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SÍNTESE A gestão Florestal é complexa mas não é impossível nem desprovida de valorização económica.

Ludovina Maria Costa Lopes Margarido

GESTÃO FLORESTAL

Mestre em Sistemas Integrados de Gestão

Aproveitamento da matéria orgânica

17/09/2016


Gestão Florestal: valorização da matéria orgânica

Muitas vezes culpados de alimentar incêndios, ano após ano, tornando a situação muitas vezes incontrolável e colocando em causa bens e vidas humanas, os resíduos orgânicos florestais podem deixar de ser parte do problema para se tornarem, inclusivamente, parte da solução. A verdade é que, muitas vezes, podas, desbaste e desmatamentos de florestas é feito e deixado no mesmo local, sem qualquer tipo de tratamento posterior. Estes ramos e giestas, deixados junto ás plantações, vem aumentar o risco de incêndio visto que, depois de secos, se transformam em matéria ainda mais inflamável! A correta gestão dos espaços florestais deve incluir o tratamento imediato destes resíduos ou o seu transporte para centrais de produção de biomassa ou, ainda, de outras matérias combustíveis, como os pellets, por exemplo. Estudos feitos revelam que o poder calorífero dos pellets elaborados a partir da matéria orgânica das giestas é superior ao elaborado com pinheiro, eucalipto ou madeira de outras árvores de crescimento rápido. Este poderia ser um excelente destino para este tipo de matéria orgânica, possivelmente a que existe em maior abundância no norte e centro do país. A verdade é que o problema que se levanta tem a ver, naturalmente, com as questões da propriedade… há muitas giestas e muitos terrenos incultos que se transformam num problema, principalmente na altura do verão, mas se uma empresa tentar, de qualquer forma, adquirir essa matéria orgânica, rapidamente esta passará a ter um preço alto no mercado, deixando, portanto, de ser profícua a sua produção, o que até certo ponto é compreensível já que os proprietários têm direito a ser ressarcidos de tudo o que é retirado do seu terreno, mesmo que à partida possa parecer inútil ou até pernicioso. A solução poderia passar pela formação de Associações sem fins lucrativos ou até pela própria gestão autárquica que poderiam proceder (após respetiva autorização) à limpeza dos terrenos por maquinaria própria que incluísse a redução imediata da matéria orgânica em estilhos ou, se possível, logo em pellets. O pagamento ao proprietário do terreno seria feito em pellets, podendo até haver benefícios fiscais para quem adquirisse estufas de aquecimento alimentadas por este material. Para além deste material mais básico, pode ainda ser criado um produto mais sofisticado e capaz de satisfazer mercados mais exigentes: os pellets com aromas de plantas aromáticas das nossas florestas. Imaginemos um inverno húmido no qual proliferam as gripes e constipações… parte do problema poderá ser resolvido utilizando pellets com aroma de eucalipto, planta bem

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Gestão Florestal: valorização da matéria orgânica

conhecida pelas propriedades desinfectantes e anti-séticas dos seus óleos essenciais, o mesmo acontecendo com as diversas espécies de pinheiro (pinus pinester, pinus sylvestris e outros). O mesmo seria aplicável a pessoas com dificuldades em adormecer ou com crianças hiperativas com as quais os aromas de alfazema (lavandula latifólia) poderia ser altamente benéfico. Poderia ser criada uma marca específica com os aromas de Portugal: da Serra da Estrela, do Gerês ou da Serra Algarvia… Poderia continuar com aromas específicos para combater outras patologias ou até, para criar ambientes apropriados para um jantar romântico ou outros… O que aqui interessa sublinhar é a utilidade das matérias orgânicas, sejam elas provenientes de desbastes ou de limpezas florestais, sem colocar de lado a possibilidade de utilização dos resíduos provenientes do corte de ervas e gramados, as folhas das árvores caducas ou até de resíduos resultantes da elaboração do vinho ou do azeite, restos de móveis velhos normalmente colocados para aterro e outras matérias que, desta forma teriam um fim “amigo do ambiente”, contribuindo para o conforto de milhares de lares e instituições, principalmente no interior do país onde a maior parte das casas tem ainda níveis de conforto térmico altamente deficitários. Não havendo possibilidade de transporte dos estilhos, os mesmos deveriam ser deixados no local pois a sua decomposição, lenta, retirará azoto do solo (principalmente quando se tratar de materiais mais lenhosos) e irá funcionar, pelo menos durante dois anos, como um “tapete” de protecção, prevenindo o aparecimento de ervas daninhas. Entretanto, a decomposição dos mesmos beneficiará a absorção de água pelo solo, o aparecimento de cogumelos e outro tipo de fungos que serão benéficos ao ecossistema florestal e ao desenvolvimento/crescimento das árvores. O mesmo efeito poderá ser visível nas bermas das estradas, havendo, neste caso, o inconveniente de, com as chuvadas, o mesmo poder deslocar-se, no caso de o terreno ser íngreme, o que acontece frequentemente no caso das bermas podendo, eventualmente, entupir canais de encaminhamento de águas residuais. Este material é também extremamente valioso para utilização como “mulshing” ou cobertura vegetal, em parques e jardins. Para aumentar a durabilidade, convém proceder à cobertura do terreno com plástico negro, resistente, ou com tela apropriada ao efeito. Ludovina Margarido

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Gestão Florestal  

O aproveitamento dos resíduos orgânicos florestais

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O aproveitamento dos resíduos orgânicos florestais

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