ocorreria em breve, então cada fuzileiro naval poderia tomar uma ducha de um minuto com o que restava da ração de água. Em breve havia uma quantidade inacreditável de pele à mostra. Fiquei contente por ter um par de óculos escuros atrás do qual esconder meu rubor – ou talvez meu interesse. Eu nunca havia prestado muita atenção a esse tipo de coisa, apesar de morar na praia. Hum. Eu culpava Sebastian. Voltei para meu quarto e comecei a digitar anotações e polir dois artigos que já estavam quase prontos para envio. Fiquei contente também com as fotos. Aquelas do dia anterior eram particularmente dramáticas, embora olhar para elas trouxesse de volta um pouco do terror de fazer tremer os joelhos que eu sentira. Após uma hora digitando, fechei o laptop e me sentei do lado de fora para poder escrever uma carta à moda antiga, com papel e caneta, para Sebastian. Estava determinada que, se o correio chegasse logo, ele teria uma carta para abrir. Passei meu tempo sendo criativa: ele disse que queria ser depravado comigo, então esbocei algumas ideias, para ver se alguma delas estava na lista de desejos dele. Era uma vergonha que nosso tempo e espaço fossem tão limitados agora. Eu queria mostrar a ele o que uma quarentona ex-sexualmente frustrada e de posse de um bom vocabulário podia imaginar. A patrulha de Sebastian foi a última a voltar ao complexo. Mesmo à distância, pude ver que o rosto dele estava tenso. Ele olhou para onde eu estava e balançou a cabeça imperceptivelmente. Alguns minutos depois, emergiu do escritório improvisado de Grant e veio até mim. – O capitão Grant gostaria de vê-la, senhora – disse ele, formal.


Eu o segui pelo complexo, ansiosa, enquanto ele pressionava os lábios um contra o outro em uma linha dura. O escritório de Grant parecia sombrio depois do sol rigoroso. Ele acenou para que eu usasse a única outra cadeira na sala e Sebastian ficou de pé em silêncio atrás de mim. – Srta. Venzi, sua presença está causando algum interesse entre a população local. Durante a patrulha, o chefe Hunter ouviu algumas conversas que o preocuparam. Olhei para Sebastian que permaneceu resolutamente mudo. – O que essas conversas dizem? – instiguei. – No momento, ainda é muito vago, mas a notícia de que há uma mulher conosco vai se espalhar rapidamente agora. Temos um novo cozinheiro e um novo médico chegando em seis dias, então o helicóptero vai chegar em breve. Se você se tornar um ponto de interesse, como acho que será o caso, estará se arriscando e colocando também meus homens em risco. Quero que pegue esse voo, Srta. Venzi. Senti como se ele tivesse me esmurrado, todo o ar deixando meus pulmões. Mas também compreendi sua posição. Ele estava tomando uma decisão estratégica. Não tentou me persuadir ou me enrolar, apenas me falou as coisas como elas eram. – Entendo. Bem, obrigada por ser tão franco e explicar a situação para mim, capitão Grant. Vou me assegurar de fazer o máximo de trabalho que puder e estarei pronta para partir quando o senhor aconselhar. O capitão pareceu aliviado; talvez esperasse que eu fosse argumentar ou dar um chilique. Eu posso ter sido a estúpida que dormiu demais no primeiro dia integrada à unidade dele, mas não era egoísta a ponto de arriscar a vida dos outros. Especialmente a de Sebastian. A pior parte era saber que eu o deixaria para trás. Eu sempre soube que esse dia chegaria, só achei que teria um pouco mais de tempo antes. Ele tinha razão: nós sempre parecíamos estar viajando em direções diferentes. Levantei-me e Sebastian me escoltou para fora do escritório do capitão. – Desculpe, meu bem – murmurou ele. – Tudo bem – respondi, baixinho. – Não quero causar mais problemas aqui. Além do mais, posso arrumar algumas histórias em Leatherneck, de modo que o jornal não sairá em desvantagem. – Se algo acontecesse com você… – começou ele. Eu o interrompi rapidamente. – Eu já te disse, Sebastian, não vou correr riscos. Se você se importa comigo, também não correrá. – Se eu me importar com você? – Você sabe o que eu quis dizer, e mantenha sua voz baixa. Ele fechou a cara e pareceu revoltado. Ótimo. Sebastian emburrado estava de volta. Relutante, ele me deixou do lado de fora do meu quarto e marchou para o outro lado do complexo, de onde lançou olhares zangados para mim até a hora da refeição. Eu estava afogando minhas mágoas em um café fraquíssimo quando o tenente Crawley emergiu do escritório subterrâneo de Grant.


– O helicóptero com os suprimentos está a caminho – anunciou ele, escolhendo um batalhão para recolher as mercadorias. Alguns minutos depois, todos ouvimos a vibração característica dos motores duplos do Black Hawk mastigando o ar ao seu redor e pequenos paraquedas começaram a cair. Assim que os brindes foram coletados e realocados no complexo, todos se reuniram para separar os suprimentos: munição, água e – graças a Deus – rações frescas. Havia também uma sacola de correio que eu me ofereci para separar, para a surpresa óbvia do capitão Grant. Não havia tantas cartas quanto eu esperava. Minhas sombras, Ben e Larry, me ajudaram na triagem, e explicaram que qualquer pacote de casa teria que ser retido até que houvesse espaço (ou peso) sobrando na próxima entrega por helicóptero. Quando eles não estavam olhando, discretamente coloquei minha carta para Sebastian na pilha. Não demorou muito para a triagem terminar e era fácil dizer quais dos rapazes eram homens de família – eles tinham a maioria das cartas, algumas obviamente escritas por seus filhos. Como ele havia dito, Sebastian não recebia muitas cartas e, naquele dia, a minha foi a única endereçada a ele. O resto da unidade nos cercou como tubarões, esperando pelo momento em que ouviriam seus nomes. Vi a surpresa de Sebastian quando Larry chamou “Hunter”. – Tem correio pra você, chefe – disse ele, acenando com o envelope fino para Sebastian. É claro, eu não havia colocado um endereço de remetente, então isso deveria ter dado a ele uma pista. Em vez disso, ele apenas pareceu confuso. Assisti enquanto ele passava os olhos pelas primeiras linhas da minha carta escandalosa. Aí seus olhos se arregalaram em choque e um sorriso pervertido espalhou-se em seu rosto. Ele olhou para cima e eu dei uma piscadinha para ele. Sebastian leu a carta toda sentado no chão, recostado na parede de lama do complexo. Em seguida, fechou os olhos e deixou a cabeça reclinar-se para trás, ainda sorrindo. É, pense nas posições, chefe. Um dos outros homens, um rapaz chamado Ross, de Minneapolis, amassou sua carta com desgosto e jogou-a no chão. – Que foi, cara? – perguntou Larry. – Uma porra de uma carta de despedida – disse ele, amargo. – Ela disse que não queria estragar meus últimos dias de licença, então pensou em esperar até eu chegar aqui para me dizer que estava saindo com outra pessoa. Vadia. Ele recebeu alguns olhares de comiseração. Vários dos homens tinham passado por isso. Podia ser difícil fazer relacionamentos durarem estando na vida militar. O sol tinha se afundado atrás das montanhas e o ar começava a esfriar quando houve uma súbita agitação de atividade. – Sob ataque! – veio o grito do posto fortificado de guarda. De repente, homens voavam para todo canto, correndo em busca de seus coletes à prova de balas e suas armas. Eu corri para meu quarto, mas tropecei em uma jaqueta abandonada e desabei no chão. A primeira granada lançada explodiu a cerca de 200 metros do limite do complexo. O barulho foi horrendo e a coluna de poeira subiu 30 metros no ar.


Cobri a cabeça com as mãos e enfiei o rosto na terra solta do chão. Quando a chuva de poeira diminuiu, rastejei de quatro até meu quarto e vesti o colete e o capacete rapidamente. Depois peguei minha câmera e nervosamente apontei-a para fora da minúscula janela, tirando foto após foto dos fuzileiros navais conforme eles assumiam suas posições. Em seguida o matraqueio das metralhadoras pesadas começou. Outra granada explodiu, mais perto dessa vez, e me joguei no chão, contei até dez e olhei pela janela. Depois de um minuto do que pareceu um caos organizado, berros e gritos, o silêncio espalhou-se de dentro para fora. Meu coração martelava no peito e percebi que minhas mãos tremiam. Comecei a me perguntar se um emprego bom e seguro em um banco não seria uma boa escolha profissional. A cabeça de Sebastian repentinamente surgiu na minha porta e eu quase gritei de susto. – Tudo certo com você, meu bem? – Sim, tudo bem. Não se preocupe comigo – respondi, um tanto sem ar. Ele assentiu e desapareceu. O Talibã tinha uma nova tática: privação do sono. De forma intermitente ao longo da noite, eles disparavam uma granada na nossa direção. Nenhuma delas perto o bastante para preocupar, mas eram muito bem-sucedidas em nos impedir de descansar. Não que dormir de colete à prova de balas fosse possível de qualquer maneira – ao menos não até que a exaustão total chegasse. Sebastian não teve outra chance de se aproximar de mim: achei que ele estivesse no escritório de Grant, para interpretar a conversa dos insurgentes no rádio e, assim, ajudar os artilheiros a encontrar seus alvos. Ao amanhecer, estávamos todos com os olhos ardendo e furiosos ao entrar, aos tropeções, na fila para o café. Não sei por que, mas uma velha música dos Beatles me veio à cabeça e comecei a cantarolar o começo de “I’m So Tired” – os versos que diziam que a mente dele estava no limite porque ele não tinha dormido nada. Era exatamente assim que eu me sentia. O fuzileiro naval atrás de mim começou a cantar baixinho a música, e me virei para sorrir para ele, me juntando na cantoria. Depois outros dois começaram a fazer harmonia para a música. Em breve, cerca de 20 fuzileiros robustos estavam cantando desafinados e se divertindo na fila para o café. Não era muito, mas foi bem divertido – e nós realmente precisávamos rir. O capitão Grant surgiu de seu escritório, sem se barbear e com círculos escuros sob os olhos, acompanhado por Crawley e Sebastian. Quando Grant viu os rapazes do Glee se divertindo com os Beatles, seu rosto se partiu em um imenso sorriso. Eu nem sabia que o sujeito tinha dentes. Ele me deu uma saudação irônica e desapareceu dentro de sua toca. Crawley riu alto e Sebastian sorriu para mim, orgulhoso. Daquele momento em diante, os homens me chamaram de Yoko e eu ria, contente, vendo o prazer deles em algo tão simples. Foi a última vez que eu ri por um longo tempo. ****


As patrulhas foram mantidas curtas naquele dia. Crawley e sua equipe checaram o velho mercado, que parecia ter sofrido a maior parte das atividades com os lançadores de granada; duas outras se moviam paralelamente às laterais da estrada principal; Sebastian foi quem ficou distante por mais tempo, desaparecendo nos contrafortes com Jankowski e uma patrulha a pé movendo-se com pressa. Quando retornaram, muito depois de todos os outros terem terminado sua refeição noturna, Sebastian parecia quente, suado e cansado. Ele sorriu para mim, exausto, e foi se reunir com Grant e Jankowski para fazer seu relatório. A cozinha reabriu, entregando MREs com sabor de chili para a equipe empoeirada. Sebastian mal tinha acabado de começar a comer quando Grant o chamou de volta ao escritório. Ele ficou lá quase meia hora e sua comida abandonada esfriou antes que ele ressurgisse de súbito, vindo em minha direção, o rosto fechado e duro. – O que foi? O que aconteceu? – perguntei, amedrontada pela expressão em seu rosto. – Grant quer te ver – disse ele, ignorando os olhares curiosos dos outros homens. Levantei-me, rígida, e o segui para o escritório. – Por favor, sente-se, Srta. Venzi – disse Grant, gentil. Minha pulsação disparou. O que diabos estava acontecendo? – Temo que haja más notícias para a senhora… Eu lhe disse ontem que o chefe Hunter captou algumas ameaças obscuras; bem, temo que elas tenham ficado muito mais diretas. O Talibã ouviu dizer que a senhora está conosco, e agora a veem como um alvo premiado. Fiquei vagamente ciente de que Sebastian estava fazendo uma carranca para Grant, provavelmente pela informação ser tão franca, mas meu cérebro estava em queda livre. Eles estavam comigo na mira? – Eles estão cientes do valor da publicidade – disse ele, cansado –, e temo que tenham matado outra jornalista mais cedo hoje. Outra mulher. E Hunter acaba de confirmar pela conversa no rádio que a senhora é, definitivamente, um alvo. Estou chamando um helicóptero para evacuá-la de volta a Leatherneck assim que possível. Srta. Venzi? Srta. Venzi? Eu fitei-o, estupefata. – Quem? – Como é? – disse ele, claramente confuso. – Quem foi a jornalista morta? Ele olhou para Sebastian em dúvida. – Liz Ashton – disse Sebastian, os olhos suaves com piedade. Não. Não não não não não. Deixei a cabeça cair entre as mãos. – Sinto muito – disse Grant, desconfortável. – É claro… você a conhecia. Assenti lentamente. – Ela era minha amiga. – Sinto muito – disse ele mais uma vez. – Mas não podemos arriscar nossa missão aqui e… Ele interrompeu o que ia dizer, mas não importava. Eu podia adivinhar que havia algum motivo especial pelo qual sua unidade fora enviada a Nawzad, um motivo pelo qual ele não me queria ali


para começo de conversa. Uma parte remota de meu cérebro recordou que Sebastian havia insinuado que viajaria para vilarejos remotos, ficando fora de contato por dias e talvez até semanas. Contudo, eu estava voltando para casa. Olhei para o rosto de Grant, reconhecendo que essa não era a primeira vez que ele precisou dar esse tipo de notícia. – Como ela morreu? Grant desviou o olhar e foi Sebastian quem respondeu. – Atirador de precisão. Ela morreu no mesmo instante. Acho que Grant tentou me dizer mais alguma coisa, porém não escutei. Saí do escritório dele com os olhos secos, a garganta doendo, vagamente ciente de que Sebastian tentou me alcançar quando passei por ele. Atravessei o complexo em uma névoa, ignorando todos que falaram comigo. Fechei a porta do meu quarto e me agachei no canto. Não Liz. Como poderia ser a Liz? Ela era indestrutível, maior do que a vida. Não, não maior do que a vida. Ela estava morta. Apague a luz, então apague a luz. Agora a luz dela tinha se apagado. Uma vela trêmula a menos na escuridão; uma pessoa a menos para contar a verdade sobre essa guerra miserável. Eu me recusei a chorar por ela; não aqui, não nesse posto esquecido por Deus. Passando as mãos ao redor dos meus joelhos bem apertados, deixei a cabeça descair para a frente, pressionando a testa contra os joelhos, como se tentasse formar o menor alvo possível. Não sei por quanto tempo me escondi naquele canto antes de ouvir uma batida suave na porta. Não olhei para cima – eu já sabia que seria Sebastian. Ele fechou a porta em silêncio depois de entrar, e então sentou-se junto a mim e me puxou para seus braços. Ele não falou, apenas me balançou gentilmente e beijou meu cabelo. Finalmente permiti que meu corpo relaxasse contra ele, aninhando-me em seu peito. – Sinto tanto, tanto – murmurou ele. – Eu sei que ela era sua amiga. Nós nos sentamos em silêncio até a noite cair. Reuni forças de seu toque e seu amor silencioso. Do lado de fora, ouvimos os sons da guarda sendo trocada e Sebastian suspirou. – É melhor eu ir, ou Grant vai começar a se perguntar o que diabos estamos fazendo. Ele me retirou de seu colo e começou a se levantar, mas eu agarrei sua mão. – Não vá embora, Sebastian, por favor. Não importa mais quem saiba agora – estou sendo mandada de volta mesmo. Deixe-me passar minhas últimas horas com você. Ele tornou a se sentar. – Eu estava torcendo para que você dissesse isso – admitiu ele, a voz gentil. Nós nos deitamos no colchão totalmente vestidos, nossos braços e pernas se misturando juntos. – Não sou muito boa em jardinagem – falei, pensativa. – Como é, meu bem? – Não consigo cuidar de plantas. Elas parecem secar quando me veem. Você é bom nisso? Senti Sebastian encolher os ombros, confuso pela pergunta.


– Não sei, Caro. Nunca tentei. – Eu gostaria de plantar alguma coisa – resmunguei. – Vê-la viver e crescer. Ele me abraçou mais apertado e afagou meu cabelo. – Sua casa em Long Beach tem um quintal? – perguntou ele. – Sim. Podia ser bonito. Lembra-se das buganvílias da Signora Carello? Talvez possamos plantar algo assim. Ele beijou meu cabelo. – Meu bem, eu não consigo nem soletrar bugan… seja lá o que for. – Ele suspirou. – Mas acho que posso tentar. Era aquele negócio roxo? Assenti. – Certo, meu bem. Podemos plantar aquele negócio roxo. – E rosa? – Claro, meu bem, com listras amarelas se você quiser. – Certo.


C APÍ TU LO

16

NÃO DORMI NAQUELA NOITE.

Em certo ponto, pensei que Sebastian pudesse ter adormecido, mas quando olhei em seu rosto, vi que seus olhos estavam abertos. Quando não podíamos mais adiar, guardei meu equipamento e enrolei meu colchão desinflado enquanto Sebastian observava em silêncio. – Vou sentir saudades de ter você aqui – disse ele, finalmente. – Mas fico contente por você estar dando o fora desse buraco. Abracei-o pela cintura e recostei-me em seu peito. – Só volte para casa, Sebastian. Sem atos heroicos, por favor. – A única coisa com que você precisa se preocupar é com autocombustão, especialmente se for me mandar mais cartas como aquela de ontem. Puxei seu uniforme. – Estou falando sério. Mantenha-se seguro. Ele suspirou e enfiou o rosto no meu cabelo. – Farei o melhor, meu bem. Prometo. Então ele ergueu meu queixo com um dedo longo e me beijou suavemente. – Cacete, vou sentir sua falta, Caro. – Eu te amo, tesoro. Tanto. Ele segurou meu rosto entre as mãos e olhou em meus olhos. – Sei tutto per me.5 Nosso momento tinha acabado e estava na hora de ir. Sebastian carregou minha mochila pelo complexo, ignorando os olhares abertos de outros homens. O capitão Grant e o tenente Crawley apertaram minha mão, o último oferecendo suas condolências. Vários dos homens mais próximos a mim vieram me dar abraços sem jeito, com um braço só.


Assim que ouvimos o helicóptero, oito fuzileiros navais com M16 me escoltaram até o ponto de descida, a 200 metros do complexo. A poeira entrou nos meus olhos, erguida pelas lâminas dos rotores, que não pararam. Tossindo, com os olhos lacrimejando, fui puxada para dentro e enfiaram um fone de ouvido em minhas mãos. Levantamos voo imediatamente, sem querer oferecer um alvo fácil demais para os rostos inimigos que com certeza vigiavam dos contrafortes. Espremi os olhos para olhar pela janela, esfregando a poeira, tentando discernir Sebastian entre os pontinhos dos homens de pé no complexo, mas com todos eles usando uniformes especiais para o deserto, não pude dizer qual era ele. Meus dentes chacoalhavam pela vibração do helicóptero e tive que segurar na fivela do meu cinto para evitar ser jogada de um lado para o outro enquanto nos inclinávamos de forma aguda. – Com licença, Srta. Venzi. – Uma voz com sotaque inglês reverberou pelos meus fones. – Sou o tenente de voo Reeves, e vou escoltá-la até Bastion. Ah. Eu pensei que voltaria para Leatherneck. Acho que era só um caso de ver quem podia me dar uma carona mais rapidamente. De qualquer forma, as seções americana e britânica ficavam a apenas alguns quilômetros uma da outra. O acampamento Bastion, a base britânica em Helmand, era ainda maior que Leatherneck. Era estranho estar cercada por sotaques ingleses, e eu ficava esperando ouvir a voz de Liz gritando em meu ouvido. Não sei o que eles fariam comigo – presumi que me transportariam para Leatherneck e deixariam que os Estados Unidos decidissem como me mandar embora. No entanto, estava errada a esse respeito. Fui levada até um Land Rover e, em vez disso, escoltada até o hospital de campo. Fui saudada por um homem atarracado no uniforme do Royal Army Medical Corps. – Senhorita Venzi, sou o major Gibson. Compreendo que a senhora está aqui para reclamar o corpo de Elizabeth Ashton. Engoli, minha garganta subitamente seca, e o encarei. – Não, eu… Ele franziu o cenho. – Eu havia entendido que você era parente dela? – Ela era minha amiga – falei, baixinho. – Sinto muito – disse ele, breve. – Entendo que isso deve ser difícil para você. Mas os patrões dela me deram sua lista de contato no caso de morte em serviço, e ela a nomeou como parente. Ela foi bastante específica a respeito disso. – Eu não sabia – murmurei. – Mas não me incomodo. O que ela… o que ela queria que acontecesse caso…? – O corpo dela será repatriado para o Reino Unido. Pelo que sei, ela pediu para que fosse cremada e que houvesse uma cerimônia na igreja de St. Bride, na Fleet Street. Aquilo fazia sentido. Lembrei-me de Liz me dizendo que a reconstrução dessa igreja após a Segunda Guerra Mundial tinha sido paga por jornalistas, era um lugar especial para eles. Eu gostava


disso. – O que eu preciso fazer? – Há alguns documentos e os objetos pessoais dela – disse ele, bondoso. – O jornal dela está cuidando de todo o resto. Assenti lentamente. – Posso vê-la? Ele me olhou nos olhos. – Sinto muito, Srta. Venzi, isso não será possível. Eu podia adivinhar a razão. Assinei os formulários que ele me deu e recebi uma caixa com o nome de Liz. A câmera dela estava por cima, com seu laptop e os blocos de anotação no fundo. Retirei sua Nikon D4 – uma câmera de seis mil dólares. Liz era – tinha sido – séria em seu trabalho; sempre tinha o melhor equipamento. – Pode pegar qualquer coisa que quiser, senhorita Venzi – disse o major. – Obrigada. Ela deixou alguma carta? Ele balançou a cabeça. – Não que eu saiba. Ela provavelmente arquivou algo com o jornal antes de voar para cá. – Certo, obrigada. Fomos interrompidos por uma jovem de uniforme cirúrgico. – Sinto muito, major, mas temos três feridos Cat-A chegando. Ele se levantou rapidamente. – Tenho que ir. Sinto muito, Srta. Venzi. Sua escolta estará lá na frente. Você está no próximo voo para Cabul. Ele se levantou de modo abrupto. Não me incomodei; ele não podia ajudar Liz. Não mais. Sentei-me ali por alguns minutos, fitando a caixa dela. Depois apanhei sua câmera, enfiei-a em minha mochila diária e saí. Pelas duas horas seguintes fiquei sentada em um hangar no acampamento Bastion, esperando pelo meu voo para Cabul. Enviei um e-mail para meu editor explicando que eu precisava de um voo para os Estados Unidos e enviei os sete artigos que já tinha escrito junto com as fotos dos ataques com lançadores de granadas, bem como da vida em Leatherneck e do complexo. Em outras palavras, fiz o que Liz teria esperado de mim: executei meu trabalho. Não permitiria que meu jornal fosse logrado em suas intenções, e ainda tinha muito a dizer. Então, com meu laptop equilibrado nos joelhos, escrevi o obituário de Liz. Escrevi sobre seu amor pela vida, sua compaixão, sua curiosidade, seu ótimo senso jornalístico, sua decência e sua crença no valor de todas as vidas humanas. Lembrei-me de suas histórias exageradas, seu frasquinho de bebida – sempre cheio com o melhor uísque escocês –, sua empatia, seu estoicismo e, acima de tudo, sua humanidade. Enquanto escrevia, eu me perguntava o que teria sido dito sobre mim se fosse eu a morrer. Alguém teria mencionado Sebastian? Além de Liz, que sabia sobre nosso caso, nosso louco amor? Marc


sabia um pouco e Nicole tinha um palpite, mas além deles, será que ele seria sequer uma nota de rodapé? Minha insistência no segredo parecia ridícula agora. Certamente minha presença em Nawzad não teria sido permitida se nosso noivado fosse conhecido, mas eu podia ser enviada para os postos militares americanos mais remotos. E então me perguntei sobre os dois mil soldados americanos mortos no Afeganistão. Quem escrevia os obituários deles? Estariam suas histórias sendo publicadas em jornais pequenos por todo o país? Ou os 500 soldados britânicos, 158 canadenses; 88 franceses; 56 alemães; gente da Itália, Dinamarca, Austrália, Polônia, Turquia, Letônia, Finlândia, Jordânia, até da Lituânia. E 37 jornalistas – agora, 38. Tantas mortes, tanta perda. Tirei o anel de Sebastian da corrente no meu pescoço e o deslizei de novo no dedo anular da minha mão esquerda, onde, se Deus quiser, ele vai ficar para sempre. **** De volta a Cabul, dei entrada no Mustafa Hotel outra vez. O gerente ficou surpreso em me ver, mas me deu as boas-vindas e meu antigo quarto de volta. Eu queria que ele não tivesse feito isso. Sua intenção era ser gentil, mas olhar para a cama de solteiro onde Liz tinha dormido – e roncado por metade da noite – só me deixou triste. Trabalhei a noite toda, escrevendo um esboço rústico e depois polindo o resto dos artigos que eu ainda devia ao jornal. O tempo todo, eu me perguntava o que Sebastian estaria fazendo. Esperava que ele finalmente tivesse conseguido dormir sem eu estar lá para distraí-lo. Enviei um e-mail para ele avisando que estava em Cabul e esperando um voo para voltar para casa. Não sabia quando ele o receberia, mas ainda era importante que eu o enviasse. Também escrevi-lhe uma carta, dizendo a ele o quanto eu o amava e sentia sua falta, depois falei de todas as coisas que faríamos quando ele estivesse em casa comigo em Long Beach. Parecia tudo muito distante. Eu estava pronta para fazer as malas e tentar dormir quando recebi um e-mail do meu editor. Ele estava fazendo o melhor que podia, mas me alertava de que poderiam se passar três ou quatro dias até que ele conseguisse um voo. E ele queria falar comigo. Quando eu ia ligar para ele, o sinal em meu celular desapareceu de novo. Desci até a recepção para ligar da linha fixa do hotel, que era só um pouco mais confiável. Quando finalmente consegui alcançá-lo, dei-lhe mais informações sobre a morte de Liz – as coisas que não havia conseguido colocar no obituário dela. Parecendo chocado, ele prometeu me tirar dali o mais rápido possível. Depois disso, não tive mais vontade de dormir. Portanto, em vez disso, passei o dia vagando pelos corredores do Museu Nacional do Afeganistão. Setenta por cento dos artefatos desapareceram durante pilhagens nas últimas três décadas, mas o museu estava lentamente voltando à vida. Aproveitei a oportunidade para entrevistar vários dos entusiasmados, e mal pagos, curadores. Eles estavam esperançosos de que a longa história cultural tivesse um futuro em seu país.


Torci para que estivessem certos, e fiquei contente por alguém se sentir otimista sobre o futuro do Afeganistão. Cansada, voltei ao meu quarto de hotel e escrevi outra carta para Sebastian. Dessa vez, contei a ele sobre os points de surfe em Long Beach, indo até os Hamptons e Montauk. Esforcei-me para fazer minha carta soar otimista e alegre, porém era difícil, quando eu sabia que não o veria por pelo menos mais cinco meses. Quando terminei, tirei as botas e me deitei. Eu não tinha comido, mas também não sentia fome. Ao menos estava cansada; aninhei-me sob os lençóis, no inacreditável conforto da cama estreita, e desejei que o corpo quente de Sebastian estivesse junto a mim, com seu hálito em meu pescoço e os braços ao redor da minha cintura. **** Uma alta batida na porta me acordou de um sono leve. Sentei-me na cama, meu coração martelando. Espremi os olhos para meu relógio de pulso: 2h45. – Quem é? – falei, alto e claro. – Ligação telefônica. Era uma voz que eu não reconheci. – Quem está ligando? – Ligação telefônica. Eu não sabia se a pessoa à minha porta simplesmente não falava inglês, ou se eu corria perigo. Não gostei nem um pouco disso, e minha ansiedade entrou em alerta vermelho. Sem falar mais nada, calcei as botas e apanhei minha bolsa de evacuação imediata, com o dedo no botão para discar o número de emergência em meu celular. Perscrutei pelo olho mágico na porta, mas não vi ninguém; ouvi com atenção, porém não escutei nada. Eu estava plenamente ciente de que alguém podia muito bem estar à minha espera fora do meu campo de visão. Respirei fundo e abri a porta: o corredor estava vazio. O que significava que a ligação podia ser genuína, e não um pretexto. Desci as escadas correndo, evitando o elevador, e abri caminho até a recepção. Um jovem vestindo um colete bordado pesadamente por cima de uma camisa branca solta estava sentado à mesa, meio adormecido. Quando me aproximei, ele acordou de sopetão. – Venzi? – Ao – respondi. Sim – Ligação telefônica – disse ele, apontando para o telefone em sua mesa. Atendi, hesitante. – As-salaamu’ alaykum. Aqui é Lee Venzi. – Caroline. Finalmente! É o David. – David? – O que diabos meu ex-marido estava fazendo, me ligando no meio da noite? Estava bêbado?


– Qual é o problema? Como você me encontrou, David? Você está bem? – Caroline, ouça, eu não tenho muito tempo. Estou no hospital de campo do acampamento Bastion. É Hunter. – Sebastian? Ah, não, por favor, Deus, não. – Sinto muito, Caroline. Ele foi trazido há cinco horas. Eu venho tentando entrar em contato com você. Senti-me enjoada e gelada e meus joelhos cederam. Desabei em uma cadeira, batendo as pernas contra a mesa da recepção e fazendo o jovem dar um pulo. – O que houve? David, por favor, me diga! A voz dele estalou do outro lado da linha. – Ainda estão tentando estabelecer os fatos, mas em off, foi outro ataque dos locais sobre as forças de paz; eles acham que um atirador e um homem-bomba. Caroline, você não pode relatar nada disso. – Eu não me importo com isso, droga! Como está o Sebastian? Ele… ele está ferido? Está mal? Quão ruim? Ele hesitou por tempo suficiente para meu mundo acabar. – Sim, é bem ruim. – Ele fez uma pausa breve, depois entrou em seu modo médico. – Ele teve um ferimento por bala que induziu um pneumotórax, um pulmão colapsado. Não estamos muito preocupados com isso, já que a saída da bala é clara e ela passou de forma limpa, embora possa haver alguns danos aos nervos do seu braço esquerdo, resultando em limitação da habilidade motora avançada… Todo o ar deixou meu corpo. – Mas ele tem um ferimento Categoria A… – Ele fez outra pausa antes de continuar devagar. – Ele tem um ferimento grave na coxa direita, com múltiplas lesões por estilhaço com tecido necrosado. Eles o estão levando para cirurgia agora, vão decidir se é viável manter a perna. Se não, terão que fazer uma amputação transfemural… – Ele fez outra pausa. – Uma amputação acima do joelho. Houve um longo silêncio e toda a luz do meu mundo escorreu para um buraco negro e profundo. – Sinto muito, Caroline… Pensei que você desejaria saber. Segurei a mão sobre a boca, como se pudesse pressionar o medo que ameaçava me sufocar. – Posso vê-lo? Ele suspirou. – No momento, a resposta é não. Você não é… olha, eu vou tentar te dar acesso, Caroline, mas você vai ter que se virar para chegar aqui, e eu não sei como isso vai ser. Vou ver o que posso descobrir… mas a possibilidade é remota. Não posso prometer nada. – Entendo. Respira. Respira. – Obrigada, David. Você pode me avisar… se a situação mudar? – Sim, é claro. Eu… Seja lá o que ele queria dizer morreu no caminho, e as palavras permaneceram não ditas. – Entrarei em contato – disse ele, baixinho. – Adeus, Caroline.


O fone ficou silencioso e eu fitei o aparelho. Ah, Deus, não. Não. NÃO! Eles não iam me impedir de ver Sebastian. Eu não me importava se fosse preciso lutar com todo o maldito exército americano. Meu amor precisava de mim, e nenhuma força, no inferno ou na terra, poderia me impedir de estar com ele. E esse pensamento me empurrou para a ação. Agora não era o momento de me despedaçar. Tirei meu telefone e procurei até encontrar o número de emergência por satélite que Sebastian me dera. Apenas para emergências, ele disse – isso certamente se classificava assim. O homem na recepção parecia querer me dizer algo sobre meu uso liberal do telefone do hotel, mas minha expressão feroz o fez parar. Disquei rapidamente e atenderam no segundo toque. – Grant. Ah! – Capitão Grant, aqui é Lee Venzi. Preciso de um favor: estou em Cabul, mas preciso voltar para Leatherneck. Pode me ajudar a conseguir papéis, transporte, qualquer coisa? – Senhorita Venzi? – Ele pareceu surpreso e irritado. – Como conseguiu esse número? Olha, agora não é um bom momento. – Sinto muito, mas é urgente, capitão. Pela segunda vez desde que eu o conhecia, ele xingou. – Eu perdi três dos meus homens, e outros dois estão com ferimentos Cat A, e… Gritei com ele. – Eu sei disso! – E como diabos você sabe disso? – retrucou ele. – Não importa, eu simplesmente sei. – O cacete que não importa! Se alguém está vazando nossos movimentos… Respirei fundo: perder a paciência agora não estava ajudando. – Não! – consegui dizer, em um tom mais controlado. – Não, foi nada do tipo. Eu tenho um amigo médico no hospital de campo de Bastion, e consegui a informação com ele. – Não julguei que você fosse uma dessas carpideiras, Lee – disse ele, amargo. – Foda-se você, Grant! – rosnei. – Eu tenho um amigo que está sendo operado agora e não sei se vai sobreviver, então me leve até lá! Houve uma curta pausa. – Você está falando do Hunter, não é? – Sim – falei, tentando impedir minha garganta de se fechar. – Certo, Srta. Venzi – disse ele, em uma voz mais calma. – Vou ver se consigo mexer uns pauzinhos para levar você para lá. Mas não ligue para esse número, e não me peça mais nada. – Não pedirei – respondi, brusca. – Onde você está? Dei a ele o endereço do hotel e desliguei.


Pensei que ele tentaria me ajudar, mas ele tinha outros homens com quem se preocupar – outras vítimas. Roí uma unha, perguntando-me para quem mais eu podia ligar. A inspiração bateu. Havia mais um número que eu podia tentar: Ches Peters, o melhor amigo de Sebastian. Um homem que eu tinha uma certeza razoável que me desprezava. Fiz as contas para checar a diferença em nossos horários – era cerca de sete da noite em San Diego. Ele tinha dois filhos pequenos, então torci para que estivesse em casa. O telefone tocou três vezes antes de atenderem. Uma voz infantil soou na linha. – Alô, casa dos Peters. Aqui é Ben Peters. – Oi, Ben. Posso falar com seu papai, por favor? – Ele está fazendo pipoca – disse o menininho. – Pode chamá-lo para mim? É importante. Houve um bufar zangado, uma breve pausa em que eu pude ouvir vozes abafadas, e então Ches atendeu. – Alô, quem fala? – Ches, aqui é Lee… aqui é Caroline Venzi… eu era Caroline Wilson e… – Eu sei quem você é. O que você quer? A voz dele era fria, cheia de um desprezo indizível. – Preciso da sua ajuda. Bem, da de Mitch, acho. Sei que ele ainda está nos Fuzileiros Navais. Eu teria ligado diretamente para ele, mas não tenho o número. Percebi que estava matraqueando, e precisava me focar. – Ches, estou ligando do Afeganistão. Sebastian foi ferido. Seriamente… Eu tive que afastar o fone do meu rosto por um instante, abafando os soluços que subiram por minha garganta. – Quão sério? – murmurou Ches. – Bastante. Eles o estão levando para cirurgia agora. Eles podem… estão falando em amputar a perna direita dele. Ouvi o praguejar chocado de Ches. – Ele está no hospital de campo perto do acampamento Leatherneck, mas eu estou presa a quase 500 quilômetros de distância, em Cabul, e sem documentos. Não posso ir até ele. Eu sei que você acha que eu sou uma vadia de primeira e que eu arruinei a vida dele, mas estou te implorando, Ches, implorando… Por favor, se houver algo que você ou Mitch possam fazer para me levar até lá… Estou cobrando todos os favores que posso, usando todos os contatos. Faço qualquer coisa. Se você conhece alguém, qualquer um… Por favor, Ches, por favor… – Vou fazer o que puder, Caroline – disse ele em uma voz estupefata e quieta. – Me dê os detalhes. Eu disse a ele tudo o que sabia, o que não era muito. No entanto, era mais do que a maioria saberia nas mesmas circunstâncias – e isso, graças a David. Fiquei muito tentada a ligar para meu editor, mas suspeitei que sua reação imediata seria me dizer para ficar quieta até ele me colocar num voo para casa. Ele ficou chocado e em silêncio quando eu contei sobre o motivo pelo qual fui retirada de Nawzad, e vindo depois do que acontecera com Liz,


eu não sabia o quanto ele estaria disposto a ajudar. Na verdade, eu tinha uma certeza razoável que ele tentaria me impedir de voltar para Candahar. Por mais desesperada que estivesse para chegar a Sebastian, eu precisava pensar; não podia simplesmente entrar com tudo. Chegou a cruzar minha mente tentar falar com Natalie Arnaud: ela trabalhava para a ONU, e devia ter contatos. Decidi esperar até de manhã antes de tentar vias mais arriscadas. A essa altura, David ou Grant já deviam ter feito algumas rodas girarem, e eu tinha certeza de que Ches e Mitch mexeriam cada pauzinho possível. Voltei para meu quarto e fiz as malas, pronta para partir a qualquer momento. Sem mais nada para fazer, quando toda partícula de luta e determinação tinha sido usada, deitei-me na cama segurando o anel de Sebastian e chorei. Dizem que não existem ateus nas trincheiras. Eu digo que não existem ateus quando você está implorando pela vida da pessoa que ama. **** Exatamente às 5h57 da manhã eu acordei e xinguei. Droga! Por que eu não tinha pensado nisso na noite passada? Era por isso que era importante não cair aos pedaços em uma emergência. Chequei meu telefone e fiz uma prece silenciosa, agradecendo aos santos das telecomunicações. – Sargento Benson, aqui é Lee Venzi – você foi meu guarda-costas na semana passada. Percebi pela voz roufenha que ele estava dormindo quando liguei. – Senhorita Venzi? – Sinto muito por ter te acordado, e sinto muito por ser tão cedo, mas preciso da sua ajuda. Estou em Cabul… – Cabul? – Sim, estou de volta no Mustafa Hotel. Fui evacuada de Leatherneck… é uma longa história. Olha, eu acabo de descobrir que meu… noivo foi ferido, e eu tenho que voltar para lá. Você pode me ajudar? Ele parecia acordado agora. – Sinto muito mesmo em ouvir isso, senhorita Venzi, mas você vai ter que passar pelos canais usuais. Peça para o seu jornal entrar em contato com a Divisão de Assuntos Públicos da corporação e… – Eu não tenho tempo para isso! Me escute! Ele foi muito ferido, eu não sei se ele vai… eu tenho que chegar lá. Por favor, sargento… ele é um dos seus, um fuzileiro naval dos Estados Unidos. Houve um silêncio do outro lado da linha. Então ele disse: – Me dê três horas. O sargento Benson cumpriu a palavra. Liguei para Ches para avisá-lo de que eu estava de partida e prometi entrar em contato assim que tivesse mais notícias.


Cento e cinquenta minutos depois, eu estava a caminho, voltando para Lashkar Gah. O sargento Benson havia movido céu e terra para me levar aonde eu precisava ir. Eu jamais esqueceria sua bondade. **** Dizer que David ficou surpreso ao me ver seria um eufemismo. Contudo, ele não perdeu tempo me fazendo perguntas cretinas. Assim que me viu, disse: – Ele ainda está vivo, Caroline. – Graças a Deus. Essas breves palavras me invadiram e um pouco do peso sobre meu peito tornando minha respiração dolorosa se esvaiu. Ele me guiou por um complexo de tendas e barracas portáteis, para dentro do que parecia ser o departamento de terapia intensiva de um hospital moderno e urbano. – Ele está aqui. O quarto era pequeno e muito iluminado. Sebastian jazia em uma maca com vários tubos e monitores presos a ele. Seu braço esquerdo estava elevado e ele respirava com um aparelho ventilatório, o peito subindo e descendo em compasso com a máquina. Era o único sinal de que ele estava vivo, apesar de pálido e imóvel. Debaixo da cintura, Sebastian estava coberto com um cobertor fino que se erguia em um monte sobre a gaiola que protegia sua perna direita. Graças a Deus, eles salvaram a perna dele. Um homem em uniforme de deserto estava de pé junto a Sebastian. Primeiro achei que fosse um médico, mas então ouvi o que ele dizia, a cadência rítmica das palavras repetidas vezes demais. – Ó Pai de piedade e Deus de todo conforto, nossa única ajuda em tempos de necessidade… Reconheci a oração pelos enfermos. – Nós humildemente imploramos para que Vós vejais, visiteis e alivieis Vosso humilde servo Sebastian Hunter, na intenção de quem fazemos nossa prece. Que o Senhor possa vê-lo com os olhos de Vossa piedade; reconfortá-lo com a sensação de Vossa bondade; preservá-lo das tentações do inimigo e dar-lhe paciência durante essa aflição. Conforme a Vossa vontade, devolva-lhe a saúde, capacite-o a levar o resto de sua vida no temor a Vós e para a Vossa glória, e garanta finalmente que Sebastian possa morar Convosco na vida eterna, pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém. – Amém – ecoei, baixinho. O homem virou-se e não me surpreendi ao ver que ele usava o colarinho branco de um padre. Fiz o sinal da cruz. – Obrigada, padre. – É um amigo seu? Assenti. – Ele é meu noivo – falei, quieta.


Não pude ver o rosto de David, mas ouvi sua inspiração súbita atrás de mim. O padre deu tapinhas amistosos no meu braço. – Deus escuta todas as orações, minha filha. E seu jovem é muito forte. Ele me deu um pequeno sorriso, assentiu para David e saiu do quarto. – Você vai se casar com ele? – perguntou David, a voz estranhamente tensa. – Não falou isso quando te vi em Cabul. Falou que vocês tinham acabado de se reencontrar. Olhei para cima rapidamente. – E não estava mentindo, David. Isso é… muito recente. – Sinto muito… – começou ele. Depois pigarreou e começou de novo. – Eles conseguiram salvar a perna dele por enquanto, mas ainda há dúvidas se ela é viável. Os próximos dias serão críticos. Havia sujeira no estilhaço e ele contraiu Acinebacter baumannii, uma infecção comum por aqui. Estamos tratando com antibióticos, mas… – Ele suspirou. – E ele foi colocado em coma induzido por remédios: estamos preocupados com inchaço cerebral, já que ele recebeu uma onda de choque pela bomba… É bem típico desse tipo de ferimento. Anuí, incapaz de falar. – Sinto muito, Caroline – ele tornou a dizer. – Bem, se precisar de alguma coisa… De forma vacilante, David pousou a mão em meu ombro, depois virou-se e me deixou sozinha com minha dor. Apanhei a mão de Sebastian e segurei-a na minha. Seus dedos estavam frios, então levei-os até minha boca e soprei neles, tentando aquecê-los com o hálito, como ele tinha feito apenas três semanas antes em Chamonix. Deus do céu, aquilo parecia ter sido há uma vida. Ele estava tão vivo, tão vibrante, tão cheio de esperança, e agora… Segurei sua mão em meu rosto e fechei os olhos. – Volta pra mim, Sebastian. Por favor, tesoro, você tem que lutar. Você sempre foi tão forte, não desista agora; não desista de nós. Preciso de você. Volta pra mim. Por favor, volta pra mim. O aparelho ventilatório subia e descia, o peito dele também, mas os olhos de Sebastian permaneceram fechados. Conversei com ele o dia todo, contando sobre o bangalô, o jeito como o mar tremia com a luz do sol de verão, e o jeito como o céu parecia estender longos dedos para as ondas nas tempestades, os respingos das ondas misturando-se com as gotas de chuva. Contei a ele sobre a bondade e o bom humor de Alice; sobre a impetuosidade de Jenna, e a maneira como Nicole estava sempre tentando marcar encontros para mim, mas que eu não precisava mais que ela fizesse isso. E eu contei a ele o que Ches havia me dito ao telefone. – Ele me disse para chutar a sua bunda para fora dessa maca, Sebastian. Você prometeu a ele que iria surfar na Califórnia depois desse turno, um fato que esqueceu completamente de mencionar para mim, devo acrescentar. Você quer passar nossa lua de mel na Califórnia, tesoro? Porque eu não me importo onde seja. Qualquer lugar que você goste, meu amor. Sebastian, pode me ouvir? Eu te amo tanto – temos toda a nossa vida adiante. Vou a qualquer lugar, faço qualquer coisa para estar com você. Apenas acorde, por favor, tesoro.


Um médico passou e conferiu os números na máquina antes de metodicamente colocar mais remédios no saco intravenoso que estava suspenso junto à cama. – A senhora é amiga dele? – Sou, sim. – Talvez possa me ajudar, então? Encontramos uma carta com ele quando foi admitido, mas o nome não consta na lista de contatos de emergência dele. Nós guardamos a carta, meio que torcendo que pudéssemos encontrar alguém para quem entregá-la. Conhece alguma “Carolina Hunter”, senhora? Imaginamos que fosse alguma parente dele, mas até agora não conseguimos encontrá-la. Ofeguei de leve e assenti. – Sim, eu a conheço, vou me certificar de que ela receba a carta. – Obrigado, senhora. Ele vasculhou um armário perto da maca de Sebastian e tirou de lá um envelope enlameado. Quando entregou-o para mim, percebi que não estava coberto de lama, e sim de sangue – o sangue de Sebastian. O médico encolheu os ombros, contrito, e afastou-se para conferir seu próximo paciente. Minhas mãos tremiam quando abri o envelope. Dentro, havia uma única folha de papel pautado com uma borda rasgada, provavelmente arrancada de um bloco de notas. Um dos lados continha uma mensagem curta na letra cuidadosa de Sebastian:

Caro, meu amor Só o ato de escrever essas palavras me faz mais feliz do que posso lembrar ter estado em muito tempo. Dez anos, na verdade. Eu não sou muito bom com as palavras – deixo isso com você – minha linda e talentosa Caro. Mas recebemos a notícia pela qual esperávamos e em breve vamos partir. Espero que você nunca leia essa carta, mas se ler, isso significa que eu parti para a próxima grande aventura. Saber que você está no mundo e usando meu anel faz de mim o homem mais feliz de todos, e as últimas semanas foram as melhores e mais felizes da minha vida toda. Seja feliz, Caro, porque é isso o que você merece. Eu te amo, sempre te amei, e seja lá para onde eu for depois desse mundo, sempre vou te amar. Sempre e per sempre. Sebastian


Amassei a carta dele junto ao peito, tentando encontrar uma maneira de preencher o vazio doloroso. Eu não conseguia entender por que meu coração ainda batia. Desisti de tentar ser forte. Pousei minha cabeça junto à mão dele e minhas lágrimas ensoparam o lençol limpo e branco. Meu amor estava escorregando para longe de mim, e não havia nada que eu pudesse fazer. **** A noite passou e eu me sentei olhando para o rosto de Sebastian, memorizando cada linha e cada ângulo: a suavidade das bochechas, agora cobertas por uma barba fina e castanho-clara; os lábios cheios e sensuais, distorcidos pelo tubo respiratório colocado em sua garganta; o nariz forte e reto; a testa ampla; a linda simetria de seus malares. Mas seus olhos adoráveis, as janelas para sua alma, estavam escondidos. Sussurrei meus segredos para ele, todos os meus desejos e medos, torcendo para que, de alguma forma, ele soubesse que eu estava com ele. Passei meus dedos ao longo das costas de sua mão e pelo antebraço, acompanhando as veias, sabendo que elas ainda bombeavam sangue pelo seu corpo e que a luta não tinha terminado. David voltou em algum momento, apesar de eu não saber dizer se era dia ou noite. – Caroline, talvez você devesse tentar dormir. Arranjei um beliche para você no dormitório dos médicos. Bem, não é exatamente um dormitório, é mais um barracão mesmo. – Obrigada, David. Muita gentileza sua. Talvez depois. Ele me olhou, pensativo. – Ele está aguentando firme, Caroline. Ele é forte, mas… estão decidindo se é melhor evacuá-lo para a Alemanha. Só depende de… ele estar estável o bastante para a viagem. Eu o encarei. – Por que você está sendo tão bondoso comigo, David? Sempre pensei que você devia me odiar depois de… tudo o que houve. Ele pareceu surpreso, depois esfregou uma das mãos no rosto, cansado. – Eu tentei te odiar. Pensei ter conseguido por algum tempo, mas não. Eu sabia que a culpa era minha. Pisquei, surpresa e espantada pelas palavras dele. – Por que acha isso? Fui eu que… tive um caso. Os olhos dele se fecharam brevemente e, quando ele tornou a abri-los, pareceu ter tomado uma decisão. – Você era tão cheia de vida, Caroline, e eu te amava tanto. Eu me esforcei tanto para me agarrar a você, e quanto mais eu tentava, mais você parecia me escapar. Acabei te esmagando. Eu tinha tanto medo que você visse quem eu era por trás de tudo… fiz tudo o que podia para te reprimir. Eu sabia que estava errado, mas não conseguia me impedir. Vou me arrepender disso até a morte. Então ele gesticulou para Sebastian. – Ele te trouxe de volta à vida.


Eu abaixei a cabeça, humilde frente àquela admissão e seu pedido de desculpas, lembrando de toda a sua crueldade e opressão. E me recordando também de sua bondade na hora em que mais precisei. – Eu sinto tanto, tanto, David. Por tudo que aconteceu entre nós. Pelo que eu fiz com você. Nunca quis te magoar. Mas… eu me apaixonei. – Eu sei – disse ele, suavemente. – Eu só queria que tivesse sido por mim. Ele deu um sorriso triste e se afastou. Os dias e noites começaram a se misturar em um borrão. Se não fosse por David, trazendo-me comida ou insistindo para que eu fosse dormir, não sei como eu teria aguentado. Liguei para Ches todos os dias, mas não havia muito que eu pudesse dizer. Ouvia a esperança na voz dele toda vez que eu ligava, e toda vez podia apenas repetir as mesmas palavras: “Não houve nenhuma mudança”. O capelão nos visitava diariamente e me disse para não abandonar as esperanças. Às vezes ele rezava comigo; às vezes, me trazia um sanduíche. Ambos eram igualmente bem-vindos. Estava ali há quatro ou cinco dias, as horas incolores se fundindo, quando David me disse que Sebastian estava estável o bastante para ser transferido. Novidades, enfim. – Vamos retirá-lo do coma, depois ele será enviado para o Centro Médico Regional de Landstuhl, na Alemanha. De lá, ele vai para o Bethesda em Maryland ou o Walter Reed, em Washington DC. Não tenho certeza qual dos dois. – Eu poderei ir com ele? Ele suspirou. – Normalmente, eu diria que isso é altamente improvável. Contudo, em off: se você puder usar suas conexões com a imprensa, Caroline, então talvez. – Obrigada – falei baixinho, tocando sua mão. Ele sorriu brevemente. Esse foi todo o encorajamento de que eu precisei. Dentro de 20 minutos estava ao telefone com meu editor e me recusei a aceitar a um “não” como resposta. Prometi quantos artigos ele quisesse, entrevistas exclusivas e fotos da vida em um centro médico militar. No final, ele concordou em ajudar. Não sei quantos pauzinhos ele mexeu em Washington, porém prometeu que conseguiria me colocar no mesmo voo que Sebastian. Quando voltei para o quarto de Sebastian, não soube dizer o que estava diferente. Depois percebi o que era: estava tudo muito quieto. O aparelho ventilatório tinha parado de funcionar. Entrei em pânico, olhando ao redor loucamente em busca de ajuda, e então… vi que os olhos de Sebastian estavam abertos e ele olhava para mim. Ele falou, e sua voz estava tão baixa e rouca que eu mal pude ouvi-lo. – Eu sabia que você não desistiria de nós – disse ele. ****


Saímos de lá naquela mesma noite e chegamos ao centro médico na Alemanha ao amanhecer. Os casos críticos foram retirados primeiro – aqueles com danos cerebrais e membros perdidos. Esperamos na pista gelada por 15 minutos antes que o resto de nós fosse levado até uma frota de ônibus azuis. Lá, encontramos com o líder da Equipe de Tratamento Intensivo e o capelão do exército. – Vocês chegaram ao hospital do exército americano. Vamos cuidar bem de vocês. Estamos rezando por vocês. Vocês chegaram ao hospital do exército americano. Vamos cuidar bem de vocês. Estamos rezando por vocês. Várias e várias vezes o cansado capelão repetiu essas palavras, conforme as macas passavam por ele, as sílabas se tornando um borrão sem significado. Sebastian segurou com força na minha mão, mas não falou nada. Ficamos lá por apenas duas noites enquanto Sebastian era “processado”. A equipe, atormentada, mas compassiva, me deu um quarto pequeno como uma cela no alojamento feminino. Dia e noite chegavam feridos; não havia tempo para aprender o nome dos soldados com tantos ferimentos idênticos passando pelo hospital, alguns vindo do Iraque, mas a maioria mesmo do Afeganistão. Eles eram tratados e transferidos. Tratados e transferidos. Um fluxo incessante de carne mutilada e mentes torturadas. Sebastian tinha a opção de voltar a San Diego ou ir para um estabelecimento na Costa Leste. Decidimos que seria mais fácil se estivéssemos perto de casa – minha casa – nossa casa, e voamos para o Walter Reed, em Maryland, em uma quinta-feira no começo de maio. A jornada da Alemanha foi longa e difícil para Sebastian; ele não reclamou nenhuma vez, apesar de eu poder ver que ele estava sofrendo, o corpo coberto por um brilho doentio de suor. Entretanto, ele também não falou nada comigo, e isso me assustou. Havia muitos que estavam bem piores. Um jovem com o qual conversei baixinho durante aquelas horas horríveis chamava-se Lance. Ele perdera as duas pernas e um dos braços. E me disse que estava “contente” que isso aconteceu com ele, porque ele não queria que acontecesse com nenhum de seus amigos no batalhão. Ele tinha 22 anos. **** Nossa chegada ao solo americano não teve nenhuma festa. Viajei com Sebastian o tempo todo e conferi para que ele estivesse instalado em uma unidade antes de encontrar uma acomodação para mim em um hotel barato perto dali. Havia outras esposas e familiares no mesmo hotel e nos tornamos próximos, compartilhando nossas esperanças e sonhos – ou melhor, forjando novos sonhos, muito mais limitados em seu escopo do que os anteriores. A cerimônia em memória a Liz veio e se foi. Enviei uma carta ao editor dela, pedindo para que ele a lesse no meu lugar, e pedi a ele que recitasse o poema “High Flight”, do oficial piloto Gillespie Magee. Eu sabia que esse sempre tinha sido um dos favoritos de Liz. Ah! Eu escapei dos limites rudes da terra


E dancei nos céus em asas prateadas de riso; Subi até o sol, e juntei-me à graça rolando De nuvens partidas pelo sol – e fiz uma centena de coisas Com que você nunca sonhou – girei e subi e balancei Alto no silêncio iluminado pelo sol. Flutuando ali Persegui o vento gritante e lancei Minha nave ansiosa por salões de ar sem pés. No alto, no alto do longo azul delirante e ardente, Excedi as alturas varridas pelo vento com elegância fácil Onde jamais voou a cotovia, ou mesmo a águia – E, enquanto eu caminhei com a mente silenciosa e elevada Pela santidade altamente inviolada do espaço, Estendo minha mão e toco a face de Deus. Fiz uma prece por ela também, sozinha em meu quarto de hotel. **** Durante nove semanas, esperei e observei com olhos ansiosos enquanto Sebastian lentamente começou a se curar. Ele recebeu fisioterapia intensiva para ajudar com o uso de seu braço esquerdo e, mais exatamente, para andar de novo. Ele ficava sem fôlego e se cansava com facilidade; porém, face a tantos ferimentos piores, ele escondia suas emoções verdadeiras. Acho que eu era a única que podia ver a raiva fervilhando sob a superfície. Para os outros soldados e a equipe, ele parecia alegre e trabalhava forte em qualquer exercício que lhe davam. Porém, para mim, ele estava fechado e distante. Sebastian sempre foi tão honesto e aberto comigo; eu me sentia perdida e sozinha – mais solitária na companhia dele do que quando estava por minha conta. Logo ficou óbvio que a extensão de seus ferimentos o deixaria incapacitado para o trabalho. Um dos pré-requisitos para ser um fuzileiro naval era a habilidade de correr sem mancar. Os médicos achavam extremamente improvável que Sebastian fosse um dia capaz de andar sem uma bengala, quanto mais correr. Uma dispensa médica era o cenário mais provável. O serviço militar era generoso com aqueles feridos em combate e, embora Sebastian não se qualificasse para receber uma pensão médica por não ter servido por 20 anos, disseram-lhe que ele ainda poderia receber algo entre um terço e metade do salário atual. Ele seria um veterano inválido. Aquelas palavras o deixaram enfurecido. Ele arengou comigo por quase meia hora. – Eu não vou aceitar – rosnou ele. – O quê? Por que não? – Simplesmente não vou – disse ele, resoluto. – Sebastian, você merece isso – depois de tudo pelo que passou…


– Eu não vou aceitar essa merda, Caro. Tenho 27 anos. Não quero receber essa porra de pensão médica! – Certo, tesoro. A escolha é sua. Acho que o fato de eu não brigar com ele só piorou as coisas. Ele tinha vastas reservas de raiva acumulada, e eu era o alvo mais próximo – possivelmente o único no qual ele sentia que podia descontar. O exército também ofereceu a ele a chance de frequentar cursos universitários pela lei dos veteranos, mas ele também não quis discutir isso. A lista de tópicos a não serem mencionados ficava mais comprida a cada dia. O tenso silêncio entre nós era exaustivo. Perdida, pensei que talvez pudesse ajudar se eu lhe desse um pouco de espaço e lhe permitisse aceitar tudo o que havia acontecido sem a minha presença constante – e sem o que ele parecia sentir ser uma interferência constante. Decidi que precisávamos de férias um do outro e eu também queria ir dar uma olhada na minha casa. Alice vinha passando por lá regularmente, mas eu desejava estar na minha própria casa. Eu realmente achei que podia ajudar nosso relacionamento tênue se eu só visitasse Sebastian nos finais de semana. Também estava ficando caro permanecer no hotel, embora eu não fosse mencionar isso a ele. Estávamos descansando em um banco no terreno do hospital, depois de Sebastian conseguir andar quase 200 metros, apoiando-se pesadamente em uma muleta. Era difícil para mim vê-lo lutar quando sempre tinha sido tão forte e vigoroso; eu só podia imaginar o quanto era mais difícil para ele. – Você foi bem hoje, Sebastian. Ele grunhiu uma resposta e eu não consegui identificar se ele estava concordando comigo ou não. Suspirei, respirando fundo. – Estive pensando que deveria voltar para Long Beach. Só para me certificar de que está tudo bem em casa. Eu quero tentar começar a trabalhar um pouco mais… Minhas palavras morreram enquanto ele olhava para mim com algo semelhante a desprezo. – Você está me deixando. Era uma declaração, não uma pergunta. – Não, tesoro! Por que você diria algo assim? Não, nunca! – Não minta pra mim. Cacete, Caro! – gritou ele. – Você deixou bem óbvio que não quer estar aqui. Bem, ótimo. Vá embora logo. E ele me deu as costas. Tentei falar, mas sufoquei. – Por favor, Sebastian – falei, tocando seu braço. – Não é o que estou dizendo. Eu só queria… tentar conseguir… um pouco de normalidade. Eu viria te visitar nos finais de semana. Ele afastou minha mão. – Não estenda as coisas, Caro – disse ele, amargo. – Não sou completamente burro. Fiquei de pé subitamente e o movimento fez com que ele olhasse para cima. – Mas que droga, Sebastian! – berrei. – Eu não estou te deixando! Você nunca vai se livrar de mim, então pode parar de tentar. Agora mesmo.


Ele desviou o olhar de novo. – Tanto faz – disse ele. Aquele foi um dia bem, bem ruim. Perguntei-me quanto mais ainda teríamos que cair – e temia descobrir a resposta. No entanto, também percebi que, embora Sebastian rosnasse e grunhisse para mim dia após dia, ele precisava que eu continuasse com ele. Resolvi continuar em Maryland: Alice poderia continuar cuidando do bangalô. Nós daríamos um jeito, de alguma forma. Sete dias depois, o oficial de ligação da comissão de avaliação física, uma mulher amistosa, mas eficiente, que foi-me apresentada como Joan disse a Sebastian que a comissão iria “autorizar sua dispensa por invalidez, com benefícios por invalidez, uma vez que ele foi considerado incapaz e sua condição era incompatível com o serviço militar contínuo”. Sebastian não era mais um fuzileiro naval americano. 5

Você é tudo para mim. (N.R.)


C APÍ TU LO

17

O DIA EM QUE SEBASTIAN veio para casa deveria ter sido o mais feliz de nossas vidas, mas meu amor estava alquebrado em corpo e espírito. Combinei com um táxi para nos apanhar no aeroporto. Nicole e Jenna tinham se oferecido para nos buscar, mas pensei que seria melhor para ele ter um retorno sossegado; Sebastian não estava pronto para encarar minhas amigas, não importa o quão bem-intencionadas. Alice esteve no bangalô para limpar e arejar, e também prometeu encher a geladeira. Pedi uma cadeira de rodas para levar Sebastian do avião até a entrada do aeroporto, mas ele se recusou até a considerar. – Não vou usar essa merda, Caro, pode esquecer – disparou ele. Aquiesci em silêncio e assisti sua longa e dolorosa luta pelo prédio do terminal, usando a muleta para apoiar a perna direita, que ainda não podia sustentar seu peso. O motorista do táxi tagarelou o caminho todo até Long Beach e eu tentei manter uma conversa inconstante enquanto Sebastian olhava pela janela. Pensei ter detectado uma leve mudança nele quando viu o mar, que hoje estava um azul intenso e escuro sob o sol de agosto, mas logo em seguida ele se fechou e as janelas desceram de novo sobre suas emoções. Quando chegamos ao meu bangalô, o motorista pegou nossas bolsas do porta-malas e depositou-as na varanda. Fiquei para trás enquanto Sebastian lutou para sair do carro, desesperada para ajudá-lo, porém sabendo que ele odiaria e se ressentiria da interferência. – Cara, o que aconteceu com a sua perna? – o motorista perguntou, de súbito. – Bomba. – Como é que é? – Bomba: explodiu. – Legal!


Pensei que Sebastian ia sorrir ou rolar os olhos ou dar alguma indicação da insensibilidade do comentário do motorista, mas não. A luz havia deixado seus olhos e eu não sabia o que seria necessário para reacendê-la. Nós daríamos um jeito. Nós sempre dávamos um jeito. Mas era difícil. Sebastian estava exausto e com dor. Ele foi até o meu sofá e se abaixou cuidadosamente, mordendo o lábio para conter o grunhido que queria escapar. – Quer se deitar, tesoro? Eu queria muito que ele fizesse uma piada, dissesse algo sobre eu querer levá-lo para a cama o mais rápido possível, mas ele não o fez. Só balançou a cabeça. – Vou ficar aqui um pouquinho. – Tudo bem. – Hesitei. – Bem, vou colocar suas malas no quarto de hóspedes por enquanto. Podemos abri-las mais tarde. Ele não respondeu. Enfiei sua mochila e a bolsa debaixo da cama. Decidi que desfaria essas duas quando ele estivesse dormindo. Ele não precisava ver seus uniformes agora. E nem sabia se ele iria querer guardá-los. Quando voltei para a sala de estar, ele estava olhando para o nada. – Está com fome? Quer um pouco de massa? Ele balançou a cabeça. – Não. Mordi os lábios, represando a vontade de insistir para que ele comesse alguma coisa. Ele tinha perdido peso, bastante peso, o rosto estava abatido e sua beleza, sempre tão tangível, tornara-se etérea. – Talvez mais tarde – falei, suavemente. Ele não respondeu. Eu me senti estranha e desconfortável ao estar em casa depois de uma ausência tão prolongada, e a presença vulcânica e silente de Sebastian me intimidava. – Não era isso o que eu tinha planejado – disse ele. – Não é o que nenhum de nós tinha em mente, mas vamos dar um jeito, não é? – Eu pensei que ia te carregar pela entrada, cacete – disse ele, o rosto contorcido de desgosto. – Isso não importa, Sebastian. Nós… – Sim, importa, sim, Caro! – gritou ele, me fazendo pular. – Importa mesmo, pra cacete! Cristo, será que não consegue entender algo tão simples? Empalideci, sua raiva me atingindo lá no fundo. – Sinto muito, Sebastian, eu só… – Só o que, Caro? – Nada – sussurrei, indo para a cozinha e me segurando na pia. Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Precisava fazer alguma coisa com as mãos para impedi-las de tremer. Vasculhei a geladeira, tentando pensar em algo que ele talvez quisesse comer. No final, optei por algo simples: sanduíche


de queijo com tomate e alface. Não era o tipo de coisa que eu gostava de comer, mas torci para que, se eu comesse a mesma coisa, talvez ele ficasse tentado. Levei dois pratos para a sala de estar e coloquei um perto dele. Sebastian nem olhou para a comida, apenas continuou com o olhar vago, como se sua explosão anterior não tivesse acontecido. Tentei não entrar em pânico, aquilo era relativamente recente e ele tinha passado por muita coisa. Como soava trivial: ele tinha quase morrido e estava muito longe de estar recuperado, apesar de os médicos ainda não terem entrado em um acordo sobre o que seria a recuperação total. Não suportei o silêncio. Por fim, liguei a TV, algo que eu raramente fazia quando sozinha. Tive que mudar de canal várias vezes antes de encontrar algo que não tivesse noticiários ou nada a ver com o Afeganistão. Acabamos assistindo algo sobre os suricatos na África. Muito educativo – nenhum de nós ouviu mais do que meia dúzia de palavras, e Sebastian não tocou em sua comida. – Você tem cerveja? – Ah, não, desculpe – gaguejei. – Mas posso abrir um vinho, se quiser. Ele assentiu. – É, pode ser. Abri uma garrafa de Chianti e assisti enquanto ele tomava três taças, uma atrás da outra. Ele teria terminado com a garrafa se eu não a levasse para a cozinha. – Caro, que merda você está fazendo com o vinho? Não, isso eu não ia aguentar. Ele não ia afogar as mágoas em uma garrafa. – Você não comeu nada e ainda não tomou seus analgésicos, Sebastian. Então é isso, o vinho vai ficar na cozinha. Ele estourou. Xingando, gritando, berrando. Quem diabos eu pensava que era? Quem eu era para dizer a ele como levar sua vida? E assim por diante. Esperei que, quando ele tivesse terminado, um pouco do veneno o deixasse, mas ele logo reverteu ao frio silêncio que mais magoava. Lá pelas 21 horas, seu rosto estava cinzento de cansaço. – Quer que eu te mostre onde fica o quarto? – É uma porra de um bangalô, Caro – disse ele. – Ou você acha que vai ser muito difícil? Eu não sou uma merda de um retardado, mesmo sendo um aleijado. – Sebastian… Mas ele não queria ouvir. Levantou-se do sofá, ofegando quando a dor o atravessou, e cerrou os dentes. Depois de um engano, no qual ele desabou no quarto de hóspedes, Sebastian encontrou o caminho para o quarto. Eu lhe dei alguns minutos, depois o segui. Ele estava deitado sobre o lado bom, de costas para o meu lado da cama. Escovei os dentes e deitei-me junto dele, cuidadosamente aninhando meu corpo no seu e desfrutando do momento, quando meu braço pousou sobre sua cintura, sentindo a pele nua outra vez depois de quase três meses. Ele se mexeu de leve. – Não – disse ele.


Puxei minha mão de volta como se tivesse levado uma aguilhoada. Ele não queria que eu o tocasse? Ele não queria que eu o tocasse. Aprendi durante meu primeiro casamento que era possível chorar sem fazer nenhum som; não pensei que Sebastian pudesse me levar de volta para aqueles anos. E isso foi mais doloroso do que qualquer outra coisa. Fiquei deitada junto dele, enquanto as lágrimas escorriam silenciosamente pelas minhas bochechas. Ao longo dos dias seguintes, as coisas pioraram. Ele não tinha interesse em nada. Eu precisava insistir para que ele tomasse banho ou trocasse de roupa, e ele se recusava terminantemente a se barbear, de modo que seu lindo rosto estava coberto por uma barba castanho-clara que era desconhecida e indesejada. Ele comia pouco, preferindo fazer incursões em minha pequena coleção de vinho, e cortava qualquer tentativa minha de impedi-lo. Ele mal falava comigo. Suas respostas habituais incluíam gritos e berros. Ou ele simplesmente me ignorava. Ele não lia, não assistia TV, não fazia nada, exceto beber. Minhas amigas queriam vir nos visitar. Vacilante, sugeri isso a Sebastian, pensando que talvez ele pudesse ser persuadido a um esforço por elas, se não por mim. – Claro, elas querem ver a porra do aleijado de guerra – zombou ele –, para se sentirem bem, como se estivessem fazendo caridade. Qual é o problema com você, Caro? Eu te pareço pronto para ver alguém? – Sebastian, elas são minhas amigas. Elas querem te conhecer e querem me ver. Você não precisa fazer um show para elas. – Apesar de ser exatamente o que eu esperava que acontecesse. Ele deu de ombros e disse que, se elas viessem, ele ficaria no quarto. Resolvi pedir a elas para adiar a visita. Antes de voltar do Afeganistão, eu telefonei a cada uma delas, explicando tudo sobre Sebastian: como nos conhecemos, por que tínhamos sido forçados a nos separar. Tinha sido profundamente desconfortável e eu temi a censura delas. Em vez disso, elas me deram apoio, apesar de eu perceber que tinham ficado magoadas por eu nunca ter sido totalmente franca com elas antes. Esperei que compreendessem meus motivos. Eu não contara a elas que estava noiva, embora não soubesse porquê. Peguei meu telefone e fui até a praia sozinha. – Nic, é a Lee. – Oi, doçura! A que horas quer que a gente chegue amanhã? – Olha, não é um bom momento. Sebastian está… lutando. Ele não está preparado para ver ninguém. Ela podia ouvir o tremor na minha voz. – Foda-se, Lee! Eu quero ver você. Isso não é algo que você tenha que fazer sozinha. – Eu sei disso, Nic, mas agora não é uma boa. Talvez daqui a algumas semanas. Houve um curto silêncio. – Está muito ruim, Lee? – Muito, muito ruim – respondi.


E então comecei a chorar e não conseguia parar. Nicole me escutou soluçando no telefone por vários minutos. Quando eu finalmente comecei a me acalmar, ela falou com firmeza. – Lee, vocês precisam de ajuda profissional com isso. Sebastian precisa de ajuda profissional. O hospital dos veteranos não pode fazer alguma coisa? Digo, os militares têm programas para ajudar exatamente com esse tipo de problema. Balancei a cabeça, cansada, desejando que ela estivesse aqui para passar o braço em volta de mim e me confortar. – Ele se recusa a conversar com alguém, Nic. Ele mal fala comigo. Eu não sei o que fazer – ele diz que já se cansou de hospitais e que nunca mais quer ver outro médico. Eu entendo, e me sinto assim também de certa forma, mas estou no final da minha paciência aqui. E ele está bebendo; ele quase não come. Ele não me toca, e não permite que eu o toque. Não sei o que fazer. Ela hesitou por um instante. – Tem certeza de que quer mesmo fazer isso, Lee? Respirei fundo. De tudo o que eu pensei que ela pudesse me dizer, isso era a coisa mais improvável. E eu já havia considerado que eu podia não ser o que ele precisava, mas sempre presumi que seria ele a me dar o fora. – Não posso abandoná-lo agora, Nic. Ele precisa de mim, mais do que nunca. – Tenho certeza que sim, mas a menos que ele aceite a sua ajuda, você não pode fazer nada. Ele tem que querer melhorar. Eu sabia que ela tinha razão; só não sabia o que fazer a respeito. A essa altura, os pesadelos também tinham começado. Ou melhor, eu não tinha percebido o quanto eles tinham piorado, mas agora que dividíamos uma cama, ficou claro para mim o quanto eles eram traumatizantes. Sebastian tinha sonhos intensos e acordava gritando. Uma vez, eu pensei que ele iria me atacar, de tão vívido que foi seu flashback. Ele se conteve no último segundo, seus olhos enlouquecidos e negros de terror; acho que ver o meu medo foi o que o impediu de… de me machucar. Ele começou a checar se as janelas e portas estavam fechadas duas ou três vezes por noite antes de irmos para a cama, e tornou-se paranoico com gente vindo até nossa casa, fosse o carteiro ou um de nossos vizinhos deixando um panfleto por baixo da porta. Sebastian recusava-se a sair de casa, mas também odiava que eu saísse. Nós nos tornamos virtualmente reclusos. Tentei continuar trabalhando, mas só podia fazer certas coisas de casa, e comecei a me ressentir de suas tentativas de me controlar. Um dia, ele gritou comigo porque não havia nada alcoólico em casa e eu me recusei a comprar mais. E gritei de volta. – Se quer uma merda de uma bebida, então levante essa porcaria de bunda do sofá e vá você mesmo buscar, Sebastian! Marchei para fora do bangalô com o sangue fervendo.


Senti-me horrivelmente culpada assim que bati a porta, porém não ia recuar. Tínhamos chegado a um impasse: algo precisava mudar. Quando me acalmei o suficiente para ir para casa, um lugar que já não era mais um refúgio, Sebastian tinha ido para a cama. Um lugar que tinha se tornado outro campo de batalha. E ele não me tocava; ele mal olhava para mim, negava qualquer abraço e nós não fazíamos amor. Éramos estranhos um para o outro, mas dividindo a mesma cama. De manhã, eu acordei me arrastando, tendo ambos dormido muito mal. Ele tinha sofrido outro pesadelo apavorante e gritado de medo. Eu ansiava por abraçá-lo, mas ele nem olhava para mim. Quando eu o tocava, ele se encolhia com uma careta. Eu não sabia quanto tempo mais aguentaríamos assim. E ele continuava a se recusar a conversar com qualquer médico. – Que porra eles sabem sobre isso, Caro? – Bastante coisa. Você não é o primeiro fuzileiro naval a ser ferido. – Ex-fuzileiro naval; uma merda de um ex-fuzileiro, Caro. Eu não sou nada, agora. Talvez você possa tentar se lembrar disso. Suas palavras cortaram meu coração. Ele tinha sido meu amante, tinha sido um fuzileiro naval, e agora não era nenhum dos dois. O passado era um país estrangeiro e o futuro era… bem, ele não conseguia enxergar que tinha um futuro. Nós vivíamos de uma hora para a seguinte, lentamente. E ele se sentia culpado – tão culpado – por ser aquele que sobreviveu. Ninguém me disse exatamente o que havia acontecido, mas pelo que pude reunir de informação, e pelo que David me disse naquele primeiro telefonema, alguém de dentro, um aliado, tinha começado a atirar e então detonou uma bomba. Três outros fuzileiros morreram e mais dois foram feridos, embora sem tanta gravidade quanto Sebastian. Sobreviver não tinha a ver com habilidade; era mais relacionado à sorte. Durante aqueles dias longos e escuros, duas coisas me faziam continuar. A primeira era a carta dele, aquela que ele escreveu antes de sua última missão. O papel tinha se tornado macio e frágil com a quantidade de vezes que eu a li. Eu olhava para ela com frequência quando estava sozinha por alguns segundos, apesar de já ter decorado as palavras. A segunda era algo pequeno, ridículo até, mas que significava muito para mim, e acho que para Sebastian também. Eu estava separando uma pilha de roupas sujas. Um daqueles trabalhos sem alegria nem gratidão que todos precisamos fazer, mas nunca terminamos, porque é interminável. Eu me certificava de que todos os botões estavam fechados e as camisas estavam do avesso antes de jogá-las na lavadora, tarefa trivial, tediosa, mas necessária, quando apanhei a calça jeans de Sebastian. Como sempre, ele a jogou no cesto desabotoada e com o zíper aberto. Pensei que era melhor conferir os bolsos também… e foi quando eu a encontrei. Senti uma protuberância dura no bolso menor do quadril. Enfiei a mão lá dentro e retirei uma pedrinha branca. Era o pedacinho de quartzo que eu encontrei na praia, aquele presente bobo e sentimental que dei para Sebastian no dia em que ele voou para o Afeganistão. E ele o guardou. Mais do que isso, ele o guardava consigo até hoje.


Minha garganta começou a doer com lágrimas, mas recusei-me a chorar, porque aquele seria um choro de esperança. Se Sebastian se importava o suficiente para guardar aquela pedrinha, certamente isso significava que ele ainda gostava de mim, não? Que ele ainda era capaz de gostar de mim? **** Um ruído alto me fez correr até a sala de estar. Sebastian estava se debatendo no chão, xingando com todas as forças, praguejando como se fosse um marinheiro, cercado por livros. – O que houve? – perguntei, sem fôlego. – Eu caí, cacete! O que parece que aconteceu? Supus que ele tinha perdido o equilíbrio e tentado se segurar na estante de livros, puxando-a para baixo consigo. Abaixei-me para ajudá-lo a se levantar. – Me deixa em paz! Eu não sou um aleijado completo, porra! Mordi o lábio e assisti enquanto ele lutava para se colocar de pé. Sua frustração diante do que ele via como impotência vinha à tona várias vezes por dia. Eu precisava me recordar que ele não estava bravo comigo, porém às vezes era difícil. Doía vê-lo lutando tanto com seu próprio corpo enquanto ele continuava a se curar, comigo, com todo mundo. Ele estava se afundando cada vez mais na depressão todos os dias e eu não sabia como ajudá-lo. Sebastian se negava até a falar em casamento ou qualquer coisa relacionada a planos para o futuro. – Não vou deixar que você se case com uma merda de um aleijado inútil – rugiu ele, quando fui tola o bastante para insistir no assunto. – Se eu não consigo nem caminhar até o altar sem uma porra de uma bengala… Contive minha resposta zangada de que não havia um altar na Prefeitura e deixei-o sozinho para remoer sua raiva sombria. Minhas próprias esperanças e sonhos estavam cada vez mais distantes. Em silêncio, abaixei-me e comecei a apanhar os livros que haviam caído com ele – aqueles fora do alcance de suas mãos. Ele me observou por um momento, carrancudo, depois estendeu a mão para juntar os títulos mais próximos dele. Enquanto ele apanhava minha cópia de Lolita pela capa, um envelope caiu, adejando até o chão. Eu sabia logo o que era e me debrucei para pegar, mas Sebastian foi mais rápido. – O que é isso? – disse ele, a voz intrigada. – Tem o meu nome aqui. Ele olhou para mim. – A data aqui… esse é o primeiro dia em que nós… – Sim, eu sei – falei, baixinho. O pequeno envelope realmente exibia o nome de Sebastian rascunhado em um canto em minha letra descuidada. A data era de dez anos atrás; o dia em que eu o encontrei sozinho no parque, cheio de hematomas e sangrando após outra briga com seu pai. O desgraçado o esmurrou várias vezes e então cortou nacos do cabelo comprido de surfista de Sebastian. Eu o levei para casa, cuidei de seus


ferimentos e cortei o resto de seu cabelo de um jeito curto e elegante, tentando disfarçar a evidência do ataque de seu pai. Também foi essa a noite em que fizemos amor pela primeira vez. – O que tem aqui, Caro? – perguntou ele, remexendo no envelope de papel. Era a primeira vez que ele demonstrava interesse em alguma coisa em semanas. Dei de ombros. – Abra. Ele se apoiou no sofá, recostando-se nas almofadas. Atrapalhou-se tentando abrir o envelope lacrado, a coordenação motora de sua mão esquerda ainda limitada. Ele provavelmente esperava encontrar algum tipo de carta lá dentro, mas estava enganado. Um cacho de cabelo comprido e loiro caiu de lá. Vi o choque do reconhecimento no rosto dele. – Isso é meu. Meu cabelo. Você o guardou por todos esses anos? – Sim, tesoro. Era tudo o que eu tinha de você. Ele fechou os olhos, segurando o cacho na mão. – Caro, eu não entendo. Por que você me ama? – Só porque… porque o céu é azul e o mar é verde. E então ele começou a chorar. Com as mãos fechadas em punhos sobre os olhos, ele soluçou em meus braços. E, finalmente, eu pude abraçá-lo. Passei meus braços ao redor dele e o segurei com força, espantando a escuridão com a pura vontade, tentando curá-lo com meu corpo, com meu toque. – Eu te amo, Sebastian. Por favor, não me empurre para longe. Eu te amo. – Ah, Deus, Caro. Eu nem sei mais o que estou fazendo. Estou tão ferrado, eu sinto que não consigo respirar. Não desista de mim, Caro. Por favor, não desista de mim. Eu preciso de você, meu bem. Eu te amo tanto. Eu sinto tanto, tanto. Eu podia perdoar qualquer coisa, agora que ele me deixou tocá-lo. Abracei-o por uma hora, apenas afagando seu cabelo, enquanto ele descansava a cabeça em meu colo, meus dedos correndo por sua barba áspera. Percebi que ele tinha dado um pequeno passo em minha direção, na direção de voltar a viver – eu precisava que ele desse mais um. – Está na hora de ir lá fora, Sebastian – falei, suavemente. Ele fechou os olhos e engoliu seco. – Não sei se posso fazer isso, Caro. – Você não precisa fazer isso sozinho, Sebastian. Nós vamos juntos. Venha, tesoro. Juntos. Era visível que ele estava nervoso, portanto fomos devagar. Eu dei a ele meu boné de beisebol dos Yankees, que ele puxou bem para baixo na testa, e vestiu sua velha jaqueta de motoqueiro, que pendia frouxamente de seus ombros, enfatizando como ele tinha emagrecido. Tomei a mão dele e, com Sebastian se apoiando bastante em sua bengala, abrimos caminho lentamente pela West Beech Street. Sebastian ficava olhando para trás, checando as janelas dos prédios ao longo da rua, e eu sabia que ele estava, de maneira inconsciente, procurando atiradores. Não o apressei; seguimos no ritmo dele, porém a sensação que me invadiu ao estar finalmente com ele ao ar livre foi quase esmagadora. – Ali tem um café, Sebastian. Por que não vamos tomar um café?


– Não sei, Caro… sentar do lado de fora? Eu não me sentiria… seguro. – Sebastian, você sabe racionalmente que não há nada com que se preocupar. Vamos apenas tentar por alguns minutos. Se você realmente não aguentar, a gente sai. Ele se contraiu, descontente, mas não discutiu. O garçom veio até nós e Sebastian se encolheu para longe dele. – Eu vou querer um espresso. Sebastian? Os olhos dele estavam muito abertos de medo, dardejando nervosamente ao seu redor, sem parar. – E uma Bud Light – respondi por ele. O garçom se afastou; estava acostumado com clientes levemente doidos. Eu não podia dizer que Sebastian relaxou de verdade, mas ele bebericou sua cerveja e começou a parecer uma fração menos ansioso. Ele pareceu mais feliz quando recomeçamos a nos mover. Notei que ele estava cansado, mas queria que ele visse o mar bem de perto, e não apenas pelas janelas da nossa casinha. O calçadão estava lotado, cheio de gente caminhando ao sol. Um adolescente sobre um skate passou por nós e meu pobre ferido tremeu de terror com o barulho súbito. – Está tudo bem, tesoro. Você vai ficar bem. – Cacete, Caro – disse ele, o rosto pálido de medo. Continuamos andando, Sebastian agarrando-se à minha mão e tentando controlar sua respiração acelerada. Doía muito vê-lo tão assustado quando ele tinha sido sempre tão forte, entretanto eu sabia que o único jeito de ajudá-lo era forçando-o a enfrentar seus medos. Nós os enfrentaríamos juntos. Quando chegamos ao final do calçadão, encontramos um banco vazio e nos sentamos, olhando para o mar. Ele respirou fundo e eu vi que isso o acalmou. As ondas rolavam pela areia e o movimento contínuo e ritmado tranquilizou nós dois. Duas crianças brincavam em pranchas de body board, gritando, felizes. Sebastian inclinou-se adiante para observá-las, o rosto aceso de interesse. O mar sempre tinha sido seu refúgio, um ponto em que seus pais não podiam tocá-lo, e a praia sempre teve um significado especial para nós. Tornei-me determinada a caminhar com ele ali todo dia, porque eu acreditava que isso fosse ajudar Sebastian a ficar mais forte. E iria nos unir. – O mar sempre me lembra de você, tesoro. Hoje está da mesma cor dos seus olhos. Ele me olhou, surpreso, depois levou minha mão até os lábios e a beijou. – Caro. Ele suspirou meu nome com suavidade, como uma oração. Enquanto nos sentávamos ao sol, com uma leve brisa sobrando meu cabelo, sentia a vida fluindo de volta para o corpo dele. Sebastian fechou os olhos, relaxando no calor do verão, o rosto voltado para a luz como uma jovem planta mantida no escuro. – Obrigado por isso, Caro – murmurou ele. Eu me recostei contra ele, que passou seu braço bom ao redor do meu ombro, me trazendo mais para perto. – Pronto para ir para casa, tesoro? Ele aquiesceu e nos levantamos para caminhar de volta.


Eu peguei uma rota diferente para o bangalô e passamos diante de um café que eu não tinha visto antes. Devia ter aberto quando estávamos vivendo como ermitões. Três homens de cabelo preto, pele morena e olhos escuros pareciam discutir em voz alta. Eu queria dar a volta mais longa em torno deles caso aquilo lembrasse Sebastian do Afeganistão, mas algo a respeito deles intrigou Sebastian. Ele olhou para cima, e eu podia ver que ele estava prestando atenção no que diziam. Percebi que deviam estar falando uma língua que ele conhecia, o que podia significar que eles eram afegãos. Fiquei preocupada de verdade, imaginando qual o melhor curso de ação. Olhei em volta para ver se havia algum táxi próximo. E então fiquei atônita ao ver um sorrisinho curvar os lábios de Sebastian. Meu coração alçou voo. Eu não o via sorrir assim desde que ele voltou para casa. Conforme passamos por ali, Sebastian lançou um comentário. Os homens o encararam, espantados. Um deles gritou outra coisa e Sebastian respondeu. De repente, todos começaram a gritar de uma vez só. Eles vieram até ele e fiquei preocupada que fosse demais, mas em breve estavam imersos em uma conversa e eu podia ver que eles estavam fazendo perguntas. E então Sebastian sorriu para eles. Era como ver o sol depois de um mês de chuva, e ousei sentir esperança. Eles conversaram um pouco mais e Sebastian me apresentou. Os homens me cumprimentaram respeitosamente, porém com pouco interesse, e afinal, depois de vários minutos em que não entendi uma palavra sequer, mas acompanhei feliz enquanto Sebastian afagava minha mão, observando-o tagarelar, ele disse adeus e seguimos andando. – O que diabos vocês conversaram por tanto tempo? – Beisebol – disse ele. Eu o encarei, desconfiada. – Está brincando comigo? Ele voltou a sorrir. – É uma linguagem universal, Caro. E, simples assim, o mundo começou a girar de novo. A primeira mudança foi que Sebastian começou a fazer os exercícios que o terapeuta havia passado: exercícios para ajudar a ampliar a destreza nos dedos da mão esquerda, e alongamentos para ajudar os músculos danificados da coxa direita. Ele até usou a bicicleta de exercício que eu encomendei para ele, embora tivesse gritado comigo no dia em que ela foi entregue. Também começou a fazer abdominais e flexões como se não houvesse amanhã. A segunda mudança ocorreu uma semana depois de encontrar com os afegãos. Era noite, e eu estava de pé na cozinha, fazendo pasta arrabiata para nosso jantar quando Sebastian pôs a cabeça na porta, uma expressão questionadora no rosto. Encarei-o por um instante antes de perceber o que estava diferente nele. – Você se barbeou! – Bem, você não gostava da barba, não é? – Isso é um eufemismo, Sebastian. Ele estava tão lindo que meu coração deu outro salto, menor, mas esperançoso.


A terceira mudança, e a mais surpreendente, foi que ele passou as mãos ao redor da minha cintura e beijou meu pescoço. Fiquei tão chocada que congelei. O sorriso dele se esvaiu e ele me soltou. – Não, tesoro, não! Eu puxei seus braços de volta para a minha cintura, pousando a cabeça em seu peito. Não pude conter as lágrimas que rolaram pelo meu rosto, ensopando sua camiseta. – Me desculpe, me desculpe, meu bem – disse ele, acariciando meu cabelo. – Ah, Deus, eu senti saudades suas, Sebastian. – Eu sei, meu bem – disse ele, gentil. – Mas agora estou aqui. Era tão bom sentir os braços dele em volta de mim depois de meses de sua frieza dormente e sua distância. Ergui a cabeça para olhar para ele, que enxugou minhas lágrimas com os polegares. – Desculpe por ter feito você chorar, meu bem – disse ele, suavemente. – Eu nunca quis te magoar. Mas sei que magoei. Passei meus braços pelo pescoço dele e puxei sua cabeça para baixo, beijando seus lábios com gentileza no começo, depois com uma voracidade e necessidade crescentes. Ele hesitou por uma fração de segundo, depois seus lábios se partiram e senti sua língua mergulhar em minha boca e uma excitação súbita, quente e inesperada me inundou. Gemi em sua boca, a intensidade do meu desejo me tomando de surpresa. Sebastian ofegou e recuou meio passo, olhando para mim. Por dentro, eu implorava para ele não me rejeitar de novo, mas senti muito decididamente que o passo seguinte precisava vir dele. – Eu quero fazer amor com você, Caro. A voz dele soou tão baixa que eu mal pude ouvi-la. – Quer? – suspirei. – Deus, sim, meu bem. Mas só se você quiser. Fitei o rosto dele e descobri em seus olhos o amor que parecia ter se escondido por tanto tempo. – Eu esperei tanto para ouvir isso, tesoro. Apaguei o fogão, abandonando o jantar. Ele segurou minha mão e olhou nos meus olhos enquanto entrávamos no quarto.


C APÍ TU LO

18

A ÚLTIMA VEZ EM QUE FIZEMOS AMOR

foi em um quartinho fedido com paredes de lama em uma antiga delegacia de polícia em Nawzad; agora era muito diferente. Ele ficou de pé junto à cama, hesitante, e aquilo me lembrou muito da nossa primeira vez juntos. Ele também estava alquebrado naquela ocasião. Fechei as cortinas, mas o sol ainda estava alto no céu e o quarto estava cheio de uma luz suave, reduzida. Voltei para ele e estendi a mão para acariciar seu rosto. Sebastian apoiou o rosto em minha mão e seus olhos se fecharam. – Não sei se eu posso… – Shh, tesoro. Eu só quero sentir a sua pele junto à minha. Qualquer coisa a mais, bem, vai ser um bônus. Eu o beijei lenta e carinhosamente, relembrando, reaprendendo, recomeçando. Ele correspondeu aos meus beijos, no início com cuidado, e eu senti as primeiras chamas da paixão aquecerem seu sangue. Ele afastou o cabelo do meu pescoço e deslizou a língua por ali até meu maxilar. Suas mãos massagearam minha cintura, apertando a carne. Em seguida, sua mão direita subiu pelo meu corpo e senti seu toque flutuar sobre a alça do sutiã antes de sua mão esquerda lentamente descer para afagar meu traseiro. Era tão bom ter as mãos dele em mim de novo e, a despeito do que eu disse a ele, eu estava desesperada para que ele me conhecesse como um homem conhece uma mulher. No entanto, também sabia que não podia apressar isso. Enfiei as mãos debaixo de sua camiseta e acariciei sua pele quente e sedosa. Com cuidado, tracei com os dedos a cicatriz pequena e redonda por onde saiu a bala que perfurou seu pulmão e deixou seu corpo. Eu precisava que ele soubesse que não fazia diferença alguma para mim, que eu o amava mesmo assim.


Ele se retesou de leve, então afastei minha mão. Deixando que os dedos descessem por sua coluna em vez disso, afagando suas costas e os ombros. Sebastian continuava a me beijar, seu toque lentamente tornando-se cada vez mais seguro. Ele enfiou os dedos no meu cabelo, segurando com mais força. Eu podia sentir o gosto de seu desejo e sua necessidade, mas também sentia sua ansiedade. Fazia tanto tempo desde que nos tocamos que havia uma pressão adicional, o peso da expectativa. Gentilmente, segurei a camiseta dele, sentindo sua fraca resistência antes que ele me permitisse puxá-la por cima da cabeça. Eu podia ver suas costelas com clareza, mas seus músculos começavam a se recuperar. Muito amor e comida caseira, era disso que ele precisava. E tempo. Uma vida toda de amor. Perguntei-me brevemente onde ele havia colocado suas plaquetas de identificação; elas desapareceram pouco tempo depois de ele voltar para casa. Torci para que ele não tivesse feito nada afoito, como destruí-las ou jogá-las fora, porque sabia que ele se arrependeria disso um dia. Alcancei seu cinto, agora fechando-se dois buracos antes por causa de sua perda de peso, mas ele segurou minhas mãos e balançou a cabeça. – Eu não acho que estou pronto para isso, Caro. E se…? Minha frustração estava atingindo o ponto de ebulição, quando fui atingida por uma inspiração súbita. – Quer que eu te mostre como eu me lembrava de você enquanto você estava no hospital? – falei, olhando diretamente em seus olhos. Ele assentiu, suas pupilas se dilatando de um jeito que me encheu de confiança, pois mostrava que ele ainda me desejava. – Eu mostro, se você tirar a calça. – Caro… – Esse é o trato, Sebastian. Não negociável. Ele hesitou por um instante, depois desafivelou o cinto e largou o jeans no chão. Sebastian então virou, deixando a perna direita em um ângulo oposto a mim, e eu sabia que era porque tentava esconder a feia cicatriz que percorria a extensão de sua coxa. No entanto, o ângulo não escondia a leve protuberância em sua cueca. Não era uma ereção total, de modo algum, mas era um começo. – Sente-se na cadeira e fique confortável. Eu posso levar algum tempo. Fui recompensada com um sorrisinho. – Primeiro, eu garantia que as cortinas estavam fechadas – falei, apontando na direção das janelas como uma comissária de bordo. – Depois, eu dobrava a colcha e arrumava os travesseiros. Enquanto eu falava, ia dobrando os lençóis e empilhando os travesseiros perto da cabeceira. – Aí eu colocava uma música para entrar no clima… Apontei o controle remoto para o meu aparelho de som e a música “Martha’s Harbour” flutuou suavemente dos alto-falantes. You are an ocean wave, my love Crashing at my bow…


– Eu tirava os tênis, porque não sou o tipo de mulher que usa Manolo… que são sapatos de salto alto, Hunter. Ele girou os olhos. – Eu morei em Paris por seis meses, Caro. Já ouvi falar de Manolo Blahnik. – Sim, bem, ele é da Espanha, então não precisa ficar se achando todo superior, Sebastian. Em segredo, eu estava empolgada por ele estar entrando na brincadeira e ter relaxado o bastante para me provocar. – Além do mais – prossegui –, não consigo andar em saltos altos a menos que possa me segurar em você… mas não tenho nada contra usá-los no quarto. A respiração dele ficou presa na garganta e suas mãos agarraram a borda da cadeira. Tentei não encarar sua cueca, mas aquela era a área que eu realmente queria afetar. Torci para que nossa conversa o ajudasse a relaxar, porque eu ansiava em sentir o corpo dele – perto do meu, dentro do meu. Mantive o sorriso colado na cara e tentei soar natural e alegre – talvez até um pouco sensual, se eu conseguisse me lembrar como. – Então, depois de tirar meus tênis, eu tirava minhas meias, porque ficar com elas simplesmente não é sexy. E se você algum dia fizer isso, Hunter, estou justificada para pedir o divórcio – depois de nos casarmos, o que você fica adiando. Ele franziu o cenho de leve, por isso resolvi me concentrar na missão em curso, por assim dizer. – Eu imaginava os seus dedos me provocando ao redor do elástico da cintura – falei, parodiando minhas palavras. – E então eu pensava em você abrindo o zíper da minha calça e recuando enquanto eu a retirava. Os olhos dele seguiram minha calça quando eu as deslizava pelas pernas até o chão. – E eu tirava minha camiseta porque ficava com calor, só de pensar em você me tocando. Minha camiseta seguiu o jeans, fazendo uma pequena pilha. – E aí eu tocava meus seios desse jeito, Sebastian – falei, apertando meus seios juntos e jogando a cabeça para trás. – Como você me pediu para fazer uma vez, e eu imaginava você passando as mãos sobre mim e abrindo meu sutiã, e você atormentava meus mamilos com as mãos e com sua boca quente e doce, a língua dando voltas e voltas em torno de mim, assim. Olhei para ele e vi que seus olhos estavam fixos em meus seios e – sim! Havia uma protuberância significante em sua cueca – meu plano estava funcionando. Abri meu sutiã, larguei-o no chão e virei-me de costas para ele. – E eu tinha que subir na cama, desse jeito mesmo, Sebastian – falei, rebolando provocantemente o traseiro para ele, enquanto rastejava até os travesseiros. Aí me ajoelhei e virei-me de frente para ele. – E eu pensava em como você brincava com a renda da minha calcinha, exatamente assim, e como seus dedos me atiçavam, deslizando para dentro de mim, descobrindo que eu estava toda quente e molhada e cheia de vontade. Eu me esfreguei ainda dentro da calcinha e fechei os olhos quando a sensação começou a pulsar através do meu corpo, me fazendo gemer suavemente.


– E eu pensava em como era sentir sua boca em mim, e sua língua dentro de mim, me torturando e hipnotizando, me dando um orgasmo com um movimento da sua língua. – Cacete! – ouvi Sebastian sibilar. – E eu me deitava na cama e imaginava o seu pau grande e duro deslizando para dentro de mim, penetrando rápido, bem rápido, e me trazendo outro orgasmo, bem assim. Eu me deitei na cama e tirei a calcinha, depois me recostei nos travesseiros, ergui um pouco os joelhos e abri as pernas. Olhei para ele sob meus cílios enquanto continuava a me tocar. Vi quando ele lambeu os lábios e se remexeu na cadeira. – E eu desejava que você estivesse comigo, Sebastian, porque embora eu tenha uma ótima imaginação, eu preferiria ter a coisa real, sempre. Fechei os olhos por um instante e então fitei-o diretamente. – Estou tão molhada para você, Sebastian. Quer me tocar? Ele engoliu e vi um pouco de sua ansiedade retornar, então fechei os olhos e me masturbei com mais intensidade. Aí ouvi o piso estalar quando ele se levantou e senti o colchão se mover quando ele subiu na cama. Ele hesitou por um segundo; depois senti Sebastian tirar minha mão do caminho enquanto ele me circundava com os dedos, enfiando dois dentro de mim. Gemi alto quando ele fechou a boca ao redor do meu seio e começou a provocar o mamilo, sugando com força. Passei minhas mãos por seus ombros e senti um leve tremor percorrê-lo. Ele se moveu para o outro seio, girando a língua ao redor e por cima de mim, puxando de leve com os dentes, enchendo-me de desejo. E então seus beijos desceram pelo meu corpo e eu prendi a respiração quando senti sua língua penetrando em mim. Gritei seu nome e ele empurrou minhas pernas, abrindo-as ainda mais, empolgando-se de verdade no que fazia. Meu clímax foi ruidoso; observei enquanto ele subia para beijar minha coxa. – Muito, muito melhor do que minha imaginação, Sebastian! – arfei. Ele riu baixinho. Rocei as mãos sobre a cueca dele, incapaz de me conter. – Ah, você está tão duro, tesoro… eu te quero dentro de mim. – Onde estão as porcarias das camisinhas, Caro? – disse ele, em uma voz tensa. – Não precisamos delas: estou tomando a pílula. Só você, Sebastian, agora mesmo. Empurrei a cueca dele sobre seus quadris e fechei as duas mãos sobre sua ereção, guiando-o para dentro de mim. Ele gemeu, um suspiro prolongado de prazer. Era tão bom, me distendendo e preenchendo, tão profundo dentro de mim. Eu me contraí ao redor dele. – Porra, Caro! – ofegou ele. – Não tente controlar – implorei. – Apenas me ame. Me ame, Sebastian. Ele flexionou os quadris e começou a arremeter em mim.


Era tão intenso; estávamos conectados de uma forma tão íntima, unidos, homem e mulher, movendo-nos como um só corpo, uma só alma, um só propósito. Ele gritou e estremeceu, derramando-se dentro de mim, enchendo-me com seu amor e sua confiança, nos unindo outra vez. Quando terminou, ele descansou entre minhas coxas, o rosto enterrado no meu pescoço, sua respiração ainda entrecortada. Afaguei suas costas e disse a ele que o amava. Em certo momento, ele retirou-se de mim e se aninhou junto ao meu corpo: pude ver que seu rosto estava úmido de lágrimas. – Você está bem? – perguntei, baixinho. Ele assentiu sem falar, depois abriu os olhos e sorriu para mim. – Muito bem, Caro. Estou muito bem. E nos abraçamos sem precisar falar de novo. **** Depois daquilo, a represa que continha nossa intimidade havia se partido e a mente de Sebastian começou a se curar, assim como seu corpo. Havia algo que eu precisava perguntar a ele, e eu não sabia se seria ou não uma boa ideia. Estávamos largados no sofá, tomando chá de ervas antes de ir para a cama. Eu não gostava do líquido amargo e ralo, mas cafeína deixava Sebastian tenso. – Sebastian, posso te perguntar uma coisa? – Claro, meu bem – disse ele, passando a mão pelo meu braço e entrelaçando os dedos com os meus. – Bem, eu estava me perguntando… sobre o que são os seus pesadelos? Senti seu corpo se retesar de imediato e me arrependi da questão. – É difícil conversar sobre isso, Caro – disse ele, a voz baixa. – Tudo bem, você não precisa me contar. – Eu só não quero essa merda na sua cabeça. – Sebastian, você acorda gritando toda noite. Não precisa ser para mim, mas acho que você precisa contar para alguém. – Eu não vou ver a porra de um psiquiatra – disse ele, irritável. Eu não respondi. Ficamos sentados em silêncio, olhando pelas janelas, observando o horizonte empalidecer enquanto o sol afundava atrás do mar. E então ele começou a falar. – Não posso te contar tudo, Caro, porque é informação confidencial e você não pode usar nada disso no trabalho. – É claro que não! Fiquei magoada que ele sequer pensasse nisso.


– Desculpe, meu bem, eu tinha que dizer. – Ele suspirou. – Estávamos em Nawzad para fazer contato com alguém, um cara local, que iria nos levar a um dos líderes do Talibã para que pudéssemos matá-lo. Era por isso que eles me queriam lá, porque estavam preocupados em usar intérpretes locais para uma operação tão delicada. Era para ser uma patrulha pequena, só 14 de nós, com Jankowski no comando. No último minuto, disseram a Grant que nós precisávamos levar esses dois caras do Exército Nacional Afegão com a gente. Ele não ficou feliz, mas foi obrigado a aceitar. Partimos para as montanhas, pensando que ficaríamos por lá três ou quatro dias, mas não fomos tão longe. Quando chegamos ao vilarejo para a reunião, soubemos logo de cara que havia algo errado. Estava tudo muito quieto. Não tinha ninguém nos campos, ninguém do lado de fora das casas. Ficamos todos ansiosos. – Eu fui na frente com os caras do ENA e eles estavam chamando o homem com quem nós deveríamos nos encontrar. Aí esse cara saiu de trás de um dos prédios, falando super-rápido, e parecia apavorado. Percebi que ele estava citando o Corão e soube ali que ele tinha se tornado uma bomba humana. Gritei para todo mundo recuar, mas então senti como se tivesse sido esmurrado no ombro e vi que tinha levado um tiro. Um dos caras do Exército Nacional Afegão tinha tentado me matar, depois atirou no seu colega e virou o rifle para o resto do esquadrão. O tiroteio começou e eu pude ouvir Jankowski gritando para o contato se abaixar. Mark e Jez vieram correndo para me ajudar, e foi aí que a bomba detonou. Sebastian engoliu e fechou os olhos. – O contato afegão virou uma névoa cor de rosa. Jankowski, Mark e Jez foram pegos na explosão. Se Jez não estivesse tão perto de mim, eu teria morrido também, mas ele ficou no meu lugar. A voz de Sebastian baixou para um sussurro. – Eu fiquei com pedaços de Jez espalhados em cima de mim. É com isso que eu sonho. As mãos dele tremiam e sua respiração era superficial. – Eu compreendo, tesoro, compreendo, sim – murmurei, acariciando seu rosto. – Quando eu estava no Iraque… era o som dos helicópteros; eles estavam trazendo os feridos e eu vi… eu vi. Mas não tenho mais aquele pesadelo, Sebastian, porque meu pior pesadelo é perder você. Eu o abracei apertado, porque isso era tudo que eu podia fazer. **** Dois dias depois, quando ele terminava seus exercícios, uma fina camada de suor fazendo seu corpo brilhar de um jeito que me deixava com água na boca, resolvi que estava na hora de dar mais um passo no mundo lá fora. – O que você acha de outro desafio, Sebastian? Ele olhou para mim e sorriu. – Parece interessante. Esse envolve sair do quarto? Sorri para ele. – Sim, mas agora você me fez pensar em outras coisas, Hunter, e meus pensamentos, tão imaculados, estão ficando um pouco sujos.


– Sujos como? – disse ele, os olhos se aquecendo sob meu olhar. Fiquei de pé com as mãos nos quadris e fitei-o nos olhos. – Muito sujos. Ele gemeu. – Por que você não disse isso antes de eu fazer todos aqueles exercícios, Caro? Eu ri. – Adiamento até hoje à noite, Hunter. Está um dia lindo, deveríamos estar lá fora. Ele assentiu, depois levou minha mão até seus lábios, roçando beijos leves e meigos na ponta de cada dedo. – Certo, certo. Eu preciso ver Atash, mesmo Ele está com alguns problemas com a imigração e quer que eu dê uma olhada. Atash era o nome de um dos afegãos do café e, contra todas as probabilidades, ele e Sebastian tinham se tornado amigos. A família de Atash foi forçada a abandonar seu vilarejo perto de Lashkar Gah, na província de Helmand, e estava perdida e sozinha em um novo país. Ser útil a eles trouxe Sebastian de volta à vida, dia após dia. E dia após dia, isso o trouxe de volta para mim. Eu não tinha certeza se Sebastian e ele se uniram por causa do beisebol ou porque Sebastian era provavelmente a única outra pessoa em toda Long Beach que falava a língua dele. Contudo, na maioria dos dias eles arrumavam uma desculpa para se ver. E assim que Sebastian começou a ajudar Atash e sua família com seu status legal, eles passavam ainda mais tempo juntos. Atash era tímido para vir para nossa casa, portanto, quase sempre era Sebastian que ia até ele. Eu ficava contente por ele ter uma razão para sair do bangalô, e uma completamente separada de nossa vida juntos. Ele precisava disso, e acho que ele sabia disso. – Então, se você não está falando de sexo, Caro – provocou ele –, sobre o que seria esse “desafio” seu? – Eu quero que você conheça minhas amigas. Sinto falta delas, e elas querem muito te conhecer. O olhar dele caiu até o chão. – Certo, acho que está na hora. Ele não parecia empolgado com a ideia, porém também não objetou. Falei primeiro com Nicole. – Ele está muito melhor agora, e eu gostaria que vocês o conhecessem. Queremos convidar vocês para cá esse final de semana. – Ah, ele vai finalmente permitir que você veja a luz do sol, é, Lee? Fiquei chocada. – Isso foi… duro. Ele esteve doente, Nic. Pude sentir o silêncio indignado e cheio de julgamento dela do outro lado da linha. – Certo – concordou ela, um tanto relutante. – Sim, é claro que estarei aí. Quer que eu fale com Jenna e Alice? – Não, tudo bem – falei, tentando manter meu tom neutro, ocultando da minha voz a mágoa que sentia. – Eu faço as ligações. Almoço?


Conforme o sábado se aproximava, eu me lancei em um frenesi culinário. Arrastei Sebastian por toda Long Beach para conseguir os ingredientes que eu queria. Ele começava a parecer muito mais consigo mesmo. Embora ainda estivesse muito esguio, começava a recobrar o peso dos músculos. Seu cabelo estava mais comprido do que eu tinha me acostumado a ver, transformando-se em uma cabeleira louca e loira. – Pensei em deixar crescer por um tempo – disse ele, casual. – Por mim, tudo bem – respondi sorrindo, puxando um cacho com os dedos. Dia a dia, ele começava a lembrar mais o surfista por quem eu me apaixonei. Ele ainda tinha dias ruins e algumas noites péssimas, além de uma quantidade considerável de dor pelos ferimentos de estilhaços na coxa. Todavia, nos dias bons, conseguia andar sem uma bengala, apesar de ainda coxear bastante. – Falei com o Ches enquanto você estava fora – disse ele, displicente. – Falou? Fiquei contente por ele ter finalmente conseguido conversar com seu amigo, mas estava nervosa sobre o que tinha sido dito, principalmente a meu respeito. – E? – Ele disse que ele e Amy voariam para cá para o nosso casamento. Prendi a respiração e o encarei. – Se você ainda quiser se casar comigo. Caro? O pequeno resquício de luto que eu vinha carregando em meu coração se derreteu. – É claro que eu quero, Sebastian! Eu… pensei que você tivesse mudado de ideia. Ele balançou a cabeça devagar, os olhos cheios de amor. – Nunca, Caro. Mas eu não queria me casar com você se… se eu não pudesse ser um homem… com você. E prometi a mim mesmo que não usaria uma merda de uma bengala quando fosse caminhar até o altar. – Eles não têm altares na Prefeitura – falei, entre o riso e um soluço. Ele me pegou em seus braços e balançou suavemente, beijando meu cabelo várias vezes. – E o que mais Ches disse? – resmunguei em seu peito. Fiquei contente por ter conseguido dizer isso sem que minha voz tremesse pateticamente. – Ele disse que já tinha decidido que, se ainda não tivesse ouvido notícias minhas no Dia do Trabalho, ia vir até aqui chutar meu traseiro pessoalmente. – Boa ideia – concordei em um murmúrio. – Ele deveria fazer isso de qualquer jeito. Ele falou alguma coisa sobre mim? Sebastian sorriu. – Acho que ele ficou surpreso, e contente, por você não ter me chutado para fora. Ele é legal, Caro, não se preocupe com ele. – E Amy? – Ah, ela só quer me dar um chute na bunda, e ponto final. Sorri. – Acho que vou me dar bem com ela.


– É disso que eu tenho medo – resmungou Sebastian. Ele estava apenas meio brincando. Segurando meu rosto gentilmente, ele fitou-me nos olhos. – Apenas me prometa que você não vai se transformar em uma daquelas mulheres doidas com esse negócio do casamento, Caro. – Você diz as coisas mais meigas – provoquei. – Não se preocupe, Sebastian, esse não é o meu estilo. – Dei-lhe um tapa no peito. – Eu não me importo se me casar de jeans. – Jeans? – disse ele, arqueando as sobrancelhas. – Bem, meu jeans favorito – respondi, com um olhar desafiador. – Certo, jeans. Legal. Sebastian estava nervoso por conhecer minhas amigas – talvez compreensivelmente. Tentei tranquilizá-lo, mas ele sentia que elas o estariam julgando. E, sem dúvida, estava certo. Ele estava delicioso de camiseta branca e calça jeans, os pés enfiados em chinelos de dedos, como se tivesse acabado de voltar da praia. Exceto pelo fato de que, quando ele andava, ainda mancava pronunciadamente. Ouvi o carro de Nicole estacionar e inclinei-me para fora da janela, acenando empolgada. Fingi não escutar Sebastian murmurar: – Sob ataque. Saí correndo pela porta e Alice saltou sobre mim primeiro, me abraçando apertado. – Ah, meu Deus! É tão bom te ver, Lee! – Você emagreceu, vadia! – gritou Nicole, agarrando-me pela cintura e plantando um beijo de batom no rosto. – Eu trouxe chocolate e champanhe – cantarolou Jenna, jogando os braços ao meu redor. E então Nicole berrou. – Ah, meu Deus! Ah, meu Deus! Isso é o que eu acho que é? Ela agarrou minha mão esquerda e encarou meu anel de noivado. Houve altos ofegos e olhares chocados de Alice e Jenna. Aquiesci. – Vocês estão convidadas para um casamento no outono – falei, baixinho. Com isso, estouraram vários berros e gritos de congratulações, além de algumas lágrimas. Todas me abraçaram de novo, mas eu estava ficando desconfortável, ciente de que Sebastian estava assistindo e esperando nós entrarmos. – Quando isso aconteceu? – disse Alice, agarrando minha mão de novo para olhar para o anel. – É uma bela pedra, Venzi – murmurou Nicole. – Mas tem certeza sobre isso? Digo, nesse momento, do jeito que tudo está… – Vou contar tudo sobre isso mais tarde. Só… fique tranquila, está bem? – Bem, vamos lá – disse Nicole, um tanto tensa. – Vamos conhecer o tipo perfeito. – Nic! – falei, com um alerta na voz. Ela ergueu as mãos. – Vou ser boazinha.


O que não me encheu de esperança. Sebastian estava de pé no meio da sala de estar quando minhas amigas entraram. Percebi que ele estava tenso e nervoso, mas para qualquer um que não o conhecesse, ele pareceria apenas arrogante. Apresentei todo mundo e Nicole não conseguiu se controlar, deixando o olhar percorrer o corpo de Sebastian de cima a baixo. Era praticamente uma resposta pavloviana quando via um cara bonito. Jenna e Alice também deram suas espiadinhas, só foram mais discretas a respeito. As garotas se ajeitaram pela sala e então um silêncio desconfortável surgiu, com os olhos de todos fixos em mim. Eu podia ver que Sebastian estava se sentindo esmagado ao ter tanta gente em nossa pequena casa, então sorri para ele, peguei sua mão e o levei até sua cadeira favorita. Notei as expressões de dó no rosto das minhas amigas ao verem Sebastian mancar dolorosamente pela sala. Desejei que elas não demonstrassem isso, já que Sebastian odiava compaixão alheia, mas a reação era compreensível. Empoleirei no braço da cadeira dele, que pousou a mão no meu joelho. Era como se ele precisasse de contato físico comigo para atravessar o que ele via como uma provação. – Bem, vocês sabem o que eu ando fazendo – falei, calmamente. – Quero saber o que vocês todas andam aprontando. Gradualmente a conversa começou a fluir. Sebastian ficou silencioso a princípio, mas lentamente Alice começou a trazê-lo para o bate-papo, perguntando sobre os planos dele de voltar à escola. – Eu ia estudar Italiano e Literatura Inglesa – admitiu ele. – Mas isso meio que foi interrompido. – Ele olhou para mim e eu apertei sua mão. – Agora, não sei mais. – Lee disse que você também fala várias línguas árabes. – Mais italiano e francês – acrescentei. Sebastian pareceu um pouco embaraçado. – Bem, sim, eu falo árabe, mas não leio muito bem. – Isso pode ser interessante para você? – perguntou ela. Ele deu de ombros. – Pensei talvez em dar uma olhada em estudos paralegais. Eu meio que estou ajudando um vizinho que está com problemas na imigração. – Você não me contou sobre essa ideia, Sebastian! – falei, deliciada por ele estar fazendo planos para o futuro. – Ainda não decidi nada, Caro, estou pensando a respeito. – Bem, temos bastante tempo. Você não precisa resolver nada agora. – Não, eu posso apenas continuar vivendo às suas custas – disse ele, baixinho. Ele ainda se recusava a tocar nos cheques de sua pensão por invalidez, e o dinheiro estava pegando poeira na sua conta bancária. A conversa morreu rapidamente, minhas amigas olhando para qualquer lugar, menos para nós. – Sebastian, não – sussurrei, chateada. – É o que todas as suas amigas estão pensando, Caro – disse ele, com raiva. – Posso ver nos olhos delas. – Não presuma saber o que eu estou pensando – disparou Jenna.


– Concordo – disse Nicole, muito calma. – Porque eu estava pensando, na verdade, que quase morrer a serviço do seu país te dá o direito de tirar um tempo de descanso. E se a minha amiga está tendo a quantidade de orgasmos que ela disse ter, você deve estar fazendo alguma coisa certa. Sebastian pareceu espantado, depois divertido. – Ela disse isso, é? – murmurou ele, olhando para mim antes de fixar o olhar em Nicole. – Estou parafraseando, é claro – retrucou Nicole, sustentando o olhar dele. Sebastian encolheu os ombros. – Ela me ensinou tudo o que eu sei. Jenna riu baixinho e Alice gargalhou. – Não se incomodem comigo – falei, o rosto vermelho feito um tomate. – Mais tarde, meu bem – disse Sebastian, apanhando minha mão e roçando um beijo nos nós dos dedos. Houve uma batida na porta, uma interrupção bem-vinda ao meu embaraço público. – Eu atendo – disse Sebastian, levantando-se da cadeira. Os olhos de Nicole o seguiram pela sala. Em seguida, ela virou-se para mim e sorriu. – Você e eu vamos ter uma conversinha – ciciei para ela. – Só mandando a real para ele, Lee. Ele não pareceu se incomodar: não sei, acho que ele é o tipo de cara que mantém uma contagem, porque uma vez eu fiquei com um músico que anotava todos os meus orgasmos em seu diário, não que ele pudesse identificar quais eram falsos. – Eu nunca fingi um – rebati para ela. – Deus, eu te odeio! – ela falou. Eu estava ouvindo sem muita atenção a voz de Sebastian na porta da frente. Quando ele abandonou o inglês, adivinhei quem nosso visitante devia ser. Nervosamente, Atash entrou na sala, sorrindo para minhas amigas que, por sua vez, voltaram-se para olhar, dando breves sorrisos confusos de volta para ele. – Oi, Atash – falei, e rapidamente as apresentei para ele. Ele voltou a sorrir e assentiu polidamente, mas pareceu desconfortável. – Estaremos aqui ao lado – disse Sebastian para mim. Em seguida, ele levou Atash até a cozinha, onde escutei a chaleira ser enchida para fazer o horrível chá doce tradicional do Afeganistão enquanto eles conversavam. – Que língua é essa, Lee? – perguntou Alice. – É árabe? – Não, é dari. Sebastian diz que é relacionada ao persa, não ao árabe. Ele também fala pashto – acrescentei, orgulhosa. Elas pareceram adequadamente surpresas e fiquei contente por Sebastian ter tido a chance de impressioná-las com algo além de sua aparência e seu pavio curto. Eu sabia que isso o estava incomodando. – Com essas habilidades linguísticas, estou surpresa que a Inteligência Militar não o tenha contratado – prosseguiu Alice. Eu não respondi, mas não consegui encarar os olhos dela. – Ah – disse ela, compreendendo, e trocou um olhar carregado de significados com as outras.


E então eu ouvi a risada de Sebastian vindo da cozinha – uma risada longa, alta, jubilosa. Pensei que meu coração fosse parar. – Lee, você está bem? – disse Jenna, ansiosa. – Você parece… – Sebastian está rindo. – Pude ouvir o tremor em minha voz. – Ah, doçura – disse Alice, apertando meu braço. – Você está indo bem, Venzi – disse Nicole, anteriormente a crítica mais dura de Sebastian. – Acho que vocês dois estão se saindo bem. Atash partiu logo depois, apressando-se pela porta e sorrindo com timidez. – Sobre o que vocês estavam falando? – perguntei, entusiasmada ao ver que Sebastian sorria amplamente. – Atash queria saber se precisava de um pouco de haxixe – disse ele, casualmente. Jenna e Alice pareceram levemente chocadas e Nicole franziu o cenho. – Como é? – falei, cortante. – Espero que você tenha dito que não. Sebastian deu de ombros. – Ele disse que é bom para a dor. Reparei que Sebastian não me deu uma resposta direta, e ele não ia escapar com uma desculpa daquelas. Mas isso era uma conversa para se ter em particular. – E o que mais? – indaguei, curiosa. – O que você não está me contando, Hunter? O sorriso de Sebastian ficou ainda maior. – Ele estava se perguntando por que eu estava fazendo o chá, quando tinha quatro esposas para isso. Meu queixo caiu e Nicole bufou, rindo. – Bem, espero que você tenha esclarecido tudo com ele! Sebastian? Ele sorriu, malicioso. Deus, eu senti falta daquele sorriso. – Eu vou esclarecer tudo, Caro. Eventualmente. Jenna começou a rir e logo Nicole a acompanhou. Em pouco tempo todos estávamos gargalhando. Droga, mas isso era bom. – Você e eu vamos ter uma conversinha mais tarde, Hunter – falei, ameaçadora. – Não vejo a hora, meu bem – respondeu ele, ainda sorrindo para mim. Após a visita de Atash, saímos para nos sentar no quintal, desfrutando do tempo agradável. Eu desencavei um velho vestido para usar, e tive o prazer de ver os olhos de Sebastian deslizarem de cima a baixo pelas minhas pernas. Ergui um pouco mais a saia e arqueei uma sobrancelha para ele, enquanto Sebastian acompanhava meu movimento e ele deslizava a ponta da língua sobre seus lábios. – Ah, parem com isso, vocês dois – gemeu Nicole. – Eu não transo há meses e vocês ficam aí, espalhando essa tensão sexual. É injusto demais. Alice riu. – Lee deu sorte, e não é como se ela não tivesse passado por longos períodos de espera todos esses anos – apontou ela. – Além do mais, eu decidi abrir mão dos homens: vou seguir a rota NMAP. Vi que Sebastian estava confuso.


– Namorado movido a pilha – sussurrei no ouvido dele. Ele sorriu para mim e recostou-se para ouvir. Pude ver que ele estava intrigado, observando-me com minhas amigas, vendo um lado diferente meu. Alice assentiu. – Sem ofensa, Sebastian, mas os homens simplesmente requerem energia demais. Ou talvez sejam só os caras que eu conheço. Não consigo contar quantas vezes estive em jantares e escutei eles falarem sem parar sobre futebol ou pesca ou como eles são importantes no trabalho. Um até me deu uma descrição em detalhes de como construir uma miniatura de avião. Digo, o que é isso, né? Jenna concordou. – Embora talvez sejam só os homens da nossa idade. Devíamos fazer o que a Lee fez e arranjar uns caras mais novos para nós. – Eu recomendo, definitivamente – falei, piscando para Sebastian, cujos olhos iam de Alice para Jenna como se estivesse assistindo a uma partida de pingue-pongue. Ele sorriu para mim enquanto Alice continuava. – Bem, estou um pouco sem prática agora, admito, mas comida tem sérias vantagens sobre sexo. Eu ri alto, e Nicole disse a ela que estava falando bobagem. – É sério! – protestou ela, listando os pontos em seus dedos. – Comer: você pode fazer todo dia, ao menos três vezes por dia, com beliscos nos intervalos; pode fazer com quanta gente quiser, de qualquer gênero, e não precisa se preocupar com a orientação sexual deles; existem mais receitas boas e restaurantes bons do que homens gostosos e disponíveis por aí – e acredite, eu pesquisei isso; não vou engravidar nem pegar DSTs por tomar sorvete; e, o melhor de tudo, mesmo que você se esbalde com gente diferente a cada vez, ninguém te chama de vadia. – Você é uma vadia alimentar! – gritou Jenna. – Deveríamos pedir a opinião do Sebastian – disse Nicole. – Onde você se coloca no debate comida versus sexo? – Nic – falei, sabendo que ela o estava provocando deliberadamente. Sebastian, contudo, não precisava da minha ajuda. – Caro é uma ótima cozinheira – disse ele, sorrindo para mim. Depois sussurrou no meu ouvido para que ninguém escutasse: – Mas eu acho que você só me alimenta bem porque sabe que vou precisar de energia mais tarde. – Argh! – gritou Jenna. – Eu sei que você acaba de dizer algo incrivelmente indecente – disse ela, acusando Sebastian. – É tão maldoso da parte dele, Lee! Que é isso, você podia pelo menos nos contar o que ele falou. Balancei a cabeça. – É algo bem restrito a quem precisa saber, Jenna, e você não precisa saber. Sebastian sorriu, nem um pouco envergonhado. Fiquei aliviada, às vezes minhas amigas podiam ser difíceis. Depois de algumas horas, pude ver que ele estava ficando cansado. Ele movia-se de modo desajeitado, e eu sabia que ficar sentado por tanto tempo o machucava.


– Por que não vai tirar uma soneca, tesoro? – falei, baixinho. – Vamos ficar aqui tagarelando por mais um tempo. Você já fez mais do que sua parte. – Você não se incomoda? – Claro que não. Só cuide-se e descanse. Ele sorriu. – Certo, mas me acorde antes de elas irem embora, está bem? – Você realmente quer mais? – falei, fingindo choque. – Elas são legais – disse ele, sorrindo. – E elas gostam de verdade de você, Caro. Isso é tudo que importa. Ele pediu licença, se desculpou e nos deixou sozinhas do lado de fora. Eu sabia que a avaliação delas seria oferecida a qualquer segundo agora. Nicole falou primeiro. – Bem, ele é ainda mais gostosão ao vivo, Lee; e de pavio curto também. – As duas coisas são verdade – concordei. – Vocês ficam bem juntos – disse Jenna, pensativa. – Devo admitir que eu tinha minhas dúvidas, mas é óbvio que ele te adora. Diabos, é um começo tão bom quanto qualquer outro. Alice assentiu. – Ele precisa encontrar uma nova direção, Lee. Não é o tipo de homem que pode simplesmente ficar sentado sem fazer nada. – Eu sei, mas é tudo muito recente ainda. Não vou apressá-lo. Estou simplesmente desfrutando da presença dele em casa e vendo-o ficar mais forte. – E então, quando acha que vão se casar? – disse Alice. – Não, não a encoraje! – choramingou Nicole. – Isso é ruiiiiiiiim. Onde é que iremos para ficar secando surfistas gatos? – Vocês ainda podem vir aqui – falei, rindo. – O que, e ficar secando o seu marido? Isso é esquisito demais! – Não era nada disso que eu estava dizendo, e você sabe, Nicole! Olha, vocês são minhas amigas – vocês sempre serão bem-vindas aqui. Nicole esfregou as mãos. – Bem, eu vou gostar de fazer você sair para as compras, Lee. Tirar você dessa porcaria de jeans só para variar, embora eu veja que você fez um esforço hoje. Sorri para ela. – Não, nada de compras. – O quê? – Eu não vou me transformar em uma “noivazilla”. Serão apenas vocês três e os amigos de Sebastian lá de San Diego. Meu amigo Marc disse que vai tentar vir, dependendo da data. Vamos ver se conseguimos marcar para 2 de outubro. É o aniversário de 28 anos de Sebastian. – Ah, Deus! 28 – suspirou Alice. – Soa tão jovem! Ah, bem, pelo menos ele não vai conseguir esquecer do aniversário de casamento de vocês.


**** As meninas estavam se aprontando para partir e eu me perguntava se deixava ou não Sebastian continuar dormindo quando ele gritou várias vezes, um som aterrorizante, de partir o coração. Alice deu um pulo e Nicole xingou, mas eu já estava de pé e correndo. Sebastian se revirava, o rosto contorcido, o corpo coberto de suor. Eu o chacoalhei até acordar. – Está tudo bem, tudo bem. Eu estou aqui. Ele agarrou-se a mim, a respiração saindo aos arrancos de seu peito. – Está tudo bem, Sebastian, vai dar tudo certo, tesoro. – Porra, Caro – ofegou ele. – Eu continuo vendo… – Eu sei, meu bem, eu sei. Ele cobriu os olhos com mãos trêmulas. – Não posso ir lá fora, Caro. Não posso vê-las desse jeito. – E não precisa. Fique aqui, eu me despeço delas. Dois minutos, tesoro. No quintal, minhas amigas encaravam a porta por onde eu saí. – Jesus, Lee! O que diabos foi aquilo? – perguntou Nicole em nome de todas. – Uma bomba explodiu, Nic. Três pessoas morreram na frente dele, homens com quem ele trabalhava. Ele tem pesadelos. – Tem certeza que sabe no que está se metendo? – disse Jenna, baixinho. Dei de ombros. – Eu o amo. Pude ver a preocupação nos olhos delas e Alice se ofereceu para ficar, mas eu precisava estar sozinha com Sebastian. Prometi que entraria em contato. Quando voltei para o quarto, a cama estava vazia e escutei o chuveiro ligado. Sebastian estava apoiado contra os azulejos, as mãos estendidas, a água caindo em sua cabeça. Tirei as roupas e entrei no chuveiro atrás dele. Sebastian se virou e me envolveu em seus braços. Ficamos ali de pé, juntos, deixando seu medo ser levado embora com a água. No dia seguinte, Sebastian estava com um humor péssimo. Ficou embaraçado por minhas amigas o virem, ou melhor, ouvirem, em seu momento mais vulnerável, e me culpou por isso. Quando me cansei de sua birra, saí para uma longa caminhada na praia e me demorei tomando um espresso em um café do calçadão. Após algumas horas para mim, senti-me pronta para voltar para casa e encarar quaisquer granadas emocionais que ele me lançasse hoje. Acho que ele deve ter vigiado pela janela, porque quando eu entrei, ele esperava junto à porta. – Desculpe, meu bem – disse ele, puxando-me para um abraço e beijando meu cabelo. – Eu sei que estou sendo estúpido. – Essa é uma das palavras que eu tinha em mente. Ele sorriu. – É, aposto que sim. Ei, tenho uma coisa para te mostrar. Ele pegou minha mão e me puxou para a sala de estar.


– O que é? Um lindo violão espanhol de cedro vermelho jazia na mesinha de centro. – Sua amiga Nicole passou por aqui. – É mesmo? – É, parece que você contou para ela que eu queria aprender a tocar violão. Ela disse que não precisa dele, então deu para mim. Conversamos por um bom tempo – já que eu tinha te deixado furiosa e você não estava por aqui… Ele arqueou uma sobrancelha. Resolvi ignorar aquele comentário. – Nicole não é exatamente a durona que você achou que fosse? – Eu não disse isso. Mas ela é… legal. – Belo elogio. – É – disse ele com um sorriso. Então fez uma pausa. – Meu bem, quando eu te falei que queria aprender a tocar violão? – Muito tempo atrás – falei, suavemente. – Há dez anos. Ele me olhou, a expressão cheia de amor. – Você me tira o fôlego, Caro. Ele me puxou em um abraço apertado e eu fiquei ali, sorvendo o momento. Ele beijou meu cabelo, acariciando-me suavemente. – Ah, olha. Você recebeu cartas. Ele me soltou e estendeu a mão para me passar um envelope que tinha sido jogado na mesa. – Em um domingo? – É, a carta foi para a casa da Sra. Levenson por engano; ela acabou de voltar de uma visita ao neto hoje e trouxe aqui. Virei o envelope, olhando para o endereço do remetente. – É da Inglaterra. Franzi a testa. Eu não conhecia ninguém na Inglaterra, não mais. Abri o envelope espesso como pergaminho e li a carta datilografada. Quando entendi o conteúdo, não contive um arquejo de surpresa. Sebastian pareceu preocupado. – O que foi, meu bem? Desabei no sofá e entreguei-lhe a carta sem falar. – Advogados? Ele se sentou perto de mim e leu as páginas rapidamente. Quando terminou, soltou a carta e passou o braço bom ao meu redor, aninhando-me contra seu peito. – Eu não sabia – sussurrei. – Ela nunca disse nada. Eu sabia que Liz não tinha família, mas nunca pensei… – É bastante dinheiro, meu bem. O que você vai fazer com ele? Balancei a cabeça. Eu ainda estava tentando processar a informação.


A carta era de Dougal and Bright, os advogados de Liz. Ela me nomeou em seu testamento e deixou tudo para mim, todas as suas posses. Não era dona de muita coisa, mas seu pequeno apartamento no norte de Londres valia mais de 550 mil dólares. – Por que ela deixou para mim? Nós éramos amigas, mas… eu não entendo. – O que você não entende, Caro? Ela te amava. Por que você sempre tem tanta dificuldade de entender isso, meu bem? Dei de ombros. – Isso é uma notícia boa – disse ele, afagando meu cabelo. – De toda essa merda, é algo bom. – Eu sei. É só que… é tão inesperado. Ele hesitou antes de falar de novo. – Isso vai pagar sua hipoteca. Você não precisará trabalhar no estrangeiro… se não quiser… Eu sabia o que ele estava tentando dizer, mas eu não podia tomar uma decisão dessas aqui e agora. – De qualquer maneira, é nosso dinheiro – falei, baixinho. Sebastian balançou a cabeça, raivoso. – Eu não vou pegar a merda do seu dinheiro, Caro! Coloquei a mão por cima de sua boca, interrompendo suas palavras tempestuosas. – Estou falando sério, Sebastian. Ou estamos nisso juntos, ou não. Se você não aceitar, então eu não vou aceitar. Doarei tudo para o Jornalistas Sem Fronteiras em vez de permitir que esse dinheiro se meta entre nós dois. Você mesmo disse que merecemos um pouco de boa sorte. Ele passou a mão pelo cabelo, frustrado. – Ela nem gostava de mim, Caro. De jeito nenhum ela gostaria que eu tivesse algo a ver com a herança. Diabos, até onde ela sabia, eu só estava te comendo para passar o tempo e… – Você está enganado. Ela sabia de tudo a nosso respeito. A arenga dele parou de imediato. Ele parecia estupefato. – Sabia? – É claro. Eu contei tudo a ela, e disse que íamos nos casar. Sebastian se recostou e olhou para mim. – Você contou para ela? Tudo? – Sim, tesoro. Ele coçou a sobrancelha, pensativo. – O que ela disse? Eu dei-lhe um sorrisinho. – Ela quis saber se você era tão bom de cama como ela tinha ouvido falar. Pensei que ele ia engasgar, aí percebi um brilho malicioso no olhar dele. – E o que você disse? Dei-lhe um olhar decoroso. – Nada, é claro. Embora… – Embora o quê? – Eu posso ter piscado para ela. Ele sorriu para mim.


– Sebastian – falei, minha voz séria –, se não fosse por mim, você teria ido para a faculdade, conseguido seu diploma… Fiz um gesto para interromper sua negação. – Nós dois sabemos que é verdade. Bem, aqui estamos, eu posso pagar minha hipoteca e você pode usar a lei dos veteranos e ir para a faculdade, conseguir seu diploma, se é isso o que você quer. Ele se remexeu, desconfortável. – Não parece certo, Caro. Deixe-me pensar a respeito. Ele era tão frustrante que eu sentia vontade de esmurrá-lo. Ou beijá-lo. Provavelmente as duas coisas. E, já que estávamos no embalo, decidi atacar mais uma tarefa que ambos vínhamos adiando. Respirei fundo. – Sebastian – falei, gentilmente –, está na hora de resolver o que quer fazer com os seus uniformes e suas medalhas. Sua súbita e cortante tomada de ar mostrou o quanto isso era difícil para ele, mas Sebastian anuiu lentamente, olhando para o chão. Depois aprumou os ombros e sustentou meu olhar firme. – Certo. Vamos cuidar disso. Nós nos levantamos e eu o levei pela mão, guiando-o para o quarto de hóspedes. Ele se apoiou no batente da porta, os braços cruzados com força sobre o peito. Dei-lhe um sorriso rápido e encorajador, depois puxei a mochila e a bolsa militar de debaixo da cama. O traje de gala azul e o uniforme de serviço cáqui estavam amassados e um tanto tristes quando eu os retirei. Não havia nem sinal de seu uniforme de combate no deserto; eu não queria pensar no motivo para isso. Presumi que os médicos precisaram cortá-lo quando… Ele olhou friamente para as roupas, mantendo suas emoções fortemente represadas. – Livre-se deles, Caro. Não quero vê-los de novo. – E as medalhas? Seu uniforme de serviço estava adornado com uma coleção de fitas coloridas e medalhas. Identifiquei-as em minha mente enquanto as tocava uma por uma: sua Medalha pela Campanha no Afeganistão, Medalha de Menção Honrosa dos Fuzileiros Navais, Medalha por Serviço Meritório, Fita por Serviços no Exterior à Marinha e à Corporação dos Fuzileiros Navais, Medalha por Serviço à Defesa Nacional, Medalha por Serviço Meritório na Defesa, e uma Medalha da Marinha e da Corporação dos Fuzileiros Navais. Por último, ainda em sua caixa de apresentação no fundo da mochila, seu Coração Púrpura, por ter sido ferido em combate. Enquanto Sebastian observava, eu abri a caixa, acariciando as bordas da fita de seda, e passei o dedo pelas palavras gravadas: “Por mérito militar”. – Faça o que quiser com elas – disse ele, o rosto vincando-se de dor. – Não quero vê-las. Nunca. Tomei fôlego de novo. – Você não quer guardá-las para… talvez… mostrar para nossos filhos… se… Ele ergueu os olhos de repente, um sorriso flutuando em seus lábios. – Você… você tentaria? – Sim, Sebastian… nós vamos tentar.


Ele soltou um grito de pura felicidade e me levantou do chão, girando. – Vamos começar agora mesmo – suspirou ele, junto à minha pele. – Estou tomando a pílula! – falei, rindo. – Não importa – murmurou ele em meu pescoço. – Quero praticar. Eu o beijei intensamente enquanto ele me levava, de costas, para nosso quarto. Como Sebastian disse uma vez, se os filhos acontecessem, seriam bem-vindos; se não, bem, tudo bem também. Tínhamos nossa vida toda adiante.


EPÍLOGO

Quando uma mulher chega aos 40, ela não é mais jovem, mas também não é velha ainda. Minhas amigas me ofereceram esse conselho em meu aniversário, sete meses atrás. Ainda assim, parecia que minha vida estava recomeçando ou, talvez eu devesse dizer, entrando numa nova fase. Cercada por amor, meu lindo marido de 28 anos estava de pé ao meu lado e, diante de nossos amigos, fomos unidos pelos sagrados laços do matrimônio. Marc, então entre trabalhos, tinha voado da França e passamos uma noite bebendo à memória de Liz, relembrando seu humor e suas loucuras, seu calor e sua força – chorando só um pouquinho. E no dia anterior, Ches e sua família chegaram de San Diego. Seus filhos me espiaram com timidez até verem Sebastian, e então tentaram se jogar em cima dele, a mãe gentilmente tentando contê-los, com medo de que eles o machucassem. Ele dispensou as preocupações dela e deixou que subissem nele por todos os lados. Foi maravilhoso de ver e meu ânimo alçou voo, cheio de esperança no futuro. Mitch e Shirley vieram da Carolina do Sul e Shirley chorou copiosamente, desculpando-se várias vezes. Finalmente compreendi que ela estava se desculpando por não ter recebido minha carta, sete anos antes. Choramos juntas e nos abraçamos, concordando em deixar o passado no passado. Até Donna veio para o nosso grande dia, apesar de Johan estar doente demais para viajar. Donna escreveu para nós dando os parabéns assim que Shirley lhe deu a boa notícia. Era estranho vê-la depois de tantos anos, mas tê-la ali, sorrindo com orgulho maternal, de alguma forma fez o ciclo se completar. Nicole, Jenna e Alice estavam lá para me apoiar: Nicole determinadamente discutiu até o último segundo que eu deveria sair em pelo menos uma excursão de compras para encontrar um traje nupcial, e eu declarando com a mesma determinação que isso jamais aconteceria. A cautela inicial de minhas amigas com Sebastian havia há muito se esvaído, e elas o tratavam como algo próximo de um irmão mais novo, para irritação e diversão dele.


Sebastian ficou ao meu lado na frente do juiz de paz na Prefeitura e prometeu me amar por todos os dias, pelo resto de sua vida. Chorei lágrimas de alegria e falei que nunca mais deixaria que nada nos separasse. O dia estava claro e frio, e o sol cristalino brilhou sobre nosso pequeno grupo, enquanto comemorávamos a vida que Sebastian e eu finalmente começaríamos. Apesar das dificuldades por que passamos, apesar das dificuldades que ainda enfrentaríamos, eu nunca estive mais feliz em toda a minha vida, cheia de esperança e olhando através das lágrimas para o homem que eu amava. Estávamos recomeçando ou, talvez, acrescentando um novo capítulo à nossa história. A noiva usou jeans.


SOBRE A AUTORA

JANE HARVEY-BERRICK viveu em Londres por mais de dez anos e tem um caso de amor com Nova York. Foi só depois que se mudou para o campo que as palavras realmente começaram a fluir. Mora em uma pequena vila à beira-mar e caminha com seu cão, Pip, todos os dias. É durante essas caminhadas à beira-mar que ela tem suas melhores ideias. A escrita, para ela, tornou-se um modo de vida que ama compartilhar.


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A Educação de Caroline vol. 2 - Jane Harvey-Berrick