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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Ciências da Comunicação – Informação e Jornalismo Teorias do Jornalismo

Luena Mitié Takada Barros E3840

A (in)satisfação do jornalista do modelo mercantil Recensão crítica do artigo “Market-driven – Business and demands on journalists” de Elliot Parker

Braga – Portugal 2010


Resenha crítica referente ao texto: Parker, Elliot. (1996) “Market-Driven" Business and Demands on Journalists. AEJMC Conference Papers. Michigan, USA: Central Michigan University.

A (in)satisfação do jornalista do modelo mercantil Em “Market driven: Business and Demands on Journalists”, Parker (1996) compõe uma visão geral das mudanças e tendências do jornalismo da mídia impressa norte-americana. O autor discute o condicionamento do trabalho do jornalista às regras do mercado e o consequente declínio do nível de satisfação no trabalho. Trata-se de uma revisão de literatura, que utiliza como recursos pesquisa de periódicos acadêmicos e avaliações de revistas especializadas e que integra conceitos relacionados à autonomia do jornalismo, responsabilidade social e viabilidade financeira da indústria da mídia impressa. Parker sinaliza que na década de 1990 nos Estados Unidos os jornais passaram a adotar estratégias de gestão orientadas pelo mercado. Esta mudança acarretou e continua a acarretar uma reestruturação do jornalismo. Se, por um lado, foi determinada pela necessidade de manter os jornais rentáveis e competitivos no mercado, por outro, gerou revoltas de jornalistas comprometidos com o papel histórico de fiscalizadores das instituições sociais e fornecedores da verdade. O autor apresenta pesquisas que mostram o declínio no nível de satisfação dos profissionais nas redações com a adoção do jornalismo de mercado nos EUA. Segundo o estudo longitudinal realizado por Weaver e Wilhoit nos anos de 1971, 1982 e 1992, o índice de jornalistas plenamente satisfeitos com o trabalho caiu de 50% em 1971 para a metade em 1992. Dos indicadores fundamentais de satisfação no trabalho apontados pelos entrevistados, 66.8% designaram como “muito importante” as políticas editoriais do jornal, o que remete ao nível de liberdade e autonomia dado ao jornalista na seleção de pautas e produção de notícias. O autor diz também que editores se sentem insatisfeitos em relação a este modelo: “Many editors […] echo the dissatisfaction of reporters toward management by pointing their frustrations at what they view as a change in management philosophy and policy away from producing quality journalism and toward increased marketing and promotion” (Parker, 1996). A submissão do jornalismo à lógica mercantil leva o autor a indagar sobre a conduta ética adotada com esse modelo. Parker resume os argumentos de economistas a respeito das regras do mercado e a responsabilidade social que este deveria ter. Para Milton Friedman e Albert Carr, o mercado possui regras próprias. Todavia, enquanto que Friedman crê na


concorrência ética e na evolução social, Carr centraliza-se na ideia de que “os fins justificam os meios”. Outro autor, Melvin Anshen acredita que a existência do mercado é um direito concedido pela sociedade e que, portanto, deve ter responsabilidade social. Por sua vez, Norman Gillespie pensa que as regras mercantis devem seguir as sociais, devendo o mercado agir em prol do benefício social. A discussão ilustra a contradição do mercado, que se alimenta da sociedade, mas não traz o bem comum. Outros autores propõem modelos institucionais a guiarem o mercado atual. Sobre a omissão social do mercado, John Danley propõe que a sociedade o encare como uma máquina, de modo que as falhas sejam atribuídas aos seus criadores e operadores. Isto porque, como aponta Gene James, a falta da responsabilidade estrutural do mercado acaba por servir como justificativa moral para a denúncia. Já Don Welch e Fiona McQuarrie consideram a coexistência harmoniosa das “agendas” do mercado e da sociedade, isto é, mantendo a autenticidade ética e correspondendo às expectativas institucionais. Esta revisão de ideias é apresentada pelo autor para descrever o ambiente conflituoso em que se situa o jornalismo de mercado. Ora submisso a uma instituição que visa prioritariamente o lucro, ora permeado pelos valores da prática jornalística e pela conduta ética da sociedade, os jornalistas encontram-se pressionados pela necessidade de se manterem nos empregos e atenderem às expectativas da sociedade. Parker destaca o papel das grandes corporações que monopolizam a produção de notícias nos Estados Unidos. Nos anos 1990, 80% dos jornais impressos faziam parte de cartéis. O que pode ser lucrativo para os empresários, realizar parcerias com grandes empresas que trazem com elas seus anunciantes, é nocivo para o público: a queda da qualidade das notícias diminuiu gradativamente a literacia norte-americana. A produção em larga escala em detrimento da qualidade do conteúdo, a informação tratada como mercadoria, a redução da equipe de redação são alguns indícios que comprometem a produção do bom jornalismo. John McManus, referido pelo autor, afirma veementemente que as mudanças na gestão dos jornais não visam a melhoria da produção noticiosa, mas as relações com os investidores. Segundo ele, são os investidores a primeira instância considerada pela gestão dos jornais: “Of the four trading partners - consumers, advertisers, sources, and investors - only the last is boss". O conteúdo das notícias desloca o eixo da importância política ou social para o que é vendável. Dessa forma, o debate público é afetado, os cidadãos não (re)conhecem os assuntos de interesse público, e os jornalistas e editores não cumprem o seu papel. Apesar da pressão econômica, Parker acredita que os jornalistas ainda são guiados pelos valores da profissão, pela possibilidade de influenciar os assuntos públicos e contribuir


para o bem estar social. Todavia, o autor finaliza com o importante questionamento: até quando o jornalismo de mercado permitirá que estes valores sejam praticados?

Fim ou recomeço do jornalismo?

Atualmente, o jornalismo vive a sua tão falada crise, que engloba não apenas a crise do papel do jornalista, mas o próprio papel da imprensa. De um lado, o jornalista, por vezes oprimido pelo mercado, sente dificuldade em reaver sua real função no paradigma atual. De outro, a indústria da comunicação vê-se ameaçada pelas novas formas de comunicar, que inauguram também novos comunicadores. A profissão de jornalista surge imbuída de um ideário romântico, que a distingue das demais pelo seu compromisso estritamente social, ético e democrático (Pereira, s/d).

A

banalização dos valores da prática jornalística com a mercantilização da notícia (e da “verdade”) desorientou o sentido do jornalismo. Hoje, o surgimento de inúmeras ferramentas virtuais fomentou ainda mais o conflito identitário do jornalista. As empresas jornalísticas tradicionais observam a ascensão do conteúdo cibernético, dos blogs, redes colaborativas e mídias sociais, e tentam adaptar-se ao novo paradigma. Para Mesquita (1999), as inovações tecnológicas reforçam os males da concorrência e a má qualidade do conteúdo dos jornais, priorizando a “enunciação sobre o enunciado” (Voll, s/d, citado por Mesquita, 1999, p. 58): Esta aceleração contribuiu para fomentar a luta pela obtenção de notícias em primeira, também se reflectiu na fragilização das operações tradicionais de produção de notícias, reduzindo-se ao mínimo os tempos destinados à investigação, à confirmação e à produção da notícia.

Todavia, há um fenômeno que merece mais atenção pelo seu caráter subversivo: múltiplos discursos, dissonantes passam a ocupar o espaço público virtual. Trata-se de um novo cenário na comunicação estabelecido pelas instâncias não-jornalísticas fornecedoras de informação. O debate em torno do que se pode ou não ser considerado jornalismo, factível ou de interesse público omite a questão cerne do próprio jornalismo: a busca pela(s) verdade(s) e pela democracia que, com a internet, podem ser alcançadas num clique. Pode-se negar esta afirmação com argumentos que envolvem a concentração de fontes e a censura na internet. Porém, por meio dela, usuários comuns podem, mais facilmente, arranjar “brechas” na grande mídia para oporem-se a ela, exercendo um papel ativo e, de fato, dialógico. O jornalista precisa reformular sua prática e acompanhar esta fluidez da


comunicação: “é um oficio que não fechou suas fronteiras e permanece essencialmente permeável (...) essa fluidez constitui sua força, porque lhe confere capacidades de síntese e de renovação permanente que o transformam numa profissão perpetuamente nova” (Ruellan, 1993 citado por Mesquita, 1999, p. 55). O debate envolve não uma possível ameaça à profissão do jornalista, mas sim, uma lição de democracia para um profissional em crise.

É importante, sim, discutir a crise dos jornais porque se trata de um veículo de comunicação que ainda tem um papel a desempenhar. Mas os jornalistas devem agora dedicar mais atenção aos problemas de sua atividade. Vê-los no seu contexto específico porque isto é essencial para a sociedade desenvolver uma nova relação com os produtores de informação, profissionais ou não [grifo do autor] (Castilho,20 maio 2009, 11.09).

Referências bibliográficas

Castilho, Carlos. (20 Maio 2009, 11.09) As Duas Caras da Crise na Imprensa. Retirado em 28 novembro

2010

de

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/blogs.asp?id_blog=2&id=%7BA294A5A0 -54474B2E-95C3-0B6ADEE31317%7D.

Mesquita, Mário. (1999) O Negócio da Informação e a Deontologia Jornalística. In: Comunicação, Ética e Mercado. Lisboa, Portugal: Universidade Católica Editora. Parker, Elliot. (1996) “Market-Driven" Business and Demands on Journalists. AEJMC Conference Papers. Michigan, USA: Central Michigan University.

Pereira, Fábio. (s/d) Da responsabilidade social ao jornalismo de mercado: o jornalismo como profissão. Retirado em 18 de novembro 2010 http://www.bocc.ubi.pt.

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