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“Você será minha!” Com sua identidade preservada, Allegra Valenti adentra o baile de máscaras mais glamouroso da Itália, determinada a aproveitar seus últimos momentos de liberdade antes do casamento arranjado. Porém, um encontro apaixonante com um desconhecido trouxera consequências inesperadas, que colocam em risco seus planos e sua reputação. O sombrio duque Cristian Acosta não consegue acreditar que a sedutora mascarada com quem se envolvera é a irmã de seu melhor amigo. Agora, para proteger o legado de sua família, Cristian terá de convencer Allegra ase tornar sua esposa!


Em troca de seu legado eles oferecem uma alianรงa de diamante!


Allgera tentou manter a expressão neutra enquanto encarava o olhar taciturno e intransigente de Cristian Acosta. Ele não podia saber. Não podia. Ela se recusava a acreditar. Se bem que parada ali, olhando para ele e para aqueles olhos negros como carvão, Allegra se perguntou como não tinha reparado quem ele era no instante em que o mascarado havia entrado no salão de festas. Cristian parecera a Morte indo buscá-la. E, naquele momento, parecia estar ali para fazer a mesma coisa. Suas sobrancelhas negras estavam coladas uma na outra, e o maxilar, teso. Seus lábios, geralmente o único traço leve na expressão dele, estavam comprimidos formando uma linha brusca. Ele preenchia todo o espaço, e ainda nem havia entrado. Tão alto, impossivelmente grande. Allgera se sentia pequena perto dele. Sentia-se frágil.


Sentia como se ele pudesse atravessá-la com o olhar. O breve instante de esperança foi esmagado pelo peso daquele olhar, aquele olhar intenso que sabia de tudo. Por um segundo, ela vislumbrara a liberdade. Entretanto, agora, via apenas Cristian. – Então o quê, veio me parabenizar pelo meu casamento? Se for isso... – Não estou aqui para fazer joguinhos. Quando ia me contar? – Sobre... – A garganta dela estava completamente seca, e as desculpas corriam dentro da mente dela como cães perseguindo o próprio rabo. – O bebê – disse ele.


Querida leitora, Allegra Valenti deveria ser uma mulher contida e elegante, perfeita para se casar com um príncipe. Porém, seu desejo de liberdade falou mais alto quando ela entrou naquele baile. Tudo o que Allegra queria era viver um único momento de rebeldia antes de prender-se em um casamento de conveniência. E assim que pôs os olhos no sensual mascarado, seu corpo inteiro ficou em chamas. Incapaz de resistir, ela se rendeu à paixão. Contudo, Allegra não imaginava que essa noite inesquecível mudaria sua vida para sempre. E nada poderia preparála para a surpresa que teria ao descobrir que seu amante desconhecido era Cristian Acosta, melhor amigo de seu irmão! Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books*


Maisey Yates ENFEITIÇADO PELA PAIXÃO Tradução Rafael Bonaldi

2016


CAPÍTULO 1

ELE ERA a morte vindo buscá-la.

Pelo menos era o que ele parecia ao descer a escadaria em espiral do salão de festas, com a capa negra ondulando atrás de si, correndo as pontas dos dedos pelo elegante balaústre de mármore. Era como se Allegra sentisse o toque na própria pele, e pelo resto da vida ela iria se perguntar como teria sido. Ele estava mascarado, igual ao resto dos convidados, mas as similaridades entre ele e qualquer outra pessoa – qualquer outro mortal, na verdade – acabavam aí. Ele não usava as mesmas cores vivas dos outros homens presentes; vestia apenas preto.


A máscara que cobria o seu rosto era feita de algum material cintilante, negro como a noite, no formato de uma caveira. O rosto dele também devia estar pintado de preto, pois ela não conseguia encontrar nenhum traço de humanidade nos pequenos espaços abertos da intrincada peça de metal. Ela não foi a única mulher a ficar embasbacada com a aparição dele – um murmúrio atravessou o salão. Criaturas resplandecentes envoltas em seda tremiam de antecipação, à espera de um olhar, um vislumbre. Allegra não era uma exceção. Com a identidade oculta pelas belas pinturas desenhadas em seu rosto, ela se permitiu ao luxo de olhá-lo. A festa, realizada em um dos hotéis mais lindos e históricos de Veneza, era oferecida por um dos sócios do irmão dela. Era um dos eventos mais exclusivos do mundo, frequentado apenas pela elite.


As famílias mais antigas e ricas da Itália. Fortunas novas e velhas. Herdeiras cobiçadas que capturavam a atenção de salões inteiros com um olhar insolente. Ela era um deles, supunha. A fortuna de seu pai era velha e nova. Sua linhagem aristocrática remetia à Renascença. Porém, diferente do avô, o pai dela tinha conseguido transformar sua posição social em ouro. Ele havia transformado as propriedades caindo aos pedaços que herdara em grandes negócios, alçando-as à estratosfera social e financeira. Renzo, o irmão dela, havia elevado ainda mais o status da família Valenti ao transformar a empresa do pai em um negócio global, aumentando exponencialmente a fortuna da família. Ainda assim, Allegra não se via como uma daquelas mulheres. Não se sentia sedutora ou vibrante. Sentia-se... Enjaulada.


E essa era a chance dela. A chance de perder a virgindade com um homem de sua escolha, em vez de um príncipe a quem estava prometida em casamento, que não agitava o seu coração e nem a sua imaginação. Talvez um pecado desses fosse mandá-la direto para o inferno. Mas quem melhor para levá-la do que o Diabo em pessoa? Ele estava ali, afinal de contas. E com aquela entrada, ele a tinha afetado mais intensa e profundamente até do que o próprio noivo arranjado já havia conseguido. Ela deu um passo em direção à escadaria, mas parou. O coração batia com tanta força que ponderou se não estava doente. Quem ela achava que era? Ela não era do tipo de mulher que abordava um homem estranho em uma festa. Abordá-lo, flertar com ele e pedir para... Ela não sabia onde estava com a cabeça.


Allegra deu as costas para o estranho. Ela não estava disposta a cortejar a Morte ali no meio da festa, em todos os sentidos da palavra. Sim, ela fantasiava em encontrar alguém naquela noite. Alguém que desejasse. Mas na hora de colocar o plano em prática, simplesmente não tinha coragem. Além disso, o irmão dela só havia concordado em trazê-la para a festa depois de muita insistência, e se ela causasse algum problema, ele provavelmente colocaria o lugar abaixo. Renzo Valenti não era conhecido pelo temperamento tranquilo. Allegra, por outro lado, tivera de aprender a controlar o dela. Quando criança ela dera muito trabalho, de acordo com os pais. Mas acabou aprendendo. Graças a aulas de etiqueta, conduta, boas maneiras e tudo que pudesse transformá-la no tipo de dama que um dia iria se tornar alguém na vida.


E o investimento dos pais acabou compensando. Pelo menos do ponto de vista deles. Graças à amizade, desde os tempos do colégio particular, entre Renzo e Cristian Acosta, um duque espanhol, o pai deles foi apresentado ao Príncipe Raphael DeSantis, de Santa Firenze. E desta apresentação, sob a insistência do querido Cristian – que Allegra tinha vontade de afogar no mar –, surgiu o acordo matrimonial entre ela o príncipe. Um triunfo aos olhos dos pais dela. Deveria estar extasiada, era o que todos esperavam. Ela fora formalmente prometida a Raphael aos 16 anos de idade, mas aos 22 anos o interesse de Allegra por ele continuava o mesmo desde a primeira vez em que se encontraram. Era estranho. Ele era um homem bonito, não havia o que discutir. Apesar disso, não despertava nada nela.


Diferente do irmão mais velho dela, ele passava longe dos tabloides. Era a imagem da respeitabilidade e da graça masculina de terno, mas sempre preferia roupas casuais quando recebia a família dela durante as férias, em suas casas ao redor do mundo. A inabilidade de sentir paixão por ele talvez fosse uma espécie de ato de rebeldia contra as ordens da família, talvez fosse parte de sua natureza mercurial. Ou talvez o problema fosse ele. Talvez ele fosse muito... Frio. Era pedir demais querer alguém com a mesma paixão que a dela? Todavia, a dela era uma paixão teórica. Pela vida e pelos homens. Ela deixava Allegra com vontade de se libertar. De desafiar a vida que lhe havia sido imposta. Sem dúvida, Cristian diria que ela estava sendo egoísta. Claro, já que Cristian sempre agia como se tivesse um interesse pessoal no


noivado dela. Naturalmente porque foi ele quem arranjou tudo. O que a deixava se questionando o que ele iria ganhar com o casamento. Certamente infinitos favores do Príncipe Raphael em pessoa. O que provavelmente era o motivo pelo qual Cristian se achava tão importante todas as vezes em que ia jantar na casa dos pais dela. Cristian foi a única pessoa capaz de realizar a proeza de fazê-la perder a calma. Ele era a única pessoa que a inspirava a descer do salto e soltar os cachorros quando a deixava irritada. Com os pais, na hora da ação, ela acabava fazendo o que eles queriam. Na verdade, ela sentia que existia em estado de dormência. E que estava em uma batalha constante contra isso. Ou pelo menos era o que ela pretendia. Reagir, dar algum indício de que estava infeliz. Engolindo em seco, ela forçou-se a voltar a atenção para o resto do salão, para evitar olhar


para a Morte novamente. Allegra foi até o outro lado do salão de festas, pegou um prato e serviu-se das mais variadas delícias dispostas sobre uma mesa. Se não podia se fartar de homem, iria se fartar de chocolate. Se a mãe dela estivesse presente, lembraria Allegra do vestido de noiva que a esperava dali a alguns meses, e que os chocolates não iam deixá-la caber nele. Para a mãe dela, tudo tinha o seu... Propósito. Os filhos precisavam caber nos moldes adequados para cumprir seus papéis. Para então continuarem o que o pai deles havia começado a construir e trazerem honra ao nome da família, dentre outras coisas que Allegra achava assustadoras. Em um acesso de rebeldia, Allegra pegou outro bolinho de creme. A mãe não estava ali. De qualquer forma, haviam contratado uma costureira muito competente. Com certeza ela


daria um jeito se o vestido não caísse bem em suas curvas mais abundantes. Renzo não iria impedi-la. Embora ele não se opusesse ao casamento imposto pelos pais, parecia se divertir com os momentos de revolta dela. Em contrapartida, Renzo parecia vestir seu manto com facilidade. Como homem, sua vida caminhava de acordo com o trabalho. Ele teve de assumir a firma de desenvolvimento imobiliário do pai, mas fora isso nada influenciava a vida dele. Já Allegra... Ela imaginava que podia ter qualquer emprego que desejasse, contanto que sua vida pessoal fosse devotada ao marido que os pais dela consideravam apropriado. Talvez fosse por isso que Renzo era muito mais complacente. Ele via a disparidade entre aquilo que era exigido dela e o que era exigido dele.


Mas os pais dela, não. E tampouco Cristian, que havia instigado as tentativas dos pais dela de casá-la. Além do mais, ele sempre estava à disposição para bancar o chato. Mas ela sabia que a vida dele tinha sua cota de dificuldades, e isso quase fazia com que se sentisse culpada por encontrar tantos defeitos nele. Defeitos incontáveis, na verdade. Mesmo assim, as tragédias pessoais – e o envolvimento no casamento dela que se aproximava – não lhe dava o direito de ser tão duro com ela. Ela piscou e voltou a olhar para a comida. Ela não sabia por que estava pensando nele naquele instante. Talvez porque, se estivesse ali, ele iria erguer uma sobrancelha sardônica ao vê-la se fartando com um prato de doces. E provavelmente iria usar isso como evidência para sustentar a opinião de que ela era apenas uma criança. E uma criança mimada.


E ela o achava um babaca. Assim, ela supunha que os dois estavam quites. A música ficou mais alta, uma valsa dramática que a envolveu com sua suavidade e fácil sensualidade. Ela virou-se e olhou para os casais dançando abraçados, movendo-se com uma graça natural. Como seria ser guiada por um homem daquele jeito? Ela imaginava que o futuro marido fosse um dançarino muito competente. Ele era – afinal de contas – um príncipe. Até onde ela sabia, eles começavam a ter aulas de dança clássica de salão assim que aprendiam a andar. De repente, uma luva negra entrou no campo de visão de Allegra. Ela ergueu o olhar, e o fôlego escapou de seus pulmões. Ela abriu a boca, preparando-se para falar, mas ele ergueu a outra mão e colocou o indicador em riste sobre os lábios frios da máscara.


Ele a havia visto também. Ele a havia notado. Ela não estava sozinha. O pico de calor e excitamento ao vê-lo descer as escadas, a impressão de que ele estava tocando a pele dela e não o corrimão, essas sensações haviam acontecido por um motivo. A conexão tinha sido real. A animação e a emoção inflaram o peito dela conforme a música se intensificou, preenchendo o espaço do salão e dentro dela. Ela permitiu que ele a convidasse para levantar-se da cadeira, e embora não estivesse acontecendo nenhum contato direto, já que a luva de couro oferecia um pouco de proteção entre as mãos deles, ela sentiu um raio de calor bem lá embaixo, entre as pernas. Ela estava sendo ridícula. Ele podia ser qualquer pessoa. Ele podia ter qualquer idade. Ele podia ser horrivelmente desfigurado por trás da máscara. Ele podia ser, de fato, a Morte em pessoa.


Mas ela não achava que fosse. Porque a sensação era muito precisa. Muito profunda. Quando ele a puxou para seus braços, quando os seios dela foram comprimidos pela muralha do peitoral dele e uma onda de calor a atravessou, sabia que seja lá quem fosse, era ele quem ela queria. Que coisa estranha. Sentir uma atração tão instantânea e intensa que transcendia a realidade de forma tão visceral. Ele a conduziu pela dança como se ela não pesasse nada, costurando por entre os outros casais como se eles não existissem. Ela olhou para cima e captou o olhar dele, e sentiu um abalo sísmico atravessar seu corpo. Ela então focou no lustre que lançava fractais de luz nos convidados e nos belos drapeados de veludo adornando as paredes, ocultando parcialmente os murais campestres de deusas. Cada roçar do corpo dela contra o dele causava tremores. Cada roçar da mão enluvada


na parte inferior das costas dela lançava uma onda de desejo pelo corpo dela. Ansiava pelo toque dele, desejava por senti-lo entre as pernas. Aquela não era uma mera dança. Era o prelúdio de algo muito mais sensual. Ela nunca havia reagido a um homem dessa maneira. Claro, nunca havia dançado com um homem desses antes. Ainda assim, não achava que isso estava relacionado com a dança, por mais sensual que fosse. Tampouco achava que isso estava relacionado com a música, por mais que ela a afetasse profundamente. Desde o instante em que ele entrara no salão, a causa de tudo era ele. Ela estava zonza. Isso também não tinha nada a ver com a dança. Ela soltou uma das mãos enlaçadas no pescoço dele e a deslizou até o peito, onde a pressionou, tomando cuidado para não tirar os olhos dos dele. Eles eram sombrios, brilhantes e ilegíveis por trás da máscara. Talvez ele


estivesse enojado. Talvez não imaginasse que ela fosse aceitar o convite para dançar como um pedido para algo mais. Ele segurou a mão dela, na altura do pulso, e a puxou de volta. Ela congelou, achando que tinha cometido um erro terrível. Então ele virou a mão dela, esfregando lentamente o polegar sobre a pele sensível do pulso dela. Ela estremeceu, seu corpo aceitando aquele toque pelo que era. Uma resposta. Um sim. Ela engoliu em seco, olhando para trás para tentar ver onde o irmão estava. Ele não estava em lugar algum. O que significava que ele possivelmente já havia ido embora com alguma mulher que havia lhe chamado a atenção. Ele não estava ali para vigiá-la. Bom para ela. Ela não sabia como fazer isso. Mais especificamente sem falar. E seu homem misterioso parecia obstinado a manter as coisas entre eles silenciosas. Ela não se importava. Isso


ressaltava a sensação elétrica que atravessava o corpo dela. Ela não tinha ideia de quem ele era, e ele não tinha ideia da verdadeira identidade dela. O que só podia ser uma coisa boa. O noivado dela com o pr��ncipe de Santa Firenze estava sendo amplamente divulgado. E embora ela duvidasse que fosse mundialmente famosa, com certeza ali em Veneza as pessoas tinham uma noção de quem ela era. Mas ela não teve de tomar mais nenhuma decisão, pois logo ele a levou para fora da pista de dança, para longe da multidão, para um corredor vazio. O coração dela batia disparado. E por um momento ela imaginou se talvez não estivesse sendo sequestrada. Ela não fazia ideia de que um sequestro pudesse se parecer tanto com sedução, ou vice-versa. Agora ela estava pensando maluquices, pois mal conseguia respirar por causa do medo e do


excitamento que disputavam o primeiro lugar dentro dela. Ele a fez entrar em uma alcova, e a música ficou completamente abafada. Ela não conseguia ouvir nada, ninguém. E naquele instante, enquanto o homem misterioso de preto preenchia o campo de visão dela, era como se os dois fossem as únicas duas pessoas na Terra. Ele colocou o polegar sobre o lábio dela e traçou o contorno da sua boca, fazendo com que um arrepio percorresse seu corpo. Então ele permitiu que as pontas dos dedos descessem pelo pescoço dela, chegando à gola do vestido. Ele tocou-lhe a intumescência redonda dos seios com a mais leve das carícias, mas que ressoou dentro dela profundamente. Consumindo-a por completo. Foi então que ela soube que não havia interpretado mal a situação. Que teve total


certeza de que aquela era uma sedução. E estava perigosamente perto de ser seduzida. Mas será que ela deveria permitir? No momento em que o pensamento ocorreu ela percebeu que estava sendo ridícula. Ela já tinha permitido. No instante em que aceitara a mão estendida, havia dito sim. A mão dele viajou até os quadris dela e ele começou a juntar o tecido roxo escuro do vestido, puxando-o para acima das coxas. As pontas dos dedos dele roçaram tentadora e brevemente o local entre as pernas dela que começava a arder por ele. Então, ele colocou a mão sobre a barriga dela e a deslizou para cima, puxando as alças do vestido para os lados para expor um dos seios, e depois o outro. Ela arfou, mal acreditando no que estava acontecendo. No que estava permitindo que acontecesse. Na verdade, Allegra não estava permitindo nada. Ela era uma mera prisioneira. Dele. E não


se importava. Não se importava nem um pouco. Ele passou o polegar por sobre um mamilo sensível, e ela arfou. Depois ele prendeu a pele sensível entre o polegar e o indicador. Ela arqueou as costas para sentir melhor o toque dele, e ele usou as duas mãos para acariciá-la. Depois, ele voltou a subir a saia do vestido dela, para expô-la para ele. Os dedos deslizaram por entre as coxas dela para provocá-la. Então, eles seguiram para dentro da calcinha, para tocá-la mais intimamente do que qualquer outra pessoa já havia tocado. Allegra sentiu que estava se perdendo dentro da sensação. Era como estar no centro de uma tempestade sensual. Ela sentia o toque dele em todos os lugares, provocando-a, levando-a ao limite. Ela ergueu as mãos e as pressionou contra o peito dele, para depois abrir os botões da camisa. Ela respirou fundo quando os dedos


fizeram contato pela primeira vez com a pele dele, ao traçar os contornos dos músculos rijos, ao sentir o calor dele, tão sexy que ela achou que fosse desabar. E ela não podia fazer isso, pois assim ele perceberia a inexperiência dela e provavelmente a abandonaria ali, insatisfeita. Ele era perfeito demais para palavras, uma tentação da qual não queria abrir mão. Ela inclinou-se e beijou o pescoço dele. Os lábios dele podiam estar escondidos pela máscara, mas os dela não estavam. O contato entre os dois deixou uma marca vermelha e um traço branco da tinta do rosto dela. Mas ela não se importou. Estava gostando. Queria deixá-lo marcado, pois só Deus sabia como ela iria ficar marcada. Os músculos rijos e os pelos crespos do peito dele eram sensações completamente novas para ela. Tocá-lo daquele jeito enviou uma flecha de desejo para o fundo do estômago dela.


Não levou muito tempo para continuarem o que ela havia começado. Ele levou as mãos até a braguilha, pressionando-a contra a parede, seu corpo quente contra o dela, a ereção rija apontada firmemente para o ponto úmido dela, pronto para ele. Ele flexionou os quadris, seu membro pressionando a maciez dela. Uma onda de prazer percorreu o corpo de Allegra, que deixou a cabeça pender para trás e um gemido escapar por entre os lábios. Ele moveu a mão, erguendo a perna dela e enganchando-a ao redor da própria cintura, antes de posicionar-se melhor e penetrá-la profundamente. Desta vez, seu choro foi de dor. Ela sabia que ia doer perder a virgindade, mas não sabia que seria tão doloroso assim. O parceiro de Allegra não pareceu perceber a mudança do tom da voz dela, pois ele se retirou lentamente antes de penetrá-la de novo. Mas na


segunda vez não doeu tanto, e a cada investida subsequente a dor foi ficando cada vez menos intensa, até que o prazer finalmente retornou. Até que a dor aguda e lancinante se transformou em uma sensação intensa e profunda. Ela cresceu e se espalhou, florescendo em um prazer quente e frenético. Allegra começou a mover-se para frente e para trás contra o corpo dele, agarrando com força os ombros e enterrando o rosto na curva do pescoço dele conforme o clímax apoderava-se completamente dela. Ela juntou os lábios à pele dele quando o orgasmo a avassalou. Um golpe sem fim que a deixou exausta, sem fôlego. Então, com um rugido, ele investiu contra ela uma última vez, apoiando-se na parede ao alcançar o próprio prazer final. Por um momento, o mundo pareceu girar ao redor deles. Ela estava atordoada de prazer. E sentia-se... Conectada àquele homem. Ele


continuava tão sombrio e misterioso quanto da primeira vez em que havia posto os olhos nele. E, não fossem as manchas vermelha e branca no pescoço, ela jamais saberia que ele havia sido tocado. Mas as evidências estavam ali. Se a sensação elétrica percorrendo o corpo dela e o latejar dolorido entre as pernas não fossem evidências suficientes, então aquilo seria. Ele a encarou por um instante, ajeitou com um puxão firme as luvas e virou-se, para então caminhar em direção ao salão de festas. Deixando-a sozinha. Deixando Allegra Valenti, que nunca havia feito nada além de protestar silenciosamente contra o próprio papel na vida, que certamente nunca havia se rebelado de verdade, parada ali, tendo acabado de perder a virgindade com um estranho. Sem proteção. Sem pensar no futuro, ou... Em nada.


A excitação dela transformou-se em horror, e então em medo. Enquanto observava-o desaparecer, ela não sabia se ficava de coração partido ou aliviada pelo fato de que nunca mais iria vê-lo.


CAPÍTULO 2

ALLEGRA ESTAVA convencida de que as

coisas não podiam piorar. Não importava quantas vezes ela havia desejado nas últimas semanas que sua menstruação desse as caras. Ela se recusava. Não importava quantas vezes havia rezado fervorosamente para que aparecesse apenas uma linha rosa no teste de gravidez que havia feito naquela manhã. Apareceram duas. Não importava que ela estava noiva de um príncipe, e que deveria dar à luz aos herdeiros reais dele. Porque ele não era o homem com quem ela havia dormido. Não, havia dormido com apenas um homem, e não fazia ideia de quem ele fosse.


Ela já tinha considerado muitas opções desde que havia feito a descoberta desconcertante naquela manhã. A primeira sendo que poderia facilmente voar para qualquer lugar que o noivo estivesse e seduzi-lo. Havia vários motivos pelos quais isso não daria certo, e o principal era que ela não conseguiria passar o resto da vida mentindo sobre a paternidade do filho. Ademais, Raphael não era tolo. Ele era um príncipe, e precisava de um herdeiro. Um herdeiro que fosse sangue do mesmo sangue que ele. O que significava que ele faria testes de paternidade para determinar se a criança era filha dele de verdade ou não. E como Allegra sabia que não era, não havia motivos para considerar esse tipo de subterfúgio. Mas havia considerado. Por um momento. Só porque a outra alternativa acabaria destruindo a vida dela. Por fim, acabou optando em destruir a própria vida. Porque no fundo não havia outra


alternativa. Era por isso que ela se encontrava no escritório do irmão em Roma, pronta para confessar tudo à única pessoa que talvez não fosse matá-la no mesmo instante. Em vez de dar início à confissão propriamente dita, pensou em começar por uma introdução mais amena. – Gostou da festa? – indagou ela. Renzo ergueu os olhos do trabalho, arqueando uma sobrancelha negra. – Qual festa? – Certo. Tinha me esquecido. Você vai a muitas festas. Aquela em que me levou. – Gostei bastante. No pouco tempo que fiquei lá. – Você ficou lá por um tempo. – Ela tamborilou as unhas sobre a mesa dele, tomando cuidado para não olhar diretamente nos olhos de Renzo. – Sim – disse ele, afastando a cadeira e levantando-se. – Por que está me interrogando?


Surgiu algum tipo de manchete de tabloide desagradável? Fotos? – Poderia haver? – quis saber ela. – Eu sou eu, Allegra. Isso é sempre uma possibilidade. – É verdade. – Então lhe ocorreu que ela também poderia muito bem acabar como um espetáculo sensacionalista. Depois de tantos anos se comportando bem, fantasiando em se comportar mal, mas sem nunca realmente sair da linha, ela havia gerado o potencial para o maior escândalo de todos. – Quer saber de alguma coisa. Pergunte. É depois vá embora. Você pode ir fazer compras. Imagino que seja por isso que veio a Roma. Ele podia imaginar o que quisesse, pois não era a verdade. Ela precisava falar com ele para descobrir o que sabia sobre o homem mascarado da festa em Veneza. – Você conhece quase todas as pessoas que são importantes. – Allegra acreditava na


intuição de que o homem com quem ela havia se envolvido era importante. Ele tinha aquele ar de autoridade. O tipo de personalidade que conquistava a atenção de todos no recinto. – Quase todas – afirmou ele secamente. – Presidentes. Reis. Mas por que o interesse? – Porque eu... Só estava curiosa. Tinha um homem na festa. – Você não deveria estar inquirindo sobre homens, Allegra – advertiu ele. – Especialmente porque eu acredito que já esteja noiva. – Claro. Tecnicamente. Eu só queria saber quem é esse cara. – É o suficiente para que nosso pai separe a minha cabeça do meu corpo, se eu contar qualquer coisa. – Você não liga para isso – declarou ela. – Sei que não se importa. Você não passa a vida tentando agradá-los. Na verdade, não está nem aí para o que eles acham. Pare de fingir que se preocupa quando isso não é verdade.


Ele suspirou longa e sofregamente. – Tudo bem. Pode questionar. – Ele chegou tarde. Ele tinha uma máscara que parecia uma caveira, e estava vestido todo de preto. Um sorriso surgiu no canto da boca de Renzo. E então ele fez algo que Allegra raramente o via fazer: ele riu. – O que foi? – perguntou ela, sentindo a fúria tomar conta de sua mente. Ela estava tendo uma crise e ele estava rindo dela. – O que tem de engraçado nisso? – Sinto muito em dizer, mas acho que quem chamou a sua atenção foi Cristian. Sei que você vai odiar. Como eu sei que você odeia Cristian. Uma nevasca tomou conta do corpo dela, fazendo-a se sentir doente. – Não – assegurou ela. – Aquele não era Cristian. – Proteste o quanto quiser, mas era ele. Talvez tenha sido bom papai e mamãe terem


arranjado seu casamento. Pelo visto, você tem um péssimo gosto. – Não – replicou ela, ainda mais furiosa. – É impossível aquele homem ser Cristian Acosta. Eu teria... Eu teria... Virado pedra. – Só de olhá-lo? – Uma expressão estranha tomou conta das feições do irmão dela. – Sim – respondeu ela. Obviamente, ele iria acabar descobrindo, com o passar do tempo. Todos iriam. A menos que... Não ficassem. Talvez, Cristian não tivesse de saber. Raphael teria de saber, disso não havia escapatória. O noivado estava anulado. E a vida dela iria melhorar por causa disso. Mas, se aquele homem fosse mesmo Cristian, ele iria ficar tão incrédulo quanto ela. Ele a via como uma criança mimada e egoísta, e nada mais. Se ela aparecesse grávida, ele jamais faria a conexão entre Allegra e a mulher que havia possuído contra a parede.


O estômago dela dava voltas. Cristian. Não parecia possível. Como isso podia... Como ela pôde... Uma pergunta que já havia feito inúmeras vezes para si mesma, muito antes de descobrir a identidade do homem misterioso. Então ela tomou uma decisão. Não ia contálo. De que isso adiantaria? Ele não iria querer nada com ela e o bebê – ou, ele ia querer tudo. Francamente, ela preferia a primeira opção, mas temia pela última. – Deixa para lá – comentou ela. – Eu claramente estava sendo boba. – Claramente – pronunciou Renzo, voltando a trabalhar. Allegra já tinha se decidido. Ela ia romper o noivado e, como já ia cair em desgraça de qualquer maneira, a abraçaria por completo. Ia criar o filho sozinha. Ela não ia pedir nada para Cristian.


– O FIM do noivado da sua irmã parece estar bombando nas manchetes. – Cristian preparou um drinque e virou para encarar o amigo. Uma raiva de certa forma desproporcional à situação fervilhava no sangue dele. Ele havia posto em risco a própria reputação ao apresentar Raphael aos Valentis. Atestando Allegra como futura esposa. Raphael e ele não era amigos próximos, eram mais conhecidos. Um risco que se corre ao ser da nobreza, especialmente nesses tempos onde títulos e afins estavam caindo na obscuridade e na obsolescência. Apesar disso, havia sido Cristian o responsável pelas apresentações. Quem havia sugerido a união. Por respeito e gratidão pelo apoio que a família Valenti sempre lhe dera, mais do que qualquer coisa. Ele deveria saber que ela ia colocar tudo a perder. Era uma questão de tempo até Allegra acabar completamente com a própria vida. Ela parecia sempre estar à beira da


autodestruição. Mesmo em festas e jantares em família, sentada, tentado parecer serena, ele via a chama cintilante. Ele sempre enxergara isso nela, essa inquietude. Essa insatisfação. Mas esperava que ela fosse acabar casada com um príncipe e não... Bem, nas manchetes do dia. Uma mulher com o temperamento dela estava sempre em perigo de se tornar material para os tabloides, e ele tentara aconselhá-la. Ela era muito teimosa para lhe dar ouvidos. Ele esperava que o noivado com Raphael fosse colocá-la na linha. Que fosse mantê-la em segurança. Pelo visto, não foi o que aconteceu. – O cancelamento de um casamento real é sempre motivo para alvoroço – informou Renzo. – Suponho que seja verdade. Cristian lembrou-se com clareza do comportamento dela no jantar em que Raphael


estava presente. Na única vez em que ele vira os dois juntos. Ela não tinha ideia do que fazer com ele, e ele claramente não tinha inclinação para lidar com ela. Raphael era um príncipe, acostumado com deferência. Allegra não parecia saber como responder a isso, e ficara a noite toda emburrada e em silêncio. Na época ela era muito jovem. Ele esperava que ela tivesse amadurecido. Talvez fosse melhor assim. Ele sabia muito bem como casamentos arranjados para fins políticos podiam terminar. E como jovens noivas infelizes que desejam um pouco de liberdade podem sucumbir sob o peso das expectativas. Mas ela não é Sylvia. E ele não é você. Sim, sem dúvidas Allegra poderia ter feito o casamento funcionar. Se ao menos ela tivesse alguma noção da sorte que tinha.


– Graças a Deus o motivo por trás da anulação não foi revelado. Mas logo vai ser – alertou Renzo, atravessando o escritório para também pegar uma bebida. Cristian franziu o cenho. – E qual o motivo? – Ela está grávida. Por algum motivo a notícia o atingiu como um golpe. A imagem da barriga dela ficando redonda... de Allegra segurando um bebê nos braços... Ele as desprezou. O que era ridículo. O casamento dela com Raphael seria dali a alguns meses, e logo ela teria ficado grávida dele. Por que isso soava como um soco no estômago, ele não sabia. Ele rangeu os dentes e lutou contra a crescente tensão no corpo. – E não é do príncipe, presumo. – Não. Ela se recusa a contar para mim ou a nossa família quem é o pai. Eu nunca a vi com ninguém. Eu não tenho sequer um palpite. –


Ele franziu o cenho. – Francamente, eu me preocupo com as circunstâncias por trás disso. Diferente de mim, Allegra nunca foi rebelde. Eu me preocupo que alguém tenha se aproveitado dela. Era estranho ouvir a opinião de Renzo sobre a irmã. Cristian sempre enxergara a força selvagem nela. E ele não ficaria surpreso se ela estivesse levando uma vida dupla por trás das costas da família esse tempo todo. A ideia o deixou ainda mais contrariado. Pensar que durante todo esse tempo, enquanto se sentava à mesa nos jantares com a família, fingindo concordar com todos os planos dos pais, ela estava saindo com alguém. Estava deixando que homens a tocassem. A beijassem. A possuíssem. – Nunca? – certificou-se ele, tentando manter o tom inócuo. – Não. Ela não tem experiência com homens, até onde eu saiba. Até onde eu sabia – corrigiu


ele. – Na verdade, esses tempos atrás ela estava me fazendo algumas indagações suspeitas sobre um homem que ela viu no baile de máscaras que fomos um mês atrás, mais ou menos. Cristian rangeu os dentes, sendo acometido por uma estranha tensão. – É mesmo? Flashes do baile surgiram na mente dele. Uma figura linda, sensual. Quente, úmida, inocente. O tipo de prazer que ele não se permitia há anos. – Sim. Ela ficou desconcertada ao descobrir que o homem que tinha chamado a atenção dela era você. Cristian colocou o copo sobre a mesa, sentindo as têmporas pulsando. Não era possível. Mas ele tinha de questionar. Ele tinha de saber. – Como ela estava vestida? – O coração dele estava batendo com força, fazendo o sangue disparar pelas veias.


– Uma máscara, assim como as outras mulheres. Ela usava algo roxo no cabelo, e um vestido também roxo. Um vestido que nossos pais desaprovavam veementemente. Cojeme. Não podia ser. A primeira mulher que ele havia tocado em anos... Era Allegra Valenti. E ela estava... Bem, ela estava grávida de um herdeiro Acosta. Embora o conceito de ducado estivesse saindo de moda, o dele continuava em pleno funcionamento. Com grandes extensões de fazendas e propriedades sob a administração dele, e centenas de famílias que dependiam da continuidade da linhagem sanguínea dele. Ele era o último, e estava ciente de que as coisas não podiam continuar assim. Agora, ele sabia que elas tinham mudado. Além disso, ele fazia parte da vida dupla de Allegra Valenti. Parte do pecado dela. E que pecado havia sido. O tipo que assombrava o


sono dele com flashes de lembranças tão eróticos e doces que ele acordava à beira do clímax todas as noites. – Onde ela está? – interrogou ele, sua voz sutilmente deixando transparecer o desespero. Renzo franziu o cenho, lendo a expressão do amigo. – Eu não vou gostar disso, vou? – Não mais do que eu – mencionou ele rispidamente. – Onde ela está? – Entocada em um dos meus apartamentos em Roma. – Preciso falar com ela. Agora. – Ele não tinha tempo para sutilezas. Afinal, se as suspeitas dele estivessem certas, não haveria motivos para segredos. Droga. Ele não podia estar certo. A expressão de Renzo tornou-se desconfiada. Sombria. – Suponho que depois você virá conversar comigo.


– Espero que não seja necessário. – Então Cristian virou-se e saiu do escritório do amigo. Ele precisava encontrá-la e esclarecer a situação. Não podia ser verdade. Ele se recusava a acreditar. Ele precisava provar para si mesmo, de uma vez por todas, que Allegra não era a amante misteriosa dele. Não podia ser ela. Aquela pirralha não podia ser a mulher que o havia tocado, que havia posto fogo no sangue dele. Impossível. Ele se recusava a acreditar que era verdade. E estava disposto a provar que não era. ALLEGRA ESTAVA dando o melhor de si para evitar a mídia. Mas às vezes ela se esquecia. E então ligava a TV e era atacada pelo noticiário, ou então abria o computador e entrava no site errado, só para deparar-se com mais manchetes.


Era horrível. Ser descrita como a pessoa que ela não era. Corajosa o bastante para cancelar o noivado com um príncipe em cima da hora, sem se importar com os sentimentos ou o país dele. Ela não era nem um pouco corajosa. E ela se importava sim em deixar as coisas tumultuadas. Mas se Raphael tinha sentimentos, ela nunca os havia visto. Não que isso fosse uma desculpa. Quando ela se entregara à fantasia e escolhera um amante no baile, Allegra tinha em mente que iria abandonar o casamento em breve. Pelo menos isso ela teria o livre-arbítrio para escolher, um momento roubado que para sempre seria dela, e de mais ninguém. Bem, só que agora ele era de todo mundo. O mundo sabia que ela havia desmanchado o noivado. A família sabia que estava grávida. Era só uma questão de tempo antes das especulações começarem a voar por aí.


E por mais estranho que fosse, quanto mais os erros dela se tornavam conhecidos pelo público, mais se sentia em posse da própria vida. Ela havia decidido, de uma vez por todas, manter em segredo quem era o pai da criança. Era a resposta para tudo. Sim, havia decepcionado todo mundo. Sim, os pais dela podiam cortá-la da família – eles pareciam ainda estarem se decidindo. Mas fora isso... A vida dela havia subitamente se enchido de possibilidades que não existiam antes. Ela sempre soubera que seria mãe. Mas como parte de seus deveres como uma esposa Real. Como princesa, a vida de Allegra nunca fora realmente dela. Mas agora, pela primeira vez, poderia ser. Pelo menos ela teria escolhas, mesmo que não fossem infinitas. Pelo menos agora teria de responder apenas para si mesma. Pelos próprios erros.


Mesmo o relacionamento com o filho... Ele seria só deles. E talvez não fosse ideal tentar se encontrar como pessoa durante o processo de se descobrir como mãe, mas mesmo assim isso era melhor – era mais – do que ela teria como esposa de Raphael. Uma batida na porta do apartamento a fez se levantar correndo do sofá. Ninguém havia ligado da recepção, pedindo permissão para subir. O que significava que devia ser um funcionário do prédio do irmão. Graças a Deus Renzo havia permitido que ela se escondesse ali. Ele podia estar bravo com as escolhas dela, mas pelo menos a entendia, de certa forma. Ele nunca havia se comportado bem, afinal de contas. Ela caminhou até a porta e a abriu, e seu coração foi parar no chão. – Renzo não está aqui, se está procurando por ele. – Ela tentou manter a expressão neutra


enquanto encarava o olhar taciturno e intransigente de Cristian Acosta. Ele não podia saber. Não podia. Ela se recusava a acreditar. Se bem que parada ali, olhando para ele e aqueles olhos negros como carvão, ela se inquiriu como não tinha reparado quem ele era no instante em que o mascarado havia entrado no salão de festas. Ele parecera a Morte indo buscá-la. E naquele momento, ele parecia estar ali para fazer a mesma coisa. Suas sobrancelhas negras estavam coladas uma na outra, e o maxilar estava teso. Seus lábios, geralmente o único traço leve na expressão dele, estavam comprimidos formando uma linha brusca. Ele preenchia todo o espaço, e ainda nem havia entrado. Tão alto, impossivelmente grande. Ela se sentia pequena perto dele. Ela se sentia frágil.


Ela sentia como se ele pudesse atravessá-la com o olhar. O breve instante de esperança foi esmagado pelo peso daquele olhar. Aquele olhar intenso, que sabia de tudo. Por um segundo, ela havia vislumbrado a liberdade. Entretanto, agora, ela via apenas Cristian. – Não, não estou – proferiu ele em um tom sério, direto. Como ele mesmo. – Então o quê, veio me parabenizar pelo meu casamento? Se for isso... – Quieta – ordenou ele, passando por ela e entrando no apartamento. – Não estou aqui para fazer joguinhos. Quando ia me contar? – Sobre... – A garganta dela estava completamente seca, e as desculpas corriam dentro da mente dela como cães perseguindo o próprio rabo. – O bebê – disse ele. – Eu... Eu não...


– Eu sei – afirmou ele, seus lábios se curvando sutilmente. – Eu sei que era você. E sei que você descobriu que era eu, então não precisa fazer essa carinha ingênua de inocente. Ela franziu o cenho. – Eu não sou mais inocente. Como com certeza já deve ter deduzido. – Não vi a estrela de Belém no céu, então você deve estar certa. Ela cruzou os braços, como se isso pudesse criar uma barreira entre eles. – Que bom que verificou os símbolos divinos antes de vir me procurar. – Então você admite que sabia. Admite que sabia que eu sou o pai do seu filho. – Eu não admito nada. – Ela desejou poder desaparecer completamente. – Mas acabou de dizer que eu deveria saber que você não é mais inocente. De que outra forma eu saberia, se não tivesse sido eu quem tirou a sua inocência?


– Ah, não sei. Pelo simples fato de eu estar grávida? Honestamente, Cristian, pode ser qualquer um. Sou notória por ser uma vadia. – Chega! – vociferou ele com firmeza. – Por que está inventando essa história toda? – O motivo de toda essa história é que não quero lidar com você. Não quero lidar com isso. Eu... Eu não... Eu jamais teria lhe tocado se soubesse que aquele homem era você. – Mas era. – Havia um brilho negro nos olhos dele, mas que não se parecia em nada com triunfo. Era uma espécie de determinação ameaçadora. Ele estava tão feliz quanto ela com aquela situação. E ela não sabia o que pensar sobre isso. – Eu não quero você – cuspiu ela, sentindose desesperada. – Não quero. Eu não tinha ideia que era você. – Não se vanglorie nem por um momento achando que eu sabia que era você, Allegra. Você não passa de uma criança mimada. Uma


criança que jogou fora um futuro que seria infinitamente melhor do que esse. Jamais conseguiu compreender tudo o que possui. Nunca entendeu o que seus pais fizeram por você. – Se eu nunca entendi, então Renzo também nunca entendeu. E ainda assim, você não parece ter problemas em continuar amigo dele sem precisar lhe dar um sermão a cada trinta segundos. – Renzo assumiu a liderança dos negócios do seu pai. Ele não se esquivou dos próprios deveres. – Ou, você simplesmente prefere ser parcial. – Se estou sendo injusto, então é uma injustiça que o mundo todo entende como correta. Ela jogou as mãos para o alto. – Meus parabéns, então. Você é infinitamente terrível como a maioria da população.


O silêncio caiu sobre eles. Não era um silêncio vazio. Era carregado. De raiva, de alguma outra coisa que ela não queria identificar. – Se tem uma coisa que eu aprendi, Allegra – advertiu ele, seu tom de superioridade a enlouquecendo –, é que você não pode fugir das consequências. Não importa quem seu pai é. Não importa quanto dinheiro você tem. As consequências sempre nos alcançam. – Especialmente quando você não usa camisinha – disparou ela. Talvez ela não fosse isenta de culpa na falta de contracepção, mas o homem era ele. Com certeza ele deveria ter sido mais responsável. Outrossim, ela era uma virgem. – Você não comentou nada! – Você deixou claro que não queria que eu falasse! – Você não protestou – argumentou ele. Ela resmungou.


– Você não precisa fazer isso. Estou preparada para cuidar de tudo sozinha. Os olhos negros dele se estreitaram. – Qual a sua definição de “cuidar de tudo”? – Eu vou ter meu filho sozinha, e vou criá-lo como mãe solteira. Não é como se eu não tivesse recursos. Meus pais estão chateados, mas duvido que eles vão se afastar de mim. – Ela estava blefando. Os pais dela estavam furiosos e ela não tinha ideia do que iria fazer. – Você acha mesmo? – Bem, mesmo se eles se afastarem, Renzo não vai. – Para ser honesta, ela não tinha certeza do que os pais iriam fazer. Eles não falavam com ela desde que Allegra havia dado a notícia. Mas os pais dela sempre estiveram tão enredados em todos os aspectos da vida dela que Allegra não conseguia imaginá-los cortando-a da família de verdade. Ela não tinha ideia do que a mãe iria fazer com o tempo livre.


Mas talvez isso tivesse mais que ver com o casamento Real iminente do que com um desejo verdadeiro de passar algum tempo ao lado de Allegra. Allegra não queria pensar nisso. – Francamente, não me importo se seus pais estão planejando deserdá-la ou não, ou se seu irmão vai ou não bancá-la e a seu filho. Você não vai passar por isso sozinha. – Ninguém vai acreditar que nós dormimos juntos. Ninguém. Ele riu, um riso sombrio que abriu caminho dentro do corpo dela e envolveu as sua veias, aquecendo o seu coração. Ele nunca a havia afetado desse jeito. Geralmente, quando Cristian fazia o sangue dela ferver, era por causa da raiva. Mas aquilo era outra coisa. Uma lembrança compartilhada dos dois que ela não queria. – Nós não dormimos juntos – replicou ele, a voz cheia de sarcasmo. – Nós fizemos sexo.


Contra a parede. O rubor atacou o rosto dela. – Ninguém vai acreditar nisso também. – Por quê? Por causa de sua reputação impecável? – Para começo de conversa. – Mas ninguém precisa ficar sabendo como aconteceu. Obviamente, quando apresentarmos isso ao mundo será sob uma ótica diferente. Obviamente, você dirá aos seus pais que caiu de amores por mim, e que foi essa grande paixão e seus profundos sentimentos que a inspiraram a comprometer seu noivado. Ela estalou a íngua. – É mais fácil eles acreditarem que você me engravidou em um lugar público sem saber a minha identidade. – É mesmo? – Ninguém vai acreditar que eu o amo. Todos sabem o que sentimos um pelo outro.


– Tudo bem. Não é a minha reputação que vai desabar como resultado. Era você quem estava comprometida. Você é uma mulher. Portanto, todo o julgamento despencará sobre você. Ela bufou. – Já está despencando sobre mim. Caso não tenha visto nenhuma manchete ainda. – Isso pode ser uma surpresa para você, mas minha vida não gira em torno de ler novas histórias sobre suas façanhas. E por que eu deveria ler os tabloides? Eu fui falar com Renzo e ele sabia muito mais do que qualquer notícia de última hora. Ela se sobressaltou. – Isso quer dizer que... Renzo sabe? – Renzo não é idiota. Suponho que quando eu perguntei como você estava vestida no baile e depois que saí de supetão da sala após a revelação da sua gravidez, juntamente com as


indagações que você tinha feito sobre mim anteriormente, ele conseguiu ligar os pontos. – Mas você ainda está vivo – declarou ela, certa de que se o irmão soubesse que ele havia feito sexo com ela, Cristian na verdade já iria estar morto. – É claro. Tenho certeza de que faz sentido para ele eu não saber que era você. Ele sabe que, em circunstâncias normais, eu jamais a tocaria. A raiva e o orgulho feminino ferido correram pelas veias dela como um elixir tóxico. – Bem, ele deve ter muito orgulho dos seus padrões tão altos. Sinto muito por minha identidade ter sido uma decepção para você. Contudo, nós dois sabemos que você gostou bastante do que aconteceu. Na verdade, gostou tanto que não demorou nem um pouco. Os lábios dele se curvaram para cima. – Rápido ou não, você bem que gostou. – Quanta confiança.


– Eu me lembro perfeitamente de como foi intenso o clímax que a proporcionei, Allegra – mencionou ele, o tom seco. – Não dá para fingir isso. – As mulheres – pronunciou ela, com a voz trêmula – sabem fingir as coisas. – As mulheres só sabem fingir se seus parceiros são estúpidos ou inexperientes. Eu não sou nenhuma dessas coisas. – Ele aproximou-se um passo dela. – Eu a senti. Eu senti seu corpo tremer. Eu senti as ondas levando o seu corpo. Eu senti seu prazer com a mesma intensidade que senti o meu próprio. Não finja ter gostado menos só porque agora sabe a minha identidade. – É muito importante para você ter seu ego masculino afagado, mas ao mesmo tempo não aguenta nem olhar para mim. Isso é meio doentio, Cristian. Ele riu, secamente, impiedosamente. – Eu nunca afirmei o contrário.


– Você não me quer. E duvido que queira esse bebê. – Oh – contestou ele. – É aí que se engana. Eu preciso desse bebê. – Se precisa dele para algum tipo de sacrifício ritualístico, então você definitivamente está sem sorte. – Não, muito obrigado. Já tive mortes suficientes em minha vida, e não preciso de mais uma. Essa foi uma piada de muito mau gosto. Ela desviou o olhar. – Desculpe. – Não peça desculpas. Você não está sendo sincera. – Por que você precisa dessa criança? – Porque sim. Por mais humilde que eu possa ser, na verdade sou um aristocrata. Um duque. – Eu sei disso. Sua arrogância precede a sua chegada em qualquer lugar.


– Então indubitavelmente compreende a minha necessidade de um herdeiro. Um herdeiro legítimo. Meu filho não pode nascer um bastardo, Allegra. E eu também não posso perder essa oportunidade. – Nosso bebê... É uma oportunidade? – Certamente é uma oportunidade para a minha linhagem sanguínea. Sou um viúvo, e graças a isso eu falhei em gerar um herdeiro. Como já estou com mais de trinta anos, isso é cada vez mais imprescindível. Claro, meu próprio pai também gerou um descendente meio que por acidente. E apesar de minha mãe não ter sido nada além de uma modelo decadente, ele ainda fez a coisa certa para ela, para mim e para o ducado que depende da continuidade de nossa linhagem. E eu não posso deixar esse legado morrer. Você não concorda? – O que está propondo, exatamente?


– Isso mesmo que está pensando. Estou lhe propondo... – O quê? – O coração dela batia com tanta força que o sangue pulsava nos ouvidos. Ela sentia como se estivesse se afogando. Ela mal conseguia respirar, mal conseguia enxergar ao redor. – Allegra Valenti, você vai ter um filho meu. E será a minha esposa.


CAPÍTULO 3

CRISTIAN

a mulher recalcitrante sentada diante dele do outro lado de seu jatinho particular. Ele não sabia se já tinha visto alguma vez uma mulher tão furiosa na presença de tanto luxo. Nenhuma que ele conseguisse se lembrar, pelo menos. Fazia tempo que ele não recebia uma mulher em seu avião. Fazia tempo que ele não tinha uma mulher. Não que Allegra fosse a mulher dele. Ela não era, de forma alguma. Uma transa rápida contra a parede não a transformava em nada. Ela apenas o tornava mais fraco. Três anos de celibato. Era de se esperar, supunha ele. Apesar disso, ele não imaginava ENCAROU


que seria punido tão espetacularmente pela falta de controle. Ele achava que já havia sido punido o bastante na vida. Claramente, alguma deidade particularmente caprichosa em algum lugar discordava dele. E que bela punição Allegra Valenti era. Ela estava particularmente bonita de cara fechada, praticamente encolhida contra a janela do avião como se preferisse ser arremessada para a terra a ficar mais um instante na presença dele. – Tem algo a dizer, Allegra? – Por quê? Acho que já gritei tudo que tinha para dizer a você no apartamento. E outra vez quando estávamos no carro. Eu poderia gritar as mesmas coisas, mas acho que aí eu acabaria sendo repetitiva. – Oh, por favor, eu faço questão. Eu nunca me canso das suas desculpas. Elas são todas incrivelmente egoístas.


– Não é egoísmo pensar que talvez não seja uma boa ideia duas pessoas que não suportam sequer trocar olhares se casarem. – E por que não? Muitos casamentos são assim. Só vai precisar sobreviver até que a morte nos separe. – É fácil conseguir arsênico na Espanha? – Que delícia, Allegra. Por que nós demoramos tanto para botar em prática o que sentimos um pelo outro? – Você se refere ao arsênico? Ele riu. – Eu me refiro à nossa atração, mi tesoro. – Nós não temos uma atração, Cristian – assegurou ela, soando como se se fosse uma adolescente contrariada. – Nós dois tivemos de estar completamente fantasiados para que uma chama se ascendesse entre a gente. Eu diria que agora não precisamos nos preocupar com nada. A referência àquela noite lançou uma onda de calor pelo corpo dele. Desde o ocorrido, ele


só conseguia sonhar com ela. O fato de Cristian ter perdido a cabeça justo com Allegra Valenti havia se transformado em um pesadelo. Mas um pesadelo não menos erótico por causa disso. Ele não ficava com nenhuma mulher desde a morte de Sylvia. E não havia sequer tido vontade. Mas então ele descera as escadarias do salão de festas e se deparara com uma criatura púrpura e selvagem, de curvas generosas, envolta precariamente por um vestido sensual. Seu cabelo negro voluptuosamente encaracolado chegava à altura dos ombros expostos de forma tentadora. Naquele momento ele só conhecia uma coisa: desejo. Ele a desejara com uma fome profunda e primitiva que transcendia a realidade. Que transcendia a decência. Ele não queria que nada atrapalhasse aquele instante. Assim, quando se aproximou dela, ele impediu que ela falasse. Ele também não proferiu uma


palavra sequer para ela, com medo de perder o encanto que havia sido posto neles. Ele devia ter percebido que se tratava de bruxaria. E que ele iria arder no fogo por causa disso. Uma indulgência em uma vida de obediência, e pronto – ele havia colocado tudo a perder. – Eu acredito que está equivocada nesse quesito – alertou ele, em um tom monótono e cadenciado. – Uma química como a nossa é inegável. Ela fez um gesto com a mão. – Olhe só para mim: estou negando-a. – Sua negação é vazia, uma vez que está carregando meu filho no ventre. – Só porque eu não sabia que era com você que eu estava... Ficando naquela noite, na festa – retrucou ela. – Se é o que diz...


– Um casamento entre a gente jamais daria certo – garantiu ela, com amargor. – Oh, não tenho dúvidas sobre isso. Mas você vai se casar comigo antes de essa criança nascer, e nós vamos continuar casados pelo tempo que for necessário. Depois, poderá se divorciar de mim. Da forma mais rápida e indolor que preferir. – Um divórcio jamais será indolor, não com os pais que eu tenho. – Posso imaginar. Eles são católicos fervorosos, não são? Ela franziu o cenho. – Se depender deles, vou ficar casada com você até o fim dos tempos. – Mesmo assim, acho que minha necessidade de um herdeiro transcende as suas preocupações familiares. – Não há nada simples nessa questão, é o que estou tentando explicar. De qualquer forma, você fala como se eu pudesse tirar alguns anos


da minha vida de folga para ficar apodrecendo em algum castelo da Espanha. – É uma villa, na verdade. – E você é só um duque. Eu deveria me casar com um príncipe. – Não foi o príncipe que a colocou contra a parede, Allegra. Duvido que esteja com remorso por não poder mais se casar com o Príncipe Raphael. – Você percebe que está praticamente admitindo que está errado, não percebe? – interrogou ela, em um tom provocador. – Já que praticamente orquestrou o meu noivado com ele. – Eu não estava errado em relação às vantagens da união. Já química, por outro lado, ela é mais difícil de prever. Você claramente não sente nenhuma grande paixão por ele. As bochechas dela coraram. – O que o faz afirmar isso? Ele deu de ombros.


– Você não pensou nem por um momento que essa criança pudesse ser dele. Do contrário, não teria rompido o noivado. A que outra conclusão isso leva, senão a de que vocês não estavam dormindo juntos de fato? Ela o encarou, com uma expressão ilegível. – Talvez ele não seja seu. Talvez eu durma com todos os tipos de homens desconhecidos, nas festas por aí. Talvez a única certeza de que eu tenha é que esse filho não é de Raphael, pois ele é tão cavalheiro que jamais chegou a me tocar. – Você ainda acha que essa história vai colar? – Talvez ela seja verdadeira. Talvez eu seja a própria prostituta da Babilônia. – Ela ergueu o queixo e balançou a cabeça, seu cabelo negro brilhando sob a luz. – Você não me conhece, Cristian. Não de verdade. Não conhece a mulher na qual eu me tornei. Você tem essa ideia de que eu sou uma criança, mas eu já tenho vinte e poucos.


Ele riu, sentindo-se repentinamente muito velho. – Uma idosa. – Só estou tentando dizer que já sou uma mulher. Não importa o que você pense. – Não tenho dúvidas sobre sua feminilidade, Allegra. Ele ficou feliz ao ver as bochechas dela ganharem um tom mais escuro de rosa, mas a vitória veio com o seu preço. Ele sentiu um nó no estômago por causa do desejo. O corpo inteiro dele pulsou por causa da necessidade. Por Allegra. Era algo inaceitável. – Bem, um grande número de homens também não tem dúvidas – avisou ela. – Eles sabem como sou. Por experiência própria. Ele não acreditava nela. Ainda assim, a ideia de Allegra com outros homens o deixava enfurecido. Ele só podia atribuir aquele sentimento possessivo ao fato de ela estar


carregando o filho dele. Talvez também combinado com o fato de ela ter sido a primeira mulher com quem ele havia ficado em muito tempo. – Ou talvez – começou Cristian, observando o rosto dela atentamente – você tenha tanta certeza disso porque antes você era virgem. Ele reviveu o instante em que penetrara o corpo dela. Ela era virgem, não havia dúvidas sobre isso. Ele havia atribuído o grito que ela dera ao prazer. Mas agora, ele se questionava o que era verdade e o que não era. A verdade era... intoxicante. Ele deveria estar com nojo de si mesmo. No entanto, ele se sentia... triunfante. Se inquiriu se estava com a cabeça no lugar, se ainda estava sob o efeito de algum feitiço de magia negra. A cor no rosto dela intensificou-se. – Isso é ridículo. – É quase a verdade, suponho.


– Quem iria querer perder a virgindade dessa forma? – Ela soava quase histérica. – Talvez uma mulher sendo forçada a se casar com um homem que não ama? Ela não disse nada. A satisfação tomou conta do corpo de Cristian, e ele teve de ranger os dentes para não gritar de triunfo. – Essa criança é minha. Com toda a certeza. – Eu não afirmei isso. – Mas nem precisa dizer. – Ele manteve os olhos fixos nela, ignorando o distúrbio de calor que tomou conta dele. – Você vai me dar um herdeiro, um legítimo herdeiro, e assim estará protegendo a reputação desta criança. Depois, você pode continuar com a vida como se nada disso tivesse acontecido. – Eu ainda não concordei com nada! Está sugerindo que eu deixe nosso filho aos seus cuidados? – O herdeiro Acosta deve ser criado na Espanha, é o que eu acho certo.


– Isso é ridículo – replicou ela, cruzando os braços sobre os seios. Invariavelmente, os olhos dele foram atraídos para aqueles montes macios. – Não vou abandonar meu filho. Independentemente do que combinarmos. – Talvez eu possa instalá-la na área dos funcionários, depois que nosso divórcio sair. – Você não teria coragem. – Você tem amplas evidências de que eu tenho coragem para fazer muitas coisas, e apesar disso quer me desafiar? Ela virou-se lentamente, a cabeça fervilhando por causa da indignação. Não era como se ele nunca tivesse reparado na beleza dela – isso era evidente. A beleza havia desabrochado quando ela se transformara em uma adolescente carrancuda. Ele tinha a sensação de que a família dela nunca reparava nas alterações de humor. Que eles nunca haviam notado a expressão sutil de tristeza sempre que o casamento iminente era mencionado. Ou na


tempestade que brilhava nos olhos dela sempre que seu futuro era discutido. Mesmo desaprovando a atitude, Cristian a achava linda. Mas isso era diferente da forma como ele agora a enxergava. Agora, não conseguia olhá-la sem enxergar a mulher sedutora que o havia recebido na festa. Que o havia tocado como se ele fosse alguma espécie de milagre para ela. Você foi, mesmo. Ela era virgem. Cerrando os dentes, ele se recostou no assento. Por que ele estava se sentindo o vilão da história? – Quando chegarmos à Espanha, vou comprar um anel de noivado para você. Depois, vamos começar os preparativos para o casamento. – Eu não concordei com nada disso. Acho que você não me entendeu. – Não estou esperando pela sua permissão. Eu não preciso dela.


– Sim, precisa. Meu ex-noivo era um príncipe, e mesmo ele não pôde me forçar ao casamento. – Vamos discutir suas escolhas. As escolhas que parece achar que possui em abundância. Você pode voltar para a Itália, como uma mãe solteira que ainda teria de travar uma batalha judicial comigo. E eu acredito que sua mãe e seu pai ficariam do meu lado. – Ele a observou empalidecer. Ele quase se sentiu como um cretino. Quase. – Se você quiser brigar pela criança, se quiser uma vida de desgraça, onde certamente será renegada pelos seus pais enquanto eles abrem espaço para o neto, o neto que você rejeitou por se recusar a se casar com o pai dele, então fique à vontade. Posso pedir para que pousem o avião, e eu mesmo a acompanho no desembarque. Do contrário, sugiro que aceite o fato de que simplesmente acabou trocando um casamento arranjado por


outro. Mas eu, pelo menos, nunca vou desejar usar seu corpo novamente. Allegra ficou calada. Apenas continuou olhando para frente, piscando furiosamente, como se estivesse tentando não chorar. E mais uma vez, ele se sentiu como o vilão. Mas ele não estava sendo perverso. Estava meramente sendo prático. Ele imaginou que se mencionasse isso a Allegra, ela não iria concordar com ele. – Não tem nada a dizer? – perguntou ele. – Você deixou perfeitamente claro que não há nada para se dizer. Somente que vou me casar com você.


CAPÍTULO 4

ASSIM QUE tocaram

o solo da Espanha, eles foram rapidamente colocados em um carro luxuoso que os levou por uma estrada poeirenta até as colinas com uma vista privilegiada de Barcelona. Cristian estava certo, o local era mais uma villa do que um palácio, e não havia nada de feio ou podre nele. Allegra descobriu-se completamente irritada pelo fato de o lugar não ser a cara do dono. Na verdade, o lugar inteiro era arejado e claro, com grandes janelas com vista para o mar que permitiam que os raios de sol banhassem os cômodos.


Era muito diferente da casa dos pais dela na Itália. A villa não tinha as pompas dos ricos de outrora, e isso a deixava confusa. Ela sabia que a família de Cristian era tão antiga quanto a dela, repleta de títulos de nobreza. Porém, ali não havia os costumeiros painéis de madeira escuros, os tapetões puídos que haviam sobrevivido aos anos de desgaste e os quadros de cenas da Bíblia ou retratos de parentes ancestrais. Tudo era branco. Tudo estava imaculado. A casa beirava o futurismo – o que, considerando a relíquia que Cristian era, chegava a ser risível. – Essa não é a casa da sua família – contestou ela. Ele riu. – Eu informei que não estava lhe trazendo para um castillo. Mas também não comentei que não possuímos um. – E aquela história do seu filho precisar ser criado nas terras santas da sua família, e tudo


mais? – Eu sou espanhol. Às vezes nós exageramos para criar um efeito dramático. Na verdade, eu exijo que meu filho nasça na Espanha. E que eles nasçam dentro de um casamento. Se isso vai acontecer aqui ou nas ruínas antigas da minha família, não faz diferença. – Vocês possuem ruínas? – quis saber ela. – Isso me parece... bom, arqueologicamente significante, pelo menos. Ele deu de ombros. – Não sei se são ruínas, de fato. É mais um grande pedaço de terra centrado em um castelo antigo que eu não tenho desejo de habitar. Eu mantenho uma equipe completa de funcionários para manter o castelo e a propriedade em ordem. Também tenho um administrador que cuida das fazendas e de seus locatários. Mas minha mãe deixou o lugar há muito tempo e, como você sabe, faz tempo que meu pai faleceu.


Ele falava sobre os pais com uma neutralidade estudada, que ela sabia que não era acidental. Ela escondia a verdade, onde quer que ela estivesse. – Meus pais são casados com os velhos corredores da propriedade da família. Eles jamais sonhariam em deixar o lugar. Na verdade, se meus pais morressem e Renzo deixasse a casa apodrecendo ao léu, posso garantir que meu pai voltaria do além para assombrá-lo, arrastando as correntes sobre a prataria sem polir. Cristian a estudou atentamente, com um estranho brilho nos olhos. – Você acha que seu pai ficará acorrentado na vida após a morte? – Eu estava sendo dramática. Sou italiana. Nós também somos capazes de exagerar por um efeito dramático, se ainda não reparou. Ele ergueu o olhar, para algum ponto além dela, e a luz do sol refletida nos olhos dele


revelou que na verdade eles não eram puramente negros, mas tinha uma rica tonalidade de café. Ela revelava também que havia humanidade por trás daquele olhar. – Meu pai certamente está acorrentado. Se existir justiça na outra vida, é claro. – Eu espero de verdade que exista. Há muito pouca justiça nesta vida. Ele olhou ao redor do cômodo. – Você acha essa situação injusta? – De que outra forma quer que eu encare essa situação? Ele levantou a mão. – Você está em uma casa multimilionária, em uma das partes mais bonitas da Espanha. Tem um homem com um título, e vários bilhões de dólares, disposto a se casar com você e assumir seu filho. Eu diria que não muitas pessoas se sentiriam perseguidas na sua atual situação.


Ela arqueou uma sobrancelha, sem se render. Ela jamais iria se render de novo a Cristian. – As pessoas que não se sentiriam perseguidas nesta situação são aquelas que não o conhecem tão bem como eu. Ele deu um passo na direção dela, seus olhos brilhando como diamantes negros. – Ah, sim, você me conhece, não? Intimamente. Ela se sentiu-se ofendida pelo calor que tomou conta do rosto, e do rubor que com certeza o acompanhava. Ela sentia-se ofendida pela maneira como ele conseguia afetá-la. – Não acho que isso conte. Até onde eu sabia, você era a Morte. – Que romântico. Conquistar a Morte dominando-a. Todavia... – ele esfregou o queixo, o som da barba por fazer estranhamente excitante –, eu não fui dominado.


– Na verdade, não tenho problemas com isso. Se alguém precisa dominá-lo, Cristian, espero que não seja eu. Não quero ficar presa a você da mesma forma que uma criança ficaria com um cachorro que a seguiu no caminho para casa. Ela soube, no momento em que as palavras saíram de sua boca sensual, que havia cometido um erro. Soube no instante em que ele avançou na direção dela, mas descobriu-se paralisada, incapaz de se mover. Então, conforme ele se aproximava, ela deu um passo para trás, e depois outro. As costas entraram em contato com a parede, e ela foi lançada ao passado em um flash de lembrança. Daquela noite. De quando Cristian deslizou as mãos por todo o corpo dela, de quando ele a havia feito perder a cabeça, a sua pureza, naquele momento brilhante de glória vergonhosa no corredor desolado de um palácio.


– Não sou um cachorro – advertiu ele, com a voz grave. Ele estava tão perto que ela podia sentir o calor irradiando do corpo dele, mas ele não a tocou. Para a própria vergonha, ela sentiu o corpo começar a amolecer para ele por vontade própria. Sentiu um latejar começando a crescer entre as coxas, na mesma velocidade alucinante de seu coração. – Acho mais provável, Allegra, que seja eu quem tenha de domá-la. Acho que é você quem precisa ser posta em seu lugar. – Ele inclinou a cabeça para o lado, estudando-a atentamente. – Sim, até mesmo agora, você me deseja. Pode dizer que não sabia quem eu era, pode falar o quanto quiser que me despreza. Mas me deseja. Tanto quanto me desejou naquela vez. Você me quer agora, mesmo sabendo quem eu sou. – Ele então afastou-se dela, e Allegra soltou a respiração, sentindo-se zonza pelo esforço de prendê-la. – Interessante.


– Não tem nada de interessante nisso – argumentou ela, tensa. – Repugnante seria uma palavra melhor. Cristian e ela sempre haviam brigado. Sempre. Mas desta vez era diferente. – Tão repugnante que deseja ser preenchida por mim, nesse exato instante. O que isso diz sobre você? Ela rangeu os dentes por causa do calor e da humilhação que crescia dentro dela. – Não entendo por que você quer me seduzir, Cristian. Vou concordar com o casamento, mas você não vai me tocar. E não vai se casar comigo em uma igreja. Até eu tenho meus limites. – Que pena. Porque eu não tenho. – O destino de sua alma eterna é problema seu. Eu gostaria que a minha continuasse incólume. – Ela não queria mentir na frente dos pais, mas iria ter de fazer isso. Mas mentir em uma catedral já era demais.


– Vou fazer o melhor possível. Se bem que é muito provável que sua relação comigo tenha lhe deixado terrivelmente marcada. Ela bufou e atravessou a sala, cruzando os braços sobre o peito e segurando firmemente os cotovelos. – Com o peso pós-gravidez, pelo menos. – Sim – assegurou ele com seriedade. – É muito provável. – Vamos ter de contar para a minha família. – Seus pais gostam muito de mim. – Acho que eles gostavam mais do príncipe com quem eu ia me casar. Você é um duque. É meio que um rebaixamento. Ele deu de ombros. – A Espanha é um país muito maior que Santa Firenze. Eu diria que você está trocando seis por meia dúzia. Apesar de tudo, ela riu. Não havia nada de engraçado naquela situação, e os comentários dele eram tão sombrios que ela mal podia


acreditar. Mas estava muito cheia de tensão para fazer qualquer outra coisa. Se não se permitisse liberá-la um pouco, Allegra iria acabar se estilhaçando por completo. – Se está determinada a manter seu corpo longe de mim, fique sabendo que vou buscar prazer com outras mulheres – avisou ele. Cristian soava entediado com tudo que estava acontecendo, enquanto ela parecia estar prestes a entrar em combustão. Isso lançou na mente dela uma visão completamente diferente. Uma visão de Cristian com outra mulher. Uma loira, alguém pálida e muito diferente de si mesma. Ele iria colocá-la contra a parede? Ele iria derramar sua paixão sobre ela? Ela não tinha dúvida de que, naquele corredor, ele havia sido passional. Passional o bastante para esquecer da camisinha quando, pelas próprias palavras, era um homem


experiente. Bem, ele já havia sido casado, então ela supunha que ele tinha experiência. Mas agora ele estava pensando nele com outras mulheres. Muitas mulheres. Isso lhe deixou com um gosto amargo na boca. O que não deveria acontecer. Deveria estar aliviada. Feliz por ele querer procurar prazer em outro lugar, em vez de continuar suas investidas. Entretanto, isso não a deixava feliz. – Isso não faz diferença para mim – retorquiu ela, fungando de indignação. – Não me importo nem um pouco com o que você faça. Ou com quem. – Você não parece tão neutra assim. – E ele parecia estar se divertindo com a falta de neutralidade dela. – Se seu ego precisa acreditar nessa ficção, Cristian, então fique à vontade. Mas eu não ligo para o que você faz com outras mulheres. Contanto que eu não esteja envolvida. Ele deu de ombros.


– Eu nunca vi o sexo como uma atividade em grupo, mas eu posso mudar de ideia, Allegra. – Ele inclinou-se para frente, sua voz ficando ainda mais grave. – Da última vez, tudo que tivemos foram alguns momento contra a parede. Imagine só tudo que um homem como eu pode fazer com um colchão grande e macio. Eu poderia colocá-la embaixo de mim... Em cima de mim... Na minha frente. Ela ficou atônita, sentindo o rosto tão quente que teve a certeza de que iria arder em chamas a qualquer instante. Era indignante e humilhante. Indignante porque ele estava tentando arrancar uma reação dela. E humilhante pelo mesmo motivo. Ele não a queria. Ele queria abri-la ao meio. Ele queria atormentá-la, como sempre fizera. Ela não deveria se importar. Ela não deveria se importar nem um pouco. – Absolutamente não. – Ela bufou. – Não vou ser um acessório carnal para você usar


como bem entende. Ele riu. Ele riu. – Que evocativo. Mas o único problema que eu vejo aqui são as pessoas acreditarem que eu a escolhi como esposa, Allegra. – Por quê? Eu venho de uma família nobre. Fui criada para ser uma princesa. – Mas agora todo o mundo sabe do seu fracasso. Que o príncipe se cansou de você, ou que você foi infiel a ele. – Eles vão encaixá-lo no meio dessa história também – comunicou ela. – Eu não fui infiel a Raphael sozinha. É aí que está o problema. E uma imagem muito excitante. O calor fez as bochechas dela arderem. – Pare. Nada disso é justo. – O mundo raramente é justo com as mulheres, tenho certeza de que você está bem ciente disso. Ela sabia que ele estava certo.


– Bem, se eu vou trazer tamanha desgraça para o nome da sua família, talvez você deva considerar outra mulher para ter seu santo herdeiro Acosta. Isso lhe causaria menos problemas no final das contas. Claramente, você não teria nenhuma dificuldade para conceber outro filho. A expressão dele tornou-se intensa. Feral. – Está sugerindo que eu posso facilmente substituir um filho meu? Que tudo que eu preciso fazer é dar a minha semente para outra mulher, que isso não faria diferença? Nunca. Um filho meu jamais passará necessidades. E eu jamais abandonaria um filho meu na ilegitimidade. Isso não está aberto à negociação. Ela olhou para as unhas, e começou a descascar o esmalte. De quê adiantava uma manicure perfeita? Para que apresentar-se perfeita para o mundo quando, na verdade, ela


não era perfeita em nada? Estava começando a desmoronar. A começar pelo esmalte. – Eu não tinha percebido que ter um filho é tão importante para você – declarou ela. – Eu me casei cedo na esperança de produzir um herdeiro logo, Allegra. Sei que você conhece a minha história. Infelizmente, a saúde de Sylvia impedia que ela carregasse um filho. E, quando ela faleceu, eu fiquei sem esposa e sem herdeiro. – Sinto muito – disse ela, sentindo pesar por ele naquele momento. Era difícil ser irascível com ele, ou até mesmo vê-lo como irascível, com ele falando de sua dor. – Mas você sabe que não pode substituí-la por mim. Sabe que simplesmente não é possível... consertar o passado. – Claro que sei – replicou ele, com um tom repleto de desdém. – Você não se parece nem um pouco com ela.


O desdém dele a tocou profundamente; ele tocou uma parte carente dela que estava sempre desejando a aprovação que ela jamais iria ter. A sensação era insuportável, como se ela estivesse prestes a explodir. – Você deve tê-la amado muito – comentou ela. Pelo menos a dor dele a ajudava a lidar com os próprios sentimentos feridos. – Ela era minha esposa – pronunciou ele. Somente. Simplesmente. Allegra percebeu que aquilo não era exatamente uma resposta ao comentário. Ele havia empregado o mesmo tom que usava quando falava dos pais. Ela não achava que isso fosse mera coincidência. – Não tinha percebido que ser pai é tão importante para você. Ele deu de ombros. – Ser pai é essencial para mim. Eu preciso dar continuidade à minha linhagem. Preciso garantir que nossos bens e nossas


responsabilidades sejam passadas para as gerações futuras. Mas se você acha que eu pretendo passar meus dias bancando a babá, está redondamente enganada. – Como assim? – Desculpe, mas você achou mesmo que eu quero essa criança por algum motivo sentimental? Esse é um dever meu. Pura e simplesmente. – Mas acabou de dizer que não pode substituir essa criança por outra facilmente. – Eu possuo honra, Allegra. Não vou tirar do meu filho ou filha seus direitos de nascença. Não vou relegá-lo a uma vida de ilegitimidade só porque eu não consegui entrar em um acordo com a mãe dele. Contudo, por mais honrado que eu seja, eu também sou um cretino frio. Uma criança acabaria congelando em meus braços. – Por que alguém diria uma coisa dessas? – questionou ela.


Ele arqueou uma sobrancelha. – É a verdade. Eu fui um marido terrível, Allegra. Incapaz de dar a Sylvia o que ela precisava, o que ela ansiava. Por que as coisas seriam diferentes com uma criança? – Por que se acha... incapaz? Não compreendo. Ela sempre me pareceu tão feliz ao seu lado. E você ao lado dela. – Ela era desesperadamente infeliz – afirmou ele, com um tom sombrio. – E eu não conseguia fazer nada para mudar isso. – Você pelo menos tentou? Os olhos dele eram intensos e negros como a noite. – Claro que tentei. Mas nada era suficiente. Não sou o tipo de homem certo para coisas delicadas. – Bebês são muito delicados – apontou ela. – Estou ciente disso. – Quem você pretende colocar para cuidar de nosso filho? Pretende me dar um pé assim


que nossa associação tiver terminado, e você falou que deseja que a criança permaneça aqui. – Vou contratar alguém. Alguma pessoa bem-treinada, qualificada. Uma onda de ansiedade surgiu dentro dela, misturando-se com a raiva, o ressentimento e o medo. Ela não fazia ideia de como ser uma mãe, mas tinha sempre imaginado que um dia iria se tornar uma, é claro. Como futura esposa de um príncipe, produzir um herdeiro sempre fora um dos tópicos mais importantes do acordo. Ela não havia imaginado que iria engravidar assim tão cedo, mas sabia que isso estava fadado a acontecer. E, embora ela não se sentisse totalmente... sã no instante, Allegra tinha certeza de que queria aquela criança. – Quem é mais qualificada para cuidar de uma criança do que sua própria mãe? – interrogou ela, com uma sensação profunda e primitiva.


Uma mãe. Ela era a mãe daquela criança, e iria fazer o possível para lhe dar de tudo. Enquanto nada mais era certo, disso ela estava segura. – Alguém com diploma em desenvolvimento da primeira infância? Ela riu. Não porque era engraçado, mas porque ela estava chocada. Porque não havia outra resposta mais adequada – não quando ela estava esperando um filho do melhor amigo do irmão mais velho, que provavelmente a odiava. – Você acha que uma pessoa que estudou para cuidar de crianças é mais adequada para criar nosso filho do que nós mesmos? – Certamente melhor do que eu. Não posso falar por você. No entanto, como estava destinada a uma vida de princesa, duvido que pretendesse passar os dias trocando fraldas e correndo de um lado para o outro entre eventos esportivos e visitas de amiguinhos. Ela balançou a cabeça.


– Você não faz ideia de quem eu sou, Cristian. Você criou na sua mente a ideia de que eu sou algum tipo de fedelha mimada. Mas na verdade não me conhece nem um pouco. – E de onde eu poderia ter tirado essa ideia? De nossas interações, talvez. – Que interações? – inquiriu ela, jogando o cabelo para trás, dando-lhe uma visão privilegiada. – Bem, teve aquele Natal em que você me mandou com todas as palavras ir para o inferno. – Você tinha dito que minha roupa me deixava parecendo uma pastora desesperada para encontrar o cavalariço certo para entrar debaixo da minha saia! Os lábios dele se curvaram em um meio sorriso. – Foi o que disse. E era o que você parecia. Ela não achava que ele fosse se lembrar. Allegra achava que ela não significava nada


para ele. Que cada discussão, cada briga e picuinha entre eles desaparecia da mente dele assim que terminava. – Teve também aquela noite em que você me arrastou para o corredor e me deu um sermão, porque eu estava de cara emburrada perto de Raphael em uma festa de verão que meus pais haviam organizado. – E era verdade. Ele era o seu noivo. O homem com quem você ia passar o resto da vida, e estava agindo como se ele fosse uma comida que não deveria estar no seu prato. – E isso não podia acontecer, senão pegaria mal para você, não é mesmo? – Naturalmente – proferiu ele com seu tom brusco, os olhos negros cintilando. – Você é horrível. Você é horrível comigo, e não liga para os meus sentimentos. Acha que só porque meus pais arranjaram para que eu me casasse com um príncipe, deveria ficar de joelhos e os agradecer.


– Não – contestou ele, sua voz tornando-se tempestuosa. – Acho que deve ficar de joelhos e agradecer por seus pais se importarem tanto com você. Por eles se preocuparem com a pessoa que vai se tornar um dia. Por acreditarem que é capaz de aguentar a pressão de ser uma princesa. O fato de eles acreditarem que aguentaria a pressão de estar casada com Raphael mostra que eles só acreditam no melhor que há em você. Que eles acreditam em você. Em você e em Renzo. Mesmo que não consiga enxergar, isso é um bem valioso que muitas pessoas não têm. Allegra imaginou se ele não estava falando de si mesmo. Ela sabia que o pai dele já era mais velho quando ele tinha nascido, e que a mãe tinha sido bem ausente. Ela também sabia que desde garotinho ele tinha passado as férias e feriados com a família dela, o que sem dúvidas indicava que a família dele não fazia nada nessas ocasiões.


– Entendo o que você está dizendo – assegurou ela. – O problema é que eles gostam muito mais de quem eles querem que eu seja do que da pessoa que eu realmente sou. – Você está dizendo que seu casamento com Raphael estava fadado a não acontecer? Ela balançou a cabeça. – Não. Eu teria me casado com ele. Engraçado você achar que meus pais atribuem minha habilidade para ser uma princesa à minha força. Porque eu não tenho certeza de que sou forte. Acho que sou apenas obediente. – Respirando fundo, ela olhou para o oceano lá embaixo. – Agora, por favor, mostre onde fica meu quarto. Estou exausta, sem forças para continuar discutindo com você. Não havia mais o que discutir, de qualquer forma. Ela havia feito um pacto com o diabo. Havia concordado em se casar com ele. Pelo bem da criança. Essa era a vida dela agora. Mas, pelo menos, diferente do casamento com


Raphael, naquele ali havia uma saĂ­da. Ela precisava apenas manter-se focada nisso, e nĂŁo pensar em mais nada.


CAPÍTULO 5

–O

diabos está acontecendo, Cristian? Achei que você ia entrar em contato comigo. Mas depois daquele dia que saiu correndo do meu escritório eu não ouvi mais falar de você. E agora fiquei sabendo através de terceiros que sequestrou a minha irmã e a levou para a Espanha. Ele e Allegra estavam na Espanha somente há cinco horas, mas as notícias aparentemente chegavam voando para o irmão mais velho e enfurecido dela. – Você não é um homem estúpido, Renzo – argumentou Cristian, virando-se para olhar através da janela de seu escritório. – Acredito QUE


que seja capaz de juntar os pontos e descobrir exatamente o que está acontecendo. – Está me dizendo que é o pai do filho da minha irmã? – É o que parece – retorquiu ele, entre os dentes cerrados. – Que bom então que fugiu para a Espanha, do contrário eu já estaria na sua casa, pronto para matá-lo. – Mas daí seu sobrinho ficaria sem pai, e quem iria se beneficiar disso? – Como se atreve? – Ele podia ouvir a violência mal contida no tom de voz do amigo. – Como se atreveu a tocar um dedo nela? Ela não é quem você pensa que é. Ela é muito inocente e idealista demais para o próprio bem. Cristian esfregou a testa. – Acredite ou não, eu não tinha a intenção de corromper a sua irmã. Tudo não passa de um caso infeliz de confusão de identidade. Ou


melhor, duas pessoas que não se importavam com a identidade um do outro. A explosão de riso de Renzo não tinha nem um pingo de humor. – E espera que eu acredite que você não tinha a mínima ideia de que se tratava de Allegra? A pergunta do amigo era tão afiada e certeira que Cristian a sentiu perfurar a pele profundamente. – Não tenho interesse em meninas. Especialmente meninas que são fedelhas mimadas, e também comprometidas. Houve uma pausa, e Cristian teve a sensação de que Renzo estava debatendo se devia contratar um matador de aluguel ou não. – O que você vai fazer? – Obviamente, eu pretendo me casar com ela. Estou com uma aliança na palma da minha mão nesse exato momento. – Ele pegou uma caixinha aveludada de cima da mesa e a abriu. Ele havia mandado trazer do castillo o anel


mais ostentoso da família, mais cedo naquele mesmo dia. Ele pretendia colocá-lo no dedo dela naquela noite, durante o jantar que seus funcionários prepararam. Ela estava brava com ele, isso era compreensível. Ele não era famoso pela docilidade. A acidez era mais o talento dele. Porém, ele sabia que isso teria de mudar. Ele não precisava ser um tirano com Allegra. Ela era a mãe do filho dele, e Cristian não via motivos pelos quais eles não podiam viver juntos, de certa forma pacificamente. – E ela concordou? – quis saber Renzo. – Sim – respondeu ele. – Por algum motivo eu não consigo imaginar Allegra concordando em se casar com você. Ela o odeia. – Oh, não se engane, o ódio dela por mim continua intacto. Todavia, ela não é estúpida. E eu sou um duque. Eu não posso ter um filho bastardo, independentemente de quem esteja


carregando a criança. Entendo que isso pode prejudicar a nossa amizade, mas é algo que precisa ser feito. – Isso não vai prejudicar nossa amizade tanto quanto o fato de você ter engravidado a minha irmã e a jogado para os lobos. Entretanto, a vida que meus pais sonharam para ela não é a que eu quero que ela tenha. Ela nunca quis se casar com o Príncipe Raphael, então eu apoio a decisão dela. Só por ser uma mulher, as pessoas esperam que ela coloque de lado as aspirações em nome de um casamento vantajoso. Como se ainda estivéssemos no século XVIII. – As coisas não são tão diferentes para você. As pessoas esperam que você assuma o legado de seu pai. E que se case, também. Para ter um filho que possa herdar seu dinheiro e sua empresa. – Mesmo assim, meus pais não se preocupam tanto com quem eu possa me casar.


Eu poderia me casar a qualquer instante, com qualquer uma. – Mas você não vai fazer isso. Renzo riu. – Não subestime minha falta de vergonha na cara. Na verdade, pretendo me casar com a candidata mais inadequada que eu encontrar, quando chegar a hora. E com isso eu espero ganhar mais uns vinte anos. Cristian jamais havia entendido a falta de preocupação de Renzo para realizar os desejos dos pais. O amigo dele não sabia a sorte que tinha. – Da próxima vez em que nos falarmos, eu já estarei noivo de sua irmã. E depois disso, pretendo conversar apropriadamente com seus pais. – Por que a levou para a Espanha? – inquiriu Renzo. – Em parte, para que você não conseguisse me matar sem antes pegar um voo. Mas


também porque eu estava disposto a convencêla. Ela acabou sendo mais razoável do que eu imaginava, mas só depois de eu praticamente carregá-la para dentro do meu jato particular foi que ela concordou com a união. – Não posso mais falar desse assunto, do contrário eu vou matá-lo com minhas próprias mãos. E não vou perder uma noite de sono por causa disso. – Então não vamos mais falar disso. Agora, se me der licença, tenho um acordo para selar. – ESTOU MUITO feliz por você estar aqui. – Maria, que havia acabado de se apresentar a Allegra como a governanta da casa de Cristian, estava extasiada enquanto colocava um enorme saco de lavanderia sobre a cama. – Nos últimos anos, ele tem estado muito triste. Muito sério. Allegra imaginava que a governanta queria dizer desde que a esposa dele havia falecido.


– Vai ser bom ter uma nova mulher na casa – continuou Maria. – Não faz bem para um homem ficar sozinho. Allegra achava que Cristian praticamente preferia ficar sozinho. Ele pelo menos preferia a solidão a estar com ela. – Estou feliz por ele não estar mais tão solitário – mencionou ela, voltando a atenção para o saco. – Seu vestido para esta noite – informou Maria, como se estivesse lendo a mente dela. – Não sei se preciso de um vestido especial para o jantar. – Claro que precisa. Cristian insistiu para que você usasse algo especial, e eu me esforcei ao máximo. Tenho certeza de que você não vai rejeitar meus esforços – disse Maria, encarando Allegra com um olhar incrivelmente penetrante. Allegra balançou a cabeça. – Claro que não.


Maria pareceu ficar triunfante. – Que bom. Agora, vou deixar que termine de se aprontar. Os esforços de Maria eram um pouco exagerados na opinião de Allegra. Embora o vestido de seda fosse lindo, com seu tom de vermelho vivo que complementava a pele e as curvas dela. As mangas compridas davam vislumbres da pele dourada dela por baixo. A gola tinha o formato de um coração, acomodando-se ao busto dela para criar um efeito dramático. Ela virou-se de lado para examinar a cintura, e se indagou quanto tempo ainda faltava para que a gravidez começasse a ficar aparente. A gestação já estava em sua oitava semana. Mas ainda não havia sinal aparente das mudanças ocorrendo dentro dela. Que engraçado. Aquela criaturinha em seu útero já havia bagunçado absolutamente tudo, mas ainda não tinha tido a decência de dar as caras.


Allegra encarou o reflexo e se questionou se estava evidente que se sentia deslocada. Mas depois de colocar o vestido, ela se sentiu na obrigação de arrumar o cabelo. Então ela descobriu maquiagem no banheiro, apenas uma sombra, provavelmente adquirida previamente pela equipe da governanta. Bem, ela não conseguia se imaginar usando aquele vestido de cara lavada. Assim, ela aplicou um pouco de sombra dourada, um pouco de delineador líquido e um batom escarlate. Claro que Cristian ia achar que era tudo para ele. Claro que iria atribuir o comportamento dela à atração incontrolável que ela sentia por ele, que simplesmente não existia. Ela respirou fundo e abriu a porta do quarto, endireitando os ombros antes de caminhar até a escadaria. Ela desceu cada degrau lentamente, seus movimentos sendo restringidos pelo vestido justo que chegava à altura dos joelhos.


Quando o salto alto do sapato dela tocou o piso, ela ergueu o olhar e deparou-se com Cristian. Seu coração deu uma reviravolta no peito e seu estômago se retesou, conforme um pulsar latejante começou no ápice entre as coxas dela. As coisas estavam diferentes agora. E seria impossível que voltassem ao normal. Não agora que sabia o que ele podia fazer o corpo dela sentir. O que era estranho, pois não tinha lembranças de como o corpo dele era. Exceto pelo peito, ela nunca o havia visto nu. E como ela não tinha visto o rosto dele, Allegra não sabia como Cristian ficava quando estava na beira do precipício do prazer. Ela não sabia qual era o gosto do beijo dele, pois a boca dele estava oculta naquela ocasião. E ainda assim, cada interação entre eles parecia colorida pelo fato dos corpos dos dois terem se unido. O que era justo, pensou ela, pois a vida inteira dela tinha sido alterada graças ao fato de


os corpos dos dois terem se unido. – Eu meio que esperava que você aparecesse vestida como uma criatura indigna. Ela franziu o cenho. – Eu não pareço nem um pouco indigna. E também não sou uma criatura, ou uma criança. Eu sou uma mulher, e sei me vestir como uma, particularmente quando recebo o convite para um jantar. – Considere a minha surpresa agradável. – Ele estendeu a mão para ela, e o movimento a jogou violentamente de volta àquela noite no salão de festas. Quando ele estendera a mão coberta pela luva de couro na direção dela, o momento em que ela concordara em ser levada para o Mundo dos Mortos. – Vamos? Ela sentia como se ele estivesse fazendo uma pergunta completamente diferente. Como se ele estivesse pedindo a alma dela, e não apenas a mão.


Os braços dela pareciam pesados como chumbo ao lado do corpo, fazendo com que ela não conseguisse aceitar o convite. Outra vez, não. Não com as visões daquela noite rondando a mente dela, fazendo-a se sentir zonza, atordoada. Lentamente, ele abaixou o braço. – Ou, você pode simplesmente me seguir. Ele virou-se e seguiu por uma trilha que levava até o terraço, onde uma mesa havia sido posta para duas pessoas. Era uma cena estonteante, elegante e perfeitamente adequada para o vestido que ela estava usando. A mesa estava forrada das comidas favoritas de Allegra. Macarrão, tiras finas de filé, salada verde acompanhada de molho vinagrete e coberta de queijo. – Como você sabia? – Eu passei bastante tempo da minha vida jantando com a sua família, Allegra. Eu observo as coisas.


A maneira como ele proferiu aquelas palavras fez Allegra sentir como se ele tivesse pegado o coração dela, apertando-o com força. Ela cerrou os dentes, tentando afastar essa sensação. – Não sabia que estava prestando tanta atenção em mim, a ponto de saber o que eu gosto de comer. – Ou, talvez, eu tenha ligado para o seu irmão. Fica a seu critério descobrir qual das opções faz mais sentido. – Ele deu um passo adiante, segurou as costas da cadeira e a puxou. – Sente-se. Ele estava fazendo Allegra sentir-se culpada. Era como se ela é que tivesse pisado fora da linha, quando na verdade foi ele quem a enfiou em um avião e a obrigou a concordar com aquela união, inclusive sob a mira de ameaças sobre custódia. Ela não deveria estar se sentindo culpada só por não estar respondendo


adequadamente ao jantar de desculpas dele. Ou seja lá o que aquilo fosse. – Tudo parece delicioso – declarou ela, quase engasgando com as palavras, contudo. – Não tenho dúvidas. Minha equipe faz um trabalho muito bom. – Comida italiana e espanhola, eu vejo. – Contratarei uma pessoa de fora especialmente para preparar a comida de um jeito que você goste. Ele pronunciou aquelas palavras com displicência, quase com frieza. Apesar disso, ela não conseguiu evitar ser afetada por elas. Era como se ele estivesse se esforçando para fazê-la se sentir bem-vinda ali. Se bem que ela se sentia como se fosse um prisioneiro recebendo a última refeição. Estava dividida entre as duas sensações. A de estar sendo cuidada com carinho, e a de estar sendo enjaulada. – Você não acha que devemos adiar o casamento um pouquinho?


– Não muito. Não desejo ver em tabloides fotos de você entrando na igreja como se estivesse prestes a explodir. Nosso filho vai ter acesso a essas fotos depois. E embora eu ache que um dia ele vá descobrir a verdade sobre a concepção dele, espero que não seja algo tão descarado. Na era da internet, não existem mais segredos bem-guardados. – Não estou sugerindo que nos casemos horas antes de eu entrar em trabalho de parto. Mas talvez possamos esperar até depois da parte mais instável da gravidez? – E quanto isso vai demorar? – interrogou ele sem esperar para começar a comer. – Cerca de um mês. – Bem, é o tempo necessário para planejarmos tudo. Um casamento da nobreza nunca é um evento pequeno, mesmo se restringirmos a lista de convidados. Haverá interesse, e eu não pretendo varrer esse


casamento para debaixo do tapete. Novamente, eu estou pensando no bem do nosso filho. Allegra não havia pensado que ele desejava uma cerimônia de casamento completa. Ela vinha imaginando uma união simples, apenas no cartório. Mas enfim, de certo, duques espanhóis não se casavam apenas no papel, ponderou ela. – Oh – vociferou ela, soando tão confusa quanto se sentia. – É só que... digo, você já se casou antes. – Precisamente – advertiu ele, tomando um gole de vinho –, eu já fui casado, e essas fotografias estarão disponíveis para nosso filho ou filha. Não quero que nosso filho pense que eu me casei com a mãe dele na pressa, de maneira menos honrada do que com minha primeira esposa. – Mas é exatamente o que está acontecendo. – Aparências, – retrucou ele. – São essenciais quando se vive sob a mira do olho público.


Aparências muitas vezes são mais essenciais do que a realidade. Allegra sabia muito bem que isso era verdade. Era por isso que os pais dela estavam constantemente revirando os olhos diante das excentricidades de Renzo. Ele era um playboy do mais alto pedigree, mas como era um homem, seu tato nos negócios anulava qualquer comportamento suspeito. Ela havia sido avisada, desde muito pequena, que o público não iria perdoá-la da mesma forma. A discussão nunca era sobre o que ela havia de fato feito, mas sim sobre o que o mundo iria ficar sabendo. – Eu compreendo. É só que... suponho que podemos usar o argumento que nós estamos tão apaixonados que não conseguimos esperar mais para nos casar? Ele riu, um som amargo e vazio. – Uma verdade que seria fácil de criar, se não estivéssemos planejando nos divorciar dentro


de dois anos. – Casar-se às pressas e divorciar-se tão rápido quanto? – Embora isso faça sentido, de certa forma, insisto para que façamos tudo direito. Ela suspirou pesadamente, e os dois continuaram em silêncio. Ela nunca sabia o que dizer para ele. E nunca soube. Sempre que ele aparecia para jantar, nos últimos anos, apenas ficava sentada ouvindo Renzo e ele contarem histórias um sobre o outro, em uma interação natural e agradável aos olhos do pai e da mãe dela. Agradável de uma forma que Allegra parecia nunca conseguir ser. Ela estava sempre com medo de dizer algo errado – e quando falava, inevitavelmente acabava se equivocando. Ou ela não tinha a resposta que as pessoas estavam procurando, ou acabava em uma discussão. Era o que sempre acontecia entre Cristian e ela. De


boca fechada ou com raiva. Não havia um entremeio. Provando que as palavras dele eram verdadeiras, a comida estava excelente, ela acabou comendo mais do que devia. Levando em consideração que logo precisaria caber em um vestido. Imaginou se era esperado que ela usasse o mesmo vestido de noiva. Um pensamento terrível. Logo após esse pensamento veio a conclusão de que ela ia estar grande demais para aquele vestido quando chegasse a data da união com Cristian. Ela estava grávida e não ia fazer nenhuma dieta pré-nupcial drástica. A mãe dela ia ficar apoplética. Ainda estava pensando em tudo isso quando terminou de jantar. Então, Cristian ficou de pé e enfiou a mão no bolso. Ali de pé diante dela, delineado pelos raios de sol e pelo mar, ele formava uma figura imponente. Ele vestia um terno negro impecável, como sempre, mas algo


naquele instante o deixava diferente. Talvez o fato de os dois já terem sido amantes, mesmo que o uso dessa palavra extrapolasse um pouco a verdade. Sexo contra a parede estava longe de “fazer amor”. E estar com um homem só uma vez não a tornava sua amante. Ao tirar a mão do bolso, ele segurava uma caixinha de joalheira aveludada entre o indicador e polegar. O coração dela disparou. – Cristian... Mas antes que ela pudesse protestar ele já estava de joelhos, abrindo a caixinha para revelar um anel intrincado e cintilante com uma esmeralda resplandecente bem no centro. – Nós precisamos oficializar – afirmou ele com a voz baixa, grave. – Se vamos ter um casamento de verdade, então precisamos ter um noivado de verdade. Ele pegou o anel da caixa e o ergueu contra a luz. Ali ele cintilou como uma promessa, a


chama dançando dentro dele tão pequena e frágil que ela sabia que a mais leve das brisas poderia apagá-la. Mas então ele a abaixou e a luz se extinguiu, juntamente com a metáfora mais do que batida. Cristian segurou a mão dela e deslizou o anel no quarto dedo. – Você será minha – garantiu ele com um tom firme. – Será a minha esposa. Todo esse tempo ela estava paralisada, incapaz de falar. Incapaz de pronunciar qualquer coisa. – Diga sim, querida. A boca de Allegra estava seca, e a garganta constrita, impedindo-a de falar. Assim, ela assentiu com a cabeça. Aquele era o segundo noivado dela. Mas era a primeira vez que um homem se ajoelhava. Era a primeira vez que um homem a pedia em compromisso. Se bem que, pensando melhor, Cristian não estava exatamente pedindo nada.


Ele havia afirmado que ela era dele, e ela havia apenas consentido com a cabeça. Para ela, aquele era um sumário brilhante da existência de Cristian. O que ele queria, ele exigia. E conseguia. Ela estava brava consigo mesma por não ser uma exceção. Quando ele estendera a mão enluvada, ela aquiescera. Quando exigira silêncio, ela cedera. Agora, ali naquela sacada com vista para o mar, ele estava pedindo a mão dela e, mais uma vez, ela estava permitindo que as coisas fossem do jeito dele. Ele sorriu. A curva dos lábios dele foi lenta e indolente, diferente de tudo que ela já havia vivenciado antes. Ele nunca a havia olhado daquele jeito, nem uma única vez. Os sorrisos dele sempre eram direcionados para a família dela, e os que ele lançava na direção dela eram sempre cheios de cinismo, na melhor das hipóteses. Havia algo de sensual naquele


sorriso, alguma coisa quente. Alguma coisa que parecia destinada à mulher mascarada da festa em Veneza, e não à irmã mais nova do amigo dele, que ele mal conseguia suportar. – Pronto – comentou ele, em um tom triunfante. – Se algum repórter estiver nos seguindo, ele verá que o noivado é autêntico. Ele voltou para o lugar dele, sentando-se diante do prato. – O quê? – Você é notícia nas manchetes – assegurou ele, em um tom conversacional, casual. – Eu não ficaria surpreso se nós fomos seguidos. Naturalmente há alguém escondido em alguma alcova nos arredores da propriedade, usando lentes teleobjetivas para tentar descobrir o que nós dois estamos tramando juntos, dado o seu escândalo. Agora, eles sabem. – Então... Isso tudo é apenas um show? Alguma coisa naquela descoberta a deixou furiosa, insultada. Sim, ela sabia que não havia


nada entre ela e Cristian, mas ele estava propondo que os dois se casassem e ficassem juntos pelos próximos dois anos. Ele a havia engravidado, e por um momento... só por um momento... ele a havia feito sentir alguma coisa. Ele a havia feito sentir como se ele estivesse enxergando-a. Como se estivesse vendo quem ela era. Mas, no final das contas, tudo não passava de um ardil. Antes que pudesse pensar direito, ela se descobriu levantando-se da cadeira, atravessando o curto espaço entre eles, com as mãos tremendo e o estômago dando um nó. – Se você pretende fazer um showzinho, Cristian, vai ter de se esforçar mais. Você deixou escapar a coisa mais importante de um pedido de casamento. Inclinando a cabeça para trás, ele a encarou. – Acho que não – retorquiu ele, segurando a mão dela e acariciando a gema no dedo dela


com o polegar. – Você não está usando a aliança? – Não estou falando do anel – contestou ela, tomando o rosto dele entre as mãos. – Estou falando disso. E então inclinou-se para frente e juntou os lábios aos dele.


CAPÍTULO 6

CRISTIAN SENTIA como

se uma chama tivesse sido acesa dentro dele, um fogo que o consumia de dentro para fora. Os lábios de Allegra eram macios, e seu beijo inexperiente estava acabando com ele. Eles não haviam se beijado antes. Ele já estivera dentro do corpo dela, já sentira aqueles lábios contra o pescoço, o peito – tudo antes de saber que ela era Allegra. Naquele dia em que haviam feito amor contra a parede, ele havia explorado as curvas dela com as mãos. Mas ainda não tinha provado os seus lábios. Ela era a inocência e o pecado, e ele sabia com toda a certeza de que era assim que um


homem era atraído para dentro dos portões do Inferno. Com o beijo de uma sedutora mascarado de anjo, e uma carnalidade inexperiente que disfarçava a profundidade da devassidão oculta abaixo da superfície. Ele sabia bem isso. Mas mesmo assim não se afastou. Allegra angulou a cabeça, abriu os lábios e roçou a língua nele. Ele abriu a boca e permitiu que ela entrasse, beijando-o com um desespero que transcendia a experiência. Alguma mulher já o tinha beijado dessa forma? Se tinha, ele não conseguia se lembrar. Então, do nada, ele sentiu um chute nas entranhas por causa da culpa. A esposa. Ele havia se esquecido da esposa. Sim, ela estava morta há três anos, mas isso não era desculpa. Ela era a mulher a quem ele havia feito juras. A mulher com quem havia falhado. A última mulher, antes de Allegra, que ele havia beijado.


Mas Allegra vai ser sua esposa. Ela é a mãe do seu filho. E se não tomasse cuidado ele iria destruí-la, da mesma forma que fazia com tudo. Ele afastou a boca de Allegra, empurrando-a para frente. – Chega. É o suficiente para convencer qualquer pessoa. Ela parecia aturdida, com os lábios inchados. Ela se parecia demais com a criatura sensual que ele havia possuído na noite do baile de máscaras. Ela respirava rapidamente, fazendo os ombros pequenos moverem-se para cima e para baixo a cada tomada de ar. – Ele já a beijou? – Ele não devia ter feito aquela indagação. Devia ter se levantado da mesa e voltado para dentro de casa. Devia afastar-se o máximo possível dela. – Se ele... – Ela piscou rapidamente. – Você quer saber se Raphael já me beijou?


– Sim. A menos que você tenha outro noivo rejeitado que não tenha mencionado. – Claro que sim – mencionou ela, em um tom defensivo. – Como? Ele chegava mais perto das chamas do inferno a cada palavra proferida. Mas isso não alterava em nada seu desejo. Caramba, ele havia interrompido o beijo. Ele merecia alguma coisa em troca. – Como assim, “como”? – Ela soava intensamente irritada, e confusa. Nem um pouco diferente da forma como ela geralmente falava com ele. – Ele beijou a sua boca, assim como acabamos de fazer? Ele deslizou a língua sobre a sua? Ele provou intensamente o seu sabor? Saboreando você como se fosse uma sobremesa? – A cada sugestão o fogo do desejo dele tornava-se ainda mais vivo. – Ou ele deu


um beijo no topo da sua cabeça, como se você fosse um filhotinho? Um tom róseo espalhou-se pelas bochechas dela. – Isso não é da sua conta. – Como um filhotinho, então. – Ele observou a fúria iluminar os olhos sombrios dela. Aquela, pelo menos, era uma visão familiar. Allegra, enfurecida com ele. – Você já foi beijada do jeito certo, Allegra? Aqueles olhos negros se arregalaram, e os lábios dela se comprimiram em uma linha fina. – Claro que já. – Antes do beijo que acabamos de compartilhar? – Você não presta. – Ela virou-se para ir embora, mas ele levantou-se da cadeira e a seguiu. – Tente não destruir a ilusão – avisou ele. – Que ilusão? – inquiriu ela sem se virar.


– Que nós dois estamos muito felizes com o noivado. E que eu estou lhe seguindo para dentro de casa para pular em cima de você na mobília mais próxima. Os ombros dela ficaram retesados, mas ela não se virou. Em vez disso, continuou a caminhar. Ele entrou depois dela, fechando a porta e apertando um botão para abaixar as cortinas. – Agora você é bem-vinda para usar todas as armas que possui contra mim. Estamos em particular. – Estou cansada demais para atacá-lo com meu arsenal. Verbal ou não. Eu quero ir para a cama. Sozinha. – Você fala como se tivesse outra opção. Isso pode lhe surpreender, Allegra, mas eu não vou bancar o sedutor malvado. Espero que depois que nosso casamento acabar você saia incólume dele. Se quiser, pode deixar a criança sob os meus cuidados. Se desejar seguir em frente


como se nada disso tivesse acontecido, eu não vou julgá-la por isso. Ela balançou a cabeça. – Não é isso que eu quero. Não vou abandonar meu filho. Não vou agir como se não tivesse uma parcela da culpa. Eu errei. E esta é minha consequência, e estou feliz com ela. Eu quero ter um filho, Cristian. Talvez não seu, e talvez não agora, mas eu sempre quis. Quanto às condições menos do que ideal, eu simplesmente irei aceitá-las. – Assim, de agora em diante, espero que não haja como se fosse uma prisioneira. Você teve escolha. Ela ergueu o queixo. – Eu vou agir do jeito que quiser. Já passei da fase de tentar ser perfeita. Eu arruinei todos os planos que meus pais tinham para mim. Eu arruinei a minha vida. Acho que a parte boa disso tudo é que eu não preciso mais me comportar. Boa noite.


Ela virou-se e subiu as escadas, deixando-o bravo, excitado e contrariado, sem nenhuma perspectiva de alívio. ALLEGRA FEZ o possível para evitar Cristian nos próximos dias, e ele parecia completamente à vontade com isso. Ela passava as horas perambulando pela casa, tentando se entreter. Era esse o problema em passar a vida toda treinando para se tornar uma princesa. Você acaba com um monte de habilidades que não se aplicam à vida real. De repente, ela sentiu-se vazia, inútil. Havia passado a vida toda se preparando para o instante em que iria se tornar a esposa de Raphael. E agora, isso não ia mais acontecer. Em dois anos ela iria se tornar a ex-esposa de Cristian – mas depois disso, o que iria fazer? A menos que seus pais estivessem dispostos a bancá-la, ela não sabia como iria viver. Não tinha habilidades profissionais. Não tinha


metas além daquilo que os pais haviam imposto a ela. E isso era... patético, na verdade. Se tivesse uma filha, que tipo de exemplo Allegra daria a ela? Ela olhou para a mesa e viu o celular aceso. A mãe dela estava ligando. O que significava que ela já sabia. Allegra vinha evitando os noticiários – e o telefone –, além de Cristian. Infelizmente, ela não podia evitar a mãe. Era como tentar evitar a mão de Deus. – Alô? – Allegra, estou chocada por você não ter nem se esforçado para entrar em contato comigo. Allegra suspirou profundamente. – Desculpe-me. Tudo aconteceu muito rápido. – Quando você anunciou que precisava romper seu noivado com Raphael por causa da gravidez, devia ter mencionado que Cristian é o pai.


– Eu não sabia qual ia ser a reação de Cristian. Estava com medo de contá-lo. – E pelo visto você estava com mais medo ainda de contar para o seu pai – argumentou a mãe dela, em um tom gélido. – Mas agora está claro que já conversou com ele. – Sim, eu já falei com ele – respondeu ela. – Que bom Cristian ter concordado em se casar com você, pois assim seu pai não terá de castrá-lo. É um alívio, já que ele sempre gostou de Cristian. Allegra teve uma estranha sensação de alívio. A voz de sua mãe soava... bem, não parecia estar brava. – Foi errado da sua parte trair Raphael. Allegra deixou escapar um suspiro longo, exaurido. – Foi errado da minha parte traí-lo ou me meter em uma situação que me impediu de ir em frente com o casamento?


– Claro que a primeira opção. – Ela podia imaginar a mãe fazendo um gesto impaciente com a mão. – Não acho que Raphael tenha passado os últimos anos no celibato. Então imagino que ele também não esperava isso de você. Eu certamente não esperava. Você é uma Valenti – frisou ela, como se isso explicasse tudo. – Mas um Valenti precisa ter cuidado para controlar a situação. E você não teve cuidado. O rosto de Allegra ficou quente. Era como se ela fosse criança de novo, levando bronca por ser muito barulhenta. Por não se preocupar com o mundo ao redor. Por não estar ciente de que havia fotógrafos por perto, e que por isso ela precisava sentar-se direto, manter a voz baixa e não comer tanto. – Não, não tive. – No entanto, estou muito grata por não ter engravidado de algum artista pobretão ou algo pior, como um jogador de futebol.


– Você está feliz por ser Cristian? – Eu não diria feliz, já que agora temos de tentar controlar os danos. Mas em matéria de indiscrição, digamos que ter um caso com um duque espanhol seja o menor dos males. – Suponho que sim. – Se bem que... – continuou a mãe dela. – Raphael era um príncipe. – E a Espanha é um país muito maior que Santa Firenze – replicou Allegra, repetindo algo que Cristian havia dito. Houve um momento de silêncio na linha, antes de a mãe dela suspirar. – Acho que você tem razão. Quando vai ser o casamento? – Cristian quer que seja daqui a um mês. – Isso não nos deixa muito tempo para planejar as coisas. – Não, mas a outra opção seria eu entrar na igreja parecendo estar contrabandeando uma bola de praia embaixo do vestido.


– Isso não pode acontecer – alertou a mãe dela, soando aterrorizada. – Claro que não. Por isso, um mês. – Na Espanha, presumo. – Com certeza. – Porque Cristian insistia, e Allegra não se importava. Na verdade, estava começando a se sentir aliviada por não estar em casa, na Itália. Discutir com a mãe pelo telefone era muito mais fácil do que em pessoa. – Eu vou entrar em contato com o designer do seu primeiro vestido, para conversar sobre um segundo. Algo com ares mais espanhóis? – Algo que não marque a cintura. Fora isso, faça o que quiser. Mas a mãe dela não captou o tom sardônico da filha. – Perfeito. Nos falamos em breve. E... Allegra, esse casamento tem de acontecer. Do contrário, seu pai e eu seremos obrigados a cortá-la da família até você aprender a lição. E com isso, a sua mãe desligou.


Allegra esfregou os olhos com os punhos, sentindo-se sonolenta e cansada, apesar de não ter feito nada o dia todo. Ela se questionou se não eram sintomas da gravidez, ou se não eram os efeitos de se estar em uma situação estranha, em circunstâncias mais estranhas ainda. Lidando com a mãe que, mesmo em condições normais, era difícil de engolir. De qualquer forma, ela queria comer. Antes de sair do quarto, porém, ocorreu-lhe dar uma olhada nas manchetes, para saber se Raphael estava bem. Ela não gostava da ideia de tê-lo magoado. Claro. Isso implicaria algum tipo de envolvimento emocional entre os dois, e ela não tinha visto nenhuma evidência disso. – Pelo visto, Raphael já a substituiu. Allegra virou-se e se deparou com Cristian parado na porta. Ele parecia... Bem, ele deixou a garganta dela seca. Ele não vestia nada mais que uma calça jeans de cós baixo e uma camiseta preta justa. Muito mais casual do que ela estava


acostumada a vê-lo. E ela descobriu que a casualidade ficava bem nele. – Ele o quê? – Está nas manchetes, ao lado da notícia de nosso noivado. Acho que você ficará feliz em saber que nós estávamos sendo observados por paparazzi, como eu suspeitava. E o seu beijo foi o ponto de exclamação definitivo que a história precisava. Ele estendeu um jornal para ela, e o rosto de Allegra ficou quente. Ali, em cores, estava uma foto dela beijando Cristian. Mesmo a distância o anel de noivado gigante estava visível. Era a foto perfeita para o anúncio de noivado. Mesmo que fosse de mentira. Então seus olhos foram atraídos para a foto ao lado. Era a foto de uma loira usando o moletom de uma universidade, com cara de brava. Ao lado dela estava o Príncipe Raphael, de terno e óculos escuros. Com o braço ao


redor dela, ele parecia estar conduzindo-a para o avião particular. – Ela é americana – comunicou Cristian. – Não – respondeu Allegra. – Não pode ser. – Sim. Uma estudante americana. De Colorado. Bailey. Princesa Bailey, como ela ficará conhecida se eles se casarem. – Cristian falava com entusiasmo, o que a deixava ainda mais irritada porque ele nunca estava entusiasmado. – Você só pode estar mentindo. Esse não parece o nome de uma princesa, mas sim o de um beagle. Ele riu, um som rico e intimidante. – Está com ciúmes? – Ele parecia ainda mais animado. Ela não podia fingir que não era estranho Raphael já estar noivo outra vez. E de alguém tão diferente dela mesma. – Não estou com ciúmes – retrucou ela. – Só estou surpresa. Minha reputação, as conexões


da minha família, eram tão importantes para ele. – Ela olhou novamente para a foto dele com a mulher irritada. – Ela não deve ter nada disso. – Ela não tem. E, por mais que eu conheça pouco Raphael, seu pedigree parecia importante para ele. – Agora você está falando como se eu fosse um cachorro. – É a verdade. Eu tive a ideia de apresentar seu pai a Raphael depois que ele me contou que estava tendo dificuldades para encontrar uma esposa. Eu fiz as apresentações, e o resto se ajeitou. – Era por causa disso que você queria tanto que eu me comportasse. Exceto que... Nossa, quanta ironia. O rompimento do noivado é culpa sua. A marcação cerrada, os comentários sardônicos, tudo isso de nada adiantou porque, no fim das contas, foi você mesmo quem destruiu o que vinha construindo. Eu riria, mas


é muito difícil ser presunçosa na minha atual situação. – Eu diria que não – informou ele, seu tom seco. – Se bem que, caso não tivesse sido eu, você provavelmente teria encontrado outro homem para colocar em risco seu noivado. – Um que supostamente praticaria sexo seguro. O olhar que ele lançou quase a escaldou de dentro para fora. – O que você está fazendo aqui embaixo? Há dias está entocada no seu quarto. – Estou com fome. E ainda não é hora de alimentar os animais no zoológico. Assim, eu vim ver o que eu posso encontrar. – Você está se sentindo como se estivesse em cativeiro? Ela deixou escapar um longo suspiro, antes de passar por ele a caminho da geladeira. – Estou sendo mantida em uma casa, em um país, uma cidade que não conheço. Como quer


que eu me sinta? – Já avisei que é melhor você diminuir o nível do drama. Ela bufou. – E eu já disse que tenho o direito de me sentir do que jeito que quiser. – Vejo que nos encontramos em outro empasse. Ela parou de vasculhar a geladeira e o encarou, arqueando uma sobrancelha. – É mesmo. – Não quero que você se sinta presa. – Se está esperando que suas palavras façam alguma diferença, magicamente, então é melhor esperar sentado. – Não estou. Eu gostaria de levá-la para um passeio na praia. – Aquela ali do lado de fora. – Não. Eu tenho uma casa de praia. Em um local privado, que eu tenho certeza de que você vai gostar.


Ela tentou aplacar a onda de vertigem que tomou conta dela. Allegra amava praia. Desde sempre. Mas não gostava de multidões. Era como se ele soubesse disso. – Eu adoro praia – declarou ela. – Eu sei. Aquelas palavras eram mais significativas e profundas do que deveriam ser. – Vamos ter de ir de avião – avisou ele. – Espero que não se incomode. – Bem, nós voamos para cá a pouco menos de uma semana. – Você agora é oficialmente parte do jet set. Considere isso um prêmio de consolação por ter perdido o título de princesa. Ela engoliu em seco, tentando ignorar o nó na garganta, o aperto no peito. Tentando ignorar o peso que estava dando àquilo, quando na verdade deveria estar fazendo o contrário.


– Bem, acho que é um bom prêmio de consolação. – Excelente. Vou fazer algumas ligações e planejar a viagem. Nós partimos esta noite. – Você vai me dizer para aonde vamos? – Prefiro que seja uma surpresa.


CAPÍTULO 7

CRISTIAN

o rosto de Allegra ao entrarem na casa imensa e de frente para o mar na ilha de Kauai. Ela não era tão grande quanto a casa da Espanha, mas era privada. Com palmeiras ao redor e figueiras na frente, fazia divisa com a areia branca e o mar aveludado. Era o paraíso pessoal e particular dele. O que era um pouco ostentoso, até mesmo para ele, que já tinha um pedacinho do céu na sua Espanha nativa. Mas aquele lugar era só dele. Não de sua família. Ele supunha que o encanto do lugar residia aí. Os paparazzi com certeza não iriam OBSERVOU


encontrá-los ali, e seria bom para os dois ficarem em um terreno neutro por um tempo. Não havia motivo para transformar a vida dela em um inferno. Essa não era a meta dele. Eles não precisavam travar uma batalha constante. – O que acha? – perguntou ele, ficando cada vez mais impaciente pela resposta dela. – É lindo. Obviamente. – Mas você gostou? – Eu sempre quis vir para o Havaí. Estou adorando. Uma onda de triunfo tomou conta dele. Ele sabia que ela sempre quis conhecer algum lugar tropical. Ela não tinha a mesma independência do irmão mais velho, e não podia viajar com a mesma liberdade. – Que bom – retorquiu ele. – Há quanto tempo você tem essa casa? Acho que nunca a mencionou.


– Eu a comprei algum tempo atrás. Cinco ou seis anos. E eu me esforcei ao máximo para mantê-la em segredo. Como viu, os paparazzi estão loucos para conseguir uma janela para a minha vida a qualquer custo. Aqui eu não preciso me preocupar com repórteres ou qualquer outra pessoa invadindo a minha privacidade. – Por que os paparazzi são tão fascinados com você? Eu nunca ouvi falar de você saindo da linha, Cristian. Eu entendo por que eles estão sempre atrás de Renzo. Ele parece atrair controvérsias. Mas você, não. – Eu tenho um título. Eu faço parte de uma família tradicional. Além do mais, minha mãe tem um fraco por escândalos. Suponho que só por ser filho dela eu gere um pouco de interesse. E o fato de eu render poucas manchetes considerando de quem sou filho também é notável.


Cristian observou o rosto dela atentamente para ver a sua reação. Ele mal falava com a mãe atualmente, mas mãe é mãe. E por mais que ele considerasse o comportamento dela imprudente, não podia culpá-la. A vida no castillo sempre fora opressiva. Quando o pai dele ainda estava vivo, todos viviam pisando em ovos, fazendo o possível para não despertar a ira do patriarca. E as coisas só pioraram depois que Cristian nasceu. Era o que todos contavam – os empregados do castelo, a mãe dele. A fúria do pai transformou-se na suspeita de que seu herdeiro acidental não era filho legítimo. Mesmo obcecado por essa ideia, nunca pedira um teste por medo de gerar um escândalo. Assim, ele simplesmente descontava a frustração na criança que ele suspeitava ser uma traição à sua linhagem sanguínea. Depois da morte do duque, era de se esperar que sua viúva fosse buscar sua libertação. E foi


o que ela fez. Longe da Espanha. Longe do filho. E ela nunca sequer olhou para trás. Fazia quase uma década que ele não falava com a mãe. As ligações dele foram aos poucos sendo ignoradas, até que a culpa inicial pelo abandono foi passando, juntamente com a obrigação de fingir que sentia falta do filho único. Mas isso não importava. Quanto mais ele conseguisse se distanciar dessa época de sua vida, melhor. – Acho que faz sentido – afirmou ela, seu tom cuidadosamente neutro. – Nenhum comentário sobre o comportamento de minha mãe? – Por que eu faria algum comentário? Eu nem a conheço. – Porque as pessoas que vivem sob o olhar público estão sempre atraindo comentários. A cada respiração. Não é? – Eu nunca achei isso justo – comentou ela.


– Você faz parte da minoria. – Minha vida sempre foi ditada pelo que as pessoas esperam que eu faça. Pessoas que eu jamais vou conhecer. Minha mãe sempre foi obcecada por aparências. Engraçado, minha mãe não ficou chateada ao descobrir que eu dormi com você, Cristian. Ela ficou triste por eu ter causado um escândalo. – Acho que isso é comum – pronunciou ele, sua mente fixa na ideia de dormir com ela. – Viver como se a vida só existisse à luz do dia. Enquanto ficamos obcecados com o que acontece na escuridão. As bochechas dela coraram e ele soube que Allegra, assim como ele, estava pensando em uma coisa ou outra que os dois haviam feito no escuro. – Talvez. Estou cansada. Talvez nós possamos conversar mais durante o jantar? – Você está desesperada para se livrar de mim. – Não era uma indagação. Ele podia ver


que ela precisava de distância dele. E ele também precisava afastar-se dela, desesperadamente. Mas o que ele queria mesmo era chegar mais perto dela, continuar provocando a fera que existia dentro dele. – Por que eu iria querer me livrar de você? – Para não ter de me beijar mais uma vez. Ele não conseguia entender por que estava provocando-a, testando os limites entre os dois que ele sabia que eram frágeis demais. Nunca fora um homem de se deixar controlar pelas paixões. – Não acho que isso vá acontecer de novo. – Talvez se eu vestir uma máscara? – Daí eu não conseguirei beijar a sua boca. – Eu posso dar algumas sugestões. Ela afastou-se, com os olhos arregalados e brilhantes. – Só vou tirar uma soneca – informou ela. – Mas obrigada. Estou cansada demais para explorar seu corpo com beijos.


– Talvez depois que você descansar um pouco. – Não. – Ela começou a ir em direção às escadas, mas parou e virou-se para ele. – Você nem mesmo me deseja. Só quer me provocar. E eu não entendo o porquê. Por que nós não podemos ter alguns instantes agradáveis? Por que precisa ser constantemente um ogro? Então, a fera dentro dele arrebentou as jaulas completamente. Cristian a encurralou contra a parede, suas mãos prendendo-a de cada lado do rosto. – É isso que você acha, que eu não a quero? Acha que estou fazendo um joguinho? Digame, Allegra, alguma vez já me viu como o tipo de homem que faz joguinhos? Ela balançou a cabeça, com os olhos ainda mais arregalados. – Então por que, querida, acha que estou brincando? Eu não faço promessas vazias.


– Ainda assim, você me prometeu que nada aconteceria entre nós durante o casamento. Ou você é um mentiroso, ou está brincando comigo. – O que é lógico e preferível e o que eu quero são coisas diferentes. – E o que você quer? O ar entre eles tornou-se ainda mais carregado com a tensão que pulsava entre os dois como um animal vivo. – Agora? – Ele inclinou-se para frente. – Neste instante, eu quero erguer seu vestido e me enterrar no seu corpo. Eu consigo me lembrar claramente da sensação. Nenhum homem deste mundo perderia a chance de tê-la outra vez. E eu me considero um homem com um autocontrole superior, um homem que não vive à mercê das necessidades básicas. Só que perto de você, eu não consigo pensar em mais nada. – Você não gosta de mim – retrucou ela.


– Talvez seja por isso. Talvez assim seja mais excitante. – Você é doente. – Talvez. Mas você também está gostando. – Ele passou o polegar na base pulsante do pescoço dela. – Eu só quero tirar uma soneca. – Ela passou por baixo do braço dele e correu para as escadas, subindo dois degraus de cada vez. O corpo dele relaxou lentamente conforme Allegra se afastava. Ele esbravejou e saiu para encarar o oceano. Geralmente a vista era calmante. Mas não era esse o caso. Ele precisava tomar jeito. Não havia motivos para ficar fazendo esses joguinhos. Não havia motivos para alimentar a atração que sentia por ela. Talvez ele precisasse mesmo encontrar outra mulher. Assim que voltasse para casa, ele iria fazer isso.


Uma coisa era certa: ele não ia perder o controle novamente. ALLEGRA SENTIA como se estivesse se preparando para se aproximar da alcova de uma pantera. E não era à toa. Da última vez que estivera cara a cara com Cristian, ele parecia estar prestes a comê-la. Mais uma vez, para o próprio desgosto, não estava tão ultrajada quanto deveria. Na verdade, estava mais intrigada. Ela se sentia... seduzida. Atraída. Excitada. Cerrou os dentes e andou pela casa, atenta à dita pantera. Passou pela porta que dava para a areia e encontrou Cristian sentado diante de uma fogueira. As chamas laranja iluminavam os traços do rosto dele. – O que está fazendo? – Achei que ia gostar de jantar na praia. Ele se levantou, e ela então percebeu a mesa posta atrás.


– Adorei – garantiu ela, dando um passo adiante, sentindo-se um pouco chocada. Ela não sabia conciliar estes momentos em que ele parecia conhecê-la, e os outros. Aqueles intensos, que a enchiam de raiva. Desejo. Raiva por causa do desejo. – Não comeremos frutos do mar. Eu lembrei que você não gosta de peixe. As palavras dele atingiram-na como um soco. – Você está certo. Digo, obrigada. Por ter se lembrado. – Eu tenho uma boa memória – proferiu ele casualmente, tentando aliviar a tensão. Ela assentiu com a cabeça, aproximando-se da mesa. – Eu não quero fazê-la infeliz – assegurou ele. – Bem, se minha felicidade dependesse da minha alimentação, você não teria mais que se preocupar. – As coisas não podiam ser simples assim?


Ela sentou-se, maravilhada com o convidativo frango com vegetais. – Infelizmente, elas não são. Do contrário, eu teria optado por me casar com Raphael. Não tenho certeza de que você consegue superar o chef de um palácio. – Eu mesmo preparei a comida. Então, você está certa. A qualidade pode ser suspeita. – Você... Você fez isso? – Era difícil imaginar Cristian cozinhando. – Eu valorizo minha privacidade, e não gosto de ter empregados ao meu redor o tempo todo. Também, passei os últimos anos solteiro. – Sim, claro. – Não faça essa cara toda vez que eu falar de Sylvia. Ela ergueu o olhar. – Que cara? – Como se você estivesse prestes a chorar. – É que... É muito triste. Ela sempre me pareceu tão... adorável. – Allegra havia visto a


esposa dele em algumas ocasiões, e a bela loira sempre parecera ser uma pessoa doce. Uma escolha de parceira peculiar para um homem tão forte e bruto como Cristian, mas eles sempre pareceram muito felizes juntos. – Ela era. Naturalmente. Uma mulher doce que, quando as coisas estavam bem, agregava uma sensação de tranquilidade ao seu redor. Allegra não conseguiu desvendar a estranha nota na voz dele. – Há quanto tempo ela estava doente? A expressão dele mudou. – Ela não estava doente do jeito que as pessoas dizem. Sylvia lutava contra uma condição mental. – Oh, eu não sabia. – Os pais dela não queriam que o assunto ganhasse notoriedade. Eu sempre respeitei a vontade deles. – Eu havia presumido que era uma enfermidade física. Achei que tinha sido assim


que ela... – E foi – interrompeu ele bruscamente. Conforme as palavras dele eram absorvidas, a expressão dela foi tomada pelo horror. – Ela não... Ele assentiu lentamente. – Ela se matou, Allegra. E eu compreendo por que os pais dela não queriam que isso se tornasse público. Os boatos vagos sobre a fragilidade da saúde dela ajudaram a encobrir a história. Apesar disso... Às vezes eu me questiono se é a coisa certa a se fazer, encobrir a verdade. Como se isso fosse uma falha dela. Eu nunca a culpei. E eu temo que eles a culpem. – Sinto muito. – Todo mundo sente. Eu, principalmente. – Eu não devia ter tocado no assunto. – Fui eu quem o trouxe à tona. Fico mais confortável com ele do que a maioria das pessoas. Ela era minha esposa. Não vou fingir que ela não existiu.


– Claro. E eu também não vou. – É como você mesma alertou. Quando se vive sob o olhar do público, todos têm uma opinião sobre você. Provavelmente surgirão comparações entre você e Sylvia. – Tudo bem. – Mesmo? – Não sei – mencionou ela. – Mas isso não me incomoda no momento. Talvez as coisas seriam diferentes se eu... Se nós... Se eu sentisse que estou competindo com ela por seus... sentimentos. – Entendo. E, como você não está, não se preocupa com as comparações? – Seria muita pequenez da minha parte ter ciúmes de uma mulher morta. – Mesmo assim, algumas pessoas sentiriam. – Eu não sou uma delas. Não sei por que pensa tão mal de mim, Cristian, mas eu não sou uma pessoa terrível.


– Você sempre pareceu infeliz. Na sua casa, que sempre me pareceu um exemplo impecável de uma família funcional, nunca pareceu muito satisfeita. – É por isso que não gosta de mim? Porque não acha que eu sou grata o bastante pelas coisas que tenho? – Exatamente. – Aparências. Tudo é uma questão de aparências. Não, meus pais não são maus, mas eles estão mais preocupados que eu tenha uma vida apresentável a uma vida que vale a pena viver. A questão nunca é o que eu quero. Ele franziu o cenho. – Tudo o que eles fazem é tentar garantir que tenha um futuro estável. Entendo que você tem uma ideia romântica de querer mais liberdade, mas acredite em mim quando digo que você só teve boas opções na vida. – É fácil para você falar. Você sempre teve liberdade.


– E mais do que a minha cota de tragédias. A habilidade de fazer o que quiser não garante a felicidade. O fato de ter uma família que se importa e cuida de você é uma dádiva maior do que pode imaginar. Ela cerrou os dentes. – Talvez. Mas o fato de eu ter feito... O que fiz com você no baile prova que eu jamais poderia ter vivido aquela vida. E não fui corajosa o bastante para bater o pé, para dizer que não era o que eu queria. Acabei agindo da forma errada. Eu devia ter me oposto. É a única coisa de que me arrependo, ter ido em frente com algo que eu não queria nem um pouco. – Raphael era tão ruim assim? – quis saber ele. – Não, não era. Mas ele era... exigente. Ele definitivamente sabia o que queria e esperava que eu me encaixasse nas lacunas. E ele é mais impenetrável do que você, se é que é possível.


– Raphael vai se casar com ela, aliás. Eles fizeram uma coletiva de imprensa. Allegra sorriu sutilmente. – Fico feliz por eles. Se ele conseguir se abrir para ela, ela se abrirá para ele. – Você tem problemas com esse distanciamento? – inquiriu ele, erguendo a sobrancelha. – Sim – respondeu ela sardonicamente. – Ele é impossível de se ler. E completamente autoindulgente. – E o trocou por mim? – Da panela, eu caí direto no fogo – retorquiu ela secamente. – Eu nunca consegui me enxergar preenchendo a posição que meus pais desejam para mim. Obviamente, também não sou a mulher que você quer. Eu quis tentar. Quis dar o melhor de mim. Mas cometi um erro, pois acho que não fui feita para a vida de princesa. Foi definitivamente autossabotagem da minha parte.


– E que bela sabotagem, se me permite dizer. Ela não sabia se devia pedir desculpas. – Eu não sabia que era você – alegou ela. – Mesmo? – Claro. O que acha? Que eu tenho uma quedinha secreta por você? – Imagens de Cristian sentado à mesa de jantar da família ao longo dos anos passaram pela mente dela. Então essas lembranças se misturaram com imagens dele descendo a escadaria do baile, e a sensação que tomou conta do coração dela, que se assemelhava em muito à sensação que a acometia quando ela sabia que ele estava vindo para jantar. – É possível – advertiu ele. Ela balançou a cabeça. – Eu não sabia. Claro que não sabia. Imaginar que o inconsciente dela o havia reconhecido era ridículo. Ou melhor, era estupidez, pois se soubesse que era ele, jamais teria...


A linha de pensamento de Allegra foi interrompida ao olhar para Cristian, cujo rosto estava metade envolto pelas sombras enquanto a outra era banhada pela luz das chamas. Agora, ela simplesmente não conseguia desvencilhar o que sentia por ele do que havia sentido naquela noite. – Não importa o que pensa de mim – continuou ela. – E é irônico você acabar sendo o meu caminho para a liberdade. Já que acha que eu não mereço a liberdade. – Não é que eu ache que você não mereça liberdade, Allegra. Eu apenas acho que não sabe exatamente o que é liberdade. Você acha que é a habilidade de fazer tudo que deseja? – Acho que é a habilidade de me casar com o homem que eu ame. Você fala como se eu quisesse o mundo todo. Como se eu fosse egoísta por querer poder escolher a pessoa com quem quero passar o resto da vida.


– Você não entende a forma como o mundo funciona. Poderia ter se casado com um homem perfeitamente decente, o que lhe daria a chance de realmente fazer algo de bom para o mundo. Ele a teria tratado bem, e talvez você até pudesse começar a amá-lo. Mas em vez disso, jogou fora sua virgindade com um estranho em um corredor escuro, ficou grávida dele e... Aqui está você. – Agora você é a pior escolha possível? Achei que era uma opção melhor. Devido ao tamanho da Espanha. – Eu garanto que o tamanho do meu país é bem impressionante. Todavia, estaria melhor com seu príncipe, Allegra. – Por que acha isso? – Príncipe Raphael parece ser um homem bom. Eu não sou um homem bom. – Bem, isso eu já sabia. – Mas não sabe nem a metade.


– E também não quero saber de tudo. Principalmente porque nós ficaremos casados apenas por alguns anos. Isso não importa. Nós não vamos... Nós não vamos nos tocar de novo. Pelo mesmo motivo, aquelas palavras fizeram o estômago dela despencar. Decepção. Era isso que ela sentia. Mas não podia ser. Não era possível que estivesse decepcionada pela ideia de nunca mais tocar Cristian. – Que bom para você. Se bem que dois anos foi tempo suficiente para Sylvia desmoronar. – Sylvia estava doente. Você mesmo comunicou isso. – Sim. E tenho certeza de que estar casada comigo a colocou sob mais estresse. – Acha isso mesmo? Acha que de alguma forma... Ele segurou a mão dela com força sobre a mesa, seus olhos cintilando com chamas negras.


– Nós não vamos ter essa discussão. – Ela queria desesperadamente se libertar daquele toque firme e escaldante e fugir. Mas ao mesmo tempo queria permanecer daquele jeito para sempre. – Você devia ir para seu quarto – continuou ele. – Fugir de mim. – Nós estamos discutindo. – Acha que isso importa? – Deveria – contestou ela, sua voz soando constrita. – Deveria, mas não é o caso. Agora, volte para seu quarto, e talvez eu não a toque outra vez. Ela pensou em seguir o conselho dele e fugir, salvando sua vida. A sanidade. Em vez disso, permaneceu ali, sentada, com a mão sobre a dele. – E o que vai acontecer se eu ficar?


CAPÍTULO 8

CRISTIAN PERGUNTOU-SE – antes

de entrar em ação – em que instante ele havia perdido a guerra. Foi quando a trouxe para a praia? Ou quando resolveu trazê-la para o Havaí? Ou tinha sido em Veneza? Não importava quando, só a derrota. Só que agora ele não sentia vontade de voltar atrás e fazer as coisas de forma diferente. Agarrando-a com mais força, ele a puxou para si. Os olhos dela se arregalaram e os lábios dela formavam um O perfeito. Ele não conseguia parar de pensar no momento no salão de festas em que havia tomado a mão dela.


Então inclinou-se para frente, preparado para receber o que não havia conseguido reivindicar quando a máscara de ferro estava cobrindo seu rosto. Quando os dois estavam ocultos um do outro, e do mundo. Ele olhou dentro dos olhos dela, olhos que duas semanas atrás ele havia visto entrar em chamas. Levantando-se da cadeira, ele a colocou de pé e a puxou junto ao corpo. Allegra agarrou-se nos bíceps dele para se equilibrar e ele envolveu a cintura estreita com os braços, acabando com a distância que ainda havia entre os dois e capturando os lábios dela. Calor. Raios de sol. Estava tudo ali naquele beijo, juntamente com a força fervilhante e imprudente que ele desaprovava desde o primeiro instante em que havia colocado os olhos nela. Ele traçou o contorno dos lábios dela com a ponta da língua antes de intensificar o beijo.


Allegra era dele. Só dele. Ela jamais havia sido tocada por outro homem, e essa era uma experiência totalmente nova. Ele nunca havia sido o primeiro de ninguém. Ele nunca havia pensado que fosse ficar excitado pelo fato de ter tirado a virgindade de uma mulher, mas não podia negar que naquele momento era isso que sentia. Era a reação de alguma parte puramente primitiva dentro dele, da qual ainda não tinha consciência. Ou talvez fosse simplesmente Allegra. Ela sempre havia mexido com ele, incitando emoções que ninguém mais conseguia despertar. Talvez fosse por isso que ele se regozijava com o fato de ser o primeiro dela. Desta forma, pelo menos, ele podia ter a certeza de que aquela reação única não estava apenas dentro da cabeça dele. Ela sentia o mesmo. Soltando a cintura dela, ele agarrou o cabelo longo. Allegra gemeu, juntando-se ainda mais


ao corpo dele. Se por desejo ou por dor, não sabia dizer. Cristian não tinha certeza de que isso fazia diferença. Ele não se conhecia quando estava com Allegra. O que era estranho, pois a conhecia desde que ela era uma garotinha. Porque eles pareciam dois estranhos quando estavam juntos era um mistério para ele. De repente, ele sentiu-se desesperado. Desesperado para ver tudo que ele não pôde ver na primeira noite deles juntos. Ele não podia mais esperar. Cristian segurou o zíper do vestido dela e o puxou para baixo, fazendo com que a peça deslizasse e caísse ao redor dos pés dela. Isso a deixou apenas com o sutiã de renda e uma calcinha combinando. Ele deu um passo para trás e admirou por um instante as curvas perfeitas. Ela era o tipo de fantasia pela qual homens começavam guerras – evidência disso era a guerra sendo travada dentro do corpo


dele. Deveria deixá-la em paz, não devia destruí-la ainda mais com seu toque. O fato de Allegra estar grávida não deixava claro que ele alterava irreparavelmente tudo que tocava? Entretanto, Cristian já sabia que a escuridão dentro dele iria vencer naquela noite. Aquela coisa terrível e destrutiva, a voz insidiosa que o havia convencido de que se casar com Sylvia era uma solução. Ele só precisava se casar com ela – o resto iria se resolver com o tempo. Mas não, ele a destruíra, como fizera com Sylvia. Ela precisava de mais e mais, e aos poucos ele foi ficando menos e menos capaz de atender às necessidades dela. Pois Sylvia queria acesso a partes dele que estavam mortas. E agora, Allegra. Allegra, que havia concordado em se casar com ele. Allegra, que estava grávida do filho dele. Por que parar agora? Afinal de contas, o estrago já não estava feito? Seria ele capaz de piorar as coisas?


Cristian quase riu. Aquela era uma indagação perigosa. Ele já havia vivido o pior – já havia infligido o pior a outras pessoas. Naquele momento, ali na praia, sem fotógrafos, sem testemunhas além das estrelas, ele simplesmente não conseguia encontrar a nobreza dentro de si. – Tire o resto – comandou ele. Se ele a tocasse, ele não iria ser capaz de ir devagar. Allegra começou a tirar lentamente o sutiã, revelando a curva perfeita dos seios, os mamilos eretos indicando a excitação. Depois ela tirou a calcinha e seu foco voltou-se para o triângulo negro perfeito entre as coxas dela. – Você está me olhando como se quisesse me devorar – disse ela. – É porque quero – murmurou ele inclinando-se para frente para beijar a curva do pescoço, sugando a pele dela. Allegra arfou, um som que o deixou satisfeito. Então ele provou o gosto da curva do seio, antes de deslizar a


língua sobre o mamilo. Cristian chupou o pequenino botão rijo com força e o mordiscou de leve, antes de passar para o outro. Ela agarrou o cabelo dele e o manteve ali, enquanto Cristian repetia os movimentos. Ele então segurou os quadris dela e traçou uma trilha pela barriga macia dela com a ponta da língua, pairando logo acima do ponto onde ele mais queria prová-la. Ao perceber que ela tentava se afastar, ele a segurou com mais força. – Você é minha – vociferou ele antes de sua língua desbravar as dobras úmidas de Allegra. – Cristian – arfou ela. Ele a provou ainda mais profundamente, deleitando-se com a maneira como ela tremia – com o fato de ela ser Allegra, de não haver dúvidas. Essa conclusão parecia vir de um profundo desejo dentro dele, que não parecia ter fim. Por ela. Allegra. Como se esse sentimento existisse


dentro dele desde sempre. Incógnito. Insaciado. Até aquela noite. Ela agarrou-se aos ombros dele quando ele intensificou a exploração, sentindo as amarras e o controle dela se transformarem em nada quando deslizou a língua sobre o ponto mais sensível do prazer dela. Então, com um gemido rouco, ela desistiu completamente e entregouse ao prazer, que a atingia em ondas. Ele a deitou no chão, com as pernas dela envolvendo a cintura. E ele sabia que estava sendo um bastardo egoísta, pois enquanto ela ainda tremia e gemia devido ao clímax, ele a penetrou. A maneira como o corpo inexperiente dela se contraía ao redor dele quase o lançou para dentro do abismo do prazer. Mas ele ainda não estava pronto. Agarrando as nádegas dela por baixo, para dar maior estabilidade, ele a penetrou com mais ímpeto, cada movimento deixando-os mais e mais juntos.


Ela arqueou as costas e ele inclinou-se sobre ela, aceitando a oferta daqueles lindos seios com a língua. Ela o envolveu com os braços e segurou-se firme enquanto ele os levava até a beira da loucura. Como ele não tinha percebido isso antes? Esse sentimento que espreitava por trás de cada palavra trocada com Allegra? Era por isso que ele sentia a pele pegar fogo toda vez que se aproximava dela. Agora tudo fazia sentido. Quando o orgasmo veio, ele foi jogado em uma atordoante escuridão por um golpe certeiro de dor e prazer que dizimou o mundo ao seu redor. Ao voltar a si ele percebeu que ela também havia atingido o êxtase, enterrando as unhas na pele dele e chorando de prazer, seus músculos internos pulsando ao redor dele e proporcionando-o outra onda de prazer. De joelhos sobre Allegra, ele deslizou as mãos pelo cabelo dela, impedindo que ela desviasse o olhar.


– Não – comandou ele. – Não o quê? – Não fuja de mim. – Seus olhares se encontraram. – Você não está mascarada hoje. – Foi mais fácil com a máscara – afirmou ela. – E mais fácil ainda depois que você me abandonou. – Mas por quê? – Porque eu... – Engolindo em seco, ela se afastou dele. O ar gelado o atingiu como um choque quando Allegra o removeu de dentro dela. – Eu preciso entrar. Completamente nua, ela levantou-se e voltou para a casa. Ele a observou, a silhueta dela destacada pela luz de dentro da casa, ainda hipnotizado pelas curvas femininas. Sabia que precisava dar espaço a ela. Que era o que um homem decente faria. Contudo, Cristian Acosta já havia e muito passado do ponto de fingir que havia sido


decente alguma vez. Naquela noite, ele havia possuído Allegra. O que significava que não havia volta. ALLEGRA ESTAVA desesperada por um pouco de privacidade. Por um banho. Por um instante sozinha. Aquela tinha sido uma experiência completamente diferente da outra, apesar de ter sido com o mesmo homem. Saber que era ele, ver o rosto dele o tempo inteiro, os olhos dele... Ela nunca havia se sentido tão exposta. Ela subiu as escadas o mais rápido possível, tentando ignorar o fato de estar nua. O chuveiro de sua suíte era glorioso, com jatos duplos, mármore de cima à baixo e uma janela imensa com vista para o oceano, que cintilava sob o luar. Tudo que ela queria era entrar debaixo da água quente e lavar a humilhação do corpo. Ela precisava respirar. Precisava pensar direito. E


enquanto estivesse perto de Cristian, não iria conseguir fazer nada disso. Ela fechou os olhos com força e quis chorar, pois assim conseguiria aliviar a pressão no peito. Mas infelizmente os olhos dela permaneceram teimosamente secos. Mesmo quando a água morna começou a escorrer sobre eles. – Allegra? A porta do banheiro se abriu e Cristian entrou, completamente nu, claramente despreocupado em sua casualidade. Ela não conseguia parar de encará-lo. Lindo, com o peito musculoso, o abdome bemdefinido e o quadril esguio cujos músculos rijos apontavam para a parte mais masculina dele. Cristian Acosta, o homem que ela conhecia quase a vida toda. Mas sempre de roupa. Agora, ela o conhecia de dentro para fora. – Está tudo bem? – interrogou ele, do lado de fora do box de vidro.


– Eu só... – Só precisava tirar meu cheiro do seu corpo? – O tom de voz dele era afiado e penetrante. – Não, não é isso. Eu só precisava de um minuto. – Então vou me juntar a você. – Ele abriu a porta do box e entrou. – Você não entendeu. Eu preciso de um minuto sozinha – pronunciou ela, afastando-se dele. – Por quê? – Porque você é o único homem com quem já estive na vida. Porque essa é a segunda vez que eu fiz sexo na vida. Estou me sentindo... Um pouco desorientada. – Você é a única mulher com quem estive depois que Sylvia faleceu. Se alguém precisa de um minuto, essa pessoa sou eu. As palavras dele ecoaram estranhamente pelo cômodo.


– Eu... sou? E o que aconteceu? Você simplesmente se descontrolou? – Ela não conseguia manter a voz neutra. Outro motivo para querer ficar sozinha. – Você fala como se fosse simples. Perder o controle. Para algumas pessoas é, mas não para mim. Eu nunca perco o controle, Allegra. Nunca. – Ele se aproximou e abraçou a cintura dela. A pele era quente, escorregadia, e seu corpo respondeu imediatamente. – Mas perto de você... Eu me questiono se tenho algum tipo de controle. Se eu não venho mentindo para mim mesmo todo esse tempo. – Mas é simples. Sei que você acha que é algum tipo de deus, mas você é só um homem. – Ao falar ela estendeu a mão e acariciou o peito dele, estremecendo ao sentir a mistura do calor da pele e da rispidez dos pelos. Ela não deveria estar fazendo isso, não quando precisava tanto de espaço. De repente, o que ele estava dizendo sobre perder o controle fez


sentido. Quando os dois estavam juntos, ninguém tinha controle de nada. – O fato de você achar que é simples só revela a sua inexperiência – advertiu ele, com a voz rouca. – Você não faz ideia do que está fazendo. Essas coisas... Essas sensações insanas e sombrias que a dominam e a fazem se comportar feito um animal – declarou ele traçando a linha do queixo dela com a ponta do indicador. – Podem parecer boas no momento, mas só levam à destruição. – Você acha que estamos destruindo um ao outro? – Acho que isso já aconteceu. Se isso era verdade, por que eles não podiam continuar com a única coisa que estava proporcionando prazer aos dois? Por que eles não podiam aproveitar? A ideia a fez estremecer. A ideia de se entregar aos desejos era intoxicante e aterrorizante.


Ela sempre fora uma criaturinha aterrorizada, definida pelo medo. Pela necessidade de andar sempre na linha, de agradar a todos, de nunca chocar ou contrariar alguém. Mas, afinal de contas, quem se importaria se ela fizesse o contrário? Cristian estava certo, ela já arruinara tudo. Não havia mais nada que fazer. – Se estamos no fundo do poço, então não vejo motivos para não aproveitarmos o que há por aqui – divagou ela. – O que aconteceu conosco? – Nada além de um pouco de destruição – replicou ele. – Por que sinto como se minha vida estivesse entrando nos eixos, justo agora que estraguei tudo? Ele riu, inclinando-se para frente para beijar o canto da boca feminina. – É o sexo. Ele mente para você. E a sensação é boa. Você descobre que é muito fácil justificar


um monte de coisas para se convencer que precisa de mais. – É isso que estamos fazendo? – Eu diria que sim. – Por mim, tudo bem – replicou ela, descobrindo que era verdade. – Por mim, também. Allegra então derreteu-se nos abraços dele, no beijo. Sentiu a ereção de Cristian começar a desabrochar novamente, e o desejou. Ela não iria mais se preocupar tanto. Não com o futuro, ou com o que ele pudesse pensar. Pela primeira vez, iria apenas sentir. O SONHO era sempre o mesmo. Ele erguia o olhar e se deparava com os muros de pedra frios do castillo. Ele sentia-se pequeno ali. E Cristian sabia que logo ele viria. Em uma nuvem de raiva e álcool, ele iria vir causar mais dor. Da última vez, foi preciso chamar um médico. Mentiras sagazes para justificar como


um garoto de cinco anos podia ter se machucado tanto no meio da noite. Caindo das escadas. Sim, foi assim que ele havia quebrado os ossos. Era por isso que ele precisava de pontos na testa. Mentiras. Nada mais que isso. E logo ele iria chegar de novo, e Cristian iria sofrer outro de seus acidentes. Ele não estava seguro em lugar algum. Nem mesmo no próprio quarto. Então, como sempre, os muros do castillo repentinamente se transformavam nas paredes de sua casa em Barcelona. E ele estava parado do lado de fora do quarto, sabendo que, mais uma vez, tudo que ele iria encontrar ali dentro era o terror. Ele sabia que Sylvia estava ali. Que ela já havia partido, e que não havia nada que ele pudesse fazer. Mesmo sabendo o que iria encontrar, a dor era a mesma. Tudo que ele


precisava fazer era abrir a porta. Ele colocou a mão sobre a superfície fria e começou a abri-la. – Cristian, – uma voz atravessou a escuridão. – Cristian, acorde. Ele sentou-se na cama, respirando com dificuldade, feliz por se descobrir na penumbra. – Você está bem? – Eu estava dormindo – respondeu ele, decidindo que iria deixar Allegra conduzir a conversa. – Você estava... gritando. E me acordou. – Desculpe-me – proferiu ele, com a sensação de que ela estava mentindo sobre o que aconteceu. Ele tocou a bochecha, e percebeu que estava molhada. Sim, Allegra estava mentindo para preservar o orgulho dele. – Eu só não queria que você ficasse perturbado, por isso achei melhor acordá-lo. – Tudo bem. – Ele olhou para o relógio e viu que ainda era 5h. Cristian então resolveu


levantar-se, ignorando o nó na garganta e o estômago revirado. – Não sabia que você tem pesadelos – comentou ela, tocando gentilmente o ombro dele. – Todo mundo tem, ocasionalmente. – Ele tinha o tempo todo, e desde a morte de Sylvia três anos atrás eles só pioravam. – Bem, já é quase hora. – Vou me levantar também. – Não – retorquiu ele, seu tom mais brusco do que ele pretendia. – Não. Você devia voltar a dormir. Sinto muito por tê-la acordado. Mesmo na penumbra, ele conseguia ver a expressão de preocupação no rosto delicado dela. – Não, eu que sinto muito por você ter tido... um sonho ruim. – Não foi nada – retrucou ele entredentes. – Desculpe-me, Cristian – disse ela com a voz delicada, mas firme. – Mas não me pareceu


nada. – Foi um sonho. Pedaços de lembranças e coisas completamente inventadas misturadas de forma estranha e inusitada. Só isso. – Pareceu-me mais do que isso. – Não foi. E se você está procurando uma vulnerabilidade, um ponto em comum para se sentir conectada a mim, sinto muito em decepcioná-la, mas não sou um homem de bem, não sou um homem acessível, e você sabe disso há muito tempo. Não comece a criar fantasias agora. Isso – a mão dele sobrevoou o corpo nu dela – pode ser uma coisa boa entre a gente. Já que nós temos de ficar juntos, por que não aproveitar? Só não pode envolver seu coração. – Já estamos no fundo do poço – sussurrou ela. – Lembra? Não tem como ficar pior. Ela parecia insuportavelmente jovem naquele instante. E ele se sentia insuportavelmente velho.


– Sim, mas como já discutimos, um homem pode arranjar muitas desculpas para justificar a necessidade de encontrar satisfação física. – Não – contestou ela, balançando a cabeça. – Nós estamos nessa juntos. Allegra. Teimosa até não poder mais. Tanta paixão, tanta determinação que chegavam a transbordar. – Fique na cama – insistiu ele. Ele então se levantou e a deixou sozinha no quarto. Parte dele sentia-se culpado pela forma como a estava tratando, mas a maior parte de Cristian percebia que era a coisa certa a fazer. Já tinha cometido muitos pecados na vida, e o pior de todos havia sido contra Allegra. Não podia piorar ainda mais a situação. Precisava se certificar de que ela não começasse a achar que se importava de verdade com ele. A maior crueldade de todas seria permitir que Allegra o amasse.


CAPÍTULO 9

OS PRÓXIMOS dias no paraíso foram como uma sentença de prisão em uma cela com uma vista magnífica, na companhia de um guarda taciturno que se transformava em um amante apaixonado pela noite. Ele estava estranho desde o sonho. E nunca passava a noite com ela depois de fazerem amor. Em vez disso, a abandonava exausta e saciada. Mas tampouco voltava para o próprio quarto – ela havia verificado. Ela começava a se inquirir se ele chegava a dormir. Ele estava isolando-a, isso estava claro. E doía, o que não deveria acontecer.


A ideia de que ela devia tentar não sentir nada por ele, agora que estavam dormindo juntos e prestes a se casarem e terem um filho, era ridícula. Ele estava certo. As pessoas inventavam todos os tipos de desculpas para continuarem vivendo no reino efêmero do prazer que eles haviam descoberto juntos. Allegra piscou furiosamente, desejando parar de pensar nisso. Por que você acha que sempre nutriu sentimentos fortes por ele? Ela secou uma lágrima que escorreu pela bochecha e respirou fundo. Não importava. Nada disso importava. Por mais que ela sentisse, Cristian era incapaz disso. Ela riu, tremulamente. Ele precisou ser ludibriado para sentir atração por ela. Se ele soubesse que era ela na noite do baile... Bem, nada teria acontecido.


Mas se ela soubesse... Se ele tivesse estendido a mão para ela sem a máscara... Ela teria aceitado. Ela teria entregue a virgindade para Cristian, se em vez de arquear uma sobrancelha e parecer entediado ele a tivesse convidado. Era o que ela queria. Era o que ela sempre quis. Que patética. E ela estava sempre esperando. Esperando que os pais magicamente percebessem que o casamento com Raphael não era o que queria. Esperando que Cristian visse que ela não era criança. Esperando e esperando e esperando... pelo quê? – Precisamos ir. Ela virou-se e viu Cristian saindo da casa em direção à praia, com uma expressão séria. – O quê? – Por um momento ofuscante e quase alegre, ela achou que ele não conseguia esperar para possuí-la outra vez. – Precisamos voltar para a Espanha. – Ele parecia diferente. Assustado.


– O que aconteceu Cristian? – Houve um incêndio no castillo. – E a... propriedade? E os moradores e suas casas? Ele balançou a cabeça. – Todos estão bem. Apenas o castillo foi afetado. – O que aconteceu? – A fiação, é tudo que se sabe. Aquela é uma construção muito antiga, e a eletricidade foi instalada muito tempo depois. Algumas partes da rede elétrica, acredito eu, ainda são do início do século passado. Eu vou deixá-la na villa antes de ir para lá. Ela franziu o cenho. – Não, vou com você. – Você não precisa me acompanhar. – Mas eu quero. A expressão dele tornou-se feroz. – Está desesperada para ver as ruínas de que você falou quando foi lá da primeira vez?


– Estou desesperada para lhe dar apoio, Cristian. Perdoe-me por tentar ser uma boa... – Ela quase mencionou “esposa”, mas ela sabia que era errado. Ela poderia dizer “noiva”, mas isso também não parecia adequado. – Isso não é uma discussão, Allegra. – Claro que não. Com você, nunca é. As pessoas sempre precisam fazer o que você quer. Foi assim que eu sempre vivi a minha vida: obedecendo. – Que engraçado, não é assim que eu me lembro de você. – Sim, e por que será? Você tem essa imagem de quem sou, de uma pessoa que está constantemente lutando contra as convenções, quando na verdade eu nunca fiz isso. Nunca desobedeci a meus pais. Não rejeitei Raphael. Então por que acha que sou uma criança rebelde? – Eu posso sentir – assegurou ele. – Essa força queimando dentro de você.


– Cristian... – Pegue suas coisas. Nós vamos para o aeroporto. E você ficará na villa. – Ele então virou-se e a deixou sozinha. Ela sabia que não dava para insistir. Mas ela tampouco ia ficar sentada em silêncio. Ia descobrir uma maneira de lidar com Cristian. Ele não iria gostar, mas agradá-lo não estava na lista de prioridades imediatas dela. Ela queria apenas estar lá, ao lado dele. E se isso significava ser desafiante, se isso significava exprimir certos sentimentos, então era isso que iria fazer. METADE DA construção de centenas de anos, lar de mais de um fantasma, havia sido transformada em uma pilha de escombros. O castillo era velho, mas grande o bastante para que a outra metade permanecesse intacta, estruturalmente segura.


Cristian entrou pela porta da frente, olhou para o monte de pedras ainda fumegantes à esquerda e depois para a direita, onde a escadaria ainda se encaracolava para cima. Era muito estranho ver a casa da infância dele, aquele castelo dos horrores, tão destruída. Ele subiu as escadas devagar, roçando os dedos nas paredes que ainda assombravam os sonhos dele. Perguntou-se se o fantasma do pai tinha queimado junto. Um desejo muito ambicioso, ponderou ele. Continuou até o quarto que havia sido dele. Ainda estava de pé, é claro – e Cristian considerou o fato como uma perversidade do destino aquelas mesmas paredes não terem sucumbido ao fogo. Cristian então suspirou profundamente e arregaçou as mangas. Precisava começar a remexer os escombros em busca de joias, papéis importantes. Relíquias. Era tudo que iria encontrar ali. Quando terminou, estava


exausto. Poderia ter contratado uma equipe de limpeza, poderia ter chamado várias pessoas para ajudá-lo. Mas o castillo era responsabilidade dele. Era uma parte dele. Uma parte de seu título. E isso, essa estranha exumação dos restos do tesouro da família, parecia essencial. Ele estava coberto de cinzas e fuligem, e suas roupas estavam completamente arruinadas. Começou a desabotoar a camisa. Ele podia muito bem abandoná-la ali, em meio aos restos irrecuperáveis. – Cristian. Ele virou-se ao ouvir o próprio nome. Allegra estava parada ali, de olhos arregalados, deliciosa com o cabelo negro solto que chegava à altura dos ombros, sua figura esguia enaltecida por um vestido preto simples. – O que você está fazendo aqui? – indagou ele, terminando de desabotoar a camisa e jogando-a no chão.


– O que você está fazendo? – Procurando por algum tesouro enterrado. O que você veio fazer aqui? – insistiu ele. – Decidi tentar ser o incômodo que você está convencido que sou. – E por que exatamente decidiu isso? – Porque sou uma mula teimosa – garantiu ela, aproximando-se. Uma brisa chamou a atenção dele para a barriga arredondada dela, para a evidência do filho que ela carregava, e Cristian prendeu a respiração. – Eu avisei para você não vir aqui. – E eu não lhe dei ouvidos. Porque não sou sua servente, não sou uma criança e nem um bichinho de estimação. O que significa que posso fazer o que quiser. – Que é o que você geralmente faz. E olha no que se meteu. – Você está machucado – disse ela, antes de aproximar-se franzindo o cenho e segurar a


mão dele. Ela acariciou com o polegar os nós dos dedos que sangravam. – Estou bem – informou ele, retirando a mão, sufocando pela ternura que ela demonstrava. – Cristian, não seja ridículo. Ele riu. – Acho que ninguém nunca me chamou de ridículo antes. – Obviamente, alguém deveria. – Alguém já comentou que é bem ridícula, Allegra? Porque do meu ponto de vista, você se beneficiaria em ouvir a verdade. – Só uma vez. – Ela cruzou os braços, erguendo o queixo. – Só você. – Então não se esqueça disso. Somente eu. – Ele observou o tom erótico de suas palavras colorirem as bochechas dela. O estômago dele deu uma pirueta, e ele sentiu a excitação começar a crescer, como a de um animal selvagem. Cerrando os dentes, ele


passou por ela e foi em direção a parte não arruinada do castillo.


CAPÍTULO 10

ALLEGRA RESPIROU fundo e foi atrás de Cristian, tomando cuidado ao desviar das pilhas de pedras, madeiras e mobílias queimadas. – Cristian. Ele virou-se, com a expressão feroz, e o coração dela parou completamente. O rosto e o peito nu dele estavam sujos de fuligem. Ele parecia... Bem, ele parecia um selvagem. Seminu, todo suado, as mãos feridas por causa do trabalho, ele era um homem que havia passado o dia inteiro lutando pela sobrevivência. – O que está fazendo? – questionou ela, em um tom mais sutil. – Por que você não trouxe


alguém para ajudá-lo? – Isso tudo é meu – comunicou ele friamente. – É o meu legado, e ele parece mais adequado reduzido a cinzas. – É só uma casa... – É mais do que isso. Nós somos uma família com um título nobre, e manter essa casa sempre foi uma das coisas mais importantes. Ela ficou de pé por séculos. E agora... Ela ruiu sob os meus cuidados. – Não é culpa sua. – Eu nem ligo se for. Isso aqui são séculos de corrupção que sobreviveram por tempo demais. Eu queria que tudo tivesse queimado. Ainda assim, ele tinha corrido para lá. – Por que esse lugar é corrupto? – Você precisa mesmo fazer essa pergunta? Já ouviu falar do meu pai. Um bêbado. Um libertino. Ele só se casou com minha mãe porque ele a engravidou. É um milagre ele não ter tido uma centena de filhos bastardos. – Ele


riu. – Acho que sou mais parecido com ele do que eu imaginava. – Como? – Quer saber a mulher grávida de um filho ilegítimo meu. Raiva e vergonha tomaram conta dela. – Você mesmo afirmou que não havia ficado com mulher alguma desde a morte de Sylvia. Acho que isso não o torna um mulherengo lendário. Três anos de celibato e uma gravidez não planejada não o torna... Ele. – Ainda não vi evidências que provem o contrário. – Está reclamando do quê? Nós estamos conseguimos lidar com a situação, até agora. Não sei que coisas você acha que o torna igual a ele. Ou do que tem medo. – Porque eu as escondi de você. Seja grata. Cristian então virou-se e subiu as escadas, deixando-a sozinha na sala vazia e silenciosa.


Seus passos pesados foram diminuindo até sumirem de vez. Ir até ali tinha parecido uma boa ideia na hora, mas agora ela não achava mais. Não. Você está fazendo novamente. Está se diminuindo. Não pode fazer isso. Você não ficará em silêncio. Não desta vez. Allegra respirou fundo. Ela tinha ido até ali para derrubar o muro que ele havia erguido entre eles. E estava começando a chegar perto da verdade, não podia parar agora. Mas isso também significava que ela não poderia se proteger – significava que ela ia ter de se revelar para ele. E isso... Bem, era aterrorizante. Ela estava começando a perceber que não queria um casamento temporário. Não queria um gostinho da vida com ele. Queria estar sempre ao lado dele. Porque ela o amava. Tanto que chegava a doer.


Ela não sabia dizer quando isso tinha acontecido. Não era recente. Ela havia acabado de descobrir, mas Allegra tinha a sensação de que aquilo estava dentro dela desde sempre. O coração dela já sabia. O corpo dela já sabia. Só o cérebro dela é que não queria admitir. Mas agora ela sabia, de corpo e alma. E naquela noite, ela não ia esconder. Iria mostrar a ele. O CASTILLO ainda estava sem energia, então quando a noite caiu, Cristian ascendeu velas nos candelabros góticos, banhando a sala com um brilho dourado. Ele olhou ao redor, reparando na espreguiçadeira baixa em um canto e no bar situado do outro lado da sala. Ele se inquiriu se aquele era o esconderijo do estoque pessoal de álcool do pai. Se fosse, ninguém colocava as mãos nele há muito tempo. Há anos ninguém além dos funcionários iam ao castelo. A mãe


dele fora embora o mais rápido possível, e ele também. Ele caminhou até o bar, dando uma olhada nos vários e diferentes venenos à disposição. Ele escolheu uma garrafa velha de uísque que ele imaginava ser de qualidade superior. Ele bebeu o primeiro copo como se fosse água, desfrutando da queimação conforme a bebida descia pela garganta. Depois, ele serviu-se de outra dose. A porta que dava para o quarto abriu-se e Allegra entrou. Com os ombros nu, sua figura encontrava-se dentro do corpete incrivelmente justo de seu vestido, seus seios quase derramando para fora do tecido negro. A saia esvoaçava ao redor do quadril dela, cobrindo as pernas torneadas, para o desprazer dele. Mas foi o rosto dela que prendeu a atenção dele. Ela usava uma máscara dourada que evocava a que ela havia usado naquela noite em Veneza.


Seus lábios eram de uma cor escura como o tecido do vestido, como se um beijo deles pudesse deixá-lo intoxicado como uma garrafa de vinho. – O que está fazendo? Ela deu de ombros. – Se você precisa indagar, então acho que não estou fazendo direito. Ela levou a mão às costas e o corpete se afrouxou, antes de deslizar e cair ao redor da cintura dela. Allegra então saiu de dentro do vestido, como uma ninfa saindo da água. Ela estava completamente nua. Então ela deu um passo adiante, e depois outro, até a luz dourada envolver o corpo dela, exagerando cada traço e cada curva enquanto caminhava na direção dele. – Ainda quer que eu vá embora? Ele cerrou os dentes com tanta força que ficou com medo de trincá-los. – Não.


Os lábios bordô dela curvaram-se sutilmente para cima. – Que bom. – Venha aqui – ordenou ele, sentindo que perdia cada vez mais o controle das coisas. – Ainda não. Eu preciso que você... Tire a sua máscara, Cristian. – Mas é você quem está de máscara. – Sim, mas eu me despi por completo. Por você. – Ela abriu os braços. – E isso é o mais difícil para mim. Mostrá-lo o quanto eu o quero. Estar aqui, assim, sabendo que você pode me rejeitar. – Isso nunca vai acontecer. – Como eu vou saber? Desde nosso primeiro dia juntos, você se fecha cada vez mais. – Ela aproximou-se ainda mais, e acariciou o rosto dele com o dedo. – Quero ver o verdadeiro Cristian. Cristian segurou a mão dela.


– Você não quer me ver sem máscara, Allegra. – Não é você quem decide isso. – E se o que existe debaixo da máscara for horrível? E se você se deparar com um monstro? Ela o encarou com os olhos negros abismais. – Então eu acho que ficarei com o monstro. Um animal ferido uivou dentro dele, sua dor ecoando na alma vazia de Cristian. – Você não está falando sério. – Pare – replicou ela com firmeza. – Pare de dizer o que eu quero, pare de dizer o que eu penso. Pare de dizer quem eu sou. Eu vou lhe dizer quem sou. Eu sou Allegra Valenti, e eu o quero. E quero que você pare de ser tão controlado o tempo todo. Cristian respirou fundo, fazendo o possível para não perder o autocontrole que lhe restava. Allegra não compreendia o que estava pedindo. Ele era feito da mais pura escuridão, e sempre


trazia à tona o pior das pessoas, destruindo tudo que tocava. E se permitisse que essa bile negra a engolfasse, iria acabar destruindo-a também. – Possua-me – ordenou ela, a voz rouca como um murmúrio, repleta de desejo e intensidade. Ela sempre conseguira mexer com ele. Era por isso que Cristian a rejeitara desde o início, era por isso que a considerava um problema. Era muito melhor casar-se com uma mulher doce e agradável do que uma mulher avassaladora. Allegra dizia que o desejava, por completo. Bem, depois daquela noite, ela iria fugir ou criariam um vínculo eterno. De qualquer forma, ela perceberia o erro que cometera. De qualquer forma, seria tarde demais. Se ela queria vê-lo despido de si mesmo, então era a escuridão que iria ganhar.


Ele pressionou a testa contra a dela, segurando o corpo feminino a uma distância segura. – Você quer me ver sem essa máscara, Allegra? – interrogou ele, com a voz agastada. – Sim – respondeu ela tremulamente. – Você quer encarar toda a minha escuridão? Ele queria que Allegra dissesse sim, tanto quanto precisava que dissesse não. Cristian havia destruído todos ao seu redor desde o nascimento, com aquele poder sombrio que tinha no lugar da alma. Foi assim com o pai. E a mãe. E a esposa. E com Allegra não seria diferente. Ela o encarou com os olhos negros e luminosos. – Se é isso que você tem para mim, então é isso que eu terei. As palavras dela preencheram os espaços vazios dentro dele. Cristian não tinha direito ao


poder curativo delas. Não quando não podia lhe dar nada em troca. – Fique aí – ordenou Cristian, afastando-se. Ele começou a desafivelar o cinto, para depois baixar o zíper da calça lentamente. Ela observava cada movimento dele com os olhos bem abertos. Havia algo de intoxicante na forma como ela o assistia, na forma como antecipava o vislumbre da parte mais masculina dele. Do membro que estava duro, latejando só por ela. Ele cerrou os dentes contra o prazer crescente que ameaçava sufocá-lo. Ele então baixou a calça e a cueca, chutando-os para o lado. Ela lambeu os lábios em câmera lenta; havia um lugar em específico que ele queria que ela deixasse marcas de batom. – Ajoelhe-se – pediu ele com firmeza, sua voz ecoando pelo cômodo vazio. E ela não hesitou.


– Você está bem obediente, não é mesmo, Allegra? – Eu lhe adverti. Eu quero tudo. Eu quero você. E quero lhe dar esse presente. – Você não deveria oferecer nada a um homem feito eu. Não vou parar até ter tudo que eu quero. – Então que seja – mencionou ela. Cristian aproximou-se e agarrou o cabelo dela. Ele olhou para baixo, para a máscara dourada cintilante, para aqueles lábios entreabertos. – Abra mais a boca – exigiu ele. Ela manteve os olhos fixos nos dele ao inclinar-se para frente e tocar a ponta da ereção com a língua. Chamas percorreram o corpo masculino, tão intensas quanto as que acabaram com parte do castillo, ameaçando fazer o mesmo com ele. Ele segurou o cabelo dela com força, com o pretexto de controlar os movimentos dela, mas


no instante em que ela o engoliu inteiro, em que ela o envolveu no calor úmido e iniciou uma suave fricção, ele soube que era ela quem estava no comando. Aquela língua maliciosa atormentava-o deslizando por todo o comprimento dele. Cristian agarrou-se ao cabelo dela, usando-a como âncora para não se perder de si mesmo. Ele estava quase lá. Ele estava muito perto. E não queria que as coisas terminassem assim. Ele então desvencilhou-se dela, esbravejando baixinho pela interrupção do prazer. – Chega. Não é assim que eu quero que as coisas acabem. – Eu não me importaria – argumentou ela, toda sedutora. – Eu preciso senti-la por dentro. Preciso penetrar esse seu corpo apertado e úmido, enquanto você implora para que eu a possua. Allegra arfou quando ele a pôs de pé pelo cabelo. Ela ronronou quando ele a puxou


contra o corpo, espalmando as mãos sobre o peito dele. Inclinando a cabeça para frente ele tomou os lábios dela e os guiou em direção ao sofá. Ali ele enrolou os cachos negros dela em torno da mão e os puxou para trás. Ela gemeu, um misto de prazer e dor. – Você está à minha mercê – alertou, acariciando com a outra mão o delicado pescoço dela. – Cristian... Ele sussurrou no ouvido dela: – Você vai deixar que eu a controle? Ela tentou assentir com a cabeça, mas ele a impediu. – Que bom. É isso que você queria, Allegra. Espero que não se arrependa. Mesmo ao dizer isso, ele esperava que ela fosse se arrepender. A melhor coisa que ela podia fazer naquele momento era fugir dali, sem nunca olhar para trás.


Ele a fez virar-se de costas e ajoelhar-se sobre a espreguiçadeira, antes de abaixar o corpo dela sobre o estofado aveludado. Com os seios sobre o braço do sofá, ela sentiu Cristian posicionar a ereção na curva de suas nádegas enquanto ele se ajoelhava atrás dela. – Eu vou possuí-la agora, não posso mais aguentar – vociferou ele roucamente. – Sim – murmurou ela. Ele segurou a cintura dela, a ponta de seus dedos roçando o ponto delicado entre as coxas. Então ele segurou o membro enrijecido e o posicionou na entrada escorregadia dela, para testar se Allegra estava pronta. Flexionando os quadris para frente e para trás ele a provocou, deliciando-se com os murmúrios torturados dela enquanto brincava. Ele podia ficar assim para sempre. Na beira do abismo, preso entre o paraíso e o mais absoluto inferno.


Xingando, ele penetrou o corpo quente, úmido e apertado dela, cerrando os dentes por causa da sensação deliciosa. Ela pulsava ao redor do membro dele, engolfando-o mais e mais. Ele esbravejou ao balançar os quadris, aprofundando as investidas. E esbravejou mais uma vez quando ela arfou por causa da invasão. Ele começou devagar, gentilmente, até perder o controle e aumentar o ritmo, levando-os para a beira do êxtase que ambos desesperadamente ansiavam. – Está gostando de me sentir dentro de você? – Sim – gemeu ela, abaixando a cabeça e arqueando as costas para cima. Ele colocou a mão no centro entre as omoplatas dela e traçou a linha da coluna até entrar no vale elegante das nádegas dela. Ela arfou, estremecendo sob o toque dele. Ele a provocou no ponto em que os dois se uniam, torturando a ambos com a pressão aplicada.


– Não dá – arfou ela. – Não consigo. – Vá em frente – sussurrou ele. – Goze para mim, querida. Então ele levou a mão para frente, deslizando as pontas dos dedos com firmeza no ponto em que ele sabia que ela mais ansiava ser tocada, até sentir que ela estava pronta para o clímax. Ela respirava com dificuldade, ele via que ela estava exausta – mas ele ainda não tinha terminado. Allegra tinha pedido tudo que ele podia dar, e era isso que ele ia fazer. Cristian puxou os braços dela para trás e segurou as mãos com força, prendendo-as enquanto continuava a investir impiedosamente. Ele queria ficar dentro dela para sempre, tomando-a, possuindo-a. Mas o orgasmo já o queimava por dentro, correndo pelas veias, estrangulando-o enquanto roubava os últimos vestígios de seu autocontrole. Ele a segurou com mais força e intensificou o ritmo. O único som no ambiente


era o da pele dele batendo contra a pele dela e os barulhos ofegantes que ambos faziam conforme alcançavam o pico do prazer. O som que ela produziu ao chegar ao êxtase foi como se ela tivesse estilhaços de vidro na garganta. E quando o próprio clímax o sobrepujou, ele estremeceu enquanto se aliviava dentro dela, marcando-a, clamando-a. Então ele caiu sobre ela, abraçando ao braço da espreguiçadeira, ainda enterrado nela. A respiração resfolegante dos dois ecoava pelo cômodo, como uma benção murmurada destinada especialmente para aos dois. – Eu a possuiria assim para todo o sempre – garantiu ele, com a voz embargada. – Sem nada entre a gente. – Sem roupa? A pergunta dela era tão inocente que o atingiu como uma adaga no peito. – Sem camisinha – pronunciou ele, seu tom mais brusco do que o pretendido.


Ele saiu de dentro dela e olhou ao redor, para a bagunça de roupas que anunciava a impaciência deles. – É diferente? – inquiriu ela. – Sim. – Oh, eu não sabia. A culpa tornou-se mais feroz. Mas ao estudála – os lábios inchados, os olhos arregalados e sinceros – percebeu que o peso que crescia na boca do estômago não era culpa. Era satisfação. Uma sensação intensa que ele não estava acostumado. Sim, a pior parte era a ausência da culpa. Sentia-se apenas triunfante. Por ser o único homem que já havia tocado o corpo dela. Cristian reparou nas marcas vermelhas nos pulsos dela, nas marcas de batom pelo próprio corpo. Ele era um cretino. E não conseguia sequer sentir remorso. – Por que você não queria que eu viesse aqui?


CAPÍTULO 11

ELE NÃO estava gostando para onde a conversa estava indo. – É lindo – assegurou ela, virando-se de costas, com as mãos sob a cabeça. Ainda de máscara e com as curvas banhadas pela luz das velas, ele sentia como se estivesse olhando para uma bela obra de arte. Uma que ele não tinha o direito de possuir. – Tire a máscara para podermos conversar. Se você quer que eu tire a minha, então tire a sua também. Allegra a retirou com facilidade, coisa que ele não podia fazer.


– Por que não queria que eu viesse aqui? – repetiu ela. – Esse não é um lugar feliz para mim. Ele não sabia se seria seguro contar a verdade a ela. Ele nunca havia contado a ninguém, nem mesmo para Sylvia. Assim, ele estava confuso por sentir-se preparado para contá-la. E por que não? Talvez esse fosse o instante. Talvez os demônios dele seriam finalmente exorcizados. – Foi o que imaginei. Mas por quê? A maioria das pessoas ficaria feliz em crescer em um castelo. – Você sabe muito bem que o dinheiro não garante uma infância feliz. – E como – comentou ela melancolicamente. – Meu pai era a alegria da festa – declarou ele. – Sempre com uma nova mulher. Sempre fazendo piadas. Mas como o homem bebia. E quando ele bebia, perdia o controle e ficava violento. Em uma ocasião, ele engravidou uma


amante. E como já estava velho, resolveu que era hora de sossegar. Então, se casou com ela. – Era a sua mãe? – Sim. Mas depois que eu nasci, as coisas mudaram. – Como? – De acordo com ela, era como se um demônio tivesse possuído ele. Por algum motivo eu o irritava. Ele começou a ser violento. – Cristian... Que horrível. – Meu pai era um homem terrível. Por um tempo minha mãe foi o alvo favorito dele, mas depois isso mudou. Eu era a coisa que mais o enfurecia. Eu havia alterado a vida dele, o corpo da amante dele. Ele me desprezava. Por motivos que eu ainda desconheço. Apesar disso, ele precisava de mim. Porque eu ia herdar seu título, sua fortuna. – Cristian, o que aconteceu aqui?


– Aqui, especificamente? – Ele olhou ao redor do cômodo, seu olhar pousado no bar. – Aquele bar não costumava estar ali. Havia uma grande peça de mobília feita de mármore, eu acho. Ele me jogou contra ela. Acho que eu não quebrei nada daquela vez. Machucados nas costelas? É difícil de lembrar. Allegra levou a mão à boca. – Naquela vez, minha transgressão foi estar no caminho dele. Mas, em incontáveis noites, ele só precisava de alguém em quem descontar a raiva. Então, ele bebia. E vinha até o meu quarto. Às vezes ele me batia com os punhos. Mais de uma vez, ele me jogou escada abaixo. – Ele estava tentando matá-lo? – Claro que não. Quem iria carregar o título dele? – Ele deixou escapar uma risada cínica. – Um herdeiro machucado, tudo bem. Mas um morto complicaria as coisas. – Eu nem sei... – Ela levou a mão ao peito, e respirou fundo.


– É terrível. Terrível imaginar que alguém possa fazer isso a uma criança, eu sei. A melhor coisa que meu pai fez foi beber até entrar em um estado de estupor e jogar-se das escadas. Meio que por acidente. Mas foi isso que o matou. Aqui. Quando eu tinha 10 anos. – Cristian... – Minha mãe não consegue nem olhar para mim. Acho que ela se culpa por ter ficado com ele até o fim. Ou talvez ela me culpe. – Como ela poderia culpar uma criança? – As coisas só começaram a mudar depois que eu nasci. – Mas isso não... Isso não é uma desculpa. – Mas também não quer dizer que elas não mudaram. – Ele era tão prático. À essa altura, ele tinha de ser. No entanto, ali no castillo, era difícil ser direto. Quando as paredes pareciam estar se fechando ao redor dele, quando o passado parecia estar se infiltrando no presente. De repente queria dar o fora dali. Ele precisava


ter certeza de que o castelo estava em ruínas, que ele não estava vivendo em uma espécie de versão torturante do passado. Ele escancarou a porta e saiu correndo, descendo as escadas espiraladas até o hall de entrada. Ele não se importava em estar nu, e por que se importaria? Não havia ninguém ali. E de qualquer forma, ele jamais havia se sentido tão despido na vida. Na sala em ruínas ele olhou para as montanhas quase invisíveis no horizonte, para o céu azul da meia-noite cravejado de estrelas. Então ele ouviu passos. – Você realmente não gosta de me deixar sozinho, não é? – Cristian. Você está me evitando. Está evitando o passado. – Porque não há motivo para revirá-lo. Não posso dizer que eu sobrevivi a ele sem cicatrizes, porque nós sabemos que não é verdade.


– Eu só estou surpresa por você... Digo... – Você está surpresa por eu poder admitir que meu pai me deixou com danos psicológicos? Quão emocionalmente atrofiado acha que eu sou? – Só um pouco. – Isso não importa – retorquiu ele. – O passado é passado. – É por isso que se irritava comigo, por achar que eu não respeito meus pais. Por achar que eu não entendo o quão maravilhoso é tê-los. Ele passou a mão pelo cabelo, respirando fundo o ar da noite. – Isso foi injusto da minha parte. Minhas agruras não negam as suas. Só porque minha infância foi difícil não quer dizer que você não enfrentou desafios. – Mas ninguém... quebrou-me. – Mas você tinha medo que isso acontecesse, não?


Ela percebeu que as palavras dele eram verdades. – Sim. Mas isso não é justo. – O medo não vem do nada, Allegra. Alguém deve ter feito algo para você. Ela parou ao lado dele. – É que meus pais costumavam ficar muito bravos comigo. Eu nunca fui como Renzo. Ele sempre foi charmoso, atraindo as pessoas ao redor dele, e não só mulheres. Ele sempre soube se portar em todas as situações, diferente de mim. Cristian não acreditava que eles eram pessoas cruéis, ou que de alguma forma tinham a intenção de magoar a filha. Porém, estava claro que ela estava ferida. Que ela havia se preparado para entrar em um casamento com um homem que não amava por medo de perder a família. – Eu não saberia dizer quem eu sou sem o nome Valenti. Quando eu o vi no baile –


proferiu ela, sorrindo por causa do humor naquelas palavras, como se eles nunca tivessem se visto antes daquela noite –, eu tive uma epifania de que talvez eu pudesse lançar tudo pelos ares. Abrir mão da precaução. Pelo menos por um instante. Para ter um vislumbre de quem eu realmente sou. Do que eu quero. Para ver se vale mesmo a pena correr atrás disso. – E como se sentiu depois? – Aterrorizada. Mas agora que tenho minha liberdade, eu sinto que posso exigir o que eu quero, que posso mostrar quem eu sou e, mesmo sabendo que não vou ter a aprovação de todos, eu não preciso ter medo de ser rejeitada. – Fico feliz por você – disse ele, sentindo um aperto no perto que não se parecia nem um pouco com prazer. – Acho que podemos fazer dar certo – afirmou ela, dando um passo adiante. Fazendo com que o aperto no peito dele se intensificasse.


– Nós já estamos fazendo dar certo – replicou ele. – Nosso filho não será ilegítimo. – Certo. Por causa do nosso casamento temporário. Mas... Por que ele precisa ser temporário? Aquela indagação simples poderia ter feito o resto do castillo desabar. – Eu já lhe expliquei. Não posso ser o marido que você quer. – Você está mais uma vez presumindo o que eu quero. Sabe que pode ser um marido. Um marido fiel. Como foi com Sylvia durante anos. – Viver comigo acabou com ela. Eu claramente não fui capaz de dar a ela o que tanto precisava. – Todos nós temos nossas bagagens. Talvez ela tenha sido sufocada pelos próprios problemas. Ele não podia negar que Allegra tinha razão. Todavia, ele também não podia negar que o ambiente no qual Sylvia vivera junto dele não


havia sido ideal. Talvez um homem mais sensível e atencioso pudesse ter destruído os muros de silêncio que ela havia erguido ao redor de si e intervindo antes que fosse tarde demais. – O que estou dizendo é que não há motivos para planejarmos um divórcio, Cristian. Claramente, nós somos compatíveis na cama. – Ela tentou dizer tais palavras da forma mais blasé possível, mas suas bochechas ganharam um tom róseo. – Sim, é verdade – cedeu ele, com a voz constrita. – E às vezes nos damos bem. Então para quê criarmos outro escândalo? – O que você está pedindo não é tão simples assim. Um casamento implica uma vida compartilhada. Implica ter mais filhos. – A ideia o enchia de pavor. Ele já queria se manter o mais longe possível daquela criança. Não porque ele imaginava que iria se tornar como o


pai, mas porque ele odiava a ideia de envenenar uma vida inocente. Assim como estava fazendo com Allegra. Ele sabia que iria machucá-la de um jeito ou de outro – sendo marido dela ou abandonandoa. Era a natureza impossível dasituação. – Não precisamos ter mais filhos – declarou ela. – Sugiro deixarmos essa discussão em aberto para daqui a dois anos – argumentou ele. – Então vamos passar os próximos dois anos com a espada de Dâmocles pairando sobre nossas cabeças? – Ao final desses dois anos, você terá de escolher qual das duas opções é o golpe menos fatal: o divórcio ou continuar casada comigo. – Ele sabia que ela ia se cansar dele. Cristian não sabia dar. No pouco tempo em que estavam dormindo juntos, ele havia descoberto que ela era um poço sem fim de generosidade. Até


mesmo a atitude dela que ele sempre achara desagradável vinha do desejo de agradar. – Parece-me justo – pronunciou ela suavemente, e ele sabia que ela não achava a situação nem um pouco justa. – Que bom. Nós vamos então retomar o assunto quando for necessário. Amanhã nós voltaremos para Barcelona – informou ele dando uma última olhada nas ruínas. Seja lá o que ele esperava encontrar ali naquela noite, não tinha encontrado. Depois de passar o dia revirando escombros ele não havia chegado nem perto de descobrir o que estava buscando. Ele já estava farto daquele lugar. Ela aproximou-se dele e colocou a mão nas costas dele. Ambos ainda estavam nus, banhados pelo luar. Ele virou-se, colocou um braço ao redor da cintura dela e ergueu o queixo com a outra. Inclinando-se para frente, ele então beijou aqueles lábios com força.


– Só espero que você não se arrependa – advertiu ele, sabendo que isso seria inevitável. – Isso nunca vai acontecer, Cristian. Você me salvou de um casamento arranjado. – E a condenei a se casar comigo. – O que você vê como uma condenação – retorquiu ela, tomando o rosto dele entre as mãos –, eu enxergo como estar próxima ao Paraíso. As palavras dela eram como um bálsamo curativo. Caramba, ele não a merecia. Ele não conseguia dar nada em troca; sabia apenas receber. Ali naquelas ruínas, onde não havia respostas, ele havia se perdido no corpo dela. No chão frio de pedra, ele havia pegado tudo que Allegra tinha a oferecer, e não havia lhe dado nada em troca.


CAPÍTULO 12

O

estava se aproximando, e Allegra não sabia dizer se as coisas entre Cristian e ela estavam melhores ou não. Ambos pareciam estar evitando os assuntos conversados no castillo; ela fingia não querer mais, fingia que tudo ia ficar bem. Toda noite ele a tomava em seus braços, e toda noite ele fazia amor com ela de forma ainda mais apaixonada do que na anterior. Se havia um lugar onde eles se conectavam, esse lugar era a cama. Durante o dia, entretanto, eles mal se falavam. CASAMENTO


Aquele era o dia da prova do vestido de noiva. A mãe dela estava vindo, o que a deixava incomensuravelmente nervosa. E junto com ela viria a costureira, o que a deixava ainda mais aflita – possivelmente porque a evidência da gravidez se tornava cada vez mais inegável. Quando a porta se abriu e a mãe dela entrou junto com a costureira, Allegra preparou-se para a torrente de palavras que estava por vir. Mas Allegra estava enganada. Ela foi imediatamente despida e posta sobre um banquinho, vestindo apenas um sutiã sem alças e uma crinolina para dar sustentação à saia do vestido. – Só porque você não vai mais se casar com um príncipe, não quer dizer que não pode parecer uma princesa no dia do seu casamento – comentou a mãe dela em seu italiano desenfreado. – Acho que sim – proferiu Allegra, enquanto a costureira prendia metros e metros de seda


com grampos e alfinetes em diferentes posições, apertando aqui e afrouxando ali. – Você engordou um pouco – observou a mãe dela ao som das costuras sendo rasgadas para acomodá-la melhor. – Bem, mãe, eu estou esperando um filho. É de se esperar. – É mesmo. Cristian é o pai da criança, correto? Ou ele simplesmente concordou em fazer isso para proteger a sua honra? Allegra quase caiu do banquinho, e deixou escapar uma risada. – Confie em mim, mãe, Cristian não tem interesse em proteger minha honra. Nos últimos meses ele esteve empenhado em acabar com o que restou dela. A mãe dela arqueou uma sobrancelha. – Informação demais, Allegra. – Não faça questionamentos indiscretos se não quiser respostas detalhadas. A outra bufou.


– Você está impossível hoje. – Estou assim há um bom tempo. A gravidez é só um detalhe. – Cristian é uma ótima escolha – garantiu a mãe dela, enquanto a costureira continuava a trabalhar. – Ele é – respondeu Allegra. – Só me arrependo de não ter sido mais direta na forma como eu lidei com as coisas. Muitas coisas. Não só o noivado com Raphael, mas principalmente seus sentimentos por Cristian. Pois eles sempre estiveram presentes; ela só tinha medo de encará-los. Ela podia estar casada com outro naquele momento, enquanto o único homem que ela já havia desejado era Cristian. A ideia a deixava aterrorizada. – Não importa. Raphael obviamente já tinha outra mulher. Princesa Bailey, você já ouviu algo mais ridículo?


– Eu comentei que isso parece mais o nome de um cachorro do que o de uma princesa – mencionou Allegra sarcasticamente. – Mas ela é bonita. – E está grávida, dizem os tabloides. – E eu também – retrucou Allegra. – Já que os dois estão loucos para começarem a produzir filhos, vocês deviam ter começado juntos – comentou a mãe dela. – Não é simples assim. Se ela faz Raphael feliz, então acho que minha transgressão teve um lado positivo. Nós dois conseguimos o que queríamos. – Ela sorriu. – Não dava mais para fingir que nós gostávamos um do outro. Ele nunca nem me beijou. – De novo, informação demais. Alguém bateu na porta. – Posso entrar? – A voz grave e rica de Cristian chegou até elas. – Não. Allegra está provando o vestido, e isso seria fatalmente ruim para a sorte de vocês.


Allegra riu. – Que drama, mãe. – Você precisa de toda a sorte que conseguir. Se algo der errado com esse casamento, eu não vou apenas deserdá-la. Eu vou matá-la. Allegra revirou os olhos enquanto descia do banquinho, contando com a ajuda da costureira para tirar o vestido. Depois ela se apressou em vestir um moletom. Uma transformação inglória. – Já pode entrar – avisou a mãe dela. O coração dela parou quando ele entrou. Cristian estava estonteante com uma camiseta preta e um par de jeans escuros. De terno, em roupas casuais – ou nu, como ela preferia –, ele estava sempre perfeito. – Olá, señora Valenti – cumprimentou Cristian, da forma como sempre a chamava. – Cristian. Não o vejo desde que você engravidou minha filha única e começou um escândalo.


– Nós estávamos ocupados. – Obviamente – respondeu a outra. – Perdendo tempo com prazeres carnais em vez de detalhes do casamento, eu suponho. – Mãe, você acabou de me dar uma bronca por ser informativa demais. – Verdade. Mas não posso esquecer o que me contou. Sou forçada a presumir que vocês têm estado ocupados com depravações desde a última vez que nos vimos. – Não temos tempo para mais nada – avisou ele. O foco da mãe dela mudou repentinamente. – Cristian! Sinto muito pelo castillo. Seria o lugar perfeito para vocês se casarem. – Duvido que nós iríamos nos casar lá – disse Allegra, horrorizada pela ideia de forçar Cristian a se casar no local das torturas de sua infância. Seria brutal demais. E, temia ela, propício demais.


– Por que não? Se você tem um castelo à disposição... – Infelizmente – interveio Cristian –, nós não temos. Pelo menos não um castelo inteiro. Ele está mais para uma... ruína. – Meia ruína. – Posso pegar Allegra emprestada por um instante? – interrogou Cristian à mãe dela. – Para mais depravações? – Nada tão divertido assim. Era surpreendente para Allegra ver como ele podia ser tão charmoso com as outras pessoas. O que não devia ser uma surpresa, pois ela já o havia visto interagindo com os outros muitas vezes. Mas as últimas semanas tinham sido muito intensas. Ele era gentil com ela, quando não se fechava, mas nunca era... fácil. Não daquele jeito. – Claro – replicou a mãe dela. – Aliás, nós já terminamos a prova. Mas devolva-a antes do jantar. Eu viajei muito, e não quero ficar sem


comer. E Allegra também não pode, na atual condição. Ele assentiu, segurou a mão de Allegra e a levou pela porta. O coração dela batia com força conforme eles caminhavam pelo corredor, em direção ao quarto dele. Ficar de mãos dadas... Não era algo que eles costumavam fazer. Ele gostava de abraços apaixonados e beijos destruidores. Mas aquele simples ato de intimidade mexeu com ela de uma maneira que não conseguia explicar. Ele a levou para o quarto dele, o que nunca acontecia. Cristian definitivamente gostava de ter um espaço só para ele. Outra coisa que a deixou apreensiva. – O que foi? – Tenho uma coisa para você – declarou ele indo até a escrivaninha. – Algo além do casamento, de todas as acomodações para minha mãe e o bebê? – Ao ouvir a menção do bebê, uma expressão


estranha passou pelas feições dele. Cristian não ficava nem um pouco confortável ao falar do filho deles, além dos assuntos práticos. – Isso foi encontrado nos escombros do castillo – informou ele, pegando uma caixa preta, baixa e aveludada da mesa. – Faz parte das joias da família. Parte da coleção de onde o seu anel veio. Ele abriu a caixa, revelando um colar platinado, ornamentado com diamantes brancos e cor de champanhe cintilantes. – É lindo, Cristian – vociferou ela, aproximando-se um passo. Com uma família tão grande e tradicional, é claro que o anel e o colar já tinham pertencido a alguém. Ela imaginou se eles não haviam sido da mãe dele, ou ainda da esposa. Ela não tinha o direito de ficar chateada por causa disso. A outra estava morta, não havia motivos para ciúmes. Exceto que ela fora a mulher que Cristian havia escolhido. Enquanto Allegra era a mulher


com quem Cristian estava preso. Ela cerrou os dentes. – O que foi? – inquiriu ele. Ela deu de ombros, tentando parecer casual. – Nada. – Você está chateada. Não é a reação que eu esperava ao presenteá-la com uma joia de valor inestimável. Mas eu já deveria saber que não posso prever suas reações, Allegra. – Se você pudesse prever minhas ações, não ia gostar tanto assim de mim. – Isso é impossível de provar. Por que você está infeliz? – Não estou infeliz – garantiu ela, estendendo a mão. – Dê-me o colar. – Não – contestou ele, fechando a caixa com força. – Não até me contar o que está acontecendo. – Estou estática. O problema é que você não quer me dar meu presente.


Ele deu um passo adiante, abrindo lentamente a caixa. – Eu vou lhe dar. Mas você não vai pegá-lo e sair correndo, como um órfão esfomeado. Vai permitir que eu o apresente a você. Como um homem deve presentear sua noiva. Cristian parou atrás dela, incendiando o sangue dela. Mesmo que Allegra estivesse brava com ele. Sabia que as coisas seriam sempre assim, ela o desejava tanto que nada parecia aplacar seu desejo. Ele ergueu o colar da caixa e pousou-o sobre o colo dela, o metal e os diamantes pesando mais do que pareciam. – Quem mais você já presenteou com este colar. A propósito, quem mais já usou minha aliança? – Ninguém. – Ninguém mesmo? – Se você vai ficar chateada por não ser a primeira mulher a usar meu nome, então vai


ficar muito frustrada. Eu já fui casado, e não posso mudar o passado. – Ele fez uma pausa. – Eu o mudaria, tenha certeza disso. Mas não posso. – Você teria optado em não se casar com Sylvia? – Pelo bem dela. Mas ela nunca usou essas joias, se é isso que está a incomodando. – E por que está dando esse colar para mim? – perguntou ela. Allegra tentava desesperadamente encontrar um significado naquilo tudo. – Sylvia gostava de coisas modernas. Mas essas peças me fazem lembrar de você. Da sua máscara. Vamos encarar a verdade: nosso relacionamento é de certa forma antiquado. – Se não levar em conta o fato de termos feito sexo como dois estranhos. – E acha que as pessoas não faziam isso na época em que essas peças foram forjadas? Eu garanto que sim. Só que naquela época, quando


alguém engravidava, eles precisavam se casar. Que é exatamente o que estamos fazendo agora. – Acho que é verdade. – Combina com você – comentou ele, olhando para o colar. – Obrigada – disse ela, tocando a pedra central. – De verdade. – Minha mãe também nunca usou essas peças. Meu pai não as deu para ela. Ele achava que ela não as merecia. Mais um motivo para eu querer dá-las a você – continuou ele. – Mesmo depois de engravidá-la, ele a considerava uma vadia, que não merecia o título dele. Ele se casou com ela apenas por causa da gravidez. Ela não era o tipo de mulher que ele teria escolhido por vontade própria, sabe. – E nem eu – recordou ela, sentindo a garganta subitamente constrita.


– Não, você não é o tipo de mulher que eu teria escolhido para mim, mas isso não tem nada a ver sobre a sua pessoa – argumentou ele. – Mas diz sobre a sua. E suponho que isso deva me fazer sentir melhor, dada a sua narrativa vagamente autodepreciativa? Ele a encarou. – Sim. – Bem, não é o caso. Não me sinto nem um pouco melhor sabendo que você não teria me escolhido, só porque acha que sua escolha seria suspeita. Nenhuma mulher quer se casar com um homem que não a escolheu. – Você não precisa continuar casada comigo, Allegra, nós já discutimos o assunto. É você quem acha que devemos tentar transformar isso em algo permanente. No fim, você vai descobrir que essa não é uma boa ideia. – Sim, por causa do seu lado sombrio. Eu já sei.


– Eu já deixei claro de onde venho, e o que vivi. Não sou o tipo de homem que pode dar o que você quer. – Você sabe o que eu quero? – Imagino que queira um homem que possa... Sentir as coisas. – Mas você sente – assegurou ela, dando um passo adiante e colocando a mão sobre o peito dele, para sentir o coração de Cristian. – É como se existisse uma parede dentro de mim barrando tudo, uma parede que eu não consigo quebrar. E mesmo que pudesse, não sei se isso seria uma coisa boa. Emoções descontroladas podem ser feias, perigosas. O único momento em que me deixei levar foi com você. Ela sentiu o estômago revirar. – E mesmo assim você não teria me escolhido? – É exatamente por isso.


As palavras atingiram-na como uma corrente elétrica. E dessa sensação ela sentiu algo florescer dentro do peito. Esperança. Aquele era um homem feito de pedra. Ele era muito parecido com o castillo que tanto odiava. Imperioso, ainda que vulnerável. Consumido de dentro para fora pelo fogo, enquanto as partes não danificadas faziam o possível para mantê-lo de pé. Ele não a teria escolhido porque ela o desafiava. Porque o deixava amedrontado. Ele dizia que as paredes jamais seriam derrubadas, mas ela sabia que estava perigosamente muito próxima de rachá-las, de testá-las. De destruílas. E era por isso que ele a rejeitava. – Você sabia que era eu? – Não – respondeu ele com firmeza. – Eu não acredito em você. – Você mesma afirmou que se tivesse tido a menor das suspeitas de quem eu era, teria me recusado.


– Sou uma mentirosa. Mas eu não menti tão bem para você como eu menti para mim mesma. Acreditei que não sabia quem era aquele homem misterioso. E claro que era você. Você desceu as escadas naquela noite e meu mundo parou de girar. Cristian, só você poderia ter feito isso. – Por quê? – interrogou ele, a voz trêmula. – Porque você é a única pessoa que já me fez sentir assim. Por que acha que me irritava tanto? Porque você sempre me fez sentir coisas que eu não estava pronta para sentir. Imagine só a indignidade da situação – mencionou ela, rindo. – Odiar e desejá-lo ao mesmo tempo, sabendo que estava com outra. Era uma fantasia adolescente, de muitas maneiras. Sentir-se tão atormentada. As heroínas da literatura gótica teriam inveja de mim. – Você não sabia que era eu – frisou ele com firmeza.


– Sim. Eu sabia. Como poderia ter sido outra pessoa? Eu era virgem, Cristian. Acha mesmo que eu teria me entregado a um completo estranho? Aquelas palavras trouxeram as primeiras evidências de dúvida ao rosto dele. – Você sabe que não – continuou ela. – Eu tinha medo de perder meus pais. Tinha medo de me casar com Raphael, mas mais do que isso eu tinha medo de um escândalo, de perder minha segurança. Eu não tinha medo de viver uma vida sem paixão, pois se fosse esse o caso, eu teria desaparecido há muito tempo. Mas não. O que eu mais temia era viver a vida sem saber como é ser tocada por você. Ser beijada por você. – Você pode ter se convencido agora que sabe que era eu, mas eu lhe garanto, Allegra, eu não tinha a menor ideia de que aquela era você. – Você não sabia que a mulher parada ao lado dos bolinhos de creme, que pegou sua mão


sem hesitar, que o encarou como se você fosse a salvação, era a garota que há mais de uma década se senta na sua frente à mesa do jantar? – Não. Allegra ergueu as mãos, segurou o pescoço dele, entrelaçando os dedos pelo cabelo de Cristian e o forçou a encará-la. Então, juntou os lábios aos dele.


CAPÍTULO 13

A

beijo, a cada carícia da língua dela contra a dele, a cada roçar dos dentes dela contra os lábios dele, Allegra o chamava de mentiroso. Ele o era, ela sabia. Ele tinha de ser. Ela sabia que vinha se escondendo da verdade há tempo demais, e que ele vinha fazendo o mesmo. Ela estava tão confiante que continuou a despejar as emoções nele. Talvez seja verdade, sussurrou uma voz dentro da cabeça dela. Talvez ele não soubesse. Talvez você nunca tenha sido especial. Ela gemeu, rebelando-se contra a voz enquanto intensificava o beijo. Ele não estava em condições de resistir à atração entre eles. CADA


Cristian envolveu-a com força, apertando o corpo dela contra o dele, revertendo a estrutura daquele beijo, tomando-a, clamando-a, dizimando-a. Cristian tirou a blusinha dela, deixando os seios expostos antes de tomá-los entre as mãos, gemendo enquanto brincava com os mamilos com os polegares. Como ela amava aquilo. Como o amava. Com cada pedaço de seu ser. Ela não queria ser recatada, não queria se comportar. Assim, sem se preocupar com o embaraço, ela vocalizou seu desejo. Pois naquele momento não havia motivos para se envergonhar. Não com ele. Ele levou a boca até um daqueles pequenos botões, fazendo com que Allegra se agarrasse a ele com força, arqueando as costas e oferecendo-se a ele para potencializar o prazer, desfrutando de cada movimento da língua dele. Então ele se ajoelhou e puxou a calça dela, deixando-a completamente nua diante de seus


olhos, que brilhavam de prazer. Ele deslizou as mãos por entre as coxas macias dela, separando-as, para depois agarrar-se às nádegas dela e puxá-la contra o rosto, entorpecendo-a de prazer com a língua e os lábios no ponto central do desejo pulsante de Allegra. Cristian lhe proporcionava um prazer que ela não sabia ser possível. Ele a fazia querer coisas, fantasiar com coisas que ela jamais havia imaginado. Ele a satisfez e a deixou querendo muito mais, ao mesmo tempo. Ela movia os quadris no mesmo ritmo que a boca dele, perdendo-se completamente na excitação que a consumia. Ela não sentia vergonha, não havia motivos para se envergonhar. Pois aquele era um lugar seguro, onde podiam se expressar sem medo. A cada golpe da língua dele contra a concentração de nervos sensíveis dela, a levava mais a fundo no prazer que ameaçava estilhaçá-la. Contudo, quando o clímax chegou como uma onda, ela


descobriu-se ainda mais segura de si, perfeitamente, Allegra. Ele a colocou no chão e posicionou-se entre as pernas dela. E quando ele a penetrou profundamente ela arqueou as costas para que ele pudesse ir ainda mais fundo, alargando e preenchendo-a por completo. Ele era tudo para ela naquele instante, o próprio ar que ela respirava. Tomando o rosto dela entre as mãos, Cristian a beijou como se não fosse ter fim, com uma ternura devastadora. O beijo que eles não puderam compartilhar naquela noite. Era isso que ele estava lhe dando naquele momento, um beijo cheio de promessas, cheio de necessidade. Um beijo tão íntimo quanto o membro rijo dentro dela. Quando ele começou com movimentos selvagens, ela desejou que ele não parasse. Que ele se estilhaçasse por completo, finalmente se


libertando dos muros que o prendiam por dentro. Ela envolveu as pernas ao redor da cintura dele, insaciável, incitando-o mais e mais. Ela podia sentir que ele estava se aproximando do clímax, e sentiu quando ele perdeu o controle. O corpo de Cristian estremeceu enquanto ele se liberava dentro do dela, e a visão daquele homem completamente desfeito por causa dela foi suficiente para levar Allegra à loucura. Eles se agarraram um ao outro, abalados pela tempestade de prazer. Ela se manteve agarrada a ele até conseguir respirar outra vez, até conseguir pensar. Então, depois que a névoa retrocedeu, depois que tudo voltou a ficar brilhantemente claro, ela falou. – Eu amo você, Cristian. AS PALAVRAS de Allegra atingiram-no bem no peito como uma bala. Era o maior desejo e o


maior medo dele brincando juntos enquanto estava deitado nu no chão do quarto. Ele não havia conseguido sequer levá-la até a cama, que ficava só a alguns passos dali. O que isso dizia sobre ele? Quem era quando estava junto dela? Que feitiço aquela bruxinha havia posto nele? Era uma indagação que ele fazia para si mesmo desde que passara a olhá-la não como uma garota, mas como uma mulher. Um questionamento que sempre o deixava procurando por algo para criticar quando estava na presença dela. Algo que pudesse mantê-lo longe da verdade: não havia o que criticar. Porque ela era a perfeição para ele. O tipo de perfeição que podia se esgueirar pelas defesas dele e arruinar tudo que havia construído. – Não – contestou ele, afastando-a, levantando-se. – Você está... Dizendo não? Como se pudesse controlar meus sentimentos?


– Você não me ama, Allegra. – Não é você quem decide isso. – Você é uma criança, uma fedelha mimada que acha que casar-se com um príncipe não era o bastante. Criou a fantasia de fazer amor com um estranho. E agora está vivendo essa fantasia, como se sua transgressão fosse, de alguma forma, o necessário para reconstruir sua vida. Você não percebe? Isso tudo é a imaginação de uma criança. – Ele falava freneticamente, desesperadamente tentando acreditar no que estava dizendo. Era mais fácil para ela acreditar em amor do que no fato de que estava arruinando a vida ao atar-se a ele. Ela era jovem, na casa dos vinte. Ela não sabia nada do mundo. E certamente não sabia nada dele. – Que história fascinante, Cristian. Se ser um duque não der certo, talvez você deva pensar na carreira de escritor.


– Nenhuma criança gosta de ouvir que é inexperiente, mas neste caso, sugiro que você pare e ouça. – Para quê? Para tentar me fazer parecer uma louca? Como se as últimas semanas não tivessem existido? Mesmo que o fizesse, Cristian, isso não apagaria as conclusões a que cheguei. – Conclusões convenientes, imagino. – Eu sei que era você – murmurou ela. Palavras que soavam como obscenidades ditas em uma igreja. Chocantes, brutais. Ele não podia aceitá-las. – Você tece histórias muito interessantes quando se encontra em uma situação que não pode controlar ou mudar. Você está tentando transformar nossa história em um conto de fadas, e está tentando encontrar um final feliz para si mesma. Mas comigo, Allegra, não há finais felizes. – Você tem certeza disso?


– Eu sei como as coisas são. De quantos finais eu preciso presenciar para que você acredite em mim? Meu pai bebeu até morrer, minha mãe fugiu para festejar pela Europa para tentar esquecer o som dos ossos do filho sendo quebrados pelo marido. E Sylvia? Vou lhe contar sobre o final feliz de Sylvia, Allegra. Uma mulher frágil sob os cuidados de um homem que só sabia destruir coisas bonitas e delicadas. Ela queria o que eu não podia dar, e foi isso que a matou, no final das contas. – Não. Você mesmo relatou que ela lutou contra vários problemas mentais... – E muitas pessoas vivem suas vidas lidando com esses problemas. Minha esposa está morta. E você sabe por quê? Porque eu não dei o apoio que ela precisava. – Você adora ser um mártir, eu já percebi. Porque isso permite que você afaste as pessoas. – Está me acusando de ser um mártir por conveniência? Não sabia que isso existia.


– Claro que existe. Você se convenceu de que envenena a tudo e todos que toca para continuar afastando as pessoas. Para que elas não o vejam. Para que elas não vejam o menininho assustado e machucado que você é. – A expressão dela abrandou-se. – E por que você não seria assim? – Não se iluda achando que sou uma criança que você pode salvar, Allegra. Eu salvei a mim mesmo. E cresci, a duras penas. Isso se chama sobrevivência, e não me arrependo. No entanto, isso me transformou no tipo de homem incapaz de ser o marido que uma mulher como você precisa. Eu jamais conseguiria me envolver profundamente com uma criança vulnerável. A melhor coisa que você pode fazer é se divorciar de mim. E dar ao nosso filho um padrasto capaz de ser o homem que eu nunca poderei ser. – Você quer outro homem na minha cama? Outro homem criando o seu filho?


– O que eu quero e o que é certo são coisas muito diferentes. Ele a estudou, seus olhos sombrios vendo até demais. – Sim – disse ela depois de um longo instante. – Acho que você está certo. O que você quer é se esconder. O certo é você seguir em frente com sua vida. Sem mim. Sem nosso filho. – Eu farei o necessário para dar ao meu herdeiro a vida que um duque merece. – Mas a verdade é que ele será mais do que isso, Cristian. Ele não passa de uma teoria agora, um instrumento para dar continuidade à sua linhagem sanguínea. Mas logo ele ou ela será uma criança que vai precisar do pai. – Não quando o pai em questão sou eu. Ela balançou a cabeça. – Você não vai machucá-lo. – Não é necessário quebrar ossos para ferir alguém, Allegra. O que acha que anos de


negligência farão a você? Ao bebê? – Você não é frio. – Só no sexo – afirmou ele, aflito. – Pelo menos quando você está dentro de mim, consegue ser honesto. – Você está confundindo orgasmo com emoção. Várias virgens já fizeram isso antes de você, então não precisa ficar envergonhada. – A reação dela foi como se tivesse levado um tapa. – Eu sou bom de cama. Mas isso não significa que eu me importo com as mulheres com quem durmo, e você não é uma exceção. – Pare – retrucou ela. – Estou começando a achar que você realmente acredita nisso. Mas eu não. Você está inventando desculpas e chamando-as de verdade. Você pode até estar se enganando, Cristian. Mas não a mim. Cada palavra era como o estalar de um chicote contra a pele dele, cortando-a, sangrando-a. Ele desejou que o que ela estava dizendo fosse verdade. Que tudo fosse assim


tão fácil. Que tudo que ele precisasse fazer fosse decidir seguir em frente. Mas ele sentia-se acorrentado, sem condições de libertar-se. E que tipo de monstro forçaria uma mulher e uma criança a viverem em uma masmorra? – Não. Nós nos casaremos semana que vem, conforme o planejado. E quando o bebê nascer nós nos divorciaremos. Ele nascerá dentro dos laços matrimoniais, não há o que discutir. Mas em relação a nós, não haverá nada. Eu não a tocarei. Eu não a beijarei. E eu não me deitarei com você. – Por favor, não faça isso. Nós podemos ter mais, muito mais. Você só precisa ser corajoso. – Chega. Eu tive coragem de me levantar de manhã com os ossos quebrados e encarar meu pai na mesa do café da manhã. Quando criança, eu tinha essa coragem. Se coragem fosse o bastante, eu já estaria livre há muito tempo. Mas você quer que eu ressuscite algo que está morto. Algo que eu não me arrependo de ter


perdido. – A mentira queimava. Ele agora se arrependia, mais do que ela jamais saberia. – Já tomei a minha decisão. Você não pode me forçar a ficar em um casamento que eu não quero. Ela o encarou com os olhos sombrios, cheios de lágrimas. Ele não se considerava digno de nenhuma delas. – Eu não quero estar com um homem que não me deseja. Estaticamente. Incondicionalmente. Eu já tive esse futuro diante de mim, e não o quero novamente. – Que bom. Então chegamos a um acordo. – Ele deu as costas para ela, cada batida de seu coração parecendo ser a última. – Tenho negócios a tratar em Paris, talvez seja melhor assim. – Ele não tinha. Era mentira. Mas ele iria para seu apartamento parisiense só para dar espaço a ela. – Eu voltarei a tempo do casamento. Enquanto isso, sinta-se livre para


permitir que sua mãe cuide de cada mínimo detalhe da cerimônia. Isso a deixará feliz. – Sim – respondeu Allegra –, ela ficará. – O que implicava afirmar que Allegra não ficaria. Mas, enfim, ela nunca havia acreditado que poderia ser feliz. – Vista-se – ordenou ele, sua voz soando ríspida aos próprios ouvidos. Uma mudança infinitésima ocorreu na expressão dela, irreconhecível para Cristian. Ela assentiu com um meneio breve. – Como desejar. Então ela começou a obedecê-lo. E ele odiou. Naquele momento, ele percebeu que era tarde demais para desenredar-se da vida de Allegra sem destruir algo nela. Porque a Allegra que ela havia sido teria discutido com ele. E agora, ela estava simplesmente abaixando a cabeça. Ele nunca desejou tanto uma briga.


CAPÍTULO 14

ERA O dia do casamento de Allegra, e ela sabia que não devia estar sentindo uma aflição doentia e opressiva no peito. Porém, não havia mais nada. Nada além de dor, nada além de náusea. Ela poderia culpar os enjoos matutinos, mas não era isso. Ela sabia. Era a dor de um coração partido. Era exatamente do que ela vinha tentado se proteger desde o instante em que havia enxergado quem Cristian realmente era. Estar com ele a havia alterado. Não superficialmente, mas de uma forma profunda e indelével, em nível celular, transformando-a em algo inteiramente diferente. Algo real.


Allegra tinha a vaga lembrança de uma história antiga, O Coelho de Veludo. Onde um coelho de pelúcia é amado até ficar bem velho e gasto. E só então ele é transformado em um animal de verdade. A moral da história deveria ser encorajadora, mas ela sempre a considerou triste. A ideia de alguém te amar até você se desgastar – e só depois disso você descobrir o seu verdadeiro valor. Se era esse o caso, então Allegra tinha passado no teste com Cristian. Mas, muito similar à história, parecia que agora que ela era uma criatura de carne e osso, ela teria de procurar uma vida longe da pessoa que a havia transformado. Ela tentou respirar fundo, mas descobriu que não conseguia. A tristeza estava alojada no peito dela como um tijolo, pesado e desajeitado. Como ela a odiava. Mas não havia nada que pudesse fazer.


Allegra tinha de se casar com ele. Ela precisava se casar com ele pelo bem da criança. Para que o filho deles pudesse herdar... O quê? Um pai que só podia prometer distância. Para evitar um escândalo que ela nem ligava mais. Para que ela recebesse um título e um castelo que fora reduzido a nada. Nada disso havia trazido felicidade para Cristian. Por que eles estavam agindo como se fosse necessário dar à criança as mesmas coisas que nunca serviram de nada para ele? Parada ali, observando o vestido de noiva, ela não fazia ideia. – Pronta? Ao ver Renzo, ela quase despencou a chorar. Ela estava sendo o mais forte possível para provar aos pais que podia levar até o fim uma decisão, e por Cristian. Mas diante da pessoa que sempre lhe deu apoio, a única pessoa que ela sabia que iria amá-la de qualquer jeito, sentiu que estava prestes a desmoronar.


– Ainda não – replicou ela, indicando a camisa e a calça que ainda estava usando, e o vestido no cabide. – O casamento vai começar logo – advertiu ele. – Eu sei. – Cristian está aqui. Ele não fugiu, como você pode estar temendo. Ele sabe que eu o caçaria até o fim mundo, mataria e o penduraria na parede de casa. – Havia um tom sombrio na voz de Renzo que não deixava dúvidas de que ele faria exatamente isso. – Não será necessário – pronunciou ela, tentando soar tranquila. – Todavia – continuou Renzo –, se você fugisse dele, eu diria que tem seus motivos. E eu não a buscaria e a arrastaria de volta. – Você está... sugerindo que eu abandone seu melhor amigo no altar? – Se você quiser. – Querer não tem nada a ver com isso.


– Eu não quero que ele a machuque – argumentou Renzo. – É um pouco tarde para isso. – É o que eu temia. – Ele respirou fundo. – São grandes as expectativas, Allegra. Mas o que você espera para a sua vida? – Eu vou ter um filho. Preciso fazer o que é melhor para ele. – Sempre achei isso ridículo – assegurou ele. – Fingir que a felicidade de uma mãe não está ligada à felicidade do filho. Que ela deve se sacrificar para que a prole saiba o fardo que foi para ela. Não, eu nunca achei que essa é a maneira mais saudável de criar um filho. Nossa mãe certamente não é uma mártir. Allegra riu. – Não, ela não é. – Ela é forte. E mesmo sabendo que ela impôs a você expectativas que tornaram as coisas difíceis, você conhece a força dela. Você


não gostaria de que seus filhos vissem isso em você? O estômago de Allegra deu um nó. – Acho que sim. – Seja forte, Allegra. E crie a vida que deseja viver. Você não quer que seus filhos pensem que eles acabaram com a sua existência. Que eles a arruinaram. Ela pensou em Cristian. Em como ele se sentia em relação ao pai. No que ele acreditava que havia feito ao pai. – Não – retorquiu ela –, eu não quero. – Se você não subir naquele altar, eu serei a última pessoa a condená-la. – Eu desapontaria todo mundo. Mamãe avisou que me deserdaria. – Ela não vai. E mesmo que fizer isso... Não há motivos para você continuar com esse casamento, Allegra. É você quem vai acabar se casando com Cristian, e eu não trocaria de lugar com você.


– Por vários motivos, aposto – contestou ela. – Sim, alguns. – Ele respirou fundo. – Essa é a sua vida, Allegra. Você precisa vivê-la da maneira que a faz feliz. – Ele fez uma pausa, e por um momento ela viu um brilho de dor nos olhos do irmão. – Não deixe que nossos pais decidam por você. Não deixe que ninguém decida. Seu futuro precisa pertencer a você. A alternativa é um arrependimento que você não quer. Confie em mim. Renzo então saiu, deixando-a sozinha com o vestido. Ele estava certo. A vida era dela. Quanto à felicidade... Era algo passageiro. Mas... Amor? Ela queria amor. Ela não podia casar-se com Cristian apenas pelo divórcio. Não importava o que as pessoas esperavam dela, pois Allegra não ia subir no altar e mentir para centenas de pessoas. Ela ia amá-lo, e ia permanecer ao lado dele, mesmo que tivesse de abandonar a todos para isso. Ela não ia permitir


que ele mentisse. Em nome da honra. Do título de nobreza. Pela legitimidade do filho. Assim, Allegra olhou pela última vez para o vestido e, vestindo roupas comuns, ela virou-se e saiu do quarto. ELA NÃO vinha. Isso estava claro. Quando a música começou e a vista diante de Cristian, parado no altar, não mudou, ele percebeu que Allegra não viria. A Allegra dele, que sempre aparecia quando ele pedia para ela não aparecer. Que o havia seguido até o castillo enquanto ele vasculhava os escombros. Que sempre o provocava e o instigava. Ela não vinha, justo quando era esperada. Ele olhou para o amigo ao seu lado, de smoking, com uma expressão neutra. – Parece que sua irmã não vem – declarou ele, tentando soar tranquilo. – Você não está sabendo de nada, está?


Renzo arqueou uma sobrancelha. – Às vezes você se esquece, eu acho, que Allegra é minha irmã. O que quer dizer que ela definitivamente pensa por si mesma. – O que ela lhe mencionou? Renzo virou-se para ele. – O que você disse a ela? – Eu só me ofereci para me casar com ela. – Você deve ter feito mais alguma coisa – proferiu Renzo secamente. – Porque se tem uma coisa que eu tenho certeza, Cristian, é de que minha irmã o ama. Ela o ama desde que era jovem demais para entender o tamanho do erro que isso representa. Mas, ainda assim, você conseguiu fazer com que ela o abandonasse. Eu a aplaudo por não dar as caras. – Renzo voltouse para os convidados, mas Cristian não fez o mesmo. Em vez disso, saiu às pressas pelo corredor central, ignorando os murmúrios de espanto que percorreram a multidão.


Ele entrou na villa, esbarrando e derrubando um vaso de uma mesa. Era possivelmente uma peça que tinha vindo do castillo, de valor inestimável. Mas ele não se importava. – Allegra? – chamou ele, mesmo sabendo que ela não ia responder. Ele gritou o nome dela enquanto percorria os corredores e quartos, ouvindo a própria voz ecoar. Ele entrou no quarto dela e deparou-se com o vestido de noiva, pendurado. Zombando dele. Allegra tinha ido embora. E Renzo estava certo. Era culpa dele. Ele havia conseguido afastá-la. A mulher tão obstinada em encontrar o lado bom dele havia finalmente desistido. E ele merecia isso, sabia muito bem. Porque não havia nem tentado escapar da prisão onde seu coração estava preso – ele estavaprestes a arrastá-la para dentro dele. Cristian não era forte o bastante para viver sem Allegra. Não tinha a coragem necessária.


Ela o havia acusado de ser covarde. E agora, ele via que era verdade. Ele então começou a se lembrar daquela noite em Veneza, e resolveu permitir-se recordar de verdade o que havia acontecido. Assim que descera as escadas, ele fora recebido pela beleza deslumbrante dela. Cachos negros à altura dos ombros nus. De início ela estava de costas, e uma sensação de reconhecimento atingiu-o em cheio no peito, uma sensação que ele se convenceu que se tratava de excitação. Era uma visão cintilante. Incendiadora. Em toda a vida, ele só havia conhecido uma mulher assim. Ele sabia que era ela. Claro que sabia. Todo o corpo dele reagira a ela. Há três anos ele vivia em celibato e nenhuma outra mulher havia mexido com ele como Allegra. Ele havia dito para si mesmo que era irritação, que era raiva. E naquela noite em


Veneza, ele tinha se convencido de que era a excitação de ser provocado por uma completa estranha. Mas era ela. Sempre foi. Allegra. Todo o ser dele clamava por ela, por aquelas coisas que ele havia se convencido de que odiava. A inocência, a juventude, a paixão. Havia dito para si mesmo que desprezava tudo isso porque a outra opção seria admitir que as amava. E isso ele não podia permitir. A verdade o derrubou de joelhos. A dor atravessou seu peito com um corte limpo e preciso. Claro que ele a amava. Sempre a amara. E só agora, quando já era tarde demais, é que ele tinha encontrado a coragem para ver as coisas como elas realmente eram. Ele amava essa mulher! Essa mulher que carregava o filho dele, que deveria se tornar a esposa dele. A mulher que ele havia destruído, como sempre destruía tudo que gostava.


E nĂŁo havia como consertar. Naquele instante, o Ăşnico lugar em que ele queria estar era justamente onde ele havia sido quebrado.


CAPÍTULO 15

O PERCURSO até o castillo era mais familiar do que ele gostaria que fosse. Gostaria que aquelas lembranças da infância não estivessem indelevelmente marcadas a ferro e fogo no inconsciente. Mas estavam. Assim como a aflição que crescia conforme ele se aproximava da fortaleza de pedra. Era estranho vê-la em ruínas, seu poder reduzido – estava ali em busca de respostas. Aquele era o lugar que o havia criado. O lugar de sua formação. E, claramente, ele ainda permitia que o castelo ditasse suas escolhas. Não havia nada ali, ele sabia disso. Apesar disso, tirou o casaco e arregaçou as mangas até


os ombros. E caminhou em direção à parte em ruínas. Mesmo assim, ficou de joelhos e começou a remexer os escombros, cavando para encontrar alguma coisa. Qualquer coisa que significasse alguma coisa. Tinha de haver alguma coisa. Repetiu isso para si mesmo enquanto trabalhava. Cristian cavou até as mãos começarem a sangrar, até sentir o coração sangrar em carne viva, esvaindo-se a cada batida. E ele não encontrou nada. Porque a equipe de limpeza já havia revirado tudo. Ainda assim, continuou a cavar. Até que finalmente se deparou com a ponta de um pedaço de papel apontando debaixo de uma pedra. Impossível; o fogo não havia deixado nada para trás. Sem pensar, ele enfiou a mão em meio aos escombros para apanhá-lo. Um estilhaço de vidro cortou a mão dele, abrindo um corte fundo. Mas aquela dor não se


comparava com a de seu coração. Então ele a ignorou, libertando o papel. Era uma foto. Os cantos estavam chamuscados e curvados, mas a imagem era clara. Um garotinho. De cerca de cinco anos de idade, com olhos e cabelo negro, e um roxo na bochecha. Um machucado provavelmente feito pelo pai dele. O coração de Cristian pesou no peito. Era uma foto dele mesmo quando criança. Ele não conseguia se lembrar se já havia visto uma. Ele nunca tinha tido vontade de procurálas, e certamente nunca havia se sentado com a mãe ausente para se debruçarem sobre um passado que ambos queriam esquecer. Ao olhar dentro dos olhos do menino, tudo que ele encontrou foi inocência. Uma inocência que ele nunca tinha conseguido atribuir a si mesmo antes. Era uma revelação. Brutal e dolorosa.


Ele deixou escapar um som grave, torturado. Mais parecido com o som de um animal ferido do que de um ser humano. Era como enxergar a verdade pela primeira vez. Ser forçado a encarar a realidade. Se o garoto não era um monstro, então talvez o homem também não fosse. Olhar para aquele garotinho o fez pensar na criança que ele iria ter. No que ele veria quando olhasse dentro dos olhos dela. Ele sentia como se alguém tivesse enfiado a mão dentro do peito e apertado com força o coração. Aquela criança estava destinada a pagar pelos pecados do pai. Ele jamais a machucaria fisicamente. Mas estava planejando privá-la da presença de um pai por causa da dor que havia sentido no passado. Sim, ele era um covarde. E tinha a intenção de fazer aquela criança e Allegra sofrerem por causa disso. Ele havia se convencido de que


fugir da vida dos dois seria um ato de bondade – mas tudo que estava fazendo era magoá-los. Logo atrás da pontada de dor fresca, ao finalmente perceber o que estava fazendo, veio um vislumbre de esperança, o primeiro que ele tinha em muitos anos, o primeiro de que conseguia se lembrar. Ambos iriam precisar dele. Ambos iriam querer a presença dele. Allegra havia deixado isso claro. Ele havia sido tolo e covarde ao afastá-la, ao tentar convencê-la de que seu desejo em ser amado estava morto. E o problema era que queria isso mais do que tudo. Havia passado a vida toda faminto por amor. Cristian havia se casado com uma mulher que não conseguia amar e que não conseguia amá-lo. E nunca havia insistido na conexão que sentia com a mulher que mais desejava – até que o destino interveio e apresentou o momento perfeito, a desculpa mais conveniente.


Ele passou o polegar sobre a foto, deixando uma mancha vermelha. O monstro nunca estivera dentro dele. Quando criança, ele havia sido forçado a forjar uma fera que fosse mais aterrorizante do que aquela sempre à espreita do lado de fora do quarto dele. E mesmo adulto ele havia se forçado a continuar acreditando nela. Que algo causava a devastação na vida dele – pois a alternativa seria aceitar que coisas ruins simplesmente acontecem, e que ele não podia fazer nada para evitá-las. Para impedir que Sylvia tirasse a própria vida. Ele desprezava tanto essa impotência que era muito mais reconfortante se culpar. A proteção que essa fera lhe proporcionava era manter as pessoas longe, para que elas não pudessem feri-lo. Mas agora, ele precisava libertar-se dela. Precisava mais de Allegra do que de proteção.


Ao chegar a essa conclusão, os muros em torno do coração dele começaram a ruir naturalmente. A dor o inundou. Dor e necessidade, medo e amor. Talvez fosse tarde demais para recuperá-la. Mas ele iria fazer de tudo. Iria se despir para ela. Finalmente, Cristian estava pronto para tirar a máscara.


CAPÍTULO 16

TUDO DOÍA, e Allegra sentia-se doente. Era

a situação mais inglória na qual ela já havia se encontrado. Estava escondida de novo, no apartamento em Roma. Porque uma garota precisa se abrigar quando rompe o noivado com um príncipe, engravida do melhor amigo do irmão e depois abandona o mesmo no altar, tudo no espaço de alguns meses. Ela estava sendo o alvo preferido dos paparazzi. Especialmente agora, com todo o alvoroço no país de Raphael. Ele estava se casando com uma plebeia, visivelmente grávida de um filho dele. Os escândalos sexuais envolvendo os ex-noivos


estavam intrinsecamente ligados. Ela, grávida de outro homem, e ele, tendo engravidado outra. Se ao menos o mundo soubesse o quanto um não ligava para o outro, as coisas se tornariam menos interessantes. Ou talvez não. Se isso estivesse acontecendo com alguma família famosa de reality show, ela supostamente estaria lendo os jornais com o mesmo interesse. Entretanto, aquela era a vida dela. Ademais, ultimamente ela se sentia como se tivesse cacos de vidro dentro do peito. Um coração partido doía demais, muito mais do que ela poderia ter imaginado. A dor era tanta que ela mal podia respirar. Deixar Cristian foi tudo, menos simples. Podia ter sido esperteza, podia ter sido a coisa certa a fazer, mas era como se um membro tivesse sido arrancado dela. Cristian havia se tornado uma parte fundamental dela, e só


agora ela compreendia o tamanho de sua importância. Allegra sentia-se sozinha. O tempo todo. Especialmente à noite, quando o que mais sentia falta era de estar nos braços fortes dele. Sentia falta de ouvi-lo respirar. Sentia falta de sentir o coração dele batendo sob sua mão. Como amava aquele homem, mesmo sabendo que ele não a amava do mesmo jeito. Era terrível. E maravilhoso. Porque mesmo sem tê-lo ao seu lado, ela ainda sentia a força que estar com ele lhe conferia. Era meio que mágico como o amor dela por ele a destruía e a fortalecia ao mesmo tempo. – Nada disso é mágico – resmungou ela, levantando-se do sofá e se espreguiçando. Ela atravessou o quarto e foi se olhar no espelho. A gravidez já estava aparente, e era uma das poucas coisas que conseguiam fazê-la sorrir. A evidência da paixão entre Cristian e ela.


Allegra ouviu um barulho vago no corredor, e então a porta do apartamento foi escancarada. Ela deu um pulo para trás, pronta paradefenderse contra um intruso armado – ou pior, um paparazzo armado. Mas assim que conseguiu se orientar e focar, ela viu Cristian. Vestindo uma camisa branca amarrotada, com sangue em uma das mangas e atrás. O cabelo estava igualmente bagunçado, e a calça preta também já tinha visto dias melhores. Ela teve a vaga impressão de que ele ainda usava as mesmas roupas do quase casamento, dois dias atrás. Então reparou que a mão dele estava enfaixada. – Cristian, o que você está fazendo aqui? E o que aconteceu com você? – Ela ainda se preocupava com ele. Ela ainda não queria que ele sentisse dor. – O quê? – Ele olhou para a mão, como se tivesse se esquecido das bandagens. – Eu me


cortei. – Você está bem? Andou bebendo? – Não. E não. – Você não está bêbado, e também não está bem? – Não – replicou ele bruscamente, cruzando a sala e parando ao lado dela. Suas linhas de expressão pareciam mais pronunciadas, e seus olhos fundos. – Não estou bem. Desde o instante em que você me abandonou no altar. Mentalmente, ela se encolheu. – Desculpe-me por ter feito você passar vergonha... – Quem liga para isso? Dane-se o meu constrangimento. Dane-se o meu ego intratável. Dane-se o mundo. Eu não ligo para nada disso. Mas você... Eu a perdi. E isso eu não posso suportar. Eu fui um tolo, Allegra. Claro que eu sabia que era você. Como eu poderia não saber? – Eu... Mas...


– Eu sei o que você gosta de comer. E eu sei onde você sonha em passar as férias. Eu sei reconhecer a curva dos seus lábios quando você tenta não fazer beicinho. – Eu não faço beicinho – sussurrou ela, sentindo a garganta se fechar. – Faz, sim. E você fica linda. Assim como fica linda segurando uma risada ou um sorriso. Ou melhor ainda, quando não consegue se segurar. Claro que era você – repetiu ele. – De que outra maneira eu saberia escrever cardápios inteiros só de coisas de que você gosta? De que outra maneira eu teria escolhido um vestido para você para o jantar na nossa primeira noite? Ela piscou, tentando afastar as lágrimas, sentindo-se completamente esmagada. Pelas evidências brilhantes e gloriosas diante dela, evidências de que ele sabia que era ela. – Quando eu desci as escadarias daquele salão de festas em Veneza... e a vi de costas para mim... A reação que eu tive... Só podia ser você.


Mas eu não podia aceitar isso. Porque eu sou tudo que você afirmou que sou. Eu sou um covarde. Eu estava com medo de abraçar esses sentimentos dentro de mim, então eu me convenci de que eles não existiam. – Cristian... – Allegra, por que você acha que eu joguei Raphael no seu caminho? Por que acha que eu estava tão desesperado para que você se casasse com ele? Por que acha que eu implicava com todo comportamento que pudesse ameaçar essa união? – Eu achava que... Sei lá, como você gosta tanto dos meus pais... – Seus pais sempre foram muito importantes para mim, mas essa nunca foi a questão. Eu queria vê-la casada. Segura, longe de mim porque... Porque uma parte de mim sempre soube que eu iria me perder e lhe tocar, e eu não tenho esse direito.


– Eu costumava encarar sua aliança e me sentir mal – confessou Allegra. – Porque você pertencia a alguém que não era eu. – Ela o encarou, com os olhos cheios de lágrimas. – Oh, Cristian, eu sempre o desejei. Eu sempre quis pertencer a você. Nunca houve outra pessoa para mim. – Eu me convenci de que a estava protegendo – continuou ele – com Raphael. Mas a única pessoa que eu estava protegendo era eu mesmo. – O que mudou? – inquiriu ela, encarando o homem baqueado diante dela, vulnerável, sem máscaras. – Eu voltei para o castillo, em busca de respostas. Respostas que eu havia dito para mim mesmo que não iria encontrar. Mas eu as encontrei, Allegra. Eu as encontrei. – O que você encontrou? – Uma foto de mim, quando criança. E eu... – a voz dele fraquejou – nunca fui um monstro. Eu era uma criança. Eu havia me convencido de


que precisava me tornar corajoso para aguentar o meu pai, e isso era verdade. Eu tive de fingir que havia algo de perigoso dentro de mim, para que eu pudesse me defender. E mais tarde, quando o mundo começou a ruir ao meu redor e eu não conseguia controlar nada, eu adverti para mim mesmo que a culpa era minha. Mas eu não preciso mais dessas desculpas. Como eu posso continuar me achando inútil quando alguém igual a você me ama? Eu posso ter acabado com tudo, e não duvidaria se isso tivesse acontecido. Eu a magoei o bastante para você me abandonar no altar. Mas se você pudesse ainda me amar... Se pudesse me dar outra chance... Eu ficaria honrado. Allegra finalmente soltou a respiração. – Cristian, seu idiota. – Eu sou? – indagou ele, seus olhos vasculhando os dela. – Sim. Eu nunca parei de amá-lo. Eu não o abandonei porque você destruiu meu amor. Eu


parti porque eu o amo demais para me casar com você e não poder tocá-lo. Cristian, eu não suportaria estar perto de você todos os dias sem nunca tê-lo para mim. Eu não poderia fazer isso comigo mesma. Eu quero viver com todo o meu coração, sem amarras. Eu quero mostrar meu amor por você, não só agora, não só para você, mas para o resto do mundo. Eu não suportaria voltar a me esconder. Não depois que você me mostrou como é maravilhoso viver com paixão. – Allegra. – Ele a puxou para seus braços, tocou o queixo dela e inclinou o rosto dela para cima. – Eu sempre vi a sua paixão. Eu sempre vi o seu fogo. – E você sempre odiou. – Eu o temia. Porque eu sabia que ele me consumiria. Mas agora eu não quero nada além dele. Eu a amo – declarou ele. – Eu a amo com todo o meu ser. E eu o sinto – mencionou ele tocando o peito. – Eu sinto esse amor como eu


não sentia desde pequeno. E ele machuca. Machuca tanto que eu mal posso respirar. Essa necessidade que sinto de você. Ela é tão profunda que não tem fim. – Oh, Cristian – vociferou ela, beijando os lábios dele. – Eu sinto o mesmo por você. – Seja minha esposa. Não porque você deve, ou porque faz sentido, ou porque isso dará um nome ao nosso filho. Mas porque eu a amo, e você me ama. Allegra olhou para o homem que um dia ela achou que fosse a Morte vindo buscar sua alma, e viu a vida. O resto de sua vida, brilhando lindamente diante dela. Então, ela sorriu. – Sim, Cristian, eu me casarei com você. Unicamente porque eu o amo. Com todo meu coração e minha alma.


EPÍLOGO

O

em que a pequena Sophia Acosta chegou ao recém-restaurado castillo diretamente do hospital foi o mais feliz da vida de Cristian. Ele jamais havia imaginado que iria construir uma nova vida naquele lugar que havia abrigado tantos demônios do passado. Enfim, ele jamais havia imaginado outra vida. Com o amor de Allegra. Com uma filha linda. Com alegria. Livre das correntes que o havia prendido no passado. Não havia mais demônios ali, ou pesadelos – apenas luz, sonhos, o sorriso reluzente de sua esposa e a doçura reconfortante da filha pequenina. DIA


Cristian colocou o braço ao redor de Allegra e a puxou para junto do corpo, sorrindo para a linda esposa e para os olhos escuros e perfeitos da filha. – Obrigado – respondeu ele. – Por ter tido a coragem de aceitar minha mão naquela noite no salão de festas, mesmo eu tendo sido covarde. – Covarde é uma palavra muito forte. Alguma parte sua queria que nós ficássemos juntos. Alguma parte minha. E elas foram mais fortes do que o medo. – O que acha que foi? Ela abraçou a cintura dele e descansou a cabeça no ombro do marido. – Foi o amor, Cristian. Foi sempre o amor. ***


LAÇOS DO PASSADO Kate Walker Rose virou a cabeça e, antes que pudesse perceber o que estava fazendo, tinha se aproximado e pressionado os lábios contra o rosto de Nairo. Um beijo de agradecimento. Isso era tudo que o beijo significava. Mas assim que seus lábios tocaram a pele de Nairo, sentiram o calor e o gosto único dele, ela soube que aquilo não acabaria ali. Foi como acender um fósforo numa substância inflamável, e, de súbito, Rose estava em chamas. Lembrou-se de como era aquele


gosto antes, do que um simples beijo poderia causar. Para algo tão selvagem e apaixonante que havia sido impossível controlar. Uma sensação que já estava ameaçando dominá-la, esquentando seu sangue, derretendo-a, de modo que ela balançou sobre os pés. Teria caído se Nairo não tivesse segurado seus braços, mantendo-a ereta. – Red... – murmurou Nairo, e a rouquidão na voz contava sua própria história. Uma que ela queria, entretanto temia ouvir. As faíscas que crepitavam quando eles se entreolhavam, as chamas que incendiavam quando eles se tocavam ainda estavam presentes. – Rose... O fato de ele ter corrigido seu nome apenas pareceu piorar as coisas. O tom de Nairo era constrito, como se ele estivesse tendo dificuldades em falar as palavras. Mas, então, ele desistiu de tentar. Em vez disso, abaixou a


cabeça e cobriu-lhe a boca num beijo ardente. Rose mal conseguiu respirar sob a pressão do beijo, e deixou a cabeça cair para trás, abrindose, de modo que ele pudesse aprofundar ainda mais o beijo. O tempo evaporou, apagando toda a realidade, e em seus pensamentos ela estava de volta ao imóvel abandonado e escuro, sozinha com esse homem que a salvara quando ela mais precisara dele, e que roubara seu coração ingênuo como resultado. Os dez últimos anos tinham desaparecido. Rose era, mais uma vez, a garota jovem e inocente, perdida num mundo de sensações que nunca soubera existir. Algo que ela não experimentara desde então. Era como abrir uma porta e deixar o sol entrar. A força de Nairo era um apoio poderoso, um que ela ainda precisava enquanto se balançava contra ele. Seus braços subiram, abraçando-o... – Não! – exclamou ele, afastando a boca da sua, tirando-a de seu mundo dos sonhos.


Havia sido um sonho no passado, também. O tipo de conto de fadas que sua mãe procurara. Ela o considerara seu salvador, mas não conhecera a verdade. O corpo másculo tão perto do seu congelara. Rose podia senti-lo encarando-a, e teve de se forçar a abrir os olhos para encará-lo. Mãos grandes se fecharam em seus ombros e a empurraram, rejeição feroz nos movimentos. – Não! – Ele não precisava de ênfase extra. Os sentimentos de Nairo estavam perfeitamente claros. – Isso não vai acontecer. Não é o que eu quero. Mentiroso! A palavra soou na cabeça de Rose, e ela queria desafiá-lo com a ela. O jeito como seu corpo estava queimando em resposta àquele beijo gritava para que ela desafiasse a declaração de Nairo. Como ele podia negar o desejo, quando ela sentira a reação naquele corpo poderoso? Quando ainda podia ver excitação sombreando os olhos dourados? Mas


reprimiu suas palavras, sabendo que era mais seguro assim. Todavia, nĂŁo deixaria de desafiĂĄlo.


Lançamentos do mês: PAIXÃO 481 – NOIVA INADEQUADA – LYNNE GRAHAM Para virar CEO, Gaetano Leonetti precisa se casar! Por isso, pede para a enérgica Poppy Arnold ser sua esposa, convencido de que faria sua família mudar de ideia. Porém, ela acaba conquistando a todos… inclusive a Gaetano. PAIXÃO GLAMOUR 13 – LAÇOS DO PASSADO – KATE WALKER Dez anos atrás, Nairo Moreno e Rose Cavalliero tiveram noites inesquecíveis de prazer. Contudo, devido a um grande mal-entendido, Rose quase destruiu a vida dele. Agora Nairo está de volta, determinado a cobrar o que ela lhe deve! PAIXÃO ARDENTE 13 – INTOCADO – MAYA BLAKE

CORAÇÃO


Minissérie – Herdeiros Secretos 1/5 Romeo Brunetti teve de reprimir suas emoções para alcançar o sucesso. Até que, em um momento de rendição, ele se perdeu nos braços da estonteante Maisie O’Connell. Contudo, as consequências dessa noite inesquecível mudariam sua vida para sempre.


Próximos lançamentos: PAIXÃO 482 – ATRAÇÃO INESPERADA – ANNE MATHER Abby daria qualquer coisa para se tornar amante de Luke Morelli, mas sabia que o romance era proibido. Afinal, ela era casada. Cinco anos depois, Luke está de volta, determinado a fazê-la pagar por suas mentiras e traições! PAIXÃO ARDENTE 14 – UNIÃO AVASSALADORA – AMANDA CINELLI Minissérie – Herdeiros Secretos 2/5 Perto de fechar um acordo importante, Rigo Marchesi é surpreendido por uma notícia bombástica: a noite que tivera com a atriz Nicole Duvalle resultara em uma gravidez inesperada. Agora, a única saída de Rigo é pedila em casamento!


PAIXÃO GLAMOUR 14 – NÚPCIAS DE VINGANÇA – SARA CRAVEN Helen jurou fazer o que fosse necessário para manter a propriedade da família. Porém, não imaginava que precisaria ir tão longe para salvar sua herança, ela terá de se casar com o arrogante – e muito sensual – Marc Delaroche. PAIXÃO AUDÁCIA 14 – DESEJO PROFUNDO – MAISEY YATES Minissérie – Amores Inesperados 2/3 O fim do noivado do príncipe Raphael DeSantis virou um escândalo internacional. Mas para Bailey Harper, foi ainda mais surpreendente. Ao ler nos jornais que o examante é um membro da realeza, ela percebe que carrega no ventre um herdeiro ao trono! PAIXÃO ESPECIAL 005 – IRMÃOS E RIVAIS – MAYA BLAKE Acordo impulsivo


Quando a atração que sente por sua nova funcionária se torna incontrolável, Alejandro Aguilar decide demiti-la! Contudo, ele logo percebe que Elise Jameson é a mulher com a qual sempre sonhou. Mas será que ele está disposto a se entregar por completo? Uma noite de prazer Gael Aguilar tinha duas regras para relacionamentos: um limite de seis semanas, e não há segundas chances. Mas a aspirante a atriz Goldie Beckett acabou quebrando ambas. Afinal, a noite que tiveram foi inesquecível… e resultou em consequências surpreendentes!


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Y36e Yates, Maisey Enfeitiçado pela paixão [recurso eletrônico] / Maisey Yates; tradução Rafael Bonaldi. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2016. recurso digital Tradução de: The spaniard’s pregnant bride Formato: epub Requisitos do sistema: adobe digital editions Modo de acesso: world wide web ISBN 978-85-398-2338-3 (recurso eletrônico) 1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Bonaldi, Rafael. II. Título. 16-37703

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

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Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: THE SPANIARD’S PREGNANT BRIDE Copyright © 2016 by Maisey Yates Originalmente publicado em 2016 por Mills & Boon Modern Romance Publisher: Omar de Souza Gerente editorial: Livia Rosa Assistente editorial: Tábata Mendes Editora: Juliana Nóvoa Estagiária: Caroline Netto Arte-final de capa: Isabelle Paiva Produção do arquivo eBook: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Nova Jerusalém, 345 Bonsucesso, Rio de Janeiro, RJ – 21042-235 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Teaser Querida leitora Rosto Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16


Epílogo Próximos lançamentos Créditos


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