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Morte anunciada Indiferente à passagem do tempo, as casas de pedra iam envelhecendo e a cidade ia morrendo lentamente. Todas as oportunidades tinham sido esbanjadas. Os jovens partiam à procura de um lugar ao sol, em busca da felicidade perdida que a cidade lhes negara. Não queriam voltar. A cidade, putrefacta, afastava todos os que não fossem indigentes. Ficavam os fracos, os débeis, os que se deixavam manipular, os que calavam e comiam nas mãos dos que dirigiam a cidade. Morria, de morte lenta e agonizante, a cidade mais bela de todas. Assim queriam os poderosos, prisioneiros dos interesses e da visão limitada. Convinhas-lhe que a cidade apodrecesse. Eram tão inábeis que todos os que falavam ou tinham ideias eram inimigos a abater. No pântano em que se tornara a cidade, viviam seres estranhos, mutantes: uns viviam nas profundezas, eram cegos, de tal forma habituados ao escuro em que se tinham tornado as suas vidas, vinham à superfície apenas durante a noite para se alimentarem, no escuro das sombras. Os predadores diurnos tinham-se refastelado com belas e frescas presas durante o dia e colocavam-lhes os restos, abundantes, para que o ciclo se não quebrasse: caçavam e comiam todos, indiferentes ao estado lastimável em que se encontrava a cidade, indiferentes ao sofrimento e ao desgaste dos que, corajosos, não queriam desistir. Era demasiado poderosa a força das trevas. Se por algum motivo se sentiam ameaçados, rapidamente se uniam todos os predadores para fazer valer os seus interesses pois era mais forte o que os unia do que o que os separava: vestiam as mesmas roupas, usavam os mesmos carros e ouviam todos a mesma música. Todos tinham de ouvir a mesma música. A música era escolhida por uma única pessoa… e embora alguns não lhe dessem a devida importância, a verdade é que “o senhor da música” era o mais importante de todos: todos se moviam na mesma onda, sintonizados na mesma estação. Era aqui que estava o grande segredo que destruía a cidade: ele escolhia a música, as pessoas que falavam e os assuntos de que se falava. Estranho, mas mesmo estranho, era as pessoas não perceberem que misturada na música, lhes chegava aos ouvidos, emprenhando-lhes depois o corpo todo, um ópio contaminante e enfraquecedor. Por isso a cidade definhava, um bocadinho todos os dias. Só os resistentes, os guerreiros mais valentes estavam atentos a esta realidade e mudavam, invariavelmente de estação, correndo o risco de parecerem desactualizados ou info-excluídos… outras estações davam-lhes outra música, alimentavam-lhes outros sonhos, transportavam-nos noutras viagens, mantendo viva a vontade de sonhar, de lutar, de mudar o mundo… todos os dias um bocadinho! Ludovina Margarido, abril de 2013

Morte anunciada  

Uma crónica para refletir...

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